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AS AVENTURAS DE TIBICUERA / Erico Verissimo
AS AVENTURAS DE TIBICUERA / Erico Verissimo

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

AS AVENTURAS DE TIBICUERA

 

Aqui estão as aventuras de Tibicuera, contadas por ele próprio. O herói narra sua espantosa viagem que começou numa taba tupinambá antes de 1500 e terminou num arranha-céu de Copacabana em 1942.

     Não hesito em passar para as mãos de vocês este romance, porque no fundo ele conta também muito das aventuras do nosso Brasil.

     A princípio pode parecer fantástico que um homem tenha conseguido atravessar vivo e rijo mais de quatrocentos anos. Mas estou certo de que, após a leitura do capítulo intitulado O Segredo do Pajé, todos vocês aceitarão o fato e, mais, hão de fazer o possível para seguir os conselhos do feiticeiro a fim de vencer o tempo e a morte.

     Eu podia encher este livro com notas explicativas de certas palavras. Prefiro, entretanto, que vocês recorram ao dicionário, habituando-se a consultá-lo em casos de dúvida ou desconhecimento. Ê um bom exercício não só de paciência como também de honestidade intelectual. E, no fim de contas, sempre gravamos melhor na memória o significado das palavras que nos levaram a folhear dicionários.

     Se vocês não gostarem do romance que vão ler, não me culpem. Tibicuera é o autor. E quem se mostra disposto a receber flores e aplausos não deve fugir às vaias e aos repolhos...

 

 

                   NASCI

NASCI NA TABA duma tribo tupinambá. Sei que foi numa meia-noite clara. Fazia luar. Minha mãe viu que eu era magro e feio. Ficou triste mas não disse nada. Meu pai resmungou:

   — Filho fraco. Não presta para a guerra.

   Tomou-me então nos seus braços fortes e saiu caminhando comigo para as bandas do mar. Ia cantando uma canção triste. De vez em quando gemia.

   Os caminhos estavam respingados do leite da lua. O urutau gemeu no mato escuro. Uma sombra rodopiou ligeira por entre as árvores.

   O mar apareceu na nossa frente: grande, mole, barulhento, cheio de rebrilhos. Meu pai parou. Olhou primeiro para mim, depois para as ondas... Não teve coragem.

   Voltou para a taba chorando. Minha mãe nos recebeu em silêncio.

      

                   CRESCI

PASSARAM-SE ALGUMAS LUAS. Uma tarde eu ia escanchado na cintura de minha mãe e o pajé da nossa tribo nos fez parar na frente de sua oca. Olhou para mim. Viu que eu era magro, feio e tristonho. O pajé era um homem muito engraçado. Como fazia troça de toda a gente e de todas as coisas, diziam que ele era irônico. Pois o pajé me examinou da cabeça aos pés, sorriu e disse: “Tibicuera”.

       O nome pegou. Toda a gente ficou me chamando Tibicuera. Tibicuera na nossa língua queria dizer cemitério. O nome sentava bem. Eu era magro e chorão.

       Certa vez fiquei parado, olhando a minha sombra no chão. Era a sombra de um guri cabeçudo, de barriga enorme, como que inchada. As pernas eram finas como os juncos que crescem nos rios. Soltei um grito de tristeza. Na taba até pensaram que tinha sido gemido de urutau.

       Uma tarde me debrucei sobre um córrego para matar a sede. Vi minha cara no espelho da água. Levei um susto. Ergui-me num pulo e saí a correr. Agarrei-me às pernas de minha mãe e choraminguei:

       — Vi um peixe feio dentro d’água, mãe.

       Cresci na caba, comendo terra, perseguindo as formigas e as minhocas.

       Aos cinco anos fiz minha primeira caçada de tucanos. Mas não me meti fundo no mato, porque tinha medo de encontrar Anhangá, Curupira e os outros espíritos maus.

       À noite eu via as danças dos índios ao redor de uma grande fogueira. Os tupinambás pulavam, faziam roda, rebolavam as ancas, erguiam os braços, batiam com os pés no chão. A fogueira tinha línguas de muitas cores. De dentro dela saltava um clarão que devorava a luz do luar, pintava de vermelho a cara dos guerreiros e ia abolir com o mato que estava dormindo.

       Os guerreiros dançavam. Os tambores batucavam — bum-qui-ti-bum. bum-qui-ti-bum. bum, bum... Eu olhava para o céu. A lua parecia uma fogueira e as estrelas eram os índios dançando ao redor dela.

       Um dia os tupinambás foram para a guerra. Os tambores soaram com raiva. 0 eco respondeu longe. O pajé reuniu o conselho. Os guerreiros prepararam suas armas. Dançaram os tacapes, os arcos, as frechas e as lanças. Depois os guerreiros entraram no mato. Só ficaram na taba os velhos, as mulheres e as crianças.

       Comecei a sentir uma vontade muito grande de ficar homem para ir cambem à guerra.

 

                     O MISTÉRIO DA CAVEIRA

OS NOSSOS GUERREIROS voltaram vitoriosos. Trouxeram muitos prisioneiros e o crânio do chefe inimigo. Fiquei olhando aquela cabeça sem corpo. Que cara horrível! Eu queria fechar os olhos ou olhar para outro lado, mas não podia. 0 crânio do chefe inimigo me atraía, me chamava, me prendia. . .

       Naquela noite tive um pesadelo pavoroso. Sonhei que a cabeça sem corpo estava em cima de meu peito, pesando, procurando esmagar-me o coração. Acordei suando frio. Saí da minha oca. Silêncio na taba. A noite ia alta. A lua minguante lá no céu parecia a caveira de algum grande chefe vencido. Os grilos cantavam. Saí a caminhar. Aonde era que eu ia? Alguma coisa me puxava...

       Andei trocando pernas à toa por entre as ocas. Só depois de muito tempo é que compreendi o que queria. Eu tinha era vontade de pegar a caveira do chefe inimigo. Eu sabia que ela estava espetada num pau da caiçara perto da oca de nosso chefe. Fui...

       Puxei o crânio branquinho com todo o cuidado. Sentei-me na areia da praia. E, sem ouvir o barulho do mar, nem o uivo do vento, nem os pios das aves da noite, revirei nas mãos a caveira e fiquei com os olhos pregados nela. Eu sentia um grande medo no coração. Queria decifrar o mistério daquela cabeça sem vida. Queria...

       Que era aquilo? Cheguei a gritar para o céu. Que era aquilo?

       O mar continuou rugindo, o vento uivando, as aves piando. Mas nada respondia à minha pergunta.

       De repente senti um ímpeto... Peguei a caveira e joguei-a para o ar, como se a quisesse quebrar contra as pontas agudas das estrelas. A caveira brilhou ao luar e tornou a cair na areia. Póf!

       Estendi-me ao lado dela e, cansado, dormi até o amanhecer.

 

                   O MEU ENCONTRO COM ANHANGÁ

EU GOSTAVA de visitar a oca do feiticeiro de nossa tribo. Havia lá dentro um ar de mistério, cobras se arrastando pelo chão, ervas colhidas em noites de lua cheia.

       O pajé parecia andar sempre dormindo, olhos fechados, cara calma. Diziam que ele era mais velho que as árvores mais velhas do mato antigo. Sabia todos os segredos da vida. Tinha remédio para todos os males.

       O pajé gostava de mim. Eu gostava do pajé. Ele me dizia:

       — Ninguém pode com os espíritos maus. Anhangá entra no corpo dos guerreiros e os guerreiros ficam perdidos. Ai de quem encontrar Curupira no mato!

       Eu escutava, com o coração batendo, os olhos muito arregalados.

       Um dia, distraído a perseguir um bicho, me meti no matagal. Quando caí em mim, estava perdido. Comecei a caminhar sem rumo certo, procurando uma saída. Havia a meu redor troncos de árvores tão grossos e retorcidos que davam medo. Pareciam braços musculosos prontos para me esmagar. O sol mal entrava ali, porque a folhagem formava por cima da minha cabeça um toldo verde e espesso. Ouvi longe o ronco duma onça. Tremi. Um pássaro piou. Tremi de novo. Um graveto estalou. Tornei a tremer. Às vezes uma coisa mole e comprida passava ondulando pelo meio das ervas rasteiras. Cobra. Eu sentia calefrios.

       De repente ouvi uma voz fina:

       — Tibicuera!

       Uma voz de caçoada. Parei. Quem seria? Olhei para os lados. Ninguém. Olhei para cima. Nada. Decerto tinha sido ilusão... Continuei a caminhar. Outro chamado:

       — Tibicuera!

       De repente um vulto cresceu diante de mim. Era uma figura esquisita, meio gente, meio bicho, preta como a noite, de olhos chispantes que pareciam duas fogueiras. Pulava num pé só, doidamente. Abri a boca num espanto. Era Anhangá!

       Reuni toda a minha coragem e falei:

       — Passa fora!

       Anhangá soltou uma gargalhada: “Quá-quá-quá!”

       O mato todo riu com ele. Riu de mim. Depois o diabo virou três cambalhotas no ar e começou a dançar com toda a velocidade em meu redor. Senti que meus olhos escureciam. Eu mal e mal ouvia a voz de Anhangá, berrando:

       — Ninguém pode comigo! Ninguém me vence, nem Tupã!

       Estendi os braços procurando agarrar alguma coisa. Foi quando Anhangá parou de rodopiar, recuou um pouco e pulou com o pé no ar. Senti uma dor muito forte no queixo e desmaiei.

       Acordei na taba. Ouvi alguém perguntar:

       — Foi Curupira?

       Mal tive força para responder:

       — Anhangá.

       E comecei a chorar de raiva.

 

                   VÉSPERA DE BATALHA

MUITO TEMPO PASSOU. Fiquei coromiaçu, que quer dizer adulto. Chegou a véspera da minha primeira guerra. Os tupinambás se enfeitaram de plumas, botaram no pescoço colares feitos com dentes de inimigos mortos, armaram-se de arcos, frechas, tacapes e lanças.

       Eu me lembro com se tivesse acontecido ontem... Era de noite. Céu sujo, vazio de lua e de estrelas. As fogueiras ardiam vermelhas, debaixo dos potes de cauim. O maracá começou a chocalhar.

       Minha mãe chegou e disse:

       — Tibicuera, vais para a guerra.

       — Vou, mãe.

       — Teus avós foram valentes.

       — Eu sei.

       — Estão morando do outro lado das grandes montanhas.

       — Eu sei.

     Minha voz estava trêmula. Eu olhava a minha sombra no chão. Não era mais o guri barrigudo de pernas de caniço. Eu era agora um homem forte, um guerreiro.

       Minha mãe continuou:

       — Matarás muitos inimigos, derrubarás muitas cabeças, serás um grande chefe.

       Estremeci. Apertei com força o meu tacape. Senti que meus olhos estavam fuzilando. Perguntei, com um nó na garganta:

       — Mãe, mãe, quando chegará a hora? Quando? Estou fervendo como o cauim. Não posso esperar.

       Minha mãe sorriu.

       O pajé reuniu os guerreiros no meio da ocara. Falou. Sua voz parecia sair do fundo duma caverna cheia de cobras, escorpiões e morcegos. E enquanto o feiticeiro falava, as nuvens foram se abrindo e as estrelas aparecendo uma a uma.

       — Guerra! — gritava o pajé. — O guerreiro forte que ficar na taba é covarde.

       Penas e braços dançaram no ar. Um coro horrível repetiu:

       — Guerra!

       O pajé continuou:

       — O goitacá traiçoeiro comeu a carne de nossos antepassados. Vingança!

       O discurso do pajé durou cinco horas. Depois os tupinambás começaram a dançar e a beber cauim. Também dancei e bebi. E a madrugada ainda não tinha clareado quando nos pusemos a marchar.

      

                   A VITÓRIA

O SOL DOURAVA o grande campo. A noite tinha se escondido do outro lado das montanhas. Os nossos guerreiros avançavam.

   Tudo quieto. Às vezes um gavião passava alto. Eu pensava:

   — Anhangá pode estar escondido no corpo duma ave...

   (Agora, sentado aqui numa boa poltrona, no estúdio de meu apartamento de Copacabana — onde escrevo esta história — eu sorrio ao me lembrar de meus pensamentos de selvagem.)

       De repente, um grito. Tive a impressão de que as macegas, a uns duzentos metros de onde estávamos, cresciam de repente. Eram os inimigos que nos esperavam de emboscada. Uma chuva horizontal de frechas cortou o ar. Traziam nas pontas plumas azuis, amarelas, vermelhas e roxas. Eram tão lindas voando e brilhando no ar luminoso que fiquei de boca aberta, a contemplá-las, tão encantado que me esqueci de me deitar para fugir às frechadas.

       Vi um companheiro cair perto de mim com uma seta cravada no peito. Os nossos começaram a atirar também. O combate durou muito tempo. No fim foi a luta corpo a corpo.

       Os maracás chocalhavam. Os guerreiros gritavam.

       Agitei o tacape e corri na direção dos inimigos. Surgiu um índio forte na minha frente. Levantei o tacape e dei o golpe. Pan! O inimigo rolou.

       (No momento em que descrevo esta cena, estou no ano de 1942. O meu rádio noticia vôos estratosféricos, conta maravilhas da televisão. E a um anúncio de sabonete segue-se uma sinfonia de Beethoven. Olho para a minha máquina de escrever portátil e para as minhas mãos agora cuidadas e custa-me acreditar que estas mesmas mãos já empunharam armas brutais, já feriram, já derrubaram cabeças... Estremeço de leve. Toco a campainha. Peço um chá ao meu criado e continuo a descrever a minha primeira guerra.)

       Apareceu outro goitacá. Pan! Rolou também. Outro. Pan! A mesma coisa. Todos caíam. Minha arma zunia no ar sem descanso e sem piedade.

       Aquele quadro — homens baqueando aos gritos, plumas coloridas voando ao vento, som de maracás — foi tão forte que hoje, passados mais de quatrocentos anos, eu me lembro dele com toda a clareza.

       Por fim ergue-se na minha frente um guerreiro enorme. Pela pintura que trazia no corpo, vi que era o chefe da tribo inimiga. Levantou o tacape. Recuei e rebolei também a minha arma. As nossas clavas se chocaram no ar. Pléf! E se quebraram.

       Olhei para os braços musculosos do meu adversário e pensei: Estou perdido. Mas não perdi a calma. Como um tigre saltei-lhe em cima. Atracados, rolamos por terra. Senti as mãos de ferro do goitacá trançadas nas minhas costas, enquanto seus braços apertavam meu tronco, procurando esmagá-lo. Fiz um esforço doido e consegui segurar com ambas as mãos a garganta do chefe. E enquanto ele me apertava a cintura eu lhe apertava o pescoço. No fim de alguns minutos notei que o abraço do inimigo afrouxava. Senti um alívio. Eu tinha vencido.

      

                   SERENATA PARA AS ESTRELAS

VOLTAMOS PARA A TABA com os troféus da vitória.

       Minha mãe me esperou sorrindo.

       — Cem cabeças de inimigos. Que lindos enfeites para a nossa caiçara, mãe!

       (Assim pensava eu no ano de 1490. Hoje, olho urna tela de Portinari ou uma escultura de Brecheret e digo: “Que lindos enfeites para o meu gabinete.)

       Veio o pajé com o seu sorriso irônico e me disse:

       — Tibicuera é um valente. Oh! Mas ele não pode com os gênios do mato.

       Naquela noite a lua me pareceu mais clara, mais suave a minha rede, mais melodioso o barulho do mar.

       Com o osso da coxa do chefe inimigo fiz uma flauta. E na hora em que a taba dormia, comecei a soprar no instrumento. O som que saiu dele foi doce e triste. Então fiz a minha primeira serenata para as estrelas. Toquei com tanta alma, com tanto sentimento, que a música misteriosa dançou no ar leve voou para o mato e fez calar de espanto o urro do jaguar, o canto de fundo do urutau e o grito guinchado de Curupira. As cobras vieram me lamber os pés, tontas. Pareceu-me até que as próprias estrelas pararam de brilhar para melhor ouvirem a minha musiquinha. Eu soprava na frauta e de tão comovido comecei a chorar.

       Mais tarde, fui dormir. Sonhei que o chefe goitacá veio para mim e disse:

       — Tibicuera, estou contente por ter sido vencido por ti. Estou orgulhoso de ti. Porque fizeste uma frauta com o meu fêmur e tocas nela tão bem, tão bonito, que até os mortos que moram para além das grandes montanhas ficam com vontade de voltar, só para te ouvir.

 

                   VELAS NO MAR

O PAJÉ me contava histórias dos tempos em que a Lua era noiva do Sol. Eu ficava sentado na oca dele, de pernas cruzadas, escutando. Uma fogueira quase morta nos separava. A fumaça subia. Por trás da fumaça o pajé sorria, mostrando a boca escura e desdentada. E a faia dele era como o barulho do vento nas folhagens.

       Um dia ele me estava recontando uma história que aprendera do velho Sumé, quando se ergueu uma gritaria na taba. Saí para ver o que acontecia. Um homem vira coisas estranhas no mar. Por isso estava gesticulando, gritando, contando... O chefe da tribo armou os seus guerreiros. Fomos todos para a beira do mar.

       O nosso espanto foi enorme. Abria-se na nossa frente a grande baía. Dentro dela, balançando-se de leve, estavam pousadas umas doze ou treze embarcações como nunca tínhamos visto em toda a nossa vida. Nós cortávamos os rios e o mar nas nossas igaras, barcos compridos e rasos, feitos em geral de troncos de árvores. Mas agora era diferente... Tratava-se de barcos altos, compridos, largos, todos cheios de mastros, cordas, panos, bandeiras Eu estava de boca aberta. Olhava muito admirado para as bandeiras coloridas que ondulavam ao vento no cordame dos navios. E só cem anos depois é que eu iria aprender que aquela era a frota portuguesa que descobria o Brasil! Naquela hora não existia Brasil, mas sim a nossa terra, por nós chamada Pindorama, — cerra boa e grande onde nossa tribo e muitas outras corriam, livres, acampando aqui e ali, caçando, pescando, dançando, guerreando...

       O chefe tupinambá quis reunir seus homens para o combate. Mas o pajé, veio, olhou, sorriu e botou a mão no ombro do chefe:

       — Não vai haver guerra. Eles vão nos divertir.

       Não disse mais nada.

       Assim como filhotes de ave que deixam a plumagem quente da mãe, muitos barcos se afastaram do maior dos navios e se aproximaram da praia.

       Os índios os esperaram em silêncio. Quando os barcos abicaram na areia, pudemos ver que eles estavam cheios de homens brancos. Traziam armas desconhecidas. Falavam língua que nenhum de nós entendia.

       Um dos estrangeiros avançou para o nosso grupo. Tinha um grosso bigode preto. Sua espada brilhava ao sol. Começou a fazer gestos e caretas. Atrás dele seus soldados esperavam...

       O pajé fez um gesto de paz e disse à nossa gente em tupi:

       — Que será que esse macaco quer?

       Risadas.

       O homem do bigodão fez um sinal. Um dos soldados trouxe e colocou aos pés dele um grande cesto. O chefe branco se inclinou e tirou do cesto uma mancheia de colares de miçangas coloridas, espelhos e outras bugigangas para nós desconhecidas. Os índios começaram a ficar inquietos e a dar pulos. Só o pajé continuava a sorrir com indiferença.

       Outras canoas se aproximavam da praia, vendo que a primeira fora recebida em boa paz.

      

                   UM BELO ESPETÁCULO

FORAM DIAS DE FESTA para nós. Os marinheiros portugueses desembarcaram e espalharam-se por toda a praia. Riam, falavam alto, cantavam, dançavam. Tocavam instrumentos estranhos. Cantavam numa língua que nós achávamos barbaramente arrevesada. Davam aos índios espelhos, colares e outros objetos: recebiam em troca pedras coloridas, arcos, flechas, potes de barro...

       Às vezes o pajé aparecia à entrada de sua oca, olhava os marinheiros, sorria, voltava para dentro de sua morada e ficava fumando cachimbo em silêncio.

       Havia na enseada um ilhéu. Foi nele que os portugueses rezaram a primeira missa. Nunca tínhamos visto aquilo. De olhos arregalados e em profundo silêncio escutamos e olhamos... Não perdemos um gesto, um som. Quando o capelão da armada (naquele tempo eu não conhecia estes nomes...) ergueu no ar o ostensório, tive a impressão de que era o próprio sol que de repente brilhava nas mãos dele. Fiquei deslumbrado. Senti um nó na garganta. Julguei que ia chorar. Eu, um guerreiro!

       Dias depois os portugueses saíram em procissão, levando dois pedaços de madeira pregados em cruz. Plantaram-no a pouca distância do mar. Houve nova missa.

       Uma noite, enquanto todos dormiam, fui olhar a grande cruz. A noite estava clara. Imaginei-me diante dum gigante negro de braços abertos. Eu sentia qualquer coisa que não sabia dizer que era. A cruz me deixava mudo, com um peso no peito. Naquela noite dormi à sombra dela.

       Quando os navios portugueses se aprontaram para partir, o pajé mandou levar ao comandante da armada muitos presentes: cocares, enduapes, pedras preciosas, potes de barro, penas coloridas... O chefe branco — que hoje eu sei que se chamava Pedro Álvares Cabral — recebeu os presentes e decerto achou que eles significavam isto: “Chefe branco, eu te mando estas coisas porque eu e minha gente gostamos de ti e de teus homens e queremos viver em paz com a raça branca.” Na verdade, porém, a intenção do pajé fora outra. Ele quisera dizer: “Mando-vos estes presentes como pagamento das horas divertidas que nos fizestes passar.”

       As velas ficaram inchadas, batidas pelo vento. Um canhão deu três salvas. As naus começaram a se mover na direção do mar alto. Aos poucos se foram sumindo...

       Os índios ficaram reunidos na praia. Faziam gestos amigos, pulavam. Muitos traziam no pescoço colares e miçangas. As mulheres se olhavam nos pequenos espelhos.

       Ficaram conosco dois brancos, que choravam.

       O pajé viu as naus se sumirem no horizonte e depois falou:

       — Foram-se. Que belo espetáculo!

       E durante vários meses não disse mais nada.

      

                   ENCONTREI CURUPIRA NO MATO

SE NÃO ME FALHA a memória, foi pouco tempo depois da partida dos portugueses que encontrei Curupira no mato. Andava eu muito orgulhoso dos meus músculos e de minha coragem. Tinha caçado a minha décima-segunda onça e tomado parte na minha vigésima guerra. Trazia doze cicatrizes no corpo e tinha muitas caveiras de chefes inimigos na minha caiçara.

       Um dia, no meio do mato, dei de repente com o Curupira. Era ele mais feio que o índio mais pavoroso de todas as tabas de Pindorama. Tinha cabelos cor de fogo das fogueiras de guerra. Trazia na mão um maracá, que sacudia como um desesperado, deixando a gente zonza e surda. Olhei para os pés da aparição. Eram torcidos, voltados para trás. Não havia dúvida. Era mesmo Curupira.

       Aprontei arco e frecha e disparei o tiro. Pobre de mim! A frecha caiu a dois passos de meus pés, mole e sem força. Curupira matraqueava, matraqueava como um louco. Seus cabelos chispavam. Seu corpo era uma piorra. Seus olhos, dois vaga-lumes de brilho verde.

       Fiquei tão assustado que saí a correr e a gritar. Cheguei sem fala à taba. Os índios me cercaram. Deram-me cauim a beber. Quando o pavor me deixou o corpo, pude dizer:

       — Pajé, não tenho medo de homem. Que é que vou fazer para vencer os espíritos do mato?

       0 feiticeiro sacudiu a cabeça.

       — Ninguém pode com eles. Ninguém.

       Agora não era mais o medo e sim a raiva que não me deixava falar.

      

                   O SEGREDO DO PAJÉ

UM DIA O PAJÉ me chamou à sua oca. Entrei. Fui recebido com esta pergunta:

       — Tibicuera, qual é o maior bem da vida?

       — A coragem — respondi sem esperar um segundo.

       — Só a coragem?

       Embatuquei. O pajé ficou sorrindo por trás da fumaça do cachimbo. Gaguejei:

       — A... a...

       O feiticeiro me interrompeu:

       — O pajé é corajoso. Mas de que vale isso? Seu braço não pode levantar o tacape, seus pés não têm mais força para correr.

       — Oh! — exclamei. — Mas tu és poderoso, sabes de remédios para todas as dores, consegues tudo com tuas mágicas.

       O pajé continuou a sorrir. Sacudiu a cabeça:

       — Ilusão — disse.

       Depois dum silêncio curto tornou a falar:

       — O maior bem da vida é a mocidade. Um dia Tibicuera fica velho.   Atirado na oca, fazendo rede. Não pode mais ir para a guerra. O jaguar urra no mato e Tibicuera não tem força para manejar o arco. Tibicuera é mais fraco que mulher.

       Escancarou a boca desdentada. Eu escondi o rosto nas mãos para não enxergar o fantasma da minha velhice.

       — Pajé... Tibicuera não quer ficar velho. Ensina-me um remédio para vencer o tempo, para vencer a morte. Tu que sabes tudo, que viste tudo, que falaste com o grande Sumé.

       O pajé continuava a me olhar com os olhos espremidos. Bateu na testa com o dedo indicador da mão direita.

       — O remédio está aqui dentro, Tibicuera. Não há feitiçaria. O pajé gosta de ti. Ele te ensina. Escuta. O tempo passa, mas a gente finge que não vê. A velhice vem, mas a gente luta contra ela, como se ela fosse um guerreiro inimigo. Os homens envelhecem porque querem. Só muito tarde é que compreendi isso. Tibicuera pode vencer o tempo. Tibicuera pode iludir a morte. O remédio está aqui. — Tornou a bater na testa. — Está no espírito. Um espírito alegre e são vence o tempo, vence a morte. Tibicuera morre? Os filhos de Tibicuera continuam. O espírito continua: a coragem de Tibicuera, o nome de Tibicuera, a alma de Tibicuera. O filho é a continuação do pai. E teu filho terá outro filho e teu neto também terá descendentes e o teu bisneto será bisavô dum homem que continuará o espírito de Tibicuera e que portanto ainda será Tibicuera. O corpo pode ser outro, mas o espírito é o mesmo. E eu te digo, rapaz, que isso só será possível se entre pai e filho existir uma amizade, um amor tão grande, tão fundo, tão cheio de compreensão, que no fim Tibicuera não sabe se ele e o filho são duas pessoas ou uma só.

       Eu olhava para o pajé, mal compreendendo o que ele me ensinava. O feiticeiro falou até madrugada alta. Quando voltei para minha oca fiquei longo tempo olhando meu filho que dormia na rede.

       E eu me enxerguei nele, como se a rede fosse um grande espelho ou a superfície dum lago calmo.

      

                   A HISTÓRIA É UMA MARAVILHA

SE ME PEDISSEM uma definição de História, eu diria: “É a narrativa da aventura do Homem no Mundo.” Ou então: “É um romance de aventuras que se passa na Terra e tem como personagem principal a Humanidade.”

       Tenho vivido tanto, que não sei se estas definições são minhas mesmo ou se eu as ouvi ou li de alguém no decorrer de meus quatrocentos e tantos anos de vida.

       Um dia destes, lendo a “Pequena História do Mundo” de meu caro amigo H. G. Wells, famoso escritor inglês, encontrei este trecho: “A História do nosso mundo é ainda muito imperfeitamente conhecida. Há coisa de um par de séculos os homens só eram senhores da História dos últimos três mil anos. O que havia acontecido antes era objeto de lenda e especulação.”

       Mas, seja como for, a História é uma maravilha.

       A gente pára no meio da rua e grita:

       — Quem foi que descobriu o Brasil?

       O garoto que está vendendo jornais levanta o dedinho e grita:

       — Foi “seu” Pedro Álvares Cabral!

       No entanto eu, Tibicuera, guerreiro da taba tupinambá, homem de trinta anos, não saberia responder a essa pergunta no próprio ano de 1500!

       E o Brasil por assim dizer tinha sido descoberto a poucos palmos do meu nariz...

       Vi os portugueses chegarem. Tomaram conta da terra. Plantaram a cruz. Rezaram duas missas. De novo se fizeram ao mar. E não compreendi que se tratava do descobrimento do Brasil!

       A vida para mim continuou a ser a mesma de antes. Correrias pela beira do mar. Guerras. Caçadas. Aventuras. Nasciam crianças na taba. Os velhos morriam. Vinham grandes chuvas. Passavam-se luas e sóis. E o tempo seguia na sua marcha misteriosa, como uma grande cobra que vai deslizando, sem mostrar a cabeça nem a ponta do rabo, isto é: um monstro sem princípio nem fim.

       No entanto, abro a História do Brasil e, após vinte minutos de leitura fácil, fico sabendo do que se passou antes do descobrimento e nos cinqüenta anos que se lhe seguiram.

       Positivamente: a História é uma maravilha!

 

                   UM PROBLEMA DE DISTÂNCIA

VOCÊS NATURALMENTE sabem que o homem sempre mediu as distâncias de acordo com seus meios de transporte. Há cinqüenta anos atrás nos perguntavam: “Do Rio a Porto Alegre é muito longe?” E a gente, pensando nos meios de transporte daquele tempo, respondeu: “É longe. São muitos dias de viagem.” A resposta hoje seria: “É perto. Algumas horas de avião.” E eu até acho que no futuro um cidadão poderá despedir-se dos amigos na Avenida Rio Branco e dizer: “Até a vista, rapazes. Vou até a Groenlândia. Volto daqui a pouco.”

       Pois lá pelo ano de 1500, D. Manuel, o Afortunado, rei de Portugal, andava às voltas com um grave problema. O navegador português Vasco da Gama havia descoberto o caminho para as Índias, voltando de lá com um carregamento de pimenta, canela, gengibre — enfim: todas as preciosas especiarias do Oriente. Ora, esses artigos tinham grande aceitação na Europa, onde eram vendidos a bom preço. Estava claro que aquele que primeiro conseguisse chegar às Índias, voltando também pelo caminho mais curto, faria melhor negócio. Em resumo: a febre das especiarias orientais naquele tempo era mais ou menos parecida com a febre de petróleo de nossos dias.

  1. Manuel não hesitou. Organizou uma armada. Botou no comando dela um capitão-mor, Pedro Álvares Cabral, e lhe disse, naturalmente em outras palavras: “Olhe, comandante, precisamos achar um caminho mais curto para as Índias, ouviu?”

       A armada zarpou. O que aconteceu na viagem, não sei. Não vi. Contam muita coisa desencontrada. Uns dizem que Cabral se afastou das costas da África, batido por um grande temporal e acabou descobrindo o Brasil por acaso. Outros afirmam que o comandante português não andava às tontas, sabia onde tinha o nariz e chegou à terra desconhecida por causa dum plano muito bem traçado. Nada disto nos interessa. O importante é que o Brasil foi descoberto.

       Um dos navios da armada, comandado por um tal André Gonçalves, voltou para Portugal para dar a boa notícia ao Rei, enquanto Cabral seguiu com o resto da frota para as Índias. D. Manuel decerto deu pulos de contentamento ao saber da novidade. Mais terras para a Coroa de Portugal!

       Mandou três caravelas explorar a nova terra. As três casquinhas de nozes, todas cheias de velas e bandeiras, correram à costa, descobrindo cobras e lagartos, isto é: cabos, rios, ilhas, baías, montanhas... Dois anos depois veio mais uma esquadrilha exploradora. Alguns anos mais tarde, outra.

      

                   A MADRUGADA DO BRASIL

TRINTA ANOS após o descobrimento fez-se a primeira tentativa de colonização. Fundaram-se as primeiras povoações. São Vicente e Santo André da Borda do Campo.

      Em 1534 quem reinava em Portugal era D, João III. Resolveu ele distribuir as terras do Brasil entre pessoas importantes do Reino, que tivessem capacidade para povoar e defender a nova pátria. Dividiu a costa em partes mais ou menos iguais a que deu o nome de feitorias. Eram 5: Santa Cruz, Rio de Janeiro. Cabo Frio, Iguaçu e Itamaracá. Logo depois dividiu a nova terra em capitanias hereditárias.

       Olhando o mapa da divisão, não posso deixar de sorrir. O Brasil me dá a impressão duma perna de porco dividida em dez fatias. Vejam:

       Havia espalhados pela perna de porco, isto é, pelas dez capitanias, uns 2000 colonos. A maioria se dedicava à lavoura. Já apareciam os primeiros engenhos, as primeiras fabriquinhas. Era o clarear do dia duma nação.   (Gostaram da frase? Pois podem ficar com ela. Dou-lhes de presente. Em 1500 essa imagem podia ser novidade. Mas hoje...)

       Vocês pensam que as capitanias viveram em paz? Qual! Sofriam ataques dos selvagens, que não se conformavam com ver sua pátria invadida. Depois, começavam também a aparecer piratas. Vinham espiar a terra nova, com um olho deste tamanho, com uma vontade danada de abocanhar um naco da terra que Portugal descobrira.

 

       Vendo que a divisão do Brasil em capitanias não dava resultado, o rei de Portugal resolveu criar um governo geral. O primeiro Governador-Geral se chamava Tomé de Sousa. Trouxe para o Brasil 300 soldados, 300 colonos, 400 degredados e 6 jesuítas. Estes últimos eram chefiados pelo Pe. Manuel da Nóbrega.

       Tomé de Sousa fundou a cidade de Salvador da Bahia, visitou as capitanias do Sul, mandou grupos de homens explorar o sertão. Foram aventuras tremendas. As proezas de cada um desses grupos, que se chamavam entradas, davam um romance de arrepiar o cabelo. Infelizmente ninguém se lembrou de escrevê-lo.

       Uma das coisas mais admiráveis da História do Brasil foi o trabalho dos jesuítas. Os padres fundaram colégios e, enquanto os outros homens pensavam em arrancar da terra ouro e pedras preciosas, eles se preocupavam exclusivamente com a educação dos selvagens. Achavam que uma alma valia mais que um diamante. E, sem armas de guerra, metiam-se no meio dos índios, aprendiam a sua língua, procuravam mostrar-lhes que eles levavam uma vida feia, sem conhecer o Único Senhor do Universo — Deus, um pai que não gostava que seus filhos na Terra cultivassem o pecado e a antropofagia.

       Mas agora é que estou vendo que a história da minha vida está virando História do Brasil. Vamos fazer ponto e começar novo capítulo. O capítulo em que continuo as aventuras de Tibicuera, o valente guerreiro tupinambá. (Modéstia à parte.)

      

                   EU E MEU FILHO

TODOS ESSES FATOS que narrei no capítulo que vocês acabam de ler, aconteceram na terra em que eu me encontrava. No entanto não presenciei nenhum deles. Só me lembro de que certa vez tomei parte num ataque a um aldeamento de portugueses. Fomos repelidos. Eles usavam canhões e espingardas. Os nossos homens ficaram apavorados diante dos “tacapes que vomitavam fogo”.

       Minha tribo se meteu no mato. Passaram-se muitas e muitas luas. Meu filho cresceu a meu lado. Era um rapagão desempenado, da minha altura. Tão parecido comigo, que muitas vezes os outros guerreiros da tribo não sabiam distinguir o filho do pai. E como o rapaz se chamasse também Tibicuera, a confusão ficava maior ainda.

       Eu amava meu filho. Meu filho me amava. Ensinei-lhe a arte da guerra. Contei-lhe os meus segredos. Ele aprendeu a nadar; a caçar; a fazer pinturas bonitas no corpo; a curar feridas produzidas por frechas envenenadas; a ser mais ágil que a onça; mais flexível que a cobra; mais impetuoso que a anta.

       Às vezes nós dois passávamos horas e horas um ao lado do outro, conversando. Eu não me esquecia das palavras do pajé, que me dissera que o pai pode continuar no filho, o filho no neto, e assim por diante, de sorte que o tempo e a morte deixam de existir.

       Eu pulava de alegria quando meu filho caçava uma onça ou derrubava um inimigo. Às vezes eu olhava para o rapaz e ele imediatamente lia meus pensamentos, sem que fosse necessária a troca de palavras. Eu também enxergava as idéias dele no fundo de seus olhos, do mesmo modo como se vê um peixe colorido nadando no fundo de um rio de água transparente.

       Meu filho foi pai de um filho, que recebeu também o nome de Tibicuera e cresceu na taba à nossa sombra.

       Passei a amar meu neto como amava meu filho. Era uma cadeia de afeição, de compreensão, de camaradagem. Contei a meu filho o que o pajé me disse aquela noite em sua oca a respeito do tempo, da morte e da eterna mocidade.

       E o resultado de tudo isso é estar eu hoje aqui, depois de mais de quatrocentos anos, sem saber se durante todos esses quatro séculos eu fui apenas uma pessoa ou uma série de pessoas do mesmo sangue, com o mesmo espírito.

       Não importa. De qualquer forma não importunarei mais vocês com essa história. Para facilidade de narrativa vamos admitir que só existiu um Tibicuera: este que está agora contando as suas aventuras, que coincidem até certo ponto com as aventuras do Brasil.

      

                  VI A MORTE DE PERTO

SÓ SEI QUE UM DIA me encontrei sozinho no mato, longe de minha tribo. Caminhei todo o dia sem rumo. Ao anoitecer, cansado, dormi debaixo duma grande árvore. Um bando de vaga-lumes pousou no meu corpo, cobrindo-o todo. Acordei aturdido. Que era aquilo? Sonho? Ou travessura de Anhangá? Meu corpo despedia uma luz esverdeada. Saí a caminhar, assustado. Os vaga-lumes não me deixavam. E — apaga-acende, apaga-acende — pareciam estrelas brilhando no céu pardo do meu corpo.

       Quando dei por mim, tinha entrado às cegas numa taba. Os índios que me viram começaram a correr e a gritar: “Anhangá! Anhangá!”

       Eu corria também, atordoado. Os vaga-lumes continuavam a piscar. O pajé da tribo desconhecida apareceu e começou a dançar a meu redor, dizendo palavras que eu não compreendia. De repente os vaga-lumes levantaram o vôo. Caí no meio da ocara, pois os meus joelhos se vergaram de cansaço.

       Vendo que eu era um homem como os outros, os índios me cercaram e me fizeram prisioneiro. Fui levado à presença do morubixaba. Ele me fez perguntas numa língua que eu não entendia. Tibicuera sacudia a cabeça, como a dizer que não lhes era possível responder.

       Levaram-me para o centro da ocara e me amarraram com fortes cipós a um poste. Acenderam fogueiras. Os índios começaram a dançar a meu redor. Eu só via caras ferozes, retorcidas de raiva. A água fervia em grandes potes em cima das fogueiras. Compreendi. Eu ia ser morto, pelado em água fervente, e devorado por aqueles homens!

       Olhei para o céu. A lua estava muito calma lá em cima, como se fosse cega, como se não enxergasse a minha desgraça. As estrelas eram como vaga-lumes agarrados ao corpo escuro da noite.

       Os tambores batiam — bum-te-bum — os guerreiros dançavam, a água fervia. O pajé falou à sua gente. Levaram-me para cima duma grande pedra. Fiquei ali com os braços ainda amarrados, as pernas moles, a cabeça zonza. Um enorme guerreiro se aproximou de mim, com um tacape na mão. Era o meu fim. Lembrei-me do meu filho, da minha primeira guerra e esperei com coragem o golpe. Havia um silêncio de morte na taba. O índio ergueu o tacape, reboleou-o no ar. Fechei os olhos. E de repente ouvi uma voz que falava de longe. Era uma voz diferente, tão clara, tão macia e tão fresca que parecia ter saído da própria lua. Abri os olhos sem querer. O homem que ia me matar deixou cair o tacape. Todas as cabeças se voltaram para o lado donde tinha partido a voz.

       Da escuridão surgiu um vulto. Não era índio. Não era, nas roupagens, nem parecido com os marinheiros portugueses que eu vira havia muitos anos. Era um homem branco, rodo vestido de preto. Pareceu-me tão fraco que nem teria força para erguer um tacape. Havia, porém, no rosto dele qualquer coisa que logo me conquistou. Um rosto amigo e ao mesmo tempo severo. Senti perto dele aquela mesma impressão esquisita que produzira em mim a grande cruz dos portugueses.

       0 homem misterioso avançou pelo meio dos índios e parou na frente do morubixaba. Disse-lhe baixinho algumas palavras.

       Vi o chefe da tribo baixar a cabeça e depois dobrar os joelhos e fazê-los cair por terra, aos pés do desconhecido.

      Deve ser Tupã que desceu à Terra para me salvar— pensei. Senti que me faltavam as forças. Desmaiei.

      

                   MEU AMIGO ANCHIETA

QUANDO RECUPEREI OS sentidos encontrei-me num lugar desconhecido. Estava eu estirado numa rede, junto da qual vi o homem misterioso, que me contemplava com ar amigo. Sorri para ele. Fazia anos que eu não sorria para ninguém, porque eu achava que o guerreiro que sorri, abre no sorriso uma porta por onde pode entrar a piedade e a fraqueza.

       Fiquei muito admirado quando o desconhecido falou minha língua.

       — Como é teu nome? — perguntou ele.

       — Tibicuera.

       Começou então para mim uma vida nova. 0 homem misterioso era o padre jesuíta José de Anchieta. Tinha vindo ao Brasil com o segundo governador-geral, Duarte da Costa. Estávamos em 1554, na aldeia de Piratininga.

       Não me lembro de ter dedicado a alguém amizade igual à que dediquei àquele homem. Segui-o por toda parte como um cão fiel. Sempre me achei disposto a sacrificar minha vida por amor dele. E ainda hoje me lembro com saudade daquele homem encurvado, fraco, feio e de grandes olhos brilhantes.

       Morava Anchieta com outros padres numa pobre casinha de barro e paus, coberta de palha. Era ali que os jesuítas recebiam os índios e procuravam ensinar-lhes coisas úteis e belas. Essa casa tinha uma única sala duns quatorze passos de comprimento por dez de largura. Servia ao mesmo tempo de escola, enfermaria, dormitório, cozinha, despensa e refeitório. Chegavam até ela índios de todas as tribos. Entravam desconfiados, ariscos, olhando para os lados. Anchieta os recebia como um pai. E falava-lhes em Deus. No Deus Único, que fez o Mundo e que o governa.

       Como havia índios de cabeça dura! Por mais que o santo padre falasse, por mais que gesticulasse, desse exemplos e riscasse figuras explicativas na areia — os indígenas não percebiam nada. Mas Anchieta não perdia a paciência.

       Se aparecia algum índio doente, ele lhe dava remédio e conforto. Se surgiam entre os selvagens brigas, questões, disputas, Anchieta resolvia tudo como o melhor e mais justo dos juizes.

       Anteontem, assistindo a uma ópera no Municipal, lembrei-me que a primeira representação que vi na minha vida me foi proporcionada no colégio de Piratininga pelo meu grande e saudoso amigo Anchieta.

       Como os selvagens não se interessavam pela religião e mesmo lhes era custoso compreendê-la, Anchieta organizava espetáculos no colégio. As peças que ele escrevia para os índios representarem chamavam-se autos. Lembro-me bem de um auto em que tomei parte. Chamava-se “O Mistério do Natal”. Um dia Anchieta reuniu os índios mais inteligentes, ensinou-lhes seus papéis e deu começo aos ensaios. Aparecia no auto a Virgem Maria, São José, o Menino Jesus. Como não havia mulheres na missão, era um índio que fazia o papel de Virgem Maria. Fiquei muito aborrecido por não ter sido escolhido para tomar parte na representação. Anchieta me botou a mão no ombro e disse:

       — Paciência, meu filho. Tomarás parte de outra vez. Os papéis já estão todos distribuídos.

       Fiquei melancólico. Fiz ainda uma tentativa:

       — Padre, se eu fizesse o papel de burrinho?

       Anchieta sorriu. E no dia da festa eu fui o burrinho que estava no estábulo onde nasceu o Salvador do mundo.

     E assim muitos índios compreenderam a doce história do Natal. E Anchieta encontrou facilidade para convertê-los depois.

       Quando chegava a Piratininga a notícia de que alguma tribo atacara um aldeamento de brancos, Anchieta ficava triste, abatido e passava horas e horas a rezar

      

                   O DEUS ÚNICO

ANCHIETA ME CONTOU as maravilhas do mundo. Com desenhos riscados na areia e palavras simples ele me explicou o que era uma ilha, um continente, um cabo. Fiquei também sabendo que do outro lado do grande mar existiam outras terras, outras nações com povos de pele, cara e costumes diferentes dos das nossas tribos.

       Uma noite, olhando pata o céu, Anchieta murmurou.

       — Mundos, Tibicuera, mundos...

       E apontou para as estrelas. Fiquei olhando para o céu, de boca aberta. E eu, que pensava que uma estrela cabia na palma de minha mão, relutei muito em acreditar que cada estrela fosse um mundo.

       Anchieta tornou a falar:

       — Deus, Deus é ainda muito maior que as estrelas que ele fez com suas mãos mágicas.

       — Deus... — murmurei.

       E a pergunta que eu trazia presa no peito conseguiu derrubar o muro da minha timidez e saltou:

       — Padre, o teu Deus é mais forte que Anhangá?

       Anchieta sorriu.

       — Muito mais.

       — Mais forte que Curupira?

       — Anhangá e Curupira não existem, meu filho. E Deus está em toda a parte.

       Dei um pulo e fiquei de pé.

       — Mas eu vi, Padre, eu vi Curupira e Anhangá! Foi no mato. Ninguém pode com eles.

      Anchieta bateu no meu ombro e explicou:

       — Tu viste os espíritos do mato porque estavas cego. Cego é aquele que não conhece o Deus verdadeiro.

       Eu sacudia a cabeça, teimoso como uma mula. Tinha visto os espíritos do mal que moravam na mata. Tinha, tinha e tinha.

       — Só existe um Deus, senhor do Céu e da Terra. Os que crêem nele não podem temer os gênios do mal.

       Retruquei:

       — As armas dos guerreiros não conseguem ferir os espíritos maus. Pajé me disse que ninguém pode com eles.

       Anchieta me mostrou a cruz preta que trazia presa ao pescoço por um cordel de couro.

       — Com esta arma vencerás os espíritos da floresta.

       E me deu a cruz. Naquele mesmo dia entrei no mato. O medo tinha desaparecido de meu corpo. Eu trazia, apertada nos dedos, a cruz que o padre me dera. Gritava:

       — Anhangá! Curupira!

       0 eco respondia longe. Mas depois caía o silêncio. A noite me surpreendeu no mato. E dentro da noite eu gritei ainda pelos espíritos maus. Silêncio.

       “Os gênios do mato morreram” — pensei. E voltei para o colégio.

      

                   CORSÁRIOS FRANCESES

NOS MESES que se seguiram, aprendi a amar e respeitar o Deus Único. Estudei gramática, catecismo e rudimentos de música.

       Fui batizado. Anchieta me quis dar um nome cristão. João, Tomé ou Pedro. Supliquei-lhe que me conservasse o nome antigo. Eu me lembrava das palavras do pajé: “e o neto do neto de Tibicuera ainda será Tibicuera”.

       Passei dias felizes no colégio de Piratininga. Duma feita salvei a vida de Anchieta, livrando-o da frechada de um índio vingativo.

       Um dia nos chegaram notícias desagradáveis. Os índios se revoltavam nas capitanias de Espírito Santo, Pernambuco e Bahia. Os tamoios se reuniam numa confederação muito forte, aliavam-se aos franceses e, juntos, pretendiam expulsar os portugueses do Brasil.

       Anchieta escreveu na areia o nome do comandante da expedição francesa: Nicolau Durand de Villegaignon. Fiquei olhando por longo tempo estas palavras. Depois apaguei-as com o pé, raivoso. Pouco me importava que o Brasil ficasse com os portugueses ou com os franceses. Mas acontecia que meu amigo José de Anchieta era de corpo e alma devotado aos portugueses. As dores dele eram as minhas dores. Eu estava, portanto, contra os corsários franceses!

       A situação piorava. Os aliados — tamoios e franceses — ficavam cada vez mais fortes.

       Um dia Anchieta nos trouxe a notícia da chegada do novo Governador-Geral, Mem de Sá. O chefe branco entrou com o pé direito. Procurou corrigir os erros do governo anterior, mandou construir aldeias, proteger os índios e auxiliar os padres na catequese. E bem como hoje se vê na tela dum cinema, nos intervalos, este letreiro: É proibido fumar no salão, Mem de Sá espalhou proclamas proibindo a guerra entre as tribos e a antropofagia. Ora, proibir a guerra e a antropofagia para a maioria dos índios era o mesmo que hoje proibir o basebol aos americanos do norte, as touradas aos espanhóis ou o futebol aos americanos do sul...

       Eu já andava cansado da vida quieta do colégio. Não morrera o guerreiro que existia dentro do meu peito... Eu fazia a mim mesmo perguntas que ficavam sem resposta: “Por que será que o Governador não ataca os franceses?”

       Achei que não podia ficar o resto de minha vida agarrado à batina de Anchieta, como um filho mimoso. Um dia me despedi dele com tristeza, dizendo-lhe que ia correr mundo.

       — Vai — disse-me o padre. — Agora Tibicuera é cristão, conhece o Deus verdadeiro. Nada de mal lhe poderá acontecer.

       Fui.

       Caminhei pela beira do mar. Já não ia mais seminu como os selvagens. Levava roupas iguais às dos colonos portugueses. Trazia por baixo da camisa a cruz preta que Anchieta me dera.

      

                   PASSAGEIRO CLANDESTINO

                   CHEGUEI À BAHIA.

       Vi navios ancorados no porto. Pelas conversas que ouvi nas ruas compreendi que se tratava de uma armada mandada de Portugal para combater 0s franceses.

       Andei a caminhar sem rumo pelas ruas de Salvador. À tardinha ia olhai o mar. Via as naus num balanço suave sobre as águas. Gaivotas voavam ao redor dos mastros e depois partiam na direção do mar alto. Senti uma saudade estranha nem eu mesmo sabia de quê. Dormi aquela noite na areia da praia. Antes de fechar os olhos fiquei olhando as estrelas. Elas me pareceram caravelas da grande armada de Deus e o céu um mar azul sem ondas. Sonhei que Anchieta estava prisioneiro dos franceses, que o iam matar. Acordei sobressaltado. Vi que havia a bordo dos navios muita agitação. Levavam para as porões barricas d’água, caixas com mantimentos. Marinheiros corriam dum lado para outro. Limpavam-se os canhões.

       Naquela manhã aprendi muita coisa. O comandante da armada se chamava Bartolomeu Vasconcelos da Cunha. Ia descer para o Sul com seus navios, com o fim de combater e expulsai os franceses do Rio de Janeiro.

       Passei o dia desinquieto. Precisava ir com eles. Procurei um oficial. Supliquei-lhe que me levasse. Respondeu que a tripulação estava completa. Além do mais, eu era um índio que não conhecia o serviço de bordo.

       Anoiteceu. O luar prateava as águas, acariciava os navios adormecidos. Eu tinha na cabeça um plano muito confuso... Tirei a roupa. Fiquei de tanga, como nos meus tempos de guerreiro tupinambá. Joguei-me n’água e nadei sem ruído na direção dos navios. Aproximei-me do primeiro casco, subi por um grosso cabo que pendia da popa. O trabalho foi fácil. Eu era musculoso. Estava habituado a me içar pelos cipós que pendem de certas árvores do mato. Consegui saltar para a coberta do navio sem ser visto. Escondi-me atrás de duas barricas que se achavam junto do castelo de proa. Ali fiquei muito quieto. A noite passou. Clareou um novo dia. Ouvi berrarem ordens. Içaram-se as velas. Os navios começaram a se mover. Dentro de algumas horas estávamos longe da Bahia.

 

                   UMA AVENTURA VERTIGINOSA

O SOL BRILHAVA forte e eu já estava cansado da minha posição. Resolvi sair do esconderijo. Preguei sem querer um grande susto no primeiro marinheiro que me apareceu pela frente.

       — Cruzes! — gritou ele, levando a mão à espada.

       Fiz um gesto de paz e disse:

       — Amigo!

       Levaram-me à presença do capitão. Disse-lhe meu nome. Falei em Anchieta e no desejo que eu tinha de combater os franceses. Afirmei-lhe que era valente e hábil na guerra. Quiseram experimentar-me.

       — Vamos ver se és ágil e forte. Sobe até o topo daquele mastro.

       Não hesitei. De um salto agarrei-me à primeira corda que vi. Subi por ele até a primeira verga. Depois abracei o mastro grande e, em poucos minutos, estava no cesto da gávea, pregando outro susto no vigia, que quase me jogou para baixo, julgando ver em mim um fantasma de pele bronzeada.

       — Muito bem! — disse o capitão quando pisei de novo as tábuas do convés.

       Deram-me pequenos serviços a fazer. Passaram-se alguns dias. A expedição parou em diversos portos para receber reforços. Dois meses depois de nossa saída da Bahia avistamos o inimigo.

       À tarde começamos o ataque. Nem posso descrever o que foi aquele combate. Só me lembro é de que o vermelhão do crepúsculo se confundia com o vermelhão dos fortes franceses incendiados, com o fulgor das explosões e com o relampejar dos canhões e arcabuzes. No princípio julguei que íamos ser vencidos. Mas depois sentimos o inimigo enfraquecer. Só ficou um forte a resistir, duro, vomitando fogo contra nós.

       No meio do barulho infernal da luta, berrei ao ouvido do comandante o meu plano. Ele o achou maluco mas me ordenou a pô-lo em prática. Fiz descerem ao mar um bote pequeno. Joguei para dentro dele duas barricas de pólvora. Comecei a remar com fúria rumo da fortificação que ainda resistia. Por cima de minha cabeça zumbiam projéteis. As pobres estrelas da noitinha estavam sem brilho, como num desmaio. A água do mar dava a impressão de chumbo derretido. E eu remava, remava... O suor escorria pelo meu corpo. Consegui aproximar-me do forte sem ser visto. A proa do meu barco tocou a paliçada. Lá dentro ardia uma fogueira. Calculei a posição dela e arremessei uma barrica. Um estrondo. Joguei a segunda. Nova explosão. Os inimigos gritavam e corriam. Era o pânico. Era a derrota.

       Só sei que horas depois, com o corpo todo chamuscado, esfolado e dolorido, eu estava deitado na praia.

 

                   ESTRELAS E DIAMANTES

NÃO VOLTEI mais para bordo. O tempo curou minhas feridas, apagou meu cansaço. O mar me deu alimento. Os rios, água fresca e boa. Andei à toa. Atravessei os matos sem medo dos espíritos maus, porque agora eu era cristão e a cruz de Anchieta ia comigo.

       Cheguei ao porto de Santos. Contava-se que Mem de Sá mandara Brás Cubas com um grupo de homens explorar o sertão em busca de ouro e pedras preciosas. Eu achei aquilo muito engraçado. De que valia o ouro? De que valiam as pedras preciosas? O que havia de gostoso era a aventura. Consegui um lugar na expedição. Achamos ouro. Descobrimos belas pedras. E uma noite, quando o acampamento dormia, olhei para o céu e disse para mim mesmo: Não há pedras mais bonitas que as estrelas com que Deus enfeita as suas noites. Essas, Brás Cubas não pega.

      

                   TORNO A ENCONTRAR ANCHIETA

UMA DAS MAIORES alegrias que senti depois que deixei o bando de Brás Cubas foi no meu segundo encontro com Anchieta. A coisa se passou assim. Os índios tamoios estavam, como eu já disse, reunidos numa confederação muito forte que atacou a Vila de São Paulo, onde se achavam os jesuítas e alguns índios fiéis comandados por Tibiriçá. O primeiro ataque foi repelido. Os tamoios se retiraram a fim de juntar mais gente para uma segunda investida. São Paulo não poderia resistir ao segundo golpe. Então os Padres Anchieta e Nóbrega foram corajosamente procurar o Cacique Coaquira, chefe tamoio, no aldeamento de Iperoig. Ora, eu sempre me julgara corajoso porque enfrentara inimigos armados de tacape, arco e frecha. Mas passei a me considerar miserável quando vi (sim, porque eu vi) aqueles dois homens irem sorrindo e de mãos vazias ao encontro dos ferozes tamoios. Acompanhei-os até Iperoig, segui-os de longe como um cachorrinho que não está certo da aprovação do dono.

       Graças a Anchieta e a Nóbrega negociou-se a paz

       Nunca mais esqueci aquele dia em Iperoig. Anchieta estava à beira do mar, escrevendo na areia branca um poema à Virgem. Fiquei parado, olhando. O vulto negro do padre se recortava contra o céu sem nuvens. O mar gemia. As ondas vinham lamber os pés do apóstolo. E com a ponta duma vara ele riscava as palavras do poema...

       Foi então que Anchieta me explicou o que era poesia, o que vinha a ser uma sextilha, um soneto. Tive desejos ferozes de ser poeta. E nos dias que se seguiram andei riscando na areia coisas absurdas, poemas sem sentido em que o Tupi se misturava com o Português.

       Depois da paz de Iperoig tomei parte num grande combate. Os franceses se haviam estabelecido de novo na baía do Rio de Janeiro. (É curioso. A atração dos estrangeiros pela Baía da Guanabara continua forte até hoje. Felizmente eles nos chegam na qualidade de turistas e não de piratas...) O Governador Mem de Sá veio em pessoa combater os invasores.

       Foi uma batalha muito linda. Imaginem vocês as águas desta baía coalhadas de igaras! E uma chuva de frechas escurecendo o ar. E os gritos. O fogo dos arcabuzes e dos canhões. Para mim aquilo tudo teve o gosto de uma festa. Recebi um ferimento no ombro. Mas continuei a lutar.

       Os franceses foram expulsos pela segunda vez. Estácio de Sá, irmão do governador, tinha fundado em 1565, junto ao Pão de Açúcar, uma cidade a que deu o nome de São Sebastião do Rio de Janeiro, em honra a seu patrono, El-Rei de Portugal. (Vocês, que têm o hábito de simplificar tudo, lhe chamam hoje apenas Rio.) Pobre Estácio de Sá! Recebeu em combate uma frechada no rosto. Foi bem triste sua morte. Eu me lembro... O dia estava claro. Fiquei comovido. Não sei bem por que, pois mal conhecia o homem.

       Neste instante de 1942 em que escrevo estas palavras, não resisto à tentação de ir à janela de meu apartamento para olhar o mar. À sombra de grandes guarda-sóis de gomos coloridos vejo banhistas deitados na areia da praia. Poucos deles se lembrarão agora de que devem a sua magnífica cidade a Estácio de Sá. A vida é assim mesmo.

       Depois, nem todos podem ter a minha memória...

      

                   NÉVOA, CORSÁRIOS E GOVERNADORES

AGORA VEM um período meio nevoento de minha vida. Não me lembro do que fiz, do que pensei, do que senti.

     A História me conta que após a expulsão dos franceses o governo de Lisboa resolveu dividir o Brasil em dois governos, — o do Norte e o do Sul. Na política européia, sempre perigosa e agitada, desde aqueles remotos tempos, aconteceram coisas muito importantes. D. Sebastião, rei de Portugal, morreu misteriosamente em 1578 na Batalha de Alcácer-Quebir. (No entanto dizem que até hoje existem velhas damas em Portugal que alimentam a esperança de verem de volta à pátria o galante soberano.) O reino passou a ser governado pelo Cardeal D. Henrique, um cidadão de idade avançada.

  1. Filipe II, rei de Espanha, sem a menor cerimônia anexou Portugal à sua Coroa. E como o Brasil pertencesse a Portugal, passou em conseqüência a ser domínio espanhol.

       Ora, a Espanha tinha inimigos. Entre estes se achava a Inglaterra. Os ingleses sempre foram temíveis no mar. Os seus corsários eram famosos. Um certo Edwards Fenton em 1583 atacou Santos. Ia já cantar vitória quando apareceu uma esquadra composta de navios portugueses e espanhóis. Os ingleses “abriram o pano” — expressão que na gíria significa fugir e que bem se ajusta à ocasião, pois se tratava de navios a vela.

       Mas a moda pegou. Vieram outros corsários ingleses. Robert Withrington, que atacou a Bahia, aprisionando os navios que se encontravam no porto. Depois: Thomas Cavendish, seguido, com o intervalo de poucos anos, de James Lancaster. Saquearam eles São Vicente, Santos e Recife; levaram muita coisa, de sorte que, no fim de contas, puderam dizer que tinham feito “a good business” — um bom negócio.

       Eu nem conto a vocês o nome dos governadores do Brasil naqueles anos entre 1591 e 1613. Foram tantos e fizeram tão pouco.. . Fizeram pouco — devo esclarecer — porque estavam cercados de perigos, sujeitos aos ataques dos índios e dos piratas estrangeiros. Faltavam-lhes vias de comunicação. O território era grande demais. O diabo quisesse governar o Brasil!

       Em 1612 os franceses desembarcaram no Maranhão, fundando a povoação de São Luís. Não sei como eu me achava por essa época entre os homens de Jerônimo Albuquerque, que estava encarregado de expulsar os invasores. Já então eu falava corretamente o português, tendo também outra idéia do mundo e da vida. Sabia manejar um arcabuz e disparar um canhão. Habituara-me por completo ao uso de roupas européias. E aos poucos esquecia os meus costumes de selvagem.

       Em 1615, depois de tremendos combates, conseguimos expulsar os invasores.

      

                   OLHEM A HOLANDA

EXAMINEM UM MAPA dessa pobre Europa desgraçada pela guerra. Estão vendo aquele pequeno país apertado entre a Bélgica, a Alemanha e o Mar do Norte? É a Holanda. Tem apenas 33 000 quilômetros quadrados. É menor que o nosso Estado de Sergipe. Tem pouco mais de oito milhões de habitantes. Era um exemplo de paz e trabalho, o que não impediu que os exércitos de Hitler a invadissem, bombardeando-lhe implacavelmente as cidades e aldeias. Em pouco tempo a bela terra dos moinhos e das tulipas foi dominada pelo invasor. No mundo moderno a Holanda não é o que se chama uma Grande Potência.. .

       Entretanto, no século XVII a situação da Holanda era diferente. Os holandeses eram um povo de marinheiros, de descobridores, de conquistadores, de colonizadores. (A maior conquista que fizeram até hoje foi a da própria terra, que eles arrebataram corajosamente ao mar. Não esqueçam de que a Holanda é um país que fica abaixo do nível do mar.) Com apenas um milhão e quinhentos mi! habitantes, era a Neerlândia uma potência naval de primeira ordem. Vivia em guerra com as outras grandes nações da Europa daquele tempo: Espanha, França e Inglaterra.

       Na Europa contavam-se maravilhas do Brasil. Era uma terra prodigiosamente rica: dava pedras e madeiras preciosas, dava ouro, dava prata, dava tudo. Ora, os holandeses, que já tinham fundado a Companhia das Índias Orientais, para explorar a Índia, resolveram promover o Brasil à categoria de Índia e criaram a Companhia das Índias Ocidentais.

       A Holanda não se achava em guerra com a Espanha? O Brasil não pertencia agora à Coroa espanhola? Aí estava uma boa desculpa...

      

                   A PRIMEIRA INVASÃO HOLANDESA

ESTÁVAMOS NO ANO DE 1624. Eu me encontrava na Bahia, já cansado de alguns anos de vida sem aventuras. De repente ouvi uma gritaria que vinha dos lados da praia. Corri para lá e me aproximei dum grupo que falava alto e apontava para a entrada da enseada. Uns vinte-e-seis navios viajavam na direção do porto. Traziam bandeiras desconhecidas nos mastros. Era um espetáculo maravilhoso o daquelas velas branquejando entre o mar verde e o céu azul. Amigos ou inimigos? — era a pergunta que todos faziam.

       Em breve ficamos sabendo de tudo. Tratava-se duma armada holandesa — uma frota de 26 naus — com 3000 homens e mais de quinhentas bocas-de-fogo.

       O governador da Bahia preparou-se para defender a cidade. Os holandeses deram um tiro de salva. Mandaram emissários com uma bandeira de paz. Mas os defensores da cidade responderam à salva com um tiro de verdade. Começou a batalha. Eu dava pulos, não sabendo que fazer. Estava desarmado. Não conhecia ninguém. Não tive outro remédio senão ficar olhando da praia, bem como um “torcedor” olha uma partida de “ping-pong”, voltando a cabeça dum lado para outro, olhando os tiros dos navios para a cidade e da cidade para os navios.

       Para resumir: os holandeses venceram, tomaram conta de Salvador. E ainda não tinham morrido os ecos de suas trombetas e de seus gritos de vitória, quando surgiu uma expedição luso-espanhola comandada por D. Fradique de Toledo Osório e acabou a festa dos invasores. Houve luta feroz. Os holandeses foram derrotados e D. Fradique e sua gente entraram festivamente na cidade.

       Eu estava revoltado. Fora obrigado a assistir às lutas, por assim dizer, de camarote. Isso era contra o meu temperamento. Oh! Mas eu mal sabia que os holandeses ainda nos iam dar trabalho. . .

       Se eu quisesse contar com minúcias o que foram as nossas guerras contra as duas invasões das gentes de Holanda, teria de escrever quinhentas páginas e ainda ficaria muita coisa por contar.

      

                   A SEGUNDA INVASÃO

O BRASIL ERA UMA TENTAÇÃO. A Holanda preparou durante o ano de 1629 uma grande frota de 50 navios com o fim de empreender a conquista definitiva do Brasil. (É bom notar que essa grande frota hoje poderia ser içada inteirinha para bordo do transatlântico “Normandie”, sem perturbar em absoluto a vida dos passageiros ou o trabalho da tripulação...)

       Dessa vez o alvo dos conquistadores foi Recife, cuja defesa era comandada por Matias de Albuquerque. Em breve chegaram a meus ouvidos os ruídos da batalha. Os patriotas resistiram, mas cinqüenta navios, 1100 canhões e 8000 homens treinados na arte da guerra não são brincadeira de criança. Recife e Olinda foram tomados em fevereiro de 1630 e Matias de Albuquerque, com os homens que lhe restavam, fundou uma praça de guerra — o Arraial do Bom Jesus — entre os Rios Beberibe e Capibaribe.

       Ora, por esse tempo eu tinha algumas economias. Comprei um burro, montei nele e fui para o Recife. A viagem foi dura O burro morreu no caminho, vítima de uma onça. Mas a onça também ficou estendida na estrada, porque Tibicuera não tinha esquecido suas artimanhas de caçador.

       Mais morto que vivo cheguei ao Arraial do Bom Jesus e me apresentei a Matias de Albuquerque. Ganhei um facão, um arcabuz e uma espada.

      

                   GUERRA DE EMBOSCADAS

QUE PODIA FAZER um grupo de homens mal-armados contra oito mi! soldados profissionais? A única esperança nossa estava na guerra de emboscadas.

       Uma noite fui escolhido para comandar um grupo que saiu na direção do Recife. A escuridão era grande, pois no céu não havia lua e as estrelas estavam quase apagadas. Caminhavam em silêncio, às vezes nos arrastando como lagartos. À margem do Beberibe encontramos uma patrulha holandesa. Seriam uns vinte soldados. Vinham cantando e falando alto. Como achei estranha e pitoresca a língua deles! Ficamos acocorados atrás de arbustos, esperando. Quando os inimigos se aproximaram, soltei um berro: “Agora!” Nossos homens se precipitaram. Foi uma luta corpo a corpo. Procurávamos evitar que os inimigos gritassem por socorro. O mais terrível de tudo era o silêncio. Um dos holandeses deitou a correr na direção da cidade. Agarrei-me às pernas dele. derrubei-o e caí-lhe em cima, dominando-o. Quinze minutos depois, cansados, empoeirados, feridos, voltamos para o arraial. Levávamos arcabuzes, espadas, elmos, couraças e munições frescas.

       E assim era a nossa guerra. Os holandeses um dia nos atacaram. Mas Matias de Albuquerque era astuto. Ideou e pôs em prática um plano tão hábil, que, com sua pouca gente posta de tocaia em diversos pontos, conseguiu envolver e vencer os invasores.

       A minha maior proeza na guerra contra os holandeses foi a que vou contar agora. Uma noite tive uma idéia maluca Resolvi prender fogo na frota que estava fundeada diante da cidade de Recife.

      

                   TIBICUERA INCENDIÁRIO

SALTEI PARA CIMA duma jangada e me pus a remar na direção das naus. O mar estava calmo. A noite, escura. Aproximei-me de um navio sem ser visto. Minha cara devia estar horrenda à luz daquela tocha que ardia na minha mão. Joguei a tocha sobre as velas e o cordame de uma das naus. Quando a embarcação holandesa prendeu fogo, não pude deixar de soltar um berro de alegria. E como ardeu ligeiro o belo barco! O clarão se ergueu, iluminando o mar. Correu gente para a praia. O pavor tomou conta da alma dos marinheiros que guardavam os navios. Foi uma gritaria infernal. Lancei-me n’água calmamente e nadei sem ruído na direção do Capibaribe. Só de madrugada é que voltei ao arraial. Matias de Albuquerque me apertou a mão. Fui dormir contente e sonhei com Anchieta.

       Tudo ia muito bem para as nossas armas quando um tal Domingos Fernandes Calabar, que era dos nossos, passou para o lado dos holandeses e guiou-os em vários ataques com sucesso. Conhecia a nossa tática. Conhecia o terreno. Era astuto. Foi a nossa desgraça. Levamos sustos tremendos. E dentro de algum tempo todos os outros redutos de defensores de Pernambuco estavam vencidos. Só restava o nosso arraial. Fomos cercados. Aos poucos se tornaram escassos os mantimentos e as munições. Tivemos de nos entregar. E sabem quanto tempo se sustentou o Arraial de Bom Jesus nas suas guerrilhas? Não foram cinco dias nem cinco semanas ou cinco meses, mas sim cinco anos!

       Tínhamos resolvido não cair vivos nas mãos dos inimigos. Matias de Albuquerque e um punhado de homens, entre os quais eu me achava, fizeram uma notável retirada. Não devo esquecer o nome do valente índio Caramuru, companheiro de todas as horas, e de Henrique Dias, que comandavam um grupo de pretos, gente boa também.

       Nem queiram saber os trabalhos que passamos nessa retirada...

       Chegamos quase exaustos a um lugar chamado Porto Calvo, que antes fora dos nossos e agora estava ocupado por uma guarnição holandesa. Quando percebemos que Calabar se encontrava entre os soldados inimigos, o cansaço desapareceu do nosso corpo e só tivemos um desejo: tomar a praça e castigar o traidor. Caímos de surpresa no arraial e tomamos conta dele, depois duma luta rápida e feroz. Matias de Albuquerque mandou enforcar Calabar. Por mais estranho que pareça, cheguei a suplicar que não o matassem. Não sei por que... Eu tinha a impressão de que era meu amigo Anchieta que falava por minha boca. Mas tudo foi inútil. Lá ficou pendurado num galho de árvore o corpo sem vida de Domingos Fernandes Calabar.

       Certa noite uma tempestade nos apanhou no mato. Quando serenaram os relâmpagos e os trovões e a lua tornou a brilhar, vi que estava perdido, longe de minha gente.

      

                   MAURÍCIO DE NASSAU

SEGUI SOZINHO... Quanto tempo andei a caminhar às tontas?

       Por aquela época muita coisa aconteceu. A Companhia das Índias Ocidentais mandou para o Brasil o Conde Maurício de Nassau para governar a colônia e garantir a sua posse para a Holanda.                                                            

       Em 1637 chegou ele a Pernambuco. Era um homem inteligente e justiceiro. Enxergava claro e longe. Ele mesmo fazia os traçados das ruas, cuidava da arquitetura da cidade. Recife fez progressos espantosos.

       Um dia lá cheguei e abri a boca de espanto.     Não era a mesma Recife de poucos anos atrás. O que mais me seduziu nela foi o palácio de Nassau. Consegui um lugar nas cavalariças do conde. Aprendi meia dúzia de palavras holandesas. Nunca hei de me esquecer do tempo que passei à sombra daquele grande homem. Porque foi ele quem primeiro me despertou a paixão pelos livros. Nos tempos do colégio de Piratininga, os poucos livros que lá existiam me eram quase indiferentes. Eu amava era Anchieta. A tudo mais que não fosse aquele homem extraordinário eu era cego e surdo.

     O dia mais feliz dos que passei no palácio de Nassau foi o em que me foi dado abrir um dos ricos livros da biblioteca do conde.   Era uma linda Bíblia com iluminuras.

       Uma vez vi o conde contemplando um globo-terrestre. Comecei a ter desejos de conhecer a Europa, de mudar de vida e ser finalmente um cidadão de boas maneiras.

       Nada disso, porém, me impediu de ficar contente ao saber que uma armada portuguesa se aproximava do Recife. Essa armada, entretanto, foi derrotada.

       Uma tarde chegou às cavalariças do palácio esta notícia importante: Portugal se libertara do domínio da Espanha. Houve festas em Recife. O povo pensava que a invasão holandesa tinha sido motivada apenas pela inimizade entre Holanda e Espanha. Puro engano. Nassau não quis abandonar o Brasil.

      

                     EXPULSAMOS OS INVASORES

NAS CAPITANIAS OS patriotas se reuniam, se armavam e dentro de pouco tempo a guerra se acendeu de novo.

       Comecei a ficar inquieto. Esqueci os livros. Esqueci Nassau. Esqueci tudo. Fugi. Procurei os revolucionários.

       Servi sob as ordens de André Vidal de Negreiros, um dos chefes dos patriotas.

       Contar os altos e baixos dessa campanha é correr o risco de fazer vocês bocejarem. Uma batalha dificilmente é diferente de outra batalha.

       Foi nos Montes Guararapes que vencemos os holandeses duas vezes. Foi uma espécie de “melhor das três”, como essas que estamos habituados a ver hoje nos campeonatos de futebol. Os patriotas ficaram campeões. Em 1654 findou o domínio holandês no Brasil.

       Ficaram na História os nomes de muitos valentes: André Vidal de Negreiros; Matias de Albuquerque; João Fernandes Vieira; o índio Felipe Camarão; Henrique Dias. E vocês já pensaram nos guerreiros esquecidos? Bom. Não vou propor um monumento ao herói desconhecido da História do Brasil. Nem estou dando a entender que meu nome deva ser colocado em destaque nos livros escolares que narram as prodigiosas aventuras deste nosso prodigioso Brasil.

      

                   AS BANDEIRAS

TIBICUERA CONTINUAVA. O pajé tinha razão. O espírito pode vencer o tempo e a morte. O Brasil ia para diante. E eu, junto. Viam-se por todos os lados sinais de progresso. Cidades florescendo. Engenhos. Algumas estradas. E essa coisa muito importante que é a consciência nacional. Quero dizer: o Brasil já começava a se sentir como uma nação unida, composta de homens que no momento necessário se reuniam para combater pelo bem comum.

       De 1531 a 1772 as bandeiras exploraram as regiões desconhecidas do Brasil. Quando falo em bandeira não me refiro a esse pano colorido que é um símbolo, mas sim às expedições que saíam a desbravar os sertões. Porque havia em nossa pátria zonas vastíssimas e desconhecidas. Sem dúvida alguma existiam imensos tesouros escondidos. Formavam-se então muitas bandeiras, chefiadas por homens corajosos e audazes. Muitos iam apenas com o olho no lucro. Procuravam ouro e pedras preciosas. Caçavam índios — negócio tristemente lucrativo. Mas havia outros que eram levados pelo amor à aventura e pelo desejo de fazer alguma coisa pelo país. Mas não resta dúvida de que todos revelaram uma coragem assombrosa e prestaram serviços enormes à pátria, alargando-a, povoando-a, redescobrindo-a.

       Tomei parte na célebre bandeira de Fernão Dias Pais. Foram aventuras tremendas que não conto aqui para não encompridar a minha história. Tive notícia de outros bandeirantes famosos: Bartolomeu Bueno da Silva; Antônio Raposo Tavares — que teve o mau gosto de atacar as missões de Guaíra, só porque estas asilavam os pobres índios que não queriam ser escravos dos bandeirantes; Antônio Pires de Campos e outros que não cito porque no fim de contas a História não se faz só com nomes próprios. ..

       Nunca me senti muito atraído pelas pedras preciosas nem pelo ouro. O que me arrastava era o espírito de aventura. Um dia presenciei uma cena comovente. Vi um homem morrer picado por uma cobra venenosa. Nossos socorros chegaram tarde. E o coitado estava estendido no chão, olhando com olhos arregalados para o saco cheio de esmeraldas que tinham a seu lado. De que lhe serviam aquelas pedras? Não o podiam salvar...

       Quando voltei para a cidade de Recife contaram-me que havia explodido uma revolta no Maranhão. O povo estava desgostoso com o governo. Prendeu o capitão-mor e tomou conta da cidade. Manuel Beckmann era o cabeça da insurreição. Houve festas. Mas a alegria de pobre não dura muito. Gomes Freire de Andrade veio de Portugal para acabar com a brincadeira. Beckmann fugiu. Um afilhado o atraiçoou e o revolucionário foi enforcado. Disse alguma coisa antes de morrer. E essa alguma coisa faz que a gente hoje considere Manuel Beckmann como um dos primeiros homens que sonharam com a independência do Brasil.

       Mas não quero insistir nesses detalhes porque tenho a contar a vocês uma aventura impressionante.

      

                   VI UM PRETO REFESTELADO...

ONTEM VI UM PRETO refestelado dentro dum automóvel. Estava bem vestido e fumava charuto. Contaram-me que é formado em Medicina.

       Fiquei fazendo reflexão otimista. Enfim neste bom Brasil velho não há ódios de raça e é possível a um homem de cor conseguir posição na sociedade e na política. Os negros afinal de contas são criaturas humanas como os brancos, os amarelos e os vermelhos. E eu até acho que se qualquer um de nós fosse morar na África, permanecendo todo o dia exposto àquele sol, sem qualquer defesa, no fim de alguns anos ficaria pretinho da silva.

       Esta conversa vem a propósito da escravatura que por tantos anos existiu no Brasil e em outros países. E a escravatura se relaciona com a grande aventura que há pouco prometi narrar.

       Logo que tomaram conta do Brasil, os portugueses verificaram que não podiam contar com o índio para os trabalhos da lavoura. O indígena era andejo, não se sujeitava a ficar de sol a sol lavrando a terra. (Eu tenho sangue de índio nas veias, gosto do sol, do ar livre e das viagens; sinto-me mal dentro de quatro paredes.) Mas, como eu dizia, o índio não se sujeitava ao trabalho da lavoura. Era preciso resolver o problema. Então os portugueses pensaram em trazer negros da África e vendê-los no Brasil como escravos, experimentando-os como lavradores.

       Entre as próprias tribos africanas se cultivava a escravatura. Os traficantes portugueses compravam escravos em África ou simplesmente os caçavam vivos sem pagar nada a ninguém. Os principais viveiros desse gado humano eram Moçambique, Angola, Guiné e Costa da Mina. Os pobres-diabos eram marcados a ferro em brasa, bem como se faz nas fazendas com cavalos, bois, vacas, etc. ..., e depois metidos nos sujos e escuros porões dos navios, onde ficavam amontoados numa mistura pavorosa. Mal-alimentados, judiados, sem ar e sem luz, essa pobre carga humana, sacudida quase sempre por grandes tempestades, chegava após longos dias de sofrimento às costas do Brasil, onde era vendida. Iam os pretos para as lavouras. Eram surrados quando cometiam qualquer falta. Havia senhores de escravos que surravam só pelo prazer de ver o sofrimento dos africanos. Outros, entretanto, tinham bom coração e chegavam a libertar seus escravos, dando-lhes uma vida mais ou menos decente. As vezes, cansados de sofrer, cheios de saudades da África, os pretos fugiam, ganhavam o mato. O fim dos fugitivos quase sempre era triste. Ou caíam nas garras das feras ou eram de novo capturados, sofrendo castigos cruéis.

      

                   TIBICUERA ESCRAVO!

APROVEITANDO TALVEZ a confusão das últimas guerras contra os holandeses, os negros fugiam e se iam reunindo em aldeias fortificadas chamadas quilombos, Havia desde o Rio São Francisco até os sertões de Pernambuco vários quilombos. Pouco a pouco os pretos se armavam, organizavam seu exército, reforçavam suas fortificações e se dispunham a não voltar para a canga: preferiam morrer lutando com as armas na mão.

       Bom. Lá pelo ano de 1677, se não me falha a memória, eu andava caminhando escoteiro pelo mato, contente com aquela vida despreocupada de aventura, quando um capitão-de-mato cujo nome não guardei, me prendeu. Andava ele à procura de negros fugidos e trazia consigo dez homens armados. Amarraram-me as mãos fortemente às costas. Protestei, frenético, contra aquela prisão. Eu não era um escravo, não, senhores! Era um índio livre como o vento. Tinha serviços prestados ao País.

       Como resposta, o capitão-de-mato me chicoteou o rosto. Quase estourei de ódio. Não adiantava gritar ou espernear. Segui em silêncio, com o rosto ardendo. Lembrei-me de Anchieta e duma bela história que ele me contou uma noite em Piratininga. Cristo mandava oferecer a face esquerda a quem nos tivesse batido na direita... Eu era ainda muito bronco, selvagem e fogoso para compreender o espírito da lição.

       Chegamos a um engenho. Mandaram-me para a lavoura. Desde o ‘nascei do sol até o piscar das primeiras estrelas eu ficava trabalhando num canavial.

       Os outros trabalhadores eram pretos. Passavam o dia cantando cantigas tristes nascidas nas terras misteriosas da África. Aprendi muitas delas. Fiz inúmeras amizades. Havia um negro retinto, muito lustroso e de músculos fortes. Se ele tivesse nascido neste nosso século XX seria na certa um campeão de catch-as-catch-can, esse esporte pavoroso de pavorosa brutalidade que se justificaria no tempo do homem das cavernas mas que está fora de lugar na época do rádio e da televisão. Pois esse preto, que trabalhava quase sempre a meu lado, tinha o apelido de Rapadura. Era uma alma boa. Sabia lindas histórias. Uma noite, no eito, Rapadura me cochichou no ouvido:

     — Tibicuera, precisamos fugir.

       Arregalei os olhos.

       — Fugir para onde?

       — Para o quilombo dos Palmares. Lá somos livres. Zumbi é grande e valente.

      

                   A FUGA

COMBINAMOS O PLANO de fuga. Numa noite sem lua prendemos fogo nas palhas de um galpão e demos o alarma. Estávamos presos ao chão por pesadas correntes. O feitor apareceu e mandou que nos libertassem, a fim de que ajudássemos os empregados brancos a apagar o fogo que ameaçava destruir também a casa-grande.

       O galpão era uma enorme fogueira, cujas línguas cor de fogo (naturalmente...) subiam para o céu, como se quisessem também incendiá-lo. Havia uma confusão tremenda. Mulheres saindo de casa aos gritos. O feitor berrando ordens. Os negros dum lado para outro, carregando baldes d’água.

       Parece que só de madrugada é que conseguiram dominar o fogo.

       Quando tudo se acalmou de novo, fizeram a chamada dos escravos.   Deram então pela falta de Tibicuera e Rapadura.

       Àquela hora nós já estávamos longe. Caminhamos, caminhamos, caminhamos... Passamos por mil perigos e por mil sustos. Eu estava resolvido a não tornar a cair vivo nas mãos daquela gente do engenho.

       Já estávamos principiando a nos entregar ao desânimo, quando avistamos uma patrulha. Nossos corações bateram apressadamente. Sentimos um alívio quando vimos que a patrulha era formada de pretos. Fizemos sinais de paz. Eles se aproximaram de nós. Era gente dos Palmares. Poucas horas depois estávamos junto de Zumbi, o grande chefe, fazendo nosso juramento de fidelidade.

       Se Rapadura era um homem agigantado, o Zumbi era um gigante completo. Tinha uma voz profunda, um ar autoritário. Senti-me pequeno perto dele.

      

                   OS PALMARES

O QUILOMBO DOS PALMARES era formado por vários núcleos. Passei entre os pretos daqueles aldeamentos alguns anos bem felizes. Havia ali muita ordem e muita paz. Eu gostava de ver as danças, as cantigas, as festas dos quilombolas. Eles se enfarpelavam da maneira mais curiosa, pintavam-se de jeito muito engraçado, de sorte que era um espetáculo divertido vê-los em dia de festa.

       Às vezes, certas noites, eu ficava de papo para o ar, olhando para as estrelas, pensando na vida e ouvindo a cantiga arrastada, preguiçosa e tristonha dos filhos da África. Quando eles paravam, ficava só o cochicho do vento que contava segredos de outros mundos às palmeiras.

       Quantos anos fiquei nos Palmares? Não me lembro com certeza. Só sei que quando eu começava a ficar nervoso por estar parado canto tempo no mesmo lugar, lá surgia um exército de brancos para nos atacar. Travavam-se combates tremendos. Nós estávamos fortes e éramos ao todo trinta mil homens e mulheres unidos para a vida e para a morte. O governo achava que a existência dos quilombos constituía um perigo para a nação. Atirou contra nós várias expedições. Desanimados de nos vencerem pelas armas, mandaram os brancos um emissário com propostas de paz. Chegou-se a fazer um tratado. Ora, hoje neste mundo civilizado (vejam a Europa) não se respeitam os tratados. É natural que o nosso tratado de 1678 não durasse muito. Em breve estava de novo acesa a guerra. Nova expedição para nos combater. Ainda dessa vez a vitória foi dos pretos.

       Percebi que o Zumbi andava inquieto, apesar das vitórias. Uma noite vi-o passar pensativo, olhar o céu e meter-se na sua choça.

      

                   A DESTRUIÇÃO DOS QUILOMBOS

FOI EM 1687 — nove anos depois do tratado — que a grande expedição comandada por Domingos Jorge Velho se aproximou dos Palmares. Preparamo-nos para a luta. Não pensem que ela durou três dias. Foram oito anos de guerra encarniçada, com pequenos intervalos de descanso aqui e ali. Dizem que o negro é covarde. Quem o viu lutar nos Palmares não acredita nesta afirmação.

       Cercados, cansados, com a munição diminuindo, começamos a afrouxar a resistência. As mulheres do quilombo choravam e gemiam. A coisa mais triste de que me lembro foi de uma noite, já no fim da campanha, quando os tiros tinham cessado. As negras — velhas, moças, meninas — desataram num cantochão tão triste, tão arrastado, tão doloroso que eu tive vontade de sair correndo e gritando e me entregar aos soldados de Domingos Jorge Velho.

       Os nossos guerreiros se acabavam. Aos poucos íamos perdendo terreno. Os olhos do Zumbi brilhavam e eu podia adivinhar um pensamento desesperado dentro daquela cabeça de gigante.

       Por fim fomos completamente destroçados. O quilombo invadido e destruído. Não me esquecerei nunca mais daquela cena. O Zumbi e seus generais subiram para o alto dum penhasco. Eu os segui. Lá do alto eles ainda fizeram um gesto de desafio para as forças invasoras. Depois se precipitaram no abismo. Fechei os olhos. E no momento seguinte me encontrei sozinho naquele pico. Era preciso fazer alguma coisa. Só um pensamento me ocorreu: fugir... Fugi. Se não fugisse, não podia estar aqui agora, contando a vocês esta espantosa aventura.

      

                   CEM ANOS SÃO CEM ANOS...

VOCÊS JÁ LERAM a “Nova Floresta” do Pe. Manuel Bernardes? Há lá uma deliciosa história chamada “Como o Tempo Passa” onde se encontram estas palavras; tiradas dum salmo: “Mil anos à vista de Deus são como o dia de ontem, que passou...”

       O tempo é mesmo uma coisa muito relativa. Relativa e vaga. Às vezes se confunde com o espaço. Por exemplo: “Que distâncias há daqui até ali?” — perguntamos. Respondem-nos: “Duas horas de trem; uma hora de automóvel.” Como se vê, medimos o espaço com o tempo. E vice-versa, pois, referindo-nos a uma palestra que mantemos num trem em movimento, podemos dizer: “Nossa conversa durou três quilômetros.” Não há minutos que nos parecem uma eternidade? E anos que nos parecem rápidos como um dia?

       Cem anos são cem dias na História dum povo.

       Que se passou nos dez anos que se seguiram à derrota e destruição dos Palmares? Na minha vida, nada. Foi um período cinzento, vazio de fatos interessantes. Na vida do Brasil tivemos a Guerra dos Emboabas e a Guerra dos Mascates. Emboabas era o nome que se dava aos portugueses. Ora, os paulistas, gente da terra, tinham descoberto as famosas minas gerais. Foi uma corrida parecida com a que muitos anos mais tarde se verificaria rumo do ouro da Califórnia. Toda a gente queria enriquecer da noite para o dia. Mas acontece que quem descobria as minas tinham sido os paulistas, que não viam com bons olhos o fato de os emboabas quererem também avançar nelas. A coisa acabou em guerra. Os emboabas levaram a melhor. O Governador Antônio Albuquerque de Carvalho serenou os ânimos e resolveu a questão. Tempos depois o governo tomou uma medida que prejudicava os trabalhadores das minas. Houve uma revolução cujo chefe foi Felipe dos Santos. Chegaram os revoltosos a sonhar com a independência de sua capitania. Mas apareceu por lá um tal Conde de Assumar (eles deviam desconfiar deste nome esquisito), fez umas promessas tentadoras, os revoltosos deixaram-se levar pelas cantigas do conde e acabaram mal. Filipe dos Santos foi condenado a ser atado vivo à cola de um cavalo bravo e arrastado pelas ruas. Seria mau gosto descrever a vocês o que foi esse suplício.

       Por isso vamos dar depressa um salto para 1710, ano em que tivemos a Guerra dos Mascates, Mascates eram os portugueses estabelecidos no Recife. A guerra terminou em 1711. Uma rivalidade parecida com a que se verificou entre paulistas e emboabas; acontecia que no caso dos mascates não havia minas era jogo.

       Quem olha hoje as claras fronteiras do extremo sul do Brasil, não imagina as lutas que se travaram em fins do século XVIII e princípios do XIX por causa delas. Graças aos paulistas e aos jesuítas o Brasil crescera, espichando-se até os confins do Paraguai e da Bolívia.

      Começou então a guerra entre portugueses e espanhóis por causa das fronteiras. Os portugueses fundaram a Colônia do Sacramento no extremo sul do Brasil, à margem esquerda do Rio da Prata. José de Garro, governador de Buenos Aires, não gostou da história, assaltou a nova colônia e tomou-a. Veio um tratado e mais tarde Sacramento voltou para os portugueses. Houve alterações na política da Espanha — fatos que não eram absolutamente de nossa conta mas que vieram influir na nossa vida. Surgiu um exército comandado por D. Alonso Valdez e lá se foi a Colônia do Sacramento outra vez para as mãos dos espanhóis. Alguns anos mais tarde fêz-se outro tratado e Sacramento tornou a voltar para o poder dos portugueses. A colônia era como uma peteca que andava dum lado para outro, num jogo que custava muitas vidas e muito dinheiro.

       Entre 1710 e 1711 tivemos a amável visita de nada menos de dois corsários franceses, que queriam simplesmente tomar conta do Rio de Janeiro. O primeiro — François Du Clerc, foi mal sucedido. Vencido na guerra, foi depois assassinado misteriosamente, como num romance de Edgar Wallace. O outro — Duguay-Trouin — encontrou um governador fracalhão — Castro Morais - e tomou conta da cidade. Exigiu um resgate de 600 000 cruzeiros, 100 caixas de açúcar e 200 bois. Só foi embora depois que recebeu a última prestação do resgate. A História não conta — e eu não sei — se os bois foram também postos a bordo e levados para a França.

       1750 foi o ano em que se procurou traçar claro a linha divisória entre os domínios de Portugal e os de Espanha. Lá veio outro tratado, o de Madrid. Segundo ele, Portugal era obrigado a entregar a Colônia do Sacramento, recebendo em troca o território dos Sete Povos das Missões. Na hora, porém, em que a comissão encarregada de demarcar as fronteiras estava realizando o seu difícil trabalho, vieram os índios atrapalhar. Dou minha palavra de honra como não estava no meio deles. A questão acabou em briga feia. Em Portugal, o Marquês do Pombal desconfiou de que eram os jesuítas que incitavam os índios a guerrear os demarcadores das fronteiras. Promoveu então a expulsão dos jesuítas das terras de Portugal. Mas isso não matou a questão, é claro. Rebentaram novas lutas nas bandas do Sul. D. Pedro Zeballos tomou a Colônia do Sacramento, invadiu o Rio Grande do Sul, apossou-se de alguns fortes, como Santa Teresa, São Miguel e o da povoação de São Pedro. A Europa estava em guerra por esse tempo. Os Bourbons, que governavam a França, as Duas Sicílias, Parma e Espanha, uniram-se em aliança contra a Inglaterra. Portugal nesse tempo era aliado da Inglaterra e ainda continua a sê-lo neste ano da graça de 1942. Foi uma razão bem forte para o rompimento das hostilidades entre portugueses e espanhóis no sul do Brasil.

       Mas a pombinha da Paz pousou tímida no continente europeu. O tratado de Paris estabelecia que se restituísse tudo quanto se havia tomado como presa de guerra. Zeballos, porém não concordou com a decisão e só devolveu aos portugueses a famosa Colônia, ficando com os territórios ocupados no Rio Grande do Sul, que naquele tempo era conhecido pelo nome de Continente de São Pedro.

       Zeballos não queria chegai às boas? Então de novo ia haver barulho. Por esse tempo o Rio de Janeiro foi elevado a Capital do Brasil e o vice-rei, Conde da Cunha, tratou de movimentar o seu exército para reconquistar os territórios perdidos no Sul. Depois duma longa campanha de altos e baixos, avanços e recuos — vence hoje o espanhol, vence amanhã o português — chega a notícia de que se firmara na Europa o Tratado de Santo Ildefonso, determinando, preto no branco, as fronteiras entre os domínios espanhóis e os portugueses. Quem saiu perdendo no negócio foi Portugal. Descontente, recorreu de novo às armas. Aquela gente gostava mesmo de brigar: atirava-se à guerra sem a menor cerimônia. Os espanhóis viram-se obrigados a, de derrota em derrota, recuar até Cerro Largo. Dois rio-grandenses desses de “faca na bota” — Borges do Canto e Santos Pedroso — conquistaram as Missões, que se compunham de sete povos: São Borja, São Nicolau, São Miguel, São Luís Gonzaga, São Lourenço, São João Batista e Santo Ângelo.

       Á paz de Badajoz pingou um ponto final a essas guerras.

       E antes de botar o ponto final a este capítulo, quero repetir que cem anos são cem dias na História de um povo...

      

                   POR CAUSA DE UMA DOR DE DENTE

POR CAUSA de uma dor de dente eu me vi envolvido num dos dramas mais sérios e importantes da História do Brasil. Eu conto. Foi lá por fins do século XVIII. Os ventos da sorte me tinha empurrado para Minas Gerais e eu me encontrava parado na Vila Rica como um navio que de repente, esquecido do rumo, tivesse estacado em meio do oceano.

       Lembro-me bem de que passei uma noite em claro, por causa dum dente que me doía horrivelmente. A verdade era que nos meus tempos de índio livre eu não sentia nada na dentadura, apesar de lhe dar sempre um serviço duro e perigoso.

       Vi clarear o dia. O meu desespero aumentou. Na rua mal tive voz para perguntar ao primeiro homem que encontrei:

       — Moço, onde é que eu encontro um dentista?

       Resposta:

       — Vá à casa do Alferes Joaquim José.

       Julguei que ele estava troçando e fiquei vermelho de raiva.

       — Sou índio mas não sou burro. Onde se viu um alferes tirar dentes?

       Disse isto e fiquei com vontade de brigar.

       — Bom homem, não se zangue. Joaquim José da Silva Xavier é alferes dos dragões, mas nas horas vagas faz o dentista. Deram-lhe até o apelido de Tiradentes.   É um sujeito muito habilidoso. Vá e não ficará arrependido.

       Deu-me o endereço do alferes-dentista. Fui.

       Encontrei um homem impressionante. Olhos escuros, brilhantes, cabelos pretos. O rosto pálido tinha um ar de decisão e de coragem.

       Dentro de um minuto eu estava na cadeira do Tiradentes. Enquanto preparava os ferros ele ia fazendo perguntas.

       — Como se chama?

       — Tibicuera.

       — Descendente de índio?

       — Não. Índio puro.

       — Ah! Abra a boca e tenha coragem.

       Vinte segundos depois Tiradentes me mostrava na ponta de um ferro o meu dente cariado. A dor foi aguda e forte, mas eu a suportei sem gemer.

       — Agora faça bochechos com isto.

       Deu-me um copo com água salgada. E enquanto eu bochechava, o dentista me fazia novas perguntas sobre minha vida.

       De repente parou diante de mim e disse:

       — O Brasil também está com dor de dentes.

       Olhei para ele espantado. Meus olhos perguntaram:

       — Como?

       — O dente que dói, o dente que é preciso tirar são os portugueses.   Devemos mandá-los embora para sua terra e tomar conta deste grande país para nós, brasileiros.

       Eu estava espantado. Esqueci o dente e fiz uma série de perguntas. Não me passara nunca pela cabeça a idéia de que fosse possível fazer o que Tiradentes queria.

       — Mas os portugueses concordam em ir embora? — perguntei.

       O alferes soltou uma risada.

       — Havemos de vencê-los pelas armas. Faremos uma revolução! De repente se calou, ficou sombrio, como que arrependido de ter falado tanto na frente dum desconhecido.

       Levantei-me.

       — Quanto custa? — indaguei.

       — Não custa nada.

       — Mas eu quero pagar.

       — Então me pague da seguinte forma: pense no que lhe disse, procure amar o Brasil, desejar-lhe a liberdade, fazer dele uma nação independente, grande...

       À medida que falava, Tiradentes ia se exaltando de tal forma que por fim já havia lágrimas em seus olhos. Disse-me que os brasileiros viviam esmagados pelos impostos. O governo em breve ia fazer a cobrança de impostos atrasados. Vila Rica não progredia, era até chamada Vila Pobre. Outros países já se tinham livrado de seus opressores. Os Estados Unidos da América do Norte, por exemplo, haviam proclamado sua independência, separando-se da Inglaterra. Era um povo novo como o nosso. Por que não podíamos nós também ser uma nação independente?

       Fui-me da casa daquele homem levando um peso na alma. O Brasil podia ser livre! Esta idéia não me deixou o resto daquele dia, fez parte de meus sonhos daquela noite. Ao amanhecer um novo dia, fui procurar Tiradentes. Contei-lhe que era só no mundo e não tinha planos. Eu queria me entregar a ele. Seria um amigo seu, disposto a tudo. Eu não tinha influência política nem dinheiro; mas sabia brigar, podia repetir sem erro um recado e conhecia os caminhos do litoral.

       Para encurtar o caso: fiquei com Tiradentes.

       O alferes não descansava. Fazia propaganda da sua idéia. Conseguia novos soldados para a revolução. Havia gente de posição metido na conspiração. Mas eu não sei que pressentimento me estava dizendo que aquilo tudo ia acabar mal.

      

                   A CONSPIRAÇÃO

UMA NOITE OS conspiradores se reuniram na casa de Tiradentes. Tive o prazer de lhes fazer um bom café. Enquanto eles discutiam, fiquei junto da porta, indo de quando em quando passeai pelo corredor e espiar pela fresta da janela, a ver se se aproximava algum vulto suspeito.

       As pessoas que lá estavam eram Joaquim José da Silva Xavier, o meu querido chefe; Alvarenga Peixoto, o Ten.-Cel. Francisco de Paula Freire de Andrade, José Álvares Maciel, o Pe. Carlos Correia de Toledo e Melo, o Cel. Domingos de Abreu... e não me lembro mais de nenhum nome.

       O plano era simples. Quando o governo fizesse a cobrança dos impostos — a derrama — explodiria o movimento. A senha era esta: “Hoje faço o meu batizado”.

       O povo se revoltava, conseguia a adesão dos dragões, que seriam influenciados por Tiradentes e pelo seu comandante Paula Freire de Andrada. Prenderiam as autoridades portuguesas. Libertariam os escravos.   Instalariam muitas fábricas importantes — todas as fábricas que um decreto recente de Portugal proibira de funcionar no Brasil. E a nova nação teria uma bandeira com este dístico: Libertas que será támen. Quando os inconfidentes falaram nisto, não gostei. Eu não entendia. Fiquei sabendo depois que era uma frase latina do poeta Virgílio. Queria dizer: “Liberdade ainda que tarde”.

       O Pe. Toledo junto com Alvarenga Peixoto conseguiu convencer o Desembargador Tomás Antônio Gonzaga e o Dr. Cláudio Manuel da Costa a aderirem ao movimento. Gonzaga era poeta. Estava apaixonado por uma moça chamada Dorotéia. Fazia versos em que lhe dava o nome de Marília. Sempre impliquei com esse costume que os poetas têm de não darem o nome verdadeiro às coisas. Mas eu gostava de Gonzaga, que era um homem melancólico, de ar sonhador. Muita vez levei recados seus à noiva. Foi um romance bonito mas que não teve aquele final dos romances antigos: “Casaram-se e foram muito felizes.”

       A idéia marchava. Tiradentes resolveu ir até o Rio a serviço da revolução. Acompanhei-o montado num burro emprestado. Foi uma viagem dura. Chegamos à Capital do Brasil e uma tarde percebi que estávamos sendo seguidos. Disse de minhas desconfianças a Tiradentes. Ele sorriu e troçou:

       — Tibicuera está vendo fantasmas...

       Mas eu sentia a nosso redor a sombra dos espiões. Passei a andar inquieto e de olho alerta.

       Tiradentes parava na casa de um amigo na Rua dos Latoeiros, que hoje se chama Gonçalves Dias. Um dia ouvimos barulho de passos na rua. Devia ser uma patrulha, a julgar pela cadência das batidas no calçamento. O dono da casa foi à janela e empalideceu. Voltou-se para o hóspede e não teve voz para lhe dizer que a casa estava cercada. Tiradentes compreendeu tudo num relance. Gritou:

       — Foge, Tibicuera!

       E precipitou-se para a porta dos fundos. Era tarde. Prenderam-no cinco soldados. Mais dois caminhavam para mim. Dei um salto de tigre e desandei a correr pelo corredor... Derrubei o primeiro homem que encontrei pela frente. Saltei pela primeira janela aberta. Cai numa pequena área. Um muro na minha frente. Escalei-o com a agilidade de um... de um homem perseguido. Poucos segundos depois eu entrava na varanda de uma casa desconhecida onde duas mulheres se puseram a gritar. Ganhei o pátio dessa casa, saltei por cima de novo muro e me vi noutra rua. Comecei a andar com naturalidade. Caminhei durante meia hora. Estava fora de perigo. Mas um pensamento tomara conta de mim: Era preciso avisar os inconfidentes de Vila Rica. Com as economias que tinha, comprei um burro e me pus a caminho. Quando, dias depois, cheguei a Vila Rica foi para saber que todos os inconfidentes estavam presos.

      

                   A CABEÇA NA PONTA DO POSTE

UM TAL JOAQUIM SILVÉRIO DOS REIS, coronel de um regimento de cavalaria auxiliar, tinha denunciado os conspiradores.

       Para encurtar o caso: Cláudio Manuel da Costa enforcou-se na prisão. O poeta Gonzaga foi mandado para a África, para bem longe de Marília dos seus sonhos. Muitos tiveram a mesma sorte. Outros foram condenados à morte.

       Chegaram-nos notícias de Tiradentes. Submetido a interrogatórios repetidos, ele insistia em negar a culpabilidade dos amigos. Dizia-se o único responsável por tudo: o animador, o chefe e principal culpado da tentativa de revolta.

       A pena de morte dos outros foi comutada. Mas Tiradentes foi levado à forca. Eu não quis assistir ao seu martírio. Sei que ele manteve a coragem e a fé até o fim. Não fraquejou. Foi levado para o patíbulo num cortejo assustador. Devia estar impressionante naquela bata branca que ia ser a sua mortalha. Levava na mão um crucifixo preto, para o qual ele olhou todo o tempo, murmurando preces.

       Quando me disseram que o corpo de Tiradentes fora esquartejado, sendo sua cabeça espetada na ponta de um poste — estremeci de raiva e cheguei a chorar de sentimento. E não sei se por influência dos versos de Gonzaga, começou a dançar em minha cabeça esta frase: “Aquela cabeça na ponta do poste é uma bandeira, a bandeira da nossa liberdade.”

       Foi assim que terminou a aventura da Inconfidência Mineira. Foi assim que perdi o meu amigo Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes.

      

                   CHEGA-NOS NOVO SÉCULO E UM REI...

ENTRAMOS NUM NOVO SÉCULO. NO ano de 1800 eu me encontrava no Rio de Janeiro. Minha cabeça era um ninho de idéias confusas. As recordações da taba se misturavam com as dos quilombos, com as da guerra contra os holandeses e com as de meu convívio com Anchieta.

      Eu continuava a ser um homem solitário. Se por um lado não era ainda civilizado, por outro lado já tinha deixado de ser um selvagem completo. Anchieta me fizera perder o medo aos espíritos do mato e me dera a conhecer o Deus único, que era agora o meu Deus. Mas eu ainda sentia o desejo da aventura e, para mim, quem dizia aventura dizia guerra.

       Aconteceram coisas importantes em Portugal no ano de 1807. D. João VI assumira desde 1792 a regência do país, porque sua mãe, a Rainha Maria I não estava “regulando bem”, como se diz em linguagem familiar. Como já contei, Portugal sempre foi aliado da Inglaterra. Inimigo deste último país, Napoleão Bonaparte mandou invadir Portugal.

       Que foi que fez D. João VI, Príncipe-Regente: Rumou para o Brasil, transferindo para cá a sede da monarquia portuguesa.

       Com ele vieram 15 000 pessoas.

       Pude ver com meus olhos e ouvir com meus ouvidos as festas com que receberam o soberano e sua comitiva no Rio. A cidade teve a sua importância aumentada. Ganhou um ministério, tribunais, escolas, repartições...

       Logo após sua chegada, entusiasmado com a recepção, contente por ter escapado à fúria conquistadora de Napoleão, encantado com a beleza da heróica cidade de São Sebastião, — D. João VI praticou vários atos de utilidade pública. Abriu os portos do Brasil ao comércio das nações amigas. Criou uma academia de Belas-Artes, a imprensa régia, uma biblioteca pública e um jardim botânico. O Regente D. João VI estava em franco idílio com o Brasil.

       Foi por esse tempo que comecei a amar de verdade os livros. Durante vários anos freqüentei uma escola. Para me manter, trabalhei como sapateiro remendão. Ganhava o suficiente para viver. Visitava a biblioteca pública. Aos poucos ia ficando com uma visão mais larga do mundo e da vida.

       Assisti pela primeira vez a uma corrida de touros. Foi lá que o selvagem que dormia dentro de mim tornou a despertar. Num dado momento, não resistindo ao grande entusiasmo que me fervia no peito, saltei para a arena. Ergueu-se uma gritaria. Sai fora! Olha o touro! O’ maluco! Eu estava fascinado. O touro, parado, fuzilou para mim um olhar furioso. Precipitou-se na minha direção. Quebrei o corpo e me livrei do golpe. Em seguida segurei o animal pelas aspas e nossa luta começou. Eu tinha músculos rijos. Os espectadores da tourada estavam em silêncio. Os toureiros recuaram. O sol batia em cheio na praça e perto de nós as nossas sombras também lutavam no chão. Aquilo durou cinco minutos. Derrubei o touro, torci-lhe o pescoço. Ele ficou estirado no pó, ofegando. Ergui-me. Estouraram palmas e vivas.

      

                   UM CAPRICHO DE D. CARLOTA

  1. JOÃO VI, que assistia à tourada do camarote real, mandou me chamar. Falei com o Regente sem a menor comoção. Vi que era um homem de bochechas gordas e coradas. Tinha um ar camarada. Perguntou-me se eu queria ser criado do paço. Aceitei, é claro, e no dia seguinte estava metido numa libré de botões dourados. Passei a ter vida um pouco melhor.

       Muitas vezes acompanhei a princesa real D. Carlota nos seus passeios de carruagem. Eu ia à boléia, muito perfilado e enfeitado. Quando a carruagem real passava, todas as criaturas eram obrigadas a parar e ajoelhar-se, estivessem onde estivessem. Eu vi lindas moças e belos cavalheiros dobrarem o joelho à passagem de Sua Alteza. Por quê? — perguntava eu a mim mesmo. D. Carlota não era uma pessoa igual às outras, de carne e osso? Todos os homens não eram iguais como nos ensinava Anchieta? Eu guardava esses pensamentos para mim. E quando ia abrir a portinhola da carruagem para a princesa descer, quase encostava também o nariz no chão.

       Nas horas vagas eu apanhava algum livro e lia. Sentia agora vontade de conhecer outros povos, outras terras. Seria bem bom lutar sob as ordens de Napoleão ou sair em um navio em busca de terras distantes.

       Lá por 1817 nos chegaram notícias alarmantes de Pernambuco. A idéia de Tiradentes andava ainda assombrando o Brasil. Falava-se em independência. Domingos José Martins e Domingos Teotônio Jorge estavam à frente dum movimento revolucionário que declarou a independência da Província, instituindo um governo provisório. Confesso que fiquei alegre, lembrando-me de meu amigo Tiradentes. Mas a revolução não tardou em abafada. Seus chefes foram condenados à morte. Mais vítimas! Mais vítimas!

       Falei-lhes há pouco na agora Rainha D. Carlota, não foi? Pois um dia ela teve um capricho... Olhando por acaso um mapa, viu lá no extremo sul do Brasil um território cujo nome lhe soou bem: Banda Oriental. Manifestou o desejo de ser rainha também dessa terra.

       Lavrava a guerra civil nesse país. D. João VI examinou a situação. Viu que os Estados do Prata estavam cansados de repetidos ataques da parte dos ingleses. Não hesitou. Mandou invadir a Banda Oriental. Mas antes de transporem as fronteiras, as tropas de D. João VI tiveram a notícia de que a Inglaterra, intervindo na questão, conseguira a assinatura do armistício. D. João VI teve de se comprometer a não meter o real bedelho na nação vizinha. Mas quatro anos depois, caudilhos orientais praticaram depredações nas nossas fronteiras. Belo pretexto! D. João VI viu nele a oportunidade de realizar o sonho de D. Carlota. Mandou ocupar a Banda Oriental, espichando dessa forma as fronteiras do Brasil. O Ten.-Gen. Lecor marchou sobre Montevidéu. Em 1821 a Banda Oriental passava a fazer parte da Coroa de D. João VI com o nome de Estado Cisplatino.

      

                   IDÉIAS QUE O VENTO TRAZ...

MAS A TODAS essas eu não contei nada a vocês a respeito do filho de D. João VI. No entanto muito trabalho me deu ele. Chamava-se Pedro. Chegara ao Brasil com nove anos e meio. Era um rapaz inquieto e impetuoso, travesso e todo cheio de vontades. Quando ficou mocinho me escolheu para pajem. Segui-o em muitas aventuras e mais de uma vez consegui livrar o príncipe de grandes apertos.

       Lá por fins de 1820 rebentou uma revolução em Portugal. A notícia estourou no Rio como uma bomba. D. João VI resolveu que seu filho Pedro partisse para Portugal para tomar conta do governo.

       O Rio de Janeiro estava em polvorosa. As idéias de liberdade que andavam espalhadas por todo o mundo, como que trazidas pelo vento, contagiaram os brasileiros. O que naquela época acontecia, eu não podia compreender com limpidez. Hoje vejo claro. O povo decerto raciocinava assim: “Ora, se Napoleão com tanta facilidade tomou conta de Portugal atirando D. João VI e sua Corte para o Brasil, por que não havemos nós de com igual facilidade mandar D. João VI e seu povo para Portugal? Somos maioria. Temos direito de ser nação independente. Olhem os Estados Unidos, vejam como progride aquela terra!”

  1. João VI, sem querer, contribuíra para alimentar essas idéias de independência. Criando bibliotecas, escolas, jornais, museus — dera vistas mais largas ao povo e este foi compreendendo as vantagens de ser livre, de ter regalias, de progredir. Os portos estavam abertos aos navios das nações amigas. Chegavam barcos da Europa, trazendo gente européia, costumes europeus, idéias européias...

       Assim como nos nossos dias o cinema divulgou pelo mundo todos os costumes, a música e as coisas dos Estados Unidos da América do Norte — os viajantes que aportavam ao Brasil naquele tempo, os livros que vinham da França e da Inglaterra, os artistas que D. João VI mandava vir do Velho Mundo — espalharam por nossa terra as idéias de liberalismo.

       Quando um dia o povo e as forças se revoltaram, obrigando o rei a jurar a futura constituição, eu sorri, pensando no meu amigo Tiradentes. A cabeça dele na ponta do poste era mesmo uma bandeira...

      

                   “DIGA AO POVO QUE FICO.”

  1. JOÃO VI voltou para Portugal com sua Corte. Estávamos em 1821. D. Pedro ficou como Príncipe-Regente do Brasil. Estava assim com o ar de quem tinha nas mãos uma bomba com o pavio aceso. Olhava para o lados, aflito, procurando um lugar para onde jogar a bomba. A situação era difícil. O povo estava revoltado e exigia umas tantas coisas. Havia ainda as forças portuguesas que puxavam naturalmente para o lado de Portugal.
  2. Pedro andava sobre brasas. Eu via. Eu sentia. Suas noites eram de insônia. Tinham já acabado os dias despreocupados de boêmia. Agora ele era regente dum país imenso. Imenso e desorganizado. Era preciso levar a vida a sério. E o príncipe tinha apenas 23 anos...

       Eu andava satisfeito com o mundo e comigo mesmo. D. Pedro me fizera oficial do regimento de dragões. Tibicuera vivia muito orgulhoso de seus alamares, de seus botões dourados, de seu capote e de sua espada.

       Portugal começou a inticar com o Brasil. Inticar é um termo popular que deve ficar no nosso dicionário, pois é muito expressivo. Mandou fechar os tribunais e as repartições do Rio. Tomou outras medidas desagradáveis para os brasileiros

       Formara-se aqui o Partido da Independência. Era composto de um grupo de patriotas, homens inteligentes e de posição.

       Bem na hora mais crítica vem de Portugal uma ordem: D. Pedro deve fazer uma viagem pela Europa. Balbúrdia no Rio. “O príncipe não vai!” — berrava o povo. “O príncipe vai, sim, senhores!” retrucavam as forças portuguesas.

       Eu me lembro de um certo dia que ficou na História. D. Pedro andava de um lado para outro no salão do Palácio, com as mãos às costas, o passo duro, a testa franzida. Não esqueci as palavras do pai que, ao despedir-se, lhe dissera que previa a separação do Brasil de Portugal e que ele, Pedro, não devia deixar a Coroa cair nas mãos de aventureiros.

       Chegou ao paço o representante do Partido da Independência. Chamava-se José Clemente Pereira. O momento era solene. Vinha ele pedir ao príncipe que não se retirasse do Brasil. Depois que ele falou, fêz-se um silêncio difícil. Mas o príncipe se perfilou. Seus olhos cintilaram. E ele disse, firme:

       — Como é para o bem de todos e felicidade geral da nação, diga ao povo que fico.

       E ficou mesmo. Ficou no Brasil. Ficou na História. E. depois que Clemente Pereira foi embora, ficou também a olhar perdidamente para o bico das botas polidas...

      

                   FAREJO GUERRA...

EU SENTIA cheiro de guerra no ar. A coisa não podia ficar assim. As tropas saíram dos quartéis, tomaram o Morro do Castelo e lá de cima intimaram o príncipe a obedecer às ordens de Portugal.

       Aquele dia foi para mim de agitação. Andei em cima de meu cavalo malhado de um lado para outro, servindo de ligação entre vários oficiais brasileiros. Dentro em pouco as forças nacionais que amparavam o príncipe se achavam prontas para dar combate às tropas portuguesas.

       Eu estava com tanta saudade do cheiro da pólvora e do tinir da arma-branca, que fiquei até triste quando nos veio a notícia de que os soldados portugueses, negando combate, iam embarcar para a Europa.

       O Rio estava em festa. Falava-se abertamente na independência. Eu me metia pelo meio do povo, orgulhoso do meu fardamento de dragão.

       Recebemos comunicação de que em Minas, como em outras províncias, havia gente disposta a brigar. O príncipe em pessoa foi até lá, conseguindo acalmar os ânimos.

       Deram-lhe no Rio um título: Defensor Perpétuo do Brasil. Entusiasmado, D. Pedro resolveu convocar uma Constituinte. Chegou a pensar na nossa esquadra, dando o comando dela ao Almirante Lorde Cochrane. E foi também ao ponto de assinar uma proclamação em que convidava os brasileiros a que se unissem a fim de conseguirem sua independência.

       A separação do Brasil de Portugal estava por um fio. E o Príncipe cortou esse fio com uma frase.

      

                     MAL SABIA O RIACHO...

QUANDO FIQUEI SABENDO que devia acompanhar o príncipe a São Paulo, numa visita de cortesia, dei pulos. Eu ia exibir naquela cidade os meus botões dourados, as minhas botas que eram um espelho, o meu peito musculoso, apertado no dólman justo.

       Fomos recebidos com aclamações. Isto é: D. Pedro é que foi recebido com festas. Mas as flores e as aclamações foram tantas, que sobraram para todos nós.

       Mas céu sem nuvens não dura muito — assim me dizia a experiência. Quando voltávamos de Santos, chegou-nos um comunicado do Rio: Portugal por novos decretos queria nos reduzir à condição de colônia. Os mensageiros que nos traziam a notícia nos encontraram às margens dum riacho sem importância. Era um fio d’água humilde. Tinha um nome inexpressivo: Ipiranga. Corria calmo ao sol, alheio às lutas e às paixões dos homens. Quis a sorte que fosse aquele o ponto de encontro...

       D Pedro leu o comunicado. Estava montado no seu belo cavalo, que batia inquieto com as patas no chão. Primeiro o príncipe ficou muito pálido e depois seu rosto se coloriu dum vermelhão forte. Eu o contemplava, aflito. Tudo se passou rápido. De repente D. Pedro arrancou da espada e gritou: “Independência ou morte!” No primeiro momento ninguém respondeu, pois a surpresa deixava todos aturdidos. Houve alguns segundos de silêncio. Depois os outros compreenderam e romperam num viva entusiasmado.

       Mais sereno, já com a espada na bainha, D. Pedro disse que as cortes de Lisboa queriam mesmo nos escravizar e que convinha declarar já a nossa independência. Terminou com estas palavras: “Estamos definitivamente separados de Portugal. De ora em diante traremos um outro laço de fitas verdes e amarelas, que serão as cores do Brasil.”

       O riacho continuava a correr ao sol, sem qualquer entusiasmo. Mas, mesmo sem o saber, já estava célebre. Ipiranga! Um nome que dali por diante seria repetido como um símbolo.

       Chegamos ao Rio todos cheios de laços verdes e amarelos.

       No paço pude ver o sorriso satisfeito e sereno de um homem que desempenhou papel importante na nossa independência. Era o Ministro José Bonifácio de Andrada e Silva. Tinha uma cabeça privilegiada. Depois de Anchieta, foi o primeiro homem que me fez duvidar da força do músculo para me fazer pensar na força do miolo.

       Havia outras figuras tão importantes como a de Andrada no movimento libertador. Joaquim Gonçalves Ledo, José Clemente Pereira, por exemplo. E outros, outros...

       No dia em que vi Andrada com o sorriso da vitória, resolvi deixar de ser o Tibicuera valente das guerras para tratar de estudar um pouco. Em suma, queria trocar a espada pelo livro. Quando D. Pedro me disse:

       — Tibicuera, pede o que queres...

       ...respondi:

       — Um professor.

       O príncipe ficou surpreendido. Eu também...

      

                     EU E OS LIVROS

DERAM-ME UM PROFESSOR. Era um sujeito calvo e calado, feio e tristonho. Solteirão, seu quarto era pobre e ficava numa rua tranqüila. Ele me abriu as portas de um mundo maravilhoso: O mundo dos livros.

       Aprendi Francês, Latim, um pouco de Grego, Geografia, História, Gramática Portuguesa e outras matérias. Quando chegamos à Botânica e à Zoologia, tive discussões terríveis com o meu bom professor. Ele dizia o nome científico das plantas e dos bichos; eu lhes dava o nome indígena. O professor conhecia os bichos porque os tinha visto desenhados em livros ou empalhados e catalogadinhos nos museus. Quanto a mim eu os conhecia ao vivo ou, melhor, pessoalmente.

       Fiquei tão apaixonado pelos livros, que me esqueci das guerras e das aventuras. Deixei os dragões. O Imperador me deu bom emprego numa repartição pública.

       A literatura me absorveu durante muitos anos. Comecei a ler os livros dos escritores brasileiros. Gostei muito dum certo Sr. Gregório de Matos, que nasceu na Bahia em 1623. Era formado em Direito. Contam que foi um sujeito patusco, alegre e atrevido.   Fez gostosos versos satíricos e também poesias líricas.

       Achei insuportável o Sr. Bento Teixeira Pinto, que é considerado o primeiro literato do Brasil. Mas primeiro — está claro — por ordem cronológica. Escreveu um livro de nome engraçado: Prosopopéia.

       Outros poetas que li: Cláudio Manuel da Costa, José Basílio da Gama, Inácio José de Alvarenga Peixoto, Tomás Antônio Gonzaga... Este quarteto, como vocês devem estar lembrados, tomou parte na Inconfidência Mineira.

       Conheci outros poetas: Frei Manuel de Santa Rita Itaparica, Frei Santa Rita Durão, Manuel Inácio da Silva Alvarenga...

       Meti-me História a dentro e li Frei Vicente do Salvador, que escreveu uma História do Brasil. Quando contei a meu professor que tinha tomado parte na guerra contra os holandeses, ele me olhou com o rabo dos olhos, franziu a testa e acabou dizendo.

       — Deixe-se de gracejos, rapaz.

       A guerra holandesa durara de 1624 a 1654. Estávamos em 1823. 0 professor fez as contas de cabeça e achou que eu estava me fazendo de engraçado.

       Conheci também as obras de Rocha Pita, de Baltasar da Silva Lisboa, de José Feliciano Pinheiro e de outros historiadores menores.

       Muito me encheram de entusiasmo os discursos dos dois Andradas: Antônio Carlos e Martim Francisco.

       Outro nome de que não me esquecerei é o de um jornalista que era padre e político. Guardo-o na memória por causa de seu nome — Frei Joaquim do Amor Divino Caneca — e porque ele tomou parte na revolução pernambucana de 1824.

       Mas a minha grande admiração mesmo era por Frei Francisco de Mont’Alverne. Foi Anchieta que me converteu ao Deus Único. Foi Mont’Alverne que com seus formidáveis sermões me fortaleceu nessa fé.

       Outro cidadão bom cem por cento era José Bonifácio de Andrada e Silva, político e filósofo. Muito entendido em Mineralogia, Química e Matemática. Ficou o homem com o título de “Patriarca da Independência”. Ora, estas palavras em si mesmas não significam coisa alguma. Eu queria que vocês tivessem conhecido pessoalmente o homem, para terem uma idéia do que ele valia, sabia e fazia.

       Andei também às voltas com os artigos de Manuel Ferreira de Araújo Guimarães, sobre Matemática.

       Fui fã do Marquês do Maricá, o homem que escrevia pensamentos. Devorei o seu famoso: “Máximas, Pensamentos e Reflexões do Marquês do Maricá”. E andava sempre com um dito na ponta da língua. Eu devia estar mesmo insuportável!

       Como eu andava fazendo a minha literaturazinha por aquela época, conheci um jornalista que muito me auxiliou na publicação de meus artigos. Chamava-se Evaristo Ferreira da Veiga. Fundou o jornal Aurora Fluminense, que surgiu lá por 1827.

       Outros homens inteligentes com quem travei conhecimento: José da Silva Lisboa, entendido em Filosofia e Grego. Antônio José da Silva que escrevia para o teatro.

       E o primeiro dicionário que vi na minha vida foi o do brasileiro Antônio de Morais Silva. Foi publicado em 1789. Nunca ouviram falar no “Dicionário de Morais”? Pois é esse mesmo. Não abram a boca de surpresa. E esse mesmíssimo.

       Tive o prazer de ler os versos de meu querido amigo Anchieta. E ninguém me dava crédito quando eu contava que ouvira alguns deles dos lábios do próprio poeta.

       Mas eu não estou escrevendo um compêndio de Literatura Brasileira e sim a minha vida, as minhas aventuras!

      

                   SETE ANOS DE PASTOR

QUANTO TEMPO fiquei metido com os livros, estudando, lendo, meditando? Nada menos de sete anos. O número sete me faz lembrar o famoso soneto de Luis de Camões:

“Sete anos de pastor Jocó servia

Labão, pai de Raquel, serrana bela...”

       Sete anos servi os livros e fui por eles servido.

       Que foi que aconteceu no Brasil durante esse tempo?

  1. Pedro organizou o Império. Dominou as Províncias de Sergipe, Bahia, Maranhão e Pará, onde havia tropas portuguesas revoltadas. Muitas nações reconheceram a Independência do Brasil. Reuniu-se a Assembléia Constituinte, que mais tarde foi dissolvida violentamente, sendo presos alguns deputados.

       Como conseqüência desse fato houve muitos protestos e motins nas províncias do Norte. Pernambuco estava exaltadíssimo. 0 povo não gostava do Governador Pais Barreto, que se viu obrigado a resignar, ficando o governo aos cuidados duma junta presidida por Pais de Andrade. Mas Pais Barreto foi mais tarde nomeado presidente da província. Não permitiram que ele tomasse posse. Houve barulho. Tropas revoltadas. Resultado: Pais de Andrade (Pode haver confusão assim com dois Pais...) formou com as Províncias de Pernambuco, Ceará, Piauí, Alagoas, Rio Grande do Norte e Paraíba uma república que tomou o nome de Confederação do Equador.

       O governo mandou forças com o fim de atacar a nova república. Pais Barreto comandou o ataque. Os confederados resistiram por algum tempo mas acabaram se entregando. Os revolucionários foram julgados. Muitos, executados. Entre estes, Frei Joaquim do Amor Divino Caneca.

       De 1824 a 1825 tivemos a Guerra das Províncias Unidas do Rio da Prata. A coisa se passou assim: O governo de Buenos Aires reclamava ao Brasil a restituição da Banda Oriental. O Brasil, moita. Então, o caudilho Lavalleja e mais 33 orientais (os famosos 33 eram 34) invadiram a Cisplatina e proclamaram a sua independência. Vocês poderão dizer: Belos tempos em que 33 homens tomavam uma província! Eu lhes direi que neste nosso século de progresso dois homens num grande avião de bombardeio podem dominar sozinhos uma cidade de vários milhares de habitantes. Mas, voltando à vaca fria, que no caso presente é a Guerra do Prata — a Argentina declarou guerra an Brasil. D. Pedro veio até o Rio Grande. O país se agitou. Houve encontros em terra e no mar. Travou-se a faladíssima Batalha de Ituzaingó, ou do Passo do Rosário cujo resultado não ficou muito claro, sendo até hoje discutido. Quem venceu? A Argentina ou o Brasil? Não sei. Não vi. O que importa saber é que hoje Brasil e Argentina vivem em boa paz. Portanto: vamos passar uma esponja no passado.

       No fim da guerra o governo do Brasil reconheceu a independência da Cisplatina, que tomou o nome de República Oriental do Uruguai.

       A autoridade de D. Pedro 1 enfraqueceu muito depois dessa campanha sem raízes na opinião popular. Havia muitas queixas contra o nosso Imperador. Morreu em Portugal o Rei D. João VI. Durante a guerra última faleceu também a esposa de D. Pedro I. O Imperador estava abatido. Estouravam revoltas em vários pontos.

       O jornalista Ferreira da Veiga dirigiu uma campanha feroz contra o governo. Entre muitas coisas, dizia-se que agora com a morte de D. João VI, D. Pedro I pretendia unir de novo o Brasil a Portugal Em Minas a exaltação de ânimos era tão forte, que D. Pedro I resolveu ir até lá em pessoa. Na volta foi recebido no Rio com festas da parte dos portugueses mas com vaias da parte dos brasileiros. Conflitos. E uma noite memorável que passou para a História com o nome de “noite das garrafadas”.

       A revolta se generalizou: povo e tropa. O Imperador abdicou em favor de seu filho, o Príncipe D. Pedro de Alcântara, de 5 anos e 4 meses.

       Estávamos a 7 de abril de 1831.

      

                   FUJA! FUJA!

POR ESSE TEMPO me aconteceu um fato curioso. De repente abandonei os livros e senti de novo uma grande vontade de voltar para a vida de aventuras. A culpa era ainda dos livros. Eu tinha lido narrativas heróicas de guerras, romances de espadachins e aventureiros, descobridores e bandoleiros. Fiquei assanhado.

       Saí para a rua e procurei alguns camaradas. O Rio fervilhava de boatos. Tinha-se formado uma regência de três membros para governar o Brasil, pois o Príncipe era muito criança. Havia perturbação da ordem nas províncias. Os comentários borbulhavam. Pará, Pernambuco, Maranhão... Uma revolta na Ilha das Cobras.

       Andei a noite inteira inquieto. Lá por volta de meia-noite achava-me eu perdido à beira do mar, olhando as ondas, com saudade de meus tempos de índio livre. Pensei nas aventuras do passado e suspirei. O vento levou o meu suspiro, Fiquei olhando para as estrelas, como a lhes pedir conselho.

       Voltei para casa muito tarde. Subi a escada que levava a meu quarto.   Escuridão completa. De repente lá no alto, no patamar, surgiu uma luz. Era a dona da casa, com uma vela na mão. A luz batia no rosto enrugado da mulher. Parecia a cara dum fantasma. Não pude deixar de me lembrar de Curupira. Parei. Ela me olhou. Depois desceu alguns degraus, aproximou-se de mim com olhos arregalados e cochichou:

       — Fuja!... Fuja!... Vieram os soldados... revistaram seu quarto... Eles vão voltar... Fuja!...

       Eu estava embasbacado. Gaguejei:

       — Mas eu não fiz nada!

       A velha apertou o meu braço.

       — Vá embora, meu filho. Alguém o denunciou. Decerto algum inimigo. Esteve aqui uma escolta de dragões. Fuja!... Eles voltam. Olhe a forca!

       Senti na garganta a pressão da corda... A forca! Um calafrio me percorreu o corpo. Corri para o quarto. Tirei do baú a minha pistola e a minha faca. Pu-las na cintura, fiz uma trouxa com algumas roupas, juntei todo o dinheiro que tinha, paguei o alugue] do quarto, meti o resto no bolso e fugi.

       Mal tinha dobrado a primeira esquina, ouvi o estrépito de patas de cavalo. Espiei, com cautela. Eram os dragões que voltavam. Apearam na frente da casa onde eu morava.

       Deitei a correr, procurando sempre a sombra das casas.

       Quando o dia clareou, eu estava longe do Rio.

       Com alguns dias de marcha cheguei a São Paulo. Entrei numa hospedaria barata, onde descansei por algumas horas.

       Pelo hospedeiro fiquei sabendo que um plantador precisava de um homem de coragem para tomar conta de suas plantações. Ofereci-me, consegui o lugar e ali passei algum tempo.

       Dois anos correram. Não me pagavam mal. Mas eu andava triste. Tinha pena dos escravos. Tratava-os bem e isso de certo modo desgosta o patrão.

       Um dia vi o feitor chicoteando uma negra. Não me contive. Segurei-lhe o braço e arrebatei-lhe o chicote. O homem investiu contra mim, furioso. Desferiu um soco. Abaixei-me, rápido, e livrei-me do golpe. No instante seguinte minha munheca batia em cheio no queixo do feitor, que rolou pelo chão. O patrão surgiu furioso, trazendo consigo alguns caboclos armados.

       — Peguem esse bandido! — gritava ele. — Peguem!

       Deitei a correr. Saltei a primeira cerca, saltei a segunda, atravessei uma roça e dez minutos depois me encontrei na estrada, livre.

       Neste ponto minha memória me trai. Não sei que foi que me aconteceu. Lembro-me vagamente de uma carreta que entrei, carregada de fardos...

       E por mais esforço que faça agora, só consigo me lembrar de um dia do ano de 1835 em que, montando num bom cavalo, eu me dirigia para o sul do Pais. A viagem foi longa e penosa. Mas eu me sentia bem ao ar livre, batido de sol, atravessando rios, cortando florestas e campos verdes.

      

                   “ESTÁ PRESO!”

UMA NOITE me deitei debaixo dama grande figueira, conversei um pouco com as estrelas e dormi para só acordar no outro dia, já com sol. Olhei a meu redor e vi um grupo de homens mal vestidos, muito armados e de aspecto ameaçador.

       Um deles se aproximou de mim, segurou-me os ombros, sacudiu-me e disse:

       — Está preso. É um espião dos legalistas.

       Gaguejei uma desculpa. Não me serviu de nada. Amarraram-me as mios às costas e me fizeram caminhar a pé. Encontramos depois de marcha curta um acampamento. Levaram-me à presença do chefe.   Fui submetido a um rápido interrogatório.

       — Como se chama?

       — Tibicuera.

       — De quê?

       — De nada.

       O comandante resmungou.

       — Que é que anda fazendo por estas bandas?

       — Correndo mundo.

       — Com que fim?

       — Com nenhum.

       — Sabe onde está?

       — Não.

       — No Rio Grande do Sul.

       — Que bom!

       — E sabe que estamos em guerra?

       — Guerra? Ótimo! Ótimo!

       Meus olhos chisparam: não vi, é claro, mas senti. E então fiquei sabendo que explodira no Rio Grande do Sul uma revolução.

       Li na cara do chefe que eu não lhe era antipático.

       — Queres ser um dos nossos? — perguntou-me ele.

       Minha resposta foi pronta e firme:

       — Quero.

      

                   TIBICUERA ENTRE “OS FARRAPOS”

FOI ASSIM que me transformei em farrapo. Estávamos em 1835 e aquela era a Revolução Farroupilha,

       A pouco e pouco, no intervalo entre um combate e outro, na estrada por ocasião das longas marchas através das coxilhas, eu fui sabendo dos pormenores da revolução.

       O povo estava desgostoso com o presidente da província, o Dr. Antônio Rodrigues Fernandes Braga, que era acusado de simpatizar com a Sociedade Militar, que queria restaurar o trono de Pedro I. No dia 20 de setembro daquele ano de 1835 os chefes revolucionários — Onofre Pires e José Gomes de Vasconcelos Jardim tomaram conta de Porto Alegre. (Estive pensando numa coisa: Se os nossos heróis tivessem nomes mais curtos, seria mais fácil o estudo da História, do Brasil.) O Presidente Braga fugiu. A província caiu em poder dos revolucionários, E lá estava eu em cima dum cavalo, armado de lança, espada e pistola, lutando só por amor à aventura. Os meus ideais de poeta ficaram esmagados debaixo das patas dos cavalos. E depois do quinto combate comecei a gostar de meus companheiros e a amar aquela terra do Rio Grande, aquelas coxilhas que dão a impressão de um mar de ondas verdes que tivesse parado e se cristalizado de repente, por obra de um velho encantamento.

       Não vou descrever os combates em que tomei parte. Foram tantos... Mas não queiram saber o que é uma carga de lanceiros, um entrevero ou o assalto a um quadrado.

       Os anos passaram. Fui ferido duas vezes.

       Chegavam-nos notícias do Rio. A regência de três membros, que eu deixara tão forte e esperançada, não se agüentara. Acharam melhor entregar o governo a um único regente. Passaram o rojão para as mãos do Pe. Diogo Feijó, que não quis ver estourar. Atirou-o para os braços de Araújo Lima. Ora, a revolução do Rio Grande parecia varíola, de tão contagiosa. Na Bahia um homem chamado Sabino provocou uma revolta que ficou com o nome de sabinada. No Maranhão houve também uma revolta cujo chefe tinha o apelido de Balaio, motivo por que esse movimento ficou na História com o nome de Revolta dos Balaios.

       Chegaram os políticos à conclusão de que era melhor declarar a maioridade do príncipe e entregar-lhe o governo. Foi o que fizeram.

       Em 1836, um dos nossos chefes, o Cel. Antônio de Sousa Neto proclamou a República Rio-Grandense, que teve por sede a Vila de Piratini.

      

                   COXILHAS, LANCEIROS, ROMANCE E... PAZ!

PORTO ALEGRE caiu em poder dos legalistas. Fizemos o nosso quartel-general perto de Viamão. O nosso chefe-supremo era o Cel. Bento Gonçalves da Silva, uma figura impressionante. Lutei muitas vezes ao lado dele.

       Não me esqueço daquele dia... A nossa tropa ia atravessando o Rio Jacuí. Um pensamento me veio à cabeça: “Se os inimigos nos atacam agora, estamos perdidos...” Mal eu pensara isto, ouvimos um tiroteio. As balas caíram a meu redor, produzindo n’água um ruído líquido e mole. O pânico se apoderou de nossa gente. Bento Gonçalves gritava, procurando conter seus soldados. O combate se travou desigual para a Ilha do Fanfa. Bento Gonçalves foi aprisionado. Escapei por um triz. Horas depois me vi no campo aberto, molhado como um pinto, tiritando (era outubro e ainda fazia frio) e sentindo uma grande saudade de meu quarto de estudante.

       Reuni-me de novo aos revolucionários. Fiquei sabendo que Bento Gonçalves seria levado prisioneiro para a Corte.

       Mas a guerra continuou. Havia um guerreiro que até hoje nem eu nem ninguém conseguiu compreender. Chamava-se o Cel. Bento Manuel Ribeiro. Ora estava de nosso lado; ora passava para o lado dos legalistas. Como era homem valente, astuto e conhecedor da arte da guerra, nenhum dos dois exércitos o recusava. Mas não vamos falar mais nele. O assunto é perigoso, como a Batalha de Ituzaingó e a traição de Calabar.

       Obtivemos uma vitória em Caçapava, outra em Triunfo e cercamos Porto Alegre. Bento Gonçalves, bem como nos romances de Alexandre Dumas Pai (que naquele tempo tinha exatamente 35 anos de idade) fugiu do Forte do Mar, onde estava preso, e veio reunir-se à sua gente. Assumiu a Presidência da República Rio-Grandense e transferiu a capital para Caçapava.

       Outro general importante era Davi Canabarro. Havia também Giuseppe Garibaldi, um italiano amigo de aventuras, que lutou ao lado dos revolucionários. Casou-se com uma brasileira, Anita, que o acompanhava nos combates, passando ambos para a História. (Só quem não passou fui eu... Em compensação, estou vivo.)

       Lembro-me bem do seguinte quadro. Anoitecer. Nossa cavalaria corre. É a carga final. Os legalistas formam o quadrado. Esperam-nos de baioneta armada, pois suas balas já se acabaram. Vamos de lança estendida... O barulho das patas dos cavalos parece o pipocar dos tiroteios. Eu vou como num sonho maluco. Tonto, sentindo um frio esquisito na boca do estômago. O horizonte está vermelho, como se o sangue de todos os guerreiros mortos tivesse tingido o céu. Procotó-procotó-procotó... Os cavalos voam. Gritos. Urros. E o quadrado crescendo diante de nossos olhos, crescendo... O vento faz ondular furiosamente os nossos palas. As baionetas... E de repente o choque. Sinto uma dor aguda. Perco os sentidos. Quando acordo estou num hospital de Caçapava.

       Convalescença. Deram-me notícias da Corte. O Barão de Caxias pacificara o Maranhão. Abafara uma revolta em São Paulo. Outra em Minas Gerais. Voltava o Imperador agora os olhos para o Sul. Era preciso dominar o Rio Grande.

       Por esse tempo aconteceu outra coisa curiosa. A Inglaterra fazia o papel de “polícia dos mares” e votou uma lei, segundo a qual ficavam sujeitos ao julgamento dos tribunais ingleses os cidadãos brasileiros que negociassem com escravos. Recebi esta noticia com certa alegria. Era um sinal de que em breve poderíamos esperar uma lei brasileira proibindo a compra e a venda de negros. Saí do hospital curado. Tomei parte em alguns combates mais. O Barão de Caxias foi encarregado de pacificar o Rio Grande. Por esse tempo Bento Manuel voltava de seu exílio voluntário para lutar ao lado dos legalistas. Sofremos uma série de derrotas.

       A 1.° de março de 1845 era assinada a paz.

     Já era tempo. Eu estava cansado. Tinha lutado durante quase dez anos. Esquecera os livros lidos, perdera o gosto pela poesia. Estava com o corpo cheio de cicatrizes e a alma amargurada. Aquela guerra entre irmãos só agora me aparecia com todo o seu pavor. Jurei a mim mesmo que não tomaria mais parte em revoluções. Uma noite Anchieta me apareceu em sonhos e pela expressão de seu rosto vi que ele não estava contente comigo.

      

                   LEVAM-ME PARA O HOSPÍCIO

FUI MORAR em Porto Alegre, onde consegui emprego numa Soja. Às vezes eu contemplava o Guaíba e sentia saudades do mar.

       O tempo passava. Eu me lembrava do pajé. E me apalpava, me olhava aos espelhos e não podia compreender o mistério... A verdade era que eu estava vivo e me recordava de coisas passadas havia duzentos e muitos anos.

       Uma noite encontrava-me eu em visita na casa de uma família amiga. Falava-se na última revolução. Alguém contou que rebentara em Pernambuco uma revolução (a dos Praieiros) que fora dominada depois de alguns meses. Um outro recordou episódios de nossa História, coisa aprendida em livros.

       Fui ficando entusiasmado de tal forma que dentro em breve tomei conta da palestra. Contei do meu encontro com Anchieta; da minha vida nas selvas; das bandeiras; da guerra contra os holandeses; da vida no quilombo dos Palmares; da fundação do Rio de Janeiro...

       Todos me ouviram em silêncio. Quando terminei a narrativa vi olhos desconfiados a me fitarem. O dono da casa se ergueu, bateu no meu ombro e disse:

       — Eu não sabia que o meu amigo tinha veia de romancista. A história está bem arranjada.   Por que não escreve isso?

       Fiquei indignado. Mas eu estava falando a verdade, a pura verdade! Estabeleceu-se discussão. Perdi a linha. Exaltei-me. As senhoras se retiraram da sala, temendo um conflito.

       Sabem o resultado? Alguns homens me dominaram, me amarraram e me levaram à presença dum médico. Este me interrogou. De início pediu a data e o lugar do meu nascimento. Respondi:

       — Nasci numa taba tupinambá antes do descobrimento do Brasil.

     O médico olhou para mim, pensou um instante e depois disse para os homens que me cercavam:

       — Está doido varrido. Podem levá-lo.

       Fui internado num hospício. Parece impossível. Passei lá quase dois anos. Pedi tinta, pena e papel e comecei a escrever as minhas memórias. Se não fora esse entretimento eu não teria agüentado aquela prisão horrenda e a companhia perigosa dos loucos.

       Narrei com todos os pormenores (muito melhor do que estou fazendo agora) a minha vida, desde a taba até aquela data. 0 manuscrito ia crescendo: era uma pilha de meio metro de altura.

       Um dia um louco se aproximou dele e prendeu-lhe fogo com a chama duma vela. Quando eu vi o fogo havia consumido os meus papéis e passava para o lençol da cama. Dentro em pouco o incêndio se generalizava. Soaram os sinos de alarma. Os loucos começaram a cantar. Os guardas corriam dum lado para outro. Abriram as nossas celas e as portas do hospício. Aproveitei a confusão e fugi.

      

                   VOLUNTÁRIO NO PRATA

CHAMAVAM VOLUNTÁRIOS para o exército. Alistei-me. Fui aceito. Metido na farda me olhei um dia nas águas duma lagoa e disse para mim mesmo: “Qual, Tibicuera! Tu não tens cura. O teu destino é andar às voltas com guerras.” Mas a verdade era que como soldado eu me livrava do perigo de voltar para o hospício.

       Durante vários meses levei vida boa. Mas um dia tivemos ordem de marchar. O exército brasileiro ia invadir a República Oriental do Uruguai. Havia lá uma complicação tremenda. Oribe era o presidente. Mas Rivera fizera uma revolução, derrubara-o e tomara conta do governo. João Manuel de Rosas, ditador de Buenos Aires, arregalou o olho para a Banda Oriental. Podia tomar conta dela. Também não era impossível abocanhar o Rio Grande do Sul. Então ele seria o ditador de um país muito grande e poderoso. Para realizar seu sonho, apoiou Oribe, que cercou Montevidéu. Corriam perigo as fronteiras do Brasil. E por isso íamos nós para lá.

       Confesso que foi bem desagradável aquela campanha. Passamos muito trabalho lutando em terra estrangeira. Mas obrigamos Oribe a levantar o cerco. Avançamos sobre Buenos Aires. Vencemos Rosas em Caseros sob o comando do gaúcho Marques de Sousa.

       Voltei da campanha, estropiado. E fazendo projetos para mudar de vida. Estava resolvido a abandonar as guerras.

      

                   ENTRE GALINHAS E PÉS DE MILHO...

FOI POR ISSO que quando em 1864 se falou numa nova expedição à República Orientai, eu preferi ficar numa granja que tinha arrendado. Achei mais agradável plantar milho e criar galinhas do que ir matar gente na república vizinha.

       Entretanto fiquei curioso por saber o que se estava passando. Os jornais andavam cheios de notícias em torno do conflito. Os partidos que lutavam do outro lado da fronteira, repetidamente praticavam violências contra cidadãos brasileiros. Todas as reclamações diplomáticas tinham sido em vão. A anarquia continuava no Uruguai. Guerreavam-se os dois partidos rivais. Os blancos, que eram a gente de Oribe e os colorados, que eram os homens de D. Venâncio Flores. As forças brasileiras invadiram o Uruguai, uniram-se aos colorados, sitiaram Montevidéu e entraram nesta cidade, entregando o governo ao Gen. Flores (Não confundir com o Gen. Flores da Cunha.)

       Acompanhei a guerra pelos jornais. O meu milharal crescia. As galinhas engordavam. Eu tinha comprado alguns livros e era de novo feliz com os meus poetas, os meus romancistas e os meus filósofos.

       Mas...

      

                   SOLANO LOPEZ NÃO GOSTOU

MAS... FRANCISCO SOLANO LOPEZ, ditador do Paraguai não gostou de ver o Brasil metendo o bedelho nos negócios do Uruguai. Sem declarar guerra prendeu no Rio Paraguai o vapor brasileiro Marquês de Olinda que levava a bordo o presidente nomeado para o Mato Grosso. Em seguida uma força paraguaia invadiu esta Província brasileira. Outra se meteu República Argentina a dentro.

       Estava acesa a guerra.

       Brasil, Argentina e Uruguai uniram-se e formaram a Tríplice Aliança para guerrear o Paraguai.

       No Brasil criaram-se os Corpos de Voluntários da Pátria.

       Tibicuera vendeu o sítio, despediu-se das galinhas, lançou um olhar de adeus para os livros e para o milharal crescido — e se alistou no Exército.

       Travou-se o combate naval do Riachuelo. Francisco Manuel Barroso da Silva, comandante da nossa divisão naval, conseguiu uma grande vitória. Estigarríbia à frente de seu Exército invadia o Rio Grande. Mas 100 dias depois, se entregava em Uruguaiana. E D. Pedro II, que tinha vindo em pessoa ao Rio Grande, assistiu à rendição do chefe inimigo.

       Os aliados invadiram o território paraguaio, passando pelo Uruguai e o território argentino de Corrientes.

       O Brig. Manuel Luís Osório comandava nosso Exército. Que era um homem valente e impetuoso eu vi. Não li nem ouvi dizer. Vi.

       Vocês hoje falam na 1.ª Batalha de Tuiuti... Mas não imaginam o que ela foi na realidade. Eu estava lá, eu a sinto ainda no meu peito, nos meus ossos, no meu sangue.

       Não quero contar o que foi aquela campanha que ficou na História com o nome de Guerra contra o Governo do Paraguai. Ferido duas vezes, passei muito trabalho, sofri horrores.

       Curupaiti, Humaitá, Tuiuti, Itororó, Lomas Valentinas, Angostura... São nomes que lembram tiros de canhão e de espingarda, baionetas relampejando, homens gritando e caindo, sangue empapando o chão. Cada nome desses recorda uma batalha. É claro que não estive em todas elas. Mas, oh!, como desejei estar em toda a parte onde se lutava!

       Argentinos e uruguaios guerrearam com bravura a nosso lado. Valentes, e muito, eram também os paraguaios.

       Estive no Cerro Corá com os soldados que cercaram Lopez. O ditador não se quis render. Um dos nossos o matou.

       A guerra terminou. Durara mais ou menos cinco anos.

       Consegui ser transferido para um regimento do Rio de Janeiro.

       Em princípios de 1871 voltei para a Capital do Império.

       Tirei a farda e de novo me vi sozinho e pobre, indeciso e inquieto, diante do mar, do velho mar da minha saudade e das minhas aventuras.

      

                   MOTINS...

UM DIA IA CAMINHANDO por um largo, na cidade, quando vi grande aglomeração em torno de um homem que, de pé em cima dum banco, fazia um discurso entusiasmado. Aproximei-me e escutei. Era um propagandista da República. Gostei do que ele dizia. Eram palavras bonitas. Promessas agradáveis.

       Comecei a me interessar pela República e freqüentei o Clube Republicano que fora fundado no ano anterior por Saldanha Marinho, Aristides Lobo e Cristiano Otoni. Foi lá que, no decorrer dos anos da propaganda, travei relações com homens inteligentes e entusiastas, alguns deles muito jovens. Lembro-me de Quintino Bocaiúva, Silva Jardim, Rui Barbosa, Campos Sales, Demétrio Ribeiro, Joaquim Nabuco, Assis Brasil, Eduardo Wandenkolk...

       Por aquele tempo o Imperador foi fazer uma viagem à Europa. Na sua ausência a Princesa Isabel ficou como regente do Império.

       No clube comentamos com muita satisfação a lei do “ventre livre que declarava livres os filhos nascidos das escravas.

       O tempo passou. Progredi na vida. Consegui ótima colocação. Voltei-me de novo para os livros.

       Em 1875 tivemos notícia de motins em algumas Províncias do Norte. Em Pernambuco o povo atacou e invadiu casas de negócios, por causa da lei do governo que mandava adotar o sistema métrico decimal. Ninguém queria saber de comprar as coisas aos quilos. Vejam que engraçado! Mas os quebra-quilos tiveram de amoitar, porque o governo agiu com energia.

       No Rio as coisas não andavam boas. Fora criada uma taxa de vinte réis sobre cada passagem de bonde. Era o Imposto do Vintém!

       Lopes Trovão, um jovem propagandista da República, fez comícios na rua e falou contra a odiosa taxa.

       No dia em que a lei ia ser posta em vigor, o povo falava em revolta. Comecei a ficar inquieto. E, a despeito de todos os esforços que fiz para me portar com discrição, não pude resistir ao desejo de fazer uma baderna. Foi num bonde. Quando me vieram cobrar a passagem, soltei um “Viva a República!”. Veio a polícia. Socos, pontapés, gritos. Depois, tiros. Naquele dia houve barricadas nas ruas, travaram-se verdadeiros combates. Foram mobilizados os corpos de linha, os imperiais marinheiros, os bombeiros...

       Cheguei a meu quarto de madrugada, empoeirado, esfolado, esfarrapado. Contemplei meus livros com tristeza. Eu era mesmo um caso perdido.

      

                   ZUMBI, TEU POVO ESTÁ LIVRE!

FIZ-ME AMIGO de José do Patrocínio. Tenho dele as melhores recordações. Não poderei mais esquecer-lhe a figura imponente. Era um preto de ombros largos, olhar chispante. Jornalista e orador, seus artigos e discursos eram vibrantes e entusiastas. Batia-se a favor do abolicionismo: queria acabar com a escravatura no Brasil. Ele próprio era neto de escravos.

       Tivemos por aquela época um caso complicado conhecido como “a questão militar”. Houve discussões pela imprensa. As opiniões se dividiram. O ministro da guerra repreendeu os oficiais que haviam escrito nos jornais sem licença. Mas o Mar. Deodoro da Fonseca e o Ten.-Gen. Visconde de Pelotas se manifestaram a favor desses oficiais.

       Eu via o governo pouco seguro. A República não tardaria em ser proclamada.

       Na noite de 13 de maio de 1888 me vi na rua no meio duma multidão que, louca de alegria, gritava, cantava e ria, dando vivas à princesa regente. D. Isabel, que acabava de assinai a lei abolindo definitivamente a escravatura.

       Deixei-me levar pelo povo, fui arrastado, olhando para o céu, lembrando-me de meus companheiros mortos nos quilombos. E não pude deixar de dizer baixinho: “Zumbi, teu povo está livre!”

       Todos os sonhos dos homens do passado se realizavam. À cabeça de Tiradentes decerto sorria lá do alto do poste infame, contemplando a pátria libertada. Quem sabe se agora lá duma estrela remota o Zumbi não estava sorrindo também para a regente do Império?

      

                   15 DE NOVEMBRO DE 1889

A TODAS ESTAS a questão militar continuava acesa. Aproveitando um boato de guerra entre Paraguai e Bolívia, o governo mandou ao Mato Grosso uma força comandada pelo Mar. Deodoro da Fonseca. Um meio hábil de afastá-lo do Rio,.,

       Um dia, já ele de volta à Corte, correu pela cidade o boato de que o marechal ia ser preso juntamente com o Ten.-Cel. Benjamin Constant.

      Uma brigada de São Cristóvão se rebelou. Deodoro e Benjamin Constant puseram-se à frente dessa força.

       O momento é de sensação. Todos os ministros — menos o da Marinha — se encontram reunidos no edifício do Ministério da Guerra. Nervosismo geral.

       Deodoro marcha à frente das brigadas revoltadas. O almirante Barão de Ladário, Ministro da Marinha, aproxima-se. Vem de carro, com o fim de se reunir ao Ministério. Deodoro manda prendê-lo. O barão resiste à voz de prisão e é ferido por uma descarga.

       Deodoro entra no pátio do Ministério da Guerra onde se encontram as tropas do governo... Como vão recebê-lo? Como inimigo?

       Há momentos de terrível angústia. Deodoro entra. As forças do governo lhe prestam continência. É a revolução.

       Os ministros se entregam aos revoltosos e telegrafam ao Imperador, que se acha em Petrópolis, apresentando-lhe seus pedidos de demissão.

       Quando vi o rebrilho das baionetas e ouvi o som das charangas, não pude deixar de acompanhar as tropas que desfilavam pelas ruas.

       Naquela mesma tarde de 15 de novembro de 1889, José do Patrocínio levou ao Mar. Deodoro da Fonseca um manifesto declarando que o povo havia proclamado a República.

       Formou-se o governo provisório. Estava proclamada a República dos Estados Unidos do Brasil. Quatro dias depois eram adotadas uma nova bandeira e as armas nacionais.

       E o Imperador? Ninguém lhe queria mal. Era uma grande alma, cheia de bondade e tolerância. Eu até simpatizava com ele. O que me seduzia na idéia republicana era o que ela tinha de novo, de revolucionário, de vibrante.

  1. Pedro II foi intimado a partir para a Europa.

       Fui ao cais espiar seu embarque. Eram três horas da madrugada. O imperador veio num carro negro, puxado por uma parelha de cavalos. Pouca gente o acompanhava. Uma lancha o conduziu até o paquete Alagoas que devia levá-lo para o exílio.

       Olhei o vulto encurvado. Tive pena. Vi o vapor partir e não sei por que me lembrei daquele dia distante em que as caravelas de Pedro Álvares Cabral se fizeram ao mar.

      

                   TIBICUERA, CRIA JUÍZO!

RELENDO AGORA O que escrevi, vejo que minhas aventuras foram uma sucessão de guerras, revoltas, cenas doidas, conspirações, correrias e brutalidade. Confesso que gostei de tudo isso e que sempre lutei com o maior prazer.

       Hoje sou um homem civilizado e sereno que não gosta de ver sangue, que não pratica a violência e que procura ter boa vontade, tolerância e compreensão para com o próximo.

       Uma coisa que devo dizer. Enquanto eu andava dando tiros como um desesperado nos campos do Paraguai, nas coxilhas do Rio Grande e nos arredores de Montevidéu — havia em outras partes do mundo homens silenciosos e calmos que, metidos em seus laboratórios ou gabinetes, faziam maravilhosas excursões pelo país da Matemática, da Física, da Química, da Astronomia, da Biologia... Enquanto eu empunhava o fuzil eles manejavam o microscópio ou o telescópio. Minha espada cortava para matar; mas o bisturi dos médicos rasgava para salvar. Minha atenção estava concentrada nas máquinas de destruição; mas os homens calmos e silenciosos dos laboratórios estavam inventando máquinas não para destruir mas sim para construir. Em fins do século XVIII, enquanto eu olhava para as estrelas sem saber que fazer com minha vida, Pasteur, químico francês, lutava com os micróbios. Era uma guerra desigual: um homem contra bilhões de inimigos invisíveis a olho nu. Mas esse homem lutou e venceu. Em 1877 eu andava trocando pernas à toa pelas ruas do Rio, ouvindo os discursos dos republicanos e esperando notícias de novas revoltas contra o Império. Pois nesse mesmo ano, nos Estados Unidos, Thomas Alva Edison inventa o fonógrafo.

       Voltando aos livros, tive ocasião de ler a vida dos grandes vultos da História: santos, inventores, descobridores, artistas... Tomei nota da data dos inventos e descobertas mais importantes da humanidade. Procurei me lembrar de minha situação nessas datas. O resultado quase sempre me foi desfavorável. É verdade que defendi muita causa justa, estive muitas vezes do lado do que era bom e decente. Mas devo confessar que estudando o quadro que aparece no capítulo seguinte, achei no fim um grande saldo contra mim.

       E resolvi tomar juízo.

      

                   PARALELO ENTRE OS GRANDES

                   INVENTOS E MINHAS AVENTURAS

1439 1450Johannes Gutenberg, na Alemanha, inventa a imprensa.Tibicuera não tinha nascido, mas seus avós já corriam por Pindorama, caçando, pescando, dançando, guerrear do e comendo os inimigos.1560 1603William Gilbert, na Inglaterra, descobre o fenômeno elétrico.Tibicuera faz explodir o último reduto dos invasores franceses no Rio de Janeiro (1560). Até 1603: mistério da vida do herói.1621Lord Dudley, na Inglaterra, inventa o forno de ferro.Tibicuera nada fez de importante neste ano. Só conhecia o forno de barro.1630David Ramseye, na Inglaterra, descobre a maneira de utilizar o vapor.Tibicuera guerreia os holandeses como soldado de Matias de Albuquerque. Não tem a menor idéia de existência do vapor.1643Torricelli, na Itália, inventa o barômetro.Tibicuera cuida dos cavalos de Nassau. Só conhece dois barômetros: os burros e seus cabelos (dele, herói). Quando os primeiros se espojam no chão e os segundos se eriçam, a chuva é certa.1709Fahrenheit, em Dantzig, inventa o termômetro.Tibicuera toma parte em várias bandeiras. É a época da febre das explorações e das conquistas. A invenção do termômetro é muito oportuna.1725William Ged, na Escócia, inventa a estereotipia.Tibicuera este ano nada faz que se aproveite. Não tem notícia da existência da Escócia e muito menos do inventor Ged.1752Benjamin Franklin, nos Estados Unidos, inventa o pára-raios.Tibicuera vê um jequitibá da floresta, derrubado por um raio. Chegaste tarde, Benjamin!1762James Watt, na Escócia, inventa a máquina a vapor.Portugueses e espanhóis jogam peteca com a Colônia do Sacramento. Tibicuera não faz absolutamente nada que preste.1783Os irmãos Montgolfier, na França, inventaram o balão a gás.Tibicuera continua impassível e inútil. Mas tem a glória de ter visto em 1709 as experiências feitas com aeróstato por Frei Bartolomeu de Gusmão, brasileiro nascido em Santos. 74 anos antes dos Montgolfier, Gusmão fez subir ao ar uma máquina aerostática!1785James Cartwright, na Inglaterra, inventa o tear mecânico.Tibicuera sempre a vagabundear. Não acredita em teares, porque ainda não se habituou bem ao uso de roupas...1786John Fitch, nos Estados Unidos, faz as primeiras experiências com um barco a vapor no Hudson.Tibicuera faz uma viagem de canoa pelo São Francisco. Rema, sua, esfalfa-se. Oh! Se Fitch tivesse chegado dez anos antes!1787Oliver Evans, nos Estados Unidos, inventa um veículo a vapor que pode ser considerado o tataravô do automóvel.Tibicuera entra em Vila Rica montado num burro e não chama a atenção. Provocaria escândalo se entrasse guiando a máquina de Evans...1794Eli Whitney, nos Estados Unidos, inventa um descaroçador de algodão, o “cottongin”.Tibicuera corre mundo. Trabalha num algodoal e descaroça algodão com as mesmas mãos com que empunhou a espada. Sempre atrasados, esses inventores!1803Wise, na Inglaterra, inventa a pena de aço.Tibicuera não sabe escrever. Mas os que sabem escrevem com pena de pato.1804Richard Trevithick, na Inglaterra, inventa a locomotiva a vapor.Névoa na vida de Tibicuera. Ele caminhava a pé. Como tudo lhe seria mais fácil se já trafegassem as locomotivas a vapor!1807Robert Fulton, nos Estados Unidos, faz experiências com o barco a vapor. Desta vez com resultados satisfatórios.Olhando os veleiros na Baía de Guanabara, Tibicuera (sempre vagabundeando!) nem sonha com o barco a vapor...1810Frederick Koenig, na Alemanha, inventa a máquina impressora de cilindro giratório. Tibicuera vai ver como se imprime um jornal na “Imprensa Régia”. Acha as máquinas maravilhosas. Imaginem se ele viesse a de Koenig...1812J. B. Ritter, na Alemanha, inventa o acumulador.Tibicuera criado de D. João VI. O Brasil pode ser comparado a um acumulador elétrico que se está preparando para a grande descarga da Independência.1814Sir Humphry Davy, na Inglaterra, inventa uma lâmpada de segurança para os mineiros.Tibicuera não inventa coisa alguma. Continua a acompanhar D. Carlota em seus passeios.1816Brunel, na Inglaterra, inventa a máquina de costura.Tibicuera continua no Paço. Vê as costureiras da Rainha trabalhando ativamente com as agulhas. Coitadinhas!1822P. Force, nos Estados Unidos, inventa a impressão em cores. Charles Babbage, na Inglaterra, inventa a máquina de calcular.Tibicuera ouve o “Independência ou Morte!”. E se a máquina de Force já fosse empregada no Brasil, os jornais poderiam dar edições em duas cores: verde e amarelo.1827John Walker, nos Estados Unidos, inventa o fósforo de atrito.Tibicuera está entregue de corpo e alma aos livros. Ao saber da nova invenção, lembra-se do tempo que perdeu a esfregar pauzinhos para conseguir fogo.1828William Church, nos Estados Unidos, inventa uma máquina para compor e fundir tipos.Tibicuera continua mergulhado na leitura e nem imagina o bem que a invenção de Church vai trazer para os livros em geral.1831G. J. Guthrie, na Escócia, inventa o clorofórmio.Tibicuera foge do Rio. (Mais tarde, durante a Guerra dos Farrapos, vê médicos improvisados fazendo dolorosas operações cirúrgicas sem anestesia; o paciente tomava alguns goles de cachaça para resistir melhor à dor. O clorofórmio veio resolver o problema.)1833 1839J. Nicéphore Niepce inventa (1833) a fotografia, aperfeiçoada em 1839 por Charles Daguerre, na França.Em 1833 Tibicuera caminha para o Sul.   De 1835 a 1839 combate as tropas legalistas ao lado dos Farroupilhas.1843Charles Thurber, nos Estados Unidos, inventa a máquina de escrever.Tibicuera sempre guerreando nas coxilhas do Sul. Toda a gente continua escrevendo a mão...1844Samuel Morse, nos Estados Unidos, inventa um aparelho prático de telegrafia elétrica.Tibicuera convalesce dum ferimento, no hospital de Caçapava. Quanto serviço o telégrafo teria prestado na guerra... se tivesse sido inventado dez anos antes!1846Schonbein, na Alemanha, inventa o algodão-pólvora.Tibicuera passa este ano no hospício. Mas a verdade é que nenhum daqueles loucos jamais sonhou com a possibilidade de transformar o algodão em explosivo...1847Sobrero, na Escócia, inventa a nitroglicerina.Tibicuera continua no hospício. Como os hóspedes desta casa gostariam de brincar com nitroglicerina!1851Page, nos Estados Unidos, inventa a locomotiva elétrica.Tibicuera, como soldado do Exército Brasileiro, luta contra as tropas de Oribe.1855Ernest Michaux, na França, inventa a bicicleta.Tibicuera cria galinhas e planta milho, nos arredores do Rio. Seus passeios, à cidade seriam mais fáceis se ele tivesse uma bicicleta.1868A. Nobel, na Suécia, inventa a dinamite.

Tibicuera luta em Lomas Valentinas. Teria feito o diabo se pudesse dispor duma dúzia de bombas de dinamite...1875 Woodruf, nos Estados Unidos, inventa a máquina de fazer gelo.Tibicuera descansa da Guerra do Paraguai. Continua a não fazer nada de excepcional.

1876 Alexandre Graham Bell, nos Estados Unidos, inventa o telefone.

Tibicuera espera novas oportunidades para aventuras. Mas nota que os tempos estão mudando. A notícia da invenção do telefone fá-lo lembrar os tambores da taba, meio de comunicação a distância usado pelos selvagens.1877Thomas A. Edison, nos Estados Unidos, inventa o fonógrafo. Tibicuera interessado na propaganda da República.1878Thomas A. Edison, nos Estados Unidos, inventa a lâmpada elétrica.Tibicuera continua a freqüentar comícios, ansioso por um motim.

1884Ottmar Mergenthaler, nos Estados Unidos, inventa a linotipo.

Tibicuera escreve artigos sobre a abolição. Os artigos são publicados em jornais cuja composição tipográfica é feita a mão. 1895W. C. Roentgen, na Alemanha descobre os raios

X.Tibicuera descobre que não tem feito nada de útil ultimamente.

1894O P.e Roberto Landell de Moura consegue, com seu rudimentar aparelho, transmitir e receber, sem fio, a palavra humana.Tibicuera olha para o passado e resolve tomar juízo!      

       Alguns anos mais tarde, a essa lista gloriosa de inventores se juntava um nome brasileiro — o de Santos Dumont, o pioneiro da navegação aérea.

      

                     VOLTO DE NOVO AOS LIVROS

PROCUREI UM EMPREGO decente e voltei para a companhia agradável dos livros. Eu dizia cá comigo mesmo: “Temos a República. Vida nova. Gente moça no governo. Agora vamos ter ordem e progresso como diz o lema de nossa bandeira.”

       Havia progresso, sim. A população aumentava. Surgiam homens notáveis: estadistas, cientistas, escritores, artistas. Os nossos portos ganhavam movimento. Nossas cidades cresciam. Construíam-se novas estradas de ferro. O comércio prosperava. As redes telegráficas se ramificavam pelo Brasil, como um sistema de vasos sanguíneos. (Como no princípio deste livro eu comparei o formato do nosso País com o de uma perna de porco, a comparação entre as linhas telegráficas aos vasos sanguíneos fica mais exata ainda.)

       Estudei Literatura. Aprendi muita coisa interessante.

       Todos aqueles escritores de que falei a vocês no capítulo intitulado “Eu e os Livros” pertenciam (aprendi) a um período de nossa literatura chamado Classicismo, que foi de 1500 a 1836.

       De 1836 a 1875 tivemos o Romantismo. Li os principais autores deste período. Gostaria de dar a vocês o nome de todos e um comentário de suas obras mais notáveis. Mas isto simplesmente não é possível, pois não quero transformar esta narrativa numa enciclopédia de conhecimentos gerais.

       Não deixarei, entretanto, de citar alguns nomes.

       Na poesia tivemos Araújo Porto Alegre, autor do poema Colombo. Castro Alves, um dos maiores poetas da língua portuguesa, autor de Espumas Flutuantes e do Poema dos Escravos. Gonçalves Dias, que escreveu Primeiros Cantos; Segundos Cantos, Terceiros Cantos e Timbiras. Casimiro de Abreu (quem não o conhece?) que nos deixou Primaveras e Canções do Exílio. Fagundes Varela, o homem que concebeu 0 Evangelho nas Selvas. Álvares de Azevedo, autor de A lira dos Vinte Anos.

       E os romancistas? Confesso que os adorei. Lendo o Guarani de José de Alencar eu me revi no índio Peri, herói da história. Quando li As Minas de Prata e Iracema, do mesmo autor, senti uma vaga saudade da minha vida de aventuras. Em O Moço Louro e na Moreninha de Joaquim Manuel de Macedo, encontrei já emoções diferentes. As Memórias dum Sargento de Milícias de Manuel Antônio de Almeida me proporcionaram algumas horas de leitura agradável. Gostei da Escrava Isaura e de Garimpeiro de Bernardo Guimarães. Devo confessar que chorei lendo Inocência de Alfredo d’Escragnolle Taunay.

       Eram estes os romancistas que eu mais admirava.

       Tivemos no período do Romantismo nomes ilustres na oratória, nas ciências, no teatro e no jornalismo.

       Durante a propaganda republicana conheci um poeta estranho e impressionante. Era preso e se chamava Cruz e Souza. Seu livro principal se chama Evocações e Broquéis. Morreu nove anos depois da proclamação da República.

       Um conselho: Procurem ler um bom compêndio de Literatura. Porque eu vou voltar agora às minhas aventuras.

       Mas... merecerão o nome de “aventuras” os episódios sem graça da minha vida nova?

      

                   NUVENS NO CÉU DA REPÚBLICA

TUDO PARECIA deslizar suavemente no melhor dos mundos, quando um dia espalhou-se pela cidade a notícia de que a esquadra se havia revoltado. Pelo calafrio que me correu pelo corpo, senti que não estava de todo curado do vício da aventura, do amor à ação militar Não me contive. Fui para a rua catar boatos.

       Vou descrever a situação em dois traços. Deodoro estava na Presidência da República; o Mar. Floriano Peixoto na Vice-Presidência. A oposição tinha maioria no Congresso Nacional. A conselho de seu ministro Barão de Lucena, Deodoro manda dissolve-lo!

       Agora o levante do “Riachuelo” era um protesto contra esse ato do governo.

       Diante da anarquia, o Mar. Deodoro, não querendo provocar a guerra civil, passa o governo ao vice-presidente.

       Período de agitação. Foram depostos os governadores das Províncias que tinham concordado com o movimento revolucionário iniciado pela esquadra. Protestos. Motins. Debates. Mas Floriano Peixoto se mantém.

       No Rio Grande dois partidos políticos disputam o poder: Republicanos e Federalistas. Em 1893 estoura a revolução. Os dois partidos vão guerrear-se nas coxilhas. Nesse mesmo ano, nova revolta da armada no Rio, comandada pelo C-Alm. Custódio de Melo.

       Roncou o canhão. Os navios atiravam. As fortalezas respondiam. Duelo tremendo. Tremiam as vidraças das janelas das casas mais próximas do mar. Tremiam minhas vísceras. De medo ou de vontade de brigar?

       Os revoltosos do mar se correspondem com os revoltosos de terra, no sul do País. O governo corre perigo.

       Mas Floriano Peixoto arma uma esquadra e faz os rebeldes abandonarem suas posições. Chamaram-na “esquadra de papelão”... Aproxima-se o fim do período governamental. Faz-se a eleição do novo presidente.              

       E a todas essas acontecia uma coisa assombrosa: eu me mantinha recolhido no meu canto, apegado aos meus livros. Tinha no meu quarto retratos de Edison, Pasteur, Newton. Estava resolvido a abandonar definitivamente a carreira das armas.

     

                     ACABARAM-SE OS TEMPOS ROMÂNTICOS

NÃO SEI SE DAQUI para diante vocês vão achar algum interesse na minha vida. De 1894 em diante procurei ser um homem pacato, sensato, discreto no vestir e no falar, amigo do sossego. Nem sempre, confesso, pude manter essa linha. Mas consegui milagres. Porque, no fim de contas, eu era Tibicuera, índio tupinambá.

       A verdade é que os tempos românticos tinham acabado. Não havia mais lugar para aquelas aventuras malucas do passado. Os corsários já não ousavam desembarcar nas nossas costas. Não havia questões sérias de limites. Os homens civilizaram-se. Estávamos prestes a entrar num novo século!

       Minha vida corria sem incidentes dignos de nota. Eu era um homem igual aos outros.

       Quanto às “aventuras do Brasil”, se eu fosse descrever o que se passou entre 1894 e 1937 corria dois riscos: o de fazer vocês bocejarem e o de amanhã me ver envolvido numa polêmica pelos jornais. Porque a História do Brasil da República para cá, meus amigos, só poderá ser contada com serenidade daqui a cinqüenta anos no mínimo.

       Olhem. Estamos na praça central duma grande cidade... Que vemos? Pouca coisa. Mas se subirmos para o alto de um monte que fique a alguma distância dessa cidade, havemos de enxergá-la em toda a sua extensão e formar sobre ela a nossa opinião, livre da influência dos seus habitantes.

       Isso não impede que, recorrendo ao meu caderno de notas, eu lhes dê em poucas palavras um apanhado do que se passou de 94 para cá.

      

                     O DESFILE DOS PRESIDENTES

FOLHANDO MEU CADERNO de notas, que vejo? Uma fila de presidentes, vice-presidentes, ministros, fatos, revoluções, heróis, visionários, escritores... e nem sei quanta coisa mais!

       Quando a gente se lembra de uma pessoa, imagina a cara dela e ao mesmo tempo algum acontecimento que se passou com essa pessoa. Por exemplo: Quando recordo um presidente que tivemos, ligo à sua imagem duas datas — principio e firo de seu governo — os fatos mais importantes desse período governamental e junto a tudo isso alguns acontecimentos da minha vida particular. Eis uma maneira resumida e pitoresca de gravar na memória a História recente do Brasil.

       Atenção!   Vai começar o desfile.

       PRUDENTE DE MORAIS. Vejo na cabeça dele os números 1894 e 1898. Misturo estas imagens com as seguintes:

       Revoltosos no pátio da Escola Militar.

       Bandeira branca nas coxilhas do Rio Grande: fim da revolução.

       Nos sertões da Bahia, um homem barbudo com olhos de doido: Antônio Conselheiro, um visionário, que reuniu fanáticos, formou um núcleo formidável, Canudos, que resistiu a muitas expedições de forças do Exército. A Tróia de Palha, que nunca se rendeu.

       Vejo também o Ministro da Guerra, Mar. Carlos Machado de Bittencourt assassinado quando defendia o Presidente duma agressão.

       CAMPOS SALES. Este nome me lembra os números 1898 e 1902. Nesses quatro anos aconteceram coisas importantes. Eu, Tibicuera, formei-me em Medicina e montei um consultório. Vi o Presidente da Argentina que visitou o Rio de Janeiro.

       Campos Sales foi à Argentina, retribuindo a visita.

       Entramos com festas no século XX. Ao entrar 1901, não sei por que, senti uma enorme saudade do pajé. Creio que derramei umas duas lágrimas na grande madrugada.

       RODRIGUES ALVES. Duas datas: 1902 a 1906.

       Em 1902 conheci um dos maiores romancistas da língua portuguesa: Machado de Assis. Era um homem calado acanhado, tímido. Seus romances fariam figura bonita em qualquer literatura do mundo. Nesse mesmo ano conheci dois poetas notáveis: Raimundo Correia e Olavo Bilac.

       Mas... que é que me lembra mais o nome de Rodrigues Alves?

       Ah! O Brasil ganhou mais um naco de terra: o Território do Acre pela indômita bravura de um filho do Rio Grande: José Plácido de Castro.

       Deixei crescer uma pêra. Escrevi um livro: “A Vida na Taba”. A crítica lhe foi desfavorável. Disseram: “O autor desconhece o assunto.” Sorri. No fim de contas eu podia estar mesmo esquecido...

       Travei relações com outro romancista notável — Aluísio de Azevedo.

       Outros acontecimentos: Desastre do navio “Aquidabã”. Remodelação da cidade do Rio de Janeiro.

       AFONSO PENA. Se vocês gritarem este nome, eu imediatamente vejo um homenzinho de óculos, bigode e pêra brancos. E vejo também desenharem-se no ar as datas de 1906 e 1910.

       Em 1910 conheci três grandes personalidades da Literatura: Raul Pompéia, autor de “Ateneu”; Euclides da Cunha, autor de “Os Sertões” e Graça Aranha, autor de “Canaã”. Todos grandes, tão grandes que me encheram o ano. Li esses três livros e fiquei impressionadíssimo. (Será que vocês não querem sentir as mesmas emoções que o amigo Tibicuera sentiu? Os livros estão aí...)

       No governo de Afonso Pena foi decretado o serviço militar obrigatório. Um inimigo me denunciou dizendo que eu estava em idade de fazer o serviço militar. Que tolo! Eu tinha mais de quatrocentos anos.

       Afonso Pena morre antes de terminar o período governamental.

       Nilo Peçanha, vice-presidente, fica no poder.

       Há poucos dias li este nome: HERMES DA FONSECA. Lembrei-me logo destas datas 1910-1914. E pensando nestes números, rememorei os seguintes fatos:

       Fanáticos na zona do Contestado.

       Revolta dos marinheiros.

       Estado de sítio.

       Intervenção no Estado do Ceará.

       O meu casamento.

       A publicação do meu livro: “O Quilombo dos Palmares”. (A crítica disse: “Fantasias de poeta.” Muito obrigado!)

       Que foi que se passou entre 1914 e 1918? WENCESLAU BRÁS, presidente. Meti-me na política. Lutas tremendas. Guerra Européia. Os alemães torpedeiam alguns navios mercantes brasileiros.

       Revejo Ruy Barbosa, grande jurista, imenso orador, o homem que representou brilhantemente o Brasil na conferência de Haia. (Naquele tempo era moda dizer: “Inteligente como Ruy Barbosa.” “Meu filho vai ser um segundo Ruy.”)

       Fiz amizade com um romancista delicioso: Lima Barreto.

       O Brasil declara guerra à Alemanha.

       Minha mulher se inquieta, temendo que eu embarque para a Europa. Tranqüilizo-a.

       Um fato sensacional, assassinam pelas costas o Senador Pinheiro Machado, vulto proeminente da política.

       RODRIGUES ALVES de novo no governo em 1918! Mas não chega a assumir. Vem para o Catete o Vice-Presidente Delfim Moreira.

       Houve novas eleições. Faleceu. E Epitácio Pessoa, que voltava da Europa onde representara o Brasil na Conferência de Versalhes, foi eleito presidente.

       Por esse tempo conheci Coelho Neto, escritor brilhante, e Santos Dumont, o pioneiro da navegação aérea: dois ilustres brasileiros.

       Vi o Rei Alberto da Bélgica na Avenida Rio Branco. Festas fantásticas em honra do soberano.

       Conto minha vida a minha mulher. Ela ouve em silêncio minhas aventuras, desde a taba até o momento em que nos achávamos. Quando termino a narrativa, ela diz simplesmente: “Mentiroso. Que exemplo para o teu filho!” Ah! eu me esquecia de contar que tínhamos um filho. Quis pôr-lhe o nome de Tibicuera, para não quebrar a cadeia, Minha senhora protestou. Não queria. Preferia Paulo. Resignei-me. Eu não era mais o guerreiro dos velhos tempos...

       Mas... voltemos ao governo de Epitácio Pessoa.

       Revoltas militares. Prisão do Mar. Hermes.

       Em 1922, como fazia cem anos que D. Pedro I soltara o brado de independência, houve festejos monumentais. Numa solenidade pública tomei a palavra. Comecei: “Ninguém mais autorizado que eu para falar nesta data, pois, como oficial dos dragões do Império, vi com estes olhos D. Pedro erguer a espada e...” Fui interrompido por uma vaia ensurdecedora. Recebi na cara ovos, repolhos, pedradas e quase fui linchado.

       Em compensação nesse dia conheci um grande poeta e prosador: Ronald de Carvalho.

       Foi no governo de ARTHUR BERNARDES— 1922 a 1926 — que cheguei ao mais alto grau de prosperidade financeira. Mudei-me para uma confortável casa. Meu filho fazia-se homem. Estava um belo rapagão. Vi-o um dia de maiô na praia. Bronzeado como um bugre. Tive saudade de mim mesmo. Oh! Eu o amo muito. Conto-lhe histórias, procuro estabelecer entre nós dois a intimidade mágica, para continuar a cadeia, para vencer o tempo e a morte. Qual! O rapaz tem outras idéias, faz troça de mim, diz que estou envelhecendo, ficando caduco.

       No governo de Bernardes houve uma revolução no Rio Grande do Sul. A eterna história dos dois partidos rivais.

       Reforma da Constituição.

       Comprei um rádio. Meu rapaz me obrigou a adquirir uma baratinha.

       Veio o governo de WASHINGTON LUIS: 1926 a 1930.

       O presidente, prestes a terminar o seu mandato, indica o homem que deve substituí-lo. Com isso não concordam muitos Estados que formam a Aliança Liberal e fazem por todo o País uma intensa campanha eleitoral.

       Mas para que estar resumindo, repetindo fatos que vocês todos conhecem, pois aconteceram ontem?

       O nome de Washington Luís me faz lembrar aquela avalancha de todos os pontos do País rumo ao centro. A revolução de outubro.

       Citar nomes? Mas vocês viram. Se não viram, peçam aos mais velhos que lhes contem. É muito cedo para escrever a História destes últimos anos — repito.

       No momento em que resolvo pingar um ponto final às minhas aventuras, quem governa o Brasil é Getúlio Vargas.

       Mudei-me em 1930 para Copacabana. Para o apartamento do arranha-céu onde estou agora escrevendo esta história. Esta história que não sei se saiu boa ou má, agradável ou desagradável. Esta história que durou mais de 400 anos e cento e poucas páginas.

      

                     ILUSÃO

DEIXO POR UM INSTANTE a minha máquina-portátil em que bati todo este livro.

       Levanto-me. Vou até a janela. Meus olhos descansam no verde bonito do mar — do velho mar onde vi as caravelas de Cabral. Volto ao passado em pensamento. E de repente sinto um sobressalto. É que vejo lá em baixo à beira d’água um vulto familiar e querido. Meu coração bate com mais força... Não pode haver engano. É ele, sim, é Anchieta. Está encurvado, escrevendo alguma coisa na areia. Talvez um novo poema à Virgem. Bem como naquele dia em Iperoig, enquanto os tamoios rugiam e faziam planos de vingança. O mar vem lamber os pés do apóstolo. Ele está indiferente aos banhistas, aos guarda-sóis de gomos coloridos. Fico por um instante deslumbrado. Procuro vencer o espaço que me imobiliza. Faço meia volta. Precipito-me para fora de meu apartamento. Impaciente, não espero o elevador. Lanço-me escadas abaixo. De novo me sinto ágil como o índio que corria na taba. Vou apertar a mão de meu amigo Anchieta! Vou pedir-lhe notícias de Nóbrega e dos outros. Vou pedir-lhes que voltem, pois ainda há trabalho, muito trabalho a fazer. Ainda há alguns selvagens a catequizar. Sim, apesar dos arranha-céus, dos aviões, do rádio.

       Desço a escada de três em três degraus. Chego finalmente ao térreo. Atravesso o saguão como uma frecha. Saio para o sol. Corto a rua. Avanço, pela areia. Correndo sempre. Enxugo o suor. E me encontro frente a frente com um cidadão vestido de preto que risca pacientemente na areia, com a ponta de seu guarda-sol, um nome qualquer. Ele me olha, espantado. Gaguejo uma desculpa:

       — Perdão... Pensei que fosse Anchieta.

       Ele não compreende. Alguns banhistas que estão por ali riem da minha atrapalhação. Volto para o meu apartamento, decepcionado e infeliz.

 

                                                                                Erico Verissimo  

 

                      

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