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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


AS IRMÃS DE DAVID / Moira Forsyth
AS IRMÃS DE DAVID / Moira Forsyth

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

AS IRMÃS DE DAVID

 

- Estás a ver esta fotografia? Esta aqui; é a minha mãe, Faith, a percorrer o trilho entre os maciços de Lilases. Não é uma boa fotografia... o Sol está por detrás dela, o que impede que se lhe veja o rosto.

 

Eleanor estava ajoelhada entre várias caixas de cartão prensado, mostrando a fisionomia de desamparo de alguém que sabia de antemão que tinha um dia cheio de afazeres, mas que passara a manhã a reler cartas antigas, fazendo uma viagem ao passado. Baixou o olhar para a fotografia que segurava.

 

- Ela tem uma aparência tão franzina, tão pequena, que até se podia julgar que era um garoto com estas calças e a camisa com o colarinho aberto. Mas era assim que costumava vestir-se quando todas as outras mães usavam saias e camisolas. - Começou a espalhar os retratos, que os anos haviam esbatido, em forma de leque no soalho. - É o jardim em Pitcairn. Encontrei este maço de fotografias esquecido dentro de um sobrescrito no fundo de uma caixa cheia de livros. Olha, está aqui uma em que estamos todos... isto é, com a excepção do meu pai. Deve ter sido ele quem tirou esta fotografia. Eu devo ter uns oito ou nove anos, não achas? Tenho a franja muito comprida e por isso é que estou a franzir o nariz. A Marion está mesmo atrás de mim... e o David, é claro. Duas irmãs bem-comportadas, ao lado uma da outra, a olharem para a câmara fotográfica, e o David, recusando endireitar-se, preferindo tentar caminhar sobre as mãos.

 

Eleanor interrompeu-se, reunindo o resto das fotografias, batendo com elas para as juntar, como se fossem um baralho de cartas.

 

- Costumo associar esse dia com a tia Alice, embora não saiba bem por que razão. E o incêndio... alguma vez te falei do fogo que deflagrou na quinta dos Mackies? No celeiro? Esse episódio foi o grande drama da nossa meninice... quer dizer... pelo menos na altura pareceu-nos. Com certeza que te falei desse assunto. Mas, seja como for... fazia muito calor; no dia em que tirámos este retrato estava a trovejar. Houve um temporal durante a tarde e toda a gente disse que se ao menos tivesse chovido na noite anterior o fogo não teria tido oportunidade de se propagar. Talvez tenham sido tirados com a câmara da Alice, não me parece que ela esteja em nenhum destes retratos. - Pegou numa outra fotografia, ficando a vê-la uma vez mais. - Aqui estamos todos no banco das traseiras... a tia Mamie também está connosco, o que significa que a tia Alice não devia estar longe. E o David... que andava por perto para estragar tudo outra vez.

 

Sentou-se sobre os calcanhares, mostrando uma expressão sonhadora, pensando como era estranho que uma fotografia pudesse contar a verdade em relação a um determinado momento, mas, no entanto, não passava de outra mentira na urdidura apertada que era a vida de todos eles. Um retrato que falseava a realidade.

 

- O quê? - perguntou Eleanor, erguendo o olhar e despertando do sonho em que as recordações a haviam mergulhado. Não, tens razão. Numa altura destas, não é boa ideia estar a rever fotografias antigas. Só quando se muda de casa ou nos morre alguém é que fazemos isto, não é verdade? Em ocasiões em que as perturbações já são mais do que suficientes. - Eleanor voltou a guardar os retratos no sobrescrito amarelado pelo tempo e já com um canto rasgado. - Certo, é isso mesmo. Já me chega de tanto remexer no passado... Acho melhor voltar a guardá-las dentro da caixa.

 

As casas antigas movimentam-se pela calada da noite, numa tentativa para distenderem músculos cansados, rangendo e gemendo ligeiramente. O que não tem nada de mais, não tem a mínima importância; são pequenos ruídos que chegam a dar, em toda a sua familiaridade, uma sensação de segurança.

 

Faith despertou de um sonho que não conseguiu agarrar quando começou a dissipar-se. Todavia, ainda deixou qualquer coisa, um sabor na boca, um sentimento de consternação. John continuava a dormir, soltando um ligeiro assobiar por entre os dentes. Dentro de momentos, decerto começaria a ressonar, obrigando-a a dar-lhe uma cotovelada ao de leve no flanco. A casa, o quarto, estava tudo muito frio. Faith pôs-se à escuta, perguntando a si mesma o que é que a teria despertado: o sonho ou o choro de uma criança? Na hipótese de ter sido um dos filhos, voltaria a fazer-se ouvir, Mamã, um chamar fraco que ecoaria pela galeria; ela levantar-se-ia para ver o que se passava. Mas não ouviu mais nada. Apenas o ranger quase imperceptível das tábuas do soalho, o assentamento da caixilharia de uma janela, uma corrente de ar que levantava a ponta de um tapete leve. Frio; Faith chegou-se mais ao marido, mas não foi capaz de voltar a adormecer. Decorridos alguns momentos, levantou-se de mansinho da cama, estendendo a mão para o roupão. Tencionava ver se as crianças estavam bem, tranquilizando assim a inquietude que se apossara de si.

 

No quarto das meninas, Marion dormia de costas, hirta como um soldado, tendo em cada um dos lados uma boneca de cabelos anelados. A luz do luar entrava por uma pequena abertura nos cortinados, o que lhe permitia ver as crianças; constatou que Marion estava bastante quieta e dela não saía um único som. Faith inclinou-se por cima da cama da garota a fim de escutar a respiração da filha. Recordou-se da frequência com que fizera aquilo, muito em especial durante a primeira infância, nessas noites aterradoras em que os recém-nascidos parecem ter uma fragilidade de cristal, a tão pouca distância do nascimento, da morte.

 

Eleanor enrolara-se completamente sobre si mesma, com a roupa da cama toda desalinhada, os livros e o ursinho de peluche espalhados pelo chão. Faith endireitou os cobertores e, com cuidado, tirou o polegar da boca de Eleanor. Alguns segundos depois, quando a mãe saiu do quarto, a garota voltou a meter o dedo na boca, começando a chuchar vigorosamente sem sequer ter despertado.

 

No quarto de David, os cortinados estavam completamente abertos, como se ele se tivesse levantado da cama para os abrir já depois de se haver deitado (na esperança de conseguir avistar a raposa); os vidros estavam emoldurados por uma leve camada de gelo cintilante. Desde que tinha adormecido, David afastara os cobertores para trás, e o seu corpo formava um ângulo recto com o colchão, com uma perna pendurada para fora da beira da cama. Quando a mãe o endireitou, ficou a olhá-la com uma expressão de surpresa, olhos escuros muito abertos sem verem nada.

 

- Está tudo bem - segredou Faith -, volta a adormecer.

 

David fechou os olhos e ela foi à janela para fechar os cortinados. No jardim, o luar passeava-se entre as árvores, iluminando o solo sob uma luz de um azul-prateado, por baixo de um firmamento pontilhado por um sem-número de estrelas. As sombras deslocavam-se, separando-se e deixando ver uma figura etérea que parecia flutuar acima do relvado. Faith pensou na mulher do latoeiro que aparecera por ali havia algumas semanas, tendo a impressão de estar a vê-la à porta das traseiras, sob uma chuvada inclemente. Trazia um bebé ao colo, um menino robusto e de cabelos negros que devia ter mais ou menos um ano, o qual se debatia nos braços da mãe, esperneando incansavelmente. Apesar do rosto emagrecido e tornozelos ossudos, era por de mais evidente que a mulher estava grávida e a prová-lo a barriga enorme por baixo do cordão com que apertava o casaco.

 

Faith acolhera a mulher na sua cozinha aquecida; esta trazia apenas algumas pegas para vender. O rapazinho, que ela pusera no chão, apressou-se a ir na direcção do gato e deste para o fogão com o forno ligado, ignorando a voz lamuriada da mãe quando tentou aquietá-lo.

 

- Tem onde ficar? - perguntou Faith, sentindo um aperto no coração quando eles se preparavam para se porem a caminho, a mulher aquecida pelo chá, levando meia dúzia de pãezinhos embrulhados em papel vegetal, que ela guardara dentro da sua sacola de pano que já estava molhada.

 

- Sim, temos a carrinha - respondeu a mulher, fazendo, para grande surpresa de Faith, o sinal da cruz que desenhou no ar. Que Deus a abençoe, minha senhora. Deus a abençoe - repetiu, acrescentando mais algumas palavras que o vento levou no seu bramido que se fazia ouvir no jardim, levantando-lhe a orla do casaco. Por baixo usava uma saia de um tecido fino que se agarrava às pernas desnudadas. Faith disse uma única palavra, ”cachopos”, ao mesmo tempo que acenava com a cabeça, sentindo-se satisfeita por os seus filhos se terem mantido na sala de estar onde brincavam, sem terem tido noção da presença da mulher do latoeiro e do filho.

 

Mais tarde, John disse que Dan Mackie, da Mains, lhe contara que a mulher passava por ali todos os anos. O filho mais velho morrera de pneumonia; era acompanhada por um homem bastante grosseiro, o qual costumava fazer uns biscates nas quintas das proximidades.

 

- O Dan diz que duvida que sejam nómadas que se deslocam em grupo... em grande parte, mantêm-se juntos. Este casal é muito metido consigo próprio.

 

- E não falta muito para que ela dê à luz outro cachopo.

 

- É verdade... as coisas são assim mesmo.

 

- Na cidade as pessoas como eles... - começou Faith a dizer com alguma hesitação. - Sei bem que há muitos na mesma situação, mas não nos vêm bater à porta, isto é... regra geral não vêm.

 

- Tens tido uma vida muito fácil - retorquiu o marido na brincadeira, pespegando um beijo na cabeça de cabelos escuros antes de ir buscar mais carvão para o lume. - Criada na zona do West End de Edimburgo.

 

- Ora essa! - ripostou ela. - Tu é que quiseste viver no campo.

 

Mas nenhum deles deu continuidade ao assunto: tinham decidido de comum acordo deixar Aberdeen, uma decisão a que haviam chegado na mesma altura e pelas mesmas razões.

 

- Queremos que as crianças sejam criadas no campo - haviam eles dito aos amigos quando venderam a casa onde viviam na cidade, depois de terem descoberto Pitcairn. Mas essa não era a razão verdadeira.

 

Faith suspirou, fechando os cortinados da janela do quarto de David. Não era a mulher do latoeiro que atravessara o jardim, era apenas uma sombra ou talvez uma raposa que andasse por ali, como David acreditava. Dan Mackie dissera que ultimamente avistara uma que rondava por perto. Com o pensamento nas galinhas, ela sentia mais receio desta intrusão do que da de qualquer mulher de latoeiro ou de qualquer fantasma. Em Pitcairn não existiam fantasmas. A casa estivera desocupada durante o ano anterior a eles se terem mudado para lá. Depararam com um interior bafiento e com ratos, além de um ninho de pombos no sótão, mas era preciso não esquecer que Miss Sutherland, a última da sua família a viver naquela casa, morrera num lar para a terceira idade, tendo deixado como testemunho da sua existência nada mais sinistro de que um carrinho de mão, um agasalho velho num barracão e na despensa uma dúzia de boiões de louça que as sobrinhas não acharam que valesse a pena levar consigo. Quando compraram a casa, Faith e John também adquiriram algumas peças de mobiliário, uma vez que não tinham meios para poderem mobilar uma casa tão grande logo de uma assentada, mas as gavetas estavam todas vazias, exceptuando um ou dois botões deixados numa cómoda. Por conseguinte, ambos tinham começado uma vida nova em Pitcairn, limpando de cima a baixo, preparando a vivenda para a sua família.

 

Faith virou-se para David, observando-o enquanto ele dormia, agora mergulhado num sono tranquilo. Aconchegou os cobertores mais junto do corpo do filho, após o que saiu do quarto, fechando a porta atrás de si. Ao longo da galeria, a luz do luar filtrava-se pelas portas dos quartos que estavam desocupados. Caso não fossem devidamente fechadas, as maçanetas rodavam como que por vontade própria e as portas deslizavam pelo linóleo que revestia o chão, mantendo-se abertas. Quartos vazios, frios e escassamente mobilados com as peças de mobília de mogno e carvalho que haviam pertencido a Miss Sutherland, por detrás dessas mesmas portas. Dois anos depois de se terem mudado ainda não haviam conseguido encher a casa, não tendo dinheiro para a decorar com mobílias novas. Faith sabia que todos pensavam que ela é que optara por comprar uma casa tão grande, o que levara avante por insistência sua. Porém, ao fim e ao cabo, ela é que fora criada nos subúrbios luxuosos de Edimburgo, tendo estudado num colégio particular, uma garota com talento, com futuro, a qual descera um pouco na escala social ao casar com John Cairns. Contudo, tinha sido John quem quisera adquirir aquela casa que ele próprio descobrira, tendo decidido que a queria comprar, assim como os terrenos que a circundavam, espaço, sossego e a distância que passaria a haver quer em relação à família dela quer à dele. Faith teria preferido ter continuado a viver na cidade. Ainda que Aberdeen não fosse Edimburgo, isso não impedia que tivesse uma azáfama citadina; era uma cidade próspera e com bastante movimento.

 

Faith caminhava pela galeria, deslocando-se, como ocasionalmente continuava a fazer, com a graciosidade de uma bailarina, apoiando o peso do corpo sobre a parte dianteira da planta do pé quando o assentava no chão, movendo a perna para fora num movimento da anca ao tornozelo, com o peito do pé virado para o tecto. Como se estivesse num palco. Aconchegou o roupão ao corpo e encaminhou-se para o seu quarto. Mas, quando já se aproximava da porta, houve qualquer coisa que lhe despertou a atenção, fazendo-a parar e suster a respiração. A mesma sombra outra vez, esguia e escura, deslocando-se pelas escadas em direcção às trevas do piso térreo, onde o vestíbulo não estava iluminado, salvo pela luz que se filtrava através das frestas das portas fechadas das divisões no rés-do-chão. Pouco mais era do que um movimento ao de leve dos cortinados pesados da janela alta das escadas que davam acesso à galeria, para logo se sumir na escuridão. Sei quem tu és, disse Faith, dirigindo-se à sombra. E chegaste demasiado atrasada.

 

Tinha-se chegado a uma decisão com que todos concordavam. Não havia como voltar atrás, tanto quanto à sombra no jardim, como a que dizia respeito à das escadas, o que também se aplicava à própria Faith. Fechou a porta do quarto antes de voltar a deitar-se.

 

Numa ocasião, quando Marion tinha onze anos e Eleanor e David nove e sete, respectivamente, os três haviam ficado aos cuidados das tias Mamie e Alice. Os pais estariam fora durante duas noites.

 

- Porque será que aparecem sempre nas piores alturas? - gritou Faith, sacudindo a farinha que se agarrara às mãos quando Marion entrou na cozinha para lhe dizer que o Ford Anglia já vinha pelo caminho particular da casa. Era um automóvel novo, mas o pai dizia que a caixa de velocidades estaria avariada dentro de seis meses, dada a maneira como Mamie conduzia.

 

- Vai ajudá-las a trazerem os sacos para dentro - instruiu Faith, que fazia uma tarte para eles comerem ao jantar, depois de ela e John se terem ido embora. - Estou quase a acabar.

 

Marion e Eleanor saíram pela porta das traseiras, contornando a casa até à entrada da frente. Estava-se a meio do Verão e os canteiros que ladeavam a porta da frente floriam cheios de sardinheiras e de lobélias, trepadeiras em tons de branco e alfazema. A brisa que empurrava velozmente as nuvens espessas pelo firmamento agitou o lenço de Mamie quando esta saiu do carro, quase sem respiração, tal o esforço que fizera para que as duas chegassem sãs e salvas depois da longa viagem de Aberdeen até ali.

 

- Ora bem, deixa-me olhar com atenção para vocês - disse ela, colocando Marion e Eleanor de costas contra costas. - Mas que par! De cada vez que vos vejo cresceram quinze centímetros! E onde é que o David se meteu?

 

- Saiu com o Stanley. O Stanley é o melhor amigo dele - explicou Marion.

 

- Aposto que foram para o bosque - acrescentou Eleanor.

 

Mamie trazia uma mala em pele de um tom bege, além de vários sacos de viagem, incluindo uma caixa para chapéus. Por seu lado, a bagagem de Alice resumia-se a uma mala castanha. Porém, ainda faltava tirar uma planta envasada dos recônditos do Ford Anglia, assim como uma caixa que continha biscoitos, um embrulho do talho de que Mamie era cliente habitual (do papel castanho já tinha escorrido um pequeno fio de sangue viscoso - Eleanor recusou-se terminantemente a pegar na carne), e, por último, um bolo Dundte numa lata e uma caixa de chocolates.

 

- Já preparei mais que o suficiente para eles comerem - disse Faith, manifestamente ofendida, ao ver toda aquela comida que Marion e Eleanor colocaram em cima da mesa da cozinha.

 

- Estou certa disso, mas os cachopos são capazes de comer este mundo e o outro - retorquiu Mamie, que acabara de entrar na cozinha, tirando o chapéu. A cabeleira de cabelos tufados tinha-se acachapado, apressando-se ela a afofá-la depois de se ter olhado ao pequeníssimo espelho fixo na parede, ao lado da ombreira da porta das traseiras. (Aquele era o espelho de que as crianças se serviam, tendo de subir para cima de um banco para verem se estavam ”asseadas e arranjadas” antes de irem para a escola.) - Deus me valha, pareço um trapo!

 

- Estás muito bem - afirmou Alice, que tinha entrado na cozinha silenciosamente, sem que ninguém desse por ela. Ela e Faith entreolharam-se, acenando com a cabeça, num gesto de saudação, mas sem se beijarem ou abraçarem. Alice não era o género de tia que se entregasse a grandes efusões de ternura. Contudo, as raparigas sentiam-se atraídas por ela, indo atrás de si para todo o lado, observando-a, ouvindo-a e fazendo-lhe perguntas. Davy era mais chegado a Mamie, a qual tinha sempre guloseimas nas algibeiras. Mas, desta feita, o garoto pôs-se a andar assim que recebeu o seu pacote de Smarties e o chocolate, o que fez com o intuito de partilhar os doces com Stanley, que esperava por ele no esconderijo dos dois perto do pomar de macieiras.

 

Mais tarde, as três crianças e as duas tias juntaram-se na porta da frente para acenar as suas despedidas aos pais que se afastavam no automóvel. Estes também tinham adquirido um carro novo; o que as crianças mais invejavam era a viagem que eles fariam no Morris Oxford azul. Até ao momento, o mais longe que tinham ido era a igreja para as lições de catequese.

 

- Quando é que eles regressam? - perguntou Eleanor, puxando a manga do casaco de Mamie.

 

- No domingo - respondeu Alice -, antes da hora do jantar.

 

David pegou no pau que o acompanhava sempre para onde quer que fosse, contornando a casa enquanto raspava a parede com a ponta do pau.

 

Mamie colocou um braço em volta dos ombros de Eleanor, apertando-a num gesto de afecto. Dela emanava uma fragrância de um perfume adocicado misturado com o cheiro a mentol das pastilhas que tomava para a azia.

 

- Não vale a pena estarem ralados. Têm as vossas tias para tomarem conta de vocês... Vamo-nos divertir muito, não é verdade?

- Eleanor esquivou-se do braço dela, afastando-se. Mamie meteu outra pastilha de mentol na boca. - Deus me valha, tenho as entranhas às avessas!

 

- Tu comes depressa de mais - adiantou Alice.

 

- Afinal, o que é isso da azia? - perguntou Eleanor, seguindo atrás de Mamie pelo corredor até à cozinha. Imaginava o coração de Mamie a deflagrar em chamas dentro do corpo, para depois se acalmar até ficar apenas um clarão vermelho. Não admirava, pois, que lhe doesse.

 

- É a minha velha inimiga - disse Mamie. - Mas agora vamos lá a ver quem é que vai ajudar a lavar a louça? Onde é que a vossa mãe guarda o avental?

 

Alice, porém, já o tinha tirado da parte de trás da porta de um

 

Nota: Azia: - Heartburn, em inglês, literalmente, ”coração a queimar”. (N. da T.)

 

armário, tendo começado a lavar a louça. Marion estava a postos com um pano, enquanto Eleanor se mantinha atrás da irmã à espera da louça para a arrumar. Mamie instalou-se à mesa da cozinha, tirando o maço de cigarros da sua mala de mão.

 

Durante a tarde, Alice arrancou as ervas daninhas dos canteiros do jardim da frente, mostrando a Marion como é que se fazia, enquanto Mamie se refastelava na espreguiçadeira no relvado, lendo The People’s Friend. Eleanor estava sentada ao lado da tia, fazendo uma cadeia de malmequeres.

 

- Esta é a mais comprida que consegui fazer até hoje.

 

- Tens toda a razão. - Contudo, pouco depois, quando a garota ergueu o seu trabalho para mostrar os progressos que fizera, Mamie já tinha adormecido, respirando com a boca aberta e com as pernas abertas, pondo à mostra uma saia de baixo arrendada e a parte de cima das coxas gordas onde as meias de vidro acabavam. Eleanor esforçava-se por não olhar para as pernas da tia.

 

Na primeira noite, Mamie contou-lhes uma história antes de adormecerem. David foi ao quarto das meninas, sentando-se na cama de Marion e encostando-se ao corpo maciço e confortável de Mamie, sentindo na face a macieza da camisola de angorá que ela dizia ter sido tricotada com lã de pêlo de coelhos brancos. Nas histórias, à semelhança do que se passava com as conversas, os assuntos eram sempre sobre a sua pessoa.

 

- Não sou capaz de inventar coisas - comentou ela. A Alice é que tem imaginação para isso. - Aquela história em particular estava cheia de descrições das roupas que Mamie e o tio Tom Marshall, um homem que David nunca tivera o prazer de conhecer e de quem Marion e Eleanor não guardavam muitas recordações, haviam usado aquando do casamento. Pouco depois, Mamie estava lançada e felizmente não ouviu o que David disse entre dentes: ”Isso outra vez, não, por favor.”

 

Marion deu-lhe um pontapé à socapa, para que o irmão se calasse, mas, lesto, ele conseguiu furtar-se ao pé dela. Manifestamente aborrecido, sentou-se no soalho e começou a brincar com a casinha de bonecas. Entretanto, a tia Mamie chegou à parte em que descreveria a morte atroz do tio Tom (trabalhava na polícia e morrera num acidente de viação); ela recordava-se do funeral ao pormenor, a saia e o casaco pretos que usara na ocasião, sem se esquecer do chapéu com véu. Esse episódio tivera lugar quando Marion tinha três anos. Para qualquer dos três garotos, era difícil imaginar o período que antecedera a mudança de Mamie, tendo esta deixado a Escócia para ir viver com a sua prima Alice, pelo que, na perspectiva das duas meninas, aquilo parecia-lhes ser uma história inventada.

 

- Mas, continuando... - prosseguiu Mamie. - A Alice tinha um apartamento muito acolhedor, mas não havia espaço para a minha cangalhada toda, não é verdade? Portanto, o que é que nós fizemos?

 

- Compraram a casa ao lado do parque - adiantaram Marion e Eleanor em coro.

 

- Isso mesmo, para que as duas cachopas e o cachopito que eu conheço possam ir ao lago dar de comer aos patos quando vão visitar as tias.

 

Enquanto ela falava, Eleanor virou-se, deparando com David que sacudia a casa das bonecas de um lado para o outro com todo o vigor.

 

- Pára com isso! - gritou a garota, levantando-se de supetão da cama.

 

- Porque é que hei-de parar? - perguntou David, mostrando-se perplexo e interrompendo o que estava a fazer. - É um tremor de terra. A mobília tem de ficar partida e as pessoas morrem todas.

 

- Não, não vai acontecer nada disso.

 

Durante a luta em que ambos se engalfinharam, a casinha de brincar caiu no chão entre os dois com grande estrondo: uma das chaminés soltou-se e a parte da frente estalou, quebrando-se ao mesmo tempo que os bonecos e o respectivo mobiliário se espalhavam pelo soalho. Ninguém deu pela entrada da tia Alice no quarto, mas, em apenas alguns momentos, ela conseguiu arrumar tudo, restaurando a calma. Entretanto, Mamie desceu as escadas para ir buscar cola com que repor a chaminé no telhado, enquanto a casa já fora colocada a direito e pelo menos o mobiliário voltara para dentro de casa, ainda que não tivesse sido colocado nos respectivos lugares. David disse que lamentava muito o sucedido, se bem que o seu semblante indicasse não compreender o motivo por que teria de se desculpar.

 

- Agora que já pedi desculpa, conte-me uma história - pediu ele num tom de lamúria. - Eu estava aborrecido, nunca ninguém me conta nenhuma história. - Porém, Alice apressou-se a levá-lo para o seu quarto.

 

- Amanhã - prometeu-lhe a tia. - Amanhã conto-te três histórias... uma para cada um de vocês.

 

- Mas têm de ser inventadas - avisou ele.

 

- Inventadas - concordou a tia enquanto lhe aconchegava a roupa da cama e corria os cortinados.

 

Alice sabia como contar histórias. Era uma mulher sem nada que a distinguisse das demais, mas esse não era o caso no tocante as suas histórias.

 

- Vamos ter a primeira história no quarto do David - disse ela -, porque assim ele não poderá armar uma grande confusão, partindo os brinquedos de toda a gente.

 

- A culpa não foi minha.

 

- Não, foi por culpa do fantasma mau - concordou Alice. David parou quando já se preparava para se deitar.

 

- Que fantasma mau?

 

- Põe-te debaixo dos cobertores - ordenou Alice. - Isso mesmo. As meninas... já estão instaladas? - Eleanor e Marion sentavam-se no pequeno sofá. Ambas estavam tão crescidas que só apertadas é que cabiam, mas tinham os braços à volta uma da outra, com o cabelo comprido de Eleanor a fazer cócegas no queixo de Marion, enquanto as pantufas desta, em forma de coelhos, lhe caíam dos pés para o soalho com um ruído suave. Esperavam que a tia começasse a contar as histórias prometidas.

 

- A tia disse que havia um fantasma - insistiu David, persistente. - Está dentro desta casa?

 

- Está por todo o lado - respondeu a tia Alice - onde haja meninos que se portam mal. Então, sempre que alguém faz uma maldade, existe outro ser que pode ser culpabilizado.

 

David mostrava uma expressão confusa, mas, como queria ouvir a sua história, encostou-se à almofada, abraçado ao cão de pano azul cujas orelhas já tinha mordido quase por completo, tendo-as reduzido a alguns papos.

 

A história de David era a da Acendalha. Era uma história bastante comprida que já perto do fim quase o pusera a dormir. Eleanor tinha o polegar na boca, apesar de numa ou duas vezes Marion ter tentado tirá-lo com um estalido de sucção. A tia Alice pôs-se de pé, aconchegando David entre os lençóis. Em seguida, levou um dedo aos lábios, fazendo sinal às garotas para que se mantivessem caladas. Em silêncio, as duas saíram do pequeno sofá e foram para o seu quarto, caminhando em bicos de pés.

 

A tia Alice não tinha um cheiro característico como a tia Mamie, além de ser magra e sem os contornos do corpo que o tornassem confortável. Chegada ao quarto das raparigas, ficou junto da janela, magra como um espeto, com a sua saia azul-marinho e camisola, enquanto elas rezavam a oração da noite e se deitavam.

 

- Vamos ver uma coisa - começou ela a dizer enquanto fechava os cortinados -, já está a ficar tarde... e que tal se eu vos contasse uma história esta noite e a outra fica para amanhã, antes da chegada da mamã e do papá? - Mas as duas garotas queriam as duas histórias naquele momento. Alice suspirou antes de começar a contá-las.

 

A história de Eleanor era sobre a Pequena Sereia. As duas começaram a chorar quando ouviram a descrição de como os pés dela tinham ficado dilacerados devido às pedras aguçadas, como ela se havia sacrificado por amor. Posteriormente, quando tomou conhecimento daquilo, Faith comentou:

 

- Por amor de Deus, essa história de terror! O que é que terá passado pela cabeça da vossa tia? - Faith preferia histórias como O Que Katy Fez a seguir e Mulherzinhas, era de opinião de que as histórias deviam enaltecer o bom comportamento, tendo sempre uma moral. Não tinha paciência para contos de fadas e parecia francamente irritada com a tia Alice, aliás, ela dava a impressão de estar sempre um pouco irritada com Alice. O que era uma atitude estranha porque, na opinião das crianças, era a tia Mamie que era capaz de se mostrar realmente irritante.

 

Quando a história de Marion começou a ser devidamente contada, Eleanor também já tinha adormecido. Marion, contudo, sentava-se a direito na cama, sentindo-se especial e determinada a manter-se acordada.

 

- Se a tia me contar a história - sugeriu a garota -, depois posso contá-la à Eleanor e ao Davy. - Receava que Alice pensasse que não valeria a pena estar a contar a história só para uma criança.

 

Lá fora ainda havia alguma luz do dia, ouvindo-se o chilrear dos pássaros, os quais não sabiam que já era hora de os meninos irem para a cama. A noite estava perfumada com a fragrância dos goivos e dos alissos de aroma doce que enchiam os canteiros que bordejavam a casa. Alice sentara-se num cadeirão de vime, entrelaçando as mãos sem anéis no regaço. O seu timbre de voz era baixo, parecendo que vinha de muito longe, da terra onde os contos de fadas tinham origem.

 

- Era uma vez... - começou ela - uma princesa que gostava de fazer tudo à sua maneira. Era uma menina muito teimosa e por isso, quando a mãe, a rainha, lhe dizia: ”Não descalces os sapatos e não dispas o casaco para não te constipares”, ela desobedecia-lhe sempre. Costumava sair de casa nos dias mais frios, usando apenas um vestido leve próprio para festas e calçando umas sandálias prateadas. Apesar disso, ela nunca adoecia, portanto, convenceu-se de que devia ter razão, enquanto a mãe estaria enganada.

 

Marion começou a pressentir que as consequências não tardariam, sentindo-se indecisa sem saber se a sua simpatia devia ir para a princesa malcomportada ou para a rainha sofredora de há muito.

 

- Ela costumava sentar-se na margem do rio - continuou Alice -, mergulhando os pés descalços na água. A mãe dizia: ”Não faças isso, podes apanhar uma constipação que será a tua morte.” A verdade é que ela não ligava importância ao que a rainha lhe dizia. O que aconteceu foi o seguinte: os peixes chegaram para lhe beijar os dedos dos pés, dando-lhes pequenas dentadinhas muito suaves que lhe faziam cócegas, mas de que ela gostava.

 

Subitamente, a tia Alice inclinou-se para a frente e levantou os cobertores da cama de Marion, tocando-lhe nos dedos dos pés com as mãos geladas. Com um gritinho, Marion encolheu as pernas.

 

- Não faças barulho! - advertiu a tia Alice, acenando com a cabeça na direcção de Eleanor que continuava a dormir.

 

Sorrindo, Alice voltou a sentar-se.

 

- Então, num dia muito trágico, com os outros peixinhos veio um muito grande, a nadar pelas águas escuras, e, quando viu os outros peixes que beijavam os dedos dos pés da princesa, pensou logo que ela devia ser uma coisa boa para se comer. - Marion apercebeu-se da coisa má prestes a ser revelada, desejando que Alice parasse de contar a história. Sabia, no entanto, que o fim teria inevitavelmente de ser contado. - Portanto, este peixe enorme aproximava-se por entre as águas do rio, assustando os mais pequenos que se puseram em debandada quando deram pela aproximação dele. E agora, queres saber o que é que aconteceu a seguir? O que é que esse peixe monstruosamente grande fez?

 

- Não - respondeu Marion numa voz que mal se ouvia. Não quero que me diga. - Mas Alice disse, mau grado a resposta dela.

 

- Começou por mordiscar-lhe os dedos dos pés, suavemente, mas depois gostou tanto dela - a princesa tinha um sabor tão doce - que abriu a bocarra enorme, mostrando os dentes todos muito aguçados e começando a trincar-lhe os dedos dos pés, arrancando-lhos um a um, até não restar nenhum, continuando a morder-lhe os pés, arrebatando-lhe os dedos todos, sem deixar um único.

 

- Eu pedi-lhe que não me contasse! - exclamou Marion, tapando os ouvidos com as mãos.

 

- Não te inquietes, no fim tudo se compõe.

 

Depois foi o fim da história: a procura de uma feiticeira, um príncipe que apareceu inesperadamente, o qual foi capaz de levar a cabo as tarefas que se impunham, uma aventura e, eventualmente, um feitiço que teve o condão de fazer com que os dedos dos pés da princesa voltassem a crescer. Marion, que mais tarde tentou narrar todos estes acontecimentos a Eleanor e a David, meteu os pés pelas mãos quando chegou a essa parte, tendo desistido de continuar. Talvez tivesse adormecido antes do fim da história. Não tinha a certeza.

 

- Seja como for - finalizou. - Sei que os dedos voltaram a crescer-lhe.

 

- Pobre princesa - observou Eleanor com um suspiro de pesar.

 

- No entanto, a verdade é que era malcomportada.

 

- Eu sou um tubarão - disse David, soltando um rugido e atirando-se aos pés de Eleanor -, e vou começar por comer o dedo grande do teu pé!

 

- Ora bem - disse Faith, entrando no quarto. - Quem me dera ter ficado fora de casa durante mais tempo, se é assim que vocês tencionam continuar a comportar-se.

 

- Não - apressou-se Marion a dizer, abraçando a mãe pela cintura. - Não queremos que volte a ir para longe, nunca mais!

 

Faith abraçou a filha com força, fechando-a no círculo dos seus braços. Tinha as suas próprias razões que a haviam levado a sentir algum mal-estar durante todo o fim-de-semana em que se ausentara de casa.

 

- Até vocês serem bastante mais crescidos, o teu pai e eu não tencionamos ausentar-nos outra vez.

 

Nessa mesma noite, quando foi ver se os filhos estavam bem antes de ir para a cama, sentiu um grande alívio ao constatar que os três dormiam serenamente.

 

- Não és capaz de imaginar as histórias com que as duas catatuas lhes encheram a cabeça - comentou ela, falando com John quando se preparavam para se deitar.

 

- Pois bem, de que é que estavas à espera. Nem uma nem outra tem a mínima experiência com cachopos. - Durante uns momentos, ficaram a olhar um para o outro em silêncio. Pouco depois, John acrescentou: - E agora apaga a luz. - O que Faith fez e ambos se prepararam para dormir.
Sábado à tarde: a High Street cheia de famílias. Eleanor, sentada a uma mesa do café, inclinou-se para a frente, batendo no vidro da janela.

 

- As raparigas estão ali... olha. No outro lado da rua - disse ela, voltando a bater no vidro.

 

- Elas já nos viram - retorquiu Marion, acenando com a mão; as filhas de ambas tentavam furar por entre as pessoas que andavam a fazer compras; pouco depois, ouviram a sineta da porta do café quando as garotas entraram, encaminhando-se para a mesa.

 

- Vamos ao Woolworth’s para comprar qualquer coisa bem cheirosa como prenda de aniversário da Emma.

 

- Dê-me um bocadinho do seu bolo, mamã - pediu Claire, inclinando a cabeça de cabelos louros e abrindo a boca; Eleanor deu-lhe uma colherada de bolo de chocolate. Num movimento rápido, a língua rosada lambeu um pedacinho da cobertura do bolo que se tinha agarrado ao lábio superior. - Que delícia, está muito saboroso.

 

- Vão-se embora - ordenou Eleanor. - Estamos a tentar tomar uma chávena de chá em paz e sossego

 

- Está bem.

 

- Importa-se de me dar mais algum dinheiro? - pediu Eilidh, tocando no braço de Marion. - Comprei uma revista e o papel para embrulhar as prendas custou...

 

- Quanto é que queres? Toma.

 

- Obrigada - agradeceu a garota.

 

- Até logo.

 

Eleanor e Marion ficaram a observar as raparigas que se afastavam, seguindo pela High Street e inclinando-se uma para a outra enquanto se riam à socapa.

 

- Como elas têm pernas compridas - comentou Marion -, ou será apenas impressão minha por causa das calças que trazem vestidas?

 

”E assim, aqui estamos nós”, pensou Eleanor enquanto as duas cabeças, uma de cabelos louros e a outra de cabelos pretos, desapareciam no interior do Woolworth’s. ”Aqui estamos nós, a comer bolo à tarde enquanto as nossas filhas planeiam festas, presentes e idas a discotecas; as nossas filhas são como éguas jovens a espinotearem por campos verdejantes, com crinas ao vento, experimentando os limites do território.”

 

- Tens uma expressão esquisita no rosto - disse Marion. O bolo não está a saber-te bem?

 

- Está óptimo - ripostou Eleanor, irritada, afastando o prato que tinha à frente e servindo-se de outra chávena de chá. - Estava a pensar em... tempos idos.

 

- Oh!

 

- Estás recordada - continuou Eleanor, acrescentando um pouco de leite ao seu chá - do esconderijo que o David e o Stanley, o melhor amigo dele, tinham ao fundo do jardim em Pitcairn? Não permitiam que ninguém, além de eles dois, lá entrasse. Mas, quando finalmente entrámos lá, tudo o que encontrámos foi alguns paus e papéis que tinham embrulhado guloseimas.

 

- Por que carga de água é que te lembraste disso?

 

- Não sei. Ocorreu-me ao pensamento, sem mais nem menos respondeu Eleanor, percorrendo a toalha de mesa com a ponta do dedo, fazendo um arabesco com um pouco de açúcar derramado.

- Pergunto a mim mesma por onde é que ele andará.

 

- Acho melhor não voltarmos a pensar nesse assunto. É como se andássemos em círculos sem chegar a lugar nenhum. Ele acabará por aparecer, é o que acontece sempre. Além do mais, o pai tem passado muito bem.

 

- Eu sei. Aparentemente, ele acabou por aceitar esta situação... estou a referir-me à maneira como o Davy desaparece sem dizer nada a ninguém.

 

- Acabou por se habituar - retorquiu Marion. - Sabes... acho que desde que ele continue a ter a casa de Pitcairn e o jardim sente-se feliz.

 

- Provavelmente, tens razão - concordou Eleanor. Ambas se viraram outra vez para poderem ver pela janela, como se esperassem que Claire e Eilidh reaparecessem. Porém, as duas mulheres continuavam a ver em pensamento o extenso jardim de Pitcairn, como se vissem o pai num passo firme a percorrer o trilho com o seu carrinho de mão, agora com mais lentidão e com um carrego menor, o que acontecia desde que sofria de angina do peito. Era como se o observassem, no espaço nítido que a imaginação lhes proporcionava, num lugar genuíno, como se estivessem a vê-lo em carne e osso.

 

Pouco depois, Marion começou a juntar as suas coisas e Eleanor voltou-se para pegar na sua mala de mão.

 

- De quem é a vez de pagar? - perguntou esta.

 

- Acho que sou eu - respondeu Marion, abrindo a carteira e tirando a quantia certa de entre as moedas. - Tenho a certeza de que é a minha vez. Além do mais, para variar, tenho dinheiro trocado.

 

Eleanor esperou junto da porta enquanto Marion conversava com Joan, que estava de serviço à caixa registadora, acerca do tempo e da operação a que a mãe da última fora submetida. Pouco depois, as duas irmãs saíram para a High Street, onde uma rabanada de vento abriu o impermeável de Eleanor.

 

- Tenho de dar aulas durante toda a semana - disse Marion -, por isso, só te posso telefonar na sexta-feira.

 

- De acordo. Vou ter de ir à cidade... mas tenciono voltar cedo.

 

- Está bem. Não achas que está a ficar mais frio?

 

- Sim, o tempo está de enregelar os ossos.

 

”Sentirei eu o frio mais do que a Marion?”, perguntou-se Eleanor enquanto percorria a High Street a caminho do parque de estacionamento. ”Ambas devíamos ser rijas, fomos criadas numa casa fria onde não havia aquecimento central. Usávamos camisolas interiores e meias grossas de lã cinzenta, além de casacos de fazenda azul, durante os meses de Inverno, com cachecóis à volta do corpo, atados nas costas como se fossem xailes. Com certeza que devíamos parecer umas barriquinhas, agasalhadas para nos defendermos do vento que soprava de oriente, protegidas contra a neve dos longos Invernos.”

 

Junto do quiosque das revistas, Claire e Eilidh faziam parte de um grupo de raparigas. Não muito longe delas, dois ou três rapazes exibiam-se, fazendo equilíbrio sobre as rodas traseiras das suas motocicletas, empurrando-se uns aos outros e chamando-se em voz alta para darem nas vistas. As raparigas saudaram Eleanor quando esta passou por elas; constrangidos, os rapazes ficaram a olhar para ela.

 

- Não te esqueças de que o jantar é às seis - lembrou Eleanor. - Esta noite tenciono sair. Como é que vais para casa...? Queres vir comigo agora?

 

- Não. Cá me hei-de arranjar - respondeu Claire depois de alguma hesitação. - A mãe da Sarah ficou de a vir buscar. Ela pode deixar-me no caminho da quinta.

 

- De acordo.

 

Quando Eleanor se decidiu a comprar a pequena moradia, Claire tinha nove anos, pelo que era preciso levá-la de automóvel onde quer que tivesse de ir: para a escola, reuniões de escuteiras, aulas de natação, aulas de bale... Eleanor mal conseguia recordar-se desse período de uma vida tão diferente. Esquecera-se mesmo do nome das mães e das garotas com quem Claire costumava brincar. Além de Barbara, a sua melhor amiga, e da filha, Hannah, a melhor amiga de Claire, todos os outros nomes se confundiam, indiferenciados na sua memória. Agora, Claire estava prestes a fazer quinze anos e ambas viviam num mundo inteiramente diferente. Quando escolheu a pequena vivenda onde viviam no campo, Eleanor imaginara manhãs tranquilas e noites em silêncio, ouvindo o vento a agitar a ramagem das árvores, e com muito espaço para poder respirar. Não tinha previsto a impaciência de Claire face ao isolamento em que viviam, como não lhe passara pela cabeça que haveria de chegar o dia em que ela própria não desejaria manter-se sozinha, tão distante dos outros.

 

Ela e Claire viviam na última de três pequenas vivendas numa zona rural. A quinta tinha mudado de dono antes de ela se ter mudado, de regresso à região norte, pelo que as moradias eram vendidas separadamente. A do meio fora comprada por Jim e Edie, os quais haviam vivido sempre naquela área. Jim trabalhara na quinta até se ter reformado. A outra vivenda tinha sido comprada por alguém que passara a alugá-la como casa de Verão, após o que a pusera à venda. Estivera desabitada durante todo o Inverno anterior. Com a chegada do Verão, tinha sido adquirida por um casal que se mudara para lá em finais de Agosto, mas Eleanor ainda não tivera grandes contactos com eles. Por vezes, via dois automóveis estacionados à porta, mas durante o dia não dava pela presença de ninguém em casa.

 

Eleanor era a proprietária da casa que tinha o jardim com mais superfície. Dedicava-lhe grande parte do tempo, mas os seus esforços não pareciam ter feito grande diferença no relvado mal cuidado nem nos canteiros onde as plantas cresciam um pouco ao acaso. Na casa ao lado, Jim e Edie tinham flores e legumes em carreiros bem alinhados, assim como um relvado macio como feltro verde.

 

O interior da pequena vivenda estava frio quando chegou a casa. Eleanor pendurou o casaco e dirigiu-se apressadamente para a cozinha onde o Rayburn a mantinha aquecida. Pôs-se de costas para o calorífero, deixando que o calor lhe subisse até ao pescoço, pousando as mãos na barra de metal onde os panos da louça estavam pendurados. Momentos depois, afastou-se, indo buscar o avental pendurado na porta das traseiras e começando a preparar a refeição da noite.

 

Pouco antes das dezoito horas, Claire chegou a casa, batendo com a porta e descalçando os sapatos de ténis com as biqueiras no corredor estreito.

 

- Olá, o que é o jantar? A Sarah vem buscar-me às sete e um quarto. A essa hora tenho de estar ao fundo da estrada. Há tempo para tomar um duche?

 

Mãe e filha tinham-se sentado à mesa para comer quando o telefone começou a tocar. Claire arrastou a cadeira para trás.

 

- Eu atendo... pode ser que seja a Eilidh.

 

- Diz-lhe que telefonas mais tarde - avisou Eleanor quando a filha já se afastava, mas esta regressou escassos momentos depois.

 

- É o avô John.

 

- Oh, vou já. - Eleanor colocou o prato no forno para que a refeição não arrefecesse.

 

- Paizinho?

 

- A Marion tem mais que fazer, além de só dizer coisas à toa, por isso decidi telefonar-te.

 

- Pai, importa-se que eu lhe telefone daqui a pouco. Estávamos a jantar.

 

- Está bem, afinal de contas, não te telefonei para te empatar. Pensei que talvez quisesses saber que o David regressou a casa.

 

- Quando? - perguntou Eleanor.

 

- Chegou esta tarde, como se tivesse caído do céu. Ainda bem que hoje não era o dia de eu ir jogar golfe.

 

- Chegou sozinho?

 

- Sim - confirmou o pai.

 

- Então... como é que ele está? Por onde é que tem andado este tempo todo em que não deu notícias?

 

- É melhor que venhas até cá e que sejas tu mesma a fazer-lhe essa pergunta.

 

- Durante quanto tempo é que ele tenciona ficar?

 

- Sabes bem como ele é, nunca diz nada. Pouco tempo, calculo eu.

 

- Suponho que a Claire podia ficar em casa da Marion. Esta semana ela tem de dar aulas, portanto, não poderá ir a casa do pai.

 

- Vai jantar, não deixes que a comida arrefeça.

 

- O pai está bem?

 

- Estou óptimo, cachopa, estou como sempre.

 

- Ainda bem; então, telefono-lhe dentro em pouco. Talvez nos vejamos na quarta-feira.

 

Claire lia uma revista enquanto comia. Quando a mãe voltou a sentar-se à mesa ergueu o olhar.

 

- O avô está bem?

 

- Está, mas o teu tio David apareceu de repente.

 

- Há séculos que não o vejo... desde que era pequena. Ele passou uns tempos connosco quando o pai ainda estava vivo, não é verdade?

 

- Sim, muitas vezes. Nessa altura, ele trabalhava em Londres.

 

- Onde é que ele vive agora?

 

- Oh, acho que... talvez em Edimburgo - respondeu Eleanor.

 

- Mamã, ele é seu irmão, tem obrigação de saber isso!

 

- Ele nunca pára muito tempo no mesmo lugar - retorquiu Eleanor, rindo-se.

 

- Ele tenciona fazer-nos uma visita?

 

- Não sei. O avô quer que eu vá a Aberdeen para o ver.

 

- Posso ir com a mãe?

 

- Tens aulas, por isso não podes ir.

 

- Eu podia faltar e não faria qualquer diferença; nesta altura as aulas são bastante aborrecidas. Seja como for, não estamos a aprender nada de novo.

 

- Não sejas pateta, Claire.

 

- Eu até gostava dele... do tio David. De todas as vezes que nos visitava, costumava trazer presentes, aqueles bonecos que pareciam pessoas, a mãe lembra-se? Ainda os tenho guardados no sótão.

 

- Foi o David que te ofereceu isso? - Eleanor começou a pensar nesse outro mundo, em Berkshire, a casa nova, e lan a chegar a casa às sete da tarde no comboio de Londres, no meio de uma enchente de pessoas que todos os dias iam trabalhar na capital. O calor dentro do automóvel, Claire sacudida de um lado para o outro no assento de trás, e as outras mulheres com as suas crianças pequenas e cães, à espera no parque de estacionamento onde não se via uma única árvore, sob um sol escaldante de Junho que aquecia o pavimento asfaltado, reflectindo-se no metal dos carros. Até que, finalmente, lan saía do comboio com os outros homens, com o casaco preso por um dedo por cima do ombro, o nó solto da gravata, todo amarrotado e suado depois da viagem de Londres, trazendo o Evening Standard dentro da pasta.

 

- Não me parece que seja justo. A mãe pode ir para qualquer lado sempre que lhe apetece, enquanto eu tenho de ir todos os dias à escola, o que é uma chatice - protestou Claire, amuada, afastando o prato enquanto Eleanor ia à cozinha, onde a luz do dia já desaparecera quase por completo, obrigando-a a acender a luz eléctrica; ouvia os pingos de chuva que batiam contra a janela.

 

- O que estás a dizer é um disparate. Eu nunca vou a lado nenhum - disse Eleanor, empilhando os pratos e levantando a mesa.

 

- Vou tomar duche, não é verdade? - perguntou Claire.

 

- Não gastes a água quente toda. - Mas a filha já tinha saído da cozinha. Eleanor mergulhou nos seus devaneios, e com uma mão-cheia de talheres começou a recordar os anos em que estivera casada, pensando no irmão David.

 

Às dezanove horas levou Claire de automóvel até ao fundo da estrada da quinta, ao encontro da mãe de Sarah no portão. Chovia com muita intensidade e ficaram sentadas no escuro, com a chuva a escorrer em catadupa pelas janelas; o motor do carro continuava a trabalhar, para que a temperatura no interior se mantivesse aquecida, e as luzes estavam ligadas para que a mãe de Sarah pudesse ver o automóvel.

 

- Os vidros estão a ficar todos embaciados - observou Claire, limpando o vidro da janela do seu lado com a manga do agasalho, perscrutando a escuridão com uma expressão abstracta.

 

- Amanhã vou-te buscar a casa da Emma, não é verdade?

 

- Sim. Mas eu telefono-lhe. Talvez à hora de almoço. - Virou-se para Eleanor. - Onde é que a mãe vai?

 

- Vou sair com o Andrew. O novo médico do consultório do Fergus.

 

- Oh! Ele é o seu novo namorado?

 

- Estou velha de mais para ter namorados. Para já não mencionar que o conheço há muito pouco tempo. - Eleanor apressou-se a continuar, sem dar oportunidade à filha de lhe fazer mais perguntas. - Vamos ao cinema. Ele ficou de me ir buscar às sete e meia, pelo menos, espero que sim... Olha, ali estão elas - acrescentou ao avistar os faróis de outro automóvel que rodava lentamente pela estrada. Claire pegou nas suas coisas, colocando o saco-cama debaixo do braço.

 

- Tem cuidado... não ponhas os pés nas poças – advertiu Eleanor ao mesmo tempo que buzinava à guisa de saudação dirigida à mãe de Sarah, após o que começou a inverter a direcção do carro. Tomou um duche de água morna, maldizendo Claire, mas estava pronta quando o carro de Andrew parou à porta da pequena moradia.

 

- Tiveste uma boa semana? - perguntou ele, saindo do automóvel.

 

- Óptima. Espera aí... É o meu telefone que está a tocar? Ouvia-se o som da campainha que vinha de dentro de casa. - Estás de serviço?

 

- Não, não... mesmo que estivesse, tenho o bíper.

 

- É melhor eu atender - disse Eleanor.

 

- O filme começa às oito e um quarto - gritou Andrew quando ela já ia a meio caminho de casa. - Se não nos pusermos já a caminho, vamos chegar atrasados. - Mas ela já tinha começado a abrir a fechadura da porta, entrando e dirigindo-se apressadamente para o corredor.

 

- Graças a Deus, pensei que tinhas saído. Preciso desesperadamente de falar com alguém que não seja de idade.

 

- Olá, David.

 

- Olá, Eleanor... está tudo bem contigo? O pai disse que vinhas até cá, mas as tias Mamie e Alice encontram-se de visita e também estão a dar comigo em doido.

 

- Oh, as tias. Elas dão com ele em doido. David, tenho muita pena, mas já estava de saída. Neste momento não posso falar contigo, se não, perdemos o princípio do filme. Só voltei atrás porque ouvi o telefone a tocar.

 

- E, telepaticamente, sabias que era eu e que estava a passar por um mau bocado.

 

- Não digas disparates, claro que não estás a passar por um mau bocado. Apenas aborrecido. - ”E bêbedo”, acrescentou Eleanor em pensamento ao aperceber-se disso. No mínimo, ele já teria tomado uns copos. - Olha uma coisa, prometo que te telefono amanhã. - Tinha consciência de que Andrew estava à sua espera, um homem que mal conhecia, na rua. E, contudo, o que ela queria realmente fazer era continuar no corredor frio a falar com o irmão.

- Encontramo-nos na quarta-feira, como eu disse ao pai. Ou então... David, tu podias vir até minha casa. Ainda há pouco a Claire disse que gostaria de te ver.

 

- A belíssima Claire... Ela continua loura e lindíssima?

 

- Claro que sim, e agora ainda mais - retorquiu Eleanor, rindo-se.

 

- Estás bem? - perguntou Andrew, que entretanto surgira à entrada. - Vamos chegar atrasados e depois não nos deixarão entrar.

 

- De acordo, peço desculpa. Vou já. David, sou obrigada a desligar, tenho uma pessoa à minha espera. Não, conto-te tudo mais tarde. Até depois.

 

- Era o meu irmão - explicou Eleanor enquanto Andrew seguia em excesso de velocidade pelo caminho de terra batida, entrando na estrada principal sob a chuvada que mal permitia que se visse um palmo à frente do nariz. - Tínhamos perdido o contacto um com o outro. Mas ele acaba sempre por aparecer, mais cedo ou mais tarde - acrescentou ela, tendo a percepção de que aquele homem, com o qual só se encontrara duas vezes, e com quem simpatizava, nada mais do que isso, estava irritado. - Desculpa - continuou Eleanor. - Ouvir a voz dele sem estar à espera foi uma espécie de choque.

 

- Então, onde é que ele está neste momento?

 

- Em casa do meu pai. Em Pitcairn.

 

- Isso mesmo, na casa da tua família. Não foi isso que o Fergus disse? Onde é que fica?

 

- Em Aberdeenshire. - Sim, pensou ela, o meu lar, onde passei a minha meninice. De súbito, a luz dos faróis iluminou qualquer coisa de fugida que desapareceu logo a seguir. - Tem cuidado! O que era aquilo? Era grande de mais para ser um coelho. Eleanor ainda se voltou para trás, mas a escuridão era demasiado cerrada para conseguir ver fosse o que fosse.

 

- Talvez uma raposa - alvitrou ele. Naquele momento, percorriam a A9 e ele já reduzira a velocidade. Dava a impressão de que a irritação lhe tinha passado.

 

- Peço desculpa - repetiu Eleanor. - Não foi minha intenção fazer-te esperar.

 

A verdade é que a atmosfera da noite sofrera uma alteração e o filme, escolhido por ele, e com que concordara porque Marion lhe dissera que ele era muito simpático, acrescentando que já era tempo de ela voltar a sair com homens, foi projectado no ecrã sem tocar em nenhuma das suas emoções. Os seus pensamentos eram preenchidos por David e pelo passado. Tinha-se esquecido da sensação de empolgamento que ele era capaz de suscitar, até mesmo do outro lado de uma linha de telefone. ”Quero falar com ele”, disse Eleanor em pensamento. ”Quando chegarmos a casa, quero telefonar-lhe ou ir a Aberdeen já amanhã para poder vê-lo de novo.”

 

- Queres ir tomar um café? - sugeriu Andrew quando saíram do cinema e já iam a caminho do automóvel. - Ou tens de ir já para casa?

 

Eleanor reflectiu no convite. Qual seria o seu significado? Desde a morte de lan que saíra apenas com dois homens, e este era um deles. A primeira saída não primara pelo êxito. Ela desconfiara de que o homem em questão só estava interessado em meter-se na cama consigo; ficara com a impressão de que o indivíduo não sabia bem o que fazer para conseguir ter relações sexuais com uma mulher. Pior ainda, ele maçara-a. Agora, Eleanor estava a pensar que o mais certo seria Andrew também vir a revelar-se um homem maçador e, verdade fosse dita, seria preferível não lhe dar a ideia de que aquele conhecimento tinha futuro, que pudesse dar em alguma coisa. David deixara-a consternada, fazendo com que tudo tivesse ficado diferente.

 

- De acordo - respondeu ela por fim -, sim. Obrigada. Lamentou de imediato ter aceite o convite, tendo-se sentido preocupada durante todo o caminho até à rotunda de Tore, onde reuniu toda a sua coragem para lhe dizer que afinal estava a sentir-se cansada; portanto, se ele não se importasse, a verdade é que preferia ir para casa. - Mas - acrescentou, já a lamentar ter mudado de ideias -, se quiseres, podemos tomar café em minha casa.

 

- Não - recusou ele. - Uma vez que estás cansada, é melhor deixarmos para outra altura. - Denotaria ele algum sarcasmo? Eleanor não foi capaz de dizer, sentindo-se corar e grata por estar escuro dentro do automóvel, o que o impedia de a ver. O que ela queria, concluiu, era manter com ele uma relação estritamente de amizade. Agora David havia regressado, pelo que ela passaria a ter um amigo com quem podia contar, sem ter de passar pelo incómodo que era começar por tentar conhecer uma pessoa com quem se iniciava uma relação.

 

Durante o resto do percurso até casa de Eleanor, ambos debateram, com a maior cortesia, o filme.

 

- Continuo sem perceber - dizia Eleanor quando o carro já se aproximava da sua pequena vivenda -, como é que o homem que tinha a arma soube que estavam na Suíça. Esse género de filmes, para mim, é um mistério. São demasiado complicados.

 

- Bem... Em vez disso, aqui temos uma coisa verdadeiramente simples - retrucou Andrew desligando o motor e virando-se para ela, de modo a que Eleanor soubesse que tinha a intenção de a beijar, e que, caso ela estivesse de acordo, aquilo poderia levar (agora ou mais tarde) a uma relação sexual. Assim, Eleanor retribuiu-lhe o beijo, embora sem entusiasmo, sem estar segura se gostaria, ou não, de ter o rosto dele, de expressão calma, tão próximo do seu. ”Oh, como me sinto cansada”, pensou ela. ”Além do mais, o meu período deve estar para chegar, por isso é que estou a sentir-me assim.” Mas afastou a boca, encostando-se com um suspiro ao peito dele. Tinha a impressão de pairar acima de ambos, observando alheadamente enquanto ele lhe acariciava o ombro, tentando dar-lhe outro beijo.

 

- Depois, ligo-te - prometeu ele, passados alguns momentos.

 

- Sim - retorquiu ela -, isso seria simpático da tua parte. A meio da noite, Eleanor acordou uma vez, perguntando-se onde é que estaria. Tinha sonhado com Pitcairn e com David.

 

Marion entrou na cozinha.

 

- Era a Eleanor - disse ela. - O David apareceu como que caído do céu... está em casa do pai.

 

- O quê? - perguntou Fergus que, a muito custo, desviou a atenção do suplemento desportivo do jornal.

 

- O David está em casa do meu pai.

 

- O teu irmão David? Mas onde é que ele tem estado durante este tempo todo?

 

- A Eleanor não sabe, só falou com o meu pai. No entanto, na quarta-feira vai lá a casa, tenciona passar o dia com eles.

 

- E quanto a ti?

 

- Tenho de dar aulas durante toda a semana - respondeu ela, sentando-se em frente do marido, olhando-o do outro lado dos restos do pequeno-almoço de domingo. - É possível que vá até lá no próximo sábado, isto é, se não estiveres de serviço. Estás?

 

- Não, no próximo fim-de-semana cabe ao Andrew. Com certeza que a Eleanor não se importa de ficar com os miúdos.

 

- Sim, eu sei, mas é complicado por causa do futebol do Ross e da dança da Kirsty. Em relação à Eilidh não há problema, ela já sabe tomar conta de si própria. - Sim, já reparei nisso. Onde é que ela foi desta vez?

 

- Já te tinha dito... Está em casa da Emma MacDonald. Ontem à noite houve uma festa de anos e ela dormiu lá.

 

- Muito bem - disse ele, dobrando o jornal. - Suponho que se queres que eu trate do barracão...

 

Marion calçou as botas e vestiu o casaco, indo atrás de Fergus pelo jardim. Entraram no barracão, bastante desarrumado, detendo-se entre a bicicleta velha de Ross e as prateleiras onde Fergus tinha as suas ferramentas.

 

- Acho que a água entra algures pela janela - disse Marion.

 

- Não, está seca - retorquiu Fergus depois de ter passado a mão pelo peitoril. - Vamos lá a ver de onde é que vem a água.

 

- Deixo-te entregue a essa tarefa - acrescentou Marion, virando-se, preparada para sair. - É melhor ir andando. - Mas, depois de deixar o marido, começou a caminhar pelo jardim, à procura de sinais de estragos provocados pelas chuvadas e ventania da noite anterior. Os girassóis de Eilidh estavam tombados de lado, mas os caules eram resistentes, pelo que não se haviam quebrado. Marion pegou num vaso vazio e começou a apanhar as maçãs caídas no relvado. Enquanto as colocava dentro do recipiente, sentia o cheiro rico e cálido a húmus. - A terra precisa de ser sachada murmurou -, talvez no próximo fim-de-semana, se não chover.

 

Já dentro de casa, o som do televisor ligado na sala de estar, onde Ross e Kirsty se encontravam sentados nos sofás, ela embrulhada no roupão enquanto discutia qual o programa que deviam ver, chegava-lhe à cozinha. Marion fechou a porta antes de ligar o rádio.

 

Durante a tarde, ela e Fergus ficaram entregues a si próprios. Ross foi para casa de um amigo; a mãe de Fergus foi buscar Kirsty para a visita semanal à bisavó, e para levar o cão a passear ao longo da praia, saída que a garota aproveitou para comer uma quantidade excessiva de guloseimas com o chá. Eilidh fora para casa de Eleanor com Claire e ainda não voltara. Marion tencionava ir tratar do jardim; mas, primeiro, queria ler o jornal. Fergus passava pelas brasas junto da lareira, com o jornal a querer escorregar-lhe dos joelhos. No silêncio que envolvia a casa, Marion também se sentia sonolenta. O firmamento escurecia e, uma vez mais, recomeçou a chover. Com o bater da chuva contra as janelas, Fergus acordou com um ronco, pegando no jornal.

 

- O que é que foi?

 

- Nada - respondeu Marion. - Estavas a dormir.

 

- Estava? Que horas são? Alguma hipótese de me fazeres uma chávena de chá?

 

Marion levantou-se para lhe preparar um chá e pouco depois ambos se instalaram confortavelmente a tomá-lo, enquanto ele falava do seu trabalho e na possibilidade de ter de precisar de um quarto sócio; por seu turno, Marion pensava na ida de Eleanor a Aberdeen, perguntando-se qual seria agora o aspecto de David.

 

- Sei que devia sentir-me satisfeita - continuou ela quando, pelo menos de momento, puseram de lado o quarto sócio - por ele ter regressado a casa. Bem vês, o meu pai fica sempre tão contente por o ver. Mas a verdade é que o David... e é horrível dizer uma coisa destas, o David... só arranja problemas.

 

- Bem, ele é um pouco... dá a impressão de não ser capaz de assentar, não achas? Durante alguns anos trabalhou na polícia, não é verdade? Na Metropolitana?

 

- Sim, mas isso já foi há muito tempo. Sabes que sim. Acho que foram eles que acabaram por o pôr na rua.

 

- E agora, o que é que ele faz? O teu pai disse alguma coisa a esse respeito?

 

- Quanto à polícia, essa devia ter sido a última opção dele. Isso ou o Exército. Ele nunca gostou de nenhum tipo de disciplina. Suponho que na altura se tenha sentido entusiasmado com essa perspectiva. Actualmente, não sei em que é que ele trabalha. Só espero que tenha um emprego qualquer para que não esteja a explorar o pai durante semanas a fio. Como bem sabes, não seria a primeira vez que isso acontecia. Lembras-te... depois de a minha mãe ter morrido?

 

- Ora bem, o mais provável foi o teu pai ter ficado satisfeito na altura por ter a companhia do filho.

 

- Não sei se isso é verdade - replicou Marion, cerrando os lábios num trejeito de reprovação. - Aquilo que me parece é que sempre que o David anda por perto acontece qualquer coisa. Qualquer coisa que dispensaríamos.

 

- Como o quê? - perguntou Fergus, servindo-se de outra fatia de bolo e apanhando as migalhas que lhe caíram na camisola uma a uma. Marion afastou o prato.

 

- Não comas mais bolo - disse ela. - Pensei que querias perder peso.

 

- Nesse caso, não devias fazer bolos tão bons.

 

- De que é que estávamos a falar? Ah, sim, do David. Pois bem, para começar, no ano em que nos casámos. Todo esse assunto.

 

- Ele era apenas um garoto - redarguiu Fergus. - Mas acabou por arranjar emprego, não é verdade? Depois disso, viveu em Londres durante algum tempo.

 

- Sim, e depois, quando a Eleanor e o lan se mudaram para o Berkshire, ele começou a passar temporadas em casa deles. Pouco depois de terem casado, ela adoeceu, esteve gravemente doente durante algum tempo. Foi um vírus qualquer... estás recordado? Depois disso, ele resolveu ir para o estrangeiro, pelo menos foi o que a Eleanor pensou. Quando regressou, é que decidiu ir para a polícia. Com certeza que não te esqueceste do ano em que ele veio visitar o meu pai por altura do Natal, até veio com a Eleanor e o lan, e tiveram um acidente de automóvel em Stonehaven.

 

- Sim, estou a lembrar-me disso. A Eleanor estava grávida e perdeu o bebé, não foi?

 

- Teve um aborto espontâneo já no hospital, na noite a seguir ao dia do acidente. Quantos anos é que o Ross tinha... Mais ou menos cinco? Portanto, a Eilidh e a Claire deviam ter uns... o quê?, dois anos e meio? Foi um Natal horrível.

 

- Não sei bem se devas culpar o David por esse acidente, nem tão-pouco pelo aborto da tua irmã. Não era ele que ia ao volante, pois não?

 

- Não, o lan é que ia a guiar. Mas a culpa foi do condutor da carrinha. Acho que os travões não estavam em boas condições continuou Marion, acabando de beber o seu chá e pousando a caneca. - Contudo, a verdade é que ele andava por perto, passando todos os fins-de-semana em casa deles, isto é, entre namoradas. Foi por essa altura que correram com ele da Polícia Metropolitana. Na ocasião, ele disse que se tinha demitido, mas eu tenho a certeza de... Não se cansava de dizer que ia outra vez para o estrangeiro, afirmava que dessa vez tencionava ir para os Estados Unidos, mas nunca chegou a ir. Pouco depois, o lan teve o ataque de coração.

 

- Por conseguinte, o que tu estás a tentar dizer é que ele dá azar à pobre Eleanor. É isso?

 

- Não só à Eleanor. Eu nem sequer quero pensar nesse facto.

 

- Suponho que todas as famílias tenham a sua ovelha ranhosa, não te parece? - perguntou Fergus.

 

- Bem... é um facto que ele nunca fez nada que se possa considerar de realmente mau. Pelo menos, de que tenhamos conhecimento. - Marion fez uma pausa. - Quer dizer... ele é meu irmão e gosto muito dele, mas...

 

Entretanto, ouviram o bater da porta da frente.

 

- Olá - gritou Eilidh do fundo do corredor.

 

Fergus levantou-se e espreguiçou-se, espalhando mais migalhas pelo chão.

 

- Está na hora de fazer qualquer coisa.

 

- Também acho - ecoou Marion colocando as canecas num tabuleiro e começando a endireitar os jornais e a sacudir os almofadões. - A festa foi boa? - perguntou a Eilidh quando esta entrou na sala.

 

- Posso comer uma fatia desse bolo? Sim, foi muito boa.

 

- Vai buscar um prato. Não faças... não interessa; dado o estado em que o teu pai deixou a sala, suponho que não tenha grande importância.

 

- A Claire disse que a mãe dela vai a Aberdeen na quarta-feira porque o tio David está de visita ao avô. A Claire pode ficar cá em casa?

 

- Tenho a certeza que sim.

 

- A tia Eleanor disse que mais tarde falava com a mãe acrescentou Eilidh, enroscando-se no lugar ainda morno onde o pai estivera sentado. Ele despenteou-lhe os cabelos quando já se preparava para sair da sala. - Mamã?

 

- O quê? - respondeu Marion, parando com o tabuleiro nas mãos.

 

- É muito esquisito, não acha? Quer dizer... o tio David não dar notícias durante tanto tempo. Não sou capaz de imaginar que nós fôssemos capazes de fazer isso. Por exemplo, se o Ross fosse para o estrangeiro, ou qualquer coisa assim, e nós não soubéssemos por onde é que ele andava... Não sou capaz de imaginar uma coisa dessas.

 

- Dada a maneira como vocês dois andam sempre à bulha, nunca me teria passado pela cabeça que isso pudesse incomodar-te.

 

- Isso é diferente. Quando a mãe era mais nova, o tio David, como é que ele era? Eu pensei que ele fosse uma pessoa simpática... Lembra-se daquele ano em que veio a nossa casa e nos trouxe uma árvore de Natal, absolutamente supergigantesca, e também montanhas de bolas de vidro? A mãe até disse que eram um perigo porque a Kirsty ainda mal andava.

 

- Mas que memória que tu tens, Eilidh! Eu até já me tinha esquecido disso. - Mas tal não correspondia à verdade, sabendo de antemão o que viria a seguir, antes mesmo que a filha voltasse a abrir a boca.

 

- Não foi nessa altura que o Timmy ficou incrivelmente doente e até tivemos de chamar o veterinário, apesar de ser Natal, mas ele acabou por morrer mesmo assim? Quer dizer, o Timmy, não o veterinário.

 

- Sim, foi - confirmou Marion, pensando para consigo que aquele fora outro Natal pavoroso.

 

- Foi horrível. Ele era um cão tão bonito, não era? Era, muito em especial, do Ross. Nunca tive nenhum cão que fosse só meu. O Toby já está tão velho que mal consegue mexer-se.

 

- Não comeces com isso, Eilidh - admoestou a mãe.

 

- A propósito, onde é que o gato anda?

 

- Com certeza absoluta que está na tua cama.

 

Na cozinha, enquanto arrumava a louça, Marion continuava a pensar no Natal em que David tinha ficado em casa deles. Nesse ano, Eleanor e lan haviam decidido não ir ao Norte, optando por passar o Natal em casa dos pais de lan. No entanto, apesar da ausência deles, no dia de Natal a casa estivera cheia de gente: a mãe de Fergus, os pais desta, David, o pai de Marion e as duas tias. Onde é que aquela gente toda teria dormido? Provavelmente, as tias com a mãe de Fergus. Teria sido assim? A única coisa que recordava com clareza era o spaniel a vomitar na copa, após o que tinha caído inconsciente no cesto onde dormia depois de olhar para ela com uns olhos cheios de tristeza, como se lhe pedisse desculpa pelo seu estado. Durante toda a ceia de Natal, Marion e Ross levantaram-se da mesa várias vezes para verem como é que Timmy estava a passar. Foi tudo o que ela conseguiu fazer para que Ross não abandonasse a mesa por completo. Eu não tenho fome, mamã, dissera o garoto. Finalmente, decidiram chamar o veterinário já ao princípio da noite. Todos defronte do televisor, Eilidh a ler, o pobre do cão cada vez mais fraco e Ross muito calado. E David? David junto dela na cozinha.

 

- Liguem para o veterinário, deve haver alguém que tenha ficado de serviço. São pagos para isso. E sabem fazer-se pagar muito bem. Telefona. - O que Marion fizera.

 

Porém, no fim, Timmy acabara por morrer. Tinha um cancro, um mal de que decerto já sofria muito antes do Natal. Por isso, como era evidente, teria sido impossível que David tivesse alguma coisa a ver com a morte do animal. Além do mais, a sua presença fora um grande conforto; ele é que se oferecera para falar com Ross, reconfortando-o pelo desgosto com a morte do cão, o único que tinha conseguido fazer com que o garoto saísse do seu quarto.

 

Marion despiu o avental e foi telefonar a Eleanor.

 

- Divertiste-te quando saíste com o Andrew?

 

-- Sim, foi muito agradável - respondeu Eleanor.

 

- E o filme era bom?

 

- Oh, perseguições de carro e coisas no género. Para te ser franca, tenho de dizer que não percebi muito bem.

 

- A Claire pode ficar cá em casa na quarta-feira. Só tens de lhe dizer que venha com a Eilidh e que traga as coisas de que precisa para a escola na quinta-feira.

 

Resolvido aquele assunto, começaram a falar de David e do pai de ambas, mas Marion não foi capaz de se obrigar a dizer: ”Ele só traz má sorte”, ou: ”Tem cuidado”, o que queria ter conseguido fazer. Mas eram ideias demasiado extravagantes. Ao fim e ao cabo, Eleanor é que, das duas, tinha muita imaginação; um motivo acrescido para não lhe pôr ideias daquelas na cabeça. Foi correr os cortinados. A hora já tinha mudado e talvez fosse por isso que durante todo o dia se sentira tão sonolenta e apática. Pensar nos meses sombrios que tinham pela frente fazia com que se sentisse deprimida. ”Quem me dera poder ir a Pitcairn com a Eleanor”, pensou Marion. Estariam todos presentes menos ela. Porém, afastou aquele pensamento, resignando-se a ver televisão e a passar a roupa a ferro. Não tinha tempo para se sentir cabisbaixa.

 

- Ora vamos lá a ver - começou Fergus a dizer mais tarde, quando já se preparavam para se deitar. - Lembraste-te de mudar a hora no despertador?

 

- Os relógios estão todos certos... e tu, não te esqueceste de ajustar o aquecimento central?

 

- Já o ajustei, mas nunca sou capaz de me lembrar. Estamos a ir para a cama uma hora mais tarde ou mais cedo?

 

- Mais tarde - respondeu Marion.

 

- Não admira que eu esteja a sentir-me tão cansado.

 

- Também eu. Andei exausta durante toda a semana. Para dizer a verdade, há algum tempo que me sinto assim.

 

- Fazes coisas a mais. Já chega, larga isso - disse ele porque, uma vez mais, Marion arrumava o que ele deixava desarrumado, endireitando as calças. - Vem-te deitar.

 

O que ela fez; deitaram-se abraçados um ao outro, ficando a conversar durante algum tempo antes de darem um beijo de boas-noites. Pouco depois, ela deitou-se de lado e ele aninhou-se junto dela, com os joelhos por detrás dos de Marion e uma mão nos seios. Mas os dedos dele começaram a acariciá-la, a pressioná-la.

 

- Oh, Fergie, queres realmente... Tenho tanto sono. - Apesar dos seus protestos, os dedos dele continuaram a explorá-la até que ela percebeu que ele não a acariciava como se quisesse fazer amor (o que, a ser o caso, algum tempo depois ela ter-se-ia mostrado receptiva), o que a levou a deitar-se de costas.

 

- O que é?

 

- Pensei... na sexta-feira, à noite, quando nós... mas não tive a certeza. Marion, não sentes uma impressão aí?

 

- Ora, os médicos nunca param de trabalhar - retorquiu Marion na brincadeira, mas a verdade é que levou a mão ao seio, sentindo um calafrio quando apalpou.

 

- Aqui? - indicou ele.

 

- Sim - respondeu ela numa voz sumida, sentando-se de novo e ligando o candeeiro da mesa-de-cabeceira.

 

- Com certeza que não é nada de importância, mas, seja como for, quero que vás ao consultório da Mary Mackay.

 

- Mas tu tens obrigação de saber.

 

- Sim, mas não quero ser o que... Não quero... Tens de ir ao consultório da Mary. Quando for trabalhar amanhã, tenciono marcar-te uma consulta. A que horas é que voltas da escola?

 

Com quatro dedos, Marion continuava a apalpar o peito, fazendo pressão. Não sentia nada, tinha sido um falso alarme. Mas não, ali estava outra vez.

 

- Parece ser o tipo de caroço que se desloca.

 

- Da última vez não passava de uma insignificância. Estou a referir-me ao pequeno susto que tivemos depois do nascimento da Kirsty.

 

- Esse era diferente. Era duro, não se deslocava.

 

- Tens a certeza? - perguntou Fergus.

 

- Era um vaso mamário que estava bloqueado ou algo no género. Seja como for, desapareceu espontaneamente. - Naquele momento, Marion estava tão receosa que isso a levou a sentir-se irritada. - Deus do céu, Fergus, explica-me o que se está a passar! Tens obrigação de saber!

 

- Tenho a certeza de que não é nada de importante. Lamento se estou a ser...

 

- Não, tens razão e agiste bem em dizer-me. Vou consultar a Mary, Estou a pensar em ir depois do trabalho. Por volta das cinco decidiu Mary, voltando a deitar-se. - Muito bem. Está satisfeito?

 

Uma vez mais, Fergus tomou-a nos braços, mas ela tinha o corpo rígido sem conseguir conciliar o sono, tocando e apalpando o seio vezes sem conta, como se perseguisse o caroço de tamanho ínfimo que se recusava a imobilizar-se. ”Portanto”, pensou ela, ”isto era o que um dia longo e monótono, igual aos outros, se preparava para me trazer.”

 

- Senti-me aborrecida - disse Marion a Fergus. - Andei todo o dia contrariada. Mas agora, quem me dera sentir o mesmo aborrecimento. Quem me dera que nada disto estivesse a acontecer.

 

Fergus puxou-a mais para junto de si, mas, pouco depois, acabou por mergulhar no sono. Marion não fazia tenção de contar aquilo a ninguém, nem sequer a Eleanor. Pelo menos, até ter alguma certeza. Guardaria aquele segredo apenas para si. Mesmo assim, não foi capaz de adormecer, vendo em pensamento camas de hospital, despedindo-se dos filhos, fazendo planos para o seu próprio funeral. Mas aquele era um exercício estúpido e sem qualquer utilidade. ”Vê se te compões, mulher! Trata-se apenas de um carocinho sem importância, não é nada de mais.” Inclinou-se para Fergus, aquecendo-se na carne firme do corpo do marido e escutando a sua respiração. ”Não vou morrer. Tenho mais que fazer para poder adoecer. Seja como for, tenho de assistir ao crescimento dos meus filhos. Sozinho, o Fergus jamais conseguiria educar as raparigas. Além disso, tenho de arranjar as coisas de maneira a que a Eleanor assente com o Andrew, ou outro homem qualquer que seja como deve ser. Certificar-me de que o pai está bem, e ainda há o assunto de Pitcairn. A Eleanor não saberia o que fazer em relação a isso, precisa de mim para falar a esse respeito.” (Tanta apalpação fazia com que sentisse os seios doridos; o caroço tinha desaparecido de novo.) Um tanto descabidamente, ocorreu-lhe que comprara um saco de bolbos de narcisos amarelos havia um mês, tendo tencionado plantá-los por baixo das macieiras, e acabara por se esquecer completamente deles. O saco continuava na garagem, com os bolbos à espera de serem plantados.

 

Por fim, Marion conseguiu adormecer, sonhando com salas de espera de hospitais, além de andar à procura de um lugar para plantar os bolbos no jardim de Pitcairn.

 

Por vezes, quando Eleanor ia a Pitcairn de automóvel, costumava primeiro passar por Aberdeen para fazer compras. Desta feita, optou por ir directamente para casa do pai por uma estrada secundária, uma vez que não tinha dinheiro para gastar no centro feericamente iluminado da cidade, com as suas novas arcadas cheias de lojas. Aquilo de que ela precisava era de um emprego.

 

lan deixara-a com uma vida confortável. Beneficiara da subida no preço das casas na região do Sul de Inglaterra, o que se verificou depois de ela e lan terem feito sacrifícios para poderem comprar a vivenda em Berkshire. Agora já não tinha nenhuma hipoteca, havendo dinheiro suficiente numa conta destinada a pagar os estudos universitários de Claire - isto é, se ela quisesse tirar um curso superior. Eleanor suspirou, em parte por causa de Claire e em parte por ser obrigada a abrandar devido a um tractor que não podia ultrapassar senão após descrever a próxima curva. Não, na verdade, ela tinha o suficiente, a pensão dava para cobrir as despesas básicas, além de poder contar com um pequeno rendimento que lhe advinha de uns investimentos que fizera com o dinheiro da venda da casa. Mas não dispunha de nada que fosse supérfluo, não havendo dinheiro nenhum que pudesse dizer ser exclusivamente seu. Entretanto, o caminho sinuoso deu lugar a uma recta, o que lhe permitiu ultrapassar o tractor, mas mais à frente tinha um camião que levantava jactos de água do pavimento molhado. Eleanor adoptou uma atitude de resignação, decidindo parar no Baxters para comer qualquer coisa.

 

Caso dissesse ao pai: ”Estou a precisar de um emprego”, ele diria: ”Sim, é uma pena que não tenhas acabado o curso, ao contrário da Marion.” Na altura, não lhe parecera que isso tivesse grande importância, quando ela, pela primeira vez, agira contra a vontade dos pais, casando-se com lan assim que ele terminara o seu curso universitário e partindo com ele para a região mais remota do país. Os pais queriam que ela completasse os três anos que lhe faltavam para acabar o curso, o que lhe permitiria ficar habilitada profissionalmente. O lan diz que em Londres há muitos empregos. Em qualquer dos casos, de que é que um curso em Belas-Artes me poderá servir? Uma pena, pensava Eleanor agora, ligando os limpa-vidros; a chuva miudinha que o camião que seguia à sua frente projectava à sua passagem bloqueava-lhe a visão através do pára-brisas. ”É uma pena que eu tenha estado com tanta pressa, tão desesperada com medo de poder vir a perdê-lo, tão receptiva em aceitar que a única coisa que tinha importância era a maravilhosa oferta de emprego que ele me fez, a sua própria carreira. No fim, em que é que isso me beneficiou?”

 

O primeiro ano de casada não revelou ser a aventura gloriosa que ela esperara com tanta expectativa. Cheia de saudades de casa e sem ter um objectivo de vida, Eleanor começara a trabalhar numa livraria, ao que se seguira um emprego numa agência de imobiliário, de onde se despediu toda satisfeita quando engravidou. Depois de ela e Claire se terem mudado de volta à região norte, trabalhou durante algum tempo no escritório de um solicitador, em Dingwall, um emprego que fora arranjado por Marion. Trabalhara temporariamente como substituta de uma ”assistente de propriedades”. Quando a assistente de propriedades efectiva recuperou do seu internamento hospitalar, regressando ao trabalho, Eleanor voltou a ficar desempregada. Não se podia dizer que tivesse ficado sem fazer nada, dizia a si mesma. Mas os seus poemas e as suas aguarelas pareciam-lhe actividades triviais, além de não lhe aumentarem os rendimentos. Havia ocasiões em que Eleanor se perguntava se a sua vida teria sido diferente se tivesse sido capaz de dizer ”não” à mãe havia tantos anos.

 

- Não, não quero tirar um curso universitário, quero ir para uma escola de Belas-Artes. - Mas a verdade é que existira a possibilidade de não ter sido aceite numa escola de Belas-Artes; o professor dissera-lhe que as suas qualificações académicas não eram suficientes. Agora compreendia que ele quisera dizer que ela não tinha talento suficiente.

 

Fochabers. Eleanor saiu da estrada e estacionou defronte do Baxters, subindo os degraus do parque de estacionamento até ao restaurante; levantou a gola do impermeável. Tinha recomeçado a chover. Pediu uma sopa de legumes e uma sanduíche, sentando-se a uma das mesas encostadas à janela e pondo-se a olhar para a chuva. Estava a prever chegar a Pitcairn por volta das duas e meia da tarde, o mais tardar às três horas.

 

A última parte da viagem era a mais agradável: a estrada que tão familiar lhe era, as árvores de grande porte com a sua folhagem em tons dourados e avermelhados de princípios de Novembro, apesar de algumas das folhas já terem começado a cair. Entretanto, a chuva parou: por entre as nuvens surgiu um buraco de contornos irregulares, dando passagem a uns raios solares enfraquecidos que banharam o pavimento de luz. Como sempre, Eleanor pensou que aquela casa era o seu verdadeiro lar, prestes a surgir à sua frente depois da próxima curva, com as pequenas vivendas à direita (Ruby vivia na última), os correios e a loja e bar, o Pitcairn Arms, e, à esquerda, semioculta pela folhagem do Verão, mas que agora estava bem visível, a placa onde se lia: Mains of Pitcairn 1; Pitcairn House 2. Eleanor reduziu a velocidade, entrando no caminho estreito.

 

Havia outras vivendas que ladeavam o caminho: pequenas moradias nos dois lados da via, com jardins de solo plano, bem cuidados, e algumas estufas recentes nos extremos virados a sul. Em tempos, mas muitos anos antes de eles terem comprado a casa, aquelas terras haviam feito parte de Pitcairn, tal como a quinta. Os terrenos da quinta tinham sido parcelados e vendidos em talhões, embora a casa da quinta continuasse no mesmo sítio, mal se avistando a sotavento da colina à sua direita. Agora, também tinha uma estufa, mas os pinheiros-bravos haviam sido cortados. Actualmente, a quinta era um viveiro gerido por uma das filhas dos Mackies, juntamente com o marido desta. Não Eileen, que fora a ama delas, mas a rapariga mais velha que, agora, era uma mulher de meia-idade com filhos já crescidos.

 

Quando Eleanor chegou ao caminho particular da casa do pai, um caminho sinuoso para a esquerda, começou a ouvir o ruído de conchas fragmentadas debaixo dos pneus. Os portentosos castanheiros-da-índia, à entrada do caminho, soltaram as suas folhas segmentadas em cinco, que naquela altura do ano estavam amarelecidas, agitando-as por cima do automóvel de Eleanor à sua chegada.

 

E ali estava a casa. De traçado rectilíneo e aspecto sólido, construída naquele granito prateado que refractava os raios solares em centelhas de luz, intensificando a luminosidade em seu redor. Quando o Sol se escondia por detrás de uma nuvem, o granito adquiria um tom acinzentado e frio. Naquele dia, os raios solares, ainda que fracos, filtrados através do claro-escuro da folhagem pouco cerrada das árvores, era suficiente para banhar a vivenda na sua luz de cambiantes amarelos, emprestando-lhe a sua melhor aparência. Eleanor conduziu o automóvel para as traseiras, seguindo para o telheiro que sempre haviam utilizado como garagem. Pegou no saco de viagem (ao fim e ao cabo, pernoitaria ali uma noite) e entrou em casa pela porta das traseiras.

 

Deparou com David sentado à mesa da cozinha, a ler o Press and Journal. Ao ouvir a porta que se abria, ergueu o olhar, levantando-se de imediato quando a irmã entrou.

 

- Olá... finalmente, conseguiste chegar!

 

- David... deixa-me olhar bem para ti! - O irmão tinha deixado crescer uma barba tão espessa e escura como o cabelo. Dava-lhe um aspecto diferente: ficava com uma fisionomia menos juvenil. Mas era preciso não esquecer que ele estava mais velho. Havia dois anos que Eleanor não o via. David estendeu os braços abertos, envolvendo a irmã. Estava mais corpulento do que ela se recordava, mais robusto, cheirando a tabaco misturado com uma fragrância floral, a que se aliava o seu próprio odor, pele, suor, cabelo, o cheiro familiar que ela tão bem conhecia. - Oh, David! - exclamou ela e, absurdamente, as lágrimas assomaram-lhe aos olhos.

 

- Muito bem - proferiu David, ajudando-a a despir o casaco e puxando uma cadeira para que ela se sentasse. - Conta-me tudo... fala-me da Claire, da Marion e da prole dela, conta-me tudo acerca de todos.

 

- Tu é que deves ter muito que contar - retorquiu Eleanor, rindo-se. - Aposto que o pai já te contou tudo o que há a dizer a nosso respeito. Seja como for, não há nada de especial que te possa contar; todos temos umas vidas monótonas sem nada digno de importância. E tu, por onde é que tens andado?

 

- Um pouco por toda a parte. Tenho andado por aí, ao acaso respondeu David com um sorriso rasgado, pegando nas mãos frias dela com as suas que estavam quentes. Ele e Marion tinham o mesmo tipo de mãos: dedos compridos e fortes, como os do pai. Eleanor pôs-se a olhar para as mãos dos dois, observando os seus dedos, de pele pálida e um pouco azulada devido ao frio, que começavam a ficar rosados com o calor que vinha das mãos do irmão.

 

- O pai? Onde é que está? - perguntou Eleanor.

 

- Hoje é um dos seus dias de golfe. Em princípio, tenho de preparar o jantar. Óptimo, agora podes ser tu a tratar disso.

 

- Ei, tu cozinhas muito melhor do que eu. Seja como for, não encontrarás comida nenhuma; nesta casa nunca há nada que se coma. Vamos lá, David, quero que me contes tudo. Não posso voltar para a Marion, dizendo-lhe: ”Oh, ele andou por aqui e por ali.”

 

Acho que ela faz tenções de vir até cá no sábado, a menos que decidas voltar comigo. E que tal se viesses? Quanto tempo é que estás a pensar passar com o pai?

 

- Òh... algum tempo. Estás com um aspecto magnífico... uma verdadeira viúva alegre, não é?

 

- Bem, pelo menos estou a sentir-me melhor.

 

- A vida nas terras altas deve fazer-te bem. Talvez eu deva experimentar.

 

- Tencionas mudar-te outra vez?

 

- Tenho um apartamento em Edimburgo. É alugado; portanto, posso sair quando bem me apetecer.

 

- E quanto a um emprego... estás a trabalhar?

 

- Neste momento, estou entre empregos. Mas comigo é sempre em frente.

 

- Oh, David, não és capaz de assentar de uma vez por todas?

 

- Ao que tudo indica, parece que não. Mas estou a acompanhar os tempos, a mudança da meia-idade, mudar de emprego. Sabias que a média de vezes que uma pessoa muda de carreira profissional ao longo da sua vida é de cinco?

 

- Pois bem, está a parecer-me que já ultrapassaste um pouco essa média.

 

- E não estou a falar de empregos - continuou ele, ignorando o comentário da irmã. - Trata-se de carreiras. Grandes alterações.

 

- Isso quer dizer que já não trabalhas em seguros?

 

- Bem... A última coisa era uma espécie de sociedade com uns fulanos... Importávamos vestuário.

 

Aquilo parecia ainda mais improvável do que os seguros. Mas, de súbito, Eleanor recordou-se de uma tarde em Londres, mais concretamemte, em Oxford Street, quando David, de folga (nessa altura, trabalhava na polícia), se tinha encontrado com ela para comprarem qualquer coisa por ocasião do baptismo de Ross. Recordava-se de como ele se mostrara interessado por chapéus e roupas, que tinham de condizer sempre. Nessa época, ele gastava bom dinheiro em roupas para si próprio, usando camisas de seda e casacos de pelica macia. Eleanor voltou a observar a aparência do irmão, a barba, as calças de ganga e a camisola desbotada de jogar râguebi.

 

- Que tipo de roupas? - perguntou Eleanor.

 

- Vestuário para adolescentes. Está continuamente a mudar, por isso é preciso estar sempre um passo mais à frente. Vendíamos aos armazenistas, por grosso.

 

- E então, o que é que se passou? O negócio não correu bem? David jamais admitiria que o que quer que fosse em que se metesse tivesse sido um fracasso, o que ela sabia de há muito.

 

- Correu bem... muitíssimo bem - respondeu ele com um encolher de ombros. - Mas, que diabo, a dada altura não nos restava alternativa senão metermo-nos no negócio como retalhistas, e os outros fulanos não tinham a experiência necessária, para não mencionar a falta de interesse por parte deles. E depois... o colapso do mercado asiático pôs fim a essa possibilidade... Era aí que nos abastecíamos.

 

- No entanto, eu pensaria que devido a esse abrandamento do mercado, conseguirias obter as mercadorias a um preço mais barato... uma vez que a libra passou a estar mais forte, além de tudo o mais, não é verdade?

 

- Porém, as coisas não funcionam dessa maneira. Eles têm outros clientes e nesta altura não estão muito interessados em fazer negócio connosco. Significaria que estaríamos a vender por um preço inferior ao do custo dos fornecedores asiáticos. Até mesmo com a mão-de-obra extremamente barata.

 

- Oh... Mas então... - Eleanor não era capaz de ver o mínimo sentido no que ele lhe dizia. A verdade é que em relação a David nunca se podia ter a certeza de nada.

 

- Queres uma chávena de chá? - ofereceu ele, levantando-se para pôr a chaleira ao lume e continuando a falar enquanto tirava as canecas do armário e o leite do frigorífico.

 

- Não, agora a Internet é que está a dar. Tenho um amigalhaço que anda a ensinar-me a concepção de páginas na Net, e a maior vantagem é ser uma coisa que se pode fazer em qualquer sítio. Decidi comprar o equipamento informático necessário... isto é, já estou bastante adiantado, e os programas mais adequados; até podia trabalhar a partir de Achiltibuie se me apetecesse. Em Ullapool, Lochcarron, Skye. O local não é relevante.

 

- A maneira como estás a debitar esses nomes - disse Eleanor -, até parece que já fizeste uma viagem pelas Highlands da Escócia.

 

- Talvez tenha feito.

 

- Isso quer dizer que tencionas mudar-te outra vez?

 

- Tenho andado a pensar nisso - replicou David, atarefado com as saquetas de chá, após o que começou a procurar a lata dos biscoitos. - Meu Deus, tens toda a razão. O pai não tem nada que se coma nesta casa. O que é que ele estava à espera que eu fizesse para o jantar desta noite? Uma sopa de tomate em lata e meio boião de compota? É tudo o que consigo encontrar.

 

- Eu sei. A última vez que a Marion esteve cá, foi direitinha a Aberdeen e abasteceu-se de mercearias que comprou no Safeway.

 

- Ele disse-me que há pouco tempo abriu uma grande superfície a mais ou menos oito quilómetros daqui - adiantou David, levando o chá para a mesa. - Estou a pensar em levá-lo até lá amanhã. - Ambos ficaram a olhar para as respectivas canecas. Achas que o leite está estragado?

 

- Provavelmente - retrucou Eleanor. Um pouco a medo, ambos provaram o chá, fazendo caretas um ao outro e pousando as canecas na mesa.

 

- Quanto tempo é que tencionas ficar? Amanhã podias vir às compras connosco.

 

- Não posso, tenho de voltar para casa logo de manhã. Olha uma coisa, porque é que não vens comigo? O pai está bem... As vezes a Ruby cozinha para ele, além de que ele costuma fazer muitas refeições no bar com os parceiros de golfe.

 

- Talvez decida aceitar o teu convite. Posso aproveitar para dar uma vista de olhos por aí. Esta noite vou telefonar ao Phil.

 

- Phil... é o amigo que te vai ajudar com as páginas da Net?

- perguntou Eleanor.

 

- Ele faz muito mais do que isso. É o Phil Amers.

 

- Portanto, decidiste voltar comigo?

 

- Sim, porque não? Pelo menos, por uns dias.

 

- Óptimo. - Eleanor sorriu-lhe. - Muito bem, fico satisfeita. Seria óptimo se decidisses mudar-te para o Norte. A família ficaria reunida.

 

- Estás a pensar em tentar persuadir o pai a vender a casa, convencê-lo a mudar-se também?

 

- Não, nada disso - replicou Eleanor com um abanar de cabeça.

 

- Ora vamos lá a ver - continuou David, encostando-se todo para trás na cadeira e inclinando-a sobre as pernas de trás. - Conta-me coisas de ti e da Marion.

 

O que ela fez e ambos continuaram a conversar até o pai chegar a casa. Pouco depois, foram ao Pitcairn Arms onde comeram frango com batatas fritas para o jantar, uma vez que quando deram por eles, depois de tanta conversa, já o supermercado tinha fechado, pelo que não puderam comprar o necessário para cozinhar.

 

- O pai tem andado a alimentar-se como deve ser? - perguntou Eleanor. Ele comia devagar, mas desapareceu tudo o que tinha no prato, sendo evidente que a comida lhe soubera bem.

 

- Ando muito bem tratado - respondeu ele. - A Ruby costuma fazer uma panela de sopa e às vezes prepara uma carne estufada ou outra coisa que traz para eu comer.

 

- Alguém quer tarte de maçã? - perguntou David, acenando aos dois com a ementa. - Com sorvete?

 

- Só têm isso, tarte de maçã ou sorvete?

 

- Também podes comer um bolo que veio direitinho do congelador do supermercado.

 

- Aposto que a tarte de maçã tem a mesma proveniência disse Eleanor. - Não, eu fico-me pelo café. E quanto ao pai, o que é que lhe apetece?

 

- Para mim, mais nada. Estou satisfeito. Não sou muito dado a doces. Só quero uma chávena de café. E que tal se tomássemos um uísque? - Ele e David começaram a discutir qualidades. O pai era um bom conhecedor de uísques, o que Eleanor sabia por o ter ouvido a debater o assunto em inúmeras ocasiões. Quanto a David, que aparentava ser um homem tão seguro de si mesmo, o que é que ele sabia realmente?

 

- A despensa está vazia, pai - continuou Eleanor, retomando o assunto que estava a incomodá-la logo que os pratos foram levantados e o café foi servido juntamente com o uísque.

 

- Estou óptimo. Nos últimos tempos não tenho tido grande apetite.

 

- É possível que sim, mas, apesar disso, precisa de ter algumas coisas em casa... pelo menos, leite e pão. Vamos fazer o que o David sugeriu... Amanhã vamos ao Asda para lhe comprar mercearias antes de eu voltar para casa.

 

- Estou a pensar em ir com a Eleanor para passar uns dias em casa dela - disse David. - O pai importa-se se eu for?

 

- Por mim, podes ir à vontade. Vais ver uma grande diferença nos cachopos.

 

Antes de se ir deitar, Eleanor inspeccionou a despensa, fazendo uma lista. Teria de falar com Ruby antes de se ir embora. Entretanto, o pai meteu a cabeça pela abertura da porta da cozinha.

 

- Vou lá para cima. Ultimamente tenho-me deitado cedo, em especial nos dias em que vou jogar golfe.

 

Sozinha na cozinha fria, Eleanor começou a dar conta do pó, da sujidade à volta das torneiras, do chão que estava a precisar de ser varrido. O que é que Ruby andaria a fazer nos últimos tempos? Decerto que não faria grande coisa. A verdade é que ela também estava a envelhecer, devia andar quase pelos setenta anos. Talvez tivesse chegado a altura de contratar outra pessoa para tratar das limpezas em casa do pai. Mas Ruby já trabalhava para eles há tantos anos, era ela quem tratava da casa, aproveitando para pôr as coscuvilhices em dia quando a mãe era viva, ao mesmo tempo que lhe fazia companhia, desde que ela e os irmãos andavam na escola secundária. David sentara-se na sala de estar. Ergueu uma garrafa de uísque.

 

- Queres um?

 

- Não tem pão nem manteiga em casa, mas a bebida é coisa que não lhe falta. De acordo, mas só um pouquinho.

 

David levara um aquecedor eléctrico para a sala, uma vez que a lareira a carvão não fora acesa. A sala já tinha começado a aquecer. Sentaram-se nas poltronas, cada um do seu lado da lareira. David instalou-se na do pai, enquanto Eleanor se sentava na poltrona que a mãe costumava ocupar.

 

- Esta casa está a ficar bastante suja - comentou ela. - Olha para a carpete. Desde que a mãe faleceu... está tudo muito desleixado.

 

- A casa é muito grande só para ele - retorquiu David, passando-lhe um copo para a mão com uísque até meio.

 

- Credo, não consigo beber isto tudo!

 

- Experimenta.

 

- Ora bem... - Ficou a sentir o ardor na garganta depois do primeiro gole. - David, quem é que pagou o jantar? Fui à casa de banho e quando voltei a conta já estava paga e vocês preparados para se virem embora.

 

- Paguei eu.

 

- Queres que eu te dê a minha parte?

 

- Nem pensar! Fui eu quem convidou. - ”Isto quer dizer que ele tem dinheiro”, deduziu Eleanor em pensamento. Era tão frequente o irmão não ter dinheiro, ou então aparecer com muito, o qual dava a impressão de se sumir repentinamente.

 

O segundo uísque desanuviou-os a ambos: Eleanor tornou-se expansiva e ficaram os dois a conversar durante muito tempo, com a sala a adquirir uma atmosfera pesada, mas finalmente aquecida. Mais tarde, já no quarto frio que em tempos havia sido das duas raparigas, e depois apenas de Eleanor, ela agarrou-se a uma botija de água quente, apercebendo-se de que David não lhe contara grande coisa a respeito da sua vida. Encorajara-a a falar de Claire e de como era a sua vida na Escócia, tendo-lhe ela falado também de Andrew. Seria tão conveniente se ela conseguisse gostar dele. Pelo menos, era o que Marion pensava.

 

- O que tu estás a dizer - observava David - é que ele não é ”o tal”. Está bem por agora, mas não é realmente o homem que tu procuras.

 

- Ora, como é que eu hei-de saber isso? Durante toda a minha vida, só tive um namorado a sério com quem acabei por casar. Não posso dizer que sei mais do que a Claire a esse respeito, e ela está apenas no princípio.

 

- Um bom ponto por onde começar.

 

- Será? - Eleanor ajeitou-se na poltrona, instalando-se numa posição mais confortável. - E quanto a ti? Porque é que ainda não encontraste uma mulher como deve ser para te casares e assentares?

 

- Sempre que me vês, fazes-me essa pergunta.

 

- É uma coisa que pergunto sempre a mim mesma. Se casasses e tivesses filhos, talvez acabasses por assentar.

 

- E isso é o que se deve fazer, não é verdade? Assentar?

 

- Para te ser franca, não sei. Mas a verdade é que serviu para os nossos pais. A Marion também não se dá mal com a situação... Ela sente-se feliz.

 

- Será? Com o precioso Fergus, o bom doutor? Ele tem um mau efeito em mim, faz com que eu me sinta um verdadeiro cabeça-no-ar.

 

- Os homens não podem ser... cabeças-no-ar - declarou Eleanor, rindo-se à socapa.

 

- Sendo assim, frívolo, sem préstimo. Não sei como é que o corpo humano funciona, só sei quais os efeitos do álcool no estômago, na cabeça e no espírito. Não sei como fixar prateleiras às paredes, arranjar uma torneira que pinga ou reparar uma máquina de cortar relva. Não sou um homem na verdadeira acepção da palavra.

 

- Com certeza que és suficientemente homem - interpôs Eleanor - para conseguires apaixonar-te por alguém.

 

- Oh, isso... - Mas ele recusava-se a comprometer-se. Tinha havido uma mulher de nome Sally, de que Eleanor tivera conhecimento, mas a relação terminara. Eleanor desconfiava que a mulher em questão teria casado.

 

Já na cama, ela virou-se, enrolando-se sobre si mesma, mas, mesmo assim, não conseguia aquecer o corpo. O quarto, com a mobília que tão familiar lhe era, não tinha nada de pessoal, dada a ausência de qualquer dos produtos de maquilhagem das duas irmãs, roupas e brinquedos; porém, mesmo na escuridão, Eleanor sabia que a estante continuava por baixo da janela com fileiras de livros de Enid Blyton, as edições muito lidas de Mulherzinhas, A Dream of Sadler’s Wells, assim como outros favoritos. No guarda-vestidos, um roupão velho que protegia o seu vestido de noiva. Apercebeu-se de que o quarto estava tão frio que cheirava a humidade. E se a casa precisasse de reparações de maior? Parte da madeira do peitoril das janelas estava apodrecida, no que ela reparou pela primeira vez, e a pintura das superfícies exteriores da caixilharia já começara a lascar, mostrando a madeira por baixo. O pai passava a maior parte do seu tempo a cuidar do jardim. A mãe é que se preocupava com a manutenção da casa. ”E se eu tivesse um homem”, pensava Eleanor, sentindo-se confusa nas primeiras fases do seu sono, ”será que ele trataria de tudo isso se eu lhe pedisse?” Tomadas eléctricas, prateleiras, o barracão no jardim que estava a cair aos bocados. Sonhou que Claire tinha um namorado, um rapaz já adulto, com barba.

 

Na manhã seguinte, bastante cedo, Eleanor foi à loja ao lado dos correios, onde comprou um pão de forma às fatias (do dia anterior), manteiga (muito cara) e leite (cem por cento gordo). O pai precisava de gorduras suplementares, decidiu ela, visto que no último ano tinha emagrecido e ficado com as feições mais encovadas. Pagou o que lhe pareceu de mais pelos géneros alimentícios que comprou, regressando a casa no seu automóvel com o intuito de preparar o pequeno-almoço dos três. Pouco depois de ter chegado, Eleanor viu Ruby que pedalava na sua bicicleta com o inseparável cesto de vime. Entrou na cozinha ainda com o chapéu de lã e as luvas calçadas, o que completava com um casacão almofadado, olhando à sua volta com as bochechas rosadas. Por baixo do chapéu, viam-se os cabelos grisalhos, que já rareavam, fofos e encaracolados, formando uma espécie de halo.

 

- Olá, Eleanor, estás boa?

 

- Estou óptima, Ruby, e tu, como é que tens passado? Em forma, pelo que vejo, é só olhar para ti a pedalar naquela bicicleta.

 

- Não por muito mais tempo - retrucou Ruby, pendurando o casaco. - Tenho um joelho que não me deixa em paz.

 

- O joelho?

 

- O médico diz que é por causa da artrite. - Com estas palavras, começou a subir a perna das calças, mostrando uma pele com manchas e um joelho avermelhado. Estás a ver? Estás a ver como está inchado?

 

- E dói-te?

 

- Eu não sou daquelas pessoas que passam a vida a queixar-se

 

- respondeu ela com uma expressão desdenhosa. Voltou a baixar a perna das calças e foi buscar uma bata de um tecido sintético. Vieste visitar o teu irmão - continuou ela enquanto procurava qualquer coisa na arrecadação das vassouras, reaparecendo com uma vassoura e uma pá e indo buscar o aspirador e um pano do pó.

 

- Sim, cheguei ontem - confirmou Eleanor.

 

- Estou a ver que ele deixou crescer a barba - comentou Ruby, não mostrando qualquer dúvida quanto ao que pensava daquilo, pelo que não precisava de pedir a opinião da outra mulher.

 

- E como é que a Marion e os cachopos estão? O pequeno Ross cresceu bastante quando esteve cá no Verão passado.

 

- Está quase tão alto como o pai.

 

- E o doutor?

 

- Está bom.

 

- Falei-lhe do meu joelho... e ele ajudou-me muito. É melhor do que o jovem doutor Cleland do hospital. Esse... escreve tudo o que a gente lhe diz, mas nunca diz nada. Sai-se do consultório com outra receita, sem fazer a mais pequena ideia do mal que nos aflige.

 

Ruby começou a desenrolar o cordão flexível do aspirador, mas sem fazer menção de ligar a ficha à tomada. Eleanor foi ao lava-louça para passar a chávena por água.

 

- E quanto a ti? Já arranjaste algum homem?

 

- Achas que eu devia casar outra vez, é isso? - perguntou Eleanor, rindo-se.

 

- Na tua idade, não é natural não ter um homem. Estás muito magra. Porque é que ainda não arranjaste outro homem?

 

- Talvez já tenha arranjado.

 

- Hum... - Ruby estreitou os olhos e fungou. Se não via uma aliança de casamento, o que quer que existisse entre um homem e uma mulher, para ela, não teria o mínimo significado. Dando a impressão de ter perdido o interesse no assunto, levou o aspirador para fora da cozinha. Eleanor ouviu o barulho do aparelho a funcionar na galeria acima de si. Fechou a porta da cozinha e começou a ler a sua lista das compras. Mais tarde, talvez falasse com Ruby acerca da despensa vazia, mas ainda não se sentia com disposição para abordar esse assunto com ela. Qualquer coisa a que chamava ressaca fazia com que se sentisse irritadiça, além de ter dores de cabeça. O que é que Ruby... ou David, ou qualquer outra pessoa... tinha a ver com o facto de ela ter um homem ou não? ”Não quero nenhum homem”, concluiu ela. ”A única coisa que eu quero é pôr algumas prateleiras na sala de estar e arranjar o autoclismo da casa de banho.” Um homem que seja habilidoso. E uma botija maior de água quente.

 

- Estás pronta? - perguntou David entrando na cozinha, vindo do jardim onde estivera a fumar um cigarro. Eleanor cheirou o fumo que se agarrara às roupas do irmão, juntamente com o ar húmido de Novembro.

 

- Onde é que está o pai?

 

- No barracão. Ele também quer comprar umas coisas de jardinagem no Asda.

 

- De acordo. Vou só dizer à Ruby onde é que vamos.

 

Chegados ao supermercado, David comprou cerveja e uísque para levar consigo para o Norte; entretanto, o pai desapareceu na secção de jardinagem no extremo mais afastado, cabendo a Eleanor comprar os géneros de mercearia. Feitas as suas compras e depois de as ter guardado no automóvel, regressou ao supermercado à procura dos dois; aproveitou para ver se havia algum artigo de roupa interior de marca em promoção, um presente para Claire. Em seguida, teriam de se pôr a caminho; não queria ser obrigada a conduzir à noite.

 

Subitamente, quando passava pela secção de bricolagem, continuando a procurar o pai e o irmão, Eleanor parou. Houve alguém atrás de si que quase lhe bateu com o carrinho cheio de compras.

 

- Desculpe - disse ela -, peço desculpa. - Mas, mesmo assim, continuou sem se mexer, a empatar o caminho de todos os que queriam passar por ali. lan. E ali estava ele bem presente, com o seu fato e gravata, de aspecto muito cuidado, um homem bem-parecido e com um ar de competência. Eu estava em segurança. Eu estava em segurança quando tu te encontravas junto de mim. Agora, não há nada que me ofereça segurança. Era a casa que ameaçava desmoronar-se à volta do pai. Não lhe era difícil ver que a vivenda Pitcairn estava cada vez mais deteriorada, sem ninguém que fizesse as reparações que eram indispensáveis. Contudo, se decidissem vendê-la, como é que o pai conseguiria sobreviver? ”No que me diz respeito, a tua mãe continua presente nesta casa”, dissera-lhe ele alguns meses depois da morte dela. As outras pessoas, bem-intencionadas (muito em especial, as tias), comentavam: ”Ele tem de se mudar. Ele não pode continuar a viver sozinho naquele casarão enorme.” Mas Marion, Eleanor e David haviam concordado que o pai ficaria com o coração despedaçado se fosse forçado a abandonar aquela casa. Ele contara com o apoio dos filhos, certo da compreensão dos três, pelo que nenhum deles teria coragem para lhe dizer que chegara a altura de vender a casa. ”Logo que o lan faleceu, eu deixei Heatherlea”, pensou Eleanor. Continuou imobilizada, a olhar para as correntezas de chaves de parafusos e pontas de brocas, até que as imagens ficaram desfocadas devido às lágrimas que lhe arrasavam os olhos; a sensação de perda adensou-se em seu redor.

 

- Estavas aqui - disse David, carregado de sacos que chocalhavam com os movimentos. - Eleanor? Estás a sentir-te bem?

 

- Estou - respondeu, pestanejando com força e tirando um lenço de papel da bolsa para se assoar. - Só que me pus a pensar... estar aqui, em Pitcairn, contigo... calculo que tenha sido isso que me trouxe tantas recordações.

 

- O quê? - Mas ele sabia. - Tu estás bem, Eleanor, estás muito melhor do que alguma vez estiveste com ele.

 

- Estarei?

 

- Sim - respondeu ele, convicto.

 

- A culpa não foi minha - acrescentou ela.

 

- Não - concordou ele; ficaram a olhar um para o outro.

 

- Ou terá sido?

 

- Não - repetiu David.

 

- Vamos procurar o pai - sugeriu Eleanor, respirando fundo.

 

Depois de terem almoçado, meteram-se no carro e regressaram a casa. Ruby fizera sopa de lentilhas.

 

- Se pusermos uma colher ao alto nesta sopa, ela fica de pé comentou o pai de Eleanor. - Até se agarra às costelas. A sopa da Ruby é o que me aguenta durante a semana toda.

 

No caminho de acesso à casa, Ruby tinha passado por eles, com o gorro de lã todo puxado para as orelhas, a pedalar vigorosamente.

 

Depois de terem lavado os pratos e de David ter emalado as suas coisas, ele e Eleanor puseram-se a caminho. John Cairns ficou na porta da frente, acenando-lhes num gesto de despedida.

 

- Volta dentro em breve - dissera ele a Eleanor. - Na próxima vez que vieres, traz a Claire.

 

Tinha um aspecto tão emagrecido e frágil, sozinho na porta da frente daquele casarão tão grande, com as roupas muito coçadas que vestia quando tratava do jardim, as quais usava, e Eleanor sabia, durante a maior parte do tempo. Um homem idoso e magro, de feições encovadas e nariz aquilino. Sentiu-se invadida por um sentimento de culpa por deixar o pai sozinho.

 

A caminho de casa, a conversa dos dois irmãos centrou-se principalmente em Marion e nas crianças. David irritava Eleanor por tanto remexer nas cassetes de música, substituindo-as constantemente enquanto criticava os seus gostos musicais.

 

- Deixa-me em paz - exclamou ela por fim. - É o tipo de música de que eu gosto. Tens de abordar esse assunto com a Marion, ela é que é a entendida na matéria.

 

- Continua a tocar?

 

- Ocasionalmente. Diz que não tem tempo para praticar. Começou a ensinar música à Eilidh, mas tenho a impressão de que se deixou disso. A Eilidh perdeu o interesse.

 

- Mas a Marion está bem, feliz e contente?

 

- Ora, sabes como ela é, aguenta tudo e mais alguma coisa, cuida das necessidades de todos. A mulher perfeita de um médico. Acho que se sente feliz. Às vezes chego a invejá-la. Não é bem inveja, essa é a palavra errada. Mas ela aparenta ter tudo... família, dá aulas quando bem lhe apetece, um bom casamento e uma casa encantadora.

 

- Esplêndido! - exclamou David. - Fico contente pelo facto de as coisas correrem bem pelo menos a um de nós.

 

- Estás a querer dizer que tu não... que eu... que não somos felizes? - Ambos desataram a rir, como crianças que tivessem feito uma maldade nas costas dos adultos, sentindo-se culpados, mas sem remorsos.

 

A viagem para o Norte pareceu mais fácil por ser a direcção certa em que se devia viajar. Quando chegaram a Elgin, David já passava pelas brasas. Seguiam pela tarde que escurecia, cada vez mais próximos de Marion, de casa.

 

- A maneira como falas a esse respeito - dissera Fergus quando ainda não conhecia Marion a fundo -, até parece que há muitas gerações que a tua família vive em Pitcairn.

 

- Não - admitiu Marion, embora isso fosse o que ela teria preferido ser a verdade. - O meu pai comprou a casa quando herdou dinheiro depois da morte da minha avó. Isso e o facto de ter sido promovido a gerente e depois a director. Profissionalmente, a vida corria-lhe muito bem.

 

- Em que é que ele trabalhava?

 

- Numa empresa de transportes por via terrestre. Esse emprego foi-lhe oferecido com a incumbência de organizar os horários e os livros de contabilidade. Ele tirou um curso de contabilista, mas não gostava do lugar onde trabalhava; acho que as funções eram extremamente enfadonhas. Seja como for, quando ele começou, a empresa tinha apenas meia dúzia de camiões. Mas foi crescendo a pouco e pouco... o Eddie Shanks teve muito êxito profissional... pelo que o meu pai também foi beneficiado. Neste momento, a empresa deve dispor de uns trinta ou talvez mesmo cinquenta camiões. Também passou a dedicar-se ao ramo das mudanças e armazenagem.

 

- Oh! - exclamou Fergus; a manhã começava a despontar. Ele trabalha para a Shanks.

 

E fora assim que a família tomara posse da Casa Pitcairn: reflectia o seu novo estatuto social. Pelo menos, era o que Marion e Eleanor acreditavam enquanto cresciam. Descobriram que as pessoas assumiam, devido à semelhança do nome, ”Cairns”, e o nome da vivenda, que entre os dois devia existir alguma associação de família. Porém, quando perguntaram à mãe sobre isso, Faith tinha-lhes respondido de modo muito vago.

 

- Ora bem, é muito possível que há muitos anos tenha existido qualquer ligação. De qualquer maneira, a casa ajusta-se a nós da forma como somos. Sinto-me como se tivesse vivido aqui durante toda a minha vida.

 

David era o que mais se enquadrava naquela realidade. Marion tinha quatro anos, e Eleanor quase dois, quando David nasceu. Nenhuma das duas guardara qualquer recordação da gravidez da mãe, enquanto Eleanor nem sequer se recordava de uma existência sem que David estivesse presente. Marion lembrava-se de lhe terem dito que tinha um irmão, olhando à sua volta na expectativa de ver a chegada de um rapaz. Mais tarde, foi-lhe mostrado um recém-nascido, bem agasalhado numa envolta branca, com a face avermelhada, que a seguir foi colocado num carrinho de bebé.

 

- Estranho - observava Marion sempre que falavam sobre aquele assunto, o que faziam de vez em quando, recordando a meninice das duas, comparando as recordações que ambas guardavam.

 

- Quando eu estava grávida da Kirsty, costumava abordar a gravidez, ao pormenor, com o Ross e com a Eilidh... Ela mostrava-se tão interessada. Queria sentir o bebé a mexer-se dentro da minha barriga, ouvi-lo. Costumava falar com ele. Era tão engraçado... Estávamos no supermercado e ela tocava-me na barriga, dizendo: ”Aqui é a secção dos doces, mas tu não podes comer nenhum.”

 

Eleanor limitava-se a acenar com a cabeça, uma vez que só se achava graça às crianças quando se tratava dos nossos próprios filhos. Mas, fosse como fosse, era frequente sentir que jamais conseguiria dedicar tanto amor a um filho (talvez mesmo até em relação a Claire) como Marion dedicava aos seus.

 

- Contudo - prosseguiu esta - suponho que nessa altura ela era mais crescida. Pelo menos, um pouco mais crescida do que eu era quando o David nasceu. Além disso, hoje em dia, as crianças têm uma percepção muito mais clara das coisas.

 

No entanto, quando ambas regressavam ao passado, não era para se recordarem de David durante a sua primeira infância, mas sim dele já rapazinho, e dos problemas em que ele se metia constantemente, os sarilhos que arranjava às duas. Quando ele fizera quatro anos, a família mudara-se da casa onde vivia numa encosta de solo de granito, próximo do Parque Westburn, não muito distante da escola, para a Casa Pitcairn, que se situava no campo, no meio de nenhures. Marion recordava-se da casa em Aberdeen e Eleanor também afirmava o mesmo (houve um ano em que vimos o fogo-de-artifício da janela do nosso quarto. Quando caí, até bati com a cabeça no portão). Por seu lado, David dizia a quem o queria ouvir que nascera em Pitcairn.

 

- És um mentiroso - trocava Marion. - Além do mais, és demasiado novo para te lembrares.

 

A mudança fez-se no Outono e nos primeiros tempos Marion sentira-se infeliz. Nas redondezas não vivia mais nenhuma família, pelo menos numa distância que pudesse ser percorrida a pé, com a excepção dos Mackies da quinta, e os filhos destes já eram adolescentes. De vez em quando, caso os pais se ausentassem, Eileen Mackie ia tomar conta deles, alturas em que Eleanor aproveitava para experimentar pintar as unhas com o verniz vermelho de Eileen. David recusava-se a ir deitar-se, tendo havido uma ocasião em que ele assomou ao cimo das escadas, pondo-se a rugir como um leão, mas escorregou, dando um trambolhão pelas escadas abaixo, só parando quando chegou ao fundo.

 

- Ele está sempre a fazer asneiras destas - declarou Marion, observando a cena, sem qualquer mostra de emoção, enquanto Eileen embalava David, que não parava de berrar, e Eleanor chorava de medo ao lado desta. - Talvez eu devesse telefonar ao médico? Sei como telefonar.

 

Eileen, porém, optou por chamar a sua mãe, tendo-se concluído posteriormente que David não se magoara com gravidade.

 

- A minha mãe disse que amanhã deviam ver se ele está bem

- informou Eileen quando Faith e John chegaram a casa. - Lamento muito o sucedido, Mistress Cairns, eu já o tinha deitado, mas ele não parava sossegado na cama.

 

Eleanor e Marion haviam saído sorrateiramente do quarto que partilhavam, espreitando pelos balaústres. Os pais estavam no vestíbulo; o pai usava um fato escuro e a mãe um vestido preto e uma mantilha rendilhada, onde a luz incidia com reflexos de púrpura e índigo sempre que ela se mexia. Ao pé do pai e de Eileen, esta anafada e de pele muito branca, a mãe parecia uma borboleta ínfima. Visto lá de cima, o cabelo dela dava a impressão de ser uma touca de um negro cintilante, mas conseguiam ver o couro cabeludo do pai, ligeiramente rosado, por baixo do cabelo de um castanho-claro, muito bem penteado. Um pouco mais tarde, Eileen foi-se embora e a mãe começou a subir as escadas, fazendo com que as duas garotas regressassem apressadamente ao quarto, deitando-se. Mas ela foi primeiro ao quarto de David, o qual, apesar de dorido, tinha adormecido, uma vez que não sofrera nada de grave. Em seguida, foi ao quarto das duas, levando consigo a fragrância do perfume que costumava usar, misturado com o cheiro a charutos e o aroma rico a comida: tudo cheiros característicos do mundo exótico de onde acabara de chegar, regressando para junto dos filhos.

 

Na manhã seguinte, começou a limpar os armários da cozinha, vestida com um par de calças e uma camisola velha, com os cabelos presos dentro de um lenço. Mostrava-se irritada, pelo que as raparigas se mantiveram afastadas dela.

 

Na primeira Primavera que passaram na Casa Pitcairn, Marion começou a mostrar-se mais animada. Todos os dias - agora mais compridos -, depois de virem da escola, exploravam os jardins. A um canto, andavam a construir uma nova capoeira; iam passar a ter ovos frescos, dissera Faith. Nas manhãs de sábado, o pai costumava levá-los a passear, parando para encher o seu cachimbo e servindo-se dele para apontar para aquilo em que queria que os filhos reparassem.

 

- São framboeseiras, precisam de levar estacas. Mesmo assim, dão muitos frutos em Agosto... Mais um ano e vocês poderão trepar àquela árvore.

 

- O David, não - comentou Eleanor, que era alta, da mesma altura que Marion, apesar de esta ser mais velha.

 

- Aposto que o David também conseguirá trepá-la - retorquiu o pai, rindo-se. - Duvido muito que sejam capazes de o impedir. Mas há-de cair umas quantas vezes, se não estou enganado e conhecendo-o como conheço.

 

A recolha dos ovos era uma tarefa de que Marion fora incumbida, uma vez que era a mais velha dos três, além de ser a mais atinada. Mas havia ocasiões em que uma ou outra galinha punha os ovos fora do sítio, pelo que os três tinham de os procurar. Estavam a acostumar-se a viver no campo, embora Marion continuasse a sentir falta de crianças da sua idade. Às vezes havia uma ou outra colega de escola que ia lanchar a sua casa. Eleanor recordava-se dessas garotas como se fossem sempre a mesma, mas Marion afirmava que eram várias. Violet foi a que durou mais tempo: era uma miúda muito atinada, sempre com o cabelo comprido bem penteado, em tranças muito apertadas; usava vestidos muito limpos e meias brancas. Comia muito pouco, dando a impressão de gostar apenas de feijão com molho de tomate de lata, o que Faith nunca comprava, e batatas fritas, o que costumava comer-se aos sábados em casa dos Cairns, enquanto o pai ouvia no rádio os resultados dos jogos de futebol, altura em que todos tinham de se manter em silêncio. Marion e a amiga costumavam desaparecer no primeiro andar, rindo-se à socapa por detrás da porta fechada do quarto. Quanto a Eleanor, mantinha-se perto da mãe a lamuriar-se.

 

- Elas não me deixam entrar, apesar de o quarto também ser meu.

 

- Vai à procura do David.

 

- Não sei onde é que ele está.

 

- Mais razão para o ires procurar... Vai ver onde é que ele foi. Deve estar no jardim.

 

Eleanor passara os meses de Verão a andar cabisbaixa pelos jardins: as plantas estavam todas exageradamente crescidas, sem que ninguém cuidasse delas, o que se devia ao facto de a Primavera ter sido muito chuvosa, prolongando-se até Junho, ao que se seguiu o calor repentino de Julho. Fazia muito calor e o Sol desferia os seus raios ardentes do alto de um firmamento muito azul. Eleanor dava pontapés nas pedras, esfolando as sandálias. Havia uma galinha de penas castanhas que bicava o caminho diante dos seus pés. Um dos gatos instalara-se junto de um arbusto, olhando como que hipnotizado para um ponto acima de si, os olhos fixos num pássaro invisível, ignorando a presença de Eleanor. Não avistou qualquer sinal de David.

 

- Davy! - chamou em voz alta, mas depois tentou um tom de voz diferente, não lhe agradando o timbre esganiçado com que o chamara. - Davy! - Desta feita, num tom mais profundo, quase numa voz roufenha: - Davy! - Continuou a chamar sem obter resposta. Era possível que ele pensasse que era o pai quem chamava por si, caso ela conseguisse fazer uma voz mais grossa. Chegou ao muro a que subiu, sentando-se escarranchada numa parte que não tinha muito musgo e que estava seca. Num dos lados, tinha o jardim, as macieiras e os arbustos que davam frutos de baga, assim como o trilho que atravessava aquela parte, dividindo a secção que dava para a capoeira das galinhas e a da horta separada em vários canteiros, após o que se estendia pelos maciços de lilases até à casa. No outro lado do muro, um lugar que agora lhe era familiar, ainda que não inteiramente conhecido, havia os campos com o gado que se reunia em manadas pelos cantos, como se os animais esperassem que, finalmente, começasse a chover; aqui e ali viam-se pequenas moradias com os vidros das janelas a reflectirem os raios solares. Mais ao longe, avistavam-se as colinas. E ainda mais à distância, à esquerda, se ela passasse a perna para o outro lado, posicionando-se de frente, conseguia ver o arvoredo onde, em Outubro, se podiam colher amoras, sendo frequente que David se aventurasse sozinho por entre as árvores ou acompanhado por um rapaz da aldeia, Stanley, cujo pai trabalhava como marceneiro; a família vivia junto dos correios e da mercearia. Ao princípio, Faith não encorajara o filho a fazer amizade com Stanley; pensavam que o garoto era rude. Mas, pouco depois, a mãe deste faleceu de morte súbita, o que fez com que ela se condoesse do garoto. Depois disso, ele passou a ter autorização de ir a casa deles tantas vezes quantas lhe apetecesse, sendo frequente jantar com a família. O pai, de luto, passava cada vez mais tempo no Pitcairn Arms.

 

Talvez David andasse pelo bosque, com Stanley. Eleanor desceu pelo outro lado do muro, caindo sobre a vegetação alta. Na extremidade do arvoredo, avistou uma coluna de fumo. Não se tratava de uma fogueira: David não tinha autorização para fazer fogueiras sozinho. Na verdade, não lhe era permitido andar com fósforos, tendo havido uma discussão bastante acesa havia apenas uma semana quando ele e Stanley tinham pegado fogo a uns papéis no esconderijo dos dois, ao fundo do jardim. Faith avistara o fumo da janela da cozinha, apressando-se a correr porta fora. Os dois rapazes haviam recuado, com uma expressão no rosto que era um misto de curiosidade e orgulho, que logo a seguir deu lugar a uma sensação de empolgamento quando as chamas pegaram, e as folhas secas por baixo dos papéis começaram a estalar juntamente com os galhos que eram rapidamente consumidos pelas labaredas.

 

Agora, quanto mais Eleanor se aproximava, melhor via a espiral de fumo, concluindo que afinal o fumo vinha de uma fogueira. Aproximando-se mais, detectou sinais da presença de outras pessoas: viu roupas espalhadas pela vedação e um cão preso por uma corda comprida, puxando-a numa tentativa vã para se soltar enquanto ladrava; também viu uma criança pequena que corria pelas proximidades, além de um homem que apareceu de fugida a gritar. Pouco depois, avistou uma carroça que aquelas pessoas deviam ter puxado pela vereda que circundava o outro lado do bosque, caminho que numa direcção seguia para Smiddy e para Mains Pitcairn pela oposta. Acima da fogueira, viu uma panela de ferro suspensa de uma armação feita com paus; às narinas chegava-lhe o cheiro de um cozinhado com carne. Inclinada sobre a fogueira, encontrava-se uma mulher que vestia uma blusa e saia comprida escuras, com um chapéu de homem puxado para o rosto, ocultando-lhe as feições. Eleanor hesitou, receando aproximar-se mais. Quando a mulher ergueu a cabeça, dando pela presença da garota, esta virou-se, desatando a correr e atravessando a erva molhada até chegar ao lugar seguro no muro.

 

- São viajantes - dissera a mãe, mas Violet informara que eram ciganos, torcendo o nariz arrebitado perante o prato de salada com fiambre e língua de vaca, segredando a Marion que não gostava de tomate porque as sementes cresciam dentro do estômago.

 

- Para onde é que eles estão a viajar? - perguntou Eleanor à mãe.

 

- Eles limitam-se a andar de um lado para o outro - respondeu o pai, sentando-se à cabeceira da mesa.

 

- Não te aproximes deles - advertiu Faith enquanto punha os copos de água na mesa, mas Violet não bebia água sem mais nada.

 

- Não há sumo? - perguntou Marion como se não soubesse que a mãe dissera que o camião que distribuía a Lemonade Hay não tinha parado. - Ela costuma beber sumo em casa dela.

 

- Há leite - ofereceu Faith -, ou água.

 

Mais tarde, Violet compensou as carências da refeição, comendo dois pratos cheios de sorvete com gelatina, o que a mãe servira porque Marion tinha uma convidada. Depois, já na sala de estar, Violet regalou as crianças da família Cairns com os seus conhecimentos a respeito dos ciganos.

 

- São uma gente muito porca - afirmou ela. - A minha mãe não me deixa falar com os filhos deles. Eles nem sequer andam na escola.

 

- Mas são obrigados a ir à escola.

 

- A assistente social costuma andar atrás deles, mas às vezes não é capaz de os apanhar. Já se mudaram para outro lugar qualquer.

 

- Então, durante quanto tempo é que tu achas que eles tencionam ficar no nosso bosque?

 

- Eu e o Stanley - informou David - estivemos mesmo ao pé deles. Fomos ao acampamento.

 

- Eles são imundos - reiterou Violet. - Metem nojo. Nunca tomam banho e não têm casas de banho como deve ser.

 

- Sendo assim, como é que... - Eleanor interrompeu-se, mas Violet abanou a cabeça, cerrando os lábios.

 

- O cão não faz mal - acrescentou David. - O cão é muito amigável; se gostar das pessoas, não morde nem nada disso. E têm dois rapazes, mais novos do que o Stanley e eu. O mais velho parece que nunca andou na escola - informou com um suspiro.

 

- Ele sabe ler? - perguntou Marion. David respondeu-lhe com um encolher de ombros.

 

- Se eu for apanhada a falar com os ciganos, levo uma tareia com o cinto - disse Violet, fungando com uma expressão de desdém.

 

- És uma medricas - ripostou David com uma careta risonha, inclinando-se todo para trás em cima do braço do sofá, acabando por cair estatelado no chão e rebolando sobre si mesmo. Medricas! Medricas! - ouvia-se a voz dele enquanto continuava a rebolar, até que se pôs de pé, saindo da sala, enfadado com a presença de Violet.

 

Faith voltou a avisá-los na manhã seguinte. Era sábado e, apesar de ainda ser cedo, hora do pequeno-almoço, Stanley já tinha chegado, batendo à porta das traseiras à procura de David.

 

- Quero que vocês dois se mantenham afastados do acampamento dos ciganos... David e Stanley, porém, já corriam pelo quintal fora, pelo que a resposta de David tanto podia ter sido de aquiescência como não. Faith suspirou, concentrando a sua atenção nas duas garotas. - E isto também vos diz respeito.

 

- A Violet diz que eles têm pulgas - informou Marion, dirigindo-se tanto à mãe como à irmã enquanto empilhava a louça cuidadosamente junto do lava-louça. - Portanto, a mãe não tem de se preocupar. Não tenciono nem chegar perto do acampamento.

 

- Bem, não sei se... - Faith não sabia o que dizer.

 

- Não fazem mal a ninguém, pois não? - perguntara John na noite anterior, quando Dan Mackie tinha passado por lá para debater o que deviam fazer quanto àquele problema.

 

- Não, mas não gostei nada da fogueira junto do arvoredo alegou Dan. - A erva está muito seca e por isso não é preciso muito para pegar fogo.

 

- Tenciona correr com eles daqui para fora?

 

- Não quero que se instalem nas minhas terras; que vão para mais longe. - Mas Dan mostrava uma expressão de dúvida; empurrou o boné para trás, esfregando a testa. - Eu podia falar com o Archie, duvido muito que ele os autorize a permanecer nas suas terras.

 

Ele e John ficaram a conversar do lado de fora da porta das traseiras, apesar de estar muito calor; Dan tinha as mangas arregaçadas, mostrando a pele dos braços, bronzeada e curtida pelo tempo, assim como a da garganta que o colarinho aberto permitia ver. Um pouco mais abaixo do pescoço, a pele era macia e de uma brancura leitosa, visto nunca estar exposta às condições climatéricas. Faith mantinha-se à porta da cozinha, ouvindo o que os dois homens diziam enquanto pensava na mulher. Recordava-se de uma cigana que aparecera por ali havia alguns anos, durante o primeiro Inverno que passaram em Pitcairn, uma mulher com uma criança na barriga e outra pela mão. Tinha a certeza de que se tratava da mesma família de ciganos.

 

- Eles têm alguma carrinha? - perguntou ela. - São os mesmos que cá estiveram há uns anos, não é verdade? Nessa altura, tinham uma carrinha.

 

- Sim, há vários anos que eles não têm pouso certo - confirmou Dan. - Houve uma ocasião em que os deixei dormir no palheiro, mas o homem dela fuma e por isso não me senti muito tranquilo. - Virou-se para Faith. - Desta vez, eles devem estar muito em baixo... Têm uma carroça onde trazem tudo o que possuem e que ele próprio puxa; não vi nenhuma carrinha.

 

- Pois bem - interveio John -, eles precisam de um abrigo qualquer. O ar está muito pesado... estou em crer que teremos uma tempestade nos próximos dois dias.

 

- O que é que lhes acontecerá? - perguntou Faith. - Ela com dois garotos pequenos e o bebé.

 

- Não me agrada muito - retorquiu Dan com um encolher de ombros -, mas suponho que ela possa abrigar-se outra vez na Mains - concedeu ele. - Ela e os cachopos. O homem dela é que eu não quero no meu palheiro. Da última vez que ela esteve cá, antes de se ir embora vi que tinha um olho negro. Está-me a parecer que ele lhe levanta a mão. - A fisionomia de Dan, que já era de poucos amigos, contorceu-se ainda mais numa expressão de reprovação.

 

Faith voltou para dentro de casa, sentindo no peito um aperto de piedade eivado de receio. Talvez conseguisse desencantar algumas roupas de recém-nascido; pelo menos, poderia fazer isso pela mulher. Havia algum tempo que tinha a intenção de arrumar o sótão. Já na cozinha, levantou a louça do jantar que ficara na mesa, o que fez com energia e rapidez, esforçando-se por não pensar na cigana.

 

Agora era sábado de manhã e a ameaça de temporal continuava a pairar no ar. Todavia, o céu estava muito azul, sem se avistar uma única nuvem. Eleanor percorreu o trilho que a levaria ao seu lugar favorito no muro. O fumo que vinha do acampamento dos ciganos começou a dissipar-se lentamente, desaparecendo em direcção ao firmamento sem sequer uma brisa que o agitasse. Avistou dois rapazes, mais novos do que o irmão, que corriam de um lado para o outro, enquanto o cão saltava entre os dois a ladrar incessantemente. Eleanor esperava, aguardando David e Stanley, mas não avistou sinal de nenhum dos dois garotos. Decorridos alguns momentos, desceu do muro, começando a encaminhar-se para casa. Viu os rapazes que entretanto haviam regressado ao quintal, sentados ao lado um do outro de pernas cruzadas enquanto jogavam às cartas. Então, repentinamente, tão de súbito que pareceu que ela se materializara, avistou a mulher que Eleanor vira no dia anterior, com a sua saia comprida e chapéu de homem. Vista de perto, era mais magra e mais jovem. Calçava umas botas de cano curto, atadas com um cordão em lugar de atacadores; entre o cimo das botas e a orla da saia via-se que não trazia meias e tinha as pernas peludas. Estendia qualquer coisa aos dois rapazes. Na outra mão trazia uma cesta ampla. Eleanor chegou ao quintal no momento em que David se encaminhava para casa a fim de chamar a mãe. A mulher virou-se para Eleanor.

 

- Compra-me um pouco de urze para te dar sorte, minha querida; queres que te leia a sina? - Eleanor respondeu-lhe com um abanar de cabeça, dando alguns passos atrás. Então Faith apareceu e, para grande espanto da filha, convidou a mulher a entrar na cozinha.

 

As crianças deixaram-se ficar junto da porta das traseiras, ouvindo a conversa que decorria no interior. A voz da cigana, apesar de rouca, era suave, com uma cadência musical que eles nunca tinham ouvido, enquanto ela ia desfiando o rosário das suas agruras; Faith reagia com um abanar de cabeça. Mas, no fim, acabou por comprar à cigana algumas molas para a roupa e um bocado de renda. Pouco depois, a mulher saiu, parando quando deparou com as crianças.

 

- Tem aqui dois cachopos encantadores - disse ela. - Dois e não mais, embora lhe tenha vindo outro. E há-de vir a perder um outro. - Com estas palavras, tocou ao de leve na cabeça de David que se contorceu todo. - Este garoto é um perigo, muito estouvado. Tem de se manter de olho nele. Mas nunca deve receá-lo. Voltou-se para Faith. - Estou-lhe muito agradecida, minha senhora, é uma pessoa muito bondosa. Que Deus a abençoe.

 

- Tudo um rol de disparates - comentou Faith depois de a cigana se ter ido embora. - Não disse coisa com coisa. Parece que sentem que têm de dizer uma data de palavras à toa para que as pessoas lhes comprem qualquer coisa.

 

Marion afastou-se com o bocado de renda. Eleanor nem sequer lhe quis tocar. David sentou-se a comer bocados de massa crua do bolo que a mãe estava a preparar, entretendo-se a brincar aos soldados com Stanley, para o que se servia das molas da roupa.

 

Depois do jantar, quando Eleanor foi até ao fundo do jardim para ver os ciganos, verificou que já se tinham ido embora e tudo o que restava da sua presença era o pedaço de solo enegrecido onde haviam feito a fogueira, assim como um bocado de tecido que ficara preso na madeira da vedação.

 

Não tardou muito a esquecer-se deles enquanto procurava David. Ele e Stanley haviam saído de novo assim que acabaram de jantar. Era suposto que o irmão acompanhasse o amigo até ao fim do caminho, às oito e meia da noite, após o que teria de ir para dentro a fim de se deitar. Contudo, às nove e meia ele ainda não tinha aparecido. John e Faith saíram à sua procura, no que eram ajudados pela luz diurna, uma vez que os dias eram mais compridos em Agosto; no horizonte, o firmamento de uma tonalidade de pérola começara a adquirir tons rosados.

 

As dez e meia, trouxeram-no de volta para a casa, tendo ele ido para a cama no meio da reprovação geral. Às onze horas, o celeiro dos Mackies deflagrava em chamas, qual fornalha a arder intensamente.

 

Todos ficaram a pé durante a noite inteira: às crianças foi proibido saírem de casa, o que não as impediu de se instalarem à janela do quarto dos pais, observando o clarão vermelho que iluminava o céu, cada vez mais intenso, enquanto ouviam as sirenes dos carros dos bombeiros, os gritos, o estalar horroroso da madeira em chamas. David corria de uma janela para à outra, tentando observar o incêndio do melhor ângulo que lhe fosse possível ter, rosto pálido e olhos que pareciam arder como carvões, com uma respiração ofegante. As raparigas sabiam que o melhor era ignorarem-no; era frequente que Faith dissesse que ele se deixava levar pelo entusiasmo e, fosse como fosse, continuava em maus lençóis no que dizia respeito aos pais.

 

Faith acabou por ter de ir ao quarto, ordenando-lhes que se fossem deitar. O pai continuava na Mains, onde passaria toda a noite.

 

- Que grande tragédia para os Mackies - observou ela. A palha e os fardos de feno... o celeiro completamente destruído. É horrível. - Mas ela falava consigo própria e não com os filhos. Com gestos bruscos, aconchegou as filhas, entalando os cobertores de modo a ficarem bem apertados, como se mal as visse, com o pensamento concentrado num outro lugar qualquer que não ali. Deixaram-se ficar deitadas com o corpo rígido, imobilizadas pelos cobertores, enquanto ela se dirigia para o quarto de David, ouvindo-a a falar com ele em voz baixa, mandando-o calar.

 

Quando ela já percorria a galeria, ele chamou pela mãe.

 

- Dorme - retorquiu ela sem se deter.

 

Já no piso térreo, Faith fez chá e preparou sanduíches para os homens, para os que continuavam a fazer todos os esforços para extinguir o fogo que devorava o palheiro, sufocando por causa do fumo espesso e negro que enchia o ar. As raparigas dos Mackies, Susan e Eileen, estavam com ela, assustadas e chorosas, assim como Ruby, que viera da aldeia, e a Mrs. Masson dos correios. As duas garotas ouviam as vozes das mulheres, que ora se elevavam ora se aquietavam, juntamente com o entrechocar da louça. O clarão das chamas voltou a iluminar o quarto e elas só conseguiram conciliar o sono aos primeiros alvores da manhã.

 

Anos mais tarde, continuariam a dizer entre si, sempre que ouviam falar de um incêndio:

 

- Lembras-te da noite em que o celeiro dos Mackies ficou destruído pelo fogo?

 

Era o fogo que ficara gravado na memória das duas e não as mortes, as quais foram mantidas ocultas durante algum tempo, um assunto de que ninguém falava diante das crianças.

 

- Então, o que é que pensas dele? - perguntou Claire. A sua voz era abafada porque estava a roer as unhas. Tinha-as deixado crescer para a festa de Emma, mas agora, pelo menos durante algum tempo, tencionava continuar a roê-las. Mais tarde, voltaria a deixá-las crescer para a festa de Natal na escola. Gostava da sensação que os dentes lhe proporcionavam quando trincavam um novo bocado de unha, a maneira como podia mordiscar ao longo de uma unha comprida e de sentir a textura lascada na boca antes de cuspir o fragmento.

 

- De quem... do tio David? - perguntou Eilidh. Esta nunca roía as unhas. Entretinha-se a pintá-las de verde e preto alternadamente, e o ambiente estava impregnado do cheiro a acetona. Acho que é boa pessoa.

 

O quarto de Eilidh era confortável. O calor que irradiava das duas, que não paravam de conversar, embaciara os vidros das janelas. Eilidh sentava-se num banco diante do espelho do seu toucador; Claire instalara-se na cama, com um almofadão nas costas e um gato adormecido em cima dos pés.

 

Eilidh abanava a mão, cujas unhas acabara de pintar, para que o verniz secasse mais depressa.

 

- A minha mãe diz que a seguir ele vai ficar em vossa casa.

 

- É verdade, a minha mãe tem andado a arrumar o quarto de hóspedes. Desde que nos mudámos que está cheio de caixas. Agora está a pôr tudo no corredor, o que me obriga a ter de passar por cima das caixas para conseguir entrar no meu quarto.

 

- Não percebo porque é que ele não continua aqui - disse Eilidh -, uma vez que a nossa casa é muito maior do que a tua.

 

- Não te esqueças de que a tua mãe tem o teu pai com quem falar, enquanto a minha não tem ninguém.

 

- Ela continua a sentir a falta do teu pai?

 

- Suponho que sim - respondeu Claire com um encolher de ombros. Eilidh quisera acrescentar: ”E tu?”, mas sabia que havia ocasiões em que Claire não gostava de falar sobre esse assunto.

 

- O tio David não veio carregado de presentes, pois não? - comentou Claire. - Quando ele ficou em nossa casa, em Inglaterra, costumava chegar sempre carregado de prendas.

 

- Sim, ele fez o mesmo quando esteve em nossa casa por ocasião de um Natal. Mas a minha mãe disse que ele agora está teso.

 

- Achas que está?

 

- Bem, a verdade é que ele não tem emprego, pois não? acentuou Eilidh.

 

- Não. Mas está a pensar em fazer qualquer coisa com computadores.

 

- A sério? Ele é maluco de todo, não achas? Sabes o que quero dizer... como quando, na Noite das Bruxas, ele se mascarou para os miúdos todos que nos vieram bater à porta, e, em vez de a abrir e ficar sossegado, como todas as mães e pais costumam fazer, dava um salto e saía com uma máscara no...

 

Ambas começaram a rir-se à socapa.

 

- Sim, lembro-me bem, e a pequenita, a Rosie Macleod, desatou a chorar!

 

- E a minha mãe disse: ”David, estás a aterrorizar as crianças!”

 

- E ele respondeu: ”Estamos na Noite das Bruxas, não é verdade?” - lembrou Claire aos guinchos, perdida de riso. Ria-se tanto que o gato, assustado, saltou da cama. - Tens razão - disse a Eilidh. - Como quando ele anda sempre a cantar aquelas canções que são francamente ordinárias, e a tia Marion a fazer uma cara carrancuda...

 

- Ela diz que um dia destes ele há-de acabar por se portar assim na presença do reverendo, ou quando Mistress Wylie estiver de visita, quando for buscar as coisas para a quermesse, ou para o que quer que seja, ele há-de começar a cantar em voz alta.

 

- No entanto, a verdade é que ele tem uma boa voz. O tio David tem um grande sentido musical, como a tia Marion.

 

- Ele não é nada como a minha mãe - contrapôs Eilidh, rindo-se. Voltou a virar-se para o espelho, concentrando-se nas unhas da outra mão. - Agora não me faças rir, se não, borro as unhas todas.

 

Fez-se silêncio entre as duas, enquanto Eilidh se concentrava em manter as mãos firmes e Claire folheava a Bliss. Ergueu a revista para mostrar várias fotografias à prima de um rapaz de expressão amuada que tinha uma franja que lhe caía por cima de um dos olhos.

 

- Qual é que achas que é melhor? Esta ou aquela?

 

Eilidh virou-se por uns momentos, apontando com a ponta de uma unha negra.

 

- Aquela - indicou.

 

- Esta ou esta?

 

- Não, não gosto de nenhuma dessas.

 

- E esta?

 

- Essa, sim.

 

Claire voltou a recostar-se no almofadão, examinando as fotografias em questão.

 

- Ele é lindíssimo, não achas? A minha mãe diz que o tio David era muito bem-parecido quando era mais novo. Bem-parecido.

- Incapaz de imaginar aquilo, elas entreolharam-se, fazendo caretas e começando a rir-se de novo.

 

- E claro que nessa altura ele não tinha barba - acrescentou Eilidh.

 

- Só há pouco tempo é que ele deixou crescer a barba adiantou Claire. - Além do mais, disse-me que tencionava cortá-la.

 

- Queres saber que mais? - perguntou Eilidh virando-se de novo para a prima. - Ele é mais parecido com a tua mãe do que com a minha.

 

- Ele não se parece nada com a...

 

- Tens razão, excepto o serem os dois altos. Mas a verdade é que ele não é parecido com ninguém da nossa família.

 

- Nem com o avô? - perguntou Claire.

 

- Bem... um bocadinho - concedeu Eilidh. - Mas nem por isso. Têm os olhos diferentes e as feições dele não são nada parecidas.

 

- É estranho, não achas, a maneira como às vezes, na mesma família, as pessoas são tão parecidas e outras vezes não? - acrescentou Claire, levantando-se da cama para ir sentar-se na ponta do banco de Eilidh. Ficaram a olhar solenemente para as respectivas imagens reflectidas no espelho: uma de cabelos escuros e a outra loura; Eilidh de rosto de formas arredondadas e Claire com um rosto fino de forma oval e olhos azuis muito rasgados, pestanas fartas como o pai tivera; a mão forte de Eilidh junto da de Claire de ossatura fina. Contudo, eram bastante parecidas, se bem que nenhuma das duas concordasse com isso, tanto uma como a outra preferindo a aparência física da prima. Não eram capazes de ver (sempre à procura de imperfeições) as linhas semelhantes do queixo, a curvatura dos lábios, todas as parecenças que partilhavam, quanto mais não fosse por ambos serem jovens e possuírem as mesmas características genéticas.

 

- Queres saber uma coisa? - perguntou Claire.

 

- O quê?

 

- Estás a ver... ele canta e está sempre a dizer piadas, não é verdade? Cá para mim, anda muito preocupado com qualquer coisa.

 

- Com quê?

 

- Não sei - admitiu Claire.

 

- Na verdade - retorquiu Eilidh -, tenho a impressão de que há qualquer coisa que está a incomodar a minha mãe. Ela tem andado um pouco ríspida.

 

- Achas que é a síndroma pré-menstrual?

 

- Não, ela acabou de ter o período, mas continua a estar muito irritadiça. Depois, desfaz-se em desculpas, mostrando-se muito simpática. O que não se enquadra nada na sua maneira de ser; regra geral, o estado de espírito dela não sofre grandes variações.

 

- Será a menopausa? - alvitrou Claire.

 

- Ela ainda é muito nova para isso, não achas?

 

Não conseguiram chegar a conclusão nenhuma. Só sabiam o que liam na Bliss e na Sugar, revistas que se concentravam no outro extremo do espectro hormonal.

 

- Talvez - sugeriu Claire - as duas andem preocupadas com a mesma coisa.

 

- Ao princípio pensei que a minha mãe estava a começar a sentir-se chateada por ter o tio David em nossa casa.

 

- Mas porquê? Ele é tão divertido!

 

- Sim, mas tenho a impressão de que ele bole um bocado com os nervos.

 

Fez-se um silêncio em que ambas reflectiam no comportamento dos adultos que as deixava atónitas. Porém, pouco depois, Claire atirou-se de novo para a cama, recomeçando a folhear a sua revista.

 

- Olha, vamos preencher este inquérito que nos diz qual o tipo de rapaz que mais se sente atraído por nós.

 

No andar de baixo, Eleanor tinha acabado de bater à porta das traseiras, entrando na cozinha.

 

- Olá, sou eu.

 

- A Claire está lá em cima - disse Marion, sem se virar, continuando de frente para o lava-louça.

 

- O que é que se passa? - perguntou Eleanor, olhando para as costas da irmã, reparando nos ombros tensos. - Passa-se qualquer coisa... É por causa do David?

 

- Oh, não o posso culpar - respondeu Marion com um sorriso, voltando-se de frente para a irmã. Eleanor sentiu-se como se o coração lhe tombasse aos pés, como se dentro do seu peito houvesse qualquer coisa que tivesse realmente caído no chão. - Não é nada - disse Marion -, quase de certeza que não é nada de importante.

 

Sentaram-se à mesa da cozinha, ficando a olhar uma para a outra.

 

- Queres uma chávena de chá ou outra coisa qualquer?

 

- Não, não te incomodes com isso. O que é que aconteceu?

 

- Nada - respondeu Marion. No entanto, contou a Eleanor o que era esse nada, esclarecendo o assunto, dizendo que a Mary Mackay ainda não tinha a certeza, mas que dentro em pouco, na próxima semana, ia fazer uma biópsia. No espaço de duas semanas, saberiam quais os resultados.

 

- Ela disse que em oitenta por cento destes casos os resultados não indicam nada de anormal. Que não são malignos.

 

- Isso quer dizer que só estão a fazer análises, não é verdade?

- retorquiu Eleanor, estendendo a mão, como se quisesse agarrar o ombro da irmã, instilando-lhe confiança através do contacto físico. Mas acabou por recolher a mão, não querendo empolar demasiado o assunto, uma vez que a própria irmã parecia estar a encarar a situação com calma. Marion ia conseguindo aguentar-se, sorrindo enquanto se levantava da mesa para pôr a chaleira ao lume. Por conseguinte, Eleanor também não podia ir-se abaixo, esforçando-se por não pensar no pior.

 

- Está tudo bem - continuou Marion. - Sei em que é que estás a pensar. Já passei por tudo isso... até já imaginei o meu funeral, não que pudesse assistir, não achas? Pensei em tudo isso.

 

- Oh, meu Deus, não... seja como for, é curável, não é verdade? As pessoas não morrem por coisas dessas. Além do mais, detectaste o caroço numa fase prematura, o que é uma vantagem. Apressadamente, acrescentou: - Seja como for, tu própria disseste que, regra geral, isso não constitui nenhum problema de maior... quase de certeza que não é nada de importância.

 

- Isso mesmo - concordou Marion.

 

- Pois bem, então...

 

- Suponho que ainda não acredite realmente que faço parte dos oitenta e tal por cento. Por uma vez na minha vida... - Interrompeu-se, sorrindo. - É apenas um estado de pânico que mal é perceptível. Ao fim e ao cabo, ninguém na nossa família teve uma coisa como esta, tanto quanto eu sei, portanto, é muito pouco provável que... e, como tu disseste, é curável.

 

No entanto, naquele momento Eleanor tinha a percepção daquilo por todo o corpo, mal podendo esperar pela oportunidade de pôr as mãos nos seus próprios seios, o que ansiava fazer mais do que qualquer outra coisa, para poder apalpar cada centímetro de pele, a explorar.

 

- Podias fazer uma mamografia - sugeriu Marion -, caso venha a verificar-se que é... sabes o que quero dizer... só para ficares mais tranquila. - Muito ao de leve, quase que como se não lhe tocasse, Marion pousou uma mão no ombro da irmã enquanto colocava a caneca de chá em cima da mesa.

 

- Mas, Marion, tu é que... - Eleanor agarrou na caneca quente, ansiosa por encontrar que fazer com as mãos, as quais poderiam, caso contrário, ficar como que perdidas, começando a procurar algo que ela sabia (evidentemente) não estar lá.

 

- De qualquer maneira - prosseguiu Marion, sentando-se com o seu chá -, não vale a pena estarmos a pensar no assunto até termos a certeza do que se passa.

 

- Exceptuando o facto de não podermos impedir-nos de...

 

- Não. Eu esforço-me por pensar noutras coisas, e quando estou a trabalhar, ou quando estou ocupada a fazer qualquer coisa, consigo fazer isso sem dificuldades de maior. Para te dizer a verdade, estou em crer que me será muito mais fácil quando o David for para tua casa.

 

- Contaste-lhe o que se passa?

 

- Não. Não sei porquê, mas não quero que ele aborde este assunto na presença do Fergus. O Fergie anda muito preocupado, o que não me passa despercebido. Apesar de estar a demonstrar ter muito tacto - acrescentou ela com um suspiro. - Para não dizer que o mais certo seria o David descair-se em frente das crianças. Não faz sentido nenhum estar a dizer seja a quem for e o que quer que seja a este respeito, pelo menos, por enquanto. Eu nem sequer tinha intenção de te contar...

 

- Oh, Marion!

 

- É verdade, se bem que não houvesse grandes possibilidades de tu não te aperceberes de que existia qualquer coisa que não estava bem. A Eilidh também anda desconfiada. Ela é tão perceptível em relação a assuntos desta natureza.

 

- Suponho que seja porque está a crescer - retorquiu Eleanor.

 

- Também o Ross, mas calculo que os rapazes vivem num mundo muito seu, não reparam em nada do que se passa à sua volta. Quanto à Kirsty, ela ainda é muito novinha.

 

- O que é que tencionas dizer-lhes a respeito da biópsia?

 

- Tenciono dizer-lhes apenas que tenho de ir para o hospital para fazer uns exames. E que talvez tenha de ser operada - respondeu Marion.

 

- Uma operação?!

 

- Claro que sim, Eleanor. Se vier a descobrir-se que é maligno, eles não vão ficar à espera. A verdade é que não me resta qualquer alternativa.

 

As duas mulheres levaram simultaneamente as mãos aos seios. As de Marion afastaram-se de imediato.

 

- Suponho que dependa de até que ponto está adiantado disse ela.

 

- Mas eles não... pelo menos inteiramente...?

 

- É provável.

 

- Oh, Marion - exclamou Eleanor com os olhos rasos de lágrimas, começando a chorar. Marion foi buscar uma caixa de lenços de papel para a irmã.

 

- Toma. Olha uma coisa... verás que tudo correrá pelo melhor.

 

- Desculpa, lamento muito, sou tão patética. Tu é que devias estar a chorar e não eu. Peço muita desculpa.

 

Marion pestanejou com força, sorrindo à irmã.

 

- Acredita que já chorei, e muito. Chorei. Mas só uma vez. Agora sinto-me mais animada. Foi uma fase passageira em que senti pena de mim mesma. E suponho que tenha sentido medo. Mas a Mary Mackay foi extremamente eficiente, explicando-me todo o processo.

 

- Estou a ver. - Sentindo-se envergonhada, Eleanor assoou-se outra vez, olhando de frente para Marion. - Desculpa... há alguma coisa que eu possa fazer para te ajudar?

 

- Sou capaz de te pedir que ajudes com as crianças. Ou talvez o David possa vir até cá... podia aproveitar para fazer alguma coisa de útil.

 

- Deus me valha, tu estás farta dele. Mas isso não interessa, amanhã já ele estará em minha casa; creio que está a planear regressar a Pitcairn no próximo fim-de-semana.

 

- Eu não estou farta dele. Gosto muito do David, para não mencionar que as crianças acham que ele é extraordinário. Contudo, acho que não me agrada a maneira como ele aparece e desaparece no seio da família, como se não interessasse que, durante meses a fio, até mesmo anos, ele se dê ao incómodo de se manter em contacto connosco, enviar cartões de aniversário, nem nada no género. Além do mais, ele e o Fergus, verdade seja dita, não se dão nada bem.

 

- Não são almas gémeas - observou Eleanor.

 

- Não se pode dizer que sejam - concordou Marion. As duas irmãs ficaram em silêncio por uns momentos.

 

- E quanto a dizer ao David? - perguntou Eleanor. - Tencionas dizer-lhe alguma coisa?

 

- Suponho que tenha de lhe dizer.

 

- Queres que seja eu a dizer-lhe? - ofereceu-se Eleanor.

 

- Não, eu trato do assunto - respondeu Marion com alguma hesitação. - Ou... tens a certeza de que não te importas? Mas não faças do assunto um bicho-de-sete-cabeças, por favor, Eleanor.

 

- Não, não faço. - Olhou para o relógio de parede. - Acho que é melhor levar a Claire para casa.

 

- Eu chamo-as para que desçam - disse Marion, levantando-se da mesa. - O Fergus tem de operar esta noite, por isso, ainda nem sequer comecei a preparar o jantar. Mas acho melhor principiar a mexer-me.

 

No primeiro andar, as garotas liam a ”Página dos Problemas” das revistas, enquanto o gato ronronava na cama entre as duas.

 

- Estás a ver esta rapariga? - perguntou Claire. - É tal e qual como eu. Eu também sou tão melancólica... - Suspirando.

- Tu tens muita sorte, Eilidh, não és minimamente melancólica.

 

- Às vezes também fico maldisposta - afirmou Eilidh. - Especialmente com o Ross.

 

- Também tens muita sorte por teres um irmão.

 

- Mas não o Ross.

 

- Bem, talvez não o Ross - admitiu Claire, e ambas desataram a rir-se.

 

- Está na hora do Neighbours - anunciou Eilidh accionando o comando à distância em direcção ao seu televisor portátil. Entoaram em coro o tema musical de abertura do programa, imprimindo uma ênfase exagerada às palavras, cantando em voz tão alta que Marion foi obrigada a subir as escadas para lhes dizer que estava na hora de Claire ir para casa.

 

Na tarde seguinte, Fergus levou David para casa de Eleanor.

 

- Já que estou aqui, vou aproveitar para dar uma olhadela ao autoclismo da tua casa de banho - ofereceu-se ele. - A Marion disse-me que estava a dar-te alguns problemas.

 

- Obrigada. Vou pôr a chaleira ao lume.

 

Na cozinha, enquanto preparava o chá, Eleanor ouvia o barulho das descargas de água, intercalado pelo entrechocar de ferramentas. David instalara-se na sala de estar a falar com Claire. O saco de viagem dele estava a bloquear a passagem para o corredor, com o casaco que ele atirara para cima do saco. Eleanor deixou o bule na beira do aquecedor, levando o saco para cima, para o pequeno quarto que servia de arrecadação e onde David passaria a dormir. Já tinha aberto o sofá-cama de que não se desfizera porque naquela casa deixara de ter quarto de hóspedes, além de não ter espaço para ele nas outras divisões da casa. Tinha um candeeiro de mesa-de-cabeceira e colocara alguns cabides nos ganchos atrás da porta. Os cortinados eram largos e compridos de mais porque os aproveitara da outra casa, não se tendo ainda dado ao trabalho de os arranjar de acordo com as medidas da nova janela. Eram de veludo cor-de-rosa e em tempos haviam estado pendurados num acolhedor quarto de hóspedes, cujas paredes eram revestidas de papel Laura Ashley. Agora não condiziam nada com o tecido axadrezado com que o velho sofá-cama estava forrado, nem tão-pouco com a alcatifa castanha de que ela tencionava livrar-se dentro de pouco tempo.

 

Há vários anos, quando Claire ainda era pequena, recebiam com frequência visitas dos amigos de lan que ficavam com eles durante algum tempo (assim como familiares de Eleanor), pelo que ela fazia muito gosto no quarto de hóspedes: flores, uma caixa de lenços de papel rosa e uma taça de vidro sempre cheia de biscoitos caseiros. Eleanor suspirou, pensando naquela fase da sua vida enquanto com o pé empurrava uma caixa meio cheia de livros para um canto.

 

No piso térreo, Fergus já se tinha servido de uma chávena de chá.

 

- Já está arranjado - anunciou ele quando Eleanor desceu para a cozinha.

 

- A sério? Esplêndido... obrigada.

 

- Não tens que agradecer. Mas agora tenho de me ir embora. Da soleira da porta das traseiras, Eleanor ficou a vê-lo afastar-se

 

pelo caminho de piso irregular. No jardim da vivenda ao lado, Jim apanhava as folhas à pouca luz do dia que chegava ao fim. Quando Fergus passou, cumprimentou-o levando a mão ao boné e acenando a Eleanor quando o viu. Ela abeirou-se da vedação.

 

- O meu irmão veio passar uns dias comigo - informou ela.

- O Fergus veio trazê-lo.

 

- O seu irmão, a sério? - replicou Jim endireitando-se. Eleanor já começara a ver a cabeça de Edie a assomar à janela

 

da sala de estar, acenando-lhe com a mão num gesto hesitante. Eleanor sorriu-lhe e Edie saiu para o jardim.

 

- O irmão da Eleanor veio passar uns tempos com ela - informou Jim, e Edie deu um pequeno salto.

 

- E vai ficar muito tempo? Mas que surpresa tão agradável, minha querida, terá quem lhe faça companhia. Um pouco de companhia é sempre bom. Eu até costumo dizer ao Jim que a Eleanor se aguenta muito bem sozinha, mas mesmo assim deve sentir-se muito solitária, ainda é muito nova, minha querida, é uma pena.

 

- Tenho a Claire - retrucou Eleanor, que agora já sabia que Edie se limitava a proferir o que lhe ia na cabeça: não tinha nenhuma espécie de filtro, ao contrário do que acontecia com a maior parte das pessoas, entre a fala e o pensamento.

 

- Sim, de facto tem a Claire, uma cachopa encantadora. Eu até costumo dizer ao Jim que deve ser um grande conforto ter uma jovem tão rija como ela. Há que notar que nós nunca tivemos a sorte de ter uma menina, só tivemos um rapaz, mas os rapazes vão às suas vidas, não é verdade? Mas a Eleanor poderá contar sempre com a sua menina. Encantadora, costumo eu dizer ao Jim, ela é encantadora e muito inteligente - continuou Edie a falar à toa, dando outro saltinho. - Ora bem... estamos para aqui a empatá-la.

 

- Bom, tenho de ir para dentro, para dar ao David o chá que lhe preparei.

 

Porém, Edie indicou-lhe com um gesto que se aproximasse mais, o que Eleanor fez. Já era quase noite; o rosto pálido e de feições miúdas de Edie não parava por baixo do seu.

 

- Sabe... na casa ao lado - começou Edie a dizer, acenando com a cabeça na direcção da terceira moradia -, ouvem-se gritos. A altas horas da noite; até os ouvimos na nossa casa, não é verdade, Jim? Gritos até muito tarde. E música, mas não aos berros, eu própria não me sinto incomodada com a música. Até gostamos de ouvir uma boa melodia, ainda temos o nosso gramofone. E a Robbie Shepherd, ouço-a todos os dias.

 

- A gritar?

 

Jim pigarreou e desviou o olhar, mostrando-se constrangido.

 

- A gritar - confirmou Edie. - E depois, vejo-a a sair de casa e a meter-se no carro, arrancando a toda a velocidade. Já de madrugada - acrescentou, olhando para Eleanor com um acenar de cabeça. - Mas mudemos de assunto; está a ficar frio, vá para dentro. Estamos a empatá-la, Jim, e já está na hora do jantar.

 

Quando Eleanor se aproximava da porta de sua casa, David assomou à soleira.

 

- Já tomaste o chá? Vai ficar requentado. A Edie esteve a contar-me os escândalos dos vizinhos. Não me parece que os tenha visto mais do que muito de fugida.

 

- Adoro a tua casa pequenina.

 

- Óptimo... também eu.

 

Ambos se sentaram à mesa da cozinha, cada um com a sua caneca de chá. Ouviam o som da televisão que vinha da sala de estar.

 

- E a Claire, gosta?

 

- Da casa? - perguntou Eleanor.

 

- De viver aqui.

 

- Sim, gosta. Tem uma data de amigas, além de poder ir facilmente a casa da Eilidh, também gosta dos gatos e dos cães da prima, e tudo o mais.

 

- E quanto a ti... já não tens nenhuns gatos nem cães?

 

- Não. Pouco depois de nos termos mudado para aqui, o gato cor de gengibre, que já estava velho... estás recordado dele?, morreu apanhado numa armadilha. O Jim, o marido da Edie, encontrou-o à beira do bosque, perto da clareira. A verdade é que depois disso não me apeteceu nada arranjar outro animal.

 

- Lamento - disse David.

 

- Ficámos consternadas, como é evidente. De vez em quando, a Claire pede-me que arranje um cão, mas não sei se é boa ideia. Neste momento, não quero nada a que me possa prender. - Eleanor fez uma pausa, bebendo o chá em silêncio, enquanto pensava que além de Claire não havia nada a que estivesse emocionalmente ligada, por conseguinte, o que é que quereria dizer com aquilo? Era muito difícil que viesse a conseguir um emprego.

 

- Onde é que eu vou dormir? - perguntou David, interrompendo-lhe os pensamentos.

 

- Eu mostro-te.

 

- Lembras-te do quarto de hóspedes tão bem decorado que tinhas em Heatherlea? - perguntou David, olhando em redor, quando já estavam no andar de cima.

 

- Heatherlea! - O som da palavra, naquele momento, parecia-lhe estranho. Pertencia a outro tipo de vida.

 

- Os subúrbios em tudo o que têm de melhor, não era? A taça com os biscoitos, aquela coisa com folhos à volta da cama.

 

- Tu eras a única visita que comia os biscoitos - retorquiu Eleanor, rindo-se.

 

- O quê? Estás a dizer-me que eram sempre os mesmos biscoitos?

 

- Não sejas disparatado. Caseiros e feitos de fresco sempre que alguém nos visitava. Mas a verdade é que, além de ti, mais ninguém os comia. Suponho que os outros deviam fazer muita cerimónia.

 

- Eu costumava ficar com os lençóis cheios de migalhas por os comer na cama enquanto lia.

 

- Engraçado - comentou Eleanor quando já desciam as escadas estreitas. - Neste momento, até me custa a acreditar que alguma vez tenha vivido lá... na nossa vivenda com quatro quartos, com a garagem para dois automóveis e cada quarto com a sua casa de banho. Estas novas urbanizações são horríveis, com os jardins planos e quase sem vegetação nenhuma, apenas uma amostra de relva recentemente semeada, em que todos se sentem envergonhados com a pobreza dos respectivos jardins. Como se não fossem todos iguais.

 

- E então, sentes saudades de todo aquele luxo?

 

Eleanor parou ao fundo das escadas, voltando-se para o irmão.

 

- Às vezes sinto falta daquela vida.

 

- Não fiques triste, não tive a intenção de...

 

Com um gesto, ela indicou-lhe que não tinha importância, mudando de assunto. ”Nem sequer tu”, pensou Eleanor, ”serás capaz de me obrigar a reviver tudo isso uma vez mais.” Por uns momentos, Eleanor desejou que ele tivesse continuado em casa de Marion ou que tivesse voltado directamente a Pitcairn.

 

No entanto, algum tempo depois, enquanto jantavam, por insistência de David e de Claire, à luz de velas, um jantar acompanhado de vinho para todos (com uma expressão cheia de solenidade, Claire tomou um pouco, dizendo que era amargo e depois começou com umas risadinhas tolas), Eleanor sentiu-se satisfeita com a presença do irmão. O jogo do estás lembrado... foi estranhamente indolor quando o passado de Claire foi posto na mesa como que para arejar.

 

- É agradável - disse a garota quando, bastante mais tarde, a mãe lhe foi dar as boas-noites. - O tio David recorda-se do pai e da nossa antiga casa, e da Marmelade, dos meus ursinhos de peluche e de me levar à escola. Nem sequer se esqueceu da minha amiga Hannah. Ninguém aqui sabe dessas coisas, com excepção da mãe, que fica sempre muito triste quando falamos desses assuntos.

 

- Oh, Claire...

 

- Não faz mal, eu agora mal penso nessas coisas. No entanto, o tio David faz com que eu me lembre outra vez dos bons momentos.

 

- Óptimo - redarguiu Eleanor, afastando uma madeixa de cabelo que caíra para o rosto da filha e inclinando-se para lhe dar um beijo de boas-noites.

 

No andar de baixo, David lavava a louça do jantar.

 

- Obrigada - agradeceu Eleanor. - Já me tinha esquecido de que deixámos a louça suja. - Suspirou. - Está-me a parecer que também me vou deitar. Levantei-me muito cedo para que a Claire chegasse a horas à camioneta para a escola.

 

- Não te prendas por mim - disse David, secando as mãos no pano com que limpara a louça, deixando-o todo amarfanhado ao lado do lava-louça. - Vou até lá fora fumar um cigarro. E depois vou ver um pouco de televisão. Não consigo adormecer antes das duas... estou habituado a ficar a pé até tarde. Mas prometo que não farei barulho nenhum.

 

Enquanto se preparava para se deitar, Eleanor pensou: ”Não lhe disse nada a respeito da Marion. Ela não sabe bem por que razão é que esteve a adiar. Mas é errado que ele ainda não saiba.” Enquanto fechava os cortinados, ouviu vozes no jardim, imobilizando-se. Então, apercebeu-se de que Jim também saíra de casa para fumar o último cachimbo do dia, e ele e David tinham começado a conversar junto da vedação.

 

Mais tranquila, Eleanor foi para a cama, onde ficou a ler até ouvir o bater da porta da frente, depois de David ter entrado. Apagou o candeeiro da mesa-de-cabeceira e deitou-se para dormir.

 

A última vez que Eleanor e Marion viram a mãe com vida fora durante uma visita que tivera lugar havia dois anos. Tinham ido a Aberdeen para fazer as compras de Natal, tendo decidido fazê-lo numa quarta-feira por haver menos movimento, com a intenção de voltarem à cidade na manhã de quinta-feira a fim de acabarem de fazer as compras. Marion teria de dar aulas nos dois últimos dias úteis da semana.

 

- E não posso faltar se quiser comprar tudo o que as crianças querem - dissera ela a Eleanor quando seguiam viagem de automóvel na tarde de segunda-feira.

 

- Sabes que eles estão todos satisfeitos com a nossa visita anunciou Eleanor. - A mãe e o pai. E acho que é por irmos só as duas.

 

Já começara a escurecer quando saíram da estrada principal, pelo que a casa se encontrava envolta em sombras; só uma das janelas da frente é que tinha luz, constataram elas quando já percorriam o caminho particular. Todavia, alguém ouvira o barulho do carro, e a porta abriu-se quando desligaram o motor. O pai e a mãe apareceram à porta, emoldurados pela luz de tons amarelos que vinha do vestíbulo.

 

- Fizeram boa viagem? - perguntou Faith, inclinando-se para a frente e beijando as duas filhas quando estas chegaram ao cimo dos degraus do alpendre. - Entrem, entrem, a noite está fria. O pai leva o carro para a garagem.

 

Assim que entraram no vestíbulo aquecido, sentiram o cheiro familiar de Pitcairn: a cera para o soalho, o carvão na lareira e um odor adocicado e a humidade, que podia bem ter vindo da fruteira com maçãs em cima do aparador. Numa jarra de vidro azul, em cima da mesa com incrustações de latão, havia uns crisântemos definhados e no soalho encerado viam-se uns tapetes de retalhos feitos pela avó. Pouco depois, instalaram-se na sala de estar onde o pai já acendera a lareira. Marion e Eleanor instalaram-se no sofá Chesterfield, estendendo as pernas. Com as biqueiras, Eleanor descalçou os sapatos.

 

- Chá? Querem uma chávena de chá? Não quisemos começar a jantar sem vocês chegarem.

 

Elas haviam parado pelo caminho, pelo que não lhes apetecia comer nada, nem tão-pouco tomar chá, mas, na casa dos pais não tinham coragem para recusar fosse o que fosse; ali, voltavam a ser as raparigas de antes, com uma mãe que se encarregava de acudir às suas necessidades.

 

- Boa ideia. A mãe quer que a ajude?

 

- Não, não. O pai vai buscar o tabuleiro. Deixem-se ficar sentadas.

 

- É tão agradável voltar a casa - comentou Eleanor, recostando-se toda para trás e fechando os olhos.

 

A luz das chamas da lareira reflectia-se no fio dourado do serviço de chá que pertencera à avó, o qual só saía da cristaleira quando não havia crianças em casa que o pudessem pôr em perigo. Numa ocasião, Eleanor dissera: ”Adoro este serviço de chá”, e desde então que Faith servia sempre o chá nele quando ela e Marion iam visitá-los. Também havia pãezinhos de gengibre barrados com uma espessa camada de manteiga, mas a verdade é que Faith não queria que elas os comessem.

 

- Ficarão sem apetite para o jantar - disse ela, mas, mesmo assim, cada uma comeu um dos pãezinhos, acompanhando-os com o chá enquanto se aqueciam defronte da lareira onde o pai não parava de acrescentar carvão.

 

Falaram da família, das crianças, de casas e, no caso de Marion, do marido desta. Eleanor saíra uma ou duas vezes com um professor da academia, no entanto, não mencionou essa relação. Gostara do concerto e do filme, mas o homem aborrecera-a, o que ela lamentava. Por isso, não achou que valesse a pena mencionar esse assunto.

 

- A Mamie e a Alice vêm almoçar cá a casa amanhã... Assim, vocês não terão de ir visitá-las - informou Faith.

 

- Oh, as tias! - exclamaram Marion e Eleanor em uníssono, gemendo e rindo-se.

 

- Óptimo - concluiu Eleanor. - Vou adorar ver as tias. Elas estão sempre na mesma.

 

- Pensei que fosse precisamente por isso que elas te buliam com os nervos - retorquiu Faith que não se esquecera de um comentário de impaciência expresso por Eleanor havia vinte anos.

 

- Ora, a mãe sabe bem o que eu quis dizer. Mas, agora, isso não me incomoda, para lhe ser franca, até acho que me inspira uma certa segurança. Nos últimos anos, a minha vida sofreu alterações que chegam e sobram.

 

- Isso é verdade, cachopa - concordou John, pousando uma mão no ombro da filha quando se levantou para recolher os pires e as chávenas, levando o tabuleiro para ajudar a mulher.

 

Comeram na cozinha.

 

- Suponho que amanhã terei de servir a refeição na casa de jantar - disse Faith. - Ultimamente, mal temos comido lá... nem sequer ligamos o aquecimento. Não posso dizer que a casa de jantar me agrade muito hoje em dia.

 

- Isso acontece porque mal a utilizam - redarguiu Marion.

- As divisões que não são usadas adquirem uma atmosfera desconfortável.

 

- Como o quarto de hóspedes na minha casa - adiantou Eleanor. - Seria de pensar que numa casa tão pequena não existissem divisões que não são utilizadas. Mas está cheia de caixas.

 

- Ainda?

 

- Não tenho outro sítio onde possa guardar a tralha.

 

- Talvez devesses deitá-la fora - sugeriu a mãe.

 

- A maior parte consiste em caixas com livros. Os livros não são coisas que se deitem fora, mãe.

 

- Oh, livros - retorquiu Faith erguendo o olhar.

 

- Provavelmente - começou Marion a dizer - a mãe continua a associar esse quarto com as aulas de balé.

 

- Muito possivelmente. Se o teu pai fizesse como eu lhe pedi e se visse livre de todos aqueles espelhos...

 

- Vamos lá a ver - interveio John entrando na conversa -, não vamos voltar a repisar esse assunto. É uma questão de se conseguir encontrar alguém a quem sirvam para alguma coisa.

 

Faith limitou-se a um abanar de cabeça, sorrindo ao marido.

 

- Passemos adiante; conta-lhes as novidades, John. Deixemos o assunto dos espelhos.

 

- Que novidades? - perguntou Eleanor; o seu olhar ia da mãe ao pai, mas via pela expressão no rosto de ambos que se sentiam satisfeitos. Portanto, não era nenhuma má notícia. John levantou-se e foi buscar os óculos que guardava na escrivaninha, pegando num sobrescrito que estava em cima do móvel.

 

- E a respeito do David - anunciou Faith antes que o mando tivesse tempo de voltar a sentar-se. - Recebemos notícias do David.

 

- Finalmente!

 

- O quê... é uma carta?! - exclamou Eleanor. - Deus do céu, não sou capaz de o imaginar a escrever uma carta!

 

- Bem, é mais uma pequena nota. Num postal de tamanho muito reduzido - adiantou John, tirando-o de dentro do sobrescrito. Numa das faces, via-se uma reprodução de uma Madonna de Botticelli; na outra, tinha umas quantas palavras rabiscadas à pressa. Sentindo um choque quase imperceptível, Eleanor apercebeu-se de que aqueles rabiscos largos, feitos a tinta preta, lhe traziam recordações ao pensamento. Imobilizou-se, ouvindo com toda a sua atenção enquanto o pai lia.

 

- Vou mudar-me para Edimburgo antes do Natal. Por fim, vou voltar a ser um escocês. Depois dou mais notícias. Beijos para todos.

 

Enquanto apreendiam o sentido daquelas palavras, todos se mantiveram em silêncio.

 

- Ora bem - disse Marion.

 

- Não faço a mais pequena ideia do que ele quer dizer com voltar a ser um escocês. Estou a partir do princípio de que pelo facto de ter passado a viver em Inglaterra não tenha deixado de ser um escocês - comentou Faith, começando a juntar os pratos do jantar.

 

- Ele indicou algum endereço? - perguntou Marion, tirando o postal das mãos do pai. - Não... nada, nem sequer um número de telefone.

 

- No entanto, ele diz que depois dava mais notícias - retorquiu John, tirando os óculos e limpando as lentes. - Diz que volta antes do Natal.

 

- Agora me lembro, era disso mesmo que eu vos queria falar. O Fergus quer saber... queremos todos saber se vocês este ano querem passar o Natal em nossa casa?

 

Os pais entreolharam-se antes de lhe responderem.

 

- Têm a certeza?

 

- Temos de contar com a Mamie e a Alice...

 

- Mas elas também estão convidadas - atalhou Marion, pondo de parte qualquer objecção que os pais pudessem apresentar. Podem ficar em casa da mãe do Fergus. Cá nos havemos de arranjar. Ou... - acrescentou ela, olhando para a irmã com um sorriso de orelha a orelha. - Ou a Eleanor pode tirar as caixas do quarto que serve de arrecadação.

 

- Também têm de contar com o David - acrescentou o pai.

- O vosso irmão tenciona estar cá pelo Natal.

 

- Talvez - disse Faith, levantando-se da mesa. - Vai espevitar o lume, John. Vamos tomar o café na sala.

 

Mais tarde, Eleanor bateu à porta do quarto de Marion. Esta estava sentada na cama com um casaco de malha por cima dos ombros, folheando a selecção de revistas da mãe, Woman and Home, para adormecer.

 

- Queres ler alguma? - perguntou à irmã.

 

- Não, já tenho a Scots Magazine e a Reader’s Digest.

 

- Pensei que relias sempre O Que Katy Fez a seguir quando estás de visita a casa dos pais?

 

- E leio. Mas, nos últimos tempos, uma noite não é o suficiente. Acabo por adormecer. Seja como for, adoro ler essa página da Reader’s Digest... como é que se chama? Sabes ao que me refiro, ”Flagrantes da Vida Real”.

 

- Por amor de Deus! Porquê?

 

- Porque, em grande parte, a vida não é assim mesmo. A vida é como... não sei bem, algo diferente. Não se assemelha em nada ao que vem escrito na Reader’s Digest- observou Eleanor, sentando-se na beira da cama. - Neste quarto está um frio de enregelar.

 

- Eu sei. Como de costume, o aquecimento central foi desligado às nove horas.

 

Fizeram uma careta uma à outra.

 

- Crescemos habituadas a isto - acrescentou Eleanor. - Como é que conseguimos sobreviver?

 

- A muito custo - respondeu Marion.

 

- Suponho que sim. - Eleanor começou a folhear uma das revistas que a irmã já tinha posto de parte. - A mãe não mostra grande entusiasmo em relação ao David, não te parece?

 

- Não se pode censurá-la.

 

- O pai está todo entusiasmado.

 

- Como sempre. O David continua a ser o seu menino querido - retorquiu Marion com um suspiro, encostando-se contra as almofadas. - A mãe sempre foi mais ríspida com ele, na verdade, do que connosco.

 

- E achas que, pelo menos no que diz respeito ao David, ela tem razão?

 

- Estou convencida de que sim. Ele porta-se tão mal para com eles. Por que razão é que não pode escrever, telefonar-lhes, certificar-se de que os pais têm a morada dele? Ao fim e ao cabo, não é pedir de mais. O que diabo é que ele anda a fazer que possa ser tão secreto?

 

Eleanor limitou-se a um encolher de ombros, pelo que Marion prosseguiu.

 

- Mas tu deves saber, ainda que mais ninguém saiba. Quer dizer... houve uma altura em que ele ficou imenso tempo em tua casa.

 

- Sim - confirmou Eleanor mordendo o lábio, enquanto folheava várias folhas com receitas de culinária.

 

Em silêncio, Marion ficou a olhar para a irmã por uns momentos.

 

- Pois bem - disse por fim -, amanhã temos as tias Mamie e Alice. Vamos ter montes de novidades e de conselhos.

 

- As tias. Tu não queres de verdade que elas passem o Natal connosco, pois não?

 

- Se não for assim, com quem mais é que elas poderão passar o Natal, uma vez que o pai e a mãe estarão connosco? - replicou Marion com um sorriso. - Se ficassem sozinhas, com certeza que a ceia de Natal seria uma galinha de meter dó de tão pequena, e elas a infernizarem a vida uma à outra.

 

- Portanto, em vez disso, passam o Natal connosco, pondo-nos a todos doidos, não é verdade? - retorquiu Eleanor, rindo-se.

- Face a isto, tens de deixar que eu te ajude. Posso fazer um pudim.

 

- Não, muito obrigada, eu conheço os teus pudins. Podes pôr a mesa com as decorações de Natal; também podes dobrar os guardanapos. Conheço bem as tuas capacidades, Eleanor Cairns, e podes acreditar que pudins não faz parte dos teus talentos.

 

Como que espantadas, ficaram a olhar uma para a outra.

 

- A saber... - disse Eleanor. - Não estou a imaginar ninguém a tratar-te por Marion Cairns.

 

- Lamento, não sei porque...

 

- Não tem importância, também nunca gostei muito do apelido do lan. Mas, na época em que nos casámos, não era costume que as mulheres ficassem com os seus próprios apelidos. Eleanor Cooper. Hum. Não vai comigo. Mas talvez eu tenha voltado a ser solteira. É bom pensar que podemos voltar a ser jovens.

 

- É porque estamos aqui.

 

- Pvaparigas de novo. E o David, achas que continua a ser ”o rapaz”?

 

- Na perspectiva do pai, continua.

 

- Estou enregelada - afirmou Eleanor com o corpo rígido. Tenho de ir buscar uma botija de água quente antes de me deitar.

 

- Temos de nos levantar cedo - avisou Marion. - Quero estar no Marks às nove e meia.

 

- Sim, de acordo - replicou Eleanor, anuindo com um gemido, após o que foi para o seu próprio quarto.

 

Sempre que estavam em Pitcairn dormiam nos mesmos quartos que tinham quando eram adolescentes, quando Marion exigiu ter um quarto que fosse só seu, tendo-se mudado do que ambas haviam partilhado durante a sua meninice. Por essa razão, o seu quarto sempre exibira um ar mais adulto do que o de Eleanor, uma vez que esta se recusava a deixar o quarto onde dormia desde muito pequena, com a faia do lado de fora da janela e o papel de parede com rosinhas cor-de-rosa e miosótis azuis. Contudo, agora os quartos eram bastante semelhantes, com camas de corpo e meio e estantes baixas que o próprio pai fizera, assim como guarda-fatos quase vazios, contendo apenas os vestidos de noiva das duas e os que cada uma usara como dama de honor no casamento da outra. A estante de Marion estava repleta de livros acerca de raparigas que haviam seguido as carreiras de hospedeiras aéreas, enfermeiras e bailarinas: na prateleira de cima, havia uma fileira de coelhos em cerâmica que alternavam com figurinhas de porcelana vestidas com tutus cor-de-rosa. Os livros de Eleanor eram os clássicos juvenis: as aventuras de Enid Blyton e Mulherzinhas, junto dos School Fríend anuais. Na prateleira de cima, ela optara por uma série de conchas marinhas que coleccionara há muito tempo, as quais neste momento já estavam tão quebradiças que algumas começavam a lascar e a quebrar-se. Os cartazes dos artistas mais célebres, as roupas e os produtos de maquilhagem, bem como os discos de trinta e três rotações, havia muito que tinham sido levados. Todavia, a infância permanecia; a adolescência sumira-se no tempo. Não admirava, pois, pensava Eleanor, aninhando-se junto da botija que enchera com água a ferver, que sempre que regressava à casa onde fora criada tivesse a sensação de voltar a ser criança.

 

Sem o fazer propositadamente, o que nem sequer desejava, começou a reflectir sobre David, a pensar na temporada em que ele ficara em sua casa, a última vez em que o vira. No Ano Novo. Em Janeiro. Gelo negro, e os carros funerários que se deslocavam com tanta lentidão no ar gélido, que davam a impressão de se deslocarem em silêncio. Não se ouvira um único som ao longo de todo o trajecto até ao crematório. Contudo, era forçoso que se tivessem ouvido barulhos depois disso. Os cânticos religiosos, as palavras, as despedidas, conversas dispersas. Mas Eleanor só guardava aquele silêncio na sua recordação, assim como não se esquecera do caixão a deslizar num silêncio e quietude feitos de vazio. Desejava pensar noutras coisas. Porém, a sua mente não lhe obedecia. Acabou por ligar o candeeiro da mesa-de-cabeceira e recomeçou a ler o Reader’s Digest até sentir as pálpebras pesadas que se fechavam, decidindo apagar a luz e tentar, uma vez mais, adormecer, sentindo-se como que entorpecida e pesada, com a cabeça vazia de quaisquer pensamentos.

 

Marion despertou cedo, como era seu hábito. A mãe já se encontrava no andar de baixo. As portas dos quartos de Pitcairn continuavam a manter-se abertas, mas a alcatifa que agora revestia o soalho impedi-as de bater contra as ombreiras ou que se abrissem. Aos ouvidos de Marion chegava o som abafado da telefonia, sintonizada na Rádio 4, ligada na cozinha. Ficou deitada a ouvir a voz sóbria, mas pouco perceptível, do locutor que lia o noticiário, embalando-se na ilusão de que voltara a ser uma jovem, uma filha, alguém que não era obrigado a levantar-se, vendo-se confrontada com a tarefa de acordar uma família, ajudando toda a gente a organizar-se para o dia que teriam pela frente. Porém, o pensamento de que teria de fazer as compras de Natal impedia-a de voltar a adormecer; tinha de se levantar da cama.

 

A luz da cozinha estava acesa; lá fora, surgiam os primeiros alvores do dia que banhavam o jardim. Faith fazia bolos. Com gestos suaves, ergueu a massa estendida em círculo, colocando-a cuidadosamente sobre uma base de tarte.

 

- Estás muito madrugadora - disse ela, olhando para a filha.

 

- É verdade - retorquiu Marion com um encolher de ombros. - Há muitos anos que não consigo ficar deitada até tarde.

 

- Ora bem, quiseste ter a tua própria família - adiantou a mãe com um sorriso, começando a estender a massa para a segunda base.

 

- O que é que está a fazer?

 

- Tarte de maçã. Também estou a pensar em fazer um pudim, já que a Mamie e a Alice vêm almoçar.

 

Marion encheu a chaleira.

 

- Não tenho grande coisa como cereais para o pequeno-almoço - continuou Faith, observando a filha. - O teu pai só gosta de papas de aveia.

 

- Eu faço umas torradas - disse Marion, andando de um lado para o outro na cozinha que tão familiar lhe era. - Com certeza que se sente aliviada por ter tido notícias do David - acrescentou enquanto preparava o chá e esperava que o pão torrasse.

 

- Ora, há muito que desisti de me preocupar com ele. Marion sabia que aquilo não correspondia à verdade.

 

- Acho que ele já tem idade suficiente para olhar por si próprio - declarou a filha.

 

- Pelo menos, foi o que ele sempre pensou - acrescentou Faith, beliscando as extremidades da massa da tarte e colocando a forma na despensa. Em seguida, começou a limpar a mesa, levantando os utensílios de que se servira. Marion sentou-se à outra cabeceira, barrando a torrada com compota.

 

- No entanto, ele é um irresponsável - continuou, referindo-se ao irmão.

 

- Ora, Marion - começou a mãe a dizer, interrompendo o que estava a fazer e erguendo o olhar -, as pessoas costumam dizer que é mais fácil criar os rapazes... sabes? Ouço as outras mulheres a dizerem isso a respeito dos filhos. Mas no que nos toca, isso não é verdade. O David sempre foi o mais difícil de educar.

 

Marion pensou em Ross, um garoto sossegado e com quem não era difícil lidar.

 

- Acho que já em criança ele sempre criou muitos problemas. Faith sentou-se inopinadamente, continuando com o pano na mão.

 

- Eu costumava culpar o Stanley - disse ela. - Estás lembrada desse cachopo, o Stanley?

 

- Claro que me lembro. Quando éramos miúdos, ele nunca largava a nossa casa.

 

- Eu costumava dizer que a culpa era dele... ser criado sem mãe e com um pai que passava a vida no Pitcairn Arms - acrescentou Faith com um suspiro. - Mas o problema estava no David. O David é que era o chefe. Do que eu me apercebi daquela vez em que o Stanley veio a nossa casa para nos dizer o que tinha acontecido ao David. E anos antes... - interrompeu-se hesitante.

 

- O quê?

 

- Ele e o David largaram alguns foguetes. Foi no bosque, ao cimo do caminho... Por um triz numa ocasião não pegaram fogo à capoeira. E foi tudo ideia do David... ele sentia-se fascinado pelo fogo. Eu vivia aterrorizada, a pensar que eles poderiam pegar fogo a qualquer coisa quando não houvesse ninguém por perto para os impedir. - A fisionomia de Faith contraiu-se.

 

- A verdade é que nunca causaram nenhum dano realmente grave - protestou Marion. - Limitaram-se a fazer uma ou duas fogueiras... não foi?

 

Faith levantou-se da mesa, passando o pano pelo tampo da mesa para apanhar o resto das migalhas, recolhendo-as na mão em forma de concha quando chegou à extremidade.

 

- Penso que não - disse ela por fim. - Só espero que não tenha passado disso. - Ergueu o olhar para o relógio de parede. É melhor ires acordar a Eleanor, se querem chegar cedo à cidade. Nesta altura do ano é um castigo arranjar um lugar onde se possa estacionar.

 

- É verdade - concordou Marion levantando-se da mesa. Vou ver se ela já está acordada.

 

Estiveram ausentes durante toda a manhã, voltando a horas de um almoço tardio, com o assento traseiro do automóvel cheio de sacos com compras.

 

- E então? - perguntou Faith quando as duas entraram na cozinha. - Correu tudo bem?

 

- Sim - respondeu Marion.

 

- Não - respondeu Eleanor.

 

- Deixa-te disso, Eleanor, compraste montanhas de coisas.

 

- Odeio ir às compras.

 

- Eu já não tenho coragem para ir às compras - confessou Faith, baixando o lume onde tinha uma panela de sopa que tapou.

- Doem-me as pernas. Nos tempos que correm, as lojas já não têm cadeiras onde uma pessoa possa descansar um bocado. - Foi buscar as carcaças ao cesto do pão. - O meu problema é estar a ficar velha.

 

- Não, não está - contradisse Eleanor, enlaçando a mãe pela cintura, a sua mãe tão franzina que, ultimamente, parecia ainda mais pequena e mais frágil. Mas Faith sacudiu a filha, sorrindo e colocando o pão numa cestinha.

 

- Já não sou tão ágil como costumava ser. Como o pai também não é.

 

Com os braços cheios de compras, Marion deteve-se, detectando na voz da mãe uma entoação de cautela, quase como um aviso.

 

- Mas ele sente-se bem?

 

- Sabes como é, a angina do peito...

 

- Quando... quando é que ele soube que tinha isso? - perguntou Marion, pousando os sacos no chão enquanto Eleanor se imobilizava a meio de despir o casaco.

 

- Há já uns dois meses que ele tem dificuldade em respirar, mas não consegui convencê-lo a ir ao médico. E depois, há umas duas semanas, teve dores no peito durante a noite; decidi chamar o Martin Cleland na manhã seguinte.

 

- A mãe nunca nos disse nada a esse respeito!

 

- Não havia nada a dizer. Não valia a pena estar a preocupar-vos.

 

- Mas... o que é que os médicos tencionam fazer?

 

- Ora, já está marcado ele ir ao hospital para lhe inserirem uma espécie de balão numa artéria, ou qualquer coisa assim. Não me perguntem porque eu não sei bem como é. Para já, anda a tomar uns comprimidos e o Martin disse-nos que não havia motivos para estarmos com preocupações. Mas o especialista é que tem de decidir... Estou a referir-me a essa coisa do balão. Tem uma consulta marcada para Dezembro.

 

Marion e Eleanor ficaram caladas por uns momentos, observando a mãe que cortava manteiga, colocando pequenos pedaços dentro de uma mameigueira com flores, continuando a preparar a refeição sem olhar para as filhas.

 

- Quem me dera que a mãe nos tivesse dito - resmungou Eleanor, pendurando o casaco.

 

- Vou levar as compras lá para cima, para as tirar do caminho

- disse Marion, apanhando os seus sacos do chão.

 

- Fazes bem. Eleanor, leva a manteiga e o pão.

 

A lareira da casa de jantar já fora acesa, aquecendo um pouco o ambiente. Porém, aquela divisão continuava a ter uma atmosfera sombria, cheirando um pouco a bafio. Encostado à parede do lado esquerdo, oposta à janela, havia um piano, há muito desafinado, onde Marion praticara as suas escalas e onde a mãe, ou Ruby, tinham tocado para as aulas de balé. A mesa comprida de madeira muito polida já estava posta com os copos e os talheres e as portas da cristaleira ao lado da lareira estavam semiabertas, mostrando as prateleiras onde se via mais louça de vidro, guardanapos e jarras que não andavam a uso. Era uma casa de jantar bastante comum, raramente utilizada e com um ligeiro cheiro a mofo. Porém, quando se viravam para a parede à direita da porta, as coisas mudavam de figura. A toda a extensão da parede viam-se espelhos de corpo inteiro e a meio da altura havia uma barra de madeira. Enquanto Eleanor colocava o pão e a manteiga na mesa, viu-se reflectida naquele mundo de espelhos que reflectia outra mesa de refeições e outras cadeiras, a outra lareira onde as chamas ardiam por detrás de uma grade de ferro, o único ruído que quebrava o silêncio, a outra Eleanor loura e com uma expressão solene, com os cabelos caídos para a frente. Então, tudo aquilo se dissipou, apenas por um momento, e ela viu a fila de garotas com os seus fatos de balé e sapatilhas cor-de-rosa, cabeças direitas em posição e braços arqueados, um, dois, três; um, dois, três, estômagos recolhidos e, uma vez mais, um, dois, três...

 

- Vamos lá a ver - disse a voz de Faith por detrás dela -, podes pôr os guardanapos brancos.

 

- Quem me dera que o pai se visse livre destes espelhos.

 

- Ora, há anos que ele anda a prometer-me isso mesmo. E a sala com outra decoração. Este papel de parede é tão tristonho e há muito que devia ter sido substituído.

 

- Podia ficar uma casa de jantar muito acolhedora... com a lareira e a janela panorâmica.

 

- Agora não vale a pena estar com esse trabalho. Esta casa é demasiado grande só para nós dois. Só vamos almoçar aqui porque é a única maneira de manter a Mamie fora da minha cozinha.

 

- Mas não estão a pensar em mudar, pois não?

 

- Não, nem pensar. Estou velha de mais para essas andanças. Havemos de ficar em Pitcairn até morrermos. Depois, tu, a tua irmã e o David podem fazer o que bem vos aprouver.

 

- Não diga isso. O pai e a mãe hão-de viver para sempre.

 

- Não haja dúvida! - ripostou Faith rindo-se. Ergueu uma mão. - Já serão elas? - Começou a ouvir-se o ruído ensurdecido do motor do Morris Minar das tias, que já percorria o caminho particular.

 

Eleanor saiu para o corredor, dirigindo-se para a porta da frente, mas o pai chegou antes dela. Achou que ele estava com um aspecto muito encovado, mas continuava a caminhar com passos enérgicos, o que indicava que não poderia estar gravemente doente. A angina do peito era uma coisa bastante comum, não era? Ninguém morria dessa anomalia. No entanto, quando voltassem para casa poderiam pedir a Fergus que as esclarecesse melhor.

 

Com alguma dificuldade, Mamie e Alice saíram do Morris Minor; Mamie vinha vestida em tons de púrpura e azul, toda ela era lenços a adejar ao vento e uma fragrância adocicada, uma mulher anafada que se movimentava como se fosse uma borboleta, com os anéis a reflectirem a luz daquele sol ameno de Novembro quando mexia as mãos. Mais sóbria, Alice vinha atrás dela, magra e muito a direito, parecida com o irmão; vestia um casaco e usava um chapéu de um cinzento sóbrio.

 

Eleanor sentia o coração apertado de ansiedade por causa do pai, tentando pôr o passado para trás, a pequena mensagem superficial de David, onde não se detectava a mínima preocupação fosse pelo que fosse; desceu as escadas a correr ao encontro das tias, pegando no ramo de flores que Mamie lhe estendia e nos embrulhos que Alice trazia.

 

- Eles pareceram-me estar bastante bem, a mãe e o pai, não achaste? - perguntou Marion na manhã seguinte quando já iam de regresso a casa. - Tenciono pedir ao Fergus que me informe mais sobre a angina do pai. No entanto, não me parece que haja motivos para preocupação; o que é que te parece?

 

- Ambos estão bem - tranquilizou-a Eleanor. - A mãe nunca esteve doente, pois não?

 

- É por causa do exercício físico que ela costumava fazer quando era mais nova, o bailado e tudo o mais.

 

- E as aulas... lembras-te? Quando andávamos na academia e ela queria ganhar um pouco de dinheiro para os seus alfinetes.

 

- Achas que foi por causa disso que ela dava aulas de dança? perguntou Marion, mostrando-se surpreendida. - Pensei que foi por sentir saudades de dar aulas, além de que nós estávamos a ficar mais crescidas, e é preciso não esquecer que no bailado clássico ambas éramos uma nulidade. Portanto, ela decidiu ensinar todas essas aspirantes a Fonteyns.

 

- Aquelas rapariguinhas horríveis nas manhãs de sábado, a guincharem e a rirem-se que nem umas tolas. Durante quanto tempo é que a mãe deu essas aulas?

 

- Durante alguns anos... mais ao menos quando o David deixou a escola, não foi? Já não me recordo. Seja como for, ela nunca ganhou muito dinheiro com isso. Quantos pais é que estavam dispostos a levar os filhos tão longe para terem aulas de balé... no meio de nenhures?

 

- E aqueles espelhos horrorosos - comentou Eleanor.

 

- É verdade - concordou Marion, rindo-se. - Se uma pessoa estiver na cabeceira da mesa do lado da lareira, fica-se com as costas quentes, mas nesse caso é-se obrigado a ficar sentado a olhar para nós próprios a comer.

 

- Sim, e a parte de trás da cabeça da Mamie, sempre a acenar para cima e para baixo e eu a esforçar-me por não olhar. - Durante todo o almoço, Eleanor tivera consciência do seu reflexo no espelho, assim como do traseiro anafado de Mamie, o cabelo branco e fofo, menos na nuca, deixando ver o couro cabeludo de um tom rosado. Até mesmo quando desfiavam as recordações e os mexericos, no que a maior parte da conversa em família se centrava, ela conseguira visualizar uma vez mais aquela fileira de garotas, a saltitar pela sala, enquanto Ruby matraqueava as teclas do piano e a mãe, pequena e morena, gritava instruções às suas pequenas alunas.

 

- Já estamos quase em casa... graças a Deus - disse Marion, observando a fiada de luzes ao longo da Ponte Kessock, um clarão que reflectia Inverness, como uma bruma avermelhada que se estendia pelo firmamento de um azul-escuro. Sentia-se apreensiva por não saber se teria comprado os presentes mais adequados, começando a lamentar ter convidado toda a gente a passar o Natal em sua casa. Mas as coisas acabariam por correr bem: no fim, tudo correria às mil maravilhas. Cerrou as pálpebras e encostou-se para trás enquanto Eleanor continuava a conduzir, encurtando a distância até casa.

 

Veio a concluir-se que Marion não tinha razões para se preocupar com o Natal. Três semanas depois, o pai telefonou-lhe às oito da manhã quando ela tentava fazer com que Ross se levantasse da cama para ir tomar duche, e Fergus deixava queimar as torradas na cozinha.

 

- Paizinho? O que é que se passa? - Ficou com o coração sobressaltado, pressagiando más notícias.

 

- É a tua mãe. Pensei que era melhor avisar-vos, a ti e à Eleanor. Ontem à noite tive de chamar o médico porque ela não estava a sentir-se bem.

 

- O que é que aconteceu... Ela está bem?

 

- Bem... não. Não se pode dizer que esteja bem. Ainda está no hospital. Teve uma pequena trombose. O médico diz que não é muito grave, mas ela ainda não recuperou a consciência, não fala nem nada.

 

- Oh, meu Deus!

 

- Daqui a pouco vou outra vez para o hospital - continuou o pai. - Mas pensei que vocês haviam de querer saber que ela foi internada.

 

- Mas até que ponto é que o estado da mãe é grave? Olhe uma coisa, pai... nós vamos para aí. E depois pensou: ”Hoje tenho de ir a Dingwall, eles estão a contar comigo, só posso partir depois das aulas. Vou ter de guiar de noite.” Apercebeu-se pela entoação na voz do pai de que o estado da mãe era grave e como ele estava abalado. Não havia outra hipótese, teriam de partir imediatamente.

 

- Não, não é preciso, ela há-de pôr-se boa. O médico disse que as primeiras vinte e quatro horas é que eram mais problemáticas. Ainda não podem avaliar a gravidade das lesões, se ela conseguir recuperar... Dizem-me que as pessoas que sofrem deste tipo de ataques costumam recuperar bem. - Aclarou a garganta. - Em qualquer dos casos, ela não podia estar em melhores mãos. As enfermeiras são extremamente simpáticas. Depois da visita, prometo telefonar-te outra vez.

 

- Ouça uma coisa, pai... Hoje tenho de dar aulas. Telefone à Eleanor, ou então ligue para o bloco operatório e peça para falar com o Fergus. O pai disse que ia ao hospital, posso telefonar-lhe para lá?

 

- Não tenho a certeza. Provavelmente. Sim, estarei no hospital. Para ver como é que ela está a reagir.

 

Marion verificou que tinha a pulsação acelerada. O dia estava a escurecer e a ficar confuso, e, quando pousou o telefone, não sabia o que fazer em primeiro lugar.

 

A mãe morreu nessa mesma manhã. Eleanor telefonou-lhe para a escola; apressadamente, saiu da sala de aulas para atender o telefone na secretaria. Sabendo de antemão qual a notícia que estava prestes a receber, mas sem querer acreditar no que o coração lhe dizia.

 

- Fiquei sem saber o que fazer - disse Eleanor, a voz cheia de lágrimas, que tentava conter. - Lamento muito, Marion, devia ter esperado que chegasses a casa para te dar esta notícia, mas senti que tinhas de saber sem mais perda de tempo.

 

Marion regressou à sala de aulas, continuando a trabalhar até ao fim do dia. Ela e Eleanor iriam a Aberdeen na manhã seguinte, depois de terem tratado de tudo o que tinham a tratar.

 

Claire iria para casa de Marion, depois da escola, onde pernoitaria. Marion tirou comida congelada do frigorífico, previamente cozinhada, e fez uma lista das coisas que Fergus teria de fazer: encontrar alguém que levasse Kirsty às aulas de dança; lembrou a Ross para não se esquecer do equipamento de futebol; engomou a roupa que havia para engomar; certificou-se de que alguém ficava encarregado de dar o comprimido ao gato, já bastante velhote, assim como alimentar os outros animais e deixar o catálogo da Betterwear na soleira da porta. Quando Eleanor se ofereceu para conduzir, aceitou com um suspiro de alívio.

 

Enquanto ambas percorriam a A96, começou a cair uma ligeira camada de neve que parecia descer do ar ao encontro do automóvel. A Casa Pitcairn estava envolta numa atmosfera agressivamente fria; as lareiras não haviam sido acesas, jornais espalhados pela mesa da cozinha e a louça por lavar no lava-louça. As duas irmãs começaram a arrumar, antecipando uma vida em Pitcairn sem a presença da mãe.

 

- Não se preocupem com as limpezas - disse o pai ao deparar com Eleanor munida de uma vassoura e a pá do lixo, preparada para varrer o tapete das escadas.

 

- Queremos que o pai fique com a casa limpa e arrumada.

 

- Tenho a Ruby - alegou ele. Talvez ela possa passar a vir mais um ou dois dias por semana. - Eleanor compreendeu que ele já pensara naquele assunto. - Sabem que a vossa mãe teria tratado da casa sem a Ruby. Dizia que não era preciso, uma vez que éramos apenas os dois. Mas eu consegui persuadi-la. Além do mais, a Ruby era uma companhia. Ela é uma pessoa sempre muito animada.

 

- Contudo, ela também não está a ficar mais nova, pai. Acha que ela vai querer passar a trabalhar mais horas? Talvez a Susan Mackie... Qual é o apelido dela de casada? Estou sempre a esquecer-me... talvez ela conheça alguém.

 

- Veremos - replicou ele, o que significava que o assunto ficaria por ali. - Mas adiante... Vim aqui para vos dizer... Onde é que está a Marion?

 

- Na cozinha, acho eu. Ela disse que ia arranjar qualquer coisa para comermos.

 

- Bem... estive a falar ao telefone com a Alice. Elas disseram que passavam por cá; achas que a comida chega também para as duas?

 

- Tenho a certeza de que haveremos de nos arranjar – retorquiu Eleanor, indo falar com Marion. - As tias estão a caminho. Achas que temos comida que chegue para elas?

 

- Devias ver o congelador, Eleanor. A mãe guardava tudo com etiquetas... sopa, estufados, até parece que estava a prever o que ia acontecer. Há comida suficiente para alimentar o pai durante meses a fio.

 

- Contudo, a verdade é que ela não sabia, Marion. Foi uma tragédia que aconteceu, assim sem mais nem menos, não achas?

 

- Claro que surgiu de repente. Ela sempre foi uma pessoa muito organizada... tinha sempre refeições preparadas. Na verdade, ela cozinhava comida a mais só para eles dois.

 

- Ela era como tu - observou Eleanor, apercebendo-se disso pela primeira vez. - Tu és como a mãe... o que, à primeira vista, não pareces. Mas também és muito metódica, tal como ela é... era. Oh, Marion...

 

- Eu sei - redarguiu Eleanor, partilhando do mesmo desgosto. Ficaram a olhar uma para a outra; Eleanor esforçava-se por conter as lágrimas.

 

- Muito bem - disse ela, virando costas à irmã. - Vou tirar mais sopa do congelador.

 

Mamie mostrava-se chorosa; Alice parecia a mesma de sempre, apenas com uma expressão um tudo-nada mais grave do que o habitual. Mamie abraçou as duas irmãs, dizendo: Oh, meu Deus, ainda há uma semana estivemos com ela e não nos apercebemos de nada. de estranho, Alice tocou no ombro de Marion, dizendo-lhe que a morte da mãe tinha sido um grande choque. Pareceu-lhes que não valia a pena sentarem-se para comer, mas ter de organizar as coisas (tu sentas-te ali, não, assim está bem. Cá me arranjo... de que é a sopa?) era um alívio. Mamie a protestar que só queria muito pouco, numa altura daquelas ninguém tinha um apetite por aí além, mas acabou por comer uma tigela cheia de sopa e várias sanduíches. Alice, para grande perplexidade de Eleanor, também comeu com bastante apetite, mostrando-se quase alegre quando Marion encheu as chávenas de café. O pai mal tocou na comida, tendo-se levantado da mesa antes de qualquer delas ter acabado a refeição, saindo para o jardim depois de ter dito que tinha de fazer qualquer coisa.

 

- Vai atrás do pai - disse Marion a Eleanor em voz baixa enquanto Mamie e Alice disputavam a tarefa de levantar a mesa e lavar a louça. - Ver se ele está bem.

 

Eleanor calçou as botas e vestiu o casaco, atravessando o jardim. Encontrou o pai junto do muro perto da capoeira, agora abandonada, com o olhar perdido para lá dos campos, fixo no arvoredo. Eleanor teve uma recordação repentina de si própria, escarranchada no muro, a observar a família do latoeiro, ouvindo o ladrar do cão dos ciganos.

 

- Está a sentir-se bem, pai? - perguntou ela dando-lhe o braço.

 

- Estou, sim, cachopa - respondeu ele, aplicando-lhe uma pancadinha afectuosa na mão, mas sem mudar de posição; ambos ficaram ali, em silêncio, por uns momentos. Por que razão é que ela teria morrido?, perguntava-se Eleanor. Ele ia sentir-se tão sozinho.

 

- Paizinho, está recordado daquela família... dois garotos pequenos... a mulher apareceu à porta da nossa cozinha e leu-nos a sina. Estou em crer que ela passava por aqui todos os anos, com a família, mas só consigo recordar-me dessa vez. Suponho que eram latoeiros, costumavam montar um acampamento... ali - acrescentou ela apontando na direcção do bosque. O pai não lhe deu réplica de imediato. Pensando que ele já se teria esquecido daquele episódio, Eleanor prosseguiu: - Havia outra coisa. Por qualquer razão, na minha recordação, eles estão associados àquele incêndio terrível nas terras dos Mackies. No celeiro... O palheiro não ardeu?

 

- Ardeu, sim.

 

Eleanor verificou que ele não se havia esquecido. O pai abanou a cabeça.

 

- Pobres almas - disse ele. - Sim, recordo-me bem deles. Ela e os cachopos. Durante alguns anos, apareciam por cá sempre no Verão. O marido fazia biscates nas quintas das proximidades, mas o homem era uma criatura em que não se podia ter confiança. As pessoas só lhe davam trabalho porque tinham pena dela. O que é que te levou a pensar neles, numa altura destas?

 

- Não sei. Acho que foi de ter vindo aqui... Foi daqui que os vi pela primeira vez - respondeu Eleanor, recordando-se uma vez mais desse trecho do seu passado, ela própria escarranchada em cima do muro, e depois lembrava-se de ter corrido para casa sem motivo aparente. - Ela também tinha um bebé, não tinha? Além dos dois rapazes.

 

- O que aconteceu foi horrível - continuou o pai; do seu timbre de voz transparecia algo que era mais do que pesar pela tragédia de pessoas que mal conhecera, havia mais de trinta anos. Eleanor fitou o pai.

 

- O quê? - perguntou, mas, enquanto falava, a sua memória como que se abriu.

 

- Morreram no incêndio no celeiro dos Mackies.

 

- Com que então foi isso. Estou recordada desse fogo.

 

- O Dan hesitou muito em permitir que eles se abrigassem lá por uma ou duas noites. Acho que acabou por recusar porque não gostava nada da maneira de ser do homem. Contudo, o tempo estava incerto, ameaçando um temporal. No entanto, eles devem ter acabado por procurar abrigo no palheiro, quando os Mackies já se tinham deitado.

 

- Morreram todos? - perguntou Eleanor, vendo-se a si própria e à irmã à janela, observando o clarão das chamas que iluminavam o céu.

 

- Não, só a mulher e o bebé. Os garotos conseguiram sair... quem sabe, talvez não estivessem na quinta. Já não me lembro, mas sei que o homem tinha ido para o bar e ainda não regressara. Na manhã seguinte, deram com ele, perdido de bêbedo, caído numa vala, sem saber nada do que acontecera à família. - John Cairns virou-se, seguindo em direcção ao jardim com o intuito de voltar para casa.

 

- O que foi feito das crianças? - perguntou Eleanor, indo atrás do pai.

 

- Ora, a Assistência Social deve ter tomado conta deles. Como é que se chama agora, os Serviços Sociais? Não faço a mais pequena ideia do que aconteceu ao sujeito. Nunca mais voltei a pôr-lhe a vista em cima.

 

Eleanor deteve-se quando chegou ao banco junto da porta das traseiras, voltando-se para um último olhar ao jardim. O pai também parou, à espera que ela entrasse em casa. Os maciços de lilases estavam despidos de folhas e, à luz fraca de Novembro, o jardim adquiria tons acastanhados e acinzentados.

 

- Foi uma tragédia horrível - comentou Eleanor. - Como é que... quer dizer, alguma vez chegaram a descobrir qual o motivo do incêndio?

 

- O homem fumava. O fogo pode bem ter sido ateado pela ponta de um cigarro. Foi precisamente por essa razão que o Dan não lhes queria dar abrigo no celeiro.

 

- Mas foi a mulher e o bebé que morreram queimados.

 

- Uma tragédia. Sabes, Eleanor... há algumas pessoas que dizem que às vezes a vêem, batendo às portas de suas casas, com o cachopo ao colo.

 

- O fantasma dela? - perguntou Eleanor.

 

- Sim, mas eu não tenho pachorra para histórias dessas. Tal como a tua mãe também não tinha. Mas a Ruby jura a pés juntos que já a viu por aqui. Por que motivo é que essa alma penada haveria de assombrar esta casa, quando morreu na Mains, é coisa que só Deus saberá.

 

- Mas ele tinha saído! - contrapôs Eleanor. - Como é que podem ter dito que o incêndio foi por culpa dele?

 

- A ponta de um cigarro pode ficar a arder devagar durante muito tempo sem que ninguém dê por isso - replicou o pai, hesitante. - A tua mãe alguma vez te falou desse assunto?

 

- A mãezinha? Não, porquê? Eu guardo algumas recordações do incêndio... bem, da excitação que nos causou quando éramos garotas. Não foi nessa noite que o David desapareceu? Que ficou fora de casa até tarde com o Stanley?

 

- Nós encontrámo-lo muito antes de o incêndio ter pegado afirmou o pai com ênfase. - Não, não, apesar de a tua mãe sempre ter desconfiado que ele teve alguma coisa a ver com isso... Ele e o Stanley, sempre a brincarem com fósforos. Eles eram os dois terríveis, uns cachopos sempre prontos para fazerem uma fogueira. Mas não tenho a mínima dúvida... ele estava em casa muito antes de o incêndio ter deflagrado. Nem sequer sei se nessa noite ele esteve nas terras da Mains. Seja como for, tanto um como o outro negaram ter ido à quinta.

 

Eleanor ficou a pensar na combustão lenta por baixo da palha, o fumo a começar a evolar-se e depois a primeira labareda.

 

- Ele e o Stanley costumavam brincar com esses garotos disse ela.

 

- Que garotos?

 

- Os filhos do latoeiro.

 

Antes que o pai lhe pudesse dar resposta, Alice abriu a porta da cozinha.

 

- Estamos de partida - anunciou ela. - Voltaremos amanhã de manhã, só para ver se vocês estão bem, se precisam de alguma coisa.

 

- Não há necessidade disso - ripostou John Cairns quando ele e Eleanor entravam na cozinha, fechando a porta. - Os Chisholm ficaram de passar por cá ainda esta tarde. Telefonei-lhes ontem e combinámos que viriam... o funeral realiza-se na sexta-feira. Portanto, não preciso de nada.

 

Alice pareceu hesitar. Falou directamente para o irmão, como se Eleanor não estivesse presente.

 

- Quero dar-te uma palavrinha - disse ela -, antes de nos irmos embora.

 

Mamie estava na sala de estar com Marion; Eleanor ouvia a voz da tia, a resmungar, quezilenta. O seu olhar desviou-se do pai para Alice, apercebendo-se das parecenças entre os dois e como, pela primeira vez, o pai parecia ter envelhecido tanto como a irmã, a despeito da diferença de sete anos que os separava. Entre os dois sentia uma tensão que não compreendia, o que a levou a querer proteger o pai.

 

- Isso pode esperar - afirmou ele, passando a mão pelos olhos.

 

- Como queiras - concordou Alice, se bem que não se tivesse mexido. Pouco depois virou-se para Eleanor. - Importas-te de perguntar à Mamie se já está pronta para ir, Eleanor?

 

- Está bem - aquiesceu ela saindo da cozinha, cuja porta Alice se apressou a fechar depois de ela ter saído. Por uns momentos, ainda pensou em esperar, em encostar-se à porta para poder escutar o que diziam. Mas é claro que não poderia fazer uma coisa dessas. Inesperadamente, pareceu-lhe ouvir a voz da mãe, uma nota de advertência, um conselho. Apressou o passo pelo corredor, indo ao encontro de Marion.

 

Durante a tarde, foram falar com o padre e com o cangalheiro. Às seis, Marion começou a cozinhar uma refeição para a qual nenhum deles tinha apetite. Na sexta-feira, voltariam a Pitcairn acompanhadas das respectivas famílias; as duas ficariam durante o fim-de-semana. Era preciso fazer alguma coisa com os pertences de Faith.

 

- O problema é que... - começou Marion a dizer enquanto preparava um bule de chá antes de se irem deitar - não sei se terei coragem para isso.

 

- Nesse caso, podemos adiar, se o pai não se importar - sugeriu Eleanor. - Ainda me custa a acreditar que a mãe tenha falecido, que daqui a pouco não voltará para casa - acrescentou com um suspiro de tristeza. - Quem me dera que tivessem trazido o corpo para aqui, em vez de o terem levado para a agência funerária. O velório devia ser aqui.

 

Marion serviu o chá em canecas, pousando o bule.

 

- A verdade é que isso agora não tem importância. Quer dizer... ela nunca mais voltará a estar aqui.

 

- É isso mesmo que estou a dizer. Ainda me custa a crer que ela tenha morrido.

 

- Pois bem, vamos ter de nos habituar à ideia.

 

- Ainda não - retorquiu Eleanor com os olhos rasos de lágrimas. - Ainda não.

 

O pai aparentava estar muito calmo, como se conseguisse suportar o desgosto melhor do que Eleanor, tendo começado a acreditar no que lhes havia acontecido. Contudo, continuava a falar de Faith como se ela ainda tivesse uma opinião a dar que devesse ser levada em consideração.

 

- Ela haveria de querer que vocês duas escolhessem as roupas e que ficassem com as poucas jóias que tinha. Levem o que quiserem. São coisas que não me servem para nada.

 

- Não há necessidade de estarmos a fazer as coisas à pressa replicou Eleanor.

 

- Como queiram - retrucou ele, parecendo aceitar o que as filhas queriam, ficando a olhar para a lareira que Marion acendera e colocando as mãos em forma de concha à volta da caneca de chá. Pouco depois, acrescentou: - Mas, cachopas, há uma coisa que não me sai do pensamento. Uma coisa que para ela tem de ser feita sem mais perdas de tempo.

 

Marion e Eleanor entreolharam-se. Tinham falado daquele assunto durante a viagem até ali, incapazes de decidir o que fazer a esse respeito.

 

- O David - disse Marion.

 

- Temos de falar com ele. Ele não sabe absolutamente nada do sucedido.

 

- Como é que haveria de saber - explodiu Eleanor, encolerizada -, se ele não se mantém em contacto connosco? - Sentia, por baixo daquele desgosto tão recente, que estava encolerizada consigo própria, uma vez mais, assolada por um sentimento de culpa. ”Foi por causa de mim que ele não se manteve em contacto, que não tem dado notícias.”

 

O pai foi buscar o postal de David, dentro do sobrescrito em que ele o enviara. Mas o carimbo dos correios estava esborratado.

 

- Seja como for, foi remetido de Londres - concluiu Marion. WC qualquer coisa.

 

- Apenas significa que ele o pôs no correio no centro da cidade - notou Eleanor. - Talvez seja onde ele trabalha. Tenho uns números de telefone, não sei bem onde, numa agenda velha, que são de um ou dois dos amigos dele. Vou ter de os procurar.

 

- Isso mesmo, tenho a certeza de que, se quisermos, acabaremos por o encontrar - comentou Marion, dando uma palmada afectuosa no joelho do pai.

 

- Assim é que é. Eu não quereria que ele não fosse ao funeral. Seria terrível se ele não estivesse presente.

 

Eleanor sentiu algo que se assemelhava bastante a uma espécie de ciúme, enquanto observava o pai que se encostava para trás na poltrona onde se sentara, sem olhar para as filhas, mas sim como se fitasse qualquer coisa do passado, como se pensasse em David.

 

Na manhã seguinte, ele despediu-se delas à porta, acenando-lhes quando partiram. Quando se viraram para um último acenar de despedida, ambas viram o fantasma da mãe ao lado dele, franzina e muito direita junto do marido, que tinha os ombros descaídos, iluminados pela luz que vinha do vestíbulo por detrás dos dois; a hera de folhas em tons de amarelo pendia dos dois vasos altos de pedra que ladeavam a porta da frente. Ficaram com a impressão de terem visto uma cortina que era afastada na janela do quarto dos pais no primeiro andar, apenas uma ilusão óptica da luz, um reflexo do sol no vidro.

 

- Sinto-me tão mal por o deixar sozinho - observou Eleanor. Pestanejou num esforço para conter as lágrimas, engolindo em seco.

 

- Não tarda, estaremos de volta - prometeu Marion. - São só dois dias.

 

Durante muito tempo, ambas se mantiveram em silêncio, seguindo estrada fora. Nos dois lados, a paisagem era sombria, despida de vegetação, e o firmamento de um cinzento de pedra, pesado. Depois de terem passado por Inverurie, Marion quebrou o silêncio.

 

- Lembras-te da minha amiga, a Violet?

 

- Não era ela que tinha uns totós incrivelmente compridos?

 

- Sim e sempre com uns vestidos muito bonitos. Pelo menos, era o que me pareciam na altura - acrescentou Marion.

 

- Sim, recordo-me da Violet. Ela estava em nossa casa quando a cigana apareceu. Ou logo a seguir... Ela até disse que os ciganos eram porcos.

 

- De que é que estás a falar?

 

- Da família do latoeiro. Com certeza que te lembras da mulher.

 

Eleanor estava prestes a contar à irmã o que o pai lhe dissera, quando esta prosseguiu:

 

- Sabes, a Violet não acreditou em mim quando eu lhe disse que a mãe fora bailarina... e que se apresentara em palco. Tivemos uma discussão enorme por causa disso. Acusou-me de estar a inventar histórias e eu fiquei extremamente irritada com ela.

 

- A Violet tinha uma visão da vida muito restritiva, tanto quanto me recordo.

 

- Suponho que sim. Ela não queria estudar na academia... preferia trabalhar na Esslemont e Mackintosh, em Aberdeen, a vender vestuário de senhora. O que acabou por fazer. Mas adiante, entrámos pela porta das traseiras, a mãe estava a fazer qualquer coisa na cozinha e eu disse-lhe: ”A Violet não acreditou quando eu lhe disse que a mãe foi uma bailarina. Diz que eu estou a mentir.” - Marion fez uma pausa, recordando-se do sentimento de cólera, do quanto se sentira magoada, acreditando que a mãe esclareceria a situação sem deixar qualquer margem para dúvidas.

 

- O que é que a mãe disse?

 

- Nada. - Levantou a saia... era Verão e, para variar, usava um vestido, e começou a dançar pelo jardim... a fazer entrechats, dando uns saltos em que os pés batem no ar, e depois começou a rodopiar. Foi espantoso.

 

E então Marion e Eleanor (esta última não assistira a este episódio, mas agora imaginava-o) viam a mãe de novo, transformada, a mãe franzina mas que nada parecia abalar, a rodopiar pelo jardim até ao relvado, com as galinhas de penas castanhas a cacarejarem alvoroçadas, enquanto ela passava por elas fazendo as suas piruetas, as saias a adejarem e a cabeça ligeiramente inclinada para trás, a fisionomia composta e como que distanciada do que a rodeava. Subitamente, a mãe parou, imobilizando-se com uma postura muito a direito junto do depósito de carvão, segurando a fímbria da saia com os dedos graciosamente curvados, após o que fez uma vénia muito acentuada.

 

- Oh, Marion - proferiu Eleanor cega pelas lágrimas, obrigada a abrandar a velocidade, encostando à berma e parando o carro.

 

- Que grande decepção que devemos ter sido para ela comentou Marion, contendo o choro que lhe embargava a garganta, num esforço para se rir. - Duas raparigas que eram uns autênticos trambolhos para a dança, grandes de mais.

 

- A Kirsty... - retorquiu Eleanor, assoando-se. - A Kirsty tem muito jeito para o balé.

 

- Sim, suponho que ela tenha talento para o bailado. Ainda que seja o tipo de dança das Highlands.

 

Dentro do automóvel começou a ficar frio, mas continuaram paradas, como que incapazes de prosseguirem o caminho, apanhadas pelo passado.

 

- É melhor continuarmos - sugeriu Marion por fim. Eleanor, que já não pensava na mulher do latoeiro, rodou a chave na ignição, ligando o motor. Retomaram a viagem, aumentando a distância entre elas e Pitcairn, que ia ficando cada vez mais para trás.

 

Quando teve a certeza de que tinha um cancro, Marion foi para casa, vestiu o blusão impermeável e calçou as botas, seguindo de carro pela velha estrada de Evanton em direcção a Cnoc Fyrish. Tencionava subir a colina, ficando sentada por baixo do monumento durante algum tempo, após o que desceria a encosta e iria para casa, a fim de falar com as outras pessoas.

 

A colina tinha uma altura aproximada de apenas trezentos metros; uma boa caminhada de uma hora até ao cimo. Era um passeio que fizera muitas vezes com o marido e com os filhos; também já tinha subido até ao cume com Eleanor, logo depois de a irmã se ter mudado para ali. No cimo havia uns arcos amplos, em pedra, erigidos pelo trabalho esforçado dos homens da região que passaram a trabalhar para Hector Munro depois de este ter regressado do cerco de Serangapatum coberto de glória. Os arcos representavam os portões da cidade indiana. Marion explicara tudo isto a Eleanor durante essa primeira caminhada que haviam feito juntas até ao cimo da colina, quando Eleanor enviuvara havia pouco, sendo necessário que se lhe falasse constantemente, contando-lhe o que quer que fosse com o objectivo de impedir que se entregasse ao desgosto. Pelo menos era o que os outros aconselhavam, mas Marion não se sentira muito certa quanto a essa espécie de terapia.

 

- Portanto, destinou-se a dar trabalho aos homens, foi? perguntou Eleanor quando já atravessavam o arvoredo no sopé da colina.

 

- Foi essa a ideia dele.

 

Recordava-se de quando haviam chegado ao cume da colina, com uma mão apoiada num dos pilares de pedra, Eleanor virando-se para ela e dizendo:

 

- Não serviu para nada, não é verdade? Terem de arrastar todos esses blocos pesadíssimos de pedra pela encosta da colina... Um trabalho sem o mínimo de dignidade e que não ajudaria em nada o futuro das famílias desses homens, não foi?

 

Marion concordara. As duas irmãs ficaram sentadas em silêncio, enquanto bebiam o chá que Marion trouxera num termo, com as costas encostadas aos blocos de pedra dura. Ficaram a olhar para Sutors, em Cromarty, do outro lado do estuário, observando as velas dos barcos, tão pequenos à distância, em Invergordon. À luz do Sol de Maio, a paisagem adquiria tonalidades de azul e verde, ocre e castanho, uma terra rica e fértil com a vegetação que a Primavera fizera desabrochar.

 

- Tudo isto é tão bonito - comentara Eleanor. - Ainda bem que vim viver para aqui.

 

- Também me sinto contente - replicou Marion, e essa foi a última vez que tentou distrair a irmã, conversando ininterruptamente com ela. Os campos, a superfície cintilante da água, Cairngorms muito ao longe, a sul, envolta em brumas - era tudo isso que aquietava o espírito e não as conversas.

 

Naquele momento, agasalhada para se proteger do frio de Novembro, Marion recordava-se dessa escalada com Eleanor, tão pouco familiarizada com aquela região, que fora preciso pô-la ao corrente de todas as histórias locais. Porém, agora a irmã pertencia ali. Marion sentiu que desta vez também deveria ter ido acompanhada da irmã. Contudo, ainda não tinha telefonado a Eleanor. Só o pessoal do hospital e Fergus é que estavam a par da sua doença.

 

No cimo da colina, o vento soprava com força, obrigando-a a fechar o fecho de correr do casaco Goretex e puxando o capuz para o rosto. A luz do dia estava a dar lugar ao lusco-fusco; por isso, logo que estivesse pronta, teria de começar a descer a encosta. Só tencionava recuperar a respiração. Naquele dia, as colinas tinham um aspecto sombrio, não permitindo que se admirasse a panorâmica de que habitualmente se desfrutava daquele ponto alto. Nem sequer se conseguia avistar Sutors. Mas, no estuário, havia duas ou três embarcações iluminadas como se fossem árvores de Natal, com as luzes a cintilarem naquele fim de tarde tristonho. Marion tocou num dos pilares de pedra, sentindo a superfície fria mesmo através da luva. Tanto esforço perdido só para que as gerações vindouras pudessem contar a história de Munro. No entanto, sentia-se satisfeita por ter decidido ir até ali. Era muito possível que dentro em pouco não estivesse em condições físicas de poder fazer aquela caminhada até ao cimo da colina. Poderia decorrer um ano até que pudesse voltar a fazê-lo.

 

Naquele momento, porém, tinha de descer, ir para casa e falar com Eleanor e com os filhos, além de também ter de falar com o pai. Era em situações como aquela que se desejava a presença de uma mãe, para nos dizer que tudo acabaria por se resolver a contento. Todavia, talvez as coisas acabassem por não correr pelo melhor. Cancro. Cancro. Repetiu a palavra por várias vezes para si própria, até a ter esvaziado de todo e qualquer significado, apenas duas sílabas, como se fosse um cântico semelhante a um mantra, apenas duas sílabas. Can-cro, can-cro.

 

Mesmo assim, deixou-se ficar com a luz do dia que desaparecia, imobilizada, atemorizada.

 

Em finais de Novembro, Marion ficou internada no hospital para a operação que lhe removeria o seio esquerdo, extraindo assim o tumor canceroso, um acto cirúrgico que foi coroado de êxito. Marion pareceu estar a recuperar bastante depressa, mostrando-se muito animada quando a iam visitar ao hospital.

 

- As boas notícias - disse ela a Eleanor e a David sentados em cadeiras à beira da sua cama -, não foi o que o Fergus disse?, é eles não começarem com os tratamentos antes da passagem do ano... Acho que primeiro tenho de fazer mais exames clínicos. Isso quer dizer que poderei ter um Natal mais ou menos em paz e sossego, sem ter de me preocupar com os efeitos secundários.

 

- Efeitos secundários? - perguntou David com uma expressão alheada enquanto folheava uma revista, endireitando-se na cadeira.

 

- Por causa da quimioterapia - esclareceu Marion.

 

- Portanto... já tens a certeza de que vais fazer esse tratamento?

 

- Não que me apeteça - redarguiu Marion, cabisbaixa -, tenho de reconhecer. Os médicos acham que será por um período de seis meses. O mais certo é não poder trabalhar grande coisa durante esse período.

 

- Aí está uma coisa com que não deves preocupar-te - atalhou Eleanor. - Só tens de te pôr boa.

 

- A maneira como as coisas acontecem... É tão irónico - observou Marion suspirando. - Por altura da Páscoa vai abrir uma vaga a tempo inteiro, e, antes de tudo isto, andei a pensar em candidatar-me. No ano que vem, a Kirsty começa a estudar na Escola Primária Número Sete e é na mesma escola; seria tão conveniente. Eu até tinha começado a pensar que poderia voltar a dar aulas a tempo inteiro. - Marion interrompeu-se, respirando fundo. Até isto me ter acontecido.

 

Eleanor murmurou-lhe palavras de conforto, dizendo-lhe que tudo haveria de correr bem, no que acreditava, muito embora estivesse a pensar que se a irmã arranjasse um emprego a tempo inteiro, não teriam oportunidade de se encontrar com tanta frequência e, verdade fosse dita, ela é que devia tentar arranjar um emprego. ”Só tenho uma filha, e nem sequer tenho marido”, mas repreendeu-se ao contemplar a hipótese de arranjar emprego com pouco entusiasmo, pensando que teria de sair de casa todas as manhãs, entrando numa qualquer rotina que nem sequer era capaz de imaginar, quanto mais desejá-la. Mas, fosse como fosse, por agora, concluiu que a sua presença era necessária em casa, para poder dar apoio a Marion e a Fergus, ajudando-os a ultrapassar aquela situação adversa.

 

David mostrava-se desassossegado por se encontrar na enfermaria. Desde que Eleanor lhe falara da doença de Marion que ele se comportara como um animal encurralado que só queria libertar-se, mas sabendo que não devia ir-se embora. O seu estado de espírito alternava-se, ora amuado, sofrendo, mas sem expressar os seus sentimentos, ou falando de mais, sugerindo terapias alternativas de que ouvira falar ou tinha lido algures, cada uma mais disparatada do que a anterior, na opinião de Eleanor. Naquele momento, levantou-se da cadeira, começando a andar de um lado para o outro; pouco depois foi até à janela e ficou a olhar para o parque de estacionamento no lado oposto ao do hospital, banhado pelos raios solares do Inverno.

 

- Vejam-me bem este tempo - comentou Marion, carrancuda, seguindo David com o olhar. - O Outono mais tristonho em muitos anos, mas assim que venho para o hospital, o Sol decide começar a brilhar.

 

- Mas no fim-da-semana já podes ir para casa - lembrou Eleanor, tentando animá-la.

 

David afastou-se da janela, aproximando-se da cama.

 

- Vou até lá fora fumar um cigarro, de acordo?

 

- Tu não gostas nada de hospitais - replicou Marion com um abanar de cabeça acompanhado de um sorriso.

 

- Ora bem, quem é que gosta? - retrucou ele, dando a impressão de estar na defensiva. - Ficarei muito satisfeito quando te vir daqui para fora - acrescentou, baixando-se para dar um beijo à irmã. Marion sentiu a barba áspera na face quente, assim como o cheiro a tabaco e a alho. David saiu da enfermaria, percorrendo o corredor num passo leve, agora que ia a caminho da rua.

 

- Ele anda inquieto - comentou Marion. - E não é só por vir ao hospital, não te parece?

 

- Sabes bem que ele nunca está sossegado em parte nenhuma declarou Eleanor, que se sentia irritada com o comportamento do irmão. Inexplicavelmente, quando se precisava dele, alheava-se, parecia tornar-se insubstancial. Ninguém podia contar com o seu apoio. Pensou em Fergus, na dedicação que ele votava a Marion, as rugas de ansiedade na sua fronte que se haviam aprofundado ao longo das últimas semanas. Depois, olhou para a irmã, observando o que David não gostava de ver, o que enchia Fergus de preocupação, apercebendo-se daquilo que ela própria receava: Marion afogueada e com um aspecto de cansaço, o cabelo baço e colado à cabeça, sem os reflexos acobreados que normalmente exibia. A camisa de dormir cor-de-rosa e, por baixo dela, um sutiã com alças largas que continha apenas um seio com vida, enquanto a outra metade estava cheia de algo acolchoado que (à primeira vista) parecia não mostrar nenhuma anomalia. Mas isso não correspondia à verdade. Eleanor sentia o coração a bater mais depressa. Com que frequência é que ela teria de ir àquela enfermaria nos tempos mais próximos, sentar-se à beira da cama a que Marion estaria confinada, sentindo-se doente só por ter de a ver no hospital: tudo aquilo lhe era demasiado familiar, o cacifo atravancado, a pequena mesa com rodízios onde estavam os cartões com votos de melhoras, uma garrafa com limonada, lenços de papel, várias revistas... E por cima da cabeceira da cama, as rosas de estufa, ainda bastante fechadas e que nunca chegariam a abrir, que Fergus trouxera no primeiro dia de hospitalização.

 

Marion recostou-se para trás, fechando os olhos.

 

- Ai de mim - disse ela. - É com satisfação que irei para casa. - Momentos depois, voltou a sentar-se a direito. - É uma coisa que eu não sou capaz de compreender no David, como ele não parece querer isso. Voltar para casa.

 

- Sim, mas é preciso não esquecer que ele não tem um lar a que possa regressar.

 

- Excepto Pitcairn.

 

- Razão que, muito provavelmente, o leva a aparecer por lá de quando em vez - retorquiu Eleanor, vendo as horas no seu relógio de pulso. - Acho melhor ir-me embora, juntar-me a ele a caminho do carro. - Começou a vestir o casaco, levantando-se da cadeira.

- Detesto ter de te deixar sozinha.

 

- Não te preocupes com isso. O Fergus vem mais tarde.

 

- Sei que sim. - As duas irmãs olharam-se. - Talvez as coisas não sejam tão más como estamos a pensar que serão.

 

- A quimioterapia? Temos de esperar para ver.

 

- Marion, estive a pensar... - começou Eleanor, relutante em deixar a irmã - ... sobre o Natal.

 

- Oh, meu Deus, não te inquietes com isso. Estou contente por ter comprado as prendas para as crianças antes de ter vindo para o hospital.

 

- O que é mais do que eu fiz. E que tal se fôssemos para Pitcairn. A família toda? O David podia ficar com o pai... o que ele em qualquer dos casos já tencionava fazer. Eu posso cozinhar... isto é, o David e eu podemos cozinhar. Até posso ir um ou dois dias antes para pôr a casa em ordem. Assim não precisarás de ninguém que trate das coisas em tua casa, e as tias continuarão a poder passar o Natal connosco. Se estivesses de acordo, tudo o que tinhas a fazer era sentar-te no carro durante a viagem até casa do pai. O resto ficaria por conta de todos nós.

 

- Oh, não sei, Eleanor - replicou Marion, mostrando-se duvidosa -, os miúdos gostam de passar o Natal em casa.

 

- Pensa no assunto - aconselhou Eleanor calçando as luvas.

- Acho que, por uma vez, os miúdos não se importariam. E o Fergus está bastante de acordo, ao contrário do que eu pensei. Disse-me que é a favor da minha sugestão, desde que tu te sintas satisfeita com a ideia. Seria apenas por dois dias, desde a véspera de Natal até à manhã do feriado do dia a seguir ao Natal; continuarias a poder estar em casa no dia da festa que a mãe de Fergus organizou para esse dia, se é que ela vai levar a ideia avante. Também podes usar esse dia como uma desculpa para não ires... Como queiras.

 

Marion sorriu à irmã, recostando-se nas almofadas da cama.

 

- Ora bem - disse ela -, vou ver o que é que a família tem a dizer quanto à tua sugestão. Prometo-te que pensarei no assunto.

 

- Vou-me embora - disse Eleanor, fazendo-lhe uma festa no braço. - Amanhã cá estarei.

 

Do lado de fora das portas automáticas, David, com as mãos nos bolsos do seu casaco Barbour (que comprara quando tinha tido a intenção de viver no campo para começar uma criação de galináceos raros), esperava que a irmã saísse.

 

- Perguntaste-lhe a respeito do Natal?

 

- Ela disse-me que ia pensar no assunto.

 

- Óptimo, agora só temos de convencer o Fergus.

 

- Por que razão estás tão interessado nisso? Podíamos limitarmos a reduzir as coisas, tentar impedi-la de cozinhar tantas tartes e Pudins e não convidar mais ninguém.

 

- Não daria resultado - replicou ele quando já se dirigiam para o parque de estacionamento. - Em qualquer dos casos, eu sou todo a favor de grandes reuniões de família por ocasião do Natal, sou bom nesse tipo de reuniões familiares.

 

Eleanor começou a pensar nos Natais que o irmão passara com Marion, assim como com ela própria, já ambas adultas e casadas. Espectaculares e muito festivos, acabando sempre em tragédia. Não, o que estava a pensar não era justo, isso só tinha acontecido em duas ocasiões, e... Meteu a chave na fechadura da porta do automóvel, olhando para David por cima do tejadilho.

 

- Desde que tenciones manter-te por perto para ajudares disse ela por fim.

 

- Bom, não posso prometer ficar até ao Hogmanay - ripostou ele com um encolher de ombros. - Tenho uns amigos que querem ir esquiar e é muito possível que me decida a ir com eles. Mas prometo que ficarei até ao dia de Natal.

 

- Esquiar? Pensei que não tinhas dinheiro?

 

- Despacha-te, aqui fora está um frio de enregelar; vamos para casa.

 

Já na rua, tendo parado por causa dos semáforos, Eleanor voltou a abordar o mesmo assunto.

 

- Esquiar? Não tinha conhecimento de que tu sabias esquiar!

 

- Há muita coisa a meu respeito que tu desconheces - observou ele, olhando pela janela; Eleanor não lhe podia ver o rosto.

 

- Mas isso é uma coisa cara, não é verdade? O equipamento que é necessário e tudo o mais?

 

- As luzes já estão verdes - indicou David. Ela meteu a mudança e arrancou. David cruzou os braços; observando-o pelo canto do olho, viu que o perfil dele era austero, como se ocultasse qualquer segredo. Mas, logo a seguir, o irmão deu a impressão de se descontrair. - Tenho um negócio em vistas - continuou ele. Devo ganhar uns milhares de libras. Pelo menos, será o suficiente para umas férias antes de me lançar no trabalho da Internet.

 

- Isso quer dizer... que vais mesmo levar essa ideia para a frente? - perguntou Eleanor, que não acreditava no que ele dissera quanto ao negócio que tinha em vista. Às vezes pensava que ele nunca dizia a verdade em relação ao que quer que fosse, como se, já há muito tempo, o irmão se tivesse perdido no seu próprio dédalo de mentiras.

 

Nota: Hogmanay - Termo que na Escócia designa o Ano Novo. (N. da T.)

 

- É o que tudo indica. Mas, neste momento, o Phil está a trabalhar em Perth, por isso vou ter de ir até lá por algum tempo.

 

Apenas uma quinzena antes, ela ter-se-ia sentido magoada perante aquela perspectiva que a deixaria decepcionada. Mas agora, quase se sentia aliviada. Não sabia porquê, mas o facto de ele estar ou não presente tinha menos importância. O que interessava era o bem-estar de Marion, que ela melhorasse. Marion não podia morrer. Se isso acontecesse, a vida de todos sofreria grandes alterações. Contudo, não lhe servia de nada estar com pensamentos desses. Todavia, Eleanor não era capaz de impedir que a sua mente se centrasse, com carácter obsessivo, nesse medo atroz. Marion era o núcleo a que todos se agarravam. Quando a mãe falecera, esta já tinha deixado de ser o centro da vida deles; os filhos haviam crescido e começado a formar as suas próprias famílias. Era a ordem natural das coisas face à morte. Eleanor começou a pensar no funeral da mãe, pensamentos que a abalaram com tal força que teve de abrandar antes de chegar à rotunda de Tore, o que fez mesmo a tempo; começou a pensar que era possível que David partisse de novo sem destino certo e, se Marion morresse, possivelmente ele não estaria presente. Eleanor pôs-se a imaginar o funeral da irmã, o rosto pálido das crianças, a igreja à cunha e as inúmeras flores. Mas nada de David.

 

Quando Faith falecera, ele só tinha aparecido no último minuto. Chegou a casa dos pais quando o resto da família já se encontrava de saída no vestíbulo, as tias e John, Fergus e Marion perto de Eleanor. As crianças estavam na sala de estar, a ver televisão num silêncio respeitoso, enquanto eles esperavam pelos carros enviados pela agência funerária, que os transportariam ao cemitério. Mas esse silêncio foi quebrado quando surgiu um automóvel no caminho de acesso à casa, fazendo ranger o saibro debaixo dos pneus, ao que se aliava o chiar dos travões, tão diferente do rolar digno de um veículo pesado sobre o piso de pedras, acompanhado do trabalhar ensurdecido dos motores dos Daimlers de que tinham estado à espera. Eleanor, Marion e Fergus entreolharam-se; num movimento repentino, o pai encaminhou-se para a porta da frente.

 

- Recebi a mensagem - disse David. - Lamento muito, lamento muito, pai. - Reparou nas gravatas negras e nos fatos de cor sóbria. Deixou-se ficar à chuva com as suas calças de ganga e camisola, com um aspecto juvenil, magro e com a barba por fazer.

 

- Entra, meu filho - convidou o pai. - Estou contente por teres podido vir.

 

Mais tarde, Marion disse a Eleanor que sentira o cheiro a álcool no hálito de David quando este a abraçou, mas Eleanor achou que a irmã devia estar enganada.

 

- Ele teve de fazer uma viagem muito longa - protestou ela.

- Disse que veio de Birmingham. Foi obrigado a guiar durante toda a noite. Com certeza que o que sentiste não foi o cheiro a bebida.

 

Marion, porém, limitou-se a cerrar os lábios, sabendo que tinha razão.

 

Ele ficara depois do funeral, depois de os outros terem regressado a suas casas, aparentemente sem possuir qualquer emprego que exigisse a sua presença e pouco tempo depois também não tinha dinheiro. Durante várias semanas, David pouco mais fez além de dormir e ver televisão. Mas, então, ele e John decidiram demolir a velha capoeira e David começou a falar em construir outra, onde poderiam fazer uma criação de galináceos raros em Pitcairn. Eleanor deduziu que, algures, devia ter algum dinheiro para poder ter comprado aquele casaco Barbour, assim como as botas verdes de borracha.

 

Ela tinha feito a viagem para passar um fim-de-semana com o pai, incentivada por Marion, que queria saber o que é que David andaria a fazer; posteriormente, ficou satisfeita por não ter levado Claire consigo. Partiu na manhã de domingo de regresso a casa quando o pai se preparava para ir à igreja, aproveitando a oportunidade para falar com ele na cozinha, uma conversa em que ambos se haviam mostrado pouco à vontade.

 

- O David bebe tanto como... bem, com frequência?

 

- Ontem à noite, emborcou uns bons copos - respondeu John. Pegou na Bíblia e nas chaves do carro. - É novo, precisa de companhia, estou em crer que vai ficar em casa de uns amigos até arranjar trabalho. Algures na área de Edimburgo, diz ele.

 

- Acho que está em muito boa altura de arranjar um emprego certo - retorquiu Eleanor.

 

- Ele é um explorador - comentara Marion. - Sei que é uma coisa horrível de se dizer a respeito de um irmão, mas detesto saber que está em casa do pai há já tanto tempo. E o pai é tão vulnerável.

 

- O quê?

 

- Ora bem, de onde é que lhe vem o dinheiro? Não tem nenhum a que possa chamar seu.

 

- Decerto que a viver em Pitcairn, as necessidades monetárias dele não serão muitas.

 

Todavia, naquele momento, Eleanor já sabia do casaco encerado novo, das garrafas vazias junto do caixote do lixo da cozinha. Beijou o pai, despedindo-se antes de este ir para a igreja. Quando ele voltasse a casa à hora de almoço, já estaria de viagem a caminho do Norte. David não apareceu e ela não queria ter de ir ao quarto do irmão para se despedir dele. Mais tarde, arrependeu-se, uma vez que, dois dias depois desse fim-de-semana, ele abandonou Pitcairn, dizendo ao pai que ia trabalhar para Edimburgo. Desde então, não dera notícias a nenhum deles até ter aparecido em Pitcairn em Outubro desse mesmo ano.

 

Por conseguinte, ali estava ele, no automóvel, sentado ao lado da irmã enquanto ela guiava ao longo do último quilómetro até Dingwall.

 

- Tenho de parar no supermercado - disse Eleanor.

 

- Podíamos aproveitar para tomar um copo - sugeriu ele.

 

- Não, não podemos, tenho de me apressar para poder estar em casa quando a Claire chegar.

 

- Ela já tem quinze aninhos... não se importará se chegares um pouco atrasada.

 

- Tem catorze anos. Só faz anos em Abril. O que tu devias saber... É no dia a seguir ao do teu aniversário. Antigamente, nunca te esquecias do dia dos anos dela, quando era pequenina.

 

- Mas por que razão não podemos parar no Queen Mary para beber uma cerveja rápida?

 

- Já são quase cinco horas. Não temos tempo. Além do mais, não me apetece ir ao Queen Mary - acrescentou Eleanor.

 

- Tens toda a razão. Esse bar é uma autêntica espelunca. Acho que chegou a altura de eu voltar para Edimburgo... para poder tomar um copo num local minimamente decente.

 

- Pois bem, se é isso que conta para ti.

 

- Ajuda muito.

 

Entretanto, Eleanor chegou ao parque de estacionamento do supermercado, desligando o motor.

 

- Vou dar um salto até ao velho Queen Mary enquanto fazes as tuas compras, de acordo? - anunciou David. - Só para tomar uma cerveja. Depois podes ir buscar-me.

 

- Mas eu só tenho de comprar um frango e uns pacotes de leite... - começou Eleanor a dizer.

 

David saiu do carro, tamborilando duas vezes no tejadilho numa batida sincopada antes de bater com a porta.

 

- Boa menina. Até daqui a pouco.

 

Quando ela o foi buscar ao bar, deparou com ele embrenhado numa grande conversa com um grupo de homens que Eleanor reconheceu vagamente, mas que não sabia quem eram. Os temas da conversa eram o futebol, as coisas espantosas que os computadores conseguiam fazer, a situação em que o mundo se encontrava... assuntos que ela não desejava abordar.

 

- Olá! - saudou David, agora muito animado. - O que é que queres tomar, uma cerveja pequena?

 

- Tenho de conduzir, David, além de ter de voltar para casa.

 

- Certo. Óptimo. Deixa-me só acabar esta caneca. - Mas a verdade é que ele ainda mal começara; devia ir na segunda cerveja. Eleanor instalou-se num banco alto ao balcão, ao lado do irmão, à espera que ele estivesse pronto para se ir embora. Uma vez mais, recusou a bebida que ele lhe ofereceu, sentindo algum mal-estar. Os homens observavam-na pelo canto do olho e um deles cumprimentou-a, mas não tardou muito que voltassem a concentrar-se nas suas bebidas e nas conversas que ela interrompera. Durante alguns minutos, Eleanor ficou sentada com um olhar alheado, sentindo-se aborrecida, após o que desceu do banco.

 

- Olha uma coisa - interveio ela, tocando no braço de David, que naquele momento estava de costas. - Tenho mesmo de me ir embora. - Estava à espera que ele voltasse a protestar, ou que se recusasse a deixar o bar. E nesse caso, o que é que ela faria? Aquela situação era-lhe familiar, forçar David a sair de um bar. Mas antes nunca se sentira muito incomodada com isso, sempre que haviam ido ao Red Lion, próximo da casa onde vivera nos arredores, em Berkshire, ela, lan e David. Nessas ocasiões, não se importara de fazer companhia ao irmão, uma vez que não tinha crianças à sua espera em casa. lan era sempre o primeiro a levantar-se, manifestando vontade de se ir embora.

 

A verdade, porém, é que David acompanhou-a sem grandes manifestações de relutância. Já no carro, ele mostrou-se contrito.

 

- Desculpa, desculpa. Mas o Guy insistiu em oferecer-me uma caneca. O que é que eu podia fazer? - perguntou, despenteando o cabelo da irmã. - Não estás zangada comigo, pois não?

 

- Não faças isso.

 

-- Estás zangada comigo. Peço desculpa. - Recostou-se no assento, olhando pela janela para a escuridão da noite, como uma criança amuada por lhe terem ralhado. Eleanor ajeitou o cabelo com uma expressão mais conciliadora.

 

- Não gosto de chegar tarde a casa quando a Claire está à minha espera.

 

- Claro que não. Tens toda a razão. Eu é que sou um estupor.

 

- Não, não és - retorquiu Eleanor, rindo-se. - Acontece que gostas demasiado de bares. E de beber.

 

- É o meu passatempo - admitiu ele, outra vez mais animado. Chegados a casa, foi ele quem levou os sacos das compras para dentro. Claire fora para o quarto e não ligara o aquecimento. A vivenda estava fria e às escuras. Eleanor correu pelas escadas acima para ir ver a filha e, quando voltou a descer, verificou que David já tinha tirado as compras dos sacos. No entanto, dado que até mesmo depois de várias semanas com ela parecia não saber qual o lugar das coisas, aquilo não lhe serviu de grande ajuda. Encostou-se ao aquecedor Rayburn, observando Eleanor, enquanto esta guardava as coisas nos armários, comendo o canto de um pão de forma.

 

- Estava a pensar - começou David a dizer - em ir até Pitcairn na sexta-feira. Podia começar a preparar a casa para o Natal.

 

- Podias aproveitar para limpar as casas de banho - sugeriu Eleanor. - A Marion está sempre a dizer que desde que a mãe morreu estão sempre imundas. E durante algum tempo, devias acender a lareira na casa de jantar todos os dias. Isso ajudará a que a casa fique mais acolhedora.

 

- Estou a pensar em arranjar uma árvore de Natal... uma que seja enorme, como as que tínhamos quando éramos miúdos. E aquela caixa com os enfeites... continua guardada no sótão?

 

- Deus do céu, devem estar todos cheios de poeira e muito provavelmente partidos.

 

- Posso comprar enfeites novos - adiantou David.

 

- Pensei... - Eleanor interrompeu-se.

 

- Para dar à casa um ar verdadeiramente festivo - acrescentou David, olhando para a irmã. - Prometo acender as lareiras.

 

- Bem... eu posso ir um dia antes da véspera de Natal - ofereceu-se Eleanor.

 

- Nesse caso, podes limpar as casas de banho. Eleanor deu-lhe com o pano da louça.

 

- Espera e vais ver... Vou obrigar-te a trabalhar, logo que chegar! Agora a sério, David, temos de nos certificar de que tudo está aquecido e confortável por causa da Marion.

 

- Claro que sim. Eu sei - retorquiu ele, esfregando as mãos.

- Muito bem. O que é que há para o jantar?

 

- Oh... escalopes de frango.

 

- Deixa-me ser eu a prepará-lo. Primeiro é preciso pô-lo a fritar. Tens cebolas e um pimento-encarnado?

 

Eleanor deixou que fosse ele a cozinhar a refeição, indo acender a lareira da sua própria casa. Pouco tempo depois, começou a sentir o cheiro do frango a fritar; da cozinha saía um aroma a comida bem apaladada.

 

- O que é que o tio David está a cozinhar? - perguntou Claire, entrando na sala de estar onde Eleanor descobrira três latas vazias de cerveja atrás do sofá, assim como um cinzeiro cheio de beatas.

 

- Que coisa, detesto que ele fume aqui dentro... o que ele sabe muito bem. Bem, eu já tinha sentido o cheiro. - Olhou em redor.

- Parece-me que está muito criativo com o frango e com os pimentos.

 

Claire ficou a olhar para a mãe enquanto esta despejava o cinzeiro na lareira.

 

- A verdade é que ele não fuma aqui dentro, mãezinha. Só traz o cinzeiro para dentro depois de fumar à entrada da frente. Eu disse-lhe que não devia deixar as beatas no jardim.

 

- Disseste? Fizeste muito bem.

 

- Durante quanto tempo é que ele vai ficar em nossa casa?

 

- Na sexta-feira partirá para Pitcairn, para ajudar o teu avô. Estávamos a pensar... depende de como a tia Marion se sentir, mas pensámos que podíamos passar o Natal em Pitcairn.

 

- Mas eu não quero ir. Quero passar o Natal em casa da Eilidh, como fizemos o ano passado.

 

- Não estás a perceber... vamos todos. A família toda.

 

- E a tia Marion nessa altura já não está no hospital?

 

- Não, vai ter alta dentro de um ou dois dias. Por isso, podíamos ir para baixo uns dias mais cedo, só tu e eu. Para nos certificarmos de que a casa está aquecida e tudo como deve ser. Para que a Marion se sinta confortável.

 

- Sim, se a mãe quiser. No entanto, não posso faltar à festa da escola.

 

- Não, claro que não. Não faltarás a nada.

 

- Mamã?

 

- O que é?

 

- Passa-se qualquer coisa estranha na casa ao fundo da rua - disse a garota.

 

- O que queres dizer com isso?

 

- Sabe como a Edie está sempre a dizer que ouve gritos e sei lá que mais?

 

- Ora, a Edie é uma exagerada. É uma mulher nervosa e, além do mais, não tem mais que fazer, por isso mete-se na vida dos outros.

 

- Sim, mas ela tem razão. Nessa casa vive um fulano que é tarado. Pelo menos, eu acho que ele é doido. Tem uns cabelos muito encaracolados e arruivados. Eu seria incapaz de gostar de alguém que tivesse cabelos cor de cenoura, e a mãe?

 

- O quê? Ora... não sei

 

- Não podia.

 

- De acordo, não podia.

 

- Seja como for, hoje vi-o sair a correr...

 

- O quê? Quando?

 

- Eu vinha pelo caminho até casa e ainda não estava completamente escuro, mas não faltava muito. Portanto, não consegui vê-lo muito bem, mas ouvi-o a gritar com alguém. A olhar para trás, para casa, e a gritar... acho que era com a mulher, mas eu não cheguei a vê-la. Depois, ele viu-me vir pelo caminho e parou de gritar; seria de pensar que se sentisse embaraçado, não é verdade? Mas ele só me disse: ”Olá, estás boa?”, e...

 

- Isso quer dizer que falaste com ele, não foi?

 

- Bem... eu só lhe respondi... ”Sim” ou outra coisa no género. Mais nada, nem sequer parei para lhe falar. Mas depois vi uma mulher que saiu atrás dele... Ela estava mais do que furiosa, acho eu. Tinha vestido um casaco, um casaco preto comprido, e um chapéu, por isso, não consegui ver-lhe a cara e, como eu já disse, era quase noite. Ela começou a berrar com ele, e...

 

- Pelo que me estás a dizer, deve ser um casal que gosta de dar nas vistas - atalhou Eleanor com um sorriso. - Porque é que estavam a gritar?

 

- Oh, não sei... coisas no género... ”Não te atreverias” e ”Oh, isso é o que tu pensas”, sei lá.

 

- Há casais que se fartam de discutir, mas isso não quer dizer grande coisa.

 

- A mãe e o pai não costumavam discutir - ripostou Claire, não aceitando a justificação de Eleanor. - O pai e a mãe da Eilidh também nunca discutem.

 

- Não, mas...

 

- Bom, de qualquer maneira, acho que ela não chegou a ver-me. Nessa altura já eu ia a passar pela casa do Jim e da Edie, quer dizer, nem me passou pela cabeça parar, não acha? Mas, de repente, ela disse: ”Quando voltares para casa, já me terei ido embora de vez.”

 

- Ou, meu Deus! Viste algum carro junto da casa? Não reparei.

 

- Não, era isso que eu estava a fazer lá em cima. Bem, durante algum tempo. Depois pus-me a fazer o trabalho de casa de Biologia.

 

- O quê... estavas a bisbilhotar?

 

- Depois do que eu lhe disse, não se passou nada de especial. Além do mais, estava escuro. Mas ele foi-se embora no automóvel e nem sequer tinha vestido um casaco. Pouco depois, ela saiu de casa e pôs uma data de malas e sacos dentro do outro carro, no vermelho.

 

Eleanor dirigiu-se para a porta da frente, observando o caminho. A única luz que avistou vinha da janela da sala de estar da casa de Jim e Edie. Logo a seguir, Jim devia ter fechado os cortinados porque deixou de a ver.

 

- Não há lá nenhum - disse Eleanor, aproximando-se de Claire, que tinha ido atrás dela.

 

- Está a ver? Ela abandonou-o. Excitante, não acha?

 

- Bem...

 

- Pergunto a mim mesma se ela voltará para casa - acrescentou a garota.

 

- É o mais provável. Foi apenas uma discussão.

 

- A mãe discutia com o pai? Pelo menos, não discutia desta maneira, não me lembro de vos ter ouvido. Aos gritos e coisas assim.

 

- Não. De vez em quando, é claro que também discutíamos. Como toda a gente. - Eleanor foi pôr mais lenha na lareira, agora que as chamas já tinham pegado. Claire foi atrás da mãe, como se quisesse continuar a falar sobre aquele assunto. Porém, ao invés, pegou numa revista que estava no sofá metida entre os almofadões e levou-a para a ler no andar de cima, no seu quarto. Eleanor sentou-se na sala. Começou a recordar-se dos silêncios cheios de frieza de lan e o seu próprio choro de frustração. No entanto, nada de discussões entre os dois. Era impossível discutir com alguém que se remetia ao silêncio com uma expressão reprovadora, o qual deixava bem claro que tinha razão e que a outra pessoa é que estava errada.

 

- Pois bem, ele tinha razão - proferiu ela em voz alta. O marido tinha sempre razão. ”Pára com isso”, disse a si própria. ”Pára de matutar nisso.” Não faltava muito para o Ano Novo, altura do ano em que ela pensava sempre na mesma coisa. Mas agora de que é que lhe servia estar a magicar naquele assunto? Havia coisas bastante mais importantes em que pensar... em Marion, assim como no que David tencionava fazer com a sua vida, e em Pitcairn. E no Natal.

 

- O rancho está pronto! - gritou David da cozinha. Eleanor levantou-se para ir chamar Claire para a mesa.

 

- Em Pitcairn - dizia Marion -, quando se estava doente, tínhamos direito à lareira acesa no quarto. Era tão confortável, ver as chamas durante a noite.

 

- Tenho muita pena - retrucou Fergus -, mas, nesta casa, terás de te contentar com o sistema de aquecimento central. Marion observava o marido enquanto ele tentava pendurar a sua saia. A saia escorregou do cabide por duas vezes, o que o fez praguejar entre dentes.

 

- Quem me dera que me deixasses levantar, só isso, mais nada

- disse ela. Na esperança de ser bem-sucedido desta feita, Fergus empurrou o cabide bem para o fundo do guarda-fatos. Em seguida, virou-se para Marion recostada nas almofadas da cama.

 

- As pessoas têm a mania de subestimar sempre até que ponto é que se sentem cansadas quando vêm do hospital. Amanhã já poderás levantar-te.

 

- Mas que tirano que tu me saíste - resmungou Marion, mas recostou-se nas almofadas com um suspiro de alívio. - Estar em casa é uma maravilha.

 

- Óptimo - disse ele, baixando-se para lhe dar um beijo; Marion agarrou-lhe o braço.

 

- Obrigada - agradeceu.

 

- Deus do céu, obrigada por quê?

 

- Por teres ido ao hospital visitar-me todos os dias, por teres mantido a casa em ordem, por teres feito tudo o que fizeste.

 

- A Eleanor veio cá muitas vezes e a Eilidh também foi uma grande ajuda.

 

- Eu sei.

 

- E agora... queres que diga à Eilidh que te traga uma chávena de chá?

 

- Mais daqui a pouco. Fica mais um minutinho, Fergie. Ele sentou-se na beira da cama, pegando na mão de Marion.

 

- Lamento muito - disse ela.

 

- Lamentas...?

 

- O hospital não te devolveu a mesma mulher. Agora estou diferente.

 

- Para mim, continuas a ser a mesma - retorquiu ele, levantando-se da cama e apertando-lhe a mão antes de a largar.

 

- Fergie...

 

- Não, precisas de descansar. Temos muito tempo para conversar.

 

Mas ele não queria conversar. Do que ela se apercebeu. Desta vez, deixou que ele se fosse embora, ficando à espera de Eilidh.

 

- Sente alguma coisa estranha? - perguntou a garota. Agora que não tinha de visitar a mãe no hospital, parecia capaz de fazer perguntas. Na enfermaria, ela e Ross sentavam-se sem quase se mexerem, pouco à vontade, até encontrarem qualquer coisa com que embirrar um com o outro, ao ponto de Fergus se ver forçado a repreendê-los, após o que ambos se deixavam ficar sentados com expressões de amuo. Quanto a Kirsty, subia para a cama para poder ler todos os cartões que a mãe recebera com votos de melhoras. Pouco depois, Fergus dava dinheiro às crianças para que fossem ao café ao lado do hospital, ficando sentado a sós com Marion, a falar do trabalho, das notícias locais e a queixar-se de David.

 

- O que é que pode parecer estranho? - perguntou Marion, bebendo pequenos goles de chá.

 

- Ter só uma... a mãe sabe o que quero dizer.

 

- Bem... um pouco.

 

- Mas não se nota nada - apressou-se Eilidh a dizer para a tranquilizar.

 

- Mais tarde tenciono comprar sutiãs melhores. Este é apenas temporário.

 

- E dói-lhe alguma coisa?

 

- Só um bocadinho. A cicatriz está a contrair-se enquanto os tecidos saram por baixo. Mais nada.

 

- Oh...

 

- Gostavas de ver? - perguntou Marion depois de alguma hesitação.

 

- Não, não vale a pena - respondeu Eilidh, recuando alguns passos.

 

- Não faz muita impressão... está apenas um bocado avermelhado e dorido. Mas não te preocupes com isso, mostro-te quando tiver sarado por completo, só com uma cicatriz esbranquiçada e direitinha.

 

- Sim... se a mãe quiser.

 

Marion pousou a chávena de chá na mesa-de-cabeceira.

 

- Os médicos foram muito cuidadosos, muito atenciosos. Não tem um aspecto tão mau como... bem, como se pudesse pensar.

 

- Ainda bem. - Naquele momento, Eilidh mantinha-se aos pés da cama, manifestamente nervosa. - Mamã?

 

- O que é?

 

- A mãe vai ter de voltar para o hospital?

 

- Sim, sabes bem que tenho.

 

- Mas eles conseguiram tirar o cancro todo, não é verdade?

 

- Espero bem que sim. Mas, quando for, só terei de ficar por umas horas de cada vez. Talvez tenha de ficar uma noite ou outra.

 

- Então isso quer dizer que ainda tem o cancro?

 

- Não é bem isso... Os médicos querem ter a certeza de que estou completamente curada.

 

- Estou a perceber.

 

- Está tudo bem - acrescentou Marion para a tranquilizar, estendendo a mão à filha. - Vou ficar completamente curada.

 

Depois da aula de dança dos Highlands, Kirsty foi ao quarto, aninhando-se ao fundo da cama da mãe.

 

- A mãe está doente, por isso, devia ter aqui um dos gatos.

 

- Oh, com que então a regra é essa?

 

- Quando eu tive varicela, a mãe deixou que o Snooker ficasse na minha cama.

 

- Mas eu não estou doente. Amanhã já posso levantar-me. Só tive de fazer uma operação de nada.

 

Entretanto, Ross apareceu à porta do quarto, mas Kirsty, que não deu pela chegada do irmão, exclamou:

 

- Oh, eu sei! O pai explicou-me a operação... Disse que uma das tuas maminhas tinha ficado avariada e os médicos tiveram de a cortar.

 

- Ele nunca disse isso, és uma disparatada! - interveio Ross, corado que nem um tomate. - A mãe está a sentir-se bem?

 

- Estou óptima. Só estou na cama para fazer a vontade ao vosso pai. Amanhã já hei-de andar por aí como de costume.

 

- Ainda bem - retrucou o garoto, descendo as escadas para o andar de baixo.

 

- Ele sente-se confundido - disse Eilidh. Estava sentada ao toucador da mãe, entretida a tirar as tampas dos frascos e boiões, metendo o dedo pequeno dentro dos cremes e espargindo os pulsos e o pescoço com pequenas quantidades dos perfumes da mãe. O que, regra geral, estava proibida de fazer, mas, dada a situação, Marion achava que agora não valia a pena estar a incomodar-se com aquilo.

 

Kirsty deslocou-se pela cama, aproximando-se mais da mãe.

 

- Mãezinha, acha que volta a crescer? - perguntou a garotinha.

 

Por baixo de água, os peixes mordiscavam e mordiscavam, e a princesa começou a ser comida a pouco e pouco, Marion fechou os olhos e contou até três antes de voltar a abri-los, afagando os cabelos da filha e afastando-os do rosto.

 

- Não, claro que não, Kirsty - respondeu. Os olhos de Kirsty abriram-se desmesurados, reflectindo uma expressão de horror.

 

- Toma - interveio Eilidh -, também podes pôr um bocadinho de perfume.

 

Desejosa de que a distraíssem, Kirsty saiu da cama para ir ver o que Eilidh estava a fazer. Sentindo-se exausta, Marion recostou-se nas almofadas.

 

Na manhã seguinte, quando Eleanor passou lá por casa, Marion estava sentada à mesa da cozinha a escrever cartões de boas-festas.

 

- Põe a chaleira ao lume - disse ela. - Está-me a apetecer tomar um café.

 

- Tenho a certeza de que, se este ano não enviasses cartões nenhuns, ninguém se importaria.

 

- Não, provavelmente não, mas para o ano que vem é possível que eu sinta ainda menos vontade de os escrever. Nunca se sabe. E é uma coisa que não se pode deixar de fazer dois anos seguidos.

 

- Foi o que eu fiz.

 

- Isso foi uma situação muito diferente - contrapôs Marion levantando-se da cadeira, deixando os cartões de Natal em três pilhas muito alinhadas numa das cabeceiras da mesa, após o que guardou os que não utilizara dentro da caixa.

 

- Porque é que os separaste em três montinhos?

 

- Uns estão à espera de cartas e outros de embrulhos - respondeu Marion começando a fazer o café. - O resto vai por correio nacional e já estão selados.

 

- Tu és uma pessoa tão organizada.

 

- Mas podes acreditar que este ano não é o que sinto.

 

- Não te preocupes; não terás de fazer mais nada.

 

- De verdade?

 

As duas irmãs sentaram-se com as respectivas canecas de café.

 

- O Fergus acha que foi boa ideia - acrescentou Eleanor. Não teríamos ido com a ideia para a frente se ele não estivesse de acordo.

 

”Eu quero ficar em minha casa”, pensou Marion. Todos os Natais em que David estava presente tinham acabado em tragédia. Acontecia sempre qualquer coisa de mal. Naquela situação, Marion não tinha forças para enfrentar fosse o que fosse além da ansiedade que sentia, o que carregava como um fardo que cada vez lhe pesava mais. Mas não podia dar voz aos seus pensamentos. Eleanor estava cheia de planos para o Natal.

 

- Quando chegarmos, a casa já estará bem aquecida... portanto, não tens de te preocupar com isso. Prometi ao Fergus. O David e eu certificar-nos-emos de que...

 

- Sim, eu sei - atalhou Marion.

 

- A verdade é que tu não queres passar o Natal em Pitcairn, pois não? - perguntou Eleanor, pousando a sua caneca. - Pensei que podia ser como quando éramos crianças. Os miúdos vão adorar e falo mesmo a sério quando digo que tenciono cozinhar e tratar de tudo.

 

- Acredito que sim.

 

- O pai já encomendou um peru... dos caseiros, do aviário biológico daquelas pessoas que compraram a quinta dos Mackies, a Mains.

 

- Óptimo. - Marion pensou que não havia maneira de desfazer o que estava combinado. E quem sabe?, talvez nessa altura já estivesse a sentir-se bastante melhor, talvez encarasse a viagem de maneira diferente.

 

- Estás com um aspecto cansado - observou Eleanor. Queres que faça alguma coisa... que estenda a roupa, que aspire a casa, qualquer coisa?

 

- Não é preciso, está tudo feito.

 

- Oh, Marion...

 

- A mãe do Fergus antecipou-se. Chegou às nove da manhã.

 

- Ela ainda cá está?

 

- Não, já foi para o café da manhã na igreja.

 

- Talvez também devêssemos convidá-la a passar o Natal em Pitcairn, não te parece?

 

- Não, isso seria ir longe de mais - replicou Marion rindo-se.

- Ela já planeou ir a Dundee, para casa do Stuart e da Cathy.

 

- Estou a ver.

 

- Queres mais café? - perguntou Marion, levantando-se da mesa. - Podemos levá-lo para a sala... Ela acendeu a lareira esta manhã para que a sala estivesse confortável.

 

Marion sentia uma sensação estranha por estar sentada a tomar café, sem fazer mais nada, numa manhã de semana.

 

- Toda a gente se tem mostrado extremamente simpática acrescentou. - A verdade é que não me deixam fazer nada. - Perguntou a si mesma se as coisas continuariam assim por muito mais tempo, durante todo o período em que teria de se submeter aos tratamentos de quimioterapia. Sentia-se aterrorizada só de pensar nesses tratamentos, mas não partilhou os seus receios com Eleanor, a qual estava a contar-lhe qualquer coisa a respeito do seu vizinho do lado, que tinha sido abandonado pela mulher.

 

- Nesse caso, tem cuidado contigo. Esses costumam ser o tipo de homens mais perigosos - advertiu Marion com um sorriso, pensando que estava na altura de Eleanor arranjar um namorado. Mas não um que fosse casado, nenhum que lhe trouxesse complicações. Era uma pena que a saída dela com Andrew não tivesse dado em nada, o qual era muito boa pessoa, além de não ter qualquer compromisso amoroso.

 

- Ora, não precisas de te preocupar - ripostou Eleanor. Ele é muito magricela e tem uns cabelos muito ruivos e encaracolados. Além do mais, a Claire disse-me que é impossível gostar de alguém com cabelos cor de cenoura.

 

As duas irmãs passaram uma hora juntas, fazendo planos para a consoada do próximo Natal. Mais tarde, já depois de Eleanor se ter ido embora, Marion pensou em ir para a cozinha fazer uma sopa, mas acabou por adormecer no sofá, tendo sido acordada por Eilidh quando esta chegou da escola para almoçar. Kirsty comia na escola, uma vez que ficava longe de mais para ela poder vir a pé para casa. Ross já se encontrava na cozinha, preparando para si próprio várias sanduíches.

 

- Deus me valha! Que horas são?

 

- Não se preocupe, mamã, nós cá nos arranjamos.

 

O que era verdade. Marion ficou a observar os filhos, tentando não ligar às migalhas que eles deixavam cair no chão, o lava-louça cheio de pratos sujos, o sumo de laranja que haviam entornado.

 

- Quer uma sanduíche, mãezinha?

 

- Não, Eilidh, não me apetece. Estive a passar pelas brasas e por isso ainda não tenho fome.

 

Era o dia em que Fergus dava consulta, uma vez por semana, na aldeia, pelo que só chegaria a casa lá mais para o fim da tarde. Marion sentou-se à mesa da cozinha, ficando a ver os filhos a embirrarem um com o outro enquanto comiam.

 

- Até logo, mamã. - Batendo com a porta, mochilas às costas, ambos voltaram para as respectivas escolas, a conversarem enquanto percorriam o caminho de acesso à casa. Marion foi até à janela da sala de estar, observando os filhos a caminho da escola. No portão, encontravam-se duas garotas da vizinhança que esperavam por Eilidh, assim como um rapaz da turma de Ross que se juntou a eles quando já caminhavam pela estrada. Desde que conseguisse melhorar, pensava Eleanor, falando consigo própria, a sua doença não afectaria os filhos, não prejudicando significativamente a rotina diária dos garotos. Passou a mão ao de leve pelo sítio onde o seio estivera, apalpando a macieza do tecido acolchoado, o que lhe dava uma sensação estranha por não ceder ao tacto, muito embora não possuísse a firmeza de um seio. ”Mulher, vê se te recompões!”

 

Decorrida uma semana, já com o organismo liberto dos efeitos da anestesia, com os tecidos saudáveis a sararem sem qualquer problema, Marion já tratava da lida da casa como de costume.

 

- Ela está óptima - diziam as pessoas amigas a Eleanor e a Fergus. ”sim”, respondiam estes, ”ela está a aguentar-se bastante bem”. Na verdade, Marion sentia-se maravilhosamente em forma; tinha afastado do pensamento a ideia dos tratamentos, problema com que só se preocuparia depois da passagem do ano.

 

- Eu podia muito bem tratar das coisas para o Natal - disse ela a Fergus -, mas ninguém conseguirá demover a Eleanor; temos de passar o Natal em Pitcairn. O que é que achas?

 

- Para mim está tudo bem, de uma maneira ou de outra. Além do mais, não há necessidade nenhuma de tu estares com canseiras. Será uma mudança, não achas? Para não mencionar que a minha mãe nesta altura já tem tudo combinado para passar o Natal em Dundee.

 

- De acordo. Sendo assim, faremos como está combinado. Entregou-se aos preparativos natalícios. David, que de momento se encontrava em Pitcairn, telefonava com regularidade. Tinha descoberto os ”telefonemas em conferência”, pelo que ele, Eleanor e Marion falavam simultaneamente pelo telefone sempre que queria abordar qualquer coisa com as irmãs.

 

- Vamos lá ver - disse ele numa dessas ocasiões, uma semana antes do Natal -, já tenho a árvore de Natal, mas pensei que os garotos talvez gostassem de a enfeitar. Por isso, já comprei uma data de bolas e coisas no género.

 

- Queres que eu leve as minhas coisas para a árvore? - perguntou Eleanor.

 

- Não, a menos que sejam prateadas ou brancas. A árvore vai ficar toda enfeitada com ornamentos brancos e prateados.

 

Eleanor riu-se; Marion fungou, duvidosa. Nenhuma delas sabia se haveriam de acreditar no que o irmão dizia. Estaria ele a brincar?

 

- Esperem até ver a árvore.

 

- Não me importo nada - respondeu Eilidh quando Marion lhe perguntou a respeito da árvore de Natal. - Se a mãe quiser, posso ajudar a enfeitá-la.

 

- Enfeitar a árvore?! - ecoou Ross enquanto Marion verificava a lista de coisas a fazer. - Que árvore?

 

- A do tio David. Em Pitcairn.

 

- É um bocado longe de mais para ir enfeitar uma árvore de Natal, não é? E quanto à nossa própria árvore?

 

- Ross, por amor de Deus, estás farto de saber que vamos todos passar o Natal a Pitcairn.

 

- Ah, vamos? Ninguém me tinha dito nada - retorquiu ele a caminho da cozinha, onde ia à procura de mais qualquer coisa para comer. - Posso comer uma fatia do bolo de Natal? - perguntou quando viu que a mãe vinha logo atrás de si.

 

- Nem pensar. Vamos levar o bolo connosco - declarou Marion, olhando à sua volta e avistando as galochas Wellington no alpendre. - Não admira que estejamos a enregelar dentro de casa... houve alguém que deixou a porta do alpendre aberta. Ross, vai buscar um saco ao armário e guarda as galochas todas lá dentro.

 

- Porquê?

 

- Porque é melhor que as levemos connosco.

 

- Para quê?

 

- Para podermos andar pelo campo. Os caminhos podem estar muito lamacentos.

 

- Mas eu não costumo fazer caminhadas. Entretanto, Kirsty surgiu na cozinha logo atrás da mãe.

 

- Mesmo assim temos de ter a nossa própria árvore, mamã! Eu disse que tínhamos de ter a nossa própria árvore de Natal, não temos?

 

Todo aquele plano, compreenderam Marion e Eleanor, enquanto procediam à contagem decrescente, estava a transformar-se numa autêntica expedição.

 

- Será como os Natais que costumávamos ter em Pitcairn quando éramos crianças - disse Marion à sua família. - Mas ainda melhor.

 

- O que é que esses Natais tinham de tão bom? - perguntou Eilidh.

 

- Ainda vamos a tempo de eu poder enfeitar a árvore de Natal do tio David? - queria Kirsty saber.

 

Em sua casa, Eleanor regou as plantas e reduziu o aquecimento. Em seguida, foi à casa ao lado para oferecer a Jim e a Edie uma garrafa de vinho do Porto e para lhes dizer onde é que estaria nos próximos dias.

 

- Oh, que bonito, uma reunião de família! - exclamou Edie, agarrando a garrafa de vinho do Porto como se a abraçasse. - Não era preciso estar a incomodar-se. Muito gentil da sua parte, não achas, Jim? Mas nós prometemos ficar de olho, o Jim ficará de olho em sua casa, se bem que isto por aqui seja sossegado, nunca se sabe, e o vizinho do lado... - Neste ponto, Edie indicou com um gesto da cabeça a vivenda do lado. - Ao que tudo indica, está sozinho em casa. Ultimamente só tenho visto um automóvel. Não que ele se mantenha em casa durante muito tempo. Trabalha nos barcos petroleiros, foi o que a Betty dos correios me disse, costuma estar fora durante muito tempo. - Edie interrompeu-se, dirigindo-se para a árvore de Natal com as suas luzes intermitentes. Os cortinados estavam semicorridos, o que permitia que do lado de fora se visse a sala. - Tenho aqui uma coisinha para a Claire; ela gosta de receber prendas, não é verdade? Todas as crianças gostam de abrir prendas.

 

- Ora, não precisava de estar a...

 

- E agora veja se conduz com cuidado e tenha um bom Natal. Esteja descansada que daremos uma olhadela pela sua casa, o Jim encarrega-se disso.

 

Eleanor saiu da casa dos vizinhos, agradecendo-lhes, e Jim acenou-lhe num gesto de assentimento, assegurando-a de que tudo estava bem antes de voltarem a entrar em casa. A moradia ao lado estava completamente às escuras, não se vendo nenhum automóvel parado à entrada.

 

Na manhã anterior à véspera de Natal, Eleanor e Claire puseram-se a caminho. Marion e o resto da família partiriam no dia seguinte. Quando soube que Eleanor já iniciara a viagem para casa do pai, Marion sentiu uma quebra repentina em todo o seu entusiasmo e energia. Ainda pensou em preparar um doce com conhaque, manteiga e açúcar, mas deu consigo com todos os ingredientes à sua frente, incapaz de decidir que quantidade deveria utilizar. Acabou por voltar a guardar tudo. Talvez no dia seguinte ainda tivesse tempo, e, se não tivesse, pois bem, agora era coisa que não lhe importava por aí além.

 

- Está tudo em ordem? - perguntou Fergus quando chegou a casa vindo do hospital.

 

- Acho que sim.

 

- Quem é que vai dar de comer às tropas?

 

Marion tinha pedido a uma das suas vizinhas que tratasse da comida dos gatos e que olhasse pelo cão enquanto estivessem fora.

 

- A Sue ficou de cuidar dos animais. Não me posso esquecer de lhe deixar uma garrafa de vinho como presente de Natal.

 

- Tenho de dizer que começo a pensar que isto está a dar-te mais trabalho do que terias, caso tivéssemos decidido passar o Natal em casa - comentou ele.

 

- Reparaste nisso - retorquiu Marion com um sorriso.

 

- Deus nos valha. Só espero que mereça a pena - acrescentou Fergus, enlaçando Marion que se encostou ao seu peito. - Durante esta semana, qualquer pessoa poderia pensar que tu e a Eleanor estavam a preparar-se para uma viagem ao Pólo Norte. Nunca vi tanta comida em toda a minha vida.

 

- Vamos precisar dela, vamos ter de alimentar... meu Deus, quase uma dúzia de pessoas. É preciso não esquecer que o pai nunca tem nada de comer em casa.

 

- Mas pensei que o David ficara de se encarregar de tudo retorquiu Fergus.

 

- Tudo o quê? Sabes bem que não se pode confiar no David. Era precisamente isso que o marido receava.

 

- Não te preocupes - dissera-lhe Eleanor, tentando tranquilizá-lo -, tudo correrá às mil maravilhas. Garanto-te que a casa estará aquecida e que tudo se achará em ordem. - Acontecia que, das duas irmãs, Marion é que era a organizada. Era evidente que Eleanor era mais competente do que David, mas a verdade é que tambem era um bocado cabeça-no-ar, pensava Fergus, sempre no seu mundo imaginário. O que se devia, considerava ele, ao facto de ter enviuvado muito nova. Precisava de assentar em termos emocionais; era como se efectivamente nunca tivesse assentado. Claro que naquela altura não valia a pena dizer nada disso. Tudo o que poderia fazer era certificar-se de que chegariam todos inteiros, trazendo-os de regresso a casa depois do Natal.

 

Nessa mesma noite, quando foi deitar-se, não conseguiu evitar um suspiro, desejando que passassem o Natal em casa.

 

- Não te sentes feliz, pois não? - perguntou Marion quando ele foi para a cama.

 

- Não faças caso. Estou a ficar velho e chato. Gosto de estar sentado diante da minha lareira.

 

- Quem me dera que tivesses dito isso há mais tempo. Pensei que querias que eu fosse.

 

- Mulher, eu só queria que não estivesses com trabalheiras!

 

- Ora, não será por muito tempo. Antes do Hogmanay já estaremos em casa.

 

- E ainda bem - retorquiu Fergus, tomando-a nos seus braços.

 

Ficaram enlaçados à luz do candeeiro, o rosto dela encostado ao peito dele, a respiração morna que ele sentia na sua pele, os cabelos que lhe faziam cócegas no pescoço. Que estranho, pensava Marion, que a faceta que os outros (a mãe dele e Eleanor incluídos) consideravam uma falha na maneira de ser do marido - ser tão previsível, um feitio que primava pela uniformidade - fosse o que ela mais amava nele.

 

- Não te preocupes - tranquilizou-o ela. - Não me importo que sejas aborrecido. É o que eu mais gosto em ti.

 

- Então, ainda bem, não é? - Fergus desligou o candeeiro e ambos se acomodaram para dormir. Momentos depois, Marion virou-se com um pequeno suspiro, aninhando-se na curvatura do corpo do marido.

 

Era assim que costumavam adormecer, como colheres arrumadas numa gaveta, dissera-lhe ele havia vários anos, continuando a dizê-lo, sem ver a mínima necessidade em alterar as suas palavras, uma vez que lhe tinham servido bem até à data. Com uma diferença - agora, a situação havia mudado, mudado para sempre. Nessa primeira noite depois de ela ter tido alta do hospital, virara-se daquela maneira nos braços dele, aninhando o rabiosque na barriga dele, encostada à região pélvica, com o queixo dele apoiado na sua cabeça e o braço à volta do corpo, envolvendo-lhe o seio esquerdo com a mão. Mas o seio não se encontrava presente, a sua forma arredondada e cheia na palma da mão dele. Apenas o acolchoado do penso de gaze, por baixo do qual havia uma superfície plana, uma cicatriz que estava a sarar. Nenhum deles, a despeito do muito que haviam conversado antes de se deitarem, tinha previsto realmente aquele momento. Os olhos de Marion encheram-se de lágrimas, tendo-se voltado e ficado outra vez de frente para o marido, para verificar, cheia de tristeza e consternação, que ele também chorava.

 

Marion nunca vira o marido a chorar. Às escuras, confortaram-se um ao outro e, apesar de ela desejar dizer qualquer coisa, queria assegurar-se de que ele não se importava, bem no seu íntimo sabia que ele jamais se sentiria incomodado por si próprio, mas sim por causa dela. Tal como ele sabia de antemão que o mesmo se aplicava em relação ao que ela sentia. Mas nada poderia evitar aquelas emoções. Depois de tantos anos de casamento, era impossível mudar a posição em que se costuma ficar, obrigar-se a dormir virado para o lado contrário, na outra metade da cama.

 

Posteriormente, Marion concluiu que havia sido nesse momento que tivera toda a percepção da mudança, uma alteração que seria permanente. Nenhum do desconforto de que viria a sofrer, as náuseas, a queda do seu belo cabelo, o cansaço, a incerteza atroz, lhe causou uma dor tão aguda e definitiva como esse momento em que se deitara na cama com Fergus, na primeira noite que passava fora do hospital.

 

A casinha das bonecas chegara no Natal em que Marion tinha nove anos. Ninguém tentara fingir que o Pai Natal a havia trazido pela chaminé; todos na família sabiam que fora oferecida às duas garotas pelo pai e pela mãe, um presente conjunto, além de saberem que fora construída por um amigo da tia Alice, o qual tinha muito jeito com as mãos. Também ninguém tentara embrulhá-la. Colocaram-na junto da árvore de Natal no vestíbulo, com uma fita dourada a que alguém dera um laço à volta de uma das chaminés. Ao princípio, quando acordaram a meio da noite para mexer atrapalhadamente nos embrulhos ao fundo das camas de ambas, ouvindo o ranger do papel que envolvia as prendas, apalpando as meias de lã cheias de coisas pequeninas e sentindo no fundo a firmeza arredondada de uma tangerina, acharam que não iriam receber nenhuma casa de bonecas.

 

- Onde é que estará? - perguntara Eleanor numa voz segredada.

 

Chegada a véspera de Natal, David teve autorização para dormir no quarto das irmãs, no divã de campanha do pai dos seus tempos no exército. Habitualmente, ele caía a meio da noite, ficando deitado como uma crisálida esverdeada dentro do saco-cama. Naquele momento, David despeitou ao som das vozes sussurradas das duas.

 

- Onde é que está a casa das bonecas? - perguntou ele enquanto se contorcia para sair do saco-cama. Todos estavam a par desse presente. Tinham existido demasiados palpites e trocas de palavras segredadas para que eles pudessem duvidar. Até ao momento.

 

- Lembras-te de que disseste que havia uma rapariga na tua turma cujos pais punham sempre as prendas de Natal junto da árvore? - perguntou Eleanor à irmã.

 

- Sim e só as abrem depois do pequeno-almoço. - Nenhum deles era capaz de acreditar numa crueldade daquelas.

 

- Então, vamos lá abaixo - urgiu David -, para vermos se está ao pé da árvore.

 

Assim, num passo sorrateiro, os três esgueiraram-se escadas abaixo em fila indiana, com Marion à frente, debruçando-se sobre o corrimão a espreitar. O vestíbulo estava às escuras. Então, David, sem se importar com as consequências (ao fim e ao cabo, era Natal e ninguém era repreendido durante o Natal, além do mais, ele ainda nem sequer fizera cinco anos, pelo que ninguém o culparia por nada) começou a correr à frente das irmãs, saltando para conseguir chegar ao interruptor, inundando o vestíbulo de luz. Pestanejaram e cambalearam porque os olhos não estavam preparados para aquela luminosidade súbita, mas depois de se ajustarem avistaram-na.

 

Era perfeita. A maior parte dos presentes, descobriu Eleanor mais tarde à medida que foi crescendo, eram uma desilusão. Não correspondiam às promessas que a expectativa inspirava, à sua esperança: os contornos misteriosos debaixo do papel que os embrulhava, o roçagar electrizante do papel quando era rasgado. Todavia, a casa das bonecas era uma prenda perfeita - melhor do que Marion ou Eleanor haviam previsto que pudesse ser. Marion abriu a porta da frente com muito cuidado. No interior viram mobílias, cortinas, carpetes de tamanho ínfimo, toda uma vida à espera de ser vivida em miniatura. A casa até tinha uma família: pai, mãe e filha. Estas pequenas figuras haviam sido feitas de arame e depois revestidas com enchumaços de algodão; exibiam rostos pintados que com a passagem do tempo começariam a ficar descorados, tendo de ser pintados de novo com canetas Eiró. Era difícil manter as expressões originais: a mãe, com uma fisionomia que reflectia uma resignação serena; o pai, com um semblante enérgico e de bigode; a criança, com uma expressão risonha e faces rosadas. Mas Eleanor, a quem esta tarefa coubera, fazia o melhor que lhe era possível. A família era um pouco rígida, pelo que não conseguiam sentar nenhum dos seus membros como devia ser nas cadeiras em miniatura; por isso, costumavam estar na cama com muita frequência, ou então ficavam de pé. David adoptou o pai como sendo a sua pessoa, enquanto Marion optou pela mãe e Eleanor ficou com a filha.

 

À medida que David foi crescendo, cada vez era mais raro brincar com a casa das bonecas. Tinha outras coisas que o interessavam mais; além disso, era demasiado bruto para um brinquedo tão delicado. Estava sempre a partir qualquer coisa e as garotas não queriam que o pai da família de brincar levasse uma vida tão arriscada e cheia de terror, o que David provocava sempre. Apesar disso, quando as duas se sentiam aborrecidas e com falta de ideias, a verdade é que David animava as coisas.

 

Quando Marion adoeceu, naquele longo Inverno em que ela tinha doze anos, brincava muito com a casa das bonecas durante a convalescença. Depois disso, pareceu que crescera de mais para se interessar por aquele brinquedo, passando a ser Eleanor quem brincava mais com a casinha. No que dizia respeito a Eleanor, a casa das bonecas estava sempre presente, à sua espera, e valia sempre a pena abrir a porta da frente para ver o que a família estava a fazer. Por vezes, fazia-lhes um jornal em miniatura ou um balouço de cartão que colocava num jardim imaginário; havia ocasiões em que os levava a passear num dos carrinhos de David, quando ele não se encontrava por perto para discutir com ela. Quando recuperou da doença, Marion queria companhia, e Eleanor, que não gostava muito de Violet ou das outras amigas, amiúde brincava sozinha.

 

Eleanor não se recordava de muito mais desse Natal perfeito, como não conseguia diferenciá-lo completamente dos outros Natais passados em Pitcairn. Na sua memória formavam um todo. Talvez fosse por essa razão que Marion se sentia incapaz de explicar a Eilidh e a Kirsty o que é que os Natais em Pitcairn tinham de tão especial.

 

Quando Eleanor começou a conduzir lentamente pelo caminho particular, verificou que David se mantivera à espreita da chegada delas. Assim que saíram do automóvel, ele abriu a porta da frente, ficando na soleira, iluminado pela luz do vestíbulo atrás de si, um clarão mais luminoso do que o habitual. Disse-lhes que parassem quando já subiam os degraus do alpendre.

 

- Esperem. Fechem os olhos, as duas.

 

- Porquê? - perguntou Claire, mas fizeram como David lhes dizia, permitindo que ele as conduzisse até dentro de casa.

 

- Agora!

 

Tudo o que conseguiram proferir foi um ”Oh!” de admiração, ficando sem respiração e a olhar, espantadas. A árvore de Natal devia ter uma altura de quase dois metros e oitenta. Cintilava feericamente com um milhar de luzes brancas e prateadas, com uma cascata de fitas acetinadas que caíam a partir de cima, onde havia uma fada de um prateado resplandecente, mesmo no topo da árvore.

 

- Fixe! - exclamou Claire. - Que linda!

 

- Oh, David, está uma maravilha, a sério que sim... Fecha a porta, Claire, para que o frio não entre... Oh, David, como é que tu conseguiste trazê-la até aqui?

 

O irmão levou a ponta do dedo a um lado do nariz, com uma expressão misteriosa.

 

- Confia em mim - disse ele. - Um homem que tem um atrelado e a quem dei cinco libras.

 

- Fixe - voltou a dizer Claire, observando a árvore mais de perto, contornando-a devagar até onde lhe era possível. David colocara-a junto das escadas, tendo por detrás os painéis de madeira escura envernizada. - Olhe, mãezinha... veja os animais e tudo tão pequenino!

 

Eleanor aproximou-se mais da árvore. Entre os ramos, descortinou as fitas prateadas entrelaçadas neles no meio de animais de vidro em miniatura, os quais reflectiam centelhas de luz junto de todo o tipo de enfeites natalícios também de vidro, um misto de prateados e verdes sob a forma de pequenos embrulhos, velas e sinos.

 

- David! - exclamou com a respiração suspensa. - Esta árvore deve ter custado uma fortuna! Onde é que foste arranjar tudo isto?

 

- Em Londres. Fui até lá na semana passada de avião, só por um dia.

 

- O quê?! Estás a brincar.

 

- Não, estou a falar a sério - replicou ele, manifestamente satisfeito consigo próprio.

 

- Mas eu pensei que... - Achava que o irmão não tinha dinheiro e recordava-se de Marion ter dito: ”ele é um explorador”, começando a sentir-se preocupada.

 

- Vendi o meu carro.

 

- Que carro?

 

- Foi o Phil... ele é que o vendeu a meu pedido. Tinha-o deixado em Edimburgo. Recebi um cheque num montante bastante jeitoso. Portanto, pensei que podia fazer qualquer coisa especial com esse dinheiro... para toda a família.

 

- Eu nem sequer sabia que tinhas automóvel.

 

- Era um MG. Sempre que tenho uns dinheiros a mais é o carro que costumo comprar.

 

- Há já muitos anos... aquele pequeno carro vermelho... Um automóvel de dois lugares. Eleanor e David, a sós, haviam dado uma volta nele. Recordava-se de lan na soleira da porta da frente com Claire, que ainda era muito pequena, ao colo, a vê-los enquanto se afastavam. E antes disso, lan a estudar para os exames de fim de curso, Eleanor e David ausentes durante uma tarde de domingo, deixando-o a estudar, os dois num bar nos arredores da cidade onde comeram sanduíches acompanhadas de cerveja. David a conduzir a grande velocidade pelos caminhos rurais.

 

- Um MG - repetiu Eleanor, interrompendo os pensamentos que a haviam transportado ao passado.

 

- Infelizmente, deixou de existir. Mas não te preocupes... a passagem aérea para Londres até foi barata e a verdade é que ainda fiquei com algum dinheiro. As coisas para a árvore não foram muito caras. De qualquer maneira, eu precisava de falar com um sujeito que vive em Londres. Para tratar de uns negócios por concluir.

 

- Onde é que está o avô? - perguntou Claire. Tinha acabado de inspeccionar a árvore de Natal.

 

- Deve estar algures no jardim. Foi apanhar as verduras para comermos amanhã.

 

- Vou dizer-lhe que já chegámos. Está bem, mamã?

 

- Sim, vai procurá-lo. David, dá-me uma ajuda, temos montes de coisas que é preciso trazer para dentro.

 

Bastante depois, quando a família já estava toda dentro de casa, Claire disse à mãe:

 

- Foi naquela altura que o Natal começou, não foi? Quando vimos a árvore. - Mas Kirsty, que só chegou na véspera do dia de Natal, ficou lavada em lágrimas quando a viu.

 

- O tio tinha dito que podíamos ajudar a enfeitar a árvore! Cheio de remorsos, David levou-a ao jardim para cortarem uma

 

boa pernada de uma das árvores.

 

- Esta é só tua - afirmou ele. - Vamos procurar os enfeites de Natal antigos e podes ficar com esta árvore no teu quarto.

 

- Eu também quero luzes - ripostou Kirsty, olhando-o com uma expressão carrancuda. - Quero uma árvore como deve ser. Esta é só um ramo.

 

David foi à cozinha onde Marion preparava tudo aquilo de que precisava para assar o peru.

 

- O que é que posso fazer? - perguntou ele. - A Kirsty não quer nada comigo, odeia-me e já me deu uma descompostura.

 

- Não sejas parvo - admoestou Marion. - Passa-me essas cebolas.

 

- Podias comprar-lhe uma dessas árvores artificiais, das mais pequenas - sugeriu o pai a David. - No Asda eles têm árvores dessas.

 

- Uma ideia brilhante. É isso mesmo. Kirsty, onde é que estás? Fergus e Ross tinham saído para rachar madeira. Quando Marion começou a preparar o peru enquanto Eleanor tratava dos pratos e dos talheres, Fergus entrou com um cesto cheio de lenha.

 

- Onde é que querem que eu ponha isto?

 

- Na casa de jantar - respondeu Eleanor, pegando no cesto. Fergus descalçou as botas, deixando-as do lado de dentro da porta das traseiras.

 

- Pensei que estava decidido que ficarias sentada sem fazer nada, deixando que os outros tratassem de tudo - disse ele a Marion.

 

- Pára com isso, sinto-me lindamente. A Eleanor fica com o estômago às voltas se tiver de preparar o peru.

 

- Estamos a falar da mesma Eleanor que afirmou que trataria de tudo?

 

- Eu não me importo. Além do mais, não gosto de ficar sentada sem fazer nada.

 

- Pois bem, vê se tratas de descansar depois de teres preparado o galináceo.

 

- Não estejas com coisas, estou a sentir-me muito bem. Fergus optou por deixá-la em paz a rechear um peru depenado

 

que se recusava a cooperar e que na óptica dele tinha um aspecto obsceno. Percebia bem a aversão que Eleanor sentia. Seriam eles capazes de o comer?

 

Eleanor pedira um aquecedor portátil à filha dos Mackies, tendo-o colocado no vestíbulo, agora bem aquecido.

 

- Não me recordo de alguma vez ter visto a parte da frente da casa aquecida - comentou John, detendo-se junto do aquecedor com as mãos estendidas para o calor. - Isto é óptimo, mas deve gastar muito. Trabalha a gás? Espero que tenham uma bilha sobresselente.

 

- O David ficou de ir buscar uma ao Asda... quando for com a Kirsty para lhe comprar uma árvore de Natal.

 

Ross mostrava-se aborrecido e, o que era muito invulgar, Eilidh e Claire pareciam não querer passar todos os minutos na companhia uma da outra. No entanto, Marion e Eleanor tentavam ignorar o estado de espírito dos filhos o melhor que podiam, arranjando coisas que eles pudessem fazer (o que eles não queriam, preferindo continuar a sentir-se aborrecidos), acabando por lhes permitir que vissem tanta televisão quanto lhes apetecesse.

 

Entretanto, David regressou com Kirsty, acompanhados de uma pequena árvore de Natal, e Eleanor deteve-o no vestíbulo.

 

- Alguém já se lembrou de ir a casa da Ruby? Quando é que ela cá esteve?

 

- Oh, esqueci-me de te dizer. Ela está constipada. Há mais de uma semana que não vem cá.

 

- Por amor de Deus. Um de vocês já devia ter-nos dito isso. Vou visitá-la - disse ela a Marion. - Ao menos que haja uma de nós que a vá ver. Até é possível que ela queira vir cá amanhã, não te parece?

 

- Com certeza que já foi convidada a passar o dia de Natal noutro sítio qualquer - retorquiu Marion. - Isto é, caso se sinta melhor. Mas o pai costuma oferecer-lhe sempre uma garrafa de xerez e uma caixa de chocolates. Pergunta-lhe se já passou por casa dela.

 

Eleanor encontrou o pai no jardim defronte da casa, ao fundo do caminho onde fora cortar azevinho a pedido de Claire.

 

- Mãe, olhe para isto, com tantas bagas - gritou Claire ao ver a mãe. - Ontem, quando chegámos, vi este azevinho. O avô nem sequer tinha reparado.

 

- A seguir, com certeza que vais querer que eu também apanhe hera para compor o ramalhete - resmungou ele, atirando outra ramagem para dentro do carrinho de mão. Claire ficou a olhar para o avô com uma expressão abstracta.

 

- Oh! - exclamou ela por fim. - Azevinho e hera.

 

- Parece que estão a falar de duas solteironas já velhotas observou Eleanor, calçando as luvas. Lá fora fazia frio. - Vou até à casa da Ruby. O pai já lhe deu as prendas de Natal?

 

John fechou o pequeno escadote de que se servira, colocando-o debaixo do braço. Claire pegou nos braços do carrinho de mão, pronta para seguir em direcção à casa.

 

- Já tratei de tudo. Na despensa está uma garrafa de xerez que é para ela. E talvez lhe possas comprar alguns doces... com certeza que a mercearia ainda está aberta.

 

- De acordo. Alguém quer vir comigo?

 

Claire já se pusera a caminho, levando o carrinho de mão.

 

- Eu vou ajudar o avô a pôr o azevinho. A mãe podia pedir ao Ross que fosse consigo - sugeriu a garota. - Ele só está a ver televisão.

 

Na cozinha andavam todos numa grande azáfama. Eilidh ajudava a mãe a envolver as salsichas em fatias de toucinho fumado. O peru estava pronto a ir para o forno: também se achava coberto de fatias de toucinho rumado e nozes achatadas de manteiga já dentro da assadeira, numa prateleira da despensa. Eleanor tentou não olhar para o bicho quando foi buscar a garrafa de xerez.

 

- É melhor eu embrulhar isto, não achas? Trouxeste algum papel de prendas?

 

- Está para aí algures - respondeu Marion, que tinha uma mancha de gordura na face, além de estar muito corada.

 

- Há alguma hipótese de me arranjarem uma chávena de chá? perguntou Fergus metendo a cabeça por entre a porta entreaberta.

 

- O que é que andas a fazer? - perguntou-lhe ela.

 

- Tenho estado a ver televisão com o Ross. Precisas de alguma coisa? - acrescentou Fergus, entrando na cozinha para encher a lareira. - Daqui a pouco vais sentar-te, estás a ouvir? Eu faço o chá.

- Deu uma palmadinha afectuosa no ombro da filha. - Não deixes que a tua mãe se canse de mais. Ainda nem sequer estamos no dia de Natal.

 

- Eu sei - atalhou Eleanor, detendo-se com a garrafa de Bristol Cream. - Isto é horrível... O plano era nós fazermos tudo. Em princípio, a Marion devia estar a descansar.

 

- Isso mesmo, como se ela estivesse disposta a fazê-lo - ripostou Fergus com um suspiro, enlaçando Marion com um braço, após o que foi buscar canecas ao armário atrás de si.

 

- Tenciono ir a casa da Ruby - explicou Eleanor. - O David diz que ela está constipada.

 

- Deixa-me instalar a Marion com os pés levantados e uma chávena de chá na mão e depois posso ir contigo - ofereceu-se Fergus.

 

- Óptimo. A Ruby vai adorar ver-te. Sempre foste o preferido dela... Assim, pode dizer-te tudo acerca da perna que lhe dói tanto.

 

- Deus me valha, mas, pensando melhor... - Fergus fez uma careta sorridente, mostrando que estava a brincar.

 

Já era noite quando Fergus, ao volante, saiu do caminho particular, entrando na estrada principal, seguindo em direcção aos correios e à mercearia onde Eleanor ficou hesitante entre uma caixa de Quality Street e outra de Black Magic, desejando poder ter comprado algo mais interessante para oferecer a Ruby nesse Natal.

 

Ruby estivera a dormitar junto da lareira, mostrando-se ruborizada e desorientada quando abriu a porta. Porém, pareceu encantada ao ver os dois.

 

- Entrem, não fiquem aí... Oh, o doutor também veio! Está com muito bom aspecto. A família está boa? - Deteve-se à porta da sua pequeníssima sala de estar, com uma tosse violenta que a levou a bater no peito com o punho fechado, como se isso pudesse ajudar. - Apanhei uma grande gripe, essa é a verdade. Terrível. Sinto as pernas como se não tivesse forças, nem podem imaginar como me sinto. Mas entrem, entrem, estejam à vossa vontade, sentem-se.

 

Com movimentos felinos, o gato de olhos amarelados saiu do sofá, desaparecendo para fora da sala. Actualmente, Ruby vivia sozinha, já que o filho, adulto, saíra de casa e o marido havia morrido há muitos anos. A sala estava atravancada com imensa mobília, não se vendo a superfície de um único móvel que não tivesse um naperom de renda, cães e cavalos de louça, assim como retratos emoldurados. O fogo ardia intensamente na lareira, pelo que a sala estava demasiado aquecida. Eleanor despiu o casaco logo que entrou na sala, tentando sentar-se o mais afastada possível da lareira.

 

- Tomam uma chávena rápida? Tenho um bolo de Natal que é uma maravilha. A Susan Mackie, não me lembro do apelido de casada dela, ontem passou por cá e trouxe-me um bolinho. Comprou-o no Marks and Spencer, muito saboroso.

 

Não havia maneira de poderem recusar o chá e o bolo. Fergus olhou para Eleanor, piscando-lhe o olho.

 

Pouco tempo depois, o chá estava pronto: chávenas e pires de porcelana fina decorados com miosótis num tabuleiro coberto por um toalhete bordado, e o bolo de Natal, de compra, assim como biscoitos secos.

 

- Nos últimos tempos deixei-me de fazer bolos - disse-lhes Ruby enquanto servia o chá. - Só para mim, não vale a pena estar com esse trabalho. Mas de vez em quando ainda faço uns scones. O teu pai gosta muito.

 

Eleanor reparou na mão que lhe tremia enquanto lhes passava as chávenas nos respectivos pires, apercebendo-se dos cabelos hirsutos, já muito grisalhos, que começavam a rarear-lhe nas fontes; a doença dera-lhe uma aparência ainda mais franzina, de quase fragilidade. ”Ela está envelhecida”, pensou Eleanor. ”Não pode continuar a tratar de Pitcairn nem do pai.”

 

Perguntaram por toda a gente cujo nome lhes ocorreu: os Mackies, que se haviam mudado para Ellon, e Eileen que passara a viver em Glasgow com a sua própria família; pelo filho de Ruby e a mulher deste, os quais viviam na Nova Zelândia com os filhos; as pessoas que costumavam gerir os correios, mas que agora se tinham aposentado. Eleanor sentia-se sonolenta e confortável, com o gato que regressara sorrateiramente, tendo-se instalado no seu colo.

 

- Que maçador, põe-o no chão - disse Ruby. - É uma criatura horrorosa. Eu costumava deixá-lo lá fora, mas ele também está a ficar velho, como eu. Gosta de ficar diante da lareira. - Uma vez mais, ofereceu-lhes bolo, mas, desta feita, ambos agradeceram declinando, estava muito bom, mas tinham de se ir embora.

 

- É verdade - continuou Ruby, que não queria que se fossem já embora -, como é que está o teu irmão? Já sei que ele regressou a casa.

 

- Está óptimo. Vai começar a trabalhar em Edimburgo.

 

- Não me digas, eu sempre pensei que ele vivia num outro planeta, sempre um cabeça-no-ar. Tu e a Marion eram muito bem-educadas, umas cachopas cheias de boas maneiras, mas o Davy... parecia que tinha um diabinho dentro de si, sempre a fazer maldades. - Abanou a cabeça perante aquelas recordações de outrora. Lembras-te do Stanley Robertson, aquele rapaz de quem ele era inseparável?

 

- Sim, sim, o Stanley. O que é feito dele?

 

- Só te posso dizer que decidiu seguir as pisadas do pai... começou a trabalhar como aprendiz de marceneiro.

 

- É verdade - disse Eleanor começando a recordar-se.

 

- Mas o Jimmy era terrível por causa da bebida. Perdeu muito trabalho por causa desse vício. Uma pena... todos diziam que trabalhava como poucos. Mas a vida é assim mesmo. O Stanley podia ficar à frente do negócio quando o pai bebia de mais. E a mãe ter morrido, quando o Stanley tinha o quê... sete, nove anos? Um homem não pode ser mãe e pai ao mesmo tempo. Pelo menos o Jimmy Robertson não era capaz - concluiu ela com um abanar de cabeça que manifestava pesar.

 

- Mas... o que é que foi feito do Stanley? Ele não se casou quando ainda era muito novinho?

 

- Sim, com a Irene Walker. Uma rapariga que era uma doidivanas... - Neste ponto da conversa, Ruby interrompeu-se. Quanto ao Stanley, foi para a tropa quando o pai chegou ao ponto de já não poder trabalhar. Ao princípio, a Irene até gostou que ele se tivesse alistado... um uniforme janota e um salário certo. Mas ele foi destacado para prestar serviço na Alemanha e ela não podia ir com ele. Ficaria demasiado longe da mãe.

 

- Mas que grande apoio que ela lhe deu, não? - comentou Eleanor, sarcástica. Recordava-se de uma rapariga loura com um ”só esganiçado e que pintava os olhos com um traço exageradamente acentuado a negro, a qual empurrava um carrinho de bebé onde trazia uma criança pálida. Seria filho de Stanley?

 

- E agora, o que é feito do Stanley?

 

- Houve uns problemas quaisquer na Alemanha, mas, especificamente, não sei ao certo. Só sei que ele saiu do exército.

 

- Talvez tenha sentido saudades da Irene e do bebé - alvitrou Eleanor.

 

- Ora, nessa altura já ela tinha arranjado outro homem - ripostou Ruby com uma expressão desdenhosa. - Amancebou-se com ele em Aberdeen. Tanto quanto me lembro, ele andava na faina da pesca.

 

Eleanor pensou que a mulher tinha descido na vida, conhecedora como era da escala social na óptica de Ruby.

 

- Mas o pobre do Stanley - prosseguiu esta -, ele era um rapaz que tinha mudado muito... começou a beber como o pai. Num bar qualquer em Aberdeen, teve uma rixa com outro rapaz que ficou gravemente ferido.. - Interrompeu-se para imprimir mais suspense à sua narrativa; o seu olhar ia de Eleanor a Fergus sucessivamente. - Está na prisão.

 

- Na prisão!

 

- Em Craiginches, vai para três anos. Li a notícia no PÓst, mas quem primeiro me contou foi a Doreen dos correios.

 

Quando se despediram de Ruby, esta agradeceu-lhes a garrafa de xerez e a caixa de chocolates.

 

- Sabes - começou Fergus a dizer quando já rolavam estrada fora -, tenho o pressentimento horrível de que ela deve ter umas vinte garrafas de Harveys Bristol Cream guardadas na cristaleira.

 

- Valha-me Deus, és muito capaz de ter razão - concordou Eleanor, rindo-se. - Mas, Fergus, consegues imaginar o pobre do Stanley na cadeia? Pergunto a mim mesma se o David terá conhecimento disso.

 

- Esta situação assim não serve, Eleanor, o teu pai vai ter de encontrar alguém que lhe trate da casa.

 

- Sei que sim - concordou ela.

 

- Que idade é que a Ruby tem? No mínimo, é da idade dele.

 

- Suponho que sim.

 

- E a julgar pelo estado em que Pitcairn tem estado sempre que vimos cá... nos últimos tempos, ela não tem feito grande coisa.

 

- Não. Isso é verdade. - No entanto, sentia-se curiosamente irritada por ter sido Fergus a dizer o que ela própria sabia. Não se recordava da mesma Ruby que ela conhecera, não era capaz de a imaginar na cozinha com Faith, ou a virar do avesso a sala de estar de uma ponta à outra num belo dia de Primavera, com as janelas todas abertas, a mobília toda arredada dos seus lugares habituais, as carpetes a serem batidas depois de penduradas nas cordas da roupa. E Stanley. Fergus não se interessava pelo que pudesse acontecer a Stanley. Eleanor mal conseguia esperar pela oportunidade de contar a Marion e a David, e esses, sim, interessar-se-iam.

 

Logo que chegaram a casa, tudo isto se sumiu da cabeça de Eleanor. Ao ir arrumar o escadote na arrecadação, o pai tinha escorregado, fazendo uma entorse no tornozelo. Estava sentado numa poltrona na sala de estar, com a perna da calça arregaçada e o pé a adquirir uma coloração que ia do azulado ao preto, além de estar a inchar.

 

- Oh, graças a Deus... vocês estiveram fora horas a fio - disse Marion à guisa de saudação. - O pai escorregou, caiu e magoou o tornozelo. Estou em crer que se trata apenas de uma entorse. Vai ver o que se passa, Fergus.

 

Fergus achou que era uma entorse grave, mas jamais emitiria uma opinião clínica com relação ao paciente de outro médico. Portanto, a alternativa era ir a Aberdeen, ao Royal Infírmary, para que o pé fosse radiografado.

 

- Oh, meu Deus - disse Marion com um suspiro -, e logo na véspera de Natal. O tráfego deve estar horrível. Pai, acho melhor jantarmos primeiro, e entretanto o Fergus pode ligar-lhe o tornozelo.

 

- Deixem-se disso, sinto-me bem. Não preciso de ir a nenhum hospital.

 

- O David podia levá-lo - sugeriu Fergus, pousando suavemente o pé do sogro e endireitando-se. - Ele não está a fazer mais nada.

 

- Não, mas... - Marion puxou o marido de parte. - Tem estado a beber durante toda a tarde, desde que veio do supermercado com a Kirsty. Não está em condições de se sentar ao volante do automóvel.

 

- O quê? - perguntou Eleanor, que tinha ouvido aquela troca de palavras.

 

- Temos de levar em consideração que estamos no Natal. Tenho a certeza de que habitualmente ele não costuma beber desta maneira durante a tarde - comentou Marion, mostrando-se agastada. - No entanto, a verdade é que não quero que ele conduza o pai onde quer que seja.

 

No fim, foi John quem se recusou a ir ao hospital. Caso o tornozelo piorasse, disse ele, David levá-lo-ia ao hospital no feriado a seguir ao dia de Natal. As estradas teriam pouco movimento, pelo que a viagem se faria sem dificuldades de maior. Fergus acabou por concordar, fazendo o melhor que estava ao seu alcance com uma ligadura elástica.

 

Ao longo de todo o dia, houvera entre as crianças uma discussão, que se mantinha em estado latente, quanto ao sítio onde os presentes de Natal deveriam ser colocados. Kirsty continuava a querer acreditar no Pai Natal, uma ficção que o pai, a mãe e os irmãos alimentavam, uma vez que ela era a mais nova da família, sendo-lhe permitido crer nisso durante tanto tempo quanto lhe aprouvesse, à semelhança do que acontecera com eles próprios quando eram crianças. Por volta da hora do jantar, haviam conseguido chegar a um consenso em que concordaram que o Pai Natal só vinha por causa das crianças pequenas, enquanto os outros recebiam os seus presentes que eram oferecidos pelos pais e mães.

 

- É uma verdadeira idiotice - observou Eilidh falando com Claire -, porque ela está farta de saber que o Pai Natal não existe.

- No entanto, conjuntamente, decidiram que os presentes dos adultos e os oferecidos pela família seriam colocados junto da árvore de Natal, enquanto as prendas que Kirsty receberia do Pai Natal, assim como as meias bem repletas de presentes de toda a gente, apareceriam, como que por milagre, aos pés da respectiva cama, como era habitual. Eleanor e David ofereceram-se para ficar a pé até mais tarde, a fim de tratarem de tudo o que era necessário fazer com vista ao que fora decidido.

 

Por volta da meia-noite, a casa estava mergulhada em silêncio com todos os outros já deitados. Eleanor e David, sentados na sala de estar, alimentavam o fogo da lareira enquanto David bebia o vinho que restara da refeição da noite. Eleanor podia ver a maneira como os olhos do irmão não se focavam nela quando a olhava, a par do modo expansivo como se expressava, concluindo que ele estava extremamente embriagado. Mas, apesar disso, encontrava-se em perfeita lucidez. Foi a primeira vez que teve oportunidade de lhe relatar o que se passara na visita a Ruby.

 

- Quase me esquecia. Lembras-te do rapaz com quem costumavas brincar... o Stanley?

 

David empurrou um tronco mais para o centro das chamas, provocando uma chuva de fagulhas. Ergueu o olhar com as faces congestionadas.

 

- Sim, lembro-me bem do Stanley. Claro que me recordo. O meu velho compincha.

 

- Está na cadeia. Foi a Ruby que nos disse.

 

- Estás a brincar...? - perguntou David olhando-a fixamente.

 

- Não. A Ruby contou-nos a história toda.

 

- Meu Deus! Enfim, calculo que um de nós estaria destinado a acabar assim.

 

- Fiquei francamente chocada.

 

- Como seria de esperar. Não é preciso muita coisa para que a nossa Eleanor fique chocada.

 

- Não sejas cínico. Não sabes o que estás a dizer. Coitado do Stanley.

 

- O que é que ele fez? Assaltou algum banco?

 

- Uma rixa num bar. Ofensa corporal agravada ou algo no género - respondeu ela.

 

- Jesus Cristo!

 

- Ele nunca me deu a impressão de ser uma pessoa violenta continuou Eleanor, parecendo-lhe estar a ver o miúdo magricela com cabelos louros cortados quase à escovinha, o garoto que era a sombra de David, sempre atrás dele. Porque o chefe era David, sendo este que organizava as brincadeiras todas. Recordava-se da última vez em que Stanley estivera em Pitcairn, acanhado, na soleira da porta das traseiras, perguntando pela mãe dela, o que acontecera havia mais de vinte anos.

 

- Ela não está a sentir-se bem - dissera Marion, barrando-lhe a entrada. - De que é que queres falar com a minha mãe?

 

- Pensei que era melhor dizer a Mistress Cairns o que se passa com o Davy - replicara ele, manifestamente pouco à vontade. Para dizer à tua mãe e ao teu pai que ele está bem.

 

Ao ouvir aquilo, Marion deixara-o entrar dentro de casa.

 

- Onde é que ele está?

 

- Nesta altura já deve estar em Londres.

 

- Em Londres?! - Marion agarrou Stanley por um braço, sentindo os ossos por baixo da pele. Como que encurralado, Stanley retraiu-se.

 

- Ele foi à boleia - explicou o rapaz. Marion reparou nas olheiras fundas, vendo como ele devia estar cansado, absolutamente exausto.

 

- Eu vou chamar a minha mãe - disse Marion.

 

- Como é que estás, Stanley? - perguntou Faith, que não tardou a chegar. - Vou pôr a chaleira ao lume. Senta-te, fica à vontade.

 

- Não, obrigado, não posso demorar-me - retorquiu Stanley, retrocedendo. - Lamento muito, Mistress Cairns, ele queria que eu também fosse para Londres. Mas não fui capaz de deixar o meu pai.

 

- Então, decidiste voltar para casa, não foi? - perguntou Faith, mostrando uma calma extraordinária, a única das quatro pessoas que se encontravam na cozinha a não denotar a mínima agitação ou consternação.

 

- Sim. E agora tenho de ir para casa, o meu pai é que me trouxe e está à minha espera na carrinha.

 

- Onde é que te separaste do David?

 

- Perto de Newcastle, não sei bem onde. Ele apanhou outra boleia... num Jaguar. Era um automóvel grande.

 

- Ainda bem para ele - atalhou Marion, que sentia um misto de cólera e azedume.

 

- Obrigada por nos teres vindo dizer... mas agora não obrigues o teu pai a esperar. - Empalidecida e com uma expressão onde não se adivinhava qualquer emoção, Faith acompanhou Stanley até à porta.

 

Teriam ficado a falar do lado de fora?, perguntava-se Eleanor naquele momento. A mãe teria feito mais perguntas ao rapaz? Só se recordava de Marion a sair da cozinha, batendo com a porta, uma coisa que ela nunca fizera em toda a sua vida.

 

Pôs as recordações de parte, obrigando-se a regressar ao presente.

 

- Davy - começou a dizer. O irmão estava sentado na cadeira numa posição de abandono, completamente alheado da presença da irmã, sem ouvir o que ela dizia. Pouco depois, mexeu-se.

 

- Tínhamos um esconderijo disse ele. - O Stan e eu. Mais ninguém estava autorizado a entrar.

 

- Não havia mais ninguém, além da Marion e de mim própria- ripostou Eleanor com um suspiro.

 

- Houve uma ocasião, não me recordo em que ano, em que apareceram alguns miúdos... os filhos do latoeiro. Ficaram aqui durante mais ou menos uma semana.

 

- Sim, eu sei. A mulher veio bater à nossa porta... a mãe até lhe deu dinheiro, tendo-lhe comprado umas coisas.

 

- Acho que ela lia a sina, não é verdade? - perguntou David, interrompendo a irmã. - Ela comentou qualquer coisa à mãe a nosso respeito... a mãe até disse que era um disparate.

 

- Foi isso mesmo. Não me recordo com exactidão do que ela disse, mas é possível que a Marion não se tenha esquecido. A mãe comprou-lhe um bocado de renda... de que eu gostei logo, mas a Marion é que ficou com ela. Nunca mais voltei a ver essa renda.

 

- Coitado do pobre Stanley... Seja como for, a cigana nunca lhe leu a sina.

 

- Não, mas ela...

 

- Em que choça é que ele está?

 

- Craiginches, em Aberdeen.

 

- Talvez eu me decida a ir visitá-lo, para lhe levar uma lima escondida num bolo, ou qualquer coisa assim.

 

Eleanor sabia que o irmão não iria à cadeia. Subitamente, dava a impressão de ter ficado acabrunhado, taciturno, pondo-se a olhar fixamente para as chamas da lareira.

 

- Tenho a certeza de que o Stanley há-de conseguir sobreviver a essa situação - observou Eleanor. - Pelo menos, tem um trabalho a que voltar. Além do mais, está livre daquela mulher horrível, a Irene. A pena não é muito longa e a Ruby não me disse quando é que tudo aconteceu. Até pode ser que nesta altura já tenha saído em liberdade.

 

- A culpa não foi minha - disse David, soerguendo a cabeça.

 

- Claro que não! Como é que a culpa podia ser tua? Há vários anos que nem sequer o vês.

 

- Estás enganada, vi-o, sim - adiantou David, endireitando-se na cadeira e estendendo a mão para a garrafa para se servir de outra bebida. - Numa ocasião, quando estive em Aberdeen há mais ou menos... o quê? Uns cinco anos. Ele tinha recomeçado a trabalhar como marceneiro. Claro que desta vez não trabalhava para o pai, mas sim numa marcenaria de grandes dimensões. Fazia muito trabalho para as autoridades municipais, de acordo com o que me disse. Pareceu-me estar bem. Até fomos tomar uma cerveja.

 

- Aí tens. Se calhar ele nem sequer foi o responsável por essa rixa no bar.

 

- O velho Stan era muito facilmente influenciado pelos outros.

 

- Vocês dois estavam sempre a arranjar problemas - acrescentou Eleanor.

 

- E tu não sabes da missa a metade, Eleanor.

 

- Ah, não?

 

- Não sei se sabes, mas eu não sou boa pessoa - adiantou ele com um encolher de ombros. - Nunca fui.

 

- De que é que estás para aí a falar?

 

- De culpa - respondeu David, tomando um gole de uísque e voltando a pegar na garrafa. - No fim, acabarei por ser consumido pelas chamas do inferno, minha querida irmã. Um fim bastante apropriado.

 

O que quereria ele dizer com aquilo? Eleanor estivera a falar com o pai ali, no jardim, acerca da noite em que o palheiro dos Mackies pegara fogo. Não tenho dúvida nenhuma. Ele estava em casa antes de o incêndio ter começado. Uma ponta de cigarro pode ficar a arder em combustão lenta durante muito tempo. Fitou o irmão, as pálpebras que lhe pesavam nos olhos, o trejeito nos lábios, numa expressão de desprezo por si próprio. Ela não quis saber aquilo que talvez não fosse verdade, ou mesmo possível.

 

- Já estás bêbedo - comentou Eleanor. - Anda, já bebeste mais do que a tua conta. - Levantou-se e tirou-lhe a garrafa das mãos. - Vamos tratar dos presentes. Com certeza que a Kirsty já deve ter adormecido. - Olhou de relance para o relógio por cima da lareira. - Não pude assistir ao serviço religioso desta noite. Durante os últimos anos tenho podido ir porque a Edie toma conta da Claire. No ano que vem, quem sabe... talvez ela queira acompanhar-me.

 

- Costumas ir à igreja? - perguntou David dando a impressão de se ter recomposto, olhando para a irmã sem ocultar uma expressão de surpresa.

 

- Às vezes. De vez em quando, penso que talvez haja uma maneira de se ser... perdoado. Percebes o que quero dizer?

 

O irmão desviou o olhar e com a biqueira do sapato empurrou um tronco que estava junto da grade de protecção. Foi cair com um clarão vermelho de faíscas no meio das chamas.

 

- Isso não é para mim - disse ele. - Não é para mim.

 

- Vamos lá, Davy. - Eleanor estendeu a mão para o ajudar a pôr-se de pé. - Está na hora de ires para a cama.

 

Na manhã seguinte, voltaria a ser Natal. Ao pensamento de Eleanor acorreram todas as recordações que guardava de Natais passados da sua meninice quando assomou à janela do seu quarto, olhando para o jardim. O firmamento desanuviara-se, permitindo que a luz do luar empurrasse as sombras através do relvado e por entre as árvores. Durante alguns segundos, pareceu-lhe ver a mulher do latoeiro, a cigana que lhes batera à porta para lhes ler a sina. ”Como se nós agora quiséssemos saber”, pensou Eleanor, fechando os cortinados.

 

- Correu tudo às mil maravilhas - reconheceu Marion, falando com Eleanor quando já iam de regresso às suas casas. Claire e Eilidh, uma vez mais amigas, sentavam-se no banco de trás, remetendo-se ao silêncio à medida que a viagem progredia; quando passaram por Keith, já ambas dormitavam. Fergus seguia no veículo à frente com Ross e Kirsty.

 

- Sim, é verdade, correu tudo muito bem - concordou Eleanor. - Estou em crer que todos passaram um bom Natal.

 

”Conseguimos escapar”, pensou Marion para consigo, ”não aconteceu nada de mal.”

 

- No entanto, foi um Natal bastante comprido - disse em voz alta. - Estou contente por irmos a caminho de casa.

 

- Só espero que o pai esteja bem. O David prometeu-me que o levava ao hospital para ser radiografado antes de ir para Edimburgo.

 

- Bem, ele diz que vai para Edimburgo. Não vi sinal nenhum de que estava a fazer as malas, não achas?

 

- O mais certo foi ele ter estado à espera que nos viéssemos embora.

 

- Queres saber uma coisa? Sinto-me aliviada - continuou Marion - por não estarmos a criar os nossos filhos num lugar tão isolado. Vivemos no campo, do que não há dúvida, todavia, estamos a apenas dez minutos de Dingwall, além do mais, nos tempos que correm, toda a gente se desloca de carro.

 

Eleanor parou numa rua estreita de aldeia atrás de um automóvel estacionado, a fim de permitir as manobras de um camião que estava a inverter a direcção. Marion olhou para trás, observando as duas garotas adormecidas, inclinadas de lado e com as bocas de lábios macios entreabertas. Claire tinha a cabeça no colo de Eilidh.

 

- Bem vês - prosseguiu ela -, sinto-me francamente convicta quanto ao tipo de infância que proporcionamos aos nossos filhos. Nunca havia dito isto antes, mas suponho que agora me seja permitido e sei que não te importas. - Olhou para Eleanor, que continuava concentrada no tráfego. - Quando o lan morreu, a morte dele fez com que tudo me parecesse bastante precário. Pensei: ”O que é que eu faria?” Fiquei incapaz de imaginar o que faria no teu lugar... fechei os olhos à situação, persuadi-me de que com certeza uma tragédia no seio de uma família deixá-la-ia destroçada, e chateei e voltei a chatear o Fergus por causa da nossa casa. Nessa altura, vivíamos na pequena vivenda nos arredores de Muir of Ord, lembras-te? De qualquer maneira, era demasiado pequena, especialmente depois de a Kirsty ter nascido; por isso, eu tinha razão, de facto, precisávamos de uma casa maior. Mas era mais do que isso. Eu queria uma moradia como deve ser, é claro que não almejava nada como Pitcairn; nos tempos que correm é impossível ter uma casa dessas, seria ridículo pensar nisso.

 

- Contudo, Dunvegan é uma casa grande, Marion - disse Eleanor, interrompendo a irmã.

 

- É uma casa apropriada para uma família - afirmou Marion -, aquilo que eu efectivamente desejava. Sempre quis que os meus filhos tivessem uma meninice cheia de felicidade e em segurança, a par de espaço e liberdade, muito embora com mais pessoas do que nós tivemos na nossa infância. Companhia. Nós vivíamos demasiado isolados em Pitcairn.

 

”Neste momento também me sinto isolada”, quis dizer Eleanor, mas conteve as palavras. Sabia que Marion receava que a estrutura familiar, que ela cimentara com tanta determinação, estivesse em risco. A casa podia ser abalada por um tremor de terra: ao fim e ao cabo, nenhum deles estaria em segurança.

 

- Vamos parar? perguntou Eleanor.

 

- Acho que não vale a pena, uma vez que as garotas estão a dormir. A menos que queiras fazer uma pausa, parar de guiar por uns momentos.

 

- Não, agora só quero é chegar a casa. Pensei que tu talvez gostasses de fazer uma paragem.

 

O cuidado que elas tinham quando falavam uma com a outra, dando consigo próprias a sós e com pouco de que falar depois de um Natal com tanta gente. Era inegável que todos haviam desfrutado da ocasião, pensava Eleanor, apesar de Marion se ter esforçado excessivamente em termos físicos.

 

- Não achaste que a tia Alice ontem se comportou de uma maneira um pouco estranha? - perguntou pouco depois.

 

- Estranha... como?

 

- Acho que ela está a ficar... com vistas estreitas. Retraí-me toda de cada vez que a Claire abria a boca. A Alice consegue ser tão reprovadora.

 

- Não reparei - retorquiu Marion. - Na minha opinião, a Mamie é que está a ficar exagerada com a idade. Come de mais e depois queixa-se das indigestões, acha que realmente vale a pena ouvir o discurso da rainha, mas depois adormece diante do televisor.

 

- Deus nos valha, tens toda a razão - concordou Eleanor’rindo-se. - A verdade é que ela é muito boazinha e pensa que as crianças são todas maravilhosas. Já a Alice é diferente... sempre foi. E quando éramos pequenos... ainda te lembras daquelas histórias estranhíssimas que ela nos contava? Depois de as ouvir, eu até costumava ter sonhos maus.

 

- Contudo, ela não é o tipo de pessoa que se pensaria ser dada a fantasias - retrucou Marion com uma expressão cismadora. Como tu dizes, por vezes ela parece ter vistas estreitas. Mas é uma mulher muito prática e independente. O que sempre foi forçada a ser... durante muitos anos teve de ganhar para a sua própria subsistência.

 

- O que é que ela fazia... trabalhava num escritório, não é verdade?

 

- Era assistente de um advogado, o que tu devias saber. O pai estava sempre a dizer que ela devia ter tirado o curso de Direito, que tinha cabeça para isso. Porém, nesses tempos, as raparigas não tiravam cursos universitários. Ele foi o que teve mais estudos.

 

- Em princípio, as raparigas eram para casar. Pergunto a mim mesma por que motivo é que ela nunca casou. Quando nova, era bastante bonita. Talvez um pouco severa, mas bonita. Não que os retratos a preto e branco nos digam muita coisa.

 

- Ora bem, o facto de a Mamie ter decidido ir viver com ela não ajudou muito para que isso se concretizasse.

 

- Oh, nessa altura já ela ia a caminho dos quarenta - lembrou Eleanor. - Ela é... o quê? Uns sete ou oito anos mais velha do que o pai?

 

- Mais ou menos o mesmo que a Mamie.

 

- Com a diferença de que parece beneficiar de uma juventude perpétua. Até certo ponto - acrescentou Eleanor.

 

- O que tu queres dizer é infantilidade - atalhou Marion com um sorriso.

 

- Eu não sou assim, pois não? - exclamou Eleanor. - Não decidi ir viver para perto de ti porque não sou capaz de gerir a minha própria vida sozinha?

 

- Não sejas tola. Tu vives na tua própria casa, completamente independente. Além do mais, tens a Claire. Acho que o facto de termos filhos nos torna mais maduras, o que é uma consequência inevitável da maternidade. A Mamie nunca teve filhos. Não parece ser capaz de fazer seja o que for sem a Alice, não concordas?

 

Alice, porém, mantivera-se distante de Mamie depois da ceia de Natal, o que não passara despercebido a Eleanor. Mamie sentara-se diante do televisor e Kirsty havia-se aninhado junto dela. Alice ainda ficou na cozinha, onde tudo já tinha sido arrumado, com a louça guardada nos armários. A carcaça do peru fora colocada em cima da mesa, assim como o que restara do pudim de Natal, os brindes que haviam saído dos doces. Mamie levara os chocolates para a sala de estar onde as crianças se tinham instalado, com John a passar pelas brasas na sua poltrona; Marion fora obrigada a sentar-se diante da lareira. Apenas Eleanor e David é que haviam ficado na cozinha com Alice. David servira um uísque para si mesmo.

 

- Alguém quer? - perguntou, erguendo a garrafa.

 

- Para mim, não - declinou Alice com um estremecimento.

- Deus me valha, não era capaz de tocar numa gota de álcool. Seja como for, não sou capaz de beber uísque, para mim é como se fosse um remédio.

 

Exactamente - replicara David com uma careta risonha.

 

- Eu também não, obrigada - recusou Eleanor com um abanar de cabeça.

 

Pouco depois, Alice despiu o avental, pendurando-o atrás da porta da despensa.

 

- Ora vamos lá a saber, quem é que quer ir apanhar um pouco de ar fresco? - Olhou para David enquanto este erguia o copo.

 

- Uma coisa muito má para a saúde - ironizou ele -, o ar fresco. Por mim, não; acho que vou adormecer defronte de um programa horrível qualquer que a televisão esteja a transmitir. Em princípio, é o que se deve fazer no dia de Natal.

 

Eleanor deduziu que Alice tinha ficado decepcionada. À luz crua da cozinha, parecia mais velha, com uma pele esbranquiçada e o cabelo agora quase completamente grisalho. Durante vários anos (e quando é que teria deixado de ser assim?) continuara a ter muitas madeixas de cabelo castanho-escuro.

 

- Se quiser, eu vou consigo - ofereceu-se Eleanor.

 

Os olhos cinzentos de Alice pousaram-se em Eleanor, embora não parecessem estar a vê-la com olhos de ver.

 

- Se te apetecer, minha querida - replicou ela. - Não quero afastar-te da televisão se...

 

- Não, não tem importância. Acho que até me está à apetecer tomar um pouco de ar fresco.

 

Quando ela e Alice saíram da cozinha para darem o seu passeio, David servia-se de outra bebida.

 

- Ele anda a beber de mais - disse Eleanor a Alice quando começaram a percorrer o caminho particular. - Está na altura de ele arranjar um emprego certo.

 

- Ele disse-me que já arranjou trabalho - retrucou Alice, que parecia satisfeita com essa perspectiva. - Diz que dentro em pouco vai para Edimburgo... que já arranjou um apartamento, ao que parece.

 

- Que tipo de emprego? - perguntou Eleanor, que não acreditava. Ele não lhe dissera nada a esse respeito, nem tão-pouco a Marion.

 

- Seguros. - David comunicara aquilo às tias porque lhe parecera que fosse uma profissão respeitável e segura. Não havia garantia nenhuma de que isso correspondesse minimamente à verdade.

 

- Ele voltou a ser, uma vez mais, como era - continuou Alice -, agora que rapou aquelas barbas horríveis.

 

- Pelo menos ficou com uma aparência mais jovem - concordou Eleanor.

 

O dia estava a chegar rapidamente ao fim quando alcançaram os portões, saindo para o caminho rural.

 

- Que direcção é que devemos tomar? - perguntou Eleanor ao ver que Alice hesitava. - Talvez pudéssemos ir pelo caminho que vai dar à Mains, dando a volta por detrás dos correios. Mas não me parece que tenhamos tempo para uma caminhada dessas. Não tarda que se faça noite.

 

No entanto, Alice queria apenas dar um pequeno passeio ao longo do caminho, fazendo o mesmo percurso no sentido inverso. De repente, ficara com um aspecto de cansaço e o ritmo da sua passada, que até então fora enérgico, abrandou substancialmente. Quando chegaram à curva onde havia um desvio para a Mains, ela deteve-se, apoiando-se ao poste de uma vedação.

 

- Está a sentir-se bem, tia Alice?

 

A interpelada não respondeu durante uns momentos. Com alguma dificuldade, recuperou a respiração. Sentindo-se alarmada, Eleanor estendeu a mão para a amparar.

 

- Estou bem, cachopa - respondeu por fim, dando uma pancadinha na mão de Eleanor e avançando um ou dois passos. Talvez fosse melhor voltar para trás, não achas?

 

- Tem a certeza de que se encontra em condições de caminhar? - ”E se não estiver?”, perguntou a si própria, receosa. ”O que é que poderei fazer?”

 

Contudo, Alice já principiara a andar num passo estável e a respiração começava a normalizar-se.

 

- Estou bem, não há razão para te preocupares. De vez em quando sinto-me um bocado esquisita. - Fitou Eleanor com um olhar penetrante. - Não quero que digas uma palavra à Mamie a este respeito. Ela ficaria terrivelmente preocupada, nunca mais haveria de se calar.

 

- No entanto, talvez fosse boa ideia ir ao médico, não lhe parece?

 

- Já fui.

 

- Oh!

 

- Não há motivo para preocupações - acrescentou Alice num tom de voz em que tentava retirar importância ao assunto. Decorridos uns momentos, acrescentou: - E quanto à Ruby... foste visitá-la?

 

- Fui ontem. Tinha a intenção de a convidar para jantar connosco, mas ela já fora convidada pelas pessoas que agora tomam conta dos correios. Fiquei com a impressão de que é muito amiga deles.

 

- Ora, a Ruby não estaria à espera de ir a lado nenhum para a ceia de Natal - atalhou Alice. - Chegou a altura de ela arrumar as botas.

 

Entretanto, tinham chegado aos portões, voltando a percorrer o caminho de acesso à casa, mas desta feita num passo mais lento. Na semiescuridão, Pitcairn cintilava com a luz que vinha do interior: parecia que todas as janelas estavam iluminadas. ”A casa devia estar sempre assim”, pensava Eleanor, ”Cheia de gente, cheia de vida.”

 

- Porque é que as luzes estão todas acesas? Esta gente nova não pensa nas contas da electricidade - comentou Alice com um abanar de cabeça. - Acho que o teu pai devia vender esta casa. O que devia ter feito logo que a tua mãe faleceu. A Mamie e eu temos muito espaço em nossa casa... não que eu esteja a sugerir que ele venha viver connosco. Mas podia arranjar um pequeno apartamento confortável na cidade, perto de nós, para que pudéssemos ficar de olho nele.

 

- Oh, tia Alice! - exclamou Eleanor sem poder evitá-lo. Sabe muito bem que ele detestaria isso... O meu pai adora esta casa. ”E seja como for”, pensou para com os seus botões, ”quem é que deve ficar de olho em quem?”

 

- Como queiras - ripostou Alice, parando; ambas ficaram a olhar para a casa. - Era um belo retiro, para os dois. - Havia qualquer coisa na entoação da voz dela que se poderia classificar de irritação. Eleanor aguardava, interrogando-se. Pouco depois, Alice dirigiu-se para casa e ela foi atrás da tia.

 

Na viagem de regresso, Eleanor teve vontade de contar este episódio a Marion, mas, depois de o ter revisto em pensamento, já Marion estava demasiado sonolenta. Assim, concentrou os pensamentos na sua casa e no Hogmanay que estava à porta.

 

- O que é que tencionas fazer? - perguntara ela a David.

 

- Vou a uma festa - respondeu ele. - O Phil e o sócio vão dar uma festa em Perth. E depois seguimos para Edimburgo.

 

- Pensei que ias formar uma sociedade com o Phil?

 

- A namorada dele meteu-se no assunto, uma coisa assim.

 

- Oh, estou a ver, uma sociedade dessas.

 

- E quanto a ti... vais para casa da Marion? Ou vais sair com um namorado?

 

- Pára de tentar tirar nabos da púcara. Não tenho nenhum namorado.

 

- E quanto a esse tal Andrew?

 

- Ele é simpático, mas há um pensamento que não me sai da cabeça: por que razão com trinta e muitos anos ele ainda está solteiro?

 

- Realmente, isso é bastante misterioso.

 

- Mas adiante - continuou Eleanor abanando a cabeça. Também me pergunto o mesmo a teu respeito. Mas tu já... bem, tanto quanto sei já viveste com, pelo menos, uma mulher. Não que alguma vez o tenhas admitido. Mas o Andrew é diferente. É o tipo de homem sólido em quem se pode confiar. O material de que os maridos são feitos.

 

- Perfeito - ripostou David.

 

- Estás a ser sarcástico.

 

- Bem, estou mesmo a ver-te... a fazeres a mesmíssima coisa outra vez.

 

- O quê?

 

- Isso agora não interessa.

 

- O quê?

 

- Deixa isso... Desculpa. Peço desculpa por te ter perguntado sobre a passagem de ano. Sei que é um dia que detestas.

 

- É verdade, David, odeio. E também sabes por que razão.

 

- Sim, mas talvez devesses ser mais como eu... pôr isso para trás das costas. Continuar em frente.

 

Claro que sim, exactamente o que ele fizera. Continuar em frente. David não levava o passado consigo, ao contrário do que ela fazia. Punha-o para trás das costas. As coisas não haviam resultado; alguém o tinha deixado ficar mal; o banco recusava-se a emprestar-lhe o dinheiro de que precisava; ele encontrava-se sempre à frente dos tempos, ninguém ainda estava preparado para o que ele tinha a oferecer. Nunca nada era por sua culpa: nada a apontar-lhe, nenhum vestígio de responsabilidade alguma vez se agarrava a David. Até mesmo em relação à morte de lan, nunca passara pela cabeça de Eleanor culpar David, o sentimento de culpa que ela própria experimentava era de tal maneira avassalador que não deixava lugar a outras ideias. Fora Marion quem dissera: ”Ele traz a tragédia consigo, ainda não te apercebeste disso?”

 

Naquele momento quando Marion se pôs a bocejar e a espreguiçar-se, recomeçando a falar, disse como se tivesse ouvido os pensamentos de Eleanor:

 

- Estou contente por o David ir passar o Hogmanay fora. Ele que leve a sua má sorte para outro lugar qualquer. Que não venha estragar o nosso Ano Novo.

 

- Marion!

 

- Desculpa. Estava para aqui a dormitar. Tive um sonho estranho acerca do ano em que o Timmy morreu. - No assento de trás do carro, as raparigas também se agitaram, despertando da sua sonolência. Marion chegou-se a Eleanor, dizendo-lhe em voz baixa:

- Desculpa. Estou a ficar enervada por causa da ida ao hospital na próxima semana. É uma perspectiva que está a deixar-me acabrunhada.

 

- Eu sei. Não tem importância - retorquiu Eleanor, estendendo a mão e tocando afectuosamente no joelho da irmã.

 

- Onde é que estamos? - perguntou Claire ainda com uma voz sonolenta, como se estivesse a lamuriar-se. - Espero que não falte muito para chegarmos a casa.

 

- Sim - afirmou Eleanor numa voz tranquilizadora. - Estamos quase a chegar a casa.

 

Logo que entrou em casa, por sua vontade, Claire teria saído imediatamente, desta feita, para ir a casa de Sarah.

 

- Então, vou só telefonar-lhe, mãezinha. Eu prometi ligar-lhe assim que voltássemos.

 

Eieanor deteve-se no corredor estreito da pequena vivenda, começando a abrir a correspondência que fora entregue da véspera do dia de Natal, protelando a tarefa enfadonha que era desemalar as coisas que levara para casa do pai.

 

- Está bem - retorquiu, embora não estivesse a prestar atenção ao que a filha lhe dizia. Recebera um cartão de boas-festas de uma vizinha dos tempos em que vivera em Heatherlea, a única amiga dessa altura com quem continuava a manter contacto. Era acompanhado de uma pequena missiva em que ela lhe dava notícias dos filhos, do emprego e das férias que passara em Cornwall. Fora dactilografada; todos a quem enviara cartões de Natal teriam recebido a mesma mensagem: OJoe e eu divorciámo-nos na Primavera. Tem sido um ano difícil, mas, apesar disso, consegui ficar com a casa porque fui promovida em Outubro. Espero que a vida te esteja a correr bem. Barbara.

 

Por detrás das palavras, nas entrelinhas, sentindo um aperto no coração, Eleanor ficou a saber dos gritos intercalados de silêncios prolongados, discussões cheias de azedume, uma história de vida que não lhe fora contada. Joe e Barbara. Decorrido tanto tempo, mal era capaz de recordar as feições de qualquer um dos dois, não obstante ter mantido uma amizade bastante íntima com ambos durante os primeiros anos de vida de Claire e Hannah. Sempre achara que Barbara era uma pessoa mais competente e de personalidade mais vincada do que Joe; no entanto, haviam parecido dar-se bem, ficando-se com a impressão de que teriam sido um casal feliz. Os casamentos das outras pessoas, pensou ela, tantos segredos. Pousou o resto das cartas, sem disposição para as abrir.

 

Não tencionava dizer nada a Claire sobre aquele assunto, não havia necessidade. Contudo, ansiava por fazer isso mesmo. Naquilo em que ela pensava agora como sendo a vida de antigamente de ambas, Claire e Hannah eram inseparáveis, indo sempre juntas para as lições de balé aos sábados e à natação nas noites de quinta-feira. Claire era a única pessoa com quem ela podia falar sobre essa outra vida. Contudo, esta estava embrenhada numa grande conversa ao telefone, tendo-se instalado no quarto da mãe. Irritada com o total alheamento da filha, que ignorava a sua presença, Eleanor pousou a sua mala de viagem no chão e desceu para a cozinha; ligou o Rayburn e depois foi acender a lareira na sala de estar.

 

- Devíamos ter a nossa própria árvore - comentou Claire que, finalmente, se dignou sair do quarto, enquanto Eleanor se via a braços com uma chaminé que não estava a extrair o fumo como devia ser. - A casa tem um aspecto francamente desleixado. Por que motivo há este cheiro tão intenso a fumo?

 

- Queres fazer o favor de calar a boca, Claire? E vai buscar-me umas folhas de jornal... depressinha! Deus queira que não haja nada a entupir a chaminé. Porque será que está a deitar tanto fumo? Ergueu uma folha de jornal diante da grade de protecção da lareira, sentindo-se sufocada devido ao fumo e com uma sensação de derrota que a irritava.

 

- Mãezinha, posso... - Claire interrompeu-se, hesitante, apercebendo-se de que aquela não era a melhor altura. - Vou desemalar as minhas coisas, de acordo?

 

- Sim, sim, vai arrumar. - Finalmente, a lareira dava a impressão de querer pegar. Eleanor afastou a folha de jornal da lareira, amachucou-a e atirou-a para as chamas, onde se ateou de imediato. Em seguida, subiu para o quarto e começou a arrumar as suas coisas.

 

Ao fim da tarde, sentia-se tão desassossegada como Claire, tendo concordado em levá-la de automóvel a casa de Sarah. Quando a convidaram para tomar um café, aceitou com prazer. Entretanto, Claire e Sarah desapareceram no quarto desta última. Eleanor sentou-se na confortável sala de estar de Andrea onde dois labradores de pelagem de um castanho-dourado se haviam instalado junto da lareira onde estava mais quente; o pêlo dos cães tinha um cheiro desagradável, molhado e a secar depois de um passeio ao ar livre. Junto da janela de sacada havia uma árvore de Natal e em cima da mesa viam-se várias caixas de chocolates. Eleanor ouvia o barulho (gritos e bipes) de duas crianças pequenas, que não deviam estar muito longe, que se entretinham com um jogo de computador.

 

Andrea começou a falar do Natal e dos familiares mais idosos, dizendo também que não sabia o que fazer com toda a comida que restara da consoada. Eleanor tomou um café que acompanhou com duas fatias de bolo. Em tempos, Andrea fizera com que se recordasse de Barbara: bom gosto, dinheiro suficiente para todas as pequenas bugigangas decorativas nos peitoris das janelas, cuidadosamente escolhidas por serem invulgares. O marido de Andrea estava a fazer qualquer coisa na garagem, com a ajuda do irmão mais velho de Sarah. De quando em vez, vinha à sala para perguntar qualquer coisa, voltando a sair. Havia uma atmosfera naquela casa, a qual também se reflectia na calma de Andrea e na sua voz plácida, que indicava que tudo corria pelo melhor, que nada era sujeito a grandes alterações.

 

Eleanor sentiu-se avassalada por um sentimento de nostalgia, ansiando por ir para casa, regressar à pequena vivenda (onde, muito provavelmente, as chamas já se teriam extinguido na lareira), apetecendo-lhe estar sozinha com a filha. Claire mostrou-se amuada quando a chamaram, não querendo ir para casa.

 

- Vamos dar uma festa no Hogmanay - informou Andrea enquanto mãe e filha vestiam o casaco já à porta da frente. - Faria muito gosto em que vocês as duas viessem... A Sarah tenciona convidar algumas amigas.

 

- Oh, mãezinha, por favor. A Sarah quer que eu... Posso vir, não posso?

 

- Depois vê-se. Mas o mais provável é poderes vir à festa.

 

- Mas a Eleanor também vem, não é verdade? - insistiu Andrea, dando-lhe uma palmadinha amigável no braço.

 

- É possível que eu passe o Ano Novo em casa da Marion. Mas é muito simpático ter-me convidado para a sua festa.

 

- Se lhe apetecer, pode aparecer à vontade... não precisa de me avisar com antecedência. Por volta das oito da noite.

 

- Eu não sou obrigada a ir a casa da tia Marion, pois não? perguntou Claire numa voz persistente quando as duas já seguiam a caminho de casa.

 

- Não, não és obrigada a ir. Podes ir à festa em casa da Sarah.

 

- Mas eu quero que a mãe também venha... A mãe da Sarah quer que venha. E eu também. Porque é que a mãe não pode vir comigo à festa?

 

- Pode ser que me decida a ir, ainda não sei - replicou Eleanor. Fez-se um silêncio de algum mal-estar.

 

- Sei que não gosta do Hogmanay. Se preferir, não me importo de ficar em casa, mãezinha.

 

- Vais ver que estarei lindamente - tranquilizou-a Eleanor num timbre de voz muito mais afectuoso, sentindo-se envergonhada.

- É muito possível que acabe por aceitar o convite da Andrea... É-me indiferente. Até podes dormir em casa da Sarah, se quiseres.

 

- Tem a certeza?

 

- Claro que sim.

 

Não se sentia com disposição para ir a festas, como seria de esperar. Num pequeno frasco, que guardara na gaveta das meias e da roupa interior, restavam-lhe dois comprimidos para dormir. Desde a morte de lan que ela fazia a mesma coisa em todas as noites de passagem do ano: tomava um comprimido para dormir e ia para a cama. Na manhã seguinte, já estava no dia de Ano Novo e a noite tristonha ficara para trás. Até agora, Claire era muito novinha para querer ficar a pé. No ano anterior, Fergus e Marion tinham convidado algumas pessoas para passarem o Hogmanay em sua casa e ela e Claire tinham ido até lá. Podia-se dizer que a noite havia sido tolerável. Mas, apesar de ter ido, Eleanor insistira em sair antes da meia-noite, tendo deixado Claire com Eilidh e voltado sozinha no seu automóvel, para casa, onde se encontravam os soporíferos que lhe proporcionariam uma boa noite de sono. Não bebera nada antes nem depois. Qualquer que fosse a ocasião, durante os últimos cinco anos nunca bebera mais do que um copo de vinho ou um uísque. David, como seria de esperar, decidira enveredar pela outra opção, bebendo cada vez mais: continuavam a procurar o olvido, uma maneira que os impedisse de se concentrarem nos seus pensamentos.

 

Este ano, dissera a Marion: ”É possível que eu decida ir à festa da Andrea”, mas, para si própria, proferira: Tenciono ir para a cama. No fim, nem sequer levou Claire à festa: havia outra mãe que levaria a filha de automóvel e combinaram que pelo caminho pararia em casa de Eleanor. Já com a mochila e o saco-cama, Claire ainda hesitou quando chegou à porta.

 

- Tenciona ir até lá mais tarde, mãezinha? A mãe e o pai da Michelle disseram que iam.

 

- Não me parece.

 

- Isso quer dizer que tenciona ir a casa da tia Marion? Com certeza que não está a pensar em ficar sozinha em casa?

 

- Não, não fico. E agora só tens de pensar em divertir-te... Amanhã telefona-me se quiseres que eu te vá buscar.

 

- Só lá mais para o fim do dia. Vamos ficar a pé até muito tarde - declarou a garota, inclinando-se para a frente e dando um beijo apressado à mãe. - Feliz Ano Novo, mãezinha.

 

Eleanor abraçou-a por breves momentos, saboreando a doçura dos cabelos e da pele da filha; depois, Claire soltou-se, pondo-se a caminho; pouco depois, o carro desapareceu pela estrada fora.

 

A casa de Jim e Edie estava às escuras, com as luzes da árvore de Natal desligadas. O casal havia ido para casa da irmã de Jim, em Aviemore, estando previsto que só regressassem dentro de dois dias. A pedido deles, Eleanor ”ficara de olho” na casa. Defronte da última moradia, encontrava-se um Saab já antigo e na janela da frente via-se luz. O homem de cabelos cor de cenoura, que fora abandonado pela mulher, devia estar a passar o Hogmanay sozinho. Por uns instantes, Eleanor sentiu-se invadida pela curiosidade, mas logo a seguir desinteressou-se. Voltou a entrar em casa.

 

À noite, porém, ameaçava eternizar-se e o livro que andara a guardar para ler nessa altura provou ser uma desilusão. Acabou por se decidir a sair para andar um pouco a pé, caminhando até aos portões da quinta, após o que regressaria pelo mesmo caminho. Deteve-se quando chegou à porta da frente de sua casa, a pensar se deveria fazer aquilo ou não. A noite estava estrelada e o céu limpo com a Lua a três quartos, muito luminescente e cheia. Diante da vivenda do fundo, o Saab azul tinha as luzes ligadas. Queria aquilo dizer que o homem se preparava para sair? Ao que tudo indicava, afinal não passaria a noite sozinho... teria uma festa a que tencionava ir, familiares ou amigos com quem estar. Então, quando transpôs a porta, apercebeu-se de que não havia ninguém dentro do automóvel e a porta da moradia estava fechada. Ele devia ter saído e voltado, tendo-se esquecido de desligar as luzes. Eleanor vestiu o casaco e saiu de casa.

 

Quando chegou à última moradia parou. Se a intenção dele fosse passar aquela noite em casa sozinho, o que parecia ser o caso, só lá para o fim da manhã seguinte é que voltaria a sair, altura em que teria a desagradável surpresa de verificar que tinha a bateria descarregada. Eleanor pousou a mão no portão, empurrando-o e começando a percorrer o caminho de acesso à casa. Ouviu música que vinha do interior, apesar de não ouvir voz nenhuma. Bateu três vezes à porta. Momentos depois, o homem de cabelos arruivados surgiu à entrada.

 

- Boa noite! - saudou ele. - Entre - convidou, dando uns passos atrás.

 

- Agradeço, mas não posso... Só vim dizer-lhe que se esqueceu de desligar as luzes do carro.

 

- É verdade - replicou o homem, espreitando pela porta. Agradeço por me ter avisado. - Passou por ela caminhando até ao automóvel; abriu a porta e desligou os faróis. ”Ele é daqui”, deduziu Eleanor, ”vive aqui há já algum tempo”, o que ela concluiu ao ver que o automóvel não estava fechado à chave. Era escocês, mas não foi capaz de perceber de onde seria oriundo.

 

- Permite que lhe ofereça uma bebida? Ou preparava-se para ir a qualquer lado?

 

- Não, saí só para dar um pequeno passeio - respondeu Eleanor.

 

- Um passeio?

 

- A noite está muito agradável - ripostou ela na defensiva.

 

- De facto está - concordou o homem, mantendo-se no caminho junto dela; ambos olharam para o firmamento.

 

- Acho que a acompanharei, isto é, se não houver objecção da sua parte. - Pegou num casaco pendurado num dos cabides de parede do vestíbulo. A casa dele, uma réplica exacta da de Eleanor, tinha um ambiente alegre, com a alcatifa carmim que revestia o soalho das escadas e do vestíbulo, onde se viam várias fileiras de fotografias pequenas, emolduradas, penduradas nas paredes. - Não se importa que eu vá consigo, pois não?

 

- Não, claro que não - replicou ela, mas, verdade fosse dita, havia de admitir que fora apanhada de surpresa, sentindo-se um tanto ou quanto constrangida.

 

Ele fechou a porta só no trinco e ambos começaram a caminhar pelo caminho particular lado a lado.

 

- Chamo-me Gavin Soutar - apresentou-se o homem. E você chama-se Eleanor, não é verdade? Ouvi a Edie tratá-la por Eleanor.

 

Ela apercebeu-se de qualquer coisa que fez um voo rasante por cima da sua cabeça, tão baixo que parou sobressaltada.

 

- O que era aquilo? - perguntou em voz alta.

 

- Não se inquiete... parece-me que foi um morcego - elucidou ele, pousando a mão no braço dela. - Decerto que devem andar mais alguns por aí. - Eleanor ficou parada junto dele e pouco depois surgiram mais dois ou três morcegos, de tamanho ínfimo, saídos das árvores e voando por cima da cabeça dos dois. Não tardaram a desaparecer.

 

- Não me diga que ficou assustada?

 

- Não, nem pensar. Só rui apanhada de surpresa, mais nada.

- Começou a pensar nos morcegos que costumavam voar pelo sótão de Pitcairn e em David aos gritos, sempre que algum lhe passava a rasar a cabeça.

 

- Há quanto tempo é que vive aqui? - perguntou ele, quando já caminhavam pela beira da estrada.

 

- Há mais de quatro anos e meio. Antes de me mudar para aqui, vivia no Berkshire.

 

- O que é que a levou a optar pelas Highlands? Nasceu aqui?

 

- Não, não nasci, mas a minha irmã habita perto, pelo que me pareceu ser o melhor sítio para viver com a Claire, a minha filha. Nessa altura, ela tinha apenas nove anos e a Eilidh, a prima, a mesma idade.

 

- A Claire é a miúda loura de pernas altas?

 

- Precisamente.

 

- A outra loura de pernas altas.

 

Estaria ele a tentar arrastar-lhe a asa? Eleanor não tinha a certeza. Já haviam chegado aos portões da quinta e se ainda fosse dia, poderiam avistar o estuário. À luz da Lua, Eleanor só conseguia distinguir os reflexos do luar na superfície da água.

 

- Quer continuar a caminhar? - perguntou Gavin.

 

- Estava a pensar que conseguiria ver o estuário. Mas talvez não. Este é o meu passeio preferido, até aqui e por este caminho adiantou Eleanor, apontando para o percurso a que estava a referir-se, para lá da quinta, pelo cimo da colina. - A vista é magnífica e por ali pode-se ir até ao Miradouro de Neil Gunn.

 

- Sei que sim - corroborou ele. - E você tem toda a razão... a vista é lindíssima. - Ambos se deixaram ficar em silêncio por uns momentos, olhando para a panorâmica que à noite não se conseguia avistar. - Vamos - incitou ele pouco depois -, está um frio de rachar. Venha até minha casa para partilhar comigo uma garrafa de vinho.

 

- Bem...

 

- Está a apetecer-me ter um pouco de companhia - acrescentou, fitando-a, do que Eleanor se apercebeu, mas não ergueu o olhar para os olhos dele; em vez disso, retomou o caminho de regresso às vivendas. - Quem sabe... talvez lhe apeteça também ter um pouco de companhia - continuou ele, ajustando a passada à dela. - Ou estava a planear sair mais tarde? Onde é que a encantadora Claire foi?

 

- Foi a uma festa. Em casa de uma amiga.

 

- Esta é a pior noite do ano - afirmou ele -, ou talvez seja a melhor. Depende do lugar onde se decida passá-la ou da pessoa com quem se estiver.

 

Eleanor não lhe deu réplica, incapaz de dizer fosse o que fosse em que teria de admitir qualquer coisa. Seguiu-o até casa dele. Chegada à sala de estar, do mesmo tamanho e configuração da sua, mas que apesar disso era bastante diferente, parou na ombreira da porta. A sala era iluminada por uma luz difusa, cheia de sombras que tremeluziam, projectadas por uma dúzia, ou mais, de velas colocadas na prateleira da lareira, em cima da escrivaninha, nas estantes e à volta do perímetro do soalho, entre a carpete e o rodapé.

 

- Você saiu e deixou estas velas todas acesas?!

 

- Está a pensar que agi de modo estúpido... que é perigoso?

 

- E se por acaso uma das velas tivesse tombado para o soalho?

- perguntou Eleanor.

 

- Tem toda a razão - admitiu ele com uma expressão acabrunhada.

 

- Dão um ambiente maravilhoso... só que... são tantas... O que o levou a acender tantas velas?

 

- Ora - proferiu ele com um encolher de ombros -, sabe como é. Um desafio à escuridão - justificou, pegando numa garrafa de vinho tinto meio cheia que estivera junto da lareira. - Mas é melhor sentarmo-nos, não acha?

 

À luz das chamas das velas e da lareira, pela primeira vez Eleanor pôde observá-lo com clareza. Era magro e parecia estar em boa forma física, uma cabeça mais alto do que ela. Entretanto, ele ofereceu-lhe um copo de vinho.

 

- Ora bem, vamos lá a pôr este ano horrível na rua, bebamos as borras que nos deixou - disse ele, sentando-se no chão diante da lareira, de pernas cruzadas e erguendo o copo num brinde.

 

- Isso quer dizer que teve um mau ano?

 

- Bem, para lhe ser franco, tenho de dizer que as últimas semanas não foram... - interrompeu-se com outro encolher de ombros e um sorriso, dando a impressão de que aquilo lhe era indiferente.

 

Vendo que ele não tencionava acrescentar mais nada, depois de ter tomado um pouco do vinho agradável e aveludado, ela adiantou:

 

- Ultimamente tem vivido sozinho, não tem? A sua mulher... foi para fora?

 

- Ora, deixe-se disso - redarguiu ele, rindo-se. - Tenho a certeza de que a Edie já a pôs a par de tudo. Fui abandonado. AKate foi-se embora... voou para fora do ninho.

 

- Oh, lamento muito.

 

- Não tem importância. Pelo menos uma vez na vida, toda a gente devia passar um Hogmanay sozinho, não lhe parece? Quanto mais não seja, pela experiência - acrescentou ele, preparando-se para lhe encher o copo.

 

- Não, estou bem assim. Nos últimos tempos quase deixei de beber.

 

- Com a diferença de que, como é evidente - continuou ele, ignorando o que ela lhe dissera -, ao fim e ao cabo, não estarei sozinho. Não está com pressa de se ir embora, pois não? Vai fazer a passagem do ano comigo, de acordo?

 

- Sim, está bem. - Como é que ela poderia deixá-lo? Era muito possível que Gavin não se sentisse tão animado como pretendia aparentar, talvez se sentisse muito infeliz se ela o deixasse sozinho. Dava a impressão de estar ansioso por que ela ficasse. Portanto, talvez, a despeito de tudo, ela fosse capaz de passar aquelas últimas horas, bastante sombrias, acordada, dando pela passagem delas. Eleanor tentou descontrair-se, recostando-se nos almofadões do sofá.

 

- Este vinho é muito agradável - comentou ela.

 

- O meu pai sempre gostou de um bom borgonha.

 

- O seu pai?

 

- É o que ele costuma oferecer-me todos os Natais. Uma caixa de vinho.

 

- Que maravilha, logo uma caixa!

 

- Ele sabe que será deveras apreciado - replicou Gavin, inclinando-se para ela. - Tome mais um pouco deste belo vinho.

 

- Não, a sério que não, ultimamente, mal tenho tocado...

 

- A ceia festiva foi em casa do meu velhote - continuou ele.

- E você, onde é que passou a noite de Natal?

 

- Eu também fui a casa do meu pai - respondeu Eleanor. Toda a família esteve presente... a minha irmã, a família dela, as minhas tias, a Claire, eu e o meu irmão.

 

- Deve ter sido uma grande festa.

 

- De facto, foi. E a sua consoada...

 

- Apenas eu e o meu pai.

 

- E a sua mãe...

 

- Saiu de casa, já lá vão muitos anos. Fartou-se das parlapatices do meu pai. Actualmente, está casada com outra pessoa.

 

Eleanor não sabia bem o que pensar daquela confidência. Parecia-lhe uma maneira deveras estranha de alguém falar dos seus pais.

 

- Suponho que cada família seja diferente - optou por dizer.

 

- Portanto, a sua mulher... ela...

 

- Não éramos casados.

 

- Peço desculpa, pensei que...

 

- Não. Não chegámos a ir tão longe. De facto, só começámos a viver juntos há um ano.

 

- Tenho um irmão que é como você - disse Eleanor, trocista.

 

- O David. Não pára em lado nenhum, recusa-se a assumir qualquer compromisso. Seja com quem for.

 

- É a doença dos homens modernos; não é isso que está a pensar?

 

- Ora bem, não são assuntos que me digam respeito. Você e a... Kate. No entanto, com certeza que esteve apaixonado por ela prosseguiu Eleanor, cada vez mais bem-disposta por causa do vinho que, de facto, era muito bom, sem pensar na quantidade que já lhe havia servido, não se dando conta das vezes que ele voltava a encher-lhe o copo, que, por sinal, era bastante grande.

 

- Claro que sim, durante algum tempo - admitiu ele, acabando o vinho que restava na garrafa, dividindo-o pelos copos dos dois. - E quanto a si?

 

- O quê, quanto a mim? - perguntou Eleanor.

 

- A sua vida, os seus amores, os seus desgostos. Não esqueçamos que estamos no Hogmanay. Falemos do passado, para depois o deitarmos fora. É o que tenciono fazer.

 

- A sério? - perguntou ela, ficando a pensar no que ele dissera, ou tentando pensar. Tinha a sensação de que tudo começava a ficar à distância e em liberdade, como se o mundo se tivesse alargado pelas costuras. - Sim, é isso mesmo. Também tenho de me libertar do passado.

 

- Óptimo. Dispomos... - Gavin interrompeu-se, vendo as horas no relógio de pulso. - Dispomos de mais ou menos uma hora para fazermos isso.

 

Eleanor já tinha deixado de se preocupar com as horas, se bebia muito ou não; isso exigia-lhe demasiado esforço. Com certeza que ali nada lhe poderia acontecer e não adviria mal nenhum ao mundo caso tomasse uns copos de vinho. E, assim, os dois começaram a aquecer diante da lareira, com ela a ouvi-lo falar, apreendendo a maior parte do que ele lhe dizia, rindo-se quando Gavin afirmava alguma coisa que a divertia. Quando deu por si, já era quase meia-noite, o que a abalou um pouco, tomando consciência da hora e do momento.

 

- Temos de ir até lá fora - sugeriu ele, levantando-se do chão. Pegou na mão de Eleanor, ajudando-a a erguer-se do sofá, equilibrando-a quando ela cambaleou um pouco ao sentir os efeitos do vinho.

 

Ambos se detiveram na vereda estreita que atravessava o jardim, continuando com os respectivos copos na mão, à espera que os últimos minutos do ano passassem.

 

- É possível que consigamos ouvir as badaladas do sino - disse Eleanor, sentindo frio e as ideias mais claras no ar gelado da noite.

- Decerto que ouviremos os sinos de Dingwall. A noite está tão calma. - Pouco depois, começaram a ouvir as badaladas da meia-noite que soavam à distância, naquela noite em que nada bulia. Ele baixou a cabeça, dando-lhe um beijo, primeiro, na face fria e depois, inclinando-lhe o queixo para cima com a ponta do dedo, nos lábios, com a boca que ainda estava quente e com sabor a vinho, um beijo suave e demorado, até que ela afastou o rosto, dizendo em voz alta, numa entoação aguda e elevada: - Pois bem, cá vai... Feliz Ano Novo!

 

- Muito bem - disse ele quando já tinham voltado para dentro de casa -, vou abrir a primeira garrafa do novo ano.

 

- Vou ter de ir para casa - adiantou Eleanor com alguma hesitação.

 

- Está a brincar? A noite ainda é uma criança. Não me deixe já. Sentir-me-ei tristonho e começo logo a pensar na Kate.

 

- Está bem, de acordo... mas só fico mais um bocadinho. Desta vez, ele sentou-se junto dela, no sofá. Algumas das velas já se haviam derretido por completo, extinguindo as chamas. As que restavam como que tremeluziam a medo, muito embora a maior parte da luz viesse das chamas da lareira a que, entretanto, ele acrescera mais toros.

 

- Com certeza que existirá alguma razão... - começou ele a dizer, voltando a encher-lhe o copo. - Quer dizer, uma razão em especial, que a leve a não gostar desta noite?

 

- Ora... - Eleanor não se achava capaz de lhe dar resposta, nem tão-pouco de pensar.

 

- Descontraia-se - continuou ele. - Não creio que em toda a minha vida alguma vez tenha beijado uma mulher tão tensa.

 

- Eu não estou... Eu... - Eleanor deteve-se. Ele tinha uns olhos cor de avelã; as rugas finas emprestavam-lhe uma expressão de bom humor, de troça. Parecia-lhe que o rosto dele estava muito próximo, cheio de simpatia. ”Vou dizê-lo”, pensou ela sem sentir o mínimo pejo. - O meu marido morreu no Hogmanay. E tem razão, detesto as passagens de ano. Nem sequer sei porque é que estou aqui, como é que sou capaz de me aguentar. Devo estar... Devo estar embriagada.

 

- Não quer contar-me o que aconteceu?

 

- Não. Nunca mais quero voltar a pensar nisso - ripostou ela com os olhos rasos de lágrimas, vendo as feições dele desfocadas; ele e as chamas da lareira transformaram-se num prisma de cores radiantes sem qualquer significado.

 

- Sabe de que é que eu gostaria?

 

- Não. De quê? - perguntou Eleanor, pestanejando com força e deixando que as lágrimas lhe corressem pelas faces; pelo menos voltara a conseguir focar a visão, distinguindo-lhe a fisionomia com nitidez contra o clarão das labaredas, um contraste escuro.

 

- Gostaria de fazer sexo consigo, neste preciso momento confessou ele.

 

Eleanor não lhe deu resposta. Parecia-lhe impossível conseguir ter um pensamento coerente, incapaz de articular o que quer que por acaso lhe ocorresse à mente. Ficou a olhar para ele, mas pareceu-lhe que ele era alguém que se encontrava muito à distância, como se o avistasse através de um longo túnel. Imobilizada, Eleanor raciocinou que algures, muito no fundo do seu pensamento, deviam existir palavras, uma frase, uma maneira de lhe poder responder. E nessa parte consciente, que se mantinha num rodopio constante, deu-se conta de que estava muito embriagada.

 

- Peço desculpa - disse Gavin. - Estou a comportar-me de uma maneira absolutamente grosseira. Peço-lhe que me desculpe.

 

Quando ele começou a aproximar-se dela, a luz das chamas a reflectir-se no cabelo sedoso emprestava-lhe rubor às faces: todo ele tremeluzia, como que lançando centelhas de desejo por ela, em cambiantes de ocre e dourado. Na garganta de Gavin, onde o colarinho estava desabotoado, ela viu uma ligeira pulsação, por baixo dos pêlos encaracolados, como fios de cobre. Eleanor cheirava o vinho tinto no hálito de Gavin, sentindo o calor intenso que irradiava do corpo dele, tão forte que tinha a sensação de estar a ser aquecida pela sua pele e não pelo calor que irradiava da lareira. Estava a sentir-se entontecida; fechou os olhos.

 

Quando acordou, Eleanor sentia o corpo rígido e frio; o fogo na lareira dera lugar a um monte de cinzas arrefecidas. Lá fora ainda era noite, uma escuridão igual à que reinava dentro de casa, o que lhe permitia ver o céu pontilhado de estrelas e uma fatia prateada da Lua através da janela sem cortinas. Um pouco a medo, começou a mexer-se, como se quisesse certificar-se de que as suas pernas continuavam no devido lugar. Sentiu um pé gelado que se encostava ao outro. Eleanor soergueu a cabeça.

 

Verificou que estava deitada no sofá, coberta pelo que lhe pareceu ser uma manta de viagem, áspera e com muito pêlo, embora fosse tão leve que a sua respiração fazia com que se soerguesse. Sentia o corpo enregelado até ao queixo. Mas, apesar disso, tinha a impressão de que a cabeça lhe escaldava, além de ter a garganta ressequida, sentindo a bexiga muito quente, como se ameaçasse rebentar, dolorosamente inchada. Devagar, começou a levantar-se, fazendo um esforço para se recordar de onde estava, perguntando-se onde é que seria a casa de banho. Tinha sonhado que andava à procura, por um corredor vazio e bastante comprido, de uma sanita que estivesse em boas condições, uma casa de banho cuja porta se fechasse. Continuaria ela a sonhar? Ou, pelo contrário, estaria mesmo a percorrer um corredor estreito, do tamanho e configuração exactamente como o da sua própria casa, se bem que não fosse o seu, indo a uma casa de banho que conseguia estar mais fria do que a sua, decorada em tons de azul-escuro ao invés de cor-de-rosa, onde a um canto havia uma pilha de revistas National Geographic e toalhas sujas por cima da banheira, assim como vários artigos para a barba sobre uma prateleira. Reparou em todos estes pormenores quando se deixou cair pesadamente na sanita, começando a urinar muito e sentindo o cheiro a amónia morna que se evolava como se fosse vapor. Pôs-se de pé, puxando as calças de ganga para cima. Não tinha acontecido nada. Ela devia ter ficado inconsciente e ele decidira deitá-la no sofá.

 

Voltando a sentar-se no sofá, continuando às escuras enquanto tentava descobrir onde é que os sapatos teriam ficado, Eleanor reflectia, procurando chegar a uma conclusão: aquela situação seria a favor ou em desabono dele? O facto de ele ter optado por deitá-la no sofá, após o que teria ido para a sua própria cama. Se é que ele se deitara no quarto. ”Devo continuar embriagada”, pensou Eleanor. ”E porque é que eu não ligo as luzes?” Deteve-se por uns instantes, pondo-se à escuta, mas ouviu apenas o piar de um mocho.

 

Foi então que um dos pés encontrou um dos sapatos. Ali estava ele por fim. Casaco. Na noite anterior, tinha vestido um casaco. Contudo, não era capaz de se recordar de onde o deixara.

 

Desistindo, pelo menos de momento, saiu pela porta da frente, dirigindo-se para a sua própria casa. Quando chegou diante da vivenda de Jim e Edie deteve-se. Uma vez mais, ouviu o piar do mocho acompanhado do roçagar súbito de asas. Sentiu um esvoaçar quase rente à sua cabeça. Mas não conseguira ver que tipo de animal a sobrevoara, o qual, entretanto, desaparecera. Quando ergueu os olhos para o firmamento já era tarde de mais. Como o céu estava límpido e tão cheio de estrelas. O ar estava tão gélido que fazia com que os olhos lhe doessem, além de lhe dificultar a respiração. Mesmo assim, deixou-se ficar por mais um minuto ao frio, como se estivesse a pô-lo à prova, sentindo desconforto, mas, do mal o menos, bem desperta. ”Já estamos no novo ano”, pensou Eleanor. ”Consegui ultrapassar o Hogmanay. Já estou no ano seguinte.” Agora já podia ir para casa e ficar sozinha. Só então é que recomeçou a andar, regressando à sua própria casa. Chegada à porta, que deixara fechada apenas no trinco quando fora a casa de Gavin com a única intenção de lhe dizer que ele se tinha esquecido de desligar as luzes do automóvel, o que acontecera no ano anterior, havia já muito tempo, empurrou-a toda para trás.

 

Já na cozinha de sua casa, Eleanor fez um chá, embora não tivesse bebido muito; em seguida, encheu a chaleira que pôs ao lume para ferver a água com que encheria as botijas de água quente com que se foi deitar depois de ter tomado um comprimido de paracetamol. Achou a fronha extremamente gelada, sentindo a região posterior dos pés e das costas escaldadas porque a água das botijas estava muito quente. Começou a pensar em partes do que tinha sucedido na noite anterior: a caminhada no escuro, as velas e o sabor afrutado do vinho. De tudo o que ele lhe dissera, recordava-se só de uma coisa: Quero fazer sexo consigo. Mas teria ele realmente dito isso? Não fora: Quero fazer amor/ir para a cama/dormir consigo - tudo expressões que ela conhecia. Seria assim que as pessoas hoje em dia se referiam ao assunto? ”Pois bem, não sei dizer”, pensou Eleanor para consigo. Como é que ela poderia saber? Quereria isso dizer que o sexo era algo que se fazia, como um jantar fora ou uma noite em que se saía. Talvez, ao fim e ao cabo, ela tivesse sonhado tudo aquilo. E contudo, dentro de si sentiu como que uma centelha de qualquer coisa que poderia classificar de lascívia. Não que ela também fosse muito conhecedora dessa matéria, decorrido tanto tempo desde a última vez em que experimentara essa espécie de emoções. Sentindo-se envergonhada, Eleanor virou-se, tentando adormecer.

 

É claro que ela desejara o marido, sexualmente, sentindo saudades da sua presença, muito em especial durante as suas ausências, tendo-o surpreendido (talvez mesmo espantado) quando ele regressava e ela o recebia de braços abertos, enlaçando-o pelo pescoço com um entusiasmo que não era frequente ele ver nela. Mas de que teria ela saudades? Agora sabia que sempre anseara por algo que não conseguira encontrar quando faziam amor, a despeito do quanto ele se pudesse mostrar paciente e atencioso. Eventualmente, acabou por aprender a não confiar naquela moinha, um tanto vaga, no calor a estender-se pelas coxas, o fluxo de luxúria que tão traiçoeiro era, uma vez que isso culminava sempre numa frustração tão grande.

 

”Mas consegui ultrapassar isso”, disse para consigo própria, aninhando-se ainda mais debaixo dos cobertores, desviando os pensamentos da imagem de lan que pertencia a um passado perigoso. Estava naquela fase que antecedia um sono profundo, perdendo o controlo da imaginação que enveredava por onde bem lhe apetecia. Sentiu-se percorrida por um pequeno estremecimento, mas finalmente começou a aquecer, conseguindo conciliar o sono.

 

- É um tipo de homem bastante interessante e já fez um monte de coisas muito diferentes. Além de ter opiniões bem firmes a respeito de vários assuntos que jamais me passaram pela cabeça. Eleanor explicava isto, falando de Gavin a Marion. Tinha ido visitar a irmã depois de esta se ter submetido ao primeiro tratamento de quimioterapia. Marion admitiu que não se tratara de uma experiência agradável, reconhecendo, todavia, que não fora tão mau como inicialmente receara que fosse. De facto, estava a sentir-se bastante bem.

 

- Se os tratamentos continuarem assim - dissera ela a Fergus -, não terei grandes problemas.

 

- Veremos. Vamos ver como é que as coisas correm - limitou-se Fergus a dizer, apertando-lhe os ombros numa manifestação de afecto.

 

As duas irmãs estavam na sala de estar da casa de Marion. Durante todo o dia, a geada gelada que cobria o relvado não conseguira derreter e lá fora já começava a escurecer, trazendo consigo um orvalho que era gelo. Marion levantou-se para fechar os cortinados.

 

- Para onde é que disseste que a mulher dele tinha ido? perguntou, voltando a sentar-se, pegando na camisa do uniforme escolar de Ross para pregar um botão.

 

- Eles não são casados. Ela era apenas namorada dele. Na verdade, não sei o que é feito dela. Ele disse-me que tinha ido viver para casa de uma amiga, ou talvez seja uma prima, não me lembro. A vivenda é dele... ela morava num apartamento em Inverness, mas neste momento está alugado.

 

- Uma situação complicada - observou Marion, cortando a linha com os dentes.

 

- Não me pareceu que ele esteja à espera que ela volte adiantou Eleanor com uma entoação de voz de onde transparecia alguma dúvida. Gavin procedia como qualquer homem solteiro sem compromissos, contudo, gostaria de ter a certeza quanto a isso.

 

- Portanto... tens... tens saído com ele? - perguntou Marion à irmã. Estar no hospital era o mesmo que achar-se completamente fora do mundo; até mesmo depois de uma estada que se limitava a uma única noite, era impossível não ficar com a sensação de que muita coisa devia ter acontecido no mundo durante a sua ausência.

 

- Bem, não se pode dizer que tenhamos saído juntos. Quer dizer, praticamente, ele vive na casa ao lado, além de estar de licença em terra até ao fim da próxima semana; por isso, tenho-o visto todos os dias. Ele vem tomar café a minha casa e já me convidou, assim como à Claire, para jantar em casa dele.

 

- Ele sabe cozinhar?

 

- Bem, suponho que sim. Mas isso é o que vamos ficar a saber na próxima sexta-feira. Depois disso, ele andará no mar durante duas semanas.

 

- O que é que ele faz, nas plataformas petrolíferas? - perguntou Marion.

 

- Qualquer coisa que tem a ver com a perfuração e com produtos químicos - respondeu Eleanor, mostrando-se bastante vaga a respeito do assunto. - É um trabalho bastante técnico... mas sei que não tem de usar capacete de protecção nem tem de andar de volta do equipamento pesado da plataforma - acrescentou ela, se bem que não lhe tivesse perguntado nada a esse respeito. O convívio entre os dois limitava-se a conversas sobre literatura, política e às caminhadas pelas colinas, sem nunca terem abordado especificamente o trabalho dele.

 

- Por conseguinte - retorquiu Marion enquanto enrolava a linha à volta do novo botão, dando um último ponto para maior segurança -, conseguiste pôr para trás das costas o horror que sentias por homens de cabelos ruivos.

 

- Isso era coisa da Claire! - exclamou Eleanor com um sorriso. - Mas não estejas para aí a pensar que simpatizo com ele ou coisa assim. Mas tenho de reconhecer que é muito agradável ter alguém que venha bater-nos à porta para dar dois dedos de conversa. Ele é uma pessoa agradável para se ter por perto, pode-se continuar a engomar a roupa ou a fazer seja o que for que se esteja a fazer no momento. E aqui há dias, conseguiu arranjar a janela de guilhotina da cozinha, que estava empenada.

 

- Tens vivido muito sozinha - declarou Marion.

 

- Isso não é verdade; como é que eu podia sentir-me sozinha se tenho a Claire, para não mencionar vocês, que vivem tão perto de nós?

 

- Sim, mas sozinha no sentido de... não sei bem como explicar.

 

Eleanor, diz-me se, por vezes, não te arrependes de te teres mudado para aqui, deixando os teus amigos, a vida que tinhas em Inglaterra?

 

- Porque é que perguntas isso, lamentas que eu me tenha mudado para aqui? - perguntou Eleanor, mostrando uma expressão de perplexidade.

 

- Claro que não. Mas há ocasiões em que não posso deixar de pensar que foi egoísmo da minha parte querer que viesses viver para perto de mim, que talvez tenha tentado influenciar-te quando não devia ter feito uma coisa dessas.

 

- Não! Que isso nem sequer te passe pela cabeça. Este é o meu lar e, seja como for, agora os meus amigos estão todos aqui.

 

Marion, acompanhando a irmã à porta, interrogava-se quanto à vida solitária que ela levava. Sim, tinha pessoas amigas, mas não eram tantas como isso. Eleanor precisava de fazer qualquer coisa de útil ou mesmo de um emprego. Era necessário que tivesse um objectivo de vida.

 

Entretanto, Eilidh anunciou a sua presença quando deixou cair a mochila da escola no vestíbulo com um barulho ensurdecido, após o que entrou na cozinha.

 

- Olá, mãe, está a sentir-se bem?

 

- Sim, estou óptima.

 

- Peço desculpa por me ter atrasado... Fomos até ao fundo da rua. O Ross foi jogar futebol; ele não lhe disse?

 

- Sim, e o teu pai hoje vai ficar no hospital até mais tarde, por isso, vamos jantar mais tarde.

 

- Estou a morrer de fome... Posso comer agora?

 

Entretanto, Kirsty, que viera mais cedo da escola primária, escorregou pelas escadas escarranchada no corrimão com as costas inclinadas para trás.

 

- Posso comer um pacote de batatas fritas? - perguntou. ”É assim mesmo que eu quero as coisas”, pensou Marion para com os seus botões enquanto as filhas se instalavam no chão, estendidas defronte do televisor e espalhando migalhas pelo soalho, ao mesmo tempo que embirravam uma com a outra por causa do programa que cada uma queria ver. ”Quero que tudo se passe da maneira mais vulgar que seja possível, não quero estar doente.” Detestava aquelas interrupções no quotidiano da sua vida, tendo-se mostrado ressentida e irritada durante a semana toda. Agora sentia as náuseas que como que lhe subiam ao peito, alojando-se na garganta, mas engoliu com força, tentando ignorar o desconforto que ameaçava apoderar-se de si. Pensou que estava era a precisar de uma chávena de chá.

 

Quanto a si, Eleanor deixara de desejar que a sua vida se mantivesse como até então. Quando se esforçava por levar uma vida sem alterações de maior, fizera-o tendo sempre em mente o bem-estar de Claire, o que tinha vindo a acontecer ao logo dos últimos anos, e as grandes mudanças (o falecimento de lan, a mudança de regresso à Escócia) haviam sido o suficiente para a inquietar, provocando-lhe um sentimento de insegurança durante tempo de mais. Naquele momento, verificava que as coisas se tinham mantido imutáveis ao longo de demasiado tempo. Ela também descobrira aquilo que não era capaz de confessar facilmente aos outros: que a vida era bastante mais fácil desde que haviam passado a ser só as duas. Na verdade, era uma vida que preferia à de outrora. As outras pessoas tinham comentado (decorrido um intervalo no mínimo decente) que ela acabaria por encontrar outra pessoa, que voltaria a casar, mas ela própria nunca acreditara que isso viesse a acontecer, uma vez que até ela mesma se tinha surpreendido quando se decidira a casar. Ao fim e ao cabo, nenhuma mulher estaria à espera de vir a ser a escolhida por um homem como lan duas vezes na vida, alguém atraente e bem-sucedido na vida, o qual tinha sempre resposta para tudo. Fergus era o outro género de marido que Eleanor conseguia compreender. Não era uma pessoa enérgica e ambiciosa como lan havia sido, mas era um homem de quem se podia depender e, ainda que não primasse pela imaginação, num aspecto era muito parecido com lan: o tipo de homem que sabia sempre o que fazer face a uma situação de crise, por mais inesperadas e graves que as circunstâncias pudessem ser. Marion dizia que Fergus andava preocupado, mas tudo o que Eleanor via era calma e confiança. Muito embora parecesse andar apreensivo, nunca o vira receoso, o que era um alívio. Se Fergus estava à espera de que tudo acabasse por se resolver a contento, decerto seria isso que viria a verificar-se.

 

Esta não era a impressão com que Eleanor ficara quanto à maneira de ser de Gavin Soutar, o qual parecia não se cansar de confessar que era uma pessoa em quem não se podia confiar, admitindo as suas próprias faltas sem o menor pejo, até mesmo com satisfação. Porém, quando ele entrava na pequena vivenda de Eleanor, esta ficava com a sensação de que a casa se iluminava, enquanto ela própria se sentia com mais energia, com a impressão de que aconteciam coisas interessantes na sua vida. No entanto, mantinha-se na defensiva na presença de Claire.

 

- Onde é que a mãe arranjou estas flores? - perguntou Claire pouco depois.

 

- Foi o Gavin quem as trouxe.

 

- Com que então... estou a ver... com que então o Gavin ofereceu-lhe flores. Tenha cuidado, mãezinha, está-me a parecer que ele tem um fraquinho por si.

 

- Não sejas disparatada. Estavam em promoção no Tesco e só por isso é que ele comprou uma data delas para si próprio e um ramo que me ofereceu.

 

- Um homem que compra flores para si próprio? Estranho.

 

- Não tem nada de estranho, Claire. A casa dele é tão agradável, cheia de livros e de CDS e de tapetes muito coloridos - especificou Eleanor, começando a arranjar espaço na mesa da cozinha onde Claire espalhara as coisas para fazer os trabalhos de casa. Desculpa, mas preciso de um pouco de espaço na mesa.

 

- Estou quase a acabar.

 

- Seja como for - continuou Eleanor, que partia ovos para dentro de uma tigela -, na próxima sexta-feira terás oportunidade de ver a casa dele.

 

- Ah, sim? E como é que isso vai acontecer?

 

- Vamos jantar a casa dele, ou já te esqueceste?

 

- Oh, na sexta-feira. Mas não posso ir, mamã... O pai da Sarah ficou de nos levar a Inverness para irmos ao novo cinema e depois do filme vamos comer batatas fritas, e essas coisas, no Harry Ramsden’s. Não posso faltar... prometi à Sarah que ficava a dormir em casa dela.

 

- Oh, Claire!

 

- De qualquer maneira, o que é que eu iria fazer a casa dele? A mãe e ele só sabem falar de assuntos em que eu não estou interessada.

 

- Obrigada por nada - ripostou Eleanor com ironia.

 

- Mas, mãe, é verdade. Quer dizer... ele é simpático e tudo o mais, mas...

 

- Está bem. - Eleanor deixou os ovos meio batidos e calçou os sapatos.

 

- Onde é que a mãe vai?

 

- Vou dizer ao Gavin que não podes jantar em casa dele. Suponho que não queiras ser tu a fazer isso.

 

- Obrigada, mãezinha, é maravilhosa.

 

- Podíamos combinar o jantar para outra noite - sugeriu Gavin -, mas só é possível marcar para daqui a duas semanas... No sábado tenho de me ir embora..

 

- Eu sei. Tenho muita pena.

 

- Não tem importância... Mas a Eleanor vem jantar na sexta-feira como tínhamos combinado, não vem?

 

Ainda na soleira da porta, Eleanor hesitou. Não tinha aceite o convite dele para que entrasse; cruzou os braços, envolvendo o torso como se estivesse a abraçar-se, protegendo-se do vento frio.

 

- Sim, se é isso que... se tiver a certeza.

 

- Imagino que, seja como for, a Claire prefira estar com as amigas.

 

- É verdade - confirmou Eleanor com um sorriso de alívio.

 

- Sendo assim, cá a espero na sexta-feira. As sete da noite está bem para si?

 

Enquanto percorria a curta distância até sua casa, Eleanor apercebeu-se de que havia qualquer coisa que se alterara no relacionamento entre os dois. Começou a pensar na noite de Hogmanay, assunto que nunca mais tinham voltado a abordar, excepto para gracejarem pelo facto de ambos se terem embebedado ao ponto de não se lembrarem de quase nada do que acontecera nessa noite de passagem do ano. Mas não me esqueci do passeio, dissera ele. Ela recordava-se de mais, de o ouvir a dizer: Gostaria de fazer sexo consigo, neste preciso momento. Seria que ele ainda se lembrava disso?

 

- Podem ter um jantar muito romântico, não? - disse Claire quando ela recomeçou a preparar a refeição que interrompera.

 

- Põe-te a andar! - retorquiu Eleanor, levantando a tampa do fogão e colocando a frigideira das omoletas ao lume para a aquecer.

- Tira a alface do frigorífico, Claire, e lava-a.

 

Em conjunto, mãe e filha prepararam a refeição, sem terem voltado a falar de Gavin. Mas, mais tarde, Claire voltou ao assunto.

 

- Ele não é o seu namorado, pois não, mãe? Pensei que a mãe andava a namorar o Andrew.

 

- Já estou velha de mais para ter namorados - respondeu Eleanor.

 

- Isso não é verdade. A mãe da Anny divorciou-se e já arranjou um namorado - contrapôs Claire, que estava deitada no sofá e com os pés apoiados no braço. Eleanor tomava o seu café enquanto lia o Scotsman.

 

- Faz ela muito bem - retrucou, virando uma página do jornal.

 

Claire estava como que hipnotizada a olhar para a parte nua do corpo entre a bainha da camisola de algodão e o cós das calças, última moda entre os jovens.

 

- Sabe uma coisa? O meu umbigo é diferente do das outras pessoas.

 

- A sério?!

 

- É mais fundo e parece ter um formato mais largo - explicou, espetando um dedo no umbigo, após o que o puxou para fora.

- Está a ver, o de toda a gente é assim...

 

- Pára de fazer isso... parece obsceno - ripostou Eleanor erguendo o olhar.

 

- A mãe acha que eu sou gorda?

 

- Não - replicou Eleanor.

 

- Tenho a impressão de que o meu rabo é muito grande. Se me puser defronte do espelho, com as costas viradas para trás, está a ver?, e se voltar a cabeça e...

 

- Não sejas tolinha. Tens uma figura muito bonita.

 

Claire decidiu abandonar aquela linha de raciocínio, pegando na sua revista.

 

- Pelo menos, o Andrew é bastante bem-parecido - acentuou ela. - Quanto ao Gavin, bem... ele é feio, não lhe parece. Quer dizer, tem montes de sardas nos braços.

 

Mas Eleanor não achava que Gavin fosse feio. Era possível que, por detrás da postura dele durante o dia, um homem magro e comum que usava camisas de fazenda axadrezada e calças de ganga, ela continuasse a ver o halo do clarão das chamas da lareira à sua volta, sentindo o calor do seu corpo quando se aproximava dele. Reconhecia que andava nervosa face à expectativa com que aguardava a noite da próxima sexta-feira.

 

Às dezasseis horas, Claire pôs-se a caminho com as amigas; as horas desde então até às sete da noite arrastavam-se interminavelmente. Se ainda houvesse luz do dia, ela poderia ter dado um passeio até ao estuário. Mas, como já fazia escuro, o que é que podia fazer além de acabar de passar a roupa a ferro, ler ou mudar de roupa? Ao princípio do dia tinha ido a Inverness, percorrendo as lojas do centro da cidade, à procura de qualquer coisa que pudesse vestir para o jantar. Tinha roupa mais do que suficiente, pelo que sóquando se sentia aborrecida é que se decidia a ir às compras. Marion tinha o hábito de fazer as suas compras nos grandes armazéns mais conservadores, apresentando sempre um aspecto muito elegante e cuidado. Porém, Eleanor descobrira que tinha talento para encontrar roupas elegantes em lojas que vendiam vestuário em segunda mão, ou nos saldos, agora que não precisava de se vestir para agradar a ninguém além de si própria. Às vezes, até mesmo Claire comentava: ”Isso é muito bonito”, se bem que ela própria continuasse determinada a nunca usar nada que viesse das lojas da Oxfam.

 

Em vez de roupa nova, Eleanor acabou por ir a uma loja de bebidas com a intenção de escolher uma garrafa de vinho. Ficou a olhar para as prateleiras com inúmeros tipos de vinho, perguntando a si mesma se uma garrafa de um vinho caro seria garantia da sua qualidade. O empregado, a quem recorreu, limitou-se a um encolher de ombros, apontando para os vinhos que estavam em promoção. Por fim, Eleanor acabou por escolher um dos que lhe foram indicados, tendo-se arrependido da sua escolha assim que saiu do estabelecimento. Devia ter gasto mais dinheiro.

 

Às dezoito horas, começou a encher a banheira para tomar um banho bastante prolongado e o resultado foi ter-se atrasado; quando chegou à porta da casa de Gavin, ia toda corada, desfazendo-se em desculpas pelo atraso.

 

- Veio muito a tempo - sossegou-a ele. - Entre, entre.

 

- Não sei o que é, mas cheira bem - comentou Eleanor, estendendo-lhe a garrafa de vinho. - Espero que seja bom.

 

- É magnífico, obrigado. Dê-me o seu casaco.

 

Desta vez não havia tantas velas, mas continuava a haver várias na prateleira da lareira e em cima da mesa, o que dava à sala uma luz tremeluzente que projectava sombras nas paredes. ”Afinal, ele não se esqueceu.” Essa noite, não tencionava beber muito, apenas um copo de vinho durante o jantar, no máximo dos máximos uns dois, mantendo assim a resolução que tomara havia vários anos.

 

Junto da lareira, encontrava-se uma garrafa de vinho tinto que já fora aberta. Gavin serviu-lhe um copo.

 

- O jantar está quase pronto - informou ele. Na cozinha, Eleanor deparou com vários tachos ao lume, todos a ferver; o ar estava impregnado de um aroma a comida bem apaladada e condimentada com tomate. Gavin deitou arroz no tacho maior que não tinha tampa.

 

- São só mais uns dez minutos - disse ele. Eleanor olhou em redor, observando a cozinha que era do mesmo tamanho da sua, mas as semelhanças paravam aí; o velho fogão Rayburn fora substituído e as bancadas tinham tampos de mármore, enquanto os armários, feitos de encomenda, eram em madeira de pinho. A verdade é que estava tudo muito desarrumado e atravancado; o peitoril da janela achava-se cheio de vasos com plantas, em número excessivo.

 

- Vamos comer na sala... Aqui só temos este balcão que serve apenas para se tomar um pequeno-almoço à pressa.

 

- Não lhe agrada?

 

- Você teria concebido uma cozinha como esta? - perguntou ele.

 

- Antigamente, a minha cozinha era igual a esta - respondeu Eleanor, sorrindo-lhe. - A única diferença era ser mais espaçosa e arrumada.

 

- Mais arrumada é coisa que não seria difícil de conseguir, não acha?

 

Mais tarde, Eleanor diria a Marion que ele sabia cozinhar muito melhor do que ela própria. Todavia, seria de esperar que os homens soubessem cozinhar assim tão bem? Eleanor havia sentido um certo mal-estar por haver alguém que a servisse à mesa, não se tendo cansado de elogiar a refeição, dizendo que estava excelente. Mas o vinho ajudava, aquecendo-lhe o corpo todo.

 

- Não, estou bem assim - recusou ela quando ele lhe ofereceu mais vinho. - Regra geral, não tenho o hábito de beber.

 

- E porque não?

 

- Porque não quero, mais nada - reiterou ela.

 

- No entanto, a Eleanor não é abstémia, não tem de conduzir até casa e não está doente... Portanto, beba mais um copo - insistiu Gavin.

 

Ela acabou por ceder, mas com a intenção de deixar a maior parte do vinho no copo. Todavia, sem saber bem como, deu conta de que o copo ficara vazio, tendo voltado a ser pressurosamente cheio por ele. Disse a si mesma que a última vez que se entregara àquelas libações não lhe acontecera nada de mal.

 

- O que é que se passa? - perguntou ele depois de já ter levantado a mesa e levado o café para a sala.

 

- Desculpe, mas não estou a entender.

 

- De que é que tem medo, caso decida tomar um copo a mais? De perder o domínio sobre si própria?

 

- Não, nada disso, tem a ver com algo que me aconteceu. Não teria acontecido se eu tivesse estado sóbria.

 

- Sentimentos de culpa - resumiu ele. - A grande qualidade de todos os escoceses.

 

- Você não sabe de que estou a falar - ripostou Eleanor, muito ruborizada.

 

- Não - concordou Gavin. - E que tal se me contasse?

 

- Não posso - replicou ela, renitente.

 

- De acordo - retorquiu ele, tendo, aparentemente, perdido o interesse que o assunto de início lhe suscitara.

 

- E se nos sentássemos junto da lareira?

 

- De onde é você? - perguntou Eleanor depois de ambos se terem instalado. Reparou que, uma vez mais, tinha o copo cheio. Teria bebido alguma coisa do terceiro copo? Não tivera intenção de o fazer. - Não sou capaz de situar o seu sotaque.

 

- Oh, vivi durante muitos anos em Inglaterra. O mais provável foi ter estado em Londres quando você também viveu lá. Mas nasci em Perth. Pode-se dizer que sou quase um nativo das Highlands - respondeu Gavin com uma careta risonha e erguendo a garrafa. Ainda restava bastante vinho, o que significava que não poderiam ter bebido tanto como ela estava a pensar. Mas aquela talvez já fosse a segunda garrafa... dava a impressão de ser a que ela trouxera. Tinham-se sentado no tapete diante da lareira; Gavin instalara-se de pernas cruzadas, enquanto Eleanor se havia encostado a uma poltrona.

 

- A minha mãe deixou o meu pai quando eu tinha catorze anos - começou ele a dizer inopinadamente. - Nessa altura, eu estudava num colégio interno. Houve um Verão em que vim para casa durante as férias, tendo sido informado de que passaria a segunda metade dessas mesmas férias com a minha mãe, na sua nova casa. Foi a primeira vez que ouvi falar na separação dos meus pais.

 

- Mas isso deve ter sido um choque terrível! - exclamou Eleanor.

 

- Ora, não sei. Nessa altura já nós nos tínhamos mudado para Edimburgo, embora a minha mãe tivesse continuado a viver em Borders. Ela conhecia um sujeito que costumava levar-me com os filhos a escalar colinas. Eram mais velhos do que eu. Nesse ano, aprendi muita coisa.

 

- Por conseguinte, com quem é que ficou a viver?

 

- A maior parte do tempo com o meu velhote. Senti que ele precisava de companhia; além do mais, não era uma boa altura para estar a mudar de colégio. A minha mãe acabou por casar com o sujeito que gostava de escalar colinas. Um homem bastante simpático e de quem se podia depender, ao contrário do meu pai. O meu velhote continuou a ter os seus casos amorosos, mas fiquei com a impressão de que não lhe davam tanta satisfação depois de eliminado o aspecto de secretismo a que a presença da minha mãe o obrigava.

 

- Você está a brincar comigo, não é verdade? - perguntou Eleanor, atónita.

 

- Só um bocadinho - admitiu Gavin.

 

- E quanto a si? Disse-me que não era casado com a Kate. ”Sim, e a respeito da Kate?”, interrogava-se ela, a qual desaparecera havia tão pouco tempo. Vira uma mulher de cabelos pretos e curtos a entrar num automóvel. E isso era tudo o que Eleanor sabia em relação a ela. O resto limitava-se ao que Gavin lhe contara, o que talvez não fosse inteiramente fiável.

 

- Não - admitiu ele -, mas já fui casado uma vez. Não durou muito porque o casamento não resultou.

 

Aquela confidência fez com que Eleanor se recordasse de David, o qual concluía muito amiúde que as coisas não resultavam.

 

- Portanto, também não teve nenhum filho dessa mulher? perguntou Eleanor, afivelando uma expressão de indiferença, embora se tratasse de uma pergunta que exigia um ”não” por resposta, como em tempos aprendera nas aulas de Latim. Mas a expectativa saiu-lhe gorada.

 

- Sim, sim, tivemos um filho, um rapaz. No entanto, foi difícil manter-me em contacto com ele depois de nos termos separado. Ela pensou que era melhor se eu não o visse, para que o garoto pudesse levar uma vida mais tranquila. O miúdo teria... o quê? Uns dois anos. E de qualquer modo, por imperativos profissionais, eu era forçado a ausentar-me durante muito tempo. Todavia, reconheço que devia ter-me esforçado mais. Agora apercebo-me disso. Entretanto, ela adoeceu, passando a andar em tratamentos psiquiátricos que retomava e interrompia constantemente... Na verdade, quem criou o garoto foi a mãe dela que, vá-se lá saber porquê, não engraçava muito comigo - acrescentou Gavin sorrindo-lhe com um encolher de ombros, como se nada daquilo tivesse grande importância. - Claro que agora ele já é um homem. Já fez vinte e quatro anos. Vejo-o ocasionalmente, sempre que vou a Glasgow.

 

Como que atordoada, Eleanor sentia o peso da tragédia de outra pessoa que, em meia dúzia de frases, era esvaziada de toda e qualquer importância.

 

- É uma situação tão triste - comentou, mas nas suas palavras não se adivinhava um mínimo de compreensão pelos sentimentos de outrem. A narrativa dele, dita de uma maneira tão fria, havia-o afastado dela, dando a impressão de o ter isolado, deixando-o a sós com o seu passado. Eleanor não queria inteirar-se de mais nada quanto àquele assunto, não desejando que agora adquirisse importância. Um homem, um jovem de vinte e quatro anos, já adulto, sem necessitar da presença de um pai. No entanto, a presença dele parecia pairar por perto, recordando-lhe como seria impossível que ela e Gavin encetassem um novo relacionamento que mudaria a vida de ambos. Perguntava-se como é que as outras pessoas conseguiam fazer isso, numa fase das suas vidas semelhante àquela por que ambos passavam, quando para trás já tinha ficado tanta coisa, tanta tristeza que os endurecera antes mesmo de se conhecerem.

 

- Não tarda muito vou ter de ir para casa - anunciou Eleanor, inclinando-se para trás e fechando os olhos.

 

No silêncio que se seguiu, pressentiu antes de ele o fazer que Gavin iria tocar-lhe. Sentiu a mão pesada e quente na sua coxa.

 

- Eleanor. - Ela abriu os olhos. Ali estava ele, com a pele trigueira que a luz das chamas lhe emprestava, com o colarinho da camisa aberto, mostrando os pêlos encaracolados de um ruivo-dourado que lhe assomavam ao pescoço vindos do peito. Com suavidade, a mão dele envolveu-lhe a parte de trás da cabeça, aproximando o rosto dela do seu.

 

- Descontraia-se - pediu ele num sussurro -, não tem nada a recear.

 

Gavin limitou-se a beijá-la vezes sem conto, beijos cada vez mais alongados em que ela sentia nas faces a aspereza da barba dele, enquanto a mão lhe acariciava a face e o queixo, com a língua a sondá-la, ao princípio demorada e carinhosamente, e depois com mais insistência, até que ela começou a sentir-se como se não possuísse ossos nos seus braços, com as mãos a subirem pelo peito dele para lhe dizer que parasse, mas acabando por se desviarem quase sem se aperceberem, para pouco depois voltarem ao corpo dele; desta feita, os seus braços enlaçavam-lhe o pescoço e a cintura, sentindo a aspereza da barba e a suavidade do cabelo, a macieza do tecido de algodão da camisa.

 

- Vamos - disse ele, ajudando-a a levantar-se do chão, até que ambos ficaram de pé, sem ela saber bem como é que as pernas conseguiam sustê-la... Bebera vinho a mais, mesmo muito, e sentia a cabeça cheia do que talvez fosse música, o rufar cadenciado de um tambor.

 

O quarto estava frio, mas não frio ao ponto de a fazer ter consciência dos seus actos. Eleanor estava quente, tal como Gavin; a frialdade dos lençóis era como um lenitivo. Ambos estavam meio vestidos, ajudando-se mutuamente a despir as peças de roupa que ainda faltava tirar.

 

- Estás bem? - insistia ele em perguntar. - Estás bem? - ao que ela respondia ”Sim” e por vezes: ”Eu não devia, oh, eu não devia...” Porém, ao mesmo tempo, por trás dessas hesitações, havia uma vozinha a medo, mas bastante clara, que lhe dizia: E porque nãóí

 

De súbito, Gavin deteve-se, soerguendo-se apoiado sobre o cotovelo para poder olhá-la bem.

 

- És um espanto de mulher - declarou ele com um sorriso.

- Tão, tão bonita, Eleanor. Mas com certeza que estás bem ciente da tua beleza, decerto que terás a noção disso. Não posso evitar perguntar a mim mesmo por que razão não existe um homem na tua vida, porque continuas sozinha? - Mas então riu-se, beijando-lhe o pescoço, abraçando-a, chegando-a mais a si. - Sorte a minha acrescentou. Mas Eleanor afastou-se dele, esforçando-se por recuperar o domínio das suas emoções, bem consciente e ansiosa.

 

- Gavin, eu não, não estou... Já passou tanto tempo...

 

- Ei, prometo que cuido bem de ti - retorquiu ele, acenando-lhe com a mão a poucos centímetros dela, a qual tremia toda arrepiada perante aquele quase toque da mão dele. - Olha bem para ti... és tão encantadora.

 

E ela olhou. Como se o fizesse pela primeira vez. A luz esbranquiçada do luar filtrava-se pela janela do quarto, emprestando luminescência à sua pele. Eleanor viu o seu corpo como quando era jovem, sem nada que o desfeasse. Já fora casada e tivera uma filha, mas agora parecia-lhe que nada disso lhe deixara a mínima marca. Como se uma nova virgindade a tivesse deixado sem mácula, permanentemente jovem e perfeita. Agora sentia a mão cálida dele a afagar-lhe o peito, acariciando-lhe os seios. Sentiu que os mamilos enrijeciam devido ao frio que fazia no quarto, e, quando ela se voltou, Gavin viu que a pele de Eleanor tinha adquirido uma coloração translúcida de alabastro, indo ao encontro dele, apercebendo-se de que o corpo de Gavin tinha uma cor de um branco-azulado onde nunca andava exposto ao Sol, enquanto as outras partes tinham um tom bronzeado cor de cobre. Toda ela estremecia, consciente de que se encontrava completamente nua em presença de um estranho. Mas agora era tarde de mais para poder mudar de ideias, uma vez que ele já estava a preparar-se, colocando-se em cima dela.

 

- Não posso... - começou Eleanor a dizer.

 

- Desculpa - murmurou Gavin, penetrando-a com firmeza e determinação. - Eu devia esperar, mas não sou capaz... Oh, meu Deus, Eleanor. - Ela arquejou, erguendo os joelhos para lhe facilitar as investidas, permitindo que ele continuasse a penetrá-la, acompanhando com o seu os movimentos do corpo dele.

 

Era a mesma coisa, embora não fosse o mesmo. Saciado, ele abraçou-a com força, cerrando os braços à volta dela, após o que se deitou de costas, mantendo-a colada a si a todo o comprimento do corpo, abraçando-a com um braço que continuava a enlaçá-la.

 

- Desculpa - repetiu Gavin. - Estavas a milhas de distância, não é verdade? - perguntou, virando-se para ela. - Queres vir-te?

 

- O quê?!

 

- Não te vieste, pois não?

 

- Não, mas... - Esteve prestes a dizer: ”Nunca me venho”, mas não foi capaz de articular as palavras, como se continuasse a parecer-lhe que seria uma traição enorme se as dissesse. - Isso não interessa - acabou Eleanor por dizer.

 

- Interessa, sim. Chega-te a mim.

 

- Não sou capaz - replicou ela momentos depois, afastando a mão dele.

 

Se aquele expediente nunca dera resultado, por que razão agora seria diferente? Não queria chegar àquele pico de frustração uma vez mais. Era evidente que lan havia tentado, mas ela acabara por decidir que era uma coisa que não devia voltar a ser experimentada. Talvez tivessem sido os dois a desistir ao mesmo tempo.

 

- Estou bem assim - costumava Eleanor dizer ao marido. Não me importo. - E, contudo, a verdade é que agora se importava.

 

Gavin ergueu-se, sentando-se na cama, cobrindo-a com os cobertores.

 

- Mantém-te quente - disse ele -, e vê se consegues dormir um pouco. Temos a noite toda diante de nós.

 

- Nem pensar, tenho de voltar para casa! - ripostou ela, tentando erguer-se, mas ele obrigou-a a deitar-se.

 

- Sei de que é que estás com medo.

 

- Não tenho medo de nada, eu...

 

- Pensas que a Edie pode ver-te quando passares sorrateiramente pela casa dela, e depois ela fica a saber que, ao fim e ao cabo, não és a viúva virtuosa que ela pensa que és.

 

- Tens toda a razão - replicou Eleanor sem conseguir conter o riso. - Além do mais, ela costuma levantar-se bastante cedo.

 

- Nesse caso, o melhor é ficares para tomares o pequeno-almoço comigo; fica até uma hora a que possas voltar para casa como se tivesses vindo à minha para me pedires um raminho de salsa - sugeriu ele, sentado com as mãos atrás da cabeça. - Por que razão é que achas que alguém poderia pedir um raminho de salsa a um vizinho?

 

Eleanor também se sentou, encostando-se à cabeceira da cama.

 

- Não sei - admitiu.

 

- Aninha-te debaixo dos cobertores - disse Gavin num tom autoritário, aconchegando a roupa da cama à volta dos dois. ”Nunca conseguirei adormecer”, pensou Eleanor momentos antes de cair no sono.

 

Despertou repentinamente a meio da noite, com as ideias claras, sentindo-se perplexa por se encontrar ali, na cama ao lado dele. Gavin acordou ao mesmo tempo que ela, já preparado para fazer amor, desejando-a de novo. Sentindo um misto de gratidão e perplexidade perante a ternura que ele lhe mostrava, ela deixou que ele a acariciasse e mexesse onde bem lhe apetecia, rindo-se um pouco, umas risadas tolas, enquanto se abraçava a ele, sabendo de antemão que aquelas carícias não teriam qualquer efeito em si, o que não obstava a que quisesse agradar-lhe. Mas, por fim, sem que a sua vontade tivesse tido a mínima interferência, começou a sentir, vaga após vaga, frémitos de prazer, enquanto o puxava para dentro de si, quente e molhada, movimentando-se a um ritmo que não era dele nem dela, cada vez mais depressa e com mais veemência, com mais força e mais profundamente. Eleanor sentia-se incapaz de controlar as suas emoções, não sendo capaz de dizer onde é que ela própria acabava e ele começava. Com movimentos sucessivos, ele continuava a penetrá-la, retirando o pénis, voltando a tocar-lhe, até que ela começou a sentir um prazer intenso que se espalhava pelas coxas, uma sensação enorme de calidez que se acumulava dentro de si, que fazia com que se soerguesse e arqueasse o corpo de súbito, atingindo, finalmente, o clímax do orgasmo, como um pássaro que voasse a pique depois de ter chegado ao cimo de uma falésia, uma pedra que rolasse pela encosta abaixo até ao fundo.

 

Com força, Eleanor empurrou-o, tirando-o de cima de si, aninhando-se sobre si mesma, afastando-se dele com um gemido de alívio e receio.

 

- Aí tens - disse Gavin, obrigando-a a voltar-se de novo para ele. - Desta vez foi melhor, não é verdade? - perguntou-lhe como se ela fosse uma garota que era preciso tranquilizar porque se mostrava rabugenta. As lágrimas molhavam as faces de Eleanor, lágrimas que ele limpou com a ponta do lençol, abraçando-a numa atitude triunfante.

 

Mais tarde, passando ousadamente pela porta da frente de casa de Edie a caminho da sua, às onze da manhã, Eleanor tomou consciência do que tinha ficado a saber. Aquilo que sempre acreditara ser uma falha da sua parte, um defeito seu, ao fim e ao cabo, possivelmente ter-se-ia devido a lan. Ou, no mínimo, seria uma falta partilhada pelos dois, algo de que em conjunto ambos careciam.

 

E agora... estava mudada!

 

Depois de Gavin se ter ido embora, a caminho de Aberdeen ao volante do seu automóvel, telefonou a Marion. Mas detectou imediatamente algo pouco familiar na entoação da irmã, até mesmo antes de Marion ter tido oportunidade de discernir o que é que havia de diferente na sua própria voz.

 

- Oh, tenho estado tão enjoada - disse Marion. - Estou a sentir-me um bocado em baixo.

 

Eleanor imobilizou-se como se o coração lhe tivesse caído aos pés. Como era capaz de se sentir feliz quando Marion estava tão doente?
Durante todo o caminho até casa de Marion, pela estrada de Dingwall, abrandando antes da ponte do caminho-de-ferro logo a seguir à curva e aumentando de velocidade no último trecho do percurso que a levaria à cidade, a alegria parecia elevar-se dentro de Eleanor qual bolha de riso.

 

Estou bem, repetia em pensamento em palavras cadenciadas. Não há nada de estranho comigo.

 

Durante todos aqueles anos, teria ela realmente acreditado que havia alguma coisa de anómalo em si? Durante todos aqueles anos... aconteceria isso com frequência às outras mulheres, com regularidade? À Marion? Ela e a irmã não tinham segredos entre si, com a excepção desse assunto. Durante os primeiros anos dos respectivos casamentos haviam vivido longe uma da outra, e aquele não era um assunto que se pudesse abordar nas cartas que trocavam ou de que se falasse ao telefone. Tenho tido uns orgasmos que são uma verdadeira maravilha ou, no caso de Eleanor, Nunca consegui chegar a esse ponto, não, nunca senti... Eleanor soltou uma sonora gargalhada, incapaz de conter o riso.

 

Não guardava recordação do último trecho do caminho até casa de Marion, de ter parado nos semáforos, de contornar a esquina do separador que dividia a rua. ”Sou uma mulher completamente doida”, pensou para consigo. ”Nunca me tinha sentido assim, jamais.” Como se continuasse a ver-se percorrida por aquele frémito, qual eco que a atazanasse, trocista.

 

Deparou com uma Marion bastante empalidecida e com um aspecto de muito cansaço, mas não doente. Eleanor, sentindo-se dividida entre um sentimento de culpa e alívio, disse:

 

- Estás a sentir-te bem? Queres que vá preparar um chá para nós duas?

 

- Se te apetecer. Mas o mais certo é eu não ser capaz de o beber - respondeu a irmã.

 

Ambas foram para a sala de estar, bastante desarrumada, com jornais espalhados por todo o lado, além de canecas e copos.

 

- Desde ontem à noite que não arrumo nada na sala – confessou Marion, começando a arrumar as coisas, o que fazia, manifestamente, com pouca vontade, esforçando-se por não se baixar de mais nem muito depressa.

 

- Deixa-me fazer isso - ofereceu-se Eleanor, que se sentia como se tivesse a energia de meia dúzia de mulheres. Pouco depois, a sala de estar estava toda em ordem.

 

- O que é que aconteceu? - perguntou Marion à irmã quando esta, finalmente, se sentou junto de si.

 

- Nada! - apressou-se ela a responder.

 

- Eleanor, estás com um aspecto... Bem, tenho de admitir que estás com uma aparência fantástica.

 

- Tenho tanta pena, sinto-me tão mal quando tu não estás bem.

 

- Por amor de Deus, por que carga de água é que hás-de sentir-te assim? São apenas umas náuseas. Os efeitos secundários, o Fergus diz que é muito comum. A Mary Mackay já me tinha avisado, assim como o especialista em oncologia. Mas o pior já passou, estou a sentir-me muito melhor - afirmou ela, recostando-se no sofá. - Mas deixemos isso; conta-me o que é que te sucedeu.

 

- Oh, não sei - replicou Eleanor, toda corada. - Estou a falar a sério, eu própria nem sei o que é que está a acontecer comigo.

 

- É esse homem, não é? Mas eu estava convencida de que ele ia partir dentro em breve?

 

- Foi-se embora, hoje mesmo.

 

- Agora me lembro, estava combinado jantares com ele, tu e a Claire, não era?

 

- A Claire não foi. Preferiu ir ao cinema com a Sarah... e depois ficou a dormir em casa dos Patterson.

 

- Estou a ver - disse Marion, verificando que a irmã continuava com a mesma expressão radiante. ”Louvado seja Deus”, pensou, ”já não era sem tempo!” - Ora bem, quem diria - acrescentou em voz alta. - Só espero que estejas a ser... precavida.

 

- Oh, ele foi muito cuidadoso - apressou-se Eleanor a dizer, voltando a corar, rindo-se e fazendo um movimento com a cabeça em que os cabelos bastos lhe caíram para o rosto, ocultando a alegria que se reflectia na sua fisionomia. - Isto é uma loucura acrescentou num murmúrio. - Sinto-me como se voltasse a ter quinze anos.

 

- Pensei que os homens com cabelos cor de cenoura estavam fora de questão - comentou Marion, acrescentando o seu riso ao da irmã.

 

- Eu sei, eu sei... mas eu... não sei, Marion. Sinto-me entontecida.

 

- Estou a ver que sim.

Marion deduziu que a irmã estaria apaixonada por Gavin.

”Talvez eu esteja”, pensou Eleanor, perguntando-se se a irmã teria razão. ”Já passou tanto tempo desde que... e é um assunto de que sei tão pouco. O amor.”

 

- Depois, telefono-te - prometera ele.

 

- De uma plataforma petrolífera? - perguntara ela, admirada.

 

- Não sei se sabes, mas temos telefones a bordo - informou Gavin, mostrando-se divertido. - Claro que sim, tenciono ligar-te dentro de alguns dias.

 

Porém, logo no domingo à noite, um dia depois dessa conversa entre os dois, já ela esperava ansiosamente que o telefone tocasse. Mas, quando isso aconteceu, quem lhe falou do outro lado da linha foi o pai.

 

- Estou a telefonar-te para saber como é que a Marion tem passado - disse ele. - Não se cansa de me dizer que está bem.

 

- Ela tem sentido muitas náuseas - explicou Eleanor -, além de estar muito cansada. Mais nada. Mas não se preocupe, estes sintomas são muito comuns.

 

- É por causa da quimioterapia - acrescentou ele. - Quanto tempo é que esses tratamentos duram?

 

- Duram mais ou menos um dia e tem de os fazer de três em três semanas. Passa a noite no hospital e depois volta para casa. Ambas já tinham explicado isso mesmo ao pai, mas, ao que tudo indicava, a informação não ficara registada na sua memória. Marion até dissera a Eleanor: ”Ele é como eu, que não me lembro de nada do que o médico me diz... É o medo e a ansiedade... Parece que há qualquer coisa que bloqueia as informações.” - Vai ter de os fazer durante mais uns três ou quatro meses. Ao todo, são seis tratamentos - voltou ela a explicar ao pai -, e só depois é que eles fazem mais exames computorizados. E em seguida, talvez ela só tenha de fazer uns quantos tratamentos de radioterapia. Mas isso é uma coisa que ainda não sabemos ao certo.

 

- Mas até agora, ela tem estado bem?

 

- Sim - confirmou Eleanor, não querendo voltar a mencionar os enjoos de que a irmã estava a sofrer. Em boa verdade, era preferível que ele não tivesse conhecimento desses pormenores. Se a mãe ainda fosse viva, a situação mudaria de figura. Não haveria maneira de a proteger da verdade, uma vez que ela fora senhora de uma percepção que lhe permitia ter conhecimento de tudo antes do resto da família. - E quanto ao David? - continuou ela, mudando de assunto. - Recebeu notícias? Desde o Ano Novo que não sei nada dele.

 

- Ah, é verdade, ele telefonou-me, mas quando foi isso? Na segunda-feira... acho eu, ultimamente tenho andado muito esquecido. Foi num dia qualquer da semana passada.

 

- Já começou a trabalhar?

 

- Já, sim. Uma coisa qualquer com computadores.

 

Alguns minutos mais tarde, Eleanor recebeu outro telefonema.

 

Desta feita, atendeu no telefone da cozinha. Claire estava no seu quarto com Sarah e mais duas ou três raparigas. Tinha de ser para ela. Aos fins-de-semana, as garotas davam a impressão de passarem horas esquecidas ao telefone, ligando umas para as outras: três raparigas numa casa e quatro numa outra, todas aos gritinhos e com risadas tolas. Desde os ”telefonemas em conferência” de David antes do Natal que Claire tinha andado a implorar à mãe que lhe permitisse fazer o mesmo, para poder falar com as amigas todas ao mesmo tempo. Mãezinha, seria fantástico!, argumentava ela cheia de entusiasmo.

 

Desta vez, porém, era David.

 

- Acabei agora mesmo de falar ao telefone com o pai - disse ela. - Como é que estás?

 

- Estou óptimo... não podia estar melhor. Esta coisa com o Phil está mesmo a avançar. Passo a vida de um lado para o outro numa autêntica roda-viva.

 

- O que é que tens andado a fazer?

 

- A visitar os clientes - respondeu David -, a resolver-lhes problemas. Sabes como é.

 

Contudo, como seria de esperar, era claro que Eleanor não sabia como era. Aquilo era David no seu pior, cheio de si