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AS MOEDAS DE JUDAS / Scott McBain
AS MOEDAS DE JUDAS / Scott McBain

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

AS MOEDAS DE JUDAS

 

"É uma opinião muito certa e muito católica o facto de que existem mágicos e bruxas que, com a ajuda do demónio, por causa de um pacto que firmaram com ele, são capazes, desde que Deus o permita, de produzir males reais e verdadeiros, o que não torna improvável que eles possam também provocar ilusões visionárias e fantásticas através de meios extraordinários e peculiares."

                   Malleus Maleficarum, O Martelo das Bruxas

 

A Basílica de São Pedro em Roma. Domingo à tarde.

O coração da Cristandade gozava o calor de um brilhante sol de Agosto. Após um almoço acompanhado de algumas azeitonas e de um pouco de vinho regional, na Via della Conciliazione os turistas desceram dos seus autocarros equipados com ar condicionado e formaram pequenos grupos, preparados para uma tarde a visitar os monumentos. Os alemães acariciavam as suas máquinas fotográficas, os americanos procuravam a loja de souvenirs mais próxima, os britânicos formavam uma fila ordeira que não lhes fora pedida e os franceses perguntavam-se por que estavam ali.

Devagar, os turistas subiram os degraus de mármore que lhes dava acesso à Praça de São Pedro. À medida que a pressão humana abria caminho, os técnicos de turismo que acompanhavam cada grupo em cada autocarro acenavam com bandeiras vermelhas para os guiarem. Finalmente encontravam-se à entrada da basílica, tendo os mais velhos e os esclerosados, nas suas débeis estaturas, alcançado os outros.

Foi então que os guias turísticos tomaram o controlo. Como peritos que eram, deram início à sua ladainha, que continuou ininterruptamente ao longo das lajes como o fluxo de um riacho murmurante, proferida numa multitude de línguas. A signora Ross, com esta, devia, talvez, ultrapassar as duas mil vezes que a dizia; no entanto, conduzia, mais uma vez, o seu monólogo num tom que soava fresco, com todo o prazer e gesticulação que fazia de uma italiana uma italiana:

- Observemos a Basílica de São Pedro! A igreja que temos à nossa frente, com a sua maciça cúpula oval concebida por Miguel Angelo, foi consagrada em 1626. Contudo, a sua história é muito mais antiga. Diz-se que foi construída sobre o túmulo original de São Pedro. Lembrar-se-ão do que lhes disse esta manhã (é claro que eles nunca se lembravam), que uma grande parte de Roma foi destruída por um grande incêndio no ano 64 da nossa era e de que o Imperador Nero culpou disso os Cristãos. Em consequência dessa perseguição, crê-se que São Pedro foi crucificado, de cabeça para baixo, não muito longe deste local e que está sepultado dentro do recinto da basílica.

A signora Rossi colocou as suas amplas mãos nos amplos quadris e esperou até que uma ou duas pessoas do seu grupo que mostravam interesse digerissem esta pepita de História. Como de costume, os restantes andavam de um lado para o outro, espreitavam para os livros que lhe serviam de guias, ajustavam as lentes bifocais e queixavam-se de quanto os pés lhes doíam. Os carteiristas pairavam por ali. A signora Rossi continuou:

- A basílica contém 11 capelas e 45 altares. Tem 187 metros de comprimento e mais de três quilómetros quadrados de pavimento de mármore. Entre outras coisas, veremos a Pietá, de Miguel Angelo, o altar-mor em que apenas o Papa pode celebrar missa e o trono de São Pedro em Glória (ela fez uma pausa para olhar um jovem casal apertado num abraço apaixonado ao fundo da multidão. Eles ignoraram-na). Há perguntas antes de entrarmos?

Não havia. Após algumas exclamações de espanto e maravilha, os turistas prepararam-se para entrar. É claro que não deviam ficar muito tempo. Tinham mais coisas para visitar naquela tarde. Era uma excursão de um dia, paga com antecedência. Ainda tinham de visitar a loja de azulejos, o Caffè Giolitti e a Fonte de Trevi.

Entretanto, a signora Rossi comprimiu os lábios. O emprego estava finalmente a atingi-la; já não lhe dava prazer, Era a isto que a Cristandade tinha chegado. Religião ferida, fé de viajante de um dia, jovens a escaldar de desejo sexual mesmo ao entrarem no coração da Cristandade. O que teria feito o Salvador perante tudo isto? Ela nem se atrevia a pensar.

A sorrir, os carteiristas observavam-nos a entrarem lentamente. Sem um guarda. A signora Rossi, mais uma vez, não cumpriria o tempo previsto.

 

Noutra parte do Vaticano, o passo era mais tranquilo e mais profunda a preocupação com a religião.

- Cardeal Benelli.

A imponente figura levantou-se de detrás da secretária ornamentada para cumprimentar o convidado.

- Ah, cardeal Hewson. - Benelli mostrou ao americano um sorriso aberto. Era como todos os Italianos imaginavam os Americanos: alto, ombros largos, rosto grande e um sorriso entusiástico. Tinha também o aperto de mão de um jogador de basebol, o que fez Benelli estremecer.

Hewson disse em italiano:

- Peço desculpa pelo atraso. Acabei de chegar da Igreja de Santa Maria Novella. É o trânsito.

- É sempre a mesma coisa em Roma! - Benelli soltou um riso abafado e a barriga do homem de 65 anos imitou o seu movimento facial como uma pequena onda que se propaga pela água. É que o cardeal não era pessoa para deixar passar uma boa refeição. Muitas vezes, na companhia de leigos, ele dizia, a brincar, que se tivesse sido convidado para a Última Ceia, teria chegado cedo, embora não o fizesse pela melhor das razões.

A comida era uma das alegrias da vida de Benelli e um dos seus pequenos defeitos. É que Benelli era um bom cardeal, um óptimo administrador e burocrata, mas não era santo. Como ele confessava a Deus nas suas horas de introspecção pessoal e oração, desde que entrasse no Céu, ficaria feliz por se encontrar atrás de todos.

- O trânsito é sempre terrível - disse ele, dando palmadinhas no ombro de Hewson. - Já era assim quando eu vim para o Vaticano há 20 anos. Será a mesma coisa quando me levarem daqui. - Soltou de novo um sorriso abafado, aberto e despreocupado.

- Venha. - Benelli levou Hewson pelo braço. Passou para o inglês, embora Hewson fosse fluente em italiano e muitas outras línguas; era um homem muito prendado. - Não há razão para ficarmos cá dentro num dia tão maravilhoso como este.

O chefe da Inquisição ou, se lhe dermos o seu título moderno, o chefe do Santo Ofício, conduziu o cardeal americano através do gabinete, em direcção às grandes janelas da varanda. Ultrapassaram a soleira.

- Tentemos por aqui - disse Benelli, guiando o colega.

Os jardins do Vaticano eram vastos e amplos. Estavam também maravilhosamente cuidados. No centro de uma cidade barulhenta, eles continham um oásis de calma e Benelli passeava por lá tão frequentemente quanto podia, especialmente pelo fresco da tarde.

- Como foi o seu voo?

- Sem problemas - disse Hewson, o sotaque de Chicago a soar a duro no ambiente italiano. Olhou para o seu acompanhante, medindo-o de alto a baixo. Havia três anos que não o via e nunca tinham sido íntimos.

Benelli era uns bons 30 centímetros mais baixo do que ele, gordo, com um rosto oval no qual parecia estar afixado um sorriso permanente. Embora parecesse ser o epítome da jovialidade, o cardeal Hewson sabia que este homem do clero tomava decisões duras e não receava dar a sua opinião quando a ocasião o exigia.

Respeitado, receado, guardião da Fé, Benelli era a figura mais influente do Vaticano a seguir ao Papa, uma vez que, além de ser o chefe do Santo Ofício, também ocupava o posto de cardeal Secretário de Estado. Hewson perguntava-se se ele próprio seria tão poderoso e teria tanto sucesso quando ocupasse estas posições. Ele achava que sim. Naturalmente, faria algumas alterações. Agitaria um pouco as coisas.

- Mostraram-lhe tudo? - perguntou Benelli. - O Vaticano é muito maior do que pensa. Ficará confuso durante semanas.

- Com certeza que sim. Toda a manhã tenho caminhado ao longo de corredores sem fim. Certamente que não há mais nada?...

- Oh, o Vaticano está cheio de surpresas. É uma pequena cidade, mais de 1400 salas, e está sempre a crescer. Não são apenas os museus e as galerias, há a zona residencial de mais de 1000 pessoas, incluindo os guardas suíços. Mostraram-lhe as bibliotecas e as câmaras de audiência papal?

- Sim - respondeu Hewson.

- A Academia das Ciências e a Rádio Vaticano? Hewson sorriu.

- Isso também.

- Óptimo - disse Benelli. - Pelo menos alguém está a seguir as minhas instruções. E a cripta por baixo da Basílica de São Pedro?

- Sim.

- E os túmulos dos papas?

- Sim.

Embora ele soubesse que a basílica estava construída sobre um antigo cemitério romano, Hewson nunca entrara antes na gruta artificial situada por baixo do altar-mor da Basílica de São Pedro. Ele e o seu guia tinham descido uma série de pisos e dirigiram-se para debaixo das fundações da própria basílica. A gruta artificial continha túmulos não só cristãos mas também pagãos que remontavam ao século 1. Para Hewson, fora um momento que lhe inspirara respeito e que tinha um significado profundo.

- Visitou o túmulo de São Pedro?

- Não - respondeu o cardeal Hewson. Tinha os seus motivos.

- Oh? - Benelli olhou-o, confuso.

- Não houve tempo - respondeu Hewson abruptamente. - No passado, quando o Santo Padre me chamou ao Vaticano, só pude visitar os aposentos papais e a Capela Sistina. Há tanta coisa nova...

- Passa-se a mesma coisa com a maior parte das pessoas - observou Benelli com um suspiro. - Este local é um grande mistério. No entanto, como meu sucessor, precisará de saber o nome de todos os edifícios e de toda a gente. Não é uma tarefa fácil.

- Quem me dera poder recusar o cargo.

Benelli abanou levemente o dedo em sinal de advertência, à medida que atravessavam um campo de relva.

- Não é o que todos queremos? Mas quando o Papa ordena, temos de obedecer, e, é claro, há nisso um desígnio divino. De qualquer forma, há alguns aspectos positivos no cargo. Tem-se acesso directo ao Santo Padre e voa-se muitas vezes à volta do mundo. Podia ser pior. Agora venha sentar-se.

Sentaram-se num banco de jardim sem ninguém que os pudesse incomodar. Durante uns momentos nenhum deles quebrou o silêncio, satisfeitos de observarem as flores a agitarem-se com a brisa, os pássaros a voarem de uma árvore para outra e, elevando-se acima de tudo, a cúpula da basílica. Então Benelli olhou Hewson. O seu olhar era vivo e perceptivo. Hewson compreendeu que tinham chegado à última fase da entrevista.

- Cardeal - começou Benelli - o meu cargo é difícil. Um dos mais difíceis na Igreja: a protecção da Fé. Embora tenhamos falado nisto antes, há algumas perguntas finais que gostaria de me colocar? Amanhã será sagrado meu sucessor e eu partirei para o Mosteiro de San Lorenzo e para a reforma; voltarei a ser um simples padre. No entanto - aproximou-se - queria falar consigo, em privado, mesmo apesar de ter lido as minhas instruções e de ter conversado com os meus funcionários, Sinta-se livre para levantar qualquer questão que queira.

O tom era amável e afectuoso, como de um verdadeiro pai para um filho. Benelli sabia que a sua posição como chefe do Santo Ofício não era posição que qualquer homem desejasse, se compreendesse realmente o que ela implicava, e talvez Hewson estivesse já a experimentar os acessos da depressão que por vezes se abatera sobre ele próprio durante o tempo em que ocupara aquele grande cargo.

Por sua vez, Hewson estudou o homem mais velho. Como encararia ele a sua reforma após todos aqueles anos de influência e poder, sem bispos nem padres para o adularem a cada palavra que pronunciava? Pobre Benelli, estar quase no vértice de tudo e depois ser novamente atirado para baixo. Bastante semelhante à queda de Satanás, pensou o cardeal Hewson estranhamente. E disse:

- O seu cargo é de uma enorme responsabilidade. Defender a Fé contra a falsa doutrina e contra aqueles que procuram perverter os ensinamentos da Igreja para atingirem os seus próprios objectivos; desafiar os poderes do mal... é uma tarefa sobre-humana.

- Especialmente nos dias que correm. - Benelli iniciou o seu sermão, seriamente. - Hoje vivemos num mundo superficial e falso. Convencemo-nos de que a nossa existência está continuamente a melhorar. No entanto nunca houve tanta pobreza, tanto abuso, tanta fome e desespero. Nunca as pessoas se sentiram tão sós e tão pouco realizadas tanto na sua vida espiritual como pessoal. E nunca houve tantos falsos profetas e tanta gente a procurar destruir a Igreja. - Fez uma pausa. - Vivemos um tempo difícil e estamos, creio, a entrar em águas novas e traiçoeiras.

Benelli voltou a suspirar (era um dos seus hábitos) e olhou o brilho esplendoroso das flores à medida que captavam a luz do Sol. E continuou:

- Noutros tempos, era mais fácil. Os caminhos do mal eram muito visíveis: os poderes da magia, da bruxaria e do demónio. Igualmente visíveis eram os caminhos da Igreja para os combater: a Inquisição, a excomunhão e a repressão de hereges. No entanto, o mal é uma coisa estranha e infinitamente subtil, cardeal Hewson. Pois até os próprios instrumentos que a Igreja usou na Idade Média para se lhe opor se tornaram, por sua vez, distorcidos e pervertidos. Os inocentes foram perseguidos, os loucos e os fracos torturados ou mortos e a nossa Igreja era temida. A imagem assustadora desses tempos continua viva nas páginas da História. Mas a tarefa principal da Fé, lutar contra as forças das trevas, permanece. É que a quantidade de mal existente neste mundo não diminui e a luta não é justa.

Hewson olhou sub-repticiamente o relógio. Esperava que Benelli não se alongasse demasiado.

- Não?

- Não - disse Benelli com firmeza. - Os poderes que você tem como chefe do Santo Ofício são limitados, enquanto que os poderes de Satanás são imensuráveis e indetermináveis. A própria Bíblia afirma que o demónio pode surgir disfarçado de Anjo da Luz e, de facto, isso acontece muitas vezes.

- Certamente que não acredita nisso?!... - As pessoas viam Benelli como um homem prático, um funcionário que em breve se tornaria um burocrata celeste, e não como um conservador ao estilo antigo com o inferno e a condenação sempre à ponta da língua.

- Acredito, sim.

Benelli passou em revista as estátuas dos santos sobre as colunatas do Vaticano e as sombras escuras que projectavam.

- Até aqueles que a Igreja reconhece como santos podem ter sido o oposto, no seu tempo. Os poderes das trevas são poderes de engano e traição, cardeal Hewson. E não tenho dúvidas de que aqueles que hoje são venerados como homens e mulheres santos não o foram de facto. Enquanto fingiam louvar a Deus, procuravam apenas o benefício e glória próprios. O mal engana os seres humanos, até os mais santos, no seu caminho para a Cruz; e fá-lo quando eles menos esperam. - Hesitou. - Mas perdoe-me, já estava a divagar. O que é que o preocupa?

- Aaaa... - Hewson perdera o fio dos pensamentos. - O que me preocupa é poder não estar à altura de desempenhar adequadamente as tarefas que um cargo desta responsabilidade exige. - Observou uma jovem freira que passava junto a eles. Tinha um rosto jovem e atraente, apesar do hábito e do capelo.

Benelli reparou no ar grave do seu acompanhante e sentiu pena dele.

- Meu filho, não tenha medo. O Santo Padre escolheu-o para esta tarefa e tenho a certeza de que a cumprirá melhor do que eu. Oração e um coração humilde são as únicas coisas de que precisa, embora o último tenha sempre fugido de mim... Receio bem que assim tenha sido. Tem mais perguntas?

- Apenas uma. - Hewson fez uma pausa como que para se perguntar se devia incomodá-lo. - É muito estranho. Quando visitei a Basílica de São Pedro esta tarde, o seu assistente levou-me à gruta artificial. Lá perto há uma passagem que não está aberta ao público.

- Correcto.

- O seu assistente abriu com a chave o portão de ferro que dá para esta passagem e descemos uma série de degraus até uma câmara mais inferior.

- Sim - disse Benelli. - Contém os túmulos dos Papas que viveram no século i. Ninguém a pode visitar sem autorização do Santo Padre.

- Presumo que só um padre pode visitar aquele local, não é assim?

- No mínimo.

- Ah - disse o cardeal Hewson, acenando sabiamente com a cabeça. - Foi o que imaginei. De qualquer forma, vi uma luz ao fundo do corredor e não pude deixar de ir até ela.

Parou e olhou Benelli, tentando adivinhar os seus pensamentos. Mas não conseguiu.

- Foi bastante arrepiante. À entrada que dava para um dos túmulos havia uma luz, ou melhor, uma série de velas. O túmulo parecia ser relativamente recente. Talvez eu estivesse a imaginar coisas, mas estava lá também uma rapariga a rezar.

O rosto de Benelli permaneceu impassível, por isso Hewson continuou.

- O seu assistente fez-me sinal para que não dissesse nada e para sair dali. Quando lhe fiz perguntas sobre isto, ele disse-me que devia falar consigo ou com o Papa. Quem é esta rapariga? Ela devia lá estar? Não pode ser freira, já que parece tão jovem. Deve ter à volta de 12 anos.

A princípio o cardeal Benelli não falou. Suspirou mais profundamente do que de costume e Hewson ficou surpreendido ao ver que as lágrimas lhe toldavam o olhar. Quando, por fim, começou a falar, a sua voz era rouca e o tom era do mais profundo pesar, Era óbvio que a conversa anterior fora realmente um prelúdio para este assunto.

- A rapariga tem autorização para visitar o túmulo seguindo o desejo expresso do Papa. Só ele pode cancelar a ordem. Ela não deve ser incomodada.

Benelli hesitou. Depois continuou:

- Cardeal, todas as instituições têm segredos, e o Vaticano ainda mais do que outras. Não só devido à sua tão longa idade, mas também por causa da sua natureza e da Fé que professa. Durante quase dois milénios, a nossa Igreja albergou, e continua a albergar, os segredos do Confessionário: segredos de milhões e milhões de seres humanos, santos e pecadores, maus e bons. Esses são segredos humanos. Mas a nossa Igreja também está na posse de segredos espirituais que remontam à noite dos tempos.

- Há mais alguma coisa? - perguntou Hewson quando Benelli não continuou.

- Sim - respondeu o cardeal. - Receio que haja. - Baixou a voz. - Como meu sucessor, há algumas coisas que precisa de saber. Grandes segredos. - Fez outra pausa. - Segredos terríveis. E nenhum é mais terrível do que aquele que estou prestes a revelar. Apenas três pessoas vivas o conhecem. O Santo Padre, eu próprio e outra pessoa.

- A rapariga? - interpôs Hewson.

O cardeal Benelli confirmou com um aceno de cabeça.

- É uma história de traição e está relacionada com o próprio Nosso Senhor.

Mesmo encontrando-se no jardim, onde a temperatura era amena, Benelli sentiu um súbito arrepio. E então começou a falar.

- Tem a ver com as Moedas de Judas.

 

"Estão errados aqueles que dizem que não existe tal coisa como seja a bruxaria, e que ela épuramente imaginária...

O demónio tem mil formas e meios de infligir o mal, e, desde o tempo da sua primeira Queda, tem tentado destruir a unidade da Igreja e, ao mesmo tempo, subverter a raça humana."

                   Malleus Maleficarum, O Martelo das Bruxas

 

Seria a primeira coisa, e a última, de que Paul se lembraria depois de a sua doença ter começado. Viu-a tremeluzir no tecto, passando através de uma abertura do cortinado. Luz. Tão indefinivelmente bonita, tão livre. Ele observou o raio a penetrar no quarto, a forma como se tornou mais suave à medida que se dispersava, e, finalmente, a sua retracção em cores primárias. Onde estaria a humanidade, se não tivesse luz? Um povo condenado a viver nas trevas. Luz. Tão essencial como a água, e, no entanto, tal como a água, tão raramente apreciada.

Paul espreguiçou-se com cuidado, para não incomodar a mulher. A casa estava em silêncio, e, vindo lá de fora, do subúrbio fechado de São Francisco, chegava até ele o ruído surdo de um carro que passava pela estrada privada. Enquanto estava deitado na cama naquela manhã de domingo, Paul apercebeu-se de que era possuidor de duas coisas maravilhosas: luz e paz. Juntas, elas traziam-lhe uma profunda sensação de satisfação. Paul considerou este estado transitório. Era uma sensação relativamente fácil de evocar, sendo, no entanto, tantas vezes empurrada para o lado pelas preocupações da vida diária. Para além disso, não era algo a que estivesse acostumado. Ele era demasiado enérgico para isso.

Passados poucos segundos, o estado idílico de Paul dissipou-se e a sua consciência escorregou para a primeira velocidade. Os pensamentos começaram a afluir-lhe em catadupa, substituindo a maravilhosa sensação que experimentara de estar fora de si próprio, um espírito livre desembaraçado de preocupações humanas.

Num ápice, a sua mente sumariou a sua agenda para a semana. O julgamento de Kramer, o artigo para a revista The Psycbiatrist, aquelas avaliações que ele e Ben tinham concordado em fazer na prisão de Alta Segurança de São Francisco, o furo de que ele andava à procura para as notícias da NBC. Chegar ao topo da sua profissão, ser o melhor psiquiatra criminal dos Estados Unidos, era este o dínamo que impulsionava a ambição de Paul, e ele oleava-lhe as rodas liberalmente.

Paul concentrou-se na figura que dormia a seu lado na cama, o comboio dos pensamentos desviando-se para preocupações mais pessoais. Amava Marie. Bem, isso não era literalmente verdade, ele amara-a. Quando se casara com ela, amara-a. Isso foi há dez anos, quando sentira uma urgência súbita de assentar e ter filhos, o tipo de coisas que assaltava os homens de 30 anos quando eles menos esperavam

No caso de Marie, tudo fora diferente. Ela era uns anos mais nova do que ele, acabada de sair da universidade com uma licenciatura em arte e à procura de sentido, mais do que de dinheiro, na vida. É claro que ele a fizera levantar os pés da terra com as suas maneiras inteligentes e a sua determinação de a conquistar, embora os pais dela se tivessem oposto ao casamento. Católicos de ideias curtas, com mentalidade de pequena cidade, tinham-no achado demasiado ambicioso e um homem sem fé,

Paul esboçou um leve sorriso, lembrando a sua antiga paixão, O tempo, como sempre, alterou o status quo. O seu amor por Marie não se dissipara completamente - mas perdera o brilho. Ele imaginava que isso acontecia com todos os casamentos de hoje em dia, sendo tudo tão efémero e superficial. Ainda gostava de Marie, é claro, mas os casos que tivera nos últimos dois anos tinham alterado a sua atitude. Sentia, de alguma forma, que ele e o seu corpo pertenciam agora a outras, a um mundo mais vasto, e não apenas a ela. Não que ele lhe tivesse revelado alguma coisa: ela não suspeitava de nada.

Por outro lado, e talvez ele estivesse errado, mas ela parecia ter perdido alguma daquela autoconfiança e jovialidade que em tempos tivera. É verdade que ela era boa como vice-presidente da importante instituição de caridade para a qual trabalhava; não era nada fácil de convencer - a não ser com ele; bem, ela olhava-o por vezes de uma forma um pouco confusa, como se já não estivessem muito ligados, como se os seus mundos se estivessem a separar.

Além disso, pensou Paul, ao mesmo tempo que imagens mais amargas se erguiam das profundezas da sua alma, quando a filha Rachel nascera, o louco que se mascarara de médico fora negligente. A compensação comprara-lhes a casa, mas agora ele tinha uma mulher encantadora, mas menos amada. E que era estéril. Isso mudou muito as coisas. Para ele, e, imaginava ele, no fundo do coração dela, para ela também.

- Estás acordado? - De debaixo dos lençóis saiu uma voz doce acompanhada de um movimento. Paul não disse nada, disposto a seguir os pontos da sua agenda por mais um pouco.

- Paul?

Marie virou-se na cama. Uma cabeça de cabelo ruivo aninhou-se no braço dele. Ele examinou-a minuciosamente. O rosto já não era bonito - não agora, com os leves indícios de rugas, que se tornavam mais visíveis aos cantos dos olhos - mas continuava muito atraente. Para uma mulher de 33 anos, a figura dela, quase sem marcas, os olhos castanhos e cristalinos e as maçãs-do-rosto salientes, incrustados num rosto oval eram algo de que Paul ainda se podia orgulhar quando a apresentava a membros da faculdade e a outras pessoas. Mais uma coisa de que se gabar.

- Acordado?

- Hum.

- Não te esqueceste? - murmurou ela, sonolenta, sem abrir os olhos. - Hoje temos o piquenique com os Ingelmann. Florence convidou-nos a semana passada. Teremos de nos levantar daqui a pouco.

- Não. É cedo. São só sete horas.

- Sim? - Silêncio, enquanto Marie digeria esta bem-vinda informação. Era pena que ela não tivesse perguntado antes. Agora estava demasiado acordada para voltar a dormir, Tentou dormitar, mas sem resultado. Não conseguia dormir mais. Perguntava-se o que o marido estaria a pensar. Provavelmente no trabalho.

Fora sempre assim, mesmo antes do casamento. Uma origem humilde produzira nele uma sede de sucesso que parecia imparável. Ela compreendia o desejo dele, mas não a sua intensidade, não agora que tinham Rachel. No entanto, Marie sabia, no mais profundo do seu ser, que ele não lhe perdoava a sua incapacidade de lhe dar filhos. De certa forma, ela falhara, e ele não podia aceitar fracassos nem em si próprio nem nos outros: essa característica era demasiado intrínseca ao seu ego.

E era por isso que Marie lhe perdoava as aventuras amorosas que de vez em quando tinha, embora o facto de ter conhecimento delas lhe espetasse uma faca no peito. Será que ele a deixaria? Quando é que ele a deixaria? Talvez nunca. Oh, Deus, faz com que não seja assim, pois ela ainda o amava. Marie abriu os olhos e fitou o marido. Ele sorriu e os pensamentos amargos dela afastaram-se temporariamente. Acontecesse o que acontecesse, ela amava-o e seria fiel aos seus votos matrimoniais.

- Ela está a dormir?

- É claro.

- Tenho a certeza.

Marie sentou-se na cama e fez passar a camisa de noite de seda pela cabeça. Atirando-a para o tapete, puxou o lençol por cima de ambos para que ficassem escondidos no seu próprio casulo branco. Começaram a fazer amor. Os pensamentos dela estavam concentrados nele, os dele noutras mulheres.

- Mamã?

- Oh... - Marie suspirou levemente e resmungou. A sua mente levou meio segundo a regressar ao mundo exterior. Atirando o lençol para trás, ela olhou através do quarto, para a criança pequena e inquiridora que se encontrava à porta, agarrando a sua boneca preferida.

- Rachel, querida, porque não dormes mais um pouco? - Marie puxou para trás o cabelo desgrenhado, à medida que passava por cima do corpo de Paul, para se libertar dele.

- Não sou capaz de dormir.

Marie tentou não parecer demasiado nervosa.

- Bem, não faz mal, querida. Porque não vais lá para baixo? Desço daqui a um minuto.

Estavam deitados, cada nervo esforçando-se por captar o som dos passos da filha de sete anos nos degraus. Após terem ouvido as últimas passadas, Marie virou-se de novo para Paul. Tinham menos de dez minutos até que Rachel reaparecesse para se queixar de que não encontrava o ursinho. Contudo, muita coisa se poderia atingir até lá. Marie sorriu a Paul. Ele ergueu o sobrolho.

 

- Mulheres - resmungou. De certa forma, um dia destes podiam superar os homens. - Está toda a gente pronta? Ben está lá fora no carro. Florence Ingelmann berrou as palavras no momento em que atravessou a soleira da porta da frente. E viu-se imediatamente rodeada por dois seres que procuravam atenção: uma menina pequena e um cão. No entanto, aceitou tudo sem esforço. Estava habituada à casa dos Stauffer. Com um movimento circular dos seus grandes braços carnudos, ela puxou Rachel para si e implantou-lhe na face a marca de um maciço beijo de bâton cor-de-rosa. Em seguida, o Labrador de pêlo dourado da família recebeu uma festa no nariz enquanto se empoleirava freneticamente à cintura dela, disposto a renovar o conhecimento. Completa a arriscada passagem através do átrio, Florence deslizou para a cozinha.

- Vá lá, vocês dois. Está na hora de irmos.

Antes que Marie ou Paul se tivessem levantado da mesa do pequeno-almoço, Florence envolvera-os num abraço e apertava-os com força. Mais uma vez, estampou-lhes no rosto um beijo húmido, como o selo de conformidade colado num artigo de supermercado. Era este o tipo de mulher que Florence era. Mais ampla do que a vida, efervescente, imparável, e tudo comprimido dentro dos limites de uma moldura de um metro e 58 centímetros de altura, encimada por uma massa de cabelo louro descolorado e com um físico bem torneado que dizia a todos os professores de fitness que podiam olhar, desesperar, mas não tocar.

Vendo o cesto de piquenique, Florence pegou-lhe. Dirigiu-se de novo para o átrio, a menina e o cão emboscados à espera dela, a menina traindo a sua presença com os seus risinhos.

- Vamos, meninos! - gritou Florence enquanto desaparecia para lá da porta da frente.

Paul olhou a mulher por cima da mesa do pequeno-almoço, metade do bolo de manteiga ainda na boca. Ele podia ser professor de psiquiatria criminal, colega do marido de Florence, Ben, e uma figura muito conhecida dentro da sua profissão, mas, para Florence, os 39 anos dele e os vários graus académicos não contavam para nada. Ele e a mulher eram classificados como a filha e o cão, simplesmente como crianças. Isso sempre o aborrecera, pois tinha um sentido bem desenvolvido da sua própria importância. No entanto, Ben era seu apoiante e ele não tinha muitos.

Marie disse num tom calmo:

- Penso que Florence quer que vamos já.

Paul assentiu com a cabeça. Estava a ver que tudo hoje ia ser prematuro. E eram apenas oito e meia de uma manhã de domingo.

O Ford Sedan seguia a grande velocidade pela estrada nacional de São Francisco, com Ben ao volante.

Alto e magro, com pouco mais de 50 anos, de óculos e ar distraído, Ben era professor de Psiquiatria Criminal na Universidade de São Francisco, onde ensinava há muito mais anos do que Paul. Apesar disso, e do facto de Ben ser chefe de departamento e patrão de Paul, o homem mais jovem dominava sempre as coisas.

Por que razão é que ele tolerava esta situação? Ben colocara muitas vezes esta pergunta a si próprio, no entanto conhecia a resposta e aceitara-a há muito tempo atrás. Porque estava a tratar com um génio. Lançou um olhar a Paul. O colega era um homem bem-parecido, de estatura média, com a cabeça coberta de cabelo preto e um rosto com traços um pouco duros de mais, quase cruel, se visto a uma luz forte.

Obstinado, extremamente ambicioso, por vezes completamente exasperador: apesar de ou possivelmente devido a estes defeitos de carácter, Paul tinha génio. Brilhante perito em diagnósticos com uma profunda empatia pelos doentes do foro psiquiátrico que tinham cometido crimes, Paul tinha a capacidade de se exprimir em artigos e livros académicos com uma originalidade surpreendente. Ele não era só impressionante: na opinião de Ben, ele tornar-se-ia, com o tempo, um nome tão importante como Sigmund Freud ou Carl Jung.

Outros homens não teriam aceitado isso. Dominados pela inveja e uma falta de confiança em si mesmos, teriam pensado em derrubar Paul. O facto de não o fazer dizia muito da humildade de Ben.

Em vez disso, fazia tudo o que podia para permitir ao homem mais jovem distinguir-se na universidade. Graças a Ben, eles, e as mulheres, davam-se bem. Era uma boa coisa, também, porque Paul não tinha outros colegas de profissão que fossem seus amigos. Era demasiado rude para o gosto deles.

Juntamente com os seus compromissos de leccionar, Ben e Paul geriam uma pequena clínica psiquiátrica privada que cuidava dos actores de São Francisco. Tinham-na aberto havia apenas um ano, no entanto já era um negócio lucrativo, dado que a maior parte dos actores e actrizes da cidade estavam geralmente a entrar ou a sair de alguma coisa - orifícios, drogas, depressão, emprego, estrelato. E quando isso acontecia, queriam sempre saber - porquê eu? Por vezes Paul e Ben não sabiam - mas geralmente conseguiam dar uma explicação suficientemente plausível para que o dinheiro fosse transferido de um bolso para outro e todos pareciam ser mais felizes por isso.

Ben parecia gostar de contrastes, pois era também o oposto da mulher na natureza, e na disposição. Enquanto Florence era flamejante e roliça, o equivalente humano a algodão doce, ele era alto e estreito; enquanto ela conversava como um relógio que fala durante 24 horas, ele ficava em silêncio a não ser que fosse forçado a falar; enquanto ela era a alma e o coração da festa, ele podia transformar um casamento num velório com o seu taciturno silêncio.

No entanto, esta estranha combinação de opostos era a grande força de ambos e eram dedicados um ao outro. Não tendo filhos seus, Rachel Stauffer tornara-se objecto do seu afecto, uma filha substituta que Florence abraçava interminavelmente e que comprimia contra o seu amplo peito como se fosse um brinquedo. Florence também adorava Marie e Paul, embora a razão que levara aqueles dois a casarem-se fosse um completo mistério; as suas naturezas eram tão diferentes.

Florence via que, para Marie, três componentes essenciais constituíam a sua existência; o marido, a filha e a sua fé católica. No entanto, Paul partilhava apenas um deles, Ele amava Rachel profundamente, mas tinha um desdém seco pela religião e não precisava de ninguém para complementar o seu ser. Tinha uma mente e uma personalidade tão cortantes como uma lâmina e que deixavam os outros sem dúvidas quanto à sua auto-suficiência e à sua superioridade intelectual. Erguer-se-ia, ou cairia, como a estrela de alva.

Enquanto Ben conduzia, Florence falava efusivamente para Marie e Rachel, no banco de trás, transmitindo as últimas bisbilhotices do ginásio sobre o qual tinha um conhecimento não especialista (e das máquinas de exercícios muito menos).

Incapaz de tolerar aquela torrente verbal durante muito tempo, Ben observou:

- Don Eccles disse-me que apresentaste um pedido para fazeres a prelecção sobre Carl Jung este ano.

- Sim - disse Paul.

- Seria certamente uma boa jogada se o conseguisses. - Ben mudou de posição no assento. - Nunca convidaram ninguém tão jovem. Normalmente todos têm à volta de 60 anos.

- Exactamente - respondeu Paul. - É a prelecção de mais prestígio em psiquiatria e dão-na sempre a falhados abjectos que estão no fim da carreira e que têm apenas a senilidade a desejar.

Ben sorriu. Paul tinha razão. No entanto, aquele tipo de verdade só fazia inimigos e Paul tinha um bom número deles na comissão internacional de selecção. Perguntou-se se lhe devia contar que já tinham escolhido Johann Hermanns, de Basle. Decidiu não o fazer. Isso arruinar-lhes-ia o dia. Além disso, havia outras questões, mais difíceis, a tratar. Será que Paul sabia por que razão Florence tinha combinado o piquenique?

- Que tópico escolherias? É claro que podes sempre aproveitar as coisas para um artigo, caso não sejas escolhido.

Paul olhou para o trânsito que seguia em sentido contrário, para os carros que passavam a grande velocidade na faixa contrária.

- Pensei em algo bastante controverso. "A Psiquiatria Criminal e a Derrota da Religião".

- Uau! Isso afectá-los-ia. Mas não te esqueças de que a maior parte da direcção da universidade tem uma inclinação religiosa, Não hás-de querer prejudicar a tua carreira aqui.

- E depois? - disse Paul. Podia sempre arranjar outro emprego. Riu, um riso relaxado, Ben não disse nada. Continuaram em silêncio.

- Vira à esquerda - gritou Florence do banco de trás, sem perder um fôlego. - Oh, e eu estava ontem a falar com Jenny Menteith, na Liga da Comunidade Religiosa Feminina. Pobrezinha, foi diagnosticado um cancro à mãe. - Florence pressionou o rosto com a mão, horrorizada. - Cancro na garganta, também. E tem uma voz tão bonita. - Debruçou-se para a frente. - Vira à direita, sim, à direita. Estamos quase a chegar.

Em seguida continuou com o seu solilóquio, incansável. Rachel olhava-a, fascinada, admirada por um ser humano poder falar tanto sem respirar. Florence deve ter pulmões especialmente adequados. Mais tarde perguntaria à mãe se era assim.

Ben desceu com o carro um pequeno caminho de areia e saíram. A praia privada estava à frente deles, areia branca e prístina, que se estendia até ao mar. Com um grito, Rachel correu à frente, o cão a saltar junto às suas pernas. Ansiosa, Florence correu atrás dela.

Marie reparou nos olhos de Ben. Brilhavam de divertimento ao ver a mulher agarrar a mão de Rachel e levá-la para a água.

- Cuidado - disse Ben. - Ela pensa que a criança é dela. Um dia destes tira-vo-la.

Marie devolveu o sorriso. Florence dissera-lhe há muito tempo que não podia ter filhos, mas, no caso dela, era devido a uma disfunção natural, não à faca. Foi este elo comum que as aproximou ao princípio. Marie sabia que Florence aceitara o seu fardo, intelectual e filosoficamente, algo que Marie não conseguia fazer. No entanto, o instinto da maternidade em Florence não podia nunca ser completamente suprimido, e, consequentemente, convertia o mundo inteiro em seus filhos.

Entretanto, Paul dirigiu-se à mala do carro.

- Vamos tirar as coisas para o piquenique. - Foi bom o presidente da universidade tê-los deixado usar o seu retiro da praia durante aquele dia. É claro que ele deveria querer que Paul o ajudasse a fazer qualquer coisa em troca. - A propósito, Ben, leste o último artigo de Don Trautman, "Avaliação Psiquiátrica de Prisioneiras que sofrem dos efeitos da Dependência da Cocaína"?

- Não - disse Ben. - É bom? - Se Paul lhe dissesse que era bom, ele lê-lo-ia. Se não, deixá-lo.

Tendo reunido tudo, caminharam ao longo da praia. Ia ser um dia perfeito. Todos o podiam sentir, excepto Ben. Escondeu os dedos dos pés na areia. Estava a pensar no julgamento de Kramer.

- Minha querida, tens tanta sorte. - A tarde ia avançada. No entanto, a voz de Florence não tinha ido com a maré. Aumentava de volume, diminuía de volume, contudo, como a corrente, nunca cessava. Marie perguntava-se se ela também falaria a dormir. Pobre Ben.

- Tenho - disse ela.

- Tens uma filha linda, uma casa pela qual a maior parte das pessoas mataria e um marido brilhante. Deus abençoou-te.

- É verdade - respondeu Marie.

Estavam sentadas a observar Rachel, que brincava na rebentação. Paul e Ben tinham ido dar uma volta. Florence fez uma pausa. Pigarreou cuidadosamente. Chegara agora ao assunto.

No entanto, no último momento faltou-lhe a coragem. Embora Marie confiasse e fosse muito tolerante para com os outros, na opinião de Florence, ela desenvolvera uma certa cegueira em relação ao marido. Nem sempre fora assim. Contudo, Florence não sabia nada da angústia de Marie relativamente à infidelidade do marido nem da sua determinação em manter ainda a família junta. Sendo assim, é claro que Marie deve estar preocupada com o caso Kramer. Florence esperaria até que a sua melhor amiga levantasse o véu às suas preocupações de sua própria iniciativa. Por isso, observou:

- Ben diz que o último livro de Paul está a ter muito sucesso. Ambos achamos que isso é maravilhoso.

- Sim - Marie não disse mais nada. Caiu sobre elas um silêncio, que, passado um minuto, se tornara tão anátema para Florence que esta irrompeu, dizendo;

- Marie, queres falar de Karl Kramer?

É claro que lamentou tê-lo dito mal as palavras lhe saíram da boca e reparou que a testa da sua melhor amiga adquirira rugas de tensão. Marie abanou a cabeça e virou a cara para o lado.

- Compreendo - disse Florence. Que mulher mais estúpida. Desejava não ter falado. Agora ela fechara-se e estragara tudo. Em silêncio, pela primeira vez, observavam Rachel a chapinhar no mar com o cão.

 

- Não quero discutir esse assunto - a voz de Paul era nítida e Ben interrompeu a caminhada. Olhou para trás, para o local onde Florence e Marie estavam sentadas à distância. Encolheu os ombros e continuou a caminhar ao longo da praia.

- Paul, tenho de falar contigo.

- Agora não.

- Sim, Paul, agora. O julgamento é amanhã e se eu não conseguir falar disso contigo, quem é que consegue? Sou teu amigo. - Fez uma pausa. - É verdade que és o único psiquiatra a trabalhar na defesa?

- E depois? Toda a gente tem direito a ser representado.

- É claro - disse Ben. - Eu não estava a pôr isso em causa. - Paul começou a afastar-se, mas Ben alcançou-o. - Tudo o que estou a tentar fazer é dar-te um bom conselho. Este é um caso muito importante e o público está muito interessado nele.

- E? - Paul apanhou algumas pedras e atirou-as ao mar. - Em quantos casos muito importantes é que tu e eu temos dado opiniões profissionais? Pelo menos 50 nos últimos dez anos. Este não é diferente, asseguro-te.

- Mas é diferente! Não é apenas uma questão de assassínios em série. Se o homem se safar com base na tua opinião de perito e se mais ninguém for condenado, estás acabado. Entendes isso? O público e a profissão jamais te perdoarão. É verdade que o doutor Light-man se retirou da defesa?

- É, e depois? Ficou com medo no último momento. - Paul olhou o seu companheiro quase com desdém. - Um pouco como tu.

Ben corou.

- Isso não é verdade. - A voz levantara-se-lhe e ele tentou acalmá-la. Não havia motivo para se zangarem. - Eu saí após a minha própria avaliação psiquiátrica. Cheguei à conclusão de que Kramer fez mesmo aquilo. Não posso dar provas a favor de alguém, quando, no meu coração, acredito que é culpado.

- Está na hora de regressarmos.

Ben estava a perder. Mesmo assim, ainda faria mais uma tentativa.

- Deixa-me colocar a questão desta maneira. Ambos sabemos que com certos tipos de criminosos, há o perigo real de que o psiquiatra ganhe demasiada empatia em relação a eles. A pessoa sente-se atraída para o mundo deles e acaba aquiescendo com as suas opiniões. Os assassinos em série são um exemplo clássico desse tipo de coisa. São muito manipuladores.

- Ah, quer dizer que pensas que a minha opinião profissional foi afectada? - respondeu Paul friamente. - Essa é a verdadeira questão, não é? - Baixou-se para apanhar mais alguns seixos.

- Não, mas o que estou a dizer, Paul, é que Kramer é um homem estranho e perigoso. Tenho a certeza disso, tanto pessoal como profissionalmente. Visitaste-o tantas vezes a sós na prisão que podias estar em perigo de desenvolver empatia por ele. Precisas pelo menos de outro perito para te apoiar, independentemente do que digam os advogados. Não vás para este julgamento sozinho.

- Senão o que é que acontece? - Pau! esboçou um grande sorriso. - Pode ser a minha morte? - Aproximou-se e deu uma palmadinha nas costas de Ben, de uma forma amigável, assinalando que a conversa estava no fim. Kramer não era capaz de enganar Paul; disso ele estava bastante certo. O verdadeiro problema, para dizer a verdade, é que Ben não era muito bom psiquiatra. E também perdera a coragem quando o público começou a pedir sangue.

Ouviu-se um grito atrás deles.

- Papá, olha o que eu encontrei! - Rachel corria ao longo da praia em direcção a eles. Trazia qualquer coisa fechada na mão.

Paul puxou-a para si e inspeccionou a concha com atenção. Ben estava esquecido.

 

Nessa noite, enquanto Marie estava ocupada na cozinha, Paul entrou no seu escritório para começar a trabalhar numa prelecção, Turandot, de Puccini, como som de fundo. Gloria, a empregada filipina, desceu as escadas.

- Rachel quer que lhe leia uma história antes de adormecer.

Marie acenou com a cabeça à medida que colocava alguns bolos num cesto para um encontro de mães a realizar-se no dia seguinte. Gritou através da porta:

- Paul, podes ler uma história a Rachel?

Paul suspirou e pousou a caneta na secretária. Em seguida subiu as escadas. A filha estava deitada, fingindo estar a dormir. Paul sentou-se a seu lado e olhou a beleza simples do seu rosto, uma simplicidade angélica, as feições perfeitamente formadas. Dentro daquela pequena figura havia um amor inocente e incondicional que nenhum adulto podia esperar reproduzir. Ele faria qualquer coisa por ela.

Paul esperou. Passados alguns segundos, Rachel abriu um olho para verificar se ele ainda ali estava. Foi o azar dela. Os dedos de Paul fizeram-lhe cócegas de lado e ela guinchou e contorceu-se de prazer.

- Então que história é que queres?

Rachel puxou pela sua preferida: O Capuchinho Vermelho e o Lobo Mau. Paul empoleirou-se na cama dela. Devagar, leu o conto. Era um leitor dramático, e, em cada ponto alto, a sua voz "vivia" a história, de forma que a filha depressa estava desesperadamente apanhada. Paul olhou-a. A expressão da menina registava que ela estava a recriar na sua mente a fantasia que ele tecia, medo e incerteza reflectidos nas suas feições móveis, enquanto que os seus olhos em forma de lua fixavam, vivos e brilhantes, a semiescuridão.

Paul fez uma pausa à medida que o lobo estava prestes a encontrar o seu destino.

- Está na hora de dormir. Amanhã leio o resto.

- Não, mais.

Paul debruçou-se para a beijar.

- Amanhã. - Levantou-se e fez tenção de desligar a luz da mesinha-de-cabeceira, mas ela impediu-o.

- Papá!

- Rachel, é só uma história. Não há lobos maus. Além disso, foi derrotado pela menina. Queres que eu veja debaixo da cama?

Ela acenou com a cabeça e Paul assim fez. Há muito que o fascinava o facto de que as crianças, especialmente as mais pequenas, tinham a capacidade de compreender uma sensação de mal sem qualquer explicação dos pais. Ele próprio, de tenra idade, tinha evocado um mundo de fantasmas e vampiros, monstros e bruxas, lobisomens e demónios, todos "vivas" e experimentados em vívidos pesadelos. No entanto, havia uma explicação perfeitamente lógica. As crianças extrapolavam contos de fadas na sua imaginação e em seguida adaptavam-lhes uma realidade física. É claro que a imagem existia, mas apenas na fantasia da criança. Imagem sem substância. Tudo muito lógico. Ainda bem para a psiquiatria.

- Estás a ver? Não há nada aqui. Boa noite, querida.

Paul voltou a trabalhar nos seus apontamentos para a prelecção. Quando foi para a cama, Marie já estava a dormir. Ele ficou contente. Já tivera suficientes discussões sobre Kramer durante o dia. O assunto estava encerrado.

A alguns quilómetros de distância, na sua casa mais modesta, Florence e Ben estavam sentados ao lado um do outro no sofá a ver as notícias da noite. Como se esperava, as notícias concentravam-se no julgamento de Kramer, que começaria no dia seguinte.

O comentador das notícias começou a falar. Seria Kramer o assassino em série que perseguira São Francisco nos últimos meses e que cometera uma quantidade de homicídios que tinham consternado até uma população acostumada ao crime violento? Ou estaria ele inocente - e, nesse caso, ainda andava à solta um assassino? O público descobriria em breve.

Florence virou-se para o marido.

- Falaste com Paul?

- Não propriamente.

- E se Kramer for condenado?

- Quando ele for condenado, Paul perderá a sua reputação. - Ben atirou o jornal para o lado. - Não há nada mais simples. Toda a gente pensa que ele é louco ao colocar a sua posição em risco, mas está convencido de que o indivíduo está inocente. - Encolheu os ombros, fingindo prudência. - Bem, afinal a decisão é dele. Além disso - concluiu ele de modo pouco convincente - até os assassinos precisam de gente boa para os defenderem.

Na opinião de Ben, Paul fora demasiado confiante, demasiado rápido a fazer um diagnóstico. No entanto, não podia fazer nada, pois era um assunto do seu sócio. Ninguém forçara Paul a testemunhar pela defesa como perito e as consequências ficar-lhe-iam na consciência.

- Vou dormir, querido. - Florence terminou a sua segunda fatia de bolo de chocolate e creme.

- Também vou daqui a um minuto.

Ben desligou o televisor, Ficou um momento sentado sozinho na escuridão, embrenhado em pensamentos. Estava a pensar nas pessoas. Sempre acreditara que havia uma extraordinária sincronia entre os indivíduos e os acontecimentos. Ou seja, ao longo da vida, as pessoas atraíam a si outras pessoas - amigos, colegas e até inimigos - através dos seus próprios desejos e ânsias inconscientes. Os acontecimentos posteriores que se passavam com elas, realizavam, ou destruíam, esses desejos e ânsias. Porquê e como é que isso acontecia, Ben não sabia e achava-o inexplicável para a mente humana. Era como observar ovelhas a serem reunidas - mas sendo-se incapaz de ver o pastor ou os cães que as reuniam.

Assim, o que trouxera Kramer ao pequeno mundo e às vidas deles? Era ele apenas um homem muito mau ou algo mais? Ben não sabia. Mas a verdade é que não gostava de Kramer. Não gostava mesmo nada dele.

E isso preocupava-o.

 

"Nenhum de nós fica fora da sombra negra e colectiva da humanidade. Se o crime existiu muitas gerações atrás ou acontece hoje, ele continua a ser o sintoma de uma disposição que existe sempre - e que está presente em toda a parte - e, assim, farse-ia bem possuir alguma "imaginação no mal", pois só um touco pode negligenciar permanentemente as condições da suaprópria natureza. De facto, a sua negligência é o melhor meio de o transformar num instrumento do mal."

                   Carl Jung, The Undiscovered Self

 

O julgamento de Kramer. Grande notícia em São Francisco.

Cinco mulheres tinham sido horrendamente assassinadas na cidade havia o mesmo número de semanas; a forma como morreram foi quase idêntica. Estava à solta um assassino em série, no entanto, não havia pistas, embora uma grande força policial tivesse sido encarregada do caso.

Em seguida Melanie Dukes fora encontrada a flutuar, de rosto para baixo, num canal local numa manhã de Junho, o corpo terrivelmente mutilado. Noutra altura, a sua morte não teria feito a primeira página de um jornal, pelo menos não ao domingo. Mas este caso era diferente. A morte de Melanie foi a última gota para uma população já em pânico devido a uma onda de crimes que aumentava e que parecia imparável.

A população de São Francisco fora ultrajada e isso teve consequências imediatas. A presidente da Câmara Municipal, politicamente hábil, foi forçada a admitir na televisão que se sentia profissionalmente embaraçada pela presença de vítimas, sem haver assassino, e prometeu que "tudo" seria feito. Isso deixou o chefe da polícia a contemplar um emprego alternativo, por isso não passou muito tempo sem que ele tivesse lançado uma monumental caça ao homem. No entanto, foram destacados mais agentes para trabalharem no caso.

Contudo, apesar de toda a publicidade na televisão e nos jornais, de investigações extensas e de um elevado nível de cooperação por parte do público local, ninguém foi detido. Passou um mês sem qualquer incidente novo. Era óbvio que o assassino se retirara. Mas para onde? E por que motivo, depois de ter começado a sua frenética diversão de morte, é que o homem parara, de repente?

O público considerava isto ainda mais enervante, Sabia que ele atacaria de novo, pois os criminologistas tinham-lhe assegurado que tal comportamento era compulsivo. Os bares e as discotecas de São Francisco ficaram, de súbito, em silêncio. O medo abafava até o mais activo dos espíritos.

Então, quase fortuitamente, surgiu um nome. A suspeita começou a concentrar-se sobre Karl Kramer, um camionista de Los Angeles. Era um homem violento, um solitário, alguém cuja presença exalava uma sensação de mal-estar. O seu presente paradeiro também dava uma explicação possível para a interrupção temporária nos assassínios. Uma semana após o assassínio de Melanie Dukes, Kramer foi preso no bairro de prostitutas de São Francisco por ter apunhalado um homem mortalmente numa rixa de bar. Kramer alegou que agira em defesa própria. No entanto, foi considerado culpado de assassínio e sentenciado a dez anos de prisão, para sair dentro de cinco, com bom comportamento.

Seria possível que Kramer se atirara para a prisão para evitar ser detido pelos assassínios em série? Era uma possibilidade, ainda que remota. Se assim era, tratava-se de uma estratégia de alto risco. De acordo com a lei das circunstâncias especiais em vigor na Califórnia, uma pessoa que já tivesse cometido um assassínio encarava a pena de morte se fosse considerada culpada de outro.

Havia também outros problemas. Não constava nada no carácter de Kramer que sugerisse que os assassínios em série lhe davam prazer especial, e as provas contra ele eram poucas. Não havia impressões digitais, não havia ADN. De facto, não havia provas sólidas, forenses ou outras, para além de uma única testemunha - a irmã da rapariga assassinada. Desta forma, as coisas estavam neste ponto: a fervente negação de Kramer de que torturara e matara Melanie Dukes contra a prova jurada da parente da vítima, Laura Dukes, de que o vira com a irmã ao fim daquela tarde fatal.

Um último factor tinha um peso importante na balança da justiça: a opinião de um psiquiatra criminal, um conhecido professor da Universidade de São Francisco, Paul Stauffer. Ele ficara fascinado com o caso e a sua opinião seria dada a favor da defesa.

Afinal, Kramer tinha um amigo no mundo.

Nove e meia da manhã de um quente dia de Setembro e o tribunal de São Francisco estava apinhado de advogados, jornalistas, espectadores e vampiros.

Laura Dukes estava sentada perto do fundo da sala, num lugar reservado à polícia. O tribunal era uma sala grande, forrada de painéis de carvalho, com um tecto alto e uma tribuna elevada para o juiz. Havia assentos almofadados para o júri e bancos em filas para os espectadores. A cena lembrava a Laura os assentos em redor de uma arena de circo. Não era assim tão surpreendente. Os julgamentos criminais não eram assim tão diferentes de circos. Só a agilidade mental dos actores é que os distinguia: embora, por vezes, esta fosse uma coisa secundária. Posicionar-se, não apanhar, truques e fintas - tudo num espectáculo. Nunca a afinidade do homem com o macaco foi mais evidente. E havia sempre alguém para saltar em altura.

- Vá para ali.

O pai de Laura morrera havia dois anos e a mãe encontrava-se num lar de idosos e sofria de uma doença mental degenerativa. Laura não contara à mãe sobre o assassínio: a pobre mulher já não se lembrava do seu próprio apelido. Já passara por sofrimento que bastasse: só um Deus injusto poderia impor mais. Mas Deus era assim, pensou Laura com amargura, bom a racionar o sofrimento. O suficiente para fazer a humanidade dar valor àquilo por que Ele passara.

Isso fazia de Laura a única pessoa da família da vítima a assistir ao julgamento. Sentia-se só, com medo, e completamente deprimida com a vida. Queria que tudo aquilo acabasse.

- Está bem?

- Dentro do possível - Laura olhou o agente da polícia. Era afro-americano, de cabelo grisalho e um olhar amável. O homem tocou-lhe levemente no ombro para lhe incutir confiança e em seguida foi ajudar os colegas a sentarem as pessoas.

Duas filas à frente de Laura Dukes uma mulher acotovelou o marido.

- Olha, é ela.

- Quem?

- Lá atrás. Não te vires demasiado depressa. A irmã da rapariga que foi assassinada. Gémeas idênticas. Oh, não é bonita? Pobrezinha!

O marido da mulher que proferiu estes comentários, um homem imponente com uma ampla barriga de cerveja, girou para olhar Laura, que rapidamente desviou os olhos do olhar inquiridor dele. Era um fabricante de livros reformado que não tinha mais nada para fazer a não ser vir regularmente aos tribunais com a mulher para ver a miséria humana como se se tratasse de um desporto para observar. Olhou Laura de soslaio, cheio de curiosidade desrespeitosa.

Laura Dukes, 23 anos de idade, fora caixa num banco de São Francisco, tal como a irmã. Raparigas altas e atraentes, de cabelo louro, figuras elegantes e uma paixão por desportos, ela e a sua irmã gémea tinham sido populares no trabalho, conhecidas pelas personalidades superficiais que as caracterizavam. As suas noites de sexta-feira e de sábado tinham sido invariavelmente passadas nos bares e nas discotecas de São Francisco, gozando a vida ao máximo. Embora não fossem promíscuas, as gémeas tinham tido uma série de namorados e uma vez tinham até partilhado o mesmo homem. Laura era a mais extrovertida; Melanie era ligeiramente mais reservada. Duas pessoas felizes com uma paixão pela dança, por homens e pela vida. Então Melanie fora assassinada.

- Silêncio no tribunal.

O marido gordo voltou-se de novo para a mulher. A rapariga não parecia assim tão infeliz. Quanto é que se poderia ser insensível? Ele coçou o nariz.

- Levantem-se todos. Vai entrar o juiz Harrison.

Laura observou uma figura mais idosa e curvada para a frente que se dirigia para a sua cadeira judicial de costas altas para se sentar. A rapariga abanou a cabeça sem pensar. Como podia este homem idoso compreender o que era perder uma pessoa amada às mãos de um maníaco? O que podia ele saber da sua tragédia pessoal e do seu desespero, encerrado, como provavelmente estava, no seu estilo de vida privilegiado? Laura mordeu o lábio; a sua mente ainda se atormentava com a culpa e o horror do que acontecera. Fechou os olhos para evitar os olhares que a ela se dirigiam.

Fora num sábado à noite. Tinham ido à sua discoteca preferida na cidade - a Tentação de Eva - aquela que tinha o anúncio luminoso "Eva" rodeado por uma serpente. Estava cheia, como de costume, a abarrotar de pessoas até ao passeio. Era o tipo de lugar de que Laura e Melanie gostavam: montes de jovens à procura de divertimento, desejosos de esquecer o tédio da existência diária e olvidados dos perigos. No entanto, os lobos também andavam à solta.

Eram duas horas da manhã. Laura encomendara bebidas junto ao comprido bar: lembrava-se perfeitamente. A irmã, Melanie, tocara-lhe no ombro. Tinha as feições radiantes, as faces coradas de tanto dançar, a voz um pouco indistinta devido ao álcool. Ela soltara um risinho e sussurrara a Laura que ia lá fora por uns minutos, a linguagem de código delas que indicava o início de algo físico. Nada de sexo propriamente dito, mas uns apalpões eram fixes na primeira noite com um tipo novo.

Laura acenara com a cabeça distraidamente enquanto Melanie lhe contava os seus planos amorosos. Os seus próprios pensamentos estavam completamente ocupados com Danny, o seu namorado de cinco meses, que estava a chamá-la para a próxima dança.

Melanie indicara qual era o seu par para o divertimento da noite, Laura olhara o homem à medida que equilibrava as suas bebidas num tabuleiro. Ele estava de pé muito ao fundo do bar, quase escondido na obscuridade. Quase escondido, mas ainda assim Laura pôde vê-lo, tal como o via agora pelo olho da sua mente. Kramer olhara-a fixamente durante um momento. Em seguida disse "Olá" num tom doce. Foi isso, mas foi o suficiente para que Laura registasse a melodia da sua voz, a sua constituição corpulenta, lábios carnudos e o rabo-de-cavalo.

É verdade, ela tinha tomado umas bebidas: duas vodcas e uma tequila de Pearl Harbor. Laura admitira isso no testemunho que dera à polícia - mas o seu reconhecimento visual ainda lá estava. Na altura estava tonta, mas, definitivamente, não estava embriagada. Kramer era o homem que tinha ido com Melanie naquela noite. Ela sabia-o. Jurá-lo-ia perante o trono de Deus.

- Levantem-se todos os presentes!.

Laura examinou o júri à medida que entrava. Três mulheres, o resto eram homens. Reparou que um homem vestia um elegante fato. Talvez fosse médico ou contabilista. Os outros jurados pareciam-se bastante com Laura - pessoas comuns com estilos de vida comuns. Que tipo de justiça é que exerceriam?

- Está aberta a sessão.

A memória de Laura continuava a correr à medida que os jurados se sentavam. Naquela noite fatal ela vira Melanie deixar o clube nocturno na companhia de Kramer, viu-o segurar a porta aberta para que ela saísse e viu Melanie virar-se para acenar à irmã pela última vez.

Era estranho, mas enquanto Laura ali estivera segurando o tabuleiro das bebidas, vendo-os sair para a escuridão, ela sentira uma profunda sensação de mal-estar. Mais do que isso, de facto: um arrepio de medo, como se alguma coisa, alguém, estivesse a tentar avisá-la. É claro que Laura encolhera os ombros, como toda a gente fazia, e voltara para junto de Danny. Oxalá não o tivesse feito. Foi a última vez que Laura vira a irmã viva.

Mais duas horas passaram na discoteca. Laura quisera ir para casa, uma vez que o namorado estava desesperado por sexo, mas ela não encontrava a sua gémea, Nem no bar, nem na discoteca, nem no parque no exterior da Tentação de Eva. Isso desorientara Laura, mesmo embriagada como estava. Mel não a teria deixado. Era esse o acordo que tinham feito. Ficarem sempre na discoteca ou irem para casa juntas. Por uma questão de segurança.

Assim, Laura telefonara para o telemóvel de Melanie. Alguém respondeu. Era uma voz de homem, a voz de Kramer. Laura pedira para falar com a irmã. Ele respondera calmamente: "Ela está a dormir" e em seguida o telemóvel fora desligado. Laura ficara ali no parque de estacionamento da discoteca, surpreendida pelo laconismo da resposta e pelo tom frio, quase clínico. Mas Danny estava a gritar-lhe para entrar no carro e, no estado confuso em que se encontrava, ela assumira que a irmã levara o admirador para o apartamento de ambas para que passasse lá a noite.

No entanto, quando lá chegaram, não havia sinal de Mel. Será que ela tinha ido para casa do homem? Era uma possibilidade. Remota, mas ainda assim uma possibilidade.

Laura dormira mal nessa noite. Tivera pesadelos, nos quais se encontrava perdida e sozinha, separada daqueles que amava e incapaz de regressar a casa.

No domingo de manhã cedo, uma pessoa que ia a passar telefonara para informar a polícia sobre um corpo que vira no canal a cinco quilómetros de distância da discoteca. Era Mel, ou melhor, o que sobrara dela depois de o assassino a ter cortado aos pedaços. Após Laura ter identificado o corpo (não a deixaram ver mais nada para além do rosto, o resto estava muito cortado), ela começara a sua descida ao inferno. Danny deixara-a passadas algumas semanas, incapaz de aguentar as lágrimas dela, a raiva, e o sentimento de culpa que a queimava.

A prolongada baixa que meteu no trabalho terminara na sua resignação, e a medicação que recebera de uma sucessão de médicos tornara-se uma muleta permanente. Agora, quatro meses depois, uma sombra da pessoa que fora, estava sentada numa escura sala de tribunal, à espera de justiça. Se ao menos ela tivesse dado ouvidos àquele pressentimento, se ao menos tivesse impedido a irmã de sair da discoteca. Na realidade, a culpa era sua.

- Meritíssimo, sou o advogado de acusação.

O juiz Harrison inclinou a cabeça e observou as filas de rostos que se encontravam a sua frente no local reservado aos espectadores. Sabia por que motivo a maior parte deles viera. Não apenas à procura de justiça, mas para consumir alguma daquela repugnância terrível que sentiam por Kramer - um homem que as cadeias de televisão e os jornais, com o seu precipitado sentido de justiça, já tinham condenado como o assassino de Melanie Dukes e como sendo o assassino em série.

O público queria vingança - vingança de alguém que não conseguiam compreender mas que fazia com que experimentassem pensamentos maus nas profundezas das suas almas; e queriam que o tribunal levasse avante essa vingança por eles. Que assim seja. Assim seria, mas em conformidade com a lei. O homem podia ser um assassínio, condenado por ter matado um homem numa rixa de bar, mas teria ele matado aquela mulher?

- Declaro aberta a audiência, - O martelo caiu sobre a mesa.

 

"Vi ainda outro mal debaixo do sol e que pesa grandemente sobre o homem."

                  Eclesiastes 6:1

 

Enquanto o julgamento de Kramer entusiasmava os cidadãos dos Estados Unidos, no Vaticano os acontecimentos davam uma viragem mais plácida, como se poderia esperar de uma instituição que, até à data, passara 2000 anos à espera que as coisas se tornassem realidade.

O cardeal Benelli estava acostumado a passar o período após o jantar no seu quarto do Vaticano, em oração. Verdade seja dita, por vezes adormecia. Ele confessava isso, juntamente com os seus outros pecados relativamente menores (como seja o prazer da boa comida), ao padre Thomas, que era também o confessor do Papa. Pois à semelhança de todos os seres humanos, o Papa não estava livre do pecado e, desde os primeiros tempos da Igreja, estava sujeito à confissão.

Invariavelmente, a pessoa escolhida para o cargo de padre confessor era um simples monge ou padre marcado pela sua humildade e sentido de graça, já que os pontífices estavam todos geralmente demasiado conscientes de que a afirmação de Cristo "muitos dos que são os primeiros, serão os últimos; e os últimos serão os primeiros" também se aplicava a eles. Os títulos e cargos humanos não impressionavam o divino.

Houve uma leve batida à porta e Benelli abriu os olhos calmamente. Deve ser o seu assistente, que o vinha lembrar de que tinha uma reunião às nove.

- Entre. - Benelli ficou surpreendido ao ver que a pessoa que estava à entrada da porta não era o seu secretário magricela, que se aproximava sempre dele com um ar de reverência. Em vez disso, os seus olhos turvos focaram uma figura débil que rondava os 60 e muitos anos, de cabelo grisalho e um rosto exausto.

- Peço desculpa por incomodá-lo.

- Não, de forma alguma - disse Benelli. Soltou um riso abafado, embora se sentisse um poucochinho aborrecido. Raramente via o padre confessor fora do confessionário e ser apanhado no meio do seu pecado era perturbador. O monge simples, de hábito castanho, e o cardeal, no seu manto vermelho, olharam-se.

- Em que posso ajudá-lo? - perguntou Benelli, levantando-se da sua cadeira. Um tom autoritário subira-lhe à voz, como que para lembrar ao monge quem era o mais importante dos dois. Sem intenção, é claro.

- O Santo Padre convidou-nos a ambos para visitarmos o observatório do Vaticano este serão - disse o padre confessor, a voz afectuosa e sem mostras de ter sido afectada pelo tom do interlocutor. - Haverá um alinhamento de planetas no céu que não é habitual.

- Ah sim?! - exclamou o cardeal Benelli, surpreendido. Sabia que o pontífice adquirira um interesse especial pelo observatório desde que se tornara Papa havia oito anos. Porquê, Benelli não tinha a certeza. Ele raramente contemplava o céu; nos dias que corriam tinha problemas suficientes na terra.

Juntos, saíram para a noite e esperaram por um carro que os levaria ao Castel Gandolfo, a residência de Verão do Papa, onde se situava o observatório. Para Agosto, estava frio, nada de acordo com a estação, e havia estrelas em abundância. Benelli tremia.

Não sabia muita coisa do seu acompanhante. O padre confessor fora o abade do Mosteiro de Cluny em França. Em seguida, há cerca de um ano, o Papa pedira-lhe que tomasse conta do seu novo cargo. Era uma nomeação fora do comum, uma vez que, eclesiasticamente falando, se tratava de uma posição inferior àquela que o monge já ocupava. No entanto, ele aceitara-a num espírito de obediência. Benelli admirava-o de uma forma ligeiramente rancorosa; suspeitava de que ele não teria feito o mesmo.

- O que veremos?

- O Santo Padre diz-me que há um alinhamento de Neptuno, Marte e Urano. É muito raro. - O olhar do monge estava fixo.

- Que interessante - disse o cardeal, tentando soar entusiasmado. Não era nada que o pudesse interessar. Entraram.

O director do observatório do Vaticano era um homem baixo, de cabeça calva e olhos redondos. Com a sua placa identificativa ao peito, as canetas muito bem arrumadas no bolso da camisa e um olhar filtrado pelas lentes de uns óculos, ele apresentava todos os indícios de um maçador de primeira ordem, o que passou a demonstrar.

- Vossa Eminência estará certamente ao corrente - disse ele, o peito seco a inchar como um peru - de que um alinhamento é uma aproximação aparente entre dois objectos celestes. - Inchou ainda mais. - E também está a acontecer um desvio retrógrado, ou seja, no caso de Neptuno e Urano, os planetas parecem deslocar-se para trás, ou seja, para Ocidente, através do céu, à medida que se aproximam do ponto oposto ao Sol. Isso leva algum tempo. Tornar-se-á ainda mais aparente dentro de algumas semanas.

O técnico estava encantado por mostrar o seu conhecimento a tão augusta personagem. Olhou o padre confessor. Presumivelmente o assistente; ele não precisava de ver. Não era suficientemente importante. O técnico escoltou o cardeal até ao telescópio.

- Reparará... - o homem continuou a pairar sobre vários assuntos astronómicos que passaram, como as estrelas, por cima da cabeça calva de Benelli.

- Não vejo nada.

- Precisa de focar o aparelho, assim.

Alguma coisa apareceu perante os olhos de Benelli.

- O que é?

- Um alinhamento de três planetas.

Benelli continuava sem conseguir distinguir fosse o que fosse. A lente teria pó ou era a sua visão que estava a ficar turva? Não gostava de perguntar. Afastou-se com um passo, sacudindo afectuosamente o manto.

- Com que frequência é que isto acontece?

- Cerca de uma vez em 2000 anos - disse o técnico. - O último alinhamento foi no ano de 66 da nossa era. No dia 7 de Março, para ser exacto. É claro, nessa altura ninguém o viu. - Soltou uma sonora gargalhada. - Neptuno e Urano não tinham sido descobertos naquele tempo. Não havia telescópio, não é verdade...

- É claro que não - disse Benelli. Não estava minimamente interessado em coisas do cosmos: a administração da Igreja sempre ocupara a sua mente. Para mudar de assunto, Benelli tentou pensar no que teria acontecido no ano de 66. Mas não conseguiu pensar em nada de especial. O ano de 67 era diferente: a presumível morte de São Pedro. Nesse caso, era um final de tarde bastante decepcionante. ;

- Bem, muito interessante - disse Benelli, o que dizia sempre que não sabia o que dizer. - Muito... interessante. E o Santo Padre virá?

- Não me parece. - O técnico saltitava em seu redor, nervoso. - Só nos deram os vossos nomes.

- Maravilhoso. - Se o pontífice não vinha, Benelli tinha de regressar à sua reunião. Despediu-se do padre confessor junto à porta do observatório. - Até ao próximo alinhamento. - O monge dirigiu-lhe um estranho olhar.

Benelli sentiu-se grato por estar de volta ao seu bem provido gabinete no Vaticano. Arrepiou-se ao despir o sobretudo. Que amável da parte do Papa lembrar-se dele. No entanto, fora uma completa perda de tempo. Consultou o seu relógio. Devia encontrar-se com o arcebispo de Colónia às nove horas para uma conversa. Será que tinham biscoitos de chocolate?

Benelli dirigiu-se à janela e, frente a um pequeno espelho, ajustou o botão de cima do seu manto de cardeal. Estava na hora de ir. Foi então que o seu olhar caiu sobre um livro que se encontrava em cima da mesa e que lhe fora dado pelo padre confessor alguns dias antes, após a sua última confissão. Benelli não tinha tido tempo para o ler.

Olhou o título. Abraão de Nathpar. Soltou um leve suspiro. Oh, valha-me Deus, ainda por cima um livro místico e obscuro. Difícil de digerir, sem dúvida. É melhor deixá-lo para as férias grandes. Dis-traidamente, o cardeal abriu o livro. De súbito, os olhos pousaram sobre algumas palavras.

Sê ardente na oração, e vigilante, sem te cansares; e afasta de ti a sonolência e o sono. Deves estar alerta tanto de noite como de dia.

Por qualquer razão obscura, as palavras inquietaram Benelli. Especialmente a parte que falava da noite.

 

"Aquele que absolve o réu e o que condena o inocente, ambos são abomináveis diante do Senhor."

                   Provérbios 17:15

 

Era o segundo dia do julgamento de Kramer. Vários pontos legais tinham ocupado o primeiro. Que aborrecido.

Em frente do tribunal tinham-se juntado as cadeias de televisão da Califórnia, camiões a abarrotar de equipamento. Ao lado deles havia homens e mulheres pregados ao chão, ataviando-se e envaidecendo-se com a auto-adoração dos narcisistas. Depressa exibiriam aos telespectadores o seu profundo conhecimento do caso Kramer, pesquisa empreendida por outros e mostrada em quadros electrónicos para que eles a lessem.

No interior do tribunal, no entanto, as coisas eram menos dinâmicas e o ar menos respirável, ao mesmo tempo que os espectadores começavam a ficar agitados. Queriam acção, senão mais valia irem para casa ver uma série de crime na televisão. Inesperadamente, tiveram-na.

- Tragam o prisioneiro - ordenou o juiz Harrison a um funcionário do tribunal.

Fez-se silêncio. Em seguida ouviu-se o som de passos. A porta abriu-se e uma parte dos espectadores sobressaltou-se involuntariamente.

Karl Kramer entrou na sala, as mãos algemadas. Sorriu à assembleia. Um homem corpulento, com a constituição de um estivador, o tronco volumoso e os braços absorvidos por músculos. As feições do rosto também não eram desprovidas de poder de atracção: um rosto grande com um nariz bem-feito e olhos escuros e intensos, quase femininos em harmonia e forma. O cabelo, preto e comprido, estava amarrado atrás num nó. Não era um modelo masculino, mas não tinha aspecto de monstro. Parecia mais um trabalhador das obras ou um canalizador.

A aparente normalidade do aspecto exterior de Kramer, porém, tornava-o ainda mais assustador aos olhos dos espectadores. O que poderia ter passado pela mente daquele homem quando fez o que fez àquela pobre rapariga? Como podia alguém cortar em postas outro ser humano como ele tinha feito, apunhalando-a mais de 40 vezes? Não teria este homem a mínima ponta de remorso ou de culpa dentro de si? E o que fez ele com a carne que faltava? Comeu-a? Os espectadores estremeceram ao pensarem nisso e depressa formaram uma opinião. Este monstro não fazia parte da raça humana. Era bastante diferente deles. Estavam certos disso. Que morra.

Kramer não disse nada enquanto se dirigia ao banco do réu. O silêncio continuava.

Paul Stauffer e Ben Ingelmann estavam sentados numa das salas destinadas às testemunhas. Era uma sala pequena, modesta e pintada de um cinzento judicial. A coisa exacta para impressionar uma potencial testemunha e para lhe lembrar quanto a vida podia ser árida.

Ben coçou o nariz. Sabia que Paul estava zangado por ele ter vindo com ele, mas Florence implorara-lhe que o fizesse. Além disso, era trágico ver que, após todo o trabalho que Ben tivera, o seu amigo estava prestes a deitar fora a sua carreira de ânimo tão leve.

- Paul, estás certo do que vais fazer?

Paul levantou o olhar de alguns papéis do tribunal que estavam em cima da mesa. Começava a ficar muito irritado. Reparou que os finos fios de cabelo grisalho de Ben estavam cada vez mais finos. Será que ele pediria reforma antecipada? Talvez isso não fosse mau. Paul podia facilmente fazer o trabalho dele e introduziria algumas alterações na clínica. Modernizá-la-ia.

- Qual é o problema?

- Ainda estou preocupado com o facto de ele poder estar a mentir.

- Oh, por amor de Deus! - Paul levantou os olhos para o tecto, exasperado. - Ouve, Ben, não há nada nem no comportamento dele nem na avaliação psicológica que indique que ele é o assassino em série. Nada.

Desdenhosamente, Paul atirou a sua avaliação para o outro lado da mesa.

- Não há condenações anteriores excepto o assassínio no bar, não há provas de que tem características anormais, não há qualquer indicação de que odeia mulheres nem de que tem ataques frequentes de fúria homicida. Admito que ele seja uma pessoa solitária e, obviamente, tem alguma violência dentro de si, mas o seu perfil psicológico é negativo para o tipo de comportamento que se esperaria neste caso. O que queres que eu faça? Não posso decidir que ele pode ter assassinado Melanie Dukes com base numa suspeita ou num palpite.

- Ele já matou antes.

- Sim, sim - disse Paul num tom cáustico -, matou outro homem numa rixa de bar. E depois? Quando estava bêbedo e tinha sido provocado. Uma facada no coração, e Kramer não o negou, embora tenha afirmado que foi em autodefesa. Ninguém viu exactamente o que aconteceu, no entanto ele foi considerado culpado. Ben - a voz de Paul subiu agressivamente de tom -, é um crime completamente diferente de uma pessoa que agarra vítimas femininas, as sujeita a torturas prolongadas e depois, como a sua pièce de résistance, as corta com uma faca.

- Bem sei, bem sei - apressou-se o sócio a confessar. - Mas penso que não devias ser tão definitivo no teu testemunho. Há um mundo de diferença entre dizer, de uma perspectiva psiquiátrica, que o homem não o fez e dizer que não é provável que o tenha feito. O facto é que este caso, este homem, me preocupa.

Paul olhou-o, furioso. Ben virou-se, embaraçado com o seu próprio comportamento. O colega tinha o direito de se sentir ressentido por Ben estar a meter o nariz num caso que não era seu, No entanto, tinha ramificações consideráveis para uma cidade que vivia sob a ameaça de um assassino em série, um caso em que havia um enorme ímpeto político e público para resolver os assassínios. Por outro lado, mesmo que ele tivesse dúvidas interiores, Paul concordara em testemunhar pela defesa e mudar agora de opinião afectaria negativamente a sua reputação. Era esse o busílis da questão: fosse qual fosse o caminho que escolhesse, seria muito criticado. Ben tentou outro caminho.

- O que achas que aconteceu?

- Ele está a dizer a verdade. Nunca na sua vida conheceu Melanie Dukes.

- E o testemunho da irmã dela?

A mão de Paul cortou o ar, rejeitando a ideia.

- Que testemunho? Ela pensa que viu Kramer e que ouviu a voz dele em duas ocasiões. Não há mais testemunhas. E a palavra de uma rapariga que admite que bebeu muito naquela noite contra a de um condenado. Não é o suficiente para que ele seja executado.

Ben respirou fundo. Tinham chegado à declaração clara de intenções.

- Quero apenas perguntar-te mais uma coisa. Falando pessoalmente, não profissionalmente. Tens dúvidas sobre este caso?

Paul fixou os olhos inquiridores.

- Nenhumas. - E afastou o olhar.

Nesse momento o telefone tocou. Paul atendeu.

- Kramer quer falar comigo. É melhor ir.

- Boa sorte - disse Ben. Nervosamente, passou a mão pelo cabelo escasso, à medida que o amigo de outrora deixava a sala.

Karl Kramer pestanejou à luz do Sol. Respirava no ar mais puro da sala do tribunal enquanto o seu advogado de defesa dava início ao caso. Quatro dias a ouvir a acusação. Aborrecido ao máximo. Kramer tinha tudo à ponta da língua e estava morto por dizer a toda a gente como estava lixado com tudo aquilo. Mas não. Tem de esperar mais um pouco pela sua hora.

Como se poderia entreter? Karl observou atentamente todos os espectadores presentes na sala. Finalmente, localizou Laura Dukes mesmo ao fundo. Ela sabia que ele estava a olhar para ela. Bonitas feições. Tal como a irmã. 23 anos, embora tivesse uma constituição de pessoa muito mais velha. Provavelmente o choque da morte da irmã envelhecera-a.

Sub-repticiamente, Karl piscou-lhe o olho. Laura Dukes desviou rapidamente os olhos. Puta, Karl não havia de esquecer isso. Se alguma vez saísse, haveria de a matar também. É claro que desta vez levaria mais tempo. A irmã dela morrera depressa de mais, ele deixara-se levar. Mas com Laura, ah, seria diferente, prometeu-lhe ele. Enquanto Kramer pensava em coisas mais agradáveis, o seu advogado de defesa continuava a matraquear. Depois de ter aberto a sua caixa vocal, só a morte ou a falta de dinheiro é que o fariam parar.

- Defendemos, caros membros do júri, que o nosso cliente Karl Kramer jamais conheceu Melanie Dukes, e que é certo que não a matou. Encontrava-se noutro local da cidade, com uma prostituta de rua, o que ele admite. - O advogado tossiu para chamar a atenção. - Pretendemos também chamar a testemunhar o professor Paul Stauffer, do Departamento de Psiquiatria Criminal da Universidade de São Francisco. Ele acredita que o perfil psicológico do nosso cliente não revela qualquer indicação de que violaria ou mataria da forma que morreu a pobre Melanie Dukes.

O advogado fez uma pausa após ter sublinhado a palavra "pobre. Em seguida, introduziu a pílula venenosa.

- Podemos, talvez, também observar que Melanie Dukes não era nenhuma inocente em questões de sexo, e que, conforme a própria irmã admitiu, ela tivera relações sexuais com uma série de homens. Era para ela um risco considerável aceitar uma boleia no carro de um desconhecido àquela hora da noite.

Houve uma forte agitação por parte dos espectadores, à medida que expressavam o seu desacordo e choque. Quer dizer que uma rapariga de 23 anos, ao aceitar uma boleia para casa, provocara o seu próprio assassínio? O que sabiam estes advogados e estes psiquiatras sobre as pessoas ou sobre a vida? Os rostos registavam a indignação que os possuía; os maxilares comprimiram-se, os olhos estreitaram-se. Focaram o seu veneno no advogado de defesa, que continuou:

- Não negamos, caros membros do júri, que Karl Kramer não seja um homem muito agradável, certamente que não é um homem que gostariam de encontrar num bar depois de ter tomado uns copos, mas afirmamos que não é nenhum assassino em série. - O advogado de defesa fez uma pausa neste ponto. Mostrou um leve indício de sorriso como que para dizer: sei que ele é mau. Vocês sabem que ele é mau. Mas, vá lá, ele não é assim tão mau.

Kramer inspeccionou o seu advogado e em seguida o psiquiatra. Malditos idiotas. Contudo, não se importava se as pessoas espertas apresentavam argumentos estúpidos. Por que não? Quem se importava com a verdade, afinal?

- E assim... e assim... e assim... - continuava o advogado. Kramer inclinou-se para a frente e sussurrou ao ouvido de um assistente:

- Quero ver o psiquiatra outra vez esta noite.

Kramer observou Paul atentamente. A verdade. Sempre difícil, não era?

Kramer estivera sentado no quarto da mãe enquanto ela desenvolvia o seu negócio de prostituta nos bairros da lata de Nova Iorque. Com sete anos estivera presente quando um cliente que não estava satisfeito a apunhalara até à morte com uma faca de bainha. Aos 18 anos, o próprio Kramer fizera a sua primeira vítima, uma jovem cujo desaparecimento ainda não fora justificado. Mas Karl certificava-se de que ninguém alguma vez descobriria o seu passado e escondia o seu ódio fervente atrás de uma máscara de estupidez afável e de pesados hábitos de bebida.

Aos 27 anos, Kramer mudara-se para Los Angeles e arranjara emprego como camionista a carregar mercadorias de lá para São Francisco. Não era um mau emprego e dera-lhe bastante campo de acção para praticar as suas actividades extracurriculares. No entanto, este ano passado, os seus ataques a mulheres, e a alguns homens, tinham tomado um rumo muito mais violento, como se algo dentro dele o estivesse a empurrar a grande velocidade no caminho do mal.

Nas semanas que se seguiram, a polícia de São Francisco descobrira os corpos de cinco mulheres, horrivelmente mutilados, à medida que Kramer tentara descobrir o que lhe dava mais satisfação, livrando-se dos objectos da sua ira com tanta preocupação como um homem podia deitar uma ponta de cigarro na sarjeta. Foi apenas com Melanie Dukes que ele começara a ficar demasiado ousado. Normalmente, nunca entrava em clubes nocturnos nem discotecas, preferindo atacar de surpresa mulheres pela noite dentro, em lugares sossegados, quando elas vinham do trabalho ou de bares para casa. Mas no caso de Melanie Dukes ele entrara e mostrara o rosto.

Fora a sua primeira escorregadela. Isso trouxe a polícia no seu encalço.

Contudo, foi Melanie Dukes que proporcionara a Kramer o maior prazer e a maior emoção até hoje. O prazer de afirmar o seu poder sobre outro, a emoção de fazer a polícia parecer estúpida, ainda por cima. Fora uma tentação irresistível.

- Por que motivo me queria ver? - perguntou Paul.

- Como acha que está a decorrer o julgamento?

- Não sei - respondeu Paul pacientemente. O seu cliente não era muito inteligente. - Ainda não ouvimos as testemunhas todas.

Abruptamente, Kramer soltou um riso abafado. Era um riso forte, algo que Paul nunca ouvira dele.

- Vou safar-me - disse ele.

- Tem a certeza? - Paul estava surpreendido. - Porquê?

- Porque eles me vão ajudar.

- Quem?

- Eles. E você. - disse Kramer. Bocejou e olhou para o tecto, aborrecido com a vida.

- Eles? Quem são eles? - Paul estava confuso. - Não compreendo o que está a dizer. - Aquilo não era normal. Kramer era geralmente monossilábico, limitava-se a olhá-lo fixamente o tempo todo. A conversa não era para ele. QI muito baixo.

- É verdade - disse o assassino à medida que manobrava uma pastilha elástica na boca, de um lado para o outro. Fez uma pausa. - E depois você vai ajudar-me com o meu caso do bar.

- Olhe, os seus advogados ainda nem sequer apresentaram recurso em relação a esse.

- Fá-lo-ão - disse Kramer num tom indiferente. - E também me safarei dessa. - Nesse momento inclinou-se para a frente. - Você não sabe qual é a questão principal em tudo isto, pois não? - Reprimiu um riso. - A questão principal é você, não eu.

- Eu? - Paul olhou-o completamente surpreendido. O que estava a acontecer? O seu cliente tinha finalmente encontrado a língua e estava a falar por enigmas.

- Sim, você - Kramer levantou-se da cadeira e dirigiu-se aos guardas como se fossem criados. - Depois de amanhã saio daqui. Lembre-se, eles dar-lhe-ão o que você quiser. Ah - sorriu pretensiosamente -, bom trabalho ao conseguir a prelecção.

- O quê? - Paul levantou-se, ainda mais confuso. Algemado, Kramer caminhava desajeitadamente em direcção à porta, os seus movimentos lembravam um animal acorrentado. Após ter transposto a soleira, olhou para trás por cima do ombro e piscou nitidamente o olho a Paul.

- Diga a Laura Dukes que a vou visitar.

Nessa noite Paul esteve muito tempo sentado sozinho no seu escritório. O que estava a acontecer? Até àquela última conversa que tivera com Kramer, ele estivera tão seguro de que o homem estava inocente. No entanto, aquela observação final, quando Kramer a fizera, Paul ficara aterrado. Será que ele estava a dizer-lhe de uma forma subtil que tinha matado a rapariga? Ou teria sido apenas um comentário sem importância, uma vez que Kramer tinha obviamente visto a irmã da rapariga assassinada no tribunal e iria vê-la de novo no dia seguinte?

- Boa noite, papá. - Rachel subiu-lhe para o colo e pressionou o rosto contra o dele. A menina via que ele estava preocupado. - Lês-me uma história?

- Esta noite não - disse ele. Paul viu-a sair e subir as escadas.

Kramer também tinha dito: "Você não sabe qual é a questão principal em tudo isto, pois não? A questão principal é você, não eu". O que queria ele dizer com aquilo? Será que Kramer se apercebia de que este caso faria ou destruiria a reputação de Paul? De que Paul tinha direitos adquiridos sobre ele e que não podia recuar agora? E onde queria ele chegar ao falar da prelecção? Será que se referia à prelecção sobre Carl Jung que aquele sacana arrogante de Johann Hermanns tinha conseguido?

Marie entrou.

- Estás bem?

Paul acenou com a cabeça. Ela hesitou.

- Paul, posso falar contigo?

Marie tinha o rosto tenso. Provavelmente algumas das pessoas que trabalhavam com ela, aqueles hipócritas fanáticos da caridade, tinham-na incomodado novamente por ele estar a representar Kramer. Mas ele não queria saber. Já tinham discutido antes sobre isso. Não havia mais nada a dizer sobre o assunto. Ponto final.

- Tenho umas coisas para fazer. Falamos mais tarde.

Marie via que ele não estava com disposição para cooperar. Talvez mais tarde, na cama, pudessem discutir o assunto.

- Vou ler uma história a Rachel.

Marie deixou a sala. De súbito, Paul apercebeu-se de que já não estava tão seguro em relação a Kramer. Talvez ele fosse o assassino em série, afinal. As coisas podiam ser tão diferentes do que ele pensara. Ou estaria ele simplesmente a exagerar?

De qualquer maneira, o que iria ele fazer?

 

"A terra está entregue nas mãos dos ímpios, (Deus] cobre o rosto dos seus juizes; - se não é Ele, quem é, pois?"

                   Job 9:24

 

O advogado de acusação apontou o dedo ao prisioneiro e deu início à sua síntese.

- Afirmamos que este homem (olhem bem para ele, caros membros do júri) este monstro, assassinou uma jovem da forma mais horrenda. Raptou-a e assassinou-a. Em seguida mutilou-lhe o corpo, arrancando-lhe os olhos. Finalmente, atirou o cadáver a um canal.

Kramer franziu o sobrolho. Nunca acertavam. Ele arrancara os olhos a Melanie antes de a matar. Atenção ao pormenor, heim, e era suposto que este homem fosse advogado. Ele esperava que a questão avançasse até à parte do assassínio, gostava de voltar a ouvir os pormenores sangrentos.

Os espectadores olhavam-no de soslaio, os rostos lívidos devido ao choque mórbido da frieza do crime. Odiavam-no, desejavam que ele morresse, e depois? Quem eram afinal aquelas nulidades? Simplesmente ninguém, vivendo vidas monótonas de zés-ninguém. Escória. Kramer dirigiu ao juiz um sorriso complacente. Que emprego aborrecido, imaginou ele. Devem pagar-lhe bem para ouvir todo este lixo.

- Ouviram os testemunhos orais e escritos do professor Paul Stauffer pela defesa, que está muito convicto de que o senhor Kramer não tem perfil psicológico que sugira que ele poderia ter matado Melanie Dukes. No entanto, também ouviram o nosso perito...

Blá, blá, blá. Kramer olhou de novo para Laura Dukes, sentada na fila de trás. Perguntava-se se o corpo nu dela seria tão bom de ter nas mãos como tinha sido o da irmã. Apostava que sim.

Dois dias depois o júri pronunciou o seu veredicto. A sala ficou aturdida.

 

         INOCENTE

 

O tribunal irrompeu em grande agitação. Karl Kramer levantou-se quando foi feito o anúncio. Não sorriu. Estivera a pensar noutras coisas. Nas pessoas que torturara desde a sua juventude. Contudo, ficou satisfeito com o veredicto. Afinal não o iam executar. Boa decisão. Não queria particularmente morrer ainda. Havia muito mais coisas que queria fazer. Como, por exemplo, conhecer Laura Dukes.

Kramer olhou-a. Estava a chorar e o resto da multidão parecia aturdida. No entanto, o júri não era culpado, pensava ele. Burros conduzidos por loucos. Tinham apenas errado. Que vergonha. Não tinha importância, não podiam ganhar contra ele e os do seu género. Kramer virou-se no banco para regressar à cela.

- Há alguma coisa que queira dizer, senhor? - gritava um jornalista à figura que abandonava a sala.

- Aaaa.., sim - Tirou a pastilha elástica da boca e tentou parecer sério. - Gostaria apenas de agradecer à minha equipa. Em particular ao professor Stauffer. - Piscou o olho a Paul, que estava a colocar os seus apontamentos na pasta. - Ele soube sempre que eu estava inocente. Estava certo disso.

Kramer soltou um risinho abafado. O psiquiatra pareceu pela primeira vez pouco à-vontade. Mas Kramer não se importava de confirmar que o professor Stauffer teria em breve o submundo do crime a fazer fila à procura da sua perícia. E muito, muito mais, a confirmar-se aquilo que a sua senhora lhe dissera. Louvado seja o mal. Em teu nome.

Conduziram-no às celas.

A medida que o assassino se safava, a irmã da vítima iniciava a sua sentença.

Laura Dukes debruçou-se sobre o lavatório da sala de repouso do tribunal e sentiu-se extremamente enjoada. Mulheres entravam e saíam, mas ninguém procurou ajudá-la. Ninguém sabia o que dizer ou fazer. Por fim, ela lavou o rosto com água fria e estudou-se ao espelho. Não era a mais bonita das imagens, mas não importava. Nada importara realmente durante muito tempo. Cerrou os dentes e saiu para o corredor. Pensava na irmã.

- Laura. - O advogado de acusação aproximou-se e pegou-lhe no braço. Levou-a até um banco. - Sente-se bem?

- Ele safou-se.

O advogado era um homem bem-vestido dos seus 50 e muitos anos. No entanto, a pele escamosa fazia-o parecer muito mais velho. O homem disse:

- Laura, lamento, nós simplesmente não tínhamos provas.

- E o meu testemunho? Eu vi Kramer. Ouvi-o. Identifiquei-o numa linha deles. Que mais queriam eles?

O advogado abanou a cabeça.

- Não foi suficiente, Laura. Lamento. O júri deve ter concluído que se tratava de um caso de erro de identidade da sua parte. - Afagou-lhe a mão. - O que posso eu dizer? Você sabe, e eu sei, que ele é o único culpado. No entanto, o testemunho da psiquiatria a favor dele foi muito forte. Tinham um psiquiatra de topo da Universidade de São Francisco, Paul Stauffer. Foi firme na opinião que deu.

Observaram Paul, que saíra da sala do tribunal e que se despedia do advogado de defesa com um aceno. Lá fora, esperavam-no as fileiras cerradas dos media.

Os olhos de Laura estreitaram-se de fúria.

- Kramer é culpado, Pode-se ver isso. É tão óbvio se considerarmos o seu comportamento. Ele fez isto antes. Eu sei que fez. Ele é o assassino em série.

- Laura, por favor, acalme-se - disse o advogado de acusação numa voz surda. Não queria que as máquinas fotográficas a fotografassem naquele estado; crucificá-la-iam. - Não tínhamos provas, esse é o problema. E os tribunais precisam de provas para avançarem, e não só da sua opinião.

Mas Laura Dukes não se deixaria ficar assim. Transtornada, levantou-se e correu atrás de Paul. Alcançou-o ao fim do corredor. Estavam sós.

- Quanto é que lhe pagaram? - O rosto de Laura estava tenso e contraído de repugnância.

Paul não tencionava dizer nada. No entanto, num impulso, sentiu-se irritado com ela, impondo-se-lhe desta forma. Isso estragava-lhe a sua satisfação de ter ganho. Respondeu causticamente:

- O que normalmente cobro. 30 mil dólares.

- Para mentir.

- Eu não menti.

Encolerizada, a voz de Laura subiu de intensidade.

- Você mentiu. Você sabe no fundo do seu coração que o monstro torturou e assassinou a minha irmã. Ele é o mal em pessoa. - Apontou a Paul um dedo acusador. - Você sabe. No entanto, esconde-o atrás dessa sua linguagem cara e incompreensível. É para isso que lhe pagam. Mentiroso.

Paul retorquiu calmamente:

- Eu disse o que pensava que era verdade.

- Não acredito.

Paul encolheu os ombros. Começou a caminhar em direcção às câmaras da televisão, em direcção ao seu destino. Entretanto, o advogado de acusação apressou-se. Pegou no braço de Laura Dukes.

- Você não devia estar a discutir o caso com ele. Deixe-o. Isso só piorará as coisas.

- Sabe como eu me sinto? - gritou ela pelo corredor. - Sabe? Paul não se virou. Sub-repticiamente, ajustou a gravata.

O advogado dela agarrou-a.

- Laura, por favor. Nós levamo-la a casa. Violentamente, ela virou-se para ele.

- Então o que quer que eu faça? Como é que eu encaro isto? - gritou ela. - Foi a minha irmã que foi cortada em pedaços, não um pedaço de carne qualquer. Isto é justiça?

O advogado dela ficou boquiaberto, desta vez sem palavras. Em seguida a sua pessoa profissional afirmou-se de novo.

- Laura, conheço um bom psiquiatra. Você precisa de ajuda para suportar isto.

Nessa noite, já tarde, Laura Dukes estava sentada na fila da fren-te de uma igreja a pouca distância do local onde o corpo da irmã fora recuperado do canal. As luzes tremeluziam junto ao altar. O loccal estava em silêncio.

Contudo, na mente dela bramia uma tempestade. Amaldiçoou Deus. Porque é que ele a fizera e porque é que fizera a irmã - para morrer de uma forma tão horrível? Porquê? A revolta e a hostilidade ferviam e agitavam-se dentro dela.

Porque é que neste mundo os maus escapam sempre sem castigo? Porque é que eles - os assassinos, os molestadores de crianças, os maníacos - porque é que eles são sempre protegidos enquanto os bons sofrem? Porquê? Só quero saber porquê. Olhou o altar à medida que questionava o Todo-Poderoso. Certamente que tu, ser supremo e divino, me podes dizer? É uma pergunta bastante simples. Não pode ser assim tão difícil de responder.

No entanto, as velas que ardiam junto ao altar não lhe deram qualquer resposta. Nem o homem que estava na cruz. Nunca houve resposta. Era essa toda a maldita estupidez das coisas, pensou Laura. O Deus que nunca respondia. Maldito seja.

Laura Dukes ajoelhou-se. E rezou - a sua última oração.

- Deus, se realmente me amaste, se realmente alguma vez te preocupaste comigo ou com a minha irmã, rezo por uma única coisa. Para que te vingues de Karl Kramer. Para que o faças sofrer. E para que faças sofrer aquele mentiroso do psiquiatra que o ajudou. Mas não farás isso, pois não? Não os farás sofrer.

Laura Dukes olhou o crucifixo numa cólera justa. Ela conhecia a verdadeira razão por que o seu Deus não lhe responderia. Porque tivera medo da vida aos 33 anos. Nenhuma fome em redor, nem violação, nem tortura, uma família à tua volta quando morreste e fartura de sequazes. Uma morte rápida - algumas horas numa cruz. Mas, e para mim? Como podes recompensar-me por uma futura vida de sofrimento? Para perder a minha irmã desta maneira? Sabendo que, quando Kramer sair da prisão daqui a uns anos, virá provavelmente atrás de mim também, e eu serei a próxima vítima? O que farás em relação a isso, homem da cruz? O que podes fazer, ó Cristo?

Passados dez minutos Laura levantou-se. Ao mesmo tempo que deixou o seu lugar, deixou a sua fé. Pois sabia agora a verdade no seu coração. Não havia nenhum Deus de amor neste mundo, afinal. Ele era apenas mais um truque, outra invenção da imaginação, num mundo de truques estudados. Havia apenas o mal, puro e sem limites. Laura desceu as escadas do edifício. Em seguida dirigiu-se ao hospital para se despedir da mãe. A velha mulher despediu-se de uma forma afectuosa, sem fazer ideia quem era a filha. Até nisso o Todo-Poderoso lhes tinha falhado mais uma vez.

Nessa noite Laura Dukes suicidou-se. Afogou os seus desgostos e a si própria, no mesmo canal em que a irmã morrera.

 

Paul pousou o auscultador. Em silêncio, entrou na sala. Aproximava-se a meia-noite. Marie estava a ler uma revista, os pés enrolados em cima do sofá. Reparou na expressão dele e exclamou, alarmada:

- O que é? O que aconteceu?

- Laura Dukes matou-se. Há uma hora atrás.

- Oh, meu Deus. - Marie levou as mãos ao rosto, horrorizada. Paul disse, numa voz neutra:

- Acho que é melhor irmos dormir. - Não havia mais nada a fazer.

- Paul, a culpa não foi tua. Tinhas de testemunhar de acordo com a forma como vias as coisas.

Nessa noite, quando Paul estava deitado, ouviu o murmúrio de Marie a rezar e sabia por quem é que ela rezava. Fechou os olhos. Na vida havia vencedores e havia derrotados. Kramer ganhou, Laura Dukes perdeu. Ele fora declarado inocente pelo júri e ela não pôde aceitar isso. Então o que poderia Paul fazer?

Virou-se na cama. É claro que o caso fora difícil. Até ele começara por vezes a duvidar de Kramer - particularmente após aquele último estranho encontro que tivera com ele antes do veredicto, Mas nessa altura já era tarde de mais, não era? De qualquer forma, Paul não lhe prestaria assistência no caso do assassinato no bar. Tinha a certeza de que Kramer fora justamente considerado culpado desse.

Amanhã, as cadeias de televisão apareceriam com uma vingança. Paul encararia acusações de que, de certa forma, tinha causado o suicídio de Laura Dukes. No entanto, ele podia defender-se. A rapariga ficara obviamente com perturbações mentais devido ao trauma provocado pela morte da irmã, era isso. A sua mente divagou para outros assuntos. Perguntava-se se devia vestir o fato novo que comprara dois dias antes. Com a gravata amarela? Ou a vermelha Que usara no primeiro dia do julgamento? Será que os telespectadores reparavam nesse tipo de coisa?

Paul dormia profundamente. Marie continuou a rezar pela noite dentro.

- Entra.

 

Kramer sorriu e atirou-se para a cama. Atrás dele a porta de aço fechou-se. Caminhou pela cela da prisão de Alta Segurança de São Francisco. Era bom estar de volta a casa por algum tempo. Dentro de dois meses, quando o furor político em volta do julgamento tivesse acalmado um pouco e eles pensassem que ele não seria atacado por outros prisioneiros, transferi-lo-iam para um ambiente menos duro. Mal desconfiavam eles que Kramer sabia facilmente tomar conta de si. Sempre soubera, muito obrigado.

O guarda espreitava-o através de uma grade.

- O teu psiquiatra virá visitar-te daqui a alguns dias.

- Ah sim? - Kramer não queria saber se ele vinha ou não. Paul fizera o seu trabalho.

Kramer estendeu-se na sua cama de metal. Tinha sido um bom dia. Ter evitado a pena de morte, era motivo para festejar. Agora tinha apenas de completar a sentença pelo assassínio no bar. O que eram cinco anos na prisão por ter matado um bêbedo? Karl arranjaria muitas coisas para se entreter. Escreveria àquela bonita irmã dela, fingiria estar todo arrependido, é claro. E quando saísse, ora bem, Karl continuaria como sempre. Não podia fazer outra coisa, a sua senhora não o deixaria. Entretanto, havia bastantes prisioneiros para vitimar, bastantes presas jovens. Uma autêntica festa. Estava contente por ter vindo à terra.

Karl Kramer fechou os olhos. Pensou em Laura Dukes. Despiu-a mentalmente, saboreando a sua crueldade à medida que a cortava em pedaços. E pouco depois estava a dormir.

A seu lado estava um Anjo das Trevas.

 

"Porque a sentença contra o que pratica o mal não é executada imediatamente e por esta causa o coração dos homens enche-se de desejos de fazer mal."

                   Eclesiastes 8:11

 

O cardeal Benelli consultou o seu relógio. Eram horas de dormir. Leu as poucas palavras que faltavam.

Quando esperava a felicidade, veio-me a desgraça, esperava a luz e vieram as trevas.

Pousou a Bíblia na cadeira ao lado da cama. Terminaria o capítulo do Livro de Job amanhã à noite. Era sempre uma leitura deprimente. Pobre Job. Que os inocentes devessem sofrer era uma coisa, mas que Deus permitisse que o sofrimento fosse deliberadamente infligido neles era particularmente terrível.

Benelli apagou a luz. De facto, fora um dia longo e deprimente. De manhã encontrara-se com uma delegação de padres de Burkina Faso que tinham trazido consigo pormenores do massacre dos cristãos que lá ocorrera. Era horrível contemplar as profundezas do mal em que a humanidade se podia afundar. Mas o que podia Benelli fazer para além de declarações piedosas e rezar? Tudo isso parecia tão ineficaz à luz das agonias deles.

De tarde presidira a uma reunião da comissão sobre o estado financeiro das igrejas de Roma. Os cofres estavam novamente vazios. No caso do Vaticano, em particular, tinham herdado uma tesouraria, cujos custos de manutenção subiam todos os anos. Depois havia a recente expulsão de padres da China... mas ele não queria continuar,

Benelli disse as suas orações, o que levou algum tempo, No fim acrescentou alguns pedidos para si próprio. Nada de demasiado egoísta, é claro. Apenas a esperança fervente de que a reunião da Comissão Ecuménica, a que ele tinha de presidir na quinta-feira, corresse bem. Aqueles evangélicos eram tão preocupantes.

Acomodou-se para dormir. No entanto, esta noite, era incapaz disso. O mesmo acontecera nas últimas noites. O que se passava? Não podiam ser as costumeiras preocupações do trabalho. Talvez ele estivesse apenas a ficar velho. Deveria tomar um comprimido para dormir? Fechou os olhos.

Lentamente, deslizou para um sonho. Ou seria uma visão?

Benelli deu consigo a olhar as estrelas; onde se encontrava na terra, não fazia ideia. Ficou petrificado pela imensidão da imagem cósmica que se desenrolava à sua frente. Formação estelar após formação estelar, que se desenredavam interminavelmente como um grande mistério insondável. À medida que isso acontecia, ele começou a compreender um pouco da terrível passagem do tempo. Não eram apenas uns anos. Eram centenas de milhar de anos. Milhões e milhões de anos. A absoluta insignificância do homem em tudo isto tornou-se firmemente impressa na sua mente.

Cativo destas imagens, no seu transe, Benelli experimentou um profundo acordar espiritual. Sentia-se como se tivesse sido atirado para um grande tanque de água quente escondido num mundo místico que ninguém podia encontrar, A satisfação era completamente transcendente.

Por um instante, Benelli percebeu com absoluta certeza que a humanidade, a mais insignificante forma espiritual do cosmos, era, extraordinariamente, a mais significante. Que Deus plantara na humanidade a chave para tudo. A chave para o próprio Criador, para a vida eterna. Era admirável. Tudo seria revelado. Todo o ser de Benelli se ergueu para se maravilhar com a majestade de tudo aquilo. Em seguida discerniu outra coisa. Era tanto terrível como trágico no seu significado.

De súbito, o cardeal acordou. Sentou-se na cama, assustado e desorientado. A distância ouvia um cão a ladrar. A sua mente estava ainda meio cheia com a revelação que tivera. Porque é que o Papa lhe dissera para visitar o observatório? Levantou-se. O que era aquilo? Parou. As palavras começaram a inundar-lhe a consciência. As palavras que o primeiro ocupante do trono papal, São Pedro, declarara:

Existe uma coisa, caríssimos, que não deveis ignorar: um dia diante do Senhor é como 1000 anos, e 1000 anos, como um só dia. O Senhor não retarda a sua promessa, como alguns pensam, mas usa de paciência para convosco...

Benelli saiu da cama aos tropeções. Ajoelhou-se, verdadeiramente assustado. Era como se um mensageiro estivesse a tentar dizer-lhe alguma coisa. Mas ele não podia, não queria aceitá-la. Com toda a força da sua vontade, tentava rejeitá-la, um profeta relutante. Implorou:

- Que não seja assim. Não agora. Não enquanto eu viver.

Lentamente, a visão esvaneceu-se da sua mente. Benelli continuou de joelhos.

 

"Espíritos impuros... são os inimigos da raça humana, racionais na mente, mas raciocinando sem palavras, subtis em maldade, ansiosos por magoar, sempre férteis em novos enganos, alteram as percepções e iludem as emoções dos homens, confundem os vigilantes, e em sonhos perturbam os que dormem."

                     Malleus Maleficarum, O Martelo das Bruxas

 

Passara um mês desde o final do julgamento de Kramer e do suicídio de Laura Dukes.

Para Paul, fora um período extremamente ocupado. Era o homem do momento. Havia entrevistas sem fim para a televisão, dois talk shows, pedidos de editores para que escrevesse livros. Estava também profundamente envolvido no aconselhamento à polícia de São Francisco nos esforços envidados para descobrir o assassino em série, agora que Kramer fora declarado inocente.

O público, e a maior parte do seus colegas psiquiatras, aceitavam que Paul estivera certo. Intencionalmente, Ben não dissera nada. Paul apercebeu-se de que se tratava de uvas verdes, mas, a insistências de Marie, ele não tocou no assunto. Kramer não era obviamente o assassino em série, e fora um modelo de prisioneiro desde o julgamento. Dissera à imprensa nacional que estava a tentar encontrar Deus e inscrevera-se numa aula de cestaria na prisão. De facto, Paul concordara em testemunhar a favor dele no recurso que interpusera relativamente à sentença sobre o assassínio no bar, por isso podia sair da cadeia dentro de alguns meses, caso tivesse êxito.

Também se tornara público que Laura Dukes tivera um pequeno esgotamento após uma zanga com o namorado, quando tinha 16 anos. Ela fora uma jovem mais perturbada do que eles pensavam. Foi pena as pessoas da saúde pública não terem descoberto isso antes. A tensão de um tribunal sete anos depois deve ter sido a última gota. Contudo, reflectiu Paul, tinha de ser assim. Se as pessoas queriam matar-se, era difícil impedi-las.

Uma outra coisa boa aconteceu a Paul...

O auditório da universidade começou a encher. Continha mais de 1000 pessoas e os lugares para a prelecção dessa noite conseguiam-se apenas com convite. Os convidados vieram de todo o mundo. Ben viu muitos nomes famosos do mundo da psiquiatria e da psiquiatria criminal entrarem no auditório, os homens de smoking, as mulheres de reluzentes vestidos de noite, todos reunidos para um importante acontecimento social. Albergar a prelecção sobre Carl Jung era um triunfo para a Universidade de São Francisco e, uma vez que a localização do acontecimento dependia da identidade do orador principal, era igualmente testemunho da capacidade, e do crescente renome, do professor Paul Stauffer, o facto de ele ter sido escolhido.

Após a morte trágica de Johann Hermanns num acidente de aviação em Munique, a Comissão Internacional decidira quebrar a tradição e escolher Paul Stauffer, de apenas 39 anos, para orador principal. Este era um passo surpreendente - revolucionário até. Brilhante, iconoclasta, sem ser pessoa para tolerar loucos, ele era uma incógnita. Mas a comissão fizera, na verdade, algo certo pela primeira vez e, como Ben e outros na universidade reconheciam, não era provável que a comissão tivesse motivo para lamentar a escolha que fizera. Era garantido que Paul daria um tour de force.

- Ben!

- Olá, Marie. Onde está aquele mal-agradecido do teu marido?

- Oh, não te preocupes - riu Marie enquanto ajustava a faixa do seu vestido de noite azul-claro -, certifiquei-me de que ele chegou cá. - Apontou para o esposo, submerso entre a mêlée. - E lá está a tua mulher.

Ben acenou com a cabeça, sombriamente. Florence encurralara Sir Harold Pickerton, o maior psiquiatra criminal do seu tempo. Marie via que ela se encontrava numa completa torrente verbal e que o pobre homem estava pregado à parede. Ele acenava furiosamente com a cabeça enquanto Florence continuava a contar as alegrias das férias que tinham passado nos campos de batalha da Escócia no ano anterior, completamente inconsciente de que os antepassados ingleses de Sir Harold quase tinham sido aniquilados pelos Escoceses em Bannockburn quando tinham inadvertidamente fugido na direcção errada.

Tocou uma campainha. Todos ocuparam os seus lugares.

- Um indivíduo tão interessante. Tão inteligente - trinou Florence a Marie quando se sentavam. - É claro que lhe disse que o teu marido é um génio, minha querida.

Sir Harold, algo recuperado da conversa anterior e aliviando o trauma de um massacre ancestral, subiu ao pódio. Pediu um minuto de silêncio em memória de Johann Hermanns. Em seguida apresentou o orador da noite. Marie estava sentada, paralisada, à medida que Paul caminhava para a tribuna. Calmo, ele pousou os papéis e começou, numa voz amiga e confiante:

- Minhas senhoras e meus senhores, sou professor de Psiquiatria Criminal aqui na Universidade de São Francisco. Sou também consultor efectivo da prisão de Alta Segurança de São Francisco, que alberga algumas das pessoas mais perigosas e mais violentas deste país. Consequentemente, a minha especialidade há muitos anos que é o estudo daqueles que o público em geral muitas vezes caracteriza como monstros, cujos crimes enchem as primeiras páginas dos jornais e para quem os nossos cidadãos exigem a pena de morte. Assassinos em série, violadores de crianças, canibais, torturadores, assassinos em massa: estes são os meus pacientes, embora eu seja mais cuidadoso e hesite em lhes chamar meus amigos.

Houve uma suave onda de riso na sala. O que era a amizade, afinal? Psiquiatricamente falando, é claro. Paul continuou.

- Na minha prelecção de hoje quero analisar o papel que a religião tem desempenhado na distinção dos actos bons de actos maus, e como isso tem afectado a nossa abordagem em direcção à regulamentação do comportamento criminoso.

Inclinou-se para a frente, a voz confiante e convidativa. A audiência estava ganha.

- A ideia básica da minha prelecção é que os conceitos religiosos do bem e do mal, que têm desempenhado um papel essencial na sociedade ocidental até aos dias de hoje na regulamentação do comportamento humano e na punição da conduta criminosa, não têm qualquer papel na psiquiatria moderna. Hoje, com as drogas e as terapias modernas, devíamos avaliar o comportamento criminoso usando termos médicos, como sendo opostos aos morais. Isso permitir-nos-á salvar até aqueles criminosos geralmente considerados deficientes mentais pela sociedade e inaptos para tudo, excepto a morte.

- Até aqui tudo bem - disse Florence num sussurro em voz alta.

Em seguida Paul analisou pormenorizadamente o lugar da religião na sociedade do ponto de vista da regulamentação da conduta humana. Durante séculos a Igreja tentara ditar e controlar os aspectos mais básicos da vida diária das pessoas - por exemplo, em relação ao casamento, ao divórcio, à homossexualidade, ao adultério, a maioridade, a legitimidade, etc.

- De facto, na Idade Média - disse Paul - a Igreja até estabelecia a posição sexual básica que as pessoas deviam adoptar, considerando-se a posição missionária a única apropriada. - Paul esboçou um sorriso pretensioso. - Presumivelmente Eva experimentou-a após o Jardim do Éden.

A audiência riu declaradamente - um riso sofisticado e trocista. Ia ser um discurso espirituoso. Que divertido. Não havia lugar para a religião na moderna sociedade secular, banida pela ciência. Marie corou. Paul nunca resistia a um pequeno sarcasmo contra a Igreja.

Quando os risos se acalmaram, Paul prosseguiu o tema da dominação religiosa ao longo dos séculos. A forma como a Igreja assegurou que a conduta que não aprovava ou fosse castigada por lei ou sujeita a censura moral, como era o caso da excomunhão. A forma como a Igreja usara instrumentos de tortura e a fogueira no poste para aqueles que considerava culpados de desafiarem o seu direito a ditar a ordem moral - quer fossem hereges, dissidentes, bruxas ou feiticeiras.

- Nenhuma desta repressão resultou. Nenhuma era necessária. Em nome de Deus, foram perpetradas as maiores injustiças. Contudo, hoje, finalmente, chegámos à conclusão de que a tolerância e a compreensão, e não a perseguição, é o que se precisa. Estamos progressivamente a emancipar-nos do disparate do dogma. Apercebemo-nos de que não é para a religião ou para a Igreja - e isso significa para nenhuma igreja, regulamentar muitos aspectos da conduta humana privada e consensual. Nem condenar as pessoas se elas não se submeterem. A medicina, juntamente com o avanço da ciência, tem desempenhado um papel importantíssimo nesta emancipação. Por exemplo, ao dizer às pessoas que sofrem de lepra ou de esquizofrenia que o seu estado é clínico - e não um castigo de Deus. Paul fez uma pausa para deixar que as suas palavras surtissem efeito. E continuou:

- Hoje no nosso país e em muitos outros, já não enchemos os nossos asilos para deficientes mentais de jovens mães solteiras, já não condenamos os homossexuais ao ostracismo, já não castigamos os adúlteros Porquê? Porque reconhecemos que as suas actividades não constituem de facto, qualquer ameaça às fundações da sociedade, e que categorizar simplesmente essas pessoas como más ou depravadas não tem nada a ver. As pessoas têm direito a ser diferentes, até radicalmente diferentes, desde que as suas acções não prejudiquem outros.

Houve um suave aplauso. A audiência gostava do que ouvia. É verdade que a tese, até aqui, não era original. No entanto, era clara, sucinta e dava que pensar.

- Assim hoje - continuou Paul - as nossas prisões e asilos para deficientes mentais albergam agora uma categoria de pacientes mais restrita: os verdadeiramente doentes e não aqueles cujas crenças morais sexuais ou religiosas diferem das da maioria. Defendo que esta categoria pode ainda ser mais reduzida através de drogas e de aconselhamento. No caso de crimes sérios, em particular, devemos determinar qual a doença que os leva a isso, pois é uma doença, uma falta de equilíbrio mental.

Houve novamente um suave aplauso. Paul apercebeu-se de que se estava agora a aproximar de solo mais contencioso. Na sociedade moderna as pessoas podiam aceitar que a religião não devia ser autorizada a castigar o comportamento consensual privado. Mas afirmar que as pessoas que cometiam crimes horríveis não eram mas, não eram moralmente depravadas como tal mas meramente doentes, era uma questão mais discutível.

- É aqui que nos aproximamos do grande tabu: o assassínio. No entanto, até entre os criminosos há categorias que devem ser distinguidas.

Paul passou a dar pormenores sobre a sua experiência a trabalhar com pessoas que tinham cometido assassínio num contexto familiar ou sob a influência de drogas, e explicou como as suas personalidades e estrutura mental eram bastante diferentes dos assassinos profissionais e dos psicopatas. As crenças religiosas reforçavam muitas vezes a rejeição destes criminosos - contribuindo para perturbar ainda mais aqueles que mais necessitavam de ajuda.

- Regozijo-me com o facto de que o público está a pouco e pouco a começar a aceitar que aqueles que assassinam em determinadas situações têm direito a ser reabilitados na sociedade passado um período de tempo. Por exemplo, mulheres que matam os seus companheiros após anos de abuso físico e emocional, crianças que matam outras crianças sem saberem realmente quais as verdadeiras consequências dos seus actos, assassínios por piedade e outros. Este é um grande avanço, um avanço que apenas ocorreu nos últimos 20 anos. E, apesar de haver muitas igrejas que continuam a condenar estas pessoas, nós, na nossa profissão, temos procurado ajudá-las e continuaremos a fazê-lo.

Tinham passado 20 minutos. Paul sabia que a audiência estava com ele. Agora, em direcção à camada fina de gelo - a área onde não havia firme consenso entre os psiquiatras e onde o público tinha uma percepção muito diferente.

- Restam-nos os casos difíceis: pedófilos que matam crianças à procura de satisfação sexual; pessoas que massacram os colegas de escola ou de trabalho; torturadores que comem a carne das suas vítimas, assassinos em série que matam em quantidade; assassinos profissionais. O que fazemos nós com estas pessoas? Destruímo-las como vingança? Atiramos fora a chave da prisão?

- Sim - disse distintamente uma voz feminina. Vinha do centro da audiência. Ouviram-se ainda alguns murmúrios de apoio.

Fez-se um silêncio de espanto. Em seguida Paul voltou a controlar a situação, continuando num tom ligeiramente sarcástico.

- A minha resposta é "não". Colocada de lado a nossa repugnância religiosa pessoal e moralizadora em relação a estes actos, com tratamento médico e aconselhamento até aqueles categorizados pela sociedade como irremediáveis podem ser reabilitados. As Pessoas que cometem estes crimes chocantes não são, pela experiência que tenho tido, más. Este termo não tem qualquer significado em medicina. São indivíduos que sofrem, invariavelmente, de uma doença mental, com perturbações psiquiátricas, com privações sociais, e reagem em consequência disso. É isto que devemos sublinhar e apreciar, pois agir de outra forma é condenar sem qualquer esperança de redenção.

- Assim, para concluir, eu espero ansiosamente pelo dia em que os termos religiosos como o bem e o mal se deixem de usar quando estiverem a ser julgados crimes muito sérios. Em vez disso deve ser usada a terminologia da medicina, tratamento e educação. Muitos, se não todos, dos "monstros" de hoje podem ser cidadãos emendados de amanhã, se deixarmos de fazer deles demónios e se tentarmos ajudar. A nossa compreensão é tudo.

Quando Paul terminou, recebeu uma ovação com a audiência em pé. Pela primeira vez em muitos anos a profissão ouvira um bom discurso que era claro, eloquente e não apenas auto-adulador. No final da conferência foi rodeado de admiradores.

- Minha querida - Florence virou-se para Marie -, tenho de me apressar a felicitá-lo. Mas quem era aquela mulher desagradável que gritou "sim"?

Terminado o discurso que dava a tónica ao serão, os convidados retiraram-se para o bar. Pouco depois o rosto de Paul estava corado do álcool e dos elogios dos que lhe desejavam felicidades. Marie conseguiu beijá-lo antes que ele fosse arrastado para uma discussão séria com um psiquiatra romeno que acreditava que comer nabos era a resposta para a condição psicótica. De facto, ele experimentara em si próprio e agora sentia-se bem.

Perto da meia-noite, a multidão no bar diminuiu. Ben e a mulher aproximaram-se de Paul, furando entre os presentes. Marie seguiu-os.

- Vamos para casa - disse Ben. - Mais uma vez parabéns. Florence aplicou um beijo em Paul com a força de uma máquina de lipoaspiração.

- Magnífico! - exclamou ela. - Tu estás realmente a subir na vida. Muito grandioso.

- Obrigado - disse Paul, sorrindo afectadamente. -Já basta de elogios para uma só noite, se não a minha cabeça ficará afectada. Vamos. Oh, preciso ir buscar umas coisas ao escritório. Volto num minuto.

Marie viu-o ir. Sem saber porquê, sentiu-se inquieta. Com toda a fama que ele agora tinha, qual seria o lugar dela?

Paul caminhou pelo complexo da universidade até um edifício alto de tijolo e vidro. Ouviu-se um zumbido nítido à medida que ele abria a porta principal com uma chave-mestra. As luzes do corredor acenderam-se e ele subiu três lanços de escada, todos mal iluminados.

Sentia-se satisfeito. A sua prelecção fora um êxito. Estava verdadeiramente a caminho de grandes tempos. O caso Kramer é que fora o início de tudo. Passou pelas salas dos colegas, cujos nomes estavam gravados a tinta preta nas portas de painéis de vidro. Ah, ele dar-se-ia na vida muito melhor do que eles.

E Marie? Estava na hora de reavaliar a relação deles. Ele lamentava, é claro, mas não achava que ela fosse capaz de suportar o êxito dele. Do que ele precisava agora era de uma mulher mais jovem e mais ambiciosa. Naturalmente, ele procuraria ficar com a custódia de Rachel, a menina começaria melhor na vida com ele. Ela precisava da sua energia e autoconfiança, componentes-chave para chegar ao topo. O mundo era assim, não era? A sobrevivência dos mais aptos e tudo isso? Paul não se queixava.

Finalmente, Paul parou do lado de fora do seu escritório. Procurou no bolso. Sentia-se sonolento devido ao álcool e em consequência do fluxo de adrenalina. Quando se inclinou para a fechadura, tinha ainda na mente o discurso que acabara de proferir.

- Desculpe.

A voz estava tão próxima que Paul deixou cair a chave, assustado. Levou um milésimo de segundo a ajustar a mente. Discerniu a pessoa que se encontrava a seu lado na penumbra. Era elegante e loura, mas não era jovem - pelo menos não era assim tão jovem. Era difícil calcular a idade dela. Não era aluna, mas ainda não chegara aos 30. Levemente corado, Paul baixou-se para apanhar a chave do chão.

- Desculpe. Não a ouvi. Precisa de alguma coisa?

- Ouvi o seu discurso.

- Espero que tenha gostado - disse Paul.

- Foi fantástico. Você foi muito melhor do que Johann Hermanns teria sido. Estávamos a torcer por si.

- A torcer por mim?

- Para que você ficasse com a prelecção. - Ela sorriu e passou a mão pelo cabelo. - Sabíamos que iria conseguir. Sabíamos, simplesmente.

Paul voltou a olhar para ela, confuso. Tentou abrir a porta. Por qualquer razão, a chave não servia.

- Oh, muito obrigado.

- É claro que não concordei com tudo o que você disse sobre o bem e o mal num sentido absoluto - continuou a mulher, a voz doce e baixa.

- Sim, bem, aaa...?

- Helen.

- Helen. - A chave entrou. - Olhe, não quer entrar? - perguntou Paul. - Ou então talvez nos pudéssemos encontrar amanhã. Não me encontro no meu melhor estado para discussões filosóficas neste momento; a minha cabeça está bastante confusa com a bebida. - Riu. Helen riu com ele. Era um riso sociável, bonacheirão.

- Queria apenas felicitá-lo pelo discurso, só isso - disse ela. Não fez qualquer esforço para entrar no escritório dele.

- E discordar de mim.

- Talvez - disse ela. - De qualquer forma, Kramer tinha razão.

- Razão?

- Sobre ser você a dar o discurso. - E continuou: - Tenho de ir. Boa noite, então.

Paul estava desorientado. Havia qualquer coisa nela que o intrigava, até mesmo naquele seu estado confuso. A pose dela e o olhar conhecedor. Não sexualmente conhecedor, apenas conhecedor. Como é que ela sabia o que Kramer dissera sobre a prelecção? Ou será que Paul entendera mal?

- De certeza que não quer entrar?

- Não, tenho de ir. - E começou a avançar pelo corredor. Em seguida virou. Ele não conseguia distinguir o rosto dela na penumbra. - Até ao jantar - gritou ela alegremente.

- O jantar...? Mas ela já partira.

Paul fechou a porta do escritório atrás de si. Encolheu os ombros. Que mulher estranha! Ele mal entendera uma palavra do que ela dissera. No entanto, de certa forma, esperava voltar a vê-la. Ela podia ser interessante. Ligou o candeeiro de secretária e começou a procurar uma pasta de arquivo. Depois, num capricho súbito, atravessou a sala. Ia convidá-la para o visitar o dia seguinte. Paul abriu a porta e caminhou pelo corredor até ao cimo das escadas. Debruçou-se da balaustrada.

- Helen?

Silêncio. Paul pôs-se à escuta para ver se ouvia o som dos saltos dos sapatos dela. Nada. Franziu o sobrolho. Ela não podia ter saído tão depressa; tinham passado apenas alguns segundos desde que ele lhe dissera boa noite. Ele desceu as escadas, praguejando baixinho, pois, sem saber porquê, as luzes do corredor tinham-se apagado. Apalpando o caminho em direcção à porta principal, ele tentou abri-la. Estava fechada à chave. Como era de esperar. Ela não deveria ter uma chave-mestra e, mesmo que a tivesse, ele não ouvira qualquer sinal eléctrico que indicasse que a porta fora aberta.

Como é que ela tinha saído? Deve ter usado uma das saídas de emergência dos outros patamares. Paul voltou a subir as escadas e verificou as portas no primeiro e segundo andares. Estavam fechadas à chave e com o ferrolho. Isso deixava possível apenas o terceiro andar. Aproximou-se da pesada porta de aço e puxou a maçaneta. Estava também fechada à chave.

Uma vergastada de medo percorreu-o.

Foram necessários alguns segundos para que Paul ultrapassasse esta primitiva sensação humana. Regressou ao escritório, ignorando conscientemente o facto de que não havia outra saída. À luz do candeeiro de secretária, reuniu os papéis de que precisava. Tem de se ir embora. Marie deveria estar à sua espera.

Para além disso, ele queria sair do edifício.

 

"O que ainda é pior, a nossa falta de discernimento priva-nos da capacidade de lidar com o mal."

                   Carl Jung, The Undiscovered Self

 

- Tendes mais alguma coisa a confessar?

Embora fosse uma parte essencial do rito, o cardeal Benelli estava sentado junto ao confessionário e meditava nas palavras. Confessara os seus pecados habituais. Uma tendência para o orgulho, não inesperada, talvez, na segunda pessoa mais importante do Vaticano. Uma tendência para criticar outros padres em alturas em que deveria ter demonstrado mais caridade. Uma tendência para comer demasiado. Involuntariamente, espreitou a barriga.

- Não, padre - disse.

O padre confessor começou a falar da penitência e em seguida deu-lhe a absolvição. O cardeal Benelli tentava sempre ouvi-lo atentamente e levar a sério as suas palavras. No entanto, desta vez não estava a ouvir. Estava preocupado.

Tinha ainda uma confissão a fazer.

Mas esta era uma confissão diferente. Diferente dos pecados terrenos, e muito mais complexa. Estava relacionado com o sonho que tivera um mês antes. Sobre as estrelas. Bem, era apenas um sonho, não era? Contudo, ainda o preocupava. Quando se ajoelhara para rezar naquela noite, tivera a certeza de que fora algo mais; uma mensagem espiritual dirigida a ele em particular. No entanto, na manhã seguinte, a sensação de certeza desaparecera. Tinha dúvidas e, aos poucos, a clareza da sua visão diminuíra.

Ouviu-se um leve ruído à medida que a porta do confessionário se abria. O cardeal Benelli também se levantou. Saiu e dirigiu-se à capela privada do Papa. Era uma sala pequena mas com uma decoração muito bonita, escondida dentro dos aposentos papais. Perante o olhar deles estava uma grande cruz com o corpo torturado do Salvador. A luz natural entrava através de vitrais incrustados no tecto. Representavam a ascensão em cores vívidas. A ambiência era maravilhosa, de profunda paz espiritual e mistério insondável.

- Peço perdão por quaisquer pecados que possa ter cometido contra vós.

Benelli acenou com a cabeça. O padre confessor dizia sempre isto após a sua confissão e era bastante comovente. O cardeal olhou para trás, para os olhos azuis-claros do monge enquanto eles o focavam. Benelli tinha a certeza de que este homem cometera muito poucos pecados em toda a sua vida. Porque é que seria que algumas pessoas pareciam ser muito mais espiritualmente avançadas do que ele? Seria o castigo por ele gostar secretamente do seu alto cargo eclesiástico? O pecado do orgulho, o maior pecado de todos?

Começaram a caminhar para fora da capela. O padre confessor reparou que o rosto do cardeal se tornara mais tenso nestas últimas semanas, como se Benelli carregasse um pesado fardo. Parou.

- Há mais alguma coisa que gostaríeis de me dizer? - perguntou calmamente.

Benelli hesitou. Invadiu-o um enorme desejo de pedir conselho ao padre confessor. Mas não podia. Certas coisas só podiam ser discutidas com o Papa. Mais ninguém. Nenhum outro ser humano. Fora esse o juramento que fizera quando se tornara chefe do Santo Ofício. Não podia ser quebrado.

- Estou bem. - Esboçou um sorriso falso.

O padre confessor abriu a porta e Benelli começou a transpô-la. É claro que também não diria ao Papa. O Santo Padre estava demasiado ocupado para ser incomodado com as preocupações insignificantes de Benelli. Tinha centenas de outros problemas para resolver - a administração de uma Igreja com mais de um bilião e meio de pessoas - nada que se possa comparar com as incertezas de um velho.

Benelli estava à entrada da capela e olhou para trás. Será que ele tinha uma confissão a fazer? Ter-se-ia esquecido de transmitir uma mensagem espiritual? De falar de uma lenda extraordinária escondida no nevoeiro dos tempos?

A porta da capela fechou-se. Benelli não tinha nenhuma confissão a fazer.

 

"Examinemos agora a forma como o demónio pode, através do movimento local, excitar a fantasia e as percepções sensoriais interiores de um homem por meio de aparições e de acções impulsivas... Embora o demónio não possa operar directamente sobre a compreensão e a vontade do homem, no entanto... pode agir sobre o corpo, ou sobre as fantasias que pertencem ou que estão aliadas ao corpo, quer sejam percepções interiores ou exteriores."

                   Malleus Maleficarum, O Martelo das Bruxas

 

Era Outono. Novas chegadas à Universidade de São Francisco, outro ano.

- Ele disse mesmo nove e meia?

- Sim, descansa.

O grupo de estudantes do primeiro ano amontoava-se junto ao escritório de Paul, conversando à toa. Alguns estavam sentados no chão, enquanto outros se encostavam à parede pintada de cor viva, os livros e as mochilas a seu lado. Na sua maioria teriam entre 18 e 20 anos, embora houvesse um homem mais velho, que se distinguia por uma madeixa grisalha no cabelo.

A maior parte dos alunos vestiam jeans e T-shirts, embora duas raparigas usassem vestidos. Sentiam-se muito constrangidos, ansiosos por produzirem uma boa primeira impressão, como é habitual na maior parte dos estudantes. No entanto, estes neófitos da psiquiatria em breve desenvolveriam uma abordagem mais crítica em relação a si próprios quando se apercebessem de que os pacientes viam através das suas suaves afectações e pontos fracos com uma clareza cortante e os exploravam sem misericórdia para sua própria vantagem.

- Ouvi dizer que é fantástico trabalhar com ele.

- Completamente de arrasar.

- Muito polémico, depois do caso Kramer. Foi espantoso como ele o conseguiu safar.

Dave Rattinger, do Colorado, jogador de futebol de cabelo louro e comprido e com uma personalidade cativante, aproximou-se de uma das raparigas mais bonitas. Queria tornar-se popular junto dela, mas reconheceu que levaria tempo. Ela era tímida. Podia adivinhá-lo pela forma como ela segurava o livro de textos contra os seios, ocultando-os dos olhares. No entanto, parecia suficientemente boa para ele. Valia a pena tentar. Ele deixara em casa a sua antiga namorada. Assim, entabulou conversa com ela.

- Hoje vamos à prisão?

- Ninguém me disse nada.

Dave insistiu.

- Um amigo meu diz que ele faz isso a todos os alunos no primeiro dia. Leva-os à prisão para os assustar.

- Ah sim? - disse a rapariga, puxando por um cigarro ao mesmo tempo que se encostava à parede. Fez uma pausa. - Chamo-me Suzanne Delaney.

- Dave Rattinger. De Denver.

- Queres um cigarro?

- Obrigado.

- Lá vem ele.

Paul caminhava                             pelo corredor. Vestia jeans e uma camisa aberta, o que lhe conferia um aspecto descuidadamente académico. Dirigiu um olhar de surpresa trocista à pequena audiência que se encontrava à sua frente. Em seguida sorriu.

- Vocês devem ser interessados. Não esperava ninguém tão cedo.

Abriu a porta com a chave e fez-lhes sinal com a mão para que entrassem.

- Sentem-se. Onde conseguirem arranjar espaço.

Era uma sala grande com uma secretária a um canto, estantes individuais, um sofá e algumas cadeiras ao centro. As mesas laterais estavam cobertas de pilhas de papéis e as paredes estavam decoradas com uma série de artefactos que Paul tinha acumulado ao longo dos seus 12 anos de ensino e de exercício da sua profissão. Um machete que lhe dera um assassino, agora curado (pelo menos segundo a sua própria avaliação). Uma máscara de Non oferecida por um professor de psiquiatria japonês que visitara Paul num programa de intercâmbio académico. Gravuras de Bedlam, o hospício inglês, da autoria de Hogarth, artista do século XVIII. Muitos outros pequenos "objets d'art" desde totens africanos a extractos emoldurados de jornais que registavam crimes particularmente horrendos sobre os quais Paul dera avaliação psiquiátrica. Contudo, não havia nada sobre Kramer. Era um caso que Paul preferia esquecer. Tinha os seus motivos.

Os estudantes aproximaram-se dos artefactos e começaram a discuti-los. Paul não chamou a turma à ordem. As peças eram uma boa introdução ao assunto e provocavam sempre interesse e vontade de saber.

Suzanne sentou-se no sofá e baixou para os joelhos os livros que tinha junto aos seios. Dave Rattinger sentou-se prontamente a seu lado. Ela suspirou de si para si. Porque é que os palermas eram sempre atraídos para ela? Porque tinha um rosto de aspecto inocente que deixava transparecer a vulnerabilidade de uma adolescente? Ou porque tinha um peito formidável que ela exibia com bons resultados quando queria?

Suzanne sorriu a Dave, um sorriso doce mas de rejeição. Um sorriso que dizia: "Dedica-te ao onanismo!". Dave retribuiu um sorriso esperançoso, sem prestar muita atenção à mensagem subliminal dela. Como psiquiatra ele teria de fazer muito melhor ao ler a natureza humana.

Entretanto, Paul remexia nos papéis que se encontravam em cima da sua secretária.

- Certo, devíamos ter 12 pessoas. Podemos fazer uma apresentação rápida, por favor?

- Bob Treital, Donna Jackson, Art Jacovits, José Ramirez, Dee McKenna, Dave Rattinger, Suzanne Delaney, Brad Hanson, Laura Kuo, Sally Akers, Greg Parsons e Emil Buzek. - Todos se apresentaram conscientes de si próprios, tentando soar calmos.

Paul agarrou uma cadeira de madeira. Veio sentar-se de um lado do círculo.

- Bem, pelo menos começamos com as pessoas todas. Bem-vindos à Psiquiatria Criminal Geral, Primeira Parte. Eu sou o professor deste curso, mas, em algumas aulas, o meu colega, professor Ben Ingelmann, juntar-se-á a nós.

Paul contemplava a massa de onde teria de fazer fermentar pão.

- Verão que o meu curso é bastante diferente de outros da universidade. Em Psiquiatria Criminal eu quero dar-vos o máximo de experiência prática possível, assim como fazer-vos passar pela lengalenga teórica. Foram buscar os textos que eu recomendei para a vossa leitura preliminar: Carlton e Brown e o meu próprio trabalho sobre psiquiatria criminal?

Vários tomos emergiram de malas.

- Óptimo. - Paul esperou até que se tivesse reposto o silêncio. - Ora bem, eu pretendo começar o curso com um gostinho daquilo que será no fim, quando vocês terminarem a universidade, se a terminarem, daqui a quatro anos. Poderão então sentir logo de início se este é realmente o curso para vocês. Assim, hoje vamos visitar a prisão de Alta Segurança de São Francisco, a mais importante prisão de alta segurança do país.

Houve uma profunda inspiração. Era, então, verdade o que os alunos mais velhos lhes tinham dito. Iam à casa maldita, à casa realmente maldita. Os corações começaram a bater mais depressa, até nos alunos mais cínicos.

A prisão. Será que veriam Paul Horrath, o homem de maneiras brandas, do Arkansas, que despachara dez pessoas nos bosques, há mais de dez anos, numa chacina ritual, cortando-lhes a língua? Ou aquela rapariga, Jennie J. Lee, que envenenara os parentes com tá-Ho? Ou Vincente Buzzolini, o maior mafioso siciliano dos Estados Unidos? Ou Tommy Earle, o antigo talhante que tinha um apetite especial por crianças pequenas? Percorreu-os uma mistura de pensamentos macabros e uma sensação palpável de medo.

- Antes de partirmos, ouçam com atenção, por favor. - disse Paul. - Vamos a uma das áreas especiais. Verão lá uma série de pessoas que cometeram crimes muito graves. A primeira grande surpresa que terão é que os presidiários parecerão, e geralmente são, durante a maior parte do tempo, de facto muito normais, pessoas como vocês e eu. Não têm cruzes na testa a dizerem "Perigo- nem vos fixam de olhos esbugalhados, que é a percepção que o público em geral tem dos criminosos perigosos.

A segunda grande surpresa que terão é que os prisioneiros têm visto muitos grupos de estudantes ansiosos como vocês - por isso não esperem que eles se comportem como porcos-da-índia ou que fiquem minimamente impressionados.

- A terceira coisa é que vamos visitar uma exposição de arte que eles estão a organizar. O objectivo desta exposição não é que vocês se embrenhem em discussões acesas com eles sobre os crimes que cometeram - o que é a última coisa de que querem conversar. Ora bem, toda a gente percebeu? Agora é importante que saibam alguma coisa sobre os indivíduos que vão encontrar.

Paul foi até à sua secretária e pegou em várias pastas vermelhas.

- Estão aqui algumas notas sobre os presidiários que vão conhecer hoje. Leiam-nas no autocarro e dêem-mas de volta antes de entrarmos na prisão. Encontramo-nos às dez e meia em frente deste edifício. Sugiro que as raparigas vistam jeans.

- Porquê? - perguntou Sally Akers, um impulso feminista a erguer-se.

- Porque eles tocá-la-ão se for de saias - respondeu Paul de forma sucinta. - Há mais perguntas?

- São todos homens?

- Não. Homens e mulheres, numa proporção de cerca de dois para um. Como vocês talvez saibam, estatisticamente, é muito menos provável que sejam as mulheres a cometerem crimes violentos.

- Haverá lá assassinos?

- Com certeza. Por favor, leiam os dossiers. Dois assassinos... um preso por infanticídio, um incendiário, os restantes por violação e outros crimes graves contra a pessoa. Próxima pergunta.

- Será seguro?

- Perfeitamente seguro - disse Paul. - Nunca tivemos problemas ao longo destes cinco anos em que temos levado alunos lá. Embora todas estas pessoas tenham sido violentas, presentemente não são consideradas como tal. Em alguns casos, eles estão também sob medicação. No entanto, não andem por lá sem serem acompanhados. E mantenham-se à vista dos funcionários, que estarão de uniformes azuis.

- As obras de arte são deles? - perguntou alguém por cima do barulho que irrompera.

- Sim - respondeu Paul. - Alguns deles são bastante dotados. A exposição é no Bloco D da prisão. - Paul levantou a voz, - podem sair da sala de exposição e andar pelo rés-do-chão do bloco. Mas não se afastem para mais longe. - Ele sabia; durante os primeiros dez minutos, eles estariam tão agarrados às abas do seu casaco, que ele se sentiria uma mãe pata. Em seguida o medo visceral do desconhecido começaria a diminuir.

- Mas não vejo nenhuns nomes famosos - disse Bob Treital, o tom de voz desanimado, à medida que folheava o fino dossier vermelho.

- Nomes famosos?

- Sim - disse Bob, desviando a pastilha elástica para um lado da boca. - daqueles realmente maus. Como Gary Snyder, por exemplo, o canibal do Texas. - Sorriu.

Paul retribuiu-lhe um sorriso desdenhoso.

- Prefiro que não use a palavra "mau". É um termo mais moral do que psiquiátrico. As pessoas com quem lidamos ou estão doentes ou perturbadas de alguma forma. E o senhor Snyder presentemente não está categorizado como um paciente violento. Muito pelo contrário. Os únicos que verão hoje são aqueles que foram categorizados como não-violentos. Os prisioneiros perigosos ou violentos estarão fechados nas suas celas. - Adoptou uma expressão séria. - É claro, Bob, se quiser um encontro a sós com o senhor Snyder, pode-se arranjar.

Bob Treital engoliu em seco. O seu sorriso autoconfiante desapareceu. Talvez a sós não fosse a melhor ideia. Pelo menos neste momento.

- Aaa... não. Estava só a perguntar.

- Muito bem - disse Paul. E continuou: - Passaremos cerca de duas horas na prisão e depois regressaremos de autocarro. Não levem mais nada senão a roupa que têm vestida e estas pastas. Serão revistados junto à entrada principal e quando entrarmos para o Bloco D. É tudo, minha gente. Encontramo-nos lá fora às dez e meia.

Algo nervosos agora, os estudantes reuniram as suas coisas e desceram as escadas. Duas das raparigas saíram para mudar de roupa. Meia hora mais tarde, o autocarro partiu, enquanto os estudantes liam avidamente o conteúdo dos dossiers. Houve cortes de respiraçao e arquejos à medida que eles tentavam relacionar os rostos plácidos das fotografias com a natureza terrível dos crimes.

- Como é que ele pôde fazer isso?

- Pobres mulheres.

- Animal.

- Abatam o canalha.

Paul já antes ouvira tudo aquilo. Era uma reacção perfeitamente normal. O medo distorcia a percepção e a capacidade crítica das pessoas. Era bastante compreensível que assim fosse.

- Você alguma vez tem medo?

Paul virou-se no banco. Olhou a rapariga bonita que tinha sardas no rosto e grandes olhos castanhos-escuros.

- Suzanne?

- Sim. Suzanne Delaney. Você alguma vez tem medo quando está a trabalhar?

- Não, nem por isso - disse Paul. - A maior parte das pessoas com quem lido podem ser inerentemente violentas, mas as suas reacções são geralmente previsíveis. Usamos drogas para aliviar a maior parte dos sintomas delas. Eu ainda não fui atacado, se é isso que está a perguntar.

Suzanne tocou-lhe levemente com a mão.

- Vou ficar perto de si - disse ela.

Paul riu. Seria divertido tê-la na turma, suspeitava ele. Uma figura agradável.

A prisão de Alta Segurança de São Francisco situava-se fora da cidade, no deserto. Tinha em redor uma grande área de terra completamente desabitada. Não que as pessoas quisessem viver perto dali: a notoriedade dos prisioneiros que habitavam o recinto era suficiente para infundir medo e alarme no mais intrépido dos corações.

Dito isso, o corpulento e agressivo director da prisão, Hanlon Dawes, mantinha que a prisão (ou o Zoo, como ele lhe chamava em privado) nunca tivera um fugitivo - ou pelo menos um que tivesse saído vivo. Hanlon Dawes usava esta afirmação perante a Comissão Estatal da prisão no encerramento da campanha sempre que procurava ser reeleito de três em três anos, e sempre tinha surtido um bom efeito.

O que Dawes não lhes dizia era que havia na prisão uma lei que não estava escrita, segundo a qual qualquer prisioneiro que tentasse fugir seria abatido a tiro. Os prisioneiros não sabiam disto oficialmente, mas, como em todas as prisões, os boatos infiltravam-se entre os prisioneiros e eles ficavam a perceber, fosse qual fosse o seu QI. Por isso eram poucos os que tentavam sair sem que tal lhes fosse pedido. Esse facto deixava muitos deles com a opção de uma vida atrás das grades, ou, para aqueles que não tinham tido sorte na lotaria do sistema judicial, a pena capital. Na Califórnia, onde a escolha do consumidor era importante, o condenado podia escolher entre uma injecção letal e o gás para pôr fim à sua vida - o último para tratar daqueles que ficavam enjoados ao verem agulhas. O caixão e a última caneca de café eram grátis.

- Lá está ela.

Dave Rattinger assobiou levemente quando os contornos da prisão surgiram acima do horizonte do deserto. Havia apenas uma estrada poeirenta que levava até lá. A ausência de quaisquer outros edifícios ou formas de vida dava a forte impressão de que a própria estrada era uma viagem sem regresso. Para um inferno de vivos.

- Ouçam todos - disse Paul. - Por favor tenham a vossa identificação pronta a apresentar e deixem aqui as vossas pastas. - Levantou-se do seu lugar e foi colocar-se à frente, junto ao motorista. O autocarro parou perante os portões em aço maciço. De dentro de um bunker saíram dois guardas armados até aos dentes.

- Saiam todos.

Os passageiros saíram e o autocarro recuou 20 metros. Um guarda disse a Paul e aos estudantes que passassem através de uma pequena entrada lateral. Enquanto o fazia, Bob Treital observou os rostos dos guardas. Eram fechados, impassíveis, duros. Todo o humanismo escoara deles. A sua impudência diminuía a cada minuto.

Os estudantes caminharam através de uma estreita passagem de arame até entrarem numa pequena cabana. Um homem cumprimentou Paul.

- Bom dia, professor. Carne nova para nós?

- Estamos só de visita - ripostou Paul num tom sarcástico. Passaram por uma máquina scanner semelhante àquelas que se vêem nos aeroportos. Os guardas fizeram-nos colocar em tabuleiros de plástico eventuais chaves, canetas, moedas, anéis e ganchos de cabelo que tivessem com eles. Pouco depois os estudantes sentiam-se despidos da sua individualidade. Só ficaram com as roupas. Era sensação inquietante.

- Avancem até ao Sector Dois.

Outra passagem de arame, outra inspecção. Desta vez, homens e mulheres guardas revistaram-nos com pequenos detectores portáteis. Durante todo esse tempo, um guarda encontrava-se atrás de um ecrã, arma aninhada nos braços.

- O que é isto?

O rubor subiu ao rosto de Donna Jackson ao ouvir o som de um apito.

- É um piercing na mama - gaguejou ela.

- Tem mais algum metal dentro ou fora do corpo?

- Sim.

- Onde? Nas partes sexuais?

- Sim - a voz tornou-se seca com a intimidade da pergunta.

- O que é?

- Um ornamento... quer dizer, dois. A guarda disse, num tom autoritário:

- Entre por aquela porta. Vai ter de os tirar.

Submissa, Donna deu um passo para o lado, torturada pelo embaraço. Paul reparou nisso com interesse. Agora ela começaria a sentir-se como os prisioneiros. A privacidade era uma palavra esquecida neste estabelecimento. Havia muitas outras palavras que ficavam também do lado de fora dos portões: amabilidade, esperança, amor, liberdade, identidade.

- Continuem até ao Sector Três.

Paul e o grupo passaram pelo último portão de entrada e entraram num corredor comprido. Daí transpuseram uma pesada porta de aço. A visão que se abria perante eles era impressionante. Até agora tinham sido anexos com intermináveis rolos de arame em volta e, mais à frente, um amplo espaço aberto com torres de vigia e vedações electrificadas que rodeavam o perímetro da prisão. Agora encontravam-se no interior da prisão propriamente dita. Estavam num grande e pesado pátio, delimitado por muros de 25 metros de altura, lisos, e que eram impossíveis de escalar. Havia quatro blocos no pátio marcados de A a D em grandes letras pretas que se viam em cada edifício, de lado.

Embora os estudantes não soubessem, havia mais um bloco. Por baixo do local onde eles se encontravam havia uma câmara, o Bloco E, para albergar os prisioneiros mais perigosos. Para estas almas perdidas, a luz do dia nunca era vista - apenas luz filtrada. Paul estivera muitas vezes no Bloco E. No entanto, apenas ele e Ben Ingelmann tinham passes, e não havia absolutamente qualquer hipótese de um estudante, ou qualquer outra pessoa não autorizada pelo director, poder visitar aquelas celas. Na verdade, aqueles que tinham cometido crimes terríveis pagavam de facto um preço pelos seus pecados. Eram enterrados vivos.

- Bloco D. Sigam-me - disse-lhes um guarda, gritando devido à força do hábito.

Numa fila única, passaram por um corredor, um guarda à frente e outro atrás. Mais portões, mais portas electrónicas, mais guardas. Era certo que ninguém podia fugir daqui, pensaram os estudantes. Na verdade, apenas um o fizera. Conseguira chegar ao portão de saída levando consigo um visitante da prisão como refém. Depois, de acordo com as instruções do director, tinha sido morto a tiro. O refém também tinha morrido, mas esse era um preço que as autoridades da prisão consideravam aceitável, e as circunstâncias exactas da morte da infeliz vítima foram encobertas pela burocracia. Não havia nada para escrever para casa, a não ser que se fosse a viúva do refém, caso esse em que já se tinha recebido a notícia - um telefonema solidário do Governador do Estado.

- Olá, professor - Uma mulher jovial, de casaco branco, aproximou-se de Paul e apertou-lhe a mão. Magra e seca, de rosto cansado e cabelo grisalho atado atrás num rabo-de-cavalo preso com uma fita elástica, Emma Breck era a psiquiatra principal da prisão, 50 anos, solteira, dura e jovial, trabalhava na instituição há mais de uma década. - A exposição acabou de abrir. Vocês são das nossas primeiras visitas.

Emma Breck deitou ao ajuntamento de estudantes um olhar satisfeito. Era bom voltar a ver rostos frescos e vozes ansiosas, aqui, na casa dos zombies. Enviou-os para o Bloco D, um edifício rectangular com um único corredor de acesso para que pudesse ser fechado em caso de emergência. No rés-do-chão, os estudantes olhavam para cima.

Era uma visão deprimente. Havia mais dois pisos por cima destes, com pesadas portas de prisão cravadas nas paredes de cada patamar. Uma rede de arame estendia-se a partir dos corrimões para evitar que os presidiários se atirassem lá para baixo das celas. O suicídio era visto com maus olhos pelas autoridades da prisão, a não ser que fosse assistido. Nesse caso elas tratavam do assunto.

- A exposição é aqui. Sim, à direita.

O rés-do-chão do Bloco D não tinha celas, mas era destinado a salas comunais e a um posto de guarda. A doutora Breck conduziu-os para o interior. Após o trauma de passar por tantos portões e pelo processo da desumanização gradual, foi um alívio para os estudantes voltarem a ver alguns vestígios de normalidade. Na verdade, exceptuando as grades nas janelas, a sala de arte era quase impossível de distinguir das salas de aula da escola em que tinham estudado pouco tempo antes. Havia quadros a cobrir as paredes e a um canto havia uma mesa com copos de plástico de sumo de laranja e um tabuleiro com biscoitos. Depois, é claro, havia os próprios presidiários, alguns atrás de cavaletes de pintor, outros a conversar com uma mão-cheia de visitantes, que era constituída, na sua maior parte, por médicos e psiquiatras de universidades e fundações de outros estados.

A normalidade da situação atingiu os estudantes, tal como Paul previra. Não havia aqui monstros. Alguns homens e mulheres vestidos de jeans azuis e de camisas a conversarem calmamente ou a pintarem. Um ar de calma reserva, como uma convenção para votantes de meia-idade numa pequena cidade, estando apenas ausente o presidente da câmara com a sua transbordante satisfação.

As obras de arte reforçavam esta impressão. Não havia cenas de violência crua. Em vez disso, viam-se auto-retratos, barcos a balouçarem sobre as águas do mar, cestos de flores, muita cor em turbilhão. Porque os pacientes pintavam o que era exterior a eles, não o horror inaceitável do seu interior. Nos seus quadros, eles recreavam interminavelmente o mundo numa imagem idealizada: tranquilo, calmo, ordeiro.

À medida que os estudantes observavam os prisioneiros, o seu medo começou a dissipar-se. Aperceberam-se de que se tinham amontoado em volta de Paul como que à procura de protecção. Conscientes de si próprios, começaram a separar-se e a mover-se em direcção aos quadros e aos artistas. Estava tudo bem. Estas pessoas faziam, afinal, parte da raça humana. Eram diferentes, mas, apesar disso, continuavam a fazer parte dela. Era reconhecível, pelo menos exteriormente.

- Pinta muito?

- Não, nem por isso. Comecei há pouco tempo. Não sou muito boa.

A mulher sorriu a Dave Rattinger. Ele retribuiu o sorriso. Ela começou a explicar porque gostava de cores vivas e de cenas de ondas que se estatelavam contra a praia. Dave acenava com a cabeça. Era mais velha do que a fotografia mostrava, tinha cerca de 45 anos, era maternal, infanticida. Apunhalara até à morte uma criança filha de uma vizinha e sentou-se a seu lado enquanto ela morria. Em seguida subira as escadas para fazer a mesma coisa à irmã do rapazinho. Fizera-o porque estava cansada de ouvir o barulho que faziam através das paredes. E agora estava a discutir com Dave as primeiras obras de Vincent Van Gogh e a perguntar-se por que motivo é que ele teria gostado de tons de verde tão fortes.

- Posso ir buscar-lhe sumo de laranja?

Donna Jackson virou-se para o jovem que lhe fizera a pergunta com uma leve gaguez. Tinha 23 anos, dois anos mais do que ela. Bonito, com feições de bebé.

Ele olhava-a atentamente - primeiro para o rosto, depois para o V das virilhas. Estranhamente, Donna não se sentiu embaraçada. Em vez disso, sentiu pena. Não deveria ter tido uma mulher desde que aqui entrou e não teria nenhuma até ao fim dos seus dias. Se a vida tivesse sido diferente, podiam talvez ter saído juntos. Quem sabe? Ele era bastante bonito.

- Obrigada. - Ela viu-o dirigir-se à mesa e pegar no sumo. Depois regressou para junto dela. Nervosamente, os olhos dele olharam-na no rosto e sem seguida voltaram às partes sexuais. Fora preso por ter cometido uma série de violações horríveis em que as vítimas tinham sido estranguladas. No entanto, para Donna ele parecia tão inocente à luz do dia: não havia o mais leve indício de violência e de crueldade por detrás da sua plácida máscara de normalidade estudada. O que levara àquilo? O que estava ele realmente a pensar enquanto falava com ela?

Uma hora mais tarde, a sala ganhara vida com conversa e risos. O sentido natural dos estudantes para o divertimento e o desejo desesperado dos presidiários de voltar a ter companhia humana normal era como uma força tremenda de energia reprimida que se libertava. O medo dos estudantes desaparecia à medida que a compreensão se construía. Até aqui tudo bem.

- Paul, quero que venha ver uma pessoa - disse Emma Breck. - Trouxeram-no ontem. Psicopata, 18 anos. Matou a família com uma faca e um bastão de basebol. Ficaria agradecida se me desse a sua opinião sobre a sua recente avaliação.

- Com certeza. - Deixaram a sala de arte e subiram as escadas de metal. No terceiro andar, Breck levou Paul para uma sala lateral. Estava lá um adolescente, de algemas e ferros nos pés. Paul e Emma sentaram-se e começaram a falar com ele.

À medida que o tempo passava, lá em baixo, os estudantes tinham recuperado completamente a autoconfiança e a agitação. Tinham-se esquecido do local onde se encontravam. Alguns experimentavam o jeito que tinham para pintar.

- Gostarias de dar uma volta por aqui?

Suzanne Delaney contemplou a rapariga magra de rosto cansado e olhos vazios que se encontrava a seu lado. Mary Driver. Eram aproximadamente da mesma idade. Estivera envolvida numa série de homicídios num bairro da cidade, nos quais atraíra homens para a morte às mãos do namorado demente, agora também morto. O dos-sier vermelho que Paul lhes dera indicava que ela tinha um QI baixo e que era facilmente manipulada. Era também uma boa artista, como atestavam os quadros com cenas de deserto.

- Sim, gostaria.

Saíram da sala de arte e entraram num corredor. Mary mostrou-lhe as outras salas no rés-do-chão: uma biblioteca bem fornecida e uma sala de jogos.

- Estes são para os homens. No nosso bloco, o Bloco C, temos a mesma coisa.

A conversa fluía com facilidade e Mary falou da sua vida diária, embora a palavra "vida" dificilmente descrevesse uma existência na qual ela estava muitas vezes fechada sozinha durante 20 horas por dia, seis dias por semana.

- Alguém te visita?

- Não.

Começaram a subir as escadas para o primeiro andar. Tudo estava calmo. Da sala de arte por baixo subia até elas o som de risos.

- Onde estão os outros presidiários?

- Nas suas celas.

- Está tudo tão silencioso.

- Dizem-lhes para estarem em silêncio quando há visitas.

- Oh - disse Suzanne. Passaram pelas pesadas portas de aço das celas da prisão, cujas superfícies vazias não deixavam transparecer nada dos ocupantes que se encontravam por detrás. Mary estava a perguntar a Suzanne qualquer coisa sobre o tom do bâton que usava. Parecia uma criatura tão patética. Quase incapaz de ter cometido um crime.

- Como é que sobrevives aqui? - perguntou Suzanne.

- Faço favores.

- Que tipo de favores? - perguntou Suzanne, curiosa.

- Favores. - Mary fez uma pausa e em seguida disse, sombriamente: - Toda a gente faz favores para sobreviver.

Continuaram a caminhar e a discutir maquilhagem, a coisa de que Mary mais tinha saudades por estar presa. Cumpria uma pena perpétua. Passados uns anos, deixaria de se preocupar com a aparência. Não fazia sentido manter uma máscara.

- Esta é a cela de Sean Patrick - disse Mary, por acaso, enquanto passavam. Suzanne estremeceu. O nome do assassino em massa trouxe-a de volta à realidade.

- Tenho de regressar.

- Daqui a um minuto - disse Mary. - E aqui é onde está Jerome Stinson, o assassino do machado.

De súbito, Suzanne teve uma sensação de afundamento. Uma voz interior, muito clara e forte, dizia-lhe que regressasse à sala de arte agora. Algo de terrível estava prestes a acontecer. Ela virou-se, mas não foi suficientemente rápida. Mary Driver bloqueava-lhe o caminho. Selvaticamente, empurrou Suzanne contra a porta de uma cela. Para seu horror, a porta começou a abrir-se.

- E este é Karl Kramer. O assassino em série.

- Não!

Com isso a sua guia atirou-a para o interior da cela. Toda a gente tinha de fazer favores para sobreviver, e este era o dela. Mary Driver saiu a correr pelo corredor, gritando de maníaca satisfação.

A medida que Suzanne se levantava do chão da cela, um homem levantava-se da cama. Completamente horrorizada, Suzanne reconheceu o rosto, mas nessa altura já Kramer a envolvera com os braços.

Um grito penetrante reverberou por todo o bloco da prisão. Tinha o timbre de um animal selvagem apanhado numa armadilha. Puro medo. De um salto, Paul levantou-se da mesa a que estava sentado. Oh, meu Deus.

Os minutos que se seguiram foram uma desconcertante mistura de acontecimentos, a maior parte dos quais ditados pelo pânico. A porta de aço maciço que se encontrava a meio do corredor para o Bloco D bateu a fechar-se, activada por um sinal electrónico dado por um guarda. Como resultado, ninguém podia entrar ou sair do bloco. Estavam encurralados.

Dois guardas apressaram-se em direcção à sala de arte. Freneticamente, separaram os estudantes e os convidados dos presidiários. Os primeiros foram fechados na sala de arte e os últimos empurrados para o corredor. Enquanto isso, grades de aço desceram em todos os lanços de escada para selar cada um dos pisos do Bloco D.

Por esta altura, Paul chegara ao primeiro piso, onde Suzanne se encontrava. À medida que corria pelo corredor, via os rostos dos estudantes erguidos para ele do rés-dochão, as expressões impregnadas de medo e alarme. Paul era seguido de perto por um guarda. Mas chegaram tarde de mais. Kramer estava ao fundo do corredor. Tinha um nó corredio de arame, improvisado, a volta do pescoço de Suzanne.

- Bem, olá de novo, professor - disse ele, resplandecente. - Acabei de conhecer uma das suas alunas.

Desde a sua absolvição do assassínio de Melanie Dukes, Kramer voltara à prisão, cumprindo a sua sentença pelo homicídio ocorrido no bar. Deviam transferi-lo em breve para outra prisão. No entanto, Karl não era um homem feliz. O suicídio de Laura Dukes afectara-o profundamente. Ela escapara-lhe e isso aborrecia-o muito, pois estivera a planear cuidadosamente os pormenores da sua relação futura quando ele saísse da prisão.

Para Laura foi bom ter morrido quando morreu, já que a tortura e a morte que Kramer planeava para ela estava para além de toda a concepção humana. Para Kramer, no entanto, era amargura e rancor. Agora que fora absolvido do assassínio da irmã dela, ele podia deixar cair a máscara que mantivera nos últimos meses, e o lado mais negro veio à superfície.

Duas semanas tinham sido suficientes para que ele impusesse a sua vontade sobre os outros presidiários, pois eles sabiam melhor do que qualquer juiz ou psiquiatra inteligente que tipo de homem era o verdadeiro Karl Kramer. Sentiam-no emanar dele e, em alguns casos, conheciam os sintomas pela sua experiência pessoal.

Kramer decidira que, uma vez que passaria uns tempos na prisão, também se podia divertir. E era agradável encontrar o antigo psiquiatra que o avaliara, Paul, e que o ajudara a safar-se. Apostava que neste momento Paul lamentava tê-lo feito, ou que em breve o lamentaria. Contudo, isso era duro. Kramer nunca se lembrava da ajuda de outros e nunca a retribuía - não era esse o seu estilo.

- Diga onde está - disse Paul ao guarda da prisão. Devagar, caminhou em frente. A visão era arrepiante. Kramer segurava Suzanne com firmeza em frente do seu próprio corpo, as costas apoiadas numa parede nua. Em volta do pescoço dela havia um fino pedaço de fio metálico que ele apertara de forma a que o maxilar da rapariga fosse empurrado para cima e para a direita. Como uma galinha a que estivessem prestes a cortar o pescoço.

Kramer espreitou de detrás da cabeça da vítima, os olhos a brilharem de ameaça e excitação reprimida. Deixou Paul e o guarda aproximarem-se até três metros de distância dele. E disse numa voz calma:

-já estão suficientemente perto. - E apertou o nó corredio de fio metálico.

Fez-se um silêncio total na prisão. Nas suas celas, os prisioneiros podiam detectar que algo de violento estava prestes a acontecer. Sentiam o medo e o terror a penetrarem o ar e exultavam com isso, Trazia-lhes à memória recordações de tempos passados. Esperavam ansiosos.

- Karl? - Paul escrutinou o assassino. Era-lhe óbvio que não havia qualquer possibilidade de fuga. Por isso, o que estava ele a fazer? Provavelmente queria brincar com a rapariga, mas até onde é que ele iria?

No mais profundo do seu ser, Paul começou a reconhecer que cometera um erro grave em relação a este homem. Ben tinha razão. Ele fora enganado por ele, afinal; era incrível como Kramer fora esperto. Nenhum indício disto durante meses, no entanto agora Paul sentia a violência a emanar dele como calor.

Paul precisava de tempo para convencer Kramer a desistir da sua vítima, mas, mesmo enquanto ele observava, sabia que o director estaria a autorizar a entrada de um atirador no Bloco D para matar Kramer, se fosse necessário. E se um refém se encontrasse no caminho... bem, que assim seja. Os prisioneiros precisavam de lições duras.

- Está bem, Karl. Penso que basta - começou Paul num tom calmo. - Essa é uma das minhas alunas. Chama-se Suzanne. Está muito assustada. Por favor, solta-a agora. - Ele não via os olhos de Suzanne, já que o rosto da rapariga estava virado para o lado, mas podia imaginar o seu terror.

- Sim, ela está com medo - disse Kramer calmamente. - Com muito medo. Sinto isso. - Pressionou o rosto de barba hirsuta contra o dela e deu-lhe um beijo lento e húmido. - Isso excita-me.

- O que vai fazer?

- Quem sabe? - disse Kramer ao mesmo tempo que os olhava de esguelha. Com a mão que tinha livre desapertou o soutien de Suzanne. Em seguida, com um movimento brutal, rasgou-lhe a blusa nas costas. Divertia-se, e havia muito tempo que não se divertia.

Suzanne estava pregada ao corpo dele, meio despida, o tronco nu e exposto. Kramer olhou os presentes com um divertimento desdenhoso. Sabia o que Paul e o guarda estavam a pensar. Apesar do medo e da preocupação que sentiam, os homens olhavam fixamente os seios da vítima e nas suas mentes, tal como na dele próprio, residiam pensamentos eróticos. Kramer sabia-o; sentia-o. Queria que eles sentissem o que ele estava a sentir - a violência, a crueldade. O prazer dele, a dor dela.

Vindo das celas, chegou até eles um coro animalesco, os gritos lancinantes e cruéis, num tom quase de lobo. Os presidiários não viam nem ouviam o que estava a acontecer, mas sentiam-no vibrantemente como se tivessem entrado numa linha de selvajaria atávica e irracional que subconscientemente fluía entre eles. Gritavam de pura alegria, ao mesmo tempo que diziam a Kramer o que devia fazer com a sua vítima desconhecida.

Os estudantes, que se encontravam naquele mesmo edifício, ouviam os gritos dos presidiários e tremiam. Em segundos, o verniz da civilização estalara ef por baixo, ficara exposto o lado negro da humanidade: o instinto animal cruel, irracional e imoral dos seus antepassados, estranho e terrível, mas um instinto que, nos recantos mais inacessíveis da sua psique, todas as pessoas naquele edifício, presidiários e visitantes, conheciam de alguma forma e que, até certo ponto, partilhavam. Alguns sentiram a presença palpável do mal, forte e poderosa. Mas não foi o caso de Paul, porque, é claro, ele rejeitava essas coisas.

- Por favor, solta-a agora.

À distância, ouviu-se o som de uma porta de aço que se abria. Um atirador da prisão vinha a caminho. Paul sabia-o. E Kramer também. Exultou, triunfante. Foi então que Paul teve a certeza de que ele ia matar Suzanne - Bem - disse Kramer, deitando a língua de fora às pessoas que se encontravam à sua frente, aterradas. - Foi muito simpático da sua parte, professor, ter vindo ver a exposição. Mas é sempre mais divertido ver os artigos expostos todos juntos, não é? Então sabemos ambos como nos sentimos.

A mão dele libertou-se devagar dos seios de Suzanne e nessa altura começou a apalpar-lhe o corpo. Os dois homens que assistiam olhavam fixamente o tronco delicado da rapariga, agora nas mãos deste monstro. Sentiam repulsa e ao mesmo tempo atracção pelo contorcido objecto humano exposto. Era como um quadro do artista inglês Bacon, os indivíduos apanhados dentro da sua própria crueldade e submissão.

Ouviram-se passos nas escadas. Kramer soltava risinhos abafados, os dentes a brilharem à luz forte de néon. Com a mão livre, desapertava agora o botão dos jeans de Suzanne e deixou-os cair de forma a que quase lhe deixaram os joelhos a descoberto. Kramer sabia o que eles estavam a pensar, os dois que se encontravam à sua frente. O horror deles era real, mas de voyeur, a pena que sentiam pela rapariga agora misturada com um prazer que se erguia. Podiam começar a compreender o processo de pensamento dele próprio.

Paul ouviu um leve clique. Atrás de si, pelo canto do olho, viu o guarda levantar uma espingarda. Iria apontar à cabeça.

No entanto, o assassino compreendeu exactamente o que se pretendia e manteve a cabeça muito perto da da rapariga. Se o guarda atirasse agora, podia facilmente matar ambos. Por isso o guarda não atiraria. Kramer sabia-o. Estava demasiado assustado. Kramer continuou a lamber o pescoço de Suzanne, como um lobo a acariciar a presa antes de a comer. A protuberância nas calças dele pressionava fortemente o traseiro dela. A mão livre dele transferiu-se de detrás dela à medida que ele abria o fecho das calças. Violação pública - isso era algo que ele ainda não experimentara.

O atirador fechou a mola de segurança com um clique. Ouviram-se passos na escada de metal. Chegara outro guarda com uma ordem do director para atirar.

O resultado não foi o que Paul esperara. Virou-se para implorar ao guarda que não atirasse. Enquanto o fazia, o coração começou a palpitar-lhe. É que atrás da figura pesadamente almofadada havia outra pessoa - a última pessoa que Paul esperava ver.

Ela estava ali, dirigindo o olhar a Kramer. Em seguida focou Paul. Era a mulher misteriosa que tinha conhecido no corredor, naquela noite, após a sua prelecção. Como é que ela se chamava? Helen. Paul estava estupefacto, Vestia uma bata branca de médico. Deve ser uma psiquiatra que trabalha na prisão. Como é que ele nunca a tinha encontrado antes?

Rapidamente, Helen dirigiu de novo o olhar para Kramer. Os olhos de Paul também voltaram a fixar o assassino em série, tendo tudo isto acontecido no espaço de um milésimo de segundo.

Começou então a acontecer uma coisa extraordinária.

A expressão de satisfação do rosto de Kramer alterou-se. Começou a transpirar; as feições contorceram-se - primeiro de surpresa, depois de medo. O rosto do assassino finalmente tornou-se rígido como se se fixasse num ponto para além da visão humana.

A pouco e pouco, a mão livre de Kramer, que estivera prestes a separar as pernas de Suzanne do lado de trás, moveram-se pela braguilha dele e para o lado. Tinha garras, os músculos, rígidos, a sobressaírem da carne, como se estivesse a ser obrigada, centímetro a centímetro, a ceder a posição desejada por uma força tremenda. A outra mão de Kramer, que segurava o nó corredio, também começou a relaxar, o punho a abrir-se. Era um espectáculo notável e Paul observava, espantado, sem a mínima pista de como isto estava a acontecer.

Com o nó afrouxado, Suzanne podia olhar para a frente e os seus olhos assustados pousaram naqueles que estavam a observar. Como o medo que a dominava se reduzia, ainda que escassamente, ela tomou consciência da sua nudez e tentou cobrir-se com as mãos.

Paul observava o assassino a soltar involuntariamente a vítima. O rosto do assassino estava torcido de agonia, os olhos injectados de sangue, como se farpas invisíveis lhe estivessem a ser enterradas nas órbitas. Veio à cabeça de Paul o que estava a acontecer. Kramer devia estar a sofrer uma reacção catatónica a drogas.

Assim que o nó caiu, dois guardas avançaram rapidamente. Empurrando Suzanne para um lado, precipitaram-se para Kramer e atiraram-no ao chão. A resistência dele desaparecera. Suzanne baixou-se para puxar os jeans sobre a sua nudez e desatou a chorar. Emma Breck, que entretanto chegara, correu a confortá-la.

Paul deixou-se ficar em pé, perdido. O que ele acabara de testemunhar parecia irreal. Era como se tivesse estado a ver um filme em câmara lenta. No entanto, o que acontecera era bastante real. Ainda podia ver tudo à sua frente - o ajuntamento, as tentativas subitamente frenéticas de Kramer para se libertar enquanto lhe enterravam no braço uma agulha com um sedativo, o choro de Suzanne, que fazia pena ver. Acontecera. Era real. Era este mundo.

Paul virou-se para perguntar a Helen o que fizera com as reacções de Kramer.

Ela não estava ali.

 

"Os demónios iludem-nos através de criaturas que não são formadas por eles, mas por Deus, e com vários encantos, consoante a sua própria versatilidade...

Os demónios tentam assegurar que serão desta forma atraídos pelos homens; e fazem-no, emprimeiro lugar, ao enganarem os seres humanos com a sua esperteza subtil, quer seja soprando-lhes um veneno secreto para o coração, quer aparecendo-lhes até sob o disfarce enganador de amigos, fazendo de alguns deles discípulos de si próprios, eprofessores de muitos outros."

                   Santo Agostinho, A Cidade de Deus

 

O autocarro regressou aos terrenos da universidade. Os alunos de Paul estavam deprimidos. Embora soubessem que alguma coisa acontecera a Suzanne, não tinham visto nada do quanto ela fora humilhada por Kramer. Paul pedira às autoridades da prisão que a levassem de volta sozinha, para que ele pudesse falar com ela em privado antes que ela encarasse a investida das perguntas deles.

Quando o autocarro parou, ele virou-se para encarar os alunos, interessado em descobrir que efeito o incidente tivera sobre eles. Se queriam ser psiquiatras criminais, teriam de acostumar-se ao inesperado e à violência.

- Lamento o que aconteceu esta manhã - disse-lhes Paul. - Foi uma introdução ao mundo da psiquiatria criminal mais realista do que eu tinha previsto. Espero encontrar-vos de novo na próxima quarta-feira. A não ser, é claro, que tenham entretanto decidido mudar para Clássicas ou História de Arte.

Ouviu-se uma série de risos. Tendo recuperado do choque, todos experimentavam o júbilo de terem estado dentro, e de terem escapado, de uma situação traumática. Navegando na crista de uma onda de adrenalina.

- Foi realmente incrível - disse José Ramirez à medida que entrava no autocarro. - Vou estar de volta para mais, meu. É muito melhor do que a marijuana alguma vez foi.

Os estudantes partiram, tagarelando excitadamente. Paul estava sentado num banco para se concentrar. Estava uma tarde bonita e os terrenos da universidade estendiam-se à sua frente em toda a sua verdura. Atrás estava o edifício onde ele trabalhava e, em frente, uma vastidão de relva onde os estudantes descansavam enquanto coscuvilhavam e apanhavam sol. Era tudo tão tranquilo, civilizado e previsível. Um mundo diferente daquele de onde tinham acabado de chegar, a terra dos enjaulados e dos condenados. Fora um dia interessante.

Que erro terrível não terem fechado à chave a cela de Kramer. Como podia tal coisa ter acontecido? E como é que Kramer arranjara o fio metálico para fazer um nó corredio? Se ele bem conhecia o director, Hanlon Dawes, alguém iria sofrer com isso. E quem era aquela mulher misteriosa, Helen?

Mais preocupante ainda, Paul vira Kramer como ele realmente era. Talvez Paul não devesse ter dado uma avaliação tão positiva sobre ele no julgamento. O diagnóstico era um assunto tão enganador. Dito isso, foi o júri que decidiu o veredicto, não ele. Recusava sentir-se pessoalmente responsável pela absolvição daquele homem. Eles é que se enganaram, não ele.

Além disso, Paul não podia permitir que existissem quaisquer dúvidas. Isso podia chegar à imprensa e às redes de televisão e o seu estatuto de celebridade seria posto em perigo - uma confusão dos diabos. Por isso era importante não tirar quaisquer conclusões precipitadas. Neste momento, estando na prisão, Kramer não constituía ameaça para o público. Paul mantê-lo-ia sob observação. E depressa afastou a mente daquele assunto incómodo.

- Professor!

Vestindo roupas emprestadas, Suzanne saiu de um carro da prisão, embora sem estar visivelmente identificado, e atravessou a relva em direcção a ele.

- Suzanne. O que posso eu dizer-lhe? Sente-se. - Paul olhava-a atentamente. O que aconteceria se ela pensasse que a universidade era culpada? Haveria um escândalo e Suzanne podia requerer uma indemnização por perdas e danos causados. Um medo de advogados e de litígio apoderou-se de Paul. Assassinos eram uma coisa, e advogados outra. Apenas um era capaz de redenção aos olhos dele.

- Suzanne, nunca tinha acontecido nada semelhante a isto. Haverá uma investigação que será o mais completa possível, assegurou-me o subdirector. Lamento muito.

Embora o rosto dela exibisse ainda uma palidez de morte, ela esboçou um leve sorriso.

- Não tem importância, professor. Virei à sua próxima aula. Paul suspirou de alívio. Ela era corajosa.

- Chame-me Paul. - Ele colocou a mão na dela; era macia mas ainda gelada do medo. - Quer algum calmante? Posso arranjar alguns.

- Não, Disse às pessoas da prisão que queria apenas ir para casa.

- Claro - disse Paul ao mesmo tempo que se levantava do banco. - Eu levo-a. Não está em condições de conduzir.

No Mercedes, ele disse-lhe:

- Você foi muito corajosa. Manteve a calma, a primeira regra de um psiquiatra criminal.

- Não senti isso. Aconteceu tudo tão depressa - Suzanne engoliu em seco. - Será que ele me teria matado?

Paul hesitou por uma fracção de segundo. Por vezes era aceitável mentir.

- Não - disse ele. - Não me parece. Se tivesse sido essa a intenção dele, tê-lo-ia feito mais cedo. Tenho a certeza de que Kramer estava a brincar consigo para troçar das autoridades da prisão. Ele não fez qualquer tentativa para deixar a prisão ou para negociar. Queria apenas demonstrar o seu poder aos guardas e aos outros presidiários. Compreende, ele está a tentar afirmar o seu estatuto na prisão. É uma função importante, como um animal a marcar o seu território.

- Porquê?

- Para sobreviver - disse Paul, entrando no modo de professor. - As prisões são locais perigosos, até para assassinos. Há sempre outra pessoa que quer provar que é rei da selva. É disso que o público se esquece. Estas pessoas sofrem mesmo. Sejam quais forem os crimes que tenham cometido, eles regressam para os assombrarem de uma forma ou de outra. Vivem com medo não só de si próprios, mas também dos outros.

- Mas ele podia ter-me matado - e acrescentou, num tom mais calmo: - Ele matou muitas outras pessoas.

- Você não sabe isso. Matou um homem no bar. Foi absolvido do assassínio de Melanie Dukes.

Ela hesitou.

- Você não acha que ele é o assassino em série?

- É claro que não, não há provas disso - disse Paul bruscamente. - Penso que ele não a teria magoado a sério. Seja como for, ele libertou-a.

- Mas porquê eu?

- Você, por acaso, caiu-lhe nas unhas. Suzanne acenou com a cabeça. E disse:

- É terrível como o azar aparece, não é? - Ela olhou pelo vidro do carro para o trânsito que passava, as ruas cheias num dia de semana normal de São Francisco. - Está tudo bem, e, de súbito, o desastre acontece. É isso que me assusta na vida. Acontece tão rapidamente. Uma pessoa pode estar bem num minuto e no seguinte o mundo já está virado ao contrário. É como se Deus estivesse a brincar connosco.

Paul deu uma ligeira guinada no volante para evitar outro carro.

- Kramer disse-lhe alguma coisa?

- Não.

- É a violência a que ele está... a que ele pode estar agarrado, a sensação de estar a controlar as coisas. É como uma droga. As pessoas assim têm de dominar as outras. É a sua forma de estarem pedradas.

Fez-se silêncio. Emma Breck arranjara a Suzanne uma blusa e uma camisola novas. O rosto dela estava particularmente encantador na sua palidez. Assombrosa, Ele pensou no corpo dela nu e nas suas próprias emoções quando a vira presa nos braços de Kramer. Ele era apenas humano, afinal. Paul franziu o sobrolho. Estava a tornar-se tão mau quanto os seus pacientes. Havia demasiada empatia.

- Falaremos disto noutra altura. Neste momento você está a experimentar um choque retardado, por isso sentir-se-á muito calma, até mesmo exultante. O medo e a depressão tomarão conta de si mais tarde. Porque não vem ficar comigo e a minha mulher durante um dia ou dois?

- Não, eu estou bem, acredite... Paul. - Lançou-lhe um olhar aberto e afectuoso. Ela tinha uns bonitos olhos amendoados e um rosto sem marcas nem rugas. O rosto de uma rapariga de 22 anos, rejubilando de saúde e vigor.

- Ou talvez possa ficar com um namorado? - Porque fazia ele tantas perguntas?

- Não tenho namorado.

Ele não disse mais nada. O Mercedes entrou na área residencial dos estudantes. Suzanne apontou o quarteirão onde residia e Paul parou junto à entrada. Mesmo antes de ela sair, ele disse:

- Venha visitar-me amanhã. Prometa. Estou preocupado consigo. Os olhos dela fixaram os dele. Paul via neles um rasgo de divertimento.

- Talvez - disse Suzanne. Ela saiu e olhou para trás através do vidro. - Você não teve culpa nenhuma. - E acrescentou, com voz doce: - Paul, não se preocupe. Não vou processar ninguém.

- Você leu-me os pensamentos! - disse ele.

- Sim. - E ambos riram.

Simultaneamente, os olhares de ambos envolveram-se, registando desejos subliminais proibidos, que foram rapidamente suprimidos.

Paul observou-a a atravessar a relva e desaparecer no interior do quarteirão dos estudantes. Tinha coragem, aquela rapariga. Isso agradava-lhe. Afastou-se no carro, relutante em admitir o que sentia.

Gostava de Suzanne. Muito.

- Eu sei, eu sei - disse Ben quando Paul entrou na clínica psiquiátrica que era propriedade de ambos. Encontrava-se de pé junto a um arquivo na recepção, o cotovelo encostado a ele. - Sei o que aconteceu.

Paul seguiu Ben para o escritório e o colega deixou-se cair num maple de cabedal atrás da secretária. Tinha um ar de calma estudada, embora estivesse muito preocupado. Coçava o nariz.

- Vamos ser processados?

- Tem calma - Paul contou-lhe a história. Ben encolheu os ombros.

- Bem, pelo menos isso dá experiência aos alunos sobre o que é trabalhar em prisões de alta segurança. E a rapariga?

- Ficou muito abalada, mas não afectada. Ela está bem, vou vê-la amanhã e vou discutir o assunto com ela. - Paul transpirava confiança.

- Boa ideia - respondeu o sócio, mais cuidadoso. - De qualquer forma, não me parece que Kramer seja problema durante uns tempos. O director enviou-o para o Bloco E. não gosta de pessoas que criam confusão na sua prisão.

Paul encolheu os ombros. Não tinha dúvidas de que existia na prisão uma considerável dose de brutalidade. No entanto, era sempre impossível prová-lo. Aconteciam com regularidade acidentes àqueles prisioneiros que se tornavam difíceis de manobrar e a taxa de suicídio na prisão era elevada. Paul suspeitava de que os guardas ficavam contentes por ajudarem os presidiários a resolverem os seus problemas pessoais.

Ben contemplava Paul. Devia puxar o assunto de Kramer agora; é um assunto que tem de ser tratado. Estava agora certo de que Paul errara ao fazer o diagnóstico e de que Kramer era o assassino em série. No entanto, não estava muito inclinado a discutir o assunto hoje. Os ânimos podiam exaltar-se, o ego de Paul ficaria ferido e isso também teria repercussões desagradáveis para a universidade e para a clínica deles. A reputação deles seria maltratada pela imprensa.

- Passemos a coisas mais importantes - disse Ben. - Para além de ter tratado de todo o correio dos teus fãs após o teu célebre discurso - ele fez uma careta ligeiramente cómica - na semana que vem Florence e eu vamos para Aspen passar dez dias antes de as minhas aulas começarem. Vamos na segunda-feira. Não me digas que te esqueceste...?

- É claro que não - respondeu Paul, embora tivesse esquecido.

- Será maravilhoso - continuou Ben, cheio de entusiasmo. - Algum descanso não me vai fazer mal e não tenho dúvidas de que serás capaz de liderar o forte na minha ausência. - Ambos o sabiam. Nesse ponto não havia preocupações.

- Com certeza. Nós iremos de férias mais tarde. - Paul encaminhou-se para a porta. - Há um psiquiatra novo no Bloco D. Uma mulher. Sabias?

- Ninguém me disse. Como é que ela é?

- Só a vi hoje. Vou investigar.

- Boa ideia. E não te esqueças de que tu e Marie vêm ao nosso jantar de festa amanhã à noite.

- Não me esqueci. Tenho uns telefonemas para fazer.

Paul saiu rapidamente do escritório de Ben. Também ele não queria falar de Kramer. Mal chegou ao seu escritório, o telefone tocou. Era o subdirector da prisão. Parecia nervoso, o que significava que Hanlon Dawes estava em pé de guerra.

- O inquérito vem aí. Começa na quarta-feira. Suspendemos três funcionários e transferimos Kramer.

- Como está ele?

- Menos pretensioso do que estava. Parece ter ficado muito magoado quando o mudámos de cela. A sua aluna está bem?

- Vai ficar bem. Como é que aquilo aconteceu? A porta da prisão, quero eu dizer.

- Ainda não temos a certeza. Como sabe, todas as portas das celas são controladas electronicamente. O guarda jura que nunca carregou no botão para abrir a cela de Kramer e do registo do computador não consta nada. Parece que a porta, literalmente, se abriu sozinha. É impossível, por isso suspendemos o guarda e pedimos uma investigação. Eles vão chegar ao fundo da questão. Obrigado por ter ficado tão calmo.

- Nada de preocupações - disse Paul. Em seguida perguntou, casualmente: - Quem era a psiquiatra?

- Quem?

- A mulher que estava mesmo atrás de mim quando Kramer soltou a rapariga. Perguntei-me quando é que ela terá começado a trabalhar no Bloco D.

- não sei - disse o subdirector. - Não contratámos mais ninguém. Vou saber disso.

- Obrigado. Gostaria de conversar com ela.

Paul pousou o auscultador. Olhou pela janela, para o céu. Estavam a juntar-se grandes nuvens negras. Não havia nisso nada de extraordinário. No entanto, estavam a juntar-se de uma forma que ele não podia conceber.

Estavam a juntar-se em volta dele.

 

"Há três tipos de pessoas a que Deus permitirá que sejam tentadas e incomodadas pelo mal... os maus pelos pecados horríveis que cometeram, para os castigar na mesma medida; os religiosos que estão a dormirem quaisquer grandes pecados ou enfermidades ou fraquezas de fé... e até alguns dos melhores, para que a sua paciência seja sujeita a provação perante o mundo."

                   Jaime VI da Escócia, Daemonologie

 

O Convento de Santa Cristina ficava fora da cidade de Benedetto, no Norte da Itália. Situado na encosta de uma montanha, dava para alguns olivais virados para o mar. O convento fora sempre uma pequena comunidade, o lar de uma ordem de freiras que fora fundada por Santa Cristina, no século XIV, com um voto de silêncio. Os edifícios eram de pedra da zona, com uma simples camada de cal e confundiam-se à luz forte e clara da paisagem.

Escalando por um caminho desbastado, um visitante atravessava uma horta e passava por uma entrada em arco cuja porta de carvalho perdera grande parte da cor devido à acção do Sol. Lá dentro havia um pátio interior, no centro do qual se podia ver um poço. Pelas paredes que o limitavam cresciam videiras. Para além de um dormitório e de um refeitório, não havia outros edifícios importantes, à excepção da capela, em volta da qual girava há séculos a vida da pequena comunidade.

No convento tudo era simples, natural e silencioso, excluindo uma meia hora durante o dia, altura em que era permitido conversar. No entanto, coisa estranha, mesmo quando a conversa era autorizada, as freiras raramente conversavam, pois tinham pouco a dizer e as suas expressões faciais e leves movimentos da mão eram geralmente suficientes. As suas vidas eram cheias de serenidade e estas mulheres encontravam nisso uma profunda felicidade.

O convento de freiras não tinha aspirações à fama. Nunca era visitado pelo público e só uma vez por ano é que o superior, o padre da aldeia, assistia às orações cantadas pelas freiras em memória da fundadora. Na verdade, o local estava esquecido - pelos habitantes locais, pelos bispos, pelos grandes cardeais de Roma. E no entanto, no mais humilde dos locais da Terra, estavam escondidas as coisas e as pessoas mais extraordinárias. Apenas o Santo Padre tinha conhecimento de alguns destes mistérios.

Era manhã cedo. Lá fora o escuro era de breu. No interior da capela havia apenas o tremeluzir da luz de duas velas no altar. Reinava o silêncio. Contudo a vigília mantinha-se ao longo das horas de escuridão, como sempre acontecera desde a fundação da Fé.

A freira que rezava, Catherine de Benedetto, era uma mulher simples de 50 e muitos anos. Passara no convento toda a sua vida, excepto os primeiros 18 anos. Uma vida passada em contemplação. Uma vida perdida, diriam os trocistas e os conhecedores da vida mundana. Mas para Catherine não era assim. Fora abençoada para além dos seres humanos comuns; abençoada com grandes visões e com grande fé. E para Catherine esta era uma dádiva que ultrapassava todo o preço, todos os desejos e posses humanos. Era uma dádiva de um Deus de amor.

Embora Catherine não falasse a ninguém da sua pequena comunidade sobre as revelações, com excepção da madre superiora, as outras freiras sabiam da sua santidade; era tão forte que a sua presença era sentida por aqueles que a rodeavam. O dom dela era também a bênção secreta delas e agradeciam a Deus por isso.

Era a terceira hora da manhã. Catherine de Benedetto estava estendida perante o altar, a sua forma física sem movimento e, parecia, sem vida. O espírito dela encontrava-se noutro local, perdido em mistérios cósmicos muito para além da consciência humana.

Foi então que uma visão assustadora desceu sobre ela; tão devastadora de sentido que ela chorava de agonia. Lutava com o inimigo para adivinhar o seu verdadeiro significado. Longa e cruel foi a batalha, e muitas vezes ela pensou que o inimigo a separaria do mundo para sempre. Quando recobrou os sentidos, acordou a madre superiora e divulgou o que tinha visto.

Três dias depois um homem apareceu à porta do refeitório. Escutou Catherine em silêncio. Em seguida iniciou a descida pelo caminho desbastado. Perto do sopé da montanha, parou num olival. Aí, chorou amargamente.

- O que fiz eu? O que fiz eu? - gritava o cardeal Benelli para si próprio e para o céu. - Falhei. Ignorei uma mensagem que me foi dada, a mim, e esta humilde serva de Deus mostrou a minha fraqueza e o meu fiasco. Perdoa-me, oh, perdoa-me. : O homem, perturbado, continuou a descer o seu caminho pedregoso. Não havia um momento a perder. É que o cardeal Benelli, o chefe do Santo Ofício, não tinha a mínima dúvida de que a mulher que estivera à sua frente era uma santa viva e que o que ela dissera ultrapassava qualquer dúvida espiritual. Ela dissera-lhe também a coisa que ele mais receava.

- Veio ao mundo uma Moeda de Judas.

 

"O homem não conhece a sua própria hora: semelhante aos peixes apanhados na rede fatal, aos passarinhos que caem no laço, assim os homens são surpreendidos na hora da adversidade, quando ela cair sobre eles de improviso."

                   Eclesiastes 9:12

 

Marie levou Rachel para a sala. O jantar com Ben e Florence era às oito; ela tinha muito tempo. Paul encontrar-se-ia lá com ela.

- Queres ver o teu programa? - Rachel acenou com a cabeça. Marie ligou o televisor. - Está bem, querida. Eu vou vestir-me.

A medida que subia as escadas, Marie cantarolava de si para si. Estava ansiosa pelo jantar. Agora raramente saíam, o que tinha a ver com o aumento da carga de trabalho de Paul e com o facto de a clínica estar a ter tanto êxito. Como resultado do julgamento de Kramer ele tornara-se famoso. Ela gostaria que ele passasse mais tempo com ela e Rachel, mas pelo menos ele parecia realizado. Talvez ficassem juntos, afinal.

Na cozinha ouvia-se um chocalhar de tachos e panelas. Gloria, a empregada filipina, estava a preparar o jantar. Na sala, Rachel via televisão e brincava com os brinquedos. O gato estava estendido num tapete em frente da lareira. Tudo era o epítome da normalidade num lar feliz.

Passados uns minutos, Rachel levantou o olhar da boneca preferida que estava a vestir. Franziu o sobrolho, pois algo de curioso estava a acontecer. Tanto a imagem como o som da televisão começaram a desaparecer, muito lentamente. Rachel observava, fascinada, até que a tira de desenhos animados foi substituída por um ecrã vazio apoiado apenas pelo ténue silvo da estática de fundo. Em seguida ouviu-se um clique, à medida que a corrente eléctrica que abastecia o televisor era cortada.

Rachel ficou a pensar nisto. E voltou, despreocupadamente, àquilo que estava a fazer. O televisor era um brinquedo de

adultos; a mãe ou Gloria saberiam como ressuscitá-la. No entanto, este acontecimento curioso depressa foi seguido de outro.

O gatinho, que estivera a dormitar no tapete, sentou-se abruptamente, Pôs-se de pé, as orelhas espetadas para a frente, os olhos brilhantes enquanto focavam um objecto que se aproximava de Rachel.

- Ginger- disse a criança com voz terna - vem cá.

Mas o gato não o fez: continuou a fitar uma presença atrás de Rachel. Passado um momento, o dorso arqueou-se-lhe e os pêlos eriçaram-se-lhe ao longo da espinha. Agora o animal estava pregado ao chão, os lábios retraídos num terrível gesto de desafio, ao mesmo tempo que, assanhado, agitava violentamente as patas no ar em direcção a um inimigo imaginário. Desconcertada, Rachel virou-se para olhar para trás de si, mas não havia nada.

- Ginger, o que se passa? Vem cá - disse a menina, num tom pouco seguro.

No entanto, o animal de estimação estava completamente concentrado e, sem que Rachel soubesse, a lutar uma batalha perdida para defender a sua jovem dona. Agora entrava em fúria, bufando, arisco, e recuando. Em seguida fugiu bruscamente da sala, miando.

Rachel olhou a sala em redor, muito assustada. Não se sentia bem. Pensou em levantar-se, mas a sensação de inquietação diminuiu e ela começou de novo a apanhar os brinquedos. Desta vez não olhou para trás de si. Se o tivesse feito, teria distinguido a imagem de uma mulher.

No piso de cima, Marie despiu-se. Entrou na casa de banho anexa ao quarto maior para tomar um duche. Tinha a mente ocupada com coisas que tinha de fazer no trabalho no dia seguinte.

De súbito, soltou um grito, em estado de choque.

Ao fundo da casa de banho, junto à janela, estava uma mulher. Era loura e esbelta de aparência, de idade indeterminada. Tinha os olhos fixos no rosto de Marie: o olhar era impassível, sem um tre-meluzir de emoção.

- Quem é você? O que está aqui a fazer? - Marie olhava fixamente a intrusa, estupefacta. Agarrou um roupão para cobrir a sua nudez.

A mulher não respondeu. Os olhos continuavam implacáveis. Marie recuou. Numa voz chocada, disse:

- Saia já da minha casa!

Virando-se, correu pelo quarto até ao patamar exterior.

- Gloria! - gritou, o pânico perfeitamente detectável na voz. - Pode vir aqui?

Passados segundos, a empregada apareceu ao fundo das escadas, segurando uma tigela.

- O que aconteceu, senhora Stauffer?

- Está uma pessoa no meu quarto.

- No seu quarto? - A empregada subiu à pressa as escadas para o primeiro andar. Entraram no quarto, depois na casa de banho e, por fim, nos outros quartos. Sentiam-se ambas assustadas, como a maior parte das mulheres de São Francisco naquela altura - estando Karl Kramer inocente do assassínio de Melanie Dukes, isso queria dizer andava à solta um assassino em série, e elas podiam ser as próximas vítimas. No entanto, não havia nada.

- Ela estava ali. Eu vi uma pessoa. Tenho a certeza.

- Quem?

- Uma mulher - respondeu Marie, engolindo o ar. - Com um vestido de noite vermelho. Junto à janela, Estava a olhar para mim.

O rosto da empregada reflectia a sua confusão. Não soava a assassino em série, nem sequer a ladrão. Regressaram à casa de banho e revistaram-na. A janela de vidros duplos estava fechada.

- Vamos passar uma busca à casa.

Rapidamente, Marie vestiu-se e, juntas, procuraram pela casa toda. No rés-do-chão, Rachel não se movera da sua posição anterior. No entanto, a sua postura era involuntária, pois todo o seu corpo estava agora rígido de medo, ao mesmo tempo que ela agarrava a boneca. Gloria espreitou para a sala, mas não reparou no estado da criança.

- Não foi nada - disse Marie com um sorriso nervoso, depois de terem procurado em todo o lado para não encontrarem nada. - Devo ter imaginado. É espantoso. Peço desculpa por tê-la alarmado, Gloria.

A empregada, uma mulher jovem fielmente dedicada a Marie e à filha, observou:

- Não se preocupar, senhora Stauffer.

- Tenho-me sentido doente todo o dia - disse Marie. - Foi apenas uma ilusão de óptica. Não há outra explicação, pois não?

Marie voltou a subir as escadas. Dentro de uma hora teria de partir para o jantar de festa em casa de Florence. Ligou o duche e regressou ao quarto para se despir. Passado um instante voou para a casa de banho.

Vomitou violentamente.

- Pela primeira vez, chegas cedo! Incrível!

Ben conduziu-o para o interior da casa. Havia um rumor alto de conversa e dirigiram-se para lá. Florence emergiu da cozinha. Beijou Paul efusivamente.

- Olá, meu amor. Que bom ver-te. Agora, por favor, telefona a Marie. Ela não vem, não se sente bem. Nada de cuidado, só um pequeno distúrbio no estômago.

- Oh - respondeu Paul, e franziu o sobrolho.

Telefonou para casa e foi Gloria que atendeu. Marie estava doente e tinha alguma febre; fora deitar-se. Ele queria falar com ela? Não? A empregada telefonar-lhe-ia se Marie acordasse. Paul regressou à cozinha e Florence empurrou-lhe um copo de vinho para a mão.

- Pobrezinho. Vem cá conhecer toda a gente.

Passaram para a sala grande. Paul foi apresentado aos outros convidados: o médico local e a mulher; um casal da universidade que ensinava Inglês; o sobrinho de Florence e a sua nova namorada; o director de uma galeria de arte muito moderna da cidade e o seu sócio. E finalmente um velho amigo de Ben que era engenheiro civil. O vinho corria em quantidade e todos falavam ruidosamente de política e do último escândalo que envolvera um senador republicano.

- E claro que teria de ser sujeição - disse o director da galeria de arte com jovialidade. - É para verem como são os políticos. Dizem sempre que estão sujeitos a alguém.

- A comida está pronta - ordenou Florence. Dirigiram-se em parada para a sala de jantar iluminada a velas. A campainha da porta tocou.

- Ah - exclamou Ben. - O nosso último convidado. Vou lá.

Paul ocupou o lugar que lhe foi destinado junto à mulher do médico e iniciou uma conversa social. À medida que o fazia, entrou na sala uma pessoa. Florence surgiu da cozinha e fez as honras para os restantes convidados.

- A professora Helen Jones, outra psiquiatra, receio eu. A cadeira em frente de Paul, minha querida. Ben, mais vinho.

Paul olhou Helen pelo canto do olho enquanto ela cumprimentava os outros convidados e se sentava.

- Olá - disse ela com um sorriso amigável. Embrenhado na conversa com a mulher do médico, Paul pôde apenas pronunciar um silencioso "Olá" por cima da mesa. Queria dizer que Helen era psiquiatra, afinal; o mistério estava resolvido, Como é que acontecera que ela desaparecera da prisão tão depressa? Estava ansioso por falar com ela sobre Kramer.

O serão decorreu às mil maravilhas, como todas as festas de Florence. Montanhas de comida, o encher constante de copos de vinho e um divertido espectro de opiniões e de convidados combinado de forma a assegurar que o riso era genuíno e prolongado. O director da galeria de arte conquistou a audiência com as descrições escandalosas das vidas privadas da sua clientela, os chamados -artistas pós-reducionistas", e até onde eles iam para garantirem uma exposição.

- Minha querida, ele não só seduziu a mulher e a filha do dono da galeria de arte, como também foi para a cama com o dono. É verdade, é absolutamente verdade, juro - exclamava o director. - Tudo por amor à arte! - O foie gras tremia-lhe no garfo.

Pouco depois, a conversa estava no seu auge. Paul mal conseguia dizer uma palavra a Helen, que fora requisitada pelo médico, de um lado, e pelo sobrinho de Florence, pelo outro. Ela estava muito atraente com o seu vestido vermelho de decote acentuado, um lenço de seda preto em volta do pescoço. Ele não podia deixar de olhar para ela de tempos a tempos.

Ben bateu no seu copo de vinho.

- Ouçam todos, gostaria de propor um pequeno brinde ao meu estimado colega pela excelência da prelecção sobre Carl Jung que fez na universidade.

Felicitaram Paul. Ben continuou:

- E agora todos temos de lhe fazer uma vénia. Tendo deitado por terra o conceito de religião na psiquiatria, devemos prestar homenagem ao novo deus que surgiu e que conhece todos os segredos da mente criminosa. A Paul.

De uma forma bem-humorada, os outros brindaram à sua saúde. - Diga-nos mais - pediram eles, e Ben descreveu sumariamente o conteúdo da prelecção.

- Você diz que a religião e a superstição já tiveram os seus dias? Que é a ciência que tem as respostas e não os padres? - perguntou o médico.

- É isso, no essencial - respondeu Paul. - Naturalmente, eu referia-me ao campo da psiquiatria criminal, mas, para mim, aplica-se como proposição geral.

- Deus não existe, então? - perguntou Helen, ao mesmo tempo que Florence lhes enchia os copos de vinho pela sétima vez.

- Afirmativo - disse Paul, escavando a sua sobremesa. - Há uma explicação racional para tudo no universo, para cada doença, cada acontecimento, cada pensamento. - Pousou a colher. - Até para a formação do próprio universo. É uma das grandes verdades que estamos a aprender na sociedade moderna.

- Compreendo - disse Helen, parecendo não estar convencida. - E, se não acredita em Deus, quer dizer que não acredita no demónio.

- Acertou outra vez - respondeu Paul. - Compreende, é que estes conceitos têm simplesmente sido usados pela Igreja durante séculos para manipular as pessoas e para as manter subservientes. Um exercício útil no controlo da mente para levar as massas a fazer o que se quer, dizendo-lhes o que é bom para elas e o que é mau. Mas a realidade é que não há Deus nenhum e que não há nenhum poder do mal.

- Oh, eu conheço algumas pessoas más- disse o director da galeria de arte com um risinho libertino, - Não me fale do mal, querido. - Todos riram.

Paul bebeu um gole de vinho tinto e continuou:

- O que precisamos de fazer é ver-nos livres desta velharia e voltar a olhar para a sociedade de uma forma científica. Se os assassinos devem ser executados, se O aborto e a eutanásia devem ser crimes, se coisas como a blasfémia devem continuar uma ofensa legal. Todas estas questões precisam de ser analisadas a partir de uma base científica, sem toda a conversa fiada e os argumentos religiosos que geralmente as acompanham.

- Conversa fiada - perguntou o médico.

- Absolutamente - disse Paul, entrando no seu ritmo normal. - não é engraçado que a Igreja...

- Então, quando tivermos varrido os dogmas morais de casa para fora - interrompeu-o Helen - o que nos resta?

- Uma sociedade mais feliz - disse Paul. Embrenhou-se em mais um pouco de torta de maçã e continuou: - Olhem para o passado. A Igreja disse às pessoas que queimassem bruxas, que as mulheres estavam subordinadas aos homens e que outras religiões deviam ser perseguidas. - Enumerou mais infracções com o auxílio dos dedos. - Disse às pessoas que não comessem carne nem tivessem sexo à sexta-feira e que não trabalhassem ao domingo. Disse às pessoas que as mulheres que não se casavam deviam ser tratadas como párias, que os suicidas deviam ser sepultados fora da Igreja e que o Papa era infalível. E também que as pessoas loucas eram possuídas e que o Sol girava em volta da Terra. Tudo material fantástico.

- Mas o que conseguiu ela ao ajudar a sociedade? É verdade que construiu grandes palácios para que cardeais e bispos lá vivessem, com todas as outras pessoas a trabalharem como mouros para que eles mantivessem o luxo a que estavam acostumados. Mas tudo o que a Igreja fez, em última instância, foi abrir caminho para uma sociedade dividida.

Fez uma pausa, as mãos estendidas como se estivesse mais uma vez a leccionar psiquiatria à sua turma.

- Compreendem, é que para governarmos pessoas é preciso convencermos uma parte da sociedade de que é diferente, de que são os eleitos e de que receberão certos benefícios ou castigos se fizerem, ou não fizerem, o que lhes dizemos. Então colocamo-los contra outra parte da sociedade e, é claro, nós estabelecemo-nos como juiz. É fácil de fazer, como se pode ver com tanta clareza em todas estas religiões que estão hoje na moda. É claro, é tudo mentira e engano.

- Quer dizer que não há verdades eternas? - perguntou o director da galeria de arte com uma pequena careta. - Meu caro, que decepção!

- É claro que não - respondeu Paul. - As "verdades eternas", de facto, têm uma vida limitada. Não acha que os nossos antepassados acreditavam sinceramente que o sacrifício humano era necessário para conseguir boas colheitas, da mesma forma que nós já não o fazemos? Não acha que algumas religiões acreditam sinceramente que ter mais do que uma esposa está correcto, da mesma forma que outras religiões acreditam que não está?

"Isso é tudo relativo. Aquilo de que estamos convencidos num século, rejeitamos noutro com igual fervor e convicção. É um carrocei que leva simplesmente à confusão e ao derramamento de sangue. Precisamos de uma base melhor para determinar se os princípios da fé religiosa têm algum fundamento. De outra forma, é um disparate, com cada uma das seitas a afirmar que só ela "conhece" a verdade e que todas as outras pessoas estão erradas. A religião é a mesma coisa que a arte - ou é uma obra de génio ou é uma farsa. Depende se somos nós a vender o quadro ou a pintá-lo.

Aplaudiram.

- Bem, você é um homem moderno - disse Helen, trocista. - Você tem todas as respostas. Quem me dera tê-las. Mas suponha que a própria ciência é relativa e que depende de uma percepção do mundo que é subjectiva. Isto é, imagine que a nossa compreensão da nossa própria existência não passa de uma visão inventada pelo nosso cérebro. Um cérebro que pode produzir qualquer quantidade de imagens, cada uma tão. real como a outra, se estiverem adequadamente sintonizadas.

- Bolas! - disse Paul, enfadado. A voz subia-lhe de tom. - Embora seja um argumento que por vezes é apresentado. A verdade científica continua igual através de todos os tempos. A Terra gira em volta do Sol e sempre assim foi. O que acontece é que as pessoas nos primórdios da civilização não tinham à sua frente os factos finais. Uma vez reunidos todos os factos, alcança-se a certeza. Newton fez muito mais do que Cristo ao estabelecer a realidade do nosso mundo.

- Mas ele acreditava em Cristo - protestou o médico, calmamente.

Helen encolheu os ombros, feliz por ter abandonado a conversa. No entanto, os convidados, bem lubrificados, queriam continuar a ouvir Paul defender o seu ponto de vista. Insistiram para que ela continuasse. Helen examinou-o com um sorriso tímido.

- Uma vez que está feliz por rejeitar a existência de Deus e do demónio, imagino que também não acredite na alma, nem na vida após a morte. Não há mais nenhum mundo para além deste.

- Adivinhou - disse Paul. - O resto é um disparate reconfortante que nos ajuda a levar por diante a nossa existência. As pessoas falam de Deus, mas nunca o viram. E ele parece não ser grande ajuda quando realmente precisam dele. Experimente ter uma discussão filosófica com um homem sobre o amor de Deus quando ele estiver num avião prestes a despenhar-se, ou quando estiver a entrar numa câmara de gás. Penso que chegará à conclusão de que a avaliação que ele fará sobre o seu criador não será muito elevada nesse momento. E experimente dizer a um assassino em série que Deus está a cuidar tanto dele como da sua vítima.

- Isso é tudo conversa - retorquiu Helen. - Palavras corajosas, mas sempre achei que as pessoas estão ansiosas por negarem estas coisas até que chega o momento decisivo.

- O que quer dizer com isso? - perguntou Paul, surpreendido.

- Bem, imagine que havia algumas verdades eternas, afinal - disse Helen, provocadora. - O que daria você para as conhecer? Dez anos da sua vida? A sua vida inteira? O que daria você para provar que tem razão?

- Oh, uma aposta, e perversa - disse o director da galeria de arte, fazendo escorregar a mão sobre o joelho da namorada.

Os convidados olharam Paul, expectantes.

- Esperem aí - continuou Paul, a bebida a afectar-lhe a fluência do argumento. - Você é que devia convencer-me a participar. Eu apresentei o meu argumento, isso é prova suficiente. Você tem de revelar o seu. O que me dará você para que eu faça papel de estudante? - Entrelaçou os dedos em jeito de falsa súplica. - Compreende, é suposto que eu seja o professor.

Por baixo da mesa, a perna de Helen roçou na dele. Paul não se encontrava suficientemente sóbrio para saber se o toque era acidental ou intencional. Na realidade, não se importava. Todos riam com ele, apanhados no jogo infantil de empurrar o assunto para a sua conclusão lógica.

- Vejamos - disse ela, a voz tornando-se-lhe pretensamente séria. - Como posso tentá-lo? - Ponderou. - Digamos apenas um beijo e alguma prata.

- Inteligente - disse o sobrinho de Florence. Ele esperava que a refeição terminasse depressa, sentia-se desesperadamente excitado. Observou a sua acompanhante. Tinham-se conhecido apenas dois dias antes num encontro casual. Será que ela estaria disposta, será que não? Apostava que ela o faria esta noite, com as faces coradas como ela as tinha. Deitou-lhe mais vinho. - Inteligente, uma boa alusão bíblica. O beijo com o qual Judas traiu Cristo e a prata com que foi vendido.

- Beijo, beijo, beijo! - O director da galeria de arte estava no seu elemento, o rosto transformado numa grande mancha vermelha. - Dê-lhe um beijo. Resolva já a primeira parte, por amor de Deus!

Helen levantou-se e deu a volta à mesa, em direcção a Paul. Florence saíra para ir buscar mais alguma comida e Ben mais vinho. A conversa tomara um rumo blasfemo, com a qual nenhum deles estava feliz. No entanto, não queriam ofender os convidados, por isso ficaram na cozinha.

Paul sentia-se supremamente à-vontade e divertido por se encontrar em tão boa companhia. Quando Helen se aproximou dele, ele apercebeu-se de que ela não estava a brincar; ia realmente beijá-lo. Helen estendeu-se e pegou-lhe no braço para o puxar para si.

A medida que o fazia, algo no mais profundo do ser de Paul avisou-o para que tivesse cuidado. Era um reflexo inconsciente, um género de sensação interior de inquietação, como se a brincadeira estivesse a ir longe de mais. "Pára agora", dizia-lhe a voz interior. No entanto, Paul não resistiu a completar o jogo. Acreditava sinceramente no que estava a dizer. E era apenas um jogo, afinal. Nenhum mal poderia dali advir.

- Ainda bem que a minha mulher não está cá - disse ele, enquanto os lábios de Helen se aproximavam dele.

- Não se preocupe - respondeu Helen com jovialidade. - No coração de cada relação há traição. Eu sei.

 

Marie acordou. A casa estava mergulhada na escuridão; eram as primeiras horas da manhã. Dormira mal, um sono intermitente e perturbado, e sentia-se quente e febril. Estendendo a mão na cama, descobriu que Paul não estava lá. Deve estar ainda no jantar. Não tinha importância, ela esperava que ele se estivesse a divertir.

Soltou um leve suspiro ao lembrar-se de algo. Incrivelmente, esquecera-se de dizer o rosário. Treinada a dizê-lo em criança, isso fazia tanto parte dela como qualquer outro reflexo. É estranho como se esquecera. Sentia-se demasiado letárgica para ligar a luz. Amanhã. Di-lo-ia amanhã. Certamente Deus não acharia falta de um dia. Não tinha realmente importância. O céu não iria cair.

Marie tentou voltar ao sono. Então, soltando um suspiro, ligou a luz com um estalido. De olhos remelosos, andou às apalpadelas para encontrar o rosário, com as suas pequenas pérolas brancas e a cruz de prata. Era da mãe; dera-o à filha no dia em que falecera.

Sentou-se na cama e chorou de horror.

O rosário estava em cima da mesinha-de-cabeceira, as pérolas brancas a perderem a cor, ao mesmo tempo que ardiam sem chama.

Quando Paul beijou Helen, sentiu o calor da sua língua, à medida que ela a fazia escorregar para o interior profundo da boca dele. Era sensual e irresistível; tocou a própria língua dele, enroscando-se com ela. Ele cheirou o perfume subtil do odor do corpo dela. Tudo em volta dele foi esquecido. Queria estar com ela, com Helen. não ouviu os falsos vivas dos convidados, nem a entrada de Ben, que regressava à sala de jantar, abanando a cabeça e lançando-lhe um olhar oblíquo. não sabia nada do que eles estavam a pensar. Os sentidos levaram-no dali.

Uma visão veio até ele. Encontrava-se num penhasco de altura inimaginável. Um vento poderoso soprava-lhe no rosto. Paul sentia-se extremamente senhor de si próprio, insensível e incapaz de ser afectado por qualquer ser vivo. Qual Apoio, o corpo ágil e nu. Lentamente, atirou-se do precipício num mergulho espectacular. Imperecível, sentiu-se ele. Em seu redor havia escuridão e silêncio, eterno na sua profundidade. Então o transe quebrou-se.

Helen deu um passo atrás.

- Um beijo é suficiente. - E regressou para o seu lado da mesa.

- Mas - gritou um dos convidados - onde está a prata? O sobrinho de Florence agarrou num candelabro prateado.

- Isto serve? - No entanto, ninguém riu. Olharam Helen algo desgostosos, como se ela tivesse estragado a festa.

- Acho que não tenho - disse ela.

- Oh, que pena - gritou o director da galeria, esquadrinhando os bolsos espaçosos. - Devo ter aqui qualquer coisa.

De uma bolsa que tinha no regaço, Helen produziu um pequeno estojo com artigos de beleza e tirou de lá um objecto. Todos observaram quando Helen passou a moeda por cima da mesa em direcção a Paul. Brilhava com intensidade à luz das velas. Paul pegou-lhe.

Instantaneamente, as velas apagaram-se. A sala ficou à média luz. Todos se sobressaltaram. O drama perfeito para terminar o serão.

Brincadeira de crianças.

- Uma festa maravilhosa, como de costume. - O médico e a esposa, inebriados, dirigiam-se, através do jardim, a um táxi que estava à espera.

- Gostei mesmo. - O sobrinho de Florence beijou Florence na face e entrou apressadamente no seu carro. A namorada enfiou-se do outro lado. Ela esperava que parassem no hotel mais próximo. Queria sexo, e agora. Era como se estivesse a ser consumida por um fogo de desejo. Porquê, ela não sabia nem queria saber. Partiram ruidosamente estrada fora.

Os outros convidados também deixaram a casa, o director da galeria de arte colidindo com um inconveniente arbusto de roseiras. Conseguiu ressurgir com ajuda. Paul estava a dizer boa noite a Ben, quando se apercebeu de que Helen não estava ali. Via-a a caminhar ao longo da estrada. Agarrou a mão de Ben.

- A comida estava maravilhosa.

- Lamento que Marie não tenha podido vir. - Ben fez uma pausa. Era uma excelente altura para abordar o assunto de Kramer, uma vez que era claro que o colega estava genialmente bem-disposto.

- Helen, espere! - Paul virou-se rapidamente. - Agradece a Florence por mim. - E, com isto, afastou-se, apressado.

Ben viu-o ir, aborrecido consigo próprio por ter deixado fugir a oportunidade. Entrou em casa e fechou a porta. A festa tinha-se tornado demasiado alegre para o seu gosto. E, por qualquer razão, não se sentia bem. Talvez tivesse bebido demasiado vinho...

Paul depressa alcançou Helen. Estava ligeiramente sem fôlego.

- Mal tive oportunidade de falar consigo durante todo o serão, e há muitas coisas que quero discutir.

- Sim?

- Podemos encontrar-nos em breve?

- Quer encontrar-se comigo? - perguntou ela. Os seus olhos não descortinavam nada. Eram frios.

- É claro - continuou Paul com impaciência. - Preciso também de falar consigo sobre Kramer, por causa do inquérito. Imagino que vai lá estar. Que medicação é que ele estava a fazer?

- Não estava a fazer nenhuma.

Ela começou a afastar-se e Paul seguiu-a. O ar frio e o álcool faziam-no sentir-se de cabeça leve.

- Posso arranjar-lhe um táxi? Ninguém caminha em São Francisco a esta hora da noite.

- Porque não? - observou Helen com ar de troça. - Que eu saiba, não há por aí à solta assassinos em série. - E continuou: - A sua mulher está à sua espera. Pobrezinha.

A observação era subtil, mas incisiva, a ênfase na palavra pobrezinha soando um tanto misteriosa, como a voz do advogado de defesa no julgamento de Kramer. Isso fez com que Paul ficasse sóbrio e parasse subitamente.

- Tenho de me ir embora agora. - A expressão dela tornou-se menos rígida. - E claro que voltaremos a encontrar-nos. Eu paguei para que você fosse meu aluno, não é verdade?

Paul sorriu. Gostava do sentido de humor dela, uma mulher que estava habituada a fazer as coisas à sua maneira. Procurou nos bolsos das calças.

- Perdi a sua moeda.

- Impossível. - Helen aproximou-se dele. Deu-lhe um beijo de despedida. Foi um beijo tanto sensual como carinhoso, mas diferente do primeiro. Um beijo de traição.

Entre um servo e um senhor.

 

"Mas o poder do demónio é mais forte do que qualquer poder humano. Não hã poder na terra que se possa comparar àquele que foi criado para não recear nada."

                   Malleus Maleficarum, O Martelo das Bruxas

 

Basílica de São Pedro, 11 horas da noite. Turistas, peregrinos e funcionários há muito que tinham partido. Tudo estava em silêncio. Um monge encontrava-se junto à entrada lateral e segurava uma chave na mão. Viu aproximar-se o cardeal Benelli, saído da obscuridade. Abrindo a porta com a chave, deixou entrar o cardeal.

Enquanto o fazia, Benelli perguntou:

- Os cardeais Graziani e Vysinsky já chegaram? O monge acenou com a cabeça.

- E o padre confessor?

- Não.

Benelli caminhou para o interior e a porta fechou-se atrás de si. Dentro da Basílica de São Pedro havia um silêncio profundo e uma profunda escuridão de veludo, exceptuando as velas que tremelu-ziam no altar à distância.

O cardeal sentou-se por um momento num banco ao fundo da igreja para se concentrar. Sentia-se angustiado. O que diria ele a estas pessoas? Como podia explicar adequadamente? Era tão difícil, porque o que ele sabia, e que era agora da sua responsabilidade, era extraordinariamente importante.

Benelli desejava ter sido poupado a esta cruz particular. Sentia que não era merecedor, via-se incapaz de lidar com este assunto da mais profunda importância espiritual. Contrariamente à crença popular, aqueles que eram nomeados cardeais raramente tinham inclinação para santos, e Benelli reconhecia isso em si próprio. É que os santos preocupavam-se pouco com o aspecto exterior da Igreja, ou com o desgaste dos deveres administrativos. Não se interessavam por posições no clero nem por títulos que outros tão seriamente procuravam.

De facto, os cardeais tinham tendência a ser homens sólidos - bons e dignos administradores - mas não eram homens dotados da mais profunda capacidade de discernimento das coisas do espírito. Assim, porque o escolhera o Papa para esta tarefa? Certamente que deveria ter pedido a alguém como Catherine de Benedetto, ela conheceria os poderes da luz e das trevas e a forma como se poderia resistir às Moedas de Judas. Mas não ele.

Benelli suspirou de ansiedade. Depois levantou-se. Era chegada a hora. A medida que avançava pela longa nave lateral da Basílica de São Pedro, reflectia sobre o passado e sobre este lugar, a última morada do Apóstolo sobre o qual Cristo colocara o pesado fardo da Fé, o pescador simples e impetuoso, de quem o próprio Salvador declarara:

Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a Minha Igreja e as portas do inferno nada poderão contra ela.

Era apenas São Pedro que sabia lidar com as Moedas de Judas e todo o mal que elas traziam consigo. Quem dera que ele estivesse aqui neste momento de perigo.

À medida que caminhava pela nave lateral, Benelli olhou em seu redor. Este edifício - o sólido edifício coroado por aquela imensa cúpula hemisférica - era um dos mais famosos do mundo. No entanto, embora fosse arquitectonicamente imponente, ainda mais o era a sua estranha e misteriosa história, que era conhecida no mundo exterior por muito poucas pessoas.

Esta enorme estrutura, sólida e pesada, era de construção relativamente recente, pois, em 1506, o Papa guerreiro, Júlio II, comandara a maior missão do seu tempo: a demolição da velha basílica e a sua substituição por um edifício novo e magnífico. O pontífice não se poupara a génios nem a despesas para assegurar que as suas instruções eram cumpridas. Ordenou a um dos maiores arquitectos da época, Bramante, que preparasse esboços para a catedral, e o pobre homem foi impelido por um vigário de Cristo insatisfeito com qualquer coisa que não fosse perfeição artística.

Com a morte de Bramante, o Pontífice ordenou a Rafael que fosse o arquitecto e, quando ele morreu, Giocondo e Sangallo ajudaram a completar a grande obra, sendo feitas, de ambas as vezes, mais modificações e adaptações. Finalmente, uma das maiores figuras do Renascimento, Miguel Angelo, nessa altura com 71 anos, foi nomeado para desenhar a famosa cúpula.

A nova basílica levou 120 anos a completar. Quando foi terminada, era uma das glórias da Fé. De facto, era tão impressionante que, ao longo do tempo, as pessoas tinham tendência a esquecer que esta poderosa igreja substituíra uma anterior - uma que Júlio II ordenara que fosse demolida porque se tornara estruturalmente insegura. Essa era a mais antiga Basílica de São Pedro, começada pelo Imperador romano Constantino cerca do ano 320 da nossa era. Ele, por sua vez, construíra a sua igreja sobre um cemitério romano onde São Pedro, dizia-se, foi sepultado após ter sido crucificado por volta do ano 67 da nossa era, sendo desconhecida a data precisa da morte do Apóstolo.

Houvera grande indignação entre os romanos, em 1506, quando o Papa Júlio ordenara que a antiga basílica fosse deitada abaixo. No entanto, Júlio triunfou e o edifício foi demolido, pois o seu mandato espiritual não podia ser posto em causa por ninguém; o pontífice só prestava contas a Deus. Dito isto, havia um pequeno assunto, quase esquecido nos anais da História, que até o próprio Papa não teve a temeridade de mudar. Um historiador da época, Egidio de Viterbo, registou-o da seguinte forma:

O Papa Júlio construiu esta igreja absolutamente esplêndida e que pode ser considerada igual, não ãs estrelas menores, mas ao próprio Sol. Coloca-a, disse ele, sobre o próprio túmulo de São Pedro, o Apóstolo que descreveu a glória de Deus. Bramante, o principal arquitecto daquele tempo, ao serviço de Júlio... tentou persuadi-lo a mudar o túmulo do Apóstolo para uma parte da igreja mais conveniente, mas Júlio disse-lhe que não podia, e afirmou repetidas vezes que os relicários deviam ficar onde estavam, e proibiu-o de mudar o que não devia ser mudado.

Nunca disseram ao arquitecto por que motivo o túmulo de São Pedro não devia ser mudado. Ele concluiu que o Papa devia ter as suas razões e não estava nada ansioso por desafiar o sagrado representante de Deus na terra. Mesmo que ele tivesse questionado o pontífice sobre este assunto, não teria recebido qualquer resposta, pois Júlio guardava este segredo só para si - um segredo que fora transmitido de um Papa ao seu sucessor desde a própria fundação da Igreja.

Relacionava-se com as Moedas de Judas.

Benelli aproximou-se do altar-mor. Ajoelhou-se e começou a descer a escada para a Confissão, o nome que se dava à cripta por baixo do altar. Daí desceria, através de uma passagem secreta, para a gruta artificial e para o túmulo de São Pedro.

Enquanto o fazia, Benelli regrediu na História, como um simples peregrino, até ao início de tudo. É que por baixo do actual altar-mor da Basílica de São Pedro, abençoado por Clemente VIII em 1594, havia outros altares, mais antigos, agora escondidos. O altar de Calisto II, coasagrado em 1124, e, por baixo, o altar de Gregório o Grande, consagrado em 594 da nossa era.

Este era apenas o início das relíquias da antiguidade do Cristianismo. Por baixo desse altar encontrava-se o monumento erguido por- Constantino a São Pedro, após a sua batalha na Ponte Mílvio, nos arredores de Roma, em 312 da nossa era, quando lutou contra o Imperador Maxêncio para decidir quem governaria o mundo romano.

Na tarde daquele dia fatídico de 28 de Outubro, cujo resultado teria um efeito tão profundo no desenvolvimento da religião cristã, Constantino viu, no céu da tarde, uma cruz que brilhava mais do que o Sol com as palavras: "Com este sinal sairás vitorioso"Ordenando às suas tropas que colocassem o sinal da cruz nos seus escudos e estandartes, Constantino conquistou uma poderosa vitória. Como resultado, quando se tornou Imperador, proclamou que o Cristianismo fosse a religião oficial do Império Romano.

No entanto, em 312 da nossa era, quando Constantino quis construir a primeira Basílica de São Pedro para reconhecer a sua nova religião em Roma, deparou-se com um problema sério. O local onde ele determinara situá-la era um antigo cemitério romano na parte lateral da colina do Vaticano, e, sob a lei romana, era considerado crime violar sepulturas. Assim, Constantino mandou encher cuidadosamente de terra compacta e cascalho todos os túmulos existentes no cemitério para criar uma base nivelada, enquanto os túmulos em si eram preservados dentro da terra. E por cima construiu a primeira Basílica de São Pedro.

Mas porquê? Porquê o esforço de deslocar quase um milhão de metros cúbicos de terra quando este indiscutível governante do mundo civilizado podia simplesmente ter mandado rever a lei e arrasar o cemitério pagão para construir aquele monumento, o seu próprio monumento para maior glória de Deus?

Havia uma razão. Uma razão profundamente espiritual. Naquele cemitério poeirento dos arredores de Roma encontrava-se o túmulo de um homem. Um homem que, em qualquer registo de qualquer período da história humana que não fosse a era cristã, teria sido considerado sem importância nos anais dos grandes e poderosos.

Um pobre pescador. Um velho judeu.

São Pedro.

Ao longo dos séculos, perdeu-se na lenda o facto de o túmulo do Apóstolo realmente existir ou não sob a basílica dedicada ao seu nome; e Papa após Papa recusou inflexivelmente conceder autorização para que fossem levadas a cabo escavações por baixo do al-tar-mor para verificar a verdade do assunto.

Passaram 1000 anos. Então, em 1939, foram feitas alterações à cripta fúnebre por baixo do altar-mor para acomodar o corpo do Papa Pio XI, que falecera recentemente. Ao escavarem, os trabalhadores puseram a descoberto o pavimento da Basílica de Constantino, e, por baixo dele, uma camada de sepulturas e sarcófagos que tinham estado enterrados por baixo do chão da velha igreja.

Será que lhes seria permitido escavar mais? Só um homem tinha poder para o permitir. Miraculosamente, depois da proibição eclesiástica de tantos Papas, o novo Pontífice, Pio XII, ordenou que fosse feita uma busca para descobrir o túmulo de São Pedro. Em 1940, voltaram a descobrir o cemitério romano e os seus túmulos - intactos após quase dois milénios.

Era em direcção a estes túmulos, que se encontravam sob as próprias fundações da Basílica de São Pedro, que o cardeal Benelli se encaminhava. Veio de noite para que ninguém o visse. Silenciosamente, o cardeal passou pela rua antiga, escavada a mais de nove metros abaixo do altar-mor da basílica, passou pelas sepulturas dos mortos pagãos, com os seus frescos ricamente pintados e belíssimos mosaicos. Enquanto isso, Benelli recordou os mais antigos registos sobre o primeiro Apóstolo e a forma como morreu, pois continham a chave do mistério das moedas.

Após a ressurreição de Cristo, foi São Pedro que liderou a Igreja e que se tornou o seu primeiro Papa. Era um homem emotivo e obstinado, mas que transbordava amor de Deus. Era tão grande o seu poder espiritual que colocavam os doentes no chão à sua frente na esperança de que a sua sombra caísse sobre eles quando ele passasse, e assim ficassem curados.

Durante o seu ministério, São Pedro viajou muito, embora os pormenores precisos dos seus movimentos fossem incertos. No ano 43 da nossa era, foi preso por Herodes Agripa I, no entanto fugiu da prisão por meios milagrosos. Mais tarde, presidiu a um Conselho da Igreja em Jerusalém e é possível que se tenha tornado o primeiro bispo de Antioquia. Finalmente, em 64 da nossa era, um grande incêndio varreu Roma e destruiu uma grande parte da cidade. O louco Nero, ansioso por encontrar um bode expiatório, culpou os cristãos de um acto provavelmente cometido por ele próprio.

São Pedro foi previamente avisado de que vinham à sua procura e podia ter fugido de Roma e ter escapado ao terrível destino da crucificação. Mas não o fez. Caminhou para a morte juntamente com outros, no Circo de Nero, para divertimento da multidão, tendo escolhido ser crucificado de cabeça para baixo em deferência para com o seu criador.

Na noite da crucificação, o seu corpo foi descido da cruz pelos seus discípulos e foi levado secretamente. Era uma tarefa perigosa, pois Nero instigara medidas draconianas para destruir os cristãos e a sua nova religião. Por causa disso, o enterro do Apóstolo foi feito à pressa e num local que não fosse susceptível de atrair olhos inquiridores: uma vala num cemitério romano. Só aqueles que tinham sido íntimos de São Pedro sabiam do paradeiro do seu túmulo e marcaram-no com sinais secretos.

Quando a opressão romana contra a Igreja Cristã afrouxara ligeiramente, no ano 100, o Papa Aniceto, o décimo na sucessão papal, ergueu um altar por cima da sepultura em que Sao Pedro fora enterrado. Esse altar compreendia uma pequena capela e foi construído num muro romano de tijolo vermelho que fora erguido por cima da vala pouco tempo depois de São Pedro lá ter sido colocado. Os peregrinos continuaram a marcar o local da sepultura com sinais e orações.

À medida que os séculos passavam, os primeiros altares da Igreja Católica foram erguidos por cima do túmulo de São Pedro, incluindo o altar da velha Basílica de São Pedro. Finalmente, quando o Papa Júlio II ordenou que fosse construída a nova basílica, certificou-se que o novo altar era colocado directamente por cima da sepultura de São Pedro, embora a última, consequentemente, ficasse escondida a mais de nove metros abaixo do solo. Porquê?

Como Papa, Júlio estava em posse de um segredo poderoso. A sepultura daquele grande Apóstolo não continha só os ossos de alguém que Jesus amava. Continha um vasto poder espiritual que apenas São Pedro - aquele contra quem Deus previra que nem as portas do inferno poderiam alguma coisa - podia derrotar.

No interior da sepultura, e nos braços do Apóstolo, os seus seguidores, quando o enterraram, colocaram um cálice cheio de água benta. Nesse cálice encontravam-se muitas moedas de prata.

Moedas pelas quais a Luz do Mundo fora traída.

O cardeal Benelli continuou a caminhar pela passagem romana. Finalmente, encontrou-se de pé junto a um simples muro vermelho. Ao lado encontravam-se os cardeais Graziani e Vysinsky. Pareciam cansados. Eram homens mais idosos, e, como de costume, levantar-se-iam às cinco horas da manhã seguinte para assistirem à missa. No entanto, dormir estava fora de questão, já que o Santo Padre necessitava de conselho sobre um assunto de suprema importância.

Esperaram por mais uma pessoa. Benelli observou o padre confessor a aproximar-se deles pela rua subterrânea. Ficara bastante ofendido quando o Papa indicara que o monge devia assistir ao encontro, uma vez que o posto eclesiástico dele era menos elevado do que o deles. No entanto, a palavra do Santo Padre era lei e não podia ser posta em causa.

Os quatro homens reuniram-se, Perante eles, por baixo do muro de tijolo vermelho, encontrava-se o túmulo de São Pedro. Tinham vindo aqui a pedido do Papa para poderem discutir a crise espiritual com que se deparavam. Embora nem mesmo o Vaticano estivesse a salvo dos grandes poderes do mal, daqueles espíritos invisíveis que vigiavam o mundo e que traficavam na sua miséria, dentro do seu recinto havia, talvez, um ou dois locais em que nem mesmo um Anjo das Trevas ousaria penetrar.

Benelli olhou os colegas. Três homens simples, e não santos, e não anjos. Quão impotentes eram! Um profundo pesar apoderou-se dele. Após ter curvado a cabeça em oração, começou;

- Queridos amigos, temos um problema que a Igreja não teve de encarar durante mil anos. - Fez uma pausa.

"Uma Moeda de Judas."

 

"É esta então a nossa proposição: os demónios, pela sua arte, originam, de facto, efeitos perversos através da bruxaria; no entanto, é verdade que sem a ajuda de um agente eles não podem fazer qualquer mal, quer substancial quer acidental, e não sustentamos que eles possam infligir danos sem a ajuda de um agente, mas, com esse agente, podem surgir doenças e outros martírios e sofrimentos humanos, e estes são reais e verdadeiros."

                   Malleus Maleficarum, O Martelo das Bruxas

 

Marie estava sentada à mesa do pequeno-almoço, a comida sem ter sido tocada. Sentia-se nervosa e inquieta enquanto esperava que Paul descesse.

Lá fora, Rachel brincava com o cão. Marie não sabia como abordar o assunto com o marido. Ele rejeitaria qualquer coisa sobrenatural. Ele era assim. Rir-se-ia dela. E também, quanto mais ela pensava nisso, tanto mais se apercebia que só poderia ter sido a sua imaginação. Ou melhor, um pesadelo. Não havia outra explicação, pois não?

No entanto, apesar do absurdo da questão, uma voz interior dizia a Marie que ela vira uma mulher na casa de banho. Depois havia o rosário. Ela vira-o sem cor. Contudo, quando acordou esta manhã, não o encontrou. Suspirou. Seria um mau presságio em relação ao futuro? Marie pousou o olhar na primeira página das notícias. Ainda andavam à procura do assassino em série. Ela afastou o jornal de si.

- Olá, querida.

Ela virou-se quando Paul entrava, apressado, na cozinha. Vindo da rua, ouvia-se um ladrar aflitivo. Ele olhou-a e mostrou o seu habitual sorriso. Marie sentiu-se aliviada. Tudo voltava ao normal.

- Tenho de sair a correr - disse ele, endireitando a gravata. - Já estou atrasado.

- Não tomas o pequeno-almoço?

- Não. - E remexia na pasta. - Raios, não viste a minha avaliação de Julian Brennan?

- De quem?

- O filho de Toni Brennan, a estrela de cinema? Aaa... ele participou em Powers ofthe Flesh e noutra coisa qualquer. - Paul fechou a pasta. - Devo tê-lo deixado na universidade. Vou chegar atrasado à minha prelecção.

Paul saiu da cozinha e Marie seguiu-o até ao átrio.

- Como foi o jantar ontem à noite?

- Óptimo. Sentes-te melhor? - Lançou-lhe um olhar inquiridor, mas ela viu que ele estava distraído. Havia uma expressão preocupada no rosto dele. Paul abriu a porta da frente.

- Paul? - A inquietação transparecia da voz dela. Ele virou-se.

- Sim?

- Não viste o meu rosário, pois não?

- O teu quê?

- O meu rosário.

- Não - disse ele, absolutamente divertido. - Claro que não, nunca lhe toco. Olha, querida, tenho de ir.

- Está bem. - Beijou-o. - Até logo.

Marie viu-o afastar-se no carro. Voltou para o interior da casa, sentindo-se feliz. Tudo voltara ao normal; ela imaginara tudo, afinal. Subiu as escadas. Rapidamente, vestiu um fato de negócios adequadamente impressionante, pois tinha uma reunião de direcção no trabalho. Em seguida regressou à cozinha e bateu na janela.

- Rachel, são horas de ir para a escola. Passado um minuto, a filha apareceu.

- O cão não quer vir.

- Então deixa-o lá ficar. - Na rua, o Labrador ladrava furiosamente. Marie deixou um bilhete à empregada para que lhe desse comida quando chegasse à tarde.

- Tens as coisas da ginástica?

- Sim, mamã. - Rachel entrou no carro e Marie abriu a porta dos passageiros. Colocou à filha o cinto de segurança e deu a volta em direcção ao lugar do condutor.

- Os meus ténis? - perguntou Rachel, procurando na mochila. Marie resmungou baixinho.

- Volto num minuto. - E dirigiu-se à casa.

Quando Marie abriu a porta da frente, sentiu uma corrente de ar muito frio. Parou, curiosa por descobrir de onde poderia ter vindo. A casa também estava em silêncio, profundamente em silêncio. Nem sequer ouvia o relógio de sala que produzia um tiquetaque barulhento. No entanto, a consciência de Marie não se reflectia nestes assuntos; estava demasiado preocupada em ir para o trabalho.

Fechando a porta, atravessou o átrio e subiu as escadas. Uma sensação de inquietação crescia na mente dela. Depressa evoluiu para uma sensação nitidamente desagradável de estar a ser observada. Marie alcançou o patamar e encaminhou-se para o quarto da filha. À medida que o fazia, começou a experimentar uma forte sensação de ardor à boca do estômago que a fez dobrar-se de dor. Agarrou-se ao corrimão. O que se passa comigo?, pensou.

Foi então que ouviu um ruído. Eram pancadas leves, como os passos de um homem; vinha do quarto deles. Marie estava presa ao chão, transida de medo.

Havia mais alguém em casa.

Devagar, Marie encaminhou-se para o quarto de casal. Entrou. O quarto parecia estar como de costume. No entanto, havia um objecto no chão, em cima do tapete. Uma moeda. Curiosa, caminhou em direcção a ela.

Nesse instante, sentiu-se como se alguém lhe tivesse aplicado um golpe violento na parte de trás da cabeça. Marie caiu ao chão, respirando com dificuldade. Numa rápida sucessão, a visão ofuscou-se-lhe e desapareceu; então deixou de sentir, de cheirar, de ouvir. Os parâmetros que definiam a sua existência humana começaram a fechar-se. Tremeluziam-lhe imagens na mente. Uma era de Kramer, outra de uma mulher amarrada nos braços dele. Havia mais, mas não eram do mundo de Marie. Finalmente, desceu uma cortina escura. Ela não via nem distinguia nada. Estou a morrer, disse para si própria. E em seguida: Estou no Inferno,

Levou alguns minutos a voltar a si. Sentia-se aturdida e camba-leante, como se o seu cérebro tivesse aparado um choque. Gradualmente, a sua consciência voltou a afirmar-se e os seus sentidos começaram a regressar ao normal. Observou o quarto em seu redor.

Não parecia nada o quarto dela, o seu mundo. Lembrava algo tão distante, tão falso. Um palco montado.

- Mamã? - O grito ansioso de Rachel penetrou no quarto pela janela do quarto, vindo do carro.

- Vou já.

Com o corpo dorido, o espírito esgotado de força, Marie vacilou escadas abaixo, a mente ainda em turbilhão. O que lhe estava a acontecer? E porquê? Junto à porta da frente, começou a recuar. Silenciosamente, as lágrimas começaram a correr-lhe pelas faces. Dentro de casa, junto à porta de frente, estava o gato, Ginger. Estava morto, o rosário dela barbaramente enrolado em volta do pescoço. Um pensamento passou pela mente de Marie, desaparecendo logo depois.

Alguém, alguma coisa, se mudara para a sua casa.

Paul estava sentado na sala de conferências da sua clínica. Sentia-se inquieto.

Esta era uma reunião que ele não desejava - com Toni Brennan, estrela de cinema, figura de culto de Hollywood, homem do momento... e completamente superficial. Paul observou os dois espécimens da humanidade nada aliciantes que estavam à sua frente, recostados nas cadeiras de pelúcia do escritório. Dois figurões. Um, pouco mais do que um ingestor de drogas andante. O outro, o réptil do seu empresário.

Paul via também que ia haver muito drama e histrionia hoje - e tudo o que ele queria era alguma paz e sossego numa quinta-feira de manhã. Porque parecera Marie tão infeliz quando ele a deixara? Ainda não se sentiria bem?

A histrionia começou cedo.

- Sabe que horas são? Porque é que está 20 minutos atrasado? Não é para esta merda que eu lhe estou a pagar. - O actor, com uma calva em desenvolvimento, levantou-se da sua cadeira e bateu violentamente com a mão na mesa. - Estou a pagar-lhe é para safar o meu filho da cadeia!

- Toni... - O empresário agarrou o braço do actor. - Desculpe - disse para Paul. - Toni, venha sentar-se. - Esboçou um sorriso astuto. - O meu cliente está muito sobrecarregado com trabalho, professor Stauffer. Um filme novo, compreende. É necessária uma enorme quantidade de talento criativo. Muito esplendor. Toni é o novo de Niro. Por vezes pode ficar um pouco cansado.

O empresário lambeu os lábios. Era um homem cadavérico, acostumado a extorquir dinheiro às pessoas em que outros não tocariam. O comportamento do seu cliente não era nada de novo para ele. Com uma dependência de drogas tão séria como era a de Toni Brennan, o actor ou ficaria sem emprego ou estaria morto dentro de um ano. Mas isso era o futuro. Presentemente Toni era o querido de Hollywood e havia ricos proventos a fazer antes de o corpo finalmente apodrecer.

Paul olhou o cliente, toda a cor descoordenada, brincos e olhos estreitos de heroína. Vestia como um jovem de 20 anos e já tinha 40. não era homem que se preocupasse com a reforma - uma palavra demasiado comprida para soletrar.

Paul levantou um pouco os olhos.

- Senhor Brennan?

- Hum, Toni, chame-me Toni. - O actor tentava voltar ao senhor simpático.

Paul observava os dedos do actor a tremerem enquanto acendiam um cigarro. Nessa altura abriu o relatório.

- Bem, Toni - disse ele devagar -, o seu filho, Julian, tem problemas. Exibe todos os sinais clássicos de desajustamento grave: fogo posto na escola, destruição de carros e - Paul fez uma pausa - tomar drogas.

- Eu não tenho nada a ver com isso - Toni sentou-se bruscamente. - O problema não sou eu. É a maldita da mãe dele.

Paul comprimiu os lábios. Não era o problema, pensou, mas a causa. Quem quereria um pai daqueles?

- E - recomeçou Toni com rispidez - não foi o meu filho que incendiou a escola. Você falou com ele, ele não é capaz disso. Olhe - o tom tornou-se plangente -, preciso de um relatório psiquiátrico que diga que o meu filho está bem. É tudo o que quero. Está a compreender? - O tom voltou a ser beligerante. - É para essa merda que lhe estou a pagar 500 dólares por hora. não sou eu que preciso de tratamento.

Paul adquiriu um aspecto sombrio. Era uma perda de tempo discutir as coisas com Toni neste momento. Esperaria até que a heroína que ele achava que o actor tomara uns minutos antes começasse a dissipar-se.

- Vou falar outra vez com o seu filho - disse ele.

Paul saiu da sala de conferências e entrou noutra sala. O instável descendente de Toni estava sentado com os pés em cima da mesa, a ler uma revista pornográfica. Vestia jeans brancos, nos quais garatujara obscenidades com um marcador vermelho. Que criatividade. A automutilação viria a seguir. Seguindo as pisadas erráticas do papá. Julian tinha 14 anos, era pequeno para a idade, com um rosto mais velho e mais agressivo do que os anos que tinha. Levantou o olhar indolente para Paul.

- O que disse o meu pai? - Exibiu um balão de pastilha elástica.

- Queria que eu falasse contigo.

Julian soltou um riso abafado e voltou à sua revista.

- Foda-se. Já lhe disse, não disse? Não incendiei a escola. - A voz era mal-humorada e amarga.

Paul sentou-se.

- Penso que deveríamos falar do teu pai.

- Nem pensar.

- Porque não?

- Não é da sua conta, pois não? - Julian não tinha o mínimo desejo de abordar o fulcro da questão.

Realmente não há nada a fazer, pensou Paul. Fez divagar o olhar pela sala. Este não era um caso difícil. Era óbvio qual era o problema: um pai toxicodependente que um dia lhe atirava dinheiro e que no dia seguinte lhe gritava furiosamente. Uma mãe que partira havia anos para ser substituída por um grupo de namoradas adolescentes por quem o rapaz não podia sentir qualquer afeição. Esta criança era um desastre humano que vivia, sem dúvida, numa vasta mansão de estilo Hollywood, decorada sem qualquer gosto. Solitário, amargo e assustado. Era bom para o argumento de um filme; era pena que fosse também a vida de um ser humano. Mas, nesse caso, valia a pena salvar algumas vidas humanas?

- Quer dizer que não queres falar comigo?

- Não.

- Óptimo.

Julian regressou à sua revista, surpreendido por ter conseguido uma vitória tão fácil. Paul voltou à sala de conferências, - Bem - comentou Toni Brennan - ele é normal, não é? E se ele não for normal, então também eu não sou um cabrão normal.

Os olhos fúnebres do empresário e os olhos estreitos e meio fechados do seu cliente contemplaram Paul. Desafiavam-no a contra-dizê-los.

Paul estava prestes a dizer ao pai aonde devia ir. Não podia e não queria ajudá-los. Por mais rica que esta estrela de cinema fosse, por mais famosa, por mais badalada que fosse, havia coisas delicadas pelas quais não havia dinheiro que valesse o esforço. É claro que Ben seria mais complacente. Mas o ponto de vista de Paul acabara de endurecer. Definitivamente. Abriu a boca para falar.

Nesse momento teve uma visão. Ou era uma alucinação?

Paul viu o homem à sua frente tal qual como era. Não o ser humano, o actor Toni, de sucesso repentino e de pouca dura, que não podia suportar-se a si próprio. Eram mais as emoções e os sentimentos que emanavam da sua magra figura humana. Era como abrir uma caixa de Pandora cheia de sensações. Paul sentia ondas de melancolia, rancor e desespero emanarem do actor. Fluíam em direcção a ele, através da mesa, como música, ou ondas a rebentarem na praia. Paul recebia-as não na cabeça, não como uma impressão intelectual, pois não podia ver nem ouvir nada. Em vez disso, eram vibrações que entravam magicamente no seu próprio ser.

Estava ali sentado, dominado por esta experiência única e totalmente inesperada. Ele absorvia, como notas de um piano, um acorde de medo, outro de inveja, outro de raiva. Partiam de Toni Brennan e convergiam para transmitirem uma sensação global de maldade. Era fascinante: uma fuga de Bach, mas do ser interior.

Com um clique, a consciência de Paul regressou abruptamente ao activo. Ele devia encontrar-se numa alucinação provocada por alguma droga. Será que lhe tinham posto alguma coisa no café? Achava que eram bem capazes disso.

- Bem, vai escrever o relatório? - Toni inclinou-se para a frente, o tom urgente.

Mal passara um segundo. Paul observou o empresário e em seguida o actor, Será que eles tinham visto alguma coisa? Sentido alguma coisa? Não, as suas expressões ainda eram as mesmas. Nada mudara. Paul deve ter passado por um devaneio. No entanto, mesmo enquanto falava, ainda podia sentir as vibrações. Tentou defini-las melhor. Era como se ele se encontrasse num profundo poço de rio e sentisse a água em redemoinho à sua volta. Uma estranha sensação, mas não desconcertante. Uma sensação nova. Mais do que isso - isto não vinha do processo de pensamento de Paul, da sua consciência. Vinha de outro sítio qualquer de dentro dele.

- Ainda não decidi.

- Ainda não decidiu? O que quer dizer com isso?

- Quero voltar a ver o seu filho na próxima semana - disse Paul num tom seco. - Depois digo-lhe qual foi a minha decisão.

- Escute bem - Toni deu um salto, muito agitado. - Não vou ser lixado para você poder arrancar-me mais dinheiro. Preciso do relatório para quando ele for a tribunal esta semana, - Senhor Brennan, o objectivo destas visitas não é arrancar-lhe dinheiro. É para ajudar o seu filho.

- Bem, então ele pode cá vir para a semana - Toni ergueu as mãos, num gesto teatral. - Eu estou ocupado.

- Quero que ambos cá voltem. - Paul continuou a fixar o actor. As emanações vindas dele tinham mudado novamente. A raiva fora substituída pelo medo. Tinha uma qualidade de tom diferente - mais aguda, mais intermitente. Paul sentia a sua ressonância. O pai tinha medo de que ele descobrisse alguma coisa. Mas o quê?

Com um olhar amotinado, a estrela de cinema levantou-se. Queria dizer ao psiquiatra que se enforcasse, mas precisavam dele para livrar Julian da acusação de incêndio e Stauffer era o melhor desde o caso Kramer. Um sacana arrogante, mas o melhor. E também porque Toni precisava de outro chuto. Tinha de sair daqui.

- Nós voltaremos, não se preocupe - disse o empresário. Mostrou o seu sorriso oleoso. Óptimo, mais consultas, pensou ele. Cobrava à hora.

O filho apareceu à porta da sala de conferências.

- Até para a semana - resmungou o pai para o psiquiatra dele. Paul viu o trio tão desagradável caminhar pelo corredor, Ainda sentia impressões a emanarem do actor. No entanto, desta vez sentia-as também a fluírem do filho, fortes e poderosas. Ondas de animosidade muito profunda; e dirigiam-se para o pai. Nesse instante, um pensamento terrível apoderou-se de Paul. Era tão chocante que tentou afastá-lo da mente o mais depressa possível. Contudo, ele continuava lá, como uma certeza. Ele sabia o que aconteceria a Toni Brennan. O filho mataria o pai. Brevemente. Mas que diabo estava a acontecer-lhe?

- Senhora...

- Stauffer. Marie Stauffer.

O polícia sorvia o ar ao respirar. Era um homem gordo, mal vestido e mal barbeado. Não se importava com o aspecto que tinha nem com o que as pessoas pensavam. Também não gostava do emprego, mas era bem pago, já que era um polícia desonesto.

- Onde é que viu o gato?

- Ali - Marie apontava para o tapete no átrio. - O gato estava ali.

- Sim - disse o polícia, levando o dedo indicador ao queixo. Que mulher estúpida. Mas era bonita. Tinha cerca de 30 anos, imaginava ele, cabelo preto, figura esbelta e uma boca generosa. O polícia estudou-a com um ar libertino, O marido dela era um homem de sorte, partindo do princípio de que era casada.

A maior parte das mulheres desta zona era divorciada ou separada. Eram mulheres de meia-idade, com uma casa grande, um ou dois filhos e um marido que fugira com a secretária. E, por isso, o que faziam elas? Ficavam sentadas na cozinha, sonhando com melhores dias e à espera do cheque mensal referente à pensão de alimentos. Com tempo e um corpo sem ser usado nas mãos. Ele tentava muitas vezes fazer-lhes propostas. Fora posto na ordem por causa disso uma série de vezes, mas ele não se importava. Se ao menos soubessem o que ele pretendia. Bem, afinal era o que qualquer ser humano pretendia realmente neste mundo - mentir, enganar, roubar, trair. Era por isso que estavam aqui.

- Hum... - Ele produziu um ruído ao fazer bater o maxilar inferior no superior. - Você encontrou o gato morto do lado de dentro da porta da frente, levou a filha à escola e regressou. Mas o gato tinha desaparecido. Por isso chamou-nos.

- Sim - respondeu Marie, pacientemente. Não gostava do olhar dele, mas era um agente da polícia.

- E mais ninguém tem a chave da sua casa? - Assoou-se a um lenço sujo.

- Não. Para além do meu marido e da empregada, e eles não estiveram aqui.

- Vou dar uma vista de olhos.

- Por favor - disse Marie.

O polícia inspeccionou vagarosamente os quartos. Sabia perfeitamente qual era o problema dela. Medo. Nestas últimas semanas ele fora inúmeras vezes chamado por mulheres. Elas sabiam que ainda havia um assassino em série à solta, por isso ficavam nervosas. Ele não podia culpá-las. Se tivesse oportunidade, andaria armado de metralhadora pela cidade.

- Bem - disse ele com voz seca. - É óbvio que o seu marido ou a sua empregada descobriram o gato morto e tiraram-no daqui.

- Não - disse Marie com firmeza. Via que o homem não acreditava nela, e não se atrevia a contar-lhe sobre o rosário, nem que também não encontrava o cão. - Senhor agente, telefonei à empregada, ela não sabe de nada. E o meu marido nunca está em casa durante o dia. Eu vi o gato. Estava morto. Quando voltei da escola, o corpo dele já não estava ali. Alguém deve ter entrado em casa, por duas vezes, para pôr ali o gato e para o vir buscar.

O polícia esboçou um sorriso de escárnio.

- Falou com o seu marido, foi? Chamou uma vizinha? Tirou alguma fotografia ou coisa assim? Olhe, quem é que lhe entraria em casa só para roubar um gato morto? Sei que há malucos nesta cidade - passou a língua pelos lábios gretados -, mas a maior parte o que faz é roubar. Hum, vamos lá a cima ver se está alguma coisa mexida. Você vai à frente.

O polícia observou Marie a subir as escadas, os olhos fixos no traseiro, os pensamentos noutro sítio. De súbito, pestanejou. Pensou ter visto alguém no patamar por cima deles. Voltou a pestanejar, mas não havia nada. Devia ter sido uma ilusão de óptica. Começou a subir.

- Ataca-a!- A ordem foi incisiva; foi-lhe sussurrada ao ouvido.

- O quê? - disse o polícia, em voz alta. Chocado, virou-se para ver quem falara, voltando em seguida a virar-se para a frente. - Disse alguma coisa?

Ao cimo da escada, Marie virou-se, assustada.

- Não.

O polícia empalideceu. Ouvira perfeitamente uma voz de mulher, mas tal não poderia ter acontecido. Quando chegou ao cimo das escadas, a instrução voltou, mas desta vez dentro da mente dele. Ataca-a!, murmurava a voz, repetindo as palavras devagar e com insistência. O polícia já ouvira antes esta voz interior, geralmente quando roubava coisas ou quando prestava julgamentos falsos em tribunal. No entanto, esta tinha um tom muito alto e dava ordens. Imitava a sua própria voz.

Juntos, entraram no quarto de casal. O polícia fingiu olhar em redor, mas os seus olhos insistiam em fixar Marie quando ela se encontrava junto à cama. Marie olhou para trás, para ele. Colocou os braços em volta do corpo. Porque a olhava ele de uma forma tão estranha? Sentiu-se vulnerável e assustada.

- Não está aqui ninguém - disse o polícia em voz alta. Começou a caminhar em direcção a ela. Nos seus pensamentos, a tentação tornara-se mais subtil. Era óbvio que esta mulher o queria, não era? Ele sentia-o, via-o nos olhos dela. Ela queria sexo. Além disso, quem saberia se ele lhe tocasse?

Marie recuou. Contudo, o polícia, possuído por forças que não conhecia, começou a levantar a mão para a agarrar. Vais escapar ileso, dizia-lhe a voz interior com satisfação. Não há testemunhas, prometo.

Simultaneamente, o telefone junto à cama tocou. Quebrou o feitiço. Marie correu para o telefone e levantou o auscultador, as mãos trémulas.

- Gloria! - Desatou a chorar. - Tenho estado a tentar contactá-la. Venha cá imediatamente. - Levantou o olhar, o rosto pálido. - Não precisa de ficar. Por favor venha agora.

O polícia lançou-lhe um olhar cheio de indignação à medida que recuperava da sua confusão mental. Será que ela lhe lera os pensamentos? Impossível. No entanto, a chamada estragara os seus desejos perversos.

- Aaaa... está bem. Telefone, se precisar de mim. - Sorriu de-bilmente. Desceu as escadas, caminhou até ao carro e entrou. Fez inversão de marcha. Ao fazê-lo, espreitou para o espelho lateral. De pé, ao meio da estrada, estava um homem alto com um nó no cabelo. Parecia-lhe familiar, conhecido. O polícia pestanejou. Quando voltou a olhar, a figura tinha desaparecido.

No primeiro andar, Marie começou a chorar desconsoladamente. Sabia que alguma coisa estava a acontecer, no entanto não conseguia compreender o que era. Não admirava, pois o que estava a acontecer transcendia o pensamento humano.

Os demónios estavam a atacar.

Hanlon Dawes levantou-se. As características que distinguiam o director da prisão de Alta Segurança eram a constituição de um fuzileiro e o carácter de um rufia.

- Viva, Paul. - O cumprimento era brusco, como sempre. Hanlon odiava tanto a administração como odiava os prisioneiros. - Conhece estas pessoas. Emma Breck, Psiquiatra Superior, Darrel Bar-tlett, o meu assistente, Pat Harbison, director do Bloco De... Jeff Ei-chenberger, dos Sistemas de Segurança, que trabalham com os computadores da prisão. - O tom era de desprezo. - Sente-se. - O director da prisão apontou para uma cadeira atrás da mesa de tampo de fórmica. - A propósito, a sua aluna já recuperou, não é verdade? Não há problemas? - Olhou Paul fixamente.

- Aaaa... ela está bem - respondeu Paul. Amaldiçoou-se por se ter esquecido de visitar Suzanne ao longo destes dois dias. Mentiu. - Ficou um pouco chocada, mas agora já está melhor.

- Tal como eu tinha previsto - disse o director. - Bem - disse para os infelizes que esperavam. - Afinal, que diabo correu mal?

Pat Harbison começou, nervosamente:

- Senhor Dawes, as portas de todas as celas são controladas electronicamente. Só podem ser abertas por um guarda que insira uma palavra-chave e carregue numa tecla.

- Até aí sei eu - retorquiu o director. - Não sou idiota. Continue.

Harbison empalideceu.

- O guarda que estava de serviço, Schramp, tem a certeza de que não carregou em nenhuma tecla para abrir a cela de Kramer. E as pessoas que trabalham com os computadores dizem-me que não há qualquer registo de que ele o tenha feito.

O director pousou o olhar no operador de sistemas informáticos. Gostava ainda menos de ratos informáticos do que de prisioneiros ou administradores. A lista de coisas de que Hanlon Dawes não gostava tinha o comprimento do seu braço.

- Então?

- É verdade, senhor Dawes - disse Eichenberger numa voz estrangulada. Tirou nervosamente os óculos. - Não foi dada qualquer instrução para abrir a porta da cela de Kramer. Ainda não temos a certeza do que aconteceu.

- Não têm a certeza? - Hanlon Dawes explodiu. - Kramer sai e quase viola uma visitante, e vocês não têm a certeza? Podíamos estar a enfrentar um processo judicial pesado e vocês não têm a certeza? - O rosto e o pescoço inundaram-se-lhe de sangue. - Schramp está despedido. E quanto a si - o director dirigiu a sua ira para Eichenberger -, é melhor verificar os seus computadores, porque, se isto volta a acontecer, também você se vai embora.

O director continuou, cruel:

- Amanhã às dez horas quero em cima da minha secretária um relatório de cada um de vocês sobre o que aconteceu. Sem falta. - Levantou-se. - Paul, quero falar consigo.

Saíram para o corredor. Dawes certificou-se de que não havia mais ninguém por perto. Então aproximou o rosto do do psiquiatra.

- Aquele tipo, Kramer, é ele o assassino em série - disse em voz baixa, batendo no peito de Paul com o dedo. - Você meteu água.

- O que quer dizer com isso? - respondeu Paul com arrogância. Este homem não passava de um funcionário da prisão. O que sabia ele de assuntos psiquiátricos complexos?

Hanlon Dawes agarrou com força o braço de Paul e conduziu-o pelo corredor.

- Porque passei 30 anos a trabalhar com escumalha - disse. - E digo-lhe uma coisa. Os outros prisioneiros morrem de medo dele e isso é alguma coisa neste jardim zoológico. A forma como ele atacou a sua aluna não foi nenhum acidente isolado. O nosso amigui-nho perverso sabia exactamente o que estava a fazer.

- Não me parece - Paul não gostava de ser censurado por quem lhe era intelectualmente inferior.

- Agora ouça, senhor doutor - Hanlon Dawes ameaçava-o com um dedo. - Você pode ser um psiquiatra da moda, mas é melhor concentrar-se. Descubra como é que podemos levar este animal deste Kramer de volta ao tribunal, se não também você estará na rua. Acabaram-se as visitas. Lembre-se, uma rapariga suicidou-se por causa da sua esperta opinião e - fez uma pausa para acentuar as palavras com que se despedia - eu tenho uma eleição à porta.

Hanlon Dawes afastou-se ruidosamente. Paul viu-o ir. Lá se fora a sua boa relação com o director; cinco anos de visitas agora perdidas.

No entanto, meia hora depois, Paul experimentaria de novo a mesma exasperação e mau humor.

- Pat - exclamou ele, zangado. - Sou o psiquiatra, lembra-se? Não estou doido. Eu vi uma mulher. Estava atrás de mim. Ela estava a olhar para Kramer, por amor de Deus. Conheci-a a noite passada. Chama-se Helen.

- Não havia ninguém, Paul - balbuciou o director do Bloco D. - Olhe, há uma maneira de o provar. Vamos ver os filmes das câmaras de segurança.

Viram-nos todos meticulosamente. Não havia mulher nenhuma; Paul tinha de admiti-lo. Para além de Suzanne Delaney e Emma Breck, não estivera outra mulher no patamar onde Kramer tomara Suzanne como refém. Só Paul e os dois guardas. Pat encolheu os ombros, exausto.

- Esqueça. Foi um erro compreensível, ainda por cima com todo aquele drama.

- Quero falar com Kramer.

- Agora não é boa altura.

- Quero falar com ele. - A voz de Paul tornou-se feia. - Se não, vou imediatamente falar com o director da prisão.

- Está a ameaçar-me? - disse Pat, chocado, Nunca vira o psiquiatra comportar-se assim.

- Sim.

O Bloco E, um lugar horrível com luz filtrada e paredes brancas, ficava situado por baixo do pátio principal da prisão. Era aqui que colocavam aqueles que tinham cometido crimes quase para além da imaginação. De momento alojava alguns dos assassinos mais notórios da Califórnia.

Entre eles contavam-se Chris Cooper, que torturara pessoas em rituais satânicos bizarros que envolviam beber o sangue das vítimas, Dave Urch, um assassino psicopata que matara mais de 20 criancinhas, Jerzy Palubicki, uma enfermeira que injectara pacientes com uma série de venenos, Hank Jacobsen, que matara a tiro 15 pessoas no local onde trabalhava porque alguém se enganara no cheque do seu salário mensal, Abdul Kali, que fizera explodir um avião de turistas para chamar a atenção para um grupo político de que era membro. Uma chamada dos condenados.

Paul visitara estes prisioneiros e experimentara neles uma variedade de tratamentos psiquiátricos. No entanto, as suas mentes continuavam dissociadas da realidade em que viviam, prisioneiras de um mundo interior que era tanto destrutivo como impossível penetrar. Pessoas sem a menor compaixão, misericórdia ou remorso. O Bloco E era o local para onde Hanlon Dawes ordenara que Kramer fosse levado e colocado na solitária durante três meses, uma cela isolada, sem ver ninguém 24 horas por dia, sete dias por semana.

Os guardas levaram Kramer acorrentado para uma sala vazia, onde o prenderam com as algemas à parede. Paul entrou e sentou-se.

- Oh, surprise, surprise!- crucitou o assassino sarcasticamente. - O meu psiquiatra vem perguntar-me pela saúde.

Paul não disse nada. Esperou que os guardas saíssem, mantendo-se bem afastado da figura junto à parede. Em seguida fechou os olhos. À medida que o fazia, experimentou um poderoso sacão, como uma descarga eléctrica, que lhe perpassava todo o ser.

O que Paul sentira naquela manhã com Toni Brennan e o filho, sentia-o agora com Kramer. Mas estas sensações eram diferentes, muito mais dramáticas. Se as vibrações emanadas do actor e do filho eram semelhantes àquelas experimentadas por uma pessoa à deriva em águas turbulentas, com Kramer ele fora apanhado num furacão. Paul sentia crueldade e malevolência a escorrerem dele. Profundas e densas, estas sensações eram dirigidas a Paul, tentavam penetrar-lhe o ser como se ele fosse um pequeno barco no mar e que Kramer procurava afundar e destruir. Era uma experiência assustadora, implacável e inexorável. Paul abriu imediatamente os olhos.

- Com que então também o sente - disse Kramer. Passou a língua pelos lábios.

- O que é? - perguntou Paul.

- Quem é que sabe? - O tom era de desdém. Ele sabia, mas não dizia.

Paul voltou a fechar os olhos, experimentando a turbulência, tentando descobrir algum sentido em tudo aquilo.

- Quem era a mulher?

- Que mulher?

- A mulher que estava atrás de mim quando você atacou a aluna - disse Paul. - Helen. Você viu-a. Sei que a viu. Quem é ela?

Silêncio. Paul sentiu uma mudança nas impressões que emanavam do assassino,

- Você tem medo dela, não tem, Karl? Ela obrigou-o a soltar a rapariga. Mas como é que ela pode fazer isso?

Embora Kramer não dissesse nada, as vibrações eram mais eloquentes do que quaisquer palavras. Dentro das ondas curvas da crueldade, havia profundas depressões de medo. Kramer estava com medo. Um assassino em série que instalava o mais completo terror nos outros, estava, ele próprio, com medo. Mas com medo de quê? Afinal o que podia causar-lhe tal medo?

- Guardas! - gritou Kramer. - Levem-me de volta para a minha cela.

Os guardas voltaram e começaram a desacorrentá-lo da parede. Kramer olhava Paul fixamente. À medida que passava por ele, arrastando os pés, inclinou-se para murmurar algumas palavras de despedida:

- Procura a marca, sacana!

Tendo deixado a prisão, Paul foi para casa de carro. Levou muito tempo, uma vez que foi apanhado na hora de ponta; no entanto, isso deu-lhe tempo para pensar. Algo de errado se passava com ele. Bem, não propriamente de errado; isso era, em si, inexacto. Ele estava a experimentar uma estranha hipersensibilidade. Mas porquê? não podia ser resultado de estímulos externos; ele não tomara drogas, não bebera e não estava a fazer qualquer medicação. Mau funcionamento do cérebro, então? Não. A visão estava óptima, não tinha dores de cabeça, não tinha perdas de consciência temporárias, não tinha perda de memória. Depressão? Pelo contrário. A sua mente sentia-se aguda e clara. Muito extraordinariamente, de facto.

Contudo, havia um problema. Aquela mulher, Helen, esse era o problema. Tanto Paul como Kramer tinham-na visto no dia em que Suzanne fora atacada. No entanto, mais ninguém a vira. Mais estranho ainda, Kramer tinha medo dela. não fazia absolutamente qualquer sentido. Nem tão-pouco o comentário de Kramer ao ir-se embora. Que marca? O que significava aquilo?

Pouco depois, Paul chegou com o carro à entrada da sua casa. Estava um bonito fim de tarde, iluminado pelo Sol pouco antes do crepúsculo. Uma recordação para guardar. Nessa altura Marie precipitava-se em direcção a ele, as lágrimas corriam-lhe pela face. Agarrou-se ao pára-brisas.

- É Rachel.

 

"O mal que vem à superfície no homem e que indubitavelmente vive dentro dele é de proporções gigantescas, de forma que, para a Igreja, falar de pecado original e atribuir a sua origem à escorregadela relativamente inocente de Adão e Eva, é quase um eufemismo. O caso é muito mais grave e está enormemente subestimado."

                   Carl Jung, The Undiscovered Self

 

O cardeal Benelli encontrava-se com os dois cardeais e o padre confessor ao lado do túmulo de São Pedro e contou-lhes a história das moedas.

O escritor do Evangelho, São Mateus, registou a forma como Cristo foi traído. Os príncipes dos sacerdotes e os anciãos juntaram-se no palácio do sumo sacerdote, Caifás. Ouviram a opinião uns dos outros para prenderem Jesus à traição e o matarem. A oportunidade não tardou a chegar. Um dos 12 discípulos de Cristo era Judas Iscariotes, um ladrão vulgar. Depois de Judas ter comido pão na Última Ceia, Satanás entrou nele. Então, Judas foi ter com os príncipes dos sacerdotes e perguntou-lhes: "Quanto me dareis, se eu vo-Lo entregar?"

Deram-lhe 30 moedas de prata. Nessa noite, Judas foi ao Jardim do Getsemani com uma multidão e ali, através de um beijo, traiu a Luz do Mundo. Jesus foi levado pelos príncipes dos sacerdotes e pelos anciãos e entregue a Pilatos, o governador romano, para ser crucificado. São Mateus também registou que, quando Judas viu o que tinha feito:

Foi tocado pelo remorso e devolveu as 30 moedas de prata aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos, dizendo:

"Pequei entregando sangue inocente." Eles replicaram: "Que nos importa? Isso é lá contigo.- Atirando as moedas para o santuário, ele saiu e foi-se enforcar.

Os príncipes dos sacerdotes, apanhando as moedas, disseram: "Não é lícito lançá-las no tesouro, pois são preço de sangue.- Depois de terem deliberado, compraram com elas o "campo do oleiro", para servir de cemitério aos estrangeiros. Portal razão, aquele campo é chamado, até ao dia de hoje, Campo de Sangue.

O cardeal Graziani lançou a Benelli um olhar penetrante.

- Está a dizer que essas moedas de Judas ainda existem?

- Sim, e têm um poder imenso. O que estou prestes a contar-vos, só duas pessoas sabem: o Papa e o chefe do Santo Ofício. Tem sido transmitido desde o início do papado a todos aqueles que têm ocupado a cadeira de São Pedro. É, talvez, o segredo mais íntimo da Igreja.

A expressão dos cardeais registavam o mais profundo alarme. Ninguém naquela pequena audiência queria ouvir mais. Era um segredo demasiado horrível de contemplar nas suas ramificações. No entanto, Benelli não tinha opção. Fora-lhe ordenado que o divulgasse. Com os olhos postos no simples muro vermelho que tinham por diante, começou:

- Neste mundo há muitas coisas que testemunham a veracidade dos Evangelhos, provas tangíveis de acontecimentos divinos. Os ossos de um santo, a roupa ensanguentada de um mártir, os escritos de um dos Pais da Igreja. Estes objectos contêm a manifestação humana de uma verdade divina e cada um deles está imbuído de um tremendo poder do bem. Mas em relação ao outro lado, aos poderes do mal e aos meios pelos quais podem ser invocados, a Igreja tem-se mantido em silêncio ao longo dos séculos. Tem-no feito intencionalmente, para evitar que os insensatos e os loucos façam muito mal a si próprios. Sobretudo a Igreja tem-se mantido em silêncio no que diz respeito às Moedas de Judas.

Benelli suspirou. Mesmo aqui onde se encontravam, junto ao túmulo de São Pedro, no sacrário mais secreto da igreja, ele sentia-se ansioso, como se outras presenças, invisíveis, estivessem ali, a ouvir as suas palavras.

E continuou:

- Nosso senhor foi vendido por 30 moedas de prata, cada uma delas imbuída do maior dos males. Após a Sua ressurreição, São Pedro tornou-se o chefe da Igreja. Só ele conhecia a natureza destrutiva destas moedas, e uma das suas responsabilidades foi reuni-las. Contra ele, e só contra ele, é que elas não tinham força, pois o próprio Nosso Senhor dissera: "Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a Minha Igreja, e as portas do inferno nada poderão contra ela".

"O que aconteceu a estas moedas? A Bíblia diz-nos que foram usadas para comprar um campo, chamado o Campo de Sangue, nos arredores de Jerusalém, para ser usado como cemitério para enterrar os estrangeiros. O nome do homem que vendeu esta terra aos príncipes dos sacerdotes é desconhecido e as moedas que ele recebeu como pagamento depressa se espalharam pelo Império Romano.

"Foi uma tarefa titânica recuperá-las. No entanto o primeiro Apóstolo não vacilou no cumprimento do seu dever. No decurso das suas viagens foi conduzido por uma série de revelações aos locais onde elas se encontravam. Algumas surgiram em Antioquia, algumas em Roma, outras em Corinto. Foram sempre encontradas em posse dos ricos e poderosos, dos cruéis e ditadores. Durante os restantes anos da sua vida, São Pedro procurou-as e, quando alguma vinha ter às suas mãos, era-lhe retirado o poder do mal. Contudo, mesmo quando ele as localizava, os Anjos das Trevas faziam o que podiam para frustrarem os seus desígnios. Fizeram-no através do Imperador romano, Nero, um dos homens mais ignorantes que alguma vez viveram.

- Como sabem - disse Benelli, e a sua mão estendeu-se pelos túmulos dos pagãos mortos atrás deles -, foi Nero que culpou os cristãos pelo grande incêndio de Roma e que tentou destruir a Igreja nos seus primeiros tempos. - Benelli recordou as palavras do escritor romano Tácito sobre o destino daquelas almas:

A morte deles foi transformada em diversão. Foram vestidos como animais selvagens, efeitos em pedaços por cães selvagens; foram amarrados a cruzes, ou queimados, para servirem de candeeiros quando a luz do dia se acabava. Nero cedeu os seus próprios jardins para o espectáculo, no qual se vestia de cocheiro.

- Um dos que foi amarrado a uma cruz foi São Pedro. Foi crucificado por Nero antes de ter recuperado todas as moedas.

- Quantas foram recuperadas? - perguntou o cardeal Vysinsky.

- Todas, menos oito - respondeu Benelli. - Quando São Pedro morreu, foi enterrado aqui - indicou o túmulo em frente deles - e nas suas mãos foram colocadas essas 22 moedas. Estão conservadas em água benta, num cálice selado, para poderem ficar intactas até ao fim dos tempos. Já não têm qualquer força. Pois as Escrituras diziam a verdade: nem sequer o poder de Satanás poderia fazer alguma coisa contra o Pai da Igreja.

- E as outras oito? - perguntou o cardeal Graziani. Tinha o rosto desolado pelo choque do que estava a ouvir: as suas mãos de idoso tremiam.

- Foram encontradas mais cinco. No entanto...

Um sino dobrou na basílica por cima deles, pois era a décima segunda hora. O ar tornou-se muito frio. Benelli olhou o padre confessor. Quem sabia que mensageiros das Trevas se tinham juntado em volta deles? Hesitou.

- Continue - disse o monge em voz baixa.

- Só posso divulgar-vos a história das moedas na presença do Santo Padre - disse Benelli. - Mas foi-me ordenado que vos dissesse alguma coisa sobre a sua natureza. As Moedas de Judas parecem simples moedas romanas, um denãrio de prata com o rosto de Tibério César, mas podem apenas ser postas em acção por um ser humano enredado pelo mal. De outra forma, não têm qualquer efeito.

- Enredado pelo mal? Em que sentido? - perguntou o cardeal Vysinsky.

- Uma pessoa que tenha vendido a alma ao demónio.

Os dois cardeais olharam para ele aterrorizados. Benzeram-se.

- Ao longo dos séculos - continuou Benelli sobriamente -, apesar da mesquinhez dos homens, há relativamente poucos preparados para vender a alma ao demónio quando chega o momento, e para o fazerem de sua espontânea vontade. Até os ditadores, os torturadores, os assassinos, os blasfemos deste mundo têm cuidado com essas coisas. Dentro da putrefacção das suas mentes, há algo que ainda os avisa: "Tem cuidado, não vás mais longe, pois condenar-te-ás para a eternidade." No entanto há alguns que atravessaram para o Abismo ainda na terra, como as moedas têm provado.

- Como pode ser isso? - perguntou Graziani.

Benelli sentia-se exausto. Apoderava-se dele um cansaço que o enfraquecia até à medula.

- É a livre opção do homem. Qualquer parte da criação de Deus O pode rejeitar. Mas ao negá-Lo, negam-se a si próprios, em última análise. Ao fazê-lo, tudo o que são e tudo o que amam, pois o amor não pode pertencer ao mal, é extinto, como se nunca tivesse existido. Tanto a sua alma como o seu corpo se transformarão em nada, pois, no fim, eles deixam de ser eles próprios. São completamente possuídos e tornam-se parte do poder das Trevas, Trabalham para um senhor diferente.

O cardeal Vysinsky disse, numa voz rouca:

- Mas porque desejaria um homem vender a sua alma por uma moeda dessas?

- Pelo controlo da humanidade, e pelo conhecimento. Durante um período de tempo, uma Moeda de Judas dará ao seu possuidor a visão de um anjo, até estarem completamente dominados e o seu ser destruído. Quanto mais poderosa for a moeda, tanto mais depressa isso acontece. Com estas últimas moedas, o período de esclarecimento, e o eclipse da alma, serão rápidos.

- O que quer dizer com "quanto mais poderosa for a moeda"? - perguntou o cardeal Graziani. - Essas moedas têm graus de poder diferentes?

Benelli acenou com a cabeça.

- De início, todas tinham a mesma quantidade de poder, mas, à medida que cada uma delas é destruída, a sua influência passa para as outras. O mal torna-se mais concentrado à medida que as moedas regressam à sua fonte. Àquele que governa o Campo de Sangue.

Fez-se silêncio.

- Quem lhes pode resistir? - disse, por fim, o cardeal Graziani, o rosto, marcado pela idade, envolto em tristeza. Na verdade, esta noite fora a mais longa e a mais dolorosa da sua vida.

- Não sei - respondeu Benelli, a voz carregada de desgosto. No entanto, o Santo Padre procura agora o nosso conselho sobre este assunto. - Hesitou, relutante até em declará-lo. Veio ao mundo uma das últimas Moedas de Judas.

 

"Assim, também o intelecto pode ser obscurecido por um anjo mau no conhecimento do que parece ser verdade...

consequentemente, quando os demónios entram no corpo, entram nos poderes que pertencem aos órgãos do corpo, podendo assim criar impressões nesses poderes."

                   Malleus Maleficarum, O Martelo das Bruxas

 

No hospital, Paul e Marie apressavam-se ao longo de um corredor verde-vivo. Havia um turbilhão de actividade em redor deles. Um carrinho de medicamentos colidiu com uma cama que era empurrada para a cirurgia de emergência. Um grupo de enfermeiras passou, apressado, quase a começar o turno da noite. Um jovem, com uma ligadura na cabeça e uma sensação de embriaguez, estava desconsoladamente sentado num banco de madeira, sem saber que a namorada acabara de falecer na mesa de operações e que os seus dias de condutor estavam terminados por muito tempo. Paul cerrou os dentes. Detestava hospitais. Odiava a morte.

Chegaram à enfermaria das crianças. Antes de entrarem, Paul virou-se para Marie. Mal tinham falado durante a viagem para o hospital. Ela estava muito pálida.

- Eles dizem que Rachel caiu de um baloiço? Mais nada? Não dão mais pormenores? - disse ele, irritado.

- Foi isso que me disseram na escola - respondeu Marie.

- Porque é que não havia alguém a vigiá-la?

- Viram uma mulher a passar por ela quando aconteceu, mas a mulher não parou. Não era professora.

- É típico. Ninguém ajuda ninguém nesta cidade. - Paul sentia-se anormalmente irritado. Normalmente, estaria bastante calmo, mas hoje não. Era um dia mau.

Marie mal deu por isso. Tentava encontrar nexo nos acontecimentos das últimas 12 horas, mas não conseguia, já que a levavam até-uma conclusão repulsiva. Também não se sentia bem, o corpo pesado e letárgico, a mente incapaz de se concentrar, como se a energia se lhe tivesse esgotado. O que estava a acontecer? Será que estava a sofrer um esgotamento? Mas era tão inesperado, como se uma nuvem negra tivesse, de súbito, descido sobre ela.

Entraram no departamento de acidentados. Um médico avançou e apertou-lhes a mão.

- Vamos manter aqui a vossa filha esta noite para observações. Sofreu um golpe sério na cabeça.

Era um homem jovem, de cabelo ruivo, que parecia ter acabado de sair da faculdade. Não era, certamente, o tipo de pessoa que ins-pirasse muita confiança.

- É claro que vão fazer um electroencefalograma...

- Aaa... sim - respondeu o médico com um leve sorriso, perguntando-se se Paul também teria a mesma profissão que ele, já que o olhava daquela maneira. - Nunca se pode ter a certeza. - Entraram num quarto. - Aqui está ela. Demos-lhe um sedativo, já que estava com dores. Há meia hora que está a dormir.

Rachel tinha a cabeça envolta numa ligadura. Parecia muito calma.

- Senhora Stauffer? Posso dar-lhe uma palavrinha em relação a Rachel?

Marie levantou-se e saiu com o médico. Entretanto, Paul concentrou toda a sua atenção na filha. Era a pessoa de quem mais gostava.

Paul fechou os olhos. Passados poucos segundos detectou sensações que emanavam do corpo dela, mas eram muito diferentes das que experimentara com Kramer ou com o actor. As vibrações que fluíam de Rachel eram suaves e ondulantes, como a mansa ondulação de um vasto oceano. Eram as mais interiores expressões de amor de Rachel - o amor que ela nutria pelo pai e pelos outros.

Paul sentiu-se profundamente tocado por elas e as lágrimas inundaram-lhe os olhos. Como podia ser isto? Como podia ele experimentar a existência, desta criança desta maneira - a sua presença interior e as suas emoções? Desviou o olhar. Não queria acreditar; era impossível. Ainda enquanto Paul experimentava estas ondas, elas começaram a alterar-se. Tornaram-se turbulentas, pressagiando a chegada de uma poderosa tempestade. Rachel movia-se, inquieta, na cama do hospital, o espírito perturbado.

- Estás bem?

Paul estremeceu ao ouvir a voz da sua mulher, - Sim - respondeu ele secamente. Levantou-se. - Vou falar com o médico.

Mas mentiu. Saindo para o corredor, Paul passou à pressa pela cirurgia e encaminhou-se para uma das enfermarias. À medida que o fazia, a Moeda de Judas adquiria um maior domínio sobre ele. Sub-repticiamente, a sua energia espiritual infiltrava-se no seu ser, toldando-lhe os sentidos para os tornar menos capazes de resistir. Como uma enorme serpente, uma força angélica emergiu da sua prisão cósmica, furtiva e invisível.

Caminhando através das enfermarias, Paul não sentia o seu ego normal. Experimentava uma leveza, uma fragilidade no mundo à sua volta, como se, na realidade, não existisse. Uma vez, numa experiência médica, ele tomara uma substância chamada mescalina. Pouco depois experimentara uma estranha e maravilhosa distorção da realidade. Os tapetes verdes tornaram-se muito verdes, as flores adquiriram uma iridescência de cor, as pinturas tornaram-se uma massa fundida que parecia sair do quadro e vir em direcção a ele. No entanto, o que Paul agora experimentava era bastante diferente: uma verdadeira visão. Aos seus olhos, os tapetes, as paredes, todos os objectos inanimados, permaneciam iguais: o que era monótono continuava monótono, o que era brilhante continuava brilhante.

Mas no caso dos seres humanos, que transformação! Na enfermaria das crianças, ele podia distinguir as suas auras. Apareciam perante os seus olhos como magia, emanando das crianças, em direcção a ele, perpassando-o. Já não eram vibrações mas luz de uma intensidade irresistível; diamantes brilhantes que se refractavam nas suas cores constituintes: o mais claro azul-celeste; o mais puro vermelho de sangue, o amarelo mais cor do sol; o mais profundo azul-marinho.

Sentou-se na cama de uma menina. Embora estivesse em coma, irradiava dela uma luz brilhante, quente e confortante, cuja intensidade quase cegava. Morrendo para um mundo, o ser daquela menina aumentava, sem esforço, noutro mundo.

Numa enfermaria de idosos, as cores eram menos puras e intensas. Aqui, a tristeza, a raiva e outras perturbações emocionais humanas pareciam enfraquecer a força e diminuí-la. Contudo, a aura permanecia.

Finalmente, Paul encaminhou-se para as entranhas do edifício. Passou por uma porta que dizia "Morgue". Lá dentro, abriu uma arca congeladora. Sem abrir os fechos dos sacos que continham os cadáveres, ficou de pé ao lado deles. Não havia nada. Nem vibrações, nem cores. Os invólucros humanos não libertavam nada. Por isso, o que quer que fosse, concluiu Paul, morria com o corpo. Ele devia estar a ver a força da vida das pessoas.

Nesse preciso momento, um funcionário trouxe um cadáver. Paul sobressaltou-se, pois ainda emanava dele uma aura. Muito fraca, mais ainda visível.

- Quando é que ele morreu?

O homem pegou numa etiqueta amarrada ao dedo do pé do falecido.

- Há dois dias. Suicidou-se com uma navalha de barba.

- Você vê alguma coisa?

- Se vejo? - perguntou o funcionário, divertido. - Você disse "ver"?

- Oh, nada, nada.

Paul começou a abrir as arcas congeladoras para verificar as datas dos óbitos. O que significava aquilo? Quando as pessoas morriam, a aura não as abandonava durante três dias, no entanto tornava-se progressivamente mais fraca. Passados três dias já tinha desaparecido, ou pelo menos Paul já não a via. Assim, aquilo que ele estava a ver não era uma força de vida como tal, mas era uma força, uma força que permanecia durante algum tempo após a morte. O que era aquilo? E porque é que apenas ele a podia ver?

Paul virou-se para fechar a porta de uma arca congeladora. Foi então que aconteceu.

Subitamente, o corpo dele cedeu e ele caiu para o chão. Experimentou uma dor atroz em volta do coração e os seus sentidos começaram a vacilar, a desaparecer. Um instante depois, o seu corpo começou a entrar freneticamente em convulsões. Era aterrorizador; ele já não se sentia a dominar o seu próprio ser; era como se enormes forças de energia se tivessem soltado dentro dele e lutassem pelo controlo; exércitos num campo de batalha. Vou morrer, pensou ele. É assim que é a morte - eterna escuridão e medo. E não sentiu mais nada.

- Acorde.

Gradualmente, a visão regressou a ele. Voltara a ver.

- Helen?

Ela ajoelhou-se ao lado dele. Paul sentia-se desesperadamente doente.

- Tive um ataque cardíaco?

- É claro que não. - O tom era superficial. - Desmaiou apenas.

- Não, foi mais do que isso - disse ele, arfando. - O que está aqui a fazer?

- Quero fazer-lhe a mesma pergunta.

- É demasiado difícil para explicar.

- A sério? - Helen ajudou-o a levantar-se. - Vai já sentir-se melhor.

E Paul sentiu-se melhor. Era extraordinário, mas assim que ele se sentou numa cadeira com a reconfortante mão dela no seu ombro, as náuseas e as tonturas de Paul diminuíram. Ele sentia um brilho quente e duradoiro. Lá fora, o crepúsculo transformava-se em noite.

- Agora tenho de ir - Helen olhou-o atentamente; os olhos dele enroscados nos dela, para que ele não se recordasse dela. De repente, ela disse: - A sua mulher vem aí.

Paul baixou-se para apanhar a carteira, que lhe caíra do bolso de cima. Quando voltou a levantar o olhar, Helen desaparecera. As portas da morgue abriram-se e Marie entrou a correr, seguida de uma enfermeira.

- Onde tens estado? Temos andado à tua procura em todo o lado.

Nessa noite, mais tarde, Marie estava sentada em sua casa, no sofá. Aquele fora um dia extraordinário e ela sentia-se confusa. Tinham ajudado Paul a subir as escadas que levavam às urgências e os médicos tinham-lhe feito alguns testes ao coração. Mas o resultado foi negativo e ele continuava a insistir que apenas se sentira tonto. Paul não dera qualquer explicação em relação ao facto de ter andado a deambular pelo hospital, nem por que motivo entrara na morgue. Ao regressar a casa, fora directamente para a cama, por isso ela não tivera qualquer oportunidade para lhe contar sobre os outros acontecimentos estranhos.

Marie atravessou a sala com o olhar. A mulher de vestido vermelho, o rosário, o gato, o polícia ameaçador, Rachel no hospital e agora Paul doente. O que significava tudo aquilo? Para além disso, recebera por telefone uma estranha mensagem de Gloria, a empregada. Fora visitar uma amiga: Helen qualquer coisa, e só voltaria uns dias depois. Não era nada costume dela ir-se embora sem dizer nada, e sua voz fora muito seca. Outro acontecimento estranho. Talvez devesse acordar Paul agora e discutir estas coisas com ele.

Nesse momento exacto, o telefone tocou. Marie deu um salto e levantou o auscultador.

- Desculpe telefonar-lhe para casa, Paul - a voz era suave, quase terna -, mas não consegui apanhá-lo hoje.

- Quem fala?

- Oh - Houve uma pausa confusa. - Quero falar com o professor Stauffer. Fala Suzanne.

- Qual Suzanne?

- Uma das alunas dele. Ele hoje vinha visitar-me. No meu apartamento. - O tom continuava íntimo, como se falasse de um amigo muito chegado. - Diga a Paul para vir amanhã.

- Olhe, ele tem estado doente, e eu não sei nada de...

- Diga-lhe para vir. - Ouviu-se um clique, à medida que o auscultador era pousado.

Marie ponderou naquela estranha chamada durante uns momentos. Em seguida subiu as escadas. Sentia náuseas e estava extremamente exausta. Estaria tudo bem quando tivesse Rachel de novo com ela. Passou pelo quarto vazio da filha, onde Paul insistira em dormir nessa noite. À medida que o fazia, lembrou-se de outra coisa que se esquecera de perguntar ao marido. A moeda que ela vira nessa manhã no chão do quarto. Marie procurara-a, mas tinha desaparecido.

Devagar, Marie despiu-se, a mente em redemoinho. E a chamada telefónica? Será que Paul estava prestes a iniciar outro caso? Ela não aguentava mais. Amava-o, mas, desta vez, deixá-lo-ia e levaria Rachel consigo, acontecesse o que acontecesse.

Marie desligou a luz. Estava deitada na escuridão. Enquanto isso, aflorou-lhe à mente a mais profunda ansiedade, como uma gota de um veneno secreto. Era bastante irracional, bastante inexplicável, e não havia razão para a recear neste momento. Mas lá estava ela, ali à espreita, como um espírito maligno nas profundidades do seu coração preocupado.

Receava morrer. Em breve.

 

"Deus julgará o justo e o ímpio, porque há tempo para todas as coisas e tempo para todas as obras."

                   Eclesiastes, 3:17

 

Era um encontro extraordinário, mesmo para uma instituição que tinha 2000 anos. O cardeal Benelli olhou em redor. Encontravam-se na capela privada do Papa, que se situava no coração do Vaticano. As portas tinham sido fechadas e guardas suíços tinham sido colocados no exterior. Estavam sentados ao centro da capela, por baixo do vitral que representava a Ascensão. Quatro pessoas. O pontífice, vestido de branco, dois cardeais, de vermelho, e o padre confessor, no seu simples hábito castanho. - O cardeal Graziani não pode estar presente - disse o padre confessor. - está muito doente.

- Eu sei - disse o Papa, calmamente. - Continuaremos sozinhos. Benelli olhou o Papa João XXV. De estatura média, magro, um rosto com rugas profundas e um sorriso maravilhoso, era muito amado. Homem de paz, místico, rondava agora os 80 anos. Embora Benelli o visse quase todos os dias, tinha ainda a sensação de se encontrar na presença de um ser humano muito especial, um elo de ligação entre o mundo físico e o espiritual.

O Papa fechou os olhos, a rezar. Em seguida pousou os olhos no altar.

- Devemos começar - disse.

Com mãos nervosas, Benelli pegou no documento antigo que pouco tempo antes fora buscar ao cofre papal. Fora escrito em latim há quase 1000 anos e as suas páginas de velino eram frágeis.

Benelli deu início ao seu sumário.

- A história destas moedas é terrível. Têm apenas um objectivo. Tal como foram usadas para trair Cristo, o seu verdadeiro objectivo é trair, e destruir, a Igreja que Ele fundou. Cada moeda, encontrando-se nas mãos de alguém que tenha vendido a alma ao demónio, procurará destruir o próprio papado.

Houve um profundo silêncio. Benelli continuou:

- Não se sabe por que motivo é que São Pedro foi incapaz de encontrar enquanto viveu as oito moedas que faltavam. No entanto, ao longo do tempo, estas moedas ressurgiram, uma por uma. Quando o fazem, prendem-se a um ser humano. Passado pouco tempo, essa pessoa, para sua destruição eterna, é completamente possuída por um espírito maligno. Quando estas moedas ressurgem, e por que motivo se prendem a determinados indivíduos, não sabemos. A História declara simplesmente que este é um mistério cósmico. Diz, contudo, que a entrada destas moedas no mundo é sempre pressagiada por importantes fenómenos naturais, como sejam erupções vulcânicas, fome, epidemias.

Benelli começou com a história das moedas. Remontava quase aos primórdios da Cristandade.

- A primeira das oito Moedas de Judas que não foram destruídas por São Pedro foi parar às mãos do Imperador romano Diocleciano. Sob a sua perniciosa influência, ele iniciou uma perseguição à Igreja no ano de 303 da nossa era. Foi a tentativa mais sistemática para aniquilar a Igreja alguma vez levada a cabo pelo estado romano. Autoproclamando-se filho de um deus, Diocleciano ordenou que o clero fosse capturado. Muitos desses presos foram rasgados em pedaços no Coliseu. Outros foram horrivelmente torturados e enviados para trabalhar nas minas. Pior ainda, o Imperador forçou o próprio pontífice, o Papa Marcelino, um homem idoso e doente, a oferecer incenso aos deuses.

Neste ponto Benelli parou, a voz rouca de emoção. Quando se encontrava suficientemente recuperado, continuou:

- Pobre Marcelino. Faltou à Fé de que era o mais importante representante vivo. Isso quase destruiu a Igreja. Mais tarde arrependeu-se e foi decapitado em 304 da nossa era, na sequência de uma ordem do Imperador. No ano seguinte, Diocleciano publicou um

édito para suprimir a Cristandade. Esse édito tornou-se uma licença para uma carnificina geral.

"No entanto - continuou Benelli -, prematuramente envelhecido e forçado a reformar-se, Diocleciano faleceu em 316 da nossa era, antes de a moeda ter podido completar o seu trabalho. A Moeda de Judas foi recuperada do seu cadáver e secretamente colocada no túmulo de São Pedro, juntamente com as 22 que já lá se encontravam.

O cardeal Vysinsky abanava a cabeça de dor. Dificilmente podia suportar ouvir mais. Desde que ouvira pela primeira vez falar nestas moedas, vivera um pesadelo.

- A segunda moeda foi parar às mãos do Imperador romano Juliano, geralmente chamado o Apóstata, um homem muito influenciado por sonhos ao longo de toda a sua vida. Juliano sentia um grande desprezo pela Cristandade. Chamava-lhe o embuste dos galileus, e à ressurreição -um conto monstruoso". Uma vez Imperador romano, em 361 da nossa era, converteu-se publicamente ao paganismo. Privou os cristãos de direitos civis, mandou queimar as suas igrejas e perseguiu-os implacavelmente. Mais importante ainda, profanou os restos mortais dos santos. Em particular, procurou por toda a parte o túmulo de São Pedro, para o destruir. Depressa ultrapassou Diocleciano na sua ferocidade... - Porque é que ele não foi capaz de destruir a Cristandade? - perguntou o padre confessor.

Benelli encolheu os ombros.

- Pensamos que ele confiou demasiado rapidamente no poder da Moeda de Judas. E também porque, dada a sua natureza, ela trai até aqueles que a possuem. No momento em que a Cristandade estava prestes a enfrentar o seu maior perigo, Juliano sofreu um golpe mortal de uma lança, quando ele e as suas tropas lutavam contra os Persas em 363, fora das muralhas de Ctesifonte, por baixo da Bagdade de hoje. Nunca se soube quem atirou a lança. No entanto, alguns chamaram-lhe "a lança da justiça", e as últimas palavras que Juliano dirigiu ao seu maior inimigo quando estava caído a morrer no campo de batalha, aos 32 anos de idade, foram: "Venceste, ó Galileu."

"Mais uma vez, essa Moeda de Judas foi recuperada e colocada no túmulo de São Pedro, que se encontrava, por essa altura, escondido bem fundo, por baixo do altar da primeira basílica. Quanto ao Imperador Juliano, alguns anos após a sua morte tornou-se comum por toda a cidade de Roma o facto de que ele concordara em servir o demónio em troca de se tornar Imperador. São Jerónimo chamou-lhe traidor da sua própria alma.

"Isso aconteceu alguns séculos antes de aparecer a moeda seguinte, pois o poder do mal é mais paciente do que se poderá imaginar. A terceira moeda era posse de um general do exército sarraceno. Em 846 depois de Cristo, ele, e outros dez mil sarracenos, desembarcaram em Itália. Não encontrando quase nenhuma oposição, entraram em Roma e despenderam ao máximo o seu ódio pelos cristãos. Tomaram de assalto a velha igreja de São Pedro e destruíram tudo o que puderam, chegando até a saquear o altar-mor. Em particular, procuraram o túmulo do Apóstolo. Contudo, a História regista que este lhes escapou, pois não conseguiram descobrir exactamente onde se encontrava escondido.

- A quarta moeda, e lembrai-vos de que cada uma é mais poderosa do que a anterior, foi parar às mãos de alguém que a usou para se apoderar do próprio papado. Como muito bem sabeis - Benelli lançou um olhar inquiridor à sua pequena audiência -, o Papa João XII foi um escândalo para a Igreja, tanto na sua vida pública como na sua vida privada. Usando a moeda, tornou-se Papa em 955 da nossa era, aos 18 anos de idade. Esse "jovem dissoluto", tal como o descreveram escritores daquele tempo, dedicou-se inteiramente ao deboche, e o Palácio de Latrão, onde ele vivia, foi abertamente descrito como um bordel "que o demónio frequentava, sendo recebido com brindes".

"A batalha contra ele foi travada tanto no plano terreno como no plano espiritual. Oito anos depois de se ter tornado pontífice, foi deposto por uma revolta em Roma, e Leão VIII foi sagrado Papa em seu lugar. Mas o poder da moeda não era para ser contrariado e João voltou ao Vaticano. Tendo excomungado Leão, vingou-se com ferocidade daqueles que se lhe tinham oposto.

- No entanto não foi poupado - disse o padre confessor.

- Exactamente - confirmou Benelli -, foi acometido de um ataque de apoplexia no acto de prática de adultério nos aposentos papais. Morreu aos 27 anos de idade. A História regista que se declarou abertamente na altura que ele era um servo do demónio.

- E a quinta moeda? Foi em tempos mais recentes? – perguntou.

Benelli acenou com a cabeça.

- Essa moeda é a mais surpreendente de todas. Há um mistério relacionado com ela e a própria História diz-nos pouco. O homem em cuja posse se encontrava a quinta moeda foi Silvestre II, que foi pontífice de 999 da nossa era até ao ano 1003. Há muitas lendas sobre ele, todas elas muito perturbadoras. Quando era jovem, Silvestre II estudou em Espanha, entre os Sarracenos, e era muito conhecido pelas suas investigações no campo da astrologia, matemática e magia.

- A História afirma que se dizia que Silvestre entrara num pacto com o demónio: a sua alma contra o papado. Numa sucessão rápida, tornou-se arcebispo de Reims, arcebispo de Ravena e depois Papa. Uma vez chefe da igreja, o seu nome tornou-se conhecido como praticante de magia negra e foi só depois de um esforço enorme que ele foi afastado de Roma e do trono papal em 1003 da nossa era. Regressou, mas morreu pouco depois.

"É esta a história das cinco moedas - disse Benelli. - Faltam mais três.

Em silêncio, Benelli enrolou o pergaminho antigo e colocou-o numa mesa lateral. Tanto o Papa como o padre confessor tinham fechado os olhos. Em meditação ou desespero?

O cardeal Vysinsky tossiu.

- Onde estão essas cinco moedas que foram recuperadas após a morte do Apóstolo?

- Quatro delas encontram-se dentro ou por cima do túmulo de São Pedro, ao nosso lado - respondeu Benelli -, e já não têm qualquer poder nem efeito.

- E a quinta?

- Encontra-se no túmulo do Papa Silvestre II, tal como ele ordenou no seu leito de morte.

- E porquê? - inquiriu Vysinsky. - Porque é que esta quinta moeda não foi enterrada junto de São Pedro?

- Não sabemos - respondeu Benelli. - Mas estamos a tentar descobrir. No entanto, é difícil. Tudo isto aconteceu há 1000 anos.

- Isso significa que há ainda três outras Moedas de Judas no mundo, para além da de Silvestre II - continuou o cardeal Vysinsky --, e se o que se diz delas é verdade, devem ser realmente muito poderosas.

- João XXV abriu os olhos. - E a situação é pior do que eu receava. A História regista que, no seu leito de morte, o Papa Silvestre II fez uma profecia muito perturbadora. Disse que cada uma das três últimas Moedas de Judas tinha uma força verdadeiramente terrível.

- Como assim? - perguntou o padre confessor. Benelli continuou em silêncio.

- Como assim? - a pergunta foi repetida.

Foi o próprio Papa que forneceu a resposta. Disse suavemente:

- Têm o poder de chamar ao mundo os anjos das Trevas. Aos quais nenhum poder humano pode resistir.

 

"O demónio tem poder sobre todos aqueles que seguem as suas ânsias mundanas."

                   Malleus Maleficarum, O Martelo das Bruxas

 

Paul entrou na sua clínica na baixa da cidade de São Francisco. Ben abordou-o à porta do escritório.

- Um pouco tarde, não é? Tivemos uma reunião às dez para avaliarmos um paciente. Esqueceste-te, ou aconteceu alguma coisa?

- Tive de ir ao hospital hoje de manhã cedo. Por causa de Rachel.

- O que aconteceu? - perguntou Ben, ansioso. - Está doente? - Se acontecesse alguma coisa à filha de Paul, a mulher dele nunca mais se calaria.

- Ela está bem. Bateu com a cabeça quando caiu de um baloiço ontem, na escola. Passou a noite no hospital para observações.

Paul fixou o colega. Podia ver a luz que emanava dele tão claramente como a luz do Sol que entrava pela janela.

- Ben, tenho andado a ver coisas - disse, de súbito.

- A ver? Disseste a ver coisas?

- Sim, a ver coisas.

O sócio olhou-o como se ele tivesse enlouquecido.

- A ver o quê? O que queres dizer?

Paul explicou a capacidade que tinha de discernir luz que emanava das pessoas, como um género de aura ou força astral. O colega interrompeu-o. Paul estava a gozar com ele, como de costume.

- Que disparate! És a última pessoa a acreditar nisso! Parece o efeito de medicação ou alucinações devidas ao stress. Não estás com stress, pois não?

- Deve ser dos comprimidos para dormir que estou a tomar - mentiu Paul. - Vou perguntar ao meu médico.

- Estás a começar a deixar-me preocupado. Preciso que me substituas quando nós formos de férias. Não as quero adiar. Ah, é verdade! Tenho um recado para ti. Aquela mulher, Helen, telefonou. Aquela da festa. Disse. "Parabéns por conseguires o que queres".

- O que quer isso dizer?

- Aaa... - disse Ben -, não perguntei. Pensei que sabias. Provavelmente referia-se à prelecção sobre Carl Jung.

- Provavelmente. A propósito, como foi que Helen conseguiu ir ao teu jantar de festa?

- Telefonou-me logo depois de Marie me ter dito que não podia ir. Disse que te conhecera no caso Kramer e que queria discutir uma coisa contigo. Assim de repente, decidi convidá-la para o jantar. Não fez mal, pois não?

- Claro que não.

Paul viu Ben afastar-se e em seguida entrou no seu próprio escritório. Olhou pela janela durante uns minutos, matutando no recado ambíguo que Helen lhe deixara. Impulsivamente, pegou no telefone e marcou um número.

- Estou - respondeu uma voz rouca.

- Suzanne, é Paul Stauffer. A minha mulher deixou-me um recado a dizer que você telefonou ontem à noite. Peço desculpa por não ter ido vê-la antes, mas as coisas têm estado um pouco atrapalhadas. Pensei ir visitá-la esta tarde. Isto é, desde que esteja acordada. A que horas é que os alunos se levantam hoje em dia?

- Estou ocupada a estudar na cama, professor - ela riu, alegremente. - Adoraria vê-lo. Seria óptimo. Pensei que talvez telefonasse.

- Que tal às quatro horas?

- Estarei pronta a essa hora.

Suzanne pousou o auscultador. O quarto estava escuro, os cortinados bem fechados. Virou-se para a sua companheira de cama. Tudo o que se podia ver na obscuridade era a parte superior de um tronco. Suzanne acariciou a carne descoberta. A figura moveu-se.

- Ele vem cá.

A companheira sentou-se na cama. Em seguida ela deu-lhe um beijo.

- Eu sei - Helen sorriu. - Parabéns.

- Entre.

Paul estava à entrada do apartamento da aluna. Suzanne afastou-se um pouco para o lado de forma que ele roçou por ela ao entrar no quarto. Ela vestia um vestido vermelho simples que exibia a sua figura graciosa de maneira a produzir o melhor efeito. Uma suave música de fundo emanava de um leitor de CDs.

- Olá.

- Olá. Desculpe o atraso. Fiquei retido, como sempre.

O mobiliário do quarto era moderno e barato. Um sofá e dois maples. Uma mesa de café. Livros desordenados numa estante, um casaco de seda nas costas de uma cadeira. A um canto havia uma garrafeira com algumas garrafas de vinho. O lugar estava desarrumado e sem graça, ao mesmo tempo que reflectia uma presença jovem.

- Uma bebida?

- Cerveja, se tiver.

- Com certeza - Suzanne entrou na minúscula cozinha contígua ao quarto. Regressou com algumas latas e estendeu-lhe uma. Aninhou-se no maple em frente dele. Beberam.

- Agora estou bem. Já ultrapassei o choque. - Os olhos de Suzanne ficaram húmidos de excitação ao lembrar-se do que passara. - Fiquei tão assustada quando a porta da cela se abriu e Kramer veio na minha direcção. Pensei que ia morrer. Fiquei paralisada e ele dominou-me.

- Eu tinha-vos dito que não vagueassem por lá - disse Paul.

- Eu sei - disse Suzanne. - Deixei-me levar.

- Agora já consegue aperceber-se do cuidado que é preciso ter quando se lida com pessoas criminalmente doentes. Espere sempre o inesperado.

Enquanto falava, sem pensar, Paul escondeu a mão no bolso e os seus dedos tocaram uma moeda. A julgar pelo debrum rugoso e pela cabeça em relevo, ele tinha a certeza de que se tratava da moeda que Helen lhe dera. Mas como fora lá parar? Ele não a vira desde a festa e pensava que a tinha perdido. Por qualquer razão curiosa, Paul não a tirou do bolso; não se sentia inclinado a mencioná-la a ninguém.

- A prisão descobriu o que aconteceu? - Suzanne oferecia-lhe biscoitos de gengibre de uma lata. mastigando um ela própria.

- Ainda não - respondeu Paul. - Pensam que foi um dos guardas que abriu a porta de Kramer por engano, mas eu estou mais preocupado consigo.

- A sério, estou bem - respondeu Suzanne alegremente. - Seria preciso muito mais para acabar comigo, acredite.

A música parou e Suzanne ajoelhou-se ao lado do maple de Paul, onde o leitor de CDs se encontrava. Enquanto colocava um disco novo na máquina, ela levantou o olhar para ele. A expressão dela era aberta, desinibida e sedutora. Paul fixou-a, para logo desviar o olhar. No entanto, os olhos dele foram arrastados, quase contra vontade, de volta ao rosto dela. Olharam-se uma segunda vez. O olhar era de desejo mútuo. Paul levantou-se.

- É melhor ir-me embora.

Suzanne também se levantou. Paul observou as pernas longas e elegantes que se endireitavam à medida que ela se levantava da posição de cócoras.

- Tem mesmo de ir? - perguntou ela. A música recomeçou, lenta e sonhadora. A sua sensualidade seduziu-o. Paul fechou os olhos. Quando voltou a abri-los, viu luz a emanar de Suzanne - um vermelho profundo e brilhante. Fluía em direcção a ele e perpassava-o, enredando-o com o seu desejo sexual.

- Não vá - a mão dela ergueu-se para lhe acariciar o rosto.

- Sou casado - disse ele. - E tenho uma filha.

- Eu sei. - Ela beijou-o levemente nos lábios. - Fique comigo.

- E o seu namorado?

Ela esboçou um sorriso malicioso.

- Não tenho. Eu disse-lhe. Não tenho namorado.

Paul suspirou ao mesmo tempo que pesava a tentação que sentia. À medida que a música aumentava de volume, Suzanne, silenciosamente, desfez o laço do vestido. O tecido fino escorregou para o chão. Ela usava a mais escassa roupa interior. Colocando os braços em volta do pescoço dele, Suzanne começou a beijá-lo, ao mesmo tempo que a sua língua forçava suavemente a entrada para a boca dele. Então ela afastou-se para trás. Casualmente, desapertou o soutien. Ele já lhe vira antes os seios.

- Sou toda tua - murmurou ela com um riso cínico.

No pequeno quarto, Suzanne soltou as ligas, que caíram para o chão. Paul via o reflexo das nádegas firmes no espelho atrás dela.

Puxou-a rapidamente para cima da cama, alheio a tudo, excepto a uma intensa ânsia de satisfazer o seu desejo. Pouco depois, um suave gemido soltou-se da garganta de Suzanne, como o rosnar de um lobo. Estavam sós, o seu adultério escondido do mundo e da mulher.

Quase.

No meio do acto sexual, se Paul tivesse observado com o olho do espírito, teria reparado numa figura de pé ao canto do quarto. Helen contemplava o casal, uma expressão de triunfo estampada no rosto. Suzanne virou a cabeça em direcção à sua senhora e sorriu.

Em seguida voltou a concentrar-se na sua vítima.

 

- Aposto que estás com fome! - Marie levantou Rachel para a colocar no carro. - Ainda te dói a cabeça?

- Um pouco - respondeu Rachel.

Marie saiu dos terrenos do hospital. Paul saíra de casa de manhã cedo, por isso ela não tivera oportunidade de falar com ele sobre os assuntos que lhe dominavam os pensamentos. No entanto, discutiria tudo com ele nessa noite, acontecesse o que acontecesse. Entretanto, o próprio rosto de Rachel era um modelo de indecisão infantil enquanto se debatia entre contar ou não contar o seu segredo. Finalmente, disse:

- Eu vi alguém ontem à noite.

- Ah sim? - disse Marie num tom jovial. - Viste alguém? No hospital?

- Uma mulher acordou-me de noite. Disse-me que devia ir com ela. Eu fiquei assustada.

- Querida, era uma enfermeira. Uma das pessoas de farda verde. Ela deu-te algum medicamento?

- Não, não era uma enfermeira. - A menina de sete anos abanava a cabeça insistentemente. - Tinha um vestido vermelho e cabelo louro. Era a mesma mulher que me empurrou do baloiço.

- Que te empurrou do baloiço? Mas tu disseste-me que caíste.

- Ela fez-me cair - gritou Rachel enfaticamente. - Parou o baloiço no meio do ar.

- Querida, isso não é possível. Estás outra vez a inventar. Como é que ela era?

Involuntariamente, Marie reduziu a velocidade, a ansiedade a subir dentro dela à medida que a filha, numa voz decidida, descrevia a mesma mulher que Marie vira na casa de banho no serão do jantar de festa.

- O que fizeste quando essa mulher te disse para ires com ela? - Marie tinha a garganta seca.

- Disse que estava à espera da minha mamã.

- E que foi que ela disse? Rachel olhava em frente.

- Disse que a minha mamã morreria em breve.

Com um grito abafado, Marie parou o carro na berma da estrada.

- Pára com isso, Rachel. Ninguém te acordou, ninguém disse essas coisas horríveis. - Ela inclinou-se sobre o volante, argumentando. - Foi apenas a tua imaginação. Não vai acontecer nada à tua mãe, prometo.

Rachel perscrutou-lhe o rosto, sem estar convencida.

Marie conduziu depressa de volta a casa, as mãos agarradas ao volante, em estado de choque. Os seus pensamentos eram de inquietação e incontroláveis. Aquela mulher tinha qualquer coisa a ver com Kramer ou com o assassino em série. Tencionava fazer-lhes mal. Ou seria a nova namorada de Paul? Andaria a persegui-los, e será que Paul sabia? O que estava a acontecer? Marie estava a dar em doida.

Entrou em casa. Empurrou Rachel para a sua frente.

- Querida, vai brincar com os teus brinquedos na sala.

Apressada, dirigiu-se à cozinha e desfez-se em lágrimas. As mãos tremiam-lhe convulsivamente quando tentava sentar-se à mesa.

- Mamã! - Ouviu-se um grito. Marie correu.

Rachel estava de pé no meio da sala. À sua frente, junto à parede, estava uma mulher: a mesma que Marie vira no primeiro andar, na casa de banho. Vestia uma túnica simples e chamava a criança com um gesto. Embora a forma da mulher fosse humana, os sentidos de Marie diziam-lhe que havia algo de terrivelmente errado. Ela estava a olhar para uma coisa e não para uma pessoa. Para uma imagem ligeiramente esbatida, sem sombra, na obscuridade da sala. Um fantasma, um espírito.

- Querida! - Marie soltou um grito abafado. - Vem cá!

Mas as suas palavras não foram ouvidas. Rachel começou a caminhar em direcção à figura. Então, num movimento horrível, os pés da menina levitaram, afastando-se do chão. Rachel começou a caminhar no ar ao mesmo tempo que Helen a chamava.

Marie gritou. À medida que o fazia, o fantasma desapareceu e Rachel caiu ao chão. Marie correu para a criança que soluçava.

Marie estava completamente sem palavras. Vira o impossível. No entanto, os sentidos diziam-lhe que acontecera. Era real. As coisas começavam a encaixar-se. Agarrando a filha, Marie dirigiu-se ao telefone, mas Rachel deteve-a, colocando a mão sobre a da mãe quando esta carregava nas teclas.

- Mama, não faças isso.

- Porquê? Estou a contactar o teu pai. A criança disse a verdade:

- Porque é ele que está a causar isto.

 

"O acto de sair do corpo pode ser meramente ilusório, uma vez que o demónio tem um poder extraordinário sobre as mentes daqueles que se lhe entregaram, de forma que aquilo que fazem em pura imaginação, acreditam que tenham realmente feito no corpo."

                   Malleus Maleficarum, O Martelo das Bruxas

 

Após ter feito amor com Suzanne, Paul adormeceu, exausto devido ao seu pecado.

Contudo, este sono era bastante diferente de qualquer outro que experimentara antes na vida. Era um sono desperto, um sono extraordinário. Enquanto dormia, Paul sentia o corpo a mover-se. Não o seu corpo físico - esse continuava na cama, inerte e morto para o mundo. Este corpo era diferente. Era a sua forma de espírito - uma forma que ele nunca acreditou que existisse.

Paul contemplava a cena como se se encontrasse ao canto de uma sala, como se fosse um espectador dos acontecimentos que se desenrolavam. Lentamente, uma aparição materializou-se a partir do seu corpo. Era uma substância acinzentada e flutuava para cima como uma pena de fumo que saía da parte de cima da sua cabeça. Tremeluzia levemente na escuridão. Esta "presença", pois não havia outra forma de a descrever adequadamente, coalesceu numa forma. Embora a sua aparência tivesse um contorno semelhante àquele que Paul possuía na terra, era muito diferente da carne dura e sólida da qual tinha surgido. Era mais fluida, um invólucro de luz.

Antes de a sua forma de espírito adquirir o contorno final, Paul deixara de ser um espectador silencioso. Sentia-se dentro da manifestação que o envolvia como um manto, um meio de transporte que lhe permitia viajar em planos astrais, tal como o seu corpo físico lhe permitia viver nos limites do mundo.

Ocorreu ainda outra transformação. No entanto, este processo acontecia agora sem qualquer esforço. A sua mente, ou melhor, o espírito anteriormente aprisionado dentro da sua moldura humana, deixara de estar acorrentado pelos movimentos atrozmente lentos de um pé a mover-se, de uma mão a erguer-se ou de um coração a bater. Não existia qualquer sensação de energia a ser usada, de cansaço ou de peso. Pois o seu espírito não sentia fome nem sede, não envelhecia, não recordava nem esquecia. Existia, simplesmente. Apesar disso, um ser humano na terra gritava que Paul ainda existia. Ele soube isso porque "viu" o seu corpo físico deitado na cama - uma garrafa vazia da qual o génio saíra.

Iniciou a sua estranha odisseia pelo mundo dos espíritos.

Paul ascendeu ao primeiro plano astral. A transformação não era em nada diferente de despir um casaco velho; contudo, este era um casaco humano. Não sentia qualquer medo nem preocupação em relação ao ponto até ao qual o poder da Moeda de Judas, sem que ele soubesse, tinha dominado estes mecanismos humanos de aviso. Durante a sua subida, o vasto depósito de energia mental anteriormente dirigido à preservação da sua forma humana, começou a virar-se sobre si próprio, para descobrir um mundo secreto interior.

De súbito, Paul encontrava-se no seu escritório na universidade. Girava em redemoinho à sua frente. Se ele tivesse pensado nisso conscientemente, ter-se-ia apercebido de que era noite. No entanto, a noite e o dia já não tinham qualquer significado para ele; via a sala obscura com a mesma clareza como se estivesse banhada em brilhante luz do Sol. De facto, com uma clareza ainda maior, pois os objectos que se lhe apresentavam perante o olhar - o mobiliário, os livros, a secretária - tinham uma luminosidade e um esplendor acrescentados. A sua visão do dia-a-dia fora substituída por uma percepção aumentada. Uma hipersensibilidade.

Paul começou a "caminhar" pelo escritório, embora não existisse qualquer movimento físico como tal. Em vez disso, tudo aparecia dentro do seu campo de visão, como se ele fosse o centro de um círculo e este girasse à sua volta. A excitação que sentia era composta por uma sensação de sabedoria que fluía para o seu ser. Uma mansão poeirenta na sua mente fora magicamente reaberta para lhe permitir iluminar tesouros inimagináveis que se encontravam no seu interior. Era a liberdade, de facto.

Para onde ia a seguir? Para a casa da mãe. Instantaneamente, Paul estava lá, no rés-do-chão, na cozinha velha e simples. Chávenas e pratos no lava-loiças, uma toalha de chá usada que caíra do cabide, o pequeno-almoço na mesa. E, em cima do armário, uma caixa de chocolates para o aniversário de uma vizinha. Contudo, Paul sabia que não podia estar em casa da mãe, pelo menos não fisicamente, já que a "casa dele" se encontrava a 400 quilómetros de distância, em Connecticut. Mas, apesar disso, ele estava lá.

Paul viu a figura idosa da mãe deitada no quarto no primeiro andar, o corpo de 80 anos a jazer numa posição fetal, a dormir calmamente. Paul via que a energia que mantinha a sua existência na terra estava a enfraquecer. A mãe morreria muito em breve. A compreensão deste facto não o chocou. Havia nisso uma certeza que não lhe causava dor. A chegada dela à terra e a sua partida foram estabelecidas desde o início do tempo. Paul não colocava isso em questão, como o teria feito outrora. Era inevitável.

A seguir, a prisão. A prisão de Alta Segurança surgiu à frente de Paul como se ele caminhasse na sua direcção pela estrada poeirenta. Entrou, os muros já não o impediam. Como a água num oceano, ele viajava com a corrente, sem restrição. Paul estudou os guardas: enquanto conversavam na cantina, enquanto olhavam fixamente os monitores do elaborado sistema de segurança daquele estabelecimento prisional, enquanto comiam, dormiam e defecavam. Era uma testemunha silenciosa dos actos do homem,

Tornara-se um observador.

O Bloco D estava frio e silencioso - o único movimento vinha das câmaras de segurança, que giravam sem ruído sobre os seus eixos. Foi aqui que Paul viu dois guardas que levavam um prisioneiro de uma cela. Era um indivíduo bem constituído, os braços e o corpo muito tatuados. Apesar de algemado e de amordaçado, lutava violentamente nas mãos dos seus captores, que o empurravam ao longo do patamar. Paul reconheceu os guardas; um deles apresentava um olho negro.

A luta aumentou de intensidade. Um guarda bateu com um bastão nas pernas da vítima, que caiu para o chão. Choveram então golpes sobre o seu corpo inconsciente. Finalmente, arrastaram-no para as instalações sanitárias, onde continuaram a espancá-lo. Paul "via-os" na sua viagem pecaminosa. Contudo, não sentia nada - nem ultraje nem vingança. Era apenas uma testemunha espiritual, sem paixões humanas.

Paul passou ao Bloco E, escondido nas profundezas da terra. Nada o podia impedir.

A um canto da sua cela, Karl Kramer dormia. Contraía-se continuamente, talvez apanhado num pesadelo no qual, ele, para variar, era vítima. Então os movimentos pararam e o monstro acordou. Rapidamente, Kramer virou-se na cama e olhou em redor, Na escuridão subterrânea, Kramer não podia ver fisicamente qualquer ser humano. No entanto, tendo descido bem fundo nos caminhos do mal, podia detectar a energia libertada por uma forma espiritual e sabia que estava ali qualquer coisa. O assassino levantou-se com rapidez, e Paul viu o alarme estampado no seu rosto. Kramer deve estar com medo dele.

Mas Paul enganava-se.

Estava ali mais alguém de que Kramer tinha medo.

Paul começou também a experimentar medo. Era um medo diferente do da terra - mais agudo, mais profundo. Um terror que penetrava a própria essência do seu ser. Se um intruso tivesse entrado em sua casa à noite, Paul teria ficado alarmado, mas isto era diferente, mil vezes pior. Esta sensação era como se alguém tentasse entrar no seu próprio ser, no seu próprio espírito. E não era Kramer. De detrás do assassino, na sua cela estreita, noutro plano astral, abriu-se um caminho. Alguma coisa avançava por ele, dirigindo-se a Paul. Uma sombra, implacável e sem misericórdia. Atraída pela moeda.

- Tem cuidado.

A voz encontrava-se tão perto, que estava a seu lado. Imediatamente, a imagem da prisão e de Kramer desapareceu, para ser substituída por outra.

O corpo espiritual de Helen não era como o de Paul, que, para ele, parecia um monocromo acinzentado. Mas o dela - oh, que riqueza, que textura! A imagem dela era a de uma mulher jovem, no final da adolescência, de longos cabelos louros e sedosos. Uma rapariga grega, como as representadas nos vasos antigos. Sem idade e sem tempo.

- É uma visão - disse-lhe Helen, mas tais palavras não saíram dos lábios dela.

- O quê?

- A forma de espírito em que me vês. É a tua percepção de mim. Como a tua própria.

- A minha?

- Sim. Podes mudar a aparência do teu corpo espiritual. De qualquer forma ela mudará à medida que avanças nos planos astrais.

- Como vieste aqui parar?

Ela riu com vontade. Ou melhor, Paul sentiu o riso dela.

- Da mesma maneira que tu, estúpido. Deixei o meu corpo humano.

- Então onde é que eu estou?

- Estás fora do teu corpo, em espírito. No primeiro plano astral.

- Quantos planos astrais há?

- Nove.

- E depois?

- Fome de sabedoria, como sempre. Eu escolhi bem. Digo-te mais tarde, mas agora temos de ir.

- Porquê? Como sabes tudo isso? Porque me trouxeste aqui? - Mil e uma perguntas afluíam à mente de Paul, mas nenhuma resposta chegava.

Inesperadamente, o pano de fundo mudou e ele encontrava-se de novo na cela de Kramer. A presença ameaçadora atrás de Kramer estava muito perto dele, como se pudesse estender a mão e tocá-lo, possuí-lo - de corpo e alma. Contudo Paul não sabia que o espírito que controlava Kramer era exactamente o mesmo da mulher bonita que acabara de se materializar à sua frente. Passado um momento, já não se encontravam na cela da prisão. Em vez disso, estavam num quarto.

- Quem fez isto?

- Eu - disse Helen.

- Você alterou a visão?

- Estava na hora de partirmos.

- Porquê?

Helen ignorou a pergunta.

- Vê onde estás agora. Depois temos de continuar. Tens muito que aprender.

- Aprender?

- Tens uma tarefa a realizar. - Helen sorriu com indulgência. - Comecemos por alguém que conheças no mundo, para te ajudar a perceber a natureza variável da realidade.

Encontravam-se no quarto. Paul observou a figura que dormia. Era Suzanne. Tinha o rosto virado para ele, calma e pacífica no seu sono. Paul contemplou a juventude e inocência das feições dela. Ao lado dela estava um homem deitado. Reconheceu-se a si próprio.

- Não te aproximes do teu próprio corpo físico. Pode ter consequências desastrosas.

- Posso tocar nela?

- Tenta.

Paul tocou Suzanne, mas ela não se mexeu. Helen riu. O pensamento dela tinha uma ressonância trocista e divertida.

- Tens de subir mais alto nos planos astrais antes de poderes influenciar o corpo físico dela - disse Helen, beijando na face a sua amante secreta, e Suzanne mexeu-se ligeiramente. - Estás a ver? Precisas de um poder maior. Com isso atinges cada vez mais estados de realidade. Vamos.

- Aonde? - Paul não gostava do passivo sentido de superioridade dela; era esse o seu próprio defeito na terra.

O cenário mudou. Agora encontravam-se no cimo de uma poderosa queda de água. A água caía em grandes torrentes para um lago lá em baixo. À distância, duas montanhas elevavam-se, rasgando um céu de cor azul-cristal. As encostas das montanhas estavam cobertas de árvores, embora Paul não tivesse ideia de alguma vez as ter visto na terra. Paul não conseguiu detectar quaisquer animais nem sinais de presença humana.

Helen instruía-o.

- Cada ascensão a um plano astral superior é precedida de uma visão. Sem isso não poderás progredir, pois não tens sabedoria nem poder.

- As revelações são iguais para toda a gente?

- Não - disse Helen. - Tal como todas as coisas no mundo do espírito, quanto maior for o conhecimento que possuíres, tanto mais a imagem se desenvolve e desenrola. A realidade não muda, o que muda é a percepção dela.

- Vês o mesmo que eu?

Helen ignorou-o. A sua percepção do inferno não era para ser divulgada. Se ele visse realmente o que ela via, morreria imediatamente.

- Salta.

- Salto? - Do cimo da cascata, Paul olhou para baixo. Por baixo de si agitavam-se violentamente águas cheias de espuma.

Helen disse:

- É apenas uma visão. Passarás ao segundo plano astral, Paul fez uma pausa.

- Não sou capaz.

- És capaz - disse Helen, impaciente. - Nada te pode magoar. Estás simplesmente a passar para outra realidade, como aquela que acabámos de deixar.

Paul sentia-se inseguro.

- O que vês por baixo de ti?

Paul orientou os pensamentos. Centenas de metros abaixo, havia um lago cheio de água. O seu centro era turbulento, mas junto às margens tudo era calmo. Descreveu o que via.

Helen acenou com a cabeça.

- Concentra-te no centro do lago.

Olhando fixamente a água, Paul viu uma luz brilhante que diminuía à medida que se perdia nas profundezas, como um túnel.

- Se eu saltar, morro? Morro fisicamente?

- Não - respondeu Helen. - A moeda proteger-te-á.

- A moeda?

- A moeda que te dei. Tem imenso poder sobre os planos astrais. Temos de continuar. Deixa de ser cobarde senão deixo-te aqui.

Paul saltou.

Quando atingiu o lago, a sua localização mudou. Estava mais uma vez no quarto de Suzanne. No entanto, desta vez havia uma diferença - uma enorme diferença qualitativa. As suas faculdades e emoções humanas tinham regressado a ele, mas, entretanto, tinham-se apurado imensamente, tanto em substância como em intensidade. Como uma central de energia, há muito fora de uso, estes pistões cerebrais colocaram-se em acção a um passo frenético, cada vez mais rápidos, cada vez mais potentes.

Paul gritou de espanto e surpresa. Ouvia e sentia, a voz suave de Helen ressoando através dele.

- A tua percepção continuará a aumentar se me obedeceres. Torna-se muito melhor, muito, muito melhor - disse ela. - Vai, beija-a.

Desta vez, Paul deitou-se ao lado de Suzanne. Parecia que voltava a ter um corpo físico - um corpo que era capaz de experimentar sensações de prazer, mas que, em si, era desprovido de dor ou de stress. Ouvia a suave respiração de Suzanne, sentia o toque macio dos seus lábios vermelhos, podia acariciar o corpo dela, roçar-lhe os seios, sempre sem que Suzanne o sentisse - embora, para ele, as sensações fossem tão reais como se estivesse a fazer amor com ela naquele momento e ali.

A uma ordem de Helen, a visão alterou-se, ao mesmo tempo que ela usava a moeda para o fazer subir nos planos astrais. Encontravam-se agora num pequeno bosque. As árvores, com a sua folhagem espessa e densa, permitiam apenas que fugidios vislumbres de luz penetrassem até ao chão de terra, coberto de um tapete de agulhas de pinheiro, das quais se elevava uma fragrância nauseante. As árvores pareciam antigas, a casca coberta de musgo e trepadeiras. À distância, Paul ouvia o suave trinado do cantar dos pássaros e, à sua volta, havia a mais suave das brisas. Então este é o Elísio Grego, pensou ele. Podia ficar aqui para sempre.

Paul virou-se para Helen, e a sua respiração, e ele tivesse respiração, teria parado. É que perante ele estava Helena de Tróia, ou melhor, tudo o que ele podia imaginar sobre ela. Uma beleza finamente cinzelada, tão perfeita como uma estátua, os mais claros olhos azuis, farto cabelo louro, e tão elegante.

Mais ainda, esta beleza não fora tocada por qualquer imperfeição terrena forjada pela velhice, pelo sofrimento, doença ou morte humanas. Em vez disso, era uma essência espiritual, e, tanto quanto a sua percepção alcançava, o seu ser irradiava um prazer e uma alegria que nenhum esteta ou filósofo poderia alguma vez esperar descrever adequadamente.

Helen sorriu-lhe e os seus olhos dançavam de prazer. As coisas estavam a correr bem.

- A tua visão está a melhorar - comentou ela. - E estás com melhor aspecto, graças a Deus. Não estás tão mal-encarado.

Paul examinou-se. Estava tão diferente do que era na terra. Os seus membros eram dourados, bronzeados por um sol desconhecido, estava ligeiramente mais alto, o peito mais largo. Mas eram os seus olhos, ou melhor, a visão que vinha deles, que atingira a maior mudança. Olhando para fora do bosque, Paul, sem qualquer esforço, olhava por cima de um vasto mar. Havia uma ilha no horizonte remoto, a praia de areia e os bosques sem terem sido tocados pela mão do homem. Paul sentiu uma ânsia desesperada de a visitar.

- Helen, paremos um pouco. Tudo aquilo é real?

- Com certeza. É uma realidade. O universo tem muito mais do que a realidade humana. Tem milhões delas. Que aborrecido que seria se a terra fosse tudo o que existisse.

- Mas eu refiro-me àquela ilha e ao local onde nos encontramos agora? É real?

- Sim, estúpido. Existiu no tempo humano, há muito tempo. Mas isto não é nada. Quero mostrar-te coisas que apenas existiram no plano espiritual. Olha para lá do bosque, nesta direcção - apontou com a mão -, o que vês?

- Vejo um caminho. Serpenteia para as montanhas. Onde é que leva?

- Ao terceiro plano astral. Começa a caminhar.

Helen começou a deslocar-se em direcção ao caminho. No entanto, Paul hesitou. Por isso Helen foi à frente e deteve-se para lá do bosque, à luz ofuscante do Sol. Abriu a túnica, oferecendo-lhe o seu corpo, chamando-o sedutoramente. Com um grito de alegria, Paul lançou-se para fora do bosque, embrenhando-se na luz desconhecida.

Estavam de volta ao pequeno quarto de Suzanne, observando a figura que dormia. Helen disse:

- É toda tua. - E desapareceu da vista dele. Pelo menos, Paul assim pensava, embora, de facto, ela nunca deixasse a moeda, quer no mundo humano quer no mundo espiritual. Era a sua guardiã. Cuidava dela pelo seu senhor.

Paul beijou e abraçou Suzanne. Para ela, era um sonho, a ficção da sua imaginação, mas para ele, nos planos astrais, a sensação de cada beijo e de cada carícia que recebia dela era mil vezes maior do que na terra. Invulgarmente bonito, quente e sensual, o ser de Suzanne fundia-se sem esforço no dele, ao mesmo tempo que o espírito de Paul experimentava um prazer e um estímulo que jamais poderiam ser reproduzidos neste mundo. Era felicidade, e ele ansiava que ela continuasse para sempre. Um sonho perfeito com a proximidade da realidade.

Mas não tinha de ser assim. Demasiado cedo, o espírito de Helen voltou a aparecer.

- Temos de partir. - Com isso, o êxtase de Paul começou a esvanecer-se e a corroer-se. Ele experimentou uma sensação de ser atirado para um túnel negro. Imagens fugidias de um bosque e de uma cascata apareciam indistintamente à sua frente. Então encontrava-se mais uma vez de volta, verdadeiramente de volta, ao quarto de Suzanne.

Acordou sentindo-se violentamente enjoado, com um barulho terrível a ressoar-lhe aos ouvidos. Helen estava a seu lado.

- O que estás aqui a fazer? Onde está Suzanne?

- Ela saiu e deixou-te a dormir. Já é noite e é muito tarde. Tens de voltar para a tua mulher. Ela tem estado à tua espera.

- Mas estou a sonhar ou estou acordado? - Freneticamente, Paul beliscou a sua própria carne. - Estou morto ou estou vivo? - Entrou em pânico. Em que mundo se encontrava? O que estava a acontecer? Como é que Helen entrara no quarto de Suzanne?

- Estás acordado. No teu mundo. Mas tens de impedir a tua mulher de deixar a casa, Paul. Vai para casa agora.

Marie estava de pé no patamar, uma mala feita. Eram duas horas da manhã e Paul ainda não tinha regressado. Estava com outra mulher; era óbvio. Rachel e ela iriam passar a noite em casa de Florence. E depois? Marie estava demasiado cansada para pensar. No entanto, precisava consultar um advogado perito em divórcios.

Havia ainda outra coisa.

O aparecimento do espírito e a levitação de Rachel tinham convencido Marie de que alguma coisa de muito estranho estava a acontecer. O rosário dela, os animais, o comportamento do polícia, a manifestação que ela e Rachel tinham testemunhado; para ela tudo isto constituía uma prova evidente da presença do mal, e Marie apercebia-se de que não tinha meios adequados para se defender contra tal poder.

Sabia também que todas aquelas manifestações estavam de alguma forma relacionadas com Paul, mas não podia adivinhar como.

Ainda amava o marido, apesar dos seus muitos defeitos. Contudo, ela também amava a filha e tinha o dever de a proteger. Por isso tem de escolher.

- Rachel?

A filha estava acordada e sentada na cama.

- Está na hora de irmos - disse Marie, tentando injectar na voz uma falsa nota de brincadeira. - Florence ficará tão feliz por nos ver, não achas?

A criança acenou com a cabeça. Ao contrário da mãe, e com a perceptividade inconsciente de uma criança, Rachel sentia a presença real do mal e as suas manifestações iniciais - as imagens sinistras, os gritos de sofrimento, o terrível medo da morte. Já tinham penetrado na sua mente inconsciente e aterrorizavam-na, De facto, estava na hora de irem.

Juntas, desceram as escadas, prestes a iniciarem a sua viagem para o exílio. Então, num impulso, Marie entrou na sala. Extraindo uma Bíblia de uma estante, abriu-a ao acaso.

- Porquê? Porquê? - murmurou.

Começou a chorar à medida que lia o texto do Livro de Job. Afinal, sempre tinha a ver com Kramer.

- A Mim pertence a vingança, e Eu recompensarei, disse o Senhor.

 

"Primeiro, que os demónios são espíritos... e que o demónio, quer seja muitos ou só um, é uma criatura feita por Deus, e isso por vingança."

                 Reginald Scot, The Discovery of Witchcraft

 

- Cardeal Benelli!

O serão ia avançado e Benelli assistia a um encontro de padres alemães em visita privada ao Vaticano. Rodearam-no numa das salas de conferência, respeitosos, bebendo cada palavra por ele proferida. Benelli gostava destas ocasiões. Não que se deixasse levar por esta falsa adoração... ou será que não era assim?

- Cardeal!

Relutante, vislumbrou a figura magra que se encontrava junto à parede, obscurecida pela tapeçaria medieval.

- Tenho de ir.

Passando, consciente de si mesmo, pelo meio da multidão, Benelli aproximou-se do padre confessor com uma distinta sensação de aborrecimento. Realmente! Ele tinha coisas importantes para fazer, será que o monge não podia abordá-lo numa altura melhor?

- Tenho de lhe falar a sós.

Benelli estudou-lhe o rosto. Albergava não só um olhar sofredor mas também de grande preocupação. Dominou-o uma sensação de mau presságio. O padre confessor conduziu-o rapidamente a uma sala lateral, onde ficaram rodeados por uma escuridão parcial. Estátuas e obras de arte forneciam um cenário sombrio.

- O cardeal Graziani morreu.

- Morreu?!

Benelli estava horrorizado. Sabia que Graziani estivera doente e que não pudera assistir à reunião que tiveram e em que fora contada a história das moedas, mas morto, não! Uma imagem do bondoso homem tremeluziu em frente dos seus olhos.

- Como? Quando?

O padre confessor falou em voz baixa:

- Morreu há apenas 20 minutos. - Fez uma pausa. - Em agonia. Vão anunciar um ataque cardíaco. No fim delirava. Só o Papa e o seu médico estavam presentes.

O comportamento distinto de Benelli de uns minutos antes foi substituído pela consternação. Será que Graziani estaria a ter os mesmos pesadelos que Benelli? A mesma incapacidade de dormir? As mesmas vozes internas, à medida que os espíritos do mal procuravam entrar na sua consciência? Bastou olhar o rosto do padre confessor para ter a certeza. Estavam cercados. Começara.

- Ele mencionou a moeda?

- Sim.

- O que disse ele?

Os olhos do padre confessor nunca abandonaram o rosto do cardeal.

- Disse que virá para Roma, mas não da forma que pensamos. Virá secretamente e sob disfarce.

- O que significa isso? - perguntou Benelli, desesperado. - Ele não disse mais nada? - Porque é que o monge o fixava daquela maneira?

- Não.

- Mas... mas o que acha que ele estava a tentar dizer? O padre confessor ficou em silêncio por um momento.

- Não sei. No passado essas moedas estiveram na posse de homens poderosos, as últimas duas estiveram na posse de pontífices. Desta vez pode ser diferente. Temos de ir agora. O Santo Padre quer vê-lo o mais depressa possível.

Benetli caminhava ao lado do monge. Encontrava-se em estado de choque. De certa forma, ele não acreditara que estas coisas horríveis fossem acontecer.

- E o cardeal Vysinsky?

- Está doente - respondeu o padre confessor. O tom era sombrio.

Subiram juntos as escadas e caminharam apressados através de uma série de aposentos do Vaticano até chegarem ao gabinete privado do Papa. Os pensamentos de Benelli eram confusos e perturbados. Como chefe do Santo Ofício, ele sabia da existência de espíritos malignos e da forma como agiam. Contrariamente à crença popular, raramente apareciam. Em vez disso, procuravam molestar e perturbar a mente humana, e faziam-no com uma subtileza surpreendente, uma subtileza que invariavelmente vencia as suas vítimas pela astúcia.

Imitando a voz interna de seres humanos, desencaminhavam sempre as suas vítimas, agindo com uma virtuosidade não humana sobre as ânsias humanas e o orgulho. "Aquele homem não te insultou", sussurravam eles; "Vinga-te" ou Sê rico, sê poderoso; és muito melhor do que eles"; ou "Apanha o que puderes neste mundo. Mentir, enganar, roubar, trair, tudo faz parte da ordem natural, meu amigo, por isso vai em frente-. As suas ameaças, as suas sugestões, os seus apelos ao mal eram implacáveis e sem conta, de forma que os seres humanos logo pensavam que aquilo era apenas parte do seu processo normal de pensamento. Mas o objectivo final era sempre o mesmo. Falsificar, distorcer, semear a inimizade entre as pessoas. Para que virassem a alma a Deus.

À medida que as suas forças aumentavam na psique humana, o mesmo acontecia com a intensidade da sua persuasão. Odiar, matar, desprezar - estas eram as suas marcas de fábrica, e Benelli conhecia-as bem. Mas o que o surpreendia agora era a forma extraordinária com que podiam paralisar e prejudicar até os mais virtuosos. Se Gra-ziani caíra, não seria ele a próxima vítima destes exércitos da noite?

- Talvez eu deva falar sozinho com o Papa - disse ele ao padre confessor.

Estavam quase a entrar no gabinete privado.

- Eu não o recomendaria - respondeu o monge, contradizendo pela primeira vez o seu colega mais augusto. - Se estivermos divididos, caímos.

Benelli ia responder, mas era demasiado tarde. Entraram na câmara papal e João XXV levantou-se da cadeira. Tinha o rosto contraído e as suas palavras foram breves.

- A situação é muito séria. Cardeal Benelli, ordeno-vos que visiteis a Torre dos Ventos.

Chovia copiosamente e, na escuridão, à medida que Benelli se deslocava através da piazza, o chapéu-de-chuva e as vestes vermelhas eram puxados por um vento de Novembro. Lançou um olhar à Basílica de São Pedro, à sua esquerda, e continuou. Dirigia-se para uma parte do Vaticano quase esquecida e à qual quase ninguém podia ter acesso sem o consentimento expresso do Papa.

Na verdade, o Vaticano era um local estranho e misterioso, reflectiu ele, não só na sua estrutura física, mas também nos segredos que continha. Podia ser justificadamente considerado uma casa de muitos mistérios. Tendo atravessado a piazza, Benelli passou pelas muralhas leoninas, a última defesa contra os invasores sarracenos que, em 846 da nossa era, procuravam o túmulo de São Pedro; em seguida passou pela Porta de Ana, entrando no coração do sector administrativo do Vaticano. Alguns padres encontraram-no en route e inclinaram respeitosamente a cabeça.

Pouco depois, o cardeal Benelli chegou ao pátio conhecido como Pátio do Belvedere. Virou à direita e subiu alguns degraus de pedra. Respirou ofegantemente enquanto o fazia; sentia o peso da idade. Chegado ao cimo, empurrou uma grande porta de madeira e entrou numa biblioteca.

A biblioteca do Vaticano, a biblioteca dos Papas, compreendia uma vasta colecção de mais de 40 quilómetros de registos numa multitude de línguas, alguns dos quais remontavam às próprias fundações da Igreja e muitos dos quais nunca tinham sido lidos pelos eruditos modernos. Benelli avançou ao longo de uma sala enorme. Estava repleta de estantes de livros, o tecto brilhantemente decorado com cenas pintadas por artistas do século XVI. No interior das prateleiras encontravam-se filas cerradas de tomos antigos encadernados em pergaminho, e em cujas capas estavam inscritas à mão pequenas letras em grego e latim.

Quem sabia que tesouros havia ali, ainda para serem descobertos pelo homem moderno? Mapas antigos revelando a localização de igrejas há muito esquecidas, assim como templos e palácios pagãos. Relatórios secretos compilados por eclesiásticos ao longo dos tempos, relatando os acontecimentos políticos do seu tempo, contendo uma mistura judiciosa de bisbilhotice, devoção e preconceito pessoal. Pergaminhos misteriosos que registavam viagens secretas feitas por monges eruditos, na alta Idade Média, em nome do Vaticano e com destino aos grandes impérios chinês e mongol, no Oriente, quando a Igreja procurava determinar se os Apóstolos, e o próprio Nosso Senhor, alguma vez tinham viajado para lá. Finalmente, registos dos grandes desafios da Fé. De heresias e seitas, de bruxaria e demonologia, dos caminhos que ligavam os mundos humano e divino. Mas não eram estes tomos que Benelli procurava.

Ao fim da câmara, o cardeal abriu outra porta e percorreu um corredor estreito e mal iluminado. O que não estava geralmente aberto ao público e o que era muito mais difícil de inspeccionar eram os Arquivos Secretos do Vaticano, Compreendiam mais 13 quilómetros de documentos relacionados com a governação da Igreja, e esta biblioteca, fundada em 1612 como uma instituição de direito, estava separada da biblioteca do Vaticano propriamente dita. Os Arquivos Secretos podiam apenas ser visitados com a aprovação do prefeito, como era designado o bibliotecário principal da biblioteca do Vaticano. Este privilégio era apenas concedido (e raramente) a eruditos teólogos com o objectivo de realizarem uma pesquisa específica. Não era permitido deambular por ali.

No fim do corredor, Benelli chegou a um gabinete onde se via uma luz solitária. O prefeito levantou-se quando o cardeal entrou. A sala era pequena e estreita; um gabinete revestido a mogno e forrado de livros. De detrás de uma secretária, um grande quadro da Virgem Maria olhava serenamente para baixo. O prefeito era um indivíduo magro e seco. Com a idade, o seu rosto tornara-se tão enrugado como um pergaminho usado, o perfeito contraste do corpulento cardeal.

Eram 11 horas da noite e há muito que a biblioteca fechara. No entanto, o prefeito recebera ordens para esperar a visita do chefe da Inquisição, o título antigo pelo qual preferia pensar em Benelli.

- Cardeal. - O bibliotecário inclinou ligeiramente a cabeça em sinal de reverência. De debaixo das vestes, Benelli extraiu uma carta.

- Está aqui a ordem papal.

O prefeito olhou para a assinatura e para o selo do actual pontífice. Em seguida leu a carta escrita em latim. não havia qualquer dúvida em relação à sua autenticidade e ao seu intento. O prefeito comprimiu os lábios. Dobrou a missiva e devolveu-a a Benelli.

Normalmente, a Torre dos Ventos, o lugar sagrado mais interior dos Arquivos Secretos, era o seu domínio. Só o bibliotecário principal podia lá entrar - e unicamente com o propósito de assegurar que os livros que lá se encontravam estavam adequadamente protegidos contra o fogo e a água. Não tinha autoridade para ler qualquer obra existente na Torre e, ao contrário dos seus antecessores medievais, este prefeito nunca tentara fazê-lo, obedecendo, como sempre fazia, às ordens do seu soberano, o Papa.

- Acompanhá-lo-ei até ao fundo das escadas - disse o prefeito. - Precisaremos de uma lanterna. - Abriu uma gaveta da sua secretária e tirou uma. Deixando o escritório, o par partiu pelo corredor, sem trocar uma única palavra. Cada um seguia embrenhado nos seus próprios pensamentos. Pouco depois, a luz que emanava do aposento privado do prefeito, perdeu-se. Caminhavam na escuridão, apenas com um raio de luz saído de um lápis para os acompanhar.

Depois de abrirem uma porta com uma chave, entraram na parte principal dos Arquivos Secretos. Essencialmente, esta parte compreendia dois longos corredores sem janelas, cada um deles cheio, estante após estante, de documentos atados e que se elevavam do chão até ao tecto. Um destes corredores levava à base da Torre dos Ventos.

Os passos do prefeito e do cardeal ecoavam sobre a pedra silenciosa. Enquanto caminhavam, passaram por quilómetros de registos que se estendiam até à noite dos tempos antigos. Registos do Senado de Cardeais que aconselhara o Papa desde o século XVI. Registos da Rota Sagrada, um dos tribunais eclesiásticos. Os Registos de Petições, sete mil volumes de pedidos feitos ao Papa por suplicantes de toda a Europa medieval.

Finalmente, o prefeito e o cardeal pararam. À sua frente havia duas portas. Por detrás de uma delas encontrava-se um enorme cofre-forte que continha alguns dos mais importantes documentos do Vaticano e que tratavam de acontecimentos políticos e religiosos de séculos passados, quando o poder temporal da Igreja era muito maior do que é hoje. O prefeito deteve-se em frente da outra porta. Era de carvalho, gasto e muito velho.

- Esperarei aqui, cardeal Benelli. A Torre dos Ventos está à sua frente.

O prefeito abriu a porta com uma chave velha e passou a lanterna a Benelli. Olhou o rosto ansioso do cardeal à luz do feixe.

Intrigava-o o motivo por que uma pessoa tão iminente teria querido ir ali àquela hora tardia. Em particular a este lugar - um lugar tão estranho que o próprio prefeito nunca ousava ali entrar, excepto à luz do dia. Mas quem era um simples bibliotecário para pôr em questão as ordens do pontífice? Que seja feita a vontade de Deus.

Benelli pegou na lanterna e começou a subir a escada de caracol, os sapatos raspando levemente a pedra. O prefeito viu-o partir, a luz desaparecendo numa obscuridade estígia. O cardeal tropeçou uma série de vezes enquanto subia. Encontrava-se agora na secção mais velha dos Arquivos e a menos visitada. Aqui guardavam-se os documentos da Igreja mais antigos e mais problemáticos, muitos em código, dirigidos apenas aos olhos do Papa ou do seu representante especialmente nomeado. Incluíam nada menos do que 5000 Registos Papais, contendo cópias manuscritas das cartas oficiais dos Papas, assim como pormenores íntimos sobre a vida dos pontífices, escritos por historiadores papais especialmente aprovados.

A escada era íngreme e estreita, pois a Torre não tinha elevador. Também não tinha luzes, estando assim protegida contra incêndios e ladrões. Consequentemente, nunca era visitada de noite. Nunca? Bem, apenas quando as circunstâncias eram completamente excepcionais.

Finalmente, o cardeal Benelli chegou ao cimo das escadas. Encontrava-se 20 metros acima do solo. Fez uma pausa para recuperar o fôlego. O ar tinha um cheiro a bafio e a humidade. Estava também um escuro de breu. Benelli atravessou a soleira e entrou na Sala do Meridiano.

A sala fora assim denominada porque fora construída como observatório astronómico - embora não para Galileu, cuja confissão assinada de que a terra não girava à volta do Sol se situava noutra parte da biblioteca do Vaticano. Benelli baixou a lanterna. Gravado no chão estava um desenho do zodíaco orientado para mostrar os raios do Sol que mal entravam por uma fresta na parede. Foi aqui que os cálculos para o calendário Gregoriano tinham sido feitos em 1580.

No centro da Sala do Meridiano encontrava-se uma pequena mesa. Benelli pousou a lanterna e olhou em redor. Presas aos muros com correntes estavam várias arcas de ferro concebidas à moda do século XIV, Cada uma delas tinha um pesado e feio cadeado. No interior destas arcas encontravam-se alguns dos documentos mais desesperantes da história da Igreja, suavemente descritos nos Arquivos Secretos da biblioteca como "Miscelânea". Arcas cheias de intriga política e religiosa, de julgamentos por bruxaria e magia negra, de escândalos que envolviam as vidas privadas dos Papas, Segredos. Segredos negros.

Benelli suspirou. Extraiu do bolso um crucifixo de prata que o Papa lhe dera nesse serão. Brilhava à luz da lanterna. Sentiu-se confortado e disse uma breve oração. Então dirigiu-se às arcas. O Papa dissera-lhe em qual devia procurar e fornecera-lhe uma chave. Benelli ajoelhou-se ao lado de uma delas. À medida que o fazia, sentiu os pêlos eriçarem-se-lhe na nuca. Não estava sozinho. Não era uma presença humana mas cósmica.

Chegara um observador.

Abrindo a tampa da arca, Benelli espreitou para o interior. Havia muitos fólios, em cima uns dos outros, manchados pelo tempo. Nas suas encadernações brancas de velino estavam estampados títulos em grego com várias cifras e datas marcadas por baixo. Os títulos eram deliberadamente enigmáticos para que os bibliotecários não soubessem o que os fólios continham.

Após uma curta busca, Benelli seleccionou o volume que procurava. Tinha quase 60 centímetros de largura, como um grande livro de registos. Benelli levou-o para a mesa e sentou-se. Ninguém lera este tomo durante mais de 500 anos. Isso era atestado pelo grande selo que o Papa Sisto IV lhe afixara em 1476, e que o actual Papa lhe ordenara que quebrasse. Benelli colocou a mão sobre o volume. Em seguida fechou os olhos e disse de si para si as primeiras linhas de uma oração de exorcismo: "Não te lembres, Senhor, das nossas ofensas, nem das ofensas dos nossos antepassados, nem te vingues dos nossos pecadas."

À sua volta a sala tornou-se mais fria. Benelli sentia agora na sala a presença de espíritos malignos, mas não os via. Revelar-se-lhe-iam se o desejassem. Benelli inclinou-se para a frente para beijar o crucifixo. Finalmente, abriu o livro. Era um relatório sobre bruxaria. Contudo, era um relatório bastante diferente de qualquer outro na história da Igreja, pois tratava-se de um relatório sobre bruxaria praticada por um homem de facto muito poderoso. O próprio Vigário de Cristo.

O Papa Silvestre II.

 

Gerbert de Aurillac nascera no ano de 940 da nossa era e fora educado no Mosteiro Beneditino de Aurillac, em França, e depois em Espanha. Desde a juventude que o distinguia um grande talento para a sabedoria e para a aprendizagem. Em 991 tornou-se bispo de Reims, e em seguida arcebispo de Ravena. Finalmente, no infeliz ano de 999, foi consagrado Papa, adoptando o título de Papa Silvestre II.

O Papa Silvestre II era um homem estranho, segundo todos os relatos. Perito em Lógica e em Matemática, era também profundamente versado na sabedoria e magia do Oriente, que aprendera quando estudara na Espanha mourisca.

Atribuiu-se a Silvestre a introdução do sistema de numeração árabe na Europa e a invenção do relógio de pêndulo. No entanto, desde o início do seu papado, ele adquiriu igualmente uma terrível reputação pela prática de bruxaria. A sua notoriedade era tal que por toda a Europa circularam rumores registados por historiadores da Igreja e curiosos muito depois da sua morte.

Foi nada menos que Bartolomeu Platina, o famoso bibliotecário do Vaticano que, na sua obra Vidas dos Papas, publicada em 1479, afirmou solenemente:

Silvestre II... extraordinariamente ajudado pelo demónio, conseguiu o papado na condição de, então, se entregar completamente ao demónio, com a ajuda do qual chegara a tão grande dignidade.

Platina adquirira esta informação ao pesquisar secretamente neste mesmo livro que o cardeal Benelli estava prestes a ler. Por ter revelado tais segredos, foi castigado e o Papa do tempo, Sisto IV, ordenou o encerramento desta parte dos Arquivos Secretos, até para os seus bibliotecários. O Papa colocou o seu selo no próprio livro, declarando o castigo de morte a quem tentasse abri-lo sem a expressa autorização de um pontífice. Porquê uma tal medida draconiana? O fólio continha não só uma descrição da vida do Papa Silvestre II, mas também a sua última confissão.

Um princípio central da Igreja consistia em que uma confissão feita por uma pessoa no seu leito de morte era feita na presença de Deus e que não devia jamais ser revelada a outro ser humano. No caso de Silvestre II, no entanto, a Igreja fora forçada a abrir uma excepção muito rara, por duas razões.

A primeira era que se desconhecia se a última confissão do Papa Silvestre II fora feita na presença de Deus ou do demónio.

A segunda era que Silvestre II possuíra a última Moeda de Judas que viera ao mundo.

Benelli quebrou os selos do livro e começou a ler as minúsculas letras do cronista eclesiástico.

Era um conto assustador. Sobre as acusações contra o Papa Silvestre II e o seu tráfico de magia negra. Sobre os poderes extraordinários que se dizia que ele possuía e sobre a sua capacidade de vencer pela astúcia e de destruir os seus inimigos. Sobre os espíritos que ele era capaz de comandar e sobre um grande cão negro que o seguia sempre. Sobre o seu fim e o seu enterro no exterior da Igreja de Latrão, em Roma, em vez da Basílica de São Pedro.

Um escritor resumia a lenda assim:

[Silvestre II] vendeu a alma a Satanás, efoi recompensado ao tornar-se Papa. Tendo subido ao poder e abusado dele de uma forma chocante, Silvestre II estava naturalmente ansioso por saber quanto tempo viveria para gozar os prazeres do seu cargo. A resposta, a julgar pelas aparências, foi animadora ao extremo. Desde que ele se abstivesse de celebrar missa solene em Jerusalém, não tinha nada a temer.

Homem prevenido vale por dois. Silvestre II tinha pouca dificuldade em emitir uma ordem para si próprio, impedindo-se de visitar a Terra Santa, assim como em entregar-se de todo o coração a uma vida perversa e luxuosa. Mas quem lida com o mal tem de ter todo o cuidado. Ao administrar o sacramento numa igreja de Roma que não lhe era familiar, o perverso Papa sentiu a sua força a diminuir rapidamente, apercebendo-se também de que estava rodeado de demónios por todos os lados. Ao ouvir que o nome da igreja era Santa Cruz de Jerusalém, percebeu que tinha sido enganado e que a sua hora estava a chegar.

O choque despedaçou-o. Logo ali e naquele momento fez uma confissão aberta da sua culpa, e pronunciou os avisos mais solenes e comoventes contra as relações com espíritos malignos. Ordenou então que... após a sua morte, o seu corpo fosse colocado sobre um carro funerário de madeira verde, puxado por dois cavalos virgens, um branco e o outro preto...

Grande foi a sensação quando esta estranha procissão fúnebre se aproximou da Igreja de Latrão; maior ainda foi o terror quando gritos e gemidos em voz alta se ouviam, vindos do caixão. Então caiu um silêncio de morte e Silvestre IIfoi colocado no seu descanso.

Benelli continuou a ler, ansioso por ver se este Papa, durante a sua vida, tinha, de alguma forma, tentado refutar estas acusações venenosas de que era alvo. Enquanto o fazia, o cardeal sentiu uma movimentação de ar na sala. Subia pela escada como um vento norte e começou a enrugar as páginas do livro. Estendeu a mão e levantou o crucifixo de prata. A brisa sucumbiu. Em seguida apareceu na escada uma centelha de luz. Benelli sabia que não poderia demorar-se ali muito tempo. Dentro de pouco tempo, outros poderes, mais fortes do que os observadores, viriam. Começou a ler a confissão.

Eu, Simão de Lyon, monge da Ordem de São Bene-dict, faço este relato no ano de Nosso Senhor de 1003-Em 12 de Maio, foi-me ordenado que assistisse ao Santo Padre, Silvestre II, que estava a morrer nos aposentos do Vaticano. Assim fiz, e repito agora a natureza da última Confissão proferida por aquele pobre homem.

Enquanto lia, Benelli ficou angustiado até às profundezas da sua alma. É que a última confissão do Papa era terrível - uma confissão do tipo que a própria Igreja não deve ter ouvido desde que Judas devolveu as 30 moedas de prata, atirando-as para os degraus do templo.

O Papa Silvestre II confessou que adquirira, de um misterioso mendigo, uma moeda que, como ele depressa viria a descobrir, devido ao seu imenso poder cósmico, era uma das 30 moedas de prata que Judas Iscariotes recebera como dinheiro sujo de sangue pela traição do seu Salvador. O Papa contou também que existiam no mundo mais três Moedas de Judas - cada uma delas mais terrível do que a anterior.

O monge a quem foi feita a confissão de Silvestre contava que, nos seus últimos momentos na terra e no exercício da sua autoridade como Papa, Silvestre, moribundo, ordenou que a Moeda de Judas em seu poder fosse enterrada com ele e que de forma alguma deveria ser colocada no túmulo de São Pedro. Mas porquê? Não havia explicação.

O registo oficial das últimas palavras do Papa Silvestre II foi inserido na obra Vidas dos Papas, compilada pelo bibliotecário Barto-lomeu Platina. Silvestre ordenou que o seu cadáver fosse cortado em pedaços, dizendo:

Deixar que receba os serviços dos meus membros aquele que antes procurou a sua obediência; pois a minha mente nunca concordou com esse juramento, ou melhor, essa aberração.

No entanto, Benelli via agora que estas não foram as suas últimas palavras. O moribundo dissera algo mais, algo nunca revelado ao mundo, mas apenas ao seu confessor. Benelli leu essas últimas palavras. E em seguida recostou-se na cadeira, em estado de choque. Quando o Papa Silvestre II as proferira, teria sido movido pelo espírito de Deus ou pelos embustes do demónio? As suas últimas palavras seriam um truque ou a verdade absoluta?

De súbito, Benelli levantou-se. À entrada da Sala do Meridiano materializou-se um cão monstruoso. Aproximava-se devagar, os maxilares abertos num rosnar de fera. Benelli ergueu o crucifixo de prata por cima da cabeça e gritou: Exorciso te immunde spiritus.

Não aconteceu nada. Em seguida o animal desapareceu. Apressadamente, Benelli voltou a fechar o livro à chave no interior da arca e deixou a sala. Quando começava a descer as escadas, a lanterna apagou-se.

- Cardeal, está bem? - gritou ansiosamente o prefeito da base da Torre.

Não houve resposta, pois Benelli estava ocupado. A medida que descia as escadas, viu a sombra que se começava a formar apenas alguns degraus atrás de si. Tinha corpo de homem, mas o rosto era de demónio, e estava banhado numa luz amarela, espectral, Tinha na testa a marca do poder satânico. Aterrorizado, o cardeal levantou o crucifixo e gritou:

- Ordeno-te, espírito do mal...

Nesse instante, uma força assassina atirou Benelli pelos degraus de pedra abaixo. Ao cair, o cardeal soltou um grito. Finalmente, estava estendido na base da Torre, o tornozelo torcido por baixo dele, a cabeça ferida.

- Cardeal! - O prefeito procurava a lanterna. Emitia uma luz fraca. Olhou, em pânico, para o rosto contraído do companheiro, o sangue a escorrer de uma ferida na cabeça. O prefeito, assustado, inclinou-se sobre o seu corpo.

- Vou buscar ajuda.

- Não - disse Benelli, numa voz rouca. E sussurrou para si próprio: Não vá, senão ele mata-me. E em seguida: - Temos de sair daqui. Não há tempo a perder. Ajude-me a levantar.

Apressadamente, o prefeito fechou à chave a porta que dava acesso à Torre. Antes que ele o fizesse, Benelli amarrou o crucifixo de prata do lado de dentro. Juntos, passaram pelos Arquivos Secretos, entrando depois na biblioteca do Vaticano propriamente dita. O prefeito não parava de exprimir a sua preocupação sobre o tornozelo de Benelli, mas a mente do cardeal estava concentrada noutras coisas.

Ainda em estado de choque, Benelli recordou as últimas palavras que lera na Confissão de Silvestre II. É que aquele Papa murmurara mais algumas palavras ao seu confessor, quando se encontrava no seu leito de morte, após a administração da extrema unção. As suas últimas palavras na terra. Uma profecia terrível:

Nenhum ser vivo pode resistir às últimas três moedas. Se uma delas se encontrar na posse da pessoa mais próxima do Papa, a Igreja cairá.

O cardeal Benelli começou a chorar. Havia apenas uma pessoa no Vaticano sobre a qual se poderia dizer que estava mais próxima do Papa.

Ele próprio.

 

"Todos os teólogos falam de... espíritos malignos que aparecem sob a forma de um homem, de uma mulher ou de algum animal. Essa é uma presença real ou verdadeira, ouéo efeito da imaginação."

           Bouvier, Bispo de LeMairis, Dissertatio in Sextum Decalogi Praeceptum

 

Paul acordou na sua própria casa. Estendeu-se na cama e apercebeu-se de que a mulher não estava lá. Não havia razão para se preocupar. Ela fora com Rachel passar a noite em casa de Florence e deixara um bilhete; já acontecera antes.

Reflectiu com prazer sobre as suas actividades sexuais com Suzanne na noite anterior. Regressara tarde e fora um golpe de sorte o facto de Marie não estar lá - mesmo embora Helen lhe tivesse dito para a manter em casa. A mente de Paul virou-se para assuntos mais desagradáveis, O que devia ele fazer em relação a Marie? O divórcio era provável. E Rachel?

- Olá!

A sua sequência de pensamento estremeceu e Paul olhou na direcção da porta da casa de banho. Ela estava de pé, à luz da manhã, vestida com a mesma túnica que ele vira quando tinham visitado o bosque, no terceiro plano astral, embora as suas feições não imitassem a perfeição dos sonhos dele. Estaria ele acordado ou a sonhar ainda?

- Não te lembras? - Helen virou-se e desapareceu. Ele pestanejou.

- Paul - Helen voltara a aparecer no quarto.

- Como é possível que faças isso? Porque é que eu não posso?

- Porque - disse Helen - tens de subir muito mais alto nos planos astrais antes que os teus corpos físicos e espirituais possam aparecer em locais diferentes ao mesmo tempo. A bilocação necessita de alguma prática, como os santos descobriram. Queres aprender?

Helen lançou-lhe um olhar inquiridor. Se ao menos ele compreendesse a verdadeira natureza da moeda. Mas não podem levantar as suas suspeitas antes de terem ganho um maior domínio sobre ele. As forças do Senhor do Campo de Sangue estavam a infiltrar-se na sua alma.

- Qual dos teus corpos é que eu estou a ver?

- O meu corpo espiritual, é claro - disse Helen com ar satisfeito. - O meu corpo físico está enfiado na cama. Esse não pode atravessar paredes.

- O teu corpo físico?

- Digamos que é um corpo que eu pedi emprestado por algum tempo.

Paul fixava-a de olhos esbugalhados. Ele não estava apenas a falar com uma invenção da sua imaginação. Pensou, tentando manter-se calmo.

- Paul, é real - disse Helen, impaciente. - Isto não é um sonho, nem a tua imaginação. Estás acordado e é real. Estás a ver o meu corpo espiritual, tal como viste quando Kramer atacou a rapariga. É uma realidade diferente daquela que experimentaste antes, mas continua a ser uma realidade.

- Mas porque é que os outros não vêem o que eu vejo?

- Porque é a moeda que te dá o poder. De outra forma, ser-te-ia impossível, pois precisas de ter uma fé profunda nos assuntos espirituais.

- Como sabes tudo isso? Quem és tu?

- Mais tarde, mais tarde - disse Helen, petulante. - Vês-me, E a tua mulher e filha também, já que escolhi deliberadamente revelar-me a elas. Não penso grande coisa de Marie, a propósito, precisas de uma mulher menos religiosa e mais corajosa. - Atirou-lhe um beijo superficial. - Tenho em mente a pessoa ideal para ti.

Paul continuava a fixá-la, ainda não completamente convencido. Helen resmungou. Mostra-se um milagre a um ser humano e a primeira coisa que fazia era pô-lo em questão. Não se apercebiam eles de que eram a mais estúpida das criações de Deus?

- Está bem, se ainda quiseres provas, meu estúpido, porque não contactas a tua mãe? Visitaste a casa dela ontem à noite ou não?

Com isso, ela desapareceu. Paul pegou no telefone.

Foram necessários apenas dez minutos para que a sua compreensão da realidade mudasse dramaticamente. Dez minutos e a sua visão mecanística do universo, todos os teoremas, regras e medidas humanos - tudo caiu em volta dos seus ouvidos, como o tinir de vidro quebrado.

Paul falou com a sua idosa mãe. A quatro mil quilómetros de distância, numa voz perplexa, ela confirmou tudo o que ele testemunhara na noite anterior. O frasco de comprimidos junto à cama, a toalha que escorregara para o chão, a pequena caixa de chocolates que ela embrulhara tão cuidadosamente para dar de presente à vizinha do lado - pormenores que lhe era impossível a ele ter conhecido previamente, ou visto, através de qualquer cálculo humano.

Paul pousou o auscultador e entrou na casa de banho. À medida que enterrava a cabeça debaixo do chuveiro, pensou no que lhe poderia estar a acontecer. Um pensamento aflorou-lhe ao espírito. Lembrou-se de um livro que lera há muitos anos, quando era estudante.

Entre outras coisas, o seu autor afirmara que as experiências místicas, sendo paranormais, não podiam nunca ser adequadamente descritas a uma terceira pessoa: tinham de ser experimentadas pessoalmente. Para além disso, forneciam um discernimento surpreendente da natureza mais profunda do cosmos - uma tomada de consciência de que o intelecto humano não estava sequer a tocar a superfície das coisas. Finalmente, o escritor afirmara que essas experiências eram invariavelmente passivas por natureza - continham a sensação de serem dominadas por um poder superior.

- Raios - Paul deixara cair o sabonete, Baixou-se e apanhou-o. Era curioso que a maior parte dos místicos, cristãos e outros, eram inflexíveis ao afirmarem que as suas experiências do céu e do inferno se encontravam no interior da psique humana e não no exterior. Por vezes os seus estados de transe eram também acompanhados de aparições sobrenaturais ou profecias.

Paul estendeu a mão para chegar à toalha e saiu do duche. Sempre acreditara que as pessoas que falavam destas coisas eram, muito simplesmente, alucinadas. No entanto, quando lera aquele livro, Paul ficara consciente de que os místicos e os santos eram muito consistentes nas suas alucinações, o que não era comum. Mas que outra coisa tinha ele testemunhado na noite passada que podia provar a existência do mundo espiritual?

Paul não tomou o pequeno-almoço. Embalando o motor do carro, arrancou precipitadamente. Ao final da rua, ligou o pisca para virar à direita, para a universidade, uma vez que tinha uma prelecção sobre análise freudiana às nove horas e já estava atrasado. Então, num impulso, guinou repentinamente o volante para a esquerda. Tinha outro compromisso; acabara de decidir.

- Prisioneiro no Bloco D, cela número 25.

O guarda da prisão de Alta Segurança verificou-lhe a identidade e marcou com um pequeno sinal uma lista de pessoas autorizadas.

- Com certeza, professor.

Paul sentou-se numa das salas de espera da prisão. O guarda regressou uns minutos depois, acompanhado por Emma Breck, e esboçou um sorriso insípido.

- Receio que hoje não seja possível. O prisioneiro adoeceu.

- Quero vê-lo.

O guarda olhou para Breck e depois para Paul.

- Lamento. Como eu disse, ele está doente, está na enfermaria.

- Chame Pat Harbison.

O guarda encolheu os ombros e deixou a sala. Emma Breck observou calmamente:

- Paul, há muitos anos que somos amigos. Sugiro que deixes este prisioneiro especial durante uns dias. Há mais alguém que gostasses de visitar?

Ele escrutinou a expressão dela.

- Sabes o que aconteceu, não sabes? - Nesse momento Harbison entrou.

- Queria falar comigo? - O tom era afável e despreocupado.

- Sim - disse Paul, tornando o tom da sua voz igualmente bem-disposto. - Quero conversar consigo sobre o estado do prisioneiro da cela número 25. A noite passada, você e dois guardas, Williams e Barlansky, tiraram-no da cela, amarrado e amordaçado. A meio do corredor, Williams golpeou-lhe a parte traseira das pernas com um bastão, e quando ele estava no chão, inconsciente, todos lhe bateram. Eu queria só perguntar: gostaram?

Harbison ficou de boca aberta, dominado pela surpresa. Finalmente, fechou a boca e a sua contenção traiu a sua fúria. Aquele sacana do Williams deve ter falado de mais.

- Isso não é da sua conta - disse ele com rispidez. Atirando a cadeira para trás, saiu da sala.

- Paul, acho que não devias ter dito aquilo - disse Emma Breck, pondo fim ao longo silêncio que se seguiu. - Estás a perder as boas graças aqui junto das pessoas do topo. Há muita coisa que acontece aqui que devem ficar por revelar. Tem cuidado.

- Mas é verdade?

Ela acenou rapidamente com a cabeça.

- Disseram que o prisioneiro os atacou quando o tiraram da cela. Foi mentira. Ele estava tão afectado pelos sedativos que lhe dei nessa tarde que não poderia ter levantado um dedo.

- Então porque o fizeram?

- Antes disso ele atacara um guarda, foi a forma que encontraram de lhe dar uma lição. - Emma Breck colocou a mão sobre a mão de Paul. - Segue o meu conselho. Vai-te agora embora. Deixa as coisas arrefecerem por um tempo, está bem?

Paul foi-se embora. Junto aos portões, o subdirector encontrou-o. Tinha um curto recado de Hanlon Dawes.

- O director ordena-lhe que tire uma licença de três meses aqui da prisão. Lamento. - Ele gostava do psiquiatra.

- Compreendo. - Paul entrou no carro sem dizer uma palavra. Iniciou o caminho de regresso pela estrada de um só sentido. Tinha de voltar a falar com Kramer, pois, para além dele próprio, o prisioneiro era a única pessoa que via Helen e que obviamente sabia alguma coisa sobre ela e os seus poderes. Paul havia de regressar ali, independentemente do que dissessem as autoridades da prisão.

Mas ele voltaria da forma que eles menos esperavam.

Florence Ingelmann contemplava Marie. Estava muito preocupada. Alguma coisa de errado se passava com a sua amiga mais íntima. No entanto, Marie recusara contar-lhe o que era, apesar das perguntas persistentes mas amáveis de Florence. O sobrolho franzido traía a profunda tristeza e a ansiedade de Marie. Ela falava sempre de tudo com Florence. Porque não agora? Devia ter alguma coisa a ver com Paul ou Rachel, certamente...

- Preferes que desistamos das nossas férias na estância de esqui? Podíamos adiá-las por um dia ou dois - disse Florence - ou até cancelá-las. - Encheu outra chávena de café. Verdade seja dita, ela estava um pouco nervosa em relação ao esqui.

- Não, vão. - Marie hesitou. - Mas se eu vos telefonar, vocês regressam?

- Com certeza. Ajudar-vos-emos sempre a ambos, sabes bem disso.

Marie acenou com a cabeça.

- Obrigada - disse, quase num sussurro.

Ambas olharam na direcção da menina que estava à porta, com a sua figura débil e ongos cabelos louros. Se elas pudessem agora testemunhar a cena como Paul o fazia, teriam visto ondas de luz brilhante a fluírem entre a mãe e a filha, reflectindo o seu amor e afecto incondicionais. Teriam também visto o amor que Florence sentia por ambas. Desde que Florence estivesse presente, defendê-las-ia até à morte.

- Temos de ir - disse Marie.

- Compreendo - disse Florence. Rachel chegaria atrasada à escola. Unido, o pequeno grupo dirigiu-se à porta da frente e caminhou para o carro. Florence beijou Rachel mais uma vez, apertando-a ardentemente contra o peito generoso. - Até breve, minha querida - disse ela. Depois, movida por um incitamento inconsciente (e pela sua completa incapacidade de se manter em suspense em relação a alguma coisa), exclamou: - É sobre Paul, não é?

Lágrimas formaram-se nos olhos de Marie.

- Ele está doente? Muito doente? Marie acenou com a cabeça.

- Mas não podes dizer nada a ninguém.

Florence viu o carro partir até desaparecer da sua vista. A melancolia apoderara-se dela. Talvez ele tivesse um cancro. Talvez estivesse a morrer. Relutantemente, começou a fazer as malas para ir de férias. Um pensamento corroía a sua mente emocional.

Será que devia contar a Ben sobre a doença de Paul? Seria ela alguma vez capaz de guardar um segredo?

O objecto da preocupação de Florence regressou da prisão de Alta Segurança à clínica, Ben abordou-o mal ele entrou. Tinha o rosto corado e zangado, um facto raríssimo.

- Paul, o que se passa? Esqueceste que tinhas uma reunião com aquele actor de Hollywood e com o filho? Estão aqui à espera há mais de uma hora e estão furiosos. Estão a ameaçar com processos judiciais e tudo. A universidade também telefonou para saber onde estavas por causa das prelecções da manhã. O que está a acontecer? E é suposto que eu vá de férias esta tarde.

Paul ignorou-o. Foi directamente para a sala de conferências. Toni Brennan estava lá, juntamente com o filho e o empresário. Quando uma audiência se aproximava, o actor dava início à sua mais refinada representação tespiana. Passara a última hora a polir as arestas.

- Onde diabo é que tem estado, heim? Para que raio é que pensa que lhe estou a pagar? Quem diabo pensa que é? - Estava a transbordar, a ira e o rancor a ejacularem dele em grandes torrentes. Se ao menos ele tivesse sido capaz de actuar assim no ecrã, teria ganho um Oscar pelo retrato exacto de um actor toxicodependente caindo sobre si próprio.

- Cale-se - disse Paul.

Então aconteceu uma coisa verdadeiramente estranha. Toni Brennan calou-se. Até o filho e o advogado olharam Paul completamente surpreendidos. Estavam a testemunhar um milagre qualquer.

- Vou falar com o seu filho.

- Foda-se! - disse Julian quando caminhavam para uma sala de conferências separada. - Como é que você fez aquilo? Eu não sou capaz de fazer com que ele se cale. Você deve ter-lhe dado um tiro no traseiro.

- Mais ou menos - disse Paul. Ele também não sabia como conseguira calar o actor, mas sabia que, fosse qual fosse o poder que tinha dentro de si, estava a crescer, e ele gostava disso. - Só tenho uma pergunta para te fazer. Incendiaste a tua escola?

- É claro que não.

- Estou a ver - Paul conseguia discernir as sensações que vinham dele e sabia agora interpretá-las com facilidade. Sabia que o rapaz estava a mentir.

- É tudo o que tenho a dizer - continuou Julian.

- Volto daqui a um minuto - disse Paul, despreocupado. Foi ao seu escritório e fechou a porta. Precisava de descobrir qual era o verdadeiro problema com este lastimável espécimen de adolescente.

Helen dissera a Paul que a moeda que ela lhe dera tinha imenso poder. Tirou-a do bolso. Parecia uma antiga moeda romana. Era estranho que ele fosse capaz de a localizar apenas em certas ocasiões. Noutras ocasiões era como se ele se tivesse esquecido da sua existência. Fechou os olhos.

Lentamente, uma visão veio até ele. Embora Paul não o soubesse, Helen encontrava-se a seu lado quando isto estava a acontecer, pois era a influência dela, e não a dele, que fazia funcionar a moeda.

À medida que a forma espiritual de Paul deixava rapidamente o seu corpo, a sua visão interna ficou mais clara. Encontrava-se dentro de uma casa. Era a casa de Toni Brennan: uma enorme mansão, espalhafatosamente decorada com tapetes cor-de-rosa no chão e papel de parede cor de pulga. Nada que não se esperasse. O gosto de Toni Brennan era tão escasso como o seu talento.

Paul subiu as escadas. Ou melhor, as escadas apareciam perante os seus olhos como se ele se encontrasse num círculo, enquanto as coisas apareciam à sua vista. Agora estava no patamar. Via o quarto de casal no qual o actor estava acostumado a dormir com uma das suas muitas namoradas. O quarto do rapaz era ao fundo do corredor.

O quarto de Julian era grande e de forma rectangular. Dava para um espaçoso campo relvado. Os estores estavam corridos e o Sol infiltrava-se através dos orifícios, apanhando no seu feixe de raios uma névoa de partículas de pó. Ao meio do quarto havia uma cama de casal com um edredão amarrotado a um canto. O local não era limpo há semanas e, no chão, via-se uma montanha de sapatos, de livros de banda desenhada e de roupa. As paredes estavam forradas de cartazes de mulheres nuas. Julian ia ser como o pai: um adolescente rebelde que depressa se tornaria num jovem autodestrutivo. - Precisas de voltar atrás.

Paul virou-se. Helen encontrava-se à entrada do quarto, com uma curta túnica grega, o cabelo louro e comprido e o rosto dolorosamente bonito a brilharem com uma luz cósmica.

- Precisas de voltar atrás - disse ela, embora tais palavras não tivessem saído da sua boca. - Sei o que procuras, mas precisas de voltar.

- Voltar atrás?

- Sim, voltar atrás no tempo. O que procuras aconteceu no passado. No sexto plano astral podes voltar atrás no tempo.

- Onde estou eu?

- No terceiro plano astral - observou ela, condescendente, como se falasse com uma criança estúpida. - Precisas de avançar nos planos astrais.

- E como é que eu faço isso?

- Abre a mão - Paul assim fez e a moeda encontrava-se na palma da mão. - Normalmente, um ser humano só pode subir ao sexto plano astral após grandes provações e esforço.

- Provações e esforço?

- Sim - disse Helen, - Através de magia ou em resultado de profunda sabedoria espiritual. Mas no teu caso, Paul, é diferente. Com a moeda podes lá ir facilmente.

- E porquê?

- Digo-te mais tarde. Concentra-te apenas. A moeda fará o resto. Estás a ver, ela existe agora tanto no plano físico como no espiritual. Está a começar a surtir efeito neste mundo.

Paul baixou o olhar para observar a moeda. Gradualmente, uma imagem materializou-se à sua frente, Encontrava-se num jardim murado, embora o muro não fosse de tijolo. Mais do que isso, parecia de bronze e libertava uma ofuscante luz amarela. Em redor havia uma profusão de árvores e flores que Paul nunca vira na terra. O seu brilho e luminosidade eram tão intensos que lhe doía contemplá-las.

À medida que a capacidade de discernimento de Paul alastrava, ele via que cada flor, cada árvore, era única em cada uma das suas facetas; e o seu tamanho alterava-se dependentemente da profundidade de introspecção com a qual ele as considerava. Cada uma continha um mundo dentro de si. Mundos dentro de mundos.

À frente de Paul apareceu uma porta, como que inserida no muro do jardim. Ele caminhou em direcção a ela e parou junto à soleira. Se passasse para o outro lado, será que poderia alguma vez voltar a entrar no mundo dos homens?

Resiste.

A instrução passou-lhe pela mente como um relâmpago. A ordem não era dele; viera de qualquer outro lado. Ele hesitou junto à soleira. Resiste. Regressa, continuou a voz. "Eles estão a enganar-te. A voz era de mulher, calma mas persistente. Ele viu a imagem de uma freira junto à porta.

- Ignora-a - gritou Helen. Ele percebeu o tom de voz dela, estridente e depreciativo, sobrepondo-se ao tom da ordem. - Continua. Tens de continuar, Paul, senão morres. Confia em mim.

Após mais um momento de hesitação, Paul fez uma opção consciente e atravessou o portal. Com isso, a impressão do jardim evaporou-se e apareceu-lhe outra. Era como um filme a rebobinar, mas sem os saltos e o ruído de um filme real. Não havia qualquer sensação de tempo a passar, ou de regressão no tempo. Apenas a realidade.

Era noite, no cálculo humano das coisas, um mês antes de Paul ter ascendido ao sexto plano astral. Paul encontrava-se agora em casa de Toni Brennan, no patamar do primeiro andar. O filho de Toni, Julian, estava deitado na sua cama, a fumar um cigarro no escuro. Paul via-o tão claramente como se estivesse presente no quarto e como se fosse dia. Observou, enfeitiçado, como um espectador a ver um filme. No entanto, isto não era filme nenhum. Era o que uma vez acontecera na terra.

Mais à frente no corredor onde se situava o quarto de Julian, a porta para o quarto de casal estava meio aberta. O pai estava deitado na enorme cama coberta de cetim preto, com uma actriz adolescente. Estavam ambos nus e tinham acabado de fazer amor. A jovem estava deitada de costas e olhava apaticamente o tecto, enquanto Toni se injectava com uma dose de heroína, uma fita de borracha apertada em volta do braço. Após alguns momentos de sonolência, caiu para trás, entrando num sono induzido pela droga.

Lucy, a jovem actriz, empurrou e afastou de si o corpo flácido e inerte. Paul conseguia ler-lhe os pensamentos. Estava aborrecida. A heroína não era a cena dela. Além disso, acabara tudo com Toni. O sacana ainda não lhe tinha dado o papel que ela queria num filme, apesar de estar frequentemente a dar-lhe outro papel que ela não queria. Estava agora deitada de barriga para baixo e fechou os olhos. Desejava que a vida melhorasse, mas parecia que isso nunca acontecia. Era esse o problema. Se alguma coisa pudesse correr mal, corria.

Ouvindo um leve ruído, ela virou-se para a porta. O rapaz, Julian, estava ali, em cuecas, o cabelo desgrenhado. Com curiosidade e desejo, ele olhava o corpo dela nu. Desdenhosamente, Lucy desviou o olhar dos olhos famintos dele, ao mesmo tempo que puxava um lençol para cobrir as suas linhas elegantes. O que fazer?

Durante um momento, ela estudou o tronco deitado do pai, a carne branca de mais, a boca aberta a ressonar. A meio caminho de cadáver e com pouco mais pela frente. Pelo canto do olho, Lucy observou o rapaz. Tinham mais ou menos a mesma idade, talvez três ou quatro anos de diferença. O filho era uma incarnação do pai mais jovem, em melhor forma, mais atraente. Bastante giro, na verdade.

De costas sobre as almofadas, Lucy cedeu à tentação. Com um meio sorriso de vingança, levantou-se da cama, escondendo-se atrás de um lençol de cetim. Ao ouvir os passos dela, Julian retrocedeu para o corredor, onde a luminosidade era menor. No entanto, Lucy, empurrou e abriu mais a porta do quarto e aproximou-se dele, o rosto ainda vermelho do recente acto de fazer amor. Já junto ao rapaz, ela deixou escorregar lentamente o lençol para o tapete, revelando assim a sua nudez.

- Estás a influenciá-los? - perguntou Paul. Helen abanou a cabeça.

- Não. É a própria vontade deles. Repara.

Julian olhava ternamente a mulher que o seduzia, momentaneamente desorientado e atrapalhado à medida que a sua fantasia se realizava. Então agarrou-a, incapaz de controlar o desejo. Percorreram o curto caminho até ao quarto de Julian. Na cama, Lucy deixou-o fazer o que ele desejava, soltando risinhos perante a impaciência do rapaz. Estava feliz por se encontrar, finalmente, com alguém da sua própria idade e cujos gostos eram normais. Ela pretendia satisfação esta noite, e obtê-la-ia.

Os amantes ilícitos pensavam que estavam sozinhos. Contudo, havia espectadores invisíveis nesta livre manifestação de paixão humana. Paul e Helen observavam cada aspecto como se tivessem estado ao lado deles naquela noite fatídica. Espíritos silenciosos e terríveis, discerniam não apenas o acto físico, mas também a energia invisível que brotava deles à medida que os seus desejos mentais se uniam com a mesma sede que os seus corpos.

- Nada mal - disse Helen a Paul num sussurro trocista -, para a primeira vez. Mas melhora.

Quando o acto amoroso chegou ao seu clímax, o actor levantou-se da cama no quarto de casal, vacilante mas consciente. O corno entrava em cena. Era pena ter sido fora de tempo, mas aí Helen ajudara.

Toni caminhou pelo corredor, arrastando os pés, sem que ninguém, excepto os observadores, notasse a sua presença. O resto foi um drama da vida real, em que o actor revelou o seu talento tespiano. O fantasma de Hamlet fez a sua aparição atrasada. Um clique do interruptor da luz, os amantes surpreendidos como veados assustados, o seu desengate do coito, gritos de ira não reprimidos.

- Agora que sabes o que aconteceu, vais contar a Julian o que viste? Sobre o seu grande segredo? - Helen riu do seu acompanhante. - Aposto que não serás capaz. - E desapareceu.

De súbito, Paul estava de volta ao seu escritório, sentado na sua cadeira. Reparou no relógio que estava em cima da secretária. Parecia não ter passado nem sequer um segundo. Queria dizer que a viagem nos planos astrais estava fora do contexto do tempo. Mas a visão terá mentido? Seria aquela a verdadeira explicação para o conflito entre o pai e o filho?

Paul regressou à sala de conferências. Julian não se deu ao trabalho de levantar os olhos do livro de banda desenhada. Paul sabia que devia ter cuidado ao abordar o assunto, dada a complexa amálgama de paixão, culpa e vergonha envolvidas. Então que haveria ele de dizer? Uma batalha fervilhava dentro do seu ser, entre a sua velha pessoa e a nova - entre o Caim e o Abel escondidos bem no fundo de si. Pensamentos contraditórios lutavam pela supremacia. No entanto, a luta era desigual. Por esta altura a moeda já penetrara profundamente no âmago do ser espiritual de Paul, distorcendo-lhe as faculdades críticas. Absorvendo o seu ódio, ele semeava na sua alma o que devia inevitavelmente colher.

- Bem, Julian, penso que sei qual é o teu problema - disse ele desapaixonadamente, enquanto se sentava.

- Sim?

- Penso que comeste a namorada adolescente do teu pai e que ele te apanhou com a boca na botija.

Julian levantou o olhar, surpreso.

- Sim - continuou Paul -, uma rapariga loura de seios insinuantes e um passarinho tatuado no lado de dentro da coxa. Foi ela que começou, não foi? Tentando-te daquela maneira... A culpa foi dela. Mas depois foi a tua vez, não é verdade? Devias ter vergonha - troçou ele, furiosamente. - E Lucy também devia ter vergonha.

O rapaz olhava-o boquiaberto. Passado um instante, a sua expressão de surpresa transformou-se em ódio cego. O pai, ou a namorada, deviam ter contado ao psiquiatra. Tinham-no traído.

Paul ajustou a gravata ao mesmo tempo que o rapaz saía da sala. Não sentia pena nem misericórdia, pois a moeda não continha estas coisas. Então Helen não tinha mentido. Interessante.

Lá fora, o inferno soltou-se à medida que o empresário tentava separar o pai do filho, que gritava como um maníaco. Por fim, depois de Julian ter sido arrastado da clínica, aos pontapés e aos gritos, Paul saiu para o corredor e aproximou-se do seu cliente. Pobre Toni. O actor consumido pela droga e que transformara a maravilhosa dádiva da vida num filme de catástrofe para si próprio e para os outros. Estava agora em silêncio - um fraco espectador da destruição que se soltava à sua frente.

- Receio não poder tratar o seu amado filho, senhor Brennan - disse Paul com pesada ironia. - Não sei o que se passa com ele. Mas se eu fosse o senhor, teria cuidado.

- Porquê? - inquiriu o actor.

- Porque ele o matará - respondeu Paul, a voz gelada de certeza. - Tenha um bom dia.

 

"Existem espíritos imundos e errantes, cuja energia celeste foi sobrecarregada por imundície e ânsias terrenas. Estes espíritos, sobrecarregados e mergulhados em vícios, perderam a simplicidade da sua substância original; como escassa consolação para a sua própria calamidade, estes espíritos perdidos não deixam de conspirar para que outros se percam, para os depravarem com a sua própria depravação."

                   Tertuliano

 

A irmã Marta, madre superiora de um convento na parte norte de São Francisco, olhou pela janela do seu gabinete. Rachel caminhava no jardim por baixo, de mão dada com uma freira.

A mulher idosa virou as costas à cena para conversar com a sua visita inesperada. Formou rapidamente uma opinião sobre Marie, como fazia com toda a gente que conhecia. 30 e poucos anos, educada, falava com suavidade. Julgando pelo seu comportamento, tinha provavelmente uma natureza generosa mas determinada e protegia muito a filha. Por que motivo é que uma mulher assim viria ao convento delas contar uma história de possessão pelo demónio não se adaptava ao tipo.

No decurso de uma longa vida religiosa, a irmã Marta já vira pessoas que tinham vindo ter com ela com tais problemas. Na grande maioria dos casos, era claro, desde o início, qual era a doença delas - e certamente que não era possessão por espíritos malignos. Doença mental, efeito de drogas, profunda depressão, danos cerebrais, histeria evangélica - tudo isto era facilmente detectável. E também quando a possessão era inventada para escapar a algum crime horrível ou acontecimento que um indivíduo era incapaz de enfrentar

- homicídio, incesto, tortura ou traição familiar. Estes segredos negros tornavam-se, finalmente, conhecidos e, na maioria dos casos, podiam ser resolvidos ou, pelo menos, podia encontrar-se alguma forma de alívio.

No entanto, a possessão pelo demónio era um assunto muito mais sinistro e aterrador. Tocava as próprias raízes da existência humana neste mundo e as forças cósmicas do bem e do mal. A irmã Marta não tinha dúvidas de que Satanás existia; ninguém na Igreja duvidava. Contudo, o simples facto de reflectir demasiado sobre isso era, por si só, uma coisa perigosa. É que os poderes do mal não se constrangiam com a mente humana, e podiam facilmente dominá-la - acontecia até mesmo àqueles loucos que pensavam que podiam brincar no oculto com impunidade. Enganavam-se: os demónios entravam-lhes silenciosamente no coração e muitas vezes esperavam muito tempo para levar a cabo a sua destruição.

A irmã Marta desviou a sua atenção de tão tenebroso assunto. Tinha a certeza de que a pessoa que se encontrava à sua frente não era nem sujeito nem objecto de possessão. No entanto, tinha de convencer disso a pobre mulher. Via que seria preciso mais do que palavras, pois esta alma especial era inflexível.

- Marie - disse ela calmamente -, pedi ao padre David para falar consigo. Ele é um padre com experiência destas coisas. Tem mesmo a certeza de que é isso que quer?

- Tenho a certeza.

- Absoluta?

- Sim.

Assim, a irmã Marta chamou uma das suas freiras e pediu-lhe que convidasse o padre David a entrar. Vindo do jardim lá em baixo, o riso infantil de Rachel chegava até elas,

O homem que entrou na sala passados alguns minutos não era o que se poderia esperar que fosse um exorcista. Não era nenhum cristão musculado, nenhuma figura forte que lutaria com os poderes das trevas, deitando-os ao chão. Em vez disso, Marie via à sua frente uma figura atarracada com pouco mais de 50 anos, vestida com a sotaina castanha da Ordem dos Dominicanos, um cordão em volta da cintura. Um realizador cinematográfico teria ficado decepcionado com ele. Não havia aqui qualquer presença cinemática, nem sequer um rosto bonito; parecia uma batata nodosa, com excepção apenas de um sorriso quente e de uns olhos que se desviavam dos dela.

O padre David apertou a mão a Marie e falaram durante uns minutos. Ele levantou-se da sua cadeira.

- Está enganada, Marie. É verdade que existe um mundo dos espíritos, assim como um mundo humano, e que os espíritos malignos podem, por vezes, manifestar-se. No entanto, o fantasma de uma mulher que você descreveu não parece que seja um. E também suspeito de que o seu marido está tão confuso com tudo isto como você, se, de facto, isso aconteceu. - O padre sublinhou as últimas palavras, pronunciando-as devagar e cuidadosamente.

- Mas a minha filha viu o mesmo que eu vi.

- Eu sei - continuou o monge, calmamente. - E aceito que poltergeists são possíveis. São espíritos que podem ser activados por uma criança. Fazem mexer as coisas, deslocam as coisas, mas não fazem qualquer mal. São espíritos perdidos, não estão nem neste mundo nem no próximo. Por que motivo estão presos, não sabemos, nem porque vão ou vêm. Raramente causam mal e ficam frequentemente deliciados por estarem perto de crianças.

- Porquê Rachel? - perguntou Marie.

- Oh, não tem nada a ver com Rachel pessoalmente - disse o padre David num tom jovial. - Creio que é por ela ser uma criança; é essa a razão. As crianças irradiam um maravilhoso sentimento de amor, muito mais do que os adultos. É isso que atrai estes espíritos, como as borboletas são atraídas para a luz.

- Mas o meu marido... tudo isto tem alguma coisa a ver com ele, tenho a certeza. E o caso Kramer.

O monge ouvira falar no caso. Ouvira também falar de Paul Stauffer e ele não ia certamente comprometer um psiquiatra famoso; podia causar danos incalculáveis. Mas ele via que esta mulher estava muito determinada. Sem dúvida que amava muito o marido.

- Marie - ele levantou as mãos como que para a acalmar -, de tudo o que me contou, penso que você tem, na verdade, um problema. - Fez uma pausa. - Está muito preocupada com o facto de perder o seu marido para outra mulher. É isso que está a causar o seu trauma. Precisa de falar com ele sobre isso.

Marie abanou a cabeça.

- Sim, mas isso não tem nada a ver com os acontecimentos que descrevi. Eu vi a mulher. Ela pretende fazer-nos mal.

O padre ignorou-a e disse, em tom de despedida:

- Por favor, reflicta sobre aquilo que eu disse. Agora quer que eu fale com Rachel e que faça com que ela sossegue a mente?

Quando Rachel entrou na sala, o padre pegou-lhe na mão.

- Quero que me contes o que viste, minha pequenina.

E Rachel fez-lhe a descrição da misteriosa senhora de longos cabelos louros. O padre olhava-a e os seus olhos cintilavam de afecto e divertimento.

- E ela não te faz lembrar nenhuma das tuas professoras? Rachel abanou a cabeça, decidida.

- Oh, não, ela era muito mais bonita.

- Mas assustou-te?

- Sim - disse Rachel -, porque me queria levar.

- Estou a ver - disse o padre. - Bem, acho que não a vais voltar a encontrar. - Levantou-se, o assunto estava no fim. Caso encerrado.

- Ela tinha uma moeda - acrescentou Rachel.

- Não me contaste - disse Marie, olhando a filha com ar inquiridor. - Que tipo de moeda?

O padre David franziu o sobrolho - a criança estava a tornar-se muito imaginativa. Ele tinha de se ir embora em breve. Havia um paciente moribundo para ser assistido.

- Queres que a desenhe?

- Sim, é boa ideia. Bem, agora tenho mesmo de ir - disse ele. Acariciou a cabeça de Rachel e apertou a mão a Marie. - Regressarei dentro de um minuto. É só o tempo de reunir as minhas coisas.

Saiu da sala para ir buscar alguns livros. No caminho de regresso, parou do lado de fora da porta. Talvez fosse melhor deixá-las sozinhas... Num impulso, o padre David espreitou para a sala pela última vez.

- Então adeus.

Sorriu à irmã Marta, a Marie e à criança, sentadas à volta de uma mesa. Foi então que viu o desenho. Lentamente, Rachel virou-se para ele, o rosto iluminado como num transe.

- Oh, meu Deus! - O padre empalideceu. A criança estava a tentar dizer-lhe alguma coisa; e só a ele.

Apressadamente, com um gesto, o padre David chamou a freira e Marie para que se aproximassem.

- Talvez Rachel deva ficar no convento durante mais um dia ou dois. Seria bom para ela. Na verdade, insisto. - A sua voz tornou-se autoritária. - Marie, afinal vou visitar a sua casa. Apenas para a sossegar. Fique aqui, daqui a pouco estarei de volta.

- Obrigada, padre. - Ela agarrou-lhe a mão.

O padre David desceu as escadas à pressa, já atrasado para assistir ao moribundo. Mas não era isso que lhe ocupava os pensamentos. Estava alarmado. O rosto da criança fora iluminado por uma luz que não era deste mundo. E, é claro, era possível para uma criança em transe desenhar uma réplica perfeita de um denário de prata do tempo de Cristo. Mas teria a criança realmente escrito, como se estivesse gravado na moeda, as letras SMRM- Salve me, Redemptor Mundti

As últimas palavras que Judas Iscariotes, o traidor, disse antes de se enforcar naquela árvore.

"Salva-me, Redentor do Mundo".

 

"Porque nós não temos de lutar contra a carne e o sangue, mas contra os Principados, Potestades, contra os Dominadores deste mundo tenebroso, contra os espíritos malignos espalhados pelos ares."

                   Carta aos Efésios, 6:12

 

Na manhã que se seguiu à sua visita à Torre dos Ventos, o cardeal Benelli lutou para se sentar na cama. Não se sentia bem. Não fora só a queda das escadas da Torre que lhe tirara as forças. A verdadeira razão era o medo.

Ouviu-se uma leve batida à porta e o seu secretário particular entrou. Deu uns papéis ao cardeal para assinar. Os assuntos oficiais têm de continuar. Benelli pegou-lhes, mas não os leu. A sua mente estava concentrada em coisas mais importantes.

- Vossa Eminência - o secretário tossiu -, o cardeal Vysinsky não se sente bem. O Santo Padre pediu-me que vos informasse.

Benelli esperou até que o secretário saísse. Então o seu rosto ficou abatido. Com a morte de Graziani e com Vysinsky doente, as hostes da Igreja estavam a esgotar-se a grande velocidade. Já estava a destruí-los e ainda nem sequer sabiam onde ela estava nem quem a tinha em seu poder. Isso era suficientemente assustador, mas o que ele descobrira na noite anterior, na Torre dos Ventos, era ainda mais perturbador.

Traição. Era o que estava no coração dessas moedas. Judas traíra o seu Salvador e um deles trairia o Papa, se as últimas palavras do Papa Silvestre II no seu leito de morte eram verdade. Mas seria Benelli? Por favor, meu Deus, não! O cardeal martirizava-se. Até que ponto era ele um bom cristão, afinal? Não era assim tão bom, ele sabia. E ele não conseguira passar a mensagem inicial sobre as moedas. Ele era o elo mais fraco. Tinha de dizer isso aos outros, admitir a verdade.

Fechou os olhos, cansado. Embora a moeda ainda tivesse de aparecer, Benelli já sentia a sua presença. Não fora capaz de dormir esta noite, tal como acontecera nos últimos dias. Quando o fazia, os murmúrios começavam, as blasfémias, as tentações, o riso infernal - ouvia tudo isso junto aos seus ouvidos. Até agora as vozes eram externas, como se mensageiros invisíveis tivessem sido enviados para o atacarem e cansarem. O que aconteceria quando viessem do interior, de dentro dele?

- Cardeal?

O padre confessor encontrava-se junto à sua cama.

- Peço muita desculpa - disse Benelli. - Devo ter adormecido.

- Não faz mal - disse o monge. Sentou-se numa cadeira. - Trouxe-vos os Sacramentos.

Depois de ele os ter administrado, Benelli começou a sentir-se mais seguro de si.

- Está a acontecer-lhe? - perguntou ele, abruptamente. Sentia-se relutante em admitir a sua fraqueza perante um homem que, tentasse Benelli o que tentasse para o emular, seria sempre melhor do que o cardeal em tantos aspectos.

- Sim.

- Refiro-me aos sonhos, aos murmúrios, às tentações. O monge acenou com a cabeça.

- Mas deve fechar-lhes a mente. Deixe-os passar. Não lute contra eles.

- Vê-os?

- Alguns.

Benelli estremeceu. Para além do espírito na Torre, ele ainda não os vira. O que aconteceria quando os visse? Esses espíritos eram muito mais poderosos do que qualquer um que ele experimentara em toda a sua vida. Se o podiam atacar até quando ele os enfrentava com um crucifixo abençoado pelo Papa, o que não podiam eles fazer? Hesitou. E disse a verdade.

- Estou com muito medo. - Olhou os calmos olhos azuis do monge. Reflectiam compaixão.

- Eu também - respondeu o padre confessor, simplesmente.

- O que acontecerá?

- O poder da moeda está a crescer muito rapidamente - disse o padre confessor. - Precisamos de destruí-la antes que seja tarde de mais, mas ainda desconhecemos o seu paradeiro. Mas vimos o ser humano a quem se ligou.

- Viu? - Benelli estava surpreendido. - Onde?

- Eu, não. Catherine de Benedetto viu o homem, mas não sabe onde ele mora. Ela tentou dizer-lhe que resistisse. No entanto, parece que ele não é capaz,

- Porquê?

- A moeda é mesmo muito poderosa. Além disso, este homem anseia por ela.

- Ele compreende a sua verdadeira natureza?

- Não - disse o padre confessor numa voz deprimida. - Mas em breve compreenderá.

- Mas temos de fazer alguma coisa - disse Benelli. - Não podemos ficar parados à espera. Certamente que a conseguiremos encontrar. Deve haver alguma pista em relação ao local onde esse homem está na terra.

- Você próprio não sabe?

- Eu? - disse Benelli. Sentou-se na cama, alarmado. - Como é que eu devia saber? - A voz acelerou-se-lhe e começou a transpirar. - Você, o Santo Padre, a freira, todos sabem destas coisas espirituais. Eu não sou místico, sou simplesmente um cardeal.

- Mas teve uma visão.

- É verdade - disse Benelli, angustiado. - Vi as estrelas, vi a presença de uma moeda, senti um grande mal. E não contei ao Santo Padre porque não acreditei que a lenda da moeda fosse verdadeira. Mas - continuou ele, desesperado -, não vi mais nada.

- Compreendo. Só que estas revelações muitas vezes contêm mais do que pensamos. A História diz que o aparecimento destas moedas será evidenciado por fenómenos naturais. Pensei que se tivesse lembrado de alguma coisa.

- Não, não - insistiu Beneli. - E a freira, Catherine, viu alguma coisa?

- Receio que não. - O padre confessor levantou-se da beira da cama de Benelli. - Virei vê-lo amanhã.

- Não se preocupe, nessa altura já estarei levantado.

- Nesse caso deixo-vos o jornal.

Benelli lançou um olhar ao jornal dobrado. Era o The New York Times. Nunca o lia; preferia jornais italianos. O outrora confiante cardeal viu o padre confessor partir. Agora estava ainda mais ansioso. Será que o monge e o Papa pensavam que ele estava a esconder alguma coisa? Estariam a testá-lo? Que terrível! Oh, se ao menos tudo isto desaparecesse, se ao menos...

Nessa tarde o médico voltou a visitar o seu paciente. Deu a Benelli alguns calmantes e insistiu para que ele dormisse um pouco. Correram os cortinados do seu pequeno quarto e deixaram-no sozinho. Mas Benelli não queria estar sozinho, e não podia dormir. Os seus sonhos tinham-se transformado em pesadelos. Desta vez encontrava-se na Torre dos Ventos, estava a cair pelas escadas abaixo, olhava para as estrelas...

De repente, Benelli acordou. Às apalpadelas, procurou o interruptor e ligou o candeeiro. Ele vira algo no seu transe, afinal. Agora lembrava-se. Algo de aterrador, algo que podia predizer a localização da moeda.

À pressa, levantou-se da cama para contar ao padre confessor. À medida que o fazia, o jornal escorregou para o chão. Benelli lamentou-se quando deparou com um título na primeira página. O monge já adivinhara.

"Fortes tremores na zona de São Francisco. Avisos de terramotos."

 

"O demónio deixa outras marcas nos seus corpos... e estas, as marcas do demónio, são insensíveis, e ao serem picadas não sangrarão, e podem, muitas vezes, encontrar-se nas partes mais secretas, requerendo, por isso, uma busca diligente e cuidadosa."

         Reverendo Richard Bernard, Guide to Grand Jurymen

 

- Pensei que nunca mais vinhas. O que te atrasou? - Suzanne beijou Paul prolongadamente quando ele entrou no apartamento dela.

- Fiquei retido - respondeu Paul com uma careta. - Por um actor de segunda classe com um filho aborrecido. Mas não voltarei a vê-los.

Suzanne usava uma saia curta vermelha e uma blusa de licra que se combinavam para mostrar as pernas e a clivagem da rapariga, de forma a produzirem o melhor efeito. Após o abraço inicial, ela tirou a blusa. Paul observou os contornos do pescoço dela, sobre o qual o cabelo negro caía para trás em cascata. Ela virou-se, para que ele pudesse tocar-lhe os seios fortes e morenos antes de ela os comprimir contra o corpo dele.

- Onde estiveste esta manhã? - Ela atraía-o para o quarto. - Deixaste-nos pendurados à espera de uma prelecção de Psiquiatria. Estava toda a gente à tua espera.

- Fui à prisão - respondeu Paul enquanto se despia. - O que aconteceu à minha prelecção?

- Bem, ficámos algum tempo na tua sala. Então aquele outro professor, Ben Ingelmann, telefonou. Disse-nos que fôssemos para casa.

Pediu desculpa e disse que não nos podia ele próprio dar aula porque, porque estava mesmo a partir de férias. Todos pensámos que era tudo muito engraçado. - Ela fez uma pausa. - Contaste à tua mulher sobre nós?

- Aaa... ainda não.

Suzanne esboçou-lhe um sorriso conhecedor.

- Eu compreendo.

Paul empurrou-a para a cama, despindo-lhe a saia. Fizeram amor muitas vezes. De cada vez ela agarrava-se a ele e exigia mais, tão insaciável como um súcubo. Em seguida, deitaram-se de costas na cama.

- Porque não dormes? Eu acordo-te antes que seja muito tarde.

- Tenho de ir para casa - respondeu Paul, com relutância. - Hoje mal vi Marie. Ela foi ficar com amigos.

- Mas não estás preocupado com a tua mulher, pois não?

- Não - respondeu Paul após uma pausa. Era estranho, mas não estava preocupado com ela. Ela como que escorregara para o fundo da sua mente; tornara-se mais remota.

- Por favor, fica mais um pouco. Por favor. - Suzanne agarrou-se a ele, beijando-o fervorosamente. Em seguida virou-se na cama e ficou de barriga para baixo. Lá fora, o crepúsculo tornava-se noite, embora nenhum deles desse por isso.

Por acaso, Paul passou a mão pelas elevações das nádegas que eram firmes, sem celulite. Então descobriu uma imperfeição no corpo dela. Era uma marca como um hieróglifo, impressa a fogo na pele da nádega direita. Brilhava ligeiramente à luz fraca que emanava do candeeiro da mesinha-de-cabeceira.

- O que é isto?

- O quê? - Suzanne virou um pouco a cabeça.

- Esta marca. - Paul passou-lhe o dedo por cima. Era como um ferro de gado.

- Que marca? - Suzanne colocou a mão sobre a sua nádega direita. - Não há marca nenhuma.

- Suzanne, está aqui uma marca. Eu vejo-a.

Ela olhou-o, confusa, os dedos a tocarem o local exacto. Então soltou um risinho. - Estás a brincar comigo, não há marca nenhuma.

Uma sensação estranha e desagradável apoderou-se de Paul. Via que ela estava a falar verdade. No entanto, havia mesmo uma marca, uma marca de fogo no corpo da sua amante; e ela não sabia. Suzanne virou-se rapidamente. Paul agora admirava a maciez jovem do ventre dela. A rapariga começou a acariciá-lo, a percorrer-lhe a face com um dedo. Paul observava a expressão dela.

- Suzanne - disse Paul calmamente -, quando foste atacada por Kramer, na prisão, estava uma mulher no corredor. Estava atrás de mim.

- Mulher, que mulher?

Tentando não perder a paciência, ele continuou:

- Não brinques comigo. Havia uma mulher atrás de mim. Foi ela que deu sinal a Kramer para que te soltasse. Ele não o fez de sua própria e espontânea vontade. Ela tinha cabelos louros. - O olhar de Suzanne demonstrava cada vez maior espanto. - O nome dela é Helen - continuou Paul. - Vestia um casaco branco. Oh, vá lá, Suzanne, deves tê-la visto.

- Paul, não vi mulher nenhuma. Não sei porque Kramer me soltou. Estou apenas feliz porque ele o fez. Vamos fazer amor, só mais uma vez.

- Mas estava lá uma mulher, e tu tens uma marca.

- Ah sim? - A língua dela deslocava-se lentamente ao longo do corpo dele, beijando-lhe o umbigo. - A sério? Vamos tentar outra coisa.

Após mais actividade amorosa, Paul entrou num sono profundo. No seu sonho, Helen estava a seu lado.

- Onde estou?

- Olha.

Estavam à beira de um enorme penhasco. A alucinação era semelhante àquela que Paul tinha experimentado quando Helen o beijara no jantar de festa. Nessa ocasião, contudo, Paul discernira apenas o penhasco no qual se encontrava. Agora, do outro lado, para lá de uma vasta extensão de espaço, ele distinguia o contorno de outro penhasco que se elevava, igual em altura àquele em que ele se encontrava.

Paul passou o olhar pela encosta do penhasco à sua frente. Levou uma eternidade, pois o precipício era tão imenso. Finalmente, tornou-se visível uma ravina no fundo. No momento em que isso aconteceu, Paul estava directamente a seu lado. Ao compreendê-lo, já lá estava. Não foi necessária qualquer descida.

- A realidade está a aparecer à tua frente - disse Helen. - A moeda é que está a fazer com que seja assim.

A imagem da moeda apareceu na palma da mão de Paul, embora ele não fizesse ideia de como lá tinha ido parar. Observou a cena que se desenrolava à sua frente. No fundo da ravina, onde ele e Helen agora se encontravam, corria um rio poderoso, cujas águas serpenteavam, perdendo-se na distância. Este rio não tinha pedras nem espuma. Em vez disso, apenas com os lados dos penhascos como fronteiras, fluía, vindo de uma fonte desconhecida e dirigindo-se a um destino desconhecido. Helen e Paul encontravam-se num pequeno pedaço de rocha logo acima dele.

A julgar pelos padrões do mundo de Paul, isto não era rio nenhum, pois era tão vasto como um oceano. No entanto, à medida que os poderes espirituais de Paul aumentavam, assim aumentava a sua percepção da escala cósmica das coisas. Agora era capaz de apreender o tamanho imenso do rio, assim como o facto de ele estar preso entre penhascos de ambos os lados.

- Onde estamos?

- No sétimo plano astral - disse Helen. - Muito poucos humanos podem chegar até aqui. Apenas mágicos e místicos. Este é o teu mundo e o teu tempo. Olha para o rio.

Paul olhou para a profundidade das fundas águas azuis que passavam por ele. Pouco depois, começou a discernir um contorno do mundo no leito do rio. Contudo, este mapa não tinha par, pois alterava-se à medida que ele o olhava, os minúsculos grãos de areia que pareciam contê-lo alterando-se apenas uma fracção, o mais leve dos movimentos leves. Era o mundo dele, contido dentro dos limites do tempo. Paul compreendeu que só esta visão podia aparecer aos seus olhos numa miríade de formas e, contudo, não se repetir. Compreendeu também que, para cada ser humano e espiritual, esta visão apareceria diferente. Sempre em alteração, sempre fluida: o fluxo do destino humano.

Paul deliciou-se com esta sabedoria, mesmo enquanto ela ganhava forma dentro dele, levado pelo poder incalculável da moeda. Por que motivo isto estava a acontecer, não sabia. Mas Helen sabia.

As 30 Moedas de Judas continham a mais profunda sabedoria. Uma sabedoria que remontava às trevas eternas - antes de o homem existir, antes do Campo de Sangue, antes de as ordens de Anjos terem sido concebidas: quando Satanás, na forma celestial de Lúcifer, a estrela de alva, caminhava na presença de Deus.

Perante a visão cada vez mais aumentada de Paul, o aspecto de Helen também se metamorfoseou mais uma vez. O corpo espiritual dela tornou-se mais brilhante, já não tinha o cabelo louro mas de um prateado cintilante. E o rosto também, bonito, para além de qualquer descrição humana de beleza. É que era etéreo, um rosto sem mácula, um rosto que até Helena de Tróia teria invejado. Um rosto sem tempo, incapaz de marca ou de cansaço. Quase angélico. Quase.

- Este rio - disse Helen -, é aquilo a que os Gregos chamaram o Rio Lete, o rio do esquecimento. As almas humanas nadam através dele para o teu mundo lá em baixo. À medida que descem, passam através do tempo. Deste local onde nos encontramos podemos ver vastas idades. No entanto, uma vez que a alma entre na água, o tempo acelera até que se alcança o teu mundo. Enquanto isso, estas almas esquecem o passado. A sua memória eterna esvanece-se.

- É opção delas entrarem no mundo?

- Sim - disse Helen -, tal como foi minha e tua. Tudo é opção.

- E se eu descer, esquecerei o passado?

- Não. Tu tens a capacidade de regressar ao mundo sem teres sido dominado pelo esquecimento, É a moeda que te dá esse poder. - Helen continuou: - Compreendes, é que ela contém uma sabedoria que existia antes da formação do próprio rio. Uma sabedoria imperecível que veio do divino.

- Do divino? De quem? De quê? - Paul implorava-lhe para que lhe contasse mais, mas ela não o faria.

- Agora não. Concentra a tua atenção na vista à tua frente. Aqui podes observar a história da raça humana.

- Toda?

- Sim, toda, exceptuando as mentes daqueles que, na terra, possuíam um maior poder espiritual do que aquele que tens agora.

- O que está para além disto?

- Há mais revelações - disse Helen. - Posso levar-te ao nono plano astral. Nenhum ser pode ir mais longe em forma humana. A seguir começam as ordens dos Anjos.

- Tu podes lá ir?

- Não - disse ela -, pois ainda habito um corpo humano, como tem acontecido durante os últimos dois mil anos. Eu ainda existo na terra, embora nem sempre no mesmo corpo.

Paul examinou-lhe atentamente o rosto.

- Eu posso ir além do nono plano astral?

- Sim. Só tu. Isto é, se assim escolheres.

- Porquê?

- Por causa do poder de alguém que te ama - explicou Helen num tom sedutor. - É o seu poder que está contido na moeda. Agora vamos descer, Entra em qualquer período do passado que desejares.

- E do futuro?

- Do futuro, não. O futuro não é conhecido nem sequer pelos arcanjos.

- Eles existem? Helen sorriu.

- A Bíblia não te disse?

Paul contemplou o rio. Era tão calmo e plácido. Ansiava por se atirar nas suas águas convidativas, por sentir a sua força terrível. De se afundar num oceano que não o podia afogar mas que o aguentaria enquanto ele quisesse. Virou-se para trás, para Helen.

- E a rapariga, Suzanne?

- Sim?

- Tem uma marca no corpo - Paul quase que se sentiu hesitar, embora não houvesse qualquer hesitação como tal, uma vez que a comunicação entre eles não se efectuava via qualquer pensamento ou palavra humanos. - Ela está possuída por ti?

- Sim - disse Helen -, pertence-me.

- Podes fazê-la agir de acordo com a tua vontade?

- Sim. Na terra as pessoas podem possuir coisas. Aqui, as pessoas podem possuir almas, Gostarias de a possuir? - perguntou Helen. - Sei que gostas dela, Pode ser tua. É o meu presente para ti.

- E Kramer?

- Ele também me pertence - esclareceu Helen.

- Quer dizer que Suzanne e Kramer foram usados para me trazerem aqui?

- Sim, foram parte do meu desígnio. - Helen não tinha qualquer desejo de lhe contar que o seu próprio poder sobre os seres humanos estava limitado àqueles que se moviam no Campo de Sangue, os filhos das trevas. Nem que ela era apenas a guardiã desta Moeda de Judas, não a dona. Dir-lhe-ia mais tarde. Tudo a seu tempo, no tempo humano.

- Porquê?

- Para te salvar - disse Helen. - Mas podes ver estas coisas por ti próprio. A escolha é tua, Ninguém te proíbe nada. Nada no universo inteiro.

- Ninguém, quem?

- Aquele que te ama.

Paul virou-se. De alguma forma, sabia que Helen estava a mentir, que lhe escondia alguma coisa. No entanto, infiltrava-se nele um desejo pelas coisas escondidas ao homem, enchendo-lhe o espírito. Ao fazê-lo, esse desejo substituía cada vez mais o amor de Paul por Marie e pela filha. Ele estava a adquirir uma sede; uma sede insaciável pela sabedoria cósmica. Uma sede que não podia ser mitigada nem por todo o conhecimento do mundo.

Paul mergulhou no rio.

A flutuar. A mais maravilhosa sensação de se encontrar a flutuar em águas calmas e serenas. Sem medo, sem sentido do tempo, sem obrigação, sem responsabilidade. A flutuar. Então, após ter passado tanto tempo, uma eternidade, sentir uma mudança subtil. Ser como uma folha à deriva num lago tranquilo, uma quase imperceptível sensação de movimento. Passaram eternidades.

Então, de novo, uma mudança. Ser como um ramo de árvore a oscilar ao vento, calmamente. Passaram eternidades. Mais movimento, como o suave cair da neve do céu. Depois mais rápido. Como a chuva a fustigar o solo, como o agitar do rabo de uma truta, um coelho a fugir, um cão a correr, uma criança a gatinhar, o grito de um ser humano, um reflexo da luz do Sol.

Estar consciente do tempo a passar. Estar de volta ao mundo. Sentir o disparar do motor do tempo como um poderoso comboio a ganhar velocidade ao longo da linha. De volta à realidade humana.

- Onde estamos?

- Não sei - disse Helen. - A escolha foi tua, não minha. Paul encontrava-se nas águas-furtadas de um pequeno castelo

que dava para um lago. Lá fora, a água batia contra as suas robustas fundações, e as margens do outro lado do lago estavam cobertas de tílias. Era Verão. No interior das águas-furtadas propriamente ditas, as paredes estavam revestidas de livros. Havia também uma sólida secretária de mogno, vitrais, alguns cachimbos numa prateleira. Paul reparou nos títulos dos livros: psiquiatria, filosofia, astrologia, religião. Em que lugar do mundo é que ele se encontrava?

O espírito de Paul passou através das paredes do castelo, entrando num pátio fechado. Um homem idoso estava sentado numa cadeira de verga, os pés apoiados num banco. Paul olhou-o fixamente. Ainda não era capaz de descobrir onde estava, por isso voltou a entrar no gabinete e inspeccionou um calendário preso à parede. Dizia 15 de Maio de 1958, as letras estavam em francês. E daí? Paul reparou no timbre de uma carta que estava em cima da secretária. E compreendeu. Encontrava-se na residência de Carl Jung, em Bõllingen, na Suíça.

- Logo vi que escolhias um psiquiatra - disse Helen.

Paul estava boquiaberto. Encontrava-se em casa de um homem sobre o qual lera tanto e que fora o seu guru quando ele estudava para a sua licenciatura em psiquiatria. Agora via a figura idosa e rotunda sentada ao Sol sem a mais leve percepção de que estava a ser observada, puxando, satisfeito, fumaças do seu cachimbo.

- É típico - observou Helen. - Está a ler um dos livros que escreveu. - Ela levantou o olhar para uma das árvores que pendiam sobre ele. Paul viu uma folha cair sobre o livro. O grande homem resmungou e afastou-a para o lado com a mão. Estava a ler The Undiscovered Self. Parecia estar a gostar.

Helen abanou a cabeça.

- Pessoalmente, preferia Freud. Tinha melhores ideias sobre sexo. Embora se preocupasse com os seus arquétipos. Não somos assim tão maus.

Caiu outra folha. Jung fechou o livro e levantou-se lentamente da cadeira para preparar o almoço.

- Pode-se mudar coisas no passado? - perguntou Paul.

- Às vezes - disse Helen. - Mas nem todas as coisas. E não neste plano astral. Tens de avançar muito mais. Bem, já fizeste a tua selecção aborrecida. Está na hora de alguma coisa mais alegre. É a minha vez. Voltemos aos bons velhos tempos.

Encontravam-se noutro tempo e noutro local. Paul estava num estádio. Era como o estádio para as corridas de cães modernas, um circuito elíptico com uma capacidade para mais de cem mil pessoas sentadas. No entanto, neste caso, o estádio estava a ser usado para corridas de quadrigas e era a última corrida da manhã. As quadrigas seguiam pelas pistas a grande velocidade, os olhos dos cavalos fora das órbitas à medida que eram ferozmente chicoteados. A uma extremidade da arena havia um obelisco, em volta do qual as quadrigas viravam velozmente. À medida que o faziam, a audiência levantava-se e sentava-se, animando a sua equipa preferida, os azuis ou os verdes.

Era um dia quente de Julho, pouco antes do almoço, e o Circo de Nero tinha a sua capacidade quase esgotada, no entanto, as pessoas ainda forçavam as entradas, agarrando os bilhetes, ansiosos pelo divertimento da tarde. Paul não reconheceu o estádio - o que não é de surpreender, já que, 30 anos depois deste espectáculo, ele deixou de existir. Mas, ao reparar nos trajes das pessoas, nas colunas de mármore com a insígnia das legiões, e nas dimensões da arena - mais de 160 metros de comprimento - Paul adivinhou que se encontrava num dos circos da Roma Imperial.

- Eu estive aqui - disse Helen, num tom coloquial. - Diverti-me imenso nessa tarde, o tempo atmosférico estava perfeito. - Suspirou. - Muito melhor do que no teu período da História. As pessoas divertiam-se realmente. Aproveitavam a vida ao máximo e viviam bem.

De uma bancada, Paul olhou para baixo, para a arena. Estava quase a começar o número seguinte. A multidão estava agitada e ex-pectante. As mães acariciavam os seus bebés e davam-lhes peito; os maridos coscuvilhavam sobre as últimas notícias das províncias e castigavam os filhos por atirarem talhadas de melão meio comidas sobre a secção mais pobre da multidão.

Roma inteira estava ali. O Imperador, senadores, centuriões, homens de negócios a tentarem os clientes, amantes, ladrões, gabaro-las e adivinhos. Por baixo da arcada mais baixa do circo, vendedores vendiam vinho barato e fruta nas suas bancadas. Por todo o lado havia gente prostituída, tanto homens como mulheres, adultos e crianças, de todas as cores e feitios, vindos de todo o império, oferecendo a sua carne.

A administração preparava-se para o espectáculo seguinte, no meio do barulho e do tumulto. Era uma característica de que toda a gente gostava. Muita acção. Excelente para as crianças observarem.

As vítimas que os soldados conduziam, através da areia amarela, para o centro da arena eram, na sua maior parte, jovens. Estavam quase nus; os corpos brilhavam à luz do Sol devido ao óleo com que os tinham coberto. À medida que entravam na arena, os jovens mais velhos tentavam formar um círculo exterior em volta das mulheres e das crianças. Um homem idoso foi levado numa padiola de madeira e obrigaram-no a levantar-se com alguns pontapés, para que se preparasse para a morte de uma forma divertida.

Ouviu-se o toque de trombetas e fez-se silêncio entre a multidão agitada. Todos, vítimas e espectadores, olharam em direcção aos enormes portões de metal, situados nos lados norte e sul do circo. Começaram a subir lentamente, a corda a enrolar-se em volta de barris de madeira que chiavam. Finalmente, a audiência susteve a respiração, ao mesmo tempo que soltava um murmúrio de excitação à medida que os leões entravam. Como de costume, houve um momento de tensão enquanto os animais se acostumavam ao espaço aberto e à vasta e expectante multidão. Os participantes agarraram-se uns aos outros.

E o divertimento começou.

A multidão ouviu um grito lancinante, e uma criança de cabelo louro que não tinha mais de seis ou sete anos afastou-se do rebanho humano que continuava amontoado no centro da arena. Começou a correr em direcção aos muros, procurando santuário em vão. Esta distância pareceu curta a Paul, de onde se encontrava, na sua visão, com Helen sobre os degraus do Circo de Nero, mas para a criança era imensurável.

A multidão baixou o olhar para a figura que corria, enquanto bebericavam o seu vinho. Os movimentos da menina eram rápidos, o corpo nu numa posição inclinada. Os calcanhares enterravam-se-lhe na areia ainda manchada de vermelho de sangue dos cavalos moribundos que tinham sido arrastados dali. As capacidades de fuga de um humano eram bonitas de observar, supremamente naturais e animalescas, uma pequena criatura a fugir, completamente aterrorizada e temendo pela sua vida.

Entretanto, uma leoa faminta, saída de um buraco junto ao portão norte, baixou-se. E começou a perseguir a menina. A audiência assistia, em suspense, à medida que o animal corria pela arena - os músculos a movimentarem-se, ondulantes, nos seus poderosos flancos, os membros soberbamente coordenados para darem a sua máxima velocidade, o focinho baixo, esticado para a frente. Quando se preparava para matar, as maxilas abriram-se. A criança não viu isto. Não se virou enquanto fugia.

A leoa aproximava-se da sua presa numa grande linha em arco, a velocidade aumentando rapidamente, à medida que julgava cuidadosamente quando as duas se encontrariam. De súbito, a menina olhou para trás, para a sua assassina. E levantou a cabeça para cima, para o céu, gritando de desespero. Os muros do circo não seriam alcançados - não neste mundo.

A vítima mudou de direcção, numa última tentativa desesperada de se salvar. No entanto, a leoa já tinha previsto esta finta na sua trajectória, e sentiu-se um solavanco maciço à medida que os 240 quilogramas de carne se abateram sobre a vítima a uma velocidade de 40 quilómetros por hora. Ela teria sido atirada para o ar, se a leoa, com os fortes maxilares, não lhe tivesse já agarrado com firmeza o ombro direito.

Tombaram para o pó. Como um relâmpago, a leoa soltou a sua dentada inicial. Com perícia, virou o corpo para debaixo do seu próprio corpo, as garras a penetrarem profundamente a carne. Um segundo depois, os maxilares cerraram-se em volta do pescoço e da garganta da menina. Em seguida os dentes de trás entraram em acção, rapidíssimos, cortando de um só golpe os ossos cervicais e separando a cabeça do tronco. Assistiu-se ao jorrar de uma golfada de sangue, em espiral, e às convulsões frenéticas do cadáver. Faminta, a leoa sentou-se e começou a devorar a presa. Um murmúrio de satisfação elevou-se da multidão.

Já está! Apanhou-a! Que rápida!

Os outros que estavam presentes na arena observavam, num horror silencioso, a chacina de um dos seus. Em seguida começaram a ouvir-se os seus gritos terríveis, à medida que fugiam para a morte, os restantes leões do grupo a fecharem-se sobre eles. Os últimos gritos foram abafados pelos roncos da multidão, rouca de excitação e da sede de sangue.

luguld Mata! Verberai Ataca! Perdeste aquele!

- Eu estava sentada ali - disse Helen, por acaso. Apontou para o local. Era muito perto do camarote do Imperador. A seguir havia dois lugares cujos ocupantes Paul não conseguia ver, como se estivessem envolvidos numa névoa produzida pelo calor.

- Com quem estavas e porque é que eu não posso vê-los? Helen hesitou apenas em parte.

- Oh, não me lembro. De qualquer forma, como te disse, não consegues ver aqueles que estão mais avançados do que tu nos planos astrais. Mas aquele é o Imperador Nero, é claro. - Apontou para um lugar vazio no camarote imperial. E depois para outro. - E ali é onde a sua mãe, Agripina, costumava sentar-se. Oh! - gritou ela. - E ali está Pompeia, a cabra. - Apontou para uma mulher que observava a carnificina em silêncio.

- Quem?

- A sua segunda mulher. - Helena abanou a cabeça. - Nunca gostei dela. Ele também se viu livre dela; não tinha sentido de humor. Então aonde queres ir agora? Ou queres assistir ao resto? O melhor ainda está para vir. As crucificações vão ser esta noite. Nero gosta sempre de dar à multidão um bom final. Poderá haver ali alguém que tu conheces da História. Um velho pescador.

Paul observava o espectáculo, bebendo a cena.

De repente, Helen respirou com dificuldade e o rosto contorceu-se-lhe de dor. A ilusão em volta deles começou a dissipar-se rapidamente.

- O meu poder! - gritou ela. - O meu poder! Simultaneamente, Paul desceu para as dores da agonia. Era como

se o seu corpo humano, onde quer que se encontrasse, estivesse a ser violentamente arrastado de um ponto no tempo para outro, através de uma vasta distância. O passado dissolvia-se numa mancha; o presente ainda não existia. Havia escuridão e confusão; uma incapacidade para distinguir o que quer que fosse. Ele fora apanhado num redemoinho de águas, perdido num turbilhão. Não tinha qualquer sensação de ser.

Finalmente, acordou.

Estava de novo no quarto de Suzanne. Ela estava deitada a seu lado, a dormir pacificamente. Helen não se via em lado nenhum. Embora Paul não o soubesse, ela fora desafiar o padre David e Marie, que tinham acabado de chegar a casa de Pauí.

Paul pestanejou. Tinha sido apenas um sonho, não tinha? Claro que tinha. Debruçou-se sobre a figura deitada de Suzanne e afastou o lençol para trás. Na nádega direita dela, ele voltou a encontrar a marca de servidão, Mas esta marca era diferente. Tinha mudado.

Estava deitado de costas na cama e experimentava um arrepio do mais puro prazer. Devia ser a marca dele. No mais profundo do seu ser, ele apercebia-se de que as revelações que tinha experimentado eram tão verdadeiras como a realidade. E esta mulher, Suzanne, tornara-se sua escrava. Ele era dono dela, de corpo e alma,

Paul beijou-a. Um beijo de posse. Um beijo de Judas.

 

"Freud confessou-me que era necessário fazer um dogma da sua teoria sexual porque este era o único baluarte da razão contra uma possível «explosão de ocultismo negro". Nestas palavras Freud expressava a sua convicção de que o inconsciente abrigava muitas coisas que podiam adaptar-se a interpretações "ocultas", como é, de facto, o caso. Estes vestígios arcaicos ou arquétipos, baseiam-se nos instintos e, dando-lhes expressão, têm uma qualidade que inspira temor respeitoso e que por vezes faz surgir medo. São inextirpáveis, pois representam as fundações elementares da própria psique."

                   Carl Jung, The Indiscovered Self

 

O padre David e Marie entraram no carro dele, que já não era novo. O padre decidira não lhe dizer nada sobre as suas preocupações. Isso causar-lhe-ia grande angústia e poderia ser uma atitude precipitada.

Tentara contactar o cardeal Benelli, o seu superior último, uma vez que, apenas dois dias antes, o Vaticano lhe ordenara a ele e a outros peritos em exorcismo que informassem sobre quaisquer casos de possessão em que fosse referida uma moeda. No entanto, o funcionário de língua afiada com quem o padre David falara dissera que Benelli estava doente e que não podia falar com ninguém. Assim, o padre David deixara uma mensagem.

De certa forma, duvidava de que o cardeal o contactasse. Afinal, porque o deveria ele fazer? O padre David sempre servira em cargos clericais inferiores e, nos seus 35 anos de monge, nunca visitara Roma nem uma única vez. Era uma pessoa insignificante no grande esquema das coisas eclesiásticas; no fundo da escada clerical. Era assim.

- Peço desculpa pelo estado do carro - disse ele. - Foi um presente de um paroquiano e sinto-me muito grato por ele.

- Por favor, não precisa de pedir desculpa.

- Tem uma filha encantadora.

- Sim, adoro-a.

- E o seu marido, gosta de crianças?

- Oh, sim - respondeu Marie. - Ele ama-a mais do que ao mundo inteiro. Conhece o meu marido?

- Não - continuou o padre David -, embora tenha lido um ou dois dos seus livros. Não me parece que ele seja um grande fã da religião.

Marie hesitou.

- Digamos que ele não acredita nela. Pensa que é tudo um disparate. - Ela parecia algo embaraçada. - Peço desculpa.

- Por favor, não se desculpe. Ele tem perfeitamente direito à sua opinião. E a senhora?

- Oh, eu acredito - respondeu ela.

- Porquê?

- Porquê? - Seguiam pela estrada a uma velocidade moderada. - Porque sei que Deus existe - disse Marie. - Sei apenas dentro de mim, é isso. E quando olho para as estrelas ou para Rachel, tenho a certeza disso. Mas não leio livros religiosos; rezo apenas o rosário todas as noites. E o senhor?

O padre riu. Soltou uma robusta gargalhada. Era um homem prático e também tinha pouco tempo para teoria.

- Eu sou como a senhora, embora também tenha um ou dois livros para ler. Faz tudo parte do trabalho.

- Que moeda é essa que a minha filha e eu vimos? O rosto do padre David tornou-se sério.

- Penso que não devemos falar dessas coisas agora. Continuaram pela rua em que viviam os Stauffer, e chegaram à entrada. A casa de Marie apareceu em frente deles.

- Muito impressionante - disse o padre, calmamente.

Era uma enorme casa de dois pisos, colocada nos seus próprios terrenos, numa parte exclusiva da cidade. O estilo era moderno e funcional, tudo vidro e madeira. Fora concebida por um dos arquitectos mais famosos da Califórnia.

- Sim - disse Marie. - Vivemos nela há quatro anos. Adoro estar aqui. - E acrescentou, melancolicamente: - Adorava estar aqui.

- E brevemente vai voltar a adorar - disse o padre David num tom confiante. Saiu do carro. Estava preparado para a tarefa que o esperava.

A Igreja aceitava a realidade dos espíritos malignos e a capacidade que tinham de possuir pessoas e animais. A Bíblia registava frequentemente a expulsão de demónios daqueles que estavam possuídos e a maior parte das pessoas tinha conhecimento daquele famoso incidente do Evangelho segundo São Mateus, em que Cristo ordenou aos demónios que deixassem um homem possuído e entrassem numa vara de porcos, que depois se atirou de um precipício. No entanto, a Igreja moderna tinha também muito cuidado em relação a estes assuntos - uma vez que a vasta maioria de alegadas possessões pelo demónio ou eram falsas ou eram fraudes.

Contudo, desde tempos muito remotos que havia exorcistas - ou seja, padres treinados, nomeados para exorcizarem os espíritos malignos. Estes homens eram cuidadosamente escolhidos pela Igreja, indivíduos metódicos e altamente circunspectos na sua abordagem. Entregavam relatórios a um cardeal em Roma - um homem cuja natureza era suficientemente perspicaz para separar o falso do verdadeiro, como o trigo do joio. O cardeal Benelli.

- O seu marido estará em casa? - caminhavam em direcção à porta principal. No exterior, era crepúsculo.

- Não - disse Marie. - Ele geralmente regressa da universidade muito mais tarde. Tem sempre muito que fazer.

- Posso imaginar.

Atravessaram a soleira da porta e encontravam-se no vestíbulo. Tudo estava calmo.

A possessão de seres humanos pelo demónio era relativamente fácil de detectar. Geralmente, os espíritos malignos reagiam ao toque da cruz ou outros objectos divinos, como se fossem queimados pelo fogo ou escaldados por água a ferver. Isto não tinha nada a ver com o objecto em si, mas com a presença nele contida. Os demónios sentiam o espírito da santidade, do qual o objecto fora imbuído. No entanto, estes indícios do mal relativamente simples não eram à prova de distracções, pois os graus dos espíritos malignos eram muitos e aqueles que se encontrassem profundamente imersos no mal podiam não ser afectados.

As manifestações constituíam, muitas vezes, um guia mais seguro do que o toque de uma cruz. É que o mundo natural estava sujeito a leis que não confirmavam o espiritual, e o próprio padre David testemunhara coisas que desafiavam a explicação: crianças que falavam em línguas de idades antigas; a inexplicável levitação de objectos de grande peso; escritas misteriosas em paredes e soalhos; a presença física de formas que faziam parte do cosmos mas não deste mundo.

O padre David tinha apenas de fechar os olhos e via, muitas vezes, estes espíritos quando efectuava os seus exorcismos. Por vezes eram criaturas miseráveis, que se encolhiam, com o olhar sinistro dos animais. Outras vezes a manifestação incluía a figura real ou o rosto de uma pessoa morta ou viva - como uma máscara - mas muitas vezes horrivelmente distorcida pelo medo ou pelo ódio.

Eram então estas as poderosas forças do mal, aquelas que tinham descido às profundezas da maldade. Demónios que podiam mudar de forma segundo a sua vontade e aparecer em qualquer parte do mundo. Podiam induzir as mais aterrorizadoras ilusões na mente dos seres humanos e controlá-las. Uma pessoa podia pensar que estava a caminhar por uma rua quando estava a atirar-se de um penhasco, uma mulher podia pensar que estava a alimentar o filho, quando estava a estrangulá-lo, uma criança podia pensar que estava a brincar com um irmãozinho ou irmãzinha, quando estava de facto a afogá-lo.

Depois, se sobrevivessem, estes seres humanos abjectos nos quais os espíritos malignos tinham temporariamente estabelecido residência, pouco ou nada se lembravam das coisas que tinham feito. Seriam como zombies ou meio-seres, as almas terrivelmente danificadas, como num acidente de carro espiritual, o invólucro exterior mutilado e quebrado até que o verdadeiro arrependimento ou a morte viessem.

Estas coisas tinha o padre David testemunhado por si próprio. Vira também que os ritos de exorcismo levavam invariavelmente estas criaturas terríveis para fora dos cálices humanos que procuravam habitar, para regiões mais frias, onde existia uma ausência de todo o calor humano ou espiritual.

Mas dos profundos mistérios do mundo dos espíritos, o padre sabia pouco, nem sequer entrava nele fosse a que profundidade fosse. O padre David nunca vira um anjo das Trevas, nem teria sobrevivido, se tivesse visto um. Através do poder divino, estas presenças não tinham geralmente qualquer forma de aceder ao mundo e não podiam passar a porta para a realidade humana. Era aí que residia a salvação da humanidade.

- Vou ligar todas as luzes - disse Marie, cheia de medo.

- Óptimo - respondeu o padre David. Colocou a sua pequena mala no átrio. Não havia ali nada. Ele tinha a certeza. Não havia presença. Geralmente, ele sentia uma malevolência a impregnar o local quando um espírito maligno estava presente, ou até um fedor, como o de carne humana podre. Mas aqui não. Nada, No entanto, estava muito frio. Uma falha no aquecimento central, era essa uma explicação de senso comum.

- Tem algum cão em casa? - O padre David tivera conhecimento de muitos casos em que gatos e cães se tinham recusado a entrar em salas ou tinham mostrado reacções de alarme quando colocados junto a locais assombrados. Outro indicador útil.

- Não - disse Marie. - O nosso Labrador está desaparecido. - Por qualquer razão que não conseguia compreender, ela esquecera-se de lhe contar o que acontecera com os animais.

Marie entrou na cozinha. Tudo estava como de costume. A louça estava na máquina, uma boneca de trapos estava encostada ao lava-louças, os cortinados estavam corridos.

- Vou lá acima - disse o padre David. - Onde é que viu a moeda?

- No nosso quarto, à esquerda - disse Marie.

O padre David começou a subir as escadas, a mala ainda no átrio. No quinto degrau, as luzes apagaram-se.

- Está tudo bem, Marie, não entre em pânico. Deve ser simplesmente um fusível.

Ele desceu a escadas e dirigiu-se à sala. Marie estava lá, a mão agarrada ao auscultador do telefone, como um vício. O monge tirou-lho da mão.

- Marie - disse ele numa voz muito calma. - É apenas um fusível. A sério, é. Por favor, não esteja assustada. Onde é o quadro?

- Na cave. Passa-se pela cozinha.

- Volto já. Sente-se, está bem?

O padre entrou na ampla cozinha e abriu a porta da cave. Em seguida pegou numa lanterna e começou a descer os degraus de madeira. Marie estava sentada no sofá, mas já não lhe ouvia os passos, pois estava a acontecer algo de muito estranho.

Estava a escurecer.

No entanto, não se tratava de um crepúsculo a esvair-se decididamente na noite. Em vez disso, era uma escuridão profunda que entrava na sala como um redemoinho de nevoeiro. Marie pestanejou. Deixara de ver. Nem sequer a porta da sala. Nem sequer a sua própria mão. Tentou gritar, mas não foi capaz.

- Padre... padre - chamou ela, sobressaltada. Como podia ela avisá-lo?

O padre inspeccionava a espaçosa cave a todo o comprimento da casa. Estava vazia, com excepção de algumas caixas de cartão. À luz da lanterna, localizou o quadro da luz e abriu-o.

- Cá vamos nós.

As luzes voltaram a tremeluzir. À medida que isso acontecia, o padre David viu o que estava a aparecer na parede. Cambaleou para trás, horrorizado.

- Marie, saia daqui, saia! - gritou ele, mas ela não o ouviu. As luzes voltaram a apagar-se. Então uma força que lembrava o

poderoso vórtice de um tornado impeliu o padre para o ar, atirando-o para o outro lado da cave e esmagando-o contra a parede. Ouviu-se um repugnante estalido de ossos, à medida que a sua perna direita se fracturava.

O padre David olhava para a frente, boquiaberto, a mente paralisada de medo. A claridade era agora irrelevante, pois a escuridão estava inundada de uma sinistra luz espectral. Na parede começou a formar-se um enorme pentagrama. O padre tentou dizer as palavras de abertura de um exorcismo, mas não proferiu nenhuma. Encarava um mal muito maior do que alguma vez experimentara, e era incapaz de resistir na sua presença.

O pentagrama começou a completar-se, distinguindo-se os anéis que o envolviam, como se estivessem gravados a fogo sulfuroso. O padre David tinha os olhos pregados ao chão. O que quer que fosse aparecer vinha das regiões exteriores do espírito e, quando ele o olhasse, seria aniquilado.

- Marie - disse ele com voz rouca. Tinha de salvá-la.

A tremer, o padre ergueu um pequeno frasco de água benta. Quebrou-se-lhe na mão, assobiando e cuspindo, à medida que a água o queimava. Tirando uma cruz do bolso, o padre David arrastou-se pelo chão. As runas do pentagrama enchiam-se como que traçadas por uma mão invisível. O padre David agarrou-se ao corrimão da escada. Num murmúrio recitou um excerto do Salmo 23:

- Mesmo que atravesse os vales tenebrosos, nenhum mal temerei. Não continuou, pois as alucinações começaram. O exorcista já não via. Encontrava-se num navio num furacão, uma enorme avalancha de água que se lançava sobre ele. Esperou que a água o esmagasse debaixo do seu peso, mas tal não aconteceu. De seguida encontrava-se no mais alto dos edifícios. Mais um passo e ele cairia daquelas alturas. O padre David caiu. Desesperadamente, começou a arrastar-se pela escada acima. As alucinações continuavam, grotescas e macabras.

Estava num bosque escuro, de joelhos, e não podia correr mais. À sua volta ouviam-se gritos ancestrais. Os caçadores aproximavam-se rapidamente. Ele via-os, enormes lobos cinzentos que saltavam de detrás dos abetos. Depois já se encontrava noutro local. Estava num lago de água estagnada e pútrida, afogando-se sob o peso de enormes pedras, sufocando, morrendo.

As ilusões eram tão reais que o padre David as experimentava na sua plenitude. Gritou, em agonia, ao mesmo tempo que desfalecia, inconsciente, incapaz de continuar a subir os degraus. O que quer que fosse que ali se encontrava era muito mais poderoso do que ele e estava a brincar com ele. A cruz caiu-lhe da mão. Saído da escuridão, o espírito de Helen aproximou-se, acompanhado de outros habitantes do inferno.

Foi Marie que encontrou o padre junto à porta da cave. Descobriu mais água benta no saco do padre e deitou-lhe sobre a cabeça. Em seguida tentou arrastar o exorcista em direcção à porta da frente da casa, perdida no nevoeiro da noite que os envolvia. Estava gélida de terror, mas sabia que tinha de o ajudar.

De súbito, experimentou um calor intenso em volta do coração, como uma chama a queimar. À sua mente começaram a aflorar palavras. Vindas de onde, não sabia, mas gritou-as contra o adversário invisível. Palavras de exorcismo:

- Esconjuro-te, velha serpente, pelo Juiz dos vivos e dos mortos, pelo teu Criador e pelo Criador do mundo, que tem poder para te mandar para o inferno, para que abandones depressa este servo de Deus.

As palavras não eram de Marie mas de outra pessoa.

A milhares de quilómetros de distância, num convento esquecido em Itália, uma freira que rezava no mais profundo dos transes apercebeu-se da existência de Marie e da situação difícil em que se encontrava. A presença da freira entrou-lhe na mente e pronunciou as palavras de exorcismo. A batalha começara.

Catherine de Benedetto virou-se para encarar o inimigo no sétimo plano astral, Dois espíritos poderosos, um armado de morte e desespero, o outro de luz. Para Helen, desafiar um simples padre sem grande espiritualidade e fé era uma coisa, encarar uma santa viva era outra completamente diferente. Ela sabia que, sem invocar a Moeda de Judas, não poderia derrotar a freira e poderia sofrer uma grande perda de poder, se aquela criatura fosse mais formidável do que ela supunha. No entanto, revelar o verdadeiro possuidor da moeda neste momento, e matar esta mulher sem ter Paul completamente nas suas mãos, seria demasiado perigoso.

Marie arrastou o padre David através da cozinha para o átrio, ao mesmo tempo que palavras de exorcismo lhe fluíam da mente. A sua frente a escuridão era de breu. Não via nada dentro de casa, nem a porta, nem o mobiliário, nem as paredes. Tinha a mente cheia de imagens aterrorizadoras! Serpentes que se contorciam ao saírem do nevoeiro, os olhos imbuídos de uma maldade quase humana. Atrás delas, uma figura. Ela encontrava-se num templo antigo, o esconderijo de um mágico de tempos antigos, runas e marcas na parede, fogos que se inflamavam na escuridão estígia, os gritos de agonia e as formas destruídas de outros seres humanos por ali estendidos em suplício e tortura. O demónio começou a aproximar-se. Ela não ousou levantar o olhar para lhe contemplar o rosto.

- Salva-me, Ó Senhor! - rezou Marie.

Ao mesmo tempo, o mal dissipava-se à medida que o poder de Catherine de Benedetto quebrava o feitiço. Marie experimentou um brilho que queimava, após o que um acesso de alegria transcendente lhe encheu o coração. O amor da freira entrava na sua alma, expulsando o terror e o medo de morte. Marie gritou e caiu por terra, sem sentidos.

Quando recuperou os sentidos, estava deitada no chão. As luzes na casa estavam acesas. Havia indícios do que acontecera, para além do padre moribundo que tinha nos braços, o rosto transformado numa máscara de sofrimento. Marie embalou-o. Na sua mente surgiu uma instrução: Parte agora. Foge.

A milhares de quilómetros de distância, Catherine de Benedetto levantou-se rapidamente do altar. Olhara o verdadeiro rosto de Helen, uma imagem monstruosa. Vira também a Moeda de Judas que ela segurava. Mas Catherine sabia que quem possuía de facto a moeda não era Helen. Era outra força, uma força das trevas muito mais poderosa ainda. Uma que vinha do outro lado dos planos astrais. Catherine não lhe conseguiu ver o rosto. Mas aproximava-se cada vez mais, para entrar no mundo.

Uma última coisa que Catherine de Benedetto sabia, como grande alma que era. Ela não podia derrotá-la.

Porque se tratava de um Espírito Elementar.

A irmã Marta fechou a porta devagar. De trás de si chegavam ainda aos seus ouvidos os últimos ritos que estavam a ser ditos pelo padre David, assim como o som de choro. Olhou Marie, o seu próprio rosto gelado de alarme.

- A senhora e a sua filha não devem deixar este convento em circunstância alguma.

- E se formos para outra cidade?

A madre superiora abanou a cabeça.

- Não está a perceber, Marie. Os espíritos malignos não estão sujeitos às fronteiras humanas. São invisíveis e ilimitados pelo tempo e pela distância. Não pode fugir deles ao escapar de outro ser humano.

Marie murmurou:

- E a minha filha?

- Rachel deve ficar aqui. Não lhe deve dizer nada do que aconteceu.

- E o meu marido? - perguntou Marie. - Ele não deve regressar a casa?

A freira olhou-a com curiosidade.

- Devia pedir ao seu marido que viesse cá amanhã, mas à luz do dia.

Marie disse:

- E ele virá?

Devagar, a freira abanou a cabeça. Marie suspirou, pois ambas tinham lido os pensamentos uma da outra. Paul não seria capaz de entrar no convento. O que ela mais receava era verdade.

- O padre David?

- Está gravemente doente.

- O que viu ele?

- Não sei - respondeu a freira.

Ouviu-se um ruído junto à porta. Depressa, a irmã Marta voltou ao interior do pequeno quarto. O rosto do exorcista estava pálido. Acabara de lhe ser administrada a Extrema-Unção. Os seus olhos fitavam sem expressão, à medida que ele entrava no caminho para a morte. Debilmente, fez sinal aos outros para que saíssem do quarto. A irmà Marta sentou-se a seu lado. Ele tentou falar.

- Uma moeda - disse ela. - Vistes uma moeda? O padre confirmou com um mover de olhos.

- Benelli...

- Compreendo - disse a freira, agarrando nas suas a mão gélida. - Devo contar ao cardeal sobre a moeda. - Fez uma pausa. - Era como a criança a desenhou?

Os olhos voltaram a mover-se imperceptivelmente. A irmã Marta observou a cor púrpura a inundar lentamente o rosto dele. Ela falou de novo, pois a visão e em seguida a audição eram os últimos sentidos a desaparecerem.

- Mas, padre, o que significa ela?

O padre fixou-a, mas, na morte, não podia mais comunicar. A freira chorou ao mesmo tempo que testemunhava os seus últimos momentos na terra. Se este mal pôde derrotar o padre David, então, certamente, podia destruí-la, a ela e às suas companheiras.

A provação abatera-se sobre elas.

 

"Nem mesmo os santos nem os fiéis adoradores do único Deus verdadeiro e supremo estão livres dos enganos de demónios

e das suas tentações múltiplas."

                   Santo Agostinho, A Cidade de Deus

 

O cardeal Benelli estava sentado sozinho no seu gabinete. Lá fora, no corredor, ouvia vozes em surdina, à medida que diversos assistentes passavam, apressados, no desempenho das suas funções habituais. Era um dia normal no coração do Vaticano. No entanto, para ele, era tudo menos normal. Uma hora antes, Benelli recebera a chamada telefónica sobre o padre David.

A dor dominava o cardeal. Culpava-se a si próprio. Se tivesse compreendido a sua revelação, o Vaticano teria descoberto mais cedo onde a moeda se encontrava. Se ele não tivesse estado doente, o padre David teria podido contactá-lo. Por sua causa, aquele santo homem tinha morrido.

Benelli tinha agora a certeza de que as forças do mal estavam a brincar com ele, a troçar dele. Grande Cardeal, pensas tu que és, sussurravam elas, orgulhoso homem do clero, mas para nós és um estúpido. Enganamos-te e é só mais tarde que compreendes. Através da tua estupidez, levarás outros ao abismo.

O que devia Benelli fazer? Deveria dizer agora ao Santo Padre que não podia continuar? Com certeza que João XXV já tinha reparado nisso... Que outros fracassos seriam causados por ele? Era demasiado horrível para contemplar e não havia ninguém que o ajudasse.

O mal. Quanto às suas manifestações físicas, Benelli nunca tivera a menor dúvida desde que se tornara padre há tantos anos. Aqueles que participavam em rituais satânicos, aqueles que usavam magia negra para se exaltarem e para condenarem os seus inimigos, aqueles que traficavam com anjos caídos - todos pagavam um preço eterno.

O vodu no Haiti e em África; as lojas satânicas altamente organizadas que tinham existido desde o século XI em Antuérpia, Avinhão e Roma; a profanação de altares de igreja; o rapto e sacrifício de crianças; o roubo de objectos sagrados: tudo isto ainda acontecia nos tempos modernos em proporções muito maiores do que as pessoas se apercebiam, e era impossível pôr um fim a essa situação.

Esta obediência a Satanás não era só comunal - existia também a um nível individual. Os crimes abomináveis e horríveis cometidos por muitos assassinos, espécimens patéticos da humanidade, que confessavam então serem incitados por vozes que ouviam dentro da mente, faziam parte do todo maior, um intento demoníaco geral.

Mas enquanto Benelli aceitava as manifestações físicas do mal, ele compreendia agora que a sua realidade espiritual era ainda mais horrível na sua capacidade de penetração, na sua subtileza e no seu poder. Era uma força viva de imenso ódio. Um papa anterior, Paulo VI, afirmara enfaticamente em 1972:

O mal não é meramente uma falta de alguma coisa, mas um agente eficaz, um ser espiritual vivo, pervertido eperversor. Uma realidade terrível... misteriosa e assustadora, este espírito negro e perturbador existe realmente e age ainda com uma astúcia traiçoeira. É contrário aos ensinamentos da Bíblia e da igreja recusar reconhecer a existência de tal realidade, ou considerá-la num princípio em si que não tem origem em Deus como qualquer outra criatura; ou explicá-la como uma pseudo realidade, uma personificação conceptual e fantasista das causas desconhecidas do nosso infortúnio.

Benelli, ao longo da sua vida, vira muitas vezes este espírito maligno em acção: nos rostos daqueles que tinham assassinado e torturado; nos quase inacreditáveis actos de negligência e maus tratos intencionais cometidos por um ser humano sobre outro; nas crueldades animalescas e selvajaria que surgiam durante a guerra. Ele vira muitas vezes este elemento humano do mal e podia reconhecer a sua

marca com facilidade.

Contudo, desta vez, já idoso, ele testemunharia o aparecimento real destes grandes espíritos que traficavam com a miséria humana, dirigindo-a para o seu senhor, pois eles voltariam a entrar no mundo. Nenhum poder nem espiritualidade humanos poderiam resistir-lhes.

O pior de tudo era que a profecia do Papa Silvestre II indicara que a própria Igreja cairia quando aquele que se encontrava mais próximo do Papa possuísse uma moeda dessas. Por isso o próprio Benelli seria agora submetido à sua própria provação. Carregaria a sua cruz, e chegariam à conclusão de que era fraco de espírito, disso ele estava certo.

Confortável no seu Cardinalato, seguro na respeitada posição que ocupava no Vaticano, presunçoso na sua religiosidade, Benelli pensara, no seu orgulho arrogante, que os poderes da tentação estavam, na maior parte, para além dele. Afinal, ele não sentia qualquer ânsia pelos pecados da carne, não tinha qualquer desejo de riqueza e, embora gostasse da sua comida e talvez de um copo de vinho de vez em quando, como o seu estômago atestava, não era, na verdade, nenhum glutão.

Mas isto era irrelevante; estas eram virtudes menores. Não o podiam defender contra as garras dos poderes das trevas - essa fora a sua louca e arrogante suposição. Agora eles procuravam-no e tudo aquilo que ele amava e a que dedicara a sua vida - a Igreja - podia ser traída e destruída pela sua própria mão. De alguma forma uma moeda viria ter com ele. No seu coração, Benelli sabia que isto era verdade e essa certeza esmagava-o completamente.

Afasta de mim este cálice.

Benelli tinha também a certeza de que, desta vez, a sua oração seria em vão. Desta vez experimentaria as profundezas do mal e de toda a tentação que ele implicava. Para além disso, como ser humano individual, experimentá-lo-ia sozinho. O chefe do Santo Ofício seria, ele próprio, julgado. Esta ansiedade corroía-lhe a alma.

Bateram à porta. Benelli levantou o olhar da secretária para o rosto sem fôlego de um jovem padre.

- Cardeal, o Santo Padre quer vê-lo. Acabou de se confessar.

Benelli começou a caminhar pelo corredor. Não tinha São Paulo sido outrora Saul de Tarso, decidido a destruir a Fé? Não tinha São Pedro, a pedra sobre a qual a Igreja fora construída, negado três vezes o seu próprio Salvador? E o próprio Benelli? Será que a sua fama se apoiaria na destruição das fundações de uma instituição que levara dois mil anos a ser construída?

O cardeal abriu a porta para a pequena capela privada e genuflectiu. No altar estava ajoelhado o Vigário de Cristo, chefe da Igreja na terra. À medida que Benelli caminhava ao longo da nave lateral, o homem idoso levantou-se e virou-se para ele. O seu rosto profundamente enrugado não deixava transparecer qualquer indício do que o pontífice sentia em relação à maior dificuldade que a Igreja encarara durante um milénio.

Vestido com um simples traje branco, o Papa sentou-se numa cadeira que fora colocada logo abaixo do altar. João XXV estava em silêncio; os seus olhos observavam Benelli com firmeza.

- Lestes a Confissão do Papa Silvestre II?

- Sim, Santo Padre - disse Benelli. Contou também a terrível notícia sobre o padre David. No fim, perguntou: - Credes que Silvestre falava verdade quando disse que nenhum humano vivo pode resistir a estas últimas três Moedas de Judas?

- Receio que sim.

- Então quem se pode opor a este mal? - perguntou Benelli

- Não sei - respondeu o pontífice.

- Não poderíamos usar a Moeda de Judas que pertenceu a Silvestre? - sugeriu Benelli. - É a única moeda que não está enterrada no túmulo de São Pedro. Pode ainda ter poder; talvez a conseguíssemos encontrar. Sabemos a partir dos nossos registos que o Papa foi sepultado no exterior da Igreja de Latrão, aqui em Roma.

- Mas suponde que a última confissão não era verdadeira. Suponde que Silvestre morreu apanhado no laço do mal? Não será esta moeda mais uma tentação mortal? E quem a possuirá?

O rosto de Benelli corou, como se de culpa.

- Eu não estava a sugerir que fosse eu a usá-la, Santo Padre. João lançou-lhe um olhar perspicaz.

- Eu também não estava a sugeri-lo. Apenas que não sabemos nada desta moeda e suspeito de que o seu segredo morreu com Silvestre.

- Então o que podemos fazer? O que acontecerá? O Papa fez uma pausa para pensar.

- A Igreja tem tido muitos inimigos através da sua longa história. Mas dos inimigos temporais e espirituais, são os inimigos espirituais que são, de longe, mais perigosos. O poder desta moeda também está a crescer muito mais rapidamente do que eu supus. Tem de ser impedida antes que seja tarde de mais.

Enquanto conversavam, a porta das traseiras da capela abriu-se, Benelli esperou que entrassem os recém-chegados para se colocar ao lado do Santo Padre. Era o padre confessor e Catherine de Benedetto.

Eaqui estamos nós, pensou Benelli. Encarando umpoderdo mal pelo qual o Salvador foi entregue à morte. E estas são as únicas pessoas que a Igreja tinha para a defender- uma santa, o confessor do Papa e ele próprio - um cardeal bastante nédio cuja única esperança fora estar atrás quando se abrissem as portas do paraíso e a glória de Deus fosse revelada a toda a humanidade. O que podiam fazer estes frágeis instrumentos humanos contra um Anjo das Trevas, um emissário de alguém que caminhara com Deus antes da criação deste mundo?

- Quero que lhes conteis a profecia do Papa Silvestre II - disse o pontífice numa voz calma.

Benelli acenou com a cabeça e fez menção de começar a falar. De súbito, um brilho de compreensão entrou-lhe na mente. Apercebia-se agora por que motivo os três tinham sido seleccionados pelo pontífice. A escolha fora deliberada. Pois não tinha Silvestre dito que a Igreja seria destruída por alguém que se encontrava "mais próximo do Papa"?

O prelado supusera que esta era uma referência para si próprio - aquele que, em termos administrativos, era o homem mais poderoso do Vaticano depois do Santo Padre. Mas estas palavras podiam significar outra coisa. O "mais próximo" podia também ser aquele que conhecia os segredos mais íntimos do Papa, o padre confessor. Ou podia ser aquele que se encontrasse mais próximo dele em espiritualidade, Catherine de Benedetto. Um destes três podia trair o pontífice e destruir a Igreja. Um destes três podia seguir as pisadas de Judas.

- Santo Padre - disse Benelli, gaguejando -, não tenho a certeza se devemos divulgar a profecia.

- Dizei-lhe.

- Mas...

Uma tristeza imensa apoderou-se de Benelli. Apercebeu-se de que o próprio João XXV não sabia qual dos três o podia trair.

Assim, conforme a ordem, Benelli contou a profecia aos outros dois. Contou-lhes também a notícia que recebera de um convento em São Francisco. Falou-lhes de Marie e da criança e do marido de Marie, Paul, e do receio de que ele fosse o ser humano através do qual um habitante do inferno viria ao mundo.

No fim, João XXV perguntou à freira:

- Algum ser humano pode resistir a este mal?

Ela inclinara a cabeça enquanto Benelli estivera a falar. Catherine de Benedetto agora levantava-a

- Penso que não, Santo Padre.

- O que acontecerá a Paul Stauffer? - inquiriu Benelli impulsivamente.

- A Moeda de Judas não lhe pertence - disse Catherine. - Ele é apenas o instrumento que ela usa para vir a este mundo. O seu poder é muito, muito maior. Aquele que realmente a controla ainda não apareceu e o seu espírito usará Paul para realizar a sua vontade.

- Mas porquê este homem?

- Quem sabe? - respondeu Catherine. - Mas a marca destas moedas é a traição. Aqueles que traem outros e que depois procuram adquirir as coisas do espírito para seu próprio engrandecimento.

- O que irá acontecer?

- O mal destruí-lo-á, assim como tudo o que ele ama. Depois a influência espiritual que está por detrás da moeda procurará a Igreja. Virá aqui, qual lobo voraz, e o seu poder será ilimitado.

- Que espírito controla esta moeda? - perguntou o padre Thomas.

- Ainda não consigo ver.

Voltaram a ficar em silêncio. Finalmente, o pontífice falou:

- Obrigado, Catherine.

A freira ajoelhou-se à frente dele para lhe beijar o anel. Em seguida deixou a capela.

- Temos de fazer tudo o que é possível para proteger a mulher e a criança - disse João XXV. - Temos também de confirmar que de facto se trata de uma Moeda de Judas. - Olhou o padre confessor. - Aceitareis este fardo? A decisão é vossa.

Após uma pausa quase imperceptível, o monge assentiu. Partiu também assim que o Papa o abençoou.

Apenas Benelli e o pontífice ficaram. O primeiro levantou-se. A sua

voz era amarga.

- Santo Padre, Silvestre não disse que, das três últimas moedas, se uma delas se encontrar nas mãos da pessoa mais próxima do Papa, a própria Igreja cairá? - hesitou, sem vontade de continuar. - Pode ser um de nós. No entanto, se alguém for enviado para determinar a natureza desta moeda, devo ser eu, pois não trairei esta Igreja. Juro que não sou nenhum Judas.

- O que fiz, está feito - respondeu o Papa, simplesmente. - Mas tenho um fardo para vós também, se o aceitardes. Deveis encontrar o túmulo de Silvestre, Pode ser a nossa última esperança.

Olhou em direcção ao altar.

- E depressa; antes que o Anjo das Trevas chegue.

 

"Mas na bruxaria, quando os adultos são embruxados, acontece-lhes geralmente que o demónio os possui penosamente por dentro para lhes destruir as almas."

                   Malleus Maleficarum, O Martelo das Bruxas

 

Paul nada sabia sobre a visita do padre David a sua casa, nem sobre a morte do pobre homem. E ainda sabia menos sobre o encontro do Papa com os seus conselheiros mais chegados. Estas eram coisas que Helen não tinha a menor intenção de lhe divulgar, já que o desejo dela era prendê-lo nas trevas. Contudo, a própria mente de Paul, enquanto ensombrada, ainda não fora completamente obscurecida. Ainda tinha liberdade de opção e tinha de ser persuadido a desistir dela. Nem sequer Helen podia alterar o que fora estabelecido na Aurora dos tempos, antes da criação de todas as coisas.

De onde vem esta força?, perguntava-se ele.

Paul não tinha agora qualquer dúvida de que a moeda tinha um poder extraordinário que emanava de uma força que não era humana. Estava cativo dela, ávido de mais experiências e sensações, no entanto, não era estúpido.

O que quer de mim esta mulher?, foi a pergunta seguinte.

Apesar das promessas de Helen de mais conhecimento e sabedoria, Paul precisava de assegurar a si próprio que poderia sair deste carrocel cósmico, se assim fosse preciso. Para alguma eventualidade. Não que acreditasse no bem e no mal, é claro.

Assim, quando Helen desapareceu para desafiar o padre, Paul continuara a sua liaison dangereuse com Suzanne por mais pouco tempo. Ao final da tarde, deixou-a. No entanto, em vez de ir para casa, dirigiu-se à universidade. Havia uma série de coisas que ele tinha de descobrir. Coisas, apercebia-se ele, que Helen não estaria disposta a discutir com ele.

- Não temos muitos livros sobre o oculto, senhor. Mas vou dar uma vista de olhos. - A jovem bibliotecária estudou Paul, curiosa em relação aos motivos que o levavam a querer investigar tais assuntos. A biblioteca da Universidade de São Francisco estava bem fornecida. Contudo, magia negra e possessão demoníaca não eram - actualmente - tópicos que fizessem parte do currículo da universidade, por isso ela teve de procurar os livros. Paul estava sentado na biblioteca, sendo os outros únicos ocupantes um par de estudantes e um professor. Fechou os olhos e começou a pensar.

Primeiro sensações, depois auras, em seguida a capacidade de viajar nos planos astrais. Qual era o efeito disto sobre ele? Um maravilhoso sentido de júbilo, de ser livre para explorar os mistérios do universo sem as restrições cansativas da sua forma física. Uma alegria que fluía do aumento do seu conhecimento até um nível sobre-humano, e uma ânsia por mais. Tudo características positivas, considerou ele.

Algumas negativas?

Paul reparara que os seus sentimentos de caridade e misericórdia se tornavam quase inexistentes quanto mais viajava nos planos astrais. Já não queria saber de Marie, nem da filha nem, na verdade, de qualquer outra pessoa. Em vez disso, tornou-se um espectador desapaixonado, interessado, mas insensível. Quando vira a criança a ser despedaçada no Circo de Nero, vira a cena com uma curiosidade distante. Se tivesse sido a sua própria filha, teria feito o mesmo. A sobre-humanidade estava a colocá-lo acima dos laços, ou para lá dos laços, da pena. As emoções humanas estavam a esgotar-se nele, à medida que os vícios faziam a sua entrada secreta.

Mais uma coisa. Paul sabia que Helen estava a ajudá-lo com qualquer objectivo ainda por descobrir. Não havia almoços de graça no universo, imaginava ele. No entanto, quanto mais avançava nos planos astrais, mais conseguia adivinhar os pensamentos dela, pelo menos assim parecia. Ela também admitira perante ele que era apenas a guardiã da moeda. Se ele fosse o seu dono, poderia controlá-la até a ela.

Será que Paul o podia fazer? Será que ousava arriscá-lo? Claro que podia. Podia ser mais esperto até do que ela. Além disso, estar nos planos astrais era como uma droga - mas centenas de vezes mais poderoso do que qualquer confecção humana. Tudo isto lhe cativava totalmente a mente, deitava por terra todas as suas anteriores concepções de realidade humana. Era verdadeiramente miraculoso. Uma sabedoria proibida. No entanto, embora Paul não o soubesse, os seus pensamentos interiores já estavam a ser manipulados pelo verdadeiro senhor da moeda, de uma distância espiritual inimaginável, para além do tempo e do espaço. Na sua cupidez, o aprendiz de mágico não se apercebeu de algo bastante importante. O mágico estava a regressar ao seu esconderijo.

- São estes os livros que queria, senhor.

Magia. Isso era uma chave. Ajudado pelo poder da moeda, Paul depressa absorveu o registo humano sobre o assunto. Leu sobre Hermes Trismegistus e o oculto no Antigo Egipto, sobre Zoroastrianismo e os Magos, sobre a Cabala e sobre os Mistérios Judaicos de Deus. Leu também sobre a Pedra Filosofal, sobre a Doutrina Secreta e os trabalhos de alquimia; sobre os Iluministas e as Palavras do Poder; sobre médiuns e místicos, sobre o tarô e as artes da adivinhação, sobre sonhos e clarividência. Contudo, em toda a sua leitura, Paul não descobriu qualquer menção de uma moeda.

Paul considerou igualmente muito do que leu profundamente insatisfatório. Demasiado frequentemente, tudo o que o poder espiritual reclamava era, na realidade, nada mais do que um poder humano, e um poder humano repleto de loucura e de auto-ilusão. Médiuns que afirmavam ver no futuro, mas que, no entanto, tinham dificuldade em evitar os credores, místicos cujas visões teriam sido curadas por um par de lentes de contacto, numerologistas que não sabiam somar, astrólogos que não sabiam distinguir um eclipse de uma elipse, bruxas e feiticeiros cujo QI desistira do fantasma antes de alguma vez ter visto um.

E contudo, e contudo, por detrás de todo o charlatanismo e de toda a auto-ilusão, havia qualquer coisa em tudo isso - a sugestão de um mundo mais misterioso. Mas onde se encontrava o segredo da moeda em si?

- A biblioteca fecha às dez - lembrou-lhe a bibliotecária, arrumando as suas coisas. Ele era a única pessoa que lá estava agora.

- Tenho uma autorização para poder aqui ficar mais tempo. A bibliotecária olhou o documento.

- Está bem. Oh, professor Stauffer - ela reconheceu o nome; este era o famoso psiquiatra. - Horrível, o que aconteceu, não?

- O que aconteceu?

- Não viu as notícias da noite? Deu tudo na televisão. Toni Brennan foi assassinado. Apunhalado até à morte. Dizem que a casa dele era um banho de sangue. Um actor tão maravilhoso; foi tudo tão triste.

Paul começou a afastar-se da mesa. A bibliotecária estava confusa.

- Não quer saber quem o fez?

- Já sei. - Queria dizer que Julian tinha chacinado o seu némesis.

Paul regressou ao seu lugar na biblioteca. Continuou a ler. Não queria saber de Julian Brennan para nada, mas não tinha muito tempo. Os acontecimentos à sua volta estavam a acelerar.

Sentado sozinho na obscuridade, apenas com um candeeiro de secretária aceso, Paul leu pela noite dentro, a sua mente preocupada com o mal e a magia negra. Talvez algo que ele antes pensava que não existisse, existisse realmente.

Paul devorou The Discovery of Witchkmft, de Scot, Daemonolo-gie, de James VI da Escócia, De Demonialitate, de Sinistrari, Traité surlaMagie, de Daugis, Flagellum Maleficorum, de Mamor, Líber de Insidiis Daemonium, de Richalamus, De la demonomanie des Sorciers, de Bodin, De Invocatione Daemonum, de Tarrega; tudo obras sobre «o vosso pacto com a Morte, a vossa convenção com o Abismo", tal como o Livro de Isaías colocava a questão.

Leu também sobre o reaparecimento de cultos de magia negra e de bruxaria na Europa, particularmente a partir do ano 1000 depois de Cristo, juntamente com o reaparecimento do Maniqueísmo - a crença de que Deus era uma mistura do bem e do mal. Reparou nas tentativas frenéticas da Igreja para suprimir esta doutrina perniciosa - nobres esforços que, em si, depressa ficaram distorcidos e pervertidos, de forma que a cura se tornou tão má, se não pior, do que a doença. E que a supressão de um ensinamento falso levou a uma perseguição em larga escala de todos aqueles que procuravam desafiar a autoridade da Igreja. Heresia tornou-se a palavra de ordem receada que tinha muitas vezes só uma consequência - a morte.

Paul considerava as caças às bruxas - uma infusão temerária de política ao mais alto nível, de fervor religioso e superstição que assolou a Europa medieval como a peste. Milhares de pessoas, sobretudo mulheres idosas e crianças, foram perseguidas até à morte por multidões, ou queimadas no poste por um eleito eclesiástico e político apanhado nas garras de uma histeria colectiva segundo a qual os poderes do mal tinham entrado no mundo para arrastarem a humanidade para a sua perdição.

Qual foi o resultado final? Julgamentos por bruxaria na Alemanha, nos quais pereceram mais de 20 mil pessoas, tortura e queimas no poste em Espanha, o massacre de aldeias inteiras em França, a acção judicial que conduziu à morte de bruxas na Grã-Bretanha, os famosos julgamentos das bruxas de Salem, nos Estados Unidos. Resumindo, a matança dos inocentes levada a cabo por uma Igreja que lutava contra um mal imaginário.

Ou será que era imaginário? Que motivo teria levado pessoas como Francis Bacon, São Tomás de Aquino, Erasmo, Alberto Magno e os Papas Gregório XV e Bento XII, já para não falar dos místicos e dos primeiros padres da Igreja, a acreditarem apaixonadamente na realidade física do mal e na capacidade dos poderes das trevas de entrarem neste mundo? E porque tinham eles acreditado nisso até tal ponto, que tinham estado preparados para o extirparem da forma mais selvagem e desumana possível? A resposta estava contida nas palavras de William Blackstone, possivelmente o maior advogado da Inglaterra, que declarou em 1765:

Negar a possibilidade, ou melhor, a existência real da bruxaria, significa de imediato contradizer redondamente a palavra de Deus revelada nas várias passagens tanto do Velho como do Novo Testamento.

Paul recostou-se na cadeira. Ponderava. Estes homens extraordinariamente inteligentes estavam certos, nas suas mentes, de que o demónio e os seus actos existiam, e a Bíblia afirmava-o claramente. No entanto, não dispunham de quaisquer meios científicos de o provarem. Agora que pensava nisso, nem Paul, mesmo depois de todas as suas experiências nos planos astrais. O mundo espiritual era inexplicável dentro dos parâmetros dos processos de pensamento do homem; parecia que o cérebro tinha sido programado para o rejeitar conscientemente. Porquê?

Pouco depois, Paul chegou ao próprio texto da Igreja contra a bruxaria, a obra Malleus Maleficarum, ou O Martelo das Bruxas, escrito por dois padres, Krámer e Sprenger, em 1484, e que foi expressamente aprovado pelo Papa Inocêncio VIII. Afirmava definitivamente:

Se a crença de que existem tais coisas como bruxas é uma parte tão essencial da fé católica, manter obstinadamente a opinião contrária sabe manifestamente a heresia.

Citando o Livro de Job, o texto declarava que o poder do demónio era mais forte do que qualquer poder humano, e que os espíritos malignos exerciam influência sobre as mentes e corpos dos homens, como era claramente perceptível em muitas passagens da Sagrada Escritura, pois:

Satanás transforma-se na forma e aspecto de pessoas diferentes e, em sonhos, iludindo a mente que mantém cativa, condu-lapor caminhos de perdição.

Paul ergueu o olhar. Lá fora estava escuro de breu e no interior do edifício da universidade havia um silêncio de morte. Inconscientemente, aproximou de si o candeeiro de secretária, como que para se confortar. Continuou.

Malleus Maleficarum também esclarecia que o acto de alguém sair do seu corpo físico podia ser ilusório, uma vez que o demónio tinha um poder extraordinário sobre as mentes daqueles que se lhe tinham entregado. Mais ominosamente:

O demónio conhece os pensamentos do nosso coração; ele pode metamorfosear substancial e desastrosamente corpos com a ajuda de um agente; pode deslocar corpos localmente, e alterar as sensações exteriores e interiores até qualquer ponto concebível; pode mudar o intelecto e a vontade de um homem, embora indirectamente.

Poderia Paul, usando o poder da moeda, e de uma forma misteriosa, estar a atravessar a porta que ligava os mundos temporal e divino? Qual era a alternativa? Desprezar os místicos, pôr de lado as declarações de santos e Papas? Declarar que a Bíblia estava redondamente errada? Fazer o que fizera durante toda a sua vida?

Paul recostou-se na cadeira e esfregou os olhos. Eram três da manhã. O que lera perturbara-o profundamente. Estava na hora de ir para casa; de voltar à normalidade. Diria a Helen que bastava. Ela estivera a enganá-lo de alguma maneira. Em breve ele haveria de acordar daquela ilusão, daquele sonho, daquele pesadelo, ou do que quer que aquilo fosse.

- Vejo que tens estado ocupado a estudar - disse Helen, por acaso. - Caramba, como estamos conscienciosos ultimamente!

Paul pestanejou. Ela estava ao canto da biblioteca, tal como ele a vira no sétimo plano astral, com uma beleza tão transcendente e ofuscante que não podia ser adequadamente captada pela linguagem humana.

- Os livros nunca nos ensinam nada. Por isso não te deixes confundir por aquilo que loucos escreveram. Vê e julga por ti próprio. Agora, vens?

- Vou aonde?

- Para o oitavo plano astral - disse ela. - Ainda és uma criança. Tens tanto para aprender.

- Mas...

- Mas? - disse ela precipitadamente, exasperada, apontando para os textos que ele tinha à sua frente. - Isso não é nada. O que sabem esses loucos destas coisas? Obstruindo as mentes de lixo. Tens alguma ideia do poder desta moeda? Ora vê.

De súbito, perante os olhos de Paul, todos os livros da biblioteca saíram disparados das suas prateleiras para andarem em redemoinho no ar - um extraordinário turbilhão de papel. Ele olhava, abalado com a visão de centenas de milhares de livros a voarem em silêncio, sem que se tocassem, todos perfeitamente coordenados por uma mão misteriosa. Em seguida regressaram às suas prateleiras, tão arrumados como antes.

- Ilusão? Ainda achas que isto é uma ilusão? - Helen agarrou o tomo que tinha mais à mão e atirou-lho. - Selecciona qualquer página e coloca-lhe a mão em cima.

- Mas...

- Coloca-lhe a mão em cima! - gritou ela. Paul encolheu os ombros. Ela estava louca. Ele inseriu a mão no livro aberto. Desa-

através das páginas.

- Agora retira-a.

Ele retirou a mão. Serpenteando, a sua mão era um escorpião vivo.

- Não tens fé, é esse o teu problema - Helen sorriu afectadamente. - Nem sequer sabes o que queres, Paul, mas eu sei. Isto não é nada. Aqui está mais alguma coisa para ajudar a tua fé. Queres ser chefe de departamento e substituir Ben. Está feito. Queres Suzanne para tua amante. Está feito. A moeda dar-te-á qualquer coisa que queiras.

Helen olhou um grande arbusto que se encontrava num dos recantos da biblioteca. Começou a arder, as chamas a bramirem dramaticamente. Então o inferno extinguiu-se, deixando a planta sem ter sido minimamente afectada.

- Helen, eu...

Todas as luzes da biblioteca se acenderam, mas não em patético néon, desta vez. Em vez disso, havia uma eflorescência de cor que excedia um arco-íris na sua profundidade e intensidade. Para um efeito acrescentado, dos seus feixes iridescentes apareciam pássaros. Pica-peixes, colibris, papagaios, águias douradas, flamingos - voavam em círculo, serpenteavam e mergulhavam dentro da luz. Paul sentia-se como se já não se encontrasse no seu corpo. Estava lá, com eles, no próprio mundo miraculoso deles, um mundo que continuava sempre a expandir-se, entrando dentro de mais outra realidade diferente. Depois tudo desapareceu tão rapidamente como aparecera.

- Estás a começar a aprender, Paul - observou Helen.

Ela aproximou-se dele, e ele sentiu todo o seu corpo consumido por uma intensa atracção sexual. Ele queria também possuí-la, de corpo e alma. Paul sentiu a moeda na sua mão. Toda a compaixão humana, toda a preocupação com o seu próprio ser e com a sua alma desapareceram. Ele sorriu. Ainda podia ser mais esperto do que Helen, se fosse preciso.

- Vamos - disse ele.

Assim, deixaram a biblioteca. Quem dera que Paul tivesse também lido as palavras de Santo Agostinho:

Nenhum Anjo é mais poderoso do que a nossa mente quando nos agarramos firmemente a Deus.

Levou algum tempo até que o som do telefone se registasse no cérebro de Florence, uma vez que ela entrara num sono profundo. Fora um dia cansativo, a conduzir até Aspen, Colorado, e tinham-se deitado cedo. Presa nos seus sonhos de actividades de férias, Florence ignorou o telefone, assim como o movimento agitado de Ben, a seu lado. Finalmente, ela acordou. O marido fora para a sala ao lado.

- Sim? - ouviu-o ela dizer com voz rude. Ele regressou ao quarto. - Florence! - Ele abanou-a. - Acorda. Tens de falar com Marie. Está em péssimo estado.

Florence levantou-se e foi ao telefone. A chamada era interurbana e as lágrimas corriam pelas faces de Florence. Finalmente, ela disse:

- Posso falar com a madre superiora?

Após muitos mais minutos de conversa, Ben ouviu a sua mulher dizer;

- Nós vamos para casa.

Florence pousou o auscultador e virou-se para o marido. Contou-lhe tudo o que Marie lhe dissera, assim como a conversa com a madre superiora. Enquanto isso, o marido permaneceu silencioso.

- Pode uma coisa destas ser verdade? Será possível? Ben levantou-se e puxou por uma mensagem do hotel.

- Há mais uma coisa que tens de saber. Ia dizer-te amanhã. - Ela leu a notícia sobre o assassínio de Toni Brennan.

- Porque está isto a acontecer?

O marido afastou os cortinados do quarto de hotel e olhou para as estrelas. Por qualquer razão inexplicável, sabia no fundo do seu coração qual era a verdade. De certo modo, havia algum tempo que sabia.

- Paul não falou contra Kramer mesmo quando soube que ele era culpado - disse com voz desolada. - Durante o julgamento, penso que ele se apercebeu de que cometera um erro terrível, mas o seu orgulho e o seu desejo de fama impediram-no de dizer fosse o que fosse.

- Ele traiu Melanie Dukes e a irmã?

Ben acenou com a cabeça. Fixava o olhar na noite, incapaz de dizer mais, Agora Paul encararia o seu próprio julgamento.

 

"Diz-se que o seu túmulo pressagia a morte de um Papa.

Pouco tempo antes do seu falecimento, dele escorre tanta água que transforma em lama o solo em redor."

                     William Goddell, Chronicles Pontiniacensis

 

Outro dia em Roma.

Signora Rossi, a rechonchuda guia turística italiana, fez uma pausa. Esperou até que o pequeno grupo de turistas americanos lançasse um olhar à catedral que se encontrava à frente deles, a sua grandiosa fachada coroada por estátuas de Cristo e dos apóstolos. Então ela levantou a voz e começou.

- As duas igrejas mais importantes de Roma são a Basílica de São Pedro e a Igreja de Latrão. Enquanto que a primeira é familiar aos peregrinos, esta é muito menos conhecida, mesmo estando situada a escassos dois quilómetros da Basílica de São Pedro, do outro lado do Rio Tibre.

A Signora Rossi olhou o seu relógio. Estavam adiantados. Podia dizer mais alguma coisa antes de se dirigirem para a loja de azulejos.

- A Basílica de São Pedro e esta igreja têm muita coisa em comum. Ambas foram construídas pelo Imperador Constantino e em ambas têm sido sepultados muitos Papas. No entanto, esta igreja, a Igreja de São João de Latrão, para dizer o seu nome completo, tem uma história muito infeliz. Ao longo dos séculos, tem sido cenário de muita violência e assassínios. O edifício em si foi destruído pelo fogo pelo menos duas vezes e foi reconstruído uma série de vezes.

A medida que dizia isto, a Signora Rossi vislumbrou um homem que passava por ela, apressado. Pensou reconhecê-lo. Seria de certeza a figura nédia do cardeal Benelli? Mas, é claro, não podia ser, Estava vestido com o simples hábito negro dos padres.

- Ora, esta catedral gaba-se de algumas características importantes, que incluem uma porta lateral que é aberta uma vez de 25 em 25 anos, para o Ano Santo, uma capela com mosaicos e um baptistério abobadado que tem um magnífico tecto octogonal que remonta ao século IV.

O cardeal Benelli deixou de ouvir a lengalenga da guia turística, à medida que se afastava da Signora Rossi. Ele tinha conhecimento de toda a história que ela estava a expor. No entanto, a Igreja de Latrão possuía outra característica importante que ela não tinha mencionado. Importante não para os turistas ou para aqueles que visitavam monumentos e que diariamente fluíam pelas suas portas numa torrente ininterrupta, mas uma característica que era vital para Benelli,

Era o local onde fora sepultado o Papa Silvestre II.

Do lado de fora da entrada principal da igreja, os trabalhadores tinham separado parte do pavimento com uma corda, num local muito próximo da fachada. Em volta tinham erguido um tapume de plástico preto. Havia uma pequena entrada lateral cortada no plástico e ao lado encontrava-se um padre de sotaina negra. Sorriu nervosamente à medida que o cardeal se aproximava. Não estava habituado a encontrar tão altos dignitários da Igreja, Estava ainda mais surpreendido por ver que o cardeal Benelli não usava os seus atavios normais. Parecia também não se encontrar bem.

Entraram ambos para o recinto fechado.

No interior, tinha sido levantada uma série de lajes, Alguns trabalhadores do Vaticano olhavam a terra nua a arenosa que se encontrava por baixo, à medida que se debruçavam sobre as suas pás e conversavam. Mal viram o cardeal, endireitaram-se. Benelli disse, quase num murmúrio:

- Cavem.

Registos dos Arquivos Secretos indicavam que o Papa Silvestre II morreu em 12 de Maio de 1003 e que fora sepultado sob o pórtico, no exterior da Igreja de Latrão. Estava também registado que fora sepultado à pressa, ao final da tarde de um dia que fora excepcionalmente sombrio e húmido para aquela estação do ano. Sobre o seu túmulo não fora colocada qualquer inscrição. Pelo menos até três pontificados depois, o Papa Sérgio IV mandou gravar um epitáfio para Silvestre II numa lousa de mármore branco. Este memorial não foi colocado no próprio túmulo, que estava escondido da vista debaixo do chão, mas dentro da Igreja de Latrão, num pilar da primeira nave, à direita (onde ainda se encontrava). Entre outras coisas, a inscrição em latim declarava:

Este lugar, onde estão sepultados os restos mortais de Silvestre II, entregá-los-á ao Senhor quando o toque da Trombeta do Juízo Final anunciar a Sua vinda... Quem quer que seja que vire os seus olhos para este monumento, diga «ÓDeus Todo-Poderoso, tende piedade dele!»

Por que motivo o Papa Sérgio IV redigiu este estranho epitáfio e porque foi este colocado de maneira a não revelar a verdadeira localização do túmulo? A explicação era bem conhecida nos tempos medievais. Quando Silvestre II morreu, era tal a sua notoriedade, tão poderosos os rumores do seu domínio da magia negra, que ninguém, nem sequer o pontífice que lhe sucedeu, ousou colocar uma inscrição na sua sepultura. Até na morte os rumores não deixaram de existir; e depressa se espelharam para também cobrirem o túmulo. Um clérigo erudito, John, o Diácono, declarou, no século XII:

Até quando o tempo está mais seco, e embora não esteja situado num local húmido, gotas de água escorrem dele para assombro de todos.

E Bartolomeu Platina, o bibliotecário que examinara o fólio que continha a última confissão de Silvestre II, afirmara ainda mais claramente na sua obra Vidas dos Papas:

Do ruído vindo dos ossos deste Papa, tal como da transpiração, ou melhor, da humidade do seu túmulo, as pessoas têm o costume de inferir maus presságios, cuja manifestação máxima consiste na morte de um Papa, e isto é sugerido no epitáfio do seu túmulo.

Talvez o mais estranho de tudo seja o facto de o epitáfio em latim escrito pelo Papa Sérgio para o seu notório antecessor ser deliberadamente ambíguo. É que as palavras "ad sonitum", em latim, podiam referir-se ou à Trombeta do Juízo Final ou a um som no interior do túmulo, e as palavras "venturo Domino" podiam referir-se ao Grande Juiz do Céu ou ao Papa seguinte.

Assim, a própria inscrição dava crédito ao rumor de que o túmulo de Silvestre prognosticava a morte iminente do Papa através de um ruído proveniente do seu interior. Até na morte, a pessoa de Silvestre II era tão misteriosa como ele fora em vida. Benelli recordou o que lera na Torre dos Ventos sobre o funeral de Silvestre e a forma como se ouviam gemidos vindos do caixão.

Será que Silvestre morrera em santidade ou como criatura do demónio, perguntava-se o cardeal. A ter-se verificado a primeira hipótese, porque não o tinham sepultado no interior da Igreja de Latrão, e sim no exterior? E porque houvera tal demora em preparar uma inscrição para o seu túmulo? Ele receava o pior.

Benelli encontrava-se junto ao presumível local onde o Papa fora sepultado e observava os trabalhadores. Apesar de terem escavado mais de um metro de argila espessa, não encontraram nada. Continuaram a escavar. Finalmente, o cardeal já não podia esperar mais; tinha outro encontro marcado. Disse ao padre que o informasse se descobrissem alguma coisa.

Quase ao fim da tarde, bateram insistentemente à porta. O padre regressara. No entanto, Benelli não podia ser incomodado. Estava numa reunião com um alto dignitário da Igreja Ortodoxa Russa e passou mais uma hora até que o cardeal conseguiu dispensar o seu convidado. Após tê-lo feito, saiu rapidamente para o corredor. O jovem padre levantou-se do banco de madeira em que estava sentado. Benelli fixou o seu rosto ansioso.

- Então?

- Encontrámos um sarcófago de mármore, alguns metros à esquerda do local onde escavámos primeiro. A tampa contêm as armas pontifícias e uma referência ao Papa.

- Sim, sim. E? - disse Benelli, impaciente.

- Não ousámos abrir o caixão sem as suas instruções.

- Vou já imediatamente.

Ambos se apressaram em direcção à Igreja de Latrão. A tarde ia avançada e o tempo de Novembro mudara para pior. Aproximava-se uma rrnvoada e os plásticos da protecção estavam a ser fortemente empurrados pelo vento. O caixão de mármore, que perdera grande parte da cor ao longo dos séculos, encontrava-se dentro de um profundo buraco que fora escavado em redor. Tinha na tampa as armas pontifícias e a inscrição "Sylvestripp Secundo".

- Porque é que há água no buraco?

Um trabalhador que se encontrava no buraco encolheu os ombros.

- Não me pergunte. Estava seco como tudo quando começámos. Quando chegámos ao nível do túmulo, começou a aparecer água.

- Poderá ser um cano de escoamento?

- Não encontrámos nada - disse o trabalhador - e não choveu.

Benelli apercebeu-se de que eles não conheciam a lenda agoirenta relacionada com a água no túmulo do Papa Silvestre. Ainda bem.

- Abram o caixão.

Os trabalhadores começaram a inserir cunhas de madeira por baixo da tampa de mármore para a poderem inclinar para um lado. Benelli levantou o olhar. O céu estava a escurecer à medida que o crepúsculo se aproximava. Começou a chover, devagar, de início, em seguida copiosamente. Pouco depois, o cardeal estava ensopado, mas não se movia dali, apesar dos protestos do jovem padre.

- Isto pode levar algum tempo - gritou o capataz de dentro do buraco. - Estas tampas são muito pesadas e eram geralmente seladas em caso de peste.

- Despachem-se - disse Benelli. - O túmulo tem de estar tapado ao cair da noite.

Os trabalhadores continuaram os seus esforços, Finalmente, a tampa do sarcófago, centímetro a centímetro, começou a separar-se do caixão. Por esta altura a trovoada começava a rebentar. Por cima das cabeças, os trovões ribombavam.

- O que é aquilo? - disse um dos trabalhadores, assustado. Olharam para a extremidade da barreira de protecção. Um plástico agitava-se furiosamente ao vento. No entanto, não era para aí que a atenção deles fora chamada. Estava ali um animal. Um grande cão preto observava-os atentamente, a rosnar com ferocidade, os dentes à mostra.

- Como é que ele apareceu ali?

- Ignorem-no. Continuem, continuem - gritou Benelli num tom urgente.

Por fim, a tampa maciça do caixão descaiu para um lado. O crepúsculo caía sobre eles. Um dos trabalhadores ajudou Benelli a descer para o buraco pelos lados escorregadios. Pegando numa tocha, o cardeal ordenou ao trabalhador que subisse, para que apenas ele pudesse ver o segredo do túmulo. Em redor dos homens, a trovoada rugia.

Com o coração junto à boca, Benelli debruçou-se sobre a tampa. Foi atingido por uma baforada de ar gelado, à medida que espreitava para a escuridão sepulcral.

O túmulo estava vazio.

 

"Porque é prática da Escritura e da linguagem chamar a todos os espíritos imundos diabolus« palavra que é formada de dois elementos: - Dia -, que significa "dois", e - Bolus -, que significa "pedaço", porque matam duas coisas, o corpo e a alma."

                   Malleus Maleficarum, O Martelo das Bruxas

 

As Forças das Trevas estavam a reunir energias. Tinham de agir depressa, pois sabiam que a Igreja tentaria derrotá-las antes que a moeda atingisse a sua potência máxima. No entanto, tudo dependia de um ser humano e da sua preparação para se tornar jogador num jogo cósmico que transcendia de longe até os seus sonhos mais loucos.

Após a leitura de Paul pela noite dentro na biblioteca da universidade e do reaparecimento de Helen, dirigiram-se ambos para casa dele. Paul conduzia devagar. Tinha muitas coisas na cabeça.

- Sei o que estás a pensar - disse Helen numa voz calma.

- O quê?

- Estás a perguntar-te onde estará a tua mulher.

- Ela está em casa?

- Não - disse Helen. - Está num convento com a tua filha. Foi lá porque está muito confusa em relação às coisas. É claro. Marie já não está preocupada comigo nem com a moeda - mentiu ela. - Ela convenceu-se de que tudo não passava de uma reacção histérica da parte dela. Afinal, os espíritos não existem, pois não? Não, ela acredita que a vais trocar por outra mulher. Bem, e vais? O que achas de Suzanne, Paul? Ela é tudo o que sempre desejaste numa mulher, não é? Não te tenho estado a observar, prometo. - Ela soltou um risinho.

- Como sabes o que eu estava a pensar? - perguntou Paul. - E como é que Marie sabe de Suzanne?

Helen respondeu-lhe em tom de censura:

- Eu posso ser apenas um espírito, mas sei ler um pouco dos teus pensamentos. Oh, Marie sabe de Suzanne porque o teu amigo Ben lhe disse. Um dos funcionários viu-te entrar para o quarto de Suzanne e informou-o. Creio bem que a bisbilhotice é uma qualidade cósmica.

- Sacana. - Paul teria de falar com ele. Perguntava-se como é que Ben reagiria quando Helen cumprisse a promessa que fizera e Paul se tornasse chefe de departamento. Deliciava-se com a ideia.

Enquanto seguiam no carro, Paul virou a sua atenção para a acompanhante. Ele começara a compreender alguma coisa do mundo dos espíritos, Helen podia ocupar os corpos de outras pessoas desde que estas lhe permitissem a entrada. Para além disso, no seu próprio caso, Helen era capaz de ler alguns dos seus pensamentos, mas não todos. Porquê? O que a impedia? Teria de ser a Moeda de Judas; a moeda era mais poderosa do que ela. Helen confirmara isto quando lhe dissera que ela não poderia ir além do nono plano astral, uma vez que nenhum ser humano o podia fazer. No entanto, ela também deu a entender que isso estava ao alcance de Paul. Inevitavelmente, devia haver neste drama um ponto em que Helen já não o podia controlar nem às visões que ele experimentava. O que lhe faria Paul quando fosse senhor dela?

- Porque não me contas mais coisas sobre ti própria? Tens sido muito poupada nesse aspecto.

- Com certeza - retorquiu Helen, aparentemente despreocupada. - Podemos conversar sobre isso mais tarde. De qualquer maneira, usando a moeda, depressa descobrirás.

Paul pensou no assunto. Inesperadamente, parou o carro. Queria testar a reacção dela à sua última ideia.

- Quero ir ao convento.

- Eu não faria isso - disse Helen com um ar indiferente.

- Porque não?

- Não poderás entrar. - Ela olhou pela janela do carro, a mente noutro lugar.

- Porque não? Deve haver alguém por lá, mesmo a esta hora.

- Não é isso que eu quero dizer - disse Helen. - Não poderás entrar porque todas as forças do Universo agem e reagem. Passa-se a mesma coisa com os espíritos. Reagem à presença de outros.

- Os espíritos bons e os espíritos malignos?

Helen atirou a cabeça para trás. Soltou um longo grito de contentamento.

- Eu estava à espera dessa graça, mas levou tempo a chegar. Até que enfim! - Ela advertiu-o com o dedo, - Lembras-te? Eu estive na tua prelecção. Uma vez que não acreditas no mal, como podem existir espíritos malignos?

Paul teve de sorrir.

- Mas eles existem, não existem? Os espíritos malignos existem de facto?

- Não, é claro que não - disse Helen. - É mais complexo do que isso. Não se pode simplesmente dividir o universo em bem e mal: aqueles que o criaram foram mais imaginativos. Em breve verás - fez uma pausa. - Então, não pareces estar muito bem. Vou levar-te a casa. Carros, não são adoráveis? - disse ela deliciada. - Uma coisa moderna de que eu realmente gosto. São óptimos para matar pessoas.

Helen conduzia. Pouco depois, chegaram às zonas mais pobres de São Francisco. Paul sentiu-se dominar por uma profunda depressão, à medida que olhava pela janela do carro. Reflectiu sobre a vida. Para dizer a verdade, este mundo era um sítio miserável, apesar de todo o seu brilho aparente. Quase dois mil anos desde o Império Romano, e não havia nada que o deixasse transparecer. Estradas pouco melhores do que no tempo do Império, casas mais apertadas e feias, cidadãos menos letrados e um modo de vida moderno que tornava as pessoas insaciavelmente ávidas de muito mais, sem, no entanto, alguma vez se sentirem satisfeitas. Dois mil anos e a humanidade não perdera um minuto a lixar o planeta. Se ele fosse um deus, poderia limpar toda a porcaria feita.

- Concordo - disse ela tristemente -, não é nada de que se possam orgulhar. O sistema está a cair a uma velocidade cada vez maior. Acredita, eu tenho assistido a tudo.

Seguiam através do bairro de prostitutas da cidade. Um bêbedo lutava com um vadio por uma garrafa de bebida, traficantes de droga falavam com voz séria aos telemóveis e uma criança prostituta tentava persuadir o mais desprezível dos homens a ir com ela para poder ter uma cama onde passar a noite. Paul suspirou. Que mundo - que mundo tão pouco maravilhoso - tão miserável, barato, falso, repleto de desgoverno e corrupção.

- Da próxima vez apanho-te - gritou Helen, quando, por um triz, não atropelou um proxeneta de jeans largos e camisa roxa. E acrescentou: - Estás com sorte, Paul. A escolha é tua. Com a moeda podes mudar tudo. É uma dádiva que te foi concedida.

- Por Deus ou pelo demónio?

- Oh, não sejas tão estúpido. Nenhum deles existe, não da forma em que os homens pensam neles. De qualquer maneira, o que interessa isso? A moeda é uma dádiva. Já caminhaste muito para uma pessoa que nunca acreditou em nada disto. A escolha é tua: liberdade para viveres como quiseres ou a escravatura. Não há espírito que te possa tirar isso. Eu tomei a minha decisão - devaneou ela com voz sonhadora - há muito tempo.

- E nunca o lamentaste?

- Pareço arrependida? Todos os homens, um dia, terão de eleger o seu próprio destino no universo. Eu não lamento nada - inclinou-se e beijou-o na face. - Nós só vimos ter com muito poucas pessoas. - E sussurrou: - Não deixes fugir a oportunidade.

Aproximaram-se da casa de Paul.

Momentaneamente, ele sentiu uma profunda ânsia de voltar a ver a mulher e a filha. Contudo, num instante, a emoção passou. Esqueceu-as; agora não precisava delas, elas não precisavam dele. Ele não conseguia resistir à atracção fatal que a moeda exercia sobre ele com as suas doces súplicas de criar um mundo melhor.

Afinal, o que deixava ele para trás? Uma realidade, sim, o mundo era uma realidade, mas uma realidade de má qualidade - como ser-se criado num bar a cair e escondido numa rua das traseiras. Paredes a descascarem-se de tinta, quadros pegajosos, cerveja cediça. Estava na hora de se levantar de detrás do balcão e de sair à rua. De regressar às regiões brilhantes dos planos astrais - de imergir e emergir da vida, do tempo, de outros mundos. Essa é que era a verdadeira realidade, não esta. E não importava quem o estava a ajudar; Paul ainda não acreditava nem em Deus nem no demónio, apesar de tudo o que experimentara. Tivera apenas um golpe de sorte - era tudo. Alguém lhe estava a oferecer um prémio. Paul perguntava-se a quantas outras pessoas no mundo teria sido oferecido um prémio como o dele. Quem é que sabia?...

Abrindo a porta da frente da casa dele, entraram.

- Vem comigo. Precisamos de ajuda para entrar no oitavo plano astral.

- Porque não posso simplesmente usar a moeda e fechar os olhos? - perguntou Paul.

Passaram pela cozinha e desceram alguns degraus. Helen abanou a cabeça.

- Poderias fazê-lo, mas isso revelaria a fonte do teu poder. Compreendes, é que o oitavo plano astral está fora do alcance da grande maioria dos seres humanos, por isso outros depressa te detectariam. Precisamos de esconder as coisas. Confia em mim.

Paul inspeccionou a cave quase vazia, sem saber que o local testemunhara o recente martírio do padre David.

- Desliga as luzes.

Estavam na escuridão. Pouco depois, Paul sentiu na mão o peso da moeda. Viera de novo ter com ele. Gradualmente, a noite em redor de Helen dissolveu-se para ser substituída por um brilho amarelo-escuro. Extasiado, Paul observava as formas e as feições dela a alterarem-se. E as roupas. Já não era um ser humano do século XX. Em vez disso, era uma mulher vestida com uma túnica simples, pulseiras de ouro nos braços e uma coroa de ramos de oliveira no cabelo. Tinha a majestade de uma sacerdotisa de um templo pagão de eras antigas.

A atenção de Paul mudou de direcção, à medida que no chão da cave se começaram a formar linhas. À frente dos seus olhos, um raio de fogo dourado traçou um luminoso Pentagrama de Salomão. A pouco e pouco, formou-se uma estrela de cinco pontas, desenhada por uma mão invisível. Quando estava completa, surgiu um círculo para unir as pontas. Em seguida outro, ligeiramente mais largo. Dentro destas duas bandas começaram a aparecer runas místicas, nomes divinos não reconhecíveis em qualquer escrita mortal. A medida que surgiam, incendiavam-se na escuridão.

Finalmente, o pentagrama estava completo, e o seu brilho claro ofuscava os olhos como um diamante, dois círculos de fogo envolviam uma estrela de pura luz branca. Paul foi arrastado pela sua glória. Só pouco depois se apercebeu da presença de Helen. O rosto dela tinha tanto de régio como de antigo, com uma expressão e uma sabedoria que ultrapassavam largamente as dos insignificantes seres humanos.

- Entra.

- Porquê? - perguntou Paul, embora sem ter pronunciado quaisquer palavras. Tal como acontecera no plano astral anterior, comunicavam apenas pelo pensamento.

- Já te expliquei - retorquiu Helen com impaciência. - Quanto mais avançares nos planos astrais, maior é o poder e mais profundo o transe. Este poder atrai outros. São atraídos para ele e anseiam por ele. O pentagrama é para te proteger.

Como de costume, Helen disse apenas meia verdade. Aqueles que se encontravam nos planos astrais mais avançados, quer estes fossem do Bem ou do Mal, poderiam sentir a enorme energia que irradiava da Moeda de Judas e assim determinar a localização física de Paul no mundo. Fora por essa razão que Helen desenhara um pentagrama. No entanto, ao contrário do Pentagrama de Salomão usado por mágicos antigos para os proteger dos espíritos malignos, Helen invertera os sinais místicos para que formassem um muro de ilusão contra os poderes do Bem.

Paul olhou à sua volta. Na extremidade mais distante do pentagrama, surgiam figuras, vestidas da mesma forma que Helen. Ele não conseguia distinguir se eram formas humanas ou espirituais. Paul observou Helen a atravessar os dois anéis de fogo. Abriam-se à medida que ela caminhava através deles. Ela encontrava-se no centro.

- Entra.

Paul ainda resistia, receoso de ser volatilizado pelo calor intenso. E também havia algo dentro dele que o avisava de que a sua pessoa humana estava rapidamente a entrar em declínio. Estava a tornar-se mais espírito do que homem.

- Vem - Helen mantinha a mão estendida para ele num gesto de súplica. - Eu tomo conta de ti; não tenhas medo.

Arrastado pela intensa atracção que a moeda exercia em relação à sua guardiã, Paul aproximava-se cada vez mais dos anéis. Fechou os olhos.

E entrou.

Durante uma eternidade, Paul não sentiu nada, além de um imenso calor avassalador, como se tivesse sido atirado para o centro de uma fornalha. A sua mente evocou a imagem de um vasto círculo de fogo suspenso no espaço. Começou a subir tão alto que Paul não conseguia ver onde acabava aquele cilindro em fusão. Inflamava o próprio âmago do seu ser, sem, no entanto, o consumir. Ele sentia-se como se não fosse mais do que uma figura de barro a ser cozida num forno de oleiro.

Paul discernia Helen a seu lado. A forma física dela mudara de novo. Não parecia nem feminina nem masculina. Tinha uma natureza cristalina, como se as chamas tivessem despido camada após camada das suas intermináveis encarnações até que restou apenas uma essência. A expressão dela não registava qualquer emoção, qualquer indício de movimento. Contudo, ele podia ler-lhe os pensamentos à medida que começava a ter acesso à mente dela. Era como ligar-se a um vasto computador.

O anel de fogo começou a expandir-se, ao mesmo tempo que se formava um novo. E outro. Por fim, Paul viu oito enormes anéis de fogo, uns por baixo dos outros, diminuindo em direcção a um centro, grandes círculos concêntricos e giratórios como os movimentos dos planetas. À medida que Paul passava por cada um dos anéis, discernia uma miríade de formas de existência, humanas e não-humanas, animais e não-animais. Formas que se alteravam com a consistência de um redemoinho de gases. Ao contrário do Rio Lete que Paul experimentara no sétimo astral, e que reflectia a passagem do tempo na terra, estas plumas de calor que giravam davam origem a uma criação estelar e a um círculo interminável de nascimento e transmutação - de seres, de planetas, de mentes.

Helen virou-se para ele. Estavam frente a frente. Lentamente, ela entrou dentro dele, dentro do próprio ser que ele encerrava. Tornaram-se um, juntos fundidos pelo calor e por um acto de vontade. Paul possuía as experiências dela como se fossem dele. Fragmentos do reino dela de há muito tempo. De um vasto templo e de sacerdotes serviçais que lhe prestavam homenagem, de cavernas profundas e de lugares esquecidos na terra, de homens e mulheres que tinham servido a Helen de brinquedos e escravos, de guerras sangrentas e de batalhas empreendidas nos planos humano e espiritual ao longo dos séculos, do profundo conhecimento e sabedoria dela.

Paul deixou-se arrastar por esta penetração intelectual como uma criança que instintivamente se sente atraída pela papa da mãe, sem qualquer pensamento consciente. Ele era ela e ela era ele, inseparáveis no tempo e no espaço. Parecia que tinha sido sempre assim, interligados e entrelaçados enquanto os grandes anéis de fogo giravam em volta deles. Num ponto de junção, as imagens dos anéis desapareceram. Estavam de volta à terra, embora sem forma humana.

- Agora começarás a ver como tudo funciona - a voz era de Helen. Ou será que era a sua própria voz? Eram iguais.

Movimentando-se segundo as instruções de Helen, aproximaram-se da cidade de São Francisco, avançando como uma águia através das nuvens. Paul sentia o soprar do vento, o brilho dos faróis dos carros e o contorno maciço dos arranha-céus por baixo deles. Não havia separação de sentidos. Ele apercebeu-se de que nem ele nem Helen se encontravam fisicamente na terra, e de que nem sequer possuíam um corpo espiritual. Existiam unicamente em pensamento, e quando Helen falou com ele, era o seu próprio pensamento.

- É estranho, não é? - disse Helen. - Os nossos seres fundiram-se. Leva um pouco a habituarmo-nos. Agora mostrar-te-ei o que é o poder espiritual. Tal como na terra, um espírito tem servos para comandar, um império para governar, pessoas de quem exigir obediência. As únicas diferenças em relação a um governante temporal são os meios de controlo e o poder absoluto. Os seres humanos não fazem ideia até que ponto nós os controlamos, Ensinar-te-ei um ou dois truques sobre o assunto.

Sem qualquer sentido de movimento, tempo ou distância, eles encontravam-se no interior de um quarto. Era uma discoteca na baixa de São Francisco - a Tentação de Eva. Girando sob as luzes caleidos-cópicas estavam homens e mulheres vestidos para o divertimento de sábado à noite, ataviados com os mais estranhos fatos - conjuntos de cabedal com pontas de ferro e correntes, bodies pretos e minissaias, máscaras faciais e peles cor-de-rosa. Em volta deles só se ouvia o tinir de copos, gritos de prazer e o fundo, fundo latejo da música.

- Estão todos a tentar ser outra pessoa - disse Helen. - Não sabem que no universo podem ser qualquer pessoa. São deuses, ou melhor, foram. Vem, vamos entrar. Para dentro deles. Para o interior deles.

Paul começou a dançar. Não era ele que dançava, é claro. Era uma stripper profissional que girava em volta do centro da pista da discoteca. No entanto, Paul estava dentro do ser dela. Sentia o peso dos seios de uma mulher pela primeira vez, o aperto do látex contra as nádegas, à medida que ela oscilava ao ritmo da música, a pressão de um beijo na boca. Paul pensava os pensamentos dela, saboreava as ânsias e os desejos dela. Como um ladrão, ele inteirou-se atentamente dos segredos mais íntimos da pessoa dela, das suas esperanças e receios. Encontrava-se no interior do templo dela, embora ela não desse pela presença dele nem se apercebesse de que ele lhe lia os pensamentos.

- Repara naquele ser humano - disse Helen a Paul, embora agora partilhassem a mesma existência. Uma rapariga bonita aproximava-se do bar, serpenteando entre as outras pessoas. Era ágil e elegante, com uma espessa juba de cabelo ruivo; 23 anos de idade. Ao balcão estava outra mulher, a encomendar bebidas, e que era muito parecida com ela. Virou-se para o homem que a acompanhava.

Nesse momento Paul sentiu um tremendo sobressalto, como se alguém tivesse momentaneamente voltado a ligar as suas emoções mortais. Não era só desconcertante, era terrível sentir-se de novo vulnerável.

- Pensei que ficasses surpreendido - disse Helen. - Olha só quem é!

A rapariga que se encontrava ao balcão a encomendar bebidas era Laura Dukes e a pessoa que se aproximara dela era a irmã gémea, Melanie.

- Vamos ver o que realmente aconteceu - disse Helen. Então Paul e Helen encontravam-se dentro de Melanie, a rapariga que estava prestes a ser assassinada.

- Olá, irmãzinha - disse Laura. - Ainda não encontraste nenhuns homens bons?

Melanie tocou afectuosamente o braço da irmã. Estavam ambas meio embriagadas.

- Não - respondeu Melanie com uma gargalhada - mas esta é a minha noite de sorte. Como está Danny?

Observaram o actual namorado de Laura. Discutia encarnecida-mente com alguém no bar, batendo com o punho na parede. Laura queixou-se.

- Parece que se vai meter numa briga, como sempre. É melhor eu ir-me embora. - Beijou a irmã - Tem cuidado.

Melanie atravessou a pista de dança, escolhendo o caminho entre a confusão de pessoas. Colocou a bebida em cima de uma pequena mesa de bar. À medida que o fazia, um homem aproximou-se dela.

- Não pude deixar de reparar em ti.

Melanie olhou-o. Era um indivíduo bem constituído, de cabelo preto comprido que usava preso atrás num rabo-de-cavalo. Ela gostou do que viu numa primeira apreciação: uma estrutura enorme, olhos grandes, nariz e queixo bem-feitos. Óptimo, pensou ela.

- Tenho namorado,

- Com certeza que sim - disse Karl Kramer, à vontade. - És uma mulher bonita e eu não passo de um tipo desajeitado. Mas mesmo assim gostaria de conversar contigo. Não há mal nisso, pois não?

- Suponho que não - disse Melanie, a sorrir. Presentemente não tinha namorado. Baixou-se para apanhar a mala. Ele não era muito feio, de qualquer forma. Tinha um bom traseiro. - Queres então dançar?

- Será um prazer - disse Kramer.

Helen e Paul ficaram com Melanie nessa noite. Experimentaram os pensamentos e as emoções dela quando deixou a discoteca, Karl Kramer a segurar-lhe na mão. Melanie estava feliz. Gostava deste tipo que acabara de conhecer. Não iria com ele para a cama esta noite, mas provavelmente na próxima vez. Depois de ter dito adeus à irmã, Melanie encontrava-se nos degraus da discoteca antes de deixar a porta fechar-se atrás de si. Lançou um último olhar a Laura, que segurava um tabuleiro de bebidas. Alguma coisa dizia a Melanie para voltar para o calor do interior da discoteca, mas ela não o fez.

- Vamos apanhar ar fresco - sugeriu Kramer.

- Está bem.

Começaram a caminhar em direcção à viatura de Kramer. Os dois espíritos observavam-nos.

- Não quero continuar - disse Paul a Helen, em pensamento.

- Mas temos de fazê-lo - retorquiu Helen. - Agora sabes que, afinal, foi Kramer quem a matou. Foi um juízo um pouco errado da tua parte, não foi? No entanto, todos nós cometemos erros estúpidos. Não te preocupes com isso. Vamos esperar e ver o que acontece a seguir.

- Não.

- Vamos, sim.

À medida que o casal se aproximava do camião de Kramer, que tinha os vidros fumados, Kramer beijou Melanie e ela correspondeu. envolvidos num Drofundo abraço.

- E que tal irmos dar uma volta?

- Não. -Melanie tremia ligeiramente. Esfregou os ombros, cobertos apenas por uma fina blusa de cetim. - Prometi à minha irmã que não me ia embora sem ela. Quero voltar para a discoteca. Está frio aqui fora.

- Está bem - respondeu Kramer num tom natural. - Deixa-me só tirar uma coisa do camião.

Caminharam em direcção a ele.

Helen e Paul experimentavam cada pensamento de Melanie. A rapariga não sentiu medo, nem sequer quando Kramer abriu a porta do camião. Em seguida ele virou-se e aproximou-se dela furtiva- mente. Contudo, Melanie não o viu. A atenção dela estava virada para uma bolha que tinha no pé, o resultado de tanto dançar. Quando se endireitava, depois de ter inspeccionado a bolha, Kramer, de súbito, estendeu o braço e apertou-lhe contra a boca um pano embebido em clorofórmio.

Paul experimentou um pânico atroz que percorria em ondas todo o ser de Melanie, ao mesmo tempo que ela lutava freneticamente nas mãos do seu captor assassino. O cordeiro e o lobo.

- Mãe de Deus - rezava ela. - Mãe de Deus, por favor, ajuda-me. - Mas os esforços foram em vão e a sua consciência começou a esvanecer-se.

- Pára - disse Paul.

- Espera - disse Helen. - Vai ficar muito melhor.

- Não. - Num instante, encontravam-se fora do corpo de Melanie. Observavam, espectadores invisíveis, quando Kramer atirou o corpo inerte para o interior do camião. Paul queria fazer com que não acontecesse a terrível profanação que sabia que iria passar-se com Melanie.

- Oh, esquece - disse Helen com ar indiferente. - Estás a olhar para o passado. Além disso, perderás a melhor parte. Fica muito interessante. Kramer foi bastante imaginativo. Espera para veres.

- O passado? Quem pode alterar o passado? - gritou Paul desesperadamente.

- Deus sabe - Helen soltou uma gargalhada.

Nessa noite, Paul e Helen viajaram interminavelmente no oitavo plano astral. Entraram nas mentes de seres humanos, ligando-se à existência deles por uma centelha de tempo e lendo os seus mais íntimos segredos - um homem idoso hospitalizado que morria de cancro no fígado; um segurança que perseguia um assaltante; um homem que regressava a casa, cansado, titular de uma assinatura mensal dos caminhos-de-ferro; um taxista beligerante; um jovem que vendia o corpo por um maço de cigarros; uma senhora idosa sentada no seu apartamento, recordando aqueles que tinha traído numa guerra civil; uma rapariga desesperada a atirar-se para debaixo de um comboio.

Ao fazê-lo, influenciado pelo poder da moeda, o humanismo de Paul abandonou-o. Ficou completamente impassível perante o que via, como se observasse criaturas - meras formigas - de outro mundo, Afinal, quem se preocupa com o que acontece a uma única formiga, ou até a cinco milhões delas?

Para Paul, tal experiência valia qualquer outra riqueza no mundo. Não tinha preço. Ele era cada um destes indivíduos, vivendo com eles as suas vidas, sem que eles o soubessem. Apesar disso, não tinha qualquer responsabilidade nem pelos corpos deles, nem pelo seu sofrimento, nem pela forma como terminavam, Era completamente parasítico; a última viagem. Sabedoria e conhecimento sem quaisquer consequências desagradáveis.

- Helen, quem és?

- Sou uma mulher de 31 anos. É esse o corpo que eu habito. Ela é prostituta, um pouco gasta, por isso tenho de mudar em breve. Como espírito, precisa-se de um corpo humano se se quiser continuar a viver na terra. Se esse corpo morrer, morre-se também para o mundo.

- Quer então dizer que possuis seres humanos e que te transferes deles antes de morrerem?

- Sim - disse Helen laconicamente. - Quando se está dentro deles, absorve-se lentamente o seu espírito. É como beber água de um poço. Quando está esgotado, morrem, por isso é preciso mudar para outro.

- Há quanto tempo é que fazes isso?

- Há quase dois mil anos. De 20 em 20 anos, mais ou menos, mudo de corpo. Não gosto de velhos - disse Helen casualmente. - Prefiro pessoas bonitas. Depois, pouco antes de morrerem, ou se me aborreço, mudo. Há outros espíritos que sobrevivem há muito.

- Quer dizer que os espíritos malignos vagueiam por aí, possuindo pessoas e dominando-as?

- Mais ou menos - respondeu Helen -, embora eu pense que a palavra "maligno" não seja a mais adequada, não te parece? E como na terra, os mais fortes levam o que querem, os mais fracos são encostados à parede. É essa a natureza das coisas. Mas o prazer está no controlo que se tem sobre eles. É quase absoluto.

- E Suzanne?

- É a minha amante neste momento. Também controlo a mente dela.

- E ela sabe?

- Não. Os espíritos não se revelam a não ser em casos muito raros. No entanto, algumas pessoas são-nos dedicadas como criancinhas, e por isso o domínio que temos sobre elas é muito maior. Suzanne é uma delas. Ela sabe que eu existo como sua amante em forma humana, mas não sabe que eu tenho poder sobre ela para que ela realize os meus objectivos, e até mesmo para a matar. É claro que se lhe contasses, ela nunca te acreditaria. É algo que está completa-mente fora do seu quadro de referência, tal como estava fora do teu, até há pouco tempo. Com Kramer passa-se a mesma coisa, mas ele é mais perceptivo. As suas actividades fazem-no assim.

- E se tu morresses?

- Se eu morresse sem que o meu espírito entrasse noutro corpo, a minha influência sobre Suzanne ou Kramer deixaria de existir; até que outro espírito os habitasse. É frequente que uma série de espíritos possam ocupar o mesmo corpo. Mas eu dei-ta, Paul, para que faças com ela o que quiseres. O problema é que se não mantivermos um bom controlo sobre eles, têm tendência a seguir as suas próprias inclinações. Precisam de ser muito vigiados.

- Como?

- Olha - disse Helen. Encontravam-se no quarto de Suzanne. Ela estava aninhada na cama e dormia tranquilamente, no entanto, não estava sozinha. Tinha os braços em volta de Dave Rattinger, o colega da aula de Psiquiatria que se interessara por ela logo no início. Naquela noite ele tivera sorte.

- Suzanne não te conseguiu encontrar - explicou Helen. - Pensou que tinhas regressado para a tua mulher. Rattinger passou por casa dela usando um livro como desculpa e ela decidiu que precisava de companhia sexual. Receio que estejas esquecido, Paul. Como senhor dela, podes, é claro, fazê-la lembrar-se. Acorda-a e impòe-lhe a tua vontade. Fá-la gritar-lhe e atirá-lo para fora da cama. Paul concentrou-se em Dave Rattinger. Queria incutir-lhe um medo de morte. Contudo, nada aconteceu ao seu inimigo apaixonado.

- Porque não posso controlá-lo? Porque não posso fazê-lo acordar?

- Porque ele não está possuído - disse Helen. - Podes ler-lhe os pensamentos, mas não podes alterá-los internamente. Apenas externamente, usando outros seres humanos, é que podes tentá-lo a fazer o que tu queres e assim dominá-lo lentamente, se ele ceder. Mas é melhor ir para os mais fracos. Imagina-te como um lobo à caça de ovelhas. Para se conseguir uma refeição fácil, escolhe-se a presa mais fraca. A possessão por um espírito é a mesma coisa.

- Tu comes seres humanos para sobreviveres?

- A energia espiritual deles, sim. Tu não és o topo da cadeia alimentar, sabes. Tal como tu comes, também nós necessitamos de comida. Mas não de comida física. Além do mais, estás preocupado com quê? A maior parte das pessoas não dá realmente valor à vida, mas podemos usar a sua força vital para ascender aos planos astrais mais elevados.

- Mataste Johann Hermanns para que eu pudesse dar a prelecção sobre Jung em seu lugar?

- É claro, porque sabia que a querias. Gosto de ajudar amigos meus a realizarem os seus desejos. Acidentes de carro, doenças, acidentes de aviação, é tudo o mesmo para nós. A rede é lançada quando as pessoas menos esperam. O que - disse Helen - me traz ao estádio final.

- O que acontece a seguir?

- A retribuição - ela soltou uma gargalhada ruidosa. - Mas, primeiro, vamos divertir-nos. Deixa-me mostrar-te de que se trata. Tal como no mundo humano, nos planos espirituais é a lei do mais forte. Os espíritos mais poderosos dominam os mais fracos. Mas, oh, meu querido, é muito mais divertido! Vem comigo.

Passaram do quarto de Suzanne para o mundo exterior. Helen procurava alguém. E em breve o localizou. Era um viciado em crack, um jovem, não teria mais de 20 anos. Andrajoso, com braços da grossura de uma agulha, cambaleava em direcção a um bloco de apartamentos numa zona pobre de São Francisco, drogado até à inconsciência. Quando o rapaz se deitou junto a uma parede, Helen e Paul entraram nele. Os seus pensamentos eram desconexos, incoerentes, desprezíveis e repletos de auto-ilusão.

- Estás a ver? - perguntou Helen. - Uma ruína completa. Costumava vender drogas e matou uma criança. Uma vez deu uma tareia a Suzanne. Bem, não há mais nada para ele neste mundo, um carro velho e usado que não andará muito mais. Mas repara, ainda se pode fazer alguma quilometragem com ele. É tal qual uma corrida de quadrigas.

Um grupo de jovens passou pelo toxicodependente quando se dirigia para o bloco de apartamentos. Ignoraram o vulto junto à beira da estrada. No entanto, incitado por Helen, o toxicodependente sentou-se. Cambaleando, colocou-se em pé e começou a serpentear pelo passeio, gritando-lhes palavras racistas. Admirados com a sua audácia, eles aproximaram-se, empunhando facas e um bastão de basebol.

- O que foi que disseste?

O toxicodependente cuspiu-lhes no rosto; e começou a fugir, com Helen a estimulá-lo. De súbito, Helen deixou de controlar a mente do rapaz de forma a que os próprios instintos do toxicodependente voltassem a ele. A fanfarronada que ela impusera à psique dele transformou-se em pânico total ao mesmo tempo que ele corria para salvar a vida, espantado com a sua decisão anterior de encetar tal luta suicida.

À medida que a sua vítima corria, Helen e Paul aguentavam-se como cavaleiros sentados no dorso de um animal perseguido, crescendo no medo que a criatura emanava, bebendo profundamente no terror que fluía dele. Era como se esvaziassem um recipiente. Isso revigorava-os fazendo-os sentir-se omnipotentes.

As botas do grupo faziam barulho ao baterem no passeio, e os rapazes corriam, de facas na mão. Alcançaram a vítima junto a uma ponte. A vingança foi rápida: gritos de dor ao mesmo tempo que botas pesadas se abatiam contra a cabeça do toxicodependente; o som de costelas a quebrarem-se; sangue a escorrer de uma ferida que uma faca lhe fizera no braço.

Enquanto ele começava a sangrar profusamente, Helen e Paul experimentavam o êxtase pervertido do mal. Para eles era melhor do que qualquer droga no mundo - como numa tourada, o júbilo e a alegria de ver um touro ferido cair, pôr-se em pé, vacilante, e voltar a cair. Controlo absoluto e nenhuma responsabilidade - até à morte.

Agora o toxicodependente estava de novo em fuga, tropeçando e seguindo em ziguezague. Não foi longe.

- Quieto, quieto - disse Helen. O grupo de jovens encontrava-se junto à figura ensanguentada, contente por deixá-lo meio vivo. Mas Helen forçou-o a sentar-se. Implacavelmente, ela obscureceu-lhe o instinto de sobrevivência. - É a tua vez - gritou ela ao seu cúmplice, deliciada.

Por um momento, Paul quis parar. No entanto, sentia-se como um imperador romano perante uma multidão no Coliseu. Olhavam-no, expectantes, pedindo sangue, à espera que ele desse a ordem. Em frente do seu estrado estava um gladiador caído. O que fazer? Saturado como estava de narcisismo e poder, era óbvio; não havia opção. As sementes do orgulho tinham crescido dentro dele e eram agora uma árvore enorme. Mentalmente, Paul colocou os polegares para baixo, embora fosse Helen, usando o poder da moeda, quem fazia o trabalho sujo.

- Malditos negros - rosnou o toxicodependente aos seus perseguidores.

A faca entrou no peito do rapaz, tão profundamente que o cabo se quebrou. À medida que um rio de sangue jorrava dele, o espírito do rapaz deixou a sua carne. Brilhava debilmente, coisa patética, já quase esgotado de energia. Helen e Paul saíram-lhe do corpo quando ele morria. Viram o espírito subir à frente deles.

- Saboreia - disse Helen.

Caíram sobre ele sofregamente, esvaziando de um trago a energia do anterior ser humano, como uma enorme golada de vinho tinto fresco. Paul estava embriagado de prazer - a alegria de um animal a devorar a sua presa, tal como o leão faminto devorara o corpo da criança no Circo. Era um repasto com todo o júbilo de uma libertação sexual que não terminava. A sua preocupação pelo humano não era mais do que a de um carnívoro a comer. Era a lei do universo: uma vida por outra. Os demónios festejavam.

- Agora para a pièce de résistance - disse Helen. Desta trataria ela. Paul ainda estaria demasiado enjoado, mas estava a ir muito bem.

Ben esfregou os olhos.

Conduziam desde as três horas. Passava pouco das seis e estava a ficar claro. Ben olhou para o lado, para o rosto da mulher. Estava gravado com rugas de tensão e ela seguia em silêncio. Isso, em si, era notável. Ben sabia o que Florence estava a pensar; após 26 anos de casamento, era difícil não saber. Estava desesperadamente preocupada com Paul, Marie e a filha deles e ainda não tinha muita certeza sobre o que acontecera, tal como ele. No entanto, os Stauffer precisavam de ajuda e Ben e Florence dar-lha-iam sem restrições. Era simples: amavam aquela família.

Florence pigarreou.

- Quando disseste "é possível", o que querias dizer? Ben encolheu os ombros.

- É possível, Florence. Uma coisa que me ensinaram estes muitos anos de psiquiatria é que nunca se deve descontar nada. Na verdade, sabemos tão-pouco, quase nada, da psique humana e da forma como ela realmente apreende as coisas. Carl Jung sempre afirmou que existem verdades psíquicas que não podem ser explicadas nem provadas de nenhuma forma científica. Além disso, o mal é uma condição espiritual, e não apenas uma realidade psicológica. Tem uma fonte mais profunda.

- E religiosamente, acreditas nisso?

- Sim - disse Ben. - Embora, é claro, Paul nunca tivesse acreditado. - Encolheu os ombros. - As Igrejas Protestante e Católica aceitam a doutrina do mal, tal como os judeus. E a Bíblia é clara ao afirmar que Cristo expulsou demónios, que eram claramente entidades espirituais de algum género. Contudo, eu nunca pensei realmente como é que estas coisas podiam de facto acontecer. É algo que nenhum de nós quer contemplar, uma vez que isso alteraria completamente toda a natureza, e direcção, das nossas vidas.

- Achas que Kramer é o mal?

Ben acenou com a cabeça. Não queria falar nele. Era demasiado inquietante, já para não falar de tudo o resto.

- O que vais fazer?

- Vou falar com Paul mal cheguemos lá - Ben hesitou. Depois disse, casualmente: - Florence, é melhor que saibas já. Ele vai ser nomeado chefe de departamento. A direcção da universidade decidiu ontem.

Ela olhou-o, horrorizada. Ben continuou, calmamente:

- Ele é melhor psiquiatra do que eu. Penso que tomaram a decisão certa. A minha secretária contou-me.

Florence começou a chorar.

- Não chores - disse ele. - Não te deves preocupar. Não é importante. - Ele vislumbrou uma área de serviço com restaurante. - Vamos parar.

Entraram no parque de estacionamento. O rosto de Florence ainda mostrava sinais de lágrimas.

- O que queres?

- Só café.

Florence saiu do carro. Em seguida parou e virou-se para ele. Incitada pela misericórdia do seu anjo-da-guarda, disse-lhe a verdade:

- Amo-te, Ben, e estou muito orgulhosa de ti. Surpreendido, a voz embargou-se-lhe.

- Querida, eu também te amo. - As suas mãos tocaram-se.

- Eu queria apenas que o soubesses e que isso nunca mudará.

Ben sorriu afectuosamente. Ela estava exausta. Ele viu-a atravessar a estrada interna em direcção à área de compras. Apesar de todas as fraquezas dela, ele amava-a tanto. Cansado, fechou os olhos.

Dois espíritos observavam.

- Estas pessoas querem destruir-nos - comentou Helen. - O teu amigo Ben contou a Marie sobre Suzanne. Em breve virarão a tua mulher e filha contra ti. Farão com que outros destruam o pentagrama e levem a moeda. São eles ou nós, Paul, No caso deles, não posso influenciar-lhes as mentes internamente. Preciso de influenciar a mente de um agente. Felizmente, há sempre alguns por aí.

Florence saiu da área de compras. Trazia as compras na mão. Pensava em Rachel. Quando a voltasse a ver, Florence apertá-la-ia com tanta força, que nunca a libertaria. Faria tudo por ela, defendê-la-ia até perante as grades do inferno. Florence entrou na estrada.

Ben acordou. Olhou pelo vidro do carro, ainda meio a dormir. Viu uma caravana a sair da auto-estrada. Dirigiu-se para a área de compras, reduzindo a velocidade. O motorista começou a virar para uma zona de estacionamento e Florence parou para o deixar passar. Nesse preciso momento olhou para o marido que estava no carro. O olhar dela fixou-se nele, ele sentiu-o. Era um olhar de despedida.

Aconteceu num instante. A caravana deu um solavanco para trás, acelerando rapidamente. Florence virou-se para a ver, mas era tarde de mais.

- Oh, meu Deus! Meu Deus! - murmurou Ben, à medida que ela era apanhada pelas rodas.

Uma hora mais tarde, a enfermeira do hospital mais próximo veio sentar-se ao lado de Ben, no corredor. Ela sabia o que acontecera. Estavam também a tratar o motorista da caravana, que ficara em estado de choque. O pé dele escorregara para o acelerador, disse ele. Um acidente muito estranho, completamente imprevisível. A polícia estava a entrevistá-lo, pois tratava-se de um veículo roubado e ele tinha um longo registo de prisões. A enfermeira pegou na mão de Ben. As pessoas giravam em redor deles, falando alto. Mas Ben não as via nem ouvia.

- Lamento muito - disse a enfermeira, calmamente. As lágrimas afloraram-lhe aos olhos. - Senhor Ingelmann, a sua esposa faleceu na mesa de operação.

 

"Até o mais pequeno anjo é incomparavelmente superior a todo o poder humano, como pode ser provado de muitas maneiras.

Em primeiro lugar, um poder espiritual é mais forte do que um poder corpóreo, e assim o poder de um anjo, ou até mesmo da alma, também é maior do que o poder do corpo."

                   Malleus Maleficarum, O Martelo das Bruxas

 

O cardeal ergueu-se das suas orações do final da tarde. Encontrava-se na cappella de São Pedro, uma pequena capela lateral situada dentro dos limites da Basílica. Era ornamentada com muita riqueza, tendo sido acrescentada a decoração em mármore no século XVI.

Estavam a acontecer coisas estranhas, Benelli sabia-o. Não era a náusea nem o profundo cansaço que o assaltavam todos os dias, como um cancro a roer-lhe as entranhas. Não eram os murmúrios internos que se tinham transformado em vozes altas, os gritos dos condenados e dos seus senhores, fazendo com que o sono e a capacidade de se concentrar fossem nele quase nulos. Era algo muito mais perturbador.

Havia um profundo nível de expectativa no ar, escuro e lúgubre, como se o mundo, visível e invisível, se preparasse para uma batalha: uma batalha em que o resultado já era conhecido. Pois a Igreja ia combater um inimigo ao qual, segundo as suas próprias predições, ela seria incapaz de resistir. Uma tarefa suicida.

O coro começou no Agnus Dei. As vozes dos rapazes, puras e etéreas, elevavam-se no ar, enchendo o espaço limitado com o extraordinário poder da adoração humana, um reconhecimento de que o homem não era o único habitante deste universo, mas que outras presenças e mistérios estavam igualmente nele contidos. Benelli fechou os olhos. Toda a humanidade não era mais do que uma videira numa vinha, uma videira que, no entanto, podia falhar.

- Senhor - rogou ele -, porquê agora? Porque escolheste este período para permitir que esta provação caísse sobre nós? Porquê?

De certa maneira, Benelli esperara o regresso dos grandes poderes do mal sob outras formas: talvez a destruição do planeta por tempestades ou pela guerra; talvez o lento declínio da religião cristã e a sua extinção final como uma vela, onde o amor fosse totalmente substituído pela adoração da tecnologia. Mas não isto - o regresso dos anjos, tão simplesmente descrito na Bíblia e pelos primeiros escritores cristãos.

As próprias preparações deles contra o ataque pareciam lastimáveis. O Papa cancelara todos os encontros externos, alimentando a inevitável especulação de que não se encontrava bem de saúde. Dera igualmente instruções a Benelli e a Catherine de Benedetto para que não saíssem dos limites do Vaticano. Finalmente, o pontífice ordenara que o túmulo de São Pedro fosse interdito a toda a gente, padres e leigos, com excepção de uma pessoa - o próprio Papa.

- Cardeal Benelli - o padre a seu lado tocou-lhe levemente no braço. - Está na hora de dizer a sua missa.

Benelli abriu os olhos. Estavam à espera que ele conduzisse o serviço. Levantou-se do seu lugar. Enquanto o fazia, os seus pensamentos continuaram.

Durante o dia não tinham conseguido localizar o corpo do Papa Silvestre II, apesar das intensas escavações na área que rodeava a Igreja de Latrão e as suas criptas. O cadáver fora levado. Mas para onde e por quem? Deve haver alguma coisa escrita, algum manuscrito, que registe esse acontecimento. Até mesmo agora, o prefeito e os seus assistentes procuravam freneticamente nos Arquivos Secretos para determinar se alguma vez fora feita menção deste facto em séculos passados. Havia apenas duas possibilidades. O corpo de um papa podia ter sido desenterrado seguindo as instruções explícitas de um pontífice posterior. Ou pelos poderes das trevas.

Benelli começou a abençoar a hóstia, no entanto a sua mente continuava a vaguear. O Papa impusera-lhe a tarefa de encontrar Silvestre II e ele falhara. Até numa coisa relativamente pequena como esta ele falhara. Quão pouco valor tinham, afinal, as vestes de um cardeal, reflectiu ele. Ele nunca as deveria ter desejado. Apesar de toda a pompa e majestade exteriores, elas só cobriam a sua falta de fé.

Com grande tristeza, Benelli ergueu a hóstia ao altar. Formou-se, então, uma frase na sua mente, como se alguém lhe tivesse falado baixinho.

Há um túnel por baixo de São Pedro.

Tal como o Vaticano, a cidade de São Francisco tinha muito com que se ocupar - acontecimentos mais e menos importantes. O assassino em série ainda não fora encontrado. Os colunistas dos jornais começavam a especular de que Karl Kramer fora, afinal, o culpado. Estas afirmações foram reforçadas por comentários de Pat Harbison, ex-guarda da prisão de Alta Segurança de São Francisco, que contara pormenorizadamente aos repórteres a forma como os outros presidiários temiam Kramer.

Mas essa não era a grande notícia, é claro. Estavam a ocorrer acontecimentos muito mais importantes. Fora da cidade, ao longo da falha de Santo André, registavam-se terramotos cada vez mais intensos. Os sismólogos previam que "o grande" deveria ocorrer brevemente, tanto mais que há muito que era esperado. Todas as pessoas tinham a certeza deste acontecimento, mas nunca tinham pensado que aconteceria enquanto eles lá vivessem.

Agora era diferente; a catástrofe olhava-os no rosto. Centenas de milhares de pessoas fugiam de São Francisco, e os aeroportos e as auto-estradas estavam apinhados. As pessoas entravam em pânico, como sempre faziam quando se apercebiam que o seu pequeno e confortável mundo se encontrava nas mãos de forças que não podiam controlar. Contudo, muitos ficaram na cidade. Alguns faziam-no por fanfarronice. Achavam que o terramoto não seria pior do que em 1906, quando atingiu 8.25 na escala de Richter e deu origem a um terrível incêndio que destruiu a zona comercial central de São Francisco. Outros ficavam para proteger a sua propriedade ou simplesmente porque estavam relutantes em deixar o conforto do seu lar.

Todos tinham um certo grau de medo. Para muitos o medo estava associado à percepção humana de acontecimentos terrenos. Para outros, o medo era diferente, mais durável.

Marie estava sentada à mesa do refeitório do convento, incapaz de comer. Estava numa pilha de nervos e até o apetite lhe fora devorado pelo medo - medo por si própria e pela filha. Perguntava-se quando é que Florence e Ben chegariam. Brevemente. Eles saberiam o que fazer. Sorriu debilmente à filha e correu-lhe os dedos pelo bonito cabelo louro. Rachel levantou o olhar. O seu rosto angélico transparecia preocupação.

- O papá esteve aqui a noite passada. Seguiu-se um silêncio.

- O teu pai não veio - disse Marie, lançando um olhar furtivo à freira que estivera sentada com Rachel durante a noite.

- Eu vi-o - disse Rachel num tom afirmativo. - Esteve no quarto. Disse que me vinha buscar em breve.

- Foi apenas um sonho, querida - disse Marie. - A irmã esteve toda a noite sentada junto à tua cabeceira.

- Não - disse Rachel. - Ele esteve aqui. - Ela hesitou. - Ele disse que devíamos regressar a casa. Que devíamos deixar o convento quando escurecesse.

Involuntariamente, Marie estremeceu.

- Rachel, estavas a sonhar.

- Ele tinha a moeda com ele - continuou a filha, incapaz de esconder a verdade. - Ele mostrou-ma. - E acrescentou, em voz baixa: - Ele também vai matar Ben e Florence.

Marie gritou.

- Não! - disse ela, sobressaltada. - Não, não é verdade, Rachel. É mentira. - Levantou-se e fugiu da sala, horrorizada. É que ela tivera exactamente o mesmo sonho.

A madre superiora, a irmã Marta, levantou-se da sua cadeira assim que Marie entrou no seu gabinete. Via que a mulher estava no fim das suas forças, mentais e espirituais. Fora um longo dia. Fez-lhe sinal para que se sentasse.

- Acabei de receber muito más notícias - disse ela, fixando uns olhos que apenas reflectiam angústia. - Marie, Florence Ingelmann está morta. Morreu esta manhã num trágico acidente de viação. O marido telefonou-me.

A madre superiora olhou pela janela ao mesmo tempo que ouvia o profundo e amargo soluçar. Porque permitia o Todo-Poderoso que estas coisas acontecessem? Por vezes tudo isso estava para além de toda a compreensão humana, por mais que ela tentasse entender. O que fizera esta mulher inocente? Porque estava ela a ser castigada de uma forma tão chocante? Será que tudo lhe seria tirado? O marido, a filha, a sua própria vida?

- Deus esqueceu-me.

- Não, minha filha.

- Ele abandonou-me.

- Não - disse a freira, a voz trémula de emoção. - Não deve dizer tais coisas. Há alguém que veio ajudá-la, de Roma. Ele é uma pessoa importante, o Confessor do Papa.

Marie ergueu o olhar. Através das lágrimas, viu um homem entrar na sala. Viu a madre superiora fazer-lhe uma leve vénia, deixando-os a sós. O padre confessor sentou-se numa cadeira ao lado dela e esperou. Marie continuou de cabeça baixa. Finalmente, fez-se silêncio quando o seu choro terminou. Ela começou a sentir calor. Fluía dele e rodeava-a, como água quente a rodear um corpo frio e trémulo, cuidando dele e trazendo-o de volta à vida, lentamente. À medida que continuava a oração dele por ela, lentamente, o medo que Marie tinha da morte, o medo egoísta da sua própria morte, começou a dissipar-se e a paralisia da sua mente e do seu espírito aliviou.

- O Santo Padre enviou-me para que a encontrasse, a si e à sua filha.

Marie sussurrou:

- Porque está isto a acontecer?

- Pensamos que o seu marido tem uma moeda. Contém um poder maligno muito grande.

Subitamente, Marie levantou o olhar.

- Está relacionado com uma mulher? Eu vi uma mulher. E Rachel também.

- Sim - disse o monge. - Esta mulher tem a ver com isso. Mas ela não controla a moeda.

- O que fará essa moeda?

- Destruirá Paul através de falsas promessas e alucinações - explicou o padre confessor -, de forma a permitir que um grande mal venha ao mundo.

- Estaremos seguras aqui?

- Apenas por um tempo.

- Mas porquê Paul? E porquê agora?

- Não sei - disse o monge. - Estas moedas contêm mistérios que nem sequer a Igreja compreende completamente. Pensamos que o seu regresso está relacionado com acontecimentos cósmicos que ainda não sabemos interpretar. No entanto, no coração de cada moeda está a traição.

Marie disse, furiosamente:

- Karl Kramer - sussurrou ela. - É ele.

- Quem?

Marie contou ao padre confessor o que sabia sobre os assassínios em São Francisco e sobre o julgamento. Quando terminou, o monge pensou em tudo o que ouvira. E concluiu:

- É possível que a moeda tenha chegado até ao seu marido se ele traiu Laura Dukes e a irmã. No entanto, isto é apenas o princípio. A moeda virá ter com muitas pessoas que traem em todo o mundo, mas eles precisam de encontrar uma preparada para vender a sua alma aos poderes do mal. Tenho a certeza de que Paul ainda não o fez, embora eles lhe ofereçam tudo o que ele desejar para conseguirem o que querem.

- E ele matará Rachel e a mim própria?

- A não ser que sejamos capazes de o fazer parar. Compreende, o espírito maligno tem de esvaziar o ser de Paul de todo o amor antes de o poder possuir completamente. Para que isso aconteça, ele precisará de fazer com que o seu marido se vire contra todas as pessoas de que gosta. É o caminho do mal, a eterna luta do poder contra o amor.

- E quem, ou o que é este espírito?

- Pensamos que é de um homem que viveu em tempos na terra, mas não temos a certeza. - O monge passou uma mão pelo sobrolho. Não lhe queria contar de mais, no entanto sentia compaixão por ela. - Estas coisas estão relacionadas com acontecimentos de há dois mil anos atrás, e eu preciso de ver essa moeda. Para o fazer, temos de regressar a sua casa, ao local onde Paul a usou pela primeira vez. Irei lá esta noite. O seu marido não estará lá.

Marie estava confusa. Como é que este padre sabia todas estas coisas? Que outras coisas é que ele saberia e que não lhe contava?

- Por favor, ajude Paul - implorou ela. - Por favor, salve-o.

- Faremos tudo o que pudermos, mas pode não ser possível.

- Porquê? - gritou Marie. - O senhor é a Igreja; deve poder fazer alguma coisa.

O padre confessor hesitou. Finalmente disse-lhe, a sua própria voz embargada pelo desgosto e pela emoção:

- Marie, a própria Igreja corre o maior dos perigos.

Paul acordou. Estava deitado no chão da cave de sua casa. Estava vazio e não havia qualquer sinal do pentagrama. Isso não o preocupava; sabia que ainda lá estava, mas que era invisível aos olhos humanos. Lembrava-se claramente das primeiras horas da manhã; as visões estavam indelevelmente fechadas na sua mente. Os anéis de fogo, o rapto de Melanie Dukes por Kramer, a morte de um toxicodependente, depois a de Florence.

Estava na hora de submeter Helen à prova final antes de subir ao nono plano astral. Levantou-se. Sentia-se maravilhosamente fresco, a mente clara como cristal. Com um passo confiante, subiu as escadas para a sala e pegou no telefone.

- Sim, está na última página - o director adjunto do San Francisco Times falava numa voz staccato. - Nada de importante nestes dias, a não ser os tremores de terra. Quer que lhe leia?

Paul afagou o auscultador.

- Só o resumo.

- Bem, basicamente, um toxicodependente foi esfaqueado até à morte, às primeiras horas da manhã, na baixa de São Francisco, por um grupo de jovens embriagados. Hum, que mais? A polícia prendeu os autores do crime... aaaa... eles confessam e só se lembram vagamente do que aconteceu... um crime descuidado, como sempre. Mais? - perguntou o director.

- Não, assim está bem.

- Conhecia-o?

- Penso que sim - disse Paul. - De uma forma estranha. Paul contactou a universidade. Deram-lhe a notícia da morte de

Florence, que lhes fora transmitida pelo marido. Queria dizer que era verdade; os espíritos não mentiram. E Florence? Era uma intrometida. Pensando bem, ele nunca gostara dela.

Ligou a televisão. Quase metade da população abandonara São Francisco. Estava a ocorrer uma transmigração em massa de habitantes; havia aflição e medo. As notícias comentaram outros acontecimentos que tinham ocorrido no mundo. Guerra civil na índia, escaramuças no Brasil, avalanchas de lama na Colômbia, ataques à bomba na China, chacina de inocentes na Indonésia, fome na África Central. E por aí fora, um catálogo de tragédia humana e de calamidades.

- Basta - Paul desligou o aparelho com desdém. Libertar-se-ia, para sempre, de todas as limitações humanas,

Paul regressou à cave e colocou-se no local onde o pentagrama estivera. Tirou a moeda do bolso. Lentamente, a escuridão chegou até estar escuro de breu. A cave desapareceu-lhe da vista e o pentagrama começou a formar-se de novo. Ele subiu aos planos astrais.

O pequeno bosque do terceiro plano astral apareceu. Ele ficou a contemplar, maravilhado, as árvores antigas que o rodeavam, os troncos bolorentos e os grandes ramos que se estendiam, reflectindo a sua intemporalidade. Ele inspirou o ar perfumado do bosque, cheio de bolor e orvalho. Oxalá ele pudesse ficar aqui para sempre. Helen aproximava-se por um caminho, a Helen do mito grego. Paul correu a abraçá-la; os beijos dela eram suaves e perfeitos nos lábios dele.

- Porque foste? - Ela já sabia a resposta. Agora não saía de junto dele.

- Queria verificar se era verdade.

- É tudo verdade. Eu não minto, Paul. Com esta moeda terás o poder de derrotar os teus inimigos e de exaltar quem quiseres. Ela cria o mundo que tu desejas, o teu mundo. Há apenas o nono plano astral, então começarás a ver tudo. É miraculoso.

- Como vamos para lá?

- Usando o pentagrama, mas precisamos de uma vasta concentração de energia espiritual. Precisamos também de ir a Roma. Há uma coisa que pode fazer gorar os nossos planos. Tenho de localizar um túmulo.

- Um túmulo! Roma! Porque não podemos ir agora? - disse ele com petulância. Ansiava por regressar imediatamente às alegrias do mundo espiritual.

- Não - respondeu Helen. - Tenho de ver dentro de uma fonte de poder espiritual e não posso fazê-lo sem a ajuda de outros espíritos, espíritos mais poderosos do que eu. Eles escondem-me alguma coisa.

- Eles?

- As pessoas que nos querem tirar a moeda.

Helen esperara isto. O Vaticano tinha agora conhecimento de que Paul era o possuidor da moeda; o assassínio do padre revelou-o.

Por outro lado, e isto preocupava Helen ainda mais, grande espírito do mal como era, era possível que existissem ainda na terra outros espíritos que a pudessem derrotar. Por isso não devem correr riscos. Helen beijou Paul.

- Vens comigo? Será agradável regressar ao local onde vivi em tempos. Para trazer de volta recordações felizes.

- Com certeza. - Paul não hesitou. Quando a sua influência fosse igual à dela, ele forjaria o seu próprio destino. Não se apercebeu de que Helen podia ler-lhe os pensamentos.

Helen viu Paul sair de casa para empreender os preparativos práticos para a viagem. Dificilmente se encontraria nele um pensamento da sua vida antiga. Apenas um desejo irreprimível de subir ao mais elevado plano espiritual, e de olhar para baixo, para o homem.

Helen afastou a sua especulação da sua vítima. Havia outras coisas a tratar e uma delas dizia-lhe respeito directamente. O Vaticano não estava a reagir como ela esperara.

Por que motivo é que o Vaticano procurava o túmulo de um velho Papa?

Ben Ingelmann estava sentado no hospital de uma cidade a meio caminho entre Aspen e São Francisco. Observava o rosto da mulher. Tinha a tonalidade do mármore, uma beleza mortal de que nenhum rosto vivo poderia ser réplica.

Ben pensou no passado, no passado que tinham tido em comum. Recordações de como se tinham conhecido. Um encontro casual há tantos anos atrás, quando Florence encalhara nele, um jovem e acanhado estudante de psiquiatria, quando ele corria para a aula. As horas que tinham passado na cafetaria da universidade, a mão dele na dela. A proposta que ele lhe fizera no cimo de uma colina num dia de Outono açoitado pelo vento, mesmo antes de concluir o curso. A extraordinária sensação de alegria que ele experimentara quando ela colocara o anel de comprometida barato que ele lhe dera, e que era o que ele tivera condições de comprar.

Recordações da dignidade com que Florence encarara a declaração do médico de que ela nunca poderia ter filhos. Os mil pequenos actos de generosidade que ela praticara durante a sua vida e que mantivera escondidos do mundo. O amor dedicado que tinha pelos amigos, especialmente por Marie e pela filha. O calor e a em-patia para com os menos afortunados do que ela.

Últimas recordações. Do seu amor por Ben, um amor duradouro, que nunca esmoreceu até ao fim.

Era impossível resumir a vida de outra pessoa, e Ben não o procurou fazer. Em vez disso, ficou sentado junto dela durante uma hora, reflectindo no tempo que tinham passado juntos. Valera a pena. Uma vida passada calmamente. Sem grande fama, sem riquezas - Florence sabia que estas coisas não viriam ter com ela se casasse com ele. Em vez disso, ela dedicara o seu tempo a cuidar de Ben, e, juntos, eles tinham alcançado um amor e uma felicidade que os tornava tão realizados como aqueles que conseguiam os louros do vencedor neste mundo. Até mais. Poderia ser insignificante, mas ele agradecia a Deus pelas suas vidas. Era suficiente.

Ben levantou-se de junto da cama quando chegaram os agentes funerários. Amanhã, ele regressaria para São Francisco com o corpo; hoje estava demasiado exausto. Após ter reservado um quarto num hotel, ele foi sentar-se no pequeno parque da cidade, a mente num turbilhão, à medida que meditava nos acontecimentos extraordinários dos últimos dias.

Foi só passado algum tempo, quando estava sentado num banco do parque, que Ben reparou na presença de um grande cão preto. Estava ali, quase escondido pela folhagem de algumas árvores, observando-o, sem se mexer. Entre as suas outras preocupações, ele pensou neste facto. Em seguida, dirigiu-se à biblioteca local, seguido, à distância, pelo cão. Talvez a explicação de que ele precisava para todos estes acontecimentos, de certa forma estranha, tivesse alguma coisa a ver com animais.

Na biblioteca, Ben abriu a autobiografia de Carl Jung, um dos pais da psiquiatria, intitulada Recordações, Sonhos, Reflexões. Nesta autobiografia intensamente pessoal havia uma parte que sempre o intrigara. Procurou a página que lhe interessava e começou a ler:

Tive uma vez um caso que nunca esqueci. Uma senhora entrou no meu gabinete. Recusou-se a dar o nome, disse que não interessava, uma vez que desejava apenas uma consulta... Fora médica, disse ela. O que tinha para me comunicar era uma confissão; cerca de 20 anos antes, ela cometera um crime por ciúme. Envenenara a sua melhor amiga porque queria casar com o marido da amiga. Ela pensara que se o assassínio não fosse descoberto, não a perturbaria. Queria casar com o marido, e a forma mais simples era eliminar a amiga. As considerações morais não tinham importância para ela, pensava ela.

As consequências? Ela, de facto, casara com o homem, mas ele morreu pouco depois, relativamente jovem. Durante os anos que se seguiram, aconteceu uma série de coisas estranhas. Afilha desse casamento esforçou-se por se afastar dela assim que se tornou adulta. Casou jovem e desapareceu da sua vista, afastando-se cada vez mais, e ultimamente a mãe perdera todo o contacto com ela.

Esta senhora era uma amazona apaixonada e possuía vários cavalos de montar, de que gostava muito. Um dia descobriu que os cavalos começavam a ficar nervosos com a presença dela. Até o seu preferido se assustava e a atirava ao chão. Finalmente, teve de desistir de montar. A seguir, agarrou-se aos cães. Tinha um cão-de-lobos invulgarmente bonito, a que estava muito ligada. O destino fez com que até este cão ficasse assustado. Com isso, o seu cálice ficou cheio. Pensou que estava moralmente acabada. Tinha de confessar, e foi com esse objectivo que veio ter comigo. Era uma assassina, mas ainda por cima também se assassinara a si própria. Porque uma pessoa que comete um crime assim, destrói a sua própria alma... é a conclusão a que se chega.

Por vezes parece que até os animais e as plantas o sabem...

Estranho, não era?

Ben fechou o livro. Caminhou depressa de volta ao hotel; queria chegar lá antes do crepúsculo. Enquanto o fazia, Ben reflectia no quanto era também curioso que os animais pudessem igualmente aparecer como manifestações do mal. É que ele reparara num pormenor estranho do mastim que o seguira toda a tarde.

Não tinha sombra.

No convento, Marie aconchegava a filha para dormir, envolvendo-a num longo e forte abraço. Depois saiu para o corredor. O padre confessor aproximou-se.

- Está na hora de eu ir.

Marie estremeceu.

- Eu levo-o lá.

- Acho que não devia.

- Insisto

- ela cerrou os punhos. - Quero o meu marido de volta.

Finalmente, o padre confessor concordou.

- Muito bem, mas fique sempre perto de mim. E não reaja ao que quer que seja que vir, ou que pense que vê. Estes espíritos são, de facto, muito perigosos. Podem influenciar e alterar a mente.

- O que procura exactamente? - perguntou Marie enquanto conduzia. A viagem era tão parecida com uma repetição da viagem que fizera apenas dois dias antes com o padre David, que até a assustava pensar nisso. Mas ela amava Paul e faria o que pudesse por ele. Mas amaria ela mais a filha?

- Preciso de ver a moeda - respondeu o monge. - Ela existe tanto no plano físico como no espiritual. De início, é uma moeda simples, um denário de prata do tempo de Cristo. Em seguida transforma-se numa imagem, à medida que o seu poder cresce e estabelece a ligação por cima do fosso entre o mundo terrestre e o mundo cósmico. Se a moeda que procuramos se tiver agarrado a Paul, a sua imagem deve ser detectável na casa.

- Como sabe que Paul não estará em casa?

- Porque foi para Roma.

- Você di-lo como se pudesse ver estas coisas - comentou Marie, desesperada.

- Os poderes do bem têm algumas armas no seu próprio arsenal - respondeu o monge. - Como o mal, elas podem compreender muitas coisas que não são prontamente compreensíveis para a maior parte dos seres humanos. A moeda irradia uma vasta energia quando é usada, permitindo que a sua fonte seja detectada. Não sou eu que vejo isto. É uma freira.

- Que tipo de mulher é ela?

O carro seguia pelos arredores de São Francisco. Desta vez, todo o trânsito estava a sair da cidade. O padre confessor encolheu os ombros.

- Ela é uma mulher simples, uma mística. Uma freira que pertence a uma ordem fechada. Não são só os poderes do mal que têm revelações; aqueles que seguem o caminho do bem também o fazem.

- As mesmas imagens?

- Não - respondeu ele enfaticamente. - Eles são capazes de distinguir os truques que o mal cria, mas sabem que são ilusões. As suas próprias revelações estão centradas no divino.

- Porque não está essa freira aqui?

- Quer você dizer, por que motivo enviaram um pobre padre como eu e não uma grande santa? - disse o padre confessor com um leve sorriso.

- Oh, desculpe. Não era isso que eu queria dizer - desculpou-se Marie, embora esse tivesse sido o seu pensamento. - Quero eu dizer, porque é que ela não vem destruir a moeda?

- Porque o Santo Padre lhe pediu que ficasse em Roma presentemente. Além disso - o padre baixou a voz - não tenho a certeza de que podemos extinguir esta moeda, Marie.

- Porquê?

- Ela desce até às próprias raízes do pecado original e faz parte do mais profundo dos mistérios; um paradoxo para nós. Compreende, Marie, de certa forma, o amor não tem poder, uma vez que Deus é o ser mais humilde do universo. O amor não destruirá; não usará o mal para lutar contra o mal. E no entanto, incompreensivelmente, o amor é também a coisa mais poderosa do universo porque, quando as almas estão unidas no amor, nada, nem mesmo o maior mal, as pode afectar. Não há espaço, nem fenda, por onde ele se possa infiltrar.

- Como pode então a moeda ser derrotada?

O monge não respondeu durante algum tempo. Então, como que para si consigo próprio, disse:

- Não sei. Mas acredito que se um ser humano virar a sua alma para Deus com uma fé completa, a moeda perde o seu poder sobre a mente dessa pessoa e, não tendo uma base onde se apoiar, morre.

- Mas quem pode fazer isso? Você pode?

Tristemente, o monge abanou a cabeça, medindo o seu próprio valor.

- Penso que não, minha filha.

Finalmente, seguiam a pé em direcção à entrada. Marie inseriu a chave na fechadura e entraram em casa. Ela olhou à sua volta, Não havia qualquer indício de que ela alguma vez lá estivera com o padre David. A um canto havia uma camisola pendurada nas costas de uma cadeira. Era de Paul. Ele deve tê-la colocado ali antes de sair. Certamente, dentro de um minuto a cabeça dele espreitaria da porta da sala e ele diria, com um sorriso: «Quer dizer que estás de volta!" No entanto, quando Marie olhava para a camisola, o seu coração sentia uma solidão insuportável. Paul não regressaria. Ela sabia no fundo do seu coração que ele jamais regressaria. Estava perdido. O terrível mal que ele estava a ajudar a soltar nunca os voltaria a unir neste mundo. Desceram juntos as escadas de madeira. A cave estava vazia e limpa, como se tivesse sido varrida nessa manhã. Marie virou-se para o padre.

- Não há nada aqui. Foi-se embora, o que quer que fosse. O padre confessor abanou a cabeça.

- Observe.

Ele estendeu a mão. Num instante, um pentagrama incendiou-se, como que profundamente gravado no betão com metal fundido. Marie caminhou involuntariamente na sua direcção, fascinada pelo estranho e maravilhoso desenho. Seduzia-a, como uma mosca atraída para uma teia.

- Não lhe toque!

O monge extraiu um crucifixo de prata do bolso. Atirou-o de forma a que atravessasse o círculo exterior do pentagrama. Quando passou pelos anéis, incendiou-se com muito brilho e derreteu.

- Eles inverteram-no. Receio o pior. - O padre confessor virou-se. - Venha, temos de nos apressar. Temos de sair daqui brevemente.

Saíram da cave. No canto mais distante e quase escondido na obscuridade estava um grande cão preto. Tinha os olhos malignos fixos nos de Marie, os queixos retraídos numa máscara de ódio.

- Estou com medo - ela agarrou o braço do monge. Subiram juntos as escadas para o átrio. As luzes apagaram-se. O monge baixou a cabeça em oração e avançaram de novo, embora não com a sua força máxima. No patamar do primeiro andar, entraram no quarto de Marie.

- Foi aqui que viu a moeda? Marie não estava a ouvir.

- Padre! - gritou ela, sobressaltada.

A um canto do quarto, a parede começava a dissolver-se e a desaparecer. Surgiram formas. Macabras e torcidas, meio humanas, meio demoníacas, precipitaram-se na direcção dela, como se corressem por um caminho, quase a penetrarem no mundo de Marie. Ela gritou de medo.

O monge fez o sinal da cruz. Lentamente, os fantasmas dissolveram-se com um grito sombrio.

- Ali! - O padre confessor instruía Marie. Em cima de um aparador havia um intenso feixe vermelho de luz, tão brilhante que fazia doer os olhos só de olhá-lo. No entanto, à medida que ambos continuavam a fixá-lo, o brilho diminuiu gradualmente.

Finalmente, Marie viu uma moeda, a réplica perfeita daquela que a filha desenhara. Tinha os lados desiguais e exibia numa face o rosto de um imperador romano. Reluzia como se tivesse sido cunhada há pouco tempo. A moeda começou a mover-se, virando-se por acção de uma mão invisível. Marie olhou o padre e soube, de uma forma extraordinária, que era ele que fazia aquilo. No reverso ele viu que fora bastante danificada. Alguém, ou alguma coisa, raspara as letras S M R M. Ela não sabia o que significavam.

- É uma Moeda de Judas - disse o padre confessor num tom de horror. - Não há dúvida.

De súbito, Marie ouviu um ruído lá em baixo - a angústia dila-cerante de uma criança aflita.

- Socorro, mamã! - gritava ela em agonia. - Socorro!

- Rachel! - Marie levou a mão à boca. Saiu a correr do quarto.

- Não vá! - gritou o padre confessor, toda a sua vontade concentrada na moeda que estava à sua frente. - É um truque!

Mas era tarde de mais.

Paul e Helen tinham chegado a Roma. Estavam a apanhar um táxi do aeroporto para o centro da cidade. Helen estivera a insistir com Paul de que o voo deles fora tão suave apenas graças à ajuda dela - porquê sofrer turbulência quando se pode fazer alguma coisa para melhorar a situação?

De repente, ela inclinou-se para a frente no táxi e gritou ao motorista:

- Pare!

O veículo guinchou até parar. Ela puxou Paul para fora, ordenando ao motorista que continuasse até ao apartamento dela.

- O que aconteceu? - perguntou Paul, confuso.

- Eles encontraram a moeda! Está lá um monge.

Helen empurrou-o em direcção a umas árvores. Os olhos dela estavam completamente vidrados. Ela já não estava em Roma, mas em casa de Paul em São Francisco, observando os dois intrusos. O rosto dela encheu-se de raiva.

- Senta-te aqui - gritou ela.

Na escuridão de Roma em que o primeiro raio da manhã ainda estava para aparecer, eles estavam sentados num banco. Precisavam de estar sozinhos, mas depressa tinham companhia. Ouviu-se um roçar de ramos e um vagabundo surgiu da vegetação, agarrando uma garrafa de vinho vazia. Cambaleou em direcção a eles com um sorriso líquido, mas não era a melhor altura para trocar cumprimentos com um espírito maligno.

Helen virou-se para o visitante que não era desejado, o rosto a divulgar-lhe as intenções. O vagabundo embriagado tropeçou num ramo de árvore que lhe caiu à frente. Escorregou e caiu directamente em cima da garrafa que estava a segurar. Ouviu-se um terrível gorgolejar à medida que o vidro partido lhe cortava a traqueia de um só golpe. Helen ignorou o ruído de morte.