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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


APESAR DE TUDO / Mônica de Castro
APESAR DE TUDO / Mônica de Castro

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

APESAR DE TUDO

 

O céu cinzento era prenúncio de que muita chuva ia cair naquele fim de domingo. Leontina estugou o passo, na tentativa de iniciar a subida até sua casa antes do temporal. Com as águas rolando, a lama desceria morro abaixo, tor­nando praticamente impossível subir sem um escorregão ou um tombo no lamaceiro.

— Vamos logo, Clementina — falou para a irmã. — Vai desabar um pé-d'água.

Estranhamente, Clementina havia estacado diante de um latão de lixo. Parecendo oscilar entre a repulsa e a curiosidade, remexia em seu interior com a pontinha dos dedos. Leontina parou também e se aproximou, maldizen­do Romualdo, que punha a cabeça da irmã naquele desa­tino. Na certa, ele havia ameaçado ir embora novamente, deixando Clementina feito uma doida sem raciocínio. Será que nem o culto daquela noite servira para pôr um pouco de juízo na cabeça daquela doidivanas?

— Mas o que foi que deu em você, Clementina? — re­clamou, tentando puxar a irmã pelo braço. — Quer ficar toda ensopada? Olhe que já está relampejando.

Um raio despencou nas cercanias, e o estrondo ensurde­cedor do trovão que o seguiu causou um calafrio em Leontina. Ela se encolheu e clamou baixinho por Deus, deixando o olhar perdido no céu por uns instantes, tentando adivinhar onde caíra aquele raio. Esperava, sinceramente, que não houvesse sido perto de sua casa. Mais um sacolejo e o barraco não re­sistiria: viria ao chão feito um caixote desmantelado.

Ela se virou para a irmã, ainda segurando-lhe o braço, mas, antes que pudesse dizer novamente "venha", ouviu um choro miudinho partindo de algum lugar abaixo delas.

Ué! — exclamou impressionada. — Será que tem alma do outro mundo por aqui? Acho melhor a gente ir, Clementina. Já estou até ouvindo coisas.

Fique quieta, Leontina! — exasperou-se a outra.

Será possível que você ainda não tenha notado?

Ainda não tenha notado o quê?

A pergunta ficou no ar, a resposta não veio. Seguindo a direção do dedo da irmã, Leontina estacou estupefata. Na mesma hora, grossos pingos de chuva começaram a cair, e ela apertou a Bíblia de encontro ao peito, segurando na gar­ganta o grito de susto, que por pouco não deixou explodir.

— Meu Jesus Cristinho! — exclamou, por fim. — Isso é o que eu estou pensando que é? Ainda sem responder, Clementina afastou o trapo en­gordurado e puxou cuidadosamente o corpinho retorcido de um bebê. Ele soluçava baixinho, fraco demais para expressar no pranto a fome que a barriga sentia. Clementina entregou sua Bíblia para a irmã e acomodou o bebê nu em seu colo. Imediatamente, a criança começou a balançar a cabeça, como se buscasse alimento no seio sem leite de Clementina.

— Ele está com fome e com frio — constatou ela, pro­tegendo-o com o próprio corpo. — E todo sujo, cheio de assaduras! Venha, vamos levá-lo daqui.

Sem dizer nada, as duas dispararam pela rua, ini­ciando a subida da ladeira que dava acesso ao morro. A chuva engrossava a cada instante, raios se precipitavam por toda parte, seguidos da barulheira infernal da trovoada. Como a criança, assustada, começou a gemer baixinho, Clementina tentou proteger seus ouvidos, para que ela não se incomodasse tanto com os ensurdecedores trovões.

Por sorte o barraco de Clementina não era muito lá no alto, e elas logo entraram correndo, respingando lama no cimento da sala. Clementina levou o bebê para o quarto e deitou-o na cama. Ele estava completamente nu, o corpinho trêmulo, roxo de frio.

Coitado! — apiedou-se Leontina. — Quem será que teve a coragem de fazer uma malvadeza dessas?

Não temos tempo para pensar nisso agora — res­pondeu Clementina, enquanto apanhava no armário um cobertor furado e o deitava sobre o menino. — O mais im­portante é aquecê-lo e dar-lhe de comer.

E ele come o quê? É tão pequenininho...

Deve beber leite. Vou esquentar um pouco. E água para lavá-lo.

Como é que você vai dar de mamar a ele? Precisa de uma mamadeira. E quem é que vai sair nessa chuva para comprar uma? — O olhar de súplica de Clementina já di­zia tudo, e Leontina objetou: — Ah, Não! Nem pensar! Eu é que não vou sair nesse aguaceiro!

Por favor, Leontina. Ele vai morrer!

Vá você, então. Eu fico aqui, tomando conta dele. Dou-lhe banho e tudo.

E se o Romualdo chegar? O que é que você vai dizer a ele?

Que você foi até a farmácia e já volta.

Como vai explicar o bebê?

Digo que o encontramos na lata de lixo, ué!

Ah! Leontina, por favor. Faça isso por mim, eu im­ploro. Não quero deixar o menino sozinho.

Acho que o melhor é a gente entregá-lo à polícia.

Depois pensamos nisso. Agora, o importante é fa­zê-lo comer. Olhe só o coitadinho. Além de roxo, está muito magro. As costelinhas estão até grudadas na pele.

Vendo a magreza do menino, Leontina se deu por ven­cida. Levantou-se de um salto e disse, impaciente:

— Está bem, está bem. Vou à farmácia. Mas quem vai pagar a mamadeira é você.

Com um sorriso de vitória, Clementina puxou a bolsa de cima do armário e abriu-a, contando as notas com cuida­do, para se certificar de que não faltava nenhuma.

Aqui — disse ela, estendendo o dinheiro para a irmã. — Traga uma bem baratinha. E se lá venderem fraldas, compre um pacotinho também.

Descartáveis?

É claro que não! Fralda descartável é muito caro. Traga um pacote de pano mesmo.

Lá se foi Leontina, debaixo de chuva, comprar ma­madeira e fraldas para o bebê. Enquanto a aguardava, Clementina admirava a criança, orando a Jesus para que a salvasse. Era um bebê tão bonitinho! Escurinho, da cor do Romualdo. Bem podia ser filho dele. E dela...

O pensamento foi tão rápido que Clementina quase não o percebeu. Já pensava no bebê como se fosse seu filho. E por que não poderia ser? A mãe o abandonara, jogara-o no lixo. Por que ela, que o encontrara, não podia ser sua mãe?

Procurando não pensar naquilo, levantou-se para es­quentar a água e o leite. A leiteira estava quase vazia, mas ainda havia o suficiente para alimentar a criança. Ela acen­deu o fogão, pôs o leite em uma boca e, em outra, uma chaleira com água. Sentou-se à mesa para esperar, de olho no bebê. De onde estava, podia avistar o quarto, contíguo à sala, que também servia de cozinha. Do outro lado, um ba­nheiro minúsculo e, ao fundo, um pequeno quintal.

O leite era tão pouco que logo esquentou. A água demo­rou um pouco mais. Clementina apagou o fogo, voltou para o quarto com a chaleira e derramou a água morna numa bacia. O bebê estava de olhos fechados, tão quieto que ela temeu que tivesse morrido. Colocou a mão debaixo do seu nariz, para sentir-lhe a respiração, que, de tão fraca, parecia que ia sumir. 0 peito ossudo subia e descia regularmente, embora sem muito vigor. Teve medo de que ele não resistisse.

— Por favor, Jesus — orou com fervor. — Não deixe

o bebezinho morrer. Ele é tão pequeno, tão indefeso, tão puro... Ajude-me a cuidar dele para que sobreviva...

— Falando sozinha, Tina?

Clementina deu um pulo da cama e fitou o recém-che­gado com espanto. Romualdo estava parado ao umbral da porta, olhando-a com olhos vermelhos, encharcados de pin­ga. Aproximando-se, puxou-a com rispidez, beijando-a com volúpia. Ela afastou o rosto, torcendo o nariz, e reclamou:

Solte-me! Não suporto esse seu cheiro de cachaça.

Você está sempre reclamando — contestou ele, a voz pastosa e engrolada.

Quando Romualdo fez menção de se atirar na cama, Clementina soltou um grito estridente:

— Cuidado! Com o susto, ele olhou para o leito. Só então percebeu

o bebê adormecido sob o cobertor e a bacia com água so­bre uma cadeira. De tão pequeno, dava a impressão de ser uma trouxinha de roupa, em que ele mal havia reparado.

O que é isso? — perguntou, tentando focar a vista na criança.

Um bebê. Não está vendo?

Isso eu sei. Mas de quem é?

A resposta foi tão repentina que até Clementina se surpreendeu:

É meu. Meu filho.

Que besteira é essa, mulher? Desde quando você tem filho? E ainda mais um bebê feito esse? Então eu não ia ver a sua gravidez? — ele riu de si mesmo e voltou a mirar a criança, que permanecia imóvel sob as cobertas. — Está vivo?

Está dormindo — falou ela, sem muita convicção.

Parece morto.

Impressionado, Romualdo aproximou seu rosto do bebê, que ainda não se mexia. Cutucou-o com os dedos, até que ele abriu os olhos e choramingou baixinho.

Olhe só o que você fez! — censurou Clementina.

Acordou o pobrezinho.

Romualdo se aproximou da mulher, que havia pegado a criança no colo, e afagou sua cabecinha.

É tão bonitinho!

Você acha? Ele assentiu e tornou curioso:

Fale sério, Tina. De quem é?

É meu, já disse.

É claro que não é seu. Vamos, conte-me. É do pas­tor com alguma pilantra lá da igreja?

Não fale assim do pastor! — rebateu ela furiosa.

Se você fosse à igreja, talvez não bebesse tanto e se acertasse na vida.

Está bem, desculpe — ele abaixou os olhos, enver­gonhado, e mudou de assunto: — Ele parece estar com fome.

O bebê agora chorava com mais vontade. Clementina ninou-o gentilmente, tentando acalmá-lo.

Não chore, bebezinho. Mas onde está a Leontina com essa mamadeira?

Leontina foi comprar mamadeira?

Como você espera que eu o alimente? Ele ainda não sabe beber em copo.

Verdade... — ele ficou olhando a criança, até que continuou: — Tina...

O que é?

Você ainda não me disse como foi que ele veio pa­rar aqui.

Não tinha jeito. Clementina não queria se afastar do bebê, mas precisava contar a verdade a Romualdo.

Você jura que não conta a ninguém? — Ele assen­tiu e ela continuou: — E vai me ajudar a ficar com ele?

Ficar com ele? Mas, Tina, o bebê tem mãe...

Não tem, não! Mãe nenhuma faz o que fizeram com ele.

Você já está fazendo mistério demais. Quer me contar logo de onde foi que veio essa criança?

Primeiro você tem que prometer. Vai me apoiar ou não?

Como posso apoiá-la numa loucura?

Quando você conhecer toda a história, aí sim, vai ver o que é loucura.

Muito bem. Vou apoiar você, desde que não tenha sequestrado o bebê.

Que sequestrado o quê! Por acaso sou alguma criminosa?

Deixe de enrolar e conte logo.

Clementina contou tudo em minúcias, acompanhando os olhares de espanto de Romualdo a cada passagem da narrati­va. Ao final, ele estava com os olhos marejados, mais pela emo­ção do que pelo efeito do álcool, que agora quase não sentia.

Viu por que tenho que ficar com ele? — ela con­cluiu. — A mãe é uma irresponsável, criminosa. Onde já se viu deitar o filho fora na lata de lixo?

Que horror! Tem razão quanto à mãe, mas acho que você não vai poder ficar com ele.

Por que não? Fui eu que o achei.

Um bebê não é um guarda-chuva que a gente apa­nha nos achados e perdidos. A polícia não vai deixar você ficar com ele.

Quem falou em polícia? Não vamos contar nada.

E você acha que ninguém vai descobrir?

Só se você falar.

Abra os olhos, Tina! As autoridades virão aqui buscá-lo.

As autoridades não vão saber! Podemos registrá­-lo como nosso filho e ninguém nunca vai ficar sabendo.

Registrá-lo? Agora, sim, ficou louca de vez.

Pense bem, Romualdo. Nós sempre desejamos ter um filho, mas Deus não nos deu. Agora, recebemos este de presente. Por que temos que nos desfazer dele?

Porque ele não é nosso. E a mãe, provavelmente, já deve estar atrás dele.

A mãe o jogou no lixo! Ela não o quer. E ele tam­bém não haveria de a querer se soubesse o que ela fez.

Olhe só para ele, Tina. Nós nem sabemos se ele vai sobreviver. E se esse bebê morrer em nossas mãos? Você já pensou na encrenca em que vamos nos meter?

Ele não vai morrer. E não diga mais isso. É só Leontina chegar com a mamadeira, que vou alimentá-lo. Ele vai sobreviver, vai crescer forte e lindo. E vai ser o nosso filho.

Posso saber como você pretende fazê-lo passar por nosso filho?

Você vai ao cartório e o registra como nosso. Pronto.

Eu nunca registrei filho nenhum... não é preciso apresentar nenhum papel?

Não sei, mas posso perguntar ao pastor. Ele de­ve saber.

Logo ao pastor? Aí mesmo é que você não vai ficar com ele. O pastor vai obrigá-la a entregar a criança ao juiza­do de menores.

Eu vou descobrir, Romualdo. Tem advogados na igreja, a quem eu posso perguntar. Depois, registramos a criança e nos mudamos. Ninguém vai ficar sabendo de nada.

Por um momento, Romualdo ficou tentado a dissuadir Clementina daquela loucura e entregar a criança ao juizado de menores. Contudo, olhando melhor para o pequenino, seu coração se apertou. Ele também queria ter um filho, mas Clementina jamais engravidara. Ele a acusara de estéril vá­rias vezes, mesmo sabendo que o problema era dele, con­sequência da caxumba que contraíra na infância. O orgulho masculino, no entanto, o impedira de contar a verdade, e Clementina sempre vivera se culpando por não terem filhos.

Dinheiro para um tratamento, ela não tinha, de forma que ela nunca ficou sabendo que a incapacidade era dele, não dela.

Não seria essa a oportunidade de compensá-la por aqueles nove anos de casamento sem filhos? Ela não era mais nenhuma jovenzinha, mas ainda tinha bastante tempo de vida para criar um filho e vê-lo crescer. Os dois podiam. E ele sempre quisera uma criança, muito embora, intimamen­te, se sentisse resignado com a própria esterilidade. Aquela não seria a sua chance?

Olhando para os dois, ninguém diria que não eram mãe e filho, que não tinham o mesmo sangue. Até fisicamen­te eram parecidos. O menino era mulatinho feito Clementina, feito ele. Os cabelos ainda eram ralos, mas já dava para per­ceber que cresceriam crespos, iguais aos deles. Quem ne­garia que eram seus pais?

A decisão estava tomada. No dia seguinte, segunda-fei­ra, Romualdo iria ao cartório se informar sobre o registro do menino. Se dissesse que ele tinha nascido em casa, quem iria contestar? A partir de então, o menino seria seu filho.

Leontina desceu o morro maldizendo a vida e sua bur­rice. Por que se deixara convencer a sair debaixo daquele temporal? E, ainda por cima, tinha que escorregar pela la­deira, arriscando-se a levar um raio na cabeça. Tudo para que a doidivanas da irmã ficasse em casa paparicando um bebê que deveria ser entregue aos cuidados de uma institui­ção mais preparada.

Seguiu praguejando pela rua, passando pelo local onde haviam encontrado o menino. A lata de lixo ainda es­tava lá. Uma mendiga remexia o seu interior, provavelmen­te à procura de restos de comida. Leontina se apiedou, fez uma pequena prece para que Jesus salvasse aquela alma e seguiu adiante. Na direção oposta, vinha uma mulher elegante, equilibrando-se em seu salto alto debaixo de um guarda-chuva imenso, todo florido. Ao passar pela lata de lixo, foi abordada pela mendiga, mas não lhe deu atenção, estugando o passo para fugir de seu assédio inconveniente. Leontina estava próximo o suficiente para ouvir a voz pasto­sa de alguém visivelmente embriagada:

— Você viu o meu filho, dona? Viu o meu bebê?

Leontina gelou. Pensou em se virar para pedir expli­cações, mas um terror súbito endureceu os seus pés, que não conseguiram se voltar. Aproveitando a trégua da chuva, atravessou em direção à farmácia, deixando para trás a lata de lixo e sua estranha visitante. O remorso começou a con­sumi-la. Devia ter parado e perguntado sobre o que a mu­lher estava falando. Mas ela sabia bem sobre o que era. Não podia ser uma coincidência, nem a mulher estava bêbada a ponto de inventar um bebê no mesmo latão de lixo em que, por acaso, ela e Clementina haviam acabado de encontrar uma criança.

Margarete revirava a lata, mal contendo a agonia. Na ânsia de encontrar o que procurava, nem viu Leontina passar. Onde é que ela estava com a cabeça quando se desfizera do bebê? Fora um ato de desespero, ela não queria, realmente, se livrar da criança. A mente turvada pelo álcool lhe dificultara

o raciocínio e estimulara a depressão. Num de seus rompan­tes de desequilíbrio, pensara que atirar o filho no lixo a livraria de um problema. O filho, porém, não era o problema. O pro­blema era ela, que não conseguia administrar a própria vida.

Margarete vivia lá pelos lados de Belford Roxo, sempre às voltas com homens e empregos. Quando os pais morre­ram, contava já dezenove anos, de forma que teve que tra­balhar para sobreviver. A vida não foi nada fácil. Não possuía nenhuma qualificação profissional, não sabia ler nem escrever direito, era semianalfabeta. Por vezes, arranjava um emprego de doméstica ou de empacotadora em algum mercadinho, mas nunca ficava muito tempo, porque era irresponsável e costumava faltar ao trabalho sem justificativas plausíveis.

Ia pulando de emprego em emprego, até que foi tra­balhar na casa de uma família influente em Belford Roxo. Aos vinte e seis anos, embora já tivesse perdido um pouco

o viço da juventude, consequência de uma vida dura e sacri­ficada, tinha ainda um quê de beleza que chamava a aten­ção. E como, na casa em que trabalhava, o filho da patroa era um rapazinho muito bem-apessoado, de seus quatorze anos, Margarete logo se engraçou com ele. Inexperiente, Anderson se apaixonou pela primeira mulher de sua vida.

Durante dois anos, Margarete trabalhou e viveu ali, até que acabou engravidando. No começo da gravidez, dona Bernadete, a patroa, condoeu-se, prometendo mantê-la no emprego mesmo após o nascimento da criança. Para Margarete, isso não era suficiente. Ela queria que Anderson assumisse suas responsabilidades e reconhecesse o filho, dando a ambos uma vida de luxo.

Pressionado, Anderson não viu alternativa senão reve­lar a verdade. Como era de se esperar, o pai, Graciliano, ficou furioso. Interpelada, Margarete confirmou tudo, exi­gindo dinheiro para seu filho. A exigência não surtiu efeito. Preconceituoso ao extremo, Graciliano não aceitou como neto o filho de uma doméstica negra e, ainda por cima, mui­to mais velha do que Anderson. Mandou o rapaz para um internato em São Paulo e colocou Margarete na rua.

Pobre, sem ter para onde ir, Margarete ficou desespera­da. Vadiava pelas ruas, mendigava, exibindo a barriga imen­sa para provocar a compaixão dos transeuntes, que sempre lhe davam um trocado ou outro. Com o dinheiro, comprava comida e bebida. Até que, desiludida, viu no álcool a sal­vação de sua desgraça, pois a bebida tinha o efeito de um anestésico em sua mente e a fazia esquecer-se, por momen­tos, de sua miséria.

Sentindo a proximidade do parto, foi sozinha para a maternidade pública, onde o bebê nasceu sem maiores complicações. Era um menino franzino, a pele morena, de um tom amarronzado mais claro que o da mãe. Ao ver a criança, o ódio consumiu o peito de Margarete. Se ela e o filho fossem brancos, teriam um lugar na vida de Anderson. Com aquele pensamento, saiu da maternidade decidida a dá-lo para adoção.

Mas o coração de uma mãe bate de forma diferente, e Margarete não teve coragem de se desfazer do menino. Podia tentar pedir ajuda a dona Bernadete. Talvez ela se apiedasse e lhe desse algum dinheiro.

Com o bebê no colo, Margarete tocou a campainha da casa de Anderson. Como não a conhecia, a criada que aten­deu mandou que ela esperasse. Logo Bernadete apareceu.

O que está fazendo aqui? — sussurrou, fechando a porta para que ninguém lá de dentro as visse. — Quer que Graciliano chame a polícia?

Por favor, ajude-me — choramingou. — Não tenho dinheiro, nem para onde ir.

Isso é problema seu. Ninguém mandou abusar da nossa confiança.

Sei que errei, mas o menino não tem culpa. Ele é seu neto.

Margarete chegou para o lado o trapo que encobria o filho e exibiu-o a Bernadete, que virou o rosto e contestou irritada:

Esse menino não é meu neto, não é nada meu. E você não tem como provar que é. Ele é... ele é... — ela hesita­va falar, para não revelar seu preconceito — é muito diferente da nossa família. Ninguém irá dizer que é filho de Anderson.

A senhora sabe que é.

Não sei de nada! Você é quem diz, mas esse coi­tadinho pode ser filho de qualquer um. Ninguém, em sã consciência, vai acreditar que ele é meu neto. E Anderson é uma criança, você o seduziu. Uma mulher adulta feito você não pode sair por aí dormindo com adolescentes. Nós podí­amos chamar a polícia e você seria presa.

De tão abismada, Margarete abriu a boca e ficou parada, olhando para Bernadete com cara de espanto. Subitamente, a porta se abriu e Graciliano apareceu.

— Eu devia imaginar que era você, sua negra — disse com raiva, olhando a criança em seus braços. — E trouxe a cria com você. Onde já se viu tamanho atrevimento?

Soluçando, Margarete revidou com voz humilde e sofrida:

Pelo amor de Deus, doutor Graciliano, me ajude.

Vá-se embora daqui, sua desaforada! Ou chamo a polícia!

Não precisamos provocar um escândalo — ponde­rou Bernadete, tentando conter o alvoroço para não fazer feio diante da vizinhança. — Margarete já estava de saída. Não é mesmo, Margarete?

 

Ela simplesmente assentiu e abaixou a cabeça, aper­tando o filho de encontro ao peito. De tão humilhada, nem quis mais discutir e não percebeu que Bernadete cochichava algo no ouvido de Graciliano. Virou-lhes as costas, descen­do os degraus que levavam ao jardim da frente. Uma batida em seu ombro fez com que se voltasse. Parada mais atrás, Bernadete sacudia um maço de cédulas diante de sua face.

Vamos, pegue. Sei que é isso que você quer.

É o máximo que vai ter de nós — acrescentou Graciliano. — Seu golpe do baú não deu resultado.

Em lágrimas, Margarete apanhou o dinheiro e enfiou-o dentro do sutiã, sentindo os seios doloridos ao tocá-los. Estavam cheios de leite para amamentar o filho, que dor­mira o tempo todo. Desnorteada, dobrou a esquina, avistou um bar e dirigiu-se para lá. Entrou, quase atropelando um mendigo que dormia encostado à parede. O mendigo se re­mexeu e a xingou alto, voltando a adormecer em seguida. Sem lhe dar importância, pediu uma pinga. Mesmo com a criança no colo, conseguiu encher a cara, sentindo-se mais confiante, livre para fazer o que bem entendesse.

Seguiu cambaleante pela rua, pensando em sua vida. A cada tropeço, apertava o bebê, com medo de deixá-lo cair, e ele respondia com um gorgorejo. Era uma criança quietinha, quase não chorava. Olhando para ele, Margarete sentiu um misto de ódio e ternura.

Como se enganara com Bernadete! Ela, que parecia tão boa, revelara-se uma mulher cruel, mesquinha, precon­ceituosa. A família toda de Anderson era cheia de preconcei­to, fato com que ela não contava ao idealizar seu plano. Pensara mesmo que poderia dar o golpe do baú, como dis­sera Graciliano, mas o tiro saíra pela culatra, e ela agora estava em situação pior do que antes, carregando um filho não reconhecido a tiracolo.

Resolveu tomar um ônibus qualquer. Como não sabia ler direito, o destino era desconhecido. O ônibus seguiu pela Via Dutra, vazio naquela tarde de domingo. Apesar da be­bedeira, Margarete ainda conseguiu amamentar o filho, que agora não parava de chorar. Com o balanço do veículo, ela acabou adormecendo, os joelhos apoiados no encosto do banco da frente, para impedir o bebê de cair.

Margarete acordou com o trocador cutucando-a:

Ponto final — disse ele, de mau humor.

Hum...? — fez ela, espreguiçando-se e olhando para o filho, que agora dormia saciado, deixando seu seio exposto.

Ponto final — repetiu o homem, olhando com ar de co­biça para o seio desnudo de Margarete. — Você tem que descer.

Que lugar é esse? — questionou ela, cobrindo-se com a blusa rota.

Penha.

Onde é que fica isso?

No Rio de Janeiro. Você é doida, é? O bebê se remexeu e Margarete ajeitou-o no colo.

Preciso de uma bebida — anunciou, sentindo a lín­gua pesada e áspera.

Olhe, moça, gostaria muito de ajudar, mas não pos­so. Ainda tenho mais duas viagens a fazer, e é melhor você sair. Daqui a pouco o fiscal chega, e vai chamar minha aten­ção por sua causa.

Margarete olhou para a escuridão da rua. Por um mo­mento, pensou que a noite houvesse caído. Olhando me­lhor, reparou que eram pesadas nuvens que tomavam o céu.

Vai cair um temporal — constatou. — Para onde é que eu vou?

Você não sabe para onde vai? — Ela meneou a ca­beça, e ele retorquiu: — Por que não pega o ônibus de volta?

Nunca mais vou voltar a Belford Roxo. E se não posso ficar aqui, vou encontrar onde ficar.

Ônibus não é albergue, moça.

Margarete saiu sem se despedir, caminhando pela rua escura. O céu ameaçava chuva, e das grossas. Em outro ponto mais adiante, tomou um ônibus qualquer. Precisava desesperadamente de um trago. Sentada no banco de trás, pensou em saltar novamente, mas o motorista acionou o veículo, e ela engoliu o vício, sentindo aquele ódio surdo martelando em seu peito. Com o sacolejo do ônibus, o bebê se agitou um pouco, vomitando no colo de Margarete, que praguejou e o levantou bruscamente. Ele desatou a chorar, causando-lhe imensa fúria.

Cale a boca, desgraçado — disse entre os dentes, enquanto o sacudia, aumentando seus soluços.

Não devia tratar assim o seu bebê. — Ela ouviu uma voz dizer e constatou que era uma mulher sentada no banco lateral. — É maldade.

Margarete sentiu vontade de mandar a mulher não se meter na sua vida, mas havia outros passageiros observan­do-a com ar de reprovação. Só por isso, acomodou de novo

o filho e procurou se acalmar, embora o ódio persistisse.

"Como se não bastasse tanta desgraça, ainda tenho que aguentar a recriminação do povo por sua causa", pen­sou com raiva.

Gente assim não devia ter filho — falou baixinho um homem à sua frente, causando-lhe ainda mais irritação.

É mesmo — concordou a moça ao lado dele.

Não sei para que colocar filho no mundo.

Essas mulheres são assim mesmo. Tratam filho que nem bicho.

Embora falassem baixo, Margarete ouviu tudo o que disseram. O ódio que sentiu foi tão intenso que, sem querer, apertou as mãos ao redor do pescocinho do filho. O menino se contorceu, soltou um gemido gutural, e só então ela per­cebeu que o estava estrangulando.

"Meu Deus!", disse para si. "O que estou fazendo?"

Assustada consigo mesma, Margarete levantou-se abruptamente e deu o sinal para saltar. Pagou a passagem, desceu numa rua movimentada, em um bairro desconhe­cido. Caminhando a esmo, alcançou uma praça iluminada, onde, ao centro, um lago artificial ostentava imenso e lindo chafariz. Durante um tempo ficou observando a beleza da praça e do chafariz, sem fazer a menor ideia de onde estava.

Caminhou aleatoriamente, atenta aos luminosos que piscavam por todo lado, maldizendo-se por não saber ler. Identificou, porém, o símbolo do Metrô, que Anderson lhe mostrara algumas vezes nas revistas. Passou por uma lan­chonete que lhe pareceu atraente, mas não ousou entrar, com medo de ser expulsa. Virou na primeira rua que avistou, caminhando à procura de um bar. Carregando o bebê feito uma trouxa, entrou no botequim e pediu uma dose de pinga, que o atendente serviu a contragosto. Quando terminou, pe­diu outra, depois mais outra, e foi assim até acabar o pouco dinheiro que Bernadete lhe dera.

Completamente alterada pela bebida, saiu trôpega, carregando o pequeno fardo que, segundo pensava, era a causa de todo o seu infortúnio. Um cheiro desagradável lhe dizia que o menino sujara a única fralda que possuía, pre­sente de uma enfermeira caridosa, que agora estava impres­tável. Com raiva, arrancou a fralda do bebê e atirou-a longe.

— Cretino! — esbravejou, irritada com o choro deses­perado da criança. — Tenho que me livrar de você!

Enrolou o bebê no cobertor puído e cheirando a vômi­to, sentindo o estômago embrulhar com a mistura de odores fétidos. Um raio riscou o céu, e ela apressou a caminhada, procurando um lugar para deixar o filho. Não se atreveu a colocá-lo em nenhuma porta ou portão, com medo de ser surpreendida por algum transeunte ou, pior, pela polícia.

Foi então que passou ao lado de um latão de lixo ve­lho, todo enferrujado. Sem tampa, cheio quase até a bor­da, fora colocado em frente a um muro de pedra muito alto, que protegia uma casa em ruínas. A ideia surgiu, imediata, parecendo-lhe brilhante. E se colocasse o bebê ali dentro? Cautelosamente, experimentou o portão, mas ele estava trancado com um cadeado grosso.

Voltando-se para a lata de lixo, ficou observando. Com a ameaça de chuva, a rua estava praticamente vazia. Não havia ninguém por perto. Apenas o latão a lhe acenar de forma tentadora.

Margarete apertou o casaco roto ao redor do corpo para se proteger do frio. O filho, envolto nos farrapos, final­mente se aquietara e adormecera. Tudo estava sossegado: a criança e a rua. Nada parecia se mover ou ter vida.

Era agora ou nunca. Se esperasse um pouco mais, a coragem se desvaneceria. Ela continuaria na mesma, com aquele pequeno fardo a roubar-lhe a juventude e a vida. Olhou ao redor mais uma vez e, como não avistou ninguém, deu um passo, resoluta. Com um único gesto, deitou sobre os detritos o cobertor esfarrapado e malcheiroso que abri­gava o corpinho miúdo do filho. Virou as costas ao latão e saiu a passos apressados, sem olhar para trás, certa de que aquela seria a última vez que poria os olhos naquela criança.

Fazia poucas horas que tudo aquilo se passara, en­tão, como podia ser que o bebê houvesse desaparecido? Margarete o deixara na lata de lixo movida por um breve acesso de raiva, tomada pela bebida, sem saber que era in­fluenciada por espíritos ignorantes, irritados com a criança, que desviava sua atenção das portas dos bares.

Lembrava que depois caminhara a esmo, até encontrar um banco de praça, onde se deitara. De tão cansada e bêba­da, rapidamente pegou no sono. Despertou com os primei­ros pingos de chuva caindo sobre seu rosto. Durante alguns minutos, permanecera deitada de costas, permitindo que a água lavasse a bebedeira e lhe trouxesse o frescor de uma nova consciência. Já desperta, procurou o bebê a seu lado e embaixo do banco, para onde poderia ter escorregado no breve instante em que adormecera. Mas ele não estava ali.

Puxando pela memória, a muito custo se lembrou do latão de lixo. De um salto, desatou a correr, derrapando nas poças da calçada. Enquanto corria, ia refazendo na mente os passos que a tinham levado até o latão, tentando desesperada­mente se lembrar da rua em que ele ficava. Entrou na primeira, andando apressada até perceber que era a rua errada. Fez o caminho de volta e tomou a do lado, finalmente reconheceu os lugares por onde havia passado horas antes.

Correu aos tropeções, pisoteando as poças, escorre­gando vez por outra. Só agora percebia que havia latões de lixo em ambos os lados da rua. Não eram muitos, mas o sufi­ciente para confundi-la. Qual fora mesmo a lata? Procurando avidamente, um muro de pedras lhe trouxe uma sensação de familiaridade. Por trás do muro, uma casa em ruínas, e, na frente, um latão de lixo igual a tantos outros naquela rua. Só podia ser aquele.

Dirigiu-se para lá, o coração aos pulos, e logo reconhe­ceu o cobertor esfarrapado que servia de roupa ao filho des­de que nascera. Apanhou o pano com euforia, revirou-o nas mãos, talvez esperando que, por encanto, a criança ainda es­tivesse ali embrulhada. Olhou dentro da lata, remexeu no lixo, procurou ao redor e até nos bueiros. Nada. Ele havia sumido.

Com o desespero tomando conta de seu coração, Margarete começou a chorar, futucando, num frenesi, o inte­rior da lixeira. Uma mulher passou perto dela, mas Margarete não lhe prestou muita atenção, concentrada que estava em sua busca. Quando uma senhora elegante atravessou seu caminho, Margarete se viu perguntando em desespero:

— Você viu o meu filho, dona? Viu o meu bebê?

Sem responder, a mulher se afastou às pressas. Con­fusa, Margarete andava de um lado a outro, baratinada, sem saber o que fazer. Sentiu falta da bebida, mas o dinheiro havia acabado. Um gole, com certeza, a ajudaria a pensar. De re­pente, encontrar o filho deixou de ser tão importante quanto alimentar o vício. Na certa, ele estava bem. Se tivesse morri­do, seu corpo estaria ainda no lixo ou jogado na sarjeta, mas não estava. Alguém devia tê-lo recolhido. Depois de um trago, ela pensaria com mais calma e sairia perguntando aqui e ali.

Após mendigar pelas redondezas, conseguiu uns tro­cadinhos e correu ao mesmo bar de antes.

Quero uma dose de pinga — pediu, a voz engrolada.

Mostra-me o dinheiro primeiro — ordenou o dono, desconfiado.

Ela exibiu umas moedas, que ele pegou, servindo-a de um trago. Ela bebeu sofregamente e pediu mais um. Pagou adiantado, e o homem entornou a bebida em seu copo. Na vez do terceiro, o dinheiro havia acabado.

— Vamos ali nos fundos que lhe pago com outra moe­da — convidou ela, lançando um olhar lúbrico para o homem.

O dono do bar era um português grosseirão, mas mui­to correto e bem casado. Quando Margarete lhe acenou com o sexo em troca de pinga, ele se enfureceu. Cerrou os punhos e, balançando-os diante dos olhos dela, esbravejou:

— Mas que rapariga mais sem-vergonha! Passa-te da­qui, rameira, ou te ponho para fora a bordoadas!

Com medo de apanhar, Margarete nem pensou duas vezes. Em seu habitual estado de embriaguez, rodou nos calcanhares e desatou a correr porta afora, atravessan­do a rua feito louca. O motorista nem teve tempo de frear. Margarete surgiu na sua frente saída do nada. O Chevette vermelho, novinho em folha, suspendeu-a no ar com tanta violência, que seus ossos se quebraram antes mesmo de ela tocar o chão, já morta, os olhos esbugalhados, congela­dos na surpresa do inevitável.

Ali perto, Leontina finalmente conseguia ser atendida na farmácia cheia de gente. Quando saiu, estava decidida a contar à mendiga que havia encontrado seu filho e ele esta­va em segurança na casa de sua irmã. Antes de alcançar o latão, notou uma multidão ao redor de um carro amassado e, mais além, o que parecia um corpo estirado no chão. Sirenes estridentes vinham se aproximando, até que pararam, com policiais e médicos se revezando para constatar a morte. A chuva havia dado uma trégua, de forma que Leontina pôde ainda parar e se informar do ocorrido.

— Foi uma mulher que atravessou correndo a rua e o carro a pegou — disse uma conhecida.

Mesmo antes de ver, Leontina sabia que aquele cor­po era o da mendiga. Aproximou-se cautelosamente, deu uma espiada, confirmando suas suspeitas. Na mesma hora, as pernas fraquejaram, pensou que ia desmaiar. E agora, o que iria fazer? Completamente aturdida, subiu a ladeira e pegou o caminho de barro que conduzia ao barracão de Clementina. Da porta, além da choradeira do bebê, ouviu as vozes de Clementina e Romualdo. Entrou em silêncio. A irmã voou em cima dela, arrancando-lhe a mamadeira das mãos.

— Que demora, Leontina! O menino está se esgoelan­do de tanto gritar. Enquanto Clementina derramava leite na mamadeira, ela comentou numa voz que parecia saída de uma caver­na profunda.

— Teve um acidente feio lá na rua. Uma mulher bêba­da morreu atropelada.

— Que coisa horrível! — lamentou Clementina.

— Vou lá ver — anunciou Romualdo, já da porta.

— Você não tem jeito, hein! — censurou Clementina.

— Adora uma desgraça.

Assim que Clementina encostou o bico da mamadei­ra na boquinha do bebê, ele começou a sugar o leite com sofreguidão. De banho tomado, tinha um pano de cabeça enrolado à guisa de fralda.

Ele já sabe? — perguntou Leontina, referindo-se a Romualdo.

Já. Contei-lhe tudo e ele prometeu me ajudar.

Ajudar em quê?

A ficar com o bebê, ora. Ele agora é meu filho.

Preciso lhe contar uma coisa. Uma coisa séria.

O que é?

Descobri quem é a mãe dele.

Clementina gelou. Com o pânico a dominá-la, contra­pôs incrédula, balbuciante:

Não é possível.

É, sim. Ouvi quando ela perguntou a uma mulher na rua se havia visto o seu bebê. E ela estava remexendo no latão em que o encontramos.

Não! Não pode ser. Ela não pode pegá-lo de volta. A mulher jogou-o no lixo!

E agora está morta...

Morta? Mas como? Foi a que morreu atropelada? Leontina assentiu e acrescentou com pesar:

Jamais vou me esquecer daquele rosto.

Meu Deus!

E agora, o que vamos fazer?

Após uma breve pausa, Clementina se recompôs e considerou, enchendo-se de esperança:

Nada. Se a mulher morreu, ninguém vai reclamar a criança. Ela pode ser minha.

Isso não está certo, Clementina. E a família dele?

A família dele agora sou eu. Você pensa que, se essa mulher tivesse família, teria abandonado o filho? É cla­ro que não. Mesmo que ela não o quisesse, algum parente haveria de cuidar dele.

Pensando por esse lado...

É isso mesmo. O bebê não tem família. A família dele agora somos nós. Eu sou a mãe, Romualdo o pai, e você é a tia.

Fez-se um silêncio momentâneo, até que Leontina ponderou:

Isso não me parece correto. Ele não é seu filho.

E é filho de quem? O que eu preciso fazer para con­vencê-la de que ele agora é meu filho? Você já parou para pensar que Deus pode ter enviado este bebê para que eu cuidasse dele, já que a mãe era uma doidivanas? Qual é o mal nisso? Vai que ele não tem ninguém mesmo. Se eu o de­volver, vão mandá-lo para um orfanato, ele pode até acabar virando bandido. Aqui comigo, vou criá-lo temente a Deus, dentro das leis da nossa igreja, sob os olhos do pastor. Quer criação melhor do que essa?

Pronto. Com aquele argumento infalível, Clementina sabia que ganharia a batalha. Já que Leontina era muito re­ligiosa, a criação do menino junto às orações e vigílias do pastor era sinal de que mais uma alma estaria salva.

Bem, talvez você tenha razão.

É claro que tenho razão.

E como é que você vai explicar o aparecimento dessa criança? Não pode inventar que saiu da sua barriga.

É por isso que vamos nos mudar.

Vão se mudar? Para onde?

Ainda não sei. E você pode vir com a gente.

Não sei se quero me mudar. Gosto daqui.

Nós vamos para perto. Longe o suficiente apenas para que ninguém saiba quem somos.

Ah!

E estamos pensando em nos mudar para o asfalto.

Como? Ficaram ricos e eu não sei?

Vamos dar um jeito. Romualdo vai arranjar um em­prego para nos tirar daqui.

Sei. Já estou ouvindo isso há anos.

Mas agora é sério. Ele também se encantou com o Wellington.

Wellington?

Vai ser o nome dele. Não é bonito?

Não acho, não. Não podia chamá-lo de Paulo ou de Pedro?

São nomes muito comuns. Wellington é diferente, muito elegante. Leontina suspirou e tornou a indagar:

Enquanto vocês não se mudam, como vão fazer para esconder o bebê?

Ele vai ficar dentro de casa. Se alguém o vir, direi que é filho de uma prima.

Nós nem temos prima!

E daí? Não sabe fingir, não?

Mentira é pecado. O pastor nos disse que nunca devemos mentir.

Mas neste caso não conta. É por uma boa causa. Ele é filho de uma prima que precisou viajar com urgência para visitar a mãe doente lá em Maceió, e o bebê ficou por nossa conta.

Nossa, você já criou uma história!

Com princípio, meio e um final feliz.

Logo Romualdo voltou com as notícias do acidente, e Leontina lhe informou que a mulher morta, provavelmente, era a mãe do bebê.

Se é assim, não teremos problema em ficar com ele.

Você também? — indignou-se Leontina.

Foi o que disse a ela — acrescentou Clementina.

Já podemos considerar Wellington como nosso filho.

Que Wellington o quê! — objetou Romualdo. — O nome dele vai ser Marcos.

Marcos? Mas é muito comum! Wellington é que tem personalidade.

Nada disso. Marcos é muito mais bonito. Sempre quis ter um filho com esse nome. O que você acha, Leontina? Ela olhou sem jeito para a irmã, que foi logo dizendo:

Leontina não gosta de Wellington.

Mostra que tem bom gosto.

Por que não chamam o menino de Marcos

Wellington? — sugeriu Leontina. — Ou de Wellington Marcos? Ficou Marcos Wellington. No dia seguinte, uma nota quase imperceptível num jornal de pequena circulação exibia o corpo de Margarete estirado no chão, o rosto parcialmente encoberto por um jornal. Leontina mostrou o periódico a Clementina, que tor­nou com horror:

Jogue isso fora! É uma pena que ela tenha morrido assim, mas agora não temos motivos para nos preocupar com ela.

Que Deus a tenha! — acrescentou Leontina.

Melhor que ela esteja ao lado dele do que aqui co­nosco, onde poderia reclamar o Wellington.

Clementina, que horror! Não é isso que aprende­mos na igreja.

Tem razão, desculpe-me. Mas é que não posso mais me separar do meu filho.

Leontina não disse nada. No fundo, compreendia a an­gústia da irmã. Clementina sempre desejara ser mãe. Aquela criança chegara a tempo de realizar seu sonho e salvar seu casamento. Quem sabe agora Romualdo não tomasse jeito e arrumasse um emprego decente? Essa era a sua promes­sa, mas foram tantas as promessas que ele havia feito...

— Vamos nos mudar, pode crer — afirmou Clementina, como se ouvisse os pensamentos da irmã. — Romualdo vai encontrar um bom emprego e vamos nos mudar para o asfalto.

A mudança, contudo, não aconteceu. O emprego de Romualdo não foi suficiente para pagar uma casa no asfalto, e eles continuaram mesmo no morro do Salgueiro1. O meni­no despertou pouca curiosidade. Clementina não era mulher de muitos amigos nem se dava com os vizinhos o suficiente para provocar questionamentos. Naquela vizinhança, cada um cuidava de sua própria miséria.

Não foi difícil para Romualdo registrá-lo como filho. Dois amigos do trabalho serviram de testemunha de que o menino nascera em casa, e uma parteira confirmou que fize­ra o parto. Sem motivos para desconfiar de gente pobre e hu­milde, o escrivão fez o registro, passando Marcos Wellington a ser, oficialmente, filho de Romualdo e Clementina.

 

1 Morro do Salgueiro — comunidade localizada no bairro da Tijuca, Rio de Janeiro.

 

O menino foi criado sob rígidos padrões evangélicos, acompanhando a tia e a mãe aos cultos dominicais, o que lhe conferiu uma base moral sólida o suficiente para en­frentar a vida. Das origens de seu nascimento, pouca coisa restou. Apenas um recorte de jornal, que Leontina não con­seguiu jogar fora, exibindo o rosto sem vida de Margarete.

Ao despertar na vida espiritual, Margarete não tinha a menor ideia de onde estava. Não se recordava do acidente, apenas de sua incursão pelas latas de lixo à procura de seu bebê. Por que não lhe dera um nome? Não gostava de chamá­-lo só de meu filho ou simplesmente de bebê, então, pensou que poderia dar-lhe o nome de Anderson, que era o nome do pai dele. Dessa forma, ficaria mais fácil tentar localizá-lo.

Olhando ao redor, percebeu que se encontrava numa cidade desconhecida, com ruas de terra batida e casebres de madeira espalhados aleatoriamente. Estivera deitada num tipo de varanda, numa casa esquisita, que mais pare­cia um caixote, de tão quadrada, sem telhas, sem janelas. Aprumou o corpo, tentando olhar mais além. Tudo era tão igual! Que lugar seria aquele?

Assim que deu o primeiro passo para descer da varan­da e ganhar o que lhe parecia ser a rua, foi surpreendida por um homem muito claro, de cabeleira negra, surgido de lugar nenhum. Foi como se ele se materializasse à sua frente, e Margarete levou a mão ao peito, soltando um gritinho de medo.

Desculpe-me se a assustei — disse o homem.

Vim logo que percebi que você havia acordado.

Ela olhou para os lados, tentando imaginar de onde ele a estivera observando e como chegara até ela tão rápido.

— De onde foi que você veio?

— Ah! Dali... — e apontou para a rua com um gesto vago.

— Dali de onde? Só vejo casas sem janelas. Como foi que você me viu? Estava escondido? E quem é você, afinal? É o dono desse lugar horrendo?

— Como você faz perguntas!

— Desculpe. É que estou confusa. Não me lembro de como cheguei aqui.

— Você bebeu demais e apagou — o que não era mentira, embora também não fosse toda a verdade. — Eu a encontrei e a trouxe para cá. Margarete levou a mão às têmporas e tornou queixosa:

— Minha cabeça dói... meu corpo parece moído. Sinto como se tivesse sido atropelada por um caminhão... Parou de falar bruscamente, pois uma confusão mental se instalara em sua cabeça. Flashes de imagens pipocaram em seu cérebro. As lembranças de um bar, um português bigodudo e um carro vermelho surgiram embaralhadas. O homem percebeu seu estado e se aproximou dela, abraçan­do-a gentilmente. Margarete se afastou desconfiada.

— Não tenha medo — tranquilizou ele. — Pode confiar em mim. Só quero ajudá-la.

Margarete sentiu que podia confiar naquele homem. Ele tornou a abraçá-la com um carinho que ela jamais havia experimentado e pôs as duas mãos sobre a sua cabeça, afa­gando-a com delicadeza. Em seguida, deslizou-as pelo cor­po da moça, que sentiu um arrepio confortante. Aos poucos, a dor foi diminuindo, até que cessou completamente.

Nossa! — exclamou ela, totalmente maravilhada.

Você é médico ou mágico?

Sou só um amigo. Alguém que gosta muito de você.

Como pode gostar de mim se eu nem o conheço?

Tem razão, esqueci de me apresentar. Meu nome é Félix.

Félix? Como o gato2? Ele riu e apertou o queixo dela, respondendo com ternura:

Exatamente.

Que engraçado! E eu me chamo...

Margarete, eu sei — adiantou-se ele, antes que ela concluísse.

Sabe como?

Já disse que sou seu amigo. Sei tudo sobre você. Ela recuou um pouco e revidou desconfiada:

Você veio aqui a mando do doutor Graciliano? Foi isso? Ele mandou que você me prendesse e levasse meu filho? Onde está o meu filho? Meu Anderson?

Não se lembra do que fez com ele? — Félix ficou um pouco impaciente, mas tentou não demonstrar.

Eu... eu... me lembro de que o coloquei num la­tão de lixo. Mas foi um desatino de momento. Depois voltei para buscá-lo.

E não o encontrou mais, não foi?

Alguém o pegou... Foi você!

Não.

Mas então quem foi?

Não sei.

Será que foi a polícia?

O que aconteceu depois que você deixou o bebê na lata de lixo? Procure se lembrar.

Eu... voltei para aquela praça e deitei-me num ban­co. Depois... — ela apertou os olhos, puxando pela memória

estava chovendo, acordei com os pingos na minha cara. Levantei-me, voltei para buscar o Anderson, conforme lhe falei, mas ele havia sumido.

E depois?

Eu... procurei... remexi a lata... não o encontrei. Havia uma mulher... uma mulher elegante. Perguntei a ela,

 

2 Referência ao personagem de desenho animado.

 

mas ela não me deu atenção — ela parou de falar e fitou Félix com horror, abrindo a boca num grito mudo. — Meu Deus! Foi ela! Aquela mulher o sequestrou!

Não, Margarete, não foi isso. Foi você. Você o aban­donou e o perdeu. Lembre-se! O que você fez depois que a mulher passou?

Eu... — ela pensou um pouco e diminuiu a voz, en­vergonhada — fui mendigar.

E aí?

Por que é que você está me pressionando tanto? Não disse que sabe tudo de mim?

Quero que você se lembre.

Por quê? Não quero me lembrar.

É preciso. Vai lhe fazer bem. Vamos, Margarete, pense só mais um pouquinho.

Eu... — novamente a memória falhou, e ela teve que fazer um grande esforço para se lembrar — peguei o dinheiro e fui ao bar beber. Havia um português. Ele foi mau comigo...

— Foi mau? Tem certeza?

— É que eu precisava de mais um trago. Só mais um. Mas ele não me deu e gritou comigo, e... De repente, viu sua própria imagem sair correndo do bar e gritou horrorizada, enterrando o rosto no peito de Félix para não se lembrar.

— Por favor — implorou —, não me torture mais. Não quero saber o que houve. Deixe para lá. Estou bem agora, só preciso encontrar o meu filho. Você me ajuda?

Félix afagou seus cabelos e beijou sua testa. Não pre­tendia mais pressioná-la. Já que ela não queria se recordar do acidente, por ora, seria melhor deixar para lá. Aos pou­cos, ela se lembraria de tudo.

Está bem — concordou ele, beijando-a na testa no­vamente. — Não precisa se desesperar.

Estou cansada — queixou-se ela. — Com fome e com sede.

Venha comigo, vou levá-la para dentro.

Você mora aqui? — surpreendeu-se ela, apontando para o barraco.

Moro.

Margarete não disse nada, mas quando entrou compre­endeu por que ele a havia deixado na varanda. O ambiente era único, escuro, abafado. Só havia uma cama, uma mesa, uma cadeira e mais nada. Ela hesitou um momento, sen­tindo um certo mal-estar, porém, ele a puxou gentilmente, fazendo-a sentar-se.

Não tem janela... — observou ela. — Só aquela porta, que mal dá para se perceber. E onde é que eu vou dormir, se só há uma cama?

Fique tranquila e deixe tudo por minha conta.

Ele ficou parado alguns instantes, como se estivesse pensando, até que se dirigiu para a porta.

Aonde é que você vai? — perguntou ela.

Você não está com fome? — Margarete assentiu.

Vou arranjar-lhe algo para comer.

Margarete ficou pensando que ele devia fazer suas refei­ções na rua, porque não havia nem fogão, nem geladeira ali. Na certa, ele era muito pobre. Mal havia concluído o pensamen­to quando Félix voltou, trazendo nas mãos um prato de sopa quentinha e um copo de água cristalina e fresca. Colocou-os na mesa à frente de Margarete, incentivando-a, com o olhar, a comer. Ela comeu e bebeu em silêncio, porém, com avidez, surpreendendo-se com o sabor agradável da sopa e da água. Quando terminou, sentia-se satisfeita, revigorada.

Como foi que providenciou uma comida com tanta rapidez, se você nem tem cozinha? — Félix não respondeu.

E como estava gostosa! Não combina com essa pobreza com medo de o haver desgostado, ela tratou de remendar:

Quero dizer, você não me parece bem de vida. Mas não se preocupe, eu também sou pobre, miserável até...

Não precisa tentar se justificar, Margarete. Você tem razão. Sou um homem pobre que só agora está conse­guindo compreender o que realmente possui valor na vida.

Ela não entendeu, mas não perguntou. Em vez disso, procurou um comentário agradável:

Você é um homem bonito e simpático. Não tem namorada?

Hum... Será que pode ser você?

Margarete riu gostosamente e respondeu mais des­contraída:

Eu, hein! De homem branco, já chega o Anderson. Calou-se novamente, lembrando-se do filho.

Não me importo com cor — afirmou ele. — Gosto de você do jeito que é, e isso é outra coisa que aprendi aqui.

O quê?

As pessoas são todas iguais, porque o espírito não tem sexo, nem forma, nem cor. Ora podemos ser brancos, ora negros, ora homens, ora mulheres. O que vale é a essên­cia, que usa o corpo para evoluir. Quando morremos, nós nos despimos de tudo que vem da carne. Mas a essência permanece com as nossas experiências, sempre pronta a aprender e crescer.

Margarete fitou-o com assombro:

— Não entendi nada.

— Não importa. Um dia você vai entender. Ela pensou por alguns segundos, até que considerou:

— Você disse que aprendeu muito aqui. — Félix as­sentiu. — Onde, exatamente, é aqui? Responder à pergunta não faria bem a Margarete na­quele momento, não antes de ela se lembrar. Félix mudou de assunto:

— Acho que você devia descansar um pouco. Mais tarde, levarei você para dar uma volta.

Puxando-a pela mão, ele a acomodou na cama. Cobriu-a com um lençol bem branquinho, deu-lhe um beijo na face e sentou-se ao lado dela. Assim que Margarete ador­meceu, ele se levantou e saiu. Caminhou alguns metros até alcançar uma espécie de clínica médica, uma construção pequena, porém muito asseada, agradável, cercada por um jardim florido e perfumado. Entrou e deu um sorriso para a atendente, que lhe sorriu de volta.

Ele está aí? — indagou, sentando-se num banco perto da janela.

Está atendendo. Vai esperar?

Vou.

Depois de quase meia hora, uma porta se abriu, dando passagem a uma mulher assustada e rota. Atrás dela, o dou­tor Laureano sorriu amistosamente quando avistou Félix.

— Meu amigo! — saudou com bonomia. — Vamos entrando.

Era sempre assim, e Félix se emocionou. Fosse quem fosse que procurasse Laureano era recebido com a mes­ma simpatia e ternura. Ele era um médico do invisível, psi­quiatra em sua última encarnação, um homem que dedicara a vida ao auxílio fraterno e caridoso aos doentes mentais. Desencarnado, desejoso de prosseguir em sua missão, con­seguiu uma colocação naquele posto de auxílio localizado em um plano não muito denso do astral inferior, a fim de orientar espíritos dementados e confusos a reencontrar o equilíbrio, preparando-os para deixar aquele local de sofrimentos.

O astral em que Félix se encontrava ficava localizado bem próximo à crosta terrestre, habitado por espíritos con­fusos, transtornados, presos em suas próprias emoções de­sestruturadas. Seres, em geral, atormentados por culpa, por medo e por remorso. Não se encontravam ali espíritos dos mais empedernidos nem violentos. Eram apenas criaturas que não haviam ainda conseguido desvencilhar-se do pesar provocado pelas vivências humanas.

O sentimento que ali predominava era a vergonha. Envergonhados de seus atos, presos ao orgulho, alheios ao autoperdão, os espíritos criaram um astral para viver sem se expor. Reunidos no mesmo local, suas vibrações deram forma à cidade e suas casas-caixotes. Sem janelas, com apenas uma porta, era ali que se sentiam seguros, cer­tos de que não seriam vistos, reconhecidos nem acusados. Laureano os ajudava a superar, compreender as razões da culpa e reconquistar a autoestima. Uma vez livres, reuniam coragem para partir.

Até certo ponto de sua existência espiritual, Félix habi­tara mundos ainda inferiores. As esferas mais baixas, con­tudo, não o atraíam, pois a repulsa natural à violência e à vingança desfizera aquela breve sintonia energética. Sem perceber, Félix ia se afastando dos círculos mais densos e adentrando camadas um pouco mais sutis.

Ao se deparar com a cidade intermediária, sen­tiu que era ali o seu lugar. Vagou a esmo por alguns dias, até que Laureano o encontrou, cuidou dele, ajudou-o a compreender que as atitudes humanas obedecem à lei do progresso e ninguém deve se condenar por simplesmente crescer. É preciso conscientizar-se e caminhar ao encontro da transformação, sem necessidade de sofrer ou se punir. A cada atitude boa, a consequência é uma reação positiva da vida, em forma de alegria e prazer.

O que Félix mais desejava era reencontrar Margarete, e foi esse sentimento que o prendeu ali. Anos após a conquista da libertação interior, Félix ainda se ligava ao amor que sentia por ela. Ciente de suas dificuldades na matéria, resolveu que só sairia dali com ela. Tudo faria para que ela, ao desencar­nar, não caísse presa de seres malignos. Com autorização de Laureano, conseguiu resgatá-la antes dos espíritos de ébrios que a acompanhavam pelos bares da vida física.

Laureano levou Félix para seu consultório e fechou a porta.

E então? — indagou interessado. — Como ela está?

Confusa, como era de se esperar. Não sabe que desencarnou.

E você lhe contou?

Ainda não. Queria, primeiro, falar com você.

Fez bem. Quando chegar a hora, irei a sua casa.

Ela está louca pelo filho e me pediu para encontrá-lo.

Isso não seria aconselhável. Margarete poderia causar um certo tumulto e perturbar a criança.

Quem são seus novos pais?

Prefiro que você não saiba. Do contrário, quando Margarete melhorar e aprender a ler pensamentos, estan­do na mesma faixa vibratória que você, pode acabar desco­brindo através dos registros de sua mente.

E não vai ler os seus?

Só se eu permitir.

Apesar de Laureano trabalhar num astral mais denso, era um espírito iluminado e esclarecido, cujos pensamentos vibravam em intensidade acima da modulação mental dos habitantes locais. Consequentemente, eles não podiam ler­-Ihe os pensamentos.

Por que você acha que ela vai atrapalhar o Anderson? - tornou Félix.

Anderson? É assim que ela o chama agora?

É.

Muito bom. Deixe-a chamá-lo por esse nome. Vai dificultar ainda mais sua localização.

Você não respondeu a minha pergunta: por que Margarete atrapalharia o crescimento do filho?

No momento, ela é um espírito desequilibrado que só lhe causaria transtornos. E a nova mãe do menino não possui emoções firmes o suficiente para resistir-lhe. As dificuldades da vida podem ter o efeito de armadilhas do destino, caso não se consiga manter a mente e o coração em equilíbrio.

Mas será que ela não chegará a ele através dessas próprias pessoas? Não é possível que elas formem um elo de pensamentos que leve Margarete até o filho?

Possível sempre é. Mas a nova tia de Anderson é uma mulher religiosa, e sua fé vai manter Margarete afasta­da. Enquanto ela e a irmã se mantiverem ligadas a Jesus e às orações, em equilíbrio emocional, nenhum espírito per­turbador conseguirá alcançá-las. Têm por líder espiritual um pastor nobre e de moral elevada, capaz de orientá-las sem­pre na direção do bem. O que precisamos fazer é orar para que elas jamais se afastem desse caminho.

O que poderá acontecer se elas assim o fizerem?

O futuro nos dirá. E agora vamos, meu filho. Acom­panhe-me num momento de oração.

Félix estava acostumado à mania de rezar de Laureano. No começo, achava tudo muito chato, mas depois foi-se apercebendo do bem-estar que o invadia sempre que ele ou alguém orava. Sem questionar, ajoelhou-se ao lado do mé­dico e simplesmente entregou os pensamentos à luz, en­quanto o outro direcionava fluidos de amor e equilíbrio ao lar de Clementina.

Margarete acordou aos gritos, debatendo-se na cama. A seu lado, Félix deu um salto do colchonete improvisado e sacudiu-a vigorosamente:

— Margarete! Margarete! Acorde!

Ela arregalou os olhos e se agarrou aos braços dele, ao mesmo tempo em que dizia apavorada:

— Tive um pesadelo medonho! Sonhei que tinha mor­rido atropelada por um carro.

Félix a encarou com perplexidade. Embora se lembrasse de seu desenlace, Margarete acreditava que fora um sonho. Antes que ele pudesse falar, ouviram uma batida na porta, e Laureano entrou. Com ele, uma enxurrada de luz inundou o ambiente. Margarete olhou para ele atônita, sentindo estra­nha confiança naquele velhinho de olhar bondoso e calmo.

Olá — cumprimentou ele, com a jovialidade de sempre. — Como estão as minhas crianças?

Margarete não se sente muito bem — contou Félix.

Sonhou que havia morrido.

Aquilo já era do conhecimento de Laureano. Não fora por outro motivo que viera. Fazia quase um mês que Margarete estava vivendo com Félix e aquela era a primeira vez que se lembrava do acidente. Laureano se sentou ao lado dela, tomou-lhe a mão nas suas e disse carinhosamente:

— Não quer me contar como foi o seu sonho?

Ela estava fascinada pelo halo de luz que o envolvia, propositadamente deixado ao alcance de sua percepção.

— Perdão... — ela começou a dizer. — Não conheço o senhor, mas... como pode brilhar tanto? De onde vem toda essa luz?

Essa luz a incomoda?

Ao contrário, me enche de alegria. É como se me revigorasse a alma.

Bem, é isso mesmo o que acontece. Essa luz está aqui por sua causa. Foi por você que eu a trouxe comigo.

As palavras dele a emocionaram, e duas lágrimas es­correram de seus olhos.

Não sei por que tanta bondade. O senhor e Félix nunca me viram e me tratam como se eu fosse alguém.

Você é alguém — esclareceu Laureano. — É um espírito, uma centelha de Deus.

São palavras lindas e estranhas... Aliás, tudo aqui é muito estranho. Não sei há quanto tempo estou aqui, perdi a noção das horas. Tenho que encontrar meu filho, mas até isso me parece confuso.

Por que quer encontrá-lo?

Por quê? Porque ele é meu filho, ora.

Mas você o abandonou.

O senhor, que parece tão bom, veio até aqui para me julgar?

De modo algum. Vim aqui para conversar com você e tentar fazer com que enxergue a verdade.

Que verdade?

A verdade sobre você.

Não estou entendendo nada, para variar. Por que todo mundo aqui fala por charadas?

Não é uma charada — contestou Félix. — Temos medo de dizer algo que você não queira ouvir.

O quê, por exemplo? — sondou ela.

Por que não me conta o seu sonho? — interrompeu Laureano. — Gostaria muito de ouvi-lo.

O senhor parece bastante legal, mas por que lhe contaria algo se nem o conheço?

— Ele é o doutor Laureano, de quem tanto lhe falei — informou Félix.

Eu já imaginava. Só queria ter certeza.

Vejo então que já me conhece por intermédio de Félix — disse ele. — Estou certo?

É. Félix fala muito do senhor.

Vamos deixar as formalidades de lado. Vai me fazer mais feliz se me chamar apenas de Laureano. É assim que se tratam os iguais.

O senhor? Igual a mim? Acho que vocês são é doidos.

Laureano cuida dos doidos, Margarete — explicou Félix. — Ele é psiquiatra.

Então é isso? Vocês acham que estou louca?

— Creio que Félix não foi claro em suas palavras — emendou Laureano. — Quando encarnado, eu tratava de loucos. Hoje cuido de espíritos que, como você, encontram­-se perdidos num mar de confusão. Tento clarear suas men­tes e trazer-lhes um pouco de lucidez.

Margarete o olhava pasmada. Será que não compreen­dera bem o que ele dissera?

Perdão — revidou ela. — Mas agora é que não es­tou entendendo nada mesmo. O que o senhor quis dizer com quando encarnado?

Quando habitava o mundo dos vivos.

Como assim, o mundo dos vivos? Que mundo é esse, afinal? O mundo dos mortos?

É você quem está dizendo.

Agora não tenho mais dúvidas de que estou na companhia de loucos. De que hospício vocês fugiram?

Margarete, por favor, tente se acalmar — aconse­lhou Félix.

Não! Logo vi. Tanta bondade só podia ser engana­ção. Estou no meio de doidos. Quero sair daqui agora mes­mo! Exijo que você me leve embora ou vou chamar a polícia.

Ela correu para a porta, e Félix tentou segurá-la, mas foi impedido por Laureano. Quando ela passou para o lado de fora, teve uma surpresa aterradora. A ruela em que saíra não era mais aquela pobrezinha à qual já estava se acostu­mando. Encontrava-se agora em uma rua asfaltada, numa cidade grande. De um lado e de outro, latas de lixo guar­neciam as calçadas. Imediatamente reconheceu a rua onde abandonara o filho e o latão em que o procurara.

— Não pode ser — disse para si mesma.

De repente, ela se sentiu atirada para a frente por uma força misteriosa. Atravessou a rua, apertando nas mãos um punhadinho de moedas e notas amarrotadas. Aos trope­ções, entrou num bar e foi atendida por um português, que lhe vendeu duas doses de pinga. Na terceira, como o dinhei­ro acabou, tentou seduzir o homem para que lhe vendesse fiado. Ele se enfureceu, brandiu os punhos na frente dela, levando-a a fugir desabalada. Na carreira, ao atravessar a rua, viu um carro vermelho partindo para cima dela. Gritou apavorada e fechou os olhos, encolhendo-se no chão, à es­pera do baque que não veio.

Quando tornou a abrir os olhos, a cena se havia des­feito, a rua voltara a ser a mesma de sempre, com seus cai­xotes imitando casebres. Parados na porta de casa, Félix e Laureano a fitavam, cheios de compaixão.

— Preciso de uma bebida — pediu ela. — Há quanto tempo não tomo um trago! Félix correu para ela e a abraçou.

— Minha querida, o que foi que houve?

Apenas Laureano havia visto o que ela vivera. Com a calma de sempre, aproximou-se:

— Não quer agora me contar o seu sonho?

Margarete desatou num pranto sentido. Abraçou-se com força a Félix, soluçando com profunda tristeza:

— Eu morri, não foi? Aquele carro me pegou. Eu morri e nem sabia disso. Mas como pode ser, se ainda estou viva?

— Você mesma o disse — esclareceu Laureano. — Ainda está viva, pois só o que morre é a matéria densa, mas permanecemos vivos em nosso corpo sutil.

Para variar, não compreendo o que você diz, mas aceito essa verdade.

Puxa! — exclamou Félix. — Até que foi mais fácil do que eu imaginava.

Porque, no fundo, Margarete já sabia que havia de­sencarnado. Apenas não queria aceitar a realidade.

Tem razão. Tive medo. Mas agora estou bem e pronta para me iniciar em minha nova vida.

Como assim, está pronta? — questionou Félix.

A mente de Margarete havia trabalhado com impressio­nante rapidez. Sabendo-se morta na matéria, mas viva em espírito, imaginou que aquela seria uma ótima oportunidade para se aproximar do filho e saber o que lhe havia aconteci­do. Simples, sem confusão e sem ser notada. Poderia ficar junto dele sem que ninguém percebesse. Não era o ideal, mas pelo menos era uma saída. Quem sabe não poderia até ir ao encontro de Anderson e deitar-se com ele?

— Nada disso que você está pensando poderá reali­zar — sentenciou Laureano.

Margarete tomou um susto. Não imaginava que al­guém pudesse ler os seus pensamentos.

E por que não? — rebateu mal-humorada.

Você não sabe onde está a criança e não estou au­torizado a dizer. — Ela olhou para Félix, e Laureano pros­seguiu: — E não adianta pedir ajuda a Félix. Ele não tem a menor ideia do paradeiro do menino.

Ele é meu filho! — exasperou-se ela.

Não é mais. Ele pertence a um plano de existência, você, a outro.

Se sou espírito, posso ir aonde quiser, não posso? Pelo menos é assim que a gente vê na televisão.

A televisão desconhece as leis que regem o mundo. Aqui, como no mundo da matéria, existem leis que devem ser observadas. A diferença é que a lei dos homens foi criada para equilibrar a sua imperfeição, ao passo que as leis que imperam no invisível decorrem da natureza de todas as coi­sas, revelando, por isso mesmo, a própria perfeição de Deus.

Ela o olhou com certo rancor, mas não contestou. Não tinha maturidade, nem conhecimento, nem preparo moral para o contradizer.

Venha comigo, Margarete — chamou Félix. — Ainda podemos ser felizes.

Não vejo como possa ser feliz ao lado de um desco­nhecido — rebateu friamente.

Não sou um desconhecido. Nós já nos conhece­mos de outras vidas.

Aos poucos, a memória de Margarete foi-se restabe­lecendo, e cenas de sua última encarnação se delinearam em sua mente. Embora não soubesse bem decifrá-las, sabia que eram reminiscências de tempos idos.

Preciso de um trago — anunciou com irritação.

E agora.

Margarete, você não pode.

Posso sim — desafiou.

Você nem sabe como fazer isso.

Quero beber! Onde tem um bar por aqui? Um bar! Preciso desesperadamente de um bar. Quero beber!

Na mesma hora, Margarete desvaneceu. Félix encarou Laureano com amargura e murmurou em lágrimas:

E agora? O que vamos fazer?

Não podemos fazer nada. Era inevitável que isso acontecesse. Margarete ficou tempo demais sem pensar na bebida. Mas o vício não a abandonou e, quando ela se viu contrariada, reavivou a impressão do álcool, do qual seu corpo emocional encontra-se impregnado.

Aonde ela foi?

A algum bar, não tenho dúvidas. E já deve estar apren­dendo a sugar a essência da bebida de ébrios invigilantes.

Não podemos fazer nada?

Eu não posso sair daqui agora. Mas aconselho-o a ir atrás dela, ou outros poderão encontrá-la na sua frente.

E se ela não quiser voltar comigo?

Limite-se a observá-la e acompanhar os seus pas­sos. Ela vai sugar o álcool até que a sensação da embria­guez a anestesie. Aí então, traga-a de volta. Mas cuidado: muitos espíritos maldosos e perigosos estarão à espreita para escravizá-la e obrigá-la a trabalhar para eles. Margarete pode se deixar seduzir por suas palavras doces e falsas. Esteja alerta e, quando isso acontecer, eleve seu pensamen­to a Deus e busque envolver a ambos numa redoma de luz.

Só isso irá bastar para afastá-los?

A oração é a arma mais poderosa contra aqueles que ainda não conhecem o poder do amor. Com ela, você estará bem guarnecido e preparado para trazer Margarete de volta. Mas não se iluda. Ela virá com você, contudo, assim que melhorar, vai sair de novo.

Como posso encontrá-la?

Dê-me sua mão. — Ele deu. — Agora pense firme­mente nela.

Com a mente de ambos fixada em Margarete, Félix imediatamente se viu ao lado dela. Seus pensamentos a haviam levado para o boteco que ela costumava frequen­tar ainda em Belford Roxo. Como Laureano previra, rapida­mente ela aprendeu a sugar as energias dos encarnados e, naquele momento, deliciava-se com a essência etílica que desprendia da cachaça. Félix olhou ao redor, à procura de espíritos perigosos, mas não viu nenhum. Apenas uma forma-pensamento3 bastante densa e nebulosa quase se infiltrava num senhor sentado a uma mesa, enquanto o es­pírito de uma mulher apalpava um homem no balcão. Félix notou que ele se excitava só com o toque da mão invisível.

Ele voltou a atenção para Margarete, que, alheia a tudo aquilo, permanecia grudada no bêbado, sugando o máximo que podia. A visão de sua amada naquela atitude obsessiva e perturbadora lhe causou imenso mal-estar, mas ele não desistiu. Procurou um lugar para se sentar e ficou tomando conta dela. Demorou muito para que ela se saciasse, até que, finalmente, a essência do álcool lhe subiu à cabeça e a ilusão da bebedeira atirou-a ao chão.

Só então Félix saiu de seu esconderijo e se aproximou, angustiado com o estado de embriaguez em que Margarete se encontrava. Se viva estivesse, teria entrado em coma al­coólico. A matéria química, contudo, não era capaz de pe­netrar seu corpo emocional. Os efeitos que se produziam sobre Margarete derivavam da essência deletéria do álcool, transmitindo-lhe a nítida sensação de embriaguez, facilmen­te descartada se ela recuperasse o equilíbrio mental. Em suma, tudo não passava de uma poderosa ilusão criada pela mente acostumada aos efeitos do álcool.

Ele se abaixou ao lado dela e ergueu-a no colo, no exa­to momento em que espíritos mal-encarados adentravam o bar, acompanhando um meliante perigoso. Mal os seres o olharam de esguelha, Félix fez breve oração, que o levou de volta a sua casa. Deitou Margarete na cama, ajoelhou-se a seus pés e, com os olhos úmidos, misturou seus soluços à oração de agradecimento.

 

3 Forma-pensamento é uma criação mental plasmada no mundo astral, de natureza idêntica ao pensamento que a criou.

 

Aos onze anos, Marcos era um menino muito educado e decidido. Desde cedo escolhera a profissão: queria ser ad­vogado, para ajudar a acabar com as desigualdades e injusti­ças sociais. Era um sonho que a mãe estimulava, embora não lhe desse muito crédito. Como um menino pobre feito Marcos Wellington conseguiria passar em uma faculdade do governo, já que eles não tinham condições de pagar uma particular?

Eu vou conseguir, mãe, você vai ver — afirmava ele.

Você ainda nem sabe direito o que é ser advogado — objetava Romualdo. — É profissão de gente rica. É mais fácil ser pedreiro, como seu pai.

Deixe, Romualdo — censurava Clementina. — Se é o que ele quer, vai conseguir.

Mas a vida não era fácil, e as tentações, muitas. Todos os domingos, Leontina passava em casa de Clementina para irem ao culto evangélico. Naquele dia, não foi diferente. Marcos terminou de ajeitar a gravata, com a qual a mãe o obrigava a ir ao culto, e foi esperar a tia na porta de casa. Sentou-se no batente, atirando pedrinhas na parede para ouvir o estalido que elas produziam. Estava assim distraído quando ouviu uma voz conhecida chamando-o do portão:

— E aí, Zé das Ovelhas, vai todo enfatiotado para a missa de novo?

Marcos fitou o interlocutor e engoliu um momento fugaz de raiva. Zé das Ovelhas era o apelido que ganhara quando, certa vez, respondendo aos gracejos de Jéferson, dissera que eram todos ovelhas no rebanho do Senhor. Jéferson caiu na gar­galhada, chamando-o de Zé das Ovelhas, e o apelido pegou.

Missa é da Igreja Católica. Vou ao culto.

Tanto faz.

Jéferson falava agitando exageradamente o pulso diante dos olhos de Marcos, até que ele reparou por quê. Um relógio novo, tinindo de um brilho prateado ofuscante, reluziu à luz do sol.

Uau! — fez Marcos, que sempre desejou ter um re­lógio. — Onde você conseguiu?

Trabalhando — Marcos se aproximou e segurou o punho do outro, revirando-o para admirar a pulseira croma­da. — Você poderia conseguir um, se quisesse. O Mandrake cansou de dizer que tem vaga para você.

Mandrake era o nome do traficante local, que se dera esse apelido por se considerar um mágico no desaparecimen­to, já que a polícia jamais conseguira colocar as mãos nele. Utilizava-se, para fazer avião, de garotos que levavam as dro­gas para cima e para baixo, arriscando-se a ser surpreendidos e presos, ou, pior, mortos em algum confronto com a polícia.

Os olhos de Marcos brilharam ante a possibilidade de possuir um relógio daqueles. Mas as palavras do pastor re­verberaram em sua mente, e ele parou assustado, como se o sacerdote estivesse ali presente, dizendo:

— As drogas são um dos portais de que o diabo se utiliza para abrir a passagem para o inferno. E como disse o amado apóstolo Mateus, "o Filho do Homem enviará os seus anjos, que tirarão do seu reino todos os que causam escândalos e promovem a iniquidade, e os lançarão à forna­lha acesa, onde haverá choro e ranger de dentes"4.

 

4 Mateus 13:41,42.

 

O medo de ir para o inferno foi maior do que o desejo de possuir o relógio, e Marcos meneou a cabeça, dizendo envergonhado:

Não, Jéferson, obrigado.

Tem certeza? — Marcos assentiu, e o outro deu de ombros. — Você é quem sabe.

Como Leontina despontou no fim da rua, Jéferson fez um aceno para Marcos e tomou a direção oposta. A tia che­gou esbaforida e indagou, estreitando a vista para ver se podia ainda reconhecer o garoto:

Quem era aquele?

Ninguém. Um conhecido.

Olhe lá, hein, Marcos Wellington! Não vá se meter com más companhias.

Não se preocupe, titia. Tenho Deus no coração.

A resposta satisfez Leontina, que abraçou o sobrinho e estalou-lhe um beijo na face. Marcos recebeu o beijo com respeito, muito embora se irritasse com a forma como a tia o chamara. Detestava ser chamado de Marcos Wellington.

Logo Clementina estava ao lado deles, e os três parti­ram rumo à igreja.

Estou preocupada com Romualdo — Clementina cochichou ao ouvido da irmã, para que Marcos não ouvisse.

Porquê?

Ando desconfiada de que ele arranjou uma amante.

Leontina levou a mão à boca, abafando um grito de horror, e tornou séria:

Como foi que você descobriu?

Não descobri. Mas ele anda diferente, esquisito. Quase não me procura mais.

E o emprego?

Vai bem, mas tem chegado tarde, dizendo que ar­ranjou uns serviços extras depois do trabalho.

Será que não é verdade?

Ah, é? E cadê o dinheiro? — Leontina não respon­deu. — Não sei o que farei se descobrir que Romualdo tem mesmo uma amante. Acho que sou capaz de me matar.

Não diga uma coisa dessas! Quer condenar sua alma para sempre? Suicídio é um dos maiores pecados que o ser humano pode cometer. E depois, tem o Marcos Wellington. Quem é que vai cuidar dele? A madrasta?

— Isso não! — objetou Clementina, sentindo a ira su­bir-lhe pelo pescoço e inundar suas faces. — Levanto-me da sepultura e dou um jeito de levar a rameira comigo. Vou arder no fogo do inferno, mas não estarei sozinha. Leontina abriu a boca novamente e tornou abismada:

— Que horror! Isso não são palavras de uma cristã temente a Deus. Seu filho está melhor do que você. Ainda há pouco me disse que tinha Deus no coração. E você? O que abriga no seu? O ódio, a vingança, o pecado?

Clementina enxugou duas lágrimas discretas e per­guntou emocionada:

Marcos Wellington disse isso?

Disse.

Meu filho é um menino de ouro. Ainda vou me or­gulhar muito dele.

Pois então, pare de falar essas bobagens. Não dê asas ao diabo, pois ele pode levá-la com ele para um voo no inferno. Trate de se manter firme em sua fé, ou Deus irá castigá-la por sua blasfêmia.

Clementina não disse nada. Por mais que desse razão à irmã, não podia sequer imaginar-se longe de Romualdo. A paixão pelo marido era tão intensa que, se ela não se matas­se, de qualquer forma, morreria de desgosto.

Assistiram ao culto em silêncio, com profundo res­peito e devoção. Dos três, Leontina era a mais religiosa. Acreditava piamente nas escrituras e em tudo que o pastor pregava, abrigando palavras de fé e caridade em seu cora­ção. Era uma pessoa piedosa, genuinamente boa, e sabia perdoar com facilidade. Tinha também uma crença fervo­rosa nos pecados da alma, nas penas eternas e no fogo do inferno, razão pela qual vivia em oração, pautando sua conduta nos exatos termos descritos na Bíblia.

Para Clementina, a igreja representava uma fuga, uma forma de conviver pacificamente com seus problemas ma­trimoniais. Sempre achou que, quanto mais dedicada à reli­gião, maior seria sua recompensa. Fora esse seu testemunho quando ganhara o filho. Agora, o que ela mais desejava era conservar o marido a seu lado. Por isso, não faltava aos dias de culto e fazia o que podia para ajudar na congregação, cer­ta de que Deus a recompensaria salvando seu casamento.

Marcos, por sua vez, vivia sentimentos contraditórios. Ao mesmo tempo em que interiorizava os ensinamentos adquiri­dos na escola dominical e nas pregações do pastor, sentia um quase irresistível desejo de se libertar de tudo aquilo e se en­tregar ao mundo. Via Jéferson e os outros meninos do morro com coisas bonitas que ele não podia comprar, e, silenciosa­mente, ansiava por uma oportunidade de possuir tais objetos. Mas como, se o pai ganhava pouco e a mãe não trabalhava?

A solução era, ao mesmo tempo, fácil e quase impos­sível. Para ter o que eles tinham, Marcos teria que seguir o caminho do crime. Só que ele não queria se tornar um criminoso. Tinha medo das consequências: de se ver em­baraçado na lei dos homens e na de Deus. Temia a polícia tanto quanto temia os anjos que o conduziriam ao inferno. Toda vez que Jéferson lhe acenava com um objeto caro, ele pensava em aceitar o convite de Mandrake, pelo menos uma vez, só para comprar alguma coisa bonita. Mas o medo de que a satisfação de um desejo se transformasse na escravi­dão aos demais o fazia recuar.

O jeito então era seguir os conselhos da mãe e da tia: estudar para conseguir um emprego honesto e digno, para poder comprar o que queria. Mas isso também devia ser pe­cado, porque o pastor acabava de gritar lá do púlpito:

— "O ambicioso apressa-se de enriquecer, mas não sabe que a miséria virá sobre ele5"! Por isso, meus filhos, é que lhes digo: não gastem o tempo valioso na busca de riquezas, mas aceitem a pobreza que Deus lhes enviou para que juntem tesouros no céu. Jesus levou uma vida pobre, pois sabia que não se pode servir a Deus e ao dinheiro. Ser pobre é abrir-se ao amor de Deus, portanto, cultivem a simplicidade da vida e aprendam a viver com humildade, pois nada é necessário ao homem além do essencial para uma vida consagrada ao Evangelho do Cristo.

Marcos abaixou a cabeça, envergonhado consigo mesmo. No fundo, não concordava com aquelas palavras, mas o que fazer? Se estava na Bíblia, é porque era verdade. Na volta para casa, ouviu a tia perguntar:

E então, Marcos Wellington, gostou do sermão de hoje?

Gostei... — falou hesitante. — Mas fiquei com uma dúvida. Será que é pecado eu querer ser advogado para ter uma vida melhor e tirar meus país e minha tia do morro?

As duas o fitaram com lágrimas nos olhos, e foi Leontina quem respondeu:

Não, meu querido. O que é pecado é a ambição do dinheiro. Mas, se você trabalhar honestamente, para melho­rar de vida, não estará pecando.

Mas, e para ter coisas que não são assim tão ne­cessárias? Como um relógio novo e caro?

Acho que o diabo pode tentar você com essas ideias, para desviá-lo do caminho da virtude e do bem. Cuidado.

O menino silenciou, arrependido de ter perguntado, e foi caminhando na frente, de forma que Clementina pôde retomar a conversa com a irmã:

Como posso fazer para descobrir se Romualdo tem mesmo uma amante?

Você devia estar preocupada com o seu filho, com as ideias que os garotos do morro podem meter na cabeça dele.

Ele não precisa disso. É muito ajuizado. Você mes­ma ouviu.

É, mas ele já está sonhando com relógios caros. O mundo está cheio de tentações, minha irmã. Não podemos nos descuidar um minuto.

Ora, mas você lhe respondeu muito bem. Tenho certeza de que Marcos Wellington aprendeu. — Leontina suspirou, e Clementina prosseguiu: — Agora, voltando àquele assunto, preciso descobrir.

Acho que o melhor é não falarmos mais disso. Desde a chegada de Marcos Wellington, Romualdo tem sido um bom marido, embora não conseguisse manter a promessa de tirá­-la do morro. Mas arranjou um emprego fixo, nunca bateu em você e já não bebe tanto. Devia se contentar com isso.

Contentar-me com isso, você diz? E o sexo? Faz parte da vida de todo casal.

Vocês não podem ter filhos. Sexo não devia ser tão importante assim.

Essa é muito boa! Diz isso porque nunca foi casada e não sabe o que é ter um homem em sua cama.

Se nunca me casei, foi porque optei pelo devota­mento a Cristo — revidou ela, magoada. — Essa é uma coi­sa boa da Igreja Católica que devíamos adotar. Devia ser permitido que nós, mulheres, nos consagrássemos somente a Deus e a Jesus.

Como uma freira, você diz? — Leontina assentiu.

Deus me livre! Gosto de homem e não abro mão do sexo.

É por causa do sexo que você está com essas ideias pecaminosas. As coisas mundanas não deviam se sobrepor às coisas de Deus.

Tudo bem, Leontina, você tem razão em tudo o que diz. Mas se esquece de que um dos mandamentos diz que não devemos cobiçar a mulher do próximo. Isso não se aplica ao

 

5 Provérbios 28:22.

 

marido também? Adultério é pecado e, se Romualdo estiver com uma amante, não estará também cometendo um peca­do mortal?

— Por isso é que lhe digo que o melhor é não saber. Se ele estiver pecando, deixe sua consciência ao julgamen­to do Senhor. Faça a sua parte, que é ser fiel, boa esposa, boa mãe, e entregue o resto nas mãos de Deus.

Clementina já estava ficando cansada de ouvir falar em Deus, pecado e inferno. Afinal, fazia a sua parte, ia à igreja, cuidava do marido e da casa. Não merecia uma recompensa à altura? Por que então Deus a estava punindo daquela for­ma? Embora não dissesse mais nada, ia descobrir a verdade. Não era mulher de aceitar passivamente a traição do marido.

A desconfiança passou a ser companheira inseparável de Clementina. À exceção dos fins de semana, Romualdo ficava fora todas as noites, só retornava por volta das onze horas. Quando chegava, encontrava Clementina acordada, esperando por ele. As perguntas eram sempre as mesmas. As respostas, invariáveis:

Onde você esteve?

Trabalhando.

Até quando vai esse bico que você arranjou?

Não sei. Depois desse, já tenho outro em vista.

Onde?

Na casa de uma madame lá na Gávea.

E cadê o dinheiro?

Ainda não recebi.

Clementina esperava pacientemente até que ele to­masse banho, servia-lhe o jantar e ajeitava a cama para que ele se deitasse, deitando-se ao lado dele. Romualdo logo fingia pegar no sono, e mesmo quando Clementina o acari­ciava, sugerindo que se amassem, ele a repelia gentilmente, a desculpa de sempre na ponta da língua:

— Estou cansado. Trabalhei demais hoje.

Não foi por outro motivo que ela resolveu segui-lo. Durante dias, juntara dinheiro para a empreitada. Pegou um táxi e foi atrás do ônibus que ele tomou, até um prédio em reforma na rua da Carioca. De posse do endereço da obra em que ele trabalhava, resolveu voltar mais tarde. Durante o horário de trabalho, era certo que ele nada faria.

Aguardou com ansiedade o fim do dia. Deu ordens ex­pressas a Marcos para que não saísse de casa, trancasse tudo e só abrisse a porta para a tia. Com um beijo na testa, aben­çoou-o e saiu. Dessa vez tomou um ônibus e desceu quase em frente à obra. Chegou bem no fim do expediente, ainda a tem­po de ver Romualdo se despedir dos colegas e ganhar a rua.

Do outro lado da calçada, seguiu-o a distância. Pas­saram pela praça Tiradentes e a rua Visconde do Rio Branco, até virar na rua dos Inválidos. Ele tocou a campainha de um sobrado e foi recebido por uma mulata jovem, bonita, volup­tuosa de corpo, que o abraçou e o beijou na boca, puxando­-o para dentro.

Clementina precisou se segurar num poste para não cair, sentindo que todo o seu mundo ruía sobre sua cabe­ça. Então era verdade! Romualdo tinha mesmo uma aman­te mais jovem, mais bonita, as formas bem-feitas e rígidas. Muito diferente do corpo alquebrado e flácido que ela ga­nhara ao longo dos anos. Não era justo.

Desnorteada, foi até o sobrado e tocou a campainha. Outra mulher atendeu e olhou-a com ar interrogativo.

O que deseja? — perguntou por fim, já que Clementina não se decidia a abrir a boca.

Quero falar com Romualdo.

E quem é você?

A mulher dele.

A outra gelou. Pensou em bater a porta na cara da des­conhecida, mas Clementina já havia atravessado o pé no portal e segurava a porta com uma das mãos.

Romualdo! — gritou a mulher para dentro da casa.

Tem alguém aqui querendo falar com você.

Ele apareceu dois minutos depois, sem camisa, seguran­do uma lata de cerveja. Ao dar de cara com a esposa, sua expressão murchou. A mulher que a recebera rodou nos cal­canhares e subiu apressada, passando por ele sem dizer nada. Não queria ser envolvida na briga doméstica de ninguém.

Como pôde? — desabafou Clementina, segurando as lágrimas. — Como pôde fazer isso comigo?

Vá para casa, Clementina. Lá, conversaremos.

Só se você vier comigo.

Agora não posso.

Onde está a prostituta com quem você está dormindo?

Vá para casa, já disse.

Não sem antes lhe dar uma surra.

Vá para casa! — gritou ele, irritado.

Ela começou a chorar, e Romualdo deu-lhe um empur­rão, para poder fechar a porta. Clementina tocou a campai­nha outra vez, mas ele não atendeu. Ela continuou tocando e tocando, até que a mulher que a recebera berrou da janela:

— Pare com isso! Ele não está mais aqui. Saiu pela porta dos fundos e pulou o muro do vizinho. Vá fazer escân­dalo em outro lugar.

Clementina soltou a campainha e olhou desconfiada para a mulher, que entrou e bateu a janela. Atravessou a rua, para ver se conseguia enxergar melhor lá dentro, mas tudo estava fechado. Ainda pensou em sentar e esperar para dar uma coça na amante, contudo, não se atreveu. Só o que queria era ter seu Romualdo de volta.

Abandonou o sobrado e tomou o ônibus de volta. Era hora do rush, e ela teve que esperar muito até chegar em casa. Entrou esbaforida, procurando o marido, mas apenas Marcos estava ali, vendo um programa no velho aparelho de televisão.

Onde está seu pai? — indagou ela.

Ainda não chegou. E por que você está com essa cara?

Por nada.

Ela saiu e foi sentar-se no degrau da entrada. Afundou o rosto entre as mãos e ficou ali, esquecida de si mesma, o coração lacerado pela dor da traição. Ao ouvir passos se aproximando, levantou os olhos. Romualdo estava parado na sua frente, braços cruzados, impregnando o ar com o cheiro forte da bebida. Ela o encarou com rancor e ressenti­mento, mas ele foi o primeiro a falar:

Voltei para pegar minhas coisas.

Pegar suas coisas?

Vou-me embora, Clementina. Não dá mais para vi­ver assim.

Assim como? Eu não fiz nada. Foi você quem me traiu.

É a isso mesmo que me refiro. Não posso mais le­var esta vida dupla.

Vai me trocar por uma prostituta?

Sheila não é prostituta. É balconista numa padaria na cidade.

Foi lá que vocês se conheceram?

Foi.

Clementina se levantou, segurou as mãos dele. Ende­reçando-lhe um olhar de paixão, implorou:

— Em nome de Deus e do nosso amor, Romualdo, não faça isso. Posso perdoar essa sua aventura, mas não me abandone.

Ele abaixou a cabeça, constrangido, e respondeu sem a encarar:

Não foi uma aventura. Sheila e eu estamos apaixonados.

Você está enfeitiçado pela beleza e juventude dela. Mas isso vai passar. Eu é que sou a sua mulher.

Não é mais.

Nós somos casados.

Podemos nos divorciar.

Não quero! Não admito!

Você só está dificultando as coisas. Com ou sem o seu consentimento, eu vou embora e vou viver com Sheila.

Faça isso, e passo a faca naquela rameira — rugiu ela com ódio.

Você está louca. Não pensa no nosso filho?

E você? Por acaso está pensando nele? Está? Ele se desvencilhou dela e foi até a porta.

Não adianta, Clementina. Já está decidido.

Entrou apressado, com ela em seu encalço, seguindo­-o até o quarto.

— Você não pode! — choramingou. — Eu o amo, Romualdo, como posso viver sem você?

— O que está acontecendo? — perguntou Marcos.

— Seu pai quer ir embora — esclareceu Clementina, em lágrimas. — Conheceu uma vagabunda e quer se amigar com ela. O olhar espantado de Marcos feriu o coração de Romualdo como uma faca, mas nem isso serviu para que ele mudasse de ideia.

— Sua mãe não quer aceitar que nosso casamen­to acabou.

— Você vai nos deixar? — inquiriu Marcos, espantado.

Romualdo não respondeu, e Clementina afirmou com escárnio:

— Vai. Ele vai deixar a família legítima que Deus lhe con­cedeu para se juntar com uma rameira do baixo meretrício!

Romualdo estava decidido a não dizer mais nada. De que adiantaria brigar com Clementina, se não ia mudar de ideia? Sheila já o aguardava para fugirem juntos, para um lu­gar onde Clementina não pudesse encontrá-los e fazer mal a ela. Brevemente, arrumou suas poucas roupas numa ma­leta puída. Fechou os dois trincos, fez um afago no rosto do filho e já ia sair quando Clementina o interrompeu, atirando­-se a seus pés, em súplica:

— Não, Romualdo, você não pode! Por favor, não me deixe. Faço qualquer coisa para que você não se vá. Qualquer coisa! Quer que eu aceite a prostituta? Tudo bem, eu aceito.

Faço de conta que nada aconteceu, não pergunto mais nada, não quero nem saber o que você faz nem com quem. Aceito

o que você me der, as migalhas que guardar para mim. Faço qualquer coisa por você, mas, por favor, não me deixe!

Ela chorava descontrolada, para espanto de Marcos, que nunca havia visto uma cena daquelas. O constrangi­mento de Romualdo também foi aumentando, embora o es­cândalo só servisse para aumentar a repulsa que passara a sentir de Clementina.

— Está se humilhando à toa — afirmou ele. — Minha decisão já está tomada e não tem volta.

Mesmo a contragosto, empurrou-a com força, para que ela largasse as suas pernas, e passou por cima de seu corpo caído no chão, sacudido pelo pranto desesperado. De tão atônito, Marcos não sabia se acudia a mãe ou se impedia o pai. Abaixou-se ao lado dela e segurou-a pelos ombros, oferecendo-lhe o peito para se apoiar. Romualdo já estava na porta quando ouviu o filho chamar lá de dentro:

— Pai.

Parou hesitante, a mão na maçaneta, mas não se vi­rou. Escancarou a porta com fúria, jogando-a de encontro à parede, e saiu, descendo o morro para uma nova vida. Nunca mais queria tornar a ver Clementina.

Com muito esforço, Marcos ergueu a mãe do chão. Ela não parava de chorar, agarrada a ele, sacudindo a cabeça feito uma demente. Ele a deitou na cama e sentou-se a seu lado. Alisou seus cabelos, ouviu seus soluços, sem coragem de dizer nada. Não entendia por que o pai havia feito aquilo.

Pela cabeça de Clementina, mil coisas passavam, des­de o suicídio até o questionamento de Deus. Sem conseguir compreender o porquê daquela traição, voltou-se contra Ele. Não fora ela uma boa cristã e uma boa fiel? Não ia ao culto todos os domingos, não recitava as orações que o pastor lhe indicava? Sempre que podia, não ajudava nas tarefas da igreja? Por que então estava sendo punida daquela forma?

Se ela fazia direitinho tudo o que o pastor mandava, não devia ser castigada. E se estava sendo punida, então Deus não existia ou não se importava com ela.

Com esses pensamentos, levantou-se hesitante, cami­nhando até o espelho. O cabelo estava todo desgrenhado, a roupa amassada, os olhos vermelhos, inchados de tanto chorar. Penteou-se, alisou o vestido e apanhou a bolsa.

— Você vai sair? — perguntou Marcos, atônito.

Ela olhou para ele como se não o visse e respondeu em tom alheado:

— Vou dar uma volta. Tranque tudo e não abra pa­ra ninguém.

Saiu, deixando-o perplexo. Dali em diante, Marcos não conseguiu mais sossegar. A televisão ficou ligada para ninguém, porque ele não conseguia prestar-lhe atenção. Olhava sem ver, consultando o relógio a cada minuto. As horas iam-se passando, e nada de Clementina voltar.

O sono se aproximava, mas Marcos não queria dor­mir. Clementina estava demorando muito. Ele abriu a jane­la, espiou, mas nem sinal da mãe. O morro começava a se aquietar, e ela não aparecia. Olhou para o relógio de novo: faltavam dez minutos para a meia-noite. Fazia muito tempo que ela saíra.

Calçou os chinelos e saiu, subindo o morro a pas­sos largos. Logo alcançou o barraco da tia e bateu à porta. Como Leontina acordava muito cedo para trabalhar, já esta­va dormindo quando ele chegou. Agoniado, ele começou a esmurrar a porta e chamar:

— Tia! Tia Leontina!

Finalmente, ela despertou assustada. Reconheceu a voz do sobrinho e correu a destrancar a porta.

Marcos Wellington, o que aconteceu?

Minha mãe sumiu. Meu pai saiu de casa, ela foi para a rua faz mais de quatro horas e ainda não voltou. Estou preocupado.

Você quer dizer que seu pai foi embora?

Foi. Mamãe disse que ele foi se amigar com uma rameira...

Leontina cerrou os olhos, invocando a presença de Deus, e logo uma suave luz desceu sobre eles.

— Entre. Vou me vestir depressa.

Leontina foi com o sobrinho para a casa dele, a fim de esperar pela irmã. Sentou-se na poltrona da sala, com Marcos deitado em seu colo. As horas avançavam rapidamente, mas nada de Clementina chegar. Até que, quando o sono se tor­nou insuportável, os dois adormeceram abraçados.

Um barulho de coisas caindo tirou Leontina e Marcos do sono. Os dois abriram os olhos quase ao mesmo tempo. O sol já se insinuava pelas frestas da janela, riscando o chão com listras de luz e calor. Novo ruído veio do quarto, dessa vez como se um fardo tivesse sido atirado sobre a cama, fazendo ranger as molas soltas do colchão. Ambos olharam na mesma direção, e o que viram lhes pareceu uma réplica da mulher que atendia pelo nome de Clementina. Rota e desgrenhada, a mu­lher era como uma cópia grotesca e mal-acabada.

Marcos ficou sentado, sem se mover, com medo de provocar alguma reação naquele bicho que tomara o lugar de sua mãe. Apenas Leontina aproximou-se da irmã, que em instantes adormecera e roncava ruidosamente. Clementina fedia a cachaça, a roupa amassada, os cabelos crespos eri­çados emprestavam ao rosto um ar de demência prematura.

Leontina quase soltou um grito de pavor. Nunca tinha visto a irmã naquele estado. Nem parecia uma mulher reli­giosa, temente a Deus. Contendo a repulsa, cutucou-a com irritação, chamando-a agressivamente:

— Clementina! Acorde, Clementina! Vamos, levante-se!

Clementina resmungou e deu tapas no ar, tentando acertar a dona daquela voz irritante. A irmã continuou cha­mando, balançou-a vigorosamente, mas ela não respondeu.

Nem sequer se mexia. Havia ferrado em um sono tão profun­do que nem o retinir de um trovão conseguiria despertá-la. Leontina ainda sacudiu-a mais um pouco, até que desistiu. Era inútil tentar acordar a irmã dopada pela bebedeira.

Minha mãe está morta? — indagou Marcos num so­luço, horrorizado ante a cena inusitada.

Não. Ela está dormindo.

Ela bebeu, não foi? — Leontina assentiu. — Pensei que minha mãe soubesse que a bebida é coisa do demônio.

Eu também. Mas, pelo visto, o diabo a tentou e ela cedeu à tentação.

Foi porque papai foi embora?

Provavelmente.

E agora, tia, o que vamos fazer?

Nada. Deixe-a dormir. Vou trabalhar e, na volta, a gente conversa.

E eu, o que faço?

Tome seu banho e vá para a escola. Não vale a pena perder um dia de aula por causa dessa doida irrespon­sável. Espere só até o pastor saber disso.

Leontina beijou o sobrinho no rosto e foi aprontar-se para o trabalho. Seguindo as ordens da tia, o menino entrou no banheiro minúsculo para um banho no pinga-pinga do chuveiro. De uniforme, segurando a mochila da escola, não teve coragem de sair. Não podia deixar a mãe sozinha na­quele estado. Se faltasse apenas a um dia de aula, será que perderia tanta coisa assim?

Colocou a mochila de volta no armário e sentou-se ao lado dela, na cama. Alisou-lhe a carapinha espetada, tentan­do conter os fios rebeldes que já perdiam o efeito do Henê. Sentiu a ternura invadi-lo e abraçou a mãe pelos ombros. O cheiro da bebida invadiu suas narinas, fazendo-o recuar, enjoado. Com lágrimas nos olhos, deitou-se junto a ela, vi­rando o rosto para o outro lado, para fugir da sua respiração pesada, impregnada do cheiro de álcool. Por causa da noite maldormida, logo pegou no sono.

Despertou com um novo aroma, dessa vez de tempero, que se espalhava por toda a casa. Pela janela aberta, dava para perceber que ainda era dia, embora a sombra da tarde denotasse o avanço das horas. Marcos procurou a mãe com o olhar. Encontrou-a mexendo as panelas no fogão. Ela es­tava de banho tomado, os cabelos rebeldes contidos debai­xo de um lenço, roupas limpas e cheirosas. Sentiu imensa satisfação ao vê-la de volta ao normal e se levantou, aproxi­mando-se dela.

— Oi, mãe — chamou baixinho.

Ela se virou com largo sorriso. Segurou o rosto dele entre as mãos e estalou-lhe um beijo na testa.

Pensei que não fosse acordar mais, preguiçoso. Posso saber por que não foi à escola?

Você chegou tarde. Titia e eu ficamos preocupados. Clementina mordeu os lábios e revidou contrariada:

Você foi chamar sua tia?

Fui.

Pois não devia.

O que você esperava que eu fizesse, mãe? Papai foi embora e você sumiu. Pensei que tivesse me abando­nado também.

Isso não, meu filho, nunca! — protestou ela, com veemência. — Jamais vou abandonar você.

Mas papai foi embora...

Seu pai nos trocou por uma vagabunda — revidou ela com raiva.

Foi por isso que você bebeu?

Clementina começou a chorar e puxou o filho, abra­çando-o até quase sufocá-lo.

— Marcos Wellington, você é a única coisa que me resta no mundo. Seu pai foi embora, e agora não sei o que vamos fazer. Não sei se vou conseguir viver sem ele...

As palavras foram engolidas pelos soluços, e ela o lar­gou para se atirar de bruços na cama. Chorava tanto que ele pensou que ela fosse engasgar.

Por favor, mãe, não fique assim. Eu estou aqui e vou proteger você.

Ah! meu filho... Você é um menino tão bom, mas é apenas uma criança.

Já tenho onze anos, posso me virar.

Clementina sorriu entre as lágrimas e afagou o ros­to dele:

— Meu menino, dinheiro não é tudo. Posso arranjar um emprego. Mas como é que vou fazer para viver sem o meu ma­rido? Como vou... — novo soluço — ... sem o meu homem...?

Marcos não compreendia muito bem, mas abraçou-a com força.

Podemos pedir ajuda ao pastor. Ele é homem também.

Como você é ingênuo. E é bom que seja assim, livre das maldades do mundo.

Marcos podia ser ingênuo, reflexo da rigidez de educa­ção, mas não era nenhum idiota. Sabia que, dali em diante, a vida deles seria muito difícil. A mãe não trabalhava, e o pai, na certa, não lhe deixara nenhum dinheiro.

Olhe, mãe, não se desespere. Se pedirmos ajuda ao pastor, sei que ele vai fazer algo por nós. Ele já ajudou tanta gente...

Não quero mais ouvir falar de pastor nesta casa! esbravejou ela, dando um susto em Marcos. — Eu segui tudo o que o pastor disse, e olhe só no que deu! Meu mari­do me trocou por uma sirigaita mais jovem. Mas tinha que ser. Que homem vai querer a mulher de casa, recatada, sem maquiagem, usando saias pelo joelho e blusas até o pesco­ço, quando pode ter qualquer uma com as pernas e os seios à mostra? Os homens gostam é disso, Marcos Wellington, vá aprendendo. Gostam de mulheres chamativas, bem ma­quiadas, de corpo bem-feito para ser exibido na rua. E eu, a tonta, achando que, mantendo o recato, manteria também o respeito do meu marido!

Marcos já vira muitas mulheres do tipo que a mãe des­crevia, mas sempre pensou que eram daquelas que cediam à tentação do demônio. A mãe só podia estar louca se acha­va que deveria ser como elas.

Não fale assim, mãe. Você é uma mulher decente. Ela deu um riso irônico e tornou com desdém:

O que você entende de mulher decente? O que o pastor e sua tia puseram na sua cabeça?

E não é o certo?

Não sei mais o que é certo ou errado, meu filho. Só o que sei é que segui à risca as ordens do pastor e fui punida por isso.

Ficar com raiva do pastor não vai adiantar nada.

A voz de Leontina fez os dois se sobressaltarem. Ela estava parada na porta do quarto, os olhos chamejando com o fulgor da reprovação.

Tia! — exclamou Marcos. — Não vimos a senho­ra chegar.

Não viram porque estavam dando ouvidos aos con­selhos de satã.

Chega dessa baboseira de diabo, satã e pecado! — objetou Clementina com fúria. — De hoje em diante, es­sas mentiras não entram mais em minha casa.

Como ousa chamar as verdades da Bíblia de mentiras?

São mentiras, sim! Mentiras deslavadas, histórias de terror para assustar os crédulos e idiotas. Mas, para mim, chega! Não acredito mais em nada disso. Vão, você e o pas­tor, enganar os trouxas da congregação, porque, a mim, não me convencem mais. Nem ao meu filho!

Não se atreva a afastar o menino do caminho de Jesus.

Nunca mais vamos pisar naquela igreja. Nem na­quela, nem em nenhuma outra.

Vou tentar não levar em consideração as suas pala­vras, porque sei que você está sofrendo e está fora de si. Mas advirto-a, Clementina, modere o que diz, ou Deus irá castigá-la.

Mais do que já me castigou? Quando levou embora o meu Romualdo, já me infligiu todas as penas que Ele po­dia inventar.

Não blasfeme!

Estou apenas dizendo o que sinto e, se você quiser chamar de blasfêmia, o problema é seu. Não me importo mais com nada que tenha relação com a igreja.

Mãe — intercedeu Marcos —, pelo amor de Deus, tenha cuidado. O pastor disse que a blasfêmia...

Não quero mais saber o que o pastor disse! — es­bravejou, colérica. — Nunca mais vou dar ouvidos a pastor nenhum. E você, de hoje em diante, está proibido de voltar àquela igreja!

Você não tem o direito de condenar a alma do me­nino — censurou Leontina. — Condene a sua, mas Marcos Wellington é um bom cristão e traz a Bíblia no coração. Não o atire no abismo do inferno junto às suas blasfêmias.

— Quer saber de uma coisa, Leontina? — replicou ela, já impaciente. — Vá você para o abismo do inferno. Quanto a mim, já convivi demais com as proibições do pastor. Tudo é feio, é pecado. Mas abandonar a mulher não é pecado, não?

— Não vou admitir que você fale comigo desse jeito!

— Esta casa é minha, falo do jeito que eu quiser. E, se não está satisfeita, ponha-se daqui para fora!

— Mamãe! — espantou-se Marcos.

— Deixe, Marcos Wellington — falou Leontina. — É melhor mesmo eu ir embora. Sua mãe agora está revelando a boa bisca que é. Eu devia saber. Ela sempre teve uma ten­dência à libertinagem e à vida mundana. A igreja era o que a segurava. Agora ela não tem mais motivo para fingir, não precisa mais se disfarçar de boa cristã. Você nunca foi uma mulher religiosa, Clementina. Só ia à igreja para obter algo em troca. Mas agora não precisa mais, não é mesmo? Não foi à toa que seu marido a deixou.

— Saia daqui! — gritou Clementina, apontando a por­ta da rua.

— Mãe, não faça isso — implorou Marcos, em lágrimas.

— Não se meta nisso, Marcos Wellington! — protes­tou a mãe. — Isso é entre mim e sua tia. — E, virando-se para a outra, explodiu: — O que está esperando? Saia da­qui, vamos!

— Ainda vai se arrepender por isso — rugiu a irmã, entre os dentes.

Leontina saiu batendo a porta, e Clementina apagou o fogo, que já escurecia o fundo da panela, exalando um odor forte de queimado.

— Idiota! — gritou. — Ainda me fez queimar o jantar.

Como Marcos chorava, Clementina largou tudo e cor­reu para ele, tomando-o nos braços.

Não chore, meu filho. Tudo vai ficar bem.

Mas, mãe, você enxotou a titia. Agora mesmo é que estamos sozinhos.

Temos um ao outro.

E a igreja? E o pastor? O que será de nossas almas? Ela o olhou de frente e enxugou os seus olhos.

Olhe, meu bem, não quero mais que você se apro­xime daquela igreja. Tudo o que disseram lá é mentira. E o pastor é o maior mentiroso de todos. Ele só vai ficar en­chendo a sua cabeça com essas bobagens sobre Deus e o diabo, céu e inferno, virtude e pecado. Se Deus existe, não está preocupado com a gente.

Você não acredita no que ele diz? — Clementina meneou a cabeça. — Mas você sempre acreditou!

Isso foi antes de seu pai sair de casa. Agora pense comigo. Se Deus existisse, teria nos punido dessa forma, a mim, que sempre fui à igreja todos os domingos e sempre recitei as orações, e a você, que é apenas uma criança e não merece sofrer?

Não sei...

Pois eu sei e estou lhe dizendo. Tudo o que o pastor fala são mentiras. Ele só quer nos enganar para mandar em todo mundo e pegar o nosso dinheiro.

Mas ele pega tão pouco! Ele sempre disse que quem não tem não precisa dar. E ainda distribui para os pobres.

Tudo enganação. Do dele mesmo, ele não tira. Vive numa mansão luxuosa, com carro do ano e servido por vá­rias empregadas. Isso lá é caridade?

Marcos silenciou. Estava confuso, não compreendia. Sempre vira o pastor às voltas com obras sociais, ajudando a população carente, e não raras eram as vezes em que tirara de seu próprio bolso para socorrer alguma família mais neces­sitada. Que soubesse, ele morava numa casa simples de vila, tinha um carro velho e uma única empregada que já acompa­nhava a família havia anos. A mãe, agora, dizia que era tudo fingimento. Ele não conseguia entender. Seria mesmo?

Não tendo argumentos para opor, Marcos ficou com a verdade da mãe. A partir daquele dia, nunca mais foi à igre­ja, nem quando o pastor foi à sua casa para tentar conven­cer Clementina, que nem sequer o recebeu. Olhando pelo buraco da fechadura, viu que era ele e não abriu a porta. Já estava farta das ameaças do inferno, não precisava de nenhum pastor fanático para lhe dizer o que fazer. Dali em diante, cuidaria da sua vida como quisesse, faria tudo o que tinha vontade e não fizera antes por medo do pastor, que era só um homem e não tinha o poder de mandar ninguém para o inferno.

Nem que Deus a condenasse pessoalmente, ainda as­sim, jamais voltaria a pisar numa igreja.

Marcos subia o morro devagar, levando duas sacolas de supermercado carregadas de compras. Até que o dia fora proveitoso. Dado seu carisma especial, que sensibilizava as pessoas, conseguir esmolas não era nenhum problema.

Todas as manhãs, Marcos vestia uma roupa puída, cal­çava chinelos gastos e descia a rua para pedir dinheiro nas portas das lojas da Praça Saens Pena. Como era época do Natal, a onda de solidariedade favorecia a compaixão, des­pertando o desejo de ajudar crianças carentes.

Depois que juntava o suficiente, Marcos subia o morro, tomava banho, trocava de roupa e descia novamente para fazer compras no mercado. Quando estava sóbria, a mãe cozinhava. Quando não, era o próprio menino quem fazia as refeições. Na maioria das vezes, Clementina estava tão bêbada que não conseguia sequer encontrar o caminho de casa, obrigando Marcos a ir buscá-la no boteco.

Marcos subia o morro com as compras, satisfeito por­que o dinheiro fora suficiente para um pedaço de carne e dois potes de geleia de mocotó. Com isso, ganhara ain­da dois copos para substituir os que a mãe havia quebrado em seu último acesso de bebedeira.

— E aí, Zé das Ovelhas? — gracejou Jéferson, que se juntou a Marcos na subida do morro. — Quer ajuda?

— Pode deixar — respondeu o menino, apertando as sacolas. — Não está pesado.

— Dia duro, hein?

— Nem tanto. Até que consegui uns bons trocados.

— Não sei por que você se contenta com migalhas quando poderia ter um banquete. Sabe que, lá em casa, todo dia comemos bife com batatas fritas? Marcos sentiu a boca salivar e respondeu de olhos baixos:

— Não precisamos disso, obrigado. Tenho consegui­do me virar e não nos falta comida.

— Se você quer chamar essa lavagem que você faz de comida, tudo bem.

— Não fale assim, Jéferson. Temos que dar graças pelo que comemos.

— Não acredito que você ainda está preso nesse ne­gócio de rezas! Todo mundo sabe que sua mãe virou as costas para a igreja.

— Você não me chama ainda de Zé das Ovelhas?

— É o costume.

— Pois é... a mesma coisa eu. Ainda tenho o costume de orar e agradecer.

— Você é muito bobo mesmo. O Mandrake cansa de dizer que tem um lugar especial para você. Você e sua mãe não passariam mais necessidade.

— Agradeça ao Mandrake por mim, mas não estou in­teressado. Posso cuidar de mim e da minha mãe sozinho.

— Orgulho de pobre é fogo!

— Não é orgulho. Agradeço o que ele está tentando fazer. Sério. Só que não dou para o negócio.

— Bobagem. É só levar uns pacotinhos para lá e para cá. E você é de menor. Se a polícia te pegar, não pode te prender. É por isso que o Mandrake gosta de nós.

— Mesmo assim, não, obrigado.

Com ar distraído, Jéferson sacou um Game Boy do bolso, abriu-o e começou a jogar, despertando imensa curiosidade em Marcos. O barulhinho eletrônico que emergia do apare­lho fascinou Marcos a tal ponto, que não resistiu e pergun­tou curioso:

O que é isso?

Meu Game Boy. Quer ver?

Marcos parou, colocando as sacolas no chão, e Jéferson passou-lhe às mãos o joguinho. Ele ficou fascina­do com o bonequinho correndo numa tela colorida de cristal líquido. Nunca antes havia visto coisa mais maravilhosa.

Puxa, Jéferson, onde você conseguiu isso?

Presente do Mandrake.

Rapidamente, Marcos aprendeu a mexer nos botões e controlar o boneco. Permaneceu algum tempo jogando, maravilhado com a novidade.

É realmente demais! Jéferson sorriu intimamente e continuou a tentá-lo:

Amanhã nós vamos ver Matrix no cinema. Você quer vir?

Não posso — falou ele, devolvendo o jogo a Jéferson. — Não posso me dar ao luxo de gastar dinheiro para ir ao cinema.

O outro deu de ombros e não disse nada. Nem preci­sou, porque Marcos sabia quem iria pagar as entradas.

Tem certeza? — insistiu o garoto.

Tenho. Mas obrigado mesmo assim.

Tudo bem. Você é quem sabe.

Jéferson fez um aceno com a mão e desatou a correr morro acima, enquanto Marcos recolhia as sacolas para se­guir seu caminho. Quando entrou em casa, a mãe não esta­va, e ele soltou um gemido de desânimo. Ajeitou as compras na pequenina geladeira, dobrou as sacolas e guardou-as na caixa atrás do fogão, junto com as demais, para servirem de saco de lixo. Em seguida, tornou a sair.

O bar do Zeca, ao pé do morro, era o lugar que Clementina costumava frequentar, e foi para lá que ele se dirigiu. Como não era muito longe, chegou rápido, logo avistou-a na companhia de um malandro das redondezas. Marcos perguntou-se como não a havia visto quando subira, sem saber que ela, entrevendo-o de longe, tratara de se es­conder mais ao fundo. Ele se aproximou e cumprimentou os frequentadores. A mãe estava sentada ao lado do tal sujeito, gargalhando entre um gole e outro de pinga. Marcos foi até sua mesa e bateu em seu ombro.

Marcos Wellington! — exclamou, a voz dissimula­da. — Que surpresa, filhinho! O que está fazendo aqui?

Vim buscar você. Vamos para casa.

Agora não. Pode ir, que eu vou depois.

Por favor, mãe, vamos embora. Trouxe comida para o jantar.

— Ah! Meu filho, hoje não estou com vontade de cozi­nhar. Por que não vai jantar lá na sua tia?

Desde que pusera a irmã para fora, as duas nunca mais se haviam falado, embora Marcos continuasse a man­ter contato com a tia e a visitasse regularmente. Clementina fingia que não sabia dessas visitas. Do contrário, o orgulho falaria mais alto, levando-a a ralhar com o filho e proibi-lo de visitar a irmã. Mas ela sabia que Leontina costumava dar comida a Marcos sempre que o via com fome.

— Não dá, mãe — contestou ele. — Tia Leontina mal ganha para ela. Não é justo tirar o pouco que ela tem. Vamos, eu mesmo faço o jantar.

— Dá o fora, moleque — interrompeu o homem, em­purrando-o com uma das mãos. — Já não ouviu sua mãe dizer que não está a fim de ir? Aquilo irritou Clementina, que revidou zangada:

— Ei! Nada de empurrar o meu filho — ela se levantou ruidosamente, entornou o resto do copo de bebida na boca e disse para o menino: — Pague a conta e vamos embora.

Não tinha jeito. Sempre que Clementina bebia, era ele quem pagava a conta, com o dinheiro que arrecadava na rua. Sabendo disso, reservava uma parte para quitar as dí­vidas dela com a bebida. A tia lhe dissera para não pagar, pois só assim o dono deixaria de vender-lhe fiado, e ela teria que parar com a bebida. Contudo, na única vez em que ele fizera isso, Clementina se aborrecera e sumira de casa por toda a noite, quase o matando de preocupação. Voltou no dia seguinte com um sorriso no rosto e passou uma semana bebendo, sem lhe pedir nada, levando-o a crer que ela havia se deitado com algum homem para conseguir o dinheiro.

Marcos acertou a conta e foi embora carregando a mãe. Enlaçou-a pela cintura e conduziu-a morro acima. Com a noite, uma lua branca e redonda deitava uma ilumi­nação natural pelas curvas do caminho. Enquanto subiam, Leontina vinha descendo na direção oposta, e Clementina virou o rosto, fingindo que não a vira. Marcos, porém, a cum­primentou, e ela respondeu com um aceno de cabeça.

Você devia fazer as pazes com a tia — comentou ele. — Ela é sua irmã e sua amiga.

Irmã, pode ser, porque não tem jeito. Mas amiga, duvido muito.

Ela gosta de você.

Ela gosta é de me recriminar. Só porque é virgem pensa que é muito boa. Aquela solteirona mal-amada... Se arranjasse um homem para quem dar, não seria tão amarga.

Marcos engoliu a grosseria. Em casa, Clementina foi logo se atirando na cama, enquanto ele ia para a cozinha preparar o jantar. As dificuldades empurraram Marcos para a vida. Desde cedo, teve que aprender a se virar e a cuidar da mãe sozinho. A tia o ajudou, ensinando-o a cozinhar, às escondidas de Clementina.

Marcos cortou a carne em bifes, esquentou o arroz e o feijão de véspera, cozinhou alguns legumes, colocou tudo na mesa. Chamou a mãe, que se sentou ao lado dele, e fez uma oração em silêncio, procurando ignorar o ar de irritação que ela fazia. Clementina não gostava que ele rezasse.

Enquanto comiam, Clementina ia repensando sua vida. Não era certo fazer o que fazia com o filho. Marcos Wellington, um menino ainda, assumira, sozinho, toda a res­ponsabilidade da casa. Ela ficara de arranjar um emprego, mas as constantes bebedeiras não permitiam. Quem contra­taria uma empregada bêbada? Por isso, ele fora obrigado a se virar nas ruas, arrumando dinheiro sabe-se lá como. No princípio, ela o interrogou, mas depois achou melhor se ca­lar. Marcos afirmara que o dinheiro era dado e jamais furtara um níquel sequer. Que importância tinha isso agora?

Tudo porque Romualdo os abandonara e sumira no mundo. Dele, nunca mais tivera notícias. Ela o havia procura­do no sobrado da rua dos Inválidos, mas ninguém sabia dele ou de Sheila. Se era verdade ou não, não tinha como apurar.

Devo estar pagando pelos meus pecados — afir­mou ela de repente, fitando o vazio.

Por que está dizendo isso?

Você sabia que seu pai teve uma mulher antes de me conhecer?

Não diga!

Foi o que ele disse. Estava namorando uma fulana, não sei quem era. Ele disse que não era nada importante, ter­minou com ela para ficar comigo. Pouco depois, nos casamos.

Como foi que vocês se conheceram?

Vi-o na igreja certa vez, quando fui buscar sua tia para irmos juntas ao médico. Fiquei impressionada, acho que foi amor à primeira vista. Desde aquele dia, passei a acompanhá-la aos cultos. Lembro-me de como Leontina fi­cou feliz. Mal sabia que o meu interesse era outro.

Você só foi à igreja por causa de meu pai?

horrorizou-se.

O que é que tem? Estava interessada nele, e ele, em mim. Em pouco tempo, começamos a namorar e nos casamos.

Mas você continuou a frequentar a igreja depois disso.

Foi uma promessa. Se Deus me desse aquele ho­mem, prometi que me tornaria uma fiel.

E papai? Por que deixou de ir?

Seu pai nunca foi um homem religioso. Ele costu­mava brincar, afirmando que só fora parar naquela igreja para me conhecer. Mas eu desconfio que ele tinha uma amante lá. Peguei-o várias vezes de conversa com uma dona toda espevitada, casada com um velhote.

Se era assim, você fez um bem a ele. Afastou-o do pecado do adultério.

Não é que é verdade? O cretino... ainda me devia esse favor.

E tia Leontina? O que achou disso tudo?

Nada. Quando lhe demos a notícia, limitou-se a as­sentir. Mal o conhecia e nada sabia sobre a vida dele, muito menos da tal mulher. Se soubesse, teria me recriminado até a morte.

Por que será que ela nunca se casou?

Sua tia sempre foi uma mulher sem graça.

Até que ela não é feia...

Mas sempre foi muito chata. Tudo para ela é pe­cado, principalmente o sexo. Dizia que só aceitaria que um homem lhe tocasse para a procriação. Qual é o homem que aceita isso?

Ele abaixou os olhos, envergonhado com aquela con­versa, e tornou sério:

— Não sei. No dia seguinte, Marcos saiu cedo para aproveitar bem o dia. Queria juntar dinheiro para comprar presentes de Natal para a mãe e a tia. Se sobrasse algum, talvez conseguisse um jogo igual ao do Jéferson. Será que era muito caro?

Quando Clementina acordou, o filho já não estava mais em casa, como sempre. Ela se sentou, lembrando da conversa da noite anterior, e um remorso atroz a corroeu por dentro. Não era certo tirar o filho da escola para mendigar, botar comida dentro de casa e ainda pagar a conta do bar. Era ela que devia trabalhar para sustentá-lo.

Levantou-se e tomou um banho frio para espantar o calor. Bebeu um gole do café que o filho deixara pronto em cima do fogão, mastigou um pedaço de pão duro e foi de­bruçar-se na janela. O dia estava muito quente, de forma que ela voltou para dentro, fugindo do sol da manhã. Abriu a geladeira e, de um gole, bebeu uma garrafa de água. Como a sede não passou, resolveu dar um pulinho até o bar.

Ao chegar, uma surpresa desagradável. O dono do bar havia enfartado, a birosca estava fechada. Desapontada, Clementina voltou para casa. Ao mesmo tempo em que maldizia o homem, sentia um certo alívio por se ver obrigada a ficar sem beber.

Em casa, sentou-se para ver televisão. Como o apare­lho estava muito velho, a antena não captava nada direito. Clementina deu vários socos na TV, a imagem foi-se distor­cendo aos poucos, até que ela conseguiu identificar alguma coisa na tela cheia de chuviscos. Sentou-se com um copo de água gelada, que foi passando na testa para resfriar o suor.

Estava passando um programa de desenho animado. Clementina tentou focar nele a atenção, mas a imagem du­rou pouco tempo no ar. A antena saiu de posição, deixan­do na tela apenas listras horizontais. Irritada, Clementina socou o aparelho tantas vezes que ele deu um estalido e apagou, enchendo-a de raiva.

Precisava urgentemente de uma bebida, mas como? O bar do Zeca estava fechado, era o único lugar em que podia comprar fiado. Após alguns minutos, pôs-se a revirar a casa em busca de dinheiro. Não demorou muito e achou uns trocados na gaveta de Marcos. "Ótimo", pensou. Daria para uma garrafa inteira de pinga.

O boteco mais próximo era um lugar familiar, temido por Clementina. Fora dali que a mãe de Marcos Wellington fugira em desabalada carreira para a morte. Leontina lhe contara tudo. Ela ia passar adiante, contudo, a sede era maior. O vício incontrolável deixava sua boca amarga im­plorando pela bebida. Hesitou ainda alguns instantes, mas logo se resolveu. Não faria mal nenhum beber no mesmo lugar em que a verdadeira mãe de seu filho buscara a mor­te. Muitos anos haviam-se passado desde aquele episódio, ninguém mais pensava no assunto. Era um medo tolo achar que algo poderia acontecer só por estar naquele bar. Com esse pensamento, deu dois passos adiante e entrou.

Nos onze anos que vivera ao lado de Félix e Laureano, Margarete continuava dando trabalho, insistindo para rever o filho. Todavia, por mais que se esforçasse, não conseguia se lembrar do local exato em que o abandonara. Sabia que fora numa lata de lixo em algum bairro do Rio de Janeiro, mas onde? Não se recordava.

Ir ao encontro do menino seria um desastre para todos. Por isso, nem Laureano nem Félix estimulavam a recuperação da memória de Margarete. Sem conseguir encontrar o filho, ela perambulava a esmo pelas ruas, de bar em bar, sugando as energias de ébrios descuidados. Félix a acompanhava de per­to, levando-a tão logo entidades trevosas se aproximassem de seu corpo fluídico, debilitado pela essência da bebida.

Nessas ocasiões, Margarete não oferecia resistência, de­vido à fraqueza energética que sentia sempre que empregava forças na absorção do álcool. Era Félix que a mantinha a salvo de espíritos aproveitadores, impedindo que ela fosse levada para regiões mais profundas do astral inferior, já que Margarete sintonizava muito facilmente com energias dessa vibração.

Num dia em particular, Margarete despertou irrequieta. Félix havia saído, provavelmente ao encontro de Laureano. Havendo dominado o processo de locomoção apenas pelo pensamento, ela logo se viu no bar de costume, quase vazio àquela hora do dia. Sentou-se a uma mesa para aguardar o primeiro cliente e grudar-se a ele, deixando a mente divagar enquanto esperava.

Subitamente, sentiu como se um choque elétrico rever­berasse em seu cérebro, uma luz ofuscante doeu em sua vista. Bem próximo a ela, uma forma-pensamento vaga e errante ten­tava descarregar-se em seu corpo fluídico. Isso não demorou muito a acontecer. Na mesma hora, o medo tomou conta de Margarete, que logo se lembrou do passado, e o local exato em que abandonara o bebê se delineou em sua mente, bem como o bar onde, por último, estivera quando encarnada.

A transferência foi imediata. Em frações de segundos, Margarete estava ao lado de Clementina, lendo-lhe os pen­samentos confusos. A princípio, tentou imaginar o que esta­ria fazendo ali e quem seria aquela pessoa desconhecida. A mente dela era um torvelinho de imagens e palavras desco­nexas, de forma que Margarete teve alguma dificuldade em estabelecer sua identidade.

Os pensamentos de Clementina continuavam ligados na foto de jornal que exibia o rosto sem vida da mãe bio­lógica de Marcos Wellington. Acompanhando a mente de Clementina, várias formas-pensamento foram-se delinean­do diante de seus olhos, facilitando o trabalho de Margarete. A cada recordação do passado, Margarete se sobressalta­va, estupefata ante a fantástica coincidência.

Clementina pediu uma bebida, depois outra, e já havia quase esvaziado a garrafa de cachaça quando o dinheiro acabou. O dono do bar ainda era o mesmo português de ou­trora, que, em vista dos acontecimentos que haviam culmi­nado com o atropelamento de Margarete, mudou de atitude e disse com uma voz mais amistosa:

Olhe aqui, moça, lamento, mas não posso ven­der fiado.

Por favor — implorou ela. — Só mais um trago. Pro­meto que, quando meu filho chegar, venho aqui lhe pagar.

O português olhou para ela desanimado e coçou o queixo.

— Está bem. Mas é só mais uma, hein?

Serviu-a de outra dose, que ela sorveu juntamente com Margarete. Satisfeita, Clementina ganhou a rua, o espírito atrás. Margarete estava abismada. Como é que, após anos de busca, viera parar justo ao lado da mulher que lhe roubara o filho? Embora conhecesse o poder do pensamento e das formas que ele produzia, mal podia crer no que estava acon­tecendo. Não entendia por que aquela mulher, que permane­cera tanto tempo muda em suas lembranças, resolvera justo agora recordar o ocorrido. E fora muita sorte ela estar sem Félix grudado nela, ou não conseguiria se aproximar.

Cadê o meu filho? — perguntou, entre irada e ansiosa. Para sua surpresa, Clementina respondeu em voz alta:

Ele deve estar na rua, pedindo dinheiro.

Na rua? Você o jogou na rua?

Não fui eu. Foi a vida.

Que vida, que nada! Você é uma bêbada. Aposto como o põe para arranjar dinheiro para você beber. Clementina deu um riso malicioso e tornou em tom mordaz:

Você é a mãe dele, por acaso?

Sou. Por quê?

Clementina ergueu o dedo e fez sinal de que não, acrescentando com ironia:

— Tsk, tsk, tsk... Engano seu, querida. A mãe dele sou eu.

Os transeuntes que avistavam Clementina não viam Margarete. Julgando-a louca por falar sozinha, afastavam­-se apressados, alguns até mudando de calçada.

— Olhe, dona, não estou aqui para brincadeiras — prosseguiu Margarete, cada vez mais aborrecida. — Cadê o meu filho?

Seu filho, não. Meu filho.

Tá, tudo bem, seu filho — concordou, impaciente.

Mas onde é que ele está?

Clementina não raciocinava direito, tamanha a carga de bebida misturada em seu sangue. Tinha consciência de que a desconhecida era a verdadeira mãe de Marcos, mas nem se lembrava direito de que ela havia morrido. Sua men­te confusa apenas aceitava a presença da outra, sem maio­res questionamentos.

— Você o atirou no lixo! — gritou, apontando uma lata de lixo imaginária do outro lado da rua. — Não tem direito... não tem...

Uma mulher, segurando duas crianças pela mão, pa­rou estarrecida, protegendo-as com o corpo, e atravessou a rua quase aos tropeções.

O que aquela mulher está fazendo, mamãe? — per­guntou a garotinha. — Por que está falando sozinha?

É maluca, minha filha. Bêbada e louca. Que horror!

Clementina sentiu a energia vibrada com o comentário da mulher e falou aos berros:

Louca é você, sua filha da...! Margarete não aguentou e desatou a rir.

Nossa, em que água você está! — desdenhou.

Eu não! Você é que está bêbada, sua... Clementina tombou para trás e se estatelou no chão.

Ah, não! Não vai desmaiar agora, não. Não antes de me mostrar o meu filho!

 

Nessa hora, Marcos se aproximou correndo. Alertado por Jéferson, que presenciara a conversa de Clementina com o invisível, largou o ponto de esmolas, enfiou o dinheiro no bolso e correu desabalado pela rua. Encontrou a mãe caída na rua e tentou erguê-la, chamando assustado:

— Mãe! Mãe!

Clementina não respondia. Com o dinheiro que pegara de Marcos, ingerira duas garrafas de cachaça e agora sentia o resultado do excesso. Ninguém se aproximou para ajudar, apenas o português do bar, uma alma atormentada pela cul­pa que sentia pelo atropelamento de Margarete.

O que houve, menino?

Minha mãe desmaiou — falou ele aos prantos.

Ela vai morrer!

Margarete assistia, fascinada. Como seu filho era bo­nito! Estava magrinho e maltrapilho, mas, ainda assim, era um belo garoto.

— Fique calmo, que vou chamar uma ambulância — disse o homem.

O amor de Marcos por Clementina impressionou Margarete, que os fitava paralisada, sem conseguir se aproximar. Uma luz rósea se desprendia do coração dele e envolvia todo o corpo de Clementina, fato que muito emo­cionou Margarete.

— Será que ele teria sentido o mesmo por mim? — perguntou a si mesma, tocada pela sensibilidade que se es­pargia no ar.

Antes que a ambulância chegasse, Clementina recupe­rou os sentidos. Estava mais grogue do que nunca, no en­tanto, desanuviou-se o medo de Marcos de que ela estivesse em coma.

— Mãe — chamou ele. — Você está bem? Ela tentou enquadrá-lo em sua visão, mas tudo pare­cia rodar.

— Levante-se daí, sua tonta — ordenou Margarete. — Você não está em coma. Só bebeu demais.

Como é que você sabe?

O quê, mãe? — respondeu Marcos, pensando que ela falava com ele.

Já vi muitos em coma alcoólico e sei que você não está — foi a resposta de Margarete.

Clementina olhou para Marcos e só então percebeu que ele não via a mulher.

Ela está aqui — cochichou baixinho.

Quem?

Ninguém.

Por pouco ela não lhe revelou a verdade. O menino, por sua vez, julgando tratar-se de alguma alucinação causa­da pelo álcool, não lhe deu importância.

Consegue se levantar? — prosseguiu ele.

Se você me ajudar...

Marcos ajudou-a a erguer-se e amparou-a de volta ao morro, sem dar importância aos apelos do português, que pedia que ela aguardasse a ambulância. Margarete não des­grudava deles um minuto. Louca de curiosidade para saber mais sobre a vida do filho, seguiu com eles.

Nesse ínterim, Félix adentrava o consultório de Laureano, a quem fora procurar para pedir conselhos. O psiquiatra o recebeu amigavelmente, mas não fez rodeios antes de colocá-lo a par do ocorrido:

Lamento informar que as notícias não são boas. Margarete encontrou o filho.

Como?

A mãe adotiva do menino, também viciada na bebi­da, sem querer criou uma forma-pensamento que a desven­dou diante de Margarete.

Meu Deus do céu! Tentamos tanto evitar esse mo­mento... E agora?

Se Margarete o encontrou, foi porque assim foi per­mitido. Nada acontece sem que seja do conhecimento e da vontade de Deus.

Sim, mas o que isso significa?

Significa que está se aproximando a hora de a ver­dade se desvendar. Félix o olhou com espanto.

Sempre pensei que a verdade jamais devesse ser revelada.

A verdade sempre é revelada. O que se precisa é esperar o momento certo.

O momento é agora?

Parece que sim.

— E é Margarete quem vai fazer isso? — duvidou. — Será que ela está em condições?

É por isso que você deve ir buscá-la. Ela precisa se preparar para o que está por vir.

Será que ela vai querer voltar comigo?

Agora que Margarete encontrou o filho, vai ser mais difícil trazê-la de volta. Ela vai montar guarda no ambiente astral da casa dele.

O que faço então?

Vá. Mas não se esqueça de conservar o pensa­mento ligado à divindade e procure se manter em equilíbrio. Nada de pressa nem constrangimento. Faça tudo com amor, tente convencê-la com palavras carinhosas, incentivadoras.

Vou tentar. Mesmo que demore ou dê trabalho, vou trazê-la de volta.

Muito bem — antes que ele saísse, Laureano acrescen­tou: — O menino agora se chama Marcos. É bom você saber.

Félix se transportou para a casa de Clementina, onde logo se adaptou ao ambiente. A mulher encarnada estava jogada sobre a cama, e ele não pôde conter a emoção ao constatar o devotamento de Marcos a ela. Sentada no chão, de pernas cruzadas, Margarete olhava embevecida para o menino. Viu quando ele se aproximou e franziu o cenho:

Veio me ajudar ou recriminar?

Nem uma coisa, nem outra. Vim ver como você está.

Estou bem, obrigada.

Aqui não é o seu lugar.

Muito menos o seu.

Então, por que não partimos juntos?

Acho que me expressei mal. Aqui não é o seu lugar. O meu é junto do meu filho.

Passaram-se onze anos. Ele nem sabe que você existe.

E daí? Eu sei da existência dele, e isso é o que importa.

O que pretende fazer? Ficar por aqui, obsediando-o? Ela o olhou com mágoa e retrucou de má vontade:

Não sou um espírito obsessor e não gosto que me chamem assim.

Mas é o que vai parecer se ficar aqui grudada neles. Marcos e a mãe estão encarnados, você só vai atrapalhar.

Ela me vê, sabia? — desconversou, apontando para Clementina.

A mente dela está tomada pela droga, que, con­sequentemente, a coloca em contato com esferas menos densas. Por isso pode ver e falar com você e comigo.

Ótimo. Podemos fazer uma reuniãozinha e decidir o que fazer.

Diga-me você, Margarete. O que pretende ficando ao lado deles?

Quero estar com meu filho.

Para quê?

Para nada. Quero apenas acompanhar o cresci­mento dele.

Você não está preparada para isso. Mas pode se preparar, se quiser.

Que história é essa agora?

Se vier comigo, conto-lhe tudo.

Não quero. Lá, não posso beber.

Um movimento brando silenciou Margarete, que se le­vantou de um salto e sumiu pela parede. Espantado, Félix demonstrou a intenção de segui-la, mas se deteve, preso a um súbito bem-estar. Olhou ao redor, buscando a fonte daquela sensação tão boa que desgostara Margarete. Foi então que notou uma luminosidade suave e refrescante se espalhando pelo barraco. Marcos estava rezando.

Félix não obteve sucesso em seu intento de afastar Margarete do convívio de Clementina e Marcos. Ela se deci­diu a ficar, embora cuidasse para que o filho não lhe seguis­se os passos. Marcos não tinha tendência ao alcoolismo, todavia, deixava-se levar pelo sonho de uma vida melhor, e as tentações que Jéferson lhe oferecia, por vezes, eram qua­se irresistíveis. Ele lhe mostrava as maravilhas que comprava ou ganhava fazendo avião para Mandrake: tênis importados, aparelhos de televisão e de som, jogos eletrônicos e até um skate, para espanto de Marcos, que não sabia como se po­deria andar de skate no morro.

— Não se deixe enganar por isso, meu filho — dizia Margarete. — Olhe as lições do pastor!

Margarete nunca fora religiosa, mas os sermões que Marcos guardava impressos na mente serviam a seus pro­pósitos. O menino temia desrespeitar as leis divinas e ser condenado ao inferno. Essa era a arma poderosa que man­tinha Marcos longe das drogas e do caminho do crime. E, quando a tentação parecia muito grande, ou mesmo irresis­tível, Leontina sempre aparecia, silenciosamente estimulada por Margarete, impedindo que o sobrinho cedesse.

Mas a persistência também tem seus momentos de fra­queza. Marcos voltava para casa desanimado, preocupado com a mãe, que deixara na cama num estado lastimável, pior do que nos outros dias. Vinha com uma sacolinha de plástico quase vazia. Estava ficando difícil conseguir dinhei­ro nas ruas. Ele estava crescendo, suas feições perdiam o ar infantil, deixando de comover os transeuntes, la subindo o morro lentamente, até que Jéferson se juntou a ele:

E aí, Zé das Ovelhas? Tudo bem?

Gostaria que parasse de me chamar assim — re­clamou Marcos. — Faz tempo que não vou à igreja e tam­bém não sou pastor.

Jéferson riu de um jeito cínico e indagou:

O que tem nessa sacola?

Nada — Marcos deu de ombros, falando com timi­dez. — Só consegui comprar uns legumes hoje.

Que legumes?

Na verdade, comprei nabo e chuchu.

Nabo e chuchu? Só isso?

Foi só o que deu — rebateu Marcos, com raiva.

Está bem, não precisa se zangar. É que me preo­cupo com você. Não quero que passe fome.

Eu dou um jeito.

Se quiser, posso falar com o Mandrake.

Lá vinha Jéferson com aquela história de Mandrake. Marcos não aguentava mais aquela pressão. Sabia que Jéferson só o procurava a mando do traficante, que se utili­zava de crianças para não ser, ele mesmo, flagrado na pos­se de drogas.

Ao lado deles, o espírito de Margarete ouvia a con­versa, contrariada, sem poder intervir. Na porta da casa de Marcos, sentou-se no degrau da entrada. Clementina dor­mia, como sempre fazia quando não estava bebendo.

Olhe, Jéferson, é outra coisa que quero deixar claro para você — disse Marcos, irritado. — Eu não vou traba­lhar para o Mandrake. Então, por favor, pare de insistir.

Tem certeza? Podia ter uma vida melhor.

Que vida melhor você tem? Ele lhe dá coisas que, muito provavelmente, foram roubadas por ele ou pelos vicia­dos que sobem o morro atrás da coca. O dinheiro com que lhe paga é fruto do crime. Você não estuda, logo, não tem perspectivas para o futuro. Fica por aí, vagabundeando, le­vando maconha e cocaína para lá e para cá, se arriscando a ser preso ou levar um tiro, e tudo isso para quê? Para se tornar um marginalzinho insignificante que, se morrer, não vai fazer falta para ninguém, a não ser para sua mãe. Essa é a vida melhor que você me oferece? Não, obrigado.

Você pensa que é melhor do que nós, não é mes­mo? — rebateu Jéferson, rilhando os dentes. — Fala difícil, com ares de doutor. Só se for doutor dos mendigos, porque é mais pobre do que eu. E daí que o Mandrake me dá coisas que consegue com o crime? O importante não é viver bem?

Tudo é questão de ponto de vista. Para mim, viver no crime e do crime não é viver bem.

E mendigar, é?

Também não. Mas pelo menos não tenho o que te­mer. Deus não vai me punir por pedir, em vez de roubar. E tenho certeza de que, um dia, vou mudar de vida.

Sem pai e com uma mãe bêbada, acho difícil.

Deus há de me ajudar, você vai ver.

Deus, Deus, você só fala em Deus. Deus não liga para gente feito nós.

Liga sim!

Liga, é? Então por que estamos aqui no morro, enquanto os riquinhos vivem em mansões no asfalto, com seus carrões e piscinas, esbanjando dinheiro?

Não sei responder a essa pergunta, mas Deus tem um motivo para todas as coisas.

Deus não tem motivos para nada e não quer saber de nós! Se quisermos ter alguma coisa na vida, temos que contar é conosco!

Contar conosco é trabalhar honestamente e ganhar o próprio dinheiro com o fruto desse trabalho. Não é rou­bar nem vender drogas. Nem mendigar, que é o que faço só por necessidade do momento. Mas eu vou crescer e, quan­do for grande, vou arranjar um emprego decente e tirar mi­nha mãe e minha tia daqui.

— Quanta ilusão, Marcos! Você vive de sonhos, ao pas­so que eu prefiro a realidade. Vamos ver quem é que tem razão.

Sem dizer mais nada, Jéferson deu as costas e conti­nuou subindo o morro a passos apressados. Marcos deu um suspiro e sentou-se no batente da porta, sem saber, ao lado de Margarete, que acompanhara a cena com lágrimas nos olhos. Imperceptíveis, seus dedos afagaram a cabeça do me­nino, que afundou o rosto entre as mãos e desatou a chorar.

Embora nem sempre conseguisse sondar os pensa­mentos do filho, Margarete experimentou. Naquele momen­to, sua mente se enchia de dúvida, medo e revolta. Ela conseguiu acessá-la e, mentalmente, conversava com ele:

Será que Jéferson tem razão? — Marcos indagava a si mesmo. — Será que não é melhor jogar tudo para o alto e fazer avião como ele faz?

Não diga isso — Margarete respondeu mentalmen­te. — Você só vai complicar a sua vida.

Sei que talvez possa complicar a minha vida, mas só se a polícia me apanhar. Sou esperto, posso fugir.

Vai fugir a vida inteira? Está certo que vida de ban­dido é curta, mas você quer gastar a sua fugindo da polícia, com medo de ser preso ou morto?

Pensando bem, viver fugindo deve ser muito ruim. Mas e se eu fizesse só uns aviões para o Mandrake? Só uns dois ou três? O suficiente para melhorar um pouco de vida e depois sair fora.

Não se deixe enganar, meu filho. Se você entrar nessa vida, não vai mais conseguir sair. Veja o Jéferson, por exemplo. Entrou e não sai mais. E já está viciado.

Será que o Jéferson já se viciou? — ele continuou indagando a si mesmo, sem saber que conversava com o espírito da mãe. — Ele é tão novo...

Tão novo e já com a vida estragada. Ele está vicia­do, Mandrake o mantém preso ao vício para não perder o empregado. E se há uma coisa que acaba com a vida da gente é o vício. Veja sua mãe, por exemplo.

Minha mãe é viciada. O vício é uma coisa horrível.

Causa uma dependência que acompanha você até depois da morte. Eu mesma ainda mantenho o antigo ví­cio. Mas quero mudar. Laureano está me ajudando a mudar, muito embora tudo dependa de mim.

Nesse ponto, Marcos não acompanhou as divagações de Margarete, pois desconhecia a existência da verdadeira mãe e de seus problemas. Desfeito o elo, Marcos se levantou e apanhou o saquinho quase vazio. Enxugou os olhos e entrou em casa, com Margarete logo atrás. Clementina ressonava pe­sadamente, o cheiro do álcool impregnava todo o barraco.

Pela segunda vez, fora obrigado a recolhê-la da rua, onde ela havia desmaiado na noite anterior, enchendo-o de terror. Ele ficara desesperado. Embora estivesse acostuma­do aos sumiços da mãe, ela não costumava ficar fora a noite inteira. Nas poucas vezes em que isso acontecia, ele se apa­vorava, pensando no pior.

Logo de manhã cedo, disparou morro abaixo, procuran­do-a pelas redondezas. Encontrou-a desmaiada na rua, a ca­beça pousada no meio-fio, um odor insuportável de álcool e vômito. Com muito esforço, conseguiu levantá-la e levá-la para casa. Ela o acompanhou aos tropeções, sem saber para onde ia nem com quem, quase entrando em coma alcoólico.

Marcos balançou a cabeça, não queria pensar em coisas ruins. Colocou água para ferver, deitou nela os legumes e sen­tou-se na cadeira para esperar. Novamente, seus pensamentos se voltaram para Jéferson, e Margarete os foi acompanhando:

O Jéferson está muito bem. Anda de roupa na moda, tem video game, aparelho de som e TV novos. Ganhou um tê­nis de marca. Vai até ao cinema! E não passa fome. O prin­cipal é que não passa fome. Aposto como na mesa dele tem sempre uma comida gostosa — olhou para o fogo, aspirou o cheiro sem graça dos legumes, retomando os devaneios: — E tudo isso para quê? De que adianta tanto sacrifício, se não vou receber nada em troca? Podia estar fazendo os aviões e ter as coisas que Jéferson tem. Ninguém ia saber.

Deus vai ver tudo. — Ele ouviu uma voz na sua ca­beça, sem saber que era Margarete, tentando dissuadi-lo daquele ímpeto e impedir que ele fizesse uma besteira.

Um barulho de palmas desanuviou seus pensamen­tos. Alguém estava à porta de casa. Marcos a abriu e levou imenso susto quando viu Jéferson parado no degrau, segu­rando duas sacolas de supermercado.

O que é isso? — perguntou, entre curioso e indignado.

Presente.

De quem? Do Mandrake?

Meu — Jéferson empurrou Marcos para o canto e colocou a sacola na mesa. — Venha ver o que lhe trouxe.

Ele foi retirando maravilhas da sacola: um pedaço de carne, arroz, feijão, batatas, tomates, cenouras, beterrabas, frutas, alguns pacotes de biscoito, caixas de leite, manteiga, uma goiabada, sal, açúcar, salsichas, macarrão e uma gar­rafa de refrigerante. Marcos estava deslumbrado. Fazia tem­po que não via tanta comida.

Não posso aceitar — protestou ele, embora sem nenhuma convicção.

Deixe de ser orgulhoso.

Não é orgulho. É que não é direito...

Olhe, se não quer aceitar como presente, receba como empréstimo. Quando puder, você me paga tudo.

Não sei...

Deixe de ser tonto! Venha, vamos cozinhar um jantar de verdade. Não quer bife com batatas fritas? Ou prefere aque­la sopa insossa? — Jéferson apontou para a panela no fogão.

Marcos sentiu a boca salivar ao imaginar um prato cheio de batatas fritas. O apelo era muito forte, até Margarete con­cordava. Pode ser difícil manter total integridade quando a bar­riga reclama da fome. De nada adiantaria acordar Clementina, porque ela mandaria que Marcos aceitasse os mantimentos. O jeito era sair em busca de Leontina. Mas como, se as duas continuavam brigadas? Resolveu tentar, mesmo assim.

Encontrou Leontina em casa, também cozinhando o jantar. Em cima da mesa, um pedaço de bolo de choco­late embrulhado em papel alumínio que a patroa lhe dera. Enquanto cozinhava, pensava no que fazer com aquele bolo. Não comia chocolate, por causa do açúcar, e não tinha nin­guém para quem dar. Não devia nem tê-lo trazido, mas não quis desagradar a patroa. Afinal, era um pedaço que sobrara do bolo de aniversário da filha dela.

— Leve-o para Marcos! — Margarete quase gritou ao seu ouvido. — Pelo amor de Deus, leve para ele!

O desespero de Margarete confundiu a mente de Leontina, que sentiu súbito mal-estar. Percebia a presença do espírito, embora sem identificar o que fosse.

Acho melhor orar — disse para si mesma.

Ah! Não, agora não!

Leontina se ajoelhou no quarto e fez uma pequena oração a Jesus. Imediatamente, uma luminosidade tranqui­lizante penetrou o ambiente, atingindo em cheio o peito de Margarete.

— Eu não vou fugir — falou ela em voz alta. — Dessa vez vou ficar.

E ficou. Inesperadamente, Margarete se acalmou. Sem querer, pegou-se embevecida com o súbito bem-estar, só então percebeu como era bom estar ao alcance dos efei­tos da prece. Assim, envolvida por fluidos suaves, sentiu-se encorajada a continuar a conversa com Leontina, espantan­do-se com o fato de que a oração tornara tudo mais fácil.

— Leontina, seu sobrinho corre perigo — alertou ela, com tranquilidade. — Leve o bolo para ele e ajude-o a se livrar da tentação das facilidades que o crime oferece. Você é a única que pode ajudá-lo.

Leontina titubeou, mas, ainda assim, não captou inte­gralmente o pensamento de Margarete. Ainda faltava sinto­nia para igualar as vibrações das duas mulheres.

— Por favor, Leontina, antes que seja tarde — suplicou Margarete. — Marcos está com fome e vai acabar aceitando ajuda de Jéferson, comprometendo-se com o tal de Mandrake.

O amor pelo menino foi o elo que permitiu ligar a men­te de ambas. A imagem do sobrinho surgiu no pensamento de Leontina, que olhou para o bolo, pensando em levá-lo para ele.

"Imagine", pensou. "Clementina me põe para fora de lá a pontapés."

— Ela está dormindo, bêbada demais para ver você chegar. Por favor, faça isso. Por favor!

"Bem que Marcos ia gostar. Mas agora não vou sair, não. Depois do jantar, dou uma passada por lá e deixo o bolo na porta", planejou mentalmente Leontina.

Ela não estava entendendo. Depois do jantar seria tarde demais. Margarete já não sabia mais o que fazer. Sentindo

o desespero se avizinhar novamente, tocada pela oração de Leontina, fez o que nunca havia feito em toda a sua vida: rezou.

— Por favor, Deus, me ajude. Ajude-me a salvar o meu filho. Faça um bom espírito aparecer... qualquer um que es­teja em condições de me ajudar a convencer Leontina a li­vrar meu filho desse perigo.

A oração foi feita com sentimento. Na mesma hora, um raio de luz começou a luzir bem diante de Margarete, au­mentando gradativamente, até que Laureano se fez visível, em companhia de Félix.

Meu Deus!—exclamou Margarete, surpresa.—Jamais imaginei que fossem vocês que atenderiam o meu pedido.

Você é minha paciente — esclareceu Laureano.

É minha responsabilidade cuidar de você e meu dever atender ao seu chamado.

Obrigada — disse ela emocionada.

Precisamos ser rápidos. Se o menino aceitar a aju­da do traficante, por menor que seja, vai ficar comprometido com ele, porque logo virá a cobrança. E Marcos não terá forças para resistir.

Enquanto Félix tomava Margarete pela mão, Laureano se aproximou de Leontina, serena em razão das orações ali derramadas naquela noite. Com a mão gentilmente pousa­da na testa da mulher, disse em voz alta:

— Deus pede a sua ajuda, Leontina. Seja instrumento da vontade divina e vá até a casa de Marcos. Ele está com fome, por isso, leve-lhe algo que lhe desperte o prazer e o desejo. Aquele bolo ali. — Inconscientemente, ela olhou para o bolo, e ele prosseguiu: — Vá agora, porque o meni­no chamado Jéferson está a um passo de corrompê-lo, e nós corremos o risco de perdê-lo para sempre nesta vida. Aja com rapidez e amorosidade, certa de que estará cum­prindo a missão que o Senhor lhe confiou.

Laureano soube usar as palavras da forma como Leontina melhor as compreendia. Ela não as captou exata­mente, mas sentiu um temor sem aparente razão pelo destino do sobrinho. Era como se ele, de alguma forma, colocasse em perigo a alma que deveria consagrar a Deus. Mais do que um sentimento de carinho, ela sentiu inexplicável necessidade de ver se ele estava bem. Não precisava se encontrar com Clementina, apenas se certificar de que Marcos Wellington não corria nenhum perigo. Seguindo um impulso natural, des­ligou o fogo, pegou o bolo de chocolate e saiu resoluta.

Assim que se aproximou da casa da irmã, ouviu risa­das vindo lá de dentro. Apurou os ouvidos, notou que uma era de Marcos, mas a outra não era de Clementina. Foi até a janela lateral, deixada aberta, e espiou para dentro. Marcos e Jéferson estavam na cozinha preparando uma comida, e um sinal de alerta disparou dentro dela.

— Marcos Wellington — chamou, e o menino se vol­tou assustado. — Abra aqui para mim, meu filho.

O olhar de contrariedade de Jéferson passou quase despercebido, mas a raiva que ele sentiu foi captada por Leontina, embora de forma indefinida. Como, porém, ela es­tava protegida pelas orações e acompanhada de Laureano, a raiva do garoto serviu de incentivo para que ela insistisse em entrar, agora ciente de que Deus a levara ali para afastar o sobrinho das más companhias.

Um pouco hesitante, Marcos abriu a porta, sabendo que Leontina não ficaria nada satisfeita com a presença de Jéferson. Por diversas vezes, ela o havia alertado sobre o menino, desaconselhando uma possível amizade entre am­bos. Mesmo temendo levar uma bronca, Marcos abriu. Logo ao entrar, Leontina notou os mantimentos sobre a mesa e as batatas descascadas em cima da pia.

De onde veio tudo isso? — perguntou ela, olhando diretamente para o sobrinho.

Foi o Jéferson que trouxe — respondeu Marcos timidamente.

Sei. E sua mãe sabe disso, Jéferson? Ela sabe que você desviou mantimentos para dar ao Marcos Wellington?

Jéferson sentiu o rubor subir-lhe às faces, emprestan­do à sua pele moreno-jambo um tom acobreado, la inventar uma história mirabolante, mas uma força irresistível, vinda da influência de Laureano, não permitiu que mentisse:

— Não, senhora. Imediatamente se arrependeu, mas já tinha falado.

— Na verdade, você não trouxe isso de casa, trouxe?

— Dessa vez, ele não respondeu. — Quem foi que lhe deu essas coisas?

— Tia Leontina — interveio Marcos —, o Jéferson viu que eu estava com fome e só quis ajudar.

— Aposto como essa generosidade toda veio daquele sujeito à toa para quem você trabalha, não veio?

— A senhora não pode falar assim do Mandrake — re­bateu ele entre os dentes, apertando os punhos.

— Tem razão, não quero falar mal de ninguém, porque não é isso que Nosso Senhor nos ensina. Agradeço a você e ao Mandrake a generosidade, mas meu sobrinho não pre­cisa. Pode pegar toda essa comida e levar de volta para ele. A própria Leontina foi juntando os mantimentos e re­colocando tudo nas sacolas, inclusive as batatas descas­cadas. Deu um nó apertado em cada uma e devolveu-as a Jéferson, que as recolheu com o ódio ofuscando seu olhar.

— Obrigado, Jéferson — disse Marcos envergonha­do, a voz sumida.

O outro nem respondeu. Saiu carregando as sacolas, engolindo a raiva.

Deus seja louvado! — exclamou Leontina com beati­tude. — Hoje recebi a visita do Espírito Santo e, graças a ele, pude impedir que você se perdesse no caminho do crime.

Era só comida...

Comida envenenada pelo pecado. Quer condenar sua alma para sempre?

Mas, tia, estou com fome.

Trouxe um pedaço de bolo para você. E pode ir jan­tar lá em casa, se quiser.

A senhora sabe que minha mãe não deixa.

Traremos um pouco de comida para ela. Quem sabe ela não muda?

Até aquele momento, Clementina não havia ainda des­pertado. Mas, como o estômago de Marcos doía imensamen­te, ele apanhou o pedaço de bolo, devorando-o com avidez.

Está gostoso — comentou.

Vamos lá em casa jantar. Você comeu a sobremesa antes, mas isso não alimenta. Foi só para tapear.

O medo que sentia de ser repreendido pela mãe, de re­pente, esvaneceu. Ele já não era mais um bebezinho, quem tomava conta dela era ele. A tia também não tinha muito a oferecer, não queria se tornar um peso para ela, que traba­lhava duro para se sustentar.

— Ainda vou ser alguém na vida — afirmou ele, a ca­minho da casa dela. — E vou tirar a senhora e minha mãe desse morro. Nós vamos viver felizes e em paz novamente. Leontina sentiu uma lágrima despontar, mas conse­guiu contê-la:

— Sua mãe não quer mais falar comigo. Mas agrade­ço a você, mesmo assim. Como gostaria que você voltasse a estudar e saísse das ruas!

Marcos não disse nada. Grudou os olhos no chão, seguindo-a em silêncio. O pranto forçou passagem pela garganta, ele chorou baixinho, mas Leontina não ouviu. Puxou-o com carinho, abraçou-o com imensa ternura. A dor cedeu lugar à paz que veio com o amor, e Marcos, agarra­do à cintura dela, deixou-se conduzir morro acima, sentindo que, em algum lugar naquela vida, haveria de encontrar um espaço onde colocar sua felicidade.

Ajoelhada aos pés de Laureano, Margarete beijou-lhe as mãos. Não tinha palavras para agradecer o que ele fizera pelo seu filho. O médico segurou-a pelos ombros e ergueu-a gentilmente, dizendo com doçura:

Agradeça a Deus e a si mesma, porque foi graças a sua intervenção que pude ajudar seu filho.

Sabe, Laureano, hoje vivi coisas diferentes. Pela primeira vez, não fugi com medo do efeito da prece.

O que você sentiu?

Uma paz indescritível. Senti-me tão bem que resol­vi me arriscar, eu mesma, a fazer uma oração.

E com excelentes resultados.

Clementina soltou um ronco e se mexeu na cama, sem despertar.

Essa daí é que está mal — observou Félix. — Não podemos fazer nada por ela?

Vai depender, em parte, de Margarete — ponderou Laureano. — Sua presença só faz aumentar a vontade que ela tem de beber. Se você se afastar, talvez consigamos, em um momento de lucidez, incentivá-la a procurar ajuda no campo físico, para controlar o vício.

Margarete fitou Clementina, desanimada:

Como fazer isso, se eu mesma não consigo contro­lar o meu?

Você sabe que depende da força de vontade em­pregada na sua modificação interior. Você é um espírito de­sencarnado, o vício está instaurado no seu corpo fluídico, não na matéria orgânica, que você já não possui. É preciso controle das emoções e dos desejos, agora com muito mais esforço do que quando você vivia na matéria. Livre em seu próprio plano, o corpo emocional sente com muito mais in­tensidade as emoções e os desejos, já que a matéria que os compõe é a mesma.

Mas será que apenas controlar o desejo resolve? Porque a falta que sinto do álcool me parece bastante real, quase física.

Não pode ser física, porque você não possui mais um corpo físico. Essa impressão manifesta-se na matéria su­til graças ao corpo emocional. Sendo o plano emocional a sede dos desejos humanos, todos os desejos que você ve­nha a possuir ficam aqui mais potencializados. Então, con­trolar os desejos é o maior passo para se livrar do vício. E tem também a desintoxicação, que você vem evitando des­de que chegou a nossa cidade invisível.

Tenho medo... — sussurrou ela. — Penso que vão sugar algo de dentro de mim.

Não há do que ter medo. O que vamos sugar de dentro de você são fragmentos etéreos do álcool que se fundiram à sua própria energia. Cada vez que você sorve o álcool volatilizado do corpo dos encarnados, inunda-se de fluidos energeticamente deletérios que precisam ser rever­tidos. É necessário volatilizá-los novamente, dessa vez num processo inverso, fazendo-os evaporar de seu corpo sutil, deixando-o limpo e desintoxicado.

Se eu me submeter ao tratamento, Clementina tam­bém vai ficar boa?

Ela vai melhorar, na medida em que não terá mais que dividir a bebida com você. Mas, para ficar boa, precisa­rá buscar tratamento próprio e adequado. Se você obser­var bem, verá que Clementina está numa fase intermediária da intoxicação. Seu sistema nervoso começa a ser afetado, mas ela ainda não se tornou uma alcoólica crônica e tem chances de se recuperar. Todavia, se passar dessa fase, tudo se tornará muito mais difícil.

E eu? Levarei sequelas para a outra vida?

A embriaguez, como todo vício da alma, impregna­-se no veículo sutil e acompanha o espírito para além da vida na matéria. Dependendo do tempo em que o vício se fixou, causa nos corpos inferiores6 do espírito uma distorção do comportamento que pode ser levada para outras vidas. A bebida serve para aquecer e relaxar a pessoa, para o seu prazer, desde que utilizada com moderação. Há, contudo, um limite muito tênue, que, se ultrapassado, pode levar à de­pendência, encarcerando o indivíduo numa prisão invisível, porém, bastante real. O espírito então perde a liberdade de agir e pensar, tornando-se escravo de seu insaciável desejo. Fica entorpecido, menos equilibrado e, consequentemente, mais vulnerável aos ataques dos inimigos.

Você devia tentar, Margarete — incentivou Félix.

Não sei... — duvidou ela. — Tenho medo de não conseguir e sofrer com a abstinência do álcool.

Se você não tentar, não vai conseguir nunca — esti­mulou Félix. — E eu estarei ao seu lado para ajudá-la.

Se eu melhorar, poderei ficar ao lado do meu filho?

Isso e muito mais — afirmou Laureano.

 

Ela pensou por alguns momentos, sentindo no coração a vontade de ceder ao tratamento. Finalmente, decidiu-se:

 

6 Os corpos inferiores estão relacionados ao Eu inferior, formado pelos corpos físico, emocional e mental, renováveis a cada reencarnação.

 

Querem saber de uma coisa? Vou tentar. Preciso mudar de vida para poder ajudar o meu filho. Hoje percebi que, com oração e pensamentos nobres, fui capaz de ajudá­-lo de alguma forma.

Um filho é excelente estímulo às mudanças — con­cordou Laureano. — Quer ajudá-lo? Ajude a si mesma em primeiro lugar. Modifique-se.

Também tenho pena de Clementina — admitiu.

No começo, fiquei com um pouco de raiva porque ela pe­gou o meu filho, mas depois até lhe agradeci. Não fosse por ela, sabe-se lá o que seria de Marcos hoje. Não lhe quero mal.

E, se ela estiver bem, vai estar em condições de ajudá-lo muito mais do que você — acrescentou Félix. — Lembre-se de que ambos estão no mesmo plano de existên­cia e, para todos os efeitos, ela é a mãe dele.

Sei disso. E é uma boa mãe, apesar de tudo. Ela o ama muito.

Muito bem — concluiu Laureano. — Se todos es­tão de acordo, então vamos retirá-la do corpo físico para uma conversa.

Diante do olhar de ansiedade de Félix e Margarete, Laureano despertou o corpo fluídico de Clementina, que ja­zia adormecido alguns centímetros acima do físico. Assim que ela se viu desperta, levou um susto. Ainda embriagada, julgou ter alucinações. Depois, admitiu que podia estar ven­do espíritos e quis retornar ao corpo físico, mas Laureano a impediu com um gesto afetuoso.

Quem são vocês? — indagou assustada e, olhando para Margarete, continuou: — Eu conheço você. Onde foi mesmo que a vi?

Sou a mãe de Marcos Wellington — esclare­ceu Margarete.

Devo estar sonhando — deduziu Clementina, olhando de soslaio para seu corpo estirado na cama. — Só posso estar sonhando.

É mais ou menos isso — explicou Laureano.

Aproveitamos o adormecimento de seu corpo físico para trazer sua consciência até nosso plano.

Eu, hein! Que doideira é essa?

Pense em tudo como um sonho, se isso lhe traz calma. O importante é que você ouça o que temos a dizer.

Hum...?

Você está enveredando por um caminho que, mais à frente, não terá volta. Não apenas seu corpo, mas também sua mente está sendo afetada pelo álcool. Se você con­tinuar assim, pode desencarnar e romper com os projetos que fez para essa existência.

Clementina arregalou os olhos, tentando entender o que ele dizia, até que Margarete completou:

— Pode acreditar nele. É a mais pura verdade, e eu sou testemunha disso, pois carrego nesse corpo as marcas de que ele fala. Eu a estimulo a beber, fazendo coincidir com o meu o seu desejo pelo álcool. Satisfazendo-se, você satis­faz a nós duas.

Seu filho corre o risco de se perder no mundo, e você se sentirá responsável por isso — prosseguiu Laureano.

Embora somente a ele caiba a responsabilidade pelos seus atos, você, como mãe, inevitavelmente se acusará pela omissão. Não quer isso para você, quer? Ou para ele?

O que espera que eu faça? — respondeu Clementina, saindo do torpor em que se encontrava. — Meu marido me abandonou, nem emprego tenho. Marcos Wellington sabe se virar melhor do que eu. Ou você acha que devo me pros­tituir para sustentar meu filho?

Uma causa nobre justifica muitos atos socialmen­te reprováveis.

As palavras de Laureano causaram tremendo impacto em Clementina, que deu um salto e levou a mão ao coração:

Prostituir-me? E isso lá é direito?

Quem somos nós para julgar o que é direito? A ne­cessidade de cada um há de ser o seu julgador. Há muitas prostitutas que trocam o sexo por dinheiro para colocar o pão na boca de seus filhos. Não é um sacrifício louvável?

Bem, pensando por esse lado, até que é.

A vida não pede sacrifícios de ninguém. Eles acon­tecem por escolha do espírito. E qual é a sua?

Ela olhou de soslaio para Margarete e respondeu em tom mordaz:

Eu criei o menino, quando a mãe verdadeira o jo­gou no lixo.

Foi uma escolha bonita, digna e de muita coragem. Não quer levá-la adiante?

Como assim?

Por que não completa a criação do menino? Você tem tudo para orientá-lo no caminho da virtude e do bem.

Não posso. Não sou capaz.

Se não pudesse, não teria tido a oportunidade de encontrá-lo e ficar com ele — ela o olhou em dúvida, e ele acrescentou: — É isso que Deus espera de você. Por que não volta para a igreja?

Igreja... — desdenhou ela. — Nunca mais pretendo pisar naquela casa de enganação. Só o que o pastor quer é tirar dinheiro de nós.

Vendo que a tática não surtiu efeito, Laureano não in­sistiu naquela abordagem.

Essa é mais uma escolha sua e é de seu direito. Peço apenas que não julgue o pastor, assim como não quer ser jul­gada. Ele é um homem bom que trabalha pelo seu semelhan­te. Mas não foi para falar dele ou de religião que viemos aqui. Foi para alertá-la da necessidade de abandonar a bebida.

Não consigo, gosto de beber. Me ajuda a esquecer.

O álcool não apaga o passado, mas aniquila o pre­sente e reescreve o futuro com a tinta do sofrimento. É isso que você quer?

Não — balbuciou ela indecisa.

Você está iniciando um processo de dependên­cia química da bebida, além da emocional, que há muito já se instalou. Se você se esforçar, conseguirá reverter esse quadro. Se persistir bebendo, a doença irá se agravar, tor­nando-se muito mais difícil abandonar o vício. Por que não aproveita agora, que ainda tem chance, para deixar de lado a bebida e se dedicar a seu filho e a si mesma?

Clementina desatou a chorar, e Laureano aproximou­-se dela, dando-lhe fraternal abraço.

Eu não queria fazer isso, não queria! Mas Romualdo me deixou. Me trocou por uma vagabunda mais jovem e mais bonita. E agora, moço, o que é que eu faço?

Você ainda é jovem. Pode arranjar outro compa­nheiro, pode trabalhar para sustentar-se e ao seu filho. Ele é um menino tão especial! Não gostaria de vê-lo com uma profissão e uma família?

Ah! Como gostaria! Mas nós somos pobres, não tivemos chances na vida.

As chances, somos nós quem as criamos. Elas exis­tem por aí. São muitas oportunidades, para o bem e para o mal, com que cruzamos durante a vida. Cabe a cada um escolher quais pretende agarrar. Veja Marcos, por exemplo. Ele está tendo a oportunidade de se entregar ao crime e, por enquanto, a está recusando. Mais tarde, pode vir a aceitá-la. Por outro lado, a vida lhe está reservando a chance de rea­lizar o seu sonho, que é se tornar advogado. Aqui também, ele só vai aproveitá-la se quiser. Não gostaria de estar ao lado dele em momentos tão importantes?

É claro que sim! Quero o melhor para o meu filho.

Pois então, reflita bem no que estou lhe dizendo. Se você continuar a se embebedar, vai estragar a sua vida e fazer ruir sua capacidade de orientá-lo. Cabem a ele suas próprias escolhas, você não tem como impedi-lo de se tor­nar um marginal, se ele quiser. Mas a orientação correta é de grande valia. Se não fosse, não haveria o pendor natural dos pais para a criação e educação de seus filhos.

Não quero que Marcos Wellington se torne um mar­ginal. Ele é tão inteligente!

As oportunidades e as tentações são muitas. Marcos não tem dinheiro, mas tem quem lhe ofereça facili­dades que a honestidade, por enquanto, não pode comprar. Não seria muito melhor se ele conseguisse, através do esfor­ço próprio, realizar todos os desejos materiais que possui? Ou você acha bom que ele consiga agora tudo o que quer, para amanhã acordar com a boca cheia de formigas?

Clementina o fitou com espanto e pavor. Até Félix e Margarete ficaram horrorizados com as palavras de Laureano. Onde é que ele havia aprendido a falar daque­le jeito? De qualquer forma, o resultado foi o esperado, por­que Clementina pareceu levar um choque e despertar.

Deus me livre, moço! Não quero isso para o meu filho, não.

Sei que não quer. No fundo, você é uma boa pes­soa. Só está um pouco desnorteada e confusa. E depois que seu marido a deixou, sente-se mais só do que nunca, não é verdade? — Ela assentiu, enxugando uma lágrima.

Contudo, não precisa ser assim.

Como não? O senhor acha que vou sair por aí e arranjar outro homem, quando meu coração ainda pertence a Romualdo?

Romualdo não é o único que pode ajudá-la a dimi­nuir a solidão e criar o seu filho.

Se está se referindo a Leontina, nem pensar! Foi por causa dela que Romualdo me deixou. Não fosse a caro­lice dela, eu teria ficado em casa, cuidando dele, em vez de ir para a igreja rezar com um bando de fanáticos.

Por que acusa sua irmã pelos atos de seu mari­do? Foi ele quem a deixou, não Leontina, que só fez tentar ajudá-la.

Sermão não é ajuda.

Depende. Se você ouve e compreende a essência das palavras, pode ser de grande ajuda. Mas, para aqueles que se fazem surdos aos alertas da vida, elas não passam de baboseiras sem sentido. Você é quem decide.

Clementina não sabia o que dizer. Laureano era inteli­gente demais e tinha uma resposta pronta para tudo.

Olhe, agradeço o empenho de vocês, mas já estou ficando cansada — rebateu ela com frieza. — Não quero mais conversar.

Muito bem, Clementina. Já disse tudo o que você deveria ouvir.

Bom, então é isso. Adeusinho...

Ela virou as costas para os três e se deitou sobre o corpo físico adormecido. Depois que Laureano enviou-lhe fluidos de serenidade, o corpo fluídico também pegou no sono. Com gestos delicados, o espírito espargiu um arco­-íris sobre Clementina, fazendo com que chuviscos de luz das mais variadas cores iluminassem cada parte do seu cor­po. Em seguida, voltou-se para Félix e Margarete:

Vamos? Os três se voltaram para sair, e foi Félix quem perguntou:

O que foi aquilo que você fez?

Uma limpeza nos chakras que servem de filtro às experiências vividas no plano astral, para que Clementina possa evocá-las quando acordar.

E por que falou com ela daquele jeito? — acrescen­tou Margarete, ainda espantada. — Eu nunca o ouvi falar daquela maneira.

É a linguagem que Clementina mais facilmente en­tende. Não adianta falar com ela com doçura, porque ela não está em condições de ouvir palavras doces. No estado em que está, são necessários termos vulgares e que apelem para o temor, para que ela se convença.

Foram-se rumo à cidade astral que habitavam, certos de que, dali para a frente, muita coisa iria mudar na vida de todos os envolvidos no drama de Marcos e Clementina. Mesmo Leontina, que se ausentara antes do desenrolar des­se episódio, sentiu uma estranha e repentina comoção, uma vontade irresistível de voltar à casa da irmã.

Depois que Marcos terminou de jantar, ela foi até as panelas e preparou um prato para Clementina. Nem sabia por que fazia aquilo, mas sentia que devia fazer. Se ela não quisesse comer, não fazia mal. Deixaria o prato na mesa e iria embora.

Com o coração leve de uma súbita paz, de mãos dadas com o sobrinho, Leontina abriu a porta da casa de Clementina e entrou.

A sala estava mais iluminada do que de costume, não apenas porque todas as luzes se encontravam acesas, mas porque no ambiente havia uma aura de limpeza que havia muito não se via. O chão dava mostras de que fora varrido, os móveis, espanados. A cama fora forrada com uma colcha simples, limpa e perfumada. Algumas roupas empilhadas a um canto eram sinal de que haviam sido separadas para o tanque, a pia da cozinha encontrava-se vazia de louça. De Clementina, contudo, nem sinal.

O que foi que houve por aqui? — indagou Marcos espantado.

Será que Branca de Neve esteve na casa dos anõezi­nhos? — respondeu Leontina, tão surpresa quanto o menino.

E onde está minha mãe?

Leontina deu de ombros. Não fazia a menor ideia do que havia acontecido. Quando saíra, cerca de duas horas antes, deixara a irmã profundamente adormecida sobre a cama, ressonando alto e recendendo a cachaça.

— Você quer esperar? — perguntou ela ao menino, que assentiu. — Então vou deixar o prato de comida em cima da mesa e vou embora. Sua mãe não vai gostar de me ver aqui.

Assim que ela se virou para sair, a porta se abriu e Clementina entrou abraçada a um ramalhete de flores silvestres que havia colhido ao longo da subida do morro. Estava de banho tomado, dentes escovados e cabelos pen­teados. As duas pararam, estudando-se, enquanto Marcos, adiantando-se, corria para ela.

Mãe! Você está bem?

Estou ótima, meu filho, obrigada.

O que aconteceu aqui?

Eu limpei tudo. Não ficou uma beleza?

Ficou — respondeu ele, retirando as flores dos bra­ços da mãe. — Para que isso?

Para enfeitar e perfumar a casa. Precisamos de um pouco de alegria.

Você foi colher flores no escuro? — indagou ele, espantado.

Qual o problema?

Sem saber o que fazer, Leontina passou por ela e apontou para a mesa:

— Trouxe comida para você. Depois passo para pegar o prato.

Os sentimentos de Clementina eram contraditó­rios, mas o sonho ainda estava bem vívido em sua mente. Sonhara com um desconhecido, que lhe dissera coisas es­tranhas. A verdadeira mãe de Marcos Wellington também estava no sonho, embora nunca a houvesse visto. Mas tinha certeza de que era ela. Tinham falado sobre os perigos da bebida e a necessidade de orientar o filho. O sonho fora tão nítido, tão real, que ela, ao acordar, mantivera na memória todas as palavras que ouvira.

Era estranho que ela sonhasse com aquele alerta justo no dia em que desmaiara na rua. Talvez fosse mesmo um aviso para que se modificasse e parasse de beber. Tudo ti­nha a ver com o filho. O que seria dele se ela viesse a morrer por causa da bebida? E se lhe acontecesse a mesma coi­sa que acontecera a sua verdadeira mãe? Bebendo do jeito que ela bebia, podia muito bem ser atropelada ou amanhe­cer com a boca cheia de formigas.

O pensamento lhe causou um arrepio. Era no que dava criar um filho sem pai. Pensou em Romualdo, no desgosto que ele lhe causara, e sentiu a garganta seca. Imediatamente, veio a vontade de beber, mas o efeito do sonho lhe deu for­ças para resistir, e ela disse não à própria vontade.

Com tudo isso ainda vívido na mente, Clementina segu­rou o braço de Leontina, que passava por ela sem a encarar. — Espere um pouco — disse em tom amistoso. — Não se vá ainda. Sente-se e vamos conversar.

Meio sem jeito, Leontina olhou para Marcos, que lhe deu um sorriso de incentivo. Sentou-se à mesa da cozinha, agora livre do pó e de migalhas de pão. Marcos colocou as flores dentro de uma garrafa que servia de jarro, sentou-se ao lado da tia. Clementina juntou-se a eles, desembrulhou o prato, cheirando a comida.

Espero que você goste — falou Leontina timidamente.

Está uma delícia, mãe — acrescentou Marcos.

Eu já comi.

Clementina apanhou um garfo e pôs-se a comer o en­sopadinho de carne com legumes. À primeira garfada, o es­tômago, saturado de álcool, quase recusou o alimento, mas a fome se sobrepôs ao enjoo, e ela comeu com gosto.

— Engraçado, não estava com fome — anunciou Clementina, colocando o garfo na boca. — Mas está muito bom mesmo. Leontina teve vontade de lhe dizer que a ausência de apetite se devia ao excesso de bebida, mas achou melhor se calar. Cobranças, naquela hora, só serviriam para afastá-las de novo, e o que ela mais queria era se reaproximar da irmã.

— Fico feliz que tenha gostado — retrucou Leontina, satisfeita.

— Você sempre cozinhou bem. Melhor do que eu.

— Ah, mãe, não exagere — objetou Marcos com ter­nura. — Você também cozinha que é uma beleza!

— Diz isso só para me agradar. Mas não faz mal. Gosto de ouvir mesmo assim.

Fez-se um silêncio embaraçoso, até que Leontina, à falta do que dizer, elogiou:

Sua casa está linda.

Fiz uma faxina geral. A casa é pequena e não deu trabalho. Apanhei umas flores para dar um toque de alegria. Não ficou bom, meu filho?

Muito bom — concordou Marcos. — Parece até que o ar ficou mais leve.

É verdade.

Novo silêncio constrangedor. Tanto Leontina quanto Clementina não sabiam o que dizer para se reaproximar, e Marcos teve que intervir:

Tia Leontina vem sempre aqui nos visitar e, às ve­zes, me leva para comer em sua casa.

Fico agradecida por isso — declarou Clementina.

Ora, faço porque gosto de Marcos Wellington. É meu sobrinho, e você, minha irmã. Gosto de você também.

Ela disse aquilo sem pensar, embora traduzisse bem os seus sentimentos.

Sei disso e mais uma vez agradeço — tornou Clementina, emocionada.

Preocupa-me o bem-estar de vocês — acrescen­tou Leontina.

Posso imaginar. Eu não tenho sido uma mãe muito cuidadosa ultimamente. Sei que andei bebendo um pouco, mas isso já passou.

Você não vai beber mais? — era Marcos, que mal acreditava no que ouvia.

Não. Prometo que vou parar. Beber só tem me feito mal. Preciso estar bem para cuidar de meu filho.

Louvado seja nosso Senhor, Jesus Cristo! — excla­mou Leontina, erguendo aos mãos ao céu.

Embora o apelo não lhe agradasse muito, Clementina não disse nada. Também ela queria evitar desentendimen­tos com a irmã.

Preciso arranjar um emprego — continuou Clementina.

Você não sabe de nada?

Posso ver. Tem sempre alguém precisando de uma faxineira, e talvez dona Odete saiba de alguma coisa lá no prédio onde trabalho.

Tomara que você consiga. Não é justo deixar

Marcos Wellington pedindo esmolas pela rua. Ela acariciou o rosto do filho, que retrucou ternamente:

Não me incomodo, mãe. Até que consigo um bom dinheiro, às vezes.

E às vezes não consegue — completou Leontina.

E aquele marginalzinho vive de olho em você, querendo levá-lo para trabalhar para aquele bandido.

Que marginalzinho? — questionou Clementina, preocupada. — Que bandido é esse?

É o Jéferson — respondeu Marcos. — Ele quer que eu trabalhe para o Mandrake.

Deus me livre de uma coisa dessas! — horrorizou­-se Clementina. — Aquela gente não é boa companhia. Não quero você metido com eles.

Não gostaria de lhe trazer problemas — acrescen­tou Leontina —, mas aquele garoto esteve aqui hoje, com duas sacolas de comida. E você sabe como é essa gente. Dá com uma mão e tira com a outra. Se Marcos Wellington tivesse aceitado a comida dele, ia ficar de rabo preso com o tal de Mandrake para o resto da vida.

Sua tia tem razão, meu filho. Não quero que você aceite nada deles. Absolutamente nada.

Eu estava com fome, mãe — defendeu-se ele.

Meu pobre filhinho — retrucou ela, a voz carregada de remorso. — Sei que a culpa foi minha por tê-lo abando­nado à própria sorte. Mas isso agora vai mudar, você vai ver.

E Marcos Wellington também deixou a escola.

Leontina arriscou ir mais longe, esperando uma reação violenta de Clementina, mas a reação não veio. Em vez dis­so, ela abaixou a cabeça e suspirou, para depois comentar num cicio:

Preciso providenciar seu retorno à escola o mais rápido possível.

As matrículas já terminaram — esclareceu Marcos.

Há quanto tempo você saiu da escola?

Ele largou a escola na metade do ano passado — anunciou Leontina. — Mas esse ano também já está perdi­do, pois as aulas começaram faz tempo. Então, ele vai se atrasar dois anos.

Não faz mal, mãe — disse Marcos. — Quero voltar a estudar mesmo assim. E, nas horas vagas, posso conti­nuar pedindo dinheiro na rua.

Nada disso! Filho meu não vai ser mendigo. Quero que você se forme e seja alguém na vida. Um advogado, como você deseja.

Marcos sorriu intimamente, na esperança de poder re­tomar o antigo sonho de estudar Direito. Iria se atrasar um pouco, mas não tinha importância.

Eu quero estudar, mãe. Você sabe que meu maior sonho sempre foi me formar e dar uma vida melhor a você e a minha tia.

Não se preocupe comigo — objetou Leontina.

Eu estou bem. Não ganho nenhuma fortuna, mas dá para sobreviver honestamente.

Nada disso, titia. A senhora tem sido muito boa co­migo e com minha mãe.

É verdade, Leontina — concordou Clementina. — Pena que eu fui uma idiota e não soube reconhecer isso antes.

Você não imagina como fico feliz por voltarmos a nos falar. Você e Marcos Wellington são a família que possuo.

— E nós também, agora que Romualdo nos deixou. — Ela segurou a mão de Leontina por cima da mesa e murmu­rou: — Será que você pode me perdoar, minha irmã? Pode perdoar as palavras insensatas de uma mulher ingrata, cega de paixão?

Você estava doente — justificou Leontina, sem jeito.

É verdade, mas agora me curei. Juro que nunca mais vou pôr uma gota de álcool na boca.

Jura mesmo, mãe?

Você vai ver. Não digo que vai ser fácil, mas vou me esforçar ao máximo. E depois, tenho um incentivo muito grande. Sabe qual é? — Marcos meneou a cabeça. — Você, meu filho. Faço isso por você.

O menino se atirou nos braços dela em lágrimas, e Leontina se juntou a eles.

— Vai ser bom nos tornarmos uma família outra vez — comentou Leontina. — E o pastor vai ficar muito satisfeito de tê-la de volta aos cultos. Finalmente, a ovelhinha desgarrada retorna ao rebanho.

Ninguém falou em retornar à igreja — contrapôs Clementina, com uma certa irritação. — Já disse que não quero mais saber de pastores nem de igreja.

Mas por quê? — surpreendeu-se Leontina. — Cer­tamente, você não culpa mais a igreja...

Olhe, minha irmã, gosto muito de você, e Deus sabe o quanto me arrependo das coisas que lhe disse. Também não culpo mais o pastor, pois sei que Romualdo se foi por­que se enrabichou por outra. Mas não quero mais saber de igreja, não. Deixei-me envolver a tal ponto nos cultos que negligenciei meus deveres de esposa, e isso contribuiu para que Romualdo arranjasse outra. Tudo era pecado, rezas e castigos. Não acredito mais nisso.

Você está transferindo para a igreja o fracasso do seu casamento para não ter que assumir que foram vocês que falharam. Deus quis apenas ajudá-los.

Pois prefiro que Ele me ajude a distância.

Isso não está certo... — Leontina ia censurando, mas, a um olhar de Marcos, mudou o rumo da conversa. — Mas, en­fim, você é quem sabe. A vida é sua, não quero me intrometer.

Ótimo. Assim não nos desentenderemos mais.

Só espero que você permita que Marcos Wellington me acompanhe. Ela encarou o filho, que deu um sorriso em sinal afirmativo.

Se ele quiser...

Eu quero — confirmou o menino. — Gosto de orar e fiquei muito triste quando você me proibiu de frequentar os cultos.

Foi o temor a Deus que manteve Marcos Wellington longe do crime e do vício — afirmou Leontina.

É verdade — concordou ele.

E isso só se adquire na igreja.

Já disse que ele pode ir, se quiser — repetiu Clementina, demonstrando impaciência. — Só não quero saber de beatos aqui em casa. Se quiser se transformar em um, Marcos Wellington, sugiro que troque de religião e se torne um padre.

Isso é que não! — protestou Leontina com veemên­cia. — Marcos Wellington está no caminho da salvação e não precisa de falsos ídolos nem de falsos profetas, não é?

É sim, titia. Com todo respeito que devo aos pa­dres, não quero trocar de religião.

Muito bem, faça como quiser — ponderou Clementina.

Você é um rapazinho e pode decidir o que é melhor para você. Já disse que não vou me opor. Apenas gostaria que me respeitassem e não insistissem para me levar à igreja.

Pode deixar, mãe. Vamos respeitá-la direitinho. Não é, tia Leontina?

É — assentiu ela, embora a contragosto.

O resultado do encontro foi dos mais proveitosos. A família voltou a se unir, a harmonia retornou ao lar das duas irmãs. Custou um pouco, mas Leontina conseguiu arrumar algumas faxinas para Clementina fazer. Ela começou a ga­nhar algum dinheiro, com o qual iam vivendo.

De vez em quando, Marcos auxiliava no estacionamen­to de um supermercado próximo, carregando compras para os fregueses, que lhe davam uma gorjeta ou outra. Com isso, ia reforçando a renda doméstica, de forma que o di­nheiro sempre chegava para pagar as contas e as compras no fim do mês.

Conforme o prometido, Clementina nunca mais voltou a beber. Às vezes, tinha recaídas violentas, suava frio, tre­mia, mas, pensando no filho, conseguia se controlar. Nessas horas, Marcos orava com fervor, atraindo a presença de Laureano, que aplicava passes restauradores e fortificantes em Clementina, fortalecendo sua vontade de resistir.

Marcos voltou a estudar na escola municipal. Embora com dois anos de atraso em relação aos colegas, era inteli­gente e estudioso, o que lhe valia muitos elogios dos profes­sores. Sua vontade de se tornar advogado era tanta que ele se aplicava aos estudos dia e noite, tentando compensar a deficiência do ensino público com o esforço próprio. Não foi fácil, mas ele conseguiu.

Alguns anos à frente, Margarete ainda se encontrava na mesma cidade astral a que fora levada por Félix. Embora, na maioria das vezes, conseguisse resistir à bebida, suas re­caídas, ao contrário das de Clementina, eram muito mais di­fíceis de evitar. Margarete se locomovia facilmente no tempo e no espaço. Quando a vontade apertava, tornando-se quase insuportável, ela logo se via ao lado de algum ébrio encarna­do, livre para sugar-lhe a essência do álcool volatilizado.

Algumas vezes, Félix conseguia acompanhá-la e trazê­-la de volta antes que ela sugasse o encarnado, outras não. Com isso, seu tratamento tinha altos e baixos, perdendo-se

o trabalho de desintoxicação, que Laureano tinha que come­çar outra vez.

Certa tarde, ao voltar de mais uma consulta com Laureano, Félix encontrou Margarete triste e acabrunhada, sentada na varanda, abraçada aos joelhos, cantarolando uma canção melancólica. Ele se aproximou e deu-lhe um beijo na testa, indagando com certa preocupação, procuran­do detectar sinais de que havia bebido:

— Está tudo bem com você? Ela o olhou com olhos úmidos e respondeu tristemente:

— Sabe quem eu fui visitar hoje? — Ele meneou a ca­beça. — O Anderson.

— O Anderson? Mas por quê?

— Senti que ele me chamava. Quando dei por mim, estava ao lado dele.

— Por que foi que ele a chamou?

— Ele está doente. Muito doente, para falar a verdade. Ouvi a mãe dizer, aos prantos, que sua morte é esperada para qualquer momento.

— Não me diga! O que é que ele tem?

— Câncer.

— Coitado!

— Ele é jovem ainda, sabia? Quando Marcos nasceu, Anderson tinha apenas dezessete anos. Agora, deve estar com trinta e quatro.

— Sei que é triste, mas cada um faz suas escolhas na vida. Anderson também fez a dele.

— Eu podia estar alegre, pois essa seria uma excelen­te maneira de me vingar de seu Graciliano e dona Bernadete. Mas não estou.

— Que bom, não é, Margarete? Ainda bem que você não se compraz com o sofrimento alheio.

— Fico imaginando a dor que ela deve estar sentindo pela perda do único filho. Eu também sofri quando perdi o meu.

— Ele não se casou?

— Não. Fiquei lá um tempão, sem ninguém me notar, e não vi mulher alguma. Nem dona Bernadete pensou em nora, nem vi formas mentais de crianças. Apenas uma dor profunda.

— Você disse que foi lá atraída pelo pensamento dele, que estava ligado em você. Por quê?

— Remorso. Anderson era apenas uma criança quan­do se envolveu comigo. Fui eu que o seduzi, ele não tinha forças para contrariar os pais. Acho, porém, que jamais se perdoou por ter-me abandonado.

— Ele nada podia fazer. Como você mesma disse, era apenas uma criança.

— Estou realmente triste, Félix. Não queria que ele acabasse assim. Ainda tinha a vida toda pela frente. Nesse momento, Laureano também se aproximou. Captou o sentimento de tristeza de Margarete e foi tentar ajudar.

— Olá, Margarete — saudou ele. — Vejo que está mui­to triste.

— O Anderson, pai do filho dela, está doente de cân­cer — esclareceu Félix. — Parece que vai morrer.

Laureano se sentou ao lado dela e perguntou gen­tilmente:

Não gostaria de visitá-lo?

Já estive lá. Ele está realmente mal. Será que você, com toda essa sabedoria e luz, não pode ajudá-lo a sair dessa?

Não creio. Não posso desrespeitar a programação do indivíduo. Só posso ajudar a quem me pede ajuda, assim mesmo, dentro do limite que a lei divina me impõe. E, pelo que posso perceber, esse rapaz não quer mais viver.

Mas por quê, se ele é tão jovem?

Anderson deixou-se penetrar pelo vírus da tristeza. Como não se perdoa por não ter assumido você e a criança, permitiu que o abatimento o levasse à solidão, ao desânimo, à falta de fé.

Que coisa triste! — exclamou Margarete em lágrimas.

Vamos orar para que ele se recupere dos sentimen­tos que danificaram seu corpo físico. Se ele escolheu mor­rer, ninguém poderá fazer nada.

No mesmo instante em que se puseram a rezar, Margarete sentiu uma pontada no peito e olhou para Félix, que também havia sentido uma movimentação estranha no ar. Ambos interrogaram Laureano com o olhar, mas foi a pró­pria Margarete quem falou:

— Acho que chegou a hora. Sinto que Anderson es­tá desencarnando.

Imediatamente, transportaram-se para o hospital em Belford Roxo, onde Anderson dava seu último suspiro na vida corpórea. Seu corpo fluídico acabara de se desprender do físico, logo recolhido pelo espírito de uma senhora de olhar bondoso. Ela viu Laureano, Margarete e Félix, e sorriu para eles, esvanecendo no ar com o rapaz adormecido.

Chegamos tarde — constatou Félix. — Ele já desencarnou.

Para onde foi levado? — quis saber Margarete.

Não sei — afirmou Laureano. — Mais tarde vou ten­tar descobrir. Não vai ser difícil.

Subitamente, a atenção dos três foi atraída pelos gri­tos de desespero de Bernadete, que, ajoelhada ao lado da cama, chorava agarrada à mão do filho.

Oh, Deus! Por que levou meu filho? Meu único filho!

Senhora, por favor, acalme-se — dizia uma enfermei­ra, que tentava fazer com que ela soltasse a mão de Anderson.

Não posso deixá-lo! Não posso! Isso não é justo! Que vida mais injusta é essa que ceifa a vida de seres tão jovens?

Nesse momento, Graciliano entrou no quarto. Procuran­do conter o pranto e a dor, ajoelhou-se ao lado da mulher.

Vamos, querida, não podemos fazer mais nada. Ele se foi.

Por que, Graciliano, por quê? Por que tivemos que perdê-lo?

Não sei...

Graciliano engoliu a própria voz, sufocada no pranto e na dor. Comovido, Laureano se aproximou, derramando sobre eles partículas de luz refrescantes e suaves. Com a mão translúcida pousada sobre suas cabeças, fez uma bre­ve oração, que aos poucos foi serenando-os. Gentilmente, Graciliano conseguiu soltar a mão da mulher da mão do filho e ergueu-a, enlaçando-a com imensurável ternura. Ao lado deles, Margarete chorava e comentou emocionada:

— Jamais pensei que um homem tão embrutecido como seu Graciliano fosse capaz de tanto sofrimento e emo­ção. Veja o amor com que trata a esposa! Ao redor dos dois formou-se uma luminosidade rósea que envolveu os corpos de ambos, unindo-os pelo chakra cardíaco.

— Você o está julgando ao chamá-lo de embruteci­do — observou Laureano. — Graciliano é apenas um ser em crescimento, ainda apegado a falsos valores do mundo. Como todo ser humano, possui um corpo emocional que vibra ao sabor das emoções. É preciso compreender que to­das as pessoas possuem em si sementes de bondade e de crueldade, se quiser chamar assim. Eu, por mim, prefiro chamar de sabedoria e ignorância a umas e outras.

Sustentada pelo marido, Bernadete saiu. Laureano deixou Margarete e Félix a sós, voltando aos seus afazeres.

Venha, minha querida — chamou Félix. — Você teve muitas emoções por hoje.

Preciso de uma bebida — anunciou ela. — Deses­peradamente.

Não, Margarete, tente se controlar.

Quero beber! Minha garganta arde. Por favor, Félix, deixe-me ir. Ela se debateu nos braços dele, que implorou:

Por Deus, Margarete, não faça isso. Vai estragar tudo. Você já está há vários dias sem se colar a ninguém.

Mas agora é diferente. É só hoje. Estou tão comovi­da, tão triste! Só para acalmar a minha dor.

Você não tem motivos para se sentir assim. Já está no mundo invisível há tempo suficiente para compreender a verdade. O que é a vida senão uma ilusão da matéria? A verdadeira vida está aqui, por isso, nosso retorno é recebido com alegria. Apenas os que ficam se deixam levar pela tris­teza, porque não se lembram dessa verdade e pensam que a vida na matéria é a realidade. Mas você não precisa mais da matéria. Não se prenda ao que é ilusão.

Ela começou a chorar, agarrada a ele, enquanto Félix tentava se acalmar, centrando os pensamentos em prece.

É só um pouquinho... — implorou ela.

Vai estragar o processo de desintoxicação e tere­mos que começar tudo de novo. Por Deus, Margarete, quan­do é que isso vai acabar?

Deixe-me ir! — gritou ela com raiva.

Será que você não percebe o quanto eu a amo? Lembra-se do amor de Graciliano por Bernadete? Você viu a luz cor-de-rosa que os envolveu? Tente perceber que o mesmo acontece conosco agora.

Não era a mesma coisa, porque os sentimentos de Félix estavam por demais misturados ao desespero para criar o tom diáfano de rosa que haviam visto antes. Contudo, as pa­lavras dele surtiram efeito e Margarete se acalmou, refletindo no que ele dissera. Ficaram alguns minutos abraçados, o cor­po fluídico dela todo trêmulo. À medida que Félix rezava, tudo ia serenando, até que ela voltou ao seu estado normal.

Pode me soltar — afirmou ela. — Estou mais cal­ma agora.

Tem certeza?

Tenho. A crise passou.

Não vai tentar fugir?

Não. O desejo está sob controle. Eu juro.

E se você estiver tentando me enganar? E se eu a soltar e você fugir?

Se eu quisesse fugir, já o teria feito, porque você não tem preparo emocional para me conter. Se não fugi, foi por causa do que você disse.

Como assim?

Suas palavras me comoveram e confundiram. Estou há tanto tempo com você que nunca me perguntei por quê.

Por que o quê?

Por que você me ajuda tanto? Por que pareço tão especial para você?

Porque a amo, já disse.

Mas por quê? Onde foi que nos conhecemos?

Você não se lembra, não é?

Não... — fez uma pausa, como se puxasse pela me­mória, e prosseguiu: — Espere aí... É isso! Na época da abo­lição... um pouco antes, talvez... Você e eu... fomos casados!

E Marcos era nosso filho.

Uma criança roubada... Nós a roubamos de

Clementina! Agora me lembro... Félix colocou os dedos sobre os lábios dela e arrematou:

Estamos todos envolvidos nas experiências de ou­tras vidas. Mas isso ficou para trás, não pode nos aprisio­nar. Está na hora de levantarmos o pé do passado e seguir adiante. Nós nos culparmos por escolhas imaturas não vai ajudar em nada no momento. Ninguém tem que ser perfeito.

Eu não acho que tenho que ser perfeita.

No fundo acha, como praticamente todo mundo. Pode ser que essa não seja uma ideia consciente ou bem delineada. É mais um sentimento inato, inerente, profundamente arraigado.

Às vezes você me surpreende com a sua sabe­doria. Não entendo por que insiste em permanecer aqui. Por que não vai embora?

Só se você for comigo.

Eu?! Imagine...

Imagine o quê? Nós dois num mundo muito mais bonito e sereno?

Não é isso. Não sei se mereço lugar melhor do que este.

Todo mundo merece.

Ela sorriu com serenidade. Não sentia vontade de revi­ver na mente todos os acontecimentos infelizes que provo­cara no passado. Só o que queria era pensar no seu futuro, na forma como agiria para que tudo fosse diferente. Abraçou Félix com ternura e gratidão. Pela primeira vez em muitos anos, não sentia vontade de beber.

O primeiro dia de aula na faculdade representou o primeiro passo da vitória sobre a miséria. Marcos estava exultante, feliz como jamais pensou que estaria em toda a sua vida. Não fora fácil chegar até ali. Só ele sabia o quanto havia se esforçado para alcançar uma boa nota no vestibu­lar e ingressar na UERJ7.

Primeiro aluno a entrar em sala de aula, sentou-se logo na primeira fila, bem em frente à mesa do professor. Aos poucos, os demais alunos foram chegando e se aco­modando nas carteiras, apresentando-se com animação. Vencendo a timidez, Marcos fez amizade com alguns rapa­zes mais interessados feito ele.

As aulas o encantaram, ele se sentiu muito à vontade naquele mundo intelectual. Apesar de estar numa univer­sidade pública, a maioria dos alunos vinha de uma classe social mais alta, mas nem isso o incomodou. Ali, ele era um estudante como todos os outros, embora um pouco mais velho do que a maioria.

Marcos logo chamou a atenção dos professores pela inteligência e pelo interesse. Estava sempre com a lição na ponta da língua, sabia todas as respostas, estudava com

 

7 UERJ — Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

 

afinco. Embora não fosse esnobe nem tentasse se sobres­sair, era o que acontecia naturalmente. Isso fez com que fosse admirado por uns e invejado por outros, mas sempre respeitado pelos colegas.

Das quatro da tarde às dez da noite, trabalhava como garçom no restaurante de um grande shopping center. Após as aulas, sentava-se com sua marmita para almoçar e de­pois corria para a biblioteca, onde estudava até as três e meia da tarde. Dali, partia para o trabalho, que ficava em Vila Isabel, pertinho da universidade. Como o restaurante era bastante movimentado, as gorjetas, geralmente boas, davam para cobrir os gastos com livros e ajudar a mãe com as despesas domésticas.

Aos domingos, Marcos ia ao culto na igreja pela manhã e estudava até a hora de ir para o trabalho. Somente em seus dias de folga se permitia dar um passeio com a tia ou ir ao cinema com a mãe, apesar dos protestos de Leontina, para quem cinema era uma coisa maligna, inventada pelo diabo para seduzir os homens e levá-los à comunhão com as trevas.

Marcos gostava dos cultos e das orações, mas não era dos mais fervorosos praticantes evangélicos. De um lado in­fluenciado pela tia, que em tudo via pecado, e de outro, pela mãe, que não podia nem ouvir falar em igreja, permanecia no meio-termo. Gostava da Bíblia, mas tinha dúvidas sobre certas proibições.

Era uma vida corrida, mas Marcos não se queixava. Sentia-se feliz por estudar e ter um emprego com carteira assinada que lhe garantia um salário razoável. A mãe não bebia mais. Marcos presenciara muitas crises provocadas pela abstinência do álcool, fora testemunha do esforço que ela fizera para largar a bebida. Demorou, mas ela conseguiu trocar o vício pela realização de seu ideal de criar o filho como pessoa de bem. Embora preferisse não passar pela porta de bares ou botequins, Clementina nunca mais colo­cara uma gota de álcool na boca.

Na segunda-feira, pela primeira vez em sua vida aca­dêmica, Marcos não conseguiu chegar na hora à faculdade. A mãe passara mal de manhã, ele teve que descer à farmá­cia para comprar-lhe remédio e esperar até que ela melho­rasse. Só saiu quando se certificou de que ela estava bem.

Entrou pela porta de trás e sentou-se numa carteira ao fundo, para não atrapalhar a aula. Para seu desagrado, alguns colegas conversavam baixinho, ignorando o professor. Ele apa­nhou o caderno e o livro, tentando se concentrar na aula, ape­sar do murmurinho dos menos interessados em aprender.

— Ei, gente! — sussurrou um rapaz com ironia. — O nerd da turma veio hoje para a cozinha.

Marcos olhou espantado, certificando-se de que era com ele. Nunca antes havia escutado um comentário a seu respeito. Os rapazes abafaram as risadas, continuaram co­chichando coisas que lhe pareceram pejorativas. O sangue subiu-lhe às faces, ele sentiu vontade de responder, mas o respeito ao professor o deteve.

— Não ligue. — Ele ouviu uma voz feminina a seu lado e se virou para ela. — Eles têm é inveja de você.

O rosto da moça era doce, sua voz, suave. Marcos reparou na menina. Chamava-se Raquel, cabelos negros e olhos cor de mel. Ele riu do verso improvisado que criou na cabeça, mas que descrevia bem a encantadora garota que nunca antes lhe dirigira a palavra. Limitou-se a assentir e en­direitou-se na carteira, lutando para prestar atenção na aula perdida. Não conseguiu mais. As palavras do professor de repente lhe pareceram sem importância, irrelevantes ante a descoberta da moça.

Durante o resto da manhã, foi um custo se concen­trar nas aulas. Quando o primeiro tempo terminou, ele foi para a frente, ocupando seu lugar de sempre, a imagem de Raquel seguindo com ele. Na hora do intervalo, viu-a com o namorado, um grandalhão cheio de músculos moldados no levantamento de peso. Tentava não olhar para eles, mas não conseguia. Parecia que, aonde quer que fosse, Raquel e o namorado o seguiam.

— Você não quer arrumar encrenca, quer?

A voz, dessa vez grossa e inquisitiva, retirou-o de seu de­vaneio. Ele fixou o olhar no interlocutor e retrucou com espanto:

O que foi que você disse?

Perguntei se você está tentando arrumar alguma encrenca. Não sabe que Nelson é ciumento? Quem falava era Arnaldo, melhor amigo de Marcos.

Está falando de quê? — tornou Marcos, fingindo-se de desentendido.

Você sabe muito bem. Sentou-se lá atrás na primeira aula e já está apaixonado pela garota do gostosão da turma.

Ficou louco, é? Eu mal conheço a menina.

Mas não tira os olhos dela. Pensa que eu não per­cebi? E, se eu percebi, Nelson também percebeu.

Você está maluco! Não estou apaixonado por ninguém.

Se não está, tome cuidado para não ficar. Não vai dar certo.

Pare com isso, Arnaldo. Você está imaginando coisas.

Raquel não é para você. Ouça o que estou dizendo.

Ah, é? — explodiu ele, sentindo a raiva consumi-lo.

E por que não, posso saber? Só porque ela é branca e eu sou negro? Ou porque ela é rica e eu sou pobre?

As duas coisas.

Marcos abriu a boca, estarrecido. Não acreditava que estava ouvindo aquilo de seu melhor amigo.

Você agora deu para ser preconceituoso?

De jeito nenhum! Não se trata disso. Estou apenas tentando ser realista. Se fosse outra moça, não diria nada. Mas Raquel é namorada de Nelson...

Ah! O problema então não é ela, mas ele.

Dá no mesmo.

Não dá, não.

Você não está entendendo. Gente assim não se mistura com pessoas feito você.

Você se mistura.

Não me confunda com eles. Tenho princípios. E de­pois, não sou rico. Minha família é de classe média, como a maioria por aqui. Mas eles dois, não. O pai de Nelson é desembargador, e Raquel é filha de um cirurgião cheio da grana. Sabe lá o que é isso? Você acha mesmo que pode se envolver com gente assim?

Você está julgando as pessoas. Não os conhece, mas se acha no direito de pensar que elas são preconceituo­sas só porque são importantes e ricas.

Não seja bobo. A família de Nelson é de gente im­portante, metida e arrogante.

Mesmo que eles sejam assim, não tenho nada com isso. Não estou interessado em Raquel.

Percebe-se.

Não precisa ficar de ironia. Eu só troquei duas pa­lavras com ela. Aliás, não troquei palavra nenhuma. Foi ela que falou comigo.

Estou alertando-o porque sou seu amigo e quero o seu bem. Se você tivesse a mínima chance com ela, eu daria a maior força. Mas sei que não tem. Ela vive em um mundo completamente diferente do seu.

Bem se vê o quanto você é meu amigo.

Não posso incentivar um romance que sei que só lhe trará sofrimentos.

Pare com isso, está bem? — esbravejou Marcos, ievantando-se da cadeira. — Não estou interessado em nin­guém e ponto final. Chega de besteira!

O sinal anunciando o término do intervalo soou, e to­dos retornaram à sala. Marcos entrou pela porta da frente, e Raquel, pela de trás. Era por isso que raramente se viam. Ele pertencia ao mundo dos pobretões que contavam com o esforço próprio para ser alguém na vida, enquanto ela, pro­vavelmente, só estudava para ter um diploma universitário e alcançar um status a mais na sociedade.

Durante o resto da manhã, Marcos procurou não pen­sar em Raquel, mas, quanto mais tentava, mais pensava nela. As palavras de Arnaldo ainda ecoavam em sua cabeça. Provavelmente, ele tinha razão em tudo o que dissera. A verda­de era que ele se interessara mesmo por Raquel. Era uma lou­cura, e ele sabia. Raquel jamais olharia para alguém feito ele.

Os pensamentos de Raquel tomavam um rumo oposto ao imaginado por Marcos e Arnaldo. Assim que ela entrou na faculdade, conheceu o bonitão do Nelson e logo come­çaram a namorar. Ele vinha de uma tradicional família de juristas no Rio de Janeiro, ela era filha de um conceituado cirurgião plástico. A atração foi recíproca, e o namoro, bem­-aceito pelas duas famílias.

O pai de Nelson tinha uma vida muito atribulada. Viúvo, dividia-se entre julgamentos no Tribunal de Justiça e as obras doutrinárias que editava. Era um homem correto, embora muito ocupado e desligado das coisas do espírito, principalmente após a morte da esposa, vítima de câncer no útero. Sem tempo para se ocupar de assuntos familiares, não participou ativamente da criação de Nelson, que cres­ceu sem limites, acostumado a ter tudo o que desejava.

Os pais de Raquel eram ambos médicos. Ivone, a mãe, era pediatra, e Ricardo, o pai, cirurgião plástico. Eram pes­soas pacatas, simpáticos às novas ideias de Raquel sobre espiritualidade. A moça não seguia nenhuma religião espe­cífica, mas acreditava no mundo invisível e estava sempre lendo algum livro espírita ou esotérico. Nas horas vagas, envolvia-se em cursos os mais variados: cromoterapia, reiki, astrologia, teosofia, tarô e outros assuntos ligados ao ocul­tismo, sem, contudo, filiar-se a nenhum deles.

O irmão mais velho, Elói, considerava tudo aquilo uma grande bobagem. Não acreditava em espíritos nem em reencarnação, nem em energias invisíveis, ideias muito bem assimiladas por Raquel. Preferia o estudo frio da ciência, sem levar em conta as necessidades da alma, como se tudo não fosse criação de um único Deus. Cursava o último ano de medicina e pretendia seguir os passos do pai. Afinal, para que se esforçar em uma profissão diferente se podia apro­veitar tudo o que o pai já conquistara?

Mesmo com todas essas peculiaridades, o julgamento de Arnaldo estava um pouco distante da realidade. Nelson era um rapaz arrogante, mas Raquel era uma moça doce, preocupada com o futuro espiritual da humanidade. Quando o namoro começou, tudo pareceu uma maravilha. Nelson era um rapaz bonito, inteligente, agradável, simpático e edu­cado. Tudo o que uma garota deseja.

Só havia um porém: sua simpatia e educação estavam restritas às pessoas de seu meio social. Qualquer um que não fizesse parte do clã da riqueza só conhecia seu lado mais sombrio. À medida que Raquel percebeu isso, come­çou a se decepcionar, questionando-se sobre seus reais sentimentos para com ele.

A crescente desilusão com Nelson facilitou a avaliação de Marcos. Ela já o havia notado antes, embora nunca se atrevesse a puxar assunto com ele. Marcos fazia parte da ala intelectual da turma, ao passo que ela fora se envolver justo com os malandros que não queriam nada com estudo. A faculdade nada representava para eles, além de uma sa­tisfação às exigências familiares e uma possibilidade de se exibir para as garotas.

Com Marcos era diferente. Ele era inteligente, bonito, um DOUCO tímido, porém, educado e charmoso. A tez morena, qua­se negra, os cabelos encaracolados e os olhos vivos só não a atraíram mais do que o sorriso cativante, que deixava à mostra, na medida certa, dentes alvos e perfeitamente enfileirados.

Quando Marcos sentou-se nos fundos da sala, Raquel viu naquele primeiro contato a chance que havia tanto esperava. Nelson e os amigos faziam comentários infames sobre ele, deixando-a revoltada. Ele devia desconfiar que era o assunto dos rapazes, porque, em dado momento, seu rosto pareceu se avermelhar, transformando o tom moreno de sua pele em um rubro quase grená.

A beleza exótica da fisionomia de Marcos fez disparar sua respiração. Raquel se pegou olhando fixamente para ele, encantada com seu perfil másculo e bem delineado. Como ele era bonito! Tentou disfarçar o mais que pôde, para não despertar ciúmes em Nelson. Olhava-o de soslaio, à espe­ra de que seus olhares se cruzassem, mas nada aconteceu. Mesmo assim, ela era suficientemente sensível para perce­ber que o havia impressionado.

Na hora do intervalo, ele a seguia com os olhos por todo lado, e ela procurava estar sempre ao alcance de sua vista, porque também olhava para ele de forma quase imper­ceptível. Nelson faria um escândalo se descobrisse, o que não era de seu interesse. Contudo, precisava admitir que já não gostava tanto de Nelson como antes. Será que já não era hora de terminarem aquele namoro?

Ao final do culto de domingo, Marcos voltou para casa de braços dados com a tia, ouvindo-a comentar o sermão daquela manhã. Realmente, foram muito bonitas as palavras do pastor sobre o casamento e a família. Ele falou sobre o compromisso de amor, fidelidade e respeito que o casamen­to impõe, além de sua indissolubilidade.

Não se esqueça, Marcos Wellington, de que Deus não aprova o sexo antes do casamento — ia dizendo a tia.

Não é só porque você é jovem que tem que se envolver com os pecados do mundo. Sei que hoje tudo é muito fácil, as moças estão se perdendo por aí. E os rapazes, então! Acham que fazer sexo é sinônimo de virilidade, quando não

Pense bem nas palavras do pastor. Se você se perder pela fornicação, será culpado aos olhos de Deus, e um pe­cador miserável que se distancia dos conselhos bíblicos não e digno de perdão...

Enquanto ela falava, Marcos pensava em Raquel. Será que ela era virgem? Nelson, na certa, não devia ser. Nenhum rapaz de sua idade era virgem naqueles dias. Só os que abri­gavam no coração as palavras da Bíblia, como ele. E Nelson não fazia o tipo de quem era religioso ou temente a Deus.

A tia continuava sua preleção sobre casamento e virgindade, repetindo as palavras do pastor. Às vezes, ele gostaria de não ser tão religioso e consciente das verdades bíblicas. Se fosse igual às pessoas comuns, não precisaria esconder o desejo debaixo da água do chuveiro. O pastor lhe dissera que a masturbação também era pecado, mas o que fazer com a explosão dos hormônios?

No portão de casa, Marcos se despediu da tia. Pelo resto da noite, seus pensamentos se ocuparam com a lembrança de Raquel. Custou a dormir, pensando nos mo­vimentos dela, que acompanhara durante toda a semana, sem coragem de lhe falar. Tinha que dar um jeito de se apro­ximar dela. Mesmo contra as advertências de Arnaldo, pre­cisava desesperadamente lhe falar.

No dia seguinte, Marcos chegou atrasado novamente. Como da vez anterior, sentou-se numa das últimas fileiras, procurando Raquel pelo canto do olho. Para sua surpresa e decepção, ela não se encontrava na sala, embora Nelson estivesse de cochichos com seu grupinho de sempre. Eles o cumprimentaram com fria educação e continuaram a con­versa paralela.

Marcos tentou se concentrar na aula, sem sucesso, po­rém. Pousou a mochila na carteira ao lado da parede e pôs-se a mastigar a caneta, pensando no que teria acontecido a ela. Quase no fim da aula, ouviu a voz familiar soando a seu lado:

— Tem alguém sentado aqui?

Era ela. O coração de Marcos deu um salto do peito e fez sua garganta engasgar:

— O quê...? Não... Pode sentar...

Ele puxou a mochila rapidamente. Ela se sentou, virou para trás e atirou um beijo para Nelson, que lhe jogou outro. Como não havia cadeiras vagas perto dele, optou por sen­tar-se ao lado de Marcos. Com a mochila no colo, ela olhava para a frente, imóvel.

Chegou atrasado hoje também? — indagou ela, sem se virar para ele. Não queria que Nelson visse que pu­xava conversa com Marcos.

Hã...? Eu... Está falando comigo?

E com quem mais poderia ser? Tem mais alguém aqui, além de você, de um lado, e a parede do outro?

Desculpe-me — murmurou, abaixando a cabeça envergonhado.

Você não é de falar, é?

Não muito.

Que pena.

Quando o sinal anunciou o término da aula, ela se le­vantou apressada, indo ao encontro de Nelson, que a puxou e lhe deu um beijo rápido. Marcos maldisse a si mesmo, jul­gando-se um idiota por ter perdido a oportunidade de con­versar com ela. Apanhou suas coisas e partiu furioso para sua carteira na frente. Jogou a mochila com raiva, sentou-se de braços cruzados.

Nossa! — espantou-se Arnaldo. — O que foi que aconteceu?

Nada — respondeu de má vontade. — Sou um idio­ta, só isso.

A segunda aula começou, depois a outra, e Marcos só saiu da sala na hora do intervalo por insistência de Arnaldo. Da cantina, Raquel olhava insistentemente para o corredor, a fim de ver se Marcos vinha chegando. Não devia ter falado com ele daquela maneira. Ele era tímido, não iria logo se abrindo com ela. Como fora estúpida! Perdera a oportunidade de tra­var uma conversa amistosa e iniciar uma amizade com ele.

O que você tem? — indagou Nelson de repente, enlaçando-a pela cintura.

Nada. Estou com sono. Fui dormir tarde ontem.

De repente, quando Marcos despontou no saguão, ela não conseguiu ocultar a euforia, que o namorado logo percebeu.

O que você tem? — repetiu ele, fitando não Marcos, mas Arnaldo, para quem julgava que Raquel estivesse olhando.

Já disse que estou com sono. Esqueceu-se de que voltamos tarde para casa ontem?

Quando Arnaldo e Marcos passaram próximo a eles, Nelson puxou-a mais para junto de si e anunciou em voz mais alta do que deveria:

— Foi uma noite e tanto, não foi? Transamos feito loucos...

Raquel empurrou-o surpresa, enquanto Marcos e Arnaldo se sentavam a outra mesa.

— Que grosseria, Nelson! — repreendeu ela. — Por que não põe no jornal para todo mundo saber?

Ela lhe deu as costas e partiu apressada para a sala, sentindo que as lágrimas afloravam em seus olhos. E se Marcos tivesse ouvido aquilo?

Por sorte, Marcos não escutara. Estava longe demais quando Nelson falou. Se tivesse ouvido aquela revelação, te­ria ficado tão decepcionado que talvez desistisse de Raquel. Por mais que se questionasse sobre a virgindade dela, ti­nha esperanças de que ela fosse diferente das outras e se mantivesse pura para o marido.

A saída súbita de Raquel atraiu sua atenção, e ele a seguiu com os olhos. Observou a reação de Nelson, que passava a mão na cabeça, aparentemente hesitando entre ir atrás dela e permanecer com seu grupinho de amigos.

— O que será que houve ali? — perguntou Marcos, apontando com o queixo na direção de Nelson. Arnaldo seguiu a direção que ele apontava, depois voltou­-se para Raquel, que entrava no corredor a passos apressados.

— Está tomando conta da vida dos outros? — replicou Arnaldo. — Depois diz que não está interessado nela.

— Não é nada disso. Eu só percebi porque ela saiu correndo.

— Está pensando que eu sou idiota, Marcos? Por que quer se enganar desse jeito?

Marcos abaixou a cabeça, pensando numa desculpa para dar, mas desistiu. Afinal de contas, como seu amigo, Arnaldo devia lhe dar apoio, não o recriminar.

— Quer saber mesmo? Estou interessado na Raquel, sim. E acho que ela também está interessada em mim. Qual o problema?

Problema nenhum.

Se você vai dizer que ela não serve para mim, não precisa. Não preciso que os amigos venham me recriminar.

Puxa, Marcos, desculpe-me! Não era minha inten­ção recriminá-lo. Queria apenas evitar que você sofresse.

Quem foi que disse que vou sofrer? Você não sabe! Por que Raquel e eu não podemos nos dar bem?

Está bem, não precisa ficar aborrecido. Eu não sa­bia que as coisas haviam chegado a esse ponto.

Marcos o fitou desanimado. Na verdade, as coisas não tinham chegado a ponto algum.

Deixe para lá, Arnaldo. Sou eu quem lhe deve descul­pas. Raquel e eu não temos nada, nem amigos somos. Só estou com raiva porque perdi a oportunidade de me aproximar dela.

Você chegou atrasado de propósito, só para sentar perto dela, não foi?

Foi. Ela se sentou ao meu lado, puxou conversa comi­go, e sabe o que eu fiz? Nada. Fui um idiota, fiquei lá, sem sa­ber o que fazer. O sinal tocou, e ela voltou para o Zé Grandão.

Arnaldo riu da comparação. Já ia retrucar quando sen­tiu um esbarrão na cadeira, e Nelson passou com o punho rente ao ouvido dele.

— O último que mexeu com a minha namorada pas­sou três meses no hospital — falou ele entre os dentes para Antônio, um amigo que vinha com ele.

Arnaldo levou um susto, Marcos ficou lívido. Nelson nem se deteve. Seguiu adiante em direção ao corredor, bem na hora em que o sinal anunciava o fim do intervalo.

O que foi aquilo? — indagou Arnaldo, levantando­-se surpreso.

Eu é que sei?

Será que ele ouviu a nossa conversa?

Não sei. Talvez.

Pior é que sobrou para mim, que não tenho nada com a história.

Acho que ele me mandou um recado. Deve ter ou­vido o que dissemos.

Ou então percebeu. Também, você não para de olhar para ela.

Marcos silenciou. Raquel e Nelson não eram casados, mas estavam comprometidos. Não tinha certeza se era direi­to flertar com uma moça comprometida. Talvez fosse melhor esquecê-la e partir para outra. Mas como conseguiria isso, se seu coração já estava irremediavelmente preso ao de Raquel?

Você acredita em amor à primeira vista? — inda­gou, sonhador.

Não. Acredito em desejo e atração.

É isso que você acha que eu sinto por ela? Dese­jo, atração?

Não sei. Diga-me você.

Existem coisas a meu respeito que você desconhe­ce, Arnaldo.

O quê, por exemplo?

Minha religião não permite que eu faça sexo antes do casamento.

Não me diga! — o outro mostrava uma surpre­sa genuína.

Sei que isso parece antiquado, mas é assim que eu acredito que seja o certo. Por isso é que lhe digo que o que sinto por Raquel vai muito além de um simples desejo.

Tudo bem — concordou Arnaldo, meio sem graça.

Se é aquilo em que você acredita...

Você acha isso uma besteira, não acha? Vamos, pode dizer.

Não acho nada, Marcos. Nem tenho o direito de me intrometer na sua vida e falar o que é certo ou errado. Posso apenas dizer que penso diferente.

Você já teve relações sexuais com alguma garota?

Bem... é o normal, não é?

Eu nunca tive. E não me arrependo disso.

Quer dizer que você é virgem?

Até o dia do meu casamento. Você acha que Raquel também é?

Arnaldo tentou desconversar, abafando a vontade de dizer, com todas as letras, que não tinha a menor dúvida de que Raquel não era virgem.

Como é que eu vou saber? — retrucou sem jeito.

Pois eu acho que ela é. Raquel não se entregaria àquele brutamontes.

E se não for? Ele hesitou por uns instantes, até que respondeu indeciso:

Pensarei nisso depois.

Raquel se aborreceu profundamente com o comen­tário de Nelson e não teve dúvidas em demonstrar. Estava sentada ao lado dele, de braços cruzados, olhar carrancu­do. Quando Marcos entrou, ela lhe enviou um olhar rápido, que Nelson percebeu, mas julgou endereçado a Arnaldo.

O que é que está acontecendo, hein? — questio­nou ele, segurando-lhe o braço.

Nada. Quer me soltar? Ele a soltou e tornou com uma fúria contida:

Você está de olho naquele magricela do Arnaldo, não está?

O quê? — tornou ela, com desdém. — Você só pode estar brincando.

Você não para de olhar para ele.

Deixe de inventar coisas. Eu nunca olhei para ele.

Acho bom, ou a coisa pode esquentar.

Você está me ameaçando?

A você, não. A ele. Não vou permitir que nenhum otário paquere a minha namorada. Ele que não se faça de besta comigo.

Deixe de ser idiota, Nelson! — esbravejou ela.

Não vá se meter com o rapaz, que nunca me fez nada.

Eu o vi olhando para você.

Está vendo demais.

E você corresponde.

Essa é muito boa!

Já disse que não vou tolerar isso.

Quer saber de uma coisa, Nelson? — replicou ela entre os dentes. — Vá se danar!

Rapidamente, passou a mão no material e saiu, sem que Marcos percebesse. Era só o que faltava, Nelson cismar com o garoto errado. Coitado do Arnaldo! Não tinha nada a ver com a história e ainda podia acabar apanhando.

Nelson saiu atrás dela, e Marcos percebeu a movimen­tação, porque ele fez um estardalhaço quando se levantou. Pensou em segui-lo, mas Arnaldo o deteve.

— Nem se atreva! — protestou baixinho. — Você não tem nada a ver com isso.

Do lado de fora, Nelson corria pelo corredor atrás de Raquel.

— Por favor, meu bem, perdoe-me. Você sabe o quan­to sou ciumento. — Ela não respondeu. — Fale comigo, Raquel, por favor.

Ela estacou e se virou para ele.

Isso é uma paranóia. Onde já se viu ameaçar um ra­paz que nunca me fez nada? E se ele estivesse me olhando? O que é que tem de mais?

Não gosto que olhem para você.

E eu não gosto que tomem conta da minha vida. Você não é meu marido e, desse jeito, nunca vai ser.

Nelson não deixou que ela continuasse a falar, tapan­do sua boca com um beijo ardente. Raquel achou melhor não resistir. Foi um momento engraçado, diferente. Não ha­via mais desejo nos lábios dela ao tocar os dele. O que sen­tiu foi um misto de repulsa e medo, uma certeza de que a paixão se acabara ali. Como faria para dizer isso a ele sem provocar sua ira?

Nunca mais vou fazer isso — prometeu Nelson. Juro que não vou.

Ela encostou a cabeça no ombro dele e deixou-se ficar, momentaneamente inerte diante da inevitabilidade do fim. Um abismo se abriu entre eles, ela teve vontade de chorar. Subitamente, todo seu corpo estremeceu, um calor gostoso desceu-lhe pela garganta. Agora sabia de tudo: seu coração começou a bater, eufórico, não porque ela estivesse nos bra­ços de Nelson, mas porque acabara de ver Marcos passar.

A sala escura e abafada da mansão dos Silva e Souza causava um certo mal-estar em Afrânio, acostumado a servi­ços ao ar livre. Desde menino sentia-se enclausurado entre quatro paredes e cedo decidira trabalhar em algo que, além de não exigir muitas horas de escritório, lhe facultasse uma mobilidade maior do que o normal. Não fora por outro motivo que, após longo período de reflexão, optara pela profissão de detetive, para desgosto do pai, que sonhava vê-lo forma­do em medicina. Mas Afrânio gostava de estar o tempo todo se movimentando pelas ruas, olhos e ouvidos atentos, atrás de pessoas desaparecidas ou que tinham algo a esconder, como nos filmes de mistério que via na televisão.

A realidade, porém, era um pouco mais obscura. Faltava na profissão o glamour de Hollywood. A carreira, muitas ve­zes, era bem mais perigosa e sórdida, sem o romantismo das fitas de cinema. Mesmo assim, era aquilo de que gostava e o que fazia melhor. Sua dedicação ao trabalho lhe valera re­conhecimento nacional. Muitos eram os figurões que o con­tratavam para investigar a vida conjugal de suas mulheres ou amantes. Pessoas desaparecidas também eram a sua espe­cialidade, e Afrânio ficou pensando em qual dos dois grupos se encaixaria o senhor Graciliano Silva e Souza.

Não suportando mais o abafamento do ambiente, abriu a janela e aspirou profundamente o ar límpido da manhã. No mesmo instante, um ruído na porta anunciou a chegada de Graciliano, que entrou seguido da mulher. Se ele vinha acompanhado da esposa, então, o caso devia ser de desa­parecimento. Afrânio afastou-se da janela e apertou a mão que o outro lhe estendia.

Senhor Afrânio, muito prazer — cumprimentou ele cordialmente. — Esta é minha esposa, Bernadete, e eu sou Graciliano Silva e Souza.

O prazer é todo meu — respondeu ele, apertando levemente a mão de Bernadete.

Por favor, sente-se — pediu ela, apontando para uma poltrona, enquanto os dois se sentavam no grande sofá em frente.

Obrigado.

Os três se acomodaram. Bernadete cruzou as mãos sobre o colo e abaixou os olhos. Parecia profundamente abalada, o que indicava o desaparecimento de um filho ou uma filha. Afrânio tinha experiência suficiente para detectar o sofrimento da mãe nesses casos.

Muito bem, seu Afrânio — Graciliano começou a dizer —, chamei o senhor aqui porque o seu nome foi muito bem recomendado por amigos meus que já se utilizaram de seus serviços e ficaram impressionados com a sua eficiên­cia e discrição.

Obrigado, senhor. Esse tem sido sempre o meu lema.

O senhor não imagina como é embaraçoso para nós termos que nos utilizar dos serviços de um detetive, mas enfim... acreditamos que essa seja a única maneira de con­seguirmos o que queremos. — Afrânio assentiu e continuou

espera, enquanto Graciliano prosseguia: — O senhor deve saber que sou um homem de posses.

Sei que é dono de uma empresa de ônibus.

Exatamente. Como pessoa influente, rica, não pos­so me descuidar e expor a mim e a minha esposa ao pe­rigo de aventureiros sem escrúpulos. Por isso, é de suma importância que o senhor vá fundo na investigação sobre o assunto de que vou lhe falar, para que não sejamos vítimas de nenhum golpista.

Perfeitamente.

Graciliano parou, engoliu em seco e olhou para a mu­lher, que chorava de mansinho, enxugando as lágrimas no seu lencinho de cambraia. Passou a mão pela testa, como se tentasse organizar as palavras, reuniu coragem e retomou a narrativa:

— Nosso filho faleceu recentemente. Era nosso único filho e... — parou, a voz embargada, tomou novo fôlego e continuou: — Estava com trinta e quatro anos, solteiro. Era um rapaz triste, solitário. E era tudo o que nós tínhamos. Afrânio percebia como era doloroso para ele falar a respeito do filho e permaneceu quieto, em silencioso respei­to. Teve que aguardar alguns minutos até Graciliano contro­lar as lágrimas e conseguir imprimir à voz um tom mais claro:

— Acho que nem é preciso dizer como estamos sofren­do, minha esposa e eu — olhou de soslaio para Bernadete, que permanecia imóvel. — Não nos restou mais ninguém na vida. Anderson era nosso único filho e, como não era casa­do, não nos deixou netos legítimos, todavia...

Novamente a pausa dolorosa, mas, dessa vez, os solu­ços de Bernadete se tornaram mais audíveis.

Se o senhor quiser, posso voltar outra hora — su­geriu Afrânio, acostumado a situações de extrema comoção como aquela, em que as pessoas mal conseguiam falar.

Não — objetou Bernadete, a voz surpreendente­mente grave e firme. — Chamamos o senhor aqui com um propósito e não vamos deixar que se vá sem que o conheça. Diga-lhe logo, Graciliano, não aguento mais.

Graciliano encarou-a com desgosto. Era nítido o es­forço que fazia para conseguir manter o controle e narrar sua história sem crises de desespero. Desviou os olhos da mulher e, sem levantá-los, prosseguiu:

— Como disse, seu Afrânio, Anderson não se casou. Contudo, deixou um filho... — nova pausa comovida — um filho cujo paradeiro desconhecemos.

Achando que já era hora de agir, Afrânio sacou um mi­núsculo gravador do bolso e perguntou em tom o mais pro­fissional possível:

Importa-se se eu gravar nossa conversa?

Isso é mesmo necessário? — contrapôs Graciliano.

Vai me facilitar muito. Assim terei certeza de não ter perdido um só detalhe do que me disserem. Às vezes, coi­sas aparentemente sem importância são as que possibilitam grandes descobertas.

Muito bem. Se é essencial, vá em frente.

Afrânio acionou o botão do gravador e o posicionou na mesinha de centro, voltado para o casal.

Podem prosseguir, por favor — pediu ele.

Como eu ia dizendo — Graciliano voltou a falar —, temos um neto, filho de Anderson, que não sabemos onde está. Não fazemos a menor ideia do seu paradeiro.

E a mãe dele? — Afrânio indagou.

— A mãe dele foi empregada em nossa casa — Graciliano respondeu baixinho, como se sentisse vergonha do que estava dizendo.

Ela foi nossa empregada quando Anderson era ain­za um menino inexperiente — completou Bernadete, apa­rentemente mais desprendida do pudor que parecia tolher o marido. — Suspeitamos até que foi ela quem o iniciou como homem, mas isso não vem ao caso. O fato foi que ela en­gravidou, e nós a expulsamos de casa. Depois disso, nunca mais ouvimos falar dela.

Veja bem, seu Afrânio, não quero que pense que não somos pessoas de bem — justificou Graciliano. — Nós apenas ficamos surpresos, essa foi nossa primeira reação. Depois nos arrependemos, mas já era tarde demais.

Você nunca se arrependeu — tornou Bernadete com raiva. — Só agora, que Anderson morreu, é que você voltou a pensar no menino e em Margarete. Só porque não temos uma descendência, e você não quer morrer sem herdeiros!

Não é justo me acusar. Você foi a primeira a rejeitar a criança, porque era negra.

Anderson sempre foi um menino frágil. Contraiu vá­rias pneumonias e queria conhecer o filho, com medo de morrer, mas você não permitiu. Até que um câncer o levou...

Ela se calou, sufocada pelos soluços. Como a conver­sa tomava um rumo constrangedor, Afrânio interveio:

Peço que não briguem nem se incomodem com a minha opinião a respeito do que fizeram ou deixaram de fazer. Minha função é ouvi-los sem emitir nenhum juízo de valor. Estou aqui para ajudá-los no que me pedirem, não para julgá-los.

Perdoe minha mulher, seu Afrânio — retorquiu Graciliano. — Ela não se conforma por ter perdido o único filho. Retomando o assunto, Margarete, a empregada, teve o filho e, como nós não o aceitamos, sumiu no mundo. Não fazemos ideia do lugar para onde foi, nem onde está moran­do, nem se está viva. Nem sabemos se o menino sobreviveu.

Sei. Entendo que a situação é difícil e dolorosa, mas preciso saber, em detalhes, tudo o que aconteceu, desde o dia em que descobriram que a criança era sua neta.

Margarete aindatrabalhava para nós — foi Bernadete quem contou. — Um dia, apareceu grávida. Como não des­confiávamos de nada, prometi ajudá-la. Depois, Anderson nos disse a verdade...

Com riqueza de detalhes, Bernadete contou tudo a Afrânio, que ouviu em silêncio, impassível, sem fazer comentários ou críticas. Não era sua função julgar, não se importava com os motivos que levavam as pessoas a agir de formas estranhas. Era pago para resolver o caso, essa era a única coisa que realmente lhe interessava.

Quando ela finalmente terminou, Afrânio pensava por onde poderia começar, já que eles não sabiam nem em que direção Margarete havia partido.

— A senhora disse que o nome dela é Margarete. Margarete de quê?

— Margarete Cândida da Fonseca, nascida aqui mes­mo em Belford Roxo, no dia 13 de janeiro de 1960. É só o que sabemos dela.

— Não têm o endereço?

— Ela não forneceu nenhum.

— Como foi que a senhora a descobriu?

— Ela veio recomendada por uma conhecida, que estava de mudança para a Austrália e ficou com pena de deixá-la desempregada.

— E essa conhecida? Será que é possível falar com ela?

— Após tantos anos, perdemos o contato.

— Podemos tentar localizá-la pela internet. Talvez ela se lembre de alguma coisa.

— Se o senhor acha que é possível, lhe darei o nome dela. Bernadete apanhou um bloquinho, anotou o nome da mulher e entregou-o a Afrânio.

— Obrigado — ele leu e guardou o papelzinho na car­teira. — Margarete não deixou nenhum documento?

— Não.

— Nem uma carteira de trabalho?

— Bernadete lhe pediu a carteira de trabalho, mas ela disse que não tinha, porque não sabia ler e nunca se inte­ressou em tirar — esclareceu Graciliano. — Ela mal sabia escrever o seu nome, e Bernadete não insistiu.

— Imagino que não possuam nenhuma foto dela, não é mesmo?

— Só uma, que Anderson escondeu muito bem — in­formou Bernadete. — Mas também não está muito boa.

A foto, amassada nas mãos de Bernadete, estava com ela desde o início. Passou o retrato às mãos de Afrânio, que a pegou e disse, desanimado:

— Está muito escura, quase não dá para ver nada.

A fotografia mostrava Margarete com o espanador na mão, tirando pó da estante de livros de Anderson, aparente­mente surpreendida pela máquina fotográfica. Não era mui­to, mas era o que tinha para começar.

Só mais uma pergunta — falou Afrânio. — Sabem a data em que o menino nasceu?

Não — respondeu Graciliano. — Mas deve ter sido por volta do começo de agosto de 1987.

Muito bem. O que me deram vai ter que bastar por enquanto. Farei relatórios semanais aos senhores, quan­do então acertaremos os pagamentos. Até lá, qualquer novi­dade, qualquer coisa de que se lembrem, por favor, entrem em contato. Acredito que têm todos os meus dados, não?

Sim, temos.

Está bem, então. Obrigado por terem me escolhido e não se preocupem com nada. O caso de vocês está em boas mãos. Asseguro-lhes que encontrarei essa moça e o filho dela, tudo dentro da mais alta discrição.

Obrigado, detetive — finalizou Graciliano, esten­dendo-lhe a mão. — É importante que ninguém saiba que estou procurando um neto desaparecido, ou muitos virão bater à minha porta dizendo-se filhos de Margarete.

Hoje em dia as coisas não são tão fáceis assim. O teste de DNA está aí para desmascarar os aproveitadores mentirosos.

Mas o desgaste emocional e financeiro vai ser mui­to grande. Minha esposa e eu não queremos passar por mais do que já passamos.

E compreensível. Bem, como disse, não há com o que se preocuparem. Como profissional competente, o sigi­lo faz parte da minha profissão.

Obrigado, seu Afrânio. Tenha um bom dia.

Bom dia — repetiu ele.

Confiamos no senhor — afirmou Bernadete, aper­tando-lhe as mãos. — Eu quero muito encontrar esse neto. É o único pedaço do meu filho que nos restou.

Afrânio deu-lhe um sorriso encorajador e saiu com a foto no bolso, pensando por onde iria iniciar aquela investiga­ção. Os dados de que dispunha não eram muitos, mas, ainda assim, esperava que não fosse difícil encontrar a moça, se ela estivesse viva. Tudo acontecera havia muito tempo, lugares e pessoas mudavam no decorrer dos anos. Seria muita sorte encontrar alguém que ainda se lembrasse de Margarete.

A primeira coisa que fez quando voltou a seu escritório foi procurar no computador o nome da mulher que indicara Margarete. Procurou em tudo, desde blogs pessoais até si­tes de relacionamento, tanto no Brasil quanto na Austrália. Nada. Se a mulher vivia, não acessava a internet.

Foi adiante nas buscas e depois de alguns dias re­cebeu a certidão de nascimento de Margarete, localizada por um site especializado em certidões do Registro Civil. Descobriu que os pais dela haviam morrido muitos anos atrás, e ela não tinha mais nenhum parente vivo. Onde é que uma pessoa sem dinheiro nem família, sozinha e abandona­da, com um filho pequeno no colo, ia se refugiar?

O jeito era ir perguntando aos vizinhos, principalmente aos comerciantes. Com um pouco de sorte, alguém daquela época ainda estaria por ali e poderia se lembrar. Tinha uma foto precária, pouco nítida, escura. Escaneou-a e abriu-a no photoshop, onde conseguiu clareá-la e torná-la um pouco mais nítida. Tinha que servir.

Seria uma noite longa e difícil, mas Raquel já havia to­mado uma decisão. Não adiantava mais levar avante o na­moro com Nelson se seus pensamentos estavam ligados em Marcos. Aguentara o máximo que pudera, não dava mais para enganar a si mesma. Nelson começava a pertencer ao passa­do, enquanto Marcos ia dominando todos os seus momentos presentes e preenchendo os sonhos do seu futuro.

Encontraram-se num barzinho na Barra da Tijuca. Quando ela chegou, ele já estava sentado, bebendo um copo de chope, e se levantou para beijá-la. Raquel aceitou

o beijo sem maior entusiasmo e sentou-se defronte a ele, pedindo um guaraná.

É só isso que vai beber? — perguntou Nelson, espantado.

Nada de álcool. Estou dirigindo. E você também não devia beber.

E daí? Estou acostumado — ele deu um gole e in­dagou: — Não quer sair para dançar?

Não. Daqui, vou direto para casa.

Por quê? O que aconteceu?

Ela alisou a borda do copo com o dedo, até que tomou coragem e olhou-o de frente:

— Tenho algo importante a lhe dizer.

Sentindo a tensão nas palavras dela, Nelson intima­mente adivinhou o assunto, mas não disse nada. Não queria acreditar. Ela abaixou momentaneamente os olhos, sentindo a tensão no ar. Quase desistiu, mas, pensando em Marcos, a coragem retornou. Encarou-o novamente e, sem muito pensar, disparou:

— Nós dois não estamos mais dando certo, Nelson. Acho que chegou a hora de terminarmos.

Nelson deu um gole grande no chope, enxugou os lá­bios com a mão e retrucou, sem conseguir ocultar o tom de revolta na voz:

— Porquê?

— Porque eu... bem... não dá mais...

— Isso você já disse. Quero saber por quê. Eu fiz algu­ma coisa de que você não gostou?

— Você não fez nada.

— Então o que é? Não gosta mais de mim?

— Gosto... como amigo.

— Como amigo... — repetiu ele com desdém. — Que papo-furado, Raquel! Você está terminando comigo porque se apaixonou por outro, não foi? Ela sentiu um certo constrangimento, sem, contudo, se deixar intimidar. Não era culpa sua se não gostava mais dele nem lhe devia explicações sobre seus sentimentos. Eles não eram casados nem ela lhe pertencia. Podia fazer o que quisesse.

— Escute aqui, Nelson — tornou ela em tom mais con­fiante —, estou sendo honesta com você. Acho-o um cara legal, que não merece ser enganado. Mas não gosto mais de você, não quero mais namorar você. Se me apaixonei por outro, não interessa. O que interessa é que o nosso namoro acabou. Podemos ser amigos, mas nada além disso.

— Não quero a sua amizade.

— É o que posso lhe oferecer, de coração. Se você não quer, sinto muito.

— Quero você.

— Não dá mais, já disse.

— Você não pode me deixar assim. E todos os nos­sos momentos?

— Foram muito bons, vou me lembrar com carinho de cada um deles. Mas já passou.

— Você está é doida para dar para aquele cara, não é? — revidou ele, com tanta raiva que ela chegou a sentir um leve mal-estar.

— Vou ignorar o seu comentário vulgar. Aliás, é só o que você vem fazendo ultimamente. Virou um grosseirão.

— Para ver a que ponto você me levou.

— Ah! A culpa agora é minha.

— Você é que está me deixando por aquele magricela.

— Não o estou deixando por ninguém! Será que você não pode aceitar que uma mulher não goste mais de você? Ou o seu orgulho é tão grande que não admite perder?

— Perder? Para um nerd magricela? Era só o que me faltava. Aquele Arnaldo não é ninguém, nem se compara co­migo. Só uma louca feito você para me trocar por ele.

— O seu ego é tão grande que nem cabe dentro do pei­to. Você pensa que é o melhor homem do mundo, não pensa?

— Posso não ser o melhor do mundo, mas melhor do que ele eu sou, com certeza.

— Quanta besteira! Pois fique sabendo que Arnaldo é um sujeito bem melhor do que você. Pelo menos não é esnobe nem vulgar. É inteligente, simpático e agradável. Jamais diria a uma mulher as barbaridades que você diz.

Raquel nem sabia por que estava elogiando Arnaldo. Nunca trocara sequer duas palavras com ele nem tinha re­parado na sua existência até Nelson cismar com ele. Na ver­dade, usava o nome dele para referir-se a Marcos, porque era nele que pensava ao dizer aquelas coisas.

Você não sabe a encrenca em que está se metendo revidou Nelson entre os dentes.

Vai querer me vencer na base da ameaça? É isso que está tentando fazer?

Não a estou ameaçando. Já disse que jamais lhe faria nenhum mal. Não sou covarde, não agrido mulheres. Mas aquele Arnaldo vai se ver comigo!

Quanta ignorância! Está culpando alguém que não tem nada a ver com isso. Nem Arnaldo, nem ninguém é res­ponsável pelo término do nosso namoro. Sou eu que não gosto mais de você.

Até ontem, não foi isso que pareceu. Tive a impres­são de que a deixei bastante satisfeita na cama.

Lá vem você de novo com suas vulgaridades. Sexo não tem nada a ver com amor.

Tem sim.

No nosso caso, não.

O que você quer dizer com isso? — enfureceu-se.

Ela se arrependeu no mesmo momento em que falou, mas já era tarde demais.

Olhe, Nelson, vamos deixar isso para lá — objetou em tom mais ameno. — Nós dois estamos nos exaltando e acabaremos dizendo coisas das quais nos arrependeremos depois. Gosto de você, mas não como namorado. Pronto, é só isso. Não precisamos ficar discutindo, isso não vai levar a nada. Só vamos nos aborrecer e nada resolveremos. Eu estou decidida a terminar, nada vai me fazer voltar atrás.

Tudo por causa do Arnaldo, não é? Vamos, confes­se. Você me deve ao menos isso. É por causa dele ou não que você está terminando tudo?

Não. Posso lhe garantir que não.

Mas então, por quê?

Já disse por quê. Não vou ficar me repetindo.

Por um momento, os olhos cheios de água de Nelson a sensibilizaram, quase fazendo-a voltar atrás, mas a lembrança de Marcos novamente a fortaleceu, mantendo-a impassível.

Tem certeza? — perguntou ele, alternando a raiva e a dor na sua voz.

Tenho.

Não vai se arrepender depois? Porque, se você se arrepender, vai ser tarde demais. Não vou aceitá-la...

Não vou me arrepender — cortou ela. — Estou se­gura do que quero.

Está bem. Você é quem sabe. Mas depois não ve­nha me pedir para voltar.

Não vou pedir, não se preocupe — ela deu um úl­timo gole no guaraná e se preparou para sair. — Acho que já vou indo.

Nelson balançou a cabeça, mal contendo o ódio. Ela abriu a bolsa para retirar a carteira, mas ele a impediu:

Você nunca teve que pagar nada comigo. Não vai ser agora que vai precisar.

Está bem — disse ela, guardando a carteira de vol­ta e apanhando a chave do carro. — Obrigada. Espero que não haja ressentimentos entre nós.

Não haverá — mentiu ele, pois o ressentimento já estava instaurado.

Bom, é isso. Então tchau.

Tchau... — ela se afastou, e ele completou a frase:

Cachorra.

Raquel chegou ao carro trêmula. Não fora tão fácil quanto esperava, mas deu tudo certo. Por mais que Nelson tivesse ficado revoltado, a raiva aos poucos ia passar, ele logo a esqueceria. Era um rapaz bonito, muito cobiçado pelas garotas. Não teria dificuldade em encontrar uma nova namorada.

Ela não sabia o quanto estava enganada e desconhe­cia o quanto ele podia sentir-se magoado.

Enquanto isso, Marcos era atendido no hospital do Andaraí, onde fora diagnosticada dengue. Tratado e medi­cado, foi mandado para casa, orientado a manter repouso absoluto e ingerir bastante líquido. Durante uma semana, não poderia ir à faculdade nem ao trabalho.

Acompanhado da mãe e da tia, Marcos retornou para casa ainda com fortes dores no abdome, embora a febre começasse a ceder. Clementina o acomodou no sofá e co­locou as cobertas sobre ele.

Quer que ligue a televisão? — indagou ela gentil­mente, alisando-lhe os cabelos.

Não. Só quero dormir.

Muito bem, durma então.

Ele se ajeitou e ainda teve tempo de perguntar, antes de ferrar no sono:

Mãe, você liga para o meu trabalho?

Pode deixar, ligo sim.

E avisa o Arnaldo também?

Aviso. Agora descanse. Nem precisou repetir. Na mesma hora, Marcos adormeceu. Na segunda-feira, quando Raquel chegou à faculdade, procurou um lugar na frente, para ficar mais perto de Marcos, só que a carteira dele permaneceu vazia durante toda a ma­nhã. A todo instante, ela olhava para a porta, na esperança de vê-lo entrar, frustrando-se sempre que outro aluno surgia.

Mais atrás, Nelson se roía de ciúmes e despeito. Não tirava os olhos de Raquel, julgando que ela olhava insisten­temente na direção de Arnaldo. Quando alguém fez uma pergunta ao professor, Arnaldo se juntou à discussão aca­dêmica, virando-se para trás para melhor argumentar com o outro aluno. Naquele momento, os olhos dele se cruzaram com os de Raquel, e Arnaldo deu-lhe um sorriso amistoso, que ela correspondeu com ansiedade.

Em seu lugar, sem nada perder, Nelson partiu a ca­neta ao meio, derramando tinta azul sobre o caderno e manchando a mão. Nem se incomodou. Queria que aquela caneta fosse a cabeça de Arnaldo, e aquela tinta, o seu san­gue derramado.

Decepcionada, ansiosa, Raquel não sabia o que havia acontecido a Marcos. Queria perguntar a Arnaldo, mas tinha vergonha. Afinal, nunca conversara com ele. Quando ele se virara para trás para falar com o colega, ela quase o interpe­lou, mas achou que seria inadequado fazer-lhe perguntas pessoais em meio a uma aula tão importante.

Tentou acercar-se dele na hora do intervalo, mas não conseguiu. Arnaldo saiu com o professor, expondo suas ideias entusiasticamente, e ela perdeu a coragem de se aproximar. Mas, quando Marcos não apareceu no dia se­guinte, Raquel finalmente decidiu que iria falar com Arnaldo. Esperou o intervalo e postou-se atrás dele na fila da cantina.

Oi — cumprimentou ela, tocando-lhe o ombro.

Ah! — fez ele, surpreso. — Oi.

Você por acaso sabe o que houve com o Marcos? Ele não tem vindo à aula...

Ele está com dengue.

Uma gritaria de calouros abafou a voz do rapaz, obri­gando-a a aproximar os lábios do ouvido dele e quase gritar:

— O quê?

Ele está com dengue — repetiu Arnaldo, também ao ouvido dela.

Com dengue? — repetiu. — Coitado!

É. Vai ficar a semana toda de repouso.

Que pena! Chegou a vez de Arnaldo, que se desligou dela e fez o pedido. De tão decepcionada, Raquel perdeu a fome e voltou para a sala, passando por Nelson, que precisou ser contido pelos amigos para não agredir Arnaldo.

Cachorra! — rugiu ele. — Mentiu para mim. Disse que não tinha interesse no magricela e estava lá, de papo com ele.

Calma, Nelson — aconselhou Paulo, um dos rapa­zes. — Eles não estavam fazendo nada de mais.

Eles estavam juntos! — insistiu Nelson, que só via o que queria ver. — Eu os vi sussurrando no ouvido um do outro.

Também acho — incentivou Antônio, outro ami­go. — E ela bem estava com a mão no ombro dele.

Os dois estão disfarçando — prosseguiu Nelson, cego pelo ciúme. — Aposto como se encontram longe da­qui, para eu não ver.

Que motivos ela tem para enganar você? — ponde­rou Paulo. — Vocês já não terminaram?

Ela me garantiu que não foi por causa do magri­cela. Mentirosa! Agora vejo que foi.

Paulo ia protestar, mas o sinal chamou-os de volta à sala. Durante o resto da manhã, Raquel permaneceu calada, e Arnaldo, concentrado nas aulas. Foi assim pelo restante da semana. Com Marcos doente, ela não via muita graça na faculdade. Queria não pensar nele, mas volta e meia pega­va-se com a imagem dele flutuando em seus pensamentos. Nem ela mesma entendia por que se interessara tanto por ele. Marcos era um rapaz bonito, não tanto quanto Nelson, mas tinha o olhar inteligente e bondoso. Ela estava realmen­te muito interessada nele.

 

A dengue foi embora, e Marcos retomou sua vida. Chegou cedo à faculdade, sem saber que Raquel esperava por ele no hall de entrada dos corredores. Ela estava com umas amigas, e ele passou sem notar sua presença. Entrou na sala ainda vazia, ocupou a carteira de sempre. Logo de­pois, Raquel entrou e tomou o lugar ao lado dele.

Será que posso me sentar aqui? — indagou, e Marcos levou um susto ao constatar que era ela.

Fique à vontade — respondeu ele, completamente desconcertado.

O dono do lugar não vai reclamar?

Acho que os lugares não têm dono. São de quem chegar primeiro.

Ótimo! — alegrou-se ela, sentando-se com a mo­chila no colo.

Marcos estava confuso e feliz ao mesmo tempo, embo­ra não compreendesse por que Raquel resolvera se sentar ao lado dele, longe do namorado. Arnaldo lhe dissera, ao telefone, que ela perguntara por ele, mas ele interpretara o fato como um gesto de mera polidez.

Você não costumava se sentar lá atrás? — sondou ele.

Eu o incomodo sentando-me aqui? — revidou ela, fazendo menção de se levantar.

Não, de jeito nenhum! — protestou ele, apressada­mente. — Eu só estranhei. O seu namorado pode não gostar.

Ele não é mais meu namorado.

 

O coração de Marcos deu um pulo. Ele quase engas­gou, mas conseguiu manter o tom da conversa:

Jura?

Preciso jurar?

Desculpe-me, é só maneira de falar.

Eu sei, estou brincando. E você, está melhor? Soube que teve dengue.

Estou bem, agora.

Se tivesse seu telefone, eu mesma teria ligado para saber como você estava.

Meu telefone? — tornou ele atônito, desacostuma­do de abordagens tão diretas.

É, telefone. Você não tem um na sua casa?

Na verdade, não — confessou ele, já que não sabia e não queria mentir.

Por quê? O que seus pais têm contra o telefone?

Ele ia responder, mas o professor entrou, com Arnaldo logo atrás. O amigo sentou-se na carteira do outro lado, cum­primentou Raquel com um sorriso, olhando para Marcos de soslaio. Ficaram praticamente sem se falar até o intervalo. Saíram juntos para a cantina, onde Raquel se sentou a uma mesa com Marcos.

A cachorra continua disfarçando — constatou Nelson, que a vigiava a distância. — Fica de papo com o amiguinho dele para eu não desconfiar.

Acho que você está ficando paranóico — observou Paulo. — Só o que vejo é uma garota conversando com um colega de turma.

Nelson tentou se desligar de Raquel, interessando-se na conversa sobre futebol dos amigos. De vez em quando, fitava-a pelo canto do olho, sentindo imenso alívio por não ver Arnaldo por perto.

Sentados à mesma mesa, Marcos e Raquel continua­vam a conversar.

— Você ainda não me disse por que não tem telefone na sua casa — lembrou ela.

Marcos ficou confuso. Durante todo o tempo em que pensara em Raquel, não se preparara para aquele momen­to. O que mais queria era conversar com ela, contudo, não sabia como lhe falar sobre si mesmo. Apesar da enorme di­ferença social que existia entre ambos, não pretendia iniciar um relacionamento, mesmo que de amizade, sustentado em mentiras. Tinha que lhe contar que era pobre e morava no morro, mas não tinha coragem, com medo de que ela se decepcionasse e desistisse dele.

Marcos não estava acostumado a mentir. O pastor ensinava que o melhor caminho para o coração era o da verdade. Com essa certeza, engoliu a vergonha e, de olhos baixos, admitiu:

Minha família é muito pobre. Não temos telefone. Ela se surpreendeu, mas não deixou transparecer.

E você não tem celular?

Tenho.

Com um sorriso encantador, Raquel tirou seu celular da bolsa e gravou o número dele na memória do aparelho. Ainda aturdido, ele sacou o seu do bolso e fez o mesmo. Estava espantadíssimo com o fato de ela não ter encerrado a conversa ao saber de sua pobreza e ainda estava interes­sada em ter o seu celular.

— Você mora aqui por perto? — prosseguiu ela.

Outra pergunta difícil de responder. Dizer a ela que morava no morro não devia ser motivo de vergonha, mas era. Por isso, optou por uma meia verdade:

— Moro na Tijuca.

— Sério? Eu também. Que coincidência, não?

— Verdade.

— E os seus pais, o que fazem?

— Minha mãe é faxineira — falou ele humildemente, sentindo o rosto arder de vergonha. — E meu pai nos aban­donou há alguns anos. Percebendo o seu embaraço, Raquel tocou de leve a sua mão e falou com simpatia:

— Não precisa ficar constrangido. Não vejo nada de mais em sua mãe ser faxineira.

— Não?

— Não. Nem me incomoda o fato de você ser pobre. Afinal, ninguém precisa de dinheiro para ter um amigo.

— Só você pensa assim. A maioria das pessoas me discriminaria se soubesse que minha mãe é faxineira.

— Arnaldo sabe?

— Ele não é como os outros. É meu amigo.

— Posso ser sua amiga também.

O sorriso dela era verdadeiro, deixando Marcos mais à vontade para falar sobre sua vida.

Você é diferente. Segue alguma religião?

Não. E você?

É importante ter uma religião. É o que nos dá sus­tentação para enfrentar os dissabores da vida.

Talvez eu não tenha tantos dissabores assim, por isso, não me interesse muito por religião. Mas gosto de ler e compreender os mistérios da vida.

Como alguém pode compreender os mistérios da vida, além de Deus, é claro?

Deus não é alguém, por isso, não conta. E pode­mos não compreender tudo, mas temos que buscar um ca­minho. Você não acha?

Acho que importante é o caminho da religião.

Muito bem. E qual é a sua?

Sou evangélico.

Estava ficando difícil, mas Raquel sorriu. A razão di­zia que ela e Marcos jamais dariam certo como namorados.

Ainda assim, não queria desistir dele. Mesmo com tantas diferenças, sentia-se cada vez mais atraída por ele.

Acho legal você ter uma religião — disse ela com cuidado. — E acho também que, com respeito, é possível conviver com todas.

Você é ecumênica, então?

Não necessariamente. Digamos que eu apenas respeito tudo e todos.

Mas não segue religião nenhuma.

Isso é tão importante assim para você?

Era muito importante, mas, naquele momento, Raquel tinha mais importância do que tudo. As diferenças que ela reconhecia, ele também detectava. Contudo, assim como Raquel, Marcos não queria desistir de se conhecerem.

— É importante, mas não é obstáculo à nossa amiza­de — concluiu ele. Quando o sinal tocou, os dois voltaram para a sala de aula rindo e encontraram Arnaldo lendo um livro.

— Por que não foi se juntar a nós na cantina? — per­guntou Marcos, sentando-se ao lado dele.

— Preferi ficar aqui lendo — respondeu ele, piscando um olho para Marcos, no exato instante em que Nelson en­trava na sala pela porta da frente.

É claro que ele pensou que a piscadela havia sido en­dereçada a Raquel. O ciúme e o preconceito embotavam seu raciocínio, impedindo-o de perceber o romance nascen­te entre Raquel e Marcos.

Uma amizade se formou entre os três. Raquel e Marcos sentiam-se cada vez mais atraídos um pelo outro, mas ela também gostara de Arnaldo, vendo nele um bom amigo.

A paixão aumentava a cada dia, contudo, Marcos ain­da resistia em entregar-se completamente. A falta de religião de Raquel era um problema. Ele precisava convertê-la, com calma e sabedoria, embora não soubesse como fazê-lo.

Talvez fosse melhor pedir conselhos à tia. Essa ideia o animou um pouco mais, embora ele não estivesse bem certo sobre a conveniência de lhe falar sobre Raquel. Talvez fosse melhor contar primeiro à mãe. Foi o que fez. Ao voltar para casa depois do trabalho, abriu-se com ela.

Eu, no seu lugar, não comentaria nada com a sua tia discordou Clementina. — Ela não vai aceitar essa moça.

Por quê? — indignou-se Marcos.

Porque ela não é evangélica, e você sabe como a sua tia é carola.

Raquel é uma boa pessoa. Tenho certeza de que vocês vão gostar dela.

Eu vou gostar, não tenho dúvida. Mas Leontina é cheia de esquisitices. Vai dizer que a menina não serve para você, que é uma perdida, uma herege e sabe-se lá o que mais.

Raquel não é nada disso! É uma moça de família, estudante como eu. E depois, não vou pedir a aprovação de tia Leontina. Quero apenas que ela me ajude a convencer Raquel a se tornar evangélica também.

Você acha que isso vai dar certo, meu filho? Você mesmo disse que ela se interessa por essas coisas de ocul­tismo. Será que vai aceitar a sua religião?

Por que não? É uma religião muito boa. E ela diz que procura verdades. Onde mais poderia encontrá-las, a não ser na Bíblia?

Clementina suspirou e coçou a cabeça, pensando que errara em deixar que a irmã influenciasse tanto o filho com aquela coisa de religião. No fundo, só permitira para se ver livre da insistência de Leontina, que, com as atenções volta­das para o sobrinho, não lhe cobraria mais que frequentasse os cultos. E fora exatamente isso que acontecera.

Não estou dizendo que a religião não é boa — disse cautelosamente. — Não é isso. Mas será que é aconselhável tentar forçar a moça a seguir um credo que não é o seu?

Mas ela não tem credo algum! Ela mesma disse.

Ela deixou bem claro que não gosta de religião. Sendo assim, acho que você pode deixá-la aborrecida se insistir com essa ideia. Ninguém gosta de ser pressionado.

Mas, mãe, como vou poder namorá-la, se ela não for da minha religião?

Quem foi que disse que ela tem que ser da sua religião?

O pastor aconselha...

O pastor aconselha, mas não obriga. É por isso que desisti dessa coisa de igreja — desabafou ela. — Já não aguentava mais o pastor e sua tia me dizendo o que eu podia ou não fazer. Acho que cada um tem que dirigir a própria vida.

Mas o pastor tem o dever de nos orientar!

Orientar é uma coisa. Ditar ordens é outra, bem diferente.

Marcos estava confuso. Nunca ouvira a mãe falar da­quele jeito, mas agora compreendia por que ela havia se afastado da igreja.

Você acha melhor então não falar nada com tia Leontina? — questionou ele.

Acho. E não é só por esse motivo. Você disse que ela é uma moça branca e rica. Você já pensou nas conse­quências disso?

Que consequências?

Eu, particularmente, acho que isso não vai dar cer­to. Duvido que os pais dela o aceitem, sendo negro e pobre. Acho que vão proibir o namoro.

Você os está julgando, e as Escrituras dizem que não devemos julgar.

Posso estar julgando, mas o que falo é baseado na experiência. Não quero que você sofra.

Vou assumir esse risco.

Pense bem antes de tomar qualquer atitude. Vocês ainda não iniciaram nenhum romance. Será que não é melhor deixar as coisas assim? Não podem ser somente amigos?

Eu... estou apaixonado... E acho que ela também.

Valha-me, Deus! O que será de você, meu filho?

Deus há de me ajudar, mãe.

Confie somente em Deus nesse momento, então — sugeriu ela. — Ao menos Ele não vai recriminar você.

Marcos ficou desanimado. Queria muito a ajuda da tia, mas a mãe tinha razão. Se Leontina desaprovasse Raquel, ele perderia o sossego e talvez nem conseguisse iniciar o namoro. Talvez o melhor fosse desistir de Raquel e procurar uma moça entre as muitas de sua igreja, mas o que fazer com a paixão?

Clementina também estava preocupada. Desde que Romualdo se fora, perdera sua fé. Não. A verdade é que nunca a tivera. Acomodara-se na igreja por influência de Leontina. Em determinados momentos, tinha mesmo rai­va do pastor, de suas proibições, da filosofia de que tudo era feio, errado, pecado. Se não dizia nada, era para não desagradar o filho e manter a paz na família.

Os conselhos que dera a Marcos Wellington não ti­nham nada a ver com religião, mas com a realidade da vida. As pessoas, em geral, têm preconceito de tudo: ou porque fulano é pobre, ou gordo, ou gay, ou macumbeiro, ou ne­gro, ou mora no subúrbio, ou é mulher, ou não sabe ler, ou é feio, ou tem AIDS, OU tem um emprego humilde, ou tantas outras coisas. Tudo para justificar a dificuldade de aceitação delas próprias no mundo.

Com tantas separações impostas pela sociedade, que futuro teria Marcos Wellington ao lado de uma menina fei­to aquela que ele acabara de descrever? Como se ouvisse seus pensamentos, Marcos retrucou:

Isso vai mudar, mãe. Estou estudando para ser um bom advogado e tirar você e minha tia deste morro. Aí, vou poder namorar Raquel sem maiores problemas.

Você está se iludindo.

Eu vou ter dinheiro. Isso vai calar a boca e o pre­conceito das pessoas.

Clementina não disse mais nada. Queria evitar discus­sões desnecessárias com o filho. Se fosse religiosa, rezaria para que ele não sofresse. Como não era, podia apenas em­prestar-lhe o seu coração de mãe e pedir a qualquer força que governasse o mundo para olhar por ele. Isso não era orar para Deus?

Com a foto de Margarete na mão, Afrânio deu início à investigação. Perguntou nos bares próximos, mas ninguém se lembrava de uma moça pobre, desaparecida vinte anos antes. Encontrá-la parecia uma tarefa difícil, se não impos­sível. Afrânio desconhecia que as engrenagens do destino encaixam-se paulatinamente, acionando a roda que faz girar

o mundo a favor da construção da vida.

Trabalhando para que tudo acontecesse exatamente da forma como deveria, Margarete e Félix o acompanha­vam. Ela, ainda em recuperação, limitava-se a seguir os passos de Félix, que, orientado por Laureano, tinha já condi­ções de sugestionar o encarnado sem lhe imprimir nenhum tipo de desconforto. Como era importante que Marcos en­contrasse os avós paternos, os dois haviam sido escalados para auxiliar o detetive, agindo do lado invisível.

Onde foi que você entrou naquele dia? — pergun­tou Félix a Margarete.

Não me lembro. Faz vinte anos!

Se você foi capaz de lembrar o que aconteceu em outra vida, como é que não vai lembrar o que se passou há duas décadas?

Ele tinha razão. Ela fez um esforço e tentou centrar o pensamento na tarde em que fugira, bêbada, de Belford Roxo.

— Lembro-me de que fui andando pela rua — come­çou ela, caminhando de olhos fechados. — E dobrei a es­quina. Foi quando avistei o bar... aquele ali.

Ela apontou para um bar que, por sorte, ainda existia. Félix se encaminhou para lá e entrou sozinho, para evitar que Margarete tivesse uma recaída. Sondou os pensamen­tos dos encarnados, mas o fato ocorrido anos antes não es­tava na cabeça de ninguém. Exceto... do mendigo!

Félix voltou para a calçada. Um mendigo dormia ali, dominado pela cachaça, envolto em sombras escuras. Ele se aproximou, invisível aos espíritos que lhe sugavam o ál­cool. Sondou o cérebro do mendigo, impondo-lhe a imagem de Margarete. De repente, a lembrança aflorou. Como num filme, Félix viu o dia em que Margarete quase o atropelou ao entrar no bar, com a criança no colo.

— Ele sabe! — gritou Félix, eufórico. — Agora só te­mos que trazer o detetive aqui.

Não foi difícil influenciar Afrânio, pois a Sintonia se es­tabeleceu no desejo de descobrir a verdade. Intuitivamente, ele dobrou a esquina e foi dar no bar certo. Entrou com a foto na mão, perguntando a um e a outro, mas ninguém se lembrava de Margarete. Quando ia saindo, seus olhos foram atraídos para o mendigo. Afrânio aproximou-se.

— Olá, amigo — cumprimentou ele. — Você anda por aqui há muito tempo?

O mendigo o olhou desconfiado. Poucas pessoas falavam com ele, principalmente alguém com aparência tão distinta.

Por que quer saber? — retrucou de má vontade.

Talvez você possa me ajudar — sem resposta, con­tinuou: — Será que você não andava por aqui há vinte anos?

Moço, ando por aqui a minha vida toda — tornou ele, um pouco mais amistoso.

Onde você mora?

Demonstrando interesse pela sua vida, Afrânio espera­va que ele se abrisse.

Tem um viaduto aqui perto... — respondeu ele, mas calou-se em seguida, perdendo-se nas reminiscên­cias do passado.

Será que pode me prestar um favor? — insistiu Afrânio. — Pode dar uma olhadinha nessa foto para mim?

0 mendigo se empertigou todo, agora sentindo-se im­portante. Apanhou a foto, lançando-lhe breve olhada, sacudiu a cabeça e devolveu-a a Afrânio.

— Nunca a vi antes.

0 detetive não se deixou desanimar. Saiu e voltou em seguida, com um copo de cachaça na mão. Os espíritos que acompanhavam o mendigo logo se animaram e deram-lhe uma cutucada, induzindo-o a olhar a foto mais atentamente.

A oferta do álcool deixou Félix chocado. Aquilo não es­tava em seus planos, mas ele não podia impedir a ação dos encarnados. O que conseguiu fazer vibrar sobre o mendi­go e seus comparsas invisíveis foi uma onda de luz, que o deixou mais calmo e os espíritos, confusos. Aproximando­-se novamente dele, Félix tornou a induzir a lembrança de Margarete. Ele ficou parado com a foto na mão, olhando-a em dúvida.

Isso foi há vinte anos — esclareceu Afrânio.

Hum... — fez o mendigo, quase certo de sua lem­brança. — Hã... Ah!

E então? Reconhece-a ou não?

Esse copo aí é para mim? — indagou o mendigo, passando a língua nos lábios.

Só se você me falar a verdade. E não adianta inven­tar, pois eu vou saber.

Tudo bem — resmungou ele e, batendo com o dedo na foto, acrescentou: — Ela tinha um bebê?

Tinha! — animou-se Afrânio, juntamente com Félix e Margarete.

Ela quase me atropelou.

Foi sem querer — justificou Margarete, e o men­digo pareceu escutá-la, porque se virou para o lado dela, procurando alguém invisível.

O que foi, velho? — perguntou um dos dois espíri­tos colados a ele.

Tem alguém aí? — retrucou ele, tentando ver além de seus acompanhantes desencarnados.

Só nós, velho.

Não, tem mais alguém aí com vocês. Não estão vendo?

Sem conhecimento do que se desenrolava no plano astral, Afrânio julgou o mendigo louco e tratou logo de reto­mar o assunto:

Você tem certeza? Olhe de novo, foi há muito tem­po. Não está enganado?

Não, não. Lembro-me dela por causa do bebê. Quantas pessoas você conhece que entram num bar para beber carregando uma criança de colo?

Afrânio assentiu, animado. Era loucura acreditar nas palavras de um ébrio, mas algo lhe dizia que o mendigo fa­lava a verdade. Sem saber que a certeza provinha da mente de Félix, prosseguiu:

Lembra-se da direção que ela tomou?

Hã?

A moça da foto. Não se lembra para onde ela foi?

Ande logo, velho, diga a ele! — esbravejou um es­pírito, louco para se saciar.

Ela foi por ali — apontou ele. — Bêbada feito uma porca.

Por ali, onde?

Ali, para o ponto de ônibus.

Afrânio olhou e viu o ponto de ônibus mais abaixo na rua.

E o que mais?

Mais nada.

Tem certeza?

Tenho — o mendigo sentiu a boca salivar e implo­rou: — Agora posso beber?

Afrânio deu-lhe o copo de pinga, que ele entornou, acompanhado pelos espíritos. Vendo aquela cena, Margarete se encolheu atrás de Félix e perguntou assustada:

Era assim que eu ficava? Como esses dois san­guessugas aí?

Isso é coisa do passado. Você agora não faz mais isso.

Mas eu era assim?

Era.

E Clementina era como esse mendigo?

Igualzinha.

Que coisa triste!

Sim, é triste. Graças a Deus você não faz mais isso.

Não... Mas senti um pouco de vontade de beber.

Então vamos sair daqui imediatamente.

Não podemos ajudar o mendigo?

Por enquanto, não. Ele ainda não está pronto. Agora venha, vamos seguir Afrânio.

O detetive estava parado no ponto de ônibus, mas não havia a quem perguntar. Era esperar demais da sorte encon­trar alguém que estivesse naquele ponto no mesmo dia em que Margarete passara por ali. De toda sorte, ele mostrou a fotografia, porém, ninguém a reconheceu.

"Tenho que averiguar que linhas de ônibus passavam por aqui há vinte anos", pensou. "Se Margarete tomou um deles, pode ser que eu tenha sorte, assim como tive com o mendigo. Vai ser muito engraçado se ela tiver fugido num dos ônibus da companhia de Graciliano."

Alguns dias depois, de posse da informação, Afrânio saiu em busca das garagens dos ônibus que trafegavam por aque­la rua vinte anos antes. Consultou motoristas e trocadores, mas ninguém se lembrava de ter levado aquela moça com um bebê. Foi atrás dos aposentados, sem nada descobrir. Alguns já haviam morrido, de forma que Afrânio podia ter passado pela pista sem encontrar o rastro de Margarete. Na terceira empresa que ele visitou, ela sussurrou ao ouvido de Félix:

Foi essa linha que eu apanhei. Fui até o ponto final.

Ótimo.

Aproximando-se de Afrânio, Félix lhe transmitiu a certeza de que estava no caminho certo. A empresa não pertencia a Graciliano, o que não deixou de ser um alívio. Ele entrou na garagem, mostrou a foto aos motoristas, tro­cadores e fiscais que estavam por ali. Todos balançaram a cabeça negativamente.

Têm certeza? Isso foi há mais ou menos vinte anos.

Vinte anos? — surpreendeu-se o fiscal. — Não tem mais quase ninguém aqui daquele tempo.

Quem era o fiscal de então?

Hum... Acho que era o Chiquinho. Mas ele se aposentou.

Será que o senhor não pode me dar o endereço dele? Por favor, é muito importante.

Lamento, mas não posso fornecer o endereço de nossos ex-empregados.

Afrânio enxugou a testa, desanimado. Não estivesse em outro plano, teria ouvido o grito de Margarete, que apon­tava para um homem de seus cinquenta e poucos anos que vinha se aproximando.

Olhe ele ali!

Quem é ele? — retrucou Félix.

Foi com ele que falei naquele dia. Ele me mandou descer do ônibus porque estava com medo do fiscal.

Tem certeza?

Absoluta.

Vamos tentar levar Afrânio até ele.

Nem foi preciso. O detetive viu o homem se aproximar e foi ao seu encontro.

Boa tarde — cumprimentou. — O senhor trabalha aqui há muito tempo?

Há quase trinta anos.

Será que se incomodaria em dar uma olhada numa fotografia para mim? É de uma moça que estou procurando.

O homem pegou o retrato, examinou-o e devolveu-o a Afrânio.

Lamento, não a conheço.

Foi há vinte anos. Ela pode ter tomado um ônibus dessa linha.

Se ela tomou um dos meus ônibus, não vou lem­brar mesmo. O senhor faz ideia de quantas pessoas passa­ram pela minha roleta em vinte anos?

Ela segurava um bebê. E devia estar alcoolizada.

Não, lamento... — com a proximidade de Margarete, a imagem dela surgiu em sua mente, deixando-lhe uma pon­tinha de dúvida. — Mas espere. Deixe-me ver a fotografia no­vamente — com a foto na mão, indagou a si mesmo: — Será?

O quê? O senhor a reconhece?

Não tenho certeza. A foto não é lá muito boa. Mas há muitos anos, uma mulher entrou no meu ônibus com uma criança no colo. Um bebê bem pequenininho. Lembro-me bem, porque ela estava com o seio de fora, e isso me cha­mou a atenção. Desceu na Penha, no ponto final. Chovia muito, eu fiquei com pena, mas não podia deixá-la perma­necer no ônibus. Era ela ou o meu emprego.

Deve ser Margarete — refletiu Afrânio.

Era eu, sim! — gritou ela, desesperada. — Era eu!

Tenha calma, Margarete — censurou Félix. — Ou vamos perder a comunicação com Afrânio. Ela se aquietou, o trocador continuou:

Eu ainda a aconselhei a tomar o ônibus de volta, mas ela não quis. Desceu e entrou em outro ônibus, não sei qual era.

O senhor não lembra nem a cor do ônibus?

Não.

Será que o senhor pode me dar o endereço do ponto final? Vai me ajudar muito.

É claro.

Obrigado.

O trocador anotou o endereço num papelzinho e entre­gou-o a Afrânio, que o leu e guardou no bolso. Já era tarde, não teria tempo para resolver nada naquele dia. Voltaria no outro e começaria a procurar outra vez.

— Vamos embora, Margarete — chamou Félix, depois que o detetive se foi. — Por hoje já chega.

Margarete e Félix retornaram a sua cidade astral, satis­feitos com o rumo que as investigações estavam tomando. Se continuasse assim, em breve Afrânio encontraria Marcos.

Não compreendo por que de repente passou a ser tão importante encontrar o meu filho. Quando eu quis, nin­guém pôde me ajudar. Tive que achá-lo sozinha. Mas agora, só porque seu Graciliano e dona Bernadete pediram, todos os espíritos vêm ajudar.

Eles não merecem uma segunda chance?

E eu também não merecia?

O desejo deles vai além da satisfação pessoal. Marcos tem um papel relevante no mundo, na realização de obras sociais importantes. Com o dinheiro dos avós, ajudará muita gente a começar por si mesmo e pela família. Nesse momento, é o que mais importa.

A questão então é financeira? É isso? Trata-se pura e simplesmente de dinheiro?

Trata-se de levar esperança a pessoas que per­deram a fé. Levando-as a crer na justiça dos homens, logo compreenderão que ela é um mero reflexo da justiça divi­na, feita para manter o equilíbrio das relações humanas. Se nada é por acaso, o que se ganha ou se perde dentro do contexto jurídico atende também a uma programação pes­soal e divina.

Margarete silenciou, refletindo sobre a tarefa que aguardava o filho. Ela pouco sabia sobre aquelas coisas,

182 mas entendeu bem seu objetivo. 0 que ele faria, em suma, seria ajudar as pessoas a reconhecer os méritos próprios.

— Compreendi, Félix — afirmou ela. — Ganhando ou perdendo, a vitória é sempre do espírito.

Félix não precisou responder. Simplesmente a abra­çou e sorriu.

Marcos e Arnaldo se reuniam diariamente para estudar, até a hora de Marcos ir para o trabalho. Naquele dia, assim que as aulas terminaram, os dois lancharam rapidamente e já estavam se encaminhando para a biblioteca quando Raquel os chamou:

Aonde é que vocês vão?

Estudar na biblioteca — respondeu Marcos. — Quer vir com a gente?

É claro!

Ela os seguiu satisfeita, sob o olhar atento de Nelson. Ele tentava não se importar com os movimentos de Raquel, mas vê-la perto de Arnaldo enchia-o de ciúme e despeito. Não entendia o que ela via naquele nerd magricela e não se conformava. Resolveu ir atrás deles. Entrou na biblioteca e procurou um lugar mais afastado, de onde pudesse obser­vá-los. Os três nem desconfiavam de que estavam sendo vigiados. Estudaram durante um tempo, até que Marcos, a contragosto, foi obrigado a deixá-los.

Está na hora de ir para o trabalho — anunciou ele.

Não gosto de me atrasar.

Você trabalha no shopping, não é mesmo? — re­trucou ela.

É, sim.

Que tal se Arnaldo e eu continuarmos estudando e, mais tarde, formos buscar você para irmos ao cinema? Isto é, se Arnaldo não se incomodar.

Não me incomodo — declarou ele. — Acho até uma ótima ideia. Serve para esfriar a cabeça.

Eu adoraria, mas não vai dar — objetou Marcos.

O restaurante só fecha depois da última sessão de cinema.

Então, podemos sair para dançar — insistiu ela.

O pastor não proibia que fossem a restaurantes, tanto que ele trabalhava em um. Contudo, alertava para os peri­gos que rondavam certos lugares onde a música e a dança incitavam a presença do demônio. No fundo, Marcos não concordava muito com certas proibições, porém, não tinha forças para contradizê-las. Sem querer desagradar Raquel, respondeu cabisbaixo:

Eu adoraria, mas não vai dar.

Tudo bem, então. Fica para uma próxima vez.

Estarei de folga na segunda — ele apressou-se em dizer, com medo de que ela mudasse de ideia. — Podemos ir ao cinema.

Ótimo! Você pode ir, Arnaldo?

Arnaldo conteve o riso e retrucou bem-humorado:

Não, vão vocês. Segunda, não posso.

Era de propósito que ele não ia, para não estragar o pri­meiro encontro dos dois. Depois que Marcos saiu, Arnaldo e Raquel voltaram a atenção para os livros, deixando Nelson ainda mais furioso.

"Os dois despacharam a vela8 só para poderem ficar sozinhos, de cabecinha colada", pensou com desdém.

Nelson não conseguia conter o despeito. Tinha von­tade de se levantar e socar a cara de Arnaldo, dar-lhe uma lição para que ele nunca mais se metesse com a garota dos outros. Não podia, contudo. Se usasse de violência, Raquel

 

8 Segurar vela — referência à pessoa que acompanha casal de namorados.

 

nunca o perdoaria. Podia considerá-la perdida para sempre. Tinha que arrumar uma maneira de dar um susto no sujeito sem que Raquel desconfiasse dele.

Depois de estudar por algum tempo, Raquel esticou as costas e esfregou os olhos.

Cansada? — perguntou Arnaldo.

Um pouco. Mas precisamos terminar esse ponto.

Você e Nelson não costumam estudar juntos?

Não tenho mais nada com Nelson. Falei isso ao Marcos.

Desculpe-me, não quis me intrometer na sua vida.

Não precisa se desculpar. Você é amigo de Marcos. Posso considerá-lo meu amigo também?

É claro que pode.

Então, gostaria de lhe confessar uma coisa.

O que é?

Posso confiar em você, não posso?

Claro.

Pois a verdade é que eu estou a fim do Marcos. Gosto muito dele, sabia?

Já deu para perceber — concordou ele, com um sorriso encorajador.

Não sei o que é. Tem alguma coisa nele que mexe comigo. Você acha que é recíproco?

Não posso falar por ele, Raquel.

Ele nunca comentou nada a meu respeito?

Você está me pedindo para revelar confidências que Marcos me fez. Não posso fazer isso.

Tem razão, desculpe-me.

Já que está tão interessada nele, podemos jantar no restaurante em que ele trabalha. Depois, eu vou embora e deixo os dois sozinhos.

Fazer-lhe uma surpresa? — Arnaldo assentiu.

Adorei a ideia.

Os dois riram e retomaram a leitura, deixando Nelson ainda mais irritado. Ao final da tarde, deram por encerrada a sessão de estudos, para alívio de Nelson, que já não aguentava mais fazer desenhos idiotas no caderno. Quando saíram, rindo alto, cheios de intimidade, Nelson foi atrás, to­mando o cuidado de não ser notado. No térreo, despediram­-se com dois beijinhos no rosto, e Raquel falou animada:

Não vá se esquecer de nosso compromisso mais tarde, hein?

De jeito nenhum! Ainda mais agora, que sei o que você sente.

Até a noite, então.

Até.

Nelson quase esmurrou Arnaldo ali mesmo, mas conse­guiu se conter. Como não queria chamar a atenção, ocultou-se atrás de um grupinho de moças que saiu do elevador dando risadas. Ninguém o notou. Raquel foi para o estacionamento, enquanto Arnaldo se dirigia para a estação do metrô. Nelson foi atrás dela. Alcançou-a quando ela abria a porta do carro.

Ai, Nelson, que susto! — exclamou ela, em tom de censura. — Por que ainda está por aqui?

Estava estudando na biblioteca — respondeu ele maliciosamente.

Estava? Pois não o vi.

Mas eu vi você. E o seu novo namoradinho.

Não tenho namoradinho nenhum.

Se quer continuar mentindo, tudo bem. Só me res­ponda uma coisa: o que foi que você viu naquele cara?

Que cara?

Ele resolveu ignorar o fingimento dela e perguntou em tom mordaz:

Gostaria de sair comigo hoje?

Não vai dar. Já tenho um compromisso.

Com o Arnaldo?

Ela riu da burrice dele, achando que ela estava interes­sada em Arnaldo. Todavia, Arnaldo também fazia parte de seu compromisso, de forma que poderia lhe dizer a verdade:

Se quer mesmo saber, tenho um compromisso com ele, sim.

E a que motel vocês vão, agora que ele sabe o que você sente?

Você estava me seguindo e ouvindo a minha con­versa? — indignou-se ela, e ele a segurou pelo braço:

Você não pode fazer isso comigo.

Raquel puxou o braço com força e respondeu com irritação:

— Quer saber, Nelson? Pare de tomar conta da minha vida e vá cuidar da sua. Não lhe devo satisfação.

Ela entrou no carro e bateu a porta. Deu partida no motor e saiu rapidamente, deixando-o furioso no estacionamento.

— Isso não vai ficar assim — disse ele entre os dentes.

Mais tarde, Nelson parou em frente ao edifício de Raquel, à espera de que Arnaldo aparecesse. Em vez dis­so, Raquel saiu em seu carro, sendo fácil segui-la até o shopping. Nelson deduziu que eles só podiam estar indo ao cinema e riu com sarcasmo. Numa sexta-feira à noite, o úl­timo lugar a que ele levaria Raquel seria o cinema. Preferiria uma boate e depois um motel. Contudo, não podia esperar nada mais criativo daquele nerd idiota.

Estacionaram e, a distância, Nelson seguiu-a pelas es­cadas rolantes até a praça de alimentação, onde Arnaldo já a esperava, bebendo uma cerveja no restaurante em que Marcos trabalhava. Ela sentou-se ao lado dele, e um garçom se aproximou. Nelson reconheceu-o como Marcos, outro nerd, amigo de Arnaldo.

Nelson parou do outro lado, onde não podia ser visto, oculto pela escada rolante. De onde estava, tinha uma boa visão do restaurante, embora não conseguisse ouvir nada do que diziam.

A felicidade que Marcos sentiu ao ver Raquel su­plantou a vergonha de ter sido surpreendido de avental, servindo mesas num restaurante. Sabia que não devia se envergonhar por exercer um trabalho honesto e esforçou­-se para parecer natural.

— Viemos lhe fazer uma surpresa, se você não se inco­modar —disse ela, sem parecer embaraçada ou decepcionada.

A ansiedade com que ela o encarava fez desanuviar sua preocupação, enchendo o coração de Marcos de uma inusitada euforia. Mais à vontade, sem tirar os olhos dela, respondeu com sinceridade:

Não me incomodo. A surpresa foi maravilhosa. Só não posso lhes dar muita atenção, porque ainda estou no meu horário de trabalho.

Não tem importância. Arnaldo e eu vamos jantar e esperar até que você termine.

Viemos buscá-lo — acrescentou Arnaldo, à falta do que dizer, sentindo que sobrava naquele encontro.

Muito bem. O que vocês vão querer?

Marcos anotou os pedidos. Em seu esconderijo, inter­pretando mal o que se passava, Nelson sentiu vontade de saltar sobre Arnaldo e esmurrá-lo até deixá-lo inconsciente. Não suportava ver Raquel em um jantar romântico com ou­tro. Achou melhor ir embora antes de fazer uma besteira. Saiu maldizendo a vida e o desgraçado que, segundo ele, lhe havia roubado a namorada.

— Você me paga — rugiu, voltando para seu carro.

Quando o jantar terminou, o horário de trabalho de Marcos também chegava ao fim. Arnaldo e Raquel estica­ram ao máximo a refeição, esperando a hora da saída dele. Quando, por fim, o patrão fechou o restaurante, Arnaldo se despediu, doido para deixá-los sozinhos:

Bom, gente, foi uma noite ótima e divertida, mas já está na minha hora. Tchau.

Tchau — responderam Marcos e Raquel ao mes­mo tempo.

E obrigada pela companhia — acrescentou ela.

Marcos acompanhou Raquel até o local onde ela havia deixado o carro. O de Nelson havia muito não estava mais ali.

Quer uma carona? — ofereceu ela, hesitando em deixá-lo.

Não precisa, obrigado. Não moro longe.

Mas eu posso levá-lo. O que é que custa?

O que Marcos não queria era dizer a ela que morava no morro. Pensou em lhe dar um endereço falso e saltar em fren­te a um edifício qualquer, mas a lição do pastor, exortando-o a sempre dizer a verdade, tolheu-lhe as palavras. E depois, de que adiantaria mentir? Mais cedo ou mais tarde ela acabaria descobrindo. Sem contar que não queria construir uma rela­ção fundada na mentira. Por isso, reunindo coragem, admitiu:

Moro mais ou menos perto daqui, mas não creio que seja um lugar ao qual você deva ir.

Por quê? Você, por acaso, mora na favela? — ela falou brincando, mas o silêncio dele foi revelador. — Descul­pe-me, Marcos... eu não sabia.

Tudo bem — tornou ele, sentindo o rosto arder da humilhação que ele mesmo se impingia. — Não precisa se desculpar. Eu é que devia ter lhe contado antes.

Não. Quero dizer, eu é que não tinha nada que brincar com isso. Que ideia a minha.

Não se preocupe, você não fez nada. Bom, acho melhor eu ir andando. A gente se encontra na faculdade. Ele foi se virando, mas ela o deteve com um grito:

Espere! Não se vá ainda. Nós não podemos con­versar um pouco mais?

Conversar? — admirou-se ele, surpreso porque ela não saíra correndo ao ouvir falar em favela.

É, conversar. Podemos ir a um lugar mais calmo. Um barzinho, quem sabe?

Marcos tinha todos os motivos para se sentir confuso. Além de Raquel não se incomodar com o fato de ele mo­rar no morro, o convite dela o balançou. Era a primeira vez

190 que ele considerava a ideia de ir a um lugar como aquele. Principalmente depois das vezes em que tivera que buscar a mãe no bar do Zeca, completamente embriagada.

Não posso beber — comentou ele baixinho.

Minha religião não permite.

Podemos tomar um refrigerante ou um suco. O que você acha?

Eu... — ele queria recusar, porque bares eram lu­gares de pecado e perdição, mas não queria se separar de Raquel. — Só se for aqui por perto. E bem rapidinho.

Raquel simplesmente sorriu e abriu as portas do carro. Ele se sentou ao lado dela, embevecido com o veículo de luxo no qual jamais havia sonhado entrar.

Você sabe dirigir? — perguntou ela, saindo do es­tacionamento e ganhando a rua.

Não.

Pararam num barzinho próximo, com música ao vivo, pediram refrigerante e batatas fritas, nas quais Raquel nem tocou. No começo, Marcos se sentiu intimidado com a agita­ção do bar, mas logo centrou a atenção em Raquel, e nada mais parecia existir além dos dois. Quanto mais ela falava, mais ele sentia desejo de beijá-la, recriminando a si mesmo por isso. Mal sabia ele que, pela cabeça dela, se passava a mesma coisa.

A banda começou a tocar Só pro meu prazer, do Cazuza, e Marcos fitou Raquel bem fundo nos olhos, en­quanto o cantor disparava:

— Será que você não é nada que eu penso? Também se não for, não faz mal...

Nada mais importou naquele momento. Os dedos dos dois se entrelaçaram, suas bocas foram se aproximando, até que seus lábios se uniram no primeiro beijo da vida de Marcos. Quando enfim se separaram, ele estava confuso e envergonhado, sentindo que havia cometido uma falta muito grave, desrespeitando a moça.

Raquel... — balbuciou ele — me perdoe... não tive a intenção de ofendê-la...

Você não me ofendeu — protestou ela, surpresa com a reação dele. — Marcos, você fez o que eu queria, o que nós queríamos.

Por mais que ele sentisse vontade de recitar todas as passagens das Escrituras que conhecia e que desaprova­riam uma relação tão íntima entre pessoas não casadas, não conseguiu. Afinal, ele amava Raquel, queria que ela se tor­nasse sua esposa. E se os seus sentimentos eram puros, então não havia pecado.

Ela aproximou o rosto novamente ao dele e deu-lhe novo beijo, que ele tentou recusar, mas não conseguiu. Parecia-lhe estranho que a iniciativa de um ato tão íntimo partisse de uma mulher, não dele, que era o homem. Mas ele sabia que Raquel não seguia sua religião nem conhe­cia as verdades divinas contidas na Bíblia, o que era motivo mais do que justo para desculpá-la por sua ignorância.

Não era só isso. Marcos não podia mentir para si mes­mo. Estava tão envolvido com ela que nada do que Raquel fizesse destruiria aquela paixão.

— Você me ama? — perguntou ele, a voz rouca, em­bargada pela emoção. Ela segurou o queixo dele entre as mãos, dando-lhe novo beijo, os olhos marejados de lágrimas comovidas.

— Não sei... — confessou ela, toda trêmula. — Só o que sei é que gosto de estar com você, de tocar em você, de ouvir a sua voz. Se isso é amor, então sim, amo você.

Mal contendo a euforia, ele a abraçou bem apertado e tornou a indagar:

Porquê?

Não tem um porquê. Não dá para a gente tentar explicar os sentimentos pela razão.

Somos tão diferentes... em tudo.

Sei disso e não me importo.

Seus pais não vão consentir no nosso namoro.

Meus pais são pessoas legais, não vão interferir. E, mesmo que se oponham, o que me importa?

Você iria contra eles?

E você, não? Ele assentiu e respondeu com firmeza:

Enfrentaria deus e o mundo só para ficar com você.

Abraçaram-se novamente, certos de que o sentimento que os unia era real. Ele apanhou a mão dela e a levou aos lábios, concluindo com extrema paixão:

— Quero casar com você.

Raquel fechou os olhos e entregou os lábios novamen­te aos dele. Não queria pensar na reação das pessoas. Só

o que a levava, naquele momento, era o amor que, sincera­mente, sentia por Marcos.

Arnaldo caminhava pela rua pensando na felicidade do amigo. No começo, havia desaprovado aquele namoro, com medo de que Marcos sofresse. Agora, porém, mudara de ideia. Raquel era uma garota extraordinária, muito sincera, amiga. E gostava realmente de Marcos. Arnaldo torcia para que o namoro deles desse certo.

De tão distraído com seus pensamentos, não perce­beu a aproximação de Nelson e Antônio, pela direção opos­ta. A violência do encontrão que Nelson lhe deu quase o derrubou ao chão, causando-lhe espanto e receio.

Se você for esperto — falou Nelson baixinho, fingin­do que o ajudava a levantar-se —, nunca mais vai falar com Raquel novamente.

O quê?

Você ouviu o que eu disse. Deixe Raquel em paz, ela é demais para você.

Você está louco! — objetou Arnaldo. — Raquel e eu somos apenas amigos.

E é bom que continuem assim — ameaçou Nelson, erguendo o punho diante dos olhos dele. — Ou será que quer experimentar a força desse muque?

Acho melhor a gente dar logo uma lição nele — fa­lou Antônio, passando a língua nos lábios.

Você acha? — tornou Nelson, ameaçando Arnaldo ostensivamente.

Acho. la ser divertido dar uma surra no magrelo.

Boa ideia. Nelson empurrou-o para trás de uma árvore. Ergueu o punho com raiva, mas, antes de desferir o golpe, Arnaldo gritou, na tentativa de se salvar:

Pare! Você está enganado. Não é em mim que Raquel tem interesse.

Ah, não? — redarguiu Nelson, segurando o soco.

Em quem é então?

Não sei... não posso dizer... por que vocês não vão tomar conta da vida de vocês?

Engraçadinho — desdenhou Nelson, desferindo­-Ihe um murro no queixo.

Arnaldo cambaleou, por pouco não tombando na cal­çada. Novo golpe se seguiu, dessa vez no estômago. Antônio deu mais outro, imitado por Nelson, que lhe desferiu outro, e outro, até que o rapaz arriou o corpo no chão, arfando e cuspindo sangue.

Não se meta com a gente, idiota — avisou Antônio.

Ou vai perder todos os dentes.

Isso é só um aviso — completou Nelson. — Deixe a Raquel em paz, e nada irá lhe acontecer.

E nem uma palavra sobre isso — arrematou Antônio.

Ou pior para você.

Viraram as costas e voltaram para a faculdade como se nada tivesse acontecido. Em seu lugar, Arnaldo mal conse­guia se mexer. As mandíbulas pareciam ter saído do lugar,

o estômago ardia. Tentou forçar-se a ficar em pé, mas as pernas falsearam. la caindo novamente, quando um carro da polícia parou e um guarda se aproximou:

Está tudo bem aí, rapaz?

Eu... fui assaltado — mentiu.

Acercando-se um pouco mais, o policial percebeu seu estado.

Você está machucado. Precisa ser levado a um hospital.

Eu estou bem... só um pouco dolorido.

Devíamos chamar uma ambulância, mas vamos levá-lo nós mesmos. Você parece muito mal.

Com a ajuda de outro policial, Arnaldo foi levado ao hospital, onde recebeu atendimento médico e foi liberado. A vontade dele era contar tudo aos guardas, comprometer Nelson e seu comparsa, mas teve medo das consequên­cias. O pai de Nelson era desembargador, e a história podia acabar voltando-se contra ele. Melhor mesmo era mentir. Assim, Arnaldo insistiu na história do assalto, afirmando que dois pivetes o haviam espancado para roubar apenas al­guns poucos reais.

Na faculdade, Marcos estranhou a ausência de Arnaldo, mas nem sequer desconfiou quando Nelson e Antônio en­traram na sala de aula carregando na face um ar de irritan­te triunfo. Nelson fez questão de entrar pela porta da frente e olhar para Raquel com sarcasmo, indo sentar-se em seu lugar de costume.

No dia seguinte, Arnaldo também não apareceu, e Marcos ficou preocupado:

Será que ele está doente?

Por que não ligamos para ele?

Raquel sacou o celular da bolsa e puxou Marcos para fora da sala. Colocou o telefone nas mãos dele, que rapi­damente discou o número da casa de Arnaldo. Quando ele atendeu, as feições de Marcos foram gradativamente se al­terando. Ao encerrar a ligação, ele fitou Raquel com angús­tia e anunciou:

Ele disse que foi assaltado e espancado.

Meu Deus!

Preciso ir à casa dele.

Agora? No meio da aula?

Sim, agora. Não posso deixar meu amigo nes­sa situação.

Vou com você.

Não, por favor. Ele pode ficar constrangido com a sua presença. Acho que ficou bem machucado.

Com a mochila na mão, Marcos saiu em disparada, deixando Raquel preocupada e aflita. Apanhou o ônibus e, em poucos minutos, estava na casa de Arnaldo. Foi recebi­do pela mãe do rapaz, que o introduziu no quarto do filho.

Oi, Marcos — disse ele, quase sem conseguir abrir a boca.

Como foi isso, meu amigo? Um assalto! Em plena luz do dia?

Depois que a mãe de Arnaldo deixou uns refrescos sobre a mesinha de cabeceira, ele abaixou a voz e revelou quase num sussurro:

— Isso foi o que contei à polícia e à minha mãe. Na verdade, quem me bateu foi o Nelson e aquele amigo dele,

o Antônio. Marcos abriu a boca, abismado.

O que você está dizendo?

É isso mesmo que você ouviu. Nelson e aquele ca­panga me surpreenderam na porta da faculdade, me arras­taram para trás de uma árvore e me deram uma surra.

Mas por quê, meu Deus?

Você não sabe?

Foi por causa da Raquel? — Arnaldo assentiu.

Mas por que, se ela não tem nada a ver com você?

Nelson não sabe disso. Pensa que é em mim que ela está interessada.

O quê?

Não sei de onde ele tirou essa ideia, mas é o que pensa.

Arnaldo, que notícia terrível! Eu sinto muito, muito mesmo, por ter-lhe causado isso.

Não seja bobo. Você não me causou nada. Que culpa você tem se Nelson é um brutamontes ignorante e vive cercado de capangas?

Meu Deus!

Estou lhe contando só para você se cuidar. Não vai demorar para ele descobrir que vocês dois estão namorando.

Por que você não contou a ele sobre mim e Raquel?

Não sou traidor. Jamais entregaria um amigo nas mãos de um bandido.

Marcos emocionou-se até as lágrimas e apertou as mãos de Arnaldo.

Isso não vai ficar assim. Temos que ir à polícia.

Não quero. O pai de Nelson é desembargador, e eu é que ainda vou acabar como o culpado nessa história.

Que estupidez! — Marcos estava com raiva e não escondia isso. — Isso não vai ficar assim, não vai. Você pode não querer ir à polícia, mas eu não vou permitir que meu amigo leve a culpa por algo que fui eu que fiz.

Que culpa? Desde quando alguém é culpado por se apaixonar?

Não importa. Raquel está comigo. Se Nelson tem alguma reclamação, que a faça a mim.

O que você vai fazer?

Nada de mais. Deixe comigo.

Olhe lá, hein? Não vá fazer nenhuma besteira.

Não sou violento, mas também não sou covarde. Nelson vai ter que saber a verdade.

Se Raquel souber o que houve, ele prometeu me dar nova surra.

Isso não vai acontecer. Ele jamais tornará a encos­tar a mão em você ou em qualquer outra pessoa. Eu mesmo vou falar com ele.

Acho que você não devia.

Mas vou. Como disse, não sou covarde.

Marcos nunca sentiu tanta raiva em sua vida. Nem as palavras do pastor, nem as Escrituras foram capazes de im­pedir que a revolta se disseminasse no coração dele. No dia seguinte, chegou cedo para esperar Nelson no hall de entrada da faculdade.

Você não vem para a sala? — chamou Raquel, sem entender por que ele havia estacado ali.

Agora não. Preciso fazer uma coisa importante.

É sobre o Arnaldo? Como ele está?

Nelson veio chegando em companhia dos amigos e hesitou quando viu o olhar de fúria de Marcos. Deu uma meia parada, mas não se deteve. Não daria atenção às quei­xas do insignificante amiguinho de Arnaldo.

— Vá para a sala, Raquel — ordenou Marcos. — Não quero que você tome parte nisso.

É claro que Raquel jamais lhe obedeceria. Ela se postou perto de Marcos, que se adiantou quando Nelson passou por eles.

Covarde, miserável — esbravejou ele, saltando na frente de Nelson.

Saia do caminho, neguinho — desdenhou Nelson.

Não tenho nada contra você.

E contra o Arnaldo? O que é que você tem? Ele olhou de soslaio para Raquel e respondeu friamente:

Nada. Nem sei quem é Arnaldo.

É o sujeito que você espancou, pensando que era o namorado de Raquel, sem saber que o namorado dela sou eu.

O quê? — surpreendeu-se ele. — Deixe de ser idio­ta, neguinho. Não espanquei ninguém.

Mentiroso! Arnaldo está em casa, todo machuca­do, por sua causa!

Isso é verdade? — interrompeu Raquel, abismada.

Não dê ouvidos a esse neguinho — objetou Nelson.

Está com raiva porque o namoradinho dele levou uma surra. Mas não tenho nada com isso, ouviu?

Arnaldo não é namoradinho de Marcos — rebateu Raquel com raiva. — A namorada dele sou eu. E se você bateu em Arnaldo por causa disso, fique sabendo que es­pancou a pessoa errada.

Os olhos de Nelson encheram-se de um rancor absur­do. De repente, deixou de lado a preocupação de que ela não soubesse o que ele havia feito e rosnou entre os dentes:

Você está louca? Trocar-me por esse crioulo?

Racismo é crime, sabia? — revidou ela com azedu­me. — Você pode ir preso.

Deixe de besteiras, Raquel! — explodiu ele, partin­do para cima dela. — Isso é coisa séria. Onde já se viu me trocar por um negro?

Ele apontou para Marcos com tanto ódio, que os pró­prios amigos se surpreenderam, e Paulo se adiantou:

Deixe isso para lá, Nelson. Vamos embora.

De jeito nenhum! Não vou permitir uma humilha­ção dessas!

É isso mesmo — incentivou Antônio. — Raquel não pode trocar Marcos por um mulatinho ridículo.

E você não se meta nisso! — gritou Raquel.

Devia se envergonhar — grunhiu Nelson. — Você, uma moça branca, de família tradicional, bem-conceituada, aliar-se a esse preto sujo e infame!

Isso, Nelson, continue a xingar — encorajou ela.

Diante de tantas testemunhas, não vai ser difícil acusá-lo de racismo.

Deixe, Raquel — contrapôs Marcos, postando-se na frente dela. — Não tenho medo nem me sinto ofendido com as tentativas de ultraje de Nelson. Tenho orgulho da minha raça, e essas infâmias não me atingem. Sou uma pessoa honesta e, acima de tudo, não sou covarde. Jamais bateria em outro homem como Nelson fez, dois contra um, sem dar a Arnaldo nenhuma chance de se defender.

Você fez isso? — quem se espantou foi Paulo, que não compactuava com certas atitudes de Nelson.

Idiota — rosnou Nelson. — Só me arrependo de ter espancado o cara errado. Mas não se preocupe. Sua vez ainda vai chegar.

Atreva-se — cortou a moça — e serei eu mesma a entregá-lo à polícia.

Vai se arrepender por isso, Raquel. Ora se vai! Vocês nem podem imaginar o tamanho da minha vingança.

Não temos medo — afirmou Marcos. — Deus está do nosso lado.

Vamos embora, Marcos — chamou Raquel, pu­xando-o pela mão. — Não vale a pena perder tempo com esse covarde.

Enquanto eles se afastavam, Nelson remoía o ódio. Jamais poderia imaginar que Raquel o trocaria por um ne­gro. Marcos era mulato, mas, ainda assim, não era branco. Segundo sua concepção, aquilo era um absurdo. Iludido com falsos valores étnicos e sociais, Nelson estava ainda muito longe de compreender o verdadeiro valor do caráter humano. Preso a conceitos ultrapassados, não compreen­dia que nada modifica a natureza do homem, além da força do espírito. Ao corpo, resta a função de veículo das expe­riências no mundo, para um aperfeiçoamento do Ser. Mas ele jamais será o próprio Ser. Brancos ou negros, sadios ou deficientes, magros ou gordos, todos os corpos são instru­mentos divinos de uma única essência de luz.

Essas eram verdades inacessíveis à razão primitiva de Nelson. Só o que conseguia enxergar era a traição de Raquel com alguém que ele julgava inferior.

Cuidado com o que vai fazer — alertou Paulo. — O que Raquel disse é verdade. Racismo é crime e você pode ser preso.

Meu pai é desembargador. Nada irá me acontecer.

Vá se fiando nisso. Desembargador também está sujeito às leis. E depois, duvido que seu pai, um homem justo e de notável saber jurídico, concorde com o que você está fazendo.

Você está do meu lado ou contra mim?

Não sei mais — confessou Paulo. — Não me agrada ser amigo de um cara que, além de covarde, é também racista.

Pois então, o que está esperando? — interferiu Antônio. — Desapareça da nossa frente, seu traidor!

Quer saber? É isso mesmo que pretendo fazer.

Paulo rodou nos calcanhares e saiu desabalado para a sala de aula.

Idiota — rosnou Nelson. — Como todos os outros, Paulo é um perfeito idiota. Mas isso não vai ficar assim, Antônio, você vai ver. Vou dar um jeito de me vingar de todo mundo.

Pois faz muito bem. E pode contar comigo. Só pre­cisamos nos cuidar para não sermos presos. Tenho arrepios só de pensar que posso ir para a cadeia.

O que você sugere?

Ainda não sei. Acho que não devemos enfrentar o inimigo de frente. Devemos ir minando-lhe as forças até con­seguirmos vencer.

Como faremos isso?

Pensaremos em algo.

As nuvens negras que envolveram Nelson e Antônio não eram visíveis aos encarnados, embora perceptíveis a eles. Atraídos por sentimentos de baixa modulação vibra­tória, espíritos ignorantes procuravam saciar seus instintos primitivos instigando o ódio.

Marcos, por sua vez, entrou na sala de mãos dadas com Raquel, invocando o auxílio de Jesus e do Espírito Santo. Na mesma hora, um chuvisco fino de luzes translúci­das e suaves envolveu a ambos, transmitindo-lhes confortá­vel sensação de bem-estar. Nesse momento, Paulo entrou na sala de aula e dirigiu-se aos dois, penetrando, sem saber, no raio de alcance da chuva energética, dela imediatamente se beneficiando.

— Marcos, quero que saiba que não concordo com nada do que Nelson disse e fez — declarou ele. — De hoje em diante, não sou mais amigo dele nem de Antônio.

As palavras dele bem poderiam não ser sinceras ou representar parte de uma farsa, porém Marcos sabia que eram verdadeiras. Ninguém que se mantivesse sob aque­la fonte energética sustentaria, mesmo inconscientemente, uma mentira. Ou gaguejaria, ou cairia em contradição, ou, o que era mais provável, se afastaria, incomodado com o poder da oração.

Mesmo sem saber desses detalhes, Marcos sentia a sinceridade na voz de Paulo.

Contar aos pais sobre seu namoro com Marcos foi mais fácil do que Raquel imaginou. A princípio, eles ficaram em dúvida sobre a possibilidade de sucesso de um roman­ce com um rapaz pobre, de família humilde. Mas Raquel os convenceu de que Marcos era uma ótima pessoa, de cará­ter e bons princípios. Estudava, trabalhava e ainda arranja­va tempo para frequentar a igreja.

Deitada de bruços na cama, Raquel não conseguia estudar, pensando em Marcos, no desejo que sentia cada vez que ele a tocava. Não via a hora de dormirem juntos. Marcos, contudo, ainda não tomara nenhuma iniciativa, e o jeito recatado dele deixava-a inibida para fazer insinuações.

De tão absorta em seus pensamentos, não ouviu as batidas na porta. Somente percebeu que havia alguém ali quando o irmão entrou com ar irritado.

Não me ouviu bater? — foi logo cobrando.

Não, Elói, desculpe. Estou ocupada.

Fazendo o quê?

Estudando. Não está vendo?

Ele puxou a cadeira de rodinhas que guarnecia a escri­vaninha e sentou-se, girando de um lado para outro. Raquel não disse nada e fingiu ler, torcendo para que ele fosse logo embora. Depois de algum tempo, Elói parou de rodopiar e aproximou a cadeira da cama, de modo a poder encará-la:

— Soube que você terminou com Nelson. — Ela as­sentiu, sem se virar para ele. — Por quê? Ela o olhou brevemente e respondeu com frieza:

— Não é da sua conta.

Elói cruzou os braços sobre o peito; bateu os pés no chão, como se estivesse acompanhando um ritmo musical.

Sei que não tenho nada com a sua vida — acres­centou ele, parando e olhando-a novamente. — Mas não posso ficar calado vendo você meter os pés pelas mãos.

Olhe aqui, Elói, não sei o que você quer de mim, mas estou ocupada e não estou interessada nos seus conselhos.

Eu ouvi o pai e a mãe conversando na sala sobre seu novo namorado — rebateu ele, os olhos chispando fogo.

O que você quer? Envergonhar a família?

Não lhe dou o direito de falar comigo dessa manei­ra. Você não tem nada com a minha vida. Papai e mamãe não puseram nenhuma objeção à minha escolha. Não vai ser você que vai colocar.

Papai e mamãe não querem contrariar a filhinha. Mas aposto como, lá no fundo, desaprovam a sua escolha.

Isso não é verdade. E mesmo que fosse, ninguém tem nada com a minha vida. Amo o Marcos e ponto final.

Marcos — desdenhou ele. — Um pobretão.

E daí? Por que a discriminação?

Não é discriminação. É uma questão de seleção natural. Cada um que fique na sua. Não fica bem minha irmã namorando um... você sabe.

Não sei, não. Marcos é melhor do que muita gente bacana por aí. Pode não ser rico, mas é uma pessoa decente.

E negro — acrescentou, finalmente revelando seu preconceito.

Qual o problema? Eu mesma já vi você com garo­tas negras.

Mas pergunte se pretendo me casar com algu­ma delas.

Elói! — espantou-se ela. — Você é mais desprezível do que eu pensei. Não tem vergonha de enganar as pessoas?

Não engano ninguém. Elas saem comigo porque querem — fez uma pausa, fitando-a com um misto de raiva e desdém. — O pior não é nem o fato de ele ser mulato. Se ainda fosse rico...! Mas você arranjou um favelado. Mamãe disse que ele mora no morro do Salgueiro.

E daí? Tem muita gente boa no morro, sabia?

Só se for boa para apanhar, que é o que bandi­do merece.

Marcos não é bandido!

Marcos, Marcos... Uma moça linda feito você, fina, educada, se metendo com um pé-rapado, um joão-ninguém, um neguinho de morro...

Chega, Elói! Não quero mais continuar com essa con­versa. Só estou lhe avisando para não se intrometer na minha vida. E pare com esse preconceito. Isso está fora de moda. Como é possível que, em pleno século vinte e um, ainda exis­tam pessoas que dão importância à cor da pele e ao dinheiro?

Elói guardou no silêncio o desprezo pela conduta de Raquel. Não adiantava discutir com ela. Levantou-se de um salto e pôs-se a caminho da porta.

Guarde bem o que eu digo, Raquel — alertou ele.

Essa história ainda vai acabar mal, e a culpa será toda sua. Depois não diga que não avisei.

Saiu batendo a porta, deixando Raquel com os nervos à flor da pele. Por essa ela não esperava. O irmão sempre tivera os valores invertidos, mas ela jamais mensurou o ta­manho do seu preconceito. Muitas vezes o vira com moças mulatas e negras, dando-lhe a impressão de que não era racista. Só agora ela o via como realmente era.

Raquel sentiu raiva do irmão. Teve vontade de contar às garotas o tipo de pessoa que ele era. A beleza escondia a pequenez de sua alma. Era uma vergonha que ele esti­vesse tão envolvido com preconceito naqueles tempos de abertura da mente e de eliminação das barreiras étnicas e sociais. Com lágrimas nos olhos, para se acalmar, acendeu um incenso e colocou um CD de relaxamento. Fez uma men­talização que aprendera, para invocar iluminação:

"Que a luz que emana do centro da divindade envolva meu corpo e meu espírito. Que os amigos iluminados inte­ressados na vitória do bem se façam presentes em minha vida. Deus é a luz do meu caminho. Por Ele estou em luz, com Ele eu sou a luz."

Aos poucos, a tranquilidade retornou a seu coração.

Ao contrário de Raquel, que buscou o lado espiritual para se reequilibrar, Elói saiu do quarto da irmã com o coração pe­sado de ódio e ressentimento. Tentou convencer os pais a proi­birem o namoro, mas ambos foram peremptórios: Raquel era adulta, tinha o direito de namorar quem bem quisesse. E depois, como médicos, eles sabiam que não existia diferença entre os seres humanos, considerando reprovável a atitude do filho.

Sozinho em sua revolta, Elói pôs-se a pensar na me­lhor maneira de afastar a irmã daquele rapaz. A pessoa indi­cada para ajudá-lo era Nelson, o mais prejudicado naquela história toda. Resolveu sair e telefonar para ele.

Alô? Eu poderia falar com o Nelson, por favor?

É ele — respondeu a voz na outra ponta.

Oi, Nelson. Quem está falando é o Elói, irmão da Raquel. Estou ligando porque acho que temos um assunto em comum, cuja solução é do interesse de nós dois.

Que assunto?

Marcos — disparou, sem hesitar.

Fez-se um breve silêncio, até que Nelson retrucou desconfiado:

Não tenho interesse nenhum nessa pessoa.

Será que não tem mesmo?

Não.

Pois eu vou ser muito franco com você, Nelson. Não me agrada nada que minha irmã esteja de caso com um neguinho de morro. E você? Não se incomoda de ter sido trocado por alguém assim?

Do outro lado, Nelson espumava de ódio, sem saber o que fazer. Se, por um lado, a raiva o enlouquecia, por outro, tinha medo de cair numa armadilha e revelar seus pensa­mentos criminosos.

Ninguém gosta de ser traído — disse ele caute­losamente.

Se você não gosta, então por que não se encontra comigo e escuta o que tenho a dizer? — novo silêncio. — Só vai levar um minuto.

Onde?

Vou lhe dar o endereço de um barzinho sossegado na Barra. Pode ser?

Nelson anotou o endereço e desligou o telefone. Aquele telefonema era muito esquisito. Conversara com Elói algumas vezes, mas nada sabia a seu respeito. Só que ele estava con­cluindo a faculdade de medicina e vivia cheio de garotas.

Ao chegar ao barzinho, Nelson encontrou Elói sentado à sua espera. O rapaz estendeu-lhe a mão e ofereceu-lhe a cadeira em frente.

Bebe alguma coisa? — perguntou Elói.

Um chope está bem.

Depois que o garçom serviu a bebida, Nelson en­carou Elói, tentando imaginar o motivo daquele encontro. Adivinhando o que se passava pela cabeça do outro, com um sorriso matreiro, Elói foi logo dizendo:

Você está se perguntando por que o chamei aqui, não está?

Realmente, não faço a menor ideia.

Eu disse que era para falar de Marcos.

Não vejo o que essa pessoa tem que possa me interessar.

Essa pessoa está namorando minha irmã. Você sabe disso.

Foi a escolha dela.

E você se conforma?

O que posso fazer?

Tomar alguma providência. Eu não deixaria que mulher minha me trocasse por um neguinho de morro.

Acho bom falar mais baixo. Não quer ser indiciado por racismo, quer?

Elói deu uma gargalhada e acendeu um cigarro, sol­tando a fumaça na direção de Nelson, que tossiu baixinho.

Não é o caso — considerou. — A questão aqui é outra. Não admito que Raquel troque um cara decente feito você por um favelado.

Porquê?

Porque não está direito. Não tenho nada contra essa gente, desde que não queiram se misturar conosco. Acho legal ele estudar para melhorar de vida. Mas tem que permanecer no meio dele. E foi se engraçar justo com a ton­ta da minha irmã.

Ela está apaixonada por ele.

Apaixonada, nada! Raquel gosta de novidade e aven­tura. Pensa que namorar um favelado é vantagem, que vai torná-la importante aos olhos do mundo. Mas aposto que, lá no fundo, ela não gosta dele. Gosta é do que ele representa.

E o que ele representa?

Novidade, já disse. Minha irmã quer ser zen, new age e outras bobagens do gênero. Vive sonhando com mundos que não existem e realidades fantasiosas. Marcos represen­ta a oportunidade para ela mostrar que não se importa com bobagens mundanas. Mas eu, que sou o irmão mais velho e conheço bem a realidade das coisas, não posso permitir uma loucura dessas. Cabe a mim trazer Raquel de volta à razão.

Muito interessante. Posso saber como é que pre­tende fazer isso?

Com a sua ajuda.

Minha ajuda?

Você foi o maior prejudicado. Quem melhor do que você para se aliar a mim nessa luta?

Que luta seria essa? Elói dobrou o corpo sobre a mesa e falou baixinho:

Precisamos separar aqueles dois.

Como?

Vamos por partes. Meus pais disseram que ele es­tuda na turma de vocês, mora no morro do Salgueiro e traba­lha num restaurante do shopping Iguatemi. Nossa primeira atitude talvez deva ser com relação ao seu trabalho. Tirar-lhe o sustento vai servir de desestabilizador e grande motivo de desavenças. Já imaginou Raquel pagando motel para ele?

Elói riu, mas Nelson quase quebrou o copo de chope, de tanto que o apertou. Não podia sequer imaginar Raquel na cama com outro homem.

Não sei o que seria capaz de fazer se a pegasse nos braços de outro — rilhou entre os dentes.

Nada. Não seja estúpido. Temos que expor Marcos e seus pontos fracos.

E depois?

Depois, adeus, idiota. Raquel vai se decepcionar e voltar para você. Então? Está dentro ou não?

Estou dentro — concordou ele, sem titubear.

Raquel tem que voltar a ser minha.

Vai voltar. Pode confiar.

O resultado do encontro foi satisfatório para ambos. Mais uma vez, espíritos menos esclarecidos se aliaram a eles, a fim de fortalecê-los em seus projetos de desordem.

Seguindo a pista que obtivera do trocador de ônibus, Afrânio foi à rua onde ficava o ponto final da linha que ia de Belford Roxo à Penha, o mesmo em que Margarete saltara. O fiscal não sabia de nada porque, à época, não trabalhava ali, mas Afrânio descobriu os números de todas as linhas que tinham aquela rua no itinerário. Sem saber se eram as mesmas de vinte anos atrás, saiu em busca das empre­sas. Como da outra vez, ninguém se lembrava de Margarete.

Será que não houve nenhum incidente digno de nota que tivesse chamado a atenção de alguém? — ques­tionou Félix, tentando evocar alguma memória marcante.

É claro que houve! — respondeu Margarete, sentin­do a antiga raiva voltar. — Todo mundo ficou me criticando porque o bebê havia vomitado no meu colo, e eu o sacudi e gritei com ele. Mas ninguém se ofereceu para ajudar.

Ninguém atrai a crítica à toa — comentou Félix.

Embora isso não justifique quem a faz.

Lembro-me bem das pessoas que me criticaram. Tinha uma mulher sentada no banco ao lado da roleta e um casal na minha frente.

Você viu os rostos deles?

Como é que eu ia ver? Estavam de costas!

Nem da mulher sentada no banco lateral?

Dessa eu vi, mas não sei se me lembro. Devia ter uns cinquenta anos.

Precisamos levar Afrânio ao ônibus que você pe­gou para a Tijuca.

Como?

Deixe comigo.

Parado no ponto, Afrânio pensava que ônibus tomar. Mostrara a fotografia a todos na garagem, sem sucesso. Não sabia mais o que fazer. A pista parecia perdida, ninguém se lembrava de nada. Por ali trafegavam inúmeros ônibus, muitos dos quais não eram os mesmos de vinte anos atrás. Outros haviam mudado, outros não circulavam mais. Como descobrir o veículo e as pessoas certas?

Era provável que tivesse que entrar em todos os ônibus que passavam por ali, o que demandaria muito tempo. Seria desgastante, mas precisava tentar. O primeiro coletivo em que entrou não era da mesma linha que Margarete tomara. Junto dele, Félix tentava intuí-lo sobre o lugar aonde deveria ir.

— Tijuca... — imaginou subitamente. — Será? Pode ser, como pode não ser. A Tijuca fica muito longe daqui, é pouco provável que ela tenha ido parar lá, mas nunca se sabe... Bom, para não perder tempo, vou procurar nos luga­res próximos primeiro. Afrânio afastou a intervenção do espírito e entrou no primeiro ônibus que apareceu. Mostrou a foto aos passagei­ros, fazendo perguntas aqui e ali, sem nenhum sinal de re­conhecimento. Fez o trajeto todo, até o ponto final, e voltou no mesmo ônibus, desanimado.

— Ele não nos ouve — comentou Félix, que havia ten­tado influenciá-lo novamente.

— Por quê? — indignou-se Margarete.

— Está seguindo seu próprio método. A mente racio­nal rejeita a sugestão intuitiva, como acontece com muitos. O que parece não ter lógica é descartado pelo pensamento. Contudo, geralmente, é o que mostra o caminho certo.

— E agora?

— Vamos tentar facilitar um encontro. Venha comigo.

— Aonde?

— Você verá.

Num piscar de olhos, viram-se de volta à cidade astral que habitavam e foram esperar Laureano em seu consultó­rio. Tiveram que aguardar até que o último paciente saísse, para então poderem falar com ele.

Precisamos de sua ajuda — Félix suplicou.

Para que seria? — quis saber Laureano.

Não estamos conseguindo intuir Afrânio a pegar o ônibus da mesma linha que levou Margarete à Praça Saens Pena. Ele está procurando em local diverso e não existem pessoas próximas capazes de estabelecer uma sintonia.

Mas existem pessoas, não é? — indagou Laureano.

Existiram — afirmou Margarete. — Lembro-me bem de três pessoas, embora não consiga visualizar-lhes as feições.

E querem a minha ajuda para tentar localizá-las?

Exatamente.

Muito bem, então. Vamos até o local.

Era madrugada quando chegaram ao ponto de ônibus. Com a rua praticamente deserta, poucos veículos circula­vam por ali.

A essa hora, a quantidade de coletivos em circula­ção cai bastante — esclareceu Félix.

Sei disso — comentou Laureano. — Mas fica mais fácil, já que as interferências mentais dos encarnados que passam por aqui diminuem sensivelmente. Vamos esperar o ônibus certo para entrar nele.

Quando o ônibus passou, os três entraram sem ser percebidos, mesmo porque o coletivo não parou naque­le ponto. O veículo era novo, um pouco diferente do que Margarete havia tomado. Mesmo assim, ela sentou-se no lu­gar equivalente ao antigo e, orientada por Laureano, pôs-se a pensar naquele dia. Mentalmente, refez a cena, tentando colocar os passageiros nos lugares de outrora. Laureano ajudou com um passe fortificante, a fim de clarear sua tela mental e facilitar a evocação das lembranças.

Rapidamente, as vagas formas-pensamento criadas por Margarete ocuparam seus lugares, permitindo a Laureano e Félix acompanhar o desenrolar da história. Viram e ouviram o que Margarete se lembrava do passado, até o momento em que ela desceu na Praça Saens Pena, quando as lembranças se dis­siparam, e as formas-pensamento esvaneceram aos poucos.

— E agora? — perguntou Margarete aturdida, mas Laureano não a ouvia, de tão concentrado que estava.

Ao final de poucos segundos, ele abriu os olhos e fa­lou convicto:

— A senhora que se sentava ali — apontou para o banco lateral — já fez a passagem. O casal à sua frente ain­da está vivo e bem. A mulher não mora mais no Rio, mas o homem continua no mesmo lugar de antes.

Margarete soltou um gritinho de euforia:

Como foi que você fez isso?

Com muitos anos de aprendizado e treinamento da mente. Hoje, no que se refere a qualquer elemento, seja do mundo da matéria ou de outros mais sutis, posso seguir-lhe as energias e estabelecer um elo mental com ele.

Mas isso é maravilhoso!

Podemos ir ao encontro desse homem? — Félix perguntou.

Agora mesmo. Ele está dormindo, o que facilitará em muito a nossa comunicação.

O homem, um senhor de seus sessenta anos, dormia tranquilamente, o corpo astral ausente, preso à matéria pelo cordão prateado9.

O que faremos? — preocupou-se Margarete.

Vamos segui-lo — disse Laureano, apontando para Cordão prateado — fio energético que mantém o corpo astral ligado ao físico dos encarnados durante toda a vida na matéria o tênue fio.

Seguindo o cordão de prata, os três encontraram o homem assistindo a uma palestra no mundo espiritual. En­traram respeitosamente, sentaram-se mais atrás no audi­tório e ficaram escutando os interessantes ensinamentos daquela noite. Quando a palestra terminou, aproximaram-se do encarnado.

Boa noite, meu bom companheiro — saudou Laureano, que já havia se identificado ao mentor do homem.

Boa noite — respondeu ele.

Será que poderíamos conversar com você um momento?

É claro.

Chamo-me Laureano, e esses são meus amigos Félix e Margarete.

Muito prazer. Sou o Percival.

O prazer é nosso, Percival. Gostaríamos de uma ajuda sua, se possível.

Pois não. O que posso fazer por vocês?

Será que você, por acaso, não se lembra dessa moça que aqui está?

Ele apontou para Margarete. O homem a fitou por al­guns instantes, até que balançou a cabeça negativamente:

Lamento, mas não a conheço.

Tomei um ônibus uma vez — adiantou-se ela. — Faz uns vinte anos. Estava com um bebê de colo, que vomitou em mim, e eu briguei com ele. Não se lembra?

Margarete conseguiu conter o ímpeto de falar sobre as críticas de que fora alvo, contudo, o homem pareceu se lembrar, porque abaixou a cabeça e murmurou sem graça:

— Agora me lembro.

Ele ficou esperando que alguém dissesse algo a res­peito dos comentários que fizera sobre o comportamento de Margarete, mas ninguém falou nada.

Preciso que me ajude a reencontrar meu filho — in­formou ela, de imediato.

É o bebê que carregava no colo? — surpreendeu­-se Percival.

Esse mesmo. Na verdade, eu sei onde ele está, mas preciso fazer com que um certo detetive chegue até ele.

Como posso ajudar?

Você ainda tem contatos na Penha? — inda­gou Laureano.

Tenho uma irmã que mora lá e que visito frequen­temente.

Ótimo. Vamos tentar levar Afrânio a pegar o mesmo ônibus em que você estará voltando da casa de sua irmã. Ele vai entrar, mostrar a fotografia de Margarete, fazer per­guntas. E você só tem que dizer que se lembra dela e mos­trar onde ela saltou.

Hum... deixe ver — ele puxou pela memória e acres­centou: — Foi na Tijuca, não foi?

Foi.

Muito bem. Direi a ele.

Excelente! Vou pedir ao seu mentor autorização para que você se lembre, ao menos parcialmente, dessa experiência.

Será que antes posso lhe dizer uma coisa? — pediu ele, dirigindo-se a Margarete.

A mim? — surpreendeu-se ela. — É claro.

Sabendo que o acaso é obra do plano divino, não quero perder a oportunidade de estar aqui hoje reunido com você e pedir que me perdoe.

Eu?!

Sei que a critiquei e a tratei mal. Hoje compreendo que não devemos julgar. Depois que entrei para o centro espíri­ta, venho tentando me modificar. Por isso, quero o seu perdão.

Margarete fitou o interlocutor em dúvida. No fundo, sentira muita mágoa pela forma como ele a tratara. Agora, porém, vendo-o ali, tão simples e humilde, transmitindo uma sinceridade sem igual, todo o ressentimento se dissipou. Ela apanhou a mão dele e levou-a de encontro ao peito.

O senhor está perdoado — afirmou com honestidade.

Quem de nós nunca cometeu nada de que não se arrepen­desse depois? Se o senhor acha que não devia ter-me julgado, quem sou eu para julgá-lo agora? Vamos encerrar por aqui.

Obrigado — disse ele, enxugando uma lágrima do olho.

Muito me emociona a oportunidade de reconcilia­ção entre pessoas que não se conhecem, não têm nenhum compromisso mútuo, mas poderiam levar ressentimentos desnecessários para o futuro — esclareceu Laureano. — Às vezes, nas pequeninas coisas da vida, vamos gerando elos recíprocos de mágoa e raiva que se instalam dentro de nós e explodem em algum momento mais à frente, causando-nos medo e insegurança. Comentários maldosos, indiferença e mau humor no atendimento, irritação, impaciência, ironia, sarcasmo, grosseria, arrogância, tudo isso pode gerar con­sequências nada saudáveis tanto em quem recebe quanto em quem faz. Em ambos os casos, bloqueios importantes podem se estabelecer, dificultando a espontaneidade, a ale­gria, a segurança. Temos o dever de ser gentis com todos, conhecendo-os ou não. A boa educação é o primeiro passo no caminho da elevação.

Fez-se um breve silêncio, em que cada qual refletiu nas próprias ações. Em seguida, Laureano saiu para falar com o mentor de Percival, que concordou com o plano.

Ao acordar, Percival não guardava propriamente a lem­brança do sonho, mas sentiu um desejo irresistível de visitar a irmã. Telefonou para ela e marcou de chegar perto da hora do almoço. Comeu sem preocupação nem ansiedade, até que, ao cair da tarde, resolveu voltar.

Algum tempo depois, Afrânio descia no ponto de ônibus. Não aguentava mais ir de um lado a outro da cidade, sem su­cesso. Tanto que, quando outro coletivo se aproximou, não embarcou nele. O que estava fazendo era uma idiotice. Era pra­ticamente impossível entrar num ônibus em que viajasse alguém que se lembrasse de ter visto Margarete duas décadas atrás.

Desanimado, mãos nos bolsos, saiu caminhando pela rua. Naquele momento, não tinha planos nem metas estabele­cidas. Só pensava em Margarete. Laureano acompanhava-o de perto, quase direcionando-o pelo caminho desejado. Afrânio viu uma mulher passar correndo com um bebezinho no colo e en­trar num ônibus parado no ponto mais próximo. Instintivamente, olhou para o cartaz de propaganda colado no vidro traseiro do veículo, anunciando uma academia de ginástica na Tijuca.

Não pensou duas vezes. Foi impulsivo. Sem nem ima­ginar que seguia a sugestão do invisível, Afrânio correu e subiu atrás da moça, ajudando-a com a bolsa do bebê. Por coincidência ou não, ela se sentou atrás de Percival, e Margarete postou-se ao lado dele. Afrânio ficou em pé, procurando a foto no bolso. Para apressar as coisas, Félix tornou-se visível à criança, que, achando graça nas caretas divertidas que ele fazia, soltava gargalhadas gostosas.

Todo mundo fitou a criança, achando engraçadinhos os seus gorgolejos. Tão diferente da vez em que Margarete subira com seu filho, maldizendo-o e atraindo as críticas dos demais passageiros. A recordação anuviou um pouco o pensamento de Margarete, mas não apenas o dela. A seu lado, Percival evocou a mesma lembrança.

Era muito estranho ativar uma memória insignificante, há tanto tempo perdida. Ele nunca pensara naquilo, jamais se lembrara daquela moça que subira ao ônibus, maltrapilha, apa­rentemente embriagada, com um bebezinho franzino no colo, ralhando com ele só porque vomitara em seu colo. Lembrou­-se de como a criticara e de como se arrependera depois, mas, estranhamente, aquela pontada de culpa já não existia mais.

Desconhecendo o significado da lembrança inopina­da, Percival sentiu enorme paz interior, permitindo-se pen­sar em Margarete, imaginando o que teria sido feito dela e de seu bebê. Nesse mesmo tempo, Afrânio sacava do bolso a fotografia, enquanto Félix lhe sussurrava ao ouvido:

— Vamos, mostre a ele.

Apesar do desânimo, Afrânio aproximou a foto de Percival e solicitou com extrema educação:

— Por favor, senhor, se incomodaria de dar uma olha­da nesta foto para mim? Há muito procuro essa moça. Percival apanhou o retrato e quase desmaiou de susto. Como era possível que ele, de repente, do nada, se lembras­se de uma desconhecida e, no momento seguinte, estivesse com o retrato dela nas mãos? Ele olhou para Afrânio, em­basbacado, partes do sonho voltando à sua mente. Como não acreditava em coincidências, percebeu naquele acaso toda uma movimentação espiritual.

— Moço — murmurou ele, ainda assim atônito —, é a coisa mais estranha. Pois agora mesmo estava pensando nessa mulher.

— O quê?—surpreendeu-se Afrânio, sentando-se ao lado dele e fazendo Margarete levantar. — O senhor a reconhece?

— Essa foto é antiga, não é? — Afrânio assentiu. — E ela tinha um bebê, não tinha?

— Tinha! — ele quase gritou, mal acreditando no que ouvia. — Lembra-se dela?

— Não sei como, mas me lembro. Foi há muito tempo. Ela entrou nesse mesmo ônibus, com o bebê, e desceu na Praça Saens Pena, pouco antes de eu saltar.

— O senhor pode me mostrar onde é?

— É claro. Vamos passar por lá. Mas, diga-me, por que a procura?

— Fui contratado para encontrá-la.

— Porquê?

— Lamento, mas não posso dizer isso.

— É claro, desculpe.

Seguiram o resto do caminho conversando, e Percival aproveitou a oportunidade para falar com Afrânio sobre as coisas do invisível. Mostrou-lhe um exemplar de A última chance, de Marcelo Cezar, afirmando com serenidade:

Esse livro me ajudou a superar a morte do meu filho.

É mesmo?

O senhor devia experimentar ler. O mundo espiri­tual é fantástico.

Não sei se acredito nisso.

Não acredita? Pois como acha que me encontrou, de uma hora para outra?

Sorte. Coincidência.

Que nada! Aposto como os espíritos ajudaram você.

Afrânio não sabia o que dizer. O que acontecera fora mesmo inusitado. Não acreditava em vida após a morte nem em espíritos, contudo, de qualquer forma, tinha que reco­nhecer que era estranho. Ele ia perguntar alguma coisa a Percival, quando este disse:

— É aqui.

O detetive assentiu decepcionado. Queria ainda fazer al­gumas perguntas sobre espiritualidade, mas tinha que trabalhar. Decidiu-se, porém, a estudar o assunto em suas horas vagas.

Ouvindo o sinal da descida, o motorista parou no mes­mo ponto em que Margarete havia saltado.

— Obrigado — falou para Afrânio. — Não sabe o quanto me ajudou.

Afrânio pôs de lado a conversa que tivera com Percival para se concentrar em seu trabalho. A praça Saens Pena es­tava muito diferente agora, mas era o local em que Margarete havia pisado, mais de vinte anos antes. Ao lado dele, Félix e Margarete seguiam de mãos dadas, observando a indecisão do detetive sobre aonde deveria ir.

Afrânio ainda mostrou a foto a alguns transeuntes, mas ninguém sabia de nada. Como a hora já ia avançada, achou melhor voltar depois. Depois do encontro com Percival, ti­nha certeza de que em breve encontraria Margarete.

Apesar do pouco tempo, o namoro de Marcos e Raquel se aprofundava a cada dia. Os dois viviam sempre juntos, inten­sificando seus encontros com o término do ano letivo. Embora Raquel ansiasse por estar a sós com ele, Marcos se demons­trava evasivo, não tocava em assuntos de sexo. Quando saíam, normalmente iam ao cinema ou a algum restaurante pacato, frequentado por famílias com filhos. Nunca iam dançar, muito menos, ao motel.

Naquela sexta-feira, todavia, Raquel estava decidida a ter uma noite de amor com Marcos. Ouvira dizer que muitos evangélicos não faziam sexo antes do casamento, mas ela se recusava a crer que ele fosse assim. Um universitário não se deixaria envolver por tabus que ela considerava sem sentido.

Assim que entraram no carro dela, Raquel ligou o mo­tor e fez a pergunta:

O que vamos fazer hoje?

Estão encenando A Paixão de Cristo no teatro da minha igreja. Gostaria de ir?

Raquel soltou um suspiro profundo, alisou o rosto dele com uma das mãos. Ligou o carro e saiu do estacionamento.

Será que não poderíamos ficar sozinhos? — tornou ela, olhando-o de soslaio.

Estamos sempre sozinhos. Por isso pensei no tea­tro. Você não conhece minha igreja...

Gostaria de ir a um lugar para namorar — cortou ela.

Onde?

Vamos dar uma volta na praia? Ele a estudou por uns momentos antes de responder:

Está bem. Se é o que você quer.

Raquel tomou a direção da Barra da Tijuca. Não sa­bia mais o que fazer para deixar transparecer que o que ela mais queria era dormir com ele. Parou o carro em frente à praia, num lugar mais deserto, e Marcos observou:

Aqui é perigoso. Podemos ser assaltados.

Não podemos, não.

Ela se aproximou e beijou-o sofregamente, deslizando a mão sobre o peito dele. Na mesma hora, todo o corpo de Marcos se acendeu. Ele a abraçou fortemente, trocando com ela carícias inocentes. Raquel, ao contrário dele, ousou mais nos carinhos, deixando-o aturdido, louco de desejo. No come­ço, ele cedeu um pouco, mas depois, com a consciência to­mada pela culpa e a certeza do pecado, afastou-se atordoado.

Não, Raquel — sussurrou ele, segurando-lhe a mão trêmula.

Por que não? — gemeu ela, a boca ainda colada à dele. — Eu o amo.

Não é certo.

O que não é certo?

O que estamos fazendo.

Não estamos fazendo nada — protestou ela, bei­jando-o pelas faces e o pescoço, a fim de provocá-lo o sufi­ciente para que ele não resistisse.

Não faça isso — implorou ele, sem saber como evi­tar o contato com ela.

Sem lhe dar ouvidos, Raquel continuou beijando-o. Deixou que sua mão percorresse o corpo dele novamente, satisfeita com o grau de excitação a que o estava levando.

Ele tentava se soltar, ao mesmo tempo em que se agarrava a ela, contendo a mão que, impiedosamente, buscava descer pelo corpo dela. Aos pouquinhos, foi cedendo ao desejo, en­tregando-se àquele momento de prazer. Mas, quando Raquel tocou-o em suas partes mais íntimas, ele a empurrou e fez um movimento para trás, deixando-a estarrecida e frustrada.

O que foi que houve? — balbuciou ela, tentando aproximar-se novamente.

Isso não está certo — censurou ele. — Nós não somos casados. Não podemos nos tocar dessa maneira.

Raquel sorveu o ar aos borbotões, para acalmar a res­piração ofegante, e recostou-se no banco do motorista.

— Você é virgem, Marcos?

A pergunta foi tão direta que ele quase engasgou. Não fosse o tom escuro de sua pele, ela teria percebido o rubor que lhe subia às faces. Em vez de responder, ele respirou fundo e devolveu a pergunta:

E você não é?

Não.

Novamente a surpresa, não tanto pela revelação, mas pela facilidade com que ela falava de um assunto tão íntimo. Marcos lutava consigo mesmo, contra o lado religioso que lhe dizia que Raquel não servia para ele. Virgindade era uma coisa sagrada, somente deveria ser consagrada ao esposo ou à esposa assumidos perante Deus. Como poderia ele, sendo ainda puro e casto, conviver com uma mulher que já cometera o pecado da carne?

Mas o amor era muito mais forte. Marcos amava Raquel como jamais tornaria a amar outra pessoa. O fato de ela não ser mais virgem era uma decepção para a qual, no fundo, ele já se preparara. Sabia que se iludia ao afirmar que ela era pura, porque moça nenhuma na idade dela ainda o era. E Raquel tinha aquelas manias espiritualistas, sem limites, sem dogmas, sem regras. Que razão teria para pensar na virgindade da mesma forma que ele?

— Acho melhor irmos para casa — sugeriu ele por fim, sem saber como proceder. Ela o olhou incrédula:

Você quer ir embora assim, sem nem conversar?

O que podemos conversar? Você já disse o que queria.

Mas não ouvi nada de você.

O que você quer que lhe diga? Que, ao contrário de você, ainda me guardo para o casamento?

Não fosse o momento tão delicado, Raquel teria acha­do graça. Naqueles dias, ainda existia alguém, e homem, que acreditava em se casar virgem.

Olhe, Marcos, não quero desrespeitar suas cren­ças, mas onde é que está escrito que duas pessoas que se amam não podem fazer sexo?

Podem. Depois do casamento. E a Bíblia é cheia de passagens que nos ensinam que nosso corpo é o templo do Espírito Santo, devendo ser reservado para o cônjuge legiti­mamente assumido perante Deus.

Não entendo muito de Bíblia, mas posso dizer que entendo de pessoas. Para mim, o que tem valor é o que se guarda no coração.

Marcos a olhou com pesar. Lutava entre o impulso de tomá-la nos braços e o de rejeitá-la como mulher pecamino­sa, herege.

Se você se arrepender, Deus vai perdoá-la, com certeza.

Arrepender-me de quê? De não ser mais virgem?

Ele não disse nada, e ela continuou: — Não vejo por que me arrepender se não considero que tenha feito nada de errado. Você fala em Bíblia e em Escrituras, mas eu nunca vi, nos livros espiritualistas que li, uma só linha condenando aqueles que não se casam virgens. E quem nunca se casar? Vai ter que morrer virgem também?

Seus livros não são a Bíblia.

Por certo que não. Mas por que não são tão bons quanto ela? Para você, a Bíblia é o compêndio da verdade. Para mim, a verdade não se traduz meramente em palavras. Ela está nas leis que regem o universo e não foram escritas por ninguém, mas podem ser compreendidas por qualquer um que desenvolva suficientemente a inteligência. Esse não é o nosso caso. Nós, seres humanos, conhecemos ainda muito pouco da verdade.

Ele a fitou aturdido, sem saber o que dizer. Raquel di­zia coisas que ele não compreendia muito bem, mas faziam algum sentido dentro dele.

É isso que você aprende nos livros que lê?

Eu não aprendo nada. Sou levada a refletir.

Ela estava visivelmente aborrecida. Marcos sentiu imen­surável ternura por ela. Queria muito abraçá-la, porém, tinha medo de se deixar envolver por suas heresias. Não duvidava de que ela havia cometido o pecado da carne, mas sabia que o amor que sentia por ela estava muito além de qualquer pe­cado. E o que ela sentia por ele era amor também. Seria esse, contudo, um sentimento que ela só nutrira por ele?

Você amava Nelson? — perguntou ele, tentando compreender o jeito dela.

Não — foi a resposta sincera e rápida.

Mas se deitou com ele?

Ela o olhou magoada e respondeu com lágrimas pre­sas nos olhos:

Sim.

Porquê?

Porque quis. Porque senti desejo. Porque gostava dele, embora não o amasse como amo você.

Foi um impulso da carne?

Foi.

Como o de agora?

O de agora foi um impulso de amor.

Marcos fitou-a novamente, sentindo aquele desejo qua­se irresistível de abraçá-la, beijá-la, dizer que nada daquilo importava. Mas, então, por que não conseguia aproximar-se dela, por que ficava preso aos ensinamentos que ouvira na igreja? Porque as palavras da Bíblia estavam impressas em seu coração, e não era assim tão fácil desapegar-se de valo­res com os quais fora acostumado desde a mais tenra idade.

Em vez de ceder ao comando do coração, Marcos sen­tia necessidade de saber mais a respeito da vida pregres­sa da moça e continuou perguntando, sem dar atenção ao amor contido nas palavras de Raquel:

Com quantos homens você já dormiu?

Isso não é da sua conta! — irritou-se ela. — E quer saber do que mais? Para mim chega! Cansei. Se você acha tão importante assim ser virgem, vá procurar uma garota na porta da igreja. Essa garota não sou eu. Aprecio a vida e não estou disposta a abrir mão do prazer só porque você acredita que sentir prazer é pecado.

Ela rodou a chave na ignição e, quando colocou a mão sobre o câmbio para engatar a ré, Marcos a segurou com fir­meza. Raquel estava furiosa, ele já a conhecia o suficiente para saber o quanto ela era decidida e segura de si. Mas não podia perdê-la. Pensar nisso causou-lhe um arrepio de terror pior do que a decepção por ela não ser mais virgem. Se era doloroso aceitar que ela já havia dormido com outros homens, muito mais doloroso seria pensar que ela jamais seria dele.

Não, Raquel, por favor — murmurou ele. — Não vá ainda.

Não vou permitir que você fique aí falando comigo como se eu fosse uma perdida. Se você quer ser virgem, tudo bem, o problema é seu. Embora não compreenda, pos­so aceitar a sua escolha e conviver com ela. E sabe por quê, Marcos? Porque eu conheço uma coisa que, pelo visto, você ainda não aprendeu: respeito. Você não sabe me respeitar do jeito que eu sou, porque não sou como você esperava e queria. Isso não é amor e, se você não me ama, prefiro que fique longe de mim. Acho melhor terminarmos agora...

Ela falava sem parar, mas Marcos não deixou que con­cluísse a frase. Puxou-a para si, selando seus lábios com um beijo. Raquel não se debateu mais que um segundo. Presa nos braços dele, permitiu-se beijar, mas ficou quieta, sem ousar mexer as mãos e tocá-lo. Nem foi preciso. Dessa vez, foi Marcos quem tomou a iniciativa.

Em meio aos beijos e carícias, a imagem da tia e do pastor lhe aparecia, mas a respiração ofegante de Raquel dissipava qualquer sombra que nublasse aquele momento. Mesmo sem experiência alguma em sexo, ele ia deixando-se envolver pelo momento, excitando-se cada vez mais com a excitação de Raquel.

Vamos sair daqui — sussurrou ele, beijando-lhe o ouvido.

Tem certeza?

Ele apenas assentiu, sem parar de beijá-la. A muito cus­to, Raquel se afastou dele e conseguiu, finalmente, engatar a ré, em direção ao motel mais próximo. Durante o breve trajeto, Marcos lutava com a lembrança da tia e do pastor, o medo de estar comprometendo sua alma e a certeza de que nada compensaria o amor de Raquel. Ela era mais importante do que tudo, por ela valeria a pena correr o risco do pecado.

Chegaram ao motel rapidamente e logo estavam na cama, se amando. Marcos jamais havia experimentado aquela sensação em toda a sua vida. Nem sequer imaginara que pudesse sentir tanto prazer. Ali, com o corpo de Raquel junto ao seu, pensou se tudo aquilo que aprendera era real­mente o certo. Como poderia o amor caminhar de braços dados com o pecado? Fora preciso experienciar para com­preender que o sexo não era um erro, mas o complemento de um sentimento que estava muito além de qualquer dog­ma ou tabu humano.

A partir daquele dia, superando a proibição, Marcos entregou-se a um amor verdadeiro e apaixonado. O pecado da carne cedeu lugar à beleza do amor. Aos poucos, foi-se distanciando da igreja. Chegava tarde aos sábados e não conseguia acordar cedo para o culto aos domingos.

Sua tia tem-se queixado de que você não vai mais à igreja — comentou Clementina.

Ela esteve aqui hoje?

Cedo, como sempre. Você estava dormindo, e eu não deixei que o acordasse.

Podia ter deixado. Faz mesmo tempo que não assis­to aos cultos. Estou em falta com tia Leontina e com o pastor.

Posso dizer o que eu acho, meu filho? — Ele as­sentiu. — Acho que você está muito melhor assim, do jeito como está. Não me agrada ver um menino bonito, inteligen­te e saudável feito você enfurnado em igreja. Acho bom você aproveitar a vida.

Mas, mãe — objetou ele, confuso —, tenho negli­genciado meus deveres cristãos.

Que deveres? Só porque não vai mais às vigílias e fal­ta aos cultos não quer dizer que você não seja um bom cristão.

Tenho me distanciado dos ensinamentos bíblicos confessou ele, sem encarar a mãe.

Como assim? — retrucou ela. — Fez alguma coi­sa errada?

Não sei dizer. Gostaria de conversar sobre isso com o pastor, porém, tenho medo. Sei que ele vai me recriminar e querer que eu me arrependa, mas não quero.

Arrepender-se de quê? Qual foi o pecado que você cometeu? — Ele não respondeu, mas Clementina, sim.

Não precisa dizer. Foi o maldito pecado da carne, não foi?

Marcos assentiu mansamente e afundou o rosto entre as mãos, com vergonha de encarar a mãe.

— Não pude resistir... Mas eu a amo tanto! Por que amar tem que ser pecado?

— Não se deixe enganar por essas baboseiras de pas­tor — aconselhou a mãe. — Eu mesma não acredito em nada disso. O pecado está no coração da gente, não no corpo.

— Será, mãe? Mas as Escrituras dizem...

— Eu não devia ter deixado sua tia influenciar você, não devia. Agora você acha que tudo é pecado.

— Você é que não acredita em nada. Perdeu a fé.

— Como alguém perde o que nunca teve? Eu nunca tive fé em nada. la à igreja por influência de Leontina, para me purificar dos meus próprios pecados.

— Você também tinha pecados?

— Quem não os tem? Eu e seu pai poderíamos ser acusados do mesmo pecado, se é que me entende. Na épo­ca, fiquei com remorso e fui na onda de Leontina. Seu pai, ao contrário, foi mais esperto e largou a igreja. Mas eu achava mesmo que tinha errado. Sua tia me levou ao pastor, ele me fez jurar que não pecaria outra vez. E, como nós nos casamos, consertamos tudo. Para quê? Veja só no que deu a minha fé.

— Você acabou de dizer que nunca teve fé. Talvez, se você tivesse se voltado mais para Deus, não tivesse sofrido tanto.

— Deus não impediu seu pai de nos abandonar.

— Mas poderia tê-la ajudado a não compensar tudo com a bebida.

— Eu já me curei — rebateu em tom de desculpa.

— Não a estou acusando. Quero apenas que você perceba que a religião nos ajuda a manter o equilíbrio.

— Pode ser. Mas tem que vir lá de dentro. A gente tem que sentir a fé, acreditar no Espírito Santo com o coração, não por medo ou imposição. E eu, infelizmente, estava no segundo caso. É por isso que não volto para a igreja nem me interesso por religião alguma. Todas elas têm as suas proibições. Não quero mais ninguém para me dizer o que posso ou não fazer, recriminando-me ou felicitando-me pe­los meus erros e acertos.

— Não é bem assim. Tenho que reconhecer o bem que a igreja me fez até hoje. Para começar, manteve-me fora do vício.

— Isso, realmente, foi um bem. Você tem razão, a reli­gião tem coisas boas, mas não é para mim.

— Acho que é para qualquer um. Você apenas sofreu uma decepção e não consegue aceitar que não foi por culpa da igreja que papai a deixou. Foi porque ele quis ir embora, estivesse você na igreja ou não. Ouvir a verdade doeu no coração de Clementina, que arriou no sofá e pôs-se a chorar baixinho.

— Você tem razão — confessou ela. — Hoje estou preparada para aceitar isso.

— Então, por que não volta para a igreja? Estar mais próxima de Deus vai ajudá-la muito.

— Não. Perdi minha fé e não pretendo mais me entre­gar ao poder dos homens. Prefiro confiar apenas na força de Deus.

— Você ainda acredita em Deus?

— Acredito. Mas não nesse Deus de barba, sentado num trono, que fica vigiando nossas vidas e anotando num caderninho tudo que fazemos de bom ou de ruim.

— Como você pensa que Ele é, então?

— Não sei explicar. Talvez Ele seja apenas amor...

— Eu acredito em Deus e no que dizem as Escrituras. Por isso, temo pela minha alma e a de Raquel.

Clementina aproximou-se do filho e tomou-o nos bra­ços, encostando a cabeça dele em seu peito. Afagou seus cabelos com carinho extremo, até que falou convicta:

Não creio que Deus vá puni-los por isso. Acho que, se vocês se amam, ele irá abençoá-los, estejam ou não casados.

Será mesmo?

Prefiro acreditar nisso.

E se você estiver enganada? E se eu me enga­nar também? Algumas breves batidas soaram na porta, que se abriu vagarosamente, e Leontina entrou.

— Está tudo bem com você, Marcos Wellington? — perguntou ela, vendo mãe e filho abraçados.

Estou bem, tia — respondeu ele, enxugando uma lágrima ligeira dos olhos.

Passei aqui mais cedo, mas sua mãe disse que você estava dormindo.

Podia ter-me acordado. Tenho sentido falta de ir à igreja.

Nós todos também temos sentido a sua falta. Hoje mesmo o pastor perguntou por você.

Tenho andado ocupado.

Sei... E os estudos, como vão?

Bem.

Marcos se afastou da mãe e foi apanhar uma fruta na geladeira, enquanto Leontina prosseguia:

Você está namorando alguém?

Por que pergunta?

Você tem andado esquisito. Normalmente, quando os jovens ficam com a cabeça no ar, é porque estão apaixo­nados. — Marcos olhou para a mãe e não respondeu: — Ela pertence à nossa congregação?

Eu não disse que estava namorando — contestou ele.

Não precisa me contar, se não quiser. Alerto-o ape­nas para os perigos de uma relação amorosa distante dos ensinamentos bíblicos. Cuidado para não incorrer em ne­nhum pecado do qual vá se arrepender depois.

Não se preocupe, titia. Sei muito bem o que es­tou fazendo.

Ainda bem. E o pastor mandou dizer que espera vê-lo na igreja no próximo domingo. Posso dizer a ele que você irá?

Pode... não. Acho melhor não.

Porquê?

Marcos não queria dizer que temia ir à igreja e revelar ao pastor o que estava fazendo, porque não sabia mentir e não mentiria diante de uma pergunta direta.

Marcos Wellington vai sair comigo no próximo domingo — anunciou Clementina, para salvar a situação.

Prometeu que me levaria ao Pão de Açúcar. Não é, meu filho? Eu nunca fui ao Pão de Açúcar.

Leontina não percebeu o ar de espanto de Marcos e retrucou:

— Tem que ser de manhã?

— É mais fresco. E depois, vamos almoçar num res­taurante.

— Vocês têm dinheiro para isso tudo?

— Estou economizando há meses para esse dia. Não é, meu filho? Marcos fez que sim com a cabeça, evitando encarar as duas, e Leontina prosseguiu:

— Acho que vocês podiam ter escolhido um ou­tro dia para passear, mas seria demais esperar que você, Clementina, levasse em consideração os horários do culto.

— Desculpe-me, minha irmã, eu realmente nem me lembrei da igreja.

— E vocês não podem fazer esse passeio outro dia? Num sábado, por exemplo?

— Ah, não. Já combinamos no domingo. Sábado eu tenho uma faxina e não poderei ir.

Leontina suspirou desanimada, não muito convencida da veracidade das palavras de Clementina.

— Tem certeza de que não quer ir, Marcos Wellington?

Ele finalmente encarou a tia. Como não gostava de mentir, logo pensou numa solução para a desculpa que a mãe arranjou para salvá-lo. Levaria a mãe ao Pão de Açúcar e ao restaurante, mas não iria sozinho. Raquel estaria com eles. Como fazia algum tempo que ela pedia para ser apresentada a Clementina, aquela seria uma excelente oportunidade.

— Não vai dar, tia. Já está tudo combinado com mamãe e não quero deixá-la frustrada. Ela nunca vai a lugar algum.

— Nem você, Leontina — acrescentou Clementina.

— Não gostaria de nos acompanhar? Marcos quase soltou um grito, mas conseguiu se con­ter e olhou para a mãe com ar recriminador. Clementina, contudo, estava tranquila, certa de que a irmã jamais faltaria ao culto para se distrair.

— Não posso — contestou Clementina. — Não faltaria à igreja por nada. E, só por curiosidade: o restaurante é de algum evangélico?

— Não — Clementina apressou-se em dizer.

— Pois agora mesmo é que não vou. Não creio que um restaurante onde servem bebidas alcoólicas e tocam músi­ca pagã seja o local mais apropriado para um bom cristão.

— Por que você acha que tudo o que não é evangélico é do demônio, Leontina? — perguntou a irmã.

— Quando você seguia o caminho da religião, não ti­nha o diabo no corpo — disse Leontina com uma certa rai­va. — Nem tinha pensamentos pecaminosos.

— E agora tenho?

Notando a iminente discussão religiosa, Marcos resol­veu intervir:

— Bom, tia, vou acompanhá-la até sua casa. Já está ficando tarde e sei que a senhora ainda tem que preparar o almoço.

As duas perceberam o porquê da atitude de Marcos, mas silenciaram e aquiesceram. Às vezes, quando ultra­passavam o limite da tolerância mútua, uma discussão se instaurava, e Marcos estava sempre ali para impedir. Depois, ambas agradeciam intimamente, porque, apesar das diver­gências, só tinham uma à outra e não gostariam de se afas­tar novamente por causa de nenhuma briga.

Logo que Marcos deixou Leontina em casa, voltou para junto da mãe, que havia terminado de preparar o al­moço. Ele entrou e beijou-a no rosto, ajudando-a a pôr a mesa. Depois que se sentaram, ele fez a breve oração, que Clementina acompanhava de olhos cerrados, em respeito a ele, e puseram-se a comer.

Gostou da saída que tive para livrá-lo da igreja no domingo que vem? — indagou ela sorrindo.

Foi ótima. Achei a ideia tão boa que resolvi comprá-la.

Como assim?

Vamos mesmo ao Pão de Açúcar, depois a leva­rei para almoçar num restaurante. E não iremos sozinhos. Quero que você conheça uma pessoa.

Sua namorada? — Marcos assentiu. — Vai me apresentar a sua namorada?

Clementina não sabia se estava mais feliz com o passeio inesperado ou com o fato de que iria conhecer a namorada de seu filho. Talvez as duas coisas a alegrassem.

Raquel quer muito conhecê-la. E o momento é o mais oportuno.

Que maravilha, Marcos Wellington! Conhecer o Pão de Açúcar e sua namorada ao mesmo tempo vai ser muito bom. Só não tenho roupa para estar à altura de uma moça tão fina. E se ela não gostar de mim?

Ela vai adorar você. Raquel é uma moça especial, tenho certeza de que você irá gostar dela também.

Ela sabe que somos pobres, não sabe?

É claro.

Mesmo assim, gostaria de ter algo melhor para ves­tir. Minhas roupas estão todas velhas e puídas.

Não se preocupe. Vou lhe comprar algo novo, só para você ficar feliz. Quero que Raquel veja o quanto minha mãe ainda é bonita.

Bonita, eu? — protestou ela encabulada. — Ora, Marcos Wellington, só você mesmo.

Riu de satisfação, e Marcos afagou sua mão por cima da mesa. Gostava tanto da mãe, queria muito tirá-la daquela vida. E sua tia Leontina também. Ela era fanática pela reli­gião, mas era uma boa pessoa, incapaz de mentir, enga­nar ou maltratar quem quer que fosse. Se a pessoa não era evangélica, Leontina procurava não manter contato com ela, mas, se estivesse em apuros, deixava de lado a discrimina­ção e procurava ajudar. Marcos gostava dela, quase tanto quanto gostava da mãe.

Com o fone na mão, Raquel antegozava a ideia de, fi­nalmente, conhecer a mãe de Marcos. Havia algum tempo pensava em apresentá-lo a seus pais, mas a insegurança dele ia adiando o encontro. Depois que ela fosse apresenta­da à mãe dele, tinha certeza de que conseguiria marcar um jantar em sua casa.

Mentalmente idealizando o passeio que fariam no do­mingo, recolocou o fone na base, e só então percebeu o ir­mão parado atrás do sofá, de braços cruzados, encarando-a com ar intimidador.

— Que susto, Elói! — exclamou ela. — Agora deu para ficar escutando a conversa dos outros, é?

— Estava falando com o seu namoradinho?

— Não é da sua conta, mas estava, sim. Por quê?

— Por nada. Só estou curioso. Se ele é pobre, deve trabalhar em algum lugar.

— Trabalha.

— Em algum banco?

— Não.

— Em um escritório? — Ela meneou a cabeça. — Em uma loja então? Já sei! Ele é office boy.

— Não encha a minha paciência, Elói. Vá procurar o que fazer.

— Não precisa tentar me esconder a verdade. Sei que ele é garçom.

— Se sabe, por que perguntou?

— Por nada. Queria ver se você tinha coragem de me contar.

— Até parece que você me mete algum medo. Você não tem nada com a minha vida. Elói quase a esbofeteou, mas conseguiu se conter. Os pais o recriminariam e lhe cortariam a mesada se fizesse uma coisa daquelas.

— Ele trabalha no shopping? Em algum restauran­te famoso?

— Dá um tempo, Elói. Não tenho que ficar aqui es­cutando isso.

Irritada com a provocação do irmão, Raquel rodou nos calcanhares e foi para o quarto, tentando não entrar na ener­gia dele. Não aguentava o sarcasmo de Elói. Ele se julgava o dono do mundo, superior a todos com o seu preconceito.

Elói esperou até que Raquel saísse e ligou para o ce­lular de Nelson.

— Acho que já está na hora de agir.

Mais tarde, os dois perambulavam pelo shopping, cir­culando pela praça de alimentação à procura de Marcos. Avistaram Raquel sentada a uma mesa, tomando um refri­gerante, e procuraram pelo rapaz. Marcos apareceu em se­guida, segurando na mão uma bandeja. Passou por Raquel sem se deter, indo servir uma mesa mais adiante.

— É ele — rugiu Nelson, apontando para Marcos com o queixo.

Até que é bem-apessoado — observou Elói.

Está de brincadeira comigo? — irritou-se Nelson.

Calma. Só estou tentando avaliar a situação de for­ma imparcial.

Sentados em uma lanchonete próxima, os dois fica­ram muito tempo observando a rotina de Marcos, fato que pretendiam repetir nos dias subsequentes. Ao final da noite, quando o restaurante fechou as portas, ele saiu com Raquel. Deu-lhe um beijo apaixonado, levando Nelson a quase per­der o controle e partir para cima dele. Por sorte Elói estava ali para detê-lo.

— Acho bom você se acalmar — censurou ele. — Ou quer estragar tudo?

— O canalha está beijando a minha garota!

— Ele pode até ser um canalha, mas ela não é mais sua garota.

— De que lado você está, afinal?

— Estou do seu lado, mas nem por isso fiquei burro de repente. Raquel terminou com você porque se apaixo­nou pelo canalha ali. Não temos como fugir disso. Os dois passaram abraçadinhos, sem perceber a pre­sença de Nelson e Elói, em direção ao estacionamento.

— Aposto como é Raquel que paga tudo — menos­prezou Nelson. — É ela que tem o carro e o dinheiro. Deve arcar com todas as contas, inclusive do motel.

— Deixe disso. Ciúme agora não adianta nada.

— Não posso evitar. Trocar-me por aquele... Elói silenciou-o com um gesto:

— Acho melhor cortarmos as referências raciais. Cor­remos um grande risco de ser presos por isso, se alguém nos escutar. Já houve casos, e não quero me arriscar. — Nelson mordeu os lábios, com raiva, e Elói chamou: —Vamos. Eles já foram embora, não temos mais o que fazer aqui.

— Vamos segui-los?

— Para quê? Para vê-los entrar num motel?

— Você acha que eles vão para um motel?

— Corre esse risco. E acho que você não quer ver isso, quer?

O que Nelson queria mesmo era esmurrar a cara de Marcos e tirar Raquel à força do lado dele, obrigando-a a aceitá-lo de volta. Como aquilo era impossível, preferiu não ver mais nada.

— Não — sussurrou ele, engolindo o ódio.

— Então, vamos embora. Temos que observá-lo em silêncio e montar uma estratégia. Já tenho uma ideia mais ou menos delineada, mas não pode haver falhas. Marcos e Raquel já iam longe, sem desconfiar de nada.

— Adorei a ideia de sairmos com a sua mãe. Queria muito conhecê-la.

— Ela também está louca para conhecer você. Fez o que lhe pedi?

— Fiz, sim. Comprei um conjuntinho bem bonitinho e moderno, de calça capri com bordados nos bolsos e ca­miseta igual, do mesmo tamanho das peças que você me trouxe. Uma graça.

— Quanto custou?

— Ah, Marcos! Deixe isso para lá.

— Não, senhora! Nem pensar! O combinado não foi esse.

— Quero dar um presente a sua mãe. Não posso?

— Não.

— Porquê?

— Porque não é direito. Fui eu que pedi a você para comprar uma roupa para ela.

Raquel não discutiu. Deu o preço e recebeu o dinheiro, mesmo sabendo que ele fazia sacrifício para comprar aque­la roupa bonita. Não fora muito cara nem muito barata. Ela guardou o dinheiro no bolso e esticou-se para apanhar, no banco de trás do carro, uma sacola com a roupa nova e outra com a usada que servira de modelo. Marcos apanhou tudo e agradeceu.

Você é muito orgulhoso — declarou ela. — Não tem nada de mais eu presentear sua mãe.

Um dia você poderá lhe dar presentes, mas agora não. E não sou orgulhoso. Só não quero que digam que es­tou com você por dinheiro.

Ninguém tem nada com a nossa vida.

Eu sei, mas é importante para mim que fique bem claro.

Tudo bem. Não precisamos discutir por isso. Ela continuou guiando, até que ele voltou a falar:

Tenho uma novidade para lhe contar.

O que é?

Matriculei-me numa autoescola.

Sério?

Sério. Quero aprender a dirigir e, quem sabe, com­prar um carrinho barato para mim. Pode ser um fusquinha velho mesmo.

Raquel achou graça, ao mesmo tempo em que sentiu orgulho dele. Marcos podia ser pobre, mas tinha uma ambi­ção saudável que o colocava no caminho da conquista.

— Você vai conseguir — comentou ela. — Sei que vai.

Ficaram em silêncio alguns minutos, até que ele tornou a falar:

— Minha tia está desconfiada de que estou namoran­do alguém.

— Não pode contar a ela sobre nós?

— Ela iria direto ao pastor, que me pressionaria, até eu falar que já dormimos juntos.

— E daí? Você não tem mais problemas com isso, tem?

— Só um pouquinho. No fundo, ainda não estou bem seguro do que estamos fazendo.

— Deixe disso, Marcos. Você já superou esse tabu.

— Talvez, se você fosse à igreja comigo...

— Está querendo me converter ou é impressão minha?

— Não é nada disso. É que você não tem religião algu­ma, e pensei se não gostaria de conhecer a minha.

— Eu não teria problema, a princípio, em conhecer a sua igreja ou qualquer outra, desde que ninguém queira me converter.

— Não é isso. Seria apenas para acalmar minha tia Leontina.

— Acalmá-la como? Levando-a a crer que sou da sua religião, que acredito nas mesmas coisas que ela e faço o que ela acha que é certo? Não. Isso não seria honesto nem comigo, nem com ela. Não sigo religião alguma nem preten­do seguir. Tenho a minha fé em Deus, e é o que basta.

— Mas eu sou evangélico!

— E pode continuar sendo. Isso não me incomoda. Aceito e respeito a sua religião numa boa. Só não quero fazer parte dela.

— Você acha que a minha religião é ruim?

— Eu nunca disse isso. Acho que é boa, como todas as outras que pregam o bem e estão tentando ajudar as pessoas a serem melhores. Só que eu não tenho afinidade com ela. Gosto das coisas ocultas, de assuntos esotéricos e ensinamentos espiritualistas.

— O pastor diz que isso são coisas satânicas.

— Você vai me desculpar, Marcos, mas acho que o pastor desconhece os estudos espiritualistas. Tenho lido muita coisa sobre espiritismo, teosofia, astrologia, budismo e outras coisas do gênero. São temas fascinantes que pre­gam tudo, menos o satanismo, da forma como você em­prega essa palavra.

— Não sei, Raquel. É difícil crer que o pastor, um ho­mem estudado e inteligente, esteja enganado.

— E é fácil acreditar que eu, que você ama e conhece, tenho parte com o demônio? — Ele não disse nada. — Por acaso as minhas atitudes são malignas ou enganadoras?

— Não — disse ele convicto. — Sei que você é uma pessoa boa e sincera.

— Pois, então, como posso pregar o satanismo?

— Eu não disse que você prega. O que temo é que es­teja sendo enganada por essas heresias. O diabo encontra meios de iludir os incautos.

— Você também fala do que não conhece. Qualquer um que se prende a uma só verdade não conhece verda­de alguma.

— E quem conhece a verdade? Só Deus.

— Isso mesmo. Nós estamos buscando a verdade que mais nos aproxime dele. Isso não quer dizer que a verdade seja privilégio de apenas um segmento religioso ou filosófico. Só descobrimos aquilo que nos é permitido conhecer, e cada um aprende da sua forma. Se você analisar bem, verá que to­das as Escrituras sagradas dizem as mesmas coisas, embora adotando interpretações e simbologias diferentes. Quem as distingue entre boas e ruins, hereges ou divinas, é o homem, que afunda no orgulho e se julga mais poderoso do que Deus. Raquel falava de coisas que o deixavam confuso e, ao mesmo tempo, curioso. Por diversas vezes, ele fora alertado dos perigos das seitas e falsos cultos, mas as palavras de Raquel não pareciam condizer com tudo o que ele ouvira sobre assuntos ligados ao espiritismo ou temas esotéricos. Não havia nada de mau no que ela dizia.

— Minha mãe diz coisas parecidas, só que não usa palavras tão bonitas. Ela também ficou descrente da igreja.

— Por quê?

— Por causa do meu pai.

Num breve relato, Marcos contou a Raquel tudo por que haviam passado desde que o pai os abandonara.

Você é um homem de coragem e dignidade — im­pressionou-se ela. — Depois de tudo por que passou, podia ter-se tornado um criminoso, um traficante ou um mendigo.

Foi o temor a Deus que me manteve no caminho da retidão.

A religião o ajudou muito, concordo.

Então não é bom ser religioso?

É claro que é bom! Desde que não haja fanatismo. Há pessoas que precisam de alguém que lhes imponha li­mites, para que não busquem os mesmos caminhos de dor que trilharam em outras vidas. Talvez esse seja o seu caso. E como ninguém nasce onde não deve, nem experiência o que não precisa, tudo que lhe aconteceu foi exatamente o neces­sário para dar um empurrãozinho na sua ascensão espiritual.

Você falou em outras vidas. Como assim?

Vidas passadas.

Você acredita nisso?

Integralmente. Acho que a reencarnação é uma oportunidade sagrada de iluminação do Ser. É através dela que ganhamos novas oportunidades para refazer o que fi­cou malfeito.

Não sei... — Marcos retrucou pensativo. — A ideia da reencarnação invalida toda a crucificação de Jesus. Por que teria ele morrido para nos redimir de nossos pecados se tivéssemos uma nova chance de reencarnar para corrigir nossos erros?

Não acredito que Jesus tenha vindo nos redimir de nossos pecados. Através do seu sacrifício, a semente de amor foi plantada no coração do homem. Jesus se sacrifi­cou por nós não para nos livrar dos pecados, mas para nos mostrar que o caminho para a libertação é o amor.

Você diz coisas estranhas, Raquel, que o pastor ta­xaria de heresias. Tenho medo do que possa vir a lhe acon­tecer se continuar com essas ideias.

Falar de amor não pode ser heresia. Cada um é livre para pensar e crer no que quiser. Deus não está preo­cupado com a forma como você reflete sobre a vida e sobre Ele. Deus é puro amor; essa é a única verdade sobre Ele que podemos afirmar.

Deus perdoa tudo, desde que venha de um arre­pendimento sincero — afirmou ele, em tom de preocupação.

Não tenho do que me arrepender, nem você. Não quanto a questões religiosas. O mais importante é não ma­tar, não roubar, não mentir nem trapacear. É ser bom, digno, verdadeiro, caridoso e amigo. São esses sentimentos que contam para Deus na hora do "julgamento", como vocês cos­tumam dizer. E o julgamento, para mim, é o momento em que a nossa consciência nos faz refletir sobre tudo que fize­mos. Vamos então separando nossas obras em boas e não tão boas. Depois, nas encarnações seguintes, aproveitamos nosso tempo para aprimorar o que ficou pendente e desfrutar com alegria do que já foi aprendido. Assim vai, até o dia em que não houver mais nenhuma pendência, e tudo na vida for causa de felicidade. Aí, então, não voltaremos mais.

— Chega — sussurrou ele, selando os lábios dela com a ponta dos dedos. — Você me deixa confuso e assustado. Nunca pensei que uma pessoa só pudesse ter pensamentos tão fantásticos e heréticos. Ah! Se o pastor a ouvisse...

Dessa vez, Marcos falou sorrindo, pensando que Raquel fantasiava sobre coisas das quais nada sabia. Era melhor não ouvir mais suas bobagens, pois elas vinham en­voltas no manto da heresia. Eles eram tão diferentes! Mas ele não podia abrir mão de Raquel. Levá-la para sua igreja, pelo visto, estava fora de cogitação. O jeito era acostumar-se às barbaridades que ela dizia sem se deixar impressionar.

De repente, lembrou-se de algo que a tia sempre dizia: "Se você não puder modificar alguma coisa ou alguém, reze para que Deus faça isso no seu lugar". Foi o que ele fez. Ao chegar em casa, entregou-se a suas orações, pedindo a Deus que abrisse o coração e a mente de Raquel para o que ele considerava as verdades divinas, sem saber de duas coisas: a primeira é que ninguém tem o poder de modificar ninguém, e Deus não interfere diretamente na transformação das pessoas, apenas sugerindo conselhos úteis ao despertar da consciência. E a segunda, que a verdade de que ele tan­to falava não diferia, em substância, daquela em que Raquel acreditava, porque ambas tinham, por natureza, o mesmo significado pleno, que era a essência do amor.

Assim que Clementina abriu os olhos no domingo, viu uma sacola de papel pousada na poltrona puída que ficava ao lado de sua mesinha de cabeceira. A curiosidade a fez des­pertar, ela ergueu o corpo, esfregando os olhos, sonolenta.

"O que será isso?", pensou.

Apanhou a sacola e abriu-a, virando o conteúdo sobre a cama. Imediatamente seus olhos brilharam com o bonito conjunto, que ela desdobrou avidamente. Apanhou a calça e a blusa, revirou-as nas mãos, maravilhada com o borda­do e as pedrinhas dos bolsos. Nunca tinha visto roupa mais bonita. Ela se levantou e foi experimentá-la. Quando Marcos entrou, ela estava diante do espelho, virando-se de um lado a outro, satisfeita com o caimento de seu novo traje.

Marcos Wellington! — exclamou ela, correndo para ele, vibrante de satisfação. — Foi você quem comprou isso?

Na verdade, foi Raquel quem escolheu. Não enten­do muito dessas coisas de mulheres.

Nossa! Ela teve muito bom gosto. E caiu direitinho em mim! Como vocês conseguiram adivinhar o meu tamanho?

Apanhei uma calça e uma blusa, escondido, do seu armário.

Seu danadinho! E eu nem desconfiei.

A roupa ficou ótima em você. Agora é só terminar de se aprontar para irmos ao Pão de Açúcar.

Nós vamos mesmo?

É claro que vamos. Fiquei de me encontrar com Raquel na Praça Saens Pena às dez horas.

Então, deixe-me correr para não me atrasar.

Dirigiu-se ao banheiro, e Marcos ligou a televisão, para esperá-la. Pouco depois, suaves batidas na porta davam si­nal de que a tia havia chegado.

Bom dia, Marcos Wellington — cumprimentou ela, metendo a cara para dentro.

Bom dia, titia.

É hoje que você vai ao Pão de Açúcar com a sua mãe?

É, sim. Gostaria de ir?

Já disse que não posso. O culto acabou há pouco, mas tem vigília mais tarde.

A porta do banheiro se abriu, dando passagem a Clementina, toda arrumada e cheirosa.

Você está linda — elogiou Marcos, beijando-a no rosto.

Clementina! — espantou-se a irmã. — Nunca a vi vestida desse jeito.

Ela não está bonita? — perguntou Marcos.

Isso não é roupa de uma mulher temente a Deus contestou Leontina. — Essa calça está muito justa e marcando suas vergonhas. E os seios... estão praticamen­te à mostra!

Que vergonhas, que nada! — protestou Clementina.

Só tenho o que Deus me deu. E até que não ficou mal, ficou?

Pela primeira vez em muitos anos, Clementina perce­beu que ainda era uma mulher bonita, apesar dos maus­-tratos que a vida lhe impôs. Os cabelos negros, alisados à base de Henê, caíam com jeito sobre os ombros. O corpo era ainda esguio, e os seios pequenos se ajustaram perfei­tamente ao decote que os cingia.

Não tem nada de indecente, tia — objetou Marcos, só agora notando que ele também se desligara das recrimi­nações do pastor quanto ao traje feminino.

É, Leontina, não tem nada de indecente, não. Adorei a roupa, embora pense que Marcos Wellington não devia gastar seu dinheiro comigo. Mas, enfim, ele também não quer que eu faça feio na frente de Raquel.

Quem é Raquel? — surpreendeu-se Leontina.

Marcos e Clementina se entreolharam, e foi ele quem falou, convicto de que não havia por que mentir:

É minha namorada. Mamãe vai conhecê-la hoje.

Eu sabia! — exclamou Leontina. — Esse seu sumi­ço só podia ser coisa de mulher. E aposto que ela não é da nossa religião.

Raquel não segue religião nenhuma — esclareceu Marcos, embora soubesse a tempestade que estava criando.

Não segue? Pois, então, ela é bem pior do que eu pensava. Uma moça sem Deus no coração não pode dar boa coisa.

Eu não disse que ela não tem Deus no coração. Apenas que não segue nenhuma religião.

Somente a fé em Jesus pode nos redimir, pois ele é nosso único salvador. E fora da igreja não há salvação. Você sabe disso tão bem quanto eu, Marcos Wellington.

Ele abaixou a cabeça, sem ter como contestar aquelas verdades que aprendera desde pequenino, nas quais agora já não via mais sentido.

Pare de atormentar o menino — censurou Clementina.

O que importa não é a religião, mas o caráter da moça.

Aposto como vocês já fornicaram — rebateu ela en­tre os dentes.

Pare com isso, Leontina! — berrou a irmã. — Você está na minha casa, e aqui dentro não admito comentários desse tipo. Marcos Wellington é maior e pode fazer o que quiser da sua vida.

Então é verdade, não é? — tornou ela. — Sua mãe sabe e está lhe dando cobertura. Como pode, Clementina? Não tem medo de condenar a alma dele, assim como con­denou a sua?

Por pouco, Clementina e Leontina não tiveram outra briga feia. Percebendo o rumo que a conversa ia tomando, Marcos apanhou a tia pelo braço, levando-a para fora.

— Não faça mais isso, tia — repreendeu ele, pela pri­meira vez na vida. — Há muito minha mãe não tem uma alegria. Por que a felicidade a incomoda tanto?

Embora simples, as palavras de Marcos tocaram fundo o coração de Leontina, que olhou para ele sem saber o que dizer. Nunca havia pensado naquilo, mas o pior era que ele tinha razão. Ela era uma mulher infeliz. Toda sombra de fe­licidade a incomodava, porque era algo que ela nunca fora capaz de conquistar.

— Sinto muito... — foi só o que conseguiu dizer, en­vergonhada.

De seus olhos, duas lágrimas escorreram. Ela as enxu­gou com as costas das mãos, não conseguindo evitar que Marcos as notasse.

Não quero que chore — falou ele. — Gosto muito da senhora e peço que me perdoe se a magoei. Mas por que a se­nhora tem sempre que aparecer e estragar a nossa alegria? O que foi que aconteceu na sua vida que a tornou tão amarga?

Não aconteceu nada. Eu só procuro seguir os ensi­namentos da nossa igreja. Só isso.

Quer saber, tia? Eu adoro a igreja. Deus sabe o que teria sido de mim sem a nossa religião. Mas começo a pen­sar se não há nisso tudo um pouco de exagero. Que mal há em uma mulher usar roupas da moda e em frequentarmos um restaurante de pessoas não evangélicas? É nisso que está a verdadeira moral?

A castidade é uma das maiores virtudes evangé­licas — objetou ela. — Mas o que vejo é que vocês dois não estão agindo mais de acordo com o que recomen­dam as Escrituras.

Não adiantava tentar argumentar com a tia, para quem as únicas verdades eram as descritas na Bíblia. Mas aquelas verdades escritas pelos homens traduziriam fielmente a von­tade de Deus? Ele já não sabia mais e tinha medo de pensar naquelas coisas.

— Vou levá-la para casa. Está na hora de sairmos, não quero deixá-la aqui sozinha.

Caminharam em silêncio até chegarem à casa dela. Leontina se despediu com um beijo, não disse mais nada. Marcos também permaneceu em silêncio, refletindo sobre o que acontecera.

Em sua casa, a mãe já estava pronta, à sua espera.

Vamos? — chamou ele.

Vamos — respondeu ela, suspirando aliviada por­que ele não havia desistido.

De braços dados, desceram o morro, a mente dele ocupada com a pequena discussão que haviam tido. Sentia­-se cada vez mais confuso. A religião o estava sufocando, com suas proibições e recriminações constantes. Tudo era feio e pecado, mesmo o amor, que só podia se manifestar de acordo com os padrões determinados pela igreja. Mas como impor limites ao amor, que era um sentimento livre?

Enquanto pensava nessas coisas, passava por grupi­nhos de pequenos traficantes e viciados que vagabundea­vam por ali. De longe, avistou Jéferson e acenou para ele. Agora, mal se falavam. Contudo, não fosse a sua religião, seria como Jéferson, um bom rapaz, mas iludido pelas faci­lidades do tráfico, enganado pela euforia do vício.

Desceram o morro e tomaram a rua, até que alcan­çaram a praça. Raquel estava com o carro parado numa rua­zinha de pequeno movimento e saltou quando ele chegou. Beijou-o de leve nos lábios, causando um certo constrangi­mento em Clementina, que abaixou os olhos para não ver a cena. A moça era tão linda e tinha um carro tão chique, que ela pensou que não fosse real.

— Raquel, quero que conheça a minha mãe — falou ele, puxando Clementina pela mão e colocando-a de frente para a namorada.

— Muito prazer, dona Clementina — disse ela, abra­çando-a e dando-lhe dois beijinhos na face. — Marcos fala muito da senhora. Ante a imediata simpatia, as faces de Clementina se distenderam num largo sorriso.

— Ele fala muito em você também — respondeu ela, segurando a mão da menina. — E vejo que tinha razão em falar. Você é mesmo muito linda.

— Obrigada. E a senhora também é uma gatona — acrescentou ela, ao que Clementina riu de satisfação.

— Está muito bonita nesse conjunto.

— Bom, meninas, podemos ir? — chamou Marcos.

Ele abriu a porta de trás para a mãe entrar e sen­tou ao lado de Raquel, que ligou o motor e saiu devagar, rumo ao bairro da Urca, onde fica o Pão de Açúcar. Estavam os três tão envolvidos na alegria do momento que nem per­ceberam, do outro lado, alguém que os espionava. Logo um automóvel partiu atrás deles.

Com extrema cautela, Elói seguia Raquel a distân­cia. Ouvira o comentário de que ela iria conhecer a mãe de Marcos naquele dia, num passeio ao Pão de Açúcar, e não resistiu à tentação de segui-la. Ela conseguiu uma vaga perto da estação dos bondinhos, mas Elói parou um pouco distante. Depois que eles saltaram, ele apanhou o celular e ligou para Nelson.

— Eles estão no Pão de Açúcar — anunciou ele, que já os havia perdido de vista. — Não os vejo mais, mas o carro de Raquel está aqui — fez-se um silêncio, até que ele acrescentou: — Não se preocupe. Já sei o que fazer.

Desligou o telefone e foi para a fila do bondinho. Na segunda estação10, avistou os três a caminho da loja de su­venires. Marcos e Raquel permaneceram do lado de fora, distraindo-se com um gatinho que fazia travessuras em suas pernas. Elói encontrou Clementina parada em frente a uma prateleira cheia de pequeninos objetos vendidos como re­cordação. Ela apanhou uma miniatura do Pão de Açúcar e o examinou, colocando-o de volta no lugar. Em seguida, pe­gou uma réplica do bondinho, virou-o de todos os lados e depositou-o na prateleira novamente.

Elói analisou-a. Para sua surpresa, ela até que estava muito bem-vestida para alguém de sua condição social, mas levava uma bolsa de plástico bem velha e gasta, fechada apenas por um fechinho dourado, sem fecho ecler, de forma que não ficava vedada. Aquilo lhe deu a ideia. Aproximou-se, fingindo olhar os pequenos enfeites que ela ia admirando. Apanhou um abridor de cartas com punho de pedra-sabão e, fingindo que esbarrava nela, deixou escorregar para den­tro de sua bolsa o pequeno objeto.

— Desculpe — murmurou ele, afastando-se dela rapidamente.

Com cautela, procurou Marcos e Raquel, que agora se entretinham em alisar o rosto um do outro, como se nada mais houvesse no mundo além deles dois. A cena encheu-o de raiva. Seguiu direto até o balcão, onde um homem que parecia o gerente distribuía atenção e sorrisos aos turistas.

— Perdão, senhor, não quero ser dedo-duro, mas aquela senhora ali acabou de jogar um abridor de cartas na bolsa — disse baixinho, apontando para Clementina discre­tamente. — Pode confiar, eu mesmo vi.

Após dizer isso, Elói se colou a duas moças que iam saindo e passou pela porta sem ser percebido pelo casal

 

10 O bondinho do Pão de Açúcar percorre três estações: primeira, Praia Vermelha; segunda, Morro da Urca; terceira, Pão de Açúcar.

 

de enamorados. O aturdido gerente, sem saber o que fazer para não chamar a atenção, primeiro estudou Clementina com o olhar, acompanhando-a aonde ia. Vendo que ela me­xia e remexia nos enfeites, sem nada comprar, olhando para os lados a todo instante, concluiu que a atitude dela era mui­to suspeita. Não teve dúvidas. Acercou-se dela e segurou-a pelo braço, ao mesmo tempo em que dizia baixinho, porém em tom autoritário:

— Por favor, senhora, poderia me acompanhar?

Clementina levou um susto. Olhou para ele sem enten­der e retrucou abismada:

— Para onde? Estou aqui com o meu filho.

Ela apontou para Marcos, que se divertia desalinhando os cabelos de Raquel.

Podemos resolver isso com discrição — continuou ele, ignorando o que ela dissera —, ou posso chamar a po­lícia, e aí vai ser muito pior para a senhora.

Polícia? — assustou-se ela. — Por quê? Eu não fiz nada.

O homem, agora bastante irritado, tentou puxar Clementina para o fundo da loja, mas ela se pôs a gritar, cha­mando pelo filho:

— Marcos Wellington! Meu filho!

Ouvindo seu chamado desesperado, Marcos correu para ela, de mãos dadas com Raquel. Do lado de fora, Elói acompanhava tudo atentamente, rindo da confusão armada.

— O que foi que houve? — indignou-se Marcos. — O que o senhor está fazendo? Quer, por favor, soltar a minha mãe?

— Largue-me, moço! — esbravejou Clementina, ten­tando desgrudar os dedos dele de seu braço.

Como uma pequena multidão juntou-se ao redor, o ho­mem olhou furioso de Clementina para Marcos.

— Sua mãe acabou de furtar uma peça de nosso mostruário — esclareceu ele, falando o mais baixo que po­dia. — É melhor devolvê-la sem fazer escândalo, e eu não chamarei a polícia. Do contrário, serei obrigado a pedir aju­da aos seguranças.

O quê!? — ofendeu-se Marcos. — Deve haver al­gum engano, moço. Minha mãe não é ladra.

É isso mesmo — concordou Clementina, tomada de profunda indignação. — Nunca roubei nada na minha vida e não vai ser agora que vou começar. Onde já se viu tamanha calúnia?

O gerente, já arrependido de haver abordado a mu­lher, tentou localizar o delator, mas Elói havia se postado em um lugar fora de suas vistas, onde poderia observar tudo sem ser notado.

De onde foi que o senhor tirou essa ideia? — redar­guiu Marcos. — Ou é só porque minha mãe é negra que o senhor pensa que ela é ladra?

Isso dá cadeia, sabia? — acrescentou Raquel.

Racismo é crime, e acusar alguém de roubo indevida­mente também é.

O homem começou a se apavorar. Devia ter pensado duas vezes antes de tomar uma atitude daquelas, ainda mais porque os fregueses começavam a tomar o partido de Clementina.

— Eu... jamais cometeria uma indignidade dessas — defendeu-se o gerente. — Logo se vê que sua mãe é uma senhora muito distinta. Mas o caso é que alguém viu quando ela colocou o objeto na bolsa...

— Eu?! — tornou Clementina estarrecida. — Que absurdo! Ou essa pessoa se enganou, ou então é louca.

— Não devia dar ouvidos a delinquentes — zangou-se Marcos. — Minha mãe não roubou nada.

— Lamento, mas foi o que o jovem disse. Tem razão, perdoe-me, não devia ter acreditado nele. Mas é que os fur­tos na loja são muitos, sabe como é...

— Não sei, não.

— Deixe estar, Marcos Wellington — tornou Clementina, aproximando-se do balcão mais próximo. — Vou provar a esse homem e a todos que não roubei nada. Mais que depressa, Clementina despejou o conteúdo da bolsa sobre o balcão, e o abridor de cartas retiniu no vidro que o encobria. Ela o apanhou com a mão, mais sur­presa do que o gerente da loja, que apontou para o objeto, exclamando com incontida euforia:

— O que me diz agora, rapaz? Continua afirmando que sua mãe não é ladra?

Marcos olhou para Clementina com genuína surpre­sa, mas a dúvida não durou mais do que um segundo. Erguendo os olhos para o gerente, com voz segura e clara, rebateu convicto:

Continuo. Afirmo quantas vezes forem necessárias. Minha mãe não roubou isso.

E não roubei mesmo — acrescentou Clementina, tentando imaginar como aquela faquinha havia ido parar na sua bolsa.

A senhora pegou emprestado? — ironizou o gerente.

Alguém colocou isso aí na minha bolsa — afirmou ela, com raiva. — Não fui eu.

A senhora deve ter muitos inimigos, não é? Do con­trário, por que alguém haveria de querer incriminá-la?

Olhe, moço, o senhor já tem o seu precioso objeto de volta — intercedeu Raquel. — Agora chega. Vamos embora.

Tenho o direito de chamar a polícia — prosseguiu ele, dando vazão ao orgulho.

Mas eu não roubei nada! — objetou Clementina.

Além de ladra, é mentirosa — desdenhou o homem.

Não sou mentirosa!

No auge da humilhação, Clementina começou a cho­rar, transformando em raiva a indignação de Marcos. Ele ia segurar o homem pela gola da camisa quando Raquel aper­tou sua mão e falou com firmeza:

— O senhor não tem como provar que dona Clementina furtou esse objeto. Será a sua palavra contra a dela, e duvi­do que alguém aqui possa jurar que a viu colocar o abridor na bolsa. — Alguns dos presentes balançaram a cabeça, em apoio, enquanto ela arrumava os objetos de Clementina de volta dentro da bolsa: — Por isso, moço, fique com o seu treco e deixe-nos partir. Ou seremos nós que o processare­mos por calúnia.

O gerente estava satisfeito por ter provado que tinha razão e, de quebra, humilhado Clementina. Com ar de supe­rioridade, falou:

— Muito bem. Dessa vez vou fingir que acredito. Mas não quero vê-los em minha loja novamente ou chamarei a polícia.

Marcos fuzilou-o com o olhar, e Raquel saiu puxando-o para fora, amparando Clementina com o outro braço.

Canalha! — esbravejou ele. — Sei que Deus vai me punir por minha ira, mas essa foi demais!

Eu não roubei nada, Marcos Wellington, eu juro — choramingou Clementina. — Não sei como aquilo foi parar na minha bolsa, não sei.

Deve ter caído sem querer — presumiu Raquel.

E ninguém viu.

É, mas como é que ele soube? — questionou Marcos. — Ele disse que alguém o avisou. Quem?

Sei lá — respondeu Raquel. — Algum idiota. Sabe­-se lá se não foi mesmo algum marginalzinho que fez isso só para se divertir.

Não acredito — opôs Marcos.

Deixe isso para lá, Marcos Wellington — pediu Clementina. —Vamos embora.

Para casa?

É.

Mas, mãe, ainda nem subimos ao Pão de Açúcar mesmo.

Não faz mal. Perdi a vontade.

E ainda não almoçamos.

Não estou com fome. Quero voltar para casa, que é de onde não devia ter saído. É isso que dá nos metermos no meio de gente rica.

O Pão de Açúcar não é lugar de gente rica — objetou Raquel. — Qualquer pessoa pode visitá-lo. E não devemos deixar que um idiota qualquer estrague o nosso passeio. Por favor, vamos ficar. O restaurante daqui é tão bonito!

Sinto muito se estraguei a diversão de vocês. Podem ficar. Eu tomo um ônibus e vou para casa.

De jeito nenhum, dona Clementina. Se a senhora quer mesmo ir embora, vamos levá-la. Não é, Marcos? Marcos assentiu e abraçou a mãe. Não compreendia o porquê daquele acidente, justo com a mãe, que era uma pessoa honesta e trabalhadeira. Ou será que ela andara se envolvendo com a bebida outra vez? Ele ficou observando­-a para ver se notava algum sinal de álcool, mas ela estava sóbria. Então, aquele episódio não devia ter sido mais do que um incidente, fruto da ignorância e do preconceito de um gerente esnobe.

A frustração que sentia era imensa, mas o que pode­ria fazer? Não tinha como obrigar a mãe a ficar ali contra a sua vontade, ainda mais depois de tudo o que acontecera. Assim, não teve outra alternativa senão apanhar o bondinho e descer.

Oculto atrás de uma árvore, Elói dava gargalhadas, sa­tisfeito com o rumo que as coisas haviam tomado. O resul­tado fora melhor do que o esperado. Por um momento, ele chegou a pensar que o gerente ia voltar atrás, mas a idiota da mulher acabou confirmando tudo.

Depois que os três sumiram, Elói esperou alguns minu­tos e voltou para o estacionamento, onde o carro de Raquel já não se encontrava mais. Esperava que, com aquela confu­são, ela percebesse que Marcos não servia para ela.

Ele chegou em casa certo de que encontraria a irmã toda chorosa no quarto, mas não foi isso que aconteceu. Elói entrou vitorioso e foi procurá-la, contudo, ela ainda não havia voltado. O celular tocou de forma estridente, e Elói atendeu à chamada de Nelson.

— Cara, você não vai nem imaginar o que eu fiz — ga­bou-se, narrando em detalhes sua proeza na loja de suvenires. Do outro lado da linha, Nelson ria de satisfação.

Ela está em casa? — indagou.

Ainda não voltou, mas não deve demorar.

Será que ela vai terminar com ele?

Não sei, mas é um começo. Somando-se vários episódios comprometedores, ela vai acabar se tocando.

Ótimo.

Elói desligou, imaginando onde Raquel estaria. Já pas­sara da hora do almoço, ela não retornava. Será que ainda insistia e fora ao restaurante em que Marcos trabalhava?

Aquele domingo era folga de Marcos, e ele havia pro­gramado passar o resto do dia com Raquel, depois de dei­xar a mãe em casa. Todavia, tudo dera errado.

Sentada no banco de trás, Clementina chorava de mansinho, enquanto Marcos remoía a decepção e a raiva. Raquel imaginava o que fazer para mostrar aos dois que não se deixara impressionar por aquele episódio inusitado. Foi quando a ideia lhe ocorreu.

Estou morrendo de fome — anunciou, sorrindo para Clementina pelo espelho.

Também estou — concordou Marcos.

E a senhora, dona Clementina? Não está com fome?

Não — respondeu ela, esforçando-se ao máximo a fim de não parecer mal-educada.

Por que não vamos a um restaurante lá pela Tijuca mesmo? Conheço um ótimo...

— Agradeço, minha filha, mas quero ir para casa — falou Clementina.

O que você vai almoçar, mãe? Não tem nada pronto.

Eu me viro. Sempre tem alguma massa instantânea.

Por que não almoçamos todos lá então? — sugeriu Raquel. — Faço uma macarronada deliciosa.

Não — objetou Marcos veementemente.

Por que não?

Você não conhece o lugar onde moro, nem gosta­ria de conhecer.

Já passei por lá muitas vezes.

Não é lugar para você, Raquel! — zangou-se ele.

E ponto final.

Posso saber por que o preconceito com o lugar em que você mora? — rebateu ela, não se dando por vencida.

Atrás, Clementina acompanhava a conversa sem emi­tir nenhum comentário. Conhecia a opinião de Marcos a respeito de levar Raquel ao morro e preferia não intervir.

Não tenho preconceito — contrapôs ele, confu­so. — É só que não é lugar para uma moça fina feito você. Começando por esse carrão. Já pensou no rebuliço que esse carro vai causar no pessoal lá do morro?

Bom, não havia pensado nisso. Mas eu posso parar o carro mais abaixo, e podemos seguir a pé. O que me diz?

Não, Raquel.

Não entendo você. Se quer ser meu namorado, por que não podemos conhecer tudo um do outro? E não adian­ta vir com essa desculpa de bandido. Sei que, se eu subir com vocês, que são moradores, ninguém vai me fazer mal. Além disso, até parece que todo mundo na favela é bandido.

Clementina não aguentou mais. Pigarreou e, quando os dois voltaram a atenção para ela, interveio com cuidado:

Raquel tem razão. Não é justo você chamar todo mundo que mora no morro de bandido. A maioria das pes­soas é trabalhadora feito nós.

Não foi isso que eu quis dizer, mãe. Estou apenas tentando preservar Raquel de um ambiente desagradável e pouco amistoso.

Isso também não é verdade. As pessoas que co­nhecemos são muito amistosas, e o ambiente em nossa casa pode não ser de luxo, mas é limpo e arrumado.

Viu só, Marcos? — exultou Raquel. — Até a sua mãe concorda comigo. Não concorda, dona Clementina? Clementina assentiu sem graça, e Marcos ponderou:

Você está toda arrumada. Não acha que pode es­tragar os sapatos subindo o morro? E se você cair?

Você me ajuda. E sapatos, tenho muitos. Vamos, Marcos, deixe-me conhecer a sua casa e preparar um almo­ço para nós. Gostei tanto da sua mãe!

Deixe-a, Marcos — incentivou Clementina, que, a essa altura, havia abandonado a ideia de não intervir.

Tirando a sua tia, ninguém nunca vai a nossa casa.

Vamos, Marcos, não seja estraga-prazeres. Eu que­ro ir, e você não pode decidir por mim.

Está bem então, se é isso o que quer. Como dis­cutir com duas mulheres? Vou perder sempre.

O clima de alegria voltou a se instalar entre os três. Raquel deixou o carro bem abaixo, e seguiram o resto do ca­minho a pé. Quando a rua ficou para trás, ela sentiu um frio no estômago, mas foi em frente, iniciando a subida. Os mo­radores olharam-na, alguns com curiosidade e outros com cobiça, mas ninguém se atreveu a mexer com ela. E como a casa de Marcos não ficava muito lá no alto, logo chegaram.

Clementina abriu a porta e as janelas, convidando Raquel a entrar. Intimidou-se um pouco com a simplicidade do barraco de dois cômodos, com a cozinha conjugada e só um banheirinho, mas a reação descontraída de Raquel deixou­-a mais à vontade. Numa breve olhada, Raquel avaliou todo o ambiente, sem demonstrar qualquer tipo de reação adversa.

A senhora tem macarrão em casa? — Clementina abriu o pequeno armário acima da pia da cozinha e retirou o macarrão. — E molho de tomate, queijo?

Não tem queijo — anunciou Marcos, com a geladei­ra aberta. — Vou descer e comprar. E refrigerante também.

Depois que Marcos saiu, Clementina apanhou as pa­nelas e colocou-as sobre o fogão.

— Vou ajudá-la — anunciou.

Fizeram molho e puseram água para ferver. Em pou­cos minutos, haviam preparado um almoço saboroso, e os três se sentaram para comer. Clementina adorou a compa­nhia de Raquel, que parecia muito à vontade em sua casa. Realmente, até a moça estranhara sua reação. No princí­pio, hesitara um pouco na subida, com medo de cair, mas agora estava tudo bem. A preocupação de Marcos não se justificava. Desde que ela não se metesse com ninguém, não havia por que implicarem com ela.

Passaram uma tarde agradável, e só no início da noi­te Raquel se decidiu a partir. Despediu-se de Clementina, prometendo retornar em breve, seguindo em companhia de Marcos até onde havia deixado o carro.

— Está tudo em ordem — constatou ele, abrindo a porta para ela entrar. Ela se sentou ao volante e olhou para ele com a felici­dade estampada no olhar.

— Obrigada pelo dia maravilhoso que vocês me pro­porcionaram — disse emocionada. — Há muito tempo não me sentia tão bem.

— Teria sido o dia perfeito, não fosse o ocorrido no Pão de Açúcar.

— Não ligue para isso.

— Você sabe que minha mãe não seria capaz de rou­bar, não sabe?

— É claro que sei. Alguém deve ter deixado cair aque­le abridor de cartas de propósito ou, então, foi um acidente.

— É... Pena que isso estragou nosso passeio. Nem che­gamos a subir ao segundo morro, ao do Pão de Açúcar mesmo.

— Podemos voltar outro dia.

— Duvido que minha mãe queira ir lá de novo. Não depois de tudo o que aconteceu. Por mais que ela fosse inocente, a vergonha foi muito grande.

— Isso passa. Com o tempo ela esquece.

Após o beijo de despedida, Raquel colocou o automó­vel em movimento e foi para casa. Assim que embicou o carro no portão da garagem, teve um pressentimento de­sagradável. O carro de Nelson estava estacionado do outro lado da rua. Contendo a vontade de dar meia-volta, entrou, pensando em ir para o quarto sem ter que falar com ele. Assim que abriu a porta, foi recebida pelo irmão, que fazia uma cara de exagerada preocupação.

Onde você esteve?

Desde quando isso é da sua conta? — retrucou ela secamente.

Desde que papai e mamãe foram viajar e deixaram você aos meus cuidados.

Ela cumprimentou Nelson com um breve aceno de ca­beça, dirigindo ao irmão a resposta irritada:

Não seja ridículo. Mamãe e papai nunca o encarre­garam de cuidar de mim.

Não quero me intrometer — disse Nelson —, mas seu irmão tem razão. Estávamos preocupados com você.

Desde quando você e Elói se tomaram amigos?

Desde que eu telefonei para Nelson, preocupado com você — tornou Elói.

Por que não ligou para mim, em vez de ligar para ele?

Eu liguei, mas deu fora de área.

Engraçado — ironizou ela. — Não vi o seu nome no identificador de chamadas.

Isso não importa, Raquel. Eu estava superpreocupa­do com você.

Sei. E resolveu ligar para o Nelson, mesmo saben­do que não estamos mais namorando.

Não estão?

Você sabe muito bem que não.

Mas ainda somos amigos — intercedeu Nelson.

Não somos, Raquel?

Raquel fuzilava o irmão com os olhos. Estava mais in­dignada com ele do que com Nelson, que ainda gostava dela e aceitaria qualquer pretexto para procurá-la.

Nossa amizade não lhe dá o direito de se aliar a meu irmão para se intrometerem na minha vida — disparou ela.

Ninguém quer se meter na sua vida — objetou Elói com indignação. — É errado um irmão se preocupar com o bem-estar da irmã?

Cínico. Você nunca se preocupou comigo nem com ninguém. Conheço bem as suas intenções.

Preocupam-me as suas companhias — desdenhou ele. — Desde que você deu para se misturar com gentinha, morro só de pensar no que lhe pode acontecer.

Pois pode morrer pensando, se quiser. Pouco me importam as suas preocupações. Ou as de Nelson.

Raquel passou por eles feito uma bala. Bateu a porta do quarto, girando a chave na fechadura duas vezes. Que absurdo! Estava na cara que Elói só chamara Nelson ali para forçar um reencontro. Mas ela não permitiria aquele abuso. Estava apaixonada por Marcos e, ainda que o mundo inteiro fosse contra, não abriria mão de seu amor por nenhum pre­conceito ou convenção social.

Elói e Nelson ficaram parados na sala, o primeiro rindo intimamente, o segundo, louco para ir atrás de Raquel.

Não seja precipitado — ponderou Elói. — Raquel é voluntariosa e não gosta de ser contrariada. Mas as coisas estão tomando o rumo que deveriam.

Que rumo? Ela não me pareceu nem um pouco abalada com o episódio desta manhã.

É porque ela não quer nos dar o gostinho da vitó­ria. Mas que ficou balançada com o que aconteceu, ficou. Qualquer um ficaria.

Será que você não está subestimando sua irmã? Ela não é nenhuma tola, e talvez nós é que estejamos fazen­do esse papel.

Você tem que confiar em mim. Sei o que estou fazendo.

Pois eu acho que Antônio e eu podíamos pegar o cara e dar-lhe uma surra que ele jamais iria esquecer. Como fizemos com o magrelo do Arnaldo.

Quanta ignorância! Você tem que parar de tentar resolver as coisas na pancadaria. Tudo bem que pode não dar em nada, mas é um aborrecimento danado. Sem contar que Raquel jamais iria perdoá-lo.

Nelson aproximou-se da porta fechada do quarto de Raquel, pensando se deveria ou não bater. Desistiu, com medo da reação da moça, que, provavelmente, o mandaria embora com palavras rudes.

— Está bem — ele se virou para Elói, tomando o rumo da saída. — Mas não vou esperar eternamente. Se os seus métodos não funcionarem, não hesitarei em aplicar os meus. E ninguém vai ficar sabendo, até porque não pretendo matar o idiota, apenas dar-lhe um susto e uma lição.

Foi embora, deixando Elói pensativo. Não tinha pena do destino de Marcos. Na verdade, nem se importava se ele estivesse vivo ou morto. Não tinha nada contra negros ou pobres, desde que não se metessem com sua família. Agora precisava encontrar um meio de fazer com que Marcos se colocasse em seu devido lugar. Tudo sem que a irmã ou os pais descobrissem.

Depois de entrar em algumas vias, sem sucesso, Afrânio subiu a Rua General Roca, a mesma em que Margarete havia deixado o filho, dentro de um latão de lixo, e onde encontrara a morte sob as rodas de um carro. O espírito dela o seguia, acompanhado de Félix, intuindo-o a tomar a direção certa.

— Foi aqui que deixei meu bebê — disse ela ao ou­vido dele, quando passaram em frente ao local exato. — A lata de lixo não está mais aqui, e o muro também não é mais o mesmo, mas tenho certeza de que foi aqui. O boteco fica mais para baixo, do outro lado.

Instintivamente, Afrânio olhou na direção em que ela apontava e avistou o bar. Passados alguns segundos, impul­sionado por Félix, dirigiu-se para lá.

"Se Margarete gostava tanto de uma bebidinha", pen­sou ele, "o melhor lugar para saber dela ainda é o botequim." Ele entrou e cumprimentou o rapaz atrás do balcão, que indagou gentilmente:

O que vai querer?

Um refrigerante — pediu ele, para ganhar a simpa­tia do balconista, já que não bebia em serviço.

O moço serviu-lhe a bebida, que Afrânio bebeu aos pouquinhos. Estalou a língua e esperou até que ele voltasse de outro atendimento, quando então o chamou:

Será que você podia me ajudar? O rapaz voltou e respondeu solícito:

Pois não?

Acho que você não está aqui há tempo suficiente para saber, mas não custa tentar — ele sacou a fotografia do bolso e apresentou-a ao balconista. — Conhece esta moça?

O homem apanhou a foto, olhou-a e balançou a cabeça:

Nunca a vi em toda a minha vida. Mas também a foto é muito ruim.

Foi tirada há mais de vinte anos.

Ih, moço! Então não posso saber mesmo. Tenho vinte e três!

Foi o que imaginei. Quem é o dono deste lugar?

Meu pai. Mas ele não está.

Era ele o dono nessa época?

Era sim. Se quiser falar com ele, volte mais tarde. Papai só chega depois do almoço.

Tudo bem. Vou dar uma volta por aí e mais tarde volto para falar com ele.

Afrânio pagou o refrigerante e saiu para a rua, cami­nhando a esmo, em direção à subida do Salgueiro, mas não entrou. Ficou parado, imaginando se Margarete teria se refu­giado ali. Depois, rodou nos calcanhares e tornou a descer a rua. Como ainda era cedo, resolveu prosseguir com suas pesquisas nos outros bares das redondezas, onde obteve as mesmas respostas negativas. Desanimado, pensou em procurá-la em outro lugar, e Margarete teria perfurado seus ouvidos se ele fosse dotado de mediunidade auditiva.

— De jeito nenhum! Você está no caminho certo! Tem que voltar ao primeiro bar. Foi ali em frente que tudo aconte­ceu, que eu morri! Volte lá, seu estúpido, volte lá!

A energia de desespero de Margarete não se casava com a serenidade de Afrânio, que nunca se irritava. Foi preci­so que Félix a acalmasse e se aproximasse do detetive, que não chegara a se aperceber da aflição dela. Félix passou a mão rapidamente pela testa dele e soprou ao seu ouvido:

— Volte ao primeiro bar para falar com o dono. É ali que encontrará a resposta.

"Eu podia voltar ao bar onde estive primeiro", pensou Afrânio, sem saber que respondia à sugestão do invisível. "Mas será que vale a pena?"

— É claro que vale! A verdade está prestes a se reve­lar; quem a conhece está lá neste momento. E você, como bom detetive que é, não deve perder nenhuma pista.

"Na verdade, todas as pistas podem ser importantes, e eu não deveria deixar passar nenhuma. É, vou até lá. É só o que me falta investigar", decidiu Afrânio.

Félix e Margarete se entreolharam exultantes. Afrânio voltou ao bar na rua General Roca, onde encontrou o pai do rapaz, um português de seus sessenta anos, que o cumpri­mentou com um aceno de cabeça.

É ele! — exclamou Margarete, toda animada, mas Félix a conteve.

Quieta. Não precisamos fazer mais nada. Vamos ouvir.

Deseja alguma coisa? — indagou o português, passando o pano sobre o balcão, onde Afrânio encostava o cotovelo.

Estava com fome e não custava nada comer enquan­to investigava.

— Servem almoço aqui?

— É claro. O melhor PF11 da região. Completo? — Afrânio assentiu, e o português apontou uma mesa. — Pois pode se sentar que logo logo sai.

Afrânio sentou-se e ficou olhando o movimento dos fregueses, na maioria trabalhadores que vinham ali em bus­ca de um almoço barato. A refeição chegou rapidamente;

 

11 PF — prato feito.

 

Afrânio inspirou o seu aroma, satisfeito com a aparência da comida caseira.

O senhor não é daqui, é? — perguntou o portu­guês, que nunca o havia visto por ali antes.

Não. Estou aqui de passagem. Na verdade, estou à procura de uma certa pessoa.

Ah! Foi o senhor que esteve aqui mais cedo e falou com o meu filho? — Afrânio assentiu. — Onde está a foto­grafia da moça? Se ela frequenta ou frequentou o meu bar, vou saber. Tenho memória de elefante.

Afrânio sorriu esperançoso e ofereceu a foto ao portu­guês, que a olhou com atenção. Durante alguns segundos, não esboçou qualquer reação. Aos poucos, porém, apertou as sobrancelhas, como se a memória evocasse a dúvida de alguma lembrança. Logo seu semblante empalideceu. Sem ser convidado, sentou-se à mesa, ao lado do detetive.

O senhor a conhece? — indagou Afrânio, que havia notado o embaraço do português.

Ela se parece muito com uma rapariga que esteve aqui faz alguns anos. Não tenho certeza se é a mesma, mas que parece, parece.

É a mesma — soprou Félix mansamente, trazendo à memória do português os acontecimentos daquele dia.

Pode me contar algo sobre ela? Sabe onde está?

O homem encarou Afrânio com um olhar de sofrimen­to. De olhos baixos, falou em tom quase inaudível:

— Ela está morta. Morreu na noite em que entrou aqui.

— Morta?

— Veja bem, não sei se é a mesma mulher.

— Sou eu — afirmou Margarete, lutando para não se descontrolar. — Por favor, apenas conte a ele o que se lembra. Seguindo a sugestão do invisível, o português iniciou a narrativa:

— Sabe, moço, nunca me arrependi tanto de algo como naquele dia. Por isso o episódio ficou marcado.

— O que foi que houve? — interessou-se Afrânio.

— Ela entrou aqui bêbada. Servi-lhe mais bebida, até que o dinheiro dela acabou, e ela tentou me seduzir para que eu a servisse de graça. Como sou um homem casado e de respeito, dei-lhe o devido tratamento ou, pelo menos, o que achei que era certo na época. A rapariga se assustou e saiu desabalada para a rua. Estava bêbada e não prestou aten­ção ao automóvel. O chão estava molhado de chuva, não sei se ela escorregou, mas o fato é que o carro a pegou em cheio. Não deu nem tempo de ser socorrida. Quando a am­bulância chegou, ela já estava morta.

— Sabe o nome dela?

— Nem imagino. Ninguém sabia.

— E a criança?

— Que criança? Não havia criança nenhuma.

— Ela não trazia um bebê?

— Não, senhor. Disso tenho certeza. Ela entrou sozinha.

Talvez não fosse a mesma mulher, afinal. A fotografia não era nítida, o homem podia ter confundido Margarete com qualquer outra. Quem poderia se lembrar com exatidão de rostos desaparecidos havia mais de vinte anos?

— Olhe, Afrânio, a mulher de quem ele fala sou eu — esclareceu Margarete, com o máximo de calma que conse­guiu. — Você tem que acreditar nisso. E o menino que você procura está naquele morro ali.

Afrânio não percebeu a sugestão e não captou a alu­são ao morro. Pensava na mulher atropelada, tentando ima­ginar se havia alguma chance de ser a mesma Margarete.

O senhor se lembra do dia em que isso aconteceu?

Ah! Isso não lembro, não. Foi há muito tempo. Só sei que estava chovendo e fazia frio. Era inverno, e talvez fosse domingo.

As informações batiam com as que Graciliano havia lhe dado. Margarete desaparecera num domingo nebuloso do mês de agosto. Havia ainda uma chance de ser ela, mas o que havia sido feito da criança? Não era impossível que ela se houvesse desfeito dela, de alguma forma, entregando-a a alguém, ou abandonando-a, ou mesmo matando-a.

— Eu o abandonei na lata de lixo — falou Margarete, quase em lágrimas. — Bem ali.

Afrânio não olhou. Terminou de comer, pagou a conta e foi embora. No dia seguinte, iniciou uma peregrinação pe­los periódicos cariocas e na Biblioteca Nacional. Conseguiu o que queria num jornal de pequena circulação. A notícia, datada de 15 de agosto de 1987, exibia a fotografia de um carro amassado e, mais adiante, o corpo encoberto de uma mulher, atropelada na Tijuca quando atravessara a rua cor­rendo, completamente alcoolizada. E agora? De que adian­tava aquilo? Mal dava para ver o rosto da defunta. Como conferir se era mesmo Margarete?

— Sou eu — Margarete quase suplicou. — Por que ele não consegue me ouvir? Félix, a quem havia sido endereçada a pergunta, to­mou-a pela mão e procurou elucidar:

— Ele precisa ser médium e ter a mediunidade ade­quada, ou seja, ser médium auditivo, que é a capacidade de ouvir os espíritos. Médiuns, todas as pessoas são, em maior ou menor escala. É por isso que Afrânio consegue captar a maioria de nossas sugestões, porque é muito intui­tivo. Não fosse por nós, ele hoje não estaria aqui.

— Mas ele não as capta sempre. Como agora. Por quê?

— É preciso que estejamos todos na mesma vibração. Afrânio é uma pessoa tranquila, não se irrita, desempenha a sua função com imparcialidade, sem euforias ou entusiasmos excessivos. É equilibrado, qualidade que alcançou ao longo dos muitos anos de experiência como investigador particular. Como sua função é localizar pessoas, não costuma se en­volver com os motivos que levam os clientes a procurá-lo, ou seja, não julga ninguém. Pelo que já aprendeu com a vida, sabe que cada um tem os seus motivos, e todos são justos.

Por isso, não estabelece nenhuma escala de valor e procura apenas fazer o seu trabalho com honestidade e eficiência. Daí a falta de sintonia com você, nos momentos em que fica muito agitada. A mediunidade dele, puramente intuitiva, é blo­queada pela sua vibração de desespero.

Margarete olhou de um para outro, terminando em Félix.

O que posso fazer?

Por que não experimenta orar?

Ela assentiu e deu a mão a Félix. Juntos se ajoelharam ao redor de Afrânio e buscaram se conectar com a energia divina, fazendo, cada qual, a sua prece íntima. Logo um chu­visco de luz inundou o ambiente, energizando os corpos su­tis e o físico de Afrânio. Ele sentiu uma sonolência gostosa e se espreguiçou. Suspirou algumas vezes, sorvendo aquele ar de luminosidade, e teve novas ideias.

"Não vou desistir", disse mentalmente. "Algo me diz que essa moça aí, morta debaixo do lençol, é Margarete."

— Isso mesmo — incentivou o espírito da mulher, ago­ra equilibrada pela oração.

O passo seguinte na investigação foi o IML12. Lá, Afrânio conseguiu consultar os registros de todas as mulheres enter­radas como indigente. Não foi difícil. Pela data do óbito, des­cobriu as possibilidades e, comparando fotografias, chegou até Margarete. Colocou a foto que possuía lado a lado com aquelas tiradas pelo legista, mostrando-as ao funcionário do IML, que concordou enfaticamente. Era ela, sem dúvida. Pelo tempo, os restos mortais já deviam estar no ossuário comum, tornando quase impossível sua recuperação.

Embora não fosse essa exatamente a conclusão que es­perava de sua busca, era o primeiro resultado positivo que Afrânio alcançava. Margarete estava morta, mas ainda lhe restavam esperanças de encontrar a criança, já que nenhum bebê fora enterrado como indigente naquele mesmo dia.

 

12 IML — Instituto Médico Legal.

 

O coração de Afrânio insistia na hipótese de que Margarete havia abandonado o filho em algum lugar, e des­cobrir onde seria uma tarefa deveras difícil. Entre a hora em que ela descera do ônibus e a hora em que entrara no bar não devia ter decorrido muito tempo, de forma que ela não pode­ria ter levado a criança a nenhum orfanato da região. Se era assim, só podia tê-la abandonado em algum lugar, talvez na porta de uma casa ou mesmo no banco da praça.

— Na lata de lixo — disse Félix. "Quem sabe numa lata de lixo?", pensou Afrânio, para surpresa e euforia de Margarete. "Não seria a primeira vez."

Afrânio retomou suas pesquisas, mas não havia ne­nhuma notícia de que um bebê fora encontrado em qualquer lugar naquela região. Mesmo que houvesse sido levado ao Juizado de Menores, o jornal teria comunicado o fato. E se estivesse morto? Também seria notícia. Não, decididamen­te, aquele bebê ainda se encontrava pelas redondezas da Praça Saens Pena, onde concentraria suas investigações.

— O menino está no Salgueiro — sussurrou Félix.

"Agora vejamos", Afrânio continuou com suas refle­xões. "Quem recolheria um bebê negro, provavelmente ma­gro e até doente? Uma família de posses, talvez, e, nesse caso, deve haver algum pedido de adoção no Juizado de Menores. É, vou ter que ir até lá."

Não! — gritou Margarete de repente. — Você vai se distanciar da solução. Não vá, Afrânio, não vá! Vai perder o seu tempo.

Não adianta gritar, que ele não vai ouvi-la — alertou Félix. — Não temos como impedir que ele vá ao Juizado de Menores. Resta-nos apenas acompanhá-lo e soprar as res­postas certas. Uma hora, ele acaba captando nossas ideias.

Seguir o rastro de uma criança desaparecida não é nada fácil. Os dados são sigilosos, inacessíveis ao público. Afrânio encontrou muita dificuldade no Juizado de Menores, pois ninguém estava autorizado a revelar nenhum detalhe sobre abandono e adoção, ainda mais numa época em que nada era informatizado. O que ele conseguiu, após muito esforço de Félix junto a uma senhora mais complacente, foi a informação de que nenhuma criança com a descrição da que ele procurava fora recolhida naquela época.

Clementina voltou do trabalho um pouco mais tarde do que o habitual naquela noite. Exausta, as costas doíam, as pernas inchadas. Já não tinha mais idade para o serviço pesado da faxina.

Ao abrir o portãozinho de casa, surpreendeu-se com a presença da irmã, que a aguardava sentada no batente.

— Aconteceu alguma coisa, Leontina? — indagou, en­tre a desconfiança e a preocupação.

— Aconteceu — foi a resposta grave. — Você tem que vir comigo.

— Foi alguma coisa com o Marcos Wellington?

— desesperou-se.

— Não. Ele está bem.

— Mas, então, o que foi? Por que não me conta logo, em vez de me deixar nessa agonia?

— Só vendo para crer, Clementina. Por favor, venha comigo até minha casa. Apesar da fadiga, a curiosidade foi maior. Clementina deu de ombros e seguiu a irmã até sua casa.

— Só você mesmo, Leontina, para me aprontar uma dessas — reclamou. — Fica fazendo mistério. Só espero que seja por um bom motivo.

— Não sei qual vai ser a sua reação — alertou ela, a mão parada na maçaneta da porta. — Mas prepare-se. Pode ser que a surpresa não seja agradável.

Sem dar importância à cara de espanto da irmã, Leontina abriu a porta. O choque da visão quase fez Clementina des­maiar. Não podia crer no que estava vendo. Devia ser um sonho, ou melhor, um pesadelo ou um filme de terror. Adormecido no sofá da minúscula sala, havia um homem envelhecido, magro, de aparência enferma. Estava irreconhe­cível, mas, mesmo assim, ela sabia quem era.

— Romualdo... — ciciou — Não pode ser.

Ele abriu os olhos lentamente e pigarreou, fixando-os nela com imprecisão. Não enxergava muito bem.

Como vai, Clementina? — falou sem jeito. — Faz muito tempo...

Tempo demais para acreditar que tornaria a vê-lo retrucou ela, sentindo uma pontada de raiva no lugar do amor que antes lhe dedicara. — O que o traz de volta assim, de uma hora para outra, sem avisar?

Romualdo está doente — justificou Leontina. — Está perdendo a visão e precisa de alguém que cuide dele.

Ah! Claro. E onde está a vagabunda com quem vo­cê fugiu? Fugiu também, para não ter que cuidar de um cego inválido?

Calma, Clementina — objetou Leontina. — Onde está o seu espírito cristão?

E onde está o dele, que abandonou mulher e filho para seguir uma rameira? Isso lá é ser cristão?

Isso foi há muito tempo, Tina — desculpou-se ele.

Agora sou outro homem, estou velho.

Então é assim, não é? Na juventude, a esposa não tem valia. O que vale são as vagabundas de vinte anos. Mas, quando fica velho, a mulher é que presta, porque deve ser idiota suficiente para aceitar o marido de volta e cuidar das mazelas dele, dando graças a Deus porque deixou de ser a abandonada. Pois vou lhe dizer uma coisa, seu Romualdo: eu não sou desse tipo. Por mim, pode voltar no mesmo pé em que veio. Não o quero de volta.

— Eu não falei, Leontina? Não disse que ela devia estar com o coração carregado de mágoas e não iria me perdoar? — Você não pode abandonar seu marido assim — contrapôs Leontina com veemência. — E o seu compromis­so de amor e fidelidade mútuos?

— Que fidelidade o quê? Desde quando Romualdo foi fiel?

— Você tem que perdoá-lo. Todo mundo erra. Você também errou. Perdoe-o e aceite-o de volta.

— Mas nem que o próprio Espírito Santo aparecesse aqui na minha frente e me mandasse!

— Não blasfeme! — repreendeu a irmã. — Ou vai se arrepender amargamente no dia do Juízo, quando for julgada perante o Tribunal de Cristo e condenada à danação eterna.

— Você não me impressiona com essa sua babosei­ra de Juízo Final nem de pecado. São histórias da carochi­nha para assustar os fanáticos, que nem você, e justificar o medo que têm de viver.

— É o que você pensa, não é? É mais cômodo para você se convencer de que Deus não está à espera do nosso julgamento do que assumir os seus deveres evangélicos.

— A única coisa que tenho que assumir é o meu des­prezo por Romualdo. Não o quero de volta em minha casa nem pintado de ouro.

— Você não pode decidir isso sozinha — contestou Romualdo. — Ainda temos um filho.

— Que você também abandonou quando criança. Sabe o que aconteceu conosco, Romualdo, sabe? — Ele não respondeu. — Seu filho virou menino de rua, eu me transformei numa alcoólatra. Só Deus sabe o quanto sofre­mos, como foi difícil acertarmos o passo.

— Agora você disse bem — exultou Leontina. — Foi Deus quem ajudou vocês a se reerguerem na vida. Não fos­se a nossa fé cristã, vocês ainda seriam dois perdidos.

— Isso é diferente! — exasperou-se Clementina. — Eu me transformei por amor ao meu filho, e ele, por amor a Deus. Mas eu não sou como ele, odeio a sua igreja ou qual­quer outra. Só o que quero é terminar os meus dias em paz com o meu filho, que, graças a mim, não a você, Romualdo, é um rapaz decente, estudioso e trabalhador.

— Onde ele está? — insistiu Romualdo. — Tenho o direito de vê-lo.

— Ele está trabalhando agora — disse Leontina.

— Quando voltar, tenho certeza de que o aceitará de volta em seu coração e em sua vida. Marcos Wellington não é uma pessoa sem fé como a mãe dele.

— Querem saber de uma coisa? — replicou Clementina, no auge da ira. — Não sou obrigada a ficar aqui escutando vocês dois. Quer ficar, Romualdo? Fique com Leontina. Se ela é tão boa, que cuide de você.

Saiu batendo a porta e desceu o morro derrapando. Entrou em casa feito um furacão, trancando tudo para não correr o risco de que Romualdo entrasse sem ser convida­do. Não conseguiu nem preparar o jantar, tamanha a sua fúria. Jamais imaginou que veria Romualdo novamente, ain­da mais sob a proteção da irmã. Pensando nele, todo o seu corpo estremeceu de ódio. Havia muito deixara de amá-lo e vira, no decorrer dos anos, o amor se transformar em má­goa, a mágoa dar lugar à raiva. Agora, só o que sentia por Romualdo era uma raiva fria, sem possibilidade de perdão.

Marcos demorou a voltar para casa, pois fora se en­contrar com Raquel depois do trabalho, como Clementina imaginava. Não havia outra alternativa senão esperar. Não dormiria aquela noite sem antes falar com o filho. Quando ele finalmente chegou, encontrou-a parada no meio da sala, braços cruzados e ar aborrecido.

Mãe! — assustou-se ele. — O que foi que houve? Por que está parada aí com cara de poucos amigos?

Sente-se, Marcos Wellington. Tenho algo muito im­portante a lhe dizer. — Ele se sentou rapidamente, e ela foi o mais objetiva possível: — Seu pai voltou, velho e doente. Está lá na casa de Leontina, mas vou logo avisando: não o quero aqui.

Espere um pouco — pediu ele, atônito. — O que está me dizendo? Meu pai está de volta? Não é possível.

Tanto é possível que ele está lá, doente, quase cego. A vagabunda com quem fugiu, na certa, o abando­nou. Mas não sou eu que vou cuidar dele agora. Perdi a mocidade chorando por ele, não quero aturá-lo na velhice.

Calma, mãe, por favor. Não estou entendendo direito.

Não há o que entender. Você pode estar achando difícil acreditar, mas é verdade: seu pai voltou e está na casa de sua tia.

Na casa de titia... — repetiu ele, sem esconder a surpresa, tentando decifrar seus sentimentos.

Não o quero de volta em minha vida, não quero mesmo! — a mãe dizia com raiva. — Tenho esse direito.

Por favor, mãe, acalme-se. Tanto ódio não pode lhe fazer bem.

Ódio?! Você sabe o que ele nos fez, Marcos Wellington! Toda a nossa desgraça, devemos a ele.

Isso não é motivo para lhe devolvermos na mesma moeda. Pagar o mal com o bem é agradável aos olhos de Deus.

Você tem um coração nobre, meu filho, muito mais do que eu, ele ou sua tia. Contudo, não estou à altura da sua nobreza. Sou apenas uma mulher comum, traída e hu­milhada. Não é justo que eu seja obrigada a passar por tudo novamente. Logo agora, que encontrei um pouco de paz na vida, não quero perdê-la cuidando de um homem que só voltou para casa porque precisa de uma enfermeira.

Não digo que você deva aceitá-lo de volta. Se você não quer, todos nós temos que respeitar sua vontade. Só acho que você deveria refletir no que está sentindo. Perdoar é um ato divino.

Não posso perdoá-lo — ela enxugou uma lágrima.

Eu quase perdi você por causa do que ele me fez. Não me peça para perdoar o homem que desgraçou a minha vida.

Está bem, mãe, não precisa chorar — Marcos a abraçou e procurou tranquilizá-la. — Preocupo-me com você, não quero que sofra. Se não quer que meu pai volte para cá, ninguém vai lhe exigir isso.

Mas sua tia fica insistindo! E ele... tem que ver a cara de coitado que ele fez.

Vou cuidar disso. Irei até lá e me entenderei com eles.

Você vai procurá-lo? — indignou-se.

Mãe, entenda... Meu pai pode ter errado, mas ainda assim é meu pai. Devo a ele a minha vida e, se o seu arre­pendimento é sincero, sei que Deus irá perdoá-lo.

Vejo nas suas palavras uma recriminação velada. Você também pensa que eu deveria aceitá-lo e, no fundo, acha que estou errada — ela fungou e prosseguiu: — Veja só, ele fez o que fez e agora todo mundo está contra mim.

Eu não estou contra você. Não quero desculpar o meu pai, quero apenas que você compreenda que somos diferentes em nossas relações com ele. Você o vê como ma­rido. Eu o vejo como pai.

E daí?

E daí que é diferente.

Ele nos abandonou a ambos. O abandono não foi o mesmo? Acho até que abandonar o filho é pior. A mulher ainda tem condições de trabalhar e se sustentar. Mas e a criança? É um ser indefeso, precisa da proteção justamente daquele que o deixa desprotegido.

A argumentação era poderosa, no entanto, o perdão fazia parte da natureza de Marcos. É claro que ele ficara magoado quando o pai fora embora, mas não conseguia guardar ressentimentos.

Acho que todo mundo merece uma segunda chan­ce — falou cauteloso.

E eu sou a megera que não quer dar, não é mesmo?

Não, mãe, você não está entendendo. Acho que, em primeiro lugar, tem que dar uma chance a si mesma, para se libertar desse rancor. Isso não pode lhe fazer bem. E dar a ele uma segunda chance não significa viverem juntos novamen­te. Significa apenas dar a ele a oportunidade de se modificar.

Quanta nobreza! — elogiou ela, passando a mão no rosto dele. — Pena que não estou ainda à sua altura.

Por que não oramos um pouco?

Eu não acredito mais em orações. Não quero que a minha palavra caia no vazio.

Então vou orar por nós dois, está bem?

Clementina assentiu e silenciou, limitando-se a ob­servar o filho que, contrito, invocava a proteção de Deus. Enquanto ele rezava, ela refletia em tudo o que ele dissera. O que o filho lhe pedia era algo muito além de sua capacida­de. Não conseguia perdoar Romualdo, por mais que o filho lhe pedisse.

Clementina não conseguiu mais tirar Romualdo da ca­beça. Era como um fantasma a assombrar-lhe as lembran­ças, reavivando as tristezas do passado. Ela não queria mais ter contato com ele, era seu direito. Amara-o e sofrera por ele. Agora que tudo havia passado, o amor cedera lugar a uma raiva contida, porém, verdadeira.

O pior era ter que conviver com as acusações de Leontina. Desde que Romualdo se fora, a irmã nunca lhe dera apoio. Ficara contra ela, acusando-a silenciosamente, julgando-a res­ponsável pela sem-vergonhice do marido. E agora, depois de tudo por que ela passara, Leontina pensava que ela era obri­gada a receber de volta o traste que se travestia de Romualdo.

Clementina fez a faxina do dia com um apuro exage­rado, empregando mais força do que o habitual, transferin­do para as mãos a raiva que lhe ia no coração, como se, ao limpar a casa da patroa, limpasse também a sua alma. Encerrado o trabalho, voltou para casa, imaginando o que iria encontrar. Marcos Wellington não estava, já havia saído para o trabalho, e ela se jogou na cama, exausta da força extra que despendera ao longo do dia.

Estava quase pegando no sono quando ouviu batidas na porta. Deu um pulo, levantou-se e encostou o ouvido à porta. indagando desconfiada:

Quem está aí?

Sou eu, Clementina, abra. Reconhecendo a voz da irmã, abriu a contragosto.

O que você quer?

Precisamos conversar. Deixe-me entrar, por favor.

Se veio aqui tentar me convencer a ficar com Romualdo, pode pegar o caminho de volta.

Não é nada disso. Quero apenas conversar.

Mesmo desconfiada, Clementina permitiu que ela en­trasse, sentando-se junto a ela no pequeno sofá da sala. Não disse nada. Nem saberia o que dizer além de extravasar a revolta de sempre. Achou melhor ficar quieta, engolindo a raiva para aguardar a iniciativa da irmã.

Leontina estava confusa, sem saber por onde come­çar. Tinha ensaiado aquela conversa várias vezes na vés­pera, mas agora não conseguia encontrar as palavras que tantas vezes repetira na sua cabeça.

— Você sabe o quanto gosto de você, não sabe? — começou ela, alisando a barra da saia.

Sei. E daí?

E que não faria nada para magoá-la.

Quanto a essa afirmativa, Clementina não estava bem certa, mas não quis puxar uma briga e repetiu com frieza:

Sei.

Olhe, Clementina, você não sabe como é difícil o que tenho a lhe dizer.

Se veio pedir por Romualdo, então nem precisa di­zer nada.

Não é isso. Na verdade, vim lhe pedir perdão.

Perdão? — surpreendeu-se ela. — Por quê? Por ter acolhido o traste em sua casa e por querer me convencer a aceitá-lo de volta?

Não — a resposta foi quase um sussurro. — Por amá-lo em silêncio todos esses anos e por tê-lo desejado tanto que cheguei a odiá-la cada vez que os imaginava jun­tos, na cama.

O espanto foi tão genuíno e de tal intensidade que Clementina deu um salto do sofá, levando a mão ao cora­ção, como se quisesse evitar que ele, por sua vez, lhe sal­tasse também do peito.

O que está dizendo?

É isso mesmo que você ouviu. Amo Romualdo, sempre amei.

Clementina pôs-se a andar de um lado a outro da sala, tentando colocar sentido nas palavras aparentemente insa­nas da irmã.

— Não pode ser — objetou incrédula.

— Por quê? Você pensa que eu sempre fui a mulher seca que sou hoje e nunca fui capaz de amar um homem?

— Não se trata disso — rebateu confusa. — Você nun­ca disse nada...

— O que poderia dizer? Que estava apaixonada pelo homem com que você ia se casar? E depois, ele escolheu você, não a mim.

— Como assim, escolheu? Quando conheci Romualdo, ele não tinha ninguém. Teve uma mulher antes de mim, mas... — calou-se, percebendo a verdade. — Era você aque­la mulher? A angústia que os olhos de Leontina refletiam era tão visível que Clementina, num átimo, compreendeu tudo.

— Fui apenas mais uma na vida dele — desabafou Leontina. — Ele não sentia por mim o mesmo que eu sentia por ele.

— Foi você que nos apresentou — indignou-se a ou­ra. — Por que não me disse que o amava?

— De que adiantaria dizer-lhe, se foi por você que ele se apaixonou?

— Eu teria feito alguma coisa. Teria rompido com ele.

— Não teria, não. Vocês dois já haviam dormido juntos.

— Como é que você sabe? Ele lhe disse?

— Não foi preciso — sussurrou ela, envergonhada.

— Ele fez o mesmo comigo antes...

Clementina estacou abismada e levou a mão à boca, sufocando um grito de horror:

— Não... — murmurou, cada vez mais aturdida.

— Como isso pôde acontecer?

— Conheci Romualdo na igreja. Ele chegou pedin­do ajuda, no dia em que eu estava fazendo a limpeza dos bancos. Entrou cabisbaixo e pediu para falar com o pastor, mas ele havia saído. Romualdo estava tão desesperado que se abriu comigo. Havia perdido o emprego, os cobradores batiam à sua porta. Condoí-me de sua situação e prometi ajudá-lo. Pedi a intervenção do pastor, que lhe arranjou um emprego, como já fizera com tantos outros. Talvez por isso Romualdo tenha se envolvido comigo. Eu me apaixonei por ele, mas percebia que ele não me amava. Sentia-se grato ou obrigado, não sei, mas não me amava. Aí você apareceu, e ele se modificou... Ela parou de falar, a voz sufocada pelas lágrimas. Clementina também chorava e apertou a mão dela, falando com pesar:

— Você devia ter me contado. Eu não teria nem saí­do com ele a primeira vez.

— Eu não sabia. Quando descobri, já era tarde de­mais. Fiquei desesperada. Eu havia me entregado a ele na certeza de que nos casaríamos. Acreditava nisso, porque ele, frequentando os cultos, sabia do pecado da carne. Por isso fui tão crédula e me deixei levar por essa ilusão. Sempre temi o pecado da luxúria, mas achei que, com o casamento, Jesus me perdoaria. Só que não foi comigo que ele se ca­sou, foi com você.

— Eu não teria me casado se soubesse que você já havia se entregado a ele.

— Então, seria você a pecadora. Por isso fiquei quieta. Eu jamais me perdoaria se a sua alma queimasse no inferno.

— E preferiu se sacrificar? — Leontina assentiu.

— Por quê?

— Porque amo você mais do que poderia amá-lo ou a qualquer outra pessoa.

Clementina desabou no pranto e se agarrou à irmã, falando ao mesmo tempo em que chorava:

Ah, Leontina! Por quê...? A voz estrangulou-se na garganta, e Leontina prosseguiu:

Tudo isso foi há muito tempo. Fiquei com raiva dele na época. Só Deus sabe o quanto precisei me penitenciar para limpar meu coração e minha alma dos pecados que havia cometido. Arrependi-me de ter ultrajado Jesus com a minha iniquidade. Seguindo as palavras de Paulo13, deixei que a tristeza me levasse ao arrependimento sincero, con­vertendo-me a uma vida de castidade e virtude.

Minha pobre irmã — lamentou Clementina. — Ilu­dida com a ameaça do inferno só por ter dormido com um homem que não era seu marido.

Você não compreende. O pastor me ajudou a liber­tar-me do pecado. Arrependi-me, desejei sinceramente a re­paração. Por isso optei pela castidade.

Pense assim, se quiser. Mas lembre-se do quanto sofreu. Será que valeu a pena?

Fui punida pelo meu pecado, e a dor que senti foi pequena, se comparada ao tamanho do meu erro.

Clementina suspirou profundamente e retrucou com amargura:

— Deixe de lado essa bobagem de pecado. Deus não pune ninguém. Você se impediu de ser feliz, de ter um mari­do e levar uma vida normal.

 

13 Referência a 2 Coríntios 7:10, que diz: "A tristeza segundo Deus produz uma conversão que salva e da qual ninguém se lamenta. Mas a tristeza própria do mundo produz a morte".

 

Eu teria perdoado Romualdo desde o início. Não a estou acusando por não o fazer, mas eu não teria deixado que ele partisse.

Talvez o seu amor por ele seja maior do que o meu.

Não sei... Mas agora ele voltou...

O silêncio de Leontina era mais do que esclarecedor. Não era preciso muita perspicácia para adivinhar o que ela pretendia.

Eu não o quero de volta — adiantou-se Clementina rispidamente. — E não sei se seria boa ideia você ficar com ele. Veja bem, não é porque ele é meu marido. Eu apenas acho que você merece coisa melhor.

Não posso abandoná-lo, Clementina, não posso! Só agora percebo o tamanho da minha fraqueza. Pensei que, com o meu arrependimento e minha devoção a Cristo, teria reunido forças para enfrentar as armadilhas de Satanás. Foi assim até tornar a vê-lo, tão frágil, carente... dependente de mim.

Romualdo não presta, Leontina. Será que você não percebe que o que ele quer é uma enfermeira? E tem que ser você a trouxa?

Eu não me importo. Acho até que prefiro que ele tenha voltado assim. Ao menos não terá mais ânimo para correr atrás das mulheres.

E você poderá cuidar dele como sempre desejou. É isso o que realmente quer? Cuidar de um inválido? Dar-lhe banho, trocar-lhe as fraldas?

Romualdo não está inválido. Vai fazer a cirurgia de catarata. E sim... Não me importo se tiver que cuidar dele.

Você deve estar louca. É isso. Acho melhor interna­da no hospício. Evitará que você cometa essa loucura.

Não fale assim, Clementina. Não precisa ser sar­cástica. Só porque você não está disposta a sacrificar-se em nome do amor, não quer dizer que eu não esteja.

Você está? — Leontina assentiu. — Pois muito bem. O problema é seu. Só posso dizer que lamento essa escolha estúpida.

Não é estupidez. É amor.

Clementina mal acreditava no que ouvia. Já nem ti­nha mais raiva de Romualdo. Seus sentimentos eram con­traditórios, embaralhados. Sentia um misto de amor, medo e compaixão pela irmã. Não queria que Leontina sofresse tanto quanto ela sofrera. Mas ela já havia sofrido. Durante todos aqueles anos em que estivera casada com Romualdo, Leontina sofrera em silêncio.

Não quero mais Romualdo na minha vida — afir­mou, com toda convicção. — Sofri por causa dele e só tenho a lamentar o seu futuro. Você, que teme tanto o capeta, está se entregando de boa vontade nas mãos de Satanás.

Não diga isso! — recriminou Leontina, horrorizada.

Romualdo não é Satanás. É só mais um pecador que o diabo gosta de tentar.

Não existe essa coisa de diabo, Leontina. Ele está aqui, dentro da gente. Cada vez que matamos a nossa ale­gria, vamos dando asas ao diabo, que vai dominando a nos­sa alma com a punição da tristeza.

Você não acredita mesmo em Deus e no diabo?

Acredito em Deus, mas não sei bem como. Quanto ao diabo, só acredito nas nossas escolhas. Acho que, ao escolhermos um caminho de dor, alimentamos o diabo que existe em cada um de nós.

Seria bom crer como você. Ficaria na ignorância 5 não teria que temer a prestação de contas no Tribunal de Deus, quando chegar o dia do Juízo Final.

Também não acredito nisso. Quem tem consciên­cia que se entenda com ela, para seu próprio julgamento, condenação ou absolvição.

Gostaria de pensar como você, mas sei que isso são desculpas para continuar pecando. Conheço a verdade e sei que, agindo contra as Escrituras Sagradas, ninguém poderá ver o reino de Deus.

Se pensar assim vai ajudar a mantê-la longe de Romualdo, tudo bem. Você tem o meu apoio.

Ele precisa de mim... — Leontina quase suplicou.

E você precisa dele também, não é? — ela abaixou os olhos, e Clementina suspirou dolorosamente: — Eu ainda acho que você vai sofrer, mas enfim... é a sua escolha.

Quero muito estar com ele.

Se é o que realmente quer, por que não fica com ele? Você não precisa da minha aprovação.

Preciso saber que nada mudará entre nós.

Não mudará. Ele não tem o poder de me colocar contra minha única irmã.

Ele ainda é casado com você.

Isso é o de menos. Podemos nos divorciar.

O pastor não aceitará meu casamento com um adúltero — divagou ela. — Mas estou disposta a tentar.

Vocês não precisam se casar para estar juntos. Casados ou não, é pecado de qualquer maneira, segundo você diz. Então, que diferença faz? Se você não se casar, ninguém precisa ficar sabendo que estão vivendo como ma­rido e mulher. Ninguém.

Deus tudo sabe e tudo vê. Jamais poderia enganá-lo.

Então, minha irmã, sinto muito. Não tem jeito.

O jeito é assumir a minha escolha, como você diz. Se você não se importa, nada mais importará para mim.

Clementina não disse mais nada. No fundo, não se im­portava mesmo que a irmã ficasse com Romualdo. Era até melhor, porque assim ela não a pressionaria para aceitá-lo de volta. Ouvir Leontina falar de seu marido era algo deveras estranho, inusitado. Nunca, em toda a sua vida, Clementina julgara a irmã capaz de amar um homem. Muito menos de guardar aquele segredo por tantos anos.

Não. Decididamente, Clementina não se importava que Leontina se casasse ou vivesse com ele.

Foi com redobrada surpresa que Marcos recebeu a notícia de que o pai não só passaria a viver com a tia dali em diante, mas se casaria com ela assim que a mãe lhe conce­desse o divórcio.

Não acredito, mãe — surpreendeu-se ele. — Tia Leontina, fazer uma coisa dessas?

Deixe sua tia. Ela sofreu muito em segredo todos esses anos.

Mas é pecado! Meu pai não tem essa opção de se casar de novo. Para o adúltero, as únicas opções são reatar com o cônjuge abandonado ou viver em solidão. E minha tia está contrariando a palavra de Jesus, que condena ao peca­do aquele que se casa com o pecador. Está lá em Lucas...

Chega, Marcos Wellington! Não aguento mais ouvir falar em pecados nesta casa.

Ele é o seu marido legítimo.

Não o quero mais, você sabe disso. E, se estava faltando um bom motivo para me divorciar dele, já apareceu.

Você sabe que é inocente na questão do adultério e do abandono. Mas papai e titia, não.

Não se perturbe com isso. Nenhum de nós vai para o inferno por viver a vida.

Marcos estava em dúvida. No dia seguinte, ao partilhá­-la com Raquel, ouviu dela opinião semelhante:

Também acho, Marcos. Não acredito que Deus es­teja preocupado com os casamentos na Terra. O que im­porta é o sentimento. Seu pai e sua tia não estão fazendo mal a ninguém, ainda mais porque sua mãe foi bem clara ao afirmar que não quer mais voltar para ele.

Eu sabia que você ia concordar com essa situação de pecado.

Segundo o seu ponto de vista, nós também esta­mos pecando.

Eu a amo. Pretendo me casar com você e, quando isso acontecer, nosso pecado terá terminado.

E se nós não nos casarmos? — Marcos não disse nada. — Você se esquece de que eu já não era mais virgem quando nos conhecemos? Ou você ainda me considera uma pecadora?

Você não conhecia as Escrituras, por isso Jesus há de perdoá-la.

Ah, não. Não vamos recomeçar com essa história de pecado. Já está ficando monótono. Quer saber? Se a sua tia quer se casar com o seu pai e a sua mãe não fica chatea­da, não vejo problema algum.

Por que você faz picadinho da Bíblia, Raquel? Por que não acredita em nada do que dizem as Escrituras?

A Bíblia foi escrita por homens, e cada um lhe dá a interpretação que pode ou que mais lhe convém. Acredito em Deus e na energia que movimenta o universo, mas não na personificação dessa energia. Deus está acima de tudo, não pode ser mensurado nem quantificado, nem descrito. Deus, simplesmente, é.

Que coisa, Raquel. Não entendo nada do que você diz. Só sei que suas palavras soam como heresia. Mesmo assim, eu amo tanto você...

Bobinho — retrucou ela, dando-lhe um beijo carinho­so. — Você tem que aprender a aceitar pontos de vista diferen­tes. Ninguém disse que a sua visão do mundo é a correta.

Nem a sua.

Exatamente. A diferença é que eu sei disso e você não. Por isso, respeito todas as crenças e religiões, enquan­to você, lá no fundo, acha que só a sua é que está correta. Por acaso, o próprio Deus apareceu para você e falou isso?

É claro que não — respondeu ele, rindo.

Então por que você tem que dar tanto valor à pala­vra dos homens?

Não é a palavra dos homens. As Escrituras contêm os ensinamentos de Deus e de Jesus.

Que foram escritos por homens. Quem garante que quem escreveu ou traduziu foi fiel às mensagens que rece­beu? E depois, tem a questão cultural e histórica. O homem hoje sabe de coisas que antigamente não sabia. Por que tudo tem que ser como era mais de dois mil anos atrás?

Porque a lei divina é imutável.

A lei divina é a do amor, e essa não muda nunca. Mas a lei dos costumes vai se adaptando aos tempos. Além dis­so, as pessoas compreendem na medida da inteligência e da maturidade. Não é por isso que Jesus falava por parábolas?

Você é terrível, Raquel. Tem resposta para tudo. Mas por que não pode aceitar a minha religião como boa e verdadeira?

Eu não disse que não é. Ao contrário, acho que é tão boa como todas as outras. Você é que tem dificulda­de em aceitar doutrinas diferentes das de sua igreja. Todas as Escrituras, de qualquer povo ou religião, estão sujeitas à interpretação do homem. Respeito-as, mas vou tirando as minhas conclusões de acordo com o que fala mais alto à minha alma. Agora, a verdade ninguém conhece, só Deus. Não há muitas verdades. A verdade é uma só. O que há são formas de compreender essa verdade, mas, para isso, é preciso haver respeito, porque os homens são diferentes, assim como o são as suas crenças. Se nós nos respeitar­mos, sempre nos daremos bem. Embora eu não siga a sua religião, respeito-o por acreditar nela e acho muito bom você ser uma pessoa espiritualizada. Mas eu tenho mais afinida­de com outros tipos de ensinamentos espiritualistas. E daí? No fundo, é tudo a mesma coisa.

Marcos a olhava admirado. Puxou-a com gentileza e pousou-lhe um beijo prolongado, acrescentando em seguida:

Minha doce Raquel, como pode dizer tantas coi­sas que não consigo refutar e, em seus lábios, parecem sá­bias verdades?

No fundo, no fundo, a sua alma sabe do que estou falando.

Ele achou graça no que ela dizia. Já estava se acostu­mando ao jeito despojado e livre de Raquel. Ela aceitava as divergências de opiniões religiosas com tranquilidade, acredi­tava na liberdade que cada um deveria ter para seguir sua própria religião, sem desrespeitar ou menosprezar a do outro.

— Você acha que eu deveria procurar o meu pai? — continuou ele, tentando não pensar mais nas ideias esquisi­tas de Raquel.

Acho, sim. Você mesmo não disse que iria falar com ele?

Foi, mas não tive coragem. O que poderia lhe dizer?

Diga o que está sentindo. Você tem raiva dele?

Raiva, não. Uma certa mágoa, não posso negar.

Mas não gostaria de se dar bem com ele?

Gostaria, sim. Não sou rancoroso como minha mãe, muito embora tenhamos sido as vítimas. Ele nos abandonou e quero perdoá-lo por isso. Sei que consigo.

Você consegue, Marcos, mas ninguém é vítima nessa vida. Todos nós experimentamos a ação da natureza, que só faz devolver o que recebe. Ação e reação.

Não sei aonde você quer chegar com essa maluquice.

Somos os beneficiários de nossas ações. Tudo o que fazemos ou deixamos de fazer retorna para nossas vi­das. O universo é o receptáculo de nossas atitudes e é ele quem atira as consequências de volta para nós. É como um bumerangue. Vai e volta. Quando o bumerangue sai da gen­te com energias que provocam bons resultados, ele retorna com vibrações redobradas de alegria. Mas, ao contrário, se a força com que o atiramos é perniciosa, o que ele nos de­volve são energias igualmente ruins que serão experimen­tadas por nós nessa vida ou na próxima. É uma reação em cadeia, que vai se repetindo até que alguém a interrompa.

Como?

Modificando a natureza das ações que recebemos. Em vez de reagir ao mal com atitudes ruins, temos que ado­tar uma atitude contrária àquela que recebemos. Por exem­plo: se alguém é grosso conosco, podemos sorrir. A ação amorosa anula a ação daninha. Com isso, em vez de en­trarmos no bate e volta da ação e reação, geramos novas e boas causas, tornando-nos agentes, não reagentes. E a atitude perversa que seria a fonte de uma reação nociva se encerra com a nova ação de amor. Origem e fim.

Ou seja, a ação chega até nós, não encontra rea­ção e para. E o que seria a nossa reação, por sua vez, vira uma nova atitude, na medida em que somos nós que esta­mos dando início a um novo movimento, só que de amor, em vez do mal que nos foi enviado.

Exatamente.

Interessante a sua colocação, Raquel, e traz uma verdade muito parecida com a crença da minha igreja, de que a redenção do pecador requer que ele adote atitude contrária à que resultou em pecado.

Viu só? — animou-se ela. — Não falei que, no fun­do, tudo é a mesma coisa?

Sim, mas no que é que isso se aplica ao meu pai, que era de quem estávamos falando?

Simples. Se o seu pai abandonou você, não reaja da mesma forma, abandonando-o também.

A singela verdade nas palavras de Raquel provocou­-Ihe um choque. Marcos fora o primeiro a dizer que perdoa­va o pai, mas no fundo ressentia-se de ter sido abandonado e hesitava em procurá-lo. Perdoava-o, mas não queria con­tato com ele. Seria isso perdão?

Como se lesse seus pensamentos, Raquel acrescentou:

— Perdoar significa esquecer. Se você não esqueceu, não perdoou integralmente.

Marcos estava abismado. Raquel, no fundo, tinha ra­zão. Ele incentivara a mãe a perdoar o pai, mas teria sido o seu perdão verdadeiro ou consequência de um dever filial? Não sabia o que dizer.

Depois que Raquel se foi, os pensamentos de Marcos davam voltas e mais voltas pela sua cabeça. Ela era mui­to diferente dele. Suas ideias, apesar de beirarem a here­sia, não deixavam de ser verdadeiras e sábias. Pensou em consultar-se com o pastor, mas como poderia lhe dizer que estava namorando uma moça espiritualista, com quem até já mantivera relação carnal?

Era melhor deixar o pastor fora daquilo. Ele, sozinho, precisava decidir o que fazer.

Faltando pouco para o início do semestre letivo, Marcos pretendia aproveitar bem os dias que lhe restavam em com­panhia de Raquel. A chegada do pai mudara um pouco seus planos. Ainda não conseguira conversar realmente com ele. Evitava encontrar-se com ele, pois não se sentiria à vontade em sua presença. Hoje, era uma pessoa estranha. Romualdo também não se esforçava. Remoído pela culpa, tinha medo de se aproximar do filho e ser rejeitado.

Com esses pensamentos, Marcos chegou ao trabalho e notou que o patrão, seu Valdir, o cumprimentou com ar aca­brunhado, coisa que não era muito comum. Não sabia ele que, algumas horas antes, duas moças haviam saído após fazerem uma séria queixa quanto ao seu comportamento.

O senhor é o gerente? — perguntara uma delas.

Sou o dono — respondeu Valdir. — Em que posso ajudá-las?

Gostaríamos de registrar uma reclamação.

Pois não? — surpreendeu-se ele.

É sobre aquele garçom... Um que trabalha à noite, bem moreno, de cabelo encaracolado.

Deve ser o Marcos. O que tem ele?

O assunto não é agradável — a outra tomou a palavra, ante o olhar de hesitação da amiga. — Mas nos achamos na obrigação de vir aqui e contar ao senhor o que aconteceu.

— O que foi?

Valdir estava cada vez mais espantado. As moças se entreolharam novamente, até que uma delas continuou:

O senhor tem um garçom muito abusado, sabia?

Como assim?

Estivemos aqui ontem, e ele nos deu uma cantada. Aliás, uma cantada seria o de menos. Ele foi grosseiro, abu­sado e inconveniente.

O que ele fez? — continuou Valdir, mal crendo no que ouvia.

Ele é esperto. Sempre dava um jeito de nos passar a mão, de forma que parecia involuntária.

O quê?! — Valdir estava no auge da indignação.

E as coisas que disse, então? Não dá nem para re­petir, o senhor entende.

Estou chocado. Marcos nunca foi dessas coisas. É um rapaz evangélico, muito sossegado e discreto.

— Será que estamos falando do mesmo garçom? — arriscou a moça.

Ele é carioca? — quis saber Valdir.

Pelo sotaque, parece.

Então é o Marcos mesmo. Os outros dois que tra­balham aqui à noite são nordestinos e não têm cabelos en­caracolados. São morenos, mas nem tanto. Estou admirado com essa revelação.

As duas o olharam com um certo embaraço e começa­ram a falar quase ao mesmo tempo:

Lamento se lhe trouxemos um problema, mas acha­mos que tínhamos o dever de lhe contar.

Ontem, quando saímos daqui, ficamos meio sem graça, mas depois de refletirmos concluímos que era nossa obrigação. Do contrário, ele vai continuar fazendo isso com outras garotas.

E sabe-se lá com quantas ele já fez, mas não fala­ram nada, por vergonha.

O Marcos, quem diria! — lamentou Valdir. — Jamais poderia imaginar uma coisa dessas. Tão quieto, tão religioso...

Esses são os piores.

Bem... Só posso pedir que me perdoem. Eu não sabia. Vou falar com ele hoje mesmo.

O senhor acha que vai adiantar alguma coisa? É claro que ele vai negar.

Melhor mesmo seria ficar de olho nele e dar o fla­grante. Essa gente, o senhor sabe como é.

Valdir estava arrasado. Tinha Marcos na mais alta con­ta. Ele era muito responsável e sempre fora respeitador. Mas o que conhecia da vida dele? Sabia que era evangélico por­que ele próprio lhe dissera. E era também universitário, se­gundo suas informações. No entanto, morava no morro do Salgueiro. Não seria isso um indício de que poderia ser um bandidinho dissimulado?

Como Valdir não queria ser injusto nem preconceituoso, aceitou a sugestão das moças e não fez nenhum comentário, mas resolveu prestar mais atenção a ele. A queixa o deixara desconfiado, e não foi por outro motivo que, quando Marcos chegou naquele dia, ele o recebeu com uma certa frieza.

Marcos percebeu a diferença de tratamento, porém, nada disse. Talvez o patrão estivesse com algum problema que não era da sua conta. Lembrando-se da conversa que tivera com Raquel, deu um sorriso a Valdir, que abaixou a cabeça, envergonhado. Foi trocar de roupa para atender as mesas. Como era uma pessoa educada, muito amistosa, re­dobrava-se em gentilezas, tratando homens e mulheres com igual cortesia. Tudo aparentemente normal, a não ser para Valdir, cuja desconfiança havia sido acionada.

Ele servia uma mesa onde estavam uma senhora e duas adolescentes. Entregou-lhes o cardápio, tomou nota das be­bidas no seu bloquinho. Uma das meninas lhe perguntou

297 algo, ele se abaixou perto dela, apontando alguma coisa no menu. Esclarecia-lhe sobre a diferença dos pratos, sem ne­nhum pensamento ou gesto maldoso. Mas o sorriso que ele deu à garota, ante sua observação ingênua sobre carnes e frangos, desencadeou uma onda de suspeitas, levando Valdir a ver malícia em tudo o que ele fazia.

Finalmente, quando as três se decidiram, tomou nota dos pedidos. Depois foi atender outra mesa, onde dois ho­mens de terno discutiam os termos de um contrato. Como os fregueses pareciam ocupados, entretidos com os negó­cios, Marcos tratou-os com maior distância, para não atrapa­lhar as negociações. Para Valdir, contudo, Marcos os tratava com desinteresse simplesmente porque eram homens.

Foi assim pelo resto da noite, até que o restaurante fe­chou. Valdir olhava para Marcos ressabiado, sem dizer nada, mas sobressaltado, como se à espera de que outras moças viessem lhe fazer alguma queixa. Nada aconteceu naquele dia nem no dia seguinte, embora as desconfianças de Valdir persis­tissem, levando-o a enxergar maldade onde só existia gentileza.

Sentado em seu carro, Elói aguardava o telefonema das moças que havia contratado para desempenhar o papel de molestadas. Eram conhecidas de Paloma, uma garota de programa que, vez por outra, lhe prestava serviços profis­sionais. Por algum dinheiro, conseguiu que elas represen­tassem aquele teatrinho para o dono do restaurante em que Marcos trabalhava. Depois delas, viriam outras contando a mesma história, até que ele daria o golpe final.

O telefone tocou, ele atendeu com um sorriso maldo­so. Eram as moças, contando-lhe o sucesso da empreitada. Elói riu com elas e desligou, satisfeito com o resultado da encenação que ele mesmo inventara. Em seguida, ligou para Nelson e colocou-o a par de tudo.

Não se preocupe com nada — falou ele, animado.

Em breve, Raquel será sua novamente, e aquele idiotinha vai voltar ao lugar dele.

Na outra ponta, Nelson também ria satisfeito. Tudo se encaminhava conforme o esperado. Era bom poder contar com alguém tão esperto e inteligente quanto Elói. Ele tinha razão: destruir a reputação de Marcos era bem melhor do que lhe dar uma surra, que acabaria aproximando Raquel ainda mais dele. Ela o achava o máximo, o homem mais digno da face da Terra. Desmistificar esse caráter aparente­mente irrepreensível lhe causaria indescritível decepção e a levaria a romper o namoro.

Marcos saiu do restaurante cismado com o compor­tamento do patrão. Quando se despediu, Valdir respondeu­-Ihe com um distanciamento que não era normal. Tentou sondar com os colegas de trabalho, mas ninguém sabia de nada. Tomou o ônibus, imaginando o que poderia ser. Com os outros garçons, Valdir permanecia o mesmo. Apenas com ele operara-se a modificação de tratamento.

Saltou do ônibus e seguiu em direção ao morro. Já ia iniciar a subida da ladeira quando ouviu uma voz conhecida chamando-o insistentemente:

— Marcos Wellington! Marcos Wellington!

Apenas duas pessoas o chamavam assim, e se não era a mãe, só podia ser a tia. Ele se virou prontamente, dan­do de cara com ela. Leontina vinha amparando um senhor de cabelos brancos, que arrastava os pés pelo calçamento. Imediatamente, Marcos reconheceu o pai, apesar das mu­danças implacáveis que os anos lhe haviam imprimido. Ele parou e esperou até que ambos se aproximassem, para só então responder:

O que foi, tia?

Marcos Wellington, pelo amor de Deus! — excla­mou ela, arfante. — Ajude-me a levar seu pai para cima.

Romualdo não dizia nada. Com o olho mais são, ten­tava enquadrar Marcos em seu campo de visão. O rapaz olhou-os em dúvida. Aquele podia ser o momento que tanto esperava. Mais que depressa, postou-se ao lado do pai, que conseguiu olhá-lo, embora com uma certa dificuldade.

— Tudo bem, meu filho? — perguntou ele, lutando consigo mesmo contra o remorso, o medo e a alegria. Marcos assentiu e tomou-lhe o braço, ajudando-o a caminhar.

— Aonde vocês foram? — indagou ele, olhos gruda­dos no chão.

— Fui levar seu pai à farmácia para medir a pressão — esclareceu Leontina. — Está alta.

— Já tomou remédio?

— Já, sim — respondeu Romualdo.

Caminharam em silêncio, os três lutando contra o constrangimento, sem saber o que dizer. Havia muito a ser dito, mas ninguém sabia por onde começar. Passaram pela casa de Marcos, que olhou de soslaio para a janela fechada, onde apenas alguns pontinhos de luz ultrapassavam as fres­tas, dando mostras de que a mãe ainda estava acordada. Quando chegaram à casa de Leontina, ele parou na porta.

Não quer entrar, meu filho? — convidou ela.

Hoje não, tia — respondeu ele. — Estou cansado.

Não quer acompanhar seu pai até o quarto? — era Romualdo, doido para que Marcos aceitasse o convite e as­sim pudessem conversar.

Não vai dar — insistiu ele. — Minha mãe está me esperando e pode ficar preocupada.

Ele fez menção de sair, mas ouviu a voz de Romualdo novamente:

— Será que o que eu fiz foi tão horrível que você não pode me perdoar?

Ele estacou e se virou com lágrimas nos olhos. Lu­tava com sentimentos contraditórios, tentando equilibrar a mágoa com o perdão a que ele mesmo incentivara a mãe. Via agora que não era assim tão fácil sentir da mesma forma que falava.

— Quem sou eu para julgá-lo, pai? — disse ele por fim, lembrando-se das palavras de Raquel. — O julgamento de seus atos está nas mãos de Deus.

Romualdo deu uma risada sem graça e tornou com cautela:

— Sinto um tom de ressentimento em suas palavras. Estou enganado?

Marcos não respondeu. Como mencionar ao pai as coisas que fora obrigado a silenciar por tanto tempo? Como lhe contar dos anos em que a mãe quase morrera afogada na bebida, e ele por pouco não se desviara do caminho de Deus, solto na mendicância, junto a outros meninos de rua? Conseguiria falar da fome, da miséria, do frio sem nenhum toque de revolta? O pai compreenderia que eles haviam so­brevivido graças à sua fé e à intervenção da tia, que o livrara do mundo do vício em que, por muito pouco, não buscara refúgio? E as tristezas e decepções? E o que dizer da desilu­são da mãe, que nunca mais encontrara alegria na vida e só não morrera graças à imensurável misericórdia de Deus?

Pensando nessas coisas, Marcos não teve como fu­gir de si mesmo e assumiu o ressentimento, mascarado de compreensão por seus deveres evangélicos. Fora ele quem dissera à mãe que perdoasse Romualdo, quando ele mesmo não sabia o que era perdão. Por outro lado, tinha que ser since­ro consigo mesmo. Não podia simplesmente dizer que estava tudo bem quando, na verdade, não estava. Raquel lhe dissera que devia falar o que sentia. Mas o que realmente sentia?

— Não sei o que dizer... — começou ele, usando o máximo de sinceridade que podia. — Você sumiu há tanto tempo! Não sei mais o que sinto com relação a você.

Romualdo engoliu em seco, impressionado com a franqueza dele.

Fiz muito mal a você e a sua mãe, não fiz?

Pelo visto, fez mais mal a si próprio. Minha mãe e eu estamos vivendo.

Tem razão... Romualdo calou-se envergonhado, e Leontina interveio:

Acho que esse não é o melhor momento para vo­cês conversarem sobre isso. Seu pai está doente, Marcos Wellington, e essa conversa talvez não lhe faça bem.

Não... — objetou Romualdo, mas Marcos concordou:

Tia Leontina tem razão. Você acabou de tomar um remédio para pressão e não vai lhe fazer bem emocionar-se.

Estou preparado.

Ninguém está totalmente preparado para se de­frontar com seus próprios erros — respondeu Marcos e, no­tando o ar de susto dos dois, acrescentou: — Falo isso para você e para mim... para minha tia e minha mãe também.

Não precisa tentar se justificar, meu filho. No fun­do você tem razão. Sei o quanto errei e vim aqui em bus­ca não apenas de ajuda, mas também de perdão. Não sei se mereço.

É claro que merece — falou Leontina. — Todo mun­do merece perdão, não é, Marcos Wellington?

É — respondeu Marcos, mais para si mesmo do que para a tia. — No fundo, estamos todos em busca de perdão, não estamos?

Nem mesmo Marcos sabia por que havia falado aquilo, mas o fato é que sua alma também buscava reconciliar-se com o passado. Ele olhou penalizado para o pai, o branco da catarata se alastrando por seus olhos. Sentiu no coração a verdade do que acabara de dizer. Se todos precisavam de perdão, por que todos não podiam perdoar? Se ele mandas­se sentimento de perdão, seria o mesmo que receberia da vida. Pagar o abandono com amor. Origem e fim.

— Venha, pai, vamos entrar — chamou ele, passando os braços ao redor dos ombros de Romualdo.

Os três entraram em casa, e Marcos levou o pai até o sofá, ajudando-o a deitar-se. Em seguida, puxou uma ca­deira, sentando-se defronte a ele. Esperou até que a tia lhes servisse uma xícara de chá, e então Romualdo falou:

— Tenho muito que lhe contar, meu filho. Sobre os anos em que estive ausente e o tanto que aprendi...

Com paciência e amor, Marcos ouviu o relato do pai sobre seu passado, emocionando-se com ele em vários momentos. Ficou ali por muito tempo, até depois que ele adormeceu. E, vendo a tia sentada na poltrona em frente a ele, finalmente compreendeu o que significava o amor.

Muito próximo da verdade, Afrânio pressentia a iminên­cia da descoberta. Pelas adjacências do morro do Salgueiro, deu início a uma busca nas igrejas e templos religiosos. Não eram muitos, de forma que conseguiria visitar a todos em pouco tempo. Como era inevitável, bateu à porta da igreja frequentada por Leontina. Recebido por uma fiel, pediu para falar com o pastor responsável. Euzébio apareceu sorriden­te. Homem simpático e gentil, sempre recebia bem a todos que o procuravam em sua congregação.

— O que posso fazer por você, meu filho? — indagou ele, convidando Afrânio a sentar-se defronte a sua escrivaninha. Afrânio sentou-se e apanhou a foto de Margarete, exi­bindo-a a Euzébio.

— Muito provavelmente o senhor não a conhece — esclareceu ele. — Seu nome era Margarete Cândida da Fonseca e morreu atropelada aqui perto, faz alguns anos.

Que pena — disse ele com sinceridade.

Margarete, contudo, não estava sozinha. Tinha um filho que desapareceu. Desconfio que ela o tenha abando­nado em algum lugar pelas redondezas, na porta da casa de alguém ou numa lata de lixo.

Para qualquer um, a lividez momentânea do pastor te­ria passado despercebida, mas para Afrânio, não. Euzébio jamais havia visto Margarete, mas conhecia bem toda a his­tória, contada por Leontina.

Havendo exercido o ministério pastoral naquela igre­ja por vinte e três anos, Euzébio não tinha como esquecer. Certo dia Leontina o procurara em busca de um aconselha­mento espiritual. Aos trancos e barrancos, contara-lhe como a irmã e ela haviam encontrado um bebê recém-nascido na lata de lixo e o haviam levado para casa, adotando-o como filho de Clementina e Romualdo. Aconselhada por ele a de­volver a criança, Leontina lhe contara que a suposta mãe havia morrido atropelada, no mesmo dia em que a abando­nara. Com a morte da mãe verdadeira, sua irmã e o cunhado conseguiram registrá-la em seu nome, criando-a como se sua fosse. Marcos Wellington fora criado dentro dos padrões evangélicos, e ninguém saíra prejudicado, porque ninguém nunca aparecera para reclamar a criança. Até agora.

Essas lembranças passaram num átimo pela cabeça de Euzébio, cuja palidez foi-se acentuando à medida que pensava nelas. Não queria deixar transparecer a familiarida­de com a história.

Desculpe-me a intromissão, mas qual o seu interes­se em tudo isso? — indagou, ocultando uma certa ansiedade.

Fui contratado para localizar a mulher e a criança. A moça está morta, mas do menino, nem sinal.

Que mal lhe pergunte, quem o contratou?

Lamento, mas essa informação é confidencial. Será que o senhor pode me ajudar?

Não, sinto muito — respondeu o pastor, devolven­do a fotografia a Afrânio e intimamente pedindo perdão a Deus pela mentira.

Afrânio tinha certeza de que Euzébio estava lhe ocul­tando algo. Muito experiente, reconhecia de longe os sinais da mentira. Poucos eram aqueles que, surpreendidos, con­seguiam manter no rosto uma expressão inalterada diante de alguém que sabia algo de seus segredos.

— Está bem — respondeu Afrânio, guardando a foto na carteira. — De qualquer forma, agradeço a sua colabora­ção. Peço-lhe apenas que, se souber de algo, me procure. Aqui está meu cartão.

Afrânio passou o cartão às mãos de Euzébio, que o apanhou hesitante, esforçando-se para não revelar o que realmente sentia.

Acho que não poderei ajudá-lo, mas ficarei com o cartão mesmo assim — atalhou o pastor.

Obrigado e boa tarde.

Boa tarde.

Que Euzébio sabia de algo, disso Afrânio não tinha dúvidas, bem como compreendia por que ele mentira. Era óbvio que tentava proteger alguém, e, se era assim, essa pessoa devia frequentar sua igreja, quem sabe até o próprio menino, que, a essa altura, já seria um homem. Vigiaria a igreja, pois, cedo ou tarde, as pessoas certas iriam surgir.

Ao redor de Afrânio, o espírito de Margarete dava sal­tos de alegria. Fora alertada por Félix de que aquela era a igreja frequentada por Marcos.

Ele encontrou! — gritava ela entusiasmada.

Eu não lhe disse? Falta muito pouco, mas você pre­cisa ter calma. Não vá distanciá-lo novamente.

Não. Vou ficar quietinha, à espera de que Leontina apareça e ele a siga.

Só que Leontina não apareceu. Sentindo-se culpada por estar abrigando em casa o marido adúltero da irmã, dei­xara de comparecer à igreja, causando até uma certa preo­cupação em Euzébio, acostumado à sua presença constante.

Pensando nela, Euzébio ficou em sua sala, tamborilan­do na mesa, imaginando o que fazer. A situação era deveras grave, ele não podia simplesmente ficar sentado vendo tudo acontecer. Mentir ao detetive fora constrangedor, mas não lhe cabia revelar a verdade. Era preciso procurar Leontina e Clementina para que elas mesmas contassem tudo a Marcos e o alertassem das investigações de Afrânio, que, sem som­bra de dúvida, estava a serviço do verdadeiro pai do rapaz.

Tomou uma decisão: se Leontina não aparecia, teria ele mesmo que ir até ela, ou melhor, mandaria um recado para que ela fosse procurá-lo. Chamou um de seus ajudantes e deu-lhe o endereço de Leontina, pedindo que a chamas­se com urgência. Como muitos fiéis moravam no morro do Salgueiro, não foi difícil encontrar a casa, mas não Leontina, que havia saído para o trabalho e ainda não retornara.

Atrás do mensageiro, seguiu Afrânio, imperceptível, mas não subiu o morro. Como todo mundo ali era conhe­cido, sua presença chamaria a atenção, e algum bandido acabaria interceptando um estranho sozinho, que bem po­dia ser da polícia. Por isso, ficou à espera na rua abaixo. O rapaz voltou em poucos minutos, e Afrânio tornou a segui-lo.

Ele foi procurar Leontina — informou Margarete.

A irmã da mulher que criou meu filho.

Quando o mensageiro retornou à igreja, Afrânio estava certo de que ele fora alertar os possíveis pais adotivos do filho de Margarete. Ao entrar, Euzébio logo o interpelou:

E então?

Ela não estava. Falei com o marido dela e deixei recado para ela vir procurar o senhor assim que chegasse.

Marido? — estranhou o pastor. — Desde quando Leontina é casada?

O jovem deu de ombros e foi retomar seus afazeres, deixando Euzébio muito desconfiado. Seria possível que Leontina estivesse vivendo em pecado com alguém, depois de todos aqueles anos de abstinência e repúdio ao demônio? Euzébio anotou mentalmente esse fato, para esclarecer com ela depois. Primeiro, precisava cuidar de Marcos Wellington.

Mais tarde, naquele dia, ao receber o recado de Romualdo, Leontina sentiu o corpo todo gelar.

O pastor já sabe de nós — anunciou ela, horroriza­da. — O que vou fazer?

Sabe o quê? — contrapôs Romualdo. — Que você, por caridade, recebeu o marido doente de sua irmã em casa para cuidar dele, obrigação que competia à esposa?

Você é adúltero, Romualdo! Clementina não tem obrigação de aceitar o seu pecado. E eu também devia re­pudiá-lo, tentação de Satanás!

Não sou nenhuma tentação de Satanás — aborre­ceu-se. — E não vejo nenhum mal em você cuidar de um homem doente, ainda que pecador, como você diz. Onde está seu espírito cristão?

O pastor não vai acreditar que é pelo meu espírito cristão que estou vivendo na mesma casa do homem com quem forniquei no passado — sussurrou ela, como se as paredes pudessem ouvi-la.

Não vá me dizer que você contou ao pastor sobre nós — indignou-se Romualdo, e ela assentiu. — Ora essa, Leontina, em que estava pensando?

Tive que contar. Mas a minha conduta me salvou, até agora. Eu havia renunciado ao pecado e tentava me puri­ficar, devotando-me à castidade. Mas agora... ele descobriu. Será que foi Clementina quem contou?

Não acredito. Ela não seria tão falsa.

O que é que eu faço, Romualdo? Como encarar o pastor e confessar que tornei a pecar? E o mesmo pecado!

Pare com isso, Leontina. Estou separado de Clementina, e você é solteira.

Você ainda é casado e é adúltero, assim como adúltera será qualquer uma que se consorciar a você.

Quer dizer que eu vou ter esse estigma para o resto da vida?

A menos que renuncie ao pecado e mude de vida.

O que isso significa? Viver sem sexo, feito você?

Sim.

Você já dormiu comigo.

Por isso estamos ambos condenados! — ela se ati­rou no sofá e começou a chorar.

Penalizado, Romualdo se aproximou dela e ergueu-a pelos braços, colocando-a de frente para ele.

Pare com isso, Leontina — falou com ternura. — Não acredito que estejamos cometendo nenhum crime ou peca­do. Clementina não me quer mais, posso me divorciar e me casar com você.

O casamento não vai apagar o adultério.

Você precisa se libertar desses conceitos ultrapas­sados. Hoje em dia ninguém liga mais para isso.

Conceitos ultrapassados? Como se atreve a cha­mar a palavra de Deus de ultrapassada?

Não foi isso que eu quis dizer, perdoe-me. Você sabe que eu nunca fui um