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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


AS CORRENTES DA INQUISIÇÃO / Valerio Evangelisti
AS CORRENTES DA INQUISIÇÃO / Valerio Evangelisti

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "SEBO"

 

 

 

  

Homer Loomis observou através da vidraça o corpulento jesuíta estendido na maca, preso por correias aperta­das no pescoço, nos pulsos, na cintura e nas canelas. Sem os óculos escuros e com o cavanhaque desgrenhado, parecia ter perdido toda a energia. Dirigia um olhar distante à terapeuta que, sentada ao lado do padre, falava sem parar.

Loomis se voltou para o chefe da psiquiatria, que acompa­nhava a cena com olhar de perito. - O que ela está fazendo?

Chamamos isso de visualizações dirigidas. É uma es­pécie de hipnose leve. A terapeuta conta ao paciente um tipo de fábula, aparentemente inócua, mas cheia de sím­bolos e imagens emotivas. Se esses estímulos produzirem algum efeito, o paciente passa do estado de vigília para um estágio próximo ao sono.

O rosto rude de Loomis exprimiu perplexidade. - E isso basta?

Não, é apenas uma premissa - explicou o psiquiatra, assumindo uma postura quase didática. - Até este mo­mento o paciente conseguiu resistir a todas as investidas diretas. Com as visualizações esperamos induzi-lo àquele torpor que é condição prévia para uma hipnose mais pro­funda. Na prática, estamos tentando enfraquecer suas defe­sas superficiais para depois atacar com maior facilidade as mais enraizadas.

Permaneceram calados durante alguns instantes, obser­vando a terapeuta entretida em seu monólogo. O homem barbudo agora respirava de forma bastante regular, com os olhos semi-abertos. A persiana verde, que cobria dois ter­ços da janela, tingia de uma aura tranqüilizante a luz inten­sa vinda do parque.

Quer ouvir? - perguntou o chefe da clínica.

Posso?

Sim, mas só um pouco. - O médico sorriu. - Você logo vai entender o motivo.

Acionou a alavanca do interfone instalado no lado direi­to da vidraça. A voz da terapeuta chegou como uma série de estalos, de modulações, de bruscas mudanças na tonali­dade, de leve farfalhar. Nenhuma das palavras que parecia pronunciar era inteligível.

Loomis nem tentou esconder o espanto. - E seriam essas, as visualizações?

Não, essa já é a fase seguinte. Hipnose vocal. Uma série de sons labiais e guturais que tocam cordas profundas.

Loomis percebeu, decepcionado, que os silvos, os zum­bidos e as alterações na voz da terapeuta estavam surtin­do efeito nele também, penetrando irresistivelmente em sua mente e entorpecendo-lhe os pensamentos. Com um gesto brusco, esticou a mão e prendeu a alavanca. Depois respirou profundamente. - É incrível. Isso vai levar muito tempo?

O psiquiatra deu uma risadinha irônica. - Não, não mui­to, como você pode perceber.

Passaram-se mais alguns minutos, e a terapeuta se ca­lou. Observou o paciente, que parecia dormir, e tomou-lhe o pulso. Então olhou para a vidraça com ar de interrogação.

O psiquiatra acionou o interfone. - Conseguiu?

A terapeuta fez um sinal de confirmação.

Então comece a interrogá-lo.

A mulher se levantou e se posicionou no campo visual do paciente. - Como está se sentindo? - perguntou.

O padre exalou um amplo suspiro. Abriu os olhos e res­pondeu: - Bien, pero estoy muy cansado.

Loomis demonstrou contrariedade. - Ele fala espanhol. Dava para imaginar.

A terapeuta, que tinha ouvido, fez um sinal na direção da vidraça pedindo calma. - Não tem problema. - Dirigiu- se ao jesuíta: - O senhor pode me responder em inglês?

Sim.

Me fale do senhor, da sua vida. Onde nasceu?

O paciente olhou para o teto. - Nasci em Valladolid, ca­pital do reino de Castela, em não sei qual dia do verão de 1318. Na época reinava o pequeno Afonso XI, mas quem go­vernava era a avó dele, Maria de Molina. Meu pai, escudei­ro da corte, decidiu logo que eu fosse para o convento...

O chefe da psiquiatria ficou boquiaberto. - Meu Deus - sussurrou Loomis. - Acho que vamos ouvir cada uma...

 

 

 

 

                                 1937 - O Primeiro Elo

Ao entrar no laboratório que tinha montado em um canto da estufa, o doutor Albert Blakeslee percebeu que na noite anterior tinha se esquecido de desligar o rádio. E não apenas isso. Em cima da mesa, sobre uma imensidão de folhas de anotações e de fichas espalhadas, estava o livro que ele deveria ter levado para sua mulher, que estava sain­do de férias: A Grande Chuva, um romance recém-publicado de um certo Louis Bromfield. Por sorte, ela nem tinha no­tado o esquecimento - já estava dormindo quando ele che­gou e ainda dormia naquele momento, às 6 da manhã. Teria tempo para consertar as coisas.

Blakeslee suspirou, acariciou os finos bigodes e deu uma olhada geral nos vasos que continham as culturas. Se a pesquisa desse certo, seu nome se tornaria referência para qualquer botânico, e não apenas nos Estados Unidos. A idéia lhe causava uma espécie de agradável angústia, que completava a tensão eufórica vivida na noite anterior. Moveu-se com deliberada lentidão, saboreando profunda­mente os instantes que o separavam do momento em que verificaria a validade de sua descoberta.

Antes de qualquer outra coisa, desligou o rádio, sufocan­do a voz de um locutor que descrevia em detalhes o ataque japonês à China. Depois se aproximou, em uma reverên­cia quase religiosa, do vaso que continha aquela espécie de açafrão cujas propriedades ele tinha sido o primeiro a explorar.

Ou talvez não exatamente o primeiro. Diziam que talvez os índios da Amazônia utilizassem aquela planta para enco­lher e mumificar a cabeça dos inimigos mortos. No entanto, ninguém tinha sido capaz de identificar o princípio ativo contido naqueles estigmas; nem os irresponsáveis que, no século XIX, os utilizavam no tratamento da gota.

Suspirou mais uma vez e acariciou o abdome proemi­nente; depois partiu decidido na direção da cultura dos tre­vos em que, às 9 da manhã do dia anterior, injetara uma solução rica de semente em pó do falso açafrão.

Inclinou-se sobre os vasos com o coração batendo forte. O que viu desencadeou nele, geralmente tão contido, uma onda de calor que explodiu em um grito de euforia.

O espetáculo era ao mesmo tempo monstruoso e fantás­tico. Em uma única noite os trevos de três folhas tinham virado quadrifoliados, pentafilos, hexafilos. Os finos cau­les tinham se encompridado, engrossado, enrolado como serpentinas ou anéis. As ramificações venais, então, eram de estarrecer. Formavam losangos, triângulos, figuras sem sentido e complicadíssimas. Pareciam criação de um esqui­zofrênico.

Blakeslee andou vacilante até a mesa e desabou na ca­deira. Enquanto enxugava o suor que caía da testa, ainda tremendo de felicidade, ficou se perguntando que efeitos aquele alcalóide poderia desencadear em seres humanos.

Repeliu imediatamente aquela idéia.

 

Naquele mesmo dia, 22 de julho de 1937, com seis horas de diferença por causa do fuso horário, o biólogo alemão Jakob Graf esperava com impaciência ser recebido por Joseph Goebbels, ministro da Educação Popular e da Propaganda. Era uma manhã chuvosa, e através das amplas vidraças via-se, ensopada, pendendo de seu mastro, uma enorme ban­deira vermelha com uma suástica. Do pátio, chegava o som de passos cadenciados no asfalto molhado, junto com o rugido de uma pesada motocicleta com sidecar que circulava em ziguezague entre as poças d'água. De quando em quan­do, um oficial berrava uma ordem rouca para os soldados imóveis.

Graf estava esperando desde as 10 da manhã, porém en­tendia que, com a Guerra da Espanha em pleno andamento, o ministro devia estar seriamente ocupado. O vaivém dos contínuos cheios de papéis nas mãos, de oficiais e de sinis­tros personagens de capa preta era prova disso.

Finalmente as altas portas adornadas com uma águia e uma suástica se abriram. Um suboficial das SS marchou em sua direção. - Sua excelência pode recebê-lo. Venha.

Graf, com as pernas trêmulas, acompanhou o militar. Cru­zou uma pequena sala, onde o suboficial parou e indicou uma segunda porta. O cientista criou coragem e a atravessou.

Seu braço ainda tremia violentamente quando o esten­deu em saudação na soleira de uma sala não muito ampla e mal decorada. Goebbels permaneceu sentado à grande escrivaninha, posicionada diante de um enorme retrato do Führer. Por alguns instantes olhou intensamente para Graf, apertando um pouco os olhos. Depois seus traços magros ficaram relaxados e ele respondeu à saudação com um sim­ples movimento do antebraço, à moda de Hitler.

Acomode-se, professor, e me perdoe se o deixei espe­rando.

Reconfortado pela acolhida cordial, mas ainda um tan­to receoso, Graf sentou-se em uma cadeira de encosto alto, diante da escrivaninha.

Goebbels apanhou um volume de um canto da mesa.

Mandei chamá-lo, professor, porque recebi a segunda edição de sua... - Debruçou-se sobre o livro e leu: - Teoria da Hereditariedade, Ciência das Raças, Luta pela Saúde Heredi­tária.

Graf encolheu os ombros, com um sorriso tímido. - Ah, uma obra modesta.

Falsa modéstia não combina com os nacional-socialistas, professor - replicou Goebbels num tom bastante seco.

Sua obra é maravilhosa. Penetrante.

Bondade sua - murmurou Graf.

Pretendemos não apenas valorizá-la como também aplicá-la. Até agora concordamos que os judeus fossem ex­patriados, mas não temos uma linha coerente e definitiva em relação aos dementes, cegos, surdos, epiléticos, idiotas, gagos e todos os que possam denegrir nossa raça. Mas ago­ra o partido quer adotar outra conduta, e o senhor está in­dicando a direção correta. Higiene genética, esterilização, eliminação conforme o caso.

Graf concordou com um sinal de cabeça.

São características transmissíveis, não há outra solução.

Certo. Precisamos de mentes como a sua. Eu lhe comu­nico desde já que, dentro de um mês, obterá a titularidade da função que já exerce na universidade. E que lhe será con­fiado um programa de pesquisa com verba ilimitada. Heil Hitler!

Era uma despedida. Graf pulou em pé, esticou o braço e gritou: - Heil Hitler! - Enquanto saía, acompanhado pelo suboficial, sentia-se sufocado pela alegria. Porém um can­to de sua mente abrigava uma leve inquietude. Traduzir a eugenia da teoria à prática no âmbito de um programa de purificação racial era uma tarefa árdua; até porque pouco se sabia sobre as células humanas e seus mecanismos de duplicação e mutação.

Para dar início à regeneração da raça ariana, ainda fal­tava a substância que, corretamente injetada, permitiria manter aqueles processos sob controle. Mas ele teria bas­tante tempo para pensar nisso.

 

                                 Formigas Loucas

Para o sargento Rick Da Costa, observar as formigas lou­cas, hormigas locas, era uma forma menos banal de pas­sar o tempo. Estava sentando em um banco feito de uma tábua e dois tambores, na ensolarada Avenida 6, entre as Calles 11 e 12, sobre um terreno que os formigueiros ti­nham deixado quase poroso. Os minúsculos insetos, muito menores que os geralmente encontrados nos Estados Uni­dos, corriam em todas as direções seguindo órbitas incom­preensíveis, tortuosas. Daí o apelido "formigas loucas"; daí e das ferozes picadas que levavam os que mexiam com elas ou as deixavam subir, sem perceber, pelas roupas.

O calor intenso de Guate estava atingindo níveis insu­portáveis. Da Costa tirou por um instante o olhar do chão e observou a entrada do restaurante Penalba, que, apesar de não ser o mais luxuoso, era com certeza um dos menos imundos da cidade.

Se lhe fosse permitido, faria companhia ao grupo que, sob a sacada, tomava cerveja e coca-cola com satisfação es­tampada no rosto. Ele conhecia alguns deles: Mort Lafferty, instrutor dos Boinas Verdes; José Ramírez Cuadra, o temível e arrogante suboficial da Companhia Cobra com o qual tinha participado da primeira operação de "reassentamento" dos índios; e alguns soldados rasos também da Cobra. Respondera com uma vaga saudação aos convites deles. A ordem era não se aproximar do figurão que estava no res­taurante, mas esperar que ele saísse e entrasse em alguma viela poeirenta.

Voltou a suas formigas, que agora se exibiam em seus afa­zeres mais característicos. Entre os montinhos de areia que demarcavam os formigueiros, avançava velozmente uma fi­leira de folhas verticais. Olhando com atenção, era possível notar a minúscula formiga embaixo da folha, aparentemen­te insensível ao esforço de carregar um peso muitas vezes superior ao seu.

Quando Da Costa se debruçou para observar melhor, al­gumas gotas de suor desceram de sua testa e caíram entre as formigas que corriam. Logo a fileira se desmanchou, as folhas foram abandonadas e os insetos fugiram aqui e aco­lá, seguindo suas trajetórias malucas.

Naquele momento o figurão saiu do restaurante, cumpri­mentou alguns dos que estavam sob a sacada e desceu à rua. Vestia um terno de linho branco que já tinha virado unifor­me de americanos ricos nos países quentes. Ajeitou o panamá de sempre no crânio brilhante, lançou um rápido olhar a Da Costa e se afastou lentamente, fazendo ondular o abdome.

Da Costa esperou alguns minutos, depois se levantou e foi atrás dele. O trânsito estava intenso, mas os transeun­tes eram poucos. Calor demais. As vendedoras de aguacates, com seus cestos na cabeça, tinham preferido sair da Ave­nida 6 e procurar outras ruas com mais sombra. A mesma coisa tinham feito os vendedores de refrescos, as crianças descalças, os pedintes e o resto do povo colorido e miserá­vel que circulava diariamente pelo bairro.

Quase no fim da avenida, o figurão entrou em uma pe­quena rua não asfaltada. Os prédios pretensiosos e surrados de estilo colonial logo deram lugar a barracos de aspecto precário, feitos de folhas de zinco, com trapos multicoloridos fazendo as vezes de porta e quintais cheios de sucata. A vegetação, que sobrevivia penosamente na via principal, aqui reaparecia prepotente, estendendo folhas e trepadeiras sobre montes de lixo, penetrando nas tubulações inutiliza­das, envolvendo os tanques de lavar roupa e os fogareiros feitos de tambores cortados.

Viam-se famílias inteiras de índios reunidas comendo arroz com feijão na soleira de habitações tão escuras que só podiam ser usadas para dormir. Alguns televisores velhos em preto-e-branco, ligados a ferragens contorcidas imitan­do antenas, transmitiam o enésimo capítulo de Ronda de Pedra. No momento, as barracas dos vendedores pareciam abandonadas, mas eram observadas à distância pelos pro­prietários, sentados à mesa com a numerosa prole.

A roupa branca do figurão e o uniforme verde de Da Costa eram acompanhados por centenas de olhos de forma­to quase oriental, muito pretos e esquivos. Isso não incomo­dava nenhum dos dois estranhos. Fora das poucas ruas de­centes de Guate (que para eles era Guatemala City), o que havia era uma enorme terra de ninguém, que uma polícia indolente nem pensava em patrulhar; e a sub-humanidade de cara cor de cobre que morava nos barracos, fiel às regras não escritas que garantiam a sobrevivência, limitava sua comunicação com estranhos ao estritamente necessário.

O figurão estacionou a barriga diante de uma barraca que expunha produtos artesanais: algumas cestas, um ja­caré entalhado, uma rústica escultura em madeira repre­sentando a Virgem, uma série de rosários. Da Costa chegou perto, fingindo interesse nas peças.

Explicaram tudo ao senhor? - perguntou o figurão de­pois de um instante, falando a meia-voz. O sotaque era do Alabama.

Sim, Mister Ownby.

Que seja fresco. Faço questão disso.

A recomendação deixou Da Costa perplexo. - E como é que eu vou saber se está fresco?

Pela cor e pelo cheiro, não? - replicou o outro em tom irritado. - Já cansei de levar na cabeça.

Não depende de mim - replicou Da Costa, endurecen­do da mesma forma. - Faço o que me mandam. Nada mais.

Sei, sei. - O figurão agora parecia apressado. O dono da banca tinha largado o arroz com feijão que comia na soleira de seu casebre e vinha na direção deles. E, para comple­tar, um padre barbudo, apoiado em uma bengala, vinha se aproximando lentamente pela rua. - Agora pode ir. Pode ser para daqui a uma hora?

Ok. - Da Costa afastou-se enquanto o figurão começa­va a negociar o preço de um crucifixo.

No final da rua o chão ia ficando cada vez mais acidenta­do, e a vegetação, mais cerrada. O ar estava impregnado de perfume e apinhado de insetos.

Suando muito, Da Costa cortou caminho entre os bar­racos até chegar a uma viela. Um pouco mais adiante, os casebres foram dando lugar a montes de lixo entremeados de cercas vivas ou divisórias de tábuas mal assentadas. As copas das palmeiras, inclinadas para o centro da viela, se cruzavam. Os arbustos e as trepadeiras que cercavam os campos quase impediam que a luz passasse.


Foi naquela penumbra que viu as primeiras duas crian­ças. Tentavam esconder-se entre os arbustos, com medo de serem vistas. Mas as folhas deixavam entrever seus corpos de proporções anormais, cheios de protuberâncias assimé­tricas. Olharam timidamente para Da Costa e mergulha­ram na vegetação mais espessa. A maior arrastava a outra, que mancava visivelmente.

Da Costa tinha parado de compadecer-se delas. Sua pie­dade tinha sucumbido fazia tempo, lá pelos lados de Parraxtut. Agora sentia apenas um grande vazio, que no entan­to não o incomodava. Era como estar envolvido em algodão macio, sem saber como nem por quê.

Contemplava criaturas como aquelas duas crianças com a mesma mistura de curiosidade e espanto sereno que re­servava às formigas loucas. Seres estranhos, sem nenhuma relação com sua raça e, quem sabe, sua espécie.

Palmeiras, arbustos e pés de café ainda verde agora for­mavam uma espécie de corredor escuro em cujo final apa­recia o muro branco que cercava a clínica, uma extensão de cal brilhando ao sol. O próprio ar estava carregado de um perfume pesado, demasiadamente intenso, comparável ao das prostitutas suadas com as quais passava muitas de suas noites.

Daquela distância, já era possível ouvir o vozerio das crianças. Não era uma gritaria alegre, como aquela ensur­decedora que enchia os bairros populares de Guate, mas um grasnar surdo, produzido pela mistura de berros guturais, sons de lamentos e uivos contidos.

Hola, Rick, como estás?

Bien - respondeu Da Costa, apertando a mão suada do homem que vigiava a entrada.

Ele conhecia bem Roberto Merinos, e sentia simpatia por ele. Juntos, tinham lutado com o "comandante Mike" quando Da Costa era seu conselheiro no campo, na época áurea da Companhia Cobra. Xejuyeu, Chajul e Nabaj ainda tinham as cicatrizes da passagem deles. Mas era San Fran­cisco, no município de Nentón, a que mais as exibia. Lá, em 17 de julho de 1982, Da Costa tinha se desligado para sem­pre de toda concepção ética da vida. Se a tivesse mantido, o sentimento de culpa o teria levado rapidamente à loucura.

Tempos difíceis, sem dúvida. Mas de qualquer forma melhores, pensou ele, que a merda atual. - Está engordan­do bem - observou, olhando para a barriga proeminente do antigo companheiro.

Merinos, instintivamente, tentou encolher a barriga e pro­jetar o tórax, mas depois relaxou e desatou a rir. Com um ges­to preguiçoso, apoiou-se ao cano do Galil. - Claro que estou engordando. Vigiar esses pirralhos não é o meu ofício.

Indicou sem vontade o pátio poeirento, onde as crian­ças improvisavam uma lenta brincadeira de roda. Algumas, de pernas muito fracas, arrastavam-se sobre os joelhos ou eram amparadas pelas mais afortunadas. De vez em quan­do, grupos de crianças caíam na poeira e se esforçavam pa­ra se levantar e vencer o peso de seus corpos inchados.

Vida chata - prosseguiu Merinos. - Bem diferente de sete anos atrás.

É - concordou Da Costa. - Outros tempos.

Você está aqui para o de sempre, suponho.

É, e preciso andar logo. O doutor está?

Merinos apontou para o segundo andar da clínica. - Agora ele já deve ter voltado do almoço. Acho que está operando.

Quantas operações ele faz por dia?

Nem imagino, mas devem ser muitas. A procura é grande. Não são só vocês, gringos, que se interessam pela mercadoria.

Sei - replicou Da Costa enquanto entrava. - A gente se vê depois.

Atravessou o pátio ensolarado, desviando de uma filei­ra de crianças com o abdome deformado que corriam de cabeça baixa. Uma enfermeira guatemalteca, dona de um escultural perfil indígena, observava carrancuda aqueles rodopios insensatos.

O porteiro estava sentado em sua guarita abanando-se com uma revista pornográfica. Vestia uma camiseta preta com a estampa PEACE THROUGH SUPERIOR FIREPOWER, debaixo do desenho de uma boina e dois punhais cruzados. - Bem-vindo mais uma vez, sargento - cumprimentou. - O doutor Mureles está em cirurgia.

Por mim pode ser um assistente.

O doutor Estrada está aqui. O senhor pode encontrá-lo no corredor com as gestantes.

Da Costa dirigiu-se para o corredor deserto. Quase no final, empurrou uma porta de onde parecia vir o eco lon­gínquo de uma discussão animada. Ao entrar na sala não pôde deixar de engolir em seco, apesar de estar acostumado àquele espetáculo.

Lá estavam, deitadas em leitos individuais, umas dez gestantes ensopadas de suor sob cobertores amarfanhados. Chamava a atenção o ventre enorme de algumas delas, des­proporcional até mesmo para uma mulher prestes a parir. Mas o que mais impressionava eram os olhos escancarados e atônitos de todas elas, fitando o vazio ou saltando de um lado para outro como se fossem de animais amedrontados.

As picadas que algumas tinham nos braços, densas como as de uma desagradável doença infantil, revelavam que elas eram usuárias de narcóticos. Da Costa reconheceu um par de prostitutas, visitadas por ele alguns meses antes, que agora lá estavam, atordoadas, contemplando o teto ou o pró­prio ventre gigantesco. Ninguém falava. O ar estava cheio de moscas.

Percebendo que as vozes vinham da sala ao lado, atraves­sou o corredor. Ao passar pelo leito de uma das prostitutas, parou por um instante, o tempo de colher um olhar apaga­do e cheio de desolação. Com a mão, afastou uma mosca que estava pousada em uma das pálpebras dela. A mosca deu uma volta e, zunindo, voltou a pousar no mesmo lugar. Da Costa encolheu os ombros e seguiu adiante.

Estrada estava no consultório, entretido com um homen­zarrão usando regata, que falava como uma metralhadora e gesticulava muito. Ao lado, uma jovem vestida com rou­pas simples chorava em silêncio. Estava claramente grávida de, no mínimo, seis meses. No fundo do consultório quatro meninos deformados cantarolavam, correndo um atrás do outro ao redor de um pequeno sofá.

- Não dê ouvidos àquela puta - dizia o homenzarrão, apontando para a mulher. - Ela não presta, está pouco se lixando se morremos de fome. Eu é que arrumo pão para todos e, agora que aparece uma oportunidade de ganhar algum, ela diz que não topa.

Estrada ouvia de braços cruzados, acompanhando o vôo de uma mosca ao redor do lustre. Dirigiu a Da Costa um olhar irônico de entendimento, depois se voltou para o ho­mem de regata e disse, em tom de resignação: - Isso não me diz respeito. O que você quer que eu faça?

Converse com ela, diga que depois as crianças vão ficar bem. Não está vendo, sua imbecil? - Agarrou pelo colari­nho uma das pequenas barricas humanas que passavam cambaleando. - São gordos que dá gosto.

A criança, talvez confundindo o puxão com um gesto de carinho, grudou nas calças do homem, dirigindo-lhe um olhar patético de expectativa. A origem indígena era evi­dente, apesar do inchaço geral que alterava de forma gro­tesca seus traços.

Viu? Está melhor que eu - retomou o homenzarrão, desgrudando o menino da perna. - Depois do pequeno cor­te, voltam a ser espertos como antes.

Vendo que a mulher não parava de soluçar, Estrada sentiu-se no dever de intervir. - Seu marido está certo - disse num tom autoritário. - Eles quase sempre sobrevivem de­pois que são costurados de novo. E a senhora não vai sentir absolutamente nada. Só as dores normais do parto. Depois poderá ter quantos filhos quiser, sem problemas.

O menino, ao ser arrancado da perna do homem, acaba­ra rolando pelo chão e, no esforço para se levantar, fizera com que sua camiseta subisse e deixasse descobertas duas longas cicatrizes vermelhas que partiam do umbigo e se perdiam em um dos flancos. Aquela visão deixou Da Costa nervoso. - Tenho pouco tempo - disse a Estrada. - Preciso pegar a mercadoria.

Que tipo de mercadoria? - perguntou o médico.

Um rim. Fresco.

O doutor Mureles está cortando um par deles neste momento. Se tiver paciência, um pode ser seu. Caso con­trário, vai ter que ficar com um daqueles extraídos esta manhã.

Vou esperar - suspirou Da Costa, rechaçando o nervo­sismo que se apoderava dele.

O homenzarrão continuava tentando apaziguar a mulher. - Se você não entende, é mesmo uma tonta. Não tem nada de mais nisso. Você fica três meses na cama sem fazer nada, enquanto eles lhe dão o montagene...

O mutagênico - corrigiu Estrada num tom profissional.

Isso. Assim o menino que sair, que é um poli...

Poliplóide.

Enfim, ele sai com quatro rins, dois fígados, quatro pulmões. É só isso. Quando ele cresce, tiram o que preci­sam e costuram. Ele nem percebe.

Além disso, pode salvar a vida de alguma criança grin­ga que precisa de um transplante - concluiu Estrada com uma ênfase circunstancial.

De repente, a mulher berrou e correu para fora, sacudindo violentamente a cabeça e pondo as mãos nos ouvidos. Da Costa viu o homenzarrão correndo atrás dela xingando, mas logo foi distraído pela entrada do doutor Mureles por uma porta que se abria no fundo do consultório, ao lado do pequeno sofá.

O que está acontecendo? - perguntou o cirurgião, ti­rando as luvas.

Estrada encolheu os ombros. - Nada. O de sempre.

Sempre agem dessa maneira antes do tratamento. E pensar que nós os enchemos de dólares.

Da Costa adiantou-se. - Bom dia, doutor Mureles.

Caro sargento - disse o cirurgião, enquanto um sorri­so iluminava seu rosto rechonchudo. - Não aperto sua mão porque ainda não me lavei. O que posso fazer pelo senhor?

Da Costa apontou para o grupinho de crianças obesas, que agora se arrastavam enfileiradas pelo chão. - Preciso de um rim. Um cliente rico falou com o Loomis. Está com muita pressa.

Você está com sorte. O último doador que operei tinha seis, três em boas condições. Um é seu. - Voltou-se para Es­trada. - Ainda estão na sala de cirurgia. Mande embalar um para o sargento.

Logo em seguida, Da Costa saía da clínica segurando pela alça uma bolsa térmica de piquenique em forma de paralelepípedo. Encontrou Merinos enxugando o suor.

Está um calor dos infernos - resmungou o vigia. - Achou o que estava procurando?

Achei. O ricaço vai ficar feliz. E o Loomis também.

Enquanto Da Costa percorria em grandes passadas a viela no meio do palmeiral para voltar ao local do encontro, viu outra vez os dois meninos que tinha observado na ida. O maior ainda arrastava o pequeno, mas o enorme peso do corpo e a fragilidade das perninhas faziam com que balan­çassem para um lado e para o outro, forçando-os a tomar rumos imprevistos na tentativa de manter o equilíbrio.

Formigas, pensou Da Costa. Formigas loucas.

Foi então que deparou novamente com o padre de bengala.

 

                                   O Inquisidor

O pároco de Saint Didier olhou com desconfiança o jo­vem padre que chegara quase correndo do Palácio dos Papas. - Qual foi o nome que o senhor disse?

O jovem percorreu com o olhar a penumbra úmida da nave central. - Eymerich. Padre Nicolau Eymerich. Disse­ram que ele estava aqui.

O pároco fez uma careta, depois apontou para um domi­nicano ajoelhado na parte central da nave, longe das carolas que rezavam o terço. - Deve ser aquele ali. Ele vem quase todos os dias, mas o nome dele eu acabei de descobrir pelo senhor. Toda vez que tentei puxar conversa, ele nem se dig­nou a responder.

O jovem riu. - O senhor não é o único a ser tratado as­sim. O padre Eymerich possui muitos dons, mas certamen­te não o da cordialidade.

A confirmação da verdade de tais palavras veio um instante depois, quando o jovem padre chegou perto de Eymerich e o chamou discretamente. O dominicano diri­giu-lhe um olhar demonstrando tamanho aborrecimento que desencorajaria qualquer um que nunca tivesse sentido sua intensidade. - O senhor é o frade Bernat Ermengaudi, certo?

Exato. Já nos conhecemos há alguns anos. Deus esteja convosco.

E convosco também. Por que veio me incomodar?

O pontífice quer lhe falar.

Eymerich suspirou, depois se levantou do genuflexório. - Está bem. Já vou.

Na época, em 1365, Nicolau Eymerich de Gerona esta­va com 45 anos. Dois anos antes, após deixar temporaria­mente de exercer a função de inquisidor-geral do reino de Aragão, passara a residir em Avignon, onde a corte papal estava dividida entre os que manifestavam grande admi­ração por ele e os que lhe eram hostis - não havia nuances intermediárias. Poucos meses antes ele tinha divulgado as primeiras partes do Directorium Inquisitorum, que, dez anos depois, uma vez acabado, lhe garantiria fama duradoura. Mas o esquema inicial já havia sido definido pelo pontífice como o mais erudito e exaustivo guia para a erradicação da heresia.

Eymerich acompanhou, a contragosto, o jovem padre pe­las vielas malcheirosas de Avignon, perigosíssimas à noite, até o complexo cheio de torres do Palácio dos Papas. Quan­do possível, ele se mantinha afastado daquelas salas, nas quais era invadido por uma solidão imensa e um grande desgosto pelas pomposas vestes roxas ou purpúreas. No entanto a relação com o pontífice era diferente, pautada, como devia ser, pela obediência incondicional de Eymerich e pelo apreço calculado de Urbano.

Bernat Ermengaudi fez o inquisidor atravessar o corpo da guarda que protegia o portão, depois o guiou ao longo da es­cadaria que levava ao andar superior. Nos últimos degraus, Eymerich desviou com dificuldade de um homenzinho que descia correndo. No momento em que ia dirigir-lhe um in­sulto, viu seu rosto. Acalmou-se imediatamente. - Senhor de Berjavel! O senhor por aqui?

O homenzinho, todo vestido de preto, respondeu com um sorriso. - Padre Nicolau! Há anos não o vejo! Como está?

Eymerich franziu a testa. - O exílio de Aragão começa a pesar um pouco. Mas espero voltar logo para lá, mesmo que seja preciso desafiar a hostilidade do rei. - Emitiu um leve suspiro. - Me fale do senhor. Ainda exerce a função de notário da Inquisição em Carcassonne?

Sim, mas o pontífice me convocou ao palácio. Sua pre­sença me faz pensar que se trate do mesmo assunto...

O frade Bernat estava tremendo de impaciência. - Padre Nicolau, por favor. Não podemos nos atrasar.

Eymerich o fulminou com o olhar. - Não é o senhor quem vai decidir sobre o meu tempo. - Voltou a dirigir-se ao notá­rio. - E qual seria o assunto? Ainda não sei de nada.

O senhor de Berjavel acariciou a franja da enorme gola branca que emoldurava seu rosto. - Uma regurgitação de he­resia. O senhor deve saber que, no ano passado, a corte de Avignon ficou em polvorosa com a visita de Amadeu VI de Savóia. Um sujeito original que gosta de ser chamado de "Con­de Verde". Chegou com um séqüito de cavaleiros que o pró­prio imperador teria considerado excessivo. Depois se exibiu em torneios e jogos, perturbando prelados e dignitários.

Ouvi falar. Mas vamos ao que interessa - exortou Ey­merich, impaciente.

Ao finalizar a visita, o Conde Verde fez uma revelação a Urbano V, oferecendo-a como um presente precioso. De acordo com ele, há mais de um século, em Châtillon, uma localidade do condado de Savóia, foi se instalando secreta­mente uma comunidade de hereges cátaros, talvez os últi­mos sobreviventes da seita.

Eymerich teve um sobressalto. - Cátaros? Não pode ser!

Segundo Amadeu, pode. Seria um grupo de albigenses que, milagrosamente, escapou da fogueira de Montségur e atravessou os Alpes depois de uma penosa odisséia. Lá te­riam sido, geração após geração, escondidos pelos habitan­tes locais. É um fenômeno sem dúvida curioso, porque os cátaros consideram a procriação pecaminosa.

O inquisidor franziu a testa. - Se isso for verdade, por que Amadeu de Savóia não agiu por conta própria? Preci­sava incomodar o pontífice?

É uma pergunta lógica, que Urbano não deixou de fa­zer - concordou o notário. - Amadeu respondeu com pres­teza que era necessária uma ação não apenas militar e ju­dicial, mas também de restauração religiosa, e que o clero das terras dele não é dotado da necessária experiência no campo das heresias. Ele é da opinião de que só em Avignon há homens de Igreja suficientemente doutos e especialmen­te peritos em direito inquisitório.

Eymerich abanou a cabeça. - Uma explicação pouco con­vincente.

De fato. - Berjavel abaixou um pouco a voz. - A verda­de é que Amadeu é partidário de causas que não têm muito a ver com o fervor ou a generosidade. Existem muitas con­trovérsias opondo os Savóia aos senhores de Challant, em cujos domínios surge Châtillon. Em 1295 os Challant renun­ciaram ao viscondado de Aosta em favor dos Savóia, mas continuam sendo os suseranos mais poderosos daquela parte do condado, donos dos melhores castelos e dotados de ii m bom número de vassalos absolutamente fiéis.

E qual é a relação entre essa rivalidade e a heresia?

O notário diminuiu mais uma vez o tom da voz, transformando-a em um sussurro. - Durante sua estada em Avignon, Amadeu VI demonstrou grande cordialidade em relação a Ebail de Challant, que fazia parte de seu séqüito. Chegou a condecorá-lo com um título cavalhei­resco instituído para a ocasião. No fundo, porém, o consi­dera prepotente demais, rico demais e arrogante demais, e morre de vontade de redimensionar essas três caracte­rísticas.

Sim, mas como?

Quando revelou a presença de um núcleo de hereges em Châtillon, ele pretendia exatamente isso. Se os Challant aceitarem a instalação em seus territórios de um tribunal da Inquisição, estarão se sujeitando a um poder exterior e renunciando a uma parte da própria jurisdição; caso se oponham, serão vistos como defensores dos hereges, e isso certamente representará sua ruína.

Eymerich meditou um pouco sobre aquelas palavras, depois perguntou: - O papa tem conhecimento dessa cons­piração?

Sim, desde o dia da revelação. Mas mesmo assim Ur­bano decidiu satisfazer o Conde Verde. Há algum tempo, como o senhor deve saber, ele planeja uma cruzada con­tra búlgaros, turcos e sérvios, útil em suas conjecturas para sanar a ruptura com a Igreja Oriental. Já conseguiu diver­sas adesões, mas sem saber até que ponto são sinceras. Ao ajudar Amadeu a tornar indiscutível a primazia dos Savóia em suas terras, pretende vinculá-lo ao projeto da cruzada e garantir, pelo menos, um nome seguro em uma lista dema­siadamente longa para ser confiável.

Senhores, está ficando realmente tarde... - queixou-se o frade Bernat.

Eymerich, que estava muito pensativo, teve um sobres­salto. - Tem razão. - Cumprimentou com um sinal de ca­beça o senhor de Berjavel. - Não faltarão oportunidades de nos encontrarmos novamente.

Também acho que não faltarão - respondeu o notário com um sorriso.

O pontífice recebeu o inquisidor na sala da Grande Au­diência, dividida em duas amplas naves e enfeitada com es­plêndidos afrescos, alguns em fase de acabamento. Eyme­rich apreciava em Urbano a extrema cortesia nas maneiras e o clima de cordialidade, para não dizer de liberdade, que conseguia instaurar mesmo sem renunciar a um grama da própria autoridade.

Também dessa vez Urbano interrompeu com um gesto brusco as manifestações de reverência. Desceu do trono, aproximou-se do hóspede e o levou até o fundo da nave di­reita, longe dos cavalheiros à espera de uma audiência e dos dignitários do clero.

Há quanto tempo o senhor deixou de se ocupar dos cá­taros? - iniciou o pontífice, em tom quase jovial, contem­plando o rosto sério e inteligente do dominicano.

Eymerich fingiu estar surpreso. - Os cátaros, santida­de? Deveriam estar extintos. Encarreguei-me de alguns deles há uns anos, quando estava em missão em Castres, mas foi uma regurgitação de pouca importância. Aquela heresia praticamente sucumbiu com a cruzada de Inocêncio III.

Uma sombra encobriu o delgado rosto de Urbano. Ele não apreciava de forma nenhuma as medidas radicais que Arnaud de Citeaux e os outros cavaleiros cristãos tinham adotado naquela oportunidade, em particular o extermínio de todos os habitantes de Béziers, fossem hereges ou não. Uma mancha talvez indelével para o papado, que o per­turbava quando era relembrada. Mas não teceu nenhum comentário a respeito. - Parece que nem todos os cátaros foram extintos, lamentavelmente.

Contou a Eymerich o que ouvira de Amadeu VI. Enquan­to prosseguia o relato, nos traços severos do dominicano aflorava uma expressão cada vez mais incrédula, reprimi­da com esforço. Urbano percebeu e preferiu adiantar-se a qualquer objeção. - Nem nós acreditamos muito nesta his­tória. O fato é que seria oportuno averiguar, também para não decepcionar um amigo fiel da Igreja como o Savóia. O senhor estaria disposto a encarregar-se disso?

Devo ir até o local, santidade? - perguntou Eymerich.

Achamos aconselhável. Amadeu solicitou um inqui­sidor capaz, com grande experiência. Precisamos também de alguém que tenha diplomacia, porque não sopram bons ventos entre os senhores da área, os Challant, e os condes de Savóia. E há mais uma questão.

Urbano se postou diante de Eymerich, fitando-o inten­samente. Os olhares dos dois cruzaram-se na mesma altu­ra, já que ambos eram igualmente altos. - Lemos a primeira minuta de seu insigne Diredorium, e já tivemos a oportuni­dade de tecer elogios a respeito, tanto diretamente ao se­nhor como na presença de outros. Apreciamos sua modera­ção, o rigor processual, a aversão em relação a toda forma de excesso. Não queremos um processo inquisitório à maneira antiga, com suplícios e crueldades. Por isso é que queremos enviar a Châtillon um jurista com seu talento.

O senhor me confunde, santidade - sussurrou Eyme­rich, baixando o olhar mas sem conseguir dissimular certa satisfação.

Não é um elogio - disse Urbano secamente. - É uma constatação. Não queremos contaminar nosso pontificado com os métodos sanguinários tão apreciados por nossos predecessores. O senhor livrou o direito inquisitório da­quelas práticas perversas. Não nos decepcionará.

Eymerich fez uma leve reverência em sinal de obediência.

Prepare tudo - concluiu Urbano num tom quase carinho­so. - Leve o tempo que precisar. Depois vá até Châtillon e, se houver hereges, elimine-os, mas atuando mais sobre a alma que sobre o corpo. Mantenha-nos a par dos preparativos.

Enquanto Eymerich deixava a sala, não foram poucos os prelados com roupas vistosas e amplos chapéus que lan­çaram olhares cheios de indignação a sua simples túnica branca, com capa e capuz pretos. Em muitos rostos era pos­sível ler a inveja pela confiança que o papa tinha dispensa­do a um personagem tão insignificante; porém maior ainda era a inveja dos que sabiam que aquele dominicano não era de forma nenhuma insignificante.

Nos quatro meses seguintes, Eymerich cuidou de todos os detalhes da expedição, inclusive os menos relevantes. Antes de qualquer coisa, chamou a Avignon o padre Jacinto Corona, que o tinha assistido na instrução de alguns pro­cessos importantes, tanto em Aragão como em Languedoc. A seu ver, o padre Jacinto possuía as virtudes decisivas da discrição, humanidade e eficiência, além de uma simplici­dade nas maneiras que o agradava especialmente.

Depois mandou para Châtillon alguns homens de con­fiança, em vestes de mercadores ou de viajantes, encarre­gados de averiguar as dificuldades do trajeto e colher toda informação possível sobre a presença de hereges e sobre o clima político daqueles vales. Um dos enviados, um jovem terciário provençal de aparência não muito esperta, mas de instinto aguçado, tinha a tarefa adicional de permanecer na pequena cidade até a chegada do inquisidor, integrando-se o quanto pudesse na vida local.

Eymerich recrutou também dois confortadores expe­rientes, também dominicanos, uma dezena de homens de armas que constituiriam o braço da Inquisição, sob as ordens de um capitão estimado pela lealdade e pela co­ragem, e um carrasco com seus dois ajudantes. Requisito fundamental, além de uma fé indiscutível, era um bom domínio do idioma franco-provençal, independentemen­te da origem dos homens. Obteve também a permissão do pontífice para que o senhor de Berjavel o acompanhas­se em sua missão. Estimava muito aquele pequeno notário que treze anos antes tinha contribuído, e muito, para sua nomeação a inquisidor-geral de Aragão, e em segui­da tinha montado com ele inúmeros processos. Apreciava tanto sua cultura jurídica como a enorme capacidade po­lítica que trazia oculta atrás de uma aparência anônima de burguês.

No fim, Eymerich pediu cartas de apresentação para a corte de Chambéry, residência dos Savóia, para Ebail de Challant e para o bispo de Aosta. Esta última, escrita pelo próprio papa, punha o futuro tribunal de Châtillon sob jurisdição episcopal, mas acrescentando ao mandato as cláu­sulas necessárias para deixar claro que a potestade real de­veria permanecer nas mãos de Avignon, de que Eymerich era emissário direto.

Assim que os preliminares foram completados e os ex­ploradores voltaram com os respectivos relatórios, Eyme­rich solicitou nova audiência ao papa, que lhe foi imediata­mente concedida. O inquisidor anunciou que estava pronto para partir e transmitiu sinteticamente a Urbano as notícias colhidas naquele meio-tempo.

Não vou esconder de vossa santidade que minha per­plexidade permanece intocada - confessou Eymerich ao terminar o relato. - Nenhum dos informantes conseguiu identificar qualquer presença herege em Châtillon ou nas vilas adjacentes. Em vez disso, trouxeram-me uma avalan­che de histórias sobre fenômenos incomuns que estariam ocorrendo naqueles vales, mas sem nenhuma ligação apa­rente com a heresia.

Que tipo de fenômenos? - perguntou Urbano, curioso.

Aparecimentos de criaturas inquietantes, monstros in­descritíveis, duendes.

Consideramos que nenhuma localidade de montanha está livre de tais lendas - observou o pontífice, alisando o ca­vanhaque, último vestígio de sua ascendência cavalheiresca.

Concordo plenamente com vossa santidade. De toda forma, indagarei a respeito também, sem perder de vista a missão principal.

Contamos com isso. - Urbano pôs a mão sobre o braço de Eymerich. - Agora vá, padre Nicolau, e nos dê notícias assim que puder.

Eymerich inclinou-se para beijar o anel do pescador e desceu pela escadaria que levava ao trono. Atravessou em rápidas passadas a sala da Grande Audiência, sem diri­gir um só olhar aos prelados sentados ao redor. Urbano o acompanhou com um olhar alegre e indulgente.

Na primeira hora do dia seguinte, após ter consumido uma leve refeição à base de sopa de legumes e um pedaço de atum salgado, o inquisidor deixou Avignon montado em um belo cavalo branco. A seu lado estava o padre Jacinto, cuja corpulência sacrificava bastante a montaria, e atrás o capitão, o notário e os dois confortadores. O carrasco e seus ajudantes encerravam o cortejo seguindo os soldados, ali­nhados em duas fileiras de cinco.

Nos dias seguintes, a caravana subiu o vale do Ródano até Lion, depois adentrou o condado de Savóia e parou em Chambéry, onde Eymerich esperava encontrar o Conde Ver­de. Foram recebidos com grandes honrarias no castelo, mas lá ficaram sabendo que Amadeu estava na residência de Ripaille e não voltaria antes do fim do verão.

Dispensando as atenções que lhe eram dedicadas, o in­quisidor retomou a viagem. A expedição atravessou os Al­pes via Columna Jovis. Três anos antes, o Conde Verde sur­preendera os montanheses ao mandar transportar, através daquela passagem, uma jaula com um leão destinado à sua corte. Quando Eymerich soube do fato, suas dúvidas sobre a confiabilidade do personagem cresceram sensivelmente.

A cavalgada prosseguiu na direção de Aosta, com uma rápida parada na paróquia de Moracio. Ao entrar na cidade pela Porta Decumana, Eymerich dirigiu-se imediatamente ao bispo de Quart, com o qual manteve um rápido diálogo. Considerou o bispo cortês porém distante, e no fundo ir­ritado pelo fato de o pontífice ter-lhe concedido um poder apenas formal sobre o tribunal a ser constituído. Depois o inquisidor reuniu seu séqüito, cansado e com frio, e anunciou a intenção de viajar para Châtillon com uns dois dias de vantagem sobre o grupo.

As objeções do padre Jacinto foram veementes. - O se­nhor não pode, magister. Se os hereges estiverem sabendo de sua vinda, poderão preparar-lhe uma emboscada no ca­minho para a vila.

- Além disso, corre o risco de encontrar bandos de mal­feitores - acrescentou o capitão da escolta. - Sei que eles an­dam por estes vales, às vezes a serviço de algum vassalo.

Eymerich se manteve irredutível. Após uma refeição à base de cozido e vinhaço em uma taverna (o bispo tinha se omitido de oferecer-lhe hospedagem), na sexta hora mon­tou a cavalo, repetiu aos homens a ordem de porem-se a caminho dois dias depois e deixou a cidade em passo ace­lerado. Em vista da periculosidade da tarefa, o papa o ti­nha dispensado da proibição de carregar armas. Eymerich, portanto, cavalgava com uma espada, cuja bainha batia em uma bolsa de livros pendurada à sela.

Dentre eles, Opus de Fide Catholica Adversus Haereticos et Waldenses qui Postea Albigenses Dicti, de Alano de Lilla, copiado pelos dominicanos de Avignon; Summa de Catharis et Leonistis seu Pauperibus de Lugduno, de Rainerio Sacconi, bispo herege reconvertido; Liber qui Super Stella Dicitur, de Salvo Benci, outro cátaro renegado; e De Inquisitione Haereticorum, de Ivoneto, que Eymerich tinha consultado ampla­mente para redigir seu tratado.

O peso dos volumes era tamanho que o cavalo de vez em quando sacudia o dorso, sem ter consciência de que trans­portava os textos mais acreditados e eruditos sobre a here­sia cátara existentes naquele momento.

Um pouco mais tarde, percorrendo uma picada de colina entre o castelo dos Quart e o fundo do vale, Eymerich pôde saborear a plena satisfação de ter se livrado da escolta.

Desde sempre, a solidão havia sido seu conforto, seu mo­mento de mais íntima alegria e liberdade interior. Sua en­trada na ordem dominicana, mesmo que devida à posição de filho mais novo da família aristocrática à qual pertencia, tinha correspondido plenamente a suas mais profundas aspirações. Os corredores silenciosos da abadia de Gerona, onde tinha transcorrido o noviciado, as naves úmidas e sombreadas, as horas de recolhimento na cela, temperadas apenas pelo fugaz e rápido colóquio com os outros noviços, tinham lhe proporcionado momentos de imensa alegria, di­ficilmente compreensíveis fora dos conventos.

Não que fosse um solitário por natureza. Os anos pas­sados no prestigioso studium dominicano de Toulouse per­mitiram a manifestação de suas grandes ambições, sendo a primeira delas a de sobressair, mas com discrição, e de contar com um bom grupo de jovens admiradores. Mas ai de quem, entre eles, ousasse instaurar uma amizade fra­ternal ou passar mais tempo com ele do que o devido. Isso faria Eymerich sentir-se invadido, sufocado. Livrando-se do inconveniente com algumas respostas mordazes e mo­tes venenosos, fechava-se em uma capa de frieza e se re­colhia na cela, um pouco arrependido do próprio compor­tamento, mas também imbuído de uma eufórica sensação de libertação.

Agora, sozinho em seu cavalo, entre o silêncio dos cumes e o espetáculo encantador dos vales cor de esmeralda, com algumas pinceladas brancas de neve, Eymerich vibrava de felicidade sob o véu do sereno recato que os hábitos adquiridos em conventos lhe impunham.

Reconheceu o altivo castelo dos barões de Nus, já descri­to por seus emissários, e a pouca distância, na outra mar­gem do rio, o chamado castelo de Pilatos, grosseiro e amea­çador. Mas seus olhos estavam voltados para as lâminas cintilantes das geleiras, as florestas impenetráveis, os cór­regos impetuosos que corriam para o rio, interrompendo de vez em quando a passagem.

Ele não pensava demasiadamente na missão que tinha a cumprir. Os erros que em suas primeiras experiências ha­via visto cometerem em Aragão sob o signo da Inquisição certamente não seriam repetidos; nem a cruel repressão dos surtos heréticos imposta em Castres, dessa vez orques­trada por ele próprio, seria necessária. Pelo menos não na mesma medida.

Eymerich detestava sangue, e causar sofrimentos não lhe dava nenhum prazer. No entanto algumas vezes sen­tia-se tomado de impulsos agressivos quase incontroláveis, que o deixavam surpreso e vagamente humilhado. A isso remediava, na medida do possível, recorrendo a uma lógi­ca férrea que fazia submergir o sentimento de culpa pela violência exercida na sensação de ter cumprido seu dever a serviço de Deus. Mas, apesar de reconfortá-lo, não era o bastante para anular certa perturbação interior, cujo reflexo era uma espécie de identificação com as próprias vítimas.

O encanto dos vales que atravessava lhe inspirava uma calma interior que havia muito não sentia. E de repente ele, sempre tão vigilante, foi colhido de surpresa pelo aconteci­mento que se desenrolou a sua frente, já próximo de Fenis.

Uma cobra inócua se arrastava pelo terreno, entre as pedras que representavam a última relíquia de uma anti­ga estrada romana. O cavalo de Eymerich, que avançava preguiçosamente, levantou o casco sobre o réptil. Naquele momento, um ser cor-de-rosa saiu com um pulo das moitas de zimbro que ladeavam a estrada, rolou diante do cavalo, agarrou a cobra e, com surpreendente agilidade, voltou a ficar em pé a poucos passos de distância.

Era um menino ou coisa parecida. A incerteza dependia do fato de que a criatura, que agora apertava o réptil respi­rando ofegante, tinha algo de anormal. Nos poucos instan­tes em que seus olhos se cruzaram, Eymerich pôde captar um olhar fixo e obtuso, comparável ao de um peixe, sobre traços levemente esboçados e sem pêlos.

Foi um instante. A criatura, esquelética e nua, se embre­nhou sobre quatro patas na vegetação e desapareceu com sua presa. Eymerich, inquieto, pensou em um macaco de alguma espécie que não conhecia; porém mais tarde a lem­brança das articulações certamente humanas, apesar de muito compridas e magras, fez com que abandonasse a idéia. Não, era uma criança. Talvez uma aberração da natureza, o fruto de um acasalamento ilícito ou de uma enfermidade devastadora.

Eymerich se deteve um pouco observando as moitas, de­pois retomou a cavalgada. Estava atravessando um córrego que cortava velozmente o caminho, lançando-se em segui­da pelos lados da colina como o jato de uma fonte, quando um segundo espetáculo desconcertante apagou todo resí­duo de bom humor que lhe restava.

Parecia um grande rato com mãos humanas no lugar das patas. Infiltrou-se com rapidez nas moitas, mas não o suficiente para impedir que o inquisidor visse os dedos, perfeitamente articulados e com unhas, correndo pelo chão debaixo do corpo peludo do animal.

Apesar de seu sangue-frio característico, Eymerich não pôde deixar de esboçar um convulsivo sinal-da-cruz. Ficou observando, alarmado e sem fôlego, a vegetação, enquan­to o cavalo também dava sinais de inquietação. Mas tudo parecia ter voltado à imobilidade e não se ouvia nenhum ruído além do murmúrio do córrego.

A razão aos poucos voltou a dominar a mente do inquisi­dor, fazendo-o aceitar a hipótese de uma falha dos sentidos. Mas percebeu que seu humor estava péssimo, e até o céu, tão sereno, lhe parecia agora tenebroso e ameaçador. Acelerou o passo do cavalo, fechando-se na áspera roupa de tela cinza que tinha vestido para a viagem. Agora sentia frio, e o ar castigava seu rosto, causando incômodo.

Ao chegar a Fenis, dominada pelo imponente castelo, en­controu alguns camponeses carregando suas ferramentas. Não respondeu à saudação deles. Mais tarde, a amenidade do lugar voltou a se impor, e a lembrança das estranhas criaturas vistas pelo caminho foi se dissipando aos poucos, sufocada pela certeza de ter se confundido.

Chegou a Châtillon na hora vespertina, passando por uma velha ponte de arco único. Era um pequeno burgo, com casas em madeira ou alvenaria, onde sobressaíam a igreja e o castelo. Este último tinha um aspecto quase gracioso se comparado ao outro de construção mais recente, incrustado em um cume ao sul da vila. No primeiro ondulava ao sabor do vento o emblema dos Challant, sinal de que Ebail estava em seus aposentos; porém já era tarde para uma visita, e Eymerich a adiou para a manhã seguinte.

Do outro lado da ponte, quatro homens armados faziam a guarda. Seus casacos exibiam um brasão prateado com faixa vermelha e listra preta, e o desenho se repetia na capa curta. Eram robustos e rudes, com espessas barbas louras e traços duros. Com a chegada do inquisidor, interrompe­ram por um instante a partida de dados na qual estavam entretidos. Olharam em silêncio para o estrangeiro, depois, constatando que vestia roupas ordinárias e não transporta­va nenhuma carga, voltaram ao jogo.

Eymerich alojou-se em uma hospedaria que ostentava um emblema representando três cabeças coroadas, per­to do caminho que levava à igreja e ao castelo. Mais tarde, enquanto jantava os poucos pedaços de carne cozida fartamente coberta de pimenta, servida por um taberneiro cala­do e distraído, examinou cuidadosamente os freqüentado­res sentados às outras mesas.

Eram na maioria soldados, absortos nas mesas de jantar do amplo salão do andar térreo ou esvaziando jarras de vi­nho não acrescido de água. Os mais jovens jogavam dados, acompanhando cada lance com exclamações de incitação, regozijo ou decepção. Eymerich notou com prazer que, ape­sar do barulho e da excitação do jogo, não se ouviam blas­fêmias e, fato realmente insólito para aquele tipo de lugar, não se viam prostitutas.

No canto oposto da sala, ao lado da lareira que envia­va a fumaça para uma abertura no forro, estava sentado a uma mesa, sozinho, um jovem magro, cujas feições tinham as marcas de uma varíola curada. O inquisidor trocou rapidamente alguns olhares com ele, tendo reconhecido o terciário dominicano enviado para observação, depois to­mou o cuidado de não tornar a olhá-lo. O jovem, que vestia um casaco comum de mangas apertadas, comportou-se da mesma forma.

A mesa mais próxima da entrada da cozinha era ocu­pada por três homens vestindo túnicas curtas, enfeitadas de elegantes ornatos. Na cabeça, usavam ricos turbantes bordados que pendiam sobre os ombros. Falavam em voz baixa, mas Eymerich percebeu que tratavam de negócios, e a discussão ficava cada vez mais acalorada. Perto deles, um indivíduo idoso e corpulento, com o capuz do manto lhe co­brindo a testa, tomava sua sopa sem tirar os olhos da cuia.

À direita de Eymerich, ao lado da entrada, havia uma mesa vazia. Mais adiante quatro soldados, três jovens e um idoso, guarnecidos com o emblema dos Challant. As vozes deles chegavam suficientemente nítidas até Eymerich, ape­sar do barulho dos fregueses entretidos no jogo.

Tinham pedido vinho, pão e sopa de feijão. Fato incomum, tratando-se de homens de armas, assim que foram servidos partiram o pão e se puseram a rezar, por sugestão do mais idoso. O inquisidor olhou para eles com interesse.

... santificetur nomen tuum, adveniat regnum tuum...

Eymerich, positivamente impressionado, uniu-se men­talmente à oração deles. Fiat voluntas tua, sicut in coelo et in terra. Panem nostrum quotidianum...

Nesse ponto, teve um sobressalto, percebendo que sua oração e a dos soldados não estavam mais em sintonia.

Panem nostrum supersubstantialem da nobis hodie - era o que os quatro diziam, e depois concluíram a oração com as palavras costumeiras e se dedicaram com alegria ao ali­mento, conversando normalmente.

"Panem nostrum supersubstantialem", repetiu Eymerich para si mesmo. Era impossível que estivesse enganado.

Contemplou longamente os soldados, com olhar pensativo. Depois se levantou com gestos lentos, cumprimentou o taberneiro e recolheu-se em seu quarto. A última parte das horas canônicas já havia passado fazia muito tempo.

 

                             1945 - O Segundo Elo

Como o senhor teve a idéia de apresentar-se aqui justamente no dia do aniversário do Führer?

O tom arrogante do professor Gebhardt incomodou pro­fundamente Jakob Graf. Ele não tinha arriscado a própria vida nas ruas de uma Berlim semidestruída para ser trata­do de forma tão grosseira. E, além disso, o roliço Gebhardt, com o qual tinha trabalhado algumas vezes, era inferior a ele na hierarquia acadêmica.

Mas Graf não era homem de deixar transparecer impul­sos de raiva. Com um tom de voz quase humilde, respon­deu: - Foi o próprio Führer quem me chamou aqui. Ignoro o motivo, mas certamente é para alguma coisa relacionada a minhas pesquisas.

- Entendo. - O tom de Gebhardt tinha amansado consi­deravelmente. - Isso modifica as coisas, e o senhor fez mui­to bem em apresentar-se a mim. Mas não vou poder acom­panhá-lo. - O acadêmico estufou o peito. - Acabei de ser nomeado comandante da Cruz Vermelha alemã para todo o território nacional.

Não o invejo, pensou Graf; mas limitou-se a dizer: - Mi­nhas mais vivas congratulações.

- Obrigado. Um SS o acompanhará pelos corredores do bunker. O senhor mesmo verá que o Führer está em perfeita forma, vigilante como sempre em seu posto de comando.

Gebhardt confiou o hóspede a um suboficial de impecá­vel uniforme preto e se despediu. Enquanto percorriam um corredor frio e escuro, cujas paredes blindadas não conse­guiam sufocar o eco das explosões vizinhas, Graf pergun­tou-se se tornaria a ver vivo seu vaidoso colega.

Ele supunha que no Vorbunker o pessoal tivesse sido reduzido ao mínimo; constatou, pelo contrário, que cada sala para onde olhava estava lotada de gente. Reconheceu em um grupo os generais Keitel e Krebs, um tanto tensos e discutindo calorosamente. O homem gordo com eles, de uniforme marrom, devia ser Martin Bormann, mas não ti­nha certeza.

Chegava-se ao Führerbunker por uma curta escada. O suboficial pediu que ele esperasse e, descendo pelos de­graus, desapareceu atrás de uma chapa deslizante de aço. Depois de alguns segundos, fez um sinal para que ele se aproximasse.

Andaram por alguns corredores ainda mais escuros que os do andar superior, interrompidos por portas e por ban­cos de metal encostados às paredes. Ao contornarem um deles, foram envolvidos por uma alegre musiqueta. Atrás de uma parede móvel vigiada por dois SS, uma fraca voz feminina cantava em inglês.

O suboficial confabulou com os guardas. Um deles fez a parede deslizar, permitindo que Graf visse uma mesa en­feitada de festões e bandeirinhas. Viu Goebbels, sentado no fundo, esticando-se para observá-lo e depois murmurando alguma coisa ao vizinho a sua esquerda, na cabeceira da mesa. Logo em seguida, o Führer saiu da sala e foi lenta­mente a seu encontro. O fechamento da parede sufocou a música e a canção.

Enquanto se enrijecia na saudação, Graf notou a extrema palidez e o passo pesado de Hitler, que avançava majestoso carregando debaixo do braço direito um grosso livro ver­melho e uma caixa roxa. Mas não teve tempo de completar seu exame.

Quem é o senhor? Seu nome não me diz nada.

O tom era tal que teria congelado homens bem mais corajosos que Graf. Com voz insegura, quase trêmula, ele respondeu: - Professor Jakob Graf, mein Führer, vice-dire­tor do Projeto Genético do Reich. Vim em obediência a sua convocação. - Depois acrescentou: - E para lhe desejar feliz aniversário.

Foi um adendo oportuno. As feições de Hitler pareceram relaxar. Com um gesto cordial, quase amigável, acompa­nhou Graf até um dos bancos encostados à parede. - Não vou recebê-lo em meu escritório, professor, porque neste momento está cheio de presentes. Aceita um doce?

Graf percebeu que a caixa que Hitler segurava na mão era de chocolates. - Não, obrigado, mein Führer.

Hitler olhou para a caixa como se estivesse indeciso quanto a abri-la, depois decidiu pousá-la a seu lado. O olhar dele recaiu então sobre o livro que tinha trazido sem pen­sar. - Foi um presente dos Goebbels. A partitura original da Valquíria de Wagner. Uma das máximas expressões da genialidade germânica.

Uma edição preciosa - comentou Graf, embaraçado.

Não. Uma simples cópia. - Havia um sinal de desgosto nas palavras do Führer. Evidentemente esperava um presen­te mais valioso. - Mas vamos a nós. Como foi sua viagem a Berlim? Difícil?

Um pouco, mein Führer.

É questão de horas. As tropas do general Steiner já vão acabar com o inimigo. Sabe o que eu digo?

Não, mein Führer.

Ao atacar Berlim, Stalin cometeu o maior erro de sua vida.

Hitler riu feliz com sua tirada. Graf também riu para agradá-lo. - E agora - continuou o Führer - conte tudo, pro­fessor. Como vão suas experiências?

Graf engoliu um pouco de saliva. - Muito bem, espe­cialmente desde que estamos trabalhando com o cólquico. Uma plantinha parecida com o açafrão, cujas propriedades foram descobertas há alguns anos por um ame... por um estrangeiro.

Cólquico? Interessante. E quais seriam essas proprie­dades?

É uma explicação um pouco longa, mein Führer.

Conte o essencial.

Bem... - Graf procurou as palavras. Não sabia se Hitler entenderia a explanação; achava, aliás, que ele estava um tanto distraído. - As células humanas se multiplicam se­gundo um processo chamado mitose. Durante a mitose, os cromossomos se duplicam junto com a célula, de tal forma que no fim do processo temos duas células, cada uma com o mesmo número de cromossomos da célula original. Espero ter sido claro.

Hitler anuiu, sufocando um leve bocejo. Graf continuou: - O cólquico contém um alcalóide, a colquicina, que altera esse processo. As células se dividem e os cromossomos se duplicam, mas não se distribuem pelas duas células, permanecem em uma só. Então temos algumas células com uma quantidade dobrada de cromossomos em relação à normal.

E o que implica tudo isso? - O olhar de Hitler vagava de um lado ao outro das paredes.

Bem, multiplicando a quantidade de cromossomos nas plantas, obtemos exemplares maiores e mais robustos. Mas os animais morrem. Meus experimentos visam encontrar um modo de aplicar a colquicina no homem sem causar da­nos, para obter exemplares geneticamente melhorados. O professor Gebhardt me cedeu alguns prisioneiros...

Espero que o senhor não queira melhorá-los também - interrompeu Hitler com um olhar frio.

Graf empalideceu. - Oh, não, mein Führer. Eles são ape­nas cobaias. - Apressou-se em mudar de assunto. - O outro problema levantado é a possibilidade de aplicar a colquicina não às células fecundadas, mas às células comuns, dobran­do os cromossomos do indivíduo adulto também. Estamos procurando um veículo adequado.

O termo "veículo" pareceu reanimar a atenção do Führer.

Esse produto poderia ser utilizado como arma? Ou seja, haveria possibilidade de extrair alguma coisa parecida com o gás mostarda?

Graf percebeu que seu interlocutor não tinha entendido nada da explicação; provavelmente nem sabia o que eram cromossomos. Mas não ousou contrariá-lo. - É sem dúvida uma hipótese a ser considerada - mentiu.

Bem, professor. - Hitler levantou-se de chofre, logo imitado por Graf. - O senhor deve voltar logo aos laborató­rios e me manter informado. Mas é conveniente que parta depois do ataque de Steiner. É mais seguro.

Na verdade, eu preferiria... - começou Graf.

Não quero que o senhor se exponha a riscos. - Hitler pegou a caixa e o livro. - Aliás, é questão de poucas horas. Até lá pode se dirigir ao secretário Bormann, que lhe arran­jará um quarto perto do dele.

Enquanto cumprimentava o Führer, que voltava a seus convidados, Graf sentia-se como um animal na armadilha. Aquela sensação acabou sendo sobrepujada pela idéia que se agitava em sua cabeça desde que Hitler tinha menciona­do a iperita, ou gás mostarda. Era uma idéia maluca, mas quem sabe se...

Foi com os olhos brilhantes que subiu de novo as escadas à procura de Bormann, cujo destino ele compartilharia.

 

                                     CONSOLAMENTUM

Ebail de Challant observou Eymerich sem conseguir dis­simular a hostilidade. O inquisidor entendeu que não era apenas a razão de sua visita que incomodava o suserano. Eram também as roupas velhas e surradas que ele ves­tia, sua maneira de agir, cautelosa e serena, a impenetrabilidade do olhar.

As características do senhor de Challant eram direta­mente opostas. Ainda jovem e vigoroso, parecia ignorar os meios-tons, seja nas argumentações, seja no timbre de voz. Além disso, cada movimento dele denotava ener­gia e dinamismo, tanto que parecia manter todos os mús­culos em permanente contração sob a rica veste de cor prata e púrpura.

Incapaz de ficar parado por mais tempo, Ebail levantou-se e passeou nervosamente na frente da grande lareira. Lan­çou um rápido olhar a Châtillon, que brilhava ao sol através dos vidros em losango, depois parou diante de Eymerich, fitando-o com firmeza.

- Imagino que esta brincadeira seja obra do meu amigo Amadeu - disse, sarcástico.

Eymerich não se deixou abalar. Em voz baixa, acentuan­do todos os comportamentos que pareciam desagradar o outro, respondeu: - Ignoro isso, senhor. Eu me limito a exe­cutar os ditames do sumo pontífice.

Ebail bateu a mão na mesa, fazendo vibrar a garrafa que jazia sobre ela. - Ditames! - exclamou. - E o que, eu per­gunto, teria inspirado esses ditames? Qual é a necessidade de um tribunal da Inquisição nas minhas terras? Será que o papa sabe que eu nem tenho carrasco e que há no mínimo quarenta anos não se queima nenhum herege por aqui?

Eymerich tinha decidido não revelar de imediato o obje­to da sua missão; contudo não pôde evitar dizer: - Não é só a heresia que a Inquisição reprime, senhor.

E o que mais? - perguntou logo Ebail. - A bruxaria? A simonia?

A fraqueza dos crentes - foi a resposta.

Ebail elevou o olhar ao céu, suspirou e deixou-se cair no­vamente na cadeira. - Ouça - disse num tom mais calmo. - Quando cedemos o viscondado aos Savóia, renunciamos a muitas de nossas prerrogativas. Eu diria que a todas as essenciais. Mas mantivemos uma: a de administrar a justi­ça em nossas terras. E agora aparece o senhor, aliás, se me permite, disfarçado, anunciando que até a última manifes­tação da autoridade dos Challant é tirada de mim? O que eu deveria dizer?

Não sei, meu senhor - sussurrou Eymerich.

Mas eu sei - continuou Ebail num tom irado. - Deveria dizer que os Visconti reservam aos próprios vassalos um tratamento melhor que o reservado pelos Savóia aos deles.

Era uma clara ameaça voltada contra Amadeu. Eymerich entendeu que o senhor de Challant o julgava um emissário direto da corte de Chambéry. Isso não era apenas falso. Era perigoso. Decidiu dissipar logo o equívoco.

Permita-me dizer-lhe que está enganado. - A voz do in­quisidor agora tinha assumido uma inflexão decidida, que pareceu causar uma boa impressão ao interlocutor. - Aqui não se trata nem de Savóia, nem de Visconti, nem de Monferrat. É a Santa Igreja Romana que quer exercer seu poder. Espero que o senhor não tenha intenção de se opor. - De­pois de proferir as últimas palavras num tom quase solene, Eymerich abrandou o timbre. - Enfim, posso assegurar-lhe, senhor, que a Inquisição não interferirá na justiça ordiná­ria. Esta permanece em suas mãos, como é justo que seja. Eu me ocuparei apenas de extirpar qualquer erva daninha que conspurque a colheita de almas que cabe ao nosso Senhor. Se me ajudar, seu feudo será beneficiado e, além dis­so, o senhor gozará da benevolência papal.

Ebail permaneceu por um tempo calado, olhando fixa­mente nos olhos de Eymerich. Quando falou, uma nota de resignação vibrava em sua voz. - Ajudá-lo, o senhor diz. Mas o senhor percebe que, se colocasse à sua disposição meus soldados, eu atrairia o ódio de meus súditos?

Eymerich encolheu os ombros. - Tenho os meus homens. Se eu realmente precisar de um reforço, o senhor poderia alegar que Amadeu o forçou a isso.

Assim eu ficaria no papel de vítima, e deixaria de ser respeitado - retrucou Ebail. Em seguida, acrescentou sus­pirando: - Certo, não tenho como me opor ao que o senhor tem em mente. Mas não poderia me adiantar o que torna necessária a intervenção da Inquisição?

Não, senhor, pelo menos por enquanto. O que procuro pode não existir, ou não ser tão grave. Neste caso, nem se­ria preciso instalar o tribunal. - Eymerich reprimiu um pe­queno sorriso ao notar um lampejo de esperança passando pelos olhos do Challant. - De qualquer forma, eu lhe pro­meto uma coisa. Assim que colher as provas, se é que vou colhê-las, não apenas relatarei tudo ao senhor nos mínimos detalhes como cuidarei para que sua casa não seja envolvi­da nas conseqüências.

Agora eu é que vou lhe contar uma coisa - disse Ebail, inclinando-se sobre a mesa e apoiando a mão no braço do inquisidor. - O povo destes vales é muito unido. Vivemos de forma tranqüila, sem contrastes ou turbulências. Não sei quantos hoje em dia podem dizer a mesma coisa. Gostaria que seu trabalho não perturbasse esta situação. É um pedi­do que lhe faço.

Eymerich pareceu refletir. Depois disse: - Enquanto esperava ser recebido pelo senhor, folheei um manuscrito aberto na estante da pequena sala aqui ao lado. Era um texto de Arnaldo de Villanova, Aphorismi de Gradibus. Uma frase estava grifada.

Ebail confirmou. - Sei de que frase o senhor está falan­do. Quod divisum est divideri non potest. O que está dividido não pode ser dividido.

Certo. Pois bem, se a erva daninha que me manda­ram extirpar existe realmente, a unidade de sua gente já está comprometida. E tem mais. - Desta vez foi Eymerich quem se inclinou sobre a mesa. Falou lentamente. - Vive­mos em tempos difíceis, em que o mundo parece ter per­dido o favor divino. A grande peste debilitou a Europa, a aristocracia está se despedaçando, o rei da França mor­reu prisioneiro dos ingleses, do Império do Oriente, por obra dos turcos, só sobrou Constantinopla. Por todo lado há guerras, carestias, insurreições de camponeses. Em um cenário como esse, só uma autoridade pode manter unidos os membros que estão se despedaçando. A da santa Igreja católica, apostólica e romana.

Exilada na França - observou Ebail, sem nenhum sinal de maledicência.

Urbano já está pensando na possibilidade de voltar a Roma. Mas não é isso que interessa. O que vale, senhor, é que a Igreja é o único poder capaz de passar quase incólume no meio de tantas reviravoltas, e o único poder que todos reconhecem, pelo menos no plano espiritual. O que sobrevive do Império está dentro dela. É um império mais sólido que o outro, porque não é fundado apenas na força. - Eymerich juntou a ponta dos dedos. - Veja então, meu senhor, que cada atentado à cristandade, por mais secundário que possa ser, é uma ameaça contra a única instituição capaz de regene­rar povos e reinos que atualmente estão em ruínas. E pode compreender que todo cavalheiro disposto a participar com a própria espada do cumprimento da missão deixará um ras­tro tão duradouro quanto as pedras de seus castelos.

Pronunciadas essas palavras, Eymerich percebeu que ti­nha vencido a partida. Ebail, senhor de poucos vales perdi­dos entre as montanhas, por um instante tinha conseguido elevar-se a alturas que lhe eram inacessíveis, e lançado o olhar para onde era decidido o destino de povos e conti­nentes, ou talvez de toda uma civilização. Inebriado, agora fitava o inquisidor com olhos brilhantes de exaltação.

Suas palavras são sábias - disse com simplicidade, sem tentar esconder o respeito que o outro tinha conseguido inspirar-lhe. - Conte comigo e com os meus soldados para quaisquer ações que desejar empreender.

Eymerich conseguiu abafar a própria satisfação baixan­do o olhar como se quisesse refletir e em seguida o ergueu vagarosamente. - Agradeço-lhe, senhor, e creio poder fazer isso também em nome do sumo pontífice. Quanto a seus soldados, repito, não vou precisar deles. Mas o senhor seria de grande ajuda se pudesse indicar um lugar idôneo para hos­pedar o tribunal pelo tempo em que estiver funcionando.

Creio que os monges de Verrés ficariam muito honra­dos em... - começou Ebail.

Não - interrompeu Eymerich. - É em Châtillon que precisamos agir. Preferimos instalar-nos aqui.

Uma sombra anuviou a testa de Ebail. - O senhor quer meu castelo?

O inquisidor balançou a cabeça. - Não, senhor. Algo muito mais modesto, e também um pouco mais afastado.

O rosto do suserano se distendeu. - Penso ter algo ade­quado. - Apontou através da janela dupla. - Está vendo aque­la construção na colina? É o castelo de Ussel. Eu mesmo man­dei construí-lo por razões de defesa, que depois se tornou desnecessária. Está à disposição pelo tempo que desejar.

Eymerich levantou-se sorridente. - Meus agradecimen­tos, senhor, só podem expressar uma parte de minha grati­dão. Se de meu lado puder fazer alguma coisa...

Apenas informar-me, quando puder, sobre a natureza da chaga que veio sanar. Ordenarei a meus homens e ao alcaide de Ussel para que lhe forneçam o que precisar. Vol­tarei hoje mesmo a Fenis, onde resido habitualmente com meu irmão François. O senhor enviará para lá as mensa­gens que desejar me dirigir.

Eymerich entendeu muito bem que Ebail estava se retiran­do de Châtillon para envolver-se o mínimo possível nos even­tos que viriam a seguir. Saudou o suserano com uma profun­da reverência, retirando-se com um sorriso nos lábios.

A visita à igreja, uma construção anônima com um belo campanário, o deixou decepcionado. Tinha pensado em arrancar do prior alguma informação sobre os hábitos dos aldeões, e talvez algumas explicações sobre as criaturas grotescas vistas no dia anterior. Mas encontrou um padre decrépito e meio surdo que nem conseguiu entender quem era aquele sujeito que o interrogava. Com o desprezo que involuntariamente dedicava aos fracos, Eymerich o deixou falando sozinho enquanto ainda tentava completar uma frase totalmente desconexa.

Desceu a colina, entrou na vila, que naquela hora fer­vilhava de atividade. Na soleira das pequenas lojas, sapa­teiros, marceneiros, ferradores e alfaiates discutiam com os ajudantes ou conversavam com os fregueses ao mesmo tempo em que faziam seu trabalho. Ao lado ou em torno deles fluía um lento e ruidoso cortejo de mulas e carro­ças, enquanto galinhas, patos e até leitões corriam entre as pernas dos transeuntes.

Eymerich detestava multidões, a menos que fosse densa o suficiente para assegurar-lhe o anonimato. Desceu o ca­puz até os olhos e apertou o passo, enquanto penetrava na aglomeração com olhares exploratórios.

A sensação de intolerável opressão que começava a invadi-lo se dissipou quando viu o que procurava. Em um canto da praça onde homens e animais pareciam confluir, abar­rotado com as barracas de um mercado, um grande soldado de cabelos vermelhos como o fogo estava ditando uma car­ta ao escrivão. Eymerich identificou logo este último como o terciário enviado de antemão com a tarefa de instalar-se no local. Sorriu consigo mesmo, constatando o sucesso da missão.

Precisou esperar muito para conseguir chegar perto do jovem. A mensagem que o soldado ditava devia ser bem con­fusa, porque toda frase era acolhida pelo escrivão com objeções, reclamações e expressões de interrogação. Eymerich fingiu-se interessado na exposição que um charlatão fazia a alguns camponeses sobre o uso de uma ambígua poção; depois examinou e tocou os tecidos expostos em uma banca, notando que as beiradas esbarravam na palha que pratica­mente forrava o chão. Quando por fim o soldado se afastou apertando na mão seu parto literário, ele se aproximou.

Colocou-se acocorado ao lado do escrivão, como se qui­sesse ditar-lhe uma delicada missiva de amor que seria escrita com a caligrafia do outro. Jogou o capuz para trás. - Está me reconhecendo?

Sim, magister. - O escrivão fez uma leve reverência. - Já o reconheci ontem à noite na taverna.

Eymerich olhou ao redor, com circunspeção. - Podemos falar?

Claro. Quem olhar para cá pensará que o senhor está ditando alguma coisa. Não podia ter escolhido um lugar melhor.

Seu nome é Jean Pierre, se não me engano.

Sim, magister, Jean Pierre Bernier, de Marselha. Sou terciário da ordem...

Sei, sei. - Eymerich levantou-se, deixando passar uma charrete carregada de feno, depois se curvou na direção do jovem. - Conte depressa. Descobriu alguma coisa?

As feições marcadas pela varíola do escrivão assumiram uma expressão de reflexão. - Bem... sim e não.

A resposta irritou o inquisidor. - O que isso quer dizer? Explique.

O jovem pensou por alguns instantes, depois respondeu:

Para começar, o vale está cheio de monstros...

Então eu não estava enganado. - Curiosamente, a voz de Eymerich denotava certo alívio. - Ratos enormes com mãos humanas, crianças que parecem macacos?

Sim, e ainda tem mais - respondeu o escrivão. Fechou os olhos como se a recordação o aterrorizasse. - Quando che­guei, pensei ter entrado em um pesadelo. Estava na entrada da vila, antes da ponte. Vi alguma coisa se arrastando pelo chão, entre as raízes de uma grande árvore. Pensei que fos­se alguém ferido e me aproximei sem nenhuma precaução.

Reabriu os olhos, arregalando-os involuntariamente. Sua voz se tornou trêmula. - Não era um ferido. O corpo e a for­ma do focinho eram de um porco. Mas a boca não, a boca era de homem. E os olhos também, enormes, azuis. Quanto às patas... Era a coisa mais horrível. Dois cotos que acabavam em nada e se agitavam como cobras. Corri de lá berrando.

Ele se calou porque um aldeão de cabelo comprido e empoeirado tinha parado a pouca distância, pousando no chão o saco que carregava nas costas. Evidentemente precisava do serviço do escrivão e tinha decidido esperar sua vez.

Tenho trabalho para muito tempo - disse o jovem, ten­tando readquirir o controle sobre os próprios nervos. - Volte mais tarde. - Para justificar o que tinha dito, molhou a pena de pato em um dos muitos vidrinhos de tinta que estavam sobre o banquinho e fingiu escrever.

O camponês fez uma careta de contrariedade, mas recolheu o saco e afastou-se caracolando. Bernier, agora mais cal­mo, voltou a dirigir-se a Eymerich. - Depois que me instalei na vila, fiquei sabendo que o monstro que tinha me transtor­nado tanto não era o único da sua espécie. Não é muito clara a origem daquelas criaturas. São denominadas de várias ma­neiras: Crocquets, Berlics, Orchons. Eles chamam de Z'kuerck o efebo que o senhor viu. Metem medo nas pessoas, mas também são motivo de piada. No fundo elas consideram o fenômeno até normal, mas sei bem pouco a respeito. Quan­to à heresia, as minhas conclusões são incertas. Não sei se existe ou não.

O rosto de Eymerich expressou seu interesse. - O que está querendo dizer?

O terciário leu naquela pergunta uma intenção de recri- minação, que na verdade não existia. Viu-se forçado a ser mais claro. - Aparentemente a fé católica do povo daqui é inquestionável. Eles freqüentam os ofícios, participam dos sacramentos, rezam mais que o normal. Porém...

Porém? - Eymerich estava grudado aos lábios do jovem.

A liturgia inclui elementos que não deveriam existir. Expressões incomuns, gestos não usuais, fórmulas que des­conheço. Mas tudo isso, e aqui está o ponto, não parece ter enfraquecido a ortodoxia.

Aprisionado pelas palavras de Bernier, Eymerich voltou a acocorar-se a seu lado. - Você ouviu algumas palavras no Pater Noster que não lhe são familiares?

Bernier confirmou com convicção. - No lugar de panem nostrum quotidianum, dizem panem nostrum supersubstantia­lem, superior à matéria. E, além disso, existe a questão do consolamentum.

Ao ouvir aquela palavra, Eymerich levantou-se de chofre, afugentando uma galinha que ciscava por perto. Esque­ceu até de manter a voz baixa. - Você disse consolamentum?

Disse. Vejo que a palavra não é estranha para o senhor. Chamam de consolamentum uma cerimônia deles. Todas as tardes, na hora vespertina, muitas pessoas se dirigem a uma igrejinha fora do povoado, no caminho para Ussel. É chama­da de capela de Saint Clair. Lá elas rezam, recitando o Pater Noster da forma que o senhor sabe. Mas de vez em quan­do renovam sua profissão de fé em Jesus Cristo colocando o quarto Evangelho na cabeça de algum deles, escolhido en­tre os mais idosos. Parece uma coisa totalmente inocente, mas é muito insólita.

O camponês com o saco tinha voltado. Pôs sua carga no chão e sentou em cima, cruzando os braços em atitude de espera.

Eymerich dirigiu-lhe um olhar fulminante, mas ele nem se mexeu. Resignado, o inquisidor dirigiu-se novamente a Bernier, mas agora em voz baixíssima. - Você já participou da função?

- Já, sem problemas. O senhor também pode ir. Há uma cerimônia programada para esta noite. Parece que os se­nhores do lugar não têm nenhuma objeção.

- Antes do vésper, vá até o castelo de Ussel. Eu estarei lá. Você me levará ao... consolamentum. - Dizendo isso, Eyme­rich levantou-se, deu uma moeda ao escrivão e pegou a fo­lha, na qual o jovem tinha rabiscado algumas palavras casuais. O camponês apressou-se a ocupar o lugar na frente do banquinho, arrastando o saco.

Eymerich estava se afastando quando um som diferen­te começou a sobrepujar o ruído da praça. Parecia um mugido gorgolejante, que rapidamente se espalhava de uma banca a outra. Enquanto o som aumentava em intensidade, o inquisidor entendeu que se tratava de risadas. Eram ir­refreáveis, impressionantes, e se propagavam de um gru­po a outro, contagiando artesãos, soldados, camponeses e

vendedores. Logo, o único som que se ouvia era o de uma imensa gargalhada.

Quando Eymerich descobriu o motivo de tanta hilaridade ficou sem fôlego, primeiro por causa da incredulidade e depois pela repugnância. Entre as bancas e as cestas de mercadoria ia abrindo caminho um homem de alta estatu­ra, vestindo um casaco de algodão cru. Seus membros não tinham nada de anormal, mas a cabeça era sem dúvida a de um burro, com orelhas e narinas bufando. Seria possível dizer que alguém tinha cortado a cabeça de um burro e cos­turado em um corpo humano, mantendo os dois vivos.

Apesar de tudo que já tinha visto em sua carreira de in­quisidor, Eymerich sentiu-se paralisado por alguma coisa que o asfixiava apertando-lhe as entranhas. Com o polegar, traçou freneticamente um sinal-da-cruz na barra da veste. Isso o ajudou a recuperar a sensação de estar pisando em chão firme.

Reanimado, voltou correndo até o escrivão. Bernier pa­recia o único entre as pessoas da praça que não havia se entregado às risadas. Eymerich afastou o camponês com um empurrão e curvou-se para o jovem. - O que é aquela aberração? - sibilou.

- É um dos tantos. Passa quase todos os dias. É o mito da vila.

Eymerich ignorou as reclamações do camponês, que ti­nha caído sentado sobre seu saco, e tentou embrenhar-se na multidão para chegar até o homem com cabeça de bur­ro. Mas ele estava no meio de uma turma de garotos que faziam muita algazarra. Avançava balançando o focinho e virando os olhos salientes, insensível à gozação. Depois um murmúrio percorreu o povaréu, apagando os gritos e as ri­sadas. O inquisidor conseguiu captar as palavras "o senhor Semurel", sussurradas com grande respeito por um merca­dor bem vestido que estava a seu lado.

No fundo da praça tinham surgido quatro soldados com o emblema dos Challant. Atrás deles vinha um sujeito a ca­valo, inteiramente vestido de preto.

Com o lado cego das espadas, baixado com brutalidade nas costas e nas cabeças, os armados dispersaram a tur­ma de garotos e de curiosos ao redor do monstro; depois o pegaram e, fechando-o entre eles, desapareceram em uma viela, enquanto o homem a cavalo lançava um último olhar de admoestação às pessoas, que também se afastavam. Aos poucos, o tumulto foi substituído pela animação normal, e homens e animais voltaram às respectivas ocupações.

Eymerich, nervosíssimo, quase voltou até Bernier, mas a perspectiva de ter que enfrentar novamente o caipira de ca­belo comprido bastou para dissuadi-lo. Preferiu continuar andando de cara amarrada, colhendo trechos de conversas e gravando na mente todo detalhe que pudesse ser útil. No entanto seus modos não conseguiam dissimular uma enor­me agitação contida.

Quando o sino da igreja tocou a sexta hora, pôs-se a ca­minho do castelo de Ussel, conduzindo o cavalo pelas ré­deas. Esperava que Ebail já tivesse avisado o alcaide de sua chegada, e que um alojamento confortável lhe proporcio­nasse a pausa reflexiva de que precisava.

A capela de Saint Clair que Bernier tinha mencionado ficava ao pé da subida, além do rio, em uma colina baixa. Eymerich empurrou as portas, que se abriram rangendo. O interior não tinha ornamentos, nem um crucifixo ao longo das paredes de pedra porosa. O altar, incrustado de salitre, era um simples bloco de granito, nu e sem sacrário. Diante dele havia um só genuflexório, sobre o qual descia a luz que penetrava por uma pequena janela sem vidros. Não parecia haver outros ambientes.

Era difícil imaginar que aquele era um lugar onde acon­tecia uma missa todas as noites. Eymerich fechou com cui­dado as portas, atravessou a pequena ponte de madeira so­bre o rio e começou a subir, seguido pelo cavalo.

A tarde era maravilhosa. O sol extraía reflexos surpreen­dentes das geleiras longínquas que contornavam a concavidade de Châtillon, como se a pureza delas tivesse se trans­formado em luz viva. Gradativamente o panorama da vila, salpicado de florestas verde-escuras e campos de giestas, foi se oferecendo à visão do inquisidor. Ele conseguiu dis­tinguir um grupo de cavaleiros, carregados de estandartes, descendo a colina do castelo dos Challant, do outro lado do sulco brilhante do rio: era certamente Ebail indo a Fenis, acompanhado de uma farta escolta.

Apesar da serenidade do conjunto, o rosto de Eymerich estava sombrio, moldado por uma fria determinação. Agora sabia que em Châtillon a heresia estava bem implantada. Tratava-se somente de descobrir a amplitude do contágio e agir de acordo. Provavelmente teria que ser inflexível, tal­vez cruel também, e isso o perturbava. Procurava então se preparar para a função que deveria forçosamente desempe­nhar, para que escrúpulos ou fraquezas não interferissem no cumprimento do dever.

Agora já estava aos pés do castelo. Diferentemente da­quele dos Challant, voltado mais ao uso residencial que ao defensivo, o de Ussel tinha todo o aspecto de um sinistro instrumento de guerra. Constituído de bloco único com pou­cas e pequenas janelas, tinha no alto algumas torres de vi­gia, tanto quadrangulares como circulares. Nenhum enfeite aliviava aquela estrutura compacta e essencial, firmemente plantada na rocha e açoitada por um vento incessante.

Foi o alcaide em pessoa quem acolheu o inquisidor. Ey­merich não teve dificuldade em reconhecer nele aquele Semurel que, algumas horas antes, tinha subtraído o monstro de cabeça asinina de seus perseguidores: um homem vigoroso e esbelto, de rosto aristocrático e cordial. Vestia um ca­saco preto apertado, com o bordado de um brasão simples e anônimo.

Tenho bem poucos empregados - desculpou-se o al­caide. - Só alguns soldados. Ebail de Challant me avisou de sua chegada, e fiz o possível para preparar-lhe um aloja­mento confortável.

Minhas necessidades são bem limitadas - respondeu Eymerich. - O que preciso mesmo é de acomodações para minha escolta, que deve chegar amanhã.

Quantos homens?

Dezoito. Dez soldados e o capitão deles, um notário, três padres dominicanos e três... - Eymerich procurou a melhor expressão - ... administradores da justiça, dois dos quais muito jovens.

Sem problemas - disse Semurel. - Vou transferir o grosso de meu corpo de guarda para o castelo dos Challant, e assim teremos quartos habitáveis para todos.

Obrigado.

Depois de entregar o cavalo a um cavalariço com cara de abobalhado, Semurel acompanhou o inquisidor através do portão, e entraram em um átrio escuro decorado de afrescos surpreendentemente feios. Ao longo das paredes úmi­das havia alguns soldados acocorados, que se levantaram, fazendo ecoar um forte ruído de ferros.

O alcaide parou na base de uma escada em caracol de aspecto inseguro. - Padre, tenho certeza de que o senhor esperava algo melhor.

Não, não. Vou me sentir muito bem. - Eymerich tinha mesmo pensado em um alojamento simples, com os móveis essenciais. Amava as paredes nuas: por isso, em Avignon, evitava ao máximo o Palácio dos Papas. Tanta redundância lhe causava mal-estar, como se sentisse a presença oculta de alguma coisa doentia.

Foi para ele uma agradável surpresa descobrir que o quarto que lhe fora destinado, no terceiro e último andar, correspondia a seus gostos. Um colchão de crina apoiado em um estrado baixo rodeado de caixas em formato de ban­cos, sem baldaquim; poucos banquinhos; um baú e uma es­crivaninha postos debaixo de uma espaçosa janela dupla. Era mais do que precisava.

Dê-me a honra de cear comigo - disse Semurel, en­quanto o servidor idoso apoiava ao lado da cama o grande amarrado de livros.

A honra será minha. - Eymerich ardia de vontade de interrogar o alcaide sobre o homem com cabeça de burro, mas conseguiu controlar-se. - Só gostaria que o jantar fosse servido depois do vésper. Tenho um compromisso na vila.

Como quiser.

Quando Semurel saiu, Eymerich abriu o embrulho e co­meçou a consultar os textos que tinha trazido. Ainda estava lendo quando o servidor chegou anunciando que um jovem estava a sua espera.

Já é hora do vésper? - perguntou o inquisidor. - Eu já vou.

Bernier estava esperando diante do portão de entrada, montando uma mula de jeito infeliz que combinava com a aparência pouco vivaz do escrivão. Eymerich pediu ao cavalariço que trouxesse o cavalo e encaminhou-se com o jo­vem pela descida que levava ao rio e à capela, entre duas altas fileiras de árvores. O fim de tarde filtrava seus reflexos avermelhados através da densa vegetação.

Você tem certeza de que nos deixarão entrar?

Não parecem alimentar desconfiança em relação aos estranhos - respondeu Bernier. Depois, com uma nota de hesitação, acrescentou: - Magister, eu gostaria de perguntar tantas coisas...

Agora não.

A porta e a única janelinha da capela de Saint Clair di­fundiam o clarão das tochas acesas lá dentro e dispersavam a fumaça. A cerimônia já devia ter começado, porque diante do pequeno edifício havia algumas poucas mulas e um ca­valo, amarrados aos troncos das coníferas.

Eymerich ordenou a Bernier que cuidasse das montarias, mantendo-as prontas para qualquer eventualidade. Abriu o cinturão e entregou a espada ao jovem, que a observou com olhar alarmado. Depois, tendo sufocado com um gesto imperativo uma incipiente objeção, dirigiu-se à porta da cape­la, cujas folhas agora estavam escancaradas.

Um pungente perfume de resina enchia a pequena sala, onde havia umas quarenta pessoas, entre homens e mulhe­res, encostadas às paredes. Nem todos tinham um aspecto miserável: entre as cabeças descobertas dos camponeses vestindo toscas túnicas de algodão, sobressaíam alguns turbantes bordados, pertencentes a mercadores e cava­lheiros de nível inferior. Em meio aos numerosos soldados presentes, Eymerich reconheceu de imediato os que vira na taverna na noite anterior. Três ou quatro crianças, no máxi­mo, pouco contagiadas pelo clima de recolhimento, corriam entre as pernas dos adultos.

O celebrante, diferenciado apenas por um cordão amar­rado na cintura, era o mesmo medicastro que Eymerich ti­nha ouvido pela manhã em Châtillon tentando empurrar aos aldeões da praça um improvável remédio. As modula­ções de sua voz eram de vendedor convincente, discursan­do no péssimo latim com sotaque franco-provençal típico daqueles vales. Segurava um livro fino de capa corroída, mantido acima da cabeça de um soldado ajoelhado diante do altar, com o elmo debaixo do braço.

Você se entrega a Deus e ao Evangelho?

Ita - respondeu o soldado.

Então jure que não comerá nenhum tipo de carne, nem ovos, nem qualquer outro alimento que não derive da água, como os peixes, ou da madeira, como o óleo...

O inquisidor, sério, tinha se apoiado na parede, de bra­ços cruzados. Alguns dos presentes o tinham observado com curiosidade, desviando logo o olhar. Eymerich notou um nível de participação no rito que beirava o êxtase, e que transparecia dos rostos atentos e dos lábios semi-abertos.

O celebrante lhe dedicou um rápido olhar. Com uma leve mudança de tom, passou do latim ao francês. Isso provocou entre os presentes um leve ondular de cabeças, que teria pas­sado despercebido a qualquer um que não fosse Eymerich. - Agora oremos pelo nosso santo pontífice Urbano, pela san­ta Igreja Católica, pelo nosso bispo de Quart. Que sobre eles recaia a bênção de nosso senhor Jesus Cristo, que encarnou e morreu por nós na cruz, ressurgiu no terceiro dia...

Os lábios do inquisidor iam esboçar um leve sorriso, imediatamente reprimido. Esperou um pouco, fingindo re­zar, depois fez o sinal-da-cruz e saiu da capela.

O que o senhor achou, padre Nicolau? - perguntou Ber­nier enquanto soltava as montarias.

Que você ainda tem muito o que aprender - respon­deu Eymerich num tom rude. Montou no cavalo e chegou perto do jovem, que já estava na sela da mula. - Você sabe o nome do médico que vende filtros no mercado?

Ele se chama Authié - disse o jovem, cujo rosto geralmen­te pouco expressivo indicava certa frustração. - Imagino que seja um diácono. Às vezes ajuda o padre durante as funções.

Aquele nome fez Eymerich estremecer. - Authié, você disse? Por acaso seria Pierre Authié?

Não sei. Ninguém o chama pelo nome.

O inquisidor refletiu um instante, depois balançou a ca­beça. - Não, não pode ser quem estou pensando, senão sig­nificaria que o diabo reina mesmo nestas montanhas. Você quer se tornar útil?

Estou às ordens, magister. - Bernier queria reconquistar logo a aprovação do superior.

Arranje algumas cobras vivas, digamos uma dezena. Víboras também servem, mas sem veneno. Quero recebê- las no castelo até amanhã à noite.

O jovem arregalou os olhos. - Cobras, o senhor disse? E onde vou achar?

Pode perguntar ao boticário, não? - Eymerich encami­nhou o cavalo para a subida. Uns dez passos adiante, virou-se para Bernier, que permanecia imóvel sobre a mula. - E tam­bém alguns lagartos - gritou. - Mas não ponha no mesmo saco. - Após dizer isso, retomou o trote na direção de Ussel.

O jovem o viu desaparecer atrás dos troncos das coníferas, enquanto os últimos raios do Sol, já escondido atrás das montanhas nevadas, enfeitavam as geleiras de reflexos dourados.

 

                                       1959 - O Terceiro Elo

O gordo Viorel Trifa suava abundantemente enquanto contemplava distraído o esquálido panorama de Gua­temala City. O terraço do hotel tinha toldos coloridos que serviam apenas para proteger as mesinhas do bar dos raios solares, já que em nada contribuíam para atenuar o calor insuportável do novembro guatemalteco.

Isso só fazia aumentar a irritação de Trifa por estar na­quele lugar. Ele lançou um olhar raivoso ao coronel Eugen Dollmann, que bebericava rum com gelo. - Para mim, ho­mem de fé, estar aqui é muito comprometedor. Se o convite não tivesse partido do comandante em pessoa, eu nunca te­ria vindo.

Os olhos de Dollmann brilharam de ironia, talvez tam­bém com uma pitada de desprezo. - Há cinco anos a Guate­mala é tão segura quanto o Paraguai. Por isso o comandante decidiu transferir-se para cá. - Fez uma pausa e acrescen­tou: - Como se chama sua igreja?

Igreja Romena Americana dos Episcopais-ortodoxos. Roumenian American Church of Episcopalian-orthodoxes. A si­gla que usamos é RACHE.

Ou seja, "vingança" em alemão. Parece um pouco im­prudente.

Para desfazer qualquer suspeita, acrescentamos "Inc." à sigla. - Trifa parou de enxugar o suor com um lenço meio emporcalhado e sorriu com jeito de esperto. - Também sou um homem de negócios.

Exatamente por isso o comandante precisa do senhor. - Apesar de estar vestindo um impecável terno cinza, Dollmann parecia insensível ao calor. - É verdade que há quatro anos o senhor rezou a oração inaugural diante do Congres­so dos Estados Unidos?

No Senado, no Senado - corrigiu Trifa. Sua voz tornou-se chorosa. - Foi quando o escândalo estourou. Os judeus fize­ram um pandemônio enchendo os jornais de denúncias con­tra o ex-dirigente da Guarda de Ferro, o instigador do pogrom de Bucareste e tantas outras coisas que eu imaginava que já estivessem esquecidas. Fui obrigado a mudar com a RACHE primeiro para Atlanta, depois para Santa Fé, onde finalmente pararam de me perseguir. - Deu um profundo suspiro.

Dollmann fitou Trifa com intensidade. - Mas sua dispo­nibilidade permanece intacta, certo?

Eu já disse isso dois meses atrás, no congresso de Hameln - respondeu o pastor, sempre mais acalorado. - Esta­rei sempre às ordens do comandante Bor...

Não mencione esse nome - interrompeu secamente Dollmann.

Trifa fez um gesto vago. - Digamos então às ordens da Hilfsorganisation. - Tomou um gole de sua bebida, uma tequila gelada servida em um copo com a beirada cheia de sal, e fez uma careta. - É verdade que o Graf morreu?

Dollmann apertou os olhos azuis. - É, há duas semanas. Para o comandante foi um duro golpe. Estavam juntos des­de o bunker de Berlim.

E o Programa Genético?

Dollmann percorreu com o olhar as outras mesas do terraço, na maioria ocupadas por oficiais guatemaltecos e por jovens prostitutas. Ninguém parecia estar escutando. - Vai continuar, se possível. - Baixou a voz, inclinando-se para a frente. - Graf tinha conseguido tornar a colquicina absorvível por um homem adulto sem efeitos letais e ao mesmo tempo mantê-la suficientemente ativa para iniciar os processos de regeneração. Era o ovo de Colombo: bas­tava diluí-la. O problema eram as doses. - Interrompeu-se para tomar um gole de rum. - Há alguns anos, Graf des­cobriu que a colquicina em uma solução aquosa de três por cento não mata e dobra o número de cromossomos nas células.

A atenção de Trifa se tornou vivíssima. - Mas então está resolvido.

Dollmann balançou a cabeça. - Não é tão simples. O se­nhor talvez saiba que existem cromossomos femininos XX e cromossomos masculinos YY. Quando Graf começou a mi­nistrar a solução aos índios, a maioria deles teve incontroláveis acessos de ira, encheu-se de tumores e morreu dentro de três dias. Parece que às vezes a colquicina atua de forma irregular, e dá origem à formação de cromossomos do tipo XYY, que Graf considerava causadores dos comportamen­tos agressivos.

Trifa fez sinal para chamar o garçom. - Então acabou tudo.

Nada disso - respondeu Dollmann. Pediu uma cerveja e continuou: - O que eu falei se refere à colquicina aplicada em adultos. Mas já temos condições, pelo menos em teoria, de agir na célula fecundada alterando seus desenvolvimen­tos. Se achássemos uma forma de administrar o processo, poderíamos fazer nascer crianças excepcionalmente robus­tas ou, sei lá, com dois corações e um só pulmão.

Belo resultado - resmungou Trifa. Esperou que o garçom servisse uma segunda tequila e a cerveja de Dollmann, de­pois acrescentou: - De soldados que éramos, estamos virando um bando de cientistas. Quem diria isso vinte anos atrás?

O olhar do coronel se tornou gelado. - Estamos lutando com as armas que os novos tempos nos oferecem. Mas a guerra é a mesma. - Lambeu dos lábios o excesso de espu­ma. - Agora o problema é administrar os processos. Esta­mos seguindo um novo filão de pesquisa, mas sem aban­donar a velha idéia de Graf sobre o uso do gás mostarda. Já ouviu falar em DNA?

Vagamente - respondeu Trifa, que ouvia aquela sigla pela primeira vez.

Dollmann olhou para ele sem disfarçar muito a ironia. - Pode ser que eu esteja repetindo coisas que o senhor já co­nhece. Parece que o tal DNA, presente em todas as células, é formado de dois filamentos espiralados. Dizem que os cromossomos seriam trechos desse DNA mais proteínas. Isso parece explicar como os cromossomos se duplicam quando a célula se duplica. Os dois filamentos trançados do DNA simplesmente se destacam um do outro. Se isso for verda­de, é exatamente aí que a colquicina intervém. De uma for­ma que desconhecemos, altera o processo de separação.

Interessante - disse Trifa, que parecia realmente im­pressionado.

E não é só isso. Alguns anos atrás, um certo Kornberg, da Stanford University, temo que se trate de um judeu, des­cobriu uma enzima chamada polimerase, que tem condi­ções de produzir novos segmentos de DNA partindo de um antigo. Se pudéssemos saber mais, teríamos condições de constituir o instrumento que procuramos para administrar a ação da colquicina e a multiplicação dos cromossomos.

E de que forma?

A idéia é a seguinte: a colquicina, quando a célula se parte em duas, mantém os cromossomos duplicados em uma das duas novas células. A polimerase, pelo que sabe­mos, origina a duplicação de um segmento específico de DNA que poderia muito bem ser o de um cromossomo. Se pudéssemos combinar os dois efeitos, nós é que escolhe­ríamos os cromossomos a serem multiplicados e mantidos dentro de uma célula só. A ação da colquicina deixaria de ser casual.

Trifa engoliu a outra tequila de um gole só. Passou a mão nos cabelos ensebados. - Com quantas coisas um homem de igreja tem que se ocupar nos dias de hoje.

Dollmann encolheu os ombros. - Para um militar como eu, também não foi fácil dominar essa matéria. Mas nós fo­mos os pioneiros na manipulação da biologia humana e na condução de experimentos em massa. Precisamos manter a vantagem de qualquer forma.

Trifa abriu outros botões da camisa florida, já ensopada de suor, e bebeu o resto da tequila lambendo o sal. Olhou para a extensão brilhante de tetos de zinco. - O senhor co­nhece Mureles? - perguntou em seguida.

O sujeito do cachorro?

Um lampejo de indescritível estremecimento passou pe­los olhos bovinos do pastor. - Por favor, não me faça pen­sar. - Engoliu. - É, aquele do cachorro. O colecionador de monstros.

E então?

Mureles trabalha comigo agora. Pedi a ele que olhasse as anotações de Graf publicadas em junho passado por aque­le jornal argentino...

Der Weg?

Isso. Mureles afirma que os fenômenos descritos por Graf podem ocorrer também na natureza.

Como assim, na natureza? - A voz de Dollmann per­deu por um instante seu tom autoritário.

A uns cinqüenta quilômetros de Santa Fé, existe o san­tuário de Chimayò, aos pés dos montes Sangre de Cristo.

Trifa lambeu o resíduo de sal que tinha ficado nos lábios.

Mureles tem livre acesso por lá, porque o pai dele era o vigia do lugar. Pois bem, as pessoas de lá acham que um trecho do terreno pertencente ao santuário tem proprieda­des milagrosas. Elas enchem as mãos de terra e a espalham pelo corpo, convencidas de que serão curadas das doenças. E realmente as paredes do santuário estão cobertas de mu­letas deixadas por paralíticos que voltaram a andar.

Por que o senhor está me contando tudo isso?

Mureles está convencido de que debaixo daquele ter­reno há uma fonte de água sulfurosa e que essa água, com os gases que exala, cura as enfermidades dos fiéis. Segun­do Mureles, aquele tipo de água atua nas células, regenerando-as.

Dollmann desatou a rir, mas sem entusiasmo. - Agora vamos começar a engarrafar a água de Lurdes para aprimo­rar a raça ariana.

Trifa também riu, sentindo-se um tanto humilhado. Na­quele momento, o terraço era uma laje de cimento fervente.

Bem, não vamos perder tempo - retomou Dollmann, voltando à seriedade. - O que queremos do senhor é bem simples: a possibilidade de agir atrás do biombo de sua or­ganização, a RACHE.

Por pouco Trifa não engasgou com a tequila. Tossiu, cus­piu e olhou para Dollman quase sem fôlego. - Mas é uma igreja!

A Hilfsorganisation também é uma sociedade de auxí­lio mútuo. - Os olhos de Dollmann estavam gélidos. - Pre­cisamos de uma estrutura limpa e insuspeita, com base nos Estados Unidos, para ser implantada em todos os países onde atuamos. Não há cobertura melhor que uma organi­zação religiosa. Conseguiremos até angariar contribuições para nossas pesquisas.

Nunca! - Trifa enxugou novamente o suor que escorria até a camisa. - Entendeu bem? Nunca!

O comandante se encarregará de convencê-lo - replicou calmamente Dollmann, olhando para as vidraças do bar.

Trifa acompanhou a direção do olhar dele. Um velho cor­pulento, vestido de branco, estava chegando do fundo do terraço. O pastor levantou-se de súbito, os joelhos tremendo de emoção.

Os clientes das mesas mais próximas da vidraça tam­bém se levantaram convulsivamente. Uma mulher gritou e cobriu os olhos com as mãos. Um oficial, ao tentar socorrê-la, derrubou uma cadeira. O garçom recuou, com os olhos arregalados.

Meu Deus - murmurou Trifa, pálido como um cadáver. - Ele trouxe o cachorro!

 

                                             O Muro na Floresta

- Sinto não poder lhe oferecer algo melhor, padre - disse Semurel quando o servidor de cabelos brancos trouxe à mesa as duas trutas cozidas, mergulhadas em temperos. - A vida neste castelo se desenrola sob a insígnia da frugalidade.

- É muito mais do que eu costumo consumir, senhor - respondeu Eymerich, enxugando na toalha as mãos que tinha acabado de lavar na pequena bacia posta diante dele, ao lado do pão.

O jantar, constituído de prato único e uma jarra de cervisia, foi servido em uma sala despojada e enfadonhamente fria. Havia dois castiçais de ferro no meio da mesa de car­valho maciço, posta perto de uma enorme lareira que no entanto era insuficiente para aquecer o ambiente. A cha­miné era decorada com um modesto troféu de armas, feito de espadas e clavas com corrente. Nada mais, a não ser um velho guarda-comida sobre os juncos que cobriam o chão, revelava ser a residência de um cavaleiro.

Semurel tinha impressionado Eymerich positivamente. De maneiras menos brutais que Ebail, parecia menos ingê­nuo e, especialmente, mais culto.

Enquanto partia com os dedos sua truta, bem grande, mas pouco saborosa, Eymerich pensava na melhor forma de abordar os assuntos que mais lhe interessavam. Decidiu adotar a via direta, temperando-a com a gentileza dos modos e da voz. - Creio, senhor, que já tive a oportunidade de encontrá-lo.

Ah, é? - disse o alcaide. - E quando?

Esta manhã. No mercado, uma pobre criatura com a cabeça deformada era motivo de chacota do povo, até que... Está lembrado?

Claro - respondeu Semurel com um sorriso. - Mais que cabeça deformada, eu diria que é uma verdadeira ca­beça de burro. Imagino que o espetáculo tenha deixado o senhor espantado.

De fato.

O espanto é compreensível para quem vem de fora.

Semurel tomou um gole de cervisia, enxugando a boca com o dorso da mão. - Uma curiosa maldição assola es­tes montes, que no mais são bastante amenos. Deve ser a água, o ar, o sangue contaminado ou algum outro fator que ignoro. O fato é que de vez em quando alguma cam­ponesa dá à luz um ser enorme, com membros de animal ou, com mais freqüência, sem pêlos e sem juízo. - Semurel interrompeu-se, contemplando furtivamente o inquisidor.

Suponho que o senhor já esteja pensando em obra do demônio.

Não - respondeu Eymerich com um leve sorriso. - Pen­so no demônio apenas quando não disponho de explicações melhores.

Isso o dignifica, padre. A meu ver, se o demônio parti­cipasse do fenômeno, nasceriam criaturas más, ou instru­mentos do mal. Mas são seres inocentes, às vezes dóceis, outras selvagens, mas sempre tímidos e sem disposição para a violência.

O senhor se refere a eles, se me permite, com uma es­pécie de simpatia.

Semurel concordou enfaticamente. - O senhor pode até dizer com carinho. Há seis anos, Ebail, preocupado com o fato, ordenou-me que baixasse a espada sobre todas as criaturas deformadas. O bispo de Aosta, consultado sobre a legitimidade da ação, tinha dado seu consentimento. Mas, quando me vi diante daqueles infelizes, percebi logo que eram inócuos. Matar quem não reagia, mas simplesmente tentava se esconder, se opunha aos deveres cavalheirescos. Consegui convencer Ebail de que havia outra saída. Reu­ni todos os monstros de aspecto mais ou menos humano e construí para eles uma vila de choupanas no castanhal de Bellecombe, a poucas milhas daqui. De vez em quando mando levar para eles algumas cestas de alimentos, como fazemos com os nossos leprosos. Desde então nunca me de­ram trabalho.

E o homem com a cabeça de burro?

É um dos habitantes de Bellecombe. Como ele é um dos poucos que normalmente conseguem manter-se eretos, eu o utilizo para tarefas simples, especialmente para o transporte de cargas pesadas na vila. O meu servidor é muito idoso, e os soldados têm outras ocupações.

Eymerich já tinha acabado de comer a truta. Enquanto lavava novamente as mãos, perguntou: - E qual é a atitude dos pais dessas criaturas?

Semurel permaneceu em silêncio por um instante, de­pois respondeu: - Nunca foi possível identificar os pais.

Evidentemente eles se livram dos filhos deformados assim que estes conseguem andar, abandonando-os nos montes.

Eymerich ficou analisando em silêncio aquela explica­ção pouco convincente. Por qual razão uma mãe ou um pai esperaria até o filho crescer para abandoná-lo? E qual parturiente amamentaria um recém-nascido com cabeça de burro? Mas decidiu deixar passar. O jantar tinha acabado e já era tarde.

Enquanto saíam da mesa, Semurel formulou a pergunta que o inquisidor já estava esperando. - Perdoe-me, padre. Sei que não deveria... Ebail não me deu muitas explicações sobre as razões de sua vinda para cá. Tenho a curiosidade de conhecê-las.

Eymerich o fitou nos olhos. Mais uma vez decidiu não recorrer a meias palavras. - Sua curiosidade se justifica. Vim para instalar um tribunal da Santa Inquisição, do qual sou um humilde representante. Pretendo começar a agir amanhã, assim que meu séqüito chegar.

Ao ouvir as palavras "Santa Inquisição", Semurel estre­meceu. Deglutiu umas duas vezes, depois conseguiu mur­murar: - Um tribunal... E o senhor quer implantá-lo aqui, neste castelo?

- Exatamente. - Eymerich se perguntava se o espanto do alcaide era sincero, e se realmente Ebail não tinha dito nada. - Sei que vou incomodá-lo muito, mas espero termi­nar meu trabalho em pouco tempo.

Semurel recuperou-se logo. Conseguiu até ensaiar um pá­lido sorriso, o que não devia ser fácil, dadas as circunstâncias. - Se esses forem os desejos de Ebail, eu só posso acatá-los.

Não perguntou quais eram os propósitos do tribunal em constituição: ou ele já tinha uma idéia a respeito, ou o es­panto ainda o dominava e o impedia de refletir. Eymerich pensou que estivesse desfilando mentalmente todas as pos­síveis implicações daquela perturbadora novidade.

Despediram-se com cortesia aparentemente afetada. O servidor idoso que, indagado, disse ser o único domésti­co do castelo, acompanhou o inquisidor até a porta de seu quarto, no terceiro andar, sob os caminhos de comunicação externos. Depois tirou uma vela do castiçal que levava na mão e a deixou com ele.

Eymerich trancou a porta e examinou algumas vezes sua robustez. Então apagou a vela e se jogou vestido sobre o colchão de crina, adormecendo quase de imediato apesar do frio intenso.

Acordou logo depois das laudes, como costumava fazer desde que vivia fora do convento. Surpreendeu-se ao olhar para a janela dupla atrás da pequena escrivaninha: rara­mente tinha dormido em um quarto com uma abertura tão ampla, e o espetáculo da luz rosada do sol, pronto para apa­recer atrás dos montes, era para ele incomum e fascinante.

Da mesma trouxa que continha os livros ele tirou, cui­dadosamente dobrados, a túnica e o escapulário brancos, depois a capa e o capuz pretos. Tirou as rudes roupas do dia anterior e vestiu o hábito dominicano, só então se lembran­do de ter, distraidamente, deixado a espada com Bernier. Depois se ajoelhou diante da janela, sobre a palha que co­bria o chão, e recolheu-se em oração.

Orou por quase duas horas, até que a dor nos joelhos co­meçou a ficar insuportável. Quando se levantou, foi mexer cuidadosamente na armação da janela, para não encostar nos tão raros e tão preciosos vidros. Conseguiu girar a ar­mação sobre seu eixo, admirando a engenhosidade e a sim­plicidade do aparato, e se expôs para observar a parede ex­terna do castelo.

Sentiu vertigens. A base daquele lado da construção era apoiada em um verdadeiro precipício, cuja encosta era ape­nas atenuada pela vegetação que crescia entre as rochas.

Agarrado à pequena coluna da janela dupla, dirigiu o olhar para o alto. Era possível ver os espaldões, acima dos quais lampejos de luz denunciavam a presença da armadura de uma sentinela. Cautelosamente recolheu a cabeça e, con­fortado por encontrar-se novamente em posição vertical so­bre chão firme, dedicou-se à contemplação do panorama.

À esquerda, além do rio, estava o agrupamento dos tetos de placas, do tipo chamado "labie", das casas de Châtillon, enraizadas na colina em cujo cume surgia o castelo dos Challant. Ao lado dele, aparecia a igreja, com seu campanário e dois níveis de janelas duplas. Mais longe e mais no alto, para a direita, via-se um pequeno burgo anônimo, en­colhido ao redor de uma grande igreja com campanário não muito diferente. Mas a visão mais sugestiva era oferecida pelos montes e pelas geleiras, especialmente aqueles altís­simos e distantes, cujo nome Eymerich desconhecia, elevando-se além de Châtillon e parecendo fechar o vale.

Foi exatamente olhando naquela direção que o inquisi­dor viu um pequeno cortejo de cavaleiros subir na direção da vila e depois passar pela ponte que levava ao povoado. Era certamente seu séqüito, comparecendo pontualmente ao encontro. Desceu depressa, surpreendendo os homens da guarda com suas novas vestes. Mandou selar o cavalo e partiu a galope para Châtillon, saudando com um gesto Semurel, que se debruçava naquele momento no portão do castelo.

Encontrou seu pessoal no começo da subida que levava à residência dos Challant, onde pretendiam encontrar o in­quisidor. Cumprimentaram-no com certa efusão, como se tivessem temido por seu destino.

Eymerich encostou o cavalo ao do padre Jacinto Corona, que cavalgava na frente do grupo junto com o capitão.

Dificuldades ao longo do percurso?

Não, magister. Foi uma viagem muito agradável.

Sigam-me.

Enquanto se encaminhavam em leve trote para Ussel, Ey­merich fez uma breve síntese dos eventos do dia anterior ao padre Jacinto, ao notário e aos dois confortadores. Estes, padre Simon e padre Lambert, entenderam pouco ou nada. Irritado com as perguntas deles, o inquisidor deixou toda explicação para depois da chegada e cavalgou na frente de todos.

Somente ao passar diante da capela do consolamentum Eymerich reduziu o passo e se aproximou do capitão da es­colta. - Esta noite, capitão... - Interrompeu-se. - Capitão?

Reinhardt, padre Nicolau - respondeu o militar, que se sentiu no dever de acrescentar a título de explicação: - Sou um mercenário suíço.

Lembre-se destes lugares, capitão Reinhardt, e espe­cialmente desta capela. Hoje à noite vocês vão fazer algu­mas detenções.

Às ordens.

Semurel estava à espera na soleira do castelo, ao lado do velho servidor. Olhou com certa inquietação para os coletes de aço que cobriam os casacos verdes e pretos dos solda­dos, e ainda mais para os braços fortes e os traços brutais do carrasco e de seus dois jovens ajudantes, um dos quais carregava um pesado embrulho.

Apesar de tudo, foi obrigado a sorrir e adiantar-se de modo cerimonioso. - Bem-vindos ao castelo de Ussel, reve- rendíssimos padres. Bem-vinda também a sua escolta, que vejo valorosa e bem armada. Eu e meu servidor nos dispo­mos às ordens dos senhores.

Todos responderam com uma leve reverência, descendo do cavalo. Enquanto os soldados, o carrasco e seus assis­tentes dirigiam-se alguns aos estábulos, outros à cozinha, Eymerich fez as apresentações. - Este, senhor, é o padre Ja­cinto Corona, fiel servo de Cristo e sumo expoente castelha­no da ordem de São Domingos. Ao lado dele, está o senhor de Berjavel de Avignon, velho amigo e notário, profundo conhecedor dos procedimentos de direito, que já prestou preciosos serviços à Santa Inquisição. Estes são o padre Lambert de Toulouse e o padre Simon de Paris também do­minicanos, benditos por muitos condenados pelo conforto que lhes dispensaram em seu momento supremo.

Findas as apresentações, Semurel encarregou o servidor de oferecer alimento aos hóspedes e acompanhá-los aos alojamentos já preparados; depois perguntou se Eymerich precisava de alguma outra coisa. Ao fazer a pergunta, seus traços aristocráticos estavam contraídos, sinal de que a cor­tesia que exibia não correspondia a seus verdadeiros senti­mentos.

- Mais de uma, lamento - respondeu o inquisidor. - Em primeiro lugar, existem calabouços neste castelo?

Semurel franziu a testa. - Existem. Para ser exato, há quatro ambientes nos subterrâneos, um grande e três pe­quenos. Todos com paredes em madeira, mas com grades e piso coberto por um dedo de água. Por isso são usados muito raramente. O senhor está pensando em utilizá-los?

Gostaria que o senhor, por favor, me entregasse as cha­ves. - Notando frieza na voz de Semurel, Eymerich tinha decidido adotar um tom levemente autoritário, porém man­tendo um nível que não ofendesse o interlocutor.

Assim será - disse o alcaide, que agora não conseguia mais ocultar a hostilidade. - Alguma coisa mais?

Sim. Como o senhor pôde notar, tenho minha escolta. O senhor pode enviar para o castelo dos Challant seus úl­timos soldados.

O senhor deseja, talvez, que eu vá embora também?

A voz de Semurel tinha assumido um tom de desdém.

Talvez fosse melhor.

Eymerich se deu conta de que estava chegando com demasiada rapidez a um confronto com o alcaide. Era in­dispensável apresentar um esclarecimento. - O senhor precisa compreender que um tribunal da Santa Inquisi­ção é assunto estritamente religioso. Não é concebível a participação de leigos, mesmo no papel de simples tes­temunhas ou co-habitantes. - Fez uma pausa. - Sei que o estou retirando de sua casa. Mas, acredite, na opinião de Ebail esta era a única construção em condições de nos hospedar. De minha parte, como já tive a oportunidade de dizer, farei de tudo para encerrar a missão no menor prazo possível.

Compreendo muito bem - disse Semurel secamente.

O senhor tem outras ordens?

Não são ordens, mas pedidos. - O tom de Eymerich se fez mais suave. - Os outros padres e eu precisamos ce­lebrar a missa diariamente, ou pelo menos assistir a uma. Não vejo nenhuma capela em seu castelo.

Realmente não há.

Mas eu vi uma lá no começo do caminho que chega até aqui. E me perguntei se ela faria parte de suas posses.

Faz, sim. É utilizada por um subdiácono para exercí­cios espirituais. Pode fazer dela o uso que quiser. E agora, se me permite, vou preparar minha bagagem. - Depois de uma brusca reverência, Semurel virou as costas para o in­quisidor e se afastou.

Eymerich acompanhou a retirada do alcaide com um olhar em que brilhava uma luz irônica; depois voltou a seus afazeres. Passou as horas seguintes em companhia do pa­dre Jacinto e dos dois confortadores. Seguindo as orienta­ções deles, os soldados papais cobriram com panos pretos os afrescos mais profanos, retiraram a mesa e o guarda-comida da sala de jantar do primeiro andar e carregaram para lá um grande crucifixo todo acarunchado que tinham achado em um depósito. Depois inspecionaram os quartos do corpo de guarda, as torrezinhas e os caminhos de acesso superiores.

Incomodado com a confusão, Semurel partiu sem cum­primentar ninguém, levando consigo o servidor de cabelos brancos e os últimos soldados.

Assim que tomaram posse do castelo de Ussel, e apesar do cansaço, os dominicanos desceram para visitar os calabouços com o carrasco e o notário. A tocha que o padre Jacinto segurava iluminou uma escada de pedra bem ín­greme, de arcada alta e estreita. Os últimos degraus davam acesso a uma sala com chão de terra batida, cheio de poças. A umidade era sufocante. As paredes irregulares, enegre­cidas pela fumaça e construídas ao redor de uma sapata de rocha, transpiravam a ponto de fazer com que a água escor­resse continuamente pelos sulcos entre as pedras.

Como Semurel dissera, as celas eram quatro, uma de­las bem grande, fechada com grades, e três pequenas, duas das quais com comunicação entre si. Estas últimas tinham portas mal aparadas de um palmo de espessura, reforçadas por grandes pregos e barras de ferro. Todas as celas, feitas de madeira, com o chão inclinado em relação à sala de aces­so, tinham o lado mais afastado da porta completamente alagado. Uma lâmina de água cobria também o pedaço de chão mais próximo dos visitantes.

O que o senhor acha, padre Jacinto? - perguntou Ey­merich.

Na verdade, mestre, esta é a prisão mais malcheirosa que já vi. - O gordo dominicano balançou a cabeça. - Esses Challant, se é que foram eles, construíram as celas pensan­do em uma cloaca. Para nós não servem.

O notário interveio. - Eu acho, padre Nicolau, que estes calabouços podem servir quando for prevista a morte do pri­sioneiro. Mas não é esta a finalidade da Santa Inquisição.

Todos, inclusive Eymerich, concordaram com gravidade. O inquisidor chegou perto do carrasco, que tinha permane­cido atrás, de braços cruzados, e perguntou: - O que acha, senhor Philippe?

O homem coçou a cabeça, parecendo perplexo, depois murmurou: - Tenho que concordar com o tabelião, padre Nicolau. Estas celas foram construídas a fim de abreviar a vida dos que são aprisionados aqui. Nunca vi um tribunal fazer uso de outras iguais a estas.

O padre Lambert e o padre Simon iam acrescentar al­guma coisa, mas Eymerich se adiantou. - Concordo com os senhores quanto ao parecer, mas não em relação às conclu­sões. Claro que não é nossa intenção deixar um infeliz mor­rer neste inferno. Mas não se esqueçam do nosso intuito, que é obter rapidamente a confissão e o arrependimento dos pecadores, para não fazer de um problema religioso um problema político. Ser trancafiado nestes calabouços pode ser um incentivo tão eficaz quanto os puxões de corda para chegar logo aos interrogatórios. Obviamente não permitire­mos que ninguém permaneça aqui mais que o necessário.

Suas palavras me parecem sábias - comentou o notário. - Realmente, se estas espeluncas forem usadas como meio de pressão, zelaremos pela finalidade do processo inquisitório, que é o arrependimento do pecador, e não sua morte prematura.

Concordo com o padre Nicolau e com o senhor de Berjavel. - Lambert de Toulouse, homem alto e ossudo de as­pecto hierático, pronunciava as palavras com extrema len­tidão. - Mas com a condição de que sobre os prisioneiros recaiam suspeitas realmente graves.

Eymerich concordou. - Asseguro-lhe um respeito abso­luto das garantias. E o senhor, padre Simon, o que pensa disso?

O interpelado, com seus cabelos brancos que desciam da tonsura até as costas, não apenas era o mais idoso do grupo como também o mais reverenciado. Falou com voz fraca mas decidida. - O pecado não merece indulgência, nem uma escolha muito sofisticada dos meios voltados a re­primi-lo. Por isso eu lhe pergunto, padre Nicolau: o senhor colheu indícios suficientes para justificar a adoção de medi­das extremas? Em caso afirmativo, pouco importa se os que erraram permanecerão aqui embaixo um mês ou um ano se isso puder contribuir para a tutela da Igreja e para a derrota de tramas demoníacas.

Eymerich permaneceu silencioso durante alguns instan­tes. Quando falou, suas palavras saíram carregadas de cal­culada dramaticidade. - A resposta é afirmativa. A erva da­ninha herética cresce exuberante neste lugar.

O padre Simon fez um gesto de consenso e, sem uma palavra, dirigiu-se para a escada. Os outros o seguiram, em um silêncio quebrado apenas pelo ruído das gotículas de umidade que caíam da abóbada na água rançosa.

Depois da sexta hora, enquanto tomavam uma leve me­renda de pão e cenouras doces em um esquálido cômodo no segundo andar, Eymerich informou com mais detalhes suas descobertas aos companheiros.

Estava sentado de costas para uma ampla seteira sem vidros, que deixava penetrar no ambiente, acompanhada de um vento frio, luz suficiente apenas para que se dis­tinguissem as tigelas de madeira. A sua direita estava o padre Jacinto, diante da enorme lareira apagada. À es­querda sentavam o padre Lambert e o padre Simon, gra­ves e carrancudos. O notário tinha se acomodado na ou­tra extremidade da mesa, respeitosamente afastado dos religiosos.

- Ignoro de que forma a existência dos monstros de que o senhor Semurel gosta tanto tenha relação com a sobrevi­vência do catarismo - disse Eymerich -, mas francamen­te isso me interessa menos que o problema principal, o da presença herege. Uma presença que aqui é tão sólida e acei­ta que se manifesta sem discrição em cerimônias públicas, como o obsceno consolamentum, e até em orações recitadas em voz alta nas tavernas.

O padre Simon estremeceu de horror. - Se o senhor pre­cisou de poucas horas para constatar isso, o grau de coni­vência dos sacerdotes e dos príncipes locais deve ter atingi­do uma gravidade sem precedentes.

Perdoe-me, padre Nicolau - interveio Lambert de Toulouse. - Como o senhor sabe, dediquei parte de minha vida à repressão dos Irmãos do Livre Espírito tanto na Saxônia como na França. Mas não sei tudo sobre os ritos cátaros. Eu os imaginava entregues às lembranças e à lenda.

Vou resumir em poucas palavras, padre Lambert. - Ey­merich colocou as mãos no rosto, como se quisesse invo­car a própria capacidade de sintetizar, depois as apoiou na mesa. - Os cátaros, assim como os gnósticos refutados pe­los Padres da Igreja, negam a qualidade humana de Cristo e sua encarnação, afirmando sua pura essência espiritual. Para eles, tudo o que é carne e matéria é pecado, por não ter vínculo direto com a manifestação do espírito presente em cada um de nós, que representa a verdadeira essência. Eis por que, ao rezar o Pater Noster, pedem não o pão material, mas supersubstantialis.

O padre Lambert, impressionado, agitou-se na cadeira. - Mentiras tão diabólicas parecem ter sido extraídas de Simão Mago ou de Valentiniano.

E vou dizer mais, meu caro padre. E convicção dos cáta­ros que a matéria foi criada não por Deus, mas por Satanás, e que este nada mais é que o Deus da Bíblia, ou Jeová, por eles contraposto ao verdadeiro Deus do Novo Testamento.

O padre Simon e o notário fizeram o sinal-da-cruz. O padre Lambert, horrorizado, comentou: - Imagino então que chamem de Demiurgo o Todo-poderoso.

Não exatamente - respondeu Eymerich -, mas certa­mente acolhem a heresia gnóstica em todos seus aspec­tos fundamentais. Há quem afirme que a assonância seja casual e brote de simples exasperação mística, ou de uma espécie de revolta dos humildes contra os poderosos. Mas eu acho que as duas doutrinas se assemelham demais, e isso sem considerar que não são só os pobres que aderem à cataria. Nos momentos de máximo esplendor, essa religião perversa seduziu diversos príncipes e homens de nível.

Permita-me, padre Nicolau, que acrescente alguma coi­sa a sua douta explicação - interveio padre Jacinto, encos­tando os lábios no jarro de cervisia que estava diante dele. - O senhor sabe muito bem que eu... Mas o que é este fel?

Uma mistura das terras do norte, muito consumida por aqui também - respondeu Eymerich com um sorrisinho.

Muito ruim. Desculpem, vou continuar. O senhor sabe, padre Lambert, que em Castres tivemos que lidar com um resto de catarismo sobrevivente, e por isso tive a oportu­nidade de aprender muito sobre ele, no rastro do conheci­mento do padre Nicolau. O que mais me impressionou é que os cátaros se opunham à procriação e, conseqüentemente, ao matrimônio. Eu disse a mim mesmo que, praticando tal aberração, aqueles hereges acabariam se extinguindo naturalmente; e realmente um deles, que depois acabou na fo­gueira, confessou que eles tinham como meta acabar com a humanidade, para que o homem espiritual se libertasse para sempre de seu corpo terreno.

Mas acontece - observou o senhor de Berjavel - que século após século continuamos lidando com a mesma progênie herética, evidentemente pouco submissa na obser­vância dos próprios preceitos.

Eymerich concordou. - Na verdade, eles justificam tal contradição com a persistente imperfeição do homem de carne, tanto que reservam a absoluta castidade e o celibato a alguns deles, que chamam de Perfeitos. Mas, considerando que o estado de perfeição, a ser atingido mais cedo ou mais tarde, é a meta imposta também aos prisioneiros da carne, a perpetuação da heresia não está nas premissas. Além disso, há mais de um século a Inquisição os impede de realizar uma ação aberta de recrutamento de adeptos.

A conversa foi interrompida pela entrada do carrasco, que se aproximou de Eymerich e falou a seu ouvido. O in­quisidor, que detestava a proximidade física, pulou para trás como uma mola, deixando o outro bastante perplexo; porém fez um esforço e ouviu o resto da mensagem.

Quando o carrasco foi embora, Eymerich levantou-se. - Queiram me perdoar, reverendos padres e senhor de Berja­vel, mas tenho que encerrar esta interessante investigação. Fui avisado de que alguns instrumentos que tinha manda­do aprontar já estão instalados, e preciso controlá-los. Nos­so encontro fica marcado para o vésper, quando tentarei apanhar junto com os soldados um grupo de cátaros que costuma se reunir na capela de Saint Clair, além da ponte no começo da subida até aqui. - Saudou os comensais com um sinal de cabeça e saiu.

Eymerich não se sentia muito à vontade no papel que deveria assumir dentro de pouco tempo. Gostava de dirigir sutilmente os homens, guiando-os para as próprias metas de forma quase despercebida; dentro em breve, porém, te­ria que se transformar em uma espécie de comandante, e nos próximos dias se tornar uma figura pública da vila, um objeto de ódios e paixões. Era como se lhe fosse negada a possibilidade de retirar-se, caso quisesse, em um refúgio todo seu, inacessível aos outros. Isso o perturbava e enervava desde já.

Diante do castelo, o capitão Reinhardt, com quatro solda­dos, abria na grama um grosso rolo de correntes finas, inter­rompidas a distâncias regulares por grandes anéis. Um pou­co mais adiante, os jovens ajudantes do carrasco erguiam um pedaço de madeira de aproximadamente oito braços de altura, em cuja ponta superior estava pregada uma tábua transversal, formando uma rústica cruz.

Eymerich aproximou-se do capitão. - Suas correntes são suficientes para umas quarenta pessoas?

Sim, e ainda sobram, padre. Quantos dos meus homens preciso levar comigo?

Todos. Aqui não há nada a defender por enquanto. Nos veremos no vésper.

Em seguida, o inquisidor foi até o carrasco. - Onde está o jovem que o senhor mencionou?

É aquele. - Philippe indicou Bernier, semi-escondido entre as árvores. Demonstrando muita precaução, tentava amarrar em um ramo seco um volumoso saco, agitado por alguma coisa que se movia dentro.

Ao ver que o inquisidor vinha a seu encontro, pousou o saco e com o dorso da mão enxugou um suor que não provi­nha de cansaço. - Tenho aqui umas quinze serpentes, magister. São as que consegui achar. Mais uns lagartos e sardões.

Eymerich avaliou as dimensões do saco. - Cobras?

Não, só víboras. Mas sem veneno.

Entregue ao carrasco. Ele já sabe o que fazer com elas.

Enquanto o jovem executava a ordem com uma profun­da repugnância estampada no rosto, Eymerich foi até seu quarto, onde passou o resto da tarde lendo e refletindo.

Quando tornou a descer, meia hora antes do vésper, en­controu os dez soldados e o capitão Reinhardt já montados nos cavalos, enfileirados além das rochas que circundavam a entrada do castelo. Todos vestiam coletes de aço, cota de malha e elmo na cabeça. Alguns seguravam lanças curtas; outros levavam no flanco apenas a espada junto com o pu­nhal ou, no caso do capitão, junto com uma clava ferrada cheia de pregos. Eram raros os escudos, sobre os quais reluziam os relevos do trirregno e das chaves de Pedro.

Eymerich notou que os cavalos estavam nervosos. Des­cobriu o motivo passando perto de um deles e vendo que seus flancos haviam sido machucados pelas esporas. Olhou severamente para o mercenário que o cavalgava, sério e contraído em sua sela, com a mão de prontidão na alça da espada. Decidiu falar com Reinhardt sobre aquela forma bárbara de tratar um animal de raça; mas aquele não era o momento mais apropriado.

Foi Bernier quem levou a Eymerich sua montaria. En­tregou-lhe as rédeas e a espada que estava com ele desde a noite anterior. O inquisidor, um pouco desconfortável ape­sar da autorização papal, prendeu a arma na cintura, sobre a túnica branca. Em seguida deu a ordem de partir.

Pouco depois, o grupo armado descia a encosta da colina, com Eymerich e Reinhardt à frente. A noite, iluminada pela Lua em quarto crescente, tinha um quê de sinistro. Culpa talvez do reflexo espectral das geleiras longínquas, do ruído de ferro das couraças, da vegetação demasiadamente densa que parecia fechar o caminho entre duas paredes escuras. O fato é que Eymerich se sentia inquieto, e mais inquietos ainda lhe pareciam os homens que o acompanhavam.

Perto da entrada da pequena ponte que levava à capela do consolamentum, o inquisidor brecou a coluna com um ges­to. Desceu silenciosamente do cavalo e amarrou o animal a um ramo de abeto. Ia pedir aos outros que o imitassem quando um garotinho louro apareceu no meio do caminho. Olhou para os soldados de boca aberta, depois começou a gritar com todo o fôlego que tinha.

- São Malvado! São Malvado!

Aquela expressão feriu Eymerich como uma chicotada em pleno rosto. Palidíssimo, tentou aproximar-se do garoto, que corria na direção do mato. Foi precedido por um solda­do. Este cortou o caminho do fugitivo e, com um movimen­to rápido de braço, afundou a lança em sua garganta. Um jato de sangue manchou os zimbros.

Eymerich, atordoado, viu o corpo girar sobre si mesmo e cair a seus pés. Sentiu-se invadido de uma ira selvagem. Correu para o soldado e tentou agarrar as rédeas de sua montaria. - Estúpido! Quem lhe ordenou que fizesse isso?

Em resposta, o soldado fincou as esporas no cavalo e partiu a galope na direção da ponte. Eymerich, transtorna­do, só teve tempo de ver dois olhos arregalados injetados de sangue e a saliva que escorria sobre a barba loura. Naquele indivíduo não havia nada de humano.

Foi distraído por uma explosão de gritos ensurdece­dores. Talvez excitados com a visão do sangue do garo­to, os outros soldados também tinham saído a galope na direção da pequena colina onde surgia a capela. Grita­vam frases incompreensíveis de incitação, agitando no ar espadas e lanças. As pupilas estavam dilatadas, os cani­nos, descobertos. Eymerich jogou-se de lado para não ser atropelado.

Conseguiu dominar rapidamente a surpresa, logo subs­tituída por um senso de humilhação. Enlouquecido de ódio, desembainhou a espada e saiu atrás dos cavaleiros. Subiu correndo pela vereda e, ao avistar a capela, ficou horroriza­do a ponto de perder o fôlego.

A cerimônia não devia ter se iniciado ainda, já que a maioria dos fiéis estava fora do edifício. Havia gente cor­rendo em todas as direções, perseguida pelos cavaleiros. Estes, sempre berrando, atacavam indistintamente quem estivesse diante de seus cavalos, sem respeitar sexo ou ida­de. Eymerich viu, em poucos instantes, cabeças sendo se­paradas do busto, corpos de criança transpassados de lado a lado e quase erguidos pelas lanças, velhos com o crânio afundado que davam os últimos e mecânicos passos. Um cheiro nauseabundo invadia o ar.

Eymerich sentia-se sufocado pela angústia, mas o que predominava nele era o ódio. Correu até Reinhardt e quase o arrancou da sela. Segurou o cavalo pelas rédeas e apon­tou a espada para a garganta do oficial. - Capitão! Mande os homens pararem ou, se Deus existe, faço com que o en­forquem!

Reinhardt fez um gesto de impotência. Mas a carnificina já dava sinais de estar acabando, e ouviam-se acima de tu­do os gritos dos feridos, que paravam quando um golpe de clava lhes afundava o crânio. Sobre a relva havia pelo me­nos uma dúzia de corpos mutilados. Os poucos que tinham conseguido escapar corriam na direção do rio, onde outros cavaleiros os esperavam lançando gritos animalescos. Res­tavam os fiéis dentro da capela, cujas paredes estavam sujas de esguichos vermelhos.

Eymerich, tremendo de ódio, marchou na direção do pe­queno edifício. Reinhardt foi atrás dele, perturbado. Alguns de seus homens começavam a contemplar as espadas e as lanças ensangüentadas, como se estivessem se perguntan­do o que havia acontecido. Do rio ainda chegavam gritos de terror, que regularmente se apagavam em lamento.

- Vamos acertar as contas mais tarde - gritou Eymerich a Reinhardt. - Agora venha comigo. - Empurrou a porta da capela. As folhas se escancararam.

Authié, aos prantos, cochichava alguma coisa a uns trin­ta seres aterrorizados ajoelhados diante dele. Eymerich só conseguiu compreender algumas poucas palavras, pronun­ciadas no dialeto local - O muro... na floresta... o muro...

Ao ver o inquisidor, quase todos abaixaram a cabeça e se encolheram, como se quisessem sumir. A maioria tremia visivelmente. Só Authié manteve alto um olhar velado pelo pranto, enquanto um leve murmúrio se difundia pela sala, parecendo uma lamentação. - São Malvado! São Malvado!

Mais uma vez Eymerich vacilou diante daquela expres­são. Com o rosto lívido, dirigiu-se a Reinhardt, que aca­riciava, pensativo, a barba. - Capitão, prenda esta gente. - Depois lhe virou as costas e saiu ao ar livre.

 

                                     Transilvânia

A revolução tinha algo de inquietante. Algo incompreen­sível, impalpável, que produzia um mal-estar impossí­vel de ser explicado racionalmente.

Chantal Delmas estava na Romênia havia apenas três dias e já se sentia oprimida por aquela sensação. No único artigo enviado ao Libération, tomara o cuidado de não men­cionar o assunto; pelo contrário, não economizara elogios ao povo romeno e a sua coragem. Tinha contudo começado a alimentar certas dúvidas desde os primeiros momentos de sua estada, agravadas pela execução excessivamente rá­pida do tirano Ceausescu e sua inominável esposa.

Agora, enquanto se dirigia para Timisoara guiando um Renault alugado, se perguntava se a origem de sua pertur­bação não poderia estar no aspecto quase bárbaro daqueles lugares e daqueles rostos. Entre a neve que cobria os lados da estrada mal asfaltada, despontavam habitações de cam­poneses dignas do século XIX, diante das quais brincavam grupos de crianças embrulhadas em peles de carneiro. De vez em quando tinha que ultrapassar carroças sobre pneus puxadas por cavalos, único tipo de veículo que parecia real­mente difundido por ali.

Os rostos dos condutores eram turvos, enrugados, não revelavam cordialidade, apesar das mãos erguidas em sinal de saudação. Aqueles traços pareciam remoer um ódio an­tigo, contido mas presente, que não se justificava nem pela raiva insurrecional que ainda vivenciavam.

Chantal refletiu que havia razões abundantes para aquele rancor. O que ela tinha visto dos feitos do Conducator bastava para enchê-la de horror. Hospitais tão acolhedores quanto matadouros, infra-estrutura primitiva e esfacelada, um povo esfomeado e exaurido. Produtos de uma política econômica que somava o pior do rigor neoliberal ao pior da burocracia estatal. No entanto...

No entanto havia mais. Isso ela sentia com bastante vee­mência.

Entrou em Timisoara passando por debaixo da placa que exibia em grandes caracteres o nome da cidade. Logo o primeiro posto de bloqueio. Soldados empunhando fu­zis AK47 e membros da Frente pela Salvação Nacional que congelavam de frio fizeram-lhe um sinal para que parasse.

Estes, pelo menos, eram cordiais. - Jornalista? - pergun­tou em francês um rapaz de aparência simpática, após ter examinado com exagerado cuidado o passaporte.

Sim - respondeu Chantal com um sorrisinho. Se o jo­vem tivesse conseguido interpretar os documentos folhea­dos, a pergunta teria sido supérflua.

Muito bem, jornalista. O mundo precisa saber. - Ele devolveu os documentos e indicou os edifícios monótonos e desajeitados que se perfilavam além da esplanada de neve, que o céu de um cinza uniforme tornava ainda mais tristes. - Muitos mortos aqui. Muitos mortos.

Chantal consentiu e retomou seu caminho enquanto o jovem repetia a última frase. Passou por um segundo posto de bloqueio sem que militares e civis, entretidos em caloro­sa discussão, lhe dirigissem um só olhar.

Na região onde estava agora, os tiroteios tinham cessa­do havia apenas dois dias. As paredes das casas populares, toscas como blocos de granito, estavam cheias de inscri­ções: JOS ASESINUL, JOS TIRANUL. O desenho de uma forca sobressaía em um muro semi-derrubado, ao lado do qual estava estacionado um carro blindado, abandonado pe­los ocupantes.

As ruas estavam quase desertas. A jornalista notou com curiosidade uma tosca reprodução da loba de Roma no alto de uma coluna. Os Ceausescu tinham enchido a vila de mo­numentos que deveriam parecer solenes. No entanto, além de inúteis, eram simplesmente grotescos.

Chantal parou o carro ao lado do primeiro dos luga­res que tinha programado visitar. Uma lápide simples, co­berta de neve e de flores, lembrava o jornalista Jean Louis Calderon, morto nos distúrbios de dezembro. Ela não o co­nhecia, mas sentia-se no dever de homenagear um colega compatriota.

Enquanto batia algumas fotos, um carro parou atrás dela. - Chantal!

Ao ver o homem que se debruçava à janela, não pôde conter uma careta. Era Gérard Lourié, da Antenne 2, e ao lado dele estava sentada Constance Ribaud, do Jours de France. Ou seja, a arrogância acompanhada pela vaidade. Chantal detestava os dois, mas conseguiu recompor um sorriso no rosto. - A imprensa francesa inteira está reuni­da aqui.

É por Calderon, que sua alma descanse em paz - res­pondeu Gérard. - Uma visita obrigatória. Mas agora esta­mos com sede. Quer tomar alguma coisa?

Chantal não conseguiu recusar. - Não vejo nenhum lu­gar aqui perto.

Venha atrás de nós com o carro. Alguma coisa vamos ter que achar.

Chantal seguiu o Mercedes dos colegas, pensando que, pela forma como tinham homenageado a memória de Cal­deron, era possível imaginar de que jeito trabalhavam. Saí­ram das avenidas principais e percorreram ruas mais estrei­tas, no meio de prédios altíssimos com janelas minúsculas e fileiras de terraços repletos de velharias. Havia algumas lojas abertas, mas nem sinal de bares.

Finalmente, depois de uns dez minutos, o Mercedes es­tacionou em uma rua bastante espaçosa, com as calçadas cobertas de neve. Na calçada do outro lado, havia uma es­pécie de lojinha com vitrines sujas.

Chantal desceu do carro e chegou perto dos colegas. - E aquilo lá seria um bar?

É preciso saber reconhecer os bares romenos - disse Gérard, rindo.

Não se preocupe com o carro - acrescentou Constance. - Aqui só passam carroças ou tanques.

O local ficava em um prédio enorme com grandes letras V e R em tinta preta escritas nos muros. Entraram em uma sala enfumaçada, lotada de homens de rosto escuro, com longos gorros de pano calcados até as orelhas. Assim que os três estrangeiros entraram, todos se viraram na direção deles. Alguém teceu um comentário, provavelmente gros­seiro, em relação às duas moças.

Precisamos mesmo parar aqui? - sussurrou Chantal, assustada.

Gérard riu. - Vamos, vocês não precisam ter medo. Estou aqui para defendê-las.

Os fregueses não tiravam os olhos deles, nem faziam si­nal de afastar-se. Gérard precisou abrir caminho a cotove­ladas até o balcão, uma longa mesa cheia de copos e garra­fas. Os homens se desencostavam rudemente, murmurando frases irritadas.

Ei, aquele lá mexeu comigo - protestou Constance.

Deixa pra lá - sugeriu Gérard, que estava um pouco inquieto. - Vamos tomar alguma coisa logo e ir embora.

O gerente, um homem magro e bigodudo, serviu-lhes três cervejas, olhando-os turvamente. O assédio dos ho­mens de gorro não parecia diminuir, muito pelo contrário, ficava mais insolente. Constance, mais vistosa que Chantal e muito menos vestida apesar do frio, era a que mais sofria.

São uns selvagens - murmurou. - O que posso fazer para detê-los?

Coragem - disse Chantal, irônica. - Temos o Gérard para nos defender.

De repente, a um comando imperioso pronunciado em romeno, o assédio dos presentes cessou, e ao redor dos três jornalistas se fez um vazio. Mérito de uma nova presença: um indivíduo de cerca de 40 anos, alto, vestindo um elegan­te casaco de camelo, com finos bigodes louros, cabelos com franja. Atravessou o corredor que se abrira entre os presen­tes e se aproximou do grupinho de estrangeiros. - Perdoem, senhores, o mau comportamento desta gente - disse em um francês impecável. - Acabamos de sair de uma ditadura feudal. As conseqüências nos hábitos são inevitáveis.

Chantal ficou pensando como aquele sujeito os tinha re­conhecido como franceses. Mas essa dúvida não parecia ter atravessado a mente dos colegas, visivelmente aliviados.

Com quem temos o prazer...? - perguntou Constance, dirigindo a seu salvador o mais sedutor dos sorrisos.

Ion Remesul - disse o homem, com uma leve reverên­cia: - Meu nome é Ion Remesul. Se por estes lados de Timisoara precisarem de alguma coisa, podem mencionar meu nome. Todos me conhecem.

O senhor é da Frente pela Salvação Nacional? - per­guntou Chantal.

Um murmúrio percorreu os presentes, que provavelmen­te entenderam a pergunta. - Não, obrigado - respondeu Re­mesul franzindo as sobrancelhas. - Este é um bairro nacio­nalista. Não queremos comunistas, nem velhos, nem novos.

Chantal não fez comentários. Gérard ia pagar as três cervejas, tomadas pela metade, mas o gerente balançou a cabeça e murmurou alguma coisa.

Ele diz que meus convidados não precisam pagar nada - explicou Remesul, resignando-se e demonstrando um evi­dente prazer. - Por aqui todos lhes dirão a mesma coisa.

Gérard e Constance foram bem efusivos nos agradeci­mentos, que o outro encerrou fechando os olhos e levan­tando a palma da mão. Foi então que Chantal teve a sen­sação de que os três já se conheciam, apesar de as palavras trocadas não terem revelado nada do gênero. Perguntou-se se a escolha do lugar havia sido fortuita, e se ela não havia sido casualmente envolvida em um encontro já programa­do, destinado a permanecer secreto. Depois refletiu que Constance e Gérard não eram apenas colegas, mas também seus concorrentes. Era lógico que mantivessem escondidos alguns de seus contatos com possíveis informantes capazes de fornecer-lhes uma notícia exclusiva.

Ion Remesul olhou para Chantal furtivamente; depois, vendo-a distraída, pegou-a pelo braço e a levou para fora junto com os outros. - Posso lhe ser útil em alguma coisa?

Chantal se refez. - Não, obrigada... Ou talvez sim. Gos­taria de entrevistar aquele pastor evangélico que desenca­deou a revolta.

Ion Remesul fez uma careta. Esperou saírem ao ar livre e respondeu: - Ele é húngaro. Eu não tenho ligações com os húngaros.

Gérard ia dizer alguma coisa, mas se deteve. Chantal tam­bém não se atreveu a fazer perguntas.

Mas aconselho que dê uma olhada nas vítimas do mas­sacre de 17 de dezembro - continuou Remesul num tom me­nos áspero. - Terá uma idéia do que aconteceu aqui.

A visita ao cemitério também estava incluída nos planos de Chantal. - É, eu gostaria de dar uma olhada nas sepul­turas.

Não há sepulturas - disse Remesul. - Os corpos ainda estão à mostra.

Oh, que horror - murmurou Constance.

Gérard também dava a impressão de não estar entusias­mado com a perspectiva. - Eu não trouxe o meu cinegrafista - apressou-se a dizer. - Prefiro voltar ao hotel.

Vou com você - disse Constance, aliviada.

Por um instante Chantal teve medo de ter que suportar sozinha a presença de Ion Remesul, que claramente não a agradava. Mas logo entendeu que as intenções do homem não eram aquelas. - Eu agradeceria se os senhores me des­sem uma carona - disse. - Vou na mesma direção de vocês.

Aquele fato confirmou as conjecturas de Chantal. Ion Remesul não teria como saber em que hotel Constance e Gérard estavam hospedados se aquele fosse mesmo o pri­meiro encontro entre eles. Mas decidiu deixar passar. - Tal­vez a gente se veja por aí.

- Talvez - concordou Remesul, encaminhando-se com os outros para o carro.

Chantal os acompanhou com o olhar. Enquanto isso, os homens de gorros compridos tinham começado a sair do bar, agrupando-se na calçada. Quando se virou, ela perce­beu que a olhavam de forma insolente.

Foi rapidamente até seu Renault e, depois de uma rápida olhada no mapa da cidade, ligou o motor. Tinha decidido entrevistar o pastor, fosse ou não do agrado de Remesul. Para chegar à rua Timotei Cipariu, teria que fazer meia-volta, passando novamente diante do bar.

Enquanto o carro de Gérard partia na direção oposta, ela fez o retorno. Os homens de gorros compridos agora ocupavam toda a calçada e tinham até invadido o asfalto. Quando o veículo passou, todos se moveram para a frente em uníssono. Chantal acelerou, passando rente a alguns de­les. Ao olhar pelo retrovisor, teve a impressão de ver um deles tirando o gorro e exibindo uns estranhos apêndices que cresciam sobre a cabeça.

Engoliu em seco, bateu as pálpebras e olhou novamente, mas o grupo já estava muito longe.

Uma ilusão, pensou, sem conseguir impedir que seu co­ração batesse furiosamente. Por um instante acreditou ter visto duas longas orelhas de burro agitando-se entre os ca­belos do indivíduo. Respirou fundo, esboçou palidamente um sorriso e tentou concentrar-se na direção.

Foi distraída de seus pensamentos pelo enésimo posto de bloqueio, que a obrigou a parar perto da entrada da rua Cipariu. Não eram soldados, mas um grupo de civis armados. Olhos escuros, bigodes eriçados, blusões de couro. Nenhum deles exibia a faixa da Frente pela Salvação Nacional.

Mostrou o passaporte a um sujeito com a cabeça total­mente raspada, de aspecto rude. Ele o segurou e fez sinal para que recuasse.

Chantal começou a protestar, mas de repente parou. Aos pés dos homens agrupados alguns metros adiante, via-se um corpo. Um braço ainda se movia, lentamente. A cabe­ça estava imersa em uma poça de sangue. Um dos homens fazia algo horrível com um bastão pontudo. Estavam todos calados, entretidos com a cena.

Chantal desviou o olhar, reprimindo a ânsia de vômito. Outra vez suas mãos tremiam, outra vez seu coração batia loucamente.

O sujeito da cabeça raspada bateu de leve o passaporte no braço dela, depois o jogou dentro do carro. Agora ele ria.

Chantal dirigiu-lhe um olhar tímido, evitando cuidado­samente ver o horror que se desenrolava a poucos passos dali. Engoliu saliva algumas vezes, depois perguntou: - Securitate?

Sempre rindo, o homem sacudiu a cabeça. - No, lady. He's a bloody Hungarian.

O sotaque era terrível, mas a frase era clara. Chantal sa­bia que, como jornalista, poderia ter feito perguntas, mas não teve vontade. Palidíssima, ligou o carro e engatou a marcha à ré. O sujeito ficou sério de novo e indicou um dis­tintivo que trazia no peito. Representava três pontas, talvez três flechas. - Legião do Arcanjo Miguel - explicou em fran­cês. Depois acrescentou duas palavras em romeno: - Vatra Romaneasca.

Não sabendo o que dizer, Chantal concordou com a ca­beça. Fez o veículo retroceder e entrou ao acaso em uma rua. Pouco depois parou ao lado da calçada, entre dois mon­tes de neve suja. Esperou que o tremor parasse. Fechou os olhos e tentou respirar de forma mais controlada. Lenta­mente, bem lentamente, pegou os cigarros do porta-luvas. Acendeu um, expelindo a fumaça com um sopro violento.

Depois de três tragadas, já tinha melhorado um pouco. Vatra Romaneasca, pensou. Legião do Arcanjo Miguel. Que diabos aquilo significava?

Pegou o mapa para se localizar, olhando para a placa com o nome da rua onde estava. O cemitério central não era longe. Melhor esquecer o pastor e dedicar-se ao outro objetivo. Na verdade, ainda eram 11 da manhã, apesar de as nuvens baixas e carregadas de neve sufocarem a lumi­nosidade do dia.

Ligou o carro e passou diante do austero prédio da Aca­demia de Ciências. O feudo pessoal de Elena Ceausescu, a semi-analfabeta que se proclamara cientista e assim era reconhecida pelos insignes intelectuais do Ocidente. Não havia dúvida, os donos da Romênia sabiam bem como ven­der o próprio produto.

Lá estava o cemitério, grande e desolado. Chantal esta­cionou o carro entre muitos outros, bem debaixo do enorme letreiro da entrada. CEMITÉRIO CENTRAL, ele dizia. Isso significava que deviam existir outros, periféricos, talvez re­servados às pessoas mais importantes.

Ao passar pelo portão, viu-se imersa em uma movimenta­ção incomum para aquele tipo de lugar. Precisou responder às saudações de colegas de todos os países. No átrio, havia uma concentração de jornalistas que uns poucos soldados tinham dificuldade em conter. Gérard e Constance também estavam lá, sendo os únicos do grupo aparentando irritação e pouco entusiasmo.

Nos pegaram nos hotéis e nos trouxeram para cá - ex­plicou Gérard, balançando a cabeça. - Dizem que querem nos mostrar as vítimas de dezembro.

Ver cadáveres é a última coisa que quero - acrescentou Constance. - Que idéia do diretor, me mandar para cá.

Chantal ia contar aos outros a aventura no posto de bloqueio quando a multidão de cronistas, fotógrafos, ope­radores e repórteres começou a avançar e a separou dos dois. Os soldados tinham se enfileirado dos lados, abrin­do passagem. Um sujeito de grandes bigodes caídos, en­rolado em um capote pesado, caminhava na frente, diri­gindo o grupo dentro do cemitério e gritando indicações em romeno.

A comitiva percorreu algumas alamedas, entre lápides e sepulturas afogadas na neve. Ao chegar a uma clareira ro­deada de bétulas, o sujeito de bigodes caídos se virou para os jornalistas, levantou as duas mãos e, com um gesto me­lodramático, indicou o espetáculo atrás dele.

Os flashes pipocaram e as câmeras começaram a zunir enquanto se elevava uma uníssona exclamação de horror. No fundo da clareira, amontoados perto das árvores, ja­ziam treze cadáveres. A maioria estava nua, com uma pele cinzenta que parecia ter a consistência de pergaminho. As órbitas de alguns crânios estavam vazias; muitos corpos exibiam feridas horríveis que rasgavam os membros, des­cobrindo ossos e tecidos musculares.

O espetáculo menos suportável, e ao mesmo tempo mais patético, era oferecido pelo corpo de uma mulher sentada, sobre o qual havia sido apoiado o corpinho roxo de uma me­nina de no máximo 2 meses. Ambas tinham uma horrível ferida que corria ao longo do abdome, com as beiradas man­tidas unidas por uma série de pontos grosseiros. Era algo que poderia ser chamado de zíper obsceno.

Constance fechara os olhos imediatamente. - É horrível, meu Deus. É horrível.

Desgraçados! - gritou Gérard, furioso. - Eles foram es­quartejados! Esquartejavam as crianças também, aqueles malditos!

Chantal, que tinha alcançado os colegas, demonstrava certo auto-controle, apesar do desgosto estampado no rosto. - É, foram esquartejados - murmurou. - Mas por que cos­turaram depois?

É evidente - respondeu Gérard num tom seco. - Para esconder os sinais do cinismo deles... - Parou de repente, percebendo quão absurda era sua resposta.

Chantal o ignorou. Tinha notado um colega inglês do Guardian que conhecera alguns anos antes na Nicarágua. O homem, de braços cruzados, balançava silenciosamente a cabeça, observando seus vizinhos.

Chantal se aproximou. - Eric - disse, pegando amigavel­mente no braço dele -, o que você acha?

O outro se virou para olhá-la. Tinha um rosto arredon­dado, de empregado da City. - Oh, Chantal - disse sorrindo. Depois, num tom repentinamente decidido: - É uma farsa. Só uma maldita farsa. Aqueles corpos não vieram das valas comuns da Securitate. Eles tiraram do necrotério. Não está vendo os cortes da autópsia?

Autópsia. Eu devia ter pensado nisso, recriminou-se Chan­tal. Não havia dúvida, as cicatrizes do chamado esquartejamento eram na verdade de uma autópsia. Por isso as feridas haviam sido costuradas.

Tudo para enganar jornalistas, então. Muitos deles, aliás, pareciam ter caído direitinho e escutavam de olhos arrega­lados o homem de bigodes caídos, que explicava, naquela língua que ninguém entendia, uma lista cheia de números.

E por que teriam feito isso? - perguntou Chantal, mais a si mesma que ao colega.

Em toda esta revolução há algo de sinistro - respondeu Eric. - É espetáculo demais, cenografia demais. É um caso para se duvidar da identidade de quem dirigiu tudo isso.

Você viu o processo contra os Ceausescu?

Pouco persuasivo. Mas quanto a esse caso é difícil ques­tionar alguma coisa. Porém não deve ser impossível desco­brir mais sobre a mulher e a menina que estão exibindo. Você quer ir comigo até a administração do cemitério?

Chantal olhou para o relógio. - Vou, sim. Não é nem hora do almoço ainda.

Enquanto se afastavam tranqüilamente entre as alame­das cobertas de neve na direção do paralelepípedo cinzento que tinha jeito de abrigar a administração, Chantal contou rapidamente a Eric o que tinha visto nas horas anteriores. O inglês pareceu interessado em alguns detalhes.

Orelhas de burro? - murmurou. - Essa é boa.

Bem, sem dúvida foi um lapso de visão - replicou Chan­tal -, você pode imaginar como eu estava me sentindo... O que você sabe sobre a Legião do Arcanjo Miguel?

Nunca ouvi falar. Mas conheço o Vatra Romaneasca. É um grupo nacionalista, racista e ultra-reacionário. Todos o te­mem, mas nunca encontrei ninguém que fizesse parte dele.

Eu já, mas antes não tivesse acontecido - disse Chantal, e continuou seu relato.

Interrompeu-se ao chegar ao triste prédio onde fica­vam os escritórios. Na porta, cruzaram com um padre ca­tólico que estava saindo. Apesar de robusto e de aspecto juvenil, apoiava-se em uma bengala, mancando muito. Seu rosto, emoldurado por um curto cavanhaque, inspi­rava confiança, mas os olhos estavam escondidos atrás de duas lentes escuras. Parou diante deles, que o olharam com curiosidade.

São vocês, os que eles estão esperando? - perguntou em inglês.

Chantal e Eric se entreolharam, depois fizeram sinal ne­gativo com a cabeça. O padre os observou por mais alguns instantes, depois se afastou sem acrescentar nada. Os dois jornalistas acompanharam com olhar entre incerto e jocoso seu andar arrastado.

Um desconjuntado - comentou Eric.

Não era romeno - observou Chantal. - Parecia mais um espanhol ou um italiano.

Deixa isso pra lá. Vamos procurar o vigia.

Não foi difícil. O homem, idoso, estava no átrio, varren­do o chão com muita energia, mas aparentemente com pou­co resultado.

Ao ver os jornalistas, jogou a vassoura e começou a pra­guejar em romeno. De início Eric e Chantal não entende­ram nada; depois começaram a perceber que o vigia estava se queixando dos jornalistas que não paravam de pertur­bá-lo, impedindo que trabalhasse e prejudicando-o perante seus superiores.

Enquanto o homem reclamava, Chantal notou o distin­tivo preso no uniforme gasto. Representava três flechas, ou talvez um tridente. Teve uma inspiração. - Foi Ion Remesul quem nos mandou. Entendeu? Re-me-sul.

O vigia interrompeu imediatamente a seqüência de in­sultos. - Remesul? - perguntou em voz baixa, em tom qua­se tímido.

Ele mesmo - afirmou Chantal com muita segurança - O senhor Remesul em pessoa.

O vigia refletiu por alguns instantes. Depois, com urn sinal, pediu aos jornalistas que o acompanhassem.

Genial - sussurrou Eric, enquanto seguiam o guia pe­los esquálidos meandros do edifício. - O tal de Remesul deve ser poderoso mesmo.

Mas aonde ele está nos levando?

Em vez de levá-los aos escritórios da administração, como Chantal e Eric esperavam, o vigia foi mexer em uma pequena porta. Quando conseguiu abri-la notaram que ele os tinha conduzido novamente para outra ala do cemitério. Lá não havia alamedas arrumadas, mas terra remexida, cruzes e lápides tombadas, rastros de escavações, pedras espalhadas por todo lugar.

Será que ele quer mostrar outras vítimas do massacre? - perguntou Chantal.

Mas a intenção do vigia era outra, porque, enquanto os acompanhava através daquela terra de ninguém, ele se di­vertia cuspindo nos poucos túmulos ainda intactos. Cada vez que cuspia, xingava e desatava a rir.

O que ele está dizendo? - perguntou Chantal, puxando o companheiro pela manga.

Está falando de húngaros e de judeus - respondeu Eric.

Não entendo o resto, mas devem ser insultos.

Quase na extremidade oposto do terreno, onde uma al­tíssima divisória separava o cemitério da linha compacta dos grandes prédios cinzentos, o vigia parou. Indicou uma cova muito maior que as outras, para a qual foi necessário destruir a golpes de picareta uma placa de cimento. Na bei­rada estava apoiada uma escada de madeira que se perdia na fraca luminosidade que brotava das entranhas do solo. Viam-se, muito mais embaixo, um pavimento de pedra e o que seria possível chamar de paredes de um cômodo, ou talvez de um corredor.

O vigia sorriu, indicando a escada.

Ele quer que a gente vá lá embaixo? - perguntou Eric, olhando involuntariamente a própria barriguinha proemi­nente.

Agora que já chegamos até aqui - respondeu Chantal - vamos ver como isso vai acabar.

O vigia continuou a sorrir, repetindo agora a palavra Securitate no meio de uma salada de termos indecifráveis. Eric vacilava. Foi Chantal quem tomou a iniciativa, testando desconfiada os primeiros degraus. - Parece firme.

Eric esperou que a moça pusesse os pés no chão, depois desceu também, com cuidado. Estavam em um corredor iluminado pela luz fria e desagradável de tubos fluorescen­tes que corriam pelo teto. Em cada uma das extremidades, uma curva impedia que pudessem ver toda sua extensão.

Esperavam que o vigia descesse atrás, mas ele nem se mexeu. Limitou-se a falar lá do alto, gesticulando muito. Agora ele aparecia como uma figurinha escura contra o céu plúmbeo.

O que vamos fazer? - perguntou Chantal.

Ele está indicando aquela direção. - Eric acenou com a cabeça para o trecho de corredor à direita deles. - Como você disse, só nos resta continuar. E, além disso, podemos sempre voltar.

Encaminharam-se entre paredes opressivas, que brilha­vam como se irradiassem radioatividade. Depois da primei­ra curva, havia uma segunda, depois uma terceira. A mono­tonia daqueles muros de vez em quando era interrompida por habitáculos que às vezes continham uma mesinha com um telefone.

Devem ser os famosos subterrâneos da Securitate - obser­vou Eric. - Quilômetros e quilômetros, como em Bucareste.

Chantal tirou um telefone do gancho e o encostou ao ou­vido. O que saiu foi um gralhar fastidioso. - Ocupado - dis­se ela com um sorriso.

Mesmo que respondessem, você não entenderia nada.

A última curva os levou finalmente à beira de uma lon­ga escada, cujos degraus em pedra desciam até imergir na onipresente luminescência. De baixo vinha um murmúrio surdo, como de água correndo em um rio subterrâneo. Pa­raram no primeiro degrau.

Vamos descer? - perguntou Eric.

Vamos. Afinal somos os únicos jornalistas que entra­ram aqui. - O tom de Chantal revelava menos segurança do que suas palavras queriam denotar.

Enquanto desciam as escadas, o murmúrio da água au­mentava, transformando-se em um estrondo longínquo. De­pois de incontáveis degraus e alguns patamares, chegaram a uma pequena porta metálica. Uma câmera de vídeo instalada sobre ela começou logo a zunir. A porta se abriu de repente.

Chantal e Eric quase não conseguiram conter um grito. Atrás da soleira, um homem uniformizado os esperava. Seu rosto parecia o produto dos experimentos de um geneticista enlouquecido. No rosto de traços normais, e talvez até boni­tos, abriam-se dois olhos minúsculos, idênticos em forma e dimensão aos de um rato. Parecia que as cavidades oculares eram moldadas exatamente para aqueles olhos, porque ne­nhuma concavidade rodeava aquelas pupilas sem córnea, com as dimensões de um botão vermelho.

O homem, que vestia um uniforme verde sem insígnias, não pareceu reagir ao horror estampado no rosto deles. Li­mitou-se a sair da frente e convidá-los, com um gesto, a en­trar no cômodo.

Aniquilados pelo choque, Eric e Chantal aceitaram meca­nicamente o convite. Puseram os pés em uma pequena sala que continha apenas algumas estantes e a habitual mesinha com telefone, sobre a qual estavam os restos de uma refeição rápida. Mas a atenção que os dois dedicavam à tosca deco­ração foi bruscamente atraída por uma placa de vidro que substituía uma parede inteira do cômodo, mostrando do ou­tro lado uma extensão de água cujos contornos se desvane­ciam na luminosidade perene.

Era água turva, leitosa. Sua superfície estava encrespada, como se fosse açoitada por um vento violentíssimo. Era im­possível determinar a amplitude daquela cisterna de beiras invisíveis. Tratava-se com certeza de um enorme tanque, e não de um lago subterrâneo, porque parecia fechado por paredes lisas de metal.

O homem com os olhos de rato afastou-se silenciosamen­te, saindo por uma porta no fundo da pequena sala. Chantal e Eric aproveitaram para desabafar a própria angústia.

Meu Deus - murmurou Chantal - que diabos... - Sua voz ficou truncada e não a deixou acrescentar mais nada.

Eric não estava menos perturbado. - Um monstro. Um pe­sadelo. Se eu não tivesse visto com meus próprios olhos...

Calaram-se, porque a criatura estava voltando. Atrás dela, vinha um homem de baixa estatura, rosto liso e cabe­los penteados para trás. Tinha os olhos de um azul crista­lino, frios, mas normais quanto a formato e cor. Vestia um elegante uniforme verde, de corte bem diferente daquele desleixado e disforme do exército romeno. Havia divisas bordadas em uma das mangas.

Ofereceu-lhes calorosamente a mão, expressando-se em um francês perfeito. - Informaram-me que os senhores são os visitantes mandados por Ion Remesul. Eu esperava que ele os acompanhasse. - Se percebeu o tremor das mãos dos dois, não deu nenhuma demonstração.

Talvez fosse o momento de desistir do fingimento, mas Chantal decidiu esperar. Não antes de obter algum escla­recimento sobre a função dos subterrâneos, sobre o tanque ruidoso atrás dela e sobre o homem de olhos repugnantes. - Ele não pôde vir - replicou com um fio de voz. - Talvez nos alcance depois.

Muito bem - disse o sujeito uniformizado. Depois acres­centou: - Perdoe-me se estou sendo indiscreto, mas vejo que a senhora está muito perturbada...

Chantal virou rapidamente a cabeça na direção do ho­mem de olhos vermelhos, que agora estava mexendo nos restos de sua refeição. O outro sorriu. - É o primeiro que a senhora vê? Então entendo. E que nem sempre eles saem perfeitos, e não sabemos explicar o motivo. - Virou-se para Eric. - O meu nome é Dimitriu, sou tenente na Legião. Pe­diram que eu lhes mostrasse os elementos.

A Legião do Arcanjo Miguel? - perguntou Eric, que já tinha se acalmado um pouco.

O oficial o encarou. - O senhor não tem sotaque francês. Eles tinham falado em dois franceses.

Eric mostrou-se seguro. - Um contratempo. Precisei subs­tituir o colega. Sou inglês.

Dimitriu permaneceu perplexo por um instante, depois encolheu os ombros. - Está bem, o importante é que vocês sejam autorizados a comprar... Claro - acrescentou em se­guida - a Legião do Arcanjo Miguel, e qual outra seria? O seu colega não lhe passou todas as informações? Mas agora venham, não vamos perder tempo.

Conduziu os dois por um novo labirinto de corredores. Nesses, a distâncias regulares nas paredes, abriam-se pe­quenas janelas através das quais era visível a água turbu­lenta e leitosa. Chantal teve a impressão de ver algumas formas brancas mexendo-se debaixo da superfície. Seu co­ração começou outra vez a bater com força. Ela tentou atrair a atenção de Eric, mas o oficial andava depressa e não havia chance de parar para observar o fenômeno. Chantal chegou a questionar se estava mesmo interessada em prosseguir. Reprimiu um forte arrepio.

Precisamos contornar toda a cisterna - disse Dimitriu. - Vai levar uns dez minutos. Estão dispostos?

Claro - respondeu Eric, que parecia cansadíssimo. - Mas não há perigo de encontrar homens da Securitate ainda lutando?

O oficial riu. - Se houvesse, não levariam vocês. Não, não vamos encontrar nenhum securista. Nós nos livramos deles quando tomamos posse da Academia de Ciências. Foi então que descobrimos o acesso aos subterrâneos e herdamos os laboratórios de Elena.


Elena? - perguntou Eric.

É, Elena Ceausescu. Não sabia? Foi ela quem idealizou o sistema de regeneração das células macro. Ela não era tão boba quanto pensavam. Vocês viram o processo?

Eu vi - disse Chantal.

Voltan, que conduziu o interrogatório, queria acabar de­pressa. Temia que a história dos laboratórios viesse à tona, e que a Frente pela Salvação Nacional se apossasse deles. Mas acho que ela não teria falado. Isso significaria oferecer uma arma a mais aos acusadores. Mas tudo correu bem, Elena morreu e os laboratórios estão em nossas mãos. Assim, além das células macro, regeneraremos a Romênia também. - Ele pronunciou as últimas palavras com uma leve ênfase, que denunciava uma convicção bem enraizada.

O nome Voltan não soava estranho para Eric. Depois de uma breve reflexão, ele perguntou: - O senhor está se refe­rindo a Voltan Voivolescu? Mas ele não é da Frente?

É o que todos pensam, mas na verdade é um homem de Remesul. - De repente, a voz do oficial assumiu uma ento­nação de desconfiança. - Mas o senhor não sabe essas coi­sas? Com quem tratou a compra, então?

Eric, apanhado de surpresa, não sabia o que responder. Chantal o socorreu, intervindo rapidamente. - Ele sabe pou­co ou nada. Eu é que tratei, exatamente com Voltan.

O oficial a olhou com certo respeito, mas não disse uma só palavra.

No fim do enésimo corredor, chegaram a uma porta guardada por um vigia armado. Ao avistar o oficial, ele o saudou aos pulos, apresentando o AKM que empunhava. Dimitriu empurrou a porta e fez um sinal aos outros para que o acompanhassem.

Era uma sala ampla e gelada. Tubos recobertos de gotículas corriam pelas paredes, uma das quais era constituída de uma placa de cristal, através da qual era visível a super­fície da água açoitada pelo vento. O barulho ali era ensurdecedor.

Em um canto da sala havia quatro jovens de jaleco azul, cada um deles sentado diante de um computador. Olharam rapidamente os recém-chegados e voltaram ao trabalho, en­quanto números e símbolos gráficos escorriam velozes pela tela em seqüências à primeira vista indecifráveis.

Um quinto sujeito, de cabelos bem longos e barba que che­gava ao peito, estava sentado a uma mesa no centro da sala, sob uma grande lâmpada de neon. Estava à paisana, mas o emble­ma das três flechas sobressaía na faixa que portava no braço esquerdo. Com a chegada do tenente e dos jornalistas, des­viou o olhar da pilha de papéis que folheava nervosamente.

Disse alguma coisa em romeno, à qual o tenente respon­deu com uma longa explicação. O homem ouviu aquiescendo de vez em quando, depois se dirigiu aos estrangeiros em um francês bastante correto. - Sei que pareço um cientista, mas não sou. Sou o encarregado das vendas. Estão interes­sados em órgãos ou corpos inteiros?

Chantal e Eric permaneceram mudos, pensando que o homem tivesse se expressado mal. Não era o caso. - Órgãos ou corpos inteiros? - repetiu. Depois acrescentou: - Quanto a órgãos, estamos bem. Nós nos abastecemos no cemitério dos húngaros por onde, creio, vocês entraram. Com o pro­cesso regenerativo de Elena eles se conservam por tempo ilimitado. Basta uma rápida imersão no tanque...

Chantal imediatamente lembrou-se de algo. - A mulher e a menina - sussurrou para Eric.

O interlocutor deles anuiu. - A senhora está falando da mulher e da menina com uma cicatriz no abdome, certo? Alguém da Frente, solícito até demais, encontrou os corpos e os faz passar por vítimas do massacre. Para nós, tudo bem, o importante é que a verdade não vaze. - Deu uma risadinha. - Não sei nada da mulher, acho que morreu de cirrose hepática. A menina era filha dos meus vizinhos. Morreu de con­gestão, acho que em 9 de dezembro. Chamava-se Cristina.

O oficial, de braços cruzados, parecia impaciente. Disse alguma coisa em romeno ao sujeito barbudo, que lhe respon­deu em francês: - Não, não precisamos do senhor. Pode ir.

O outro bateu os saltos, cumprimentou Eric e Chantal com uma leve reverência e deixou a sala. Os jovens ao com­putador lhe dirigiram um rápido olhar e voltaram aos res­pectivos teclados.

O sujeito barbudo levantou-se com dificuldade. Des­cobriram então que era de estatura muito baixa e quase obeso. - Não me apresentei. Sou Rudu Valescu, e sou do braço político da Legião, que é mais conhecido como Vatra Romaneasca.

Arriscando se expor, Eric não pôde deixar de fazer uma pergunta. - Há quanto tempo existe a Legião?

Ao contrário do que tinha acontecido com o oficial, Va­lescu pareceu aceitar o questionamento como algo perfei­tamente natural. - A Legião existe desde os anos 30, mas se tornou mais conhecida como Guarda de Ferro. O nome significa alguma coisa para o senhor?

E como. Tanto Eric como Chantal tinham ouvido falar na formação colaboracionista de Codrenau, que havia es­tabelecido as premissas para que a Romênia se aliasse ao Terceiro Reich. Um arrepio percorreu a espinha dos dois.

No entanto preferiram não insistir nas perguntas, limitan­do-se a concordar.

Vocês devem estar se perguntando o que temos a ver com esta revolução - continuou Valescu. - Pois bem, nós fizemos a nossa revolução. Estávamos nos preparando há muito tempo, o povo só se antecipou a nós. Agora que os velhos comunistas foram postos para fora, vamos tratar de nos livrar dos novos. Que aliás, permitam que o diga, são muito piores. Nem dá para contar quantos húngaros, judeus e anti-cristãos há entre eles.

Eric ia perguntar mais alguma coisa quando um dos jovens de jaleco azul lançou uma exclamação, indicando a Valescu a coloração verde que a tela do computador tinha assumido. Valescu disse algumas frases em romeno, depois se dirigiu a Chantal. - Alguns corpos já vão emergir. Preci­so saber o que vocês querem. Corpos ou órgãos?

Corpos - respondeu Chantal, escolhendo uma possibi­lidade ao acaso.

Certo. - Valescu correu até a parede de vidro, seguido pelos jornalistas. Indicou o tanque. - Vocês vão ver uma coi­sa extraordinária. Eu já assisti ao espetáculo muitas vezes, mas ainda me surpreendo.

Parecia que um vento ainda mais impetuoso, provenien­te do alto, agitava o líquido leitoso da cisterna. O ruído se tornou insuportável, enquanto verdadeiros vagalhões reviravam a superfície do líquido. Lentamente, um vórtice to­mou forma e foi se alargando sempre mais rápido. Era ro­deado de filetes de espuma que formavam espirais, que logo se partiam e eram substituídas por outras.

Naquele momento, a água batia a intervalos regulares na parede transparente, deixando rastros esbranquiçados irregulares que se desmanchavam em gotículas. No centro do líquido tinha surgido um verdadeiro abismo, formando um cone de altas paredes turbilhonantes.

Impossível visualizar o fundo. Porém Chantal viu al­gumas formas brancas, parecidas com aquelas já notadas durante o percurso pelo corredor, trançando uma dança enlouquecida ao redor do vórtice, logo abaixo do espelho superficial. Ficou arrepiada. Depois as primeiras formas emergiram, pululando pela crista das ondas em espiral.

Os órgãos - disse Valescu, berrando para sobrepor-se ao estrondo. - Agora vem o melhor.

De repente, como se fossem empurrados por uma mola in­visível, alguns corpos humanos perfeitamente formados sal­taram da espuma do abismo até suas paredes. Rodaram em posição ereta, como se estivessem sobre esquis, com os braços batendo nos flancos. Depois o barulho diminuiu de intensi­dade, e o vórtice começou a se encher de forma vagarosa. Os corpos continuaram em sua corrida inclinando-se gradativamente, e no fim deitaram na superfície da água. Quando as ondas cessaram e o redemoinho se fechou, perdendo-se em pequenas espirais de espuma, havia corpos e formas esbranquiçadas boiando sobre um líquido novamente oleoso.

Agora é só pescá-los - disse Valescu com a voz embar­gada de entusiasmo. - Órgãos humanos outra vez novos e corpos vivos, mas sem inteligência, para usar da forma que quisermos.

Eric e Chantal estavam sem fôlego de tanto espanto e horror. Viram braços mecânicos descerem do alto, onde a luminescência era mais compacta, e deitarem redes metá­licas sobre a superfície da água, no momento agitada por um leve vento. Um movimento rotatório dos instrumentos afundou as beiras da rede na espuma onde os corpos boia­vam, para depois retirá-los em um movimento envolvente. Então a rede foi levantada outra vez e ondulou no ar segu­rando a carga. Chantal não conseguiu reprimir um fraco grito ao perceber que os corpos se moviam.

Poucos sabem como a enzima age na água quente - disse Valescu, fitando os hóspedes com um jeito dissi­mulado que deixava transparecer a satisfação de tê-los im­pressionado. - Elena fala disso em seu livro sobre a Polimerização Estereoscópica do Isopreno, mas de uma forma muito velada. Certamente ela age sobre a outra enzima que di­rige os impulsos nervosos, a colinesterase, alterando as funções cerebrais. Daquele tanque, os corpos vivos saem emagrecidos e excepcionalmente robustos, mas, como po­demos dizer, sem alma, que afinal é o que interessa aos senhores. No entanto os órgãos humanos provenientes de corpos sem possibilidade de uso se regeneram e recupe­ram suas funções específicas.

Eric olhava Valescu com uma expressão entre o espan­to e a incredulidade. - E o que vocês pretendem conseguir com tudo isso? - perguntou com a voz truncada.

O mesmo que os Ceausescu queriam - respondeu o outro, contemplando, pensativo, as últimas fases da repescagem. - Sanear a economia nacional. Muitos países, entre eles o dos senhores, precisam de bons soldados que não fa­çam muitas perguntas. Mas precisam ainda mais de órgãos prontos para transplante, em condições de funcionar por tempo indeterminado.

Um dos encarregados dos painéis, após observar os hieróglifos que desfilavam pelo computador, gritou alguma coisa.

Nove corpos recuperados - traduziu Valescu com a satisfação estampada no rosto. - Um tem patas de cabra, mas estamos bem abaixo da média desse tipo de acidente. Pode ser que uma cabra tenha caído nas águas do Bega, que alimenta o tanque, e a enzima tenha replicado par­te dos cromossomos humanos moldando-os como os dos animais. Isso pode acontecer. E ainda temos oito pares de pulmões, oito de rins e dois corações intactos. Vocês estão com o dinheiro?

A pergunta apanhou Chantal e Eric despreparados. - Es­tamos - mentiu o inglês.

Esperem aqui. Vou mandar acondicionar os órgãos. Os corpos, como sempre, serão entregues com um acompa­nhante, munidos de vistos de turista.

Saiu da sala quase saltitando. Chantal e Eric olharam-se estupefatos. Por um tempo nenhum dos dois teve condições de comentar o que tinham visto. Depois Eric olhou para o relógio. - Estamos aqui há pelo menos uma hora e meia.

Pigarreou. - Quem diria?

Chantal compreendeu que o amigo divagava, completa­mente perdido e incapaz de ordenar os pensamentos. Ela teria que tomar a iniciativa. Foi até o centro da sala e disse:

Vocês me entendem?

Os jovens de jaleco azul olharam-na calados. Um deles torceu os espessos bigodes escuros com ar de perplexidade.

Não entendem francês - Chantal disse rapidamente ao amigo. - Provavelmente nem sabem quem somos. Eles não vão nos deter.

Mas Valescu pode voltar - rebateu Eric.

Não tão cedo. Venha.

Foi com ele até a porta pela qual tinham entrado, sem que os jovens nos computadores tentassem intervir. A sentinela bocejava, apoiada na parede. Ao ver os dois estran­geiros, recompôs-se e os cumprimentou com um desajeita­do "apresentar arma".

Depressa - sussurrou Chantal. - Você lembra o caminho?

Confirmando com a cabeça, Eric tomou a dianteira sem respirar. Foi quase correndo que percorreram os interminá­veis corredores ao redor do tanque, diminuindo a marcha apenas quando encontravam uma sentinela com cara de tédio. Ninguém tentou barrá-los.

Fizeram todo o percurso na metade do tempo empre­gado na entrada. Já na cabine, encontraram o homem com olhos de rato e, amarga surpresa, o tenente Dimitriu.

O oficial olhou bem para eles antes de falar. - Aonde es­tão indo? - perguntou com a voz gélida.

Mais uma vez, Chantal teve que improvisar. - Valescu pediu que esperássemos lá em cima. Ele mandará entregar a mercadoria para nós.

Dimitriu a fitou com intensidade ainda maior. Quando Chantal já começava a sentir medo, o tenente pareceu rela­xar. - Lá em cima onde? - perguntou em tom neutro.

No lugar por onde entramos.

O coração de Chantal batia tumultuado. Olhando de re­lance para Eric, percebeu que o estado dele não devia ser diferente. Um aperto gelado travava suas articulações.

Dimitriu refletiu um pouco, depois disse: - No cemité­rio, então.

Chantal sentiu a tensão saindo de seu corpo como um rio de suor. - É, no cemitério - confirmou sacudindo vigorosa­mente a cabeça.

É só subir a escada. Seguindo pelo corredor à esquer­da, chegarão diretamente à saída. - Dimitriu despediu-se com uma seca reverência. Parecia ter deixado de lado toda a cordialidade demonstrada anteriormente.

Chantal percebeu a diferença na atitude, mas agora só restava agir. Quando a porta metálica foi destravada pelo oficial, ela o cumprimentou com um sinal de cabeça. Depois puxou pela mão um Eric atordoado, e chegou à base da es­cada de pedra. Foi subindo os degraus quase com fúria.

No caminho, Eric começou ase reanimar. - Temos nas mãos o furo de reportagem do século - disse em certo momento.

Mas antes temos que sair. - Chantal, inquieta, respi­rava com dificuldade. - Só vou me sentir tranqüila ao ar livre.

Foram aos poucos diminuindo o passo. Agora o ruído da água vinha de longe, e a própria imagem daquilo que tinham visto assumia contornos menos precisos. Enfrenta­ram a última rampa com os nervos distendidos e a respira­ção já normalizada.

Foi nesse ponto que uma sombra se interpôs entre eles e a luz forte do último trecho de corredor. Apesar dos olhos lacrimejantes por causa dos tubos de neon, Chantal não te­ve dificuldade em reconhecer Ion Remesul. Seu coração teve um sobressalto. O romeno estava de braços cruzados, apoia­do na parede, a pouca distância da escada de madeira que levava para fora.

Estes são os imbecis que se fizeram passar por vocês - disse a Gérard e a Constance, à espera atrás dele.

Gérard ondulou a cabeça com ar de comiseração. Cons­tance avançou e lançou aos dois, petrificados, um olhar car­regado de ódio.

- A famosa jornalista - sussurrou para Chantal fitando-a nos olhos. - A maravilha do ano. Bem, eu estava mesmo precisando de um novo gatinho. O meu morreu.

Levantou o gato morto que estava segurando pelo rabo e o balançou diante do rosto de Chantal.

Quando o tratamento cessou e Chantal readquiriu a cons­ciência, percebeu que estava flutuando em um líquido esbranquiçado e viscoso. Isso lhe causou uma sensação de grande serenidade, de completude, como se toda sua exis­tência tivesse como objetivo a volta àquele líquido.

Sentiu que seu Eu estava perdendo todas as fronteiras, tornando-se uma coisa só com aquele fluido acolhedor e pro­tetor. Tentou abandonar-se ao doce aperto daquele invólucro macio, doando-lhe toda sua energia. Mas depois viu o corpo do gato, espectral, flutuando a pouca distância. Viu que se desmanchava e vinha em sua direção em espirais de maté­ria escura. Mas ela também estava derretendo, e seus áto­mos pareciam atraídos por aquela substância estranha.

Foi dominada por um horror indescritível. Tentou miar, mas a água já estava entrando em suas narinas. Miou outra vez. De sua garganta saiu um som gorgolejante, logo sufo­cado. Ninguém a ouviria. Nunca mais.

 

                                       O Interrogatório

- Magister, o senhor não acha que está infligindo a esta gente um tratamento cruel demais?

Eymerich voltou-se para o padre Jacinto com um olhar ressentido. - Justamente o senhor, padre, vem me expor uma objeção assim? Apesar de me conhecer? Não é um su­plício o que o senhor está vendo, apenas um meio de obter uma confissão indireta sem recorrer aos tormentos de um interrogatório.

Perplexo, o padre Jacinto voltou a encostar o rosto no furo que Eymerich tinha mandado abrir na divisória de madeira espessa que separava a cela grande das duas menores, nos subterrâneos do castelo de Ussel. Fazia dois dias que os 26 prisioneiros gemiam, berravam e batiam as correntes para tentar afastar as víboras que se arrastavam pelas paredes úmidas, e que de vez em quando caíam com um baque na água malcheirosa que cobria o chão. As crianças, quatro ao todo, eram as mais aterrorizadas. Soluçavam sem parar ha­via 48 horas, apesar dos esforços dos adultos, tão assusta­dos quanto elas, para acalmá-las.

Vendo que o padre Jacinto não estava convencido da le­gitimidade daquilo que via, Eymerich tocou-lhe amigavel­mente o ombro. - Vamos, amigo. Talvez eu tenha errado ao não lhe explicar as minhas intenções, nem instruí-lo suficientemente sobre as peculiaridades da heresia cátara. Vou remediar isso imediatamente, mas vamos embora deste lu­gar insalubre.

Pisando na fina camada de água que cobria o chão, saí­ram da pequena cela com a tocha na mão, atravessaram a outra e puseram os pés na câmara de acesso cheia de umi­dade. Ao ver os dois dominicanos através de uma pequena janela gradeada, os prisioneiros explodiram em um coro de súplicas e gritos, estendendo as mãos para fora das barras. O rosto rude de Authié apareceu atrás da abertura feita na porta maciça da quarta cela, a menor de todas.

Que Deus o amaldiçoe, São Malvado - murmurou en­tre as tossidas provocadas pela fumaça das tochas. Não ha­via ressentimento em suas palavras; tratava-se mais de uma invocação, tão pacata quanto uma oração.

Eymerich não respondeu, mas apressou o passo na di­reção das escadas, fora do pedestal de rocha viva. O padre Jacinto foi atrás. - Como é que eles podem saber que os cátaros de Castres chamavam o senhor de Saint Mauvais? De todos os mistérios, este é um dos mais nebulosos.

Vamos resolvê-lo como os outros. - Era evidente a intenção de Eymerich de não se estender em um tema que não o agradava. Padre Jacinto entendeu e nada acres­centou.

No topo da escada encontraram o padre Lambert, que caminhava pelos corredores do castelo lendo em voz alta o Pequeno Ofício da Virgem. Ao avistar os dois, fechou o minús­culo código ricamente ilustrado. - Padre Nicolau, o senhor não acha que está na hora de iniciar os interrogatórios? Os dias estão passando sem nenhum avanço.

Aí é que o senhor se engana, padre Lambert - respon­deu Eymerich -, assim como o padre Jacinto. Mas reconheço que pequei por ter sido muito reticente. Onde está o padre Simon?

Em seu quarto, orando.

Vamos até ele. Eu lhes explicarei tudo.

Subiram ao terceiro andar pela escada em caracol, arfando um pouco por causa da altura incomum dos degraus. En­contraram o padre Simon prostrado no chão, sobre a palha que recobria o pavimento. O frio era tanto que arrancava da boca dos dominicanos pequenas nuvens de vapor d'água.

O padre Simon levantou-se com evidente dificuldade, com o rosto zangado. A longa barba branca e a cabeleira comprida ao redor da tonsura lhe davam um aspecto quase selvagem.

Há luz demais neste quarto - resmungou. - E também móveis demais. Acomodem-se sobre os baús.

Reverendíssimos padres - começou Eymerich depois que todos tomaram assento -, tenho mais que uma justifica­tiva para lhes apresentar. Passados dois dias da detenção dos suspeitos de heresia, ainda não foi feito nenhum interrogató­rio. Além disso, o padre Jacinto está questionando a introdu­ção, ordenada por mim, de víboras e lagartos nas celas.

Nenhum castigo é leve demais para os blasfemadores de Cristo - disse gravemente Simon de Paris, encrespando ain­da mais as sobrancelhas que pareciam escovinhas brancas.

Concordo - colocou padre Jacinto -, mas antes é ne­cessário que a culpa deles seja constatada. Além disso, não aprovo que durante todo esse tempo os prisioneiros não te­nham sido alimentados depois de, por puro deboche, terem recebido facas prenunciando a chegada de uma refeição.

Quando o padre Lambert fez menção de intervir, Eyme­rich o deteve levantando a mão. - Permitam, caros padres, que lhes dirija algumas palavras para esclarecer minha atitude.

Fitou os interlocutores um a um, sem conseguir impe­dir que uma expressão de satisfação se insinuasse em seus traços. Ia surpreendê-los, e já saboreava o momento da re­velação. - É verdade, trancafiei aquela gente com os répteis e dei-lhe facas mas nenhum alimento além da água. Graças a isso, tive a plena demonstração de que pertencem à seita dos cátaros sem precisar de longas preparações e sem con­fissões extorquidas por meio de quaestiones.

O rosto rechonchudo do padre Jacinto exprimiu grande surpresa. - E como isso foi possível?

O terror das cobras levou algum prisioneiro a confessar-se com o senhor? - perguntou Lambert de Toulouse, também estupefato.

Nada disso. - Eymerich, secretamente exultante, de­senrolou uma pequena folha que trazia na dobra da manga. - Permitam-me, padres, que leia a fórmula integral do con­solamentum que, como os senhores já sabem, é a cerimônia com a qual os cátaros confirmam a própria fé herege. Aqui­lo que nós costumamos chamar de haereticatio.

Deu mais uma olhada nos presentes, tossiu algumas ve­zes e começou a ler: - Você se entrega a Deus e ao Evange­lho? Então prometa que não comerá nenhum tipo de carne, nem ovos, nem queijo, nem qualquer outro alimento que não derive da água, como os peixes, ou da madeira, como o óleo. Além disso, prometa que não mentirá, não jurará, não matará nenhum réptil, não utilizará seu corpo para fins libidinosos, não andará sozinho quando puder ter um com­panheiro, não comerá sozinho, não dormirá sem camisa ou sem calças, não renegará a fé por temor ao fogo, à água ou a qualquer gênero de morte.

Terminada a leitura, feita em latim, Eymerich pousou sobre os três companheiros um olhar revigorado por uma luz de triunfo. - Entendem agora, padres? Nec occidas quicquam ex reptilibus. Os cátaros são proibidos de matar rép­teis. Por isso enchi a cela deles de cobras repugnantes; por isso lhes dei facas, pondo em risco a segurança dos carce­reiros. Qualquer um teria tentado matar as víboras com as facas se não soubessem que não tinham veneno; qualquer um, mas não os cátaros, obrigados a respeitar os répteis. Realmente eles se limitaram a gemer e berrar por dois dias e duas noites sem tentar se defender. Isso eqüivale a uma confissão coletiva.

O silêncio de estupefação que seguiu essas últimas pa­lavras foi rompido pelo padre Simon. O idoso mexeu len­tamente a cabeça em sinal de aprovação. - A fama de sua sabedoria e astúcia é bem merecida, padre Nicolau. Muito bem merecida.

Os outros concordaram com convicção, entusiasmada no caso de Lambert de Toulouse, um pouco mais atenuada no de padre Jacinto. Este perguntou: - Não teria bastado servir carne aos presos depois do jejum? Considerando que são proibidos de comê-la, deixando de tocá-la teriam demons­trado a convicção herege.

Eymerich já esperava pela objeção. - É um subterfúgio que experimentei no passado, mas depois deixei de lado. Muitas seitas, ilícitas sem serem necessariamente perigosas, proíbem o consumo de carne. No entanto só os cátaros não podem ma­tar répteis. Além disso, o asco que as serpentes inspiram li­bera comportamentos irrefletidos e descontrolados. Só uma crença enraizada é capaz de refrear certos instintos.

Eymerich fez uma pausa calculada, depois acrescentou: - Avaliei também o fato de que matar uma víbora com uma faca é uma ação que pode ser muito repugnante. Por isso mandei jogar nas celas lagartixas e especialmente grandes lagartos, que até uma criança pode matar com as próprias mãos. Pois bem, nem esses animais foram tocados, apesar de seu aspecto bastante asqueroso.

A admiração com que os dois confortadores e o padre Jacinto acolheram as palavras do inquisidor podia ser clara­mente lida em seus rostos. O padre Lambert coçou o queixo sem pêlos. - É realmente bizarro esse mandamento de não matar répteis. De onde será que o tiraram?

Dos Atos dos Apóstolos - respondeu Eymerich com segu­rança. - Estão lembrados do centurião Cornélio? Pedro, que estava passando fome, viu descer do céu uma tela contendo todo animal existente, inclusive répteis. Mas ele se recusou a matá-los e comê-los, declarando que não queria alimento profano e imundo. Isso bastou para que a rude teoria cátara exagerasse o fato, utilizando-o como base para a absurda proibição de matar répteis.

O padre Simon ergueu o olhar ao céu. - Que horríveis e grosseiras blasfêmias!

Agora a acusação principal está comprovada - conti­nuou Eymerich. - Os que foram capturados são cátaros, e como tais merecem ir para a fogueira, a menos que rene­guem a própria fé. Mas o nosso trabalho apenas começou.

Por que está dizendo isso? - perguntou o padre Lambert.

Porque está comprovada também a ligação entre a difusão da heresia e a presença dos monstros. Eu contei que, viajando para Châtillon, encontrei um jovem sem pê­los, com aspecto de criança esquelética. Pois bem, aquela criatura se jogou entre as patas de meu cavalo para salvar uma cobra que seria pisoteada. Evidentemente estava obe­decendo à mesma lei que norteia aqueles desventurados. E isso me leva a pensar em uma co-responsabilidade em toda a história do senhor Semurel, que se elegeu tutor dos monstros.

Era óbvio - disse o padre Simon. - Seres sinistros e horríveis denunciavam a presença do pecado neste lugar.

Não necessariamente. - Cada vez que o padre Simon falava, o padre Jacinto parecia incomodado com a atmosfe­ra obsessiva que logo começava a pairar. Mais uma vez, um impulso irresistível o induziu a contradizer o idoso. - O senhor sem dúvida deve ter ouvido falar dos lobisomens das ilhas Andamane, que Marco Pólo menciona...

Não me dedico às leituras profanas - interrompeu se­camente o velho.

Eymerich interveio para esconjurar a controvérsia que se delineava. - Tendo apurado o que lhes contei, é hora de ini­ciar nosso trabalho. Mandarei retirar as serpentes das celas dos condenados, que aliás já podem ser chamados assim, e os liberarei do jejum imposto durante o teste dos répteis. Estamos na nona hora. No vésper, se vocês concordarem, interrogaremos o primeiro deles.

Authié, suponho - disse o padre Lambert.

Sim, mesmo duvidando que seja possível extrair-lhe alguma coisa. Authié é certamente um Perfeito, e como tal não pode mentir. Mas vocês constatarão como são astutos os chefes dos hereges em escapar das perguntas mais prementes. No entanto temos que começar por alguém.

A reunião foi encerrada. Antes de dedicar-se aos prepa­rativos da audiência, Eymerich retirou-se rapidamente em seu quarto, tentando domar a inquietação e a amargura que o dominavam havia alguns minutos.

Era uma sensação que o invadia e perturbava com fre­qüência cada vez maior. Difícil descrevê-la. Tinha a impres­são de que seu corpo se tornava estranho, como se cabeça, tronco e membros não estivessem coordenados entre si. Nes­ses momentos sentia-se uma marionete de madeira, feita de segmentos separados, mantidos juntos por fios impalpáveis.

Ele sempre tivera uma péssima relação com o próprio corpo, considerando-o quase um preferível apêndice da ca­beça. Isso o havia ajudado bastante a suportar a severa vida de clausura e as conseqüentes privações e provações físicas. Porém fazia quase um ano que tinha a impressão de que o controle sobre os membros havia diminuído, como se sua mente pudesse vagar livre da carne. Apesar de nenhum co­nhecido ter feito qualquer menção, temia parecer grotesco e estar se movimentando de forma desconjuntada.

Na solidão de seu quarto, quase tão frio quanto o do pa­dre Simon, sentiu-se muito melhor. Contemplou pela jane­la, acima das coníferas, as reluzentes geleiras que coroavam as montanhas. Desejou estar lá no alto, sozinho e longe dos seres vivos. Isso lhe inspirou um bem-estar renovado, que corroborou com a leitura dos sete Salmos penitenciais. En­fim sentiu-se pronto para enfrentar seus deveres.

Descendo para o átrio, encontrou Reinhardt. Desde que seus homens tinham se entregado àquela carnificina imotivada, o oficial alimentava uma espécie de temor em relação a Eymerich. O inquisidor, de sua parte, não conseguira elaborar uma hipótese satisfatória que justificasse o compor­tamento dos soldados. Zelo religioso? Reação ressentida a uma vida militar transcorrida longe dos campos de bata­lha? Era inútil interrogar aqueles homens de linguajar elementar e hábitos rudes.

Novidades, capitão?

Nenhuma, padre. - Reinhardt pareceu reconfortado pelo tom amigável do inquisidor. - Na vila há grande agi­tação por causa das detenções e das mortes. Mas nenhum parente veio reclamar a soltura dos detidos ou os corpos dos mortos. E isso é muito incomum.

Notícias de Semurel?

Não. Parece que saiu de Châtillon na noite passada.

Certamente foi ao encontro de Ebail. - Eymerich fran­ziu a testa. - Acho que logo teremos aborrecimentos. Espe­ro que isso não aconteça tão cedo.

O inquisidor permaneceu silencioso, imerso em suas reflexões. Reinhardt tocou-lhe a manga. - Desculpe, padre Nicolau...

Eymerich retraiu bruscamente o braço. Detestava ser to­cado. - Então?

Falei outra vez com meus homens sobre aquilo que aconteceu na outra noite. Eles não conseguem dar nenhuma explicação. Acho que estão estranhos, muito estranhos.

O que o senhor está querendo dizer?

O capitão ia coçar a cabeça, mas em seu lugar achou a pluma do elmo e recolheu a mão. - Estão inquietos, briguentos. Se agridem por nada. Por outro lado em alguns momentos parecem abobalhados. Nunca os vi desse jeito.

Quando isso começou?

Oh, no mesmo dia em que chegamos. Mas agora pare­ce que a coisa está se agravando.

O inquisidor encolheu os ombros. - Não sei o que fazer. A responsabilidade pela conduta deles é do senhor. Só pro­videncie para que a guarda dos prisioneiros seja confiada aos elementos mais ajuizados. E outra coisa. Peça que reti­rem as cobras e as facas das masmorras. Agora não servem mais. E dê comida aos prisioneiros.

O que devo dar?

O que seus homens comem?

Pão, carne de ovelha, sopa de açafrão, cebolas, vinhaço.

Dê aos prisioneiros a mesma coisa, menos a carne. - Ey­merich abriu um vago sorriso. - Eles não comeriam mesmo.

O senhor será atendido.

O inquisidor passou a hora seguinte dispondo sobre a audiência. Depois quis um jantar leve, à base de pão e de um queijo amanteigado chamado sericium, temperado com açúcar e água de rosas. O padre Jacinto lhe fez companhia, elogiou muito a delicadeza daquele alimento, ainda que continuasse a criticar a cervisia apreciada pelo mestre.

No vésper, Eymerich, o padre Jacinto, o senhor de Berja­vel e os dois confortadores se acomodaram na sala de jantar adaptada como plenário de tribunal. O ambiente tinha as­sumido um aspecto tétrico e ameaçador. A janela dupla de fundo havia sido coberta com um pano preto e sobrecimada pelo crucifixo carcomido. Abaixo dele, um cadeirão com os pés em cruz, em cujo encosto estava entalhada a quinta estação da Via Crucis. Nos lados, duas cadeiras menores e mais modestas. Na frente, a uns quatro braços de distân­cia, a mesa do tabelião, sobre a qual havia um tinteiro, uma pena de pato e uma ampulheta.

As esteiras do piso estavam recobertas de palha fresca, que exalava um cheiro pungente. Para o prisioneiro estava reservado um banco no meio da sala, formado de três tá­buas apoiadas em cepos e coroado de anéis fincados na madeira para prender as correntes. Aos lados, mantidas na pe­numbra pela escassa quantidade de velas acesas, as duas cadeiras destinadas aos confortadores.

Eymerich convocou em primeiro lugar o carrasco, os as­sistentes e os seis soldados que exerceriam a função de car­cereiros. Reunindo-os no centro da sala, com os religiosos e o notário, os fez jurar que manteriam em segredo o que veriam e ouviriam. Depois afastou todos os leigos, exceto o senhor de Berjavel, que assumiu o lugar à mesa a ele reser­vada e logo a recobriu de papéis.

O carrasco, já na soleira, virou-se. - Padre Nicolau, como o senhor pediu, mandei levar à sala ao lado a roldana com os pesos, vários tipos de alicates e um braseiro. Começo a esquentar os ferros?

Eymerich balançou a cabeça. - Não, não podemos dar andamento às quaestiones sem a aprovação do bispo. Man­dei o jovem Bernier até Aosta, mas ele ainda não voltou. Por esta noite não vamos precisar de seus serviços, mestre Philippe. Mas permaneça à disposição.

- Quantas formalidades - resmungou o padre Simon as­sim que o carrasco saiu.

Eymerich olhou para ele com certa severidade. - Devo lembrar-lhe, padre, que as Clementinas ainda estão vigo­rando. Não quero dar início à tortura sem a permissão do bispo, como agiria um inquisidor pouco escrupuloso. Esta noite nos limitaremos ao interrogatório. - Dirigiu-se ao pa­dre Jacinto. - O que me diz de assumir o comando?

O corpulento dominicano reagiu com evidente mal-es- tar. - Há muitos anos eu não pratico.

Eu lhe garanto minha assistência.

Então que seja.

O padre Jacinto tomou assento no cadeirão central. Ey­merich sentou-se em uma das cadeiras ao lado, arrumando cuidadosamente a túnica. Os dois confortadores permane­ceram em pé.

Depois de alguns instantes, Authié entrou na sala segu­rado por dois soldados. Sua arrogância de pregador tinha desaparecido. Magro, rasgado, coberto de arranhões, pare­cia invadido por um tremor irrefreável. De vez em quan­do uma tosse cavernosa lhe rasgava o peito. Naquele corpo destruído, apenas o olhar mantinha sua decorosa altivez.

Enquanto o homem sentava no banco, Eymerich notou pela primeira vez uma pequena tonsura no meio da cabe­leira desgrenhada. Esperou que os soldados prendessem as correntes aos anéis fincados no banco e que os confortado­res tomassem seus lugares; então, com um olhar, fez o pa­dre Jacinto entender que já podia começar.

Depois de uma breve hesitação, o dominicano dirigiu-se friamente ao prisioneiro. - Quero comunicar-lhe que pode nomear um advogado ou um notário como defensor. Mas, se for julgado culpado de heresia, seu defensor também será processado pelo mesmo crime.

Eymerich abriu um sorriso discreto, satisfeito porque o padre Jacinto estava observando as prescrições de seu Directorium. Outros tratadistas, como Bernard Guy, nem ad­mitiam que o acusado pudesse dispor de um defensor.

Authié falou com timbre rouco. - Eu me defenderei so­zinho.

É uma decisão sábia - comentou o padre Jacinto. - Como se chama?

Pierre Authié, nascido em 1311, vendedor de medica­mentos e boticário, mesmo sem pertencer à Arte.

Ao ouvir aquele nome e aquela data, Eymerich contem­plou o homem com grande curiosidade, redobrando a aten­ção. O padre Jacinto continuou: - Sabe por que foi chamado a julgamento diante deste santo tribunal?

Considerando estritamente o que disseram os vigias, me julgam herético.

E isso é verdade?

Não, de forma nenhuma.

Quando o padre Jacinto se preparava para replicar, Ey­merich interveio. - Cuidado, padre. A negação do prisionei­ro diz respeito aos vigias terem lhe comunicado a acusação. Tendo obrigatoriamente que dizer a verdade, só pode recorrer a esse tipo de subterfúgio.

O padre Jacinto não parecia convencido. - Conheço as astúcias dos hereges, mas, se fosse como o senhor diz, ele já teria mentido ao atribuir aos vigias algo que eles não fizeram.

Eymerich abriu um pequeno sorriso. - Os cátaros são mais sutis do que o senhor pode imaginar, apesar de sua experiência. A expressão "considerando estritamente o que disseram os vigias" deve ser entendida como "se eu levasse em conta apenas o que disseram os vigias". Não é verdade que ele tenha descoberto com os vigias o conteú­do da acusação, porque já tinha conhecimento disso. Por outro lado é verdade que, se tivesse levado em conta so­mente os vigias, teria entendido que era julgado herético. Ele não mentiu.

O padre Jacinto ergueu os olhos ao céu. - Conduzir um interrogatório nestas bases é loucura.

É loucura apenas se o interrogar sobre sua heresia, que para nós é fato consumado. Faça perguntas diretas sobre coisas concretas.

Authié tinha acompanhado todo o diálogo com um lam­pejo de ironia nos olhos. Mas as últimas palavras de Eyme­rich o deixaram muito atento.

O padre Jacinto refletiu um pouco, depois imprimiu grande severidade ao rosto. - Quantos hereges há neste lugar?

Eu nunca vi nenhum.

Você está tentando me enganar - rebateu o dominica­no, agora alertado por Eymerich. - Ao afirmar que não vê nenhum herege neste lugar você julga dizer que não há he­reges nesta sala, exceto você mesmo, que não pode se ver.

Nesse momento, o padre Simon, em sua qualidade de confortador, considerou necessário intervir. - Cuidado, fi­lho. Se mantiver essa atitude, sua carne queimará na fo­gueira e sua alma, no inferno.

A maneira como o velho pronunciou essas palavras não deixava dúvidas quanto ao fato de que a referência à fo­gueira não era uma ameaça, mas uma promessa.

Authié teve um arrepio. Esforçou-se para manter o con­trole. - Queimar-me seria um verdadeiro crime, porque sou inocente.

É o que veremos - disse o padre Jacinto. - Quem é o chefe dos cátaros de Châtillon?

Não há nenhum cátaro.

O dominicano perdeu definitivamente a paciência. - Mi­serável! Se você tivesse dito que não há cátaros em Châtillon, sua resposta talvez fosse válida. Dizendo simplesmente "não há nenhum cátaro" você tenta enganar este tribunal, por­que pode estar se referindo a um lugar qualquer onde de fato não há.

Uma luz irônica atravessou outra vez os olhos do prisio­neiro.

Eymerich, que por algum tempo divertiu-se com a forma como se conduzia o interrogatório, achou que havia chega­do o momento de intervir. - O padre permite que eu condu­za o interrogatório?

- À vontade. - Padre Jacinto bufou. - Este homem é mais escorregadio que as víboras colocadas em sua cela.

Eymerich ficou de pé e começou a andar para a frente e para trás. Por dois minutos não disse uma só palavra, li­mitando-se a lançar frios olhares ao prisioneiro, como se quisesse avaliar seu porte.

Quando falou, dirigiu-se ao padre Jacinto e aos dois con­fortadores. - Já sabemos que ele é um herege. É inútil perder tempo com perguntas a respeito. E temos também a certeza de que ele ocupa uma posição importante na seita cátara. Os cátaros têm a obrigação de dizer a verdade, mas ape­nas para os Perfeitos isso é absolutamente irrevogável, tanto que os força a complicados jogos de palavras. Vamos agora descobrir seu nível hierárquico.

Enquanto o inquisidor analisava seu comportamento, Authié demonstrava uma crescente inquietação. Foi com os olhos arregalados e as têmporas gotejando suor que ob­servou Eymerich, novamente silencioso, colocar-se atrás do notário e recolher algumas folhas da mesa.

Depois de um breve exame, o inquisidor devolveu os pa­péis e enfim se aproximou do prisioneiro. - Responda sim ou não - intimou à queima-roupa. - Você é um bispo?

- Não.

Tem filhos?

Authié pareceu perplexo. - Sim.

O senhor de Berjavel levantou os olhos da ata que redi­gia. - Perdão, magister, mas nos autos em nosso poder cons­ta que ele não tem filhos.

Exatamente - exclamou Eymerich, deixando transpa­recer na voz uma nota de triunfo. - O investigado acabou de confessar a posição que ocupa na hierarquia cátara. Sai­bam, reverendíssimos padres, que na cúpula desses here­ges existem, além do bispo, duas figuras respectivamente denominadas Filius major e Filius minor. Ao admitir ter filhos, o acusado confessou ser um Filius major. Se fosse um bispo não poderia ter negado diretamente sem mentir; se não ocu­passe nenhum cargo, não teria dito que tinha filhos; se fos­se um Filius minor, teria igualmente negado ter filhos, não tendo outros clérigos subordinados a ele.

A sutileza de Eymerich deixou estupefatos os presentes e o próprio Authié. Este fechou os olhos e dobrou a cabeça para trás, como se fosse abatido pelo desfalecimento. De­pois contemplou o inquisidor com um olhar triste.

Podemos considerar-nos satisfeitos - continuou Eyme­rich, retomando seu lugar no cadeirão. - Agora sabemos que ele não é o chefe da seita, mas que deve existir um bis­po superior a ele. Então considero inútil continuar o inter­rogatório. Há quanto tempo estamos em audiência?

O senhor de Berjavel deu uma olhada na ampulheta. - Há quase uma hora.

É suficiente. Dificilmente arrancaremos informações mais precisas deste homem sem tortura. Tentaremos nos próximos dias com seus cúmplices.

O notário saiu para chamar os carcereiros, enquanto o padre Lambert fazia com que o prisioneiro beijasse um cru­cifixo e tentava convencê-lo a orar com ele.

O senhor de Berjavel voltou com dois soldados, que fo­ram se encarregar do investigado. Atrás deles entrou Rein­hardt. O oficial parecia muito perturbado. Chegou perto de Eymerich, que confabulava com o padre Jacinto.

Perdoe-me, padre Nicolau...

Sim, capitão?

Graves problemas com os prisioneiros. - A voz de Rein­hardt estava partida, inquieta. - Ao ver o alimento, começa­ram a berrar que queríamos envenená-los, que aquilo eqüi­valia a matá-los, coisas assim. Pedi explicações. Só gritaram que não queriam a "erva da saúde" ou algo do tipo. Meus homens tiveram muito trabalho para restabelecer a ordem.

Eymerich trocou um olhar com o padre Jacinto, depois fitou o capitão. - Mas que alimento vocês deram a eles?

O que eu tinha dito, exceto a carne. Pão, sopa de açafrão, cebolas.

Então se referiam às cebolas ou ao açafrão. Leve-me à cozinha.

A cozinha ficava no andar térreo do castelo. Tratava-se de um cômodo muito amplo, com um fogão em alvenaria sobrelevado onde ainda ardiam as últimas brasas. Na mesa central havia restos da refeição preparada por um dos sol­dados: uma nuvem de cascas de cebola, uma tigela de ma­deira cheia pela metade de um caldo escuro e alguns peda­ços de pão.

Segurando o candeeiro, Eymerich levantou a tigela e a cheirou. - É esta a sopa que estão recusando?

Acho que sim. - Reinhardt parecia frustrado como um taberneiro criticado pelos fregueses. - Ainda temos uma panela cheia.

O padre Jacinto também cheirou. - Parece boa.

Sim - concordou Eymerich -, mas não me parece de açafrão. Onde encontraram esta coisa?

Reinhardt indicou uma pequena porta. - Na despensa. Venha.

Desceram alguns degraus, penetrando em um lugar frio, mas não úmido, com chão de terra batida. A luz do candela­bro segurado por Eymerich iluminou uma pilha de madei­ra, odres talvez cheios de óleo ou de vinho, alguns sacos de trigo, grande quantidade de legumes secos e, pendurados no forro, dois faisões e um quarto de ovelha.

Reinhardt procurou um saco de tela e soltou a fita que segurava as pontas. Inclinando-o levemente, virou sobre o chão de terra um punhado de estigmas secos, de cor aver­melhada.

Não é açafrão - observou o padre Jacinto. - Tem a mes­ma aparência, mas a cor não é a mesma.

Eymerich recolheu um punhado de estigmas e os aper­tou na mão, reduzindo-os a pó. Olhou de perto, cheirou e deixou cair por entre os dedos. - É verdade, não é açafrão - disse em seguida. - Onde encontraram este saco?

Já estava aqui - respondeu Reinhardt.

Amanhã chame um boticário de Châtillon. Enquanto isso, não deixe seus homens e os prisioneiros comerem esta substância.

Assim será.

Após despedir-se de Reinhardt e do padre Jacinto, Ey­merich subiu para seu quarto, iluminando o caminho com uma vela tirada do candelabro. Sentia-se muito cansado, mas especialmente invadido por aquela sensação de auto­nomia dos membros em relação ao corpo.

A euforia que sentira durante o interrogatório estava sendo substituída por um sentimento de confusão e incer­teza em relação ao papel que lhe cabia naquela história. De um lado, agia com a autoridade de um ser com poderes ili­mitados; de outro, tomava parte de uma trama inquietante orquestrada por outras pessoas. Entre esses dois pólos opostos, a impressão de observar a ação de um estranho, e uma grande vontade de abandono da qual a fragmentação do corpo parecia ser a primeira manifestação concreta.

Mais uma vez, a solidão e o silêncio confortaram o in­quisidor. Permaneceu por muito tempo sentado em um dos bancos ao lado da cama, olhando para a parede nua até que a cera queimasse seus dedos.

Jogou a vela, deitou no colchão forrado de palha e caiu no sono.

 

                                         1968 - O Quarto Elo

A Securitate ocupara todo o quarto andar do Hotel Afrodite, em Baite Herculane. O diretor do hotel não pare­cia disposto a resignar-se com a situação, e não parava de berrar do alto das escadas.

Gheorghe Mincu, funcionário da seção científica do es­critório de Timisoara, viu-se forçado a recorrer a ameaças. - Nós o fazemos perder clientes? - gritou ao homenzarrão de rosto fechado. - Lembre-se de que por dois meses o se­nhor hospedou aqui o criminoso fascista Viorel Trifa. Se não nos deixar trabalhar em paz, vamos começar a pensar que o senhor era cúmplice dele.

A advertência foi eficaz. O diretor empalideceu, balbuciou alguma coisa e foi embora, seguido pelos dois cama­reiros que o escoltavam. Mincu suspirou, balançou a cabeça e voltou para o quarto que Trifa tinha ocupado até sua detenção.

Iancu ainda falava ao telefone, mas já estava prestes a concluir a ligação. Mincu sentou na cama. - E então?

- Nada. Agora é certeza que o cúmplice mais jovem, Ion Remesul, conseguiu cair fora. Teremos que nos apoiar ape­nas nas declarações de Trifa e na documentação que os dois levavam.

E o Trifa, o que diz?

Pouca coisa. Está decrépito e desdentado, fala com di­ficuldade. Desmaiou duas vezes sob os eletrodos. Insiste em dizer que a sociedade dele é comercial, interessada em explorar com o nosso governo as fontes termais da torrente Cerna. Naturalmente nega ser o mesmo Trifa que coman­dou a Guarda de Ferro e desenvolveu atividades anti-comu­nistas nos Estados Unidos.

Mincu recolheu uma das muitas folhas espalhadas sobre os cobertores e leu o cabeçalho. - RACHE Inc. Roumenian American Chemical Incorporated. Você sabe onde é a sede?

Iancu acendeu um cigarro. O cinzeiro na mesinha do te­lefone já estava cheio. - Sei. Em Santa Fé, no Novo México. Mas há uma segunda central na Guatemala, e muitas filiais na Europa. Até as termas de Baite, sem que nós soubésse­mos, eram uma filial enquanto Remesul foi diretor. Não podemos nos dirigir a todos os governos envolvidos, mas parece que ninguém sabia que a RACHE atuava no tráfico de órgãos humanos.

Em proveito de atividades neonazistas - completou Mincu. Levantou-se. - Com quem está a documentação científica?

Quarto 411 - respondeu Iancu. - Tenente Magheru e subtenente Paun.

Vou ver em que ponto estão. Continue procurando Re­mesul.

O quarto 411 era no fundo do corredor, ao lado da gran­de vidraça que descortinava o bosque do vale, talvez o mais belo da Romênia. Mincu empurrou sem bater a porta entreaberta. Entrou em uma suíte decorada com elegância um tanto pretensiosa. Na pequena entrada, dois jovens analisa­vam uma fileira de papéis separados em vários montinhos, pousados em uma pequena mesa de mármore rosa.

Grandes novidades - disse um deles, com barba de três dias e orelhas de abano. - Estamos conseguindo reconstruir todo o processo.

Explique, tenente. - Mincu sentou em uma poltrona com o forro meio gasto, perto da porta de acesso ao quarto de dormir. - Mas seja claro e conciso.

-A primeira surpresa surgiu quando fizemos reagir uma solução de colquicina com a iperita, o chamado gás mostar­da, coisa que quimicamente parecia uma loucura. Mas, pelo contrário, graças às pontes de hidrogênio, a reação ocorreu em água a 60 graus: a mesma temperatura, veja só, da água sulfurosa de Baite. Desenvolveram-se ácido etilsulfúrico, amoníaco, ácido hipocloroso e, agora é que vem o fato in­teressante, um polímero de hidrogênio e carbono similar a muitos tecidos humanos quanto à consistência.

Mincu ficou impressionado. - Então eles produziam ór­gãos sintéticos?

Magheru balançou a cabeça: - Não creio, talvez fosse uma forma de integrar tecidos naturais. Mas um segundo proces­so ainda mais interessante, segundo as fórmulas deles, ocor­re em temperatura mais baixa. Neste caso, a colquicina e a iperita não se decompõem nos vários ácidos e em amoníaco, perdendo anidrido carbônico, mas formam um único com­posto macromolecular que tem as características de uma en­zima. Eles o chamavam de colquissulfetilbiclorase.

E temos algo de realmente estarrecedor - interveio o outro jovem, Paun. - Ainda não testamos mas, se o que os papéis de Trifa afirmam for verdade, a tal enzima provoca a cisão dos filamentos de DNA. Sabe o que isso significa?

Não - respondeu Mincu. - Não entendo de genética.

A dupla hélice do DNA é mantida unida pelas ligações que juntam os nucleotídeos de adenina e timina de um lado, e guanina e citosina do outro, que se alternam defrontando-se por compatibilidade ao longo dos dois filamentos.

Isso eu sei.

Bom. Por si próprias, a colquicina e a iperita alteram a sucessão dos nucleotídeos fazendo com que, no momento da duplicação da célula, o DNA replique um filamento er­rado, que permanece aprisionado em uma célula só. A en­zima colquissulfetilbiclorase vai além. Quebra a hélice do DNA alterando a ordem dos nucleotídeos, e assim sintetiza um novo DNA com figuração alterada; mas depois continua a agir, desarranjando também o novo DNA e produzindo outro, configurado de forma diferente. E assim por diante, até a ação da enzima cessar.

E o que isso implica? - perguntou Mincu.

Implica que os cromossomos se multiplicam até dez ve­zes dentro da mesma célula, produzindo indivíduos, estou me referindo a plantas, excepcionalmente robustos sem que haja degenerações tumorais, que por outro lado ocorrem nas reações além dos 60 graus, quando a enzima não se forma.

E quanto aos seres humanos?

Ainda não sabemos. De acordo com estes papéis, pare­ce que a RACHE estava interessada apenas na regeneração de órgãos humanos deteriorados ou na interferência em cé­lulas fecundadas para dar vida a poliplóides, ou seja, a indivíduos com uma bagagem cromossômica multiplicada em relação à normal. Aplicado em um adulto, o processo seria lento e precário, sem contar os efeitos bexigosos da iperita. O senhor viu a foto do cachorro?

Paun! Por favor! - gritou Magheru, assumindo repenti­namente uma coloração lívida.

Que cachorro? - perguntou Mincu.

Paun deu uma risada nervosa. - Magheru nem quer ouvir falar nisso, e com razão. - Olhou para o colega, que parecia a ponto de abandonar o quarto. - Fique tranqüilo, não vou esticar o assunto. Eu mesmo ainda tenho pesadelos insuportáveis.

Mas do que se trata? - Mincu estava impaciente.

De uma foto que Trifa levava consigo. Era a imagem de um velho com um animal, se é que pode ser chamado de ani­mal... Eu não conseguiria descrever aquela criatura sem vo­mitar. - Foi sacudido por um arrepio violentíssimo. - Penso que se trate de um experimento malsucedido ou algo do tipo. - Contemplou a tapeçaria desbotada da parede da frente, como se quisesse afugentar um pensamento incô­modo. Depois disse: - O que não entendo é por que a tal RACHE estava interessada nas águas de Baite. Talvez por serem quentes?

Magheru, já refeito, abriu os braços. - Não sabemos. E Trifa está tão acabado que não conseguimos arrancar dele nada sensato. Acho que vai acabar morrendo sob tortura.

Eu tenho uma idéia, mas é bem maluca. - disse Paun. - Em teoria, esses fenômenos poderiam produzir-se também na natureza. Acrescentando-se colquicina a água sulfurosa com traços de cloro, é possível que seja desencadeado o processo descrito, mas a temperatura da água deve ser de 60 graus. O carbono e o hidrogênio presentes no alcalóide permitiriam a formação de iperita líquida em estado bruto.

Baite poderia ter essas características - observou Min­cu. - E a enzima?

Ela também poderia ser sintetizada naturalmente, des­de que a água fosse mais fria e existissem todas as condi­ções necessárias. Nesse caso, o processo seria rápido e pro­duziria anidrido carbônico, em uma espécie de ventania.

É, uma ventania - disse Mincu, mas via-se que estava pensando em outra coisa.

Despediu-se depressa e percorreu o corredor em longas passadas. Encontrou lancu deitado na cama, entretido exa­minando folhas e mais folhas.

Iancu - disse Mincu -, você está lembrado de alguém muito importante que se ocupe de polímeros e macromoléculas?

O outro o olhou, surpreso. - Bem, claro. A mulher do...

Claro. - Mincu deu uma risadinha maliciosa, depois acrescentou: - Iancu, acho que a sorte sorriu para nós.

 

                                     COLCHICUM AUTUMNALE

O boticário pegou uma pitada do pó, espalhou na palma da mão e depois deixou cair novamente na tigela. Foi até o lavatório da cozinha e se lavou com cuidado. - Não é açafrão - disse a Eymerich - É cólquico seco.

Cólquico?

É. Onde acharam?

Foi Reinhardt quem respondeu. - Na despensa. Tem um saco inteiro lá.

O boticário era um homem magro e miúdo, de rosto ati­lado e encompridado pelo cavanhaque. Enxugou as mãos no casaco preto de gola grande, olhou para os dois interlo­cutores de modo penetrante e disse: - Quem deixou aquele saco em uma despensa ou queria muito mal a vocês, ou é um imbecil. Então os senhores não conhecem o cólquico?

Eymerich encolheu os ombros. - Eu precisaria ver a flor inteira. O nome não me diz nada.

Para ver a flor inteira o senhor terá que esperar o ou­tono - disse o boticário. - Por isso chamam essa planta de dama-nua, ou narciso-do-outono, ou também, por causa da semelhança, de '"falso açafrão". Pode-se distingui-la do aça­frão especialmente pela cor, que é de um roxo purpúreo. E também pelo fato de que floresce no outono, como já disse, mas solta folhas e produz frutos na primavera seguinte. É uma das seiscentas plantas descritas por Dioscórides, que lhe dá o nome de Cólquico.

O inquisidor apertou os olhos. - Ela é também chamada de "erva da saúde"?

- Não, não tenho conhecimento disso - respondeu o bo­ticário, perplexo. - Aliás, essa é uma coisa que eu excluiria. Que saúde poderia proporcionar um veneno tão mortífero?

Reinhardt teve um sobressalto. - Veneno, o senhor diz? Meus homens estão consumindo isso há três dias!

O boticário assumiu uma expressão de grande surpresa. - Três dias? E não estão moribundos?

- Não.

É a primeira vez que ouço uma coisa assim. Talvez por ter sido diluída. Geralmente a morte não é rápida, mas logo se manifestam sintomas similares aos da cólera.

Eymerich agarrou o boticário pelo pulso e o sacudiu sem cerimônia. - Que efeitos tem essa dama-nua? Diga!

O que o senhor quer que eu diga? - queixou-se o homenzinho, tentando soltar o pulso, - É um veneno terrível. Não tenho conhecimento de ninguém que tenha sobrevi­vido, mas também não sabia de gente que a tenha diluído em água, esquentado e depois tomado. Pode ser que assim tenha um efeito mais brando, ou que se torne inócua. Mas geralmente até quem a absorve em pouca quantidade tem cólicas violentas, vômito e diarréia sanguinolenta.

Eymerich largou o braço do boticário e dirigiu-se a Rein­hardt. - Quantos de seus homens estão vigiando os calabouços?

Só dois.

Traga-me todos os outros. Já.

O oficial, tenso e preocupado, afastou-se correndo. Eymerich permaneceu com o boticário contemplando a tigela cheia de estigmas. Depois de alguns segundos, o homenzinho falou com a voz um pouco trêmula.

Gostaria de dizer uma coisa...

Eymerich interessou-se. - Pois não?

Gostaria de dizer que... - o boticário procurou as pa­lavras - que sei o que o senhor está fazendo por aqui junto com os outros padres. O senhor não imagina como nós da vila lhes somos agradecidos. A tirania dessa gente... desses hereges... estava ficando cada dia mais pesada para todos os bons cristãos.

Eymerich manifestou sua surpresa arqueando uma so­brancelha. - O que está dizendo? Por que fala em tirania?

Porque eles é que mandam. Ninguém lamentou pelos que foram mortos, nem pelos que estão detidos. Espera­mos, aliás, que sejam todos queimados. - Uma espécie de alegria selvagem brilhava nos olhos do boticário enquanto pronunciava suas palavras.

Imagino que os parentes deles não estejam muito sa­tisfeitos.

Eles não têm parentes. São...

O boticário foi interrompido pela volta de Reinhardt. - Reu­ni meus homens diante do portão. Se quiser inspecioná-los...

Eymerich abandonou relutantemente o diálogo com o boticário. Dirigindo-se ao homenzinho, disse: - Além de ervas e remédios, o senhor entende também de medicina?

Apenas o necessário para minha profissão.

Então venha comigo.

A manhã era límpida e ensolarada, tanto que levava fa­cilmente a esquecer a tenebrosa história que se desenrolava naquelas montanhas. Os oito soldados, vestindo seus casa­cos verdes e pretos, mas sem armas além do punhal, esta­vam enfileirados entre as coníferas e o castelo, no minúscu­lo prado florido de primuláceas e iridáceas. O ar, cheio de perfumes, era frio e tonificante.

Mas Eymerich, com a mente perturbada por tantos pen­samentos, não tinha condições de apreciar tão agradável contexto. Aproximou-se dos militares e, pela primeira vez desde que vivia forçosamente com eles, começou a exami­ná-los um a um.

Eram na maioria mercenários provençais ou suíços, vin­dos quem sabe de quantos exércitos. Barbas espessas, co­loração vermelha, traços rudes, olhos ingênuos. Manifes­tavam certo nervosismo, que o inquisidor atribuiu àquela inspeção inesperada.

Na testa do primeiro, notou um longo corte havia pouco cicatrizado. - O que é esta ferida? - perguntou.

O soldado limitou-se a um indecifrável miado. Foi socor­rido por Reinhardt. - É uma conseqüência das tensões dos primeiros dois dias, padre. Quase todos os homens apre­sentaram cortes ou contusões. Mas agora as brigas acaba­ram e as relações voltaram a ser de camaradagem.

- Fico feliz - resmungou Eymerich. Ia passar ao segundo militar, quando algo anormal atraiu sua atenção. Vencendo sua natural repugnância aos contatos, encostou o rosto ao do soldado, que se mexeu sem jeito. Com o indicador esquerdo, levantou-lhe o queixo, afastando a barba loura e cerrada.

Sem dizer nada, Eymerich fez um sinal para que Rein­hardt o olhasse. O oficial obedeceu. - Está muito inchado - disse em seguida.

Mais do que inchado - acrescentou o boticário depois de uma rápida conferida. - Eu diria que este homem tem bócio, se não fosse pela posição completamente errada em que está. E nem parece ser um hematoma.

Eymerich largou o queixo do soldado, muito intimidado com aquela atenção. - Seu pescoço sempre foi tão grande?

De início o mercenário se limitou a chacoalhar a cabeça, arregalando dois olhos lacrimosos; depois exclamou, exal­tado: - São aqueles bruxos do porão! Nós todos estamos as­sim. Eles estão fazendo alguma coisa que nos deixa incha­dos. Ajude-nos, padre!

Ao ouvirem essas palavras, todos os soldados correram ao redor de Eymerich, berrando todos ao mesmo tempo. - Ajude-nos! Abençoe-nos! Queime-os, são uns demônios!

Enquanto gritavam, levantavam os casacos, erguiam as mangas, arrancavam as golas. Quase todos exibiam assus­tadoras excrescências cobertas de veias azuladas, uns no ventre, uns no pescoço, uns nas pernas.

Transtornado e oprimido por uma horrível angústia, Eyme­rich agarrou Reinhardt pelo pulso. - Você não sabia de nada?

O oficial baixou o olhar. - Não, eu juro, padre. Estou tão surpreso quanto o senhor.

Quando a agitação teve um instante de calma, o inquisi­dor interpelou o soldado mais próximo. - Há quanto tempo dura esta história?

Começou esta manhã. - O homem se jogou aos seus pés. - Ajude-nos, padre!

Ergueu-se novamente o coro de súplicas e pedidos de vingança. Atraídos pelo barulho, o padre Jacinto e o padre Lambert correram para fora do castelo. - O que está aconte­cendo? - perguntou o primeiro.

Eymerich o fitou com o rosto endurecido. - Quisesse o céu fazer-me compreender. - Virou-se para os soldados levantando a mão. Aos poucos, o silêncio voltou a reinar. - Para poder ajudá-los, preciso entender o que aconteceu. Algum de vocês quer me explicar?

Um dos mercenários mais idosos olhou rapidamente para os companheiros e deu um passo à frente. - Há alguns dias não estávamos nos sentindo bem, padre. Mas ontem à noite parecia que tudo tinha acabado, e comemos com muito apetite. Os primeiros que perceberam os inchaços foram Rigobert e Gontran, que estavam acordados fazendo a ronda. Quando eles nos acordaram, percebemos que nós todos tínhamos essas coisas horríveis, uns no braço, outros na perna. - Mostrou a mão esquerda, inchada a ponto de ter o dobro do tamanho normal e parecendo uma raiz nodosa.

O boticário tocou com cautela os dedos dele. - Dói?

Não, eu diria que não.

Um segundo soldado, de estatura baixa, ajoelhou-se diante de Eymerich. Seu abdome sobressaía de forma sus­peita. - Foi o bruxo que o senhor interrogou ontem, padre. Por favor, queime-os todos! - O coro de gritos recomeçou imediatamente, desta vez mais truculento e colérico.

Calma - disse Eymerich, que de sua parte não estava absolutamente calmo. - Vamos ver o que pode ser feito. Por que não avisaram o capitão?

Foi novamente o soldado mais idoso quem falou. - O capi­tão não estava. Só o vimos quando nos chamou, há pouco.

Eu estava lá embaixo, inspecionando o calabouço - jus­tificou-se Reinhardt.

Eymerich não disse nada. Dirigiu-se ao boticário. - A dama-nua pode produzir esse tipo de efeito?

Não sei. Ninguém sobreviveu tempo suficiente para uma constatação.

A frase quase provocou uma nova explosão de ira e medo. Eymerich a deteve levantando ambas as mãos. - Fiquem calmos. Visto que ainda não morreram, a vida de vocês foi salva. Quanto aos tumores, descobriremos se eles são de causa natural ou frutos de bruxaria. Em qualquer um dos casos, encontraremos um remédio. - Olhou intensamente para o boticário, para fazer com que entendesse que exigia uma resposta afirmativa. - O senhor pode ir adiantando al­guma coisa?

Tentarei com uma infusão de beladona. Se a absorção do cólquico não estiver completa, é o único remédio eficaz o bastante. Mas preciso ir até a vila.

Então vá, e volte logo. - Eymerich pôs a mão no ombro do soldado que permanecia ajoelhado diante dele, passando a percorrer com o olhar cada um dos presentes. - O padre Lambert celebrará logo uma missa. Vão se confessar e comungar. Depois, se o boticário já tiver voltado, tomarão a infusão e retornarão a suas atividades. Asseguro-lhes que se sentirão melhor.

Enquanto o boticário se afastava montado em sua mula e o padre Lambert guiava os soldados até a capela de Saint Clair, Eymerich reunia-se com Reinhardt e o padre Jacinto.

Como vocês podem ver, a situação está cada vez mais complicada. Vou escrever já ao pontífice pedindo que envie novos soldados, ou pelo menos alguns domésticos arma­dos. Caso eles também demorem, terei que recorrer à ajuda de Ebail.

Reinhardt balançou a cabeça. - Se eu fosse o senhor, pa­dre, não confiaria.

Realmente não confio. Não confio em ninguém. Mas não posso pensar em cumprir minha missão com soldados que têm nas veias um veneno desconhecido... A propósito, quais são as condições dos homens que estão tomando con­ta dos prisioneiros?

Ainda não vi - disse o capitão. - Se quiser, vou verificar.

Então vá e, se também estiverem doentes, como aliás é provável, procure confortá-los com os mesmos argumentos que eu usei.

Eymerich acompanhou com o olhar o oficial que volta­va para o castelo, depois se virou para o padre Jacinto, que acompanhava o diálogo com uma expressão séria no rosto. - O senhor também notou alguma coisa suspeita?

Notei. O capitão disse não ter visto ainda os soldados da guarda. Mas antes tinha declarado que descera para examinar o calabouço.

Exato. Sem considerar o fato de que Reinhardt parece gozar de boa saúde, ao contrário de seus homens. Pode ser que ele não tenha gostado da sopa, mas a coisa toda é muito suspeita. Não podemos confiar nem nele.

Os dois dominicanos permaneceram silenciosos, olhando-se nos olhos. Tinham uma sensação de isolamento cada vez mais palpável, como se um obscuro poder os estivesse envolvendo aos poucos. A própria luz vivida que invadia o vale agora lhes parecia demasiadamente fúlgida, sobrenatu­ral, quase um reflexo de alguma coisa escondida nas florestas ou atrás dos montes. Alguma coisa estranha e aterradora.

Enfim o padre Jacinto falou, com uma nota de verdadeira amizade na voz. - Acho que nunca enfrentamos juntos uma situação tão difícil, magister. E estamos longe de Avignon. O que pretende fazer?

Eymerich sentou-se em um tronco caído, aos pés da grande cruz. Franziu a testa. - Vamos analisar a situação friamente. Alguém tentou envenenar nossos soldados, ou de qualquer forma deixou largada uma substância com pro­priedades venenosas. O capitão Reinhardt escapou não se sabe como do envenenamento e à noite se afasta, ocultan­do seu destino de nós e de seus homens. O vale está cheio de criaturas horríveis, meio humanas e meio animalescas, que ninguém viu nascer. Em Châtillon, segundo o que o boticário disse, o povo exulta com a detenção dos hereges e ninguém vem reclamar os corpos dos mortos...

Eymerich interrompeu-se de chofre, como se fosse colhi­do por um pensamento repentino; depois disse: - Então, os corpos. O senhor sabe onde foram sepultados? Espero que não em solo consagrado.

O padre Jacinto sentou-se também no tronco, levantan­do com cuidado a túnica branca. - O carrasco contou que os cadáveres foram retirados pelos homens de Semurel. Fo­ram levados para Bellecombe.

Eymerich arregalou os olhos. - Para Bellecombe? E por que para lá?

Parece que os corpos dos inimigos da Igreja são jo­gados em uma cisterna que existe por lá, no meio de uma floresta. É uma sepultura que antes era usada para os ani­mais com carbúnculo, para impedir o contágio. Jogar lá os que não são dignos de um funeral religioso tornou-se um hábito local.

Bellecombe... - Eymerich apertou os olhos, esforçando- se para lembrar. - Ah, é o local do castanhal onde Semurel reuniu seus monstros.

Exatamente.

Semurel, Semurel! - Eymerich pulou em pé, cerrando os punhos. - Todas as pontas desta teia de aranha levam a Semurel. E que teia! Os nossos soldados, que antes de in­charem como odres de pele cheios de ar quase se estripam reciprocamente, e antes ainda massacram os hereges sem receber ordens para isso. Os prisioneiros, que sabem o ape­lido insultante que os co-irmãos deles me puseram em Cas­tres há muitos anos. E aquele Authié, Filius major da seita...

Pelo menos sobre ele descobrimos alguma coisa - ob­servou o padre Jacinto, esforçando-se para acalmar a ira do inquisidor.

Eymerich riu nervosamente. - Descobrimos alguma coi­sa? Não sabemos de nada. Porque Pierre Authié foi queima­do em 9 de abril de 1310, depois de um processo de muita repercussão. Era o organizador dos cátaros de Languedoc. Entende? Interrogamos um homem morto há mais de cin­qüenta anos!

Com aquela notícia, o espanto do padre Jacinto ultrapas­sou qualquer limite. - Mas então...

Eymerich não o deixou falar. - Precisamos fazer três coi­sas - declarou, agitado. - Primeiro: interrogar sem consi­deração os prisioneiros, se necessário também recorrendo às quaestiones. Segundo: inspecionar de uma vez por todas Bellecombe, o castanhal e a floresta que o senhor mencio­nou. Está lembrado das palavras de Authié? "O muro na floresta". Eu não ficaria surpreso se fosse aquela floresta. Terceiro: indagar em Châtillon sobre todos aqueles misté­rios e sobre outros ainda. Mas há uma quarta tarefa que executarei assim que tiver soldados em condições de ficar em pé: aprisionar Semurel, processá-lo com seus dignos compadres e queimá-lo junto com eles.

O padre Jacinto conhecia bem os ímpetos coléricos de Eymerich, e cada vez ficava mais espantado. Foi com um timbre fraco de voz que apresentou uma objeção: - Mas Ebail vai permitir isso?

Se vai permitir? Vai ter que permitir, se não quiser ser excomungado! - A voz de Eymerich estava saturada de vio­lência. - Eles esquecem que eu sou um inquisidor, ou seja, um emissário direto do papa, superior ao próprio bispo. Se Ebail opuser resistência, eu o despedaçarei, assim como despedaçarei Semurel, o Authié ressuscitado e todos os ou­tros filhos de Satanás!

Eymerich interrompeu-se. A sensação de ter os mem­bros separados do corpo tinha aflorado repentinamente. Tudo que estava ao seu redor também tinha se tornado in­distinto.

Vendo-o vacilar, o padre Jacinto levantou e se pôs a seu lado. Entretanto não se atreveu a tocá-lo, conhecedor que era da idiossincrasia do inquisidor no que diz respeito ao contato físico. - Está se sentindo mal?

Eymerich se recompôs. Afastou-se um passo do padre Ja­cinto. - Não é nada, só uma tontura. Mas diga-me, o senhor acha que podemos confiar no carrasco e seus ajudantes?

Ah, sim. No passado, eles prestaram grandes serviços ao Santo Ofício.

Bem. Não podendo contar com os soldados, nos apoia­remos neles, e obviamente no senhor de Berjavel. Assegu­re-se de que não tenham consumido a dama-nua.

O padre Jacinto sorriu. - Realmente acho que não. Ber­javel comeu o mesmo que nós, e o mestre Philippe e seus jovens só comem carne. Acham que é o alimento mais ade­quado para seu ofício.

Eymerich olhou a meridiana do castelo. - Avise-os. Na nona hora retomaremos os interrogatórios. Se possível, ou­viremos rapidamente todos os prisioneiros. Philippe e os assistentes os tirarão do calabouço.

As horas seguintes foram de muito trabalho para Eyme­rich. Em primeiro lugar inspecionou a despensa, escolhendo os alimentos que não corriam risco de estar contaminados e descartando aqueles que poderiam ter sido envenenados. Entregou os primeiros a Philippe, com a ordem de mantê-los fechados a chave.

O carrasco foi também encarregado de comprar em Châtillon duas ovelhas e um leitão para abater e cozinhar nos dias seguintes sob sua estrita supervisão. Para aquele dia, a ordem para todos era manter o jejum até a noite, para então se alimentar apenas de legumes frescos fervidos por bastante tempo. Todos os temperos foram abolidos.

Eymerich ainda estava entretido com as diretrizes alimentares quando Bernier chegou, ofegante e cansadíssimo. Trazia uma missiva do bispo de Quart, que começava com as palavras: "O bispo de Aosta por misericórdia de Deus saúda e abençoa o padre Nicolau Eymerich, da Ordem dos Domini­canos, inquisidor do erro herético no burgo de Châtillon".

Depois da saudação, havia frases vagas e propositalmente ambíguas, cujo sentido porém era claro. O inquisidor estava autorizado a recorrer à tortura, desde que submetesse cada caso à avaliação episcopal. Na prática eqüivalia a uma nega­ção. Eymerich amassou a missiva até que virasse uma bola de papel, incluindo os lacres, e a jogou na chaminé da cozi­nha. A cera dos lacres crepitou bastante.

Bernier não teve tempo de descansar e se refazer. O in­quisidor lhe confiou uma mensagem para o pontífice, redi­gida apressadamente, na qual descrevia de forma sucinta a situação e lhe pedia uma nova escolta. O cavalo de Bernier estava extenuado, e Eymerich lhe cedeu o seu; depois aju­dou o jovem a montar, quase o arremessando, e ordenou que chegasse o mais rápido possível a Avignon.

Depois disso Eymerich subiu até seu quarto, jogou-se na cama e ficou olhando para o teto. Permaneceu assim por meia hora, até que a visão de uma aranha que su­bia pelo muro o encheu de repugnância. Tentou ignorar a sensação, mas logo foi invadido pela impressão de que toda uma ninhada de aranhas estava correndo por baixo de sua túnica. Então levantou, matou o inseto arremes­sando contra ele o Livro de Horas e correu para o andar térreo.

Um dos assistentes do carrasco estava prendendo alguns anéis na beirada de um banco. - Sabe o que são os banhos de vapor? - Eymerich lhe perguntou.

Não, padre - respondeu o rapaz, surpreso.

Mande esquentar algumas pedras de forma arredon­dada, grandes como um punho. Depois as leve até uma das guaritas do espaldão. Faça seu companheiro levar uma tina cheia d'água.

O jovem obedeceu sem entender o que o inquisidor ti­nha em mente. Um pouco mais tarde, Eymerich, no assento de pedra de uma das duas torrinhas de planta quadrada, observou os dois rapazes enquanto, com o auxílio de dois grandes alicates retirados de seu arsenal de tortura, joga­vam as pedras em brasa na tina. A água logo se transfor­mou em um vapor denso.

Ao ver a expressão dos dois, Eymerich não pôde repri­mir um sorrisinho. - Não estou louco. É um sistema importado pelos cruzados, e por isso é chamado de "banho tur­co". Agora vocês podem ir.

Uma vez sozinho, Eymerich tirou a túnica e se expôs ao vapor, que a seteira e a estreita porta de ingresso dispersa­vam vagarosamente. Naquela neblina leitosa sentiu-se in­vadido por um profundo bem-estar, que o ajudou a refletir com serenidade sobre os eventos. Depois vestiu novamente a túnica e saiu ao ar frio. O violento arrepio que o atraves­sou lhe devolveu o pleno domínio sobre os membros, apa­gando a sensação de ter as vestes infestadas por nuvens de insetos repulsivos.

Na nona hora, quando desceu para a audiência, estava quase de bom humor. Cumprimentou com grande deferência o padre Simon, que vinha de dez horas de oração sobre a palha do chão. O idoso era amparado pelo notário, que com a outra mão segurava um feixe de papéis.

O senhor já sabe do que aconteceu? - perguntou Ey­merich.

O senhor de Berjavel me contou tudo. - O padre Simon espremeu os olhos até reduzi-los a dois cortes vermelhos. - É inútil que eu diga o que penso a respeito.

Desta vez, padre, creio que compartilho inteiramente seu pensamento.

O padre Lambert e o padre Jacinto também chegaram, acompanhados dos carrascos. Eymerich, de acordo com o rito, os fez jurar que manteriam segredo. Quando já estava se dirigindo ao cadeirão, Reinhardt apareceu na porta da sala.

O inquisidor franziu a testa. — O que há, capitão?

O oficial parecia perturbado. Seria possível até julgá-lo febril. - O mestre Philippe disse que os homens dele subs­tituirão os meus no trabalho no calabouço.

E então?

Eu queria uma confirmação.

O senhor a tem.

Reinhardt fez menção de sair, mas parou na soleira. Eymerich imaginou o que ele estava sentindo. - Não é por desconfiança, capitão. Seus homens não estão se sentindo bem e precisam repousar. A propósito, como está o humor deles?

Suas palavras e a missa serviram para reanimá-los um pouco. - Reinhardt estava aparentemente mais tranqüilo, mas seus olhos permaneciam inquietos. - O inchaço não desapareceu, mas o boticário trouxe a infusão. Enfim, em relação a esta manhã, a situação melhorou muito.

Muito bem. Agora pode ir.

Depois que o oficial saiu, Eymerich fez um sinal para Philippe, pedindo que se aproximasse. - Peça para trazerem todos os prisioneiros, menos Authié, obviamente acorren­tados. Seus ajudantes estão autorizados a portar espada.

Philippe inclinou-se em silêncio e saiu com os dois aju­dantes. O padre Jacinto e o senhor de Berjavel retomaram os lugares ocupados na audiência anterior. O padre Simon sentou em uma das cadeiras sob o crucifixo, à esquerda de Eymerich, enquanto o padre Lambert punha a sua ao lado da mesinha do notário. Desta vez faltava o triângulo de tá­buas central. Apesar de o sol ainda estar alto, a sala, escu­recida pelo pano preto, era iluminada por tochas e algumas velas. Alguma coisa torpe pairava no ar e tornava a atmos­fera tenebrosa.

Eymerich tossiu levemente. - Quero lembrar aos reverendíssimos padres e ao senhor notário que a acusação de heresia em relação às pessoas que entrarão em breve está provada. Nossa ação, portanto, não é voltada a obter uma confissão, que seria supérflua, mas a apurar as circunstân­cias de fato e induzir os salváveis à abjuração. Acrescento que entre os que interrogaremos haverá poucos Perfeitos, se é que haverá algum. Então os investigados poderão men­tir, mesmo a contragosto. Mas ao mesmo tempo eles devem ser menos astutos, o que facilitará nossa tarefa.

O bispo autorizou o emprego de meios rigorosos? - perguntou o padre Lambert.

Eymerich fez uma careta. - Ele pretende conceder caso a caso a autorização para as quaestiones. Como se pudéssemos toda vez enviar-lhe as atas da instrução e esperar que ele decida. E claro que não me sujeitarei a tal abuso.

Uma pretensão que cheira a cumplicidade - rosnou o padre Simon, apertando em punho as mãos escarnas. - Aquele bispo antes tolerou que o demônio se instalasse em suas terras, e agora pretende obstruir nossa missão.

O padre Jacinto tentou uma sutil objeção. - Mas Urba­no recomenda a cooperação entre bispo e inquisidor. Estão lembrados da diretriz de 1363?

É, mas neste caso é o bispo quem não coopera - reba­teu Eymerich, cortando logo o assunto. - Nada nos obriga a submeter-nos a quem não atende às indicações do papa.

Um ruído de metal que batia na pedra fez os dominica­nos se calarem. Eram os prisioneiros, que entravam em três filas, escoltados pelo carrasco e por seus ajudantes. Longas e finas correntes se uniam aos anéis de ferro que levavam no pescoço, manchados pelo sangue de muitos arranhões.

O padre Jacinto precisou desviar o olhar diante de tão penoso espetáculo. Homens e mulheres, velhos e crianças tinham as roupas esfarrapadas e emporcalhadas de excre­mentos. Do grupo provinha um ofegar coletivo, cavernoso, doentio, que dava compasso a suas lentíssimas passadas. A fraqueza era tanta que, ao chegar ao meio da sala, muitos caíram e arrastaram no tombo vários companheiros. Um cheiro salobro e nauseabundo saturava o ar.

Eymerich teve um lampejo de compaixão, que logo se esforçou para reprimir. Levantou-se e chegou perto das três vacilantes correntes humanas. Com olhar aparentemente impassível, percorreu os rostos pálidos, assustados, tortu­rados por três dias vividos na umidade e no medo.

Os homens eram os mais numerosos, e dentre eles era fácil reconhecer, pelo melhor porte, os ex-soldados. Ele identificou logo os três que tinha espiado na taverna na noite de sua chegada. As mulheres eram nove ao todo, uma delas bem idosa, com o rosto enrugado coberto de mechas brancas emaranhadas, e duas jovens moças, uma loura e uma morena, de traços delicados, muito parecidas. Os três meninos e a única menina, com idade variando entre 8 e 12 anos, tinham grandes olhos arregalados, vermelhos em volta, e pareciam não entender o que se passava.

Terminada a longa volta ao redor do grupo, Eymerich re­tomou seu assento. Depois de um curto silêncio, quebrado apenas pelo tinir das correntes, falou com voz fria e pacata.

- Não pensem que temos pena de vocês. Os sacrilégios cometidos contra a Santa Igreja Romana impedem que sejam dignos de piedade. Vocês incorreram no pecado da heresia e merecem a fogueira, isso não se discute. Este tri­bunal, porém, que é composto de bons e de justos, está disposto a atenuar a pena dos que, entre vocês, foram en­ganados por falsos bispos e falsos doutores e estão prontos a demonstrar isso denunciando os corruptores e abjurando as falsas doutrinas. Caso contrário, sua carne queimará até se tornar carvão, e vocês gritarão até a língua cair seca da boca.

Eymerich tinha o hábito de aterrorizar os acusados com frases de efeito, macabras e cruéis, para enfraquecer-lhes a resistência. Neste caso também o expediente pareceu efi­caz. Uma expressão de horror e desespero contraiu aqueles rostos, e um tremor de membros agitou as correntes.

Todos vocês serão interrogados um a um - prosseguiu Eymerich. - Quem se calar será entregue aos ferros em bra­sa do braço secular, que tratará de arrancar o que estiver tentando esconder. Mas, antes de chegar a isso, eu lhes per­gunto: querem vocês, aqui e agora, abjurar o erro com uma confissão espontânea e coletiva e invocar a misericórdia da verdadeira Igreja católica, apostólica e romana?

Os prisioneiros baixaram o olhar. Parecia que um com­pacto silêncio seria a resposta à exortação de Eymerich, quando, inesperada, uma voz falou: - Você, servidor do deus dos judeus, que enche a boca falando de misericórdia, sabe nos dizer onde está nosso irmão Guillaume?

Aturdido, o inquisidor olhou sucessivamente para o pa­dre Jacinto e o padre Simon, colhendo deles olhares perple­xos; depois voltou o olhar para o grupo. - Quem falou?

Deslocando-se o tanto que as correntes permitiam, um homem idoso, mas robusto, deu um passo para o lado. Ey­merich reconheceu o soldado que na taverna tinha induzi­do os companheiros a rezar. Interpelou-o brutalmente. - De qual Guillaume está falando, maldito blasfemador?

Daquele Guillaume de Narbonne que seu capitão le­vou embora esta noite e estripou por pura crueldade. Você não sabe mesmo nada a respeito, Saint Mauvais?

Perdido, palidíssimo, Eymerich tentou levantar, mas caiu novamente sobre seu assento. - O que está dizendo aquele homem? - cochichou o padre Jacinto.

Não faço idéia.

Um outro truque diabólico! - berrou o padre Simon. - Uma outra trama do senhor das mentiras!

O soldado o fitou com ódio. - Cale-se, velho! Sua igreja é um monstro que se alimenta de sangue, seus bispos são servidores da carne, seu papa...

Não pôde concluir. O punho pesado de Philippe recaiu sobre sua nuca, forçando-o a dobrar os joelhos. Ao cair, ele quase se enforcou. Os companheiros de corrente, desequi­librados, desabaram uns sobre os outros como marionetes grotescas. Um único e doloroso gemido ecoou pela sala.

O padre Lambert correu até Eymerich. - Mestre, preci­samos investigar imediatamente.

O inquisidor tinha recuperado rapidamente a aparente frieza, e agora exibia um olhar terrível. - É - disse ao levan­tar. - Cuide disso o senhor. Procure Reinhardt e inspecione o calabouço. Senhor de Berjavel, quantos eram os prisio­neiros?

Vinte e cinco, mais Authié - respondeu o notário, fo­lheando seus papéis.

Estou vendo 24 aqui. Mestre Philippe!

O carrasco estava reerguendo os prisioneiros, puxando- os com brutalidade pelas correntes. - Às ordens, padre.

Tranque estes miseráveis nas salas ao lado. Não lhes dê nada para comer nem beber. - Eymerich fitou intensa­mente o soldado idoso, que tentava endireitar-se com muita dificuldade. - Quanto a este adorador de Lúcifer... ou devo chamá-lo de Filins minor?

O homem olhou para ele com igual intensidade, sem res­ponder.

Separe-o dos outros e leve-o à sala onde o senhor guar­da suas ferramentas, para que ele possa entender bem o que lhe espera. Deixe-o acorrentado ao braseiro, para que medite sobre suas culpas.

Enquanto o padre Lambert deixava a sala, e enquanto os prisioneiros novamente enfileirados retomavam a marcha cadenciada e ofegante, Eymerich se aproximou do padre Simon, que se mantinha acabrunhado em sua cadeira.

Precisaremos de toda sua fé límpida e pura, caro pa­dre. O senhor tinha razão. Os poderes diabólicos tomaram conta deste lugar, e nós estamos em uma nau à mercê da tempestade.

As feições do padre Simon, sulcadas de rugas, distenderam-se um pouco. - A Igreja é uma nau bem sólida, e o senhor é um ótimo timoneiro. Ajoelhe-se.

Eymerich obedeceu. O ancião levantou a mão direita e o abençoou com um amplo gesto, os olhos cheios de lágri­mas. O inquisidor levantou comovido e carregado de ener­gia nervosa.

O padre Jacinto, muito inquieto, observou os últimos prisioneiros que deixavam a sala. - O senhor acha mesmo que Reinhardt pode ter matado um daqueles desgraçados?

Eymerich abriu os braços. - Isso explicaria aquela au­sência furtiva, mas nada mais. E, além disso, como poderia ter cometido um ato como esse na frente dos dois homens de guarda? Por mais que possam ser fiéis a ele, não teriam transgredido as nossas or...

Eymerich interrompeu-se. O padre Jacinto e o padre Si­mon pularam em pé. Lambert de Toulouse tinha voltado à sala cambaleando. Apoiou uma mão na parede, de olhos fechados. Estava ofegante e transtornado.

Eymerich correu para perto dele. - O que está aconte­cendo, padre?

Lambert levantou a cabeça e dirigiu-lhe um olhar, com o maxilar contraído. Gotículas de suor brilhavam em suas têmporas e nos cantos da boca. - Todos mortos - sussurrou.

Como? - gritou Eymerich. - O que está dizendo?

Todos mortos - repetiu o dominicano. Seus lábios tre­miam. - Os soldados, os vigias das celas, Reinhardt. Todos, estou dizendo!

Está brincando? - berrou o padre Jacinto.

Quisesse o céu. - Lambert estava a ponto de cair. Preci­sou apoiar-se no ombro do senhor de Berjavel, que o ampa­rou segurando-o pela cintura. Engoliu em seco várias vezes, depois prosseguiu: - Estão espalhados por toda parte, nos po­rões e no átrio. O senhor precisava vê-los... Oh, meu Deus!

Mas quem foi? - perguntou Eymerich com voz surda.

O capitão deve ter se suicidado. Quanto aos outros, deve ter sido o veneno. Estão cobertos de tumores, assus­tadoramente inchados. Não são mais homens. Não dá nem para olhá-los...

Reinhardt suicida - murmurou o padre Simon, cujas sobrancelhas brancas formavam uma única linha côncava.

Maldito.

O padre Lambert balançou a cabeça. - Não diga isso. - Endireitou-se, dispensando o apoio do senhor de Berjavel.

Era o mais doente de todos, e nós não percebemos. Seria preciso vê-lo agora.

- Vamos - ordenou Eymerich secamente. Seus olhos faiscavam como lâminas afiadas.

 

                                                        1972 - O QUINTO ELO

O doutor Arthur Guirdham contemplou amargurado a sala semi-vazia alugada pela prefeitura de Bristol. Um casal idoso estava sentado na primeira fila; atrás dele, qua­tro sujeitos que pareciam ser daqueles que freqüentam todo tipo de conferências sobre ocultismo; no fundo, perto da porta, um jovem de cabelos ruivos e o cronista de um jornal local. Nenhum deles tinha se aproximado ainda do balcão onde estavam enfíleiradas as cópias de We Are One Another, ao preço de duas libras cada.

Guirdham olhou para o relógio, lançou um olhar triste à senhorita Mills e começou: - Fui médico por muitos anos e não afirmaria coisas que não posso demonstrar. Conhe­ci a senhorita Mills em 1968, enquanto estava de repouso forçado em conseqüência de um ataque cardíaco. O carro dela tinha sofrido uma pane na frente da minha casa. Ela me viu no jardim e pediu para usar o telefone. Conversa­mos um pouco e desenvolvemos certa empatia. Depois de duas semanas a senhorita Mills voltou a me visitar e pediu meu parecer de médico sobre uma série de estranhas cir­cunstâncias. A memória dela remoía obsessivamente duas palavras, "Raymond" e "Albigenses". Além disso, sonhava com freqüência que fugia de um castelo erguido sobre uma encosta e estava dentro de uma paliçada em chamas.

O senhor nunca estudou os albigenses, doutor? - per­guntou o cronista lá do fundo, num tom irônico.

Já, a história deles sempre me seduziu - respondeu Guirdham, relevando o sarcasmo. - Exatamente por isso...

Oh, que coincidência - exclamou o cronista. O jovem ruivo riu.

Exatamente por isso, como dizia, consegui entender as referências da senhorita Mills, que não sabia nada de albi­genses. Os últimos cátaros de Languedoc foram sitiados em 1244 no castelo de Montségur, que de fato está situado no alto de um penhasco, e em seguida, queimados em fogueira coletiva. Alguns anos antes, a senhorita Mills tinha ido à França, e um impulso terrível a tinha arrastado até Carcassonne, que não era um destino previsto em seu plano de viagem...

Neste momento um impulso terrível me arrasta para o pub mais próximo - disse o jovem ruivo, em voz suficiente­mente alta para que todos pudessem ouvir,

Por favor, senhores. - Guirdham já estava começando a ficar nervoso. - Carcassonne era a sede do mais famoso tribunal da Inquisição; daquela mesma Inquisição autora do massacre de Montségur. Continuando a me encontrar com a senhorita Mills...

E o que sua mulher achava disso? - perguntou o cro­nista. A senhorita Mills enrubesceu.

... emergiram outras coincidências. Em 16 de março de 1969, ela sentiu uma dor aguda de origem inexplicável. Pois bem, exatamente em 16 de março de 1244 os duzentos cáta­ros de Montségur foram levados à fogueira. Além disso, a senhorita Mills se lembrava obsessivamente de um nome in­sólito, Esclarmonde. Consultei um historiador francês, Jean Duvernoy, e fiquei sabendo que Esclarmonde era a terceira filha de Raymond de Perella e de Corba de Lantar, e que a In­quisição tinha reservado a ela o mesmo destino dos cátaros.

Minha mulher também acha que já foi uma grande cortesã de Atenas - disse solenemente um dos sujeitos da segunda fila. No fundo da sala, o jovem e o cronista se do­braram de tanto rir.

Guirdham ignorou a interrupção. - Continuei anotan­do as coincidências, enquanto quase toda noite a senhorita Mills se lembrava de fatos e circunstâncias que não teria como conhecer. Escreveu em um caderno de notas o nome Sorba, parecido com Corba, que havia sido a mãe de Esclar­monde; escreveu o nome do bispo Jean de Cambiaire, que realmente existiu. Aos poucos me convenci...

-... de que era melhor parar de beber - completou o cro­nista, enquanto o outro ria até as lágrimas.

Então o senhor acredita em reencarnação? - perguntou o homem idoso sentado na primeira fila.

Acredito, mas não que a senhorita Mills seja uma reen­carnação de Esclarmonde - respondeu Guirdham. - Creio que seja Esclarmonde em pessoa, que sobreviveu não sei como através de sete séculos. Senhorita...

Ao ser chamada, a senhorita Mills fez uma exibição que ninguém esperava. Levantou-se, caminhou até diante da mesa e, com um gesto embaraçado, começou a erguer a saia. O cronista e o jovem ruivo aplaudiram freneticamente, ber­rando de entusiasmo. Mas a excitação deles durou pouco.

As horríveis cicatrizes de queimadura que viram nas an­cas da moça congelaram os gritos em seus lábios.

 

Leonard Hayflick sorriu com a lembrança que o jornalista evocara. - Para mim foi um momento terrível. O professor Peyton Rous, há pouco condecorado com o prêmio Nobel, recusou a publicação de meu trabalho no prestigioso Jour­nal of Experimental Medicine. O senhor entende: se isso se tornasse público, minha carreira estaria acabada. Ou, se não minha carreira, a possibilidade de encontrar alguém dis­posto a publicar os resultados de minhas pesquisas.

O jornalista, um homem louro de traços angulosos, aquiesceu e escreveu alguma coisa no bloco de notas. - De­via ser idoso, o professor Rous.

Quase 90 anos, mas ainda muito lúcido. Era sobre os experimentos de Carrel, que tinha conseguido manter em cultura, por um longo tempo, alguns fibroplastos de frango sem que a multiplicação celular desse sinais de diminuir... O senhor sabe o que são os fibroplastos?

- Não.

São as células que compõem os tecidos e os órgãos dos animais, inclusive os do homem. O envelhecimento ocorre quando os fibroplastos perdem progressivamente a capaci­dade de se reproduzir. Carrel estava convencido de que, em condições adequadas, os fibroplastos podiam continuar se di­vidindo indefinidamente. Porém, em meu artigo, eu explicava que em seu experimento ele tinha involuntariamente cometi­do um erro. Ao enriquecer a cultura com extratos retirados de frangos adultos, ele introduzia, sem querer, células novas.

O jornalista permaneceu silencioso, contemplando o par­que do Winstar Institute pela janela do escritório. Hayflick já tinha notado que o homem tinha tendência a se distrair, como se o assunto não o interessasse, ou ele já o conhecesse.

Não sei se fui claro - disse gentilmente.

Ah, sim. - O jornalista dirigiu novamente o olhar para o bloco de anotações. - Mas qual é sua teoria?

Com o colega Moorhead descobri que, sem interven­ções externas, os fibroplastos tendem a reduzir suas subdi­visões de acordo com a idade do sujeito. No caso do homem, essas células se subdividem de forma perfeita nas primeiras 23 vezes, produzindo novas células que tomam o lugar das antigas. Depois as subdivisões se reduzem em freqüência, atingindo um máximo de 50-60. - O cientista sorriu. - É o chamado "limite de Hayflick". Ou seja, o limite de duração da vida humana.

E não há como superar esse limite?

A meu ver, não. Mas sei de colegas que estão enfren­tando o problema. Veja, paradoxalmente, a superação dos limites de vida do homem é ligada ao conhecimento do câncer. Este último depende de uma proliferação desorde­nada das células; o envelhecimento, por sua vez, é ligado à redução e depois à interrupção de sua reprodução. Se conseguíssemos obter uma reprodução ordenada, o limite que leva meu nome talvez pudesse ser superado, e o cân­cer, vencido. Mas duvido que consigamos isso em prazos aceitáveis.

O jornalista estava agora muito atento. - O que o senhor acha, professor, das experiências nesse sentido realizadas pelos romenos?

Hayflick olhou para ele, surpreso. - Você está falando do chamado método Aslan?

Não. Estou me referindo aos experimentos com a enzi­ma colquissulfetilbiclorase na Romênia.

Francamente, não sei nada a respeito.

Alguns ilustres pesquisadores romenos afirmam que essa enzima provoca a duplicação das células com segmen­tação do DNA, mas mantendo a bagagem cromossômica duplicada em uma célula só. Desta forma, a nova célula, que contém uma quantidade dupla ou tripla de cromosso­mos, substitui a célula que nasceu sem DNA.

Hayflick estava boquiaberto. - Bom, na verdade, se isso fosse possível... teríamos indivíduos muito robustos e desti­nados a uma vida muito longa. Absurdamente longa, aliás... Mas eu tomaria muito cuidado com a utilização dessa enzi­ma. Como disse que se chama?

Colquissulfetilbiclorase. Um derivado da colquicina e do sulfureto de etilo biclorado.

Iperita. Tanto a iperita como a colquicina são mutagênicos poderosos, mas perigosíssimos.

O jornalista olhou o cientista com vivacidade. - Se o que eu lhe disse fosse exeqüível, o senhor acha que teríamos um aprimoramento da raça?

Que pergunta mais esquisita. - Hayflick agora esta­va, no mínimo, perplexo, e levemente inquieto. - O que eu posso dizer? Se alguém descobrisse como fazer inúmeras cópias do DNA mutante e difundi-lo... mas por sorte a clo­nagem é um processo lento e complicado. Digo por sorte porque espero que ninguém esteja cultivando projetos de gosto tão... hitlerista.

Agradeço muito, professor.

O jornalista já estava na porta quando Hayflick, um tan­to perturbado, o chamou. - Para qual jornal o senhor disse que trabalha?

O Der Weg, de Buenos Aires.

Buenos Aires? Pensei que fosse um jornal alemão.

E é. - Agora o jornalista demonstrava uma curiosa im­paciência. - Há muitos alemães residindo na Argentina, e na América do Sul em geral.

E os alemães da América do Sul se interessam por pro­cessos de envelhecimento?

Ah, sim. Muitíssimo.

 

                                   A Água e o Vento

Nas laudes de seu quinto dia em Ussel, Eymerich saiu do quarto depois de uma noite de insônia para participar da triste cerimônia que ocorreria a seguir. O padre Jacinto, o padre Lambert, o senhor de Berjavel, o padre Simon, Philippe e um de seus ajudantes o esperavam diante do castelo, perto do tufo de lariços.

No prado, perto da entrada de uma galeria talvez des­tinada a tornar-se uma passagem secreta, jaziam os doze cadáveres. Não eram corpos normais. Em um deles, uma monstruosa excrescência interna tinha saído pela boca, substituindo a língua por um assustador fungo avermelha­do e mole que pendia até o chão. Outro cadáver estava gro­tescamente inchado, e duas protuberâncias como corcovas, na altura do abdome, o faziam parecer uma pêra flácida. Todos os outros corpos estavam roxos e deformados como pedaços de argila modelados por um demente.

E lá estava também o corpo do até então desconhecido Guillaume de Narbonne. A túnica rústica, alinhada na me­dida do possível, não conseguia esconder os horríveis feri­mentos provocados por golpes de espada. Em particular, o tecido frouxo no ventre e a grande mancha vermelha que ainda espumava sobre ele denunciavam que no lugar dos intestinos agora havia apenas uma obscena cavidade sanguinolenta.

Ao lado do herege jazia o cadáver de seu assassino, o ca­pitão Reinhardt, também destinado à fossa da galeria. As pernas escondiam uma espécie de rabo grotesco e viscoso que saía do fim da coluna vertebral. O capitão tinha conse­guido manter escondida por três dias a existência daquele apêndice repugnante.

Ao examinar a disposição dos cadáveres, Eymerich, co­mo já tinha feito o padre Lambert, pôde intuir em linhas gerais o desenrolar da tragédia. Reinhardt devia ter sido o primeiro a sofrer os horríveis efeitos da dama-nua. Prova­velmente desde o dia da chegada sua carne tinha começado a inchar, torcer-se e crescer de forma estranha. Assim como seus homens, teria sido dominado por impulsos irrefreá­veis; não era de excluir que ele próprio tivesse ordenado a carnificina da capela.

Nos dias seguintes, consciente de seus deveres, mantivera escondido o que lhe acontecia; mas no terceiro dia, ao encontrar em uma das pequenas celas ao lado do calabouço maior os dois homens da guarda moribundos e cober­tos de terríveis tumores, a agressividade que o invadia se sobrepôs à razão. Arrancando ao acaso um prisioneiro das correntes, o tinha arrastado para a pequena cela e, acusan­do-o do malefício, o tinha mutilado e estripado diante dos soldados moribundos.

Depois daquele sangrento desabafo, sua mente tinha momentaneamente recobrado a lucidez. Vencido pelo hor­ror e pela vergonha, inicialmente tinha tentado ocultar seu ato e a maldição que lhe devastava o corpo. Mas a menti­ra não podia continuar. Na primeira oportunidade, Reinhardt tinha voltado à masmorra e tirado a própria vida, jogando-se sobre a mesma espada que tinha encharcado de sangue enquanto dominado por um impulso inexplicá­vel de violência.

E os fatos deviam ter ocorrido mais ou menos dessa for­ma; todos os prisioneiros interrogados nas horas seguintes à aparição dos cadáveres confirmaram essa versão; aliás, foram as únicas palavras que Eymerich conseguiu arran­car deles antes de mandá-los de volta, em jejum, para o calabouço.

Agora o inquisidor estava cansado, perdido na teia de aranha em que estava preso. Fez um sinal para o mestre Philippe. Atendendo às ordens recebidas, o carrasco virou uma panela inteira de enxofre fundido, segurada com a aju­da de dois longos alicates, nos corpos do herege e do oficial; depois seus assistentes jogaram os cadáveres queimados na cova e os recobriram de terra. Nenhuma oração para eles.

Eymerich assistiu impassível ao espetáculo, depois foi até onde estavam os co-irmãos e o notário, ao lado dos ca­dáveres dos soldados. O padre Jacinto lhe entregou uma grande Bíblia, já aberta no salmo 13. No entanto o inquisi­dor folheou algumas páginas com os dedos abertos e leu em voz alta: - "Pelo que se acendeu a ira do Senhor contra o seu povo, e estendeu a sua mão contra ele, e o feriu; e as mon­tanhas tremeram, e os seus cadáveres eram como monturo no meio das ruas: com tudo isto não tornou atrás a sua ira, mas ainda está alçada a sua mão".

Um "amém" perplexo marcou o fim da leitura. Seguiu-se o canto do Salve Regina, tão típico da ordem dominicana; depois, após aspergir os corpos com água benta, os padres e o notário encaminharam-se para o castelo, enquanto o carrasco e seu ajudante terminavam o sepultamento em outro lado da galeria.

O padre Jacinto caminhava ao lado de Eymerich. - O que fazemos agora, magister? Não temos escolta, e a que pedi­mos a Avignon talvez só chegue daqui a algumas semanas. Quem sabe não seria o caso de recorrer a Ebail...

Tenho outra idéia - respondeu o inquisidor. - O senhor viu no castelo algum estandarte da Virgem?

Não, mas poderíamos extraí-lo de uma tapeçaria. Há al­gumas com imagens sacras. O que está pensando?

Para responder, Eymerich esperou que o padre Lambert, o padre Simon e o notário também chegassem perto. - Fa­remos uma procissão. Esta manhã mesmo. Desceremos só nós, com um estandarte, e reuniremos o povo. Depois o convidaremos a formar uma milícia.

O padre Jacinto assumiu uma expressão de dúvida. - Acho um pouco perigoso.

Não tão perigoso quanto permanecer nesta situação.

E Semurel? - perguntou o padre Lambert. - Se ele está mesmo do lado dos hereges, não aceitará tranqüilamente uma iniciativa dessas.

Eymerich encheu o peito. - Quero ver quem se atreve a to­car em religiosos em procissão. A Igreja pode sofrer afrontas, mas não pode ser esmagada nem vencida. Se não for louco, aquele protetor de monstros deve saber muito bem disso.

Um pouco antes da terceira hora, os quatro dominica­nos se encontraram novamente na frente do castelo. Todos vestiam, sobre a túnica branca, a capa e o capuz pretos. O padre Lambert carregava com esforço o pesado crucifixo ti­rado da sala das audiências; o padre Simon segurava uma Bíblia, o padre Jacinto empunhava um estandarte colocado sobre dois pedaços de madeira montados em cruz com o retalho de uma tapeçaria, representando o falecimento da Virgem Maria. Eymerich levava um ostensório cujo interior representava o Santíssimo Sacramento; representava ape­nas, porque, não sabendo se a descida ao povoado seria pa­cífica, ele tinha preferido não consagrar as hóstias.

Philippe, contrário à iniciativa, fez uma última tentativa para garantir a proteção dos dominicanos. - Deixe pelo me­nos que meus dois ajudantes os escoltem.

Eymerich balançou a cabeça. - Até mesmo um único ho­mem armado alteraria o significado de nosso gesto. E, além disso, tenho outra tarefa para vocês. Os prisioneiros ainda estão em jejum?

Estão, padre. Como o senhor ordenou, não dei a eles nem alimento, nem água.

Escolha três deles. Eu sugeriria um menino, uma das duas meninas e um adulto. O que interessa é que sejam os mais debilitados.

O mestre Philippe coçou a cabeça. - Bem, fora o Filius minor, que passou a noite abraçado ao braseiro e berrou o tempo todo, as crianças são sem dúvida as mais fracas.

Sei, mas não as quero todas. Aliás, certifique-se de que o escolhido tenha pelo menos 9 anos e assim possa ser sub­metido a um interrogatório rígido. Espero que não seja ne­cessário recorrer a seus métodos, mas, caso seja, não quero que sejam aplicados a crianças muito pequenas.

Philippe sorriu.- Reverencio sua sabedoria e humanida­de. O que devo fazer com os três?

O senhor os alojará convenientemente vigiados, mas sem correntes, em três quartos diferentes do castelo. De­pois dê vinho a eles.

Vinho? - O espanto de Philippe refletiu-se no rosto dos dominicanos e do senhor de Berjavel, que presenciava os preparativos da partida.

É. Vinho à vontade. E nada mais.

Dito isso, Eymerich iniciou a marcha, com os co-irmãos atrás dele. O dia estava morno, quase quente, e era agradá­vel caminhar à sombra dos lariços de copas amplas e leves, que na descida iam sendo substituídos por abetos verme­lhos. A trilha, alegrada nas beiras por moitas de mirtilos e de rododendros, era difícil de ser percorrida a pé. Logo os dominicanos começaram a sentir a dor causada pelos pedriscos e fragmentos de rocha que salpicavam o chão, tão grandes que tornavam inócua a proteção oferecida por suas sandálias.

Somente Eymerich, perdido na contemplação das mon­tanhas, parecia indiferente ao cansaço. Foi trazido nova­mente à realidade por um vento, que levou até ele a conver­sa do padre Lambert e do padre Jacinto, que tinham ficado para trás.

Mas por que em Languedoc o chamavam de São Mal­vado? - perguntava o primeiro, ofegante sob o crucifixo.

Porque diziam que tinha duas naturezas. Justo e cruel, humano e impiedoso. Pessoas que o tinham conhecido em momentos diferentes não se convenciam de que pudesse ser o mesmo homem.

O povo freqüentemente não compreende que os nossos deveres às vezes nos impõem a adoção de comportamentos contrastantes.

Claro, mas posso dizer que eu mesmo...

Eymerich acelerou o passo para não ouvir mais. Não ti­nha nada contra o fato de o padre Lambert e o padre Jacinto estarem falando de sua pessoa; era porque não suportava aquele assunto. Desde a infância sua mãe, Luz, exigente e alheia, recriminava aquela duplicidade natural, que para ela eqüivalia a uma inclinação para a covardia e o engano. As últimas acusações eram injustas, mas a principal tinha certo fundamento. Exatamente por isso Eymerich ficava perturbado toda vez que era novamente evocada, mesmo na forma do contraditório apelido de São Malvado.

Passada a capela de Saint Clair, os dominicanos chega­ram à ponte sobre o rio. Foi então que alguns camponeses viram as túnicas brancas e pretas. Largando ali mesmo as ferramentas, correram logo na direção do povoado.

Será que ficaram com medo? - perguntou o padre Si­mon, surpreso.

De toda forma, vamos prosseguir - respondeu Eymerich.

Tinham acabado de atravessar a ponte quando, das pri­meiras casas de Châtillon, viram uma torrente de pessoas que desciam correndo na direção deles. Eram camponeses, artesãos, soldados, trabalhadores braçais, mercadores; ho­mens e mulheres, velhos e crianças, sãos e inválidos, todos usando os pitorescos trajes locais.

O padre Lambert estava um pouco inquieto. - Amigos ou inimigos?

Amigos - disse Eymerich com um meio sorriso. - Vejam.

O povo cercou os dominicanos, que ficaram rodeados de rostos sorridentes e mãos estendidas. Alguns tentavam to­car as vestes dos religiosos, outros faziam o sinal-da-cruz ao ver o ostensório, outros ainda se ajoelhavam ou se prostravam no chão.

- Ajudem-nos, padres!

Benditos sejam!

- Façam Deus voltar a estas terras!

- Afugentem, queimem os demônios!

Com tantos gritos de alegria e invocação se sobrepondo, Eymerich não conseguia entender quase nada. O inquisidor estava fisicamente incomodado com tanta gente e tanto cla­mor, mas ao mesmo tempo se alegrava pelo triunfo conquis­tado e pela sensação de dominar todas aquelas almas. Esse poder demonstrava a força irrefreável da Igreja, e era nele que se baseava a concepção pessoal de religião do inquisidor.

Encontrou o olhar do padre Simon, detectando os sinais de um sorriso que os lábios áridos não conseguiam formar. O idoso intuiu os desejos de Eymerich e levantou o braço esquelético para abençoar o povo. Logo a quietude voltou. Depois Simon entoou com voz sutil o Salve Regina, repetido por todas as bocas.

Quando o canto atingiu sua força máxima, Eymerich co­meçou lentamente a caminhar, com os outros dominicanos atrás. Olhando de forma decidida para a frente, sem parar de cantar, o inquisidor se enfiou no meio da aglomeração, que se alargava para abrir caminho aos dominicanos e se recompunha atrás deles. A torrente humana seguiu cantan­do e orando para Châtillon.

Na entrada da vila, os guardas de Semurel pareciam incertos quanto à atitude a assumir; depois se afastaram, ajoelhando-se devotamente na passagem do ostensório e do grande crucifixo que o padre Lambert brandia com re­novado vigor.

Eymerich viu o boticário na porta de sua pequena loja. Fez sinal para que se aproximasse. O homenzinho pareceu radiante pela honraria concedida. - Esperávamos muito por este momento, padre.

O inquisidor lançou-lhe um olhar penetrante. - Sabia que todos os soldados morreram?

Não, mas não estou surpreso. A beladona não ajuda muito em caso de altas doses de cólquico.

Eymerich ergueu o olhar para o castelo dos Challant, que se elevava, junto com a igreja, acima dos telhados. - Ebail está aqui?

Não, mas Semurel está.

Bom. - Um sorrisinho sinistro aflorou nos lábios do in­quisidor. - Hoje eu lhe lançarei meu desafio.

Os aldeões que não tinham corrido até o rio agora se jun­tavam à procissão, ou lhe abriam caminho afastando mulas e animais domésticos. Alguns se apressavam em espalhar palha, na inútil tentativa de cobrir a lama e o esterco que escorriam pelas vielas.

Abençoando as pessoas, as lojas, as fachadas de madeira das casas, os quatro dominicanos chegaram à taverna Três Reis, não muito longe do ponto onde se dividia a ampla ala­meda que levava à igreja e ao castelo dos Challant.

Eymerich parou a procissão e sussurrou alguma coisa ao boticário. O homenzinho desapareceu dentro da taverna. Saiu logo em seguida acompanhado do taberneiro, de um ajudante e da criada. Traziam uma pequena mesa que, a pedido do inquisidor, colocaram no meio do cruzamento.

Com um salto ágil, Eymerich subiu na mesa. Mesmo na­quela posição um tanto ridícula, sua figura alta e esbelta impressionava. Com um gesto resoluto fez cessar cantos e rezas; depois, lentamente, abraçou com o olhar o povo que se espremia nas ruas confluentes.

Ergueu o ostensório e fechou os olhos, assumindo uma expressão intensa. - Senhor! - gritou. - Eu lhe suplico, pro­teja esta gente e seus servidores dominicanos dos malefí­cios e das calamidades que uma horrenda progênie de hereges, inimigos jurados do Verbo, tentou difundir por estes montes.

Um "amém" coletivo, apaixonado e liberatório acolheu essas palavras. Então Eymerich, agitando o ostensório, vol­tou a empinar-se em toda sua estatura, silencioso e iracundo. Os presentes nem respiravam.

Depois de uma longa pausa, o inquisidor voltou a falar, dirigindo-se agora às pessoas a seus pés. - Bons habitantes de Châtillon, fiéis seguidores da Igreja romana. Por tempo demais vocês sofreram as insídias de doutrinas errôneas e bárbaras, inspiradas por Lúcifer em pessoa. Mas o santo papa Urbano nos mandou aqui para libertá-los. Sem dúvida vocês ouviram falatórios blasfemos sobre os inquisidores. Mas Abimelech, que destruiu a cidade de Sichem e queimou Baal com mil homens, não era também um inquisidor? E Zamiri, que exterminou toda a família e os parentes do infiel Baasa? Às vezes é necessário que a mãe Igreja desembainhe a espada e a afunde sem piedade no coração dos inimigos de Cristo. Esta é nossa tarefa no meio de vocês, pessoas simples e boas, que pedem para ser ajudadas con­tra inimigos poderosos e astutos. Mas para que possamos desempenhá-la é preciso que vocês nos contem com fran­queza os abusos de que foram vítimas. Querem fazer isso?

Umas cem pessoas, no mínimo, começaram a falar si­multaneamente, levantando o tom da voz à medida que se davam conta de que não podiam ser ouvidas. Em poucos instantes o clamor se transformou em um barulho insupor­tável. Eymerich, exasperado, foi forçado a erguer novamen­te o ostensório. Aos poucos, o silêncio voltou.

Vocês confiam no boticário? - perguntou o inquisidor.

A resposta foi um "sim" quase uníssono. Houve uns pou­cos resmungos.

Então que fale ele, em nome de todos. A quais abusos são submetidos os bons cristãos de Châtillon?

A um especialmente, padre. - O homenzinho abriu caminho até os pés do palco improvisado. - O senhor Semurel obriga os habitantes da vila, exceto os adeptos do consolamentum, a contribuir mensalmente para a manu­tenção de criaturas ridículas e deformadas reunidas em Bellecombe. O povo destes vales é pobre. Por qual razão deveria alimentar seres assustadores, paridos não se sabe por quem, enquanto os inimigos jurados da Igreja são isen­tados disso?

A aprovação unânime das palavras do boticário demons­trou o quanto o problema era sentido. Para Eymerich, no entanto, a argumentação pareceu mesquinha, distante da revelação que esperava. Entendeu que as risadas com que o monstro com cabeça de asno havia sido acolhido na pra­ça representavam uma desforra, a única suficientemente inócua para não dar margem a sanções; e ficou se perguntando, com certa amargura, se conseguiria colher algo que não se resumisse a simples motivações econômicas, como cobrança de taxas ou divisão de colheitas.

Franziu a testa. - E por que não apresentaram suas quei­xas ao bispo de Aosta?

O boticário assumiu um tom irônico. - O pároco é um pobre velho que mal consegue rezar a missa. Quanto ao bispo, ele só ouve os muito poderosos ou os muito pobres, e não tem tempo para gente pequena que trabalha para ga­nhar o próprio sustento.

Dessas palavras Eymerich obteve a confirmação de que não eram motivos nobres os que governavam aquela gente, mas o rancor de não ver o próprio papel reconhecido. Tratava-se então de simples inveja, igualmente voltada para os que estavam acima e os que estavam mais abaixo.

Apesar do certo desprezo que agora lhe inspirava aque­le povo, decidiu deixar passar e usar em proveito próprio aqueles sentimentos, por mais que fossem mesquinhos. - Hoje nós estamos aqui para libertá-los dos excessos e de todo o resto. Mas nossos soldados foram assassinados, e creio que os reforços não chegarão tão cedo. Eu lhes per­gunto: quantos entre os homens válidos de Châtillon estão prontos para empunhar armas, sob as insígnias do papa, e defender nossa missão?

Ergueu-se uma selva de braços; depois, quando os que tinham aderido perceberam a quantidade de adesões, ele­vou-se um berro geral de entusiasmo.

O povo ainda estava em ebulição, quando uma voz vin­da do alto gelou todo ímpeto. - Quem o autoriza, padre, a recrutar milícias em minhas terras?

Eymerich levantou a cabeça. No alto da alameda que le­vava ao castelo tinha aparecido o senhor Semurel, rodeado de um grupo de soldados a cavalo. A seu lado, a pé, estava o velho pároco, transtornado e com o olhar ausente.

O suserano desceu da montaria com um elegante volteio. Permaneceu de pernas abertas, com uma mão apertando as rédeas e a outra pousada na empunhadura da espada. Páli­do e tenso, esperava evidentemente uma reação.

Eymerich olhou para o adversário como se estivesse ava­liando sua força. O povo se mantinha calado, com os lábios

pendentes. De repente o inquisidor ficou reto, zangado e majestoso, empunhando o ostensório como uma lança.

- Como vê, senhor Semurel, tenho nas mãos o Santíssimo Sacramento. Queira ajoelhar-se e receber a minha bênção.

O convite de Eymerich pegou Semurel de surpresa. Ajoe­lhar-se significaria um ato de submissão; recusar a bênção seria equivalente a uma franca confissão de heresia; reti­rar-se seria deixar o caminho livre para o inquisidor.

Semurel começou a murmurar alguma coisa e acenou dobrar o joelho; depois, confuso, permaneceu reto e repli­cou, com uma voz colérica que alterava os seus traços finos: - Não estou aqui para receber sua bênção, padre. Em vez disso, responda! Quem o autorizou a recrutar soldados e difundir a intolerância neste feudo?

Eymerich pensou que, no fundo, preferia Semurel a seus inimigos; não obstante, ergueu o ostensório o máximo que seus longos braços permitiam e declamou: - Ave Maria gratiae plena, Dominus tecum. Benedicta tu in mulieribus...

Como já se esperava, a multidão ao redor da mesa caiu ajoelhada, repetindo a oração e transformando-a em vi­brante invocação: - ... et benedictus fructus ventris tui Jesus. Sancta Maria mater Dei...

Um dos oficiais fez menção de desembainhar a espada, mas Semurel o impediu pousando a mão esquerda em seu braço. Tentou falar outra vez, mas ninguém conseguia ouvi-lo. Então, pálido como nunca, montou no cavalo. Deitou um último olhar cheio de rancor sobre o povo a seus pés e foi embora, com a escolta atrás. Só ficou o velho pároco, que, não sabendo o que fazer, se juntou à oração. O "amém" que fina­lizou a Ave Maria ecoou pelas fachadas de Châtillon como um estrondo triunfal.

E agora - gritou Eymerich - vamos visitar a casa dos hereges! Chega de impostos, chega de abusos!

Era o convite que o povo esperava. Agora todos gritavam, se esbarravam, apontavam as direções a tomar. Alguns dis­tribuíam velhas espadas, tridentes, alabardas, pedaços de madeira com pregos. A torrente humana voltou a se formar, com os dominicanos à frente; mas não era mais uma procis­são, era um exército enlouquecido.

A primeira casa assinalada, dois andares em madeira com o teto de palha, só não foi incendiada pelo risco a que estaria exposta a moradia vizinha. Mas mesas, cadeiras e utensílios foram jogados pela janela e destroçados. Depois as bases da construção, que resistiam à investida dos ma­chados, foram arrancadas com cordas. O prédio cedeu, estripado, reduzido a uma pilha de paus e palha. Sobre as ruí­nas, o agitado padre Simon declamou fórmulas exorcistas.

E assim foi com todas as habitações dos hereges que a horda encontrou em seu caminho. Durante um dos saques, Eymerich agarrou o boticário pelos ombros. - Onde é a casa de Authié? Aquela me interessa.

Do outro lado do rio que limita a vila. Já vamos che­gar lá.

Não foi fácil para o inquisidor impedir que a moradia do Filius major, parcialmente construída em pedra e isolada das outras, fosse imediatamente incendiada. Só conseguiu fazer isso com o auxílio de uns trinta ajudantes das lojas, que, por conta própria, tinham se intitulado a guarda de honra dos religiosos e formaram um cordão de isolamento ao redor da casa.

No átrio que servia de cozinha e sala de almoço, o padre Jacinto, que já tinha largado havia um bom tempo o estan­darte da Virgem, se aproximou de Eymerich. - Mestre, o senhor não teme que, tendo incitado o povo, será difícil reconduzi-lo à razão?

O inquisidor encolheu os ombros. - E se for? Estão des­truindo coisas, não pessoas. A destruição das casas heréti­cas foi autorizada pelo Concilio de Toulouse de 1229.

Eu estava pensando na reação de Semurel.

Por enquanto ele não vai se mexer. Esperará que tudo se acalme.

A casa de Authié não tinha nada de singular além de mui­tos vidros de remédios, à primeira vista inócuos, e aliás inefi­cazes, enfileirados em um guarda-comida. O que interessava a Eymerich estava no quarto de dormir, dentro de um peque­no banco-baú: uma série de volumes manuscritos de várias dimensões, encadernados de forma um tanto rudimentar.

O inquisidor folheou um e até concedeu a si mesmo o capricho de um sorrisinho. - Acho que temos aqui muito daquilo que queremos saber. Mas vamos examinar estes li­vros em Ussel. Aqui já não temos muito o que fazer.

Era quase a nona hora quando os quatro dominicanos subiram a ladeira que levava ao castelo de Ussel. Estavam escoltados por vinte civis escolhidos entre os mais bem ar­mados, seguidos por quatro ajudantes que carregavam sa­cos de alimentos, um odre de óleo e um de vinho. Os outros voluntários tinham ficado em Châtillon sob o comando do boticário, encarregados de restabelecer a ordem e de obser­var os movimentos de Semurel.

Olhando na direção da vila, Eymerich viu a casa de Au­thié, que ainda queimava. Outras duas moradias estavam em chamas, atrás da multidão, e uma densa coluna de fu­maça subia na direção das geleiras.

O inquisidor estava muito tranqüilo. Um espetáculo como aquele aliviava sua agressividade e ao mesmo tempo lhe transmitia uma sensação de limpeza radical, que apa­gava todo e qualquer rastro de sujeira. Isso o reanimava e revigorava quase como o ar frio depois de um banho turco.

Foi nesse estado eufórico que, após receber a saudação de Philippe e do senhor de Berjavel, passou as ordens para as tarefas da tarde. Depois comeu rapidamente pão, sericium e um pequeno pedaço de carne, deu um gole de cervisia e foi com os padres para a sala das audiências, a fim de examinar os livros encontrados na casa de Authié.

Um primeiro exame o deixou frustrado. - São todos tex­tos canônicos, mais um Livro de Horas.

O padre Lambert folheava com muito cuidado as pági­nas de alguns volumes, às vezes decorados com toscas mi­niaturas. - Há partes grifadas a carvão. Quase todas estão relacionadas à água.

Então vamos ver - disse Eymerich. - Pode ser que esses trechos tenham algum significado especial.

O padre Lambert iniciou com uma paupérrima transcri­ção do Novo Testamento, onde estava inserida uma folha seca funcionando como marcador de páginas. - É o Evange­lho segundo João. Uma passagem relativa à fonte e Betesda, que todos conhecemos bem.

Leia assim mesmo.

O padre Lambert levantou o pequeno livro, encostando- o ao candeeiro. - "Ora em Jerusalém há, próximo à porta das ovelhas, um tanque, chamado em hebreu Betesda, o qual tem cinco alpendres. Nestes jazia grande multidão de enfermos; cegos, mancos e ressicados, esperando o movi­mento das águas. Porquanto um anjo descia em certo tem­po ao tanque, e agitava a água; e o primeiro que ali descia, depois do movimento da água, sarava de qualquer enfermi­dade que tivesse." - O padre Lambert interrompeu a leitu­ra. - O episódio da cura do paralítico, que segue este trecho, não está grifado.

Mas aqui tem alguma coisa que é mais que um gri­fo. - O padre Jacinto mostrou um volume um pouco mais grosso. - É uma outra cópia do Novo Testamento. Outra vez o Evangelho de João. Authié marcou o diálogo entre Jesus e Nicodemos. "Jesus respondeu, e disse-lhe: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo não pode ver o reino de Deus. Disse-lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, velho sendo? Porventura pode tornar a entrar no ventre de sua mãe e nascer? Jesus respondeu: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus." Todo o trecho restante está grifado. Mas o curioso é que, toda vez que é mencionado o Espírito, Authié escreveu na margem a palavra pneuma.

Eymerich concordou balançando a cabeça. - De fato, no original em grego do Evangelho segundo João, para indi­car o Espírito Santo é usada a palavra pneuma, que significa mais propriamente vento.

Tudo isso são interpretações literais e grosseiras - in­terveio o padre Simon, que até aquele momento estava si­lencioso e amuado. - O herege quer negar o Espírito Santo e compara-o a um simples vento.

Pode ser. - Eymerich parecia levemente chateado. - O fato é que Authié escolheu os trechos em que são mencio­nados a água, o vento, talvez provocado pela batida das asas do anjo, a regeneração ou o renascimento. Vocês sabem que um Pierre Authié, cátaro pertencente à hierarquia dos Per­feitos, foi queimado em 1310. Nosso medicastro parece ser a mesma pessoa, e não apenas porque usa o mesmo nome. O fato de ele se interessar por renascimento é portanto ex­tremamente significativo.

Para os ouvidos do padre Simon, aquelas palavras corres­pondiam a blasfêmias. - Se aquele homem tivesse mesmo renascido, seria obra de Satanás, não certamente de Cristo!

Não vejo outros grifos - disse Jacinto.

Bem - respondeu o inquisidor. - O nosso exame acabou. O padre Simon mexeu a cabeça. - Infelizmente sem grande proveito.

Eymerich suspirou. - Pelo menos temos mais alguma coi­sa para perguntar aos prisioneiros. Aliás, seria bom retomar logo as audiências. Padre Lambert, o senhor quer pedir ao senhor de Berjavel e ao mestre Philippe que se preparem? Lambert saiu. Voltou logo em seguida com o carrasco.

Temos alguns problemas - disse.

Ou seja? - perguntou Eymerich, arqueando a sobran­celha.

Foi Philippe quem respondeu, levemente embaraçado.

Padre, os prisioneiros que o senhor quer interrogar são os três que mandou isolar?

Isso mesmo.

Pois bem, padre, não sei se será possível. - O carrasco assumiu uma expressão sarcástica. - Estão completamente bêbados.

Eymerich ficou imediatamente de pé, batendo a mão di­reita em punho sobre a palma da esquerda. - Exatamente o que eu esperava! Depressa, procure o notário. Vamos co­meçar já.

 

                                         Skinheads

Bug virou na Harcourt Road sem fôlego. Os dois torce­dores do Liverpool estavam correndo como lebres. Se chegassem à Plaistow Road encontrariam os companheiros e estariam salvos. Ele não queria que acabasse assim.

Acelerou a corrida, sem olhar se Crazy Dog, Frank e Skip o estavam seguindo. Os dois não agüentavam mais, dava para ver. O fato é que ali tinha gente. E, no fundo, quem se incomodava com isso? Se fossem verdadeiros Eastenders, entenderiam.

Tirou do bolso a mão direita, que apertava os anéis do soco inglês. Contanto que não houvesse algum policial por ali. Mas não, eles estavam todos no Memorial ou na frente da estação de Plaistow. O caminho estava livre.

Ouviu a respiração ofegante de Crazy Dog atrás dele. - Mais devagar - teve a impressão de ouvir. Aquele ridículo sotaque galés. Mais devagar uma ova, pensou.

Eles estão aí. Skinheads como ele. Azar deles, não deviam se meter com os West Ham United. Foram eles que pediram.

O mais gordo cambaleava. Bastardo imundo, pensou Bug. Agora ele estava na mira. Desfechou o primeiro golpe. Ouviu-se claramente o ruído seco do metal contra o crânio raspado.

O gordão deu uma ridícula cambalhota. Nem tentou se defender; só tentava enxugar com a manga o sangue que escorria sobre os olhos.

Bug bateu outra vez, de baixo para cima, exatamente no centro do crânio. Encontrou uma resistência fraca, úmida, como se tivesse enfiado uma bengala no meio de uma poça de água. O gordão arriou com um fraco gemido. Crazy Dog, saindo sabe-se lá de onde, meteu o coturno na cara dele. O nariz do pançudo desapareceu debaixo dos pregos da sola.

- Larga ele, vai atrás do outro! - berrou Bug. Mas o se­gundo desgraçado já estava no fundo da Harcourt Road, perto da esquina com a Plaistow Road. Bug deu alguns pas­sos naquela direção, depois parou. Bem, pelo menos uma desforra ele tinha conseguido.

O gordo parecia morto, o rosto reduzido a uma geléia. Uma velha gritava alguma coisa, apontando para eles. Um carro estava parando.

Pegou Crazy Dog pelo braço. - Vamos cair fora.

Enquanto corria na direção da Corporation Street, sen­tia-se contente. Eles tinham ganhado o jogo, mas um deles não festejaria. Pelo menos isso, porra. Pelo menos isso.

Skip e Frank estavam à espera deles no fundo da rua, os olhos faiscando. - Nós também pegamos um. - Frank, como sempre, era o mais entusiasmado.

Bug cuspiu no chão. - Quase acabei com o meu. Vamos até o metrô?

Crazy Dog balançou a cabeça. - Está cheio de polícia. Melhor um ônibus qualquer.

Saíram desembestados pela Corporation Street. Chega­ram à Manor Road sem problemas.

Paki! Paki!

O idoso paquistanês sentado nos primeiros bancos do andar de cima do ônibus parecia não ouvir o pequeno coro que vinha de trás. Certamente fingia. Não queria alarmar os garotos cor de azeitona sentados na frente, talvez seus netinhos.

Irritado com tanta insensibilidade, Bug se levantou, se­guido por Crazy Dog. Frank e Skip batiam as botas no chão, marcando o ritmo do coro. - Paki! Paki! - agora berravam os quatro, acompanhados por três garotos louros sentados no fundo, perto deles.

A idosa cobradora foi obrigada a espiar do andar de bai­xo. - O que está acontecendo aí, rapazes?

Vê se some, puta velha! - gritou Frank revirando os olhos. A mulher se recolheu.

Crazy Dog, possuído, curvou-se até o ouvido de Bug.

Uma hora dessas ele vai ter que descer. Espera só pra ver como ele vai voar.

Vamos jogar os negrinhos também?

E por que não?

Mas o homem não se decidia. De vez em quando os me­ninos que estavam com ele espiavam, inquietos, o fundo do ônibus. O velho, com gestos nervosos, mandava que se virassem novamente antes que pudessem entender a atitude terrível do grupo de skinheads.

Ô, caralho. Chegamos. - A voz de Skip revelava frus­tração.

Vamos ficar - disse Frank. - Não podemos deixar aque­le bosta descer numa boa.

Não. - Crazy Dog passou por cima de Bug e chegou perto da escadinha. - Já estamos andando por aí há horas.

Bug, Skip e Frank foram atrás dele contrariados. Antes de descer, Bug deu uma pancadinha na cabeça de um dos garotos louros. Piscou para ele. - Vocês continuam, certo?

Fique tranqüilo. - O garoto estava claramente lisonjeado com tanta intimidade.

Pularam na Whitechapel High Street antes que o ôni­bus chegasse ao ponto. A cobradora e os poucos passageiros do andar de baixo olharam para eles demonstrando certa inquietação. Em homenagem àquele público, Skip e Frank ensaiaram um passo de valsa na calçada.

O ônibus agora estava parado enfileirado atrás de ou­tros. Erguendo o olhar, Skip viu os pequenos paquistane­ses com o nariz colado à janela, com os olhos arregalados. Mostrou a eles o indicador da mão direita, exibindo-se em seguida em uma série de caretas enquanto o veículo reto­mava a viagem.

Que bando de nojentos - resmungou Frank. - Cada dia tem mais cara encardida. - Deu um pontapé em um monte de lixo, espalhando-o pela calçada.

Ricky Trench estava na soleira do Last Resort, no número 43 da Goulston Street, cercado por pelo menos trinta skins vindos do estádio. A entrada da loja era uma cascata de Union Jacks, camisetas coloridas, pulseiras com pregos, pôsteres e buttons. Alguns cabeças raspadas, entre os quais Bug reconheceu Nasty Kev, um ex-companheiro de oficina, tentavam vender uma revista, que aliás se chamava Skins, aos transeuntes interessados apenas em apressar o passo.

Trench olhou para eles com frieza. Bug não conseguia suportar aquele sujeito. Seus discursos demagógicos sobre a classe operária e todas as outras besteiras exalavam um forte fedor de comunismo, que ele insistia em negar. Para Trench, os skins eram o proletariado por excelência. Pena que muitos skinheads estivessem se lixando a respeito, e Bug se incluía nesse grupo.

Mas, desta vez, a frieza de Trench não se devia à anti­patia recíproca. A mulher dele, Margaret, foi logo entrando na loja. Ele apontou o dedo em riste para Crazy Dog. - Ain­da têm a coragem de aparecer aqui! Estou de saco cheio de merdinhas como vocês. Não ouviram o rádio? - A potência da voz dele estava em sintonia com a amplitude do tórax, ainda musculoso apesar da idade.

O que aconteceu? - perguntou Crazy Dog.

Um do Liverpool morreu. Um skin como vocês. Um ir­mão. - Deixou a frase em suspenso, mas era evidente que os estava acusando.

Crazy Dog engoliu em seco. - Podemos conversar de ho­mem pra homem?

Trench fez um gesto de aborrecimento. - Não temos o que conversar. Vão procurar alguém da turma de vocês. Sei lá, o Butler. Isso, o Butler. Ele vai ouvi-los.

Tornou a dirigir-se ao restante do público como se Bug, Frank, Skip e Crazy Dog nunca tivessem existido.

Encontraram o coronel Butler em seu pub de sempre, na Wentworth Street. Vitrines sujas, carpete quase solto, for­te cheiro de fritura e vinagre. Na hierarquia da Blood and Honour, Butler era ainda menos importante que Crazy Dog; aliás, não tinha importância nenhuma, porque não era um skin, não pertencia à organização. No entanto ele era ouvi­do e respeitado, em virtude de sua relação de mais de vin­te anos com o grande Colin Jordan. Ele era também uma espécie de intermediário, porém cauteloso, com o British National Party.

Ao vê-los, cumprimentou-os com um sorriso de cumpli­cidade. Estava sentado sozinho a uma mesa, com o chapéu em cima do banco e uma cerveja escura na frente. Bug per­cebeu que a roupa do ex-militar, à primeira vista impecá­vel, estava na verdade puída e talvez remendada, ainda que com muito cuidado. Imaginou Butler em um apartamento que já fora requintado, mas agora estava cheio de pó, entretido costurando a roupa sentado em um velho sofá, ao lado de uma mesinha cheia de fotografias amareladas.

O coronel fez um sinal para que sentassem. - Já estou imaginando - começou. - Vocês estavam em Plaistow.

Aquelas palavras foram um soco na boca do estômago de Bug. Então era verdade. O gordão do Liverpool tinha morrido e eles estavam sendo procurados.

Conseguiu confirmar com dificuldade. Os outros fize­ram a mesma coisa, tão pálidos quanto ele. Sabiam que a justiça não diferenciaria muito o autor material do homicí­dio de seus cúmplices.    ,

- Não tenham medo, rapazes. - Butler olhou de lado os fregueses mal arrumados amontoados no balcão e fez um gesto de quem alisa os bigodes. - Há remédio para tudo. Até para a merda que vocês aprontaram.

Absorveram o veredicto sem respirar. A voz de Butler era severa mas alegre. Sabia que estavam na mão dele.

Crazy Dog, menos perturbado que os outros, interrom­peu o silêncio esperançoso que tinha dominado o grupo. - O senhor pode fazer alguma coisa com a polícia?

Butler coçou o cabelo escovinha e aspirou pelo nariz. Queria que os quatro skins sentissem todo seu poder. - Bom, claro - disse em seguida, como se admitir aquilo lhe custasse um esforço. - Mas isso leva tempo. No momento, vocês precisam desaparecer.

Frank ia cuspir no chão, mas se deteve. - Desaparecer como? É fácil falar.

O coronel encolheu os ombros. - Quantos de vocês tra­balham?

Só eu - respondeu Bug, um pouco tímido.

E faz questão de manter seu trabalho?

Não. É nojento. É trabalho de negro.

Então qual é o problema? Família?

Os jovens se entreolharam com um meio sorriso. Bug pensou no pai sentado no sofá, de camiseta e lendo o jornal, enquanto a mãe, grávida outra vez, dava banho na irmã me­nor. Abanou a cabeça.

Muito bem então. - Butler contemplou o copo quase vazio. - Vocês topariam ir pra França?

E viver no meio daquele bando de nanicos? - resmun­gou Skip.

O coronel deu uma risadinha. - Na França existe um grupo que tem afinidade com o de vocês, chamado Troisième Voie. - Olhou para Crazy Dog. - Você, Seelmur, deve ter ouvido falar dele.

Claro - mentiu o outro, orgulhoso pelo reconheci­mento.

As relações entre a Blood and Honour e o Troisième Voie são boas. Eles vão hospedá-los pelo tempo necessário. Tenho certeza disso.

Por quanto tempo? - perguntou Bug.

- Já disse. - Butler fez um gesto imperativo. - Pelo tempo necessário.

 

There's a bottle in the comer

That's where I'm going to stay

While me and my bottle of Trench wine

Are going to drink the night away.

Nobody comes nobody knocks on the door

My friends are far away

If the telephone doesn't start ringing

It's going to be a bad bad day.

 

A letra de "Party in Paris", do UK Subs, ressoou nos ouvidos de Bug durante toda a primeira parte da viagem de trem para a França. Só que a meta não era Paris, mas Marselha. Descobriram isso ao chegar à capital quando, ao apresentar-se na sede do Troisième Voie, haviam sido fria­mente acolhidos por um skin baixinho. Uma rápida olhada nos documentos falsos e de volta para a estação, enfiados no compartimento de carga do primeiro trem para Marselha.

Depois de horas de peregrinação naquela cidade de mer­da chegaram ao endereço rabiscado rapidamente em uma folha de papel quadriculado: Angelic Club, rue Vaucon 67. Visto de fora, parecia um bar normal, com as paredes pinta­das de vermelho e quatro mesas compridas enfileiradas na frente do balcão. Naquele momento, às 8 da noite, estavam sentados alguns militares de folga, entre os quais um legionário, dois aposentados comendo um sanduíche e um jovem casal. A luz de neon era um tanto forte e, quanto ao resto, tinha uma aparência ordeira e confortável.

- Ou erramos de lugar ou estão tirando sarro de nós - resmungou Bug, já exausto.

Crazy Dog o pegou pelo braço. - Não, olhe. Estamos no lugar certo. - Apontava com o dedo para um pequeno car­taz, quase um folheto, pendurado nos vidros do bar, bem debaixo da propaganda de um misterioso licor chamado "Byrrh".

Bug inclinou-se para olhar, depois se endireitou com os olhos brilhando de entusiasmo. - Skrewdriver! Cara, esta­mos em casa!

Os outros também se abaixaram para ver. O cartaz, uma fotocópia malfeita, representava quatro jovens de cabeça raspada com o braço estendido em saudação. Havia uma anotação em caneta hidrográfica com algumas informações sintéticas: "THE SKREWDRIVER. Rock Against Communism - High Explosive (RACHE). Angelic Club, rue Vaucon. 10 Mai 1990, 21:30".

Eu conheço o Ian Stuart, vocalista da banda - exclamou Frank. - O que estamos esperando?

Calma - disse Skip, tranqüilo. - Quem é o sujeito que vamos procurar?

Crazy Dog deu uma olhada na folha de papel quadri­culado. - Um tal de Jean Gilles Mall... Malka... sei lá, é um nome grego.

Bug encolheu os ombros. - Deixa pra lá. Vamos entrar.

O garçom, um jovem pálido de bigodes finos, só levan­tou a cabeça. Nem precisaram fazer perguntas. Indicou uma escadinha que descia, entre a última mesa e a entrada do banheiro. Depois desviou o olhar, como se a presença deles o incomodasse. Bug sentiu uma terrível vontade de quebrar a cara dele.

Desceram dois lances de escada e atravessaram um quartinho cheio de caixas de cerveja Pelforth, arrumadas em pilhas que chegavam ao teto. Diante de uma cortina de veludo, que já devia ter sido verde e agora estava gasta e cheia de pó, um skinhead altíssimo, com os braços fortes cruzados no peito guardava a entrada. Seus traços quase infantis contrastavam de forma curiosa com a musculatura poderosa.

Pediu-lhes alguma coisa, talvez seus ingressos; perce­bendo que não entendiam, começou a olhá-los com uma expressão entre irônica e irritada.

Explica pra esse otário que eu sou amigo de um dos Skrewdrivers - disse Frank a Crazy Dog, enquanto avaliava o porte do vigia, parecido com o dele.

Não, não adiantaria. - Crazy Dog ficou um pouco inde­ciso, depois procurou no bolso, tirou a folha de sempre, que já estava toda amassada, e a agitou debaixo do nariz do jo­vem. - Nós amigos de Jean Gilles. Blood and Honour. Troisième Voie. - Encostou os polegares para simbolizar união.

O grandalhão franziu a testa. Pegou a folha e deu uma olhada. Depois, silencioso, a devolveu e se afastou, abrindo o veludo.

Bug quase chegara a desejar que o vigia os pusesse para fora. O cansaço deixava suas pernas bambas, e dentro dele predominava o medo de um futuro incerto e o desconforto de estar longe de casa, combinado à insistente lembrança do soco inglês afundando no crânio do torcedor do Liverpool. Sentia uma forte necessidade de dormir. Fazia três dias que não conseguia nada melhor do que algumas co­chiladas no trem, regularmente interrompidas pelo inspe­tor ferroviário.

Tudo isso desapareceu quando passou pela cortina e en­trou na sala do outro lado. Era como estar em Londres. Den­sas espirais de fumaça subiam até o forro baixo, atenuando as luzes, que já eram fracas. Só o pequeno palco no fundo estava bem iluminado. Em cima dele, os Skrewdrivers tes­tavam os instrumentos, arrancando notas estridentes e la­mentos agudos.

Aos pés deles, uns duzentos cabeças raspadas lotavam um espaço estreito, que fora aberto encostando às paredes algumas longas mesas. Sobre uma delas, perto da porta, os empregados do lugar tinham colocado os barris de cerveja, que serviam em volumosos copos plásticos. Uma bandeira vermelha com a suástica, já encharcada de espuma, servia de toalha.

O ar era difícil de respirar por causa da fumaça, do chei­ro ácido da cerveja derramada no chão e especialmente do suor, que se condensava em gotículas nos crânios parecidos com bolas de bilhar e depois descia pelos pescoços.

- Ian! Ian! - berrou Frank ao cantor. Mas o barulho era ensurdecedor, e os sons agudíssimos que às vezes saltavam das caixas acústicas impediam que se conversasse normal­mente. - Vou tentar chegar até ele - disse aos amigos, gritando para poder ser ouvido.

Desapareceu na aglomeração de casacos de corte mili­tar, pontilhada ocasionalmente pelo couro preto dos raros punks visíveis na sala. Bug, Skip e Crazy Dog, depois de uma troca de olhares, preferiram ir até onde estava a cerve­ja, inserindo-se no lento movimento circular que remexia com regularidade a massa de freqüentadores do local.

Tinham acabado de esvaziar os copos, pagos com o di­nheiro que Crazy Dog tinha trocado em Calais, quando o show começou. Logo, do pequeno palco, agora iluminado por luzes de densidade cromática irreal, a banda começou a lançar ao público, em seqüências velocíssimas, ondas de som cru, violento, distorcido e raivoso, em um ritmo hipnó­tico e exasperado.

Capturada por aquela muralha vibrante, a multidão com­pacta de skins começou a se agitar, de forma cada vez mais intensa e furiosa. De tempos em tempos, como se respon­desse a um sinal, a massa de casacos cinza-esverdeados for­mava fileiras que se trançavam, empurravam, pisavam e se dividiam em novos cordões saltitantes. Alguém tentou o stomp, a dança típica dos skins, com o indicador e o médio encostados no lábio superior, representando os bigodinhos de Hitler. Mas não tinha jeito, a música inspirava o balanço do empurra-empurra.

Longos jatos de cuspe chegavam até o palco, retribuídos com indiferença pelos músicos. Entre a banda e o público não existia nenhuma distância. O vocalista pulava de for­ma frenética, mergulhava entre os presentes, era jogado de volta, perdia o microfone e o recuperava, espalhava suor pelo palco. Slogans sintéticos e furiosos ("Sieg Heil!") ex­plodiam em coro no recinto, em um ritual magnético e en­volvente. Bug já sabia que, mesmo depois do show, aquilo continuaria a ressoar em seu ouvido por horas, renovando a emoção e carregando-o de energia. Porra, como era bom ser um skin!

A apresentação dos Skrewdrivers terminou com a reapresentação de suas primeiras composições: "Antisocial"; "You're so Dumb"; "Killing Nigger"; "Built up, Knocked down". Quando o último acorde se apagou, um "Sieg Heil!" coletivo fez vibrar a abóbada da sala, já invisível de tanta fumaça. Olhos febris e felizes, sobre os quais escorria copiosamente o suor da testa e das sobrancelhas, permanece­ram olhando para o palco, como se esperassem a repetição do milagre.

Bug, na alegria desenfreada da dança, tinha esquecido todo o cansaço. Eufórico, pegou Crazy Dog pelo braço e foi com ele até onde ficava a cerveja. Viu Frank subindo no palco para cumprimentar o amigo cantor. Skip já estava no balcão. Conversava animadamente com uma skin de olhos azuis que usava uma curta crista loura que atravessava seu crâ­nio raspado. Era certamente uma groupie que acompanhava os Skrewdrivers. Os acontecimentos dos dias anteriores, e os próprios motivos da presença deles naquele lugar, pareciam remotos e irreais.

Agora só está faltando um paki-bashing - disse Crazy Dog rindo.

Bug concordou, ao mesmo tempo em que pegava os co­pos das mãos de uma garçonete esquelética e entediada. - Uma noitada fantástica. Estou a ponto de estourar.

Tinha acabado de tomar o último gole do segundo copo quando um silêncio repentino tomou conta do lugar. Um sujeito vigoroso, de traços duros, subira no palco e estava ajustando o microfone. O terno azul-escuro que vestia, devidamente acompanhado de camisa branca e gravata ver­melha, parecia destoar completamente daquele ambiente; no entanto o homem não demonstrava nenhum constran­gimento, mesmo quando ergueu o olhar para avaliar o nú­mero de presentes.

Quem é aquele bosta? - perguntou Bug, amassando entre os dedos o copo plástico.

Alguns skins se viraram e o olharam ameaçadores. A groupie que estava com o Skip fez um sinal para que se ca­lassem. - É o chefe deles - sussurrou.

Bug não se atreveu mais nem a respirar. Enquanto isso, atrás do sujeito tinham aparecido alguns skins de aspecto sinistro, segurando longos bastões com ambas as mãos. Co­locaram-se lado a lado até formar um cordão. Bug teve um leve sobressalto de hilaridade ao achar ter visto, nas laterais da cabeça raspada de um deles, duas orelhas de ovelha com lã e tudo; depois pensou que devia ser um penteado, ainda que curioso. Mas era francamente ridículo o homem que comandava aquela pequena escolta: um cidadão com jeito de padre, bem corpulento, de óculos escuros e barba curta. Mancava muito.

Sem aviso, o homem de paletó e gravata começou a la­drar no microfone, fitando a multidão de skins com as so­brancelhas franzidas. Falava tão depressa que um filete de baba começou a escorrer do canto de sua boca. Entretanto não havia nada de grotesco em sua eloqüência. As palavras brotavam vividas como uma cascata de fagulhas.

Bug se encostou ao ouvido de Crazy Dog. - O que ele está dizendo?

- Como é que eu vou saber? - Crazy Dog virou-se para a groupie. - Você entende alguma coisa?

A moça se concentrou e começou a cochichar a tradu­ção, entre pausas e incertezas. - O crepúsculo da decadên­cia está se estendendo sobre a Europa. O cerco da domina­ção judaica está se fortalecendo. Nos bastidores do teatro do Parlamento Europeu, os pequenos homens dos velhos partidos fazem tratos de obediência a seus financiadores oficiais judeus. Nossos verdadeiros governantes são os reis das cadeias de lojas, das vendas a prestação e das empresas que são donas de tudo. A imprensa "livre" nada mais é que um órgão submisso à propaganda dos estrangeiros. Os afri­canos e os asiáticos estão chegando em massa, trazendo com eles a aids e a ruína da raça. O rádio e a televisão corrompem a mente dos espectadores com a cultura dos lugares onde vi­vem os judeus, a escória da sociedade, os selvagens. Só uma ciência, a eugenia, parece oferecer hoje uma esperança de regeneração...

O discurso não foi longo, mas pareceu eclodir entre os presentes uma euforia comparável ao show dos Skrewdriv­ers. Uma selva de braços estendidos saudou o final, com o acompanhamento de retumbantes "Sieg Heil!"; depois as lentas notas do "Horst Wessel Lied" saíram dos alto-falantes, enquanto o orador descia do palco e apertava algumas mãos nas primeiras fileiras.

Deve ser o nosso homem - disse Crazy Dog. - Jean Gilles não-sei-o-quê.

Vá falar com ele, então. - Já meio bêbado, Bug não via a hora de ir dormir.

Trocou algumas palavras com a groupie, mas foi saindo logo de cena ao perceber que ela preferia Skip, sabe-se lá por qual razão. Depois foi se juntar a Frank, que bebia com Ian Stuart e os outros Skrews. Os copos de plástico já tinham formado um espesso tapete no chão, que estalava debaixo dos pés.

Crazy Dog voltou depois de alguns minutos, exultante. - Era ele mesmo! Que sujeito! Fala inglês muito bem. Pena que seja grego. - Para Crazy Dog, um grego era pouco mais que um negro.

Ele arrumou algum lugar pra gente dormir? - pergun­tou Frank.

Arrumou, mas não aqui. Em um lugar chamado Orange, que não deve ser longe. Vamos até a casa de um dos sujeitos com o bastão. Aquele mais encorpado.

Posso levar ela também? - perguntou Skip, indicando a skin de olhos desbotados.

Acho que não. Aliás, é melhor a gente ir logo. Parece que vamos ter que parar em algum lugar.

Que saco - resmungou Bug. - Estou morto.

Skip dirigiu um olhar lânguido à skin. - A gente se vê por aí. - Mas já fazia um bom tempo que ela só olhava para Ian Stuart.

Puseram os quatro na parte de trás de um furgão com ou­tros dois skins, enquanto aquele que os hospedaria, um grandalhão de traços grosseiros, foi sentar nó banco do mo­torista com um companheiro a seu lado. Quando Bug per­cebeu que este último era o sujeito das orelhas de ovelha, teve um sobressalto e puxou os amigos pela manga. Troca­ram risadinhas, mas não se atreveram a abrir a boca. Pa­reciam mesmo orelhas animais, cobertas de cachinhos de lã. Quanto ao dono delas, estava sentado rígido e recatado, olhando com firmeza para a frente.

O motorista era o único do grupo de franceses que falava inglês, aliás com muitos erros, mas dava para perceber que não pretendia jogar conversa fora. - Temos que fazer um trabalho - resmungou.

Que trabalho? - perguntou Crazy Dog.

Vocês vão ver. Não vai levar muito tempo.

Bug analisou um pouco as orelhas do brutamontes sen­tado à frente, depois se virou para a janela atrás dele e ob­servou o espetáculo que era Marselha à noite. Viu a rue de Rome, depois o cours Belsunce, notando com desgosto aquela escória de cara morena aglomerada diante de rotisserias de aspecto duvidoso e bares com letreiros em árabe. Mas o cansaço e o álcool se sobrepuseram, e ele logo caiu no sono.

Quando o furgão parou, Bug acordou com a boca empastada. Viu que Skip, Frank e Crazy Dog também tinham dormido, e agora estavam se esforçando para abrir os olhos remelentos.

Que horas são?

Sei lá. Deve ser mais de uma hora - respondeu Frank.

Estavam em campo aberto, aos pés de um muro alto de quase três metros, do qual sobressaíam as pontas de mui­tos pinheiros. Ao longe brilhavam as luzes de uma peque­na cidade, ou talvez de uma grande vila. A rua era estreita e estava deserta; o silêncio reinava, quebrado apenas pelo canto dos grilos e pelo sussurrar das folhas.

Porra, onde trouxeram a gente? - choramingou Skip.

O motorista e o homem das orelhas de ovelha já tinham descido. O primeiro abriu a porta de trás e trocou algumas palavras com os dois skins franceses, que logo desceram; depois se dirigiu aos ingleses. - Vocês vão nos dar uma mão. Precisamos andar logo. Desçam.

O tom imperativo deixou Bug aborrecido. Bocejou, se espreguiçou e desceu com toda a calma. Os amigos o imita­ram, tentando uma lentidão ainda maior, sob o olhar furio­so do grandalhão, que no entanto não disse nada. Esperou que saíssem, depois começou a mexer em um portão todo enferrujado que se abria no muro.

Enquanto isso, o homem-ovelha descarregava da cabine do furgão um feixe de barras de aço e algumas pás cur­tas, além de uma coisa que parecia um cabo de guarda-sol. Depois de enfileirar as ferramentas no chão, fez sinal aos jovens para recolhê-las. Havia uma pá ou uma barra para cada um. Bug ficou com aquela espécie de cabo.

Nesse meio-tempo, o portão tinha sido aberto. Entraram em silêncio por uma alameda coberta de pedriscos, entre duas fileiras de pinheiros. O motorista avançava na frente.

Parece um cemitério - sussurrou Bug.

E é - respondeu Crazy Dog. - Olha.

Apesar da Lua nova, a luz das estrelas bastava para ilu­minar longas fileiras de lápides, com curiosas incisões.

Bug ficou arrepiado. - Notas musicais. Notas musicais nos túmulos.

Crazy Dog riu baixo. - Não são notas, tonto. São letras do alfabeto hebraico. Agora estou entendendo.

O motorista se virou para calá-lo. Ainda levemente bê­bado, Crazy Dog não conseguia controlar o tom da voz; mas Bug estava pior, tinha a impressão de que sua cabeça estava sendo prensada em um torno. Suas pernas dobravam, tanto que tinha dificuldade até para arrastar o leve cabo de guar­da-sol que carregava.

Ao chegar ao centro de uma pequena clareira salpica­da de lápides, o motorista, que caminhava na frente do grupo, parou e olhou ao redor. - Allez-y, cassez-moi ces tombeaux - grunhiu. - Comme à Eleu, ou à Weitersiuiller l'année dernière.

Ninguém se mexeu. Então o grandalhão arrancou ner­vosamente uma barra das mãos de um dos franceses, virou-a no ar e a arremessou com violência sobre o sepulcro mais próximo. Ouviu-se um baque cavernoso, e fragmentos de granito voavam em todas as direções.

Que est ce-que vous craignez, tas de salauds? Ce sont des tombeaux de Juifs! - Um segundo golpe, desferido com a mesma força, abriu uma fenda no mármore. - Compris? Allez, donc!

Foi o sinal para a explosão de energia furiosa. Bug, Crazy Dog, Frank, Skip e os dois franceses investiram com suas ferramentas contra os túmulos ao redor: desferiam golpes entre gritos de alegria. Cada batida, cada chuva de lascas, cada deslocamento de mármore destroçado os deixava mais frenéticos. Os baques eram ensurdecedores e ao mesmo tempo excitantes.

Crazy Dog, depois de derrubar uma lápide, parou por um instante para enxugar o suor com a manga. - Por quê? - gritou ao brutamontes.

- Primeiro, porque são judeus. Segundo, porque estão cheios de coisas que podem ser recuperadas e vendidas a algum ricaço. - O jovem riu. - Quem sabe a outro judeu.

Interrompeu-se ao ver que Frank e um francês, com a pá na mão, batiam fortemente na tampa de um túmulo. - Que faites vous donc, espèces de cons? Vous devez creuser là-bas!

Apontou para alguns túmulos dispostos a distâncias regulares.

Mesmo sem entender as palavras do jovem, Frank com­preendeu o gesto. Resmungou um xingamento, enxugou a boca com o dorso da mão e enfiou a pá no terreno. Depois de alguma hesitação, o francês o imitou, atacando o segun­do túmulo.

Bug, com seu cabo de guarda-sol, estava em má situa­ção. Deu algumas pancadas em uma lápide enfeitada com a estrela de Davi, mas só conseguiu rachá-la. Então tentou arranhar o nome do defunto, um tal de Bernard Sei-lá-o-quê. Nenhum resultado.

Blasfemando, jogou a ferramenta longe, e por pouco não acertou Frank. Saltou com os dois pés sobre a placa de már­more do túmulo. Pulou duas ou três vezes, até que teve a impressão de ouvir alguns estalos. Então improvisou uma dança grotesca, levantando os joelhos e batendo no mármo­re com as botas de pregos.

O grandalhão correu até ele com os olhos saindo das ór­bitas. - T'es fou ou quoi? - Agarrou Bug pela camiseta e o tirou de cima do túmulo, jogando-o ao chão.

Bug decidiu que já tinha agüentado por tempo demais a prepotência daquele sujeito. Com todas as forças deu-lhe um pontapé no baixo ventre, arrancando-lhe um som que estava a meio caminho entre o gemido e o rugido; depois se endireitou, juntou as mãos, virou-lhe as costas e, cerrando os dentes, acertou-o no rosto com o cotovelo esquerdo.

Skip, que estava ao lado, vibrou entusiasmado; mas o brutamontes, com o sangue escorrendo pelo nariz, estava se levantando com a fúria de uma fera ferida. Em sua mão brilhava uma lâmina que parecia um bisturi. - C'était pour arracher le coeur aux Juifs. Maintenant c'est pour toi, p'tit con!

Ia se lançar contra Bug, que o esperava inclinado para a frente, balançando os joelhos, mas um golpe violento na base da espinha dorsal o forçou a largar o bisturi e dobrar-se no joelho direito, com os olhos fechados de dor.

Era Frank, com a bota de pregos ainda levantada depois do pontapé lateral. Então ele a pousou no chão, deu uma volta so­bre o próprio eixo e chutou a nuca do homem com o outro pé.

- Filho-da-puta! - berrou Bug, enquanto o grandalhão deitava de lado, perdendo sangue pela boca. Bug se sentia como no dia glorioso em que ele e Frank tinham enfren­tado, sozinhos, seis torcedores do Arsenal nas arquibanca­das do estádio.

Um dos franceses balbuciou alguma coisa, mas não se atreveu a intervir. Quanto ao homem-ovelha, desde que ti­nham chegado à clareira estava parado em um canto, como um autômato de lata à espera de uma recarga.

Crazy Dog ficou tão contente quanto os amigos ao ver o brutamontes todo moído, mas, agora que a batalha estava vencida, parecia o mais preocupado. - Será difícil fazer os caras engolirem essa história. E, além disso, aquele bosta ia hospedar a gente. E agora?

Skip, totalmente exaltado, encolheu os ombros. - Depois a gente vê. Agora vamos voltar pro furgão. No máximo, va­mos dormir lá dentro.

É, mas e amanhã?

Amanhã é outro dia.

Apesar das dúvidas, Crazy Dog encaminhou-se pela ala­meda atrás de Bug e Skip, com Frank ao lado. Um francês, perdido, os seguiu à distância com o homem-ovelha.

Tinham dado apenas alguns poucos passos quando ou­viram uma seqüência de palavras roucas. Todos se viraram para a escuridão.

Era o outro francês, que continuava cavando no campo. Evidentemente tinha tirado e aberto um caixão, porque es­tava segurando pelos ombros um corpo magérrimo com a cabeça pendente recoberta de cabelos brancos.

Frank chegou perto para ver melhor. - São os restos de um velho - gritou aos outros depois de um rápido exame. - E o que fazemos com ele?

O bostinha aí do chão queria tirar umas coisas - de­clarou Skip.

Mas nós não. - Bug levou as mãos à boca e gritou para Frank: - Joga ele outra vez naquele buraco de merda. Preci­samos ir embora.

Certo - respondeu Frank -, mas vou deixar uma lembrancinha para ele. - Pegou o corpo dos braços do francês e o deixou cair novamente na fossa. Depois recolheu o cabo do guarda-sol, que estava ali perto, e fez alguma coisa que os outros não entenderam. Só viram que empurrava com todas as forças e ria, imitado pelo francês.

- Vejam! Nós empalamos ele!

Larga isso aí - gritou Bug. - Vem logo!

Foram em grupo pelas alamedas, na direção do velho portão. O silêncio era profundo, e até os grilos estavam ca­lados. Quando puseram o pé na rua, viram que o furgão estava no mesmo lugar. Mas na frente dele havia um Mer­cedes preto estacionado. Apoiados nas portas da esquerda estavam parados Jean Gilles e dois skins. Um segurava uma sacola térmica, o outro empunhava um AK47 com o cano virado para o chão. A alguns passos de distância, sob uma placa de sinalização que Bug observava pela primeira vez, com a inscrição CARPENTRAS KM 1, estava o homem com cara de padre, de óculos escuros e barba curta, que já apa­recera durante o show. Desta vez estava apoiado em uma bengala.

Jean Gilles chegou na frente, preocupado. Dirigiu-se a Crazy Dog. - Estou reconhecendo você, é Theodore Seelmur. Onde estão os órgãos? E onde está meu irmão?

Ele não respondeu. Baixou o olhar.

Jean Gilles o agarrou pelo queixo, forçando-o a levantar a cabeça. - Vou repetir - grunhiu. - Onde estão os órgãos? Que diabos aconteceu?

Crazy Dog continuou calado, enquanto o skin que segu­rava o fuzil levantava lentamente a arma.

O homem de óculos escuros mancou até chegar perto de Jean Gilles. Fitou Crazy Dog intensamente. - Seelmur, hein? Onde nasceu?

O jovem engoliu em seco. - Em Bethesda, País de Gales. - Sua voz era um sopro.

O homem se calou, como se aquelas palavras o tivessem impressionado. Depois se voltou para Jean Gilles. - Você pode deixá-los comigo?

O outro concordou e deu um passo atrás, largando sua presa. Bug sentiu-se invadido por um terror paralisante. Es­tava outra vez terrivelmente cansado.

 

                                 Pneuma

A garota loura poderia ser mais graciosa se não estivesse com a roupa rasgada e os cabelos desgrenhados. Ey­merich notou marcas avermelhadas, parecidas com quei­maduras, dos pés aos joelhos, e muitos arranhões nos bra­ços. Quatro dias de murus arctus, de cárcere severo, tinham deixado sinais naqueles membros delicados.

Ao ver a prisioneira cambalear, apesar de amparada por um dos ajudantes do carrasco, o inquisidor teve um lampe­jo de pena; mas depois disse consigo que o sofrimento de alguns podia não apenas acabar com um horror indescrití­vel, mas também abrir uma brecha para a salvação de suas almas. Esse pensamento, ainda que artificioso, o consolou e ajudou a reprimir também aquela vaga sensação de rego­zijo que, em um canto obscuro da mente, lhe sugeriam as torturas a ser infligidas a um corpo tão frágil.

Assumiu um tom muito distante. - Como se chama?

Antes de responder, a menina precisou deglutir algumas vezes. - Esclarmonde. - O cheiro de álcool era tão forte que o notário, o que estava mais perto da prisioneira, foi obriga­do a enfiar o nariz em um lenço.

- Esclarmonde - repetiu Eymerich. - Você é filha de quem?

Desta vez a garota respondeu logo, mas as palavras saí­ram empastadas. - Não me lembro bem.

Eymerich inclinou-se para o senhor de Berjavel. - Se­nhor notário, escreva: "de pais desconhecidos". - Depois, dirigindo-se à prisioneira: - Você sabe quem sou eu?

A jovem abriu um amplo sorriso. - Sei, sim. São Malvado.

Eymerich ficou desconcertado por um instante; então se apoiou no espaldar do cadeirão e inspirou profundamente. - Quem você ouviu me chamar deste jeito?

Todo mundo na vila chamava você assim. - Agora a garota, sempre sorrindo, oscilava levemente a cabeça.

De que vila você está falando? De Châtillon?

Não, de Castres. Há muitos anos...

Eymerich voltou-se carrancudo para o padre Jacinto, sentado a sua direita. - Quantos anos ela podia ter quando atuamos em Castres?

Cinco ou seis, não mais.

Bom, é até possível que... - O inquisidor deslocou brus­camente a atenção para a garota, como se temesse perder a seqüência lógica. - Então quantos anos você tem?

Não sei. Passou tempo demais.

Tempo demais desde quando?

Tempo demais. - Os olhos da jovem estavam molha­dos. Emitiu um sonoro bocejo.

Vamos acabar com isso - interveio, colérico, o padre Si­mon. - Essa pecadora está debochando de nós. Ela vai falar sob os ferros do mestre Philippe.

Ainda não. - A voz de Eymerich soou pacata mas cate­górica. Observou a garota com grande curiosidade, depois perguntou: - Você sabe o que está a sua espera?

Sei, sim. Desta vez vou conseguir. Eu me tornarei um lemure. - Falou com voz fátua, acompanhando cada palavra com movimentos de cabeça.

Suas palavras fizeram crescer o desconcerto dos domi­nicanos. Eymerich olhou, estupefato, primeiro para o padre Jacinto, depois para o padre Simon. Em seguida perguntou:

O que você disse que vai se tornar?

Depois de outro bocejo, a moça respondeu: - Um dos lemures. Então o meu espírito estará finalmente livre.

Mas que lemures? - Os olhos do inquisidor tinham vi­rado duas fissuras estreitíssimas.

Aqueles da floresta de Bellecombe, não? - A garota não conseguia mais manter a cabeça ereta. Sua voz era um bal- bucio. - Estou com tanto sono...

O padre Lambert levantou da cadeira e se aproximou de Eymerich. - Tenho uma dúvida, magister.

Diga.

Talvez uns dias atrás o senhor tenha entendido mal as palavras de Authié. Ele não disse le mur na floresta, mas lemures na floresta. Na língua que falam aqui, a pronúncia é a mesma.

Eymerich olhou para o padre Lambert, impressionado.

Sim, é bem provável. Mas o que serão os tais lemures? Es­pectros, sombras, de acordo com o sentido do termo em la­tim, ou as criaturas anormais de Semurel?

O padre Jacinto agarrou repentinamente o braço do in­quisidor, fazendo-o sobressaltar-se. - Mestre, agora que es­tou pensando nisso... Semurel... Lemures... são anagramas!

O senhor tem razão - disse Eymerich, já atônito -, e certamente não é uma coincidência... Mas temo que essa bruxa possa nos contar bem pouco.

De fato, a garota tinha adormecido e pendia inerte dos braços do ajudante. Este abanou a cabeça. - Está completa­mente apagada. Só vai acordar daqui a algumas horas.

Leve-a embora - ordenou Eymerich. - E traga outro prisioneiro.

O padre Simon juntou as mãos ossudas. - Senhor Deus, ajude-nos a sair deste mistério cada vez mais intrigante.

Eymerich, repentinamente de bom humor, colocou a mão no braço dele. - Agora pelo menos temos um vislum­bre, padre. Cabe a nós fazer com que se torne uma brecha.

O menino, apesar de consciente, não estava em con­dições muito melhores que a garota. Gaguejava, virava a cabeça, não se concentrava. Disse que se chamava Robert, não conhecia seus pais e não sabia quando tinha nascido. Somente quando Eymerich abordou os temas que tinham surgido no interrogatório da menina o pequeno conseguiu articular alguma resposta inteligível.

Você quer se tornar lemure? - perguntou o inquisidor.

Quero, mas sou muito pequeno.

Eymerich inclinou o tórax para fora do cadeirão. - E como as pessoas se tornam lemures?

O menino riu, e fez os olhos claros circularem pela sala. - É segredo.

Vamos, diga para mim. Não vou contar a ninguém.

O menino hesitou um instante, depois assumiu uma ex­pressão de cumplicidade. - Conseguimos com a água e com o vento, mas só os Perfeitos podem. Antes não. Só dá para curar.

Curar? Quer dizer que cura doenças?

É segredo. - O menino fechou os lábios com uma care­ta teimosa; depois ficou mexendo a cabeça de um lado para outro, cantarolando baixinho.

Eymerich conseguiu dominar a impaciência e falar em tom amigável. - Já disse que não vou contar a ninguém.

Podemos sarar e não envelhecemos. É o segredo da erva da saúde.

O inquisidor inclinou-se sobre o padre Jacinto. - Eles chamam a dama-nua de "erva da saúde". Acho que estamos a um passo da solução. - Depois, dirigindo-se ao menino, que tinha recomeçado a cantarolar: - Então a erva da saúde não deixa envelhecer. Mas ela não é venenosa?

O menino estava distraído. Quando Eymerich repetiu a pergunta, manifestou irritação. - Claro que é venenosa, mas precisa usar a água da cisterna e o vento da torre. Senão...

O pequeno prisioneiro ia completar a frase quando teve um acesso de tosse. Um filete de baba lhe correu pelo quei­xo, e depois ele vomitou com violência um líquido averme­lhado.

Sangue? - perguntou Eymerich, alarmado.

O ajudante do carrasco riu. - Não, é só o vinho que ele tomou. Está cheio como uma pipa.

Quando o menino acabou de vomitar o vinho que tinha no estômago, não teve mais condições de responder às per­guntas. Muito pálido, boquiaberto, tinha as pupilas viradas para o alto.

O ajudante levantou o rosto dele e o examinou. - Está desmaiado - disse.

Eymerich encolheu os ombros. - Leve-o embora e traga o último prisioneiro.

O homem que entrou, desta vez escoltado por Philippe em pessoa, estava em condições melhores que as crianças. Mesmo cambaleando, conseguia manter-se em pé sozinho, e foi com passo bastante seguro que chegou ao centro da sala. Seu rosto revelava uma atitude cautelosa, mas era evidente que tanto domínio devia custar-lhe um grande esforço.

Ele não me parece muito enfraquecido - observou Ey­merich -, nem bêbado.

O mestre Philippe riu. - É daqueles a quem o vinho ataca mais os membros que o espírito. Veja, padre.

Deu um leve empurrão no homem. Ele caiu sentado no chão com um baque. Agitou-se como um inseto espetado com um alfinete, mas, por mais que se esforçasse, não con­seguia levantar. Ficou sentado na palha, desanimado, sacudido por leves soluços.

Como se chama? - perguntou Eymerich.

O homem precisou de um esforço de concentração para responder. - Raymond Tornabois, soldado a serviço do dominus Ebail de Challant e de seu procurador, senhor Semurel. - A longa frase o deixou rouco.

Eymerich levantou-se. Como sempre, passeou lentamen­te ao redor do prisioneiro, que fazia cômicas acrobacias com a cabeça para acompanhar aquele movimento; depois per­guntou: - Você sabe quem eu sou?

A resposta foi imediata, apesar de balbuciada. - São Malvado, o homem com duas almas.

Eymerich precisou se segurar para não bater nele, como o impulso lhe sugeria. Preferiu fazer a pergunta à queima-roupa, depois de uma nova e lenta volta: - E eu me tornarei um lemure!

O herege desatou a rir de forma tão convulsiva que, mais que risadas, parecia emitir soluços. Meio estrangulado, res­pondeu: - Claro que não. Quod divisum est divideri non potest.

O que você quer dizer com isso? - perguntou Eymerich.

Como você pode separar o espírito do corpo se o seu espírito não é inteiro, já está dividido?

Então o lemure é um espírito puro?

Você está brincando comigo. Um lemure é o corpo de­pois que o espírito se libertou. Mas o seu nunca se libertará. - De repente o homem percebeu que tinha falado demais. Com um esforço na região dos rins ficou em pé e permane­ceu reto, sacudido por golpes de tosse. Parecia ter readqui­rido certa lucidez.

Os presentes estavam calados, observando Eymerich. Aguardavam o novo expediente que o grande inquisidor inventaria para arrancar mais revelações do menos maleável dos três prisioneiros.

Consciente daquela espera, e assumido em seu papel, Eymerich deixou passar algum tempo. Testou mentalmen­te todas as possíveis brechas, descartando um esquema de ataque direto como fizera antes. Por fim, decidiu utilizar to­dos os fiapos de verdade angariados até aquele momento, mantendo oculto o fato de que ainda desconhecia a trama da ligação entre eles.

Não crie ilusões - disse, interrompendo de chofre sua andança e fitando o prisioneiro. - Sabemos mais do que você imagina. Sabemos da água da cisterna e do vento da torre, da erva da saúde e agora também dos lemures. Sabe­mos que Authié sobreviveu à fogueira e conhecemos o pa­pel de Semurel.

A revelação atingiu o prisioneiro como uma bofetada, mas, apesar de os efeitos do vinho estarem aflorando nova­mente, o impacto não foi capaz de induzi-lo a capitular. Limitou-se a dizer, com certo esforço: - Se você já sabe tudo, por que está me interrogando?

Eymerich escondeu um sorriso. Um investigado hábil e teimoso teria se limitado a negar ou calar. Este morria de vontade de continuar falando. Ele o teria auxiliado.

Suas respostas não foram satisfatórias, especialmen­te aquelas a meu respeito. Quero mostrar a vocês, hereges, que suas crenças são falsas, submetendo-me ao teste da água e do vento.

Um novo acesso de riso, desta vez um pouco forçado, sacudiu o prisioneiro. - Você não sabe mesmo o que está dizendo. Se tentar se jogar na cisterna, não acontecerá nada daquilo que imagina.

E o meu corpo não se tornaria um lemure?

O homem riu mais alto. - Não mais do que os restos dos animais que enchem o fundo. Isso seria seu fim, servo do demônio!

Eymerich se virou de repente para o padre Jacinto: - O senhor não disse que os hereges mortos eram jogados em uma cisterna, usada anteriormente para os animais infesta­dos de carbúnculo?

Sim - respondeu o dominicano. - Era o que o mestre Philippe tinha me contado. - Olhou para o carrasco, que confirmou.

Está resolvido. - Eymerich virou as costas para o pri­sioneiro, quase sinalizando que a contribuição dele tinha se tornado desnecessária. - A cisterna à qual os cátaros atri­buem a própria perpetuação está em Bellecombe, no meio de uma floresta. Deve ser fácil identificá-la, já que provavel­mente está aos pés de uma torre; além disso, os habitantes de Châtillon com certeza a conhecem. Amanhã vamos levar os bons cristãos da vila para lá e destruí-la.

O prisioneiro se agitou entre os braços de Philippe, que o segurava bem firme. - Você não vai fazer isso, maldito filho de Baal! Deus vai impedi-lo!

Eymerich o contemplou com uma careta cruel. - Cale-se, bêbado. Não só não vai me impedir como me enviará Sua bênção. Amanhã faremos em pedaços seus lemures, para que não possam tornar a viver nunca mais. E ainda quei­maremos seu bispo nas ruínas da torre.

O prisioneiro arregalou os olhos. - Ela também confessou?

Eymerich sentiu o júbilo invadir todo seu corpo, mas conseguiu reprimir suas manifestações exteriores. - Cla­ro que confessou. De quem você acha que eu teria colhido tudo o que sei a respeito?

O outro ficou calado. Espiando-o, o inquisidor percebeu em seu rosto sinais de algum alívio. Se o bispo tinha falado, as assertivas dele tinham diminuído de gravidade. - Leve embora esse beberrão - disse a Philippe. - Não serve para mais nada. Depois tire da masmorra a herege mais idosa e feche-a em um dos quartos do castelo, bem acorrentada.

E a garota e o menino? - perguntou o carrasco.

Jogue de volta no meio dos outros. Eles também não têm mais serventia, assim como o Filius minor, se ainda esti­ver vivo. E dê a cada preso um pedaço de pão e uma caneca de água. Não adianta nada deixá-los famintos.

Philippe saiu arrastando o prisioneiro, que agora tinha os traços alterados pelo mais vivo desespero. Uma vez so­zinhos, Lambert, Simon, Jacinto e o notário começaram a falar com Eymerich ao mesmo tempo, enchendo-o de per­guntas. Foi o padre Jacinto quem finalmente prevaleceu, em virtude de sua voz de barítono.

Por que a prisioneira mais velha, mestre?

Isso o deixa perplexo? - perguntou Eymerich.

Sim. Sei que a loucura dos cátaros prevê que as mulhe­res tenham acesso às mais altas hierarquias. Mas a meu ver, quando ele se traiu perguntando "ela também confessou", estava se referindo à menina que interrogamos antes dele, e não à velha.

A questão colocada pelo padre Jacinto era menos ele­mentar do que as que os outros dominicanos pretendiam levantar. Por isso eles se calaram, esperando o desfecho do diálogo entre os únicos dos presentes que tinham experiên­cia em processos inquisitórios.

Excluí logo essa possibilidade - afirmou Eymerich após uma rápida reflexão. - Pois bem, um bispo é forçosamen­te um Perfeito, e sua condição exige que evite os excessos, entre eles a embriaguez. Se a garota fosse o bispo que pro­curamos, não teria tocado no vinho, mesmo que acabasse morrendo de sede. Mas o argumento que levou à minha dedução é outro. A garota disse que desta vez consegui­ria se tornar um lemure. O menino nos revelou que só um Perfeito pode ser lemure. Se a garota tem isso como meta, significa que ainda não é um Perfeito, e portanto não pode ser um bispo.

Mas então - retrucou o padre Jacinto - a velha, se for o bispo, seria um daqueles que são definidos como lemures.

Não creio. Se entendi bem, um lemure é um corpo sem alma. É provável que haja Perfeitos que, mesmo tendo a possibilidade de liberar a alma do corpo, adiam esse mo­mento para servir de guia ao próprio rebanho. Esses devem ser, se minha suposição estiver correta, o bispo, o Filius ma­jor e o Filius minor.

E por que o bispo não poderia ser outra das mulheres em nossas mãos? - perguntou o padre Lambert.

Realmente não tenho elementos para confirmar isso - respondeu Eymerich. - Mas, excluída a hipótese da garo­ta, que teria introduzido um elemento de casualidade nos critérios com que esses hereges escolhem os próprios mes­tres, parece provável que se atenham, como a nossa Igreja, que eles imitam, ao fator da ancianidade e da sabedoria. Salvo prova em contrário, é portanto para a mais velha que naturalmente apontaremos o indicador.

Orgulhoso de si, Eymerich esperava agora elogios por sua grande versatilidade na arte aristotélica, que tornara meritoriamente famosa a escola dominicana e, em particu­lar, a universitas de Toulouse, que o tinha forjado. Mas a ex­clamação que ressoou na sala o surpreendeu e humilhou.

Basta!

Todos se viraram para olhar o padre Simon. O velho fi­cou em pé, com os olhos apertados, os membros tremen­do de ira domada com dificuldade. Agitou na direção do inquisidor, numa discordância incontida, um dedo tão fino quanto um osso de frango.

O senhor está consciente do grau de perversão a que chegamos? - gritou o velho. - Guiados pelo senhor, sobre quem recai a maior responsabilidade, tivemos que admitir as mais infernais mentiras. Insistindo com tantas sutilezas, chegou a considerar ponto pacífico, interrogando esses mi­seráveis, que uma alma possa se separar do corpo deixan­do-o vivo, que a ressurreição da carne ocorra sem interven­ção divina, que um herege queimado e sepultado continue vivendo depois de cinqüenta anos, que existam lemures, es­pectros, quimeras e não sei mais o quê. O senhor percebe que engoliu como verdade o veneno que lhe foi oferecido? Tem consciência de que aderiu à heresia?

Atacado com tanta violência, Eymerich ficou sem pa­lavras. Inesperadamente, foi Lambert de Toulouse quem interveio a seu favor. - Peço perdão, padre, se me atrevo a contradizê-lo - disse dirigindo-se a Simon -, mas creio que tenha interpretado mal as intenções de nosso magister. Tenho pouca experiência em processos contra os cátaros, mas assisti a muitos procedimentos contra a magia negra. Pois bem, posso dizer-lhe que vi com meus próprios olhos essas demoníacas criaturas cuspir sapos, vermes e cara­cóis nojentos, falar línguas que desconheciam e que foram atestadas por um perito, provocar temporais e deslocar objetos. Colhi com meus próprios ouvidos confissões re­lativas a viagens em cabos de vassoura, visitas a cidades infernais recobertas de placas de ouro e ossos de crian­ças, aparições do senhor das moscas com cascos de cabra e chifres de carneiro. Pus à prova as migalhas de poder que Lúcifer mantém e que lhe permitem executar magias sur­preendentes e terríveis. Como quer então que me espante a existência de homens com cabeça de animal, de lemures sem alma, de criaturas centenárias, de poços da ressur­reição? Quando Satanás se põe à obra, pode acontecer de tudo. O essencial é não deixar que nos encontre indefesos e crédulos.

A argumentação era premente, mas o padre Simon não quis se dar logo por vencido. - E exatamente nisso que re­side o escândalo. Ouço muito falar em Deus, mas nunca em Satanás, apesar de sua presença manifesta. Além disso, os instrumentos do mestre Philippe estão largados lá sem uso enquanto damos até vinho aos hereges capturados.

Desta vez foi o padre Jacinto, que a muito custo conse­guira se conter, quem repeliu as objeções do velho. - Quem está na sua frente é o padre Nicolau Eymerich, o mais dou­to dos inquisidores, o mais apreciado pelo Santo Padre. Ele incentiva as argumentações dos inquiridos porque deseja colher deles as razões mais secretas, não por acreditar ne­las. Se usa a dialética em vez das quaestiones é apenas por­que pensa extrair melhores resultados. Quantas vezes, na França e em Aragão, assisti aos suplícios infligidos sob sua ordem pelo braço secular! Tenha mais confiança em quem foi eleito pelo pontífice como seu representante.

O padre Simon entendeu o chamado à disciplina hie­rárquica que aflorava daquelas palavras. Começou movendo-se sem jeito no cadeirão; depois duas grandes lágrimas apareceram em seus olhos sitiados pelas rugas, e desce­ram lentamente até a barba branca. Com passo vacilante levantou-se e foi na direção de Eymerich, que tinha per­manecido propositalmente alheio à discussão. Fez menção de se ajoelhar diante dele, mas o inquisidor, vencendo o inato retraimento, o agarrou pelos antebraços e o puxou contra si. Os dois homens se abraçaram com força em meio à comoção geral.

Perdoe-me, mestre - murmurou o idoso.

O senhor é meu mestre - respondeu Eymerich com doçura.

Depois, soltando-se do aperto acrescentou: - Os con­trastes entre nós também são fruto da perfídia dos nossos inimigos. Mas amanhã tudo isso vai acabar. Iremos a Bellecombe e daremos um fim ao culto deles, mesmo que seja­mos obrigados a encher a cisterna deles de sangue e a torre de corpos. Eu juro.

O senhor de Berjavel, também comovido, saiu de sua mesa coberta de papéis cheios de linhas e mais linhas es­critas em letra elegante e miúda. - O senhor tem intenção de interrogar a mulher-bispo, mestre?

- Não. - Eymerich franziu a testa. - Antes quero que a seita dela seja destruída e desmembrada. Diante das ruínas de sua obra ela própria invocará a fogueira libertadora.

Após deixar a sala, o inquisidor deteve-se um pouco com o carrasco e com os voluntários recrutados em Châtillon, dando disposições para o dia seguinte. Depois, já no completório, última parte das horas canônicas, retirou-se com os outros dominicanos para cantar o Salve Regina, um hábito que havia muitos dias vinha sendo negligenciado. Final­mente subiu até seu quarto.

Ao longo da escada em caracol, a sós consigo, Eymerich pôde abandonar-se às próprias fraquezas, reprimidas por um dia inteiro. As acusações formuladas pelos hereges, de que ele possuía uma dupla alma, o tinham abalado; mas muito mais o tinha impressionado a reprimenda do padre Simon de estar evitando, com qualquer meio, recorrer à tortura.

Em tempos nem tão distantes, Eymerich ordenara su­plícios de toda espécie e, como exigia a regra, assistira a sua aplicação. No entanto ele vinha amadurecendo certo desgosto não tanto pelos espetáculos que precisava acompanhar, mas pela excitação que no fundo sentia, especial­mente quando a tortura era aplicada a jovens mulheres. Saía daquelas sessões perturbado e amargurado consigo mesmo.

Teria preferido uma violência abstrata, asséptica, que não fosse obrigado a presenciar. Também porque nas vezes em que o condenado o tinha interpelado diretamente, ainda que raras, ele se sentira embaraçado e confuso, prisioneiro de um sentimento de culpa que nem a absolvição que os in­quisidores costumavam conceder uns aos outros conseguia aliviar. E não se tratava de insana compaixão pelas vítimas; se lhe fosse possível agir indiretamente, teria comandado qualquer crueldade admitida pela Igreja, deleitando-se até com o próprio poder ilimitado sobre a vida e a morte.

A escuridão do quarto e o frio intenso apagaram em Ey­merich aquelas reflexões perigosas; porém trouxeram de volta aquele senso de autonomia dos membros em relação ao corpo e do tronco em relação à cabeça que ele temia ainda mais. Decidiu despir-se completamente e deitar no chão gelado, depois de afastar a palha. Isso lhe devolveu controle suficiente para garantir algumas horas de sono sem sonhos.

Na primeira hora da manhã seguinte, Eymerich foi se jun­tar, na pequena área diante do castelo, aos outros membros da expedição para Bellecombe. Inicialmente tinha pensado em uma espécie de cruzada, chamando toda a população de Châtillon, mas logo abandonou a idéia. Não havia cava­los suficientes, mesmo contando com os disponíveis na vila. Por outro lado, uma marcha a pé seria muito lenta, e talvez cansativa. Sem contar que daria aos potenciais inimigos a possibilidade de perceber a ameaça a tempo e preparar-se para enfrentá-la, com as armas ou com a fuga.

Então ele tinha preferido selecionar dez milicianos - tan­tos quantos eram os cavalos que haviam sido dos soldados papais - robustos e resolutos, armando-os devidamente; e tinha mandado vir de Châtillon o boticário, para que as­sumisse o comando do pelotão. Ao lado dele cavalgariam apenas o padre Jacinto e o mestre Philippe, cuja fidelidade agora já estava fora de discussão.

O grupo encaminhou-se por um cenário solene e majes­toso, entre cristas escarpadas e extensões de abetos verme­lhos. O ar, como sempre frio e transparente, permitia ver ao longe geleiras resplandecentes de brancura e montanhas altíssimas, com as encostas rachadas por despenhadeiros ou cobertas de florestas.

Eymerich levava seu cavalo ao lado da montaria do bo­ticário, que tivera de abandonar a própria mula e não ficara satisfeito com a troca. - O senhor conhece bem Bellecombe?

O homem, ainda um pouco sonolento, abanou a cabeça. - Bem pouco. Desde que Semurel instalou sua colônia, pou­cas vezes me aventurei até lá. Lembro que a vila era com­posta de algumas casas no meio de um castanhal, por sua vez circundado de florestas de abetos. Isso é tudo que sei.

Por falar em Semurel, quais são as novidades em Châtillon?

Bem poucas. O tirano deve ter partido com todos os seus homens, mas às escondidas. O povo voltou aos próprios afa­zeres. Ontem à noite, eu e outros notáveis fizemos uma reu­nião com os mestres de todas as Artes. Decidimos que está na hora de mudar as coisas no vale. É absurdo que os que conseguiram prosperidade e popularidade através do traba­lho continuem sendo depredados por senhores ociosos, ou atormentados por heréticos que fazem apologia das virtudes da miséria. De agora em diante vamos procurar agir sozi­nhos, governando-nos através do Conselho das Artes.

Eymerich tentou esconder o desgosto que a falta de idea­lismo do boticário lhe inspirava. - Desde que isso não leve à desordem.

O homenzinho sorriu. - Oh, não. Somos todos amigos da ordem. Desordem era a que reinava sob o governo dos vagabundos.

Eymerich não fez comentários.

Cavalgavam havia menos de quinze minutos quando ao longe, no fundo da picada tortuosa e íngreme que per­corriam, apareceu um aglomerado de pequenas choupanas imersas na vegetação. Uma turma de crianças que brincava diante das casinhas viu os cavaleiros e fugiu, entre gritos agudos amortecidos pela distância e pelo vento.

Eymerich empinou na sela. - Bellecombe?

Ainda não - respondeu o boticário. Tinha uma expres­são de desprezo desenhada no rosto. - Naqueles barracos vivem todos os que enxotamos de Châtillon. Leprosos, pedintes, mulheres da má reputação, aleijados incuráveis, vi­ciados. É toda uma escória que se dedica ao ócio, sobre a qual Semurel estendeu sua asa protetora.

Eymerich lançou um olhar enviesado ao homenzinho, mas não disse nada. Aliás, fez um sinal ao padre Jacinto, que já ia encostando seu cavalo, de calar e prosseguir.

Quando passaram diante das choupanas, avistaram de relance alguns farrapos humanos que tentavam se escon­der rapidamente, uns voando sobre as muletas, outros arrastando-se pelo chão, outros embrenhando-se entre as árvores. Um tilintar de sinetas denunciava a presença de leprosos.

Parecem estar com medo - observou finalmente Ey­merich.

E têm razão para isso - respondeu o boticário com uma risada debochada. - Mais de uma vez tentamos pôr fogo neste foco de doença e pecado. Os cidadãos de Châtillon estão cansados de sustentar esses maltrapilhos com cotas dos próprios ganhos.

Depois das choupanas, sobre uma colina singularmen­te amena, apareceu um amplo castanhal em meio ao qual despontavam tetos de palha e chaminés fumegantes. Ao re­dor, uma extensão de lariços declinava até fundir-se com os abetos vermelhos que cobriam os flancos do declive.

Estamos em Bellecombe - anunciou o boticário.

Atrás dele, ouviu-se a voz do padre Jacinto. - Veja lá ao longe! Aquela torre!

Eymerich puxou as rédeas e seguiu com o olhar a dire­ção indicada pelo dominicano. De início, viu apenas uma manta de abetos, interrompida em alguns pontos por for­mações rochosas; depois, observando mais atentamente, identificou o alto desbeiçado de uma construção em pedra de forma cilíndrica, que emergia do cume das árvores.

O que é aquilo? - perguntou ao boticário.

O homenzinho encolheu os ombros. - É uma velha tor­re em ruínas. Pelo que sei, a parte interna desabou, e se formou ali uma espécie de poço. Antigamente jogavam lá os restos dos animais mortos de carbúnculo. Eram trazidos até aqui por causa do perigo de contágio. Depois lançavam também os corpos dos habitantes da vila de choupanas que o senhor acabou de ver, indignos de sepultamento em terra consagrada.

Vamos - disse Eymerich.

Mas nós não íamos a Bellecombe? - A inflexão da voz do boticário denunciava desapontamento.

Apareceram algumas ramificações que o senhor desco­nhece. Iremos mais tarde a Bellecombe. Por onde descemos?

Não creio que haja caminhos.

Vamos descer assim mesmo.

Mas havia uma picada, e Eymerich não demorou a des­cobri-la. Com muita cautela, por causa do grande declive, os catorze homens se encaminharam ladeira abaixo com seus cavalos, encontrando-se quase imediatamente no coração de uma densa floresta de abetos vermelhos.

O ruído dos cascos era amortecido pelo escuro tapete macio de agulhas secas, enquanto o sol desaparecia ofus­cado pelo alto cume de ramos de cor verde opaca. Só de vez em quando um feixe de luzes iluminava os troncos mais altos, às vezes inclinados de tão decrépitos, freqüentemen­te invadidos pelo musgo e pelos fungos. Longas tiras de líquens cinza, pretos e amarelos pendiam dos ramos e sur­preendiam os cavaleiros, intimidados pela escuridão e pelo silêncio, esbofeteando-lhes o rosto. Um cheiro penetrante de madeira corrompida, resina e folhas apodrecidas pare­cia emanar de todos os lados.

De repente, o boticário emitiu um grito.

O que foi? - perguntou Eymerich.

Com um dedo que tremia, o homenzinho indicou a cor­tina tenebrosa. - Veja aquilo - murmurou.

Todos então viram, à esquerda, seis grandes olhos lu­minosos arregalados no escuro. Os homens prenderam a respiração, possuídos por uma angústia indescritível. De­pois os olhos desapareceram e foi possível entrever três figuras altas e muito pálidas correndo entre os troncos. Os braços, estendidos para a frente, tinham o dobro do com­primento normal. Mas foi uma visão que durou um se­gundo. Um queixume de terror supersticioso percorreu a tropa. - Manteillons - cochicharam muitos, com o pesadelo ainda nos olhos.

- Vamos voltar - choramingou o boticário. - São manteillons, duendes das montanhas.

Eymerich deu uma risadinha maldosa. - Acho que aque­les lemures, como os hereges gostam de chamá-los, não são mais perigosos do que a escória que o senhor deseja quei­mar. Portanto seja tão corajoso com uns quanto é implacá­vel com os outros.

Paralisado de medo, o boticário não percebeu o sarcas­mo. A lenta cavalgada na escuridão prosseguiu com os vo­luntários, que agora sobressaíam ao mínimo farfalhar. E os farfalhos eram muitos, naquele corredor estreito e escuro.

A luz que invadia o pequeno descampado onde saíram de repente os obrigou a fechar os olhos. Ao reabri-los, pre­cisaram de alguns instantes para conseguir focalizar o que tinham à frente.

Era uma torre pouco mais alta que as plantas, que na­quele ponto chegavam a atingir quinze pés. Os abetos for­mavam ao redor do descampado, quase exatamente circu­lar, um muro marrom na base, verde no meio e vermelho no alto.

O torreão tinha uma ampla base redonda, construída com blocos pretos grosseiramente esquadrinhados. Pretas também eram as paredes, compactas e mais polidas, em cujo redor uma hera voraz e viçosa tinha trançado uma rede de ramos finos. Não havia evidência de seteiras na construção, que subia monolítica até uma ameia desbeiçada e destruída em muitos pontos. Os grandes tijolos e os fragmentos de telhas disseminados ao redor da base eram sinais de desabamento de alguns merlões, como se uma cárie inexorável os tivesse corroído e esmigalhado através dos séculos.

Havia certa inquietação no ar. A torre parecia ter uma vida maligna própria e espiar secretamente os visitantes. Eymerich desceu do cavalo e contemplou a construção com ar de preocupação. Depois sua atenção foi atraída por algu­ma coisa. Inclinou-se e remexeu no mato da clareira. Ao levantar-se, segurava algumas pequenas folhas, que mostrou ao boticário. - Dama-nua?

O homenzinho também desceu da montaria e acolheu as folhas na palma da mão, que ainda tremia. - É, sem dúvida. - Olhou ao redor. - Este campo está cheio dela, nunca vi uma concentração como essa.

Sem dizer uma palavra, Eymerich começou a andar ao redor da torre, disciplinadamente imitado pelos outros. O padre Jacinto foi o primeiro a descobrir uma lápide de már­more, com um emaranhado de trepadeiras que descia em cascata do alto até o chão. - Este trecho não lhe diz nada, magister?

Se não me engano é uma passagem da epístola de São Paulo a Tito - respondeu Eymerich. Leu em voz alta: - "Ele então nos salvou, não por mérito das obras de justiça, que nós podíamos ter feito, mas por sua misericórdia, median­te o batismo de regeneração, no qual o vento nos renova, tornando-nos uma nova criatura". Neste caso, traduziram o termo grego pneuma diretamente como "vento".

A lápide não é antiga - observou o padre Jacinto. - Está escrita em provençal.

Sem responder, Eymerich pediu a espada ao mestre Phi­lippe e a afundou várias vezes na cascata de hera. Nas pri­meiras três vezes, ouviu-se o retinir da ponta nas pedras. Na quarta, a espada penetrou entre as folhas até a empunhadura.

Conseguimos. A entrada da torre está aqui - disse o inquisidor.

Com alguns golpes de lâmina, cortou festões e peque­nos ramos. Deixou então descoberta uma fenda estreita e profunda, alta uns dois braços e meio, sem batentes nem degraus. Uma espécie de ferida na pedra que provocava ar­repios.

Vamos precisar de tochas, magister - observou o padre Jacinto com voz insegura.

Como o topo ruiu parcialmente, deve haver um pouco de luz. Eu vou entrar primeiro. O senhor vem atrás. Os sol­dados esperam aqui fora.

A notícia de não precisar entrar naquela ruína sinistra consolou o boticário; no entanto os bons modos lhe sugeri­ram levantar uma leve objeção. - Pode ser perigoso, padre. Deixe que eu o acompanhe.

Não - respondeu Eymerich. - O lugar parece deserto. - Olhou para o padre Jacinto. - Vamos?

Vamos.

 

                                             1984 - O SEXTO ELO

A aula magna da Cetus Corporation de Emeryville estava lotada de participantes do tradicional encontro cientí­fico anual. Homer Loomis notou logo o doutor Gary Dullis. Estava conversando com Joshua Lederberg, reitor da Rockefeller University. Ambos olhavam um pôster em que, debai­xo da sigla PCR, havia representações estilizadas do DNA.

Loomis esperou que o reitor se afastasse e se aproximou de Dullis. - Com licença, doutor? Sou Homer Loomis, da RACHE.

Dullis, um homem enérgico de aspecto simpático, aper­tou-lhe calorosamente a mão. - RACHE, o senhor disse?

É. Uma indústria química com sede em Santa Fé. Ou­vimos falar de sua descoberta: a reação em cadeia da polimerase.

Fico contente com seu interesse. - Dullis apontou sor­rindo para o público ao redor. - Como pode ver, com ex­ceção do professor Lederberg, parece que meu pôster não chama a atenção de ninguém. Confesso que estou um pou­co desiludido.

O senhor poderia me explicar sua descoberta em termos leigos? Já sei uma coisa ou oUtra, mas gostaria de ter uma idéia mais precisa.

Com prazer, senhor Loomis. Já ouviu falar da DNA-polimerase?

É uma enzima, se não me engano.

Exato. Uma enzima que duplica o DNA. Se tivermos um filamento de DNA e um filamento menor grudado a ele, a polimerase pode esticar o segundo, acrescentando nucleotídeos em uma seqüência complementar à do primeiro. Se soubermos quais são os nucleotídeos acrescentados pela polimerase ao filamento encompridado, podemos descobrir a seqüência dos nucleotídeos do filamento original.

Na prática, um filamento age como "molde" do outro - comentou Loomis.

Isso mesmo. - Dullis parecia entusiasmado com a sa­gacidade de seu interlocutor. - O processo se detém quan­do o filamento de DNA esticado atinge o comprimento do molde.

No entanto, em sua reação em cadeia, a julgar pelo nome, o processo não se detém.

Exatamente. Veja este pôster. Na prática, eu esquento dois filamentos de DNA para que se separem, e cada um permanece com um pedacinho do outro; depois os esfrio, e a polimerase acrescenta nucleotídeos aos pedacinhos remanescentes, esticando-os e tornando-os complementares aos dois filamentos-molde. Então obtenho quatro filamen­tos, idênticos de dois em dois. Repito o processo para cada par: obtenho oito filamentos, idênticos de quatro em qua­tro. Tento outra vez: dezesseis filamentos. Mais: trinta e dois. E assim por diante. Muito mais do que uma simples clonagem!

Loomis contemplou o esquema pendurado à parede.

Mas dessa forma...

Dessa forma posso obter cem bilhões de réplicas de uma molécula de DNA em uma tarde - concluiu Dullis com satisfação.

E só a DNA-polimerase tem um efeito tão extraordi­nário?

Bem, não exatamente. A princípio podemos dizer o mesmo de todas as enzimas similares à polimerase, desde que ativas a temperaturas até 60 graus.

E se o DNA tiver sofrido uma mutação?

A pergunta pegou Dullis de surpresa. - O que o senhor entende por "mutação"?

Que a seqüência dos nucleotídeos no DNA tenha se tornado ilegível por ação mutagênica.

Dullis franziu as sobrancelhas. - Compreendo. Nesse caso, a seqüência alterada é que sofreria o processo em ca­deia. Os nucleotídeos seriam enganados e formariam par com aqueles que lhes pareceriam complementares.

Mesmo se o mutagênico fosse a própria enzima?

Assim a seqüência dos nucleotídeos seria desordenada em cada passagem. Como eu já disse, na minha reação as passagens chegam a bilhões. No entanto deveria ser possí­vel controlar e determinar previamente as sucessivas configurações, apurando-as estatisticamente em virtude de seu elevado número. - Dullis interrompeu-se, fitando o inter­locutor. - Mas o que pretende a RACHE? Criar uma nova humanidade?

Loomis olhou para ele com ar sonhador e não respondeu. Depois, numa grande demonstração de falta de educação, deu as costas ao cientista e, sem se despedir, desapareceu na multidão.

Dullis, desconcertado, o acompanhou com os olhos. - Preciso pedir a George McGregor que colha informações sobre aquele Loomis - murmurou para si mesmo. - E sobre a RACHE.

 

                                 A Sentença

As paredes da embocadura tinham a espessura de pelo menos um braço. Passada a entrada, Eymerich e o padre Jacinto foram envolvidos por um cheiro horrível, mistura de enxofre e vinagre. Por um instante tiveram a tentação de dar meia-volta; depois, reunindo energia e apertando a túnica ao redor das pernas, adentraram quase à força o ambiente.

Viram-se em um local tão amplo quanto a torre, que re­cebia uma luz fraca vinda do teto afundado. Estavam divi­didos entre a emoção e a curiosidade. Aguçando o olhar o quanto permitiam o cheiro sufocante da podridão e os turbilhões de ar, puderam ver paredes cobertas de mofo com algumas aberturas irregularmente dispostas. Ao passar por elas, a coluna de vento que açoitava os muros produzia uma espécie de tênue lamento.

O padre Jacinto tentou um passo à frente para observar melhor. Lançou logo um grito. - Oh, meu Deus!

O chão estava coberto de baratas que, de tão próximas, formavam um tapete escorregadio. Eymerich também olhou para o chão e emitiu um berro sufocado. Agarrou o co-irmão pelos ombros e o puxou para trás. - A cisterna! - gritou em seu ouvido, tentando superar o uivo da cor­rente de ar.

O padre Jacinto sentiu as pernas tremerem pelo perigo a que tinha se exposto. A placa onde eles estavam fazia parte de uma espécie de calçada arrebentada que corria ao re­dor do ambiente. Rasante a sua beira, e ocupando toda a circunferência da torre, estendia-se uma camada de água preta e oleosa, aparentemente não atingida pelo vento que castigava as paredes. Parecia um tapete escuro brilhante estendido no centro do local, maculado em alguns pontos por algumas sombras amareladas.

O padre Jacinto estendeu o braço. - Veja! O que são aquelas criaturas?

Tenso, Eymerich virou lentamente o olhar na direção indi­cada. Aliviado, encolheu os ombros. - Ratos. Não está vendo?

Alguns ratos enormes corriam na borda oposta da cis­terna, passando perto das águas escuras. Eymerich incli­nou-se e, tomando muito cuidado para não tocar nas bara­tas que enxameavam aos seus pés e o enchiam de arrepios, pegou um tijolo caído do telhado e o jogou no tanque. Com um breve gorgulho o tijolo afundou, deslocando na descida formas esbranquiçadas. Alguns detritos de madeira aflora­ram lentamente.

Parece água, mas tem consistência de lodo - gritou o inquisidor. - Por isso o vento não a agita.

Deve ser muito fundo.

Ficaram observando o ambiente por mais alguns instan­tes, enquanto o vento parecia querer arrancar a túnica de seus corpos. Eymerich gritou no ouvido do companheiro: - Vamos ter que sair se não quisermos que o cheiro nos su­foque. Não temos mais nada para ver aqui.

Voltar ao ar livre foi como libertar-se de uma carga opressora. Até os voluntários pareciam aliviados.

O que descobriu? - perguntou o boticário.

Nada - respondeu Eymerich, devolvendo a espada ao mestre Philippe. - A torre está apoiada em um abismo de água preta e fedorenta. Destruí-la não será tão fácil quanto eu supunha. Tentaremos outra vez.

Vamos a Bellecombe?

Vamos. Quem sabe se lá não encontraremos a chave disto tudo.

Atravessaram a escuridão da floresta com menos apreen­são do que na chegada. Enquanto percorriam o tortuoso trecho da crista de montanhas que os separava da vila, Emerich aproximou-se do boticário. - O senhor acha que jogan­do pó de dama-nua em uma bacia de água acontece alguma coisa?

Acho que não. Certamente a água se tornaria venenosa.

Eymerich encolheu os ombros. - Ninguém tomaria a água que vi.

E além disso deve estar cheia de ossos de homens e de animais - concluiu o boticário.

Os abetos tinham desaparecido para dar lugar a um su­gestivo castanhal, com enormes troncos e fortes raízes, es­palhado pelo bosque. A vila surgia entre aquelas árvores colossais, em uma mancha colorida de polipódios, arbustos de giestas e moitas de mirtilos. Mas a amenidade do lugar não conseguia vencer em Eymerich a sensação de opressão e angústia que aumentava à medida que se aproximava de sua meta. Sentia que algo doentio, insuportavelmente mór­bido, estava escondido naquela vegetação. Todo farfalhar entre os ramos, todo movimento colhido com o rabo dos olhos o faziam sobressaltar-se, arriscando deixar o cavalo, já um tanto inquieto, ainda mais nervoso.

A vila parecia deserta. Eram duas fileiras de casinhas bem construídas, com uma base em pedra e o corpo de tra­vés. Os tetos eram cobertos de placas.

O caminho que as atravessava estava cheio de pedras, mas livre de detritos. Não se viam lojas nem animais do­mésticos; havia apenas, no fundo do povoado, algumas me­sas compridas com os respectivos bancos, como se aquela comunidade tivesse o hábito de fazer refeições coletivas. No entanto não havia sinal de louças ou alimentos.

Os catorze cavaleiros atravessaram a vila no mais abso­luto silêncio. Ao chegar às últimas casas, Eymerich desceu do cavalo e olhou perturbado ao redor. - Desembainhem as espadas e fiquem atentos. Vou dar uma olhada nessas construções.

Eu o acompanho - disse o mestre Philippe.

Não. Se for uma armadilha, não podemos cair os dois nela.

Marchou com o coração aos saltos na direção da casa mais próxima. A porta era um simples pedaço de tela pen­durado na parte de cima da abertura. Ele a arrancou com um gesto seco e entrou. Depois lançou um grito.

Seis olhos amarelos, enormes, o olhavam. Deu um ins­tintivo passo para trás, voltando ao ar livre. Seus homens, alarmados, o olharam com ar interrogativo. Fez um gesto tranqüilizador na direção deles, esforçando-se para es­conder a angústia que o dominava. Respirou fundo, aper­tou na mão o crucifixo que levava no pescoço e voltou à casinha.

Desta vez a emoção não foi tão forte. Os olhos pertenciam a três criaturas calvas e mirradas, sentadas a uma mesa ru­dimentar. Apesar dos olhos abertos, estavam certamente mortas, e algumas moscas passeavam sobre seus crânios brilhantes e seus membros exageradamente compridos.

Sentindo os batimentos cardíacos voltarem à normali­dade, Eymerich chegou perto dos corpos para examiná-los. Viu veias e tendões à flor da pele, uma fina penugem no lu­gar das sobrancelhas, narizes e orelhas apenas delineados. Cada cadáver tinha um trapo saindo da boca, que devia ter lhes sido enfiado até a garganta com assustadora energia.

Deu uma olhada no Evangelho aberto no centro da mesa e saiu à rua. A agitação tinha cedido lugar a uma fria raiva por causa de seu momento de fraqueza. - Vasculhem todas as casas - ordenou aos voluntários. - Acho que estão to­dos mortos. Mas tomem cuidado.

Os homens se espalharam entre as habitações, abrindo as portas e forçando as que estavam trancadas. Exclama­ções de horror ou surpresa acompanhavam cada inspeção. No fim voltaram em grupo até Eymerich, que aguardava com o padre Jacinto, Philippe e o boticário.

Parece que estão mortos mesmo, padre - disse um vo­luntário, com a voz embargada pela emoção -, e cada mons­tro tem um trapo enfiado na garganta.

Eymerich lançou um olhar carregado de significado para o padre Jacinto. - Endura?

O dominicano confirmou. - É o que parece. Assustador.

Endura? - perguntou o boticário. - O que quer dizer?

Mais carrancudo do que nunca, Eymerich respondeu quase de má vontade. - E uma das mais bárbaras tradições dos cátaros. Ao chegar ao fim da vida, ou desejando dar um fim a ela, eles comem alimentos misturados com cacos de vidro ou se sufocam enfiando na garganta um pedaço de pano. Pensam que assim evitarão os sofrimentos do outro mundo.

Mas alguma coisa não se encaixa - observou o padre Jacinto. - Se estes são os lemures de que os prisioneiros fala­ram, seriam corpos sem alma. Por que estariam preocupa­dos com os sofrimentos infernais?

Eymerich fez um gesto vago. - E quem pode saber? Tal­vez quisessem apenas se suicidar, e fizeram isso do jeito característico da seita deles. Aliás, me parecem mortos há pelo menos um dia.

Exatamente - confirmou o boticário. - Devem ter se suicidado quando, do alto, viram as casas de seus compa­dres de Châtillon em chamas.

Eymerich passou o dorso da mão na testa, como se en­xugasse um suor inexistente. - Pode ser. - Voltou-se ao grupinho de milicianos, muito pálidos e perturbados. - Vamos confiar-lhes uma tarefa desagradável, mas necessária. Tirem todos os corpos das casas e coloquem-nos enfileirados no meio do caminho. Depois tragam toda a palha que con­seguirem encontrar.

Dirigidos por Philippe, os homens se puseram ao traba­lho de má vontade, mas sem levantar objeções. Eles viam o inquisidor como o único apoio naquele abismo de maldade e horror. Sua autoridade era naquele momento superior à de qualquer magistrado e suserano, inclusive Challant e os condes de Savóia.

Depois de uns quinze minutos, Eymerich, com o desgos­to e a inquietação estampados no rosto, analisava as deze­nas de corpos alinhados ao longo do caminho. Eram na maioria jovens de membros compridos e magros, com fei­xes de músculos que revelavam uma força física superior à média, apesar da fragilidade da estrutura; porém alguns eram diferentes.

Eis o homem-burro - murmurou o inquisidor, parando diante de um dos cadáveres mais grotescos. - Como é pos­sível uma abominação como essa?

No fim da fila tem um muito mais horrível, com corpo de porco e nariz quase humano, e há até seres com olhos e orelhas de rato - disse o padre Jacinto. - Um dos homens afirma ter visto nas moitas alguns ratos com mãos no lugar das patas.

Mas aqui temos um homem normal, e uma mulher também. Seriam lemures também?

O padre Jacinto inclinou-se sobre os corpos. Seu rosto, que parecia ter definhado depois de tantas emoções, assu­miu uma expressão de perplexidade. - Não quero cometer nenhum engano, mestre, mas acho que esses rostos me são familiares. Penso tê-los visto na capela do consolamentum, entre as vítimas dos soldados de Reinhardt. Mas agora eles não apresentam sinais de ferimentos.

Chega, chega! - Todos estremeceram com o berro de Eymerich. - Chega destes horrores! Tragam palha e quei­mem essa manada de monstros! E vós, Senhor Deus, armai minha mão e ajudai-me a varrer deste vale toda presença demoníaca!

Os voluntários se dispuseram a executar a tarefa com uma espécie de alegria selvagem, quase uma desforra pelo terror sofrido. Rapidamente formaram uma enorme pilha de palha e lenha encharcada de betume e jogaram os cor­pos descuidadamente sobre ela. Quando, depois de várias tentativas, a fogueira se acendeu, um grito de contentamen­to acolheu as primeiras chamas.

Acabaram as taxas para manter os filhos adotivos de Semurel! - exclamou, feliz, o boticário.

Desta vez, Eymerich dirigiu-se ao homenzinho com uma violência ímpar. - O senhor me cansou! Não se importa com a heresia, somente com seus interesses. Não é mais cris­tão que aqueles monstros. Tome cuidado para que não haja uma fogueira destinada ao senhor também.

O boticário não replicou, contente que estava de não ter chegado a apanhar do inquisidor.

Eymerich voltou a montar em seu cavalo, que a visão da fogueira tinha deixado inquieto. - Queimem toda a vila - gritou aos homens. - Não deve sobrar nenhum rastro do horror de Bellecombe.

Quando, entre a terceira e a sexta hora, a coluna a cavalo retomou a estrada sinuosa para Ussel, parecia que todo o castanhal estava em chamas. Clarões purpúreos se refle­tiam nas neves distantes, em um tétrico e solene poente artificial que transfigurava até a luz do Sol.

Na altura da torre sobre o abismo, Eymerich, tomado por um torvelinho de impulsos agressivos, sentiu um nó na garganta, como se aquela construção solitária quisesse agarrá-lo e sorvê-lo. A sensação o deixou oprimido por um bom tempo, até encontrar na estrada três lemures com a gar­ganta cortada.

- Aposto que são aqueles que avistamos na floresta - disse o padre Jacinto. - Devem ter visto o incêndio de Bel­lecombe e se suicidado também.

Eymerich continuou olhando para a frente, com a testa cada vez mais franzida. - Não importa. Vamos.

A vila de casinhas estava cheia de miseráveis cobertos de trapos, em alguns casos encapuzados. Agora não fu­giam, tendo entendido que o raio que se tinha abatido sobre aqueles montes não era destinado a eles. Limitavam-se a olhar em silêncio os catorze cavaleiros, com olhos nos quais se liam timidez, medo e talvez reprimenda também. Ey­merich, que os honrou com uma rápida olhada, viu apenas cotos, rostos corroídos pela lepra, cabelos desgrenhados, bocas sem dentes. O boticário, lembrando da lição anterior, não fez comentários.

Por fim, apareceu a silhueta compacta do castelo insta­lado na rocha. O inquisidor, imerso em reflexões sombrias e ansiosas, não percebeu o vislumbre do aço presente no outro lado dos lariços; nem os outros cavaleiros percebe­ram, demasiadamente entretidos em observar, virando-se de vez em quando, o incêndio do castanhal.

O primeiro a notar alguma coisa diferente foi o boticário.

Parece que há gente em Ussel - murmurou. Depois, com um berro sufocado: - Vejam! As insígnias dos Challant!

Eymerich levantou de chofre a cabeça. - O que disse?

Não foi necessário responder. Agora via-se claramente, depois da última curva da estrada, uma selva de estandar­tes com o brasão prateado de faixa vermelha e banda preta, além de outros brasões.

- Deve ser Semurel buscando vingança - disse Eyme­rich, com a voz partida de raiva.

O padre Jacinto foi até ele, com a ansiedade estampada no rosto. - O que faremos, mestre?

O inquisidor ficou ereto, com o olhar firme nas insígnias.

Vamos em frente. Nós somos os emissários do papa. Nin­guém pode nos deter.

A decisão de Eymerich não foi compartilhada pelos vo­luntários. Alguns deles viraram os cavalos e partiram a galo­pe na direção de Bellecombe; os outros, lançando um olhar perplexo ao inquisidor, fizeram o mesmo logo em seguida.

Eymerich olhou com severidade para o boticário. - E o senhor, o que vai fazer?

Eu o acompanho. - O homenzinho estava transtornado de pavor. - Minha loja e meus bens estão em Châtillon. Para onde posso fugir?

Mas eu preferiria não ir com o senhor, padre.

Eymerich voltou-se carrancudo para o mestre Philippe.

Deteve o olhar sobre ele durante alguns instantes, depois limitou-se a dizer, com voz cansada: - Entendo. Boa sorte.

Boa sorte ao senhor, padre. - Philippe deu um puxão nas rédeas e desapareceu na vegetação.

Agora vamos - ordenou Eymerich.

A rocha de Ussel fervilhava de gente armada, a pé ou a cavalo. O inquisidor entendeu que Semurel, sozinho, não teria como recrutar um exército tão numeroso. Notou tam­bém a variedade de brasões e bandeiras. Mas o espetáculo que se apresentou à sua frente o deixou surpreso, assim que atravessou o aglomerado de lanças e de armaduras que se afastavam para deixá-lo passar.

Exatamente debaixo do arco do portal, na frente da pla­taforma de pedrisco que levava à entrada, havia sido mon­tado um palanque adornado com as insígnias dos Challant e outras que ele desconhecia. Sobre ele, sentado em uma espécie de trono, reconheceu Ebail de Challant, como sem­pre agitado e cheio de vigor. À esquerda do suserano, sobre uma cadeira comum, estava um homem corpulento pareci­do com ele: provavelmente seu irmão François.

Mas o personagem que fez Eymerich estremecer e seu coração disparar ocupava a cadeira à direita de Ebail. O inquisidor nem precisou observar muito o amplo chapéu, o precioso crucifixo pendente no peito, a túnica e a capa roxa para reconhecer o bispo de Aosta. Estava conversando amavelmente com o senhor de Berjavel, que parecia bem à vontade ao lado dele.

O padre Jacinto murmurou alguma coisa que Eymerich não ouviu. Ele trotava lentamente, com os nervos à flor da pele, na direção do palanque onde todos agora estavam calados e o fitavam. Enquanto os soldados se dispunham em um círculo irregular, viu com o canto dos olhos o padre Lambert, o padre Simon e os dois ajudantes do carrasco. Perdiam sangue pela boca e tinham desespero nos olhos; mas sua atenção foi capturada por uma fileira de cadeiras postas diante do palco, sobre as quais estava sentada uma dezena de nobres ricamente vestidos. Dentre eles se desta­cava, por seu traje preto, o senhor Semurel.

Ao chegar perto do palanque, Eymerich parou o cavalo. O padre Jacinto aproximou-se dele enquanto o boticário, assustado, se mantinha a alguns passos de distância.

Ninguém falou por alguns instantes. O inquisidor tentou relaxar os membros e controlar os batimentos cardíacos. A altivez, a agressividade e o medo da humilhação lutavam dentro dele. No entanto, acima de tudo estava a consciência de estar do lado da razão e, em última análise, da verdadei­ra força.

Enfim ele decidiu que, se fosse o primeiro a falar, obteria uma preciosa vantagem. - Saúdo os senhores de Challant e o monsenhor, que não esperava encontrar. Vejo, porém, senta­do nesse palanque, um herege e protetor de hereges, com os quais a Santa Inquisição tem muitas contas a acertar.

Após pronunciar essas palavras, Eymerich sentiu-se ali­viado. Sua voz tinha saído forte e segura, e o leve tremor que sentira sob a pele parecia ter cessado.

Foi Ebail quem respondeu, e o fez em tom destacado, quase como se tratasse de questão ordinária e puramente formal. - Padre Nicolau, o senhor está perante a Curia ambulans dos senhores do vale. Além de mim e do meu irmão, ela se compõe de meus pares senhores de Bard, de Arnauds, de Quart, de Nus, de Saint Martin e do senhor Semurel, castelão de Ussel. A nosso convite está também presente o bispo de Aosta, Eymerich de Quart.

O inquisidor tinha se interessado tão pouco pelo bispo que nem sabia que usava o nome dele como sobrenome. Dirigiu- lhe um olhar de curiosidade. Mais velho uns dez anos, o pre­lado podia ser parecido com ele, não fosse pelo rosto menos contraído e pela expressão mais benévola. Depois dirigiu sua atenção a Ebail, que parecia esperar algum comentário.

Para ter tempo de refletir, desceu do cavalo, gesto logo imitado pelos dois companheiros. Procurou falar em tom seco, mas não ofensivo. - Agradeço a todos os senhores pela visita. Devo, porém, insistir que vejo na sua frente um homem indigno, manchado pela culpa gravíssima da heresia. Eu me refiro ao senhor Semurel.

Um dos pares, que pouco antes Ebail tinha designado como senhor de Bard, interveio com voz colérica, que com­binava com sua fisionomia truculenta. - A questão aqui não é Semurel. O senhor é que vai ser julgado.

- Eu? - Eymerich soltou uma risada falsa. - Quero lem­brá-lo, meu senhor, de que sou um inquisidor nomeado pela benevolência de Sua Santidade Urbano V em pessoa. Nin­guém, salvo o pontífice, pode me submeter a julgamento. Nem o bispo aqui presente.

Ebail ameaçou uma reação irada, sufocada por um ges­to imperioso de seu irmão François. Foi este último quem falou, com voz profunda e controlada. - Mais tarde discu­tiremos suas credenciais, padre Nicolau. O que conta é que está sendo acusado de ter fomentado uma revolta em nossa propriedade de Châtillon, em conluio com outros domini­canos e com o plebeu que está a seu lado; de ter incitado o povo do burgo, instigando-o a derrubar nosso procurador, senhor Semurel, e instaurar uma pretensa comunidade de plebeus livre; de ter feito incendiar casas e matar pessoas. Nós mesmos constatamos os estragos que o senhor produ­ziu em apenas uma semana, depois de ter sido acolhido en­tre nós da forma mais respeitosa.

Eymerich não esperava que o diálogo tomasse aquele ru­mo com tanta rapidez. Era essencial reconduzi-lo logo aos te­mas cruciais. - E lhe disseram, senhor, que neste vale sobre­vivia uma comunidade cátara que oficiava seus ritos satânicos em plena luz do dia? Disseram que esses cátaros vivem há tempo imemorável, regenerando periodicamente os próprios corpos? E que quando atingem o estado de Perfeitos o espírito abandona aqueles corpos, que são denominados lemures e con­tinuam a viver? Disseram que estas montanhas são habitadas por monstros horrendos, meio homens e meio animais?

Eymerich interrompeu-se de chofre. Enquanto falava, al­guns dos pares tinham começado a sorrir de deboche, e logo riam abertamente. A risada, em seguida, tinha contagiado os senhores do palanque, entre eles o bispo, que escondia graciosamente a boca com a mão. Até o senhor de Berjavel parecia se divertir. Logo em seguida, a multidão armada também começou a rir, até que Eymerich se viu aprisionado entre muros compactos de hilaridade.

O padre Jacinto interveio, roxo de indignação. - Não riam! Este homem está dizendo a verdade!

Cale-se! - Ebail já não ria, mas ainda enxugava as lá­grimas. Levantou-se de rosto fechado e fitou Eymerich com olhos que se tornavam cada vez mais frios. - O senhor jun­tou todas as lendas de orchons e manteillons difundidas entre nossos montanheses e agora tenta usá-las para justificar-se. É verdade ou não que o senhor incitou o povo de Châtillon à revolta?

Na mente de Eymerich, a ira estava sendo sobrepujada por uma sensação de impotência. Mas conseguiu replicar:

Aquela gente se rebelou contra as redevances que Semurel cobrava para sustentar os monstros hereges de Bellecombe.

O castelão, mudo até aquele momento, dirigiu-se a Ebail com um sorrisinho. - Ele chama de "monstros hereges" os leprosos e os estropiados de Bellecombe, que o senhor mes­mo me autorizou a alimentar.

Atitude que representa um belo exemplo de caridade cristã - comentou o bispo com voz suave.

Não! - Sentindo que aos poucos estava sendo enreda­do, Eymerich reagiu com uma hostilidade enfastiada simi­lar àquela que lhe despertava o aperto de uma multidão.

Estou falando de monstros, não de leprosos! Estou falan­do de monstros animalescos! Estou falando de heréticos, de cátaros, de albigenses!

O bispo de Quart sorriu com condescendência. - A here­sia albigense foi extinta há mais de um século, e aqui nunca prosperou.

E onde estão os supostos monstros? - perguntou Fran- çois de Challant. - O senhor poderia mostrá-los para nós?

Eymerich se sentia sufocado. - Não. Queimei todos - res­pondeu com a voz rouca.

O que foi que eu disse? - exclamou Semurel triunfante.

O padre Jacinto, exasperado, correu até o palanque, pas­sando pelas cadeiras dos pares. - Eu vi os monstros! Todo habitante de Châtillon sabe que eles existem! - Dois solda­dos o pegaram e o afastaram.

Não é verdade. - A voz do boticário no início ecoou flexível, depois adquiriu maior segurança. - Eu nasci em Châtillon e nunca ouvi falar de monstros nem hereges.

Eymerich virou-se para o homenzinho, lançando-lhe um olhar terrível. - Este covarde foi o instigador da revolta, e agora tenta fazer com que suas culpas sejam esquecidas. - Voltou-se para Ebail, tentando conter o desdém. - Senhor, a veracidade de minhas asserções pode ser comprovada pelo senhor de Berjavel, agregado ao tribunal de Carcassonne, que estou vendo ao lado do monsenhor.

O notário fingiu surpresa ao ser interpelado. - Não tente me envolver em seus delírios! - protestou. - Não sei nada dessas fantasias. Aliás, nem quero ouvir falar nelas. - Fazendo-se de indignado, desceu rapidamente do palanque e se afastou.

Eymerich, furioso a ponto de não conseguir pronunciar uma só palavra, o viu desaparecer na multidão. Voltou a fitar Ebail, engolindo com dificuldade. - Não dê ouvidos àquele miserável traidor. Mas ouça o testemunho de dois homens de fé, os reverendos padres Lambert de Toulouse e Simon de Paris.

Tarde demais, padre Nicolau.

Tarde demais?

O senhor de Bard interveio, com uma expressão sardônica nos traços rudes. - Seus cúmplices foram julgados por esta cúria antes de sua chegada, junto com os dois ener­gúmenos que o senhor trouxe. Muitos os reconheceram entre os instigadores do levante. Decidimos poupar-lhes a vida, mas furamos a língua deles, para que não possam mais subverter os ânimos. Os soldados do senhor Semurel já executaram a sentença.

Os olhos de Eymerich correram à procura dos dois com­panheiros. O doloroso desespero que viu foi insuportável. Virou o olhar, curvando-se para a frente e levando a mão ao peito. Uma sensação de frio intenso o invadia.

Tem algo a acrescentar? - perguntou Ebail de Challant.

Aquela voz odiosa devolveu ao inquisidor um pouco de energia. - Os cátaros prisioneiros conhecem bem a veraci­dade do que digo.

Vasculhei o castelo - disse Semurel, pacato. - Não há rastro de prisioneiros.

Eymerich percebeu que tinha escolhido uma linha de conduta errada. Defendendo-se e tentando revidar as con­testações, tinha implicitamente reconhecido a legitimida­de do julgamento ao qual estava sendo submetido. Dessa maneira, tinha amparado as audaciosas simulações de Se­murel.

Decidiu mudar de comportamento e reassumiu uma ex­pressão altiva. - Repito que sou um inquisidor designado pelo pontífice. Este tribunal não tem nenhuma autoridade sobre mim, nem sobre meus companheiros. Peço que as mi­nhas credenciais sejam examinadas.

Ebail voltou a sentar-se em seu pequeno trono. Esticou a mão direita para François, que lhe passou um pergaminho. - Tenho aqui a carta do Santo Padre que o senhor me mos­trou há uma semana, surpreendendo minha boa fé. Vou ler o início. - Abriu o rolo. - "Urbano bispo, servo dos servos de Deus, saúda e dá a apostólica bênção ao padre Eymerich, encarregando-o de investigar o erro herege nas terras do nobre senhor de Challant".

Ebail fechou o rolo com um movimento do pulso. - Vou poupá-lo do resto. E evidente que nosso santo papa Urba­no V tinha a intenção de empossar no cargo de inquisidor o aqui presente bispo de Aosta, Eymerich de Quart, sem recorrer à afronta de nos impor um inquisidor estranho em nossas terras. Este homem se aproveitou da homonímia para usurpar funções que não eram dele.

Tanto Eymerich como o padre Jacinto foram subjugados por tamanha desfaçatez. Nenhum dos dois, de imediato, teve ânimo para replicar. Já era evidente que estavam se debatendo não apenas nas redes estendidas por Semurel, mas também nas espirais de uma conspiração urdida pelos senhores da­quele vale, com a concordância do bispo, para livrar-se deles.

Derrotado, Eymerich jogou as últimas cartas que lhe res­tavam, sem criar ilusões sobre sua eficácia. - Mandei uma solicitação de ajuda ao pontífice. Se atentarem contra nossa incolumidade, atrairão sua ira.

O bispo curvou-se na direção de Ebail. - Realmente, um jovem meio abobalhado, um tal de Bernier, veio a mim há alguns dias. Pediu que o ajudasse na troca dos cavalos para chegar a Avignon. Encaminhei o pobre jovem aos agostinianos, junto aos quais a fraqueza da sua mente, se não che­gar a ser curada, se tornará inócua. E fiz com que ele me entregasse a mensagem deste enganador, cheia de calúnias e de desconcertantes fantasias.

Ebail de Challant dirigiu a Eymerich um olhar congelante. - Deseja acrescentar mais alguma coisa?

O inquisidor o olhou de forma atravessada. - O senhor é um vassalo. É meu direito ser julgado pelo conde Amadeu de Savóia, seu dominus.

Ebail abriu um sorriso alegre. - Sabia que Amadeu está em Aosta? Veio para acertar comigo a próxima cruzada contra os sérvios e os turcos, para a qual eu fornecerei um bom terço da tropa. Em sinal de reconhecimento, o Conde Verde delegou a nós, os Challant, a omnimoda jurisdictio e o jus gladii em nossas terras.

Agora o cerco estava fechado. O apaziguamento entre Savóia e Challant diminuía o interesse do primeiro pelos hereges de Châtillon e deixava Ebail livre para agir. Talvez até Urbano não quisesse mais ouvir falar daquela história, já que a contribuição dos Savóia a sua cruzada já estava as­segurada. O desaparecimento do inquisidor era conveniente para todos; aliás, tinha se tornado uma necessidade política.

Consciente de tudo isso, Eymerich sentiu que a vontade de lutar tinha se esvaído, e nem reagiu quando o padre Ja­cinto lhe pôs carinhosamente o braço ao redor das costas. Enquanto isso, no palanque, Ebail dizia que a assembléia dos pares confiaria os agitadores ao senhor Semurel, dei­xando a ele a escolha da modalidade de execução da sen­tença de morte.

As últimas palavras que Eymerich ouviu, enquanto os armados o levavam embora, eram do bispo, que se dirigia a ele: - Lembre-se, padre Nicolau, que hoje a Igreja é a única guardiã da ordem cívica em um mundo perturbado e dividido. Essa função não pode ser comprometida, porque dela depende um renascimento futuro. Em nossos dias, atentar contra a ordem é talvez o maior pecado que um homem pode cometer. Especialmente se for religioso.

O inquisidor derrotado foi aprisionado no mesmo calabouço semi-alagado e malcheiroso onde Authié tinha ficado. Teve tempo de ver o padre Jacinto sendo conduzido para as pe­quenas celas com comunicação entre si. Depois os soldados pregaram umas tábuas na porta, fechando a última fenda.

Ao ficar sozinho na escuridão, no silêncio interrompido apenas pela agitação de seus pés na água suja, Eymerich se sentiu muito melhor. Aos poucos, todas as angústias desva­neceram, abrindo espaço a uma espécie de doce indolência que lhe permitia recordar os acontecimentos recentes sem se sentir um dos participantes, como se outra pessoa tivesse sido a vítima.

Passou assim um número impreciso de horas, caminhan­do de um lado a outro com a mente vazia. Não tinha fome nem outros desejos; queria apenas que aquela tranqüilidade se prolongasse ao infinito, e que sua alma atormentada pudesse recompor-se em uma nuvem de calma obtusidade.

Foi portanto com desgosto que, depois de sabe-se lá quanto tempo, ouviu mexerem na porta da sua cela. Es­perava uma visita de Semurel; no entanto, quando conse­guiu ajustar a visão à luz de fora, viu uma velha escoltada por dois soldados.

Ah, o bispo - murmurou.

Acorrentem-no - ordenou a mulher.

Prenderam um anel no pulso de sua mão direita, que ele ofereceu sem resistência; depois uma corrente não muito grossa foi passada ao redor das grades da pequena jane­la lacrada, pela parte interna da porta, e um segundo anel prendeu seu pulso esquerdo.

A velha pediu uma tocha a um dos soldados. - Deixem-me sozinha com ele.

Eymerich ficou pendurado na porta aberta da cela, em um estado de total passividade. Foi com um olhar sem curiosidade que contemplou o rosto enrugado da mulher, os olhos inteligentes cobertos de cachos desgrenhados, a boca fina, o saio preto que cobria um corpo sem idade.

Então você sabe quem eu sou - constatou a velha.

Eymerich a olhou sem responder.

E não tem curiosidade de conhecer minha história?

O inquisidor fez um gesto vago com a cabeça. Depois dis­se: - Me deixe para que eu possa me preparar para a morte.

Mas você não está destinado a morrer.

Aquela frase inesperada despertou Eymerich de seu tor­por. Fitou novamente aquele rosto antigo, no qual dança­vam os reflexos da chama. Perguntou com cautela: - O que está querendo dizer?

A mulher não respondeu diretamente. Ficou calada por alguns instantes, depois perguntou: - Já ouviu falar em Montségur?

Eymerich, mentindo, fez que não com a cabeça.

Montségur é um castelo no alto de um pico, no rio Lauzon. Éramos duzentos por lá, talvez os últimos cátaros de Languedoc. O senhor do castelo, Raymond de Perella, nos protegia das perseguições do rei da França e da Inquisição de Toulouse. As filhas do senhorio eram três, Philipa, Ar­pais e Esclarmonde. A última, Esclarmonde, pertencia a nossa confissão.

De que ano você está falando, velha? - Eymerich estava readquirindo sua agressividade, mas lamentava ter saído do abandono a que se entregara pouco antes. Agora seria mais difícil aceitar o próprio destino.

A mulher fechou os olhos por um instante, depois os reabriu. - Nós nos refugiamos lá em cima em 1243, mas o assédio durou até o ano seguinte. Em março de 1244, o mar­quês Raymond VII de Toulouse tentou uma mediação, que falhou. Em 14 de março, um último ataque de nossos inimi­gos foi vitorioso: depois de dois dias nós, os cátaros, éramos escoltados para fora do castelo, os mais idosos e doentes carregados em maças pelos mais jovens.

Eymerich sacudiu com impaciência a corrente que lhe prendia os pulsos. - Por que está me contando essas coisas, velha?

Não era você o inquisidor que queria saber tudo sobre nós? - A voz da mulher abandonou quase imediatamente a inflexão irônica. - Não, não é disso que se trata. Saber da verdade o ajudará a entender a natureza de sua pena, e o fará compreender os sofrimentos que homens como você infligiram sem pestanejar. Em certo sentido, meu relato faz parte de sua condenação.

Que não é uma condenação à morte - observou Eyme­rich, cada vez mais confiante.

Não, não é. Mas permita que eu continue. - A mulher engoliu em seco. Despertar aquelas recordações devia ser muito penoso para ela. - Quando nos levaram para fora do castelo, vimos que os soldados tinham erguido uma grande paliçada. Dentro, o chão estava coberto de tábuas impreg­nadas de betume e montes de palha. Fomos empurrados para aquele recinto como se fôssemos animais, depois fe­charam a única saída. Ficamos esperando por muito tempo, arrepiados naquelas roupas azul-turquesa que nos tinham forçado a vestir. Enquanto isso, os soldados cantavam seus hinos sacros e os dominicanos nos contemplavam do alto de uma rocha, recitando suas rezas.

A mulher fez uma pausa, olhando para o rosto impassí­vel do inquisidor; então prosseguiu: - Depois de uma hora, os soldados começaram a jogar tochas por cima da paliçada. A palha e as tábuas logo pegaram fogo, e todo o recinto foi invadido pelas chamas. Nós todos gritamos aterrorizados e começamos a bater na cerca. Vi mães tentando proteger os filhos, velhos queimando em cima das maças. Éramos duzentos, eu repito, e o cheiro de carne queimada era insuportável. Sabe o que significa ser queimado vivo, frade Nicolau?

Eymerich fez um gesto de impaciência. A pergunta não pedia resposta.

- É - continuou a mulher -, você queimou muita gente. E uma dor indescritível, que não exclui nenhum pedaço do corpo. Significa ser transformado em uma coluna viva de dor. E o processo é lento. Não estávamos acorrentados em uma fogueira, estávamos livres sobre um piso em chamas. Livres para correr de um lado a outro com as carnes incine­radas, enquanto do alto seus irmãos apreciavam o espetá­culo de nosso rebanho gritando enlouquecido.

A mulher fez uma pequena pausa, como se quisesse rea­vivar a recordação. Sua testa gotejava de suor. - De repente vi Esclarmonde, coberta de horríveis queimaduras, mergu­lhar os braços no fogo e deslocar freneticamente as tábuas. Conseguiu fazer uma pequena abertura, e então entendi o que pretendia fazer. O recinto havia sido erguido sobre um ponto onde crescia uma erva venenosa, chamada dama-nua. Apesar de murchada e secada pelo fogo, quem sabe se devorando alguns tufos dela pudéssemos abreviar nosso sofrimento. Imitei Esclarmonde, afastei algumas tábuas e enchi a boca de erva. Os outros que ainda tinham uma cen­telha de vida fizeram a mesma coisa.

Eymerich escutava com extrema atenção. Mas a mulher não ligava para ele. Falava para si mesma, revivendo cada detalhe daquela cena terrível.

Depois de alguns instantes, o fogo provocou o desa­bamento de um lado inteiro da paliçada. Quase todos os nossos já estavam mortos. Só eu e mais quatro corremos naquela direção, descobrindo que fora do recinto não havia salvação, mas um abismo. Jogamo-nos no vazio sem pensar duas vezes, não para sobreviver, mas para morrer mais de­pressa. O veneno ainda não tinha produzido nenhum efei­to. Enquanto isso, o desabamento do restante da paliçada e a formação de um único e gigantesco braseiro deram aos carrascos a ilusão de que o auto-de-fé não tinha deixado sobreviventes.

Eymerich estava tão interessado na história que tinha esquecido a própria situação. Falou como se ainda fosse o inquisidor na plenitude de suas funções. - E como conse­guiu sair dessa, velha?

Escorregamos pela encosta do rochedo, com as roupas ainda em chamas. Dois de nós se esfacelaram nas pedras. Eu, Esclarmonde e Bertrand Marty, um dos quatro Perfeitos que tinham dirigido a resistência ao assédio, caímos ainda vivos no Lauzon, perto de uma nascente sulfurosa que unia suas águas às do rio. Não lembro bem como chegamos até a nascente, que brotava de uma gruta; creio que, inconscien­tes, tenhamos sido arrastados pela correnteza. O fato é que acordamos em uma gruta açoitada pelo vento, e isso nos salvou dos soldados que se retiravam de Montségur percor­rendo as margens do rio.

Acho que posso imaginar o resto - disse Eymerich. - As águas sulfurosas e o vento, unidos aos efeitos da dama-nua, agiram da forma que vocês atribuem ao abismo de Belle­combe.

Exatamente. Quando caímos pela escarpa, não tínha­mos nada de humano. Nossa pele, carbonizada em muitos pontos, escamava, os rostos eram chagas sangrentas, os pulmões estavam queimados pela fumaça ardente. Naquela gruta, em um dia, readquirimos nosso aspecto normal, ex­ceto por algumas cicatrizes nas pernas de Esclarmonde, quase completamente descarnadas. O Perfeito Bertrand Marty nos revelou o mistério. Aquela era a fonte de Betesda mencionada no Evangelho de João, e o vento era produzido pelas asas de um anjo invisível. Esse foi o motivo da cura.

Eymerich riu sem nenhuma alegria. - Velha estúpida, Je­sus viveu na Judéia, não em Montségur.

A mulher o olhou com uma nuance de pena. - Então você, sábio inquisidor, ignora que as águas que correm debaixo de Jerusalém, chamadas de Tehom pelos judeus, percorrem as veias do mundo inteiro? Para nós era evi­dente que na gruta brotavam as mesmas águas da fonte de Betesda; e a prova eram nossos corpos, curados como o do paralítico. Aquele sinal divino nos fez compreender que Deus estava conosco, e que a missão dos cátaros não tinha acabado.

Eymerich sacudiu a cabeça. - Suas crenças oscilam como a chama dessa tocha. Mesmo pensando que o corpo seja uma criação demoníaca, se alegram com sua regeneração.

Certo, porque significava que a conquista da perfeição não estava completa, e que havia muito a fazer para ajudar os homens a se livrar de seus despojos mortais.

Isso são blasfêmias contra o Filho do Homem - rosnou Eymerich.

Você é quem está blasfemando - replicou com calma a mulher. - Mas me deixe terminar. Não vou descrever em detalhes o que aconteceu depois. Inicialmente nos fixamos na vizinha Orange, mas a pressão da Inquisição era forte demais. Então começamos a peregrinar de um centro a ou­tro da Provença e de Languedoc, encontrando nossas co­munidades destruídas e nossa gente queimada. Ao mesmo tempo, procurávamos outras fontes onde brotasse a água de Betesda. Descobrimos uma nas grutas sob a cidade de Lourdes, mas o tribunal de Carcassonne era perto demais para que pudéssemos nos estabelecer por lá. Alguns dos seguidores que conseguimos reunir viajaram para o norte e nos contaram sobre a existência de uma fonte similar em Banneux, no condado de Flandres; mas lá não tínhamos amigos.

E assim ficaram sabendo da cisterna de Bellecombe.

Muito tempo depois. Durante anos continuamos a nos reunir na gruta de Montségur, apesar do risco que continua­va pairando. Já éramos uma centena de pessoas, de todas as idades. Percebemos logo que não envelhecíamos. Mas também não rejuvenescíamos: simplesmente conserváva­mos nosso aspecto. Isso aborrecia Bertrand Marty, que nós consagramos como bispo e que aspirava a libertar-se de seu corpo material. Ele decidiu então, com o consenso da comunidade, afogar-se na água de Montségur depois de designar seu sucessor.

Você, imagino.

De fato. Eu era a mais idosa, porque Esclarmonde tinha conservado seus 15 anos. A irmã dela, Philipa, que havia es­capado do auto-de-fé por ser católica, tinha se unido a nós em um segundo momento, e tinha um ano a menos.

Esses detalhes não me interessam, velha. Prossiga.

A cerimônia foi fantástica. O bispo se jogou nas águas, que começaram a ferver enquanto o vento uivava nas gru­tas. Mas nenhum de nós tinha considerado o fato de que ele, como nós todos, tinha continuado a absorver uma grande quantidade de erva da saúde. Quando o tumulto das águas cessou, nós o vimos emergir e arrastar-se nas rochas. Não tinha mais pêlos, parecia mais magro, mas estava vivo.

Mas sem alma - disse Eymerich, fingindo uma concen­tração que, na verdade, estava diminuindo. Já fazia algum tempo que estudava uma forma de libertar-se.

Exato, sem alma. - A mulher olhou as centelhas da cha­ma da tocha. - Seus olhos estavam vazios e só conseguia concatenar os movimentos. Tinha perdido o poder da pala­vra. Para nós ficou claro que seu espírito tinha finalmente se libertado, e por isso agradecemos ao Senhor. Muitas ve­zes lhe agradecemos nos anos seguintes, quando um dos nossos atingia a perfeição e conseguia separar a alma do corpo.

Mas você não a atingiu, porque ainda está incólume.

A mulher franziu a testa. - Como bispo assumi o com­promisso de assegurar à comunidade dos crentes uma con­dição tranqüila antes de completar minha tarefa espiritual. Mas onde encontrar segurança, se toda a França meridio­nal já estava nas mãos da Inquisição? Por sorte, tínhamos alguns amigos que não pertenciam a nossa confissão mas se compadeciam com nosso sofrimento. Sendo forçados a fugas ininterruptas, nós confiamos a eles a custódia das fontes e dos corpos de nossos Perfeitos, que chamávamos de lemures.

Por que lemures? - perguntou Eymerich.

E o que eram, senão sombras? Mas nós, os cátaros, não podíamos matar aqueles corpos, nossa fé nos proíbe de matar. Nós os deixamos com os homens de que falei, os guardiões das águas de Betesda. Para que cada irmão nosso pudesse um dia reconhecê-los, pedimos a eles que adotas­sem um nome que fosse um anagrama da palavra lemures e o deixassem a seus sucessores.

Semurel - murmurou Eymerich.

É, Semurel. Chegamos a ele depois de muito tempo e muito sofrimento. De vez em quando, alguns dos nossos era identificado e queimado. Em alguns casos conseguía­mos salvá-los da fogueira graças à erva da saúde. Foi o que aconteceu com Pierre Authié, que tinha quase conseguido reconstruir nossas fileiras. Mas muitos outros foram mor­tos. Você sabe o que significa passar 120 anos atormentado pelo pesadelo do fogo?

Eymerich fez menção de replicar, mas a mulher conti­nuou. - Uma das perseguições mais brutais foi aquela que você mesmo comandou em Castres. Foi então que decidi­mos deixar a França e nos transferir para Savóia, onde al­guns anos antes nossos exploradores tinham identificado uma fonte de Betesda, que depois acabou sendo esquecida. Nós, os sobreviventes, nos pusemos mais uma vez em mo­vimento e atravessamos os Alpes. Em Châtillon, pedimos abrigo a Semurel, filho de outro Semurel, guardião da fon­te. Pela primeira vez tratava-se de um nobre, e isso nos as­segurou alguns anos de calmaria.

Até minha chegada - concluiu Eymerich com uma ri­sada de deboche.

A mulher dirigiu-lhe um olhar sério, mas sem sombra de rancor. - Já estávamos enfrentando alguns problemas.

Durante anos, o povo daqui jogava nas águas de Bellecom­be os animais mortos de carbúnculo, convencido de que dessa forma eliminaria a praga. Quando nossos Perfeitos se submeteram à cerimônia de separação da alma do corpo, alguns deles voltaram à tona com partes de animais. O pri­meiro deles foi um homem-burro, depois vieram outros. Vi aflorar até um corpo de rato com dedos humanos no lugar das patas, evidentemente fruto do afogamento de um dos roedores que infestam a torre.

Isso deveria demonstrar a origem diabólica, e não divi­na, dessas ressurreições.

E por quê? O que importa o corpo se a alma está livre? - A mulher deu um repentino passo para trás. - Minha his­tória terminou. Agora você já pode deduzir qual será seu destino.

Esse brusco final de conversa surpreendeu Eymerich, que ainda não tinha conseguido elaborar um plano de fuga. Um tanto perdido, ele perguntou: - E qual será? A fogueira?

Não. Você será entregue ao carrasco, que o jogará nas águas sob a torre.

Um arrepio percorreu Eymerich à recordação daquele abismo fétido.

Então serei afogado? - perguntou com voz rouca.

O rosto da velha tinha virado uma máscara de pedra.

Não, não vai morrer. Nós não matamos. Você sairá da água vivo, e talvez semi-imortal.

Mas minha alma será separada do corpo?

Sua alma já está separada de seu corpo. Quod divisum est divideri non potest.

Eymerich sentiu acender-se internamente uma fraca cen­telha de esperança. - Então vou voltar como eu mesmo. Vivo!

A mulher o olhou com frieza. - Estará vivo, sim. Mas lou­co. Por toda a eternidade.

Muitas horas depois, o condenado percebeu que estava vol­tando à tona. A seu redor, na água borbulhante, tornava a aflorar a miríade de baratas que o tinham acompanhado na queda, lançado do abismo pelo carrasco que Semurel tinha arranjado especialmente para a ocasião.

Sentiu novamente nos ombros a investida do vento im­petuoso. Então tentou reabrir os olhos, mas não viu nada.

Sua mão tocou uma rocha. Ele se segurou mais por ins­tinto do que por escolha consciente. Ao redor só havia escu­ridão, mas a escuridão mais densa estava em sua mente.

Arrastou-se pela superfície de pedra, gesticulando e contorcendo-se. Quis falar, mas a boca, ainda cheia de fo­lhas de dama-nua, o impediu. Produziu um som gutural sufocado pelo uivo do vento.

Tentou ficar ereto, mas só pôde manter-se ajoelhado, com um pé imerso na água quente. Então cuspiu as folhas e gritou. Desta vez o grito conseguiu superar o vento e ecoar pelas paredes da torre.

- Quem sou eu?

E novamente: - Quem sou eu? Quem sou eu? Quem sou eu?

Ninguém respondeu.

 

                               RACHE - O ÚLTIMO ELO

- O que o senhor acha? - perguntou Loomis, muito pálido.

O chefe da clínica parecia cansado. - Não sei. Sem dú­vida é uma forma de delírio, mas um delírio terrivelmente coerente. Totalmente insólito sob hipnose.

O robusto padre parecia adormecido, como acontecia toda vez que o interrogatório era suspenso. A terapeuta, exausta, estava largada em uma cadeira e apertava os olhos com o polegar e o indicador na base do nariz.

Delírio, hein? - comentou Loomis. - Mas um delírio não deveria incluir fragmentos de realidade?

O psiquiatra, pensativo, concordou. - Sim. Porém o úni­co elemento real entre os que o paciente cita é meu sobre­nome, Semurel. Mas poderia também referir-se a um ante­passado meu. Nós, os Semurel, moramos no Vale d'Aosta há inúmeras gerações.

Loomis esticou o pescoço, fechando um pouco os olhos. - Então o senhor não exclui a hipótese de que o relato desse padre seja verdadeiro.

O que posso dizer? A lógica induz a isso, mas é um rela­to tão detalhado... Se eu entendesse dessas baboseiras, pen­saria em parapsicologia, metempsicose ou coisas assim.

A voz da hipnotizadora chegou cansadíssima pelo interfone. - Doutor Semurel, posso encerrar a sessão?

Não - grasnou Loomis. - Ainda não. Em vez disso, mude a abordagem. Peça-lhe que seja sintético. Já sabemos o suficiente sobre a Idade Média.

A doutora o olhou sem se esforçar para esconder a anti­patia que aquele homem lhe inspirava. - Eu sou subordina­da ao doutor Semurel.

Que por sua vez está subordinado a mim - replicou Loomis com uma risadinha irônica. - Certo, doutor?

O psiquiatra não reagiu à humilhação. Dirigiu-se à terapeuta: - Se puder, induza-o a deixar os detalhes de lado. Estamos interessados em sua vida atual.

A mulher encolheu os ombros e inclinou-se sobre o pa­ciente.

Padre Jacinto... Padre Jacinto Corona... O senhor pode me ouvir?

O padre abriu os olhos. A luz que agora, com o sol alto, entrava forte do parque não pareceu incomodá-lo. - Posso, mas estou cansado - limitou-se a sussurrar.

Um último esforço. Me conte resumidamente o que aconteceu depois da condenação de Eymerich e como viveu até hoje. Peço-lhe que seja conciso.

O homem suspirou profundamente. Depois sua voz saiu átona porém fluida. Falava com muita lentidão. - Fecharam-me nos subterrâneos do castelo de Ussel, em uma das duas pequenas celas que se comunicavam entre si. Quando levaram o magister embora, a velha cátara veio falar comigo. Contou sobre o que aconteceria com Eymerich, sobre o as­sédio de Montségur e sobre os efeitos da dama-nua quando misturada à água sulfurosa. Foi a última pessoa que vi nos dois anos seguintes além do empregado do senhor Semu­rel, que trazia todos os dias alguma coisa para eu comer...

Resuma - interrompeu a doutora. - Deixe de lado os detalhes.

O padre Jacinto suspirou novamente. - Certo. Talvez te­nham me esquecido, ou talvez não soubessem o que fazer comigo. Eu era menos importante do que Eymerich, e no fundo também menos culpado, na opinião deles. Um dia um empregado deixou a porta da cela aberta. Tenho certe­za de que fez isso de propósito. Eu fugi. Fui até Provença, usando os meios de transporte que apareciam, pensando em atravessar os Pireneus e voltar à Espanha. Eu carrega­va um saquinho com sementes de dama-nua, colhidas na travessia dos Alpes. Parei em Carcassonne e me apresentei aos dominicanos. Eles me acolheram amigavelmente e me reintegraram à Ordem, graças ao apoio de um velho amigo. No caminho para o reino de Aragão, passei uma noite em Lourdes...

Loomis fez um gesto de nervosismo. A terapeuta perce­beu e disse com voz cada vez mais cansada: - Por favor, pa­dre Jacinto. Seja breve.

Isso é importante - protestou o padre, readquirindo por um instante a vivacidade no timbre da voz. - Foi em Lourdes que engoli as sementes de dama-nua. Tinha me abrigado em uma gruta açoitada pelo vento, onde brotava uma pequena fonte de água quente. Engoli as sementes e deitei no riacho que escorria entre as rochas, apesar de ser cético quanto aos resultados...

Loomis afastou bruscamente o psiquiatra e inclinou-se sobre o microfone, apesar de não ser necessário. - Estamos aqui há horas - grunhiu. - Não precisamos de mais detalhes sobre fontes milagrosas. Doutora, faça com que ele conte so­bre os últimos anos. Preciso tomar o avião, no máximo, até hoje à noite.

Um momento. - Era o chefe da clínica quem estava fa­lando, com indiscutível energia. Loomis olhou para ele com rancor, mas não ousou interrompê-lo. - Um momento - re­petiu o doutor Semurel. - Doutora, pergunte ao paciente se ele sabe por que o cólquico não alterou suas faculdades mentais, como aconteceu com Eymerich e aqueles que ele definiu como lemures.

Quando a mulher fez a pergunta, o padre Jacinto esbo­çou uma espécie de sorriso. - Tudo depende da quantidade de dama-nua. Se for pouca e seca, como aquela que os cátaros engoliram em Montségur, a mente permanece intacta.

Porque não altera a enzima colinesterase - murmurou Loomis. - Graf chegou a essa conclusão.

O que o senhor disse? - perguntou Semurel.

Loomis encolheu os ombros. - Ah, esquece.

O risco era ficar misturado com algum animal. Mas eu examinei com cuidado as águas do córrego antes de entrar. Muitos anos depois fiquei sabendo que Bernier, que foi sol­to também e, como eu, conhecia os segredos dos cátaros, teve um destino horroroso. Na fonte em que entrou, tinha se afogado um cachorro...

A terapeuta viu através da vidraça um novo sinal de im­paciência de Loomis. Decidiu prevenir a inevitável explo­são de ira. - Agora, padre Jacinto, limite-se a responder às perguntas, sem acrescentar nada. Entendeu?

O padre apertou os olhos e virou a cabeça para o lado oposto ao da janela. O suor escorria por sua testa. - Entendi.

Por que hoje o senhor é jesuíta se há muitos séculos era dominicano?

Fui obrigado por quase trezentos anos a abandonar todos os conventos que tinham me hospedado. Os outros frades envelheciam, e eu não: corria o risco de ser acusado de bruxaria. Em 1633 conheci em Treviri um padre jesuíta, Friedrich von Spee. Havia sido um inquisidor como eu, mas no fim tinha criado horror pela Inquisição, combatendo seus métodos em um livro. Os dominicanos o odiavam. Eu encontrei nele tanta abertura e generosidade que me deixei convencer a entrar para a Companhia de Jesus. Lá decidi contar minha história, tanto a von Spee como a meus no­vos superiores. Estava velho demais para continuar levando uma existência sem raízes e sem um refúgio.

Até que enfim chegamos lá! - exclamou Loomis. - Per­gunte qual é a relação dos jesuítas com as fontes.

O padre Jacinto pareceu achar a pergunta muito óbvia. - Meus superiores acreditaram na veracidade de meu rela­to e me acolheram fraternamente na Companhia. Mas me obrigaram a manter o mais absoluto segredo. Creio que eles nem tenham informado as autoridades vaticanas. Com a morte de von Spee, em 1635, só eu, o geral da Companhia e pouquíssimos outros conhecíamos o segredo da dama-nua. Fui encarregado de zelar pelas fontes de Betesda, e a in­cumbência me foi renovada por todos os gerais que foram se sucedendo na cúpula da Ordem. Por mais três séculos executei com zelo o meu dever, deslocando-me de um ponto a outro do mundo à medida que meus companheiros enve­lheciam demais em relação a mim. Mas, há uns quarenta anos, ocorreu um imprevisto.

Ou seja? - perguntou a terapeuta, que agora parecia curiosa.

Um sujeito chamado Viorel Trifa, ex-Guardião de Fer­ro e chefe de uma igreja muito suspeita de exilados rome­nos, começou a visitar, uma após a outra, todas as fontes milagrosas que eu era encarregado de vistoriar. Como se tratavam em sua maior parte de santuários e de fontes ter­mais, a ação poderia parecer inofensiva. Mas Trifa fazia perguntas muito bem embasadas, e tentava se aproximar especialmente dos descendentes dos antigos guardiões dos lemures.

Agora Loomis estava tenso e atento como uma ave de rapina. - Pergunte se foi nessa ocasião que ele tentou se in­filtrar entre nós.

O padre Jacinto ignorou a pergunta. - Cometi o erro de acreditar que Trifa agia sozinho, e que sua igreja sim­plesmente queria compartilhar nosso segredo. Desperdicei muito tempo seguindo seus deslocamentos, sem perceber que depois de cada passagem dele uma organização inteira continuava a obra. Quando me dei conta, toda a progênie dos antigos guardiões das fontes já havia sido contatada e recrutada pela organização de Trifa, a RACHE. Seu verda­deiro nome era Hilfsorganisation, e era dirigida por crimi­nosos nazistas.

Loomis sorriu para o doutor Semurel, que não disse nada.

Nem todos os novos adeptos sabiam das reais inten­ções da RACHE. Theodore Seelmur, um jovem desordei­ro filho do guardião da fonte de Betesda no País de Gales havia sido atraído por um grupinho extremista marginal enquanto aguardava sua verdadeira afiliação. Sua cerimô­nia de iniciação deveria ser a profanação de um cemitério hebraico na França meridional. Mas conseguimos detê-lo a tempo, e agora ele está sendo processado na Inglaterra pelo assassinato de um torcedor de um time de futebol ri­val. Mas, entre todos, ele era o mais inocente. Outros, como o mexicano Mureles e o romeno Remesul, se tornaram diri­gentes da RACHE, e conheciam seus meios e fins.

A terapeuta interpretou rapidamente um leve sinal de Loomis. - E como se deu sua infiltração?

- Como já disse, estava seguindo os passos de Trifa. O caso é até cômico, se considerarmos minha idade, mas a Companhia não queria envolver muitas pessoas e pediu que eu agisse sozinho; afinal, não tinha muito a perder. Fiz amizade com Trifa e conquistei sua confiança. Fiquei sa­bendo quase imediatamente da existência da Hilfsorganisation, mas levei anos para chegar a seu organograma. Foi com horror que descobri que um biólogo nazista, chamado Jakob Graf, tinha reproduzido em laboratório os processos químicos que constituem a base do mistério da dama-nua. A RACHE, na verdade, lucrava regenerando órgãos huma­nos que depois vendia a quem precisasse de transplante; ou até arranjava sem nenhum escrúpulo, sob encomenda, corpos inteiros, tão vivos quanto os antigos lemures dos cátaros. Aqueles monstros combateram em muitas guerras, até mesmo em épocas recentes.

Loomis demonstrou certa preocupação. Evidentemente te­mia que o padre falasse demais. - Faça com que seja breve.

Nem foi necessário que a doutora renovasse o pedido. O padre Jacinto, exausto ao extremo, não tinha interesse em esticar o assunto. - Quando, em 1968, Trifa desapareceu na Romênia, fiquei na Hilfsorganisation como conselheiro de um certo coronel Dollmann, que ocupava um alto posto na hierarquia. Nos anos seguintes, fiz o que podia para criar empecilhos à organização, acompanhando, cada vez mais aterrorizado, seu desenvolvimento. Uma coisa não ficava clara para mim. De um lado, os nazistas aplicavam as des­cobertas de Graf nos laboratórios que a RACHE estava im­plantando no mundo inteiro. Mas, do outro, a atenção deles se voltava com a mesma insistência para as fontes naturais.

E o que isso tem de estranho?

Eram dois filões completamente distintos. A pesquisa das fontes não tinha nada a ver com Jakob Graf, parecia mais um retorno às circunstâncias remotas vividas por mim e por Eymerich. Trifa sabia de alguma coisa, mas nunca quis tocar no assunto comigo. Afirmava que o doutor Mureles o tinha orientado naquele caminho depois de ter estudado os milagres no santuário de Chimayò. Mas eu comecei a ama­durecer a suspeita, à primeira vista absurda...

Que seria?

Que eu não era o único sobrevivente dos horrores de Châtillon. Que alguém mais ainda estava vivo graças ao se­gredo da dama-nua e de alguma forma tinha entrado em contato com os nazistas. O nome-chave era o de Mureles...

Por quê?

Trifa atribuía a ele o desvio de percurso da pesquisa do âmbito da química, tentado por Graf, para o dos proces­sos naturais. A história do santuário de Chimayò não me convencia. Então fui para a Guatemala, com a permissão de Dollmann, e descobri a existência da mais sinistra filial da RACHE.

A doutora sufocou um bocejo. - Por que mais sinistra?

Em primeiro lugar, porque faziam nascer crianças com uma quantidade enorme de órgãos, destinadas em seguida a ser "esvaziadas" para abastecer o mercado norte-americano. Um Boina Verde americano, já conselheiro da famigera­da Companhia Cobra do exército guatemalteco, me revelou tudo isso, além de outras coisas. O nome dele era Richard Da Costa.

Que fim levou o Da Costa? - gralhou Loomis no interfone. - Por que ele desapareceu?

Quando a terapeuta repetiu a pergunta, o padre Jacin­to sorriu. - É prisioneiro da União Revolucionária Nacional Guatemalteca. O escândalo do tráfico de órgãos infantis está aos poucos vindo à tona. No momento certo, Da Costa reaparecerá para dar o toque final.

A terapeuta refletiu por um instante. - O senhor disse que havia outras coisas. Que coisas?

Mureles, em sua clínica na Cidade da Guatemala, co­lecionava monstros. Alguns eram seres sem pêlos e sem cérebro, fruto das experiências de Graf. Mas outros eram homens com crânio ou membros animais. Cabeças de cava­lo ou de burro, patas de cachorro, olhos de rato ou de lagar­tixa, pinças de inseto. Suspeitei logo que aqueles monstros eram o produto não das assépticas tentativas de Graf, mas de combinações naturais de cólquico, água quente sulfurosa e vento. Em resumo, comecei a me convencer de que alguém tinha revelado a Mureles a existência das fontes de Betesda, e que Mureles tinha tentado verificar pessoalmen­te a validade daquela hipótese.

E suas suspeitas foram confirmadas?

Não. Tive que sair da Guatemala e dirigir-me primeiro para a Romênia e depois para a França. Meus informantes tinham assinalado algumas atividades de dois descenden­tes dos guardiões dos lemures, Seelmur e Remesul. De Seelmur eu já falei. Remesul foi preso e aguarda julgamento em Bucareste.

O senhor continuou indagando sobre a hipótese da existência de outro sobrevivente?

Não, porque vocês me capturaram. Exatamente quan­do tentava verificar se não era o próprio magister, Nicolau Eymerich, aquele que ainda vivia. Quem mais poderia fa­lar-lhes das fontes?

Mas ele não deveria estar louco? - perguntou Loomis.

Quando a terapeuta repetiu a pergunta, o padre Jacin­to olhou diretamente para a vidraça. - O senhor também está.

Chega. - Loomis olhou para o relógio. - Preciso mesmo ir.

Podemos acordá-lo? - perguntou Semurel.

Sim, apesar de eu estar me perguntando até que ponto ele está realmente adormecido. - Loomis deu alguns pas­sos pelo consultório do psiquiatra e depois se virou. - Mais uma pergunta.

Diga.

É possível fazer com que ele esqueça tudo? Quero di­zer, não apenas este interrogatório, mas também seu passa­do, Eymerich, os lemures, as fontes e todo o resto.

O médico pareceu espantado. - Então o senhor acredita nessa história?

Não vamos discutir isso. É possível ou não?

É, mas com muitas sessões e um aprofundamento pro­gressivo. O paciente é difícil, o senhor mesmo viu.

Talvez não seja necessário - disse Loomis com um sorrisinho. - Mas, se decidirmos mantê-lo vivo, esteja preparado.

Estarei.

A senhorita Penland cumprimentou Loomis com um sorri­so caloroso. - Como vai, Homer?

Nada mal, Betty. Posso entrar?

Um instante, vou ver.

Betty Penland e Homer Loomis se conheciam desde 1956, quando ambos militavam no Movimento dos Traba­lhadores de Colombo, um grupinho de inspiração nazista com base em Atlanta. Agora Penland aparentava ter 25 anos e Loomis, 36.

Depois de algumas palavras no interfone, a moça sorriu novamente. - Está a sua espera, e impaciente.

Era sempre uma emoção passar pela soleira da sala mais importante de toda a RACHE, enterrada a 22 metros abaixo do solo em Santa Fé. Ao entrar, Loomis bateu os saltos e cumprimentou com o braço estendido. O velho corpulento, de cabeça raspada, estava de costas, acompanhando um no­ticiário televisivo sobre o malogrado golpe de Estado contra Mikhail Gorbachev.

Desligou o aparelho, virou para Loomis o rosto de traços rudes e sorriu. - Esqueça essa saudação. São outros tempos.

O velho alcançou com dificuldade a grande escrivaninha. A poltrona rangeu sob seu peso. Fez um sinal para Loomis sentar e começou: - Me disseram que ele foi capturado.

É - respondeu Loomis, com os olhos brilhantes. - Cha­ma-se Jacinto Corona, espanhol, padre jesuíta. Por uns tem­pos esteve infiltrado em nossas fileiras.

Já sei de tudo. Vi o vídeo do interrogatório. Mas duvido que o homem estivesse realmente sob hipnose.

Loomis concordou. - Eu também. No máximo, o tratamen­to a que foi submetido pode ter enfraquecido suas defesas.

O velho franziu as sobrancelhas. - Não devíamos ter me­xido com a água de Lourdes. Foi um erro daquele imbecil do Trifa. É culpa dele se atraímos a atenção dos jesuítas. Lourdes não devia ser envolvida. E, além disso, nem precisávamos mais de fontes milagrosas e águas curativas.

Ambos se calaram. O velho contemplou quase com afei­ção o busto de Jakob Graf, colocado em um canto da escri­vaninha. - E pensar que quando o Führer o confiou a mim, no bunker, eu reagi com desprezo - murmurou. - Devemos tudo a ele.

Loomis concordou. - Inclusive a vida.

É, inclusive a vida. Mas não só a ele. - Pensativo, o velho olhou para a volumosa caixa colocada em um can­to da sala, que contrastava com a refinada modernidade da mobília. Depois se refez. - Poderíamos usar o jesuí­ta para propor uma troca. Quantos dos nossos estão nas mãos deles?

Lamentavelmente, muitos. - Loomis contou nos dedos.

Eu diria pelo menos uma dezena, entre os quais Seelmur e Remesul. Da Costa, como o padre disse, foi capturado pela União Revolucionária Nacional Guatemalteca. Mas o pior é que com ele pegaram também o Mureles, que sabe muito mais. - Olhou para a caixa franzindo a testa.

Maldita seja a hora em que o Trifa teve a idéia de Lour­des! - exclamou o velho. Depois acrescentou, mais calmo:

É, acho que vão aceitar a troca. Onde capturaram o padre Corona?

Perto de Châtillon, uma vila do Norte da Itália. Estava examinando os restos de uma antiga fonte que no passado tinha nos interessado também, mas que acabamos deixan­do de lado porque as águas haviam sido transpostas des­de 1600 para a pequena cidade vizinha de Saint Vincent. A presença do jesuíta nos havia sido sinalizada exatamente pelo doutor Semurel.

O velho virou a poltrona e observou o mapa pendurado atrás dele, marcado com inúmeros pequenos círculos. - Nor­te da Itália. Sei. E agora ele ainda está em Saint Vincent?

É, na clínica do Semurel. Pensávamos em transferi-lo para a nossa filial de Betesda, em Ohio, e depois submetê-lo ao tratamento de sempre.

Não. Vamos parar com a comercialização de órgãos e corpos. O mercado já foi saturado pelos pequenos produto­res. - O velho tornou a girar a poltrona. Indicou o busto de Graf. - Graças àquele homenzinho tão insignificante conse­guimos nos tornar quase imortais e depois financiar nossos projetos comercializando corações, pulmões e corpos revi­talizados. Mas agora tudo isso acabou.

Está pensando em passar à terceira fase?

Os olhos do velho se iluminaram. - Sim. A regeneração da raça. Um grupo de imortais que governa poliplóides com corpos atléticos e fortes como touros. Nos próximos meses daremos início à reação em cadeia da colquissulfetilbiclorase em um primeiro grupo de embriões humanos, depois só teremos que esperar pelos resultados. E tempo é o que não falta. - Deu um sorrisinho que logo se apagou. - Nada de tratamento para o prisioneiro. Só procurem entender o que ele estava fazendo na vila onde foi encontrado.

Tive acesso a um relatório do Semurel, que prossegue com os interrogatórios. Parece que ele estava rondando os restos de uma antiga torre sobre a fonte que mencionei. Ti­nha até alugado uma escavadeira para remover uma pilha de pedras. No dia seguinte, Semurel tentou repetir a opera­ção para descobrir o que o padre estava procurando, e teve uma curiosa surpresa.

Que surpresa?

- Dos escombros removidos saiu um sujeito de meia-idade que, sabe-se lá como, estava aprisionado lá embaixo. - Loo­mis saboreou o assombro do velho. - Era um louco vestido de trapos, com os olhos fora das órbitas. Com ele saiu uma fileira de baratas. O senhor imagina quem poderia ser?

Eymerich? - arriscou o velho.

Loomis confirmou. - Realmente acho que sim. O padre Corona estava se convencendo de que poderia ser ele nosso informante sobre as fontes de Betesda. - Deu uma rápida olhada na grande caixa. - Ele nem imagina a verdade.

Vocês o interrogaram?

Ah, não. Ele sobreviveu, isso é certo, mas está louco. Balbucia sem parar em uma língua parecida com o francês. A não ser o próprio nome, Eymerich, claro, repete uma só frase.

Que frase?

"Quem sou eu?" - respondeu Loomis, rindo. Os olhos de Martin Bormann assumiram uma breve expressão risonha.

Depois que Loomis saiu, Bormann chegou perto da caixa que estava no canto. Mexeu em um dos lados, que se abriu como uma porta, deixando à mostra uma grade de madeira feita de hastes muito próximas umas das outras. Ouviu-se um movimento convulso, como o de um corpo se deslocan­do em um pequeno espaço.

Você ouviu, Bernier? Até seu velho mestre ainda está vivo. Vocês estão se tornando um grupo grande, homens da Idade Média.

Ouviram-se outros ruídos, depois uma voz incrivelmen­te rouca murmurou: - Homens?

Bormann riu. - É, no seu caso a definição é um pouco arrojada. Por quanto tempo você foi atração nas feiras itinerantes?

Houve um curto silêncio, depois a voz sussurrou: - Sé­culos.

Isso mesmo. Até que Mureles o descobriu em um bar­racão na Cidade do México. Agora ele está nas mãos de nos­sos inimigos, mas não vai permanecer por muito tempo. - Bormann já ia fechando a porta. - Agora preciso trabalhar. Você quer alguma coisa, Bernier? Um biscoito?

Uma pata de cachorro passou entre as hastes. A voz res­soou suplicante e cavernosa. - Quero morrer.

Não, Bernier. Você ainda é útil para nós.

Bormann fechou a caixa com uma batida seca. A pata se retraiu bem a tempo. Ouviu-se um ganido sufocado, que parecia um soluço. Depois mais nada.

 

                                           Epílogo

A voz do condenado continuava ecoando pela fissura na base da torre. Eymerich a escutou franzindo a testa, depois se voltou ao senhor de Berjavel. - Fica perguntando quem ele é. O que significa?

O notário encolheu os ombros. - Está totalmente louco. Não suportou a idéia de ter o destino que era reservado ao senhor. Ele, Eymerich de Quart, o poderoso bispo de Aosta.

O mestre Philippe, apoiado ao cabo da picareta, assentiu. - Deixou de ser ele mesmo depois da substituição, en­quanto eu o arrastava até aqui. Ficava repetindo: "Mas eu sou o outro Eymerich". Estava cada vez mais atrapalhado.

Os campanários dos vales tinham acabado de anunciar a primeira hora. Os raios de sol começavam a despontar no oriente, por trás da cadeia de montanhas, fazendo reluzir o candor das geleiras. O frio era intenso, mas Eymerich não se incomodava. - Mestre Philippe, comece seu trabalho - ordenou. - Basta rachar a arquitrave para fazer ruir esta abertura. Aquele defensor de hereges ficará lacrado aqui para sempre.

O notário arqueou as sobrancelhas. - O senhor quer con­dená-lo à morte?

O inquisidor fez um gesto de indiferença. - Se Satanás, que é o patrono dele, for benévolo, fará com que morra logo. Mas eu espero que permaneça vítima da maldição de seus amigos cátaros e viva por séculos naquele poço. Por isso en­chi a boca dele de dama-nua. Terá tempo de meditar sobre o destino de um bispo indigno.

Philippe fez um arco com a picareta no ar. Bastou uma pan­cada na arquitrave. Da ponta da ferramenta jorrou uma ca­choeira de detritos. Depois ouviu-se um baque seco e uma massa de pedras velhas ruiu, levantando uma nuvem de poeira. Os três homens saíram rapidamente de perto. A superfície de um lado da torre se rompeu, descobrindo as grandes pedras que constituíam a estrutura. O acesso à cis­terna ficou totalmente encoberto.

Eymerich contemplou pela última vez a construção, depois, seguido pelos companheiros, encaminhou-se na direção dos cavalos que pastavam nas margens da clareira. - Eu lhe devo a vida, senhor de Berjavel - disse com uma espécie de sorriso.

É meu destino que o senhor intervenha nos momentos cru­ciais de minha existência, trazendo-me uma ajuda decisiva.

O pequeno notário encolheu os ombros. - Eu não cha­maria isso de destino. Foi o senhor quem ordenou que eu ficasse no castelo, prevendo uma possível volta de Semurel. E foi também o senhor quem me ordenou fingir uma traição caso a situação ficasse complicada.

- É um bom costume deixar sempre uma escapatória

disse o inquisidor, com simplicidade. Depois acrescentou:

Não, senhor de Berjavel, sem sua sagacidade eu estaria perdido. Não fui eu quem lhe ordenou usufruir dè suas cre­denciais de Avignon junto ao bispo e oferecer-se para levá- lo de volta a Aosta.

Philippe, que estava ajustando os arreios de seu cavalo, desatou a rir. - Não se subestime, magister. Sem querer di­minuir os méritos do senhor notário, foi o senhor quem de­terminou que eu fingisse abandoná-lo, em caso de perigo, e entrasse em contato com o senhor de Berjavel. O senhor tinha previsto tudo.

Eymerich montou na sela e agarrou as rédeas. Abanou a cabeça. - Não, nem tudo. Só quando a velha contou que eu seria entregue ao carrasco dos Challant eu entendi que ain­da tinha uma esperança. Ebail tinha dito que não dispunha de carrasco.

O senhor de Berjavel assumiu um ar de espertalhão.

Ebail é um estúpido. Quando eu disse que tinha um car­rasco para indicar, ele nem desconfiou.

Mérito de seus títulos, e da garantia do bispo.

Cavalgaram em silêncio.pela floresta, banhada pelos pri­meiros raios de sol. Só depois que a atravessaram e chega­ram ao caminho que ladeava a vila dos leprosos, puseram os cavalos lado a lado e recomeçaram a conversar.

Quantos mortos nesta história... - murmurou Eyme­rich, lançando uma olhada nas longínquas ruínas de Bellecombe, que ainda fumegavam. - O dedo de Satanás semeou de luto este lugar.

É necessário acrescentar os três soldados da escolta do bispo que precisei estrangular na saída de Châtillon - disse Philippe. - Espero que o senhor me dê a absol­vição.

Darei, mas não há necessidade. Aqueles militares ser­viam a um projeto hostil à Igreja. Não eram homens, eram corpos. - Involuntariamente, Eymerich pôs as mãos nas pernas, como se quisesse saber se ainda estavam no lugar.

Reprimiu logo o gesto. Nunca se sentira tão seguro da pró­pria identidade, e tão forte.

O notário assumiu um jeito furtivo. - De agora em dian­te, precisamos ser cuidadosos. Não devemos ser vistos.

Ah, certamente não estão nos procurando, nem pro­curarão por muito tempo. Pensam que eu estou fechado na torre, e vocês, viajando com o bispo para Aosta. Por sorte, ninguém quis assistir a minha "execução".

Talvez a velha quisesse - disse Philippe -, mas eu me afastei com o senhor quando ela ainda estava interrogando o padre Jacinto. Além do mais, os dois oficiais que estavam comigo constituíam uma garantia.

Onde escondeu os cadáveres?

Logo depois da ponte fora da vila. Por eles, eu não lhe peço a absolvição. Serviam Semurel e, portanto, o Maligno.

Tem razão.

No pequeno assentamento de choupanas, no lado es­querdo da picada, a vida parecia ter voltado a sua miserá­vel tranqüilidade. Viam-se crianças descalças brincando no barro, os corpinhos roídos pelas doenças, e mutilados e leprosos que se arrastavam de um lado para outro sem objetivo aparente.

Quem cuidará desses desgraçados no futuro? - per­guntou o senhor de Berjavel.

Semurel, suponho. Não esqueça que ele ainda está em seu lugar. - Um véu de ira atravessou os olhos de Eymerich. - Acho que não conseguirei puni-lo como gostaria. Nem a Ebail. A participação dos dois na cruzada terá seu peso em Avignon. Ou estou errado?

Não está - confirmou o notário. - Quando o pontífice souber de toda a história, tomará as devidas medidas contra os cátaros sobreviventes. Relevará até o desaparecimento do bispo de Aosta. Mas não há como esperar que enfrente abertamente Amadeu de Savóia e seus vassalos, entre eles Ebail. É triste, mas é assim.

É o que eu penso também. - O olhar de Eymerich se deteve, penalizado, sobre duas mulheres que mancavam entre os casebres, amparando-se em longos bastões para manter-se em pé. - Esses infelizes não devem temer os no­bres, mas um inimigo pior.

Qual?

Os pequenos burgueses como o boticário. Se um dia vencerem os nobres e conseguirem constituir a prefeitura livre deles, serão muito mais ferozes que os antigos patrões. Não têm nenhum código moral além do lucro, detestam os poderosos porque não conseguem imitá-los. Mas, mais do que tudo, odeiam os pobres, espelho vivo de sua origem. E de seu possível destino. - Encolheu os ombros. - Mas essas são coisas que não nos interessam mais. Agora precisamos pensar no caminho mais seguro.

Olharam para o pico de Ussel, agora bem visível, e os telhados de Châtillon. Eymerich estendeu o braço. - Vamos beirar o rio, mantendo-nos encostados à vegetação. Em caso de perigo, poderemos desaparecer em um instante.

Enquanto deixavam a picada e entravam pela mata, ten­tando mimetizar-se entre as sombras dos abetos, o notário perguntou: - O que acontecerá com o padre Jacinto? Será que o senhor conseguirá libertá-lo?

Eymerich balançou a cabeça. - Vou tentar, mas temo que seja inútil. Não chegaremos a Avignon tão cedo, isso se con­seguirmos. Até então o padre Jacinto já terá sido julgado e condenado. - Endireitou-se na sela. - Veja só, senhor de Berjavel, Jacinto carregava com mais prazer a cruz que a espada. Mas hoje em dia a Igreja precisa de espadas mais afiadas que as dos príncipes. E a Inquisição é a arma mais cortante de que dispõe.

O notário sorriu. - E o senhor é sua lâmina.

Os olhos de Eymerich se contraíram. - O que importa é saber onde é preciso atacar. Onde há indisciplina, tolerância com as idéias heréticas, estúpidos discursos de compreen­são para os pecadores, lá escorre a jugular de Satanás. Desta vez eu falhei em parte, mas já estou pronto para o próximo ataque. Fazer esguichar sangue corrompido não é cruelda­de, é um remédio. Tão salutar quanto uma sangria.

Continuaram cavalgando na direção do rio, cujas águas geladas brilhavam no fundo do vale, iluminadas por um sol que não aquecia. 

 

                                                                                Valerio Evangelisti

 

 

                      

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