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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


AS CHAVES DO REINO / A. J. Cronin
AS CHAVES DO REINO / A. J. Cronin

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

AS CHAVES DO REINO

 

Começo do Fim

No fim de uma tarde do mês de Setembro de 1938 o velho padre Francis Chisholm vencia o íngreme caminho que ia da igreja de Santa Colomba à sua casa, no alto da colina. Apesar dos seus males, preferia esse caminho à subida mais suave de Mercat Wynd; ao alcançar o estreito portão do seu jardim rodeado de muros estacou por um minuto, com uma espécie de ingênuo triunfo, para recobrar a respiração e contemplar do alto a vista que sempre o encantara.

Lá em baixo o rio Tweed desenhava através do vale uma vasta  curva de prata líquida, tranqüila e silente, que o crepúsculo outonal tingia intensamente de açafrão. Na margem do rio, ao norte, para lá do grande banco de areia da parte setentrional  da costa escocesa, divisava-se a cidade de Tweedside, com os seus telhados lembrando um arlequim cor-de-rosa e amarelo,  disfarçando o labirinto das ruas tortuosas e calcetadas com calhaus. Altas fortificações de pedra ainda rodeavam os limites  da cidade, com os seus canhões, capturados na campanha da Criméia, que serviam de poleiro às gaivotas que vinham ali pousar trazendo no bico caranguejos arrancados ao mar. Na embocadura do rio uma névoa envolvia a língua da areia mal se distinguindo as redes de pesca estendidas a secar ao sol e, mais adiante, as embarcações surtas no porto com os seus mastros elevando-se para o céu, frágeis e imóveis. A escuridão começava agora a adensar-se sobre a floresta cerrada de Derham,  acima da qual naquele momento uma garça solitária se alçava num vôo pesado. O ar estava diáfano e ligeiro, impregnado  do cheiro acre do fumo de madeira e de frutos caídos, que os vestígios de uma queimada recente ainda mais avivavam  pela sugestão natural que associa as impressões da vista às do olfato.

Com um suspiro de satisfação, o padre Chisholm entrou no seu jardim; minúsculo se comparado com o que rodeava a sua missão na colina do Brilhante Verde Jade, mas, no entanto,  encantador como todos os jardins escoceses, com as suas árvores de fruto de fina qualidade plantadas junto dos muros.

O renque de pereiras do ângulo sul estava carregado de frutos que eram um encanto. Como Dugal, o jardineiro, não estava à vista, depois de dirigir um olhar cauteloso na direção da janela da cozinha, roubou a mais linda pêra do seu próprio pomar e escondeu-a, sorrateiramente, sob a sotaina. As suas faces pálidas e enrugadas aqueciam-se ao calor do seu triunfo enquanto ele prosseguia, através do caminho pedregoso, apoiado no seu único luxo: um guarda-chuva escocês, com as suas cores favoritas, que substituía agora o outro que oferecera  em Pai Tan. Em frente do portão estava um carro estacionado.

O seu rosto crispou-se lentamente ao vê-lo. Embora a sua memória fosse má e as suas abstrações um motivo de constantes  embaraços lembrou-se subitamente da vexatória carta do bispo anunciando-lhe, ou, melhor, impondo-lhe a visita do seu secretário, Mons. Sleeth, protonotário apostólico. Apressou-se,  por isso, a ir dar as boas-vindas ao seu hóspede.

Mons. Sleeth esperava-o, de pé, magro, moreno, muito digno, porém não muito à vontade, com as costas voltadas para a chaminé apagada e vazia, com uma evidente impaciência  juvenil e a sua imponência clerical um pouco chocada pelo mobiliário mais que modesto da sala em que se encontrava.

Teria querido encontrar uma nota de distinção, qualquer coisa que definisse uma personalidade, uma peça de porcelana ou mesmo de laca, um souvenir do Oriente distante. Mas o aposento  era nu, despido, indescritível, forrado com um pobre oleado, cadeiras com o tecido gasto e um fogão com a cimalha rachada, na qual, a um canto, havia uma pilha de moedas de penny. Apesar de tudo, Mons. Sleeth estava decidido a ser amável. Amenizando a fisionomia, aceitou as desculpas do padre Chisholm com um gesto amável de condescendência.

 A sua governanta já me mostrou o meu quarto. Espero não o incomodar conservando-me aqui alguns dias. Que soberba  tarde a que tivemos hoje! Que intensidade de colorido!

Enquanto percorria o caminho de Tynecastle até aqui cheguei mesmo a supor, num capricho de imaginação, que estava ainda  na querida San Morales.

Olhou para o exterior, através da semiobscuridade da janela,  com ar afetado. O velho sacerdote sorriu tanto a imitação do padre Tarrant e a influência do seminário eram flagrantes em Sleeth. A sua elegância, o seu olhar agudo, até mesmo a forma das narinas, indicativa de rudeza, faziam dele uma réplica  perfeita do outro.

- Espero que não se sinta mal instalado aqui - murmurou.

 - Agora vamos para a mesa. Lamento não poder oferecer-lhe  um verdadeiro jantar. É que nós, por aqui, adotamos o hábito de substituir o jantar por um chá à escocesa.

Sleeth, com a cabeça meio inclinada, fez um sinal de vago assentimento. Precisamente nesse momento Miss Moffat entrou  e começou a pôr a mesa. Ele não podia deixar de notar ironicamente que essa criatura apagada e inexpressiva, que de quando em quando lhe dardejava olhares assustados, era extremamente  semelhante ao aposento, desataviada e rude. Por isso mesmo achou estranho ver que ela estava a pôr na mesa talheres  para três pessoas. Contudo, a presença dela, naquele momento,  dava-lhe oportunidade de conduzir a conversa de modo natural para generalidades.

Quando os dois sacerdotes se sentaram à mesa estava ele a elogiar o mármore que o bispo adquirira em Carrara para o altar-mor da nova catedral de Tynecastle. Serviu-se copiosamente  do presunto, ovos e rins da travessa na sua frente e aceitou uma xícara de chá do grande bule de metal que Miss Moffat trouxera. Depois, enquanto passava manteiga na torrada,  ouviu o seu hospedeiro observar docemente:

- Dá licença que André venha tomar qualquer coisa na nossa companhia? André, este é Mons. Sleeth!

Sleeth levantou a cabeça abruptamente. Um pequeno de cerca de nove anos havia entrado sem ruído no aposento. Com a sua face pálida e comprida revelando timidez ficou de pé a torcer o seu sweater azul. Depois de um momento de indecisão tomou o seu lugar à mesa e agarrou, num gesto mecânico, o jarro do leite. Quando se curvou sobre o prato caiu-lhe sobre a testa ossuda e sem graça uma mecha de cabelos castanhos.

Sentia-se de tal maneira acanhado que não ousava erguer os olhos, de um azul maravilhoso, onde perpassava como que um receio infantil de ser repreendido.

O secretário do bispo retomou a sua calma e voltou tranquilamente  ao repasto. De resto, o momento não era azado.

No entanto, uma vez por outra, os seus olhos observavam furtivamente o rapaz.

- Então, chamas-te André! - A cortesia impunha que dissesse qualquer coisa que parecesse amabilidade. - E freqüentas  a escola do lugar?

- Sim...

- Bem. Nesse caso tenho interesse em saber qual é o teu grau de adiantamento... - E, com uma bonomia afetada, fez algumas perguntas elementares.

O pequeno, corado e extremamente confuso para poder raciocinar, acabou por demonstrar uma ignorância humilhante.

Mons. Sleeth franziu os sobrolhos. «Horrível», pensou.

«Um autêntico burro!» Serviu-se de mais rim e de repente apercebeu-se de que era a única pessoa que comia das viandas que havia na mesa;

Os outros dois limitavam-se sobriamente à sopa. Corou. Aquela  afetação de ascetismo por parte do velho não passava de insuportável exibição.

Talvez o padre Chisholm tivesse adivinhado esse pensamento,  porque abanou a cabeça e disse:

- Estive tantos anos privado desta deliciosa aveia escocesa que não me canso agora de me regalar com ela.

Sleeth ouviu a observação sem comentários. Quase a seguir, saindo do seu mutismo, André pediu licença para se retirar.

Ao levantar-se para dar graças, tocou com o cotovelo numa colher, que caiu ruidosamente. Os seus grossos sapatos soaram  com estrépito ao dirigir-se para a porta.

Estabeleceu-se silêncio. Após a refeição terminada Mons.

Sleeth ergueu-se e dirigiu-se maquinalmente para o fogão.

Com os pés afastados e as mãos junto das costas, observava disfarçadamente o colega idoso, encanecido, que, ainda sentado  à mesa, tinha um ar curioso de quem está na expectativa.

«Oh, meu Deus», pensava Sleeth. «Que lamentável impressão  dará à paróquia aquele padre velho, de sotaina manchada, colarinho sujo e pele enrugada!» Numa das faces tinha uma marca horrível, uma espécie de cicatriz que não longe de uma das pálpebras parecia repuxar o rosto para baixo e para um dos lados. Dava a impressão de sofrer de um torcicolo permanente;

 Além disso havia aquela perna mais curta, que o obrigava  a coxear. O seu olhar, habitualmente baixo, tomava assim  nas raras ocasiões em que o erguia - uma obliqüidade estranha, desconcertante.

Sleeth pigarreou. Achou ser tempo de se explicar e com uma cordialidade forçada perguntou:

- Há quanto tempo está aqui, padre Chisholm?

- Há um ano.

- Ah, é verdade. Foi de fato uma atitude generosa de Sua Reverendíssima colocá-lo logo depois da sua vinda na sua paróquia  na tal...

- É a dele também!

Sleeth inclinou a cabeça com suavidade.

- Sim, não ignoro que o nosso bispo partilha consigo a honra de haver nascido aqui. Vejamos... Que idade tem, padre?

 Quase setenta, é isso?

O padre Chisholm aquiesceu com um movimento de cabeça,  acrescentando com uma espécie de ingênuo orgulho:

- Não sou mais velho que Anselmo Mealey!

Ao franzir do sobrolho de Sleeth ao ouvir tal familiaridade sucedeu um ligeiro sorriso de piedade.

- Não resta a menor dúvida. Mas a vida tratou-os de maneira  desigual. Para resumir - e reuniu toda a sua firmeza procurando não ser rude, ao exclamar -, tanto o bispo como eu achamos que os seus longos e fiéis anos de serviço devem ser recompensados e que deve aposentar-se.

Estabeleceu-se um silêncio opressivo.

- Mas eu não quero aposentar-me - retorquiu o padre Chisholm.

- É realmente doloroso para mim este encargo - e Sleeth pousou os olhos obstinadamente no teto - de examinar a questão... E esclarecer Sua Reverendíssima. Mas passam-se aqui coisas que não são de admitir.

- Que coisas?  

Sleeth teve um gesto de impaciência.

- Seis, dez, dezenas! E é a mim que compete enumerar as suas... As suas excentricidades orientais?

- Sinto muito... - Nos olhos do velho brilhou uma centelha.

 - Não se esqueça de que passei trinta e cinco anos na China!

- Os negócios da paróquia encontram-se num estado caótico.

- Contraí dívidas?

- Como poderemos saber? Não faz coletas há seis meses!

A voz de Sleeth subiu de tom e passou a falar mais rapidamente.

- É tudo tão... Tão irregular! Por exemplo: quando o cobrador da Casa Bland lhe apresentou a fatura de três libras de velas, ou coisa assim, o senhor pagou-lhe em moedas de cobre!

- Foi o dinheiro que recebi.

O padre Chisholm fitava vagamente o seu hóspede, enquanto  este o olhava diretamente, e prosseguiu:

- Tive sempre muito pouco expediente em questões de dinheiro. Nunca tive coisa alguma, como sabe... Mas, afinal de contas, parece-lhe que o dinheiro seja assim uma coisa tão importante?

Muito aborrecido, Mons. Sleeth sentiu a cor subir-lhe ao rosto.

- Isso dá que falar, senhor cura... E há ainda outra coisa:

Os seus sermões por exemplo. Os conselhos que dá sobre certos  pontos de doutrina...

Examinou um caderninho de notas e continuou:

- São perigosamente originais.

- Impossível.

- No seu sermão de domingo disse à congregação: «Não pensem que o reino dos Céus está lá em cima... Ele está ao alcance das vossas mãos... Está em toda a parte e não importa onde».

E Sleeth franziu o sobrolho reprovadoramente folheando o seu livro de notas.

- Mais ainda: aqui está uma observação inqualificável que fez durante a Semana Santa: «Nem todos os ateus vão para o Inferno. Conheço um que não foi. O Inferno é somente para aqueles que escarram na face de Deus!» E, Deus seja louvado! Mais esta abominação: «Cristo era um homem perfeito,  mas Confúcio tinha mais senso de humor!» Voltou mais uma página com ar indignado.

 E este incidente chocante: quando Mrs. Glendenning, uma das nossas melhores congregadas, que não tem culpa de ser obesa, o procurou para que lhe desse orientação espiritual,  como compete a um orientador de consciências, que lhe disse? «Coma menos! As portas do Paraíso são "estreitas”!

Mas, na realidade, há necessidade de continuar?

Com um gesto decidido, Mons. Sleeth, fechando o livrinho de folhas douradas, exclamou:

- O mínimo que pode dizer-se é que perdeu toda a autoridade  na orientação das almas!

- Mas... - o padre Chisholm esforçava-se por aparentar calma - eu não desejo orientar almas!

O rosto de Sleeth cobriu-se de um vermelho que nada pressagiava  de bom; não queria de forma alguma admitir a idéia de discutir teologia com aquele velho caduco.

- Há ainda o caso desse rapaz que em tão má hora resolveu  adotar.

- Se eu não olhasse por ele, quem o faria?

- As nossas boas irmãs de Ralstone. Possuem o melhor orfanato da diocese.

Novamente o olhar penetrante do cura fixou o seu interlocutor:

- Gostaria de ter passado a sua infância num orfanato?

- Haverá necessidade de apreciar as coisas de um ângulo tão pessoal? Conforme lhe disse a situação é extremamente irregular e precisamos de lhe pôr termo. Além disso - e ergueu as mãos ameaçadoramente - Se se for embora teremos  de colocar o rapaz em qualquer parte.

- Parece decidido a livrar-se de nós a todo o custo. E eu serei também confiado aos bons cuidados das irmãs?

- Decerto que não. Poderá ir para o recolhimento de Clinton.

 Gozará aí de paz e tranqüilidade perfeitas.

O velho emitiu uma risada seca e curta.

- Terei paz e tranqüilidade suficientes quando morrer.

Enquanto viver não tenho o menor desejo de aumentar a coleção de asilados. Pode parecer-lhe estranho, mas a verdade é que não posso suportar o clero em conjunto! Mesmo tratando-se de padres aposentados por velhice!

O sorriso de Sleeth foi sarcástico:

- Nada do que faça ou pense me surpreende, senhor cura.

Queira desculpar-me, mas a verdade é que, mesmo antes de partir para a China, a sua vida era já bastante original!

Depois de uma curta pausa, o padre Chisholm exclamou serenamente:

- Darei conta de todos os meus atos a Deus.

O outro baixou os olhos, com o sentimento humilhante da sua falta de tacto. Fora longe de mais. Frio de natureza,esforçava-se, no entanto, por ser sempre justo e respeitoso.

Teve a grandeza de alma de mostrar-se constrangido:

- Naturalmente não me arrogo o direito de ser o seu juiz e ainda menos o de seu inquisidor. Nada está decidido ainda.

É essa a razão da minha presença aqui. Veremos o que sucederá  nos próximos dias.

Dirigiu-se para a porta.

- Vou à igreja agora. Não, por favor, não se incomode!

Conheço o caminho.

Os seus lábios crisparam-se num sorriso forçado e saiu.

O padre Chisholm conservou-se sentado, imóvel, com as mãos sobre os olhos, como se estivesse mergulhado em pensamentos  profundos. Sentia-se esmagado pela ameaça que viera  perturbar o seu tranqüilo retiro. Embora acostumado desde  longo tempo a rudes provas recusava-se a aceitar esta.

Sentia-se vazio e inútil, ao mesmo tempo abandonado por Deus e pelos homens. Uma desolação imensa invadia o seu coração. Os seus pecados insignificantes seria motivo para uma punição tão cruel?

Gostaria de poder gritar: "Meu Deus, meu Deus, porque me abandonas”?

Ergueu-se pesadamente e subiu as escadas.

Na mansarda, por cima do quarto de hóspedes, André dormia.

 Estava deitado de lado, com um dos braços estirado sobre o travesseiro, numa atitude de defesa. Contemplando-o, o padre tirou do bolso a pêra e colocou-a sobre o fato do rapaz, que estava em monte em cima da cadeira, ao lado da cama. Parecia-lhe que nada mais tinha a fazer ali. Uma brisa ligeira agitava as cortinas. Foi à janela e afastou-as. As estrelas brilhavam no céu gelado. Sob aquelas estrelas decorrera toda a sua vida, feita de lutas mesquinhas sem fim e sem nobreza. Teve a impressão de que ainda estava próximo o tempo em que ele era ainda criança, que corria e gritava naquela  mesma cidade de Tweedside. Os seus pensamentos reportaram-se  ao passado. Se na sua vida houvesse qualquer coisa digna de menção ocorrera sessenta anos atrás, num sábado de Abril, num tempo em que fora tão feliz que ignorava a própria  felicidade.

 

Uma Estranha Vocação

Naquela manhã de Primavera, ao esperar pela primeira refeição na cozinha escura e íntima, sentindo os pés aquecidos pelo calor do fogo e o olfato excitado pelo cheiro da lenha resinosa  e dos bolos de aveia que lhe aguçavam o apetite, Francis  experimentava uma sensação de plena felicidade, apesar da chuva, porque era sábado e a maré estava ótima para a pesca do salmão. A sua mãe acabava de avivar o fogo, atirando-lhe  mais algumas achas e revolvendo as brasas com um ferro.

 Em seguida dirigiu-se à mesa e colocou, entre ele e o pai, uma tigela azul. Ele mergulhou a sua colher de chifre na farinha  de ervilha contida na tigela e depois na taça de soro de leite que se achava na sua frente. Levou a mistura à boca e estalou a língua, satisfeito com o seu sabor, achando-a perfeita, macia, sem asperezas nem caroços.

O seu pai, com uma camisola de malha azul e meias de pescador, estava sentado em frente, com o corpo curvado sobre a mesa; comia em silêncio, colherada após colherada, em movimentos lentos e tranqüilos. A sua mãe fez escorregar da chapa quente os últimos bolos de aveia, colocou-os na mesa e só então se sentou para tomar a sua xícara de chá. A manteiga  amarela escorria suavemente do bolo que ela tirara para si.

Reinava um silêncio afetuoso na pequena cozinha com as chamas a dançar alegremente na chaminé. Ele tinha nove anos e ia sair com o pai para o mar. Os camaradas do pai conheciam-no  bem. Era o pequeno de Alex Chisholm, que todos os pescadores, de maneiras rústicas, trajos de lã e grandes botas de borracha, acolhiam com um aceno de cabeça ou com um silêncio indulgente e amistoso. Uma chama de ingênuo orgulho  o possuía quando saía com eles no grande e raso barco de pesca que pulava como um cabrito sobre as ondas e que seu pai manobrava a ré com perícia incomparável. De volta ao porto, com os bordos roçando as pontas das rochas donde a água escorria, os homens agachavam-se no fundo do barco fustigados pelo vento cortante ou por vezes protegiam-se com pedaços de velas amarelados e gastos sobre os ombros puxando  quentes fumaças dos enegrecidos cachimbos de barro de um palmo de comprimento.

Ele ficava ao lado de seu pai, um pouco à parte. Alex Chisholm  era o chefe, o encarregado do posto no. 3 das pescarias de Tweed. Lado a lado, sem trocar palavra sob a mordedura do vento, olhavam a dança do vasto círculo das bóias de cortiça que assinalava a rede lançada no local em que as águas do rio se encontram com as do mar. Por vezes o reflexo da luz do sol sobre as águas agitadas encandeava-o, causando-lhe vertigens.

Mas ele não queria, não devia pestanejar. Um simples segundo  de falta de atenção representaria talvez a perda de uma dúzia de peixes que fugiriam da rede - tão difíceis de capturar  que no mercado de Billingsgate rendiam às sociedades de pesca meia coroa por cada libra de peso.

O pai, com a sua alta figura, a cabeça um pouco metida nos ombros, o velho boné de marujo enfiado até às orelhas realçando-lhe o perfil caracteristicamente escocês, as maçãs do rosto salientes, mantinha a mesma atitude de concentração  tranqüila, a mesma atenção absorvente. Por vezes, ao confundirem-se  no seu subconsciente as impressões mais diversas,  o cheiro dos sargaços, as horas no carrilhão longínquo de Burgess, o ruído da água chicoteando os rochedos de Derham,  o sentimento de indescritível camaradagem daqueles homens  rudes, os seus olhos vivos e sagazes enchiam-se de lágrimas  sem que ele soubesse por quê.

Subitamente um grito escapava-se dos lábios de Alex. Por mais esforços que fizesse, nunca podia Francis acompanhar o seu pai nos movimentos ágeis, rápidos, instantâneos ao ver as cortiças que se submergiam, não naquela ondulação que, ocasionada pelo movimento da água, causa falsos alertas, mas na lenta sucção para o fundo que aos pescadores experientes denuncia a presença de peixe. Ao grito repentino respondia imediatamente a ação da tripulação empenhando-se açodadamente  em recolher a rede. O hábito não diminuía a emoção do momento. Embora recebessem uma percentagem do valor do peixe capturado, o pensamento do ganho nunca os dominava.

 Era um instinto profundo vindo das camadas primevas do ser. Eram filhos de pescadores cujos pais e avós haviam sido  até onde podiam lembrar-se - pescadores também. Quando  surgia a rede, lentamente, engrinaldada de pedaços de algas, as respirações quase que ficavam suspensas. E era uma festa quando no fundo da rede aparecia finalmente o lombo luzidio dos salmões soltando visíveis reflexos de metal em fusão.

Num memorável dia haviam conseguido capturar quarenta magníficos num só lanço. Os grandes peixes brilhantes saltavam  entre as malhas da rede, tentando fugir e alcançar as plácidas águas do rio. Francis atirara-se como os outros, tentando  desesperadamente impedir a fuga das preciosas presas.

Participava, assim, ativamente das pescarias sempre tão movimentadas  e empolgantes. Voltava para casa ao anoitecer, pela mão do pai, o eco dos seus passos ecoando no crepúsculo nevoento, parando, sem uma palavra, na loja de Burley, na Hight Street, para comprar uns centavos de pastilhas de hortelã-pimenta,  as que preferia.

A sua mútua camaradagem ia mais longe. Aos domingos, depois da missa, agarravam nas suas canas de pesca e escapuliam-se  furtivamente através das ruas escusas, para não chocar os sentimentos religiosos das outras pessoas, a caminho do verdejante vale do Whitadder. Levavam uma lata cheia de serradura com minhocas para pescar à linha. E todo o dia se embriagava com o ruído das águas do rio e o perfume dos verdes prados, e o pai indicava-lhe os redemoinhos propícios.

Depois acendiam uma fogueira de troncos secos apanhados aqui e além, e regalavam-se com a carne deliciosa e rija do peixe grelhado...

Noutras épocas iam colher morangos e amoras, ou framboesas  silvestres de cor amarela, de que se fazia saborosa geléia. Era um dia de gala quando a sua mãe os acompanhava.

O pai conhecia os melhores sítios e levava-os por ínvios caminhos até as profundezas dos bosques, junto das árvores e dos arbustos carregados de frutos sumarentos.

Quando a neve caía e cobria os caminhos endurecidos pelo Inverno rigoroso iam fazer incursões venatórias entre as árvores  sem folhas de Derham. O ar gelava ao sair das narinas quando escutavam, atentos, o apito do guarda-florestal. Ouvia o bater do seu próprio coração quando percorria as armadilhas,  colocadas quase sob as janelas do castelo, depois deslizavam  rapidamente para casa, com o saco cheio, os olhos sorridentes,  a boca cheia de água só de pensar no guisado de coelho que teriam ao jantar. A sua mãe era uma grande cozinheira, uma mulher que merecidamente granjeara, pelos seus dotes de administração doméstica e as suas habilidades de perita culinária, o máximo elogio de toda uma comunidade escocesa, traduzido por estas palavras: «Elizabeth Chisholm é uma mulher  competente!» Agora, acabada de comer a sua sopa de ervilhas, ouvia a mãe falando com o pai:

- Não te esqueças de vir cedo para casa esta noite, Alex.

Por causa do concerto dos burgueses.

Após um silêncio compreendeu que o pai, preocupado talvez pela grande cheia do rio ou pela temporada do salmão, que não corria favorável, fora apanhado de surpresa ao lembrarem-lhe  a cerimônia anual do concerto dos burgueses que devia realizar-se nessa noite.

- Tens realmente interesse no concerto? - perguntou com um sorriso contrafeito.

Ela ruborizou-se levemente. Francis perguntava a si mesmo qual a razão daquele capricho da parte dela:

- É uma das poucas coisas que me dão prazer. Afinal de contas, és um dos representantes do burgo... E tens o direito e o dever de ocupar o teu lugar na galeria, com a tua família, entre os teus amigos!

O sorriso do seu marido acentuou-se, formando pequenas rugas ao redor dos olhos, um sorriso que indicava generosidade.

Francis arriscaria a vida por um desses sorrisos.

- Então, sem dúvida deveremos ir, Lisbeth.

Sempre detestara estas reuniões dos burgueses, da mesma forma que detestava xícaras de chá, colarinhos duros e calçado domingueiro, que tanto rangia. Mas em compensação gostava  da sua mulher e desejava ser-lhe agradável.

 Então conto contigo, Alex - procurava dar à voz um tom indiferente, mas notava-se nitidamente um tom de alívio.

 Convidei Polly e Nora para virem a Tynecastle. Infelizmente  creio que Ned não poderá vir.

Hesitou:

- Terás de mandar qualquer pessoa a Ettal para a verificação  das contas.

Ele fixou-a com os seus olhos perscrutadores que pareciam atravessá-la e descobrir ternamente a sua astúcia. Entregue à sua alegria, Francis nada tinha percebido. A irmã de seu pai, já falecida, havia casado com Ned Bannon, proprietário da Union Tavern, de Tynecastle, uma pequena cidade populosa a cerca de cem quilômetros ao sul. Polly, a irmã de Ned, e Nora, uma pequenina órfã de dez anos de idade, não chegavam a ser parentes próximos. Mas mesmo assim as suas visitas eram recebidas com grandes demonstrações de alegria.

Ouviu subitamente o pai dizer com voz tranqüila:

- Irei eu mesmo a Ettal.

Estabeleceu-se um silêncio pesado. Francis notou que sua mãe empalidecera.

- Não tens necessidade disso... Sam Mirlees ou qualquer outra pessoa poderia substituir-te.

Ele não respondeu imediatamente. Continuava a fitá-la, tranqüilo, profundamente ferido no seu amor-próprio. A emoção  da sua mulher aumentava. Desistiu da idéia de disfarçar.

Curvou-se e segurou nervosamente o marido pelas mangas do casaco.

- Por favor, Alex. Sabes perfeitamente o que aconteceu da última vez... As coisas vão mal novamente. Horrivelmente  mal, segundo ouvi dizer.

Alex colocou a sua grande mão sobre a dela, procurando confortá-la:

- Não gostarias de me ver fugir, não é verdade?

Sorriu e ergueu-se de súbito.

- Irei cedo e voltarei depressa, muito a tempo de encontrar  os nossos amigos e assistir a esse precioso concerto...

Vencida mas preocupada, ficou a vê-lo calçar as botas de borracha. Francis, imóvel e aflito, sentia como que uma presciência de que qualquer coisa má iria acontecer. Talvez por isso, quando o pai se levantou, agarrou-se a ele angustiadamente.

- É melhor que fiques em casa hoje, meu rapaz. Tua mãe poderá precisar de ti. Tem muito que fazer ainda até que cheguem os convidados.

Francis, decepcionado, não protestou. Sentia os braços de sua mãe convulsivamente apertados sobre os seus ombros.

O seu pai deteve-se por um momento no limiar da porta.

Contemplou-os com profunda afeição e, em silêncio, afastou-se.

Embora a chuva tivesse parado ao meio-dia, para Francis as horas pareciam arrastar-se tristemente. Fingindo não prestar  atenção ao ar preocupado de sua mãe, sentia-se torturado pela mesma inquietação. Ali, naquela aldeia tranqüila, todos os conheciam e sabiam que eram pacatos, honestos. Mas em Ettal, onde ficava a Repartição do Pescado, na qual seu pai tinha por obrigação comparecer todos os meses para manifestar  o produto da pesca, pensava-se de outra maneira. Cem anos antes as charnecas de Ettal haviam-se empapado com o sangue dos presbiterianos. Agora o sentido da opressão incidia  na direção oposta. Sob a ação de um novo superintendente  havia-se desencadeado recentemente uma furiosa perseguição  religiosa.

Realizavam-se conciliábulos, organizavam-se reuniões na praça pública para levar o ânimo popular a atingir o frenesi.

Na sua violência a populaça chegara ao extremo de ir à casa de alguns católicos buscá-los enquanto outros residentes fora da vila recebiam avisos solenes de não aparecerem na povoação.

 O tranqüilo desdém de seu pai acerca de tais avisos havia-o  tornado alvo de um ódio particular da multidão. No mês anterior, no decurso de uma escaramuça, o pescador havia-se valentemente defendido e levara a melhor. Agora, apesar das contínuas ameaças e do plano astuciosamente elaborado pela mulher a fim de o reter em casa, ele voltava a Ettal... Francis tremia ao visionar cenas de violência enquanto os seus pequenos  punhos se contraíam violentamente. Porque não podiam viver em paz? Os seus pais não pertenciam à mesma religião e, no entanto viviam juntos respeitando-se e entendendo-se em perfeita harmonia. O seu pai era um homem bom, o melhor do mundo... Por que razão haviam de querer fazer-lhe mal?

Como uma lâmina que penetrasse no fundo do seu corpo, invadiu-o o pensamento doloroso de que à simples palavra «religião» surgiam tantos ódios simplesmente porque cada um adorava Deus com expressões diversas.

Ao voltar da estação, às quatro horas, ouvindo sem entusiasmo  as expressões de júbilo que a prima Nora lhe dirigia alegremente, enquanto mais atrás sua mãe caminhava ao lado da tia Polly, muito senhora de si, no seu belo vestido, sentia como que uma opressiva impressão de tragédia. Eram nulos os esforços de Nora para distraí-lo, como inútil era também a garridice do seu vestido novo e a ruidosa alegria que manifestava  em vê-lo.

Aproximavam-se de sua casa, aquela asseada casinha de pedras acinzentadas sobre o Cannelgate, com um pequeno jardim à frente onde seu pai nos meses de Verão cultivava margaridas e begônias. Notava-se o cuidado com que sua mãe cuidava da casa, o seu amor à limpeza, pela simples maneira como trazia sempre brilhante o martelo de cobre da porta e o impecável aspecto da entrada. Atrás das cortinas alvíssimas das janelas, três pequenos vasos de gerânios davam à casa uma nota festiva e de cor.

Nora estava corada, os seus olhos brilhavam de alegria, meio sufocada, provocante. Haviam rodeado a casa para se dirigirem  para o pátio, atrás da casa, onde, como sua mãe lhes dissera, poderiam brincar um pouco com Anselmo Mealey até à hora do chá.

Nora aproximara-se de Francis, cochichando-lhe qualquer coisa ao ouvido, os cabelos caídos para a testa, enquanto se lhe podia ler no rosto uma alegria esfuziante. A princípio, Francis não lhe prestou atenção - coisa estranha, porque a presença de Nora despertava-lhe a imaginação para as mais caprichosas travessuras. Voltou a cara indeciso, procurando não se deixar contagiar por aquele entusiasmo.

Mas Nora não se conformou.

- Estou convencida de que dará resultado - insistiu. - Ele só quer brincar de padre. Vamos, Francis, vamos! Vamos fazer-lhe esta partida, sim?

Um sorriso triste surgiu-lhe nos lábios. Quase contra a sua vontade foi buscar a pá, um regador e um velho jornal à barraca do fundo do jardim onde se guardavam os utensílios de jardinagem. Incitado por Nora, fez uma cova debaixo do loureiro  e encheu-a de água. Nora em seguida colocou por cima o jornal e disfarçou o conjunto habilidosamente espalhando sobre ele uma camada de terra seca.

Tinham terminado a operação e guardado as ferramentas quando Anselmo Mealey chegou vestido de branco, à marinheira.

 Nora não pôde deixar de dirigir a Francis uma piscadela de olhos de um delirante contentamento.

- Bom dia, Anselmo! - disse-lhe, com uma cordialidade muito suspeita. - Que lindo fato! Estávamos à tua espera.

De que vamos brincar?

Anselmo refletiu com um ar de superior condescendência.

Era um rapagão de onze anos, corado e nutrido. Tinha cabelos claros, ondulados, e olhos expressivos. Filho único de pais ricos, que o adoravam - seu pai era proprietário de uma fábrica de adubos, do outro lado do rio -, estava já destinado,  por desejo da sua piedosa mãe e de acordo com as suas tendências, a seguir a carreira eclesiástica; matriculara-se no Holywell, o famoso colégio católico do norte da Escócia; juntamente  com Francis, costumava servir de acólito nos serviços religiosos da igreja de Santa Colomba. Não era raro verem-no ajoelhado, na igreja, com os olhos cheios de lágrimas. As freiras  quando passavam acariciavam-lhe a face. Tinha fama, aliás justificada, de ser um menino muito piedoso.

- Vamos organizar uma procissão - propôs - em honra de Santa Júlia. Hoje é o seu dia.

Nora concordou.

- Então pomos o altar debaixo do loureiro! Precisaremos de fato especial para a cerimônia?

Anselmo abanou a cabeça:

- Não. Será mais uma oração do que uma brincadeira.

Façam de conta que estou paramentado. Tu és uma carmelita e Francis será o meu acólito. Estamos prontos?

Um súbito escrúpulo apoderou-se de Francis. Não estava ainda em idade de analisar as suas relações com o próximo.

Sabia apenas que, embora Anselmo protestasse calorosamente ser ele o seu melhor amigo, aquela exibição de fé religiosa despertava-lhe um inesperado e doloroso constrangimento.

Sentia diante de Deus uma profunda reserva. Era um sentimento que escondia no íntimo, sem que pudesse explicar como nem porquê, como um nervo sensível mergulhado profundamente  na sua carne. Quando Anselmo murmurou fervorosamente  na aula de Doutrina: «Eu amo e adoro Nosso Senhor  do fundo do meu coração», Francis, apertando um berlinde  entre os dedos no bolso do seu casaco, corou como uma papoula, e ao chegar a casa, raivoso, partiu um vidro.

No dia seguinte Anselmo, que visitava com freqüência os doentes, foi para a escola; levava uma galinha assada, que destinava à tia Paxton - doente a quem tencionava visitar.

Meg era a velha mulher de um pescador que jazia no leito, sofrendo de cirrose do fígado e hidropisia, e cujas bebedeiras tornavam num inferno toda a Cannelgate. Francis, tentado pelo Diabo, pediu licença para sair da aula, foi ao vestiário, abriu o embrulho, substituiu a ave por uma cabeça de bacalhau  podre e dividiu a galinha assada por si e pelos seus companheiros de classe. Mais tarde as lágrimas de Anselmo e as maldições de Meg deram-lhe uma deliciosa sensação de satisfação íntima.

Agora, no entanto hesitava sem saber se deveria dar ao amigo uma oportunidade de escapar ao desastre que o esperava.

 Perguntou suavemente:

- Quem irá à frente?

- Eu, naturalmente! - exclamou Anselmo, tomando a sua posição de chefe.

E, voltando-se para a rapariga, ordenou:

- Canta o Tantum Ergo, Nora.

A procissão começou a mover-se enquanto Nora cantava.

Ao aproximarem-se do loureiro, Anselmo ergueu as mãos para o Céu. Quase imediatamente pousou os pés sobre o jornal camuflado de terra e afundou-se literalmente na cova.

Durante alguns momentos ninguém fez um movimento. Foi o esforço de Anselmo para se safar que despertou Nora. Enquanto  Anselmo gritava, todo enlameado, que aquilo era um pecado, um grande pecado, Nora explodiu convulsivamente em gargalhadas sonoras, incitando-o a atirar-se ao amigo:

- Vinga-te, Anselmo! Porque não te atiras a Francis? Vamos,  desanca-o!

- Não, não quero - murmurou Anselmo. - Como bom cristão, devo apresentar-lhe a outra face!

Desatou a correr para casa. Nora, encantada, abraçou-se delirantemente a Francis, enquanto as lágrimas brotavam dos seus olhos de tanto rir. Mas Francis não ria. Ficou muito sério e calado. Pensava na estupidez do que fizera, enquanto o seu pai percorria as ruas hostis de Ettal. Conservava-se ainda silencioso quando entrou em casa.

Na confortável casa da frente a mesa estava já preparada, segundo o rito da hospitalidade escocesa, com a sua louça mais fina e tudo o que de melhor a dona da casa podia apresentar.

 A mãe de Francis sentara-se ao lado da tia Polly, cujo rosto estava ligeiramente corado por causa da proximidade do fogo, e de vez em quando lançava um olhar perscrutador ao relógio.

Agora, depois de um dia inquieto, em que se entregara sucessivamente  à esperança e ao desespero procurando sempre tranqüilizar-se a si mesma e afastar os temores, os seus ouvidos  estavam à escuta do ruído, reconfortante dos passos do marido. Nunca sentira tanto a necessidade da sua presença.

Filha de Daniel Glennie, proprietário de uma pastelaria pouco afreguesada, que preferia à sua vida profissional a pregação ao ar livre e fundara a sua própria seita em Darrow, uma pequena  cidade onde a indústria da construção naval era florescente  e que distava apenas alguns quilômetros de Tynecastle, aos dezoito anos apaixonara-se perdidamente por Alexandre Chisholm, o pescador, e casara-se com ele.

Era opinião de toda a gente que aquela união desigual não poderia ter bom fim, mas a verdade é que haviam sido sempre perfeitamente felizes. Chisholm estava longe de ser um fanático.

 Era um homem tranqüilo, equilibrado, que nunca pretendera  interferir na opinião religiosa de sua esposa. Ela, por sua vez, integrada por seu pai na doutrina da tolerância universal,  sentia-se pouco inclinada a discussões religiosas.

Mesmo depois de passados os primeiros transportes amorosos  persistira neles uma felicidade constante. A presença do marido em casa - dizia ela - era-lhe muito agradável.

Ele ajudava-a nos trabalhos caseiros, cuidando das colméias, de onde colhiam tão delicioso mel. As flores do seu jardim eram as mais belas da cidade, as galinhas que criava eram premiadas  em todas as exposições, e o pombal, que recentemente havia construído e com o qual presenteara Francis, era uma verdadeira obra-prima, uma maravilha de paciência e habilidade  manual. Durante o Inverno sentava-se com o seu tricot depois de haver deixado Francis confortavelmente deitado na sua cama. O vento fazia estremecer as janelas, girando em torno da pequena casa, gelado e sibilante. A chaleira fervia sobre as brasas da lareira e o seu ossudo Alex movia-se sem ruído, ativo, pela cozinha, ocupado em algum trabalho manual.

 Quando nesses momentos de quietude os seus olhos se encontravam, ela murmurava docemente, com um sorriso terno:

- Gosto muito de ti, meu querido!

Agora, sobressaltada, lançou um olhar ao relógio. Era tarde.

 Ele devia já estar em casa. Lá fora nuvens pesadas acumulavam-se  no céu e grandes gotas de chuva começavam a salpicar  as janelas. Nora e Francis entraram.

Com surpresa apercebeu-se de que evitava o olhar inquieto do filho.

- Olá, meus filhos! - exclamou a tia Polly, indicando-lhes  as cadeiras. - Então, divertiram-se muito? Muito bem.

Lavaste as mãos, Nora? Deves gostar de ir ao concerto hoje, Francis. Também eu aprecio a boa música... Por amor de Deus, Nora, está quieta um momento. E não deixes de proceder  como uma menina educada enquanto tomarmos chá.

Impossível ignorar esta alusão. Com uma estranha sensação  de intranqüilidade, Elizabeth levantou-se.

- Não esperamos mais por Alex. Vamos já começar - exclamou, com um sorriso forçado. - Ele não deve tardar.

O chá estava delicioso, assim como os biscoitos, os bolos de aveia e os doces preparados pela própria Elizabeth, mas permanecia no ambiente um estranho constrangimento. A tia Polly não fez qualquer das suas observações cômicas que tanto divertiam Francis. Pelo contrário sentava-se com ar solene, os cotovelos junto do corpo, com a xícara de chá entre os dedos. Solteirona de cerca de quarenta anos, tinha um ar abstrato, um rosto agradável, ainda que comprido; ataviava-se  bizarramente e as suas maneiras discretas eram a própria imagem da boa educação. O seu lenço de renda estava colocado  sobre os joelhos, o seu nariz avermelhava-se com o efeito do chá quente e o pássaro que enfeitava o chapéu dominava  o conjunto com benevolência.

- Mas, Elizabeth... - e fez uma pausa, diplomaticamente - devias ter mandado entrar o pequeno Mealey. Ned conhece o pai dele. Anselmo é uma vocação extraordinária para a carreira  eclesiástica. - E sem mover a cabeça dirigiu o olhar para Francis. - Devias ir também para Holywell, meu rapaz.

Gostarias de ver o teu filho pregar num púlpito, Elizabeth?

- Não o meu filho único!

- Porque não? O Todo-Poderoso gosta dos filhos únicos...

A tia Polly falara com solenidade e Elizabeth continuara séria. Tinha planos grandiosos para o seu filho único. Seria advogado ou talvez cirurgião. Não suportaria a idéia da vida obscura, humilde e sacrificada de um padre. Por fim, empolgada  pela sua preocupação máxima, acabou por exclamar:

- Oh, como eu gostaria que Alex estivesse já em casa!

Esta demora, afinal de contas, é... É bem pouco amável. Acabará  por nos fazer atrasar se se demora!

- Talvez ele ainda não tenha acabado de liquidar as suas contas - observou a tia Polly.

Elizabeth corou intensamente, sem poder dominar-se.

- Ele já cá devia estar. Vem sempre tarde quando vai a Ettal. Deve ter-se esquecido de nós... É a criatura mais distraída  que jamais vi!

Fez uma pequena pausa e em seguida acrescentou:

- Dar-lhe-ei mais cinco minutos de tolerância. Bebe mais uma xícara de chá, tia Polly?

Afinal o chá terminou. Um silêncio constrangedor ficou pairando no ambiente. Que lhe teria acontecido? Não voltaria mais, nunca mais, para casa? Elizabeth sentia-se abater pela ansiedade e já não dissimulava a sua angústia. Por fim levantou-se.

- Desculpe-me, tia Polly, mas vou ao encontro dele, a fim de ver se descubro o que o retém. Não me demorarei.

Francis estivera num suplício durante todo aquele tempo imaginando seu pai encerrado numa cela fria, agredido por multidões enfurecidas ou recebendo golpes mortais. Sentiu subitamente que tremia.

- Deixe-me ir também, minha mãe! - não resistiu.

- Não, meu filho - retorquiu ela, sorrindo docemente.

- Deves ficar para fazer companhia às visitas.

Com surpresa de todos a tia Polly discordou. Até ali nenhum sinal havia manifestado de ter notado a preocupação de Elizabeth. Mesmo agora parecia ignorá-la. Mas, com uma firmeza inabalável, aconselhou -  Leva o pequeno contigo, Elizabeth. Eu e Nora arranjar-nos-emos  perfeitamente.

Um curto silêncio se estabeleceu durante o qual os olhos de Francis suplicavam.

- Está bem, vem, então...

Sua mãe vestiu-lhe um pesado capote. Depois, agasalhando-se  na sua capa escocesa, tomou-lhe a mão e saiu.

A noite estava chuvosa e escuríssima. A água corria pelas valetas e formava ribeiros nas ruas desertas. Quando atingiam a Rua do Mercado, donde se avistava ao longe as luzes embaciadas  da sala do concerto, uma sensação de estranho medo, provocada pela escuridão, apoderou-se de Francis. Procurou dominar aquela estranha impressão de desconforto. Cerrou os dentes e tratou de acompanhar energicamente os passos rápidos  de sua mãe.

Dez minutos depois atravessaram o rio pela ponte da Fronteira  e seguiam pelo cais mergulhando os pés em poças de água até o armazém no. 3 das pescarias. Ali sua mãe deteve-se consternada. O posto estava fechado à chave. Voltou-se, indecisa,  sem saber que rumo tomar, mas logo em seguida divisou, através da escuridão reinante, uma luz mortiça a distância:

Era o posto de pesca no. 5, onde vivia Sam Mirlees, o ajudante de seu marido. Embora Mirlees fosse um bêbado, um indivíduo  inteiramente inútil, era possível que lhe pudesse dar qualquer informação. Recomeçou a caminhada, decidida, patinhando  na lama, tropeçando em tufos de erva, rasgando-se em vedações, tombando em valas. Francis, a seu lado, sentia a sua apreensão aumentar a todo o momento.

Atingiram por fim o outro posto, uma barraca de pranchas alcatroadas, solidamente construída à beira de água ao abrigo de um grande rochedo e engrinaldada de redes suspensas.

Francis não pôde conter-se. Deu uma corrida e, arquejante, abriu a porta e entrou na cabana. Em seguida soltou um grito que era como que uma expansão de todo o seu sofrimento, de toda a angústia que suportara o dia inteiro. Os seus olhos dilataram-se de espanto. Ali estava o pai na companhia de Sam Mirlees, estirado sobre um banco, pálido e ensangüentado, no braço uma ligadura grosseira improvisada à pressa e uma grande contusão violácea na fronte. Ambos vestiam as suas grossas camisolas e calçavam ainda as suas botas altas.

Havia sobre a mesa alguns copos, uma tigela com álcool, e uma esponja avermelhada mergulhava numa vasilha suja sob a incidência da luz amarela proveniente de uma lanterna de bordo.

Elizabeth precipitou-se, e caindo de joelhos ao lado do marido  exclamou:

- Alex, Alex... Estás muito ferido?

Embora com os olhos embaciados e os lábios descorados e tumefactos, ele mostrou um pálido sorriso:

- Não estou pior do que os que se meteram comigo.

Os olhos de Elizabeth encheram-se de lágrimas, lágrimas de ódio e de rancor contra aqueles que haviam tentado pôr em risco a vida do homem que ela amava e que o haviam posto naquele estado.

- Quando ele entrou aqui estava quase morto - exclamou  Mirlees com um gesto vago -, mas eu fi-lo beber até que ele ficou meio tocado...

Ela lançou um olhar fulminante ao homem que falava:

Estava bêbado, como sempre nas noites de sábado. Sentiu-se furiosa contra aquele idiota que havia procurado embriagar Alex apesar do estado de extrema fraqueza em que se encontrava.

 Havia perdido grande quantidade de sangue e ali não havia qualquer recurso, nada de que pudesse servir-se para tratar dele. Precisava sair dali o mais depressa possível.

Murmurou nervosamente:

- Achas que tens forças bastantes para vires comigo para casa, Alex?

- Creio que sim, querida, se formos devagar.

Os seus pensamentos entrechocavam-se numa confusão febril.

 O seu instinto aconselhava-a a levá-lo para um lugar confortável, para o calor, para a luz, para a segurança. Examinou  o seu ferimento mais grave - um grande corte na têmpora, que não sangrava agora. Voltou-se para o filho:

- Corre, Francis, diz à tia Polly que prepare tudo para nos receber. Em seguida vai chamar o médico e acompanha-o a casa.

Francis, a tremer de febre, fez um gesto trêmulo e convulsivo de que compreendera. Lançou um último olhar ao pai e afastou-se a correr ao longo do cais.

- Vamos experimentar, Alex... Vais pela minha mão.

Recusando com um gesto pouco amável o auxílio de Mirlees,  mais embaraçante que útil, ajudou o marido a erguer-se.

Ele pôs-se de pé vagarosamente, com grande esforço. Estava tremendamente enfraquecido, vacilava e mal se dava conta do que se passava.

- Vou indo, Sam... - murmurou, cheio de vertigens. - Boa noite...

Elizabeth mordia os lábios, torturada entre o receio de vê-lo  piorar ali, naquele lugar horrível, e o perigo de expô-lo, naquelas condições, à chuva inclemente que não deixava de cair. Quando a porta se fechou atrás deles ela era presa ainda de uma tremenda luta íntima, lembrando-se das horríveis perspectivas  daquela volta, tendo que conduzir um homem quase impossibilitado de dar um passo por aqueles caminhos alagados.

 Mas subitamente uma idéia lhe ocorreu: porque não lhe viera ao espírito mais cedo? Se tomasse pela ponte Tilworks reduziria o caminho em mais de um quilômetro e seu marido estaria instalado no seu leito aquecido dentro de meia hora.

Tomou-lhe o braço com decisão e, procurando ampará-lo da melhor forma possível, voltou-se rio acima e seguiu na direção  da ponte.

A princípio Alex não percebeu a intenção da mulher. Mas subitamente, ao ouvir o ruído das águas, parou.

- Porque vamos por este caminho, Elizabeth? Não poderemos  atravessar a ponte de Tilworks com a cheia que o rio leva.

- Cala-te, Alex. Não desperdices as tuas forças a falar - respondeu ela, puxando-o docemente para frente.

Aproximaram-se da ponte, um tosco e perigoso passadiço de madeira, com dois cabos de aço à guisa de guardas, que atravessava o Tweed no ponto mais estreito mas que quase nunca era utilizada. Ao colocar o pé sobre o estreito caminho de tábuas, na escuridão e na proximidade do ruído tumultuoso  das águas, Elizabeth sentiu como que um temor invadi-la, uma nítida antevisão do perigo que arrostava. Deteve-se por um instante. Como a ponte era estreita para dar passagem a duas pessoas não havia possibilidades de continuarem lado a lado, como tinham vindo até então. Colocou-se atrás dele, amparando-o com um braço maternalmente:

- Tens o cabo seguro, Alex?

- Sim, estou seguro.

Ao certificar-se de que efetivamente o marido tinha o cabo de aço bem agarrado, não pensou mais.

Começaram a atravessar a ponte. A meio, o pé de Alex escorregou na madeira molhada. Isso não teria importância noutra ocasião qualquer. Mas naquela noite o ligeiro incidente  era perigoso, porque o rio Tweed havia engrossado com as chuvas e a água subira até ao nível da ponte. A corrente impetuosa  penetrou nas botas, que lhe subiam até à coxa. Procurou lutar contra aquele enorme peso extra que o arrastava. Mas todas as suas forças se haviam esgotado na luta em Ettal. O seu outro pé escorregou e ambas as botas ficaram cheias de água, pesadas como chumbo.

Ao grito que ele lançou Elizabeth agarrou-se a ele imediatamente,  largando a corda que ajudava a manter o equilíbrio.

Lutou desesperadamente para o amparar, mas o tumulto e a escuridão das águas revoltas submergiram-nos.

Durante toda a noite Francis esperou. Mas eles não vieram.

Na manhã seguinte, na maré baixa, os dois, marido e esposa, foram encontrados abraçados junto de um banco de areia.

Quatro anos depois - na noite de uma quinta-feira de Setembro, ao terminar a sua caminhada quotidiana dos estaleiros  de Barrow para a pastelaria de Glennie - Francis Chisholm  tinha tomado uma importante decisão. Atravessando o corredor enfarinhado que separava a loja da casa do forno - o seu corpo parecia agora mais exíguo dentro de um fato que não fora feito para ele, o rosto sujo aparecia sob um boné de homem colocado com a pala para trás - dirigiu-se à porta dos fundos, por onde entrou, colocando a sua marmita vazia do almoço sobre o lava-louça da cozinha; os seus olhos escuros  brilhavam com um fogo sombrio.

Na cozinha, Malcolm Glennie sentava-se a uma mesa cuja toalha, suja como sempre, estava naquele momento coberta de louça. Com os cotovelos fincados sobre um livro de estudo de Direito de Locke, Malcolm, um jovem de dezessete anos, com uma das mãos esfregava a cabeça, provocando uma chuva  de caspa, e com a outra segurava um bocado de torta feita especialmente para ele por sua mãe, para comemorar a sua volta do Colégio Armstrong. Francis foi buscar a sua ceia, que estava sobre o fogão - uma torta de dois pence e batatas,  que secavam ali desde o meio-dia, e procurou um lugar para sentar-se, enquanto observava, através da porta de comunicação,  a senhora Glennie, que atendia um freguês ao balcão.

O rapaz, filho dos donos da casa, atirou-lhe um olhar de franca hostilidade.

- Não podes fazer menos barulho quando estou a estudar?

E, meu Deus, que mãos! Não costumas lavar as mãos antes de te sentares à mesa?

Calmo e silencioso - a sua melhor defesa - Francis tomou  o garfo e a faca nas suas mãos calosas e ásperas de rebitador.

A porta de comunicação abriu-se subitamente e a senhora Glennie apareceu com um ar mimalho:

--Ainda não acabaste, querido? Tenho aqui um delicioso pudim, feito só com gemas de ovo e leite, que não poderá fazer-te mal algum ao estômago.

Ele grunhiu:

- Passei mal o dia inteiro.

E, enchendo o estômago de ar e expelindo-o ruidosamente, perguntou com ar triunfante:

- Estás a ver?

- É de tanto estudar, meu filho. Estudar de mais provoca isso. Este pudim dar-te-á forças. Experimenta. Prova só para me dares prazer!

Tirou da frente do filho o prato vazio e substituiu-o por outro completamente cheio de pudim de leite. Enquanto ele devorava o doce, ela fitava-o com os olhos inundados de ternura,  saboreando todas as colheradas que ele engolia, com o corpo  pesado inclinado na direção do filho e o rosto comprido, de nariz afilado e os lábios delgados fremindo de amor maternal.

 Depois murmurou:

- Estou muito contente por teres vindo para casa mais cedo esta noite. O teu pai tem uma reunião.

- Oh, não... - murmurou Malcolm, com aborrecimento.

- Na sala das missões?

Ela abanou a cabeça.

- Não. Ao ar livre, no jardim...

- E nós temos de ir?

Ela respondeu com uma vaidade amarga:

- É a única satisfação social que teu pai nos concede, meu filho. E, antes que ele se arrependa, devemos aproveitar.

Malcolm protestou com veemência:

- Pode ser que a mãe goste disso, mas é horrivelmente desagradável para mim ficar de pé enquanto o pai profere grandes frases em calão bíblico e as crianças gritam: «Hum, hum, S. Daniel». Quando eu era miúdo não me aborrecia tanto, mas agora, que estudo para advogado, começo a detestar  assistir...

Interrompeu-se subitamente ao ver a porta abrir-se e seu pai entrar.

Dan, o S. Daniel, como lhe chamavam, entrou mansamente e, dirigindo-se à mesa com ar distraído, serviu-se de um pedaço  de queijo e de um copo de leite, que constituíam o seu repasto frugal. Tinha trocado o seu fato de trabalho por um casaco fora de moda, muito apertado e muito curto para ele, e umas calças pretas, um colarinho de celulóide e gravata preta.

 Os seus punhos eram também de celulóide, para poupar na lavagem, e os seus sapatos estavam a pedir substituição. Deteve-se,  lançando em torno de si o seu olhar ausente, embora patenteasse agora, através dos vidros dos óculos, que alguma coisa lhe preocupava o pensamento. Observou Francis enquanto  mastigava.

- Pareces fatigado meu filho. Já jantaste?

Francis fez com a cabeça um gesto afirmativo. A cozinha parecia-lhe menos triste desde que o pasteleiro entrara, e os seus olhos, que nele pousavam, faziam lembrar os olhos de sua mãe.

- Há um tabuleiro de bolos de cereja feitos agora mesmo.

Podes comer um, se quiseres. Estão no forno.

Ao ouvir esta demonstração de insensata prodigalidade, a senhora Glennie teve um movimento de protesto: era por desperdiçar daquela maneira os seus bens que por duas vezes abrira falência. Inclinou a cabeça com resignação.

. Quando queres sair? Se vamos agora, terei de fechar a Loja.

Ele consultou o seu grande relógio de prata:

 Oh, podes fechá-la agora. O serviço do Senhor está em primeiro lugar. Além disso - acrescentou tristemente - não teremos mais fregueses esta noite...

Enquanto ela fechava as portas da pastelaria ele permaneceu  de pé, pensando no seu sermão daquela noite. Em seguida despertou.

.- Vamos, Malcolm!

E, dirigindo-se a Francis, concluiu:

.- Descansa, meu neto, não te deites muito tarde!

Malcolm, a resmungar, fechou o livro e agarrou no chapéu, saindo atrás do pai. A senhora Glennie, ao mesmo tempo que calçava as luvas de pele, muito apertadas, procurava estampar no rosto o seu velho ar de martírio com que comparecia às reuniões. Depois dirigiu a Francis um sorriso desagradável:

- Não te esqueças de lavar a louça. É uma pena que não possas vir conosco!

Depois da saída deles Francis resistiu ao desejo de deixar cair a cabeça sobre a mesa. Naquele momento a heróica resolução  que tomara inflamava-o todo e a lembrança de Willie Tulloch galvanizava os seus membros lassos. Juntou a louça suja dentro do lava-louça e começou a lavá-la meditando na sua situação com uma ruga a vincar-lhe a testa e um ar irritado.

Pouco antes do funeral, Dan, o S. Daniel, declarara piedosamente  a Polly Bannon que ficaria com o filho de Elizabeth por ser o seu parente mais próximo. Em atenção a isso, tomaria  conta da criança. Mas esse gesto de benemerência ocultava outras intenções. Desenrolou-se mais tarde uma cena odiosa: a senhora Glennie, depois de se apoderar da pequena casa, do produto do seguro de vida de Alex e do que rendera a venda da mobília, recusou-se terminantemente a aceitar o oferecimento da tia Polly para cuidar do pequeno, chegando a intimidá-la com ameaças de entregar o caso à justiça.

Com essa disputa final a senhora Glennie cortara todas as ligações com os Bannons. Considerando o pequeno o motivo, ainda que involuntário, da ruptura, a tia Polly retirou-se dignamente,  ainda que ofendida, mas com ar de quem havia feito todo o possível para vencer, e procurou varrê-lo completamente  do seu pensamento.

Quando da sua chegada a casa do pasteleiro, no entusiasmo do primeiro momento, foi imediatamente enviado, com uma sacola debaixo do braço, na companhia e sob a proteção de Malcolm, escovado e arranjado pela senhora Glennie, à escola  de Darrow. No momento em que os dois pequenos partiram,  ao saírem pela porta da frente, a senhora Glennie ficou a contemplá-los inchada de orgulho.

Mas aquela onda de filantropia em breve se dissipou. Daniel  Glennie era um santo, uma alma sensível e nobre, de quem se troçava um pouco porque se ocupava dos seus pastéis  e tortas durante a semana e aos sábados desfilava pela cidade, montado no seu cavalo, com um cartaz impresso em letras graúdas, onde se lia o seguinte: «Ama o teu próximo como a ti mesmo». Vivia num sonho celestial, de onde emergia  periodicamente, preocupado, molhado de suor, para enfrentar  os credores. Trabalhando simultaneamente com as mãos e com o cérebro, com o pensamento mergulhado no seio de Abraão enquanto as suas mãos batiam a massa dos seus pastéis, era natural esquecer-se por completo da presença do seu neto. Quando se lembrava dele tomava o pequeno pela mão e, transportando um cestinho com migalhas, levava-o  a dar de comer aos pardais.

Mesquinha, sem nenhum senso de comércio, embora profundamente  agarrada ao dinheiro, a mulher assistia à ruína progressiva do marido com uma grande consideração pelo seu próprio destino. Aquele declínio ininterrupto - o desprendimento  do empregado, a venda do cavalo, o encerramento de um forno e logo em seguida de mais outro -, que acabaria por levá-los a fabricar apenas bolos baratos e sem cotação, na opinião da senhora Glennie era, em parte, devido à penosa  manutenção de Francis. As setenta libras que lhe tinham vindo parar às mãos quando o adotara haviam-se dissipado rapidamente. E agora, que tanto precisavam fazer economias,  o fato de terem de o vestir, de o calçar, de o alimentar tornava-se um verdadeiro martírio. Cada garfada que o pequeno levava à boca custava-lhe um suspiro de resignação.

Quando as calças do garoto se desfizeram completamente ela aproveitou um fato verde-escuro que pertencera a Dan, o S. Daniel, uma verdadeira relíquia, pois acompanhara grande parte da mocidade de seu marido. A fazenda era, porém, de uma cor tão extraordinária e o feitio tão extravagante que todas as vezes que Francis punha os pés na rua sentia-se absolutamente  infeliz, tais eram as chacotas que choviam de todos os lados. As mensalidades de Malcolm no Colégio eram pagas religiosamente sem um só dia de atraso, ao passo que as de Francis eram sempre esquecidas. Só depois de ser humilhado diante de toda a classe para efetuar o pagamento em atraso é que, tremendo, pálido, sofrendo ainda o vexame daquela cena, se animava a aproximar-se dela a falar-lhe no assunto.

Nesses momentos fingia um ataque do coração, pondo a mão sobre o peito, antes de extrair da gaveta os magros xelins como se lhe arrancassem a vida.

Embora suportasse todas aquelas cenas constrangedoras com um verdadeiro estoicismo, pois sabia que era um órfão abandonado, o sentimento da sua solidão pesava horrorosamente  no espírito da criança... Quando se sentia mais angustiado  fazia longas caminhadas solitárias procurando febrilmente  uma solução para o seu caso. Olhava tristemente os navios que partiam e mordia a sua boina para abafar o desespero mortal de que estava possuído. Muitas vezes estalavam conflitos  quando tinha algum grupo turbulento junto de si, mas continuava alheio a tudo, o rosto sombrio, o pensamento distante.

 As únicas ocasiões em que se sentia feliz era quando a senhora Glennie e Malcolm saíam. Sentava-se então defronte  de Daniel, junto do fogo, e ficava vendo-o virar vagarosamente  as folhas de Bíblia em silêncio, inefavelmente feliz.

Daniel estava firmemente decidido a não interferir na religião  do pequeno - mesmo porque seria um contra-senso da sua parte, ele, que pregava a tolerância universal! Entretanto  a senhora Glennie não suportava a simples idéia de que o pequeno não comungasse nas suas crenças religiosas.

Para ela, uma verdadeira cristã, com a sua salvação assegurada,  era um anátema a lembrança viva da aberração da sua filha, além de que dava pasto à maledicência dos vizinhos.

O cúmulo foi atingido quando Francis, dezoito meses depois da sua chegada, se mostrou o maior dos ingratos suplantando  deselegantemente Malcolm num ponto na escola. Era decididamente mais do que podia suportar-se. Nessa ocasião a pastelaria estava outra vez num dos seus transes. A família enfrentava a ameaça de uma nova falência. Foi então resolvido  que a educação de Francis estava já completa. Com um sorriso pérfido, a senhora Glennie assegurou-lhe que ele era já um homenzinho, capaz de contribuir para as despesas com o produto do seu trabalho. Com doze anos empregaram-no nos estaleiros navais de Darrow, como aprendiz de rebitador, com a remuneração de três xelins e meio por semana.

Um pouco antes das sete horas tinha já terminado a sua tarefa na cozinha. A louça estava lavada. Um pouco mais animado,  deu uma penteada em frente de um espelhinho e saiu.

Estava mais claro, mas o ar frio da noite próxima fê-lo tossir.

Ergueu a gola do casaco enquanto se dirigia com passos apressados  para a High Street.

Passou pelas lojas de bebidas espirituosas e de diversos artigos e chegou à esquina onde ficava a farmácia do médico, com os seus dois clássicos boiões, um vermelho e outro verde, e a placa quadrada onde se lia: «Dr. Suttherland Tulloch,  médico-cirurgião.» A farmácia estava sombria e flutuava no ar um aroma de raízes medicinais, assafétidas, essências aloéticas. Num grande armário estavam alinhados os frascos verdes de medicamentos;

 Depois de descer três degraus de madeira, chegava-se à pequena sala escura onde o doutor Tulloch dava as suas consultas.

 Atrás do comprido balcão, embrulhando remédios, sobre o mármore pingado de cera vermelha estava o filho mais velho do médico. Era um rapaz sardento, de dezesseis anos, enormes mãos e um sorriso parado e taciturno.

Sorriu cordialmente para Francis ao cumprimentá-lo. Em seguida os dois rapazes ali ficaram, constrangidos, procurando evitar-se um ao outro, escondendo mutuamente a simpatia que os ligava.

- Estou atrasado, Willie - exclamou Francis, com os olhos obstinadamente fixos no balcão.

- Eu também... E ainda tenho de ir entregar estes remédios  do meu pai.

Porque Willie havia iniciado o seu curso de Medicina no Colégio Armstrong, e seu pai, o doutor Tulloch, havia-o convidado,  com uma solenidade um tanto bem humorada, para seu assistente na clínica.

Fez-se um curto silêncio. Logo em seguida o rapaz mais velho lançou um olhar interrogativo ao amigo.

- Resolveste afinal?

Francis continuava calado, olhando baixo. Fez com a cabeça  um sinal afirmativo.

- Fazes muito bem, Francis.

E Willie lançou-lhe um olhar cheio de aprovação:

- Creio que não suportaria aquilo por tanto tempo!

- Eu também não... - murmurou Francis. - A não ser por causa do meu avô... E por ti.

O seu rosto magro cobriu-se de um vivo rubor ao pronunciar  essas palavras.

A emoção refletiu-se também no rosto de Willie, que murmurou:

- Há um comboio que te serve. Um direto, que sai de Alstead todos os sábados às seis e trinta e cinco. Chut. Vem aí o meu pai.

Calou-se, com um olhar de cumplicidade, no momento em que o doutor Tulloch abria a porta do gabinete, despedindo-se  do seu último doente. Reparou então nos rapazes. De aparência rude, vestido de tweed sal e pimenta, pele queimada,  os cabelos em desalinho e suíças fartas, todo ele parecia  irradiar vitalidade. Apesar da sua reputação de «livre pensador» era realmente surpreendente possuir tão impressionante  encanto pessoal, tanto mais que era acusado de comungar  nas idéias de Robert Igersoll e do professor Darwin.

E - o que era mais admirável - dava a impressão da mais profunda competência na sua profissão. Ao notar a expressão  grave expressa no rosto de Francis, gracejou:

- Mais um, rapazes, para eu mandar para a cova! Não está morto ainda, mas não tardará. É pena, porque possui uma numerosa família...

O sorriso dos dois pequenos era por de mais forçado perante  tão trágica pilhéria. Ao aperceber-se de que qualquer coisa perturbava os rapazes, olhou-os com ar paternal:

- Vamos, pequenos, deixem-se de casmurrices! Não pensarão  nisso daqui a cem anos!

Sem dar a Francis tempo para replicar o doutor Tulloch soltou uma risada clara e rápida, atirou o chapéu para a nuca e começou a calçar as grossas luvas. Ao mesmo tempo que saía voltou-se para dizer: - Não te esqueças de o convidar para cear conosco, Willie. O ácido prússico quente será servido às nove horas!    

Uma hora depois, com os remédios entregues aos seus destinatários, os dois rapazes seguiam para casa de Willie conversando amigavelmente. Era uma grande casa meio arruinada,  que ficava defronte do jardim público. Enquanto conversavam em voz baixa sobre o próximo acontecimento que aconteceria dali a dois dias, Francis sentia renascer a esperança.

 Nunca se considerava infeliz na companhia de Willie. Curiosamente, aquela amizade havia começado por uma disputa.  Certo dia, ao sair da escola, Willie seguia pela Castle Street na companhia de uma dezena de colegas, quando passou pela igreja católica, feia e humilde.  - Vamos entrar - exclamou. - Tenho seis pence comigo. Vamos entrar e pagar para que nossos pecados sejam perdoados.  Somente então reparou na presença de Francis, que fazia parte do grupo. Corou, profundamente envergonhado. Não!

Dissera aquilo senão por um estúpido desejo de gracejar. E o

Caso teria ficado sem conseqüências se Malcolm Glennie não

Tivesse aproveitado o ensejo para provocar uma questão. In- citados pelos restantes, Francis e Willie tiveram uma luta violenta no jardim público. Foi uma cena de pugilato espetacular, cheia de bravura de parte a parte, e anoiteceu sem que tivesse ficado decidido qual dos dois era o vencedor. Mas os

Espectadores, com a crueldade da infância, não podiam permitir que a vitória permanecesse indecisa. Na tarde seguinte, depois da saída da escola, os dois contendores foram postos frente a frente e provocados à luta pelas insinuações de covardia. Desta vez ainda, encarniçados, sangrando, esgotados,, nenhum dos dois saiu vencedor. Assim foi que, durante uma semana inteira, os dois se prestaram estupidamente, como galos de combate, à diversão dos indignos colegas. Aquele,

Conflito que nunca terminava, que começara sem razão, acabou por se tornar para ambos um verdadeiro pesadelo. Só no sábado por obra do acaso, os dois se encontraram, frente a frente, a sós. Foi um momento penoso, em que a terra parecia  ter-se aberto, o céu ter-se desfeito e ambos caíram nos braços um do outro. Willie murmurou:

-- Não quero mais bater-me contigo. Gosto de ti porque és valente.

E Francis, que esfregava um olho contundido para disfarçar  as lágrimas, confessou:

- Eu acho-te melhor que toda essa gente aqui de Darrow!

Atravessavam agora o jardim público, um logradouro recoberto  de relva, no centro do qual se levantava um quiosque com um mictório de ferro enferrujado e alguns bancos, na maioria já sem encosto. Ali costumavam brincar algumas crianças pálidas e vagabundos fumavam, discutindo ruidosamente.

 Subitamente Francis compreendeu com um estremecimento  que teria de passar perto da reunião de propaganda religiosa do avô. Do lado oposto do mictório estava ereta uma bandeira vermelha, pequena, onde se lia o seguinte dístico, em letras douradas: «Paz na terra aos homens de boa vontade».

 Defronte da bandeira estava um harmônio portátil, onde, num banquinho, se instalara a senhora Glennie, com o seu ar de vítima, enquanto que Malcolm, segurando um livro de cânticos, se mantinha ao lado dela. Entre a bandeira e o harmônio, trepado sobre um pequeno estrado de madeira, estava o senhor Glennie, rodeado de umas trinta pessoas.

Quando os rapazes se aproximaram do agrupamento, Daniel havia terminado a sua oração e, de cabeça descoberta, dava começo à prédica. Era uma oração bela e comovente. Traduzia a convicção ardente de Daniel, revelava a sua alma cândida.

A sua doutrina baseava-se na fraternidade, no amor ao próximo  e no amor de Deus. Todos deviam ajudar-se uns aos outros, procurar manter a paz e a felicidade na terra. Como se lhe fosse possível convencer disso a Humanidade!

Não censurava as igrejas, mas todas costumava criticar suavemente,  afirmando que não era a forma que interessava, mas sim os sentimentos, a humildade e a caridade. E tolerância, sim, principalmente tolerância! Era inútil apregoar esses sentimentos  se os fiéis não os praticavam.

Francis assistira já a prédicas do seu avô e inundava-o agora uma onda de consideração e de simpatia por aquela doutrina que tornava o seu pregador uma das criaturas mais ridícula - risadas da cidade. Neste momento, em que estava disposto :

A deixar-se levar por um impulso pessoal de rebeldia, o seu coração como que recebia melhor aquelas exortações, enquanto  imaginava um mundo inteiramente livre de ódios e de crueldade. Enquanto se detinha para ouvir, percebeu que Joe Moir, o chefe do seu grupo de rebitadores, nos estaleiros, se aproximava sorrateiramente do meeting. O seu bando, na companhia do qual freqüentava os cabarés de Darrow, seguia com um verdadeiro carregamento de tijolos, fruta podre e restos de desperdícios cheios de óleo, lixo da casa das máquinas.

 Moir era uma espécie de gigante desbocado, e quando se embriagava dava-lhe para provocar tumultos em reuniões religiosas. Com as mãos cheias de desperdícios cheios de óleo, gritava:

- Vamos lá a ver, Dan. Preferimos música e dança!

Os olhos de Francis dilataram-se e empalideceu. Não restava  a menor dúvida de que tinham o propósito de dissolver a reunião. Visionou imediatamente a senhora Glennie procurando  tirar um tomate do postiço do cabelo e Malcolm todo sujo de óleo. Isso deu-lhe uma repentina alegria. Mas depois lembrou-se de Daniel. O pobre homem, inteiramente alheio ao perigo, continuava a sua prédica, cheia de sinceridade, vinda do mais fundo recesso da sua alma.

Deu um passo para a frente. Sem saber como, encontrou-se  subitamente diante de Moir a suplicar:

-Por favor, Joe, não faças isso! Nós somos companheiros,  não é verdade?

Todo o furor de bêbado refletido no rosto de Moir se transformou numa expressão amigável:

- Está bem, Francis, não me lembrava de que era teu     avô!

Fez uma pausa e em seguida exclamou para a sua comitiva:

- Vamos embora, «pás». Toca a ir até à praça estampar todo este material no focinho dos «aleluias».

No momento de se retirarem o harmônio começou a tocar.

Ninguém, exceto Willie, se deu conta de que a tempestade estivera prestes a rebentar.

Pouco depois, ao entrar em casa, ele perguntou-lhe, desconcertado,  impressionado com o que vira:

- Por que razão procedeste assim, Francis?

Com palavras entrecortadas, Francis respondeu:

- Não sei... Há qualquer coisa que me toca naquilo que ele diz. Tenho visto muito ódio nestes últimos quatro anos.

Meus pais não teriam perecido afogados se não fosse o ódio que outros lhes votavam.

E calou-se, intimidado. Willie conduziu-o em silêncio para a sala de jantar, que contrastava agradavelmente com a escuridão  do exterior, bem iluminada, com um conforto bem patente.

 Era uma grande casa, forrada de papel castanho, guarnecida  de uma mobília estofada de vermelho, com jarras estropiadas mostrando sinais evidentes de restauração; o cordão da campainha caía, rebentado, e o fogão ostentava uma confusão de frascos, vidros, rótulos, caixas de pílulas, brinquedos e livros. Crianças brincavam sobre um velho tapete  manchado de tinta. Embora fossem quase nove horas, nem uma só criança fora ainda para a cama. Os sete irmãos mais novos de Willie, Jeanne, Tom, Richard... - uma lista tão extensa que o próprio pai costumava dizer que muitas vezes se esquecia dos nomes - ocupavam-se em ler, escrever, desenhar, mastigar, bater ou soprar a ceia, composta de leite quente e pão, enquanto sua mãe, Agnes Tulloch, uma mulher nutrida, com o penteado meio desfeito e o corpo do vestido entreaberto, havia tirado o menor deles do berço e o alimentava  com o seu leite rico e farto, depois de lhe tirar as fraldas manchadas. Agora amamentava a criança, cujo pequeno traseiro,  refletia o brilho das chamas do fogão.

Sem nenhum acanhamento, sorriu cordialmente a Francis:

- Afinal chegaram! - exclamou. - Jeanne, põe mais um prato! Richard, deixa Sofia em paz. Jeanne, minha filha, traz uma fralda limpa para Sutherland. E vê também se a água está a ferver! Que tempo magnífico, não acha? O doutor disse que há muitas doenças na cidade, apesar de tudo. Sente-se,  Francis. Thomas, quantas vezes te tem dito o teu pai que deves conservar-te afastado dos outros?

O médico estava constantemente a trazer doenças para casa. Umas vezes era sarampo, outras varicela, agora Thomas, de seis anos de idade, era a presente vítima. Com a cabeça rapada, com uma cara muito satisfeita, a cheirar a ácido fênico,  contaminava serenamente a restante família.

Francis sentou-se no sofá, já bastante sobrecarregado com gente, ao lado de Jeanne, uma pequena de catorze anos, o retrato da mãe, com a mesma pele leitosa, o mesmo sorriso, e ali ficou a mastigar como podia o seu pão e tomando leite perfumado com canela. Estava ainda um pouco perturbado pelo que fizera momentos antes; a emoção estrangulava-o, o seu espírito estava confuso. Um outro problema ocupava-lhe o espírito. Como podia aquela gente viver ali, tão contente, tão feliz, e ser tão amável? O chefe da família, no entanto, era um ímpio, que não só negava a existência de Deus como parecia ignorá-lo por completo. As chamas do Inferno não o perturbavam. Às nove e um quarto, o cabriolé do médico foi ouvido distintamente rodando pela rua. Momentos depois o doutor entrava, apressado, tornando-se imediatamente alvo de um verdadeiro ataque em massa das crianças. Quando o tumulto serenou, o médico beijou ternamente a esposa e depois  instalou-se na sua cadeira, com o copo de leite na mão, chinelos nos pés e o pequeno Sutherland brincando sobre os seus joelhos. Ao encontrar o olhar de Francis, que o fitava, exclamou alegremente, levantando o seu copo:

- Não lhe disse que lhe serviríamos veneno? Que me diz, Francis ?

Compreendendo que seu pai estava de excelente humor, Willie animou-se a narrar o incidente que presenciara no jardim  público. O médico bateu com as mãos na coxa, sorrindo para Francis.

- Bravo, meu pequeno Voltaire católico! Defenderei até à morte o seu direito de ter uma opinião contrária à minha.

Jeanne, deixa-te de fazer olhos doces para este simpático rapazinho!

 Pensava que querias ser enfermeira, mas, pelo que vejo, queres fazer de mim avô antes que eu complete quarenta anos! Pois muito bem...

E suspirou bruscamente enquanto erguia o copo de leite, brindando à esposa.

- Nós nunca entraremos no Céu, querida, mas por enquanto  saboreamos o que comemos e bebemos - concluiu.

Mais tarde, ao despedir-se de Francis, à porta, Willie apertou-lhe  calorosamente as mãos, dizendo:

- Escreve-me quando chegares... E boa sorte!

Na manhã seguinte, às cinco horas, ainda escuro, a sereia do estaleiro soou estridentemente sobre Darrow. Ainda meio adormecido, Francis pulou da cama, vestiu-se e desceu. A manhã, sombria, recebeu-o com uma estocada de gelo, enquanto  se juntava ao grupo silencioso de fantasmas que também  seguiam para o trabalho, tremendo de frio, andando depressa,  com as costas curvadas, dirigindo-se em direção do estaleiro.

Silhuetas de navios pareciam diluir-se na bruma. Ao lado do esqueleto de ferro de um barco de guerra estava Joe Moir, com o seu grupo, o aprendiz de laminador, ajudantes e outros rebitadores. Acendera um pequeno monte de carvão e acionava  a manivela da forja. Em silêncio, a custo, como se estivesse  ainda a dormir, todo o grupo começou a trabalhar. Moir ergueu o malho, o som dos martelos foi aos poucos aumentando  e repercutindo-se por todo o estaleiro.

Segurando os rebites em brasa, Francis subia rapidamente pela escada e introduzia-os nos furos, onde deveriam ser batidos  com firmeza, fixando as grandes chapas de aço que formavam  o casco do navio. O trabalho era extraordinariamente penoso, sufocante quando se estava junto da forja, enregelante  ao aproximar-se da escada. Os homens eram pagos à tarefa, de modo que os rebitadores desejavam apresentar muito  trabalho, cada vez mais depressa, com um ritmo que ultrapassava  as forças dos aprendizes que os ajudavam. Reclamavam  os rebites incandescentes com insistência, e quando não eram levados em condições os homens atiravam-nos aos ajudantes.

 Subindo e descendo a escada, afadigando-se à volta do fogo, suando, os olhos inflamados pela chama e pelo fumo, Francis trabalhou o dia inteiro.

À tarde o ritmo da labuta era ainda mais acelerado. Os rebitadores  atiravam-se ao trabalho com todas as forças, nada nem ninguém poupavam, desejando tornar mais rendoso o esforço do dia. O momento de largar soou, como numa espécie  de vertigem, com os tímpanos destroçados com o último silvo da sereia.

Mas soou. Que alívio! Francis ficou um momento sem se mover, passando a língua pelos lábios secos, ainda ensurdecido  pelo repentino silêncio. A caminho de casa, sujo, suado, morto de cansaço, um só pensamento o dominava: amanhã, amanhã... Um brilho estranho cintilava nos seus olhos.

Ergueu o tronco. Amanhã!

Naquela noite foi ao esconderijo onde, numa caixinha de madeira, guardava as suas economias, num dos fornos abandonados.

 Tinha uma porção de níqueis e pratas, guardados chave a chave sabe Deus a troco de que sacrifícios, que trocara  por uma moeda de ouro. Meteu a moeda no bolso, trêmulo.

Sentindo a moeda junto do seu corpo, tremia de exaltação.

Meio perturbado, pediu à senhora Glennie que lhe desse uma agulha e linha. Ela resmungou qualquer coisa, de má vontade, e depois de lhe dar a agulha olhou-o com olhar dissimulado ao vê-lo subir as escadas.

Sozinho na solidão do seu miserável quarto, que ficava por cima dos fornos, tratou de embrulhar a moeda num pedaço de papel e em seguida coseu-a solidamente no forro do casaco.

Sentia agora uma espécie de conforto. Todo o seu ser revelava a satisfação íntima que o dominava no momento em que desceu  para devolver a agulha.

No dia seguinte, sábado, os estaleiros fechavam ao meio-dia.

 A simples idéia de que nunca mais teria de passar os seus portões tornava-o tão exaltado que durante o jantar mal pôde comer. E a sua inquietação era por de mais visível para escapar  aos olhos perscrutadores da senhora Glennie.

No entanto, felizmente, ela não fez o menor comentário.

Assim que o rapaz se levantou da mesa, esgueirou-se para fora de casa, meteu-se pela East Street e partiu.

Uma vez fora da cidade começou a andar com passo acelerado.

 Todo o corpo parecia vibrar de contentamento. O seu coração cantava! Todas as agruras por que passara pareciam ter ficado estranhamente distantes. Aquela estrada significava para ele a liberdade plena. Assim que chegasse a Manchester procuraria trabalho. Estava certo de que encontraria emprego nas fiações de algodão. Em poucas horas cobriu a distância de vinte e quatro quilômetros que o separavam da estação de caminho de ferro. Eram justamente seis horas quando atingiu a estação de Alstead.

Sentado sob um lampião de petróleo, na plataforma deserta,  tirou do bolso um canivete, cortou a costura e retirou o embrulhinho de papel que continha a sua moeda de ouro.

Um empregado surgiu na plataforma, alguns passageiros apareceram e o guichê abriu-se. Foi postar-se na fila, esperando a sua vez, e pediu o seu bilhete.

 Nove xelins e seis pence! - disse o bilheteiro, e introduziu  o pequeno cartão na prensa de picotar.

Francis respirou aliviado. Não se havia enganado a respeito do preço da passagem. Entregou o dinheiro. Houve um momento  de silêncio e o bilheteiro exclamou:

- Mas que brincadeira é essa? Eu disse nove xelins e seis pence.

- Dei-lhe meio soberano -retorquiu Francis.

- Há, sim? Volta a fazer o mesmo e verás o que te acontece!

E o homem, indignado, devolveu-lhe a moeda. Não era um meio soberano mas sim um quarto de penny novo e brilhante.

Num espanto angustiado, Francis viu o comboio chegar, os passageiros embarcarem e desaparecer silvando na noite.

No seu cérebro debatia-se aquele enigma insolúvel. Pouco a pouco foi serenando e compreendeu.

Estranhara a costura quando a abrira; não lhe haviam parecido  os pontos desajeitados que fizera, mas uma costura de pessoa prática. Num relâmpago compreendeu o que se passara:

 A senhora Glennie apoderara-se do seu dinheiro.

Às nove horas e meia, a caminho da aldeia mineira de Sanderston,  no meio da noite úmida e nevoenta, um homem que vinha num cabriolei quase atropelou um vulto no meio da estrada. Apenas era possível conceber-se uma pessoa que andasse por tais sítios e num tempo semelhante: o doutor Tulloch. O médico puxou as rédeas do cavalo e procurou através do nevoeiro verificar de quem se tratava.

Retendo as invectivas, exclamou:

- Por Hipócrates, és tu? Entra, entra depressa! Senta-te, antes que a égua me rebente as rédeas.

E, sem fazer perguntas, o doutor Tulloch prosseguiu no seu caminho, levando o seu passageiro. Por volta das dez e meia, Francis estava tomando o seu leite quente junto da lareira,  em casa do doutor Tulloch, agora vazia dos seus habituais  ocupantes e tão tranqüila que o gato dormia sobre o tapete, no centro da sala. Um momento depois a senhora Tulloch  apareceu, com os cabelos presos, um penteador a cobrir-lhe  a sua camisa de noite. Ficou ao lado do marido observando o rapaz, que parecia mortalmente abatido, e na sua apatia, um tanto inconsciente da sua presença, extenuado.

Não conseguiu sorrir quando o doutor surgiu com o estetoscópio  em punho e declarou com ar divertido:

- Aposto em como essa tua tosse é fingida.

Mas, abrindo a camisa, prestou-se docilmente à auscultação.

O rosto do médico tinha uma expressão estranha quando se ergueu. Todo o seu bom humor parecia ter-se evaporado.

Lançou um olhar à esposa, mordeu o espesso lábio e deu um inesperado pontapé no gato.

- Diabo dos infernos! - gritou. - Nós pomos os garotos a construir barcos de guerra. Exploramo-los nas minas de carvão ou nas fábricas. E temos o desplante de afirmar que somos um povo cristão! Por isso mesmo é que me sinto tão orgulhoso de ser pagão!

Voltou-se subitamente para Francis:

- Diz-me, meu rapaz. Quem é essa gente que conheces em Tynecastle? Esses... Esses... Bannons, se não me engano, hem? Da Union Tavern. E agora vai para casa, mete-te na cama se não queres apanhar uma pneumonia dupla.

Francis seguiu para casa de má vontade. Durante toda a semana seguinte a senhora Glennie apresentou a sua cara de martírio, enquanto Malcolm exibia um colete novo de xadrez que tinha custado justamente meio soberano.

Foi uma semana horrível para Francis. Sentia dores do lado esquerdo, sobretudo quando tossia, e mesmo assim arrastava-se  para o trabalho. Tinha a vaga impressão de que o avô tinha lutado por si baldadamente. Mas Daniel era um homem  derrotado. A única coisa que o pobre pasteleiro-pregador  podia fazer era oferecer-lhe humildemente alguns bolos de cerejas que Francis não conseguia comer.

Quando chegou o sábado seguinte sentiu-se sem forças para se levantar da cama e seguir para o trabalho. Ficou deitado, imerso numa estranha letargia, olhando o exterior pela janela através de um véu opaco.

De repente ergueu-se. O coração parecia ter-lhe dado um salto. Lá em baixo, na rua, aproximava-se cautelosamente, como um barco navegando em águas desconhecidas e perigosas, um chapéu de chuva, um chapéu de chuva inconfundível,  que ele teria reconhecido entre mil. Sim. Não restava a menor dúvida: era o guarda-chuva que ele tão bem conhecia,  cuidadosamente enrolado, e o casaco de lontra, fechado com alamares. Soltou uma exclamação, os lábios pálidos, a voz enfraquecida:

- Tia Polly!

A porta da loja, em baixo, rangeu. Tremulamente, procurando  aguentar-se nas pernas, desceu a escada e apoiou-se na ombreira da porta entreaberta. Lá estava a tia Polly, ereta, no meio da casa, com ar desdenhoso, examinando com um olhar divertido toda a loja. A senhora Glennie erguera-se surpreendida  para recebê-la, e, encostado ao balcão, com a boca entreaberta, olhando atônito para uma e para outra, estava Malcolm.

A tia Polly dirigiu-se, por fim, à mulher do pasteleiro. A senhora Glennie sentia-se constrangida. Naquele dia, justamente,  estava vestida muito à vontade, sem nenhuma preocupação de elegância ou de asseio. Um péssimo momento  para uma visita daquela natureza.

- Que deseja? - perguntou.

- Venho visitar Francis Chisholm.

- Não está, saiu.

- Sim? Nesse caso ficarei até à sua volta.

A tia Polly instalou-se comodamente numa cadeira próxima do balcão como se estivesse disposta a ficar ali o dia inteiro.

Houve uma pausa. O rosto da senhora Glennie colorira-se de uma vermelhidão intensa. Sibilou, voltando-se para o filho:

- Malcolm, vai chamar o teu pai, que deve estar junto do forno.

Mas Malcolm retorquiu, lacônico:

- Saiu. Foi para Hall, para a reunião, há cerca de cinco minutos. Só voltará à hora do chá...

A tia Polly desviou os olhos do teto, cuja sujidade admirava,  e pousou-os, críticos, sobre Malcolm. Esboçou um ligeiro  sorriso divertido ao vê-lo corar. A senhora Glennie deu então mostras de impaciência. Exclamou, furiosa:

- Nós somos gente pobre e temos os nossos afazeres! Não podemos estar sentados o dia inteiro atendendo visitas... Já lhe disse que o pequeno saiu. Sabe Deus a que horas virá, com as companhias que sempre arranja. Estamos muito aborrecidos  com ele. Tem-nos dado imensas contrariedades não só pelas más companhias com quem se dá, mas também pelos maus hábitos que adquiriu. Não é verdade, Malcolm?

Malcolm fez com a cabeça um sinal afirmativo.

- Se visse! - exclamou a senhora Glennie. - Poder-lhe-ia  contar coisas que a deixariam perplexa. Mas isso não adiantava.

 Somos cristãos e procuramos levá-lo com doçura ao caminho  do dever. Pode acreditar-me: ele goza da mais perfeita saúde e vive muito contente.

- Folgo muito em ouvir isso - exclamou a tia Polly olhando  negligentemente para as suas luvas -, porque vim aqui para o levar comigo.

- Como?

Apanhada de improviso, o rosto da senhora Glennie passou do vermelho intenso para o branco, tornando-se outra vez vermelho.

- Trago um atestado médico - exclamou a tia Polly martelando  as sílabas - que declara o rapaz subalimentado, esgotado  pelo trabalho e ameaçado de uma pleurisia.

- Não é verdade!

A tia Polly extraiu um papel do seu regalo e bateu com ele eloquentemente no cabo do chapéu de chuva.

- Sabe ler inglês?

- É uma mentira! Ele está tão forte e tão bem alimentado  como o meu próprio filho!

Houve uma interrupção. Francis, contra a porta, ouvia com uma incerteza angustiosa. Com um impulso involuntário,  abriu a porta e precipitou-se no centro da loja.

A calma olímpica da tia Polly havia desaparecido.

- Anda cá, pequeno. Deixa de tremer. Queres ficar aqui?

- Não. Não quero.

Polly lançou um olhar para o teto, como que procurando tomar o Céu por testemunha.

- Então vai preparar as tuas coisas.

- Nada tenho para preparar.

Polly levantou-se vagarosamente, calçando as luvas.

- Então, nada há que nos detenha aqui.

A senhora Glennie deu um passo à frente, pálida de raiva.

- Não pode fazer isso! Apelarei para a lei!

- À vontade, minha senhora - disse Polly, numa alusão ao atestado em seu poder. - Talvez então venha a saber-se como a senhora e o seu filho gastaram o dinheiro obtido com a venda das coisas da pobre Elizabeth!

Estabeleceu-se novamente um silêncio opressivo. A mulher  do pasteleiro, de pé, lívida, estremecia de ódio, mas sentia-se  derrotada.

- Deixe-o ir, mamã! - lamuriou Malcolm. - Ficaremos livres de um tropeço.

A tia Polly, com o seu guarda-chuva debaixo do braço, olhou-o com desprezo dos pés à cabeça.

- Jovem, você não passa de um imbecil! - proferiu, e, voltando-se para a senhora Glennie, acrescentou: - Quanto a si, mulher, é outra que tal!

Com a mão no ombro de Francis, empurrou-o para fora do estabelecimento. Conservou a mesma atitude até a estação, com o casaco de Francis bem seguro na mão enluvada como se tratasse de um animal raro que a todo o momento pudesse escapar-se. Na estação comprou-lhe um pacote de biscoitos de Abernethy, alguns rebuçados peitorais e um chapéu de coco novo. Sentada em frente dele, no comboio, serena, ereta, altiva, observou-o umedecendo os biscoitos secos com lágrimas  de reconhecimento, quase sufocado pelo chapéu, que lhe descia até às orelhas. Com os olhos semicerrados, ela comentou  então definitivamente.

- Eu sempre achei aquela mulher uma criatura vulgar.

Pode ler-se isso na fisionomia. Foi um grande erro da tua parte, querido Francis, deixar que ela tomasse conta de ti.

A primeira coisa que vamos fazer agora é mandar cortar o teu cabelo!

Era delicioso ficar na cama, naquelas manhãs frias de Inverno,  até que a tia Polly fosse levar-lhe a refeição da manhã, um grande prato de ovos com presunto, ainda fumegante, o chá forte e quente, a pilha de torradas mal saídas da grelha, tudo numa grande bandeja de metal com o reclame de uma marca de bebida estampado. Algumas vezes acordava muito cedo, numa espécie de agonia, apreensivo, mas depois vinha-lhe  a reconfortante certeza de que afinal nada mais tinha a temer.

Com um suspiro de alívio mergulhava mais profundamente ainda nos grossos cobertores amarelecidos, no aconchego do seu lindo quarto de dormir de cujas paredes, forradas de papel  pintado de tons alegres, pendiam, emolduradas, umas flores executadas em ponto de cruz, uma litografia colorida que a Cervejaria Allgood dava de brinde aos seus fregueses e outra com o retrato do Papa Gregório, e perto da porta uma pia de água benta de porcelana. A dor que sentia do lado desaparecera. Algumas vezes tossia ainda, mas o seu rosto descarnado começava a encher. Estes lazeres inesperados eram para ele como uma estranha carícia, que, embora a incerteza  do seu futuro ainda o inquietasse, recebia com gratidão.

Naquela linda manhã do fim de Outubro, a tia Polly, sentada  à beira do seu leito, exortava-o a comer.

- Vamos, pequeno! É isso que te fará engordar. Vamos, come!

Havia no prato três ovos com fatias finas de presunto torcidas  pelo calor do fogão. Ele tinha-se esquecido de que a comida pudesse ser um prazer. Quando a tia pusera a bandeja  sobre os seus joelhos, ele notou qualquer coisa de festivo nos modos dela.

- Tenho novidades para ti, meu pequeno... Se estás em condições de ouvir.

- Novidades, tia Polly?

- Uma pequena distração, para quebrar a monotonia destes meses passados na nossa companhia. Adivinha o que é - disse a sorrir para desvanecer a inquietação que já se espalhava nos olhos do rapaz.

Ele contemplou-a com a profunda ternura que a sua permanente  e incessante bondade havia despertado nele. O seu rosto anguloso e rude, de linhas tão grosseiras, com o lábio superior sombreado por uma penugem, a verruga que se destacava  numa das faces, tudo isso era agora para ele não somente  familiar mas até mesmo belo.

- Não faço a menor idéia, tia Polly.

Ela riu, com aquele riso breve e pouco freqüente, satisfeita  por ter provocado a curiosidade de Francis.

- Pensava que eras inteligente, pequeno. Parece que o sono demasiado te transformou e te tornou de compreensão lenta.

Ele sorriu contente com a alegria da tia. A sua convalescença  havia sido tranqüila. Encorajado por ela, que temera pelos seus pulmões - a tuberculose era freqüente na sua família  -, geralmente permanecia no leito até às dez horas.

Depois de convenientemente vestido, ele acompanhava-a às compras numa peregrinação através das ruas principais de Tynecastle. Estas excursões eram reveladoras. Ele compreendera  que a tia Polly gostava de ser «conhecida», de ser tratada  com deferência nas melhores lojas. Esperava, alheada e altiva, até que o caixeiro da sua simpatia estivesse livre para a poder atender. Acima de tudo era uma senhora. Essa palavra era para ela a pedra-de-toque, o critério de tudo quanto fazia, as maneiras que adotava até mesmo na escolha dos seus vestidos,  feitos por uma costureira local com tal ausência de gosto que suscitava comentários trocistas de algumas pessoas.

 Enquanto caminhava pelas ruas ia recebendo uma série de cumprimentos. Ser saudada por algumas das individualidades  de destaque do lugar - o inspetor sanitário ou o chefe da polícia - causava-lhe uma grande alegria íntima.

Muito direita, com o pássaro do chapéu em atitude de vôo, ia murmurando a Francis: «Este é o senhor Austin, gerente da companhia dos «elétricos»... É um amigo do teu tio...

Cavalheiro de muita distinção». O cúmulo da felicidade era, porém, encontrar o pobre Fitzgerald, o simpático e elegante cura de S. Domingos, que ao passar lhe dirigia um sorriso amável um pouco condescendente. Todas as manhãs faziam uma paragem na sua igreja, e, ajoelhado, Francis ficava a observar  o perfil místico da tia enquanto os seus lábios se moviam  silenciosamente, com as mãos postas em atitude reverente.

 Em seguida comprava-lhe alguma coisa, um par de sapatos, um livro, um pacotinho de rebuçados de anis. Quando  ele protestava por causa das despesas que ela fazia por sua causa, às vezes com lágrimas nos olhos, limitava-se a tia a apertar-lhe o braço e a balançar a cabeça. «O teu tio não admitiria uma recusa». Era tocante o orgulho que a tia Polly tinha do seu parentesco com Ned e de pertencer à Union Tavern.

A União estava situada perto das docas, à esquina da Rua do Dique com a Rua do Canal, e tinha uma excelente vista sobre os arredores, o depósito do carvão e a estação terminal dos ônibus tirados por cavalos. O edifício tinha dois andares e no de cima habitavam os Bannons. Todas as manhãs, às sete e meia, Maggie Magoon, a mulher que fazia a limpeza, abria o estabelecimento e principiava a esfregar o chão falando sozinha. As oito precisamente Ned Bannon descia, em mangas  de camisa, mas cuidadosamente barbeado e penteado, e espalhava sobre o soalho mancheias de serradura. Era inútil, mas ele fazia-o sempre, quase como uma espécie de ritual.

Depois olhava para o céu para se certificar do tempo provável  durante o dia, recolhia a garrafa do leite e dirigia-se ao quintal, para dar de comer aos seus cães. Possuía treze para mostrar  que não era supersticioso.

Logo depois os habituais fregueses começavam a chegar.

O primeiro era Scanty Magoon, caminhando com dificuldade, com os cotos das pernas envolvidos em trapos e metidos numa espécie de mochilas de couro, a caminho do seu recanto favorito.

 Apareciam em seguida alguns estivadores e um ou dois condutores de ônibus de regresso do seu trabalho noturno.

Esses trabalhadores não se demoravam senão o tempo preciso  para beber um cálice de aguardente seguido de uma ou meia caneca de cerveja. Mas Scanty, porém, era permanente, como um cão fiel de guarda ao estabelecimento, observando os movimentos de Ned, enquanto ele permanecia por trás do balcão, no seu posto, sereno e forte ao lado do dístico onde se lia:

QUEM NÃO FOR CAVALHEIRO DEVE COMPORTAR-SE  COMO SE O FOSSE.

Ned, com cinqüenta anos, era uma vigorosa e sólida figura de homem, a face cheia e amarelada, com os olhos salientes, muito solene nas atitudes, vestido sempre com fatos de tom escuro. Não era nem alegre, nem galhofeiro, como se esperaria  de um proprietário de uma taberna. Tinha, pelo contrário, uma espécie de dignidade solene e biliosa. Orgulhava-se da sua reputação e do seu estabelecimento. Seus pais eram irlandeses que haviam abandonado a sua ilha perseguidos pela fome, e ele só havia conhecido, na juventude, trabalho e miséria.

 Mas tinha vencido, a despeito das inconcebíveis lutas que travara. Gozava de sólida reputação, dava-se bem com as autoridades públicas e com os cervejeiros, tinha muitos amigos influentes. Afirmava e mantinha que o seu negócio de bebidas era respeitável. Não gostava de ver jovens a beber e recusava-se sistematicamente a servir qualquer mulher de menos de quarenta anos. O seu estabelecimento não possuía «Sala para famílias». A Union Tavern não era lugar para famílias.

 Detestava desordens, e ao primeiro indício de questão batia repetidamente no balcão com um velho sapato que conservava  à mão exclusivamente com esse fim e não cessava de bater até que os ânimos serenassem. Conquanto fosse um grande bebedor, nunca mostrava sinais de embriaguez. Talvez  o seu sorriso fosse mais vago, o seu olhar menos firme em certas noites, numa dessas noites que ele chamava de «ocasiões  notáveis» como, por exemplo, o dia de S. Patrício ou o dia imediato ao de uma corrida de cães em que um dos seus galgos conquistasse mais uma medalha para acrescentar às que já pendiam da grossa corrente de ouro que lhe enfeitava  o ventre saliente. No dia seguinte, contudo, tinha um ar envergonhado e mandava Scanty Magoon à Igreja de S. Domingos  chamar o padre Clancy. Depois de se haver confessado  levantava-se vagarosamente, com o enorme corpo aliviado  do peso dos seus pecados, no quarto dos fundos sacudia a poeira dos joelhos e em seguida tirava do bolso uma moeda de ouro e depositava-a na mão do jovem sacerdote, como dádiva para a caixa dos pobres. Tinha um respeito imenso pelo clero. Pelo padre Fitzgerald, cura da paróquia, tinha mais do que isso. Experimentava, na verdade, um verdadeiro terror.

 Ned tinha reputação de estar bem instalado na vida, de comer bem, de dar aos necessitados e, não confiando em ações e em títulos, tinha o seu dinheiro empregado em prédios.

 Desde que Polly, pela herança de Michael, seu falecido irmão, passara a ter rendimentos próprios, nunca mais tivera preocupações por causa dela.

Conquanto rebelde a qualquer forma de afeição intensa e profunda, Ned, de acordo com sua própria expressão, fora «tocado» por Francis. Gostava dele sobretudo porque era desembaraçado,  não lhe causava estorvo, sabia falar à vontade sobre os mais diversos assuntos, mas, acima de tudo, porque manifestava a sua gratidão de maneira serena e silenciosa. À tarde, no bar meio vazio, Francis ficava sentado, diante dele, durante o período de sonolência causada pela abundante refeição,  ouvindo, com Scanty, as histórias pitorescas que Ned tão bem sabia contar. Scanty era o marido e o infortúnio da estúpida Maggie. Chamavam-no assim porque, na verdade, já não era senão metade de um homem, ou melhor, quase somente  um tronco. Perdera as pernas em conseqüência da gangrena causada por um obscuro desequilíbrio da circulação sanguínea. Tirara partido da sua infelicidade «vendendo-se» aos médicos, isto é, assinou um documento segundo o qual entregava o seu corpo para ser dissecado quando falecesse.

Uma vez gasto em bebida o dinheiro da transação, uma aura sinistra começou a envolver o remelento, loquaz e infortunado  pobre-diabo. Tornou-se um motivo de temor para o povo.

Nos seus momentos de indignação, depois de beber, dizia-se enganado, iludido pela velhacaria dos doutores, que não lhe haviam pago pela carcaça o justo preço. «Eu não me vendi como devia. Pedi muito pouco! Esses carniceiros enganaram-me!

 Mas eles nunca porão as mãos no meu pobre corpo!

Vão para o diabo! Engajar-me-ei, ir-me-ei deixar afogar no mar, bem longe daqui!

Ocasionalmente, Ned permitia que Francis servisse uma caneca de cerveja a Scanty em parte por caridade cristã, em parte para que fosse tomando contacto com «o negócio».

Como a alavanca de cabo de marfim voltava lentamente ao seu lugar ao mesmo tempo que enchia a caneca, Scanty recomendava:

 «Com um bom galão, meu rapaz», ao mesmo tempo  que insistia com ele: «Vamos, prova, que é agradável! O primeiro golo é para ti». Francis gostaria de provar. Lançava então um olhar a Ned, que lhe dava com um movimento da cabeça a permissão para que bebesse, divertindo-se com a careta que o sobrinho fazia ao provar a bebida. «É preciso habituar-se», dizia com convicção.

Ned tinha para seu uso um certo número de frases feitas como: «Mulheres e bebidas não se dão» e «O maior amigo do homem é o seu próprio dinheiro», com as quais, à força de as repetir com entonação solene, adquirira conceito de inteligente e de ponderado.

Nora, a filha de Michael Bannon, era a mais terna e profunda  afeição de Ned. Era extremamente devotado à sobrinha,  que, aos três anos, perdera a mãe, vitimada pela tuberculose,  e o pai dois anos depois fora também ceifado pelo mesmo flagelo, tão fatal à raça céltica. Ned havia-a recolhido, mandara-a aos treze anos para o melhor colégio interno de religiosas de Northumberland, pagando com real prazer as pesadas mensalidades e acompanhando os seus progressos com olhos afetuosos e indulgentes. Durante as férias passadas  na sua companhia, transformava-se, sentia-se um novo homem, discreto, mais bem vestido, e nunca aparecia em mangas  de camisa, imaginando distrações para ela e, com receio de a escandalizar, exercia a mais rigorosa vigilância no bar sobre tudo que pudesse parecer menos conveniente.

-- Bem... - disse a tia Polly olhando Francis quase com censura por cima da bandeja. - Estou a ver que tenho de te dizer tudo... Em primeiro lugar o teu tio vai dar uma festa para comemorar o Halloween 1 e além disso - (misteriosa)

 - por uma outra razão. Vamos ter um ganso assado, quatro libras de bolo de queijo, um bolo com passas e belas maçãs que o teu tio encomendou no pomar de Gosforth.

Talvez tu esta tarde as vás buscar. É um lindo passeio...

- Irei com prazer, tia Polly. Apenas não sei o caminho para lá...

- Alguém irá contigo - e a tia Polly, cuidadosamente, preparou a sua surpresa. - Alguém que vem da escola para passar as férias conosco...

- Nora! - exclamou ele.

- Em pessoa.

Abanou a cabeça, agarrou na bandeja e levantou-se.

- Teu tio está doido de contente com a vinda dela. Levanta-te  e veste-te depressa. Iremos esperá-la à estação às onze horas.

Depois da saída da tia Polly, Francis ficou imóvel, por um instante, sonhador e perplexo. A inesperada notícia da chegada de Nora emocionara-o estranhamente. Sempre gostara dela, não tinha dúvidas. Mas a perspectiva de a encontrar novamente inspirava-lhe agora um sentimento singular, entre impaciência e timidez. Espantado e confuso, sentiu-se corar até à raiz dos cabelos. Foi quando saltou da cama apressadamente  e começou a vestir-se.

Francis e Nora puseram-se a caminho às duas horas. Tomaram  o «elétrico» que atravessava a cidade na direção do subúrbio de Clermont e depois seguiram através do campo a caminho de Gosforth, segurando cada um uma das asas da enorme cesta que balançava entre os dois.

Quatro anos tinham decorrido desde a última vez que se haviam encontrado, e durante o almoço ficara estupidamente com a língua presa sem pronunciar palavra. Quanto mais Ned se excedia em jovialidade mais ele se sentia estranhamente acanhado diante da rapariga. Lembrava-se dela ainda criança.

Agora tinha quinze anos, e na sua modesta e discreta blusa azul-marinho com a saia comprida como convinha a um uniforme  de colégio de freiras parecia não só uma pessoa importante,  mas também mais misteriosa e fechada que antes. Tinha  pés e mãos pequenos, um rosto miúdo, vivo e provocante, que tanto podia mostrar-se atrevido como passar subitamente a uma expressão de timidez. Embora comprida e um pouco desastrada devido ao crescimento, a sua ossatura era fina e delicada. Os seus olhos eram provocantes e de um azul-escuro que contrastava com a sua tez pálida. O ar vivo dava à ponta do nariz um colorido engraçado. Ocasionalmente, quando as abas do cesto se tocavam, os seus dedos encontravam-se. A sensação de Francis era estranha: doce, agradável, e produzia-lhe  um calor misturado de confusão. O contacto era a coisa mais deliciosa que jamais sentira. Não sabia que dizer, não ousava fitá-la, mas de vez em quando sorria ao sentir que ela o olhava. Para Francis, os tons dos prados, do céu e das árvores eram agora mais belos que nunca. Tudo cantava aos seus ouvidos.

Subitamente, ela deu uma gargalhada, atirou o cabelo para as costas e começou a correr. Ligado a ela pelo cesto, seguiu-a até que Nora parou sem alento, ofegante, com os olhos a brilhar  como um floco de neve ao sol matinal.

- Não te aborreças comigo, Francis. Algumas vezes sinto-me  doida. Não posso conter-me. Talvez seja por me encontrar  fora da escola, em liberdade.

- Não gostas de lá estar?

- Sim e não. É alegre e rigoroso ao mesmo tempo. Podes compreender? - perguntou ela rindo, com uma inocência desconcertante. - Calcula que nos obrigam a usar camisas de noite quando tomamos banho! Diz-me: pensaste sempre em mim durante todo o tempo em que não nos vimos?

- Sim - disse ele com esforço.

- Dás-me prazer com isso... Eu pensei sempre em ti. - A resposta foi espontânea.

Lançou-lhe um olhar rápido esperando que ele dissesse alguma  coisa e ficou silenciosa.

Chegavam entretanto ao pomar de Gosforth. Geordie Lang, um amigo de Ned, era o proprietário. Ocupava-se, entre as árvores meio despojadas do seu pomar, em queimar folhas.

Saudou amigavelmente os dois pequenos e convidou-os a ajudarem-no.

 Eles lançaram as folhas castanhas e amarelas espalhadas  em torno num monte que já ardia. O fumo das folhas queimadas impregnou-lhes os fatos. Não era o que pudesse chamar-se trabalho, mas uma brincadeira. Por algum tempo esqueceram o seu embaraço anterior, competindo para ver qual conseguia trazer para a fogueira maiores braçadas de folhas. Quando ele havia conseguido juntar uma boa quantidade  e ia lançá-la ao fogo, Nora adiantou-se maliciosamente, e apossou-se delas. As suas gargalhadas vibravam no ar seco e puro. Geordie Lang sorria, divertido.

- As mulheres são assim, meu rapaz... Apossam-se do que nos custou trabalho e ainda se riem de nós...

Depois Lang levou-os ao depósito das maçãs, um barracão de madeira no fundo do pomar.

- Vocês ganharam a vossa parte. Vão e sirvam-se à vontade!

 - disse-lhes. - Apresentem cumprimentos ao senhor Bannon. Digam-lhe que qualquer destes dias irei lá tomar umas bebidas...

O depósito das maçãs estava numa semiobscuridade. Eles subiram a escada para o sótão, onde, alinhadas sobre a palha, sem se tocarem, estavam as maçãs-reinetas, especialidade do pomar. Enquanto Francis enchia a cesta, curvado sob o teto baixo, Nora sentara-se sobre um monte de palha, de pernas cruzadas, tomara uma maçã, limpara-a na manga da blusa e começara a comê-la.

- Como é deliciosa! - exclamou. - Queres provar uma, Francis?

Ele sentou-se no lado oposto e pegou na maçã que ela lhe oferecia. O sabor era realmente delicioso. Ficaram os dois a observarem-se mutuamente enquanto comiam. Quando os pequenos  dentes de Nora feriam a polpa do fruto, um esguicho de sumo às vezes descia pelo seu queixo agressivo. Ele esqueceu  a sua timidez, agora, no pequeno e escuro celeiro. Pelo contrário, estava animado, sentia um calor reconfortante e parecia ter sido penetrado na sua plenitude da alegria de viver.

Nada lhe parecia mais delicioso do que ficar ali, sentado na palha, comendo a maçã oferecida por ela. Os seus olhos, que se encontravam frequentemente, sorriam, mas o seu meio sorriso,  estranho e como que interior, parecia guardar o seu sentido inteiramente para si própria.

- Aposto em como não és capaz de comer as sementes!

- disse ela, subitamente, em tom infantil; mas acrescentou  em seguida: - Não, Francis, não comas! A irmã Margaret  Mary diz que provocam cólicas. Além disso, uma macieira  pode nascer das sementes. Não é engraçado? Ouve, Francis...

 Gostas muito de Polly e de Ned?

- Muito - respondeu ele, fitando-a. - E tu, não gostas?

- Está claro que sim... A não ser quando Polly me agasalha  de mais se eu começo a tossir... E quando Ned me obriga  a sentar-me nos seus joelhos - detesto isso!

Ela hesitou e baixou o olhar pela primeira vez.

- Bem... Não quer dizer que o deteste... É que não devo consentir... A irmã Margaret Mary diz que eu sou muito atrevida. Também és da mesma opinião?

Ele voltou-se, contrafeito. O seu protesto apaixonado contra  semelhante qualificativo reduziu-se a um «Não!» acanhado.

 Ela sorriu timidamente.

- Somos amigos, Francis. Por isso vou perguntar-te, não importa o que a velha Margaret Mary possa pensar. Quando fores homem, que pretendes ser?

- Ainda não sei -- respondeu ele, surpreendido. - Porquê?

Nora torceu, com súbito nervosismo, a bainha da saia.

.- Oh, por nada... Apenas, quero dizer... Gosto de ti.

Sempre gostei. Durante todos esses anos pensei muito e sempre  em ti, e não seria bonito se... Se desaparecesses outra vez.

.- Porque iria eu desaparecer? - perguntou ele, rindo.

.- Tu não sabes...

Os seus olhos brilhantes, apesar de infantis, haviam-se tornado  imensos e profundos. - Eu conheço a tia Polly... Ainda  hoje a ouvi falar nisso outra vez. Ela deseja tanto que sejas padre! Para isso terias de renunciar a tudo, esquecer tudo...

Até a mim...

Antes que ele pudesse responder, levantou-se de um salto, com grande exuberância de gestos.

- Vamos! É estúpido, ficar aqui sentado o dia inteiro. É ridículo, o sol está brilhante lá fora e esta noite espera-nos uma grande festa!

Ele fez menção de se levantar, mas Nora com um gesto deteve-o,  com encantadora incoerência.

- Não. Espera um minuto. Fecha os olhos e terás uma surpresa.

Antes que ele pudesse responder, ela já se havia precipitado e dado um rápido beijo na face do rapaz. O breve e tépido contacto,  o bafo da sua respiração, a proximidade do seu rosto, tudo isso o atordoara. Toda vermelha, desceu a escada precipitadamente  e saiu a correr do celeiro. Ele seguiu-a lentamente,  também ruborizado, sentindo o pequeno ponto da face a arder como se tivesse sido ferido. O coração estava opresso, mal parecia caber-lhe no peito.

A festa começou às sete horas da noite. Ned, com a autoridade  de proprietário, fechou o bar cinco minutos antes dessa  hora. Os clientes, menos alguns privilegiados, foram delicadamente  convidados a retirarem-se. Os convivas estavam reunidos  no salão de cima, com as luzes dentro de frutos de cera, o retrato do famoso político irlandês Parnell entre apliques de vidro azul, as fotografias de Ned e da tia Polly, e guarnecido  com a pesada mobília de onde, quando alguém se sentava, se levantavam pequenas nuvens de poeira. A mesa de mogno, de pernas grossas como uma mulher hidrópica, estava desdobrada  ao máximo e posta para vinte pessoas. A lareira espalhava um calor intenso. Um aroma de carne de ave assada impregnava  o ambiente. Maggie Magoon, de touca e avental branco, corria como uma louca. Na casa atapetada estavam o jovem padre Clancy, Tadeu Gilfoyle, alguns comerciantes da vizinhança, o senhor Austin, gerente da companhia de transportes,  a sua esposa e os seus três filhos e, é claro, Ned, Polly, Nora e Francis. Tadeu Gilfoyle era um tipo pálido, prosaico, sempre constipado. Tinha cerca de trinta anos, era empregado da companhia do gás e preenchia o seu tempo de ócio em receber  as rendas das propriedades de Ned na Varrell Street.

Além disso era tesoureiro da comissão fabriqueira de S. Domingos.

 Nunca contrariava alguém, porque nem sequer sabia discutir, nem jamais tinha uma idéia que pudesse considerar-se  rigorosamente sua. Gostava, porém, de escutar, de ouvir  os que tinham alguma coisa a dizer. Quando Ned fez a distribuição dos charutos de seis pence com uma ligeira ponta  de vaidade, ele perguntou-lhe:

- Não discursa esta noite, Ned?

Pelo tom da sua voz parecia querer significar que se Ned não discursasse o mundo se transformaria num desolado e triste deserto.

- Ah, ainda não sei! - disse Ned modestamente mastigando  a ponta do seu charuto.

- Decida-se! Faça-o agora, Ned!

- Ninguém está interessado nisso...

- Oh, não, Ned... Desculpe-me... Muito pelo contrário...

- Parece-lhe então que eu devo dizer qualquer coisa?

- Sim, Ned. Nós fazemos questão. Você pode e deve, sim! - disse Gilfoyle com solenidade.

- Quer dizer... Que me forçam?

- Absolutamente, Ned..., nem podia ser de outra maneira.

Encantado, Ned fez o charuto rolar nos seus lábios, de um lado para o outro, num trejeito muito peculiar.

- De fato, Tad - disse, piscando o olho significativamente  -, de fato tenho uma comunicação a fazer... Uma importante comunicação. Fá-la-ei mais tarde atendendo à sua insistência... Falarei a seu tempo...

Encorajados por Polly, as crianças organizaram, numa espécie  de intróito ao grande acontecimento, os jogos tradicionais da véspera do dia de Todos-os-Santos, como o jogo das passas 1, no grande prato chinês, cheio de álcool a arder, e o das maçãs, que consistia em picar com um garfo preso nos dentes maçãs que flutuavam num grande vaso cheio de água. As dificuldades a vencer provocavam contínuas gargalhadas das crianças, pois, ao contato dos garfos, as maçãs submergiam-se na água, não oferecendo a resistência necessária para se deixarem penetrar pelo garfo. Às sete e meia chegaram os gowks, trabalhadores da vizinhança, com as caras mascarradas  e vestidos de maneira grotesca, que andavam numa espécie de Carnaval pelas ruas cantando aqui e ali para obter algumas moedas, de acordo com a estranha tradição da véspera do dia de Todos-os-Santos. Eles conheciam as canções favoritas de Ned. Cantaram Dear Little Shamrock, Kathleen Marvoureen e Maggie Murphy’s Home, as velhas e embaladoras melodias irlandesas.

 Ned mostrou-se pródigo. Os cantores saíram com grande ruído de agradecimentos e de vivas.

- Bons rapazes! Todos eles bons rapazes! - dizia Ned, esfregando as mãos de contente, com os olhos ainda úmidos de emoção. - Agora vamos para a mesa! Vamos com isso, Polly! Os nossos amigos devem pensar que vieram aqui para morrer de fome.

Os convivas instalaram-se, o padre Clancy rendeu graças e Maggie Magoon entrou vergada ao peso do maior ganso de Tynecastle, assado, numa enorme travessa. Francis nunca comera de um ganso como aquele. A sua carne quase se dissolvia  na língua em sabores requintados. O sangue de Francis  circulava mais fluido pela corrida ao ar livre e ele experimentava  uma misteriosa alegria íntima. De quando em quando  os seus olhos encontravam-se com os de Nora, sentada no lado oposto da mesa, e o mútuo entendimento era completo.

O milagre desse dia de felicidade e o laço secreto que os unia era quase doloroso para Francis.

Quando o festim terminou, Ned levantou-se vagarosamente,  no meio de aplausos gerais, e assumiu uma atitude oratória,  com o polegar metido no colete, cheio de gravidade e de emoção. Estava ridiculamente emocionado.

1. Este jogo, conhecido entre os escoceses pelo nome de snap-dragon, consiste  em atirarem-se passas para uma vasilha com álcool inflamado, para os circunstantes as apanharem com tal destreza que não se queimem.

«Senhor abade, minhas senhoras e meus senhores. Muito obrigado a todos. Sou um homem que não sabe exprimir-se.» Tadeu protestou.

«Digo no entanto o que penso e penso o que digo!

Uma curta pausa enquanto Ned procurava readquirir confiança.

«Gosto de ver os meus amigos felizes e contentes em torno de mim. A boa companhia e a boa cerveja nunca fizeram mal a alguém. Interrupção causada pela entrada de Scanty Magoon, que

se havia introduzido com os cantores e conseguira ficar.

«Assim é que é, senhor Bannon! Assim é que se fala! Deus ;

o abençoe!Ned continuava imperturbável - todos os grandes homens.:

têm os seus sicofantas.

«Como ia dizendo, quando o marido da senhora Maggie Magoon me atirou um tijolo... (Risos)... gosto de sociedade Estou convencido de que todos e todas, em geral e particular, estamos encantados por acolher no nosso seio o filho do irmão  de minha pobre mulher e lhe dar as boas-vindas.» Muitos aplausos e a voz de Polly:

«Agradece, Francis!

«Não quero historiar. O passado deve ser enterrado, é o que penso. Mas sei dizer o que quero e por isso digo: olhem para ele agora, comparem-no com o estado em que veio!

Aplausos e a voz de Scanty:

«Maggie, pelo amor de Deus, dá-me mais um bocado desse ganso?» «Não quero fazer o meu próprio elogio, mas procuro andar bem com Deus, os homens e os animais. Vejam os meus cães se não acreditam no que eu digo!» Ouviu-se a voz de Gilfoyle:

«São os melhores galgos de Tynecastle!» Uma longa pausa se seguiu porque Ned esforçava-se por reatar o fio do discurso.

«Onde estava eu?» «Francis», lembrou Polly prontamente.

«Ah, sim!» (e Ned levantou a voz). «Quando Francis chegou,  disse a mim mesmo: aqui está um rapaz que me vai ser útil. Então eu ia pô-lo atrás do balcão do bar para ele ganhar o seu sustento? Não, por Deus, com o devido respeito por Sua Reverendíssima, não pensamos mais nisso quando vimos o rapaz tão maltratado. Tão jovem, tão franzino, tão débil era o órfão do irmão da minha pobre defunta que eu achei que devia ter um futuro melhor. Então disse: «Mandemo-lo para um colégio, vamos tratar disso.» Ned fez uma pausa.

«Vossa Reverendíssima, minhas senhoras e meus senhores, tenho o prazer de anunciar-lhes que Francis começará os seus estudos no próximo mês. Partirá para Holywell!» Ao terminar com essas palavras a sua peroração, Ned sentou-se,  suando por todos os poros, entre os aplausos gerais.

Conquanto a sombra dos olmeiros se alongasse sobre as relvas aparadas de Holywell, a noite perfumada de Junho estava  tão clara como se fosse pleno dia. A escuridão viria mais tarde, tão próxima do alvorecer que a aurora boreal não brilharia  mais que um instante no firmamento alto e pálido. Francis  estava sentado junto da janela aberta da pequena sala de estudo que partilhava com Laurence Hudson e Anselmo Mealey  desde que estudava Filosofia. Não podia concentrar-se no estudo do seu caderno de exercícios com os olhos semicerrados  e um sentido pungente da fragilidade da beleza ao olhar a vista magnífica que se estendia à sua frente. Da sua elevada situação - a sala ficava na parte mais alta do edifício - podia ver toda a escola, uma nobre mansão baronial, de granito  cinzento, construída por Sir Archibald Frazer em 1609 e, por doação, convertida naquele século em colégio católico.

A capela, do mesmo estilo austero, erguia-se do lado direito, ligada por um claustro à biblioteca, por trás da qual se estendiam  os campos de desporto e recreio e, mais longe, as pastagens  cheias de gado que iam até às margens do rio Stinchar.

Na linha extrema do horizonte via-se a silhueta escura e dentada  das montanhas Grampians.

Involuntariamente, Francis suspirou. Parecia ter sido ontem  o seu desembarque em Dune, pequena e desabrigada estação,  desconfiado, arisco, sem confiança em si próprio, lançado  no desconhecido. Depois a sua primeira entrevista, cheio de medo, com o diretor, o padre Hafish Mac Nabb, as suas perguntas inesperadas, em tom agressivo:

- Bem, meu rapaz... Que sabes fazer?

- Eu... nada, senhor superior.

- Nada! Sabes dançar, ao menos, as danças escocesas?

- Não, senhor superior...

- Como? Com um grande nome como o de Chisholm?

- Sinto muito, senhor superior.

- Hum! Não há muita coisa a tirar de ti, hem, meu rapaz?

- Não, senhor superior... Exceto, isto é... - disse a tremer - . eu talvez saiba pescar...

- Talvez, hem? - e esboçou um sorriso irônico. - Nesse caso podemos ser amigos. - O sorriso acentuou-se. - Os clãs dos Chisholms e dos Mac Nabbs já pescavam e se batiam juntos antes que tu e eu fôssemos nascidos... Então vai-te embora antes que eu te dê com um ponteiro...

E agora, decorridos seis meses, deixaria Holywell. Novamente  o seu olhar incidiu nos pequenos grupos dos seus camaradas  que passeavam, acima e abaixo, nas áreas, cobertas  de saibro, à volta do lago. Era um costume do seminário.

Muitos deles iriam dali para o Seminário de San Morales, em Espanha.

Reconhecia, a distância, os seus companheiros de quarto:

Anselmo, exuberante como sempre, com um braço enlaçava ternamente um dos seus camaradas e com o outro gesticulava,  mas discretamente, como convinha a um laureado do prêmio  escolar Frazer, de boa camaradagem. Atrás deles, rodeado pela sua coterie, vinha o padre Tarrant, alto, magro, moreno, a um tempo com ar veemente e sardônico.

À vista deste sacerdote, ainda jovem, a fisionomia de Francis  contraiu-se subitamente. Considerou o caderno de exercícios  aberto diante dele, sobre o parapeito da janela, com um certo desgosto, tomou a pena e começou, depois de breve  pausa, a executar o seu trabalho. A sua concentração na tarefa não lhe alterou o rosto ou transmudou a expressão serena dos seus olhos. Agora, com dezoito anos, o seu corpo tinha uma leveza graciosa. Uma luz doce realçava absurdamente  o seu encanto físico, um ar cândido e tocante que muitas  vezes lhe causava um sentimento de profunda humilhação.

14 de Junho de 1887 - Hoje ocorreu um incidente tão cômico e tão estranho que, para me vingar deste detestável jornal e do padre Tarrant, vou narrá-lo neste diário. Eu não devia desperdiçar esta hora antes das vésperas - porque daqui a pouco virá Anselmo convidar-me para jogar à bola .- e bastaria talvez escrever: «Quinta-feira. Lindo dia. Memorável  aventura com Mac Nabb» sem mais nada, deixando este brutal diário de parte. Mas até mesmo o nosso incisivo prefeito dos estudos reconhece a virtude da minha raça - a consciência: «Chisholm, aconselho-te a ter um diário! Não para o publicar», disse em tom satírico, «mas como um exame  de consciência. Tu sofres, Chisholm, de uma espécie de obstinação espiritual. Mas dares-te conta do que produz mais reação no teu íntimo... dar vazão aos teus sentimentos...

se tiveres ânimo... "poderá talvez modificar-te".

«Se tiveres ânimo!» Corei e irritei-me como um idiota e respondi-lhe, de modo pouco delicado: «Pensa que eu não tenho coragem de fazer o que me aconselhou, padre Tarrant?» Ele limitou-se a encarar-me, com os braços cruzados e as mãos enfiadas nas mangas, e a franzir o nariz de maneira peculiar, num desdenhoso comentário mudo. Procurava, sem dúvida, dominar a impressão de antipatia que sempre teve por mim. Tive então uma aguda consciência da sua dura couraça,  da disciplina de ferro que impõe a si próprio. Depois disse vagamente: «É a isso que chamo desobediência mental...»  e afastou-se.

Exagerarei a minha importância supondo que ele pretende modelar-me à sua imagem? A maior parte dos meus camaradas  ter-se-ia submetido. Desde que cá chegou, há dois anos, tem sido objeto de um culto silencioso de que Anselmo é o diácono. Talvez ele não consiga esquecer uma ocasião em que, num dos seus cursos sobre uma «religião única, verdadeira e apostólica», eu exclamei subitamente: «A crença é a tal ponto  um acidente de nascimento que Deus não pode dar ao fato  uma importância tão exclusiva.» Mudo de espanto, permaneceu  imóvel um momento, mas reagiu, frio como o gelo.

«Que admirável herege terias dado, meu caro Chisholm!

Ao menos tínhamos um pensamento comum: o de que eu não tinha vocação sacerdotal.

Creio que estou a escrever de maneira muito pretensiosa para um rapaz de dezoito anos. Talvez possa chamar-se a isso a «afetação da juventude». Mas... estou atormentado por muitas razões. Primeiro, estou terrivelmente preocupado a respeito de Tynecastle. É inevitável a perda de contacto quando  a permanência de alguém no lar se limita a quatro breves semanas de férias de Verão. As curtas férias anuais que o rigor de Holywell nos concede devem servir aos propósitos de manter firmes as nossas vocações, mas também de dar livre curso à imaginação. Ned nunca me escreve. A sua correspondência  durante os meus três anos de estudos em Holywell  tem-se limitado a imprevistos e extravagantes presentes de guloseimas, como, por exemplo, o enorme saco de nozes que me enviou no primeiro Inverno e o cacho de bananas da última Primavera, do qual três quartos, muito maduras, causaram nos padres e nos laicos desarranjos intestinais que comprometeram  a sua dignidade.

Mas o silêncio de Ned é mais animador para mim do que as cartas de tia Polly, que me tornam tão apreensivo. Os seus característicos mexericos sobre os acontecimentos da paróquia  foram gradualmente sendo substituídos por uma lista de observações meteorológicas. E essa transformação foi brusca! Nora, por sua vez, também não me tem auxiliado.

Ela é das que se desembaraçam das suas obrigações epistolares  escrevendo duas linhas rápidas em postais uma vez por ano. Parece que já se passaram séculos desde que recebi o postal  «Crepúsculo sobre as Docas de Scarborough» e duas cartas  minhas não conseguiram que me enviasse o «Luar sobre a Baía de Whitley.» Querida Nora! Nunca me esquecerei do seu gesto de Eva no sótão das maças! Por sua causa é que aguardo com tanta ansiedade o período das próximas férias.

Iremos outra vez passear a Gosforth? Eu vi-a crescer contendo  a minha respiração, segui a evolução do seu caráter - quero dizer, o complexo das suas contradições. Eu sei que ela é viva, tímida, sensível e alegre, um pouco estragada pelos mimos, cheia de inocência e de graça. Parece-me estar vendo o seu pequeno e atrevido rosto como iluminado de uma luz que lhe vem do interior ao entregar-se às suas extraordinárias imitações  caricaturando a tia Polly... e eu. Em tudo é tão humana  e viva, mesmo nas suas explosões de cólera, que fazem estremecer os seus delicados nervos e terminam por grandes crises de choro. Eu sei quanto, a despeito de tudo, é generosa e impulsiva a sua natureza, obrigando-a a precipitar-se, coberta  de vergonha, para junto daqueles a quem involuntariamente  melindrou... para pedir-lhes perdão. Acordado, penso nela, na doce expressão do seu olhar, no suave e perturbador encanto  do seu pescoço gracioso, nos seus pequenos e redondos seios...

Francis interrompeu-se e, ruborizado, riscou a última linha.

Em seguida, conscienciosamente, recomeçou:

Em segundo lugar estou egoisticamente interessado no meu próprio futuro. Recebi uma educação - nisso o padre Tarrant  está de acordo comigo - que ultrapassa a minha condição  social. Não permanecerei mais de seis meses em Holywell.

 Devo voltar simplesmente para o balcão do bar de Ned?

Não posso continuar a ser um fardo para ele, ou, melhor, para a tia Polly, uma vez que recentemente descobri por acaso que as minhas mensalidades são pagas com os seus próprios recursos.

 Maravilhosa criatura! As minhas aspirações são tão confusas! A minha ternura pela tia Polly e a minha profunda gratidão pelo que ela tem feito por mim impõem-me o dever de a recompensar. O seu desejo mais ardente era ver-me padre.

 Além disso, aqui, onde a maior parte dos estudantes - e entre eles muitos nossos amigos - estão destinados ao sacerdócio,  é difícil fugir ao mesmo destino, a que nos conduzem  fortes impulsos de simpatia e solidariedade. Todos têm o desejo de se juntar na mesma linha. Ao contrário do que pensa o padre Tarrant, o padre Mac Nabb supõe que eu possa ser um bom sacerdote. Sinto-o na sua maneira de tratar-me, nos seus discretos e amigáveis encorajamentos, na sua paciência  quase sobre-humana. Com a prática de diretor deste colégio,  ele deve saber alguma coisa a respeito de vocações sacerdotais.

Reconheço que sou impetuoso e de temperamento exaltado.

 Criado numa atmosfera mista de duas religiões, sinto em mim traços de cisma. Não posso pretender assemelhar-me  a uma dessas juventudes consagradas - a biblioteca do colégio está cheia delas - cujos lábios murmuram preces desde a infância, habituam-se cedo a retiros espirituais e docemente  repelem as raparigas que os assediam nas feiras das aldeias: «Deixem-me em paz, Teresa e Anabela, não nasci para isso.» No entanto como descrever os momentos de graça que me assaltam subitamente quando caminho sozinho pela estrada  solitária da Duna ou quando, acordado, me encontro na obscuridade do meu quarto? Tenho conhecido estranhas revelações e iluminações. Não se trata daquele êxtase sentimental  que detesto - por exemplo porque me dá vontade de vomitar quando vejo o mestre dos noviços em atitude de êxtase místico? - mas de um sentimento de consolação, de esperança.

Aflige-me passar ao papel todas estas coisas embora as escreva  não para os outros, mas exclusivamente para mim mesmo.

 Os ardentes sentimentos que experimentamos gelam quando transportados para o papel.

Contudo, devo prosseguir, para fixar nestas linhas o sentimento  profundo de que pertenço inelutavelmente a Deus, sentimento que me inspira, nas trevas, a inquebrantável convicção  de que, no movimento medido, sistemático ou plausível  do Universo, o homem não surge do nada nem nele desaparece.

E então, curiosamente, sinto a influência de Daniel Glennie,  o querido e louco Dan, sinto sobre mim o seu olhar carregado  de um amor que não era deste mundo.

Que Satanás me leve! Tarrant tem razão. Eis-me a permitir  que o meu coração extravase tudo quanto nele está represado.

 Se penso e sinto como um desses jovens «consagrados»,  porque não me aventuro a fazer alguma coisa por Deus atacando a grande massa de indiferentes, de desdenhosos materialistas  do mundo de hoje? Porque não serei padre? Pois bem! Sejamos francos. Há um obstáculo, que é Nora. A intensidade  do meu sentimento por ela enche o meu coração.

A sua visão, luminosa e doce, está sempre presente no meu espírito até quando oro a Nossa Senhora na igreja. Querida, querida Nora! És tu a única razão pela qual não adquiri ainda a minha passagem no celestial expresso para San Moràles!

Parou de escrever e, com a testa franzida mas um sorriso nos lábios, deixou que o olhar se perdesse na distância! Com algum esforço, prosseguiu:

Devo dizer alguma coisa sobre a manhã de hoje e o padre Mac Nabb. Hoje, dia santo de guarda, tive algumas horas livres. Quando levava uma carta para deitar no correio encontrei  o nosso superior, que vinha do Stinchar com a sua cana e sem peixe. Parou e trocou umas palavras comigo, vermelho  e suarento, a respeito da caminhada pouco proveitosa que havia feito. Gosto imenso de Mac Nabb e creio que ele também tem por mim alguma afeição; talvez a explicação esteja no fato de termos afinidades por sermos ambos escoceses  e pescadores... os únicos da escola. Quando Lady Frazer doou ao colégio as suas propriedades que marginam o Stinchar,  Mac Nabb pediu que lhe reservassem o rio para seu uso exclusivo. Conta-se uma história curiosa a respeito da sua paixão  pela pesca - ele é louco por pescarias. Diz-se que uma manhã, em plena missa, celebrada por ele na capela do Castelo  de Frazer, de que os padres de Hoywell estão encarregados,  quando o seu amigo o presbítero Gillie passou a cabeça pela janela do oratório e disse, muito excitado: «Reverendo, os peixes são aos cardumes na baixa do Lochaber!» nunca missa alguma foi celebrada tão apressadamente. A congregação,  bem como Sady Frazer, estavam estupefatas, estarrecidas  com tanta pressa.

Depois, Mac Nabb, como impulsionado por uma mola, disparou  pela sacristia: «Jock, Jock», perguntou, «que anzol é preciso  levar?

Nessa manhã ele olhava-me desconsoladamente - «O peixe esconde-se. E eu, que gostaria de ter pescado ao menos um para os nossos "ilustres visitantes".

O bispo da diocese e o reitor do Seminário de San Morales,  em vésperas de aposentar-se, eram esperados para almoçar  em Holywell.

Eu asseverei-lhe que tinha visto um salmão na bacia do Gleve.

- Não há sombra de peixe hoje no rio... Nem um mísero cadoz. Tentei apanhar qualquer coisa desde as seis horas da manhã...

- Há um grande salmão...

- Puro delírio imaginativo!

- Eu vi-o ontem na barragem... Não estou a querer tentá-lo.

 Mas se quisesse, eu...

À sombra das suas fartas sobrancelhas lançou-me um olhar suspeitoso.

- Tu és um perverso demônio, Chisholm - disse-me ele.

- Se queres desperdiçar o teu tempo, tens a minha permissão...

Entregou-me a cana e afastou-se. Dirigi-me à bacia do Gleve,  com o coração aos pulos, como sempre acontece quando ouço o ruído de água corrente. O anzol que eu ia empregar era perfeitamente adequado. Comecei a pescar. Tentei cerca de uma hora. Os salmões eram incrivelmente escassos nesse ano. Umas vezes pensei ver no fundo das águas uma grande sombra escura, que se movia, mas não vinha peixe algum mor- der a isca. Começava já a impacientar-me quando, subitamente, ouvi uma tosse discreta. Voltei-me e vi Mac Nabb. Es- tava vestido a rigor, com a sua melhor sotaina, luvas e o chapéu das grandes ocasiões. A caminho da estação, onde ia receber  os seus ilustres hóspedes, passava por mim para me dar condolências pelo meu insucesso.  - Não lhe disse, Chisholm? - troçou. - Esses salmões grandes são os piores de todos! - completou com um acento pesaroso.

Enquanto ele falava, fiz outro lanço com a linha, atirando-a  a cerca de trinta metros de distância. O anzol submergiu-se  precisamente no meio de um círculo de espuma. Um instante depois dei por um peixe fisgado. Sentindo-se preso, fez a corrida a que os pescadores estão habituados mas que, apesar de tudo, nunca deixa de os emocionar. A cana quase se partiu com a violência do puxão. Mac Nabb gritou-me:

- Apanhaste um! Não o deixes escapar!

O lombo do salmão brilhou à tona da água. Dei um impulso  à cana e o enorme peixe subiu a mais de um metro de altura.

 Era, porém, muito pesado para as minhas forças. Quase caí ao rio, mas a reação de Mac Nabb foi magnífica. Sentia-lhe  a respiração ofegante, junto de mim, denunciando o seu estado emotivo. «Em nome do Céu», murmurou ele respeitosamente.

 Era o maior salmão que eu já havia visto, aqui, no Stinchar, ou nas pescarias de meu pai, em Tweedside.

- Mantém-lhe a cabeça fora da água. Não é preciso puxá-lo  todo já para fora! - gritou Mac Nabb. - É melhor cansá-lo primeiro.

Fiz o melhor que me foi possível. Agora o salmão estava sob o meu domínio. Deixei-o ir rio abaixo, não tendo pressa de o retirar da água. Mac Nabb seguiu-me. O Stinchar em Holywell não é como o Tweed. Corre, escuro, entre pinheiros e gargantas, às vezes alcantiladas, em saltos, comprimido entre  as margens altas e estreitas, rolando sobre um leito pedregoso.

 Ao fim de dez minutos Mac Nabb e eu havíamos caminhado  quase uma milha rio abaixo e, cansados, ofegantes, tínhamos contudo, uma alegria: o peixe continuava preso à linha. «Encurta a linha», recomendou-me Mac, «estás louco se o deixas entrar no redemoinho!» O enorme peixe já havia mergulhado profundamente no precipício enredando a linha numa massa de troncos e raízes meio submersos. «Deixa-lo fugir!» Mac Nabb saltava de excitação. «Dá-lhe linha enquanto  eu lhe atiro uma pedra.».

Afogueado, quase sem poder respirar, começou a atirar pedras ao peixe procurando, porém, fazê-lo com precaução para não quebrar a linha. Esse jogo angustiante continuou por um certo tempo. Depois o peixe desentocou-se e, com um ruído na água e um silvo do molinete, continuou a nadar rio abaixo e nós atrás dele. Uma hora mais tarde, na larga planície  onde o rio se alarga e espraia, em frente da aldeia, o salmão deu mostras de derrota. Exausto, arquejante, emocionado  por uma multidão de- sensações desencontradas em que o peixe parecia escapar-se, Mac fez as últimas recomendações:

«Agora arrasta-o para terra! Puxa-o para o banco de areia!

Não temos arpão e se ele for mais longe acaba por se escapar»!

 A minha boca estava seca. Nervosamente, encurtei a linha. O peixe vinha ao princípio sem resistência, mas, de repente, deu a arrancada frenética no último esforço para libertar-se.

 Mac deixou escapar um suspiro. «Devagarzinho, devagarzinho!

 Se o deixas fugir agora nunca te perdoarei!» À medida que o distinguíamos melhor o peixe parecia incrível.

 A linha estava a ponto de rebentar, meia desfiada no sítio em que o salmão várias vezes a abocanhara. Puxei-o suavemente  para a areia, sem que oferecesse resistência nenhuma,  inteiramente vencido. Num silêncio total Mac curvou-se, mergulhou a mão nas guelras do monstruoso peixe e, depois de o sopesar, deitou-o sobre a relva.

Era consolador vê-lo, sobre a relva verde, aquele peixe, que devia pesar, pelo menos, uns vinte quilos.

«É um record!», gritava Mac, encantado, suando por todos os poros, enquanto eu me sentia invadido por uma onda de pura alegria.

Demos as mãos e dançamos à roda, numa espécie de fandango.

«Vinte e cinco quilos, se não tiver trinta... Ficará inscrito na história das pescarias. Meu rapaz», e Mac abraçava-me exclamando: «Tu, Chisholm, és um belo pescador! Sim, senhor!

 Um belo pescador!» Nesse momento, da linha do caminho  de ferro, do outro lado do rio, chegou-nos o silvo longínquo  de uma locomotiva. Mac estacou, olhou com espanto o penacho de fumo que se via ao longe e o sinal vermelho e branco que subitamente apareceu na estação de Duna, e regressou  a realidade. Um pensamento aflitivo levou-o a tirar o relógio do bolso.

«Deus do Céu, Chisholm!», disse agora já no tom de Holywell,  «é o comboio do bispo!

O dilema era claro: dentro de cinco minutos devia saudar  os ilustres hóspedes e ser-lhe-ia necessário dar uma volta de oito quilômetros, para alcançar a estação, pela estrada e a ponte que a servia. E a estação estava, contudo, bem perto dele, do outro lado do rio, bastando cruzá-lo e atravessar os dois campos fronteiros. Durou pouco o seu embaraço. Tomou, depois de um momento de reflexão, uma atitude decidida.

«Leva o peixe, Chisholm, e diz que o preparem para o almoço.

 Despacha-te. E lembra-te da mulher de Lot e da estátua  de sal. Aconteça o que acontecer, não olhes para trás!

Mas a curiosidade foi mais forte que eu. Chegado à primeira  curva do rio, por trás de um bosque, arrisquei-me a ser transformado numa estátua de sal. O padre Mac havia-se despido,  dobrado as roupas e pusera a trouxa à cabeça. Inteiramente  nu, entrou no rio e, ladeando-o aqui, nadando acolá, atravessou-o, vestiu-se novamente a toda a pressa e lançou-se em correria ao encontro do comboio. Eu permaneci sentado na relva por alguns momentos, numa espécie de êxtase. Não era simplesmente por causa da sua figura - que nunca mais esqueceria -, inteiramente nua e com a trouxa da roupa à cabeça, mas pelo significado moral que eu encontrava no episódio. E pensei: "Ele também deve detestar a nossa modéstia  piedosa e o nosso pudor religioso, que estremece à idéia da carne humana e oculta as mulheres da cabeça aos pés como se as suas formas fossem vergonhosas".

Um ruído junto da porta fez com que Francis erguesse a pena do papel e parasse de escrever. A porta abriu-se. Hudson  e Anselmo Mealey entraram. Hudson, um jovem moreno e silencioso, sentou-se para mudar de sapatos. Anselmo trazia  nas mãos a correspondência da tarde.

- Carta para ti, Francis - disse ele afetuosamente.

Mealey crescera e tornara-se um belo rapaz louro e rosado, atestado vivo de uma excelente saúde. O seu olhar era doce e límpido e o seu sorriso franco e comunicativo. Permanentemente  apressado, ativo, mas sempre sorridente, era, sem dúvida, o estudante mais popular do colégio. Conquanto não fosse brilhante nem a suas provas se revestissem de um valor excepcional, contava grandes simpatias nos professores e o seu nome via-se sempre entre os primeiros na distribuição de prêmios. Distinguia-se em todos os jogos não violentos, especialmente  no tênis, e tinha verdadeiro gênio diplomático e de organização. Era secretário de meia dúzia de clubes, desde  o dos filatelistas ao dos filósofos. Conhecia e gostava de empregar com freqüência certas palavras como «quorum», «ordem do dia», «processo verbal» e «senhor presidente».

Sempre que se falava em fundar uma nova sociedade, a opinião  de Anselmo era invocada e ele, automaticamente, era nomeado presidente. Elogiava a vida sacerdotal em termos líricos. A sua cruz era que, por uma singular contradição, por um desses paradoxos inexplicáveis, o diretor e mais alguns  poucos indivíduos isolados detestavam-no cordialmente.

Para os outros era um herói, que se limitava a aceitar modestamente  os seus próprios êxitos.     Estendendo a carta a Francis, acompanhava o gesto com um desses sorrisos cordiais que desarmam.

- Espero que venha cheia de boas notícias, meu velho!

Francis rasgou o sobrescrito. Sem data, as linhas estavam garatujadas num papel de fatura encimado por: «Deve a Edward  Bannon - Tabern Union - Tynecastle»:

Querido Francis:

Espero que esta te encontre tão bem como me deixou. Desculpa-me  escrever-te a lápis. Estamos muito aborrecidos. Lamento  imenso dizer-te, Francis, que não poderás vir passar conosco as próximas férias. Ninguém mais sente e mais se confrange do que eu, que não te vejo desde o Verão passado.

Mas, acredita-me, é impossível, e devemos submeter-nos à vontade  de Deus. Eu sei que és obstinado, mas desta vez é preciso  renunciar, que a Virgem Santa seja testemunha. Não quero  ocultar-te que temos tido aborrecimentos, mas não se trata  de coisa que possas resolver ou atenuar. Não é questão de dinheiro ou de doença, não te dê isso cuidado. Com a ajuda de Deus há de passar e ficar esquecido. Podes combinar as coisas de maneira a passar as férias no colégio. Ned pagará todos os extraordinários. Terás aí os teus livros e a encantadora  beleza desses sítios. Talvez seja possível que venhas passar o Natal conosco; por isso não desanimes. Ned vendeu  os seus galgos, mas não foi por a questão de dinheiro. O senhor Gilfoyle tem sido incansável de dedicação por todos nós. Também não perderás grande coisa, porque o tempo está terrível e tem chovido muito. Então, Francis, compreendes que temos hóspedes em casa e que de nenhum quarto podemos  dispor, de modo que não podes vir. Deus te abençoe, meu rapaz, e desculpa a pressa.

Muito afetuosamente, tua tia POLLY.

Junto da janela, Francis leu a carta duas vezes. O seu propósito  era bem claro e evidente, mas a sua significação permanecia  misteriosa, perturbadora e inescrutável. Com um olhar preocupado dobrou a folha do papel e enfiou-a no bolso.

- Nada de mau, espero... - disse Mealey, observando a fisionomia de Francis com solicitude e curiosidade.

Francis, constrangido, não encontrou que dizer.

- Desolado, meu caro colega -- disse Anselmo avançando  e pondo-lhe um braço sobre o ombro, para o confortar.

- Se para alguma coisa forem precisos os meus préstimos, dispõe de mim. Não te sentes disposto para jogar esta tarde?

- Não - balbuciou Francis. - De fato não me sinto com disposição.

- Está bem, meu caro Francis! - disse Anselmo, enquanto os sinos tocavam vésperas. - Com certeza que há qualquer  coisa que te preocupa. Eu pedirei por ti esta noite nas minhas orações.

Durante as vésperas, Francis esteve todo o tempo atormentado  por causa da incompreensível carta da tia Polly. Quando  o serviço religioso terminou teve um súbito desejo de contar  as suas dificuldades a Mac. Subiu vagarosamente a larga escada. Quando entrou na sala foi com aborrecimento que viu que o diretor não estava só. O padre Tarrant estava junto dele, com um maço de papéis na mão. Pelo estranho silêncio  que a sua presença provocou, Francis teve a impressão de que os dois homens haviam estado a falar dele.

- Desculpe-me, senhor - disse, dirigindo um olhar embaraçado  a Mac. - Não sabia que não estava só...

- Não faz mal, Chisholm. Senta-te.

A cordialidade expressa no tom de voz com que foram ditas essas palavras fez com que Francis, que já se encaminhava para  a porta, voltasse e se sentasse numa cadeira ao lado da mesa. Com lentos movimentos dos seus dedos curtos e grossos,  Mac atulhava de tabaco picado o seu velho cachimbo de urze.

- Bem... que queres tu, meu rapaz?

- Eu...  eu preferia falar-lhe em particular... - disse Francis, ruborizado.

Por qualquer razão, o diretor evitava o seu olhar suplicante.

- Mas importas-te que o padre Tarrant fique? De que se trata?

Não havia possibilidade de fuga. Incapaz de inventar qualquer  desculpa, Francis abordou o assunto, constrangidamente:

- É a respeito de uma carta... uma carta que recebi de casa...

Tinha querido mostrar a carta da tia Polly, mas na presença  do padre Tarrant o seu orgulho não lhe permitia.

- Por qualquer motivo desconhecido não querem que eu vá passar as férias a casa.

Enganar-se-ia ou teriam trocado um olhar de inteligência?

- Deve ter sido um desapontamento para ti.

- Imenso. Estou muito contrariado e sobretudo inquieto.

Estive a imaginar... e vim pedir-lhe o seu conselho.

Silêncio. O padre Mac Nabb embrulhou-se mais na sua capa velha e afadigou-se ainda mais com o seu cachimbo. Tinha  conhecido muitos jovens por fora e por dentro. Mas neste  havia uma delicadeza de sentimentos, uma pureza e uma honestidade,  uma beleza de alma que o tocavam até ao fundo do seu coração.

A sua voz tornou-se mais grave e mais cheia de compreensão.

- Todos temos os nossos desapontamentos, os nossos desgostos,  as nossas contrariedades, Francis. O padre Tarrant e eu estamos hoje também muito preocupados. As aposentações  estão a ser muito freqüentes no nosso seminário de Espanha.

Calou-se por um momento.

- Fomos nomeados para lá, eu como reitor e o padre Tarrant  como diretor dos estudos.

Francis balbuciou uma vaga resposta. San Morales representava,  na verdade, um posto acima, um progresso nítido, e o degrau seguinte seria um bispado. Mas, qualquer que fosse a reação do padre Tarrant - Francis dirigiu um rápido olhar ao seu perfil inexpressivo -, Mac Nabb não se entusiasmaria.

 As áridas planícies aragonesas seriam sempre antipáticas para este homem, que amava árvores verdejantes, que adorava  o ruído das águas correntes, que tinha Holywell na sua alma. Mac Nabb sorriu suavemente.

- O meu maior desejo seria ficar aqui... e tu gostarias de abandonar isto? Que dizes? Não nos devemos inclinar perante a vontade do Senhor?

Francis, no meio da sua confusão, esforçou-se por encontrar  uma frase adequada:

- É que eu fiquei num tal estado de preocupação, de cuidado...

 Pensei se seria possível descobrir a razão, desta atitude  e procurar ajudá-los...

- Duvido de que seja eficiente qualquer propósito de ajuda  - disse o padre Mac Nabb rapidamente. - Qual é a sua opinião, padre Tarrant?

O jovem professor respondeu:

- Segundo a minha experiência, as dificuldades resolvem-se  por si mesmas, sem intervenções estranhas.

Depois disso nada mais havia a dizer. O diretor acendeu o candeeiro da secretária que, ao iluminar a sala escura, parecia  pôr termo à entrevista. Francis levantou-se. Embora em presença de ambos os padres, foi a Mac Nabb que se dirigiu do fundo do seu coração:

- Não posso exprimir quanto lamento a sua partida para Espanha. O colégio... eu... eu vou sentir muito a sua falta...

- Quem nos diz que não nos encontraremos lá?

O tom da sua voz exprimia uma esperança, uma verdadeira afeição.

Francis não respondeu. Enquanto que, de pé e indeciso, não sabia como manifestar a sua ansiedade, o seu olhar fixara-se  numa carta que se encontrava aberta sobre a secretária.

Não era o que nela estava escrito - que à distância não se distinguia - o que lhe chamara a atenção, mas o cabeçalho, impresso a tinta azul, que não passara despercebido aos seus olhos. Rapidamente desviou o olhar, para não parecer curioso e impertinente, mas teve tempo de ler: «Presbitério de S. Domingos  Tynecastle.» Um estremecimento perpassou-lhe pelo corpo. Alguma coisa de grave se passava. Agora estava certo disso. Aquela carta, vinda de Tynecastle - dizia-lhe um pensamento  íntimo -, devia ter qualquer relação com a da tia Polly. Nenhum dos dois professores se inteirou da sua descoberta,  mas, enquanto se dirigia para a porta, levava consigo essa certeza.

O comboio chegou às duas horas. Aquele calor de Junho era pesado. Com a sua mala na mão, Francis caminhou apressadamente,  com o coração batendo mais forte à medida que se aproximava do bairro da cidade que lhe era familiar. Uma estranha tranqüilidade envolvia a taberna. Para surpreender a tia Polly subiu rapidamente a escada lateral e entrou em casa. Aí também reinava a mesma tranqüilidade estranha, o mesmo silêncio obstinado. O soalho estava coberto de pó.

Ninguém no vestíbulo, nem na cozinha. Só se ouvia o tique-taque  monótono do relógio. Dirigiu-se para a sala.

Ned estava sentado à mesa, com os cotovelos sobre a toalha rústica, com o olhar vazio aparentemente fitando a branca parede do lado oposto. Não somente pela atitude, mas pela transformação de todo o seu aspecto, Francis não pôde deixar de soltar uma exclamação de espanto. Ned havia perdido pelo menos vinte quilos de peso. O seu fato caía-lhe ao redor do corpo com desalinho e a sua cara, outrora rubicunda, era agora  sombria e cadavérica.

- Ned! - gritou Francis estendendo-lhe a mão.

Depois de uma pausa Ned voltou-se lentamente e um clarão  de inteligência atravessou o véu de abstração em que estava mergulhado.

- Oh, és tu, Francis? - perguntou, com um sorriso constrangido,  evasivo. -Não tinha a menor idéia de que te esperavam.

- Realmente ninguém me espera, Ned... - disse Francis,  esforçando-se por sorrir e disfarçar a sua ansiedade - Mas... não me pude conter... Onde está a tia Polly?

- Não está cá... Ausentou-se sim, por uns dias... Foi para Whitley Bay.  - Quando voltará?

- Não sei bem... Talvez amanhã.

- E onde está Nora?

- Nora! - e o tom de voz de Ned não tinha expressão.

- Ela também está para fora, com a tia Polly...

- Ah, compreendo - disse Francis, um tanto aliviado.

- Foi então por isso que ela não respondeu ao meu telegrama.

 . Mas, Ned... sente-se bem?

- Oh, isto vai indo, Francis... Um pouco cansado... mas as pessoas como eu não adoecem... Não há razão para sustos...

O seu peito arfou de maneira grotesca. Francis sentiu-se espantado ao ver as lágrimas que lhe escorriam pelas faces.

- Vai comer qualquer coisa - acrescentou Ned. - Deve haver muita comida na copa, ou pede a Tad. Ele está lá em baixo, no bar, e dar-te-á o que quiseres. Tem-nos sido de grande  ajuda, Tad.

O seu olhar vagueou pela sala, desnorteado, e por fim fixou-se  novamente na parede do lado oposto.

Abismado, em indescritível estado de confusão, Francis voltou-se e levou a mala para o seu pequeno quarto. Ao passar,  no corredor, pela porta do quarto de Nora, encontrou-a aberta; o aspecto do quarto branco, bem arrumado, perturbou-o  obrigando-o a desviar a vista e a descer apressadamente  a escada.

A grande sala estava deserta. Até mesmo Scanty desaparecera. O seu lugar habitual lá estava, vazio, como um buraco aberto na sólida estrutura da parede. Como uma peça do bar, parecia ter-se integrado já nele. Por trás do balcão, em mangas  de camisa, enxugando copos, estava Tadeu Gilfoyle, que manifestou surpresa quando Francis entrou. Tolhido pelo embaraço,  tardou em oferecer-lhe a mão mole e úmida ao mesmo  tempo que lhe dava as boas-vindas.

- Salve! - exclamou. - Ainda bem que veio matar saudades!

A confiança de Gilfoyle desagradou-lhe sobremaneira. Mas Francis, embora cada vez mais alarmado, afetou indiferença,  dizendo-lhe, no tom mais natural possível:

- Que surpresa encontrá-lo aqui, Tad! Que aconteceu à companhia do gás?

- Deixei o emprego - respondeu Tad, muito calmo.

- Porquê? Para quê?

- Para ficar aqui... permanentemente.

Agarrou num copo, lançou-lhe um olhar profissional, soprou-o  levemente e começou a esfregá-lo com a ponta do avental,  para fazê-lo brilhar.

- Pediram-me que viesse tomar conta disto - acentuou Gilfoyle - e eu, francamente, já não estava interessado na companhia do gás!...

Francis, com os nervos tensos, tal a ansiedade de que estava  possuído, não pôde dominar-se:

- Em nome de Deus, que significa tudo isto, Gilfoyle?

- «Senhor» Gilfoyle, se me permite, Francis! - retorquiu  Tad em tom de censura. - Tenho pena de Ned. Preferia  não ter vindo para aqui, que ele continuasse escorreito...

Mas ele já não é o mesmo. Duvido de que ele volte ainda a ser o que era outrora...

- Que lhe aconteceu? Fala como se ele estivesse louco!

- Foi o que aconteceu, Francis, foi o que aconteceu...

- titubeou Gilfoyle. - Mas agora, coitado, está a recuperar o juízo.

À espera da reação de Francis, percebeu que este o ia interromper, exasperado, com uma exclamação:

- Não me olhe dessa maneira, porque eu sou o único que tem procedido decentemente. Pergunte ao padre Fitzgerald, se me não acredita. Eu sei que você nunca me estimou. Você, nas férias, divertia-se à minha custa... Mas eu sempre tive as melhores intenções para consigo, Francis. É melhor entendermo-nos...

 especialmente agora.

- Porque especialmente agora? - inquiriu Francis, com certa desconfiança.

- Oh, sim... Você ainda não sabe... - murmurou. Teve um sorriso horrível de ver. - Os banhos foram publicados pela primeira vez no domingo passado. Mas vou dizer-lhe.

Francis: Nora e eu vamos casar-nos!

A tia Polly e Nora regressaram na tarde do dia seguinte.

Francis, doente de apreensão e incapaz de arrancar todo o significado  das enigmáticas palavras de Gilfoyle, esperava a chegada  de ambas com uma impaciência de agonia. Procurou tomar a tia Polly de parte. Mas Polly, depois de passada a primeira surpresa e de ter exclamado: «Francis, tinha-te dito que não viesses», subira as escadas com Nora, surda às suas súplicas, repetindo maquinalmente: - Nora não está bem...

ela está doente, eu já disse... sai do meu caminho... tenho de a tratar.

Repelido, dirigira-se para o seu quarto, cheio de presságios sombrios, atormentado com a ignorância do que acontecera aos seus e que ainda representava, para ele, um mistério insolúvel.

 Nora, que mal lhe dirigira um rápido olhar, fora imediatamente  para a cama, e durante uma hora Francis ouviu os passos de Polly no corredor levando botijas de água quente  e dirigindo súplicas em voz baixa a Nora, cercando-a de atenções desveladas. Nora, magra e pálida, tinha o ar de quem saiu de uma enfermaria. A tia Polly, estafada e inquieta, mais mal vestida que nunca, adquirira um novo tique - passava rápida e constantemente as mãos pela fronte. Pela noite dentro  ele ainda ouvia o sussurro das suas preces. Torturado pelo enigma, Francis mordia os lábios e revolvia-se, entre os lençóis,  incapaz de adormecer.

Na manhã seguinte, muito cedo, levantou-se e, como habitualmente,  foi assistir à primeira missa. Ao voltar encontrou  Nora sentada nos degraus da escada do quintal, aquecendo-se  ao sol; a seus pés as galinhas depenicavam e cacarejavam.

 Ela não se moveu do seu lugar para o deixar passar, ele parou por um momento e Nora levantou a cabeça para o olhar:

- Cá está o santinho... saiu cedo, para salvar a alma!

Ele corou ao ouvi-la, surpreso pelo tom da sua voz, tão frio e tão amargo.

- Foi o reverendo padre Fitzgerald quem oficiou?

- Não. Foi o coadjutor.

- O boi mocho do estábulo! Esse, enfim, ao menos é inofensivo...

Deixou descair a cabeça olhando vagamente as galinhas, com o rosto miúdo apoiado na magra mão. Embora ela tivesse  sido sempre delgada, ele estava impressionado com a descoberta da sua extrema fragilidade quase infantil e que tão fortemente destoava da maturidade do seu olhar e do seu vestido cinzento, caro e severo, sem a garridice juvenil dos seus trajos de outrora. O seu coração desfalecia e o seu peito consumia-se num fogo vivo, numa dor insuportável. O sofrimento  de Nora destroçava-lhe a alma. Ele hesitava, sem coragem  para a olhar de frente. Perguntou-lhe:

- Já tomaste o café?

Teve um gesto afirmativo.

- A tia Polly forçou-me a isso - disse. - Meu Deus!

Se ao menos me deixasse em paz!

- Que vais fazer hoje?

- Nada.

Ele hesitou, depois, precipitadamente, propôs, com toda a sua ternura através da ansiedade do seu olhar.

- Vamos passear, Nora, como fazíamos antigamente. O dia está esplêndido!

Ela não se moveu, embora uma centelha de animação fulgurasse,  como um pálido e fugaz lampejo, sobre o seu rosto descorado.

- Não tenho coragem para isso - disse ela, com voz triste.

 - Estou muito fatigada!

- Oh, vem, Nora... Por favor...

Ela calava-se, apática.

- Está bem, se assim o queres...

O coração de Francis bateu dolorosamente. Precipitou-se para a cozinha e, nervosamente, à pressa, fez algumas sanduíches  e cortou uma fatia de bolo, embrulhando tudo, desajeitadamente,  num pequeno pacote mal atado. Não havia sinal de Polly e agora, na verdade, desejava evitá-la. Dez minutos mais tarde Nora e ele estavam sentados no «elétrico» vermelho que atravessava a cidade. Uma hora depois seguiam silenciosos, lado a lado, no caminho de Gosforth.  Ele admirava-se do singular impulso que o encaminhara para aqueles sítios familiares. As campinas banhadas de sol estavam lindas, mas no seu encanto ele encontrava qualquer coisa de estranho que o emocionava. Ao chegarem ao pomar de Lang, cujas árvores faziam lembrar nuvens brancas e rosadas, parou, tentando quebrar o pesado silêncio em que estavam mergulhados.  - Ouve, Nora! Queres entrar? Vamos desejar os bons- -dias a Lang.  Ela lançou um olhar ao pomar, às árvores dispostas em filas regulares, às macieiras floridas, e suplicou num tom amargo: - Não, não vou! Detesto este lugar!  Ele não respondeu. Obscuramente compreendia que esta amargura nada tinha a ver com ele.  Pela uma hora chegaram ao topo da colina onde se ergue o farol de Gosforth. Convencido de que ela estava cansada, e sem a consultar, parou sob uma alta faia, para o almoço. O dia estava excepcionalmente quente e claro. Na planície que se estendia lá em baixo brilhando à luz intensa do sol estendia-se a cidade, com os seus zimbórios e campanários de uma inefável beleza. Ela mal tocou nas sanduíches e ele, recordando-se  de como a insistência de Polly lhe desagradava, não teimou para que comesse. As folhas tenras e verdes da grande árvore projetavam arabescos sobre o musgo macio, coberto, aqui e ali, de frutos secos, sobre o qual se sentavam. O cheiro da seiva embalsamava o ar e o assobio de um melro vinha de um alto ramo da faia.

Depois de estar por alguns momentos recostada no tronco da árvore, Nora deixou pender a cabeça e cerrou os olhos cedendo  ao cansaço. Esse abandono parecia, de certo modo, ser a maior marca de afeição que ela poderia prestar a Francis.

Ele contemplou-a com um súbito transporte de ternura, possuído  de uma compaixão inexprimível ao fixar a linha esguia do seu pescoço, tão frágil e desprotegido. A sua ternura inspirou-lhe  um violento desejo de a proteger. Quando a cabeça  de Nora descaiu um pouco mais para a frente, supô-la adormecida e estendeu instintivamente o braço para a amparar.

Então ela levantou-se, saindo do seu torpor, e esmurrou-o repetidamente com os punhos fechados, no rosto e no peito, histérica e arquejante.

- Deixa-me tranqüila! Bruto! Estúpido!

- Nora! Nora! Que é isso?

Esbaforida, deu um passo atrás, a face trêmula, contraída, uma expressão de desprezo nos olhos.

- Não tentes tocar-me! Vocês são todos a mesma coisa!

Todos!

- Nora! - suplicou ele desesperadamente. - Por favor...

por piedade, explica-me a razão do que se passa...

- Explicar o quê?

- De tudo isso... Porque é que tu... sim, porque vais casar com Gilfoyle...

- E porque não devo casar com ele? - perguntou-lhe ela, com certa amargura, num movimento instintivo de defesa.

Os lábios de Francis estavam tão secos que ele mal podia articular as palavras.

- Mas, Nora, ele... ele é um pobre-diabo... Não serve para  ti.

- É tão bom como qualquer outro. Eu não te disse já que vocês são todos a mesma coisa? Ao menos a ele poderei dominá-lo.

Confuso, pálido, ele olhava-a sem saber o que pensar. Perante  o seu olhar incrédulo ela resolveu feri-lo ainda mais cruelmente.

- Talvez imaginasses que eu casaria contigo, meu beato, meu sacristão! Deixa-me rir! A tua devoção diverte-me. Oh, não sabes como és engraçado...  quando levantas os olhos para o Céu... com essa cara de santo de pau carunchoso!

Serias o último homem do mundo com quem casaria!

Os sarcasmos sufocavam-na. Tremia tanto que ele não pôde reprimir as lágrimas que lhe saltavam dos olhos e os soluços que lhe agitavam o peito.

Então, soluçando perdidamente, lançou-se-lhe ao pescoço:

- Oh, Francis, querido Francis, perdoa-me. Amei-te sempre!

 Mata-me, se é esse o teu desejo... Eu não me importarei. .

Enquanto procurava acalmá-la desajeitadamente acariciando-lhe  a fronte reconheceu que estava tão trêmulo como ela.

A violência desesperada dos seus soluços diminuiu gradualmente.

 Passiva, esgotada, a cara oculta de encontro a Francis, ela abandonava-se como uma ave ferida. Depois, lentamente, Nora recuperou o seu domínio. Com os olhos baixos, ainda rasos de água, agarrou no lenço e enxugou o rosto, tomou o chapéu e disse num tom neutro, quase indiferente:

- É melhor voltarmos para casa.

- Olha para mim, Nora - pediu ele.

Ela não acedeu, limitando-se a pronunciar no mesmo tom monótono de voz:

- Diz o que queres.

- Sim, digo-te, Nora! - respondeu ele com veemência juvenil que novamente se manifestava em toda a plenitude.!

- Isto não pode continuar! Debato-me num mistério, mas eu o desvendarei seja o que for! Não quero que cases com esse estúpido do Gifoyle. Eu amo-te, Nora. Eu impedirei esse disparate.

- Querido Francis - disse ela, por fim, com um sorriso triste. - Ao ouvir-te creio ter mil anos... :.

Levantou-se, inclinou-se para ele e beijou-o na face, como já o tinha feito uma vez antes. Quando começaram a descer a colina também o melro deixara de cantar no ramo da faia verdejante e frondosa.  Naquela noite, impulsionado por uma idéia fixa, Francis dirigiu-se ao casebre próximo das docas onde habitavam os Magoons. Encontrou o desprezado Scanty sozinho, pois Maggie ainda não chegara. Sentado ao pé de um débil fogo, o pobre trabalhava tristemente num grosseiro tapete de lã, num tear caseiro, à luz de uma candeia. Ao reconhecer o visitante não escondeu a sua sincera e espontânea alegria, que aumentou  consideravelmente quando Francis mostrou a garrafa de vinho que propositadamente trouxera do bar. Imediatamente Scanty encheu um copo muito maltratado pelo uso e solenemente  brindou à saúde do seu benfeitor.

- Ah, isto é que faz bem! - disse ele limpando os lábios à manga do casaco. - Não sei o que é beber uma gota desde que esse malvado Gilfoyle tomou conta da casa!

Francis sentou-se numa cadeira sem fundo e dirigiu-se-lhe ansiosamente, com uma absorvente preocupação de obter a revelação do torturante enigma. Os seus olhos fitavam intensamente  o mutilado e brilhavam através da sombra que o envolvia.

- Scanty! Que se passou na Union? Que aconteceu a Nora, a Polly e a Ned? Há três dias que cheguei e ainda nada sei!

Tens de me contar tudo!

A cara de Scanty modificou-se. Com expressão aterrorizada,  o seu olhar dirigia-se alternadamente de Francis para a garrafa e desta para Francis.

- Ah! Como quer que eu saiba?

- Sabes! Tenho a certeza. Vejo isso expresso no teu rosto.

- Ned não lhe disse nada?

- Ned? Ele parece um surdo-mudo!

- Pobre Ned! - murmurou Scanty persignando-se e despejando  mais vinho no copo. - Que Deus nos proteja! Quem havia de pensar! Enfim, qualquer de nós está sujeito...

Depois, com voz enfática e rouca, afirmou subitamente com a voz apressada:

- Nada lhe posso dizer, Francis. É uma vergonha inútil ter de contar-lhe isso. O mal está feito e não pode ser remediado...

- Pode, sim, Scanty - replicou Francis. - Conta-me, peço-te. Se eu souber o que se passa poderei talvez fazer alguma coisa...

- Quer dizer, Gilfoyle...

Scanty refletiu um instante, e em seguida, decidindo-se, fez um vagaroso aceno com a cabeça. Esvaziou outro copo para arranjar coragem e prosseguiu, num tom de voz mais baixo:

- Eu dir-lhe-ei, Francis, se jurar não me comprometer.

A verdade é que... é que Nora... Deus tenha piedade dela e de nós. Nora teve um bebê...

Um silêncio bastante prolongado permitiu que Scanty pudesse  tomar outro golo. Depois Francis perguntou:

- Quando?

- Há seis semanas. Ela teve-o em Whitley Bay. Uma mulher  que vive lá tomou conta da criança... É uma menina...

Nora não a pode suportar...

Gelado, rígido, Francis lutava com a tempestade que rugia no seu íntimo. Conseguiu reunir forças para perguntar:

- Então é Gilfoyle o pai?

- Esse peixe podre! - exclamou Scanty, sem se conter.

- Não, não. Ele apenas encobre o outro dando o seu nome à garota, como ele diz; em troca quer sociedade na União, o biltre! Foi o padre Fitzgerald o autor dessa idéia, Francis.

Trabalharam bem os dois. Faz-se o casamento; um tempo depois leva-se daqui a pequena, ninguém se inteira da história  e a filha vem mais tarde para cá, no fim de um longo período de férias. Que Deus me mate neste momento se isto não é coisa de meter nojo a um porco!

Com uma dor inexprimível na garganta, Francis sufocava.

Fazia esforços desesperados para poder falar.

- Mas eu nunca soube que Nora tivesse estado apaixonada, Scanty... Sabes quem era? Quero dizer... o pai da criança...

- Juro por Deus que não sei! - O sangue subiu à cabeça de Scanty, que ia e vinha e negava vociferando. - Nada sei a tal respeito. Eu sou um simples pobre-diabo. Como poderia eu... E Ned não sabe tão pouco! É tão verdade como o Evangelho!

 Ned sempre me tratou muito bem, sempre foi generoso para comigo, exceto numa ocasião, quando Polly estava ausente e ele se embebedou. Se eu soubesse ter-lhe-ia dito...

Não, não, Francis. Tire essa idéia da cabeça. Não há esperança  de descobrir o miserável!

Outra vez o silêncio, gelado, longo opressivo. Uma névoa toldou os olhos de Francis. Sentiu-se mortalmente ferido, esmagado,  dilacerado. Por fim levantou-se com um grande esforço.

- Obrigado, Scanty, pelos teus esclarecimentos.

Abandonou o quarto e desceu, presa de vertigem, a escada escura. A frente e as palmas das mãos estavam úmidas de suor. Suor frio, glacial. Uma torturante visão perseguia-o: o quartinho de Nora, tão branco e sereno. Não sentia raiva.

Apenas uma profunda piedade, numa convulsão espantosa da sua alma. Fora, no pátio miserável, apoiou-se, num desfalecimento  súbito, ao único candeeiro de gás, e deixou que o coração se expandisse, num pranto manso, irreprimível. A seguir sentiu o frio cortante da noite, mas estava mais sereno.

Dirigiu-se resolutamente para S. Domingos. O porteiro fê-lo entrar com silenciosa discrição. Depois de uma curta demora voltou ao pequeno vestíbulo de luzes veladas onde o deixara, sorriu-lhe brandamente, e observou. «Teve sorte, Francis. Sua Reverendíssima está livre e recebe-o imediatamente».

Com a caixa de rapé na mão, o padre Geraldo Fitzgerald levantou-se quando Francis entrou mostrando na fisionomia um misto de cordialidade e de interesse entre amável e curioso.

 A sua figura elegante harmonizava-se com a mobília francesa  e o genuflexório antigo; as escolhidas reproduções de primitivos italianos que ornavam as paredes e o ramo de lírios sobre a secretária completavam a decoração, de requintado bom gosto, do ambiente.

- Então, meu amigo? Pensei que estivesse no Norte!

Sente-se. Como estão os amigos de Holywell?

Fez uma pausa, tomou uma pitada de rapé, fixou um olhar de aprovação afetuosa nas insígnias do colégio que Francis ostentava e prosseguiu:

- Como sabe, foi lá que estudei também, antes de ir para Roma... É uma bela e nobre casa. Lembro-me com afeto do meu velho amigo Mac Nabb e do padre Tarrant, que foi meu condiscípulo no Colégio Inglês de Roma. É um homem notável,  que irá longe. Bem, Francis, vamos lá... Em que posso ser-lhe útil?

Disse estas últimas palavras com uma gravidade de diplomata,  ou, melhor, de cortesão que bajula um poderoso.

Cabisbaixo, a respiração ofegante, Francis conservava os seus olhares dirigidos para o chão.

- Vim procurá-lo por causa de Nora.

Essa declaração balbuciada dissipou a serenidade do ambiente  e o à-vontade do padre Fitzgerald tornou-se numa expressão  de surpresa.

- E a respeito dela, que tem a dizer-me?

- O seu casamento com Gilfoyle... Ela não tem o menor desejo de casar com ele... ela sente-se desgraçada... É uma decisão não só injusta mas também estúpida... é uma punição inútil e horrível.

- Que conhece do assunto para o qualificar com tanta ligeireza de horrível?

- Bem... sei tudo... sei que ela não é culpada.

O silêncio pesou. A frente do padre Fitzgerald revelava uma expressão de aborrecimento, e no entanto ele contemplava  o impulsivo jovem com certa piedade.

- Meu pobre rapaz - disse ele -, se ingressar no clero, como creio ser a sua intenção, e adquirir ao menos metade da experiência que infelizmente possuo, compreenderá que certas desordens sociais exigem remédios apropriados. Você está impressionado por este «horrível» caso. Eu não estou e tinha-o mesmo previsto. Conheço e detesto o efeito das bebidas  alcoólicas na mentalidade bestial destes alarves que são meus paroquianos. Você e eu podemos saborear um cálice de Lachryma Christi como dois cavalheiros. O mesmo não sucede porém com um Edward Bannon! Isto diz tudo. Não quero fazer acusações. Verifico simplesmente a existência de um problema que está longe de ser único, e aqueles que passam  horas seguidas a escutar sórdidas confissões sabem-no bem.

O cura calou-se um momento para extrair rapé da sua caixa, num gesto elegante, e depois continuou:

- Que temos de fazer? Eu lhe direi. Em primeiro lugar legitimar e batizar o recém-nascido. Depois casar a mãe, se for possível, com um homem decente que a queira por esposa.

Devemos regularizar, regularizar sem perda de tempo. Edificar  um lar católico sobre essas ruínas, reintegrar na trama sólida esses fios que se haviam escapado. Creia-me, Nora Bannon  teve muita sorte em encontrar um homem como Gilfoyle.

Ele não é brilhante, mas é sólido. Dentro de dois anos hei de vê-la na missa, com o marido e a família... perfeitamente feliz.

- Não, não - interrompeu Francis impulsivamente. - Ela nunca poderá ser feliz. Será sempre desgraçada, miserável...

O padre Fitzgerald levantou a cabeça:

- E a felicidade será o único objetivo na vida? - inquiriu.

- Ela entregar-se-á a qualquer extremo. Não poderá compelir  Nora a qualquer coisa que ela deteste... Eu conheço-a melhor do que o senhor...

- Parece conhecê-la muito intimamente - observou o padre, com uma suavidade repugnante. - Espero que não tenha interesse físico na jovem em questão...

Duas manchas vermelhas apareceram nas faces lívidas de Francis, que murmurou:

- Gosto muito de Nora... mas o meu amor não daria margem a uma confissão sórdida. Peço-lhe pois que... que não a force a casar contra a sua vontade. Ela não é como as outras... Tem uma alma doce e luminosa. Não se lhe pode meter uma criança e um marido entre os braços só porque, na sua inocência, ela foi...

Picado ao vivo, o padre Fitzgerald lançou a caixa de rapé para cima da secretária:

- Basta de lições, senhor!

- Perdoe-me. Já não sei o que digo... Quero somente suplicar-lhe que use da sua influência para...

Francis apelou para toda a sua energia, que sentia abandoná-lo,  num derradeiro esforço:

- Ao menos dê-lhe um pouco de tempo.

- Basta, Francis!

O padre, demasiadamente senhor de si e dos outros para perder o seu sangue-frio ou a sua serenidade por muito tempo, levantou-se repentinamente da cadeira e consultou o seu relógio  de ouro.

- Tenho uma reunião de patronato marcada para as oito.

Peço-lhe me desculpe.

Quando Francis se levantou também, bateu-lhe amistosamente  nas costas.

- Meu caro rapaz, você é ainda muito novo. Ousarei dizer mesmo: um pouco infantil. Mas, graças a Deus, tem uma sábia e prudente conselheira na nossa mãe, a Igreja. Não bata com a cabeça nas suas paredes, Francis. Elas resistiram ao embate de muitas gerações e cabeças mais fortes que a sua esmagaram-se de encontro a elas. Vamos! Mas eu sei que você é um bom rapaz. Apareça para conversarmos sobre Holywell depois de realizado o casamento. Entretanto como um ato de reparação, para compensar a sua rudeza, quer rezar uma Salve Rainha em minha intenção?

Francis calava-se. Tudo fora inútil.

- Sim, padre...

- Então, boa noite, meu filho... e que Deus o abençoe!

No ar noturno, úmido e frio, Francis afastou-se lentamente  do presbitério. Os seus passos soavam pesadamente no pavimento rústico da rua. Ao chegar junto das escadas da capela o sacristão fechava as portas laterais. Quando a última réstia de luz desapareceu, Francis permaneceu, descoberto, no meio da escuridão, com os olhos fixos nas janelas do coro da igreja, que pareciam pupilas mortas. Subitamente do fundo do seu desespero lançou esta prece: «Oh, meu Deus! Fazei o melhor que puderdes por todos nós!» O dia do casamento aproximava-se e Francis sentia-se consumir  por uma febre que lhe tirava o sono e o matava, aos poucos. A atmosfera da taberna parecia adquirir insensivelmente  uma serenidade de água estagnada. Nora estava silenciosa,  Polly renascia possuída de uma vaga esperança, e se Ned se obstinava na solidão e no mutismo, o terror confuso desaparecera do seu olhar. Embora a cerimônia devesse efetuar-se  na intimidade, nenhuma razão havia para que o enxoval  fosse modesto, nem o dote nem a viagem de núpcias a Killarney. A casa regurgitava de vestidos e de tecidos, Polly passava de uma prova a outra com a boca cheia de alfinetes e movia-se entre montanhas de roupa de cama e de mesa.

Gilfoyle, sempre à espreita, fumava os melhores charutos da Union e ocasionalmente vinha conversar com Ned sobre questões financeiras. Uma escritura de sociedade fora lavrada e devidamente assinada, mas havia muito que conversar a respeito da casa e da instalação nela do novo casal. Os numerosos  parentes pobres de Tad já rondavam a casa, bajulando  o novo sócio da taberna. A sua irmã casada, a senhora Neily, e a sua filha Carlota eram talvez as mais agressivas.

Nora pronunciava poucas palavras. Em todo o caso, o bastante.

 Uma vez parou ao encontrar Francis no corredor.

- Sabes o que se passa, não é verdade?

Com o coração a bater-lhe desordenadamente, Francis não ousou enfrentar o olhar de Nora.

- Sim, sei...

Depois de uma pausa em que sufocava, não pôde conter por mais tempo a dor que lhe rasgava a alma e expandiu-se em palavras incoerentes e a soluçar. Lágrimas irreprimíveis, lágrimas de criança brotaram dos seus olhos.

- Nora...  não nos podemos submeter...   Se soubesses como sofro com a tua dor... Posso olhar por ti, trabalhar para ti... Nora, partiremos os dois...

Ela encarou-o com uma ternura estranha e piedosa.

- Aonde iremos nós?

- Não importa aonde - respondeu ele, num ímpeto, as faces molhadas e brilhantes. Ela não retorquiu. Apertou-lhe a mão sem pronunciar uma palavra e depois retirou-se apressadamente  para ir provar um vestido.

Na véspera do dia do casamento ela humanizou-se um pouco,  perdendo alguma coisa da sua passividade rígida. Subitamente,  depois de tomar uma das chávenas de chá de que Polly a saturava, ela declarou: - Gostaria de ir hoje a Whitley Bay. Alarmada, Polly repetiu como um eco: - Whitley Bay?

- E ajuntou, num impulso:

- Irei contigo.

- Não é preciso - disse Nora. - Mas se quer vir comigo… - Quero, sim, minha querida!

Tranqüilizada pelo tom da voz de Nora, leve e despreocupado  - como se a antiga alegria, como uma música distante, ecoasse de novo no seu ser, Polly encarou esta viagem sem preocupação. Veio-lhe ao espírito a idéia grata e confortante de que Nora estava finalmente em vias de recobrar o bom senso. Enquanto tomava o chá falou-se da beleza do lado de Killarney, que visitara uma vez, na sua juventude. Os barqueiros  tinham-na divertido muito.

As duas mulheres vestiram-se para a excursão e dirigiram-se  para a estação depois do jantar. Ao dobrar a esquina, Nora voltou-se e olhou para cima, para a janela na qual Francis se encontrava. Parou um momento, sorriu gravemente e acenou-lhe  com a mão. Depois desapareceu.

A notícia da tragédia chegou ao bairro mesmo antes que a tia Polly fosse trazida para casa, num carro, em estado de completa prostração. Toda a cidade se impressionou profundamente  com o emocionante acontecimento. O interesse popular  nunca fora tão poderosamente galvanizado pela imprudência  de uma jovem que caíra entre o cais e um comboio em movimento. Era a circunstância do casamento, prestes a realizar-se, que tornara o fato de tão excepcional interesse.

No bairro das docas as mulheres saíam das casas, abandonavam  os seus afazeres e juntavam-se na rua em grupos, comentando o caso, gesticulando e lamentando a sorte da vítima.

Acabou por atribuir-se a origem da tragédia aos sapatos novos de Nora. Todos manifestavam uma grande simpatia para com Tadeu Gilfoyle e bem assim à sua família como, afinal, a todas as jovens, em vésperas de casar, que têm necessidade de viajar de comboio. Falou-se em organizar o cortejo funerário  com grande pompa com a atuação da banda de música da irmandade.

À noite, sem saber como, Francis encontrou-se na Igreja de S. Domingos. O templo estava inteiramente deserto. A luz mortiça da lâmpada do altar-mor atraiu o seu olhar inquieto.

Ao ajoelhar-se, pálido e fatigado, sentiu-se preso sem experimentar  revolta, nas malhas inexoráveis do destino. Nunca sentira antes tal sensação de desolação e abandono. Não podia chorar. Os seus lábios, frios e apertados, não podiam articular uma prece, incapazes de um movimento, paralisados.

Mas a sua alma torturada oferecia-se em holocausto na sua angústia. Primeiro os seus pais... Agora Nora. Como ignorar por mais tempo os desígnios do Céu? Partiria então... devia partir... iria juntar-se ao padre Mac Nabb... iria para San Morales. Consagrar-se-ia inteiramente a Deus. Decidira ser padre.

No ano de 1892, durante a Quaresma, ocorreu no seminário  inglês de San Morales um incidente que provocou a mais intensa consternação e os mais desencontrados comentários.

 Um dos seminaristas da classe de Teologia desaparecera  subitamente durante quatro dias completos.

Bem entendido que desde a sua fundação, naquele planalto aragonês, cinqüenta anos atrás, este não era o primeiro ato de rebeldia que se tinha registrado nos anais do estabelecimento.

 Outros estudantes se haviam amotinado por uma hora ou mais, escapando-se para a posada vizinha do seminário, com grande prejuízo para a sua consciência e para a sua saúde, fumando longos charutos e bebendo aguardente. Uma ou duas vezes havia sido necessário agarrar pelas orelhas alguns insubmissos  mais obstinados nos sórdidos salões da Via Amorosa, na cidade. Mas o caso de um estudante sair pelo portão, em pleno dia, e voltar quatro dias depois, entrar pelo mesmo portão, à mesma luz do dia, apenas mais empoeirado, coxeando  de uma perna, de barba crescida e cabelo em desordem, demonstrando os indícios da mais evidente dissipação e alegando  como única desculpa ter saído para dar um passeio, para em seguida atirar-se para cima da cama e dormir a sono solto, havia uma enorme distância. Já não era uma simples infração no regulamento da casa. Era uma apostasia.

Durante o recreio os estudantes discutiram o caso em voz baixa em pequenos grupos vestidos de negro, nas colinas cheias de sol, entre as vinhas azuladas de sulfato, à sombra das paredes brancas do seminário.

Era convicção geral de que Chisholm seria, sem dúvida, expulso  do estabelecimento. O conselho disciplinar fora, sem demora, convocado. Em casos graves de quebra de disciplina o conselho era composto pelo reitor, o administrador, o prefeito  dos estudos, o mestre dos noviços e o representante dos seminaristas.

No dia seguinte ao do regresso do fugitivo o conselho reuniu-se  no anfiteatro de Teologia. Lá fora o vento solano sibilava.

 As azeitonas maduras caíam das altas oliveiras de folhas prateadas e esborrachavam-se no chão. O perfume das flores da laranjeira chegava em ondas do pomar que dominava a enfermaria. Sob o calor a terra abria fendas. Francis entrou na alta sala branca onde os bancos vazios e brilhantes davam uma impressão de frescura sombria. O seu ar era sereno e a sotaina de alpaca colada à sua figura delgada acentuava-lhe a magreza. Os cabelos cortados rasos faziam destacar a angulosidade  do rosto ossudo, sublinhavam o olhar sombrio, aumentando  a sua reserva, mas, apesar de tudo, as suas mãos denunciavam uma estranha tranqüilidade.

Diante dele, no estrado onde tomaram lugar os protagonistas  do debate, havia quatro mesas, ocupadas pelo padre Tarrant, por monsenhor Mac Nabb, padre Gómez e pelo diácono  Mealey. Consciente de que nos olhares que para ele convergiam  havia um misto de pena e reprovação, Francis baixou a cabeça, enquanto o padre Gómez, o jovem mestre dos noviços  espanhol, lia rapidamente o auto de acusação. Houve em seguida um silêncio após o qual o padre Tarrant falou:

- Qual é a sua explicação?

A despeito da serenidade que até então aparentara, Francis  sentiu uma onda de sangue subir-lhe às faces. Continuou com a cabeça baixa e disse:

- Saí para dar um passeio!

A frase não era convincente.

- Isso já sabemos... O que precisamos é de saber que espécie de passeio foi esse. Usamos as pernas quer as nossas intenções sejam boas quer sejam más. Além da grave falta que por si só constituí o fato de haver abandonado o seminário  sem permissão, teve alguma intenção má?

- Não.

- Durante a sua ausência bebeu alguma bebida alcoólica?

- Não.

- Foi a alguma corrida de touros, à feira ou ao cassino?

- Não.

- Teve relações com alguma mulher de má fama?

- Não!

- Então que fez?

Silêncio outra vez. Depois a resposta balbuciada.

- Já vos disse. Vejo que não me compreendem... Saí...

saí para dar um passeio! Andei, andei...

O padre Tarrant esboçou um sorriso irônico.

- Pretende fazer-nos acreditar que passou quatro dias divagando  incessantemente pelos campos?

- Bem... foi quase isso...

- Até onde foi?

- Fui... fui até Cossa!

- Cossa! Mas são quase oitenta quilômetros!

- Sim, creio que sim.

- Tinha algum propósito deliberado?

- Não.

O padre Tarrant mordeu o seu lábio delgado. Não podia admitir que lhe opusessem resistência. Invadiu-o um desejo súbito e selvagem de recorrer aos métodos de tortura de outrora,  a roda, o borzeguim, o potro. Compreendia que os inquisidores  medievais recorressem a tais instrumentos. Em certas circunstâncias justificava-se perfeitamente o seu emprego.

- Creio que está a mentir, Chisholm.

- Porque lhe mentiria eu... ao senhor?

Uma exclamação abafada saiu dos lábios do diácono Mealey.

 A sua presença ali era puramente simbólica. Na qualidade  de chefe dos alunos era ali uma figura meramente decorativa,  mas não pôde resistir a dirigir-se a Francis fervorosamente:

- Peço-te, Francis! Em nome de todos os estudantes, de todos nós, que te estimamos... Eu... eu rogo-te que expliques...

Como Francis permanecia silencioso, o padre Gómez, o jovem  mestre dos noviços espanhol, inclinou a cabeça e segredou  a Tarrant:

- Não consegui colher prova alguma... nem o mais ligeiro  indício de quem quer que fosse, na cidade. Entretanto, poderíamos escrever ao vigário de Cossa.

Tarrant lançou um olhar rápido ao subtil espanhol.

- Sim. É uma excelente idéia.

Entretanto o reitor aproveitava a trégua que se estabelecera.

 Mais idoso, mais vagaroso que em Holywell, continuava a ser ainda indulgente. Falou com doçura e bondade.

- Deves compreender, Francis, que nestas circunstâncias a tua explicação é muito vaga e não satisfaz. Agravas a tua culpa de insubordinação por infringires as regras do seminário  recusando-te a confessar o motivo que poderia justificar o teu culposo procedimento. Diz-me: sentes-te infeliz aqui?

- Pelo contrário. Sinto-me feliz.

- Muito bem! E tens algum motivo para duvidar da tua vocação?

- Não. Desejo, mais do que nunca, tentar fazer alguma coisa boa no mundo.

- Dá-me grande prazer a tua resposta... Então não desejas  ser expulso?

- Não.

- Está bem! Então explica-nos, sinceramente, a razão que te levou... porque tomaste essa decisão, como levaste a cabo essa estranha aventura.

Assim animado, Francis ergueu a cabeça. Com um grande esforço, o olhar vago, o rosto perturbado, começou:

- Eu... eu tinha ido para a capela... Mas não pude orar, não pude concentrar-me... Estava agitado. O solano soprava...

 e o vento quente exasperava-me, tornava-me ainda mais 97 desassossegado, e a rotina do seminário, de repente, pareceu-me  sórdida e vexatória. Subitamente o meu olhar descobriu a estrada, para além da grade, branca, macia com a camada de pó. Não me pude conter. Encontrei-me caminhando na estrada.

 Andei toda a noite, quilômetros e quilômetros... Andei...

- Todo o dia seguinte - acrescentou o padre Tarrant, sardônico  e irritado. - Todo o dia seguinte!

- Sim, exatamente! Foi o que eu fiz.

- Nunca ouvi tão descarada declaração em minha vida!

Isto é um insulto à boa fé do conselho.

O reitor, de sobrolho franzido, ergueu-se subitamente e afastou a sua cadeira.

- Proponho que se adie o julgamento do caso.

Enquanto os dois padres o olhavam com estupefação, dirigiu-se  a Francis em tom peremptório:

- Podes retirar-te. Se entendermos necessário chamar-te-emos.

Francis abandonou a sala num silêncio mortal. Só então o reitor se voltou para os outros membros do conselho dizendo-lhes  friamente:

- Asseguro-lhes que a violência não dará resultado. Devemos  proceder prudentemente. Há nisto um mistério a desvendar.

Irritado com a decisão, o padre Tarrant afirmou convictamente:

- É o ato final de uma carreira de indisciplina.

- Nada disso - desmentiu o reitor. - Ele tem sido perseverante  desde que chegou aqui. Existe alguma nota má no seu registro, padre Gómez?

Gómez folheou as páginas do livro que se achava na mesa diante dele.

- Não - disse vagarosamente, enquanto lia os assentamentos.

 -- Apenas algumas brincadeiras de gosto duvidoso.

No último Inverno deitou fogo ao jornal inglês que o padre Despard estava a ler na sala comum. Perguntei-lhe porque o fizera... ele riu e respondeu: «O Diabo inventa trabalho para as mãos ociosas!» - Isso não tem importância - disse o reitor prontamente.

- Todos nós sabemos que o padre Despard açambarca todos  os jornais que chegam ao seminário.

- Depois - continuou o padre Gómez -, quando encarregado  de ler em voz alta no refeitório, substituiu a Vida de S. Pedro em Alcântara por um pequeno folheto cômico intitulado  Quando Eva Roubou o Açúcar que, até ele ser obrigado  a calar-se, produziu uma escandalosa hilaridade...

- Malícia sem conseqüências...

- Ainda - disse o padre Gómez virando outra página - no desfile cômico dos estudantes representando os Sacramentos  - o senhor reitor deve lembrar-se, havia um estudante vestido de bebê figurando o sacramento do batismo, dois outros simbolizavam o matrimônio e assim por adiante...

Isso foi feito com permissão superior, é claro. Mas...

O padre Gómez lançou um olhar dúbio ao padre Tarrant e prosseguiu:

- Nas roupas de um que fazia de cadáver, e que representava  a extrema-unção, Chisholm prendeu um cartão que dizia:

Aqui jaz o padre Tarrant, Cujo óbito, alegre, assinei...

Se um dia...

- Basta - interrompeu Tarrant, vivamente. - O presente  assunto é demasiadamente importante para estarmos a perder tempo com esses ridículos... essas absurdas brincadeiras.

O reitor meneou a cabeça.

- Absurdos, sem dúvida. Mas sem malícia. Gosto dos jovens  que sabem tornar a vida inocentemente alegre. Não podemos  deixar de reconhecer que Chisholm é um tipo original.

 É uma natureza profunda e cheia de fogo. Muito sensível, é inclinado à melancolia. No entanto concilia isso com o espírito  cristão e com a fé. Ele é um lutador que nunca se deixará  vencer. É uma curiosa e rara mistura de simplicidade infantil e de retidão moral. E, acima de tudo, uma natureza essencialmente individualista!

- O individualismo é a qualidade mais perigosa num teólogo - disse Tarrant. - Foi dessa massa que saiu a Reforma...

- E a Reforma proporcionou de qualquer modo uma disciplina  mais eficiente à Igreja Católica - disse o reitor sorrindo docemente e olhando o teto da sala. - Mas voltemos ao nosso assunto. Estou de acordo que tenha havido uma grande  quebra de disciplina. Mas a punição não deve ser precipitada.

 Não podemos expulsar um estudante da têmpera de Chisholm sem primeiro sabermos se ele realmente merece tão severo castigo. Por isso proponho que esperemos alguns dias mais...

Levantou-se e terminou, com a maior candura:

- Estou certo de que serão todos da minha opinião.

Nos dois dias que se seguiram um ar de condenação suspensa  envolveu o infortunado Francis, Mas não lhe opuseram qualquer reserva. Nenhum obstáculo real foi posto à continuação  dos seus estudos, mas onde quer que entrasse - fosse na biblioteca, no refeitório, na sala comum - os seus colegas calavam-se ou afetavam um ar natural que a ninguém podia enganar. A consciência de ser o assunto de todas as conversações  dava-lhe um aspecto de culpado. O seu companheiro de Holywell, Hudson, também no sub-diaconato, prodigalizava-lhe  atenções afetuosas, mas com rugas de preocupação na testa. Anselmo Mealey estava noutro campo, chefiava uma facção que claramente demonstrava considerar o fato como um ultraje. Durante o recreio, consultaram-se e aproximaram-se  de Francis. Anselmo Mealey tomou a palavra.

 - Não é nosso intuito agravar a tua crítica situação, Francis.

 Mas sentimo-nos todos atingidos. A tua atitude afeta todo o corpo discente. Somos de opinião de que seria muito mais digno da tua parte proceder decentemente confessando.

- Confessar o quê?

Mealey encolheu os ombros. Depois de um silêncio (que mais poderia ele fazer?) voltou as costas a Francis não sem acrescentar:

- Decidimos rezar uma novena por tua intenção. Esta triste história afeta-me mais que a ninguém porque te tive na conta do meu melhor amigo...

Francis sentia dificuldade em manter a sua postiça serenidade.

 Se passeava pelos arredores do seminário, parava bruscamente  lembrando-se de que passear fora a razão da sua desgraça.

 Se se deslocava de um lado para o outro notava que aos olhos de Tarrant e dos outros professores tinha deixado de existir. Durante as aulas descobria que não estava lá em espírito. Esperava a todo o momento ser chamado ao reitor, mas em vão. E entretanto crescia o seu sentimento de angústia íntima.

Não conseguira compreender-se ele mesmo o enigma indecifrável  que representava. Começava a dar razão àqueles que duvidavam da sua vocação. Chegou a admitir a hipótese de partir como irmão leigo para alguma perigosa e distante missão.

 Começou a freqüentar a igreja, mas muito em segredo.

Sentia, apesar de tudo, que encontraria ali amparo e força, a fim de poder enfrentar o mundo insidioso e perverso.

Na manhã do terceiro dia, numa quarta-feira, chegou a resposta à carta do padre Gómez. Chocado, mas intimamente satisfeito pelo feliz resultado do seu expediente, apressou-se a dirigir-se ao gabinete do prefeito dos estudos. Enquanto o padre Tarrant lia a carta, permaneceu de pé, a seu lado, como um cão inteligente esperando a recompensa, uma palavra,  um afago ou um osso.

A carta dizia:

Meu amigo. - Em resposta à sua prezada comunicação, sinto infinitamente ter de o informar que o inquérito por mim levado a efeito confirma que esteve aqui um seminarista que correspondia em todos os pontos à sua descrição. Chegou a Cossa no dia 14 de Abril e foi visto quando entrava na casa de uma Rosa Oyarzabal a hora tardia da noite e quando saiu, no dia seguinte pela manhã.

A mulher em questão vive sozinha, é pessoa de costumes livres e não freqüenta a igreja há mais de sete anos.

Tenho a honra de me confessar, caro amigo, seu devotado irmão em Jesus Cristo.

SALVADOR BOLAS, Vigário de Cossa Gómez murmurou:

- Não acha que foi um bom expediente?

- Sim, sim!

Tarrant deixou o espanhol precipitadamente e, empunhando  a carta como se fosse qualquer coisa de obsceno, correu para o gabinete do reitor, no fim do corredor. Mas o reitor celebrava missa. Estaria ocupado por meia hora ainda. Era de mais para a sua ansiedade. O padre Tarrant não podia conter-se. Atravessou o pátio como um tufão e, sem bater, entrou no quarto de Francis. O aposento estava vazio. Impaciente,  duvidando de que Francis estivesse também na missa, ficou afogueado, numa irritação semelhante à de um cavalo selvagem que luta contra a imposição de um freio. Sentou-se  bruscamente, desesperado por ter de esperar, e a sua silhueta  delgada era como se estivesse carregada de pólvora. O quarto  estava ainda mais vazio de que os outros da mesma categoria.

 Uma cama, uma cômoda, uma mesa e uma cadeira o ocupavam. Sobre a cômoda uma fotografia desbotada, na qual se viam uma mulher angulosa, com um pavoroso chapéu, e uma menina vestida de branco, e se lia esta dedicatória: «Com o afeto da tia Polly e de Nora.» Tarrant reprimiu uma expressão de sarcasmo, mas os lábios fremiram quando os seus olhos fixaram, na parede branca de cal, uma pequena imagem, minúscula réplica de Nossa Senhora  da Castidade.

Continuou a examinar o aposento, e de súbito viu sobre a mesa, aberto, um caderno de notas. Era o diário de Francis.

 Outra vez como um cavalo nervoso, as narinas dilatadas, uma chama sombria nos olhos, sucumbia Tarrant à excitação que o achado lhe despertara. Por um momento sentou-se, em luta com os seus escrúpulos; em seguida levantou-se e lentamente  aproximou-se da mesa. Cavalheiro, sentia repugnância  em proceder como qualquer criada de quarto tomando conhecimento de notas íntimas. Mas era esse o seu dever.

Quem poderia dizer quantas iniqüidades e heresias esse caderno  continha?

Austero e implacável, tomou conhecimento do conteúdo das páginas do diário:

... Não foi Santo António quem falou da sua conduta obstinada e perversa? Esse simples pensamento é a minha única consolação neste abismo de abatimento em que me encontro.

 Se me expulsam toda a minha vida ficará arruinada. A minha natureza difícil impede-me de pensar como toda a gente,  não posso dominar-me a mim mesmo e preparar-me para seguir a matilha. No entanto com toda a minha alma desejo ardentemente trabalhar para Deus. «Na casa do nosso Pai há tantas moradas!» Se há lugar para santos tão diferentes como Joana d’Arc e como... como o bem-aventurado Bento Labre, que deixava que os piolhos tomassem conta do seu corpo, decerto há lugar para mim!

Pedem-me explicações. Como pode alguém explicar o que não existiu, o que é tão óbvio que não pode inspirar vergonha  ou arrependimento? Francisco de Sales disse que preferia  transformar-se em pó a ter de quebrar uma regra. Mas quando comecei a caminhar, voltando costas ao seminário, não pensei em regras, nem tive intenção de as infringir. Certos impulsos são inconscientes. Isso me deixa à vontade para escrever:

 a transgressão que cometi foi um ato perfeitamente natural. Desde há semanas que eu dormia mal, voltando-me e tornando-me a voltar durante estas noites quentes, cheio de febre e de agitação. Talvez seja para mim mais duro do que para os outros se se fizer fé pela vasta literatura publicada sobre o assunto, na qual os degraus de acesso ao sacerdócio são apresentados como uma sucessão de doces e tranqüilas alegrias. Ah, se os leigos soubessem quantas lutas se têm de travar aqui!

Aqui a minha maior dificuldade consiste em sentir-me aprisionado  na inanição física - que péssimo místico eu farei!

- estado ainda agravado pelos ecos, pelos sons enfraquecidos,  pelas penetrantes sugestões do mundo exterior. Quando considero que tenho vinte e três anos, que nada fiz ainda para ajudar uma alma sofredora, abraso-me na febre da impaciência.

As cartas de Willie Tulloch representam - para usar a expressão do padre Gómez - o mais pernicioso estímulo.

Agora que Willie terminou o seu curso de Medicina e sua irmã Anne os seus estudos de enfermagem, e ambos trabalham  na assistência social junto dos indigentes de Tynecastle,  as suas visitas proporcionam-lhes constantemente momentos  apaixonantes pelos pardieiros sórdidos, e eu sinto que devia  estar lá também, lutando como eles.

Decerto um dia estarei... Devo ser paciente. Agora porém, com as notícias que recebi de Ned e de Polly a minha tensão tende a aumentar. Senti-me contente quando eles decidiram deixar a taberna e levar Judy, a criança, para viver com eles numa pequena casa que Polly alugou em Clermont, nos arredores  da cidade. Mas Ned está doente, Judy também não se tem dado bem e Gilfoyle - que ficou a dirigir a Union Tavern - tem demonstrado ser o sócio mais indesejável. Ned, na verdade, está acabado, recusa-se a sair e ninguém quer ver.

Um momento de fraqueza e de cega estupidez deu-lhe o golpe de misericórdia. Um espírito mais enérgico teria sobrevivido.

A vida quotidiana exige uma grande fé!

Pobre Nora! O seu nome sugere-me uma multidão de recordações  e de dolorosos pensamentos. Quando o padre Tarrant  nos fez uma preleção que bem poderia chamar de agendo  contra, disse com muita verdade: «Certas tentações não podem ser combatidas - devemos fechar os olhos e fugir delas!» A minha ida a Cossa deve ter sido uma fuga dessa espécie.

A princípio, embora andando rapidamente, eu não pensava,  ao transpor o portão do seminário, que iria tão longe.

Mas o alívio, a evasão de mim. mesmo que esse violento exercício  me proporcionava incitaram-me para a frente. Suei em bica, como um camponês lavrando a terra, esse suor salgado que parece expurgar-nos do corpo as misérias humanas. O meu espírito libertou-se, o meu coração tornou-se alegre. O meu desejo era caminhar, caminhar até ao desfalecimento total.

Andei todo o dia sem necessitar de comer ou beber. Percorri  uma grande distância porque, ao avizinhar-se a noite, senti a brisa do mar. Quando as estrelas começaram a despontar  no céu pálido achava-me no cimo de uma colina e tinha Cossa aos meus pés. A aldeia, escondida num recanto de uma enseada abrigada, que o mar lambia docemente, era de uma beleza irreal, com as acácias floridas enfileiradas na sua única rua. Eu estava morto de fadiga. As minhas pernas trôpegas mal obedeciam ao meu desejo de prosseguir e tinha uma empola no calcanhar. Contudo, desci a colina e, em baixo,  a aldeia deu-me as boas-vindas na sua quietude em que mal se sentiam as serenas pulsações da vida. Na pequena praça  os moradores da aldeia tomavam o ar puro e fresco, perfumado  pelo aroma das acácias floridas. De cada lado da porta  da pequena taberna, já com as luzes acesas, havia bancos de madeira, onde velhos sentados assistiam ao jogo da bola dos mais novos sobre a poeira da estrada. Dos charcos vizinhos vinha o coaxar das rãs. Crianças riam e corriam. Tudo era simples e belo. Lembrei-me entretanto de que não tinha uma só peseta no meu bolso, mas senti-me contente ao sentar-me num dos bancos. Como o repouso me soube bem! Sentia-me estupidificado pelo cansaço. Subitamente, na tranqüila escuridão,  sob as árvores, elevou-se o som festivo das flautas catalãs,  não alto e estridente, mas suave e atenuado a condizer com a noite.

É impossível a quem nunca ouviu estas flautas nem as melodias  das doces canções populares desta região apreciar devidamente  a alegria desse instante. Eu sentia-me encantado.

Creio que, por ser escocês, tenho no sangue o amor por estes sons. Permaneci sentado, num esgotamento completo, embriagado  pela música, pelas trevas, pela beleza da noite, pelo perfume das acácias, pela minha própria fraqueza.

Tinha resolvido dormir na praia, mas quando pensava em dirigir-me para lá, uma névoa espessa começou a subir do mar. A aldeia parecia agora envolvida num véu misterioso.

Em cinco minutos a praça ficou sepultada na densa névoa, as árvores já não protegiam dos chuviscos e toda a gente se apressou a recolher a casa. Cheguei a pensar, embora de má vontade, em procurar o cura local para lhe pedir que me proporcionasse  um abrigo quando uma mulher sentada num banco  vizinho subitamente me dirigiu a palavra. Havia já um bocado que sentia que ela me observava com o misto de piedade  e desprezo que um religioso isolado desperta nos países cristãos. Em seguida, como se ela lesse no meu pensamento, disse-me: «A gente daqui é pouco hospitaleira. "Ninguém o recolheria".

Devia ter cerca de trinta anos e estava vestida de preto, com extrema simplicidade. A sua tez era pálida, os olhos profundos  e negros, a figura esguia. Continuou num tom indiferente:

- Há uma cama em minha casa... e se quiser pode dormir nela.

- Não tenho dinheiro para lhe pagar a hospedagem.

Ela riu desdenhosamente.

- Poderá pagar-me em orações.

A chuva caía agora com força. A fonda tinha fechado. Só nós continuávamos sentados nos braços molhados, sob as acácias,  de cujas folhas escorriam pingos grossos. A situação era grotesca. Ela levantou-se.

- Vou para casa. Se você não for doido, aceitará a minha hospitalidade.

A minha sotaina estava inteiramente ensopada e eu começava  a tremer de frio. Pensei que poderia em qualquer altura mandar-lhe do seminário algum dinheiro para pagamento da dormida que me proporcionasse. Levantei-me e seguia-a ao longo da rua estreita. A sua casa estava situada a meio da rua.

Descemos dois degraus e entramos na cozinha. Acendeu um candeeiro, desprendeu o xale, pôs a chocolateira ao lume e tirou um pão do forno, cortando-o em fatias. Depois estendeu sobre a mesa uma toalha de quadrados vermelhos. O chocolate  espumoso e o pão quente espalharam um cheiro bom na pequena quadra limpa. Ao mesmo tempo que deitava o chocolate  em xícaras grossas, olhava-me por cima da mesa.

- Dê graças a Deus. Torna mais saboroso o que se come.

Era uma graça; no entanto obedeci. Começamos a comer e a beber o chocolate, tão bom que o seu sabor não precisaria  de ser melhorado. Ela continuava a olhar-me. Fora outrora,  sem dúvida, uma bela mulher, mas os restos da sua antiga beleza endureciam os traços do seu rosto. Das suas orelhas pequenas pendiam pesadas argolas de ouro. As suas mãos eram gordas e lembravam as de uma Virgem de Rubens.

- Bem, padrezinho, teve sorte em vir até aqui... Porque, na verdade, não gosto de padres. Em Barcelona rio-me quando  eles passam por mim!

Não pude deixar de sorrir.

- Isso não me surpreende. Essa é a primeira coisa que aprendemos - a suportar o riso, o escárnio alheio. O melhor homem que conheci costumava pregar ao ar livre. Toda a gente se juntava para rir à custa dele. Por zombaria chamavam-lhe  S. Daniel. Hoje quase toda a gente acha que os que acreditam em Deus são hipócritas ou loucos!

Ela tomou um longo sorvo de chocolate, olhando-me demoradamente.

- Sei bem que você não é louco... Diga-me: agrado-lhe?

- Acho que é uma pessoa simpática e bondosa.

- Sou bondosa por natureza. Tenho tido uma triste vida.

Meu pai foi um nobre castelhano cujas propriedades o governo  de Madrid confiscou. O meu marido comandava um grande barco de guerra. Morreu no mar. Eu própria fui atriz;

 vivo aqui obscuramente na esperança de que as propriedades  de meu pai me sejam restituídas... Bem, estou mesmo a ver que você não acredita em coisa alguma que estou a dizer.

- Claro!

Ela não compreendeu que eu gracejava e ficou um pouco triste.

- Você é inteligente de mais... Mas eu sei porque está aqui, meu rato-de-sacristia fugido. São todos feitos do mesmo barro... Está a ver se troca a santa mãe Igreja pela santa mãe Eva... - concluiu, em tom zombeteiro.

Um pouco embaraçado primeiro, acabei por compreender.

A situação era tão absurda que me deu vontade de rir. Mas era também aborrecida porque me obrigava a partir. Acabei de comer o pão e de tomar o chocolate, levantei-me e peguei no chapéu.

- Agradeço-lhe infinitamente a sua atenção...   Estava muito bom...

Ela mudou de expressão. A sua malícia tornou-se em surpresa.

- Então você é um hipócrita!

Como eu me dirigisse para a porta, ela exclamou subitamente:

- Não! Não se vá embora!

Depois de um momento de silêncio, continuou em tom de desafio:

- Não me olhe dessa maneira! Tenho o direito de proceder  como entender. Divirto-me, é o que importa. Devia ver-me nas noites de sábado, na Cava, em Barcelona - o lugar  mais divertido que você poderá conhecer em toda a sua mísera existência... Mas você faça também o que quiser.

Vá para cima e durma.

Eu hesitei. A sua atitude parecia agora razoável e eu ouvia o ruído da chuva lá fora. Decidi-me enfim e dirigi-me para a estreita escada. Os meus pés estavam inchados e sujos. Creio que devia arrastar um pouco a perna porque ela reparou no meu estado e observou, com frieza:

- Que tem nos seus pés?

- Pouca coisa... apenas bolhas de água.

Ela fitou-me com olhar estranho, impenetrável.

- Vou tratar disso.

Apesar dos meus protestos, obrigou-me a sentar, encheu uma bacia com água quente, depois ajoelhou-se e tirou os meus sapatos. As minhas meias estavam coladas à carne viva.

Umedeceu primeiro, cuidadosamente, os lugares lacerados e depois tirou-as. Esta solicitude inesperada constrangia-me.

Lavou os meus pés e em seguida friccionou-os com um linimento  balsâmico. Ergueu-se, então, observando:

- ”Deve sentir-se agora melhor". Vou lavar as suas meias.

Estarão secas amanhã de manhã.

- Como poderei agradecer-lhe?

Ela disse então, num tom grave.

- Que pode fazer alguém por mim com uma vida como a minha?

Sem me dar tempo a responder, ameaçou-me de dedo estendido:

- Não venha pregar sermões... ou partir-lhe-ei a cara.

Suba. A sua cama é no segundo pavimento. Boa noite.

Voltou-se para a lareira. Subi a escada e encontrei uma pequena  cama, onde dormi a sono solto. Na manhã seguinte, quando desci, ela atarefava-se na cozinha a fazer o café, que me serviu, quente e saboroso. Ao despedir-me tentei manifestar-lhe  a minha gratidão. Mas a mulher impediu-me de continuar. Dirigiu-me um estranho e triste sorriso:

- Você é demasiadamente inocente para ser padre... Fracassará  no seu ministério.

Iniciei o caminho de regresso. Estava confuso, envergonhado,  temeroso do acolhimento que me reservava San Morales.

"Enfim, o que tinha de ser...”

Junto da janela o padre Tarrant conservou-se imóvel por largo espaço de tempo. Depois, suavemente, repôs o diário sobre a mesa, lembrando-se com certa satisfação que fora ele quem aconselhara Francis a redigi-lo. Metodicamente rasgou a carta do padre espanhol em pedacinhos. A expressão do seu rosto era agora estranha. Perdera a dureza, a austeridade férrea, marcas da mortificação que a si próprio impunha. Era um rosto rejuvenescido, iluminado pela generosidade e pelo contentamento íntimo. Com o seu punho fechado, onde conservava inconscientemente os pedacinhos da carta, bateu três vezes seguidas no peito. Depois girou sobre si mesmo e deixou  o quarto.

Quando descia a larga escadaria encontrou Anselmo Mealey.

 Ao ver o padre Tarrant, o seminarista modelo parou.

Atrair a atenção do padre constituía para Anselmo uma alegria  celestial. Aventurou-se modestamente:

- Desculpe-me, senhor diretor... Estamos todos ansiosos...

 Há qualquer novidade a respeito de Chisholm?

- Que novidade pode haver?

- Bem... ele sempre é expulso?

Tarrant considerou o rapaz com patente desagrado.

- Chisholm não será expulso.

E acrescentou com violência inesperada:

- Idiota!

Nessa noite, quando Francis estava no seu quarto, atônito, não querendo acreditar no milagre da sua redenção, um dos criados do colégio apareceu silenciosamente e entregou-lhe um pacote. Continha uma soberba Virgem de Montserrat, talhada  em madeira, pequena obra-prima de artesanato espanhol do século XV nenhuma mensagem acompanhava o estranho presente. Nem uma palavra de explicação. Subitamente um pensamento atravessou fulgurantemente a mente de Francis.

Lembrou-se de que havia visto a imagem no aposento do padre  Tarrant.

Foi o reitor quem, ao encontrar Francis, no fim da semana, lhe exprimiu a primeira contradição flagrante.

- Surpreende-me, rapaz, que tenhas dado à tua escapadela uma estranha auréola de santidade. Na minha juventude fazer  gazeta era uma infração passível de castigo.

Fixou em Francis um olhar vivo e de simpatia.

- Como penitência terás de escrever um ensaio de duas mil palavras sobre as excelências das caminhadas.

No pequeno mundo do seminário as paredes têm ouvidos,  as fechaduras têm olhos diabólicos. A história da escapadela  de Francis foi gradualmente tornando-se do conhecimento  de todos, detalhe a detalhe, ampliando-se cada vez mais à medida que passava dos lábios aos ouvidos. Lapidada pelos narradores como uma pedra preciosa, acabou por tornar-se  uma verdadeira maravilha, uma das histórias clássicas do seminário. Quando o padre Gómez soube dos pormenores do caso escreveu uma longa carta ao vigário de Cossa. O padre  Bolas, muito impressionado, respondeu-lhe com uma carta  de cinco páginas, da qual o período final talvez mereça ser transcrito:

Naturalmente, o fecho da abóbada teria sido a conversão dessa mulher, Rosa Oyarzabal. Como teria sido sublime se ela viesse a mim banhada em lágrimas, ajoelhando-se aos meus pés, presa de verdadeiro arrependimento, para implorar a Deus, por meu intermédio, perdão para os seus erros! Tudo isso como resultado da visita do nosso jovem apóstolo! Mas ai de mim! Ela associou-se com outra mulher e as duas abriram  uma casa suspeita em Barcelona, a qual, segundo as informações  em meu poder, está em franca prosperidade.

 

Um cura fracassado 

Chovia persistentemente, ao entardecer, naquele sábado de Janeiro, quando Francis chegou a Shalesley, o entroncamento  ferroviário a cerca de cinqüenta quilômetros de Tynecastle,  mas nada podia arrefecer o zelo ardente da sua alma. Enquanto  o comboio desaparecia na distância, ele ficou de pé, na plataforma descoberta molhada pela chuva, olhando à sua volta espantado com aquele vazio. Ninguém viera ao seu encontro  para o receber. Sem se deixar desencorajar, agarrou na mala e meteu-se a caminho, pela rua principal da aldeia.

A Igreja do Redentor não devia ser difícil de encontrar.

Era a sua primeira nomeação, a sua primeira paróquia.

Quase não podia acreditar na realidade. O seu coração vibrava...

 Recém-ordenado, tinha agora a oportunidade de iniciar  o combate, de lutar pela salvação das almas humanas.

Embora prevenido antecipadamente, Francis reconheceu que a realidade ia além da expectativa. Nunca vira lugar mais triste, mais lúgubre, mais cheio de desolação do que aquele.

Shalesley compunha-se de longas filas de casas cinzentas e lojas  pobres de artigos baratos, intercaladas, a espaços, com tratos  de terras baldias, montes de escória de carvão fumegando mesmo sob a chuva, muitas tabernas e capelas, tudo dominado  pelas altas chaminés negras das minas Renshaw. Mas Francis  dizia para consigo, alegremente, que eram as pessoas, e não o lugar, que o interessavam.

A igreja católica estava situada no lado leste da aldeia, junto da entrada da mina, harmonizando-se com o ambiente. Era uma vasta construção de tijolo vermelho, com janelas góticas de vidros verdes, um teto escuro e pesado e uma torre sineira  mutilada, com a escola a um lado e o presbitério a outro.

Em frente deste um terreno quadrado, inculto, estava vedado por uma barreira meia demolida. Com um suspiro profundo, cheio de ansiedade, Francis aproximou-se da humilde habitação,  cujas paredes apresentavam as marcas do tempo, gretadas  aqui e ali, no mais ruinoso estado, e fez soar a campainha.

 Depois de alguma demora, quando já estava prestes a tocar  segunda vez, uma robusta mulher, com uma blusa de largas  listas azuis, abriu a porta. Depois de o examinar, cumprimentou-o  secamente.

- Sois vós, senhor abade? Sua Reverendíssima está à sua espera. Por aqui!

E indicou, com simplicidade, a porta da sala, acrescentando:

- Que tempo, Santo Deus! Vou pôr-lhe na mesa uns arenques fumados, que o reverendo deve estar com fome.

Francis entrou corajosamente no aposento. Sentado à mesa,  coberta com uma toalha branca e posta como para uma refeição, um corpulento padre de uns cinqüenta anos parou de mexer impacientemente na faca para dar as boas-vindas ao novo pároco.

- Afinal, ei-lo. Entre.

Francis estendeu-lhe a mão.

- Padre Kezer, creio?

- Exatamente. Que outra pessoa poderia ser? O rei Guilherme  de Orange? Chegou mesmo a tempo para jantar. Ainda  bem!

Voltando-se para trás, gritou na direção da cozinha:

- Miss Cafferty! Olhe que o jantar é para hoje.

Depois a Francis, chamando-o para a mesa.

- Puxe uma cadeira, sente-se aqui. Faça por arranjar uma cara mais alegre. Oxalá que saiba jogar as cartas. Gostaria de ;

fazer uma boa partida esta noite.

Francis sentou-se e Miss Cafferty dentro em pouco surgiu apressadamente da cozinha, com um grande prato coberto contendo  arenques e ovos cozidos. Enquanto o padre Kezer se servia de dois ovos e de uma boa porção de arenque, enchendo a boca sofregamente, ela punha sobre a mesa um prato e um talher para Francis. O padre Kezer passou-lhe então o prato, e com a boca tão cheia que mal podia articular, disse:

- Vamos. Sirva-se. Não faça cerimônia. Terá de trabalhar muito aqui; por isso precisa de alimentar-se convenientemente.

Ele próprio comia rapidamente, e nem os rijos maxilares, que mastigavam ruidosamente, nem as fortes mãos estavam um momento em repouso. Desprendia-se dele uma impressão de força e de autoridade. Cada um dos seus movimentos traía claramente uma inconsciente presunção. Enquanto cortava um ovo ao meio e metia a metade na boca, os seus pequenos olhos observavam Francis, vigilantes, formando uma opinião, avaliando-o como um açougueiro os méritos de uma rês.

- O senhor não parece muito forte. Menos de setenta quilos,  aposto? A classe dos curas degenera. O último era um caso perdido! Fraco como uma pulga... mas sem a resolução  desse inimigo do gênero humano. É essa formação continental  que os arruína. No meu tempo... Ah, os rapazes meus condiscípulos em Maynooth eram homens.

- O senhor chegará à conclusão de que tenho boas pernas e bons olhos - observou Francis sorrindo.

- Depois veremos - grunhiu o padre Kezer. - Quando acabarmos irá ouvir confissões. Não haverá muitas esta noite...

 por causa da chuva. Tudo lhes serve de desculpa! Preguiçosos  como gatos... os meus excelentes paroquianos!

Em cima, no seu quarto de paredes delgadas, com móveis maciços da época vitoriana, Francis lavou as mãos e o rosto numa bacia estalada. Depois desceu apressadamente para a igreja. A impressão que tivera do padre Kezer não era favorável,  mas lealmente pensou que com freqüência os juízos formados no primeiro momento são injustos. Ficou sentado durante muito tempo no interior do confessionário, onde ainda  se lia o nome do abade Lee, seu predecessor, ouvindo o tamborilar da chuva no telhado da igreja. Por fim saiu e vagueou  pela igreja vazia. Era um espetáculo desencorajante, pois que era nua como um barracão e mesmo pouco limpa.

Uma iniciativa infeliz fora mal sucedida ao tentarem marmorear  a nave com uma pintura verde-escura. A imagem de S. José  perdera uma das mãos e fora toscamente reparada. Os passos da Via Sacra eram representados por horríveis borradelas suspensas das paredes. No altar flores de papel em jarras de latão fosco feriam a vista e afrontavam o bom gosto. Mas sentia que essas deficiências serviriam de estímulo à sua tarefa.

 Francis ajoelhou-se diante do tabernáculo e, com palpitante  fervor, consagrou novamente a sua vida a Deus.

Habituado ao ambiente culto e refinado de San Morales, a uma atmosfera de letrados e pregadores, homens de trato e distinção, que circulavam entre Londres, Madrid e Roma, Francis foi submetido nos dias que se seguiram a duras provas.

 O padre Kezer não era homem de trato fácil. Naturalmente  irascível e inclinado à rudeza, a idade, a experiência e o pouco êxito na conquista da afeição dos seus paroquianos tinham-no tornado de uma intransigência dura como ferro.

Anteriormente tivera aos seus cuidados a excelente paróquia  de Eastcliff, uma praia da moda, mas tornara-se tão desagradável  que as pessoas influentes da cidade haviam pedido ao bispo a sua transferência. O incidente, que lhe havia produzido  a princípio um choque sensível, fora com o tempo considerado  por ele como um ato de sacrifício pessoal. Costumava  dizer com resignação:

-- Por minha livre e espontânea vontade abandonei o fauteuil  para me sentar no banco... mas, ah!... esses eram bons tempos!

Miss Cafferty, cozinheira-governanta, era a única pessoa que lhe era devotada e fiel. Acompanhava-o havia muitos anos.

Compreendia-o, era da sua têmpera. Se ele a insultava pagava-lhe  na mesma moeda. Quando ele partia para Harrogate,  a fim de passar ali as suas férias anuais de seis semanas, permitia que ela fosse também descansar na sua terra natal.

Kezer tinha maneiras grosseiras. Os seus pés faziam tremer  o seu quarto, abria e fechava ruidosamente a porta da casa de banho, e no arruinado presbitério repercutiam-se todos  os ruídos. Sem dar por isso, tinha reduzido a sua religião a uma fórmula vazia de toda a concepção espiritual: «Faz isto ou sê maldito», estava gravado no seu coração. Havia certos ritos que deviam ser feitos com palavras, água, óleo e sal. Sem eles, o Inferno, incandescente e hiante, estaria à espera das almas. Profundamente imbuído de preconceitos, verberava constantemente todas as manifestações de outros credos - atitude que não concorria para conquistar amigos.

Nem mesmo com a própria congregação vivia em paz. A irmandade era pobre e crivada de dívidas pela construção da igreja; assim, apesar da sórdida economia que era obrigado a fazer, tinha um apelo legítimo a dirigir aos seus paroquianos.

 Mas a sua ira natural substituía o conveniente tacto. No decurso dos seus sermões, firmemente apoiado nos pés, o corpo  agressivamente debruçado do púlpito, flagelava os seus poucos ouvintes com sarcasmos.

- Como imaginais que vou pagar a renda, os impostos, o seguro? E conservar o telhado de igreja sobre as vossas cabeças? Não é para mim que peço, é para Nosso Senhor.

Que todos vós me escutem, homens e mulheres. É prata que eu quero ver na salva, não as vossas miseráveis moedas de cobre. Quase todos vós, homens, trabalhais graças à generosidade  de Sir George Renshaw. Não tendes, pois, desculpa!

Quanto às mulheres da paróquia... se despendessem mais no ofertório e menos em trapos garanto que seria muito mais cristão. - E continuava a vociferar violentamente.

Depois iniciava ele próprio a coleta, olhando acusadoramente  cada um dos paroquianos, ao mesmo tempo que lhes metia o prato debaixo dos narizes.

As suas objurgatórias tinham provocado entre ele e os paroquianos  uma inimizade verdadeira, uma implacável vendeta.

 Quanto mais os vituperava menos eles lhe davam. Enraivecido,  inventava estratagemas. Lembrou-se de lhes distribuir pequenos sobrescritos amarelos, que de resto eles não abriam.

Quando eles deixavam os sobrescritos em casa, o padre dava voltas à igreja, depois da cerimônia religiosa, recolhendo os restos e murmurando furiosamente:

«É assim que eles tratam Nosso Senhor!» No seu tenebroso céu financeiro havia, porém, um sol resplandecente.

Sir George Renshaw, proprietário das minas de Shalesley e de mais quinze outras minas de carvão do distrito, era não só homem riquíssimo e bom católico mas também um inveterado  filantropo. Embora a sua residência permanente, Renshaw  Hall, ficasse a cem quilômetros de distância, do outro lado do condado, a Igreja do Redentor figurava na sua lista de obras de filantropia. Pelo Natal, com a máxima regularidade, chegava às mãos do pároco um cheque de cem guinéus.

«Guinéus, meu amigos!», salientava a palavra. «Não apenas  vulgares libras! Aí tendes um cavalheiro!» Tinha visto apenas duas vezes Sir George Renshaw, muitos  anos atrás, em reuniões públicas, em Tynecastle, mas falava  dele com reverência e respeito. E um seu pavor secreto era que, por qualquer razão, o grande industrial suspendesse as suas liberalidades.

Um mês depois da sua permanência em Shalesley, as relações  forçadas com o padre Kezer começaram a afetar Francis.

 Andava continuamente enervado. Não se admirava que o jovem padre Lee fosse vítima de uma crise de nervos tão violenta. A sua vida espiritual embotou-se, o seu sentido dos valores místicos tornou-se confuso. Surpreendia-se olhando o padre Kezer com crescente hostilidade. Depois, subitamente,  dominava-se com um gemido íntimo, esforçando-se com desespero por voltar à obediência, à humildade.

A sua tarefa paroquial era extremamente penosa, sobretudo  no Inverno. Três vezes por semana era obrigado a pedalar,  na bicicleta, para Broughton e Glenburn, dois distantes  e miseráveis lugarejos, para dizer missa, ouvir confissões e dar aulas de catecismo no edifício da Municipalidade. A falta de interesse do seu rebanho aumentava as suas dificuldades.

 As próprias crianças eram preguiçosas e velhacas. Havia  muita miséria e desamparo desolador. Toda a paróquia parecia mergulhada em apatia, desprovida de fervor e de fé.

Apaixonadamente, afirmava a si próprio que não se anularia  na rotina. Consciente da sua falta de jeito e da sua ineficiência,  Francis ardia no desejo de tocar aqueles infelizes corações, de os socorrer e reanimar. Jurava provocar a centelha,  fazer brotar a chama, ainda que desse a vida para o conseguir.

O pior era que o pároco, manhoso e vigilante, parecia adivinhar  com uma espécie de alegria sardônica as dificuldades em que o seu cura se debatia prevendo, astutamente, um regresso  do idealismo do outro ao seu senso prático. Um dia, quando Francis entrara, extenuado e molhado, de volta de um percurso de bicicleta de quinze quilômetros, sob o vento e chuva, para ir visitar um doente em Broughton, o padre Kezer resumiu a sua opinião num comentário nitidamente zombeteiro:

 Adquirir uma auréola não é tão confortável como se pensa, hem? - E acrescentou com naturalidade. - E tudo por essa gente inútil!

Francis corou:

.- Cristo morreu por essa gente inútil.

Profundamente atormentado, Francis começou a mortificar-se.

 Às refeições pouco comia, limitando-se às vezes a uma chávena de chá e a uma torrada. Frequentemente acordava no meio da noite, torturado pela angústia, e descia silenciosamente  para a igreja. Sombrio e deserto, banhado pelo luar, o templo perdia a sua triste fealdade. Deixava-se cair de joelhos,  implorando coragem para suportar as provações dos seus começos, orando com impetuoso ardor. Por fim, o olhar fixo na imagem do Crucificado, paciente e doce no seu suplício, a paz inundava-lhe a alma.

Uma vez, pouco depois da meia-noite, após uma dessas visitas,  quando subia a escada, pé ante pé, encontrou o padre Kezer, que o esperava. Com a camisa de dormir e um sobretudo  por cima, uma vela na mão, o pároco, solidamente apoiado no patamar nas grossas pernas cabeludas, impediu-lhe irritadamente  a passagem.

- Aonde vai?

- Para o meu quarto.

- Onde esteve?

- Na igreja.

- Quê? A estas horas da noite?

- Porque não? - perguntou Francis, com um sorriso forçado. - Acha que eu poderia acordar Nosso Senhor?

- Não, mas poderia acordar-me a mim - resmungou o padre Kezer, perdendo a cabeça. - Não quero cá isso. Nunca,  em toda a minha vida, vi semelhante dislate. Eu dirijo uma paróquia, não um convento. O senhor pode rezar quanto quiser  durante o dia, mas, enquanto estiver sob as minhas ordens,  a noite será para dormir.

Francis conteve a exaltada réplica que lhe ocorreu. Dirigiu-se  para o seu quarto em silêncio. Devia curvar-se, esforçar-se  por entender-se com o seu superior se queria obter alguns bons resultados na paróquia. Tentou convencer-se das qualidades do padre Kezer; a sua franqueza e a sua coragem, as suas graças inesperadas, a sua castidade indiscutível.

Alguns dias mais tarde, aproveitando um momento que julgou azado, abordou o pároco diplomaticamente.

- Tenho estado a pensar, padre... com uma paróquia tão extensa como a nossa, onde os contactos com o mundo exterior  são raros, sem lugares para distrações... tenho pensado  se não poderíamos organizar um clube para a juventude...

- Ah, ah! - exclamou o padre Kezer, com bom humor.

- Então você está a querer-se tornar popular, hem, meu rapaz?

- Santo Deus, não! - objetou Francis, procurando igualar  o padre no seu tom faceto, tão desejoso estava de fazer concordar o outro com a sua idéia. - Não quero fazer previsões,  mas talvez um clube tirasse os jovens das ruas e os adultos das tabernas. Educá-los-ia física e socialmente. Induzi-los-ia  até a virem à igreja - completou, sorrindo.

- Vocês, padres novatos... - riu Kezer. - Creio que você é ainda mais destravado do que Lee. Bem, faça o que entender. Mas não espere o menor agradecimento dessa gentinha  inútil.

- Obrigado, obrigado. Eu só queria o seu consentimento.

Cheio de entusiasmo, Francis começou imediatamente a pôr em prática o seu plano. Donald Kyle, o gerente da mina Renshaw, era escocês, bom católico, e estava animado de boa vontade. Dois outros empregados da mina, Morrison, o conferente,  cuja mulher ia algumas vezes ajudar no presbitério, e Greenden, dinamitador-chefe, também pertenciam à irmandade.

 Por intermédio do gerente Francis obteve permissão para utilizar a sala dos primeiros socorros da mina durante três noites por semana. Com o auxílio dos outros dois, começou  a trabalhar por despertar o interesse geral pelo clube.

As suas próprias economias não chegavam a duas libras, e preferiria morrer a recorrer ao auxílio dos fundos da paróquia.

 Mas escreveu a Willie Tulloch - que estava em contacto  com a corporação de centros de recreio de Tynecastle - pedindo que lhe enviasse alguns velhos artigos de desporto e de ginástica que pudesse obter.

Pensando na melhor maneira de atrair a população, concluiu que nada seria mais aliciante para a juventude do que um baile. Havia um piano na sala e Greenden era um excelente  violinista. Anunciou a festa com um cartaz na porta com a cruz vermelha, e quando o dia chegou, quinta-feira, gastou todo o seu capital numa provisão de bolos, frutas e limonadas.

O sucesso da festa, após um começo pouco animador, excedeu  as mais ousadas expectativas. A afluência foi tal que se organizaram oito quadrilhas. Os rapazes, na sua maioria, não tinham sapatos e dançavam com as suas botas de mineiros.

 Nos intervalos das danças sentavam-se nos bancos em volta da sala, vermelhos e felizes, enquanto as raparigas iam buscar refrescos para eles. Enquanto dançavam cantavam em coro. Alguns mineiros que acabavam de sair da mina aglomeraram-se  à entrada e contemplavam o espetáculo à luz do gás, os dentes a brilharem no largo sorriso que se abria nas suas faces mascarradas. Por fim juntaram as suas vozes ao coro  e alguns mais arrojados entraram e dançaram também. Acabou  por ser uma noite alegre.

De pé, junto da porta, enquanto as saudações deles lhe acariciavam os ouvidos, Francis, com o coração cheio de alegria,  pensava: «Eles começaram a viver. Meu Deus, consegui  um belo começo!» Na manhã seguinte, ao pequeno almoço, o padre Kezer estava apopléctico de raiva.

- Sim, senhor! Conseguiu uma linda coisa! Um excelente exemplo! Devia estar cheio de vergonha!

Estupefato, Francis olhou-o.

- Que quer dizer?

- Sabe muito bem o que quero dizer! Aquela infernal reunião de ontem à noite!

- O senhor deu-me o seu consentimento... ainda na semana  passada.

O padre Kezer bramiu, fora de si:

- Não lhe dei consentimento para montar um lugar de perdição mesmo ao lado da minha igreja. Eu já tenho bastante  dificuldade para conservar a pureza das minhas jovens paroquianas sem você ter inventado esses bailaricos impudicos!

- Toda a festa foi perfeitamente inocente.

- Inocente! Deus do Céu! - exclamou o padre Kezer roxo de furor. - Então não sabe, pobre parvo, a que conduz essa espécie de galanterias, de atritos, de junção de corpos

e de pernas? Tudo isso faz nascer maus pensamentos no espírito dessa gente. Leva à concupiscência, à excitação dos sexos, à luxúria da carne.  No seu rosto, tornado pálido, os olhos vermelhos de Francis brilharam de indignação.  - O senhor não está a confundir luxúria com natureza?!

- Jesus, Maria, José! Qual é a diferença?  - A mesma que separa a doença da saúde.  As mãos do padre Kezer fecharam-se convulsivamente. Por todos os diabos do Inferno, que está a dizer?  A amargura lentamente acumulada durante os dois meses anteriores irrompeu de Francis numa onda tumultuosa: - O senhor não pode reprimir a natureza. Se o tentar ela defender-se-á e dominá-lo-á. É perfeitamente natural e bom que os rapazes e as raparigas se encontrem, que dancem uns com os outros. É um prelúdio natural para o amor que leva ao casamento. Para que cobrir o sexo com um lençol imundo, como se fosse um cadáver pestilento? É isso que provoca o sorriso malicioso, as gargalhadas lascivas. Devemos encarregar-nos  da educação sexual a fim de sublimar o instinto e não o estrangular como se fosse uma víbora. Quem o tentar fracassará, além de tornar uma coisa pura e nobre numa coisa  sórdida!

Um agressivo silêncio se seguiu. As veias do pescoço do padre Kezer estavam intumescidas, violáceas.

- Blasfêmia! Indignidade! Não permitirei que a juventude  se perverta nos seus salões de dança! - rugiu o padre Kezer.

- Então o senhor levá-la-á a perverter-se - para usar a sua expressão - nas vielas escuras e nos bosques que rodeiam a cidade!

- Mente! - vociferou Kezer. - Eu defenderei a castidade  na minha paróquia. Sei o que tenho a fazer.

- Sem dúvida - tornou Francis com azedume. - Mas isso não impede que as estatísticas demonstrem que a percentagem  dos nascimentos ilegítimos em Shalesley seja a mais elevada desta diocese.

Por um momento pareceu que o pároco ia ter um ataque.

As suas mãos fechavam-se e abriam-se como se procurassem alguém para estrangular. Titubeando ligeiramente, ergueu o dedo e apontou-o para Francis.

- As estatísticas demonstrarão agora outra coisa! É que não haverá clube algum num raio de oito quilômetros à volta  deste lugar onde estou. Aí está o seu belo plano morto e enterrado, sou eu quem afirma. E a minha decisão é irrevogável.

Sentou-se à mesa e, furiosamente, começou a comer.

Francis terminou rapidamente e subiu para o seu quarto, pálido e abalado. Através das vidraças cheias de poeira podia ver a sala dos primeiros socorros, com o caixote de luvas de box e os aparelhos de ginástica enviados por Tulloch e chegados  no dia anterior... Tudo inútil agora, tudo proibido!

Presa de uma terrível emoção, pensava: «Não posso continuar  a submeter-me, Deus não pode exigir de mim uma tal resignação. Devo lutar, lutar no mesmo campo do cura, não por mim, mas por esta miserável paróquia.» Um impulso extraordinário  o dominou, um desejo imenso de ajudar aquela gente, os primeiros que Deus lhe tinha confiado.

Durante os dias que se seguiram o trabalho rotineiro da paróquia absorvia-o, mas procurou febrilmente algum meio de levantar a interdição que pesava sobre o seu clube. Este como que se havia tornado aos seus olhos o símbolo da emancipação  da paróquia. Mas quanto mais pensava mais inatacável  lhe parecia a posição do padre Kezer.

A aparente derrota de Francis causava ao velho pároco um mal contido júbilo. Ele sabia domesticá-los, esses fedelhos!

O bispo devia estar ao fato da sua competência para o efeito,  pois lhe mandava tantos, um após outro. O seu sorriso sardônico acentuou-se.

Subitamente Francis teve uma inspiração. Uma idéia que o chocou com uma força esmagadora - uma débil probabilidade,  talvez, mas que poderia ser bem sucedida. O seu rosto pálido tomou um pouco de cor. Quase gritou. Só com grande esforço conseguiu acalmar-se. Decidiu: «Tentarei, devo  tentar... "quando terminar a visita de tia Polly.”

Tinha-se combinado, efetivamente, que a tia Polly e Judy viessem passar umas férias em Shalesley, na última semana de Junho. Shalesley não era uma estância climatérica, mas o ar era saudável. A Primavera tinha coberto a sua desolação de uma beleza transitória e Francis estava particularmente ansioso  porque Polly tivesse o descanso de que estava tão necessitada.

O Inverno fora mau para ela, física e financeiramente. Tadeu  Gilfoyle estava, segundo as suas palavras, a trilhar o caminho  da ruína da Union, bebendo mais do que vendia, não prestando contas, procurando guardar para si o dinheiro do pouco negócio que se fazia. A doença de Ned tinha-o, no espaço  de um ano, tornado inválido. Reduzido a movimentar-se  numa cadeira de rodas, ultimamente tornara-se irresponsável.

 Tinha manias absurdas, falava ao zombeteiro e adulador  Tadeu do seu iate a vapor, da sua cervejaria particular em Dublim. Um dia escapara-se à sua vigilância e, na companhia de Scanty - duo grotesco - tinha-se dirigido às lojas de Clermont na sua cadeira, onde encomendara duas dúzias de chapéus. O doutor Tulloch, chamado, a pedido de Francis, asseverara que o estado de Ned não devia atribuir-se a um ataque de loucura, mas sim a um tumor no cérebro. Fora ele quem propusera o enfermeiro que substituía agora Polly.

Francis preferiria que Judy e a tia Polly ocupassem o quarto  dos hóspedes do presbitério... Com efeito, um dos seus sonhos era uma paróquia sua, na qual Polly fosse a governanta  e onde pudesse ocupar-se de Judy. Mas a atitude do padre Kezer tornava impossível uma sugestão dessa espécie. Francis  encontrou um alojamento confortável para elas em casa da senhora Morrison, e no dia 21 de Junho a tia Polly e Judy chegaram.

Na estação, onde tinha ido esperá-las, sentiu de súbito uma angústia no coração. Polly, ainda direita e valente, desceu da carruagem conduzindo pela mão, como o fizera com Nora, uma miúda e morena criança de cabelo lustroso.

«Polly! Querida Polly», murmurou Francis, quase consigo mesmo.

Ela estava pouco mudada, um pouco mais mal vestida talvez,  as faces mais chupadas. Usava o mesmo casaco curto, as mesmas luvas e o mesmo chapéu. Nunca mais gastara um tostão consigo mesma, sempre com os outros. Tinha-se consagrado a Nora, a ele próprio e a Ned, e cuidava agora de Judy.

 Pensando no seu absoluto desprendimento, o coração de Francis transbordava de emoção. Adiantou-se e estreitou-a nos braços.

- Polly, como me sinto feliz de a ver... a tia... a tia... é eterna!

- Oh, meu Deus! - articulou a tia Polly, procurando o lenço na bolsa. - Este vento... Creio que tenho alguma coisa num olho.

Ele tomou o braço dela e o de Judy e conduziu-as ao alojamento.

Francis fazia tudo quanto lhe era possível para distraí-las.

Durante os serões tinha longas conversas com Polly. Ela estava  orgulhosa dele, pelo que ele se tornara. O que sentia por ele era comovente.

Polly não falava das suas dificuldades financeiras, mas notavam-se  as suas preocupações a respeito de Judy. A criança, agora com dez anos de idade, freqüentava a escola diurna de Clermont; era uma estranha personalidade. Superficialmente dotada de uma cativante franqueza, ela era, no fundo, desconfiada  e dissimulada. Escondia toda a espécie de ninharias no seu quarto e tremia de raiva quando alguém nelas bulia. De humor inconstante, tinha loucos entusiasmos que se desvaneciam  rapidamente. Noutras circunstâncias era tímida e hesitante.

 Não podia suportar a confissão de uma sua falta e tinha suficiente presença de espírito para negar o que fazia. Se se duvidava da verdade das suas afirmações, tal fato provocava nela torrentes de lágrimas de indignação.

Ao corrente de tudo isto, Francis fez todos os esforços para  conquistar a sua confiança. Levava-a frequentemente ao presbitério, onde ela, com a sua completa inconsciência de criança, se sentia à vontade: entrava frequentemente no quarto  do padre Kezer, subia ao seu sofá, mexia nos seus cachimbos e nos pisa-papéis. Francis ficava embaraçado, mas como o pároco não protestava, ele não a repreendia.

No último dia das suas curtas férias, quando a tia Polly havia saído para o derradeiro passeio e Judy descansava finalmente,  entretida com um livro de gravuras a um canto do quarto de Francis, bateram à porta. Era Miss Cafferty, que se dirigiu a Francis.

- O reverendo quer falar-lhe imediatamente.

As sobrancelhas de Francis ergueram-se ante o inesperado pedido. Havia alguma coisa de ameaçador nas palavras da governanta.

 Levantou-se lentamente.

O padre Kezer estava de pé, à sua espera, no quarto.

Pela primeira vez em semanas ele olhou-o de frente.

- Essa criança é uma ladra.

Francis nada respondeu mas sentiu o coração parar.

- Tinha confiança nela. Deixei-a brincar por toda a casa.

Achava-a uma criança interessante, embora...

- Que lhe tirou ela? - perguntou Francis, com dificuldade  de se expressar.

- Ora, o que os ladrões tiram ordinariamente - respondeu  o padre Kezer.

O cura voltou-se para a chaminé sobre a qual havia uma fileira de pequenas colunas, cada uma delas de doze moedas de penny embrulhadas cuidadosamente em papel branco pelas suas próprias mãos. Pegou numa delas.

- Roubou dinheiro da coleta. Pior do que roubo. É simonia.

 Veja isto.

Francis examinou o rolo. Tinha sido aberto e desajeitadamente  retorcido em cima.

Faltavam três moedas.

- Que o leva a supor que foi Judy quem fez isso?

- Eu não sou imbecil! - sibilou Kezer. - Tenho vindo a notar a falta de moedas durante toda a semana. Todas as moedas destes pacotes estão marcadas.

Sem uma palavra, Francis voltou as costas ao pároco e dirigiu-se  para o seu quarto. Kezer seguiu-o.

- Judy. Mostra-me o teu porta-moedas.

Judy estremeceu como se tivesse levado uma bofetada.

Refez-se, no entanto, rapidamente e respondeu:

- Deixei-o em casa da senhora Morrison.

- Não, tens-lo aqui - disse Francis curvando-se e tomando-lhe  o porta-moedas que a criança procurava ocultar no vestido.

Era um porta-moedas novo, de cordão, que a tia Polly lhe dera antes das férias. Francis abriu-o e o seu coração deu uma pancada forte dentro do peito. Continha três moedas.

Cada uma delas estava marcada com uma cruzinha.

A severidade da expressão do padre Kezer manifestava ao mesmo tempo desdém e triunfo.

 Que lhe tinha eu dito? Assim, miserável garota, roubavas  Deus! - Olhou ferozmente para Francis.

- Devias ser processada por isto. Se a tivesse sob a minha responsabilidade, levá-la-ia diretamente à esquadra da polícia.

- Não, não - Judy começou a chorar. - Eu tinha a intenção de devolver o dinheiro. Sinceramente, eu tencionava  fazê-lo.

Francis estava lívido. A sua situação era horrível. Revestiu-se  de toda a sua coragem.

- Muito bem - disse, sereno. - Vamos imediatamente à esquadra da polícia e acusá-la-emos diante do sargento Hamilton.

O desespero de Judy atingiu o paroxismo.

-Gostaria de ver - troçou o padre Kezer.

Francis agarrou no chapéu e tomou Judy pela mão.

- Vamos, Judy. Deves ser corajosa. Vamos ao sargento Hamilton dizer-lhe que o padre Kezer te acusa de lhe teres furtado três moedas.

Quando Francis, com a criança pela mão, se dirigia para a porta, confusão e depois verdadeira apreensão se manifestaram  nos olhos do padre Kezer. Havia falado de mais. O sargento Hamilton, seu adversário político, não estava de boas relações com ele. Tinha havido graves desentendimentos  entre eles no passado. E agora... aquela acusação ridícula...

 já se via escarnecido por toda a aldeia. Murmurou subitamente:

- Não vá lá!

Francis fez ouvidos de mercador.

- Pare! - gritou o padre Kezer, reprimindo a raiva. - E...  esqueçamos este deplorável incidente. Fale o senhor mesmo com ela.

E saiu do quarto, espumando de raiva.

Quando a tia Polly e Judy voltaram para Tynecastle, Francis  foi tomado de uma súbita comiseração. Tinha querido explicar, expressar o seu pesar pela gatunice de Judy. Mas a atitude do padre Kezer impedira-o. A impressão de ter sido logrado vexava ainda mais o velho. Além disso, ele devia porém restituir ao cura a moral abalada pelo sucedido.

Carrancudo e fechado, ignorava a existência de Francis.

Ordenara a Miss Cafferty que lhe servisse as refeições à parte antes do jovem padre. No domingo que precedeu a sua partida  pregou um violento sermão sobre o sétimo mandamento:

«Não roubarás!», no qual cada palavra se dirigia ao coadjutor.

Logo a seguir à missa Francis foi diretamente a casa de Donald  Kyle, chamou o gerente à parte e falou-lhe um pouco hesitante ainda, mas gradualmente esperançoso. Finalmente, murmurou:

- Duvido de que o consigamos! Mas estarei com o senhor até ao fim.

Os dois homens apertaram as mãos.

Na segunda-feira o padre Kezer partiu para Harrogate, onde, durante seis semanas, faria a sua cura de águas. Nessa mesma noite Miss Cafferty partiu também para Rosslare, sua terra natal, e na terça-feira, muito cedo, Francis encontrou-se com Donald Kyle na estação. O encontro fora combinado previamente. Kyle trazia consigo uma pasta cheia de papéis e uma brilhante e nova brochura recentemente publicada por uma firma carvoeira rival de Nottingham. Vestia o melhor fato e a sua expressão resoluta era apenas um pouco menos acentuada de que a de Francis. Tomaram o comboio das onze horas em Shalesley.

O dia passou lentamente e só voltaram à noite, bastante tarde. Caminhavam em silêncio pela estrada olhando em frente. Francis parecia cansado, mas a sua expressão era impenetrável.

 Quando se desejaram mutuamente boas-noites o sorriso do gerente da mina era solene e significativo.

Nada de anormal se passou nos quatro dias seguintes. Depois,  sem aviso prévio, um período de estranha atividade começou.

A atividade parecia concentrar-se na mina, o que era natural,  pois que a mesma constituía o centro do distrito. Francis conservava-se lá a maior parte do tempo que as suas obrigações  paroquiais lhe permitiam conferenciando com Donald Kyle, estudando os planos do arquiteto, fiscalizando os grupos  de trabalhadores. Foi notável a rapidez com que o novo edifício foi construído. Em quinze dias tinha passado do primeiro pavimento e num mês a construção estava completa.

Foi então a vez dos carpinteiros e estucadores. O som dos martelos ecoava como uma música deliciosa aos ouvidos de Francis. Aspirava com prazer o cheiro das aparas de madeira.

por vezes também ajudava os homens no seu trabalho. Todos gostavam dele. Francis tinha herdado do pai o gosto pelos trabalhos manuais.

Sozinho no presbitério, fora a aparição rápida e discreta diária da senhora Morrison, que lhe ia fazer as arrumações, livre das críticas do superior, o seu fervor não conhecia limites.

 Sentia-se como que envolto numa luz pura e brilhante.

Sentia que se aproximava do seu rebanho, que desfazia a barreira da desconfiança, penetrava numa vida monótona.

Era uma sensação maravilhosa, em que se misturavam o firme  propósito e a satisfação do dever cumprido, como se, abraçando a pobreza e o infortúnio que o rodeavam, ele se aproximasse com a sua piedade e a sua elevada ternura do limiar do reino de Deus.

Cinco dias antes do regresso do padre Kezer, Francis sentou-se  à mesa e escreveu uma carta:

Sbalesley, 15 de Setembro de 1897 Prezado Sir George:

O novo centro recreativo que V. Ex.a tão generosamente doou a esta aldeia está praticamente concluído. Proporcionará imensas vantagens não só aos trabalhadores da sua mina e às suas famílias mas também a todos quantos vivem nesta vasta região industrial, sem distinção de classe ou religião. Já está organizada uma comissão e já foi redigido o regulamento nas diretrizes que combinamos. Pela cópia que junto a esta, V. Ex.a poderá ver quão vasto é o nosso programa de Inverno:

aulas de box e jogo de pau, cultura física, hóquei, instrução de primeiros socorros aos feridos e um baile semanal às quintas-feiras.

Quando considero a pronta generosidade com que V. Ex.a atendeu as diligências do senhor Kyle e deste humilde pároco quando, injustificadamente hesitantes, nos aproximamos de V. Ex.a, sinto-me completamente abismado. Quaisquer palavras  de gratidão que eu pudesse escrever seriam inexpressivas e inadequadas por mais calorosas que fossem. V. Ex.a encontrará  a sua verdadeira recompensa na alegria e na felicidade que proporcionará ao povo laborioso de Shaelesley e nos efeitos  benemerentes que indubitavelmente resultarão da subida do nível da solidariedade social.

Propomo-nos inaugurar o centro na noite de 21 de Setembro com uma soirée de gala. Se V. Ex.a aceder em honrar-nos com a sua presença, a nossa alegria será completa.

Creia-me vosso devotado FRANCIS CHISHOLM, Cura da Igreja do Redentor Pôs a carta no correio com um sorriso expressivo. As palavras  que escrevera eram sentidas, ardentemente sinceras.

Mas as suas pernas tremiam.

A 19, ao meio-dia, um dia depois do regresso da sua governanta,  o padre Kezer reapareceu. Fortificado pelas águas salinas, vinha cheio de energia ou, como ele próprio disse, «os seus dedos comiam-lhe com o desejo de empunhar as rédeas». Encheu o presbitério com a sua presença negra e peluda, dirigiu uma gritante saudação a Miss Cafferty reclamando  uma refeição substancial enquanto passava revista à correspondência; em seguida sentou-se à mesa para almoçar, esfregando as mãos. No seu prato um sobrescrito. Rasgou-o e tirou um cartão impresso.

- Que é isto?

Francis umedeceu os lábios secos, reunindo toda a sua coragem.

- Parece que é um convite para a festa da inauguração do novo clube atlético e recreativo de Shalesley. Eu também recebi um.

- Clube recreativo... Que temos nós com isso?

Conservava o cartão a distância e examinava-o, repetindo:

- Que é isto?

- Um excelente e novo centro. Pode ver-se daqui, da janela.

E Francis acrescentou com um tremor na voz:

- É um presente de Sir George Renshaw.

- Sir George...

Kezer interrompeu-se, estupefato, e correu à janela. Ficou aí longo tempo, olhando as impressionantes proporções do novo edifício. Depois voltou, sentou-se, e lentamente começou a comer. O seu apetite não era propriamente o de um homem com o fígado recentemente lavado. Os seus pequenos olhos dirigiam-se de relance para Francis. O silêncio parecia pesar na sala.

Por fim Francis decidiu-se a falar, timidamente, com a maior simplicidade:

- Espero a sua decisão. O senhor proibiu a dança e todos os divertimentos em que entrassem os dois sexos. Por outro lado, se os nossos paroquianos não cooperarem, se votarem o clube ao ostracismo e não freqüentarem os bailes, Sir George  sentir-se-á mortalmente ofendido.

Francis conservava os olhos baixos.

- Ele virá pessoalmente, na quinta-feira, à festa da inauguração.

O padre Kezer sentia-se incapaz de engolir mais uma garfada.

 O grosso e tenro bife que estava no seu prato parecia-lhe  um pedaço de sola. Levantou-se bruscamente e amarfanhou  o cartão entre os dedos crispados com súbita e terrível  violência.

- Não iremos a essa inauguração do Diabo! Não iremos.

Está a ouvir? Está dito uma vez por todas!

E, fora de si, saiu violentamente.

Na quinta-feira, à noite, de barba feita, com roupa branca limpa e a sua melhor sotaina, no rosto uma mistura de alegria e tristeza, o padre Kezer encaminhou-se para a cerimônia.

Francis seguia-o.

O novo edifício estava cheio de luzes e de animação, apinhado  até ao máximo da sua capacidade com gente laboriosa e humilde. Num estrado estavam sentados alguns dos notáveis:

 Donald Kyle e esposa, o médico da mina, o mestre-escola e dois outros padres. Quando Francis e o padre Kezer tomaram  os seus lugares houve uma prolongada aclamação e depois  alguns assobios e gargalhadas. O padre Kezer mostrou os dentes...

O ruído de um carro que se aproximava aumentou a expectativa  e um minuto depois, no meio de uma grande ovação, Sir George aparecia no estrado. Era um homem, de estatura mediana, de cerca de sessenta anos de idade, com uma calva brilhante aureolada de cabelos brancos. O seu bigode era igualmente  prateado e as suas faces vivamente rosadas. Tinha aquele notável frescor característico de certas pessoas louras na velhice. Custava a acreditar que uma pessoa de aspecto tão inocente e tranqüilo fosse tão poderoso.

Assistiu com um sorriso nos lábios à cerimônia, aceitou prazenteiramente  o discurso de boas-vindas do senhor Kyle e depois pronunciou mesmo algumas palavras, concluindo amavelmente:

- Gostaria de, com toda a justiça, assinalar que a iniciativa  desta excelente e útil realização se deve em primeiro lugar às idéias largas e ao espírito preclaro do padre Francis Chisholm.

Os aplausos foram ensurdecedores e Francis corou, com um olhar suplicante e envergonhado dirigido ao seu superior.

O padre Kezer ergueu as mãos automaticamente e bateu com uma na outra duas vezes, com ar de mártir na agonia.

Mais tarde, quando começou a dança, ficou por algum tempo vendo Sir George fazer duas vezes a volta ao salão com a jovem Nancy Kyle e depois desapareceu na noite. A música seguiu-o e ele procurava fugir-lhe.

Quando Francis voltou, tarde, encontrou o pároco sentado na sala de estar, desanimado, com as mãos nos joelhos.

Parecia estranhamente inerte. Tinha abandonado o ar arrogante.

 No decurso dos últimos dez anos liquidara mais curas do que Henrique VIII havia liquidado mulheres. E agora um simples vigário havia-o vencido. Disse inexpressivamente:

- Ver-me-ei obrigado a fazer um relatório da sua conduta e a enviá-lo ao bispo.

Francis sentiu o coração confranger-se-lhe dentro do peito, mas não retorquiu. Acontecesse o que acontecesse, a autoridade  do padre Kezer estava abalada. O velho pároco continuou  sombriamente:

- Talvez seja melhor a sua transferência. O bispo decidirá.

O deão Fitzgerald tem necessidade de outro cura em Tynecastle...

 o seu amigo Mealey está lá, parece-me.

Francis guardou silêncio. Não desejava deixar aquela aldeia, que começava agora a despertar. No entanto, se fosse obrigado a fazê-lo, as coisas seriam mais fáceis para o seu sucessor. O centro estava lançado. Era um começo. Outras mudanças viriam. Não sentia exultação pessoal, apenas uma tranqüila e quase visionária esperança. Disse em voz baixa:

-- Sinto muito tê-lo transtornado, padre. Creia-me, eu não fiz mais do que tentar ajudar... o nosso inútil rebanho.

Os dois padres fitaram-se. Foi Kezer quem baixou os olhos.

Numa sexta-feira, pelo fim da Quaresma, no refeitório do presbitério de S. Domingos, Francis e o padre Slukas já estavam  sentados para o frugal almoço de bacalhau cozido e pão escuro torrado, sem manteiga, servido em pesada baixela de prata e em fina porcelana azul de Worcester, quando o padre Mealey voltou da sua visita a um doente. Pelo seu ar distante, e pela maneira indiferente com que se serviu, Francis compreendeu  imediatamente que Anselmo estava preocupado. O deão Fitzgerald tomava as suas refeições nos seus aposentos e os três padres estavam sós. Mas o padre Mealey, mastigando  com ar ausente, com a pele levemente ruborizada, guardou  silêncio até o fim da refeição. Só depois que o lituano sacudiu as migalhas da barba, se levantou e se despediu é que a sua rigidez afrouxou. Aspirou profundamente.

- Francis!  Podes acompanhar-me esta tarde? Não tens quaisquer compromissos?

- Não... Estou livre até às quatro horas.

- Então vem. Gostaria que, como meu amigo e meu colega,  fosses o primeiro... - Interrompeu-se e nada mais disse que pudesse esclarecer o profundo mistério das suas palavras.

Havia dois anos que Francis era o segundo-cura de S. Domingos,  onde Geraldo Fitzgerald, agora deão Fitzgerald, ainda permanecia, com Anselmo, seu primeiro-assistente, e o padre lituano Slukas, um mal necessário pela presença dos muitos  imigrantes polacos que continuamente afluíam a Tynecastle.

A mudança de ambiente rústico de Shalesley para aquela familiar paróquia citadina onde os serviços religiosos eram regulares como um relógio e a igreja de uma perfeita elegância,  tinha deixado uma curiosa impressão em Francis. Sentia-se feliz por estar perto de tia Polly, por poder vigiar Ned e Judy, ver os Tullochs, Willie e sua irmã uma ou duas vezes por semana. Sentia também conforto, de qualquer maneira uma sensação de indefinível apoio na recente promoção do Mons. Mac Nabb, de San Morales, a bispo da diocese.

No entanto um certo ar de maturidade, as rugas à volta dos olhos, o seu corpo magro eram indicações mudas de que a nomeação não fora isenta de incidentes.

O deão Fitzgerald, requintado e orgulhoso da sua distinção,  era exatamente o tipo oposto ao do padre Kezer. No entanto, embora se esforçasse por ser imparcial, o deão não era desprovido de certos preconceitos: Anselmo tinha todo o seu apoio (era o seu predileto); fingia ignorar a existência  do padre Slukas, cujo mau inglês, as suas deploráveis maneiras  à mesa - um guardanapo sob a barba em todas as refeições - e o seu hábito excêntrico de usar um chapéu de coco com a sotaina, o colocavam fora de consideração; o seu segundo-cura, mantinha-o sob certa reserva. Francis não tardou  a compreender que o seu humilde nascimento, as suas relações com a Union Tavern, e, ainda mais, a tragédia dos Bannon, representavam obstáculos que não conseguiria vencer facilmente.

A bem dizer, mal tinha começado. Fatigado das velhas banalidades,  dos cansados sermões repetidos como que por papagaios  em cada domingo determinado do ano, Francis aventurou-se,  pouco depois da sua chegada, a pregar uma simples homilia, fresca e original, em que exprimia as suas próprias opiniões sobre a integridade da pessoa humana. Mas o deão Fitzgerald condenara imediatamente a perigosa inovação. No domingo seguinte, por sua sugestão, Anselmo subira ao púlpito  e ministrara o antídoto: uma magnífica peroração nos moldes clássicos do sermão, com grandes gestos e exclamações.

 Quando terminou todas as mulheres choravam; depois, quando Anselmo comia, com grande apetite, o seu almoço de costeletas de carneiro, o deão elogiou-o calorosamente, com uma bem marcada intenção:

- Muito bem, padre Mealey! Isto é que é eloqüência.

Ouvi o nosso falecido bispo fazer um sermão idêntico há vinte anos.

Talvez os seus sermões tão diferentes determinassem os cursos das suas carreiras. À medida que os meses passavam, Francis não podia deixar de comparar desoladamente os resultados  medíocres das suas prédicas com o notável sucesso de Anselmo. O padre Mealey era uma figura de relevo na paróquia, sempre satisfeito, mesmo alegre, com o riso pronto e uma palmadinha confortadora nas costas dos que se encontravam  em dificuldades. Trabalhava muito e com grande zelo, a sua agenda estava sempre cheia de compromissos e no entanto  nunca recusava um convite para falar numa reunião ou num discurso depois de um jantar. Redigia a Gazeta de S. Domingos, pequena folha noticiosa e frequentemente divertida.

 Saía muito e, embora ninguém pudesse considerá-lo um pretensioso, era convidado para tomar chá em casa das melhores famílias. Sempre que algum clérigo eminente vinha pregar na cidade, Anselmo ia ouvi-lo, tomar conhecimento com ele e manifestar-lhe a sua admiração. Mais tarde mandava-lhe  uma carta, muito bem redigida, onde exprimia em termos  entusiásticos o benefício espiritual que obtivera do encontro.

 Esta atitude granjeava-lhe amigos influentes.

Naturalmente que havia limites para a sua capacidade de trabalho. Assim, enquanto tinha assumido zelosamente as funções de secretário do novo centro diocesano das missões estrangeiras de Tynecastle - um projeto há muito acalentado  pelo bispo -, trabalhando perseverantemente para agradar  a Sua Excelência, viu-se obrigado, com relutância, a passar  a Francis a direção do clube dos rapazes operários da Shand Street.

As casas dos arredores da Shand Street eram as mais miseráveis  da cidade. Essas altas habitações coletivas, essas hospedarias,  esses tugúrios sem ar nem luz foram pouco a pouco entrando na jurisdição de Francis. Aqui, embora os seus resultados  parecessem triviais e desprezíveis, encontrou ele um campo de atividade considerável. Teve de aprender a olhar o desamparo de frente, a ver, sem se contrair, a dor e a miséria  da vida, a eterna ironia da pobreza abjeta. Não era uma comunhão de santos o que o rodeava, mas uma comunhão  de pecadores, que provocava nele uma piedade tal que algumas vezes as lágrimas lhe subiam aos olhos.

- Não me digas que estás com sono - disse Anselmo em tom de censura.

Com um sobressalto, Francis foi arrancado do seu devaneio e viu o padre Mealey à sua espera, de chapéu e bengala na mão, junto da mesa do almoço. Sorriu e levantou-se.

Fora a tarde estava fresca e bonita; começava a soprar uma brisa forte, e Anselmo, limpo, saudável e de bom aspecto, caminhava com passo vivo, saudando os seus paroquianos cordialmente. A sua popularidade em S. Domingos não o envaidecera. Os seus muitos admiradores afirmavam que a modéstia era uma das suas mais encantadoras características.

Entretanto Francis reconheceu que se dirigiam para o novo subúrbio recentemente anexado à paróquia. Além dos limites da cidade, no parque de um antigo castelo, um novo bairro surgia. Alguns operários trabalhavam transportando pedras e tijolos nos seus carrinhos. Sem consciência Francis notou uma grande tabuleta branca: «Venda de lotes do parque Hollis, tratar com Malcolm Glennie, advogado». Mas Anselmo prosseguia.

 Transpuseram a colina, atravessaram alguns campos e depois seguiram por um carreiro à esquerda. Apesar da proximidade das fábricas o local era agradavelmente campesino.

De repente o padre Mealey parou, imóvel mas excitado, como um cão de caça farejando a presa.

- Sabes onde estamos, Francis? Conheces o local?

- Naturalmente.

Francis passara por ali com muita freqüência: era uma pequena  gruta com rochas revestidas de líquenes, meia encoberta  por giestas amarelas e rodeada de uma cerca de faias.

Era o recanto mais pitoresco dos arredores. Frequentemente tinha perguntado a si próprio porque lhe chamariam «O Poço» e algumas vezes «O Poço de Santa Maria». Havia cinqüenta anos que não corria água na bica.

- Olha - disse Mealey, que, puxando-o por um braço, o conduziu para a frente.

Das rochas brotava agora um fio de água cristalina. Houve um curto silêncio. Depois, curvando-se, com as mãos em concha, Mealey colheu um pouco de água e bebeu-a piedosamente.

- Bebe, Francis. Deveríamos manifestar a nossa gratidão por sermos dos primeiros.

Francis curvou-se e bebeu. A água era fresca e pura. Sorriu.

É agradável.

Mealey olhou-o com indulgência, com ar quase paternal.

.- Meu caro amigo, eu diria que tem um sabor celestial.

- Há muito tempo que corre?

-- Começou a correr ontem à tarde, ao pôr do Sol.

Francis pôs-se a rir.

.- Realmente, Anselmo, exprimes-te hoje como um verdadeiro  oráculo délfico... por símbolos e parábolas. Vamos, conta-me toda a história. Quem te informou disto?

O padre Mealey abanou a cabeça.

- Não posso... por enquanto.

- Mas tu excitaste de tal maneira a minha curiosidade!

Lisonjeado, Anselmo sorriu. Depois a sua expressão readquiriu  a solenidade anterior.

- Nada posso revelar por enquanto, Francis. Devo consultar  primeiro o deão Fitzgerald. É a ele que compete decidir. Entretanto, é claro, confio em ti...  sei que guardarás  o segredo que te confiei.

Francis conhecia suficientemente bem o seu companheiro para insistir.

De volta a Tynecastle, Francis separou-se do seu colega e foi a Glanville Street visitar um doente. Um dos membros do seu círculo operário, um rapaz chamado Owen Warren, tinha levado um pontapé numa perna durante um desafio de futebol algumas semanas atrás. Pobre e subalimentado, o rapaz  não fizera caso do ferimento. Quando o médico fora chamado  urgentemente a ferida tinha-se transformado numa terrível  úlcera.

O caso atormentara Francis, tanto mais que o doutor Tulloch parecia inquieto quanto às conseqüências. Naquela tarde, no esforço de reconfortar Owen e a sua preocupada mãe, esqueceu por completo o bizarro e misterioso passeio.

Na manhã seguinte, entretanto, vozes ameaçadoras vindas do quarto do deão Fitzgerald vieram reavivar-lhe a memória.

A Quaresma representava uma severa penitência para o deão. Homem justo... jejuava. Mas esse regime não convinha  ao seu corpo, habituado a uma alimentação delicada e rica. Atingido na sua saúde e na sua disposição, isolava-se, circulava através do presbitério sem se dirigir a ninguém, com os olhos sombrios, e cada noite que passava marcava uma cruz no calendário.

Embora o padre Mealey estivesse nas boas graças de Fitzgerald,  precisava de manobrar habilmente para se aproximar dele no período em questão, e Francis ouviu a voz de Anselmo,  persuasiva e suplicante, seguida de exclamações breves e irritadas do deão. Por fim, a voz suave triunfou, «como gotas de água cuja persistência gasta o granito», pensou Francis.

Uma hora depois, de muito má vontade, o deão saiu do seu quarto. O padre Mealey esperava-o no vestíbulo. Partiram  juntos numa carruagem na direção do centro da cidade.

Estiveram ausentes durante três horas. Era a hora do almoço quando voltaram, e pela primeira vez, excepcionalmente, sentou-se  à mesa dos vigários. Embora nada comesse, mandou vir uma grande cafeteira cheia de café, o único luxo que concedia  à sua abstinência. Sentado de lado, com as pernas cruzadas,  desprendia-se de si, enquanto tomava pequenos golos da aromática bebida, um ar de entusiasmo, quase de camaradagem,  como se a sua alma estivesse ligeiramente exaltada.

Meditativo, dirigiu-se a Francis e ao padre polaco - atitude excepcionalmente cordial para o padre Slukas:

- Devemos agradecer ao padre Mealey a sua fé... em face da minha incredulidade um tanto violenta. É um fato ser meu dever manter o máximo do cepticismo a respeito de certos... fenômenos. Mas eu nunca vi, não esperava ver, uma tal manifestação na minha própria paróquia...

Interrompeu-se e, pegando na xícara de café, fez um generoso  gesto para o primeiro-cura.

- Concedo-lhe o privilégio de contar-lhes, senhor abade.

A cor vermelha de emoção patente na face do padre Mealey persistiu. Pigarreou e começou, rápida e ansiosamente, como se o incidente que ia relatar exigisse uma eloqüência convencional :

- Uma das nossas paroquianas, uma jovem enferma havia muito tempo, andava a passear na segunda-feira desta semana.

Foi, porque desejamos ser precisos, em 15 de Março às três e meia da tarde. O motivo do seu passeio não era ociosidade...

 porque esta rapariga é uma alma devota e fervorosa e não está acostumada a perder o seu tempo nem a divertir-se… Passeava por ordem do seu médico, para respirar ar puro; o médico é o Dr. William Brine, de Boyle Crescent,42, do qual todos nós conhecemos a alta integridade. Muito bem!

 O padre Mealey tomou um gole de água e prosseguiu. - Quando ela voltava do seu passeio, murmurando uma oração, aconteceu-lhe passar pelo lugar que todos nós conhecemos pelo nome de «Poço de Santa Maria». Era à hora do crepúsculo,  e os últimos raios de Sol banhavam de puro esplendor o encantador local. A jovem havia parado para contemplar a cena quando de súbito, com grande surpresa, viu na sua frente uma senhora vestida de branco com uma capa azul e um diadema de estrelas na fronte. Guiada pelo seu instinto, a nossa jovem católica caiu imediatamente de joelhos. A senhora  sorriu para ela com inefável ternura e disse: «Minha menina, embora doente, foi a ti que escolhi!» Depois, voltando-se  ligeiramente, ainda dirigindo-se à jovem, cheia de temor religioso, mas compreendendo perfeitamente, disse: «Não é triste que este poço, que me foi dedicado, esteja seco? Lembra-te!  É para ti e para outros como tu que isto acontecerá».

E com um último e suave sorriso desapareceu. No mesmo instante uma fonte de água deliciosa brotou da rocha estéril.

O padre Mealey calou-se.

O deão retomou a palavra:

- Como dizia, o nosso dever é examinar uma questão tão delicada com a mais franca incredulidade, pois não esperamos o aparecimento de milagres em qualquer silvado. As raparigas são geralmente românticas. E a fonte poderia brotar por uma estranha coincidência. Entretanto... - O seu tom exprimia uma alegria profunda... - eu acabo de submeter a jovem em questão a um longo interrogatório juntamente com o padre Mealey e o doutor Brine. Como podereis pensar, a solene experiência da sua visão deu-lhe um abalo profundo.

Imediatamente recolheu ao leito e aí tem permanecido desde então. - A voz do deão tornou-se mais lenta, as suas palavras  cheias de significado. - Embora se sinta feliz, normal e em bom estado físico, nestes cinco dias ela não tomou qualquer  espécie de alimento sólido ou líquido. - Fez uma pausa para sublinhar a importância de caso extraordinário. - Além disso... além disso, ela apresenta claramente, sem erro possível,  os santos estigmas.

Triunfante, prosseguiu:

- Conquanto seja ainda demasiadamente cedo para falar - é preciso provas definitivas - tenho a mais viva esperança,  que vai quase até à convicção, de que a nossa paróquia foi escolhida pelo Altíssimo para teatro de um milagre comparável,  e talvez de igual alcance, aos que deram à nossa santa religião a recém-descoberta gruta de Digby e à de, mais antiga e já histórica, de Nossa Senhora de Lourdes. Possam os seus efeitos ser também imensos!

Era impossível não ser tomado pela nobreza de sua peroração.

- Quem é a jovem? - perguntou Francis.

- Carlota Neily!

Francis olhou fixamente o deão. Abriu a boca e fechou-a novamente sem dizer palavra. O silêncio manteve-se, impressionante.

Os dias que se seguiram foram cheios de uma intensa animação  no presbitério. Ninguém melhor que o deão Geraldo Fitzgerald podia estar senhor da situação. Homem de sincera devoção, era hábil também no trato dos assuntos mundanos.

Uma longa experiência, duramente adquirida no meio das comissões escolares e nos conselhos municipais locais, permitia-lhe  abordar com habilidade os assuntos temporais. Não permitiu que qualquer notícia do acontecimento fosse divulgada,  nenhum murmúrio, mesmo nos salões paroquiais. Tudo foi conservado estritamente secreto. A revelação surgiria quando ele considerasse oportuno.

O incidente miraculoso e inesperado encheu-o de um zelo frenético. Havia muitos anos que não sentia uma tal satisfação  íntima, tanto espiritual como material. Nela se misturavam  estranhamente a piedade e a ambição. As suas excepcionais  qualidades físicas e espirituais pareciam destiná-lo automaticamente ao progresso na carreira eclesiástica. E ele desejava apaixonadamente esse progresso, tanto, talvez, como ansiava pelo progresso da própria Igreja. Estudante erudito da história contemporânea, ele comparava-se muitas vezes em pensamento ao cardeal Newman. Merecia também a púrpura cardinalícia. No entanto, permanecia encalhado em S. Domingos.

 A única distinção que lhe fora concedida como recompensa de vinte anos de serviços relevantes fora esta miserável situação, de deão, tão rara na Igreja católica que frequentemente  o embaraçava nas suas viagens fora da cidade, em que era tomado por um clérigo anglicano, confusão que o magoava profundamente.

Talvez supusesse que, conquanto admirado, não fosse querido.

 Todos os dias a sua decepção aumentava e procurava resignar-se. Todavia, quando baixava a cabeça e dizia: «Senhor,  seja feita a Vossa vontade!», no fundo do coração, sob a humildade, queimava-o este pensamento: «A esta hora deviam ter-me concedido o chapéu de cardeal».

Agora tudo iria mudar. Que o deixassem ficar ali. Ele faria da Igreja de S. Domingos um santuário de luz.

Lourdes era o seu espelho e, mais próximo, no Midlands, próximo no tempo e no espaço, tinha o exemplo notável e recente de Digby, onde a descoberta de uma gruta milagrosa, lugar de muitas curas autênticas, tinha transformado uma triste aldeia numa pequena cidade próspera e elevado ao mesmo  tempo um pároco desconhecido mas inteligente à categoria de figura nacional.

O deão mergulhava na esplêndida visão de uma nova cidade,  uma grande basílica, onde, durante um Te Deum solene, ele próprio seria entronizado, com as suas vestes suntuosas bordadas... depois, abruptamente, voltava à realidade e examinava  minuciosamente os planos traçados. O seu primeiro cuidado tinha sido colocar imediatamente uma freira dominicana,  a irmã Teresa, merecedora de confiança e discreta, junto de Carlota Neily. Baseado nas suas declarações formais, ele confiava no resultado final da revelação.

Por um feliz acaso o poço de Santa Maria e todas as terras adjacentes pertenciam à antiga e rica família Hollis. Embora não fosse católico o capitão Hollis tinha casado com uma católica, irmã de Sir George Renshaw. Era amável e bem disposto. Ele e o seu advogado, Malcolm Glennie, estiveram encerrados com o deão durante dias sucessivos, mantendo longas conferências. O Xerez e os biscoitos ajudaram a concluir  um acordo amigável. O deão não tinha interesse especial  no dinheiro. Encarava-o desdenhosamente como coisa desprezível.

 Mas o que o dinheiro podia comprar era importante e ele queria assegurar a materialização das suas esperanças.

Ninguém a não ser um tolo podia deixar de compreender que o valor do terreno subiria às nuvens.

No último dia das negociações Francis encontrou-se com Glennie no corredor. Em boa verdade admirou-o o fato de encontrar o seu primo tratando dos assuntos dos Hollis. Mas o advogado, quando terminara o seu curso, tinha ele próprio astutamente comprado com o dinheiro de sua mulher uma antiga firma que se dedicava ao ramo forense e adquirido por esse motivo uma clientela escolhida.

- Muito bem, Malcolm - disse Francis, estendendo-lhe a mão. - Tenho prazer em ver-te.

Glennie apertou-lhe a mão friamente.

- Mas bastante admirado - continuou Francis, sorrindo - de encontrar-te no antro da Mulher vestida de púrpura.

O advogado correspondeu com um sorriso amarelo e murmurou :

- Tenho idéias largas, Francis... além disso, sou obrigado a ganhar o meu pão.

Francis tinha pensado muitas vezes em restabelecer as suas relações com os Glennies, mas a notícia da morte de Daniel e um encontro casual com a senhora Glennie em Tynecastle, em que esta, enquanto ele atravessava a rua para a cumprimentar,  fingira não o ver e fugira tão depressa como se tivesse  visto o Diabo, tinham-no dissuadido das suas intenções.

Continuou:

- Fiquei muito triste com a morte de teu pai.

- Sim. Decerto que lamentamos a sua falta. Mas o pobre velho já era um destroço.

- Mas não é um naufrágio alcançar o Céu - gracejou Francis.

- Sim... Bem, creio que o alcançou.

Glennie brincava maquinalmente com a corrente do relógio.

Já aparentava precocemente uma idade madura. Tinha engordado  e as suas costas curvavam-se; os poucos cabelos estavam cuidadosamente arrumados na cabeça calva. Mas o seu olhar, por vezes evasivo, era duro e penetrante como uma verruma.

Retomou a marcha para a escada e fez um convite pouco convincente  a Francis.

1. A Igreja Católica Romana - Figura injuriosa alusiva à revelação.

. Vai ver-nos quando tiveres ocasião. Eu casei, como sabes,  mas a minha mãe vive conosco.

Malcolm Glennie tinha interesse particular na visão beatífica  de Carlota Neily. Desde a mais terna idade que ele procurava  pacientemente uma oportunidade para adquirir fortuna.

 Herdara da mãe a ardente cobiça e alguma coisa da sua astúcia. Farejava dinheiro nesta ridícula comédia religiosa. A sua própria formação o convencia dessas possibilidades. Era uma boa oportunidade que se apresentava; não tinha mais que a colher como um fruto maduro. Talvez nunca mais aparecesse  outra em toda a sua vida.

Ocupando-se sem escrúpulos dos negócios do seu cliente, Malcolm pensou uma coisa de que ninguém mais se lembrou.

Secretamente, com grandes despesas, mandou fazer um exame geológico ao terreno. As suas suspeitas haviam sido confirmadas.

 A água que alimentava a fonte vinha exclusivamente de uma faixa de terra arenosa muito acima e a distância considerável  do parque.

Malcolm não era rico. Ainda não. Mas, reunindo as suas economias, hipotecando a sua casa e o seu escritório, conseguiu  justamente o suficiente para adquirir uma opção dessas terras por três meses. Sabia o resultado que produziria um poço artesiano, embora não tivesse a intenção de o abrir.

Mas a ameaça de o fazer devia bastar, mais tarde, para render a Malcolm Glennie uma fortuna considerável.

Entretanto a água continuava a jorrar, clara e pura. Carlota  Neily, ainda em êxtase, marcada pelos santos estigmas, continuava a recusar toda a alimentação e Francis continuava rezando, fervorosamente, para alcançar a graça da fé.

Se ele ao menos pudesse crer como Anselmo, que, sem luta, tranqüilo, feliz, tudo aceitava desde a costela de Adão aos mais inacreditáveis detalhes da estadia de Jonas no ventre da baleia! Ele cria, sim... não nos detalhes, mas no essencial...

somente pela força do amor, através dos seus contactos com os tugúrios, quando sacudia as pulgas das suas roupas na banheira  com água fria... nunca, nunca facilmente... exceto quando assistia aos enfermos de semblantes abatidos, sombrios.

 A crueldade da provação presente, na sua injustiça, dava-lhe cabo dos nervos, anulando-lhe o consolo da oração.

Foi talvez a personalidade da rapariga que o pôs naquele estado de agitação. Sem dúvida que alimentava um preconceito  desfavorável a respeito desta sobrinha de Tadeu Gilfoyle.

 Seu pai era de um caráter sinuoso, piedoso mas indolente, que desfalcava diariamente o pequeno negócio de mercearia para acender velas diante do altar na vã esperança de conseguir  a prosperidade no seu comércio mal orientado. Carlota tinha herdado a piedade paternal, mas Francis suspeitava de que o que a atraía na Igreja era o cheiro do incenso e da cera das velas e de que a obscuridade do confessionário fazia-lhe vibrar agradavelmente o sistema nervoso. Ele não negava a sua pureza nem a regularidade com que ela cumpria os seus deveres religiosos, mas supunha que ela se lavava pouco regularmente  e o seu hálito era fétido.

No sábado seguinte, quando Francis descia a Rua Glanville, incompreensivelmente abatido, viu o doutor Tulloch sair da casa de Owen Warren. Chamou o doutor; este voltou-se, parou  e depois começou a andar ao lado do amigo.

Willie tinha engordado com o decorrer dos anos mas apesar disso não tinha mudado muito. Lento, tenaz e prudente, fiel às suas amizades como às suas aversões, tinha a honestidade do pai, mas pouco do seu encanto e nada dos seus modos.

O seu rosto, de nariz grosso e vermelho, não tinha expressão e era coberto por uma barba espessa e mal cuidada. Tinha um ar de decência forçada. A sua carreira médica não fora brilhante, mas sabia o que fazia e gostava da profissão. Desprezava  as ambições convencionais. Falava de vez em quando de «correr mundo», de ir em busca de aventuras em terras românticas e distantes, mas continuava no seu posto médico da Assistência - que não lhe exigia as hipocrisias de mesa-de-cabeceira  e lhe permitia dizer pouco mais ou menos o que pensava - preso à sua rotina pela sua capacidade prática de viver o dia a dia. Além disso nunca havia podido economizar.

O que ganhava não era muito, e a maior parte dele era gasto em whisky.

Sempre descuidado com a sua aparência, nessa manhã não tinha feito a barba. Os seus olhos, no fundo das órbitas, estavam sombrios e a sua expressão mal humorada, como se nesse dia odiasse o mundo. Contou rapidamente que o pequeno  de Warren estava pior. Tinha ido lá para colher um pedaço de tecido para um exame histológico.

Os dois seguiram ao longo da rua, comunicando entre si por um dos seus silêncios peculiares. De repente, num impulso  inexplicável, Francis contou a história de Carlota Neily.

A fisionomia de Tulloch ficou impassível: continuou a andar lentamente, com as mãos fechadas metidas nos bolsos fundos do casaco, a gola do casaco levantada, de cabeça baixa.

. De fato - disse ele afinal -, uma mosca já me zuniu aos ouvidos.

- Que te parece?

 Porque me perguntas isso?

- Quanto mais não seja porque és honesto.

Tulloch lançou a Francis um olhar estranho. Para um homem  tão modesto, tão consciente dos limites da sua inteligência,  a sua convicção da inexistência de Deus era extraordinariamente  positiva.

- A religião está fora da minha apreciação. Herdei um ateísmo altamente convincente... que os meus estudos anatômicos  confirmaram. Mas se queres a minha opinião sincera, usando as palavras do meu pai, tenho as minhas dúvidas, e proponho fazer-lhe um exame. Não estamos longe da casa dela. Podemos ir juntos.

- Mas isso não te trará aborrecimentos com o doutor Brine?

- Não. Eu conversarei amanhã com Salty a esse respeito.

Nas minhas relações com colegas, tenho por norma agir primeiro  e desculpar-me depois.

Sorriu ironicamente para Francis.

- A não ser que te preocupes com a reação dos teus superiores hierárquicos.

Francis corou, mas não respondeu. Um minuto depois replicou:

- Sim, preocupo-me, mas vamos.

Com grande surpresa sua, não lhes levantaram obstáculos à entrada. A senhora Neily, cansada por uma noite de vigília, dormia. Neily, por acaso, estava no estabelecimento. A irmã Teresa, pequena, serena e amável, abriu-lhes a porta. Vinda de um bairro distante de Tynecastle, ignorava por completo quem fosse o doutor Willie Tulloch, mas conhecia Francis e identificou-o logo. Introduziu-os no quarto, impecavelmente limpo, onde estava Carlota recostada em alvas almofadas, bem lavada e envergando uma camisa de dormir impecavelmente branca, toda abotoada, numa cama de metais cintilantes. A irmã Teresa curvou-se sobre ela não sem de algum modo manifestar  um certo orgulho pela limpeza que se notava por toda a parte.

- Carlota, querida. O padre Chisholm vem vê-la. Trouxe um médico, grande amigo do doutor Brine.

Carlota Neily sorriu. O seu sorriso era consciente, vagamente  lânguido, mas impregnado de curioso êxtase. Esse sorriso animou-lhe o rosto pálido, já luminoso, que repousava na almofada. Era profundamente impressionante. Francis teve um movimento de sincero remorso. Não havia dúvida de que alguma coisa neste tranqüilo quarto branco ultrapassava a normalidade.

- Não se importa que eu a examine, Carlota? - interrogou  Tulloch, brandamente.

Ao ouvir a voz do médico ela não deixou de sorrir. Não se moveu. Tinha a atitude calma de quem sabe que é espreitado  e só muito de leve é afetado pela situação: uma consciência  de força interior, uma percepção elevada e sonhadora de deferência e do respeito suscitados entre os observadores.

As suas pálpebras pálidas estremeceram. A sua voz era tranqüila  e distante.

- Porque havia de importar-me, doutor? Sinto-me até satisfeita.

 Eu não sou digna, mas se fui escolhida submeto-me alegremente.

E consentiu que Tulloch a examinasse.

- Não come coisa alguma, Carlota?

- Não, doutor.

- Não tem apetite?

- Nunca penso em comida. Como que me sinto alimentada  por uma graça interior.

A irmã Teresa interveio calmamente:

- Posso assegurar-lhe que ela não comeu coisa alguma desde que entrei nesta casa.

Um silêncio se estabeleceu na tranqüilidade do quarto branco. O doutor Tulloch endireitou-se, atirando para trás o cabelo despenteado.

Disse simplesmente:

- Obrigado, Carlota. Agradeço-vos, irmã Teresa. Estou-lhe muito reconhecido pela sua bondade. - E encaminhou-se  para a porta do quarto.

Quando Francis se dispôs a seguir o médico, uma sombra passou  pelas faces de Carlota.

 O senhor não quer ver também, padre? Veja... as minhas  mãos. Os meus pés também têm a mesma coisa.

Ela estendeu ambos os braços, lentamente, num gesto de sacrifício. Em ambas as pálidas mãos, indiscutivelmente, viam-se marcas nítidas de sangue, como se fossem vestígios sangrentos de pregos.

Fora, o doutor Tulloch manteve a sua atitude de reserva.

Conservou os lábios cerrados até chegarem ao fim da rua.

Então, no ponto em que os seus rumos se separavam, disse rapidamente:

- Queres saber a minha opinião, suponho. Pois aqui a tens: é um caso vulgar: mania depressiva em grau exaltado.

Certamente uma hemofilia histérica. Se ela conseguir escapar ao hospital de doidos será certamente canonizada!

De súbito perdeu o seu sangue-frio e abandonou as suas maneiras discretas. O seu rosto vermelho e simples ficou congestionado.

 As palavras sufocaram-no.

- Inferno! Quando me lembro dela, aqui, limpa, na sua santidade sorridente, como um anjo anêmico num saco de farinha, e como o pequeno Owen Warren sofre num quartinho sujo, com uma dor pior do que os danados do Inferno na perna gangrenada, ameaçado de um sarcoma maligno. Sinceramente quase rebento de raiva! Lembra-te disso quando estiveres a rezar. Provavelmente vais agora dedicares-te a isso. Bem, eu vou beber alguma coisa.

E afastou-se rapidamente antes que Francis pudesse responder.

Na mesma tarde, quando Francis voltou das trevas, aguardava-o  uma chamada urgente escrita na ardósia pendurada no vestíbulo do presbitério. Pressentindo a tempestade, subiu ao gabinete do deão. Este aliviava a sua má disposição gastando os nervos e o tapete com passos curtos, exasperados.

- Padre Chisholm! Estou ao mesmo tempo surpreso e indignado! Realmente não esperava isso de si! Quem havia de supor que o senhor levaria lá um médico ateu encontrado na rua... É inacreditável e estou magoadíssimo.

- Lamento muito - respondeu Francis, gravemente. - É porque... acontece que ele é o meu melhor amigo.

- Isso, por si só, já é bastante reprovável. Acho muito inconveniente que um dos meus curas se ligue com pessoas no gênero do doutor Tulloch.

- Nós... nós fomos condiscípulos.

- Isso não é razão. Estou magoado e decepcionado. Sinto-me  completa e justificadamente irritado. Desde o começo, a sua atitude em relação a este grande acontecimento tem sido fria e reservada. Suponho que o senhor está despeitado porque a honra da descoberta cabe ao primeiro-cura. Ou há algum motivo oculto para o seu manifesto antagonismo?

Um sentimento de desventura invadiu Francis. Sentiu que o deão tinha razão. E murmurou:

- Estou imensamente desolado. Não sou desleal. Isso é a última coisa do mundo que eu desejaria ser. Mas admito que não tenha sido entusiástico. É porque tenho estado atormentado.

 Foi por essa razão que levei hoje Tulloch lá. Tenho tantas dúvidas...

- Dúvidas? O senhor nega os milagres de Lourdes?

- Não, não. Esses milagres são incontestáveis, são autenticados  por cientistas de todas as religiões.

- Então, porque negar-nos a oportunidade de criar outro monumento de fé aqui entre nós?

O deão perdia a paciência.

- Se o senhor quer ignorar as implicações de ordem espiritual,  reconheça pelo menos as físicas - disse, em tom irônico.

 - O senhor pode admitir desapaixonadamente que uma jovem possa passar nove dias sem comer nem beber e conservar-se  em perfeita saúde, sem receber qualquer outro sustento?

- Que espécie de sustento?

- Sustento espiritual.

O deão estava enraivecido.

- Não é certo que Santa Catarina recebia uma bebida mística, espiritual, mais eficiente que outra qualquer espécie de alimento terreno? Essas dúvidas são inadmissíveis! E o senhor admira-se que eu perca a paciência?

Francis inclinou a cabeça.

- S. Tomé duvidava. Na presença de todos os discípulos ele foi ao ponto de pôr os dedos no flanco do Nosso Senhor e ninguém perdeu a paciência.

Houve uns momentos de silêncio. O deão empalideceu, depois recuperou o domínio de si mesmo. Curvou-se sobre a secretária e mexeu nalguns papéis sem olhar para Francis.

Então disse, num tom reprimido:

- Já não é a primeira vez que o senhor tem demonstrado obstrução. Está a adquirir uma má reputação na diocese, pode retirar-se.

Francis abandonou o gabinete acabrunhado pelo reconhecimento  das suas deficiências. Sentiu um impulso repentino, quase irreprimível, de ir contar os seus transes ao bispo Mac Nabb. Mas conteve-se. Mac tornara-se uma grande personagem.

 Devia estar demasiadamente ocupado nas suas atuais altas funções para dar atenção a um miserável cura.

No domingo seguinte, na missa solene das onze horas, o deão Fitzgerald anunciou solenemente o acontecimento no mais belo sermão que jamais tinha pregado.

O sucesso foi extraordinário. Toda a congregação permaneceu  junto da igreja, trocando impressões em voz baixa, sem vontade de se retirar. Organizou-se espontaneamente uma procissão que partiu, sob a direção do padre Mealey, para o poço de Santa Maria. À tarde a multidão aglomerou-se junto da casa de Neily. Um grupo de filhas de Maria, congregação a que Carlota pertencia, ajoelhou-se na rua, entoando cânticos.

À noite o deão anuiu a receber os representantes da imprensa,  cuja curiosidade estava excitada ao paroxismo. Mostrou-se  digno e reservado. Estimado na cidade, conhecido pelo seu espírito cívico, produziu a mais favorável impressão. Na manhã seguinte os jornais dedicaram-lhe generosamente longos  artigos. Teve a honra da primeira página na Tribuna, duas colunas laudatórias no Globo. «Um Novo Digby» proclamava  o Northumberland Herald. «Uma Gruta Milagrosa Traz Esperança a Milhares de Enfermos, dizia o Echo. O Weekly High Anglican limitou-se a dizer um tanto maliciosamente: «Aguardamos mais provas». Mas o London Times ultrapassou-os a todos com um artigo erudito do correspondente  teológico, que fez a história do poço e fê-la remontar até Aidan e Santo Ethelwulf. O deão exultou de contentamento. O padre Mealey não conseguiu almoçar e Malcolm  Glennie não lhes ficou atrás, regozijando-se secretamente.

Oito dias depois Francis foi a casa de Polly, em Clermont, no extremo norte da cidade. Depois de um longo dia de visitas  a casas sujas estava extremamente abatido e fatigado.

Naquela tarde recebera um bilhete lacônico do doutor Tulloch que lhe anunciava ser a morte do pequeno Warren inevitável devido a um sarcoma maligno da perna. Nenhuma esperança havia de salvação para a criança: estava às portas da morte e talvez não durasse um mês.

Em Clermont, Polly conservava-se na mesma. Ned, talvez um pouco mais fatigado que de costume, continuava curvado na sua cadeira de rodas, com um cobertor enrolado nos joelhos,  conversando muito em coisas tolas. Um arranjo de contas definitivo tinha sido arrancado a Gilfoyle recentemente a respeito  dos interesses de Ned na Union Tavern. Uma soma miserável. Mas Ned gabava-se como se de uma fortuna se tratasse. Em conseqüência da sua doença, a língua parecia demasiadamente grande para a sua boca. Emitia por vezes sons tristemente inarticulados quando conversava.

Judy dormia já quando Francis chegou e, embora Polly nada tivesse contado, deduzia-se da sua atitude que a criança se havia comportado mal e fora, por isso, mandada para a cama cedo. Esse pensamento entristeceu-o ainda mais.

Onze horas soavam quando ele deixou a casa. O último «elétrico» para Tynecastle já havia partido. Durante o longo caminho de volta, com os ombros ligeiramente curvados sob o peso da última derrota, passou pela Rua Glanville. Chegado em frente da casa dos Neily, observou que as duas janelas do quarto de Carlota ainda estavam iluminadas, e por trás das cortinas amarelas distinguiu silhuetas que se moviam.

Uma emoção súbita, um sentimento agudo de arrependimento  o dominou. Oprimido pelo sentimento da sua incredulidade  persistente teve repentino desejo de ver os Neily e pedir-lhes  que o desculpassem. Esse imperativo forçou-o a subir os primeiros degraus da entrada da casa. Ia tocar à campainha  mas mudou de opinião; levou a mão à maçaneta da porta, torceu-a e entrou. Tinha adquirido o hábito, comum aos padres  e aos médicos, de entrar sem se anunciar.

O quarto, que abria para um pequeno vestíbulo, projetava um raio oblíquo de luz de gás. Bateu levemente à porta e entrou, mas parou como petrificado. Carlota, sentada na cama, tendo sobre os joelhos uma bandeja oval com um prato cheio de peito de frango e um grande copo de gemada, comia avidamente.

 A senhora Neily, envolvida num penteador azul-desmaiado,  curvada com solicitude, enchia um copo com cerveja preta.

Foi a mãe quem primeiro viu Francis. Surpreendida, lançou  um grito agudo de terror que se assemelhava a um relincho.

  Levou a mão à garganta largando o copo e a cerveja entornou-se sobre a cama.

Carlota, por sua vez, levantou a vista da bandeja. Os seus olhos claros dilataram-se. Com a boca aberta fixou a mãe e começou a choramingar. Deixou-se escorregar e cobriu a cabeça  com as roupas. A bandeja caiu estrondosamente no chão.

Ninguém pronunciou palavra. A garganta da senhora Neily contraíra-se convulsivamente. Fez um movimento estúpido para esconder a garrafa sob o seu penteador. Por fim murmurou :

- Queria conservar-lhe um pouco as forças... depois de todas estas emoções... mas tudo quanto ela tomou... foi apenas  esta cerveja para doentes!

O seu olhar de criminosa assustada traía-a. Francis sentiu-se  enojado, diminuído e humilhado. Foi com dificuldade que encontrou palavras para se exprimir.

- Creio que a senhora lhe tem dado de comer todas as noites... depois da saída da irmã, que a supõe a dormir, não é verdade?

- Não, senhor abade. Deus é testemunha!

Fez uma última e desesperada tentativa para negar, depois considerou-se derrotada e a partir daí perdeu completamente a cabeça.

- E depois, que mal há nisso? Eu não podia ver a minha pobre filha morrer de fome. Mas, senhor, eu nunca teria permitido  que se prestasse a isso se tivesse sabido que se ia fazer tanto barulho... as multidões... os jornais... Estou até contente  por isto ter acabado... Não... não seja duro para com ela, senhor abade.

- Não me compete julgá-la, senhora Neily - limitou-se Francis a dizer em voz baixa.

Ela pôs-se a chorar.

Francis esperou pacientemente que a mulher se acalmasse, sentado numa cadeira perto da porta, olhando fixamente para o chapéu entre as mãos. A inépcia de toda aquela comédia, a incomensurável idiotice de toda a Humanidade confundiram-no.

 Quando as duas mulheres estavam mais calmas, ele disse-lhes:

- Contem-me como tudo aconteceu.

Aos trancos e barrancos, entrecortadamente, a história foi reconstituída, na maior parte por Carlota:

Ela tinha lido um livro muito bonito, da biblioteca da igreja,  acerca de bem-aventurada Bernadete. Um dia, passeando junto do poço de Santa Maria, o seu passeio favorito, notara que a água corria. «Isso é interessante», pensou, surpreendida com a coincidência entre aquela água, Bernadete e ela própria.

 Foi um choque. Ela mesma imaginara, numa espécie de transe, que tinha visto a Santa Virgem. Ao chegar a casa, quanto mais pensava nisso mais convicta ficava. A sugestão transformou-a completamente. Estava branca e tremia; teve de ir para a cama e mandou chamar o padre Mealey. Sem que soubesse o que fazia, pôs-se a contar-lhe a história.

Toda aquela noite experimentou uma espécie de êxtase;

o seu corpo parecia ficar duro como uma tábua. Na manhã seguinte, ao acordar, notou os estigmas. É verdade que frequentemente  lhe apareciam manchas, mas estas eram diferentes.

Então ela acreditou. Nesse dia a comida repugnou-lhe;

quando lha vinham trazer, afastava-a com um gesto. Estava demasiadamente feliz, muito excitada, para comer. Muitos santos, outrora, segundo se dizia, tinham vivido sem alimento.

 Ela persuadiu-se de que o poderia fazer também. Quando ela declarou ao padre Mealey e ao deão que estava em estado de graça - e talvez realmente assim acontecesse - foi uma sensação gloriosa. As atenções que recebia davam-lhe a impressão  de estar noiva. Mas, está claro, depois de certo tempo, ficou com uma fome terrível. Não podia, porém, decepcionar o padre Mealey e o deão, especialmente pelo respeito que lhe testemunhava o primeiro. Assim, confiou-se à mãe e fez-lhe ver que, tendo as coisas ido tão longe, ela agora tinha a obrigação  de a ajudar. Desde então a mãe trazia-lhe uma refeição abundante, algumas vezes duas, todas as noites.

- A princípio, como eu lhe disse, padre, era maravilhoso . continuara ela a narrar. - O melhor de tudo foi a congregação  das filhas de Maria a orar na rua em frente da janela!

 Mas quando os jornais começaram a ocupar-se do caso fiquei realmente assustada. Pararia com certeza se me tivesse sido possível.

Mas a irmã Teresa não era fácil de enganar. As manchas das mãos estavam a desaparecer e, em vez de estar toda extasiada  e feliz, começava a sentir-se abatida, acabrunhada...

Uma explosão de soluços terminou a sórdida revelação, lamentável como as garatujas de um garoto numa parede, mas trágica também como a estupidez da Humanidade.

A mãe acudiu:

- O senhor não vai contar isto ao deão, não é verdade, padre?

Francis não se sentia irritado, mas triste e estranhamente apiedado. Se ao menos o infeliz caso não tivesse ido tão longe…   Ele suspirou.

- Não, nada lhe contarei, senhora Neily. Não lhe direi uma palavra. Mas - hesitou - tem a senhora que lhe confessar.

Um louco terror apoderou-se da mulher.

- Não, não... por piedade, não, padre!

Francis começou calmamente a insistir com elas para que confessassem porque o projeto que o deão tinha imaginado não podia ser baseado numa trapaça, tanto mais que mais tarde  ou mais cedo seria desmascarada. Confortou-as assegurando-lhes  que a curiosidade despertada pelo milagre em breve  se extinguiria.

Deixou-as uma hora mais tarde, um tanto apaziguadas, com a promessa de que seguiriam o seu conselho. Mas enquanto os seus passos ressoavam, através das ruas desertas, o seu coração sangrava de pena pelo deão Geraldo Fitzgerald.

O dia seguinte passou. Andou ocupado em visitas a maior parte do tempo e não viu o deão. Mas, quando chegou, uma falta de animação, uma atmosfera de depressão parecia flutuar  no presbitério. A sensibilidade de Francis captou-a nitidamente. Pelas onze horas do dia seguinte Malcolm Glennie irrompeu pelo seu quarto.

- Francis! Tens de me ajudar. Ele não vai prosseguir com o projeto. Pelo amor de Deus, vai e fala com ele.

Glennie estava fora de si, pálido, os lábios trêmulos, os olhos esgazeados. Gaguejava.

- Não sei o que lhe aconteceu. Deve estar louco. Era um plano estupendo. Seria tão útil...

- Não tenho qualquer influência sobre ele.

- Tens, sim. Ele tem uma alta opinião a teu respeito. E tu és padre. Deves pensar no teu rebanho. Seria uma grande coisa para os católicos.

- Isso dificilmente poderá interessar-te, Malcolm.

- Mas sim - murmurou Glennie. - Eu tenho idéias largas. Admiro o catolicismo. É uma bela religião. Eu desejo muitas vezes... oh, por amor de Deus, Francis, faz qualquer coisa antes que seja tarde de mais.

- Lamento, Malcolm. Foi uma decepção para todos nós.

Voltou-se e dirigiu-se para a janela.

Então Glennie perdeu todo o domínio sobre si mesmo.

Agarrou o braço de Francis e suplicou-lhe abjetamente.

- Não me desgraces, Francis. Tu deves-nos tudo. Eu comprei  um pedaço de terreno, empreguei nele todas as minhas economias e nada valerá se o plano falhar. Não deixes a minha pobre família arruinada. Minha pobre mãe! Pensa que ela te criou, Francis. Por favor, por favor, convence-o. Eu farei tudo o que quiseres. Tornar-me-ei mesmo católico se entenderes!

Francis olhava através da janela, com as mãos crispadas na cortina, o pórtico da igreja, encimado por uma cruz de pedra  cinzenta. Um pensamento sombrio perpassava-lhe pelo espírito. O que não faria a Humanidade por dinheiro? Até mesmo vender a alma imortal.

Falho de argumentos, Glennie calou-se por fim. Convencido, finalmente, de que nada obteria de Francis, lembrou-se da sua dignidade. Mudou de atitude: - Então, não queres ajudar-me? Pois bem: eu lembrar-me-ei.

 Ajustarei contas com todos vocês, nem que rebente!

Parou à porta com o rosto pálido demudado pela raiva.

- Deveria contar que morderias a mão que te alimentou.

Que mais poderia eu esperar desta súcia de papistas imundos?

Atirou a porta com violência atrás de si.

A impressão de vazio continuava a reinar no presbitério, uma atmosfera vaga em que as pessoas perdem os contornos exatos, tornam-se sombras sem substância. Os criados andavam  nas pontas dos pés, como se estivessem numa casa mortuária.

 O padre lituano parecia desorientado. Anselmo Mealey  andava de um lado para outro com os olhos no chão. Fora profundamente atingido, mas guardava silêncio, o que numa pessoa tão naturalmente expansiva era uma graça singular.

Quando falava era de outros assuntos. Distraía-se apaixonadamente  com o seu trabalho nas missões estrangeiras.

Durante mais de uma semana depois da explosão de Glennie,  Francis nenhum encontro teve com Fitzgerald. Depois, uma manhã, quando entrava na sacristia, encontrou o deão despindo as vestes. Os meninos do coro já se tinham retirado.

Os dois estavam sós.

Não obstante a sua humilhação pessoal, o deão estava absolutamente  senhor da situação. O capitão Hollis espontaneamente  tinha rasgado os contratos. Arranjara uma colocação  para Neily numa cidade distante: o primeiro passo para disfarçadamente afastar a família. A imprensa fora submetida  com diplomacia. Depois, no domingo, o deão subiu outra vez ao púlpito. Enfrentando a congregação silenciosa, versou o tema: «Ó homens de pouca fé!» Tranquilamente, com serena intensidade, ele desenvolveu a seguinte tese: que necessidade tem a Igreja de novos milagres?

 Não está já suficientemente justificada como um milagre  eterno? Os seus fundamentos estão solidamente assentes  em rocha, sobre milagres de Cristo. Uma manifestação como a do poço de Santa Maria é agradável, sem dúvida, mesmo  excitante. Todos, inclusivamente ele próprio, se haviam deixado prender. Mas refletindo mais tranquilamente, para quê tanto ruído à volta de uma única flor, quando o Rei do Céu ali mesmo, na Igreja, diante dos seus olhos, lhes oferece os frutos da sua graça? A sua fé era tão fraca, tão pusilânime,  que precisavam de mais provas materiais? Tinham então  esquecido aquelas solenes palavras: «Bem-aventurados aqueles que não viram e creram?Verdadeira obra-prima de eloqüência, este sermão teve um sucesso maior do que o do domingo anterior. Mas só Geraldo Fitzgerald, ainda deão, como  antes, conheceu a extensão do seu sacrifício.

A princípio, na sacristia, o deão pareceu disposto a manter  a sua inflexível reserva. Mas quando se preparava para sair, com a sua capa negra atirada para os ombros, voltou-se subitamente. À luz clara da sacristia, Francis ficou surpreendido  ao ver as profundas rugas que vincavam a sua bela face, a fadiga expressa nos seus grandes olhos cinzentos.

- Não se trata de uma mentira, padre, mas de um amontoado  de mentiras. Enfim, seja feita a vontade de Deus!

Prosseguiu depois de uma pausa:

- O senhor é uma boa pessoa, Chisholm. É pena que eu e o senhor não nos possamos entender.

E saiu da sacristia, ereto.

Pela Páscoa o acontecimento estava quase esquecido. A gradezinha  branca colocada à volta do poço, no primeiro entusiasmo  do deão, ainda estava lá, mas a pequena porta aberta  oscilava tristemente sob a leve brisa da Primavera. Algumas  almas piedosas ainda lá iam, de vez em quando, rezar e benzer-se com a cristalina água da nova fonte.

Francis, absorvido pelo seu trabalho na paróquia, regozijava-se  por nesse trabalho encontrar o esquecimento. A penosa  impressão apagava-se gradualmente. Restava apenas um vago rancor no fundo do seu espírito, que ele se apressava a dominar e em breve desapareceria por completo. A sua idéia de fundar um campo de diversões para as crianças e os rapazes  da paróquia materializava-se. O conselho municipal permitira-lhe  utilizar um canto do parque público e o deão Fitzgerald  dera-lhe o seu consentimento. Francis mergulhava num mar de catálogos.

Na véspera do Dia da Ascensão chamaram-no de urgência  para junto de Owen Warren. A sua face anuviou-se e ergueu-se  deixando cair dos joelhos uma brochura de um armazém  de artigos de desporto. Embora esperasse havia muitas semanas, temia-o. Desceu rapidamente à igreja, tomou o viático  e dirigiu-se apressadamente, através da cidade cheia de gente, para Glanville Street.

A sua expressão ainda mais se carregou quando viu o doutor  Tulloch, que passeava impacientemente em frente da casa dos Warren. Tulloch também era muito amigo de Owen e parecia profundamente perturbado quando Francis se aproximou -  É o fim? - perguntou Francis.

- Sim - respondeu o doutor com um ar ausente. E depois acrescentou: - Ontem manifestou-se uma trombose na artéria  principal. Inútil mesmo tentar amputar.

 Chego muito tarde?

 Não.

Tulloch dominava dificilmente a sua exasperação. Passou adiante de Francis com rudeza.

- Mas eu já estive lá dentro com o rapaz três vezes enquanto  vinhas a caminho com o teu passo majestoso.

Francis subiu as escadas atrás do doutor. A senhora Warren  abriu a porta. Era uma mulher magra, de cinqüenta anos, exausta pelas semanas de ansiedade, com um vestido escuro, simples. Francis viu que a sua face estava úmida de lágrimas.

 Apertou-lhe a mão num impulso de simpatia.

- Sinto muito, senhora Warren.

Mas ela riu fracamente com um riso que se estrangulava na garganta.

- Entre, senhor abade...

Dolorosamente surpreendido, Francis julgou que o pesar tivesse transtornado o espírito da pobre mulher.

Entrou no quarto.

Owen estava estendido sobre a colcha do leito. Os seus membros inferiores estavam nus, livres de ligaduras. O seu emagrecimento revelava a devastação da doença. Mas ambos estavam agora perfeitamente sãos; nenhum traço de úlcera.

Aturdido, Francis viu o doutor Tulloch levantar a perna direita do pequeno e passar a mão cem firmeza ao longo da tíbia, que ainda no dia anterior era uma massa de carne purulenta.

 Não encontrando resposta no rosto impenetrável do doutor, voltou-se, atordoado, para a senhora Warren e viu que as suas lágrimas eram de alegria.

Ela abanou a cabeça descontroladamente, e com os olhos cheios de lágrimas explicou:

- Eu agasalhei-o bem no carrinho esta manhã, quando toda a gente ainda dormia. Nós não podíamos admitir que ele morresse, Owen e eu. Ele sempre acreditara... se pudéssemos  ir até ao poço... de Santa Maria! Rezamos e mergulhamos a perna na água... Quando voltamos para casa... foi mesmo  Owen... quem tirou as ligaduras!

O silêncio no quarto era absoluto. Foi Owen quem o rompeu.

- Não se esqueça de contar comigo no seu grupo de criket, padre.

Na rua, Willie Tulloch olhou obstinadamente para o seu amigo.

- Tem forçosamente de haver uma explicação científica que nós ainda não conhecemos. Um intenso desejo de se curar...

 uma regeneração psicológica das células.

Deteve-se bruscamente. A sua grande mão tremia sobre o braço de Francis.

--Oh, Deus! Se há um Deus! Bem, mas não falemos a respeito disto!

Nessa noite Francis não pôde dormir. Os seus grandes olhos abertos enfrentavam a escuridão da noite. O milagre da fé!

Sim, a fé em si constitui o milagre. As águas do Jordão, de Lourdes ou do poço de Santa Maria... não faziam diferença alguma. Qualquer charco lamacento bastaria se refletisse a face de Deus.

Momentaneamente, o sismógrafo do seu espírito registrou um traço do conhecimento da grandeza incomensurável de Deus. Orou fervorosamente.

«Ó meu Deus, nós nem mesmo somos capazes de começar  a conceber-Vos. Somos como minúsculas formigas num abismo sem fundo, cobertas por um milhão de camadas de algodão, debatendo-nos... esforçando-nos por descobrir o Céu.

Ó Deus... bom Deus, dá-me humildade... e dá-me fé!» Foi três meses depois que a convocação do bispo chegou.

Francis esperava-a havia algum tempo. Apesar disso, a sua chegada atemorizou-o um pouco. A chuva caía forte quando ele subia a colina para o paço. Só atravessando a correr a distância  que o separava do seu destino conseguiu evitar encharcar-se.

 Arquejante, molhado e salpicado de lama, ele sentia-se muito infeliz. A sua ansiedade aumentou quando se sentou, tremendo um pouco, na imponente sala de espera, olhando para o seu calçado enlameado, num contraste tão gritante com o belo tapete vermelho.

Por fim, o secretário do bispo apareceu, fê-lo subir alguns degraus de mármore e indicou-lhe, silenciosamente uma porta  de mogno. Francis bateu e entrou.

Sua Reverendíssima estava à sua mesa, não curvado sobre o trabalho, mas descansando, com a face apoiada numa das mãos e o cotovelo sobre o braço da cadeira de couro. A luz do dia declinante traçava um raio oblíquo através dos rideaux de veludo da alta janela e avivava o tom violeta do seu barrete,  mergulhando a sua face na sombra.

Francis deteve-se, desconcertado pela impassível figura, hesitando  em reconhecer o seu velho amigo de Holywell e de San Morales. Nenhum som perturbava o silêncio do aposento a não ser o débil tique-taque do relógio de Boule sobre o fogão.

Por fim uma voz severa elevou-se:

- Então, padre, mais algum novo milagre a comunicar esta noite? E a propósito, antes que me esqueça, como vão os seus salões de dança ultimamente?

Francis sentiu um aperto na garganta e quase gritou de alívio.

 Sua Reverendíssima continuava a examinar a figura do pobre vigário pregada no amplo tapete.

- Devo confessar que é um alívio para os meus velhos olhos ver um padre tão manifestamente pobre. Ordinariamente  eles vêm aqui parecidos com prósperos agentes funerários.

 O fato que usa é abominável... e, quanto ao calçado, horrível!

Levantou-se lentamente e adiantou-se para Francis.

- Meu caro amigo, estou encantado de o ver. Mas está horrivelmente magro.

Colocou a mão no ombro de Francis.

- E, meu Deus, horrivelmente molhado também!

- Fui apanhado pela chuva no caminho, monsenhor!

- Como? Não tem guarda-chuva? Venha aqui para junto do fogo. Venha aquecer-se.

Foi a um pequeno armário e tirou um frasco e dois cálices.

- Eu ainda não estou bem aclimatado à minha nova dignidade.

 Deveria tocar uma campainha e mandar vir um desses bons vinhos que nos livros todos os bispos saboreiam. Isto é apenas Glenlivet, mas eu julgo que é a bebida que melhor pode ser apreciada por dois escoceses.

Estendeu a Francis o pequeno cálice de whisky puro, viu-o beber e depois bebeu o seu. Sentou-se do outro lado do fogão.

- Por falar de dignidade, não me olhe com tanto medo.

Eu estou todo adornado, admito-o. Mas por baixo está a mesma  anatomia desajeitada que o meu amigo viu a atravessar o Stinchar!

Francis corou.

- Sim, monsenhor.

Calaram-se um momento depois do qual o bispo continuou, calmo e sério.

- Pobre rapaz! Tens levado uma vida bastante apertada, suponho, depois da tua partida de San Morales.

Francis respondeu em voz baixa.

- Com efeito, fracassei lamentavelmente.

- Sim?

- Sim, eu já contava com isto... uma reprimenda da vossa  parte. Eu sei que não agrado ao deão Fitzgerald.

- Só desejas agradar a Nosso Senhor, hem?

- Não, não. Estou realmente envergonhado, descontente comigo mesmo. É esta minha natureza rebelde e incorrigível.

E calou-se.

- A mais recente das tuas iniqüidades parece ter sido o fato de não teres comparecido a um banquete em honra do conselheiro Shand... que acaba de fazer uma generosa doação  de quinhentas libras para a edificação do novo altar-mor.

Será possível que tenhas dúvidas sobre à integridade do digno  conselheiro, que, segundo ouvi, é um pouco menos piedoso nas suas relações com os inquilinos dos seus tugúrios de Shand Street?

- Eu... - Francis interrompeu-se, confuso. - Não sei.

Eu fiz mal em não ir. O deão Fitzgerald recomendara-nos especialmente  que deveríamos comparecer... ele dava grande importância àquilo. Mas tive um impedimento.

- Que foi? - interrogou o bispo.

- Fui chamado para ver uma pessoa naquela tarde. - Francis falava com grande relutância. - O senhor deve recordar-se... Edward Bannon... a doença tornou-o irreconhecível  agora, paralítico, babando-se... uma caricatura de homem.

 Quando chegou o momento de partir, ele agarrou-me a mão, implorando-me que não o deixasse. Não pude fazer outra coisa... ou reprimir uma terrível piedade por aquele...

aquele grotesco, proscrito moribundo. Adormeceu murmurando:

 «João, o Padre, João, o Filho, João, o Espírito Santo»,  com a saliva a escorrer pelo queixo barbudo, segurando a minha mão... Fiquei até amanhecer.

Houve um silêncio mais prolongado.

.- Não admira que o deão ficasse aborrecido por teres preferido  o pecador ao santo.

Francis deixou pender a cabeça.

- Eu estou aborrecido comigo mesmo. Em vão me esforço  por me corrigir. É estranho... Quando era rapaz, estava convencido de que os padres eram infalíveis e perfeitos.

- E agora apercebes-te de quão horrivelmente humanos nós somos. Sim, sem dúvida que é fraqueza minha que a tua «natureza rebelde» me alegre, mas acho-a um antídoto refrescante  para a insossa piedade a que estou sujeito. Tu és como um gato extraviado que passa silenciosamente pela igreja  quando todo o público boceja ao ouvir um sermão monótono.

 Não é uma metáfora deslocada... porque pertences à igreja, mesmo que não ligues bem com os que obedecem a todas as regras estabelecidas. Não creio que seja lisonjear-me  dizendo que eu sou provavelmente o único clérigo desta diocese que te compreende realmente. Tens sorte por eu ser o teu bispo agora.

- Ninguém melhor do que eu o reconhece, monsenhor.

- Para mim - prosseguiu Sua Reverendíssima meditativamente  - não és um fracasso, mas um retumbante sucesso.

 Tens mesmo necessidade de um pouco de encorajamento...

 de forma que me arriscarei a umas dores de cabeça por tua causa. És um espírito curioso e uma alma terna. És capaz de distinguir entre refletir e duvidar. Não és um desses nossos  eclesiásticos retroseiros que precisam de ter tudo em pacotinhos  bem ordenados... prontos para serem entregues. E o que mais me agrada em ti, meu caro rapaz, é que tu és desprovido  dessa segurança insolente que se apóia mais no dogma  do que na fé.

Durante o silêncio que se seguiu Francis sentiu uma grande  ternura pelo velho. Conservou os olhos baixos. A voz calma  continuou:

-- Naturalmente, a menos que façamos alguma coisa para o impedir, haverá questão. Se terçarmos armas a teu favor, a briga generalizar-se-á e haverá muita cabeça partida... inclusive  a tua! Oh, sim, eu sei, tu não tens medo. Mas eu tenho. És demasiadamente precioso para seres lançado às feras. Queria propor-te outra coisa.

Francis levantou a cabeça vivamente, encontrando o olhar tranqüilo e afetuoso do bispo, que sorria.

- Imaginas que eu te trataria com esta camaradagem se não pretendesse que fizesses alguma coisa por mim?

- Tudo o que quiser... - gaguejou Francis.

Francis não sabia que dizer.

O bispo esteve muito tempo calado: o seu rosto imóvel parecia esculpido...

- É um grande sacrifício... uma mutação total que sugiro...

 se for demasiado deves dizer-me. Mas eu creio que é justamente o que te convém. A nossa Sociedade das Missões  Estrangeiras prometeu-me, finalmente, um vicariato na China. Quando estiverem prontas todas as formalidades e te tiveres preparado queres ser o primeiro a tentar a aventura?

Francis permaneceu completamente imóvel, paralisado pela  surpresa. Tinha a sensação de as paredes desabarem sobre ele. Semelhante proposta era tão inesperada, tão fantástica, que ele ficou literalmente com a respiração suspensa. Deixar a sua terra, os seus amigos, e partir para o desconhecido, um salto no vácuo... Mas, lenta, misteriosamente, uma estranha animação o dominou. Respondeu numa voz entrecortada:

- Sim... irei.

Mac le Roux curvou-se tomou a mão de Francis. Os seus olhos estavam úmidos e tinham uma penetrante fixidez.

- Eu estava convicto de que aceitarias, meu querido rapaz.

 Eu sei que justificarás a minha confiança. Mas devo advertir-te:

 aquilo por lá não será uma pesca de salmão.

 

Cristo na China 

Estava-se no princípio do ano de 1902. Um velho junco, muito inclinado para um lado, navegava preguiçosamente.

Subia um dos intermináveis braços do rio Ta Hoang, na província  de Chek-Kow, distante cerca de mil e seiscentos quilômetros  de Tien Tsin. Na proa vinha uma figura de padre católico  de sandálias e com um capacete colonial na cabeça. Era Francis, que, com as pernas sobre o gurupés e o seu breviário sobre um dos joelhos, deteve subitamente a sua desesperada luta com as palavras chinesas - de que cada sílaba parecia arranhar-lhe a laringe, contento tantas inflexões como a escala  cromática - para repousar, e deixou errar a vista sobre a paisagem castanha e ocre. Sentia-se fatigado depois de dez noites passadas naquele cubículo estreito que lhe haviam indicado  como sendo o seu camarote e, na esperança de respirar  um pouco de ar puro, havia aberto caminho por entre os seus companheiros de viagem cuja bagagem obstruía todo o espaço: camponeses, cesteiros, curtidores de Sen Siang, bandidos,  pescadores, soldados e mercadores que seguiam para Pai Tan, ombro a ombro, falando, fumando, cozinhando entre  cestos de patos e pombos e grades com porcos e uma cabra  que balia presa a uma corda. Apesar da sua firme resolução  de suportar friamente aquela mistura de cheiros, ruídos e as mais inesperadas companhias, estava, no fim de dez dias, verdadeiramente extenuado. Intimamente dava graças a Deus e a Santo André por ser aquela a sua última etapa, pois à noite, salvo algum atraso imprevisto, estaria por fim em Pai Tan.

Apesar da chegada iminente, não conseguia convencer-se de fazer parte integrante daquele mundo novo e fantástico, tão distante, tão estranho, tão extraordinariamente diferente  do mundo que ele conhecia ou esperava conhecer. Era como  se a sua vida sofresse uma distorção repentina, tomasse uma forma grotesca. Correu a vista ao redor de si e suspirou.

Aqueles que estavam ali viviam a sua vida normal, dentro do seu próprio meio. Ele não. Era um ser estranho, um intruso,  exótico, diferente.

Fora-lhe muito penoso despedir-se dos seus. Ned, felizmente,  falecera pouco tempo antes da sua partida, ponto final da sua miserável existência. Intimamente dava graças aos Céus por assim ter sido. Mas Polly ficara. E implorava a Deus que lhe fosse permitido tornar um dia a vê-la. Era um conforto  pensar que Judy encontrara colocação como datilógrafa na municipalidade de Tynecastle. Era um lugar que lhe oferecia  certa segurança e esperanças de promoção.

Como que para fugir a esses pensamentos, tirou do bolso a carta em que a sua nomeação era confirmada. Fora-lhe enviada  pelo padre Mealey, que cessara a atividade na paróquia  de S. Domingos para se consagrar exclusivamente ao seu novo posto de secretário da A. M. E. (Associação das Missões  Estrangeiras.)

Francis recebera-a na Universidade de Liverpool, onde durante  um ano se dedicara intensamente ao estudo da língua chinesa:

Meu querido Francis:

Sinto-me sinceramente jubiloso por poder dar-te boas notícias.

 Acabamos de saber que a cessão a nosso favor de Pai Tan, no vicariato de Chek-Koiv, pela administração da Sociedade  das Missões Estrangeiras foi ratificada pela Congregação  de Propaganda da Fé. Ficou resolvido na nossa reunião de hoje, em Tynecastle, que nada deverá retardar a tua partida.

 Até que enfim posso dar-te a oportunidade de partir para a tua missão gloriosa no Oriente!

Pelas informações que tenho, Pai tan é um local encantador,  um pouco para o interior, mas banhado por um lindo rio. É uma cidade florescente, que se ocupa com especialidade na indústria da fabricação de cestos, e onde há notável abundância  de cereais, carne e aves, e também muitas frutas tropicais.

 Mas o mais importante é que a nossa missão é abençoada  e próspera, embora infelizmente se encontre privada de seu pastor há mais de um ano; apesar de tudo continua florescente. Lamento não possuir qualquer fotografia, mas posso assegurar-te que as instalações são das mais satisfatórias.

 Compreendem a capela e uma casa para o vigário rodeadas  por muralhas. (Só a palavra faz pensar em aventuras). Lembras-te  da nossa infância, quando brincávamos aos índios?

Desculpa o meu entusiasmo. Mas o melhor de tudo é a estatística.

 Junto uma cópia do último relatório do teu predecessor,  o padre Lawler, que há cerca de um ano voltou para S. Francisco. Não tenho necessidade de analisar agora esse documento, que estudarás sem dúvida nos mínimos detalhes, mas não resisto, porém, ao desejo de chamar a tua atenção para o fato de em menos de três anos terem-se conseguido, na missão de Vai Tan, mil batismos, dos quais apenas um terço ministrados in articulo mortis. Não é extraordinário, Francis? Isso mostra como a graça de Deus pode tocar os corações  mais empedernidos, mesmo entre templos pagãos 1.

Meu amigo, sinto-me sinceramente jubiloso por te ter sido concedida esta magnífica oportunidade. Não tenho a menor dúvida de que tu, com a tua habitual atividade, conseguirás aumentar o rebanho. Espero ansioso o teu primeiro relatório.

Creio que encontraste finalmente o teu próprio destino e que as pequenas excentricidades de linguagem e de gênio que no passado te trouxeram aborrecimentos não serão obstáculos à tua atividade quotidiana. A humildade, Francis, é a própria  essência dos santos. Rezo por ti todas as noites.

Escrever-te-ei mais tarde. Entretanto faz os teus preparativos.

 Precisarás de sotainas de duração. As ceroulas curtas são as indicadas, bem como uma cinta. Dirige-te à casa Hanon  & Filho. Lá encontrarás tudo. Trata-se de pessoas sérias, muito piedosas, da família do organista da catedral.

Talvez nos vejamos mais cedo do que supões. As minhas novas funções tornaram-me num grande viajante. Não seria maravilhoso se nos pudéssemos encontrar nos encantadores jardins de Pai Tan?

Renovo aqui as minhas felicitações e votos de felicidade.

Teu devotado irmão em Jesus Cristo, ANSELMO MEALEY Secretário da Sociedade das Missões Estrangeiras Diocese de Tynecastle Uma agitação crescente que reinava no junco era indício de que dentro de pouco tempo estariam em terra. Depois de vencer uma larga curva do rio, o barco penetrava agora numa grande enseada de águas sujas atravancada por uma verdadeira  flotilha de sâmpanas e Francis olhava ansiosamente para a cidade. Lembrava-lhe uma colméia, diante do cais de barro  vermelho, rumorejante de sons com luzes amareladas a cintilar.

 A seus pés, na água barrenta, um sem-número de barcos e jangadas estavam ancorados, enquanto a cidade se destacava no fundo de montanhas rosadas.

Esperava que a missão tivesse mandado um barco para o receber, mas via apenas um barco particular destinado a receber  o senhor Chia, um mercador opulento residente em Pai Tan, e que, silencioso e vestido de cetim, surgia agora pela primeira vez à vista dos demais passageiros, emergindo do seu camarote.

Era um homem de cerca de trinta e cinco anos, mas de ar tão grave que parecia mais velho. Tinha a pele de um amarelo-dourado  e os cabelos tão negros que dir-se-iam molhados.

Permaneceu de pé, numa atitude de olímpica indiferença, enquanto  a ralé se movimentava à sua volta. Embora não tivesse  sequer movido os olhos na sua direção, Francis sentia que estava a ser observado minuciosamente.

As múltiplas ocupações do comissário de bordo atrasaram o desembarque de Francis e da sua bagagem. Subindo para uma das sâmpanas apertava contra si um grande guarda-chuva de seda, com as cores do clã de Chisholm, que lhe fora oferecido  pelo bispo Mac Nabb no momento da sua partida.

À medida que o barco se ia aproximando da margem do rio a sua excitação aumentava. Lá estava um grande aglomerado  de chineses. Quem sabe se a congregação à sua espera, ansiosa toda ela por lhe desejar as boas-vindas! Seria um remate  verdadeiro reconfortante para aquela interminável viagem.

 O coração batia-lhe quase que dolorosamente diante de tão auspiciosa expectativa. Mas ao saltar em terra compreendeu  que se enganara. Ninguém o esperava. Teve de abrir caminho por si mesmo, através daquela massa compacta de povo.

Depois de haver dado alguns passos, entretanto, deteve-se subitamente. Diante dele, sorrindo amavelmente, estava um casal de chineses. Os seus fatos eram de um azul imaculado e traziam, para se fazerem reconhecer, imagens coloridas da Sagrada Família. Os dois aproximaram-se dele, com um agradável  sorriso, revelando um intenso prazer em dirigir-lhe a palavra, e fazendo alternadamente profundas reverências e múltiplos sinais da cruz.

As apresentações foram feitas com menos dificuldade do que ele esperava. Perguntou num tom de agradável surpresa:

- Quem são?

- Somos Hosannah e Filomena Wang, meu padre!

- Pertencem à missão?

- Sim, sim, o padre Lawler construiu uma excelente missão.

- Podem guiar-me até lá?

- Com todo o prazer! Mas talvez o nosso querido padre queira honrar com a sua presença o nosso humilde lar...

- Muito obrigado. Mas prefiro dirigir-me primeiro à missão.

- Naturalmente. Iremos então à missão. Trouxemos carregadores  e uma cadeirinha para o nosso querido padre...

- Foram muito amáveis mas, sinceramente, preferiria ir a pé.

Sorrindo sempre, agora com o sorriso a refletir uma sombra  de pesar, Hosannah voltou-se e trocou algumas rápidas palavras com o homem da cadeirinha que estava ali à espera e, com ele, uma verdadeira avalanche de carregadores, e mandou-os  embora. Dois deles, porém, ficaram; um encarregou-se  da mala e o outro do guarda-chuva e seguiram.

As ruas eram tortuosas e sujas, mas para Francis constituiu  um verdadeiro prazer poder estirar as pernas livremente,  depois de tantos dias de inatividade sobre o junco. Uma onda de calor abençoado percorreu-lhe o corpo. E tanto quanto  lhe era possível avaliar no meio do seu constrangimento, sentia nitidamente a tarefa imensa que lhe estava reservada ali. Era preciso conquistar estas almas, estes corações!

Apercebeu-se de que nesse momento, justamente, o senhor Wang se detinha cortesmente para lhe dirigir a palavra:

- Há uma agradável moradia aqui... na Rua dos Fabricantes  de Redes...  apenas cinco taels por mês... talvez o nosso reverendo padre gostasse de passar aqui a noite...

Francis deteve-se, surpreendido, considerando-o com divertida  surpresa.

- Não, não, Hosannah... Vamos para a missão!

Houve uma pausa. Filomena tossiu. Francis não compreendia  porque não avançavam. Hossannah sorriu polidamente e anunciou:

- Aqui, amado padre, é que é a missão...

Primeiro não compreendeu. Diante deles, na margem do rio, estendia-se um terreno baldio, queimado pelo sol, onde a chuva cavara grandes poças, rodeado por uma cerca destroçada.

 Numa das extremidades distinguiam-se os restos de uma antiga capela feita de tijolos crus, sem teto, uma das paredes derruída completamente e as outras a custo mantidas de pé.

Havia ainda as ruínas daquilo que outrora devia ter sido uma casa. Ervas daninhas cresciam livremente ali.

Uma única construção se via ainda de pé, um pouco arruinada  é certo, com o seu teto de colmo: o estábulo.

Durante alguns minutos Francis ficou mudo de estupor.

Depois voltou-se lentamente para os Wangs, que, lado a lado,  o contemplavam, tão iguais como dois irmãos siameses.

- Como foi possível isto? - perguntou.

- Era uma bela missão, meu padre. Custou-nos muito dinheiro e fizemos muitos sacrifícios para poder pô-la de pé.

Mas o bom padre Lawler construiu-a muito próximo do rio.

E o Diabo mandou muita água, muita chuva...

- Onde está então a gente da congregação?

- É uma gente má, sem fé no Deus do Céu...

Os dois falavam rapidamente completando um as explicações  do outro, gesticulando.

- O nosso bom padre há de compreender quanto depende dos seus catequistas. Desde que o bom padre Lawler partiu nunca mais recebemos os nossos quinze taels mensais. Assim foi impossível manter esse povo fraco e sem crença dentro da religião...

Esmagado, consternado, o padre Chisholm correu os olhos pelo que via. Eis em que estado se encontrava a missão, e aqueles eram os seus únicos paroquianos... A lembrança da carta que trazia no bolso produziu-lhe uma súbita irritação.

Fechou os punhos e pôs-se a refletir.

Os Wangs brindavam-no com uma onda de palavras procurando  persuadi-lo a voltar para a cidade. Com certo esforço,  conseguiu livrar-se deles, daquela presença importuna e desagradável. Era, afinal de contas, um verdadeiro alívio poder sentir-se só.

Resolutamente levou a sua pequena bagagem para o estábulo.

 Em tempo um estábulo tivera a glória de servir de morada  ao Senhor. Olhando em volta de si descobriu no chão de terra batida um pouco de palha seca. Sem água nem provisões,  podia felizmente contar com um leito. Abriu a mala, retirou os seus cobertores e procurou tornar o lugar mais habitável que pôde. Subitamente soou um gongo. Francis saiu do estábulo. Do outro lado da cerca derrubada, junto do templo  mais próximo dos muitos disseminados pela colina, estava  um bonzo venerável, com uma cabaia amarela vestida e uns espessos sapatos de pano calçados, que, ao bater na lâmina  de metal, enchia a hora crepuscular de um ruído profundamente  melancólico. Os dois padres - o de Cristo e o de Buda - contemplaram-se em silêncio. Em seguida o velho chim voltou-se, subiu indiferentemente os degraus do templo e desapareceu.

A noite caiu rapidamente. Francis ajoelhou-se no meio das ruínas e ergueu os olhos para o Céu. Orou intensamente com uma convicção sombria.

«Deus, meu bom Deus, Vós quereis que eu parta do nada.

É esse o castigo da minha vaidade, da minha estúpida arrogância.

 Assim será! Lutarei, trabalharei arduamente e jamais abandonarei o meu posto. Jamais!» De volta ao estábulo, procurou dormir apesar do zumbido de nuvens de mosquitos e de mariposas que enchiam o ar abafado. Subitamente aflorou-lhe um sorriso aos lábios. Não se sentia heróico, mas ridículo. Santa Teresa comparava a vida a uma noite passada num hotel. Decerto que aquele para onde o destino o lançara estava longe de ser um Ritz!

Amanheceu por fim e Francis pôs-se de pé. Tirando o cálice  do seu estojo de cedro, improvisou um altar sobre a mala e rezou a sua primeira missa, ajoelhando-se no solo do estábulo.

 Sentiu-se revigorado. A chegada de Hosannah Wang não o perturbou.

- O reverendo padre deveria ter esperado para que eu o ajudasse à missa. Isso faz parte das minhas obrigações e para  isso me pagam. E agora não lhe parece que devemos ir procurar um alojamento para o senhor na Rua dos Fabricantes  de Redes?

Francis refletiu. Embora resolvido a ficar ali até que a situação melhorasse, era óbvio que teria de encontrar um local  mais adequado para exercer o seu ministério.

- Vamos - disse por fim.

As ruas estavam cheias de movimento. Cães corriam por entre as suas pernas e porcos fossavam nos detritos nas poças  de lama. As crianças perseguiam-no com gritos e macaquices.

 Os mendigos estendiam as mãos, suplicantes. Um velho que expunha os seus artigos de comércio na Rua das Lanternas  cuspiu hostilmente à passagem daquele «diabo estrangeiro».

 Um barbeiro afiava as suas imensas navalhas no lado oposto. Havia um grande número de mendigos, de aleijados, e muitos deles, tornados cegos pela varíola, avançavam por entre a multidão batendo no chão com as suas compridas bengalas de bambu e emitindo um curioso silvo, agudo e prolongado.

Wang conduziu-o, por fim, a um aposento num primeiro andar, pobremente dividido com paredes de bambu e papel, mas que de certo modo se prestava para o fim que ele tinha em vista. Com o pouco dinheiro de que dispunha pagou um mês adiantado ao locatário, um homem chamado Hung, e dispôs o crucifixo sobre a sua única toalha de altar. A lamentável  falta de todo o material necessário para o seu ministério  preocupava-o. Convencido de que encontraria tudo em abundância na «florescente missão», trouxera muito pouco consigo. Mas, de qualquer maneira, estava instalado.

Wang tinha saído antes, e Francis, ao descer, viu lá em baixo, na loja, que Hung havia separado duas ou três moedas das que lhe havia dado em pagamento da casa e as passava  a Wang, com uma curvatura. Embora tivesse já apreciado  o justo valor daqueles adeptos que o padre Lawler lhe havia legado, Francis sentiu-se transbordar de indignação. Uma vez na rua, dirigiu-se tranquilamente para Wang:

- Lamento, Hosannah, mas não lhe posso pagar quinze taels mensais.

- O padre Lawler pagava-os. Porque não pode o reverendo padre pagá-los?

- Porque sou pobre, Hosannah. Tão pobre como o Senhor.

- Quanto poderá pagar então?

- Nada, Hosannah! Eu nada recebo também. É o Senhor do Céu que nos recompensará!

Wang não deixava de sorrir.

- Então talvez Hosannah e Filomena devam dirigir-se a pessoas que os saibam apreciar. Em Sen Siang os metodistas pagam dezesseis taels para os catequistas de valor. Mas com toda a certeza o bom padre mudará de opinião. Encontrará muita hostilidade em Pai Tan. O povo considera as feng-shua da cidade - as leis do Templo e da Ordem - em perigo pela  intromissão dos missionários.

Esperou resposta do padre. Mas Francis ficou calado. O silêncio tornou-se incômodo. Depois Wang curvou-se polidamente  e partiu.

Francis sentiu o coração apertado ao vê-lo desaparecer.

Teria agido inteligentemente afastando os amáveis Wangs?

A verdade era que os Wangs não eram cristãos, mas simples oportunistas que só acreditavam em Cristo na medida em que o fato lhes pudesse proporcionar dinheiro. Do outro lado eles representavam o único ponto de contacto que ele possuía com a comunidade. Teve a noção, repentinamente, de que estava completamente só.

À medida que os dias passavam aquele horrível isolamento  aumentava, agravado com a sensação de impotência. Lawler,  seu predecessor, havia construído uma casa sobre a areia.

Incompetente, crédulo, apoiado em abundantes recursos, havia  perdido a cabeça. Andara de um lado para outro, distribuindo  dinheiro, batizando a torto e a direito, adquirindo uma lista de cristãos atraídos unicamente pelo amor do arroz.

Vítima inconsciente de centenas de especuladores, embalado de  ilusões, vaidoso e todo feliz com o seu sucesso, enchera longos  relatórios de sonhos desvairados. Da sua passagem nenhum traço ficara. Nada mais restava - a não ser entre os funcionários da cidade - senão uma recordação desprezível daquela  idiotice estrangeira.

Além da pequena quantia que lhe fora entregue para as suas despesas pessoais e de uma nota de cinco libras que Polly lhe havia metido na mão no momento da sua partida, Francis não possuía qualquer outro dinheiro. Haviam-no advertido de que seria inútil pedir assistência à sociedade diocesana há pouco fundada. Atormentado pelo exemplo de Lawler, sentia  agora uma espécie de satisfação íntima pela sua falta de recursos. Jurou, com ardente sinceridade, que nunca compraria  adeptos. Faria tudo com a graça de Deus e com a ajuda das suas próprias mãos.

Tudo estava ainda por fazer. Pôs um letreiro no exterior da sua capela improvisada. De nada serviu. Ninguém apareceu.

 Os Wangs haviam-se apressado a espalhar por toda a parte que o novo padre era pobre e que nada tinha para distribuir  senão palavras amargas.

Tentou pregar ao ar livre, defronte do Palácio da Justiça.

Troçaram dele. Aqueles que não se riam dele pareciam nem sequer o ver. Esses fracassos humilharam-no. Um chinês de lavanderia que se dispusesse a falar de Confúcio nas ruas de Liverpool teria mais sucesso. Obstinadamente fazia-se surdo ao demônio insidioso que lhe sugeria que admitisse a sua própria  incompetência.

Orava, orava desesperadamente. Acreditava ardentemente na eficácia da prece.

«Oh, Deus, Vós tendes-me atendido sempre. Ajudai-me agora, eu Vos suplico.» Em certas ocasiões a raiva cegava-o. Por que razão o haviam  mandado para ali, para aquele buraco perdido do mundo?

 A tarefa ultrapassava as forças humanas. Estava mesmo para além de Deus! Desterrado naquele lugar tremendo, sem poder comunicar com ninguém, a seiscentos e cinqüenta quilômetros  de distância do missionário mais próximo, o padre Thibodeau, em Seng Siang, não podia manter-se.

Açulada por Wang, a hostilidade popular aumentava. As crianças dirigiam-lhe motejos. Quando passava pela cidade uma verdadeira multidão de coozeí perseguia-o insultando-o.

Se parava um deles aproximava-se e satisfazia as suas necessidades  fisiológicas perto dele. Uma noite, ao voltar para o estábulo,  uma pedra atirada da escuridão atingiu-o na testa.

O instinto combativo de Francis acordou subitamente. Ao tratar do ferimento, envolvendo a cabeça numa ligadura, ocorreu-lhe  uma idéia, que o mergulhou em reflexões. Sim, era preciso, precisava de aproximar-se do povo... e talvez estivesse  ali a solução... pouco importava que fosse uma solução  primária... havia de ajudá-lo no seu intento.

Na manhã seguinte alugou, por dois taels mensais, o quarto  das traseiras do andar térreo de Hung e abriu um dispensário  público. Não era especialista, Deus o sabia, mas tinha freqüentado o curso de primeiro socorros e a longa convivência  com o doutor Tulloch também muito o ajudaria.

A princípio ninguém se arriscou a aparecer e Francis suava de desespero. Mas pouco a pouco, guiados talvez pela curiosidade,  um ou dois surgiram para o consultar. Havia sempre epidemias grassando pela cidade e os métodos dos médicos chineses eram simplesmente bárbaros. Saiu-se bem. Não exigiu  dinheiro nem conversão. Pouco a pouco, a clientela aumentou.

 Escreveu ao doutor Tulloch enviando-lhe as cinco libras da tia Polly e pedindo que lhe comprasse medicamentos e ligaduras. Se a capela permanecia vazia, o dispensário, em compensação, estava muitas vezes cheio.

À noite, entre o que restava ainda da missão, entregava-se a tristes meditações. Impossível reconstruir sobre uma terra sujeita a inundações. E contemplava, com uma santa cobiça, aquela colina ridente, a colina do Brilhante Verde Jade, guarnecida  de cedros, onde templos pagãos estavam disseminados.

 Tudo aquilo pertencia a um rico chinês chamado Pao, membro da camada de negociantes e magistrados, todos aliados  pelos casamentos, que detinha nas suas mãos todos os negócios da cidade. Saía pouco de casa. Quem lhe tratava dos negócios era um primo, um digno mandarim de uns quarenta  anos, alto e magro, que vinha vigiar e pagar aos trabalhadores  que se ocupavam na exploração das barreiras de argila vizinhas da colina. Que lugar admirável para erigir uma igreja  ao Senhor!

Minado por aquelas semanas de isolamento, de perseguições,  de desolação, Francis não se encontrava no seu estado normal. Nada possuía. Nada valia. Mesmo assim, um dia atreveu-se  a falar com o rico mandarim no momento em que ele atravessava a rua para tomar a sua cadeirinha. Não tinha a menor idéia do que representava a incorreção daquele intempestivo  apelo. Na realidade não sabia o que fazia. Comia mal, a febre dominava-o.

Dirigiu-se ao mandarim com a maior simplicidade:

- Tenho admirado inúmeras vezes as belas propriedades que o senhor administra com tanta competência.

Surpreendido, o mandarim, primo do poderoso senhor Pao, dirigiu os seus olhares para aquela criatura estranha, de olhos em fogo, com- uma ligadura suja sobre a testa. Com uma fria polidez permitiu que o padre continuasse ali diante dele a perpetrar sucessivos ataques à língua chinesa. Em palavras rápidas diminuiu a sua pessoa, toda a sua família, as colheitas, as suas posses miseráveis, fez alusão ao mau tempo e às atribulações  por que passara a cidade no ano findo para se desembaraçar  dos bandidos de Wai-Chu. Em seguida abriu cortesmente  a porta da sua cadeirinha. Quando Francis fez a conversa incidir novamente sobre as terras da colina do Brilhante  Verde Jade, sorriu friamente:

- Essa propriedade é uma pérola de valor inestimável.

Só em extensão tem mais de sessenta mus. Sombra, muita água, pastagens, além de possuir barro de excelente qualidade  para o fabrico de louça, tijolos, etc. O senhor Pao não pensa em vendê-la. E creio mesmo que já recusou pelo terreno  nada menos que quinze mil dólares de prata.

Perante aquele preço, dez vezes maior do que os seus mais loucos cálculos, Francis sentiu as pernas dobrarem-se-lhe. A febre cessou como por encanto. Sentiu-se fraco, tonto, profundamente  envergonhado por se deixar levar pelo sonho absurdo de adquirir aquelas terras. Tremulamente, agradeceu  ao primo do senhor Pao, murmurando desculpas confusas.

Ao notar o triste desapontamento do padre, o chinês deixou  escapar através da sua máscara reservada uma certa expressão  de desdém:

- Porque veio o Shang Foo para cá? Não haverá ímpios para regenerar na sua terra? Nós não somos descrentes. Temos  a nossa religião. Os nossos deuses são mais antigos que os vossos. O outro Shang Foo fez alguns cristãos aqui lançando-lhes  um pouco de água na cabeça ao mesmo tempo que cantava:

 «Ah... ah... ah...» Deu-lhes também comida e roupas.

Dava-lhes tudo para que cantassem. E eles cantavam para ter que vestir e comer. É isso que Shang Foo deseja também?

Francis olhou-o em silêncio. O seu rosto magro estava extremamente  pálido e olheiras fundas lhe enegreciam os olhos, perguntou serenamente:

- Acredita que seja essa a minha ambição?

Houve um curto silêncio. Por fim o primo do senhor Pao baixou os olhos:

- Desculpe-me - disse em voz baixa. - Não o compreendi.

 Vê-se que é um homem bom. Lamento que as terras do meu primo não estejam em condições de lhe servirem. Haverá  alguma outra coisa em que possa ser-lhe útil? - perguntou,  com uma sombra de simpatia a transparecer-lhe no rosto. E ali permaneceu com um ar um pouco ansioso, como se quisesse pedir desculpas, desfazer a má impressão causada pelas suas palavras. Francis pensou um momento e em seguida  perguntou:

- Diga-me: não existe um só cristão por aqui?

O primo do senhor Pao respondeu lentamente:

-Talvez; mas não será em Pai Tan que os encontrará.

Interrompeu-se e depois continuou:

- Entretanto ouvi dizer que existe um povoado cristão nas montanhas de Kwang...

Fez um gesto vago na direção dos montes distantes:

- Parece tratar-se de uma aldeia que é cristã há muitos  anos... Mas é muito longe... A muitas léguas de distância...

Um raio de luz penetrou nas densas trevas em que o cérebro  de Francis estava mergulhado.

- Isso interessa-me profundamente. Não poderia dar-me informações mais detalhadas?

O outro abanou a cabeça, desolado:

- É um lugarejo perdido nas montanhas. O meu primo ouviu falar dele por ocasião das suas múltiplas viagens de negócios.

Francis inquiriu ansiosamente:

- Não poderia pedir-lhe informações? Não lhe seria possível  informar-se do caminho a seguir? Talvez um mapa...

O primo do senhor Pao ficou um instante pensativo, e em seguida retorquiu:

- Talvez seja possível. De qualquer maneira, falarei sobre isso com o senhor Pao, e não deixarei de dizer-lhe que tivemos  uma muito simpática conversa.

Saudou e retirou-se.

Francis voltou para as suas ruínas, transfigurado já por novas esperanças. Ali, com alguns cobertores, uma bilha de água e alguns utensílios que comprara na cidade, instalara um acampamento primitivo. Enquanto preparava a sua ração de arroz, as suas mãos tremiam de emoção. Uma aldeia cristã!

 Era preciso descobri-la a todo o custo! No fim de tantos meses de infrutíferos esforços sentia-se novamente conduzido,  inspirado por Deus.

Absorvido nas suas reflexões continuava sentado quando um ruído estranho o despertou. Corvos grasnavam ali perto, numa disputa feroz em torno de qualquer presa, na margem do rio. Ergueu-se para os espantar e enquanto os pássaros sinistros  batiam as asas à sua volta descobriu o motivo da luta.

Flutuando nas águas barrentas via-se um corpo de uma menina  recém-nascida.

Trêmulo de piedade recolheu o pequeno cadáver, embrulhou-o  num pedaço de pano e enterrou-o num canto do terreno.

 Depois orou. Enquanto recitava o ofício dos mortos pensava  que afinal de contas a sua presença naquela terra estranha  e hostil não fora de todo inútil.

Duas semanas depois, em pleno desabrochar de um Verão precoce, estava pronto para a partida. Colocou um letreiro no dispensário, declarando-o fechado por curto espaço de tempo;

 depois, fixando-os às costas com correias, enrolou roupas e cobertores, preparou provisões e, munido do seu guarda-chuva,  partiu.

O mapa que o primo do senhor Pao lhe entregara era perfeito e artisticamente desenhado, com lindos dragões nos cantos  e uma profusão admirável de detalhes topográficos. Apenas  os nomes naturais estavam substituídos por lindos desenhos  de animais. Mas, ajudado pela palestra que tivera e guiado pelo seu próprio sentido de orientação, Francis estava perfeitamente certo do caminho que deveria tomar. Seguiu a pé na direção do desfiladeiro de Kwang.

Durante os dois primeiros dias atravessou uma região agradável;

 aos arrozais verdes e suaves sucediam-se as matas de pinheiros, cujas agulhas caídas formavam sob os seus passos um tapete macio. Muito perto dos Kwang surgiu-lhe na frente um vale estreito, recoberto de pequenos rododendros selvagens,  e mais adiante um pomar de pessegueiros em flor enchia  o ar de um perfume doce e penetrante.

Começou então a subida penosa das encostas abruptas e alcantiladas.

O frio tornava-se mais intenso a cada passo. À noite, abrigado  na cavidade de uma rocha, ouvia o vento assobiar e o ruído tonitroante das águas da fusão das neves precipitando-se  na garganta. Durante o dia a cintilação da brancura imaculada  dos picos nevados quase o cegava. O ar gelado fazia-lhe doer os pulmões.

No quinto dia atingiu o cume da montanha, um deserto de gelo e rochas, e foi com grande regozijo que começou a descida da vertente oposta. O caminho levou-o a um vasto planalto verdejante, que continuava em colinas suavemente arredondadas. Eram as pastagens mencionadas pelo primo do senhor Pao.

Até ali as montanhas haviam orientado a sua jornada. Dali por diante precisava de confiar apenas na Providência, na sua bússola e no seu instinto de escocês. Resolveu-se resolutamente  pela direção oeste. Os campos lembravam-lhe docemente  a terra natal. Encontrava grandes rebanhos de cabras  e de carneiros que pastavam, e uma gazela fugiu à sua aproximação. Em determinado ponto surpreendeu milhares de patos que fugiram grasnando quando o viram. Os patos ergueram vôo, escurecendo subitamente o céu à sua frente.

Como as suas provisões não eram abundantes achou prudente  encher a sacola de ovos ainda quentes.

O planalto era desprovido de árvores e sem um só caminho que o orientasse. Começava a desesperar de descobrir a povoação. Não havia o menor sinal de aldeia à vista.

No nono dia, muito cedo, quando pensava já em voltar, descobriu um abrigo de um pastor, o primeiro sinal de habitação  que via desde a sua partida. Caminhou rapidamente na sua direção. A porta da barraca estava meio obstruída pela lama e ninguém a habitava. Desapontado, passou tristemente  a vista pela choupana, e de repente viu um rapaz que se dirigia para lá, subindo a colina atrás do seu rebanho.

Era o pastor, um rapazinho de cerca de dezessete anos, pequeno  e nervoso como os seus carneiros. O seu rosto, risonho e inteligente, exprimia espanto. Vestia calças de pele de carneiro  e uma capa de lã. Pendia-lhe do pescoço uma pequena cruz de bronze Yuan, já gasta pelo uso, com uma pomba grosseiramente  gravada. O padre contemplava em silêncio a figura  do rapazinho e a cruz que ele trazia ao pescoço, indiscutivelmente  muito antiga. Por fim o padre Francis recuperou a sua presença de espírito e saudou afavelmente o rapaz, perguntando-lhe  em seguida se sabia onde ficava a aldeia de Liu, e se era de lá.

O pequeno sorriu.

- Eu sou da aldeia cristã. Chamo-me Liu Ta. O meu pai é o padre da igreja de lá...

E acrescentou polidamente:

- Um dos padres...

Calaram-se novamente. O padre Francis achou preferível deixar as demais perguntas para mais tarde:

- Também sou padre - explicou -, e vim de muito longe.

 Ficar-te-ia muito reconhecido se me levasses até à tua casa.

A aldeia estava instalada num vale acidentado, a cinco li de distância a oeste.

Não passava de um agrupamento de cerca de trinta casas, rodeadas por pequenos campos de cereais, vedados por muros de pedra. Uma pequena igreja de pedra a dominava, situada sobre um montículo, colocada no centro, atrás de uma bizarra pirâmide de pedra a que uma grande árvore dava sombra.

Ao penetrar no povoado, toda a população imediatamente o cercou. Homens, mulheres, crianças, cães puxavam-lhe pelas  mangas, tocavam-lhe nas botas, examinavam-lhe o guarda-chuva,  com gritos de admiração. Entretanto Ta procurava dar explicações à sua gente num dialeto incompreensível para Francis. A multidão compunha-se talvez de sessenta pessoas, de tipo primitivo e robusto, olhar ingênuo e amigável, com feições cujos traços acusavam laços consangüíneos. Com um ar importante por ser o introdutor daquele ser estranho. Ta conduziu Chisholm até o seu pai, Liu-Chi, um homem baixo e gordo, de barbicha cinzenta, com cerca de cinqüenta anos, maneiras singelas e cheias de dignidade. Falando lentamente para fazer-se compreender, Liu-Chi declarou:

- Sede bem-vindo. É com verdadeira alegria que o acolhemos,  meu padre. Vinde à minha casa, onde podereis repousar um pouco antes de orar.

Conduziu-o para a casa mais importante do lugarejo, construída  sobre alicerces de pedra, próximo da igreja, e introduziu-o  amavelmente num aposento baixo e fresco. Na extremidade  dessa casa distinguiu uma espineta de mogno e um velho relógio de pesos. No mostrador de cobre estava gravado: Lisboa 1632.

Liu-Chi não lhe deu tempo para estudar os objetos mais de perto porque lhe perguntou:

- Deseja o senhor mesmo dizer a missa, padre, ou prefere que seja eu?

Como se estivesse mergulhado num sono, o padre Chisholm apontou para o seu interlocutor:

- O senhor, por favor!

Sentia-se possuído por uma extrema confusão. Compreendia  que seria grosseiro tentar esclarecer aquele mistério com sucessivas perguntas. Era preciso que aos poucos, pacientemente,  o fosse penetrando observando o que via à sua volta.

Meia hora mais tarde estavam na igreja. Embora de pequenas  dimensões, havia sido construída com muito gosto no estilo Renascença, onde se manifestava certa influência árabe. Compreendia três simples arcadas de felizes proporções.

 A porta e as janelas estavam apoiadas em pilares. Nas paredes havia mosaicos, alguns apenas debuxados.

Colocaram-no na primeira fila, à frente de uma congregação atenta. Todos os fiéis tinham lavado cerimoniosamente as mãos antes de entrar. A maioria dos homens e algumas mulheres  tinham a cabeça coberta. Subitamente soou a campainha e Liu-Chi, envergando uma bata amarela, aproximou-se do altar, acompanhado por dois acólitos. Voltou-se para os fiéis, fez uma reverência e cumprimentou também cerimoniosamente  o padre Chisholm. Em seguida deu início ao serviço religioso.

O padre Chisholm assistia, de joelhos, perplexo, imóvel como se assistisse a um espetáculo num sonho. Não tardou a compreender que a cerimônia era uma bizarra revivescência,  uma simples sombra da missa. Liu-Chi não sabia uma palavra  de latim, porque oficiava em chinês. Rezou o Confiteor e em seguida o Credo. Quando subiu os degraus do altar e abriu o missal de pergaminho que repousava sobre o seu suporte  de madeira, Francis identificou, perplexo, passagens do Evangelho solenemente salmodiadas na língua nativa. Era uma tradução original... Piedosamente, retinha a respiração.

Toda a congregação se aproximara para receber a comunhão.

 Até mesmo crianças de peito eram levadas até aos degraus  do altar. Liu-Chi descia trazendo um cálice de vinho de arroz. Molhava o dedo no vinho e deixava cair uma gota sobre os lábios de cada um.

Antes de sair da igreja a assistência reuniu-se diante da imagem do Salvador, depondo hastes de incenso acesas no pesado candelabro colocado junto dos pés da imagem. Em seguida todos se prosternaram três vezes e se retiraram respeitosamente.

 O padre Chisholm permaneceu no templo com os olhos cheios de lágrimas, tocado por aquela cerimônia singela,  cheia de simplicidade infantil, semelhante à que observara  tantas vezes entre os camponeses de Espanha. Não duvidava  da ineficácia daquela cerimônia e sorriu levemente ao lembrar-se da indignação do padre Tarrant ao assistir àquele espetáculo, mas também, estava convencido de que Deus compreenderia  o seu significado.

Liu-Chi esperava-o para o acompanhar novamente à sua casa. Ali lhe foi servida uma copiosa refeição. Faminto, o padre Chisholm fez honra ao grande prato de carneiro estufado  que lhe foi servido, à sopa de couves e ao estranho prato composto de arroz e mel que se seguiu. Jamais havia saboreado  em toda a sua vida um doce tão delicioso.

Quando terminaram o repasto, começou diplomaticamente  a interrogar Liu-Chi. Teria preferido perder a sua própria língua a melindrar aquele bom homem. Doce e confiadamente, Liu-Chi deu-lhe explicações. As suas crenças eram cristãs,  ingênuas como as de uma criança e curiosamente misturadas  com as tradições do Tao-Tê.

Liu-Chi contava que a fé lhes fora transmitida de pais para filhos através de muitas gerações. Sem estar totalmente isolada  do mundo, a aldeia não estava menos distante, e por sua vez tão pequena e fechada sobre si mesma que só muito raramente  aparecia por ali uma criatura estranha. Os seus habitantes  formavam uma grande família. A sua existência pastoril  bastava-lhes. Colhiam cereais e possuíam rebanhos. Bastavam-se  a si mesmos, pois as colheitas eram sempre fartas, mesmo quando o tempo não lhes era favorável. Fabricavam queijo, que guardavam dentro de estômagos de carneiro, e manteiga  de duas espécies, extraída do feijão, a que davam o nome  de chiang. Vestiam-se de lã cardada pelas suas próprias mãos e completavam as suas vestimentas no Inverno com peles  de carneiro. Preparavam também com peles da mesma natureza  uma espécie de pergaminho, muito apreciado em Pequim.

Por vezes, mas com longos intervalos, um membro da família  encarregava-se de ir vender um carregamento desse pergaminho.

A comunidade contava três sacerdotes, a essa vida destinados  desde crianças. Pagava-se por determinados serviços religiosos uma certa quantidade de arroz. Tinham uma devoção  especial pela Santíssima Trindade. E, tanto quanto podiam  lembrar-se, nem mesmo os mais velhos haviam jamais visto um padre ordenado.

O padre Chisholm escutava as explicações de Liu-Chi com atenção concentrada e aproveitou uma pausa para fazer a pergunta que o perturbava mais que tudo.

- Pode dizer-me há quanto tempo remonta a vossa comunidade?

Liu-Chi fixou os olhos com benevolência no seu hóspede.

Em seguida ergueu-se e foi ao quarto vizinho, de onde voltou  com um pacote envolto em pele de carneiro. Estendeu-o silenciosamente ao padre Chisholm, observou este a abri-lo cheio de curiosidade, depois, vendo-o absorver-se a examinar o conteúdo, retirou-se em bicos dos pés.

Tratava-se do diário do padre Ribeiro, escrito em português,  já manchado e gasto pelo tempo, mas ainda perfeitamente legível. O seu conhecimento de espanhol permitiu a Francis decifrar pacientemente o seu conteúdo. O interesse extraordinário do documento fazia-lhe esquecer as dificuldades.

 Estava fascinado. Permaneceu imóvel, absorto, movendo-se  apenas imperceptivelmente nos momentos em que voltava  as páginas. Retrogradou trezentos anos, quando o velho relógio, agora parado, começara a trabalhar.

Manuel Ribeiro era um missionário lisboeta que viera a Pequim em 1625. Parecia a Francis estar a ver o padre português  bem vivo diante de si: um jovem de vinte e nove anos, delgado, vivo, de pele bronzeada, entusiasta, de olhos ardentes,  mas humildes. Em Pequim o padre Ribeiro havia caído em simpatia ao padre Adam Schall, o célebre jesuíta alemão, missionário, cortesão, astrônomo e grande amigo do imperador  Tchun-Tchin. Durante alguns anos o padre Ribeiro havia  partilhado do favor de que gozava aquele homem extraordinário,  suficientemente hábil para viver no meio das intrigas da corte do Celeste Império, e que pregava a fé cristã até mesmo  no harém imperial, confundindo os incrédulos pelas espantosas  predições sobre cometas e eclipses, autor de um novo  calendário, e que havia sabido conquistar amizades poderosas  e honrosos títulos.

O padre português pedira que o enviassem para a corte dos reis da Tartária. Adam Schall havia acedido ao seu desejo.

 Uma caravana suntuosamente equipada e formidavelmente  armada saiu de Pequim no dia da Assunção de 1629.

Não conseguiu, no entanto, atingir a Tartária. Atacada por uma horda de bárbaros emboscados nas montanhas de Kuvang,  os seus defensores abandonaram as armas para fugirem mais comodamente. Tudo o que havia de precioso foi roubado.

 O padre Ribeiro escapou mas, gravemente ferido pelas flechas, não pôde salvar mais que os objetos de seu uso pessoal  e o equipamento eclesiástico. Perdido na neve, esvaindo-se  em sangue, acreditou ter chegado ao final da sua vida e ofereceu-se  em sacrifício a Deus. Mas o frio cicatrizou-lhe as feridas.

 Conseguiu arrastar-se, na manhã seguinte, até a cabana de um pastor, onde permaneceu durante seis meses, entre a vida e a morte. Entretanto tinham chegado a Pequim notícias  de que o padre Ribeiro havia sido chacinado. Nenhuma expedição foi enviada à sua procura.

O padre português, sentindo voltarem-lhe as forças, pensou  em dirigir-se a Pequim. Mas o tempo corria e ele não se decidia a partir. Ali, na solidão daqueles planaltos, tomara-o  qualquer coisa desconhecida, adquirira o hábito da contemplação.

 Além disso Pequim ficava a milhares de li de distância,  um caminho difícil, quase intransponível, mesmo para as almas mais intrépidas. Acabou por tomar outra decisão.

Reuniu um grupo de pastores e propôs-lhes fundar uma povoação.

 Ali construiu uma igreja. E na povoação ficou, sacerdote  e amigo, não do rei da Tartária, mas daquele grupo de gente  pobre e humilde.

Ao terminar a leitura, Francis pousou o diário e suspirou.

O dia caía e ele conservava-se mergulhado nas suas reflexões, estranhamente absorto. Ergueu-se em seguida e dirigiu-se para  junto da pirâmide de pedra vizinha da igreja. Ali ajoelhou-se  e orou sobre o túmulo do padre Ribeiro.

Permaneceu na aldeia uma semana. Suavemente, de um modo cortês e persuasivo, procurando não melindrar os sentimentos  de ninguém, sugeriu algumas alterações em certas práticas. Celebrou missas. E com grande habilidade foi modificando  aqui e ali a maneira de celebrar os ofícios religiosos.

Mas não meses, senão anos de trabalho intenso seriam precisos  para reformar por completo os hábitos ortodoxos daquela  boa gente. E, afinal, para quê? Sentia-se contente por avançar  aos poucos. A comunidade parecia-lhe saudável e pura como um belo fruto.

Contou-lhes lindas histórias. À noite acendia-se um grande fogo diante da casa de Liu-Chi e ali se reuniam todos para ouvir em silêncio as palavras do padre Chisholm. O assunto favorito era a religião que professavam e a sua influência em todo o mundo. Francis falava-lhes então das igrejas da Europa,  das grandes catedrais, dos milhares de fiéis que faziam romarias à Igreja do S. Pedro, de reis e rainhas, nobres, homens  de Estado que se prostravam de joelhos diante do Deus do Céu, o mesmo Deus que eles adoravam ali. Aquela comunhão  cristã dava-lhes uma grande alegria, uma alegria como  há muito não experimentavam, e que os enchia de orgulho  íntimo.

Acompanhavam com ar maravilhado as palavras de Francis,  que, dando-se conta daquela manifestação de ingênua alegria, sentia o espírito do padre Ribeiro muito próximo, extremamente  contente com ele. Por momentos era possuído da tentação de renunciar a Pai Tan a fim de consagrar-se exclusivamente àquela gente simples. Como se sentiria feliz ali! Com que ternura se dedicaria a polir aquela jóia que encontrara  naquele deserto! Mas não. A aldeia era por de mais pequena e longínqua. Nunca poderia fazer dela um verdadeiro centro missionário. E lutava resolutamente contra a tentação.

O pequeno Ta tornou-se o seu companheiro inseparável.

Só o tratava por José, pois fora esse o nome que o pequeno escolhera para ser por ele batizado. Cheio de alegria pelo nome que recebera, conseguira do padre Chisholm permissão para ajudá-lo na missa. E, embora fosse absolutamente ignorante  dos segredos do latim, o padre consentira, com a melhor boa vontade.

Na véspera do dia que escolhera para a sua partida Chisholm  estava sentado diante da casa quando José apareceu com o rosto abatido para assistir à última palestra. Ao observar  a tristeza que se estampava no rosto do rapaz, o padre Chisholm teve uma feliz inspiração:

- José - perguntou-lhe -, gostarias de vir comigo, no caso de teu pai consentir?

O rapaz soltou um grito de alegria, caiu de joelhos e beijou as mãos do padre.

- Mestre, esperava ansioso que mo pedísseis. Meu pai consente.

 Servi-lo-ei de todo o meu coração.

- O nosso caminho será difícil, José.

- Mas somos dois, mestre, e venceremos as dificuldades.

O padre Chisholm, profundamente comovido, fez o pequeno  erguer-se. Tinha a intuição de que fizera qualquer coisa  realmente boa.

No dia seguinte terminou os últimos preparativos para a viagem. José sorridente e afadigado, carregou todos os volumes  sobre dois cavalinhos que tinha ido buscar à pastagem ao amanhecer. Um grupo de crianças o rodeava, e José, com as suas palavras, despertava nelas o desejo de conhecer também as maravilhas do mundo. Na igreja a cerimônia de ação de graças acabava. Ao terminá-la, Liu-Chi fez-lhe sinal para o seguir e levou-a à sacristia. De dentro de uma arca de cedro retirou uma casula magnífica, toda bordada a ouro. Em alguns lugares a seda estava delgada como um papel, mas no conjunto permanecia intacta, pronta a servir apesar do seu preço inestimável. O ancião sorriu ao ver a expressão de espanto  que transparecia no rosto de Francis.

-- Esta pobre alfaia agrada-lhe?

- É maravilhosa - retorquiu Francis, sem esconder o seu assombro.

- É sua.

Não houve protesto que conseguisse convencer Liu-Chi a desistir do seu intento de presentear Francis com aquela admirável  peça sacerdotal. Envolvida cuidadosamente numa pele  de carneiro, foi colocada na bagagem de José.

Por fim, Francis despediu-se de todos. Abençoou-os e prometeu-lhes  solenemente que voltaria dentro de seis meses.

A viagem seria menos penosa que da outra vez; possuía agora uma montada e José seria o seu guia. Depois montaram e, lado a lado, iniciaram a viagem. Lia-se o afeto nos olhares de toda a população, que se reunira para os ver partir. Ao lado de José, o padre Chisholm sentia-se como amparado, fortalecido  por uma grande e nova esperança.

Passara-se todo o Verão depois da sua volta a Pai Tan e agora o Inverno caía sobre a cidade. Com o auxílio de José conseguira Francis tornar o estábulo mais abrigado, tapando as fendas com barro e caulino. Duas camas pequenas encostavam-se  agora à parede vacilante e um fogão de ferro irradiava  calor por toda a casa. José, cujo apetite era respeitável, havia conseguido adquirir já uma bateria de panelas de barro para a sua cozinha. O rapazinho era agora menos angélico, mais humano, e revelara uma inesperada habilidade: subtraía, com rapidez espantosa, os melões mais apetitosos do mercado.

 Era vaidoso e nada o deixava mais feliz que um elogio.

Francis estava resolvido a não abandonar a sua paupérrima habitação enquanto não visse o rumo que os acontecimentos tomariam. Pouco a pouco algumas almas tímidas haviam começado  a acudir à sua capelinha, na Rua dos Fabricantes de Redes. A primeira a aparecer fora uma velha andrajosa, de olhar assustado, meio envergonhada, temendo ser escorraçada,  pronta a fugir a todo o momento. Francis absteve-se de demonstrar ter-se apercebido da sua presença. No dia seguinte voltou acompanhada de uma filha.

O número desconsoladamente restrito dos fiéis não perturbou Francis. Estava firmemente resolvido a não conseguir  adeptos através de adulações ou de simples ofertas de mantimentos. Não os queria comprar nem seduzir, antes esperar  que viessem espontaneamente.

Quanto ao seu dispensário, continuava florescente. Tudo indicava que a sua ausência havia sido sentida. Ao voltar, encontrou um verdadeiro pátio dos Milagres em frente da loja de Hung. A prática havia desenvolvido a sua faculdade de diagnosticar. Apareciam-lhe doentes de toda a espécie:

moléstias de pele, cólicas, tosse, enterites, horríveis infecções dos órgãos visuais e auditivos. Na maioria todas as doenças provinham da mesma causa: falta de higiene e excesso de promiscuidade. A simples higiene e um mero tônico operavam  verdadeiros prodígios. Outras vezes um grão de permanganato  de potássio era mais precioso que ouro em pó.

Precisamente quando os seus parcos recursos em medicamentos  se esgotavam, chegou a encomenda que fizera ao doutor Tulloch. Uma imensa caixa com iodo, gaze, anticépticos  de toda a espécie, óleo de rícino e clorodina, no fundo da qual se encontravam estas palavras, rabiscadas numa receita :

Reverendo - Pensei que era eu quem sonhava ir fazer clínica nos trópicos! E, a propósito, onde foi que se formou em Medicina? Não tem importância - cure quem puder curar e mate os outros. Segue junto uma maleta com diversos objetos indispensáveis a um médico que se preze e uma lista completa de truques médicos. Coisas que lhe serão úteis! Um abraço.

Tratava-se de um admirável estojo onde se encontravam bisturis, tesouras e fórceps. Havia ainda um bilhetinho, à guisa de pós-escrito: Vou denunciá-lo à Associação dos Médicos  Ingleses, ao Papa e a Chung-Lung-Soo...

Francis sorriu a esta facécia, mas a gratidão apertava-lhe a garganta. Com a ajuda daquela nova aparelhagem e a companhia  de José sentia-se possuído de um entusiasmo novo.

Nunca tinha trabalhado tanto e nunca dormira melhor em toda a sua vida.

No entanto numa noite de Novembro foi bruscamente acordado  do seu sono pouco depois da meia-noite. Na densa escuridão  que o rodeava ouvia o ressonar de José. Permaneceu deitado alguns momentos, procurando combater a intranqüilidade  que o perturbava. Mas não o conseguiu. Ergueu-se, por fim, cautelosamente, para não despertar o rapazinho e saiu para o terreno que rodeava o estábulo. O ar gelado da noite cortava como uma navalha. No céu nenhuma estrela brilhava mas da brancura da neve emanava uma claridade estranha.

O silêncio imponente da noite impressionava.

Subitamente, na calma da imensidão gelada, supôs ouvir como que um vagido indistinto. Procurou localizar a direção de onde lhe parecera vir o choro. Acabou supondo-se vítima de uma ilusão auditiva, pois nada mais ouviu.

Mas no momento em que tornava a entrar em casa ouviu como que o pipilar velado de um pássaro moribundo. Estacou indeciso, mas logo em seguida voltou-se e seguiu lentamente pelo caminho coberto de neve na direção de onde lhe parecera  provir o som.

Lá estava, fora do recinto, a cerca de cinqüenta passos de distância do estábulo, um vulto estirado no chão. Pela forma parecia uma mulher com o rosto enterrado na neve. Estava morta, mas junto dela, agitando-se sobre os trapos que lhe cobriam o seio, movia-se qualquer coisa que lhe pareceu ser uma criança. Baixou-se e tomou nos braços o pequeno ser frio e inquieto. O coração batia-lhe desordenadamente. Correndo,  escorregando, quase caindo, dirigiu-se para casa, tremendo,  excitado, chamando José aos gritos.

Depois do fogo reanimado e do aposento iluminado pelas suas alegres chamas, o padre e o seu ajudante curvaram-se para examinar a criança. Não teria mais que um ano de idade.

Os seus olhos negros abriram-se desmesuradamente para contemplar  o fogo. De vez em quando choramingava.

- Tem fome - murmurou José.

Aqueceram um pouco de leite e encheram com ele uma galheta  de altar. Francis rasgou um pedaço de pano branco e introduziu-o, como uma torcida, no gargalo da galheta. A pequena  pôs-se a chupar sofregamente a mamadeira improvisada.

Em poucos minutos o leite esgotava-se e a criança dormia.

O padre enrolou-a carinhosamente num cobertor e colocou-a na sua própria cama.

Sentia-se profundamente emocionado. Aquele estranho pressentimento que tanto o agitara, o aparecimento da criança, o seu desejo de sair de casa, embora a noite estivesse gelada, o ruído que o despertara, tudo aquilo lhe parecia um sinal de Deus.

Era impossível descobrir, pelo cadáver da mulher, quem seria ela, mas havia no seu rosto traços característicos do tipo tártaro. No dia anterior havia passado por ali um bando de nômades. Talvez aquela mulher entorpecida pelo frio, se houvesse atrasado na jornada, transviando-se e morrendo.

Refletia procurando um nome para a criança. Aquele dia era consagrado à festa de Santa Ana. A criança chamar-se-ia, pois, Ana.

- Amanhã, José, temos de encontrar uma mulher que possa  tomar conta desta criança.

José encolheu os ombros.

- Oh! mestre, ninguém adotará uma criancinha.

- Não pretendo fazê-la adotar por alguém - respondeu o padre Chisholm, franzindo o sobrolho.

Via claramente o caminho a seguir. Aquela criança, que lhe fora enviada por Deus, seria o primeiro elemento do orfanato  que pensava fundar desde a sua chegada a Pai Tan. O sonho que ele acariciava tornar-se-ia realidade. Claro que precisaria  de auxílio. Mais tarde as irmãs não recusariam a sua ajuda. E sentado no chão, contemplando a criança que dormia,  sentia haver qualquer coisa, uma mensagem celeste, que lhe afirmava que triunfaria.

Foi José, sempre ao fato de todos os mexericos, quem o informou que o filho do senhor Chia estava doente. A estação fria prolongava-se e as montanhas de Kwang ainda se conservavam  cobertas de neve. José falou casualmente, enquanto soprava os dedos entorpecidos pelo frio:

- Brrrrr... Tenho as mãos quase tão imobilizadas como as do pequeno Chia-Yu.

Chia-Yu havia esfolado o polegar, não se sabia como, mas o resultado fora os «cinco elementos» se terem perturbado; os humores inferiores tinham-se espalhado, tomando todo o braço, que inchara, enquanto o corpo da criança se tornara febril e magro. Os três melhores médicos da cidade estavam a tratá-lo e tinham já sido ministrados os remédios mais caros que havia.

Agora havia sido despachado um mensageiro a Sen-Siang a fim de trazer um caríssimo extrato de olhos de sapo apanhados  apenas durante a Lua do Dragão.

- Ele ficará bom - concluiu José, otimista, exibindo os seus dentes muito brancos, num sorriso. - Esse hao-kao é infalível... felizmente para o senhor Chia, porque Yu é o seu filho único.

Quatro dias depois, à mesma hora, duas cadeirinhas fechadas  detiveram-se diante da casa em cujo andar estava instalada  a capela, na Rua dos Fabricantes de Redes, e dentro de momentos a figura do primo do senhor Pao surgia envolta gravemente numa túnica de algodão e postou-se diante do padre Chisholm. Cortesmente desculpou-se pelo incômodo a que o obrigava e pediu-lhe encarecidamente que o acompanhasse  a casa do senhor Chia.

Atordoado pelo que aquele convite inesperado representava,  Francis hesitou. Sabia que os senhores Chia e Pao estavam ligados por laços de parentesco por virtude dos casamentos na família, que ambos eram da alta sociedade e muito influentes  na cidade. Depois que voltara da aldeia de Liu encontrara frequentemente o distante, fino e elegantemente cínico senhor Pao, primo do senhor Chia. O ilustre mandarim já lhe dera algumas mostras de consideração, mas estava longe de esperar  aquele apelo repentino, aquela manifestação de confiança.

Enquanto se voltava para tomar o casaco e o chapéu, sentiu-se  tomado de uma súbita angústia.

A casa do senhor Chia estava silenciosa, as grandes varandas  desertas e o lago dos peixes coberto por uma finíssima película de gelo. Os seus passos ressoavam, solenes, pelos jardins desertos.

Havia dois maciços de jasmins, completamente despidos de folhas, que permaneciam como dois gigantes adormecidos junto do portão dourado. Da ala da casa destinada às mulheres  vinham ruídos de soluços.

O quarto onde se encontrava a criança estava escuro. Esta repousava sobre um kang aquecido, vigiada por três médicos barbudos que se haviam sentado, muito bem vestidos, sobre uma esteira. De momento a momento um dos médicos erguia-se,  fazia uma reverência e colocava uma brasa sob o kang.

Num canto do quarto, um padre taoísta resmungava exorcismos  enquanto que os seus acólitos o acompanhavam com flautas por trás de uma parede de bambu.

Yu era uma linda criança de cerca de seis anos, de olhos negros, com pele cor de marfim velho, educado rigidamente segundo a tradição dos seus ancestrais, adorado mas não estragado pelos mimos. Agora jazia ali, queimado por uma febre persistente, sob a opressão dolorosa do sofrimento, deitado  de costas, emagrecido, os lábios secos e o olhar fixo no teto, imóvel. O seu braço direito estava horrivelmente inchado,  e sobre ele haviam colocado um emplastro, feito de uma mistura repugnante e de pedaços de papel impresso.

Quando o primo do senhor Pao entrou, acompanhado de Francis, houve um certo constrangimento, seguido de uma pausa. Depois o padre taoísta retomou o seu murmúrio, enquanto  os três médicos, imóveis, continuaram a vigiar o kang.

Curvado sobre a criança, com as suas mãos sobre a sua cabecinha ardente, Francis teve subitamente a noção do que significava aquela discrição aparentemente calma. Sabia que se desencadearia sobre ele uma perseguição feroz se não procedesse  com muito acerto. Precisava de todo o seu sangue-frio.

O estado quase desesperado da criança e os perigos do pretendido  tratamento deram-lhe coragem. Começou por remover  de cima do braço doente toda aquela imundície. Retirou o hao-kao, tantas vezes do seu conhecimento no dispensário.

Dentro de breves instantes o braço estava desimpedido e começava  a ser lavado com água morna. A inflamação tomara um caráter perigoso e a pele coloria-se de um assustador tom esverdeado. Com o coração batendo desordenadamente, Francis  continuava sem hesitações. Retirou de dentro do bolso o estojo que o doutor Tulloch lhe havia mandado e no qual se encontravam o bisturi e os demais apetrechos. Não tinha prática, mas aquilo era um caso de vida ou de morte. Mesmo que não fizesse a incisão no braço da criança, ela, já moribunda,  morreria.

O primo do senhor Pao permanecia imóvel atrás dele. Sentia  que todos os olhos o fitavam ansiosamente.

Mentalmente fez uma súplica a Santo André e com mão firme enterrou o bisturi e fez uma incisão longa e profunda.

Uma golfada de pus irrompeu da ferida, caindo sobre a bacia.

Um cheiro horrível, nauseabundo, encheu o ambiente. Francis parecia nunca ter sentido um cheiro que tanto lhe agradasse.

Apertava a incisão dos dois lados para extrair todo o pus;

a inchação diminuíra de metade e tal alívio o tomou que se sentiu tomado por vertigens.

Quando acabou o curativo, com o braço da criança devidamente  desinfetado e envolto em gaze, surpreendeu-se dizendo  para si mesmo em inglês.

«Agora, com um bocado de sorte, ficará bom!

Era uma velha frase do doutor Tulloch, que lhe ocorrera inesperadamente.

Apesar do seu nervosismo, esforçou-se, quando se retirou, por aparentar a indiferença de quem estava perfeitamente seguro de si e recomendou ao primo do senhor Chia, que o acompanhava em silêncio até à cadeirinha:

- Quando ele acordar, dêem-lhe uma boa sopa. E nada de hao-kao. Voltarei amanhã.

No dia seguinte o pequeno Yu estava muito melhor. A febre tinha desaparecido quase completamente. Havia dormido  bem e tomado algumas taças de caldo de galinha. Sem o toque milagroso daquele bisturi estaria provavelmente morto.

- Continue a alimentá-lo bem - recomendou o padre Chisholm ao partir, sorrindo de satisfação. - Tornarei a vir vê-lo amanhã.

- Muito obrigado - exclamou o primo do senhor Pao. - Mas não é preciso. Nós sentimo-nos profundamente gratos.

O senhor Chia estava prostrado pela dor e agora, que o filho está convalescente, também ele se encontra melhor. Dentro de poucos dias estará em condições de aparecer em público.

O mandarim fez uma reverência, com as mãos dentro das suas compridas mangas, e afastou-se.

O padre Chisholm caminhava apressadamente pela rua.

Havia recusado com uma certa indignação a cadeirinha que lhe fora oferecida. Então era aquele o agradecimento que 189 recebia? Punham-no fora de casa, sem mais nem menos, depois  de ter salvo a criança com risco talvez da própria vida!

Não havia sequer conseguido ver aquele fabuloso senhor Chia que, nem mesmo no junco em que haviam viajado juntos, se tinha dignado olhá-lo. Enraivecido, cerrava os punhos, tomado pelo seu demônio familiar.

«Meu Deus! Dai-me serenidade! Não deixeis que eu cometa novamente o pecado da cólera! Tornai-me humilde, fazei com que o meu coração se encha de tranqüilidade e paciência.

Afinal tudo o que fiz foi por Vossa intervenção. Foi a Vossa piedade que salvou a pobre criança. Que se faça a Vossa vontade,  meu Deus, mas, oh! Senhor! - exclamou numa explosão  repentina - tem de reconhecer-se que estes chins são uma corja de ingratos!» Durante os dias que se seguiram Francis evitou mostrar-se nas ruas mais movimentadas da cidade. Sentia-se profundamente  ofendido no seu amor-próprio. Escutava em silêncio as tagarelices de José sobre os constantes progressos da cura de Yu, da generosidade com que o senhor Chia retribuíra os cuidados dos três médicos, do donativo que fizera ao templo de Lao-Tsen pelos exorcismos com que haviam libertado o seu filho do demônio que o atormentava.

- Não é notável, mestre, o número de pessoas beneficiadas  pelo generoso mandarim?

- É realmente notável - aquiesceu Francis secamente, mas fervendo no íntimo.

Uma semana mais tarde, no momento em que se preparava para fechar o dispensário, percebeu refletida no frasco de permanganato que tinha nas mãos, a figura do senhor Chia.

Teve um sobressalto de irritação mas não proferiu uma só palavra. O rico comerciante envergava o seu fato de gala, um rico trajo de cetim preto com uma jaqueta amarela, sandálias  bordadas a ouro, um gorro de cetim. Tinha uma expressão  de dignidade solene. Trazia nas pontas dos dedos lâminas de ouro para proteger as unhas.

O seu rosto deixava transparecer cultura e inteligência assim  como as suas maneiras revelavam uma educação irrepreensível.

 Mas sentia-se que havia uma sombra de melancolia nos seus olhos graves.

- Eu vim! - exclamou.

.- Sim? - retorquiu Francis, num tom de voz pouco encorajador.

 E continuou a agitar a solução de permanganato.

-- Não pude vir antes - continuou o senhor Chia. - Havia muitas coisas a resolver, muitos assuntos a atender, mas agora - fez uma reverência e exclamou com ar entristecido  - aqui estou.

.- Que pretende? - perguntou Francis.

- Que pretendo? - e no rosto do senhor Chia lia-se claramente  a surpresa. - Tornar-me cristão, naturalmente.

Um silêncio pesou por momentos. Aquele era um instante  que por si só teria pago todos os esforços do padre.

Seria a recompensa suprema daqueles meses de miséria, abandono  e lutas. Ali estava um representante do escol, um membro  da classe privilegiada, pronto a inclinar a cabeça para receber o batismo. Mas no rosto do padre Chisholm não se lia alegria. Mordeu os lábios com impaciência e em seguida perguntou vagarosamente.

- Tem fé?

- Não - respondeu com tristeza.

- Deseja receber instrução religiosa?  Preparou-se para a nova crença?

- Não tive tempo para me instruir. - Uma ligeira reverência.

 - Desejo somente tornar-me cristão.

- Deseja? Que entende por isso?

O senhor Chia exibiu um sorriso pálido.

- Não é claro? Estou pronto a tornar-me cristão.

- Não, não é claro. Vejo apenas que não tem o menor desejo de abraçar a religião que professo. Por que razão veio procurar-me?

O rosto de Francis cobria-se de uma vermelhidão intensa.

- A fim de recompensá-lo - disse simplesmente o senhor Chia. - Prestou-me um serviço imenso. Queria retribuir-lho com uma grande alegria.

O padre Chisholm teve um movimento de irritação. A tentação  era forte; teria grande vontade de ceder, mas não podia.

 Então a sua cólera expandiu-se.

- Isso não seria honesto! - retorquiu. - Seria até um mal. O senhor não tem qualquer desejo de ser cristão. Aceitá-lo  tal como se apresenta seria uma falsidade aos olhos do Senhor. Não me deve coisa alguma. Por favor, retire-se.

A princípio o senhor Chia não queria dar crédito aos próprios  ouvidos.

- Quer dizer que se recusa a admitir-me na sua crença?

- É o que tenho estado a tentar dizer-lhe sem pretender magoá-lo.

Uma transformação instantânea se operou na fisionomia do comerciante. Os seus olhos readquiriram brilho e o ar melancólico  que lhe sombreava o rosto desapareceu como por milagre. Fez um esforço para esconder a sua satisfação, mas sentia-se que tinha vontade de saltar de alegria. Fez três reverências  cerimoniosas e conseguiu mesmo dominar a voz:

- Lamento muito que não me possa aceitar. Naturalmente  sou indigno de tal honra. No entanto suponho que haverá alguma maneira...

Interrompeu-se, perturbado. Fez novamente três reverências  e, caminhando de costas, retirou-se.

Naquela mesma noite, o padre Chisholm, sentado ao lado do fogo, tinha uma expressão tão sombria no semblante que impressionava José. Ocupado em cozinhar os seus moluscos com arroz, o pequeno olhava para ele timidamente de quando em quando. De súbito ouviram-se estrondos de petardos. Seis criados do senhor Chia faziam-nos explodir, cerimoniosamente,  segundo o costume, do lado de fora da cerca, em plena estrada. Findo o ritual, o primo do senhor Pao avançou, fez as reverências da praxe e entregou a Francis um pergaminho cuidadosamente envolvido em papel vermelho.

- O senhor Chia pede-lhe que lhe dê a honra de aceitar este muito indigno presente: são os títulos de posse das terras da colina do Brilhante Verde Jade, com direito às barreiras, terras, águas e tudo o que nelas se contiver. A propriedade passa a ser vossa, sem restrições e para sempre. O senhor Chia pede-lhe ainda que vos digneis aceitar o auxílio de vinte dos seus pedreiros para construir todos os edifícios que o senhor desejar edificar até que fiquem completamente prontos.

E antes que Francis, estupefato, pudesse murmurar uma só palavra, afastou-se. O padre ficou a olhar, os nervos tensos, a estranha figura do primo do senhor Chia, que se retirava serenamente. Por fim conseguiu libertar-se daquela sensação estranha e gritou com todas as forças:

- José! José!

José aproximou-se a correr, temendo uma nova desgraça.

Mas a fisionomia de Francis tranqüilizou-o. Saíram ambos imediatamente para visitar as novas propriedades, e ali, sob os cedros gigantescos, cantaram juntos em alta voz o Magnificai.

Francis permaneceu ali, de cabeça descoberta, vendo com os olhos da imaginação as obras que iria realizar naquele maravilhoso  pedaço de terra. Sentia que o Céu respondera às suas preces, porque ele orara com fé.

O vento frio despertara a fome de José, que estava já impaciente  por voltar a tratar da sua refeição. Mas ali permaneceu,  sem se queixar, compreendendo que aquele momento era de grande solenidade para o seu mestre, partilhando com ele dos projetos que fazia e ao mesmo tempo congratulando-se por ter tido a presença de espírito para retirar a panela de arroz do fogo antes de sair.

Dezoito meses mais tarde, em Maio, quando toda a província  de Chek-Kow gozava daquela temperatura agradável que já não é de Inverno e não é ainda de Verão, o padre Chisholm atravessava comovido o jardim da sua nova missão de Santo André.

Nunca sentira tão perturbadora alegria. O ar era cristalino, doce e ligeiro e um bando de pombos alvos e brilhantes voava pelo espaço. Ao chegar à grande árvore que, segundo os seus planos, dava sombra ao pórtico da missão, olhou à sua volta, um pouco orgulhoso e também apreensivo, como se temesse que o que via fosse uma miragem que subitamente se pudesse  desvanecer.

Mas não. O que estava ali era a realidade. A realidade esplêndida, que lhe mostrava uma igreja graciosa, flanqueada por dois cedros gigantescos, a sua residência, alegrada pelas persianas de cores vivas, depois a escola, a enfermaria e diversas  construções que se escondiam entre as papaias e ameixeiras  que sombreavam o jardim recém-plantado. Suspirava, com um sorriso de beatitude, abençoando a preciosa barreira de argila que lhe proporcionara, depois de uma série de experiências,  os tijolos cor-de-rosa-pálido que tanta graça haviam dado à missão. E dava graças ao Céu pela sucessão de milagres  de que fora beneficiado: a inesgotável generosidade do senhor Chia, a admirável paciência dos operários e a probidade  do construtor. Abençoava até mesmo o tempo magnífico,  que cooperara docemente nos festejos da inauguração.

Ao lembrar-se da singela cerimônia, Francis sorria interiormente,  compreendendo quanto os senhores Chia e Pao haviam  sido gentis comparecendo com as suas respectivas famílias.

 Um fato realmente notável.

Pelo simples prazer de contemplar as aulas, ainda vazias, seguiu pelo caminho que lá conduzia, olhando, como um colegial,  através das vidraças, para as paredes recém-pintadas, os bancos lustrosos que ele mesmo construíra, da mesma forma que os quadros negros. Ao lembrar-se que ele mesmo contribuíra  para modelar aquelas aulas, o seu coração enchia-se de um calor reconfortante. Mas a lembrança da grande tarefa que ainda lhe restava acabou por levá-lo ao outro extremo do jardim, onde, junto da pequena porta e ao lado do seu gabinete de trabalho, estava instalado o pequeno forno de cozer barro.

Muito feliz, despiu a sotaina e, apenas de calças e em mangas de camisa, agarrou numa pá de madeira e começou a amassar barro.

No dia seguinte chegariam as três irmãs. A casa delas estava pronta, ainda fresca, com cortinas brancas e cheiro a cera. Havia uma sala que ainda não estava pronta - um aposento  destinado ao repouso e à meditação, que reservava para elas, e portanto urgia terminar aquela fornada de tijolos. Enquanto  trabalhava a argila, em pensamento detalhava o programa  futuro. Nada mais importante havia do que a chegada das freiras. Elas eram a parte vital do seu programa. Para conseguir o seu auxílio esforçara-se tremendamente, escrevendo  cartas sobre cartas ao padre Mealey e apelando até mesmo para o bispo, orando sem cessar para que os seus desejos se realizassem. Entretanto a missão ia tomando vulto, crescendo perante os seus olhos. «Só um arcanjo», pensava ele, «poderia converter os chineses adultos. A raça, a ignorância e o jugo de uma religião mais antiga, tudo isso constituía um obstáculo quase intransponível se se queria ultrapassar honestamente  e ele tinha a impressão de que o Todo-Poderoso detestava  ser a todo o momento importunado para realizar milagres  em cada caso particular. Era um fato que presentemente  aquela bela igreja representava um motivo aliciante para aproximar um certo número de almas arrependidas que compareciam agora aos ofícios religiosos. Essa gente, para ele, que estava habituado a ver a capelinha abandonada, equivalia a uma multidão.

Todas as suas esperanças, entretanto, se baseavam nas crianças. Ali, sem a menor dúvida, dezenas de crianças seriam abrigadas. A fome, a miséria e a tradição confuciana faziam das pobres pequenas uma espécie de refugo. E ali encontrariam  agasalho, comida, os cuidados contínuos das irmãs, e encheriam a missão das suas brincadeiras, das suas ruidosas expansões.

Aprenderiam a ler e o catecismo. O futuro pertence às crianças, e as crianças, as «suas» crianças, pertenceriam a Deus!

Sorriu aos seus próprios pensamentos ao mesmo tempo que introduzia os tijolos no forno. Sabia que era um desajeitado para lidar com mulheres, mas durante todos aqueles meses estivera ansioso, sempre em contacto com gente estranha, pela companhia de pessoas da sua própria raça, com quem pudesse trocar idéias. Uma das freiras que esperava, madre Maria Verônica, embora nascida na Baviera, havia passado cinco anos no Bom Socorro, de Londres. As outras duas, que lhe estavam subordinadas, a irmã Clotilde, francesa, e a irmã Marta,  belga, tinham vivido em Liverpool. Vindas diretamente de Inglaterra, decerto trariam consigo qualquer coisa do seu próprio lar.

Um pouco ansioso começou a passar revista aos preparativos  que fizera para recebê-las. Rebentariam alguns petardos,  segundo o costume chinês, mas não tantos que assustassem  as senhoras. Mandaria que os fizessem explodir num local mais afastado. As melhores cadeirinhas de Pai Tan esperariam  por elas no cais. O chá ser-lhes-ia servido logo que chegassem à missão. Depois de descansarem um pouco seria a bênção e em seguida iria oferecer-lhes um jantar de festa.

Achava graça ao lembrar-se das extravagâncias que ordenara para esse jantar. Mas as pobrezinhas bem cedo iriam conhecer as dificuldades, a magra ração diária, e por isso não era de mais que tivessem uma refeição condigna no dia da chegada. Para ele o apetite era coisa que não existia. Durante todo o tempo que levara a construir a missão alimentara-se quase exclusivamente de projetos, de planos e de outras coisas abstratas; engolia um punhado de arroz enquanto discutia  com o construtor, trepado nos andaimes. Mas agora havia  mandado José à cidade comprar mangas, picles e - o que poderia imaginar de mais requintado! - abetardas frescas  do Shan Si, no norte.

Subitamente, um ruído de passos interrompeu as suas meditações.

 Ergueu a cabeça. Quando se voltava apercebeu-se de que o portão fora aberto. Três freiras apareceram em seguida acompanhadas por um coolie. Os seus fatos cheios de poeira e o olhar inquiridor que lançavam ao redor de si indicavam  que acabavam de chegar de uma viagem e se sentiam inquietas. Tiveram um momento de hesitação, mas depois caminharam pela área do jardim. A que vinha à frente, uma senhora de cerca de quarenta anos, tinha ao mesmo tempo uma grande dignidade de porte e uma beleza notável. Sentia-se  que nos seus traços havia uma distinção racial e os seus grandes olhos azuis luziam autoritariamente. Pálida de fadiga, exigia do seu orgulho forças para caminhar de cabeça erguida.

Sem prestar grande atenção a Francis, dirigiu-se a ele em chinês:

- Por favor, conduza-nos imediatamente ao padre missionário.

Desconcertado pelo estado em que se encontrava, profundamente  perturbado, Francis respondeu na mesma língua:

- A irmã não era esperada hoje...

- Teremos de voltar para aquele horrível barco?

E, tremendo de indignação contida, a freira ajuntou, energicamente:

- Vamos! Conduza-nos ao padre Chisholm.

Francis retorquiu vagarosamente em inglês:

- Eu sou o padre Chisholm.

Os olhos que pousavam, perscrutadores, nos vários edifícios  da missão voltaram-se incredulamente para o homenzinho  em mangas de camisa. Contemplaram com certo espanto o estranho fato de trabalho, as suas mãos sujas de barro, as botas enlameadas, o que não era de estranhar, pois até o seu rosto apresentava manchas de argila.

Francis murmurou, desapontado:

 Lamento... estou verdadeiramente desolado por não ter ido ao vosso encontro.

Por um momento a freira deixou-se levar pela irritação.

.- Afinal de contas, depois de uma viagem de nove mil quilômetros é natural que se espere ser bem recebida...

- Mas... como a irmã sabe... a carta dizia de modo categórico...

Ela interrompeu-o com um gesto.

- Queira ter a bondade de conduzir-nos aos nossos aposentos.

 As minhas companheiras... - recusava-se orgulhosamente  a admitir a própria fadiga - as minhas companheiras estão absolutamente exaustas.

Francis queria explicar-se, mas a presença das outras duas freiras, dos seus olhares ansiosos, fê-lo sentir-se constrangido.

Conduziu-as, num silêncio humilhante, à casa que lhes era destinada. Uma vez ali deteve-se.

- Conto que se sintam bem instaladas. Mandarei buscar a bagagem... Talvez... talvez queiram jantar comigo hoje...

- Muito obrigado, mas é impossível.

O tom era frio. Lutava para segurar as lágrimas que ameaçavam  inundar-lhe os olhos.

- Ficaríamos perfeitamente satisfeitas se mandasse dar-nos  um pouco de leite e alguma fruta... E amanhã estaremos prontas para o trabalho.

Profundamente desapontado, Francis voltou para casa, a fim de tomar o seu banho e mudar de roupa. Entre os seus papéis encontrou a carta que havia recebido de Tien Tsin, e releu-a cuidadosamente. Não se enganara. A chegada das freiras  estava marcada para o dia 19. Rasgou a carta em pedacinhos.

 Sentia-se corar. Ao descer a escada encontrou-se com José, que chegava, carregado de compras.

- José - gritou -, leva imediatamente essa fruta às irmãs. Depois distribui o resto pelos pobres.

- Mas, mestre...

José não teve coragem de prosseguir, admirado com a expressão autoritária do rosto do padre. Uma vez que não restava outra coisa a fazer senão obedecer, exclamou triste- mente:

- Sim, mestre.

Francis dirigiu-se à igreja, com os lábios apertados, como que procurando conter uma mágoa irreprimível.

Na manhã seguinte as três freiras assistiram à missa. Francis,  inconscientemente, murmurou à pressa a ação de graças, ansioso por avistar-se com a irmã Verônica e falar com ela.

Contava que ela o esperasse à saída mas enganou-se. Nem tão-pouco apareceu para combinar com ele o programa administrativo  e receber instruções. Resolveu então ir procurá-la.

e uma hora depois conseguiu encontrá-la, a escrever, na sala de aula. Ergueu-se imediatamente para recebê-lo.

- Tenha a bondade de sentar-se, madre.

- Muito obrigada - respondeu delicadamente, mas continuou  de pé, com a caneta na mão e o papel de carta sobre a mesa. - Espero os meus alunos.

- Terá esta tarde uns vinte. Há algumas semanas que eu tenho andado a escolhê-los.

Francis esforçava-se por falar num tom ligeiro e amável.

- As crianças parecem-me inteligentes...

A irmã sorriu com uma certa gravidade.

- Faremos tudo o que for possível por elas...

- Há também o dispensário - continuou Francis. - Ficaria  muito satisfeito se a irmã me pudesse ajudar. Os meus conhecimentos sobre o assunto são bastante elementares, mas é simplesmente extraordinário observar-se o bem que proporcionam  mesmo os cuidados mais simples...

- Se assim deseja, estarei presente nas horas de serviço.

Estabeleceu-se um curto silêncio. Embora a irmã Verônica  tivesse mostrado a mais completa urbanidade, Francis sentia haver como que uma reserva, qualquer coisa de constrangido na sua atitude. Fixou os olhos numa pequena fotografia emoldurada  que ela havia colocado sobre a mesa de trabalho.

- Que linda paisagem! - exclamou, procurando fazer desaparecer  aquela estranha barreira que se interpunha entre eles.

- Sim, é realmente bonita.

E os seus olhos fixaram-se na foto de um velho castelo, uma mansão senhorial que se recortava sobre um fundo de altos pinheiros, com jardins e terraços que se espelhavam num lago.

.- É o Castelo de Anheim - explicou.

- Esse nome não me é estranho. Creio mesmo que tem certa importância histórica. Fica próximo de sua casa?

Pela primeira vez ela olhou-o frente a frente; a sua expressão  era fria e distante.

- Muito perto! - exclamou.

O tom da sua voz parecia encerrar o assunto. Esperava, no entanto, que ele dissesse alguma coisa. Mas, em presença do mutismo de Francis, ela prosseguiu com vivacidade.

- Eu e as irmãs que me acompanham estamos ansiosas por colaborar ativamente no progresso da missão. Não terá mais do que dar-nos instruções e tudo será realizado da melhor  forma possível. E ainda - e a sua voz tornou-se um tanto fria - espero que nos conceda uma certa liberdade de ação...

Francis olhou-a perplexo:

- Que quer dizer com isso?

- Sabe que a nossa regra é em parte contemplativa. De forma que desejamos estar isoladas o mais tempo que nos for possível. Por exemplo, tomar as nossas refeições sozinhas…  . e manter separadas as nossas vidas quotidianas.

Francis corou.

- Nunca pensei que pudesse ser de outra maneira. A pequena  moradia que lhes destinei será o vosso convento.

- Então quer dizer que nos permite dirigir os nossos assuntos?

Francis sabia muito bem o que ela queria dar-lhe a entender.

 O fato penalizava-o, mas sorriu, um pouco triste:

- Ora essa! Apenas lhe peço que sejam moderadas a respeito  de dinheiro. Somos muito pobres...

- A ordem a que pertencemos encarrega-se da nossa manutenção.

Francis não pôde deixar de perguntar:

- A vossa ordem não as obriga ao voto da pobreza?

- Sim - retrucou ela imediatamente -, mas não de miséria...

Houve uma pausa. Os dois ficaram um ao lado do outro, em silêncio. Ela dera a audiência por encerrada. Percebia-se isso pelo tom com que pronunciara as últimas palavras. Francis  sentia o rosto a arder. Era com certa relutância que olhava para ela. Por fim exclamou:

- Mandarei José trazer-lhe o horário do dispensário e dos serviços religiosos. Passe bem, irmã.

Depois da partida do padre, ela voltou a sentar-se, com o olhar perdido e uma expressão impenetrável no seu rosto orgulhoso. Em seguida uma lágrima foi-se formando e rolou misteriosamente pela sua face. As suas piores previsões realizavam-se.

 Mergulhou a pena no tinteiro e começou a escrever apaixonadamente:

...E isso já aconteceu, conforme eu temia, meu querido irmão. Senti-me novamente ré do pecado do orgulho, por me ter deixado levar pela horrível arrogância dos Hohenlohe.

Mas poderei realmente censurar-me? Ele acaba de sair daqui, depois de ter tomado banho e feito a barba (notei no seu rosto as devastações das navalhas chinesas), armado de toda a sua implacável autoridade. Eu havia notado, instantaneamente,  no momento em que o vi pela primeira vez, que não passava de um pequeno burguês.

Esta manhã, porém, ele ultrapassou-se. Sabias caro conde, que Anheim era um castelo histórico? Quase não contive a vontade de rir quando os seus olhos encontraram a fotografia.

 Creio que te lembras. Trata-se daquela que eu mesma tirei do barco no dia em que saímos com a mamã para um passeio no lago. Essa fotografia tem-me acompanhado por toda  a parte. É o meu tesouro na Terra. E quando ele me perguntou  se conhecia o lugar, foi como se dissesse: «Foi em alguma excursão turística da Agência Cook que tirou essa fotografia?»  quase lhe respondi: «Foi lá mesmo que nasci!

Mas, felizmente, o meu próprio orgulho me ajudou a calar-me.

Creio que se lhe tivesse respondido assim ele seria capaz de dizer reprovativamente, olhando para as botas ainda sujas de barro, pois se esquecera de as limpar: «Oh! Nosso Senhor Jesus Cristo nasceu num estábulo!

Há nele qualquer coisa que me repugna. Deves lembrar-te de Herr Spinner, o nosso primeiro preceptor...

Para ele não passávamos de uns estúpidos. Lembras-te do seu olhar, às vezes magoado, embora humilde e resignado? Pois bem, os olhos são os mesmos. Talvez o pai dele também tenha sido lenhador, como o de Herr Spinner. Ele também tem lutado para subir, sempre com aquela humildade obstinada. Mas, meu querido Ernst, encaro o futuro sem terror, perdida nesta solidão, onde tudo toma proporções exageradas. Arrisco-me a perder noções que me são habituais cedendo a uma espécie de intimidade mental com um ser que eu desprezo quase que Instintivamente... Esta horrível alegria familiar! Preciso de mostrar o perigo a Marta e a Clotilde; esta, desde que saímos de Liverpool, a pobrezinha, tem estado doente. Estou decidida  a procurar ser amável e trabalhar até o limite das minhas forças, mas só uma completa renúncia, uma reserva total poderão...

Ela deteve-se subitamente, e o seu olhar abstrato perdeu-se  novamente na direção da janela.

O padre Chisholm não tardou a notar que as duas outras irmãs também o evitavam o mais possível.

Clotilde, delgada e delicada, ainda não havia completado trinta anos; um sorriso nervoso perpassava de vez em quando pelos seus lábios descorados. Era muito devota, e quando orava,  com a cabeça inclinada para um lado, as lágrimas corriam dos seus olhos verde-claro. Marta era muito diferente. Já passava  dos quarenta, era forte, tipo de camponesa, morena e saudável. Os seus olhos eram rodeados de pequenas rugas que se tornavam mais fundas quando ria. Expansiva, falava alto e sem reservas, de maneiras rústicas, dando a impressão de estar sempre na sua própria casa, às voltas com os afazeres da cozinha e da capoeira...

Quando, por acaso, o padre Chisholm as encontrava no jardim, a irmã belga fazia-lhe um cumprimento rápido, enquanto  que Clotilde corava e sorria timidamente, murmurando  qualquer coisa. Francis sabia-se o motivo de cochichos.

Por vezes esteve a ponto de as fazer parar abruptamente, dizendo-lhes:

 «Não têm necessidade de fugir de mim. "Sei que as coisas não correram muito bem no dia da vossa chegada, mas, na realidade, sou uma criatura um pouco melhor do que imaginam...”

Continha-se, apesar de tudo, tanto mais que não tinha de 201 que se queixar. O trabalho que lhes competia era executado com a mais rigorosa perfeição. As toalhas do altar novas, ricamente bordadas, empilhavam-se na sacristia. Descobriu também uma estola bordada, fruto de um trabalho laborioso.

Todos os artigos do dispensário, ligaduras, gazes, etc., estavam  sempre preparados para qualquer emergência.

As crianças a cargo da missão estavam confortavelmente instaladas no grande dormitório no rés-do-chão da casa das irmãs. A sala de aula enchia-se do rumor confuso e agradável das suas vozes infantis com o ritmo de uma lição em conjunto.

 Francis, às vezes, parava para escutar, com o breviário na mão, meio oculto entre os arbustos, deliciado com aquelas vozes que tanto significavam para ele, principalmente a escola.

Acabara por conformar-se com a situação que lhe fora imposta.

 Era muito raro entrar na sala de aula que ele mesmo ajudara  a construir. E quando o fazia tinha a sensação de ser um intruso. Retirava-se então com uma amarga lógica. Compreendia  que assim teria de ser. Madre Maria Verônica era uma boa mulher, bonita, orgulhosa, dedicada à sua tarefa. Era um fato que desde o princípio lhe havia dedicado uma indisfarçável  aversão. Essas coisas são impossíveis de evitar.

Afinal de contas, ele não tinha um caráter dominador e admitia não ser do tipo que agrada às mulheres. No entanto a decepção não o feria menos.

O trabalho do dispensário acabara por obrigá-los a estar juntos três vezes por semana! Durante quatro horas Maria Verônica ajudava-o. E ele via perfeitamente a dedicação com que ela se prestava a auxiliá-lo nos curativos e muitas vezes interessava-se por tal forma pelo trabalho que chegava a esquecer-se  de o manter a distância. Nesses momentos falava com ele revelando mesmo certo espírito de camaradagem.

Um dia, pouco mais de um mês após a sua chegada, quando  ele levava a efeito, com sucesso, a operação de um panarício,  ela exclamou involuntariamente:

- O senhor teria dado um excelente cirurgião.

Ele corou.

- Sempre gostei de trabalhar com as mãos...

- É porque as tem hábeis...

Sentia-se ridiculamente contente. A sua atitude nunca fora tão cordial. Quando o trabalho acabou, enquanto guardava os remédios, madre Verônica dirigiu-lhe um olhar interrogativa - Há algum tempo já que eu tenho pensado em tocar-lhe num assunto... A irmã Clotilde tem trabalhado de mais nestes últimos tempos a ajudar a irmã Marta a preparar a comida das crianças. Ela está longe de ser forte e receio que o trabalho  seja excessivo para ela. Se o senhor não acha inconveniente  eu gostaria de arranjar alguém que a ajudasse...

- Mas decerto - concordou ele, alegremente. - Quer que lhe arranje uma criada?

- Não, muito obrigada. Já tenho um casal em vista que me convirá.

Na manhã seguinte, ao atravessar o pátio, viu à janela do convento as duas figuras inconfundíveis de Hosannah e Filomena,  ocupados em sacudir o pó e a escovar toalhas e outras alfaias do culto. Aborrecido, estacou e dirigiu-se imediatamente  à casa das irmãs. Encontrou madre Verônica na rouparia,  ocupada a contar os lençóis. Falou, muito excitado.

- Sinto muito vir perturbá-la, mas... os criados que a senhora  arranjou não nos convêm.

Ela voltou-se lentamente para ele com uma expressão de contrariedade no rosto:

- Creio que isso compete a mim julgar...

- Não quero que julgue que pretendo interferir nas suas atribuições. Mas é meu dever avisá-la de que essa gente não é honesta.

Ela sorriu desdenhosamente.

- É o seu conceito da caridade cristã?

Francis empalideceu. Ela colocava-o numa situação falsa.

No entanto continuou:

- É preciso que tenhamos senso prático. Penso na missão E na senhora...

- Por favor, não se preocupe comigo. Tenho capacidade para olhar por mim - retorquiu com um sorriso glacial.

- Asseguro-lhe que esses Wangs são uns autênticos canalhas.

- Sei que foram indignamente tratados. Eles mesmo me contaram - concluiu enfaticamente.

Francis sentia que estava no limite da paciência:

- Aconselho-a a desembaraçar-se deles!

 - Não o farei.

A sua voz era dura e fria como o aço. Nunca acreditara nele e agora verificava o fundamento da sua animosidade.

Simplesmente porque no dia anterior se havia mostrado um pouco mais complacente, abandonando a sua reserva, no dispensário,  o padre arrogara-se o direito de arvorar-se subitamente  em autoridade metendo-se em assuntos que lhe não diziam respeito. Prometia intimamente não lhe dar outra oportunidade.

- Creio que concordou em deixar a meu cargo a administração  das minhas casas. Peço-lhe, portanto, se recorde de manter o que se combinou.

Francis permaneceu em silêncio. Nada mais tinha a dizer.

Desejava ajudá-la, mas vira que se enganara. Ao afastar-se compreendeu perfeitamente que as relações entre ambos, que ainda há pouco pareciam melhorar, estavam agora mais tensas do que nunca.

A situação afetava-o profundamente. Era-lhe difícil manter-se  sereno quando os Wangs passavam por ele com um ar de irreprimível triunfo. Uma manhã, ao trazer-lhe o seu primeiro  almoço de frutas e chá, José apresentava as falanges inchadas e uma expressão ao mesmo tempo confusa e feliz:

- Mestre, lamento muito, mas tive de meter na ordem aquele canalha do Wang...

O padre Chisholm ergueu-se violentamente, severo:

- E porquê, José?

José baixou a cabeça, contrito:

- Ele passa a vida a dizer coisas a nosso respeito, que a reverendíssima madre é grande senhora e que nós não passamos  de poeira!

- Mas nós somos realmente poeira, José!

- Mas ele diz ainda coisas muito piores.

- Não devemos dar ouvidos a palavras vãs...

- Mas, padre, ele faz mais que injuriar. Ele rouba a madre como num pinhal...

Era exato. Como represália pela oposição de Chisholm, madre Verônica havia investido o casal em situações de responsabilidade.

 Hosannah era agora o mordomo da casa das irmãs, enquanto que Filomena estava encarregada, todas as manhãs, de sair com a cesta das compras para se abastecer no mercado da cidade. Todos os fins dos meses, quando Marta fazia os pagamentos com o dinheiro que recebia de Francis, os dois saíam muito bem vestidos e iam tranquilamente receber  a comissão dos comerciantes. Este roubo organizado era inadmissível para a honestidade e parcimônia escocesas de Francis.

De sobrolho carregado, Francis perguntou severamente a José:

- Espero que não o tenhas deixado muito mal...

- Ora! Creio que lhe dei uma boa lição, mestre...

- Estou muito zangado contigo, José. Como castigo, terás amanhã o dia por tua conta, e além disso podes comprar o fato que há muito tempo desejas...

Naquela tarde, no dispensário, madre Verônica quebrou o seu habitual silêncio antes que Francis começasse a atender os doentes:

- Decidiu desta vez maltratar o pobre Wang?

- Pelo contrário. É ele quem a está a maltratar - respondeu  Francis.

- Não compreendo.

- Ele está a fazer pouco de si. O homem é um ladrão incorrigível e o que a senhora faz é simplesmente dar-lhe coragem para continuar.

Madre Verônica mordeu os lábios.

- Não acredito. Estou habituada a ter confiança nos meus criados.

Durante as semanas que se seguiram manteve-se o silêncio habitual e o parecer carregado do padre indicava o que lhe ia na alma. Era extremamente penoso para Francis conviver com uma pessoa que o detestava e o desprezava abertamente e da qual era o diretor espiritual. As confissões de madre Verônica, que nada confessava, torturavam-no e compreendia que para ela também correspondiam a um verdadeiro suplício.

No momento em que colocava a hóstia sagrada nos seus lábios e ela erguia os seus dedos longos e aristocráticos para o altar, sob a luz fraca do dia que despontava, ele tinha a sensação de que havia naquele rosto pálido e naquelas pálpebras trêmulas  qualquer coisa impregnada de desdém que o afligia.

Começou a ter insônias e a errar pelo jardim durante a noite.

Aquele completo desentendimento atingia-o também durante a sua autoridade. Constrangido, sempre calado, temia o momento em que se veria obrigado a impor a sua vontade.

Foi no Outono que essa ocasião surgiu, originada pela inexperiência  da madre. Não podia deixar de proceder. Suspirando, dirigiu-se a casa das irmãs. Aproximou-se de madre Verônica. Contra a sua própria vontade, tremia-lhe a voz:

- Madre reverendíssima - começou, fixando o olhar nas suas famosas botas -, tem ido à cidade na companhia da irmã Clotilde nestes últimos dias?

- É verdade. Realmente, temos ido juntas... -- afirmou ela, espantada.

Ele não respondeu imediatamente, mas madre Verônica interrogou-o logo em seguida, com sarcasmo:

- Desejará saber o que temos ido fazer?

- Eu sei - respondeu ele esforçando-se por demonstrar calma. - Sei que vai visitar os pobres e os doentes. Mas vai, às vezes, até à porta Manchu. Não resta a menor dúvida de que é meritório. No entanto é preciso que deixe de o fazer.

- Posso saber porquê?

Ele experimentou mostrar-se tão indiferente como ela, mas não o conseguiu completamente.

- Para lhe falar com franqueza, preferia não lho dizer.

As suas narinas revelaram a agitação de que se encontrava possuída:

- Se o senhor pretende proibir os meus atos de caridade, creio que tenho o direito de saber a razão!

- José acaba de informar-me que os bandidos estão novamente  nos arredores da cidade. Wai-Chu recomeçou a luta.

Os seus soldados são perigosos.

Ela fez ouvir um riso de desafio.

- Não tenho medo. Todos os homens da minha família foram sempre soldados...

- Muito interessante, sem dúvida, mas a senhora não é homem, nem tão-pouco é a irmã Clotilde. E os soldados de Wai-Chu nada têm de comum com os oficiais de cavalaria da alta nobreza bávara, pode crer.

Nunca ele empregara aquele tom. O rosto de madre Verônica  cobriu-se de intenso rubor e em seguida de mortal palidez.

 Toda a sua pessoa se inteiriçou.

- A sua maneira de ver é vulgar e cobarde. Esquece-se de que me dediquei a Deus e que portanto estou preparada para tudo: doença, catástrofes, morte; apenas não o estou para dar ouvidos a tolices dessa natureza próprias de romance policial.

Os olhos do padre continuaram fixados nela e pareciam queimá-la como duas brasas. Inflexível, continuou:

-- Deixemos então de dizer tolices. Não terá a menor importância,  como diz, o fato de vir a senhora a ser presa ou seqüestrada. Mas há uma razão mais forte para a privar das suas visitas de caridade. A situação da mulher na China é muito diferente daquela a que a senhora está habituada. Durante  séculos, as mulheres foram banidas implacavelmente das ruas das cidades chinesas. E o fato de a senhora andar livremente  pelas ruas implica uma grave ofensa. Do ponto de vista religioso é prejudicial para a propagação da fé. Por essa razão,  proíbo-lhe terminantemente a ida à cidade sem escolta e sem a minha permissão expressa.

Madre Verônica corou violentamente como se tivesse sido esbofeteada. Ficou petrificada, sem saber o que dizer. Francis preparava-se para se afastar quando ouviu no corredor um súbito rumor de passos precipitados e momentos depois a irmã Marta irrompeu como um pé-de-vento. Estava por tal forma agitada que nem deu pela presença de Francis, meio encoberto pela porta. Nem tão-pouco se apercebeu da atmosfera  tensa que reinava no aposento. Com os olhos esbugalhados,  torcia as mãos e abraçava-se à madre Verônica lamentando-se  em voz alta:

- Eles fugiram... levaram tudo... os noventa dólares que me deu ontem para pagar as contas... as pratas... e até o crucifixo de marfim da irmã Clotilde! Tudo! Eles desapareceram...

 fugiram!

- Quê? Quem fugiu?

As palavras saíam a custo dos lábios de madre Verônica.

- Os Wangs, os Wangs! Aqueles ladrões sujos, ordinários!

Eu sempre lhe disse que eles não passavam de um casal de hipócritas!

Francis não teve coragem de olhar para madre Verônica.

Ela estava ali, perplexa, imóvel. Sentiu por ela uma estranha piedade e afastou-se em silêncio.

Quando o padre Chisholm voltou para sua casa, ainda profundamente  preocupado com o que acabava de passar-se encontrou  o senhor Chia e seu filho, que estavam ali, diante do lago dos peixes, observando tranquilamente as carpas.

Ambos vestiam pesados agasalhos, pois era «um dia de seis casacos». O menino dava a mão ao pai. O crepúsculo avançava  lentamente e prolongava a sombra das árvores sob as quais estavam, mas parecia hesitar em envolvê-los ocultando o quadro  comovedor que representavam.

Os dois costumavam aparecer frequentemente na missão e sentiam-se muito bem ali. Sorriram ao ver o padre Chisholm aproximar-se pressuroso, cumprimentando-os com afabilidade.

Mas o senhor Chia recusou o convite que o padre lhe fez para entrar.

- Nós é que vimos pedir-lhe que venha para a nossa casa - disse. - Partiremos esta noite para as montanhas, onde ficaremos durante algum tempo. Teríamos grande prazer que acedesse a acompanhar-nos.

- Mas - disse Francis, estupefato. - Estamos em pleno Inverno!

- É verdade, meu amigo. Eu e minha indigna família temos  o hábito de nos retirarmos para as montanhas somente nos meses de grande calor. Mas esta inovação talvez seja agradável. Acumulamos lá uma grande quantidade de lenha e temos um depósito imenso de provisões. Não lhe parece, padre, que seria edificante que nos recolhêssemos para meditar  um pouco, lá no meio daqueles picos nevados?

Procurando penetrar no labirinto de circunlóquios do senhor  Chia, que certamente pretendia ocultar qualquer coisa, fixou nele os olhos interrogativos.

- Wai-Chu prepara-se para pilhar a cidade?

Com um erguer de ombros o senhor Chia quis significar o seu desacordo quanto àquela pergunta direta, mas sem demora  respondeu:

- Pelo contrário, meu amigo. Acabo de pagar um pesado tributo a Wai-Chu para que ele e os seus homens nos deixem em paz. Creio que eles não aparecerão por aqui, ao menos por largo tempo.

Calou-se. O padre Chisholm franzia os sobrolhos, mergulhado  numa perplexidade profunda.

.- De qualquer maneira, meu amigo, há outras razões que podem obrigar-nos a procurar a solidão. Peço-lhe encarecidamente  que venha conosco.

O padre abanou a cabeça vagarosamente:

- Lamento muito, senhor Chia... Como sabe, tenho muito que fazer na missão, não posso, pois, abandoná-la. Como poderia  afastar-me deste magnífico estabelecimento que devo à sua generosidade?

O senhor Chia sorria amavelmente.

- As condições aqui são saudáveis agora... Em todo o caso, se mudar de idéia, não deixe de prevenir-me. Vamos, Yu, os carros já devem estar carregados. Estende a mão ao nosso querido amigo, à moda inglesa.

Francis apertou a mão da criança, em seguida abençoou-os.

 O desapontamento que se lia no rosto do senhor Chia preocupava-o. Ficou algum tempo a contemplá-los enquanto se afastavam.

A mesma obsessão acompanhou-o nos dois dias seguintes.

Quase não viu as irmãs. O tempo estava cada vez pior. Grandes  bandos de pássaros voavam na direção do sul. O céu escuro parecia pesar como chumbo sobre todos os seres. No entanto a neve não se decidia a cair com abundância. O próprio  José, sempre alegre, mostrava sinais de depressão e falara  a Francis na possibilidade de voltar para a sua terra.

- Há muito tempo que não vejo os meus pais. Acho que deveria fazer-lhes uma visita. - Interrogado sobre a razão desse súbito desejo de partir, José resmungara, com um gesto vago, que rumores sinistros andavam no ar, anunciando calamidades  do norte, de este, de leste...

- Espera ao menos a chegada dos maus espíritos, José.

Fugirás depois.

O padre Chisholm tentava gracejar para dissipar a inquietação  de seu pupilo e talvez também a sua.

Na manhã seguinte, logo depois da missa, foi à cidade sozinho  com o intuito de se esclarecer. As ruas continuavam pejadas de gente, a vida parecia movimentar-se normalmente, mas havia já um certo número de residências desabitadas e de casas comerciais com as portas cerradas. Na Rua dos Fabricantes de Redes encontrou o senhor Hung a pregar tábuas nas suas janelas com certa pressa.

- Não resta a menor dúvida, Shang-Foo!

O velho comerciante fez uma pausa para olhar com angústia  o seu interlocutor por cima dos óculos.

- É a doença! A horrível doença que eles denominam «morte negra». Já grassa por seis províncias. As pessoas fogem  como podem. O primeiro caso apareceu a noite passada em Pai Tan: uma mulher caiu morta junto da porta Manchu.

Sabe-se o que isto significa. Sim, sim... quando vem a fome temos de fugir; quando vem a peste, fugimos também. A vida não é fácil quando os deuses estão irritados.

O padre Chisholm ao subir a colina a caminho da missão levava impressa no rosto a angústia. Parecia-lhe agora que também sentia o «cheiro» da doença no próprio ar que respirava.

De repente deteve-se. Do lado exterior do muro da missão, no meio do caminho, estavam três ratos mortos. A expressão consternada que se estampou no rosto do padre indicava que compreendera a significação do aviso. Estremeceu, pensando nas crianças. Foi buscar petróleo com o qual regou os ratos, deitando-lhes fogo em seguida. Arrastou o que deles restara, fez uma cova e enterrou tudo.

E ali permaneceu a refletir. A cidade estava a oitocentos quilômetros do mais próximo posto telegráfico. Enviar uma mensagem a Sen-Siang por barco, ou mesmo por um cavalo rápido, demoraria no mínimo seis dias de viagem. No entanto era preciso a todo o custo estabelecer contacto com o mundo exterior. Subitamente o seu rosto iluminou-se. Acabava de ver José. Agarrou-o pelo braço, e conduziu-o com solenidade ao seu gabinete.

- José, vou confiar-te uma missão muito importante. Tu vais servir-te da lancha a motor do senhor Chia, declarando ao canoeiro que tens autorização dele e minha para isso. Se ele recusar dou-te permissão para tomar à força a lancha. Entendes?

- Sim, padre - respondeu José com os olhos brilhantes.

- E não será pecado?

- Uma vez no barco - prosseguiu o padre -diriges-te a toda a velocidade para Sen-Siang. Ali deverás procurar o padre Thibodeau na missão. Se não o encontrares, dirige-te ao escritório da Companhia Petrolífera Americana. Procura alguém de prestígio, que disponha de certa autoridade. Dizes-lhe  que a peste negra grassa aqui e que precisamos urgentemente  de remédios e de provisões. Em seguida vais ao telégrafo  e expedes estes dois telegramas, que redigi. Vê bem:

aqui estão. Um deles é dirigido ao vicariato de Pequim e o segundo ao Hospital Geral da mesma cidade. E agora parte.

Tens aqui dinheiro. Tenho confiança em ti. Procura não ficar mal, José. Vai... e que Deus te abençoe!

Sentiu um verdadeiro alívio, uma hora depois, ao ver o rapazinho descer velozmente a colina com o seu saco azul às costas. No rosto do pequeno lia-se energia e determinação.

A fim de melhor distinguir a partida da canoa, o padre dirigiu-se  à torre. Mas quando atingiu o último degrau a sua vista perturbou-se, porque na planície imensa só pôde ver o que lhe pareceu ser duas fitas movediças de homens e animais que a tal distância mais se assemelhavam a minúsculas formigas:

 uma que se dirigia para a cidade e outra que a abandonava.

 Não se demorou ali. Ao descer atravessou o jardim para se dirigir à escola. Encontrou a irmã Marta que, de joelhos,  limpava o corredor.

- Onde está madre Verônica?

Ela ergueu uma das mãos, ajeitando a touca:

- Na sala de aula. - E acrescentou num sussurro de cumplicidade:

 - Ultimamente tem andado muito perturbada...

Francis dirigiu-se à sala de aula. Os alunos calaram-se imediatamente  ao vê-lo entrar. A vista daquelas filas de crianças inocentes, que se voltaram para ele, causou-lhe uma repentina  angústia. Procurou lutar com todas as forças de que dispunha  contra aquele terror intolerável.

Maria Verônica voltou para ele uma cara pálida e enigmática,  e Francis aproximou-se e falou-lhe em voz baixa:

- Há indícios de que uma epidemia está prestes a atacar a cidade. Receio que seja a peste. Precisamos de estar prevenidos.

Fez uma pausa e, como ela se calava, continuou:

- A todo o custo deveremos evitar o contágio das crianças.

Isto é, temos de isolar a escola e a casa das irmãs. Vou imediatamente  tratar de fazer levantar uma barreira. Tanto as 211 crianças como as irmãs não a ultrapassarão e uma das irmãs deverá ser destacada para manter a vigilância à entrada.

-Calou-se outra vez, esforçando-se por parecer calmo.

- Não lhe parece prudente?

Madre Verônica olhou-o de frente e respondeu com frieza;

- Muito prudente.

- Desejaria propor alguma medida que me tivesse esquecido?

Ela respondeu com amargura:

- Já nos habituou a tomar contacto com os princípios do isolamento.

Ele fingiu não perceber o significado das suas palavras:

- Sabe como se propaga o flagelo?

- Sei.

Houve um silêncio. Francis dirigiu-se para a porta, sinceramente  magoado com a obstinação da freira em não desarmar.

- Se Deus nos mandar essa grande provação, temos de colaborar. Deveremos esquecer as nossas questões pessoais.

- Vale mais, com efeito, esquecê-las.

O seu tom era glacial, mostrando uma aparente submissão, mas deixando transparecer a Francis um abismo de desprezo.

Francis abandonou a sala de aula. Não podia deixar de admirar a coragem daquela mulher. A notícia que acabava de lhe dar abalaria qualquer pessoa.

Disse a si próprio que talvez antes do fim do mês tivessem de enfrentar as mais árduas provações.

Convencido da necessidade de apressar-se mandou o jardineiro  chamar o construtor que trabalhava para o senhor Chia e seis dos homens que haviam edificado a igreja. Logo que chegaram ordenou-lhes que levantassem um muro à volta do espaço que delimitou e com caules de milho secos e barro a obra constituiria uma verdadeira barreira em torno da escola e da casa das irmãs. Mandou também cavar uma estreita vala, na base, onde poderiam ser derramados desinfetantes, se fosse necessário. O trabalho prosseguiu, dia e noite, ininterruptamente.

 Mesmo depois da partida do último operário não teve descanso; uma febre de inquietação parecia circular nas suas veias. Transferiu todas as provisões para a parte cercada.

 Durante horas carregou às costas sacos de farinha e de batatas, manteiga, leite condensado, toucinho e todas as latas de conserva que possuía na missão. Da mesma forma a sua pequena reserva de remédios foi para lá transferida. Esta atividade  aliviou-o um pouco. Quando terminou a tarefa verificou  que seu relógio marcava precisamente três horas da manhã. Não valia a pena deitar-se; às cinco deveria dizer missa.

 Foi então para a igreja e permaneceu ali o resto da noite, de joelhos, orando e meditando.

Ao amanhecer, antes que a missão despertasse, dirigiu-se à Repartição de Justiça. Pela porta Manchu os fugitivos das povoações já assoladas pela peste penetravam sem entraves na cidade. Em grande número acampavam ao ar livre, ao pé das muralhas. Ao passar junto daqueles vultos silenciosos, deitados sobre sacos, meio enregelados pelo vento frio, ouvia o sinistro ruído das tosses. Sentia o coração confranger-se diante daqueles infelizes, extenuados, que suportavam humildemente  os seus sofrimentos, sem queixas e sem esperanças, e um desejo ardente de os socorrer assaltou-o. O cadáver de um velho jazia ali, despido. Havia sido despojado das roupas  de que não necessitava mais por outros que delas careciam.

 O rosto engelhado estava voltado dramaticamente para o céu.

A compaixão deu-lhe novas forças para andar com mais vigor. Conseguiu chegar à Repartição de Justiça, mas um grande desapontamento o esperava. O primo do senhor Pao havia partido, e com ele toda a família Pao, e as janelas fechadas  das suas residências pareciam olhos cegos.

Desesperado, entrou no edifício e penetrou nos pátios. Os corredores estavam desertos, e a sala principal, onde os seus passos soavam lugubremente enquanto andava, estava vazia.

Não se encontrava vivalma, salvo um ou outro escriba, que passava encostado às paredes com ar furtivo. Por um deles ficou sabendo que o supremo magistrado havia partido, a fim de assistir ao funeral de um parente afastado, em Tchientin, a duzentos quilômetros de distância. Compreendeu que até mesmo os funcionários menos graduados de Pai Tan haviam sido «obrigados» a deixar a cidade e que a administração civil deixara de existir.

Uma ruga, profunda como uma ferida, se cavara entre os olhos de Francis. Nenhuma outra alternativa se oferecia do que ir ao quartel; de qualquer maneira, entretanto, era preciso  tentá-la.

Uma vez que os bandidos de Wai-Chu haviam submetido a província, depois de exigir somas fabulosas, a autoridade do exército regular era simplesmente um mito. As tropas eram chamadas ou licenciadas automaticamente consoante o bandido anunciava uma visita à cidade ou se retirava de posse de um pesado tributo. Quando chegou ao quartel, Francis divisou uma dúzia de soldados desarmados com as suas sujas túnicas de algodão.

Tentaram fazê-lo parar à porta. Mas nada o poderia deter.

Com certa violência abriu caminho, dirigindo-se para uma divisão interior. Ali estava um tenente vestido elegantemente, com um uniforme novo, palitando os dentes com uma haste de vime.

O tenente Shon e o padre examinaram-se mutuamente, o chinês com a reserva característica da sua raça e o padre com o arrebatamento sombrio e desesperado que o levara até ali.

- A cidade está ameaçada de uma terrível epidemia - exclamou  Francis sem preâmbulos. - Procuro pessoas corajosas  dispostas a combater o grande perigo que se aproxima.

Alguém que, além de ter coragem, possua também autoridade.

Shon continuava a fitar imperturbavelmente o padre.

- O general Wai-Chu tem o monopólio da autoridade. E ele partirá amanhã para Tu-en-Lai.

- Se é assim as coisas ficam facilitadas para aqueles que ficam. Peço-lhe que me ajude.

Shon encolheu os ombros.

- Nada me daria maior satisfação que estar ao serviço do grande Shang-Foo a fim de trabalhar ao seu lado, sem recompensa alguma, pelo bem-estar da população. Mas eu não disponho de mais de cinqüenta soldados e nem sequer sei como alimentá-los.

- Enviei um mensageiro a Sen-Siang para pedir socorros - retorquiu Francis rapidamente. - Chegarão em breve.

Mas entretanto deveremos, sem perda de tempo, pôr de quarentena  todos os refugiados que surgirem na cidade. Isso impedirá  que a peste se expanda.

- A peste já está entre nós - respondeu friamente o oficial. - Só na Rua dos Cesteiros assinalaram-se mais de sessenta  casos. Muitos morreram... os outros agonizam...

Francis sentiu que os seus nervos se distendiam. Todo o seu ser se negava a reconhecer o fracasso da tentativa. Deu um passo à frente.

- Quero ajudar essa pobre gente. Se o senhor não vier, irei sozinho. Mas estou absolutamente convencido de que me acompanhará.

Pela primeira vez o jovem tenente pareceu abalado. Era um jovem de bom coração apesar do seu ar fátuo. A sua honestidade levara-o a recusar o preço que lhe fora proposto pelos seus serviços por Wai-Chu por o considerar desonroso.

Sem se interessar nem mesmo ao de leve pelos problemas que tanto pareciam angustiar o padre, estava, no momento em que este chegara, considerando a possibilidade de ir ter com os seus homens à Rua das Horas Roubadas. Agora sentia-se  numa situação desagradável e embaraçosa, mas, mau grado seu, bastante impressionado. Como um homem que age contra a sua própria vontade, ergueu-se, atirou fora o palito e afivelou o cinturão do qual pendia um revólver.

- Não é uma arma de precisão, mas um símbolo, cuja vista obriga os homens a obedecerem-me.

E os dois saíram juntos para o dia triste e cinzento.

Na Rua das Horas Roubadas conseguiram reunir uns trinta homens e marcharam para a Rua dos Cesteiros, junto do rio.

Ali a peste já fazia grande devastação, auxiliada pela imundície.

 As moradias à beira-rio - uma enfiada de choças, ligadas  umas às outras na margem lamacenta - estavam já infestadas  pela moléstia. Francis compreendeu que, a não ser que tomassem medidas imediatas, o contágio seria fatal e a epidemia  alastrar-se-ia por toda a cidade.

Disse ao tenente, no momento que se retirava de uma das choças, curvando-se ao passar a porta:

- Temos de encontrar um abrigo para os doentes.

Shon refletiu. Estava a divertir-se mais do que contava.

O padre estrangeiro havia revelado uma atitude de desassombro  aproximando-se sem o menor receio dos pestíferos. E ele admirava profundamente atitudes desse gênero.

- Vamos requisitar a casa do chefe da Repartição Imperial  do Registro.

Havia muito tempo que Shon estava de más relações com esta Repartição, cujo chefe o prejudicara de qualquer maneira.

- Tenho a certeza de que o palácio deste amigo ausente servirá esplendidamente de hospital.

Seguiram para lá sem demora. Era uma casa espaçosa, ricamente  mobiliada, situada num dos melhores pontos da cidade.

 Shon conseguiu entrar empregando um meio muito prático:

 arrombou a porta. Francis ficou lá com uma dúzia de homens preparando a casa para receber os doentes, o oficial partiu levando consigo os restantes. Pouco depois os primeiros  doentes começaram a chegar em liteiras e foram colocados sobre esteiras, estendidas no chão.

Naquela noite, quando Francis se dirigiu à missão, esgotado  pelo dia agitado que tivera, ouvia, monótono e incessante,  o ruído de tiros de espingarda. Os irregulares de Wai-Chu assaltavam as lojas fechadas. Por fim o silêncio restabeleceu-se  na cidade. O luar permitia a Francis poder ver perfeitamente  os bandidos escapando-se em grupos pela porta de leste, esporeando as suas montadas roubadas através da planície.

Sentia-se aliviado por vê-los partir. Quando Francis atingiu a colina, o luar desapareceu. A neve começara, enfim, a cair.

Ao atingir a cerca de caulino, o ar parecia mais leve e mais vivificante e os flocos de neve turbilhonavam, vindos do céu escuro, penetrando nos seus lábios como hóstias minúsculas, e com tal densidade caíam que dentro de poucos minutos o chão estava coberto por um tapete branco. Estacou na parte exterior do portão, sobre a brancura gelada, ansioso, chamando  em voz baixa. Imediatamente madre Verônica apareceu à entrada tendo na mão uma lanterna que fazia incidir sobre a brancura da neve uma luz espectral. Mal pôde perguntar:

- Está tudo a correr bem?

- Sim.

Um súbito alívio invadiu-lhe o coração. Ao sentir-se preso de fadiga só então se lembrou de que passara o dia inteiro sem engolir uma só migalha de pão. Informou com dificuldade:

- Instalamos um hospital na cidade... Não é grande coisa, mas foi o melhor que pudemos fazer.

Deteve-se novamente, na esperança de que ela falasse, acabrunhado pelas dificuldades da situação e pela enormidade do que ia pedir.

.- Se uma das irmãs pudesse... quisesse ir voluntariamente  ajudar a tratar dos doentes... auxiliar-nos com a sua assistência.

  eu ficar-lhe-ia profundamente reconhecido.

Houve uma pausa. Ele parecia já ouvir as palavras que pronunciariam aqueles lábios gelados:

«Ordenou-nos que ficássemos aqui. "E, segundo as suas próprias  ordens, estamos proibidas de penetrar na cidade...”

Talvez que, apesar do véu dos flocos de neve, ela se tivesse apercebido do seu rosto devastado pela angústia. O certo é que, em lugar das palavras que esperava, Francis ouviu:

- Irei eu.

Francis sentiu o seu coração encher-se de júbilo. Apesar do profundo antagonismo que existia entre ambos, não restava  a menor dúvida de que madre Verônica era incomparavelmente  superior a Marta ou a Clotilde.

- Nesse caso, é preciso que eu a acompanhe ao hospital de emergência. Agasalhe-se bem e prepare tudo o que julgar necessário. Ficarei à espera.

Dez minutos depois ele encarregava-se da mala da religiosa e os dois partiram em silêncio.

Na manhã seguinte dezesseis dos doentes que haviam sido levados para o hospital morriam. Mas um número três vezes maior deu entrada ali. Aquela peste pneumônica sobrepujava em virulência os mais perigosos venenos. As pobres criaturas eram hoje atacadas pelo mal e no dia seguinte morriam. Ela parecia congelar o sangue, destruir os pulmões, que se esfrangalhavam  numa tosse violenta, expelindo micróbios. Algumas  vezes menos de uma hora decorria entre o último riso de uma pessoa ainda saudável e o ricto da agonia.

Os três médicos que havia na cidade tinham desistido de tratar os seus doentes pela acupuntura. Desde o segundo dia que haviam renunciado a espetar os membros dos seus pacientes  com agulhas, e tinham ido discretamente à procura de um lugar mais próprio para o exercício da sua profissão.

Pelo fim da semana a cidade já estava assolada de ponta a ponta. A apatia natural do povo havia sido sacudida por uma onda de terror. Pelas portas da cidade que conduziam ao sul saía uma caravana ininterrupta de carros e de animais sobrecarregados e de uma população cuja aflição para se afastar  da cidade tocava as raias do histerismo.

O frio, cada vez mais intenso, parecia ter também assolado a região como uma calamidade. Esmagado, exausto pelo trabalho  sem tréguas e depauperado pela falta da alimentação, ainda assim Francis compreendia perfeitamente que a grande desgraça de que Pai Tan era vítima naquele momento não representava mais que uma ínfima parcela de uma imensa tragédia... Privado de notícias, ele não podia avaliar a imensidade  do flagelo. Duzentos mil quilômetros quadrados do território  sob a ação da peste e meio milhão de mortos sob a neve. Nem tão-pouco podia ele suspeitar de que os olhos do mundo civilizado se voltavam com profunda piedade para a China e que na América e na Inglaterra se organizavam rapidamente expedições médicas a fim de combater a epidemia.

A sua depressão aumentava de dia para dia. José nenhum sinal de vida dava. Os socorros que pedira chegariam a Pai Tan? Uma dúzia de vezes por dia ia até ao cais na esperança de ver a canoa.

Ao fim da segunda semana José apareceu repentinamente, exausto, emagrecido, mas com um sorriso vitorioso. Havia vencido todos os obstáculos. Toda a província se encontrava em grande agitação. Sen-Siang era um inferno e a missão local fora atacada pelo mal. Mas não se deixara abater. Mandara  os dois telegramas e esperara pela resposta, valentemente,  tendo primeiro tido o cuidado de esconder o barco entre os arbustos do rio. Por fim obtivera uma carta. Exibiu-a, com um sorriso, apresentando-a a Francis com as mãos trêmulas.

Mais ainda - um médico que conhecera o padre, um velho e dedicado amigo, chegaria brevemente no barco em que vinham  os socorros.

Não podendo conter a agitação que o dominava, Francis arrancou das mãos de José a carta e leu-a com sofreguidão:

Expedição de Lorde Leighton - Chek-Kow Querido Francis:

Há cinco semanas que me encontro na China, integrado na expedição de Lorde Leighton. Isso não te surpreenderá se te lembrares que já em criança eu sonhava com navios e as selvas exóticas onde eles me levariam. Para te ser franco,  pensava ter-me esquecido de todas essas loucuras quando repentinamente tomei conhecimento do apelo dos que tentavam  organizar a expedição sanitária e pediam voluntários.

O impulso que me levou a juntar-me a esse grupo de abnegados  surpreendeu-me a mim mesmo. Creio que não foi o desejo  de me tornar em herói nacional que me impeliu, mas talvez uma espécie de reação contra a vida monótona que levava em Tynecastle, ou talvez - quem sabe? - o vivo desejo de tornar a ver-te.

De qualquer maneira, o fato é que desde a minha chegada  não tenho feito outra coisa, além do trabalho a que me propus, senão procurar por todos os meios chegar até à tua santa presença. O teu telegrama para Nanquim foi enviado para o nosso quartel general e a comunicação chegou-me às mãos no dia seguinte em Hai-Chang.

Pedi imediatamente a Lorde Leighton - que é uma excelente  pessoa apesar do seu título - a necessária autorização para ir aí dar-te uma ajuda. Ele não só atendeu o meu pedido mas ainda me cedeu um dos poucos barcos a motor que restam.

 Acabo de chegar a Sen-Siang, onde estou a tratar dos abastecimentos. Daqui seguirei a toda a pressa e é bem possível  que chegue aí vinte e quatro horas depois do teu criado.

Toma cuidado com a tua saúde até que eu chegue. As novidades  comunicar-tas-ei verbalmente.

Com pressa, subscrevo-me teu amigo devotado, WILLIE TULLOCH O padre esboçou um leve sorriso, o primeiro depois de tantos  dias de tristeza, sentindo um súbito e agradável conforto íntimo. Não se sentia surpreendido. Aquilo era bem próprio do caráter de Tulloch, devotar-se a uma causa tão nobre.

A sua coragem foi reanimada pela sorte inesperada da chegada  do seu amigo.

Não sabia como conter a sua impaciência. No dia seguinte,  quando lhe anunciaram a chegada do barco-socorro, Francis  precipitou-se para o cais. Ainda antes de o barco estar completamente  atracado Tulloch saltava em terra, mais velho, mais gordo, mas sempre o mesmo escocês tranqüilo e seco, mal vestido, tímido, singelo e honesto como um tecido homespun.

 Sem querer os olhos do padre encheram-se de lágrimas.

- Meu velho Francis, até que enfim, encontrei-te.

E Willie nada mais disse. Apertaram-se as mãos efusivamente,  desorientados pela comoção, procurando dominar as expansões. Exclamou por fim, surdamente, como se sentisse uma repentina necessidade de ouvir a sua própria voz:

- Quando andávamos juntos pela High Street de Darrow quem nos diria que um dia nos encontraríamos na China!

Tentou rir sem o conseguir:

- Não tens botas e fato de borracha? É um perigo andar com essas sandálias num lugar infectado. Já era tempo de eu vir tomar conta de ti...

- E do nosso hospital... - respondeu Francis sorrindo.

- O quê? - exclamou o médico erguendo as sobrancelhas.

 - Conseguiste arranjar um hospital? Então vamos, vamos  ver isso.

- Quando quiseres.

Depois de dar a ordem à tripulação do barco para que o seguisse com os abastecimentos que traziam, o doutor Tulloch partiu rapidamente, caminhando ao lado do padre com surpreendente  agilidade, a despeito da gordura que adquirira.

Com os olhos brilhantes, as faces vermelhas, a cabeleira rala deixando ver as sardas no couro cabeludo rosado, Tulloch pontuava  com um interesse crescente as explicações do padre Chisholm.

Quando atingiram o hospital, Tulloch exclamou:

- Poderiam estar mais mal alojados!

Gritou aos carregadores que levassem os abastecimentos para o interior.

Uma vez dentro do hospital, fez uma inspeção rápida, correndo os olhos de um lado para outro e fixando madre Verônica com estranha curiosidade. Quando Shon, o jovem oficial, entrou, sacudiu-lhe cordialmente a mão. Finalmente detiveram-se os quatro, depois de percorridos todos os aposentos,  e então Tulloch dirigiu-lhes a palavra:

- Na minha opinião vocês fizeram maravilhas. Espero agora que não pretendam ver-me fazer milagres. Esqueçam-se de todas as suas idéias preconcebidas e enfrentem a verdade nua e crua. Lembrem-se de que estou aqui para trabalhar ao vosso lado, isto é, como um negro. Estou longe de ser o simpático  doutor que chega com um laboratório portátil... Na realidade não tenho uma só gota de vacina nas minhas malas.

Verdade se diga que as tais vacinas são apenas boas nos livros  de histórias. É um fato que não servem para coisa alguma.

 Em segundo lugar porque as que trouxemos para a China esgotaram-se na primeira semana. Lembrem-se de que a vacina  nada adianta contra a epidemia e que ela é, desde o primeiro  ataque, quase sempre fatal. Nestes casos dizia meu pai:

«Um grama de precaução é mais eficiente que uma tonelada de remédios.» Por isso mesmo é que, se vocês não se opõem, vamos tratar primeiro dos mortos.

Ninguém falou, talvez para se compenetrarem bem do sentido  das palavras do doutor. Depois o tenente Shon sorriu e observou:

- Os cadáveres estão a acumular-se nas ruas num ritmo desconcertante. Acho bastante desagradável escorregarmos no escuro e cairmos em cima de um corpo silencioso e rígido.

Francis, contrariado, olhou para o rosto impassível de madre Verônica. Algumas vezes o tenente mostrava-se um tanto cínico.

O médico aproximara-se de um dos volumes e desembalava-o  com ar entendido.

- A primeira coisa que temos a fazer é equiparmo-nos a preceito. Oh, eu sei que vocês dois acreditam em Deus e o tenente em Confúcio - inclinou-se para dentro da caixa e extraiu  um par de botas de borracha - mas eu só acredito na profilaxia!

Continuou a desencaixotar as coisas que trouxera, entre as quais aventais brancos e óculos, censurando-os por desprezarem  as precauções elementares. As suas observações eram calmas,  objetivas.

- Vocês ignoram talvez, pobres inocentes, que um simples  perdigoto dessa tosse maldita que lhes caia nos olhos é a conta... Penetração na córnea. Já se sabia disso no século  XIV... e era essa a razão pela qual se usavam viseiras de cola de peixe para a proteção. Creio que a peste foi trazida da Sibéria por um bando de caçadores... Bem... voltarei mais tarde, irmã, e então examinarei cuidadosamente os doentes.

Antes disso, porém, eu, o tenente e o reverendo iremos dar uma volta pela cidade...

Arrasado de preocupações, Francis havia esquecido completamente  a necessidade imperiosa de sepultar os cadáveres que jaziam nas ruas antes que começassem a ser roídos pelos ratos. Era impossível fazer uma cova para cada corpo naquele solo endurecido pela neve e já não havia caixões na cidade.

Nem todo o petróleo da China conseguiria queimar tamanha acumulação de corpos, pois, como Shon dissera, nada é menos  inflamável que a carne humana gelada. Apenas uma solução  se apresentava: cavaram uma imensa fossa ao longo das muralhas, forraram-na com cal viva e requisitaram carroças, enchendo-as de cadáveres. Conduzidas pelos homens de Shon, o seu fúnebre carregamento foi lançado naquela vala comum.

Três dias depois, quando a cidade estava já limpa e se tinham levantado as carcaças dispersas meio devoradas que os cães tinham levado para longe abandonando-as nos campos gelados, foram tomadas medidas drásticas. O povo, temeroso que o espírito dos seus mortos fosse poluído pelo fato de os seus corpos serem lançados naquela sepultura coletiva e sacrílega,  escondia agora os cadáveres dos seus parentes nos soalhos  e nos tetos da suas casas.

Instigado pelo médico, Shon mandou afixar um edital segundo  o qual toda a pessoa reconhecida culpada de tal delito sofreria a pena de morte. Quando as carroças dos mortos apareciam  nas ruas, os homens de Shon gritavam:

«Tragam os seus mortos ou serão vocês quem morrerá!

Entretanto procedia-se à destruição de certos bairros que Tulloch considerava como focos. A experiência, aliada à necessidade,  tornava o médico impiedoso. Os soldados entravam  nas casas, tiravam os móveis, derrubavam as divisórias de bambu e papel, regavam-nas de petróleo e queimavam os ratos num fogo purificador.

As casas da Rua dos Cesteiros foram as primeiras a ser arrasadas. Ao voltarem, descompostos e mascarrados, Tulloch  lançou um olhar de piedade a Francis, que caminhava ao seu lado pelas ruas desertas. E murmurou subitamente, compungido:

- Não nasceste para isto, Francis. E estás de tal maneira extenuado que não te agüentas de pé... Porque não vais repousar  alguns dias na colina e cuidar um pouco dos teus garotos  em lugar de estares aqui?

- Seria um exemplo muito edificante - retorquiu Francis.

 - O sacerdote a repousar e a gozar os bons ares das montanhas  e a cidade a arder...

- E quem o saberia, se a cidade está praticamente abandonada?

Francis sorriu misteriosamente.

- Todos os nossos atos têm uma testemunha - respondeu.

Tulloch interrompeu bruscamente a conversa. Antes de entrar  no hospital voltou-se para contemplar o clarão vermelho das chamas que se refletiam no céu.

- O incêndio de Londres foi uma necessidade...

Subitamente deixou os seus nervos expandirem-se:

- Que diabo, Francis! Morre, se quiseres, mas poupa-me as tuas razões!

Começavam a ressentir-se da tensão constante. Passados eram dez dias que Francis não mudava sequer de roupa, já manchada de suor congelado. Uma vez por outra descalçava-se  e, obedecendo às ordens de Tulloch, esfregava os pés com óleo de colza, mas apesar disso sofria atrozmente de uma inflamação no artelho direito. Estava praticamente morto de cansaço, mas havia sempre mais coisas para fazer, mais e mais...

Não havia outra água que a da neve derretida. Os poços não eram mais que invólucros de gelo. Cozinhar era quase impossível. Mas mesmo assim, Tulloch exigia que se reunissem  todos os dias, à hora das refeições, a fim de conversar um pouco para ajudar a dissipar o tremendo pesadelo sob o qual viviam. Nesses momentos tentava mostrar boa disposição,  algumas vezes punha no toca-discos que tinha trazido alguns  discos alegres. Possuía uma reserva inesgotável de anedotas  do Norte da Inglaterra, pequenas histórias de Tynecastle,  às quais muitas vezes recorria. O seu maior êxito consistia  em fazer aflorar um pálido sorriso aos lábios descorados de madre Verônica. O tenente Shon nunca compreendia o sal das anedotas, mas pedia que lhas explicassem. Por vezes Shon chegava um pouco atrasado para as refeições. Todos calculavam que ele se demorava a animar alguma galante rapariga, poupada, como eles, à epidemia; mas a cadeira vazia causava-lhes  uma inquietação que todos se esforçavam por dissimular.

No começo da terceira semana madre Verônica estava claramente  no fim das suas energias. Como Tulloch lamentasse a falta de espaço que havia no hospital de emergência, ela sugeriu:

- Se trouxéssemos para cá as redes encontradas na Rua dos Fabricantes de Redes poderíamos duplicar o número de doentes e dar-lhes mais conforto...

O médico olhou para ela aprovadoramente:

- Como não me lembrei eu disso? É uma idéia magnífica!

Madre Verônica ficou ruborizada perante a sua aprovação entusiástica, baixou os olhos e tentou levar à boca o arroz que estava a comer. Mas não o conseguiu. O seu braço começou  a tremer tão violentamente que deixou cair o garfo, que rolou para o chão. Ficou mais ruborizada ainda. A vermelhidão  cobriu-lhe todo o rosto. Tentou vencer aquele horrível  tremor, mas fracassou. Com a cabeça baixa, sentia-se humilhada. Por fim ergueu-se e, sem proferir uma só palavra,  abandonou a sala.

Mais tarde o padre Chisholm encontrou-a ocupada numa das salas reservadas às mulheres. Nunca tinha visto alguém sacrificar-se com tanta constância e abnegação. Ela fazia os trabalhos mais penosos e humilhantes junto dos doentes, trabalhos tão odiosos que o mais humilde dos varredores chineses  se recusaria a executar. Francis não ousava falar com ela tão tensas eram as suas relações.

- Reverenda madre... o doutor Tulloch crê... nós cremos que se tem esforçado de mais... e que a irmã Marta deveria substituir-vos.

Ela readquiriu imediatamente o seu ar frio e distante.

- Quer dizer que o meu trabalho não o satisfaz?

- Longe disso. O que tem feito é simplesmente assombroso.

- Porque deseja então substituir-me?

Francis murmurou confusamente:

- Estamos preocupados consigo...

Procurando suster as lágrimas, comovida, madre Verônica respondeu:

- Não se preocupe comigo. À sua piedade prefiro ser esmagada  com trabalho...

Francis foi obrigado a retirar-se sem ter conseguido o seu intento. Levantou os olhares para ela mas a madre tinha os seus obstinadamente baixos. Francis afastou-se tristemente.

A neve, que havia cessado durante uma semana, caía agora ininterruptamente do céu. Francis nunca assistira a uma nevasca idêntica, nem vira flocos tão espessos, tão grandes e macios.

 Cada floco de neve parecia trazer em si mais silêncio.

As casas estavam soterradas sob aquele silêncio branco. Nas ruas as rajadas de vento tornavam a neve mais macia, dificultando  os trabalhos e aumentando o sofrimento dos doentes.

 O coração de Francis confrangia-se mais e mais. No decorrer  destes dias intermináveis perdera a noção do tempo, do lugar, e todo o receio de contágio o havia abandonado. Curvava-se  sobre os agonizantes, procurando socorrê-los com uma compaixão infinita, e estranhos pensamentos cruzavam o seu cérebro. Cristo prometera-nos o sofrimento... Esta vida era apenas uma provação, uma preparação para a outra...

A vida eterna... então Deus secar-nos-á todas as lágrimas.

Não haverá mais lutos nem mais dores.

A tarefa consistia agora em deter todos os nômades que tentassem entrar na cidade, pondo-os de quarentena antes de se ter a certeza de que não estavam contaminados. Um dia, quando voltavam das barracas de isolamento, Tulloch, revoltado, perguntou-lhe:

- O Inferno será pior do que isto?

Atordoado pela fadiga que o fazia andar penosamente, Francis  respondeu com calma:

- O Inferno é ter perdido a esperança.

Ninguém poderia dizer quando a epidemia declinou. Impossível  foi determinar o seu apogeu nem o começo da curva descendente. Apenas a morte não corria desvairada pelas ruas.

Os mais horrorosos tugúrios tinham-se tornado em cinzas sob a neve. As vagas de povo provenientes das províncias do Norte  haviam enfraquecido. Dir-se-ia que a grande nuvem negra que por tanto tempo pairara sobre eles começava a afastar-se vagarosamente na direção do sul.

Tulloch resumiu os seus sentimentos numa frase vaga e cínica:

- Só o teu Deus o sabe, Francis, se nós fizemos realmente  alguma coisa... Creio...

Interrompeu-se, feroz e exausto de forças:

-: Há menos doentes agora para entrar no hospital, Francis.

 Vamos descansar um pouco antes que eu dê em doido.

Naquela noite os dois concederam-se alguns momentos para  repousar e dirigiram-se à missão, a fim de passar a noite na cama do padre. O relógio marcava dez horas e poucas estrelas  brilhavam na abóbada escura do céu. O médico deteve-se  no cume da subida da colina, que escalara com certa dificuldade,  e contemplou a suave silhueta da missão como que iluminada pelos reflexos da brancura do solo, e exclamou com inesperada tranqüilidade:

- Não resta a menor dúvida de que erigiste aqui um retiro  agradável, Francis. E não me espanto que lutes como um desesperado para o conservar. Bem... Se de fato contribuí alguma coisa para isso sinto-me verdadeiramente satisfeito.

Com ar trocista acrescentou:

- Não deve ser desagradável viver aqui, na companhia de uma mulher da força da madre Verônica.

O padre conhecia muito bem o seu amigo para sentir-se melindrado com aquela observação, mas replicou com um sorriso constrangido:

- Creio justamente que ela não acha agradável a minha companhia...

- Não?

- Deves ter notado que ela me detesta.

Calaram-se. Tulloch fitava Francis com um olhar estranho:

- Uma das tuas características mais simpáticas, santo homem,  é a tua modéstia exagerada.

Recomeçou a andar.

- Oxalá que lá em casa haja qualquer coisa que se beba para nos reconfortar. Não deixa de ser consolador o fato de se haver lutado desesperadamente contra um inimigo e de o vencer. Sentimo-nos acima do nível normal do bruto. Mas, por favor, não te vás aproveitar das minhas palavras para tentar provar-me que a alma existe!

Momentos depois, sentado no quarto de Francis, Tulloch falava da sua casa e dos seus. Assim passaram grande parte da noite. Tulloch acabou por troçar da sua própria profissão.

 Nada havia realizado, nada tinha conseguido, exceto um amor pelo whisky. Agora, entretanto, na idade madura, havia-se  tornado sentimental, sentia que falhara, renegava aquele amor sem limites à liberdade e estava disposto, ao voltar para casa, a constituir um lar. Desculpava-se com um sorriso confuso.

- Meu pai quer que lhe suceda na clínica. Deseja ardentemente  ver-se rodeado de uma revoada de netinhos. Meu velho, ele está sempre a lembrar-se de ti... de ti, Francis, a quem continua a chamar o seu Voltaire católico...

Evocava ainda com indisfarçável ternura a sua irmã Jeanne,  já casada e confortavelmente instalada em Tynecastle. Depois,  bruscamente, desviando o olhar de Francis:

- Levou muito tempo a resolver-se a admitir sem reação  o celibato clerical...

Entretanto, não falou de Judy; guardou um silêncio suspeito,  preferindo ocupar-se largamente de Polly, que tinha encontrado, sempre sólida, seis meses antes, em Tynecastle.

- Que mulher! Olha que talvez ela um dia te faça uma surpresa. Polly teve sempre e tem ainda um coração e uma alma a toda a prova.

Acabaram adormecendo sobre as cadeiras.

No fim da semana os sinais de que a epidemia decrescia eram ainda mais evidentes. As carroças fúnebres só muito raramente faziam a sua aparição, os corvos haviam deixado de descer sobre a cidade e a neve cessara completamente de cair.

No sábado seguinte o padre Chisholm assomou à janela de sua casa, na missão, e aspirava deliciado o ar frio tomado de uma profunda e piedosa gratidão. Do seu posto de observação  podia perfeitamente divisar as crianças, que brincavam  descuidadas, atrás da barreira de caulino. Sentia o alívio de uma pessoa que vê raiar a madrugada depois de uma noite  cheia de pesadelos.

Subitamente apercebeu a silhueta de um soldado que se destacava, sombria, sobre o chão embranquecido pela neve, e que corria a toda a pressa na direção da missão. A princípio julgou tratar-se de um dos homens do tenente. Depois, com imensa surpresa, compreendeu que era o tenente Shon em pessoa.

Era a primeira vez que o jovem oficial o visitava. Havia uma ansiedade nos olhos de Francis quando desceu as escadas para ir ao seu encontro. Ao chegar ao último degrau a expressão  no rosto de Shon fez com que ele não pudesse sequer articular  as palavras de boas-vindas com que desejava saudá-lo.

O oficial estava pálido, trêmulo, possuído de uma aflição mortal. Algumas gotas de suor que lhe molhavam a testa denunciavam  a precipitação com que viera, assim como o dólman, meio desabotoado, negligência quase inacreditável numa pessoa  tão meticulosa. O tenente não perdeu tempo:

- Por favor, venha imediatamente. O seu amigo, o doutor, está doente.

Francis sentiu um forte arrepio de frio invadi-lo, como um choque de um ducha gelado. Olhou para Shon e um momento que lhe pareceu muito longo decorreu antes que pudesse articular:

- Tem trabalhado de mais. Deve estar esgotado.

Os olhos negros de Shon cintilaram quase imperceptivelmente:

- Sim, ele está esgotado...

Outra pausa, e subitamente Francis sentiu que o caso era desesperado. Pálido, seguiu imediatamente ao lado do tenente.

 Não pronunciaram palavra durante metade do caminho.

Depois Shon começou a contar, com concisão militar, sem respeito pelos sentimentos, como as coisas se tinham passado.

 O doutor Tulloch entrara fatigado e quisera tomar qualquer  coisa alcoólica. No momento em que enchia o copo a tosse havia-o surpreendido e sacudira-o inesperadamente, obrigando-o  a apoiar-se na mesinha de bambu. O seu rosto tornara-se  imediatamente cor de cinza e uma espuma branca aparecera-lhe  nos lábios. Madre Verônica precipitara-se para o amparar, mas antes de se abandonar, murmurara com um sorriso  débil e vacilante:

- É talvez a altura de chamar o padre...

Quando atingiram o hospital caía um denso nevoeiro. Era como se uma nuvem espessa tivesse tombado sobre os telhados  já carregados de neve. Entraram apressadamente. Tulloch repousava num quarto pequeno, estendido na sua cama de campanha, coberto com uma colcha de seda vermelha.  O colorido violento da coberta fazia realçar mais ainda a sua tez horrivelmente pálida, lançando um reflexo lívido sobre o seu rosto. Consternado, Francis reconheceu os terríveis progressos do mal. Willie estava quase irreconhecível. A febre encarquilhara-o subitamente como se o minasse há semanas.  Tinha a língua e os lábios inchados; os olhos, já vítreos, injetados de sangue.  Ajoelhada ao lado do doente estava madre Verônica, colocando-lhe compressas de neve sobre a fronte. Procurava manter-se impassível, dominando todo e qualquer sinal de comoção. Ergueu-se no momento em que Francis e o tenente penetraram no quarto. Não pronunciou, no entanto, uma palavra.  Francis dirigiu-se à cabeceira do enfermo. A angústia esmagava-o. A morte tornara-se-lhe uma companheira familiar no decurso de todas aquelas semanas. Agora, porém, apercebia-se da sombra da morte sobre o rosto do amigo e uma dor nova e lancinante apoderava-se dele.  Tulloch estava ainda lúcido e no seu olhar brilhava uma luz de plena compreensão das coisas.  - Eu procurava aventuras... - murmurou, tentando sorrir. - Creio que encontrei a maior.  Um sorriso como uma careta apareceu nos seus lábios; depois cerrou os olhos, como se deixasse escapar um pensa- mento íntimo: - Meu velho, sinto-me fraco como um frango...  Francis sentou-se junto do leito. Shon e madre Verônica ficaram no fundo do quarto. Aquela tremenda expectativa era simplesmente exasperante. A sensação da espera, angustiosa, tornava-se cada vez mais estranha, era como uma intrusão odiosa em qualquer drama secreto.  - Estás bem deitado?

- Podia estar pior. Dá-me um golo desse whisky japonês.  Isso ajudar-me-á. Meu querido amigo, morrer assim é tão banal! A conclusão clássica de uma novela. E eu que detestava isso!  Depois de Francis o fazer ingerir um golo de álcool, cerrou os olhos e pareceu repousar. Mas não tardou que se apossasse dele o delírio.

«Mais um copo, rapaz... Isto faz bem! Tenho bebido como um danado naquelas tascas de Tynecastle. Mas agora eis-me a caminho do meu velho e querido Barrow. ”Nas margens da ribeira quando as doces primaveras passam...” Lembras-te desta canção. Francis? É uma das que mais gosto. Canta-a, Jeanne! Vamos, canta-a alto, mais alto... "Não consigo ouvi-la  nesta escuridão.”

Francis cerrava os dentes, procurando conter os soluços que lhe subiam do peito.

«Muito bem, reverendo. Vou ficar calmo para poupar as forças. É estranho este caso. Enfim, todos nós teremos um dia que passar por isto.» Murmurou indistintamente e mergulhou outra vez em plena  inconsciência.

O padre ajoelhou-se ao seu lado e começou a rezar. Pedia ao Céu que o inspirasse e o ajudasse, mas sentia-se absolutamente  atordoado, mergulhado numa espécie de estupor. A cidade, lá fora, estava imersa, num silêncio sepulcral. O crepúsculo  invadiu o quarto. Madre Verônica ergueu-se para acender a lâmpada e em seguida voltou para o seu canto, silenciosa,  mexendo os lábios e correndo os dedos ininterruptamente  pelas contas do rosário a coberto do seu hábito.

O estado de Tulloch agravava-se. A língua estava negra.

A garganta inchara a tal ponto que as ânsias de vômito tornavam-se-lhe  torturas inenarráveis. Subitamente pareceu recuperar  a razão. Abriu os olhos.

- Que horas são? - perguntou em voz rouca. - Quase cinco?... Em nossa casa é a hora do chá. Lembras-te, Francis,  do grupo que formávamos em redor da mesa?

Fez uma pausa curta e em seguida, exclamou:

- Escreverás a meu pai e dir-lhe-ás que o filho nunca fraquejou e que nem assim acredita em Deus!

E que importava agora? Que dizia ele? Francis chorava, e na humilhação de mostrar a sua fraqueza, as palavras saíam-lhe  da boca ao acaso, cegamente.

Ouviu-se a si próprio:

- Mas Deus acredita em ti!

- Não te iludas, Francis. Eu não me arrependo.

- Todo o sofrimento humano é um ato de contrição.

O silêncio restabeleceu-se. Francis nada mais disse. Tulloch ergueu a mão com certa dificuldade e deixou-a cair sobre  o braço de Francis.

- Meu velho, nunca me foste tão caro como agora. Agradeço-te  não me quereres salvar a alma à força. Tu compreendes...

 - As suas pálpebras descaíram, fatigadas. - Estou com uma dor de cabeça tão forte!

A voz extinguia-se. Tulloch estava estendido de costas, esgotado,  respirando com dificuldade, os olhos nublados fixos no teto. A garganta fechara-se quase o impossibilitando de respirar. Não lhe era possível sequer tossir. Era o fim próximo.

Madre Verônica ajoelhara-se diante da janela, de costas para eles, olhando doloridamente para a escuridão. Shon estava  de pé junto da cama. O seu rosto permanecia impassível.

Subitamente os olhos de Willie, onde brilhou ainda uma fugaz  centelha, voltaram-se para Francis, que compreendeu que o moribundo procurava em vão dizer-lhe qualquer coisa. Ajoelhou-se,  passou-lhe a mão sob o pescoço e aproximou o ouvido  da sua boca. A princípio nada percebeu. Depois distinguiu  as palavras:

«A nossa batalha... Francis.. .Daria mais de seis pence pelo perdão dos meus pecados.» As pupilas enchiam-se de sombras. Abandonou-se a um cansaço imenso.

O padre adivinhou, mais que ouviu, o seu último suspiro.

O quarto tornou-se subitamente mais silencioso ainda. Abraçado  ao corpo do amigo, como uma mãe ao do seu filho, ele começou desesperadamente, numa voz surda e estrangulada, a recitar De Profundis.

«Do fundo do abismo procuro-te a Ti, Senhor! Senhor, ouve a minha voz... "porque contigo está a bondade e a Redenção.”

Ergueu-se por fim, cerrou-lhe os olhos e uniu-lhe as mãos inertes.

Ao sair do quarto viu que madre Verônica continuava ajoelhada  junto da janela. Depois, como num sonho, voltou-se para o tenente, e, cheio de surpresa, notou que os ombros de Shon se agitavam convulsivamente.

A epidemia extinguira-se mas uma pesada apatia dominava  toda a região. As plantações de arroz não eram mais que lagos gelados. Os poucos camponeses que tinham permanecido  nas suas terras não as podiam trabalhar nessas condições.

 Os habitantes da cidade iam reaparecendo como depois  de uma penosa letargia e recomeçavam penosamente a vida quotidiana. Os mercadores e os magistrados ainda não tinham regressado, e dizia-se que numerosas estradas estavam intransitáveis. Ninguém se lembrava de ter vivido época tão trágica. Todos os desfiladeiros estavam bloqueados, e ao longe,  nas montanhas Kwang, viam-se penachos de vapor branco provenientes das avalanches ao cair. O rio continuava gelado e o vento fazia turbilhonar uma poeira de neve que cegava.

Lá em baixo, no canal, flutuavam pedaços de gelo que deslizavam  e se entrechocavam sob o ponte Manchu. A angústia da fome reinava em todos os lares.

Um único barco se arriscara a subir o rio, para trazer víveres  e remédios, da parte da expedição Leighton, bem como um enorme volume de correspondência atrasada. Depois de uma curta estadia, os membros da expedição da qual o doutor  Tulloch fizera parte, tinham regressado todos para Nanquim.

No seu correio Francis havia encontrado uma notícia importante.

 Quando vinha vagarosamente do extremo do jardim da missão, onde uma cruz de madeira negra marcava o lugar onde  jazia o doutor Tulloch, trazia nas mãos uma carta, preocupado  com a visita que ela anunciava. Esperava que a sua obra fosse apreciada satisfatoriamente - seguramente a missão era digna do seu orgulho. E se o tempo mudasse, se se tornasse  mais clemente e a neve se derretesse dentro de duas semanas...

Ao chegar perto da igreja viu madre Verônica que descia os degraus. Precisava de lhe comunicar a notícia embora temesse  as ocasiões em que era forçado a falar-lhe e só lhe dirigisse  a palavra quando se tornava absolutamente necessário.

- Madre reverendíssima: o cônego Mealey, o administrador  provincial da nossa Sociedade das Missões Estrangeiras, está em viagem de inspeção às missões chinesas. Há cinco semanas que partiu e chegará dentro de um mês pouco mais ou menos.

Fez uma pausa.

-- Pensei que devia preveni-la... para o caso de ter alguma reclamação a fazer...

Toda agasalhada para proteger-se do frio, madre Verônica ergueu o seu rosto impenetrável, semi-velado pela respiração, que gelava à sua volta. No entanto teve de reprimir um sobressalto.

 Encontrava-o tão poucas vezes que, assim, próximo dela, madre Verônica ficou espantada com a mudança que nele se operara. Estava mais magro, desfeito pela fadiga, os ossos do rosto salientes, as faces encovadas. Apenas os olhos pareciam maiores e estranhamente brilhantes.

Um impulso cruel apoderou-se dela.

- Não tenho senão um pedido a fazer-lhe.

Ela falava instintivamente. A surpresa da notícia havia feito  vir à superfície um pensamento latente no seu subconsciente.

- Pedir-lhe a minha transferência para outra missão.

Houve outra pausa, mais longa. Embora o que se passava não fosse propriamente surpresa para ele, sentia-se repentinamente  desolado, vencido. Suspirou:

- Sente-se infeliz entre nós?

- Não se trata de felicidade. Como já lhe declarei, ao aceitar  a vida religiosa decidi conformar-me com tudo que se me deparasse.

- Menos para suportar a presença de pessoas que lhe são intoleráveis?

A revolta do seu orgulho fez-lhe subir a cor ao rosto. O impulso  que a forçara a falar continuava a empolgá-la:

- O senhor está inteiramente enganado. Não se trata disso,  mas de qualquer coisa mais grave... que toca o domínio do espiritual.

- Espiritual? Não poderia explicar-se?

- Eu sinto... - (ela arquejava) - sinto que me perturba.

 …na minha vida interior... na minha fé.

- Sim, se é assim, é de fato coisa para considerar.

E fixou a vista na carta que amarfanhava entre os dedos ossudos.

- Isso penaliza-me... Então, compreendo, custa-lhe a fazer-me a confissão, mas talvez exista um mal-entendido. A que espécie de fato se refere?

- Supõe que eu possa ter preparado uma lista?

Apesar do seu sangue-frio, sentia a agitação apoderar-se dela.

- As suas idéias... Por exemplo, a sua atitude no momento  em que o doutor Tulloch agonizava... E também mais tarde,  depois da sua morte.

- Por favor, continue.

- Ele era um ateu, e no entanto prometeu-lhe a vida eterna...

 na qual ele não acreditava.

Francis protestou vivamente:

- Deus não nos julga pelas nossas crenças, e sim pelos nossos atos.

- Ele não era católico e nem mesmo cristão.

- Como define um cristão? Aquele que vai à igreja um dia por semana e mente, calunia e engana o próximo durante os outros dias?

Sorriu brandamente:

- A vida do doutor Tulloch foi bem diferente. Morreu auxiliando os seus semelhantes, como um bom e verdadeiro cristão.

Madre Verônica repetiu obstinadamente:

- Ele era um livre-pensador.

- Minha filha, Nosso Senhor também foi considerado no seu tempo um livre-pensador revolucionário. E por isso o mataram.

Ela estava pálida e incapaz de se conter.

- Semelhante comparação é intolerável... blasfematória!

- Supõe isso? Cristo era um homem tolerante... e humilde!

Uma nova onda de rubor inundou-lhe as faces. Prosseguiu, com crescente exaltação:

- E estabeleceu leis às quais o vosso doutor Tulloch nunca  obedeceu. Sabe bem a que me refiro. E no fim, quando ele já estava inconsciente, nos seus últimos momentos, o senhor  não lhe ministrou a extrema-unção!

- É verdade, não o fiz. Talvez tivesse procedido mal.

E calou-se, mergulhado em amargas reflexões, desanimado.

 Subitamente, pareceu menos oprimido:

- Mas estou convencido de que Deus lhe perdoou da mesma  maneira.

E acrescentou com simplicidade tocante:

- Não gostava dele também?

Ela baixou os olhos, hesitante, e por fim murmurou:

- Sim... como poderia ter sido de outro modo?

- Nesse caso não façamos da sua memória um motivo para discussões. Há uma coisa de que não nos devemos esquecer e que Cristo nos ensinou. A igreja também nos ensina... embora  seja difícil acreditar, pelo que vemos todos os dias: ninguém  está perdido quando procede de boa fé. Ninguém. Nem budista, maometano, taoísta ou mesmo o mais negro dos canibais  que tenha devorado um missionário. Se eles procedem  com sinceridade, dentro das suas crenças, serão salvos.

Tal é a imensa misericórdia divina. Sendo assim, por que razão não lhe agradará a presença de um agnóstico no dia do julgamento final, ao qual lhe dirá, com um pouco de malícia:

 «E então? Vês-me, eis-me aqui, apesar de não acreditares  em mim. "Entra no meu Reino, do qual tu negavas a existência.”

Francis ia sorrir, mas ao notar a expressão de espanto no rosto da religiosa suspirou e abanou a cabeça.

- Deploro o sentimento de que está possuída. Sei que tenho um caráter difícil e talvez a minha fé tenha uma expressão  um pouco estranha. Mas a sua presença aqui tem correspondido  a uma obra magnífica. Tem trabalhado admiravelmente.

 As crianças adoram-na. E durante a epidemia...

Deteve-se por um momento, comovido.

- É verdade que não nos compreendemos muito bem. Mas a missão será grandemente prejudicada se nos abandonar.

Lançou-lhe um ar suplicante cheio de uma humildade desesperada,  e, como madre Verônica se mantivesse silenciosa, afastou-se.

 Ela seguiu para o refeitório, onde costumava assistir à refeição das crianças. Mais tarde, no seu quarto, de um lado  para outro, foi presa de uma grande agitação. Subitamente,  com um gesto de desespero, sentou-se a fim de completar um trecho da carta que estivera a escrever ao irmão distante  e em que anotava em forma resumida as suas emoções, mágoas e alegrias. Com a caneta na mão, sentia-se mais calma.

 O simples propósito de escrever a tranqüilizara.

Acabo de dizer-lhe que desejo ser transferida. Fui impulsionada  para isso inesperadamente, como uma explosão, e senti  que o dizia como se fosse uma ameaça, fiquei surpreendida  ao ouvir as minhas próprias palavras. Soltaram-se-me dos lábios irresistivelmente. Era o momento por que ansiava, que tanto esperava, e quando se me apresentou não pude deixar de o aproveitar. Eu desejava magoá-lo, feri-lo. Consegui-o, querido Ernst, mas nem por isso agora me sinto mais feliz.

Depois de um instante de triunfo, quando vi o desapontamento  e a palidez de seu rosto, senti-me ainda mais inquieta e contrariada. O meu olhar perde-se nesta imensidade desolada  e cinzenta, tão diferente da adorável paisagem da nossa terra, com a sua luz dourada, os seus chalés pontiagudos carregados  de neve, os jardins álacres, o ar perfumado, e sinto uma irreprimível vontade de chorar. É como se o meu coração rebentasse subitamente.

É o seu silêncio que me vence. Ele possui a qualidade irritante  de suportar tudo estoicamente, de combater com sinceridade,  mas sem murmurar uma só queixa. Já te descrevi todo o seu devotamento durante a epidemia quando circulava  por entre a multidão de doentes tão repulsivos, com o risco de uma morte horrível, com tanta naturalidade como se caminhasse na rua principal da sua aldeia escocesa. Creio que não foi tanto a coragem mas a simplicidade com que procedia que o tornou aos meus olhos incrivelmente heróico. Quando o seu amigo médico morreu tomou-o nos braços sem sequer se lembrar do perigo do contágio, sem se importar com as inúmeras partículas de sangue carregadas de micróbios que o atingiram no rosto quando do último acesso de tosse. E se visses a expressão do seu rosto, a piedade que revelava e a sua total renúncia! Tudo isso me trespassou o coração. Só o meu grande orgulho impediu que chorasse na sua presença.

Depois exasperei-me, Ernst, eu estava enganada - que tremenda  confissão para a tua obstinada irmã - quando te escrevi dizendo que o desprezava. Eu não o posso desprezar.

Pelo contrário, sinto que me desprezo a mim mesma. Mas detesto-o.

 Eu não quero, nunca consentirei por qualquer preço que me vença com aquela sua pungente simplicidade.

As outras duas religiosas estão totalmente conquistadas.

Adoram-no. E isso é mais uma mortificação que terei de suportar. Marta, a saudável camponesa, que tem mãos calosas e é pouco inteligente, com um coração simples, está pronta a amar qualquer sotaina. Mas Clotilde, tímida, sempre ruborizada,  esta criatura doce e sensível tornou-se-lhe de uma devoção  a toda a prova. Durante a sua quarentena forçada fez para ele um edredão acolchoado, confortável e verdadeiramente  magnífico. Entregou-o a José, pedindo-lhe que o colocasse  na cama do seu amo. E ela é por tal forma pudica que mal se atreveu a murmurar a palavra cama. José retorquiu-lhe:

«Sinto muito, senhora, mas ele não tem cama.» Pelo que parece  ele dorme sobre o soalho, sem outra cobertura que um sobretudo  verde de idade venerável, já sem mangas e necessitado  de toda a sorte de arranjos. José afirma que ele declara com muito orgulho possuir aquele sobretudo desde o tempo em que era estudante em Holywell.

Marta e Clotilde, preocupadas, fizeram um inquérito acerca  da sua alimentação e chegaram muito nervosamente à conclusão  de que ele quase se não alimenta. Confessaram-me, espantadas,  o que de resto eu já sabia, que ele não come outra coisa que não seja pão negro e batatas com molho de soja.

José tem ordem de cozer as batatas e colocá-las num cestinho.

«Ele come-as quando tem fome regando-as com o molho de soja. Algumas já têm bolor quando as come», confessou-me Clotilde, assombrada.

«É horrível, não é?», respondi-lhe. «Mas uma pessoa cujo estômago não foi habituado a boa comida não sofre tanto como  outra que sempre comeu bem.» «Sim, reverenda madre», respondeu-me Clotilde corando, e afastou-se.

Ela faria alegremente penitência durante uma semana para  ter o prazer de vê-lo comer uma boa refeição quente.

Oh, Ernst, sabes perfeitamente que detesto essa espécie de freiras que levantam os olhos ao Céu e ficam em êxtase diante  de um padre. Nunca, nunca me humilharia a tal ponto. Foi um voto que fiz em Coblença, quando tomei o véu... voto que renovei em Liverpool, e esse voto será mantido por mim até mesmo em Pai Tan. Mas, Ernst, esse molho de soja! Podes  imaginar o que é: um líquido espesso, avermelhado, que sabe a água podre e a madeira macerada.

Levantou a cabeça ao ouvir um ruído insólito, mas logo voltou acarta:

Ernst, é incrível está a chover.

Deixou de escrever, incapaz de continuar, pousou a caneta,  e, com olhos sombrios e desconfiados, pôs-se a contemplar a chuva inesperada que batia nas vidraças como grossas lágrimas.

Quinze dias mais tarde a chuva continuava a cair. O céu, cada vez mais opaco, era uma grande mancha escura de onde desabava um dilúvio incessante. Grandes gotas, pesadas, escavavam  a crosta de lama gelada. A neve parecia eterna. Em grandes pedaços precipitava-se do telhado da igreja e ia esmigalhar-se,  provocando repuxos, na neve já amolecida do jardim. Regatos de chuva corriam através da neve já meio fundida e produziam fendas e originavam mil delgados filetes  de água que iam desaguar, carregados de pedaços de gelo, nos grandes poços.

Toda a missão não era mais que um vasto pântano.

O primeiro montículo de terra surgiu como um novo monte  Ararat. Pouco a pouco outros pedaços de terra foram aparecendo  para formar uma paisagem de erva amarelecida logo absorvida pela inundação. E a chuva continuava. O telhado da missão começou a deixar entrar água e as goteiras multiplicaram-se.

 A água dos algerozes caía em catadupas. As crianças, pálidas e transidas, conservavam-se na sala de aula, onde irmã Marta havia colocado baldes para recolher a água que caía do teto. E a irmã Clotilde, toda enroupada devido a um violento resfriamento, dava as suas lições abrigada pelo guarda-chuva de madre Verônica.

A delgada camada de terra do jardim não podia resistir à ação combinada do degelo e da chuva. Começou a ser arrastada  para a base da colina em regatos amarelados onde flutuavam  ramos de loureiro-rosa arrancados. As pequenas carpas  do lago debatiam-se levadas na torrente. As árvores iam sendo, pouco a pouco, arrancadas. Foi um dia triste aquele em que os verdes carvalhos e as catalpas oscilaram lentamente  nas suas raízes a descoberto, que mexiam como pálidos tentáculos, até que tombaram. Não tardou muito que as amoreiras plantadas há pouco tempo também sucumbissem e logo depois toda uma linda área de ameixeiras quase a florir. Nesse  mesmo dia o muro também se desmoronou. Apenas na desolação  daquele mar de lama os cedros mais vigorosos resistiam  ainda.

Na véspera da chegada do cônego Mealey, quando se dirigia  ao pavilhão das crianças para proceder à bênção, Francis  mal podia suportar a visão daquela derrocada. Voltando-se  para Fu, o jardineiro, que caminhava ao seu lado, disse:

- Eu desejei o degelo. Para me punir, o bom Deus mandou-me  uma catástrofe.

Mas Fu era apenas jardineiro e não se sentia confortado com aquelas demonstrações da vontade de Deus.

- O grande Shang-Foo que chega amanhã não deve fazer bom juízo de nós. Ah, se ele tivesse visto os nossos lírios em flor na Primavera passada!

- Sejamos corajosos, Fu. Os estragos não são irreparáveis.

- Todas as minhas plantações ficaram destroçadas - gemeu  Fu. - Terei de recomeçar tudo outra vez...

- A vida é assim. É preciso sempre recomeçar quando tudo  está perdido...

Apesar das suas palavras, Francis sentia-se profundamente deprimido quando se dirigiu à igreja. Ajoelhando diante do altar iluminado, parecia-lhe ouvir o rumor subterrâneo de água a correr que se misturava ao coro das vozes infantis que entoavam o Tantum Ergo. Mas esse rumor era já um ruído familiar aos seus ouvidos e o seu espírito encontrava-se tão acabrunhado pelo horrível aspecto que a missão apresentaria ao visitante no dia seguinte que considerou aquele ruído como  uma espécie de obsessão e procurou não se impressionar com ele.

Quando a cerimônia terminou e José apagou as velas do altar, Francis desceu lentamente a nave branca de cal, onde flutuava uma espécie de vapor úmido. A irmã Marta havia levado as crianças para lhes dar de cear, mas, ajoelhadas diante  do altar, estavam ainda a reverenda madre e a irmã Clotilde.

 Passou por elas em silêncio, mas bruscamente deteve-se.

 O catarro da irmã Clotilde parecia ter-se agravado e madre  Verônica tinha os lábios azulados pelo frio. Foi possuído subitamente de uma inesperada convicção de que elas não deveriam permanecer ali. Obedecendo àquele impulso inexplicável,  voltou-se e disse-lhes:

- Sinto muito incomodá-las, mas quero fechar agora a igreja.

Houve uma pausa. Aquela intromissão era intempestiva.

Ambas se mostraram surpreendidas, mas ergueram-se obedientemente  e precederam-no na direção do pórtico. Fechou a porta no ferrolho e seguiu-as na penumbra gotejante.

Um momento depois ouviu-se um fragor extraordinário.

Era como que um trovão subterrâneo. A irmã Clotilde soltou  um grito agudo e Francis, voltando-se, pôde ver ainda todo o corpo do edifício da igreja mover-se na penumbra. Luzia, molhada, nos últimos reflexos do crepúsculo. De horror, o seu coração quase deixou de bater. Com um rumor mais forte,  as paredes fenderam-se. Um dos lados afundou-se, a torre abateu e todo o resto foi uma horrível visão de vidros que se estilhaçam e vigas que se desfazem. Da sua querida igreja, da igreja que ele tanto amava, só ali restava um montão de ruínas.

Petrificado um momento pelo choque, precipitou-se depois para as ruínas. O altar não era mais que um monte de lenha, o tabernáculo ficara esmagado sob o peso de uma viga. A preciosa  relíquia, a casula do padre Ribeiro, que lhe fora oferecida,  jazia em farrapos. De cabeça descoberta sob a forte chuva  que caía agora, ali permaneceu, perplexo, ouvindo as lamentações  da irmã Marta.

- Mas, Senhor, Senhor! Que mais nos poderá acontecer ainda? - gemia a religiosa torcendo as mãos. - Que calamidade  maior nos poderá ainda atingir?

Francis murmurou então, procurando desesperadamente lutar  contra o desmoronamento da sua própria fé:

- Dez minutos mais e todos nós teríamos ficado soterrados.

Nada poderia tentar-se. Abandonaram os destroços dispersos  à obscuridade e à chuva.

No dia seguinte, às três horas, pontual, o cônego Mealey chegou. Em virtude da enchente do rio, o junco em que viajara  havia sido forçado a ancorar a cinco li de distância de Pai Tan. Não fora possível obter uma cadeirinha. Por muito favor conseguira uma carroça de rodas de madeira, pesada, único veículo usado, desde que irrompera a peste, para o transporte  de pessoas. Este meio de transporte era indiscutivelmente  um processo de locomoção incompatível com a dignidade  de uma personagem de qualidade. Mas não havia outra alternativa. Foi nesse deplorável e primitivo veículo que o cônego, coberto de lama, com as pernas entorpecidas, conseguiu  chegar à missão.

Renunciara-se à modesta recepção cuidadosamente preparada  pela irmã Clotilde - um canto de boas-vindas entoado pelas crianças, que ao mesmo tempo agitariam bandeirinhas.

De vigia à sua janela, Francis viu aproximar-se o visitante e apressou-se a descer para o cumprimentar e apresentar-lhe as boas-vindas.

- Meu bom padre! - exclamou Mealey, estirando os membros ancilosados e apertando efusivamente as mãos de Francis entre as suas. - Este é o dia mais feliz de há meses para cá! Vejo-o enfim! É realmente extraordinário! Lembra-se de que lhe disse um dia que ainda havia de conhecer o Oriente?

 Pois bem, aqui estou. Em razão do interesse despertado em todo o mundo pelos sofrimentos desta desgraçada China não podia demorar-me a tornar a velha aspiração... em realidade...

Calou-se bruscamente, espantado, contemplando a cena de desolação por cima do ombro de Francis.

- Mas... não compreendo. Onde está a igreja?

- Eis tudo o que dela resta.

- Estes escombros? Não é possível. De acordo com as suas informações, esperava encontrar aqui um excelente estabelecimento...

- Temos sido atingidos por algumas desgraças... - retorquiu  Francis serenamente.

- Mas é de fato incompreensível... desconcertante mesmo!

Francis procurou sorrir hospitaleiramente:

- Vá tomar um bom banho quente e mudar de roupa, depois contar-lhe-ei minuciosamente tudo o que tem sucedido por aqui.

Uma hora mais tarde, avermelhado em virtude do banho quente, o cônego Anselmo Mealey reapareceu, com uma impecável batina de tussor vestida, e sentou-se à mesa para tomar uma refeição quente.

- Devo confessar-lhe que foi o maior desapontamento de minha vida... vir aqui... aos confins da China... e encontrar a igreja neste estado.

Levou uma colherada de sopa à boca de lábios grossos.

Havia engordado no decurso dos últimos anos. Era agora mais volumoso, mas conservava a mesma pele acetinada e os mesmos olhos claros e voluntariosos.

- Francis - prosseguiu - eu regozijava-me de antemão por rezar uma missa aqui, na sua igreja. E justamente acontece  isto! Grossa negligência teria havido na construção dos alicerces!

- A verdade é que não sei como chegaram a ser construídos...

- Tolice! Teve tempo de sobra para se instalar. E agora, que direi quando voltar para a nossa terra?

Um sorriso amargo apareceu nos seus lábios.

- Prometi fazer uma conferência na sede da Sociedade das Missões Estrangeiras, em Londres. O título dessa conferência  seria: "Santo André ou Deus no Coração da China.”

Trouxe a minha máquina Zeiss para tirar algumas fotografias  a fim de a ilustrar com projeções. E agora... estou, ou melhor, estamos numa situação muito desagradável...

Houve um silêncio.

-- É claro que compreendo que tem sofrido dissabores e contratempos - reatou Mealey com um tom em que se misturava  irritação e simpatia. - Mas quem os não tem? Também  nós temos tido os nossos, principalmente agora, que estamos  divididos em dois partidos, depois da morte do bispo MacNabb!

Francis encolheu-se sobre o golpe.

- Morreu o bispo?

- Sim, sim, o bom velho extinguiu-se por fim. Levou-o uma pneumonia, em Março passado. De resto já não estava à altura da sua missão, com o seu espírito estranho, confuso.

A sua morte foi um alívio para nós. O seu coadjutor, o bispo Tarrant, substituiu-o com vantagem. Segue admiravelmente.

Novamente o silêncio voltou a reinar. Francis passou a mão pelos olhos. Mac Nabb desaparecera... Recordações em tumulto o invadiam. Aquele dia da pesca do salmão magnífico  no Stinchar, a sua atitude reconfortante por ocasião dos seus momentos de angústia em Holywell, as suas palavras em Tynecastle antes da sua partida: «Continua a lutar, Francis,  pela glória de Deus e da nossa querida Escócia.» Anselmo revelava agora uma disposição mais generosa e amigável.

- Bem, creio que temos de enfrentar as circunstâncias adversas.

 Agora, que estou aqui, vou fazer o possível por aplanar  as vossas dificuldades. Tenho adquirido muita experiência.

 Se isso lhe interessa poderei contar-lhe, por exemplo, como  consegui levantar financeiramente a Associação. A campanha  de propaganda organizada pessoalmente por mim em Londres, Liverpool e Tynecastle rendeu o melhor de trinta mil libras - e isso não foi mais do que o começo. - Sorriu satisfeito. - Não se deixe abater, meu caro... Não o estou a censurar. Primeiro temos de convidar a reverendíssima madre  a acompanhar-nos no nosso almoço de amanhã e teremos os três uma verdadeira conferência. Ela pareceu-me ser uma mulher de valor.

Com grande esforço Francis conseguiu arrancar-se àquelas  recordações felizes dos velhos tempos.

- A madre superiora nunca toma as suas refeições fora da casa das religiosas.

- Com toda a certeza nunca a soube convidar - e os olhos de Mealey fixaram Francis com uma piedade jovial. - Pobre Francis, que nunca soube compreender as mulheres!

Ela virá, não se preocupe. Deixe o caso por minha conta, sou eu quem vai ocupar-se disso.

No dia seguinte, de fato, madre Verônica apareceu à hora  do almoço. Anselmo estava num dos seus dias de muito bom humor, depois da noite de repouso e de uma manhã inteiramente  consagrada à inspeção de todas as ruínas. Sentindo-se  ainda bem impressionado com a visita que fizera à sala de aula, acolheu efusivamente madre Verônica, a quem havia  deixado cinco minutos antes.

- Sentimo-nos verdadeiramente honrados, reverenda madre...

 Um cálice de Xerês? Não? Garanto-lhe que é excelente.

 Talvez um pouco viajado de mais, uma vez que o trouxe  comigo. Ou muito agitado em virtude dos balanços da viagem. Que quereis? Adquiri esta preciosidade em Espanha!

Sentaram-se à mesa.

- Então, Francis, que vai oferecer-nos hoje? Nada de misteriosos  pratos chineses, sopa de ninhos de andorinhas ou purê  de rebentos de bambu... Ah, ah, ah! - disse alegremente servindo-se de frango. - No entanto - continuou - estou levemente seduzido pela cozinha oriental. A bordo - tivemos  uma viagem turbulenta, seja dito de passagem - durante  quatro dias apenas eu e o capitão comparecemos à mesa...

E serviam-nos um prato chinês absolutamente delicioso chow mein.

Madre Verônica levantou os olhos.

- Chow mein? Chamais a isso um prato chinês? Eu suponho  que é o nome, dado pelos americanos, à arte chinesa de aproveitar os restos!

Ele fitou-a com a boca cheia.

- Minha querida reverenda madre... Chow mein... Mas… Olhou para Francis a fim de procurar apoio, mas como este permanecia impassível tomou o partido de rir.

- De qualquer maneira eu comi o meu! E com muito bom apetite! Ah, ah, ah!

Voltando-se para o prato de salada que José acabava de apresentar-lhe, continuou:

- Além da cozinha, o Oriente tem qualquer coisa de extraordinariamente   fascinante.  Nós, os ocidentais, estamos sempre prontos a considerar os chineses como uma raça inferior.

 Pessoalmente estou pronto a apertar a mão de qualquer chinês uma vez que ele acredite em Deus e... em água e sabão...

O padre Chisholm lançou um contrariado olhar rápido a José, cujo rosto se manteve absolutamente inalterável. Apenas  as suas narinas tremeram ligeiramente.

- E agora - e Mealey tomou um ar solene - temos de conversar acerca de importantes questões. Quando adolescente,  madre reverendíssima, o nosso bom Francis estava sempre  a levantar mil dificuldades. Hoje é com verdadeiro prazer  que me proponho tirá-lo das suas!

Afinal desta reunião nada de positivo resultou, a não ser o relatório detalhado que o cônego Anselmo apresentou das suas atividades na Inglaterra. Completamente liberto das preocupações de uma paróquia, tinha-se consagrado inteiramente  à obra das missões sabendo que o Papa tinha um particular  interesse na propagação da fé e encorajava por todas as formas aqueles que se dispusessem a contribuir para tão santa causa.

Não tardou muito a distinguir-se. Primeiro começara a viagem  de cidade em cidade, fazendo sermões de uma eloqüência  apaixonada. Com a sua incrível habilidade para conquistar  relações não perdera uma só oportunidade de conseguir contactos proveitosos. Ao voltar de Manchester ou de Birmingham  sentava-se à sua secretária e escrevia dezenas de cartas encantadoras, agradecendo a um o almoço delicioso e a outro um generoso donativo a favor das missões. A sua correspondência tornou-se de tal forma volumosa que foi obrigado a tomar ao seu serviço um secretário.

Bem depressa foi considerado em Londres personagem importante.

 A sua estréia no púlpito de Manchester foi positivamente  sensacional. As mulheres tinham por ele verdadeira idolatria. A prova disso estava no fato de ter sido admitido na opulenta assembléia das velhas devotas e ricas da catedral que colecionavam nas suas magníficas mansões gatos e padres.

 Devia esse prestígio exclusivamente às suas maneiras cordiais. Naquele ano fora eleito membro correspondente do Athenaeum. O enriquecimento súbito e notável dos fundos da Sociedade das Missões Estrangeiras valera-lhe uma carta elogiosa provinda diretamente de Roma.

Elevado à dignidade de cônego, o mais jovem da diocese do Norte, não excitou a inveja de alguém pelo seu sucesso.

Até mesmo os cínicos, que haviam atribuído o mérito da sua rápida ascensão a uma atividade superabundante da glândula  tiróide, tiveram de reconhecer a sua extraordinária habilidade  para os negócios. As suas maneiras cordiais não o impediam de refletir friamente. Sabia contar e colocar inteligentemente  os seus fundos. Em cinco anos conseguira fundar  mais duas missões no Japão e um seminário chinês em Pequim. A nova filial da Sociedade das Missões Estrangeiras em Tynecastle era imponente, bem adaptada ao seu fim e inteiramente  livre de dívidas.

Em resumo, Anselmo havia triunfado lindamente na vida, e com o apoio do bispo Tarrant tudo indicava que não lhe faltariam oportunidades para desenvolver ainda mais a sua obra admirável.

Dois dias depois da reunião com Francis e madre Verônica a chuva cessou completamente e o sol tornou a brilhar. Mealey  rejubilou. Gracejando, disse a Francis:

- Trouxe comigo o bom tempo! Há quem siga a rota do Sol, mas creio que comigo sucede o contrário. É o Sol que me acompanha.

Imediatamente foi buscar a máquina fotográfica e começou a tirar algumas fotografias. Desenvolveu uma atividade trasbordante.

 Saltava da cama muito cedo, gritando: «Rapaz, rapaz!

 para que José lhe preparasse o banho. Dizia missa na escola. Depois de um suculento almoço, com um capacete colonial  na cabeça, saía empunhando uma grossa bengala e a máquina a tiracolo.

Fez numerosas excursões e não poucas vezes meteu no bolso  discretamente algumas recordações da peste retiradas das ruínas das casas incendiadas em Pai Tan.

Em cada cena de desolação, Anselmo murmurava reverentemente :

- Bendita seja a mão de Deus!

Não raro parava a uma das portas da cidade, detendo com um gesto o seu companheiro, para dizer dramaticamente:

- Espere! É indispensável que eu fotografe isto. A luz está excelente!

No domingo apareceu muito alegre para o almoço:

- Tive uma idéia. Descobri que de qualquer maneira poderei  realizar a minha conferência. Basta que a apresente sob o seguinte título: «Perigos e Dificuldades dos Missionários - A Sua Atividade durante a Peste e a Inundação.» Já hoje tirei uma foto soberba das ruínas da igreja. E que sucesso  será a apresentação dela com o título «Deus Mortifica os que Lhe São Caros»! É magnífico, não lhe parece?

Mas na véspera do dia da partida a atitude de Anselmo mudou  completamente. Quando se sentou, diante de Francis, depois do jantar, no seu aposento, tinha um ar grave.

- Quero agradecer-lhe a hospitalidade que me concedeu, Francis. Mas preciso também de dizer-lhe que não estou contente  consigo. Não sei como irá reconstruir a igreja. A Associação  não está em condições de lhe conceder fundos.

 - Nem eu pedi coisa alguma - retorquiu Francis, sentindo  que a sua paciência estava quase a esgotar-se.

Mealey fitou o companheiro de infância com um olhar duro.

- Pesa-me verificar que não conseguiu uma só conversão de pessoa de destaque. Nem um só rico comerciante, nem um só chinês da classe elevada... Ao menos se o seu amigo o senhor Chia tivesse sido tocado pela graça...

- Mas ele não o foi - respondeu laconicamente Francis.

 - Mas isso não o impediu de ser generoso e oferecer uma dádiva magnífica à igreja. Não recorrerei a ele. Não lhe pedirei um só tael.

Anselmo encolheu os ombros, irritado.

- Isso é consigo, evidentemente. Mas devo dizer-lhe com toda a franqueza que estou tremendamente desapontado com os seus fracos resultados. Compare a percentagem da sua missão  com as demais. Organizamos um gráfico de todas elas e a sua está no mais baixo nível.

O padre Chisholm cerrou os lábios, olhou com firmeza para a frente, e com ironia redargüiu:

- Suponho que os resultados dos missionários variam consoante  a sua capacidade individual.

- E segundo o seu zelo.

Anselmo, susceptível, havia sido tocado.

- E por que razão se obstina na recusa do emprego dos catequistas? É um costume universalmente adaptado. Se tivesse  aqui dois ou três homens a quarenta taels por mês, não estaria nessas condições. Mil batismos renderiam, no mínimo, uns quinhentos dólares chineses!

Francis não respondeu. Pedia a Deus que lhe permitisse dominar os impulsos, que o ajudasse a suportar aquela humilhação  como uma punição merecida.

- O Francis não sabe impor-se verdadeiramente - prosseguiu  Mealey. - Vive como um mendigo. É indispensável impressionar os nativos. Por exemplo, ter uma cadeirinha, criados, fazer um pouco de exibicionismo...

- Está enganado - respondeu Francis serenamente. - Os chineses detestam toda e qualquer ostentação. Chamam a isso «ti-mien». Os padres que procedem dessa maneira são considerados indignos.

Anselmo corou.

- Com toda a certeza que se refere aos sacerdotes chineses,  a essa gente baixa e ignorante...

- Que importa? - redargüiu Francis, com um breve sorriso.

 - Muitos desses sacerdotes são homens bons e nobres.

O silêncio que se seguiu pesava de tensão. Anselmo, melindrado,  levantou-se e abotoou o casaco com um gesto definitivo.

- Depois disto evidentemente nada mais me resta dizer.

Quero, entretanto, acentuar quanto a sua atitude me desgosta.

 Até mesmo madre Verônica se sente constrangida. Desde que cheguei tenho observado quanto ela parece estar em desacordo  consigo.

E Anselmo dirigiu-se resolutamente para o seu quarto.

Francis permaneceu longo tempo imerso numa desagradável  confusão. A última parte da conversa ferira-o ao vivo. Era evidente que madre Verônica tinha feito o seu pedido de transferência.

Na manhã seguinte o cônego Mealey partiu. Deveria voltar  a Nanquim a fim de passar ali uma semana, no vicariato, e depois seguir para Nagasaki, de onde irradiaria para a inspeção  das seis missões no Japão. As malas estavam fechadas,  uma cadeirinha esperava por ele a fim de o transportar até o junco; já se havia despedido das religiosas e das crianças.

 Agora, com o seu fato de viagem, óculos escuros e o capacete colonial guarnecido com uma gaze verde, trocava as últimas palavras com Francis.

- Bem, Francis - disse ele estendendo-lhe a mão com um sentido de reconciliação -, devemos separar-nos sem ressentimentos. O dom da palavra não é concedido a todos.

Quero crer que no íntimo, embora exprimindo-se sem diplomacia,  você seja uma criatura excelente.

Respirou fundo.

- Estranho, estou ansioso por partir! Suponho que tenho o micróbio das viagens no sangue... Adeus! Au revoir! Auf Wiedersehen! Que Deus os proteja!

E, baixando o véu que o protegia dos mosquitos, entrou na cadeirinha. Gemendo, os coolies vergaram sob o seu peso ao começarem a arrastar a sua imponente carga e partiram.

Ao transpor o portão da missão, Mealey estendeu o braço e agitou graciosamente um lenço branco, despedindo-se mais uma vez.

Ao pôr do Sol, ao fazer a sua ronda habitual, à hora querida entre todas, na qual, na pureza da luz a desaparecer, o mínimo  som se repercute ao longe, o padre Chisholm encontrou-se sem dar por isso a meditar junto das ruínas da igreja. Sentado  sobre uma das pedras, ali ficou, pensando no seu velho mestre (não sabia porquê, mas sentia-se criança quando se lembrava de Mac, sempre a exortá-lo a que tivesse coragem).

Na realidade sentia-se bastante necessitado dela naquele momento.

 Durante aquelas últimas semanas, tão cheias de imprevistos,  e, mais ainda, o esforço que despendera para suportar  afavelmente o tom superior de Mealey, tudo isso esgotara as suas forças. No entanto era bem possível que Anselmo tivesse razão. Não teria realmente ele fracassado perante Deus e perante os homens? Aquele pouco que conseguira construir fora, mesmo assim, mal edificado. Como iria continuar? O acabrunhamento e o desespero invadiam a sua alma.

Mergulhado nos seus próprios pensamentos, não ouvira um ruído de passos que se aproximavam, e madre Verônica viu-se  obrigada a erguer a voz para fazer com que a sua presença  fosse notada.

- Não o incomodo?

Francis levantou os olhos e estremeceu de surpresa.

- Não, absolutamente. Como vê, nada estou a fazer...

- e sorriu com desalento.

Calaram-se. Na claridade indecisa do dia que agonizava podia  notar-se, no entanto, a palidez do rosto da freira. Francis  não podia distinguir o movimento nervoso da cara de madre  Verônica, embora compreendesse que ela procurava dominar-se  ocultar a agitação interior.

A voz da religiosa soou quase sem timbre:

- Preciso de falar-lhe...

- Pois não...

- Sem dúvida que as minhas palavras parecer-lhe-ão humilhantes,  mas vejo-me obrigada a falar-lhe. Eu... eu peço-lhe  me perdoe.

As palavras pareciam morrer-lhe na garganta, vacilantes, mas adquiriam subitamente uma violência inesperada e jorraram  em catadupa:

- Arrependo-me amargamente e do fundo do coração da minha estúpida conduta para consigo. Desde o primeiro dia a minha atitude tem sido escandalosa, vergonhosa. O demônio  do orgulho dominava-me. Sempre fui assim, desde criança,  quando atirava com tudo o que me vinha à mão ao rosto da minha governanta. Há semanas que eu sentia a necessidade  de lhe confessar o que me ia na alma... de vir à sua presença...

 mas o meu orgulho, a minha maldade impediam-mo.

Mas nestes últimos dez dias o meu coração tem sangrado por si. As humilhações que sofreu feriam-me fundo, bem no íntimo.

 Não podia suportar a idéia de que tivesse de inclinar a cabeça perante aquele padre grosseiro e egoísta, indigno de lhe tirar os sapatos! Padre... detesto-me pelo meu procedimento  anterior para consigo... Peço-lhe que me perdoe...

me perdoe!

A religiosa ajoelhou-se diante dele com a cabeça entre as mãos e a sua voz sumiu-se entre soluços.

Uma luz verde-pálida orlava a silhueta das montanhas ao longe. Esta luz irreal extinguiu-se rapidamente e a penumbra envolveu-as no seu manto. Pouco depois uma única lágrima rolou ao longo da face de madre Verônica e o padre perguntou-lhe:

- Quer dizer que já não pretende abandonar a missão?

- Não, não! Aqui permanecerei, se o permitir. Nunca encontrei na minha vida alguém a quem tanto deseje servir.

O senhor possui o espírito mais elevado, o mais nobre coração  que alguma vez encontrei...

- Não, minha filha, eu não passo de uma criatura humilde  e insignificante. Creio que tinha muita razão quando me julgava um homem vulgar...

- Padre, por piedade, poupe-me!

E os soluços recomeçaram, mais violentos.

- A senhora é realmente uma grande senhora e eu um pobre homem. Mas perante Deus ambos somos seus filhos.

Se pudéssemos trabalhar juntos... ajudando-nos mutuamente.

- Ajudar-vos-ei com todas as minhas possibilidades. Uma coisa sei, por exemplo, que posso fazer; escreverei uma carta a meu irmão e ele reconstruirá a igreja. Ele é imensamente rico. Mas também lhe peço que me ajude a vencer o meu orgulho!

Houve um silêncio prolongado. Os soluços eram espaçados.

 Uma grande doçura enchia agora o coração do padre, Francis pretendeu ajudá-la a levantar-se, mas ela não permitiu.

 Então ele ajoelhou-se a seu lado, e, sem rezar, mergulhou o seu olhar na noite pura e serena onde, alguns séculos antes, na sombra de um jardim, um outro homem, pobre e simples, que talvez os visse, estivera também ajoelhado.

 Naquela manhã de sol de 1912 o padre Chisholm estava ocupado em separar o mel da cera da sua colheita anual na sua oficina, uma casinha em estilo bávaro que ficava situada no extremo da horta. Estava apetrechada com um torno de pedal  e as mais variadas ferramentas e constituía uma permanente  fonte de alegria para ele desde o dia em que madre Verônica,  solenemente, lhe fizera a entrega da chave. No momento  toda a oficina estava docemente impregnada do aroma do mel derretido. Um grande cântaro de mel estava no chão e sobre uma bancada uma panela de cobre continha a colheita  de cera, com a qual, no dia seguinte, fabricaria as suas velas.

 E que velas! Nem mesmo na basílica de S. Pedro elas seriam assim tão lindas, com um arder tão regular e tão perfumadas!

Com um suspiro de alegria limpou a fronte. As suas unhas curtas estavam também manchadas de cera. Em seguida pegou  no cântaro de mel, fechou a porta e atravessou o jardim a caminho da missão. Sentia-se feliz. Era bom acordar cedo ouvindo os pássaros cantar nos beirais, sentir o fresco da madrugada,  a erva ainda úmida de orvalho. Pensava que nenhuma  felicidade no mundo igualava a de que se sentia possuído  quando trabalhava. Levava uma vida simples, muito próxima da terra, que nunca lhe parecera distante do Céu.

O povo já não se lembrava da peste, da fome e das inundações.

 A província prosperava, as pessoas labutavam em paz.

Naqueles cinco anos decorridos desde a reconstrução da igreja,  graças à generosidade do conde Ernst Von Hohenlohe, a missão florescera. A nova igreja era muito maior que a primeira,  solidamente construída segundo o estilo monástico que a rainha Margarida havia adotado na Escócia há séculos. De linhas clássicas e severas, com a sua torre sineira muito simples  e o corpo lateral suportado por arcos singelos, tornara-se-lhe  tão familiar que Francis chegara ao ponto de preferir a sua simplicidade ao estilo mais elegante da anterior. Além disso era agora de uma solidez a toda a prova.

A escola também fora ampliada e um novo asilo tinha sido construído, a fim de abrigar as crianças. Haviam também adquirido  mais dois campos com bastante água para instalar uma granja-modelo, com aviário e pocilgas, que Marta se empenhava  em explorar, metida em tamancos, o hábito preso a fim de não lhe estorvar os movimentos, distribuindo mancheias de milho e chamando alegremente as aves na sua língua nativa.

Agora a congregação compunha-se de duzentas almas fiéis e ninguém fora constrangido a ajoelhar-se diante do altar. O orfanato, cuja população tinha triplicado, começava a pagar os seus cuidados pacientes. As raparigas de mais idade ajudavam  as irmãs a cuidar das mais pequenas; algumas eram já noviças, enquanto outras se preparavam para o deixar e enfrentar  o mundo. Pelo Natal efetuara-se o casamento da mais velha, de dezenove anos, que desposara um camponês da aldeia  de Liu. No decorrer da sua recente visita pastoral a Liu, da qual havia regressado na semana anterior, a jovem desposada,  com uma pudica confusão, confessara-lhe que o padre teria de voltar em breve para celebrar mais um batismo.

Carregando de lado o pesado cântaro de mel, sentia dores nas articulações causadas pelo reumatismo, mas prestava atenção  ao jasmineiro, cujas flores lhe roçavam o rosto. O jardim  estava tão lindo como ele nunca ousara sonhar. E também  isso era obra da madre Verônica. Ele nunca tivera jeito para a jardinagem. Mas madre Verônica parecia possuir um dom especial para fazer com que as flores desabrochassem.

As sementes e os bolbos que tinha mandado vir da Alemanha, e que haviam chegado em saquinhos cuidadosamente embrulhados,  ali estavam agora transformados em plantas e flores.

E não se cansava de escrever para casas da especialidade de Nanquim, de Cantão e de outros lugares encomendando estacas  e sementes, encomendas sempre satisfeitas acompanhadas  de cartas de estímulo.

Não tinha limites o reconhecimento do padre pela criadora de tanta beleza que o rodeava neste santuário batido pelo sol, inebriante de cantos e murmúrios.

A sua camaradagem de agora assemelhava-se um pouco àquele precioso jardim. À tarde, no decorrer do seu passeio habitual, costumava encontrá-la com as mãos, protegidas por luvas, colhendo petúnias, tratando das clematites ou regando as azáleas douradas. Era neste quadro que trocavam impressões  sobre os assuntos da missão. Por vezes não trocavam palavra  e quando os pirilampos começavam a acender as suas pequeninas luzes separavam-se em silêncio.

Ao aproximar-se da porta superior Francis divisou as crianças  que marchavam duas a duas pelo pátio. Era a hora de jantar.

 Sorriu-se e apressou-se. Encontrou-as já sentadas à longa mesa do anexo novo do dormitório, metidas nos seus aventais  azuis, os rostos amarelos, brilhantes, atentos, vigiadas por madre Verônica num dos extremos da mesa e por Clotilde  no outro, enquanto que Marta, ajudada pelas noviças chinesas, ia distribuindo o arroz cozido pelas pequeninas tigelas,  também azuis. Ana, a criança encontrada por ele na neve, era agora uma linda rapariga, e ali estava, distribuindo as tigelas com a sua expressão habitual grave e reservada.

Ergueu-se um verdadeiro clamor no momento em que entrou  no refeitório. O padre Chisholm ergueu os olhos para madre Verônica como que a pedir desculpa por aquela quebra  de disciplina, e colocou triunfalmente o cântaro de mel sobre a mesa.

- Terão hoje mel fresco! Mas não estou contente porque sei que ninguém aqui gosta dele,… Ergueu-se imediatamente um coro juvenil de protestos. Reprimindo  um sorriso, Francis dirigiu-se ao mais novo, um solene  mandarim de três anos que com o risco de engolir a colher procurava erguer-se o mais possível no seu banquinho.

- Não posso acreditar que um menino tão bonito possa gostar desta coisa horrível! Diz-me, Sinfroniano: - É curioso como os novos convertidos vão sempre buscar os mais extraordinários  nomes de santos para pôr aos filhos. - De que gostas mais? De aprender catecismo ou de mel?

- De mel! - respondeu Sinfroniano sonhadoramente.

Ao mesmo tempo que deixava transparecer toda a sinceridade  do seu pequeno coração sentiu-se subitamente assustado com a sua própria temeridade e desatou a chorar tão bruscamente que caiu do banco.

O padre Chisholm ergueu-o do chão e procurou acalmá-lo.

- Ai, ai, Sinfroniano, tu és sincero. Nosso Senhor gosta dos meninos que falam verdade. Para te recompensar vou dar-te uma porção de mel maior que a dos outros...

Os olhos de madre Verônica fitavam-no com ar de censura.

Quando se retirasse, ela acompanhá-lo-ia até à porta, e parecia  já ouvi-la pronunciar: "Padre precisamos de manter a disciplina...”

Mas hoje - e já lhe parecia distante o dia em que se sentia  intruso no meio das crianças - nada no mundo o impediria  de brincar um pouco com elas. Havia-as sempre amado quase que exageradamente classificando o que por elas sentia  de privilégio de patriarca.

Conforme esperava, madre Verônica acompanhou-o até fora  da sala mas, embora o seu rosto mostrasse uma certa apreensão, não teve para ele a mais leve palavra de censura.

Pelo contrário, depois de certa hesitação, murmurou:

- José contou-me hoje uma história estranha...

- Sim, o patifório quer casar-se. É natural. E tem-me azoinado  os ouvidos querendo fazer-me ver as vantagens de uma casa do guarda que ele considera urgente construir à entrada  da missão... Não para ele nem para a sua futura esposa, mas exclusivamente em benefício da missão...

- Mas não se trata disso - interrompeu madre Verônica,  mordendo os lábios apreensivamente. - Trata-se de uma casa que estão a construir na Rua das Lanternas num local admirável e tão grande e suntuosa que as nossas construções  parecerão um brinquedo ao lado dela.

O tom da sua voz tornou-se mais amargo:

- São dezenas e dezenas de operários empenhados em construí-la o mais depressa possível. Barcos carregados de pedras brancas chegam sem cessar de Sen-Siang. Estão a gastar  dinheiro como só os milionários americanos o podem fazer.

Daqui a algum tempo poderemos apreciar, já completamente  pronto, o mais belo edifício de Pai Tan, com escolas para os dois sexos, jardim de infância, parque de diversões, cozinha  para distribuição gratuita de arroz ao povo, dispensário gratuito e um hospital com um médico residente!

Interrompeu-se porque os seus olhos se encheram de lágrimas.

- De que estabelecimento se trata? - perguntou Francis,  ligeiramente apreensivo porque pressentia a resposta.

- De uma outra missão. Protestantes... Metodistas americanos.

Calaram-se ambos. Nunca lhe passara pela mente a idéia da possibilidade de tal concorrência. Madre Verônica, chamada  ao refeitório por Clotilde, deixou-o imerso numa dolorosa  preocupação.

Dirigiu-se lentamente para casa, mas parecia-lhe que toda a beleza do dia se desvanecera. Em que iria tornar-se a sua torre de marfim? Com um sentimento pueril experimentava a mesma sensação de outrora, nos dias da sua infância, quando  ia colher amoras, um outro garoto descobria moitas que ele considerava como sua propriedade privada e as despojava completamente dos seus frutos. Não lhe eram estranhos as rivalidades e os ódios que existiam entre as diferentes missões,  os ciúmes mesquinhos, querelas acerca de pontos referentes  à doutrina, os ataques e contra-ataques que transformavam  a religião cristã aos olhos dos chineses numa infernal  torre de Babel onde se gritava desesperadamente: «Aqui, aqui é onde está a verdade!» E, afinal, nada se encontrava além de cólera, sensacionalismo e imprecações.

Ao chegar a casa encontrou José no vestíbulo, com um espanador  na mão, fingindo-se muito ocupado no trabalho, mas na realidade apenas à espera de ocasião para lhe dar a novidade.

- Já soube, padre, da vinda desses americanos que adoram  um falso Deus?

- Cala-te, José - respondeu Chisholm. - Eles não adoram  um falso Deus, mas o mesmo Deus que nós. Se tornas a proferir semelhantes asneiras nunca terás a tua casa junto do portão!

José afastou-se, resmungando, de cabeça baixa.

À tarde o padre Chisholm foi a Pai Tan e na Rua das Lanternas  recebeu a atroz confirmação que tanto receava. Sim, com efeito, uma nova missão estava a ser edificada rapidamente  e algumas dezenas de operários e trabalhadores labutavam  ali sem descanso.

Viu com os seus próprios olhos numerosos coolies que, sobre  uma grossa tábua que vergava sob o seu peso, transportavam  à cabeça cestos com tijolos brilhantes de Soochim da melhor qualidade.

Não era muito difícil concluir que o dinheiro estava a ser gasto ali sem nenhuma reserva.

No momento em que se afastava, pensativamente, esbarrou  no senhor Chia. Cumprimentou-o polidamente. Falaram de coisas banais, do bom tempo e da marcha dos negócios, mas Chisholm adivinhava uma intenção oculta nos modos sempre amáveis do seu amigo.

Com efeito, depois dos cumprimentos e de ter lançado um olhar à construção murmurou brandamente:

- É agradável presenciar o crescente cuidado de trazer Deus para estas paragens, embora muita gente considere isso supérfluo. Pessoalmente gosto de passear nos jardins das missões;

 no entanto quando o meu caro padre aqui chegou, teve uma acolhida bastante cruel... aqui há anos.

Fez uma pausa breve e continuou:

- Parece possível, mesmo a uma pessoa sem merecimento  como eu, que os novos missionários tenham uma acolhida ainda pior que a sua... Uma acolhida tão vexatória que se veriam na necessidade de se retirarem dentro de pouco tempo...

O padre Chisholm estremeceu presa de uma tentação diabólica.

 Aquelas palavras ambíguas do senhor Chia, tão claras  para ele, equivaliam às piores ameaças.

O senhor Chia, por diversas vias, subtis e secretas, tinha no distrito uma influência decisiva.

Francis sabia perfeitamente que bastaria responder-lhe de uma maneira descuidada:

«Seria indiscutivelmente uma grande desgraça se de tais calamidades fossem vítimas os pobres missionários que para cá vêm. Mas quem pode ir contra a vontade do Céu para que fosse condenada ao fracasso a invasão que ameaçava arrebatar-lhes  as suas ovelhas?

Bastava-lhe dizer isso e a projetada invasão dos seus domínios  pelos metodistas seria completamente sustada. Entretanto,  quando descerrou os lábios disse apenas:

- Numerosas são as portas do Céu. Nós escolhemos uma e os padres que vêm preferem outra. Porque negar-lhes o direito de exercerem o seu ministério a seu modo? Se desejam  vir que venham.

Não se apercebeu do brilho singular que irradiou dos olhos do senhor Chia, uma centelha de respeito acrescido, que brilhou  um instante.

Ainda profundamente perturbado, despediu-se do seu velho  amigo chinês e afastou-se na direção da sua colina. Dirigiu-se  diretamente para a igreja e ali se sentou, fatigado, contemplando o crucifixo de uma capela.

Depois, com os olhos fixos na coroa de espinhos, de joelhos, numa oração mental, implorou a graça de coragem, sabedoria  e tolerância.

Pelos fins de Junho, a nova missão estava terminada.

Não confiando completamente na sua resignação o padre Chisholm não voltara lá com o fim de presenciar as diversas fases da construção; pelo contrário, evitava sempre passar pela Rua das Lanternas. Mas quando José, que nunca deixara  de o informar de tudo o que se passava, lhe deu a notícia de que já haviam chegado dois diabos estrangeiros Francis suspirou, vestiu a sua melhor batina, agarrou no seu guarda-chuva  escocês e dispôs-se a fazer-lhes uma visita.

O ruído da campainha perdeu-se num eco. O ambiente cheirava  ativamente a tinta fresca. Depois de um minuto de espera  ouviu um ruído de passos e uma mulher fanada, já de certa idade, abriu-lhe a porta. A mulher vestia uma blusa de gola alta e uma saia de alpaca cinzenta.

- Boa tarde - murmurou. - Sou o padre Chisholm.

Tomei a liberdade de vir desejar-lhes as boas-vindas a Pai Tan.

Ela ficou nervosamente sobressaltada e os seus olhos, de um azul-desmaiado, deixaram transparecer toda a sua apreensão.

- Oh, por favor, faça o favor de entrar. Sou a senhora Fiske... Wilbur... meu marido é o doutor Fiske... está lá em cima... Estamos ainda sozinhos aqui e não completamente instalados ainda... Espero que nos desculpe...

E como Francis fizesse um movimento para retirar-se, protestou  rapidamente:

- Não, não, peço-lhe, tenha a bondade de entrar!

Acompanhou-a ao primeiro andar, onde, numa sala alta e fresca, um homem baixo, recém-barbeado e com um bigode também recém-aparado, tão franzino quanto sua mulher, trepado  num escadote, se ocupava em dispor metodicamente livros  em prateleiras. Detrás dos seus óculos os seus olhos míopes  não encobriam a inteligência e a determinação que irradiavam.

 No momento em que descia os degraus do escadote tropeçou e quase caiu.

- Cuidado, Wilbur! - gritou-lhe a mulher, estendendo as mãos para o amparar.

Depois fez as apresentações.

- Sentemo-nos um pouco, se encontrarmos onde - murmurou  Fiske, tentando sorrir. - Infelizmente não temos móveis,  mas quem vive na China tem de acabar por se habituar a tudo...

Sentaram-se e Francis disse amavelmente:

- Possuem um excelente estabelecimento...

- Sim - murmurou o doutor Fiske -, tivemos a sorte de encontrar no senhor Chandler, o rei do petróleo, um generoso  protetor...

O casal metodista sentia-se constrangido diante do padre e não sabia que dizer. Aquelas pessoas correspondiam tão mal àquilo que o padre imaginara que também não sabia como  exprimir-se. Francis não podia gabar-se de possuir estatura  avantajada, mas diante do casal Fiske sentia-se um gigante e a situação era por tal forma desigual que sentia automaticamente  reprimido qualquer intuito de agressão. O pobre doutor tinha um ar doce, erudito e discreto e um meio sorriso de desculpas que se desenhava a custo nos seus lábios. A sua mulher, sob uma luz favorável que permitia a Francis estudá-la,  era uma criatura suave e os seus olhos azuis pareciam sempre prontos a derramar lágrimas; agitava as mãos nervosamente,  do medalhão de ouro aos cabelos, castanhos, espessos  e frisados, mas que, depois de um exame mais atento, Francis compreendeu, com uma certa surpresa, serem postiços.

Subitamente o doutor Fiske tossiu e em seguida exclamou com simplicidade:

- A nossa presença aqui deve ser-lhe extremamente desagradável.

- Oh! não, absolutamente... - E Francis sentiu-se por sua vez mal colocado.

- Esta afirmação baseia-se na nossa experiência... Estivemos  instalados em Lan-Hi, um lugar admirável. A nossa missão era um paraíso e gostaria que pudesse ver os nossos pessegueiros... Ali passamos nove anos e depois chegou um outro missionário. Não se tratava de um padre católico, mas mesmo assim... nós nada contentes ficamos, não é verdade, Agnes?

- É verdade, meu amigo - disse a mulher abanando a cabeça.

- Mas conseguimos dominar a primeira má impressão.

Nós estamos na China há muito tempo e conhecemo-la bem.

- Há quanto tempo estão na China?

- Há mais de vinte anos! Partimos para aqui, ridiculamente  jovens, no próprio dia do nosso casamento. Consagramos  toda a vida à causa da evangelização.

Os seus olhos, de um azul transparente, começaram a orvalhar-se  de lágrimas:

- Wilbur, mostra ao padre a fotografia de John.

Levantou-se e foi buscar uma fotografia emoldurada em prata, que mostrou com orgulho.

- Este é o nosso filho. Tirou esta fotografia quando estava  em Harvard, antes de ir como bolseiro para Oxford...

Sim, está ainda na Inglaterra; ocupa-se, nos nossos estabelecimentos  de Tynecastle, dos trabalhadores das docas.

O nome pronunciado tão descuidadamente produziu em Francis um choque violento fazendo desaparecer as reservas.

- Tynecastle! - e sorriu. - Mas é muito perto da minha  casa...

Ela fitou-o encantada, sorridente, apertando a fotografia de encontro ao coração.

- Não é realmente extraordinário? Como o mundo é pequeno !

Precipitadamente colocou a fotografia sobre a cimalha do fogão.

- Vou servir-lhe café e alguns biscoitos feitos por mim...

uma receita de família.

E como Francis protestasse, continuou:

- Não, absolutamente, não é maçada. Wilbur precisa tomar alguma coisa. Ele não goza de muita saúde e preciso de olhar por ele.

Francis tinha pensado fazer uma visita de cinco minutos, mas, a conversar, acabou por ficar durante uma hora.

Originários de Nova Inglaterra, haviam nascido em Biddeford,  no Maine, onde tinham crescido e casado segundo os princípios da sua fé religiosa. Quando lhe falavam da sua terra  natal, Francis evocava com simpatia os campos ondulados  onde as cortinas de bétulas prateadas escondiam o mar brumoso, as casas brancas, feitas de madeira, se abrigavam atrás de pomares de macieiras e as vinhas adquiriam no Inverno  um tom de púrpura aveludado. Visionava o campanário  branco da capela da vila, com os seus sinos a badalar e a silhueta de gente tranqüila pelas ruas geladas a caminho das suas tranqüilas ocupações.

Os Fiskes haviam escolhido um caminho mais rude na vida.

Haviam sofrido muito. Escaparam de morrer de cólera.

Durante a guerra dos boxers, a maior parte dos seus companheiros  havia sido chacinada. Eles mesmo tinham passado seis meses numa prisão horrível sob a ameaça constante da execução. O afeto que os unia e a afeição pelo filho distante  eram realmente tocantes. A despeito da sua emotividade,  a sua solicitude maternal a respeito dos dois homens tornaria,  em caso de absoluta necessidade, a senhora Fiske indomável.

Apesar dos antecedentes, Agnes Fiske era essencialmente romântica e possuía um tesouro de ternas recordações que guardava carinhosamente. Não deixou de mostrar a Francis uma carta da sua mãe, datada de vinte e cinco anos antes, na qual estava escrita a receita dos biscoitos a que aludira, assim como exibiu também uma madeixa dos cabelos de John, que guardava num medalhão. Nas suas gavetas guardava uma imensidade de lembranças do mesmo gênero. Maços de cartas  amarelecidas, o seu ramo de noiva, um dos primeiros dentes  de seu filho, uma fita que usara no seu primeiro baile em Biddeford...

A sua saúde era precária e quando a missão estivesse definitivamente  instalada contava gozar seis meses de licença junto de seu filho, na Inglaterra. E, já desejosa de poder prestar  qualquer serviço, oferecia ao padre Chisholm os seus préstimos no caso de desejar enviar qualquer mensagem para os seus.

Quando, por fim, Francis se despediu, acompanhou-o até ao portão, enquanto o marido permanecia de pé junto da porta.

 Tinha os olhos cheios de lágrimas.

- Não sei como exprimir-me para lhe demonstrar como me comoveu a sua bondade, a gentileza que teve em vir ver-nos.

 Especialmente por causa de Wilbur. No nosso último posto sofremos tanto! Vivíamos numa atmosfera de ódios e rivalidades incríveis. A situação chegou ao ponto de um dia, em que fora visitar um doente, ter sido esbofeteado por um missionário, que o acusou de querer perder a alma imortal do pobre enfermo...

Conseguiu dominar a emoção e continuou:

- Sejamos unidos e colaboremos... O meu marido é um excelente médico. Chame-o todas as vezes que quiser.

Apertou-lhe a mão calorosamente e retirou-se.

O padre Chisholm entrou em casa num confuso estado de espírito. Durante alguns dias não teve notícias dos Fiskes. Mas num sábado à tarde chegou um portador com um cesto de deliciosos bolinhos feitos em casa. Levou-os, ainda quentes e envolvidos num guardanapo de brancura imaculada, para o refeitório das crianças. A irmã Marta, espantada, franziu os sobrolhos.

- Ela pensará que nós aqui não sabemos fazer isso também?

- Ela deseja apenas mostrar-se amável, irmã Marta, e nós devemos corresponder-lhe.

Havia já alguns meses que a irmã Clotilde sofria de uma dolorosa irritação da pele. Aplicara sem resultado todas as loções e pomadas conhecidas.

Tinha feito até uma novena especial para se curar. Na semana  seguinte o padre Chisholm viu-a a coçar as mãos numa indizível tortura. Franziu os sobrolhos e, um pouco contra a sua vontade, mandou um bilhete ao doutor Fiske. O médico chegou dentro de meia hora, examinou a doente na presença de madre Verônica, depois, sem expressões científicas, aprovou  os tratamentos feitos anteriormente, prescreveu um remédio  para tomar de três em três horas e despediu-se. Dez dias depois a irritação havia desaparecido completamente e a irmã Clotilde sentia-se outra. Mas, depois da primeira expansão  de alegria, sentiu que devia confessar-se:

- Padre... eu rezei fervorosamente a Deus para que me curasse... e...

- Foi porque um padre protestante a curou? Minha filha, isso não é razão para que a sua fé fique abalada. Deus atendeu  às suas súplicas. Não somos mais que os seus instrumentos,  todos nós.

Sorriu e acrescentou:

- Não se esqueça da sentença de Lao-Tsé: "Há muitas religiões mas não há mais que uma razão e todos somos irmãos.”

Na mesma tarde, quando ele passeava no jardim, madre Verônica  observou como que a custo:

- Esse americano... é um bom médico.

Francis fez com a cabeça um movimento de aquiescência.

- E uma bela alma.

As duas missões prosseguiram nas suas rotas paralelas sem incidentes. Havia lugar para ambas em Pai Tan e cada uma delas procurava não prejudicar a outra. A sensatez do padre Francis em não admitir na sua missão conversões interesseiras  evidenciava-se agora plenamente. Apenas um dos fiéis da missão de Santo André tentou freqüentar a missão da Rua das Lanternas, mas foi devolvido com um bilhete:

Caro padre Francis. O portador desta é um mau católico e seria um m