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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


AS JÓIAS DO SOL / Nora Roberts
AS JÓIAS DO SOL / Nora Roberts

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

Depois de um casamento falhado e de uma carreira desapontante como professora de Psicologia, a jovem Jude Murray sente-se no limiar de um esgotamento nervoso. Numa fuga desesperada para a frente, decide abandonar Chicago e instalar-se durante alguns Meses no chalé abandonado da sua bisavó, na distante e mágica vila de Ardmore, na Irlanda.

E cedo se apercebe que a sua vida nunca mais poderá ser a mesma. As pessoas, as paisagens e as histórias antigas da Irlanda atraem-na de uma maneira que não consegue compreender. à sua timidez e reserva naturais diluem-se e Jude acredita que finalmente encontrou a paz e, mais importante, que se poderá encontrar a si mesma.

Mas há mais para encontrar: o amor de Aidan Gallagher, o fascinante, charmoso e divertido dono do pub local. E, com a ajuda dele, os segredos mais antigos de uma terra onde a magia ainda não morreu.

 

 

 

 

                                 CAPÍTULO 1

Era óbvio, não poderia haver a menor dúvida, que ela perdera o juízo.

 

E deveria saber, pois era psicóloga.

 

Todos os sinais se encontravam ali, a pairar e a zumbir em seu redor, há meses. O nervosismo, a facilidade para explodir a qualquer momento, a tendência para o devaneio e o esquecimento. Havia também uma falta de motivação, de energia, de objectivo.

 

Os pais haviam comentado, à sua maneira suave, como se dissessem: Podes fazer melhor do que isso, Jude. Os colegas passaram a observá-la, discretamente, com uma quieta compaixão ou uma aversão inquieta. Ela começara a detestar o trabalho, a ressentir-se dos alunos, a encontrar uma dúzia de defeitos insignificantes em amigos e na família, em colegas e superiores.

 

A cada manhã, a simples tarefa de sair da cama e vestir-se para as aulas do dia havia assumido as proporções da escalada de uma montanha. Pior ainda, uma montanha que não lhe provocava o menor interesse ver à distância, muito menos escalar.

 

Depois havia também o seu comportamento temerário e precipitado. Oh, sim, essa fora a gota de água. Jude Francês Murray, firme como uma rocha, um dos galhos mais vigorosos da árvore genealógica dos Murray de Chicago, sempre sensata, filha devotada dos Doutores Linda e John K. Murray, deixou o emprego.

 

Não se tratava da licença prolongada que se concedia aos professores depois de sete anos. Nem de uma licença de poucas semanas para tratar de problemas pessoais. Pura e simplesmente, Jude demitiu-se, a meio do semestre.

 

Porquê? Ela não tinha a menor ideia.

 

Foi um choque para ela, tanto quanto para o director, os colegas, os pais.

 

Reagira dessa maneira dois anos antes, quando o seu casamento se desmoronou? Não, claro que não. Apenas continuara na sua rotina - aulas, estudos, compromissos - sem a menor dificuldade, mesmo enquanto se encontrava com advogados e assinava documentos, a burocracia que simboliza o fim de uma união.

 

Não que houvesse uma grande união; nem, aliás, grandes disputas para ocupar os advogados. Um casamento que durara pouco menos de oito meses não gerava muitas confusões ou problemas. Nem paixão.

 

Paixão, ela supunha, fora o que faltara. Se ela sentisse alguma, William não teria deixado o seu apartamento por outra mulher, quase antes de murcharem as flores do seu bouquet de noiva.

 

Mas não fazia sentido continuar a remoer sobre a separação depois de ter já passado tanto tempo. Ela era o que era. Ou fora assim, corrigiu Jude. Só Deus saberia o que ela era agora.

 

Talvez fosse parte de tudo, reflectiu ela. Escalara algum penhasco, de onde contemplara o vasto mar escuro de mesmice, monotonia e tédio que era Jude Murray. Girara os braços como um cata-vento, afastara-se do penhasco... e saíra, correndo e gritando.

 

Uma atitude que nada tinha a ver com ela.

 

Pensar a respeito disso provocava-lhe palpitações de tal forma violentas, que ela chegava mesmo a especular se não sofreria um enfarte, para cumular tudo.

 

PROFESSORA UNIVERSITÁRIA AMERICANA

ENCONTRADA MORTA EM VOLVO ALUGADO

 

Seria um estranho obituário. Talvez saísse no Irish Times, o qual a sua avó tanto gostava de ler. Os pais ficariam chocados. Seria o tipo de morte inconveniente, pública, embaraçosa. Absolutamente inesperada.

 

Ficariam também desolados, é claro, mas, acima de tudo, perplexos. Como poderia uma mulher pensar em partir para a Irlanda, quando tinha uma carreira vitoriosa e um adorável apartamento, num prédio à beira do lago?

 

Culpariam a influência da avó.

 

E, sem dúvida, estariam certos, como estavam certos desde que ela fora concebida, numa união de absoluto requinte, exactamente um ano depois do casamento.

 

Embora não se desse ao trabalho de imaginar, Jude tinha a certeza de que o acto sexual dos seus pais era sempre de muito bom gosto e preciso. Assim como os ballets bem coreografados e tradicionais que eles tanto apreciavam.

 

E o que fazia ela agora, sentada num Volvo alugado, com o raio do volante no lado errado, a pensar na forma como os pais faziam sexo?

 

Tudo o que lhe restava, naquelas circunstâncias, era comprimir os dedos contra os olhos, até que a imagem se desvanecesse.

 

E isso, disse a si mesma, era o tipo de coisa que acontecia quando se enlouquecia.

 

Jude respirou fundo uma vez, depois outra. Oxigénio para desanuviar e acalmar o cérebro. A seu ver, tinha agora duas opções. Poderia tirar as malas do carro, tornar a entrar no aeroporto de Dublin, devolver a chave ao funcionário da agência, o jovem de cabelos vermelhos como uma cenoura e com um sorriso de um quilómetro de largura, e reservar um voo de volta para os Estados Unidos.

 

É verdade que já não tinha emprego, mas poderia viver muito bem, obrigada, pelo menos por algum tempo, da sua carteira de investimentos. Também já não tinha o apartamento à sua disposição, já que o alugara a um simpático casal, por seis meses. Mas, se quisesse voltar, poderia morar temporariamente com a avó.

 

E a avó olharia para ela, com aqueles seus lindos olhos de um azul desbotado cheios de desapontamento. Jude, querida, chegas sempre ao limite do desejo do teu coração. Porque nunca consegues dar o último passo?

 

- Não sei, não sei... - Angustiada, Jude cobriu o rosto com as mãos, balançando-o. - A ideia foi sua, não minha. O que farei no Faeril Hill Cottage, o chalé da colina das fadas, pelos próximos seis meses? Nem sequer sei conduzir o raio deste carro!

 

Ela estava a um passo de um ataque de choro. Sentiu um nó na garganta. Antes que a primeira lágrima pudesse cair, inclinou a cabeça para trás, fechou os olhos, apertou-os com força e censurou-se. Ataques de choro, explosões de raiva, sarcasmo e outros comportamentos rudes eram apenas maneiras diferentes de libertar tudo cá para fora. Ela fora formada para compreender, instruída para reconhecer. E não se entregaria àquele ataque de choro.

 

- Para a fase seguinte, Jude, sua idiota patética. A falares sozinha, a chorares em Volvos, indecisa demais, tão paralisada, que não consegues virar a chave na ignição e seguir em frente.

 

Suspirou novamente. Endireitou os ombros.

 

- Segunda opção - murmurou. - Terminas o que começaste. Jude virou a chave e, fazendo uma pequena oração para não matar nem aleijar ninguém - incluindo ela própria - durante a viagem, deixou o estacionamento.

 

Ela cantava, em grande parte para não gritar, cada vez que se deparava com um dos círculos na estrada que os irlandeses chamavam alegremente de rotunda. O seu cérebro chiava; era incapaz de reconhecer esquerda e direita, imaginava o Volvo a atropelar meia dúzia de peões inocentes e punha-se a entoar, apavorada, qualquer melodia que lhe aflorasse à mente.

 

Na estrada para o sul, seguindo de Dublin para o condado de Waterford, ela cantarolou melodias de musicais da Broadway, canções de pubs irlandeses e até, ao escapar por um triz de um acidente, na saída da cidade de Carlow, o refrão de "Brown Sugar", suficientemente alto para estremecer Mick Jagger.

 

Depois disso, a situação acalmou-se um pouco. Talvez os deuses do viajante tivessem ficado tão chocados com o barulho, que resolveram recuar, deixando de lançar outros carros no seu caminho. Ou talvez fosse a influência dos omnipresentes santuários à Virgem Abençoada que pontilhavam a margem da rodovia. De qualquer forma, a estrada tornou-se mais vazia e tranquila, e Jude começou quase a divertir-se.

 

Colinas verdes e ondulantes tremeluziam ao Sol, brilhando como o interior de conchas, e estendiam-se à sombra das montanhas escuras, cujo volume se projectava contra um céu pontilhado de nuvens esfumadas. A claridade perlada parecia mais própria de pinturas.

 

Quadros, pensou ela, enquanto a mente vagueava, reproduzidos com tamanha beleza, que, se uma pessoa os contemplasse por bastante tempo, iria sentir-se absorvida por eles, fundindo-se nas cores e formas, na cena que algum mestre extraíra do seu próprio pensamento.

 

Era o que ela via, quando ousava desviar os olhos da estrada. Luminosidade, uma beleza incrível, estonteante, que fazia o seu coração estremecer, ao mesmo tempo que o acalmava.

 

Os campos eram verdes - de um verde indescritível -, cortados por sebes ou pontilhados por fileiras de árvores raquíticas. Vacas malhadas e ovelhas peludas pastavam aqui e ali, enquanto tractores se arrastavam de um lado para o outro. Algumas casas brancas e creme surgiam na paisagem, roupas a esvoaçar nos estendais, flores multicoloridas a desabrochar nos quintais.

 

E, de repente, de uma forma surpreendente e maravilhosa, Jude deparava-se com as paredes antigas de uma abadia em ruínas, ainda orgulhosa, contra os campos e o Sol ofuscante, como se aguardasse pelo momento de voltar à vida.

 

O que sentirias, especulou ela, se atravessasses o campo, subisses os degraus lisos e escorregadios que restam no meio daquelas pedras desalinhadas? Poderias sentir os passos que há séculos atravessaram aqueles degraus? Serias capaz de ouvir, se prestasses atenção, como a tua avó alegava, a música e as vozes, o clamor das batalhas, o choro das mulheres, o riso das crianças, há tanto tempo mortas?

 

Jude não acreditava nessas coisas, é claro. Mas aqui, com aquela luz, com aquele ar, parecia quase possível.

 

Da grandeza em ruínas à simplicidade encantadora, a terra estendia-se em beleza, oferecia-se ao viajante. Telhados de colmo, cruzes de pedra, castelos, depois aldeias com ruas estreitas, placas escritas em gaélico.

 

A Certa altura, ela avistou um velho a andar com o seu cão pela beira da estrada, onde a relva crescia alta e uma pequena placa alertava para pedras soltas. Homens e mulheres usavam chapéus castanhos, que Jude achou absolutamente fascinantes. Manteve a imagem na mente por muito tempo, invejando a liberdade e simplicidade da rotina que eles deveriam ter.

 

Andariam todos os dias, imaginou ela. Com chuva ou Sol. O velho voltaria para tomar um chá, num chalé pequeno e lindo, com tecto de colmo e um jardim bem cuidado. O cão também teria a sua casota, mas na maioria das vezes poderia ser encontrado junto do dono, enroscado a seus pés, ao lado da lareira.

 

Jude também tinha vontade de andar por aqueles campos na companhia de um cão devotado. Apenas andar e andar, até ter vontade de se sentar. E ficaria sentada, até ter vontade de se levantar. Era um conceito que a deslumbrava. Fazer o que quisesse, quando quisesse, no seu próprio ritmo, à sua maneira.

 

Era tudo muito estranho para ela, aquela felicidade simples, quotidiana. O seu maior medo era finalmente encontrá-la, roçar-lhe a beira prateada com as pontas dos dedos e, depois, perdê-la.

 

À medida que a estrada se perdia em curvas, aproximando-se e afastando-se da costa de Waterford, ela tinha vislumbres do mar, uma seda azul no horizonte, verde-cinza, turbulento ao arremeter contra uma praia, curva e larga.

 

A tensão nos seus ombros começou a desvanecer-se. As mãos relaxaram um pouco no volante. Aquela era a Irlanda de que a sua avó falava, as cores, o drama e a paz. E era, reflectiu Jude, o que ela viera ver; o lugar onde as suas raízes se haviam fincado, antes de serem arrancadas e replantadas no outro lado do Atlântico.

 

Sentia-se contente agora por não ter desistido no estacionamento e voltado para Chicago. Não conseguira percorrer a maior parte da viagem de três horas e meia sem um único percalço? Só não contara com a tal rotunda em Waterford City, onde teve de dar três voltas, quase batendo num carro cheio de turistas igualmente apavorados.

 

Mas, no final de contas, todos haviam escapado sem um único arranhão.

 

Agora estava quase a chegar. As placas para a aldeia de Ardmore indicavam isso. Pelo mapa meticuloso que a avó desenhara, Jude sabia que Ardmore era a aldeia mais próxima do chalé. Seria ali que teria de comprar mantimentos e tudo mais de que precisasse.

 

Como não poderia deixar de ser, a avó também lhe dera uma impressionante lista de nomes, pessoas que ela deveria procurar, parentes distantes a que se apresentaria. Mas isso poderia esperar, decidiu Jude.

 

Imagina, pensou ela, não teres de falar com ninguém por vários dias consecutivos! Não ouvires perguntas, ninguém à espera que saibas as respostas. Não teres de te ocupar com uma conversa superficial nas reuniões de professores. Não teres uma agenda, a qual és obrigada a cumprir.

 

Depois de um momento de agradável paz, perante essa perspectiva, o seu coração disparou, em pânico. O que, em nome de Deus, iria ela fazer durante os próximos seis meses?

 

Não tinha de ser forçosamente seis meses, lembrou-se a si própria, enquanto o corpo voltava a ficar tenso. Não era uma lei. Não seria presa na alfândega se voltasse depois de seis semanas. Ou seis dias. Ou seis horas, diga-se de passagem.

 

E, como psicóloga, devia saber que o seu maior problema era estar constantemente a lutar para corresponder às expectativas. Incluindo as suas. Embora admitisse que era muito melhor com a teoria do que com a prática, haveria de mudar isso imediatamente, e por tanto tempo quanto o que permanecesse na Irlanda.

 

Calma de novo, ligou o rádio do carro. O fluxo de gaélico deixou-a atordoada. Pôs-se a apertar os botões, à procura de alguma coisa em inglês. Virou na curva para Ardmore, em vez de continuar pela estrada para Tower Hill, até ao seu chalé.

 

No preciso instante em que se apercebeu do erro, o céu nublado abriu-se, como se uma mão gigantesca tivesse passado uma faca para o rasgar. A chuva caiu com toda a força sobre o tecto do carro. Descia como um lençol pelo pára-brisas, enquanto ela tentava descobrir o controlo para os limpa-pára-brisas.

 

Estacionou junto à berma e esperou enquanto os limpa-pára-brisas empurravam a água de um lado para o outro.

 

A aldeia ficava numa colina, na extremidade meridional do condado, beijando o mar da Irlanda e a baía de Ardmore. Ela conseguia ouvir o rumor do mar contra a praia, enquanto a tempestade a envolvia, impetuosa e poderosa. O vento sacudia as janelas do carro, zumbia, ameaçador, pelas pequenas frestas por onde conseguia passar.

 

Imaginara-se a passear pela aldeia, familiarizando-se com tudo, os lindos chalés, os pubs enfumarados e apinhados, andando pela praia da qual a avó falara, os penhascos dramáticos, os campos verdes.

 

Mas seria uma tarde adorável, ensolarada, as pessoas a empurrar bebés de faces rosadas nos carrinhos, homens de olhos insinuantes a tirar o chapéu à sua passagem.

 

Não imaginara uma súbita e violenta tempestade de primavera, com rajadas de vento e ruas desertas. Talvez ninguém more aqui, pensou

 

Talvez fosse uma espécie de Brigadoon, a aldeia encantada do musical da Broadway, e ela viajara no tempo.

 

Outro problema, disse a si mesma, era uma imaginação que tinha de ser contida com aflitiva regularidade.

 

Claro que havia pessoas a morar ali; elas eram simplesmente sensatas para sair da chuva. Os chalés eram graciosos, alinhados como damas com flores a seus pés. Flores, ela notou, que naquele momento eram severamente castigadas pela chuva.

 

Não havia motivo para não acreditar que aquela tarde adorável e ensolarada pudesse voltar. Agora sentia-se cansada, com uma pequena dor de cabeça da tensão. Queria apenas entrar num lugar quente e aconchegante.

 

Afastou-se da berma e avançou devagar, sob a chuva, com medo de perder a entrada certa de novo.

 

Não se apercebeu que estava a guiar pelo lado errado da estrada até que escapou por pouco de uma colisão de frente. Ou, para ser mais precisa, quando o outro carro se desviou dela, com uma guinada brusca e a buzinar.

 

Mas encontrou a curva certa. Pensou em como poderia tê-la perdido, com aquela enorme e redonda torre de pedra, no alto da colina. Projectava-se através da chuva, guardando a antiga catedral de Saint Declan, sem telhado, e todas as sepulturas, marcadas por lápides inclinadas.

 

Por um momento, Jude teve a impressão de ver um homem ali, todo prateado, com um brilho opaco sob a chuva. Tentando confirmar a impressão, ela quase saiu da estrada. O nervosismo não a fez cantar desta vez. O coração batia com demasiada violência para isso. As mãos tremiam quando diminuiu a velocidade, tentando descobrir onde o homem estaria, o que ele fazia. Mas nada havia, além da enorme torre, as ruínas e os mortos.

 

Claro que ninguém estivera ali, disse a si mesma. Ninguém pararia num cemitério em plena tempestade. Os seus olhos estavam cansados, pregando-lhe partidas. Apenas precisava de chegar a um lugar quente e seco, para recuperar o fôlego, descansar um pouco.

 

Quando a estrada se tornou pouco mais do que um trilho lamacento, ladeado por sebes da altura de um homem, Jude considerou-se perdida, sem qualquer esperança. O carro sacudia todo ao passar pelos buracos, enquanto ela procurava um lugar para dar a volta.

 

Encontraria abrigo na aldeia; certamente alguém se compadeceria de uma americana desmiolada que não era capaz de descobrir o caminho certo.

 

Alcançou um muro de pedra, baixo e atraente, coberto por uma espécie de arbusto. Teria sido pitoresco em qualquer outra ocasião. Havia uma abertura no muro que poderia ser uma entrada de carro, mas Jude já havia passado por ela quando compreendeu isso; e estava apavorada demais para tentar voltar atrás e manobrar o carro na lama.

 

Continuou a subir, e os buracos no caminho tinham-se praticamente transformado em valas. Jude estava com os nervos à flor da pele, os dentes batiam de forma audível, no final de outro tremendo solavanco. Pensou seriamente em parar ali e esperar que alguém aparecesse para rebocar o carro directamente para Dublin.

 

Soltou um grunhido alto, aliviada, ao avistar outra abertura. Arranjou forma de passar, quase arranhando a pintura. Parou o carro e encostou a testa ao volante.

 

Estava perdida, faminta, cansada, com uma necessidade desesperada de fazer xixi. Agora teria de sair do carro debaixo daquele aguaceiro e bater à porta de um estranho. Se fosse informada de que o chalé ficava a mais de três minutos de carro, teria de suplicar pelo uso da casa de banho.

 

Bem, os irlandeses eram famosos pela sua hospitalidade. Por isso, Jude duvidava que a pessoa que lhe abrisse a porta a pudesse rejeitar, o que a obrigaria a aliviar-se na sebe. Apesar de tudo, porém, ela não queria parecer desvairada e frenética.

 

Inclinou o espelho retrovisor e constatou que os olhos verdes, em geral calmos e serenos, pareciam agora em desatino. A humidade frisara os seus cabelos de tal maneira, que era como se tivesse uma moita castanha na cabeça. A pele exibia uma palidez doentia, resultado da combinação de ansiedade e fadiga. Não tinha energia suficiente para pegar no estojo de maquilhagem e tentar reparar o pior.

 

Experimentou apenas um sorriso cordial, conseguindo convencer as covinhas a aparecerem nas faces. A boca era um pouco larga demais, pensou Jude, assim como os olhos eram um pouco grandes demais; e a tentativa mostrou-se mais perto de uma careta do que de um sorriso.

 

Mas era o melhor que podia fazer.

 

Pegou na bolsa e abriu a porta do carro, para enfrentar a chuva.

 

E foi nesse instante que se apercebeu de um movimento na janela do segundo andar. Apenas o esvoaçar de uma cortina, que a fez levantar os olhos. A mulher estava vestida de branco, tinha os cabelos claros, muito claros, caindo em ondas exuberantes sobre os ombros e os seios. Através da camada cinzenta de chuva, os seus olhos encontraram-se por um instante. Jude teve uma impressão de enorme beleza e profunda tristeza.

 

Mas então a mulher desapareceu, e só restou a chuva.

 

Jude estremeceu. O vento fazia com que se sentisse enregelada até aos ossos. Decidiu sacrificar a dignidade, correndo até ao portão branco, que levava a um pequeno jardim, glorioso com os rios de flores que fluíam nos lados do caminho branco e estreito.

 

Não havia varanda, apenas um alpendre. Mas o segundo andar do chalé projectava-se para a frente, proporcionando uma protecção acolhedora. Ela pegou na aldraba de bronze, com o formato de um nó céltico, e bateu na porta de madeira áspera, que parecia tão grossa como um tijolo, arqueada de uma maneira encantadora.

 

Enquanto estremecia e tentava não pensar na bexiga, Jude examinou o que podia, a partir do seu abrigo. Era como uma casa de bonecas, pensou ela. Toda branca e suave, com remates em verde-escuro, as janelas de muitas vidraças flanqueadas por persianas, que pareciam funcionais, além de decorativas. Um carrilhão de vento, com três colunas de sinos, soava musicalmente.

 

Ela bateu de novo, desta vez com mais força. Sei que está aí dentro! Deixando de lado as boas maneiras, Jude saiu para a chuva e tentou espiar pela janela da frente.

 

Depois deu um pulo para trás, com um sentimento de culpa, quando ouviu o bi-bi cordial de uma buzina.

 

Uma carrinha vermelha, um pouco enferrujada, com um motor que ronronava como um gato contente, parou atrás do seu carro. Jude afastou os cabelos molhados do rosto, preparando-se para dar explicações, quando a pessoa saiu.

 

De início, pensou que fosse um homem baixo e magro, com botas velhas e enlameadas, um casaco sujo e umas calças velhas. Mas o rosto que a fitou, radiante, sob um boné castanho, era incontestavelmente o de uma mulher.

 

E uma mulher quase deslumbrante.

 

Os seus olhos eram tão verdes como as colinas molhadas que a cercavam; a pele, luminosa. Jude viu as madeixas de cabelo ruivo a sair por baixo do boné, enquanto a mulher avançava, apressada, conseguindo ser graciosa, apesar das botas.

 

- Deve ser a Sra. Murray. Um timing perfeito, não foi?

 

- Acha mesmo? Estou um pouco atrasada hoje, porque o neto da Sra. Duffy, o Tommy, atirou metade dos seus blocos de construção na retrete, mais uma vez, e descarregou o autoclismo. Foi uma confusão e tanto.

 

- Hum...

 

Jude não pôde pensar em mais nada para dizer, enquanto especulava acerca da razão por que estava ali parada, à chuva, na conversa com uma estranha sobre brinquedos atirados para uma retrete.

 

- Não consegue encontrar a sua chave?

 

- A minha chave?

 

- Da porta da frente. Não se preocupe. Tenho a minha. Vamos entrar e sair da chuva.

 

Parecia uma ideia maravilhosa.

 

- Obrigada. - Jude acompanhou a mulher até à porta. - Quem é a senhora?

 

- Oh, peço-lhe perdão. Sou Brenna OToole. - Brenna estendeu a mão, apertou a de Jude, sacudiu-a vigorosamente. - A sua avó não a avisou que eu prepararia o chalé para a sua chegada?

 

- A minha avó... o chalé? - Jude encolheu-se toda. - O meu chalé? Este é o meu chalé?

 

- Sim, se for Jude Murray, de Chicago. - Brenna sorriu, gentilmente, embora alteasse a sobrancelha esquerda. - Aposto que está mais do que um pouco cansada, depois da longa viagem.

 

- É verdade. - Jude esfregou o rosto com as mãos, enquanto Brenna abria a porta. - E eu pensei que estava perdida.

 

- Parece que foi encontrada. Ceade milefailte.

 

Ela deu um passo para o lado, para que Jude pudesse entrar primeiro.

 

Mil vezes bem-vinda, pensou Jude. Sabia pelo menos isso de gaélico. E parecia mesmo mil vezes quando entrou no ambiente aquecido.

 

O vestíbulo, quase da mesma largura que o alpendre, tinha uma escada, polida pelo tempo e uso. Uma arcada à direita levava à sala, tão bonita como uma gravura, com as paredes da cor de biscoitos frescos, os arremates na tonalidade do mel e cortinas de renda levemente amareladas pelo tempo. A impressão era a de que tudo na sala fora descolorido pelo Sol.

 

Os móveis estavam gastos e desbotados, mas alegres com as riscas azuis e brancas de fofas almofadas. As mesas encontravam-se apinhadas de tesouros, peças em cristal, figuras esculpidas, garrafas em miniatura. Tapetes espalhavam-se, coloridos, sobre um soalho de tábuas largas. A lareira de pedra havia sido preparada com blocos de turfa, pelo que Jude imaginou.

 

Era a própria imagem da simplicidade, com uma ténue fragrância floral.

 

- É encantadora, não é? - Jude empurrou os cabelos para trás, enquanto dava uma volta. - Como uma casa de brinquedos.

 

- A velha Maude gostava de coisas bonitas.

 

Alguma coisa no seu tom fez com que Jude interrompesse a volta para fitar Brenna.

 

- Sinto muito. Eu não a conheci. Mas vejo que a senhora gostava dela.

 

- Claro. Todos gostavam da velha Maude. Era uma verdadeira dama. Ela ficará satisfeita com a sua vinda, para cuidar da casa. Não gostaria

que ficasse vazia. Quer que lhe mostre tudo, para que se possa orientar?

 

- Agradecer-lhe-ia imenso, mas primeiro estou desesperada para ir à casa de banho.

 

Brenna soltou uma gargalhada.

 

- É uma longa viagem desde Dublin. Há uma pequena casa de banho ao lado da cozinha. O meu pai e eu construímo-la há apenas três anos, onde havia um armário. Fica ali.

 

Jude não perdeu tempo com explorações. "Pequena" era mesmo a palavra exacta para descrever a casa de banho. Ela poderia bater com os cotovelos nas paredes laterais se dobrasse os braços e os levantasse. Mas as paredes eram de um rosa claro, muito bonito, a louça brilhava, lavada recentemente, e havia toalhas de mão bordadas penduradas numa argola.

 

Uma olhada para o espelho oval, acima do lavatório, indicou a Jude que sim, era verdade, ela estava mesmo com tão má aparência quanto receara. E embora fosse de estatura e constituição medianas, sentia-se como uma amazona corpulenta e desajeitada ao lado da pequena Brenna.

 

Irritada consigo mesma por ter feito a comparação, Jude afastou os cabelos da testa e saiu do banheiro.

 

- Oh, eu teria tratado disso.

 

A eficiente Brenna já trouxera a sua bagagem para o vestíbulo.

 

- Deve estar a cair de cansaço, depois de uma viagem tão longa. Eu levo as suas coisas lá para cima. Imagino que queira ficar no quarto da velha Maude. É bastante agradável. Depois, vamos pôr a chaleira ao lume, para que possa tomar um chá, e acenderei a lareira. Está um dia húmido.

 

Enquanto falava, Brenna subia a escada com as duas enormes malas de Jude, sem fazer o menor esforço, como se estivessem vazias. Jude seguiu-a, com a sua bolsa grande, o computador e a impressora portáteis, desejando ter passado mais tempo no ginásio.

 

Brenna mostrou os dois quartos. Tinha razão: o quarto da velha Maude, com a sua vista do jardim para a frente, era o mais acolhedor. Mas Jude teve apenas uma vaga impressão, pois bastou olhar para a cama para que sucumbisse ao cansaço da viagem, que deixara o seu corpo pesado como chumbo.

 

Ela ouviu apenas em metade a voz alegre e harmoniosa a explicar sobre as roupas de cama, aquecimento, os caprichos da pequena lareira no quarto. Enquanto falava, Brenna acendia a turfa. Quando ela desceu, Jude foi atrás, como se estivesse a andar na água. Brenna serviu o chá e mostrou como a cozinha funcionava.

 

Jude soube, vagamente, que a despensa fora recentemente abastecida, que poderia fazer as suas compras no Dusfys, na aldeia, quando precisasse de mantimentos. Havia mais: pilhas de blocos de turfa ao lado da porta nas traseiras, como a velha Maude preferia, embora houvesse também lenha, caso fosse essa a preferência da nova moradora; soube como o telefone fora reinstalado e como acender o fogão.

 

- Ah, vá, está a dormir de pé! - Com uma expressão compreensiva, Brenna pôs uma caneca azul nas mãos de Jude. - Leve isso para o quarto e trate de se deitar. Acenderei o fogo aqui em baixo.

 

- Desculpe. Não consigo concentrar-me em nada.

 

- Vai sentir-se melhor depois de dormir um pouco. O meu número está ao lado do telefone, caso precise de alguma coisa. A minha família mora a apenas um quilómetro daqui. A minha mãe, o meu pai e as minhas quatro irmãs. Se precisar de alguma coisa, basta telefonar ou ir à casa dos OToole.

 

- Obrigada, eu... Quatro irmãs?

 

Brenna riu de novo, enquanto levava Jude de volta ao vestíbulo.

 

- O meu pai bem queria um rapaz, mas acabou cercado por mulheres. Até temos uma cadela. Vá, suba lá.

 

- Muito obrigada. E peço que me desculpe. Não costumo ser tão... vaga.

 

- Também não é todos os dias que se cruza o oceano pelo ar, não é mesmo assim? Quer alguma coisa antes que eu vá embora?

 

- Não, obrigada... - Jude encostou-se ao corrimão. Piscou os olhos algumas vezes. - Ah, quase me esquecia. Estava uma mulher na casa. Para onde foi ela?

 

- Uma mulher? Onde?

 

- À janela. - Jude balançou, quase derramando o chá. Sacudiu a cabeça para a desanuviar. - Estava uma mulher à janela, lá em cima, a olhar para fora quando cheguei.

 

- Como era ela?

 

- Loura, jovem, muito bonita.

 

- Deve ser a Lady Gwen. - Brenna foi para a sala e acendeu a pilha de turfa. - Ela não se mostra a toda a gente.

 

- Para onde foi ela?

 

- Ainda está aqui, imagino. - Satisfeita porque o fogo pegara na turfa, Brenna levantou-se. Limpou a poeira das calças. - Ela está aqui há trezentos anos, mais coisa menos coisa. É o seu fantasma, Sra. Murray.

 

- O meu quê?

 

- O seu fantasma. Mas não se preocupe com ela. Não lhe irá fazer mal algum. É uma história triste, mas que vai ficar para uma outra ocasião, quando não estiver tão cansada.

 

Era difícil concentrar-se. A mente de Jude queria desligar-se, o corpo queria parar, mas parecia importante esclarecer aquele ponto.

 

- Está a dizer-me que a casa está assombrada?

 

- Exactamente. A sua avó não lhe contou?

 

- Não creio que ela tenha feito qualquer comentário a respeito disso. Acredita em fantasmas?

 

Brenna alteou uma sobrancelha.

 

- Viu-a, não foi? - Quando Jude franziu o rosto, ela acrescentou:

- Vá, durma uma sesta. Quando acordar, vá até ao Gallaghers Pub, se estiver com disposição, e eu pagar-lhe-ei a sua primeira caneca de cerveja irlandesa.

 

Atordoada demais, Jude balançou a cabeça.

 

- Não bebo cerveja.

 

- É uma pena. - Disse Brenna, parecendo ao mesmo tempo chocada e sincera. - Bem, um bom dia para si, Sra. Murray.

 

- Jude...

 

O olhar de Jude era fixo.

 

- Está bem, Jude.

 

Brenna mostrou de novo o seu sorriso cativante e saiu para a chuva.

 

Uma casa assombrada, pensou Jude, enquanto subia a escada com a sensação de que a cabeça girava lentamente, vários centímetros acima dos ombros. Os absurdos da fantasia irlandesa. A sua avó, é verdade, sempre contara histórias de fadas. Mas eram apenas isso, histórias.

 

Mas ela tinha visto alguém... não tinha?

 

Não. A chuva, as cortinas, as sombras... Jude largou a caneca com o chá que ainda não provara. Conseguiu tirar os sapatos. Fantasmas não existiam. Havia apenas um lindo chalé, no alto de uma colina encantadora. E a chuva.

 

Ela caiu na cama, com o rosto virado para baixo. Pensou em puxar a colcha para se cobrir, mas mergulhou no sono antes disso.

 

E, quando sonhou, foi com uma batalha travada numa colina verde, onde os raios do sol brilhavam nas espadas, que pareciam jóias. Sonhou também com fadas a dançar na floresta, o luar a iluminar as folhas, como se fossem lágrimas. E sonhou ainda com um profundo mar azul, que batia como um coração contra a praia que o aguardava.

 

E, ao longo de todos os sonhos, a única coisa constante era o som do choro contido de uma mulher.

 

                                           CAPÍTULO 2

Já estava escuro quando Jude acordou. O fogo na turfa havia-se reduzido a brasas, que cintilavam como pequenos rubis. Ela contemplou-as, os olhos ainda turvos do sono, o coração aos pulos na garganta como um cervo numa planície, enquanto confundia as brasas com olhos a observarem-na.

 

Mas não demorou muito até que a sua memória voltasse a prevalecer, até que a mente se desanuviasse. Estava na Irlanda, no chalé em que a sua avó vivera durante a infância. E começava a congelar.

 

Sentou-se na cama, esfregando os braços gelados. Tacteou para acender o candeeiro na mesinha de cabeceira. Um olhar para o relógio fê-la piscar os olhos, depois estremecer. Era quase meia-noite. A sesta de recuperação durara quase doze horas.

 

E, Jude descobriu, não só sentia frio, como também uma tremenda fome.

 

Ficou a olhar para as brasas por um momento, perplexa. Como o fogo praticamente se apagara, e não tinha a menor ideia de como reacendê-lo, resolveu deixá-lo assim. Desceu para a cozinha em busca de comida.

 

A casa rangia e gemia em seu redor... sons normais, disse ela a si mesma, embora a deixassem sobressaltada, olhando para trás a cada instante. Não que estivesse a pensar a esse respeito nem sequer a considerar o fantasma a que Brenna se referira. Apenas não estava muito acostumada aos sons normais de uma casa. No seu apartamento, o soalho não rangia e o único brilho vermelho que podia ver era a luz acesa do sistema de alarme.

 

Mas acabaria por se acostumar ao novo ambiente.

 

E logo descobriu que Brenna não exagerara. A cozinha estava mesmo bem abastecida, com comida na pequena arca e na despensa pequena. Poderia sentir frio, reflectiu Jude, mas fome certamente não passaria.

 

O seu primeiro pensamento foi o de abrir uma lata de sopa e esquentá-la no microondas. Com a lata na mão, olhou em redor da cozinha e fez uma descoberta chocante.

 

Não havia microondas.

 

É mesmo um problema e tanto, pensou Jude. Ela teria de usar uma panela e o fogão, concluiu. E foi então que surgiu o dilema seguinte, ao descobrir que não havia um abre-latas automático.

 

A velha Maude não só vivera num outro país, concluiu Jude, enquanto vasculhava as gavetas, mas também num outro século.

 

Jude conseguiu usar o abre-latas manual que encontrou. Despejou sopa numa panela que pôs no fogão. Depois de escolher uma maçã na taça em cima da mesa de cozinha, foi até à porta das traseiras. Abriu-a para deparar com uma neblina, suave como seda e húmida como a chuva.

 

Não dava para ver nada, a não ser o próprio ar, as camadas de um cinza-claro, mudando de posição a cada instante na noite escura. Não havia formas, não havia nenhuma claridade, apenas os contornos instáveis da neblina. Estremecendo, ela deu um passo para fora. Foi envolvida no mesmo instante.

 

O sentimento de solidão foi imediato e total, mais profundo do que qualquer outro que já conhecera. Mas não era assustador ou triste, constatou ela, enquanto estendia um braço e observava a neblina a absorver a sua mão, até ao pulso. Era estranhamente libertador.

 

Ela não conhecia ninguém. Ninguém a conhecia. Nada se esperava dela, excepto o que pedisse a si mesma. Por aquela noite, uma noite maravilhosa, estava absolutamente sozinha.

 

Ouvia uma espécie de pulsação na noite, um som baixo, como um tambor. Seria o mar? Ou era apenas a neblina a respirar? E no momento em que começava a rir-se de si mesma, ouviu outro som, também suave, uma música insinuante.

 

Gaitas e sinos, flautas e assobios? Encantada, Jude quase deixou o alpendre traseiro, quase seguiu a magia do som pelo nevoeiro adentro, como uma sonâmbula.

 

Eram sinos de vento, compreendeu ela, rindo de novo, apenas um pouco nervosa. Como o carrilhão na frente do chalé. E deveria estar ainda meio adormecida, se considerava a possibilidade de sair a meio da noite e vaguear pelo nevoeiro, acompanhando o som da música.

 

Obrigou-se a voltar para dentro do chalé. Fechou a porta. E foi então que ouviu o chiar da sopa a ferver e a derramar na panela.

 

- Bolas! - Jude correu até ao fogão e apagou o fogo. - O que se passa comigo? Uma menina de doze anos é capaz de esquentar o raio de uma lata de sopa sem derramar!

 

Limpou a sujeira, queimando nesse processo a ponta de dois dedos. Comeu a sopa, de pé, na cozinha, enquanto dava um sermão a si própria.

 

Já estava na hora de parar com as trapalhices, de se controlar, de se pôr na linha. Era uma pessoa responsável, uma mulher de confiança, não alguém que se lançava, a sonhar, pela neblina, à meia-noite. Comia a sopa através de movimentos mecânicos, como se cumprisse um dever, sem experimentar o prazer tolo que um lanche à meia-noite proporcionava.

 

Era tempo de encarar o motivo por que viera para a Irlanda, em primeiro lugar. Era tempo de parar de fingir que se tratava de férias prolongadas, durante as quais exploraria as suas raízes e trabalharia em textos que consolidariam o lado editorial da sua não muito estelar carreira universitária.

 

Viera porque sentira um medo mortal de estar à beira de algum colapso. O stress tornara-se no seu companheiro constante, convidando-a na maior alegria para desfrutar de uma enxaqueca ou a namoriscar com uma úlcera.

 

Chegara ao ponto em que não era capaz de enfrentar a rotina diária do seu trabalho, em que negligenciava os alunos, a família. E a si própria.

 

Mais do que isso e ainda pior, Jude admitia, era o facto de ter começado a detestar os alunos, a família. E a si própria.

 

Qualquer que fosse a razão, - e ela ainda não estava preparada para explorar essa área - a única solução fora uma mudança radical. Um descanso. Sucumbir não era uma opção. E sucumbir em público era inadmissível.

 

Jude não se humilharia nem o faria à sua família, que nada fizera para tal merecer. Por isso, ela fugiu... Talvez um acto de cobardia, mas tinha sido, por mais estranho que parecesse, o único passo lógico em que fora capaz de pensar.

 

Quando a velha Maude morrera, graciosamente, na idade avançada de cento e um anos, uma porta abrira-se.

 

Fora uma iniciativa inteligente passar por essa porta. Uma atitude responsável. Precisava de tempo sozinha, tempo para se manter quieta, tempo para reavaliar. E seria exactamente isso o que teria.

 

Tencionava também trabalhar. Não teria sido capaz de justificar a viagem e o tempo, se não tivesse uma espécie de plano. Queria escrever um ensaio em que combinasse as raízes da família com a sua profissão. Se nada mais conseguisse, documentar as lendas e mitos locais, com uma análise psicológica do seu significado e propósito, manteria a sua mente activa, com menos tempo para se apoquentar.

 

Passara tempo demais a remoer-se. Uma característica irlandesa, alegava a sua mãe. O pensamento fez com que Jude suspirasse. Os irlandeses gostavam mesmo de remoer. Portanto, ela precisava de se entregar a isso de vez em quando, e escolhera o melhor lugar do mundo para o fazer.

 

Já sentindo-se melhor, Jude virou-se para colocar a tigela vazia na máquina de lavar a loiça... e descobriu que não havia nenhuma.

 

E foi a rir-se que ela subiu para o quarto.

 

Desfez as malas, meticulosamente. Guardou tudo num armário adorável, que não parava de ranger, e numa maravilhosa cómoda antiga, com as gavetas um pouco emperradas. Arrumou os artigos de higiene pessoal.

 

Admirou o velho lavatório. Permitiu-se um longo banho de chuveiro, na banheira de pés de garras, com uma cortina fina de plástico pendurada por ganchos de latão embaçados.

 

Vestiu um pijama de flanela e um roupão, antes que os dentes começassem a bater. Depois, abaixou-se para acender os blocos de turfa na lareira. Surpreendida com o sucesso, passou vinte minutos sentada no chão, os braços em torno dos joelhos, sorrindo para o fogo encantador e imaginando-se a satisfeita mulher de um lavrador, à espera que o seu homem voltasse dos campos.

 

Ao sair do devaneio, foi explorar o segundo quarto, considerando o seu potencial como escritório.

 

Era um quarto pequeno com janelas estreitas que davam para a frente e o lado do chalé. Depois de alguma deliberação, Jude concluiu que o melhor seria ficar virada para o sul, a fim de poder contemplar o campanário da igreja e os telhados da aldeia, assim como a praia larga que descia para o mar.

 

Pelo menos ela presumiu que seria essa a vista, assim que o dia clareasse e a neblina se dissipasse.

 

A dificuldade encontrada foi como se instalar, já que não havia uma mesa no pequeno quarto. Jude passou a hora seguinte a procurar a mesa apropriada. Carregou-a da sala para o quarto. Centralizou-a diante da janela. Só depois é que instalou o seu equipamento.

 

Ocorreu-lhe que poderia escrever na mesa da cozinha, sob o calor de um fogo aconchegante, ouvindo a melodia dos sinos de vento. Mas parecia informal demais, uma disposição desorganizada.

 

Encontrou o adaptador certo para a tomada, ligou o computador portátil, e abriu o arquivo que tencionava manter como um diário da sua vida na Irlanda.

 

3 de Abril, Faerie Hill Cottage, Irlanda Sobrevivi à viagem.

 

Fez uma pausa. Soltou uma gargalhada. Parecia que passara por uma guerra. Começou a apagar, para começar de novo. Mas conteve-se. Nada disso. O diário seria apenas para ela. Escreveria o que surgisse na sua mente. E como surgisse.

 

A viagem de Dublin até aqui foi longa e mais difícil do que eu imaginava. Não posso deixar de especular acerca de quanto tempo precisarei para me acostumar a conduzir pela esquerda. Duvido que algum dia o consiga. Apesar de tudo, porém, a paisagem era maravilhosa. As fotos que eu vi até hoje estão muito longe de fazer justiça aos campos irlandeses. Dizer que são verdes não é suficiente. De um verde viçoso e exuberante também não chega a ser certo. O melhor que posso fazer é dizer que se trata de um verde que parece tremeluzir.

 

As aldeias são encantadoras, limpas e arrumadas de uma maneira tão inacreditável, que não pude deixar de pensar em legiões de elfos a esgueirarem-se todas as noites para lavar as calçadas e polir os prédios.

 

Vi um pouco da aldeia de Ardmore, mas chovia fortemente quando cheguei. Além disso, sentia-me cansada demais para formar impressões reais e apenas registei o esmero habitual e o encanto da praia larga.

 

Encontrei o chalé por mero acaso. A avó diria que foi o destino, é claro, mas na verdade foi apenas um golpe de sorte. É mesmo lindo, no alto de uma colina, com flores no jardim da frente. Espero cuidar bem de tudo. Talvez haja uma livraria na aldeia, para que eu possa comprar livros sobre jardinagem. De qualquer forma, as flores estão lindas agora, apesar da humidade no ar.

 

Avistei uma mulher na janela do quarto - ou pensei ter avistado - a olhar para mim. Foi um momento estranho. Pareceu-me que os nossos olhos se encontraram por alguns segundos. Ela era bonita, pálida, loura... e trágica. Claro que foi apenas uma sombra, uma ilusão óptica, pois não havia ninguém ali.

 

Brenna O'Toole, uma mulher da aldeia, de uma exasperante eficiência, parou a sua carrinha atrás do meu carro. No mesmo instante assumiu o comando de tudo, de uma maneira um tanto brusca e cordial... e profundamente apreciada. Ela é deslumbrante

- e pergunto-me se todos aqui são deslumbrantes - com aquele comportamento rude e um tanto viril que algumas mulheres conseguem adoptar sem o menor esforço, enquanto continuam a manter uma feminilidade absoluta.

 

Imagino que ela me considere tola e inepta, mas foi gentil a respeito disso.

 

Comentou que a casa era assombrada, mas imagino que os aldeões dizem isso sobre todas as casas do país. Mas como decidi estudar a possibilidade de escrever um ensaio sobre as lendas irlandesas, posso pesquisar a base para a sua afirmação.

 

Como é natural, o meu relógio biológico e o meu organismo estão desregulados. Dormi durante a maior parte do dia, e fiz uma refeição à meia-noite.

 

Está escuro e enevoado lá fora. A neblina é luminosa e, de certa forma, pungente. Sinto-me confortável fisicamente e tranquila mentalmente.

 

Vai correr tudo bem.

 

Tude recostou-se. Deixou escapar um longo suspiro. Isso mesmo, pensou ela, vai correr tudo bem.

 

Às três horas da madrugada, quando os espíritos costumam agitar-se, Jude estava encolhida na cama, debaixo de uma colcha grossa, com um bule de chá na mesinha e um livro na mão. O fogo crepitava na lareira, a neblina esvoaçava pelas janelas. Ela perguntou-se se alguma vez já se sentira tão feliz. E adormeceu, com a luz acesa e os óculos de leitura a escorregar pelo nariz.

 

Com a luz do dia, a chuva e a neblina afastadas pela brisa, o seu mundo tornou-se um lugar diferente. A claridade era suave, proporcionando aos campos um verde uniforme. Podia ouvir os pássaros, o que a lembrou de que precisava de desencantar o livro que comprara sobre a identificação das espécies. Naquele momento, porém, era bastante agradável e suficiente apenas ouvir aqueles gorjeios fascinantes. Não parecia importar que pássaro estava a cantar, desde que cantasse.

 

Andar pela relva densa e flexível parecia quase um sacrilégio, mas foi um pecado a que Jude não pôde resistir.

 

Na colina, ao lado da aldeia, ela avistou as ruínas da outrora grandiosa catedral dedicada a São Declan, com a torre redonda e gloriosa a pairar acima de tudo. Pensou por um instante no vulto que avistara ali, através da chuva. E estremeceu.

 

Trenguice. Afinal, não passava de um lugar como outro qualquer. Um sítio histórico, muito interessante. A avó - e o guia turístico - haviam-na informado sobre as inscrições em ogham, uma forma arcaica de irlandês, no interior e na arcada romântica. Iria até lá para ver pessoalmente.

 

E, para leste, se a memória não falhava, depois do hotel no penhasco, ficava a antiga Fonte de São Declan, com as três cruzes de pedra e a cadeira também de pedra.

 

Visitaria as ruínas e a fonte, percorreria o trilho no penhasco. Talvez um dia, muito em breve, desse uma volta completa pelo promontório.

 

Mas hoje ela queria coisas mais simples, mais tranquilas.

 

As águas da baía faiscavam em azul, fluindo para os tons mais profundos do oceano. A praia larga e plana estava deserta.

 

Numa outra manhã, pensou ela, iria de carro até à aldeia, apenas para passear sozinha pela praia.

 

Hoje, porém, era um dia para vaguear pelos campos, como ela imaginara, longe da aldeia, contemplando as montanhas. Esqueceu-se que pretendia apenas verificar as flores, orientar-se sobre a área em torno do chalé, antes de tratar de questões práticas.

 

Precisava de providenciar uma tomada de telefone no segundo quarto, a fim de poder ter acesso à Internet, para as suas pesquisas. Precisava de ligar para Chicago, de forma a avisar a família que chegara sã e salva. E, com certeza, precisava de ir à aldeia e descobrir onde poderia fazer compras e descontar cheques.

 

Mas estava um dia tão glorioso, o ar gentil como um beijo, a brisa suficientemente fresca para dissipar da sua mente os restos de fadiga da viagem, que ela continuou a andar, continuou a observar tudo, até que os sapatos ficaram molhados devido à relva encharcada pela chuva.

 

Era como entrar num quadro, pensou Jude de novo, um quadro animado pelo ondular das folhas, os sons dos pássaros, a fragrância da vegetação húmida.

 

Quando se deparou com outra casa, foi quase um choque. Ficava a alguma distância da estrada, com sebes na frente, nos lados e atrás, dando a impressão de serem pedaços apanhados sem qualquer cuidado e plantados ali ao acaso. Mas, de certa forma, o resultado era bom, reflectiu Jude. Era uma encantadora combinação de pedra e madeira, com saliências aqui e ali, uma profusão de flores na frente e atrás. Para além do jardim nos fundos havia uma cabana - que a mãe chamaria de barraca - com ferramentas e máquinas projectando-se pela porta.

 

No caminho ao lado da casa havia um carro, pintado de cinza, dando a impressão de que saíra da linha de montagem muitos anos antes de Jude ter nascido.

 

Uma enorme cadela amarela dormia numa poça de sol, no outro lado da casa. Ou pelo menos Jude presumiu que dormia. A cadela estava deitada de costas, com as patas para o ar, como um animal atropelado numa estrada.

 

A casa dos OToole? Jude concluiu que deveria ser, quando uma mulher saiu pela porta nas traseiras, com um cesto de roupa nas mãos.

 

Tinha cabelos ruivos brilhantes, o corpo vigoroso, de ancas largas, que Jude imaginaria numa mulher que tivera de carregar e dar à luz cinco filhos. A cadela, provando que estava viva, rolou para o lado e balançou a sua cauda duas vezes, enquanto a mulher se encaminhava para o estendal.

 

Ocorreu a Jude que nunca antes vira alguém a pendurar roupas num estendal. Não era uma actividade em que mesmo as donas de casa mais dedicadas se costumassem empenhar no centro de Chicago. Parecia-lhe um processo automático e, por isso mesmo, tranquilizador. A mulher tirou molas do bolso do avental e segurou-as com a boca, enquanto se abaixava para tirar uma fronha do cesto. Sacudiu-a com um movimento firme, prendendo-a depois no estendal. O item seguinte foi submetido ao mesmo processo, partilhando a segunda mola.

 

Fascinante.

 

A mulher foi até ao final da corda, sem qualquer pressa óbvia, tendo a cadela amarela por companhia. Esvaziou o cesto, enquanto as roupas que já pendurara esvoaçavam húmidas, com a brisa que soprava.

 

Apenas outra parte do quadro, reflectiu Jude. Daria àquela secção o título de Esposa Rural.

 

Quando o cesto ficou vazio, a mulher virou-se para a outra corda no estendal, recolhendo as roupas já penduradas ali e secas. Dobrava-as e empilhava-as no cesto.

 

Ajeitou o cesto contra a anca e voltou para dentro da casa, com a cadela a pular ao seu lado.

 

Era uma maneira agradável de passar a manhã, pensou Jude.

 

E, ao final da tarde, quando todos voltassem para casa, encontrariam o aroma delicioso do jantar no fogo. Alguma espécie de guisado, imaginou Jude. Ou um rosbife com batatas e molho. A família sentar-se-ia em redor da mesa, com travessas e pratos maravilhosamente desiguais. Conversariam sobre o dia, rindo muito. Às escondidas, dariam restos à cadela, suplicante debaixo da mesa.

 

Famílias grandes, pensou ela, deviam ser um grande conforto.

 

Claro que não havia nada errado com as pequenas, ela acrescentou no mesmo instante, sentindo-se culpada. Ser filha única tinha as suas vantagens. Obtivera toda a atenção dos pais.

 

Talvez atenção demais, murmurou uma vozinha no seu ouvido.

 

Mas Jude considerou que essa voz era grosseira e tratou de a bloquear. Virou-se para voltar ao chalé, a fim de fazer alguma coisa prática com o seu tempo.

 

Como se sentia desleal, telefonou imediatamente para casa. Por causa da diferença de fuso horário, apanhou os pais em casa, antes de saírem para trabalhar. Sufocou a culpa com uma conversa jovial, garantindo que estava a descansar, a divertir-se e ansiosa por aquela nova experiência.

 

Sabia muito bem que ambos consideravam a sua impulsiva viagem à Irlanda uma espécie de experiência, uma mudança de quarenta e cinco degraus no caminho que se mostrara contente em seguir por tanto tempo. Os pais não se mostraram contra, o que a deixara aliviada. Apenas se mostraram perplexos. E Jude não tinha como tornar as coisas mais claras para os dois. Nem para si mesma.

 

Pensando na família, fez outro telefonema. Não havia necessidade de explicar o que quer que fosse à avó Murray. Ela simplesmente sabia. Com o coração mais leve, Jude relatou à avó todos os detalhes da viagem, as suas impressões, a satisfação com o chalé, enquanto fazia um chá e preparava uma sanduíche.

 

- Acabei de dar uma volta - continuou ela, com o telefone preso ao ombro, enquanto punha o almoço simples na mesa. - Vi as ruínas e a torre à distância. Irei lá dar uma vista de olhos mais tarde.

 

- É um lugar extraordinário. - Comentou a avó. - Há muita coisa para sentir aí.

 

- Estou interessada em ver as inscrições e a arcada, mas não queria afastar-me muito hoje. Vi a casa dos vizinhos. Devem ser os OToole.

 

- Ah, Michael OToole. Lembro-me de quando ele era apenas um rapaz... O Mick tinha um sorriso fácil e um jeito especial de arrancar chá e bolos de qualquer uma. Casou com a linda rapariga Logan, a Mollie, e tiveram cinco filhas. A que tu conheceste, a Brenna, deve ser a mais velha da prole. Como está a bela Mollie?

 

- Não cheguei a falar com ela. Estava muito ocupada a pendurar a roupa na corda.

 

- Não encontrarás nenhuma pessoa ocupada demais para um momento de conversa, Jude Francês. Da próxima vez que saíres para passear, pára e cumprimenta a Mollie OToole.

 

- Está bem. Ah, avó... - Divertida, Jude sorriu, enquanto tomava um gole de chá. - A avó não me disse que o chalé era assombrado.

 

- Claro que eu disse, rapariga. Não ouviste as cassetes, nem leste as cartas e outros documentos que te dei?

 

- Ainda não.

 

- E deves estar a pensar que lá está a avó de novo, com as suas histórias fantasiosas. Mas contei tudo sobre Lady Gwen e o príncipe das fadas que se apaixonou por ela.

 

- Príncipe das fadas?

 

- É o que dizem. O chalé foi construído numa colina encantada, sobre o palácio das fadas. Lady Gwen ainda espera o seu amor, definhando-se, arrependida por ter escolhido o bom senso e rejeitado a felicidade. E ele perdeu a felicidade por causa do orgulho.

 

- É muito triste. - Murmurou Jude.

 

- Também acho. Ainda assim, a colina é um bom lugar para conheceres melhor o teu coração. Não deixes de olhar para dentro de ti enquanto estiveres aí.

 

- Neste momento, estou apenas à procura de sossego.

 

- Descansa tanto quanto precisares, porque há muito sossego por aí. Mas não te mantenhas à distância por tempo demais, apenas a observar o resto do mundo. A vida é muito mais curta do que imaginas.

 

- Porque não vem para cá, avó, e fica comigo no chalé?

 

- Eu voltarei, podes ter a certeza, mas agora é a tua vez. E presta muita atenção. És uma boa rapariga, Jude, mas não precisas de ser boa durante o tempo todo.

 

- É o que a avó sempre me diz. Talvez eu encontre algum belo patife irlandês e tenhamos um romance arrebatador.

 

- Não te faria mal algum. Podes levar flores por mim ao túmulo da prima Maude, querida? E avisa-a que voltarei assim que puder.

 

- Claro. Amo-a, avó.

 

Jude não sabia para onde o tempo ia. Pensara em fazer alguma coisa produtiva. A sua intenção fora a de sair para admirar as flores apenas por alguns minutos. Colher um punhado delas para pôr na garrafa de vidro azul que encontrara na sala. Como era de se esperar, apanhou flores demais e precisou de outra garrafa. Parecia não haver um vaso de verdade na casa. Depois, fora bastante divertido sentar-se no alpendre para arrumar as flores, desejando saber os seus nomes. E passara a maior parte da tarde absorvida nisso.

 

Fora um erro levar a garrafa menor, verde, para o escritório, pondo-a na mesa do computador. Resolvera deitar-se, para descansar por um ou dois minutos. Acabara por dormir durante duas horas na pequena cama do escritório. Acordou meia atordoada. E consternada.

 

Perdera o seu senso de disciplina. Tornara-se preguiçosa. Nada fizera para além de dormir e desperdiçar tempo nas últimas trinta horas.

 

E sentia fome de novo.

 

Por este ritmo, reflectiu ela, enquanto procurava algo de preparação rápida na cozinha, estaria gorda, lerda e estúpida numa semana.

 

Tinha de sair, entrar no carro, descer até à aldeia. Descobriria uma livraria, o banco, a estação dos correios. Descobriria onde ficava o cemitério, a fim de poder visitar o túmulo da velha Maude, em nome da avó. Era o que deveria ter feito naquela manhã. Mas resolveria esses problemas agora e poderia passar o dia seguinte a examinar as gravações e as cartas que a avó lhe entregara, a fim de verificar se havia ali material para um ensaio.

 

Trocou de roupa para sair. Escolheu umas calças compridas elegantes, uma blusa de gola alta e um blazer. Vestida assim, sentiu-se muito mais alerta e profissional do que com a camisola grossa e as calças de ganga que usara durante o dia inteiro.

 

Atacou os cabelos... e "atacar" era o único termo que poderia usar para descrever o que teve de fazer para os domar num rabo-de-cavalo, grosso e amarrado, enquanto os cabelos queriam encrespar e saltar para todas as direcções ao mesmo tempo.

 

Foi cautelosa com a maquilhagem. Nunca fora muito habilidosa, mas o resultado pareceu apropriado para um passeio informal pela aldeia. Um derradeiro olhar no espelho confirmou que não parecia um cadáver de um dia nem uma vigarista, impressões que poderia passar... o que já havia acontecido.

 

Jude respirou fundo e saiu do chalé, para tentar mais uma sessão com o carro alugado e as estradas irlandesas. Já se tinha sentado ao volante e estava a estender a mão para a ignição quando se apercebeu que havia esquecido as chaves.

 

- Preciso de começar a tomar os comprimidos de Ginkgo biloba - murmurou, enquanto saía do carro.

 

Depois de uma procura frustrada, encontrou as chaves na mesa da cozinha. Lembrou-se dessa vez de acender uma luz, pois poderia estar escuro quando voltasse. Trancou a porta da frente. Não se conseguiu lembrar se tinha trancado a porta dos fundos. Deu a volta ao chalé para verificar, resmungando contra a memória deficiente.

 

O Sol descia agora a oeste, com uma chuva fina a cair, quando ela finalmente ligou o carro e saiu de marcha-atrás, devagar, para a estrada.

 

O percurso era muito menor do que se lembrava, e a paisagem muito mais espectacular, sem o aguaceiro a deslizar pelo pára-brisas. Havia nas sebes incontáveis botões de fúchias silvestres, em gotas vermelhas como sangue. Havia arbustos com pequenas flores brancas, que mais tarde ela descobriria serem abrunheiros, e frésias com flores amarelas.

 

Numa curva da estrada, ela avistou as ruínas da catedral na colina, com a torre a projectar-se para o céu, pairando acima da aldeia.

 

Não havia ninguém por ali.

 

A torre resistia há oitocentos anos. Isso, por si só, pensou Jude, já era uma maravilha. Guerras, fartura e fome, por meio de sangue, morte e renascimento, o seu poder permanecia. Para adorar e defender. Ela questionou-se se a avó não teria razão; e, se tivesse, o que uma pessoa não sentiria parada àquela sombra na terra que havia experimentado todo o peso do devoto e do profano?

 

Era um pensamento estranho, concluiu Jude, e tratou de o afastar, enquanto entrava na aldeia, que seria sua pelos próximos seis meses.

 

                                       CAPÍTULO 3

Dentro do Gallaghers Pub, a claridade era difusa, e o fogo vivo. Era assim que os clientes preferiam, num final de tarde húmida, no início da Primavera. O Gallaghers servia e agradava clientes há mais de cento e cinquenta anos, naquele mesmo lugar. Oferecia uma boa lager, a cerveja leve, e uma dose de uísque razoável, nunca aguado, com o conforto necessário para saborear o conteúdo da caneca ou do copo.

 

Quando Shamus Gallagher abrira o bar, no Ano de Nosso Senhor de 1842, juntamente com a sua boa esposa, Meg, o uísque era mais barato. Mas um homem tem de ganhar o seu sustento, por mais hospitaleiro que seja. Por isso, o preço do uísque era agora mais caro do que no passado, mas nem por isso era menor a expectativa de que fosse devidamente apreciado.

 

Shamus investira no pub as esperanças da sua vida, sem falar nas economias. Tinha havido mais períodos de escassez do que de fartura, ao longo dos anos. Certa ocasião, uma ventania soprara do mar e arrancara o telhado, levando-o para Dungarvan.

 

Ou pelo menos era o que alguns gostavam de comentar, quando tomavam mais de um ou dois copos do uísque irlandês.

 

Ainda assim, o pub resistira, as raízes fincadas na terra e rocha de Ardmore. O primogénito de Shamus tomara o lugar do pai, por trás do mesmo balcão de castanheiro, depois viera o seu próprio filho, e assim por diante.

 

Gerações dos Gallagher haviam servido gerações de outras famílias e haviam prosperado o suficiente para expandir instalações, a fim de que mais pessoas pudessem sair da noite húmida, depois de um dia inteiro de trabalho árduo, para apreciar uma ou duas canecas de cerveja. Havia também comida, além das bebidas, o que tornava o pub atraente tanto para o corpo como para a alma. E na maioria das noites ainda havia música, para apaziguar os corações.

 

Ardmore era uma aldeia de pescadores e por isso dependia da generosidade do mar. Vivia de acordo com os caprichos do oceano. Como era pitoresca e se gabava de ter belas praias, contava também com os turistas. E vivia de acordo com os caprichos deles.

 

O Gallaghers era um dos pontos centrais de Ardmore. As suas portas permaneciam sempre abertas, nos bons e nos maus tempos, quando os peixes nadavam a toda a velocidade para as redes, em abundância, ou quando as tempestades se abatiam sobre a baía, com tanta violência, que ninguém ousava sair para lançar as suas redes.

 

A fumaça e as emanações do uísque, o vapor dos guisados e o suor dos homens, tudo se tinha entranhado de tal forma na madeira, que o pub exalava para sempre o cheiro dos vivos. Bancos e cadeiras eram cobertos por capas de um vermelho-escuro, com tachões de latão enegrecido a prender o tecido no lugar.

 

O tecto era aberto, com as vigas à mostra. Em muitas noites de sábado, quando a música era bastante alta, aquelas vigas tremiam. O soalho estava todo marcado pelas botas dos homens, arranhado pelas cadeiras e bancos arrastados, chamuscado pela fagulha do cigarro descuidado e ocasional. Mas estava limpo, e quatro vezes por ano, quer precisasse quer não, era todo encerado e polido, como uma sala de visitas.

 

O balcão era o orgulho do estabelecimento. Era espectacular, de um castanheiro escuro, feito pelo próprio Shamus. As pessoas gostavam de dizer que a madeira era de uma árvore que fora atingida por um raio em pleno solstício de Verão. Isso fazia com que tivesse um pouco de magia. As pessoas que se sentavam ali sentiam-se melhor por isso.

 

Por trás do balcão, a longa parede espelhada exibia as mais diversas garrafas, para satisfação dos clientes. E estava tudo limpo e lustroso como moedas novas. Os Gallagher dirigiam umpub muito animado, mas também arrumado. Os pingos eram enxugados, o pó era espanado e nunca se servia uma bebida num copo sujo.

 

O fogo na lareira era de turfa, porque encantava os turistas, e os turistas representavam a diferença entre sobreviver e prosperar. Eram mais abundantes no Verão e início do Outono, quando podiam aproveitar as praias; mais escassos no Inverno e começo da Primavera. Mas mesmo assim apareciam, e a maioria parava no Gallaghers para levantar um copo, ouvir uma canção ou saborear um dos pastelões de carne bem condimentados do pub.

 

Os frequentadores habituais começavam a aparecer depois da refeição do final do dia, quer para conversas e fofoquices, como para uma caneca de Guinness. Alguns também apareciam para jantar, mas por norma em ocasiões especiais, se tivessem família. Ou se era um homem sozinho, porque se cansara da própria comida, ou queria namoriscar com Darcy Gallagher, que quase sempre se mostrava disposta a corresponder.

 

Ela tratava quer do serviço ao balcão, quer do das mesas e da cozinha. Mas a cozinha era o lugar que menos lhe agradava. Por isso, deixava-a para o irmão Shawn, quando se conseguia esquivar.

 

As pessoas que conheciam o Gallaghers sabiam que era Aidan, o mais velho, quem dirigia o pub, agora que os pais pareciam propensos a permanecer em Boston. A maioria concordava que ele parecia estar curado da sua ânsia de viagem, e agora dirigia o pub da família de uma maneira que deixaria Shamus orgulhoso.

 

Aidan sentia-se contente por estar ali, por ser quem era. Aprendera muito sobre si mesmo e sobre a vida durante as suas vagueações. Dizia-se que a coceira nos pés vinha do lado Fitzgerald; a sua mãe, antes de casar, viajara por boa parte do mundo, com a voz a pagar as taxas.

 

O filho colocou uma mochila às costas quando tinha apenas dezoito anos. Viajara por todo o país, depois percorrera a Inglaterra, França e Itália, até mesmo a Espanha. Passara um ano nos Estados Unidos; ficara deslumbrado com as montanhas e planícies do Oeste, suara com o calor do Sul, e congelara ao longo de um Inverno no Norte.

 

Ele e os irmãos eram tão musicais quanto a mãe. Por isso, cantava enquanto jantava ou cuidava do bar, o que considerasse mais adequado aos seus propósitos na ocasião. Depois de ver tudo o que desejara ver, Aidan voltara para casa, um homem bastante viajado, de vinte e cinco anos.

 

Há seis anos que cuidava do pub, onde também morava, no andar de cima.

 

Mas estava à espera. Não sabia bem de quê, apenas esperava.

 

Mesmo agora, enquanto enchia uma caneca com Guinness, despejava Harp num copo e mantinha um ouvido atento à conversa, para o caso de ser obrigado a fazer um comentário; parte dele retraía-se, paciente e atenta.

 

As pessoas que o observassem melhor poderiam perceber a vigilância nos seus olhos azuis, sob as sobrancelhas de tonalidade escura, igual à do balcão, que era o orgulho do pub.

 

Aidan tinha o rosto de ossos salientes dos celtas, com a beleza rude que os bons genes dos pais haviam unido. O nariz era comprido e recto, a boca grande e sensual, com o queixo saliente, em que havia a insinuação de uma covinha, sempre erguido, na pose de quem desafia os outros a tentarem acertar um soco.

 

Tinha o corpo de um lutador, com ombros largos, braços compridos, quadris estreitos. E, de facto, tinha passado uma boa parte da sua juventude a lançar os seus punhos a rostos ou a recebê-los na sua própria cara. Não apenas por explosões de raiva, mas também por pura diversão, como ele não tinha o menor constrangimento em admitir.

 

Era uma questão de orgulho o facto de Aidan, ao contrário do irmão Shawn, nunca ter saído de uma briga com o nariz partido.

 

De qualquer maneira, ele parara de arranjar problemas ao tornar-se um homem feito. Agora, apenas procurava alguma coisa e acreditava que saberia o que era quando a encontrasse.

 

No momento em que Jude entrou no pub, ele notou... Primeiro como comerciante e depois como homem. Ela estava impecável, com o seu casaco elegante e os cabelos esticados para trás, tão perdida com os olhos grandes a esquadrinhar a sala como uma corça que procura um caminho novo na floresta.

 

Uma coisinha bonita, pensou Aidan, como faz a maioria dos homens ao deparar-se com uma mulher de rosto e corpo atraentes. E, sendo alguém acostumado a rostos novos, ele também se apercebeu do nervosismo dela, que a manteve paralisada mal passou da porta, como se se pudesse virar e fugir a qualquer momento.

 

A sua aparência e atitude conquistaram o interesse de Aidan, que logo sentiu uma vibração lenta e agradável a esquentar o seu sangue.

 

Ela empinou os ombros, um gesto determinado que o divertiu, e avançou para o balcão.

 

- Uma boa noite para si. - Disse Aidan, enquanto passava o pano pelo balcão, para limpar as gotas derramadas. - O que vai querer?

 

Jude fez menção de falar, para pedir polidamente um copo de vinho branco. E foi nesse instante que o homem sorriu, uma contracção dos lábios, bem lenta, o que a deixou a palpitar por dentro e transformou a sua mente num burburinho de estática... o que era inexplicável.

 

Era verdade, pensou Jude, vagamente, todos ali eram mesmo deslumbrantes.

 

O homem parecia não ter a menor pressa em ouvir a sua resposta. Apenas se inclinou por cima do balcão, aproximando de Jude aquele rosto maravilhoso, ao mesmo tempo que inclinava a cabeça e franzia a testa.

 

- Quer dizer que está perdida, minha cara?

 

Jude imaginou que se derretia, desmanchava-se no chão, numa poça de hormonas e desejo. O próprio embaraço da imagem fez com que recuperasse o controlo.

 

- Não, não estou perdida. Posso beber um copo de vinho branco? Chardonnay, se tiver.

 

- Posso ajudá-la nesse ponto. - Mas ele não fez qualquer movimento para o servir, nesse momento. - Então é uma ianque. Por acaso é a jovem prima americana da velha Maude, que veio passar algum tempo no seu chalé?

 

- Isso mesmo... Chamo-me Jude... Jude Murray.

 

Num gesto automático, ela ofereceu a mão e um sorriso cuidadoso, que permitiu o breve aparecimento de covinhas nas suas faces.

 

Aidan sempre sentira uma atracção irresistível por covinhas num rosto bonito.

 

Pegou na mão estendida, mas não a apertou. Segurou-a enquanto continuava a olhar para Jude, até que - ela jurou que sentiu isso - os ossos dela começaram a chiar.

 

- Seja bem-vinda a Ardmore, Sra. Murray, e ao Gallaghers. Chamo-me Aidan, e este é o meu estabelecimento. Tim, oferece o teu lugar à senhora. Onde estão os teus modos?

 

- Oh, não precisa! Mas Tim, um homem corpulento, com uma massa de cabelos da cor e textura de palha-de-aço, saiu do seu banco.

 

- Peço-lhe que me perdoe.

 

Ele desviou os olhos do programa desportivo a que assistia, na televisão na extremidade do balcão, para oferecer a Jude uma piscadela rápida e encantadora.

 

- A menos que prefira uma mesa. - Acrescentou Aidan, enquanto ela continuava de pé, parecendo algo contrafeita.

 

- Não, não, está bom assim. Obrigada.

 

Jude sentou-se no banco, tentando não se mostrar tensa ao tornar-se o foco das atenções. Era o que mais a perturbava como professora, todos aqueles rostos virados na sua direcção, à espera que ela fosse profunda e brilhante.

 

Aidan largou finalmente a sua mão, no momento em que ela começava a pensar que poderia dissolver-se a qualquer instante. Ele tirou a caneca de vidro debaixo da torneira, estendendo-a para as mãos ansiosas à espera.

 

- E o que está a achar da Irlanda? - Perguntou Aidan, enquanto se virava para pegar numa garrafa de vinho da prateleira espelhada.

 

- É adorável.

 

- Não há ninguém aqui que não concorde consigo nesse ponto.

- Ele serviu o vinho, olhando para Jude, não para o copo. - E como está a sua avó?

 

- Ah... - Jude ficou espantada por ele ter enchido o copo com perfeição, mesmo sem olhar, colocando-o à sua frente. - Está muito bem. Conhece-a?

 

- Conheço. A minha mãe era uma Fitzgerald, prima da sua avó... em terceiro ou quarto grau, acho. O que faz com que sejamos primos também. - Aidan bateu com um dedo no copo. - Slainte, prima Jude.

 

- Hum... obrigada.

 

Ela ergueu o copo no momento em que gritos começaram a soar na direcção da cozinha. Uma voz de mulher, clara como sinos de igreja, acusou alguém de ser um bronco, tapado, desastrado, com um cérebro menor do que um nabo. A resposta não tardou, numa voz masculina irritada: era melhor ser um nabo do que estúpida como a sujeira em que ele cresce.

 

Ninguém parecia surpreso ou chocado com os gritos e comentários que se seguiram, nem com o súbito estrondo de alguma coisa a quebrar, o que provocou um sobressalto em Jude, que derramou umas poucas gotas do vinho no dorso da mão.

 

- São mais dois primos. - Explicou Aidan, enquanto pegava na mão de Jude e a enxugava com eficiência. - A minha irmã, Darcy, e o meu irmão, Shawn.

 

- Não seria melhor ir verificar qual é o problema?

 

- Que problema?

 

Jude arregalou os olhos quando as vozes começaram de novo a altear-se.

 

- Atira esse prato à minha cabeça, sua víbora, e juro que vou...

 

A ameaça terminou com uma imprecação impetuosa quando algo se espatifou contra a parede. Segundos depois, uma mulher saiu pela porta de trás do balcão, carregando uma bandeja de comida, com o rosto vermelho e uma expressão satisfeita.

 

- Conseguiu acertar-lhe, Darcy? - Perguntou alguém.

 

- Não. Ele esquivou-se.

 

Ela sacudiu a cabeça, fazendo esvoaçar uma nuvem de cabelos pretos como um corvo. O mau feitio combinava com ele. Os olhos azul-acinzentados faiscavam, a boca generosa fazia beicinho. Levou a bandeja com movimentos provocantes das ancas para uma família de cinco pessoas, sentada em torno de uma mesa baixa. E quando estava a servir, inclinou a cabeça para ouvir o que a mulher à mesa murmurava. Depois, inclinou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada.

 

O riso ficava-lhe tão bem quanto o feitio, reflectiu Jude.

 

- Descontarei o preço do prato do teu pagamento - informou Aidan, quando ela se aproximou do balcão.

 

- Não faz mal. Valeu a pena até ao último cêntimo... e valeria ainda mais se eu tivesse acertado no alvo. Os Clooney estão a precisar de mais duas Colas, um ginger ale e duas Harps... uma caneca e um copo.

 

Aidan começou a providenciar o pedido.

 

- Darcy, esta é a Jude Murray, da América. Veio para ficar no chalé da velha Maude.

 

- Prazer em conhecê-la. - A fúria foi logo substituída por um intenso interesse nos olhos de Darcy. A expressão de irritação deu lugar a um sorriso rápido e radiante. - Está bem instalada?

 

- Estou sim, obrigada.

 

- Veio de Chicago, não é? Gosta de lá estar?

 

- É uma linda cidade.

 

- E cheia de lojas maravilhosas, bons restaurantes e coisas assim.

 

O que faz em Chicago para ganhar a vida?

 

- Sou professora de psicologia.

 

Era, pensou Jude. Mas seria muito difícil explicar, especialmente agora que as atenções estavam de novo concentradas nela.

 

- Ah, sim? Pois isso é bem conveniente. - Os lindos olhos de Darcy brilhavam de humor, com um ligeiro toque de malícia. - Talvez possa examinar a cabeça do meu irmão Shawn quando tiver tempo. Ele tem qualquer coisa de errado desde o nascimento.

 

Ela pegou na bandeja com as bebidas que Aidan empurrara na sua direcção. Sorriu para o irmão mais velho. - E foram dois pratos. Falhei das duas vezes, mas quase lhe acertei na orelha com o segundo.

 

Afastou-se quase saltitante para servir as bebidas e anotar os pedidos de outras mesas.

 

Aidan colocou mais dois copos por baixo das torneiras. Alteou uma sobrancelha para Jude.

 

- Não está a gostar do vinho?

 

- Como? - Ela baixou os olhos, notando que mal bebera. - Claro que estou. É muito bom. - Jude bebeu um gole, apenas para ser cordial. Depois sorriu timidamente, com as covinhas a ressuscitarem. - É uma delícia, para ser sincera. Eu estava apenas distraída.

 

- Não precisa de se preocupar com a Darcy e o Shawn. É verdade que o Shawn é bastante ágil, mas a nossa irmã tem um braço forte e a mira certeira. Se quisesse mesmo acertar-lhe, provavelmente já o teria conseguido.

 

Jude soltou um murmúrio neutro, enquanto alguém no canto da frente começava a tocar uma concertina.

 

- Tenho primos em Chicago. - O comentário foi de Tim, que continuava parado atrás de Jude, esperando pacientemente pela segunda caneca de cerveja. - Os Dempsey, Mary e Jack. Por acaso conhece-os?

 

- Sinto muito, mas não os conheço.

 

Jude mudou de posição no banco, virando o rosto para ele.

 

- Chicago é uma cidade grande. O meu primo Jack e eu fomos criados juntos. Depois, ele foi para a América para trabalhar com o tio por parte da mãe numa empresa de congelados. Já está lá há dez anos e queixa-se, amargurado, do vento e do Inverno, mas não toma a iniciativa de voltar.

 

Pegou na caneca estendida por Aidan com um obrigado e deixou as moedas no balcão.

 

- Já esteve em Chicago, não foi, Aidan?

 

- Passei por lá. O lago é muito bonito e parece grande como o mar. O vento que sopra do lago é como uma faca a rasgar a pele e a atingir o osso.

 

Mas pode-se comer um bom bife ali, se a memória não me engana, que nos faz chorar de gratidão por Deus ter criado a vaca.

 

Ele trabalhava enquanto falava, providenciando outro pedido para a bandeja da irmã, as torneiras abertas quase o tempo todo, abrindo uma garrafa de cerveja americana para um rapaz que dava a impressão de que ainda se deveria ficar pelos batidos.

 

O volume da música aumentou, agora com um ritmo mais animado. Quando Darcy levantou a bandeja do balcão dessa vez, estava a cantar de uma maneira que fez Jude fitá-la, espantada, com admiração e inveja.

 

Não apenas pela voz, embora fosse espectacular, firme e cristalina. Mas pela descontracção que permitia a alguém começar subitamente a cantar em público. Era uma canção sobre uma velha solteirona agonizante, num sótão. Pelos olhares das presenças masculinas no pub - variando do menino Clooney de dez anos a um ancião que mais parecia um esqueleto ambulante, na outra extremidade do balcão -, era um destino que Darcy Gallagher nunca teria de enfrentar.

 

As pessoas juntaram-se no coro, e as torneiras passaram a jorrar mais depressa.

 

A primeira canção foi sucedida por uma segunda, quase sem alteração do ritmo. Aidan começou a cantar, sobre a traição da mulher que usava uma faixa preta de veludo. Jude ficou aturdida. A voz era suave, tão rica quanto a da irmã, com uma beleza descontraída.

 

Ele serviu uma caneca de lager enquanto cantava. Piscou o olho a Jude, empurrando a caneca por cima do balcão. Ela sentiu o rosto ficar vermelho, da mortificação de ser surpreendida a fitá-lo abertamente, mas esperava que estivesse suficientemente escuro ali dentro para disfarçar a sua atenção.

 

Jude pegou no copo, rezando para parecer casual, como se se sentasse com frequência em bares onde as pessoas cantavam e homens que pareciam obras de arte lhe piscavam o olho. E descobriu que tinha o copo cheio. Franziu o rosto, com a certeza de que bebera pelo menos metade do vinho. Mas como Aidan se afastara, ela não quis interromper o seu trabalho nem a canção. Limitou-se a levantar os ombros, tomando um gole do copo cheio.

 

A porta que ela presumia ser da cozinha foi aberta de novo. Jude sentiu-se grata por ninguém lhe prestar atenção, pois teve a certeza de que arregalou os olhos. O homem que apareceu ali dava a impressão de que saíra de um cenário de cinema... um filme sobre antigos cavaleiros celtas que salvavam reinos de donzelas.

 

O corpo alto e esguio combinava com as calças de ganga desbotadas e a camisola escura. Os cabelos eram pretos como a noite, caindo por cima da gola da camisola; os olhos, de um azul de lago, sonhadores, a cintilarem de humor. A boca era parecida com a de Aidan, cheia, forte e sensual, e o nariz um pouco torto, apenas o suficiente para poupá-lo do fardo da perfeição.

 

Jude apercebeu-se do pequeno corte na orelha e presumiu que fosse Shawn Gallagher, que não conseguira esquivar-se com a rapidez necessária.

 

Ele avançou gracioso pela sala, para servir a comida que levava na bandeja. Depois, num movimento súbito que fez Jude prender a respiração, na expectativa da briga, ele agarrou a irmã, virou-a para fitá-lo e fê-la girar, numa dança complicada.

 

Que tipo de pessoas eram aquelas, pensou Jude, capazes de se lançarem ameaças uma à outra num momento e dançar no instante seguinte, mimpub cheio, rindo juntas?

 

Os clientes assobiavam e batiam palmas. Pés batiam no chão marcando o ritmo. Os dois dançarinos chegaram bastante perto de Jude para que ela sentisse a brisa dos corpos a girar. Quando acabou, Darcy e Shawn trocaram um abraço afectuoso e sorriram um para o outro, como se fossem tolos.

 

Depois de ter dado um beijo na boca da irmã, Shawn virou-se para estudar Jude, com a mais cordial das expressões.

 

- Ora, ora, quem poderá ser essa jovem que sai a meio da noite para entrar no Gallaghers?

 

- É a Jude Murray, prima da velha Maude - informou Darcy.

- Este é o meu irmão Shawn, o que precisa desesperadamente da sua ajuda profissional.

 

- A Brenna contou-me que a conheceu assim que chegou. Jude F. Murray, de Chicago.

 

- O "F" significa o quê? - Perguntou Aidan. Jude virou a cabeça para o fitar.

 

- Francês.

 

- Ela viu a Lady Gwen - anunciou Shawn.

 

Antes que Jude se pudesse virar de novo para ele, todos no pub ficaram quietos.

 

- Ah sim? - Aidan limpou as mãos no pano. Largou-o e inclinou-se por cima do balcão. - Muito interessante...

 

Houve uma pausa, repleta de expectativa. Contrafeita, Jude tentou preenchê-la.

 

- Não... apenas pensei ter visto... estava a chover muito...

 

Pegou no seu copo. Tomou um gole longo, rezando para que a música recomeçasse.

 

- O Aidan também viu a Lady Gwen, a passear pelos penhascos. Jude olhou aturdida para Shawn, depois outra vez para Aidan.

 

- Viu um fantasma. - Disse ela, espaçando as palavras.

 

- Ela chora enquanto anda e chora quando pára. E o som parece apunhalar o nosso coração, que sangra de dentro para fora.

 

Parte de Jude queria deixar-se levar pela música daquela voz. Mas piscou os olhos, abanou a cabeça.

 

- Mas não acredita mesmo em fantasmas, pois não? Aidan tornou a erguer as sobrancelhas bonitas.

 

- Por que razão não deveria acreditar?

 

- Porque... porque fantasmas não existem!

 

Ele riu-se, um som forte e ondulante; e foi nesse instante que solucionou o mistério do copo sempre cheio de Jude ao servir mais vinho.

 

- Quero ouvi-la dizer isso depois de passar mais um mês aqui. A sua avó não lhe contou a história da Lady Gwen e Carrick, o príncipe do mundo das fadas?

 

- Não. Tenho algumas gravações que ela fez para mim, cartas e outros textos a falar de lendas e mitos. Estou... ahm... estou a pensar em escrever um ensaio sobre o folclore irlandês e o seu papel na psicologia da cultura.

 

- Isso é incrível. - Ele não se deu ao trabalho de esconder o seu divertimento, mesmo quando viu a expressão contrariada de Jude. Na sua opinião, ela ficava ainda mais bonita quando estava irritada. - Veio a um bom lugar para colher material para um projecto tão interessante.

 

- Devias falar com ela acerca da Lady Gwen, Aidan - interveio Darcy. - E contar também as outras histórias. Fazes isso melhor do que ninguém.

 

- Contarei tudo, numa outra ocasião. Se estiver interessada, é claro, Jude Francês.

 

Ela sentia alguma irritação; e descobriu, consternada, que também estava um pouco tonta. Recorreu à sua dignidade da melhor forma possível, para balançar a cabeça e dizer:

 

- Claro. Terei o maior prazer em incluir histórias locais na minha pesquisa. Podemos marcar um novo encontro... quando for mais conveniente para si.

 

O sorriso de Aidan reapareceu, lento, descontraído. E irresistível.

 

- Não somos tão formais por aqui. Aparecerei em sua casa um dia destes e, se não estiver ocupada, poderei contar algumas histórias que conheço.

 

- Está bem. Obrigada.

 

Jude abriu a bolsa, para pegar na carteira. Mas Aidan colocou a sua mão sobre a dela.

 

- Não precisa de pagar. O vinho é por conta da casa. Como um voto de boas-vindas.

 

- É muito gentil da sua parte.

 

Jude gostaria de ter uma noção de quanto daquele voto de boas-vindas pusera na sua corrente sanguínea.

 

- Espero que volte. - Acrescentou Aidan, quando ela se levantou.

 

- Tenho a certeza de que voltarei. Boa noite. - Jude correu os olhos pela sala, já que parecia cordial incluir toda a gente. Tornou a fitar Aidan. - Obrigada.

 

- Boa noite, Jude Francês.

 

Ele observou-a a sair, pegando num copo, distraído, quando alguém pediu mais uma cerveja. Uma coisinha bonita, pensou de novo. E suficientemente empertigada, concluiu ele, para fazer um homem especular o que seria preciso para a fazer relaxar.

 

E Aidan pensou que poderia gostar de investir o tempo necessário para o descobrir. Afinal, tempo era o que não lhe faltava.

 

- Ela deve ser rica. - Comentou Darcy, com um pequeno suspiro.

 

Aidan olhou para a irmã.

 

- Porque dizes isso?

 

- Dá para perceber pelas roupas, simples e perfeitas. Os brincos são de ouro de verdade. E aposto que os sapatos são italianos, ou casar-me-ei com um macaco.

 

Ele não tinha notado nos brincos nem nos sapatos, apenas na aparência geral, a feminilidade intensa e reprimida. Como homem, imaginara-a a tirar aquela faixa que usava na cabeça, deixando os cabelos soltos.

 

Mas a sua irmã estava a fazer beicinho de novo. Por isso, ele virou-se e passou um dedo pelo seu nariz.

 

- Ela pode ser rica, minha querida Darcy, mas está sozinha e é tímida, como tu nunca foste. O dinheiro não lhe vai comprar um amigo.

 

Darcy empurrou os seus cabelos para trás.

 

- Irei até ao chalé para a visitar.

 

- Tens um bom coração. - Ela sorriu, enquanto pegava na bandeja. - Ficaste a olhar para o traseiro dela quando ela saiu.

 

Aidan também sorriu.

 

- Tenho bons olhos.

 

Após o último cliente ter saído, os copos foram lavados, o chão varrido e as portas trancadas. Aidan deu por si irrequieto demais para dormir, ler um livro ou tomar um copo de uísque ao lado da lareira.

 

Ele não se importava com aquela última hora da noite, que passava sozinho nos seus aposentos, por cima do pub. Até a prezava. Mas também prezava as longas caminhadas que gostava de fazer nas noites em que o céu se abria, as estrelas apareciam e a lua deslizava branca sobre o mar.

 

Naquela noite ele foi até aos penhascos, já que pensara bastante neles. Era verdade o que o irmão dissera. Aidan vira Lady Gwen, mais de uma vez, parada acima do mar, com o vento a soprar os cabelos claros para trás, como se fossem a crina de um cavalo selvagem, o manto enfunado, tão branco quanto a lua lá em cima.

 

Na primeira vez, ainda era uma criança. A princípio, fora dominado por um terror excitado. Depois, ficara profundamente comovido, pelo som angustiado do seu choro e o desespero no rosto.

 

Lady Gwen nunca dissera qualquer coisa, mas fitara-o. E ele podia jurar isso, sobre quantas Bíblias pudesse segurar.

 

Naquela noite ele não procurava fantasmas nem o espírito de uma mulher que perdera o que mais amava antes de ser capaz de reconhecer o facto.

 

Ele queria apenas dar um passeio pelo ar frio da noite, à beira do mar, numa terra para a qual voltara porque nenhum outro lugar do mundo jamais se tornaria o seu lar.

 

Ao subir pelo trilho que conhecia tão bem quanto o caminho da sua cama para a casa de banho, nada sentia além da noite, o ar e o mar.

 

A água movia-se lá em baixo, na sua interminável batalha contra os rochedos. A luz da meia-lua derramava-se numa linha delicada sobre a água escura, que nunca se mantinha totalmente calma. Ali ele podia respirar, acalentar os longos pensamentos para os quais quase nunca tinha tempo, no quotidiano do seu trabalho.

 

O pub era seu agora. E embora nunca tivesse esperado o impacto de todo esse peso, conseguira suportá-lo bastante bem. A decisão dos pais de permanecerem em Boston, em vez de ficarem apenas pelo tempo suficiente para ajudarem o seu tio a abrir o próprio pub e mantê-lo por seis meses, não chegara a ser uma surpresa.

 

O pai sempre sentira muita falta do irmão, enquanto a mãe sempre fora a favor da mudança para um novo lugar. Voltariam, é claro, talvez não para tornar a viver em Ardmore, mas voltariam para rever os amigos, abraçar os filhos. Mas o Gallaghers Pub fora passado de pai para filho, mais uma vez.

 

Como era o seu legado, tencionava mantê-lo.

 

Darcy não serviria às mesas e faria sanduíches para sempre. Ele também aceitava isso. A irmã guardava dinheiro como um esquilo entesoura nozes. Quando tivesse o suficiente para a satisfazer, iria embora.

 

Shawn sentia-se feliz por enquanto em cuidar da cozinha, sonhar os seus sonhos, e ter todas as mulheres da aldeia a ansiar por ele. Um dia ele encontraria o sonho certo, a mulher certa, e também partiria.

 

Se Aidan tencionava que o Gallaghers continuasse - e era o que pretendia - teria de pensar em encontrar uma mulher e tratar de fazer um filho... ou uma filha, diga-se de passagem, já que não se sentia tão arraigado na tradição que não pudesse passar o pub a uma mulher.

 

Mas ainda havia tempo para isso, graças a Deus. Afinal, ele tinha apenas trinta e um anos, e não pretendia casar apenas pela responsabilidade. Teria de haver amor e paixão, o encontro de mentes, antes que houvesse votos nupciais.

 

Uma das coisas que ele aprendera nas suas viagens dizia respeito ao que um homem podia aceitar e ao que não podia. Podia aceitar um colchão todo encaroçado, se a alternativa fosse o chão, e sentir-se grato por isso. Mas não podia aceitar uma mulher que o entediasse, ou não pusesse o seu sangue a ferver, por mais lindo que fosse o seu rosto.

 

Enquanto pensava nisso, Aidan virou-se e olhou pela terra ondulada, para a suave elevação em que ficava o chalé branco, sob o céu e as estrelas. Uma fumaça ténue saía pela chaminé, com uma única luz acesa numa janela.

 

Jude Francês Murray, pensou ele, com o rosto a surgir de repente na sua mente. O que estarás a fazer agora, na tua pequena casa, na colina das fadas? Talvez estejas a ler um bom livro, com bastante peso e mensagens profundas. Ou a distraíres-te com uma história engraçada e irrelevante, agora que não há ninguém por perto para observar?

 

É a imagem o que te preocupa, reflectiu Aidan. Percebera isso pela hora ou pouco mais que Jude passara num dos seus bancos. Em que estão as pessoas a pensar? O que vêem quando olham para ti?

 

E enquanto ela pensava assim, concluiu Aidan, ela absorvia tudo o que podia ver ou ouvir a seu redor. Duvidava de que Jude soubesse disso, mas dava para perceber pelos seus olhos.

 

Aidan decidiu que demoraria algum tempo a descobrir o que pensava de Jude, o que via nela, e o que era real.

 

De qualquer forma, ela já conseguira agitar o seu sangue, com aqueles enormes olhos de deusa do mar, os cabelos presos atrás da cabeça, numa aparência severa. Gostara da sua voz, da precisão que transmitia, criando uma contradição intrigante com a timidez.

 

O que faria ela, a linda Jude, especulou Aidan, se ele fosse até lá agora e batesse à sua porta?

 

Mas não fazia sentido assustá-la, só porque ele se sentia irrequieto, e alguma coisa em Jude havia-o deixado curioso.

 

- Dorme bem. - Murmurou ele, enfiando as mãos nos bolsos, enquanto o vento turbilhonava em seu redor. - Uma noite destas, quando eu sair para passear, não será pelos penhascos, mas até à tua porta. E veremos então o que acontece.

 

Uma sombra passou pela janela, e a cortina foi puxada para o lado. Lá estava ela, quase como se o tivesse ouvido. A distância era muito grande para que Aidan visse mais do que os contornos, delineados contra a luz.

 

Pensou que ela também o poderia ver, apenas uma sombra nos penhascos.

 

Mas a cortina foi de novo fechada e, momentos depois, a luz apagou-se.

 

                                                   CAPÍTULO 4

A fiabilidade, disse Jude a si mesma, começava com a responsabilidade. E ambas se baseavam na disciplina. Com este pequeno sermão na cabeça, ela levantou-se na manhã seguinte, preparou um pequeno-almoço simples, e depois subiu com um bule de chá para o escritório, a fim de se instalar e trabalhar.

 

Não sairia, não daria uma volta pelas colinas, embora estivesse um dia absolutamente glorioso. Não vaguearia para sonhar no meio das flores, por mais lindas que estas pudessem parecer pela janela. E muito menos iria de carro até à aldeia e passaria uma ou duas horas a passear pela praia, por mais fascinante que fosse a perspectiva.

 

Embora muitos pudessem considerar frívola a sua ideia de explorar as lendas transmitidas de geração para geração na Irlanda, na melhor das hipóteses, era sem dúvida um trabalho viável, se fosse abordado de forma apropriada, com o pensamento lúcido. Afinal, a arte de contar histórias, tanto na oralidade como pela palavra escrita, era uma das pedras fundamentais da cultura.

 

Não conseguia reconhecer por si mesma que o seu desejo mais oculto, mais secreto, era escrever. Escrever histórias, livros, abrir a câmara cuidadosamente trancada no seu coração e libertar as palavras e imagens.

 

Mas sempre que sacudia a tranca, ela tratava de se lembrar a si própria que era uma ambição inútil, romântica, até mesmo tola. As pessoas normais, com um talento médio, tinham de se contentar com o sensato.

 

Pesquisar, detalhar e analisar eram coisas sensatas, para as quais ela havia sido treinada. Coisas que os outros esperavam que ela fizesse, pensou, com um sussurro de ressentimento. O assunto que ela tinha seleccionado já era ousadia suficiente. Por isso, exploraria a razão psicológica para a formação e perpetuação dos mitos específicos da terra dos seus antepassados, ao longo das gerações.

 

A Irlanda fervilhava de mitos.

 

Fantasmas e banshees, os espíritos que se apresentavam como uma mulher a chorar, que era vista ou ouvida quando alguém da família ia morrer. Fadas e pookas, os espíritos travessos que faziam muitas brincadeiras, mas não eram maus. Como era rica e imaginativa a mente céltica. Diziam que o chalé ficava na colina das fadas, um dos lugares mágicos que ocultavam a reluzente construção subjacente.

 

Se a memória não lhe falhava, ela achava que a lenda dizia que um mortal poderia ser atraído ou até mesmo sequestrado para o mundo de fadas sob a colina, sendo mantido ali por cem anos.

 

Não era fascinante?

 

Pessoas normais, aparentemente racionais, na entrada do século XXI, podiam fazer essa declaração de boa fé.

 

Isso, reflectiu Jude, demonstrava o poder do mito sobre o intelecto e a psique.

 

E era suficientemente forte, suficientemente poderoso, para que algum tempo antes, quando se encontrava sozinha na noite, quase... isso mesmo, quase acreditasse. A música dos sinos de vento e o uivo do vento haviam-na influenciado, reflectiu ela agora. As canções tocadas pelo ar tinham a capacidade de levar a mente a sonhar.

 

E havia também aquele vulto no penhasco. A sombra de um homem, delineada contra o céu e o mar, tinha atraído o seu olhar e feito o seu coração disparar. Poderia ser um homem à espera da mulher amada. Ou a lamentar a perda da amada. Um príncipe das fadas a fazer a sua magia com o mar.

 

Muito romântico, reflectiu Jude. E muito poderoso.

 

Quem quer que fosse, porém, quem quer que andasse pelos penhascos açoitados pelo vento, depois da meia-noite, era obviamente um lunático. Mas ela não pensara nisso até de manhã, pois o impacto da imagem deixara-a a suspirar e estremecer à noite.

 

A insensatez, contudo, por falta de uma palavra melhor, era parte do charme das pessoas e das suas histórias. Por isso, ela usaria tudo. Exploraria a fundo. Absorveria ao máximo.

 

Animada, Jude virou-se para o computador portátil. Esqueceu as gravações e as cartas, pelo menos por enquanto, e começou a escrever:

 

Dizem que o chalé fica numa colina das fadas, uma das muitas elevações na Irlanda sob as quais esses seres vivem, nos seus palácios e castelos. Dizem também que se uma pessoa se aproximar da colina das fadas, poderá ouvir a música que toca no salão verde do castelo, por baixo da relva. E, se passar por cima, corre o risco de ser sequestrada pelos habitantes desse mundo encantado, sendo obrigado a fazer o que eles mandarem.

 

Ela parou de escrever. Sorriu. Tudo aquilo era um começo lírico demais e... ora, bem irlandês, para um ensaio académico sério. No seu primeiro ano de universidade, os seus trabalhos eram caracterizados por esse tipo de atitude. Divagava, sem seguir os pontos básicos do tema, deixando de lado o esquema que havia projectado.

 

Como sabia que as notas eram importantes para os seus pais, aprendera a reprimir essas divagações pitorescas.

 

Mas aquilo não era para uma nota... e era apenas um esboço inicial. Ela refinaria o assunto mais tarde. Por enquanto, apenas registaria os seus pensamentos, fixaria as bases para a análise.

 

Sabia o suficiente, pelas histórias da avó, para fazer um relato conciso das personagens míticas mais comuns. A tarefa seria encontrar as histórias apropriadas e a estrutura em torno de cada personagem da lenda, para depois explicar o seu lugar na psicologia do povo que a criara.

 

Ela trabalhou durante toda a manhã em definições básicas, muitas vezes acrescentando um subtexto com referências aos equivalentes noutras culturas.

 

Concentrada no trabalho, mal prestou atenção ao bater na porta da frente. Quando se apercebeu do mesmo, piscou os olhos várias vezes, para sair de uma explicação sobre Pisogue, a bruxa irlandesa, ou wise woman, a sábia mulher, que era encontrada na maioria das aldeias, numa época anterior. Pendurou os óculos na gola da camisola e desceu apressada. Quando abriu a porta, Brenna OToole já se afastava, de volta para a sua carrinha.

 

- Lamento incomodá-la. - Murmurou Brenna.

 

- Não está a incomodar. - Jude pensou: Como poderia uma mulher, a usar botas de trabalho enlameadas, intimidá-la? - Eu estava no quarto lá em cima. Fico contente por ter aparecido. Não lhe agradeci em condições anteontem.

 

- Não foi nada. Estava a dormir de pé. - Brenna voltou para o alpendre. - Quer dizer que já se instalou bem? Tem tudo de que precisa?

 

- Tenho sim, mas agradeço.

 

Jude notou que o boné desbotado de Brenna, comprimido sobre os cabelos, tinha uma pequena figura alada, pregada logo acima da pala. Mais fadas, pensou Jude, achando fascinante que uma mulher tão eficiente pudesse usar aquela figura como talismã.

 

- Não quer entrar para tomar um chá?

 

- Seria óptimo, mas ainda tenho trabalho a fazer. - Apesar disso, Brenna parecia decidida a prolongar a sua permanência no pequeno jardim.

- Eu só queria saber se a Jude já localizou tudo na casa, se está a precisar de mais alguma coisa. Passo por aqui algumas vezes por dia.

 

- Não preciso de nada... isto é, gostaria de saber se me pode indicar quem devo procurar para instalar uma tomada de telefone no segundo quarto. Estou a utilizá-lo como escritório e preciso da tomada para o modem.

 

- Modem de computador? - Os olhos de Brenna brilharam interessados. - A minha irmã Mary Kate tem um computador. Está a estudar programação na escola. Pode-se até pensar que ela descobriu a cura para a estupidez com aquela coisa. Não deixa a gente chegar perto sequer.

 

- Interessa-se por computadores?

 

- Gosto de saber como as coisas funcionam e ela tem medo que eu desmonte o computador... Coisa que eu faria, é claro, pois, de outra forma, como poderia descobrir como funciona? Ela também tem um modem. Envia mensagens para primos nossos em Nova Iorque e amigos em Galway. É uma maravilha.

 

- Acho que tem razão. E temos tendência a considerar o computador uma coisa banal, até que não o podemos utilizar mais.

 

- Posso encaminhar o seu problema à pessoa certa. Instalarão a tomada mais cedo ou mais tarde. - Brenna sorriu de novo. - Mais cedo ou mais tarde é uma maneira de falar. Não deve demorar mais de uma semana. Se demorar, posso armar uma ligação provisória, enquanto a Jude espera.

 

- Isso seria óptimo. Ficar-lhe-ia muito agradecida. Estive na aldeia ontem, mas as lojas já tinham fechado quando lá cheguei. Esperava encontrar uma livraria, para comprar alguns livros sobre jardinagem.

 

- Livros sobre jardinagem... - Brenna comprimiu os lábios. Imaginem só, pensou ela, precisar de ler para saber como plantar as coisas.

 

- Não sei se poderá encontrar em Ardmore, mas provavelmente deve haver em Dungarvan ou Waterford City. De qualquer maneira, se quiser saber alguma coisa sobre as flores aqui, basta perguntar à minha mãe. É a melhor jardineira da aldeia.

 

Brenna olhou para trás, ao ouvir o som de um carro.

 

- Lá estão a Sra. Duffy e Betsy Clooney. Vieram dar as boas-vindas. Vou levar a minha carrinha para a estrada, para que as duas possam entrar. Aposto que a Sra. Duffy trouxe um bolo. É famosa pelos seus bolos.

 

- Brenna acenou para as duas mulheres no carro. - Se precisar de alguma coisa, basta gritar.

 

- Está bem. Eu...

 

Oh, Deus, não me deixe sozinha com estranhas! Jude não teve tempo de expressar esse pensamento, pois Brenna voltou, apressada, para a carrinha.

 

E saiu a toda a velocidade. Jude considerou que era um menosprezo temerário e impetuoso pela abertura estreita da sebe, sem falar na possibilidade, por mais remota que fosse, de outro carro aparecer de repente.

 

Depois, Brenna parou ao lado do carro que chegava, os pára-lamas quase encostados, a fim de conversar por um momento com as novas visitas.

 

Jude continuou parada, retorcendo as mãos mentalmente, enquanto a carrinha se afastava aos solavancos pela estrada, e o carro entrava no terreno do chalé.

 

- Bom dia, Sra. Murray.

 

A mulher ao volante tinha olhos tão claros quanto um tordo. Os cabelos de tom castanho-claro estavam presos em submissão. Ela parecia usar um capacete ondulado de laca, brilhando como verniz ao sol.

 

Saltou do carro, os seios amplos e as ancas largas apoiados em pernas curtas e pés pequenos.

 

Jude fixou um sorriso no rosto e adiantou-se para o portão do jardim, como uma mulher a enfrentar a passagem pelo corredor da morte. Enquanto ela vasculhava o cérebro, à procura do cumprimento apropriado, a mulher abriu a porta traseira do carro. Falava sem parar, com Jude, com a segunda mulher, que acabara de sair do banco de passageiro... e com o mundo em geral, ao que parecia.

 

- Sou a Kathy Duffy, da aldeia. Esta é a Betsy Clooney, minha sobrinha pelo lado da minha imã. Patty Mary, a minha irmã, está hoje a trabalhar na loja de comida, caso contrário também teria vindo apresentar os seus cumprimentos. Mas eu disse à Betsy esta manhã: Ora, se pudermos pedir à vizinha para cuidar do bebé, enquanto as duas crianças mais velhas estiverem na escola, podemos ir até ao Faerie Hill Cottage para dar as boas-vindas à prima da velha Maude, da América.

 

Fez a maior parte desse discurso com o traseiro um tanto impressivo, quase todo coberto pelo estampado de papoilas vermelhas do vestido, virado na direcção de Jude, enquanto pegava em alguma coisa dentro do carro. Quando se virou, com um prato nas mãos, onde havia um bolo coberto, tinha as faces um pouco coradas e um sorriso radiante.

 

- Parece-se um pouco com a sua avó, pelo que me lembro dela de quando era pequena - continuou Kathy. - Espero que ela esteja bem.

 

- Está, sim. Obrigada. Foi muito gentil da vossa parte virem visitar-me. - Jude abriu o portão. - Entrem, por favor.

 

- Espero que tenha tido tempo suficiente para se instalar em condições.

 

Betsy contornou o carro. Jude lembrou-se dela do pub, na noite anterior. A mulher com a família que ocupava uma das mesas baixas. De alguma forma, até essa ligação vaga ajudava.

 

- Comentei com a Tia Kathy que a vi no Gallaghers ontem à noite. Achámos que já deveria estar com tudo arrumado para receber os nossos cumprimentos.

 

- Eu vi-a com a sua família. As crianças eram muito bem comportadas.

 

- Nem por isso. - Betsy revirou os olhos, de um verde quase transparente. - Mas não a quero desiludir tão depressa. Não tem filhos, não é?

 

- Não sou casada... Farei um chá, se quiserem.

 

- Seria óptimo. - Kathy foi avançando pelo chalé, obviamente à vontade. - Teremos uma agradável conversa na cozinha.

 

Para surpresa de Jude, foi mesmo isso o que aconteceu. Ela passou uma hora agradável com as duas mulheres, que tinham um comportamento afectuoso e um riso fácil. Era muito simples julgar que Kathy Duffy falava demais e era um tanto intransigente, mas ela fazia isso com o maior bom humor.

 

Antes de a hora terminar, a cabeça de Jude parecia girar em confusão com os nomes e parentescos dos habitantes de Ardmore, as brigas e as famílias, os casamentos e os velórios. Se havia alguma coisa que Katherine Anne Duífy não sabia sobre qualquer pessoa que vivera na região, durante os últimos cem anos, era porque não valeria a pena mencioná-la.

 

- É uma pena que não tenha conhecido a velha Maude. Comentou Kathy. - Era uma excelente mulher.

 

- A minha avó gostava muito dela.

 

- Eram mais como irmãs do que primas, apesar da diferença de idade. - Kathy anuiu com a cabeça. - A sua avó morou aqui quando era pequena, depois de ter perdido os pais. A minha mãe era amiga das duas. Ela e a Maude sentiram muitas saudades da sua avó, quando ela casou e foi viver para a América.

 

- E a Maude continuou aqui. - Jude correu os olhos pela cozinha.

 

- Sozinha.

 

- Era assim que tinha de ser. A Maude teve um namorado. Planeavam casar.

 

- Ah sim? O que aconteceu?

 

- O nome dele era John Magee. A minha mãe disse que era um rapaz bonito, que adorava o mar. Tornou-se soldado na Grande Guerra e perdeu a vida nos campos da França.

 

- É muito triste, mas romântico também - murmurou Betsy. A Maude nunca amou outro homem. Falava no namorado com frequência quando a vínhamos visitar, embora ele já estivesse morto há quase três quartos de século.

 

- Para algumas, há um único homem. - Disse Kathy, suspirando.

 

- Nenhum antes, nenhum depois. Mas a velha Maude era feliz aqui, com as suas lembranças e as suas flores.

 

- É uma casa alegre. - Comentou Jude.

 

No mesmo instante, sentiu-se tola por tê-lo dito. Mas Kathy Duffy sorriu e balançou a cabeça.

 

- Tem razão. E as pessoas que conheceram a Maude estão felizes porque alguém da sua família mora aqui agora. Gostei de saber que já tem circulado pela aldeia, conhecendo as pessoas, mantendo contacto com a família.

 

- Família?

 

- A Jude é parente dos Fitzgerald, e há muitos deles em Old Parish. A minha amiga Deidre, que está em Boston agora, era uma Fitzgerald, antes de casar com Patrick Gallagher. Esteve nopub deles ontem à noite.

 

- Ah, sim... - O rosto de Aidan aflorou imediatamente à mente de Jude, o sorriso lento, os olhos azuis. - Somos primos de alguma forma.

 

- Parece-me que a sua avó era prima em primeiro grau de Sarah, tia-avó de Deidre. Ou talvez fosse a sua bisavó, e as duas eram primas em segundo grau. Agora, o rapaz mais velho dos Gallagher... - Kathy fez uma pausa, pelo tempo suficiente para dar uma trincadela num pedaço de bolo.

- Estiveste de olho nele durante algum tempo, não foi, Betsy?

 

- Posso ter olhado para ele uma ou outra vez, quando eu era uma adolescente de dezasseis anos. - Os olhos de Betsy riram por cima da chávena. - E ele pode ter retribuído os olhares. Mas depois foi embora, nas suas andanças, enquanto o meu Tom continuava aqui. Quando Aidan Gallagher voltou... bem, eu poderia ter olhado de novo, mas apenas para apreciar a criação de Deus.

 

- Ele era meio selvagem quando rapaz e dá a impressão de que ainda pode voltar a ser. - Kathy suspirou. - Sempre tive uma queda por homens de coração selvagem. Não tem namorado nos Estados Unidos, Jude?

 

- Não. - Ela pensou por um momento em William. Alguma vez considerara o marido como namorado? - Não tenho ninguém especial.

 

- Se eles não são especiais, que sentido poderia haver? Nenhum sentido, pensou Jude mais tarde, quando acompanhava as visitas até à porta. Não podia alegar que William fora o seu grande amor, como John Magee fora para Maude. Não haviam sido especiais um para o outro, ela e William.

 

Deveriam ter sido. E, por algum tempo, ele fora o centro da vida de Jude. Ela amara-o. Ou pelo menos acreditava que o amava. Quisera muito amá-lo, e oferecera-lhe o melhor que tinha.

 

Mas não fora suficiente. Era mortificante saber disso. Saber com que facilidade, com que insensatez, William rompera os votos ainda recentes e a descartara da sua vida.

 

Mas, por outro lado, ela podia admitir, não o lamentaria por setenta anos, se ele morresse de alguma forma heróica ou trágica. De qualquer forma, se William tivesse morrido em algum acidente inesperado, ela poderia ter-se tornado a viúva decidida, em vez de a esposa descartada.

 

E como era horrível compreender que ela teria preferido assim.

 

O que doía mais? A perda do marido ou o orgulho ferido? Independentemente da verdade, ela não permitiria que a mesma coisa voltasse a acontecer. Não se enquadraria de novo, casando e descasando, porque era o que se esperava dela.

 

Desta vez, ela concentrar-se-ia em si mesma, seria o que desejasse ser.

 

Não que tivesse qualquer coisa contra o casamento, pensou ela, enquanto permanecia no jardim. Os pais tinham um casamento sólido, eram devotados um ao outro. Podia não ser um casamento cinematográfico, de paixão arrebatada, como muitas pessoas gostavam de imaginar para si mesmas, mas o relacionamento era um bom testemunho de uma parceria que dava certo.

 

Talvez ela pretendesse ter com William alguma coisa parecida, um casamento tranquilo e distinto. Mas não conseguira. E a culpa era sua.

 

Não havia nada de especial nela. Jude sentia-se mais do que um pouco envergonhada em admitir que simplesmente se tornara um hábito para ele, parte da sua rotina.

 

Encontrar-se com William para jantar nas noites de quarta-feira, às sete horas, num de três restaurantes predilectos. Aos sábados, saída para ir ao teatro ou cinema, seguindo-se um jantar tarde, e culminando em sexo de bom-gosto. Se as duas partes estivessem de acordo, a noite poderia ser prolongada por um saudável sono de oito horas, seguido pelo brunch e uma conversa sobre as notícias no jornal de domingo.

 

Fora esse o padrão do namoro. O casamento simplesmente se ajustara a esse esquema.

 

E fora fácil, muito fácil, encerrar por completo o padrão.

 

Como ela gostaria de ter tomado a iniciativa de acabar com tudo! De ter a coragem e o instinto para isso. Com um ardente caso de amor num motel ordinário. A ganhar dinheiro extra como stripper. Ou a fugir para se juntar a um gang de motoqueiros.

 

Ao tentar imaginar-se toda vestida de couro e a pular numa mota, às costas de um homem corpulento, todo tatuado, chamado Zero, Jude não pôde deixar de se rir.

 

- Ora, ora, eis uma visão e tanto para um homem numa tarde de Abril. - Aidan estava parado na abertura da sebe, com as mãos nos bolsos, a sorrir. - Uma mulher risonha, com flores a seus pés. Alguns poderiam até pensar, estando onde estamos, que se depararam com uma fada, que veio até aqui para encantar as flores, fazendo-as desabrochar.

 

Ele avançou até ao portão, enquanto falava. Parou ali. E Jude teve a certeza de que nunca vira uma imagem mais romântica, em toda a sua vida, do que Aidan Gallagher, com os seus cabelos abundantes e lustrosos, os olhos de um azul-claro e cintilante, parado no portão, com os penhascos distantes por trás.

 

- Mas não é uma fada, pois não, Jude Francês?

 

- Não, claro que não. - Sem pensar, ela ergueu a mão, para ter a certeza, de que os cabelos continuavam ajeitados. - Eu... ahm... acabei de receber uma visita da Kathy Duffy e Betsy Clooney.

 

- Passei por elas na estrada, quando vinha nesta direcção. Disseram que tiveram uma hora agradável, a tomar chá e comer bolo.

 

- Veio a pé? Da aldeia?

 

- Não é assim tão longe, quando se gosta de andar... e eu gosto. Ela parecia um pouco aflita de novo, pensou Aidan. Como se não soubesse o que fazer em relação a ele.

 

Mas isso deixava-os empatados, na mesma situação. Só que ele queria fazê-la sorrir, observar os seus lábios a contraírem-se lentamente, com alguma timidez, enquanto as covinhas surgiam.

 

- Vai convidar-me a entrar para o seu jardim, ou devo continuar a andar?

 

- Desculpe.

 

Jude foi até ao portão. Estendeu a mão para o trinco, ao mesmo tempo que Aidan. A mão dele cobriu a sua, quente e firme, de tal forma que puxaram o trinco juntos.

 

- Em que estava a pensar que a fez rir?

 

- Eu... ahm... - Como Aidan ainda segurava na mão dela, ela deu por si a recuar. - Apenas um disparate. A Sra. Dufly deixou o que sobrou do bolo, e ainda tenho um pouco de chá.

 

Aidan não se lembrava de qualquer outra mulher que parecesse tão assustada só de falar com ele. Mas não podia dizer que a reacção era totalmente desagradável. Para testá-la, continuou a segurar na mão de Jude, avançando à medida que ela recuava.

 

- E imagino que já não aguenta mais qualquer uma das duas coisas. A verdade é que preciso de ar fresco de vez em quando. Por isso, saio para o que as pessoas costumam chamar de peregrinações do Aidan. A menos que esteja com pressa para entrar em casa, podemos passar algum tempo sentados no alpendre.

 

Ele estendeu a mão livre, apertou a anca de Jude, parando a sua retirada.

 

- Está quase a pisar as flores. - Murmurou ele. - Seria uma pena esmagá-las.

 

- Ah... - Cautelosa, Jude desviou-se. - Sou um pouco desajeitada.

 

- Eu não diria isso. Um pouco nervosa, mais nada.

 

Apesar da estranha satisfação de a ver atrapalhada, Aidan sentiu o impulso de acalmar aqueles nervos, deixá-la à vontade.

 

Com as pontas dos dedos a contrair-se na mão de Jude, ele virou-a, com tamanha graça e suavidade, que ela ficou aturdida ao descobrir-se virada para o outro lado.

 

- Pensei que poderia gostar de ouvir as histórias que conheço murmurou ele, enquanto a levava para o alpendre. - Para o seu ensaio.

 

- Gostaria muito. - Jude deixou escapar um suspiro de alívio, enquanto se sentava. - Comecei esta manhã... o ensaio... tentando sentir como ele seria, formular um esboço, a estrutura básica.

 

Ela passou os braços pelos joelhos. Ficou um pouco tensa ao constatar que ele a observava atentamente.

 

- O que foi?

 

Aidan alteou uma sobrancelha.

 

- Nada. Apenas estou a ouvir. Gosto de a ouvir. Tem uma voz muito precisa e americana.

 

- Hum... - Jude limpou a garganta. Tornou a olhar fixamente para a frente, como se tivesse de se manter atenta às flores, para que não escapassem. - Onde estava eu... a estrutura. As diferentes áreas que quero abordar. Os elementos de fantasia, é claro, mas também os aspectos sociais, culturais e sexuais dos mitos tradicionais. O seu uso na tradição como diversão, como parábolas, como advertências, no romance.

 

- Advertências?

 

- Isso mesmo. Mães a contarem às crianças sobre os espíritos do pântano, para evitar que se aventurem em áreas perigosas. Ou a relatar histórias de espíritos malignos, para as influenciarem a comportarem-se bem. Há muitas lendas grotescas, quase tantas quanto as benevolentes.

 

- E quais prefere?

 

- Hum... - Jude hesitou por um instante. - Acho que depende da disposição.

 

- Tem muitas?

 

- Muitas quê?

 

- Disposições. Acho que tem. Os seus olhos são melancólicos. Pronto, pensou Aidan. Isso fez com que olhasse de novo para mim. Jude voltou a sentir estranhas pressões a agitarem o seu estômago.

 

Por isso, tornou a desviar os olhos. Bem depressa.

 

- Não... não sou muito melancólica. Seja como for... Há histórias de bebés sequestrados do berço, trocados por outros. Crianças devoradas por ogres. No século passado, passagens e finais de contos de fadas foram alterados para que todos vivessem felizes para sempre. Na realidade, as primeiras versões continham sangue, morte e canibalismo. Em termos psicológicos, isso reflecte a mudança nas nossas culturas, no que os pais querem que os filhos escutem e acreditem.

 

- E em que acredita a Jude?

 

- Que uma história é uma história, mas o final de felizes para sempre provavelmente proporciona menos pesadelos infantis.

 

- E a sua mãe contava histórias de crianças trocadas?

 

- Não. - A ideia fez Jude rir. - Mas a minha avó contava. De uma maneira divertida. Imagino que o Aidan também saiba contar histórias de uma maneira divertida.

 

- Contarei uma história agora, se quiser descer comigo até à aldeia.

 

- A pé? - Jude balançou a cabeça. - São quilómetros!

 

- Apenas pouco mais de três quilómetros. - Subitamente, Aidan queria muito andar com ela. - Vai desgastar o bolo da Sra. Duffy. E, depois, poderei oferecer-lhe o jantar. Temos um guisado especial esta noite. Garanto que vai gostar. E providenciarei para que alguém lhe dê uma boleia até à sua casa depois.

 

Jude tornou a fitá-lo, mas logo desviou os olhos. Parecia uma espontaneidade maravilhosa apenas levantar-se e começar a andar, sem planos, sem estrutura. E era justamente por isso que ela não podia aceitar.

 

- É tentador, mas preciso de trabalhar mais um pouco.

 

- Então apareça amanhã. - Ele tornou a pegar na mão de Jude, puxando-a ao se levantar. - Temos música no Gallaghers nas noites de sábado.

 

- Vocês tiveram música ontem à noite.

 

- Mais música. - Explicou Aidan. - E um pouco mais... estruturada, acho que diria assim. Alguns músicos de Waterford City, do tipo tradicional. Tenho a certeza de que vai gostar... e não pode escrever sobre as lendas da Irlanda sem a sua música, não é assim? Portanto, apareça no pub amanhã à noite. E virei procurá-la no domingo.

 

- Virá procurar-me?

 

Aidan sorriu de novo, um sorriso lento, deliberado, encantador.

 

- Contarei uma história para o seu ensaio. Domingo à tarde está bom para si?

 

- Está óptimo. Perfeito.

 

- Bom dia para si, Jude Francês.

 

Ele foi até ao portão. Virou-se. Tinha os olhos ainda mais azuis, ainda mais intensos, quando a fitou.

 

- Não deixe de aparecer no sábado. Gosto de olhar para si.

 

Jude não mexeu um músculo, nem mesmo quando ele tornou a virar-se para abrir o portão, atravessou a passagem na sebe e saiu para a estrada. Nem mesmo depois de ele já se ter afastado e não dar mais para o ver.

 

Gostava de olhar para ela? O que, exactamente, queria ele dizer com isso?

 

Seria alguma espécie de flirt casual? Os olhos de Aidan não pareciam casuais, pensou Jude, enquanto começava a andar de um lado para o outro do caminho estreito. Mas como poderia ela saber, realmente, se aquela era apenas a segunda vez em que ela o via?

 

Provavelmente não passava disso. Um flirt improvisado, quase automático, de um homem acostumado a fazer flirt com as mulheres. Mais um comentário cordial, ela tinha de concluir, ao considerar as circunstâncias.

 

- Eu gostaria de a ver no pub na noite de sábado. - Murmurou ela. - Isso foi tudo o que ele quis dizer. Mas que coisa! Porque tenho de analisar tudo?

 

Irritada consigo mesma, ela tornou a entrar no chalé. Fechou a porta. Qualquer mulher sensata sorriria ao ouvi-lo dizer aquilo. E também faria um pouco de flirt. Era uma reacção inofensiva, condicionada mesmo. A menos que fosse uma neurótica sempre tensa.

 

- E é exactamente isso o que és, Jude F. Murray. Uma neurótica sempre tensa. Não foste capaz de abrir a tua boca idiota para dizer qualquer coisa. Por exemplo: "Verei o que posso fazer. E também gosto de olhar para si." Limitaste-te a ficar paralisada ali, como se ele tivesse acertado um tiro entre os teus olhos.

 

Jude parou. Levantou as mãos, fechou os olhos. Agora, não estava apenas a falar sozinha. Estava também a censurar-se, como se fosse duas pessoas diferentes.

 

Respirou fundo, várias vezes, para se acalmar. Decidiu que queria comer outro pedaço de bolo com glacê, apenas para dissipar um pouco o nervosismo.

 

Marchou para a cozinha, ignorando a vozinha afectada que lhe dizia que estava a compensar com gratificação oral. Sim... e daí? Quando um homem deslumbrante que ela mal conhecia provocava uma erupção nas suas hormonas, era sempre melhor reconfortar-se com açúcar.

 

Jude pegou numa fatia de bolo com uma generosa camada de glacê rosa. Foi nesse instante que se virou abruptamente, ao ouvir um impacto alto contra a porta das traseiras. À visão da cara peluda, com dentes compridos, ela soltou um grito estridente. O bolo saltou da sua mão, bateu no tecto e caiu no chão a seus pés... com o glacê virado para baixo.

 

Só precisou do tempo em que o bolo esteve no ar para se aperceber que não se tratava de um monstro, mas de um cão.

 

- Meu Deus, que terra é esta, em que a cada dois minutos aparece alguma coisa na porta?

 

Jude passou os dedos pelos cabelos, sentindo que as mechas se soltavam. Depois, olhou para a cadela, através do vidro.

 

Tinha olhos castanhos enormes. Jude concluiu que pareciam esperançosos, em vez de agressivos. Os dentes estavam à mostra, é verdade, mas a língua pendia para fora; e, assim, o que podiam os dentes fazer? As patas enormes já haviam sujado o vidro de lama, mas quando soltou um grunhido cordial, Jude cedeu.

 

Quando ela se encaminhou para a porta, a cadela sumiu. Mas continuava ali, verificou Jude, depois de abrir a porta, sentada polidamente no alpendre das traseiras, a bater com a cauda no chão e a olhar para ela.

 

- És a cadela dos OToole, não és?

 

A cadela pareceu considerar isso como um convite. Adiantou-se e circulou pela cozinha, espalhando lama por todos os lados. Depois, fez um favor a Jude, removendo o bolo caído no chão, antes de se aproximar da lareira, e tornar a sentar-se.

 

- Não tive vontade de acender a lareira aqui hoje.

 

Jude aproximou-se. Estendeu a mão, para verificar o que a cadela faria; ela farejou por um instante, depois empurrou a mão de Jude com o focinho, encaminhando-a para o alto da sua cabeça; Jude não pôde deixar de se rir.

 

- Muito esperta, hein?

 

Obediente, Jude coçou por trás das orelhas da cadela. Nunca tivera um cão, embora a mãe tivesse dois gatos siameses mal dispostos, mimados como a realeza.

 

Concluiu que a cadela visitava a velha Maude regularmente, enroscava-se junto à lareira da cozinha, e fazia companhia à venerável anciã, de vez em quando. Os cachorros ficariam tristes quando uma pessoa amiga morria? Foi nesse instante que Jude se lembrou de que ainda não cumprira a promessa de levar flores à sepultura da Maude.

 

Indagara sobre a localização na noite anterior, quando estivera na aldeia. Maude fora enterrada a leste da aldeia, por cima do mar, além do caminho que passava perto do hotel, e dava a volta para as ruínas, o oratório, e a fonte de São Declan.

 

Um passeio longo, com uma paisagem maravilhosa, pensou ela.

 

Num súbito impulso, Jude pegou nas flores que pusera no balcão da cozinha, tirando-as da garrafa. Inclinou a cabeça para a cadela.

 

- Não queres sair comigo para visitar a velha Maude?

 

A cadela ladrou de novo e levantou-se. Ao saírem juntas pela porta dos fundos, Jude especulou sobre quem conduzia quem.

 

A sensação era de uma coisa rural e rústica. Enquanto caminhava pelas colinas, em companhia da cadela amarela, levando flores para o túmulo de um antepassado, Jude imaginou aquilo como parte da sua rotina semanal. A camponesa irlandesa, com a sua fiel cadela, a prestar homenagem a uma prima distante.

 

Seria um hábito que haveria de adquirir... isto é, se tivesse mesmo uma cadela e se realmente viesse a viver ali.

 

Era tranquilizante respirar o ar fresco, sentir a brisa, observando a cadela a correr para farejar só Deus sabia o quê, contemplando todos os gloriosos sinais da Primavera, nas sebes floridas, no voo rápido e canto alegre de um pequeno pássaro.

 

O mar murmurava. Os penhascos mantinham-se impassíveis.

 

Quando ela se aproximou do oratório de frontão bem inclinado, o sol atravessou as nuvens e iluminou a relva e a pedra. As três cruzes de pedra destacavam-se, projectando as suas sombras, com a fonte de água sagrada por baixo.

 

Os peregrinos lavavam-se ali, lembrou-se Jude de uma informação do guia turístico. E quantos, especulou ela, haviam despejado em segredo um pouco de água na terra, para os deuses, com o intento de aumentar as suas oportunidades?

 

Porquê correr riscos?, pensou ela. Deveria fazer a mesma coisa.

 

Era um lugar sossegado e pacífico. E também comovente, pois parecia compreender a vida e a morte, e tudo o que as ligava.

 

O ar parecia mais quente ali, quase Verão, apesar da brisa, com a fragrância das flores espalhadas pela relva, sobre os mortos, parecendo de repente agreste e doce. Ela podia ouvir o zumbido das abelhas e o canto dos passarinhos, um som claro, musical, vibrante.

 

A relva era alta, muito verde, parecendo incontrolável no terreno irregular. Lápides pequenas e toscas indicavam as sepulturas antigas. E, no meio, apenas uma lápide nova. A velha Maude optara por ser enterrada ali, quase sozinha, numa colina de onde se podia contemplar a aldeia, os contornos azuis do mar e as ondulações verdes que se estendiam até à montanha.

 

Numa prateleira de pedra, no meio das ruínas, havia um pote de plástico comprido, cheio de flores vermelhas. A visão das flores deixou Jude profundamente comovida.

 

As pessoas esqueciam-se com bastante frequência, pensou ela. Mas não aqui. Naquele lugar, as pessoas lembravam-se, e homenageavam essas lembranças com flores para os mortos.

 

"Maude Alice Fitzgerald", dizia a inscrição simples na pedra. Por baixo, haviam escrito "Wise Woman", uma mulher sábia, depois as datas da sua longa vida.

 

Era um estranho epitáfio, reflectiu Jude, enquanto se ajoelhava ao lado, na encosta suave. Já havia flores ali, um pequeno ramo de violetas a começar a murchar. Jude pôs o seu bouquet ao lado, depois sentou-se nos calcanhares.

 

- Sou a Jude, a neta da sua prima Agnes. - Começou ela - A que nasceu na América. Estou a passar algum tempo no seu chalé, é mesmo adorável. Lamento nunca tê-la conhecido. A avó falava muito sobre o tempo em que vocês viveram juntas no chalé. Como ficou feliz por ela, quando a avó casou e foi para a América. Mas a Maude continuou aqui.

 

- Ela era uma mulher extraordinária.

 

Com o coração a subir-lhe pela garganta, Jude levantou a cabeça abruptamente. Deparou-se com uns profundos olhos azuis. Era um rosto bonito, jovem e liso. Usava os cabelos pretos compridos, quase alcançando os ombros. A boca elevava-se nos cantos, numa expressão cordial, quando ele se adiantou para fitar Jude, além da sepultura.

 

- Não o ouvi. Não sabia que estava aqui.

 

- As pessoas andam em passos leves num lugar sagrado. Não tive a intenção de a assustar.

 

- Não me assustou. - Apenas morri de medo, pensou Jude. - Mas foi uma surpresa. - Ela puxou os cabelos que o vento havia soltado, fazendo com que dançassem em torno do seu rosto. - Conheceu a Maude?

 

- Claro que conheci a velha Maude. Uma mulher extraordinária, como eu disse. Teve uma vida rica e generosa. É bom que tenha trazido flores, pois ela apreciava-as.

 

- São dela, do seu jardim.

 

- Isso é óptimo. - O sorriso do rapaz alargou-se. - Faz com que sejam ainda melhores. - Ele pôs a mão na cabeça da cadela, sentada quieta a seu lado. Jude viu o brilho de um anel num dedo, uma pedra azul, que faiscava na prata. - Esperou muito tempo para voltar às suas origens.

 

Jude franziu o rosto, piscando os olhos contra o sol, que parecia mais forte agora, o suficiente para a sua vista tremeluzir.

 

- Ah, está a referir-se à Irlanda. Acho que tem razão.

 

- É um lugar onde pode contemplar o seu coração e verificar o que mais importa. - Os seus olhos eram como cobalto, agora. Intensos, hipnóticos. - É a sua hora de escolher. E deve escolher bem, Jude Francês, pois não será apenas você a ser afectada.

 

A fragrância das flores, relva e terra fazia a cabeça de Jude girar, até que se sentiu tonta. O sol ofuscava-a, os raios flamejantes ardendo e turvando os olhos. O vento aumentou na sua intensidade, com uma energia súbita e estonteante.

 

Ela seria capaz de jurar que ouvia flautas a tocar, as notas a elevar-se no vento cada vez mais forte.

 

- Não sei o que quer dizer.

 

Atordoada, Jude levou a mão à cabeça, fechou os olhos.

 

- Vai entender.

 

- Eu vi-o, na chuva. - Tonta, ela sentia-se cada vez mais tonta.

- Na colina da torre redonda.

 

- Eu sei disso. Estávamos à sua espera.

 

- À minha espera? Quem?

 

O vento diminuiu tão depressa quanto aumentara. A música desvaneceu-se para o retorno do silêncio. Jude sacudiu a cabeça, para a desanuviar.

 

- Desculpe, mas o que foi que disse?

 

Mas quando ela tornou a abrir os olhos, descobriu que se encontrava sozinha ali, com os mortos silenciosos e a enorme cadela amarela.

 

                                                  CAPÍTULO 5

Aidan não se opunha ao trabalho burocrático. Ele simplesmente o detestava. Mais do que isso, odiava-o.

 

Mas três dias por semana, fizesse chuva ou sol, ele passava uma hora ou mais na escrivaninha do seu apartamento, a preparar os pedidos e a calcular as despesas, fazendo a folha de pagamento e conferindo os lucros.

 

Era um alívio para ele verificar que havia lucro. Jamais se preocupara muito com dinheiro antes de o Gallaghers passar para as suas mãos. E muitas vezes questionava-se se não fora esse um dos motivos para que os pais lhe entregassem o pub. Divertira-se muito, vivendo da mão para a boca, durante as suas viagens. A sobreviver um pouco. Não guardara um único centavo. Nem sentira necessidade disso.

 

Responsabilidade não era o seu nome do meio.

 

Afinal, crescera em situação confortável. Trabalhara, é claro, durante a infância e a adolescência. Mas enxugar e varrer o chão, servir cerveja e cantar uma melodia era muito diferente de calcular quanta lager deveria encomendar, qual a percentagem de perda - muito obrigado, irmã Darcy

- que o pub poderia suportar, o malabarismo com os números nos registos e o cálculo dos impostos.

 

Essas tarefas deixavam-no com dor de cabeça, em todas as ocasiões, sem excepção. Não se sentia mais atraído por se sentar com os livros do que pela extracção de um dente, mas aprendera.

 

E enquanto aprendia, compreendia que o pub, por isso mesmo, se tornava cada vez mais importante para ele. Não havia a menor dúvida, decidiu ele, de que os pais eram mesmo espertos. E conheciam o filho.

 

Ele passou algum tempo ao telefone com os distribuidores, tentando negociar o melhor preço. Não se importava de fazer isso, já que era um pouco como negociar cavalos. E descobrira que era algo para o qual tinha aptidão.

 

Agradava-lhe saber que músicos de Dublin, de Waterford, até mesmo de lugares tão distantes quanto Clare e Galway, não só estavam dispostos a apresentar-se no Gallaghers, mas também se mostravam satisfeitos com a oportunidade. Era um motivo de orgulho saber que, nos seus quatro anos no comando, ajudara a projectar a reputação ao pub como um lugar em que se ouvia boa música.

 

E esperava que a temporada de Verão, quando os turistas apareciam, fosse a melhor que opub já tivera.

 

Mas isso não fazia com que somar e subtrair se tornasse uma tarefa menos maçadora.

 

Pensara em comprar um computador, mas nesse caso teria de aprender a usá-lo. Admitia, sem qualquer vergonha, que a mera ideia o assustava, de uma maneira indescritível. Quando conversara a respeito disso com Darcy, dizendo que talvez ela pudesse aprender a usar, a irmã rira-se tanto, que as lágrimas lhe escorreram pela face.

 

E ele sabia que nem adiantava falar com Shawn, que não pensaria em trocar uma lâmpada, se estivesse a ler no escuro.

 

Também não pensaria em contratar alguém de fora, já que o Gallaghers conseguia ser auto-suficiente na sua administração desde que fora inaugurado. Portanto, tinha de continuar a usar lápis e máquina de calcular ou ganhar coragem para enfrentar a nova tecnologia.

 

Imaginava que Jude tivesse conhecimento de computadores. Não se importaria se ela lhe ensinasse alguma coisa. Até gostaria, pensou Aidan, com um sorriso lento, e retribuiria o favor numa área completamente diferente.

 

Queria acariciá-la. Já especulava sobre o que encontraria em gosto, em textura, naquela boca larga e adorável. Já tinha passado algum tempo desde que uma mulher havia deixado o seu sangue a ferver dessa maneira. E Aidan estava a adorar a expectativa.

 

Jude fazia-o pensar numa potra que ainda não se sentia muito segura nas suas pernas. Esquivava-se à aproximação de um homem, ao mesmo tempo que ansiava por uma carícia firme e gentil. Era uma combinação atraente, aquele comportamento hesitante somado à mente sagaz e à voz refinada.

 

Esperava que ela aparecesse naquela noite, como ele lhe pedira.

 

E esperava também que ela usasse uma das suas roupas impecáveis, com os cabelos presos, a fim de poder imaginar o prazer de soltá-los e amarrotar o traje.

 

Se Jude tivesse alguma noção do rumo dos pensamentos de Aidan, nem teria coragem para deixar o chalé. Mesmo sem essa complicação adicional, ela já mudara de ideias sobre a ida ao pub meia dúzia de vezes.

 

Mas seria desagradável não aparecer, depois de ele a ter convidado.

 

Daria a impressão de que ela esperava pelo seu tempo e atenção.

 

E seria simplesmente uma maneira agradável de passar uma noite.

 

Não era o tipo de mulher que passava a noite em bares.

 

A sua vacilação deixou-a de tal forma irritada, que decidiu ir, por uma questão de princípio, pelo menos por uma hora.

 

Ela vestiu umas calças de um tom cinzento-escuro, com um casaco combinado, e um colete com riscas vermelhas acastanhadas. Era noite de sábado, afinal de contas, pensou ela, e acrescentou brincos de prata, que proporcionaram um toque mais alegre. Haveria música, lembrou-se a si mesma, enquanto pensava se não estaria a enlouquecer, ao acrescentar um par de pulseiras de prata.

 

Tinha uma paixão secreta e ardente por jóias.

 

Ao ajeitar as pulseiras, pensou no anel que o homem no cemitério usava. O brilho da safira na prata lavada, uma jóia deslocada no ambiente rural.

 

Ele comportara-se de uma maneira muito estranha, pensava Jude agora. Surgira e desaparecera tão sorrateiramente, que era quase como se ela tivesse sonhado. Mas lembrava-se do rosto e da voz com absoluta nitidez, bem como do súbito fluxo da fragrância, a rajada de vento e as tonturas inesperadas.

 

Apenas uma consequência do excesso de açúcar, decidiu Jude. Todo aquele bolo entrara no seu organismo e depois se desvanecera, deixando-a momentaneamente tonta.

 

Ela levantou os ombros, descartando o assunto. Inclinou-se para o espelho, a fim de verificar se não borrara o rímel. Provavelmente tornaria a ver aquele homem, naquela mesma noite, no pub, ou na próxima vez em que levasse flores para Maude.

 

Com as pulseiras a tilintar alegremente e proporcionando-lhe uma agradável sensação de confiança, ela desceu. Desta vez lembrou-se de pegar nas chaves antes de seguir até ao carro, o que considerou um bom progresso. Assim como também achou um bom sinal o facto de não ter as palmas das mãos suadas ao avançar pela estrada, no escuro.

 

Satisfeita consigo mesma, antecipando uma noite sossegada e agradável, ela estacionou o carro pouco antes do Gallaghers. Encaminhou-se para a porta, alisando os cabelos. Respirou fundo antes de a abrir.

 

E foi quase lançada para trás pela explosão da música.

 

Gaitas, violinos, vozes, depois o rugido da multidão no coro de "Whiskey in the Jar". O ritmo era tão rápido, tão vertiginoso, que o som se tornava algo indistinto; e esse som agarrou-a, puxou-a para dentro do pub, envolveu-a por completo.

 

Já não era o pub escuro e sossegado que ela esperava encontrar. Estava lotado, com pessoas a acomodarem-se de qualquer maneira às mesas baixas, espremidas ao longo do balcão, segurando copos cheios e copos vazios.

 

Os músicos - como podiam apenas três pessoas fazer um som assim? - estavam no compartimento da frente, ocupando todo o espaço com os seus trajes de operários e botas, enquanto tocavam como anjos demoníacos. A sala cheirava a fumo, cerveja e a sabonete da noite de sábado.

 

Por um momento, ela questionou-se se não teria entrado no bar errado. Mas depois avistou Darcy, a nuvem gloriosa de cabelos escuros presos com uma vistosa fita vermelha. Carregava uma bandeja com copos e garrafas vazios, cinzeiros a transbordar, enquanto fazia flirt com um rapaz cujo rosto era tão vermelho quanto a fita nos seus cabelos. O rapaz exibia uma satisfação embaraçada, com uma admiração desesperada nos olhos.

 

Quando avistou Jude, Darcy piscou-lhe o olho. Bateu de leve no rosto do jovem apaixonado e depois abriu caminho pela multidão.

 

- O pub está bastante animado esta noite. O Aidan disse-me que a Jude viria, e pediu-me para ficar de olho.

 

- Foi muito gentil da parte dele... e da sua. Eu não esperava... tanta gente.

 

- Os músicos são muito apreciados por aqui, e atraem uma boa multidão.

 

- São maravilhosos.

 

- Tocam muito bem. - Darcy estava mais interessada nos brincos de Jude. Gostaria de saber onde ela os comprara e qual teria sido o preço.

- Siga-me e eu levá-la-ei sã e salva até ao balcão.

 

Foi o que ela fez, esgueirando-se pelo meio damultidão, empurrando de vez em quando, rindo-se muito, fazendo comentários para diversas pessoas, que chamava pelo primeiro nome. Seguiu para a extremidade do balcão, largou a bandeja além dos corpos espremidos ali, onde era o ponto de pedidos.

 

- Boa noite, Sr. Riley. - Disse Darcy para o velho sentado no último banco.

 

- Boa noite para si também, jovem Darcy. - A voz era esganiçada. Ele sorriu, com olhos que pareceram meio cegos para Jude, enquanto bebia um gole da Guinness escura e encorpada. - Se se casar comigo, querida, fá-la-ei uma rainha.

 

- Pois então casaremos no próximo sábado; mereço ser uma rainha. - Darcy deu um beijo no rosto enrugado. - Will Riley, deixa a ianque sentar-se ao lado do teu avô.

 

- Com todo o prazer. - O homem magro saiu do banco, oferecendo um sorriso radiante a Jude. - Então é você a ianque. Sente-se aqui, ao lado do meu avô, e pagar-lhe-ei uma caneca.

 

- A dama prefere vinho.

 

Aidan, já com o copo na mão, entrou no campo de visão de Jude, estendendo-o.

 

- Tem razão. Obrigada.

 

- Ponha na conta de Will Riley, Aidan, e beberemos a todos os nossos primos no outro lado do oceano.

 

- Assim farei, Will. - Ele ofereceu o seu sorriso insinuante a Jude.

- Fique um pouco aqui, está bem?

 

E, depois, afastou-se para trabalhar.

 

Jude ficou. Porque parecia polido, bebeu brindes a pessoas de quem nunca ouvira falar. E como era necessário pouco esforço da sua parte, manteve uma conversa com os Riley sobre os seus parentes nos Estados Unidos e as viagens que tinham feito até lá... Embora os desapontasse ao admitir que nunca tinha estado no Wyoming e que não conhecia nenhum cowboy de verdade.

 

Ouviu a música, porque era maravilhosa. As melodias eram ao mesmo tempo familiares e estranhas, o exaltamento e a melancolia a contagiar a multidão. Jude cantarolava quando reconhecia a melodia. Sorria quando o velho Sr. Riley entoava as palavras, com a sua voz esganiçada.

 

- Eu tinha uma queda pela sua prima Maude. - Disse o Sr. Riley a Jude. - Mas ela só tinha olhos para John Magee, que a sua alma descanse em paz. - Ele soltou um suspiro profundo e bebeu um gole da Guinness, também profundo. - E um dia, quando fui bater à porta dela, com o chapéu na mão, ela disse-me que eu casaria com uma rapariga loura e de olhos acinzentados antes de o ano terminar.

 

O velho fez uma pausa, sorrindo para si mesmo, como se contemplasse o passado, pensou Jude. Ela inclinou-se para o ouvir acima do barulho da música.

 

- E, antes de passar um mês, eu conheci a minha Lizzie, de cabelos louros e olhos cinza. Casámos em Junho, e passámos quase cinquenta anos juntos, até à sua morte.

 

- Isso é lindo.

 

- A Maude sabia das coisas. - Ele fitou Jude nos olhos. - A Boa Gente sussurrava muitas vezes no ouvido da Maude.

 

- Ah sim? - Murmurou Jude, divertida agora.

 

- Sim. E como a Jude tem o mesmo sangue, é possível que também sussurrem no seu ouvido. Não deixe de escutar.

 

- Claro.

 

Por algum tempo, eles beberam num silêncio cordial, prestando atenção à música. Depois, os olhos de Jude encheram-se de lágrimas, quando Darcy passou o braço pelos ombros ossudos do velho e acrescentou a voz gloriosa à dele, numa canção de amor eterno e perda irreparável.

 

Quando avistou Brenna a servir uísque e a abrir as torneiras de cerveja, por trás do balcão, Jude sorriu. Ela não estava a usar o boné, e os cachos vermelhos derramavam-se à vontade.

 

- Não sabia que trabalhava aqui.

 

- Só trabalho de vez em quando, sempre que há necessidade. O que vai querer, Jude?

 

- Estou a beber Chardonnay, mas acho que não deveria. Mas ela falava para as costas de Brenna. Antes que pudesse acrescentar qualquer coisa, Brenna já se tinha virado de volta e enchido o seu copo.

 

- Os fins-de-semana costumam ser movimentados no Gallaghers.

- Comentou Brenna. - E também dou uma ajuda durante a temporada de Verão. A música está óptima, não acha?

 

- Maravilhosa.

 

- E como vão as coisas, meu caro Sr. Riley?

 

- Vão muito bem, linda Brenna OToole. Quando vai casar comigo e fazer com que o meu coração pare de sofrer?

 

- No alegre mês de Maio. - Ela trocou a caneca vazia por uma cheia. - Tenha cuidado com esse patife, Jude, ou ele vai brincar com os seus sentimentos.

 

Aidan apareceu por trás de Brenna, dando um puxão leve nos seus cabelos ruivos.

 

- Podes atender noutro lado, Brenna? Eu gostaria de trabalhar aqui, para poder fazer flirt com Jude.

 

- Por falar em patifes, aqui temos outro. A casa está cheia deles.

 

- Ela é muito bonita. - Interveio o Sr. Riley. Aidan piscou o olho a Jude.

 

- Qual delas, Sr. Riley?

 

- Todas! - O Sr. Riley soltou uma gargalhada. Bateu com a mão fina no balcão. - Nunca vi, é claro, nenhum rosto de mulher que não fosse bastante bonito para um bom apertão. A ianque aqui tem olhos de feiticeira. Tem cuidado, Aidan, ou ela lançar-te-á um encantamento.

 

- Talvez já tenha lançado. - Aidan recolheu alguns copos, pôs no lava-loiça debaixo do balcão, levou outros, limpos, para as torneiras de cerveja. - Já saiu de casa à meia-noite, Jude Francês, colhendo flores-da-lua e sussurrando o meu nome?

 

- Até que poderia sair, se soubesse o que são flores-da-lua.

 

A resposta fez o Sr. Riley rir tanto, que Jude até receou que ele pudesse cair do banco. Aidan limitou-se a sorrir, enquanto servia as canecas e pegava nas moedas. Depois inclinou-se para bem perto, e observou os olhos de Jude a arregalarem-se, os lábios a entreabrirem-se em surpresa, tremendo um pouco.

 

- Eu mostrar-lhe-ei as flores-da-lua, da próxima vez que a for visitar.

 

- Hmmm...

 

Era no que dava oferecer respostas irónicas, pensou Jude, bebendo outro gole de vinho.

 

Alguma coisa subiu à sua cabeça, ou o vinho, ou a intimidade do olhar de Aidan. Ela decidiu que deveria considerar as duas coisas com um pouco mais de cautela e respeito. E quando Aidan tornou a pegar na garrafa de vinho ela sacudiu a cabeça, e tapou o copo com a mão.

 

- Não, obrigada. Beberei apenas água, a partir de agora.

 

- Quer do tipo borbulhante?

 

- Borbulhante? Ah, sim... Claro que prefiro.

 

Aidan serviu a água com gás num copo pequeno, sem gelo. Ela bebeu um gole. Ficou a observá-lo a pôr mais duas canecas em baixo das torneiras, e a iniciar o processo metódico de servir uma Guinness.

 

- É preciso muito tempo. - Murmurou ela, mais para si mesma do que para Aidan.

 

Mas ele fitou-a, ainda manobrando as torneiras.

 

- Apenas o tempo necessário para fazer certo. Um dia, quando estiver com disposição, prepararei um copo para si. Descobrirá então o que está a perder ao tomar essa coisa francesa.

 

Darcy voltou. Pôs a bandeja em cima do balcão.

 

- Uma caneca de Smithwick, outra de Guinness, dois copos de Jamesoris. E quando acabares aí, Aidan, o Jack Brennan já chegou ao seu limite.

 

- Podes deixar comigo. Que horas são, Jude Francês?

 

- Que horas? - Jude parou de olhar para as mãos de Aidan, eram ágeis e eficientes, e consultou o relógio. - Ei, já passa das onze horas! Eu nem imaginava! - A hora que pensara em passar no pub prolongara-se por quase três. - Tenho de voltar.

 

Aidan ofereceu-lhe um aceno de cabeça distraído, sem dispensar a atenção que ela esperava. Ele começou a despachar os pedidos que a irmã trouxera, enquanto Jude abria a bolsa para pegar no dinheiro e pagar o vinho.

 

- O meu neto paga. - O Sr. Riley pousou a mão frágil no ombro de Jude. - É um bom rapaz. Guarde o seu dinheiro, querida.

 

- Obrigada. - Jude estendeu a mão para um aperto. Ficou encantada quando o velho a levantou para os seus lábios. - Tive o maior prazer em conhecê-lo. - Ela saltou do banco. Sorriu para o Riley mais jovem. - Os dois.

 

Sem Darcy para abrir o caminho, chegar à porta foi um pouco mais difícil do que alcançar o balcão. Quando finalmente conseguiu, Jude tinha o rosto afogueado pelo calor dos corpos, o sangue a correr mais rápido, ao ritmo vertiginoso do violino.

 

Fora uma das noites mais divertidas da sua vida.

 

Ela saiu para o ar frio da noite. E viu Aidan baixar-se para escapar do soco violento de um homem que tinha a largura de um tronco de árvore.

 

- Calma, Jack... - Ele falou num tom razoável, enquanto um gigante de cabelos ruivos brilhantes erguia de novo os punhos enormes.

- Sabes muito bem que não me queres acertar.

 

- Claro que quero! Juro por Deus que desta vez te vou partir o raio desse nariz intrometido, Aidan Gallagher. Quem és tu para me dizer que não posso tomar a merda de um trago na merda de umpub, quando estou com a merda da vontade?

 

- Estás que nem um cacho de uvas, Jack. Precisas de ir para casa agora e dormir até te passar.

 

- Vamos ver se consegues dormir com isto!

 

O gigante atacou. Enquanto Aidan se preparava para girar, a fim de evitar com facilidade a investida do touro, Jude deixou escapar um pequeno grito de alarme. Foi o suficiente para distrair Aidan, permitindo que o soco acertasse no alvo.

 

- Essa não!

 

Aidan mexeu os maxilares, expirando fundo, enquanto a carga impetuosa de Jack o levava a estatelar-se no passeio, de cara no chão.

 

- Está bem? - Apavorada, Jude adiantou-se, contornando o corpo estatelado, que era mais ou menos do tamanho de um transatlântico emborcado. - A sua boca está a sangrar! Dói muito? Isso é horrível!

 

Ela abriu a bolsa para pegar num lenço de papel, enquanto falava, gaguejando.

 

Aidan sentia-se bastante irritado, com vontade de dizer que o sangue era tanto culpa dela, por ter gritado, quanto de Jack, por desferir o soco. Mas Jude parecia tão linda e consternada, já a comprimir o lenço de papel contra o lábio cortado, que ele mudou de ideias.

 

Começou a sorrir. Como fazia a boca doer ainda mais, ele estremeceu.

 

- Que homem violento! Precisamos de chamar a polícia.

 

- Para quê?

 

- Para o prenderem. Ele agrediu-o.

 

Aidan fitou-a, aturdido, com um choque sincero.

 

- Porque haveria eu de querer que um dos meus amigos mais antigos fosse preso por deixar o meu lábio a sangrar?

 

- Amigo?

 

- Isso mesmo. Ele estava apenas a acalentar, com uísque, um coração partido, o que é uma tolice, embora seja bastante natural. A miúda que ele pensava que amava foi-se embora com um dublinense. Fez duas semanas na última quarta-feira. O Jack tem bebido para esquecer nos últimos dias, causando as maiores confusões. Mas não tinha a intenção de fazer mal a ninguém.

 

- Ele deu-lhe um soco no rosto. - Talvez se ela falasse devagar, de uma maneira incisiva, o significado do facto fosse absorvido. - Ele disse que ia partir o seu nariz.

 

- Só disse isso porque tentou fazê-lo antes e não conseguiu. Vai arrepender-se de me ter acertado pela manhã, quase tanto quanto da ressaca. Sentirá a cabeça a estourar e vai torcer para que ela caia dos ombros, a fim de o deixar em paz.

 

Aidan sorriu agora, mas cauteloso.

 

- Ficou preocupada comigo, querida?

 

- Aparentemente, não deveria. - Jude respondeu num tom severo, comprimindo o lenço de papel numa bola. - Já que parece gostar de lutar na rua com os seus amigos.

 

- Houve um tempo em que eu gostava de lutar na rua com estranhos, mas a maturidade levou-me a preferir os amigos. - Ele estendeu a mão, como tinha vindo a querer fazer há algum tempo, e passou os dedos pelas extremidades dos cabelos de Jude. - E obrigado por se ter preocupado comigo.

 

Aidan deu um passo em frente. Jude recuou. Ele suspirou.

 

- Um dia não terá tanto espaço para recuar. E eu não terei de lidar com o pobre bêbado do Jack, caído a meus pés.

 

Com uma expressão resignada, ele baixou-se. Para espanto de Jude, levantou o homem enorme, semiconsciente, e apoiou-o no seu ombro.

 

- És tu, Aidan?

 

- Eu mesmo, Jack.

 

- Parti-te o nariz?

 

- Não, não partiste. Mas deixaste o meu lábio um bocado ensanguentado.

 

- Porra da sorte dos Gallagher.

 

- Há uma dama presente, seu cabeça oca.

 

- Peço perdão.

 

- Vocês os dois são ridículos!

 

Jude virou-se e seguiu para o seu carro.

 

- Jude, minha querida... - Aidan sorriu, suspirando quando o lábio doeu. - Vê-la-ei amanhã, ao meio-dia e meia.

 

Ele apenas riu quando Jude continuou a andar, sem dizer nada, os saltos a ressoar no passeio. Ela virou-se ao alcançar o carro, lançando-lhe um olhar fulminante.

 

- Ela já foi embora? - Perguntou Jack

 

- Sim, foi, mas não irá muito longe. - Murmurou Aidan, enquanto Jude se afastava no carro, guiando com todo o cuidado. - Com toda a certeza, não irá muito longe.

 

Os homens eram verdadeiros babuínos. Obviamente. Jude balançou a cabeça, tamborilando com um dedo no volante, em desaprovação, enquanto seguia para casa. Briga de bêbados na rua não era um passatempo divertido; e quem pensava que era, estava a precisar de uma terapia.

 

E Aidan fizera com que ela se sentisse uma idiota. Parado ali, a sorrir, enquanto ela lhe limpava o sangue. Um sorriso indulgente, pensou Jude agora, do macho enorme e forte para a fêmea pequena e frágil.

 

Pior ainda, além de tola, também se mostrara impressionada. Quando Aidan levantou aquele homem enorme para os seus ombros, como se fosse um saco de penas, sentira uma contracção incontestável no estômago. Se não se tivesse controlado nesse instante, afastando-se, poderia ter soltado um murmúrio de admiração.

 

Mortificante.

 

E ele ficara um pouco embaraçado por alguém ter esmurrado a sua cara na presença de uma mulher? Não, nem um pouco. Corara um pouco ao apresentar o idiota bêbado a seus pés como um velho amigo? Não, nem um pouco.

 

Era bem provável que estivesse atrás do balcão de novo, divertindo os amigos com a história, arrancando gargalhadas com o relato do seu grito assustado e as suas mãos trémulas.

 

Desgraçado!

 

Jude fungou uma vez, e sentiu-se melhor por isso.

 

Ao entrar no caminho para o chalé, já se convencera de que se comportara com absoluta distinção, assumira uma atitude sensata. Aidan Gallagher é que fora o idiota.

 

Flores-da-lua! Ela bateu a porta do carro com bastante força, para que o som ressoasse pelo vale.

 

Depois de respirar fundo, mais uma vez, e alisar os cabelos, encaminhou-se para o portão. E, quando levantou o rosto, avistou a mulher na janela.

 

- Oh, Deus!

 

O sangue deixou o seu rosto. Sentiu cada gota desaparecer. O luar tremeluzia nos cabelos muito claros, as faces pálidas, contra os olhos de um verde profundo.

 

Ela sorria, um lindo sorriso, mas angustiante, que dilacerou o coração de Jude e a deixou desesperada.

 

Ganhando coragem, Jude abriu o portão e correu para a porta. Quando a abriu, ocorreu-lhe que se esquecera de a trancar. Alguém entrara durante a sua permanência no pub, ela disse a si mesma. Era só isso.

 

Os joelhos tremiam quando ela subiu as escadas a correr.

 

O quarto estava vazio, assim como todas as outras divisões da casa, que ela verificou, uma a uma. Restava apenas a ténue fragrância da mulher.

 

Apreensiva, Jude trancou as portas. E, quando se recolheu ao quarto, trancou-o também por dentro.

 

Depois de ter trocado de roupa e se ter ajeitado na cama, deixou a luz acesa. Muito tempo passou, antes que conseguisse adormecer. E sonhou com jóias, pedras preciosas que se projectavam do sol, caíam pelo céu, e eram recolhidas num saco prateado por um homem, montando um cavalo alado, branco como a neve.

 

Desfilavam pelo céu, por cima dos campos e montanhas, lagos e rios, os pântanos e charnecas que constituíam a Irlanda. Sobrevoavam as ameias de castelos e os telhados de colmo dos chalés mais humildes, com as asas brancas do cavalo a zunir contra o vento.

 

Pararam de repente, num clarão ofuscante, os cascos a riscar a terra, na frente do chalé na colina, com as suas paredes brancas, persianas verdes e flores espalhadas na porta.

 

A mulher saiu ao seu encontro, os cabelos do dourado mais claro a caírem-lhe pelos ombros, os olhos verdes como os campos. O homem, cujos cabelos eram da mesma cor dos dela, era claro, usava um anel de prata com uma pedra no centro, não menos brilhante do que os seus olhos. Saltou do cavalo.

 

Adiantou-se e deixou cair as pedras aos pés da mulher. Os diamantes cintilavam na relva.

 

- Estas pedras representam a minha paixão por ti - declarou ele.

- Aceita-as e aceita-me também a mim, pois eu dar-te-ei tudo o que tenho e mais alguma coisa.

 

- A paixão não é suficiente, nem os diamantes. - A voz era suave, contida. As mãos permaneciam cruzadas na cintura. - Estou prometida a outro.

 

- Dar-te-ei tudo. Dar-te-ei até a eternidade. Vem comigo, Gwen, e terás cem vidas que te darei.

 

- Não são pedras preciosas e vidas o que eu quero. - Uma única lágrima deslizou pelo rosto, tão brilhante quanto os diamantes na relva. Não posso deixar a minha casa. Não trocarei o meu mundo pelo teu. Nem por todos os teus diamantes, todas as tuas vidas.

 

Sem dizer mais nada, ele virou-se e voltou a montar o cavalo alado. E, enquanto se elevavam pelo céu, Gwen voltou para dentro do chalé, deixando os diamantes no chão, como se fossem apenas flores.

 

E tornaram-se flores, cobrindo o chão com a sua fragrância, humilde e suave.

 

                                                     CAPÍTULO 6

Jude acordou com o suave tamborilar da chuva e a vaga recordação de sonhos cheios de cores e movimentos. Sentiu-se tentada a aconchegar-se sob os cobertores e voltar a dormir, a fim de encontrar de novo aqueles sonhos. Mas isso parecia errado. Um excesso de indulgência.

 

Seria mais produtivo, decidiu ela, criar e manter uma rotina. Uma manhã de domingo chuvosa poderia ser mais bem aproveitada em tarefas domésticas básicas. Afinal, ela não tinha um serviço de faxina em Ardmore, como acontecia em Chicago.

 

Em algum nível secreto, até que aguardava com alguma ansiedade a tarefa de limpar o pó e varrer, assim como todos os outros pequenos afazeres domésticos, que fariam com que o chalé se tornasse seu. Reflectiu que não era muito sensato da sua parte, mas sentiu alguma satisfação ao encontrar o material de limpeza, os panos, as escovas e vassouras.

 

Passou uma parte agradável da manhã a limpar o chalé e a arrumar as velhas quinquilharias que a velha Maude espalhara por toda a parte. Havia fadas pintadas, elegantes feiticeiras, intrigantes blocos de cristal em todas as mesas e prateleiras. A maioria dos livros era sobre a história e o folclore da Irlanda, mas havia também diversos romances populares.

 

A velha Maude gostava de ler histórias românticas, descobriu Jude; e achou que a ideia era maravilhosamente doce.

 

Em vez de um aspirador de pó, Jude encontrou uma vassoura antiquada. Cantarolava acompanhando o seu progresso, aos rangidos, sobre tapetes e soalho.

 

Esfregou um pano molhado na cozinha. Sentiu uma satisfação intensa e surpreendente, quando os cromados e porcelanas passaram a brilhar. Mas confiante a cada minuto, ela pegou no pano de polimento e foi para o escritório. Cuidaria das caixas do pequeno armário em breve, prometeu a si mesma. Talvez ao final daquela tarde. E despacharia para a avó qualquer coisa que parecesse ter bastante valor monetário ou sentimental.

 

No quarto, tirou as roupas da cama, recolheu o resto das suas roupas sujas. Descobriu que era um pouco embaraçoso o facto de nunca ter lavado roupa antes, em toda a sua vida. Mas, com toda a certeza, não seria uma actividade tão complexa que não pudesse aprender sozinha. Ocorreu-lhe que deveria ter lavado a roupa antes de começar a faxina, mas lembrar-se-ia disso na próxima vez.

 

Na divisão pequena, ao lado da cozinha, ela encontrou o cesto de roupa. Compreendeu que deveria tê-lo levado lá para cima, antes de mais nada. Mas largou as roupas no cesto agora.

 

Descobriu também que não havia máquina de secar. Se não estava enganada, isso significava que teria de pendurar as roupas num estendal. E, embora fosse agradável observar Mollie OToole a pendurar as roupas no estendal, fazer isso pessoalmente seria um pouco mais problemático.

 

Mas teria de aprender. E aprenderia, Jude garantiu a si mesma. Depois, limpando a garganta, examinou a máquina de lavar roupa.

 

Não era nova. Várias manchas de ferrugem destacavam-se na superfície branca. Os controlos eram simples. Usava-se água fria ou quente. Jude presumiu que se usava a água quente, em abundância, quando se queria uma coisa bem limpa. Leu as instruções na caixa do sabão em pó. Seguiu-as à letra. O barulho da água a cair no tambor deixou-a radiante com o feito.

 

Para comemorar, pôs a chaleira com água no fogo, para fazer um chá. Presenteou-se com um punhado de biscoitos da lata.

 

O chalé estava limpo e arrumado. O seu chalé estava limpo e arrumado, ela corrigiu. Tudo no seu lugar, a roupa suja a ser lavada... Agora não havia mais desculpas para pensar no que vira na noite anterior.

 

A mulher na janela. Lady Gwen.

 

O seu fantasma.

 

Não havia qualquer possibilidade razoável de negar que vira a figura duas vezes. A visão fora nítida demais. Tão nítida que ela sabia que podia, mesmo com as suas habilidades rudimentares, desenhar o rosto que a observara da janela.

 

Fantasmas... Não fora criada a acreditar em fantasmas, embora parte dela sempre adorasse a fantasia das histórias da avó. Mas, a menos que se tivesse tornado de repente propensa a alucinações, já vira um fantasma duas vezes.

 

Poderia ter resvalado pela beira do colapso que tanto a preocupava quando deixara Chicago?

 

Mas já não se sentia tão insegura. Há dias que não tinha a dor de cabeça da tensão, nem o estômago enjoado, nem o peso de uma depressão iminente.

 

Não, desde que entrara pela primeira vez no Faerie Hill Cottage.

 

Sentia-se... bem, concluiu Jude, depois de uma rápida verificação mental. Desperta, calma, saudável. Até mesmo feliz.

 

Por isso, reflectiu ela, ou vira um fantasma, e essas coisas existiam mesmo, o que significava que precisava de reajustar todo o seu pensamento, em larga escala...

 

Ou sofrera um colapso e o resultado era o contentamento.

 

Mastigou outro biscoito, pensativa, e decidiu que poderia conviver com qualquer uma das duas situações.

 

Ao ouvir alguém bater à porta da frente, limpou as migalhas da camisola e olhou para o relógio. Não tinha a menor ideia do que acontecera com a manhã, e tirara da mente, deliberadamente, a prometida visita de Aidan.

 

Aparentemente, ele estava ali agora. O que era óptimo. Trabalhariam na cozinha, decidiu Jude, tornando a colocar os ganchos nos cabelos, enquanto se encaminhava para a porta. Apesar da sua... reacção química inicial, o seu interesse por Aidan era agora puramente profissional. Um homem que lutava com bêbados na rua e fazia flirt de uma maneira tão afrontosa com mulheres que mal conhecia, não poderia exercer qualquer atracção sobre ela.

 

Era uma mulher civilizada, que acreditava no uso da razão, diplomacia e compromisso para resolver divergências. Só poderia compadecer-se de alguém que preferia usar a força e os punhos.

 

Mesmo que ele tivesse um rosto tão bonito e músculos que pareciam ondular quando eram usados.

 

Ela era sensata demais para se deixar ofuscar pela aparência física.

 

Registaria as histórias de Aidan, agradeceria a sua cooperação. E ponto final.

 

Abriu a porta, deparando-se com Aidan, parado à chuva, os cabelos brilhantes, o sorriso radiante como o Verão e igualmente indolente. E Jude sentiu-se tão sensata quanto um cachorrinho.

 

- Bom dia para si, Jude.

 

- Olá.

 

Um testemunho do efeito de Aidan sobre ela foi o facto de ter demorado pelo menos dez segundos a notar no homem enorme ao lado dele, segurando um ramo de flores na mão imensa. Ele parecia angustiado, notou Jude, a chuva a pingar da pala do boné encharcado, o rosto largo pálido como o luar, os ombros enormes vergados.

 

Ele apenas suspirou quando Aidan deu uma cotovelada firme nas suas costelas.

 

- Bom dia, Sra. Murray. Chamo-me Jack Brennan. O Aidan disse-me que me comportei muito mal ontem à noite, na sua presença. Lamento muito por isso e peço o seu perdão.

 

Ele estendeu as flores para Jude, com uma expressão lastimável nos olhos inchados.

 

- Acho que bebi um bocadinho demais. Mas isso não é desculpa para usar uma linguagem forte na presença de uma dama...

 

Embora eu não soubesse que estava lá, não é mesmo?

 

Enquanto falava, ele lançou um rápido olhar a Aidan, ao mesmo tempo que comprimia os lábios num gesto de rebeldia.

 

- Não, não sabia. - Jude manteve a voz firme, embora as flores molhadas fossem tão patéticas que enterneciam o seu coração. - Estava ocupado demais a tentar acertar um soco no seu amigo.

 

- Tem razão... mas Aidan é muito rápido para que eu consiga acertar-lhe em cheio, quando estou sob influências, por assim dizer. Ele fez uma pausa. Por apenas um instante, os lábios contraíram-se num sorriso de surpreendente meiguice. Depois, ele tornou a baixar a cabeça e acrescentou: - Mas, apesar das circunstâncias, não havia desculpa para me comportar daquela maneira na presença de uma dama. Por isso, vim pedir-lhe que me desculpe, com a esperança de que não pense muito mal de mim.

 

- Pronto! - Aidan deu uma palmada calorosa nas costas do amigo.

- Muito, bem feito, Jack. A Sra. Murray é bondosa demais para guardar ressentimentos, depois de um pedido de desculpas tão bonito. - Ele olhou para Jude, como se partilhassem uma piada adorável, e perguntou: - Não é assim, Jude Francês?

 

Claro que era, mas irritava-a ter sido envolvida com tanta habilidade. Por isso, ignorou Aidan e inclinou a cabeça para Jack.

 

- Não penso nada de mal a seu respeito, Sr. Brennan. Foi muito atencioso ao vir até aqui, trazendo-me flores. Gostaria de entrar para tomar um chá?

 

O rosto dele tornou-se radiante.

 

- É muito gentil da sua parte. Eu não me importaria...

 

- Tens outros lugares para onde ir, Jack O gigante franziu o rosto.

 

- Não tenho, não. Nenhum lugar específico.

 

- Claro que tens. Precisas de fazer isto e aquilo. Leva o meu carro e cuida de tudo. Deves estar lembrado de que eu te disse que tenho negócios a tratar com a Sra. Murray.

 

- Está bem, está bem... - murmurou ele. - Mas não entendo por que razão a treta de uma chávena de chá faria qualquer diferença. Bom dia, Sra. Murray.

 

De ombros vergados, com o boné a pingar, Jack Brennan voltou para o carro, em passos pesados.

 

- Poderia deixar que ele entrasse para sair da chuva. - Comentou Jude.

 

- Parece não estar com muita pressa para me convidar a mim a sair da chuva. - Aidan inclinou a cabeça, enquanto estudava o rosto de Jude. - Talvez tenha guardado ressentimento, afinal de contas.

 

- Não me trouxe flores.

 

Mas Jude recuou, para o deixar entrar, todo molhado.

 

- Na próxima vez não me esquecerei. Andou nas limpezas. O chalé cheira a óleo de limão, uma fragrância doméstica e agradável. Se me der um pano, posso enxugar toda a água da chuva que estou a deixar na sua casa limpa e arrumada.

 

- Pode deixar que eu trato disso. Tenho de ir lá cima agora, para ir buscar o meu gravador e pôr tudo pronto. Trabalharemos na cozinha. Pode esperar por mim lá.

 

- Está bem. - Aidan pegou na mão de Jude, que franziu o rosto. Ele tirou as flores dos seus dedos. - Vou colocar as flores numa jarra qualquer, para que não murchem depressa.

 

- Obrigada. - O tom rígido e cordial era a única defesa que ela podia ter contra mais de um metro e oitenta de charme masculino, todo encharcado, no seu corredor. - Volto num minuto.

 

Jude demorou apenas um pouco mais do que isso, mas quando voltou, encontrou já as flores numa das garrafas de Maude, enquanto Aidan fazia um chá.

 

- Acendi o fogo na lareira para acabar com todo esse frio. Está bem?

 

- Claro. - Jude tentou não se sentir aborrecida pelo facto de que demoraria três vezes mais para fazer as mesmas tarefas. - Sente-se. Vou servir o chá.

 

- Ainda precisa de estar em infusão por um pouco mais de tempo.

 

- Sei disso. - Ela abriu um armário, tirou chávenas e pires. Também fazemos chá na América. - Jude virou-se, pôs as chávenas na mesa e acrescentou, irritada: - Pare de olhar para mim desse jeito!

 

- Desculpe, mas é muito bonita quando fica tão agitada e com os cabelos soltos.

 

A rebeldia aflorou nos olhos de Jude. Ela pôs alguns ganchos com força suficiente para que penetrassem no couro cabeludo.

 

- Talvez eu devesse ser bem clara. O nosso acordo é intelectual.

 

- Intelectual... - Com a sensatez necessária, Aidan reprimiu o sorriso, mantendo uma expressão séria. - Claro que é sempre uma boa coisa ter interesse pela mente dos outros. Desconfio que a Jude tem uma mente forte. E dizer que é bonita não muda isso nem um pouco, não é assim?

 

- Não sou bonita e não preciso de ouvi-lo dizer isso. Podemos começar?

 

Aidan sentou-se, porque ela se sentara. Tornou a inclinar a cabeça para o lado.

 

- Acredita nisso, não é? Muito interessante... num nível intelectual.

 

- Não estamos aqui para falar a meu respeito. Fiquei com a impressão de que possui alguma habilidade como contador de histórias e conhece alguns mitos e lendas desta região.

 

- Conheço algumas histórias.

 

Quando a voz de Jude se tornava tão séria, ele tinha vontade de a beijar, começando por qualquer parte. Por isso, recostou-se na cadeira. Se intelectual era o que ela queria, ele achava que poderiam começar por aí... e depois continuar.

 

- Talvez nem seja novidade para si. A história oral de um lugar pode mudar aqui e ali, de um contador para outro, mas a essência permanece a mesma. A história é contada de uma maneira pelos nativos americanos, de outra pelos aldeões da Roménia, e ainda de outra pelos habitantes da Irlanda. Mas os mesmos fios entrelaçam-se.

 

Enquanto Jude franzia o rosto, ele pegou na chaleira, para servir o chá.

 

- Temos o Pai Natal, Santa Claus e Kris Kringle... um desce pela chaminé, outro enche os sapatos com doces, mas a base da lenda tem as suas raízes no mesmo lugar. Por isso, uma época após a outra, país após país, o intelecto chega à conclusão de que o mito está enraizado no facto.

 

- Acredita no Pai Natal.

 

Os olhos encontraram-se, enquanto ele voltava a largar a chaleira.

 

- Acredito na magia, e acho que a maior parte, a mais verdadeira, está no coração. Já está aqui há alguns dias, Jude Francês. Não sentiu a magia?

 

- A atmosfera. - Disse Jude, ligando o gravador. - A atmosfera neste país é sem dúvida propícia para a formação e perpetuação de mitos, desde o paganismo, com os seus pequenos santuários e sacrifícios aos deuses, ao folclore céltico com as suas advertências e recompensas, e ao acréscimo da cultura sedimentada pelas invasões dos vikings, normandos, e assim por diante.

 

- É o lugar. - Discordou Aidan. - Não as pessoas que o tentaram conquistar. É a terra, são as colinas, os rochedos. É o ar. E o sangue derramado em tudo isso na luta para o manter como era. Foram os irlandeses que absorveram os vikings, os normandos, e assim por diante, não o contrário.

 

Lá estava o orgulho que Jude compreendia e respeitava.

 

- Persiste o facto de que essas pessoas vieram para esta ilha, uniram-se a mulheres daqui, deixaram uma prole, criada com as suas superstições e convicções. A Irlanda também as absorveu.

 

- O que veio primeiro, a história ou o contador da história? Isso é parte do seu ensaio?

 

Aidan era rápido, pensou ela. Uma mente ágil e uma língua hábil.

 

- Não se pode estudar uma coisa sem se estudar a outra. Quem conta e porquê, tanto quanto o que é contado.

 

- Está certo. Contarei uma história que me foi contada pelo meu avô, que a ouviu de seu pai, remontando pelas gerações, tão remotas quanto se possa imaginar, pois sempre houve Gallaghers nesta costa e nestas colinas, há mais tempo do que o próprio tempo pode lembrar.

 

- A história foi transmitida pela linha paterna? - Como Aidan franziu as sobrancelhas, Jude explicou: - Na maioria das vezes, as histórias são transmitidas, de uma geração para a outra, pela mãe.

 

- É verdade. Mas os trovadores e os contadores de histórias da Irlanda são tradicionalmente homens. Dizem que esta foi contada pela primeira vez por um Gallagher, que vagueou até aqui, contando as suas histórias por uma moeda e uma cerveja. Ele viu algumas das coisas que vou contar com os seus próprios olhos, e ouviu o resto do próprio Carrick, o príncipe das fadas. A partir daí, ele contou a história a todos os que a quisessem ouvir.

 

Ele fez uma pausa, notando o interesse divertido nos olhos de Jude, depois começou:

 

- Havia aqui uma donzela chamada Gwen. Era de origem humilde, mas uma dama no coração e no comportamento. Tinha cabelos tão claros quanto a luz do sol no Inverno, olhos tão verdes quanto musgo. A sua beleza era conhecida em toda a região. Embora assumisse uma postura de orgulho, pois tinha um corpo esbelto e atraente, era uma jovem recatada. Como a sua abençoada mãe morrera durante o parto, era ela quem cuidava do chalé para o idoso pai. Fazia o que lhe mandavam e o que esperavam que fizesse. Jamais se ouviu qualquer palavra de queixa da sua boca. As pessoas viam-na, de vez em quando, a passear à noite pelos penhascos, parando para contemplar o mar, como se desejasse criar asas e voar.

 

Enquanto ele falava, um feixe silencioso de raios de sol tremeluziu através da chuva, passando pela janela e iluminando a mesa entre os dois.

 

- Não posso dizer o que havia no seu coração. - Continuou Aidan

- Talvez seja uma coisa que ela própria não soubesse. Mas arrumava o chalé, cuidava do pai e passeava pelos penhascos. Um dia, quando levava flores para a sepultura da mãe, enterrada perto da fonte de São Declan, ela conheceu um homem... ou alguém que pensava ser um homem. Era alto e mantinha uma postura direita, com cabelos escuros a ondular até aos ombros, os olhos tão azuis quanto as campainhas-azuis que ela levava nos braços. Ele chamou Gwen pelo nome. A sua voz era como música na cabeça de Gwen, e fez o seu coração disparar. E tão depressa quanto um raio, eles apaixonaram-se, sobre a sepultura da sua querida mãe, com a brisa a suspirar ao longo da relva alta, como fadas a sussurrar.

 

- Amor à primeira vista. - Comentou Jude - É um artifício muito usado em fábulas.

 

- Não acredita que o coração reconhece o coração?

 

Uma estranha e poética forma de exprimir a ideia, pensou Jude; e ficou contente por ter gravado a pergunta.

 

- Acredito na atracção à primeira vista. O amor exige mais tempo.

 

- Baniu da sua mente quase tudo o que era irlandês. - Murmurou Aidan, balançando a cabeça.

 

- Não tanto que eu não aprecie o aspecto romântico de uma boa história. - Jude ofereceu um sorriso, com a insinuação das covinhas. - O que aconteceu depois?

 

- Por mais que o coração reconhecesse o coração, não era uma simples questão de um homem e uma mulher a dar as mãos e a unir as suas vidas. Pois ele era Carrick, o príncipe das fadas, que vivia no palácio de prata que ficava sob a colina em que ficava o chalé de Gwen. Ela temia um encantamento, e duvidava dos corações de ambos. E quanto mais o seu coração ansiava, mais ela duvidava, pois fora ensinada a ter cuidado com os habitantes do mundo das fadas e os lugares em que se reuniam.

 

A voz de Aidan, a subir e descer como música nas palavras, levou Jude a apoiar os cotovelos na mesa, encostando o queixo nas mãos.

 

- Mesmo assim, numa noite de lua cheia, Carrick convenceu Gwen a sair do chalé e a montar o seu cavalo alado, a fim de voar sobre a terra e o mar. Queria mostrar as maravilhas que ele lhe daria, se ela o aceitasse. O seu coração pertencia a Gwen, e dar-lhe-ia tudo o que tinha.

 

Aidan fez uma pausa.

 

- Mas o pai, ao acordar com dores nos ossos, viu a jovem Gwen a elevar-se até ao céu no cavalo branco alado, com o príncipe das fadas atrás dela. No seu medo e falta de compreensão, ele pensou apenas em salvá-la do encantamento em que tinha a certeza que a filha caíra. Por isso, proibiu-a de sair de novo com Carrick. Para garantir a segurança da filha, prometeu-a em casamento a um jovem respeitável, que ganhava a vida no mar. E Lady Gwen, com o maior respeito pelo pai, tratou de conter o seu coração. Já não saía para passear, e preparou-se para casar, como o pai queria.

 

Agora, o pequeno feixe de sol que dançava sobre a mesa, entre os dois, desapareceu por completo. A cozinha ficou na semi-escuridão, iluminada apenas pelo fogo tremeluzente.

 

Aidan não se desviava dos olhos de Jude, fascinado pelo que via ali. Sonhos, tristeza e desejos.

 

- A primeira reacção de Carrick foi de fúria intensa. Descarregou a sua raiva, com raios e trovoadas, com um vendaval a soprar pelas colinas, agitando o mar. E os aldeões, lavradores e pescadores tremeram. Mas Lady Gwen permaneceu sentada no seu chalé, absorvida nas suas costuras.

 

- Ele poderia simplesmente tê-la levado para a cidade subterrânea

- interrompeu Jude. - E mantê-la-ia ali por cem anos.

 

- Ah, então sabe como se faz! - Os olhos azuis de Aidan faiscaram em aprovação. - É verdade, ele poderia tê-la sequestrado. Mas Carrick, no seu orgulho, queria que ela o acompanhasse na sua livre e espontânea vontade. Sobre esse aspecto, os habitantes do mundo encantado não são muito diferentes das pessoas comuns.

 

Ele inclinou o rosto para o lado, estudando Jude.

 

- Preferiria ser sequestrada e levada embora, sem opção, ou ser cortejada e conquistada?

 

- Como não creio que a Boa Gente vá aparecer e fazer qualquer das duas coisas comigo não preciso de decidir. E prefiro saber o que Carrick fez.

 

- Está bem. Vou contar o resto. Ao amanhecer, Carrick montou o seu cavalo alado e voou para o sol. Colheu chamas ali, que transformou em diamantes maravilhosos, guardando-os num saco de prata. Levou os diamantes flamejantes e mágicos para o chalé de Gwen. Quando ela saiu para o receber, Carrick derramou os diamantes a seus pés, declarando: "Eu trouxe estes diamantes do sol. Representam a minha paixão por ti. Aceita-os e a mim, pois dar-te-ei tudo o que tenho, e ainda mais." Mas Gwen recusou, dizendo que fora prometida a outro. O dever continha-a, e o orgulho reprimia-o quando se separaram, deixando os diamantes entre as flores. E, assim, os diamantes transformaram-se em flores.

 

Quando Jude estremeceu, Aidan pegou na sua mão.

 

- Sente frio?

 

- Não.

 

Ela forçou um sorriso. Num gesto deliberado, retirou a mão e pegou no chá. Bebeu devagar, para aliviar a palpitação na garganta.

 

Jude já conhecia a história. Podia ver tudo, o cavalo magnífico, a mulher adorável, o homem que não era um homem, o brilho intenso dos diamantes espalhados pelo chão.

 

Vira tudo isso, em sonhos.

 

- Estou bem. - Acrescentou ela. - Tenho a impressão de que a minha avó me contou uma versão dessa história.

 

- Ainda não acabou.

 

- Mais? - Jude tomou outro gole de chá, fazendo um esforço para relaxar. - O que aconteceu em seguida?

 

- No dia em que ela se casou com o pescador, o seu pai morreu. Era como se o velho se estivesse a agarrar à vida, apesar de todas as dores, até ter a certeza de que Gwen estava sã e salva. O marido foi-se instalar no chalé. Deixava-a antes de o sol nascer, todos os dias, para lançar as suas redes ao mar. E a vida do casal acomodou-se em contentamento e ordem.

 

Quando ele fez uma pausa, Jude franziu o rosto.

 

- Mas isso não pode ser tudo.

 

Aidan sorriu. Tomou um gole de chá. Como um bom contador de histórias, sabia como mudar de ritmo, para manter o interesse.

 

- Eu disse que tinha terminado? Tem toda a razão, ainda não acabou. Pois Carrick não conseguiu esquecê-la. Gwen permanecia no seu coração. Embora ela levasse a vida que todos esperavam, Carrick perdeu a alegria pela música e pelo riso. Uma noite, no mais profundo desespero, ele tornou a montar o seu cavalo e voou até à lua. Colheu a luz da lua, que transformou em pérolas, guardadas no saco de prata. Mais uma vez, foi procurar Gwen. Embora ela esperasse o seu primeiro filho, deixou a cama do marido para o receber.

 

Depois de uma breve pausa, Aidan continuou:

 

- "Estas são as lágrimas da lua", disse ele. "Mostram o meu anseio por ti. Aceita-as e a mim, pois dar-te-ei tudo o que tenho, e mais ainda." Mais uma vez, ela recusou, embora as lágrimas lhe escorressem pela face. Pertencia a outro homem, esperava a sua criança, e não trairia o seu juramento. Voltaram a separar-se, com o dever e o orgulho. As pérolas que ficaram no chão tornaram-se as flores-da-lua.

 

Aidan sorriu.

 

- Assim, os anos foram passando, com Carrick à espera, e Lady Gwen a fazer o que dela se esperava. Teve filhos, que lhe proporcionaram alegria. Cuidava das flores e lembrava-se do seu amor. Pois, embora o seu marido fosse um bom homem, nunca alcançava os pontos mais profundos do seu coração. E ela envelheceu, no rosto e no corpo, enquanto o coração permanecia jovem, com os desejos melancólicos de uma donzela.

 

- É muito triste.

 

- É mesmo. Mas ainda não acabou. Como o tempo é diferente para fadas e mortais, um dia Carrick montou o seu cavalo alado, voou sobre o mar e mergulhou fundo, à procura do coração do oceano. Ali, a pulsação fluiu para o seu saco de prata, transformando-se em safiras. Levou-as para Lady Gwen, cujos filhos já tinham filhos.

 

Ela tinha cabelos brancos e os olhos opacos. Mas o príncipe das fadas via apenas a donzela que amava e por quem tanto ansiava. A seus pés, ele derramou as safiras, dizendo: "Estas são o coração do mar. Representam a minha constância. Aceita-as e a mim, e dar-te-ei tudo o que tenho, e mais ainda."

 

Aidan balançou a cabeça.

 

- E dessa vez, com a sabedoria da idade, ela compreendeu o que fizera, rejeitando o amor pelo dever, simplesmente por não confiar uma única vez no seu coração. E compreendeu também o que Carrick fizera, oferecendo pedras preciosas, mas nunca dando a única coisa que a poderia ter conquistado.

 

Sem perceber, Aidan fechou os dedos sobre a mão de Jude, em cima da mesa. E, quando se ligaram dessa maneira, aqueles poucos raios de sol voltaram.

 

- E o que ela precisava eram palavras de amor... em vez de paixão, em vez de anseio, em vez de constância. Agora, porém, Gwen estava velha e encurvada. Sabia o que o príncipe das fadas, não sendo mortal, ignorava: que já era tarde demais. E Gwen derramou as lágrimas amargas de uma velha. Disse-lhe que a sua vida acabara. E disse também que se Carrick tivesse trazido amor em vez de pedras preciosas, se falasse de amor, em vez de paixão, anseio e constância, o seu coração poderia ter prevalecido sobre o dever. Ele fora orgulhoso demais, disse Gwen, e ela cega demais para ver o desejo do seu coração.

 

Aidan fez outra breve pausa.

 

- As palavras de Gwen deixaram-no irritado, pois ele trouxera o seu amor, várias vezes, da única maneira que conhecia. E agora, antes de partir, Carrick lançou um encantamento. Ela vaguearia e esperaria, como ele fizera, ano após ano, sozinha e solitária, até que corações sinceros se encontrassem e aceitassem os presentes que ele havia oferecido. Três vezes para encontrar, três vezes para aceitar, antes que o encantamento pudesse ser rompido. Carrick montou e voou pela noite. As pedras preciosas a seus pés tornaram-se flores de novo. Gwen morreu nessa mesma noite. As flores brotam sempre na sua sepultura, enquanto o espírito de Lady Gwen, tão adorável quanto a jovem donzela, espera e chora pelo amor perdido.

 

Jude sentia-se estranhamente comovida, quase com vontade de chorar.

 

- Porque é que ele não a levou embora naquele momento, dizendo que nada mais tinha importância?

 

- Não foi assim que aconteceu. E você não acha, Jude Francês, que a moral é confiar no seu coração, e nunca se desviar do amor?

 

Ela controlou-se, ao compreender que ficara muito absorvida na história. Apercebeu-se que Aidan até segurava na sua mão. Apressou-se em retirá-la.

 

- Pode ser. Ou então que cumprir o dever proporciona uma vida longa e satisfatória, embora não exuberante. As pedras preciosas não foram a resposta, por mais espectaculares que fossem. Carrick deveria ter olhado para trás, a fim de ver as pedras transformarem-se em flores... flores que ela guardou.

 

- Como eu disse, a Jude tem uma mente forte. É verdade, ela guardou as flores. - Aidan passou um dedo por uma das flores na garrafa.

- Era uma mulher simples, de hábitos simples. Mas há um ponto mais importante na história.

 

- E qual é?

 

- O amor. - Por cima das flores, Aidan fitou-a nos olhos. - O amor, qualquer que seja o tempo, quaisquer que sejam os obstáculos, dura sempre. Eles apenas esperam que o encantamento acabe. Depois, Gwen irá ao encontro do príncipe das fadas no seu palácio prateado, sob a colina das fadas.

 

Tinha de sair da história e entrar no raciocínio, lembrou-se Jude a si própria. Fazer a análise.

 

- Muitas vezes, as lendas têm condições inerentes. Buscas, missões, dispositivos. Até mesmo no folclore, o prémio raramente é alcançado em troca de nada. O simbolismo nesse ponto é tradicional. A donzela sem mãe a cuidar do pai idoso, o jovem príncipe num cavalo branco. O uso dos elementos: sol, lua, mar. Pouco se diz sobre o homem com quem ela se casou, já que é apenas um instrumento para manter os apaixonados separados.

 

Ocupada em escrever as suas anotações, ela levantou os olhos de repente, para descobrir que Aidan a estudava, com uma expressão pensativa.

 

- O que foi?

 

- É muito atraente a maneira como a Jude oscila de um lado para o outro.

 

- Não sei do que está a falar.

 

- Enquanto eu contava a história, a Jude mantinha os olhos sonhadores, o corpo relaxado. Agora, senta-se empertigada e tensa, uma profissional, pondo os pedaços da história que a deixaram encantada em pequenos compartimentos.

 

- É justamente esse o objectivo. E eu não estava com olhos sonhadores.

 

- Posso saber disso melhor do que a Jude, já que era eu quem a olhava. - A voz de Aidan era outra vez quente, parecia envolvê-la. - Tem olhos de deusa, Jude Francês. Grandes, com um verde enevoado. Eu vejo-os na minha mente, mesmo quando não se encontra por perto. O que acha disso?

 

- Acho que tem uma língua muito hábil. - Jude levantou-se, sem ter a menor ideia do que tencionava fazer. Em falta de qualquer outra coisa, levou o bule de chá de volta para o fogão. - E é por isso que sabe contar uma história de uma maneira fascinante. Eu gostaria de ouvir mais histórias, para as coordenar com as da minha avó e outras.

 

Ela virou-se abruptamente. Teve um sobressalto ao descobrir que Aidan também estava de pé, logo atrás dela.

 

- O que está a fazer?

 

- De momento, nada. - Ah, consegui deixar-te atrapalhada, não foi?, pensou Aidan. Ele manteve a voz descontraída. - Fico feliz pela oportunidade de lhe contar histórias. - Num movimento suave, ele pôs as mãos na beira do fogão, ladeando Jude, enquanto acrescentava: - E, se quiser, pode ir ao pub numa noite tranquila, e encontrará outras pessoas que também têm histórias para contar.

 

- É uma boa ideia. - O pânico começava a contorcer-se no estômago de Jude. - Eu devia...

 

- Gostou da noite passada? O que achou da música?

 

- Hum... - Ele cheirava a chuva... e a homem. Jude não sabia o que fazer com as suas mãos. - Claro que gostei. A música era maravilhosa.

 

- Conhecia as canções?

 

Ele estava mais perto agora, bem perto. Dava para ver o aro de âmbar entre o preto sedoso das pupilas e o verde enevoado da íris.

 

- Algumas. Quer mais chá?

 

- Não me importaria. Então, porque não cantou?

 

- Cantar?

 

Jude sentia a garganta seca. Era agora um feixe de nervos.

 

- Fiquei de olho em si durante a maior parte do tempo. Não cantou em nenhum momento, nem mesmo nos coros.

 

- Não, não cantei... - Ele precisava de sair daquela posição, pois estava a deixá-la sem ar. - Não costumo cantar, a não ser quando fico nervosa.

 

- Isso é verdade?

 

Aidan adiantou-se, fitando-a sempre nos olhos. Encostou o corpo ao dela, num ajustamento surpreendente.

 

Jude sabia agora o que fazer com as mãos. Levantou-as no mesmo instante, para empurrar o peito dele.

 

- O que está a fazer?

 

- Quero ouvi-la a cantar. Por isso, estou a deixá-la nervosa.

 

Ela soltou uma gargalhada meio trémula. Mas quando se tentou esquivar, só conseguiu comprimir-se ainda mais contra ele.

 

- Aidan...

 

- Só um pouco nervosa. - Murmurou ele, baixando a boca para morder levemente o seu queixo. - Está toda a tremer. - Outra mordidela, leve, provocante, e ele acrescentou: - Calma, calma... Estou apenas a atiçá-la e não a querer deixá-la apavorada.

 

Ele fazia as duas coisas. O coração de Jude batia fortemente, ressoava nos seus ouvidos. Enquanto Aidan continuava a provocá-la, com mordidelas leves ao longo do queixo, ela descobriu que tinha as mãos imobilizadas, contra aquele peito que era como uma muralha sólida. E sentiu-se maravilhosamente fraca e feminina.

 

- Aidan, você está... Isto é... Não penso...

 

- É melhor assim. Não vamos pensar em nada, por um ou dois minutos.

 

Ele apanhou o lábio inferior de Jude - largo, macio - entre os dentes. Ela gemeu baixinho, os olhos ficaram turvos. Experimentou uma pontada de desejo intenso e impetuoso.

 

- Ah, como é maravilhosa...

 

Aidan ergueu uma das mãos. Deslizou os dedos pela clavícula. E, com ela dominada, beijou-a na boca. De início a experimentar, depois a saborear, afundando-se nos seus lábios.

 

E enquanto ela resvalava para a rendição, Aidan usou os dentes para a fazer ofegar. E foi mais profundo do que tencionava.

 

Jude continuou a tremer, fazendo-o pensar num vulcão prestes a entrar em erupção, uma tempestade na iminência de desabar. As suas mãos permaneciam presas entre os dois, mas os dedos agarraram a camisa de Aidan, apertaram com força.

 

Ela ouviu-o murmurar qualquer coisa, um sussurro contra a muralha de som que era o seu sangue a escorrer a toda a velocidade pelas veias. A boca de Aidan, tão quente, tão hábil; o corpo, tão firme, tão forte. E as mãos, leves como asas de mariposa no seu rosto. Jude nada podia fazer, a não ser ceder, entregar-se, ao mesmo tempo em que alguma parte sua, irreconhecível, a exortava a resistir.

 

Quando ele se afastou, foi como se o mundo de Jude se inclinasse, derramando tudo o que havia dentro dela.

 

Aidan manteve as mãos no seu rosto. Esperou que ela abrisse os olhos, focalizasse. Tencionara apenas experimentar, aproveitar o momento. Para ver. Mas fora além das suas intenções, entrando em algo fora do seu controlo.

 

- Vais deixar-me ter-te?

 

Os olhos de Jude eram imensos, vidrados em confusão e prazer. O que quase deixou Aidan atordoado. Era uma sensação que não lhe agradava.

 

- Deixar... o quê?

 

- Anda lá acima e deita-te comigo.

 

O choque veio, uma fracção de segundo antes de Jude balançar a cabeça.

 

- Não posso. Não é possível. Seria uma total irresponsabilidade.

 

- Há alguém na América que esteja ligado a ti?

 

- Como? - Porque não funcionava o seu cérebro? - Ah, não, não estou envolvida com ninguém. - O brilho súbito nos olhos de Aidan fez com que ela se empertigasse. - Isso não significa que posso... Não vou para a cama com homens que mal conheço.

 

- Neste momento, acho que nos conhecemos muito bem.

 

- É apenas uma reacção física.

 

- Tens toda a razão.

 

Aidan beijou-a de novo, com ímpeto e paixão.

 

- Não consigo respirar.

 

- Também estou a ter alguns problemas com isso. - Era contra o seu instinto natural, mas Aidan recuou. - O que vamos fazer em relação a isso, Jude Francês? Analisar a situação a um nível intelectual?

 

A voz de Aidan podia ter a cadência musical da Irlanda, mas ainda assim era capaz de magoar. Porque queria estremecer, Jude tratou de se empertigar.

 

- Não pedirei desculpas por não ir para a cama contigo. E se prefiro funcionar no nível intelectual, não é da tua conta.

 

Aidan fechou a boca antes que a resposta ríspida pudesse escapar. Enfiou as mãos nos bolsos, e pôs-se a andar de um lado para o outro da pequena cozinha.

 

- Tens sempre de ser racional?

 

- Sempre.

 

Ele parou, fitou-a com os olhos contraídos, depois inclinou a cabeça para trás e riu-se, o que a deixou completamente confusa.

 

- Bolas, Jude, se gritasses ou me atirasses algo, poderíamos ter uma boa luta e acabar engalfinhados no chão da cozinha. E, pessoalmente, confesso que me sentiria muito mais satisfeito.

 

Jude permitiu-se um suspiro.

 

- Não grito, não atiro coisas e não luto. Ele ergueu uma sobrancelha.

 

- Nunca?

 

- Nunca.

 

O sorriso dele veio rápido, desta vez, com um lampejo de humor e desafio.

 

- Aposto que posso mudar essa disposição. - Aidan deu um passo em frente, balançando a cabeça, enquanto ela recuava. Ele apanhou um grupo de cabelos soltos e puxou-os. - Queres apostar?

 

- Não. - Jude tentou um sorriso hesitante. - Também não aposto.

 

- Com um nome como Murray, e dizes-me que não apostas. É uma vergonha para o teu sangue.

 

- Sou um testemunho da minha criação.

 

- Eu aposto todo o meu dinheiro no sangue. - Aidan balançou para trás, estudando-a. - Bem, é melhor eu voltar agora. Uma caminhada pela chuva vai desanuviar a minha cabeça.

 

Jude respirou fundo quando ele tirou o casaco do gancho.

 

- Não estás zangado?

 

- Porque deveria estar? - Ele fitou-a de alto a baixo, os olhos brilhantes e intensos. - Tens o direito de dizer não, não é assim?

 

- Claro. - Jude pigarreou. - Apesar disso, imagino que muitos homens ficariam zangados.

 

- Então não figuro entre esses muitos homens, pois não? E, além disso, tenciono fazer com que sejas minha... e conseguirei. Não precisa de ser hoje.

 

Ele ofereceu outro sorriso, quando Jude se mostrou aturdida. Encaminhou-se para a porta, acrescentando:

 

- Pensa nisso, Jude Francês, e pensa em mim, até eu pôr as mãos em ti de novo.

 

Quando a porta se fechou, depois de ele ter saído, Jude continuou parada no mesmo lugar. E, embora pensasse naquelas palavras, pensasse em Aidan, pensasse em todas as respostas incisivas, vigorosas e brilhantes que deveria ter dado, pensou muito mais na sensação de estar nos braços daquele homem.

 

                                                       CAPÍTULO 7

Estou a compilar histórias, escreveu Jude no seu diário, e começo a achar o projecto ainda mais interessante do que imaginava. As gravações feitas pela minha avó parecem trazê-la para cá. Enquanto escuto, é quase como se ela estivesse sentada à minha frente. Ou, ainda melhor, como se eu fosse criança de novo e ela aparecesse para me contar uma história na hora de dormir.

 

Ela prefacia o seu relato sobre Lady Gwen com a declaração de que nunca me contou essa história antes. Deve estar enganada, já que algumas partes me eram familiares, quando Aidan descreveu o que aconteceu.

 

É lógico que tenha sonhado com aquilo tudo, porque a lembrança da história permanecia no meu subconsciente, e estar no chalé libertou as recordações.

 

Jude parou de digitar. Inclinou-se para trás, tamborilou com os dedos. Claro, era isso mesmo. Sentia-se melhor agora que escrevera. Era exactamente o exercício que sempre dava aos seus alunos do primeiro ano. Escrever os pensamentos sobre um determinado problema ou indecisão, em estilo de conversa, sem filtros. Depois, recostar-se, ler e analisar as respostas encontradas.

 

Então porque é que ela não registara o seu encontro com Aidan no diário? Nada escrevera sobre a maneira como ele agira entre o fogão e o seu corpo, a maneira como a mordiscara, como se fosse algo saboroso. Nada sobre o que ela sentia ou pensava.

 

Essa não! A simples recordação deixava o seu estômago às voltas.

 

Mas era parte da sua experiência, no final de contas, e o diário deveria incluir todas as suas experiências, além dos seus pensamentos e sentimentos a respeito disso.

 

Só que ela não queria saber dos seus pensamentos e sentimentos, lembrou-se a si mesma. Cada vez que tentava pensar sobre isso, de uma maneira razoável, os sentimentos assumiam o controlo e deixavam a sua mente em tumulto.

 

- Além do mais, não é relevante. - Disse ela, em voz alta.

 

Jude deixou escapar um suspiro, levantou os ombros, e tornou a estender os dedos para o teclado.

 

Foi interessante constatar que a versão da minha avó sobre a história de Lady Gwen era quase exactamente igual à de Aidan. A apresentação de cada uma foi definida pelo contador, mas as personagens, os detalhes e o tom da história eram paralelos.

 

É um caso evidente de tradição oral muitas vezes repetida, o que indica um povo que respeita bastante a arte para a tornar tão pura quanto possível. Também revela para mim, em termos psicológicos, como uma história se transforma em lenda e como a lenda passa a ser aceite como verdade. A mente ouve, muitas e muitas vezes, a mesma história, com o mesmo ritmo, o mesmo tom, e começa a considerá-la real.

 

E eu sonho com isso.

 

Jude parou de novo. Ficou a olhar para o ecrã. Não tivera a intenção de incluir aquela frase. O pensamento insinuara-se na sua mente e escapulira-se pelos dedos. Mas era verdade, não era? Agora, sonhava quase todas as noites com isso... O príncipe no cavalo branco alado, muito parecido com o homem que ela encontrara junto da sepultura de Maude. A mulher de olhos tristes, cujo rosto era um reflexo do que ela pensara ter avistado... que ela vira, corrigiu Jude, na janela do chalé.

 

O subconsciente criara aqueles rostos, é claro. O que era perfeitamente natural. Os acontecimentos da história teriam ocorrido no chalé onde ela morava agora. Portanto, era natural que as sementes estivessem plantadas, e desabrochassem nos seus sonhos.

 

Não havia nada com que se surpreender. Nenhum motivo para se preocupar.

 

Ainda assim, ela decidiu que estava com o ânimo impróprio para registos ou exercícios no seu diário. Desligou o computador portátil. Desde domingo que praticamente não saía do chalé... para trabalhar, assegurou ela a si mesma. Não porque estivesse a evitar alguém. E, embora o trabalho a satisfizesse, de certa forma a abastecesse, era tempo de sair.

 

Poderia meter-se no carro e ir até Waterford, para comprar mantimentos e aqueles livros de jardinagem. Poderia explorar mais um pouco a região em redor, em vez de se limitar a vaguear pelas colinas e campos nas proximidades do chalé. Além disso, quanto mais guiasse, melhor se adaptaria ao volante.

 

A solidão era tranquilizadora, lembrou-se a si própria. Mas poderia também tornar-se sufocante. E deixava-a também mais esquecida, concluiu ela. Não tinha precisado de consultar o calendário, naquela manhã, para verificar se era quarta ou quinta-feira?

 

Toca a sair, disse Jude a si própria, enquanto procurava a bolsa e as chaves do carro. Explora, faz compras, vê pessoas. Tira fotos, acrescentou ela, metendo a máquina na bolsa, e envia-as para a avó na próxima carta.

 

Talvez até ficasse por mais tempo e se presenteasse com um bom jantar na cidade.

 

Mas no instante em que deixou o chalé, Jude compreendeu que era ali que queria ficar, no seu lindo jardim, com a vista dos campos verdejantes, das montanhas escuras e penhascos escarpados.

 

Que mal poderia haver em passar apenas meia hora ali, tirando o mato? Não estava vestida para trabalhar no jardim, é claro, mas que importância tinha isso? Sabia ou não sabia como lavar a sua roupa agora?

 

Exceptuando a camisola, que encolhera para o tamanho de uma roupa de boneca, saíra-se muito bem nessa tarefa.

 

Muito bem, não sabia como distinguir uma erva daninha de uma margarida. Mas tinha de aprender, não é assim? Bastava não arrancar qualquer coisa que tivesse uma aparência atraente.

 

O ar estava tão suave, a luz tão irresistível, as nuvens tão densas e brancas...

 

Quando a cadela amarela começou a saltar contra o portão, Jude cedeu. Apenas meia hora, prometeu a si mesma, enquanto avançava para deixar a cadela entrar.

 

Jude ficou maravilhada com os afagos e arranhões da cadela, que acabou por ficar a seus pés numa poça de devoção.

 

- Caeser e Cleo nunca deixariam que eu os afagasse. - Murmurou ela, pensando nos gatos snobs da sua mãe. - Acham que têm dignidade demais. - Ela riu-se quando a cadela se deitou de costas, expondo a barriga.

 

- Já tu, bem, não tens dignidade nenhuma. É o que mais aprecio no teu comportamento.

 

Jude fazia a anotação mental de incluir petiscos para cão na sua lista de compras, quando a carrinha de Brenna se aproximou pela estrada, aos solavancos, e entrou no seu terreno.

 

- Então já conhece a Betty.

 

- É o nome dela? - Jude tinha esperança que o seu sorriso não parecesse tão tolo quanto se sentia, enquanto a cadela afocinhava a sua mão.

 

- Ela é muito cordial.

 

- E demonstra um afecto especial por mulheres. - Brenna cruzou os braços na janela aberta, apoiando o queixo neles, e questionou-se por que razão a mulher parecia embaraçada por ter sido surpreendida a afagar uma cadela. - Quer dizer que gosta de cães, não é?

 

- Assim parece.

 

- Sempre que se cansar, basta empurrá-la pelo portão fora, que ela volta para casa. A nossa Betty sabe reconhecer um toque de carinho, e não se importa de aproveitar.

 

- É uma companhia maravilhosa. Mas suponho que estou a impedi-la de ir ter com a sua mãe.

 

- Ela está mais preocupada com outras coisas do que com a presença de Betty neste momento. O frigorífico pifou de novo. Vou até casa para tentar dar um jeito. Não a vi no pub esta semana.

 

- Não fui até lá. Estava a trabalhar. Nem saí de casa.

 

- Mas ia sair hoje.

 

Brenna acenou com a cabeça para a bolsa de Jude.

 

- Pensei em dar um pulo até Waterford e procurar aqueles livros de jardinagem.

 

- Não precisa de ir até lá para isso, a menos que queira fazer a viagem. Pode ir até minha casa e conversar com a minha mãe, enquanto luto com o frigorífico para o consertar. Ela vai gostar, e isso impedi-la-á de me assaltar com perguntas.

 

- Ela não está à espera de visitas. Eu não gostaria...

 

- A porta está sempre aberta.

 

Aquela mulher era muito interessante, reflectiu Brenna. Não tinha o hábito de falar mais do que umas quantas palavras de cada vez, a menos que fosse pressionada. E se havia alguém que seria capaz de lhe arrancar mais coisas, na opinião de Brenna, só poderia ser Mollie OToole.

 

- Vamos, entre e iremos juntas. - Acrescentou ela.

 

Brenna assobiou. A cadela soltou um latido alegre e saltou para a traseira da carrinha.

 

Jude ainda procurou uma desculpa cordial, mas tudo o que lhe ocorreu de imediato parecia insensato e rude. Com um sorriso contrafeito, ela fechou o portão e deu a volta para a porta de passageiro.

 

- Tem a certeza de que não vou atrapalhar?

 

- Nem um pouco.

 

Satisfeita, Brenna fitou-a com uma expressão radiante, esperou que ela entrasse e depois saiu a toda a velocidade para a estrada.

 

- Credo!

 

- O que foi?

 

Brenna pisou o travão, obrigando Jude a bater com as mãos no painel, para evitar o choque do rosto contra o pára-brisas. Nem tivera tempo de prender o cinto de segurança.

 

- Você... ahm... - Jude fez um esforço para controlar a respiração, enquanto se apressava a puxar e prender o cinto de segurança. - Não se preocupa com a possibilidade de algum carro aparecer?

 

Brenna riu-se, divertida. Deu uma palmada cordial no ombro de Jude.

 

- Não havia nenhum carro, pois não? Não precisa de se preocupar. Eu mantê-la-ei sã e salva. São lindos, os seus sapatos. - É verdade que Brenna também achava que não poderiam ser tão confortáveis quanto um bom par de botas. - A Darcy aposta que usa sapatos italianos. É verdade?

 

- Hum... - Franzindo um pouco o rosto, Jude olhou para os impecáveis sapatos pretos, sem saltos. - É, sim.

 

- Darcy tem um bom olho para a elegância. Adora ver as revistas, essas coisas. Sonhava com isso mesmo quando éramos pequenas.

 

- Ela é muito bonita.

 

- É verdade. Os Gallagher formam uma família muito bonita.

 

- É estranho que pessoas tão atraentes não estejam envolvidas com ninguém... em particular.

 

Mesmo enquanto falava, procurando dar um tom casual às palavras, Jude criticou-se por bisbilhotar.

 

- A Darcy não tem o menor interesse, nunca teve, pelos homens daqui. Isto é, nada além de um flirt. Aidan... - Brenna ergueu um ombro.

- Parece que ele casou com o pub desde que voltou, ou então é muito discreto. E Shawn...

 

Brenna franziu a testa, enquanto virava a carrinha para a entrada da sua casa.

 

- Ele não olha em condições para o que tem à sua frente, se quer saber a minha opinião.

 

A cadela saltou da carrinha e correu para as traseiras da casa. O rosto de Brenna descontraiu-se.

 

- Se pretender fazer compras em Waterford City ou Dublin, Darcy é a pessoa certa para a acompanhar. Não há nada que ela goste mais do que circular pelas lojas, experimentar roupas e sapatos, aplicar novas maquilhagens. Mas, se o seu forno estiver com algum problema ou se descobrir uma infiltração de água no seu telhado... - ela piscou o olho, enquanto levava Jude para a porta da frente - pode chamar-me.

 

Havia flores ali, arrumadas pela cor e formato, como um lindo tapete a subir ao lado da porta, pendendo de uma sebe, transbordando felizes de vasos vermelhos de barro.

 

Pareciam crescer como bem queriam, mas havia uma ordem evidente, uma organização quase impecável, pensou Jude. A varanda estava limpa, de tal forma que parecia até adequada para uma mesa de cirurgia de grande porte. Jude estremeceu quando Brenna, sem o menor cuidado, deixou a lama das suas botas na superfície.

 

- Mãe! - A voz de Brenna ressoou pelo lindo corredor, subiu pela escada que formava um ângulo recto, enquanto um gordo gato cinzento passava por uma porta para se esgueirar entre as suas botas. - Eu trouxe uma visita!

 

A casa tinha uma fragrância feminina, foi o primeiro pensamento de Jude. Não apenas das flores ou da cera do soalho, mas o cheiro persistente de mulheres - perfume, batom, champô - do tipo que jovens mulheres e raparigas frequentemente exalam.

 

Ela podia lembrar-se disso dos tempos de universidade e questionou-se se era por isso que sentia uma sensação estranha no estômago. Sentira-se sempre miseravelmente desajeitada e deslocada entre todas aquelas mulheres confiantes e temerárias.

 

- Mary Brenna OToole, eu avisar-te-ei quando estiver com problemas de audição, e então poderás gritar por mim.

 

Mollie aproximou-se pelo corredor, tirando um avental rosa, um pouco curto. Era uma mulher de aparência vigorosa, não mais alta que a filha, porém, com certeza, mais larga. Os cabelos eram apenas um pouco menos brilhantes do que os de Brenna, mas muito mais arrumados. Tinha o rosto rechonchudo e bonito, com um sorriso fácil, olhos verdes cordiais que irradiavam as boas-vindas, mesmo antes de estender a mão.

 

- Então trouxeste a Sra. Murray para me visitar. Parece-se com a sua avó, uma mulher adorável. Fico feliz por conhecê-la.

 

- Obrigada. - A mão que apertou a de Jude era forte e dura, de uma vida inteira de trabalho doméstico. - Espero não ter vindo num momento inoportuno.

 

- Claro que não. Se não é uma coisa a acontecer aos OToole, então é outra. Não se quer sentar na sala de visita? Vou fazer um chá.

 

- Não quero dar trabalho.

 

- Não vai dar nenhum. - Mollie apertou o ombro de Jude num gesto reconfortante, como faria com qualquer uma das suas filhas, se se sentisse deslocada em qualquer lugar. - Vai fazer-me companhia enquanto a menina aqui fica na cozinha, a bater e praguejar. Brenna, vou dizer-te a mesma coisa que direi ao teu pai, assim que ele chegue a casa. Está na hora de tirar esse frigorífico da minha casa e trazer outro.

 

- Posso consertá-lo.

 

- É o que vocês dizem sempre.

 

Ela sacudiu a cabeça, enquanto levava Jude para a sala de visitas, com os seus sofás e flores frescas.

 

- É uma cruz para carregar, Sra. Murray, ter esses dois tão hábeis com as coisas na nossa vida, pois nada é posto fora. É sempre "Posso consertar" ou "Tenho um uso para isso". Fica a conversar com a Sra. Murray enquanto eu preparo o chá, Brenna. E depois também podes beber.

 

- A verdade é que eu posso sempre consertar. - Murmurou Brenna, quando a sua mãe já não a podia ouvir. - E, se não puder, as peças ainda servem, não é assim?

 

- Para quê?

 

Brenna olhou para trás, tornou a fitar Jude e sorriu.

 

- Para isto ou aquilo, ou então para uma coisa completamente diferente. Ouvi dizer que o Jack Brennan lhe foi pedir perdão com um ramo de flores, no domingo passado.

 

- É verdade. - Jude empoleirou-se na beira da cadeira, e olhou com alguma inveja para a maneira descontraída como Brenna se refastelava.

- Ele foi muito gentil, mas estava embaraçado demais. Aidan não o deveria ter obrigado.

 

- Foi uma forma de fazer Jack pagar pelo lábio inchado. - Com os olhos a faiscar, ela mudou de posição, cruzando os tornozelos. - Como conseguiu ele isso? É uma coisa rara, um punho retardado pelo uísque conseguir acertar em Aidan Gallagher.

 

- Acho que a culpa foi minha. Chamei-o... - Gritei, pensou Jude, irritada consigo mesma. - Devo tê-lo distraído, pois no instante seguinte o punho acertou no seu rosto, a cabeça foi balançada para trás e a boca começou a sangrar. Nunca vi nada igual.

 

- Nunca? - Fascinada, Brenna contraiu os lábios. Até mesmo numa casa só de mulheres, com excepção do pai, ela crescera com punhos a voar de vez em quando... os seus com frequência. - Os homens não gostam de brigar para se divertir em Chicago, o que aqui chamamos de donnybrook?

 

Jude sorriu ao ouvir a palavra. Por alguma razão, pensou em basebol.

 

- Não no lugar onde eu morava. - Respondeu ela. - Aidan costuma lutar sempre com os clientes?

 

- Quase nunca. É verdade que já houve um tempo em que ele costumava provocar muitas brigas. Mas hoje em dia se alguém alcança o seu limite e fica violento, Aidan tenta evitar a briga com uma boa conversa. De qualquer forma, não são muitos os que estão dispostos a provocá-lo. Os Gallagher são conhecidos pelo seu ânimo violento e disposição para a briga.

 

- Ao contrário do que acontece com a família O'Toole. Comentou Mollie, sarcástica, ao entrar com o carrinho de chá. - Que tem uma natureza mansa e jovial, dia e noite.

 

- É a pura verdade. - Brenna levantou-se com um pulo e deu um beijo sonoro no rosto de Mollie. - Vou tratar do frigorífico, mãe... e deixá-lo-ei a funcionar como se fosse novo.

 

- Ele não funciona como novo desde o nascimento da Alice Mae, que vai fazer quinze anos neste Verão. Mas vê se lhe dás um jeito, antes que o leite azede. - Depois de Brenna sair da sala, Mollie acrescentou: - É uma boa menina, a minha Brenna. Todas elas o são. Quer um biscoito com o chá, Sra. Murray? Fiz ontem.

 

- Obrigada. E, por favor, chame-me Jude.

 

- Assim farei. E a Jude pode chamar-me Mollie. É um prazer ter outra vez uma vizinha no Faerie Hill Cottage. A velha Maude ficaria satisfeita com a sua vinda, pois não gostaria que o chalé continuasse vazio. Não, não tenho nenhum para ti, seu chato. - Mollie falou assim para o gato, que pulara para o braço da sua poltrona. Empurrou-o de volta ao chão, mas só depois de o coçar atrás da orelha.

 

- Tem uma casa maravilhosa. Gosto de a contemplar quando saio para andar.

 

- É uma miscelânea, mas muito confortável para nós. - Mollie serviu o chá em chávenas de boa porcelana. Sorria ao largar o bule.

- O meu Mick gostou sempre de acrescentar uma divisão aqui e ali. E quando a Brenna se tornou suficientemente grande para usar um martelo, juntaram-se os dois contra mim para fazer o que bem queriam com a casa.

 

- Com tantas filhas, precisava mesmo de espaço. - Jude aceitou o chá e dois biscoitos dourados. - A Brenna disse que a Mollie teve cinco filhas.

 

- Cinco que às vezes pareciam vinte, quando corriam de um lado para o outro e brigavam. A Brenna é a mais velha, e a predilecta do pai. A minha Maureen vai casar-se no próximo Outono, e está a levar-nos à loucura com as suas discussões com o rapaz. A Patty acabou de ficar noiva do Kevin Riley. Tenho a certeza de que não demorará até que nos faça passar pelas mesmas angústias de Maureen. Depois vem a Mary Kate, que está na universidade, em Dublin, a estudar computadores, de tudo o que poderia ter escolhido. E a pequena Alice Mae, a bebé, que passa todo o tempo com animais e me tenta convencer a aceitar aqui em casa todas as aves com as asas partidas do condado de Waterford.

 

Mollie fez uma pausa.

 

- Mas quando elas não estão aqui, a mexer em tudo, sinto a maior das saudades. Como tenho a certeza de que a sua mãe também sente saudades neste momento, consigo tão longe de casa.

 

Jude emitiu um som neutro. Não havia a menor dúvida de que a mãe pensava nela, mas será que sentiria saudades? Não dava para imaginar, não com a agenda movimentada da mãe.

 

- Eu acho...

 

Jude parou de falar, arregalando os olhos quando pragas furiosas explodiram no fundo da casa.

 

- Vai para o inferno, seu desgraçado de olhos frios, traiçoeiro como uma serpente! Podes ter a certeza de que estou a pensar seriamente em atirar essa tua lata imprestável dos penhascos abaixo!

 

- A Brenna também saiu ao pai noutros aspectos. - Comentou Mollie, despejando mais chá na chávena, com graça e serenidade, enquanto a filha continuava com as pragas e ameaças, entremeadas por pancadas e estrondos. - É uma menina boa e inteligente, mas tem o pavio algo curto. Ela disse-me que a Jude se interessa por flores.

 

- Hum... - Jude pigarreou, enquanto os gritos continuavam. - É verdade. Não sei muito sobre jardinagem, mas quero cuidar das flores no chalé. Ia comprar alguns livros.

 

- Uma boa ideia. Pode-se aprender muito com os livros, embora a Brenna prefira ser amarrada de barriga para baixo em cima de um formigueiro a ler sobre o funcionamento de seja o que for. Prefere desmontar tudo para saber como funciona. Seja como for, tenho um pouco de experiência em cuidar de jardins. Talvez queira dar uma volta por aqui comigo, para ver o que eu fiz. Depois poderá perguntar-me acerca do que precisa de saber.

 

Jude pousou a sua chávena.

 

- Seria óptimo.

 

- Então vamos sair. Deixaremos Brenna sozinha. Assim, se ela explodir, não precisamos de nos preocupar que o tecto caia nas nossas cabeças. - Mollie levantou-se. Hesitou por um instante. - Posso ver as suas mãos?

 

- As minhas mãos?

 

Aturdida, Jude estendeu-as. Mollie pegou nelas, com firmeza.

 

- A velha Maude tinha mãos como as suas. Claro que eram velhas e tinham problemas de artrite, mas eram estreitas e delicadas. Imagino que ela tivesse os dedos compridos, direitos e esguios como os seus quando era jovem. Vai sair-se bem, Jude. - Mollie segurou nas mãos por mais um momento, fitando Jude nos olhos. - Tem boas mãos para as flores.

 

- Quero ser boa nisso. - Murmurou Jude, surpreendendo-se a si mesma.

 

Os olhos de Mollie assumiram uma expressão afectuosa.

 

- Então sê-lo-á.

 

A hora seguinte foi de intensa satisfação. A timidez e o acanhamento desvaneceram-se, enquanto Jude caía sob o encantamento das flores e da paciência inata de Mollie.

 

Aquelas folhas emplumadas eram esporas que desabrochariam em flores azuis, com máculas alvas ou violetas, segundo Mollie. Aquelas encantadoras flores em forma de trompa, bicolores, eram as aquilégias. Ondulando em redor, como lhes aprazia, havia flores de nomes estranhos e surpreendentes, como linho e cravina, manto-de-dama e bálsamo-de-abelha.

 

Jude sabia que se esqueceria dos nomes ou os confundiria, mas era maravilhoso saber quais desabrochariam na Primavera, quais floresceriam no Verão. Qual era a resistente e qual era a delicada. E quais atraíam abelhas e borboletas.

 

Ela não se sentia tola ao fazer perguntas que tinha a certeza de serem básicas, quase infantis. Mollie limitava-se a sorrir, balançava a cabeça e explicava.

 

- A velha Maude e eu trocávamos sempre plantas e sementes. Por isso, a maior parte do que aqui tenho também existe no chalé. Ela gostava das flores românticas, enquanto que eu prefiro as alegres. Assim, acabámos por cultivar os dois tipos. Um dia destes darei um pulo até ao chalé, se não se importar, para verificar se há alguma coisa que precise de ser feita e a Jude não esteja a fazer.

 

- Ficar-lhe-ia muito agradecida, especialmente sabendo que é uma pessoa ocupada.

 

Mollie inclinou a cabeça para o lado; a sua expressão era radiante, tão alegre quanto o seu jardim.

 

- É uma boa mulher, Jude, e eu apreciaria passar algum tempo na sua companhia de vez em quando, a falar sobre jardins. E também tem cordialidade. Eu não me importaria se passasse um pouco para a minha Brenna. Ela tem um coração enorme e uma mente esperta, mas é um tanto agressiva.

 

Mollie olhou por cima do ombro de Jude. Soltou um suspiro.

 

- Por falar nisso, conseguiste finalmente vencer a fera, Mary Brenna?

 

- Foi uma luta e tanto, uma batalha de suor e lágrimas, mas acabei por vencer. - Brenna aproximou-se, com um andar arrogante. Tinha uma mancha de graxa no rosto e uma crosta de sangue seco na mão esquerda.

- Vai funcionar em condições agora, mãe.

 

- Mas que chata, rapariga. Tu sabes que eu quero um frigorífico novo.

 

- Aquele ainda tem anos de vida útil. - Alegremente, ela deu um beijo na mãe. - Tenho de ir agora. Prometi consertar ainda hoje as janelas da casa da Betsy Clooney. Quer que eu lhe dê boleia de volta, Jude, ou prefere ficar mais um pouco?

 

- Tenho de voltar agora. Não imagina como gostei da visita, Mollie. Obrigada.

 

- Volte sempre que quiser um pouco de companhia.

 

- Farei isso. Ah, esqueci-me da minha bolsa lá dentro. Vou buscála, se não se importar.

 

- Pode ir. - Mollie esperou até a porta estar fechada. - Ela está com sede.

 

- Sede, mãe?

 

- Sede de fazer. Sede de ser. Mas tem medo de beber muito depressa. É sensato tomar as coisas em pequenos goles, mas de vez em quando...

 

- A Darcy acha que o Aidan anda de olho nela.

 

- Ah sim? - Divertida, Mollie virou-se e alteou as sobrancelhas para a filha. - Nesse caso, ela teria de beber muito depressa, não é?

 

- A Darcy contou-me que uma vez espiou quando ele cortejava a rapariga Duffy. No momento em que Aidan acabou de a beijar, ela cambaleou, como se estivesse embriagada.

 

- A Darcy não deveria espionar os irmãos. - Murmurou Mollie, solene, para depois sorrir. - Qual das raparigas Dufffy? - Antes que Brenna pudesse responder, ela viu Jude deixar a casa e apressou-se em acrescentar: - Conta-me depois.

 

- Quer então dizer que foi uma visita agradável. - Comentou Brenna, quando voltaram à carrinha.

 

- A sua mãe é maravilhosa. - Num súbito impulso, Jude virou-se para acenar, enquanto Brenna saía para a estrada com o seu entusiasmo e velocidade habituais. - Nunca na vida me irei lembrar de metade do que ela me disse sobre jardins, mas já é um bom começo. - Acrescentou Jude.

 

- Ela vai gostar de a ter para conversar. A Patty tem jeito para as flores, mas anda com a cabeça nas nuvens por causa de Kevin Riley, e passa a maior parte do tempo a suspirar, com cara de quem está na lua.

 

- Ela tem muito orgulho de si e das suas irmãs.

 

- Faz parte do ofício de mãe.

 

- Pode ser, mas nem sempre aparece. Provavelmente já está acostumada, e por isso nem se apercebe, mas é adorável constatar tal facto.

 

- Sendo a Jude o que é, presta mais atenção a essas coisas. Comentou Brenna. Aprende isso na faculdade ou é a sua natureza?

 

- Acho que as duas coisas... como ter notado que ela ficou orgulhosa por a Brenna ter consertado o frigorífico, embora torcesse para que não o conseguisse.

 

Brenna virou a cabeça para fitar Jude, rindo-se.

 

- Quase não consegui, desta vez. É um velho frigorífico temperamental. Mas a verdade é que o meu pai negociou a compra de um frigorífico novo, que é uma beleza. O problema é que não dá para fechar o negócio e providenciar a entrega antes de mais uma ou duas semanas. Por isso, se quisermos manter o prazer da surpresa, aquele desgraçado asmático tem de durar mais um pouco.

 

- Mas isso é sensacional!

 

Jude adorou a ideia. Tentou imaginar a reacção da sua mãe se ela e o seu pai a surpreendessem com um frigorífico novo.

 

Ficaria desconcertada, concluiu Jude. Talvez até se sentisse um pouco insultada. Divertida com a ideia, ela riu-se.

 

- Se desse um frigorífico novo à minha mãe, como presente, acho que ela iria pensar que eu tinha perdido o juízo.

 

- Mas também, a sua mãe é uma profissional, pelo que me recordo.

 

- É verdade, e muito competente no seu trabalho. Mas a sua mãe também é profissional... uma mãe profissional.

 

Brenna piscou o olho, e depois os seus olhos iluminaram-se num prazer divertido.

 

- Ela vai gostar de ouvir isso. Guardarei para a próxima vez em que ela estiver prestes a dar-me um sermão por qualquer coisa. Ei, veja quem ali vem a subir a estrada, lindo como dois demónios e igualmente perigoso!

 

Enquanto a descontracção de Jude desaparecia, toda ela a contrair-se em tensão, Brenna parou no caminho estreito. Inclinou a cabeça para fora e chamou Aidan.

 

- Aí vem o nosso viandante.

 

- Já parei com isso. - Ele piscou o olho a Brenna. Depois, pegou na mão que ela pusera na janela, para examinar os dedos esfolados. - O que fizeste agora?

 

- Aquele frigorífico desgraçado deu-me uma mordidela.

 

Ele estalou a língua. Levou os dedos feridos aos lábios. Mas os seus olhos desviaram-se para Jude.

 

- Para onde se dirigem duas mulheres tão bonitas?

 

- Vou levar a Jude de volta para casa, depois de uma visita à minha mãe. E em seguida vou consertar as janelas da Betsy Clooney.

 

- Se tu ou o teu pai tiverem algum tempo amanhã, o fogão dopub anda a dar problemas, o que deixa Shawn verdadeiramente irritado.

 

- Um de nós irá lá dar uma olhada.

 

- Obrigado. E agora vou tirar a passageira das tuas mãos.

 

- Tem cuidado com a Jude. - Disse Brenna, enquanto ele contornava a carrinha. - Gosto dela.

 

- Eu também. - Aidan abriu a porta e estendeu a mão. - Mas eu deixo-a nervosa. Não é assim, Jude Francês?

 

- Claro que não.

 

Ela começou a sair da carrinha, mas logo arruinou a elegância casual que esperava exibir, ao ser puxada para trás, porque se esquecera de tirar o cinto de segurança.

 

Antes que o pudesse fazer, Aidan inclinou-se e soltou o cinto. Depois, passou o braço pela cintura de Jude e tirou-a da carrinha. Como isso a deixou com a língua travada, ela não pode agradecer a Brenna de novo, antes que a jovem partisse, com um aceno e um sorriso, acelerando pela estrada.

 

- Guia como um demónio, aquela rapariga. - Balançando a cabeça, Aidan pôs Jude no chão, mas apenas para pegar nas suas mãos.

- Não apareceste nopub durante toda a semana.

 

- Estava ocupada.

 

- Não estás tão ocupada agora.

 

- Para dizer a verdade, eu deveria...

 

- Convidar-me a entrar e fazer uma sanduíche. - Quando Jude limitou-se a fitá-lo, aturdida, ele riu-se. - Se isso não for possível, podes vir dar um passeio comigo. Está um lindo dia para uma caminhada. Prometo que não te beijarei, a menos que queiras, se é isso que te preocupa.

 

- Não estou preocupada.

 

- Nesse caso...

 

Aidan inclinou a cabeça e chegou a poucos centímetros do alvo, quando ela recuou, tropeçando.

 

- Não foi isso o que eu quis dizer.

 

- Era o que eu receava. - Mas Aidan afastou-se. - Apenas uma caminhada então. Já estiveste em Tower Hill para ver a catedral?

 

- Ainda não.

 

- Com a tua mente curiosa? Então caminharemos até lá e aproveitarei para te contar uma história que poderás usar no teu trabalho.

 

- Não trouxe o gravador.

 

Lentamente, ele levantou uma das mãos, que ainda segurava, e roçou os lábios pelas articulações.

 

- Contar-te-ei uma história bem simples, para que te possas lembrar dela.

 

                                             CAPÍTULO 8

Ele tinha razão sobre o dia. Estava perfeito para uma caminhada. A luz brilhava como no interior de uma pérola. Luminosa, com um ligeiro lustro de humidade. Jude podia avistar, além das colinas e campos a ondular na direcção das montanhas, uma cortina ténue e prateada, que com certeza era uma linha de chuva.

 

O sol passava através da cortina, em raios e ondulações, ouro líquido através de prata líquida.

 

Era o tipo de dia que suplicava por um arco-íris.

 

A brisa era apenas um tremeluzir provocante no ar, ondulando as folhas, que se aproximavam do viço máximo do Verão, e envolvendo-a com a fragrância do verde.

 

Aidan segurava na mão de Jude, num aperto de dedos soltos, relaxado, familiar, fazendo com que ela se sentisse simples.

 

Relaxada, à vontade, e simples.

 

As palavras saíam suaves dos lábios de Aidan, para a encantar.

 

- Houve um tempo, diz-se, em que vivia uma jovem donzela. Um rosto belo como um sonho, a pele branca como leite, os cabelos pretos como a meia-noite, olhos azuis como um lago. Mais fascinante ainda do que a sua beleza era a graça do seu comportamento, pois era uma jovem de excepcional gentileza. E, destacando-se ainda mais do seu comportamento, havia a glória da sua voz. Quando ela cantava, os pássaros silenciavam-se para a ouvir, enquanto os anjos sorriam.

 

Ao subirem a colina, o mar começou a cantar, como uma música de fundo para a história... ou pelo menos assim parecia.

 

- Em muitas manhãs, o seu canto elevava-se acima das colinas, rivalizando em alegria com o sol.

 

A brisa transformou-se em vento, que soprava, divertido, entre o mar e o rochedo.

 

- Mas o som da sua voz, uma alegria pura, atraiu a atenção e a inveja de uma bruxa.

 

- Há sempre um senão. - Comentou Jude, fazendo-o rir-se.

 

- É verdade, mas tem de haver para que a história seja boa. Essa bruxa tinha um coração sinistro e abusava dos seus poderes. Fazia o leite azedar pela manhã e as redes lançadas pelos pescadores voltarem vazias. Embora pudesse usar as suas artes para disfarçar o rosto vil em beleza, quando abria a boca para cantar, o coaxar de uma rã poderia ser mais musical. Odiava a donzela pelo seu dom de cantar, e por isso lançou-lhe um feitiço que a deixou muda.

 

- Mas havia uma cura... envolvendo um lindo príncipe?

 

- Claro que havia uma cura, pois o mal deve ser sempre vencido pelo bem.

 

Jude sorriu, porque acreditava nisso. Apesar de toda a lógica, acreditava no "felizes para sempre". E essas coisas pareciam mais do que possíveis apenas ali, naquele mundo de penhascos e relva silvestre, de mar com traineiras vermelhas a navegar por um azul profundo, de mãos firmes a aquecer as suas.

 

Pareciam inevitáveis.

 

- A donzela foi condenada ao silêncio, incapaz de partilhar a alegria no seu coração através das canções, pois a feiticeira encerrara a sua voz dentro de uma caixa de prata, trancada com uma chave de prata. Lá dentro, a voz chorava enquanto cantava.

 

- Por que razão são as histórias irlandesas sempre tristes?

 

- Achas mesmo? - A surpresa de Aidan parecia sincera. - Não são assim tão tristes, mas... pungentes. A poesia não costuma brotar da alegria, mas sim das mágoas.

 

- Suponho que tenhas razão. - Jude afastou de novo os cabelos que o vento agitava. - O que aconteceu depois?

 

- Durante cinco anos, a donzela caminhou por estas colinas e campos, pelos mesmos penhascos que percorremos agora. Ouvia o canto dos pássaros, a música do vento na relva, o murmúrio do mar. E guardava os sons dentro dela. Enquanto isso, a bruxa continuava a manter a alegria, paixão e pureza da voz da jovem dentro da caixa de prata; ela era a única que a podia ouvir.

 

Ao chegarem ao topo da colina, à sombra da velha catedral, com a lança enorme que era a torre redonda, Aidan virou-se para Jude. Afastou os cabelos do seu rosto com os dedos.

 

- O que aconteceu em seguida, Jude?

 

- Como?

 

- Diz-me o que aconteceu em seguida.

 

- Mas a história é tua.

 

Aidan baixou-se na direcção das pequenas flores brancas, que lutavam para desabrochar nas frestas da rocha. Arrancou uma flor e colocou-a nos cabelos de Jude.

 

- Diz-me, Jude Francês, o que gostarias que acontecesse em seguida.

 

Ela ergueu a mão para pegar na flor, mas Aidan deteve o movimento, alteando uma sobrancelha. Depois de pensar por um momento, Jude levantou os ombros, num sinal de indiferença.

 

- Um dia, um belo jovem subiu pela colina. O seu enorme cavalo branco estava cansado; a sua armadura, fosca e amassada. Sentia-se perdido, com ferimentos de batalha, muito longe de casa.

 

Jude podia ver, fechando os olhos, o bosque e as sombras, o guerreiro ferido ansiando por regressar a casa.

 

- Enquanto avançava pelo bosque, a neblina turbilhonava em seu redor. Nada podia ouvir além das batidas cansadas do seu coração. Podia sentir que eram cada vez mais rápidas. De repente ele viu-a, surgindo da neblina como uma mulher a vaguear por um rio de prata. Porque ele estava doente, necessitado, a jovem abrigou-o e tratou dos seus ferimentos, dissipou as suas febres, sempre em silêncio. Embora fosse incapaz de falar para o confortar, a sua gentileza era suficiente. Acabaram por se apaixonar, sem palavras. O coração da jovem quase explodia com a necessidade de falar com ele, de cantar a sua alegria e devoção. E sem hesitar, sem qualquer mágoa, concordou em acompanhá-lo até à sua terra distante, deixando os amigos e a família, deixando a sua voz trancada na caixa de prata.

 

Porque podia ver e sentir, mesmo enquanto falava, Jude balançou a cabeça. Avançou pelas lápides inclinadas e foi-se encostar na torre redonda. A baía estendia-se lá em baixo, um azul espectacular, onde as embarcações vermelhas balançavam. Mas ela estava absorvida na história.

 

- O que acontece em seguida? - Perguntou ela a Aidan.

 

- A jovem montou o cavalo. - Continuou ele, sem perder o fio da história. - Levava apenas a sua fé e o seu amor. Nada pedia em troca, a não ser a retribuição dos sentimentos. E, nesse instante, a caixa de prata, ainda nas mãos da bruxa gananciosa, abriu-se de repente. A voz aprisionada saiu a voar, um fluxo dourado que passou sobre as colinas e campos, indo directamente para o coração da donzela. Enquanto ela cavalgava com o seu apaixonado, a voz, mais bela do que nunca, voltou a cantar. E os pássaros silenciaram-se para a ouvir, os anjos voltaram a sorrir.

 

Jude suspirou.

 

- Um final perfeito.

 

- Tens muito jeito para contar histórias.

 

As palavras encantaram-na, abalaram-na, e fizeram com que se sentisse tímida de novo.

 

- Não é bem assim. Foi fácil porque tu começaste.

 

- E tu preencheste a parte do meio, de uma maneira tão adorável que me faz pensar que nem toda a alma irlandesa te foi arrancada, afinal. Pronto... - murmurou ele, satisfeito. - Tens um riso nos olhos e uma flor nos cabelos. Deixa-me beijar-te agora, está bem, Jude Francês?

 

Ela movimentou-se depressa. A cautela, disse a si mesma, às vezes exigia uma acção rápida. Jude esquivou-se por baixo do braço dele, e contornou-o.

 

- Vais fazer-me esquecer a razão pela qual viemos até aqui. Tenho lido a respeito das torres redondas, mas nunca tinha visto nenhuma de perto.

 

Paciência, Gallagher, pensou ele, enganchando os polegares nos bolsos.

 

- Havia sempre alguém a tentar invadir e conquistar a jóia da Irlanda. Mas ainda aqui estamos, não é assim?

 

- É verdade, ainda aqui estão. - Jude deu uma volta lenta, contemplando a colina, o penhasco e o mar. - É um lugar maravilhoso. E a sensação é de uma coisa muito antiga. - Ela parou. Balançou a cabeça.

- Isso soa ridículo.

 

- Nem um pouco. A sensação é mesmo de uma coisa antiga... e sagrada. Se prestares atenção, podes ouvir as pedras a cantarem batalhas e glória.

 

- Não creio que tenha bom ouvido para pedras a cantar. - Jude andou um pouco, contornando as lápides esculpidas, as sepulturas cobertas de flores, pisando com cuidado o terreno irregular. - A minha avó disse-me que vinha aqui com frequência. Aposto que ela as podia ouvir.

 

- Porque é que ela não veio contigo?

 

- Eu bem queria.

 

Jude empurrou os cabelos para trás, ao virar-se para o fitar. Aidan ajustava-se ao lugar, pensou ela, ao antigo e sagrado, às canções de batalhas e glória.

 

Mas aonde se ajustava ela?

 

Jude entrou na velha ruína, onde o céu era o telhado.

 

- Acho que ela queria ensinar-me uma lição... como ser Jude em seis meses ou menos.

 

- E estás a aprender?

 

- Talvez.

 

Ela passou os dedos pelas inscrições em ogham na pedra. Por um instante, apenas por um instante, sentiu um pequeno formigueiro nos dedos.

 

- E o que quer ser a Jude?

 

- É uma muito geral, com muitas respostas simples, como feliz, saudável, bem sucedida.

 

- Não és feliz?

 

- Eu... - Os dedos tornaram a deslizar sobre a pedra, mas logo se afastaram. - Eu não era feliz como professora. E não era boa nisso. E desanimador não se ser bom naquilo que se escolheu como o trabalho para a vida

 

- A tua vida está longe de acabar. Portanto, tens tempo mais do que suficiente para escolher de novo. E sou capaz de apostar que eras melhor no que fazias do que decidiste acreditar.

 

Jude parou para o fitar e logo recomeçou a andar.

 

- Porque pensas assim?

 

- Porque prestei atenção no tempo que passei contigo e aprendi bastante.

 

- Porque estás a passar tempo comigo, Aidan?

 

- Gosto de ti.

 

Ela voltou a sacudir a cabeça.

 

- Tu não me conheces. Se ainda não me entendeste, não me podes conhecer.

 

- Gosto do que vejo.

 

- Ou seja, é uma espécie de atracção física. Aidan alteou uma sobrancelha.

 

- E isso é um problema para ti?

 

- Para ser franca, é, sim. - Mas ela conseguiu virar-se para fitá-lo de novo. - Um problema em que estou a trabalhar.

 

- Espero que trabalhes depressa, pois quero sentir o prazer em ti. Jude sentiu-se sufocada. Teve de respirar devagar, deliberadamente.

 

- Não sei o que dizer a quanto a isso. Nunca tive uma conversa assim em toda a minha vida. Portanto, é óbvio que não sei o que dizer, excepto uma coisa que vai parecer incrivelmente estúpida.

 

Ele franziu o rosto, ao dar um passo na sua direcção.

 

- Porque pareceria uma estupidez, se é o que estás a pensar?

 

- Porque tenho o hábito de dizer coisas estúpidas quando fico nervosa.

 

Aidan enfiou a haste da flor mais fundo entre os cabelos de Jude, já que o vento a queria arrancar.

 

- Pensei que cantavas quando te sentias nervosa.

 

- Uma coisa ou outra.

 

Jude recuou, a fim de manter o que julgava ser uma distância segura.

 

- Sentes-te nervosa agora?

 

- Claro! - Sabendo que estava prestes a gaguejar, ela ergueu as mãos para o deter. - Pára, simplesmente. Nunca tive nada a envolverme desta maneira. Atracção à primeira vista. Já disse que acredito nisso. É verdade. Mas nunca senti antes. Tenho de pensar acerca disso.

 

- Porquê?

 

Seria muito simples alcançá-la, segurá-la pelos pulsos, puxá-la ao encontro do seu corpo.

 

- Porque não apenas agir, quando se sabe que é bom? O teu pulso está disparado. - Aidan deslizou os polegares pelos pulsos de Jude.

- Gosto de sentir o teu coração assim, ver os teus olhos enevoados. Porque não me beijas desta vez para veres o que acontece em seguida?

 

- Não sou tão boa como tu. Ele riu-se.

 

- És incrível, mulher. Deixa-me decidir se és boa ou não. Beija-me, Jude. O que acontecerá depois dependerá de ti.

 

Ela bem queria. Tinha vontade de sentir de novo aquela boca contra a sua, o formato, o sabor, a textura. Naquele momento, Aidan tinha os lábios contraídos, com um brilho divertido nos olhos. Isso mesmo, divertido, pensou ela. Porque não poderia ser apenas um divertimento?

 

Com os dedos de Aidan ainda a envolver levemente os seus pulsos, ela inclinou-se na direcção dele. Ele apenas observava. Jude ergueu-se na ponta dos pés, os olhos ainda a encontrar-se. Com a cabeça um pouco inclinada, ela roçou os seus lábios nos de Aidan.

 

- Porque não fazes isso de novo?

 

E ela fez, fascinada, quando ele manteve os olhos abertos, obrigando-a a fazer a mesma coisa. Jude demorou mais tempo dessa vez, roçando os lábios primeiro para a direita, depois para a esquerda. Fascinante. Para experimentar, ela passou os dentes levemente pelo lábio inferior de Aidan. Ouviu o próprio murmúrio de prazer, como se viesse de muito longe.

 

Ele tinha olhos azuis tão intensos quanto a água que se estendia para o horizonte. Parecia que todo o mundo de Jude era dominado por aquela única cor, tão maravilhosa. O seu coração começou a bater fortemente, a visão ficou turva, como acontecera naquela primeira vez, junto da sepultura de Maude.

 

Ela murmurou o nome dele, apenas um suspiro, depois estendeu os braços para o abraçar.

 

O choque deixou Aidan atordoado, o súbito calor, o súbito fluxo de calor que irradiava de Jude para o envolver por completo.

 

Ele ergueu as mãos, passando pelas ancas de Jude, subindo pelas costas, alcançando os cabelos, apertando com força. O beijo passou de um tímido roçar de lábios, de uma mera pressão de dentes, para uma guerra desenfreada de línguas, dentes e lábios, em que corpo se pressionava contra corpo, pulsação trovejava contra pulsação.

 

Foi nessa ardente cascata de sensações que ela se perdeu. Ou talvez tivesse encontrado a Jude que estava aprisionada dentro dela... como uma voz trancada numa caixa de prata.

 

Mais tarde, ela seria capaz de jurar que ouvira as pedras a cantar.

 

Agora, Jude comprimiu o rosto na curva do pescoço de Aidan e sorveu a sua fragrância, como se fosse água.

 

- Isto está a passar-se demasiado depressa... - Mesmo enquanto falava, ela apertou-o ainda mais nos seus braços. - Não consigo respirar. Não consigo pensar. Não consigo acreditar no que está a acontecer dentro do meu corpo.

 

Ele soltou uma risada fraca, roçando o rosto nos cabelos de Jude.

 

- Se é parecido com o que está a acontecer dentro do meu, provavelmente explodiremos a qualquer momento. Querida, podemos voltar para o chalé em poucos minutos, e eu levar-te-ei para a cama num piscar de olhos. Prometo que ambos nos sentiremos muito melhor.

 

- Tenho a certeza que tens razão, mas...

 

- Não podes ir tão depressa, ou não serias a Jude.

 

Embora lhe custasse, ele recuou para estudar o rosto de Jude. Mais do que bonito, pensou Aidan, mas também sólido. Como era possível, especulou ele, que Jude parecesse não saber quão bonita e sólida era?

 

E porque ela não sabia, mais e mais cuidados eram necessários.

 

- E eu gosto da Jude, como já disse antes. Precisas de ser um pouco cortejada.

 

Ela não sabia dizer se estava atordoada, divertida ou insultada.

 

- Não preciso, não!

 

- Claro que precisas. Queres flores e palavras, beijos roubados, passeios ao luar. É romance o que a Jude Francês quer, e sou eu quem lho vai proporcionar. Ei, olhem só para este rosto.

 

Aidan pôs a mão no seu queixo e levantou-o, como um adulto faria com uma criança mal-humorada. Jude decidiu que o insulto prevalecia.

 

- Estás a fazer beicinho agora.

 

- Não estou, não!

 

Ela quis desenvencilhar o rosto, mas Aidan segurava-a com firmeza. Ele baixou a cabeça e beijou-a na boca.

 

- Sou eu quem está a olhar para ti, minha querida, e se isso não é um beicinho, então eu sou escocês. Pensas que me divirto à tua custa, mas não é assim. Ou pelo menos não de todo. O que há de errado com o romance? Eu também gostaria de ter um pouco.

 

A voz era quente e agradável, como uísque bebido ao lado da lareira.

 

- Vais oferecer-me olhares insinuantes e sorrisos afectuosos do outro lado da sala? Roçar a mão pelo meu braço? Um beijo ardente e desesperado no escuro? Uma carícia... - ele passou as pontas dos dedos sobre a curva do seio, fazendo com que o coração de Jude quase parasse. - em segredo?

 

- Não vim para cá em busca de romance.

 

A sério?, pensou ele. Com os seus mitos, lendas e histórias, não era isso o que procurava?

 

- Procurando ou não, é o que terás. - Nesse ponto, Aidan estava mais do que decidido. - E quando eu fizer amor contigo, pela primeira vez, será longo, lento e doce. É uma promessa. Volta comigo agora, antes que a maneira como me olhas me faça quebrar a promessa, no preciso momento em que a faço.

 

- Apenas queres estar no comando. A controlar a situação.

 

Ele voltou a pegar na mão de Jude, da maneira mais cordial e irritante possível.

 

- Acho que estou acostumado a ser assim. Mas se quiseres assumir o comando e seduzir-me, Jude querida, posso prometer que serei fraco e submisso.

 

Ela riu-se, antes de se conseguir controlar.

 

- Tenho a certeza de que ambos temos trabalho a fazer.

 

- Mas vais-me visitar. - Disse Aidan, enquanto começavam a andar, - Sentar-te-ás no pub e beberás um copo de vinho, para que eu te possa contemplar e sofrer.

 

- Bolas, como és irlandês!

 

- Até aos ossos! - Ele levantou a mão de Jude, e comprimiu os dentes contra as articulações dela. - E antes que eu me esqueça, Jude, és muito boa a beijar.

 

- Hummm... - foi a resposta mais segura em que ela pôde pensar.

 

Mas ela foi ao pub, sentou-se e ouviu as histórias. Durante os dias seguintes, enquanto a Primavera se espalhava por Ardmore, Jude podia ser vista com frequência no pub, por uma ou duas horas, à noite ou à tarde. Ouvia, gravava, fazia anotações. E, à medida que a notícia se espalhou, outros com histórias apareceram para as contar; e muitos compareciam apenas para ouvir e se divertir.

 

Jude gravou várias fitas, encheu resmas de papel. Transcrevia e analisava tudo no seu computador, enquanto tomava goles do que se estava a tornar a sua chávena de chá habitual.

 

Se às vezes sonhava que era a personagem das histórias de romance e magia, achava que era uma atitude bastante inofensiva. Até mesmo útil, se forçasse um pouco a interpretação. Afinal, poderia compreender melhor os significados e motivos, se as histórias e acções nelas se tornassem mais pessoais.

 

Não que ela fosse perder tempo a escrever dessa maneira. Um ensaio académico não tinha espaço para imaginação e fantasia. Estava apenas a explorar, até encontrar a essência da sua tese. Depois, ajustaria a linguagem, excluindo os devaneios.

 

E o que farás com isso, Jude?, perguntou ela a si mesma. O que pensas mesmo que vais fazer, mesmo enxugando, polindo e aperfeiçoando, até que fique tão seco quanto poeira? Tentar divulgar em alguma publicação profissional que absolutamente ninguém lê por prazer? Usar para tentar entrar no circuito de conferências?

 

A possibilidade de isso acontecer, por mais remota que fosse, provocava-lhe a sensação de que um grupo inteiro de escuteiros lhe dava nós no seu estômago.

 

Por um instante, ela quase baixou o rosto para as mãos e se entregou ao desespero. Nada jamais resultaria daquele trabalho, do seu projecto. Era uma ilusão acreditar que pudesse ser diferente. Jamais alguém se apresentaria numa função de professor para discutir as percepções e interesses do ensaio de Jude F. Murray. Pior ainda, ela nem queria que isso acontecesse.

 

Não era mais do que uma espécie de terapia, uma maneira de recuar da beira de uma crise que ela não podia identificar.

 

E de que adiantavam todos aqueles anos de estudo e trabalho, se nem sequer era capaz de encontrar os termos certos para as suas próprias crises?

 

Auto-estima baixa, ego abalado, falta de convicção na sua feminilidade, insatisfação com a carreira.

 

Mas o que havia por trás de tudo isso? Realmente por trás. Uma identidade indefinida? Talvez fosse parte. Perdera-se em algum ponto do caminho, até que qualquer coisa que restara, o que era capaz de reconhecer, se tornara tão pálida, tão desgraciosa, que ela tratara de escapar.

 

Para onde?

 

Para cá, pensou ela, e ficou mais do que um pouco surpresa ao descobrir que os dedos se movimentavam sobre o teclado, com pensamentos a brotar da sua cabeça e a fixar-se no monitor.

 

Corri para cá, onde me sinto de alguma forma mais real, mais à vontade do que alguma vez me senti na casa que William e eu comprámos, ou no apartamento para onde me mudei depois de ele se ter cansado de mim. E, com certeza absoluta, mais à vontade do que na sala de aula.

 

Ah, como eu detestava a sala de aula! Mas porque não pude admitir isso, dizer em voz alta? Não quero fazer isso, não quero ser aquilo. Quero outra coisa. Quase que qualquer outra coisa serviria.

 

Como me tornei tão cobarde? E, pior ainda, tão lamentavelmente chata? Por que razão, mesmo agora, sem ninguém para responder, a não ser eu mesma, questiono este projecto, quando me agrada tanto? Quando me proporciona tamanha satisfação? Será que não posso, apenas por esta única vez, entregar-me a alguma coisa que não tem qualquer propósito ou objectivo sólido e prático?

 

Se é terapia, está na hora de deixar que funcione. Não me está afazer mal algum. Na verdade, eu acho - e espero - que está afazer-me bem. Sinto-me atraída por escrever. É um termo estranho para usar, mas ajusta-se. Escrever atrai-me, o mistério que contém, a maneira como as palavras se combinam numa página para projectar uma imagem ou um argumento, ou apenas para serem lidas, sonoras.

 

Ver as minhas próprias palavras no monitor é emocionante. Há uma certa vaidade maravilhosa em lê-las, sabendo que são minhas. Parte disso apavora-me, porque é excitante demais. Durante grande parte da minha vida tratei de me desviar, recuei, escondi-me de qualquer coisa que fosse assustadora. Mesmo quando era emocionante.

 

Quero sentir-me forte de novo. Anseio por confiança. E, por trás de tudo, tenho uma paixão profunda, quase total, pelo fantástico. Como ela quase foi sufocada e por quem, não tem verdadeira importância. Não agora, quando descubro que o brilho ainda existe, lá no fundo, dentro de mim. O brilho é suficiente para que eu seja capaz de escrever, pelo menos em segredo, que quero acreditar nas lendas, nos mitos, nas fadas e fantasmas. Que mal pode haver nisso? Não há a menor possibilidade de me magoar.

 

Não, pensou ela, inclinando-se para trás e pondo as mãos no colo. Claro que não me pode magoar. É inofensivo e faz-me sentir espectacular, deixa-me maravilhada. O que já não acontecia há muito tempo.

 

Ela deixou escapar um longo suspiro. Fechou os olhos e nada sentiu, a não ser a satisfação do alívio.

 

- Eu sinto-me muito contente por estar aqui. - Declarou Jude, em voz alta.

 

Ela levantou-se para olhar pela janela, convencida de que usara o acto de escrever para se livrar da ameaça do desespero. Os dias e as noites ali estavam a extinguir uma tempestade ameaçadora dentro dela. Aqueles poucos momentos de alegria eram preciosos.

 

Jude afastou-se da janela, querendo o ar e o exterior. Aí ponderaria sobre o outro aspecto da sua nova vida.

 

Aidan Gallagher, pensou ela. Deslumbrante, um tanto exótico, e inexplicavelmente interessado na sólida e sensata Jude F. Murray. Por falar em fantástico...

 

Talvez o tempo passado com Aidan não fosse tão tranquilizador, admitiu Jude, embora fosse bastante cuidadosa para arranjar os encontros de tal forma que nunca ficavam a sós. Ainda assim, a falta de privacidade não o impedia de fazer flirt, de se permitir aqueles longos olhares de que falara, ou os sorrisos lentos e secretos, a mão a roçar pelo seu braço, cabelos, rosto.

 

E o que havia de errado nisso?, questionou-se Jude, enquanto subia a colina, levando um ramo de flores frescas para a sepultura de Maude. Todas as mulheres tinham direito a algum flirt. Talvez, ao contrário das flores na sua mão, ela demorasse a desabrochar; tarde, porém, sempre era melhor do que nunca.

 

E queria desesperadamente desabrochar. A perspectiva era tão emocionante, assustadora e excitante quanto escrever.

 

Era maravilhoso descobrir que gostava do flirt, de ser contemplada como se fosse linda e desejável. Afinal, se permanecesse na Irlanda durante os seis meses que previra, estaria com trinta anos ao voltar para Chicago. Portanto, estava mais do que na altura de se sentir bonita, não é assim?

 

O marido nunca fizera flirt com ela. E, se podia confiar na memória, o maior elogio que ele fizera à sua aparência fora o de comentar que ela parecia muito distinta.

 

- Uma mulher não quer que lhe digam que parece distinta.

 

- Murmurou Jude, enquanto se sentava ao lado da sepultura de Maude.

 

- Quer que lhe digam que é bonita, sensual. Que tem uma aparência extraordinária. Pouco importa se não for verdade. - Ela suspirou e pôs as flores junto da lápide. - Porque é a verdade absoluta no momento em que as palavras são ditas e ouvidas.

 

- Então posso dizer que é tão adorável quanto as flores que trouxe para cá neste lindo dia, Jude Francês.

 

Ela ergueu o rosto para se deparar com os olhos azuis confiantes do homem que já encontrara uma vez, naquele mesmo lugar. E eram olhos, pensou Jude, apreensiva, que já vira muitas vezes em sonhos.

 

- Anda sem fazer barulho.

 

- Este é um lugar para passos silenciosos.

 

Ele agachou-se, com a relva viçosa e as flores exuberantes que adornavam a sepultura de Maude entre eles.

 

A água da velha fonte murmurava como um canto pagão.

 

- Como está a ser morar no Faerie Hill Cottage?

 

- Muito bom. Tem família por aqui?

 

Os olhos brilhantes anuviaram-se, enquanto corriam pelas lápides e a relva alta.

 

- Tenho aqueles de quem me lembro e aqueles que se lembram de mim. Outrora amei uma mulher e ter-lhe-ia oferecido tudo o que tinha. Mas esqueci-me de oferecer o meu coração, em primeiro lugar e acima de tudo. Esqueci-me de lhe dizer as palavras.

 

Quando ele levantou os olhos, a sua expressão era mais irónica do que confiante.

 

- As palavras são importantes para uma mulher, não é assim?

 

- As palavras são importantes para todos. Quando não são ditas, deixam lacunas.

 

Lacunas profundas e escuras, pensou Jude, de onde brotam dúvidas e fracassos. As palavras não eram ditas se se tornavam tão dolorosas quanto os insultos.

 

- Mas, se o homem com quem se casou as tivesse dito, não estaria aqui hoje, pois não? - Quando ela piscou os olhos, em choque, o homem sorriu e acrescentou: - Ele não as diria com sinceridade. Portanto, seriam apenas mentiras convenientes. Já sabe que ele não era o homem certo para si.

 

Uma pontada de medo subiu pela espinha de Jude. Não, não de medo, compreendeu ela, ofegante. Uma emoção.

 

- Como sabe de William?

 

- Sei sobre isto e sei sobre aquilo. - Ele voltou a sorrir, descontraído.

- Eu pergunto-me porque assume a responsabilidade por tudo o que não foi culpa sua. Mas devo admitir que as mulheres sempre foram um enigma encantador para mim.

 

Jude calculou que a sua avó tivesse contado a Maude e que Maude tivesse falado com aquele homem; e é claro que não lhe agradava o facto de a sua vida pessoal - e embaraços - ser discutidas durante o chá por pessoas estranhas.

 

- Não posso imaginar que tenha algum interesse pelo meu casamento e o seu fracasso.

 

Se a frieza na voz de Jude o afectou, o seu gesto despreocupado com os ombros não o deixou transparecer.

 

- Fui sempre algo egoísta, e, no esquema geral das coisas, o que a

 

Jude já fez e o que pode fazer talvez tenham alguma influência no que eu mais quero. Mas peço desculpa se a ofendi. Como eu disse, as mulheres são um enigma para mim.

 

- Não tem importância, acho.

 

- Tem sim, desde que a Jude permita. Será que me poderia responder a uma pergunta?

 

- Depende da pergunta.

 

- Parece-me bem simples, mas é a perspectiva de uma mulher que pretendo descobrir. Poderia dizer-me, Jude, se preferiria um punhado de pedras preciosas, como estas...

 

Ele virou a mão elegante, mostrando o brilho ofuscante de diamantes e safiras, o fulgor ansioso de pérolas cremosas.

 

- Mas como...

 

- Aceitaria essas pedras, oferecidas pelo homem que sabe que tem o seu coração, ou preferiria as palavras?

 

Fascinada, Jude ergueu a cabeça. O fogo cintilante ainda ofuscava a sua visão, mas percebia agora como era intenso e ansioso o olhar do homem, a estudá-la. Ela disse a primeira coisa que lhe ocorreu, porque parecia ser a única coisa que poderia dizer:

 

- Quais são as palavras?

 

O homem suspirou, um suspiro longo e profundo. Os ombros orgulhosos descaíram, os olhos tornaram-se suaves e tristes.

 

- Então é verdade, as palavras são muito importantes. E isto... Ele abriu os dedos, deixando que o fogo cintilante das pedras caísse sobre a sepultura.

 

- Não passa de orgulho.

 

Jude ficou a olhar, quase sem respirar, enquanto as pedras se derretiam em poças de cor, que logo se transformaram em simples flores.

 

- Estou a sonhar. - Murmurou ela, sentindo a cabeça a girar.

- Adormeci.

 

- Está acordada, se se permitir a si mesma assim ficar. - Ele falava num tom incisivo agora, com uma certa impaciência. - Olhe para além do seu nariz para variar, mulher, e escute com atenção. É mágico. Mas o seu poder nada é além de amor. Foi uma lição difícil que aprendi, há muito tempo... e demorei a aprender. Não cometa o mesmo erro. Agora estão em jogo mais coisas que o seu coração.

 

O homem levantou-se, enquanto Jude permanecia paralisada. A pedra que ele usava começou a emitir faíscas. Parecia que a sua pele luzia com uma intensidade cada vez maior.

 

- Que Finn me salve. Passei a depender de uma mortal, ainda por cima uma ianque. É mágico. Olhe bem, e veja o que pode fazer.

 

Ele lançou um último olhar para Jude, com uma impaciência evidente. Ergueu as mãos para o céu, num gesto dramático, e depois desapareceu em pleno ar.

 

Foi um sonho, pensou Jude, atordoada, enquanto se levantava, cambaleando. Uma alucinação. Por causa de todo o tempo que passara a ouvir histórias de fadas, de todo o tempo que passara sozinha no chalé, a revê-las. Dissera a si mesma que eram inofensivas, mas obviamente haviam-na projectado além de um limite.

 

Ela olhou para a sepultura, coberta pelas novas flores, formando uma tapeçaria colorida. Quando um brilho intenso atraiu a sua atenção, ela baixou-se, estendeu a mão com muito cuidado entre as lindas flores e apanhou um diamante, do tamanho de uma moeda de vinte e cinco cents.

 

Era real, pensou Jude, fazendo um esforço para controlar a respiração. Podia ver o diamante, sentir o formato e o calor frio que continha.

 

Ou estava louca, ou acabara de ter a sua segunda conversa com Carrick, príncipe do mundo das fadas.

 

Jude estremeceu, esfregando o rosto com a mão livre. Muito bem, de qualquer maneira estava louca.

 

Então, por que razão se sentia tão bem?

 

Ela foi andando devagar, apertando entre os dedos o diamante de valor inestimável, como uma criança poderia fazer com uma pedra bonita. Precisava de escrever tudo o que acontecera, decidiu. De uma maneira cuidadosa e concisa. Exactamente como ele parecia, o que dissera, o que acontecera.

 

E, depois disso, tentaria encontrar alguma lógica para o que acontecera. Ela era uma mulher culta. Haveria de encontrar, com toda a certeza, algum sentido.

 

Ao começar a descer a colina, na direcção do seu chalé, avistou o pequeno carro azul na entrada, com Darcy Gallagher a sair dele.

 

Tinha vestidas umas calças de ganga e uma camisola vermelha brilhante. Os cabelos caíam pelas costas como seda preta. Um único olhar fez com que Jude suspirasse de inveja, enquanto guardava o diamante no bolso das calças.

 

Bem que gostaria, pensou ela, de pelo menos uma vez, uma única vez, ter aquela aparência deslumbrante e descuidada, aquele ar de confiança absoluta. Apertou a pedra no bolso, distraída, e pensou que teria o valor de vários diamantes.

 

Darcy avistou-a e levantou uma das mãos para proteger os olhos, enquanto acenava com a outra.

 

- Saiu para dar um passeio, hein? Está um lindo dia para isso, embora prevejam chuva para esta noite.

 

- Fui visitar a Maude.

 

E conversei com um príncipe do mundo das fadas, que me deixou um diamante com o qual provavelmente poderia comprar um pequeno país do Terceiro Mundo, antes de desaparecer em pleno ar. Com um sorriso hesitante, Jude decidiu que guardaria essa informação só para si.

 

- E eu tive uma briga com o Shawn, pelo que resolvi dar uma volta de carro, para resfriar. - Darcy olhou para os sapatos de Jude, procurando agir de forma casual. Tentou avaliar se eram mais ou menos do seu tamanho. A mulher, pensou ela, tinha um gosto fabuloso em sapatos. - Parece um pouco pálida. - Acrescentou ela, quando Jude se aproximou. - Sente-se bem?

 

- Claro. - Constrangida, Jude empurrou os cabelos para trás. A brisa soltara-os da fita. O que a fazia parecer desleixada, pensou ela, em vez de maravilhosamente desarranjada, como Darcy. - Porque não entramos e tomamos um chá?

 

- Seria óptimo, mas tenho de voltar. O Aidan já me deve estar a rogar pragas. - Ela sorriu, com um charme irresistível. - Talvez me queira acompanhar até aopub. Assim, ele ficaria distraído consigo e esquecer-se-ia de me esfolar por ter saído.

 

- Não sei... - Não, reflectiu Jude, era melhor não lidar com Aidan Gallagher, quando já tinha a cabeça nas nuvens. - Preciso de trabalhar. Tenho anotações para rever.

 

Darcy contraiu os lábios.

 

- Gosta mesmo de trabalhar, não é?

 

- Claro. - Surpresa, surpresa, pensou Jude. - Gosto muito do trabalho que estou a fazer agora.

 

- Se fosse eu, encontraria qualquer desculpa no mundo para não trabalhar. - Os olhos faiscantes contemplaram o chalé, o jardim, a longa ondulação da colina. - E morreria de solidão se morasse aqui sozinha.

 

- Pois eu acho maravilhoso. O sossego, a vista, tudo.

 

Darcy moveu os ombros, um gesto rápido de descontentamento.

 

- Mas, por outro lado, também tem Chicago para voltar. O sorriso de Jude desvaneceu.

 

- É verdade, tenho Chicago para voltar.

 

- Um dia, ainda vou ver Chicago. - Darcy encostou-se ao seu carro. - Todas as grandes cidades da América. Todas as grandes cidades do mundo. E quando eu viajar, será em primeira classe, pode ter a certeza disso. - Ela riu-se e balançou a cabeça, antes de acrescentar: - Mas, por enquanto, é melhor eu voltar, antes que o Aidan imagine um castigo terrível para mim.

 

- Espero que me volte a visitar quando tiver mais tempo.

 

Darcy lançou-lhe outra vez o seu olhar deslumbrante, enquanto entrava no carro.

 

- Tenho a noite de folga, graças a Deus. Virei mais tarde, com a Brenna. Veremos em que tipo de sarilhos a poderemos meter. Acho que está a precisar de um pouco de sarilhos.

 

Jude abriu a boca, sem ter a menor ideia do que dizer. Mas foi salva de uma resposta, pois Darcy ligou o carro e saiu para a estrada a toda a velocidade, com a mesma indiferença de Brenna.

 

                                                   CAPÍTULO 9

Há três donzelas, escreveu Jude, enquanto mastigava um biscoito amanteigado, e cada uma representa um aspecto específico das visões tradicionais da mulher. Em algumas histórias, duas são más e uma é boa, como no mito da Cinderela. Noutras, as três são irmãs de sangue ou amigas íntimas, pobres e órfãs, ou preocupadas com o pai ou a mãe doentes.

 

Algumas variações têm uma ou mais das personagens femininas a possuírem poderes místicos. Em quase todas, as donzelas são belas, bem além do que palavras poderiam descrever. A virtude, isto é, a virgindade, é vital, indicando que a inocência da sexualidade física é um ingrediente essencial para o desenvolvimento da lenda.

 

Inocência, a procura de algo, pobreza monetária, beleza física. Esses elementos repetem-se em diversas histórias, perpetuadas ao longo das gerações, que se tornaram lendas. A interferência, para o bem ou para o mal, de criaturas do outro mundo - por assim dizer - é outro elemento comum. O mortal ou os mortais da história têm uma lição a aprender ou uma recompensa a obter pelo seu comportamento altruísta.

 

A simples beleza e a inocência são quase sempre igualmente recompensadas.

 

Jude recostou-se e fechou os olhos. Sob esse ponto de vista, estava excluída, não é assim? Como não era bonita nem inocente, não tinha qualquer poder ou habilidade especial, não havia possibilidade de entrar num conto de fadas com um final feliz.

 

Não que quisesse. A mera possibilidade de um encontro cara a cara com os habitantes de uma colina das fadas ou de um castelo no céu, com alguma bruxa, boa ou má, deixava-a trémula.

 

Suficientemente trémula, tinha de admitir, para imaginar pedras preciosas a transformarem-se em flores. Cautelosa, ela enfiou a mão no bolso e tirou a pedra faiscante, para a examinar mais uma vez.

 

Apenas vidro, assegurou Jude a si mesma, muito bem lapidado, sem dúvida, a cintilar como a luz do sol. Mas vidro.

 

Uma coisa era aceitar que partilhava o chalé com um fantasma de trezentos anos. Já fora um salto e tanto. Mas podia raciocinar sobre a possibilidade, já que havia muitos estudos sobre esse tipo de fenómeno em particular, uma ampla documentação. A parapsicologia não era universalmente aceite, mas alguns cientistas respeitáveis e outras mentes sérias acreditavam nas formas de energia a que os leigos chamavam de fantasmas.

 

Por isso, ela podia lidar com a mulher no chalé. Podia racionalizar o que vira com os seus próprios olhos.

 

Mas elfos, fadas e... fosse o que fosse. Não. Dizer que se quer acreditar e declarar que realmente se acredita são duas coisas muito diferentes. Era nesse ponto que a indulgência deixava de ser inofensiva e se tornava uma psicose.

 

Não havia nenhum príncipe das fadas a vaguear pelas colinas, a visitar cemitérios para manter conversas filosóficas e depois a irritar-se com as pessoas que encontrava.

 

E esses príncipes das fadas inexistentes não lançavam diamantes de valor inestimável para americanas que não conheciam.

 

Como a lógica não parecia aplicar-se à situação, ela tinha de presumir que a sua imaginação, sempre um pequeno problema, a fizera perder o controlo.

 

Tudo o que tinha de fazer agora era voltar ao seu caminho normal, concentrar-se no trabalho. Era bem possível que tivesse passado por algum episódio psicológico. Um estado de fuga, durante o qual incorporara vários elementos da sua pesquisa. O facto de se sentir quase absurdamente saudável não tinha nada a ver. O stress dos últimos anos poderia ter desaguado naquele momento; embora o corpo estivesse óptimo, a mente poderia estar a sofrer.

 

Deveria procurar um bom neurologista e fazer um exame completo, a fim de excluir a possibilidade de um problema físico.

 

E visitar um joalheiro honesto para examinar o diamante... o vidro, corrigiu ela.

 

A primeira perspectiva assustava-a, e a segunda deixava-a deprimida. Por isso, ela desafiou a lógica, deixando as suas ideias em compasso de espera.

 

Apenas por uns poucos dias, prometeu a si mesma. Assumiria uma atitude responsável, mas não imediatamente.

 

Tudo o que desejava fazer agora era trabalhar, dedicar-se às histórias. E resistiria ao impulso de ir ao pub e passar a noite a fingir que não observava Aidan Gallagher. Em vez disso, passaria a noite em casa com os seus papéis e anotações. Depois, iria de carro até Dublin, por alguns dias, e aproveitaria para procurar um joalheiro e um médico,."

 

Faria compras, muitos livros, conheceria a cidade.

 

Uma noite inteira de trabalho, disse ela a si mesma. Depois, tiraria alguns dias para explorar os campos e as cidades, as aldeias e as colinas. Recuaria um passo lógico, um afastamento em relação às histórias que tinha vindo a recolher e analisar. Isso ajudá-la-ia a firmar a sua própria perspectiva, antes de viajar para Dublin.

 

À batida na porta da frente, os seus dedos baralharam-se no teclado do computador. E o coração disparou. Aidan, foi o seu primeiro pensamento, o que só por si a irritou. Claro que não era Aidan, disse a si mesma, enquanto corria até ao espelho para ajeitar os cabelos. Já passava muito das oito horas, pelo que ele estaria ocupado nopub.

 

Ainda assim, quando desceu, apressada, para atender, o coração batia algo descompassado. Abriu a porta, e mal teve tempo de piscar os olhos.

 

- Trouxemos comida. - Brenna entrou, com uma saca de compras apoiada na anca. - Biscoitos, batatas fritas, chocolate.

 

- E, o melhor de tudo, vinho.

 

Darcy retiniu com as três garrafas que segurava, enquanto fechava a porta com o pé.

 

-Ah...

 

Jude não levara a sério a promessa de Darcy. Não fora capaz de pensar em qualquer bom motivo para que ela e Brenna quisessem visitá-la. Mas as duas já se encaminhavam para a cozinha, num alvoroço de movimento e conversa.

 

- O Aidan tentou obrigar-me a trabalhar mais um turno esta noite, a fim de compensar pela minha saída durante a tarde, mas disse-lhe para ir dar uma volta. - disse Darcy, com a maior jovialidade, enquanto punha as garrafas de vinho no balcão. - Ele ter-me-ia acorrentado às torneiras, se eu não fosse rápida. Precisamos de um saca-rolhas.

 

- Há um na...

 

- Já o encontrei. - Brenna sorriu para Jude, enquanto tirava o saca-rolhas da gaveta. - Devia ter visto o olhar de fúria que Aidan nos lançou quando deixámos o pub. "Porque não a podem ir buscar para beber aqui?", perguntou ele, a resmungar.

 

- E depois ele viu-me a pegar nas três garrafas. - continuou Darcy, pegando em copos, enquanto Brenna abria uma garrafa. Protestou que a Jude Francês não tinha cabeça para um vinho forte, que a faríamos passar um mau bocado. Como se fosse um cachorrinho, e lhe estivéssemos a dar pedaços de comida por baixo da mesa, às escondidas. O cérebro dos homens é mesmo do tamanho de uma ervilha.

 

- Aí está uma coisa boa para o nosso primeiro brinde. Com um floreio, Brenna serviu o vinho nos três copos. - Ao cérebro minúsculo do macho da espécie.

 

Ela entregou um copo a Jude.

 

- Abençoados sejam todos eles. - Acrescentou Darcy, bebendo. Os seus olhos faiscaram para Jude, quase imóvel, aturdida. - Beba

 

também, querida. Depois, poderemos sentar-nos e discutir os altos e baixos da nossa vida sexual, só para nos conhecermos melhor. Jude bebeu um gole longo. Soltou um suspiro.

 

- Não tenho muita coisa com que contribuir para essa área da conversa.

 

Darcy riu-se, um som gutural, divertido.

 

- O Aidan está a tratar de mudar isso, não é?

 

Jude abriu aboca. Tornou a fechá-la. E decidiu que o melhor a fazer, no final de contas, era beber.

 

- Não a provoques, Darcy. - Brenna abriu um saco de batatas fritas e enfiou a mão. Piscou o olho. - Vamos embriagá-la primeiro e depois arrancamos-lhe a história toda.

 

- Quando ela estiver que nem um cacho, vou persuadi-la a deixar-me experimentar todas as suas roupas.

 

Elas falavam tão depressa, que Jude não conseguia acompanhar o ritmo.

 

- As minhas roupas?

 

- A Jude tem roupas maravilhosas. - Darcy sentou-se numa cadeira. - Não somos muito diferentes em altura e largura. Por isso, acho que algumas me servem. Quanto é que calça?

 

- Quanto calço? - Jude olhou para as botas de cano curto que usava. Deixe-me pensar...sete e meio, médio.

 

- É a medida americana. A nossa... - Darcy levantou os ombros. Bebeu um gole de vinho. - Tire esses sapatos para ver se os pés lá cabem.

 

- Tirar os meus sapatos?

 

- Isso mesmo, Jude, os seus sapatos. - Os olhos de Darcy faiscavam, enquanto tirava os sapatos de Jude. - Mais algumas bebidas e poderemos experimentar as calças.

 

- É melhor não resistir. - Aconselhou Brenna, pondo outro punhado de batatas fritas na boca. - Ela é louca por roupas, a nossa Darcy, e vai assediá-la até à morte.

 

Tão aturdida quanto se sentira à beira da sepultura de Maude naquela tarde, Jude sentou-se e tirou os sapatos.

 

- Ena! - Darcy passou a mão pelo couro, como uma mãe indulgente que acaricia o rosto do filho. - Parece manteiga, não é? – Ela levantou os olhos, o rosto radiante de pura satisfação feminina. - Isto vai ser divertido.

 

- E então o tipo meteu na cabeça, só porque o deixei levar-me a jantar fora uma vez ou outra, e porque enfiou a língua na minha boca, o que não foi de todo tão excitante quanto ele pensou, que eu teria o maior prazer e orgulho em tirar as roupas e deixar que se atirasse para cima de mim. Sexo é um bom passatempo - continuou Darcy, enquanto lambia o chocolate dos dedos -, mas em metade das vezes, talvez mais, talvez fosse melhor pintares as unhas e veres televisão.

 

- Talvez seja pelos homens que deixas andarem atrás de ti. Brenna gesticulou com o copo de vinho. - Ficam tão deslumbrados, que acabam por se atrapalhar. O que precisas mesmo, Darcy, é de um homem que seja tão cínico, egocêntrico e vaidoso como tu.

 

Jude engasgou-se com o vinho, pois com certeza o insulto causaria uma discussão. Mas Darcy limitou-se a sorrir, insinuante.

 

- E quando eu o encontrar, desde que seja rico como Midas, vou envolvê-lo neste dedo aqui. - Ela ergueu o indicador direito. - E deixar que me trate como uma rainha.

 

Brenna riu-se, enquanto pegava em mais batatas fritas.

 

- E no momento em que ele o fizer, vai aborrecer-te até que te caiam lágrimas. A Darcy é uma criatura intratável, Jude. É por isso que a amamos tanto. Já eu sou simples e objectiva. Ando atrás de um homem que me fite nos olhos, veja o que sou e quem eu sou... - Ela bebeu um gole de vinho. Soltou uma risada. - E que depois caia de joelhos e me prometa tudo.

 

- Eles nunca vêem o que tu és.

 

Chocada, Jude olhou em redor para descobrir quem havia falado. Só depois é que compreendeu que fora ela.

 

- Não? - Indagou Brenna, alteando uma sobrancelha, e tornando a encher o copo de Jude.

 

- Eles vêem um reflexo da sua própria percepção. Prostituta ou anjo, mãe ou filha. Dependendo do seu ponto de vista, os homens são compelidos a proteger, conquistar ou explorar. Ou então és uma simples conveniência... descartável.

 

- E ainda dizes que sou cínica. - Comentou Darcy com Brenna, a sorrir. - Já foste descartada alguma vez, Jude?

 

Havia um burburinho agradável no seu sangue, um remoinho adorável na cabeça. A parte lógica de Jude dizia que era o vinho. Mas o seu coração, o coração necessitado, dizia que era a companhia. Nunca havia participado numa noite só de mulheres em toda a sua vida.

 

Ela pegou numa batata frita, examinou-a, mastigou. E suspirou.

 

- Há três anos, vai fazer em Junho, casei-me.

 

- Casaste?

 

Brenna e Darcy inclinaram-se para a frente.

 

- Sete meses depois, ele chegou a casa e disse, calmamente, que sentia muito, mas estava apaixonado por outra. Achava que seria melhor, para todas as partes envolvidas, se saísse de casa naquela mesma noite e nos divorciássemos quanto antes.

 

- Mas que canalha! - Em compaixão, Brenna serviu vinho para todas. - Desgraçado!

 

- Nem tanto. Pelo menos foi honesto.

 

- Que se foda a honestidade! Espero que o tenhas esfolado vivo!

 

- Os olhos de Darcy brilhavam em fúria. - Pouco mais de seis meses de casamento, e apaixona-se por outra? O canalha mal esperou pela troca dos lençóis do leito nupcial! O que fizeste?

 

- O que fiz? - Jude franziu as sobrancelhas. - Entrei com a acção de divórcio no dia seguinte.

 

- E arrancaste-lhe tudo o que ele tinha!

 

- Não, claro que não. - Sinceramente chocada com a ideia, ela olhou aturdida para Darcy. - Cada um ficou com o que era seu. Foi uma separação muito civilizada.

 

Como Darcy parecia chocada demais para falar, Brenna tomou a iniciativa.

 

- Se queres saber a minha opinião, os divórcios civilizados são o motivo pelo qual tantos casamentos acabam. Eu prefiro uma boa discussão, gritos, loiça partida, punhos em acção. Se eu amasse bastante um homem para jurar que seria parte da sua vida, podes ter a certeza de que o faria pagar em sangue e carne por me abandonar.

 

- Eu não o amava. - No preciso instante em que as palavras saíram, Jude ficou boquiaberta. - Isto é... Não sei se o amava. Mas isso é terrível! Acabei de compreender! Não faço a menor ideia se amava William!

 

- Pois eu digo que ele era um canalha. Deverias ter-lhe dado um pontapé no rabo, com ou sem amor. - Darcy seleccionou um dos brownies que Mollie O'Toole havia feito, e deu uma mordidela, com evidente satisfação.

 

- Uma coisa posso prometer... mais do que isso, faço um juramento, aqui e agora... qualquer que seja o homem com quem estiver, serei eu a acabar. E se ele tentar acabar antes de eu estar preparada, pagará por isso pelo resto dos seus dias.

 

- Os homens não deixam mulheres como tu. - Declarou Jude.

 

- Eles deixam mulheres como eu, por ti. - Ela fez uma pausa, respirando fundo. - Desculpa. Não tive a intenção...

 

- Não te preocupes. Acho que havia um elogio no teu comentário.

 

- E, por se sentir mais satisfeita do que ofendida, Darcy apertou o braço de Jude. - E também acho que, se a tua língua já está tão solta, já deves ter tomado vinho suficiente para me deixar experimentar as tuas roupas. Vamos subir.

 

Jude não sabia o que pensar. Talvez fosse porque nunca tinha tido uma irmã para atacar o seu armário. E nenhuma das suas amigas alguma vez demonstrara qualquer interesse pelo seu guarda-roupa, além dos comentários habituais sobre um novo casaco ou fato.

 

Nunca se considerara muito elegante e tendia para as roupas clássicas e os bons tecidos.

 

Mas pelos sons abafados que saíam da cabeça de Darcy, enfiada no armário, o guarda-roupa de Jude tinha a opulência do tesouro de Aladino.

 

- Dá uma olhadela neste blusão! É de caxemira.

 

Darcy tirou do armário uma camisola de gola alta, verde-escura, com tons amarelados, e esfregou-a no rosto.

 

- É uma boa camisola para usar por cima de uma camisa grossa...

 

Jude não continuou a falar. Espantada, ficou a observar Darcy a tirar a própria camisola.

 

- É melhor procurares uma posição confortável. - Brenna acomodou-se na cama. Cruzou os tornozelos, e bebeu um gole do vinho.

 

- Ela vai passar algum tempo nisto.

 

- Macia como o rabinho de um bebé... - Darcy quase murmurava, enquanto posava em frente do espelho. - Deslumbrante, mas a cor é forte demais para mim. Acho que fica melhor em ti, Brenna. - Com uma alegria evidente, ela tirou a camisola e atirou-a para cima da cama. - Dá uma olhadela.

 

Distraída, Brenna passou os dedos pela manga da camisola.

 

- A sensação é agradável.

 

Jude sentou-se na cama, observando Darcy a experimentar uma blusa creme, de seda.

 

- Tem mais no outro quarto.

 

Darcy levantou a cabeça num movimento brusco, como um lobo ao sentir o cheiro da ovelha.

 

- Mais?

 

- Roupas mais leves e dois vestidos formais que eu trouxe, caso viesse a precisar...

 

- Volto num instante.

 

- Agora estás perdida. - Brenna falou num tom solene, enquanto Darcy saía a correr do quarto. - Nunca mais te conseguirás livrar dela.

 

Brenna pousou o copo de vinho. Abriu os botões da camisa. Enquanto um grito de êxtase vinha do outro quarto, ela enfiou a camisola pela cabeça.

 

- Mas é adorável! - Surpresa com o prazer da lã suave na sua pele, Brenna levantou-se para dar uma vista de olhos no espelho. - Pela maneira como se ajusta, até parece que tenho seios.

 

- Tens um corpo espectacular.

 

Embora nunca tivesse sido acusada de vaidade, Brenna virou-se para um lado e para o outro em frente do espelho.

 

- Mas seria óptimo se também tivesse seios de verdade. Acho que a minha irmã Maureen ficou com os meus. Eu é que deveria ter, por direito, já que sou a mais velha.

 

- Precisas de um bom soutien. - Alegou Darcy, enquanto voltava ao quarto, usando um vestido formal preto e carregando uma pilha de roupas. - Para tirares proveito do que Deus te deu, em vez de os deixares cair. Jude, este vestido é fantástico, mas precisas de diminuir dois ou três centímetros na bainha.

 

- Sou mais alta do que tu.

 

- Nem por isso. Toma. Põe o vestido para podermos verificar.

 

- Eu não...

 

Mas Darcy já estava a tirar o vestido. Confrontada por uma mulher de cuecas e soutien que lhe estendia o vestido preto, Jude teve de pegar nele. Engoliu em seco para sufocar a vergonha e despiu-se.

 

- Eu sabia que tinhas pernas bonitas. - Comentou Darcy, balançando a cabeça em aprovação. - Porque as escondes num vestido assim? Não achas que a bainha precisa de subir dois ou três centímetros, Brenna?

 

Ainda seminua, Darcy ajoelhou-se e dobrou a bainha do vestido preto. Contraiu os lábios, enquanto estudava o resultado.

 

- Três centímetros... e deves usar aqueles sapatos pretos de saltos altos, bem abertos. Ficarás irresistível.

 

Ela tornou a balançar a cabeça. Levantou-se para experimentar umas calças cinzentas compridas.

 

- Põe o vestido ali, que eu faço a bainha por ti.

 

- Não precisas...

 

- Como pagamento por me deixares experimentar as tuas roupas.

- Comentou Darcy, com um sorriso malicioso nos olhos.

 

- A Darcy é óptima com a agulha. - Garantiu Brenna. - Não precisas de te preocupar.

 

Entrando no espírito da diversão, Brenna encontrou um blazer cor de carvão e vestiu-o por cima da camisola.

 

- Experimenta com este colete... Ficará um pouco mais alegre.

 

- Sugeriu Jude, oferecendo um colete de pequenos quadrados verdes e com cor de vinho tinto.

 

- Tens um bom olho. - Darcy ofereceu um sorriso radiante de aprovação, arrematando com um rápido abraço em Jude, com um só braço.

 

- Agora, Brenna, completa com uma saia bem curta, e os homens cairão a teus pés.

 

- Não quero que caiam a meus pés. Teria muito trabalho para tirá-los da frente.

 

- Quando muitos caírem, basta passar por cima dos corpos estendidos e seguir para o próximo. - Darcy encontrou um vestido azul-cinza e vestiu a saia. - Vais dar uma cambalhota com o Aidan, não vais Jude?

 

- Uma cambalhota?

 

- Esta saia também precisa de ter a bainha levantada. Isso mesmo, uma cambalhota. Ainda não foste para a cama com ele, pois não?

 

- Eu... - Jude recuou para pegar de novo no seu copo de vinho.

 

- Não, não fui.

 

- Bem me parecia. - Darcy virou-se para examinar o casaco por trás. - Acho que terias mais brilho nos olhos se já tivesses dormido com ele. - Ela levantou os cabelos, experimentando, virou-se para um lado e para o outro. Imaginou-se a usar os lindos brincos de prata que já vira nas orelhas de Jude. - Mas vais dormir com ele, certo?

 

- Darcy, sua víbora, estás a embaraçá-la.

 

- Porquê? - Darcy deixou os cabelos caírem, para escolher entre dois pares de botas cor de marfim. - Só há mulheres aqui, e nenhuma é ainda virgem. Não há nada de errado com o sexo, não é assim, Jude?

 

Não cores, ordenou Jude a si própria. Não podes corar.

 

- Não... claro que não.

 

- Dizem que o Aidan é muito bom. - Darcy riu-se quando Jude bebeu mais vinho. - Quando dormires com ele, a Brenna e eu agradeceríamos se nos relatasses os pormenores, já que, de momento, nenhuma de nós tem um homem em particular com quem dar umas cambalhotas.

 

- Falar sobre sexo é a melhor coisa, depois de o fazer. - Brenna tirou uma camisa listrada do armário. De nós as três, pareces ser a que tem maior probabilidade de o fazer num futuro próximo. O mais perto que cheguei, em quase um ano, foi quando tive de dar um soco no Jack Brennan por me passar a mão na véspera do Ano Novo... e ainda não tenho a certeza se ele não estava apenas a estender a mão para pegar noutra cerveja, como alegou.

 

Ela descartou a camisa, sentou-se apenas de cuecas e soutien, e serviu mais vinho.

 

- Pois eu sei quando um homem me está a tentar agarrar ou a pegar na sua cerveja. - Darcy inclinou a cabeça para o lado, diante do espelho. Parecia muito elegante, pensou. Como uma dama que tinha lugares adoráveis para ir e coisas maravilhosas para fazer. - Para que usas tu um vestido como este, Jude?

 

- Para reuniões, conferências e almoços protocolares.

 

- Almoços protocolares... - Darcy suspirou. Virou-se devagar.

- Em restaurantes de luxo ou num salão de baile, com empregados de mesa de casaco branco.

 

- E a pior galinha da semana. - Acrescentou Jude, sorrindo. Sem falar no orador mais chato que o comité pôde encontrar.

 

- Dizes isso porque estás acostumada a esses almoços.

 

- Tão acostumada que viveria feliz com a certeza de que nunca mais teria de comparecer a outro. Eu era uma péssima professora.

 

- Eras mesmo?

 

Brenna voltou a encher o copo de Jude, antes de pegar na sua própria camisola.

 

- Era, sim. Detestava o planeamento de cursos, ter de conhecer as respostas e avaliar as provas. Ainda por cima, havia a política e o protocolo.

 

- Então porque o fazias?

 

Distraída, Jude olhou para Darcy. Ali estava uma mulher confiante, pensou ela, completamente à vontade consigo mesma, ainda que usando um soutien de algodão e a saia de outra mulher. Como poderia alguém tão seguro de quem e do que era compreender o que era não ter essa certeza? Simplesmente não saber?

 

- Era o que esperavam de mim. - Murmurou Jude, depois de um longo momento.

 

- E fazias sempre o que esperavam de ti?

 

Jude deixou escapar um longo suspiro. Pegou outra vez no copo de vinho.

 

- Infelizmente, sim.

 

- Ora, ora... - Dominada pela afeição, Darcy pôs a mão no rosto de Jude e beijou-a. - Daremos um jeito nisso.

 

Quando a segunda garrafa de vinho ficou vazia, o quarto estava um desastre. Brenna lembrara-se de acender a lareira, e depois trazer queijo e biscoitos. Agora estava sentada no chão, vagamente desapontada porque os sapatos de Jude eram grandes demais para ela. Não que tivesse algum lugar para os usar, mas eram elegantes ao extremo.

 

Jude estava esparramada na cama, a cabeça apoiada nos punhos, enquanto observava Darcy a experimentar intermináveis variações de roupas. A expressão apatetada no seu rosto levava Jude a especular se ela estava bêbada ou se não era boa da cabeça.

 

De vez em quando, ela soltava um soluço discreto.

 

- A primeira vez foi com Declan O'Malley. - Contou Darcy.

 

- Jurámos que nos amaríamos por toda a eternidade e mais um dia. Tínhamos dezasseis anos e fomos bastante desajeitados. Fizemo-lo em cima de um cobertor estendido pela praia, numa noite em que ambos saímos de casa às escondidas. E posso garantir que não há nada de romântico em rolar pela areia, mesmo quando se tem dezasseis anos e a inteligência de um nabo.

 

- Acho que é lindo... - murmurou Jude, imaginando o luar, o murmúrio das ondas, os dois corpos jovens a brilhar em amor e descoberta.

 

- O que aconteceu com o Declan O'Malley?

 

- Por toda a eternidade e mais um dia durou cerca de três meses para nós. Partimos para outras coisas. Há dois anos ele engravidou a Jenny Duffy. Por isso casaram-se, e tiveram uma segunda filha, para acompanhar a primeira. Parecem bastante felizes.

 

- Eu gostaria de ter filhos. - Jude virou-se para pegar no seu vinho. Começava a ter o gosto de ambrósia. - Quando o William e eu discutimos o assunto...

 

- Discutiram? - Interrompeu Brenna, enquanto voltava a encher o copo de Jude, como guardiã da garrafa.

 

- Isso mesmo. De uma maneira muito objectiva e civilizada. O William sempre foi civilizado.

 

- Acho que o William estava a precisar de um pontapé no traseiro.

 

Brenna devolveu o copo, esticando-se tanto, que o vinho transbordou, caindo algumas gotas no cabelo de Jude, enquanto ela se ria.

 

- Os alunos dele chamam-lhe Dour Powers. Era esse o seu nome, William Powers. O azedo. Sendo uma profissional moderna, é claro que eu mantive o meu nome no casamento. Por isso, não tive todo aquele trabalho que costuma ocorrer depois de um divórcio. Seja como for... O que estava eu a contar?

 

- Como Dour Powers é civilizado.

 

- Isso mesmo. William decidiu que deveríamos esperar de cinco a sete anos. Depois, se as circunstâncias fossem favoráveis, poderíamos discutir de novo a possibilidade de termos um filho. Se decidíssemos pela criança, deveríamos pesquisar e escolher a creche apropriada, as instalações pré-escolares. Assim que soubéssemos o sexo da criança, determinaríamos qual o plano educacional a adoptar, até à universidade.

 

- Universidade? - Darcy virou-se. - Já estavam a pensar na universidade antes do bebé nascer?

 

- O William gostava de prever tudo com bastante antecedência.

 

- Idiota.

 

- Provavelmente ele não é tão mau quanto o estou a fazer parecer.

 

- Jude franziu o rosto para o vinho. - Provavelmente. Ele é muito mais feliz com a Allyson.

 

Para sua surpresa, as lágrimas vieram aos seus olhos, enquanto acrescentava:

 

- Simplesmente não era feliz, estando casado comigo.

 

- O desgraçado... - cheia de compaixão, Darcy abandonou o armário, e foi sentar-se na cama. Passou o braço pelos ombros de Jude.

 

- Ele não te merecia.

 

- Nem por um minuto. - Concordou Brenna, apertando o joelho de Jude. - Chato, pomposo, armado em conquistador. És cem vezes melhor do que qualquer Allyson.

 

- Ela é loira. - Murmurou Jude, fungando. - E tem pernas que sobem até às orelhas.

 

- Loira de farmácia, posso apostar. - Declarou Darcy, decidida.

 

- E tens pernas maravilhosas. Deslumbrantes. Não consigo desviar os meus olhos delas.

 

- É verdade?

 

Jude passou a mão por baixo do nariz.

 

- São fabulosas. - Brenna apertou a barriga da perna de Jude.

 

- Aposto que ele vai para a cama, todas as noites, cheio de arrependimento por te ter perdido.

 

- Que se dane! - Explodiu Jude. - O filho da mãe era um chato! A Allyson que fique com ele!

 

- Provavelmente ele nem sequer consegue fazê-la vir-se. Comentou Darcy, levando Jude a cair nas gargalhadas.

 

- Bem, eu certamente nunca ouvi os anjos a cantarem. É sensacional. - Jude esfregou a base das mãos sobre o rosto, para o enxugar.

 

- Nunca tive amigas que aparecessem em minha casa, apanhassem uma bebedeira comigo e espalhassem as minhas roupas por toda a parte.

 

- Podes contar connosco para isso. - Prometeu Darcy, apertando-a com firmeza.

 

A dado momento, durante a terceira garrafa de vinho, Jude contou o que vira - o que pensara ter visto - no velho cemitério.

 

- Acho que vem pelo sangue. - Murmurou Darcy, balançando a cabeça, com um ar de entendida. - A velha Maude tinha a visão, e às vezes conversava com a Boa Gente.

 

- Ora, deixa de inventar coisas!

 

Darcy alteou uma sobrancelha elegante ao comentário de Jude.

 

- E isso de uma mulher que acaba de descrever dois encontros com um príncipe das fadas.

 

- Nunca disse isso. Apenas disse que me encontrei duas vezes com esse homem estranho. Ou pensei ter encontrado. Devo estar com um tumor no cérebro.

 

Brenna fez uma careta à sugestão.

 

- Não digas idiotices. És saudável como uma égua.

 

- Se não for isso, se não há uma causa física, então estou louca. Sou psicóloga... ou melhor, fui psicóloga, embora um tanto medíocre. Mas ainda tenho treino suficiente para reconhecer os sintomas de uma grave disfunção mental.

 

- Porque seria assim? - Indagou Brenna. - Tanto quanto sei, és a mais sensata das mulheres. A minha mãe acha que, por causa disso e pelo teu comportamento de dama, serás uma boa influência para mim.

 

- Em grande jovialidade, Brenna deu um soco leve no braço de Jude, acrescentando: - Mas gosto de ti apesar disso.

 

- Gostas mesmo, não é?

 

- Claro que sim. A Darcy também gosta, e não apenas por causa das tuas lindas roupas.

 

- Claro que não gosto da nossa Jude apenas pelas suas roupas.

 

- O tom de Darcy parecia dizer que considerava a simples ideia como um insulto. - Gosto dela também pelas suas jóias! - Com isso, ela desatou a rir. - Estou a brincar. Claro que gostamos de ti, Jude. És uma companhia divertida e um enigma maravilhoso durante metade do tempo.

 

- Isso é óptimo. - Os olhos de Jude voltaram a ficar cheios de lágrimas. - É um prazer ter amigas, ainda para mais quando se está a morrer de cancro no cérebro ou a comportar como uma louca desvairada.

 

- Não és nenhuma das duas coisas. - Declarou Brenna. - Apenas viste Carrick, do mundo das fadas. A vaguear pelas colinas, por cima da sua fortaleza, à espera de Lady Gwen.

 

- Acreditam mesmo nisso? - Parecia possível agora, de um modo que não o fora apenas umas horas atrás... de uma maneira que ela não permitira. - Acreditam em fortalezas de outro mundo, fantasmas e feitiços que se prolongam pelos séculos? Não estão a dizer isso apenas para me fazerem sentir melhor?

 

- Claro que não. - Envolta pelo roupão grosso de Jude, Brenna pegou no que restava do chocolate. - Acredito em muitas coisas, até prova do contrário. Tanto quanto sei, ninguém alguma vez provou de forma absoluta e incontestável que não há fortalezas de fadas sob as nossas colinas... e as pessoas dizem que existem com mais frequência do que negam.

 

- É isso mesmo! - Embora estivesse tonta devido ao vinho, o entusiasmo de Jude era intenso quando deu uma palmada no ombro de Brenna. - Exactamente o que eu penso! As lendas são perpétuas e muitas vezes adquirem um verniz de verdade pela repetição. O Artur da história torna-se o Artur da lenda, com o acréscimo de espadas mágicas e Merlim. Vlad, o Destruidor, torna-se um vampiro. As sábias mulheres, as curandeiras das aldeias, tornam-se feiticeiras. E assim por diante. A tendência humana para expor, extrapolar, enfeitar com a fantasia, para tornar uma história mais fascinante, faz com que um relato se transforme em lenda, que certos grupos absorvem na sua cultura como um facto.

 

- Oiçam só o que ela diz! Como gosta de falar de fantasia e lenda!

- Darcy, feliz por estar a usar uma camisola de caxemira, contraiu os lábios, absorta nos seus pensamentos. - Tenho a certeza, Jude querida, de que há alguma coisa profunda e milagrosa no que tu disseste, apesar da tua alegação acerca de seres uma psicóloga medíocre. Mas, de momento, parece-me tudo um monte de palermice. Viste ou não o Carrick do mundo das fadas?

 

- Vi alguém. Ele não me disse o seu nome.

 

- E esse alguém desapareceu em pleno ar, diante dos teus olhos? Jude franziu o rosto.

 

- Foi a impressão que eu tive, mas...

 

- Não, nada de mas, apenas os factos. Não é assim que se faz, em termos lógicos? Se ele falou contigo, é porque quer alguma coisa de ti. Nunca soube, em toda a minha vida, que ele tenha falado com outra pessoa além da velha Maude. Sabes de mais alguém, Brenna?

 

- Não. Tiveste medo dele, Jude?

 

- Claro que não.

 

- Isso é óptimo. Acho que saberias se ele tivesse a intenção de te causar algum mal. Creio que ele apenas se sente solitário, esperando a mulher que ama... há trezentos anos. - Brenna fez uma pausa, com uma expressão ansiosa. - É um consolo saber que o amor pode durar tanto tempo.

 

- És mesmo uma romântica incurável, Brenna. - Darcy bocejou e enroscou-se numa poltrona. - O amor dura enquanto houver anseio. Se os dois ficarem juntos, é bem provável que estejam a discutir e a resmungar um com o outro em seis meses.

 

- Nunca tiveste um homem com coragem suficiente para dominar o teu coração.

 

Darcy fez um gesto de indiferença com os ombros e aconchegou-se ainda mais.

 

- E não tenho a menor intenção de oferecer essa oportunidade a ninguém. Controlar o coração dos homens deixa-te no comando da situação. Se permitires que eles controlem o teu, vais afundar-te num instante.

 

- Acho que eu gostaria de estar apaixonada. - Jude fechou os olhos. - Mesmo que doesse. Não te podes sentir insignificante se estás apaixonada, certo?

 

- Certo, mas com certeza podes sentir-te estúpida. - Murmurou Brenna.

 

Jude riu-se, enquanto mergulhava no sono.

 

                                           CAPÍTULO 10

Pequenos dançarinos, usando sapatos com grossas solas de madeira, sapateavam na cabeça de Jude quando ela acordou. Podia contar as batidas, o ritmo forte a ressoar nas suas têmporas. Era mais desconcertante do que desagradável. Os seus olhos tremeram quando os abriu.

 

A claridade foi um choque. Voltou a fechá-los. Depois, com mais cautela, tornou a abri-los, apenas um pouco.

 

Havia roupas espalhadas por todo o lado. De início, ela pensou que tinha havido uma tempestade, como o tornado que levara Dorothy a Oz, dispersando as suas coisas pelo quarto.

 

Isso explicaria porque estava deitada enviesada na cama, seminua, de barriga para baixo.

 

Ao ouvir uma fungadela por baixo da cama, prendeu a respiração, para logo a soltar muito depressa. Imaginou roedores, na melhor das hipóteses. Na pior, tinha a certeza de que era um daqueles bonecos maníacos que adquirem vida e arranjam uma faca para cortar as mãos e os pés das pessoas, se forem bastante incautas ao ponto de os deixarem a pender para fora da cama, durante a noite.

 

Tinha pesadelos com esses bonecos assustadores desde a infância, e nunca, mas nunca mesmo, deixava qualquer parte do corpo estendida além da cama. Afinal, nunca se sabe...

 

Mas, fosse o que fosse que estivesse em baixo, ela encontrava-se sozinha com a coisa, e tinha de se defender. Por sorte, havia um escarpim de camurça azul-marinho em cima da travesseira. Sem pensar numa explicação para a presença do sapato ali, Jude empunhou-o, como uma arma, e preparou-se para o combate.

 

Arrastou-se para a beira da cama, rangendo os dentes. Deu uma olhada, preparada para fazer o que fosse necessário.

 

Brenna estava no chão, envolta pelo roupão grosso de Jude, como uma múmia, a cabeça sobre uma pilha de camisolas, com uma garrafa de vinho vazia a seus pés.

 

Jude ficou aturdida. Apertou os olhos com força e tornou a abri-los.

 

As provas estavam ali, pensou ela. Eram irrefutáveis. Garrafas de vinho, copos, tigelas vazias, roupas espalhadas.

 

Não sofrera uma invasão de roedores ou bonecos malignos. Fora anfitriã de uma festa em que todas as participantes acabaram por ficar bêbadas.

 

O riso foi subindo pela sua garganta. Teve de comprimir o rosto contra os lençóis emaranhados, às pressas, com medo de acordar Brenna, e ter de explicar porque se projectara pela beira da cama, rindo-se como uma louca.

 

Os seus amigos, parentes e colegas não ficariam chocados se pudessem testemunhar aquela cena do dia seguinte? Com as mãos a comprimir a barriga dolorida, ela virou-se e olhou para o tecto, feliz. A diversão que tinha em Chicago envolvia sempre jantares ou reuniões meticulosamente planeados, com a música de fundo seleccionada com tanto cuidado quanto o vinho apropriado.

 

E se alguém bebia demais, o problema era sempre tratado com a devida discrição. A anfitriã nunca desmaiava na sua cama; em vez disso, acompanhava graciosamente cada convidado até à porta, e depois arrumava a bagunça.

 

Jude nunca tivera ninguém a dormir no chão do seu quarto. E nunca acordara na manhã seguinte com o que só poderia ser chamado de ressaca.

 

Mas gostava disso.

 

E gostava tanto, que queria escrever a respeito disso no seu diário imediatamente. Saiu da cama, estremecendo. Depois sorriu, quando a cabeça começou a latejar. A sua primeira ressaca. Era maravilhoso!

 

Deixou o quarto na ponta dos pés, encantada com a perspectiva de registar tudo no diário. Depois, tomaria um duche, e faria o café. Prepararia um lauto pequeno-almoço para as suas hóspedes.

 

Hóspedes... lembrou-se ela abruptamente. Onde estava Darcy?

 

Jude teve a resposta no instante em que entrou no pequeno escritório. O volume sob as coberturas na pequena cama só poderia ser Darcy, o que significava que as anotações no diário teriam de esperar mais um pouco.

 

Não tinha importância, pensou Jude, divertida e feliz pelo facto das suas novas amigas se terem sentido suficientemente à vontade na sua casa para lá passarem a noite. Apesar da cabeça dolorida, ela quase dançou debaixo do chuveiro.

 

Fora a melhor noite da sua vida. Não se importava se isso parecia patético, pensou ela, enquanto baixava a cabeça sob o jacto quente. Fora mesmo maravilhosa... a conversa e o riso, as tarouquices. Aquelas duas mulheres interessantes haviam-na procurado, apreciado a sua companhia, fazendo com que ela se sentisse parte do que partilhavam.

 

Uma amizade. Tão simples assim. E não dependera do lugar em que ela estudara, o que fazia para ganhar a vida, onde fora criada. Só importava o que ela era, o que tinha a dizer, como se sentia.

 

E nem um pouco a ver com o seu guarda-roupa, pensou Jude, com um pequeno sorriso. Mas as suas roupas eram um reflexo do que ela era, não é assim? Pelo menos um reflexo de como se via. E porque não deveria sentir-se lisonjeada quando uma mulher bela como Darcy Gallagher admirava as suas roupas?

 

Ainda a sorrir, Jude saiu do chuveiro para se enxugar. Tomou duas aspirinas, que estavam guardadas no pequeno armário de remédios. Enrolou a toalha no corpo, pensando que bastaria atravessar o quarto para encontrar uma roupa no chão. Saiu da casa de banho com os cabelos húmidos.

 

O seu primeiro grito estridente poderia partir o vidro... e deixou a garganta dorida, fez a cabeça maltratada girar ainda mais. O segundo foi mais como um ganido, enquanto segurava na toalha e olhava, atordoada, para Aidan.

 

- Desculpa assustar-te, querida, mas bati na porta... da frente e das traseiras... antes de entrar.

 

- Eu estava... a tomar duche.

 

- Dá para perceber.

 

E era um banquete para os olhos, decidiu Aidan, toda rosada e molhada, os cabelos grudados em mechas nos ombros. Castanhos, abundantes e brilhantes, contra aquela pele branca e rosada.

 

Um homem precisava de recorrer a toda a sua força de vontade para não avançar e dar uma mordidela em alguma parte do corpo.

 

- Tu... não podes entrar assim.

 

- A porta das traseiras estava destrancada, como costuma acontecer por aqui. - Ele continuava a sorrir e a fitá-la nos olhos. Embora fosse tentador... mais do que tentador... deixar o olhar vaguear por outras regiões. - Vi a carrinha da Brenna estacionada à frente da casa, e calculei que ela e a Darcy ainda estivessem aqui. Estão as duas em casa, certo?

 

- Estão, mas...

 

- Vim buscar a Darcy. Ela trabalha no turno do almoço hoje e tende a esquecer essas coisas.

 

- Não estamos vestidas.

 

- Já reparei, querida, e tentei não fazer um comentário expresso. Mas já que o mencionas, devo dizer que estás ainda mais adorável esta manhã. Viçosa como uma rosa e... - Ele deu um passo à frente e inspirou fundo. - E duas vezes mais cheirosa.

 

- Como é que alguém pode dormir com toda essa conversa alta aí fora! - A voz de Brenna irrompeu do quarto, provocando um sobressalto em Jude. - Beija-a de uma vez, Aidan, para a fazeres parar de falar, antes que os meus ouvidos expludam!

 

- Era o que eu estava prestes a fazer.

 

- Não!

 

O grito foi de tal forma estridente e ridículo, que Jude desejou, nesse mesmo instante, ser enterrada viva. O melhor que pôde fazer, no entanto, foi correr para o quarto e pegar numa camisola. Antes que ela pudesse vasculhar a pilha de roupa para pegar numas calças, Aidan entrou no quarto.

 

- Santa Mãe de Deus, que ritual feminino secreto resultou nessa desordem?

 

- Queres fazer o favor de pôr uma rolha nessa boca, Aidan? A minha cabeça vai cair dos ombros.

 

Ele abaixou-se ao lado da massa emaranhada de cabelos ruivos.

 

- Tu sabes que o vinho te deixa mal, menina, se exagerares um pouco.

 

- Não havia cerveja. - Murmurou Brenna.

 

- O que se pode fazer num caso desses, não é? Mas eu trouxe o Cura Ressacas Gallagher.

 

- Trouxeste mesmo? - Ela virou-se, erguendo o rosto pálido e os olhos avermelhados, enquanto segurava a sua mão. - Juras? Deus te abençoe, Aidan. Este homem é um santo, Jude. Um santo, posso garantir. Deveria haver um monumento para ele na praça de Ardmore.

 

- Quando te conseguires levantar, dá um pulo até à cozinha. Trouxe uma caneca, para qualquer emergência. - Ele deu um beijo suave na testa de Brenna. - Onde está a minha irmã?

 

- No segundo quarto, que serve como meu escritório.

 

Jude esforçou-se para falar com uma dignidade fria, enquanto comprimia as suas roupas contra os seios.

 

- Há muita coisa quebrável lá? Como?

 

Aidan ergueu-se.

 

- Não prestes muita atenção aos gritos e ao barulho de coisas partidas. Farei o meu melhor para reduzir ao mínimo possível os danos materiais.

 

No momento em que ele saiu do quarto, Jude perguntou a Brenna, enquanto vestia as calças longas:

 

- O que queria Aidan dizer com aquilo?

 

- Ahm... - Brenna bocejou. - Apenas que Darcy não acorda de muito bom ânimo.

 

Ao primeiro grito, Brenna comprimiu as mãos contra a cabeça e gemeu. Chocada, Jude enfiou a camisola pela cabeça, e correu na direcção dos gritos e das pragas.

 

- Tira as mãos de cima de mim, seu babuíno de coração negro! Vou dar-te biqueiros no rabo até quinta-feira!

 

- O teu rabo é que vai levar uns biqueiros, menina, se não saíres da cama e fores para o trabalho.

 

Se as palavras e o tom furioso com que eram pronunciadas deixaram Jude chocada, isso não foi nada em comparação com o impacto visual. Ela entrou a correr no quarto, a tempo de ver Aidan, de rosto sombrio e determinado, a arrastar Darcy da cama para o chão. A irmã estava apenas de cuecas e soutien.

 

- Pára com isso, seu estúpido!

 

Compelida a proteger a sua nova amiga, Jude avançou. A ordem e o movimento distraíram Aidan pelo tempo suficiente para que Darcy cerrasse o punho, mostrasse os dentes e acertasse um soco em cheio na virilha no irmão.

 

Jude não tinha a certeza se o som que ele emitiu era humano. Dividida entre outra onda de choque e uma intensa satisfação feminina, da qual não se sentia nem um pouco orgulhosa, ela observou Aidan a dobrar-se todo, enquanto Darcy o atacava como uma loba.

 

- Ui! Fogo! Que dor!

 

Ele fez o que podia para se defender, enquanto a irmã batia, puxava e mordia, exactamente como ele lhe ensinara. Ainda ofegando do primeiro golpe, Aidan conseguiu finalmente imobilizá-la.

 

- Um dia desses, Darcy Alice Mary Gallagher, vou esquecer-me de que és mulher e vou acertar-te com um soco em cheio.

 

- Anda lá, seu idiota! - Ela soprou os cabelos da frente dos olhos.

- Acerta agora!

 

- Partiria a minha mão na tua cara. Por mais bonitinha que seja, a pele está esticada sobre um crânio de rocha.

 

Um momento depois, eles sorriram um para o outro. Aidan passou a mão pelo rosto da irmã, num gesto que era ao mesmo tempo de afeição e exasperação. Jude continuou a fitá-los, aturdida, enquanto se levantavam.

 

- Veste-te de uma vez, sua mulher sem vergonha, e vamos para o trabalho.

 

Darcy empurrou os cabelos para trás. Parecia não estar nem um pouco perturbada pela briga recente.

 

- Jude, podes emprestar-me a camisola azul de caxemira?

 

- Claro.

 

- És um amor! - Ela fez uma pirueta, dando um beijo no rosto de Jude. - Não te preocupes. Arrumarei tudo o que puder antes de ir.

 

- Não faz mal. Vou fazer um café.

 

- Seria óptimo. Chá ainda melhor, se tiveres.

 

- Café? - Repetiu Aidan, enquanto saía do quarto. - Acho que me deves pelo menos uma chávena.

 

- Devo?

 

Ele deu um passo na direcção de Jude.

 

- É a segunda vez que me distrais numa batalha, fazendo com que leve um golpe do qual me teria esquivado com facilidade. E podes morder o lábio para disfarçar o sorriso, mas dá para ver que os teus olhos estão a rir-se.

 

- Tenho a certeza que estás enganado. - Jude desviou os olhos, num gesto deliberado, - Mas farei o café.

 

- Como está a tua cabeça esta manhã? - Perguntou Aidan, enquanto descia as escadas atrás dela.

 

- Muito bem.

 

Ele alteou uma sobrancelha.

 

- Não há efeitos colaterais do excesso de uvas espremidas?

 

- Talvez um pouco de dor de cabeça. - Jude era orgulhosa demais para se deixar embaraçar. - Tomei aspirina.

 

- Tenho uma coisa melhor.

 

Aidan esfregou a mão casualmente na nuca de Jude, encontrando milagrosamente o ponto que a deixava com vontade de ronronar. Foi até ao balcão quando entraram na cozinha. A caneca em que pegou estava cheia de um líquido vermelho-escuro, de aparência perigosa.

 

- O Cura Ressacas Gallagher. Vai deixar-te completamente recuperada.

 

- Parece horrível.

 

- O sabor não é assim tão mau, embora haja quem diga que precisa de melhorar muito. - Ele pegou num copo do armário. - Quando um homem serve bebidas alcoólicas como meio de vida, é obrigado, pela honra, a ter uma cura para a manhã seguinte.

 

- É apenas uma dor de cabeça.

 

Jude estudou o copo que ele enchera, desconfiada.

 

- Pois então bebe apenas um pouco, e eu farei o pequeno-almoço.

 

- A sério?

 

- Um pouco disto, um pouco daquilo, e um pouco de cama. - Ele entregou o copo. Jude estava pálida, com olheiras. A vontade de Aidan era aconchegá-la até que se sentisse bem. - Vais acordar esquecida de que tiveste uma orgia hedónica na noite passada.

 

- Não foi uma orgia, pois não havia nenhum homem.

 

Aidan sorriu, jovial, nesse mesmo instante.

 

- Podes convidar-me na próxima vez. Bebe um pouco, depois faz o café, e o chá também. Podes deixar que eu trato do resto.

 

Era um óptimo complemento para a noite, ter um homem bonito a preparar o pequeno-almoço na sua cozinha. Era mais uma coisa que nunca lhe acontecera antes.

 

Era espantoso, pensou Jude, como uma vida podia mudar tão depressa e de uma forma tão completa. Ela tomou um gole da bebida, descobrindo que era mais tolerável do que imaginara. Enquanto tomava o resto, pôs a chaleira com água no fogão.

 

- Jude, não tens salsichas. Nem bacon.

 

Ela achou engraçado o choque contido na voz de Aidan.

 

- Eu não como essas coisas.

 

- Não comes? Então, como fazes o pequeno-almoço?

 

Porque o choque já não era tão contido, Jude resolveu provocá-lo. Imagina só, pensou ela, fazer flirt antes do pequeno-almoço.

 

- Por norma, pondo uma fatia de pão de trigo integral na torradeira e baixando a alavanca.

 

- Apenas uma torrada?

 

- E meia toranja ou uma chávena de qualquer fruta fresca que tenha em casa. Mas de vez em quando, confesso, perco a cabeça e como uma tosta inteira, com um queijo cremoso light.

 

- E é a isso que uma pessoa sensata chama de pequeno-almoço?

 

- É, sim. Um pequeno-almoço saudável.

 

- Os ianques... - Aidan balançou a cabeça, enquanto pegava nos ovos. - Eu gostaria de saber. É por pensarem que viverão para sempre e porque querem isso, que se negam a muitos prazeres básicos da vida?

 

- Consigo de alguma forma sobreviver, dia após dia, sem mastigar carne de porco cheia de gordura.

 

- Estamos algo irritados esta manhã, não é? Pois não ficarias assim, se tivesses um pequeno-almoço adequado. Mas faremos o que for possível por ti.

 

Jude virou-se, disposta a resmungar com ele. Mas com a mão que segurava os ovos, Aidan puxou-a pela nuca e deu uma pequena mordidela no seu lábio inferior. Antes que Jude recuperasse, ele acrescentou um beijo longo e suave, que drenou os poucos pensamentos que ainda restavam na sua cabeça.

 

- Tens de fazer isso antes do pequeno-almoço? - Protestou Brenna.

 

- Claro. - Aidan desceu aquela mão maravilhosa pela espinha de Jude e subiu em seguida. - E, claro, se depender da minha vontade.

 

- Já é bastante horrível entrares aqui a fazer imenso barulho, acordando um corpo cansado.

 

De rosto franzido, vestindo o roupão que usara na noite anterior, Brenna seguiu directamente para a caneca. Despejou um pouco do Cura Ressacas Gallagher num copo. Bebeu e fitou Aidan, de olhos contraídos.

 

- Estás a fazer o pequeno-almoço?

 

- Ia começar a fazer. Pareces um pouco pálida esta manhã, Mary Brenna. Também queres um beijo?

 

Ela fungou, mas depois sorriu.

 

- Não me importaria.

 

Aidan largou os ovos. Avançou e levantou-a pelos cotovelos. Quando ela gritou, ele deu um beijo estalante nos seus lábios.

 

- Aí está, o suficiente para que o rosa voltasse às tuas faces.

 

- É por causa de dois goles do Cura Ressacas Gallagher. - Declarou Brenna, fazendo-o rir.

 

- Queremos sempre agradar. A minha irmã ainda está a pé?

 

- Debaixo do chuveiro e ainda a rogar-te pragas. Como eu também faria, se não fosses tão liberal com os teus beijos.

 

- Se Deus não quisesse que os lábios de uma mulher fossem beijados, não os teria feito tão acessíveis. Tens batatas na despensa, Jude?

 

- Acho que... sim, tenho.

 

Liberal com beijos? Jude acompanhara divertida a encenação descontraída e afectuosa, mas agora ficou preocupada, querendo saber o que significava "liberal com beijos", enquanto Aidan lavava algumas batatas e as punha numa panela com água para cozer. Significava que ele saía por aí agarrando todas as mulheres que encontrava? Tinha charme suficiente para isso.

 

E habilidade.

 

E aparência.

 

Mas que diferença poderia fazer? Eles não tinham o que qualquer um chamaria de relacionamento. Ela não queria um relacionamento. De forma alguma.

 

Apenas queria saber se era uma entre muitas ou se - por uma vez

- era alguma coisa mais especial. Só uma vez, ser especial para alguém.

 

- Aonde foste nos sonhos? - Perguntou Aidan.

 

- A lado nenhum.

 

Ela ocupou-se do café. Tentou não sentir qualquer estranheza quando Brenna vasculhou os armários à procura de pratos e talheres.

 

Nunca tivera pessoas que se mostrassem tão à vontade na sua casa. Era uma surpresa descobrir que gostava. Fazia com que se sentisse parte de algo cordial e simples.

 

Não importava se Brenna era bastante eficiente para intimidar um robô bem programado. Também não importava se Darcy era tão bonita, que todas as outras mulheres pareciam insípidas em comparação.

 

Nem sequer importava se Aidan beijava uma centena de mulheres, antes do pequeno-almoço, em cada dia da semana.

 

Num período de poucas semanas, eles haviam-se tornado seus amigos. E davam a impressão de que não esperavam dela qualquer outra coisa além de ser o que era.

 

O que constituía um milagre, pequeno, mas precioso.

 

- Porque não estou a sentir o cheiro de bacon frito? - Perguntou Darcy, ao entrar na cozinha.

 

- A Jude não tinha em casa. - Explicou Aidan. Jude sorriu, enquanto Darcy se servia de café.

 

- Comprarei algum. Para a próxima vez.

 

O sentimento persistiu em Jude pelo resto do dia, a afeição, uma suave alegria. Durante o pequeno-almoço, combinou uma viagem a Dublin com Darcy para fazer compras, um almoço no domingo na casa dos OToole, e outra sessão de histórias com Aidan.

 

Não foi convidada a ir ao pub naquela noite. Presumiu-se que ela iria. E era muito melhor assim. Quando fazemos parte de alguma coisa, reflectiu ela, não é preciso que nos chamem.

 

A cozinha cheirava a batatas fritas e café. O sino de vento lá fora retinia com a brisa. Ao levantar-se para ir buscar mais café, Jude avistou Betty, a correr frenética atrás de um coelho aos saltos, pela colina salpicada de flores silvestres.

 

Jude gravou tudo na sua mente, prometendo a si mesma que se lembraria daquele momento quando se estivesse a sentir deprimida ou solitária.

 

Mais tarde, quando estava sozinha, preparada para o trabalho, experimentou a sensação de que a casa ainda retinha todo o calor e energia. Por isso, escreveu no seu diário:

 

É estranho que eu nunca tenha compreendido que é isto o que quero. Um lar. Um lugar onde as pessoas de quem eu gosto e que gostam de mim apareçam sempre que quiserem. E se sintam à vontade. Talvez, no final de contas, não fosse solidão o que eu procurava, quando voei de uma maneira tão precipitada para a Irlanda, mas o que encontrei aqui nas últimas horas. Companheirismo, riso, alegria descontraída... e romance.

 

Creio que não compreendia porque nunca me permiti desejar essas coisas. Agora, mesmo sem o desejo, é o que tenho.

 

É um tipo de magia, não é assim? Muito parecido com as histórias de fadas, feitiços, cavalos alados. Sou aceite aqui, não pelo que faço, ou pelo lugar de onde venho, ou pela escola em que estudei. Sou aceite por quem eu sou. Por quem estou finalmente a permitir-me ser, o que é ainda mais importante.

 

Quando for almoçar na casa dos o'Toole, não me irei sentir tímida ou constrangida. Em vez disso, vou divertir-me. E quando for fazer compras com a Darcy, estou decidida a comprar alguma coisa extravagante e inútil. Porque será divertido.

 

E na próxima vez em que Aidan aparecer no meu jardim, talvez eu o tome como amante. Porque desejo-o. Porque ele me faz sentir de uma maneira como nunca me senti antes. Totalmente feminina.

 

E também, é claro, porque será divertido.

 

Com um aceno de cabeça, satisfeita, ela trocou os documentos no ecrã. Passou a fazer rever uma parte do seu trabalho. Movimentando o ecrã, conferindo as anotações, entrou na rotina de pesquisa e análise. Estava absorvida numa história da troca de bebé de um camponês, quando o telefone tocou.

 

Com a mente ainda concentrada no dilema do camponês, Jude levantou o auscultador.

 

- Estou?

 

- Espero não estar a interromper o teu trabalho, Jude.

 

Ela olhou para o ecrã. Fez um esforço para sintonizar a voz da mãe.

 

- Não estou a fazer nada importante. Olá, mãe. Como tens passado?

 

- Muito bem. - A voz de Linda Murray era refinada e suave, um pouco controlada. - O teu pai e eu resolvemos aproveitar o fim do semestre. Passaremos alguns dias em Nova Iorque, para ir a uma exposição no Whitney e assistir a uma peça.

 

- Vai ser óptimo. - Ela sorriu, ao pensar no quanto os pais apreciavam a companhia um do outro. Um perfeito encontro de mentes.

- Tenho a certeza de que se divertirão.

 

- E muito. A tua companhia seria bem-vinda, se quiseres apanhar um avião e encontrar-te connosco, caso estejas cansada da vida no campo.

 

Um perfeito encontro de mentes, pensou Jude de novo. E ela nunca fora capaz de participar naquela fascinante unidade.

 

- Agradeço o convite, mas estou bem. E estou a adorar tudo aqui.

 

- Ah sim? - Havia uma ligeira surpresa na voz. - Sempre foste parecida com a tua avó, que manda cumprimentos, antes que eu me esqueça.

 

- Dá-lhe também os meus cumprimentos.

 

- Não achas o chalé algo rústico?

 

Jude pensou na sua reacção inicial - sem microondas, sem abrelatas eléctrico - e sorriu para si própria.

 

- Tenho tudo o que é necessário. Há flores a desabrochar perto das janelas. E começo a reconhecer alguns pássaros.

 

- Isso é óptimo. Pareces descansada. Espero que planeies passar algum tempo em Dublin, enquanto estiveres aí. Dizem que a cidade tem galerias de arte maravilhosas. E é claro que vais querer visitar o Trinity College.

 

- Já planeei passar um dia em Dublin na próxima semana.

 

- Ainda bem. Uma pausa na vida rural é fundamental. Não queres que a tua mente fique estagnada.

 

Jude abriu a boca para falar. Tornou a fechá-la. Respirou fundo.

 

- Estou a trabalhar no meu ensaio agora. Encontrei bastante material. E resolvi aprender jardinagem.

 

- A sério? Um passatempo adorável. Pareces feliz, Jude. Fico contente por isso. Há muito que não parecias feliz.

 

Jude fechou os olhos, sentindo o ressentimento borbulhante a desvanecer.

 

- Sei que estiveste preocupada comigo. Sinto muito. Estou realmente feliz aqui. Acho que eu precisava apenas de me afastar de tudo por algum tempo.

 

- Admito que o teu pai e eu ficámos preocupados. Parecias apática e insatisfeita.

 

- As duas coisas aconteciam.

 

- O divórcio foi difícil para ti. Compreendi isso melhor do que tu. Foi muito repentino, definitivo. Apanhou toda a gente de surpresa.

 

- A mim apanhou-me de surpresa, com toda a certeza. - Disse Jude, sarcástica. - Não deveria. Eu teria sabido o que estava para acontecer se tivesse prestado mais atenção.

 

- É possível.

 

Jude estremeceu pela fácil concordância da mãe, enquanto Linda acrescentava:

 

- Mas isso não muda o facto do William não ser o homem que pensávamos. E esse é um dos motivos pelos quais telefonei, Jude. Achei que seria melhor saberes por meu intermédio, em vez de ouvires as coscuvilhices ou receberes uma carta de alguma conhecida.

 

- O que aconteceu? - Jude sentiu que alguma coisa na sua barriga se contraía. - Foi com o William? Ele está doente?

 

- Não. Muito pelo contrário. Parece estar a florescer cada vez mais.

 

Jude sentiu-se aturdida com a súbita e indisfarçada amargura na voz da mãe.

 

- Ainda bem.

 

- Tens uma natureza mais clemente do que a minha. - Disse Linda, com uma voz ríspida. - Eu adoraria se ele contraísse alguma doença debilitante rara ou pelo menos ficasse careca e desenvolvesse um tique facial.

 

Surpreendida com a violência atípica na voz da mãe, tanto quanto pelo sentimento, Jude desatou a rir.

 

- Isso é terrível! Adorei! Mas não imaginava que sentisses isso em relação ao William.

 

- O teu pai e eu fizemos o melhor possível para manter uma fachada polida, a fim de tornar tudo mais fácil para ti. Não deve ter sido nada agradável para ti, tendo de enfrentar os colegas e amigos comuns. Mas mantiveste a dignidade. E deixaste-nos orgulhosos.

 

Dignidade, meditou Jude. É verdade, os pais sempre se haviam orgulhado da sua dignidade. Como poderia então desapontá-los, entregando-se a ataques de raiva e explosões em público?

 

- Obrigada.

 

- Acho que demonstraste uma tremenda força pela maneira como permaneceste de cabeça erguida. E só posso imaginar o quanto isso te custou. Suponho que deixares o cargo na universidade e afastares-te desta forma era necessário. Para reconstruir.

 

- Acho que vocês não compreenderam.

 

- Claro que compreendemos, Jude. Ele magoou-te.

 

Era tão simples assim, compreendeu Jude, sentindo os olhos a arderem. Porque não acreditara que a sua família a apoiaria?

 

- Pensei que vocês me culpavam.

 

- Porque te haveríamos de culpar? Se queres saber a verdade, o teu pai até ameaçou dar uma sova ao William. É muito raro o seu sangue irlandês aflorar. Foi preciso algum esforço para o acalmar.

 

Jude tentou imaginar o pai tão distinto a agredir o distinto William. Não combinava.

 

- Não dá para exprimir o quanto isso me faz sentir melhor, mãe.

 

- Nunca te disse nada porque parecias determinada a manter tudo num nível civilizado. E espero que isto não te deixe transtornada, mas não quero que saibas por intermédio de outra fonte.

 

Jude voltou a sentir uma contracção na barriga.

 

- O que é?

 

- O William e a sua nova esposa também vão aproveitar o final do semestre. Vão passar duas semanas nas Antilhas... imagina! O William está a dizer a toda a gente, com grande alegria, que querem ter umas férias exóticas antes de assentarem. Jude, eles esperam um bebé para Outubro.

 

O que contraía a sua barriga afrouxou, largou, desapareceu. -Ah...

 

- O homem tem-se comportado como um tolo. Anda com uma cópia da ecografia e mostra a toda a gente como se fosse uma foto da família. Comprou para a mulher um espalhafatoso anel de esmeralda, para celebrar. Parece até que ela é a primeira mulher do mundo a conceber.

 

- Tenho a certeza de que ele apenas se sente muito feliz.

 

- E eu fico contente por ver que tu consegues receber a notícia tão bem. Mas confesso que estou furiosa. Temos vários amigos comuns, e essa... exaltação do William é muito embaraçosa em situações sociais. Seria de esperar que ele tivesse mais tacto para a situação.

 

Linda fez uma pausa, obviamente para se controlar. Quando voltou a falar, o tom era mais gentil:

 

- Ele não valia um momento do teu tempo, Jude. Lamento não ter visto isso antes do casamento.

 

- Eu também. - Murmurou Jude. - Por favor, não te preocupes mais com isso, mãe. São águas passadas. E só lamento ser embaraçoso para ti.

 

- Posso aguentar. Como eu disse, não queria que soubesses por intermédio de outra pessoa. Posso perceber agora que não precisava de me preocupar com a possibilidade de ficares perturbada ou magoada de novo. Com toda a sinceridade, não sabia que já o tinhas descartado por completo. Fico aliviada por constatar que és uma mulher sensata. Como sempre.

 

- É verdade, a sensata Jude. - Murmurou ela, enquanto alguma coisa quente se alojava na sua garganta. - Não tenho mais nada a ver com o William. Podes até dizer-lhe que lhe desejo toda a felicidade, na próxima vez em que se encontrarem.

 

- Farei isso. Não sabes como estou satisfeita por te sentires feliz, Jude. O teu pai e eu entraremos em contacto contigo, assim que voltarmos de Nova Iorque.

 

- Combinado. Divirtam-se bastante. E diz ao pai que eu o amo.

 

- Direi.

 

Depois de desligar, Jude sentiu-se paralisada. Congelada. Um calafrio percorria-lhe a pele, o sangue gelara. Todo o calor e prazer, a alegria simples da manhã, tudo se desvanecia no que ela presumia ser desespero..,

 

William a voar para uma ilha encantadora nas Antilhas, com a sua linda e nova esposa. A entrar na água azul-faiscante, a passear pela areia branca, sob a lua cheia, de mãos dadas, olhos sonhadores.

 

William inebriado com a perspectiva da paternidade, gabando-se da gravidez da esposa, estudando livros de bebés com Allyson, compilando listas de nomes. Mimando a futura mãe com anéis de esmeralda e manhãs de domingo de preguiça na cama, com sumo de laranja espremida na hora e croissants.

 

Podia visualizar com perfeição. - Era uma praga, a sua imaginação desenvolvida. O comedido William a acariciar a sua adorável Madonna, deitados na praia. O reservado William a apregoar a todo o mundo o evento iminente e abençoado.

 

William, de parcimónia notória, a pagar o preço de um anel de esmeralda. E espalhafatoso, ainda por cima.

 

Que desgraçado!

 

Jude partiu em dois o lápis na sua mão e atirou os pedaços contra a parede. Foi só quando se levantou de um salto da cadeira, derrubando-a no chão, com uma queda estrondosa, que compreendeu que não era desespero o que sentia. Era fúria. Uma fúria ardente e escaldante.

 

A respiração saía em ofego, os punhos estavam cerrados. Não havia nada em que bater, nada para esmurrar sem pensar. A raiva que se acumulava dentro dela era tão sinistra, tão arrebatada, que ela olhou em redor, frenética, à procura de alguma coisa onde descarregá-la, antes que explodisse no seu peito.

 

Precisava de sair, movimentar-se, respirar fundo, antes que a força da raiva saísse num grito que espatifaria todas as janelas do chalé. Às cegas, ela passou pela porta, desceu a correr, saiu de casa.

 

Correu pelas colinas até perder o fôlego, até os flancos arderem e as pernas tremerem. Uma chuva fina começou a cair, mesmo com o sol a brilhar, fazendo o ar cintilar, cobrindo a relva de orvalho. O vento passou a soprar mais forte e parecia uma mulher a chorar. E através do vento, como um sussurro, havia a música de flautas.

 

Jude deu por si a caminho de Ardmore e continuou a andar.

 

                                                 CAPÍTULO 11

Uma noite chuvosa aconchegava nas cadeiras dopub tanto pessoas a sonhar como a conversar. O jovem Connor Dempsey tocava melodias tristes no acordeão, enquanto o pai bebia o seu Smithwicks e conversava sobre a situação mundial com o seu bom amigo Jack Brennan.

 

Como o coração de Jack ainda estava em fase de recuperação, ele prestava tanta atenção à conversa quanto à sua cerveja.

 

Do outro lado do balcão, Aidan mantinha-se atento a ele. Jack e Connor Dempsey Sénior muitas vezes discordavam sobre a situação mundial e, de vez em quando, sentiam a necessidade de usar os punhos para reforçar os seus argumentos.

 

Aidan compreendia muito bem essa necessidade, mas não queria que o debate alcançasse o ponto de erupção no seupub.

 

Ele acompanhava de vez em quando o andamento do jogo de futebol pelo aparelho de televisão no balcão. Clare estava a vencer Mayo, o que o fez aplaudir mentalmente, já que fizera uma pequena aposta no resultado.

 

Previa uma noite tranquila e especulava se poderia chamar Brenna para o substituir. Sentia um impulso intenso de convidar Jude para outra refeição na sua companhia. Desta vez, num restaurante, com flores e velas na mesa, um bom vinho cor de palha, em lindos copos.

 

Seria o tipo de coisa a que ela estaria mais acostumada, pensou Aidan, em vez de ovos mexidos e batatas fritas preparados na sua cozinha.

 

Podia ser uma mulher tímida e meiga, mas era também a sofisticada habitante de uma cidade grande. Criada na cidade e numa classe superior. Os homens com quem ela convivia levá-la-iam ao teatro e a restaurantes de luxo. Usariam gravata e fato feito sob medida, falariam de literatura e cinema em tom solene.

 

Mas ele não era propriamente ignorante, não é assim? Lia livros e gostava de cinema. Viajara mais do que a maioria das pessoas, contemplara a grande arte e arquitectura pessoalmente. Poderia enfrentar qualquer dândi de Chicago numa conversa.

 

Quando deu por si a fazer uma carantonha, sacudiu a cabeça. Afinal, o que estava a fazer, imaginando-se em competição com algum homem imaginário? Era patética a maneira como não conseguia ter três pensamentos sucessivos na cabeça se um deles não focalizasse Jude Murray.

 

Provavelmente era apenas frustração sexual, reflectiu Aidan. Há um tempo considerável que não deslizava as mãos pelo corpo de uma mulher. Cada vez que imaginava a situação, era o corpo de Jude que via sob as suas mãos. E graças àquela manhã, tinha agora uma visão muito mais nítida do que aquele corpo incluía.

 

Toda aquela pele branca e macia, que tendia a exibir um rubor suave com grande facilidade. Pernas longas e lisas, um sinal pequeno e sensual na elevação do seio esquerdo. Ela tinha ombros muito bonitos, ombros que pareciam clamar pelas carícias dos lábios de um homem.

 

A maneira como Jude se assustava quando ele a tocava, para depois se derreter... Era de admirar que Aidan estivesse obcecado por ela? Um homem teria de estar morto há dez anos para não se sentir excitado.

 

Uma parte de Aidan - uma parte de que não se orgulhava muito

- desejava poder seduzi-la e levá-la para a cama, acabar logo com aquilo. Conforto e alívio, um prazer para ambos. Outra parte, admitida com alguma apreensão, era a que se sentia tão fascinada pela mente e comportamento de Jude quanto pela embalagem em redor.

 

Quieta e tímida, metódica e polida. Fazia um homem ter vontade de esfregar o verniz da compostura, até revelar tudo o que se escondia por baixo.

 

A porta foi aberta. Aidan lançou um olhar distraído. Concentrou-se no instante seguinte, de olhos arregalados, próximos do choque.

 

Jude entrou. Quase furtivamente. Estava encharcada, os cabelos desgrenhados, a pingar em torno dos ombros. Os olhos exibiam uma expressão sombria; pareciam perigosos, embora Aidan dissesse a si mesmo que deveria ser uma distorção da iluminação. Seria capaz de jurar que emitiam faíscas quando ela se encaminhou para o balcão.

 

- Quero uma bebida.

 

- Estás encharcada.

 

- Chove sem parar, e eu vim a pé. - A voz era incisiva, com uma insinuação de veemência. Ela empurrou os cabelos para trás, pesados de tão molhados. Perdera a fita em algum momento da corrida. - É a consequência natural. Vais ou não servir-me uma bebida?

 

- Claro. Tenho o vinho de que gostas. Porque não te sentas perto da lareira e te aqueces um pouco? Vou buscar uma toalha para os teus cabelos.

 

- Não me quero sentar perto da lareira. Não quero uma toalha. Quero uísque. - Jude falou como um desafio, batendo com o punho no balcão. - Aqui.

 

Os seus olhos ainda faziam Aidan pensar numa deusa do mar, só que agora era uma deusa vingativa. Ele acenou com a cabeça em concordância, lentamente.

 

- Como quiseres.

 

Aidan pegou num copo pequeno e serviu dois dedos de Jamesoris. Jude pegou no copo e bebeu como se fosse água. A respiração explodiu com o fogo repentino no seu peito. Os olhos lacrimejaram, mas permaneceram ardentes.

 

Um homem sensato, Aidan tratou de manter o rosto cuidadosamente impassível.

 

- Fica à vontade, se quiseres subir para o meu apartamento para ir buscar uma camisa seca.

 

- Estou bem assim.

 

Jude tinha a sensação de que alguém cravara agulhas em brasa na sua garganta, mas agora havia um fogo a arder na sua barriga, um tanto agradável. Ela pôs o copo em cima do balcão e acenou com a cabeça na direcção de Aidan.

 

- Outro.

 

A experiência levou Aidan a inclinar-se por cima do balcão. Algumas pessoas podiam esvaziar uma garrafa sem que sobrasse nada de pior para ninguém. Outras precisavam de ser levadas pela porta fora antes que dobrassem o cotovelo com uma frequência excessiva. E havia algumas que precisavam de despejar os seus problemas mais do que precisavam que o comerciante despejasse uísque no seu copo.

 

Ele reconheceu qual era o caso que tinha pela frente. Com um problema adicional: se um copo e meio de vinho a deixavam tonta, duas doses de uísque fá-la-iam afundar-se.

 

- Porque não me contas qual é o problema, querida?

 

- Não disse que tinha algum problema. Disse apenas que queria outra dose de uísque.

 

- Não terás mais nenhuma. Mas farei um bom chá para ti e arranjarei um lugar ao lado da lareira.

 

Jude inspirou fundo. Soltou o ar, enquanto fazia um gesto de indiferença com os ombros.

 

- Está bem. Esquece o uísque.

 

- Assim é que é. - Ele bateu levemente no punho ainda fechado, em cima do balcão. - Agora, senta-te, enquanto providencio o chá. Depois podes contar-me o que aconteceu.

 

- Não preciso de me sentar. - Ela empurrou os cabelos molhados para trás do rosto, depois inclinou-se para a frente, como Aidan estava.

- Chega mais perto.

 

Quando ele atendeu ao pedido, e os rostos ficaram separados por uns poucos centímetros, Jude agarrou-o pela camisa. Falou em voz clara, incisiva, mas teve o bom senso de manter a voz baixa:

 

- Ainda queres fazer sexo comigo?

 

- O que disseste?

 

- Ouviste muito bem. - Mas Jude sentiu uma estranha emoção ao repetir: - Queres fazer sexo comigo ou não?

 

Embora os nervos tremessem, ele sentiu uma excitação imediata. Estava além do seu poder controlar qualquer uma das reacções.

 

- Neste momento?

 

- O que há de errado em fazer agora? Tem de ser tudo planeado, padronizado e amarrado com um laço?

 

Jude esqueceu de manter a voz baixa desta vez. Várias cabeças se viraram, sobrancelhas agitaram-se. Aidan pôs a mão sobre ela, que ainda segurava a sua camisa. Afagou-a gentilmente.

 

- Porque não vamos para a sala reservada, Jude?

 

- Para onde?

 

- A sala dos fundos.

 

Ele voltou a apertar a mão de Jude, depois soltou os seus dedos. Apontou para uma porta na extremidade do balcão.

 

- Shawn, podes vir até aqui e cuidar do balcão por um momento?

 

Ele levantou a tampa no final do balcão para que ela pudesse passar, depois levou-a pela porta.

 

A sala reservada era uma salinha pequena, sem janelas, com duas cadeiras de palha que haviam sido da sua avó e uma mesa que o pai fizera, suficientemente cambaia para ser cativante. Tinha um velho globo de luz, que Aidan acendeu, e uma garrafa de cristal com uísque, que ele ignorou.

 

Era um lugar destinado a conversas e negócios particulares. E Aidan não poderia pensar em nada mais particular do que lidar com a mulher sobre a qual vinha a fantasiar, e que lhe perguntara de repente se não queria fazer sexo.

 

- Porque não nos...

 

"Sentamos" era a palavra que ele ia dizer, mas foi impedido pela boca de Jude a devorar a sua. Ela estava encostada à porta, as mãos cerradas em punhos nos seus cabelos, os lábios quentes e famintos a comprimirem-se nos dele.

 

Aidan conseguiu soltar um grunhido, mas depois perdeu-se no prazer de ser atacado por uma mulher molhada e ansiosa. Jude comprimia-se contra ele... mais do que isso, grudava-se ao seu corpo. O seu sangue parecia uma fornalha. Ele não entendia por que razão as roupas de Jude não fumegavam com tanto calor.

 

Ela tinha o coração acelerado. Ou talvez fosse o dele. Aidan sentia as batidas nervosas, frenéticas, entre os dois. Jude cheirava a chuva, tinha sabor a uísque, e ele desejava-a com um fervor que parecia uma doença. Espalhava-se por todo o corpo, cravava as garras, provocava uma vertigem na cabeça, ardia na sua garganta.

 

Vagamente, ouviu a voz do irmão, uma gargalhada em resposta, a melodia tocada por um miúdo. E lembrou-se, também vagamente, de onde estavam. E de quem eram.

 

- Jude... espera! - O sangue rugia na sua cabeça enquanto a tentava afastar. - Este não é o lugar adequado.

 

- Porquê? - Ela estava desesperada. Precisava de alguma coisa. Ele. Qualquer coisa. - Desejas-me. E eu desejo-te.

 

Ele poderia facilmente imaginar uma inversão de posições, montando-a onde se encontravam, cobrindo-a como um garanhão faria com uma égua disposta. Com fogo no sangue e sem qualquer coração.

 

- Vamos parar agora. Recuperar o fôlego. - Ele passou a mão pelos cabelos de Jude, uma mão que estava longe de firme. - Conta-me o que aconteceu.

 

- Não aconteceu nada. - A voz tremia, provando que ela era uma mentirosa. - Porque deveria ter acontecido alguma coisa? Quero apenas que faças amor comigo.

 

As mãos de Jude também tremiam, enquanto tentavam desabotoar a camisa de Aidan.

 

- Quero apenas que me acaricies.

 

Aidan inverteu as posições nesse momento. Comprimiu-a contra a porta, pegou no rosto de Jude entre as mãos, para o levantar. O corpo dizia-lhe uma coisa, mas o coração e a mente davam ordens diferentes. E ele era um homem que preferia seguir o coração.

 

- Posso acariciar-te, mas nunca te alcançarei lá no fundo, se não me contares o que te está a perturbar.

 

- Não há nada a perturbar-me.

 

No instante seguinte, Jude desatou a chorar.

 

- Calma, querida, calma... - Era menos angustiante confortar uma mulher do que resistir ao seu assédio. - Ternamente, ele abraçou-a e aconchegou-a ao seu peito. - Quem te magoou, a ghrá.

- Não foi nada. Uma estupidez. Desculpa.

 

- É evidente que aconteceu alguma coisa, e não foi nenhuma estupidez. Conta-me o que te deixou tão triste, mavourneen.

 

Jude soluçou. Desolada, comprimiu o rosto contra o ombro de Aidan. Era sólido como um rochedo, confortador como uma almofada.

 

- O meu marido e a sua nova esposa vão viajar para as Antilhas e vão ter um filho.

 

- Como? - A pergunta saiu como uma bala, enquanto ele a inclinava para trás, a fim de a fitar nos olhos. - Tens um marido?

 

- Tinha. - Ela fungou o nariz e desejou poder encostar a cabeça de novo no ombro de Aidan. - Ele não quis continuar comigo.

 

Aidan respirou fundo, duas vezes. Mas a sua cabeça continuou a girar, como se tivesse bebido uma garrafa inteira de Jamesons. Ou como se batesse com uma na cabeça.

 

- Eras casada?

 

- Tecnicamente. - Jude agitou a mão. - Tens um lenço? Atordoado, Aidan tirou o lenço do bolso e entregou-o a ela.

 

- Acho que teremos de começar pelo início, mas primeiro precisas de trocar de roupa e tomar um bom chá, antes que fiques constipada.

 

- Não te preocupes. Estou bem. Preciso...

 

- Não digas nada. Vamos subir.

 

- Estou horrível. - Jude assoou o nariz, ruidosamente. - Não quero que as pessoas me vejam assim.

 

- Não há ninguém lá fora que não tenha derramado as suas lágrimas, e alguns fizeram isso aqui nopub. Vamos sair, passar pela cozinha, e subir.

 

Antes que ela pudesse protestar, Aidan segurou-a pelo braço e levou-a para a porta. No preciso momento em que a primeira onda de embaraço a envolvia, ele continuou a puxá-la, entrando na cozinha. Darcy olhou, surpresa.

 

- Mas o que aconteceu, Jude?

 

Ela não disse mais nada, porque Aidan balançou a cabeça, enquanto levava Jude por umas escadas estreitas.

 

Ele abriu uma porta lá em cima, passando pela sua sala, pequena e atravancada.

 

- O quarto fica ali. Pega em qualquer roupa que dê para ti, enquanto faço o chá.

 

Jude fez menção de agradecer, pedir desculpa, alguma coisa, mas ele já se afastava por uma porta baixa. Havia tensão suficiente no seu movimento para a deixar ainda mais deprimida.

 

Ela foi para o quarto. Ao contrário da sala, estava impecavelmente arrumado e não tinha móveis em excesso. Jude desejou ter tempo e o direito de bisbilhotar um pouco. Mas encaminhou-se apressada para o pequeno armário, permitindo-se apenas lançar um rápido olhar para a cama de solteiro, com a sua colcha azul-marinho, a cómoda alta, que parecia velha e gasta, o tapete desbotado, sobre o soalho de madeira escurecido pelo tempo.

 

Pegou numa camisa, tão cinzenta quanto o seu ânimo. Enquanto trocava de roupa, examinou as paredes. Ali ele mostrava-se indulgente com o seu lado romântico, pensou Jude. Havia cartazes e gravuras de lugares distantes.

 

Cenas de rua de Paris, Londres, Nova Iorque e Florença, paisagens marinhas tempestuosas, ilhas exuberantes. Montanhas enormes, vales tranquilos, desertos misteriosos. E, como não poderia deixar de ser, os penhascos escarpados e as colinas suaves da sua própria terra. Estava tudo pregado à parede sem intervalos, formando um papel de parede fabuloso e excêntrico.

 

Em quantos daqueles lugares já estivera ele?, especulou Jude. Já visitara todos, ou ainda haveria lugares que queria conhecer?

 

Ela deixou escapar um profundo suspiro, sem se importar se o som era impregnado de auto-compaixão. Com a blusa molhada na mão, Jude voltou à sala.

 

Aidan andava de um lado para o outro. Parou quando ela entrou. Jude parecia muito pequena e desamparada com a sua camisa, sem condições de lidar com as emoções que o assediavam. Por isso, ele não disse nada. Ainda não era o momento. Apenas pegou na blusa encharcada e levou-a para a casa de banho, pendurando-a no suporte da cortina do chuveiro.

 

- Senta-te, Jude.

 

- Tens todo o direito de estar zangado comigo, por ter entrado daquela maneira com um comportamento horrível. Nem sei por onde começar...

 

- Gostaria que ficasses calada por um momento.

 

Aidan falou num tom ríspido, dizendo a si mesmo, quando ela estremeceu, que não era de ferro. Depois, foi para a cozinha, a fim de preparar o chá.

 

Jude fora casada, era tudo o que podia pensar. Um detalhe e tanto que ela se esquecera de mencionar.

 

Imaginara que ela tinha pouca experiência com homens, para descobrir agora que fora casada e se divorciara; e era evidente que continuava apaixonada pelo desgraçado.

 

Ansiava por algum homem requintado de Chicago, que não fora suficientemente correcto para manter as suas promessas. E durante todo aquele tempo, Aidan Gallagher ansiara por ela.

 

Se isso não era suficiente para deixar qualquer um furioso com a vida, o que poderia ser?

 

Ele serviu o chá, forte e preto, acrescentando uma dose generosa de uísque no seu.

 

Jude estava de pé quando ele voltou, com as mãos cruzadas. Os cabelos húmidos encrespavam-se, e os olhos estavam cheios de lágrimas.

 

- Vou descer e pedir desculpas aos teus clientes.

 

- Porquê?

 

- Por ter feito uma cena.

 

Aidan largou as chávenas. Franziu as sobrancelhas para a estudar, em surpresa e irritação.

 

- Para quê importares-te com isso? Se não tivermos uma cena pelo menos uma vez por semana no Gallaghers, começamos a especular sobre o que estará errado. E agora queres fazer o favor de te sentares e parares de me olhar como se eu te fosse dar uma sova com o cinto?

 

Ele sentou-se depois de Jude, e pegou na sua chávena. Ela bebeu um gole, queimou a língua, deixou a chávena na mesinha.

 

- Porque não me contaste que foste casada?

 

- Não me lembrei.

 

- Não te lembraste? - A chávena de Aidan chocalhou quando ele a pousou bruscamente na mesa. - Significava tão pouco para ti?

 

- Significava muito para mim. - Respondeu ela, com uma dignidade serena que o fez contrair os olhos. - Significava consideravelmente menos para o homem com quem me casei. Tenho vindo a tentar aprender a viver com isso.

 

Como Aidan não dizia nada, ela voltou a pegar na chávena, a fim de ter o que fazer com as mãos.

 

- Há vários anos que nos conhecíamos. Ele é professor na faculdade em que eu dava aulas. Aparentemente, tínhamos muitas coisas em comum. Os meus pais gostavam muito dele. Quando me pediu em casamento, eu aceitei.

 

- Estavas apaixonada por ele?

 

- Pensava que sim, o que é a mesma coisa.

 

Não, pensou Aidan, não era absolutamente a mesma coisa. Mas ele deixou passar.

 

- O que aconteceu?

 

- Nós... ele, devo dizer, planeou tudo. O William gosta de planear com cuidado, considerar os detalhes, os perigos possíveis e as suas soluções. Comprámos uma casa, que era melhor para receber convidados. Ele tinha ambições de subir no departamento. O casamento foi uma cerimónia íntima, exclusiva, distinta, com a participação de todas as pessoas certas, ou seja, responsáveis pelo bufete, floristas, fotógrafos, convidados.

 

Jude respirou fundo. Como já tinha a língua escaldada, tomou outro gole de chá.

 

- Sete meses depois, disse-me que se sentia insatisfeito. Foi essa a palavra que usou. "Jude, estou insatisfeito com o nosso casamento." Acho que eu disse: "Oh, desculpa".

 

Ela fechou os olhos, deixando que a humilhação assentasse, juntamente com o uísque no seu estômago.

 

- É irritante saber que o meu primeiro instinto foi pedir desculpa. Ele aceitou, generoso, como se fosse o que esperava. - Jude fez uma pausa, voltando a olhar para Aidan. - Não. Porque era o que ele esperava.

 

Era mágoa, o que ele sentia agora em Jude, uma mágoa que irradiava em ondas angustiadas.

 

- Isso deveria ensinar-te que pedes demasiadas vezes desculpa.

 

- É possível. Seja como for, ele explicou que me respeitava e considerava que deveria ser absolutamente honesto. Por isso, precisava de me dizer que se tinha apaixonado por outra.

 

Alguém mais jovem, pensou Jude. E mais bonita, mais inteligente.

 

- Ele não a queria envolver num sórdido romance adúltero. Queria que eu pedisse o divórcio imediatamente. Venderíamos a casa, dividiríamos tudo a meias. Como ele era o iniciador, estava disposto a conceder-me a primeira opção em quaisquer bens materiais específicos que eu quisesse.

 

Aidan não desviava os olhos do rosto de Jude. Ela estava controlada de novo, os olhos quietos, as mãos paradas. Controlada demais, na sua opinião. Preferia quando Jude era arrojada e impulsiva.

 

- E o que fizeste?

 

- Nada. Não fiz nada. Ele obteve o divórcio, casou-se de novo, e continuámos com as nossas vidas.

 

- Ele magoou-te.

 

- O William chamar-lhe-ia de lamentável, mas necessário subproduto da situação.

 

- Então o William é um perfeito anormal. Jude sorriu.

 

- É possível. Mas a atitude dele faz mais sentido do que se debater num casamento infeliz.

 

- E tu sentias-te infeliz no casamento?

 

- Não, mas acho que também não era feliz. - A sua cabeça doía-lhe, agora, e sentia-se cansada. Desejava poder simplesmente encolher-se toda e dormir. - Acho que não sou propensa a grandes piques de emoções.

 

Aidan também se sentia esgotado. Aquela era a mesma mulher que se lançara aos seus braços cheia de desejo, e depois chorara amargurada, apenas poucos momentos antes.

 

- És uma pessoa certinha e calma, não é assim, Jude Francês?

 

- Isso mesmo. - Sussurrou ela. - A Jude sensata.

 

- Se é assim, o que te fez explodir hoje?

 

- Foi uma estupidez.

 

- Porque deveria ser uma estupidez, se significou alguma coisa para ti?

 

- Porque não deveria ter significado. - Jude ergueu a cabeça abruptamente. O brilho que surgiu nos seus olhos não desagradou a Aidan.

- Estamos divorciados, não é assim? Há dois anos. Porque deveria eu importar-me com o facto de ele ir para as Antilhas?

 

- E porque te importas?

 

- Porque eu queria ir para lá! - Explodiu Jude. - Queria ir para qualquer lugar no exterior, exótico e maravilhoso, na nossa lua-de-mel. Consultei folhetos. Paris. Florença. Bimini. Todo o tipo de lugares. Poderíamos ter ido para qualquer um, e eu ficaria encantada. Mas ele só queria falar sobre... sobre...

 

Ela fez um círculo com as mãos, enquanto as palavras lhe faltavam por um momento.

 

- As dificuldades de linguagem, os choques culturais, os germes diferentes!

 

Furiosa de novo, Jude levantou-se de um pulo.

 

- Por isso, fomos para Washington, e passámos horas... dias... séculos... a visitar o Smithsonian e a ir a conferências.

 

Aidan já ficara bastante chocado antes, mas aquilo era demais.

 

- Foram a conferências na lua-de-mel?

 

- O vínculo cultural. Era assim que ele denominava isso. - Ela ergueu os braços. Começou a andar pela sala. - A maioria dos casais, segundo o William, tem expectativas exageradas para a lua-de-mel.

 

- E porque não as deveriam ter? - Murmurou Aidan.

 

- Exactamente! - Jude virou-se, com o rosto vermelho, numa fúria indignada. - É melhor ter um encontro de mentes em terreno comum? É melhor ir para um ambiente que seja reconhecível? Que se dane tudo isso! Deveríamos fazer sexo ardente numa praia quente qualquer!

 

Uma parte de Aidan sentia a maior satisfação por isso não ter acontecido.

 

- Parece-me que fizeste muito bem ao te livrares dele, querida.

 

- Não é essa a questão! - Jude tinha vontade de arrancar os cabelos. Quase o fez. O seu sangue irlandês aflorava agora, borbulhando, em ebulição, de uma maneira que deixaria a sua avó orgulhosa. - A questão é que ele me deixou e isso arrasou-me. - Acrescentou ela. - Talvez não o coração, mas o orgulho e o ego. Que diferença faz? Faz tudo parte de mim.

 

- Não faz qualquer diferença. - Murmurou Aidan. - Tens razão. Não há qualquer diferença.

 

O facto de Aidan concordar, sem a menor hesitação, só serviu para alimentar ainda mais a raiva de Jude.

 

- E agora o desgraçado vai para onde eu queria ir. Vão ter uma criança, e ele está emocionado. Quando eu falava em filhos, ele argumentava com as nossas carreiras, estilo devida, o crescimento demográfico, os custos da universidade. E fez uma tabela.

 

- Fez o quê?

 

- Uma tabela. Um gráfico gerado por computador, acerca das nossas finanças e saúde, perspectivas de carreira e administração do tempo, por um prazo de cinco a sete anos. Depois, disse que se alcançássemos todos os objectivos, poderíamos considerar... apenas considerar... a concepção de uma única criança. Mas, durante os anos seguintes, ele precisava de se concentrar na sua carreira, nos progressos planeados, no raio da carteira de investimentos.

 

A fúria era uma coisa viva agora, cravando as garras, de forma impiedosa, no peito de Jude.

 

- Ele decidiu quando e se teríamos um filho. Ele decidiu que, se isso ocorresse, seria apenas uma criança. E, se pudesse, decidiria até o sexo da criança planeada. Eu queria uma família, e ele deu-me apenas gráficos.

 

A respiração ficou presa, os olhos voltaram a encher-se de lágrimas. Mas quando Aidan se levantou para ir ao seu encontro, ela sacudiu a cabeça, frenética.

 

- Pensei que ele não queria viajar para o estrangeiro e não queria ter filhos. Pensei que estava consolidado nos seus hábitos, que era apenas um homem prático, frugal e ambicioso. Mas não era isso. Não era isso de todo. Ele não queria ir para as Antilhas comigo. Não queria constituir uma família comigo. O que há de errado comigo?

 

- Não há nada de errado contigo. Absolutamente nada.

 

- Claro que há! - Jude tornou a levantar o lenço, enquanto a voz alteava, baixava e tremia. - Se não houvesse, eu nunca o teria deixado escapar impune. Sou uma chata. Ele cansou-se de mim quase desde o momento em que nos casámos. As pessoas cansam-se de mim. Os meus alunos, os meus colegas. Os meus próprios pais ficam entediados comigo.

 

- Estás a dizer patetices. - Aidan avançou. Pegou-a pelos braços para dar um pequeno abanão. - Não há nada de chato em ti.

 

- Ainda não me conheces suficientemente bem. Sou uma chata, podes ter a certeza. - Jude fungou. Balançou a cabeça para dar ênfase. - Nunca faço algo emocionante, nunca digo algo brilhante. Tudo em mim é mediano. Até me aborreço a mim própria.

 

- Quem pôs essas ideias na tua cabeça? - Aidan teve vontade de a abanar de novo, mas ela parecia lamentável demais. - Alguma vez te ocorreu que esse William das tabelas e do não sei o quê cultural é que era o chato? Que, se os teus alunos não se mostravam entusiasmados, era porque dar aulas não era a tua vocação na vida?

 

Jude fez um gesto com os ombros.

 

- Sou o factor comum.

 

- A Jude Francês, que veio para a Irlanda sozinha, de sua própria iniciativa, para viver num lugar onde nunca esteve, com pessoas que nunca conheceu, e para fazer um trabalho que nunca havia feito antes?

 

- Isso é diferente.

 

- Porquê?

 

- Porque estou apenas a fugir.

 

Ele sentiu ao mesmo tempo impaciência e compaixão.

 

- Tu não és chata, mas és muito teimosa. Podes dar lições a uma mula. O que há de errado em fugir, se o lugar em que estavas não te convinha? Não é óbvio que estás a fugir para algum lugar? Para algo que te convenha?

 

- Não sei.

 

Jude sentia-se muito cansada e angustiada para pensar a respeito disso.

 

- Eu também andei a fugir. Para e de. No final, fiquei onde precisava de estar. - Ele inclinou-se para a beijar na testa. - E o mesmo acontecerá contigo.

 

Depois, Aidan puxou-a. Removeu uma lágrima da sua face com o polegar.

 

- Agora, senta-te e espera um pouco, enquanto tomo algumas providências nopub. Depois levar-te-ei a casa.

 

- Não precisas de te preocupar. Posso voltar a pé.

 

- Não vais andar à chuva e no escuro se te sentes triste. Vê se te sentas e bebe o teu chá. Não vou demorar.

 

Ele deixou-a sozinha antes que Jude pudesse oferecer qualquer outro argumento. Ficou parado nas escadas por algum tempo, a organizar os seus pensamentos.

 

Tentava não se irritar com Jude por ela não lhe ter falado acerca do seu casamento. Era um homem que levava esses compromissos a sério, por causa da sua fé e da sua sensibilidade. O casamento não era uma coisa em que se entrava e saía à vontade, mas sim uma instituição que servia para consolidar as pessoas.

 

O casamento de Jude desmoronara-se sem que ela tivesse qualquer culpa. Mas ela deveria ter-lhe contado. Era uma questão de princípio.

 

E tinha de se guiar por isso, advertiu Aidan a si mesmo. Também teria de avançar com todo o cuidado nas áreas sensíveis de Jude, que as circunstâncias haviam deixado em carne viva. Não queria ser responsável por apertar onde já doía.

 

Santo Deus, pensou ele, esfregando a nuca, enquanto descia para o pub. Aquela mulher era um monte de trabalho.

 

- O que se passou com a Jude? - Perguntou Darcy, no momento em que ele entrou na cozinha.

 

- Ela está bem. Recebeu uma notícia de casa que a deixou transtornada.

 

Ele pegou no telefone na parede, a fim de ligar a Brenna.

 

- Oh, credo, não é a avó!

 

Darcy largou o pedido em que acabara de pegar, com uma profunda preocupação nos olhos.

 

- Não, não é. Vou perguntar à Brenna se me pode substituir por cerca de duas horas. Quero levar Jude a casa.

 

- Se ela não puder, o Shawn e eu daremos um jeito. Aidan hesitou, com o telefone na mão. Sorriu e comentou:

 

- Quando queres podes ser maravilhosa, Darcy.

 

- Gosto da Jude e acho que ela precisa de um pouco de diversão na sua vida. Parece que teve muito pouca até agora. E ver o marido a abandoná-la por outra antes mesmo de o ramo de noiva secar não poderia deixar...

 

- Espera aí. Tu já sabias que ela era casada? Darcy alteou uma sobrancelha.

 

- Claro. - Ela tornou a pegar no pedido e encaminhou-se para a porta. - Não é segredo.

 

- Não é segredo... - rangendo os dentes, Aidan ligou a Brenna.

- Provavelmente, toda a aldeia o sabia, menos eu.

 

                                                CAPÍTULO 12

Quando Aidan voltou e desceram para o seu carro, Jude já tivera tempo de se acalmar e fazer uma revisão do que acontecera.

 

A mortificação ainda nem começara a cobrir tudo. Entrara no pub de maneira intempestiva, assediara Aidan sexualmente no seu lugar de trabalho. Talvez com o tempo - vinte ou trinta anos, segundo os seus cálculos - pudesse pensar que aquela lembrança específica era fascinante, até mesmo divertida. Por enquanto, porém, era apenas humilhante.

 

Depois, piorara tudo pela raiva, choro, protestos. Vendo bem as coisas, não poderia pensar em qualquer outra coisa que pudesse chocar mais os dois, excepto despirem-se e dançarem uma jiga em cima do balcão do pub.

 

A mãe dera-lhe os parabéns por manter a dignidade sob um terrível stress. Não olhes agora, mãe, pensou Jude.

 

E, depois de tudo isso, Aidan levava-a de carro para casa, porque estava escuro e chovia; e porque era gentil.

 

Ela pensou que Aidan estava ansioso por se livrar dela.

 

Ao entrarem no caminho do chalé, avançando aos solavancos, Jude pensou numa dúzia de modos diferentes de atenuar o embaraço, mas todos pareciam ridículos e tolos. Ainda assim, precisava de dizer alguma coisa. Seria cobardia - e também desagradável - se não o fizesse.

 

Ela respirou fundo... e deixou escapar o ar muito depressa.

 

- Consegues vê-la?

 

- Quem?

 

- Na janela.

 

Jude inclinou-se para a frente, apertando o braço de Aidan, enquanto olhava para a figura na janela do chalé. Ele levantou os olhos e sorriu.

 

- Estou a ver. Ela está à espera. Às vezes questiono-me se o tempo passa para ela ou se um ano é apenas um dia.

 

Aidan desligou o carro. Ficaram sentados lá dentro, com a chuva a tamborilar no tejadilho, até que a figura desapareceu.

 

- Viste-a mesmo? Não estás a dizer isso só para me confortar?

 

- Claro que a vi. Já aconteceu antes e vai acontecer de novo. - Ele virou o rosto para estudar Jude. - Não te sentes apreensiva por ficares aqui com ela?

 

- Não. - Dado a resposta ter vindo com tamanha espontaneidade, ela soltou uma gargalhada. - Nem um pouco. Deveria, suponho, mas não me sinto um pouco apreensiva sequer com a sua presença. Às vezes...

 

- Às vezes o quê?

 

Jude hesitou de novo, dizendo a si mesma que deveria manter em segredo. Mas sentia-se muito aconchegada ali dentro, no calor do carro, com a chuva a cair lá fora, a neblina a turbilhonar.

 

- Às vezes eu sinto-a. Alguma coisa no ar. Como... não sei explicar bem... como uma ondulação no ar. E deixa-me triste, porque ela está triste. E também já o vi.

 

- Quem?

 

- O príncipe das fadas. Já o encontrei duas vezes, quando fui levar flores ao túmulo da Maude. Sei que parece uma loucura... sei que deveria procurar um médico para fazer alguns exames, mas...

 

- Eu disse que parecia uma loucura?

 

- Não. - Jude soltou a respiração contida. - Acho que foi por isso que te contei, porque não dirias que é uma loucura. Não pensarias assim.

 

E ela também já não pensava assim.

 

- Eu conheci-o, Aidan. - Jude mudou de posição no banco, com os olhos a brilhar de excitação, enquanto o fitava. - Conversei com ele. Na primeira vez, pensei que fosse um habitante. Mas na segunda foi quase como um sonho, ou um transe... tenho algo para te mostrar. - Disse ela, seguindo um impulso. - Gostaria que visses. Sei que provavelmente queres voltar quanto antes, mas se tiveres um minuto...

 

- Estás a convidar-me para entrar?

 

- Isso mesmo. Eu gostaria...

 

- Então tenho tempo suficiente.

 

Saíram do carro e avançaram pela chuva. Um pouco nervosa, Jude empurrou os cabelos molhados para trás, ao entrarem, no chalé.

 

- Está lá em cima. Vou buscar. Queres um chá?

 

- Não, obrigado.

 

- Espera um instante.

 

Jude subiu a correr para o quarto, onde guardara a pedra, entre as meias.

 

Quando ela desceu, escondendo a pedra por trás das costas, Aidan já estava a acender a lareira. O clarão do fogo tremeluzia sobre ele, enquanto se agachava perto da lareira. O coração de Jude sentiu um solavanco agradavelmente doloroso.

 

Aidan era tão bonito quanto o príncipe das fadas, pensou ela. Era incrível como o fogo realçava os tons vermelhos profundos dos seus cabelos, mudava os ângulos do rosto, projectava o dourado naqueles maravilhosos olhos azuis.

 

Era de admirar que estivesse apaixonada por ele?

 

Oh, Deus, estava apaixonada por ele! E como era intensa essa paixão. A súbita descoberta dessa intensidade atingiu-a como um golpe na barriga, quase fazendo-a gemer. Quantos mais erros idiotas poderia cometer num único dia?

 

Não poderia permitir-se apaixonar-se por qualquer belo irlandês, partir o seu coração por ele, fazer figurinhas. Aidan procurava algo inteiramente diferente e não tentara disfarçar. Queria sexo e prazer, diversão e emoção. Companheirismo também, imaginou Jude. Mas não queria uma mulher sonhadora apaixonada por ele, ainda por cima ela, que já fracassara no único relacionamento sério que tivera.

 

Aidan queria um relacionamento amoroso, o que se situava a um mundo de distância do amor. E, se ela quisesse ter êxito aí, proporcionar a si mesma o prazer de um relacionamento, teria de aprender a separar as duas coisas.

 

Não complicaria a situação. Não analisaria em excesso. Não arruinaria a oportunidade. Por isso, quando Aidan se levantou e virou, ela sorriu.

 

- É maravilhoso ter a lareira acesa numa noite de chuva. Obrigada.

 

- Chega-te mais perto. - Ele estendeu a mão.

 

Estava a caminhar directamente para o fogo, pensou Jude. E não se importava nem um pouco se acabasse queimada. Atravessou a sala, sem desviar os olhos de Aidan. Lentamente, tirou a mão das costas e abriu-a. O diamante exibia-se no meio da palma, faiscando em luz e glória.

 

- Pelo Sagrado Coração de Jesus! - Aidan ficou a olhar para a pedra, piscando os olhos, aturdido. - É mesmo o que eu penso que é?

 

- Ele despejou tudo, como se fossem doces a cair de um saco. Pedras tão brilhantes que fizeram com que me doessem os olhos. E vi quando se transformaram em flores sobre o túmulo de Maude. Excepto esta, que continuou como era. - Uma pausa e Jude acrescentou, pensando tanto no amor quanto na pedra na sua mão: - Eu não deveria acreditar, mas aqui está.

 

Aidan pegou no diamante, suspendendo-o contra a luz do fogo. Pareceu pulsar por um instante, depois ficou quieto.

 

- Contém todas as cores do arco-íris. Há magia aqui, Jude Francês.

- Ele levantou os olhos para a fitar. - O que vais fazer com isto?

 

- Não sei. Pensei em levá-la a um joalheiro para ser analisada, da mesma forma como também eu deveria s