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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


ARMA BRANCA / Zane Grey
ARMA BRANCA / Zane Grey

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

ARMA BRANCA

 

Era uma noite chuvosa de Novembro. O vento gemia nos pinheiros fora da casita de madeira, sussurrando nas goteiras, enquanto uma neblina fria se infiltrava por entre as traves. Apesar disso, o fogo rubro de madeira de cedro no grande fogão de pedra, dava ao interior uma atmosfera confortável, iluminando alegremente os homens espalhados pelo compartimento. Uma cafeteira cantarolava sobre as brasas, biscoitos loiros enchiam o forno aberto e de grandes pedaços de carne elevava-se um odor saboroso, que se misturava com o fumo. Os homens, porém, estavam ocupados com os seus cachimbos e cigarros, tendo sem dúvida acabado de jantar.

- Esta tempestade parece anunciar o Inverno - disse Jed stone, chefe do grupo.

Estava de pé junto do fogo, era um homem magro e flexível,-ainda um vaqueiro, apesar dos seus quarenta e tal anos de vida dura do Arizona. O seu perfil, bem nítido no clarão da fogueira, era de feições bem vincadas, que de modo algum faziam suspeitar a má reputação, que há muito o vinha dando por um bandido. Quando se baixou para apanhar uma brasa ondeacendeu o cachimbo, o brilho Iluminou-lhe o cabelo já raro. Os olhos duros e o rosto sem barba.

- Qual Inverno nem meio Inverno! A questão, é que nunca aqui dei conta do mau tempo! - retorquiu um homem oculto na sombra.

- Vai para o diabo, com o teu conhecimento de Mogollan! Já aqui tenho apanhado temporais de morrer - protestou outro em voz rouca. - Aposto que dentro de dias descobrirei vestígios de alguma coisa mais do que cavalos.

Esta afirmação da boca do caçador Anderson, conhecido por tracks e que vivera mais tempo do que qualquer outro naquela região selvagem, parecia fortalecer a opinião de Stone.

Anderson era um homem sensato, já bem maduro como o provava o branco que salpicava a sua barba negra. Os seus olhos grandes e Profundos reflectiam à luz da fogueira.

- Não nos acomodaremos tão cedo, vão ver - declarou Carr, o jogador. Devia ter à volta de cinquenta anos e o seu rosto tal como o seu cabelo tinha uma tonalidade acinzentada. Costumavam chamar-lhe Cara de Pedra.

- Que digas, Pecos? - perguntou um texano, sentado mesmo em frente da fogueira e encostado à parede.

- Eu?... Não digo nada que valha a pena - respondeu Pecos,-arrastando as palavras.

- Poderíamos talvez passar o Inverno em Sierra Ancas - disse stone, pensativo.

- Chefe... qualquer coisa te preocupa desde que tivemos aquela disputa por causa da vedação de Traft. - Interrompeu croack Malloy, falando do seu lugar. A sua voz tinha qualquer coisa do cruciar do corvo, mas certamente não era esta a única razão da sua alcunha. Ele era o mais sombrio dos homens que compunham aquele famoso grupo, incomodando há muito os vaqueiros, que tinham estabelecido rancho em Mogollan.

- Não digo que não! - respondeu Stone.

- E para quê? - Lamentou se o corvo, de rosto iluminado pelo clarão vermelho. - Escapámos com meia dúzia de arranhões e inutilizamo-lhes dois esplendidos cavaleiros. E não conseguimos nós deitar abaixo nove milhas da maldita vedação?

- Croack, conheço bem o velho Jim Traft. Fui cavaleiro dele há vinte anos - retorquiu Stone muito sério.

- Jed, quanto a mim, aquela questão dividiu o rancho. Vai ser o diabo - exclamou outro.

- Queres dizer com isso que vamos ter outra guerra no Vale? Ainda não há mais de sete anos que a outra acabou e o sangue vertido ainda se sente por aí.

A opinião de Croack Malloy quase não foi ouvida devido aos argumentos entusiastas de Carr A Anderson. Porém, a aparência do cavaleiro parecia convincente. Era um homenzinho desajeitado, de idade duvidosa, com olhos esbraseados num rosto sinistro - a própria imagem de tudo o que não tem vida.

Justamente nesse momento ouviu se lá fora o tropear de cavalos.

- Devem ser Maddem e Sonora - exclamou Stone com satisfação, dirigindo se à porta. Gritou e a resposta veio rápida e tranquilizadora. O vaqueiro voltou para junto da fogueira, onde aqueceu as mãos. Depois voltou-se, de mãos atrás das costas.

Entretanto os cavalos escouceavam do outro lado do tabique de madeira. Seguiu se o som escorregadio de cabedal molhado e de volumes pesados, a que logo se juntaram as vozes baixas de homens, atestando o que se passava lá fora. Embora nada conseguisse ver devido à tempestade, Stone foi de novo até à porta. Os seus homens fumavam em silêncio.

A chuva chicoteava o telhado que metia água aqui e ali. O vento continuava a gemer na chaminé de pedra.

Finalmente um homem entrou, com um grande embrulho que pousou junto da parede, aproximando se em seguida do fogo; enquanto tirava o casaco e o "sombreio" encharcados. O rosto queimado e os olhos pequenos e brilhantes do mexicano, a que stone chamara Sonora, ficaram a descoberto.

- Ainda bem que chegaste - disse o chef. - Que tal vão as coisas?

- Nada bem - respondeu Sonora, sacudindo a água da cabeça.

- Hum!... - resmungou Stone, encostando se à chaminé.

Outro cavaleiro entrou, ofegante sob o peso de um fardo, que deixou cair com um baque surdo. Cheirava a chuva, cavalos e madeira. A água escorria por todo o corpo daquele homem, que à primeira vista nada parecia ter da característico. Pendurou o casaco numa trave, mas deixou se ficar com o sombreio preto e velho, do qual a água continuava a pingar.

- Como vês, chefe, eu e Sonora cá chegámos! - disse alegremente.

- Parece que sim - foi a resposta calma.

- Faz um tempo do diabo lá em cima. Neva com força. mas não deve tardar a levantar.

- Queres apostar que a neve se não aguenta? - perguntou carr.

Maddem riu e ajoelhou em frente ao fogo.

- O que eu quero é comer! Desde ontem de manhã que não provo nada.

Com isto arredou a cafeteira, enquanto Sonora se apoderava dos biscoitos e da carne. Stone, embora visível impaciente Por fazer perguntas, respeitava um apetite devorador, passeando de um lado Para o outro e desaparecendo na sombra para logo voltar à luz e abandonando a luz para se perder na sombra. Parecia preocupado. De vez em quando a arma que lhe pendia do cinto faiscava. Os outros continuavam a fumar em silêncio. O mais novo do grupo, um rancheiro de porte-altivo levantou-se para deitar lenha na fogueira, que só crepitou por momentos. O rapaz tinha um rosto delicado e bonito ao mesmo tempo que viciado; apesar disso parecia deslocado no meio das restantes expressões duras. Era evidente-a razão porque se ali encontrava.

Maddem e Sonora só se deram por satisfeitos quando esgotaram o pão e a carne.

- Os pratos estão limpos! - exclamou Maddem - Caramba, não há nada melhor do que um bom naco de carne da salgadeira, quando se está a morrer de fome. E aqui têm. Tomem! Um charuto dos bons para cada um.

Atirou os charutos para as mãos que se estendiam avidamente e inclinando o rosto tisnado e o sombreio negro sobre o fogo, acendeu o céu numa brasa. Em seguida recostou se e exclamou:

- Agora, vamos a isso, chefe! - Com um pontapé Stone aproximou um caixote da fogueira e sentou-se. Logo surgiu, vindo de um canto escuro, um homem coxo, com a cara golpeada e olhos em que havia qualquer coisa de diabólico. Trazia um turbante de xerife. Todos se mostraram imensamente curiosos á excepção de Croack Malloy, a quem nada parecia poder interessar.

- Maddy, conseguiste trazer todos os mantimentos?

- Todos e secos, ainda por cima. Ficaram mais fardos no barracão lá fora. O tabaco, o uísque e tudo o que interessava mais particularmente está no fardo que trouxe cá para dentro.

E fica sabendo desde já, que não estou disposto a fazer mais carregamentos debaixo de chuva e neve. Hoje não víamos um palmo à frente do nariz, e há ainda o problema dos cavalos...

- Aconteceu alguma coisa a Flag?

- Nada. Afligimo nos sem razão nenhuma.

- E morreu algum dos vaqueiros atingidos?

- Não. Dizem até que Hump Stevens escapará com vida.

- E que tal foi a reacção de Jim Traft ao ver a sua bela vedação por terra?

- Qual Jim Traft?

- O velho, seu idiota! Que nos interessa a nós o bebé do sobrinho?

- Tu lá sabes, chefe, mas creio que nos vai passar a interessar. Claro que até agora tudo o que sei foi ouvido em conversas nos bares e armazéns, mas veremos. O velho incomodou-se bem menos do que o rapazote assanhado. Jed, o velho rei dos vaqueiros, ainda se não manifestou propriamente.

Mas há mais. Segundo consta essa história da vedação deitada abaixo conta com a aprovação de praticamente todos os vaqueiros. Bambridge é que era do contra. e não é difícil imaginar porquê. Mas não é só da vedação que se fala agora.

Stone, o rancho de Cibeque foi ao ar.

- O quê!... Impossível.

- É mais do que certo. Parece que em grande parte devido a hack Jocelm que deixou o rancho "Diamante" e se juntou a cibeque. Aí começou a discórdia. Consta que Jocelym perdeu a cabeça com Molly, irmã do Slinger Dunn. Tu já a viste também em Est. Fork.

- Lembro-me bem. É a pequena mais bonita da região...

- Pois, Jocelm não a largava e atraiçoou Harvelym e Dunn, tentando jogar com um pau de dois bicos, um plano muito bem elaborado, mas que abaixo. Estúpido, fugiu com a rapariga, e isso precipitou a questão. Slinger abandonou cibeque e seguiu-os até uma casita nos bosques para os lados de Poço de Tobe, provavelmente a casa que Anderson aí levantou há anos, Jocelym e os outros de Cibeque, tinham raptado o jovem Jim Traft para apanharem o resgate. Jocelyn, porém, pensava depois de ter o dinheiro no bolso, liquidar o rapaz. Parece que Harvelym não estava de acordo neste ponto, - de qualquer modo, os ânimos exaltaram se no encontro na tal casita. Diz se que Jocelym bebeu um copo a mais e que pretendia arrastar a rapariga para os bosques. Ela pintou a manta, como seria de esperar de uma irmã de Slinger Dunn. Jocelym tentou disparar sobre Jim e ela lutou, mordendo-o como uma gata assanhada. Por fim, Slinger apareceu e deu cabo de jocelyn, matando também os dois Havelyns. Ele próprio ficou bastante ferido e tiveram de o levar a Flag. Rijo como é, arribará depressa.

- Estou satisfeitíssimo com o que me contas, ainda que não morra de amores por Slinger - disse Stone. - Assim já me não admira que Flag pouco se tenha importado com a vedação.

- Bem... há mais notícias - continuou Madden, com ar importante. - E coisas que vos interessam a todos. Bambridge perdeu a causa que tinha contra Traft. O tribunal deu razão a traft, que segundo diz, recebeu o seu rancho do "Colete Amarelo" das mãos de Blodgett, há anos já. O caso foi complicado e Traft chegou a acusar Bambridge de negócios de gado pouco limpos, nesta região. O outro puxou da pistola e a sorte foi que alguém lha tirou das mãos, o que fez espumar de raiva o velho vaqueiro. Que julgas que ele disse, chefe?

Ouvi-o da boca de um amigo que esteve no tribunal.

- Sei lá! Mas não deve ter sido muito agradável.

- Agradável! Com trinta diabos! Traft jurou que correria com Bambridge do Arizona para fora. Mais ainda, ofereceu o rancho do "Colete Amarelo" de que tanto tu como o Bambridge se julgavam donos, ao sobrinho Jim e a... adivinha se és capaz.

- Sei lá! Vamos, diz!

- Nada mais nada menos que a Slinger Dunn. - anunciou Maddem triunfante.

- O quê? - rugiu Stone.

- O velho Traft deu o rancho a Jim e a Slinger, metade a cada um. Com a condição de Slinger entrar com todo o equipamento do "Diamante".

- Ah! Ah! - riu Malloy com uma alegria sinistra.

- Slinger Dunn e o "Diamante"! - exclamou Stone, incrédulo.

É claro que se tratava de uma circunstância fora do normal, com poucas possibilidades discutíveis.

- Pois é, chefe, e vem por aí um dia destes - terminou Madden, saboreando o seu charuto.

Mais uma vez, Stone se encostou na sombra, apenas com o perfil iluminado pelo clarão da fogueira. Maddem estendeu as botas para o lume, disposto a entregar-se calmamente ao prazer de fumar um bom charuto. Todos, à excepção do chefe, atiravam para o ar pequenas nuvens de fumo branco, que a aragem fazia desaparecer por entre as frestas da madeira.

- Que pensas de tudo isto, chefe? - perguntou finalmente Madden.

Jed Stone continuou calado.

- Hum! - Resmungou o caçador. - Tu és o chefe deste rancho, tens obrigação de dizer o que pensas.

O vaqueiro mexeu se na cadeira.

- Creio que não conseguirão fazê-lo.

- O quê?

- Acabar com as poucas vergonhas do "Colete Amarelo".

O caçador deu uma fumada longa e soprou lentamente o fumo, enquanto alisava a barba negra.

- Donde és tu, Frank?

- Do Arizona.

- E dizes isso? Bem. Já me não admira que tivesses vindo parar à "Faca Afiada" - disse Anderson, pensativo.

- Sonora, há anos que guardas gado nesta região; não é verdade?

- Sim, Senhor.

- Já viste matar muitos homens, não?

- Muitos.

- Já falaste com vaqueiros que trabalhassem para Traft?

- Sim e todos dizem "mucho malo". Quando o velho Traft tem uma ideia nova leva-a até ao fim.

Chegado a este ponto, Tracks Anderson ganhou entusiasmo.

- Pecos, que eras tu, quando atravessaste o rio, que te deu o nome?

- Eu? Mais ou menos o que sou agora - respondeu o ladrão de gado, rindo -, Simplesmente, ainda me não tinha ligado a gente tão segura.

- Segura? Não restam dúvidas de que isso é um cumprimento a jed e à "Faca Afiada". Mas será verdade? Quanto a mim... esta história da vedação não existiu. Há qualquer plano Por detrás disto tudo. Creio que se vão tornar claras coisas até agora escuras.

Croack Malloy não esperou que lhe pedissem a opinião.

Cuspiu e espalhou uma nuvem de fumo, que por momentos lhe escondeu o rosto.

- Esta conversa de Maddy, é palavreado da cidade - crocitou ele. - Há dez anos que ando a servir e a verdade é que o "Colete Amarelo" está hoje mais forte do que nunca. Há mais gado nas florestas, mais ladrões de gado, mais rancheiros que vão ao ar. Nunca ninguém quis prestar atenção a Bambridge. Que são para meia dúzia de vaqueiros? Eu próprio matarei esse rapazola Traft e Sonora Pode bem entender se com Dunn. Assim daremos cabo do "Diamante".

- É bem, Croack. Tudo se poderá fazer facilmente.

É preciso é dar o primeiro passo. Não se pode comparar o "Diamante" com a "Faca Afiada". São rapazes, não será uma luta direita.

- Vamos lá, vamos lá! Não se discute a honestidade dos texanos - retorquiu o caçador, bem humorado.

- Continua a falar, xerife.

- Em Mogollam não conta a lei mas o poder! - declarou o

ex-xerife acalorado.

- Exactamente. O nosso reinado pode ser admirável mas curto.

- Vai para o diabo ! O que tu precisas é de licor - crocitou Malloy. - Vamos, mas é beber uma pinga.

- Não - vociferou Stone, mostrando pelo seu tom de voz o interesse que lhe merecia o colóquio.

- Bem, o problema está em Stone - prosseguiu Anderson, imperturbável. - mas visto que está habituado ao jogo, será difícil conseguir dele alguma coisa direita.

- Track, aposto que quando chegar a Primavera estarás a hibernar bem quietinho - disse Carr, fazendo tilintar as moedas que tinha na mão.

- "Quem sabe?"... Mas não seria eu a fazer a aposta contigo, Stoneface. às vezes, parece-me que deves andar em contacto com o próprio diabo.

Seguiu se um silêncio, durante o qual o caçador fitou o chefe de olhos inquietos, sem ousar exprimir os seus pensamentos. Voltara a agarrar se ao seu charuto, que fumava com visível satisfação.

A chuva caía miudinha no telhado e o vento gemia nas goteiras. Para lá do tabique de madeira os cavalos relinchavam. Por fim Jed Stone quebrou o silêncio.

- Camaradas, fui cavaleiro do primeiro Rancho da "Faca-Afiada" há vinte anos. Nunca no Arizona se vira um tão bom grupo de cavaleiros. Desde então tenho conhecido muitos ranchos, alguns dos quais reunindo homens bons e maus. Foi um grupo de texanos que deu à "Faca Afiada" a má fama que tem hoje. Daggs, Colter e os seus companheiros morreram, mas a sua fama persistiu. No entanto, eles não eram muito piores do que outros que conheço. Desde então nunca mais entrei num negócio honesto.

Stone interrompeu se para dar uma fumaça. Atirou uma acha ao lume e Pensativo viu-a crepitar.

- E isto faz-me pensar - continuou depois. - Entre o que se conta e a verdade há sempre um abismo. O velho Jim Traft sabe que estamos a roubar-lhe o gado, mas por enquanto seria incapaz de o provar. Bambridge sabe-o também, mas não pode falar porque ele próprio não é honesto. E o mesmo acontece com outros por aí. Conseguimos reunir alguns milhares de cabeças de gado, que marcámos e que passaram a pertencer-nos.

Simplesmente, nenhum tribunal nos pode condenar, a não ser que nos apanhem em flagrante. Mas... e a questão é esta, não poderemos continuar confortavelmente a nossa vida de roubo, se o Diamante vier para aqui. Também conheço bem Slinger.

Tem mais de indiano do que se julga. Conheço-o porque fomos caçadores juntos. Ele andou também pelos bosques ligado aos Apaches. Digo-vos que nenhum rancho se poderá considerar em segurança, enquanto ele andar à solta, com uma espingarda na mão. Se Slinger se lembrar de nos fazer uma emboscada, atirando sobre nós de algum maciço escondido, nenhum escapará com vida: mas aposto que ele não o fará. Convém lembrar-mo-nos do que acabo de dizer, se o "Diamante" e a "Faca Afiada" chegarem a vias de facto.

- Se!... Se... Explodiu Anderson - Não há ses nem meio ses! todos sabem que Traft aumentará o "Colete Amarelo" e fará dele um grande rancho.

- Calma! Deixa-me falar um pouco mais e as resoluções serão votadas por vós. Parece-me que neste caso vejo claro.

Bambridge tem ultimamente jogado algumas boas cartadas. Não faço ideia quantas cabeças não marcadas lhe foram parar às mãos, mas não resta dúvida que muitas. Ora, palpita-me que está a pensar deixar o Arizona e sendo assim tentará naturalmente levar grande parte do gado antes de sair. Se o fizer, retirando se logo em seguida, nós e não ele, aguentaremos com as culpas. Ora bem, não há por aqui ninguém mais astucioso do que Ring Locke, o homem de Traft. O Diamante estabelecer se-á aqui, não só para nos vigiar a nós, como a bambridge. Diz se que o jovem Jim Traft tem costela do velho.

Sendo assim, seria um erro imperdoável que Croack desse já cabo dele. O velho poria o Arizona em pé de guerra e isso seria o diabo. Está bem que se trate da saúde a Slinger Dunn e aos outros, mas nunca a Jim. E para acabar, julgo que faríamos bem em levar mais uma manada, vendê la a Bambridge e pormo nos a andar.

- Estás maluco? - exclamou Malloy.

- Chefe, queres deixar aquilo que tens? - perguntou.

E também o texano Pecos formulou uma pergunta sarcástica.

- Camaradas, eu leio os sinais dos tempos - replicou o chefe prontamente e não sem certo calor. - Faço a pergunta a cada um de vocês. Anderson, achas que é de marcar do outro lado os limites para o novo rancho? Sim. Não está dentro dos nossos princípios, mas neste caso parece-me melhor. Até mesmo porque ninguém espera.

Sonora inclinou se significativamente para Stone enquanto Malloy continuava a crocitar a sua desaprovação desdenhosa. Os outros também se opuseram terminantemente.

- Caramba, não precisam de me comer vivo! - Declarou Stone.

- Se querem, fica assente. A "Faca Afiada" ficará até que seja posto daqui para fora à força.

O ultimato parecia decisivo e a voz de Stone pareceu exercer um efeito perturbador em todos, menos em Malloy e talvez o silencioso texano.

Um a um, os homens desenrolaram as suas camas, falando em assuntos vários com visível falta de interesse. Maddem adormecera entretanto, com a cabeça em cima de um saco. O sombreio escorregara-lhe para trás, descobrindo um rosto cansado e sombrio.

Jed Stone continuou de pé, na sombra, junto à chaminé. Por último e quando todos os membros do grupo se tinham acomodado, sentou-se num caixote junto da fogueira, atirando para dentro dela pequenas achas que Via arder, pensativo.

Lá fora, a tempestade parecia querer abrandar. O vento gemia com menos força e intermitentemente, a chuva caía cada vez mais leve e os ramos das árvores tinham deixado de chicotear o telhado.

Stone tinha o ar de um homem que vê imagens nas chamas e que recorda o passado. Vinte anos antes, ele fora um vaqueiro honesto, livre, estimado, com um futuro risonho à sua frente.

A tristeza dos seus olhos escuros dizia também que nessa altura existira para ele uma rapariga. Há vinte anos! Os últimos desses anos tinham sido negros e teriam de ser espiados. Ele vira já vaqueiros honestos acabar na forca. Com um suspiro com que pretendia talvez afastar qualquer recordação familiar e inquietante, levantou-se e começou a passear.

As labaredas vivas lançavam cada vez mais sombras Para as paredes, brincando sinistras no rosto dos homens adormecidos.

O de Malloy conservava o mesmo ar de coisa morta. Que significaria para ele a morte e a vida? O jovem Reed, o último a entrar para o rancho, estava deitado de costas, com o rosto infantil batido pela luz rubra. Stone teve pena dele. Teria o rapaz ainda mãe. talvez uma irmã? Aos vinte e dois anos já era perseguido pela lei.

O facto não devia impressionar Jed Stone que conhecia muitos casos idênticos, mas a verdade é que naquele momento o impressionou muito. Stone via as coisas com olhos que tinham envelhecido no Oeste selvagem.

Sonora, deitado um pouco mais adiante era de feições imperscrutáveis como as de um índio, feições que escondiam perfeitamente um ladrão e um assassino. Também, Carr, o batoteiro usava uma máscara. Pecos era o único a voltar a cara para a luz. O silencioso e misterioso texano sempre exercera certa atracção a Stone. Pecos era ou inimigo mortal ou amigo até à morte. Pouco ligava ao dinheiro e a vinho, as cartas não o interessavam e quanto a mulheres evitava-as. Seria este o seu segredo? Stone foi até à porta e olhou para fora. O tempo levantara.

A alguma distância elevava se uma montanha selvagem e negra.

Em qualquer sítio próximo um lobo perseguia um veado; um sussurro atravessou os ares - ou seria talvez a voz rouca do lobo faminto?

- fazendo estremecer Stone. Este amava sinceramente aquela cordilheira solitária que mais dia menos dia, por uma razão ou por outra, seria obrigado a deixar.

Voltou para dentro, preparou a cama junto à fogueira e tirou as botas. Atirando pequenas achas para o lume, estendeu-se ao comprido com os pés para o lado do calor. O da cabeça levantada ficou a observar as chamas, o clarão ora rubro ora pálido, as brasas cada vez mais escuras e as sombras oscilantes, que por fim desapareceram.

 

Nessa mesma noite tempestuosa do princípio de Novembro, enquanto os membros da quadrilha da "Faca Afiada" mantinham o seu colóquio, Jim Traft esteve sentado com o sobrinho na espaçosa sala de estar da grande casa do rancho à saída de flagerstown.

Era uma sala acolhedora e alegre, duplamente acolhedora devido ao lamento do vento lá fora e ao bater da chuva contra as vidraças. O velho tinha um fraco por lâmpadas com globos rosados. Um cão arrasado de lobo estava deitado na carpete.

Traft ocupava uma cadeira de braços, que parecia tão velha como as montanhas e encostava se com um sorriso de satisfação no rosto marcado pelo tempo, para saborear o seu cachimbo.

- Isto já sabe a casa! - exclamou dirigindo-se a Jim. - estás com óptimo aspecto. E a velha casa já não me parece tão isolada, desde que vieste.

Fez com a cabeça grisalha um movimento em direcção à extremidade da sala, onde Molly Dunn numa grande poltrona inclinava os caracóis dourados sobre um livro.

Do outro lado a senhora Dunn tinha o ar de encantamento ansioso de quem quereria a todo o custo continuar a sonhar.

O rapaz riu. Também Para ele aquilo era agradável e de momento a momento os seus olhos voltavam se para se fixarem na cabeça de Molly Dunn.

- É verdade, tio - disse numa voz arrastada que arranjava para certas ocasiões. - Nem parece que ainda há poucas semanas se deu aquela luta terrível. Céus! Quando penso nisso. Tio, já lhe disse mais de cem vezes como Molly me salvou a vida.

Parece um sonho. Mas, bem, estou de novo em casa e sem trabalho durante a semana! Sem ter de dar ordens àqueles horríveis vaqueiros! O tio está contente comigo, embora eu não saiba bem porquê. Molly está aqui, para durante o Inverno frequentar a escola e... para na Primavera se tornar minha mulher. E Slinger Dunn, recompondo se mais depressa do que seria de esperar dos maus tratos que sofreu. É quase bom demais para ser verdade!

- Ah! Bem compreendo o que sentes! - replicou o velho rancheiro. - Aqui, onde a vida é dura e as lutas terríveis, as coisas agradáveis, a casa, os amigos e, principalmente, a rapariga que só ama, são muito mais queridas. Isso devia incitar te à vida, dar te o desejo de atravessar o Oeste e de chegar ao fim vivo. Eu consegui-o. Acredita, Jim, se tivesse sido um vaqueiro dado à bebida e às discussões não estaria hoje aqui, deitando olhares furtivos à tua Princesinha selvagem.

- Oh, tio! - exclamou Jim. -, Aquelas semanas em que se levantou a vedação foram divertidas. Tanta alegria e também tanta miséria! Depois daquela luta. Céus! Eu era capaz de com as minhas próprias mãos dar cabo de Hack Jocelyn. Depois quando Molly se debateu para se apoderar da arma, agarrando-se a ela como se fora a morte, lutando com os dentes, enquanto ele a levantava, a contorcia e lhe batia, eu fiquei ali paralisado de horror. Depois, quando Slinger passou por mim, atado, indefeso, fora da casita e quando um índio gritou a jocelyn. Ainda agora me arrepio e estremeço, ainda agora sinto o coração parar: Só depois disto compreendo o que o tio me dizia do Oeste.

- É maravilhoso, extraordinário mas terrível.

- Entraste em contacto com a realidade, meu filho. Agora tens de a enfrentar, tens de lutar! Eu luto há já quarenta anos e muitos mais se passarão ainda, até que o Oeste fique livre dos ladrões de gado, dos rancheiros desonestos, dos perseguidos pela lei.

- Tio! - interrompeu Molly em tom de súplica -, por favor não diga mais. Quero estudar e não posso deixar de prestar atenção.

- Bem, Molly! - riu Traft surpreendido -, sempre julguei que estivesses menos entusiasmada com o livro.

- Jim, podes acreditar que o Oeste não é tão mau como o tio o pinta - continuou ela -, eu quero que tu sejas um novo Curly prentiss ou mesmo outro Slinger.

- Ah! Ah! - riu o rancheiro, esfregando as mãos -, esta Molly Dunn é engraçada. Minha querida se tu não tivesses todas as boas qualidades, que tenho estado a tentar inspirar a Jim, onde estaria ele a estas horas?

Mesmo à distância que os separava, Jim viu o rosto da rapariga empalidecer e os olhos dilatarem se de horror. Claro que isto lhe deu uma estranha felicidade.

- Tio, estaria no Jardim do Paraíso, comendo maçãs.

- Talvez, Jim Traft - replicou Molly -, Mas, um pouco mais de negociações com o "Diamante" e as probabilidades de lá entrares serão poucas.

A senhora Dunn falou então, manifestando o seu bem estar e a satisfação que lhe dava ouvir a chuva bater nas janelas.

- Estamos em terras altas - disse Traft. - Em Cibeque a altitude é de menos quinhentos pés. Em Tonto não há praticamente Inverno, mas aqui, em Flag o caso é outro.

- Amanhã estará tudo nevado? - perguntou Molly, sonhadora.

- Talvez haja alguma neve.

- Que bom! Terei de ir Pela neve para a escola.

- Amanhã é sábado - interrompeu Jim. - Não há escola e o mais que Poderás fazer é ir comigo ver o gado. Poderemos também jogar com bolas de neve e ir de trenó até à cidade.

- Oh Jim! nunca andei de trenó! - exclamou ela entusiasmada.

O entusiasmo de Molly reflectiu se no rosto do velho e Jim pensou que o tio devia ter grande prazer em olhar para ela e em a ouvir. Traft tinha tido uma vida difícil e agora

sabia-lhe bem a companhia de gente nova, que preenchesse o lugar dos filhos que não tivera. Jim desejava ardentemente compensar o tio da solidão de toda uma vida.

A senhora Dunn levantou-se para puxar a cadeira para o pé do fogão.

- Está a arrefecer - disse. - A sala é tão grande! - Molly, vem também para aqui e torna te sociável - propôs traft.

- E o estudo, tio? Já perdi tanto! - Molly, não consentirei que estragues os teus lindos olhos - declarou Jim autoritário. - Estudar é importante para uma rapariga, mas a beleza não se deve sacrificar.

- Não consentirás?   - repetiu ela, agarrando se ao livro.

Ao ouvir isto, Jim levantou-se, pegou-lhe ao colo e foi a sentar, muito corada e confusa, na sua própria cadeira.

- És tão pequenina, Molly! - disse como quem fala consigo. - em tamanho, quero eu dizer. E no entanto, és pesada como chumbo. Parece-me que há ainda lugar para mim na cadeira.

E Jim sentou-se com ela ainda que receoso - infundadamente - da reacção de Molly.

- Agora, tio, fale nos do tempo em que veio para o Oeste.

Conte nos como se juntou a uma caravana, para atravessar as planícies e foram atacados pelos índios. Tinha seis anos quando o tio me contou essa história e nunca a esqueci. Ao ouvi-lo, Molly terá de considerar Cibeque uma região calma, onde não há perigos.

Mais tarde, depois das senhoras se terem retirado, entrou ring Locke com o seu passo leve e os seus olhos de lince.

Desde o regresso de Jim, do que este considerava o caso desastroso da vedação (o tio era de opinião contrária) e depois da luta na casita, parecia estar nas boas graças do rancheiro; um facto que lhe dava grande satisfação. Locke era o superintendente eficiente de todos os assuntos do velho.

- Algum correio e algumas notícias! - anunciou entregando a traft um maço de cartas.

- Que tal está o tempo? - perguntou o rancheiro.

- A levantar, mas não devemos ver sol antes da Primavera.

- É então o Inverno? Bem, nós ainda chegámos primeiro que ele. Filho, aqui tens duas cartas para ti, de casa. E é letra de senhora. É melhor evitar que Molly as veja. Ring, toma um charuto e senta-te.

Jim olhou para a primeira carta.

- Caramba! Gloriana escreveu, finalmente!. A outra é da mãe.

- óptimo, Glory deve estar quase uma senhora - disse o tio.

- Quase? Já está mesmo! - declarou Jim energicamente.

- Mal me lembro dela, a não ser como uma rapariguita bonita de olhos grandes.

Locke acendeu o charuto.

- Alguns dos homens da quadrilha da "Faca afiada" estiveram na cidade - anunciou calmamente.

Ao ouvir isto, Jim esqueceu se de abrir as cartas e o velho mordeu a ponta do charuto.

- Quais foram eles?

- Maddem e um outro cujo nome esqueci, se é que alguma vez o percebi bem. Parece que era ainda um outro, mas não cheguei a vê-lo. Compraram mantimentos e foram-se. Andei por todos os armazéns e bares. Procurei apurar o mais possível; não consegui muito, mas de qualquer modo parece-me interessante.

Principalmente uma coisa. Curly Prentiss jura que viu Maddem vir de ao pé de Bambridge. A verdade é que Curly tinha estado a beber.

Aquele vaqueiro se não bebesse seria um grande homem! Mas, Curly, bêbado ou não, tem bom olho e estou em crer que viu Madden.

- É engraçado, que ele tenha estado com Bambridge - comentou traft, cerrando os olhos azuis.

- Muito engraçado - concordou Locke com voz dura. -, o que mostrava bem que não achava graça nenhuma ao caso. Jim percebeu-o imediatamente. - De qualquer modo foi um ponto de partida. O que mais interessa saber é que os tipos estão muito interessados em Jim, no "Diamante", em Slinger Dunn.

- Hum!. Daqui a um tempo ainda devem estar mais interessados - replicou Traft.

- Eles têm amigos em Flag e mais do que se poderia suspeitar. Claro que ninguém conhece os nossos planos, a não ser que os vaqueiros tenham dado com a língua nos dentes.

Tenho um certo medo de Bud e Curly; eles gostam de falar quando se apanham na cidade. Maddem pouco bebeu e isso mesmo só depois de forçado. E, coisa engraçada, comprou todas as balas calibre quarenta e cinco que havia no armazém.

Comprou-as também, junto com outras quarenta e quatro no davis. Comprou algumas balas e comida que chegaria para sustentar um regimento durante um ano inteiro.

- Mantimentos para o Inverno, com certeza. Quanto às balas talvez se estejam a preparar para a possibilidade de haver outra guerra.

- Não me parece vida normal de rancho! - declarou Locke.

- Que vão para o diabo! - resmungou Traft. - Há anos e anos que venho lutando com gente desta e continuarei a lutar.

Locke, daqui a um ano ou dois teremos oitenta mil cabeças de gado.

- Oitenta mil! Então não te fará mal perder algumas.

- Nem uma orelha de vitela eu lhes daria sem pena. Se não fossem esses ladrões, há muito estaria rico.

- Tio, temos tudo o que precisamos e até algum luxo - fez notar Jim, bem humorado.

- Espera-lhe pela volta! - replicou o tio. - Ainda tens muito que ver.

- Locke, quem é esse Madden? - perguntou Jim, calmamente e mudando de tom.

- Um dos homens de Jed Stone. Bom cavaleiro, bom bebedor eatirador também. Veio da fronteira há uns anos. O assassinato de Wilson, rancheiro de Holbrock foi atribuído a Madden, mas tratava-se apenas de suspeitas e seria Preciso apresentar provas. Pessoalmente, creio que é melhor ter cuidado com esse homem.

- É uma quadrilha importante, disse-me o tio - continuou jim, pensativo.

- Stone foi um cavaleiro honesto, que trabalhou até para o teu tio antes de eu estar aqui. Presentemente é perseguido pela Lei e tem sobre os ombros crimes pesados. É um homem inteligente e perigoso, Tem um atirador texano consigo, parece que chamado Pecos ou coisa parecida com isto. Croack Malloy, porém, é de todos, o que é capaz de descer mais baixo. Há ainda Lang e Anderson, que acompanham Stone há alguns anos.

- Slinger Dunn pode igualar-se a algum deles?

- Igualar-se? Em certos aspectos é melhor do que eles - respondeu Locke, pensativo -, Com uma espingarda, Slinger poderia enfrentar qualquer deles, exceptuando talvez o tal pecos. Mas Slinger é novo e desconhece o crime. Esta é a grande diferença. Os homens de Stone acabarão por morrer todos armados.

- Haverá outra guerra? - perguntou Jim, sentindo um calafrio percorrer-lhe a espinha.

- Traft - disse Locke, voltando se para o rancheiro -

Admiro-me que Stone ande por esta parte do Arizona. Ele não é tolo, e já deve ter pensado que, se o Diamante o expulsar daqui, pelo menos lhe dividirá o grupo. Além disso, outros o perseguirão.

- Bem sabe, ninguém conseguirá expulsar Stone, seja donde for. Ele é do Arizona e esta é a sua pátria, mesmo que a Lei o persiga. Stone tem qualidades e poderia agora ser um grande rancheiro. Tenho pena dele.

Jim notou que o tio falava com certa emoção.

- Temos de nos organizar contra estes bandidos ou acabarão por dar cabo de nós. Pensa só naquele caso que se deu no Novo México, quando um grande vaqueiro pouco honesto, - está visto - contratou Billy e os seus homens para roubar gado e ele os vendeu ao governo. A questão arrastou-se durante anos e é claro toda a gente sabia do que se tratava, menos o próprio governo. Pois bem! Estou inclinado a pensar que há um rancheiro poderoso a apoiar Stone.

- Sei bem para que lado te inclinas, Traft - disse Locke, secamente. - Acabaremos por nos ver metidos no barulho.

- Se Bambridge está a fazer negócio, seria melhor investigarmos o que se passa.

- Supõe que o que acabas de dizer vai aos ouvidos de bambridge. Pode ser que ele seja um homem honesto. Em qualquer dos casos, o mais provável era que te metesse um tiro nos miolos. Não vale a pena correr esse risco.

- Ring, não gosto daquele homem. Tenho as minhas suspeitas e a verdade é que desde o primeiro momento temos estado em desacordo. Ficou furioso quando descobriu que o "Colete Amarelo" me pertencia e que eu tinha direitos ali. Convém estar atento aos seus passos.

- Pois seja! - concordou Locke com uma gargalhada. - Tenho de concordar que desde que nos conhecemos muitos dos teus palpites têm saído certos. Agora vou para a cama. Boa noite.

No silêncio que se seguiu, depois de Locke se retirar, Jim abriu distraídamente as cartas.

- Tio, tenho a impressão que Locke não concorda consigo nesta questão do "Colete Amarelo", especialmente no que respeita a Bambridge.

- Locke é cauteloso e detesta estas coisas, tal como eu. Mas que podemos nós fazer? Creio que é meu dever livrar o Arizona desta quadrilha e fá-lo-ei.

- Não é então má vontade pessoal contra Bambridge?

- De modo algum! Deus permita até que as minhas suspeitas sejam infundadas. Estou a contar com Slinger Dunn para apurar o caso. Ele é o homem de quem precisamos, Jim.

O rapaz desdobrou uma das cartas e leu-a.

- Meu Deus! - exclamou, empalidecendo.

- Espero que não haja más notícias. De quem é ela.

- Da mãe.

- E então?

- Tio, a mãe vai mandar para aqui a minha irmã Gloriana para passar uma temporada. São ordens do médico... Diz que Gloriana está fraca dos pulmões e terá de passar um ano ou talvez mais na montanha. Ela vem já a caminho!

- Bem! Bem! É lamentável, mas o Arizona curá la-á num instante.

- Qual curar qual carapuça! Ela não está mais doente do que eu. Isto é mais é um truque para a mandar para aqui! - explodiu Jim.

- Não seriam precisos truques para isso, porque todos nós temos muito prazer em a ver aqui, não é verdade?

- Oh! O tio não percebe!...

- O quê?

- Gloriana vai pôr o rancho em alvoroço e dar-me cabo dos nervos.

- Ah! Ah! Ah!

- Não sei de que se ri.

- Já há quase um ano que saíste de casa e Gloriana pode de facto ter adoecido.

- Talvez. Espero que não. Claro que terei muito gosto em a ter aqui, se ela estiver realmente doente. Mas...

- Não gostas da tua irmã?

- Sou doido com ela! E isso é o mal. Não se pode deixar de gostar dela. Todos a adoram, apesar de ela ser um perfeito diabo.

- Hum!. Que idade tem?

- Dezoito. Quase dezanove.

- Os Trafts sempre tiveram fama de bonitos. Que tal é ela?

- a rapariga mais bonita que já vi!

- Então deixa-a vir!... - interrompeu o rancheiro -, E digo-te mais, Jim. Depois de a apanharmos aqui, não a deixaremos escapar tão cedo.

- O quê? - perguntou Jim, consternado.

- Não a deixaremos voltar a casa. Havemos de a casar com um homem jeitoso de cá.

Jim sentiu que era a sua vez de rir.

- Ah! Ah! Ah! Não há no Arizona homens que cheguem para ela escolher. E de qualquer modo, creio que nenhum conseguiria convencê-la.

- Isso não é normal nos Traft.

- Não digo que se não case, mas ela não é uma Traft vulgar, como o tio, ou eu, ou o pai, ou a mãe. Também não tem preconceitos. Glory é um enigma. Muda continuamente. Como estará ela agora?. E se não simpatiza com Molly?

- Não sejas tonto - disse o velho um tanto bruscamente. - também se pode dar o contrário e ser Molly a não gostar dela.

- Molly? Aquela criança adorável gosta de toda a gente.

- Ah! Então isso explica que ela goste de ti. Assim, tudo se resolverá bem. Gostarias de voltar agora para casa e de ficar lá a viver?

- Não! De modo algum!

- O Oeste enfeitiçará também Gloriana. Pode ser que se mostre altiva a princípio, mas isso não durará muito. Ao fim e ao cabo, ela é uma Traft.

- Gloriana tem coisas da família da mãe e alguns dos parentes desse lado são horríveis.

- Ela também é de família do pai. Se quiseres faremos uma aposta. Eu, por mim, estou contente com a vinda dela. Deus queira mesmo que traga perturbações ao rancho. Há tanto tempo que não há excitação por estes lados, que até me agrada a ideia.

- Pois bem, tio! Terá o que deseja - explodiu de novo Jim, em tom melodramático -, Há-de ver os vaqueiros transformados em espanhóis galanteadores! Há-de ver o trabalho parar! O rancho transformar-se-á num circo e quanto aos bailes, cada um deles será motivo de guerra!

- Cada vez gosto mais da pequena!- declarou Traft, surpreendido -, Estes palermas aborrecem-me com as questões amorosas sempre iguais. Se Gloriana for tudo o que dizes, será maravilhoso. Boa noite, Jim.

Jim levantou-se e ficou a olhar as chamas.

- O tio vai gostar de Gloriana e se assim for, ainda bem. Eu também me poderei entender com ela sem dificuldades, mas o pior é Molly. Logo se vê. e agora deixa-me cá dar uma vista de olhos à carta.

Aproximou-se do fogo e leu:

 

"Querido Jim: Não te preocupes com a carta da mãe, porque a verdade é que a doença não é grande. Parto daqui amanhã e portanto não terás tempo para me mandares dizer que não vá.

Estou entusiasmada com o Oeste e a culpa é das tuas cartas.

Não as leio, devoro-as! O pai tem tanto orgulho em ti, que não sei onde irá parar. A mãe é que está desolada. Espero que gostes de me ter ao pé de ti. Há tanto tempo que saíste daqui! Não reconhecerás em mim a gloriana antiga. Vai esperar-me à estação no dia sete de novembro com um grupo de vaqueiros e os respectivos cavalos.

Estou morta de fome.

               Um abraço da Gloriana"

 

Jim leu a carta duas vezes e continuou a olhar as chamas, pensativo.

- Vê se mesmo que é de Gloriana. e no entanto, não parece absolutamente dela. Estará mesmo doente?. Ou haverá qualquer outra complicação?.. Bem,. sete de Novembro. Meu Deus! É segunda feira! Que hei-de dizer a Molly?

As dificuldades seriam grandes, disso estava Jim certo.

Gloriana era muito esperta e acabara a escola superior aos dezassete anos. Tudo aquilo em que se metia, saía bem feito e além disso tinha um jeito especial para desenhar vestidos e chapéus. Molly, pelo contrário, era uma rapariguinha, que nunca tivera possibilidades e que apenas frequentara durante dois anos a escola da terra. Era extremamente sensível quando lhe tocavam na sua ignorância e a situação seria delicada, porque Molly era à sua maneira, tão orgulhosa como Gloriana.

- Confiarei no coração generoso de Molly! - decidiu Jim. - glory acabará por gostar dela, quase seria capaz de apostar.

 

Na manhã seguinte, Jim deixou-se ficar mais tempo na cama do que era habitual e quando finalmente se levantou, convencido de que o seu problema não era tão sério como lhe parecera, um mundo que a neve tornara completamente branco, saudou-o da janela. A tempestade passara e o céu azul e o sol brilhante sorriam no topo das montanhas franjadas de neve. Não se demorou, no entanto, a contemplar o panorama, porque a temperatura do quarto pareceu-lhe ser zero. Teve de quebrar o gelo do jarro se se quis Lavar.

- Isto é degelar um urso polar! - exclamou em voz alta.

As entradas da grande casa do rancho pareciam se muito com celeiros e Jim correu para a sala de estar, onde o fogão aceso o fez sentir se confortável. Jim pensou para consigo que no Oeste as coisas se apreciam muito mais do que na cidade. O homem encontra violência e dureza, mas aprenda a conhecer o verdadeiro valor das coisas.

- Bom dia, Jim! - disse Molly, numa vozinha que se não sabia bem donde vinha.

- Olá!. Cá estás tu! - exclamou Jim, descobrindo-a à janela, num dos cantos da sala, a olhar a paisagem nevada. - Pensei que estavas na cama. Vem cá, minha querida.

- Aquela palavra, a que ainda não se habituara, tinha para ela um poder irresistível.

Molly trazia um casaco vermelho sobre a blusa, cuja cor ia bem com a tonalidade da pele. Nas poucas semanas decorridas desde a sua chegada ao rancho, perdera já o tom queimado da gente da floresta e estava cada vez mais bonita.

Os reflexos dourados do seu cabelo ondulado filtravam os raios do sol, que se esgueiravam pela janela. Nos seus olhos havia aquele brilho intenso, ao mesmo tempo que tímido, que sempre entusiasmara Jim. E os seus lábios, vermelhos como duas cerejas eram infinitamente tentadores.

- Oh! Jim! Pode entrar alguém! - protestou ela.

- Beija-me, Molly - replicou ele, agarrando-a ainda mais. - tenho de utilizar nas manifestações do meu amor os processos de Curly ou Bed.

- Se o fizer, senhor Missouri, não conseguirá nada.

- Não digas "nada" Molly. Diz "tudo"...

- Pois seja. - Tudo - Concordou ela.

- Não gostas de mim, hoje?

- Bem sabes que sim!

- Então?

Os beijos de Molly eram raros e concedia-os só quando ela muito bem entendia, o que os tornava ainda mais preciosos. Jim lamentava, ao mesmo tempo que admirava, as suas reservas.

Molly fora educada numa escola rígida. Era firme e meiga, aquela rapariguita de Cibeque, que conseguira a adoração de jim.

- Pronto! - disse timidamente, escapando-se dos braços dele.

- Tens as mãos frias e o nariz como gelo.

- Molly, tenho notícias para te dar - começou ele, pensando que seria melhor abordar o assunto.

- Sim?

- A minha irmã vem para aqui - Tentou dizer alguma coisa, mas não conseguiu. Molly sorriu satisfeita e surpreendida.

- Que bom! Gloriana May. Falaste-me tanto dela, da sua beleza e de como ela é um diabo vivo. Vai ser bom para ti! Ainda bem que ela vem!

Jim abraçou-a um tanto a despropósito.

- És um amor e amo-te doidamente.

- Jim... deixa-me! Não vejo razão para me apertares tanto.

- Claro que não há razão nenhuma. Desculpa, Molly... minha irmã está doente segundo diz a minha mãe e vem para aqui tratar-se.

- Que pena! Que tem ela?

- Está fraca. Custa a crer, mas parece que é verdade.

Gloriana diz que me não preocupe. O tio está encantado: já planeou casá-la com um homem daqui. Não é mesmo um velho casamenteiro?

- Ele é o homem mais extraordinário do Arizona! - exclamou Molly, com convicção.

- Lá isso é! Mas tem cada uma!

- Quando chega Gloriana? - perguntou Molly, subitamente pensativa.

- Segunda feira.

- Já? Oh!. Preferia ter tempo para estudar um pouco mais. Jim. e se ela não gosta de mim?

- Molly! Ela vai ficar encantada contigo.

- Ainda nunca dei conta de que alguma destas meninas cultas se perdesse de amor por mim! - replicou Molly, um pouco irritada.

"Ela tinha razão", pensou Jim e mais ainda: algumas delas morder-se-iam de inveja, perante a beleza de Molly.

- Gloriana é diferente. É uma rapariga educada e seria incapaz de inveja ou má vontade.

- Então deve ser muito fora do vulgar - considerou Molly. - Ao fim e ao cabo, Jim, tu não passas de uma criança, que nada percebe de mulheres. Parece-me que é a educação de que falas, que me assusta.

Jim pensou para consigo que não conseguira ter muito tacto.

- Molly, não te aflijas. Tenho a certeza que vais gostar de glory e ela vai gostar imenso de ti. Se um dia vais ser minha mulher, terás de conhecer a minha família.

- Está bem, Jim. Mas queria ter mais algum tempo para estudar... para me cultivar... para que se não envergonhassem de mim. - lamentou ela.

Jim só a pôde consolar com palavras meigas, assegurando-lhe que estava a exagerar, de tal modo que passado um pouco, Molly dava se já por tranquilizada. Foram tomar o pequeno almoço e no corredor escuro, Jim aproveitou para a abraçar. Ela escapou-lhe logo que pôde.

- Bom dia, tio. Sou Perseguida por um urso! - disse Molly a rir, ao entrar na sala de jantar.

- Bom dia, pequena. Já me tinha parecido. Olá, menino! Que tal achas a temperatura no Arizona?

- Horrível! E o tio ainda quer que vá acampar no fim do mês - protestou o rapaz.

- O "Colete Amarelo" tem menos quinhentos ou seiscentos pés de altitude e quando neva, derrete logo. Molly Pode

assegurar-te que é assim. O vale do Cibeque ainda é mais alto do que o "Colete Amarelo".

- Já tenho visto muita neve, mas nunca vi durar mais do que um dia - disse Molly.

- Isso consola-me.

- Eu acho que vai ser maravilhoso. Agora, espero que não deixes de cumprir a tua promessa.

- Que promessa?

- Disseste que me levavas à cidade num trenó com guizos. E temos de fazer bolas de neve! Vou gostar imenso do Inverno aqui!

- Claro que vou cumprir a promessa. Acabarás por pedir misericórdia.

- Eu?

O tio ria com gosto. O interesse que mostrava pela conversa dos dois, pelos seus planos, por tudo o que lhes dizia respeito, deixava entrever a solidão da sua vida.

- Também eu gosto do Inverno. A casa parece até mais confortável. Jim, já deste a Molly as notícias que tinhas para ela?

- Sim, e ela continua a ser um anjo.

- Que disparate, Jim! Não tenho nada de anjo...

- Ah! Ah! - riu o rancheiro. - Eu sempre preferi raparigas que saibam reagir um pouco.

Molly corou.

- Espero que não achem que eu reajo demais - disse ansiosa.

Jim cumpriu a sua promessa e quando se apanhou no trenó, com Molly ao lado, de faces coradas como rosas vermelhas e com os caracóis a esvoaçar, sentiu-se o homem mais feliz do mundo.

Para grande satisfação dos dois, toda a gente nova de flagerstowm parecia andar a passear na neve naquele dia.

Almoçaram no hotel e voltaram a casa, quando o sol ainda estava alto e o brilho da neve quase os ofuscava.

- Foi tão bom! - exclamou Molly, respirando fundo. - Jim, sou uma rapariga feliz! Tão feliz... que chego a ter medo que esta felicidade não dure.

- Claro que dura! - volveu Jim, a rir. - A não ser que te maces comigo.

- Jim Traft, fica sabendo que sou fiel até à morte! - Ripostou ela, com veemência. - Só se tu te cansares de mim ou... se a tua família me não aceitar.

- Não vais casar com a minha família, pois não?

A palavra casamento ou qualquer alusão a ele, sempre levavam Molly ao silêncio. A sua alegria nesses momentos, fazia desaparecer todas as dúvidas.

Jim tomou o caminho do celeiro, tendo em mente a outra metade da promessa feita a Molly e que ela parecia ter esquecido.

Ao passarem por Bud Chalfack, o vaqueiro meteu a cabeça pela porta entreaberta e gritou.

- Olá, Jim. Isso não é justo!

- Arranja também tu uma rapariga! - respondeu-lhe este.

No celeiro, Jim passou as rédeas a um rapaz mexicano e ajudou Molly a sair. Depois levou-a por uma vereda em direcção a casa. Molly enterrava se na neve e falava alegremente.

Quando estavam fora da vista dos vaqueiros, Jim apanhou um punhado de neve e esfregou-a na cara rosada de Molly.

- Jim... Jim... Oh! - dizia ela debatendo-se.

Quando conseguiu escapar-se e antes que recobrasse a respiração, Jim fez outra bola de neve e atirou-lha. A pontaria não falhou e Molly ficou coberta de neve. Ela gritou e baixando-se rapidamente, correspondeu ao ataque atingindo-o na cabeça. Molly ameaçava ser uma antagonista de temer.

As bolas de neve começaram a cruzar-se cada vez mais rápidas. Nem uma falhava o alvo.

- Disseste que nunca tinhas jogado com bolas de neve. - disse ele, por fim, ofegante.

- era verdade. - respondeu ela rindo.

Jim correu para ela, de bola na mão e agarrando-a tapou-lhe a boca com ela.

- Jim... está quieto! Isso não é jogo direito. - gritou Molly.

Sem lhe prestar atenção, Jim atirou-a para a neve,

rebolando-a no chão, até a deixar quase sufocada. Depois, levantou-se e fugiu o mais depressa possível, ao tiroteio, que se anunciava atrás dele.

Mais tarde, Jim saiu do seu esconderijo, depois de alguns dias sem ver os vaqueiros.

- Olá, deixa a neve lá fora! - gritou uma voz -, Eu é que tenho de varrer a casa! Jim abriu a porta e entrou. A sala grande tinha um aspecto-acolhedor com o fogão aceso e tudo extraordinariamente limpo, considerando que era habitada por vaqueiros.

- Olá, rapazes.

- Não precisa da nossa companhia, quem pode andar a passear de trenó com Molly Dunn! - comentou Bud.

Jacksom Way olhou de lado para as botas de Jim e fez uma cara de poucos amigos.

- Parece-me que trazes essa neve toda nas botas, de propósito.

- Como vai isso, Hump?

- Parece que vai melhor. Já hoje andei um bocadinho e já ganhei a estes parvos todo o dinheiro que tinham.

- Não foi nada mau trabalho! - disse Jim, voltando-se para uphill Frost, que estava sentado em frente do lume, numa cadeira de repouso, junto da qual estavam pousadas as muletas.

- E tu como estás?

- Nem por isso muito bem: Mas já seria capaz de montar a cavalo, se fosse preciso.

- óptimo! Onde estão Cherry e Lonestar?

- Foram à cidade ver Slinger.

- Há três dias que não vou ao hospital - continuou Jim. - que tal está Slinger?

- Já se levanta, passeia um pouco e está sempre a amaldiçoar por o não deixar fumar tanto quanto ele queria. O tempo passa devagar para ele. Não consegue ler muito e está ansioso por voltar para os bosques. Perguntou porque é que o não vais ver. Não foi, Bud?

- Sim, lamentou-se muito por ter sido esquecido. Eu vi-o ontem e disse-lhe que ninguém te tem visto. Ele acusou Molly por não te levar lá.

- Irei vê-lo amanhã - disse Jim, contristado.

Curly Prentiss, o gigante louro do "Diamante" estava sentado a uma mesa, escrevendo com afã. Fora o único a não notar a entrada de Jim.

- Curly, tenho notícias para ti...

Mas Curly continuou a escrever, como se não tivesse ouvido nada e Jim dirigiu se a Bud.

- Que aconteceu a Curly?

- O mesmo de sempre. Há cinco anos que o conheço e de vez em quando tem disto. Hoje é natural que esteja um pouco pior, porque a pequena deixou-o, para casar com Wess Stebbins.

- Impossível!

- É certo. Fugiram os dois para Winslon. Curly e Carolina discutiam às vezes e ela acabou por o mandar à fava - segundo ela contou depois - afastando se depois, de cabeça bem levantada. Ela levou as coisas a sério e considerou-se livre.

Wess sempre tinha gostado dela e os dois casaram, o que nos parece a todos muito acertado. Curly está a escrever a sua carta de despedida e quando a acabar diz que vai beber.

- Curly! - chamou Jim, em voz baixa.

- Não me podes deixar em paz? - suplicou o vaqueiro.

- Sim, mas tenho primeiro notícias para te dar. Notícias acerca do "Colete Amarelo", de Jed Stone e da sua quadrilha.

- Que vão todos para o diabo! Sou um homem perdido. Logo que acabe de escrever, vou à cidade embebedar-me.

- Não - disse Jim laconicamente.

- Já disse que vou. Quem me impede?

- Eu, Curly.

- Já não mandas em mim! Deixei o "Diamante" e nunca mais lidarei com cavalos.

- Curly, certamente não nos vais deixar, agora que precisamos de ti, para tratar dos da "Faca Afiada".

- Jim, nada me interessa já! Estou desolado e parece-me que seria capaz de assistir impassível à morte de vocês todos. Era capaz de ver Bud Chalfack enforcado numa árvore e de me rir.

- Curly, não somos nós amigos?

- Sim... mas o que é a amizade comparada com o amor?...

Carolina traiu-me! trocou-me por aquele idiota de pernas tortas! Quem diria que eu havia de chegar a isto?

- Não chegaste a nada. Wess é bom homem e fará Carolina feliz. Tu não gostavas realmente dela.

- O quê!? - rugiu Curly. E quando os presentes rebentaram às gargalhadas, ele deixou-se cair na cadeira, sem forças.

- Curly, há razões fortes para não abandonares o "Diamante" nesta altura - começou Jim, muito sério, poisando a mão no ombro do gigante.

- Quais são elas - ripostou Curly, deixando cair o lápis.

Jim sabia bem que Curly era incapaz de abandonar fosse quem. Fosse, no momento de necessidade.

- Em primeiro lugar, já arranjaste algumas centenas de cabeças de gado e a continuares assim, daqui a pouco serás tu próprio um rancheiro.

- Isso não é razão, porque o gado já me não interessa.

Até o teria dado a Bud, se ele me não tivesse maçado tanto a respeito de Carolina. Assim, dei-o a Hump.

- Hump torna a devolvê-lo. Outra razão, é que o tio está disposto à luta imediata contra a quadrilha da "Faca afiada". Que poderemos fazer sem ti?

- Eu não valho nada - protestou Curly, sem energia.

- Olha, Jim - gritou Bud muito corado - ele está furioso com todos nós, porque Bambridge o traiu.

- Curly, tens de ser razoável - continuou Jim. - Oiçam todos, mas o que lhes vou dizer é segredo, de que só falaremos entre nós, o tio tem a certeza de que Bambridge não é honesto e de que está em negociações com Stone.

Todos, menos Curly, manifestaram a sua surpresa por exclamações.

Por fim Curly falou.

- Mesmo que ele não seja honesto, isso nada significa para mim.

- Pediste a Carolina para casar contigo? - perguntou Jim, delicadamente.

- Claro que não! Nunca tive a certeza de gostar dela senão quando a perdi.

- Então não era de facto aquilo que tu querias.

- Hum!... Jim, até agora não me deste nenhuma razão forte e que me impeça de ir à cidade, despejar meia dúzia de garrafas, arranjar sarilho. matar um homem e ir parar à cadeia.

- Não? Pois bem. Aqui está outra razão! - e Jim tirou do bolso uma fotografia que colocou em cima da mesa.

O vaqueiro olhou, inclinou-se para ela e ficou a mirá-la.

Bud Chalfack avançou também, mas Jim fê lo recuar.

- Meu Deus! Quem é?

- Minha irmã, Gloriana May Traft...

- A tua irmã? Claro que devia ter notado as parecenças ainda que ela seja cem vezes mais bonita do que tu. Mas como é que ela é razão para eu ficar?

- É simples. Gloriana está doente e vem para aqui tratar-se, chega segunda feira, de comboio. E agora pergunto-te, tens coragem de ir embora...

De te embriagares e de me preocupares... quando tenho nas mãos este novo problema?

Curly voltou a olhar demoradamente para a fotografia e quando levantou os olhos para Jim, todas as dúvidas se tinham desvanecido.

- Não te posso deixar agora que precisas de mim. É a minha grande fraqueza: o coração. De qualquer modo, parece-me que nunca teria coragem para deixar o "Diamante". Irei ao comboio contigo, esperá-la.

Jim estava capaz de o abraçar de alegria. Como aquele Curly era bom! - Deixas me ver a fotografia? - perguntou Bud.

Curly entregou-a a Jim, dizendo simplesmente

- Bud, não deviam interessar-te raparigas de posição superior.

- Quero que todos vocês vejam a fotografia de Glory - disse Jim, calmamente -, aqui está.

Bud e Jacksom Way deram um pulo, Uphill Frost esqueceu as muletas, Hump Stevens levantou-se da cama e todos se reuniram à volta de Jim.

O longo silêncio que se seguiu foi o melhor comentário à beleza de Gloriana.

- Caramba! Não é mesmo um pêssego!?

- explodiu finalmente bud.

- Mais bonita ainda do que Molly Dunn! - acrescentou Way, como se com isso ficasse tudo dito.

- Ao pé dela todas as outras não são nada! - comentou Frost.

Curly Prentiss reagiu de modo estranho a todas as observações, parecendo ressentido com os olhares e suspiros dos camaradas, como se tal entusiasmo fosse uma profanação.

- Bem, não se esqueçam de que fui eu quem a viu primeiro - declarou com orgulho.

Bud tomou aquilo como um insulto e também Frost deixou escapar uma exclamação de surpresa. Hump Stevens continuou a olhar em silêncio, enquanto Jacksom Way ria do pobre gigante.

Foi então que Curly se dirigiu a Jim.

- É mais do que certo de que vai haver questões e que o "Diamante" acabará por se dividir! - profetizou.

 

No domingo, Jim quase não viu Molly, que só saiu do quarto para as refeições. No entanto, o rapaz ainda arranjou oportunidade para lhe pedir que fosse com ele, no dia seguinte à estação.

- É melhor não ir, Jim - disse ela, como se há muito tivesse resolvido esse assunto. - Certamente que ela prefere que vás só.

- Mas porquê, Molly?

- Seria uma surpresa para ela... que não sabe o que se passa entre nós. Não devemos surpreendê la logo no momento em que chega.

- Não precisávamos de lho dizer logo.

- Ela percebia. Jim, já devias ter escrito para casa, há muito tempo, a dizer o que se passa.

- Tens razão! E pensei fazê-lo. Simplesmente não escrevi.

- Então é melhor evitar, se possível, que Gloriana perceba.

Eu poderei fingir que não há nada. o pior és tu. E o tio dir-lhe-á tudo, logo que possa.

- Que ideia, Molly! Porque não havemos de dizer logo?

- Está tudo muito bem se ela simpatizar comigo... mas se ela for como tu, quando cá chegaste, claro que não simpatizava.

- Eu era um bocado tolo. - concordou Jim. - Mas estou muito diferente. Não é verdade, amor?

A entrada da mãe de Molly interrompeu a conversa e Jim saiu da sala, perturbado. Não conseguia libertar-se da ideia de que a vinda de Gloriana anunciava complicações.

Naquele dia, não voltou a falar com Molly a sós e segunda-feira de manhã, Molly foi para a escola, como qualquer-outra aluna, enterrando-se na neve até aos joelhos.

Como tomara a sério os seus estudos! à tarde, Jim mandou chamar Curly Prentiss, que apareceu com o seu melhor fato de vaqueiro.

- Santo Deus! Para que é todo esse aparato? - exclamou Jim a rir.

- Foi uma discussão dos diabos lá no rancho. Quase me peguei com Bud, que dizia que eu devia levar um fato menos garrido.

Ora, eu não o tenho! Não sou um comerciante nem um rancheiro.

- Queres então que Gloriana perceba imediatamente o que tu és?

- Claro.

- Chapéu grande.,. esporas, armas.

- Tudo!

- Está descansado que ela te vai olhar com interesse.

- Jim, acaba com isso. Já aturei bastante a Bud, Jack e uphill. Lembra te que ainda estou muito sensível. Eles vão todos esperar o comboio. Todos menos Hump.

Esse queria que o levássemos de maca.

- Quanto mais depressa virem Gloriana, mais depressa se sentirão infelizes. Vamos agora ver Slinger.

- É boa ideia. Talvez isso me acalme.

Começaram a andar na neve. O tempo tinha adoçado um pouco e o dia estava lindo, ainda que muito frio.

 

Via se que Curly estava à beira de uma grande aventura e Jim teve de rir consigo mesmo ao pensar como Gloriana acharia aqueles vaqueiros simples e sentimentais, haveria lutas. Sim, porque a Gloriana de dezanove seria ainda mais de temer do que a que ele deixara de dezoito anos. No entanto, Jim não tinha tempo para se preocupar com o que se iria passar entre os vaqueiros, porque estava totalmente absorvido pelo problema de Molly.

Curly caminhava como um centauro, de esporas a tilintar.

A passos rápidos, depressa chegaram à estrada da cidade e finalmente ao modesto hospital, que embora pequeno, era o orgulho dos vaqueiros. Nessa altura apenas lá estava Slinger dunn e um enfermeiro ou dois. O doente passeava com dificuldade no quarto confortável. O seu rosto escuro, bronzeado e de pele fina, como o de um índio, abriu-se num sorriso ao ver entrar os visitantes.

Tinha melhorado visivelmente desde a última vez que Jim o vira. O cabelo comprido, negro como as penas de um corvo caía-lhe sobre a gola do casaco de lã, que trazia vestido e com o qual se sentia pouco à vontade. Jim sempre estremecia ao ver Slinger e tinha na verdade razões para isso, além de que quem conhecesse Molly Dunn, não podia deixar de os ligar um ao outro.

- Olá, rapazes! Até que enfim que cá vens! O que me valeu foi que Molly entrou a ver-me à ida para a escola. Se não fosse isso já tinha morrido de solidão.

- Tem paciência, Slinger. Estás óptimo! - disse Jim, alegremente.

- Ainda há cinco semanas eras um crivo de balas e já passeias de um lado para o outro, como se nada tivesse acontecido! - declarou Curly entusiasmado.

- Fala para aí! O pior é para mim que estou aqui! Passa um dia e outro, uma noite e outra... e sempre a mesma coisa.

Aquele malvado do Doc quase não me dá cigarros e só um golinho de whisky. Sentem se e dêem-me novidades!

- Slinger, logo que possas montar, vamos para o "Colete Amarelo" - anunciou Jim.

- Podemos ir já amanhã.

- Só depois do fim do mês. Até lá vão ainda três semanas. e agora, escuta.

Jim pôs Slinger a par de todos os rumores, que corriam acerca de Stone e da sua quadrilha.

- Já esperava isso de Stone! - disse Dunn. - E há muito tempo; também, que tenho as minhas desconfianças de Bambridge.

Ele deve apoiar a "Faca Afiada".

- Não! - exclamou Jim, espantado com uma afirmação tão categórica.

- Slinger, achas então que Bambridge se não ensaia para de vez em quando comprar algumas cabeças a Stone? - perguntou curly, em voz calma, mas de olhos azuis faiscantes.

- Algumas cabeças, seria dizer pouco. Sabe se que Bambridge arranja gado por processos duvidosos, indo depois vendê-los a Mariposa.

Curly assobiou, surpreendido. Jim não fez comentários vendo a questão complicar-se. Nenhum deles ousou pôr em dúvidas as afirmações de Slinger Dunn.

- Claro que não posso provar nada, Jim - continuou aquele. - são tudo suspeitas. A minha opinião é que devemos usar de cautela e ir até ao "Colete Amarelo" ver o que se passa.

- Tens razão - concordou Curly. - Mas Stone é capaz de interromper as operações até que o "Diamante" se acomode.

- É o que temos de averiguar - interrompeu Jim, com ênfase.

- Ring Locke aconselhou o tio a não usar o "Diamante" nesse trabalho, dizendo que nós o poderíamos fazer com mais facilidade e melhor. Ele tem medo que Bambridge tente disparar contra o tio.

- Também há esse perigo, lá isso é verdade - disse Jim -, mas Traft deve manter se fora da questão. Quando for preciso, nós próprios usaremos as armas. Receio que não haja outro caminho a seguir.

- É a opinião do tio - comentou Jim, com tristeza. - slinger, achas que vai haver outra guerra?

- Não! - declarou Dunn, mostrando os dentes brancos.

- Quando foi da guerra havia centenas de rancheiros e vaqueiros, além de inúmeras quadrilhas metidas no caso. Isto agora é diferente!

- Slinger, enquanto aqui estás, tens muito tempo para pensar no assunto. Pensa nele e eu aparecerei por cá um dia destes.

Hoje não tenho cabeça. A minha irmã chega agora e vem doente.

Dizem que o clima lhe fará bem.

- Isso é mau, mas vais ver que tudo se resolve. Molly nunca me disse que tinhas uma irmã.

- Aqui tens o retracto dela - disse Jim, passando-lhe para a mão a fotografia.

Dunn não era um rapaz impressionável e limitou-se a olhar demoradamente para Gloriana, sem que a sua expressão traduzisse emoções.

- Bem, até agora nunca tinha visto nenhuma rapariga mais bonita do que Molly. Mas esta bate-a aos pontos.

- Molly e Gloriana são completamente diferentes e cada qual no seu género é insuperável - declarou Jim.

- Estás doido. Molly é uma rapariguinha bonita, meiga, graciosa. A tua irmã tem a beleza irradiante do Sol...

Jim estremeceu de surpresa. O cumprimento prestado a gloriana, à custa de Molly desagradou-lhe. Ao pegar na fotografia, olhou para a irmã com novos olhos e depois meteu-a no bolso.

- Hum! Não tem nada ar de ser fraquinha - declarou Dunn.

A conversa derivou mais uma vez para o "Diamante" e a vedação incompleta, O inverno, cavalos, até que por fim Jim e curly se levantaram para sair.

- Slinger, estou muito contente por estares a melhorar tanto! - disse Jim à despedida.

- Vocês é que me dão ânimo. Volta outra vez. E olha , Jim, importavas te de me deixar cá a fotografia como talismã? sinto-me tão só... que isso me faria bem.

- Certamente, Slinger - concordou Jim, entregando-lha -, tenho a certeza de que Glory se sentirá lisonjeada.

- Obrigado. O facto de teres uma irmã, aproxima-nos de certo modo, não achas? Adeus.

Enquanto saíam do hospital, Jim ouviu Curly resmungar em voz baixa e quando chegaram à rua O gigante explodiu.

- Com trinta diabos! Porque é que emprestaste a fotografia de Gloriana a Slinger?

- Porquê? Nunca pensei que lhe podia dizer que não. Foi um pedido absolutamente inocente.

- Ah! Com certeza. Mesmo muito inocente! - Não viste a impressão que ela causou a Slinger?

- O quê? A fotografia de Gloriana?

- Pois está visto. Aconteceu-lhe o mesmo que a mim. Eu não tenho direitos nela, mas não suporto a ideia de ter em Slinger dunn um rival.

- Quanto a Bud e aos outros, pouco me importam. Mas Dunn é bonito e atraente à sua maneira. Qualquer rapariga se pode apaixonar por ele, à primeira vista.

- Ha! Ha! Ha! - riu Jim, com gozo. - Acalma-te, Curly. E deixa que te diga, Gloriana terá muito gosto em vos conhecer, deixar que lhe selem o cavalo, e, talvez, dar-se com um ou outro dos vaqueiros. Mas fica sabendo, desde já, que nunca será capaz de vos tomar a sério. A nenhum de vós!

Curly ficou desanimado, mas manteve a sua dignidade.

- Jim, tu és irmão de Gloriana e no entanto, apaixonaste te por Molly Dunn.

A observação era atrevida, mas Jim não se deixou impressionar.

- Tens razão, Curly. Mas eu não sou Glory. Espera até a veres.

- É o que estou a fazer - assegurou Curly. - E aposto um punhado de ouro, que Bud, Uphill e Jack estão à espera dela também, agora mesmo na estação. Vamos depressa.

Se Curly Prentiss sabia montar, sabia também andar depressa, quando queria. Parecia ter calçado botas de sete léguas.

Depressa chegaram à estação, onde encontraram Zeb com a carripana, que os devia levar a casa. Lá estavam também Bud, jackson, Lonestar Hollyday, Cherry Winters e Uphill em estado de grande excitação, que contrastava com os seus fatos simples de todos os dias, três dos quais pelo menos, eram novos.

O comboio vinha com duas horas de atraso. Curly resmungou e jim não percebeu se ele o fazia pelo atraso do comboio ou pela presença dos outros vaqueiros. Provavelmente pelas duas coisas.

- Zeb, vai para o estábulo e deixa lá estar os cavalos, até ouvires o apito do comboio - ordenou Jim. - E, nós rapazes, que tal se fôssemos jogar qualquer coisa ao "Raider"?

- Não estou vestido para isso - protestou Bud, olhando para a camisa engomada.

- Vão vocês, eu fico aqui. Pode ser que o comboio ainda ganhe tempo.

- Um jogador como tu, não pode perder esta oportunidade - fez notar Curly.

- Bem... sabes que perdeste a última vez que jogámos - replicou Bud, já azedo.

- Deixa-o lá. Todos sabemos que jogas bem.

Quando chegaram ao "Raider", claro que Bud, espicaçado no seu amor próprio, ia também. O "Raider", sala de jogo e taberna, não gozava de fama pela sua respeitabilidade, mas como as outras salas de jogo ficavam longe, Jim, achou que o melhor era entrarem ali.

- Hoje não há bebidas - declarou à chegada.

- O quê? - perguntou Curly, que já se dirigia para o bar.

- Ninguém bebe uma gota. Lembrem se que estão à espera da minha irmã.

- Seu grande idiota! - acrescentou Bud, desdenhoso.

- Vestiste te como se fosses para uma festa e agora queres encharcar te em álcool?

- Lá, porque tens boa figura, não penses que podes esperar gloriana a cheirar a whisky. Devias envergonhar-te! - censurou uphill Frost.

- Onde estão as tuas belas maneiras, Curly? - perguntou cherry Winters. - Estás a piorar de dia para dia.

Jim divertia-se, sabendo bem aquilo que os vaqueiros são capazes de fazer uns aos outros. Ele próprio se lembrava das partidas que lhe tinham pregado nos primeiros dias da sua estadia ali. Molly ajudara-o a escapar a essas partidas e ensinara o a vingar-se.

- Nada de bebidas, está dito! Gloriana detesta o cheiro a vinho e quero que ela se sinta feliz à chegada. Não se esqueçam de que vem doente.

- Sim?! - exclamou Bud Chalfack um tanto enigmaticamente.

A exclamação tanto podia significar que as palavras de Jim o tinham impressionado, como lamentava profundamente não poder beber.

- ha! Ha! Ha! - riu Curly Prentiss, sem que ninguém soubesse de quem ou de quê se ria.

- Cala te canguru - gritou Bud.

- Acabem com isso! - ordenou Jim. - E agora, vamos ver. Não pode ainda jogar, por causa da perna.

- Qual não pode qual carapuça! Sou capaz de vos dar a todos.

- Desculpa, Up. Cada um de nós põe um dólar e quem perder uma jogada põe dois. Quem marcar mais pontos fica com tudo.

- óptimo! - concordou Curly, que sempre se considerara um grande jogador.

- Acho demais! - declarou Bud.

- Eu jogo, mas desde já declaro que é uma roubalheira - disse Cherry Winters.

- Por mim está bem! - anunciou Lonestar Hollyday.

O jogo começou, o que só se explica pelo estado de excitação dos vaqueiros, que normalmente se não arriscavam a jogar com jim. Com quinze bolas numeradas na mesa, era geralmente muito difícil acertar no número indicado e Bud não conseguiu acertar uma só vez. Tinha continuamente de pôr mais dinheiro na mesa, o que muito o irritou. Foi Jim quem ganhou e de acordo com o que fora combinado, guardou o dinheiro.

Começaram outro logo. Logo a seguir a Bud, Curly parecia ser o pior ou com menos sorte. A verdade é que estava muito longe do jogo, facto que os companheiros depressa compreenderam.

Ainda desta vez, Jim ganhou.

- Mais valia que nos roubasses todo o dinheiro que ganhamos e desses o assunto por terminado! - protestou Bud.

No terceiro jogo, Jim jogou mal propositadamente. Bud desmentindo a sua conhecida falta de jeito, conseguiu fazer nove pontos e ganhar. Imediatamente lhe voltou a boa disposição.

- Curly, logo te disse que comigo perdias. O mesmo acontece no "poker" e nas questões amorosas.

- Cala te Para aí.

Jim consultou o relógio.

- Olá!. Ela deve estar a chegar dentro de dois minutos. Os que perderam não se esqueçam de pagar a conta.

E, apressado, correu para a estação, no momento exacto em que o comboio apitava. Todos o seguiram de perto, excepto uphill, que ficou para trás, arrastando as muletas.

O comboio entrou na estação, coberto de gelo e neve, obscurecendo as luzes da plataforma com o fumo. Depois da máquina ter passado, o ar voltou a clarear e as luzes brilharam de novo. No seu entusiasmo, Jim esqueceu por completo os amigos.

De uma carruagem que parara mesmo na sua frente, um carregador começou a tirar malas e sacos em abundância. Uma figura esguia, coberta de peles apareceu na sombra e desceu.

Era Gloriana, pela certa, pensou Jim muito agitado. A figura esbelta, o ar de distinção, o corte das peles e o pequenino chapéu, eram o bastante para a denunciar. O rosto da rapariga brilhara como uma flor delicada envolta nas peles negras e os grandes olhos escuros, olhavam inquietos para um e outro lado, até que se fixaram nele.

- Jim! - gritou ela, encantada.

Quando é que ele a ouvira chamar com aquele tom de voz.

Correu para ela e abraçou-a com tal força que a levantou do chão. Gloriana parecia mais leve do que outrora.

- Glory! Estou tão contente por te ver! - exclamou recebendo o beijo dela.

- Não estás mais contente do que eu! - disse ela toda risonha. - Estamos no Polo Norte, Jim? Onde estão os vaqueiros?... Cheguei a convencer-me que " Arizona era deserto. Sol, calor e pinheiros, foi tudo o que vi e senti até agora.

- Vamos, rapazes, peguem na bagagem e levem-na para a sala de espera - ordenou Jim.

Depois levou Gloriana para dentro da estação, para a sala aquecida e iluminada.

- Meu Deus, Glory! Já nem te conhecia! Os olhos é que são os mesmos.

Ninguém, nem mesmo um irmão, seria capaz de esquecer os olhos de Gloriana May, que neste momento passeavam por Jim, brilhantes de alegria.

- Conheço-te e desconheço-te ao mesmo tempo. Estás um belo rapaz. Estás tão diferente, Jim. O Arizona tem te feito bem! Aposto que já te apaixonaste por qualquer mocinha de cá.

Jim estava quase a dizer-lhe que acertara, quando os vaqueiros entraram com as malas. Até Uphill trazia uma, com um ar muito importante. Curly afastou-se do grupo e avançou, o que de certo modo agradou a Jim. Glory olhou para o vaqueiro com aqueles seus olhos que mesmo no olhar mais casual tinham um brilho que dava a ilusão de mil pensamentos, que nem por sombras existiam. Que olhos eloquentes, expressivos, traiçoeiramente atraentes! - Um vaqueiro! - murmurou ela. - Agora acredito no que me dizias, Jim.

Curly deve ter tomado estas palavras como um inesperado elogio, mas não deixou transparecer a mínima emoção.

- O carro está à espera - anunciou simplesmente, na sua maneira fria e indolente.

- Gloriana, este é Curly Prentiss, um dos vaqueiros -apresentou Jim. - Curly. a minha irmã.

Curly tirou o sombreio e inclinou-se galantemente.

- Tenho muito gosto em conhecê-la, menina Traft.

- Como está senhor Prentiss? Tenho muito prazer em conhecê-lo - disse Gloriana com um sorriso perturbador.

- É o meu primeiro vaqueiro.

Claro que Gloriana não pretendia com isto dizer que desejava o exclusivo de Curly, mas Jim achou a expressão significativa.

- Bem! - disse Curly muito calmo. - Sinto-me muito honrado por ser o primeiro e procurarei também ser o último.

- Oh! - riu Gloriana com prazer voltando-se para Jim e comunicando-lhe no seu riso a sua apreciação de Curly.

Os outros rapazes estavam alinhados e Uphill Frost ficara um pouco para trás, de modo a poder esconder as muletas.

- Rapazes, aqui está a minha irmã Gloriana - anunciou Jim. - gloriana aqui tens os outros vaqueiros do "Diamante", com excepção de dois, que estão em reparação. Bud Chalfack.

Bud avançou com o seu melhor sorriso.

- Menina Gloriana, é com o maior prazer que a vejo chegar ao Arizona.

- Lonestar Hollyday - continuou Jim.

Lonestar no meio da sua ansiedade pisou Bud e ficou de tal modo atrapalhado, que deixou-sem resposta o amável cumprimento da rapariga.

- Jacksom Way. Cherry Winters. e Uphill Frost. E agora, podes dizer que conheces o Diamante que, de acordo com a opinião do tio, é o rancho mais temido da região.

- O tio deve ter se enganado - protestou Gloriana, com doçura. - Todos me parecem muito simpáticos e tranquilizadores. excepto o senhor Prentiss... que tem um aspecto terrível com a pistola e as esporas.

Jim teve a impressão que os olhos eloquentes de Glory lhe queriam dizer, que a bonita figura de Curly parecia calculada, para fazer bater mais apressado o coração de uma rapariga recém chegada ao Oeste.

Bud olhou irritado para Curly, porque não há nada que um vaqueiro mais aborreça do que o considerem "Simpático e tranquilizador".

- Menina Glory - disse, de tal modo que Jim teve o pressentimento que ele quase a quisera tratar já só por Glory -, há vaqueiros que dormem de esporas e pistola, mas nem por isso são mais corajosos do que os outros.

Assim, Jim viu com satisfação que uma nova vida, povoada de homens diferentes, se anunciava para a irmã.

- Levem a bagagem lá para fora - disse. - Vamos já para o rancho. Curly, tu podes ir connosco, para no caso de aparecerem bandidos, Gloriana estar segura.

 

Jim nada disse a Gloriana a respeito do quarto que arranjara para ela, até mesmo porque a curiosidade da rapariga se ficara em Curly. O rapaz conduzia depressa, para que o vento penetrasse a irmã, apesar das peles e de todos os agasalhos.

Conseguiu o que desejava.

- Esplêndida temperatura para uma rapariga doente dos pulmões - comentou ela, quando o irmão lhe pegou para a pôr no chão.

- Boa noite... senhor Curly. Se não regelar esta noite, espero vê-lo amanhã.

- Faço votos para que a temperatura suba - disse Curly, sempre galanteador. - Boa noite, menina Traft.

- Leva os sacos para o pórtico - disse Jim - e trata dos cavalos. Glory, certamente que te queres aquecer antes de ires falar ao tio.

Gloriana estava de pé, no pórtico iluminado, olhando a floresta espectral de pinheiros e os picos imaculados, que roçavam o céu.

- Maravilhoso...

Jim quase a levou ao colo para o quarto e quando abriu a porta, um deslumbramento de luz e cor saudou a rapariga. Jim passara um dia inteiro a arranjar o quarto, para que ele ficasse totalmente diferente de qualquer outro que ela tivesse jamais visto. Havia nele um fogão de sala aberto, onde as achas crepitavam, o chão fora coberto com tapeçarias dos navajos e as paredes adornadas com trabalhos índios; sobre a cómoda estava uma cabeça de veado, de pontas arrogantes; a colcha da cama era de macia lã vermelha.

Gloriana susteve a respiração, encantada, atirou as peles e o chapéu para cima de uma cadeira e correu para o fogão, estendendo para ele as mãos enluvadas.

- É maravilhoso!...

Jim foi buscar a bagagem, o que lhe custou nada mais nada menos do que três caminhadas.

- Glory, pelo volume da bagagem, vieste para ficar.

- Ainda tenho mais três malas.

- Sim?! Ao arranjar o quarto não pensei em malas.

Mas há aqui um armário grande. E agora volta-te, quero olhar para ti.

Ela obedeceu e de novo ele notou que a irmã estava estranhamente mudada, embora não pudesse dizer em quê.

Parecia mais alta, o que de certo modo se explicava por estar mais magra. Nada, porém, havia nela que lembrasse fraqueza de pulmões. É certo que estava talvez excessivamente pálida e aí estava a diferença. Parecia mais velha.

Trazia um penteado novo, que lhe ficava muito bem.

- Então, que tal? - perguntou ela, simplesmente.

- Estás mais bonita do que nunca, embora diferente!

- Obrigada. Não te pedi elogios. Jim, há quase um ano que saíste de casa.

- Um ano? O tempo voa! Pois bem, tem sido um ano maravilhoso e terrível. Tenho muito que te contar, mas isso fica para depois.

- Senta te e fala-me de ti. A carta da mãe assustou-me.

Em vez de se sentar na cadeira que o irmão lhe apontara, sentou-se no braço da dele e um tanto timidamente pegou-lhe na mão. Jim lembrou-se que Gloriana só muito raramente lhe tocava.

Sempre se tinham dado bem. Gloriana não admitia que a criticassem ou lhe pusessem limites à liberdade. Até aos dezoito anos ainda Jim lhe dera conselhos, mas depois disso ela dispensara-os e começaram a separar se um pouco. Em tudo isto ele pensou neste momento, com certa tristeza. Talvez que lá no fundo, ela estivesse mais perto dele do que suspeitara.

Parecia-lhe agora descobrir na vinda dela para o Oeste um significado, que ainda lhe não tinha ocorrido.

- Jim, és o meu único apoio! - disse ela por fim.

- Glory!... Não compreendo. Quando te deixei, tinhas muitos amigos, que era raro poder estar contigo. Depois disso, a tia Mary deixou te uma fortuna. E eu sou o teu único apoio?

- É estranho, não é? Nunca fui realmente uma irmã.

Jim acariciou-lhe a mão pequenina e continuou a olhar as chamas, pensativo.

Sentia se invadido por um medo horrível, que não sabia explicar. Glory sempre o preocupara.

- Talvez a culpa tenha sido minha.

- Jim! Tu estás mudado - observou Gloriana com vivacidade.

- Sim. Não teria valido a pena vir para aqui, se o Arizona me não tivesse modificado.

- Espero que me modifique a mim também!

- Glory... que pretendes com toda esta... conversa? - perguntou Jim, incapaz de conter por mais tempo a ansiedade, que o dominava.

- Por favor... faz-me perguntas.

O pedido era estranho e Jim teve uma sensação esquisita ao ouvi-lo.

- Glory, estás realmente doente dos pulmões? - perguntou directamente.

- Não. Os pais é que pensam que sim, por causa da minha magreza e palidez e eu convenci o doutor Willi a dar-lhes a entender que sim. Queria vir para o Oeste.

- Ainda bem!... Mas sempre me saíste uma aldrabona! Para quê esses extremos? Estás doente?

- Um bocado em baixo.

- Porquê?

- Preocupações e infelicidade.

Jim mal podia crer no que ouvia. Gloriana apoiara a cabeça no ombro dele. Seguiu se um longo silêncio, que Jim cortou por fim.

- Complicações amorosas?

- Complicação mas não amor - replicou ela, desdenhosa.

- É a mesma coisa!

- Não. Não é! Embora uma coisa tenha relação com a outra.

- Gloriana! - disse ele no tom de voz, que sempre usava quando pretendia censurá-la.

Ela riu se tristemente, lembrando-se disso.

- Jim... desgracei a família! - disse ela, endireitando-se de súbito.

- Meu Deus!... Glory, não podes estar a falar a sério! - Era bom que não estivesse! Jim tentou preparar se para o choque. O contacto com o Oeste selvagem tirara-lhe muito dos seus antigos preconceitos, mas ainda lhe restava orgulho mais do que suficiente para se sentir ferido na sua dignidade. A sua apreensão e o seu terror, aumentavam de momento a momento. Gloriana viera ter com ele num momento de aflição e sentia que tinha o dever de a ajudar. Se se afastasse dela ou a desprezasse, tudo estaria perdido! E, de repente, sem que soubesse porquê, lembrou-se de curly Prentiss, da sua despreocupação e desprendimento. Como reagiria ele a uma confissão semelhante, feita por uma irmã muito querida? Curly era para ele a imagem do Oeste e essa imagem deu-lhe naquele momento o apoio de que necessitava.

- Bem! - disse ele, tão friamente como Curly o teria dito.

- Jim não me interpretes mal. - Suplicou ela -, Procedi mal, fui tonta, mas posso ainda olhar te nos olhos.

E Gloriana olhou-o de frente, com um olhar ao mesmo tempo penetrante e revelador. Jim sentiu se aliviado, mas disfarçou o facto. Qualquer coisa lá muito no íntimo lhe dizia, que naquele momento começava a ser um verdadeiro irmão. Mas, nem o brilho dos olhos de Gloriana, escondia a tristeza que lhe ia na alma.

- Sempre tive a certeza disso - respondeu ele, continuando a imitar a voz e atitude de Curly.

Depois, passou o braço pela cintura da irmã, de tal modo que ela lhe foi parar ao colo. Gloriana baixou a cabeça com uma precipitação que traiu o seu estado emocional.

- Conta-me tudo, Gloriana.

- Jim, lembras te de quando aos dezasseis anos passei um tempo com os Andersons? - perguntou ela. - Foi aí que começou a minha excitação, o meu gosto de vestidos bonitos, o meu entusiasmo por festas. e eu sei lá mais o quê. Depois, a tia deixou-me todo aquele dinheiro e lembras te bem como eu me sentia feliz no Verão em que acabei o meu curso. Foi um tempo maravilhoso!... Depois de teres vindo para aqui, aconteceu uma coisa que alterou tudo. Já antes disso eu era bastante cortejada. Conheci então um homem de St. Louis, chamado darnell. Era bonito e todas as raparigas andavam perdidas por ele. Foi isso que me espicaçou. Acabei por julgar que estava apaixonada por ele. Mas a mãe queria que eu casasse com o senhor Hanford... o negociante.

- Com certeza que não era com Henry Hanford? - Interrompeu jim, incrédulo.

- Exactamente. Podia ser meu pai! A verdade é que a mãe não me largava. Segundo a sua expressão, queria ter-me segura. O pai também... estava farto da minha vida estouvada, além de que não gostava de Ed Darnell.

Durante uns meses foi um autêntico inferno. Eu considerava-me já noiva de Ed e os outros julgavam também que assim era. A verdade era outra. Ele perseguia-me, dizia-me que me adorava, mas nunca me falou em casamento. Ele jogava e eu emprestei-lhe dinheiro. Depois conseguiu apanhar também dinheiro ao pai e saiu da cidade, sem uma palavra de despedida. O caso espalhou-se e todos os nossos amigos - os Andersons, os Loyals, os Millers - deixaram de me falar! Isto deu cabo da mãe... e para o pai também foi um grande abalo.

Puseram-me pela rua da amargura! Sabes como é, quando começa o falatório numa terra pequena. Claro que diziam ainda mais do que era realmente. É certo que eu me entusiasmara com Ed darnell, que recusara alguns partidos bons, por causa dele, mas não era tão má como parecia. A partir de então, deixei de ser quem era. Tudo acabara para mim! Muitas vezes chorava, chorava até adormecer de cansaço. Foi então que comecei a pensar no Oeste. Lia e relia as cartas que escrevias à mãe. a mim nunca me escreveste!... Cheguei à conclusão de que, se conseguisse vir para aqui, estaria salva. E aqui me tens, finalmente!

- É tudo? - perguntou Jim, arrastando as palavras - confesso que esperava pior!

- Jim! - exclamou ela, beijando-o cheia de ternura e gratidão.

Jim compreendeu então quanto aquela confissão custara à irmã e compreendeu também que até àquele momento cumprira muito mal os seus deveres de irmão.

Mas Antes que pudesse dizer alguma coisa, ela desatou num choro convulsivo, o que nela era extremamente invulgar.

Gloriana devia estar a sentir se tremendamente infeliz e Jim concluiu de todo aquele nervosismo emocional, que a situação em casa se tinha tornado intolerável. Gloriana fugia para junto dele, como último recurso, duvidando ainda da maneira como seria recebida e o facto de ele a ter compreendido e ter de certo modo atribuído à questão menos importância do que seria de esperar, tinham sido excessivos para o seu orgulho ferido.

A dizer a verdade, Jim sentia um alívio enorme ao verificar que o que imaginara de mau, não chegara a acontecer. Glory estivera à beira do precipício, era tudo quanto lhe interessava saber. Os detalhes, que sem dúvida seriam dolorosos de ouvir, nada podiam alterar à sua atitude de compreensão e estima. Sentia em si uma piedade e uma ternura muito grande, por aquela irmã tão querida. A própria ideia de que ela fugira para junto dele, parecia incrível e no entanto, ali estava ela, soluçando já menos excitadamente e recuperando, pouco a pouco o controle sobre si mesma.

- Ainda bem... que... tive coragem de vir - disse Glory como se falasse consigo mesma. - Nunca... imaginei que. fosses tão bom!

- Glory, também tenho uma confissão a fazer! - interrompeu ele rindo. - Não caí em nenhuma ratoeira, descansa, mas estou...

- Espera! - ordenou ela enxugando os olhos. - Eu ainda não contei tudo e falta o que neste momento me parece o pior.

- Céus! - exclamou Jim, sentindo o coração cair-lhe aos pés.

- Talvez fosse melhor não contares mais nada!

- Jim, encontrei Ed Darnell na estação, em St. Louis - continuou Glory, como se tivesse pressa de chegar ao fim. -Absolutamente por acaso. Eu tinha transbordo ali e tive de esperar cinco horas pelo comboio. E com tal pouca sorte, que a primeira pessoa que encontrei foi ele. Pois bem! Parecia maluco. Pediu mil desculpas. O mentiroso! O ladrão! Recusei-me terminantemente continuar a ouvi-lo e ele explodiu. E estranho, mas a verdade é que ele teve ainda nesse momento um estranho poder sobre mim. No entanto, compreendi bem que o desprezava. Ele ameaçou-me... jurou que me seguiria. E tenho a certeza que o fará. É claro que ele sabe da existência do tio jim e que este é um rancheiro rico. A mãe às vezes tinha umas gabarolices escusadas. Claro, isto no tempo em que ainda estava deslumbrada com Ed. Eu não lhe disse para onde vinha mas não lhe será difícil descobrir. Ele virá aqui dar! percebi-o pelos seus olhos. Vai ser horrível!

- Deixa o vir! Deus queira até que venha, pois quem tem a perder com isso é ele.

- Que é que lhe fazias, se ele viesse? - perguntou Gloriana com toda a curiosidade feminina.

- Estás no Oeste, não te esqueças. Levará tempo, até que compreendas o que isso significa. Se fosse preciso, deixava agir Curly Prentiss...

- Aquele vaqueiro maravilhoso! - exclamou Gloriana -, tem um aspecto tão amável, que não acredito que seja capaz de fazer mal a alguém.

Jim deixou-se rir. Passado um pouco disse, mudando de assunto.

- Glory, estou noivo, sabes?

- Jim Traft! Então não acabaste com aquela gata de Sue handerson! - exclamou irritada.

A princípio, Jim não conseguiu sequer lembrar-se a qual das raparigas por quem se interessara já, correspondia aquele nome. Quando se recordou, riu com prazer da suposição absurda da irmã.

- Não, Glory. Estou noivo de uma rapariga do Oeste.

- Do Oeste? Que quer isso dizer?

- Molly nasceu no Arizona e tem quase dezoito anos. Já esteve por duas vezes em Flagerstown e por agora não tem mais viagens a que possa fazer referência. Vive em Cibeque, um dos vales mais agrestes do Arizona.

- Molly... Molly quê? - perguntou Gloriana, franzindo a testa e abrindo muito os seus lindos olhos.

- Molly Dunn. Não achas bonito?

- Talvez, mas é um nome vulgar, do género de Jones ou Brown.

É bonita?

- Glory, só conheço uma rapariga mais bonita do que ela, que és tu.

Era um cumprimento subtil, a que no entanto Gloriana não ligou grande importância.

- Já em casa andavas sempre apaixonado, ora por esta, ora por aquela, mas passava-te depressa - observou pensativa.

- Agora é diferente.

- Que tal é a família dela? - veio por fim a pergunta inevitável.

- É gente da floresta. O pai ficou arruinado, por causa de uma questão entre vaqueiros e rancheiros. A mãe é uma mulher de trabalho. Molly tem um irmão - Slinger Dunn. Não sei qual é o primeiro nome dele, mas o nome de Slinger vem-lhe da habilidade em manejar as armas. Já matou vários homens.

- É um bandido?

- Talvez na nossa terra o considerassem isso. Eu próprio o julguei mal, a princípio. Agora ele é para mim um grande amigo.

O rosto de Gloriana exprimiu sucessivamente tristeza, consternação e piedade profunda pelo irmão.

- O pai achava que eu era a ovelha tresmalhada da família, parece-me agora que há dois. A mãe vai morrer de desgosto.

Jim, eles não fazem a mínima ideia de tudo isto. O pai está sempre a falar de ti aos amigos e fá-lo com grande orgulho.

Diz que estás a dirigir o rancho do tio. Nada do que me acabas de dizer... absolutamente nada... se poderia jamais concluir das cartas que escreves. Tenho a certeza. Sei as cartas de cor.

- Tens razão. Nunca falei do que era mais importante para mim. Aliás as coisas deram-se há pouco. Vê isto! - disse, desabotoando a camisa de flanela e mostrando uma enorme cicatriz no peito.

- Meu Deus! Que foi isso?

- Foi uma bala - respondeu ele com simplicidade e não sem certo orgulho.

- Quiseram te matar?

- Parece que sim.

- É horrível! E se tivesses morrido?

- Paciência... não estive longe disso. Durante dois dias, estive no bosque sozinho, com essa bala no peito.

- E ainda te ris! - exclamou ela aterrada.

- Isto ajudou a fazer de mim um homem.

- Foi um bandido que disparou contra ti?

- Sim. um dos verdadeiros bandidos.

- Oh!, Jim!... Espero que o não tenhas morto a ele!

- Não matei, Glory e agora estou contente por isso, mas naquela altura era capaz de o fazer em pedaços.

- Este Oeste horrível está a dar cabo de ti. A mãe afinal, tinha razão.

- Não, Glory, enganas te! Isto não me fez mal nenhum e espero que tenhas o bom senso de o compreender.

- Escusas de contar com o meu bom senso! Estás diferente... selvagem e frio como aquele Prentiss, que me apresentaste.

Tenho muita pena que o Oeste te tenha tornado tão rude. Sei agora que vou detestar isto.

- Glory, estás a ser injusta - assegurou Jim, pacientemente.

- Vais impressionar-te, a princípio. mais ainda do que eu me impressionei. Sempre foste muito sensível e os problemas que tens tido ultimamente certamente te tornaram ainda mais. Mas, peço te que não julgues o Oeste antes de o conheceres. Não me condenes também a mim.

Espera, Glory e verás que te não arrependes.

Viu no entanto, que as suas palavras nenhuma impressão tinham causado à irmã. Ele tinha-a chocado e ela esquecera já a compreensão que Jim mostrara para com ela, ainda há tão pouco tempo.

- Onde está Molly Dunn? - perguntou Gloriana com curiosidade.

- Está aqui.

- Em casa?

- Sim. Ela e a mãe. Fui eu que as trouxe de Cibeque. Molly frequenta a escola. É fantástica e impressiona-me até, a maneira como se agarra aos livros. Pobre criança! Nunca teve possibilidade de estudar. Espero casar-me na primavera, se conseguir convencê-la.

- Convencê-la!? - repetiu Gloriana, de olhos chamejantes. - deve ser muito difícil.

- É provável que sim - replicou Jim muito calmo -, principalmente depois de te conhecer. Mas como o tio a adora e está entusiasmado com a ideia do casamento...

- Bem, eu mereço isto...

- Isto o quê?... Glory, não me faças perder a paciência - disse Jim lentamente, tentando dominar-se. - Compreendo-te em parte, porque ainda me lembro bem da sensação que tive quando aqui cheguei. Agora escuta. Estou contente por teres vindo ter comigo. Custa-me que tenhas cometido os erros de que tu própria te acusaste e que tenhas sofrido por causa deles. Mas, no fundo, eles não têm grande importância. Tenho a certeza de que o Oeste te curará em menos de um ano. Ficarás totalmente outra. Ninguém conseguirá fazer-te voltar ao Missuri.

Gloriana sacudiu a cabeça tristemente.

- Se ao menos te não tivesses comprometido com essa rapariga! - Mas ela salvou-me a vida! - declarou Jim, acalorado. - Ela lutou com um bandoleiro, lutou contra ele com a ferocidade de um tigre. Mordeu-o. Agarrou-se a ele, para o impedir de me matar, a mim que estava amarrado de pés e mãos. Salvou-me até que o irmão - Slinger - chegou e acabou com Jocelyn.

- Malvado! - exclamou a rapariga, horrorizada. O seu rosto estava pálido de morte e os olhos brilhavam-lhe de revolta -, e esse tal Slinger Dunn matou o outro?

- Matou-o a ele e a mais dois da mesma espécie. Slinger ficou crivado de balas e está agora no hospital de Flag. Hás-de lá ir comigo, vê-lo.

- Oh!, Jim, mas para quê toda esta crueldade? Pensei que trabalhavas simplesmente num rancho, com gente honesta.

- Pois é verdade e aí é que surge o problema - interrompeu jim, fazendo logo em seguida um breve resumo do que acontecera com a vedação e narrando os acontecimentos que aí tiveram a sua origem e levaram à sua captura pela quadrilha de Cibeque, à chegada de Jocelym com Molly, que conseguiu sacrificar-se para salvar-lhe a vida. Falou ainda da traição de Jocelym e do que se passou depois disso.

Quando Jim acabou o seu relato, Gloriana estava comovida, embora se mantivesse ainda um pouco altiva. O rapaz concluiu consigo mesmo, que Gloriana precisava apenas do contacto são com o Arizona agreste, para se tornar numa rapariga extraordinária.

- Jim, mas como é que te vais casar com uma rapariga feroz como um tigre? Isso é tão impossível como impossível seria para mim casar com o irmão dela, com uma pessoa capaz de matar.

- Será possível... ou impossível? - repetiu Jim,

lembrando-se do jovem que fora e do qual se sentia neste momento tão distante. - Pois, bem! casarei com ela e serei o homem mais feliz do mundo!

Era evidente que Gloriana o julgava fora do seu juízo normal, mas nada disse.

- Gloriana, seria melhor ires agora falar ao tio e às Dunns.

- Sim, já que tem de ser - volveu ela simplesmente. - Dás-me só tempo, para me tornar apresentável. Volta daqui a um quarto de hora.

- Pois seja. Sempre quero ver o que é que tu chamas "apresentável" - disse Jim, afastando-se logo, a assobiar.

No entanto, sentia o coração pesado ao atravessar o corredor em direcção à sala de estar.

 

Jim encontrou o tio, só, na sala de estar.

- Olá. Quando é que me trazes a minha sobrinha?

- Vem já. Mas sente-se cansada e quer arranjar se um pouco, depois da longa viagem que fez.

- Que tal está ela? - Continuou o velho, ansioso.

- Pálida e magra, mas sempre bonita.

Neste momento Molly e a mãe entraram e Jim pensou que nunca vira Molly tão bonita, vestida como estava com a maior simplicidade. Não lhe passou sequer pela cabeça que Gloriana pudesse não simpatizar com ela.

- Jim, a tua irmã sempre veio? - perguntou Molly.

- Sin. fui eu, e os rapazes comigo esperá-la. Foi um espectáculo!

- Acredito - concordou Molly, de olhos brilhantes pela emoção. Estava excitada e tremia até um pouco.

- Vou já buscar Glory.

- Ela vem com aspecto de doente?

- A doença não é muito aparente - disse Jim a rir. - Vai ficar encantada com ela e vai achar até que tem bom aspecto, mas, quando me lembro da Glory, forte e bronzeada que deixei há um ano, estou em crer que está de facto doente. Está branca como a neve e tem olheiras. Está também muito frágil.

- Estou morta por a ver! Que é que os rapazes disseram quando a viram? são engraçados, principalmente Bud.

- Curly levou o seu melhor fato de vaqueiro, arma e tudo. Os outros de fato novo e pareciam pouco à vontade. Curly vale sem dúvida, mais do que qualquer dos outros. Bem, agora vou buscar a minha irmã!

Jim saiu, excitado, feliz e preocupado ao mesmo tempo. Bateu à porta do quarto e de dentro, a voz de Gloriana, mandou-o entrar.

Obedeceu e parou admirado. Que maravilhosa; que bela estava gloriana Traft! Vestira um vestido azul claro, sem mangas. Embora estivesse magra, não estava deselegante, parecendo ter até ganho em graciosidade. Tinha as faces ligeiramente rosadas e Jim não percebeu se a cor era artificial ou resultado da excitação do momento.

- Glory, se apareces aos rapazes, bonita dessa maneira, terás de abandonar o rancho! - disse Jim, gravemente.

- Porque não hei de aparecer?

- Porque davas início a uma nova guerra. Estás linda!...

Este elogio sincero aumentou um pouco mais o colorido das faces de Gloriana.

- Obrigada, Jim. É agradável saber que estou bonita. Mas este vestido não é nada. Trago alguns modelos novos, que hei-de vestir, quer haja guerra, quer não. Parece-me que é melhor pôr o casaco pelos ombros. Os corredores são gelados.

- A casa é velha e enorme, mas descansa que a sala de estar é aquecida.

- Jim, se apanho frio, pode ser o fim da minha vida!

- Não sejas tonta! Isto é só o princípio, Glory - replicou ele beijando-a com ternura.

Gloriana agarrou-lhe a mão e apertou-lha. Este gesto e o rubor súbito deram a Jim a certeza de uma coisa, que ele nem por sombras suspeitava ainda; Gloriana podia parecer uma princesa altiva, e distante, mas no fundo era uma rapariga como qualquer outra, ansiosa por um pouco de amor. Jim pensou quanto ela deveria ter sofrido já por causa disso mesmo e imediatamente resolveu conquistá-la pela ternura.

- Jim, a minha infelicidade não altera o facto de que aqui represento a tua família - disse ao sair.

Jim não estava habituado a complexidades e não encontrou palavras para responder à afirmação um tanto estranha da irmã.

Apressou-se pois, a atravessar com ela o corredor gelado e a abrir a porta da sala, para que ela entrasse. Enquanto a fechava, depois de ter entrado também, Gloriana deixou cair o casaco e avançou rapidamente para o rancheiro.

- Oh! tio, ainda o conheço! - exclamou, feliz como se tivesse receado não o reconhecer.

- Bem. Com que então és a minha sobrinha? - volveu ele, como que incrédulo -, lembrava-me ainda de uma pequenita de olhos grandes, que conheci no Missouri. Mas tu não podes ser ela!

- Sou eu, sim, tio! O que estou é mais crescida. Estou tão contente por o voltar a ver.

E Gloriana deu as mãos ao velho, beijando-o.

- Pois bem, parece-me que não és a mesma, mas se me garantes que sim, não tenho outro remédio senão acreditar. Estou muito contente por teres vindo ter comigo ao Oeste. Gloriana, apresento ta umas amigas nossas... do Arizona. A senhora Dunn e... a filha Molly.

A mãe pareceu ficar embaraçada com a apresentação e Jim sentiu um calafrio ao ver que chegara o momento daquela irmã tão querida enfrentar a rapariga, que para ele era tudo no mundo.

- Gloriana, é com grande alegria que a vejo aqui! - disse Molly com a sua simplicidade encantadora.

Notava-se no entanto que estava tremendamente impressionada, mas não havia nas suas palavras ou modos sombra de confusão.

Nos olhos de Molly havia um brilho intenso e acolhedor. Jim não ousara nunca imaginar sequer que ela se saísse tão bem.

Molly Dunn era bem uma rapariga do oeste...

Nunca na sua vida também, Molly fora olhada tão penetrantemente como por Gloriana e por um momento Jim sobressaltou-se. Iria Glory mostrar-se superior?

- Molly Dunn, também estou contente por a conhecer - replicou Gloriana amavelmente, apressando-se a corresponder ao cumprimento apenas esboçado da outra.

Beijaram se e Jim quase teve de sufocar uma exclamação de alívio. Apesar disso, sentiu perfeitamente que era ainda a educação requintada de Gloriana que lhe não permitia deixar-se ultrapassar em cortesia, por uma rapariga do Oeste. Pensou igualmente que, se ele o tinha sentido, muito provavelmente Molly o sentira também.

O tio Jim sorriu para Gloriana e Molly, depois para o sobrinho.

- Jim... há pessoas com muita sorte e uma delas és tu. Não é vulgar ter uma irmã e uma noiva, como tu as tens.

Era tributo sincero de um velho solitário, que dera o seu afecto a Molly e que agora estava disposto a partilhá-lo com gloriana.

- Não sei se sou realmente tão feliz como isso - volveu Jim, arrastando as palavras à maneira indiferente de Curly.

As raparigas que tinham corado com o cumprimento do rancheiro, deixaram-se rir e a tensão quebrou-se.

Todos se sentaram menos Molly, que se deixou ficar de pé, junto da cadeira de Gloriana, visivelmente fascinada por esta.

Se ao menos aquela admiração tão natural fosse correspondida por um pouco de ternura de Gloriana! - pensou Jim.

- Não a acho com mau aspecto! - disse Molly fitando gloriana.

- É natural que Jim tenha exagerado - retorquiu Gloriana com um sorriso. - Não estou muito bem, mas a doença também não é grande.

- Tem ar de quem não come, não dorme, nem apanha sol - continuou Molly, com a sua encantadora simplicidade.

- É precisamente esse o meu mal.

- Está linda, mas daqui a seis meses... - Molly não acabou a frase, mas também não eram precisas palavras para que todos compreendessem o seu pensamento.

- A temperatura aqui está horrível e o médico avisou-me que tivesse cuidado. senão era uma... vez Gloriana May.

Molly não compreendeu totalmente o sentido da frase de glory, mas mesmo assim voltou-se para Jim e observou gravemente.

- Não a podes rebolar na neve, como me fizeste a mim. glory vai gostar até do inverno no Arizona. O frio aqui é seco e não faz mal. No entanto, se nos primeiros dias vier muito frio, podemos levá-la a passar um tempo a Tueson.

- Seria preferível ir para o "Colete Amarelo" - interrompeu o rancheiro.

Molly bateu as mãos de contente.

- Esplêndido! Em Tonto nunca chega a haver Inverno. Se neva um bocadinho, vem logo o sol e derrete tudo.

O ar está cheio do perfume dos cedros, dos pinheiros e das salvas. à noite acendem se fogueiras nos compartimentos.

Gloriana... no "Colete Amarelo" verá que melhora num instante.

- Não - protestou Jim -,No Verão iremos lá todos, mas para agora não serve. É melhor irmos para a "Faca Afiada".

Gloriana estava cheia de interesse.

- O que é o "Colete Amarelo"? e o rancho da "Faca Afiada"?

- O "Colete Amarelo" é um centro de criação de gado, que fica na parte mais selvagem do Arizona. Quanto à "Faca Afiada" não é um rancho, mas o nome de uma quadrilha de ladrões daquela região.

- Agora é que está resolvido... É para aí mesmo que quero ir! - declarou a rapariga -, não há nada que deseje tanto como ver um bandoleiro! Quero ir para um lugar selvagem e ermo. E logo que tenha forças quero andar a cavalo. Jim, arranjas-me depois um cavalo?

- Um cavalo? Pedes muito pouco. Pois terás dezenas de cavalos à tua disposição.

- E levas me ao deserto? à selva? - insistiu Gloriana quase sem fôlego, Os olhos brilhantes como estrelas. Jim teve de fazer um esforço para esconder a sua emoção. Para além da necessidade de amor que já reconhecera na irmã, descobriu agora nela a ânsia de qualquer coisa que nunca tinha tido.

Talvez aquilo fosse só produto da excitação de momento. Se, porém, houvesse de facto em Glory uma atracção forte para a beleza e natureza agreste, então o Arizona apaixoná-la-ia e torná-la-ia outra.

- Glory, temos de partir com entusiasmo, se queremos fazer o trabalho como deve ser.

- Trabalho? Não tenho forças para muito.

- Sabes fazer biscoitos?

- Não.

Molly riu alegremente.

- Sabe apanhar perus selvagens?

- Comer sei, mas apanhar...

- Estou desolada! Pelos vistos, sou uma ignorante.

- Glory, eu ensino-lhe a fazer biscoitos e a apanhar perus - prontificou-se Molly.

- É muito boa. Tenho medo que me ache estúpida.

- Glory, quando falei em trabalho não estava pensando que tu o fizesses, embora um pouco te não fizesse mal. Referia-me aos vaqueiros que afirmaram que não haveria mais brincadeiras no rancho.

- Porquê?

- Mostrei-lhes uma fotografia tua.

Gloriana riu com os outros, que já há um bocado se riam à sua custa.

- Aquela fotografia horrível! Trago agora algumas boas!

- Pelo amor de Deus... não as mostres a ninguém!

Seguiu-se meia hora de amena conversa, em que Gloriana tomou parte com manifesto entusiasmo. Depois Pediu licença para se deitar, afirmando estar fatigada.

- Jim, leva-me ao meu quarto. Seria incapaz de o descobrir sozinha - disse, desejando boa noite aos restantes.

No quarto de Gloriana, Jim mexeu a lareira e pôs-lhe mais algumas achas.

- Então? - perguntou finalmente levantando-se para encarar a irmã. Com grande surpresa sua, ela pousou-lhe as duas mãos nos ombros.

- Jim, a tua princesinha é linda e perfumada como uma flor de campo, simples e leal como o outro... e muito mais corajosa do que eu jamais fui. Provavelmente foi uma prova bem mais difícil para ela o encontro comigo, do que a luta com tal sujeito para te salvar a vida. A verdade, é que eu represento a tua família.

- Obrigado, Glory. receava que... não gostasses dela?

- Jim, compreendo perfeitamente que estejas apaixonado. Ela é um amor. Mas, e aqui é que está o problema, ela não tem estudos... vem de uma família de analfabetos. Trata-se de gente vulgar e, em resumo, não é a pessoa indicada para ser tua mulher.

- Isso talvez fosse uma razão se estivéssemos em casa, mas no Oeste não há desses preconceitos. O Oeste fez de mim um homem e sinto que se tornou a minha terra. Adoro esta "gente vulgar", como tu lhe chamas. Molly é forte, firme, sincera como o Arizona selvagem. Como tenciono viver aqui, considero-me o homem mais feliz do mundo, no dia em que casar com Molly dunn. E tudo isso, mesmo pondo de parte o facto de que ela me salvou a vida. Se não fosse ela, não poderias ter fugido para ao pé do teu irmão!

- Não julgues que sou ingrata! - apressou-se ela a implorar, muito séria. - Admiro te e respeito-te... mas compreendes que neste momento, tinha obrigação de te fazer ver as coisas. Sou uma Traft

- Então... não és contra nós? - perguntou Jim, já cheio de esperança.

- Jim, não aprovo o casamento, mas seria tola fazer oposição. Vim à procura de ajuda... à procura de um lar... à procura de uma oportunidade de salvar a minha vida, se isso ainda é possível. Digo te que as complicações não virão de mim, mas dela, podes crer. Ainda não pensaste nisso? Não reparaste na maneira como me olhou... me estudou? E, no entanto, sem sombra de inveja ou má vontade tentou simplesmente avaliar da tua família e da tua posição através de mim. Havia medo nos olhos dela, quando me deu a boa noite.

E esse medo não era de que me atravessasse no vosso caminho.

Ela receia não poder casar se contigo, porque é Molly Dunn, de cibeque! Se é assim tão digna e decidida como parece, nunca consentirá no casamento.

- Já tive esse mesmo receio - concordou Jim. - Mas tenho procurado afastá-lo. Agora, és tu...

- Sou eu que o renovo, é verdade. Sinto muito. Não devia ter vindo. Poderia ter ido para qualquer outro lado, onde tivesse até de trabalhar. Agora não tem... remédio.

- Seria eu a opor-me a que fosses para outro lado. Creio que estamos os dois a exagerar e que tudo se resolverá bem.

- Prometo esforçar-me por isso. Serei mais amável com Molly, do que já fui, fosse para quem fosse. É fácil conseguir que as pessoas gostem de mim. O pior é que desde que Ed me enganou, fiquei fria... por dentro. Não te posso prometer gostar sinceramente de Molly, embora isso pareça estúpido.

Gloriana estava tão bela e falava de maneira tão comovedora, que Jim teve vontade de a abraçar.

- Glory, o que prometes, é bem mais do que teria coragem de te pedir. Estou contente por te ter junto de mim, no Oeste.

Acabaremos por vencer... porque não fomos feitos para aceitar a derrota. E agora, boa noite. Estás cansada e precisas de dormir.

- Boa noite, Jim. Sinto-me feliz - disse Glory, beijando-o.

Gloriana nunca fora muito para ternuras e beijos. Estava agora mais velha, mais profunda, mais complexa e havia nela uma pontinha de tristeza, que Jim confiava havia de desaparecer no Oeste, em contacto com os vaqueiros.

Com estes pensamentos, Jim dirigiu se ao seu quarto. Molly não conseguiu, porém, encontrar a expressão do que lhe ia na alma.

- Ainda não - respondeu ela, entreabrindo a porta e mostrando um rosto agitado.

- Só te queria perguntar se gostaste dela?

- Se gostei! Estou apaixonada por ela! Ela é... é...

Molly não conseguiu, porém, encontrar a expressão do que lhe ia na alma.

Jim enfiou a cabeça pela porta e deu-lhe um beijo apressado.

- Adoro-te, querida. - murmurou, continuando depois. - e a tua mãe, gostou de Glory?

- Claro que sim, mas estava um tanto assustada. Eu também, para dizer a verdade.

- Não é caso para isso. Glory, acabou de me dizer muitas coisas de ti...

- O quê, Jim?

- Não tas digo, senão quando te pedir uma coisa muito importante e tu ma fizeres. Ha! Ha!... Foram referências muito elogiosas. Boa noite, Molly.

Jim foi encontrar o tio a dormitar em frente do fogão.

- Acorde e diga-me o que heide fazer.

- O quê?... - resmungou o tio.

- Acorde e diga-me se gostou de Glory. Que diabo hei de eu fazer com estas duas raparigas nas minhas mãos? Como vou impedir que os vaqueiros se batam por elas? O que...

- Uma coisa de cada vez, menino excitado. Bem, Glory é a rapariga mais bonita que já vi. Tão inteligente e amável como bonita! E só com dezanove anos. As coisas não vão ser fáceis para Molly. O que vale é que ela é pura e ao fim de algum tempo, verás que a tua noiva e a tua irmã serão grandes amigas. Mas será preciso tempo! Ora, quanto aos vaqueiros, claro que Glory os vai pôr em alvoroço. Ela é meiga... agradável, mostrar se-á interessada pela vida deles, e aqueles idiotas vão pensar que a coisa está feita.

- Tenho pensado nisso tudo - volveu Jim, pensativo. - E, agora muito confidencialmente, sempre lhe quero dizer que glory veio para ficar.

- óptimo! Mas", está assim tão doente? ou o que...

- Não está tão mal como os pais julgam. Um bocado abatida, como resultado de umas complicações que houve lá em casa.

Entusiasmou-se por um rapaz qualquer... julgou que gostava dele, quando não gostava... e ele saiu uma bela peça.

Pediu-lhe dinheiro emprestado e apanhou também algum ao pai.

Glory ficou muito mal vista e isso magoou-a profundamente. Ela é a mais orgulhosa das orgulhosas Traft. Foi por isso que veio ter comigo.

- Hum!... Pobre criança! Tens a certeza de que não houve mais nada?

- Graças a Deus, não! Mas de qualquer modo, aquele bandido deu-lhe cabo da reputação. É um tal Ed Darnell. Glory tem a certeza de que ele a virá procurar aqui.

- Se vier, não deve ter muitas possibilidades de algum dia mais tarde a procurar noutro lado, porque lhe trataremos da saúde.

- Foi o que eu lhe disse. Como vê, tio, temos na nossa mão a felicidade e o futuro das duas raparigas. Estou alegrado com a ideia, mas não sei o que hei de fazer!

- Claro que é um problema, mas o erro é que és demasiado novo e queres conseguir tudo depressa.

- Serei paciente e farei tudo o que for preciso..

mas, supondo que Molly comece a ter medo de minha família?

- É preciso pôr Molly e Glory bem em contacto uma com a outra, para que aprendam a conhecer-se.

- É boa ideia - concordou Jim, quase com entusiasmo -, e poremos Glory em contacto com a vida dura do rancho: vaqueiros, cavalos, frio, humidade, chuva, poucas comodidades, comida simples, privações e... perigo, até, não acha?

- Exactamente. Que ela conheça tudo aquilo que tem sido parte integrante da vida de Molly.

- É um plano ousado. Glory não está forte e talvez a forcemos assim a correr riscos excessivamente grandes.

- Terás de ir devagar e não a forçar a muito de cada vez.

- Se depois dessa experiência... - E Jim perdeu-se em pensamentos. A memória do choque com o Oeste terrível e maravilhoso estava ainda fresca na sua alma.

Fora compreendendo o Oeste, que ele se apaixonara por Molly dunn. É preciso viver as coisas para as compreender e sentir no seu verdadeiro valor. Gloriana seria conquistada também, apesar da sua sensibilidade feminina, ou até talvez, por causa dela. Durante a transição, ele teria de ser cuidadoso, para não perder a sua adorada Molly e Jim teve pena de não ter casado com ela antes da chegada da irmã. Quando poderia agora casar? Sentia a cabeça andar-lhe à roda, num turbilhão de pensamentos desencontrados. Casar imediatamente antes que sobreviessem os conflitos era impossível, porque Molly compreendia a causa da precipitação! Foi então que Jim percebeu que o tio, estava a falar com ele.

- Desculpe, tio, estava distraído.

- Eu estava agora a falar de outro assunto -, replicou o rancheiro. - Locke esteve aí esta tarde e disse que corre que Bambridge vai amanhã negociar em gado. Talvez fosse uma ideia ires até Winslow ver o que se passa.

- Com este frio?

- Esqueces te que estás num pico e que Winslow fica em baixo, no deserto. Não deves encontrar neve. E de qualquer modo, Bambridge não deixa o que tem a fazer, por causa da neve.

- E que interessa que seja eu a ir?

- Bambridge não te conhece e os seus homens também não. Além disso nunca estiveste em Winslow e ninguém poderá dizer-lhes quem tu és. Poderás, assim, examinar os novilhos à vontade e...

- Tio, haverá complicações com Bambridge?

- Filho, estou farto de conhecer homens do tipo de bambridge, Conheço-os bem. Há quarenta anos que faço criação de gado. Há dez anos apareceu em Flag um sujeito bem falante, que ninguém sabia donde vinha, mas que tinha dinheiro.

Chamava se Stokes, Começou a comprar e a vender gado, a fazer grandes negócios. Todos se tornaram seus amigos, mas havia qualquer coisa nele que me não agradou. Mais tarde vi-o enforcado numa árvore! - Este negócio de gado, é estranho! - observou Jim, sombrio.

- Claro que enquanto houver ranchos, haverá ladrões de gado.

Quando todos os ranchos estiverem vedados, os criadores de gado como eu, Bambridge e Jed Stone, terão desaparecido há muito.

- Considera Jed Stone um criador de gado?

- Claro! Ele é um homem que se não pode esquecer: O "Colete Amarelo" pertence-te legalmente, porque eu o comprei e to dei.

Mas Jed Stone julga se o dono - explicou o velho, com um riso seco.

- E porquê?

- Há muitos anos que está ali e considera aquilo terra de ninguém ou terra de todos, como lhe queiras chamar. No entanto, aquilo é um rancho, ao contrário da terra que fica para além dos seus limites. Sabes que a fonte do "Colete Amarelo" é a melhor do Arizona? O antigo dono tinha o rancho delimiado e podemos portanto provar os nossos direitos. Locke já lá esteve a verificar isso mesmo.

- Meu Deus! - exclamou Jim. - Quer dizer que somos capazes de ter de provar a um bandoleiro, que temos direitos à terra que comprámos?

- A Stone, isso só se prova com as armas. Ha! Ha!... Mas quanto a Bambridge e aquele outro que anda com ele e de quem nunca sei o nome, são muito capazes de pedir provas. Está visto, que se houver alguma coisa, não passará de uma luta sem importância.

Estou certo que O "Colete Amarelo" te vai interessar. É o lugar mais selvagem e mais belo que se pode escolher para viver no Arizona. Não é propriamente um vale. É talvez mais um desfiladeiro enorme, de paredes alcantiladas e amarelas. Há caça por todos os lados: ursos, veados, perus e sei lá mais O quê. Quase nenhuns caçadores lá vão, porque o caminho até lá é longo e a caça abunda noutros sítios mais próximos.

- Já estou entusiasmado pelo "Colete Amarelo" - declarou O rapaz, com voz firme -, Slinger Dunn tem também lá uns interesses quaisquer; foi o contrato que se estabeleceu, porque de contrário não o apanhávamos no Diamante.

- De acordo, e nem tu imaginas as vantagens que nos pode trazer. Era bem melhor que Dunn pudesse ir contigo. Olha, é melhor levares Curly também!

- Esplêndido! Apanharemos o comboio da manhã.

Na madrugada seguinte, Jim de calças de montar, botas e casacão de couro, saiu com um frio de morrer e bateu à porta de Curly.

- Curly Prentiss! - gritou.

Não houve resposta, ainda que se ouvisse Teft, o cozinheiro, à volta com as panelas. Foi este, quem por fim, entreabriu a porta e falou.

- Credo! A bater dessa maneira parece que está a casa a arder!

- Tenho de ir a Winslow. Arranja pequeno almoço para dois e despacha-te. Curly!

- Deixa-me.

- levanta te e veste te depressa.

- Deitei-me tarde, Jim.

- Se não queres vir, vem Bud...

Ao ouvir aquela possibilidade, que tanto lhe desagradava, o gigante saltou da cama e num abrir e fechar de olhos, estava vestido.

- Jeff, dá cá água! Despacha-te, seu dorminhoco.

Bud afastou os cobertores e espreitou a ver o que se passava.

- É engraçado, como isto me faz lembrar o acampamento! -observou, piscando o olho a Jim e perguntando logo em seguida. - Que aconteceu?

- Vou a Winslow, porque Bambridge vai negociar em gado.

- Não sejas parvo, Jim! Não vale a pena ir lá por isso.

- Não tenho nenhum interesse em ir; mas o tio assim pensou.

Aliás, que sabes tu da questão, seu idiota?

- Eu?! A estas horas da manhã não sei nada. Deixas me ir contigo?

- Não pode ser, Bud. O tio disse para levar Curly.

- E porque há-de ser justamente ele?

- Foi o tio que resolveu assim.

- Que vá para o diabo! As coisas não estão bem e todos devíamos estar a par do que se passa.

- Ainda agora te perguntei o que sabias do assunto.

- Está bem! - concordou Bud, fingindo-se resignado -, Jim, não estou a ver bem, mas é mesmo uma pistola o que levas aí?

- É uma pistola, sim, Fiquei com este hábito desde que estive no "Diamante".

Bud ia a replicar, mas Curly entrou nesse momento e fê-lo calar.

- Cala a boca, seu fala barato! - Ordenou o gigante, agora já penteado e de faces rosadas como as de uma rapariga.

- Pois seja! - disse Bud, embrulhando-se nos cobertores. - só te digo, Jim, que Curly está estonteado, desde que...

Bud mal teve tempo para escapar à bota que Curly lhe atirou e que foi bater na parede. Alguns dos outros vaqueiros acordaram com o barulho.

- Estamos a ser atacados! - exclamou Uphill Frost, ainda meio a dormir.

- Que está a acontecer? - perguntou Lonestar Hollyday.

Jim e Curly saíram para a cozinha, fechando a porta atrás de si. Enquanto o pequeno almoço se aprontava, aqueceram as mãos ao fogão.

Curly não estava exuberante, como era habitual, talvez devido a ter dormido pouco. Comeram apressadamente e saíram para a neve. A manhã estava calma e o gelo estalava sob os pés pesados dos madrugadores, que caminhavam em silêncio. Quando chegaram à estação, Curly disse:

- Ring Locke esteve lá ontem e certamente as notícias que deu não foram boas.

- Pensei que tinhas passado a noite fora? - interrompeu Jim em voz rouca.

- Não passei. Ring ouviu dizer que Bambridge vai negociar em novilho... Com trinta diabos! Ring consegue sempre saber as coisas que só nos dão maçadas e nos trazem complicações... Tem amigos demais e não lhe escapa nada!

- Espera até chegarmos ao comboio - disse Jim.

A sala de espera e a plataforma da estação não eram, na verdade, o lugar mais próprio para tais conversas. Por todo o lado seguiam vaqueiros, rancheiros, trabalhadores mexicanos e passageiros de toda a espécie.

Quando por fim entraram e se instalaram num sítio mais ou menos sossegado, Jim perguntou ansioso.

- Mas, finalmente, o que é que disseram a Ring?

- Foi um idiota qualquer que lhe disse que Bambridge está a vender gado, que pertence ao Diamante.

- Sim? O tio não me falou nisso. Este Bambridge!... Mas que estás tu a resmungar, Curly?

- Mais valia que Locke tivesse estado calado. Logo se via, que falando, o velho te mandaria a Winslow e que no caso de lá encontrares novilhos com a nossa marca vais direito a bambridge e pedes explicações.

- Está bem de ver que sim.

Curly levou a mão à cara, o que nele indicava perplexidade, estado de espírito que aliás lhe não era habitual.

- Querias que nada dissesse? - perguntou Jim.

Que estranhos eram aqueles vaqueiros, a quem nunca se conseguia compreender totalmente!

- De certeza que o tio e Locke sabem melhor do que tu, não achas?

- Claro que sabem! Simplesmente quando chega a hora de lutar, somos nós que aguentamos o pior.

A maneira como Curly pronunciou aquelas palavras, como o conteúdo das mesmas, fez pensar Jim. De facto, era um superintendente agressivo e o velho rancheiro em relação aos vaqueiros.

A conversa ficou por ali e Jim passou a fitar a paisagem nevada, que passava rápida perante os seus olhos. Os pinheiros tinham cedido o lugar aos cedros e até estes por fim desapareceram, restando apenas os arbustos das salvas. A pouco e pouco, a neve foi diminuindo também e quando o comboio entrou no deserto, o amarelo da erva queimada e o verde ocasional de um tufo ou outro de verdura, dominavam já por completo o branco.

 

Os membros da "Faca Afiada" regressavam de rostos cansados, profundamente vincados, olhos pisados, tornados mais sombrios ainda pelas olheiras roxas e fatos em pedaços.

- Até que enfim que estou em casa! - crocitou Malloy, deitando-se ao comprido em frente do fogão de pedra, que Stone terminava.

- Santo Deus! - exclamou Stone, olhando para O pistoleiro. A ideia de Malloy chamando àquilo cá em casa chegava a ser cómica.

- Algum dia tiveste uma casa? Um lar? - perguntou O chefe, com mais admiração do que desdém.

- Deixem-me - volveu Malloy disposto a não se deixar molestar.

- O que eu quero dizer é que aqui ao menos tenho sossego e um pouco de conforto, depois daquele trabalho dos diabos.

- Tens toda a razão! - concordou Pecos.

- É bom ver-me livre da neve e daquele maldito vento de tonto - disse Maddem -, Aqui tudo é diferente, parece primavera.

- Estamos no "Colete Amarelo" mas lá Primavera é que não é.

Até lá vamos passar um tempo delicioso, não haja dúvida - interpôs Carr, O batoteiro.

- Talvez! - disse Jed Stone sarcástico.

- Caramba! deixem se de discussões - protestou Malloy. - Agora estamos em casa. Temos que comer e beber até à Primavera e também nos não falta dinheiro para o jogo. O melhor é esquecermos o que passou e tentarmos ser felizes.

Sonora entrou com um fardo enorme; seguiram-no o jovem Frank e o ex-xerife Lang, ambos muito carregados.

Devia ser perto do meio-dia e o sol brilhava. No entanto, o ar estava frio, embalsamado pelo perfume dos cedros e das salvas, de certo modo sugerindo já a Primavera, ainda que estivessem no Inverno.

- Safámo nos de boa! Foi por um triz...

- Quem é que vai ligar àquele negócio de gado com as nossas humildes pessoas? - perguntou Malloy. - Ninguém! Logo, não temos que nos preocupar. Apesar disso, concordo que fomos demais.

Para Malloy censurar um roubo de gado, era preciso que ele fosse de facto qualquer coisa de muito ousado.

- Bambridge não descansará enquanto não correr o Arizona de ponta a ponta - declarou Anderson, sacudindo a cabeça, como quem duvida da tranquilidade que os outros anunciavam. - Daria tudo para ver o tal rapazote, esse Traft, de quem se fala.

- Também gostava de me encontrar com ele - declarou Stone, pensativo. - É um rapaz com nervos. Frank, conta-me outra vez como as coisas se passaram.

- Já te contei duas vezes - protestou Reed.

- Está bem, mas foi no caminho e fazia muito frio e vento.

Tenho a certeza que deixaste muito por contar. Toma lá um charuto e começa. - Instado daquela maneira, o jovem vaqueiro acendeu o charuto, sorrindo de satisfação e instalou-se confortavelmente.

- Estava no bar quando ouvi um tipo dizer: "É estranho este negócio de Bambridge. Ainda ontem passei junto da estação, porque vivo para aqueles lados. Não havia lá nem uma cabra.

Hoje, ao romper da madrugada era uma orquestra completa de novilhos em agitação.

- Ha! Ha! - riu Malloy, esfregando com força as mãos escuras e peludas.

- Ri, para aí, seu burro! - exclamou Stone, mal humorado. - A maneira como a deslocação do gado se fez, foi estúpida e podia ter dado mau resultado. Devíamos ter deixado o gado no rancho de Bambridge, como eu tinha dito. Mas, enfim, não concordaram... Continua, Frank.

- Levámos o gado à meia noite, como vocês sabem - continuou reed, dando uma fumaça. - Não foi brincadeira nenhuma. às dez horas da manhã seguinte, os novilhos estavam todos no comboio, prontos para a partida. Eu deixei-me ficar então no bar. meio adormecido, numa cadeira e só saí depois de tomar o café. Não se viu nem um vaqueiro por ali, até que chegou o comboio de Flag.

Foi então que encarei com Curly Prentiss. Conheço-o bem, porque em tempos andámos juntos. Com ele estava um rapazote, que depois se veio a saber ser Jim Traft. Durante dois minutos - não mais do que isso - olharam o gado atentamente e de repente o tal Jim começou a andar como se tivesse endoidecido.

Prentiss seguiu-o, falando muito agitado. Resolvi ir-lhes no rasto até à estação. Tinha a certeza que Curly me vira já; aliás não é fácil que alguma coisa lhe escape! Claro que não havia perigo nenhum, porque Prentiss não fazia ideia de que eu estivesse com a "Faca Afiada". Ele e Traft entraram para a sala dos despachos e foi então que chegou Bambridge com um sujeito novo, com ar desportista e por sinal nada feio.

Bambridge perguntou-lhe: "Donde vem?" E ele disse que vinha de St. Louis.

- Que sabe acerca de gado? O outro respondeu que não sabia nada, mas que um grande comprador de Kansas City, lhe tinha dito, para no caso de ir ao Arizona, procurar George Bambridge.

"- Quem é o comprador? - perguntou Bambridge, cheio de interesse.

- Darnell. Percebi distintamente o nome.

- Venha ao meu escritório mais tarde. Agora estou ocupado com um embarque de gado.

A verdade é que ele ia estar daí a nada muito mais ocupado do que podia prever naquele momento. Nessa altura, apareceram prentiss e Traft de armas na mão. Todos sabem que Prentiss dorme de pistola na mão, mas de certo modo era engraçado ver uma arma nas mãos do outro rapazinho tão novo. Ambos tinham os olhos em fogo e Traft abeirou-se de Bambridge ali mesmo, no meio da estação e fê-lo parar.

Reed interrompeu a narrativa para saborear por momentos o seu charuto e depois de observar uma nuvem de fumo desaparecer no ar, olhou Lentamente para Stone e Malloy, para Lang e pecos... como para ver se a sua história estava a produzir neles o efeito devido, Malloy tinha os lábios repuxados num sorriso sardónico e Lang estava invulgarmente pálido. Quanto a Anderson, a sua expressão era de intensa ansiedade.

- Vamos, conta o resto! - ordenou Stone com voz dura.

- Não há muito mais a dizer - replicou Reed, como se o caso não tivesse a mínima importância.

Traft perguntou.

- És George Bambridge? A resposta veio rápida e afirmativa.

- O gado que estás a embarcar pertence-me em parte - vociferou Traft.

Bambridge ficou vermelho de cólera.

- Vai para o diabo, seu idiota. Quem és tu, com todas essas prosápias?

- Sou Traft - declarou o outro com firmeza e em voz suficientemente alta, para que todos pudessem ouvir.

Bambridge tornou-se pálido de morte.

- O sobrinho de Jim Traft?

- Exactamente. E entre aqueles novilhos, há alguns com a nossa marca...

- Qual marca? - rosnou Bambridge, furioso.

- A marca do "Diamante".

- Hum... bem vejo.

Bambridge recobrou a calma.

- Desculpe, senhor Traft. Esses enganos acontecem de vez em quando. As vedações não estão ainda perfeitamente em ordem e é natural que alguns novilhos tenham passado para o meu lado.

Mande-me a conta.

- Não, senhor Bambridge. Não-lhe mando a conta; o que mando é imediatamente um telegrama para que me enviem a nota dos novilhos do "Diamante" que desembarquem no destino - afirmou traft, senhor de si.

- Está a chamar-me mentiroso e... ladrão? - vociferou bambridge, levando a mão ao cinto.

- Nada disso. E não se incomode a pegar na pistola. Este senhor que está comigo é Curly Prentiss. Não lhe chamei nem mentiroso nem ladrão, mas considerando este embarque que se fez em condições um tanto estranhas, não me darei por contente senão quando tiver nas mãos a nota que pedi.

- Digo-lhe que se há novilhos do "Diamante" juntamente com os meus, isso se explica por uma confusão. Qualquer pode enganar-se, principalmente, quando as coisas são feitas um tanto à pressa.

- estes erros não são vulgares.

- Acontece com frequência que um rancheiro leve juntamente com o seu gado que lhe não pertence.

- Não quando esse gado está marcado.

- O seu tio já o tem feito.

- Não chame ladrão ao meu tio, faz favor - interrompeu Jim, assentando a mão firme no focinho de Bambridge.

Gostava que tivessem assistido a esta cena. Bambridge caiu e não voltou a levantar-se.

- Foi uma grande coisa, que ele tenha perdido os sentidos, porque quando voltei a olhar para Traft, lá estava ele, de pistola em punho e Prentiss um pouco mais atrás.

- Que espectáculo! - crocitou Malloy.

- Acabou? - perguntou Stone.

- Quase. Apareceram alguns homens que levantaram Bambridge.

Vi então que Prentiss me olhava fixamente e por isso, retirei-me para o bar e ali me deixei ficar, até à manhã seguinte.

- Bambridge é um tolo - explodiu Stone. - E eu fui tão estúpido como ele, ao aceitar negócios com tal homem.

- Esse tal Traft ainda nos fez um grande serviço - comentou Anderson, satisfeito.

- Está claro - concordou Pecos, calmamente.

As atenções concentraram-se todas em Bambridge.

Outros membros do grupo eram da mesma opinião.

- Sim. talvez tenham razão. - disse Stone. - Mas de qualquer modo, o velho Jim Traft ficará mais atento ainda depois do que se passou.

- Jed, não podes esquecer que em tempos trabalhaste com esse homem? Tens isso atravessado na garganta - observou Anderson -, todos nós já vimos dias melhores do que esses.

- Todos fomos diferentes, a não ser talvez Croack, que não deve ter mudado muito... desde a hora do nascimento.

- Camaradas! - disse Stone -, vou dividir o dinheiro que arranjámos neste último negócio por vocês todos. Eu não o quero.

- Isso não é justo! - objectou Malloy, que era a honestidade em pessoa, quando se tratava de contas entre eles -, Já da outra vez fizeste o mesmo.

- E estragaste o que estava combinado para depois.

- Aquele rancheiro maldito deve te muito, não?

- Dez mil.

- Caramba - exclamou Malloy, consternado -, ele quer enganar-te, Jed, tão certo como eu estar aqui.

- Seria melhor não tentar, porque se o fizer haverá uma lutazinha! - declarou o chefe, mal disposto, E Stone deixou os seus homens discutindo uns com azedume, outros com humor, a dívida que Bambridge tinha para com ele e saiu a dar uma volta.

Estavam em pleno Dezembro, mas naquele local abrigado, mais parecia Primavera. O ar estava perfumado e os pássaros chilreavam à volta das floritas azuis. Uma brisa ligeira brincava com as agulhas dos pinheiros e ouvia-se um pouco mais adiante o rumorejar do ribeiro. Havia ainda folhas verde-douradas nos sicómoros gigantescos, que era mais uma prova a favor da amenidade do clima no "Colete Amarelo".

Jed Stone passeou-sem destino por entre as árvores. No chão havia ainda sinais relativamente recentes de ursos, O que lhe deu certa satisfação, pois que os ursos só andam por sítios ermos e o bandoleiro gostava justamente da solidão. Mas aquela agradável sensação não durou muito, logo dominado pela certeza íntima de que os dias da "Faca Afiada" estavam contados. É claro que nenhum dos seus homens partilhava de tais suspeitas e talvez nem até os grandes rancheiros do Arizona. Stone, porém, sabia mais do que eles e esse regresso a casa, como lhe chamara Malloy, este regresso ao "Colete Amarelo" tinha-lhe dado cabo dos nervos. Estava cansado, enfastiado de tudo e principalmente da sua vida sem sentido, farto de suor e sangue, incapaz de suportar por mais tempo a ignomínia que pesava sobre a "Faca Afiada".

Pela primeira vez teve a coragem de reconhecer sinceramente o que sentia e de concluir que tais sentimentos o levariam a qualquer coisa drástica, que não podia ainda imaginar o que fosse.

Continuou a vaguear por entre os pinheiros, atravessou a ponte de madeira sobre a corrente, onde muitas vezes passara horas a pescar trutas, que via deslizar lá em baixo, confiantes por entre as pedrinhas do rio. Em certos sítios avançava por entre as folhas, que lhe davam pelos joelhos e que sob os seus passos exalavam um cheiro acre. Foi até ao ponto que sempre o fascinara, aquele sítio onde a corrente se precipitava de rochedos altos, revestidos de musgo macio. Daí, alongou a vista por sobre todo o vale de um cinzento esverdeado, notando as paredes alcantiladas, as clareiras onde a erva vicejava, fortemente iluminada pelo sol, os maciços de cedros e pinheiros, as encostas de carvalhos desgrenhados.

Cada um destes pequenos pormenores lhe interessava, cada um representava para ele um pouco daquele vale, que se habituara a amar.

Lá em baixo, erguia-se a cordilheira mais selvagem do Arizona, uma confusão de rochas, arbustos, florestas, correntes precipitosas, penhascos gigantes que ameaçavam a todo o momento, garganta onde a luz do sol não tinha entrada - todo um mundo misterioso que apenas os Apaches tinham explorado totalmente.

Na parte mais baixa desta região, talvez à distância de quarenta milhas em linha recta ficava o desfiladeiro do Regato cristalino e para lá desse o Pequeno Colorado Onde estavam estabelecidos os grandes negociantes de gado.

O "Colete Amarelo" tinha uma feição muito especial.

Alto, isolado e fechado como estava, Olhava para baixo, para o deserto imenso que se perdia num infinito de púrpura. Tinha exactamente a altitude ideal, nem de mais, nem de menos, sendo protegido dos ventos pelas muralhas de pedra que o cercavam e que, no entanto lhe não roubavam o calor, pois que pelo contrário, reflectiam os raios solares.

Alguns anos atrás, Jed Stone embalara-se na ilusão que um dia seria o dono de tudo aquilo, Bambridge prometera dar-lho, mas Bambridge nunca chegara ele próprio a possuir o "Colete Amarelo" e o sonho acalentado de abandonar a vida de bandoleiro e de se estabelecer como qualquer rancheiro honesto, tinha sido abandonado. Jed Stone odiava Bambridge por isso, embora no fundo se censurasse a si próprio, por ter acalentado ilusões. Embora fosse um homem perseguido pela Lei, poderia ter mudado de rumo, porque o Arizona selvagem seria o lugar ideal para aceitar um criador de gado, cujos negócios escuros ficavam sepultados no passado.

A partir daquela hora, Jed Stone foi mais do que nunca um homem preocupado, vagueando pelos desfiladeiros durante horas a fio, enquanto o Sol ia alto, demorando-se nos pontos preferidos ou fumando Pensativo junto da fogueira do acampamento.

Os companheiros, sempre ocupados com a batota e os constantes ganhos e perdas que daí resultavam, não notaram a mudança que a pouco e pouco se ia acentuando no chefe.

Anderson ia todos os dias para a caça, fornecendo o grupo com carne fresca e dedicando-se ao cuidado das peles, ele que em tempos fora considerado um dos mais temíveis bandoleiros.

Sonora era o vigia, encarregado de perscrutar os caminhos. Os outros arriscavam o dinheiro mal ganho nos intermináveis jogos de cartas.

A preocupação de Stone não provinha só da convicção de que a "Faca Afiada" ainda há tão pouco uma quadrilha firme, se estava irremediavelmente a desintegrar, mas também do facto de que pela primeira vez tomava consciência, de que havia nele uma tendência para trair a confiança que, como chefe, os restantes depositavam nele. A lealdade sempre fora o traço dominante da sua personalidade. Fora mesmo a lealdade para com um amigo, que o excluíra para sempre do grupo de rancheiros honestos.

Uma tarde, ao regressar do seu costumado passeio pelas margens do rio, Jed Stone ouviu um tiro. Os tiros não eram nada de extraordinário por ali, mas aquele fora dado por uma arma pequena de grande calibre e o eco repetido por várias barreiras, parecia anunciar tempestade.

Ao chegar a casa, viu alguns dos seus homens em pé, formando um grupo. daqueles grupos que ele conhecia tão bem e que são tão ricos em sugestões.

- Croack atirou a Carr - disse Pecos, lentamente.

- Porquê? - perguntou Stone.

- Pergunta-lho a ele.

Stone hesitou por um momento no limiar da porta.

Hesitava por não confiar em Malloy, ou por não confiar em si mesmo? Por fim entrou. O pistoleiro estava sentado em cima da mesa tosca, fumando um cigarro e baralhando as cartas. Carr estava sentado num banco, todo dobrado sobre si mesmo e com a cabeça quase a tocar o chão.

- Está morto? - perguntou Stone, embora soubesse que era inútil a pergunta.

- Tem piada! - limitou-se a dizer Malloy, fazendo acompanhar as palavras de um riso sinistro.

- Não vejo onde esteja a piada! Porque é que disparaste?

- Ele fez batota - volveu Malloy, quase queixoso.

Foi a vez de Stone rir. A justificação da Malloy era incrível.

- Acredito, mas vocês todos fazem batota, quando podem. Carr era talvez o mais hábil, mas não tens o direito de matar um homem só porque consegue fazer mais do que tu és capaz de fazer.

- Ele ganhou todo o dinheiro... E aí é que está a questão.

- Bem vejo. E onde está o dinheiro?

- Ele estava a metê-lo ao bolso e não parava de se rir de nós - Foi isso que me fez subir o sangue à cabeça. Acusei-o de ficar com as cartas que lhe convinham e ele disse que eu é que o costumava fazer. Ora, todos sabem, que nunca tive habilidade para santo. O mais que consigo , é de vez em quando, apanhar duas ou nenhuma conforme me convém.

Stone chamou os homens que estavam no pórtico.

- Revistem Carr e ponham em cima da mesa o que encontrarem.

Depois levem no e enterrem no... Bem longe daqui.

- Que vais fazer ao dinheiro? - perguntou Malloy, apontando para as moedas e notas que se iam amontoando em cima da mesa.

- Dividi- lo, de acordo com aquilo que cada um de vós perdeu.

Seguiu se acalorada discussão, em que cada um procurava determinar quanto é que Carr lhe ganhara. Lang, Lonestar e muito especialmente Red mentiam à grande. Malloy admitiu simplesmente que não sabia quanto tinha perdido, embora soubesse que tinha sido todo o seu dinheiro.

Por fim, Stone resolveu o problema, dando a cada um a soma correspondente, ao que lhes cabia dos lucros do último negócio de gado. Houve quem resmungasse e as coisas azedaram-se a tal ponto, que o próprio Stone com o auxílio de Pecos, teve de agarrar em Carr e ir enterrá-lo na floresta. Se o não fizessem, ninguém mais o faria.

- Carr merecia isto mesmo! - comentou o texano. - Ele fazia tenções de se ir embora com todo este dinheiro.

- É possível!? Quem te disse uma coisa dessas? - perguntou stone, atónito.

- Foi ele mesmo. Garantiu-me que nos abandonava, logo que juntasse uma certa quantia.

- Ele disse isso em frente de Croack?

- Está bem de ver que sim. Foi na frente de todos.

- Então foi por isso que Croack o mandou para o outro mundo.

- Deve ter sido.

- Pecos, achas que isto vai ter consequências boas ou más para a "Faca Afiada"?

- Vai ter umas e outras... Carr era um desordeiro e um homem que nos não convinha ter entre nós. Por outro lado o facto de que nos queria trair e também o facto de que Croack o matou a sangue frio... é muito grave. A "Faca Afiada" não vai por bom caminho...

- Hum... O dinheiro arranja se com demasiada facilidade... o trabalho não é nada que se compare ao que costumávamos ter... e aquele Bambridge.

Pecos acenou com a sua cabeça de falcão, concordando plenamente com o discurso incompleto do chefe.

Dois dias mais tarde, de manhã muito cedo, quando Maddem e lang tratavam do café, Stone viu entrar em casa Sonora, com o seu passo rápido e silencioso.

- Stone, vem aí gente - anunciou em voz baixa.

- Quem?

- Um vaqueiro... a pé.

- Deixem se estar sentados, todos - ordenou, olhando para a porta.

Então Sonora disse-lhe que havia um acampamento no ponto em que o desfiladeiro se torna mais estreito e já fora do que eles consideravam os seus domínios. Sentira o cheiro acre a fumo e partira a fazer exploração, quando de repente avistara o vaqueiro solitário.

Após uma longa espera ouviram-se passos leves lá fora e momentos depois, uma sombra desenhou-se na entrada. Bateram.

- Está gente em casa? - perguntou uma voz clara.

- Entre, quem é...

Um jovem alto, ágil e de ombros largos apareceu. Trazia a cabeça descoberta e o Sol batia-lhe no rosto bronzeado.

- Procuro Jed Stone - disse.

- Sou eu - volveu o chefe. - Quem és tu?

- É Jim Traft! - exclamou Red, muito excitado.

- Exactamente. Mas eu sei falar - interrompeu o jovem visitante, fixando os olhos cor de avelã em Red.

- Jim Traft?. Que queres? - perguntou Stone, atónito.

- Falar contigo.

- Isso não é fácil, embora muitos só achem possível conversar comigo com tiros em vez de palavras.

- Prefiro falar-te a sós.

- Isso não. O que tens a dizer, di-lo na frente de todos.

- Pois bem! - disse Traft, sentando-se num caixote.

Não parecia nem apressado nem nervoso, na verdade, para um rapaz da cidade ainda há relativamente pouco tempo no Oeste, mostrava um extraordinário domínio sobre si próprio.

Stone gostou daquela expressão franca, do brilho dos olhos claros e dos modos de Jim. Lembrou-se de repente, que há vinte anos, ele era muito parecido com aquele jovem confiante, que tinha diante de si.

Traft olhou naturalmente para cada um dos componentes da "Faca Afiada", demorando-se a fitar Croack Malloy, que estava sentado no chão, encostado a um fardo.

- Antes de mais nada, quero dizer-te que não foi o meu tio que me mandou aqui. Fui eu que resolvi vir até cá - comentou traft.

- Não era preciso dizê-lo! - observou Stone.

- Estava resolvido a falar-te desde aquela luta no Paço de tobe.

- Admiro-me da tua coragem!

- Stone, sabes que o meu tio diz bem de ti? - perguntou o rapaz.

- Não pode ser - replicou o bandoleiro devagar e sentindo uma dor esquisita no peito.

- Pois é verdade. Já o tenho ouvido eu e muitos outros. Diz que há vinte anos trabalhaste com ele e que não havia melhor cavaleiro no Arizona. Diz que não pode ter sido de vontade própria que mudaste de vida: Ainda que no fundo nunca foste nem poderás ser um ladrão de gado. Lamenta o que aconteceu.

Stone sentiu que o sangue lhe subia às faces e estremeceu.

Com que então o velho Jim Traft falava abertamente dele? De qualquer modo, percebeu que aquela era uma hora decisiva, talvez até fatal. Ouviu, de repente, o riso sarcástico de Malloy e sentiu se ferido.

- Bem... Jim é um santo homem. mas a sua simpatia por mim não pode levar a nada - replicou em voz rouca.

- Não investiguei a verdade das palavras do meu tio, mas acredito plenamente em tudo quanto ele diz. Foi isso que me deu coragem para te procurar.

- Não teve inconveniente nenhum a tua visita, mas não posso deixar de te fazer notar que foi um tanto arriscada.

- Não pensei sequer que o pudesse ser. Curly Prentiss disse que eu era maluco, é certo, e Slinger Dunn apostou dez contra um, que eu não voltaria. Eu tinha a certeza que não seria assim e que nenhum mal me poderia acontecer. Não vim levantar questões...

- Bem, Traft, se me não tivesses encontrado aqui, talvez te não tivesses saído tão bem.

- Arrisquei-me, não importa. Mas, Stone, antes de te fazer a proposta que me trouxe aqui, tenho mais umas coisas a dizer... Já agora quero aproveitar a oportunidade.

Jim Traft sorriu e de novo olhou para os homens de Stone, demorando-se a olhar Malloy, que parecia fascinado.

- Fui a Winslow assistir a um embarque de gado. Fui com prentiss e vimos uma enorme manada ser metida à pressa num vagão de carga. Prentiss jurou que iam ali os novilhos mais bonitos que já tinha visto até então. Bem, fomos ao embarque durante uns dois minutos. Muitos não estavam marcados. mas outros tinham a marca do Diamante. A minha marca, Stone! tratava se do meu gado e isso era tudo o que me interessava saber. Encontrei Bambridge e fiz-lhe notar que estava a embarcar o que lhe não pertencia. Riu-se e desculpou-se, afirmando tratar-se de um engano. Claro que bastava olhar para ele, para ver que mentia com quantos dentes tinha na boca. A nossa conversa não foi pois feita de amabilidades, como facilmente supões. Ele exaltou-se e foi ao ponto de declarar que o velho Jim Traft também já cometeu erros semelhantes. Que te parece isto de ele acusar o meu tio de roubar gado?

- Não deixa de ter graça - respondeu Stone. - Mas, a verdade é que todo o rancheiro fica, de vez em quando com gado que não lhe pertence. É inevitável. Os rancheiros desonestos, claro que se aproveitam disso, para deitar as unhas em tudo quanto podem... há o recurso da marca é certo, mas tem muitos inconvenientes...

- Bambridge não se referia a essa possibilidade de ficar com gado alheio, por mera confusão e foi isso que me pôs maluco.

Enfim! De qualquer modo, atirei-me a ele. mas, Stone, és talvez, amigo de Bambridge?

A pergunta inesperada do rapaz fez rir Malloy e pôs um sorriso no rosto duro de Jed Stone.

- Não. Podes estar descansado que a amizade entre nós não é nenhuma. Ainda bem que lhe bateste!

- Depois arrependi-me. Cá no rancho todos me disseram que procedi mal e que isto pode dar sarilho. Não sei o que senti dentro de min: naquele momento.

- Traft, se não me engano, ainda acabas por derramar sangue e não tardará muito.

- Deus me livre! Não sei como foi aquilo. Prentiss disse-me que depois de ter batido em Bambridge, puxei da pistola e fiquei à espera. Bem, mas o que eu queria dizer-te é que até agora, nenhum dos meus três mil novilhos apareceu. Estou acampado lá em baixo, entre rochedos e ainda não fui ao "Colete Amarelo". Ring Locke garantiu-me que o meu gado estava lá, mas enganou-me. Gostaria que me dissesses - e não penses que estou a insinuar alguma coisa - se sabes onde está o gado...

- Não sei, Traft - respondeu Stone, com a calma de quem diz a verdade absoluta.

- Tenho a certeza que Bambridge contratou alguém para roubar o gado. Não te acuso Stone. Sei bem que há mais do que uma quadrilha, por estes lados. Se me dizes que a "Faca Afiada" não roubou gado do Diamante, acredito em ti.

Seguiu se um estranho e prolongado silêncio. Todos pareciam espantados com a coragem daquele jovem.

- Isso é de um idealista e... de um rapaz que pouco conhece da vida. Não tenho informações a dar-te.

- Isso basta para mim - volveu Traft com um brilho significativo nos olhos claros. - A minha missão é fazer uma limpeza no "Colete Amarelo".

- Hum. Uma limpeza, como?

- Varrer de lá os animais que não dão lucro, as cobras, os lagartos. também os cactos e ervas daninhas. enfim tudo o que impede o "Colete Amarelo de se tornar um rancho como deve ser.

- E o plano já está elaborado?

- Esta minha visita é o primeiro passo! - prosseguiu Jim, muito sério. - Estou resolvido a dar uma grande reviravolta em tudo isto... e se chegar ao fim com vida, penso construir uma casa espaçosa e confortável, que será a minha casa.

- A tua casa?!.. E casas com uma pequena de cá? - perguntou stone, vivamente interessado.

- Já está escolhida. É Molly Dunn.

- Molly Dunn? Aquela beleza de Cibeque!?... Bem, Traft, tenho de concordar que tens bom gosto e que sabes agir como convém. Conheço Molly, porque costumava ir lá ao armazém. a última vez foi há um ano. Slinger e eu fomos amigos em tempos.

Ela é a rapariga mais bonita que conheço e. a melhor também.

- Obrigado pelo cumprimento. Hei-de lha dizer a ela!... E, não achas que era uma pena que alguém acabasse comigo à pistola, quando tenho para a Primavera um plano tão maravilhoso?

- Com certeza que era pena para Molly. Até agora praticamente não sabe o que é felicidade. Mas, se queres casar com ela, porque te metes em sarilhos?

- Não me meto em sarilhos. Pelo contrário, todo o meu interesse é evitá-los. Mas o "Colete Amarelo" é um rancho com possibilidades e pertence-me. Não posso proceder doutro modo! Stone sacudiu a cabeça, pensativo, como se o problema fosse, de facto difícil de resolver.

- Mas há ainda mais. Ha! Ha! A minha irmã que tem dezanove anos, chegou a Flag há dias. Veio viver comigo. Não está muito bem de saúde e os médicos são de opinião que os ares do Arizona lhe vão fazer bem. Também tenho fé neles. Ela já está até melhor. Também se não sentia feliz, quando aqui chegou, mas isso passa com o tempo. Por enquanto, está muito cheia da cidade. e tem havido uns certos choques, com o Oeste...

Compreendes? Eu espero que isso passará. Ora, ela está ao meu cuidado e mesmo que não houvesse uma Molly Dunn a justificar a minha vontade de viver, haveria a minha irmã... E é tudo!

- Obrigado, pela confiança que depositaste em mim. A tua situação é deveras complicada.

- Queria que a conhecesses exactamente. Não tenho medo de lutar. Parece-me até que por vezes chego a ter prazer na luta.

Mas agora é melhor não esquecer o bom senso. Vim aqui para te dizer a ti e aos teus que saiam do "Colete Amarelo". Prefiro evitar conflitos e a verdade é que se não saírem, terei de os pôr daqui para fora. Posso ser inexperiente, mas não sou tão tolo que não compreenda que uma luta significaria uma quantidade só por mim, como por ti também. É por esse motivo que resolvi falar-te com toda a franqueza. Posso oferecer-te dez mil dólares, mas mais do que isso é impossível, porque o tio nunca me daria um tostão para tal fim.

- Nunca seria capaz de aceitar esse dinheiro - replicou Jed stone, passeando agitado de um lado para o outro.

Enquanto assim passeava, olhando casualmente para um ou outro dos seus homens, Stone notou nos olhos de Croack Malloy um brilho que profundamente lhe desagradou. Sabia bem do que aquele bandido era capaz.

- Agradeço-te muito, Jim, mas não posso aceitar o dinheiro.

No entanto podes confiar em mim. Apesar de tudo, Jed Stone não é homem para se atravessar no caminho de um rapaz como tu. Eu saio do "Colete Amarelo", mas não quero receber nada por isso.

- Essa é uma atitude digna, Stone! - exclamou Traft, espantado e exultante. - O tio tinha razão!. Não sei como te hei de agradecer.

- Não tens nada a agradecer.

Jim Traft levantou-se e avançou para Stone, de mão estendida.

- Sempre me lembrarei de ti, como um dos grandes homens que conheci no Arizona. Deste-me uma grande lição.

Stone apertou a mão que lhe era oferecida, mas não proferiu uma única palavra.

E Traft afastou-se em direcção à porta, onde parou por momentos, enrolando um cigarro à maneira do Oeste.

- Bom dia e boa sorte... Para ti e para os teus homens.

Se tivesse olhado para o rosto daqueles homens, dificilmente teria pronunciado tais palavras.

No momento em que, de fósforo aceso, o aproximava do cigarro, ouviu-se um tiro. O fósforo caiu e a bala foi espetar se na madeira escura. Traft ficou imóvel, rígido como uma estátua, incapaz de mexer os dedos da posição em que estavam e com uma expressão desolada no rosto.

Seguiu-se outro tiro. O cigarro saltou-lhe dos lábios e outra bala se foi juntar à primeira.

- Estes são os meus cumprimentos, pela sua amabilidade, senhor Traft! - crocitou Malloy, numa voz cheia de ameaça.

Lentamente Traft foi perdendo a rigidez e voltando a cabeça, fixou o bandoleiro nos olhos.

- Santo Deus! - Foste tu que atiraste.. ao fósforo e ao cigarro?... - perguntou com voz rouca.

- Sim. Não queria que to fosses embora, sem teres uma amostra do que é a "Faca Afiada".

- Mas, podias ter-me atingido a mim... pelo menos na mão! - protestou Traft, sentindo o sangue subir-lhe à cabeça.

- Eu? Ha! Ha! Ha!... Só atinjo aquilo a que faço pontaria.

Podes contar o sucedido a Slinger Dunn e a Curly Prentiss.

- Seu patife!. - explodiu Traft, furioso.

Nesse momento, Stone avançou para Malloy, sem fazer ruído e sem que os outros disso se apercebessem.

O rosto de Jim Traft estava congestionado e o seu corpo magro vibrava de raiva mal contida. Por sua vez, Croack-Malloy, espicaçado pelo epíteto de "patife"-voltara a fazer pontaria.

Com um gesto rápido, o chefe atirou a pistola por terra.

- Croack, pensei que já tinhas gasto hoje balas suficientes! - disse com frieza.

O bandoleiro nem tempo teve para responder, pois com três passadas já Jim Traft se pusera a seu lado. O rapaz parecia uma fúria e com mão enérgica, agarrou o outro pela camisa e atirou-o ao chão.

Começou a luta, ora com vantagem para um ora para outro.

Traft, ágil como um gato selvagem, não dava tréguas ao seu adversário.

- Bandido... Patife - ofegava Traft. - Podes ser bom atirador... mas és um grande cobarde.

E com um murro na cabeça, atirou Malloy contra a porta. O bandido vacilou, tentou equilibrar-se, e levantou-se ainda, mas apenas para ser de novo atacado e projectado pela porta fora. Rolou no chão por um instante e ficou imóvel.

Traft ficou novamente rígido, de olhos faiscantes. Depois, meteu a mão no bolso, de onde tirou um cigarro e um fósforo, mas desta vez os dedos tremiam-lhe e teve dificuldade em acender o cigarro. Tinha o cabelo em pé, desalinhado, como a juba de um leão.

Por fim, voltou-se para Stone e de novo o surpreendeu com a honestidade e confiança, que lhe transpareciam nos olhos límpidos.

- Fui um pouco imprevidente. Não importa. De qualquer modo, desejo te felicidades.

Quando o rapaz atravessava o limiar da porta, Malloy, apoiado nas mãos e nos joelhos esforçava-se por se pôr em pé, emitindo uma espécie de grunhido gutural.

Traft descalçou uma das botas pesadas que trazia e deu-lhe uma pancada com ela. O bandoleiro voltou a cair, de cara para o chão.

Stone foi até à porta e ali ficou, vendo a figura esbelta e ágil de Jim desaparecer por entre as árvores. Depois olhou para Malloy com uns olhos em que havia satisfação e ironia.

- Muitos recordarão este dia... até ao fim da sua vida! - profetizou a meia voz!

 

Jim Traft não parou nem abrandou a marcha, desde que saiu dos domínios da Faca Afiada até que chegou à bacia, que em pleno desfiladeiro, escolhera para acampar. Só aí se deteve, para se recompor das emoções que sofrera e para dar ao seu aspecto exterior uma nota de arranjo, que a luta lhe fizera perder.

- Meu Deus! - exclamou, falando sozinho. - Estou a ficar pior de hora para hora. Ainda algum dia acabo por matar alguém. É tão certo como dois e dois serem quatro.

Continuou a andar, sem abandonar nunca os seus pensamentos e momentos depois acrescentou

- Isto é... Se me não mandarem para o outro mundo, antes disso.

A vereda seguia o ribeiro. Ninguém seria capaz de dizer, estando ali, que o pino do Inverno estava praticamente chegado. As árvores de folhas amareladas, algumas conservando ainda laivos esverdeados, estendiam os seus ramos baloiçantes por sobre o caminho e as águas. Veados e perus selvagens espreitavam por entre arbustos, nem sequer se dando ao trabalho de procurar esconderijo, quando alguém se aproximava.

Os pica-paus martelavam os troncos ocos de árvores mortas e os esquilos pretos apressavam se na sua faina.

O murmúrio da corrente chegava aos ouvidos como uma melodia ouvida em sonhos, à qual se misturava o lamento suave da brisa nos pinheiros. O carácter selvagem da região aumentava, à medida que Jim Traft prosseguia no seu caminho. A água abundava e embora a maior parte apresentasse já uma tonalidade amarelada, o efeito era ainda de frescura.

Em breve Jim abandonou o caminho e meteu pela floresta, em direcção a uns penhascos enormes, vermelhos e cinzentos, que dominavam a paisagem. Um veado, feio como um búfalo, atravessou-se-lhe na frente e o rapaz sorriu.

Os animais sentiam se ali perfeitamente à vontade tal como ele.

Ao chegar a uma plataforma rochosa, deitou-se ao Sol, ficando rodeado de verde por todos os lados, excepto por um, em que dominavam os pedregulhos. Se algum dia tivesse da abandonar o Arizona, levaria sempre consigo na memória a lembrança daquela terra maravilhosa por que se apaixonara. Se tonto, o Vale de Cibeque e principalmente o Planalto do diamante o tinham entusiasmado, como poderia jamais exprimir o que lhe ia na alma, naquele desfiladeiro agreste. Estava absolutamente fascinado! No fundo da alma sentia a alegria de quem pisa a terra para que nasceu.

Ali, passava muitas horas completamente só, como estava agora, sem se preocupar com nenhum problema, sem sequer pensar em Molly. Sem pensar em nada. Era um estado de espírito diferente de qualquer outro, um estado de espírito que ele nunca se dera ao trabalho de tentar compreender. E não o tentava, porque o que sentia era felicidade e receava que, esforçando-se por o compreender, ela desaparecesse. Todo aquele encanto se prendia a ele, como que por magia.

- Talvez tenha sido parvo! - considerou a meia voz, quando começou a pensar na sua situação: - Stone mostrou que é realmente um homem às direitas, como sempre, mas a "Faca Afiada" não é só ele... Bolas!... Aquele corvo ainda agora me causa calafrios!... A verdade é que me pregou um susto... E no entanto, a certeza que naquele momento eu não corria O pior foi quando lhe chamei patife! Desta vez é que, se não fosse stone, teria ido desta para melhor. Não há dúvida que aquele era Croack Malloy. Nunca conseguirei esquecer-me da sua cara, nem da dos outros. São um grupo de meter medo!. Com certeza que se vão opor a que Stone abandone o "Colete Amarelo". De qualquer modo, parece-me que Jed Stone ficou bem impressionado comigo. Hei-de contar tudo aos vaqueiros e sempre quero ver o que eles dizem.

Se Jed Stone abandonasse, de facto, o Colete Amarelo cumprindo a palavra dada, a tarefa de Jim seria imensamente simplificada. Poderia imediatamente pôr os homens a tratar das terras, derrubar as árvores e arranjar madeira, levando-a logo para o sítio onde projectava construir a sua casa. Pensara em arranjar o rancho, tirando-lhe muito do seu aspecto selvagem, mas resolvera já proceder de outro modo. Queria que o rancho conservasse a sua feição característica e por isso não deitaria sequer a baixo a casita de madeira, que há tanto tempo abrigava a quadrilha da "Faca Afiada". Com o tempo, aquele barracão ganharia um valor simbólico. Precisaria de todo o Inverno para tratar da madeira e de tudo o mais que seria necessário para a construção.

Se Stone se retirasse e levasse os seus homens - e aqui é que surgia o problema, pois que Jim Traft tinha muitas dúvidas quanto à atitude destes - poderia ir Passar o natal a Flag.

Como isso seria maravilhoso!. Mas logo uma ideia lhe ocorreu e o deixou perplexo. Nesse caso, os vaqueiros iriam também a flag. Haveria complicações.

E o rapaz suspirou ao pensar na festa que o tio dera em honra de Gloriana May Traft. Tinha sido um baile maravilhoso a que não faltara ninguém de Flag e arredores, um baile de que os vaqueiros se lembravam cada vez com mais saudades. Ou seria de Gloriana que eles se lembravam daquela maneira? Que sucesso ela fizera... com as suas feições distintas e os seus olhos cor de violeta! Parecia uma princesa e tinha posto muitas cabeças à roda.

Conseguira que Slinger dançasse, um facto que, segundo Molly, não tinha precedentes. Mostrava, porém, preferência por curly Prentiss, o que transtornara o pobre vaqueiro.

no fundo simples como uma criança, Enfim, Gloriana tornara a vida insuportável a Bud e Cherry, para não mencionar os, outros. Fora uma noite inesquecível, deliciosa e tudo estivera bem, menos a expressão nos olhos dourados de Molly dunn. Como Jim se lembrava daqueles olhos! Molly não se mostrava invejosa, pelo contrário, parecia fascinada pela beleza régia de Gloriana. Mas havia qualquer coisa que não estava bem. E Jim fora obrigado a deixar Flag, sentindo que a chegada de sua irmã viera pôr um estorvo à felicidade de Molly. sem que no entanto houvesse compreendido bem o que acontecera.

O rapaz teve de recorrer à lembrança da ternura de Molly e aos sonhos de amor que acalentava para o futuro, para afastar para longe os seus receios. Sabia que Molly o amava profundamente e que nada a levaria a afastar-se dele. Era natural que Gloriana, com o seu encanto e a distinção natural que acompanhava cada um dos seus gestos, causasse certa mortificação à rapariguinha de Cibeque, que assim era levada a considerar a sua origem humilde.

Procurava esquecer tais ideias, convencendo-se que com o tempo tudo se resolveria.

E Jim refugiou-se na recordação dos últimos momentos que passara com a sua amada, em que acontecera, ela lhe dera provas de uma ternura apaixonada. Tais lembranças bastaram ainda desta vez para afastar as dúvidas que pairavam sobre ele.

Por fim, levantou-se já tranquilo e meteu a corta mato para o acampamento. Ia de tal modo distraído que, quando Slinger dunn lhe apareceu à frente, surgindo por entre os maciços de árvores baixas, deu um pulo.

- Que susto, Slinger! - exclamou aliviado, ao reconhecer nele o amigo. - Sempre me fazes cada uma!

- Olá? A julgar pela distracção em que vinhas, deves ter estado a sonhar ao sol.

Não havia nada a fazer. pois nada podia escapar à observação de Dunn. De resto, comentários como este agradavam sempre a jim que via neles uma mal disfarçada afeição do irmão mais velho. E não era só Slinger, pois que todos os outros vaqueiros se preocupavam, quantas vezes sem razão, só porque ele se demorava mais um pouco.

Todos se entendiam bem e a entrada do irmão de Molly para o rancho fora saudada com entusiasmo.

Slinger parou, apoiando-se à espingarda e Jim pôs se a observar-lhe os olhos tão parecidos com os de Molly e apenas um pouco mais escuros e penetrantes como a lâmina de um punhal. Estava sem chapéu, como aliás andava quase sempre e o cabelo comprido quase lhe tocava os ombros. O seu fato simples de homem da floresta hesitava entre tonalidades várias de verde e cinzento, num conjunto que facilmente se confundiria com as pedras e as folhas.

- Pareces preocupado, Jim.

- Hum. Não admira...

- Que tal te recebeu Jed?

- Muito bem. É um belo homem... ainda que o considerem um bandoleiro!

- Já esperava que gostasses dele. O meu medo era por causa de Croack Malloy e do mexicano.

- O tal mexicano, nem lhe ouvi a fala! Mas... travei conhecimento com o senhor Malloy, que cruciou... e fez uso da arma. É verdade! Quando chegarmos ao acampamento contarei o que se passou. Não me apetece repetir a história duas vezes.

Que tal estão os vaqueiros? Quase tenho medo de os deixar sós.

depois da festa.

- Curly deu um valente murro a Bud e rebentou-lhe com o nariz.

- Mais nada?

- Já não foi pouco! Pelo menos para Bud.

- Eles no fundo são amigos, mas não podem deixar de se pegar. Porque é que foi a questão hoje?

- Por causa das pernas de Gloriana.

- O quê?! - exclamou Jim, furioso.

- Não ouvi Bud, mas ouvi muito bem O que dizia Curly. De resto, podia ouvir-se a uma milha de distância.

Parecia maluco. Quanto a mim, ia morrendo a rir. e ainda

hei-de rir mais quando contar a história a Gloriana.

- Sim? - perguntou Jim, pouco à vontade -, Seria talvez melhor contares-ma a mim primeiro.

Slinger Dunn estava há pouco tempo no rancho e em muitos aspectos era ainda um desconhecido, de modo que tais precauções se justificavam plenamente.

Por fim, Jim concluiu que Bud Chalfack, tão simples e inocente à sua maneira de vaqueiro, como Slinger Dunn, se demorara a falar elogiosamente dos pés de Gloriana, depois dos seus tornozelos e aí por diante, o que muito aborrecera Curly.

Como Bud insistisse em elogiar as pernas da rapariga, o gigante irritara-se, afirmando não poder consentir em que se insultasse a irmã de Jim. E deste modo, apesar do infeliz Bud protestar a sua inocência, Curly saltara-lhe em cima e amachucara-lhe o nariz.

Jim não sabia bem qual a atitude a tomar: Se rir da ingenuidade do vaqueiro, se censurar o seu comportamento.

Como tinha previsto no dia em que recebera notícia da chegada próxima da irmã, reinava no rancho a maior agitação.

O local onde tinham acampado, sem dúvida, o sítio mais belo que Jim pisara já, ficava numa garganta onde um ribeirito claro deslizava palrador por entre pedras. As margens deste estavam orladas de ervas e pequenas floritas selvagens, algumas das quais cintilavam como oiro quando o sol as tocava.

Pedregulhos enormes, meio escondidos pelos pinheiros gigantes, elevavam se um pouco mais adiante.

Jim avançou para os vaqueiros e deve tê-lo feito com grande dignidade, pois que era seu desejo explorar ao máximo a oportunidade que se lhe deparava. Curly levantou-se mal o viu e avançou para ele um tanto confuso.

O rapaz adivinhou que o outro se não sentia muito à vontade.

Quanto a Bud estava sentado à margem dos outros, com um ar desconsolado e o nariz em péssimo estado.

- Que foi afinal o que Slinger acaba de me contar? - perguntou com voz firme. - Qual é que insultou a minha irmã?

- Eu não insultei ninguém. Palavra de honra que não - apressou-se a assegurar Bud.

- Então Slinger mente?

- Se diz que a insultei, mente - replicou Bud.

- E então Curly esmurrou te o nariz sem razão?

- Sem razão, talvez não fosse. Eu falei da tua irmã, mas não insultei ninguém.

- Bud Chalfack, tiveste o descaramento de falar das pernas de minha irmã, na frente destes homens?

- Escuta, Jim, por favor - implorou Bud. - É verdade que eu falei das pernas dela... mas foi um elogio, não um insulto...

Jim levantou um pé e atirou Bud ao chão, levantando para ele um punho ameaçador.

- Jim, não me batas. Já apanhei bastante de Curly e tu ainda és pior do que ele.

- Hei de partir te esses queixos, seu desavergonhado!

- Tu não compreendes. Estava excitado e o que disse foi que a menina Gloriana é muito bonita. É verdade que pretendia espicaçar Curly, mas não queria ofender ninguém. Peço desculpa.

- Que dizes? - perguntou Jim, sempre na mesma atitude e olhando agora para Curly.

- Não teve importância. Já me esqueci disso.

- Curly, vem cá - chamou Jim, com voz dura, fazendo avançar o gigante, muito a contragosto deste.

- Já que te armaste em defensor de Gloriana, repete exactamente o que aquele idiota disse a seu respeito. E nada de aldrabices. Vamos! Curly parecia sentir se ainda pior do que Bud, embora aparentemente não houvesse razão para isso, a não ser talvez a visível irritação de Traft. Não parecia naquele momento o cavaleiro de uma bela dama. No entanto e com grande esforço, lá conseguiu por fim repetir as palavras que Bud pronunciara e que ele tomara por ofensivas. Jim verificou por elas que Bud estava absolutamente inocente e exultou, embora o não deixasse perceber logo.

- Hum! Com que então és dos tais! Hás de pagá las, Bud chalfack. Retiras o que disseste?- Negas tê-lo dito?

- Não! - gritou o vaqueiro, furioso - podes fazer-me o que quiseres, mas o que disse está dito. Seria até capaz de o dizer outra vez, porque é a verdade!

Bud mantivera-se fiel ao seu código de honra e o rancheiro admirou-o por isso. Apenas lhe desagradava a familiaridade com que aqueles homens discutiam os encantos de Gloriana.

Era inevitável e não tinha no fundo mal nenhum, apesar disso aborrecia-o que assim fosse.

De súbito, ocorreu-lhe uma ideia, a que logo se agarrou para sair da encrenca em que se encontravam. E nunca tencionara castigar Bud, a não ser que se tratasse de uma ofensa real.

Deixou-o, portanto em paz.

- Não vale a pena fazer-te nada! - declarou, fingindo-se triste e resignado -, não adianta bater-te, que era o que eu devia fazer... mas, fica sabendo que contarei a Glory exactamente o que se passou.

- Não!... - exclamou o vaqueiro ofegante.

- Está resolvido que sim.

- Mas, Jim, pelo amor de Deus, não vês que se contas algumas coisas vais ter de lhe dizer que Curly me bateu e eu acabo por aparecer aos olhos dela como um cobarde, enquanto ele parecerá o herói? Não faças isso, Jim! Não acredito que sejas capaz de uma acção dessas.

- Curly nunca disse de Gloriana o que tu disseste, pois não?

- Nunca lho ouvi dizer, mas pelo menos, pensa-o. E muito mais do que isso!

- Bud, não é essa a questão. Se achas uma rapariga bonita não te bastam os olhos, o cabelo, a boca? Não te poderias dar por contente dizendo que os olhos de Gloriana são dois poços de luz na noite, que os seus cabelos parecem de ouro e que os lábios se assemelham a cerejas maduras?

- Claro que sim. Mas nunca estudei nenhum dicionário! E com trinta diabos, uma rapariga bonita tem mais do que olhos, cabelo e boca!...

- Direi a Gloriana - insistiu Jim inexorável.

- Prefiro que me batas.

- Não te quero bater. Terás o castigo que mereces e não tardará muito. Vamos passar o Natal a Flag. Jed Stone concordou em sair do "Colete Amarelo" e portanto estamos livres, pelo menos, por agora.

- Viva! - exclamaram todos em coro.

Só Bud não mostrou qualquer sentimento de alegria.

- Vou para lá embebedar-me e dou cabo do rancho - observou tristemente.

- Agora, oiçam e digam-me o que pensam do assunto - disse jim, sentando-se em cima de um fardo, enquanto os vaqueiros se reuniam à sua volta.

Assim começou a contar detalhadamente a sua visita á "Faca Afiada" tendo o cuidado em não omitir pormenores, pois que eles lhe pareciam todos da maior importância. Quando acabou, seguiu se um silêncio inquietante, que Slinger Dunn quebrou por fim.

- És um homem perdido! Santo Deus, o que foste fazer! - exclamou com uma expressão de horror no rosto que Jim se habituara a ver impassível.

- Jim! Desafiaste os bandoleiros mais temidos do Arizona - declarou Curly Prentiss.

Um a um todos os outros foram fazendo observações do mesmo teor, até que já só faltava Bud.

- Continuas tão confiante e ingénuo como quando chegaste ao Oeste - disse. - Não és pessoa para te encarregares de uma missão como a que tomaste sobre ti. Não te pedi que me deixasses ir contigo? Não te disse que levasses Curly? Agora, estamos metidos em boa!

- Tens razão - concordou Jim, pensativo.

- Se ao menos tivesses morto Malloy.

- Nem sequer tinha arma - desculpou-se o rapaz -, fui desarmado, precisamente para não fazer alguma.

- Isso foi outra asneira - disse Curly -, Jed Stone é homem de palavra e portanto cumprirá o combinado.

- Mas ele é apenas o cérebro da "Faca Afiada". Croack Malloy é, por assim dizer, o chefe militar. Vais ver o que nos espera!

- Agora não tem remédio! Lamento muito. Foi uma loucura.

Resta nos pensar juntos o que há a fazer. Fala tu, primeiro, slinger...

- É melhor esperar. Jed vai se embora, Pela certa, mas o mal é que é capaz de ir só. Se isso acontecer o perigo será, pelo menos dez vezes maior, do que se ele ficasse e nos atacasse.

- Talvez consiga convencer os outros a abandonarem também o "Colete Amarelo" - disse Curly. - Stone tem capacidade para persuadir os outros, é o que se diz por aí.

- De resto, não há aqui neste momento gado que lhes possa interessar. O nosso gado levou bom caminho! Ha! Ha! Ha!

- Era pobre, não tinha nada e sentia-me tão rico, antes do que aconteceu - comentou Slinger Dunn, melancólico.

- Slinger, continuas a ter interesses no rancho. O meu tio tomará precauções para que não fiques prejudicado.

Descansa.

- Deus permita que sim.

- Vamos mas é ao que importa! - interrompeu Curly, sentindo que a conversa se estava a desviar do essencial.

- Conheço bem as quadrilhas do Oeste. Jed Stone vai mudar de base, mas ficará nos desfiladeiros. Há Por aqui muita coisa que lhe pode servir. A "Faca Afiada" vai esconder-se por aí, para depois fazer o seu jogo à descarada. Stone acabará por deixar os seus homens e a quadrilha passará a ser bem mais de temer do que o é já agora. Enquanto Malloy estiver vivo, não haverá paz. Mas decerto, até à Primavera não acontecerá nada.

Jim deixou-se ficar calado. Respeitava as opiniões de Curly prentiss, e o que era mais importante, não se lembrava que não estivessem certas. Curly era velho em conhecimento do Oeste, e na sua educação e inteligência estavam muitos vaqueiros vulgares.

- Não - disse Jim -, ficaremos aqui, com vigia montada de dia e de noite. Slinger encarrega se da "Faca Afiada" e de saber o que se lá passa.

- Jim, com certeza que não vou deixar de pescar por causa desses idiotas - declarou Bud, sempre rebelde.

- Pescar?

- Estás maluco, Bud! Qualquer coisa te deu volta ao miolo, pela certa. Pescar em Dezembro!

- Não sou eu o único maluco! - replicou Bud, levantando-se e falando de tal maneira que Jim pressentiu tempestade.

De facto, o olhar faiscante de Bud anunciava-a claramente. O vaqueiro avançou até uma árvore próxima e metendo a mão por entre a folhagem, tirou de lá um fio cheio de trutas, que apresentou ao rapaz.

- Jim, como vês, percebes muito do Oeste, de caça, de pesca... ladrões, bandoleiros... raparigas e tudo o mais, não é verdade?

- Bud, bem sei que ignoro muitas coisas. - admitiu Jim, um tanto confuso. - Trutas em Dezembro!... Com trinta diabos! pensei que estávamos no Inverno! Dou-te uma arma nova em folha, se me disseres como é que se apanham trutas neste tempo.

- Não me apetece dizer. Aliás, se não for eu, ninguém mais te Poderá informar - replicou Bud, muito calmo, consciente de que tinha os trunfos na mão.

- É verdade - disse Curly -, Bud não dá nada na caça, mas quanto a pesca, muitas vezes nos tem deixado de boca aberta.

Dá a impressão que os peixes saem da água para lhe caírem aos pés.

Entretanto Jim estudava o rosto contraído para conseguir penetrar-lhe na expressão. Percebeu que o vaqueiro seria capaz de ir ao fim do mundo, para que nada fosse dito a Gloriana da discussão da tarde.

- Ficas no acampamento! Estás a ouvir?

- ordenou jim, com voz firme.

- Estou. Não sou surdo.

Passaram dois dias calmos, em que os homens se limitaram a cheirar os ares. Slinger Dunn regressou ao acampamento, apenas no fim do segundo dia, depois de uma demora, que, porque inesperada, trazia Jim e Curly inquieto. Slinger apareceu acompanhado de Uphill Frost, que estivera de guarda no caminho.

- A quadrilha foi se embora - anunciou Frost -, passaram bem perto de mim e não sei como tive força para me conter, quando o meu desejo, era rebentar a cabeça a Malloy.

- Tens a certeza? - perguntou Jim excitado.

- Sim, absoluta. Foram embora hoje, por volta das duas horas da tarde. Tencionava vir dar a notícia imediatamente, mas slinger passou por mim e pediu-me que esperasse até que ele voltasse. Os bandoleiros eram oito e levavam uma quantidade de animais de carga.

- Para onde terão ido, Slinger? - perguntou Jim, excitado.

- Seguidos durante dez milhas e amanhã irei a cavalo investigar da direcção que seguem. Calculo que devem ir para o desfiladeiro Negro.

- É longe?

- Umas vinte milhas a direito.

- É perto demais, para que nos possamos sentir tranquilos.

- Hoje estive mesmo juntinho à casota deles - disse Dunn. - O primeiro que vi, foi Sonora a preparar os cavalos. Como ele é o único de quem tenho realmente medo, escondi-me atrás duns arbustos, não fosse acontecer-me alguma. Fiquei assim suficientemente perto para lhes ouvir as vozes, mas não para perceber o que diziam. Só sei que se tratou de uma discussão dos diabos. Ora preparavam as coisas, ora se pegavam à pancada. Embora não ouvisse distintamente as palavras, o barulho e as pragas foram mais do que suficientes para me pôr a par do que se passava. Malloy não queria abandonar o "Colete Amarelo" e os outros estavam todos do lado dele. Stone, porém, manteve se firme e por volta do meio dia tudo estava decidido.

- Que alívio! - exclamou Jim.

- Realmente compreendeste bem a situação! - disse Bud, sarcástico. - A "Faca Afiada" vai esconder se aí em qualquer parte e voltará para atacar. Quando tiveres feito do "Colete Amarelo" um rancho em condições, eles aí estarão.

- Eu... Eu - gaguejou Jim.

- Não duvido que Malloy volte - declarou Slinger -, Ele saiu daqui de muito má vontade.

- A vida é curta no Arizona. Quem sabe o que nos espera?

- disse Curly, quase alegremente. - Pode ser que Malloy apareça até antes da Primavera.

- Curly Prentiss, tens alguma coisa na cabeça! - disse Jim.

- Cabelo ondulado e quase sempre um sombreio -, declarou bud, mal humorado.

- Pois claro que tenho. Há cá miolos, que trabalham e procuram ver o que mais convém ao meu patrão e aos meus amigos - declarou o gigante, como se Bud não tivesse falado.

- Também para ver qual a próxima pequena que te convém.

- Para mim, não haverá próxima pequena.

- Rapazes, vamos construir a casa - interrompeu Jim com uma decisão, que deixou os vaqueiros boquiabertos -, Jeff, deixamos o acampamento amanhã de madrugada. Talvez seja melhor arranjar já algumas coisas hoje. Seguimos para o "Colete Amarelo". Slinger continuará de guarda e nós cortaremos árvores e preparamos a madeira, de que vamos precisar.

- Bonito ofício! - troçou Bud -, para um vaqueiro vem a matar! - Conheço bem o "Colete Amarelo", Jim - disse Curly. - Há lá-madeira para construir uma cidade inteira. É o local mais próprio para um rancho. Merece que lá metas algum dinheiro e todo o nosso trabalho. Faremos uma casa boa e quando estiver pronta irás buscar a tua noiva. No regresso, uma das balas certeiras de Malloy, farte-á saltar os miolos. Não deixa de ter graça! - Hás de ser sempre pessimista! - gritou Jim. - Não és capaz de sonhar um pouco, como todas as pessoas normais?

- Eu?! Não sei o que é sonhar...

- Jim, ele está a sonhar agora mesmo e se soubesse com quê, esmurrava-lhe aquele magnífico nariz - declarou Bud vingativo.

- Bud, estou espantado contigo - disse Jim, sem coragem para mais discussão.

Depois virando-se para todos, disse-lhes que se deitassem, pois teriam de se levantar cedo no dia seguinte.

Ao abandonar o acampamento, Jim imaginou-se um Vercingetorix comandando a linha avançada do seu exército, ao entrar numa das cidades vencidas.

Na sua visita apressada a Jed Stone, Jim mal tivera tempo de notar certos pormenores da paisagem que agora o encantavam.

- Não vai ser nada fácil fazer aqui uma estrada - observou curly. - Talvez seja melhor desviá-la por além.

A vereda contorcia-se, ladeada de sicómoros e arbustos, numa combinação engraçada de verde, branco, prateado e ouro. O regato corria ligeiro por entre ramagens majestosas.

ocos de rocha vermelha e amarela pareciam ter sido atirados ao acaso, por toda aquela região e pinheiros enormes pareciam preocupar se em os proteger dos ardores do sol. Havia uma encosta suave onde a floresta se tornava a pouco e pouco mais rara, até se abrir no que parecia um parque bem ordenado, no cimo do qual estava a velha casa de madeira.

Jim olhou-a longamente e viu que sem dúvida tinha de a conservar como memória dos bandoleiros, que ali tinham vivido.

- Que é aquilo branco espetado na porta? Parece papel! - disse Bud, a quem só muito dificilmente alguma coisa poderia escapar.

Cheios de curiosidade foram até lá, desmontando para melhor investigar. Viram então a folha amarrotada de bloco, pregada à porta tosca. Numa letra apenas rabiscada, mas ainda assim legível leram a palavra "Mañana". Por baixo dela fora desenhada uma faca afiada, com certo poder de sugestão.

- Que vem a ser isto? - perguntou Jim, perplexo.

- É claro como água, não vês? - replicou Curly, com voz tensa.

- É obra de Croack Malloy, não há dúvida! - acrescentou slinger.

- E então? - insistiu Jim, já impaciente.

- Jim, estás tão cheio de pensamentos de rancho, casa, amor e eu sei lá mais de quê, que já nem consegues pensar direito - protestou Bud. - "Mañana" é amanhã. A faca quer dizer que amanhã cá estarão de volta para nos tratar da saúde.

- Só isso, - volveu Jim, a rir -, Bud, pareces preocupado demasiado com a vida.

- Não é isso, mas tenho uma cabeça e é para pensar - replicou o vaqueiro tristemente.

- Vamos pôr as coisas aqui fora, debaixo dos pinheiros. Não quero dormir naquela casa agoirada - disse Jim -, Jeff, é melhor arranjares um fogão com duas pedras, a ires cozinhar lá dentro. Parece que há lá por trás um telheiro, que costuma servir para os cavalos. lá está ele. Slinger, o teu trabalho, será estares atento a tudo quanto se passar.

- Há duas passagens possíveis para aqui - disse Bud.

- Onde é a segunda?

- Cerca de três milhas a Oriente, onde o desfiladeiro muda de direcção - explicou Curly. - Pode servir nos de caminho e é até mais suave do que o outro.

- Havemos de ver isso. Bud, já te vou dizer o que tens a fazer. Enquanto Preparamos o acampamento, pega no cavalo e vai por aí, ver qual é o sítio melhor para cortar madeira. Mas lembra-te que tem de ser um sítio escondido, onde se não dê pela falta das árvores. Não quero estragar a beleza deste rancho! - Há tipos engraçados!. - observou Bud, começando a filosofar. - Para eles tudo se resume a beleza e é claro, quando falam em beleza, em primeiro lugar está a mulher...

E com tais observações o vaqueiro afastou-se, enquanto Jim o olhava intrigado.

- Que diabo tem Bud?

- Tem o nariz e a alma em chaga - respondeu Cherry Winters.

- Lembra-te que o pobre diabo está apaixonado. Conheço bem os sintomas, porque já os vi sessenta e nove vezes naquele estado.

- Despachem se e deixem se de palavreado! - ordenou Jim, bastante asperamente, enquanto desmontava.

Agradava-lhe e desagradava-lhe a insinuação de que Bud estava apaixonado por Gloriana. Não havia nada de mais natural, porque toda a gente se apaixonava por ela, afastou para longe os restos de orgulho de família, de vaidade ou lá do que era e reconheceu que ainda seria uma grande coisa para gloriana se casasse com um vaqueiro como Curly Prentiss.

Que importava que Curly tivesse bebido já certa porção de álcool, atingido vários homens a tiro e alguns deles mortalmente e tivesse, de certo modo levado uma vida desregrada? Tudo aquilo fazia parte da vida no Oeste. da vida de vaqueiro.

A verdade é que Jim cada vez gostava mais daqueles homens simples, que o rancheiro inteligente nunca poderia desprezar.

E assim, Jim se inclinou um pouco, ainda que inconscientemente a favor de Curly, na resolução do grave problema que era o futuro da irmã.

O grupo começou a trabalhar e não havia mãos a medir.

Bud localizara uma quantidade de árvores direitas que cresciam tão juntas, que só quase tinham folhagem no cimo.

Aquela mata só tinha a lucrar se a toassem.

O preparar da madeira não era tarefa fácil, mas alguns dos vaqueiros adaptavam se a ela com facilidade. Bud e Lonestar, menos hábeis, levavam os toros para o local da futura casa.

Quanto a Jim, já por mais de uma vez tentara dar uma ajuda, mas não conseguia fazer nada que jeito tivesse.

Ao anoitecer do primeiro dia, havia já para cima de meia dúzia de troncos de pinheiro preparados. Fora um começo em forma e prometia rápidos progressos. Jim rejubilou ao pensar na rapariguinha de olhos escuros, para quem preparava a casa.

Seguiram-se dez dias de ininterrupto trabalho. Slinger Dunn tinha feito explorações e conseguira localizar a "Faca Afiada" no Desfiladeiro Negro, exactamente o sítio para onde dissera que viram os bandoleiros. Sempre que Jim pensava nesses homens, ficava preocupado. A perspectiva de ter um rancho e um lar a vinte milhas do quartel general da quadrilha mais famosa do Arizona, enchia o de receio e dúvidas. Aquela vizinhança não lhe ia dar tranquilidade, disso estava ele certo. No entanto, Jim consolava se com a esperança de que Jed Stone permaneceria até ao fim o homem honesto, que o tio sempre o considerava. Vendo as coisas friamente, não havia muita razão para esperanças, pois elas se baseavam em bem pouco - no facto do bando ter abandonado o "Colete Amarelo" e em qualquer coisa-muito vaga que Jim sentia dentro de si mesmo.

Uma noite, Jim surpreendeu uma conversa entre Bud e Curly.

Era já tarde, a lareira estava praticamente apagada e não havia dúvida que os vaqueiros julgavam o rapaz adormecido.

Bud, que sempre estimara profundamente Curly, tinha voltado nos últimos dias a ser ele próprio, por assim dizer completamente esquecido do murro no nariz.

- É uma loucura, Curly! - dizia ele, quase num murmúrio -, tenho a certeza absoluta que enquanto estivermos em Flag, Malloy se encarregará de deitar fogo a esta madeira.

- Não duvido ou então talvez espere até que a casa esteja mais pronta. Mas com trinta diabos! Que queres que faça? Não posso ir contra a vontade do patrão. Ele consegue fazer de mim tudo o que quer. Tenho a certeza que um dia conseguirá até que eu deixe de beber. Já quase tenho medo de tocar no álcool.

- O mesmo acontece comigo, mas ainda hei de encharcar-me em álcool uma vez mais. Curly, se te não acautelas, Jim ainda te convence a abandonar a pistola e a lidar com os homens desarmado. Se isso acontecer, encontrarás logo em seguida o repouso eterno, debaixo de alguma árvore.

- Eu continuo sempre a treinar-me, o que é, faço-o às escondidas.

- Ainda bem, porque palpita-me que a pontaria nos vai ser muito precisa. Slinger anda desconfiado da "Faca Afiada" e ele percebe destas questões. Sabes o que ele me disse? Que o mais acertado era arranjar um encontro com cada um daqueles homens e limpar-lhes o pêlo. Que achas?

- Slinger nunca será capaz de uma coisa dessas, tal como eu.

Percebes porquê, não é verdade?... Que é que tu lhe respondeste?

- Que o não fizesse, por causa de Molly.

- É essa uma das coisas que mais me preocupa. Nunca vi uma pequena tão apaixonada, como ela está por Jim. Ora, não há dúvida, que Croack Malloy atirará a Jim, a primeira vez que o apanhar à mão.

- Sim. era o que ele faria, se Slinger o não mandasse antes disso para o outro mundo. Porque... já não havia que duvidar de que aquele diabo está perdidinho de amores por Gloriana May. Não viste já isso?

- Fala mais baixo! Ainda acordas alguém! - disse Bud, depois da exclamação de surpresa de Curly.

- Bem sei que está, - concordou o gigante, por fim -, Mas isso não quer dizer nada. Porque eu, tu e todos os outros estamos na mesma. O diabo é que Gloriana só parece gostar de slinger.

- Estás doido? - protestou Bud -, Gloriana diverte se com ele, porque é maluca por tudo o que seja selvagem, mais nada.

- É engraçado! - Foi comentando Curly, falando só consigo. - ela é uma pessoa fina, de posição superior. Mas Pensa, Bud.

Ela é uma menina da cidade, muito nova, cheia de sentimentos e romance. Demais, deve ter havido qualquer coisa muito séria que a magoou bem lá no íntimo. Ora, Slinger Dunn é um bonito rapaz, bem mais bonito do que qualquer de nós, ou até mesmo do que qualquer vaqueiro, que eu tenha visto até hoje. É também um bom tipo. A verdade é que se não fossem os ciúmes, que me dão vontade de torcer o pescoço, seríamos bons amigos. Vendo bem, não acho nada do outro mundo que uma rapariga como gloriana goste de um homem como ele. Acho-o tão natural, que chego a ter medo de ir a Flag.

- Tolices! Está bem à vista que Gloriana gosta é de ti.

Claro, que se te afastares e fizeres de tolo, alguém há-de aproveitar a oportunidade. Não penses que estou pronto a afastar-me para abrir-te caminho. Gloriana não me liga nenhuma, mas não estou disposto a desistir. A verdade, é que quando protestei por Slinger ter uma fotografia dela, ela me deu a mim uma e bem mais bonita que a dele.

- Ela deu te uma fotografia? As mulheres hão-de ser sempre as mesmas.

- Claro que ela te dava uma a ti também, mas é diferente.

Comigo ela ri-se e faz brincadeira. Contigo, parece um bocado acanhada.

- Qual acanhada... É verdade que poucas vezes tenho estado propriamente com ela... duas vezes no estábulo... três na sala quando fui falar com Jim por uma razão ou outra... uma no armazém... e no baile. Dessa vez é que foi!... Bud, ela só se interessa pela minha pontaria. Estou farto de lutas, e aflige-me só de pensar nos homens que já matei, mas ela não me largou. Eu já estava de cabeça perdida. Foi então que ela encolheu os ombros e declarou que eu não tinha alma de bandoleiro.

- Há! Há! O que ela precisa é de travar conhecimento com croack Malloy - disse Bud, rindo.

 

Jim fez abrir um caminho para o Colete Amarelo. Se a sua autoridade nunca era discutida pelos vaqueiros, o mesmo se não podia dizer da sua habilidade como engenheiro.

- Isto não está bem e estamos a fazer muito trabalho escusado! - repetia Bud, incapaz de se conformar.

- Pode ser que tenhas razão e que eu não perceba nada disto- respondeu Jim um dia. - Talvez seja melhor dar uma vista de olhos no que está feito e rever o projecto. Vamos perder dois dias das nossas férias em Flag, mas paciência. Em primeiro lugar está a estrada. Tu farás de engenheiro.

Levantou-se um protesto unânime, em que se misturava a indignação e a troça.

- Não, Jim. Afinal pode ser que esteja tudo bem e que se trate apenas de impressão minha - gaguejou Bud já contrariado.

Assim se resolveu a questão e se puseram todos a caminho seguindo uma vereda, que atravessando a floresta, os levou por fim à estrada de Payson e daí ao ponto onde tinham decidido passar a noite. à noite seguinte acamparam um pouco tarde ficando apenas a um dia de viagem de Flag.

Na tarde do dia seguinte um grupo de vaqueiros enregelados, sujos, por barbear, mas muito bem dispostos entraram na cidade onde se separaram, tomando cada um o seu caminho. Jim disse a curly e Bud que não precisava deles, que poderiam ir embora também.

O tempo estava extremo, desagradável, ventoso e a neve amontoada nas ruas era atirada furiosamente a quem passava e a cidade parecia deserta.

Seria, no entanto necessário um vendaval, para diminuir a alegria de Jim, que avançava a passos rápidos. Tinha duas coisas a fazer antes de ir ao rancho e convinha achá-los o mais depressa possível.

Ao chegar em frente de uma ourivesaria, desmontou de um pulo. A encomenda que ali levava o rapaz fora feita já há algum tempo antes, mas o dono não estava e Jim foi recebido pelo filho, por quem não tinha nenhuma simpatia.

- O senhor Miller não está?

- Não. O meu pai está lá fora, mas eu posso atendê-lo. Tenho aqui o anel com o brilhante, se ainda está interessado nele! - disse o rapaz secamente.

Jim olhou-o, espantado. Que diabo pretendia ele com aquela conversa?

- Claro que quero, Para isso o paguei adiantado. Dê-mo depressa, por favor.

O joalheiro apresentou então um lindo estojo branco, onde brilhava uma magnífica pedra. Jim pegou no anel, tentando mostrar se calmo, ainda que lá por dentro estivesse agitadíssimo. Era o anel de pedido de Molly! E era realmente maravilhoso. Molly ia ficar encantada, não suspeitando sequer que o rapaz o tinha encomendado. O prazer que ela ia ter nele, merecia bem dez vezes o dinheiro que a jóia custara.

- Obrigado, tenho a certeza que está bem, porque tive cuidado com a medida.

E com tais palavras, Jim meteu a caixa no bolso e saiu pensando: - Que estranha maneira como aquele idiota olhou para mim. Parece que nunca me tinha visto! Riu para consigo mesmo, atribuindo afinal, a expressão do rapaz ao facto de que se riam dele quando o viam apaixonado.

Dirigiu se então ao armazém de Babbit, onde fizera duas encomendas: um presente para o tio e outro para Molly. E carregado com dois embrulhos enormes e pesados, que nem sequer se dera ao incómodo de abrir, viu um bonito lenço de seda de homem e voltou atrás.

- Quero aquele lenço vermelho e um par de luvas forradas a pele, mais nada - disse Para a rapariga que estava ao balcão.

Esta não se mexeu, nem respondeu, e quando Jim a viu pálida e parecia agitada. Jim ficou a olhar para ela sem compreender.

Estaria sonhando?

- Oh!. Jim! - exclamou por fim Molly.

- Que vem a ser isto? - gaguejou ele.

- Trabalho aqui. De manhã vou à escola e à tarde estou aqui.

- Pelo amor de Deus! Empregada no armazém?!

- Não... não recebeste a minha... a minha carta? - Perguntou ela de olhos muito abertos.

- Qual carta? Não recebi carta nenhuma. Como é que a podia receber se tenho estado na floresta?

- Deixei-a... ao tio... para ti.

- Vim direito aqui. Ainda não fui a casa. Mas, o que aconteceu? Porque estás aqui?

Nos olhos de Molly perpassou uma tristeza imensa.

- Oh Jim. Custa-me que tenhas aqui vindo sem saberes de nada-- começou, quase a chorar. - Não queria magoar-te. Tive de sair de casa. Acabei com o noivado...

- Molly!. - exclamou ele incrédulo.

- É verdade. Mas não pode estar aqui.

- Porquê? Que vem a ser tudo isto? - explodiu ele.

- Vai te embora, Jim. Logo te conto tudo.

- Não vou. Quero saber imediatamente, porque é que me deixaste - declarou o rapaz com voz rouca.

- Não te deixei... eu... eu... - e as lágrimas deslizavam-lhe já pelas faces pálidas.

- Gloriana magoou-te?

- Ela sempre foi boa para mim. Compreensiva e amável. Tentou encontrar-se comigo, descendo ao meu nível. Acabaria por vos fazer infelizes. Foi por isso que saí de casa e vim trabalhar para aqui. A minha mãe não voltou para Cibeque.

- Juras que Gloriana te não magoou?

- Não posso jurar, mas a verdade é que nunca o fez de propósito. Eu gosto muito dela e isso torna tudo mais difícil.

- És uma tontinha, Molly. Qualquer homem se sentiria orgulhoso por casar contigo, quanto mais eu. Mas, se és tão volúvel como isso...

E Jim calou-se, agarrou nos embrulhos e depois de a fitar nos olhos saiu do estabelecimento a correr.

Em qualquer outra ocasião não teria conseguido montar, carregado como estava, mas desta vez fê-lo de um pulo.

Esporeou o cavalo e desceu a galope a rua principal de Flag.

Estava furioso, mas quando por fim chegou a casa, já se tinha acalmado um pouco e a fúria transformara-se em consternação e surpresa. Molly era simplesmente uma criança honesta e inocente.

Deixou o cavalo no estábulo com os embrulhos na mão e entrou em casa, correu à sala de estar e precipitou-se para o velho rancheiro com a impetuosidade de furacão.

- Jim, que é isso? - exclamou Traft. - A verdade é que já estava à tua espera. Como estás?

- Como está, tio? - replicou Jim, atirando os pacotes para cima de um sofá e estendendo a mão ao tio. - Eu estava bem, até entrar na cidade. Vinha feliz por lhe poder dar uma boa notícia. A "Faca Afiada" saiu do "Colete Amarelo" sem luta.

- Jim Traft! Não estás a brincar comigo?

- Não tio. É a verdade.

- Como conseguiste isso?

- Fui falar com Jed Stone...

- Quê!? - gritou o velho.

- Fui falar com ele e vi bem que é tipo decente. Concordou em ir embora. Malloy é que para mostrar a sua pontaria, me tirou da boca o cigarro e me apagou o fósforo que tinha na mão. Perdi a cabeça e chamei-lhe tudo o que me apeteceu. Nessa altura é que ele ficou capaz de me mandar desta para melhor e só o não fez porque Stone lhe tirou a pistola. Caí em cima de Malloy e moí-lhe os ossos. Por fim atirei-o pela porta fora com um pontapé. Como ainda tentasse levantar-se, dei-lhe uma boa sapatada e deixei-o...

- Caramba. E tu fizeste tudo isso? - exclamou Traft, entusiasmado.

- Fiz. Claro que foi estúpido da minha parte, mas na altura nem sabia bem o que fazia. Na altura nem sequer sabia que aquele patife era Croack Malloy.

- Croack Malloy! Há! Há! Há! Saíste-te, não há que ver. mas o pior está para vir. Estás Perdido!...

- Vai ver que não. Hão-de convencer se de uma vez para sempre, que não sou já o menino da cidade, que aqui chegou há um ano. E, por agora, basta de "Faca Afiada".

Já nos mudámos para o "Colete Amarelo" e temos estado a arranjar madeira para construir a casa o mais depressa possível. A estrada está também quase aberta. Na Primavera estará tudo pronto...

- És espantoso, Jim! - interrompeu-o o velho, com os olhos brilhantes de admiração. - Mas, quase me assustas. Não é próprio de um cristão usar tanto os punhos. Já na estação de Winslow, esmurraste Bambridge. E nunca mo tinhas contado, seu malandro! Não querias preocupar o tio, não é verdade?... Bem, já percebi que tens lá as tuas desconfianças e os teus planos...

- Tio - disse Jim, incapaz de se calar por mais tempo. - estive no armazém de Babbitt e encontrei lá Molly ao balcão. Disse-me que acabou com tudo... Foi trabalhar...

Estou parvo!

- Jim, não leves as coisas tão a sério. Não comeces já a imaginar-te o homem mais infeliz do mundo. Ela só fez aquilo, por que te ama demais... Molly falou comigo antes de ir embora. Disse que não seria para ti... que não tinha coragem de fazer o casamento... que a tua família nunca a poderia aceitar... Enfim, mil e uma razões!... Tentei convencê-la do contrário, mas ela é teimosa como um burro. É independente e orgulhosa, lá à sua maneira... Disse-lhe então que tu compreenderias a sua atitude e que a não levarias a sério.

Fartou-se de chorar.

- Oh tio! Já estou Mais aliviado... Se ao menos eu puder ter uma esperança... Acha que Gloriana tornou a vida dura a Molly?

- Acho que sim - respondeu Traft, muito sério. - E, no entanto, procurava sempre pôr Molly à vontade. Simplesmente não foi capaz. A única solução é que Molly suba ao plano de gloriana. De contrário, nada feito!... Glory e eu temo-nos entendido às mil maravilhas. Ela é encantadora, muito meiga e até já me tem confidenciado coisitas que a preocupam...

Palpita-me que não volta para a cidade.

ficará no Oeste, pela certa.

- Como está ela, tio? Melhor?

- Sim. Ainda tem um pouco de tosse e está a melhorar, mas devagar. Quando chegar o Verão e puder ir passear para as matas, fica rija num instante. Vai vê-la. Falaremos mais tarde.

- Pois sim, Mas já agora só mais uma coisa... O tio diz-me que não acredita no regresso imediato de Molly e ela disse-me que acabou com tudo. Não sei o que hei de fazer?...

- Não exageres o caso como costumam fazer os vaqueiros apaixonados. Esses acabam sempre por se meterem na taberna e por se encharcarem em álcool. Espero que não lhes sigas as pegadas... garanto te que Molly seria capaz de beijar o chão que pisas. Se fosse eu ia mas era buscá-la e deixava-me de tretas.

- Buscá la?

- Porque não? por sua própria iniciativa, não voltará tão depressa. Logo, o melhor é recorrer à força... Naturalmente o que te falta é a coragem.

A atitude de Molly tem dado que falar... mas Glory, logo te conta essas coisas... Talvez pudesses ser tu agora a procurá-la, homem?

- Bem... obrigado, tio - limitou-se a dizer Jim -, vou ver glory - e saiu da sala, brincando distraídamente com o estojozinho que trazia no bolso. Bateu à porta de Glory.

- Quem é? - perguntou uma voz espantada.

Foi então que uma ideia diabólica ocorreu a Jim, que, sem se demorar a reflectir nas consequências, respondeu engrossando a voz.

- Darnell.

Ouviu se uma exclamação e logo em seguida passos rápidos.

Gloriana fechou a porta à chave.

- Seu desavergonhado! - gritou Gloriana furiosa -, já é preciso ter descaramento! Estou farta de o ver andar atrás de mim!... Saia imediatamente desta casa ou grito pelo meu tio...

Há-de ter que haver se com Jim e os vaqueiros. Vá-se embora!... Já!

Jim estava pasmado e de princípio nem a boca conseguiu abrir. Por fim, chamou a irmã à razão.

- Sou eu, Glory! Sou o Jim. Estava a brincar contigo.

- Jim!

- Não reconheces a minha voz?. Cheguei agora mesmo.

- Vens só? - perguntou ainda a rapariga, antes de correr o ferrolho.

- Glory, desculpa ter-te feito exaltar. Não sei que diabo de ideia me deu. Não leves a mal.

- Sabes alguma coisa? - perguntou ela.

- Acerca de Darnell? Ouvi falar dele antes de ir para o "Colete Amarelo", mas não sei mais nada. Cheguei há momentos. Estive com Molly!. Entrei no armazém do Babbitt e quase ia tropeçando nela. Depois vim logo para casa. Estive um momento com o tio, e é tudo. Não estás contente por me veres?

- Contente? - repetiu ela com a sua voz melodiosa e fresca.

Gloriana fechou a porta e abraçou e beijou o irmão com tanta meiguice, que o surpreendeu. A maneira como ele a apertou também, não deixava dúvidas. Quanto à alegria que ele próprio sentia.

- És um urso, grande e forte! - exclamou Gloriana quase ofegante -, pareces um vagabundo! Cheiras a cavalos e a tabaco. Oh, Jim! Estou tão contente por te ter aqui.

- A alegria é igual de parte a parte. Vem para junto do fogão. Estou quase gelado. Até agora tenho estado tão excitado, que nem tive tempo para sentir o frio. Deixa-me olhar para ti.

E, voltando as costas para a lareira, Jim pousou as mãos nos ombros da irmã e ficou a olhá-la demoradamente. Achou-a mais bonita ainda, não só por mudança de feições, como por parecer mais calma. Via-se que estava mais descansada. Estava também ligeiramente mais gorda.

- Então, que dizes? - perguntou ela, com um sorriso travesso.

- Não podia ser melhor. Estás a caminho para a saúde física e espiritual.

- Jim, eu estava já óptima, mas quando aquele idiota do darnell apareceu aqui, em Flag... Bem te disse que ele havia de vir. Soube-o, porém, antes de o ver. Ele veio depois aqui.

Implorou e ameaçou. Os processos já sabidos. Disse-lhe que não queria saber dele para nada. Tem-me aparecido cada vez que vou ao armazém, ao correio, seja onde for. Tem-me maçado tanto que resolvi não sair mais de casa.

- Que anda ele a fazer por estes sítios?

- A seguir-me, já se vê. Disse-me que está a trabalhar com um rancheiro, chamado Bambridge. Há-de ser feliz?

- Já sei agora onde é que o vi. Foi na estação em Winslow.

Tem uma certa piada que o teu apaixonado se tenha associado a bambridge...

- Não tem piada nenhuma. Pelo menos não lha encontro - interrompeu Gloriana apressada. - Tenho medo de Darnell! Ele é capaz de tudo. Já é conhecido na cidade e é muito popular entre as raparigas. Tenho um medo horrível dele!

- Porquê?

E Jim pôs se a rir. A verdade é que achava uma certa graça àquilo.

- Ele há-de dizer de mim o que quiser. Vai desgraçar-te e obrigar-te a sair de Flag.

- Dizer de ti o que quiser? Glory, e que julgas tu que Curly prentiss e Slinger Dunn fariam, se ele tivesse coragem para dizer uma palavra a teu respeito?

- Sei lá, Jim.

- Pois ele vai achar pouco divertido o encontro com eles Ou comigo... Mas, Glory, garantes-me que esse tal Darnell não tem qualquer direito sobre ti?

- Juro-te, Jim.

- Então não penses mais nele.

- Tenho medo que ele consiga apanhar dinheiro ao tio , - suspirou Gloriana.

- Ah! Ah! Isso tinha a sua graça. Por muito manhoso que seja, não terá habilidade para tanto. O tio não é pessoa que se deixe levar. Bambridge é um ladrão de gado. Já o sabemos há muito e agora podemos prová-lo.

Jim ficou calado por alguns momentos e depois perguntou

- Houve mais alguma complicação? Conta-me tudo.

- Sim, com Molly. Ela é a rapariga mais encantadora que conheço e acredita, gosto imenso dela, mas que queres? Só queria ajudá-la, mas tive falta de tacto. Ela não compreendeu a minha atitude. Julgou que eu me considerava superior e daí concluiu que não era pessoa para entrar para a nossa família.

Quando me anunciou que ia sair de casa, implorei-lhe que ficasse. Usei todos os argumentos e quando estes se esgotaram, ralhei com ela. Foi tudo em vão! Fui franca com ela, mas a pobre Molly pensou que eu procedia assim por ter medo de ti.

Convenceu-se que lhe mentia. Acabei por perder a cabeça, o que em mim é muito grave. Disse-lhe tudo o que me veio à ideia. Cheguei a dizer-lhe que era uma felizarda por tu quereres casar com ela. Enfim! Ela foi se embora e até hoje não consegui fazê-la voltar. Não sei quantas vezes já fui ao armazém. Ouvi dizer que ela conheceu Darnell e que foi com ele a um baile...

- Molly acompanhou Darnell a um baile?

- Sim, mas não deves levar isso a mal - Disse Glory. - Molly não passa de uma criança.

Procurei-a depois disso e disse-lhe tudo o que sabia de darnell. Não me acreditou. Darnell é atraente e consegue enganar qualquer. Claro que ela não liga nenhuma a esse idiota, porque continua apaixonada Por ti. Simplesmente no estado de espírito em que se encontra, seria capaz de fazer, não importa o quê. Darnell é perigoso e não tem sombra de escrúpulos. Não tens tempo a perder. É importante tirar Molly das mãos daquele animal.

- Meu Deus! - gemeu Jim, baixando a cabeça.

- Precisas dela, e eu e o tio. Molly é uma jóia. Tens de estar ao lado dela, tens de a compreender e amparar, seja qual for a sua atitude.

Jim levantou a cabeça e beijou a irmã.

- Obrigado, Glory. Amo Molly e a tua atitude comove-me.

Farei tudo para a ganhar para mim. Tenho aqui O anel de noivado que comprei para ela. Não o achas bonito?

Os olhos que Gloriana fixou na jóia brilharam tanto como ela.

- O anel é maravilhoso e só se Molly não for humana é que poderá resistir ao seu encanto. Mas, Jim, ela é uma rapariga do Oeste e pode ser que afinal os brilhantes nada signifiquem para ela. Sei, no entanto, que adora vestidos bonitos. Ela própria me disse que contraiu dívidas para poder comprar um vestido novo para o baile do Natal.

- Não tenho dúvida alguma de que Molly é humana e muito feminina - disse Jim num tom em que havia uma pontinha de azedume. - Ainda há um mês era minha noiva e agora vai a um baile com outro. É preciso...

- Jim, não te esqueças que ela te escreveu. Pediu até ao tio que te mandasse a carta por um cavaleiro. O tio é que o não quis fazer. Lembra te que Molly está ferida no seu amor e isso é um perigo. Um tal estado pode trazer loucuras. Ela quer fazer crer aos outros que não vale nada, para que todos se convençam que foste tu que acabaste. É uma história muito complicada!... Mas, agora que tu estás aqui, sei que tudo se resolverá. Confia em mim. Molly tem necessidade de saber que a amas e de se convencer que nem tu, nem eu, nem ninguém se envergonhará da sua companhia, para ser a mocinha mais feliz do mundo. É a tarefa que te cabe agora... E é bem mais importante de quantos ranchos haja a fazer por todo esse Oeste...

- Glory, sinto que serei capaz de a levar a cabo... com a tua ajuda e a do tio. Sinto-me aliviado, como se me tivesses tirado uma serra de cima dos ombros. E agora, diz-me, que festas se estão a preparar para estas férias? - Gloriana riu - Bem, Flag é uma cidade em que se aprecia o convívio social. O mais importante será o baile na véspera de Natal e a festa que se fará aqui na quarta feira seguinte. Essa foi planeada pelo tio, em especial pela Molly. Claro que ela se considera excluída por já cá não estar em casa, mas o tio insiste que ela há-de vir.

- Claro que há-de! - declarou Jim com violência -, Nem que tenha de a trazer à força.

É um método um tanto violento, mas... desta vez, fala-me de novo... de Curly e de Slinger. E agora de Bud também. Ele é um amor.

- A tua guarda pessoal, com que então? Olha, até agora conseguiram viver juntos sem que nenhum deles tenha morto o outro, mas... Slinger escuta os seus rivais em desdenhoso silêncio, como se possuísse uma força de que os outros nem por sombras suspeitassem.

- Eles falam de mim quando estão uns com os outros? - A pergunta foi acompanhada de um ligeiro rubor, que, na palidez normal de Gloriana se tornou muito notado.

- Há três semanas que és o tema de todas as conversas. Tu e a "Faca Afiada".

- Isso é Muito lisonjeiro. E que dizem eles?

- Já esqueci quase tudo. A princípio irritava-me com tais conversas. Falavam na minha frente com a maior candura. A conclusão de tudo o que ouvi é que cada um deles fazia tenção de casar contigo um dia. Tinha a sua graça. É pena que tu não tenhas podido ouvi-los.

- Eles são engraçados... são fascinantes!

- Já tinha percebido que eles te atraem. lembra te Glory, que no Oeste cada um colhe o que semeia. Ainda há pouco, ao voltar ao acampamento, encontrei Bud com o nariz esmurrado, a sangrar. Curly, o seu grande amigo, tinha o posto naquele estado, por Bud elogiar as tuas pernas.

- O quê?!

- é o que te digo. Bud voltou a repetir na minha frente que tens pernas bonitas e mais... que tens consciência disso.

Curly tomou isso como um insulto e como resultado Bud andou uns dias agarrado ao nariz e... sofrendo principalmente de orgulho ferido. Fingi-me extremamente zangado e resolvi dar-lhes uma lição a todos. A verdade é que estava perdido de riso. Ameacei Bud de lhe esmurrar a cara, a não ser que confessasse a sua culpa e desmentisse o que dissera.

Pediu-me desculpa, mas sabes o que disse? Que não tinha ofendido ninguém. O que tinha dito era verdade e por isso não podia retirá-lo. Foi então que me ocorreu uma ideia luminosa... Castigá-lo, vindo contar-te tudo. Quase chorou, pediu-me que lhe batesse, o matasse, tudo menos isso. E porquê? Porque assim Curly apareceria aos teus olhos como um herói e ele como um Pobre diabo!

- Nem sei o que me parece tudo isto - comentou Glory, embora fosse mais do que evidente que estava perdida de riso.

- Glory, a culpa é tua. Eu avisei-te, que se brincasses com os vaqueiros, as pagarias todas juntas. Fizeste-lhes olhinhos bonitos, como já era de esperar e aí tens o resultado. Estes rapazes têm todos um coração de oiro. Qualquer deles seria capaz de morrer por ti. Parecem indiferentes e frios, mas lá bem no íntimo estão sempre a arder.

Jim calou-se Por um momento e continuou depois.

- Curly Prentiss é verdadeiramente o príncipe dos vaqueiros, mas isso não impede que de vez em quando precise de uma lição.

Um observador da cidade seria capaz de o considerar um tipo abrutalhado, selvagem, vulgar, mas para mim e para o tio, Para qualquer, aliás, capaz de ver mais longe, é um rapaz extraordinário. Os outros também são do mesmo estilo, a não ser Slinger Dunn. Esse não é um vaqueiro, mas uma estranha mistura de índio e homem da floresta, rapaz do campo e cavaleiro da Idade Média. Se fosse a ti acautelava-me mais com o que dissesse ou fizesse na frente dele.

- Agora... é capaz de ser tarde, Jim - disse Glory -, Foste tu que me levaste a vê-lo ao hospital. Lembras te que Slinger tinha a minha fotografia debaixo da almofada...

- Diabos me levem! Claro que me lembro!

- Disse-me sem mais rodeios que passava os dias a olhar para ela e que estava doidamente apaixonado por mim. Disse-me ainda que tu lhe tinhas roubado Molly. Claro que eu podia ter-lhe dado para trás. Mas, parece-me que a princípio nem o tomei a sério... no baile tudo se agravou... Ele...

- Querida Glory - interrompeu Jim, em tom de lamento -, Não quero saber mais nada. Já tenho muito com que me preocupar, sem ir buscar as tuas complicações amorosas. Desta vez sou eu que preciso da tua ajuda.

- Que tolo! Com que então as minhas complicações amorosas? que ideia! - protestou Glory muito corada.

- Fala para aí: A verdade é que te avisei e a julgar pela tua atitude, seria capaz de jurar que não ouviste nada do que te disse.

- O mal de muitos é conforto!... Estamos os dois em maus lençóis. Tu pior do que eu, é verdade, mas de qualquer maneira... Molly é teimosa como um burro! Tinha-me esquecido de te dizer que algumas das meninas finas de Flag não a aceitaram na sua companhia, embora fossem muito amáveis para comigo. Pobre Molly! Tanta gente a magoou!

- Já esperava isto. Essas mesmas meninas também me não aceitaram, a princípio. Depois, quando descobriram que era sobrinho do rancheiro rico, ficaram como o veludo. Claro que nessa altura, já me não interessavam. Era de prever que tivessem inveja de Molly.

Gloriana encostou o seu rosto ao do irmão e suspirou profundamente.

- Ainda bem que estás de volta - disse baixinho -, Tenho-me sentido tão só. Quando chegar a Primavera hás de levar-me contigo para o acampamento. Lá sentir-me ei melhor, mais segura...

Na manhã seguinte, Jim acordou muito cedo e deixou-se ficar na cama a pensar nos seus problemas e na melhor maneira de os resolver. Resolveu afastar para longe tudo quanto pudesse embaraçar-lhe o caminho, porque a única coisa que lhe importava era reaver Molly.

Era o dia vinte e três de Dezembro, véspera do baile da consoada. No dia de Ano Novo acabariam as suas férias e teria de voltar com os seus homens para o "Colete Amarelo" para uma estadia que prometia ser longa e difícil. Não tinha, portanto tempo a perder.

Antes, porém, tinha de procurar o tio e Locke e pô-los ao corrente de todos os pormenores que na véspera não contara, para juntos tomarem decisões para o futuro.

Depois do pequeno almoço, a que Gloriana não apareceu, Jim pediu ao tio para que o recebesse Para uma conversa séria.

Locke acompanhou-os à sala de estar e Jim começou por falar do roubo de gado praticado por Bambridge, Acompanhando a narração da sua opinião sobre o que acontecera e o que seria conveniente fazer. Narrou-lhe minuciosamente tudo o que se passara no "Colete Amarelo".

quando acabou os dois velhos fumavam furiosamente, o que era sinal evidente de desconforto.

Locke foi o primeiro a interromper o silêncio que se seguiu.

- Na minha opinião, o melhor era abandonar o "Colete amarelo"!

- Não concordo! - protestou Jim. - É o sítio mais maravilhoso, mais selvagem que conheço. Quero guardar aquele rancho para mim... aumentá-lo e viver ali a maior parte do ano.

- Mesmo que Jim não estivesse interessado naquilo, eu nunca o abandonaria - disse Traft. - Fazê-lo nesta altura era o mesmo que dá-lo de presente a Bambridge.

- Bem, então o melhor seria fazer transportar o senhor bambridge para um local que farás o favor de indicar - disse locke secamente.

- É melhor não brincares com coisas sérias, Bing. Estamos a tratar de negócios. Quantas cabeças não marcadas será possível arranjar até à Primavera?

- Umas dez mil, contando com os novilhos.

- Bem... marca metade com a marca do Diamante - ordenou o rancheiro.

Locke anotou a ordem num bloco, que tirou do bolso e disse depois

- Não me parece sensato levar gado para o "Colete Amarelo", antes da Primavera. É melhor dar tempo a que os bandoleiros assaltem.

- Não é má ideia. Anota isso também. E agora, Jim, diz a locke o que precisas para a casa. Ele tratará de tudo. Podemos ir armazenando o cimento, a madeira e tudo o mais que daqui se for mandando no Rancho dos Algodoeiros. Quando, na Primavera as terras estiverem secas e as estradas transitáveis, tudo irá ter ao "Colete Amarelo". Por enquanto, Jim faz o que está combinado. Leva o Diamante contigo e faz uma boa limpeza ao rancho. Entendido?

- Sim, tio - apressou-se a responder o rapaz.

- E tu, Locke, vê se tomaste bem conta do que te disse, para não me andares depois a atormentar com perguntas. Ajuda Jim, em tudo o que possas - disse o velho Traft laconicamente e com uma voz que lhe não era habitual.

Logo em seguida levantou-se e saiu sem mais palavras.

- Bolas, que o velho hoje... - começou Locke.

- Nunca ouvi o tio falar daquela maneira! Que teria acontecido?

- É a questão com Bambridge que o põe fora de si. E não admira! Há quarenta anos que luta contra o roubo e com a pouca vergonha e cada vez que lhe acontece alguma fica assim. Jim, ele confia plenamente em ti e a tarefa de que te incumbiu não é fácil. Vais ter que fazer. Alegra-me que Jed Stone tenha deixado o "Colete Amarelo", sem luta. por muitas razões...

além de que prova que é um tipo decente. O pior é Malloy, e é com esse que vais ter de te haver! Se algum dia te encontrares perto dele, qualquer que seja o lugar e as circunstâncias, dispara. Não andes nunca desarmado e é bom que Slinger ou curly te acompanhem sempre.

- Ring... hei de disparar se o encontrar aqui... na rua... na cidade? - perguntou Jim, ofegante.

- Sim.

- O quê! Meu Deus!

- Já dispararam contra ti mais do que uma vez e do que duas vezes... Ainda não aprendeste a viver no oeste, meu rapaz? Depois daquela conversa, que deixou Jim com a sensação tremenda da sua responsabilidade, o rapaz recolheu-se ao quarto onde ficou até ao almoço. Terminado este, saiu, e a pé, dirigiu-se para a cidade.

Qualquer observador atento, logo qualquer homem do Oeste teria notado o volume da pistola sobre a anca. Como o pobre rapaz ansiava por aquela frieza imperturbável de Curly prentiss ou Slinger Dunn! como os invejava! Sabia porém, que nunca chegaria a ser como eles, porque de qualquer modo, não nascera no Oeste. Naquele mesmo momento, não se sentia confiante e tal como em tantas outras ocasiões refugiava-se numa vontade de ferro, para suprir a falha.

Quando, de acordo com o que planeara em casa, entrou no armazém de Babbitt, ninguém poderia ter adivinhado o desfalecimento que lhe ia na alma. Estava cheio de medo da reacção de Molly Dunn, isto para já não falar de Croack Malloy.

Molly estava ao balcão e a julgar pelo brilho dos seus olhos, devia tê-lo visto, antes dele a ver a ela. Era ainda cedo e Jim parecia ser o único freguês em todo o estabelecimento, o que imediatamente concentrou nele a atenção dos empregados. O facto não pareceu perturbá-lo.

- bom-dia, Molly - disse, tirando o sombreio -, ontem esqueci-me do que queria comprar.

- Como estás, Jim? - - gaguejou ela, muito corada.

Era evidente que ainda não conseguia estar na presença dele, sem que o sangue lhe acudisse às faces.

- Quero aquele lenço de seda vermelha e um par de luvas de pele.

Molly foi buscar o lenço e depois, com os empregados todos a rir à socapa, teve de experimentar as luvas, calçando-as cuidadosamente nas mãos do freguês, até que este se desse por satisfeito. Durante todo aquele tempo os seus dedos afilados tremiam tanto, que quase não tinha força neles e Jim sentia um prazer enorme naquela manifestação de fraqueza, da parte dela.

- Obrigado. Está tudo bem - disse por fim -, põe tudo na conta de Traft. Informarei o senhor Babbitt Que tem uma bonita empregada. mas que ela não está muito bem ao serviço.

Entretanto Molly estava imóvel, fixando a pistola que adivinhava por baixo do casaco de Jim.

- Jim!... Vens armado!? - exclamou em voz muito baixa, para que mais ninguém a pudesse ouvir.

- Parece que sim.

- Porquê?

- Se te interessa saber aqui vai: Um dos pistoleiros da "Faca Afiada" anda à minha procura; eu, por minha vez, ando à procura de um tal Darnell - concluiu ele. E sem mais explicações, sem um olhar sequer lançado a Molly, saiu levando o que comprara.

Jim desceu a rua, entrando em todos os estabelecimentos onde o tio tinha interesses. Feito isso, passou a visitar os bares, O que sempre era uma coisa bem mais divertida. Parecia procurar alguém. Esteve ainda no correio e no hotel e depois de todas estas voltas, voltou ao armazém. Desta vez Molly ocupada com um freguês não o viu entrar e Jim aproveitou para mirar à sua vontade a carinha pálida e magra, como nunca a vira e Jim amou-a mais por isso. O rompimento custara tanto a um como ao outro, concluiu para consigo. Entretanto Molly acabara de atender o freguês e dera com os olhos nele.

- Outra vez aqui? - perguntou, corando violentamente.

- Esqueci-me de uma coisa...

- Alguma coisa que querias comprar? - disse ela um pouco bruscamente.

- Sim. Quando olho para ti esqueço-me de tudo o mais.

Preciso de luvas para os vaqueiros. daquelas forradas, com uma ferradura nas costas da mão. São para presentes do Natal, o meu tamanho deve estar bem.

- Quantos pares queres?

- Já te esqueceste quantos são os vaqueiros?

Ela não respondeu e escolhendo as luvas, fez com elas um embrulho que entregou a Jim. Este fixou-a com olhos penetrantes, em que havia reprovação.

- Molly, fica sabendo que não aceito o rompimento - disse, falando pausadamente -, sei bem o que sentes e não to censuro.

Simplesmente não estou disposto a perder-te!

- Jim, mas toda a gente sabe...

- Sabe o quê?

- Que acabei com tudo, porque não tenho educação para ser tua mulher.

Foi com esforço que ele dominou o desejo violento de se inclinar sobre o balcão e de a abraçar.

- Bem sei, Molly, mas estás enganada, O tio Jim acha que és suficientemente educada Para mim... e eu... eu. acho te boa demais para mim ou para outro qualquer.

Quanto a Glory, ela adora-te.

- Jim, sempre tiveste certa tendência para a mentira.

- Não minto! - declarou ele rindo - E que minta de vez em quando não faz mal nenhum. O que importa é que tu e só tu serás mulher de James Traft!

- Não.

- Sim!... Ah! Que cabeça a minha! Agora me lembro que tinha aqui uma coisa para ti.

E metendo a mão no bolso, Jim tirou de lá o estojo e abriu-lhe a tampa, inclinando-se para Molly.

- Pensei que havias de gostar dele - disse simplesmente sem ligar importância ao olhar aflito da rapariga.

- Hás de experimentá-lo na primeira ocasião. Até amanhã! - E, pegando nas compras, Jim saiu a correr. Molly amava-o ainda e isso bastava-lhe.

Todo o caminho lhe apeteceu dançar em vez de caminhar normalmente.

Ao chegar a casa, procurou Gloriana que envergava um vestido um tanto espalhafatoso e que como sempre, se mostrou radiante por o ver. Jim contou-lhe os seus dois encontros com Molly.

- Visto que os homens e as mulheres são como são e se não podem alterar as leis da natureza, o melhor é ires buscar Molly imediatamente.

- Espera Glory! Para isso temos tempo - declarou Jim muito calmo.

- Vai buscá-la antes que ela vá para o baile com aquele idiota do Darnell - aconselhou Glory.

- Não. Prefiro fazer de outra maneira. Sempre quero ver como é que ela procede... e Darnell também... e já agora os vaqueiros também.

- Vais dizer-lhes o que se passa?

- Sim, e sempre te digo que não queria estar na pele de darnell...

E Jim deu uma gargalhada.

- Começo a compreender. Mostraste o anel a Molly?

- Mostrei e só queria que tu visses os olhos dela.

Estou tão feliz, Gloriana!

- O anel é lindo! Empresta-mo por um bocadinho. Só quero olhar para ele... está descansado que não o ponho.

- Claro que to empresto, mas mais tarde. Primeiro quero mostrá-lo aos rapazes.

- Jim, se lhes vais falar de Darnell não o poupes! - Confia em mim. Eles já sabem alguma coisa desse tipo!...

- Glory, sinto-me tão bem!

- És um tontinho. Quem me dera que alguém me amasse dessa maneira.

- Como se não estivesses constantemente rodeada de apaixonados?

- Gostam de mim, porque sou bonita! - Exclamou ela tristemente. - Continuariam os vaqueiros a querer-me se soubessem que não sei cozinhar... nem coser... nem remendar um par de peúgas? Se soubessem que sou um ornamento horrível. que nem sequer sei tratar de um bebé?...

- Está visto que te adoram de qualquer maneira. O que tens é de pensar em merecer a admiração daqueles simples... em vez de a aceitares impassível, como qualquer coisa que te é devido.

Jim acariciou os cabelos da irmã e saiu.

Foi ter com os vaqueiros. Bud que o avistou à distância anunciou

- Camaradas, vem aí o chefe. E com um ar!

- Até traz uma pistola! - acrescentou Curly.

Os cumprimentos com que saudaram a sua entrada, tinham todos relação com o aspecto estranho que Jim apresentava nesse dia.

O rapaz começou-sem perda de tempo.

- Rapazes, amigos! - Disse dramaticamente. - Se não fosse a minha irmã e se não fossem vocês, dava um tiro nos miolos...

Seguiu-se profundo silêncio, durante o qual os vaqueiros fixaram os olhos espantados no chefe.

- O que foi, Jim? Com trinta diabos! Fala! - exclamou Curly, falando ele próprio um pouco mais depressa do que lhe era habitual.

- Oiçam! Serei breve! - anunciou apressado. - Voltamos para o "Colete Amarelo" imediatamente e a seguir ao Ano Novo até à primavera não haverá mais visitas à cidade. O meu tio está preocupado com esta questão de Bambridge e encarregou-me de fazer uma limpeza em forma lá no rancho.

Daqui a menos de um ano teremos cinco mil cabeças de gado. Mas isto não é nada. Vamos agora ao que importa.

Jim deteve se um instante e ouviram-se alguns comentários dos vaqueiros.

- Bem, vamos lá. - Continuou por fim. - Talvez algum de vós se lembre ainda de eu ter falado num sujeito - Ed Darnell - que incomodou a minha irmã, lá no Missouri. Pois, esse senhor está aqui em Flag e parece que tem negócios com Bambridge. Boa companhia, como vêem! Esse homem tem perseguido Gloriana de tal maneira que ela teve de deixar de ir à cidade. A minha irmã tem um medo horrível dele, tem medo de que ele me desgrace, falando dela. Glory é rapariga séria e boa. Não fiquem portanto a pensar em cabeçadas ou coisa que o valha.

Simplesmente é uma rapariga e Darnell um homem jeitoso, bem falante, simpático, que conseguiu as atenções dela. Conseguiu, aliás, dinheiro de Glory e do meu pai. Gloriana diz que ele tentará também tirá-lo ao tio. Nisso, não há perigo, porque o velho não se leva com duas cantigas. E agora, perceberam a situação?

- O que eu percebi é que o senhor Darnell escolheu mau sítio para se instalar - declarou Curly.

- Tu viste Darnell naquele dia na estação, não é verdade?

- Sim, e foi o bastante para formar a minha opinião.

- Pois bem. e posto isto, aqui vai a pior...

E Jim não precisou a partir deste momento de se fingir preocupado, porque, quanto o estava era visível a qualquer.

Passeou ainda um pouco na sala antes de continuar e por fim sentou-se numa cadeira ou melhor deixou-se ficar nela.

- Molly Dunn... deixou-me! Acabou com o noivado... saiu de casa do meu tio. e diz que não é suficientemente digna para, casar comigo. Claro que quem não é digno sou eu! Pobre criança. Está empregada no Babbitt, onde só trabalha de tarde, porque de manhã vai à escola. E agora, oiçam. Ela anda por aí com esse tal... Darnell!... Quase perdi a cabeça quando o soube, mas Gloriana diz que Molly está desnorteada e não sabe o que faz. Garante-me que Molly não gosta senão de mim e que com a sua atitude apenas pretende mostrar a toda a gente que não é suficientemente boa para minha mulher. Acabo por ter pena dela. E o pior é que, com a confusão que vai no meu espírito, nem consigo pensar.

Jim parou para recobrar alento. Estava de certo modo aliviado por ter feito aquela confissão. A expressão dos vaqueiros mostrava bem que estavam à altura da confiança que o rapaz depositava neles, expondo-lhes um problema pessoal.

Sem uma palavra, Slinger Dunn deslizou em direcção à porta.

- Espera, Slinger. Que vais fazer?

Slinger voltou-se.

- Parece-me que é altura de ir procurar a minha irmã. Quando a encontrar, irei ver onde pára Darnell.

- Se queres vai ter com a tua irmã, mas pelo amor de Deus deixa Darnell em paz, por enquanto.

- Molly é minha irmã! Compete-me decidir o que devo fazer.

- Só te peço que esperes, nada mais.

- Para quê esperar? - Jim admitiu para si mesmo que não havia aparentemente razão para esperas e arrependeu-se de ter sido tão precipitado, expondo naquela altura o caso aos vaqueiros.

- Ouve, Slinger! E vocês também - disse o rapaz - Amanhã é a véspera do Natal e há um baile em que todos tomaremos parte.

Teremos ocasião de observar Darnell.

Só vos peço que não tomem iniciativas até lá.

Compreendem-me. Não posso viver sem Molly. Esta questão é para mim bem mais importante do que quantas possam surgir com a "Faca Afiada". Se vos falei de um Problema pessoal, foi porque confio plenamente em vós. Vocês são os meus amigos! É natural que muita gente de Flag se ria de mim, tal como fez quando aqui cheguei, mas isso não me interessa. O que importa é conseguir que Molly venha para ao pé de mim, fazer uma casa para nós dois e viver feliz na vossa companhia.

Geralmente nos momentos críticos, Curly Prentiss arvorava-se em porta-voz de todo o grupo e foi o que fez ainda desta vez.

Avançando, pousou a mão pesada no ombro de Jim.

- Jim, o que nós queremos todos é que dia a dia te apegues mais a este Oeste maravilhoso! - disse num tom de voz significativo.

O rapaz sentiu naquelas palavras simples toda a lealdade sem limite, toda a força e toda a coragem heróica daqueles homens a quem chamava amigos.

- Podem ter a certeza que assim será! - gritou Jim, pondo-se de pé num pulo.

 

Jim conseguiu resistir à tentação de subornar os vaqueiros para que, em grupos isolados, fossem ao armazém, à secção onde trabalhava Molly e aí, enquanto faziam compras, fossem conversando com a rapariga e lembrando-lhe que Jim continuava apaixonado por ela.

A ternura que o rapaz sentia por ela aumentara ou pelo menos reafirmara-se.

Jim passeou pela cidade todo o santo dia e teve a surpresa de ver que os vaqueiros, sem que lhes tivesse formulado qualquer pedido, entravam e saíam constantemente do armazém, carregados de embrulhos. Sorriu para si próprio ao imaginar curly repetir a Molly com a sua voz arrastada e persuasiva que tinha perdido a cabeça. E que Bud na sua exuberância diria "a rapariga estava para além de qualquer conjectura." Slinger! Jim quase se esquecera dele, do irmão e guarda da sua Molly. Quase receava pelo que ele pudesse fazer. Enfim! O que era certo é que os vaqueiros acabariam por pôr Molly maluca, com as suas observações, comentários e conselhos.

O rapaz pensava em tudo isto, indolentemente deitado num sofá da sala de entrada do hotel, quando pela janela, viu Molly atravessar a rua e entrar no armazém de Davis. Eram ainda só quatro horas e a rapariga devia ter portanto ainda mais uma hora de trabalho. Que oportunidade maravilhosa e inesperada! Jim levantou-se rapidamente, atravessou a rua a correr e foi pôr se ao pé de um poste junto ao armazém. Assim podia ver sem praticamente ser visto, exactamente o que lhe convinha. Teve que esperar durante alguns minutos, que lhe pareceram uma eternidade.

Finalmente Molly saiu e Jim deu um passo na direcção dela, de tal modo que ela espantada, soltou um grito e deixou cair alguns embrulhos que trazia nas mãos. Jim baixou-se e delicadamente apanhou-os, olhando em seguida para Molly, que estava corada como uma rosa vermelha.

- Posso ajudar-te a levar os embrulhos. Para onde vais? - perguntou com um sorriso.

Molly parecia ao mesmo tempo furiosa e satisfeita. Era evidente que aquela era a última oportunidade para os dois.

- Tu... tu... - gaguejou ela.

- Toma cuidado, querida. Estamos na rua principal de Flag e há gente Por todo o lado. Se me queres insultar é melhor

fazê-lo noutro sítio.

- Serei capaz de te insultar aqui mesmo! - declarou ela de olhos faiscantes.

- Claro que és, amor, mas não fica bem a uma rapariga insultar assim um cavalheiro. Para onde vais?

- Para casa.

- Pois bem. Eu levo-te as coisas! - Ao pegar nelas, Jim deixou cair um pacote e ao tentar apanhá-lo, caíram vários outros, de modo que passou um certo tempo até que os conseguisse ter todos na mão. Ao levantar-se pareceu-lhe que Molly, afastava dele uns olhos em que havia desejo.

Nessa mesma altura passava Sue Henderson.

- Olá, aos dois! - disse com um sorriso muito rasgado. - Anda tudo nas compras. Até logo à noite.

Jim respondeu alegremente:

- Olá! Como estás?

A resposta de Molly foi absolutamente ininteligível

- Querida, por onde queres ir?

Mas já Molly, muito pálida se afastava a passos rápidos. Jim apanhou-a e pôs se a andar ao lado dela. Caminhavam em silêncio, sentindo no rosto as rajadas frias do vento do inverno. Molly trazia um vestido leve, pouco próprio para a estação e devia ter frio. Jim sentiu um desejo enorme de lhe falar do casaco de peles que comprara para ela, mas percebeu também que o momento não era oportuno.

- Usaste de um truque muito baixo! - explodiu.

- Eu?

- Sim. Puseste os vaqueiros todos a perseguir-me.

- Molly, juro-te que não! Não seria capaz de te mentir.

- Claro que não! Conheço-te bem, Jim - disse irritada.

- Garanto-te que estou inocente.

- Inocente? Tu?

- Sim, inocente. Pensei que seria de facto bom que eles lá fossem, porque assim serias obrigada a lembrar-te de mim. Mas não lhes disse nada. E mais, Molly! Ontem fui eu que impedi slinger de ir à tua procura.

- Impediste ontem, mas não impediste hoje. Oh! Foi horrível! - E a voz quebrou-se-lhe num soluço.

- Molly! Lamento muito! Que é que Slinger fez?

- Escusas de perguntar porque não te digo nada. O que garanto é que nunca perdoarei nem a um, nem a outro.

- Sim? Pois não te deve ter feito nada que não mereças - disse Jim laconicamente.

O sarcasmo de Jim, fê-la falar.

- Ele desgraçou-me! - começou quase a chorar. - Foi em frente de dois empregados e da senhora Owens! Ela vai espalhar tudo.

- Vai espalhar tudo o quê, querida?

- Não me chames querida! - vociferou Molly. - Deixa-me em paz ou eu fujo.

- Está bem. Tentarei não ser sentimental. Diz-me o que se passou com Slinger.

- Ele só disse: "Vem minha gata!" Fiquei paralisada de terror quando o vi entrar. Havia qualquer coisa de terrível na expressão dos olhos dele. Depois de me ter cumprimentado com as palavras que acabas de ouvir, levou-me a mão à blusa, puxou-me com força para cima do balcão até eu ficar com a cara contra a madeira e... Bateu-me, bateu-me até se cansar. Depois disse que nos voltaríamos a ver mais tarde.

Jim não dizia nada, de olhos fechados, na rua deserta.

Tinha vontade de gritar.

- É horrível realmente - concordou por fim -, Principalmente para uma rapariga crescida como tu. E o que fizeram os vaqueiros?

- Iam-me Pondo maluca. Um a um, dois a dois, três a três, o rancho em peso, passaram o dia a entrar e a sair - queixou-se ela. - Não disseram uma palavra a teu respeito, mas era sempre em ti que eu e eles pensávamos. - Disseram-me coisas maravilhosas do baile... do baile que o teu tio... o senhor traft queria dar para mim... dos presentes do Natal...

- O tio vai dar mesmo o baile para ti.

- Foram uns amores - continuou Molly, preferindo ignorar a interrupção de Jim. - Sabes que durante as férias o senhor babbitt dá a todos os empregados dez por cento das vendas.

Curly Prentiss soube disso, não sei como, e o resultado é que aqueles demónios compraram tudo que havia na minha secção.

O senhor Babbitt ficou de boca aberta e elogiou-me. Como se tivesse alguma coisa a ver com os idiotas que não sabem o que hão-de fazer ao dinheiro! E Bud Chalfack!... Nem se conta!

- Conta, sim, Molly. Vamos! - disse Jim em voz baixa.

- Foi Curly que me contou - hesitou Molly. - Jurou que Bud comprou a mobília... de quarto mais bonita que havia no babbitt... para mim. Para presente do Natal... e presente de casamento... ao mesmo tempo. Bud diz que não pode pensar que o casamento se não faça. Diz que morre de desgosto.

- Que exagero! - exclamou Jim surpreendido. - Claro que eles tinham de exagerar tudo. Que comprassem presentes para ti. e que deixassem o armazém limpo... de acordo. Mas tudo o mais foi de gente sem tacto. Para não dizer mais nada. Molly tens que lhes desculpar. Simplesmente não podem tomar o rompimento a sério, tal como eu não posso!

Molly parou em frente de uma casita modesta, quase ao fim da rua. Jim reparou num enorme pinheiro, o único que havia ali e que podia muito bem servir de referência no futuro.

- É aqui que eu vivo - anunciou ela.

- Estás aqui bem?

- Estou habituada ao frio e há aqui um fogão na sala. Entra! Jim ficou encantado com o convite. A pequena sala era modesta, mas confortável. Jim pousou os embrulhos de Molly numa cadeira e voltando-se viu que ela tirara já o chapéu e o casaco e aquecia as mãos. Estava bonita mas triste. Jim sentiu um desejo grande de a apertar nos braços. Fora essa sempre a sua intenção logo que tivesse oportunidade para o fazer e no entanto, alguma coisa o impedia agora.

Talvez a intuição íntima, de que, durante a caminhada, ela se aproximara dele. O facto de ela o ter convidado a entrar mostrava bem que as coisas tinham mudado.

- Obrigado por me teres feito entrar - disse Jim. - Estás talvez a pensar que vim aqui para desabafar. Pois bem, enganas-te. Quando falarmos do assunto, haverá questão e eu não quero discutir hoje. Não quero estragar-te o Natal. Só te peço uma coisa... Que mandes dizer a Darnell que não vais ao baile.

- Isso seria incorrecto.

- Talvez pareça incorrecto, mas por vezes há razões fortes para que se seja indelicado. A não ser que queiras perder o bom nome.

- Já Glory me veio com a mesma cantiga e não acredito nem em ti nem nela. Não é...

- Não vamos discutir. Vais comigo ao baile em vez de ires com Darnell?

Ela baixou a cabeça e fechou as mãos com força. O corpo tremia-lhe como varas verdes.

- Comigo e com Glory, está visto. Ela quer que tu vás. Além disso penso que é altura de tu voltares para casa. Antes que me exponhas à troça de toda a cidade.

- Tu, à troça?

- Sim. Não é que me importe o que possam dizer de mim. O que quero evitar é que te julguem mal.

- Pois aí está. É precisamente isso que eu não procurarei evitar - declarou Molly, apressada.

Jim olhou-a demoradamente. Se tivesse um carro à porta, tê-la ia agarrado e levado para casa sem mais demoras.

- Por enquanto não estou zangado contigo, mas não tarda que esteja.

- Que me importa?

- Bem vejo. Interessa-te realmente esse batoteiro. essa fala barato, Ed Darnell?

- Como te atreves a falar dele assim? - e os olhos da rapariga faiscaram. - Hei de repetir as tuas palavras ao senhor Darnell. Sempre quero ver se depois te mostras ainda tão corajoso.

Apesar de tentar dominar-se, Jim sentiu que todo ele fervia lá por dentro. Que Molly defendesse tão acaloradamente um aventureiro barato, não era de modo algum tranquilizador.

- Vai dizer-lho já. Sempre és muito estranha, Molly. Só para me magoares, finges te apaixonada por esse desconhecido, esquecendo que Slinger Dunn, talvez o homem mais temido do Arizona é teu irmão e meu sócio.

- Jim Traft, não tens o direito de afirmar que me sinto apaixonada.

- Então porque fazes isso?

- Isso, o quê?

- Porque fazes de mim objecto de troça. As meninas de Flag não podem comigo. os rapazes não me interessam, a não ser os vaqueiros. As velhas não me podem ver. Quando toda esta tropa souber que me Puseste a andar...

- Nunca o saberão! Farei com que pensem que foi justamente o contrário! - Molly falava apaixonadamente, não havia dúvida.

Jim compreendeu porém, que aquela discussão os não levaria a lado nenhum. Sabia perfeitamente que só a venceria pela força. Tentou outro argumento.

- Viste um dos meus presentes de Natal para ti. Que tal o achaste?

- Deu-me pesadelos.

- Não tens curiosidade em saber qual é o outro?

- Nenhuma! Sou uma rapariga pobre, mas não me vendo a um ricaço do Missouri!

- Costumavas chamar-me "Missouri" e beijar-me. Lembras-te daquele dia em que fomos os dois à caça?

- Tento esquecer isso tudo! Oh! Jim. Foste tão bom para mim!... Eu... Eu... terei que me esquecer de ti, se algum dia for para o mau caminho...

- Esse tal Darnell, já alguma vez te tocou?

- Insultas-me? - gritou ela, colérica

-, claro que não! - Mas, Molly, sê razoável. Foste tu mesma que deste a entender, que encorajarias tais coisas.

- Sim, se me obrigares a isso.

Parecia que tinham chegado a um beco sem saída. Olharam-se frente a frente, como dois leões prontos para o ataque. Por fim, Jim dominou-se e disse

- Querida, fazes ideia daquilo a que me podes levar?

Ela sacudiu a cabeça.

- Não sabes que te adoro, Molly?

Desta vez a cabeça pendeu-lhe.

- Não vês que dás cabo de mim, se insistes na tua loucura? Ela cobrira já o rosto com as mãos e lágrimas ardentes deslizavam-lhe por entre os dedos. Jim pressentiu que era altura de se retirar.

- Não quero incomodar-te mais - disse -, Não chores, porque ficas com os olhos feios. Até logo. Espero que dances uma vez comigo.

Antes de jantar, Jim foi ter com os vaqueiros, que encontrou em casa, muito bem dispostos no meio de artigos de todo o género, comprados sem qualquer selecção. Nenhum deles tinha tocado em álcool, o que sem dúvida era uma coisa notável na véspera do Natal. Quando ele entrou, começaram todos a gritar e a bombardeá-lo com embrulhos.

- Feliz Natal ! - gritou Bud.

- Menino bonito do Missouri! - gritou Curly.

- Viva o rei dos diamantes! - gritou Cherry.

- Seu patinho apaixonado! - gritou um qualquer, que Jim não identificou, porque estava ocupado a defender-se dos pacotes que lhe caíam em cima, vindos de todos os lados.

E assim continuou a brincadeira, até que os vaqueiros esgotaram o seu vocabulário.

- E querem que eu tom este tiroteio como prova de amizade? - perguntou Jim, com fingida solidariedade.

- O que queremos é que saibas que por tua causa e por causa de Molly, não temos um tostão.

- Eu também estou teso, mas pagaremos todas as dívidas.

Alguém observou que Jim havia tanto de o ajudar a pagar como a velha da taberna e, como o rapaz sabia que se tratava de uma praga forte, não fez mais comentários.

- Slinger, espero que não tenhas contado a estes selvagens o que fizeste no armazém?

- Claro que contei! E eles estão do meu lado, senhor Traft - replicou Dunn.

- Jim, quando um tipo aprende a tratar irmãs teimosas ou namoradas tontas, como Slinger fez hoje, começa a ter juízo.

- Receio que não dê resultado em raparigas decididas como Molly e Gloriana.

- Dá!... As mulheres são todas as mesmas! Que dizes Curly?

- Digo que é véspera do Natal e que apesar disso, estou triste. "Paz na terra aos homens de boa vontade". O que vejo é lutas por todos os lados. Para muitos de nós será este o último Natal.

- Então é melhor embebedarmo-nos - propôs Bud.

A proposta foi apoiada por todos.

- Curly, que tens? - perguntou Jim, vendo o seu vaqueiro favorito tão preocupado.

- Pergunta a Bud.

- Bem, seria melhor não pensar nisso até depois de amanhã.

Mas... enfim, lá vai. Curly e eu demos hoje uma volta pelas salas de jogo. Eu não sabia ainda nessa altura quais eram as intenções dele. De qualquer modo, o porteiro de Snell, tentou impedi-lo de entrar, mas apontando-lhe ao peito o cano da pistola, não houve mais discussões. Um amigo de Curly

tinha-lhe dito que havia esta tarde no Snell um jogo de categoria e não se enganara. Bambridge, Blodgett, um rancheiro que não conhecia ainda, Blake, o dono do hotel de Winslow e darnell lá estavam. Só queria que visses o que ia naquela sala! Bambridge fazia apostas enormes e perdia sempre a favor de Darnell. Blake percebe do jogo e no entanto parecia capaz de engolir os outros, possivelmente furioso por estar a perder. Quanto a Darnell, vi que sabia muito bem tirar partido das cartas. Fazia batota à descarada.

- Estou a perceber. - disse Jim, arrastando as palavras, à sua maneira já bem conhecida. - Mas, Curly, não vejo porque é que estás triste?

- Estou a pensar em duas coisas. Primeiro, preciso de arranjar dinheiro suficiente para entrar para o tal jogo; segundo sempre quero ver se Darnell é tão hábil com a pistola, como é com as cartas.

- A vida é dura, quando se está apaixonado - filosofou Bud.

- O céu está azul, os campos verdes, os pássaros cantam, os apaixonados trocam beijos e abraços e... um pouco mais adiante a morte espreita os descuidados.

- Qual é a tua ideia, Curly? - perguntou Jim, vivamente interessado.

- Jim, é esta a melhor maneira de nos vermos livres do senhor Darnell, sem complicações para as raparigas. Flag é um centro de má língua e já houve conversa a mais.

- Vermo-nos livres de Darnell!? - exclamou Jim.

- Sim... Se conseguir o dinheiro, não terei dificuldade em entrar no jogo e depois de lá estar, será fácil. Finjo-me bêbado e acuso Darnell de fazer batota no jogo. Talvez ele puxe então da pistola. e o que vier depois logo se vê!

- Curly, é um plano magnífico!. Mas custa-me a crer que darnell algum dia tenha coragem para puxar de uma pistola. É um cobarde!

- Nunca se sabe ao certo.

- Tolices! - explodiu Bud. - Está se mesmo a ver que aquelas mãozinhas bem tratadas não sabem usar uma arma. E de resto, que diferença faz, se a souber usar? Poupa-nos o trabalho de o enforcar num pinheiro. Porque, acreditem, esse será o fim desse tipo! Tenho a certeza... e se quiserem, digam quantas vezes é que os meus palpites já saíram errados. Vamos!

- Curly, comprometo-me a arranjar o dinheiro e eu próprio irei contigo ao Snell. - Disse Jim.

Imediatamente o Diamante era a favor da presença de todos nesse momento solene. Curly não se opôs, com a condição de que cada um entrasse sozinho, sem atrair as atenções.

- Parece que se joga o poker todas as tardes. mas também pode acontecer que vos não deixem entrar. A entrada é reservada. Não comecem à pancada. Isso fica combinado desde já. Jim, Achas bem às quatro horas?

- Sim. Quanto dinheiro será preciso?

- Bastantes notas, senão não me deixam jogar. O que podes é estar descansado, porque não perderei muitas.

- Isso já me consola. Verei como havemos de arranjar isso.

Agora, quanto ao baile desta noite, vai lá cair a cidade em peso. Nada das brincadeiras que vocês às vezes fazem.

Tentei convencer Molly a não ir com Darnell, mas ela teima e vai mesmo com ele. Sempre quero ver o que dali sai.

- Jim, encontrei hoje Sue Hendersom - disse Curly. - perguntou-me se sempre era verdade que Molly não ia ao baile contigo. Sue tem uma linguinha de prata como nós sabemos! Pior do que ela só a mãe. Foi por isso que resolvi puxar pela cabeça. Disse-lhe então que vocês tinham tido uma pequena questão e que não iriam juntos ao baile. Só queria que visses a cara dela. Perguntou-me muito interessada se a questão também se reflectia no noivado. Garanti-lhe que não, mas. é claro que ela não acreditou. Molly vai passar um mau bocado!

- Só lhe faz bem - disse Slinger.

- Coitada! Ela arranjou a maneira mais estranha de convencer os outros de que não vale nada! - continuou Curly. - O que nem por sombras ela suspeita é que Darnell nunca seria capaz de perder as boas graças de uma das meninas finas de Flag para andar com ela. Aposto que Molly vai segurar as paredes da sala, esta noite.

- Mas vocês... - começou Jim.

- Nós sabemos muito bem o que temos a fazer!

Quando, depois ao jantar, Jim contou esta conversa a gloriana, ela não se mostrou absolutamente nada admirada. A rapariga com a sua perspicácia feminina parecia compreender os vaqueiros melhor do que ele e, neste caso particular, ver mais longe e mais claro.

- Será uma boa lição para ela, Jim. se o Darnell a deixasse de vez.

- Não te percebo.

- Molly não é para ele mais do que uma rapariga bonita, com quem há-de brincar enquanto lhe apetecer. Mas nunca seria homem para casar com ela. Parece que anda muito entusiasmado atrás de Sue Henderson. Como sabes, todas estas meninas têm admiradores que as levam aos bailes e o caso é simples. Ed darnell não conseguiu nenhuma das meninas que lhe convinham e resolveu levar Molly. Está bem de ver que não vai passar a noite a dançar com ela! Olha quem!...

- Isto não me agrada nada!

- Vai ser uma véspera de Natal horrível para ti, em paga de tanta generosidade que tens mostrado para com todos. Mas a vida é assim mesmo. No fundo, tenho a certeza que este baile decidirá tudo a teu favor. E agora, vai te embora, para eu me poder arranjar.

- Que vais vestir, Glory?

- É uma ocasião importante e quero que todos saibam que Jim traft tem uma irmã, de quem não precisa de se envergonhar.

- Meu Deus!

- Aproveitarei ao máximo esta oportunidade.

Jim saiu a correr à sala de estar para poder ainda falar com o tio, antes de se ir vestir.

- Jim, não vou a este baile, que para mim não seria nada divertido - anunciou o rancheiro. - Guardo-me para a festa de Molly, na quarta feira. És responsável por que ela esteja já cá em casa, nessa altura.

- Prometo que ela estará cá.

- Traz-me aqui Glory antes de sair. Gosto sempre de olhar para ela e hoje mais do que nunca deve estar bonita.

Enquanto se preparava para a festa, Jim pensava febrilmente em como os seus vaqueiros e os restantes rapazes poriam Molly à margem naquela noite, e talvez tivesse uma oportunidade de levar a cabo o seu plano. E então, de acordo com as previsões de Gloriana, se Darnell se comportasse mal, todas as condições se reuniriam para o grande golpe. Tinha, no entanto, que sufocar dentro de si mesmo a vergonha e o ressentimento por ser obrigado a recorrer a tais expedientes, seria feito o mais depressa possível não só e não tanto por sua causa, mas por causa da rapariga.

O quarto que Molly ocupara na casa do rancheiro, tinha sido conservado exactamente como ela o deixara.

Jim foi à cozinha e deu ordens para que por volta da meia noite acendessem as luzes nesse quarto e o fogão também.

Por fim o rapaz tirou do seu guarda fato o casaco de peles comprado para Molly e com ele no braço, atravessou o corredor.

O quarto de Molly estava às escuras, apenas vagamente iluminado pelo clarão irregular das chamas por trás do biombo.

Jim dirigiu se à sala e deparou com Glory a pavonear se para o tio a ver. A rapariga deixara cair as suas peles e estava linda, com um vestido branco de renda, os braços e o colo a descoberto, um sorriso de verdadeira alegria no rosto e um brilho intenso no olhar.

- Glory, estás um pouco parecida com a tua mãe - dizia o velho nesse momento -, mas tu és um bocado mais... Bem, pequena, espero que esta gente do Oeste não seja excessivamente rude e que saiba fazer-te feliz. Eu sinto-me rejuvenescido só de olhar para ti.

O velho parecia quase comovido.

- Obrigado, tio. Os seus elogios sempre me agradaram muito especialmente. Não se preocupe com os meus modos da cidade.

Daqui a algum tempo estarão gastos e então espero ser digna de ser feliz neste Oeste maravilhoso.

E, mais encantadora do que nunca, Gloriana inclinou-se para o tio, para lhe desejar uma boa noite.

Para os hábitos do Oeste, era já bastante tarde quando gloriana e Jim chegaram ao hotel cheio de gente. As salas, decoradas a vermelho e verde e profusamente iluminadas, tinham um aspecto acolhedor. Logo à entrada, chegaram até eles os risos alegres dos que se divertiam já lá para dentro, misturados com acordes de música espanhola.

Jim acompanhou Gloriana até à larga escadaria que levava ao vestiário das senhoras e foi ele próprio para o dos homens.

Ali encontrou Curly e Bud, impecáveis nos seus fatos escuros e camisas engomadas. Especialmente Curly estava com um esplêndido aspecto e o que é mais importante, via se que estava à vontade, apesar do fato novo, o que já não acontecia a Bud. Slinger apareceu também.

- Onde estão os outros? - perguntou Jim.

- Andam para aí. Up, Lonestar, Cherry e Jack arranjaram umas pequenas, não sei onde. Hump diz que ainda não pode dançar e que fica só a ver.

- Jim, só queria que visses a rapariga que entrou pelo braço de Jacksom Way - disse Bud. - Vem da cidade. Temos de arranjar-maneira de dançar com ela.

- Pois claro - tranquilizou-o Jim.

- Jim, vejo que desobedeceste às ordens de Ring Locke - censurou Curly.

- Vai para o diabo ! Onde querias tu que eu escondesse a pistola?

- Bem, são maneiras de ver. Também estou bem vestido e, no entanto, se passares a mão por mim hás de sentir alguma coisa.

Jim suspirou. A ideia do baile, quase o fizera esquecer por completo a ameaça que pairava no ar a todas as horas e em todos os lugares.

- Agora já não tem remédio. Se Croack Malluy aparecer, logo se vê como é que me hei de safar.

- Não deve aparecer aqui, mas nunca se sabe. E para ti, a questão não é esperar que ele apareça e te veja, mas é tu o veres primeiro.

- Slinger, hoje danças?

- Parece-me que não terei outro remédio.

- Bem, vamos buscar Glory.

A rapariga estava na escada à espera de Jim e parecia uma verdadeira rainha.

- Meu Deus!... Deixa-me segurar a ti, Curly - murmurou Bud.

Curly também deixou escapar uma exclamação de espanto, que não passou despercebida a Jim. Quanto a Slinger, continuou impassível.

Gloriana desceu ao encontro deles, aparentemente inconsciente dos olhos que a fixavam. Cumprimentou rapidamente-os vaqueiros e todos se dirigiram para o salão.

- Repare que desde a sua chegada, as meninas de Flag passaram a arranjar se melhor para estes bailes - fez Bud notar a Gloriana. - E os rapazes também.

- De facto estes bailes são um tanto diferentes daqueles que jim descrevia nas cartas - riu ela.

- Agora despacha-te Jim. Dança com a tua irmã, para ver se nós depois também conseguimos dançar - acrescentou Bud, como quem conclui um negócio.

- Não comecem a discutir quem é que há-de dançar com ela nem a estafem. Que não aconteça o mesmo que da última vez!...

Glory veio para o Oeste para se curar, não para que a enterrem. E agora, vamos, Glory.

Logo que se misturaram com os outros pares a rapariga aproveitou para falar ao irmão.

- Vi Molly lá em cima. Sue Hendersom e a mãe também lá estavam e não há dúvida de que as suas intenções para com a pobre criança não são das melhores. Como sabes a senhora hendersom é uma das pessoas mais consideradas na sociedade de flag. Pobre Molly. Está linda, mas vê se que está aterrada.

Claro que Darnell não vai querer saber dela para nada. Terás de aproveitar a oportunidade.

- Pobre Molly - suspirou Jim. - Vai ser uma noite horrível para ela... e para mim. Se não fosse estar tão preocupado, sentir-me ia um rei, por poder mostrar-te na frente desta gente toda. Os vaqueiros ficaram boquiabertos quando te viram.

- São uns amores. - Murmurou Gloriana sonhadora.

- Mas... e muito a sério. Slinger assusta-me.

- Só tens que aproveitar a noite e que te divertires.

Todos os olhos estão fixos em ti. Estás maravilhosamente bela. E danças como uma bailarina. Glory, não terás desperdiçado mais tempo do que seria para desejar em bailes e outras coisas, que dizes?

- Infelizmente assim é - volveu ela com certa tristeza.

Quando a valsa terminou, os dois irmãos estavam num extremo do salão e tiveram de o atravessar, por entre murmúrios de admiração e alguns olhares de inveja.

Jim viu no meio da confusão Jacksom Way com uma rapariga-morena, muito bonita. O outro preparava-se para se escapar, quando Jim lhe bateu no ombro.

- Olá! Para onde vais? E, passados minutos, o vaqueiro e a sua bonita companheira eram levados à presença de Curly, Bud e Slinger.

- Glory, deixo te agora entregue aos cuidados do Diamante - disse Jim, depois das apresentações. - Mas olha que não te perco de vista.

- Jim, estão ali Ed Darnell e Molly - interrompeu-o Gloriana num murmúrio apressado.

O rapaz estremeceu, como se um raio lhe percorresse o corpo.

Viu primeiro Molly e reconheceu-a imediatamente, embora tivesse a sensação de a ver apenas à distância.

Sorriu amavelmente, inclinando a cabeça, como se nada tivesse acontecido. Gloriana fez outro tanto, mas os vaqueiros não deram o mínimo sinal de conhecer Molly e voltando-se uns para os outros começaram a conversar indiferentes.

Depois, o olhar de Jim fixou-se em Ed Darnell. Quase que lhe custava a crer que aquele peralta de aspecto tão distinto, fosse o mesmo homem que vira na estação de Winslow, a conversar com Bambridge. Resolveu observá-lo melhor, para chegar à conclusão do que havia de fazer.

Nesse momento, porém, começou a terrível experiência. Jim deixou Gloriana entregue aos vaqueiros e começou a sua onda de condenado. O embaraço e humilhação que vinha sentindo nos últimos dias tinham sido substituídos por uma dor profunda.

Percorrendo o salão de baile, os corredores e a entrada, o rapaz certificou-se daquilo que temia. Todos sem excepção se afastavam de Molly. Os vaqueiros, os amigos, os rapazes e as raparigas de Flagerstowm pareciam ignorar por completo a sua existência. Por outro lado, notava se uma curiosidade mal disfarçada em volta da infeliz Molly, de Cibeque, irmã de um pistoleiro, a rapariguita da floresta que voltara as costas ao sobrinho Preferido do velho Jim Traft. A curiosidade era evidente e mais evidente se tornava em cada momento que passava. O falatório que se fizera dias antes, prosseguia ali.

De tudo aquilo havia, no entanto, uma coisa boa: é que Molly dunn não poderia deixar de reparar na humilhação que o seu comportamento acarretara a Jim Traft.

Este dançava com Sue Hendersom e com duas suas conhecidas antigas amigas.

Quanto a Ed Darnell, fazia exactamente o que Gloriana tinha anunciado. Deixando Molly para os vaqueiros e empregados, ocupava se das raparigas de condição social superior, as únicas que lhe interessavam.

Molly, fingindo não estar magoada, dançou e exagerou a sua alegria durante a primeira parte do baile. Mas as forças faltaram-lhe e a certa altura foi sentar se sozinha num canto.

Ali ficou durante três danças seguidas, sem que alguém a procurasse. Foi então que Jim julgou chegado o momento de intervir. Aproximando-se de Gloriana e Curly, que conversavam animadamente, disse-lhes:

- Vão dançar e deixem se de conversas românticas.

- E tu vais dançar com Molly, não é verdade? - perguntou a irmã. - Parece-me que é a altura própria.

- Se ela quiser dançar comigo. - Suspirou Jim.

Os três juntos dirigiram-se para o canto onde Molly continuava a procurar refúgio. Por um instante, a rapariga perturbou-se e toda ela pareceu querer desaparecer, toda, menos os grandes olhos escuros. Gloriana sentou-se ao pé dela e elogiou-lhe o vestido novo, dizendo-lhe que estava linda.

- Molly, queres dançar a próxima comigo? - perguntou Jim por fim.

Curly olhou o rosto pálido da rapariga e teve pena dela.

- Molly Dunn, não agraves o mal que já está feito - disse uma voz em que havia ternura.

Molly estava quase a rebentar em pranto, quando a música recomeçou.

Os pares começaram a dançar e Curly levou Gloriana para o meio deles.

Sem esperar o consentimento de Molly, Jim pegou-lhe na mão e levou-a consigo.

- Oh Jim! - murmurou Ela quando se sentiu segura nos seus braços. - Tem sido horrível. E o que me custou mais ainda foi que Gloriana se tenha vindo sentar ao pé de mim... falando comigo... como se nada Se tivesse passado. Nesse momento só queria que o chão se abrisse para me engolir.

Jim estranhou aquela confissão, Em que se misturavam a vergonha e o arrependimento. Nem uma palavra acerca dele! Mas afinal, até isso se compreendia uma vez que Gloriana e não ele, fora o factor dominante na queda de Molly.

- Glory é ouro puro, Molly. É pena que tenhas duvidado dela.

Sentiu que a mão rígida de Molly segurava mais naturalmente a sua e que o corpo dela se aconchegava ao seu.

- Estou envergonhada! - disse Molly, muito baixo. - Só me resta voltar para Cibeque e esconder-me lá.

- Como queiras! E sorrindo, Jim apertou-a contra si, como que para a proteger dos olhares de surpresa que os seguiam. Sentia-se longe de todos, parecia-lhe que estava só com Molly e acariciou-a, enquanto ela com a cabeça reclinada no seu ombro, parecia cair em êxtase.

 

A música acabou mais cedo do que qualquer deles desejava, e, imediatamente, Molly e Jim se retiraram para um canto, onde apenas estavam alguns parzinhos de apaixonados ocupados demais para ligarem aos outros.

Molly olhava para Jim fascinada, se bem que ainda inconsciente do que acontecera.

- Não faças isso, querida - suplicou Jim -, ou terei de te beijar aqui mesmo.

- Não faço o quê?...

- Não olhes para mim dessa maneira. É verdade que puseste em risco este Natal feliz, mas felizmente ainda não é tarde.

- Enganas-te. É tarde de mais. Todos me mostraram bem que eu estava excluída para sempre. Todos menos Glory. É um amor...

- Glory gosta de ti, e os outros que interessam? Não é com eles que vais viver! é cantiga.

E depois duma pausa Jim continuou:

- Molly, estavas enganada com esse Darnell. Ele quase desgraçou Gloriana. Tudo o que a minha irmã te disse a tal respeito, era verdade. Repara como ele procedeu contigo.

- Não preciso que mo faças notar. Eu própria o notei já. Ele andou a rir-se à minha custa. mas só hoje eu vi bem o que ele é. Antes de chegarmos aqui, insultou-me, Jim!

- O quê?... E, no entanto, não me admira. Mas como foi? espero que não te tenha tocado nem com uma mão!

- Tocou-me com as duas - disse ela falando com toda a franqueza. - Fez quase o mesmo que Hack Jocelyn.

Lembras-te?... Estava já quase a mordê-lo quando alguém entrou na sala.

- Hum!... Mas porque vieste com ele? - perguntou Jim, pondo-se muito calmo.

- Morria se não viesse ao baile. E a culpa foi minha, porque eu mesma disse a Darnell que não era suficientemente digna para a família Traft.

- Molly, tu és generosa... mas nem com toda a tua generosidade o conseguirás salvar agora.

- Deixa o em paz! Ele anda armado e pode fazer-te mal... É melhor armares-te... hei de dizer a Slinger. Verdade que hei-de... Mas Slinger despreza-me... ainda nem olhou para mim em toda a noite.

- Slinger não te despreza, mas está zangado contigo. Agora não podes deixar que Darnell te leve a casa. Promete que não consentirás.

- Prometido. E por favor pede a Slinger que me leve lá.

Estou farta deste baile. quero ir para casa.

- Para o rancho? - Perguntou Jim cheio de esperança.

- Não, para Cibeque. É lá o meu lugar.

- Pois seja - disse o rapaz. - Mas, vamos dançar mais uma vez.

Não deram uma palavra durante o tempo em que dançaram e, quando terminou, Jim pediu a Molly que esperasse perto da porta partindo à procura de Gloriana que encontrou com Curly.

- Vocês os dois devem estar a aproveitar - exclamou ao ver a alegria irradiante da irmã e no vaqueiro qualquer coisa que não conseguiu definir.

- É verdade que tem sido bom! - concordou Glory, corando.

- Dá-me a impressão que já estou no céu - observou Curly.

- Ainda bem. E olha, Curly, encarrego te de levares Glory a casa. Eu tenho que fazer. Não fiques até tarde, Glory.

E Jim afastou-se apressado, à procura de Slinger. Foi encontrá-lo na sala de fumo, com uma expressão triste no olhar. Via se que o baile não lhe interessava nada.

- Slinger, que fazes aqui? Não danças?

- Dancei uma vez com Glory... mas não danço mais. Se não estivesse preocupado com a minha irmã, punha-me mas era a andar. Tenho andado por aqui a ouvir o que Ed Darnell...

Slinger falou baixo e apontou para um grupo barulhento, formado só de homens. Darnell mantinha aquele ar de pessoa amável e bem educada, que Jim lhe notara no salão. Parecia ter à volta de trinta anos, era bem constituído e tinha feições correctas e um tanto sensuais. Bastava olhar para ele para ver que tinha saída entre raparigas.

- Então? - murmurou Jim.

- Bem, ele é estranho. Vem armado, repara.

- Não vejo nada.

- Pois garanto te que está. Se arranjasse um pretexto, caía-lhe em cima. Mas é claro que era tolice e que se iria agravar a situação de Molly.

- Deixa-o, é melhor. E escuta... Molly já foi bastante castigada. Ela pediu-me para te dizer que a leves a casa, mas eu tenho cá um plano. Vai arranjar-me um trenó e eu irei dizer-a Molly que tu a levas a casa.

Está visto que quem a leva sou eu. E para o rancho.

Entendidos?

- Bem percebo. Tens muita paciência para ela, Jim. Agora já estou mais descansado.

- Despacha te então.

Slinger afastou-se com o seu andar característico e Jim foi buscar o sobretudo e o chapéu. Esquecera se já do casaco de peles que dobrara e escondera dentro do sobretudo, mas ele lá estava. Apressou-se então a regressar para junto de Molly, que continuava só e muito pálida. Tinha um ar abatido.

- Slinger foi buscar um trenó - anunciou Jim, tentando parecer natural.

- De quem é este casaco?

- De Glory? É lindo.

- Enfia o depressa - ordenou ele, segurando-o para ela o vestir.

- Slinger pode trazê-lo no regresso.

Jim ajeitou a gola de pele emoldurando o rosto querido de Molly.

- Vamos! - disse pegando-lhe no braço.

E levou-a para fora, aliviado Por a sua saída não ter sido praticamente notada. Na entrada, quase iam tropeçando em darnell, que passava sorridente.

- Olá, pequena! Para onde vais?

E de repente o sorriso morreu-lhe nos lábios. Dois homens, evidentemente seus amigos, apareceram curiosos. Jim não reconheceu nem um nem outro.

- Vou para casa - declarou Molly.

Darnell deu um passo em direcção a Jim.

- Já nos vimos antes, se me não Engano - disse Ed Darnell.

- Julgo que sim. Sou Jim Traft... noivo de Molly Dunn. E é melhor afastar se para que este encontro não seja tão desagradável como o primeiro.

Antes ainda que acabasse de falar, já Darnell o reconhecera.

Um dos dois homens puxou-o, afastando-o do caminho e Jim passou, acompanhado da praga de Darnell.

- Aconteceu alguma coisa? - perguntou Slinger. - Vi Darnell a falar contigo.

- Não houve nada, desta vez - respondeu Jim.

à porta estava um trenó de dois lugares e um mexicano, que o devia guiar. Jim ajudou Molly a entrar e sentou-se a seu lado, embrulhando-a no casaco. A rapariga soltou uma exclamação em que havia protesto.

- Slinger... eu levo Molly a casa! - gritou Jim.

- Pois com certeza - disse o outro, acentuando as palavras de maneira significativa.

E o vaqueiro afastou-se para que o trenó pudesse passar.

- Molly - continuou depois -, foste uma tonta, mas não sei como nem porquê, Jim continua a gostar de ti, e eu... quero-te como dantes. Ao fim e ao cabo parece que é impossível

querer-te mal... mas para o futuro é melhor teres melhor caça.

Até amanhã!

- Slinger, deixa Darnell em paz! - gritou Jim.

- Pois seja, mas pelo menos hei de espiá-lo, É um tipo de certo modo interessante. Anda entusiasmado com uma das meninas ricas de Flag.

Jim deu uma gargalhada e ordenou ao mexicano que os levasse a direito pela rua principal.

- É mais perto por aqui - disse Molly, já um pouco alarmada.

Continuava, no entanto, sem verdadeiramente suspeitar de nada.

- O caminho por aqui é melhor - limitou-se a responder Jim.

Procurou a mão De Molly escondida nas pregas do casaco e encontrou-a gelada.

A rapariga não trazia luvas e, ou fosse por isso ou por qualquer outro motivo, tentou libertá-la. Em vão! Jim segurava-a como quem guarda um tesouro que não quer perder.

Passado um pouco deslizavam já sobre a neve, ao som alegre dos risos. Flocos muito brancos e leves começavam a cair-lhes no rosto.

- Agora... à direita! - gritou Molly ao mexicano.

- sim, à direita, para o rancho de Traft! - corrigiu Jim.

Molly pôs se em pé e teria saltado do trenó se Jim a não tivesse segurado com quanta força tinha. Ela ficou a debater-se-lhe nos braços, muito pálida, de grandes olhos brilhantes pelo esforço.

- Queres... queres ir buscar alguma coisa antes de me levares a casa?

- Claro, Molly. Não vês que é a noite de Natal - respondeu ele alegremente.

Nada mais disseram e embora o rapaz tentasse repetidas vezes pegar na mão de Molly, esta escondera a bem e não parecia resolvida a ceder. Vendo que nada conseguia, Jim envolveu a com o braço.

Quando chegaram junto de uns grandes pinheiros que se destacavam a negro contra a brancura da neve, Jim viu que estavam a chegar e preparou-se para a crise. Não valeria de nada tentar discutir. Chegaram e os risos deixaram de tilintar.

- Entra um bocadinho - propôs Jim, como se se tratasse da coisa mais natural do mundo.

- Não, obrigado. Eu espero aqui. Vai depressa... e lembra-te que não posso aceitar presentes de Natal.

Jim inclinou-se sobre ela, como se fosse aconchegar-lhe a roupa e em vez disso pegou-lhe ao colo.

- Natal feliz! - gritou para o mexicano -, Podes ir embora! Molly debatia se e gritava, mas a sua voz era abafada pelas peles que a envolviam e lhe tapavam a boca.

Jim levou-a e a correr subiram as escadas, atravessaram os corredores até entrarem por fim na sala de estar mal iluminada, onde Molly foi cuidadosamente deposta numa cadeira de braços.

Feito isso, Jim correu a fechar a porta à chave e suspirou de alívio - o pior estava terminado! Não sentia remorsos, mas antes uma felicidade um tanto excitada mas que nem por isso deixava de ser felicidade. Acendeu dois candeeiros e retirou o biombo da frente do fogão, e atirou-lhe algumas achas de cedro e pinho.

- Jim Traft... que vem a ser isto? - Perguntou Molly com voz rouca.

Jim voltou-se para ela muito calmo.

- Trouxe-te para aqui para casar - disse, já ligeiramente emocionado.

- Isto foi um truque.

- Tens razão.

- Nunca fizeste tenções de me levar a casa onde tenho vivido ultimamente?

- Nunca.

- E aquele malvado do Slinger sabia de tudo?

- Sim... foi ele até que foi buscar o trenó.

- Bem, agora que me trouxeste para aqui o que vais fazer?

- Desejar-te um Natal feliz e um Ano Novo cheio de felicidades.

- Também te... te desejo felicidades, Jim. - gaguejou ela.

- Obrigado. Mas ainda não é Natal - disse Jim, olhando para o relógio -, São só onze horas. Só à meia noite é que te dou o outro presente de Natal.

- Estás doido? Outro? Qual outro? Ainda não me esqueci que me mostraste um anel... - mas Molly, tens aí um dos presentes... o casaco.

Num grito de espanto e consternação, Molly levantou-se e despiu o maravilhoso casaco de peles que trazia e Acariciou-o, acamou-lhe o pêlo e resignadamente pô-lo sobre uma cadeira.

- Fica-te bem, não achas?

- És tal e qual como os outros - censurou ela, de lágrimas nos olhos. - Como é que hei de ir para casa? Quando volta gloriana? Quando... agora...

- Molly, nunca mais voltas para aquela casa - anunciou ele decidido, olhando-a de frente.

Molly deixou-se cair pesadamente na cadeira.

- Estou... estou...

- Estás em casa e aqui ficarás até que tenhamos uma nossa.

- Isso é um rapto.

- Talvez.

- És pior que Hack Jocelyn! - Gritou ela, incapaz de conter por mais tempo a sua fúria. - Vais pôr-me uma mordaça na boca, não? Vais prender-me a uma cadeira?

- Não. Tenho a certeza que nem tu te queres ir embora antes de falares ao tio. E isso só pode ser amanhã.

- Jim... não posso falar-lhe. Não sejas cruel comigo! deixa-me ir embora.

- Não... primeiro foste tu que me magoaste... que foste cruel...

- Foi para te fazer feliz. Não percebes, Jim?

- Não. Só sei que me ias matando de desgosto. Se não tivesse sido o tio e Gloriana... mas isso já passou e águas passadas não movem moinhos.

- Que é que fizeram o tio e Gloriana?

- Mostraram confiança em ti.

- É de mais, Jim... É de mais...

Jim sentou-se e puxou-a para o seu colo.

- Molly, o tio e Gloriana adoram-te.

- Não, não! Sei que não é verdade! Deixa-me ir embora, Jim.

- Ha! Ha! Não estejas tão nervosa. levanta a cabeça e olha para mim.

- Se tentas beijar-me... Jim. Traft... eu... eu...

E Molly debatia se já para fugir com os seus lábios ardentes aos beijos sôfregos de Jim.

- Molly, estás a dar cabo de um vestido maravilhoso - disse jim, tentando acalmá-la -, além de que estás com todos esses movimentos a dar espectáculo das tuas formas.

- Não me importa! - gritou ela furiosa.

Mas a prova que importava é que passou a debater se menos.

- Querida... - murmurou Jim.

O rapaz adivinhara há muito que aquela palavra tinha sobre ela um efeito mágico.

- Meu amor...

A luta parecia ter terminado.

- Não gostas de mim, Molly?

- O meu mal é esse... é gostar de ti demais. Acabo por te fazer infeliz. - Sussurrou ela, fitando-o com olhos que as lágrimas tornavam ainda mais belos.

Jim beijou-lhe as pálpebras e ela deixou-se ficar muito quieta nos seus braços, de olhos fechados e lábios entreabertos.

- Não queres ficar aqui, Molly?

- Não... não...

- Não queres ser minha mulher? - continuou ele cheio de ternura.

Molly deixou-se ficar calada e Jim tirou do bolso o estojo que ali guardava há dias com tanto carinho, abriu-o e tirando de lá o anel, enfiou-o devagar no dedo fuselado de Molly.

- Já está! Ela abriu os olhos e ficou a olhar, extasiada e ao mesmo tempo cheia de vergonha.

- Oh!. tenho sido... Slinger tinha razão...

- Em quê?

- Não interessa. Mas, Jim, és tão bom que cada vez gosto mais de ti. Juro-te que fiz tudo para teu bem.

É que Queria que todos soubessem quanto era indigna de ti... estava disposta a tudo. mas quando aquele estúpido, aquele darnell me deitou as mãos... quando tinha finalmente ao meu alcance a possibilidade de me degradar... não tive coragem.

Nessa altura só queria fugir dele a todo o custo. Foi o que fiz. Depois disso ele pediu-me tanto para ir, que acabei por lhe dizer que sim.

- Ainda bem que foste. porque, de contrário, estaria o meu plano todo estragado, mas peço te Molly, não me tornes a falar de Darnell.

- Afinal os outros nunca saberão verdadeiramente o bem que se passou - disse Molly cheia de esperança de que assim fosse de facto.

- Julgarão que foi uma simples questão de namorados - concluiu ele, sentindo-se feliz.

- Se ao menos Glory me perdoasse.

- Glory! Há quanto tempo ela te perdoou já!

- Bem sabes que jóia é a tua irmã. E quanto melhor ela era, quanto mais paciente e mais terna se mostrava para comigo, mais eu desejava magoá-la. Não queria que ela sonhasse que eu gostava doidamente dela. Ela parecia-me estar tão longe, tão acima de mim... Se ela me perdoar, juro que hei de ser melhor...

- Está tudo acabado. E agora querida, por todo aquele tempo que me fizeste sofrer...

- Se ao menos Pudesse... pudesse - lamentou-se ela.

- Paga-me então por cada momento que perdi - pediu "ele". - és capaz de fazer a conta?

- Parece-me que sim - disse ela pensativa. - Mas o que é um momento? é o mesmo que um minuto?

- É mais parecido com um segundo, o valor de cada momento varia. Uns são preciosos, outros horríveis.

- Bem. a hora tem sessenta minutos e o minuto sessenta segundos. Ora cinco horas... quanto dá? Tenho que pagar muito?

- Queres experimentar?

- Sim - disse ela timidamente.

- Põe os teus braços à volta do meu pescoço. Assim. E agora quero um beijo por cada um desses momentos.

Molly não tinha ainda cumprido muito da sua pena, constantemente interrompida por suspiros e carícias, quando bateram à porta. A rapariga sobressaltou-se.

- Já é preciso ter pouca sorte - resmungou Jim, pondo-a no chão -, Deve ser Gloriana.

E foi mesmo Gloriana que entrou, olhando sorridente de um para outro. Logo atrás dela estava Curly.

- Jim, espero não vos incomodar - disse ela num misto de compreensão e zombaria -, Já pensaram que estamos no Natal?

- Jim, espero que esta noite... a última parte desta noite se repita muitas vezes - gritou Curly, tendo imediatamente compreendido o que se passara entre os dois apaixonados - Molly, tenho andado muito aborrecido contigo, mas sou um homem compreensivo. Aqui vão com um beijo os meus desejos de um feliz Natal.

E Curly beijou-a inclinando-se galantemente, enquanto Molly corava e empalidecia alternadamente.

- Curly Prentiss é assim que dás as boas festas a todas as raparigas? - teve ela ainda espírito para perguntar.

- Não. Isto é especial para algumas raparigas.

E o vaqueiro avançou para Jim de mãos estendidas.

- Felicidades. Boa noite a todos. Até amanhã.

Depois de ele ter saído e de Jim ter fechado a porta seguiu-se um longo silêncio, durante o qual Gloriana e Molly se olharam nos olhos. Jim mal conseguia respirar.

Por fim Molly aproximou-se de Gloriana, sem revelar a sua atitude nem vestígios de vergonha que lhe iam na alma.

- Glory... estou aqui de novo... para ficar. - Disse com toda a simplicidade. - Jim raptou-me... e salvou-me de muita coisa má. Lamento ter sido tão teimosa. Tenho a certeza de que amo Jim. Serás capaz de me perdoar?

Gloriana apertou-a nos braços e inclinando-se para ela murmurou comovida.

- Já te perdoei há muito... e espero que me perdoes também.

Vem para o meu quarto. Boa noite, Jim, até amanhã.

 

Quando na tarde do dia de Natal Jim Traft e Curly prentiss entraram, já tarde na sala de jogo do Snell, esta estava cheia. Curly estava certo de que Darnell estava ali a jogar. O vaqueiro parecia estar sob a influência do álcool embora Jim tivesse a certeza de que assim não era.

Andaram um pouco pela sala farejando os ares, observaram a roleta e outros jogos de azar, uns mais procurados do que outros até que por fim se juntaram a um grande número de espectadores que assistiam ao poker.

Espreitando por sobre as cabeças dos outros, Curly verificou que Darnell e Bambridge estavam, de facto entre os jogadores. Mais ainda: os outros três eram exactamente os mesmos que ele e Bud tinham visto jogar com Darnell na véspera à tarde.

- Está tudo bem - declarou com os olhos azuis brilhantes de emoção. - Darnell está a fazer um jogão!

E voltando-se para o círculo de espectadores começou a abrir passagem entre eles.

- Deixem-me passar! - gritou, bem humorado. - O dinheiro queima-me no bolso. Quero jogar! Jim foi avançando atrás do amigo, até chegar à segunda fila, lugar onde podia seguir todos os movimentos sem ser visto.

- Meus amigos, quero entrar no jogo! - Disse Curly -, vocês são só cinco e jogo em condições é só com seis, Darnell levantou a cabeça e fitou Curly demoradamente, não relacionou, porém o vaqueiro que tinha diante de si, com o encontro de Winslow.

- Isto é Poker para quem tem dinheiro não para pelintras.

- Tens toda a razão - volveu Curly, sem se mostrar ofendido.

- Com certeza que me não julgas um pelintra.

E Curly passou a mão pela cara, muito lentamente, como costumam fazer os embriagados.

- Sai daqui imediatamente - rosnou Ed Darnell.

O seu interesse pelo jogo era tão grande, que qualquer interrupção o punha fora de si. O que era curioso é que, por mais excitado que estivesse, os olhos continuavam sempre frios e inexpressivos.

- Com trinta diabos! Deves ter chegado há pouco a Flag. - continuou o vaqueiro arrastando as palavras.

E com gestos desajeitados puxou uma cadeira e deixou-se cair nela. Atirou o "sombreio" para o chão e com a mão esquerda jogou para cima da mesa um grande maço de notas verdes, de cem libras.

- O meu dinheiro não foi roubado, nem é falso. Vale portanto tanto como o teu - declarou, inclinando-se para a frente.

O cabelo ondulado e em desalinho, escondia-lhe os olhos e tinha o queixo descaído, como se tivesse estado a beber demais.

Ao ver as notas os olhos mortos de Darnell esbugalharam-se de espanto e antes ainda que conseguisse falar, já Bambridge se voltava para Curly.

- Pois claro, que o teu dinheiro vale tanto como o dele! És até bem-vindo.

- Muito agradecido. Como estão a jogar?

- Cada um faz o seu jogo e não há limite nas apostas, - explicou um dos outros, que tinham estado em Winslow.

E o jogo prosseguiu, depois de Curly ter tido muita hesitação nas apostas, visto que só tinha dinheiro alto. o vaqueiro arriscava, no entanto, o menos possível, fazendo-o como uma estranha despreocupação.

- Esperem, até que o jogo me calhe de certa maneira! - lamentava se ele. - Então é que vão ver como se fazem apostas! Apesar de tal observação, Curly continuava a comportar se como um bêbado, a quem de repente tivessem enchido os bolsos de dinheiro e que não soubesse muito bem qual a utilidade de tal coisa. Uma vez ou duas, ainda um dos outros o aconselhou a prestar mais atenção, mas Bambridge, a quem o jogo convinha, enfureceu-se.

- se ele quer jogar, que jogue lá à sua maneira! Foi ele que nos pediu para entrar. Já perdi dois mil e se alguém mas quiser dar, aceito-as!

- Bambridge! Mais do que isso já eu perdi - declarou o rancheiro de Winslow, não sem sarcasmo. - E, de qualquer modo, acho ordinário roubar este rapazola!

- Roubar? Queres insinuar alguma coisa? - perguntou Darnell-mal humorado.

- Por enquanto ainda não - respondeu o rancheiro muito calmo.

- Agradeço os teus conselhos, mas não gosto de sermões. Sei jogar e por isso quero fazê-lo sozinho! Se perder, perdi! Vim para aqui para me distrair! E Jim continuou a observar Darnell, atentamente, como se o jogo lhe não interessasse realmente nada.

Ed Darnell tinha mãos brancas, nervosas e flexíveis, de longos dedos ágeis. Quando punha uma carta na mesa, fazia o sempre, no entanto com gestos lentos, e como se quisesse provar aos adversários que não fazia batota.

Houve uma aposta alta, que Bambridge ganhou.

O jogo continuou sempre no mesmo ritmo, até que por fim curly ganhou pela primeira vez. Mostrou-se encantado e a partir desse momento foi ganhando todas as jogadas.

Ed Darnell parecia nervoso, se bem que o não quisesse mostrar.

- Põe aí cem dólares dos teus - propôs, atirando ele próprio idêntica quantia para a mesa.

- Até pode ser mais. Cem dólares não são nada.

Darnell sobressaltou-se e olhou-o atentamente.

Curly tinha a cabeça ligeiramente inclinada para a frente, numa atitude que lhe era familiar. Mostrava se sorridente e parecia feliz como uma criança sem cuidados.

Todos os outros fizeram as suas apostas e a jogada passou a envolver a probabilidade de um lucro de mais de seiscentos dólares. Os espectadores tinham a respiração suspensa e ninguém ousava falar.

Os jogadores foram pedindo as cartas que lhes interessavam e curly disse com ar distraído.

- podem ser três para um...

Passados instantes e antes que alguém se apercebesse do que acontecera, Curly pôs se em pé de um salto e com a mão esquerda esmagou pesadamente a de Darnell contra a mesa. Com a direita puxou do revólver e bateu com ele com tal força que as cartas saltaram e os jogadores se levantaram atordoados.

Muito calmo, o vaqueiro voltou a sentar se e levantou para os outros uns olhos claros como cristal. A sua expressão era agora fria e decidida. Era extraordinário como num momento se transfigurara! Darnell, por seu lado, estava verde. Fora apanhado com a boca na botija! - Seu... miserável! - gritou Curly - com que então julgavas que estava bêbado? O círculo dos espectadores abrira-se, dividindo-se em dois grupos que deixavam entre si um espaço. O homem da Oeste compreenderia imediatamente o que significava.

- Que ninguém se mexa - vociferou Curly, a pistola apontada a cada um deles. Bambridge estava excitadíssimo. Aliás, só o rancheiro de Winslow se mantinha calmo.

- Olhem todos! - continuou O vaqueiro depois de alguns momentos de silêncio. E voltando-se para Darnell abriu-lhe a mão, que escondia três cartas amachucadas. - Azes! Vejam bem! - És muito ordinário! - rosnou o rancheiro -, Já me tinha palpitado que de vez em quando havia por aí manobra, mas...

- Darnell, geralmente aqui no Oeste há um pouco mais de benevolência com os batoteiros do que com os ladrões de gado apanhados em flagrante delito. Mas só se perde a primeira vez, a segunda é o diabo! - declarou Curly.

Em seguida e mantendo sempre o mesmo tom de voz, chamou a darnell tudo o que lhe veio à cabeça e acabou por gritar.

- O melhor é saíres imediatamente de Flag! Ouves!?... se em qualquer altura me encontrares... será bom que estejas armado.

Eu com certeza que estou! Darnell levantou-se, atirou a cadeira ao chão e abriu caminho para a saída. Nada lhe interessava naquele momento senão desaparecer.

Curly pegou na pistola e ou porque o fizesse deliberadamente ou porque assim acontecesse por acaso, a verdade é que ela ficou apontada para Bambridge.

- Agora, meu amigo, quero dizer-te uma coisa. Há muito tempo que há suspeitas a teu respeito... suspeitas muito anteriores a este jogo de poker. Já uma vez disse à tua filha umas verdades, que é claro, não gostou de ouvir, mas...

- Quem diabo é este aldrabão?

- interrompeu Bambridge furioso.

A mão de Curly levantou-se por duas vezes.

- É melhor não te atreveres a chamar-me mentiroso, outra vez! Eu sou Curly Prentiss e faço parte do Diamante. Mesmo que não houvesse mais nenhum rancho interessado em tratar-te da saúde, podias ficar sabendo que te temos debaixo de olho.

Sabemos que és bem pior do que Jed Stone... com quem te meteste! E agora escuta. O que disse ao teu amigo Darnell, repito-o para ti. Está percebido? Se quiseres conversar comigo, será de pistola na mão... aqui... ou em qualquer outro lugar.

- Seu bêbado! Hás-de pagar-mas. Insultar um homem inocente e desarmado... - repetia Bambridge ofegante.

Por fim este levantou-se, muito pálido, a fronte coberta de suor e os olhos esbugalhados, como se estivessem prestes a saltar-lhe das órbitas. E afastando a multidão, que voltara a fechar o círculo, saiu.

- Peço desculpa por ter interrompido o vosso jogo - disse curly, guardando a pistola. - Mas, parece-me que evitei que fossem roubados. Que tal, se dividíssemos o que está na mesa e déssemos isto por terminado?

- De acordo, Prentiss - volveu o rancheiro de Winslow. - e acredita, que te estamos agradecidos.

Foi Jim e não Curly quem pôs o resto do Diamante ao corrente do que se passara na casa de jogo no dia de Natal.

Bud e Cherry, que à socapa já tinham tido a sua parte, acharam que era motivo mais do que suficiente para fazerem uma saúde e sem dificuldade convenceram Lonestar e Up Frost a acompanhá los. Jacksom Way é que, devido à sua nova namorada, se recusou terminantemente a beber.

- És um bruto! - rosnou Bud.

- Não é questão de brutalidade - respondeu o outro muito sério. - Simplesmente, há certas alturas na vida de um homem em que o vinho e as más companhias deixam de lhe interessar.

Jim, aconselhado por Ring Locke, voltou à cidade e acabou por ir para casa jantar. Mais tarde apareceu Curly, muito calmo, como se nada lhe tivesse jamais acontecido.

- Os vaqueiros foram-se e por estas horas devem já estar em bonito estado. Estou farto de os procurar e não dou com eles.

E o pior, é que se se não põem a dieta, não estarão capazes para a festa de Molly.

A Jim, aquela noite passada tranquilamente em casa, pareceu-lhe um sonho. Que estranho olhar para Curly, tão sorridente e amável, ele que poucas horas antes se mostrara tão forte! O gigante brincava com Molly, metendo-se com ela e não raro atingindo indirectamente Gloriana.

- Isto, de raparigas, nunca se sabe, Jim - afirmava ele. - eu já as conheci de todos os géneros! As louras são muito perigosas e nas morenas não há que fiar! Ainda as que oferecem-maiores probabilidades são as ruivas. As morenas! Santo Deus! são teimosas como burros... capazes de se mostrarem meigas como anjos durante um certo tempo. mas no fim, são as que magoam mais. Só no Natal e no dia de anos é que se podem deixar andar à vontade. Quanto àquelas pequenas que não são nem louras nem morenas e que têm os olhos cor de violetas orvalhadas... essas são raras. Já ouvi falar de várias. mas até agora só vi uma.

O tio Jim ria a bandeiras despregadas, no que era acompanhado por Gloriana. Molly agarrou em qualquer coisa e atirou-a ao gigante.

Decididamente aquele Curly seria sempre Motivo de surpresa para Gloriana. Passaram uma hora muito agradável na sala de estar e volvida esta, o velho rancheiro foi se embora, deixando a gente moça entregue a si mesma. Curl ficou ainda mais um bocado.

- Bem - disse por fim -, Boa noite, menina Gloriana!

- Porquê essa pressa? - perguntou Gloriana com calma indiferença. - Não perturbamos nada Molly e Jim. Eles não dão pela nossa presença! A não ser que queira ir para a cidade.

- Bem... tinha, de facto, pensado nisso. Juntar-me ao resto do Diamante.

-O Diamante sem mim, não está realmente ali.

E os olhos azuis de Curly fixaram-se em Gloriana como se tentassem penetrar-lhe o pensamento.

- Pois bem... senhor Prentiss, boa noite - disse Gloriana, muito friamente.

- Diga-me... Não lhe é absolutamente indiferente que eu me encharque em álcool ou não? - perguntou Curly, tornando-se de súbito, muito corado.

Gloriana era evidentemente a única pessoa capaz de perturbar a sua tradicional indiferença.

- Que pergunta!. Porque é que me havia de preocupar com isso?... Mas, a verdade, é que você é o braço direito do meu irmão e sempre pensei que para isso fosse preciso um homem de carácter.

- Acha então que um homem não pode beber o seu quinhão e continuar a ser um homem de carácter?

- Alguns homens podem - limitou-se a responder Gloriana, com uma ênfase que o excluía absolutamente desse número.

- Bem. Vou beber o mais que puder. Boa noite, minha querida.

Curly saiu apressado. Durante algum tempo, as suas passadas ouviram-se cada vez mais apressadas, até que acabaram por se perder na distância.

- Jim, este Curly irrita-me. - queixou-se Gloriana, aproximando-se da lareira.

- O quê?... Oh! Pensei que gostavas dele! - disse Jim, com grande inocência.

- Pois gosto. É generoso, simpático, espirituoso... Considera-se, Jim, é claro, que isso bastava para me fazer gostar dele. Mas há outras coisas que não consigo perceber. É muito estranho!... Por exemplo, ainda há um momento, ao ver-te pegar na mão de Molly, pegou na minha e não a queria largar.

Molly riu com o seu riso puro de criança. A expressão confusa de Gloriana, agradou ao irmão.

- Gloriana, a maneira de te dares bem com Curly é deixares que te pegue na mão.

- Não sejas parvo!... No baile deixei-o pegar-me durante todo o tempo que ele quis, mas depois fiquei assustada. a verdade é que quase não tinha consciência que estava a deixar...

- Glory, logo que aqui chegaste, disseste que Curly é o melhor rapaz que conheço para amigo ou camarada, como se diz aqui no Oeste. Se conseguisses que ele deixasse de beber, curly passaria a ser também o homem ideal para qualquer mulher.

- Eu quero que ele deixe de beber - concordou Gloriana -, mas... mas não estou... preparada para... para...

- Compreendo! - interrompeu Jim como se lhe pedisse desculpa por exigir demasiado dela.

- Não julgues que não faço justiça.

- Mas, não te mostres agora fria e desdenhosa com Curly, só porque te parece que lhe dispensaste mais atenção e talvez até mais carícias do que julgas ser conveniente. E, a propósito, curly hoje puxou da pis tola e ameaçou Ed Darnell. O pobre diabo fez se verde! Nunca ouvi ninguém tão veemente como Curly... Darnell deve já ter saído de Flag!

- Meu Deus!... Jim! - exclamou Gloriana, numa voz em que não havia certamente indiferença.

- É verdade! - repetiu Jim com ênfase.

- Não foi por minha causa, pois não? - perguntou Gloriana ofegante. - Oh! espero que não. Já em casa vivi no meio de críticas e bisbilhotices. Não sou capaz de aguentar mais.

- O teu nome nunca será aqui relacionado com Darnell.

E, graças a Deus, aquele idiota perseguiu mais de uma dúzia de raparigas, de modo que também Molly está segura. Ela...

- O grande aldrabão! - suspirou Molly. - Jurou-me mais de trinta vezes que eu era a única que...

- Gloriana, não achas que os homens são horríveis?

- Alguns são - concordou a outra. - Mas, Jim, conta nos o que aconteceu. Como é que Curly fez isso?

O rapaz, aconselhando-as a nada contarem ao tio, contou-lhes-o que acontecera de tarde, insistindo em certos pormenores, que podiam tornar mais compreensível a Gloriana uma parte do carácter de Curly. A rapariga estava fascinada e horrorizada ao mesmo tempo.

- Curly Prentiss sabia bem quem Ed Darnell era e apanhou-o em flagrante. Não há o menor perigo de uma luta, porque darnell é cobarde. Não haverá encontro...

- Que é isso?

- Encontro é quando dois homens lutam, até um deles matar o outro.

- Oh!, já vejo. sempre fui muito estúpida. É e não haverá um desses encontros, tens a certeza?

- Absoluta. Curly diz que Darnell qualquer dia aparecerá aí pendurado numa árvore...

- Enforcado? Jim?

- Julgo que era a isso que Curly se referia. Glory, vejo que todas estas coisas te causam ainda uma tremenda impressão.

Mas, pensa só que Darnell veio para o Arizona atrás de uma rapariga, que logo por sorte é minha irmã. Uma vez aqui juntou-se a um ladrão de gado que se finge rancheiro.

- bambridge. Isto no Arizona! O Oeste é duro, selvagem, impetuoso, ávido de sangue... Tudo isto me horrorizou também durante meses e ainda agora me arrepia de vez em quando. Mas o Oeste é também maravilhoso. Verás!

- Parece-me que já comecei a penetrar no mistério do Oeste, e por vezes parece-me também que não sou suficientemente grande para ele. Bem, agora vou para a cama e deixo-vos em paz. Boa noite, Molly, minha querida irmã. Este dia de Natal-acabou por ser bem feliz...

"Nunca se sabe" como diz Curly. Esquece tudo o mais, querida Molly. Boa noite, Jim. Ao fim e ao cabo a sorte acaba sempre por sorrir...

Depois de Gloriana ter saído, Molly murmurou muito baixinho, como se estivesse em êxtase.

- Ela chamou-me irmã! adoro-a!... Jim, tenho a certeza absoluta que ela começa a estar apaixonada por Curly, embora ainda o não tenha compreendido. Quanto a Curly, está perdido de amores por ela. Ele hoje vai embebedar-se, vais ver.

Conheço bem estes vaqueiros. E Bud está na mesma. E o pobre slinger!... meu Deus! que estará para acontecer?

- Não há dúvida que o amor tem uma grande força destrutiva, - observou Jim.

- Quase deu cabo de um senhor do Oeste - lamentou-se ela, fazendo beicinho.

- E acaba por me reduzir a nada se continuas a fazer com que de dia para dia ele ame mais.

- Bem, querida, estou absolutamente feliz. E não seria capaz de arriscar a minha felicidade por nada deste mundo.

- Agora estás a troçar de mim - censurou-o Molly caindo-lhe nos braços. - Estou aqui e ficarei para sempre contigo.

Na manhã seguinte a casa dos vaqueiros estava estranhamente silenciosa quando Jim, depois de bater à porta, se decidiu a entrar. Encontrou Jeff a preparar o seu pequeno almoço.

- O rancho deve estar em bonito estado - observou o cozinheiro, num suspiro, Diabos os levem a todos! - Até tenho medo de ir à cidade.

Antes de ir, consultou de facto o tio e aconselhou-o a adiar a festa de Molly, para a véspera de Ano Novo.

- Óptima ideia! - concordou o rancheiro. - Mas, sê compreensivo com os rapazes. Lembra te que são os melhores vaqueiros do Arizona. Cumpridores dos seus deveres, mas capazes de tudo, quando se apanham à solta. O melhor é ires ter com eles e trazê-los para casa. É preferível não contar nada às pequenas.

Jim nunca fizera tenção de lhes contar o sucedido, embora pelo menos Molly o adivinhasse facilmente.

O rapaz teve ainda uma conversa com Ring Locke, a quem narrou o incidente da véspera, na sala de jogo. Este mostrou-se ao mesmo tempo apreensivo e satisfeito.

- É capaz de tudo, esse Curly Prentiss. Jim, o assunto de bambridge deve estar resolvido. Só há duas possibilidades: ou aquele tipo luta de pistola ou se escapa o mais depressa possível. Quem é que sabe qual delas ele escolhe. De qualquer modo seria melhor que o Diamante não estivesse na cidade.

A verdade é que bem podiam estar fora de Flag, pois que Jim os procurou durante muito tempo quase em vão. Jacksom Way tinha ido para Winslow com a pequena. Hump, Cherry e Uphill tinham desaparecido depois de uma luta mais cómica do que trágica com uns vaqueiros rivais. Lonestar Hollyday apareceu à porta de uma pensão barata, pertencente a um mexicano. Pela sua expressão parada, via se que tinha perdido todo o sentido de orientação.

Jim agarrou nele e meteu-o na carripana, em que fazia a busca.

- Senta te aí, Charley. Vou levar-te a casa e depois volto logo para aqui outra vez.

Bud estava na prisão e tudo o que Jim conseguiu saber, quanto à natureza do delito é que fora preso por conduta desordeira. Bray, o xerife, não aparecia em lado nenhum e talvez isso fosse uma grande coisa. Juntamente com Bud, estavam dois mexicanos, um navajo e um vagabundo desconhecido.

- Jim, vou rebentar os miolos do xerife. - gritou Bud, logo que o viu.

Mas o caso resolveu-se muito bem, pagando o rapaz a multa, que lhe foi exigida pela libertação do desordeiro.

- Onde está Curly? - perguntou Jim.

- Sei lá! Penso que deve ter ficado em casa, a meditar.

- Quando é que o viste pela última vez?

- Deve ter sido ontem, mas não tenho mais ideia nenhuma.

há!, já sei. A última vez que o vi estava a ajudar Glory a entrar para o trenó, depois do baile. Meu Deus! que classe! Parecia o Príncipe de Gales! - Depois foi se embebedar, não?

- Deve ter ido. Tenho a cabeça à roda.

- Que belos vaqueiros que eu arranjei, não haja dúvida! No fundo Jim não os considerava maus, de modo algum, mas Bud tomou aquilo como uma ofensa e explodiu.

- Fica sabendo que celebrar o Natal é um dever tão sagrado para nós, como celebrar o quatro de Julho! E esta é a primeira vez que isto acontece, precisamente depois do quatro de Julho, que queres mais? Não nos percebes está visto! O que nós devíamos era fazer isto mesmo todos os sábados!

- Logo vos dizia! - Vai para o diabo. Quando chegaste da cidade, mesmo parvoinho, tinhas sentimento. Eras humano. Agora que te habituaste ao Oeste e que... ainda por cima te apaixonaste. Estás pior que um piloto de guerra. Eu, se estivesse apaixonado, havia de fazer coisas maravilhosas!.

- Tu?... Se estivesses apaixonado?... Que é que tu estás agora, senão apaixonado?

- Quem é que te disse isso? É novidade para mim - disse Bud bem humorado. - E quem é a pequena? Olha, Jim, nem sonhas o que eu era capaz de fazer a qualquer outro que me dissesse o que tu me dizes.

- Cala a boca e pensa... Se és capaz. Estou preocupado, não vês. Preciso de encontrar Curly.

Mas aí é que estava o problema e Jim acabou por voltar ao rancho grandemente preocupado com o desaparecimento do seu vaqueiro favorito.

Lonestar e Bud estavam em casa e à noite, já bastante tarde uphill voltara também, segundo informações de Ring Locke.

Passou o dia seguinte e o outro ainda. No terceiro Hump e cherry entraram em casa, mas nem sinal de Curly.

E Jim começou a perceber que não era ele o único a sentir a falta daquele gigante com alma de criança.

Gloriana mostrava se fria e desdenhosa, para logo em seguida manifestar uma curiosidade mal contida, quanto ao que poderia motivar a ausência do vaqueiro.

- Curly é orgulhoso! - disse Jim ao tio, mas suficientemente alto, para que Gloriana o pudesse ouvir. - Pertence a uma velha família do Sul, que tinha grande fortuna antes da guerra. Alguma coisa o deve ter ofendido e... não sei o que vai ser do Diamante, sem ele!

Mais tarde, Gloriana com aquele brilho característico no olhar, disse ao irmão.

- Jim, o que disseste ao tio, era-me dirigido a mim. Pois bem! A questão não é o que vai ser do Diamante sem o seu melhor vaqueiro, mas o que vai ser de mim, sem Curly.

- Glory!... Que estás a dizer? Tu não ligas nenhuma a Curly.

Só porque ele se foi e te sentes magoada é que falas assim.

- Por vezes chegas a declarações certas, mas não é o caso - declarou ela.

Finalmente chegou a madrugada do último dia do ano, que devia ser também o da festa de Molly. Todos os vaqueiros tinham deixado de esperar o regresso de Curly, que segundo eles, devia ter raptado alguma moça. Só Bud se mantinha firme e afirmava num tom de voz em que havia mistério.

- Com Curly nunca se pode ter a certeza de nada! Pode ser que ainda apareça! Jim sentia se infinitamente triste. Teria ele feito alguma coisa que justificasse a atitude de Curly? Não lhe parecia e por isso se resignou, por fim, considerando o que acontecera, como daquelas coisas misteriosas, que ninguém, a não ser os próprios vaqueiros, poderão jamais perceber.

Nessa manhã, a pequena família de Jim estava toda reunida na sala, fazendo planos para a festa, quando se ouviu lá fora o arrastar de passos, logo seguidos por umas pancadinhas na porta.

Jim foi abrir e ali estava Curly, rosado como uma rapariga e sorrindo como se nada se tivesse passado.

- Bom dia! - disse.

- Olá, Curly!. Entra - limitou-se a dizer Jim, que com o inesperado do acontecimento nem conseguia sentir o prazer que ele lhe causava.

Curly entrou. Trazia uma camisa nova de várias cores, calças novas também e botas altas. Não vestia casaco nem colete, de modo que o cinturão e a pistola se notavam logo à primeira vista.

- Entrei para lhes desejar um feliz Ano Novo.

O velho rancheiro, Molly e Gloriana responderam em uníssono.

O velho sorria, Molly mostrava se encantada e Gloriana mantinha se calma e distante, como se tudo aquilo nada tivesse a ver com ela.

- Onde tens estado todo este tempo? - perguntou Jim friamente.

- Bem. Fui até Albuquerque ver uma pequena... uma das minhas namoradas. Não deixou de ter graça! Queria treinar-me na dança e Nancy é sem dúvida uma bailarina de primeira. Aprendi uns passos novos, que vão pôr Bud verde de inveja.

- Albuquerque! - limitou-se a exclamar Jim, atónito.

- Nunca ouvi dizer que tivesses uma pequena em Albuquerque!- disse Molly.

- Molly, desculpa, nunca me lembrei de te falar desta.

- Trouxeste-a para a festa?

- Não, Nancy é casada e o marido é muito ciumento. Bem gostava de a ter aqui.

Mas nunca um vaqueiro seria capaz de enganar Molly, que com um olhar comunicou a Jim, que era tudo invenção de Curly, para esconder o facto de que se embebedara à grande. E o mais engraçado, é que olhando aquele rapaz sorridente, de olhos tão límpidos, não seria capaz de acreditar que algum dia se tivesse embebedado.

De repente, Molly pôs se a rir, O que sobressaltou os outros.

- Que é isso agora, Molly? - perguntou Curly.

- Oh! Curly! És tão cómico... que só me apetece beijar-te.

- Pois beija. E eu posso fazer outro tanto. Estou bem treinado!...

Gloriana, era de todos, a que se conservava mais calada.

Tinha sido suficientemente ingénua para acreditar na história de Curly e não compreendia o riso de Molly. Mostrava-se por isso fria. E muito mais fria do que seria para desejar, até.

- Molly - disse Jim -, se te apetece beijar alguém, será melhor que me beijes a mim! não achas? Não me agrada nada

ver-te desperdiçar os teus beijos, oferecendo-os a este vaqueiro bonito... mas sem coração! E agora vamos continuar com o que estávamos a fazer. Curly, teremos muito gosto se te quiseres sentar e com juízo deres a tua opinião... isto, se estás disposto a vires à festa logo, já se vê.

- Bem... fiquei muito lisonjeado, por terem adiado a festa de Molly - disse, fixando os seus olhos claros em Gloriana -, não quero que voltem a adiá-la por minha causa. Lembrem-se que deixei a companhia de uma encantadora pequena, para vir a esta festa!

- Quem te não conhecer que te compre! Que história tão bem fabricada - exclamou Molly, incapaz de se conter por mais tempo.

Se é certo que, de vez em quando, um rancho tem necessidade absoluta de sair da cidade e voltar para a vida dura e comida simples, o Diamante estava nessa situação, segundo dizia Ring Locke.

No Ano Novo estavam todos impossíveis. Bud vagueava à procura de alguém com que pudesse lutar; Jacksom Way casou-se sem comunicar nada a ninguém e trouxe muitas perturbações ao rancho; Lonestar mostrava se triste e solitário e jurava que morria de saudades do Texas; Uphill e Hump perderam a cabeça por causa de um truque qualquer que ninguém mais compreendia bem; Cherry corria tudo à procura de uma rapariga e Curly de acordo com a opinião geral parecia um idiota.

Na casa dos vaqueiros havia permanente reboliço e Molly e gloriana iam endoidecendo, tantas e tão variadas partidas eles lhes pregaram. Por fim e como se quisessem reparar o mal feito, os vaqueiros portaram-se lindamente na festa de Molly, fazendo dela um sucesso.

No dia seguinte - dois de Janeiro - cavalgaram quarenta milhas pela neve e pelo frio para a floresta de pinheiros negros e cedros gigantes. Voltaram para os biscoitos duros, para o trabalho de abater árvores e madeira, para as noites longas, junto da fogueira.

Voltavam ao acampamento. E como que por magia voltavam a ser os mesmos dos dias de esforço em comum.

Jim tinha orgulho neles e sentia se feliz. Onde é que em todo o Arizona se poderiam encontrar uns como aqueles? No entanto esta parecia ser apenas opinião sua, pois o tio e ring Locke tinham se rido dele e tinham-lhe apontado outros ranchos pelo menos tão famosos. Jim duvidava de que assim fosse olhando os rostos jovens, serenos e de feições vincadas que o rodeavam, sentia um orgulho muito grande por ser considerado amigo por aqueles vaqueiros. Talvez que o segredo da fascinação daqueles homens, fosse afinal as infinitas possibilidades de bem e mal que existiam neles.

Jim ficou Na noite seguinte, debaixo dos pinheiros, acordado por muito tempo, atento ao rugido do vento no cume das árvores. Levantara se um vento forte do Norte, um vento que vinha lá das montanhas gemia e bradava, semelhante a um requiem. Por vezes lembrava também o tropel de cavalos que porventura se aproximassem.

No quarto dia, avistaram o "Colete Amarelo". Ziguezagueando pela vereda estreita, que os levaria ao rancho, Jim avançava assobiando e parando de vez em quando para ver a paisagem.

Numa dessas vezes ouviu Bud observar, laconicamente.

- Meu Deus! Deve ser maravilhoso estar apaixonado por Jim.

Tem uma alma de poeta.

O rapaz riu da observação.

Ao chegarem, algumas horas depois, ao sítio onde tinham deixado a madeira já pronta, viram que o que restava dos troncos bem aparados era um monte de cinza.

- Hum, Pelos vistos. A "Faca Afiada" andou por aqui - gritou Bud.

- Isto são os cumprimentos de Croack Malloy - acrescentou curly, mal humorado, apontando para uma árvore próxima.

Curly tinha bom golpe de vista.

Jim desmontou e foi até à árvore indicada, na qual fora gravada muito toscamente o contorno de uma faca afiada.

No meio da lâmina estava a letra M. Jim viu já muitos destes símbolos, mas nunca até então reparara na letra. Aquilo era significativo, pois que completamente eliminava Jed Stone do que acontecera ou podia vir a acontecer.

E repentinamente, incapaz de se conter, o rapaz começou a amaldiçoar Malloy, recorrendo a todo o vocabulário apropriado.

- Caramba! O chefe está furioso! - exclamou Up encantado com aquilo que considerava uma manifestação de virilidade.

- Jim Traft, tive uma ideia luminosa! - gritou Bud -, vou cortar essa árvore e fazer dela a cruz para a sepultura de croack Malloy. Fica serviço adiantado!

- Viva!... - gritaram alguns vaqueiros numa só voz.

Jim compreendeu o que sentiam, mas não deu resposta à proposta.

- Vamos tratar do acampamento. Ponham para aí as coisas e vão buscar as que ficaram para trás.

Slinger afirmou que os vestígios à volta do lugar destinado à futura casa eram velhos, datando muito provavelmente do dia seguinte da sua partida para a cidade.

- Quer então dizer que éramos espiados?

- Com certeza, Jim! - volveu Curly, como se isso fosse claro como água.

- O chefe tem muito que esperar ainda, mas há-de lá chegar!- declarou Bud.

- Não é muito lisonjeiro para mim, que estava encarregado de vigiar os caminhos, mas... - e Slinger calou-se.

- Que querias tu fazer? Só é possível vigiar os caminhos e eles espiaram nos lá de cima - disse Curly.

- Era isso que eu estava a pensar. Desagrada-me sempre pensar na possibilidade de matar um homem, sem ser em campo-aberto, mas se ele espia o meu rancho...

- Não penses tanto no caso - interrompeu Curly -, Malloy é um assassino... um ladrão... um miserável! Será o primeiro a atacar nos pelas costas, logo que apanhe um de nós a jeito! lembra te que se trata só de Croack Malloy.

Jed Stone nada tem que ver com isto tudo.

- Dá cabo dele, Slinger! - propôs Bud, sempre impetuoso. - quanto a Sonora, será melhor que ele não me caia debaixo de olho, porque o mais certo é que eu o confunda com um veado ou um peru selvagem... e então...

Jim respirou profundamente.

- É horrível acordar-se de repente no meio disto tudo!... - sussurrou. - Acabaram-se os dias bons. Temos que estar atentos e trabalhar depressa. Uma coisa é tão importante como a outra!... Slinger, tu continuas com o trabalho que tinhas.

Tu, Bud, procura carne para todos nós e não preciso de te dizer o que além disso te compete fazer.

- Agora é que tu estás a falar direito. Jacksom está tão misterioso, que não sei...

- Cala a boca! - gritou o outro, farto das brincadeiras de bud. - Ainda te faço saltar os miolos!

- Pronto, Jack. Estava só a brincar, para ver se nos animávamos todos um pouco.

E assim começou o trabalho do Diamante no "Colete Amarelo".

Puseram-se todos a ele, como pioneiros cercados por índios que os espreitassem por detrás de cada árvore e de cada penhasco.

Todos se empenhavam em fazer o melhor possível e Jim notou com agrado que até Curly perdera a sua maneira descuidada, aplicando-se tanto ou até mais que qualquer outro.

Para todos, e nas condições em que se encontravam, a pistola passou a ser mais importante que o machado e a serra e nenhum se afastava sem ela. Trocaram o acampamento, que antes tinham feito numa clareira, por uma caverna espaçosa e seca, ao lado de rochedos amarelos, para a qual a entrada só era possível, utilizando como ponte um enorme pinheiro atravessado no regato.

Apesar de tudo, os troncos preparados e prontos para a futura construção começaram lentamente a surgir, à medida que os dias passavam.

Slinger conseguia espiar a "Faca Afiada" e trouxera notícias de que vários dos seus membros se mantinham ausentes. Os outros estavam inactivos e assim ficariam provavelmente até à primavera.

- Consegui subir a um penhasco e vi Jed Stone, a passear de um lado para o outro de cabeça inclinada e costas encurvadas, como se tivesse sobre elas um grande fardo. Malloy não o vi em lado nenhum. Deve ter ido embora e Sonora também.

- Para a outra vez leva o meu binóculo - disse Jim. - precisamos saber exactamente quem é que está ali e o que faz.

Quando os dias e as semanas foram passando e Jed Stone continuava como se não tivesse dado conta do regresso do diamante, ou como se isso lhe não interessasse, Jim sentiu-se mais calmo.

- Logo se vê quando é que Croack Malloy se digna visitar-nos - observou Curly, pensativo. - Sim, porque ele vem de certeza.

Custa-me a crer que aquele homem tenha morrido ou abandonado a "Faca Afiada". Que dizes, Slinger?

- Malloy e o texano devem estar lá para baixo a preparar alguma...

- Na Primavera não deixam de dar sinal!

- A Primavera já não vem longe! - disse Curly -, O diabo, jim, é que o teu tio teima em mandar o gado. É uma precipitação que lhe vai custar muito cara!

- Quando se lhe mete uma coisa na cabeça, não há quem o convença do contrário. De resto, pensa que não haverá grande sarilho e que tudo se resolverá como no Cibeque, com uma escaramuça ou duas.

É o rancheiro mais teimoso que já vi, mas tem muitas qualidades! Neste ponto das escaramuças é que não posso concordar com ele. Uma ou duas? O mais provável é que haja só uma.

Apesar de todos estes temores e pressentimentos, sem dúvida fundados, o tempo continuou a passar, sem que nada de especial acontecesse no "Colete Amarelo".

A vigilância não diminuía, ainda que um ou outro começasse a pensar que já não era a primeira quadrilha que se desfazia.

Poderia ser talvez o caso da "Faca Afiada"!

Março chegou e com ele a Primavera. O campo encheu-se de violetas e salvas, enquanto animais de todas as espécies começaram a aparecer com mais frequência, deixando na terra molhada o sinal da sua passagem. As agulhas castanhas dos pinheiros davam lugar a outras verdes e tenras. Os sicómoros enchiam se de folhas pequeninas. A água dos ribeiros ganhava uma tonalidade azulada, mal definida, indício claro de que as neves começavam a derreter.

Com Março vieram também trabalhadores mexicanos, que deviam acabar de abrir a estrada até ao "Colete Amarelo". E, a um barracão do rancho mais próximo chegavam continuamente carregamentos de cimento, tijolo e todos os outros materiais necessários para a construção da casa.

Ao mesmo tempo chegavam também novos mantimentos e o que era bem mais importante, as cartas há tanto tempo desejadas e que os vaqueiros devoraram avidamente. Curly recebeu uma carta, que o fez esquecer tudo o que o rodeava, incluindo as continuas piadas de Bud, acerca do que se tratava. O tio de jim levara Gloriana à Califórnia, enquanto Molly ficara com o senhor Ring Locke continuando diligentemente os seus estudos.

- Jim, mostra-me a carta de Glory - pediu Bud, como se fosse a coisa mais natural do mundo. - Quero ver a letra.

Jim, inocente, como sempre, entregou-lha.

- Já a conhecia. É bonita - declarou Bud, depois de um olhar rápido.

E fê-lo de tal maneira que Jim adivinhou imediatamente que ele a vira na carta de Curly. Compreendeu também o motivo porque o gigante caíra em êxtase.

As notícias do tio Jim e de Ring Locke bem como as de amigos dos vaqueiros, novas do jornal semanal que começara há pouco, tudo forneceu assunto para conversas intermináveis.

Bambridge mandara a família para fora de Flagerstown, ninguém sabia para onde, indo ele próprio fixar se em Ginstom onde cuidava dos seus negócios.

Darnell desde o Natal que não era visto na cidade e os que se lembravam dele nesse dia, eram aqueles que lhe viram comprar um bilhete de comboio para Denver. Por outro lado, um amigo de Uphill, vira o em Hollbrook, logo a seguir ao Ano novo e garantia que ele se escondia ali.

Constava que Croack Malloy matara um homem em Mariposa e blodgett queixava se de que os ladrões de gado estavam mais activos do que nunca.

- O tio diz que logo que a estrada seque, virão cinco mil vacas e touros, além de alguns novilhos. É teimoso como um burro!

- Então já voltou da Califórnia? - perguntou Curly com uma esperança ingénua.

- Sim, e está ansioso para vir para aqui. E Glory... está doida com a Califórnia. Esperem que eu leio aqui da carta.

E Jim passou uma vista de olhos pelas páginas cheias com letra unidinha, lendo uma passagem que era um belo tributo àquela região do sol. Depois continuou.

"Mas, querido Jim, alguma coisa tem de acontecer, ou volto para a Califórnia. Não encontrei lá rapazes que se comparem com os nossos vaqueiros. Mas, que não esperem a fidelidade eterna sem que eu receba nenhuma recompensa...

Diz-lhes isso, sim, Jim? E diz-lhes que a Molly e eu vamos para aí, logo que o tio nos dê-licença para isso. Nós as duas estamos a tornar-lhe a vida insuportável. Diz a Bud que tem de levar-me à caça, enganei-me (a Molly já me prometeu que me ensinava a imitar os perus selvagens) não é à caça, é à pesca das trutas. Diz a Lonestar que é sem dúvida o melhor cavaleiro, que tem de me ensinar a saltar barreiras e muitas outras coisas. A verdade é que nem sequer me sei pôr em cima de um cavalo. Diz a Jackson... oh! esquecia-me que ele é casado e tendo-me tornado amiga da mulher dele, não me ficaria bem pedir-lhe que me acompanhasse em longos passeios a pé e...

Bem, hei de pensar nisso melhor! O que é certo, não consegui ver quem é que melhor do que ele me poderia servir de companhia. É verdade, quero ainda que Bud me ensine a gravar o nome nas árvores. Tenho também favores a pedir a Cherry, Up e hump. Finalmente, alguém tem de me mostrar o que é a verdadeira vida do "Oeste"...

Nem uma palavra a respeito de Curly e de Slinger! Era uma omissão, que o rosto impassível dos dois não acusava, como alguns poderiam ter imaginado. Depois de muita discussão e de inúmeras piadas a propósito de todos e de tudo, Jim disse muito calmo.

- Está visto que não consentiria em que Glory e Molly-visitassem este acampamento de selvagens, mesmo que caísse na patetice de lhes dar licença para isso.

- Há! Há! - riu Bud, divertido.

- Jim, no Verão já não haverá perigo! - precipitou-se a observar Curly.

- Qual perigo?

- Ora, por essa altura já o "Colete Amarelo" oferecerá segurança, nem que até lá, Slinger e eu tenhamos de tratar da saúde a cada um dos membros da "Faca Afiada".

- Não era nesse perigo que eu pensava. - volveu Jim astucioso.

- Jim, quase já pusemos de parte whisky e luta para não falar na companhia do que tu chamas mulheres duvidosas.

Fizemos isso por ti. - Observou Curly fingindo-se muito calmo.

Com o ar mais despreocupado deste mundo, o vaqueiro levantou-se e foi se embora.

A estrada ficou terminada e mais cedo ainda do que seria de esperar, deu-se uma verdadeira invasão de gado, que se espalhou pelo grande desfiladeiro selvagem.

Chegou também todo o material para a casa, que teve de ser transportado por muitas vezes. Entretanto os dois construtores que o velho rancheiro tivera a precaução de mandar também quase punham os rapazes malucos com as suas exigências. Jim trabalhava lado a lado com eles, mostrando a alegria esfuziante dos pioneiros do passado. Bud resolveu tratar da canalização e só faltou que no seu entusiasmo lá pusesse a água, antes de lá estar a casa.

Nunca naquela região se ouvira tanto barulho, durante todo o dia. A tranquilidade e o silêncio do Oeste estavam a ser desrespeitados. E assim foi sempre, enquanto parede a parede ia aparecendo a casa, finalmente coroada por um telhado em bico.

Depois e enquanto os carpinteiros se ocupavam do chão, das portas, janelas e todos os outros acabamentos interiores, começou-se o celeiro grande e em seguida os currais.

Já Maio começara, quando os construtores regressaram a flagerstown, tendo feito Jim o dono de uma sólida casa de madeira de pinho, que, pintada de amarelo forte, reluzia ao sol. Mas, apesar de parecer pronta, muito trabalho seria ainda preciso fazer, até que a casa correspondesse à idealização que jim fizera do seu lar.

- Jim, aqui tens um palácio, por assim dizer pronto - disse curly na sua voz arrastada, sem precisar se a casa estava pronta a ser mobilada, a ser inaugurada pela futura dona ou a ser motivo de saque para os ladrões.

Logo que foi possível organizou-se o serviço de vigilância, que Jim estabelecera à chegada. A verdade é que a época ia adiantada e o gado não marcado vagueava à solta por todos os lados, o que sem dúvida era grande tentação para homens como croack Malloy.

Depois fez se a marcação de gado e todo o desfiladeiro se encheu dos gritos dos vaqueiros, de corridas precipitadas e do cheiro acre de pelo queimado. Centenas e centenas de animais receberam a marca do "Diamante".

Jim começara finalmente a sua vida de rancheiro e os vaqueiros pareciam dispostos a assentar.

- Quanto mais tarde tivermos a visita da "Faca Afiada", tanto pior para nós - repetia muitas vezes Bud, sempre pessimista.

- Procurar uma vaca ou um cavalo que desapareça, será o mesmo que tentar encontrar uma agulha num palheiro. E no entanto, não se deve deixar de lutar por aquilo que nos pertence!. O rancho tem possibilidades e em dois ou três anos, se tudo correr bem, dobras o gado que tens agora. - Disse o rancheiro. - A erva e a água é preciso Saber encontrá las e não as perder, aí é que está a questão.

- Para nós a questão é não perder o gado - observou Bud. - conheço muitos vaqueiros que podiam ter uma fortuna se tivessem sido mais cuidadosos.

- É uma sorte para Jim, que...

- Não ouviram um tiro? - perguntou Curly, atirando a cabeça para trás e ficando à escuta.

- Parece-me que ouvi qualquer coisa - declarou Bud.

- E se for um tiro, é por ventura alguma coisa do outro mundo? - perguntou Jim, começando a sentir se pouco à vontade.

- Vai para o pórtico! - ordenou Curly, sem mais cerimónias.

- Foi uma tolice fazer se a casa aqui, um tiro lá de cima pode atingir-te.

- Um deve ter ouvido alguma coisa também. Lá vem ele.

E o dedo de Bud apontava para um vaqueiro que corria por entre as árvores, ao encontro deles.

- O tiro veio de lá de cima - afirmou Curly. - Por detrás daquela plataforma. Onde estará Slinger?

- Slinger está sempre no sítio onde é mais preciso - limitou-se a dizer Lonestar.

Esperaram por Hump.

- Camaradas, veio um tiro lá de cima. Calibre quarenta e quatro.

- O tiro ouvimos nós, mas não me pareceu de uma quarenta e quatro. Se assim fosse, era Slinger.

- Talvez tenha morto algum veado.

- Para o trazer cá para baixo? Não é provavelmente.

Há qualquer coisa que não está bem! O Diamante esperou todo junto o regresso do membro ausente.

A impaciência e o receio aumentavam de minuto a minuto, e quando finalmente Slinger apareceu numa vereda ao longe, só se ouviu o suspiro de Curly.

Depois ficaram de novo todos em silêncio, de olhos fitos no homem de passo elástico, que se aproximava. Havia qualquer coisa de sinistro e ameaçador naquela expectativa.

- Traz duas pistolas! - disse Curly. - E que é aquilo?

- É um cinturão! - declarou Bud.

- É mesmo!. - exclamou Curly, sentando-se para acender um cigarro e com ele enganar o tempo que teve ainda de esperar.

- Jim, parece que um dos da "Faca Afiada" já não nos vai dar mais trabalhos - disse lentamente e acentuando as palavras.

- Melhor para nós! - disse Bud.

Passado um pouco chegou ao pórtico. O seu rosto escuro não traía qualquer emoção, mas havia nos seus olhos um brilho de aço. Sem dizer uma palavra pousou no chão uma carabina já velha.

- Bem, Slinger... que vem isso fazer para aqui? - perguntou curly, impaciente.

- Está carregada! - gritou Bud.

Jim fizera também essa descoberta.

- Trouxe a tal qual como ele a deixou! Queria mostrar-vos como aqui as coisas podem acontecer de um momento para o outro...

E, baixando-se puxou ligeiramente o gatilho, disparando com uma explosão surda.

- Tem piada, lá isso tem, - observou Slinger.

Dito isto, pousou-a novamente, colocando ao seu lado, uma cartucheira e uma pistola pequena, tudo ficou aos pés de Jim, que parecia não ter coragem para dizer uma palavra. A verdade, é que o rapaz sabia muito bem o que aquilo significava.

- Slinger, de quem era tudo isto? - perguntou Curly.

- De Sonora. - Respondeu ele tirando o sombreio e enxugando-o suor que lhe cobria a fronte. - De manhã, vi pegadas frescas e resolvi segui las. Eram dele. O mais bonito é que nunca mais lhe punha a vista em cima. Foi ainda à pouco que o vi, lá em cima nos penhascos. Estava deitado de barriga para baixo e o seu objectivo era Jim, não há dúvida. É certo que a distância era grande, mas em todo o caso parece-me que cheguei lá mesmo a tempo.

Jim continuava calado, de olhos fitos na plataforma rochosa, de onde o perigo se anunciava. Vendo bem, a distância não era realmente muito grande. Ele próprio seria capaz de matar um veado, ou homem àquela distância. Desta vez fora salvo por um milagre! De repente sentiu se mal. Mas o milagre repetir-se-ia cada vez que a sua vida corresse perigo? Foi então que a voz fria de Curly o fez estremecer.

- Malandro! Ladrão! - vociferava o vaqueiro, muito corado, com uma violência que era sinal evidente de emoção muito forte. - E tu Jim, estou farto de te dizer que te acauteles.

Nem que vivesses mil anos no Arizona, sempre haveria coisas que não conseguias aprender!. Céus! Aquele velhaco podia

ter-te morto.

 

Jed Stone olhava o seu aliado texano com compreensão, mas sem um sorriso.

- Tenho a certeza, Jed - repetia Pecos -, um destes dias atiras sobre Croack. Não és já capaz de te dominar.

- Eu próprio já o teria feito, se não tivesse medo dele.

- O quê?

- Garanto te que a minha vontade era tê-lo aqui morto.

Simplesmente tenho amor à pele e não estou disposto a arriscar-a vida!

- Hum!... E é por isso que deixas a "Faca Afiada"?

- Não, Jed. Se não fosses tu teria ido com Anderson e se não fosses tu, ter-me-ia... ido embora sozinho, quando Croack matou o pobre Reed. Fiquei sempre na esperança de que Malloy se modificasse. Agora vou-me, por que tenho a certeza de que não há esperança para a "Faca Afiada". Está a desintegrar-se e dentro de pouco só dela restará a lembrança.

- Se a "Faca Afiada" está pronta, de quem é a culpa?

- É uma pergunta sem sentido, visto que sabes bem a resposta.

- Foi Malloy quem teve a ideia de nos meter com Bambridge e sabes bem que o Arizona não aceita um ladrão de gado como bambridge. É precisamente porque aquele idiota se quer fazer passar por honesto, quando é o pior bandido que conheço, que põe o velho Traft fora de si e fora ele e muitos outros rancheiros, que ainda são o que devem ser. Repara bem no que te digo: Bambridge não chegará ao fim do Verão!

- Se me não paga o que me deve, é natural que não. - replicou Stone, tão excitado como o outro.

- Todas as patifarias que se têm feito ultimamente foram instigadas por Bambridge. Só aquela ideia de embarcar como seu, gado do Diamante... e marcado ainda por cima! Com trinta diabos! Podíamos bem ter continuado aqui durante uns anos fazendo um roubo de vez em quando, e vivendo facilmente. Foi Malloy que deu cabo de nós! As últimas coisas que tem feito põem-me os cabelos em pé!

- Referes te ao negócio de gado em Abril? Aquele que fez sem me dizer nada?

- Não me referia a isso. Só a ideia de construir aqui esta casa, a menos de vinte milhas do "Colete Amarelo".

- Há! Há!. E lembras te da explicação que deu? Disse que fazia aqui a casa, porque gostava da vista para o desfiladeiro.

- A vista é bonita não há dúvida, mas a não ser em questão de vida ou morte, não se pode, nem deve tomar Malloy a sério.

Ele faz muito boas tenções de se deixar ficar por aqui.

- Pois talvez o deixem ficar... pendurado numa árvore.

- Isso nunca! Malloy há-de morrer de pistola na mão. Entre dois tiros com que possivelmente matará outros. Não te iludas, jed. Malloy não é homem que te sirva! Pensa só naqueles dois tipos que ultimamente trouxe para cá. O que sabem é beber aquilo que ganham. Não têm estofo para fazer parte da "Faca afiada".

- Foi o palpite que tive logo que o vi.

- E depois, tens cá Lang e Madden, ambos com medo de Croack, que para lhe escaparem seriam capazes de te trair. A "Faca afiada", tal como era está apenas reduzida a ti e a mim.

- Tens razão. Já há muito tempo que venho pensando nisso.

- Porque não vens então comigo e os deixas entregues aos seus planos?

- Para onde vais, Pecos?

- Vou descansar por um tempo.

- Mas onde?

- Jed, vou daqui direito ao Colorado. Parece-me que te disse outro dia, que tive notícias de um antigo camarada que está lá.

- Bem vejo. Tens dinheiro?

- Sim. Molly não conseguiu tirar-mo todo.

Stone ficou calado por momentos e disse por fim.

- Fica combinado, Pecos. E se não estiver contigo antes da neve, fica sabendo que Malloy me limpou o sebo...

- Jed, não vejo vantagem em te arriscares - disse o texano muito sério. - Malloy não é leal. Naquele dia teria morto Jim traft, atacando-o de improviso, se...

- Lembro-me bem. Se lhe não faço saltar a pistola das mãos.

e foi por isso que passou a odiar-me. Para te falar com franqueza, a única razão pela qual me arrisco a uma luta com Malloy, é porque quero ver se é melhor atirador do que eu.

- Já tinha pensado nisso. É sempre a fraqueza dos atiradores. Pura vaidade! Não sejas tolo, Jed! Vem comigo, agora.

Stone ficou de novo calado, perdido em pensamentos.

- Agora não. Mais tarde! Nem sequer tenho dinheiro. Preciso que Bambridge me dê o que me deve. E quero...

A pausa que se seguiu mostrava que Jed Stone preferia não confiar a Pecos as suas ideias.

- Pecos... prometo-te, que a não ser se houver alguma coisa de especial, irei ter contigo ao Colorado. Ainda antes do fim do Verão.

- Pois então, fica combinado! E Pecos levantou-se estendendo a mão ao chefe.

Este apertou-a com força e os olhos dos dois homens encontraram-se num longo olhar.

Era um daqueles momentos, que contam na vida dos homens do Oeste.

Depois, Pecos dirigiu-se para o cavalo e enquanto montava, stone disse-lhe ainda

- Seria melhor ires pela mata. Se, por acaso, encontrasses croack no caminho poderia haver aborrecimento. Lembra-te que tomou a deserção de Anderson como um insulto pessoal. Boa sorte, Pecos!

- Para ti também! Fico à tua espera!

Pecos afastou-se, saindo da sombra projectada pelo penhasco e, mantendo-se sempre sobre a relva, dirigiu se para a mata.

De longe, Stone via o afastar se com um misto de alívio e de tristeza. Pecos era ainda o único que pertencia à "Faca afiada" e com quem se podia entender.

Malloy representava já um novo tipo de bandido. Sim, porque no Arizona havia quadrilhas honestas, contra as quais os rancheiros se não levantavam geralmente. Mas os novos, aqueles como Malloy, que tinham corrompido os velhos, esses eram odiados. O próprio Malloy, apesar de toda a sua habilidade não podia durar muito, disso estava ele certo.

O pensamento de Stone centrou-se em Croack, o homem temido por todos. O próprio texano tinha admitido ter medo e era uma estranha e inquietante coincidência, aquela que levava Jed a admitir que também ele, no fundo, tinha medo de Malloy.

Partilhando com os outros aquele degenerado, acabara por partilhar igualmente os seus receios.

Jed Stone sentou-se no assento tosco, arranjado por Malloy e onde o chefe se deixava estar muitas vezes a ver e sentir toda a beleza do pôr do sol sobre o Mazatzal. Que espectáculo grandioso aquele que abrangia as gargantas negras e que terminava lá em cima, coroado por cordilheiras em fogo! Seria possível que Malloy, algum dia houvesse sentido na sua alma a beleza e importância de tal cena? Podia bem ser afinal, que como todos os outros bandoleiros, também o seu homem se tivesse apaixonado pelo Arizona e em especial por aquele cantinho solitário e selvagem. Stone ficou espantado consigo próprio por ter conseguido chegar a tal conclusão.

Mas, não havia dúvida que Malloy ao escolher aquele local para a casa, tivera em vista mais do que a beleza panorâmica.

Ficava num ponto elevado, sobre um macio tapete de relva verde e fora construída num recanto da grande muralha rochosa. Para se lá chegar havia apenas um caminho possível: pela frente fazendo a escalada da encosta.

A madeira utilizada na construção fora cortada e aparada ali mesmo, estava por isso ainda verde e durante muito tempo não poderia ser queimada. Havia nas paredes pequenas frestas, que pareciam ter sido deixadas propositadamente, algumas muito em baixo, um pouco acima do chão, outras à altura do fecho e outras mais acima ainda.

Uma fonte de água fria e transparente brotava por debaixo de um penhasco e a casa fora construída sobre ela. A parede rochosa servia de fundo à casa, abaulada consideravelmente de modo que, de cima, seria totalmente impossível atingir a casa a tiro, ou alguém que ali estivesse. Era portanto, absolutamente segura.

Com bons fornecimentos de carne e provisões, meia dúzia de bandoleiros astutos poderiam ali aguentar se uma vida inteira.

Stone teve de concordar que por muito grande que fossem os defeitos de Malloy, ninguém podia duvidar da sua esperteza.

Simplesmente tudo aquilo parecia um tanto inútil, quando se pensava que a casa estava destinada a abrigá-los durante muito pouco tempo. Tinham já naquela Primavera feito três negócios de gado, um dos quais, pelo menos, dera tanto que falar como a venda em Winslow de gado marcado do Diamante. Bambridge e darnell estavam metidos neles. Stone só vira Darnell uma vez, mas fora o bastante para saber que género de homem era. Sabia bem que Ed Darnell não estava disposto a arriscar-se e que, se o negócio com Malloy lhe continuasse a dar os lucros monstruosos que prometia, seria suficientemente esperto para a certa altura se retirar, declarando que estava satisfeito.

Mas, o problema não eram os outros, era Malloy. Jed Stone nunca chegara ao ponto de admitir consigo mesmo que estava disposto a matar o hábil pistoleiro. Quando, porém, se referiu a isso na presença de Pecos, compreendeu imediatamente, que lá no fundo, a ideia o devia vir a perseguir há muito. Tudo o que lhe interessava mesmo era matá-lo, ver se livre dele. Era nessa morte que o seu espírito trabalhava constantemente, de dia e de noite, nos sonhos angustiantes que o faziam acordar sobressaltado. Como e quando o faria, eram pontos para considerar. O que importava no momento era que a grande decisão estava tomada.

Jed Stone pensava já ter-se convencido a si mesmo da necessidade de libertar a quadrilha da péssima influência de croack Malloy, quando uma voz começou a inquietá-lo. Por muito mau que Malloy fosse, confiava no seu chefe, lutara por ele, e voltaria a lutar logo que fosse necessário, o que era o mesmo que dizer que seria capaz de morrer por ele.

- E aquele diabo instala se aqui por causa do cenário, hum!... - repetia Stone baixinho.

Afinal que havia a censurar nisso? Onde em todo o Arizona poderia um fugido da lei instalar se melhor? A própria rocha negra, que se misturava com o arvoredo num declive de muitas milhas oferecia protecção segura. A quatro dias de caminho de Winslow ou Flagerstown, era também um sítio que estranhos não descobririam facilmente.

Era possível que Slinger Dunn tivesse já localizado a "Faca afiada" ou talvez até aquele esconderijo fosse conhecido por alguns caçadores de Cibeque. A Stone isso não o inquietava, pela simples razão de que já lhe não interessava o Diamante.

Pensando melhor, concluiu porém com amargura que já não controlava os seus homens, incitados a toda a casta de piratarias por Malloy. Supondo que o velho Traft se lembrava de mandar para o "Colete Amarelo" milhares de cabeças de gado! era suficientemente tolo para o pensar e suficientemente teimoso para o fazer, mesmo contra a opinião de todos os outros. Se isso acontecesse, nada a não ser a morte poderia impedir Croack Malloy desse novo roubo. E foi assim que de novo, Stone considerou indispensável livrar se dele.

Era uma bonita manhã de Maio e no desfiladeiro pairava o perfume fresco das folhas novas e das flores da Primavera. Na verdade, flores de toda a espécie espreitavam por entre a relva alta e o ar enchia se do chilreio alegre dos pássaros Depois que Pecos se fora embora, Stone ficara entregue a si mesmo, mais solitário do que nunca. Por aqueles dias, Malloy devia estar de regresso com os novos homens e Madden, que fora a Winslow tratar de umas coisas não Podia tardar também.

Sonora cavalgava pelas veredas do desfiladeiro, obedecendo assim às ordens de Malloy.

Aquele recanto do Arizona, que oferecia um tão bom refúgio, seria difícil de deixar. Stone não conhecia as nascentes do pequeno Colorado, onde combinara encontrar se com Pecos. Tudo o que sabia é que era uma região de floresta densa, habitada por Apaches e fugidos da lei.

Stone amava aqueles rochedos coloridos, as cordilheiras banhadas de sol, as gargantas misteriosas que se abriam em todas as direcções. Não havia nada no mundo semelhante àquilo, nada que se comparasse àquele labirinto de esconderijos, onde os homens da sua espécie podiam dormir tranquilos. Mas seria só isso o que o prendia? Olhando para muito longe, estendendo a vista por sobre o cume das árvores, que avultavam verde escuras e brilhantes, jed Stone confessou a si próprio que não era só a sensação de segurança o que lhe custava perder.

- Nunca isto será diferente! - repetiu para consigo, a meia voz. - Nunca os rancheiros chegarão aqui. Isto pertence a nós.

e aos índios. Nem sequer o fogo nos poderia atingir aqui. A floresta está protegida pela água e pelas rochas que a não deixariam arder!. Tudo o que os rancheiros podem é atirar para aqui gado, muito gado, que mesmo assim ficará perdido nesta imensidade deserta.

Não! Este cantinho de Tonto, nunca será diferente do que é hoje. E por isso, não suporto a ideia de o deixar!...

Há vinte anos que Jed Stone fugia, perseguido pela Lei, ainda que ele próprio soubesse que o crime porque o perseguiam não era afinal seu, mas de outro. No entanto, não guardava em si rancor ou má vontade contra ninguém.

O sacrifício que fizera voltaria a fazê-lo se necessário fosse.

Os seus olhos de lince, habituados a perscrutar a distância, notaram que, entre a folhagem, se movia qualquer coisa cinzenta. Pensou que fosse um veado, mas ao ver castanho ao lado do cinzento e ao distinguir, ainda que vagamente, o barulho de patas, percebeu que eram cavalos. Provavelmente era Malloy que voltava! Na vida a que estava acostumado não havia no entanto que confiar e Jed Stone pôs a pistola a jeito.

Passado pouco tempo já vira nitidamente três cavalos e reconheceu Madden. Mas a meia encosta percebeu que o segundo cavaleiro era Bambridge. Aquela visita devia certamente ter alguma coisa a ver com Croack Malloy. Que seria? Não era muito sensato nem seguro para o pseudo rancheiro, atravessar o desfiladeiro, para fazer uma visita à "Faca Afiada". Stone levantou-se e subiu para um ponto mais alto.

Os cavalos cobertos de poeira e resfolegando, continuavam a subir encosta acima e acabaram por parar em frente da casa. Os homens, tal como os animais, estavam sujos e cansados. O rosto de Bambridge parecia até inchado e não apresentava o menor sinal de prazer por se encontrar ali.

- Olá, chefe! Trouxe uma visita! - gritou Madden.

- Já vi isso. Como estás, Bambridge?

- Bom dia, Stone. Deves estar admirado por me ver aqui?

- Bastante, Mas também contente e por mais de uma razão.

Bambridge pegou num casaco que amarrou à sela e arrastando pesadamente os pés, entrou no pórtico. Atirou-se para cima de um banco e tirou o sombreio. Era evidente que não mudava de fato há muitos dias e que estava farto de sono.

Vinha armado, facto que a princípio passara desapercebido a stone.

- Malloy não apareceu! - declarou com azedume.

- Hum! De vez em quando faz dessas. Descansa que há-de aparecer, quando menos o esperares. Onde tinham combinado encontrar se?

- Em Tanner.

- Fam Tanner. Com que então é aí que Malloy se encontra contigo?... Bem! Mais valia ir a Winslow ou Flag. Quem vai a um lado vai ao outro - observou Stone, mal humorado.

Bambridge não parecia sentir se em terreno muito seguro, mas a sua indiferença mostrava que não considerava Jed Stone como o elemento dominante da "Faca Afiada".

- Deves perceber quanto isso me aborrece. Oitenta milhas a cavalo, sem dormir numa casa e praticamente sem nada para comer, é de pôr um homem maluco.

- Porque vieste então?

- Isso só me interessa a mim e a Malloy.

- Todas as questões que possas ter com Malloy me interessam. Esqueces te de que sou o chefe da "Faca Afiada"? - perguntou stone, sentindo que naquele momento desaparecia toda a obrigação de honestidade, que momentos antes sentira perante aquele homem, que detestava.

- Se o és... ninguém diria!

Bambridge estava em terreno escorregadio, mas parecia ter perdido a consciência disso. Preocupado apenas com os seus planos próprios, parecia não se interessar por mais nada.

Stone pôs se a passear de um lado para o outro no pórtico, com o olhar perdido no desfiladeiro. Bambridge estava de posse dos planos que ele próprio, o chefe da quadrilha, desconhecia.

- Pode ser que tenhas razão quando pensas que Malloy é na prática u chefe desta quadrilha - disse. - Mas isso só se aplicar a algum dos últimos que me não interessavam. Aquilo com que não conto não me meto nele. O negócio do gado do diamante no Inverno passado foi um caso à parte. Já me arrependi mil vezes de o ter feito. E a propósito, talvez fosse uma ideia pagares-me o que me deves. Mandei Maddem justamente para arrumar isso contigo.

- Com trinta diabos! Dei o dinheiro a Darnell com instruções para o dar a Malloy, que por sua vez to entregaria a ti! - exclamou Bambridge com uma surpresa em que não havia sombra de fingimento.

- O quê? Quando é que lho deste?

- Há semanas já. Deixa-me ver. Foi no dia nove de Abril que fui buscar o dinheiro e justamente no dia seguinte Darnell encontrou-se com Malloy em Tanner e entregou-lho.

- às minhas mãos não chegou!

- Como pode ser isso? Ele é homem de confiança! - E bambridge calou-se, perplexo. - Tens a certeza do que estás a dizer?... Já viste Malloy depois disso?

- Claro que estou farto de o ver. Nunca sequer me falou no dinheiro. Obrigado pela insinuação acerca da minha honestidade, Bambridge.

O outro deixou passar a censura, sem ao menos tentar desculpar-se.

- Pela lei, a tua honestidade não está propriamente provada, mas enfim. A verdade é que mantiveste a tua palavra, o que já se não pode dizer de Malloy. Desconfias de Darnell?

- Não. Sei que é um batoteiro do Mississipi e que foi expulso de St. Louis, segundo ele próprio me disse, mas não desconfio dele. Já outros como ele têm vindo para o Oeste, mas nunca conseguiram compreender-nos a nós que somos de cá. Não se aguentam. Darnell já te enganou a ti e há-de tentar o mesmo com Malloy, o que lhe vai custar caro, porque Malloy não é para brincadeiras.

- Que admiração que Darnell vos não entenda? Quem diabo, seria capaz de vos entender?

- Claro que não serias tu, disso não tenho dúvidas.

- Prova que Darnell me enganou! - exigiu Bambridge impaciente.

- Pois bem. Vi aqui Darnell depois do dia dez de Abril por volta de vinte, creio eu... Não me falou no dinheiro e no entanto, trazia bom fornecimento, porque vi maços e maços de notas quando estava a jogar com os homens. Foi no dia em que croack matou Reed.

- Isso não basta. Podias ter bebido demais e não te lembrares de que Darnell te não deu o dinheiro.

- Claro! Por essa ordem de ideias, muitas coisas podiam ter acontecido. Os fugidos da Lei podem aguentar com todas as culpas. O que te garanto é que muitas vezes têm menos do que outros que se intitulam rancheiros.

Bambridge, quem é que devo considerar responsável pelo dinheiro? Tu ou Darnell?

- Nem um nem outro! Malloy é um dos teus homens e um que agora parece ser o chefe da quadrilha, talvez tivesse resolvido guardá-lo.

- Nunca! Malloy nunca ficou com dinheiro de ninguém! - disse stone, pensativo.

- Hum! Que queres dizer com isso? Acho te muito estranho.

Estás aqui, escondido neste lugar deserto, não te atreves a aproximar-te da cidade, com medo que te apanhem... e vens falar-me de honestidade? Ha! Ha! Ha!... Honestidade nos membros de uma quadrilha! Tem graça, não há dúvida!

- Não vamos discutir isso, agora...

Qualquer homem do Oeste teria compreendido o que significava a entoação que Stone deu às suas palavras pelo brilho do seu olhar.

- Nunca te enganei! - continuou ele. - Agora estás metido com Malloy, é lá contigo. O que me interessa saber é porque vieste aqui. O caminho não é convidativo!

- Vim porque Malloy faltou duas vezes ao combinado. Tenho agora possibilidades de passar dez mil cabeças a um comprador de Kansas City e não as tenho. É tudo! - gritou Bambridge furioso.

- É uma oportunidade para vender sem ser descoberto e escapares-te logo do Arizona, hem?

- Exactamente. É por isso que estou aqui. Preciso de gado...

O velho Traft mandou milhares de cabeças para o "Colete amarelo" e Malloy está de acordo em mas fazer chegar às mãos.

Já construi um curral ao pé do caminho de ferro, entre Winslow e Holbrook. Está tudo pensado, como vês! Malloy comprometeu-se ainda a tratar da saúde a um rapazola, Jim Traft. Por tudo isso recebeu o dinheiro e agora...

- Que dinheiro? - perguntou Stone aparentemente sem interesse.

- O que lhe ofereci pelo trabalho. Depois veio-me com a cantiga que não era coisa que ele, Croack Malloy, pudesse fazer e propôs Sonora para tratar de Jim.

- Tratar da saúde a Jim Traft. - repetiu Stone, tamborilando com os dedos no banco de madeira. - Não há dúvida de que é uma ideia boa... para ti. Mas já agora também te digo. Sonora nunca o fará!

- Porquê? Outro que falta ao combinado?

- Não, mas antes que ele o faça, Slinger Dunn manda o desta para melhor. Não é brincadeira nenhuma rondar o "Colete amarelo" e espero que tenhas percebido também porque é que croack Malloy se recusa a fazê-lo.

- Bem, seja!... Jed Stone, sabias que Malloy está feito com o rancho de Tanner e tem estado a trabalhar com gado de blodgett?

- Não! Isso é novidade para mim... Quem te disse?

- Darnell. Para te dizer toda a verdade foi ele que fez o negócio, de resto, contra as minhas ordens... Malloy tem de ajustar umas contas comigo.

- Vejo que o teu homem está a jogar também com um pau de dois bicos! - observou Stone, pensativo. - É esperto bastante para se utilizar de Malloy, até ao ponto em que isso lhe dê interesse. Exactamente como tu! Daqui a algum tempo, também ele deixará o Arizona... Nós, os fugidos da lei, não trabalhamos da mesma maneira. Nunca roubámos um rancheiro, a ponto de o deixarmos arruinado. E essa é a razão porque a "Faca Afiada" existe há vinte anos.

- A minha filha casou com um vaqueiro, em Flag... o ano passado - observou Bambridge. - Estou por isso disposto a

pôr-me a milhas o mais depressa possível. Os teus conselhos não me interessam... És capaz de convencer Malloy a realizar este negócio?

- Se quiseres sou. A questão é dar-lhe a maior parte dos lucros e é negócio arrumado.

- Malloy queria vinte mil dólares - disse Bambridge. - Era uma coisa exorbitante, fora de toda a razão. Discutimos o assunto e visto que ele não podia entregar gado que correspondesse a esse lucro, só para ele, baixou para quinze mil. Trago aqui dez mil comigo. Que tal se o convencesses a fazer o trabalho, usando o menor número de homens possível? No dia em que o gado chegar eu entrego os outros cinco mil dólares.

- Quantas cabeças queres? - perguntou Stone interessado, mas não na pergunta que acabara de fazer.

- Não se fixou o número. Mas, é claro, tantas quantas for possível deslocar e embarcar rapidamente.

- Hum!... E se me mostrasses as notas? - sugeriu Stone como se precisasse de alguma coisa mais concreta do que palavras para se convencer.

Bambridge desabotoou o colete e do bolso de dentro tirou um maço de notas verdes, novas, ainda envolvidas pela cinta de papel branco, tal como vinham do Banco. Atirou-as para cima da mesa, com o desprezo de uma pessoa Para quem aquilo não é nada.

- Tens tanto direito de duvidar de mim, como eu de ti - limitou-se a dizer. - Aqui estão! Novinhas em folha!

- Vendo bem, não é muito dinheiro...

O rancheiro perturbou-se. A verdade é que contara com este último trunfo, para conseguir o que queria.

- Tenho mais uns quinhentos dólares em ouro. Podem ficar também. Está arrumado? E Bambridge apressou-se a atirar as moedas para cima do banco.

Na testa de Stone surgiram duas veias grossas. Toda a sua conversa fora fingida, a não ser no ponto de se certificar se o outro trazia ou não o dinheiro consigo.

- Deixa-me ver isso também... Ouro!...

Bambridge estremeceu e qualquer coisa lhe ocorreu ao espírito. Em vez de satisfazer o pedido de Stone, parou de atirar o resto das moedas e apressadamente meteu as notas ao bolso. Depois apertou o colete.

- Dá cá o dinheiro!

- Não. Não pago adiantado, já resolvi! Malloy...

- Qual pagar qual carapuça! Julgas que algum dia me passava pela cabeça a ideia de te arranjar um novilho? O que quero são os dez mil dólares que me deves!

- Estás doido! - gritou Bambridge.

E com toda a calma levantou-se e fez menção de sair do pórtico.

Stone deu-lhe um safanão.

- Dá cá o dinheiro! Já!

- És um ladrão ordinário! Não me admira nada que Malloy trabalhe para ti... E já agora, talvez te interesse saber que há quem tenha esperanças de receber o prémio prometido pela tua cabeça.

A ignorância de Bambridge a respeito de homens como Jed stone, não podia ter sido melhor manifestada. Se tivesse querido irritar aquele pistoleiro, dificilmente podia ter feito de forma mais subtil. Há anos que aquele prémio, oferecido pela sua cabeça, era um espinho para Jed Stone.

A verdade é que tinha ainda o pai e a mãe vivos, para já não falar na namorada, que sacrificara. Só a lembrança de que podiam vir falar de tal coisa, o punha fora de si.

Stone puxou da pistola e deu uma pancada na cabeça de bambridge, não com muita força, mas de qualquer modo com força suficiente para fazer saltar o sangue. O rancheiro caiu em cima do banco, contra a parede.

- Já percebes agora com quem falas? - perguntou Stone, ameaçador. - E não puxes da pistola!...

Mas já Bambridge, como louco, levava a mão à anca.

- Toma, então! - rugiu o pistoleiro.

O tiro interrompeu o gesto de Bambridge. A pistola escorregou-lhe da mão e foi cair no chão. Bambridge soltou um gemido horrível, o seu corpo descaiu e a expressão morreu-lhe no rosto, como uma luz que se apaga.

Stone ficou a observá-lo por momentos. Num movimento rápido levantou a arma do chão, contra a Parede e deixou-a cair de novo. Inclinou-se sobre o homem morto, abriu-lhe o colete, donde tirou dinheiro, que guardou no seu bolso. Feito isso, saiu do pórtico e entrou em casa, conservando na mão, a pistola fumegante com que matara Bambridge.

Viu Maddem que se aproximava a correr, mas não lhe prestou atenção. Com dedos absolutamente firmes puxou de um cigarro e acendeu-o.

Maddem precipitou-se em direcção à casa elegante alarmado.

- Ouvi um tiro... Jed!

- É natural - respondeu calmamente o chefe, tirando o cigarro da boca e ficando a olhar o fumo.

O braço direito de Croack Malloy tomou aquela calma como indício de que não havia razão para preocupações.

- Que... aconteceu?

- Podes verificar tu próprio.

Maddem dirigiu se ao pórtico e fixou os olhos esbugalhados no homem morto, do qual escorria um fiozinho de sangue, que se concentrava no chão, ao pé da pistola.

- O quê?... Disparou sobre ti?!... - exclamou espantado.

Stone fez que sim com a cabeça.

- Que é aquele golpe na cabeça?

- Caiu e parece que bateu no banco - explicou Jed Stone, como se o caso não tivesse a mínima importância. - É melhor revistá-lo, Madden.

O pistoleiro baixou-se, pegou na arma e depois de a mirar atentamente, pô-la em cima do banco. Em seguida começou a tirar dos bolsos de Bambridge um relógio, papéis, um punhado de moedas de oiro e outras coisas insignificantes. Feito isso, procurou a carteira.

- Não vinha lá muito bem fornecido. Trá-la vazia - e convencendo-se de que o outro só tinha trazido consigo algumas moedas. - Ele e Croack tiveram uma disputa no Tanner... Por causa do jogo.

Bambridge perdeu e jurou que nunca mais jogaria com Malloy.

Sabendo para onde vinha, fez muito bem em não trazer dinheiro... Ha! Ha! Ha! Podes ficar com esse, Madden. Eu não o quero.

- Obrigado. E que faço a esta papelada?

- Talvez a possas dar a Croack - disse Stone com humor. - e a propósito, quando é que ele volta.

- Hoje, julgo eu. Foi por isso que vim com tanta pressa.

- Porque é que tu e Bambridge discutiram?

- Logo conto quando Croack chegar. Não estou para repetir a história duas vezes!

- Enterramos Bambridge ou esperamos também que Croack chegue?

- Talvez seja melhor esperar. E põe a pistola no chão, exactamente onde a encontraste. Tapa Bambridge.

- Ha! Ha! Queres que Croack veja exactamente como tudo se passou. Não deixa de ter graça. No fundo, não te censuro. Não te preocupes. Croack não tinha nenhuma amizade especial a esse tipo.

Stone sentou-se nos degraus do pórtico e fumou um cigarro, enquanto Maddem foi ao curral, mas não desapareceu por completo. Sentia que teria sido melhor para ele ter acompanhado Pecos. Malloy certamente se mostraria irritado com a morte de Bambridge.

Stone nem sequer se deu ao trabalho de inventar uma explicação, porque, que lhe importava afinal o que aquele bandido pudesse pensar dele? O código de honra dos pistoleiros não fora violado e isso era o mais importante. O mais sensato era esperar Malloy e deixar se de suposições.

- Quase não temos lenha - disse Maddem -, vou buscar alguma.

Stone ficou a ver a figura atarracada do bandoleiro descer a encosta até à mata e voltar passado um pouco, carregado de ramos secos.

E tardaria ainda Croack Malloy? Pensava tanto tempo nisso como numa coisa que lhe não interessasse especialmente. Quem viria com ele? Talvez um desconhecido ou até dois, talvez blacky Reeves. Era, afinal, alguém a quem o outro já várias vezes se referira. Stone pensou que podia até meter uma bala nos miolos de Malloy, já que estava em maré disso, e arrumar o assunto. A ideia não lhe desagradava e sorriu para consigo.

Mas a tarde foi passando e o membro agoirento da "Faca afiada" não se dignava aparecer. Durante horas e horas, Stone deixou-se ficar no lugar que Croack geralmente ocupava, esperando e perscrutando os caminhos.

As sombras alongavam-se pelas gargantas estreitas, uma neblina purpúrea envolvia o desfiladeiro e o cume das cordilheiras brilhava batido pelos últimos raios do sol.

Depois, todo esse colorido desapareceu e o crepúsculo instalou-se, enquanto o ar arrefecia e as aves nocturnas faziam a sua aparição. O silêncio e a noite começaram.

Era pouco provável que Malloy tivesse coragem para de noite, fazer aquele caminho medonho.

Quando por fim chamaram para jantar, o chefe entrou em casa, onde a lareira acesa e as panelas fumegantes provavam que Maddem não esquecera as exigências práticas da vida em comum.

- Não há sinal de Croack? - perguntou.

- Nada por enquanto!

- Ainda bem. Amanhã já tu estás mais bem disposto. Bem, croack deve ter arranjado uma luta, aí em qualquer parte, disso podes estar tu certo. Há mais ou menos uma semana vi-o em tanner e foi então que combinámos que eu devia trazer aqui bambridge.

Malloy ultimamente tem feito das suas e há muita trapalhada por esclarecer.

- Madden, agradam-me mais os teus cozinhados do que a tua companhia.

- És muito amável - volveu o outro com sarcasmo. - Mas, quando houver uma questão decisiva entre ti e Malloy não esperes a minha intervenção. Já era amigo de Croack antes de entrar para a "Faca Afiada" e o facto de que por vezes não aprovo as suas ideias, não tem nada a ver com O caso.

- Não me esquecerei do que acabas de dizer, Maddem - disse stone com evidente surpresa - isso é o que se chama falar direito e confesso que o não esperava de ti.

Acabada a refeição, Stone fumava junto à lareira, quando Maddem se lhe veio juntar.

- Esqueceste-te daquele homem morto. Devíamos tê-lo enterrado.

- Já não é a primeira vez que dormes com um morto ao lado, pois não?

- Não é a primeira vez, mas não é companhia que aprecie muito.

Depois de um bocado passado juntos, mas em que cada um se entregou aos seus próprios pensamentos, foram buscar os cobertores. A cama de Stone estava por acaso exactamente no canto onde Bambridge caíra e sentia se nele o cheiro a sangue.

Como o sono teimasse em não vir, o chefe levantou-se e levou as coisas para outro lado, onde se acomodou. A noite estava calma e lá fora apenas se ouvia o gemido surdo do vento. Só passado horas, Stone conseguiu adormecer.

Na manhã seguinte levantou-se com o sol, sentindo-se incomparavelmente melhor. Foi a pé até ao curral, seguindo um dos passeios que mais o encantavam. Sabia agora que não valia a pena enganar-se a si mesmo, tentando convencer-se de que poderia ficar ainda muito tempo ali. Não tencionava dar a Malloy oportunidade de o mandar para o outro mundo.

Ao voltar a casa ouviu um "Olá" e apressou o passo para ver do que se tratava. Foi assim que viu três cavaleiros que subiam a encosta, seguidos de animais de carga.

Maddem gritou-lhe da porta

- É Croack que vem aí com Blocky e outro cavaleiro que não consigo distinguir bem!

Stone, num gesto totalmente inconsciente, apertou o cinto, como sempre fazia antes de montar a cavalo ou de se entregar a qualquer exercício físico. Ao subir as escadas do pórtico, notou que o corpo de Bambridge, coberto com um oleado, se parecia muito com caixas que para ali tivessem sido atiradas e que alguém por um excesso de cuidado tivesse tapado.

- Maddy, não se diz nada Por enquanto? - advertiu Stone, apontando para o corpo morto.

- Está bem. Quanto a mim não tenho gosto nenhum em ver croack mal disposto.

Entraram em casa. Maddem para avivar a lareira e Stone para espreitar por uma das frestas da parede. Os três cavaleiros avançavam muito lentamente e pararam por fim em frente da casa. Um deles, de rosto magro e escuro, parecia fatigado. Era um desconhecido e por debaixo do sombreio aparecia-lhe uma ligadura ensanguentada. Foi o último a desmontar. Sem dar uma palavra, cada um deles descarregou o seu cavalo, tirou-lhe a sela e deixou-o ficar ali mesmo. Os animais estavam cobertos de suor.

- Se é que está alguém em casa, não há grande entusiasmo com a nossa chegada! - observou Malloy, em voz rouca.

Maddem apareceu a correr, com as mãos enfarinhadas.

- Olá! Que tal vai a vida?

- Olá! Não há ninguém em casa?

- Só o chefe.

Nesse mesmo momento Stone apareceu e por estranho que pareça, mostrou-se satisfeito por ver Malloy. A verdade é que aquele homem parecia concentrar em si toda a força do rancho.

Quem o tivesse como amigo, sentir-se ia seguro em alturas críticas.

Apesar disso, Stone pensou para consigo, que aquela era a ocasião própria para fazer o que tinha pensado. Não foi porém capaz de se aproveitar dela!

- Bom dia, Croack. Como está? - disse alegremente.

- Bom dia. Tenho notícias para ti... e alguma coisa mais...

Malloy coxeava. Nas suas botas pesadas havia alguma coisa mais do que poeira e lama. Qualquer coisa sinistra, terrível.

Os olhos de lince de Stone descobriram o buraco de uma bala no cabedal.

Croack trazia uma espingarda, um saco e uma cartucheira extra. O seu casaco de couro estava em tal estado, que fácil seria supor que o bandoleiro dormira na lama. Também no seu rosto havia uma expressão que o tornava agradável, ou pelo menos, assim parecia a Stone. Podia dizer-se que trazia uma máscara de morte. mas os olhos estavam tão brilhantes, que neles parecia hesitar um sorriso. As botas rangeram e as esporas tilintaram quando entrou em casa, para, fatigado, aí depor o que trazia.

- Ouve lá, cozinheiro, então aquele intrujão não apareceu? - perguntou a Madden.

- Croack, tenho más notícias para te dar. Mas agora É melhor descansares e comeres qualquer coisa, antes de falarmos?

- Não é má ideia! Mas isso não impede que esteja furioso com esse Bambridge. Já previa que não ia aparecer! E afinal, que diferença me faz? Não quero negócio com esse...

- Ainda bem - disse Stone com satisfação. - Não haverá de facto mais negócios com esse homem. Mas...

Bebe primeiro qualquer coisa.

Malloy pegou na garrafa que lhe era oferecida e bebeu um longo gole. Imediatamente subiu um pouco de cor às suas faces cor de cinza.

- Bolas! Eu se tivesse podido beber isto há dois dias, talvez não estivesse aqui agora - disse enigmaticamente.

- Onde está Lang?

- É pasto das aves...

- Não me digas outra! - exclamou o chefe, com certa frieza, embora a notícia o tivesse posto em alvoroço.

Com a morte de Lang desaparecia mais um dos primitivos membros da "Faca Afiada". É verdade que Lang há muito deixara de merecer confiança, mas de qualquer modo pertencia à velha escola e em tempos fora até um homem muito respeitado.

Ouviram-se passos leves subindo os degraus e Reeves entrou, acompanhado pelo desconhecido, de cabeça atada.

- Tive de matar a égua. Estava muito aleijada! - anunciou reeves.

- Era o que se devia ter feito logo - replicou Malloy.

- Chefe, aqui está Sam Tanner. é primo do Joe, do pequeno colorado.

- Como estás, Tanner? - disse Stone, sem dar um passo ao encontro do novo companheiro de Croack.

Talvez os outros nem sequer tenham notado essa indiferença, visto que entre ele e O outro estavam uns embrulhos espalhados no chão.

Tanner limitou-se a baixar a cabeça enfaixada, na qual se viam, agora que tirara o sombreio, cicatrizes bem visíveis através do cabelo claro.

- Fizeste um bonito trabalho à cabeça - observou Stone.

- às vezes acontece.

Tanner falava em voz baixa e olhava Stone de frente com os seus olhos muito negros. O chefe estava habituado a apreciar os homens ao primeiro olhar. Aquele sujeito, sendo primo de joe Tanner e companheiro de Croack Malloy, não podia deixar de ser da espécie deles, mas seria conveniente observá-lo bem!

- Croack, já estou à espera que me digas que tiveste uma briga com qualquer pessoa - disse Stone, com voz dura.

- Briga!... Ah! Ah...

E o olhar incendiado que lançou a Stone, bem como o seu riso sinistro arrepiaram o chefe, que compreendeu que em qualquer lado, longe ou perto dali estavam os cadáveres dos homens, que se vivessem poderiam contar o que se tinha passado.

- Vamos! Conta!

- Pois aí vai!

Sentaram-se todos à volta da mesa, sobre a qual o cozinheiro ia colocando as panelas fumegantes. Stone notou que os três cavaleiros estavam mortos de fome e que, no entanto, só Malloy parecia capaz de comer. O facto era deveras significativo.

Quanto a Malloy, era difícil que alguma coisa lhe fizesse perder o apetite.

- Um bom copo e alguma coisa sólida bastam para pôr um tipo em forma! - disse ao levantar-se.

Stone de modo algum revelou a sua curiosidade, sabendo bem que minuto menos minuto viria a saber tudo.

Mas quando Malloy tirou do bolso um grande maço de notas verdes e quando lhas atirou, não pôde deixar de estremecer.

- Bambridge manda te o dinheiro que te devia. Parvo como é, confiou-o a Darnell. É escusado dizer-te que se não fosse eu, nunca mais o vias!

- Sim. Tens razão! Obrigado Croack.

Era este um dos aspectos mais notáveis daquele pistoleiro mesquinho. Com todos os seus defeitos, teria ao menos de ser respeitado pela sua honestidade.

Malloy descalçou lentamente as botas e atirou-as para um canto. Apareceu então uma mancha ensanguentada numa das pernas.

- Traz água quente, Maddy. E um trapo limpo. Arranhei-me numa perna...

- Que aconteceu ao sujeito que te fez isso na perna? - perguntou Stone.

- Nada. Eu é que estive quase a ir-me. Não te esqueças disso, Jed.

- Sam, é melhor dizer a Maddem que te trate disso. A bala penetrou fundo e deves ter cuidado.

Com curiosidade, Stone observou Madden, enquanto este fazia o curativo aos dois feridos.

- Ui!. Larga-me idiota! Que é isso que estás a pôr?-Matas-me! - rugiu Malloy.

- Croack, está quieto! És pior que um menino pequeno. Que farias se estivesses realmente muito ferido?

- Ah! Ah! Essa tem piada! Tenho no meu corpo mais buracos de balas do que qualquer outro cavaleiro do Oeste. E olha que sei bem quem me fez cada um deles... Alguns dos tipos ainda vivem...

Por fim, o tratamento acabou e Malloy pediu de beber.

- O melhor, é dar já as notícias que tenho a dar. Depois disto e de ouvir as tuas, vou dormir quinze ou dezasseis horas. Bem preciso!... Chefe, podes vir até ao pórtico comigo? Saíram e Stone teve uma sensação esquisita ao ver Malloy dirigir se para o seu lugar favorito. O pé magoado descansava pesadamente naquilo que o bandoleiro tomava por um fardo e que na realidade era a cabeça de Bambridge, completamente coberto pelo oleado.

- Jed, conheces aquela casita lá em baixo... a umas três horas bem puxadas daqui? Aquela casa velha ao pé da corrente e junto do sicómoro?

- Sim. Já lá dormi bastantes vezes.

- É um monte de cinzas...

- Pegaste-lhe fogo? Que diabo andam vocês a fazer? Que vantagem há em queimar as casas todas por aqui?

- Não fomos nós. Foi Slinger Dunn!

- Ah!. Slinger é estranho. Tem muito de apache! Espero que te não tenhas pegado com o Diamante.

- Jed, sempre me saíste um parvo! Já devias ter limpo o sebo a esse tipo, há muito tempo!

- Não é tão fácil de fazer como de dizer! - replicou o chefe, sarcástico.

- Sempre a mesma conversa. Pois bem, hoje podia ter dado cabo de Slinger Dunn, mas ele dava cabo de mim!

- Estás a aprender a ser sensato! O pior é que talvez já seja tarde, Croack. Espero que tenhas deixado em paz o gado de jim Traft.

- Está descansado, não lhe toquei! A princípio aborreceu-me que te opusesses, mas quando vi em que embrulhada Bambridge e darnell pretendiam envolver-me, mudei de opinião. Não que me custasse muito fazê-lo! Simplesmente não era a altura própria.

Se Bambridge tivesse vindo aqui como estava combinado, ficava-lhe com o dinheiro... lá isso ficava... mas não dava um passo para apanhar o gado. Nesta altura, de modo algum!

- Não te percebo - declarou Stone impaciente.

- E quanto ao dinheiro que Bambridge te mandou entregar por darnell - começou Malloy. - E agora Vi-o jogar no Tanner e a perder muito, Joe tem habilidade no jogo. Eu entrei e perdi tudo. Foi então que soube do que Darnell planeava sem bambridge saber... fazer negócio com o gado de Blodgett.

Malloy calou-se por uns instantes e depois prosseguiu

- Joe Tanner nunca foi um homem muito direito. É ambicioso e capaz de enganar seja quem for. Pois bem, foi Sam que me pôs alerta e depois de muito esperar e rondar descobri o jogo. Só me admiro de não ter rebentado os miolos a Darnell com um tiro? Apanhei-o e acabou por dizer que o dinheiro que ali tinha era teu. Era Bambridge que to mandava! Não tive dificuldade em ver que falava verdade.

Fez-se novo silêncio, depois do qual Croack continuou

- Um dia ou dois mais tarde, soube que tinham levado para sítio seguro alguns milhares de cabeças do Diamante. Fiquei doido de raiva! Nem Joe nem Darnell apareciam no Tanner. Nessa altura andava Sam entusiasmado com uma pequena, filha de um serralheiro e foi ele que me disse que Darnell, Joe, Lang e uns outros que não conhecia, se preparavam para novo negócio com o Diamante. O plano de Bambridge era fazer um grande negócio e pôr se a milhas. Darnell estava encarregado de tratar de certos aspectos da questão e como é aquilo que nós sabemos, não esteve para meias medidas e planeou enganar bambridge.

Malloy parou para encher o cachimbo e gritou a Madden, que lhe trouxesse lume. Depois de três maços continuou o seu relato.

- Segui-o, eu e Sam. Há duas noites, íamos sendo esmagados por um tropel de cavalos. Mal tivemos tempo de entrar na casita de que te falei há pouco, e de esconder os animais, quando apareceram Doc, Lang, Darnell, e toda a companhia.

Alguns deles foram suficientemente espertos para, vendo-nos ali, seguir caminho, mas Darnell e Tanner estavam feridos e não podiam mexer se sem grande dificuldade. Nunca vi ninguém tão fora de si como Tanner, nem com tanto medo como Darnell.

Tínhamos começado uma agradável conversa, em que todos gritávamos ao mesmo tempo, quando percebi de que fugiam. Eram perseguidos nada mais nada menos do que pelo Diamante, chefiado por Slinger Dunn e Curly Prentiss. Com trinta diabos! há um ano que morria por encontrar aquele homem!... Podes imaginar por ti o que se passou então. Todos estavam armados e quando de manhã dei uma espreita dela lá para fora, as balas silvavam vindas de todos os lados. A nossa situação não era das melhores. Tínhamos apenas as nossas armas, poucas balas, pouca comida e quanto a água... nem vê-la!... Lá fora, os outros passeavam na clareira que há em frente da casa e não paravam de disparar. Nós não podíamos fazer nada. Senti-me perdido! E preocupado também, acredita, Jed. Foi então que prentiss gritou que entregássemos os cintos e as pistolas e saíssemos a alinhar-nos contra a parede, com as mãos no ar.

- Ah! Ah!...

Malloy ria, lembrando-se de tudo o que se passara já, coisas, aliás em que Stone não conseguia ver motivo para riso.

Provavelmente o bandoleiro rir-se-ia da ideia de o mandarem pôr as mãos no ar.

- Eu respondi a Prentiss perguntando: "Prentiss, que pensas fazer de nós... se obedecermos?" "Bem.. talvez enforcar-vos" - replicou o idiota, bem humorado.

Croack Malloy olhou Stone bem nos olhos.

- Nessa altura tive um desejo enorme de o enganar e gritei: "Será melhor vires buscar-nos, porque sozinhos... não vamos!" Malloy soltou uma gargalhada e deu uma fumaça longa.

- Passado um pouco senti fumo. Aquele macaco do Dunn tinha pegado fogo à casa. A madeira estava seca e era velha. Não havia tempo a perder, porque num instante ficaríamos assados.

Espreitei lá para fora e vi que os vaqueiros se tinham retirado para a orla da floresta, a distância suficientemente grande para estarem ao abrigo dos nossos tiros. Um fogo crescia de minuto a minuto. Disse então aos outros

- Temos agora a nossa única possibilidade. Não será fácil escapar, mas enfim... ao menos tenta-se. De qualquer modo antes quero morrer com uma bala no peito do que sufocado pelo fumo. Vamos! Eu saio primeiro, tentando encobrir-me com o fumo. Aconteça o que acontecer, saiam quando eu gritar.

Malloy voltou a calar-se, olhando lá em baixo as gargantas negras e retorcidas.

- Esperei até que uma nuvem bem espessa se elevou e precipitei-me para fora, com uma pistola em cada mão.

Gritei e Darnell e Tanner saíram. Disparámos todos ao mesmo tempo. Mas, que podíamos nós esperar fazer?...

Uma bala apanhou-me a perna e caí. Levantei-me logo e corri-o mais que pude, debaixo de fogo cerrado. O que nos valeu foi o fumo, que não deixava perceber nunca o sítio exacto onde estávamos. Eu ia atirando sempre, mas muito ferido e sempre a correr, não podia fazer grande coisa. Ainda matei um e outro caiu. Quando cheguei à mata caí e sempre pensei que tinha a perna partida. Felizmente enganei-me, e depois de a atar, senti-me melhor. Passado um bocado os tiros tinham cessado. Que julgas que vi?

- Sei lá!

- Darnell implorava aos vaqueiros que o poupassem. Sabes que aquele rancho não é para brincadeiras, e daí a pouco Darnell esperneava por sobre as suas cabeças, de língua para fora.

Ficou com o rosto completamente negro e quase logo. Depois foi-a vez de Lang e Joe Tanner. Vi tudo até ao fim, mas logo que acabou, rastejei lá para o meio das árvores e deixei-me ali ficar todo o dia, até ter a certeza absoluta de que estava salvo. Fui então buscar o cavalo, ao sítio onde tinham ficado os animais. Só lá estava o meu! Depois toda a noite cavalguei sem descanso e na manhã seguinte encontrei Blacky, que tinha conseguido escapar sem uma beliscadura. Sam, que escapara também, assobiou do seu esconderijo. e pronto! Aqui estamos!...

- Devias ter previsto isso tudo!

- Claro que devia, mas não previ, Jed. Ultimamente tenho andado cheio de dinheiro e isso sempre me faz mal. O jogo põe-me fora de mim. A minha pena é não ter morto Slinger! E darnell! Eu é que queria tratar-lhe da saúde! Enfim, já foi alguma coisa vê-lo a espernear lá em cima.

- Também gostava de ter visto. Malloy, isto quer dizer... que a "Faca Afiada" está pronta!... Qual é a tua próxima avaria?

- Tem calma. Podemos bem arranjar homens que fiquem no lugar dos que foram andando...

- Isso nunca!... Se Jim Traft morresse às mãos de um de nós, o velho saberia vingar se!

- Não sei quem é que morreu ou ficou ferido, porque só vi os dois em que acertei. Nenhum deles era Jim Traft.

Nem mesmo Slinger Dunn ou Prentiss. Chefe, tens visto sonora?

- Não. Há dias que não aparece.

- Que diabo é isto? Parece que me cheira a sangue!

E de repente, Malloy pôs se a farejar o ar.

- Não te enganas...

- O que há? - perguntou Malloy, fixando os olhos em Stone.

Com o pé ia entretanto tacteando aquilo que tomara por um fardo.

- Que diabo é isto? Com um pontapé violento, atirou para longe o oleado e bambridge apareceu caído num poço de sangue, que só em parte secara. A seu lado estava a pistola.

- Bambridge! - exclamou atónito! - Deste cabo dele?

- Parece que sim, ele atirou primeiro!

E Stone, levantou-se, foi até à parede oposta e enfiou o dedo no buraco aí aberto pela bala.

- Vê! - disse simplesmente.

- Hum!... Poupaste-me trabalho: Foi ontem isto, não? Que é que ele trazia consigo?

- Pergunta a Madden. Foi ele que o revistou.

- Maddy! - gritou o bandoleiro.

Quando o outro apareceu, perguntou

- Era esta a má notícia que tinhas para mim?

- Nunca pensei que te fosses entristecer muito, lá isso é verdade. Só trazia uns quinhentos dólares e alguns papéis.

- Hum! Quinhentos dólares?

- Sim.

- E queria ele enganar-me com isso, hem?... Olha, Maddy, dá-me uma das moedas a ver se me dá sorte e guarda o resto.

Blacky, tu e Madden, enterrem-no. Aqui mesmo junto ao pórtico, e ponham-lhe em cima uma cruz ou qualquer coisa, para marcar o lugar. Quando passar por ele, hei de sempre lembrar-me de como fui tolo.

- Seria melhor revistá-lo outra vez, Maddem - propôs Stone.

- Bambridge era daqueles que sabem onde esconder o dinheiro.

Maddem e Blacky entregaram-se com prazer à tarefa. Stone voltou as costas àquele espectáculo medonho, mas Malloy ficou a observá-lo calmamente, com um cigarro ao canto da boca.

- Jed, não estás com má pontaria. Acertaste-lhe mesmo em cheio! Malloy tinha o estranho poder de fascinar todos os homens que dele se aproximavam e em altura nenhuma Jed Stone se sentira tão fascinado por ele como agora. A fascinação exercida por Croack Malloy era em geral à base do medo, mas não era essa a que dominava o chefe. Continuava a odiar Malloy porque aquele bandoleiro dera cabo da "Faca Afiada", mas o seu plano de morte começava a perder força.

Malloy foi se deitar e adormeceu. O seu sono era tão estranho como tudo o que lhe dizia respeito. Mesmo a dormir aquele homem parecia acordado e a verdade é que ao menor barulho se levantava absolutamente esperto. Isto não era resultado do medo, nele extraordinariamente desenvolvido.

Passou aquele dia e a noite seguinte.

Stone tornava se cada vez mais pensativo. Não o surpreendeu ver que, enquanto Croack Malloy dormia, Sam Tanner selou um cavalo e saiu. Sabia que aqueles dois homens não tinham sido feitos para se entenderem.

Stone passeou de um lado para o outro, até penetrar numa garganta extremamente apertada, onde reinava o silêncio e a paz.

Não poderia continuar na casota de madeira, com os restos do que fora outrora a grande quadrilha da "Faca Afiada".

De resto, o rancho do Diamante não tardaria a procurá los ali e o próprio Malloy já devia ter pensado na necessidade de partir.

Deixou-se ficar muito tempo deitado no manto castanho, formado de agulhas de pinheiros, tentando decidir o que mais lhe convinha. Malloy tinha certas qualidades dignas de todo o respeito, ainda que fossem poucas. Seria incapaz de o trair, fossem quais fossem as vantagens que daí lhe pudessem advir. e assim, Stone teve de recalcar, dentro de si mesmo, a voz que insistentemente lhe gritava que matasse Croack Malloy.

Seria ele também fiel aos princípios da "Faca Afiada".

Deixaria Malloy seguir o seu caminho, formar outra quadrilha e encontrar um dia o fim... inevitável. Este de resto, não devia estar longe. Homens como Dunn e Prentiss não eram para brincadeiras e se eles próprios não pudessem vingar se por a morte os atingir cedo demais, outros se levantariam em seu nome. O Arizona não perdoava! Quanto a ele, Jed Stone, desaparecia para sempre. Esta ideia atraía-o imensamente. Até teria graça... o chefe da famosa "Faca Afiada, desaparecido, sem mais explicações! Stone sentiu se aliviado com a ideia de renunciar ao seu plano de matar Malloy, e com a ideia de desaparecer de Tonto.

Sentiria, é certo, saudades daqueles desfiladeiros selvagens e misteriosos, mas por esse mundo outros lugares havia de encontrar tão selvagens como aqueles.

Faltava-lhe agora apenas vencer uma pequena resistência interior e estaria pronto a abandonar a quadrilha e talvez até a vida de bandoleiro. Tinha, no momento, mais dinheiro do que era costume, o suficiente para começar a vida de rancheiro com que sonhava há vinte anos. Qualquer coisa se tornara, naquela tarde, extraordinariamente clara.

Onde estava o medo que sempre persegue o fugitivo da justiça, mesmo o mais temerário? Tinha desaparecido totalmente. Parecia-lhe tonto pensar que poderiam prendê-lo por um crime tão antigo. E, fora do Arizona, quem se importaria com o seu passado? Quantos rancheiros respeitados tinham começado por meios um tanto duvidosos! Não! Não havia absolutamente nada a prendê-lo, por isso que nada havia a recear. Ao abandonar definitivamente a ideia de matar o seu colaborador mais notável, tinha-se libertado de cadeias pesadas e sentia-se agora completamente livre.

Era esse o segredo da sua felicidade, do sentimento de alívio que o dominava. E isto porque, abandonando a sua vingança selvagem, renunciava tacitamente à sua posição como chefe da quadrilha.

Pecos esperava-o no Pequeno Colorado e Stone decidiu que quanto mais depressa partisse melhor. Seria mais seguro, porque apesar de tudo não poderia confiar totalmente em si próprio enquanto continuasse ligado à "Faca Afiada".

Quando, ao pôr do sol, Jed Stone voltou a casa, encontrou-a deserta, Malloy e os seus dois amigos tinham partido precipitadamente, deixando o interior da casa num estado de imensa desordem. Não se admirou. Eram coisas que aconteciam de vez em quando. No entanto, podia ser que houvesse uma razão para aquela partida precipitada.

Podia ser que Sonora tivesse voltado ou que qualquer outra coisa tivesse acontecido.

O mais depressa possível, arranjou alguma comida para levar, pegou num cobertor e dirigiu-se ao curral. O seu cavalo estava ainda ali, com vários outros. Sem perda de tempo, Stone montou-o e cavalgou em direcção à floresta que mergulhava na sombra da noite.

 

Três dias mais tarde, ao romper do sol, quando os esquilos começavam a sua faina e os pássaros chilreavam, Jed stone encontrou um caminho novo, que levava a uma estrada que não conhecia. Concluiu que devia ser a estrada aberta há pouco tempo por Jim Traft.

Sentia a dor profunda de quem deserta da terra onde nasceu ou para que nasceu, apenas atenuada pela melancólica felicidade que antevia para o futuro.

Trazia consigo carne e sal, biscoitos duros e café, exactamente o suficiente para a viagem que tencionava fazer.

Quando a floresta começou a rarear, cortada aqui e além por relvados, salpicados de salvas vermelhas, descansou um pouco da vigilância a que se obrigara e passou a avançar mais depressa. Foi então que descobriu, que há algum tempo já, vinha seguindo pegadas frescas, sem disso se ter apercebido.

- É estranho! Os Outros cavaleiros tinham seguido aquele caminho nessa mesma manhã. O facto era perturbador, mas depois de ter pensado nele durante alguns momentos, concluiu que se eles andassem perto os teria ouvido, antes que eles dessem com ele.

Estando só e muito habituado a prestar atenção ao que se passava à sua volta, não lhe poderiam ter passado despercebidos. Os cavaleiros deviam ter tomado outro rumo, não para o evitar, mas porque o seu destino ficava noutro sentido.

O pistoleiro esporeou o cavalo e a galope seguiu na frente.

Quando chegou à junção da estrada nova com a velha, foi no entanto obrigado a parar. Um veículo que não conseguia identificar tinha chegado até ali, virando da direcção Sul e não seguira depois nem por uma nem por outra estrada.

Stone encontrou um saco de lona, aberto, já sem nada. Alguém o esvaziara e o atirara depois para o lado, como coisa inútil.

O chão estava tão cheio de confusas marcas de cavalos que, difícil se tornava definir um trilho.

- Que quer isto dizer?! - perguntou atónito.

Estava acostumado a situações semelhantes e sabia que o que tinha na sua frente tanto podia ter uma importância enorme, como não ter importância nenhuma. Stone iniciou pesquisas e à beira da estrada encontrou uma luva ensanguentada, caída sobre uns arbustos.

- Hum!... Cheirava-me a isto mesmo! Tenho de averiguar mais alguma coisa. - murmurou.

Meteu o cavalo a galope, abrandando quando lhe parecia haver possibilidade de encontrar qualquer vestígio mais significativo e conforme o caminho era descoberto ou emaranhado de cedros. Em menos de uma hora encontrara uma carripana, que, com um único ocupante, seguia lentamente para o Norte. Stone continuou desejoso de observar o homem e o veículo de perto.

Não era apenas a curiosidade, mas também o instinto que o levara a agir daquela maneira. Ainda antes de se aproximar do homem, viu que este não trazia chapéu e que tinha o cabelo grisalho. O corpo amolecido contra o assento e a cabeça enfiada nos ombros largos pareciam indicar que já não era novo.

Stone notara que algumas pedras do caminho estavam manchadas de sangue e de novo, esporeou o cavalo, obrigando-o a um galope rápido.

Antes que tivesse atingido a carripana, esta parou e o homem voltou-se para trás com ar de quem o faz por ter ouvido o tropear do cavalo. Quando Stone parou, viu imediatamente o rosto escuro de um mexicano, deitado no assento de trás.

Percebeu que aquele homem estava morto.

- Olá! - gritou.

Nesse mesmo momento estremeceu e calou-se. Na sua frente estava um homem que já não via há mais de vinte anos e que no entanto não teve dificuldade em reconhecer.

Ficou um momento calado e depois exclamou

- Diabos me levem, se não és Jim Traft!

- Olá, Jed! - disse o rancheiro. - E que queres tu?

- Eu!... Eu não quero senão saber o que aconteceu. Há um bocado bom que te sigo, ou melhor que procuro a carripana que deixou marcas na encruzilhada. Encontrei também esta luva.

E Jed Stone puxou da luva ensanguentada.

- Era do meu motorista. De Pedro, que está ali deitado.

Mas... com certeza sabes o que se passou, não?

- Não sei nada. Há três dias que cavalgo sozinho e és tu a primeira pessoa com que falo.

- Jed Stone, julgas que acredito nisso?

- Espero que acredites. Juro que é verdade! - declarou o bandoleiro fitando o outro com uns olhos firmes em que havia quase censura.

Naquele olhar havia toda a memória amarga e saudosa dos seus tempos de vaqueiro honesto.

- Não sabes então que Croack Malloy me assaltou?

- O quê?!... É lá possível?... Não, Jim, não sabia de nada.

- Nem sabias que ele matou o meu motorista?

- Não, Jim.

- Jed, não vejo, de facto, razão para que estejas a mentir.

Há muitos... muitos anos mentiste-me uma vez... e a tua mentira arruinou te a ti e salvou-me a mim. Peço te que não mintas agora.

- Não estou a mentir, Jim. Deus é testemunha disso!... Venho só, porque decidi deixar a "Faca Afiada". Deixei o nosso buraco lá no desfiladeiro há já três dias. A quadrilha acabou.

Malloy deu cabo dela. Deixo para sempre o Arizona... É a vida que tenho levado ultimamente.

Depois de examinar atentamente o rosto de Stone, Jim Traft exclamou

- Santo Deus! Como estou contente, Jed!...

É estranho este nosso encontro. Escuta! Ia agora para o "Colete Amarelo" fazer uma surpresa a meu sobrinho. Vinham comigo Molly Dunn - a noiva dele - e Gloriana - a irmã.

Dormimos a noite passada no rancho de Miller, a umas quinze milhas daqui.

O velho calou-se por um momento e depois continuou.

- A certa altura três homens fizeram-nos parar. Eu não conhecia Malloy, mas logo no momento do encontro um dos outros chamou-o Croack e fiquei a saber quem tinha na minha frente.

Bem... ordenei a Pedro que não parasse e Malloy seguindo-nos a cavalo, matou-o. Ter-me-ia feito outro tanto, senão tivesse tido outra ideia, que lhe agradou Bem mais.

Houve novo silêncio, desta vez um pouco mais longo.

- De qualquer modo, roubaram-me tudo o que trazia e apoderaram-se das raparigas que se debatiam e gritavam.

Só queria que visses como Molly lutava! Foi então que Malloy disse

- Jim Traft, dou te três dias para me trazeres dez mil dólares. Nessa altura as raparigas ficarão livres! Até lá nenhum mal lhes acontecerá. Um pouco de amor, só serve para distrair!...

- Aquele idiota ficou a rir-se. Não tinha outra coisa a fazer senão concordar e vir-me embora.

- Jim, calculo para onde Malloy foi. Vou segui-lo e tenho a certeza de o apanhar antes da noite. Encarrego-me das raparigas.

- Jed, estás interessado nos dez mil dólares?

- Não. Faço isso porque... porque gostei de Jim Traft, do teu sobrinho quando falei com ele. e porque preferia morrer a ser-te desleal outra vez. Da outra, da primeira e única, fui levado à deslealdade por Malloy e Bambridge. Foi por isso que matei Bambridge.

- O quê?!... Mataste Bambridge?

- Sim. E Croack disse-me que viu aquele malvado do Darnell pendurado numa árvore. Mas conto te isso tudo mais tarde.

Agora tenho que me despachar. Só mais uma coisa. Pode ser que Malloy me mate. Se assim acontecer será bom que mandes o dinheiro combinado. De contrário, espera-me no "Colete amarelo", onde irei levar Molly e a irmã de Jim.

Jed Stone já se afastava à desfilada e apenas lhe gritou por sobre o ombro.

- Até breve, Jim.

- Adeus, camarada!

Veloz como o vento o cavalo galopava pela estrada, para um pouco mais adiante se internar na floresta, onde não tardou que Stone descobrisse rasto de Malloy.

Seguiu-o, pensando sempre em como tudo é estranho na vida e como, mais estranho do que qualquer outra coisa que já lhe tivesse acontecido na vida, fora o encontro que acabava de ter com o seu velho amigo. Ao fim e ao cabo, via agora, que não poderia deixar o Arizona, sem lavar as suas mãos de sangue no de Croack Malloy. Esse pensamento que dias antes o perturbara, parecia-lhe agora absolutamente natural, explicada como estava pela defesa de uma causa justa. Tinha a certeza de que iria matar Malloy! Provavelmente teria mesmo de matar os três bandidos que tinham atacado o rancheiro.. Convinha-lhe chegar junto deles antes da noite, para evitar que as raparigas fossem violadas. Malloy nunca hesitaria em aproveitar esta oportunidade, tal como nunca hesitaria em aproveitar outras.

Talvez devido ao seu corpo desajeitado e feições grosseiras, nunca mulher alguma, cem ser das de má vida, quiseram relações com ele. Por essa razão as detestava e abusava delas sempre que as apanhava a jeito.

As horas passavam rápidas. Pela meia tarde, Stone chegou perto do Poço de Tobe, um sítio de uma beleza extraordinária, situado no alto de umas ravinas de onde se abrangia todo o vale de Cibeque.

Avistou a casita de madeira. No relvado batido pelo sol, os cavalos comiam tranquilamente e da chaminé saía um rolo de fumo. Selas e fardos estavam espalhados por todo o lado.

Jed Stone levou o cavalo por um caminho estreito, que ia dar-a um recanto circular. Nunca naqueles vinte e tal anos de vida dura, naquela região selvagem, ele se sentira tão totalmente jed Stone.

Continuou depois pela margem do ribeiro, sombreado por pinheiros gigantes, em direcção à casa. Ninguém apareceu para o saudar e o cavaleiro pensou, com os seus botões, que os outros deviam estar muito interessados no que se passava dentro daquelas quatro paredes.

- Não deve ter chegado nada cedo! - murmurou.

Largando o cavalo, avançou para a porta aberta e no momento seguinte ouviu o grito abafado de uma rapariga, um grito em que havia revolta e profunda emoção. Viu então uma rapariguita morena, de cabelo castanho doirado completamente em desalinho e que tentava erguer se dos fardos sobre os quais a tinham deitado amarrada. Era Molly Dunn.

Maddem estava de joelhos, com as mãos enfarinhadas, mas não dando o mais pequeno sinal de estar ocupado com farinha.

Parecia, pelo contrário, intensamente interessado no que se passava do outro lado. Ali, Reeves, de pé, assistia impassível a um espectáculo que fez ferver Stone. Malloy acabava de arrancar à força a blusa a uma rapariga loura, de ombros muito brancos, que tentava fugir-lhe.

O momento era para agir imediatamente sem a mínima perda de tempo e Jed Stone compreendeu-o. Entrou em casa com ar decidido e gritou

- Que diabo é isto? Foi esta a primeira vez que viu Malloy surpreendido, ainda que talvez a milésima em que o via zangado. O chefe sentiu que os outros consideravam a sua entrada inoportuna.

- Oh!... É o chefe! - exclamou Madden, como quem se sente aliviado.

- Que vens aqui fazer? - rugiu Malloy, enquanto com um gesto de impaciência atirava ao chão a blusa rasgada.

- Jed Stone! - gritou Molly Dunn.

Na voz da rapariga havia um apelo tão sincero, que o pistoleiro estremeceu. Ela reconhecera-o e só isso bastava para lhe dar vertigens. Mesmo naquele momento aflitivo lhe vieram à ideia os dias felizes em que Molly era ainda muito pequenina e ele a passeava e acarinhava, e lhe trazia guloseimas, quando ia à cidade. Lembrou-se também de como, mais tarde, sendo ela já uma rapariguita crescida a levava a cavalo e das conversas que tinham tido os dois, nos seus passeios de Cibeque a Tonto.

- Passei aqui por acaso! - disse Stone.

- Um acaso estranho, temos de concordar! - vociferou Malloy.

- Quem são estas raparigas e que é que vocês pretendem delas?

- Houve uma luta... - Começou Malloy. - Os outros eram muitos, mas conseguimos dar-lhes uma boa coça. Logo a seguir encontrámos o velho Jim Traft e estas duas pequenas. Foi então que tive uma ideia luminosa...

- O quê?. Espero que te não refiras ao velho Jim Traft... o rancheiro?! - exclamou Stone, fingindo o maior espanto.

- Foi ele mesmo.

- E estas meninas são amigas ou parentes dele?

- Sim. Julgo até que se olhares bem, não terás dificuldade em reconhecer Molly Dunn. A outra é a irmã de Jim Traft.

- E queres conseguir dinheiro por meio delas?

- Está visto.

- E aproveitá las doutra maneira, até o teres nas mãos?

- Isso não é contigo, Jed.

Via se que Croack estava impaciente com a forçada interrupção.

- Estarás maluco? - gritou Stone furioso. - Jim Traft vai pôr centenas de vaqueiros a perseguir-te. Que podes tu contra eles? Não tardará que te apanhem e que te enforquem.

- Qual enforcam! Tu é que endoideceste? A verdade é que, de há um tempo Para cá não te percebo. Estás a ficar velho e perdeste todo o entusiasmo antigo.

Na voz do bandoleiro havia amargura e uma ponta de desprezo.

- Croack, foste tu que deste cabo da "Faca Afiada". Com esta nova brincadeira vão pôr o Arizona em pé de guerra.

Malloy olhou-o espantado. Stone pôs se a passear agitado, de um lado para o outro e torcendo as mãos, saiu da casa. Voltou logo, porém, e nas suas mãos brilhava uma pistola.

Foi assim que Croack Malloy, o bandoleiro maldito, caiu por terra, sem um gesto de defesa, sem um lamento. Ficou com o rosto contra o chão, apresentando claramente a nuca, onde se viam os estragos causados pela bala certeira.

Madden, com uma praga, levou as mãos enfarinhadas ao cinturão. Felizmente era já tarde demais, porque um segundo tiro o mandou para o descanso eterno.

De um salto, Reeves dirigiu se para a porta, escapando por um triz, à bala que ainda lhe tocou de raspão. Corria como doido em direcção aos cavalos. Stone deixou-o ir, preocupado com o que se passava dentro da casa. Não havia dúvida que Malloy e Maddem estavam mortos, mas temia pelo estado das raparigas.

Aquela que Malloy começara a despir caíra desmaiada, com os braços muito brancos estendidos sobre um fardo. Quanto a Molly, abriu nesse mesmo momento os olhos negros, em que havia terror.

- Como estás, Molly?

E Stone inclinou-se para desatar as correias que a prendiam.

- Parece-me que cheguei na hora exacta.

- Sim, Jed. Vieste. Vieste para nos salvar?

- Sim. Espero que não seja tarde demais.

- Oh!... Não! Nós estamos bem. Estava aterrada. Ele... ele está mesmo morto?

- Morto e bem morto, Molly.

Jed Stone calou-se por um momento, olhando a rapariga.

- Encontrei o velho Jim na estrada e foi por ele que soube o que se passava. Agora, tens de reagir. Uma coisa destas não deve ser o bastante para arrasar Molly Dunn, do Cibeque.

- Conheci te logo, Jed. Quando entraste, o meu coração quase parou. Graças a Deus que chegaste a tempo. Já tinha lutado tanto quanto me era possível. Croack Malloy acabou por me amordaçar. Oh!... como é que poderei agradecer-te?... Como é que Jim poderá agradecer-te? A sua emoção, os seus olhos eloquentes e as mãos pequeninas que tremiam ao apertar carinhosamente as de Jed Stone, deram a este a felicidade, que julgava ter perdido para sempre.

- Não tens de que me agradecer, Molly - limitou-se a dizer o pistoleiro.

Depois de um silêncio continuou.

- Agora, vejamos. Está já muito escuro e talvez seja melhor passarmos aqui a noite. Amanhã seguiremos para o "Colete amarelo". Vou pôr estes homens lá fora.

Malloy era pesado e foi necessário bastante esforço da parte de Jed Stone para o arrastar, mas em contrapartida Maddem era de constituição frágil e quase lhe não deu trabalho.

- Morreste como era de esperar, Malloy - disse Stone para consigo, quando lhe arrastava o corpo morto. Depois o chefe apoderou-se da pistola de Malloy, do cinturão e dos cartuxos.

Depois lembrou-se ainda de lhe revistar os bolsos, donde tirou uma quantia bastante considerável, uma faca, um relógio, e a moeda que Malloy pedira a Maddem para lhe dar sorte.

Ao entrar em casa viu que Molly conseguira vestir a blusa rasgada na companheira e que tentava reanimá-la.

- Deixa que a natureza actue por si - aconselhou-a. - Talvez seja melhor que venha a si naturalmente, pois o choque não será tão grande. Meu Deus! que linda ela é!... É a irmã de jim.

- É. Não a achas maravilhosa?

- Sim, mas agora é melhor deitá-la naquela cama de feno, que alguém preparou com todo o cuidado. Podem lá dormir as duas.

- Jed, por favor, arranja-me água. Estou a morrer de sede.

Aquele estúpido quis obrigar nos a beber uisque.

Stone encontrou um balde e apressou-se a ir enchê-lo à fonte. Tinha a cabeça cheia de pensamentos de felicidade, que não conseguiu, no entanto, definir. Voltando à casa, encheu um copo de água e deu-o a Molly, ficando a olhá-la enquanto bebia. Que bonita cabeça. Ter ali, junto dele duas raparigas como aquelas, quase lhe parecia um sonho. E Stone olhava as com interesse, cada vez mais consciente da sua responsabilidade.

- É Glory que ela se chama, não é?

- Gloriana. Nós é que a chamamos Glory.

- É da cidade?

- É, mas veio e quer ficar para sempre no Oeste.

- Isso era maravilhoso, se o Oeste a conseguir prender. Esta aventura não a fará odiar tudo isto? Tem ar de quem é profundamente orgulhosa.

- O que lhe aconteceu só lhe fará bem - disse Molly, de olhos brilhantes pelo entusiasmo -, Jed, nunca vi uma rapariga tão orgulhosa, como ela era quando eu a conheci. E calhar logo ser irmã de Jim!. Não calculas a trapalhada que foi... a complicação que eu fiz de coisas, que afinal não eram nada complicadas. Acabei tudo com Jim, por não me achar digna dele.

Digna da sua aristocrática família. Ele depois raptou-me... graças a Deus.

- Não ma admiro de nada do que contas. Mas, acredita Molly, tu és digna de um rei. Peço a Deus que tudo corra bem e que sejas feliz.

- Obrigado, Jed. Espero que tudo corra bem. Glory tem um coração de ouro. Adoro-a e mal posso acreditar que ela goste de mim também. Compreendes, não é? Aqui estou eu, sem educação, tendo vivido toda a minha vida numa casa pouco melhor que esta. Nunca tive fatos bonitos, nem nada a que pudesse chamar meu. Ela tem tido tudo.

Molly calou-se, pensativa.

- Mas... o tio diz que o Oeste há-de acabar por a conquistar e que nós as duas seremos como irmãs. Ele sempre... disse que ela precisava de conhecer o verdadeiro Oeste, o Oeste selvagem e misterioso. Nunca percebi muito bem o que é que o tio pretendia com isso, mas acredito nele.

- Molly, eu compreendo o tio Jim - replicou Stone, sorrindo para a rapariga, que caíra em profunda meditação. - O Oeste selvagem e misterioso são os choques com a realidade como esta experiência que vocês acabam de ter, é a vida com os vaqueiros e o gado, é o trabalho incessante quando apetece mais descansar e as vigílias quando se queria dormir... É, o pó e o vento e o frio! É passar fome de vez em quando! É ficar paralisada de terror?... São todas estas coisas e muito mais, que tu já conheces, Molly Dunn, mas que esta menina da cidade nunca viveu.

- Jed, é exactamente isso. Eu vou casar com Jim, dentro em breve - continuou muito corada. - Todos queriam que fosse na primavera, mas eu adiei para um pouco mais tarde.

- Gostas muito dele, Molly?

- Oh! Já nem sou a mesma! Parece que perdi parte de mim mesmo, mas sinto-me tão feliz, Jed. Sabe, estou a estudar. Se ao menos Glory me compreendesse?

- Eu a ajudarei a compreender-te, Molly - prometeu Jed stone, afagando-lhe os cabelos. - Agora eu saio, para tu a meteres na cama. Podia não lhe agradar ver aqui o bandoleiro que entrou a gritar e a matar.

- Jed, ela adora pistoleiros. Tenho até a certeza que achou maravilhoso ser raptada por Malloy. Até ao momento em que ele a agarrou com força.

- Ainda bem. Mas agora, Molly, fica combinado que lhe não falarás de mim, até eu resolver cá umas coisas. Vou tratar do cavalo. Quando ela já estiver acomodada, vais-me dizer. Talvez eu nessa altura já tenha o meu plano.

- Jed Stone, nunca te considerei um bandoleiro, um perseguido pela Lei, um bandido. Hoje, tenho a certeza de que és um homem de bem...

- Obrigado, Molly. Lembrar-me ei sempre das tuas palavras.

Stone saiu, tirou a sela ao cavalo e deixou-o à vontade.

Depois pôs se a passear de um lado para o outro, como era hábito fazer quando se sentia preocupado.

Passado um pouco, Molly apareceu a correr. E que prazer ele sentiu naquele espectáculo tão simples, ele que passara toda a vida longe de mulheres! - Ela voltou a si, Jed. E não está tão impressionada como eu julgava! - exclamou alegremente. - Quase ia rebentando para não lhe contar o nosso segredo e não lhe dizer que estamos salvas e que amanhã vamos para o "Colete Amarelo".

- Agora ouve, Molly. Vamos fingir que eu ainda sou pior do que Croack... e dizemos lhe que eu os matei Para vos ter só para min. Daqui até ao "Colete Amarelo" são três dias bem puxados de caminho e isso dar nos á tempo para curar a menina gloriana de todos os seus preconceitos. Vou portanto fazer de bandido... até um certo ponto, já se vê. Combinado, Molly?

- Oh, Jed! Se eu fosse capaz! - exclamou ela, pálida de emoção e de olhos muito brilhantes -, Mas... isso vai fazê-la sofrer. E... eu gosto tanto dela!

- Tens razão, mas ela precisa disso. É a única maneira, acredita, para conseguir fazer dela o que deve ser. Se tiveres coragem para fazer bem a tua parte, verás que não tens de que te arrepender.

- Jed, mas não penses que deixo que Glory pense que és mau em vez de bom. Se pretendes isso, não concordo.

- Claro que ela há-de descobrir depois que ao fim e ao cabo não sou assim tão mau. Mas aconselho-te a contar o nosso plano ao tio Jim, para que ele não estrague o nosso arranjinho.

Molly, ficarei muito desgostoso contigo se não fizeres isto por Glory. Tenho a certeza que Jim concorda comigo.

- Oh! Claro que concorda! Deixa estar que farei tudo o que me mandares e representarei bem o meu papel!

- Assim é que é - exclamou Jed Stone, satisfeito. Agora, volta lá para dentro e diz-lhe que escaparam de uma situação má para cair noutra pior. Anda, vai!

 

A vida tem sempre surpresas reservadas aos homens, mesmo aqueles como Jed Stone, para quem ela parece já nada prometer de novo. Assim pensava o bandoleiro ao dirigir se a casa, sentindo dentro de si uma estranha alegria. Jovem ainda tomara sobre si a culpa de um amigo, para salvar a rapariga que ambos amavam e aquele acto heróico levara o a vinte anos de completa solidão, e mais do que isso, de infâmia. Naquele mesmo momento jed Stone cometera um crime, ao matar um camarada, que miserável como era, tinha no entanto em si elementos apreciáveis de lealdade e confiança, e a partir daquela circunstância condenável, de novo a favor da mulher, adivinhava que viria a sair das profundezas em que caíra.

A vida era de facto um enigma! Stone entrou em casa, com o ar de um bandido. A rapariga traft estava sentada e Molly atarefava se à sua volta. O pistoleiro sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha tal como se visse a rapariga pela primeira vez. Nunca vira beleza como aquela. Gloriana tinha uns olhos enormes, cor de violeta e havia neles uma expressão em que se acentuava o terror e a fascinação. Que maravilha! Stone duvidou por um momento de que fosse capaz de levar a cabo o seu plano.

- Que é que esta palerma te está a dizer? - perguntou Stone com voz dura.

- Oh!... Disse-me que o senhor é Jed Stone, um bandido - gaguejou ela, apressando-se a responder. - E que matou os outros para nos ter só para si.

- Exactamente. E que tal te parece a ideia?

Entretanto Stone ia observando Glory. Percebeu que ela estava com medo, mas viu também que não era tola.

- Parece?... Parece o quê?

- O quê? O teu novo dono, está visto. A verdade é que sempre tive inveja da maneira como Malloy dominava as mulheres.

- Senhor Stone... quando entrou aqui... quando aquele bruto me arrancava a blusa... tive a certeza que me ia salvar.

- Hum!... Bem te percebo.

E com um gesto, Stone procurou libertar se daqueles olhos que se fixavam nele com tanta insistência.

Depois, inclinando-se para a frente, agarrou-a pela blusa e com força pô la em Pé, trazendo-a para a luz.

- Não há dúvida que és bonita. Mas serás boa?

- Boa... Espero que sim.

- É isso que vamos ver. És realmente boa?

- Eu... Eu julgo que sou.

- Pois bem. É precisamente de ti que preciso. Tenho fome de uma rapariga da tua espécie. Molly Dunn, aquela ali é do Oeste, é uma gata selvagem e não tem medo de bandidos. É da mesma massa que eu, sei bem até que ponto me servirá! Agora tu...

E Stone calou-se por um instante.

- Tu és diferente! - gritou -, pertences à classe que fez de mim um bandido. Hei de vingar-me em ti destes vinte anos de vergonha e de desespero. Serás minha escrava!... Hei-de obrigar-te a amar-me! Hei de bater-te... espancar-te! O rosto de Gloriana não podia estar mais branco.

- Eu... eu estou nas tuas mãos. Mas... se foste um homem para matar aqueles brutos não...

Stone deixou-a cair em cima da cama de feno.

Gloriana ingénua como era, tinha no entanto tido o verdadeiro Jed Stone e este teria de ser cuidadoso e de avançar devagar, para a convencer.

- Se vais desmaiar cada vez que falo contigo, estamos bem - rugiu ele, desdenhoso - onde está o teu orgulho de Traft? O teu irmão, Jim, tem nervo. Teve a coragem de me procurar, de ir ao encontro de toda a quadrilha, desarmado, agora tu...

Não, Gloriana tu não és uma verdadeira Traft!

O sangue subiu às faces pálidas da rapariga e os seus olhos faiscaram.

- Verás!... - gritou.

- Estás cheia das manias da cidade. Julgas te superior à gente simples do Oeste, julgas te boa de mais para gente como eu e Malloy, e o irmão dela e Curly Prentiss. Tu não prestas para nada. Vem aqui!

E Stone arrastou-a pelo chão até junto à lareira, onde Maddem abrira alguns embrulhos, donde começara a tirar coisas.

- De joelhos! - ordenou. - Faz-me biscoitos. Se não ficarem em condições, espanco-te! Quero também carne frita e café fresco. Percebes? Com as mãos a tremer, Gloriana arregaçou as mangas e começou a amassar a massa que Maddem deixara meio pronta.

Stone notou que ela não era tão desajeitada, como supusera.

Depois voltou-se para Molly.

- Bem, minha negrinha, agora tu vais entreter-me, enquanto gloriana faz o trabalho de casa.

- Não. Afasta te daqui - gritou Molly.

Quando Stone tentou apoderar se da sua pessoa, ela fugiu, e agarrando numa panela, atirou-lhe à cabeça. Stone tentou escapar, mas a panela ainda lhe bateu na nuca com grande estrondo, indo depois cair no chão.

- Hás de pagar-mas! - rugiu ele.

Seguiu se uma perseguição em forma, que a um observador menos aterrado do que Gloriana, teria parecido cómica. Como actor Jed não ia mal, mas habituado ao cavalo, era de movimentos um pouco pesados e só muito raramente conseguia escapar ao tiroteio com que Molly incessantemente o alvejava.

Quando ela o atingiu num joelho com força, Stone não pode deixar de emitir um sonoro grito de protesto. Por fim, Molly deixou que ele a agarrasse.

Este agarrando numa vassoura começou a bater a parede com ela.

- Toma... sua ordinária! É para que saibas.

Depois inclinou-se para a rapariga que se contorcia no chão e murmurou-lhe ao ouvido.

- Vamos, grita!

Molly obedeceu e a casa encheu-se de gritos.

- Ai!... Ui... Deixa-me!

Stone espreitou por sobre o biombo que os separava da parte onde estava Gloriana e viu que ela estava ofegante, de olhos em chama. Jed concluiu que ela procurava uma arma, pela maneira como olhava à volta.

- Agora... Molly Dunn... espero que tenhas aprendido que se não brinca assim com Jed Stone. Vem aqui e beija-me.

Teve de a sacudir para a fazer lembrar-se do seu papel e depois Stone produziu com os lábios vários sons, destinados a imitar beijos ardentes.

- Oh!. Deixa-me - Gritou, ofegante, Molly. - Jim Traft...

há-de matar-te. Tu...

- Há! Há! Havia de ter graça. Agora, está quietinha, só por um momento.

Stone agarrou-a e levou-a para a cama, e atirou-a, como se a rapariga mais não fosse do que um saco de batatas. Molly estava agora a representar facilmente! Com o rosto congestionado começou a debater se como um animal perseguido.

- Bruto!... Besta... Bandido! - gritava.

Entretanto Stone notara que Gloriana agarrara a faca de cozinha e com ela bem apertada na mão, tentava escondê-la nas dobras do vestido. O espectáculo que ela oferecia era digno de ser visto, ao mesmo tempo de beleza e horror. Via-se que o espírito da rapariga ultrapassava em muito as suas poucas forças.

- Para que é essa faca? - perguntou.

- Tu não és um bandido - explodiu ela. - És um lobo!... Se tornas a tocar em Molly, mato-te.

Aqui estava já um indício do instinto primitivo que Stone e Molly tinham combinado fazer despertar nela. A verdade é que o bandoleiro já quase temia que Gloriana reagisse bem demais e estragasse o jogo. Precisava de a intimidar.

- Tu, matares-me? Tu?... Deixa já cair a faca!

E puxando da pistola, disparou, como se a tivesse por alvo.

A verdade é que ele sabia muito bem que a bala não atingiria nada mais do que o balde de água. Gloriana não só deixou cair a faca, como caiu ela própria. Não chegou porém a desmaiar.

Stone abeirou-se dela e levantou-a com sentimentos muito diferentes dos que procurava fazer crer e em seguida fingiu reunir tudo aquilo, que ela pudesse ser tentada a usar como arma.

- Volta para o teu trabalho! - ordenou por fim.

Gloriana parecia um farrapo. Via se bem que as forças lhe faltavam e Molly quase se não conteve. Quanto a Stone, manteve-se imperturbável.

As coisas tinham ido mais longe do que fora previsto e o pistoleiro rejubilava, certo de que de todas as situações difíceis que lhe poderia criar, Gloriana beneficiaria imensamente. O facto é que a rapariga tinha uma coragem notável, para uma menina, que como ela fora criada na cidade.

Gloriana sacudiu a sua cabeleira dourada, deixando nela uma mancha de farinha branca e pôs se ao trabalho.

- Diz-me, querida, lavaste essas patinhas brancas, antes de começares?

- Não... Nem... nem pensei nisso.

- Então lava as! Ou pretendes envenenar-me com a sujidade que há nelas? Fica sabendo, Gloriana Traft, que sou um bandido-asseado e quem cozinha para mim tem de ser também muito limpo.

De repente Molly, com um grito mal articulado, saltou da cama e escapou-se pela porta fora. Jed Stone não percebeu o que ela pretendia, mas correu atrás dela. A rapariga não tentava, escapar, pretendendo apenas falar longe de Gloriana.

- Que queres? - perguntou Stone, ansioso. - Está tudo a correr bem. És uma grande actriz.

Molly levara a mão ao peito.

- Oh Jed... não posso - gemeu. - Tenho medo de que ela não resista. Deixa-me dizer-lhe que... que tu não és mau.

- É estragar tudo!... Não, Molly. Não - teimou ele. - Não vês que é para bem dela. Ela já era capaz de me atacar à facada. Molly, pelo amor de Deus, tens de ir até ao fim.

Havemos de fazer dela uma mulher às direitas.

- Mas... mas não exageres!

- És uma palerma. Eu não exagero nada.

- Não a achas maravilhosa? Quando a vi com a faca na mão, até me arrepiei. Jed, tudo isto está errado. Já mataste dois homens na frende dela. Fingiste que me batias...

que me beijavas. Fingiste que a ias matar... há pessoas que morrem de medo. Quando estás a brincar, parece que é tudo a sério. Sinto-me mal...

- Molly, juro te que não seria capaz de fazer Gloriana...

Sei muito bem o que ela precisa e tive uma ideia. Molly, conheço te desde pequenina... Lembras te de que te costumava chamar Ratinha da madeira? Tenho a certeza que foi Deus quem me deu esta ideia...

- O que é, Jed?

- Calma, Molly, não posso contar-te tudo num minuto. Se soubesses como é maravilhoso para mim lembrar-me de tudo aquilo que me levou a mudar de vida...

- É mesmo verdade que vais mudar?

- Sim, Molly.

- Meu Deus! Como estou contente! Tão contente como quando o meu irmão deixou a vida de bandoleiro. E agora, continua, Jed.

Prometo que farei tudo o que disseres. mas por favor não a magoes.

- Vai lá para dentro! Tenho que fazer antes da noite.

- É melhor levares-me à força - sugeriu ela.

Foi assim que Jed Stone arrastou para casa uma jovem que se debatia e gritava, enquanto ele gritava ainda mais alto.

Depois ele ordenou-lhe de modo brusco que pusesse lenha ao pé do fogão.

Em seguida, Jed Stone procurou nos sacos, até encontrar uma pá com que se propôs cavar a sepultura de Croack Malloy, a sepultura do homem que arruinara a tão famosa quadrilha da "Faca Afiada".

Stone teve bastante sentido dramático para escolher o sítio mais conhecido do Poço de Tobe para essa sepultura.

Assim, o local escolhido foi debaixo de um carvalho secular, que pelo seu tamanho dominava a paisagem e à sombra da qual rancheiros, bandoleiros e vaqueiros costumavam acampar quando havia bom tempo.

O terreno era mole e em breve a cova estava aberta. Para ela, stone arrastou o corpo morto de Croack Malloy, com muito pouca ou nenhuma cerimónia. Depois desta operação, as mãos

tingiram-se-lhe de sangue, de um sangue que parecia queimar, a tal ponto que antes ainda de terminar a tarefa, teve que se ir lavar ao ribeiro.

- Adeus, Croack Malloy. A tua morte não foi bem o que tinhas imaginado, mas tens de ter paciência...

Stone calou-se um instante.

- Ultimamente andavas muito com Madden. Agora vais apodrecer ao pé dele e podes ir com ele para o inferno, também.

Terminado o enterro, colocou uma pedra enorme aos pés do túmulo e deu o assunto por terminado.

O espírito sempre activo de Jed Stone estava agora livre, para pensar no que se passava e iria passar dentro da casa. No regresso apanhou uma pedra bastante grande e escondeu-a debaixo do casaco.

Foi dar com as duas raparigas trabalhando afanosamente, na preparação do jantar. Ouviu ainda as últimas palavras de Molly

- e não adianta mentir te Glory... porque tenho tanto medo como tu.

- Oh! Céus! Como os homens são falsos! - suspirou Gloriana.

- Quando ele entrou aqui, seria capaz de jurar que ele era um... herói.

- Não quero que falem de mim! - vociferou Stone -, estou muito sensível a comentários!

Seguiu-se silêncio. As raparigas nem ousaram sequer levantar a cabeça e Stone ocupou-se a atirar areia para cima das manchas de sangue no chão de madeira. Sem que elas notassem colocou a pedra no lugar onde tencionava sentar se à mesa e que antes arranjara, pondo todas as tralhas que a enchiam no chão e cobrindo-a com o pedaço de pano mais limpo que conseguiu arranjar.

Depois sentou-se e esperou. Sentia que estivera numa situação tão maravilhosa e queria aproveitá-la. " Por fim o jantar foi posto na mesa.

- Serve-me tu - ordenou, indicando Gloriana. - Molly, senta-te e come. Dá-me um desses horríveis biscoitos!... Ui! Que quente!

E Stone deixou cair o biscoito, ao mesmo tempo que empurrou a pedra, que caiu da cadeira com o barulho próprio. Gloriana, deu um pulo, esbugalhando os olhos.

- O quê! Ouviste o barulho que fez o biscoito?

- Ouvi qualquer coisa pesada.

- Queres envenenar-me? Anda, diz - gritou Stone -, Que diabo puseste tu no biscoito?

Gloriana gaguejou qualquer coisa e desviando-se um pouco para o lado, viu a pedra, que logo por pouca sorte tinha caído, justamente em cima do biscoito.

- Era uma pedra - disse lentamente.

- O quê? Ah! Uma pedra. Devia ter estado em qual quer lado e eu não a vi. As minhas desculpas, menina Traft.

Gloriana estava de tal modo aterrorizada, que não conseguia raciocinar como era devido, mas mesmo assim olhou para o bandido com grandes olhos trágicos.

Depois disto, Stone começou a comer e verificou com prazer que nunca jantar algum lhe soubera tão bem. Durante dias e dias, era ele próprio que preparava a sua comida e nos últimos dias as suas refeições tinham constado invariavelmente de carne seca, biscoitos e café. O que tinha na sua frente era um verdadeiro banquete. e fez-lhe as devidas honras. Quando acabou, fixou em Gloriana olhos que tentava fazer passar por ferozes e observou:

- Bem... se sabes amar tão bem como cozinhar, não há dúvida de que tive sorte. Agora vai te embora que eu lavo a loiça.

Nunca nenhuma amante minha teve de fazer trabalhos destes.

Enquanto com imenso barulho Stone tratava da loiça, ouviu gloriana dizer num murmúrio

- Agora... vamos.

- Queres perder-te na floresta, ou ser comida pelos lobos? Stone arrumou tudo e lavou as mãos em água bem quente.

- Põe lenha na fogueira - disse, enchendo o cachimbo. - Agora dá cá uma brasa. Isso mesmo, querida. Estás a aprender depressa.

O interior da sala iluminou-se à medida que as achas se foram incendiando. Molly estava sentada, muito calada e gloriana, em pé, esperava nervosamente ordens. Quem olhasse para ela facilmente compará-la ia a um pássaro, fascinado por uma serpente.

- Estende os cobertores na cama! - disse Stone, apontando para um dos fardos que abrira antes de jantar.

Enquanto ela obedecia, Stone aquecia as mãos à lareira, com visível satisfação. O olhar de reprovação e de piedade que Molly lhe lançava não produzia o menor efeito.

Jed pensou para consigo que a rapariguinha simples de cibeque vivera tempo demais entre gente da cidade e aprendera também a não confiar totalmente nele. Provar-lhe ia que não tinha razão para tal, mas antes disso, havia de a amargurar, a ela também.

Por fim, o bandoleiro levantou-se para ir para a cama.

- É um bocado estreita para três - observou laconicamente. - durmo sempre de botas e esporas... para o caso de ter de me levantar de repente. Além disso escouceio enquanto durmo.

Parece-me que dá exactamente para dois. Agora, pequenas, tirem à sorte, para ver quem dorme primeiro comigo.

- Jed Stone, antes encontrar-me contigo no inferno que dormir aí! - gritou Molly, apaixonadamente -, tens de me atar de pés e mãos.

- Oh?... Escusas de te excitar. Prefiro dormir com Gloriana.

- Antes matares-me... monstro!

- Que simpáticas criaturas! - observou Stone, filosofando sobre a natureza feminina.

Calou-se e depois continuou.

- Não me apetece dormir com uma pequena amarrada, e muito menos com um corpo morto. Por isso, por hoje fica assim: vocês dormem ali as duas e eu vou lá para fora.

Mas antes de me retirar quero que me distraiam. Molly canta qualquer coisa!

- Não sei cantar, mas mesmo que soubesse não cantava.

- E tu, minha pomba?

- Costumava cantar hinos no colégio. Hinos religiosos.

Duvido que lhe agradem, senhor Stone - foi a resposta satírica de Gloriana.

- Por quem me tomas? - vociferou ele, como se estivesse profundamente ofendido. - Em tempos ia à igreja...

Havia uma rapariga que me acompanhava sempre...

- Sim? Parece impossível. Quem me dera que ela estivesse aqui agora para interceder em nosso favor.

- Hum! Era bom, era. mas ela morreu... há muitos anos - respondeu Stone, perdido já em lembranças do passado.

Na sua imaginação voltava a ver a rapariga que amara, a igreja onde iam juntos, o portão da casa, onde costumava despedir se dela...

Mas, logo se lembrou do papel que representava.

- Sabes dançar? Tens bons pés e boas ancas para isso.

Nunca vi pernas tão bonitas. Espero que a observação te não incomode.

- Sei dançar, sim.

E Gloriana pôs se a agitar graciosamente o corpo, movendo apenas ligeiramente os pés.

- Espera! Precisas de qualquer coisa que te anime.

Stone levantou-se e foi buscar uma garrafa preta. Deitou um pouco de líquido numa chávena e depois de o diluir em água, ofereceu-o a Gloriana.

- Não! - É bom e vai fazer-te bem. Quando um dia fores avó, podes dizer aos teus netinhos que bebeste da mesma garrafa que Jed stone.

- A fama não me interessa.

- Glory, ele está maluco! - exclamou Molly, alarmada.

- Não bebo.

- Deito-to pela garganta abaixo - insistiu ele em tom ameaçador.

Stone dirigiu se para ela, que lhe fugiu. O bandoleiro puxou da pistola e fez-lhe pontaria aos pés.

- Danças e bebes já... ou vais ver!

Gloriana perante tal ameaça pegou na chávena com mãos pouco firmes e bebeu.

- Ui!... - exclamou levando as mãos ao peito, que sentia em fogo. - Não haverá maneira de sair deste pesadelo?

- Dança! - rugiu Stone.

A rapariga começou a valsar maravilhosamente leve e gentil, iluminada pelos reflexos ardentes da fogueira, que se entretinham a brincar no seu rosto pálido. Passado um pouco caiu desmaiada, em cima da cama.

- Obrigado, Glory - disse Stone com voz rouca. - Pareces uma fada. Agora, podes dormir, teremos muito que andar.

Stone pegou numa das camas e levou-a para fora de casa, onde a estendeu junto de um rochedo. Deitou-se pesadamente, como se não fizesse tenções de se levantar dali.

Donde estava, via perfeitamente o fogo da luz e de sombras na parede interior da casa, mas não via nenhuma das raparigas.

Durante largo tempo ouvia as falar muito baixinho.

- Não conseguia dormir. Já esperava, aliás, que o sono não viesse e o facto não o inquietou. Quando é que se sentira tão seguro e tão feliz como naquela noite? Quando sentira dentro de si uma paz tão grande? Que lhe tinha realmente acontecido? fez a si próprio estas e muitas mais perguntas, para as quais tentava encontrar solução. Não era o serviço prestado àquelas duas raparigas, nem a experiência tremenda que preparara a gloriana, que o faziam sentir-se tão feliz. Não... era a sensação de estar livre! A "Faca Afiada" desaparecera, visto que todos os seus membros estavam mortos. Mortos, sim, porque o único que continuava com vida, ele próprio, Jed Stone, morrera também para a vida de bandoleiro. Os seus inimigos, os rancheiros e vaqueiros honestos, apareciam-lhe agora a uma luz nova. Já não eram inimigos, porque ele se libertara do homem velho que havia nele. Era por isso que podia estar ali deitado, sem medo, sem desconfiança em relação a ninguém, sem preocupação do futuro. Sem medo da morte que podia atingi-lo no tiro de uma espingarda escondida ou numa corda suspensa numa árvore! Durante muitos anos Croack Malloy fora uma sombra negra a persegui-lo... e atravessar-se no seu caminho. Agora, Malloy dormia para sempre debaixo da terra. Malloy não poderia mais arruinar rancheiros honestos. não poderia mais espalhar à sua volta ódio mortal... não poderia tirar aos outros serenidade para enfrentar a vida com confiança.

Lá dentro as vozes calaram-se e a fogueira apagou-se. As duas raparigas, destinadas a fazer a felicidade de dois vaqueiros honestos dormiam. O Arizona podia orgulhar se delas! O Arizona... E o nome querido ficou a ressoar baixinho na alma de Jed Stone. Nascera e fora criado naquela terra selvagem de desfiladeiros e florestas, de correntes transparentes e margens ensombradas por árvores gigantes. Onde haveria homem que amasse mais a sua terra, do que Jed Stone amava o seu arizona? O vento da noite levantou-se, lamentoso como sempre, soprando gelado lá das alturas. Apesar disso, aos ouvidos do bandoleiro, aquela música parecia hoje totalmente nova, como se viesse de bosques longínquos, onde o nome de Jed Stone não tivesse a manchá-lo a sombra dos crimes antigos.

 

Jed Stone acordou quando os primeiros raios de Sol começavam a cobrir de púrpura os montes distantes. Sentia-se rejuvenescido.

Aproximando-se da porta da casa gritou:

- Vamos a despachar!

Ouviu um bocejo, um suspiro, mas nem sequer espreitou lá para dentro, afastando-se pelo contrário, para ir buscar os cavalos. Ainda na véspera vira nove, mas agora só encontrou seis. Escolheu o mais bonito para Gloriana pensando consigo como durante toda a sua vida a rapariga se havia de lembrar daquela cavalgada.

Preparou, pois, quatro cavalos" escolhendo as selas melhores para Gloriana e Molly. De vez em quando, olhava para o ralozinho de fumo azulado que subia da chaminé e isso bastava para lhe dar ânimo. Passado um pouco sentiu o aroma agradável de café.

Já depois de ter acabado tudo o que tinha a fazer lá fora, jed Stone ficou ainda por um momento vagueando, como se não desejasse quebrar o encanto que o envolvia. Como o desfiladeiro estava belo, nos contrastes das cores que mal começavam a definir se! Aquele sítio seria um dia conhecido como o último ponto de encontro da quadrilha da "Faca Afiada".

Foi então para casa.

- Bom dia, pequenas? Gloriana tinha estado a escovar o seu cabelo brilhante, enquanto Molly tratava do pequeno almoço.

- Hum! Com que então procuras pôr-te bonita. Não penses que com toda a tua beleza serias capaz de vencer o chefe da "Faca afiada". E não te envergonhas de deixares que Molly trabalhe sozinha?

- Fui eu que acendi o lume e fiz os biscoitos.

Já na véspera Stone notara que Gloriana era extremamente sensível a respeito de qualquer crítica que lhe pudessem fazer e decidiu aproveitar este ponto fraco.

- Bem... não há aqui muito que nos interesse levar.

Vocês preparem as suas coisas.

Molly indicou-lhe dois sacos e uma pequena maleta já prontos, que o bandoleiro levou para fora. Depois voltou e enrolou alguns cobertores.

Lembrou-se que havia um pouco de carne seca e pão duro, que resolveu juntar aos mantimentos, sem dizer nada às raparigas.

A verdade é que o seu plano incluía uma relativa falta de alimentos durante a cavalgada de três dias para o "Colete amarelo".

De repente ouviu-se Molly gritar

- Vem buscar isto!

- Vem tu aqui! - replicou Stone.

Molly foi ter com ele a correr, de olhos muito abertos.

- O que é?

- Vê-lá se te desmanchas com Gloriana. Entendidos?

- Sim.

- Toma tudo o que eu fizer como natural. Ajuda a quanto possas mas de vez em quando deixa-a resolver os problemas sozinha.

- Jed, é um diabo em figura de gente!

E Molly voltou-lhe as costas e afastou-se lentamente.

Pouco depois Stone entrou em casa e gritou:

- Dá-me de comer, minha pomba, temos que ir embora. Como vocês sabem, sou um fugido, não posso demorar-me em parte alguma. Daqui a pouco, Jim Traft terá enchido tudo isto de vaqueiros, quem sabe?, Talvez até Polícia. Ha! Ha!

O pequeno almoço estava ainda mais saboroso do que o jantar da véspera e Stone comeu com o apetite devorador de um índio.

e com a sabedoria de um bandoleiro que se prepara para jejum de três dias.

- Não comes mais, porquê? - perguntou a Gloriana.

- Não me apetece.

- Comes e é já! Estás a ouvir? A não ser que prefiras da bebida de ontem.

A ameaça surtiu efeito e Gloriana comeu mais alguma coisa.

- Temos de nos despachar e não temos tempo para arranjar provisões. Vamos!

Stone levantou-se, juntou alguns utensílios de cozinha, e foi buscar um pouco de café e carne, a que juntou os biscoitos que tinham sobrado. Atou tudo aquilo convenientemente e foi acomodá-lo no cavalo.

Aquilo que não levava consigo agora, tencionava levá-lo quando passasse ali, vindo do "Colete Amarelo", Antes de partir, e enquanto esperava pelas raparigas, Jed Stone olhou a campa de Croack Malloy. Era o último serviço que prestava, àquele que fora ao mesmo tempo seu amigo e inimigo...

Por fim as raparigas apareceram. Molly tivera o bom senso de enfiar uma saia de montar e de calçar botas, mas Gloriana trazia simplesmente o vestido fino que Malloy rasgara consideravelmente.

- Onde está o teu chapéu? - perguntou-lhe Stone.

- Voou ontem. Eu... eu esqueci-me de tirar as coisas do saco, para mudar de roupa. se me desses uns minutos.

- Não, Gloriana. Não te disse já que sou um homem perseguido? Terás de ir, tal e qual como estás. É estranho que o Criador te tenha dado uma carinha tão bonita e te tenha deixado a cabeça oca!... O Arizona há-de fazer-te bem. Toma isto. Põe o sombreio de Croack. Ha! Ha! Tiveram que ajudar Gloriana a montar, mas uma vez lá em cima ela caiu, ferindo-se pelo menos valentemente no seu orgulho.

Furiosa, ela atirou para longe o sombreio velho que quase lhe cobria os olhos, mas Stone agarrou nele e voltou a pôr-lho na cabeça.

- Não sabes andar a cavalo?

- Pensas que nasci num estábulo?

- retorquiu Gloriana com azedume.

- Talvez não se perdesse nada se lá tivesses nascido.

Parece-me que o próprio Deus nasceu num estábulo. pelo menos foi o que sempre me disseram. Sempre gostava de saber porque é que vieste para o Arizona?

- Porque fui parva.

- Bem... vamos lá tentar outra vez. O cavalo não é mau e estava a brincar contigo. O que não deves é dar-lhe a entender que tens medo. E não lhe dês pontapés como fizeste há pouco.

- Não posso ir assim! - disse ela muito corada.

- Porquê? Estás linda!

- Molly, tenho as saias quase à cabeça - disse Gloriana quase a chorar.

- Glory, não sei o que se há-de fazer - volveu Molly -, És capaz de ter de ir mesmo assim.

- Acabem com essa conversa. E tu, Gloriana, repara bem na diferença que há entre uma menina da cidade e uma rapariga desempoeirada do Oeste... Agora vamos e nada de complicações.

Gloriana viu que Molly montou com extraordinário à vontade um cavalo preto, de aspecto nada agradável, que dominava perfeitamente.

- Molly, toma conta do cavalo de carga. Não posso perder de vista a nossa amiga da cidade. Ela não nasceu num estábulo, como sabes!...

Puseram-se a caminho. Ao chegarem a uma vereda estreita, vulgarmente conhecida como "Porta do Desfiladeiro", Stone aconselhou Gloriana.

- Agarra te bem à crina do animal.

Quando chegaram ao topo do monte, Stone notou com prazer a expressão de êxtase no rosto de Gloriana. seguiram depois ao longo da parede alcantilada, por uma vereda pouco usada e que só os cavaleiros do Oeste se achavam competentes para trilhar.

Atravessaram maciços de carvalhos, depois de pinheiros anões e no meio do arvoredo, fosse ele de que espécie fosse, sempre abundavam os cactos.

Obrigar Gloriana May a seguir um tal caminho era quase uma crueldade. Stone não a perdia de vista, embora fingisse não se preocupar com os seus gritos repetidos. Era Molly, a última da caravana, quem muitas vezes acudia à amiga, livrando-a das mil e uma coisas que se lhe prendiam ao vestido.

Stone era por hábito um cavaleiro silencioso e veloz e não parecia disposto a quebrar com os seus hábitos. ainda que frequentemente fosse obrigado a deter-se, Para dar tempo a gloriana de o agarrar.

O estado do vestido de Gloriana - o que restava de tal vestido - parecia ainda satisfatório. Uma das mangas caíra já e o braço apresentava-se cheio de manchas vermelhas e negras de tantos arranhões. A figura da rapariga, corcovada sobre o cavalo, com o sombreio muito velho na cabeça, era verdadeiramente patética. Ela enterrara-o o mais possível para proteger os olhos e o rosto do ardor do sol, tendo aparentemente perdido toda a repulsa, por aquilo que pertencera a um homem que vira matar. Nada poderia ter exemplificado melhor do que este incidente o poder da selva.

Antes que aquela cavalgada tivesse acabado, já Gloriana desejara mil vezes trocar todos os vestidos que tinha em casa por um par de calças de montar.

Cerca do meio dia chegaram ao planalto do Diamante e Jed parou. As raparigas pararam também.

- Oh!. - exclamou Gloriana, com a voz quebrada por profunda emoção.

Stone sentiu se feliz.

- Tonto! - gritou Molly. - Jed, porque é que não me disseste que vínhamos para aqui?... Oh! Glory, olha a minha casa!

- A tua casa!?

- repetiu Gloriana, incrédula.

- Sim! A minha casa... como eu gosto dela. Vês aquele fiozinho prateado que se contorce pelo vale? É o Cibeque! Agora, presta atenção. à esquerda há uma mancha verde com um pontinho no meio. Esse ponto é a casita de madeira onde nasci.

- Bem vejo. Aquele pontinho que mal se vê no meio da imensa mancha verde.

- Sim, Gloriana. Nós estamos a ver tudo aquilo do planalto do Diamante, de uma milha acima do vale. Toda a minha vida sonhei vir aqui acima, mas é hoje a primeira vez que isto me acontece. Repara bem, querida Gloriana, para que nunca te esqueças do que vês...

Gloriana olhava em silêncio, com olhos em que parecia reflectir-se a grandeza do cenário. Stone continuava exultante. Afastou-se um pouco e sozinho deixou-se estar durante uns momentos a observar pela última vez na sua vida, o vale de Tonto.

As encostas verdes, salpicadas de castanho e vermelho estendiam se até se fundirem numa imensa floresta quase negra, que à distância parecia absolutamente plana, mas que na realidade era cortada por inúmeros barrancos e precipícios.

Era àquilo tudo que Molly chamava a sua casa, a sua terra, era também a casa e a terra de homens como Jed Stone, e de animais de toda a espécie: de ursos e veados e perus selvagens. A parte de que o bandoleiro mais gostava era a de rocha dura, amarela e agreste a Ocidente. Aquela era a verdadeira natureza de Tonto. Para lá dessa rocha selvagem elevava-se uma muralha purpúrea, eriçada aqui e ali por tufos de cactos e a Sul perdendo-se na distância, elevavam se os quatro picos que marcavam o limite entre o Cibeque e o deserto.

O deserto, porém, não se via dali. Era o "Desfiladeiro perigoso", como Stone se habituara a chamar-lhe. Em tempos matara ali um homem, no meio de uma discussão e nunca tivera a certeza de ter procedido como devia. Perigoso, sim, era o nome próprio, para o sítio onde se pode matar um homem sem se ter a certeza de que ele está culpado. Era um desfiladeiro negro e profundo, abafado pela floresta, que de ambos os lados se precipitava para ele, ainda da montanha.

- Molly, não te esqueças de mostrar a Gloriana outros pontos importantes - disse Stone, a rir. - Além, fica a vila onde eu costumava comprar-te guloseimas. Há quanto tempo isso aconteceu pela última vez!... E, agora nunca mais... Além fica o Vale Verde. depois o rancho de Haverly e o desfiladeiro de gordon. A Oriente, repara, é o Vale Ameno, onde se travou a guerra, que arruinou o teu pai. Menina Traft, creio bem que é a primeira rapariga da cidade a ver desta maneira o Vale de tonto.

Embora todos tivessem preferido demorar se ali mais algum tempo, Stone decidiu seguir caminho.

A verdade é que, por um momento, o bandoleiro se esquecera completamente do seu papel, o que vale é que Gloriana estivera de tal modo absorta no cenário, que nem dera por nada.

Seguiram por pinhais imensos e verdadeiras selvas de rochas e cactos, até que chegaram ao fosso que em parte a "Faca afiada" abrira. Stone parou.

- Esta é a vedação do velho Traft, nove milhas desta vedação, o teu tio tem que as agradecer a Croack Malloy e à "Faca Afiada". O que se não pode negar é que a ideia da vedação foi esplêndida. O velho tem olho. Claro que sendo eu um verdadeiro ladrão de gado, a vedação não me incomodou nada.

Malloy por exemplo, sempre detestou barreiras, é verdade. Será uma satisfação para o velho Traft e para todos os outros rancheiros honestos, quando souberem que está morto e bem morto.

- Jed Stone... parece-me sempre que há em ti dois homens, completamente diferentes - disse Gloriana.

- Sim. Julgo que até mais do que dois. Um deles é muito dado ao sentimento, mas não confies nele, minha tontinha, porque é o que menos conta.

Molly Dunn deixou-se ficar um pouco mais que os outros a observar a vedação que tornara Jim Traft um rapaz famoso e que causara também a perda de muito sangue. Stone teve, por fim que a chamar.

- Que diabo tens tu?.. Está perdida de amores por Jim?...

Pois, parece-me que o não verás tão cedo... se é que algum dia o voltas a ver. Desmonta e arranja aquele embrulho, além, que está a cair.

Enquanto a rapariga obedecia, Stone enrolou um cigarro e ficou a observar Gloriana. O ar espantado com que esta olhava para Molly, divertia-o.

- Não te espantes, Gloriana. Ela costumava levar cargas de pão num burro, quando não tinha mais de dois palmos.

- Há muita coisa que eu não sei - murmurou pensativa.

Ao mesmo tempo, tentava pela milésima vez cobrir os joelhos nus, com o que lhe restava do vestido esfarrapado.

- Lá isso é verdade. Mas se tu mesma já chegaste a essa conclusão, já não estamos mal de todo.

Puseram-se de novo a caminho e Stone tinha constantemente de gritar às suas companheiras que se apressassem, alegando que o caminho que faltava percorrer era ainda muito longo. A verdade é que Stone as poderia levar nesse mesmo dia ao "Colete amarelo", mas isso não estava no seu plano. Este era obrigar as raparigas a uma longa cavalgada pela floresta, atravessando ribeiros e barrancos, até que pelo menos uma delas estivesse completamente exausta.

Stone sentia se cada vez mais feliz e cada vez que reparava no ar de cansaço e sofrimento de Gloriana tentava acalmar a voz da consciência, como um cirurgião se desculpa por ter de magoar antes de curar. O cavaleiro estava certo de que tudo-aquilo curaria Gloriana do seu nascimento e educação na cidade. Havia nela qualquer coisa de essencial, que apenas se revelaria quando fisicamente estivesse derrotada.

Todo o resto do dia foi passado a cavalo e ao pôr do Sol desmontaram, numa encosta agreste.

- Alto! - gritou Stone -, agora vamos andar a pé e a ter atenção nos cavalos. Se algum escorregar não se lhe metam à frente, porque se não vão vocês por aí abaixo.

A tarefa que se seguiu não era fácil nem para um vaqueiro e muitas vezes Molly teve de parar para acudir à amiga, cujos gritos frequentes faziam eco na imensidão deserta. Por fim, o mau bocado estava passado e ao chegarem junto à água corrente, stone declarou que acampariam ali.

Gloriana, de sombreio na mão e mal se tendo nas pernas teria feito rir qualquer cavaleiro do Oeste. Estava pálida e suja, com o cabelo em desalinho, os braços cheios de arranhões e golpes, e o vestido em farrapos. Uma das meias caía-lhe sobre o sapato, descobrindo uma perna toda ensanguentada.

- Água! - implorou, deixando-se cair.

- O que É melhor é beberes um pouco desta garrafa, minha querida! - propôs Stone apresentando-lha.

- Não.

E Gloriana afastou com um gesto de náusea a garrafa que lhe era oferecida. Quando Molly apareceu com água para ela, os olhos iluminaram se-lhe e agarrando-se à taça, a rapariga esvaziou-a de um trago.

- Gloriana, tens de sofrer muito até descobrires o valor real das coisas. - disse Stone, pensativo. - Há quem viva com facilidades de mais. Repara na água por exemplo. Soube-te bem, não é verdade? Nunca tinhas pensado como é bom beber um copo de água, pois não?

- Obrigado, Molly - disse Gloriana reconhecida -, Não tens sede?

- Nem por isso. Nós habituamo nos a passar sem água e sem comida quando é preciso. É como os índios, Gloriana.

Era evidente que a rapariga quase sufocava sob o peso das inúmeras descobertas que fizera nesse dia.

- Molly, deixa te de conversa e toca a trabalhar - gritou stone, em tom seco.

Tirou um machado da carga e dirigindo-se a uma árvore próxima, cortou uma grande quantidade de ramos e rebentos.

Pousou-os debaixo de um carvalho e foi buscar mais.

Entretanto ouviu a voz irritada de Gloriana.

- Olha o bruto!... É um gigante e obriga te a ti a carregar com os fardos.

A resposta de Molly veio calma.

- Não custa nada, e repito-te que não O irrites.

Molly descarregou de facto o cavalo, com aparente facilidade e depois tirou-lhe a sela, apressando-se a fazer outro tanto ao cavalo que montara. Ao ver isso, Gloriana levantou-se com esforço e a coxear, dirigiu se ao seu cavalo e tratou dele. A sela que usara era de homem e muito pesada, e a rapariga caiu debaixo dela. Molly correu a ajudá-la. De longe Stone observava tudo, mas fazia que não via nada.

- Gloriana, traz cá a cama! - gritou.

Ela não lhe prestou atenção e o bandoleiro repetiu a ordem com um rugido. Ouviu Molly dizer à amiga que Se despachasse.

Gloriana pegou na cama com as duas mãos e lá foi.

- Desamarra isso - ordenou ele sem ao menos olhar para ela e continuando no que estava a fazer. Como a rapariga demorasse muito a tirar o nó, ele olhou para ela.

- Não consigo...

- Não serves para nada. Que é que sabes fazer, podes dizer-me? Tocar piano, não? E fazer caracolinhos, também? estou certo de que o vaqueiro com quem estavas destinada a casar, me há-de agradecer, tê-lo salvo desta desgraça. Sim, porque tu não passas de um estorvo!

O ar de Gloriana mostrava bem que a pobre rapariga acreditara totalmente no que lhe fora dito. Nos seus olhos havia um apelo a Molly, que foi ter com ela.

- Jed Stone, como querias que ela soubesse fazer estas coisas se foi criada na cidade? Nem toda a gente pode nascer no Arizona!

- Foi pouca sorte para ela não ter nascido aqui...

Mas Olha, Molly Dunn, quanto mais a defenderes e tentares proteger esta bonequinha, pior eu serei para ela. Percebes?

- Sim.

E Molly baixou a cabeça resignadamente.

- Estou cansado e dói-me o pescoço de estar sempre a olhar para trás, não fosse esta linda menina cair do cavalo abaixo... Quero comer! Acendam o lume, ponham água a ferver e façam biscoitos...

Vendo Molly Dunn trabalhar com tanto entusiasmo, ninguém teria acreditado que ela fizera nesse mesmo dia mais de trinta milhas de caminho péssimo. Era hábil em todas as tarefas de casa e observando-a, Stone sentiu um enorme prazer, que também estava no plano diabólico de humilhar Gloriana.

- Se isto é tudo o que há, não chega se não para hoje - disse Molly a Stone.

- Talvez não seja suficiente, mas o remédio é comer pouco.

- Molly... Eu ajudo te - ofereceu-se Gloriana. - se ao menos a dor não voltar...

- Deve ser apendicite - observou Stone irónico.

- É uma dor no lado esquerdo... É horrível.

- Isso é por não estares habituada a andar a cavalo, sua palerma. Descansa que não morres.

- Não me admirava - disse Gloriana, acrescentando depois em voz mais baixa. - Molly, eu pensava que Ed Darnell era um malvado... Mas comparado com este, era um santo!

- Oh... não! Jed Stone é um bandoleiro honesto - protestou Molly.

- Que é que ela está a dizer de Darnell? - perguntou Stone aproximando-se.

- Ela conheceu Darnell no Missouri.

- O quê? Isso é engraçado! Espero que me não tenha comparado a ele. Era um aldrabão, um homem sem princípios, vindo lá não sei donde. Julgou que podia tornar se um de nós, mas não conseguiu. Coitado!

- Que lhe aconteceu? - Perguntou Molly, a ver muito bem quando é que Stone mentia e falava verdade.

- Croack Malloy e uns tantos fizeram qualquer patifaria no "Colete Amarelo" e tiveram de fugir perseguidos por Curly prentiss e o teu irmão, além de outros vaqueiros. Parece que se refugiaram numa casita de madeira que há para aqueles lados, mas os outros deitaram-lhe o fogo. Croack Malloy conseguiu escapar, um tanto queimado e com uma bala numa perna, escondendo-se atrás de uns arbustos., Foi aí que viu os vaqueiros pendurarem o senhor Ed Darnell numa árvore. Parece que o pobre homem esperneava como doido. Enfim! Gloriana tinha os olhos muito abertos, como se lhe fossem saltar das órbitas.

- Senhor Stone - gritou ela -, o senhor é um mentiroso!

- Talvez seja, talvez não - disse ele um pouco ofendido -, logo se vê, menina Traft.

- Tenta assustar-me - continuou ela -, não tem coração?...

Em tempos estive noiva de Ed Darnell... Pelo menos considerei-me assim... ele veio para aqui, atrás de mim!

- Hum!... E que pretendia ele aqui?

- Sei lá! Ele conseguiu que o meu pai lhe emprestasse dinheiro e naturalmente julgava que o tio também iria na fita! - Ha! Ha! Ha! Ainda está para vir o primeiro capaz de enganar o velhote... Pois digo te que tiveste muita sorte, em darnell ter dado com Curly Prentiss. Lembro-me bem, de quando, na casa de jogo de Snell, Darnell fez tanta batota, que Curly acabou por o expulsar... Era um tipo estranho! Acabou bem!

- Não acredito no que diz - insistiu Gloriana.

- Ainda apaixonada por ele, minha pomba?

- Não, desprezo-o! Qualquer castigo, fosse ele qual fosse, seria sempre bom demais para ele! - exclamou Gloriana com veemência.

- Estás a tornar-te uma das nossas... Não achas, Molly?

- Jed... houve luta no "Colete Amarelo"? - perguntou Molly, com certa agitação.

- Houve. Malloy disse-me que tinha morto dois, mas que os não conhecia. Logo, não podiam ser nem Jim nem Slinger, nem prentiss.

- Oh! Que horror! O tom de voz de Molly era de verdadeira agonia.

- Que vos importa a vocês os que morreram? Pelo menos a uma de vocês? Sim, porque uma pelo menos vai comigo. Ha! Ha! Ha!

- Era capaz de te matar! - gritou Molly, ameaçando-o com uma faca.

O bandoleiro dirigiu se a Gloriana e pô la de pé. Ela deixou cair a cabeça.

- Vamos! Reage! - ordenou ele, sacudindo-a.

Gloriana encontrou dentro de si força suficiente para resistir. Apesar disso, ele apertou-a nos braços, piscando o olho a Molly, que olhava espantada e cheia de indignação.

- Precisas do braço forte de um bandoleiro para te endireitar a espinha... Assim! Agora, vamos ao trabalho! Gloriana aguentou-se em pé, de olhos chamejantes.

- Chama-me quando o jantar estiver pronto - ordenou Stone a Molly.

Ao afastar se ouviu Gloriana perguntar a Molly qual seria a próxima ideia daquele bandido.

Stone dera um tiro para o ar. Quando chegou ao acampamento não trazia caça.

- Escapou Por um triz - disse ele. Um pouco depois acrescentou - Molly, vocês hoje têm da dormir comigo, pode vir algum lobo e comer o nariz de Gloriana.

- Antes me comesse inteira. Nunca conseguirás que durma contigo.

- Ha! Ha! Está descansada que dormes.

Enquanto partilhavam o frugal repasto, Stone aborreceu gloriana de todas as maneiras possíveis, o que não o impediu de comer a sua parte. Isto era já um bom sinal.

A noite caiu e já por duas vezes Gloriana adormecera junto da fogueira.

- Vamos ficar aqui toda a noite - propôs a Molly.

- Não me importava, se ele nos deixasse. Mas. querida gloriana... tu não aguentavas. Estás a cair. De manhã estarias gelada. Teremos de dormir mesmo com Stone. Não há outro remédio... Ele já pôs todos os cobertores naquela cama... Eu fico no meio, de maneira que ele não te Poderá tocar.

- Isso nunca! - declarou Gloriana.

E, quando foram para a cama, Gloriana deitou-se ao meio, como se lhe fosse totalmente indiferente o que se iria passar.

- Bem, cá estamos! - declarou Stone, ao ver os rostos pálidos das raparigas contra o escuro do cobertor.

Sentou-se na extremidade da cama e tirou as botas e esporas.

- É provável que tenha pesadelos. Costumo ter sempre quando estou excitado. Nessas alturas sou muito perigoso... lembro-me que uma vez matei um tipo que dormia comigo. Portanto, se eu começar a sonhar, acordem-me... E, Molly, se algum lobo vier e se aproximar de Gloriana, defende-a.

Stone notou que Gloriana adormeceu quase instantaneamente, o que não era de admirar, devido ao seu estado de esgotamento. Esperou e logo que Molly adormeceu também, agitou-se de tal maneira, que teria acordado um morto, se o houvesse ali.

Depois pôs se a ressonar fortemente e a dizer palavras incoerentes, como se estivesse a sonhar.

- Molly!. Molly! - chamou Gloriana agarrando-se à amiga -, ele está com pesadelos! - Não o acordes! Só se o acordares é que ele se torna perigoso.

Jed ouviu tudo e sorriu consigo mesmo. Continuou, pois, no seu simulacro de pesadelo gritando

- Espera! espera!... que já te apanho.

Depois fez excelentes imitações do riso sinistro de Croack Malloy e vociferou.

- Não! nunca terás a rapariga!... Ela é minha, Malloy... minha!

E continuou por um bocado a ressonar, sempre atento ao que se passava. Não conseguia ouvir nada, mas parecia-lhe sentir a cama a tremer.

A seguir, Stone atirou para trás os cobertores e rolou na cama, chocando violentamente contra Gloriana. Envolveu as duas raparigas com o mesmo braço e ficou assim, como se dormisse feliz.

- Molly! - sussurrou Gloriana -, Vamos matá-lo... agora... que ele dorme.

- Não podemos... não temos força bastante. Não te mexas! - replicou Molly horrorizada.

Stone só a custo conseguia dominar-se. Com que então a sua representação fora tão convincente, que levara aquela mocinha, educada na cidade, a pensar na possibilidade de o matar? Nunca tinha ousado esperar tanto! Segundo Stone, Gloriana estava a reagir tal como convinha, o que não só seria bom para ela como para aqueles que a amavam e com quem a sua vida futura havia de decorrer.

Por fim, o bandoleiro decidiu representar o papel de um homem, que deseja amor, o que era sem dúvida o máximo a que poderia chegar. Pronunciou toda a espécie de palavras ternas que lhe vieram à cabeça e abraçou com tal força as duas raparigas, que elas já pareciam ter se fundido numa só. De repente, sentiu um tremendo puxão no cabelo e gritou, desta vez a sério. Uma mão pequenina, mas firme, agarrara-se-lhe com tal força, que só a custo se libertou dela.

Depois daquele aviso de Molly, Stone agarrou num cobertor e, ajeitando-o de encontro a uma árvore, foi dormir sozinho.

De madrugada, muito cedo, levantou-se, calçou as botas e pôs-se a fazer o que era preciso, tendo cuidado em não fazer barulho, para não acordar Gloriana e Molly, que estavam bem pregadas no sono, abraçadas uma à outra. Cozinhou a pouca carne que restava e fez também o pouco café que havia. Além disso, tinham apenas alguns biscoitos, duros como calhaus.

Feito isto foi acordá las. As duas cabeças, uma muito loura, outra muito escura, estavam juntas e os primeiros raios do sol afogueavam-lhes os rostos pálidos. Era um espectáculo que stone estava certo de jamais esquecer e o bandoleiro deu mais uma vez graças a Deus por as ter salvo das mãos de Croack Malloy.

- Meninas! A pé!

Molly foi a primeira a acordar, logo absolutamente esperta.

Olhando em roda sorriu. Jed Stone havia de guardar sempre no fundo do seu coração, aquele sorriso tão puro. Depois foi a vez de Gloriana abrir a custo uns olhos ainda ensonados.

Stone afastou-se dizendo

- Despachem-se e comam! Temos de nos pôr a andar.

Quando ele voltou, já elas tinham acabado de comer.

- O saco de Gloriana desapareceu, com toda a roupa dela! - disse Molly.

- Pois está bem de ver que sim. Fui eu que o escondi. Não quero que ela mude de roupa, porque está muito bem assim.

Depois acrescentou, falando em voz alta.

- Sela o cavalo, sua idiota. E tu, Molly, enrola a cama e os cobertores, enquanto eu como.

Molly não teve dificuldade em fazer o que lhe fora ordenado, mas a pobre Gloriana não conseguia nada, com a sela e o cavalo. O animal escouceava, cada vez que a rapariga se aproximava e ela, por fim, perdendo a paciência agarrou numa vara, decidida a vencê-lo pela pancada.

- Não batas no cavalo! - gritou Stone. - Quem te julgaria capaz de tamanha crueldade.

- Há aqui mais alguém que precisava de ser espancado! - replicou ela, prontamente.

- Molly, só se sabe verdadeiramente o que as pessoas são, quando se está com elas na selva. Aí, a sua natureza

revela-se, - observou Stone, acrescentando

- Tenho a certeza que se Malloy tivesse fugido com Gloriana, ela o mataria durante a noite. E a sangue frio!

Não tardou que estivessem de novo acavalo, avançando em fila, como no dia anterior. Stone levou-as para fora daquela garganta, cavalgando milhas e milhas por floresta densa, entrando no deserto para voltar à floresta e chegando, finalmente, sem uma única paragem ao Desfiladeiro Negro. Foi seguindo por ele até à meia tarde, quando encontrou um trilho que lhe era familiar, mas que mesmo os bandoleiros só usavam em caso de muita necessidade. Aqui tinham de ir a pé.

- Não deixem escorregar os cavalos - voltou a aconselhar stone.

Num sítio especialmente difícil o cavalo de Gloriana caiu e ela também.

- Ui! - exclamou Stone, aflito.

Felizmente Gloriana não resvalara, tendo ficado imóvel no ponto onde caíra.

- Tens um anjo a pedir por ti, pela certa! - comentou o cavaleiro.

- Antes queria morrer! Que importa morrer assim ou de outra maneira qualquer? A verdade é que Gloriana, desde a véspera, parecia redobrar de coragem cada vez que alguma coisa lhe corria mal... reagia prontamente como se o seu orgulho lhe não permitisse desalentos, mas estava exausta de forças.

Uma vez no fundo do desfiladeiro, Stone passou a escolher melhor o caminho, abrandando também a marcha: Calculava estar a menos de doze milhas do "Colete Amarelo".

A sua intenção era, no caso de Gloriana aguentar, sair do desfiladeiro, subindo a uma parede alcantilada, de onde lhes podia facilmente indicar o caminho e onde se despediria das raparigas. É certo que podia ser visto por um ou outro membro do Diamante, mas desde que Gloriana e Molly estivessem sãs e salvas por ele, não lhe poderia acontecer mal algum. No entanto não era exactamente isso o que ele no fundo desejava.

O sol pôs se por detrás dos penhascos Ocidentais. O murmúrio calmo da água enchia a floresta de uma música, propícia ao sonho.

Stone achou que era altura de escolher sítio para acampar, mas queria-o bem afastado do caminho. Por isso, torceu o caminho que seguiam, avançando pelo bosque em direcção à muralha alcantilada, que tinham já descido há muito.

Esta elevava se sobre ele, cinzenta e prateada, sempre silenciosa e protectora. De súbito, foram dar a uma clareira, onde aqui e além, sicómoros gigantes dominavam o relvado. Foi então que Molly gritou aterrada.

- Meu Deus!... Olhem! Imediatamente Stone se apercebeu do cheiro acre a madeira queimada. Gloriana olhara também em roda e vira na sua frente uma casa de madeira reduzida a cinzas e três homens pendurados pelo pescoço, de um ramo de sicómoro. A rapariga estremeceu e vacilou na sela. Stone agarrou-a justamente no momento em que ela, já sem forças ia cair e pousou-a delicadamente no chão.

- Jed! Isto é demais! - explodiu Molly.

Falava com voz rouca e tinha também o ar de quem está prestes a desmaiar também.

- Juro que não fiz de propósito! - protestou Stone -, Não pensei sequer que afastando-nos do caminho, vínhamos dar a esta casa velha. Com trinta diabos! Desculpa Molly. Isto realmente foi longe demais.

- Jed... é demais para mim, quanto mais para Gloriana. Se eu própria reconheci imediatamente Darnell, ela ainda o deve ter reconhecido melhor.

- Com certeza. Eu só o vi uma vez enquanto vivia e vi logo que era ele. Aquele além é o meu velho xerife Lang, com a estrela a brilhar no colete. O outro é Joe Tanner. Enfim! Isto é a vida no Oeste! O rosto distorcido de Darnell apresentava uma angustiosa expressão de surpresa e horror, qualquer coisa que se não via nos outros. A brisa da tarde embalava docemente os três cadáveres suspensos dos ramos dos sicómoros. o relógio de darnell, caído do bolso, oscilava também.

- Jed: vai vê-la - implorou Molly. - Odiar-te-ei para sempre se ela se não curar deste choque.

- Foi um choque grande, é certo, mas talvez não lhe tenha feito mal.

- Eu... eu quase me deixei levar também pelas palavras bonitas daquele velhaco - murmurou Molly com humildade. - Que fim!... E quem fez isto foi Jim e Slinger? Eu nunca...

- Não julgues que foram eles a fazer isto - interrompeu stone. - Por detrás deles, está o trabalho de Curly Prentiss e dos seus companheiros. Mas espera, Molly!

Os olhos do bandoleiro, habituado a ver para além das aparências, tinham descoberto novas sepulturas.

- Bem... vaqueiros não os enterravam aqui, pela certa.

Passado um momento acrescentou

- Vamos para diante, Molly.

Stone parou no primeiro sítio que lhe pareceu adequado para acamparem, e saltando da sela com Gloriana nos braços, depô-la cuidadosamente no chão. Ela estava já consciente.

- Olha por Gloriana, Molly.

E Stone afastou-se para tratar dos cavalos. Depois cortou muitos raminhos tenros com os quais arranjou duas camas, uma delas, a destinada às raparigas foi feita num local abrigado.

Tendo terminado estas tarefas, o cavaleiro voltou para junto das prisioneiras.

- Não temos que comer - declarou.

- Não importa, Jed. A fome não é grande - respondeu Molly.

Gloriana fixou nele olhos solenes e trágicos e disse simplesmente

- Retiro o que disse. Esquece que te chamei mentiroso.

- Obrigado.

- Quem... quem fez aquilo? - gaguejou ela, apontando vagamente para o local da tragédia.

- Quem fez o quê?

- Quem enforcou aqueles homens?

- Deve ter sido Curly Prentiss e os seus homens. Com certeza que Jim também tomou parte no trabalho, a não ser que tanto ele como Curly tivessem sido mortos. Sei que alguns do diamante foram desta para melhor...

- Mas... mas... o senhor... disse que... que...

- Bem. Disse que me parecia não ter sido nem Jim nem Curly.

Talvez tenha sido Lonestar, ou Bud ou... talvez até Slinger.

Gloriana ficou sem fala e o mesmo aconteceu a Molly, que só teve forças para ajudar Stone a levar a amiga para a cama.

O bandoleiro foi então descansar, meditando no rumo tomado pelos últimos acontecimentos. No dia seguinte toda aquela aventura estaria terminada e era absolutamente necessário levá-la bem até ao fim.

Na manhã seguinte, Molly voltara a ser a mesma de sempre e a própria Gloriana se levantou sem grande dificuldade, embora não conseguisse aguentar-se bem direita. A rapariga não pôde ajudar em nada, limitando-se a olhar, enquanto os outros tratavam de tudo. O seu olhar fixo em Molly, prestava a esta um eloquente tributo.

- Não sirvo para nada - lamentou-se.

- Bem, Gloriana, a beleza é um dom que alegra os corações.

Muitas vezes basta só por si - disse Stone com amabilidade.

Mais uma vez se puseram ao caminho, saindo do desfiladeiro por uma pequena fenda na muralha Ocidental, fenda que servia frequentemente de saída secreta aos bandidos. Seguiu-se uma subida medonha, que exigiu uma hora de caminhada a pé e imediatamente tomaram a direcção do "Colete Amarelo".

Desta vez era ele que conduzia o cavalo de carga, enquanto Molly se encarregava de ajudar Gloriana. O bandoleiro, mesmo assim, não se afastava delas, com medo que de um momento para o outro Gloriana se fosse abaixo. Receava também que Molly faltasse ao prometido e contasse à irmã de Jim que tudo aquilo fora uma comédia combinada e lhe chegasse mesmo a revelar que ele ia abandonar para sempre a vida de pilhagem. Lembrou-se de como ela uma vez se referira ao facto do irmão ter mudado de vida. Stone pertencera em tempos à quadrilha de Cibeque e ainda não há muitos anos tentara Slinger propondo-lhe a sua entrada para a "Faca Afiada".

Antes de chegarem ao "Colete Amarelo", Stone teve por mais de uma vez sérias dúvidas de que Gloriana conseguisse fazer o caminho. Um pouco de descanso, no entanto, deu-lhe a força necessária para isso. De resto, nem uma só vez ela abriu a boca numa queixa ou num pedido de misericórdia.

Por fim, Stone avistou a estrada nova. Antes que as raparigas a vissem também parou e desmontou.

- Bem, agora é chegada a altura de nos separarmos. Há um rancho ali em baixo e uma de vocês pode ir para lá e avisar os vaqueiros de que está salva. Lamento não poder ficar com as duas. Sou perseguido, como sabem. Quem vai comigo?

- Leva-nos às duas? - implorou Molly.

- Não, Molly. Quem vai sou eu - declarou Gloriana. - Tu gostas de Jim e ele ama-te. Ninguém me ama a mim, nem eu amo ninguém. Além disso não sou forte, como tiveste ocasião de ver. Esta vida dará cabo de mim em pouco tempo.

Molly, com os olhos subitamente rasos de água, desviou-os da amiga. Stone também olhou para Gloriana com uma alegria que pretendeu mais uma vez esconder.

- Estás então disposta a seguir-me?

- Desde que me obrigas, vou. Há só uma condição...

- Qual?

- Tens de casar comigo. Tenho princípios religiosos.

- Talvez se possa levar um padre ao nosso futuro esconderijo. Sendo assim... a menina Gloriana May Traft estará disposta a casar comigo... com Jed Stone, chefe da "Faca afiada", um ladrão, assassino, perseguido pela lei. Estará disposta a casar com um bandido para salvar uma amiga?

- Sim. Fá-lo ei por Molly e Jim.

De repente Jed Stone voltou-se. tomado de súbita e incontrolável emoção. Toda a sua vida de bandido se levantou dentro de si mesmo, como um monstro medonho, envenenando a sua alma com o veneno da raiva, de vingança, de luxúria. com o desejo de matar. Ardia no desejo de se vingar de toda a civilização que o levara ao que era, esmagando aquela rapariga inocente! Parecia-lhe ter enlouquecido.

Porém, no momento em que conseguia tomar consciência da monstruosidade da tentação, que o apanhara de surpresa, rejeitou-a com violência e dignidade. O crime que se propunha era próprio de um Croack Malloy, nunca de Jed Stone.

Avançou pelo mato até um penhasco e olhou o "Colete amarelo", toda a beleza daquela região selvagem, toda a pureza ideal daqueles reflexos dourados, toda a paz imensa daquela solidão lhe encheram a alma de uma estranha calma.

Voltou a pensar no que se passara desde que tomara a decisão de mudar de vida. Gloriana, aquela rapariga maravilhosa, acabara por conquistá-lo para o bem. Que generosidade a dela.

Sim, porque aquele sacrifício lhe podia ser pedido, maior do que aquele para que ela própria se oferecera - O sacrifício da sua virgindade e vida? Stone deixou cair a cabeça. O segredo daquela força numa rapariga aparentemente frágil, era O segredo do amor, que lhe ia na alma. Gloriana era tão nobre, quanto bela. Assim, Jed Stone compreendeu que o bem que procurava para a rapariga, através de todas as provas por que a fizera passar tinha recaído finalmente em si próprio.

- Venham aqui! - chamou. - Além é o "Colete Amarelo" e aquela casa nova é a que Jim Traft fez ultimamente.

Enquanto elas ficaram a olhar, ele afastou-se e montou a cavalo. Depois voltou-se para elas mais uma vez.

- A estrada começa ali mesmo - disse, como se se tratasse da coisa mais natural do mundo -, Não terão dificuldades em acertar com ela.

Depois acariciou o cabelo ondulado de Molly.

- Adeus, minha querida ratinha. Sê boa.

- Oh! Jed - gritou Molly, com as lágrimas a correrem-lhe livremente pelas faces abaixo.

- Nunca mais voltes à vida antiga!

Stone voltou-se para Gloriana.

- Olhos bonitos! - disse ele -, Adeus! e casa com Curly ou com Bud e dá ao Arizona filhos que sejam verdadeiros homens. Não te esqueças de mim...

Quando já esporeava o cavalo ouviu-a gritar

- Espera! Espera!

Mas Jed Stone cavalgou mais rapidamente do que nunca O fizera, quando tinha de fugir à perseguição de vaqueiros ofendidos.

 

- Sorte! - gritou Jim Traft, deixando cair o lápis e amachucando a folha de papel, que acabou por atirar ao fogo.

- Que é isso, Jim? - perguntou Curly surpreendido, levantando os olhos do jogo com que entretinha Bud, que estava na cama.

- Isso é mau exemplo para nós. e para mais ao domingo -acrescentou Bud.

- Especialmente, a linguagem de Jim nestes últimos tempos é de pôr os cabelos em pé - comentou Jacksom Way, que como sempre escrevia uma carta à sua jovem esposa.

- Ainda vocês não ouviram nada! - Ha! Ha! - Jim, serás responsável pela falta de moral do que resta do diamante.

Era uma noite de Domingo, e a cena passava se na casa do rancho do "Colete Amarelo".

A grande sala de estar estava brilhantemente iluminada e bem aquecida. Jim tentava escrever ao tio, a comunicar-lhe o desaparecimento de duas mil cabeças de gado e a narrar a luta, que tivera consequências bem mais graves. Mas a carta, por mais de uma razão, era difícil de escrever. Em primeiro lugar porque Molly e Gloriana não deixariam de a ver e Gloriana, encarregada como estava do correio do tio, seria talvez a primeira pessoa a lê-la. Ora, as notícias eram más. Claro que jim não podia demorar-se na descrição da morte de Uphill Frost e Hump Steven, nem entrar em minúcias quanto ao melindroso estado de saúde de Slinger Dunn e Bud Chalfack. Além disso, não podia referir se ao facto de que ele próprio tomara também parte na luta.

Naquele mesmo momento Curly tentava impedir Bud, cheio de febre e dores de reabrir os ferimentos profundos com que fora atingido. Lonestar Hollyday lia, sentado em frente de Jim, e como não podia estar muito tempo na mesma posição mexia-se continuamente, traindo - por suspiros e gemidos - a dor que o afligia. Quanto a Jack Way, tinha no rosto expressão de felicidade de quem comunica com um ser muito amado.

- Diabos levem isto! - exclamou Jim.

- Bud, parece que já nem sabes jogar. Não vês o que estás a fazer? - censurou brandamente Curly.

Com relutância, Bud lá fez o que devia, esforçando-se por concentrar a atenção.

Passados uns minutos, porém, atirou as cartas para longe, com visível impaciência.

- Não jogo mais, já disse! Não tenho sorte nenhuma. A sorte está sempre do teu lado. nas lutas... no jogo... no amor. Vai para o diabo!

- Que bicho te mordeu, Bud? Eu penso no que estou a fazer, é por isso que tenho sorte no jogo. Nas lutas não me meto à frente das balas como tu fazes. Quanto às mulheres, não posso impedir que gostem de mim. Isso é lá com elas!

- Vai à fava!

- Pois digo-te, que se a sorte me não favorecer com uma certa pessoa, serei... ainda mais infeliz do que tu. Nesse caso, mato-me.

- Eu falei em mulheres, no plural. Toda a gente sabe que na tua vida há mulheres às dúzias. Como se alguém acreditasse que só te interessa uma!

- Pois é a verdade, quer acreditem quer não.

Foi Jim que pôs fim àquela discussão.

- Calem a boca! Não consigo escrever com todo este barulho.

Se ele não aparecer por estes dias, terei eu de ir a Flag.

- E levas Jack contigo, não é verdade? - perguntou Bud sarcástico.

- Sim, visto que tem lá a mulher.

- Nós ficamos para entreter Croack Malloy. Está bem!

Jim pôs-se a passear, impaciente, de um lado para o outro.

As suas preocupações eram muitas, mas o rapaz foi obrigado a concluir que na base da suposta necessidade de ir a Flag, estava o desejo enorme de voltar a ver Molly.

- Se vocês acham que correm perigo...

- Bem, Jim - começou Curly, despreocupadamente. - Parece-me que talvez se possa esperar mais algum tempo. Até agora não se avisou o médico do sucedido. e há doentes graves. Talvez se possa passar também sem avisar o tio. Se ele Se zangar,

deixá-lo berrar à vontade. Não tarda que a notícia se espalhe e daqui a pouco cai aqui Flag em peso.

- Pois seja. - Não vou nem escrevo. E até é um alívio não ter que mandar esta carta. Vocês bem sabem que o que eu queria era ter aqui Gloriana e Molly.

- No que ele pensa! - lamentou-se Bud. - E eu aqui a morrer aos bocados! - Deixa que o tio logo as traz - disse Curly.

- Pareces feito de pedra. Não sentes nada! Não tens coração! - explodiu Jim, irritado. - realmente esta vida é um encanto.

Tivemos que levar Slinger para ser tratado.

Ia feito em pedaços. Bud está ali, inutilizado e com um mau humor notável. Lonestar não pode estar sem gemer. Lá fora, debaixo dos pinheiros estão enterrados dois dos nossos.

- Concordo que as últimas semanas têm sido difíceis, mas que queres? Já foi sorte termos escapado! E quanto ao futuro, o que for soará! Tenho a impressão que esta luta deu cabo da "Faca Afiada". Tenho a certeza de que Malloy ficou muito ferido. Havia muito fumo, mas ainda o vi cair e repara que depois desse dia, nunca mais ninguém lhe pôs a vista em cima.

O que parece restar da "Faca Afiada" é, pois, Maddem e Jed stone. Ora Stone, não é da raça de Malloy, isso sabemos nós bem. Não creio, portanto que a nossa situação seja muito má.

Nesse momento, apareceu Cherry Winters, de espingarda na mão e carregando também uma perna de veado. Envolvia o a frescura da noite e o perfume dos bosques.

- Olá! - exclamou alegremente.

- Porque vens tão tarde? - perguntou Curly.

- Por nada. Andei por aí. - Jeff guardou o jantar para ti - disse Jim. - Bem sabes como fica furioso quando alguém se atrasa! Despacha-te.

Jim foi até ao Pórtico. A noite no "Colete Amarelo" era sempre muito escura, devido às paredes alcantiladas que pareciam apertar-se ainda mais desde que o sol caía.

Não soprava a menor aragem e não se ouvia o mínimo ruído, apenas, lá em baixo, o ribeiro murmurava a sua velha canção.

As estrelas pálidas pareciam olhar indiferentes para o que se passava na terra.

O grande problema de Jim é que tentara adaptar-se depressa demais ao Arizona. Agora sentia se mal. A emboscada de Sonora, de que apenas o tiro certeiro de Slinger o salvara, e a série de acontecimentos posteriores, tinham levado o rapaz ao limite da sua resistência. De dia e de noite, acordado ou a dormir, sempre aquela luta medonha o perseguia, não conseguia libertar-se do fumo acre da casa queimada. Não havia que fugir. Ele Próprio atacara e matara, como qualquer bandido vulgar. Jim verificara depois, com certo terror que a sua pontaria era certeira e que ele, Jim Traft, se tornara perigoso.

Tudo isto o afligia, lhe dava tonturas, mas o pior era a lembrança do momento em que, surdo aos rogos de Ed Darnell, ajudara os vaqueiros a preparar aquela corda maldita. Todos os argumentos que empregara para se convencer da sua inocência, para se convencer da justiça da sua atitude, tinham sido vãos.

A realidade estava ali bem clara. Na luta, no Cibeque, por causa da vedação, ainda ele fora incapaz de tomar parte activa. Por isso, o não impressionara tanto a morte de Jocelym e Haverly, cuja responsabilidade, recaía totalmente em slinger. Agora, ele também tinha as mãos manchadas de sangue.

Curly foi também até ao pórtico.

- Bonita noite, Jim. E é bom estarmos aqui, tranquilos, cem ter que mexer em armas. O que desconfio é que esta paz dure.

Antes do fim do Verão, voltaremos a ter notícias de Malloy.

- A noite está bonita - suspirou o rapaz. - Mas... quem me dera no Missouri.

- O quê?

- Eras capaz de deixar o Arizona e Molly.

- Julgo que sim...

- Mas porquê? Se nem ao menos ainda mataste um homem?

- Curly!

- Não me enganas, meu velho. Vi-te disparar, mas eu próprio disparei ao mesmo tempo. Fui eu que o matei! Julguei que ninguém me tinha visto disparar. Por favor, guarda segredo.

- Não posso responder pelos outros. Bud também viu.

Mas viu mais do que isso. Viu aquele bandido matar...

- O quê!?

Havia já na exclamação de Jim um tom de voz ligeiramente diferente.

- Sim, Lonestar viu também. O malandro era Ham Beard.

Revistámo lo antes de o enterrar. Vivia em Winslow, mas teve de sair de lá, porque matou não sei quem.

Depois disso entregou-se ao roubo de gado. Era uma espécie de lobo solitário... e um magnífico atirador.

Curly calou-se por um momento e depois, continuou.

- Se não fosse o fumo, ele e Malloy tinham dado cabo de nós.

Tudo aquilo aconteceu como tinha de acontecer e não te deves preocupar dessa maneira.

Tal era o poder convincente das palavras de Curly, que Jim se sentiu um pouco mais aliviado.

- Se ao menos Gloriana e Molly nunca souberem de nada!...

- Podes ter a certeza que Bud não descansa, enquanto lhes não contar tudo.

- Não!

- Sim. E não penses que é por não ser capaz de guardar um segredo. É que isso será um motivo de orgulho para ele, o dizer que o seu chefe, que Jim Traft tomou Parte activa na luta.

- Vou pedir-lhe que guarde silêncio e se as palavras não bastarem, recorrerei à força.

- Nada conseguirás, nem de uma maneira, nem de outra.

Depois da luta os vaqueiros tinham voltado à casa queimada e tinham enterrado os mortos debaixo dos sicómoros. Só Curly se recusou a acompanhá los, alegando não poder deixar os feridos em casa, sem possibilidades de defesa em caso de ataque.

- Deixem os enforcados ao ar, que só lhes faz bem! -aconselhara.

Mas, a verdade é que Curly não se sentia intimamente tão seguro de si como pretendia fazer crer. Andava inquieto e Jim notou que os seus olhos azuis pareciam sempre alerta.

Quando por fim, Jim lhe fez notar o facto, respondeu

- Não quero que Bud e Lonestar saibam. Bastante barulho já eles fazem assim mesmo, mas a ti sempre to digo. Hoje mesmo, quando vocês estavam ainda a almoçar vi um sombreio preto lá em cima. Daquele lado além!

- Curly! que dizes?... Um sombreio preto? Podes ter-te enganado!

- Os meus olhos não me enganam assim.

Seguiram-se horas de inquietação para os dois amigos. Nada acontecia, porém, e Jim acabou por esquecer o que o outro lhe dissera.

Foi para dentro da casa e agarrou num livro, mas Bud, muito enervado não o deixava em paz.

- Chefe, parece-me que ouvi um grito à bocado, mas não quis preocupar-te. Agora, sinto cavalos.

- Cavalos?! Jim apurou o ouvido, olhando à roda apreensivo, Lonestar dormia e Cherry também.

Quanto a Jack era natural que nada tivesse ouvido, ocupado com a sua escrita.

De repente, Jim ouviu nitidamente o tropear de cavalos.

- Curly! - clamou em voz alta.

Os que dormiam acordaram, mas Curly não apareceu.

- Rapazes, há qualquer coisa. Oiço cavalos e Curly não responde. Peguem nas pistolas!

- Escuta - disse Bud.

Foi então que Jim ouviu gritar...

- Jim!... Jim...

- Molly! - exclamou Jim.

E o rapaz precipitou-se lá para fora, seguido dos vaqueiros em estado de poder caminhar.

Não se viam cavalos no caminho, mas debaixo dos pinheiros, e do lado oposto, moviam se três figuras acastanhadas, que nesse mesmo momento saíam do bosque.

Molly vinha à frente, montada num grande cavalo baio. Vinha sem chapéu, com o cabelo a esvoaçar ao vento.

- Jim!... Oh! Jim!...

O rapaz correu para ela.

- Molly! Pelo amor de Deus explica! Como chegaste aqui?

Ela deixou cair a rédea do cavalo de carga, que conduzia.

Foi então que Jim reparou que ela estava toda esfolada. O cabelo estava todo cheio de agulhas de pinheiros e os olhos pareciam invulgarmente grandes e brilhantes.

Jim olhou para um pouco mais longe e viu Curly junto de gloriana que montava um terceiro cavalo. Tinha a cabeça inclinada Para a frente e a cabeleira domada escondia-lhe o rosto.

- Meu Deus! O que aconteceu?

- Muita coisa, mas não há razão para preocupações. Estamos aqui e de boa saúde. Ajuda-me a desmontar.

E Molly deixou-se escorregar para os braços de Jim e pela primeira vez desde que se conheciam, os beijos dele apenas a fizeram corar. Molly não protestou contra eles como era costume. Por fim, ele pô-la no chão, continuando a envolvê-la com o braço.

- Mas... o que é aquilo? - disse Jim ao ver Gloriana cair nos braços de Curly.

Curly passou com a rapariga nos braços e Jim levou Molly para casa.

- Curly, põe-me no chão! - disse Gloriana.

Curly fingiu que não ouviu e não se deu ao trabalho de obedecer.

- Pelo amor de Deus, querida, diz-me, não estás ferida?... não.

A palidez desapareceu por completo do rosto de Gloriana.

- Larga-me - gritou ela em tom de comando.

Só então Curly compreendeu que a sua atitude não fora própria. Sentou-a numa cadeira e deixou-se ficar a olhar para ela em silêncio.

- Glory! Que surpresa foi esta? - perguntou Jim,

aproximando-se da irmã.

Depois calou-se olhando para ela com ar incrédulo. O vestido que trazia era leve e tinha sido em tempos de cor clara. Já não parecia, no entanto, um vestido. Mal a cobria, de tal modo estava em farrapos e estava quase preto. Trazia um dos braços completamente nu e todo ensanguentado. O mesmo acontecia com as suas pernas. Do fato, Jim passou ao rosto da irmã. Nele se reflectiam os efeitos de uma tremenda tensão nervosa. Nos seus olhos, havia porém, uma expressão estranha, como se lá no fundo da alma, a rapariga estivesse em êxtase.

- Oh!... Jim! - murmurou ela, estendendo-lhe a mão.

O rapaz apertou-a com força e ajoelhou junto da cadeira.

- Estou aqui... e estou salva. Graças a Deus!

- Mas o que aconteceu, Glory?

Do outro lado da cadeira Curly levantava ternamente a mão pequenina de Gloriana, ainda agarrada ao velho sombreio.

- Jim, foi isso o que Eu vi lá em cima. De... quem é este chapéu? Não me parece estranho. Está crivado de balas! Não conseguiu no entanto arrancá-lo ás mãos de Gloriana.

- Este sombreio era de Croack Malloy - explicou Molly, ocupada em tirar do cabelo as agulhas de pinheiro.

- O quê?! - exclamou Curly. - Bem me parecia reconhecê-lo.

Jim, tão certo como um e um serem dois, Croack Malloy está morto...

- Morto? Acho que sim - limitou-se a dizer Molly.

Aquela verdade tão simples causou imediatamente silêncio. O próprio Curly Prentiss pareceu ter perdido a fala.

- Jed Stone matou Malloy e Maddem - continuou Molly, de olhos brilhantes pelo entusiasmo.

Jim repetiu baixinho o nome de Stone, mas Curly continuou calado.

- Molly Dunn, sou um homem perdido, como vês - Gritou Bud, da cama. - E se não contas imediatamente o que se passou, morro de comoção.

Gloriana abriu os olhos e pousou-os cheios de ternura em Jim e Molly. Depois deixou-os vaguear lentamente pelos rostos amigos dos vaqueiros, até se deter em Curly.

- Conta-lhe Molly, eu não posso falar.

- Quisemos fazer-te uma surpresa, Jim - começou Molly. - tivemos uma certa dificuldade em fazer com que o tio entrasse no nosso plano, mas por fim acedeu. Espera, foi há cinco dias... de madrugada, que saímos de Flag. Pedro vinha a guiar.

Nessa noite dormimos no rancho de Miller.

Molly calou-se e olhou para Gloriana.

- Foi na manhã seguinte, que numa encruzilhada Malloy e dois dos seus companheiros - Maddem e Reeves - nos fizeram parar.

Foi só quando Malloy matou Pedro que o tio o reconheceu.

Depois aquele bandido roubou o tio, agarrou-nos nos sacos e pôs-nos a cavalo.

Ao tio ordenou-lhe que voltasse a Flag e lhe mandasse dez mil dólares ao Poço de Tobe, se queria voltar a ver-nos. Levou-nos então ele e à tardinha chegámos ao Poço. Levaram nos à força para dentro de casa, amordaçaram-nos e Malloy estava precisamente a arrancar o vestido a Gloriana, quando entrou jed Stone. Malloy ficou mal disposto por o terem interrompido e Jed gritou-lhe que estava maluco e que o tio poria o Arizona em pé de guerra. É engraçada a maneira como ele falou do tio.

E chamou-lhe só Jim! Não queiras saber... Malloy ficou danado e pôs se a barafustar. Jed fingiu que passeava na sala, muito excitado e de repente puxou da pistola. Fechei os olhos. Jed deu mais tarde dois tiros. Senti um dos homens fugir e quando voltei a olhar Malloy e Maddem estavam mortos. O que fugira era Reeves.

- Caramba! - exclamou Curly Prentiss, quando Molly parou para recuperar alento.

- Bem... a questão é que nos tínhamos livrado duma para cair noutra pior - continuou Molly -, Jed encontrara o tio, e sabendo do que se passara, seguiu-os e matou os outros para poder ficar connosco só para ele.