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As Relíquias da Morte / J. K. Rowling
As Relíquias da Morte / J. K. Rowling

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

As Relíquias da Morte

 

Harry Potter foi incumbido de uma tarefa funesta e aparentemente impossível de realizar: encontrar e destruir as Horcruxes de Voldemort ainda existentes. O garoto jamais se sentiu tão sozinho ou diante de um futuro tão sombrio. De alguma forma, porém, Harry precisa reunir em seu íntimo forças para completar a incumbência recebida. Precisa deixar o calor, a segurança e o convívio n’A Toca e seguir, sem medo nem hesitação, o caminho inexorável que se abre à sua frente.

                    

 

A ASCENSÃO DO LORDE DAS TREVAS

Os DOIS HOMENS SE MATERIALIZARAM inesperadamente, a poucos metros de distância, na estreita ruazinha iluminada pelo luar. Por um momento eles ficaram imóveis, as varinhas apontadas para o peito um do outro; então, reconhecendo-se, guardaram a varinha sob a roupa e começaram a andar apressados na mesma direção.

- Novidades? - perguntou o mais alto dos dois.

- As melhores - respondeu Severus Snape.

A rua era ladeada por um silvado, à esquerda, e por uma sebe alta cuidadosamente aparada, à direita. As longas capas dos homens esvoaçavam ao redor dos tornozelos enquanto eles caminhavam.

- Pensei que fosse me atrasar — disse Yaxley, suas feições grosseiras desaparecendo e reaparecendo à sombra dos galhos de árvores que se interpunham ao luar. - Foi um pouco mais complicado do que imaginei. Mas acho que ele ficará satisfeito. Você tem certeza de que será bem recebido?

Snape assentiu sem, contudo, dar explicações.

Os homens viraram para um largo caminho de entrada, à direita. A alta sebe margeava e se estendia para além do impressionante portão de ferro trabalhado que barrava a entrada. Em silêncio, ambos ergueram o braço esquerdo numa espécie de saudação e atravessaram o portão, como se o metal escuro fosse apenas fumaça.

As sebes de teixo abafaram os passos dos homens. Ouviu-se um farfalhar à direita. Yaxley tornou a sacar a varinha, apontando-a por cima da cabeça do seu companheiro, mas a fonte do ruído fora apenas um pavão alvíssimo, que caminhava, majestoso, ao longo do topo da sebe.

- Ele sempre soube viver, o Lucius. Pavões... - Com um bufo de desdém, Yaxley tornou a guardar a varinha sob a capa.
Um belo casarão se destacou nas trevas, no final do caminho reto, as luzes faiscando nas janelas em formato de losango do andar térreo. Em algum lugar no jardim escuro, atrás dos arbustos, uma fonte jorrava. O saibro começou a estalar sob os pés, quando Snape e Yaxley apressaram o passo em direção à porta da frente, que se abriu à sua aproximação, embora ninguém parecesse tê-la aberto.

O hall de entrada era grande, mal iluminado e suntuosamente decorado, e um magnífico tapete cobria quase todo o piso de pedra. Os olhos dos rostos pálidos nos retratos das paredes acompanharam Snape e Yaxley assim que eles passaram. Os dois homens se detiveram à frente de uma pesada porta de madeira que levava a outro cômodo, hesitaram o tempo de uma pulsação, então Snape girou a maçaneta de bronze.

A sala estava cheia de pessoas silenciosas, sentadas a uma comprida mesa ornamentada. Os móveis que habitualmente a guarneciam tinham sido empurrados descuidadamente contra as paredes. A iluminação provinha das chamas vivas de uma bela lareira, cujo console de mármore era encimado por um espelho dourado. Snape e Yaxley pararam um instante à entrada. A medida que seus olhos se acostumaram à penumbra, sua atenção foi atraída para o detalhe mais estranho da cena: o vulto de uma pessoa aparentemente desacordada suspensa de cabeça para baixo sobre a mesa, girando lentamente como se estivesse presa por uma corda invisível, e se refletindo no espelho e na superfície nua e lustrosa da mesa. Nenhuma das pessoas sentadas à roda dessa visão singular a encarava, exceto um jovem pálido que estava praticamente embaixo. Parecia incapaz de se conter e erguia os olhos a todo instante.

- Yaxley, Snape — falou uma voz aguda e clara da cabeceira da mesa —, vocês estão praticamente atrasados.

O dono da voz estava sentado defronte à lareira, de modo que, a princípio, os recém-chegados tiveram dificuldade em distinguir mais que a sua silhueta. A medida que se aproximaram, porém, seu rosto se destacou na obscuridade, imberbe, ofídico, com fendas estreitas no lugar das narinas e olhos vermelhos e brilhantes de pupilas verticais. Era tão pálido que parecia emitir uma aura perolada.

- Severus, aqui — disse Voldemort, indicando a cadeira imediatamente à sua direita. - Yaxley, ao lado de Dolohov.

Os dois homens ocuparam os lugares designados. Os olhares da maioria dos que estavam à mesa seguiram Snape, e foi a ele que Voldemort se dirigiu primeiro.

- então?

- Milorde, a Ordem da Fênix pretende transferir Harry Potter do lugar seguro em que está, no sábado, ao anoitecer.

O interesse ao redor da mesa se intensificou perceptivelmente. Alguns enrijeceram, outros se mexeram, todos atentos a Snape e Voldemort.

- Sábado... ao anoitecer — repetiu Voldemort. Seus olhos vermelhos se fixaram nos olhos pretos de Snape com tanta intensidade que alguns dos observadores desviaram o olhar, aparentemente receosos de serem atingidos pela ferocidade daquela fixidez. Snape, no entanto, sustentou esse olhar calmamente, e, após um momento, os lábios descarnados de Voldemort se curvaram num aparente sorriso.

- Bom. Muito bom. E essa informação veio de...?

- Da fonte sobre a qual conversamos - disse Snape.

- Milorde.

Yaxley tinha se inclinado para a frente procurando ver Voldemort e Snape. Todos os rostos se voltaram para ele.

- Milorde, eu ouvi coisa diferente.

Yaxley aguardou, mas Voldemort não objetou, então ele prosseguiu.

- Dawlish, o auror, deixou escapar que Potter não será transferido até o dia trinta à noite, na véspera do seu aniversário de dezessete anos.

Snape sorriu.

- Minha fonte informou que planejam divulgar uma pista falsa; deve ser essa. Sem dúvida, lançaram em Dawlish um Feitiço para confundir. Não seria a primeira vez, todos conhecem a sua suscetihilidade a feitiços.

- Posso lhe assegurar, Milorde, que Dawlish me pareceu muito seguro do que dizia — contrapôs Yaxley.

- Se foi confundido, é óbvio que parecerá seguro — disse Snape. Garanto a você, Yaxley, que a Seção de Aurores não irá participar da proteção de Harry Potter. A Ordem acredita que estamos infiltrados no Ministério.

- Então, pelo menos nisso a Ordem acertou, hein? — comentou um homem atarracado, a pouca distância de Yaxley, dando uma risada sibilada que ecoou pela mesa.

Voldemort não riu. Seu olhar se desviou para o alto, para o corpo que girava vagarosamente, e ele pareceu se alhear.

- Milorde - continuou Yaxley -, Dawlish acredita que vão usar um destacamento inteiro de aurores na transferência do garoto...

Voldemort ergueu a mão grande e branca, e Yaxley calou-se imediatamente, observando, rancoroso, o Lorde se dirigir outra vez a Snape.

— E em seguida, onde irão esconder o garoto?

— Na casa de um dos membros da Ordem - respondeu Snape. — O lugar, segundo a minha fonte, recebeu toda a proteção que a Ordem e o Ministério juntos puderam lhe dar. Acredito que seja mínima a chance de pormos as mãos nele uma vez que chegue ao destino, Milorde, a não ser, é claro, que o Ministério tenha caído antes de sábado, o que, talvez, nos desse a oportunidade de descobrir e desfazer um número suficiente de feitiços, e passar pelos demais.

— E então, Yaxley? — interpelou-o Voldemort, a luz das chamas se refletindo estranhamente em seus olhos vermelhos. — O Ministério terá caído até sábado?

Mais uma vez, todas as cabeças se viraram. Yaxley empertigou-se.

— Milorde, a esse respeito tenho boas notícias. Consegui, com dificuldade e após muito esforço, lançar uma Maldição Imperius em Phil Thicknesse.

Muitos dos que estavam próximos de Yaxley pareceram impressionados; seu vizinho, Dolohov, um homem de cara triste e torta, deu-lhe um tapinha nas costas.

- É um começo - disse Voldemort -, mas Thicknesse é apenas um homem, Scrimgeour precisa estar cercado por gente nossa para eu agir. Um atentado malsucedido à vida do ministro me causará um enorme atraso.

- É verdade, Milorde, mas o senhor sabe que, na função de chefe do Departamento de Execução das Leis da Magia, Thicknesse tem contato freqüente não só com o próprio ministro como também com os chefes dos outros departamentos do Ministério. Acho que será fácil dominar os demais, agora que temos um funcionário graduado sob controle, e então todos podem trabalhar juntos para derrubar Scrimgeour.

- Isso se o nosso amigo Thicknesse não for descoberto antes de ter convertido o resto — afirmou Voldemort. — De qualquer forma, é pouco provável que o Ministério seja meu antes de sábado.

Se não pudermos pôr a mão no garoto no lugar de destino, então teremos que fazer isso durante a transferência.

- Nesse particular, estamos em posição vantajosa, Milorde disse Yaxley, que parecia decidido a receber alguma aprovação. - Já plantamos várias pessoas no Departamento de Transportes Mágicos. Se Potter aparatar ou usar a Rede de Flu, saberemos imediatamente.

- Ele não fará nenhum dos dois — disse Snape. - A Ordem está evitando qualquer forma de transporte controlada ou regulada pelo Ministério, desconfiam de tudo que esteja ligado àquele lugar.

- Tanto melhor - disse Voldemort. - Ele terá que se deslocar em campo aberto. Será muitíssimo mais fácil apanhá-lo.

Mais uma vez Voldemort ergueu o olhar para o corpo que girava vagarosamente, então prosseguiu:

- Cuidarei do garoto pessoalmente. Cometeram-se erros demais com relação a Harry Potter. Alguns foram meus. Que Potter ainda viva deve-se mais aos meus erros do que aos seus êxitos.

As pessoas em volta da mesa fitaram Voldemort apreensivas, cada qual deixando transparecer o medo de ser responsabilizada por Harry Potter ainda estar vivo. Voldemort, no entanto, parecia estar falando mais consigo mesmo do que com os demais, ainda atento ao corpo inconsciente no alto.

- Por ter sido descuidado, fui frustrado pela sorte e a ocasião, essas destruidoras dos planos, a não ser os mais bem traçados. Mas aprendi. Agora compreendo coisas que antes não compreendia. Eu é que devo matar Harry Potter, e assim farei.

Nisso, e em aparente resposta às suas palavras, ouviu-se um lamento repentino, um grito terrível e prolongado de infelicidade e dor. Muitos ao redor da mesa olharam para baixo, assustados, pois o som parecia vir do chão.

- Wormtail? - chamou Voldemort, sem alterar o seu tom de voz, baixo e reflexivo, e sem tirar os olhos do corpo que girava no alto. Já não lhe disse para manter essa escória calada?

- Disse, M-Milorde — falou um homenzinho sentado na segunda metade da mesa, tão encolhido que, à primeira vista, sua cadeira parecia estar desocupada.

E, levantando-se de um salto, saiu correndo da sala, deixando em seu rastro apenas um estranho brilho prateado.

- Como eu ia dizendo - continuou Voldemort, olhando mais uma vez para os rostos tensos dos seus seguidores —, agora compreendo melhor. Precisarei, por exemplo, pedir emprestada a varinha de um de vocês antes de sair para matar Potter.

Os rostos à sua volta expressaram apenas incredulidade; como se ele tivesse anunciado que queria um braço deles emprestado.

- Nenhum voluntário? — perguntou Voldemort. - Vejamos... Lucius, não vejo razão para você continuar a ter uma varinha.

Lucius Malfoy ergueu a cabeça. Sua pele parecia amarela e cerosa à luz das chamas, e tinha os olhos encovados e sombrios. Quando falou, sua voz saiu rouca.

- Milorde?

- Sua varinha, Lucius. Preciso de sua varinha. -Eu...

Malfoy olhou de esguelha para sua mulher. Narcissa tinha o olhar fixo à frente, tão pálida quanto o marido, os longos cabelos louros descendo pelas costas, mas, sob a mesa, seus dedos finos apertaram brevemente o pulso dele. Ao seu toque, Malfoy enfiou a mão nas vestes e tirou uma varinha que passou a Voldemort, que a ergueu diante dos olhos vermelhos e examinou-a detidamente.

- De que é?

- Olmo, Milorde - sussurrou Malfoy.

- E o núcleo?

- Dragão... fibra do coração.

- Ótimo - aprovou Voldemort. E, sacando a própria varinha, comparou os comprimentos.

Lucius Malfoy fez um movimento involuntário; por uma fração de segundo, pareceu que esperava receber a varinha de Voldemort em troca da sua. O gesto não passou despercebido ao Lorde, cujos olhos se arregalaram maliciosamente.

- Dar-lhe a minha varinha, Lucius? Minha varinha? Alguns dos presentes riram.

- Dei-lhe a liberdade, Lucius, não é suficiente? Mas tenho notado que você e sua família ultimamente parecem menos felizes... alguma coisa na minha presença em sua casa os incomoda, Lucius?

- Nada... nada, Milorde.

— Quanta mentira, Lucius...

A voz suave parecia silvar, mesmo quando a boca cruel parava de mexer. Um ou dois bruxos mal conseguiram refrear um tremor quando o silvo foi se intensificando; ouviu-se uma coisa pesada deslizar pelo chão embaixo da mesa.

A enorme cobra apareceu e subiu vagarosamente pela cadeira de Voldemort. Foi emergindo, como se fosse interminável, e parou sobre os ombros do mestre: o pescoço do réptil tinha a grossura de uma coxa masculina; seus olhos com as pupilas verticais não piscavam. Voldemort acariciou-a, distraído, com seus dedos longos e finos, ainda encarando Lucius Malfoy.

— Por que os Malfoy parecem tão infelizes com a própria sorte? Será que o meu retorno, minha ascensão ao poder, não é exatamente o que disseram desejar durante tantos anos?

— Sem dúvida, Milorde - respondeu Lucius Malfoy. Sua mão tremeu quando secou o suor sobre o lábio superior. - É o que desejávamos... desejamos.

À esquerda de Malfoy, sua mulher fez um aceno rígido e estranho com a cabeça, evitando olhar para Voldemort e a cobra. À direita, seu filho Draco, que estivera mirando o corpo inerte no teto, lançou um brevíssimo olhar a Voldemort, aterrorizado de encarar o bruxo.

— Milorde - disse uma mulher morena na outra metade da mesa, sua voz embargada pela emoção —, é uma honra tê-lo aqui, na casa de nossa família. Não pode haver prazer maior.

Estava sentada ao lado da irmã, tão diferente desta na aparência, com seus cabelos negros e olhos de pálpebras pesadas, quanto o era no porte e na atitude; enquanto Narcissa sentava-se dura e impassível, Bellatrix se curvava para Voldemort, porque meras palavras não podiam demonstrar o seu desejo de maior proximidade.

— Não pode haver prazer maior - repetiu Voldemort, a cabeça ligeiramente inclinada para o lado, estudando Bellatrix. - Isso significa muito, Bellatrix, vindo de você.

O rosto da mulher enrubesceu, seus olhos lacrimejaram de prazer.

— Milorde sabe que apenas digo a verdade!

— Não pode haver prazer maior... mesmo comparado ao feliz evento que, segundo soube, houve em sua família esta semana?

Bellatrix fitou-o, os lábios entreabertos, nitidamente confusa.

— Eu não sei a que está se referindo, Milorde.

- Estou falando de sua sobrinha. E de vocês também, Lucius e Narcissa. Ela acabou de casar com o lobisomem Remus Lupin. A família deve estar muito orgulhosa.

Gargalhadas debochadas explodiram à mesa. Muitos se curvaram para trocar olhares divertidos; alguns socaram a mesa com os punhos. A cobra, incomodada com o barulho, escancarou a boca e silvou irritada, mas os Comensais da Morte nem a ouviram, tão exultantes estavam com a humilhação de Bellatrix e dos Malfoy. O rosto da mulher, há pouco rosado de felicidade, tingiu-se de feias manchas vermelhas.

- Ela não é nossa sobrinha, Milorde - disse em meio às gargalhadas. - Nós, Narcissa e eu, nunca mais pusemos os olhos em nossa irmã depois que ela casou com aquele sangue-ruim. A fedelha não tem a menor ligação conosco, nem qualquer fera com quem se case.

- E você, Draco, que diz? - perguntou Voldemort, e, embora falasse baixo, sua voz ressoou claramente em meio aos assobios e caçoadas. - Vai bancar a babá dos filhotes?

A hilaridade aumentou; Draco Malfoy olhou aterrorizado para o pai, que contemplava o próprio colo, e seu olhar cruzou com o de sua mãe. Ela balançou a cabeça quase imperceptivelmente, depois retomou seu olhar fixo na parede oposta.

- Já chega — disse Voldemort, acariciando a cobra raivosa. - Basta. E as risadas pararam imediatamente.

- Muitas das nossas árvores genealógicas mais tradicionais, com o tempo, se tornaram bichadas - disse, enquanto Bellatrix o mirava, ofegante e súplice. - Vocês precisam podar as suas, para mantê-las saudáveis, não? Cortem fora as partes que ameaçam a saúde do resto.

- Com certeza, Milorde - sussurrou Bellatrix, mais uma vez com os olhos marejados de gratidão. - Na primeira oportunidade!

- Você a terá - respondeu Voldemort. — E, tal como fazem na família, façam no mundo também... vamos extirpar o câncer que nos infecta até restarem apenas os que têm o sangue verdadeiramente puro.

Voldemort ergueu a varinha de Lucius Malfoy, apontou-a diretamente para a figura que girava lentamente, suspensa sobre a mesa, e fez um gesto quase imperceptível. O vulto recuperou os movimentos com um gemido e começou a lutar contra invisíveis grilhões.

- Você está reconhecendo a nossa convidada, Severus? - indagou Voldemort.

De baixo para cima, Snape ergueu os olhos para o rosto pendurado. Todos os Comensais agora olhavam para a prisioneira, como se tivessem recebido permissão para manifestar sua curiosidade. Quando girou para o lado da lareira, a mulher disse, com a voz entrecortada de terror:

- Severus, me ajude!

- Ah, sim - respondeu Snape enquanto o rosto da prisioneira continuava a virar para o outro lado.

- E você, Draco? - perguntou Voldemort, acariciando o focinho da cobra com a mão livre. Draco sacudiu a cabeça com um movimento brusco. Agora que a mulher acordara, ele parecia incapaz de continuar encarando-a.

- Mas você não teria se matriculado no curso dela - disse Voldemort. - Para os que não sabem, estamos reunidos aqui esta noite para nos despedir de Charity Burbage que, até recentemente, lecionava na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts!

Ouviram-se breves sons de assentimento ao redor da mesa. Uma mulher corpulenta e curvada, de dentes pontiagudos, soltou uma gargalhada.

- Sim... a profa Burbage ensinava às crianças bruxas tudo a respeito dos muggles... e como se assemelham a nós...

Um dos Comensais da Morte cuspiu no chão. Em seu giro, Charity Burbage tornou a encarar Snape.

- Severus... por favor... por favor...

- Silêncio - ordenou Voldemort, com outro breve movimento da varinha de Lucius, e Charity silenciou como se tivesse sido amordaçada. - Não contente em corromper e poluir as mentes das crianças bruxas, na semana passada, a profa Burbage escreveu uma apaixonada defesa dos sangues-ruins no Profeta Diário. Os bruxos, disse ela, devem aceitar esses ladrões do seu saber e magia. A diluição dos puros-sangues é, segundo Burbage, uma circunstância extremamente desejável... Ela defende que todos casemos com muggles... ou, sem dúvida, com lobisomens...

Desta vez ninguém riu: não havia como deixar de perceber a raiva e o desprezo na voz de Voldemort. Pela terceira vez, Charitye Burbage encarou Snape. Lágrimas escorriam dos seus olhos para os cabelos.

Snape retribuiu seu olhar, totalmente impassível, enquanto ela ia girando o rosto para longe dele.

— Avada Kedavra.

O lampejo de luz verde iluminou todos os cantos da sala. Charity caiu estrondosamente sobre a mesa, que tremeu e estalou. Vários Comensais pularam para trás ainda sentados. Draco caiu da cadeira para o chão.

- Jantar, Nagini - disse Voldemort com suavidade, e a grande cobra deslizou sinuosamente dos ombros dele para a lustrosa mesa de madeira.

 

INMEMORIAM

Harry SANGRAVA. Segurando a mão direita com a esquerda, e xingando baixinho, ele empurrou a porta do quarto com o ombro. Ouviu um barulho de porcelana quebrando; pisara em uma xícara de chá frio que alguém deixara do lado de fora, à porta do quarto.

- Que m...?

Ele olhou para os lados; o corredor da Privet Drive nº 4 estava deserto. A xícara de chá era, possivelmente, a idéia de armadilha inteligente imaginada por Dudley. Harry manteve a mão ensangüentada no alto, juntou os cacos da xícara com a outra mão e atirou-os na cesta abarrotada de lixo que entreviu pela porta de seu quarto. Depois caminhou pesadamente até o banheiro para pôr o dedo sob a água da torneira.

Era uma idiotice sem sentido e incrivelmente irritante que ainda lhe faltassem quatro dias para poder realizar feitiços... mas tinha de admitir que esse feio corte no dedo o derrotaria. Nunca aprendera a curar ferimentos e, agora que lhe ocorria pensar nisso - particularmente à luz dos seus planos imediatos —, parecia-lhe uma séria lacuna em sua educação bruxa. Anotando mentalmente para perguntar a Hermione como se fazia, ele usou um grande chumaço de papel higiênico para secar o melhor que pôde o chá derramado, antes de voltar para o quarto e bater a porta.

Harry gastara a manhã inteira esvaziando seu malão de viagem pela primeira vez desde que o arrumara havia seis anos. Nos primeiros anos de escola, ele simplesmente limpara uns três quartos do seu conteúdo e os repusera ou atualizara, deixando no fundo uma camada de lixo — penas usadas, olhos secos de besouro, meias sem par que não lhe serviam mais. Minutos antes, Harry metera a mão nesse entulho, sentira uma dor lancinante no quarto dedo da mão direita e, ao puxá-la, viu que estava coberta de sangue.

Continuou, então, um pouco mais cauteloso. Tornando a se ajoelhar ao lado do malão, apalpou o fundo, retirou um velho broche que piscava fracamente, ora Apoie CEDRIC DIGGORY ora POTTER FEDE, um bisbilhoscópio rachado e gasto e um medalhão de ouro contendo um bilhete assinado por R.A.B., e finalmente descobriu o gume afiado que o ferira. Reconheceu-o sem hesitação. Era um caco de uns cinco centímetros do espelho encantado que Sirius, seu falecido padrinho, tinha lhe dado. Harry separou-o e apalpou o malão à procura do resto, mas nada mais restara do último presente do padrinho exceto o vidro moído, agora grudado, na última camada de destroços, como purpurina.

Harry sentou e examinou o caco pontiagudo em que se cortara, mas não viu nada além do reflexo do seu brilhante olho verde. Colocou, então, o fragmento sobre o Profeta Diário daquela manhã, que continuava intocado em sua cama, e tentou estancar o repentino fluxo de amargas lembranças, as pontadas de remorso e saudade que a descoberta do espelho partido tinha ocasionado, ao atacar o resto do lixo dentro do malão.

Levou mais uma hora para esvaziá-lo completamente, jogar fora os objetos inúteis e separar os demais em pilhas, de acordo com as suas futuras necessidades. Suas vestes de escola e de quidditch, caldeirão, pergaminho, penas e a maior parte dos livros de estudo foram empilhados a um canto para serem deixados em casa. Ficou imaginando o que os tios fariam com aquilo; provavelmente queimariam tudo na calada da noite, como se fossem provas de um crime hediondo. Suas roupas de muggle, Capa da Invisibilidade, estojo para preparo de poções, certos livros, o álbum de fotos que Hagrid um dia lhe dera, um maço de cartas e sua varinha foram rearrumados em uma velha mochila. No bolso frontal, guardou o mapa do maroto e o medalhão com o bilhete assinado por R.A.B. O medalhão recebera esse lugar de honra não porque fosse valioso sob qualquer ângulo normal, era imprestável -, mas pelo que lhe custara obtê-lo.

Restou uma avantajada pilha de jornais sobre sua escrivaninha, ao lado da alvíssima coruja hedwig: um exemplar para cada um dos dias desse verão que Harry passara na Privet Drive.

Levantou-se, então, do chão, espreguiçou-se e se dirigiu à escrivaninha.

hedwig não fez o menor movimento quando ele começou a folhear os jornais e atirar um a um na montanha de lixo acumulado; a coruja cochilava, ou fingia cochilar; estava zangada com Harry por causa do pouco tempo que, no momento, ele a deixava fora da gaiola. Quase no fim da pilha de jornais, Harry desacelerou à procura de uma certa edição que ele sabia ter chegado logo depois do seu regresso à rua dos Alfeneiros, para passar o verão; lembrava-se de que havia uma pequena nota na primeira página sobre o pedido de demissão de Charitye Burbage, a professora de Estudos dos muggles em Hogwarts. Finalmente encontrou-a. Abrindo-a à página dez, sentou-se à cadeira da escrivaninha e releu o artigo que estivera procurando.

EM MEMÓRIA DE ALBUS DUMBLEDORE

Elphias Doge

Conheci Albus Dumbledore aos onze anos de idade, em nosso primeiro dia em Hogwarts. Sem dúvida o nosso interesse mútuo se deveu ao fato de ambos nos sentirmos deslocados. Eu contraíra varíola de dragão pouco antes de chegar à escola, e, embora não oferecesse mais contágio, o meu rosto marcado e verdoso não animava ninguém a se aproximar de mim. Por sua vez, Albus chegara a Hogwarts carregando o peso de uma indesejável notoriedade. Menos de um ano antes, seu pai, Parcifal, fora condenado por um ataque selvagem, e amplamente comentado, a três rapazes muggles.

Albus jamais tentou negar que o pai (que morreria em Azkaban) cometera o crime; muito ao contrário, quando reuni coragem para lhe perguntar, ele me confirmou que sabia que o pai era culpado. E se recusava a acrescentar o que fosse sobre o triste caso, embora muitos tentassem fazê-lo falar. Alguns até se dispunham a elogiar a atitude do pai, presumindo que Albus também odiasse muggles. Não poderiam estar mais enganados: todos que conheceram Albus atestariam que ele jamais revelou a mais remota tendência antimuggle. Na realidade, seu decisivo apoio aos direitos dessa comunidade conquistoulhe muitos inimigos nos anos que se seguiram.

Em questão de meses, no entanto, a fama pessoal de Albus começou a eclipsar a do pai. Ao terminar o primeiro ano de Hogwarts, deixara de ser conhecido como o filho do homem que odiava muggles, e ganhou a reputação de ser o aluno mais brilhante que a escola já vira. Aqueles que tinham o privilégio de ser seus amigos se beneficiavam do seu exemplo, além de ajuda e estímulo, que sempre distribuía com generosidade. Mais adiante na vida, ele me confessaria que já naquela época sabia que o seu maior prazer era ensinar.

Albus não só ganhou todos os prêmios importantes que a escola oferecia, bem como não tardou a se corresponder regularmente com as personalidades mais notáveis do mundo da magia contemporânea, inclusive Nicolau Flamel, o famoso alquimista, Batilda Bagshot, a renomada historiadora, e o teórico da magia Adalbert Waffling. Vários dos seus artigos foram acolhidos por publicações cultas como a Transfiguração Hoje, Desafios nos Encantamentos, O Preparador de Poções. A carreira futura de Dumbledore provavelmente seria meteórica, e a única dúvida era se chegaria a ministro da Magia. Embora futuramente se previsse com freqüência que ele estava às vésperas de assumir o cargo, Dumbledore nunca teve ambições ministeriais.

Três anos depois de começarmos a estudar em Hogwarts, seu irmão chegou à escola. Não se pareciam; Aberforth nunca foi dado a leituras e, ao contrário de Albus, preferia resolver suas diferenças com duelos em vez de discuti-las racionalmente. É, porém, um engano insinuar, como alguns têm feito, que os irmãos não fossem amigos. Davam-se tão bem quanto dois garotos, assim diferentes, poderiam se dar. E, para fazer justiça a Aberforth, deve-se admitir que viver à sombra de Albus não pode ter sido uma experiência muito confortável. Ser continuamente ofuscado era um risco ocupacional que acompanhava seus amigos, e não pode ter sido muito mais prazeroso para um irmão.

Quando Albus e eu concluímos os estudos em Hogwarts, pretendíamos fazer juntos a viagem pelo mundo, então tradicional, para visitar e observar os bruxos estrangeiros, antes de seguir cada qual a sua carreira. Interveio, porém, a tragédia. Na véspera de nossa viagem, a mãe de Albus, Kendra, faleceu, legando ao filho mais velho a tarefa de chefiar e sustentar sozinho a família. Adiei a minha partida tempo suficiente para prestar as últimas homenagens a Kendra, então iniciei a viagem, solitário. Com um irmão e uma irmã mais jovens para cuidar, e o pouco dinheiro herdado, já não havia possibilidade de Albus me acompanhar.

Aquele foi o período de nossas vidas em que mantivemos menos contato. Escrevi a Albus, narrando, talvez insensivelmente, as maravilhas da minha viagem, desde o episódio em que escapei por um triz de quimeras na Grécia até as minhas experiências com alquimistas egípcios. As cartas dele me contavam alguma coisa de sua vida diária, que eu percebia ser monótona e frustrante para um bruxo tão genial. Absorto em minhas próprias experiências, foi com horror que soube, quase no fim do ano de viagens, que outra tragédia se abatera sobre a família: a morte de sua irmã Ariana.

Embora Ariana não gozasse de boa saúde havia tempo, o golpe tão próximo à morte da mãe afetou profundamente os dois irmãos. Todos os que eram mais chegados a Albus - e incluo-me entre esses felizardos - concordam que a morte de Ariana e o sentimento de responsabilidade do irmão por esse desfecho (ainda que ele não fosse culpado)

marcaram-no para sempre.

Quando regressei, encontrei um rapaz que passara por sofrimentos de um homem mais velho. Albus tornou-se mais reservado do que antes e muito menos alegre. Para aumentar sua infelicidade, a morte de Ariana não conduzira a uma aproximação maior entre Albus e Aberforth, mas a um afastamento. (Com o tempo isso se resolveria nos últimos anos eles restabeleceram se não uma relação íntima, ao menos cordial.) Desde então, porém, ele raramente falava dos pais ou de Ariana, e seus amigos aprenderam a não mencioná-los.

Outros escritores descreverão os triunfos dos anos seguintes. As inúmeras contribuições de Dumbledore ao acervo de conhecimentos sobre magia, inclusive a descoberta dos doze usos para o sangue de dragão, beneficiarão as futuras gerações, do mesmo modo que a sabedoria que demonstrou nos muitos julgamentos que realizou durante o mandato de presidente da Suprema Corte dos Bruxos. Dizem, ainda hoje, que nenhum duelo de magia jamais se igualou ao que foi travado entre Dumbledore e Grindelwald, em 1945. Os presentes descreveram o terror e o assombro que sentiram ao observar aqueles dois bruxos extraordinários combaterem. A vitória de Dumbledore e suas conseqüências para o mundo bruxo são consideradas um marco na história da magia, comparável à introdução do Estatuto Internacional de Sigilo em Magia ou à queda d’Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado.

Albus Dumbledore jamais demonstrava orgulho ou vaidade; sempre encontrava o que elogiar em qualquer pessoa, por mais insignificante ou miserável que fosse, e acredito que as perdas que sofreu na juventude o dotaram de grande humanidade e solidariedade. Sentirei saudades de sua amizade mais do que poderia reconhecer. a minha perda é desprezível se a compararmos à do mundo dos bruxos. É indiscutível que ele foi o mais inspirador e o mais querido diretor de Hogwarts. Ele morreu como viveu: sempre trabalhando para o bem maior e, até a sua hora final, tão disposto a estender a mão ao garotinho com varíola de dragão quanto no dia em que o conheci.

Harry terminou a leitura, mas continuou a contemplar a foto que acompanhava o obituário. Dumbledore exibia o seu conhecido sorriso bondoso, mas, ao olhar por cima dos oclinhos de meia-lua, dava a impressão, mesmo em jornal, de ver o íntimo de Harry, cuja tristeza mesclou-se com uma sensação de humilhação.

Tinha achado que conhecia Dumbledore muito bem, mas, depois da leitura do obituário, fora forçado a admitir que pouco sabia dele. Jamais imaginara uma única vez a infância ou a juventude do mestre; era como se ele tivesse ganhado existência quando Harry o conhecera, venerável, de barbas e cabelos prateados, e idoso. A idéia de um Dumbledore adolescente era simplesmente esquisita, o mesmo que imaginar uma Hermione burra ou um explosivim amigável.

Nunca pensara em indagar a Dumbledore sobre o seu passado. Sem dúvida, teria sido constrangedor, e até impertinente, mas era de conhecimento geral que Dumbledore travara um lendário duelo com Grindelwald, e Harry nem sequer pensara em perguntar ao mestre como fora este e outros feitos famosos.

Não, eles sempre discutiam Harry, o passado de Harry, o futuro de Harry, os planos de Harry... e a impressão de Harry agora, apesar de seu futuro tão perigoso e incerto, era que ele perdera insubstituíveis oportunidades de perguntar mais a Dumbledore sobre ele mesmo, embora a única pergunta pessoal que fizera ao mestre tenha sido, também, a única que, desconfiava, Dumbledore não respondera com sinceridade:

- O que é que o senhor vê quando se olha no espelho?

— Eu? Eu me vejo segurando um par de grossas meias de lã.

Após alguns minutos de reflexão, Harry retirou o obituário do Profeta, dobrou a folha cuidadosamente e guardou-a no primeiro volume de Prática da magia defensiva e seu uso contra as Artes das Trevas. Em seguida, atirou o resto do jornal no monte de lixo e virou-se para encarar o quarto. Estava muito mais arrumado. As únicas coisas fora de lugar eram a edição do dia do Profeta Diário, ainda sobre a cama, e, em cima dela, o caco de espelho.

Harry atravessou o quarto, empurrou o caco para o lado e abriu o jornal. Tinha apenas corrido os olhos pela manchete ao tirar o exemplar enrolado das garras da coruja entregadora, mais cedo naquela manhã, abandonando-o em seguida ao reparar que nada havia sobre Voldemort. Harry tinha certeza de que o Ministério contava que o Profeta omitisse as notícias sobre o bruxo das trevas. Foi somente neste momento, portanto, que reparou no que deixara escapar.

Na metade inferior da primeira página, havia uma manchete no alto de uma foto de Dumbledore caminhando com um ar preocupado: DUMBLEDORE - ENFIM A VERDADE?

Na próxima semana, a chocante verdade sobre o gênio imperfeito que muitos consideram o maior bruxo de sua geração.

Desfazendo a imagem popular de serena e venerável sabedoria, Rita Skeeter revela a infância perturbada, a juventude rebelde, as rixas intermináveis e os segredos vergonhosos que Dumbledore levou para o túmulo. POR QUE o homem indicado para ministro da Magia se contentou com o simples cargo de diretor de escola? QUAL era a real finalidade da organização secreta conhecida como a Ordem da Fênix? COMO Dumbledore realmente encontrou a morte?

As respostas a essas perguntas e muitas outras são examinadas em uma nova e explosiva biografia A vida e as mentiras de Albus Dumbledore, de autoria de Rita Skeeter, entrevistada com exclusividade por Betty Braithwaite, na página 13 deste número.

Harry rasgou a cinta do jornal e abriu-o à página treze. O artigo estava encimado pela foto de outro rosto conhecido: uma mulher com óculos enfeitados com pedrinhas, cabelos louros bem ondulados, os dentes à mostra no que, sem dúvida, se supunha ser um sorriso cativante, agitando os dedos para ele. Fazendo o possível para ignorar a imagem nauseante, Harry leu.

Rita Skeeter é muito mais simpática e sensível em pessoa do que os seus já famosos e ferozes retratos a bico-de-pena poderiam sugerir. Recebendo-me à entrada de sua casa aconchegante, ela me conduz diretamente à cozinha para uma xícara de chá, uma fatia de bolo inglês e, nem é preciso dizer, um caldeirão fumegando com fofocas frescas.

”Naturalmente, Dumbledore é o sonho de qualquer biógrafo”, diz Skeeter, ”com sua vida longa e plena. Tenho certeza que o meu livro será o primeiro de muitos outros.”

Skeeter certamente agiu com rapidez. Seu livro de novecentos páginas foi concluído apenas quatro semanas após a misteriosa morte de Dumbledore, em junho. Pergunto-lhe como conseguiu esse feito de velocidade.

”Ah, quando se é jornalista de longa data, trabalhar com prazos curtos é uma segunda natureza. Eu sabia que o mundo dos bruxos exigia uma história completa e queria ser a primeira a satisfazer essa demanda.”

Menciono os comentários recentes e amplamente divulgados de Elphias Doge, conselheiro especial da Suprema Corte dos Bruxos, o Wizengamot, e amigo de longa data de Albus Dumbledore, de que ”o livro da Skeeter contém menos fatos do que um cartão de sapos de chocolate”.

Skeeter joga a cabeça para trás dando uma gargalhada.

”Querido Doguinho! Lembro-me de tê-lo entrevistado há alguns anos sobre os direitos dos sereianos, que Deus o abençoe. Completamente gagá, parecia achar que estávamos sentados no fundo do lago Windermere, e não parava de recomendar que eu tivesse cuidado com as trutas.”

Contudo, as acusações de imprecisão feitas por Elphias Doge encontraram eco em muitos lugares. Será que Skeeter julga que quatro breves semanas foram suficientes para captar um retrato de corpo inteiro da longa e extraordinária vida de Dumbledore?

”Ah, minha cara”, responde ela, abrindo um largo sorriso e me dando um tapinha afetuoso na mão, ”você conhece tão bem quanto eu a quantidade de informações que pode gerar uma bolsa cheia de galeões, uma recusa em aceitar um ’não’ e uma pena de repetição-rápida! As pessoas fizeram fila para despejar as sujeiras de Dumbledore. Nem todas achavam que ele fosse tão maravilhoso assim, sabe - ele pisou um bom número de calos de gente importante. Mas o velho Doguinho esquivo pode descer do seu hipogrifo, porque tive acesso a uma fonte que faria jornalistas negociarem as próprias varinhas para obter, alguém que jamais fez declarações públicas e que foi íntimo de Dumbledore durante a fase mais turbulenta e perturbada de sua juventude.”

A publicidade que antecede o lançamento da biografia de Skeeter certamente sugere que o livro reserva surpresas para os que acreditam que Dumbledore levou uma vida sem pecados. Perguntei-lhe quais foram os maiores que descobriu.

”Francamente, Betty, não vou revelar todos os destaques antes de as pessoas comprarem o livro!”, ri-se Skeeter. ”Mas posso prometer que alguém que ainda pense que Dumbledore era alvo como suas barbas vai acordar assustado! Digamos apenas que ninguém que o tenha ouvido vociferar contra Você-Sabe-Quem sonharia que ele próprio lidou com as Artes das Trevas na juventude! E, para um bruxo que passou o resto da vida pedindo tolerância, ele não era exatamente indulgente quando mais moço! Sim, senhora, Albus Dumbledore teve um passado sombrio, isso para não mencionar sua família muito suspeita, que ele tanto se esforçou por ocultar.”

Pergunto se Skeeter está se referindo ao irmão de Dumbledore, Aberforth, cuja condenação pela Suprema Corte dos Bruxos por mau uso da magia causou um pequeno escândalo há quinze anos.

”Ah, Aberforth é apenas o topo da estrumeira”, ri-se Skeeter. ”Não, não, estou falando de coisa muito pior do que a predileção de um irmão por bodes, pior mesmo do que a mutilação de um muggle pelo pai, coisas que Dumbledore não pôde abafar, os dois foram condenados. Não, estou me referindo à mãe e à irmã que me intrigaram, uma pequena pesquisa desenterrou um verdadeiro ninho de maldades - mas, como digo, você terá que esperar pelos capítulos de nove a doze para conhecer os detalhes. O que posso adiantar agora é que ninguém estranhe que Dumbledore nunca tenha contado como fraturou o nariz.”

Apesar dos torpes segredos de família, será que Skeeter nega a genialidade que conduziu Dumbledore a tantas descobertas em magia?

”Ele tinha cabeça”, admite ela, ”embora muitos agora questionem se realmente mereceu sozinho o crédito por suas supostas realizações. No capítulo dezesseis, transcrevo a afirmação de Ivor Dillonsby de que ele já teria descoberto oito usos para o sangue de dragão quando Dumbledore ’tomou emprestado’ os seus estudos.”

Atrevo-me a replicar que a importância de algumas realizações de Dumbledore não pode ser negada. E a famosa vitória sobre Grindelwald?

”Ah, foi bom você ter mencionado o Grindelwald”, responde Skeeter, com um sorriso irresistível. ”Acho que aqueles cujos olhos umedecem de emoção com a magnífica vitória de Dumbledore devem se preparar para uma bomba - ou talvez uma bomba de bosta. Realmente fede bastante. Só posso alertar para a dúvida com relação ao duelo espetacular que nos conta a lenda. Depois de lerem o meu livro, as pessoas talvez sejam obrigadas a concluir que Grindelwald simplesmente conjurou um lenço branco na ponta da varinha e se entregou!”

Skeeter se recusa a revelar outros detalhes sobre o intrigante assunto, portanto, abordamos a relação que, sem dúvida, mais fascina os seus leitores.

”Ah, sim”, diz Skeeter, assentindo energicamente, ”dedico um capítulo inteiro à relação Potter-Dumbledore. Há quem a considere doentia e até sinistra. Repito mais uma vez, os seus leitores terão de comprar o meu livro para saber a história completa, mas, pelo que ouço dizer, é ponto pacífico que Dumbledore tomou um interesse anormal por Potter. Se isso realmente visava o bem do garoto - é o que veremos. Certamente não é segredo que Potter tem tido uma adolescência excepcionalmente perturbada.”

Perguntei se Skeeter ainda mantém contato com Harry Potter, a quem entrevistou, com sucesso, no ano anterior: um furo de reportagem em que Potter falou exclusivamente de sua certeza sobre o retorno de Você-Sabe-Quem.

”Ah, sim, construímos um forte vínculo”, diz Skeeter. ”O coitado do Potter tem poucos amigos verdadeiros, e nos conhecemos em um dos momentos de maior desafio de sua vida - o Torneio Tribruxo. Provavelmente sou uma das poucas pessoas vivas que podem afirmar conhecer o real Harry Potter.”

A resposta nos leva diretamente aos muitos boatos que continuam a circular sobre as últimas horas de vida de Dumbledore. Será que Skeeter acredita que Potter estava presente quando ele morreu?

”Bem, não quero falar demais - está tudo no livro -, mas testemunhas oculares no castelo de Hogwarts viram Potter saindo de cena instantes depois de Dumbledore cair, saltar ou ser empurrado. Mais tarde, o garoto prestou depoimento acusando Severus Snape, um homem com quem ele tinha conhecida inimizade. Será que as coisas são como parecem ser? Caberá à comunidade bruxa julgar - depois de ler o meu livro.”

A essa nota intrigante, eu me despeço. Não há dúvida de que Skeeter escreveu um bestseller de ocasião. Enquanto isso, as legiões de admiradores de Dumbledore talvez estejam apreensivas com o que em breve será divulgado sobre o seu herói.

Harry chegou ao fim do artigo, mas continuou a olhar atônito para o papel. A repugnância e a fúria o acometeram como um vômilo; ele amassou o jornal e atirou-o, com toda a força, contra a parede, onde a bola foi se juntar ao monte de lixo que já transbordava da lata.

Começou a caminhar às cegas pelo quarto, abrindo gavetas vazias e erguendo os livros para, em seguida, repô-los nas mesmas pilhas, quase inconsciente do que fazia, enquanto frases esparsas da entrevista com Rita ecoavam em sua cabeça: um capítulo inteiro a relação Potter-Dumbledore... há quem a considere doentia e até sinistra... ele próprio lidou com as Artes das Trevas na juventude... tive acesso a uma fonte que faria jornalistas negociarem as próprias varinhas para obter...

- Mentiras! - berrou Harry, e pela janela viu o dono da casa ao lado, que parara para religar o cortador de grama, erguer os olhos, nervoso.

O garoto sentou-se com força na cama. O caco de espelho saltou para longe; ele o apanhou e examinou entre os dedos pensando, pensando em Dumbledore e nas mentiras com que Rita Skeeter o difamava...

Um lampejo azul intenso. Harry congelou, o dedo cortado escorregou pela ponta do espelho. Fora imaginação, devia ter sido. Ele espiou por cima do ombro, mas a parede continuava da cor pêssego enjoativo que tia Petunia escolhera; não havia nada azul ali para ser refletido. Harry tornou a examinar o fragmento de espelho e nada viu, exceto o seu olho muito verde encarando-o.

Imaginara o lampejo, não havia outra explicação; imaginara porque estivera pensando no diretor falecido. Se havia uma certeza era que os olhos muito azuis de Albus Dumbledore jamais o perscrutariam outra vez.

 

A PARTIDA DOS DURSLEY

O RUÍDO DA PORTA da FRENTE BATENDO ecoou escada acima, e uma voz gritou:

- Ei! Você!

Dezesseis anos ouvindo este chamado não permitiu a Harry duvidar que era a ele que o tio estava se dirigindo; ainda assim, não respondeu imediatamente. Continuou a contemplar o caco de espelho em que, por uma fração de segundo, pensara ter visto um olho de Dumbledore. Somente quando o tio berrou ”MOLEQUE!”, Harry se levantou vagarosamente e se encaminhou para a porta do quarto, parando, antes, para guardar o pedaço de espelho na mochila cheia com as coisas que ia levar.

- E vem se arrastando! — urrou Vernon Dursley quando o garoto apareceu no alto da escada. - Desça aqui, quero falar com você!

Harry desceu a escada, as mãos enfiadas no fundo dos bolsos do jeans. Quando chegou à sala de estar, encontrou os três Dursley. Trajavam roupas de viagem: tio Vernon vestia um blusão de zíper castor, tia Petúnia um elegante casaco salmão, e Dudley, o primo forte, musculoso e louro, uma jaqueta de couro.

- Pois não? - disse Harry.

- Sente-se! - ordenou o tio. Harry ergueu as sobrancelhas. - Por favor! — acrescentou, fazendo uma ligeira careta como se a palavra lhe arranhasse a garganta.

Harry sentou-se. Pensou que sabia o que esperar. Vernon Dursley começou a andar para cima e para baixo. Tia Petúnia e Dudley acompanhavam seus passos com os rostos ansiosos. Por fim, o tio, com a cara larga e púrpura contraída de concentração, parou diante dele e falou:

- Mudei de idéia.

- Que surpresa — respondeu o garoto.

- Não venha com ironias... - começou tia Petunia com a voz esganiçada, mas o marido fez sinal para que ela se calasse.

- É tudo conversa fiada - afirmou ele, encarando Harry com seus olhinhos de porco. — Concluí que não acredito em uma única palavra. Vamos ficar aqui, não vamos a lugar algum.

Harry ergueu os olhos para o tio e sentiu uma mescla de exasperação e surpresa. Vernon Dursley vinha mudando de idéia a cada vinte e quatro horas nas últimas quatro semanas, carregando o carro, descarregando-o e recarregando-o a cada mudança. O momento favorito de Harry tinha sido quando o tio, sem saber que Dudley guardara os pesos de musculação na mala desde a última vez que fora descarregada, tentara colocá-la novamente no porta-malas e desequilibrou-se, soltando urros de dor e xingando horrores.

- Pelo que me conta - disse Vernon Dursley, recomeçando a andar pela sala —, nós, Petunia, Dudley e eu, corremos perigo. Por conta de... de...

- Gente da ”minha laia”, certo.

- Pois eu não acredito - repetiu o tio, parando outra vez diante de Harry. - Passei metade da noite refletindo e acho que é uma armação para você ficar com a casa.

- A casa? — perguntou Harry. - Que casa?

- Esta casa! - gritou o tio, a veia da testa começando a pulsar. Nossa casa! Os preços das casas estão disparando por aqui! Você quer nos tirar do caminho, fazer meia dúzia de charlatanices e, quando a gente der pela coisa, as escrituras estarão em seu nome e...

- O senhor enlouqueceu? Uma armação para ficar com esta casa? Será que o senhor é realmente tão retardado como está parecendo ser?

- Não se atreva!... — guinchou tia Petúnia, mas, novamente, Vernon fez sinal para a mulher se calar: ofensas sobre sua personalidade não se comparavam ao perigo que identificara.

- Caso o senhor tenha esquecido — disse Harry —, eu já tenho uma casa, meu padrinho a deixou para mim. Então, por que eu iria querer esta? Pelas boas lembranças que guardo daqui?

Fez-se silêncio. Harry achou que impressionara o tio com esse argumento.

- Você quer me dizer que esse tal lorde...

- Voldemort - completou Harry impaciente -, e já repassamos isso cem vezes. E não é o que quero dizer, é um fato, Dumbledore lhe disse isso no ano passado, e Kingsley e o sr. Weasley...

Vernon Dursley encolheu os ombros encolerizado, e Harry imaginou que o tio estivesse tentando exorcizar as lembranças da inesperada visita de dois bruxos adultos, logo no início de suas férias de verão. A chegada de Kingsley Shacklebolt e Arthur Weasley à porta da casa fora um choque extremamente desagradável para os Dursley. Contudo, Harry tinha de admitir que não era de se esperar que o reaparecimento do sr. Weasley, que no passado demolira metade da sala, deixasse seu tio feliz.

- Kingsley e o sr. Weasley explicaram tudo muito bem - salientou Harry sem piedade. — Quando eu completar dezessete anos, o feitiço de proteção que me resguarda se desfará, e isto me põe em risco e a vocês também. A Ordem tem certeza que Voldemort visará o senhor, seja para torturá-lo e descobrir aonde fui, seja por pensar que, se o fizer refém, eu tentarei vir salvá-lo.

O olhar do tio encontrou o de Harry. O garoto teve certeza de que naquele instante os dois estavam se perguntando a mesma coisa. Então, Vernon recomeçou a andar e Harry continuou:

- O senhor precisa se esconder e a Ordem quer ajudar, ofereceu uma sólida proteção, a melhor que existe.

Tio Vernon não respondeu, continuou a andar para cá e para lá. Lá fora, o sol batia diagonalmente sobre a cerca de alfeneiros. Na casa ao lado, o cortador de grama do vizinho parou mais uma vez.

- Pensei que houvesse um Ministério da Magia! — exclamou o tio bruscamente.

- Há — respondeu Harry, surpreso.

- Então, por que não podem nos proteger? Parece-me que, como vítimas inocentes, cujo único crime foi dar guarida a um homem marcado, deveríamos ter direito à proteção do governo!

Harry riu; não conseguiu se conter. Era tão típico do seu tio depositar as esperanças nas instituições, mesmo as de um mundo que ele desprezava e não confiava.

- O senhor ouviu o que o sr. Weasley e Kingsley disseram. Achamos que o inimigo está infiltrado no Ministério.

Tio Vernon foi até a lareira e voltou, respirando com tanta força que ondulava o enorme bigode negro, seu rosto ainda púrpura de concentração.

— Muito bem - disse ele, parando mais uma vez diante do sobrinho. - Muito bem, vamos considerar a hipótese de que aceitemos essa proteção. Continuo sem entender por que não podemos recebêla do tal Kingsley.

Harry conseguiu não erguer os olhos para o teto, mas a muito custo. A pergunta já tinha sido respondida meia dúzia de vezes.

— Como lhe expliquei - disse entre os dentes -, Kingsley está protegendo o muggle, quero dizer, o seu primeiro-ministro.

— Exatamente: ele é o melhor! - exclamou o tio, apontando para a tela escura da televisão. Os Dursley tinham localizado Kingsley no telejornal, andando discretamente às costas do primeiro-ministro em visita a um hospital. Isto, e o fato de Kingsley ter aprendido a se vestir como um muggle, sem esquecer da segurança que transmitia com sua voz lenta e grave, tinha levado os Dursley a aceitarem Kingsley de um jeito que certamente não se aplicara a nenhum outro bruxo, embora fosse verdade que eles nunca o tivessem visto de brinco.

— Ele está ocupado - disse Harry. - Mas Hestia Jones e Dedalus Diggle estão mais do que qualificados para esse serviço...

— Se ao menos tivéssemos visto os currículos deles... — começou tio Vernon, mas Harry perdeu a paciência. Levantando-se, dirigiu-se ao tio, agora ele próprio apontando para a televisão.

— Esses acidentes não são acidentes, as colisões, explosões, descarrilamentos e o que mais tenha acontecido desde a última vez que o senhor viu o telejornal. As pessoas estão desaparecendo e morrendo, e é ele que está por trás de tudo: Voldemort. Já lhe disse isso muitas vezes, ele mata muggles para se divertir. Até os nevoeiros: são causados por dementadores, e se o senhor não lembra quem são, pergunte ao seu filho!

As mãos de Dudley ergueram-se bruscamente para cobrir a própria boca. Sentindo os olhos dos pais e de Harry postos nele, tornou a baixá-las lentamente e perguntou:

— Tem... mais daqueles?

— Mais? — Riu-se Harry. - Você quer dizer mais do que os dois que nos atacaram? Claro que tem, tem centenas, talvez milhares a essa altura, uma vez que se alimentam do medo e do desespero...

— Está bem, está bem — trovejou Vernon Dursley. — Você me convenceu...

— Espero que sim, porque quando eu completar dezessete anos, todos eles, os Comensais da Morte, os dementadores e até os Inferi, que é como chamamos os mortos-vivos enfeitiçados por um bruxo das trevas, poderão encontrar vocês e certamente atacá-los. E se lembrarem da última vez que tentaram ser mais rápidos do que os bruxos, acho que irão concordar que precisam de ajuda.

Houve um breve silêncio era que o eco distante de Hagrid derrubando uma porta de madeira deu a impressão de reverberar pelos anos transcorridos desde então. Tia Petúnia olhava para tio Vernon; Dudley encarava Harry. Por fim, o tio perguntou abruptamente:

- E o meu trabalho? E a escola de Dudley? Suponho que essas coisas não tenham importância para um bando de bruxos vagabundos...

- Será que o senhor não compreende? - gritou Harry. — Eles torturarão e matarão vocês como fizeram com os meus pais!

- Pai - disse Dudley em voz alta -, pai... eu vou com esse pessoal da Ordem.

- Dudley — comentou Harry —, pela primeira vez na vida você está demonstrando bom senso.

Ele sabia que a batalha estava ganha. Se Dudley estivesse suficientemente apavorado para aceitar a ajuda da Ordem, os pais o acompanhariam; separarem-se de Dudley estava fora de questão. Harry olhou para o relógio de alça sobre o console da lareira.

— Eles estarão aqui dentro de uns cinco minutos - anunciou e, diante do total silêncio dos Dursley, saiu da sala. A perspectiva de se separar, provavelmente para sempre, dos tios e do primo era algo que ele conseguia imaginar com alegria, mas, ainda assim, havia um certo constrangimento no ar. Que se dizia a parentes ao fim de dezesseis anos de intensa e mútua aversão?

De volta ao próprio quarto, Harry mexeu a esmo na mochila, depois empurrou umas nozes pelas grades da gaiola de Hedwig. Elas produziram um som oco ao bater no fundo, onde a coruja as ignorou.

— Logo, logo estaremos indo embora daqui — disse-lhe Harry. Então você vai poder voar novamente.

A campainha da porta tocou. Harry hesitou, em seguida tornou a sair do quarto e descer: era demais esperar que Hestia e Dedalus enfrentassem os Dursley sozinhos.

— Harry Potter! - esganiçou-se uma voz animada, no instante em que ele abriu a porta; um homenzinho de cartola lilás fez-lhe uma profunda reverência. — Uma honra como sempre!

— Obrigado, Dedalus - respondeu Harry, concedendo um sorriso breve e inibido a Hestia, a bruxa de cabelos escuros. - É realmente uma gentileza fazerem isso... eles estão aqui dentro, meus tios e meu primo...

- Bom dia aos parentes de Harry Potter! - exclamou Dedalus, feliz, entrando na sala de estar. Os Dursley não pareceram nada felizes com a saudação; Harry chegou a pensar que mudariam mais uma vez de idéia. Dudley se encolheu junto à mãe ao ver os bruxos.

”Vejo que já fizeram as malas e estão prontos. Excelente! O plano, como Harry deve ter-lhes dito, é simples”, prosseguiu Dedalus, puxando do colete um enorme relógio de bolso e consultando-o.

”Vamos sair antes de Harry. Devido ao perigo de se usar magia em sua casa, porque Harry ainda é menor de idade, e isto poderia dar ao Ministério uma desculpa para prendê-lo, seguiremos de carro, digamos, por uns dois quilômetros. Então, desaparataremos até o local seguro que escolhemos para os senhores. Imagino que saiba dirigir, não?”, perguntou o bruxo a tio Vernon educadamente.

— Saiba...? Claro que sei dirigir muito bem! — respondeu ele bruscamente.

— É preciso muita inteligência, senhor, muita inteligência. Eu ficaria absolutamente abobalhado com todos aqueles botões e alavancas de puxar e empurrar — disse Dedalus. Sem dúvida, o bruxo pensava estar elogiando Vernon Dursley, que visivelmente ia perdendo confiança no plano a cada palavra que Dedalus dizia.

— Nem ao menos sabe dirigir — resmungou, entre os dentes, ondulando o bigode de indignação, mas, por sorte, nem Dedalus nem Hestia pareceram ouvi-lo.

- Você, Harry - continuou Dedalus -, irá esperar aqui por sua guarda. Houve uma pequena mudança nos preparativos...

- Que quer dizer? - perguntou Harry, surpreso. - Pensei que Olho-Tonto viria para fazer comigo uma aparatação acompanhada, não?

- Inviável - respondeu Hestia, concisamente. — Olho-Tonto lhe explicará.

Os Dursley, que tinham escutado tudo com expressões de total incompreensão nos rostos, sobressaltaram-se ao ouvir um guincho alto: ”Apressem-se!” Harry correu os olhos pela sala e se deu conta de que a voz saíra do relógio de bolso de Dedalus.

— Tem razão, estamos operando com um horário apertado comentou o bruxo, assentindo para o relógio e tornando a enfiá-lo no bolso do colete. - Estamos tentando cronometrar sua saída da casa com a desaparatação de sua família, Harry; assim, o feitiço se desfaz no momento em que todos estiverem rumando para um destino seguro. - E, voltando-se para os Dursley: - Então, estamos com as malas feitas e prontos para partir?

Nenhum deles lhe respondeu: tio Vernon ainda olhava espantado para o volume no bolso do colete de Dedalus.

— Talvez a gente devesse esperar lá fora no hall, Dedalus - murmurou Hestia: era evidente que considerava indelicado permanecerem na sala enquanto Harry e os Dursley, talvez às lágrimas, trocavam despedidas amorosas.

— Não precisa - murmurou Harry, mas tio Vernon tornou qualquer explicação desnecessária ao dizer em voz alta:

— Então, adeus, moleque. - Ergueu o braço direito para apertar a mão do garoto, mas, no último instante, pareceu incapaz de fazêlo, e simplesmente fechou a mão e começou a sacudi-la para frente e para trás como se fosse um metrônomo.

— Pronto, Duddy? - perguntou tia Petúnia, verificando, atrapalhada, o fecho da bolsa de mão para evitar sequer olhar para Harry.

Dudley não respondeu, mas ficou parado ali com a boca entreaberta, lembrando ligeiramente a Harry o gigante Grawp.

— Vamos, então — disse o tio. Ele já alcançara a porta da sala quando Dudley murmurou:

— Eu não estou entendendo.

— O que não está entendendo, fofinho? - perguntou tia Petúnia, erguendo a cabeça para o filho.

Dudley estendeu a mão, que mais parecia um presunto, e apontou para Harry.

— Por que ele não está vindo com a gente?

Tio Vernon e tia Petúnia congelaram onde estavam, como se o filho tivesse acabado de expressar o desejo de ser uma bailarina.

— Quê?! — exclamou tio Vernon em voz alta.

— Por que ele não está vindo também? — repetiu Dudley.

— Ora, ele... ele não quer - respondeu tio Vernon, virando-se com um olhar feroz para o sobrinho e acrescentando: - Você não quer, não é mesmo?

- Nem pensar - confirmou Harry.

- Viu? - disse tio Vernon ao filho. - Agora ande, estamos indo.

E saiu da sala; todos ouviram a porta da frente abrir, mas Dudley não se mexeu e, após alguns poucos passos hesitantes, tia Petúnia parou também.

- Que foi agora? - vociferou tio Vernon, reaparecendo à porta. Aparentemente, Dudley lutava com conceitos demasiado difíceis para expressar em palavras. Passados vários segundos de um conflito interior visivelmente doloroso, ele perguntou:

- Mas aonde ele está indo?

Tia Petúnia e tio Vernon se entreolharam. Era óbvio que Dudley estava apavorando os pais. Hestia Jones rompeu o silêncio.

- Mas... certamente o senhor sabe aonde está indo o seu sobrinho, não? - perguntou, demonstrando perplexidade.

- Certamente que sabemos - retrucou Vernon Dursley. — Está indo embora com uns tipos da sua laia, não é? Certo, Dudley, vamos para o carro, você ouviu o que o homem disse, estamos com pressa.

Mais uma vez, Vernon Dursley se dirigiu resolutamente à porta da frente, mas Dudley não o acompanhou.

- Indo embora com uns tipos da nossa laia?

Hestia pareceu ultrajada. Harry já vira essa reação antes: bruxos se mostrarem perplexos ao constatar que os parentes vivos mais próximos tivessem tão pouco interesse no famoso Harry Potter.

- Tudo bem - Harry tranqüilizou-a. - Não faz diferença, sinceramente.

- Não faz diferença? - repetiu Hestia, sua voz se alteando ameaçadoramente. - Essas pessoas não entendem o que você tem sofrido? O perigo em que se encontra? A posição única que você ocupa no coração dos que militam no movimento anti-Voldemort?

- Ah... não, não entendem - respondeu Harry. - Na verdade, acham que sou um desperdício de espaço, mas estou acostumado...

- Eu não acho que você seja um desperdício de espaço.

Se Harry não tivesse visto a boca do garoto mexer, talvez não tivesse acreditado. Tendo visto, entretanto, ficou olhando para Dudley durante vários segundos antes de aceitar, por um detalhe, que devia ter sido o primo quem falara: seu rosto avermelhara. E Harry estava, ele próprio, sem graça e pasmo.

- Ãh... obrigado, Dudley.

Novamente, Dudley pareceu lutar com pensamentos demasiado difíceis, antes de murmurar:

- Você salvou a minha vida.

- Não foi bem assim. Era a sua alma que o dementador queria... Harry olhou com curiosidade para o primo. Eles virtualmente não tinham tido contato durante este verão ou o anterior, porque ele voltara à rua dos Alfeneiros por poucos dias e ficara em seu quarto a maior parte do tempo. Ocorria-lhe agora, porém, que a xícara de chá em que pisara aquela manhã talvez não tivesse sido uma armadilha. Embora bastante comovido, sentiu-se aliviado ao constatar que Dudley aparentemente esgotara sua capacidade de expressar sentimentos. Depois de abrir a boca mais uma ou duas vezes, o primo mergulhou em ruborizado silêncio.

Tia Petúnia rompeu em lágrimas. Hestia Jones lhe lançou um olhar de aprovação que se transformou em revolta quando a mulher se adiantou rapidamente e abraçou Dudley em vez de Harry.

- Que amor, Duddy... - soluçou ela encostada no largo peito do filho -, q-que beleza de g-garoto... ag-gradecendo...

- Mas ele não agradeceu! — exclamou Hestia, indignada. — Ele só disse que não achava que Harry fosse um desperdício de espaço!

- É, mas, vindo de Dudley, isto equivale a dizer ”eu te amo” explicou Harry, dividido entre a contrariedade e a vontade de rir, quando tia Petúnia continuou agarrada a Dudley como se ele tivesse acabado de salvar Harry de um prédio em chamas.

- Então, vamos ou não vamos? - urrou tio Vernon, reaparecendo à porta da sala de estar. - Pensei que estávamos em cima da hora!

- Claro... claro, estamos — respondeu Dedalus Diggle, que parará diante dessa troca de palavras com ar de estupefação, e agora parecia ter voltado ao normal. - Realmente precisamos ir, Harry...

O bruxo se adiantou aos tropeços e apertou a mão de Harry entre as suas.

- ... boa sorte. Espero que voltemos a nos encontrar. Você carrega nos ombros as esperanças do mundo bruxo.

- Ah, certo. Obrigado.

- Adeus, Harry — disse Hestia, também apertando sua mão. — Os nossos pensamentos o acompanharão.

- Espero que tudo corra bem — disse Harry, lançando um olhar a Petúnia e Dudley.

- Ah, tenho certeza que vamos acabar nos tornando os melhores amigos - disse Diggle animado, acenando com a cartola ao sair da sala. Hestia acompanhou-o.

Dudley se soltou gentilmente das garras da mãe e se adiantou para Harry, que precisou conter o impulso de ameaçá-lo com um feitiço. Então, o primo estendeu a manzorra rosada.

- Caramba, Dudley - disse Harry, sobrepondo-se aos renovados soluços de tia Petúnia -, será que os dementadores sopraram para dentro de você uma nova personalidade?

- Sei lá — murmurou Dudley. - A gente se vê, Harry.

- É - respondeu Harry, apertando a mão do primo e sacudindo-a. — Quem sabe. Se cuida, Big D.

Dudley quase sorriu e em seguida saiu, desajeitado, da sala. Harry ouviu seus passos pesados na entrada de saibro, então a porta de um carro bateu.

Tia Petúnia, cujo rosto estivera enfiado no lenço, olhou para os lados ao ouvir a batida. Pelo jeito, não esperava se ver sozinha com Harry. Guardando apressada o lenço molhado no bolso, disse:

- Bom... adeus. - E dirigiu-se resoluta à porta, sem olhar para o sobrinho.

- Adeus - respondeu Harry.

Ela parou e olhou para trás. Por um momento, Harry teve a estranhíssima sensação de que ela queria lhe dizer alguma coisa: a tia lhe lançou um olhar estranho e trêmulo que pareceu oscilar à beira da fala, então, com um movimento brusco da cabeça, saiu apressada da sala para se reunir ao marido e ao filho.

 

OS SETE POTTER

Harry voltou correndo ao seu quarto, chegando ainda em tempo de ver o carro dos Dursley se afastar rua acima. Avistou, ainda, a cartola de Dedalus Diggle entre Petunia e Dudley, no banco traseiro. O veículo virou à direita, no fim da Privet Drive, suas janelas se avermelharam por um momento ao sol poente, e, então, desapareceu.

Harry apanhou a gaiola de Hedwig, a Firebolt e a mochila, lançou um último olhar ao quarto anormalmente arrumado e, então, desceu desajeitado para o hall, onde pousou a gaiola, a vassoura e a mochila próximos ao pé da escada. A claridade diminuía rapidamente, o hall enchia-se de sombras crepusculares. Parecia muito estranho ficar parado ali, naquele silêncio, sabendo que ia sair de casa pela última vez. Anos atrás, quando os Dursley o deixavam sozinho e iam se divertir, as horas de solidão tinham se constituído num presente raro: parando apenas para furtar alguma guloseima da geladeira, ele corria escada acima para brincar com o computador de Dudley, ou ligar a televisão e trocar de canal à vontade. Dava-lhe um estranho vazio lembrar aqueles tempos: era como lembrar um irmão mais moço que tivesse perdido.

- Não quer dar uma última olhada na casa? - perguntou a Hedwig, que continuava aborrecida com a cabeça sob a asa. - Nunca mais viremos aqui. Você não quer lembrar os bons tempos? Isto é, olhe só para esse capacho. Que recordações... Dudley vomitou aí depois que o salvei dos dementadores... Ele acabou me agradecendo, dá para acreditar?... E no verão passado, Dumbledore entrou por essa porta...

Harry perdeu por um instante o fio dos pensamentos, mas Hedwig não fez nada para ajudá-lo a retomar seu discurso e continuou parada na mesma posição. Harry virou as costas para a porta da frente.

- E aqui embaixo, Hedwig - Harry abriu uma porta sob a escada -, é onde eu costumava dormir! Você nem me conhecia na época... caramba, eu tinha esquecido como é apertado...

Harry correu o olhar pelos sapatos e guarda-chuvas empilhados, lembrando-se de que acordava toda manhã encarando o ”avesso” dos degraus da escada, que muito freqüentemente estavam enfeitados com uma ou duas aranhas. Naquele tempo, desconhecia sua verdadeira identidade, e ainda não descobrira como os pais tinham morrido nem a razão de coisas tão estranhas sempre acontecerem ao seu redor. Harry ainda lembrava os sonhos que o perseguiam, mesmo naquela época: sonhos confusos que incluíam clarões verdes e, uma vez - tio Vernon quase batera com o carro quando lhe contara um deles -, uma moto voadora...

Um ronco repentino e ensurdecedor ecoou perto dali. Harry se endireitou abruptamente e bateu com o cocuruto no portal baixo. Parando apenas para dizer alguns dos palavrões mais enfáticos aprendidos com o tio, saiu cambaleando até a cozinha com as mãos na cabeça e espiou o quintal pela janela.

A escuridão parecia estar ondulando, o ar estremecia. Então, uma a uma, as pessoas começaram a aparecer instantaneamente à medida que se desfaziam os Feitiços da Desilusão. Dominando a cena, ele viu Hagrid, de capacete e óculos de proteção, montando uma gigantesca motocicleta com um sidecar preto. A toda volta, outras pessoas desmontavam de vassouras e, em dois casos, de cavalos alados negros e esqueléticos.

Abrindo com violência a porta dos fundos, Harry correu para o centro do círculo. Ergueu-se um grito de boas-vindas enquanto Hermione abria os braços para ele, Ron lhe dava um tapinha nas costas e Hagrid perguntava:

- Tudo bem, Harry? Pronto para o bota-fora?

- Com certeza - respondeu, incluindo todos em um grande sorriso. - Mas eu não estava esperando tanta gente!

- Mudança de planos - rosnou Olho-Tonto, que segurava duas sacas grandes e cheias e cujo olho mágico girava do céu do anoitecer para a casa e dali para o jardim, com estonteante rapidez. Vamos entrar antes de lhe explicar tudo.

Harry conduziu-os à cozinha onde, rindo e tagarelando, eles se acomodaram em cadeiras, sentaram-se nas reluzentes bancadas da tia Petunia ou se encostaram em seus imaculados eletrodomésticos:

Ron, magro e comprido; Hermione com os cabelos bastos presos às costas em uma longa trança; Fred e George, com sorrisos idênticos; bill, cheio de cicatrizes e cabelos longos; o sr. Weasley, o rosto bondoso, os cabelos rareando, os óculos meio tortos; Olho-Tonto, cansado de guerra, perneta, o olho mágico azul girando na órbita; Tonks, cujos cabelos curtos estavam pintados no rosa berrante de que tanto gostava; Lupin, mais grisalho, mais enrugado; Fleur, esguia e linda com seus longos cabelos louros platinados; Kingsley, careca, negro, os ombros largos; Hagrid, de barba e cabelos sem trato, curvando-se para não bater a cabeça no teto; e mundungus Fletcher, franzino, sujo e trapaceiro, com aqueles olhos caídos de basset hound e os cabelos empastados. O coração de Harry pareceu crescer e se iluminar ao vê-los; gostava incrivelmente de todos, até de mundungus, que ele tentara estrangular da última vez que o encontrara.

- Kingsley, pensei que você estivesse cuidando do primeiroministro muggle, não? — perguntou do lado oposto da cozinha.

- Ele pode passar sem mim por uma noite - respondeu. — Você é mais importante.

- Harry, adivinha? - falou Tonks, empoleirada sobre a máquina de lavar roupa, acenando os dedos da mão esquerda para ele; brilhava ali uma aliança.

- Você se casou? - gritou Harry, seu olhar correndo da auror para Lupin.

- Que pena que você não pôde assistir, Harry, foi superíntimo.

- Genial, meus para...

- Tudo bem, tudo bem, teremos tempo depois para pôr as novidades em dia! - rugiu Moody, abafando a algazarra, e fez-se silêncio na cozinha. O bruxo largou as sacas junto aos pés e se virou para Harry. - Dedalus provavelmente lhe disse que tivemos de abandonar o plano A. Phil Thicknesse passou-se para o outro lado, o que nos causou um grande problema. Decretou que são transgressões puníveis com prisão ligar esta casa à Rede de Flu, criar uma Chave de Portal, aparatar ou desaparatar aqui. Tudo em nome de sua maior proteção, para impedir que Você-Sabe-Quem chegue a você. Coisa absolutamente sem sentido, uma vez que o feitiço de sua mãe já se encarrega disso. Na realidade, o que ele fez foi impedi-lo de sair daqui em segurança.

”Segundo problema: você é menor de idade, o que significa que ainda tem um rastreador.”

— Não estou...

- O rastreador, o rastreador! — interrompeu-o Olho-Tonto com impaciência. - O feitiço que detecta atividades mágicas em torno de menores de dezessete anos, e que permite ao Ministério descobrir quando um menor faz uso da magia! Se você, ou alguém ao seu redor, lançar um feitiço para tirá-lo daqui, Thicknesse saberá, e os Comensais da Morte também.

”Não podemos esperar o rastreador caducar, porque, no momento em que você completar dezessete anos, perderá toda a proteção que sua mãe lhe deu. Em resumo: Phil Thicknesse acha que o encurralou de vez.”

Harry não pôde senão concordar com o desconhecido, o tal Thicknesse.

- Então, que vamos fazer?

— Vamos usar os únicos meios de transporte que nos restaram, os únicos que o rastreador não poderá detectar, porque não precisamos lançar feitiços para usar: vassouras, testrálios e a moto do Hagrid.

Harry percebia falhas nesse plano; contudo, calou-se para dar a Olho-Tonto a chance de continuar.

— Ora, o feitiço de sua mãe só se desfará sob duas condições: quando você se tornar maior ou — Moody fez um gesto abrangendo a cozinha impecável — quando deixar de chamar este lugar de lar. Hoje à noite você e seus tios vão seguir caminhos separados, concordando plenamente que jamais voltarão a viver juntos, certo?

Harry assentiu.

- Então desta vez, quando você sair, não haverá retorno, e o feitiço se desfará no momento em que deixar o âmbito desta casa. Decidimos desfazer o feitiço antes, porque a alternativa é esperar Você-Sabe-Quem entrar e capturá-lo no momento em que completar dezessete anos.

”A única coisa que temos a nosso favor é que Você-Sabe-Quem ignora que estamos transferindo você hoje à noite. Deixamos vazar uma pista falsa no Ministério: acham que você vai esperar até o dia trinta. Ainda assim, estamos lidando com Você-Sabe-Quem, portanto não podemos confiar que ele se deixe enganar com a data; certamente, por precaução, terá alguns Comensais da Morte patrulhando o céu desta área.

Então, equipamos umas doze casas diferentes com toda a proteção que é possível lhes dar. Todas aparentam ser aquela em que vamos escondê-lo, todas têm alguma ligação com a Ordem: minha casa, a do Kingsley, a de Muriel, tia de Molly... entende a idéia.”

- Entendo — confirmou Harry, com pouca sinceridade, porque ainda era capaz de ver um enorme furo nesse plano.

- Você vai para a casa dos pais de Tonks. Uma vez dentro dos limites dos feitiços protetores que lançamos sobre a casa, poderá usar uma Chave de Portal para A Toca. Alguma pergunta?

- Ah... sim - respondeu Harry. - Talvez eles não saibam para qual das doze casas seguras eu irei primeiro, mas não ficará meio óbvio - e ele fez uma rápida contagem das cabeças — quando catorze de nós voarmos para a casa dos pais de Tonks?

- Ah - disse Moody -, me esqueci de mencionar o principal. Os catorze não irão voar para a casa dos pais de Tonks. Haverá sete Harry Potter deslocando-se pelo céu hoje à noite, cada um deles com um companheiro, cada par rumando para uma casa segura diferente.

De dentro do casaco, Moody tirou um frasco contendo um líquido que parecia lama. Ele não precisou acrescentar mais nada: Harry entendeu o restante do plano imediatamente.

- Não! - exclamou alto, sua voz ressoando pela cozinha. — Nem pensar!

- Eu avisei a eles que essa seria a sua reação - disse Hermione com um ar indulgente.

- Se vocês acham que vou deixar seis pessoas arriscarem a vida...!

- ... porque é a primeira vez para todos nós - interpôs Ron.

- Isto é diferente, fingir ser eu...

- Bom, nenhum de nós gostou muito da idéia, Harry - disse Fred, sério. — Imagine se alguma coisa der errado e continuarmos para o resto da vida retardados, magricelas e ”ocludos”.

Harry não sorriu.

- Não poderão fazer isso se eu não cooperar, precisarão que eu ceda uns fios de cabelo.

- Então, lá se vai o plano por água abaixo — comentou George. - É óbvio que não há a menor possibilidade de arranjar fios dos seus cabelos, a não ser que você colabore.

- É, treze de nós contra um cara proibido de usar magia; não temos a menor chance — acrescentou Fred.

- Engraçado - disse Harry. - Realmente hilário.

- Se tivermos que usar a força, usaremos - rosnou Moody, seu olho mágico agora estremecendo um pouco na órbita ao encarar Harry com severidade. — Todos aqui são maiores de idade, Potter, e todos estão dispostos a se arriscar.

mundungus sacudiu os ombros e fez uma careta; o olho mágico virou de esguelha pelo lado da cabeça de Moody para repreendê-lo.

- Não vamos continuar a discutir. O tempo está passando. Quero alguns fios de cabelo seus, moleque, agora.

- Isto é loucura, não há necessidade...

- Não há necessidade! — rosnou Moody. — Com Você-Sabe-Quem aí fora e metade do Ministério do lado dele? Potter, se dermos sorte, ele terá engolido a pista falsa e estará planejando emboscar você no dia trinta, mas ele será doido se não mantiver um ou dois Comensais da Morte vigiando. É o que eu faria. Talvez eles não possam atingir você nem esta casa enquanto o feitiço de sua mãe estiver em vigor, mas está prestes a caducar e eles têm uma idéia geral de sua localização. A nossa única chance é usar chamarizes. Nem mesmo Você-Sabe-Quem é capaz de se dividir em sete.

O olhar de Harry encontrou o de Hermione e desviou-se rapidamente.

- Portanto, Potter, uns fios do seu cabelo, por gentileza. Harry olhou para Ron, que fez uma careta como se dissesse ”dá logo”.

- Agora! - vociferou Moody.

Com todos os olhares convergindo para ele, Harry levou a mão ao topo da cabeça, agarrou um punhado de fios e arrancou-os.

- Ótimo - disse Moody, mancando até ele e puxando a tampa do frasco de poção. - Aqui dentro, por gentileza.

Harry deixou cair os fios no líquido cor de lama. No instante em que o cabelo tocou a sua superfície, a poção começou a espumar e fumegar e, instantaneamente, se tornou límpida e dourada.

- Ah, você parece muito mais gostoso que o Crabbe ou o Goyle, Harry — comentou Hermione antes de notar as sobrancelhas erguidas de Ron e, corando levemente, acrescentou -, ah, você entendeu o que eu quis dizer, a poção de Goyle lembrava um bicho-papão.

- Certo, então, os falsos Potter alinhem-se do lado de cá, por favor - pediu Moody.

Ron, Hermione, Fred, George e Fleur se enfileiraram à frente da reluzente pia de tia Petunia.

- Falta um - disse Lupin.

- Aqui - respondeu Hagrid rispidamente, e, erguendo mundungus pelo cangote, largou-o ao lado de Fleur, que enrugou o nariz deliberadamente e foi se postar entre Fred e George.

- Eu lhe disse que preferia ser guarda — reclamou mundungus.

- Cala a boca — rosnou Moody. — Como já lhe expliquei, seu verme invertebrado, quaisquer Comensais da Morte que encontrarmos tentarão capturar Potter, e não matá-lo. Dumbledore sempre disse que Você-Sabe-Quem iria querer liquidar Potter pessoalmente. Serão os guardas que terão de se preocupar mais, os Comensais da Morte tentarão eliminá-los.

mundungus não pareceu muito tranqüilo, mas Moody já tinha tirado de dentro da capa meia dúzia de cálices, que distribuiu após servir era cada um a dose da Poção Polissuco.

- Todos juntos, então...

Ron, Hermione, Fred, George, Fleur e mundungus beberam. Todos ofegaram e fizeram caretas quando a poção chegou à garganta: imediatamente, suas feições começaram a borbulhar e distorcer como cera quente. Hermione e mundungus cresceram de repente; Ron, Fred e George encolheram; seus cabelos escureceram, os de Hermione e Fleur pareceram reentrar na cabeça.

Moody, indiferente, começou a soltar os cordões das enormes sacas que trouxera: quando tornou a se aprumar, havia seis Harry Potter exclamando ofegantes diante dele.

Fred e George se viraram um para o outro e disseram juntos:

- Uau... estamos idênticos!

- Não sei, não, acho que estou mais bonito - comentou Fred, examinando seu reflexo na chaleira.

- Bah! — exclamou Fleur, mirando-se na porta do microondas —, bill, nam olhe parra mim: estarr horrenda.

- Se as roupas ficarem largas em vocês, há tamanhos menores aqui - disse Moody, indicando a primeira saca —, e vice-versa. Não esqueçam os óculos, há seis pares no bolso lateral. E depois de se vestirem, a bagagem está na segunda saca.

O verdadeiro Harry achou que aquela talvez fosse a cena mais bizarra que já presenciara na vida, e já vira coisas extremamente exóticas. Observou seus seis duplos mexerem na saca de roupa, tirar trajes completos, pôr os óculos e guardar as próprias coisas. Teve vontade de pedir que demonstrassem um pouco mais de respeito por sua intimidade quando começaram a se despir sem censura, visivelmente mais à vontade em desnudar o seu corpo do que estariam com os próprios corpos.

— Eu sabia que Ginny estava mentindo sobre aquela tatuagem disse Ron, olhando para o próprio peito nu.

— Harry, a sua visão é ruim mesmo - comentou Hermione, ao colocar os óculos.

Uma vez vestidos, os falsos Harry Potter tiraram da segunda saca mochilas e gaiolas de coruja, cada uma contendo uma alvíssima coruja empalhada.

— Ótimo - aprovou Moody, quando, por fim, os sete Harry vestidos, equipados com óculos e bagagem, se viraram para ele. — Os pares serão os seguintes: mundungus irá viajar comigo de vassoura...

— Por que vou com você? - protestou o Harry mais perto da porta dos fundos.

— Porque você é o único que precisa de vigilância - rosnou Moody, e, de fato, seu olho mágico não se desviou de mundungus enquanto continuava -, Arthur e Fred...

— Eu sou George — disse o gêmeo para quem Moody estava apontando. — Você não consegue nos distinguir nem quando somos Harry?

— Desculpe, George...

— Eu só estou zoando você, na verdade sou o Fred...

— Chega de brincadeiras! - rosnou Moody - O outro... Fred ou George, seja lá quem for, você vai com Remus. Srta. Delacour...

— Vou levar Fleur em um testrálio - disse bill. — Ela não gosta muito de vassouras.

Fleur foi para junto dele, lançando-lhe um olhar apaixonado e servil que Harry desejou de todo o coração que jamais voltasse a aparecer em seu rosto.

— Srta. Granger com Kingsley, também em um testrálio... Hermione pareceu mais tranqüila ao retribuir o sorriso de Kingsley; Harry sabia que a amiga também não se sentia segura em uma vassoura.

- E você sobra para mim, Ron! - comentou Tonks animada, derrubando um porta-canecas ao acenar para ele.

Ron não pareceu tão satisfeito quanto Hermione.

- E você vai comigo, Harry. É isso? - perguntou Hagrid, parerecendo um pouco ansioso. - Iremos de moto. Vassouras e testrálios não agüentam o meu peso, entende. Não sobra muito espaço depois do assento, então você irá no sidecar.

- Beleza - disse Harry, sem muita sinceridade.

- Achamos que os Comensais da Morte esperarão que você esteja voando em uma vassoura - explicou Moody, que pareceu perceber o que Harry estava sentindo. - Snape já teve tempo suficiente para acabar de informar a eles tudo que sabe sobre você, por isso, se toparmos com Comensais, apostamos que irão escolher um Harry que pareça à vontade montando uma vassoura. Muito bem, então -

exclamou Moody, amarrando a saca com as roupas falsas de Harry e seguiu primeiro para o quintal. - Calculo que faltem três minutos para nosso horário de partida. Não adianta trancar a porta dos fundos, não vai segurar os Comensais da Morte quando vierem procurar você... Vamos...

Harry correu ao hall para apanhar sua mochila, a Firebolt e a gaiola de Hedwig antes de se reunir aos outros no quintal escuro. A certa altura, vassouras saltaram para as mãos dos donos; Kingsley já tinha ajudado Hermione a montar um grande testrálio negro; e bill ajudou Fleur. Hagrid estava pronto ao lado da moto, com os óculos de proteção.

- É essa? A moto de Sirius?

- A própria - respondeu Hagrid, sorrindo para Harry. - E a última vez em que a montou, Harry, você cabia em uma das minhas mãos!

aHrry não pôde deixar de se sentir um pouquinho humilhado em embarcar no sidecar. Isto o colocava vários metros abaixo dos demais: Ron deu um sorrisinho debochado ao ver o amigo sentado ali, como uma criança em um carrinho de parque de diversões. Harry empurrou a mochila e a vassoura para o lugar dos pés e encaixou a gaiola de Hedwig entre os joelhos. Ficou extremamente desconfortável.

- Arthur andou fazendo uns ajustes - contou Hagrid, indiferente ao desconforto de Harry. Montou, então, a moto que rangeu um pouco e afundou alguns centímetros no solo.

— Agora tem uns botões especiais no guidão. Esse aí foi minha idéia. — Hagrid apontou com o grosso dedo um botão roxo junto ao velocímetro.

- Por favor, tenha cuidado, Hagrid - recomendou o sr. Weasley, que estava parado ao lado deles, segurando a vassoura. — Ainda não tenho certeza se é aconselhável, e certamente só deve ser usado em emergências.

- Muito bem, então — anunciou Moody. — Todos a postos, por favor; quero que todos saiam exatamente na mesma hora, ou invalidamos a idéia de despistamento.

Todos montaram as vassouras.

- Segure-se firme agora, Ron - disse Tonks, e Harry viu o amigo lançar um olhar furtivo e culpado a Lupin antes de colocar as mãos na cintura da bruxa. Hagrid deu partida na moto, que roncou como um dragão e o sidecar começou a vibrar.

- Boa sorte a todos! - gritou Moody. - Vejo vocês dentro de uma meia hora n’A Toca. Quando eu contar três. Um... dois... TRÊS.

Ouviu-se o estrondo da moto, e Harry sentiu o sidecar avançar assustadoramente; estavam levantando vôo em alta velocidade, seus olhos lacrimejavam um pouco, os cabelos foram varridos para trás. À sua volta, as vassouras subiam também: a cauda longa e negra de um testrálio ultrapassou-o. As pernas do garoto, entaladas no sidecar pela gaiola de Hedwig e a mochila, já estavam doendo e começando a ficar dormentes. Seu desconforto era tão grande que ele quase se esqueceu de lançar um último olhar ao número quatro da Privet Drive; quando finalmente olhou pelo lado do sidecar, já não sabia distinguir qual era a casa. Eles foram subindo, sem parar, em direção ao céu...

Então, de repente, sem ninguém saber de onde nem como, eles se viram cercados. No mínimo uns trinta vultos encapuzados pairavam no ar, formando um vasto círculo no meio do qual entraram os membros da Ordem, sem perceber...

Gritos, clarões verdes para todo lado: Hagrid soltou um berro e a moto virou de cabeça para baixo. Harry perdeu a noção de onde estavam: lampiões de rua no alto, berros à sua volta, ele agarrado ao sidecar, como se disso dependesse sua vida. A gaiola de Hedwig, a Firebolt e a mochila escorregaram de baixo dos seus joelhos...

-Não...! Hedwig!

A vassoura girou em direção ao solo, mas ele conseguiu, por um triz, agarrar a alça da mochila e a gaiola quando a moto voltou à posição normal.

Um segundo de alívio e outro clarão verde. A coruja soltou um grito agudo e tombou no chão da gaiola.

-Não... NÃO!

A moto avançava veloz; de relance, Harry viu Comensais da Morte encapuzados se dispersarem quando Hagrid rompeu o seu círculo.

- Hedwig... Hedwig...

A coruja, porém, continuou no chão da gaiola, imóvel e patética como um brinquedo. Harry não conseguia acreditar, e sentiu um supremo terror pelos companheiros. Espiou rapidamente por cima

- Hagrid, temos que voltar, temos que voltar! - berrou para sobrepor a voz ao ronco atroante do motor, empunhou a varinha, empurrou a gaiola de Hedwig para o chão, se recusando a aceitar que estivesse morta. - Hagrid, DÊ MEIA-VOLTA!

- Minha obrigação é levar você em segurança, Harry! - berrou Hagrid, acelerando.

- Pare... PARE! - gritou Harry. Quando tornou a olhar para trás, dois jorros de luz verde passaram voando por sua orelha esquerda: Quatro Comensais da Morte tinham deixado o círculo e vinham em sua perseguição, fazendo pontaria nas largas costas de Hagrid. O bruxo se desviou, mas os Comensais emparelharam com a moto; lançaram mais feitiços contra eles, e Harry teve que se abaixar para evitá-los. Torcendo-se para trás, ordenou ”Estupefaça!”, e um raio de luz vermelha partiu de sua varinha, abrindo uma brecha entre os (quatro perseguidores, ao se dispersarem para evitar ser atingidos.

- Segure-se, Harry, isso acabará com eles - rugiu Hagrid, e Harry ergueu os olhos bem em tempo de ver o amigo meter o dedo grosso em um botão verde ao lado do medidor de gasolina.

Uma parede, uma parede maciça de tijolos irrompeu do cano de escape. Espichando o pescoço, Harry a viu expandir-se no ar. Três dos Comensais da Morte se desviaram para evitá-la, mas o quarto não teve tanta sorte: desapareceu e em seguida despencou como uma pedra por trás da parede, sua vassoura despedaçada. Um dos companheiros diminuiu a velocidade para socorrê-lo, mas eles e a parede voadora foram engolidos pela escuridão quando Hagrid se inclinou por cima do guidão e acelerou.

Mais Maldições da Morte lançadas pelos dois Comensais sobreviventes voaram pelos lados da cabeça de Harry, mirando Hagrid. Harry respondeu com Feitiços Estuporantes; vermelho e verde colidiam no ar produzindo uma chuva de faíscas multicoloridas, e o garoto pensou intempestivamente em fogos de artifício, e nos muggles lá embaixo que não fariam idéia do que estava acontecendo...

- Lá vamos nós outra vez, Harry, segure-se - berrou Hagrid, apertando um segundo botão. Desta vez saiu uma rede pelo escape, mas os Comensais da Morte estavam preparados. Não só se desviaram, como o que havia desacelerado para salvar o amigo inconsciente os alcançou: brotou inesperadamente da escuridão e agora três deles vinham em perseguição da moto, todos disparando feitiços.

- Isso vai resolver, Harry, segure firme! — berrou Hagrid, e o garoto o viu bater com a mão espalmada no botão roxo ao lado do velocímetro.

Com um urro inconfundível, o fogo de dragão, incandescente e azul, jorrou pelo escape e a moto arrancou com a velocidade de uma bala produzindo um som metálico. Harry viu os Comensais da Morte desaparecerem para evitar a trilha mortífera de chamas e ao mesmo tempo sentiu o sidecar sacudir sinistramente: as ligações metálicas que o prendiam à moto racharam com a violência da aceleração.

- Tudo bem, Harry! - berrou Hagrid, empurrado para trás pelo ímpeto da moto; ninguém controlava agora, e o sidecar começou a se retorcer violentamente no jato de ar que a moto deslocava.

”Estou alerta, Harry, não se preocupe!”, berrou Hagrid, e, do bolso do blusão, ele tirou o guarda-chuva cor-de-rosa e florido.

- Hagrid! Não! Deixa comigo!

- REPARO!

Ouviu-se um estampido ensurdecedor e o sidecar se soltou completamente: Harry disparou para a frente, impulsionado pela velocidade da moto, então o sidecar começou a perder altura...

Desesperado, Harry apontou a varinha para o carro e gritou:

- Wingardium Leviosa!

O sidecar subiu como uma rolha, desgovernada, mas, pelo menos, no ar. Seu alívio, porém, durou apenas segundos: mais feitiços passaram por ele como raios, os três Comensais da Morte agora mais próximos.

- Estou chegando, Harry! — gritou Hagrid da escuridão, mas o garoto sentiu o sidecar recomeçar a afundar: agachando-se o mais baixo que podia, apontou para os vultos que se aproximavam e berrou: - Impedimenta!

O feitiço atingiu no peito o Comensal do centro. Por um instante, o homem abriu absurdamente braços e pernas no ar, como se tivesse batido contra uma barreira invisível: um dos seus companheiros quase se chocou com ele...

Então o sidecar começou de fato a cair e um dos Comensais disparou um feitiço tão perto de Harry que ele precisou se encolher abaixo da borda do sidecar, e perdeu um dente ao bater contra o assento...

- Estou indo, Harry, estou indo!

Uma mão descomunal agarrou as vestes do garoto pelas costas e guindou-o para fora do sidecar em mergulho irreversível; Harry puxou para si a mochila ao se arrastar para o assento da moto e se viu sentado de costas para Hagrid. Ao ganharem altitude, afastando-se dos dois Comensais da Morte restantes, o garoto cuspiu o sangue da boca, e, apontando a varinha para o sidecar que caía, gritou:

- Confringo!

Sentiu uma dor terrível como se lhe arrancassem as entranhas quando Hedwig explodiu; o Comensal mais próximo foi arrancado da vassoura e saiu do campo de visão de Harry; o companheiro recuou e desapareceu.

- Harry, me desculpe, me desculpe - gemeu Hagrid. - Eu devia ter tentado consertar o sidecar... você ficou sem espaço...

- Isto não é problema, continue voando! - gritou Harry em resposta, no momento em que mais dois Comensais da Morte emergiam da escuridão e vinham em sua direção.

Quando os feitiços cortaram o espaço entre eles, Hagrid se desviou e ziguezagueou; Harry sabia que o amigo não ousaria usar novamente o botão do fogo de dragão, com ele sentado sem a menor segurança. Disparou um Feitiço Estuporante atrás do outro contra os perseguidores, mal conseguindo mantê-los a distância. Disparou outro feitiço para detê-los: o Comensal mais próximo desviou-se e seu capuz caiu, e, à luz vermelha do Feitiço Estuporante seguinte, Harry reconheceu o estranho rosto vidrado de Stanislau Shunpike, o Stan...

- Expelliarmus! - berrou Harry.

- É ele, é ele, o verdadeiro!

O grito do Comensal encapuzado chegou aos ouvidos de Harry apesar do ronco da moto: no momento seguinte, mais dois perseguidores tinham recuado e desaparecido de vista.

- Harry, que aconteceu? - berrou Hagrid. - Onde eles se meteram?

- Não sei!

Harry, porém, teve medo: o Comensal encapuzado gritara ”é o verdadeiro”; como soubera? Correu os olhos pela escuridão aparentemente vazia e sentiu o perigo. Onde estavam? Ele se virou no assento para ficar de frente e se agarrou nas costas do blusão de Hagrid.

— Hagrid, use o fogo do dragão outra vez, vamos dar o fora daqui.

— Segure-se bem, então, Harry!

Ouviu-se uma trovoada metálica e ensurdecedora e o fogo branco-azulado jorrou do escape: o garoto sentiu que estava escorregando para trás no pouco assento que lhe cabia, Hagrid foi atirado para cima dele, mal conseguindo manter as mãos no guidão...

— Acho que despistamos eles, Harry, acho que conseguimos! berrou Hagrid.

Harry, contudo, não se convenceu: o medo o envolvia enquanto olhava à direita e à esquerda, à procura dos perseguidores e seguro de que viriam... Por que teriam recuado? Um deles ainda segurava a varinha... ”É ele, é ele, o verdadeiro”... tinham exclamado logo depois que ele tentara desarmar Stan...

- Estamos quase chegando, Harry, estamos quase conseguindo! — gritou Hagrid.

Harry sentiu a moto perder um pouco de altitude, embora as luzes em terra ainda parecessem estrelas remotas.

Então a cicatriz em sua testa ardeu em brasa: dois Comensais apareceram dos lados da moto, duas Maldições da Morte lançadas por trás passaram a milímetros do garoto...

Então Harry o viu. Voldemort vinha voando como fumaça ao vento, sem vassoura nem testrálio para sustentá-lo, seu rosto ofídico brilhando na escuridão, seus dedos brancos erguendo mais uma vez a varinha... Hagrid soltou um urro amedrontado e mergulhou a moto verticalmente. Segurando-se como se a vida dependesse disso, Harry disparou Feitiços Estuporantes a esmo para a noite vertiginosa. Viu um corpo passar por ele e soube que tinha atingido alguém, mas, em seguida, ouviu um estampido e viu saírem faíscas do motor; a moto entrou em uma espiral descendente, completamente descontrolada...

Jatos de luz verde tornaram a passar por eles. Harry estava totalmente desorientado: sua cicatriz continuava a queimar; esperou morrer a qualquer segundo. Uma figura encapuzada em uma vassoura vinha a centímetros dele, o garoto viu-a erguer o braço...

-NÃO!

Com um grito de fúria, Hagrid se atirou da moto contra o Comensal da Morte; para seu horror, Harry viu os dois bruxos caírem e desaparecer, seus pesos somados excessivos para a vassoura...

Mal se segurando na moto com os joelhos, Harry ouviu Voldemort gritar:

-Meu!

Era o fim: ele não ouvia nem via onde Voldemort estava; de relance, percebeu outro Comensal da Morte fazer uma curva para se afastar do caminho e ouviu: - Avada...

Quando a dor forçou-o a fechar os olhos, sua varinha agiu por vontade própria. Sentiu-a arrastar seu braço como um enorme magneto, pelas pálpebras entreabertas viu um jorro de fogo dourado, ouviu um estalido e um grito de fúria. O Comensal da Morte restante urrou; Voldemort berrou:

-NÃO!

De algum modo, Harry se deu conta de que estava com o nariz a dois centímetros do botão do fogo de dragão; socou-o com a mão livre i’ a moto disparou mais chamas no ar, precipitando-se para o solo.

- Hagrid! - chamou Harry, se segurando com força à moto. Hagrid... Accio Hagrid!

A moto acelerou, puxada para a terra. Com o rosto ao nível do guidão, Harry nada via exceto luzes distantes que se aproximavam sem parar: ele ia bater e não havia nada que pudesse fazer. Atrás dele, outro grito...

- Sua varinha, Selwyn, me dê sua varinha!

Harry sentiu Voldemort antes de vê-lo. Olhando de esguelha, ele deparou com os olhos vermelhos e teve certeza de que seria a última coisa que veria na vida: Voldemort preparando-se para amaldiçoá-lo.

Então o lorde sumiu. Harry olhou para baixo e viu Hagrid de pernas e braços abertos no chão: puxou com força o guidão para evitar bater nele, tateou à procura do freio, mas, com um estrondo de furar os tímpanos e uma colisão de fazer o chão tremer, a moto bateu com grande impacto em um laguinho lamacento.

 

O GUERREIRO CAÍDO

— Hagrid?

Harry lutou para levantar-se dos destroços de metal e couro que o cercavam; suas mãos afundaram em centímetros de água lamacenta quando tentou ficar de pé. Não conseguia entender aonde fora Voldemort, e esperava, a qualquer momento, vê-lo descer da escuridão. Alguma coisa quente e molhada escorria-lhe do queixo e da testa. Ele se arrastou para fora do laguinho e cambaleou até a grande massa escura no chão, que era Hagrid.

- Hagrid? Hagrid, fala comigo... Mas a massa escura não se mexeu.

- Quem está aí? É o Potter? Você é Harry Potter?

Harry não reconheceu a voz do homem. Então uma mulher gritou:

- Eles sofreram um acidente, Ted! Caíram no jardim! A cabeça de Harry estava rodando.

- Hagrid - repetiu, abobado, e seus joelhos cederam. Quando voltou a si, estava deitado de costas no que lhe pareciam

almofadas, com uma sensação de queimação nas costelas e no braço direito. Seu dente partido rebrotara. A cicatriz na testa ainda latejava.

- Hagrid?

Harry abriu os olhos e viu que estava deitado em um sofá, em uma sala iluminada e desconhecida. Sua mochila estava no chão a uma pequena distância, molhada e suja de lama. Um homem louro, barrigudo, observava-o com ansiedade.

- Hagrid está bem, filho — disse o homem. — Minha mulher está cuidando dele agora. Como está se sentindo? Mais alguma coisa quebrada? Consertei suas costelas, seu dente e seu braço. A propósito, sou Ted, Ted Tonks, o pai de Dora.

Harry se sentou depressa demais: as luzes piscaram diante dos seus olhos e ele se sentiu enjoado e tonto.

- Voldemort...

- Tenha calma - disse Ted Tonks, apoiando a mão no seu ombro e empurrando-o contra as almofadas. - Você acabou de sofrer um acidente sério. Afinal, que aconteceu? Alguma coisa enguiçou na moto? Arthur Weasley exagerou outra vez, ele e suas geringonças de muggles?

- Não - respondeu Harry, sentindo a cicatriz latejar como uma ferida aberta. - Comensais, montes deles... fomos perseguidos...

- Comensais? — interrompeu-o Ted. — Você quer dizer, Comensais da Morte? Pensei que não soubessem que você ia ser transferido hoje à noite, pensei...

- Eles sabiam.

Ted Tonks olhou para o teto como se pudesse ver o céu lá fora.

- Ora, então sabemos que os nossos feitiços de proteção funcionam, não? Não deveriam poder chegar a novecentos metros deste lugar em qualquer direção.

Harry compreendeu, então, por que Voldemort desaparecera; tinha sido no ponto em que a moto cruzou a barreira de feitiços da Ordem. Sua esperança era que continuassem a funcionar: ele imaginou o lorde a novecentos metros de altura, enquanto conversavam, procurando um modo de penetrar o que Harry visualizou como uma imensa bolha transparente.

O garoto pôs as pernas para fora do sofá; precisava ver Hagrid com seus próprios olhos para acreditar que o amigo continuava vivo. Mal se levantara, porém, a porta se abriu e Hagrid se espremeu por ela, o rosto coberto de lama e sangue, mancando um pouco, mas milagrosamente vivo.

- Harry!

Derrubando duas frágeis mesas e uma aspidistra, o gigante cobriu a distância que os separava em dois passos e puxou o garoto para um abraço que quase partiu suas costelas recém-emendadas.

- Caramba, Harry, como foi que você se safou? Pensei que nós dois estávamos ferrados.

- Eu também. Nem acredito...

Harry se calou: acabava de notar a mulher que entrara na sala depois de Hagrid.

- Você! - gritou ele, enfiando a mão no bolso, mas encontrouo vazio.

- Sua varinha está aqui, filho - disse Ted, batendo de leve em seu braço com o objeto. - Caiu bem do seu lado, e eu a recolhi. E essa com quem você está gritando é a minha mulher.

- Ah, me... me desculpe.

Quando a bruxa se adiantou, a semelhança da sra. Tonks com a irmã, Bellatrix, se tornou menos acentuada: o castanho dos seus cabelos era suave e claro, e seus olhos maiores e mais bondosos. Contudo, ela pareceu um pouco arrogante ao ouvir a exclamação de Harry.

- Que aconteceu com a nossa filha? - perguntou ela. - Hagrid me contou que vocês foram vítimas de uma emboscada; onde está Ninfadora?

- Não sei - respondeu Harry. - Não sabemos o que aconteceu com mais ninguém.

A bruxa e o marido se entreolharam. Uma mescla de medo e culpa se apoderou de Harry ao ver as expressões em seus rostos; se algum dos outros tivesse morrido, ele seria o culpado, o único culpado. Consentira que executassem o plano, dera-lhes fios de cabelo...

- A Chave de Portal - lembrou-se ele, subitamente. — Temos que voltar À Toca e descobrir... poderemos, então, mandar avisá-los, ou... ou Tonks virá avisar se...

- Dora ficará bem, Andromeda - tranqüilizou-a Ted. - Ela conhece o ofício, já esteve em muitas situações críticas com os aurores. A Chave de Portal é por aqui - acrescentou ele para Harry. - Deve partir em três minutos, se quiserem pegá-la.

- Queremos. - Harry apanhou a mochila, atirou-a sobre os ombros. - Eu...

Olhou, então, para a sra. Tonks, querendo se desculpar pelo medo que lhe infundira e por tudo por que se sentia profundamente responsável, mas não lhe ocorreram palavras que não parecessem vazias e insinceras.

- Direi a Tonks... Dora... para avisar, quando ela... obrigado pelos consertos, obrigado por tudo. Eu...

Harry ficou satisfeito de sair da sala e acompanhar Ted Tonks por um pequeno corredor que dava acesso a um quarto. Hagrid acompanhou-os, abaixando-se bem para evitar bater a cabeça na moldura superior da porta.

- Aí está, filho. A Chave de Portal.

O sr. Tonks apontava para uma pequena escova de cabelos com o cabo de prata que se encontrava em cima da penteadeira.

— Obrigado — disse Harry, esticando-se para colocar um dedo no objeto, pronto para partir.

— Espere um instante - disse Hagrid, olhando para os lados. Harry, cadê Hedwig?

— Ela... ela foi atingida.

A percepção da realidade desabou sobre ele: sentiu-se envergonhado, as lágrimas queimaram seus olhos. A coruja sempre fora sua companheira, sua única e importante ligação com o mundo da magia, sempre que se via obrigado a retornar à casa dos Dursley.

Hagrid estendeu a enorme mão e deu-lhe uma dolorosa palmada nas costas.

— Não fique assim - disse, rouco. - Não fique assim. Ela teve uma vida boa e longa.

— Hagrid! - exclamou Ted, alertando-o quando a escova se iluminou com uma forte luz azul, e Hagrid só teve tempo para encostar o dedo nela.

Sentindo um puxão por dentro do umbigo como se um anzol invisível o arrastasse para a frente, Harry foi sugado para o vazio, e rodopiou inerte, o dedo preso na Chave de Portal, enquanto ele e Hagrid eram arremessados para longe da casa do sr. Tonks. Segundos depois, os seus pés bateram em solo firme e ele caiu de quatro no quintal d’A Toca. Ouviu gritos. Atirando para um lado a escova que já não luzia, Harry se ergueu, um pouco tonto, e viu a sra. Weasley e Ginny descerem correndo a escada da entrada dos fundos enquanto Hagrid, que também desmontara à chegada, levantava-se com dificuldade do chão.

— Harry? Você é o Harry verdadeiro? Que aconteceu? Onde estão os outros?! — exclamou a sra. Weasley.

— Como assim? Ninguém mais voltou? - ofegou Harry.

A resposta estava claramente estampada no rosto pálido da sra. Weasley.

— Os Comensais da Morte estavam à nossa espera — contou-lhe Harry. - Fomos cercados no instante em que levantamos vôo... eles sabiam que era hoje... não sei o que aconteceu com os outros. Quatro Comensais vieram atrás de nós, só pudemos escapar, então Voldemort nos alcançou...

Ele percebia o tom de autojustificação em sua voz, a súplica para que ela compreendesse por que ele não sabia o que tinha acontecido com os seus filhos, mas...

- Graças aos céus vocês estão bem - disse ela, puxando-o para um abraço que ele não achava merecer.

- Você não teria conhaque aí, teria, Molly? - perguntou Hagrid um pouco abalado. - Para fins medicinais?

A sra. Weasley poderia ter conjurado a bebida usando magia, mas quando entrou, apressada, na casa torta, Harry percebeu que ela queria esconder o rosto. Virou, então, para Ginny que respondeu imediatamente ao seu mudo pedido de informação.

- Ron e Tonks deviam ter voltado primeiro, mas perderam a hora da Chave de Portal, que chegou sem eles — disse ela, apontando para uma lata de óleo enferrujada ali perto no chão. - E aquela outra - Ginny apontou para um velho tênis de escola - era a de papai e Fred, que deviam ser os segundos. Você e Hagrid eram os terceiros e - consultando o relógio - se conseguirem, George e Lupin devem chegar no próximo minuto.

A sra. Weasley reapareceu trazendo uma garrafa de conhaque, que entregou a Hagrid. O gigante desarrolhou-a e tomou a bebida de um gole.

- Mamãe! - gritou Ginny, apontando para um lugar a vários passos de distância.

Uma luz azul brilhou na escuridão: foi crescendo e se intensificando, Lupin e George apareceram aos rodopios e, em seguida, caíram no chão. Harry percebeu imediatamente que havia alguma coisa errada: Lupin vinha carregando George, que estava inconsciente e tinha o rosto ensangüentado.

Harry correu para os dois e segurou as pernas do rapaz. Juntos, ele e Lupin carregaram George para dentro de casa, e da cozinha para a sala de visitas, onde o deitaram no sofá. Quando a luz do candeeiro iluminou a cabeça dele, Ginny prendeu a respiração e o estômago de Harry revirou: George perdera uma das orelhas. O lado de sua cabeça e o pescoço estavam empapados de sangue espantosamente vermelho.

Nem bem a sra. Weasley se curvou para o filho, Lupin segurou Harry pelo braço e arrastou-o, sem muita gentileza, de volta à cozinha, onde Hagrid continuava tentando passar o corpanzil pela porta dos fundos.

- Ei! — exclamou Hagrid indignado. — Solte ele! Solte o braço de Harry!

Lupin não lhe deu atenção.

- Que criatura estava em um canto na primeira vez que Harry Potter visitou o meu escritório em Hogwarts? - perguntou ele, dando uma sacudidela no garoto. — Responda!

— Um... um grindylow em um tanque, não era?

Lupin soltou Harry e recuou de encontro ao armário da cozinha. -

- Que foi isso? - rugiu Hagrid.

- Desculpe, Harry, mas eu precisava verificar - disse Lupin tenso. — Fomos traídos. Voldemort sabia que íamos transferir você hoje à noite, e as únicas pessoas que poderiam ter-lhe contado estavam participando diretamente do plano. Você poderia ser um impostor.

- Então, por que não está me testando? - arquejou Hagrid, ainda lutando para passar pela porta.

- Você é meio gigante - respondeu Lupin, erguendo os olhos para Hagrid. - A Poção Polissuco foi concebida apenas para uso Immano.

- Ninguém da Ordem contou a Voldemort que ia ser hoje - disse Harry: achava a idéia medonha demais para atribuí-la a qualquer deles. — Voldemort só me alcançou quase no fim, não sabia qual era o Harry. Se estivesse por dentro do plano, teria sabido desde o início que eu estava com Hagrid.

- Voldemort o alcançou? — perguntou Lupin bruscamente. - - Que aconteceu? Como foi que você escapou?

Harry explicou brevemente que os Comensais da Morte que vieram em seu encalço pareceram reconhecer que ele era o verdadeiro. Depois, abandonaram a perseguição e foram avisar Voldemort, que apareceu pouco antes de ele e Hagrid chegarem ao santuário da casa dos pais de Tonks.

- Eles reconheceram você? Mas como? Que foi que você fez?

- Eu... - Harry tentou lembrar-se; a viagem toda parecia-lhe um borrão de pânico e confusão. — Eu vi Stan Shunpike... sabe o condulor do Nôitibus? E tentei desarmá-lo em vez de... bem, ele não sabe o que faz, não é? Deve estar sob o efeito de uma Maldição Imperius.

Lupin se horrorizou.

- Harry, o tempo de desarmar alguém já acabou! Essa gente está tentando capturar você para matá-lo! Pelo menos estupore, se não está preparado para matar!

- Estávamos à grande altitude! Stan não estava normal, e se fosse estuporado teria caído e morrido como se eu tivesse usado o Avada Kedavra! O Expelliarmus me salvou de Voldemort dois anos atrás acrescentou Harry, em tom de desafio. Lupin estava lhe lembrando o desdenhoso Zacarias Smith da Hufflepuff, que debochara de Harry por ter querido ensinar a Armada de Dumbledore a desarmar.

- É verdade, Harry - disse Lupin, contendo-se a custo. — E um grande número de Comensais da Morte presenciaram o acontecido. Perdoe-me, mas foi uma tática muito insólita para alguém usar sob iminente risco de vida. Repeti-la hoje à noite, diante de Comensais da Morte, que ou presenciaram ou ouviram contar sobre aquela primeira ocasião, foi quase suicídio!

- Então você acha que eu devia ter matado Stan Shunpike? — indagou Harry enraivecido.

- Claro que não, mas os Comensais, e francamente a maior parte das pessoas, esperariam que você contra-atacasse. Expelliarmus é um feitiço útil, Harry, mas os Comensais da Morte começam a achar que tem a sua assinatura, e insisto que você não deixe isso se confirmar!

Lupin estava fazendo Harry se sentir idiota, contudo, ainda restava no garoto certa vontade de desafiar.

- Não vou eliminar as pessoas só porque estão no meu caminho. Esse é o ofício de Voldemort.

A resposta de Lupin se perdeu. Tendo finalmente conseguido se espremer pela porta, Hagrid cambaleou até uma cadeira, que desabou sob seu peso. Sem dar atenção aos seus xingamentos e pedidos de desculpas, Harry tornou a se dirigir a Lupin.

- George vai ficar bom?

Toda a frustração de Lupin com relação a Harry pareceu se esgotar ao ouvir a pergunta.

- Acho que sim, embora não haja possibilidade de se recompor a orelha, não quando foi decepada com um feitiço.

Ouviram passos do lado de fora. Lupin precipitou-se para a porta; Harry pulou por cima das pernas de Hagrid e correu para o quintal.

Dois vultos tinham se materializado ali, e ao correr ao seu encontro, Harry percebeu que eram Hermione, agora retomando sua aparência normal, e Kingsley, ambos agarrados a um cabide de casacos, amassado.

Hermione atirou-se nos braços de Harry, mas Kingsley não demonstrou prazer algum ao vê-los. Por cima do ombro de Hermione, Harry o viu erguer a varinha e apontá-la para o peito de Lupin.

- Quais foram as últimas palavras de Albus Dumbledore para nós dois?

- ”Harry é a melhor esperança que temos. Confie nele” - respondeu Lupin calmamente.

Kingsley apontou a varinha para Harry mas Lupin disse:

- É ele mesmo, já verifiquei.

- Tudo bem, tudo bem! - concluiu Kingsley, guardando a varinha sob a capa. - Mas alguém nos traiu! Eles sabiam, sabiam que era hoje à noite!

- É o que parece - replicou Lupin —, mas aparentemente não sabiam que haveria sete Harrys.

- Grande consolo! - rosnou Kingsley. - Quem mais voltou?

- Só Harry, Hagrid, George e eu. Hermione abafou um gemido com a mão.

- Que aconteceu com você? — Lupin perguntou a Kingsley.

- Fui seguido por cinco, feri dois, talvez tenha matado um enumerou o auror. - E vimos Você-Sabe-Quem, ele se juntou aos Comensais mais ou menos no meio da perseguição, mas desapareceu em seguida. Remus, ele é capaz de...

- Voar - completou Harry. - Eu o vi também, veio atrás de mim e Hagrid.

- Então foi por isso que sumiu: para seguir você! - concluiu Kingsley. — Não consegui entender por que tinha desistido. Mas o que o levou a mudar de alvo?

- Harry foi bondoso demais com Stan Shunpike — disse Lupin.

- Stan? — repetiu Hermione. — Pensei que ele estava em Azkaban, não?’

Kingsley deu uma risada sem graça.

- Obviamente, Hermione, houve uma fuga em massa que o Ministério abafou. O capuz de Travers caiu quando eu o amaldiçoei, ele deveria estar preso também. Mas que aconteceu com você, Lupin? Onde está George?

- Perdeu uma orelha — informou-o Lupin.

- Perdeu uma...? - repetiu Hermione com a voz esganiçada.

- Obra de Snape - disse Lupin.

- Snape? - gritou Harry. — Você não disse...

- Ele perdeu o capuz durante a perseguição. O Sectumsempra sempre foi uma especialidade de Snape. Eu gostaria de poder dizer que lhe paguei na mesma moeda, mas pude apenas manter George montado na vassoura depois que foi ferido, estava perdendo muito sangue.

O silêncio se abateu sobre os quatro ao erguerem os olhos para o céu. Não havia sinal de movimento; as estrelas retribuíram seu olhar, sem piscar, indiferentes, sem sombra de amigos em vôo. Onde estava Ron? Onde estavam Fred e o sr. Weasley? Onde estavam bill, Fleur, Tonks, Olho-Tonto e mundungus?

- Harry, me ajuda aqui! - chamou Hagrid, rouco, da porta na qual tornara a se entalar. Feliz de ter o que fazer, Harry empurrou-o e depois atravessou a cozinha para voltar à sala de visitas, onde a sra Weasley e Ginny ainda cuidavam de George. A sra. Weasley estancara a hemorragia e, à luz do candeeiro, Harry viu um buraco aberto onde antes havia uma orelha.

- Como está ele?

A sra. Weasley se virou para responder:

- Não posso recompor uma orelha que foi decepada por Artes das Trevas. Mas poderia ter sido muito pior... ele está vivo.

- Graças a Deus - disse Harry.

- Ouvi a voz de mais alguém no quintal? — perguntou Ginny.

- Hermione e Kingsley.

- Felizmente - sussurrou Ginny. Os dois se entreolharam; Harry teve vontade de abraçá-la, não largá-la mais; nem se importava que a sra. Weasley estivesse presente, mas, antes que pudesse dar vazão a esse impulso, ouviram um grande estrondo na cozinha.

- Vou provar quem sou, Kingsley, depois que vir o meu filho, agora saia da frente se sabe o que é bom para você!

Harry nunca ouvira o sr. Weasley gritar assim. O bruxo irrompeu na sala, a careca brilhando de suor, os óculos tortos, Fred em seus calcanhares, os dois pálidos e ilesos.

- Arthur! - soluçou a sra. Weasley. - Graças aos céus!

- Como é que ele está?

O sr. Weasley ajoelhou-se ao lado de George. Pela primeira vez desde que Harry o conhecia, Fred parecia não saber o que dizer.

De pé, atrás do sofá, olhava boquiaberto para o ferimento do irmão gêmeo como se não conseguisse acreditar no que via.

Despertado talvez pelo barulho da chegada de Fred e do pai, George se mexeu.

- Como está se sentindo, Georgie? - sussurrou a sra. Weasley. O rapaz levou os dedos ao lado da cabeça.

- Mouco — murmurou.

- Que é que ele tem? — perguntou Fred lugubremente, com um ar aterrorizado. - A perda afetou o cérebro dele?

- Mouco - repetiu George, abrindo os olhos e erguendo-os para o irmão. — Entende... Surdo e oco, Fred, sacou?

A sra. Weasley soluçou mais forte que nunca. A cor inundou o rosto pálido de Fred.

- Patético - respondeu Fred ao irmão. - Patético! Com um mundo de piadas sobre ouvidos para escolher, você me sai com ”mouco”?

- Ah, bem - disse George, sorrindo para a mãe debulhada em lágrimas. - Agora você vai poder distinguir quem é quem, mamãe.

Ele olhou para os lados.

- Oi Harry... você é o Harry, certo?

- Sou - respondeu Harry, aproximando-se do sofá.

- Bom, pelo menos você voltou inteiro - comentou George. - Por que Ron e bill não estão rodeando o meu leito de enfermo?

- Ainda não voltaram, George - disse a sra. Weasley. O sorriso de George desapareceu. Harry olhou para Ginny e fez sinal para que o acompanhasse ao quintal. Ao passarem pela cozinha, a garota comentou em voz baixa:

- Ron e Tonks já deviam ter voltado. A viagem não era demorada; a casa de tia Muriel não é tão longe daqui.

Harry não respondeu. Desde que chegara À Toca tinha procurado afastar o medo, mas agora o sentimento o envolveu, pareceu deslizar por sua pele, vibrar em seu peito, obstruir sua garganta. Quando desceram os degraus para o quintal escuro, Ginny segurou sua mão.

Kingsley estava dando grandes passadas para lá e para cá, olhando para o céu cada vez que completava uma volta. Harry se lembrou do tio Vernon fazendo o mesmo na sala de estar, há milhões de anos. Hagrid, Hermione e Lupin se achavam parados, ombro a ombro, contemplando o céu em silêncio. Nenhum deles se virou quando Harry e Ginny se uniram à sua muda vigília.

Os minutos se prolongaram como se fossem anos. O mais leve sopro de vento os sobressaltava e os fazia virar para o arbusto ou árvore que farfalhava, na esperança de que algum membro da Ordem, ainda ausente, saltasse ileso da folhagem...

Então uma vassoura se materializou diretamente sobre eles, e, como um raio, foi em direção ao chão...

- São eles! — gritou Hermione.

Tonks fez uma longa derrapagem que levantou terra e pedras para todo lado.

- Remus! - gritou ela ao descer entorpecida da vassoura para os braços de Lupin. O rosto do marido estava sério e pálido: parecia incapaz de falar. Ron desmontou tonto e saiu aos tropeços ao encontro de Harry e Hermione.

- Você está bem — murmurou ele, antes de Hermione se precipitar para ele e abraçá-lo com força.

- Pensei... pensei...

- Tô inteiro - disse Ron, dando-lhe palmadinhas nas costas. Tô inteiro.

- Ron foi o máximo - comentou Tonks calorosamente, soltando Lupin. — Fantástico. Estuporou um dos Comensais da Morte direto na cabeça, e olha que quando se está mirando um alvo móvel montado em uma vassoura...

- Você fez isso? - perguntou Hermione, olhando para Ron ainda com os braços em seu pescoço.

- Sempre o tom de surpresa - disse o garoto se desvencilhando, rabugento. - Somos os últimos a chegar?

- Não - disse Ginny -, ainda estamos esperando bill e Fleur e Olho-Tonto e mundungus. Vou avisar mamãe e papai de que você está bem, Ron...

Ela correu para dentro de casa.

- Então, qual foi a razão do atraso? Que aconteceu? - Lupin perguntou a Tonks quase zangado.

- Bellatrix — respondeu ela. — Me quer tanto quanto quer o Harry, Remus, fez tudo para me matar. Eu gostaria de tê-la acertado, fiquei devendo. Mas, definitivamente, ferimos Rudolf... então chegamos à casa da tia de Ron, Muriel, onde perdemos a nossa Chave de Portal, e ela ficou nos paparicando...

Um músculo tremia no queixo de Lupin. Ele assentiu, mas parecia incapaz de dizer qualquer outra coisa.

- E que aconteceu com vocês? — perguntou Tonks, virando-se para Harry, Hermione e Kingsley.

Eles contaram o que acontecera em suas jornadas, mas todo o tempo a ausência continuada de bill, Fleur, Olho-Tonto e mundungus parecia recobri-los como gelo, a frialdade a cada momento mais difícil de ignorar.

- Vou ter que voltar à residência do primeiro-ministro. Já deveria ter chegado lá há uma hora — disse Kingsley por fim, após esquailrinhar o céu uma última vez. - Avisem quando eles chegarem.

Lupin assentiu. Com um aceno para os demais, Kingsley se afastou no escuro em direção ao portão. Harry pensou ter ouvido um levíssimo estalido quando Kingsley desaparatou pouco além do perímetro d’A Toca.

O sr. e a sra. Weasley desceram correndo os degraus dos fundos, seguidos por Ginny, e abraçaram Ron antes de falarem com Lupin e Tonks.

- Obrigada — disse a sra. Weasley —, pelos nossos filhos.

- Não seja boba, Molly - protestou Tonks na mesma hora.

- Como está George? - perguntou Lupin.

- Que aconteceu com ele? — esganiçou-se Ron.

-Perdeu...

O final da frase da sra. Weasley, porém, foi abafado por uma gritaria geral: um testrálio acabara de surgir no céu e aterrissar a pouca distância do grupo. bill e Fleur desceram do animal, descabelados pelo vento, mas ilesos.

- bill! Graças a Deus, graças a Deus...

A sra. Weasley se adiantou para o casal, mas o abraço que bill lhe concedeu foi superficial. Olhando diretamente para o pai, comunicou:

- Olho-Tonto morreu.

Ninguém falou, ninguém se mexeu. Harry sentiu que alguma coisa dentro dele estava caindo, atravessando a terra, deixando-o para sempre.

- Vimos acontecer - continuou bill; Fleur confirmou com a cabeça, lágrimas brilhantes escorrendo por suas faces à claridade da lâmpada da cozinha. - Foi logo depois que rompemos o cerco: Olho-Tonto e Dungus estavam perto de nós, rumando também para o norte.

Voldemort, que é capaz de voar, partiu direto para cima deles. Dungus entrou em pânico, ouvi-o gritar, Olho-Tonto tentou fazê-lo parar, mas ele desaparatou. A maldição de Voldemort atingiu OlhoTonto em cheio no rosto, ele caiu da vassoura e... nada pudemos fazer, nada, havia meia dúzia deles nos perseguindo... A voz de bill quebrou.

- Claro que você não poderia ter feito nada - disse Lupin. Todos pararam, se entreolhando. Harry não conseguia absorver.

Olho-Tonto morto; não podia ser... Olho-Tonto, tão resistente, tão corajoso, um perfeito sobrevivente...

Por fim, as pessoas começaram a compreender, embora ninguém falasse, que não havia mais razão para continuar aguardando no quintal e, em silêncio, eles acompanharam o sr. e a sra. Weasley de volta à casa e à sala de visitas, onde Fred e George riam juntos.

- Que aconteceu? - perguntou Fred, vendo os rostos das pessoas à medida que entravam. - Que aconteceu? Quem...?

- Olho-Tonto - disse o sr. Weasley. — Morto.

As risadas dos gêmeos se transformaram em caretas de sobressalto. Ninguém parecia saber o que fazer. Tonks chorava silenciosamente, levando o lenço ao rosto: Harry sabia que ela fora muito chegada a Olho-Tonto, sua aluna favorita e protegida no Ministério da Magia. Hagrid, que se sentara no chão, a um canto mais espaçoso, enxugava os olhos com um lenço do tamanho de uma toalha de mesa.

bill foi ao aparador e apanhou uma garrafa de uísque de fogo e alguns copos.

- Peguem — disse ele e, com um aceno da varinha, lançou no ar doze copos cheios, um para cada pessoa, mantendo o décimo terceiro no ar. - A Olho-Tonto.

- A Olho-Tonto - disseram todos, e beberam.

- A Olho-Tonto - secundou Hagrid, atrasado com um soluço.

O uísque de fogo queimou a garganta de Harry: deu a impressão de instilar sentimento, dissipar a insensibilidade e a sensação de irrealidade, despertar nele algo semelhante à coragem.

- Então mundungus desapareceu? — disse Lupin, que bebera todo o uísque de um gole.

Houve uma mudança instantânea na atmosfera. Todos pareceram se tensionar e observar Lupin, dando a Harry a impressão de que desejavam que ele continuasse a falar e, ao mesmo tempo, receavam o que poderiam ouvir.

— Sei o que está pensando - disse bill -, e me ocorreu o mesmo pensamento quando estava voltando para cá, porque eles pareciam estar nos esperando, não é? Mas mundungus não poderia ter nos traído. Eles não sabiam que haveria sete Harrys, isto os confundiu no instante em que aparecemos, e, caso tenham esquecido, foi mundungus que sugeriu esse pequeno ardil. Por que omitiria esse ponto essencial para os Comensais? Acho que Dungus entrou em pânico, foi só. Primeiro não queria ir, mas Olho-Tonto o obrigou, e Você-Sabe-Quem investiu direto contra os dois: isto é suficiente para fazer qualquer um entrar em pânico.

- Você-Sabe-Quem agiu exatamente como Olho-Tonto previu disse Tonks, fungando. - Olho-Tonto disse que ele calcularia que o verdadeiro Harry estaria com os aurores mais fortes e capazes. Perseguiu, primeiro, Olho-Tonto, e, quando mundungus os denunciou, virou-se para Kingsley...

— E, tude stá muite bem - retrucou Fleur -, mes inde nam exxplique come sabiem qu’ iamos trransferrir Arry hoje à noite. Alguém foi descuidade. Alguém deixou scapar a date prra um strranhe. É a unique explicaçon prra eles conhecerrem a data mas nam o plane tode.

Ela olhou séria para todos, os filetes de lágrimas ainda visíveis em seu belo rosto, desafiando silenciosamente que alguém a contradissesse. Ninguém o fez. O único som a romper o silêncio foi a tosse de Hagrid, abafada por seu lenço. Harry olhou para o gigante, que acabara de arriscar a vida para salvá-lo - Hagrid a quem ele amava, em quem confiava, que no passado tinha caído em uma esparrela e dado a Voldemort uma informação crítica em troca de um ovo de dragão...

- Não — disse Harry em voz alta, e todos olharam para ele surpresos: o uísque de fogo aparentemente amplificara sua voz. - Quero dizer... se alguém errou - continuou Harry - e deixou escapar alguma coisa, sei que não errou por mal. Não é culpa dele - repetiu outra vez, um pouco mais alto do que teria normalmente falado. - Temos que confiar uns nos outros. Eu confio em todos vocês, acho que nenhum dos presentes nesta sala me venderia a Voldemort.

Às suas palavras, seguiu-se mais silêncio. Todos olhavam para ele; Harry sentiu-se um pouco mais acalorado e bebeu um pouco mais de uísque de fogo para se ocupar. Ao beber, pensou em Olho-Tonto.

O auror sempre ironizara a disposição de Dumbledore para confiar nas pessoas.

- Muito bem falado, Harry - disse Fred, inesperadamente.

- É, apoiado, apoiado - emendou George, com um meio relance para Fred, cujo canto da boca tremeu. Lupin tinha uma estranha expressão no rosto quando olhou para Harry: beirava a piedade.

- Você acha que sou tolo? — perguntou-lhe Harry.

- Não, acho que você é igual ao James - respondeu Lupin —, que teria considerado a maior desonra desconfiar dos amigos.

Harry sabia a que Lupin estava se referindo: que seu pai fora traído pelo amigo peter Pettigrew. Sentiu-se irracionalmente irritado. Queria discutir, mas Lupin lhe deu as costas, descansou o copo em uma mesinha lateral e se dirigiu a bill.

- Temos trabalho a fazer. Posso perguntar a Kingsley se...

- Não — bill o interrompeu. - Eu farei, eu irei.

- Aonde estão indo? — perguntaram Tonks e Fleur ao mesmo tempo.

- O corpo de Olho-Tonto - explicou Lupin. - Precisamos resgatá-lo.

- Não podem... - começou a sra. Weasley, lançando um olhar suplicante a bill.

- Esperar? - perguntou bill. - Não, a não ser que a senhora prefira que os Comensais da Morte o levem.

Todos se calaram. Lupin e bill se despediram e saíram.

Os que tinham ficado agora se sentaram, todos exceto Harry, que continuou de pé. A repentinidade e completude da morte dominava a atmosfera da sala como uma presença.

- Eu tenho que ir também - anunciou Harry. Dez pares de olhos assustados o olharam.

- Não seja tolo, Harry - disse a sra. Weasley. - Que está dizendo?

- Não posso ficar aqui.

Ele esfregou a testa: voltara a formigar; não doía assim havia mais de um ano.

- Todos vocês correm perigo enquanto eu estiver aqui. Não quero...

- Mas não seja tolo! — protestou a sra. Weasley. - A razão do que fizemos hoje à noite foi trazê-lo para cá em segurança e, graças aos céus, conseguimos.

Fleur concordou em casar aqui, em vez de na França, já providenciamos tudo para que possamos ficar juntos e cuidar de você...

Ela não compreendia; estava fazendo Harry se sentir pior e não melhor.

- Se Voldemort descobrir que estou aqui...

- Mas por que descobriria? - perguntou a sra. Weasley.

- Há outros doze lugares onde você poderia estar agora, Harry lembrou o sr. Weasley. - Ele não tem como saber para qual das casas protegidas você foi.

- Não é comigo que estou preocupado! - contrapôs o garoto.

- Nós sabemos — replicou o sr. Weasley em voz calma. - Mas, se você for embora, teremos a sensação de que os nossos esforços desta noite foram inúteis.

- Você não vai a lugar nenhum - rosnou Hagrid. - Caramba, Harry, depois de tudo que passamos para trazer você para cá?

- E, e a minha orelha sangrenta? - acrescentou George, erguendo-se nas almofadas.

- Sei que...

- Olho-Tonto não iria querer isso...

- EU SEI! - berrou Harry.

Ele se sentiu pressionado e chantageado: será que pensavam que ignorava o que tinham feito por ele, não compreendiam que essa era ixatamente a razão por que queria partir, antes que sofressem mais por sua causa? Houve um longo silêncio de constrangimento, em que sua cicatriz continuou a formigar e a latejar, e que foi, por fim, interrompido pela sra. Weasley.

- Onde está Hedwig, Harry? - perguntou ela, querendo agradálo. - Podemos colocá-la com pigwidgeon e lhe dar alguma coisa para roer.

As entranhas dele se contraíram como um punho. Não podia contar a verdade. Bebeu o resto do uísque de fogo para evitar respomder.

- Espere até espalharem que você conseguiu novamente, Harry disse Hagrid. - Escapou dele, o repeliu quando estava em cima de você!

- Não fui eu — negou Harry categoricamente. — Foi a minha varinha. Minha varinha agiu sozinha.

- Mas isso é impossível, Harry. Você quer dizer que usou a magia sem querer; reagiu instintivamente.

- Não - respondeu Harry. - A moto estava caindo, eu não saberia dizer onde estava Voldemort, mas a minha varinha rodou a minha mão, localizou-o e disparou um feitiço, e não foi um feitiço que eu conhecesse. Nunca fiz aparecer labaredas douradas antes.

- Muitas vezes — disse o sr. Weasley —, quando o bruxo está em uma situação crítica, é possível ele produzir feitiços com que nunca sonhou. Isso acontece muitas vezes com as crianças, antes de terem estudado...

- Não foi assim - retrucou Harry com os dentes cerrados. Sua cicatriz estava queimando: ele sentia raiva e frustração; odiava a idéia de que o imaginassem dotado de um poder equiparável ao de Voldemort.

Todos se calaram. Harry sabia que não estavam acreditando nele. Agora, porém, lhe ocorria que nunca ouvira falar de uma varinha que fizesse gestos de magia por conta própria.

Sua cicatriz queimava barbaramente: só havia uma coisa que podia fazer para não gemer alto. Murmurando que ia tomar ar fresco, pousou o copo na mesa e saiu da sala.

Ao atravessar o quintal escuro, o grande testrálio ossudo ergueu a cabeça, moveu as enormes asas de morcego, depois continuou a pastar. Harry parou diante do portão que abria para o jardim e se pôs a contemplar as plantas excessivamente crescidas, esfregando a testa latejante e pensando em Dumbledore.

Dumbledore teria acreditado, disso ele tinha certeza. Dumbledore teria sabido como e por que sua varinha agira sem que a comandasse, porque Dumbledore sempre tinha as respostas; conhecia tudo sobre varinhas, explicara a Harry a estranha ligação que existia entre a sua varinha e a de Voldemort... mas Dumbledore, tal como Olho-Tonto, como Sirius, como seus pais, como sua pobre coruja, todos tinham partido para um lugar em que Harry não poderia mais falar com eles. Sentiu, então, uma ardência na garganta que não tinha qualquer relação com o uísque de fogo.

E, sem saber como, a dor em sua cicatriz atingiu o auge. Ao apertar a testa e fechar os olhos, uma voz gritou em sua cabeça.

- Você me disse que o problema se resolveria usando a varinha de outro bruxo!

E em sua mente irrompeu a visão de um velho emaciado, coberto de trapos sobre um piso de pedra, gritando, um grito longo e terrível, um grito de insuportável agonia...

— Não! Não! Eu lhe suplico, eu lhe suplico...

- Você mentiu para Lord Voldemort, ollivanders!

- Não menti... Juro que não...

— Você quis ajudar Potter, ajudá-lo a escapar de mim!

— Juro que não... Acreditei que uma varinha diferente funcionaria...

- Explique então o que aconteceu. A varinha de Lucius foi Destruída!

- Não consigo entender... a ligação... existe apenas... entre as tuas varinhas...

- Mentiras!

- Por favor... eu lhe suplico...

E Harry viu a mão branca erguer a varinha e sentiu a raiva maligna de Voldemort, viu o frágil velho no chão se contorcer de agonia...

- Harry?

A visão terminou tão depressa quanto surgira: Harry ficou trenendo no escuro, agarrado ao portão do jardim, o coração disparato, a cicatriz coçando. Decorreram vários segundos até ele perceber que Ron e Hermione estavam ao seu lado.

- Harry, volte para dentro de casa — sussurrou Hermione. — Você não está pensando em ir embora mesmo, está?

- É, você tem que ficar, cara - disse Ron, batendo em suas costas.

- Você está passando bem? - perguntou Hermione, agora suficientemente perto para ver o rosto de Harry. — Está com uma cara horrível!

- Bem - respondeu Harry, trêmulo -, provavelmente estou com luma cara melhor do que ollivanders...

Quando ele terminou de contar o que vira, Ron demonstrava (espanto, mas Hermione estava aterrorizada.

- Isso devia ter acabado! A sua cicatriz... não devia mais fazer uso! Você não pode deixar essa ligação reabrir: Dumbledore queria que você fechasse a mente!

Ao ver que o amigo não respondia, ela o agarrou pelo braço.

- Harry, ele está dominando o Ministério, os jornais e metade do mundo bruxo! Não deixe que ele se infiltre também em sua mente!

 

O VAMPIRO DE PIJAMA

O CHOQUE DE PERDER OLHO-TONTO pairou sobre a casa nos dias que se seguiram; Harry continuou na expectativa de vê-lo entrar mancando pela porta dos fundos, como os demais membros da Ordem que iam e vinham para transmitir notícias. Ele sentiu que nada, a não ser a ação, aliviaria seus sentimentos de culpa e pesar, e que deveria partir em missão para encontrar e destruir as Horcruxes, assim que possível.

- Bem, você não pode fazer nada a respeito das... - Ron enunciou a palavra Horcruxes - até fazer dezessete anos. Ainda tem o rastreador. E podemos planejar aqui tão bem quanto em qualquer outro lugar, não? Ou — a voz dele virou um sussurro — já tem idéia de onde estão as você-sabe-o-quê?

- Não - admitiu Harry.

- Acho que a Hermione tem feito umas pesquisas. Ela me disse que estava guardando os resultados para quando você chegasse.

Os dois estavam sentados à mesa do café da manhã; o sr. Weasley e bill tinham acabado de sair para o trabalho, a sra. Weasley subira para acordar Hermione e Ginny, e Fleur fora tomar banho.

- O rastreador perderá a validade no dia trinta e um — disse Harry. - Isto significa que só preciso ficar aqui mais quatro dias. Depois eu posso...

- Cinco dias - Ron corrigiu-o com firmeza. — Temos que ficar para o casamento. Eles nos matarão se não estivermos aqui.

Harry entendeu que o ”eles” se referia a Fleur e a sra. Weasley.

- E só mais um dia - disse Ron, quando Harry pareceu se rebelar.

- Será que não compreendem como é importante...?

- Claro que não - respondeu Ron. - Não fazem a menor idéia. E agora que você tocou nesse assunto, eu queria mesmo esclarecer umas coisas.

Ron olhou para a porta que abria para o corredor a ver se a sra. Weasley já estava voltando, depois se curvou para Harry.

- Mamãe esteve tentando extrair informações de Hermione e de mim: vamos viajar para o quê. Você será o próximo, portanto prepare-se. Papai e Lupin também perguntaram, mas, quando respondemos que a recomendação de Dumbledore foi para você não comentar com ninguém exceto nós dois, eles não insistiram. Mas a mamãe, não. Ela é decidida.

As previsões de Ron se confirmaram algumas horas mais tarde. Pouco antes do almoço, a sra. Weasley afastou Harry dos outros, pedindo-lhe para identificar um pé de meia sem par que talvez tivesse caído da mochila dele. Assim que o encurralou na despensa mínima ao lado da cozinha, ela começou:

- Ron e Hermione estão achando que vocês três vão deixar Hogwarts - começou ela em um tom leve e informal.

- Ah - respondeu Harry. - Ah, é. Vamos.

O par apareceu sozinho no canto, saindo de um colete que parecia ser do sr. Weasley.

- Posso perguntar por que vocês vão abandonar sua educação?

- Bem, Dumbledore me deixou... umas coisas para fazer - murnurou Harry. — Ron e Hermione sabem disso, e querem vir comigo.

- Que tipo de ”coisas”?

- Desculpe, mas não posso...

— Ora, francamente, acho que Arthur e eu temos o direito de saber, e tenho certeza de que o sr. e a sra. Granger concordariam comigo! - retrucou a sra. Weasley. Harry receara a estratégia dos ”pais preocupados”. Fez força para encarar a senhora nos olhos, reparando, ao fazer isso, que eles tinham exatamente o mesmo tom castanho dos de Ginny. Isso não ajudou nem um pouco.

- Dumbledore não queria que mais ninguém soubesse. Sinto nuito. Ron e Hermione não têm que viajar comigo, foi a opção que fizeram...

- Também não vejo por que você precisa ir! - retorquiu ela, abandonando todo o fingimento. - Vocês mal atingiram a maioridade, os três! É um absurdo, se Dumbledore precisava que fizessem algum serviço para ele, tinha a Ordem inteira à disposição! Harry, você deve ter entendido mal. Provavelmente ele estava falando de alguma coisa que queria que alguém fizesse, e você entendeu que se referia a você...

- Não entendi mal - respondeu Harry resoluto. — O alguém era eu. Ele devolveu à sra. Weasley o pé de meia estampado com juncos

dourados que supostamente deveria identificar.

- Não é minha, eu não torço pelo Puddlemere United.

- Ah, claro que não - disse a bruxa, com um retorno repentino e enervante ao seu tom informal. - Eu devia ter me lembrado. Então, Harry, enquanto estiver aqui conosco, não irá se importar de ajudar nos preparativos para o casamento de bill e Fleur, não é? Ainda falta fazer tanta coisa!

- Não... eu... claro que não - respondeu Harry, desconcertado com a súbita mudança de assunto.

- Você é muito gentil. — Ela o aprovou, sorrindo, e saiu da despensa.

Daquele momento em diante, a sra. Weasley manteve Harry, Ron e Hermione tão ocupados com os preparativos para o casamento que mal lhes sobrava tempo para pensar. A explicação mais caridosa para tal atitude seria a vontade de distraí-los para não pensarem em Olho-Tonto e nos terrores da recente viagem. Depois de dois dias limpando talheres sem parar, combinando, por cor, presentinhos para os convidados, fitas e flores, desgnomizando o jardim e ajudando a sra. Weasley a cozinhar enormes tabuleiros de petiscos, no entanto, Harry começou a suspeitar que ela tivesse um motivo diverso. Todos os serviços que distribuía pareciam manter Ron, Hermione e ele afastados um do outro; Harry não tivera oportunidade de falar a sós com os amigos desde a primeira noite, quando lhes contara que Voldemort estava torturando ollivanders.

- Acho que mamãe pensa que, se impedir vocês três de se reunirem para fazer planos, poderá adiar a sua partida - murmurou Ginny para Harry, na terceira noite, quando punham a mesa para o jantar.

- E que é que ela acha que vai acontecer? - perguntou Harry no mesmo tom de voz. - Que talvez outra pessoa liquide Voldemort enquanto ela nos segura aqui preparando vol-au-vents?

Ele falara sem pensar e notou que o rosto de Ginny ficara lívido.

- Então é verdade? É isso que vão tentar fazer?

- Eu... não... eu estava brincando - respondeu Harry, fugindo à pergunta.

Os dois se encararam, e havia algo mais do que uma forte comoção no rosto de Ginny.

Subitamente, Harry percebeu que era a primeira vez que ficava a sós com ela, desde as horas roubadas em lugares isolados de Hogwarts. E teve a certeza de que Ginny também estava se lembrando daqueles momentos. Os dois se sobressaltaram quando a porta abriu e o sr. Weasley, Kingsley e bill entraram.

Agora, era freqüente outros membros da Ordem virem jantar, porque A Toca substituíra o Grimmauld Place nº 12 como quartelgeneral. O sr. Weasley explicara que, depois da morte de Dumbledore, que era o fiel do segredo, cada uma das pessoas a quem ele confiara a localização da casa se tornara, por sua vez, um fiel do segredo.

- E como somos uns vinte, isso dilui muito o poder do Feitiço fidelius. A possibilidade de os Comensais da Morte extraírem o segredo de um deles é vinte vezes maior. Não podemos esperar que o segredo seja mantido por muito mais tempo.

- Mas, com certeza, a essa altura, Snape já terá informado aos (’omensais o endereço, não? — perguntou Harry.

- Bem, Olho-Tonto preparou alguns feitiços contra Snape, caso ele voltasse a aparecer por lá. Temos esperança de que sejam suficientemente fortes para mantê-lo a distância e amarrar sua língua, se tentar falar sobre a casa, mas não podemos estar seguros. Teria sido loucura continuar a usar o local como quartel-general, agora que sua proteção se tornou tão precária.

A cozinha estava tão apinhada naquela noite que tornava difícil o uso de garfos e facas. Harry se viu espremido ao lado de Ginny; as palavras não ditas que os dois haviam trocado o fez desejar que estivessem separados por mais gente. Ele fazia tanto esforço para não roçar no braço dela que mal conseguia cortar a galinha no próprio prato.

- Alguma notícia sobre Olho-Tonto? - Harry perguntou a bill.

- Não - foi a resposta.

Não haviam realizado um funeral para Olho-Tonto porque bill e Lupin não conseguiram resgatar o corpo. Fora difícil determinar onde poderia ter caído, por causa da escuridão e da confusão da batalha.

- O Profeta Diário não disse uma palavra sobre a morte dele nem sobre as buscas pelo corpo - continuou bill. - Mas isso não quer dizer nada. O jornal tem omitido muita notícia ultimamente.

- E o Ministério, ainda não convocou uma audiência para averivuar a magia que usei ainda menor de idade para escapar dos Comensais da Morte? — Harry perguntou ao sr. Weasley, que, do outro lado da mesa, sacudiu a cabeça em resposta.

- Porque sabe que não tive escolha ou porque não quer que eu conte ao mundo inteiro que Voldemort me atacou?

- Acho que a segunda hipótese. Scrimgeour não quer admitir que Você-Sabe-Quem tem tanto poder quanto ele, nem que houve uma fuga em massa em Azkaban.

- É, para que informar ao público a verdade? — protestou Harry, agarrando a faca com tanta força que as leves cicatrizes no dorso de sua mão direita se destacaram, brancas, na pele: Não devo contar mentiras.

- Será que não tem ninguém no Ministério disposto a enfrentálo? - perguntou Ron com raiva.

- Claro que tem, Ron, mas as pessoas estão aterrorizadas - respondeu o sr. Weasley -, aterrorizadas com a idéia de serem as próximas a desaparecer, e seus filhos os próximos a serem atacados! Há muitos boatos assustadores; eu, por exemplo, não acredito que a professora de Estudo dos muggles em Hogwarts tenha pedido demissão. Faz semanas que ninguém a vê. Nesse meio-tempo, Scrimgeour passa o dia trancado no escritório: só espero que esteja preparando algum plano.

Fez-se uma pausa em que a sra. Weasley, com um gesto da varinha, pôs os pratos usados no aparador e serviu a torta de maçã.

- Prrecisamos rresolverr o disfarrce que você vai usarr, Arry - disse Fleur depois da sobremesa. — No casomente — acrescentou, quando ele pareceu não entender. — Naturralmente, nam tam Comensais da Morte entrre nosses convidades, mas nam posse garrantirr que nam falem demais depois de tomarrem champanhe.

Ao que Harry deduziu que ela ainda suspeitava de Hagrid.

- É, uma boa lembrança - disse a sra. Weasley da cabeceira da mesa onde estava, os óculos encarrapitados na ponta do nariz, passando em revista uma enorme lista de tarefas que anotara em um longo pergaminho. - Então, Ron, já limpou o seu quarto?

- Por quê?! - exclamou Ron, batendo a colher no prato e olhando feio para a mãe. - Por que o meu quarto tem que ser limpo? Harry e eu estamos muito bem no quarto do jeito que está.

- Vamos festejar o casamento do seu irmão dentro de alguns dias, jovem...

- E eles vão casar no meu quarto? — indagou Ron furioso. — Não! Então por que em nome das plicas de Merlim...

- Não responda assim a sua mãe - interpôs o sr. Weasley com firmeza. - E faça o que ela está mandando.

Ron amarrou a cara para o pai e a mãe, depois apanhou novamente a colher e atacou os últimos bocados da torta de maçã.

- Eu posso ajudar, um pouco da bagunça é minha - disse Harry a Ron, mas a sra. Weasley cortou a conversa.

- Não, Harry querido, prefiro muito mais que você ajude Arthur a limpar o galinheiro, e, Hermione, eu agradeceria muito se você fosse trocar os lençóis do casal Delacour, sabe, eles estão chegando amanhã às onze horas.

Afinal, havia muito pouco a fazer pelas galinhas.

- Não há necessidade de, ah, dizer isso a Molly - começou o sr. Weasley, bloqueando o acesso de Harry ao galinheiro —, mas, ah, Ted Tonks me mandou quase tudo que restou da moto de Sirius e, ah, estou escondendo-a, ou, melhor dizendo, guardando-a aqui. E fantástica: tem uma ganacha de escape, acho que é esse o nome, uma bateria magnífica, e será uma ótima oportunidade para descobrir como os freios funcionam. Vou tentar montá-la outra vez quando Molly não... quero dizer, quando eu tiver tempo.

Quando voltou à casa, a sra. Weasley não estava à vista, então Harry subiu despercebido para o quarto de Ron, no sótão.

-Já estou arrumando, já estou arrumando...! Ah, é você! — exclamou Ron aliviado, quando Harry entrou. O amigo estava deitado na cama, e era óbvio que acabara de desocupá-la. O quarto continuava na mesma desordem da semana inteira; a única mudança é que agora Hermione estava sentada no canto oposto, com o seu peludo gato ruivo, Crookshanks, aos pés, separando livros, alguns dos quais Harry reconheceu serem dele, em duas enormes pilhas.

- Oi, Harry - cumprimentou a amiga quando ele sentou na cama de armar.

- Como foi que você conseguiu fugir?

- Ah, a mãe de Ron esqueceu que já tinha pedido a Ginny para trocar os lençóis ontem — respondeu Hermione. E jogou o Numerologia e gramática em uma pilha e Ascensão e queda das Artes das Trevas na outra.

- Estávamos conversando sobre o Olho-Tonto - disse Ron. — Acho que ele pode ter sobrevivido.

- Mas bill viu quando ele foi atingido pela Maldição da Morte argumentou Harry.

- É, mas o bill também estava sob ataque - replicou Ron. — Como pode ter certeza do que viu?

- Mesmo que a Maldição da Morte não o atingisse, Olho-Tonto caiu uns trezentos metros — lembrou Hermione, agora segurando o pesado Os times de quidditch da Grã-Bretanha e da Irlanda.

- Ele poderia ter usado o Feitiço Escudo...

- Fleur disse que a varinha foi arrancada da mão dele - disse Harry.

- Tudo bem, se vocês querem que ele tenha morrido - concluiu Ron mal-humorado, dando uns socos no travesseiro para afofá-lo.

- É claro que não queremos que esteja morto! - exclamou Hermione, chocada. - É horrível que ele esteja! Mas temos que ser realistas!

Pela primeira vez, Harry imaginou o corpo de Olho-Tonto com os ossos partidos como o de Dumbledore, mas com aquele único olho ainda girando na órbita. Sentiu uma reação violenta, que mesclava desgosto e uma bizarra vontade de rir.

- Os Comensais da Morte provavelmente limparam os restos dele, é por isso que ninguém encontrou nada — sugeriu Ron com sabedoria.

- É - acrescentou Harry. - Como o Barty Crouch, transformado em um osso e enterrado no jardim do Hagrid. Provavelmente transfiguraram o Olho-Tonto e o empalharam...

- Pára! — guinchou Hermione. Assustado, Harry ergueu a cabeça em tempo de ver a garota romper em lágrimas sobre o Silabário de Spellman.

- Ah, não! - exclamou Harry tentando se levantar da velha cama de armar. - Hermione, eu não estava querendo transtornar ninguém...

Com uma rangedeira de molas enferrujadas, Ron pulou da cama e chegou primeiro. Com um braço, envolveu Hermione, e enfiou a outra mão no bolso do jeans de onde extraiu um lenço absurdamente sujo, usado mais cedo, naquele dia, para limpar o forno. Em seguida, puxou depressa a varinha, apontou para o trapo e ordenou: - Tergeo!

A varinha chupou a maior parte da graxa. Com um ar de vaidosa satisfação, Ron entregou o lenço ainda fumegando a Hermione.

- Ah... obrigada, Ron... desculpe... — Ela assoou o nariz e soluçou. - Só que é tão ho-horrível, não é? P-pouco depois de Dumbledore...

P-por alguma razão, eu nunc-ca imaginei Olho-Tonto morto, ele parecia tão forte!

- É, eu sei — concordou Ron, dando-lhe um breve aperto. - Mas vocês sabem o que ele nos diria se estivesse aqui?

— V-vigilância constante - respondeu Hermione enxugando os olhos.

— E isso aí - concordou Ron, reforçando com um aceno de cabeça. - Ele nos diria para aprender com o que lhe aconteceu. E o que aprendi foi a não confiar naquele lixo covarde do mundungus.

Hermione soltou uma risada tremida e se curvou para apanhar mais dois livros. Um segundo mais tarde, Ron puxou o braço das costas dela; Hermione tinha deixado cair O livro monstruoso dos monstros no pé dele. O cinto de couro que o prendia soltou-se e o livro abocanhou com força o tornozelo do garoto.

— Desculpe, desculpe - Hermione pedia, enquanto Harry arrancava o livro da perna de Ron e tornava a amarrá-lo.

- Afinal, que está fazendo com todos esses livros? — perguntou Ron, mancando de volta à cama.

- Tentando decidir quais deles vamos levar conosco, quando formos procurar as Horcruxes.

- Ah, claro - disse Ron, batendo na própria testa. — Esqueci que vamos liquidar Voldemort em uma biblioteca móvel.

— Ha-ha - replicou ela, examinando o Silabário. — Será que... precisaremos traduzir runas? É possível... acho que é melhor levar, só por precaução.

Hermione jogou o livro na maior das duas pilhas e apanhou Hogwarts, uma história.

- Escutem aqui - disse Harry. Ele se empertigara na cama. Ron e Hermione olharam o amigo com expressões iguais que somavam resignação e desafio.

- Eu sei que vocês disseram, depois dos funerais de Dumbledore, que queriam me acompanhar - começou Harry.

- Lá vem ele - comentou Ron com Hermione olhando para o teto.

- Como sabíamos que iria fazer — suspirou a garota, voltando sua atenção para os livros. - Sabem, acho que vou levar Hogwarts, uma História. Mesmo que a gente não volte lá, acho que não me sentiria bem se não carregasse...

- Escutem! - repetiu Harry.

— Não, Harry, escute você — retorquiu Hermione. — Vamos com você. Isto já ficou decidido há meses; aliás, há anos.

-Mas...

- Cala essa boca - Ron o aconselhou.

— ... vocês têm certeza que refletiram bem? - insistiu Harry.

— Vejamos - retrucou Hermione, batendo com o volume de Viagens com trasgos na pilha dos descartados, com uma expressão feroz no rosto. — Estou arrumando a bagagem há dias, portanto estamos prontos para partir a qualquer momento, o que, para sua informação, exigiu feitiços extremamente complexos, para não mencionar o contrabando do estoque de Poção Polissuco de Olho-Tonto, bem debaixo do nariz da mãe de Ron.

”Além disso, alterei a memória dos meus pais para se convencerem de que, na realidade, são Wendell e Monica Wilkins, e que sua ambição na vida é mudar para a Austrália, o que eles já fizeram. Para dificultar que Voldemort os encontre e interrogue sobre mim... ou sobre vocês, porque, infelizmente, contei aos dois muita coisa sobre vocês.

”Supondo que eu sobreviva à busca das Horcruxes, procurarei mamãe e papai e desfarei o feitiço. Se não... bem, acho que lancei neles um encanto suficientemente forte para que vivam seguros e felizes como Wendell e Monica Wilkins. O casal não sabe que tem uma filha, entendem.”

Os olhos de Hermione tinham se enchido novamente de lágrimas. Ron tornou a levantar da cama, a abraçá-la pelos ombros e a franzir a testa para Harry como se o repreendesse pela falta de tato. Harry não conseguiu pensar em mais nada para contrapor a isso, no mínimo porque era excepcionalmente insólito Ron ensinar alguém a ter tato.

— Eu... Hermione, peço desculpas... eu não...

— Não percebeu que Ron e eu temos perfeita noção do que poderá acontecer se formos com você? Pois temos. Ron, mostre ao Harry o que você já fez.

- Nãããh, ele acabou de comer - disse Ron.

- Mostra logo, ele precisa saber!

- Ah, tá, Harry, vem comigo.

Pela segunda vez, Ron parou de abraçar Hermione e saiu mancando para a porta.

— Anda.

— Por quê? — quis saber Harry, saindo do quarto e acompanhando Ron ao pequeno patamar do sótão.

— Descendo! - murmurou Ron, apontando a varinha para o teto baixo. Um alçapão se abriu e uma escada desceu aos seus pés. Um barulho horrível, meio gemido meio sucção, saiu do buraco quadrado, juntamente com um horrível cheiro de esgoto.

— É o seu vampiro, não é? - perguntou Harry, que nunca chegara a conhecer a criatura que, por vezes, perturbava o silêncio noturno n’A Toca.

— É - confirmou Ron subindo a escada. — Suba para dar uma olhada nele.

Harry seguiu o amigo pela escadinha até o minúsculo sótão. Sua cabeça e seus ombros já estavam no quarto quando ele avistou a criatura enroscada ali perto no escuro, ferrada no sono com a bocarra aberta.

— Mas ele... parece... é normal vampiros usarem pijamas?

— Não - respondeu Ron. - Nem é normal terem cabelos ruivos ou tantas espinhas.

Harry contemplou a coisa, ligeiramente enojado. Na forma e no tamanho, pareceu-lhe humano e, aos seus olhos acostumados ao escuro, não havia dúvida de que usava um pijama velho de Ron. Harry também não duvidava de que os vampiros, em geral, fossem viscosos e carecas, e não visivelmente cabeludos e cobertos de feias espinhas roxas.

— Ele sou eu, entendeu? — disse Ron.

— Não. Não entendi.

— Então explico lá no meu quarto, o cheiro está me incomodando. - Os dois desceram a escada, que Ron empurrou de volta ao teto, e foram se reunir a Hermione, que continuava separando livros.

”Quando viajarmos, o vampiro vai descer para morar no meu quarto”, disse Ron. ”Acho que ele está até ansioso para isso acontecer, mas é difícil saber, porque ele só sabe gemer e babar, mas acena muito com a cabeça quando se menciona a mudança. Em todo caso, ele vai ser o Ron com sarapintose. Bem bolado, hein?”

O rosto de Harry espelhava sua perplexidade.

— É, sim! — insistiu Ron, visivelmente frustrado porque Harry não alcançara a genialidade do seu plano.

— Olhe, quando nós três não aparecermos em Hogwarts, todo o mundo vai pensar que Hermione e eu estamos com você, certo? O que significa que os Comensais da Morte irão direto procurar as nossas famílias para obter informações sobre o seu paradeiro.

- Mas, se o plano der certo, parecerá que fui viajar com os meus pais; muitas pessoas que nasceram muggles estão falando em sumir de circulação por um tempo - esclareceu Hermione.

- Não podemos esconder a minha família inteira, iria parecer suspeito demais, além disso, eles não podem largar o emprego explicou Ron. - Então, vamos divulgar a história de que estou gravemente doente com sarapintose, razão por que não pude voltar à escola. Se alguém vier investigar, meus pais podem mostrar o vampiro na minha cama, coberto de pústulas. Essa doença é realmente contagiosa, portanto eles não vão querer chegar muito perto. E também não fará diferença se o vampiro não puder falar nada, porque aparentemente ninguém pode, depois que o fungo ataca a úvula.

- E seus pais concordaram com esse plano? - perguntou Harry.

- Papai, sim. Ele ajudou Fred e George a transformarem o vampiro. Mamãe... bem, você já viu como ela é. Não vai aceitar que viajemos até termos partido.

Fez-se silêncio no quarto, interrompido apenas pelas leves batidas que Hermione produzia ao jogar os livros em uma das duas pilhas. Ron parou, observando-a, e Harry olhava de um para outro incapaz de falar. As medidas que os amigos tinham tomado para proteger as famílias, mais do que qualquer outra coisa, o convenceram de que iriam acompanhá-lo e que sabiam exatamente o perigo que corriam. Quis manifestar o quanto isto significava para ele, mas simplesmente não encontrava palavras que fossem expressivas o suficiente.

No silêncio, ouviram o ruído abafado dos gritos da sra. Weasley quatro andares abaixo.

- Ginny provavelmente deixou uma poeirinha em uma droga qualquer de porta-guardanapos — comentou Ron. - Não sei por que os Delacour inventaram de chegar dois dias antes do casamento.

- A irmã de Fleur vai ser dama de honra, precisa estar aqui para o ensaio e é jovem demais para viajar sozinha — explicou Hermione, examinando indecisa o Como dominar um espírito agourento.

- Bom, ter hóspedes não vai melhorar os níveis de estresse da mamãe — comentou Ron.

- O que realmente precisamos decidir - disse Hermione, atirando o Teoria da defesa em magia em uma lata de lixo sem olhá-lo duas vezes e apanhando Uma avaliação da educação em magia na Europa - é para onde iremos ao sair daqui. Eu sei que você disse que quer ir a Godric’s Hollow primeiro, Harry, e entendo o motivo, mas... bem... não devíamos dar prioridade às Horcruxes?

- Se soubéssemos onde encontrar alguma Horcrux, eu concordaria com você — respondeu Harry, sem acreditar que Hermione entendesse, de fato, o seu desejo de retornar a Godric’s Hollow. O túmulo dos seus pais era apenas uma parte do atrativo: ele tinha uma forte sensação, embora inexplicável, que o vilarejo lhe forneceria algumas respostas. Talvez fosse simplesmente porque ali ele sobrevivera à Maldição da Morte lançada por Voldemort; agora que enfrentava o desafio de repetir o feito, sentia-se atraído ao lugar onde tudo acontecera, buscando compreendê-lo.

- Você não acha possível que Voldemort esteja mantendo Godric’s Hollow sob vigilância? — arriscou Hermione. — Talvez espere que você volte para visitar o túmulo dos seus pais, uma vez que está livre para ir aonde quiser.

A idéia não ocorrera a Harry E, enquanto se concentrava para contra-argumentar, Ron se manifestou, obviamente seguindo um fluxo independente de pensamentos.

- Esse tal R.A.B. - disse ele. - Sabe, aquele que roubou o verdadeiro medalhão?

Hermione fez que sim com a cabeça.

- Ele disse no bilhete que ia destruir o medalhão, não foi? Harry puxou sua mochila para perto e tirou de dentro a falsa Horcrux contendo o bilhete de R.A.B.

- ”Roubei a Horcrux verdadeira e pretendo destruí-la assim que puder” leu Harry em voz alta.

- Então, e se ele de fato a destruiu? - perguntou Ron.

- Ou ela — interrompeu-o Hermione.

- O que seja, seria uma a menos para se procurar! — concluiu Ron.

- Mas ainda iríamos tentar rastrear o medalhão verdadeiro, não?

- quis saber Hermione. - Para descobrir se foi ou não destruído.

- E quando o encontrarmos, como é que se destrói uma Horcrux? - perguntou Ron.

- Bem - começou Hermione —, andei pesquisando.

- Como? - admirou-se Harry. - Achei que não havia livros sobre Horcruxes na biblioteca.

- Não havia - esclareceu Hermione corando. - Dumbledore retirou todos, mas... mas não os destruiu.

Ron se sentou na cama de olhos arregalados.

- Pelas calças de Merlim, como foi que você conseguiu pôr a mão nesses livros sobre Horcruxes?

- Eu... não foi roubando! - respondeu ela, olhando de Harry para Ron com um ar de desespero. - Eles continuaram a ser livros da biblioteca, mesmo que Dumbledore os tenha retirado das prateleiras. Enfim, se ele realmente não quisesse que ninguém os pegasse, tenho certeza de que teria dificultado muito mais...

- Não fique enrolando! - exclamou Ron.

- Bem, foi fácil - disse Hermione com uma vozinha humilde. Lancei um Feitiço Convocatório. Sabem: Accio! E eles saíram voando pela janela do gabinete de Dumbledore para o dormitório das garotas.

- Mas quando foi que você fez isso? — perguntou Harry, olhando para a amiga ao mesmo tempo assombrado e incrédulo.

- Logo depois do... funeral - respondeu ela com uma vozinha ainda mais humilde. — Logo depois de combinarmos que iríamos deixar a escola para procurar as Horcruxes. Quando voltei para apanhar minhas coisas, me... simplesmente me ocorreu que, quanto mais soubéssemos sobre o assunto, melhor seria... e eu estava sozinha lá em cima... então tentei... e funcionou. Eles entraram voando direto pela janela aberta e eu... eu os guardei no malão.

A garota engoliu em seco e, então, justificou suplicante:

- Não acredito que Dumbledore se zangasse, não vamos usar a informação para fazer uma Horcrux, não é?

- Você está nos ouvindo reclamar? - perguntou Ron. - Afinal, onde estão esses livros?

Hermione procurou um pouco e tirou da pilha um grande livro, encadernado em couro preto já desbotado. Fez uma cara de nojo e estendeu-o cautelosamente como se fosse uma coisa recém-morta.

- Esse é o que dá instruções explícitas para se preparar uma Horcrux: Segredos das artes mais tenebrosas. É um livro horrível, realmente assustador, cheio de feitiços malignos. Fico pensando quando foi que Dumbledore o retirou da biblioteca... se foi só quando se tornou diretor.

Aposto como Voldemort copiou dele todas as instruções de que precisava.

- Por que então precisou perguntar a Slughorn como preparar uma Horcrux, se já tinha lido o livro? — perguntou Ron.

- Ele só procurou o professor para saber o que acontecia quando a pessoa subdividia a alma em sete pedaços — disse Harry. Dumbledore tinha certeza de que Riddle já sabia fazer uma Horcrux na época em que foi à sala de Slughorn. Acho que você tem razão, Hermione, é muito provável que tenha sido daí que ele tirou as informações.

- E quanto mais eu leio - continuou Hermione —, mais terrível a idéia me parece, e menos acredito que ele tenha realmente feito seis. O livro alerta para a instabilidade que a pessoa causa ao restante da alma dividindo-a, e isso para se fazer apenas uma Horcrux!

Harry lembrou-se de Dumbledore ter dito que Voldemort ultrapassara a ”esfera da maldade normal”.

- E não tem jeito de reintegrar todas as partes? — perguntou Ron.

- Tem - respondeu Hermione com um sorriso inexpressivo —, mas causaria uma dor lancinante.

- Por quê? Como se faz? - quis saber Harry.

- Remorso - esclareceu Hermione. - A pessoa precisa estar, de fato, arrependida do que fez. Tem um pé de página. Pelo que diz, a dor do processo pode destruí-la. Não sei por quê, não consigo ver Voldemort fazendo isso, e vocês?

- Não - respondeu Ron antes que Harry o fizesse. - E o livro diz como destruir Horcruxes?

- Diz - confirmou Hermione, agora virando as frágeis páginas como se examinasse entranhas em decomposição -, porque avisa aos bruxos das trevas que os feitiços com que se protegerem têm que ser excepcionalmente fortes. De tudo que li, o que Harry fez com o diário de Riddle foi uma das poucas maneiras infalíveis de destruir uma Horcrux.

- O quê, furar com uma presa de basilisco? - perguntou Harry.

- Ah, bom, que sorte a gente ter um estoque tão grande de presas de basilisco — comentou Ron. — Eu estava mesmo me perguntando o que íamos fazer com elas.

- Não precisa ser uma presa de basilisco — explicou Hermione, pacientemente. - Tem que ser alguma coisa tão destrutiva que a Horcrux não possa se auto-restaurar. O veneno de basilisco só tem um antídoto, e é incrivelmente raro...

- ... lágrimas de fênix — disse Harry.

- Exatamente - confirmou Hermione. - O problema é que há pouquíssimas substâncias tão destrutivas quanto o veneno de basilisco, e são todas muito perigosas para se carregar por aí. Mas é um problema que precisaremos resolver, porque romper, quebrar ou moer uma Horcrux não adianta. É preciso deixá-la sem possibilidade de se restaurar por magia.

- Mas, se a gente destrói o objeto em que está guardada — perguntou Ron -, por que o fragmento de alma não pode se mudar para outro lugar?

- Porque uma Horcrux é o absoluto oposto de um ser humano. Ao perceber que Harry e Ron pareciam confusos, Hermione se apressou a explicar:

- Vejam, se eu apanhasse uma espada neste minuto e transpassasse você, eu não danificaria sua alma.

- O que, com certeza, seria realmente um consolo para mim — disse Ron.

Harry riu.

- Devia ser mesmo! Mas o que quero demonstrar é que, seja o que for que aconteça ao seu corpo, sua alma continuará ilesa. Mas com uma Horcrux é o contrário. O fragmento de alma depende do objeto que o contém, do seu corpo encantado, para sobreviver. Do contrário, não sobreviverá.

- Aquele diário deu a impressão de morrer quando eu o perfurei — disse Harry, lembrando-se da tinta que jorrou como sangue de suas páginas e os gritos do fragmento de alma de Voldemort ao desaparecer.

- E, uma vez que o diário foi completamente destruído, o fragmento nele contido não pôde sobreviver. Ginny tentou se livrar do diário antes de você, jogando-o no vaso e dando descarga, mas, obviamente, ele voltou novo em folha.

- Espere aí - disse Ron, franzindo a testa. — O pedacinho de alma naquele diário estava possuindo a Ginny, não? Como é isso, então?

- Enquanto o objeto mágico continuar intacto, o pedacinho de alma nele pode entrar em uma pessoa e tornar a sair se ela chegar muito perto do objeto. Não precisa segurá-lo muito tempo, não é o toque que importa - acrescentou ela, antes que Ron pudesse falar. — E a proximidade emocional. Ginny abriu o coração para o diário, tornando-se, assim, incrivelmente vulnerável. A pessoa se mete em apuros quando se apega demais ou passa a depender de uma Horcrux.

- Fico imaginando como foi que Dumbledore destruiu o anel — disse Harry. - Por que não perguntei a ele? Realmente nunca...

Sua voz foi morrendo: pensou nas muitas coisas que deveria ter perguntado a Dumbledore e como, desde sua morte, lhe parecia que tinha desperdiçado tantas oportunidades, enquanto o diretor era vivo, para descobrir mais... descobrir tudo...

O silêncio foi quebrado quando a porta do quarto se escancarou, produzindo um estrondo de sacudir as paredes. Hermione gritou e deixou cair o Segredos das artes mais tenebrosas; Crookshanks disparou para baixo da cama, bufando indignado. Ron pulou da cama, escorregou em uma embalagem velha de sapos de chocolate e bateu a cabeça na parede oposta, e Harry, instintivamente, se jogou para apanhar sua varinha antes de perceber que estava vendo a sra. Weasley, que tinha os cabelos revoltos e o rosto contorcido de raiva.

- Lamento interromper essa reuniãozinha íntima — vociferou ela, com a voz trêmula. — Tenho certeza de que vocês precisam de descanso... mas há presentes de casamento empilhados no meu quarto que precisam ser separados, e tive a impressão de que vocês concordaram em ajudar.

- Ah, sim - respondeu Hermione aterrorizada, levantando-se depressa e fazendo os livros voarem para todos os lados. - Ajudaremos... pedimos desculpas...

Com um olhar aflito para Harry e Ron, a garota saiu correndo do quarto atrás da sra. Weasley.

- É como se a gente fosse um elfo doméstico — queixou-se Ron em voz baixa, ainda massageando a cabeça e saindo com Harry atrás das duas. - Só que sem a satisfação no trabalho. Quanto mais cedo esse casamento terminar, mais feliz eu vou ficar.

- E — concordou Harry —, então não teremos mais nada para fazer exceto procurar Horcruxes... vai parecer até que estamos de férias, não é?

Ron começou a rir, mas, ao ver a enorme pilha de presentes de casamento que os esperava no quarto da sra. Weasley, parou no ato.

Os Delacour chegaram na manhã seguinte às onze horas. A essa altura, Harry, Ron, Hermione e Ginny já estavam sentindo certa raiva da família de Fleur; foi de má vontade que Ron subiu as escadas batendo os pés para calçar meias iguais e Harry tentou baixar os cabelos. Quando foram considerados bem arrumados, os garotos saíram em fila para esperar as visitas no quintal batido de sol.

Harry nunca vira a casa tão arrumada. Os caldeirões enferrujados e as botas velhas que, em geral, coalhavam a escada para a porta dos fundos tinham desaparecido e sido substituídos por dois grandes vasos com arbustos tremulantes a cada lado da porta; embora não houvesse brisa, as folhas balançavam preguiçosamente, produzindo um belo efeito ondulante. As galinhas tinham sido trancadas no galinheiro, o quintal varrido e o jardim anexo fora despojado das folhas velhas, podado e, de um modo geral, cuidado, embora Harry, que o preferia sem trato, achasse que o jardim parecia abandonado sem o seu contingente normal de gnomos saltitantes.

O garoto perdera a noção da quantidade de feitiços de segurança que tinham sido lançados sobre A Toca, tanto pela Ordem quanto pelo Ministério; só sabia que tinham inviabilizado a possibilidade de alguém viajar por magia até ali. O sr. Weasley, portanto, fora esperar os Delacour no alto de um morro próximo, onde a família chegaria por Chave de Portal. O primeiro sinal de sua aproximação foi uma gargalhada anormalmente aguda, dada pelo sr. Weasley, soube-se depois, que apareceu ao portão em seguida, carregado de malas à frente de uma bela loura de longas vestes verde-folha, que só poderia ser a mãe de Fleur.

— Maman! - exclamou Fleur, correndo para abraçá-la. - Papa!

O sr. Delacour não era nem de longe atraente como sua mulher; era uma cabeça mais baixo que ela, além de extremamente gordo, e usava uma barbicha pontuda e preta. Parecia, contudo, uma pessoa bem-humorada. Sacudindo-se nas botas de salto em direção à sra. Weasley, ele lhe aplicou dois beijos em cada bochecha, deixando-a perturbada.

— Vocês tiverram tante trabalhe — disse ele com sua voz grave. — Fleur nos contou qu’andaram trabalhando muite mesme.

- Ah, não foi nada, absolutamente nada! — gorjeou a sra. Weasley.

- Não foi trabalho algum!

Ron aliviou sua frustração mirando um pontapé em um gnomo que estava espiando atrás de um dos vasos com arbustos tremulantes.

- Minhe carra senhorra! - replicou o sr. Delacour, ainda segurando ia mão da sra. Weasley entre as suas, muito gorduchas, e dando-lhe um radiante sorriso. - Nos sentimes muite honrrrades com a eminente união Ide nosses families! Deixe-me arpresentarr-lhe minhe mulherr, .Apolline.

I Madame Delacour adiantou-se como se deslizasse e se curvou I para beijar a sra. Weasley também.

- Enchantée — disse ela. - Se marrido esteve me contanto histórrias muite diverrtidas!

O sr. Weasley soltou uma risada exagerada; a sra. Weasley lançoulhe um olhar que o fez calar-se imediatamente e assumir uma expressão mais apropriada a uma visita a um amigo doente no hospital.

- E, naturalmente, já conhecem minhe filhinea Gabrrielle! — disse Monsieur Delacour. Gabrielle era uma Fleur em miniatura; onze anos, cabelos louros platinados, a garota dirigiu um sorriso ofuscante à sra. Weasley, abraçou-a e, pestanejando, lançou um olhar intenso a Harry. Ginny pigarreou alto.

- Então, entrem, por favor! - convidou a sra. Weasley animada, levando os hóspedes para dentro, depois de muitos ”Não, por favor!” e ”Primeiro os senhores!” e ”De maneira alguma!”.

Os Delacour, eles não tardaram a perceber, eram hóspedes prestativos e agradáveis. Mostravam-se satisfeitos com tudo e desejosos de ajudar nos preparativos do casamento. Monsieur Delacour considerou tudo, desde a distribuição de lugares até os sapatos das damas d’e honra, ”charmant!”. Madame Delacour era muito talentosa com feitiços domésticos e deixou o forno limpo em segundos; Gabrielle seguia a irmã mais velha pela casa, tentando ajudar no que pudesse, tagarelando em um francês muito rápido.

Embaixo, A Toca não fora construída para acomodar tanta gente. O casal Weasley agora estava dormindo na sala de visitas depois de calar os protestos de Monsieur e Madame Delacour e insistir que os dois ocupassem seu quarto. Gabrielle ia dormir com Fleur no antigo quarto de Percy, e bill dividiria o quarto com Charlie, seu padrinho de casamento, quando ele chegasse da Romênia.

As oportunidades de se reunirem para fazer planos praticamente deixaram de existir, e foi vpor desespero que Harry, Ron e Hermione passaram a se oferecer para dar comida às galinhas só para fugir da casa demasiado cheia.

- Nem assim ela vai nos deixar em paz! — reclamou Ron quando a segunda tentativa de se encontrarem no quintal foi frustrada pelo aparecimento da sra. Weasley, carregando um grande cesto de roupa lavada nos braços.

- Ah, ótimo, vocês já alimentaram as galinhas - disse ao se aproximar. - É melhor prendê-las outra vez no galinheiro antes que os homens cheguem amanhã... para armar a tenda para o casamento explicou, parando e se apoiando à parede da casa. Ela parecia exausta. - Tendas Mágicas Millamant... eles são muito bons. bill vai acompanhá-los... é melhor você não sair de casa enquanto estiverem aqui, Harry. Devo confessar que complica bastante organizar um casamento, com tantos feitiços de segurança pela propriedade.

- Lamento muito — respondeu Harry com humildade.

- Ah, não seja tolo, querido! — exclamou a sra. Weasley imediatamente. - Não quis me referir... bem, a sua segurança é muito mais importante! Aliás, eu estava pensando em lhe perguntar como vai querer comemorar o seu aniversário, Harry Afinal, dezessete anos é uma data importante...

- Não quero incomodar - disse Harry depressa, imaginando a pressão adicional que isso traria a todos. - Realmente, sra. Weasley, um jantar normal seria ótimo... é a véspera do casamento...

- Ah, bem, se você tem certeza, querido. Vou convidar Remus e Tonks, posso? E Hagrid?

- Seria ótimo. Mas, por favor, não se incomode demais.

- Não, não mesmo... não será incômodo...

A bruxa lhe lançou um olhar demorado e inquisitivo, depois sorriu com certa tristeza e, se aprumando, afastou-se. Harry observou-a acenar a varinha quando se aproximou do varal, fazendo as roupas úmidas se erguerem no ar para se pendurarem, e, de repente, foi invadido por uma onda de remorso pela inconveniência e o pesar que estava lhe causando.

 

O TESTAMENTO DE DUMBLEDORE

Ele estava caminhando por uma estrada montanhosa, à luz fria e azulada do alvorecer. Muito abaixo, envolta em névoa, via-se a sombra de uma aldeia. O homem que ele procurava estaria lá? O homem de quem ele precisava tanto que nem conseguia pensar em muito mais, o homem que guardava a resposta para o seu problema...

— Ei, acorde.

Harry abriu os olhos. Estava novamente no sótão, deitado na cama de armar, no encardido quarto de Ron. O sol ainda não nascera e o quarto ainda estava escuro. pigwidgeon dormia com a cabeça sob sua asinha. A cicatriz na testa de Harry formigava.

— Você estava falando enquanto dormia.

— Estava?

— Hum-hum. Gregorovitch. Você ficou repetindo Gregorovitch. Harry estava sem óculos; o rosto de Ron lhe parecia meio borrado.

— Quem é Gregorovitch?

— Não sei, sei? Você é que estava falando.

Harry esfregou a testa, pensando. Tinha uma vaga idéia de que ouvira o nome antes, mas não conseguia lembrar onde.

— Acho que Voldemort está procurando por ele.

— Coitado - comentou Ron com veemência.

Harry sentou-se, ainda esfregando a cicatriz, agora completamente acordado. Tentou se lembrar exatamente do que vira no sonho, mas tudo o que lhe veio à mente foi um horizonte montanhoso e os contornos de um lugarejo aninhado em um vale profundo.

— Acho que ele está no exterior.

— Quem, Gregorovitch?

— Voldemort. Acho que está em algum lugar no exterior. Não parecia a Inglaterra.

- Você acha que estava lendo a mente dele outra vez? Ron pareceu preocupado.

- Faz um favor, não comenta com a Hermione - pediu Harry. Não sei como é que ela espera que eu pare de ver coisas quando estou dormindo...

Ele ergueu os olhos para a gaiola de pigwidgeon, pensando... por que lhe pareceu reconhecer o nome Gregorovitch?

- Acho — disse lentamente — que tem alguma coisa com quidditch. Há uma ligação, mas não consigo... não consigo saber qual é.

- quidditch?! - exclamou Ron. - Será que você não está pensando em Gorgovitch?

- Quem?

- Dragomir Gorgovitch, o artilheiro, teve o passe comprado pelo Chudley Cannons há dois anos por um preço recorde. É também recordista do maior número de goles perdidas em uma só temporada.

- Não, decididamente não estou pensando em Gorgovitch.

- Eu também tento não pensar. Enfim, feliz aniversário!

- Uau... tem razão, tinha me esquecido! Fiz dezessete anos! Harry apanhou a varinha ao lado da cama de armar, apontou-a

para a escrivaninha cheia onde deixara seus óculos e ordenou:

- Accio óculos! - Embora eles estivessem apenas trinta centímetros de distância, havia algo extremamente prazeroso em ver os óculos voando em sua direção, pelo menos até lhe espetarem um olho.

- Legal! - Riu Ron.

Contente com a remoção do rastreador, Harry fez os pertences de Ron voarem pelo quarto e acordou pigwidgeon, que bateu as asas alvoroçado na gaiola. Harry também experimentou amarrar os cordões do tênis usando magia (o nó resultante precisou de vários minutos para ser desfeito manualmente) e, por puro prazer, mudou as vestes cor de laranja para azul berrante nos pôsteres de Ron dos Chudley Cannons.

- Mas eu desabotoaria a braguilha com a mão - aconselhou Ron rindo, fazendo com que Harry imediatamente a verificasse. — Tome o seu presente. Abra-o aqui, não é para minha mãe ver.

- Um livro? - admirou-se Harry, ao receber o embrulho retangular. — Foge um pouco à tradição, não?

- Não é um livro comum - comentou Ron. - É ouro puro: Doze maneiras infalíveis de encantar bruxas. Explica tudo que você precisa saber sobre garotas. Se eu ao menos o tivesse lido no ano passado, saberia exatamente como me livrar de Lavender e como engrenar com a... bem, Fred e George me deram um exemplar, e aprendi um bocado. Você vai ficar surpreso, não trata só de feitiços com varinhas.

Quando chegaram à cozinha, encontraram uma pilha de presentes aguardando sobre a mesa. bill e Monsieur Delacour estavam terminando o café da manhã, e a sra. Weasley conversava com eles enquanto cuidava da frigideira.

- Arthur me pediu para lhe desejar felicidades pelo seu décimo sétimo aniversário, Harry - disse a sra. Weasley abrindo um radiante sorriso. - Precisou sair cedo para o trabalho, voltará para o jantar. O presente de cima é o nosso.

Harry se sentou, apanhou o embrulho quadrado que ela apontara e abriu-o. Dentro havia um relógio de pulso muito parecido com o que a sra. Weasley e o marido tinham dado a Ron aos dezessete anos: era de ouro e tinha estrelas girando no mostrador em vez de ponteiros.

— É tradição dar a um bruxo um relógio quando ele atinge a maioridade - explicou ela, observando-o ansiosamente do fogão. — Não é exatamente novo como o de Ron, pertenceu ao meu irmão Fabian, e ele não era muito cuidadoso com os seus pertences, tem um amassado na parte de trás, mas...

O resto do discurso se perdeu; Harry se levantou e abraçou-a.

Tentou colocar muitas coisas não ditas naquele abraço e ela talvez

tenha entendido, porque afagou seu rosto, sem graça, e, quando o garoto a largou acenou com a varinha meio a esmo e fez meio pacote de bacon saltar da frigideira para o chão.

- Feliz aniversário, Harry! - desejou Hermione, entrando apressada na cozinha e acrescentando o seu presente ao topo da pilha. — Não é muita coisa, mas espero que goste. Que foi que você deu a ele? - perguntou a Ron, que pareceu não tê-la ouvido.

— Anda logo, abre o presente da Hermione! - disse Ron.

A garota comprara um novo bisbilhoscópio para Harry. Os outros embrulhos continham um barbeador encantado de bill e I Fleur (”Ah, sim, isse vai lhe darr o barrbearr mais suave qu’ você já fez”, assegurou-lhe Monsieur Delacour, ”mas você prrecisa dizerr exatamente o que querr... de outre mode vai se verr com menos pêlos do que gostarria...”), bombons do casal Delacour e uma enorme caixa com as últimas Gemialidades Weasley, de Fred e George.

Harry, Ron e Hermione não se demoraram à mesa, porque a chegada de Madame Delacour, Fleur e Gabrielle deixou a cozinha muito cheia e desconfortável.

- Eu guardo isso para você — disse Hermione animada, tirando os presentes dos braços de Harry enquanto os três voltavam para o andar de cima. - Quase terminei, só estou esperando suas calças acabarem de lavar, Ron...

A resposta engrolada de Ron foi interrompida pela abertura de uma porta no primeiro andar.

- Harry, você pode vir aqui um instante?

Era Ginny. Ron parou abruptamente, mas Hermione agarrou-o pelo cotovelo e puxou-o escada acima. Nervoso, Harry entrou com Ginny no quarto.

Nunca estivera ali antes. Era pequeno, mas claro.

Em uma parede, havia um grande pôster da banda bruxa The Weird sisters e, na outra, uma foto de Gwenog Jones, capitã do time de quidditch Harpias de Holyhead. A escrivaninha ficava de frente para a janela aberta, por onde se via o pomar onde ele e Ginny tinham certa vez jogado quidditch em duplas com Ron e Hermione, e que agora acolhia uma tenda branco-pérola. A bandeira dourada no alto alcançava a janela de Ginny.

A garota ergueu o rosto para Harry, tomou fôlego e disse:

- Feliz décimo sétimo!

- Ah... obrigado.

Ela continuou encarando-o com firmeza; ele, no entanto, achou difícil sustentar aquele olhar; era o mesmo que tentar fixar uma luz brilhante.

- Bonita vista - disse sem graça, apontando para a janela. Ginny não passou recibo. Ele não podia culpá-la.

- Não consegui pensar no que lhe dar — começou.

- Você não tinha que me dar nada. A garota ignorou isso também.

- Não sabia o que poderia ser útil. Nada muito grande, porque você não poderia levar na viagem.

Ele experimentou olhá-la. Ginny não estava chorosa; essa era uma das suas qualidades: raramente chorava. Por vezes ocorria a Harry que o fato de ela ter seis irmãos a tornara forte.

A garota se aproximou dele mais um passo.

- Então, pensei que gostaria de lhe dar uma coisa que fizesse você se lembrar de mim, sabe, se encontrar uma weela dessas quando estiver fora, fazendo seja lá o que vai fazer.

- Acho que as oportunidades de sair com garotas vão ser mínimas nessa viagem, para ser sincero.

- Esse é o lado bom que estive procurando - sussurrou ela e, em seguida, beijou-o como nunca o beijara antes, e Harry retribuiu o beijo, e sentiu uma felicidade que o fez esquecer todo o resto, melhor do que qualquer uísque de fogo; ela era a única realidade no mundo, Ginny, a sensação do seu corpo, uma das mãos em suas costas e a outra em seus cabelos perfumados...

A porta se escancarou contra a parede e os dois se separaram sobressaltados.

- Ah - disse Ron incisivamente. - Desculpem.

- Ron! - Hermione vinha logo atrás, ligeiramente ofegante. Fez-se um silêncio constrangido, quando Ginny disse inexpressivamente:

- Bem, enfim, Harry, feliz aniversário.

As orelhas de Ron ficaram vermelho-vivo; Hermione parecia nervosa. Harry teve vontade de bater a porta na cara deles, mas era como se uma corrente fria de ar tivesse invadido o quarto e seu momento de glória espoucasse no ar como uma bolha de sabão. Todas as razões para terminar o namoro com Ginny, para se distanciar dela, pareciam ter entrado no quarto com Ron, e seu êxtase de felicidade se esvaíra.

Ele olhou para Ginny, querendo lhe dizer alguma coisa, sem saber muito o quê, mas ela lhe virou as costas. Harry pensou que desta vez ela iria sucumbir às lágrimas. E ele não poderia fazer nada para consolá-la na frente de Ron.

- A gente se vê mais tarde - disse ele, e acompanhou os amigos que saíam do quarto.

Ron desceu pisando firme, passou pela cozinha cheia e saiu para o quintal, Harry seguiu-o de perto e Hermione, quase correndo, foi atrás dos dois com ar assustado.

Quando chegaram ao isolamento do gramado recém-aparado, Ron se voltou para Harry.

- Você deu o fora em Ginny. Que está fazendo agora se metendo com ela?

- Não estou me metendo com ela - retorquiu Harry no momento em que Hermione os alcançava.

- Ron...

O garoto, porém, ergueu a mão pedindo que a amiga se calasse.

- Ela ficou realmente arrasada quando você terminou...

- Eu também fiquei. Você sabe por que terminei, e não foi porque quisesse.

- É, mas agora fica de beijos e abraços, renovando as esperanças da minha irmã...

- Ela não é idiota, sabe que não pode ser, não está esperando que a gente... a gente acabe casando nem...

Ao dizer isso, formou-se em sua mente uma imagem vivida de Ginny de vestido branco, casando com um desconhecido repelente e sem feições. E em um instante vertiginoso ele pareceu entender: o futuro dela era livre e sem compromissos, enquanto o dele... tinha apenas Voldemort no horizonte.

- Se você não pára de se atracar com a Ginny sempre que tem uma chance...

- Não vai acontecer outra vez - retrucou Harry com rispidez. O dia estava claro, mas ele sentiu como se o sol tivesse desaparecido. -O.k.?

Ron fez uma cara entre ressentida e sem graça; balançou-se sobre os pés para a frente e para trás por um instante, então disse:

- Certo, então, bem, é... isso.

Ginny não buscou outro encontro a sós com Harry o resto do dia, nem, por olhar ou gesto, demonstrou que tivessem tido mais do que uma conversa cordial em seu quarto. A chegada de Charlie foi um alívio para Harry. Divertiu-o observar a sra. Weasley forçar o filho a sentar em uma cadeira, erguer a varinha ameaçadoramente e anunciar que ia lhe fazer um corte de cabelos decente.

Como o aniversário de Harry teria feito a cozinha d’A Toca explodir de tanta gente, mesmo antes da chegada de Charlie, Lupin, Tonks e Hagrid, foram colocadas várias mesas ao comprido, no jardim.

Fred e George conjuraram algumas lanternas roxas, enfeitadas com um grande número 1 7 para pendurar no ar sobre as mesas. Graças aos cuidados da sra. Weasley, o ferimento de George estava sarando, mas Harry ainda não se acostumara com o buraco escuro na cabeça do amigo, apesar das muitas piadas dos gêmeos sobre a mutilação.

Hermione fez irromperem da sua varinha serpentinas roxas e douradas e arrumou-as artisticamente sobre árvores e arbustos.

- Bonito - comentou Ron, quando a garota, com um floreio final da varinha, dourou as folhas da macieira-brava. - Você realmente tem gosto para esse tipo de coisa.

- Muito obrigada, Ron! - disse Hermione, parecendo ao mesmo tempo contente e um pouco envergonhada. Harry deu as costas aos dois, sorrindo para si mesmo. Ocorrera-lhe a idéia cômica de que encontraria um capítulo sobre elogios quando tivesse tempo de folhear o seu exemplar de Doze maneiras infalíveis de encantar bruxas; o seu olhar encontrou o de Ginny e ele sorriu para a garota, antes de se lembrar da promessa que fizera a Ron e depressa puxar conversa com Monsieur Delacour.

- Abram caminho, abram caminho! - cantarolou a sra. Weasley, passando pelo portão com algo que lembrava um snitch de ouro do tamanho de uma bola de piscina flutuando à sua frente. Harry levou alguns segundos para entender que era o seu bolo de aniversário, que a sra. Weasley trazia suspenso com a varinha, para não se arriscar carregá-lo pelo terreno acidentado. Quando o bolo finalmente aterrissou no meio da mesa, Harry elogiou:

- Fantástico, sra. Weasley!

- Ah, não é nada, querido - respondeu-lhe a bruxa carinhosamente. Por cima do ombro da mãe, Ron ergueu o polegar para Harry e murmurou: ”Beleza.”

Por volta das sete horas, todos os convidados tinham chegado e sido levados ao interior da casa por Fred e George, que os esperavam no fim da estradinha. Hagrid enfatiotou-se para a ocasião com o seu melhor, mas medonho, terno peludo marrom. Embora Lupin sorrisse ao apertar sua mão, Harry achou-o com um ar bastante infeliz. Era muito esquisito; ao seu lado, Tonks parecia simplesmente radiante.

- Feliz aniversário, Harry — ela lhe desejou, abraçando-o com força.

- Dezessete anos, hein! - exclamou Hagrid aceitando um copo de vinho do tamanho de um balde das mãos de Fred. — Faz seis anos que nos conhecemos, Harry, lembra?

- Vagamente — respondeu Harry, rindo para o amigo. — Você não derrubou a porta de casa, botou um rabo de porco em Dudley e disse que eu era bruxo?

- Esqueci os detalhes - comentou Hagrid com uma gargalhada. — Tudo bem, Ron, Hermione?

- Estamos ótimos - respondeu Hermione. - E você, como vai?

- Hum, nada mal. Andei ocupado, temos uns unicórnios recémnascidos, mostro a vocês quando voltarem... — Harry evitou os olhares dos amigos enquanto Hagrid procurava alguma coisa no bolso. Tome aqui... eu não sabia o que comprar para você, então me lembrei disso. - Ele puxou uma bolsinha ligeiramente felpuda com um longo cordão, evidentemente concebida para usar ao pescoço. - Pele de briba. Esconda alguma coisa aí e ninguém, exceto o dono, pode tirar. São raras, essas.

- Hagrid, obrigado!

- Não é nada - disse Hagrid, com um aceno da mão enorme como a tampa de uma lata de lixo. - E lá está o Charlie! Sempre gostei dele... ei! Charlie!

O rapaz se aproximou, passando a mão, pesaroso, pelo novo corte de cabelos brutalmente curto. Ele era mais baixo do que Ron, mais atarracado, e tinha inúmeras queimaduras e arranhões nos braços musculosos.

- Oi, Hagrid, como vai a vida?

- Faz tempo que ando pensando em escrever pra você. Como vai o Norbert?

- Norbert? - Riu-se Charlie. - O dragão norueguês de dorso cristado? Agora ele se chama Norberta.

- Quê... Norberto é uma fêmea?

- Sim, senhor.

- Como é possível saber? — perguntou Hermione.

- São muito mais agressivos - respondeu Charlie. Ele deu uma olhada por cima do ombro e baixou a voz. — Gostaria que papai chegasse logo. Mamãe está ficando impaciente.

Todos olharam para a sra. Weasley. Ela estava tentando conversar com Madame Delacour, mas lançava olhares constantes para o portão.

- Acho que é melhor começarmos sem o Arthur - anunciou para os convidados no jardim, depois de alguns momentos. — Ele deve ter sido retido... ah!

Todos viram ao mesmo tempo: um rastro de luz cortou o jardim He parou sobre a mesa, onde se transformou em uma doninha prateada que se ergueu nas patas traseiras e falou com a voz do sr. Weasley:

- O ministro da Magia está vindo comigo.

O Patrono se dissolveu no ar, deixando a família de Fleur assombrada, olhando para o lugar em que o bicho desaparecera.

- Nós não devíamos estar aqui - disse Lupin na mesma hora. Harry... lamento... explicarei outra hora...

E, agarrando Tonks pelo pulso, levou-a embora; ao chegarem à cerca, os dois a transpuseram e desapareceram. A sra. Weasley demonstrava espanto.

- O ministro... mas por quê... Não estou entendendo...

Não houve, porém, tempo para discutirem o assunto; um segundo depois, o sr. Weasley apareceu ao portão acompanhado por Rufus Scrimgeour, instantaneamente reconhecível pela juba grisalha.

Os recém-chegados atravessaram o quintal e, com passos firmes, se dirigiram ao jardim e à mesa iluminada pelas lanternas, onde todos aguardavam em silêncio, observando sua aproximação. Quando Scrimgeour entrou no perímetro iluminado pelas lanternas, Harry constatou que o ministro parecia muito mais velho do que da última vez que tinham se visto, magro e carrancudo.

- Desculpem a intrusão - disse Scrimgeour, ao parar diante da mesa. — Principalmente porque posso ver que estou penetrando em uma festa para a qual não fui convidado.

O seu olhar se demorou por um momento no gigantesco snitch de ouro.

- Muitos anos de vida.

- Obrigado — disse Harry.

- Preciso dar uma palavrinha com você em particular - continuou Scrimgeour. — E também com o sr. Ronald Weasley e a srta. Hermione Granger.

- Nós?! - exclamou Ron em tom surpreso. - Por que nós?

- Explicarei quando estivermos em lugar mais reservado. Há na Mbasa um lugar assim? — perguntou ao sr. Weasley.

— Naturalmente - disse o sr. Weasley, parecendo nervoso. - A... a sala de visitas, pode usá-la.

— Mostre-me onde é - disse Scrimgeour a Ron. — Não haverá necessidade de nos acompanhar, Arthur.

Harry viu o sr. Weasley trocar um olhar preocupado com a mulher, quando ele, Ron e Hermione se levantaram. Enquanto se dirigiam à casa em silêncio, Harry sabia que os outros dois estavam pensando o mesmo que ele: Scrimgeour devia, de algum modo, ter descoberto que estavam planejando abandonar Hogwarts.

O ministro não falou quando passaram pela cozinha desarrumada e entraram na sala de visitas d’A Toca. Embora o jardim estivesse iluminado por uma luz noturna suave e dourada, já estava escuro ali dentro: Harry apontou a varinha para os lampiões, ao entrar, e fezse luz na sala gasta mas aconchegante. Scrimgeour sentou-se na poltrona de molas frouxas que o sr. Weasley normalmente ocupava, deixando que Harry, Ron e Hermione se apertassem lado a lado no sofá. Uma vez acomodados, o ministro falou:

— Tenho algumas perguntas a fazer aos três, mas acho que será melhor fazê-las separadamente. Se vocês dois — ele apontou para Harry e Hermione - puderem esperar lá em cima, começarei pelo Ronald.

— Não vamos a lugar algum — disse Harry, secundado por um vigoroso aceno de cabeça de Hermione. — O senhor pode falar com todos juntos ou não falar com nenhum.

Scrimgeour lançou a Harry um frio olhar de avaliação. O garoto teve a impressão de que o ministro estava refletindo se valeria a pena iniciar as hostilidades tão cedo.

— Muito bem, então, juntos - disse ele, sacudindo os ombros. E pigarreou. — Estou aqui, como bem sabem, por causa do testamento de Albus Dumbledore.

Harry, Ron e Hermione se entreolharam.

— Pelo visto é surpresa! Vocês não sabiam que Dumbledore tinha lhes deixado alguma coisa?

— A... aos três? — perguntou Ron. — A mim e Hermione também?

— A todos...

Harry, no entanto, interrompeu-o.

— Já faz mais de um mês que Dumbledore faleceu. Por que demoraram tanto para nos entregar o que ele nos deixou?

- Não é óbvio?! - exclamou Hermione, antes que Scrimgeour pudesse responder. - Queriam examinar seja lá o que ele tenha nos deixado. O senhor não tinha o direito de fazer isso! - Sua voz tremia levemente.

- Tinha todo o direito — disse Scrimgeour sumariamente. - O Decreto sobre Confisco Justificável dá ao ministro o poder de confiscar os bens de um testamento...

- A lei foi criada para impedir os bruxos das trevas de legarem seus objetos — retorquiu Hermione -, e o Ministério precisa ter fortes provas de que os bens do falecido são ilegais antes de apreendêlos! O senhor está nos dizendo que julgou que Dumbledore estivesse tentando nos passar objetos malditos?

- Srta. Granger, está pretendendo fazer carreira em Direito da Magia?

- Não, não estou — retrucou Hermione. - Tenho esperança de fazer algum bem no mundo!

Ron riu. Os olhos de Scrimgeour piscaram em sua direção e tornaram a se desviar quando Harry falou.

- Então, por que resolveu nos entregar o que nos pertence agora? Não conseguiu pensar em um pretexto para manter os objetos em seu poder?

- Não, deve ser porque os trinta e um dias venceram - respondeu Hermione imediatamente. - O Ministério não pode reter objetos por prazo superior, a não ser que sejam comprovadamente perigosos. Certo?

- Você diria que era íntimo de Dumbledore, Ronald? - perguntou Scrimgeour, ignorando Hermione. Ron pareceu surpreso.

- Eu? Não... muito... era sempre Harry quem...

Ron olhou para os amigos e viu Hermione lhe dando aquele olhar ”cale-já-a-boca!”, mas o estrago já fora feito: Scrimgeour fez cara de quem acabara de ouvir exatamente o que tinha esperado e queria ouvir. Avançou na deixa de Ron como uma ave de rapina.

- Se você não era muito íntimo de Dumbledore, como explica que tenha se lembrado de você no testamento? Ele deixou excepcionalmente pouco a indivíduos. A maior parte dos seus bens... sua biblioteca particular, seus instrumentos mágicos e outros pertences... (oram legados a Hogwarts. Por que acha que mereceu destaque?

— Eu... não sei - respondeu Ron. - Quando digo que não éramos íntimos... Quero dizer, acho que ele gostava de mim...

— Você está sendo modesto, Ron - interveio Hermione. — Dumbledore gostava muito de você.

Isto era exagerar a verdade quase ao ponto de ruptura; pelo que Harry sabia, Ron e Dumbledore nunca tinham estado a sós, e o contato direto entre diretor e aluno fora mínimo. Contudo, Scrimgeour não parecia estar escutando. Meteu a mão sob a capa e puxou uma bolsa de cordões muito maior do que a que Hagrid dera a Harry. Da bolsa, tirou um rolo de pergaminho, que abriu e leu em voz alta.

— ”Últimas vontades de Albus Parsiphal Wulfric Brian Dumbledore...”, sim, aqui está... ”a Ronald Weasley, deixo o meu desiluminador, na esperança de que se lembre de mim quando usá-lo.”

Scrimgeour tirou da bolsa um objeto que Harry já vira: parecia um isqueiro de prata, mas tinha, sabia ele, o poder de extinguir toda a luz de um lugar e restaurá-la com um simples clique. Scrimgeour se inclinou para a frente e passou o desiluminador a Ron, que o recebeu e examinou entre os dedos com ar de perplexidade.

— Isto é um objeto valioso — comentou Scrimgeour, observando Ron. - Talvez seja único no mundo. Com certeza foi projetado pelo próprio Dumbledore. Por que ele teria lhe legado algo tão raro?

Ron sacudiu a cabeça, aturdido.

— Dumbledore deve ter tido milhares de alunos - insistiu Scrimgeour. — Contudo, os únicos de que se lembrou em seu testamento foram vocês três. Por que será? Que uso ele terá pensado que o senhor daria a esse desiluminador, sr. Weasley?

— Apagar luzes, suponho — murmurou Ron. - Que mais eu poderia fazer com ele?

Evidentemente Scrimgeour não teve outras sugestões a dar. Depois de observar Ron com os olhos semicerrados por um momento, voltou sua atenção para o testamento de Dumbledore.

— ”Para a srta. Hermione Granger, deixo o meu exemplar de Os contos de Beedle, o bardo, na esperança de que ela o ache divertido e instrutivo.”

Scrimgeour apanhou, então, na bolsa um livrinho que parecia tão antigo quanto o Segredos das artes mais tenebrosas. A encadernação estava manchada e descascando em alguns pontos.

Hermione recebeu-o do ministro em silêncio. Segurou o livro no colo e contemplou-o. Harry viu que o título estava escrito em runas; nunca tinha aprendido a lê-las. Enquanto ele observava, uma lágrima caiu sobre os símbolos gravados em relevo.

- Por que acha que Dumbledore lhe deixou esse livro, srta. Granger? - perguntou Scrimgeour.

- Ele... ele sabia que eu gostava de ler - respondeu a garota com a voz empastada, enxugando os olhos nas mangas da roupa.

- Mas por que esse livro em especial?

- Não sei. Deve ter pensado que eu gostaria de lê-lo.

- Alguma vez discutiu códigos ou outros meios de transmitir mensagens secretas com Dumbledore?

- Não, nunca - disse Hermione, ainda enxugando as lágrimas na manga. - E se o Ministério não encontrou nenhum código secreto nesse livro em trinta e um dias, duvido que eu vá encontrar.

A garota engoliu um soluço. Os três estavam sentados tão espremidos que Ron teve dificuldade em puxar o braço e passá-lo pelos ombros de Hermione. Scrimgeour tornou a consultar o testamento.

- ”A Harry Potter” — leu ele, e as entranhas do garoto se contraíram com repentina excitação — ”deixo o snitch de ouro que ele capturou em seu primeiro jogo de quidditch em Hogwarts, para lembrar-lhe as recompensas da perseverança e da competência.”

Quando Scrimgeour tirou a bolinha de ouro do tamanho de uma noz, suas asas de prata esvoaçaram levemente e Harry não pôde deixar de sentir um definitivo anticlimax.

- Por que Dumbledore lhe deixou este snitch? — perguntou Scrimgeour.

- Não faço a menor idéia — respondeu Harry. - Pelas razões que o senhor acabou de ler, suponho... para me lembrar o que se pode obter quando se... persevera e o que mais seja.

- Então você acha que é apenas uma lembrança simbólica?

- Suponho que sim. Que mais poderia ser?

- Sou eu quem faz as perguntas — disse Scrimgeour, puxando sua cadeira para mais perto do sofá. A noite caía lá fora; a tenda vista da janela se elevava fantasmagoricamente branca acima da cerca.

- Reparei que o seu bolo de aniversário tem a forma de um snitch de ouro - disse o ministro. — Por quê?

Hermione riu ironicamente.

— Ah, não pode ser uma alusão ao fato de Harry ser um grande seeker, isso seria óbvio demais. Deve haver uma mensagem secreta de Dumbledore escondida no glacê!

— Não acho que haja nada escondido no glacê - retrucou Scrimgeour -, mas um snitch seria um esconderijo muito bom para um pequeno objeto. A senhorita certamente sabe por quê.

Harry sacudiu os ombros. Hermione, no entanto, respondeu ao ministro: ocorreu-lhe que responder às perguntas com acerto era um hábito tão arraigado que a amiga não conseguia controlar o impulso.

— Porque os snitch guardam na memória o toque humano.

— Quê?! - exclamaram Harry e Ron juntos; os dois consideravam os conhecimentos de Hermione em quidditch insignificantes.

— Correto - disse o ministro. - Um snitch não é tocado pela pele humana nua antes de ser liberado, nem mesmo por seu fabricante, que usa luvas. Ele carrega um encantamento mediante o qual é capaz de identificar o primeiro ser humano que o segurou, no caso de uma captura disputada, por exemplo. Este snitch — disse ele erguendo a minúscula bola - se lembrará do seu toque, Potter. Ocorre-me que Dumbledore, que possuía uma prodigiosa competência em magia, apesar dos defeitos que porventura tivesse, talvez tenha enfeitiçado o snitch para que só se abra ao seu toque.

O coração de Harry batia com mais força. Tinha certeza de que Scrimgeour acertara. Como poderia evitar receber o snitch com as mãos nuas diante do ministro?

— Você não responde. Talvez já saiba o que o snitch contém, não?

— Não - respondeu Harry, ainda pensando como poderia fingir que tocava o snitch sem realmente fazer isso. Se ele ao menos soubesse Legilimência, soubesse de fato, e pudesse ler a mente de Hermione: praticamente dava para ouvir as engrenagens do cérebro dela trabalhando ao seu lado.

— Pegue - disse Scrimgeour calmamente.

Harry encarou os olhos amarelos do ministro e entendeu que não lhe restava opção senão obedecer. Estendeu a mão e Scrimgeour tornou a se inclinar para a frente e depositou o snitch na palma de sua mão lenta e deliberadamente.

Nada aconteceu. Quando os dedos de Harry se fecharam em torno do snitch, suas asinhas cansadas esvoaçaram e se imobilizaram.

Scrimgeour, Ron e Hermione continuaram a olhar ansiosos para a bola, agora parcialmente oculta, como se esperassem que pudesse sofrer alguma transformação.

- Essa foi dramática — comentou Harry descontraído. Ron e Hermione riram juntos.

- Então terminamos, não? - perguntou Hermione, tentando se erguer do sofá apertado.

- Ainda não - respondeu Scrimgeour, que agora parecia malhumorado. - Dumbledore lhe deixou outra herança, Potter.

- Qual? — perguntou ele, sua agitação se renovando. Desta vez Scrimgeour não se deu ao trabalho de ler o testamento.

- A espada de Godric Gryffindor.

Hermione e Ron enrijeceram. Harry olhou para os lados, procurando um sinal da bainha incrustada de rubis, mas Scrimgeour não a tirou da bolsa de couro que, de todo modo, parecia pequena demais para contê-la.

- Então, onde está? — tornou Harry desconfiado.

- Infelizmente - disse Scrimgeour —, aquela espada não pertencia a Dumbledore para que dispusesse dela. A espada de Godric Gryffindor é uma importante peça histórica, e como tal pertence...

- Pertence a Harry! — completou Hermione exaltada. - A espada o escolheu, foi ele quem a encontrou, saiu do Chapéu Seletor para as mãos dele...

- De acordo com fontes históricas confiáveis, a espada pode se apresentar a qualquer aluno da Gryffindor que a mereça — retrucou Scrimgeour. - Isto não a torna propriedade exclusiva do sr. Potter, seja o que for que Dumbledore tenha decidido. - O ministro coçou o queixo mal barbeado, estudando Harry. - Por que acha...?

- Que Dumbledore quis me dar a espada? - respondeu Harry se esforçando para não explodir. — Talvez tenha achado que ficaria bonita na minha parede.

- Isto não é brincadeira, Potter! - vociferou Scrimgeour. — Teria sido porque Dumbledore acreditava que somente a espada de Godric Gryffindor poderia derrotar o herdeiro de Slytherin? Quis lhe dar aquela espada, Potter, porque acreditava, como tantos, que você está destinado a destruir Ele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado?

- Uma teoria interessante. Alguém já tentou transpassar Voldemort com uma espada?

O Ministério talvez devesse encarregar alguém disso, em vez de perder tempo desmontando desiluminadores ou abafando fugas em massa de Azkaban. Então, é isso que o senhor está fazendo, ministro, se trancando em seu gabinete para tentar abrir um snitch? As pessoas estão morrendo, eu quase fui uma delas, Voldemort atravessou três condados me perseguindo, matou Olho-Tonto, mas o Ministério não disse uma palavra sobre a perda, disse? E ainda espera que cooperemos com o senhor!

- Você está indo longe demais! - gritou Scrimgeour, levantando-se; Harry pôs-se de pé também. O ministro se encaminhou para Harry, mancando, e lhe deu uma forte estocada no peito com a varinha: o golpe abriu um buraco como o de uma brasa de cigarro na camiseta do garoto.

- Ei! - exclamou Ron, erguendo-se de um salto e empunhando a varinha, mas Harry disse:

- Não! Você quer dar a ele uma desculpa para nos prender?

- Lembrou-se de que não está na escola, não é? - perguntou Scrimgeour, bufando no rosto de Harry. - Lembrou-se de que não sou Dumbledore, que perdoava a sua insolência e insubordinação? Você pode usar essa cicatriz como uma coroa, mas não cabe a um garoto de dezessete anos me dizer como dirigir o Ministério! Já é hora de você aprender a ter respeito.

- E do senhor aprender a merecê-lo.

Ouviu-se um tropel de passos, em seguida a porta da sala de visitas se abriu de repente e o sr. e a sra. Weasley entraram correndo.

- Nós... nós pensamos ter ouvido... - começou o sr. Weasley, absolutamente assustado ao ver Harry e o ministro virtualmente se enfrentando.

- ... vozes alteradas - ofegou a sra. Weasley.

Scrimgeour se afastou uns dois passos de Harry, olhando para o buraco que abrira na camiseta do garoto. Pareceu se arrepender de ter perdido a cabeça.

- Não... não foi nada — rosnou o ministro. - Lamento... sua atitude - disse, encarando Harry mais uma vez. - Pelo visto, você pensa que o Ministério não deseja o mesmo que você, o que Dumbledore desejava. Devíamos estar trabalhando juntos.

- Não gosto dos seus métodos, ministro. Está lembrado?

Pela segunda vez, ele ergueu o pulso direito e mostrou a Scrimgeour as cicatrizes lívidas no dorso de sua mão, em que se liam

Não devo contar mentiras. A expressão de Scrimgeour endureceu. Virouse sem dizer mais nada e saiu mancando da sala. A sra. Weasley apressou-se em acompanhá-lo; Harry ouviu-a parar à porta dos fundos. Passado pouco mais de um minuto, ela falou da cozinha:

- Ele foi embora!

- E o que ele queria? — perguntou o sr. Weasley, olhando para Harry, Ron e Hermione, no momento em que a sra. Weasley voltava a se reunir a eles.

- Entregar o que Dumbledore nos deixou - disse Harry. — Acabaram de liberar o conteúdo do testamento.

Lá no jardim, os três objetos que Scrimgeour dera aos garotos passaram pelas mesas de mão em mão. Todos admiraram o desiluminador e Os contos de Beedle, o bardo, e lamentaram que Scrimgeour tivesse se recusado a entregar a espada, mas ninguém foi capaz de sugerir o motivo por que Dumbledore teria legado a Harry um velho snitch. Quando o sr. Weasley examinava o desiluminador pela terceira ou quarta vez, sua mulher arriscou um palpite:

— Harry, querido, estamos mortos de fome, não quisemos começar sem você... posso servir o jantar agora?

Todos comeram rapidamente e, ao terminarem de cantar um ”parabéns para você” igualmente rápido e devorar o bolo, a festa foi encerrada. Hagrid, que tinha sido convidado para o casamento no dia seguinte, mas era grande demais para dormir n’A Toca superlotada, saiu para armar sua barraca em um campo vizinho.

— Encontre a gente lá em cima - sussurrou Harry para Hermione, enquanto ajudava a sra. Weasley a devolver o jardim à normalidade. — Depois que o pessoal for se deitar.

No quarto do sótão, Ron examinou seu desiluminador e Harry encheu a bolsa de briba que Hagrid lhe dera, não com ouro mas com os seus objetos mais preciosos, embora alguns aparentemente não valessem nada: o Mapa do Maroto, o caco do espelho de Sirius e o medalhão de R.A.B. Ele fechou bem os cordões e prendeu a bolsa ao pescoço, depois sentou, segurando o velho snitch e observando suas asinhas esvoaçarem debilmente. Finalmente, Hermione bateu à porta e entrou nas pontas dos pés.

— Abaffiato — sussurrou, acenando a varinha em direção à escada.

— Pensei que você não aprovasse esse feitiço - implicou Ron.

- Os tempos mudam — respondeu Hermione. — Agora mostrenos aquele desiluminador.

Ron atendeu o seu pedido na mesma hora. Erguendo-o à frente, clicou o objeto. A única luz que brilhava no quarto se apagou imediatamente.

- A questão é - cochichou Hermione no escuro —, poderíamos ter obtido o mesmo efeito com aquele Pó Escurecedor Instantâneo do Peru.

Ouviu-se um leve estalo, e a chama da luz do candeeiro voou de volta ao teto e iluminou-os.

- Mesmo assim é legal - disse Ron na defensiva. - E, pelo que dizem, foi o próprio Dumbledore que o inventou!

- Eu sei, mas com certeza ele não teria mencionado você no testamento só para nos ajudar a apagar as luzes!

- Você acha que ele sabia que o Ministério confiscaria o testamento e examinaria tudo que nos deixou? — perguntou Harry.

- Sem a menor dúvida - respondeu Hermione. — Não podia nos dizer no testamento por que estava nos deixando essas coisas, ainda assim isso não explica...

- ... por que não poderia ter nos dado uma dica quando estava vivo? - indagou Ron.

- Exatamente - concordou Hermione, agora folheando Os contos de Beedle, o bardo. - Se esses objetos são suficientemente importantes para legá-los a nós bem debaixo do nariz do Ministério, seria de esperar que desse um jeito de nos informar o porquê... a não ser que achasse que era óbvio.

- Ele enganou-se, então, não foi? - disse Ron. - Eu sempre disse que ele era doido. Um gênio e tudo o mais, mas pirado. Deixar ao Harry um snitch velho... afinal o que é que é isso?

- Não faço idéia - disse Hermione. - Quando Scrimgeour fez você segurá-lo, Harry, estava certa de que alguma coisa ia acontecer!

- É, bem — disse Harry, seus batimentos se acelerando ao erguer o snitch entre os dedos. — Eu não ia me esforçar muito na frente de Scrimgeour, não é?

- Como assim? - perguntou Hermione.

- O snitch que eu capturei na primeira partida que joguei na vida? - disse Harry. - Você não lembra?

Hermione pareceu simplesmente aturdida. Ron, no entanto, soltou uma exclamação, apontando freneticamente de Harry para o snitch e de volta até recuperar a voz.

— Foi esse que você quase engoliu!

— Exatamente — disse Harry, e, com o coração disparado, encostou a boca no snitch.

O pequeno globo alado não se abriu. A frustração e o desapontamento o invadiram: ele baixou o snitch de ouro. Então, foi a vez de Hermione gritar:

— Letras! Tem uma coisa escrita nele, depressa, olhe!

Harry quase deixou cair o snitch, de surpresa e agitação. A amiga tinha razão. Gravadas na lisa superfície dourada, onde, apenas segundos antes, não existia nada, agora se viam três palavras, na caligrafia fina e inclinada que o garoto reconheceu ser a de Dumbledore:

Abro no fecho.

Mal acabara de ler, as palavras tornaram a desaparecer.

— Abro no fecho... Que será que isso significa? Hermione e Ron balançaram a cabeça, perplexos.

— Abro no fecho... no fecho... Abro no fecho...

Contudo, por mais que repetissem as palavras, com diferentes inflexões, não foram capazes de extrair delas qualquer outro significado.

— E a espada - disse Ron, por fim, quando já tinham abandonado as tentativas de adivinhar o significado da inscrição no snitch. — Por que ele quis dar a espada ao Harry?

— E por que não pôde simplesmente me dizer? - comentou Harry, baixinho. — Estava lá, na parede do gabinete, bem à vista durante todas as nossas conversas no ano passado! Se queria deixá-la para mim, por que não me entregou a espada pessoalmente?

Ele teve a sensação de estar sentado, fazendo uma prova, diante de uma pergunta que seu cérebro lerdo e insensível devia ser capaz de responder. Havia alguma coisa que não entendera nas longas conversas com Dumbledore no ano anterior? Será que devia saber o que tudo aquilo significava? Dumbledore tinha esperado que ele entendesse?

— E quanto ao livro — disse Hermione — Os contos de Beedle, o bardo... eu nunca ouvi falar deles!

— Você nunca ouviu falar de Os contos de Beedle, o bardo? — perguntou Ron incrédulo. — Você está brincando, certo?

— Não, não estou! — respondeu Hermione surpresa. — Então, você os conhece?

— Claro que sim!

Harry ergueu os olhos se divertindo. Ron ter lido um livro que Hermione não conhecia era um fato sem precedentes. Ron, no entanto, parecia espantado com a surpresa dos amigos.

— Ah, gente, que é isso! Todas as histórias tradicionais para crianças são supostamente de Beedle, não? O poço da sorte... O mago e o caldeirão saltitante... Babbitty, a coelha, e o toco que cacarejava...

— Perdão! — disse Hermione rindo. — Como é mesmo essa última?

— Ah, qual é! — exclamou Ron, olhando para os dois sem acreditar. — Vocês devem ter ouvido falar em Babbitty, a coelha...

— Ron, você sabe muito bem que Harry e eu fomos criados por muggles! — lembrou Hermione. — Não ouvimos essas histórias quando éramos pequenos, ouvimos Branca de neve e os sete anões e Cinderela...

— Que é isso, uma doença? - perguntou Ron.

— Então são histórias para crianças? - perguntou Hermione, reexaminando as runas.

— É - respondeu Ron, inseguro -, quero dizer, é o que contavam para a gente, entende, e todas essas histórias antigas são do Beedle. Não sei como são na versão original.

— Mas por que Dumbledore achou que eu deveria lê-las? Alguma coisa rangeu abaixo do sótão.

— Provavelmente é o Charlie. Agora que mamãe foi dormir, deve estar saindo escondido para fazer os cabelos crescerem - disse Ron nervoso.

— Mesmo que seja, devíamos voltar para a cama - sussurrou Hermione. — Não vai pegar bem a gente perder a hora amanhã.

— Não mesmo — concordou Ron. — A mãe do noivo cometer um homicídio triplo e brutal pode estragar o casamento. Vou acender as luzes.

E ele clicou o desiluminador mais uma vez enquanto Hermione ia saindo do quarto.

 

O CASAMENTO

 [As TRÊS HORAS DA TARDE do dia seguinte, Harry, Ron, Fred e George estavam parados diante da grande tenda branca no pomar, aguardando a chegada dos convidados para o casamento. Harry tomara uma boa dose de Poção Polissuco e virara o duplo de um muggle ruivo, morador da aldeia local, Ottery St. Catchpole, de quem Fred roubara alguns fios de cabelo usando um Feitiço Convocatório. O plano era apresentar Harry como o ”primo Barny” e confiar que o grande número de parentes dos Weasley o camuflasse.

Os quatro estavam segurando mapas da disposição das cadeiras para poder levar os convidados aos seus lugares. Uma legião de garçons vestidos de branco chegara uma hora antes, ao mesmo tempo que uma banda de paletós dourados. No momento, todos esses bruxos estavam sentados a uma pequena distância sob uma árvore; Harry viu uma nuvem azulada de fumaça de cachimbos se elevando do local. Atrás do garoto, a entrada da tenda revelava filas e mais filas de frágeis cadeiras douradas dispostas nas laterais de um longo tapete roxo. Os postes de sustentação estavam enfeitados com guirlandas de flores brancas e douradas. Fred e George tinham prendido um enorme buquê de balões dourados sobre o ponto exato em que bill e Fleur em breve se tornariam marido e mulher. Fora da tenda, abelhas e borboletas pairavam preguiçosamente sobre a grama e a sebe. Harry se sentia bastante desconfortável. O garoto muggle cuja aparência ele assumira era ligeiramente mais gordo, e suas próprias vestes a rigor estavam quentes e apertadas à claridade ofuscante do dia de verão.

- Quando eu me casar - disse Fred, repuxando a gola de suas vestes -, não vou me preocupar com nenhuma dessas bobagens. Vocês todos podem vestir o que quiserem, e lançarei um Feitiço do Corpo Preso na mamãe até terminar a cerimônia.

- Ela não esteve tão ruim assim hoje de manhã — comentou George. - Chorou um pouco porque Percy não veio, mas quem queria a presença dele? Ah, caramba, se preparem... aí vêm eles, olhem.

Vultos muito coloridos vinham surgindo do ar, um a um, na distante divisa do quintal. Em minutos formou-se uma procissão, que

começou a serpear pelo jardim em direção à tenda. Flores exóticas e pássaros enfeitiçados esvoaçavam nos chapéus das bruxas, e pedras preciosas cintilavam nas gravatas de muitos bruxos; o murmúrio das conversas animadas foi crescendo cada vez mais, abafando o zumbido das abelhas à medida que a multidão se aproximava da tenda.-

- Excelente, acho que estou avistando algumas primas veelas - disse George, espichando o pescoço para ver melhor. — Elas vão precisar de ajuda para entender os nossos costumes ingleses, podem deixar que eu cuido delas.

- Calma aí, seu mal-amado - disse Fred, passando como uma flecha pelo bando de bruxas de meia-idade que vinham à frente da procissão. - Por aqui, permettez-moi de assister vous - ofereceu-se ele a duas belas francesinhas, que aceitaram entre risadinhas, que ele as conduzisse à tenda. A George, couberam as bruxas de meia-idade,

Ron se encarregou de um velho colega do sr. Weasley no Ministério, Perkins, e, para Harry, sobrou um casal um tanto surdo.

— E aí, beleza? - disse uma voz conhecida quando Harry tornou a emergir da tenda e deparou com Tonks e Lupin à frente da fila. Ela virara loura para a ocasião. — Arthur disse que você era o de cabelos crespos. Desculpe pela noite passada - acrescentou a bruxa em um sussurro, enquanto o garoto os conduzia pelo corredor central da tenda. - No momento, o Ministério está se mostrando muito anti-lobisomem, e achamos que a nossa presença poderia prejudicar você.

- Tudo bem, eu entendo — respondeu Harry mais para Lupin do que para Tonks. O bruxo sorriu brevemente, mas, assim que os dois viraram as costas, o garoto percebeu que o rosto do ex-professor retomou as rugas de infelicidade. Ele não estava entendendo, mas não tinha tempo para aprofundar o assunto. Hagrid estava causando um certo tumulto. Tendo entendido mal a orientação que Fred lhe dera, acomodou-se, não na cadeira magicamente aumentada e reforçada que lhe prepararam na última fila, mas era cinco cadeiras que agora pareciam uma montanha de palitos dourados.

Enquanto o sr. Weasley reparava o dano e Hagrid gritava suas desculpas para quantos quisessem ouvi-lo, Harry voltou rapidamente à entrada e encontrou Ron diante de um bruxo excepcionalmente excêntrico.

Um tanto vesgo, cabelos brancos que lembravam a textura do algodão-doce e lhe desciam pelos ombros, ele usava um barrete cuja borla balançava diante do seu nariz e era cor de gema de [ovo tão berrante que fazia doer os olhos. Um símbolo estranho, em [forma de um olho triangular, brilhava em uma corrente de ouro pendurada ao seu pescoço.

- Xenophilius Lovegood - apresentou-se, estendendo a mão a Harry. - Minha filha e eu moramos ali atrás do morro, foi muita gentileza dos Weasley nos convidarem. Mas acho que conhece a minha Luna, não? - acrescentou para Ron.

- Conheço. Ela não veio com o senhor?

- Luna parou um instante naquele jardinzinho encantador para dizer alô aos gnomos, que gloriosa infestação! São muito poucos os bruxos que entendem o quanto podemos aprender com esses pequenos gnomos sábios, ou, para chamá-los pelo seu nome correto, os Gernumbli qaiàensi.

- Os nossos sabem realmente um tesouro de palavrões - acrescentou Ron -, mas acho que aprenderam com Fred e George.

Dito isso, saiu para levar um grupo de bruxos à tenda no momento em que Luna os alcançava.

- Alô, Harry! - cumprimentou-o a garota.

- Ãh... meu nome é Barny - respondeu ele, surpreso.

- Ah, você trocou o nome também? - replicou Luna animada.

- Como soube...?

- Ah, a sua expressão.

Tal como o pai, a garota estava usando vestes amarelas berrantes, que complementara com um grande girassol nos cabelos. Uma vez que os olhos se acostumassem com o excesso de cor, o efeito geral era bem agradável. Pelo menos desta vez não trazia rabanetes pendurados nas orelhas.

Xenophilius, que estava absorto a conversar com um conhecido, perdera o diálogo entre Luna e Harry. Despedindo-se do bruxo, virou-se para a filha, que, erguendo o dedo, disse:

- Papai, olhe... um dos gnomos me mordeu!

- Que maravilha! A saliva de gnomo é extremamente benéfica!

- comentou o sr. Lovegood, segurando o dedo que a filha lhe estendia e examinando os furinhos ensangüentados. - Luna, meu amor, se hoje você sentir um novo talento despontar, talvez uma inesperada vontade de cantar ópera ou de declamar em serêiaco, não se reprima!

Talvez tenha recebido uma dádiva dos Geraumblies! Ron que cruzava por eles, desdenhou com uma risadinha.

— Ron, pode rir — comentou Luna serenamente, enquanto Harry conduzia ela e o sr. Lovegood aos seus lugares —, mas meu pai fez muitas pesquisas sobre a magia Gernumbli.

— Sério?! — exclamou Harry, que há muito tempo resolvera parar de questionar as excêntricas opiniões de Luna e seu pai. - Mas tem certeza que não quer pôr alguma coisa nessa mordida?

— Ah, não se preocupe - disse Luna, chupando o dedo, distraidamente, e medindo Harry de alto a baixo. - Você está elegante. Eu disse a papai que a maioria das pessoas provavelmente usaria vestes a rigor, mas ele acredita que se deve usar cores solares em um casamento, para dar sorte, entende.

Quando ela se afastou para acompanhar o pai, Ron reapareceu com uma bruxa idosa agarrada ao seu braço. Seu nariz curvo, os olhos de contornos vermelhos, e o chapéu rosa enfeitado com penas lhe davam a aparência de um flamingo mal-humorado.

— ... e os seus cabelos estão compridos demais, por um momento cheguei a pensar que você era a Ginevra. Pelas barbas de Merlim, que é que o Xenophilius está vestindo? Parece uma omelete. E quem é você? - perguntou rispidamente a Harry.

— Ah, sim, tia Muriel, esse é o nosso primo Barny.

— Mais um Weasley? Vocês se reproduzem como gnomos. E Harry Potter não está aqui? Eu tinha esperança de conhecê-lo. Pensei que fosse seu amigo, Ronald, ou você andou apenas se gabando?

— Não... ele não pôde vir...

— Humm. Deu uma desculpa, foi? Então, não é tão retardado quanto aparenta ser nas fotos da imprensa. Estive ensinando a noiva como é melhor usar a minha tiara - gritou para Harry. - Artesanato dos duendes, sabe, está na minha família há séculos. Ela é uma moça bonita, mas... francesa. Bem, bem, me arranje um bom lugar, Ronald, tenho cento e sete anos e não devo ficar em pé muito tempo.

Ao passar por Harry, Ron lançou-lhe um olhar significativo e não reapareceu por algum tempo; quando tornaram a se encontrar na entrada, Harry tinha levado mais de dez pessoas aos seus lugares. A tenda estava quase cheia agora e, pela primeira vez, não havia fila do lado de fora.

- Um pesadelo, essa Muriel! — exclamou Ron, enxugando a testa com a manga da roupa. - Costumava vir todo ano passar o Natal conosco, então, graças a Deus, se ofendeu porque Fred e George estouraram uma bomba de bosta embaixo da cadeira dela na hora da ceia. Papai sempre comenta que ela deve ter riscado os dois do testamento, como se eles se importassem; nesse ritmo, eles vão acabar sendo os mais ricos da família... uau — acrescentou, pestanejando rapidamente quando viu Hermione vindo apressada ao encontro dos dois. — Que máximo!

- Sempre o tom de surpresa - respondeu Hermione, embora sorrisse. Usava um esvoaçante vestido lilás com sapatos altos da mesma cor; seus cabelos estavam lisos e sedosos. - Sua tia-avó Muriel não concorda, acabei de encontrá-la lá em cima entregando a tiara a Fleur: ”Ai, não, essa é a menina que nasceu muggle?”, e em seguida ”má postura e tornozelos finos demais”.

- Não se ofenda, ela é grosseira com todo o mundo — disse Ron.

- Falando de Muriel? - perguntou George, emergindo da tenda com Fred. — E, ela acabou de dizer que as minhas orelhas estão desiguais. Morcega velha. Mas eu gostaria que o tio Bilius ainda fosse vivo; ele era gargalhada certa em casamentos.

- Não foi ele que viu um Sinistro e morreu vinte e quatro horas depois? - perguntou Hermione.

- Bem, foi, ele ficou meio esquisito mais para o fim da vida — admitiu George.

- Mas, antes de ficar caduco, ele era a alma das festas - comentou Fred. - Costumava beber uma garrafa inteira de uísque de fogo, depois ia para o meio do salão de dança, levantava as vestes e começava a tirar buquês de flores do...

- É, era realmente encantador - interrompeu-o Hermione, enquanto Harry se acabava de rir.

- Jamais casou, não sei por quê — disse Ron.

- Você me espanta - replicou Hermione.

Estavam rindo tanto que nenhum deles notou um convidado atrasado, um rapaz de cabelos escuros com um narigão curvo e grossas sobrancelhas negras, até ele apresentar o convite a Ron e dizer, com os olhos em Hermione:

- Você está marravilhosa!

- Vítor! — exclamou ela, deixando cair a bolsinha de contas, que produziu um baque desproporcional ao tamanho.

Ao se abaixar, corando, para recuperá-la, disse: - Eu não sabia que você foi... nossa... que prazer ver... como vai?

As orelhas de Ron tinham mais uma vez ficado muito vermelhas. Examinando o convite de Krum como se não acreditasse em uma palavra do que via escrito, falou, um pouco alto demais:

- Por que está aqui?

- Fleur me convidou — respondeu Krum, erguendo as sobrancelhas.

Harry, que não tinha nada contra o búlgaro, apertou a mão do rapaz; depois, sentindo que seria prudente retirá-lo das imediações de Ron, ofereceu-se para lhe mostrar onde sentar.

- O seu amigo não ficou satisfeito em me verr - comentou Krum, entrando na tenda agora inteiramente lotada. - Ou ele é seu parrente? — acrescentou, reparando nos cabelos ruivos e crespos de Harry.

- Primo — murmurou, mas Krum parara de escutar. Sua aparição estava causando certo rebuliço, particularmente entre as primas veelas: afinal, era um famoso jogador de quidditch. Enquanto as pessoas ainda se esticavam para dar uma boa olhada nele, Ron, Hermione, Fred e George vieram, apressados, pelo corredor central.

- Hora de sentar — disse Fred a Harry — ou vamos ser atropelados pela noiva.

Harry, Ron e Hermione sentaram-se na segunda fila atrás de Fred e George. A garota ainda estava muito rosada, e as orelhas de Ron continuavam escarlates. Passados alguns instantes, ele resmungou para Harry:

- Você viu a bar bicha idiota que ele deixou crescer? Harry respondeu com um grunhido indefinido.

Uma sensação de ansiedade perpassava a tenda quente, os murmúrios eram pontuados por ocasionais risadas de excitação. O sr. e a sra. Weasley entraram no corredor sorrindo e acenando para os parentes; ela trajando um conjunto novo de vestes ametistas e um chapéu da mesma cor.

No momento seguinte, bill e Charlie se postaram à frente da tenda, os dois de vestes a rigor com grandes rosas brancas nas botoeiras; Fred deu um assovio de aprovação, que foi acompanhado por nova erupção de risinhos das primas veelas.

Então a multidão fez silêncio e o volume da música foi aumentando, aparentemente vinda dos balões dourados.

- Aaaah! - exclamou Hermione virando-se na cadeira para olhar a entrada.

Um suspiro coletivo se ergueu dos bruxos e bruxas reunidos quando Monsieur Delacour e Fleur entraram pelo corredor, ela deslizando, ele balançando o corpo com um largo sorriso no rosto. A noiva usava um vestido branco simples e parecia desprender uma forte aura prateada. Embora, por comparação, sua radiância normalmente cmpanasse a de qualquer pessoa, hoje embelezava todos sobre quem incidia. Ginny e Gabrielle, ambas usando trajes dourados, pareciam ainda mais bonitas do que de costume, e quando Fleur chegou aonde estava bill, ele pareceu jamais ter enfrentado Fenrir Greyback.

- Senhoras e senhores - anunciou uma voz ligeiramente cantada, e, com um leve choque, Harry reconheceu o mesmo bruxo franzino com cabelos em tufos que presidira o funeral de Dumbledore, agora diante de bill e Fleur. - Estamos aqui reunidos para celebrar a união de dois fiéis...

- Decididamente, a minha tiara valoriza toda a cerimônia — comentou tia Muriel, com um poderoso sussurro. — Mas é preciso que se diga, o vestido de Ginevra está decotado demais.

Ginny olhou para o lado, sorrindo, piscou para Harry e em seguida virou-se de novo para a frente. O pensamento de Harry transporlou-se a grande distância da tenda, para as tardes em que passaram a sós em lugares isolados dos jardins da escola. Pareciam ter sido há tanto tempo; sempre bons demais para serem reais, como se ele livesse furtado horas ensolaradas da vida de alguém normal, alguém sem cicatriz em forma de raio no meio da testa...

- William Arthur, você aceita Fleur Isabelle...?

Na primeira fila, a sra. Weasley e Madame Delacour choravam baixinho em lencinhos de renda. Sons de trombeta ao fundo da tenda anunciaram que Hagrid puxara do bolso um dos seus lenços tamanho-toalha. Hermione virou-se sorridente para Harry; seus olhos também estavam marejados de lágrimas.

- ... então eu os declaro unidos para toda a vida.

O bruxo de cabelos em tufos ergueu a varinha sobre as cabeças de bill e Fleur e uma chuva de estrelas caiu sobre os noivos, envolvendo em espirais os seus corpos agora entrelaçados. Enquanto Fred e George puxavam uma salva de palmas, os balões dourados no alto estouraram: flutuaram no ar aves do paraíso e minúsculos sinos de prata que somaram seus cantos e tinidos à zoada geral.

— Senhoras e senhores! - falou o bruxo de cabelos em tufos. Por favor, queiram se levantar!

Todos obedeceram, tia Muriel resmungando audivelmente; ele acenou a varinha. As cadeiras em que as pessoas tinham estado sentadas se ergueram graciosamente no ar, ao mesmo tempo que as paredes da tenda desapareciam, deixando agora os convidados apenas sob o toldo sustentado pelos postes dourados, com uma vista gloriosa do pomar ensolarado e do campo ao redor. Em seguida, uma poça de ouro líquido se espalhou do centro para a periferia da tenda formando uma pista de dança reluzente; as cadeiras suspensas se agruparam em torno das mesinhas, cobertas com toalhas brancas, o conjunto flutuou suavemente de volta ao jardim, e a banda de paletós dourados marchou em direção a um pódio.

— Legal - aprovou Ron, enquanto os garçons surgiam de todos os lados, alguns trazendo bandejas de prata com suco de abóbora, cerveja amanteigada e uísque de fogo, outros equilibrando montanhas de tortinhas e sanduíches.

— Temos que ir cumprimentá-los! — disse Hermione, ficando nas pontas dos pés para localizar onde bill e Fleur tinham desaparecido cercados por uma multidão que lhes desejava felicidades.

— Bem, teremos tempo depois — disse Ron dando de ombros, e, tirando três cervejas amanteigadas de uma bandeja que passava, entregou uma a Harry. — Hermione, é agora, vamos pegar uma mesa... ali não! O mais longe da Muriel...

Ron atravessou a pista de dança vazia, olhando para os lados: Harry teve certeza de que ele estava atento a Krum. Quando finalmente alcançaram o lado oposto do toldo, a maior parte das mesas já estava tomada: a mais vazia era a que Luna ocupava sozinha.

— Tudo bem se a gente sentar com você? - perguntou Ron.

— Ah, claro — respondeu ela contente. — Papai foi entregar a bill e Fleur o nosso presente.

— Que é... um estoque de raízes-de-cuia para a vida toda? — perguntou Ron.

Hermione deu-lhe um pontapé por baixo da mesa, mas acertou em Harry. Com os olhos lacrimejando de dor, o garoto perdeu o fio da conversa por alguns momentos.

A banda começara a tocar. bill e Fleur foram os primeiros na pista de dança, sob os aplausos gerais; passado um momento, o sr. Weasley chegou com Madame Delacour, no que foi seguido pela sra. Weasley com o pai de Fleur.

- Gosto dessa música - disse Luna, balançando-se no ritmo de uma valsa, e segundos depois ela se levantou e deslizou para a pista, onde dançou sem sair do lugar, sozinha, agitando os braços de olhos fechados.

- Ela é ótima, não é? - comentou Ron com admiração. Sempre vale a pena olhar.

O sorriso, porém, apagou-se imediatamente do seu rosto: Vítor Krum havia sentado na cadeira desocupada por Luna. Hermione pareceu agradavelmente perturbada, mas desta vez Krum não viera cumprimentá-la. Com o rosto contraído, ele perguntou:

- Quem é aquele homem de amarrelo?

- É o Xenophilius Lovegood, pai de uma amiga nossa - respondeu Ron. Seu tom agressivo indicava que eles não iriam rir de Xenophilius, apesar da clara provocação. — Vamos dançar - acrescentou ele, bruscamente, para Hermione.

Ela pareceu surpresa, mas também feliz, e se levantou: eles desapareceram na pista de dança que agora ia enchendo de dançarinos.

- Ah, eles estão juntos agora? - perguntou Krum, momentaneamente distraído.

- Ah... mais ou menos - respondeu Harry.

- E você quem é? — tornou Krum.

- Barny Weasley.

Eles se apertaram as mãos.

- Você, Barny... conhece bem esse tal Lovegood?

- Não, eu o conheci hoje. Por quê?

Krum franziu o cenho por cima da borda do copo de bebida, observando Xenophilius, que conversava com vários bruxos do lado oposto da pista de dança.

- Porrque — disse Krum — se ele não fosse convidado da Fleur, eu o desafiarria parra um duelo aqui e agorra, porr usarr aquele símbolo nojento no peito.

- Símbolo? - admirou-se Harry, olhando também para Xenophilius. O estranho olho triangular brilhava em seu peito. — Por quê? Qual é o problema?

- Grrindelvald. Aquele é o símbolo de Grrindelvald.

- Grindelwald... o bruxo das trevas que Dumbledore derrotou?

- Exatamente. - Os músculos do queixo de Krum se moveram como se estivesse mascando, e ele continuou: — Grrindelvald matou muitas pessoas, meu avô, porr exemplo. Naturralmente ele nunca foi muito poderroso em seu país, diziam que temia Dumbledorre: e com razão, sabendo como foi derrotado. Mas isto... — Ele apontou para Xenophilius. - Isto é o símbolo dele, reconheci na hora: Grrindelvald grravou-o em uma parrede de Durrmstrrang quando estudou lá. Alguns idiotas o copiarram nos livros e nas roupas, querrendo chocarr, se fazerr de imporrtantes, até que aqueles, como nós, que tínhamos perrdido familiarres porr culpa de Grrindelvald demos uma lição neles.

Krum estalou as juntas dos dedos ameaçadoramente, amarrando a cara para Xenophilius. Harry ficou perplexo. Parecia-lhe extremamente improvável que o pai de Luna fosse um seguidor das Artes das Trevas, e ninguém mais na tenda parecia ter reconhecido o triângulo, cujo formato lembrava uma runa.

- Você tem, ah, certeza que é de Grindelwald...?

- Não estou enganado - replicou Krum com frieza. — Passei porr aquele símbolo durrante anos, conheço-o bem.

- Bem, tem uma probabilidade de que Xenophilius não saiba o que o símbolo realmente significa. Os Lovegood são muito... incomuns. Ele pode muito bem tê-lo comprado por aí, achando que é o corte transversal de uma cabeça de Bufadores de Chifre Enrugado ou outra coisa qualquer.

- Um corrte trransverrsal do quê?

- Bom, não sei muito bem o que são, mas aparentemente ele e a filha viajam nas férias para procurá-los...

Harry sentiu que não estava sendo muito convincente ao explicar Luna e o pai.

- É ela ali — disse apontando a garota, que ainda dançava sozinha, agitando os braços em torno da cabeça como quem tenta espantar maruins.

- Porr que ela está fazendo aquilo? — perguntou Krum.

- Provavelmente está tentando se livrar de um zonzóbulo — arriscou Harry, que reconheceu os sintomas.

Krum não soube dizer se Harry estava ou não gozando com a cara dele. Puxou a varinha de dentro das vestes e bateu-a ameaçadoramente na coxa; da ponta saltaram faíscas.

- Gregorovitch! - exclamou Harry em voz alta, e Krum se sobressaltou, mas o garoto estava excitado demais para ligar: lembrara-se, afinal, ao ver a varinha de Krum: ollivanders a apanhara e examinara cuidadosamente antes do Torneio Tribruxo.

- Que tem ele? - perguntou Krum, desconfiado.

- É fabricante de varinhas!

- Eu sei.

- Fabricou sua varinha! Foi por isso que pensei... quidditch... Krum parecia mais e mais desconfiado.

- Como sabe que foi Gregorovitch que fabrricou a minha varrinha?

- Li... li em algum lugar, acho. Em um... um fanzine - improvisou sem pensar, e Krum pareceu mais tranqüilo.

- Eu não me lembrrava de ter jamais discutido minha varrinha com os fãs.

- Então... ah... onde anda Gregorovitch ultimamente? Krum pareceu intrigado.

- Ele se aposentou faz anos. Fui um dos últimos a comprarr uma varrinha fabrricada porr ele. São as melhorres, embora eu saiba, é clarro, que os brritânicos dão grrande valorr a Olivanderrs.

Harry não respondeu. Fingiu observar, tal como Krum, os pares que dançavam, mas estava pensando com grande concentração. Então Voldemort estava procurando um célebre fabricante de varinhas, e o garoto não precisava ir muito longe para saber a razão: certamente era por causa da reação da varinha de Harry na noite em que ele o perseguira pelo céu. A varinha de azevinho e pena de fênix tinha vencido a que Voldemort tomara emprestada, algo que ollivanders não tinha previsto nem compreendia. Gregorovitch saberia explicar? Seria, de fato, mais qualificado que ollivanders? Conheceria segredos sobre varinhas que ollivanders ignorava?

- Essa garota é muito bonita — comentou Krum, fazendo Harry voltar ao presente. Krum estava apontando para Ginny, que acabara de se juntar a Luna. - Também é sua parenta?

- É — informou Harry, repentinamente irritado —, e está namorando alguém. Um cara ciumento. Grandalhão. Você não iria querer atravessar o caminho dele.

Krum resmungou:

— Qual é - disse, esvaziando o copo e se pondo de pé — a vantagem de ser jogador internacional de quidditch se todas as moças bonitas já estão comprometidas?

E se afastou, deixando Harry, que, depois de apanhar um sanduíche com um garçom que ia passando, contornou a pista de dança apinhada. Queria achar Ron e lhe falar sobre Gregorovitch, mas o amigo estava dançando com Hermione no meio da multidão. Harry se encostou em um dos postes dourados e ficou observando Ginny, que dançava com o amigo de Fred e George, Lee Jordan, tentando não sentir raiva da promessa que fizera a Ron.

Ele nunca fora a um casamento antes, portanto não era capaz de avaliar as diferenças entre as celebrações dos bruxos e as dos muggles, embora tivesse certeza de que essas últimas não teriam um bolo de casamento coroado por duas fênix falsas que levantaram vôo quando os noivos cortaram a primeira fatia, nem garrafas de champanhe que flutuavam entre os convidados. A noite foi chegando e as mariposas começaram a mergulhar sob o toldo, agora iluminado por lanternas douradas suspensas no ar, e a festa foi se tornando mais descontraída. Fred e George tinham desaparecido na escuridão, havia muito tempo, com duas primas de Fleur; Charlie, Hagrid e um bruxo atarracado com um chapéu de abas reviradas entoavam, a um canto, ”Odo, o herói”.

Andando entre os convidados para fugir de um tio bêbado de Ron que parecia não ter certeza se Harry era ou não seu filho, o garoto localizou um velho bruxo sentado sozinho a uma mesa. A nuvem de cabelos brancos que envolvia sua cabeça lhe dava a aparência de um diáfano dente-de-leão, encimado por um fez roído de traças. Achou-o vagamente familiar: vasculhando a memória, Harry de repente lembrou que era Elphias Doge, membro da Ordem da Fênix e autor do obituário de Dumbledore.

Harry se aproximou.

— Posso me sentar?

— Claro, claro — respondeu Doge. Tinha uma voz aguda e chiada. Harry se inclinou para ele.

— Sr. Doge, sou Harry Potter. Doge ofegou.

— Meu caro rapaz! Arthur me disse que você estava aqui disfarçado... É uma grande alegria e uma grande honra!

Em um arroubo de prazer e agitação, Doge serviu-lhe uma taça de champanhe.

— Pensei em lhe escrever - sussurrou o bruxo - depois que Dumbledore... o choque... e para você, tenho certeza...

Os olhinhos de Doge se encheram de repentinas lágrimas.

— Li o obituário que o senhor escreveu no Profeta Diário. Não sabia que o senhor conhecia o prof. Dumbledore tão bem.

— Tão bem quanto qualquer outro - replicou ele, secando as lágrimas com um guardanapo. - Com certeza conheci-o por mais tempo, se não contarmos o irmão Aberforth que, por alguma razão, as pessoas parecem jamais levar em conta.

— Voltando ao Profeta Diário... Não sei se viu, sr. Doge...

— Ah, por favor me chame de Elphias, caro rapaz.

— Elphias, não sei se viu a entrevista que Rita Skeeter deu sobre Dumbledore.

Uma vermelhidão de cólera afluiu ao rosto de Doge.

— Ah, sim, Harry, vi. Aquela mulher, ou urubu seria um termo mais apropriado, decididamente me importunou para conversar com ela. Envergonho-me de dizer que fui grosseiro, chamei-a de metida, e o resultado, como você pôde ver, foram insinuações sobre a minha sanidade.

— Bem, naquela entrevista - continuou Harry -, Rita Skeeter sugeriu que, na juventude, o prof. Dumbledore se envolveu com as Artes das Trevas.

— Não acredite em uma palavra do que leu! - retrucou Doge na mesma hora. — Em nenhuma, Harry! Não deixe nada macular as lembranças que tem de Albus Dumbledore!

Harry olhou para o rosto sério e atormentado de Doge e não se sentiu confiante, mas sim frustrado. Será que Doge realmente pensava que era fácil, que ele simplesmente poderia decidir não acreditar? Será que Doge não compreendia que Harry precisava ter certeza, saber de tudo?

Talvez Doge suspeitasse dos sentimentos de Harry, porque pareceu preocupado e se apressou a enfatizar:

— Harry, Rita Skeeter é uma horrenda...

Mas o bruxo foi interrompido por uma gargalhada aguda.

— Rita Skeeter? Ah, eu adoro aquela mulher, eu sempre leio o que ela escreve!

Harry e Doge ergueram os olhos e deram com a tia Muriel parada ali, as penas balançando no chapéu, uma taça de champanhe na mão.

- Ela escreveu um livro sobre Dumbledore, sabem!

- Olá, Muriel — cumprimentou-a Doge. — Sim, estávamos mesmo discutindo...

- Você aí! Me ceda a sua cadeira, tenho cento e sete anos!

Outro primo ruivo dos Weasley saltou de uma cadeira, assustado, e tia Muriel virou-a com surpreendente força e sentou-se entre Doge e Harry.

- Olá de novo, Barry, ou que nome tenha — disse ela para Harry.

- Então, que estava dizendo sobre Rita Skeeter, Elphias? Já sabe que ela escreveu uma biografia de Dumbledore? Mal posso esperar para ler, preciso me lembrar de encomendá-la na Floreios e Borrões!

Doge se tornou frio e grave ao ouvir isso, mas tia Muriel esvaziou a taça que trazia e estalou os dedos ossudos para um garçom que ia passando. Tomou mais um grande gole, arrotou e acrescentou:

- Não precisam fazer cara de sapos empalhados! Antes de se tornar respeitado e respeitável e toda essa baboseira, correram boatos bem esquisitos sobre o Albus!

- Calúnias sem fundamento - replicou Doge, ficando outra vez cor de rabanete.

- É bem o que você diria, Elphias - cacarejou tia Muriel. - Notei como você pulou os pontos controvertidos naquele seu obituário!

- Lamento que pense assim — disse Doge, com a maior frieza. — Posso lhe assegurar que escrevi com o coração.

- Ah, todo o mundo sabe que você venerava Dumbledore; ouso dizer que continuará a achá-lo um santo, mesmo se revelarem que ele matou aquela bruxa abortada que era a irmã dele.

- Muriel! - exclamou Doge.

Uma frialdade que não se devia ao champanhe gelado começou a invadir o peito de Harry.

- Como assim? — perguntou ele a Muriel. — Quem disse que a irmã dele era uma bruxa abortada? Pensei que fosse doente, não?

- Pois pensou errado, não foi, Barry?! — exclamou tia Muriel, parecendo satisfeita com o efeito que causara. - Enfim, como você poderia saber alguma coisa sobre isso? Aconteceu há muitos anos, antes mesmo que você fosse cogitado, meu caro, e a verdade é que nós que estávamos vivos à época nunca soubemos o que realmente aconteceu.

É por isso que mal posso esperar para ler o que Skeeter desenterrou! Dumbledore guardou silêncio sobre aquela irmã por tempo demais!

- Não é verdade - chiou Doge. - Absolutamente não é verdade.

- Ele nunca me disse que teve uma irmã que era um aborto — disse Harry sem pensar, ainda frio por dentro.

- E por que lhe diria isso? - esganiçou-se Muriel, oscilando um pouco na cadeira, tentando focalizar Harry.

- A razão por que Albus nunca falava em Ariana - começou Elphias, com a voz emocionada — é, imagino, muito clara. Ficou arrasado

com a morte da irmã...

- Por que ninguém nunca a via, Elphias? - grasnou Muriel. - Por que metade de nós sequer soube que ela existia, até o caixão sair da casa para os funerais? Onde estava o santo Dumbledore, enquanto Ariana viveu trancada no porão? Estava brilhando em Hogwarts sem se importar com o que acontecia em sua própria casa!

- Como assim ”trancada no porão”? - perguntou Harry. - Que quer dizer com isso?

Doge era a imagem da infelicidade. Tia Muriel tornou a responder a Harry com sua voz aguda.

- A mãe de Dumbledore era uma mulher apavorante, simplesmente apavorante. Nasceu muggle, embora tenham me dito que ela fingia não ser...

- Ela nunca fingiu nada! Kendra era uma excelente mulher! sussurrou Doge angustiado, mas tia Muriel não lhe deu atenção.

- ... orgulhosa e muito dominadora, o tipo de bruxa que se sentiria mortificada de produzir um aborto da natureza...

- Ariana não era um aborto da natureza! — chiou Doge.

- É o que você diz, Elphias, mas me explique, então, por que ela nunca freqüentou Hogwarts! - E, voltando-se para Harry. — No nosso tempo, era comum as famílias esconderem os bruxos abortados. Embora chegar ao extremo de trancafiar uma menininha em casa e fingir que ela não existia...

- Estou lhe afirmando que não foi o que aconteceu! - retorquiu Doge, mas tia Muriel passou de rolo compressor e continuou a se dirigir a Harry.

- Os bruxos abortados normalmente iam para escolas de muggles e eram incentivados a se integrarem na comunidade muggle... muito mais caridoso do que tentar encontrar um lugar para eles no mundo bruxo, onde seriam sempre considerados inferiores; mas naturalmente Kendra Dumbledore não sonharia em deixar a filha freqüentar uma escola muggle.

- Ariana era delicada! — argumentou Doge desesperado. - A saúde dela sempre foi precária demais para lhe permitir...

- Permitir sair de casa? - cacarejou Muriel. - No entanto, ela jamais foi levada ao St. Mungus e nenhum curandeiro jamais foi chamado para atendê-la!

- Francamente, Muriel, como é possível você saber se...

- Para sua informação, Elphias, meu primo Lancelote era curandeiro no St. Mungus naquela época e contou à minha família, em confiança, que Ariana nunca fora vista por lá. Tudo muito suspeito, era o que o Lancelote pensava!

Doge parecia à beira das lágrimas. Tia Muriel, que parecia estar se divertindo imensamente, estalou os dedos para que lhe trouxessem mais champanhe. Sem sentir, Harry pensou nos Dursley e como, no passado, o tinham calado, trancado e mantido fora de vista, tudo pelo crime de ser bruxo. A irmã de Dumbledore teria sofrido o reverso do mesmo destino? Presa por lhe faltar magia? E Dumbledore teria realmente deixado a irmã entregue à própria sorte enquanto partia para Hogwarts, para provar sua genialidade e talento?

- Agora, se Kendra não tivesse morrido primeiro - retomou Muriel —, eu diria que foi ela quem liquidou Ariana...

- Como pode dizer isso, Muriel? — gemeu Doge. - Uma mãe matar a própria filha? Pense no que está dizendo!

- Se a mãe em questão fosse capaz de manter a filha presa durante anos, por que não? — retrucou Muriel sacudindo os ombros. Mas, como digo, a história não se encaixa, porque Kendra morreu antes de Ariana, portanto, ninguém jamais soube direito...

- Ah, com certeza Ariana assassinou a mãe - replicou Doge, tentando corajosamente desdenhar. - Por que não?

- E, Ariana talvez tenha feito uma desesperada tentativa para se libertar e, no esforço, matou Kendra — concluiu tia Muriel, pensativa. — Pode balançar a cabeça o quanto quiser, Elphias! Você esteve nos funerais de Ariana, não esteve?

- Estive - confirmou Doge, com os lábios trêmulos. - E não me lembro de ocasião mais desesperadamente triste. Albus estava com o coração despedaçado...

- E não era só o coração. Aberforth não quebrou o nariz de Dumbledore durante a encomendação do corpo?

Se Doge parecera horrorizado antes, não se comparava ao que tlemonstrava agora. Era como se Muriel o tivesse esfaqueado. A bruxa riu alto e tomou mais um gole de champanhe, que escorreu pelo seu queixo.

- Como você...?! — exclamou Doge rouco.

- Minha mãe era amiga da velha Batilda Bagshot - disse ela, alegre. - Batilda contou tudo a minha mãe, e eu ouvi atrás da porta. Uma briga ao lado do caixão. Pelo que Batilda descreveu, Aberforth gritou que era culpa de Albus que Ariana tivesse morrido e, em seguida, deu-lhe um murro na cara. Ela contou ainda que Albus nem sequer se defendeu, o que é estranho, porque poderia ter acabado com o irmão em um duelo com as mãos amarradas nas costas.

Muriel continuou bebendo champanhe. A enumeração desses velhos escândalos parecia animá-la tanto quanto horrorizava Doge. Harry não sabia o que pensar, em que acreditar: queria a verdade, contudo, Doge não reagia, apenas balia debilmente que Ariana adoecera. I Harry não conseguia acreditar que Dumbledore não tivesse intervindo se estivesse ocorrendo uma crueldade daquelas em sua própria casa, mas, sem dúvida, havia alguma coisa estranha na história toda.

- E vou lhe dizer mais - continuou Muriel, com um leve soluço, baixando sua taça. — Acho que Batilda deu com a língua nos dentes para Rita Skeeter. Aquelas insinuações que ela fez na entrevista sobre uma importante fonte chegada aos Dumbledore... todos sabem que Matilda presenciou o que aconteceu com Ariana, e se encaixaria perfeitamente!

- Batilda jamais falaria com Rita Skeeter! — murmurou Doge.

- Batilda Bagshot? - indagou Harry. — A autora de História da Magia?

O nome estava impresso na capa de um de seus livros de escola, embora o garoto reconhecesse que não era um dos que ele tivesse lido com muita atenção.

- É - confirmou Doge, agarrando-se à pergunta de Harry como um afogado se agarra a uma bóia. - Uma talentosa historiadora da magia e uma velha amiga de Albus.

- E ultimamente bem gagá, segundo ouvi dizer — acrescentou tia Muriel animada.

- Se isso é verdade, foi ainda mais desonroso Skeeter ter se aproveitado dela - disse Doge —, e ninguém pode confiar em nada que Batilda possa ter dito!

- Há maneiras de se recuperar lembranças, e tenho certeza de que Rita Skeeter conhece todas. Mas, mesmo que Batilda esteja completamente lelé, tenho certeza de que ainda guarda velhas fotos e talvez até cartas. Conheceu os Dumbledore durante anos... o que valeria uma viagem a Godric’s Hollow, na minha opinião.

Harry, que estivera bebericando sua cerveja amanteigada, se engasgou. Doge deu-lhe palmadas nas costas enquanto o garoto tossia, olhando para tia Muriel com os olhos cheios de lágrimas. Quando recuperou a voz, perguntou:

- Batilda Bagshot mora em Godric’s Hollow?

- Ah, sim, há uma eternidade! Os Dumbledore se mudaram para lá depois que Parcifal foi preso, e ela foi vizinha da família.

- Os Dumbledore moraram em Godric’s Hollow?

- Sim, Barry, foi o que acabei de dizer - respondeu tia Muriel irritada.

Harry se sentiu esgotado, vazio. Nem uma vez, naqueles seis anos, Dumbledore lhe contara que os dois tinham morado e perdido familiares queridos em Godric’s Hollow. Por quê? Seus pais teriam sido enterrados perto da mãe e da irmã de Dumbledore? Dumbledore teria visitado seus túmulos e, talvez, passado pelos de lily e James a caminho? E jamais contara a Harry... jamais se preocupara em dizer...

E por que era tão importante, Harry não sabia explicar nem para si mesmo, contudo sentia que eqüivalia a uma mentira não ter mencionado que tinham aquele lugar e aquelas experiências em comum. O garoto ficou olhando duro em frente, mal notando o que estava acontecendo ao seu redor, e não percebeu que Hermione se destacara da multidão de convidados, até ela puxar uma cadeira e sentar ao seu lado.

- Simplesmente não consigo dançar mais - ofegou, tirando um dos sapatos e esfregando a sola de um pé. - Ron foi buscar mais cerveja amanteigada. Que coisa estranha, acabei de ver Vítor se afastando enfurecido do pai de Luna, parecia que estiveram discutindo...

- Ela baixou a voz, olhando-o. - Harry, você está bem?

O garoto não sabia por onde começar, mas não fez diferença. Naquele momento, algo volumoso e prateado atravessou o toldo sobre a pista de dança.

Gracioso e reluzente, o lince aterrissou com leveza entre os espantados convidados. Cabeças se viraram, e as pessoas que estavam mais próximas congelaram absurdamente em meio a passos de dança. Então a boca do Patrono se abriu desmesuradamente e ele anunciou na voz alta, grave e lenta de Kingsley Shacklebolt:

- O Ministério caiu. Scrimgeour está morto. Eles estão vindo.

 

UM ESCONDERIJO

A CENA PARECEU IMPRECISA E LENTA. Harry e Hermione saltaram das cadeiras e empunharam suas varinhas. Muita gente começava apenas a entender que algo estranho acontecera; as cabeças se mantinham voltadas para o lince prateado enquanto ele sumia no ar. O silêncio se propagou em ondas frias desde o ponto em que o Patrono aterrissara. Então alguém gritou.

Harry e Hermione se precipitaram para a multidão em pânico. Os convidados disparavam em todas as direções; muitos estavam desaparatando; os feitiços que protegiam A Toca e seus arredores tinham sido anulados.

- Ron! — gritou Hermione. - Cadê você?

A medida que avançavam pela pista de dança, Harry viu vultos de capa e máscara surgirem na multidão; viu também Lupin e Tonks de varinhas erguidas, e ouviu ambos gritarem: ”Protego!”, um grito que ecoou por todos os lados...

- Ron! Ron! - chamava Hermione, quase soluçando, enquanto ela e Harry eram empurrados pelos convidados aterrorizados; o garoto agarrou a mão dela para garantir que não se separassem, ao mesmo tempo que um raio de luz passou por cima de suas cabeças; se era um feitiço de proteção ou algo mais sinistro eles não sabiam dizer...

Então Ron apareceu. Segurou o braço livre de Hermione, e Harry sentiu-a girar no mesmo lugar; visão e audição se extinguiram quando ele foi engolido pela escuridão; sua única sensação era a mão de Hermione ao ser comprimido no espaço e no tempo, distanciando-se d’A Toca, distanciando-se dos Comensais da Morte que desciam, talvez do próprio Voldemort...

- Onde estamos? — perguntou a voz de Ron.

Harry abriu os olhos. Por um momento pensou nem ter deixado o local do casamento: continuavam cercados de pessoas.

- Rua Tottenham Court - ofegou Hermione. - Ande, apenas ande, precisamos encontrar um lugar para você se trocar.

Harry obedeceu. Eles meio que andavam, meio que corriam pela larga rua escura, apinhada de gente que se divertia na noite, ladeada por lojas fechadas, as estrelas brilhando lá no alto. Um ônibus de dois andares passou, barulhento, e um alegre grupo de boêmios ficou olhando das janelas para eles; Harry e Ron ainda usavam vestes a rigor.

- Hermione, não temos roupas para trocar — comentou Ron, quando uma jovem caiu na risada ao vê-los.

- Por que não verifiquei se tinha trazido comigo a Capa da Invisibilidade? - perguntou Harry, xingando mentalmente a própria burrice. - Carreguei-a durante todo o ano passado e...

- Tudo bem, eu trouxe a capa, trouxe roupas para vocês dois — disse Hermione. - Tentem apenas agir com naturalidade até... aqui vai dar.

Ela os levou a uma rua lateral, e dali ao refúgio de uma travessa escura.

- Quando você diz que trouxe a capa e as roupas... - Harry começou a dizer, franzindo a testa para a amiga, que não levava nada nas mãos, exceto a bolsinha de contas, em cujo interior ela agora remexia.

- Isso mesmo, estão aqui - respondeu ela e, para espanto dos dois garotos, tirou da bolsa um jeans, uma camiseta, meias marrons e, finalmente, a Capa da Invisibilidade prateada.

- Caraça, como foi...?

- Feitiço Indetectável de Extensão — respondeu Hermione. Complicado, mas acho que o executei corretamente; enfim, consebill enfiar aqui dentro tudo que precisamos. - Ela deu uma sacudidela na bolsinha frágil que ressoou como um porão de carga, quando dentro rolaram vários objetos pesados. — Ah, droga, devem ser os livros - disse Hermione dando uma espiada -, eu tinha empilhado todos por assunto... ah, bom... Harry, é melhor ficar com a Capa da Invisibilidade. Ron, depressa, se troca logo...

- Quando foi que você fez tudo isso? — perguntou Harry, enquanto Ron despia as vestes.

- Eu lhe falei n’A Toca que tinha empacotado o essencial, lembra, caso a gente precisasse sair correndo.

Arrumei a sua mochila hoje de manhã, Harry, depois que você se trocou, e guardei tudo aqui... tive um pressentimento...

— Você é um assombro, só é! - exclamou Ron, lhe entregando as vestes enroladas.

— Obrigada - disse Hermione, se esforçando para sorrir ao guardar as vestes na bolsinha. — Por favor, Harry, cubra-se com a capa!

Harry atirou a capa sobre os ombros e puxou-a para a cabeça, desaparecendo de vista. Começava, enfim, a avaliar o que acontecera.

— Os outros... todo o mundo no casamento...

— Não podemos nos preocupar com isso agora — sussurrou Hermione. — É atrás de você que eles estão, Harry, e deixaremos todos em maior perigo se voltarmos.

— Ela tem razão - confirmou Ron, que pareceu perceber que Harry ia contra-argumentar, ainda que não pudesse ver o rosto do amigo. - A maior parte dos membros da Ordem estava presente, eles cuidarão de todos.

Harry assentiu, mas lembrou que os outros não podiam vê-lo e acrescentou:

— É. — Pensou, porém, em Ginny, e o medo borbulhou como um ácido em seu estômago.

— Vamos, acho que temos de continuar andando - disse Hermione.

Os três tornaram a sair da rua lateral e entrar na principal, onde um grupo de homens cantava e acenava da calçada oposta.

— Só por curiosidade, por que a rua Tottenham Court? — perguntou Ron a Hermione.

— Não faço idéia, o nome simplesmente me ocorreu, mas tenho certeza de que estaremos mais seguros no mundo dos muggles, não é onde eles esperam que estejamos.

— Verdade - concordou Ron, olhando para os lados —, mas você não se sente um pouco... exposta?

— Que outra opção nos resta? - perguntou Hermione, se encolhendo quando os homens do outro lado da rua começaram a assoviar para ela. - Não daria para reservar quartos no Caldeirão Furado, não é? E o largo Grimmauld está fora, se o Snape ainda pode entrar lá... suponho que poderíamos tentar a casa dos meus pais, embora seja provável que eles a revistem... ah, eu gostaria que eles calassem a boca!

- Tudo bem, querida? - gritou o mais bêbado dos homens na outra calçada. — Quer tomar um drinque? Larga esse ruivo pra lá e vem tomar uma cerveja!

- Vamos nos sentar em algum lugar - disse Hermione depressa, quando Ron abriu a boca para responder. - Olhe, esse serve, aí dentro!

Era um café pequeno e encardido aberto a noite toda. Uma leve camada de gordura cobria as mesas com tampo de fórmica, mas pelo menos estava vazio. Harry foi o primeiro a entrar no reservado, e Ron sentou ao seu lado, defronte a Hermione, que ficou de costas para a entrada e não gostou: espiava por cima do ombro com tanta freqüência que parecia ter um tique nervoso. Harry também não gostou de ficar parado; andar lhe dera a ilusão de que tinham um objetivo. Sob a capa, ele sentia os últimos vestígios da Poção Polissuco se dispersarem, permitindo que suas mãos retomassem o comprimento e a forma normais. Ele tirou os óculos do bolso e colocou-os no rosto.

Passados uns dois minutos, Ron falou:

- Sabem, não estamos muito longe do Caldeirão Furado, é logo ali em Charing Cross...

- Ron, não podemos! — protestou Hermione imediatamente.

- Não para se hospedar lá, mas para descobrir o que está acontecendo!

- Você sabe o que está acontecendo! Voldemort tomou o Ministério, que mais você precisa saber?

- Tá, tá, foi só uma idéia.

Os garotos recaíram em um silêncio incômodo. A garçonete que mascava chiclete se arrastou até a mesa deles e Hermione pediu dois cappuccinos: como Harry estava invisível, teria parecido estranho encomendar um para ele. Dois operários corpulentos entraram no café e se espremeram no reservado contíguo. Hermione falou quase sussurrando:

- Sugiro que procuremos um lugar sem movimento para desaparatar e sair da cidade. Uma vez lá, poderíamos mandar uma mensagem para a Ordem.

- Então, você sabe fazer um Patrono que fala? - perguntou Ron.

- Andei praticando e acho que sei — respondeu a garota.

- Bem, desde que não cause problemas para eles, embora, a essa altura, quem sabe já foram presos. Deus, isso é repugnante — acrescentou Ron, depois de tomar um gole do café cinzento que fumegava.

A garçonete ouviu; lançou a Ron um olhar feio e se arrastou para anotar o pedido dos novos fregueses. O maior dos dois operários, louro e avantajado, agora que Harry reparava nele, dispensou a garçonete. Ela o encarou indignada.

- Vamos andando, então, não quero beber essa água suja - disse Ron. - Hermione, você tem dinheiro muggle para pagar a conta?

- Tenho, tirei tudo que tinha na poupança antes de ir para A Toca. Aposto como todos os trocados estão lá no fundo - suspirou a garota, apanhando a bolsinha de contas.

Os dois operários fizeram movimentos idênticos, e Harry inconscientemente os imitou: os três sacaram as varinhas. Ron, percebendo, com alguns segundos de atraso, o que estava acontecendo, atirou-se sobre a mesa, empurrando Hermione de lado sobre o banco. A força dos feitiços dos Comensais da Morte estilhaçou os azulejos da parede no ponto em que momentos antes estivera a cabeça de Ron, enquanto Harry, ainda invisível, ordenava: - Estupefaça!

O louro grandalhão foi atingido no rosto pelo jato de luz vermelha, e desmontou para um lado, inconsciente. Seu companheiro, incapaz de ver quem lançara o feitiço, disparou outro contra Ron: reluzentes cordas negras saíram da ponta de sua varinha e amarraram o garoto da cabeça aos pés - a garçonete saiu correndo aos berros em direção à porta —, Harry lançou outro Feitiço Estuporante no Comensal de cara torta que amarrara Ron, mas errou a pontaria e o feitiço, ricocheteando na janela, atingiu a garçonete que caiu junto à porta.

- Expulso! - berrou o Comensal da Morte, e a mesa em frente a Harry se desintegrou: a força da explosão atirou o garoto contra a parede e ele sentiu a varinha lhe escapar da mão e a capa escorregar do seu corpo.

- Petrificus Totalus! — berrou Hermione, escondida, e o Comensal tombou para a frente como uma estátua aterrissando com um baque sobre os destroços de louça, mesa e café. A garota engatinhou de baixo do banco, sacudindo os cacos de um cinzeiro de vidro dos cabelos, o corpo trêmulo.

- D... Diffindo - ordenou ela, apontando a varinha para Ron, que urrou de dor quando ela rasgou seu jeans no joelho, fazendo-lhe um corte fundo na perna. — Ah, me desculpe, Ron, minha mão está tremendo! Diffindo!

As cordas cortadas caíram. Ron levantou-se, sacudindo os braços para recuperar a sensibilidade. Harry apanhou sua varinha e passou por cima do entulho até o banco em que estava esparramado o Comensal da Morte louro.

- Eu devia ter reconhecido este, estava lá quando Dumbledore morreu - disse. Ele virou o corpo do Comensal mais moreno com o pé; os olhos do homem correram de Harry para Ron e Hermione.

— É o Dolohov - disse Ron. - Eu o reconheci pelos cartazes dos [criminosos procurados. Acho que o grandalhão é Thor Rowle.

— Não interessa qual é o nome deles! - exclamou Hermione, liIgeiramente histérica. - Como foi que nos encontraram? Que vamos fazer?

De algum modo, o pânico da amiga clareou a cabeça de Harry.

- Tranque a porta - disse a Hermione —, e, Ron, apague as luzes.

Ele contemplou o paralisado Dolohov, pensando rápido enquanto a fechadura girava e Ron usava o desiluminador para mergulhar o bar na escuridão. Harry ouvia ao longe os homens que tinham mexido com Hermione mais cedo, gritando para outra moça. - Que vamos fazer com eles? - sussurrou Ron para Harry no [escuro; e em tom ainda mais baixo: — Matá-los? Eles nos matariam. E quase conseguiram agora há pouco.

Hermione estremeceu e recuou um passo. Harry sacudiu a cabeça.

— Só precisamos apagar a memória deles. É melhor assim, despistaremos os dois. Se os matarmos, ficaria óbvio que estivemos aqui.

— Você é quem manda - disse Ron, parecendo profundamente [aliviado. - Mas nunca lancei um Feitiço de Memória.

- Nem eu — falou Hermione -, mas conheço a teoria.

Ela inspirou profundamente para se acalmar, apontou a varinha [para a testa de Dolohov e ordenou: - Obliviate!

Na mesma hora, os olhos do bruxo se tornaram desfocados [e vagos.

— Genial - aplaudiu Harry, dando-lhe palmadinhas nas costas. [Cuide do outro e da garçonete, enquanto Ron e eu limpamos a [bagunça.

- Limpar a bagunça?! - exclamou Ron correndo os olhos pelo [bar parcialmente destruído. — Por quê?

— Você não acha que podem ficar imaginando o que aconteceu [quando recuperarem a consciência e se virem em um lugar que [parece que foi bombardeado?

-Ah, certo, é...

Ron teve um pouco de dificuldade para sacar a varinha do bolso.

- Não admira que eu não consiga puxar a varinha, Hermione, você trouxe o meu jeans velho, está pequeno.

- Ah, sinto muito — sibilou Hermione, enquanto arrastava a garçonete para um lugar em que não a vissem das janelas. Harry a ouviu resmungar onde Ron podia enfiar a varinha para ficar mais à mão.

Quando o bar voltou à condição anterior, eles levantaram os Comensais da Morte para recolocá-los no reservado e escoraram um de frente para o outro.

- Mas como foi que eles nos encontraram? - perguntou Hermione, olhando de um homem inerte para outro. - Como souberam onde estávamos?

Ela se virou para Harry.

- Será... será que você ainda está carregando o rastreador, Harry?

- Não pode estar - ponderou Ron. - O rastreador caduca quando se completa dezessete anos, é a lei bruxa, não se pode colocá-lo em um adulto.

- Até onde sabemos — respondeu Hermione. — Mas e se os Comensais da Morte encontraram um jeito de colocá-lo em um adulto?

- Mas Harry não esteve perto de um Comensal nas últimas vinte e quatro horas. Quem poderia ter recolocado um rastreador nele?

Hermione não respondeu. Harry sentiu-se contaminado, maculado: teria sido realmente assim que os Comensais encontraram os três?

- Se eu não posso usar magia e vocês não podem usar magia perto de mim, sem revelarmos a nossa posição... - começou ele.

- Não vamos nos separar! — retrucou Hermione com firmeza.

- Precisamos de um lugar seguro para nos esconder - lembrou Ron. — Nos dê um tempo para pensar.

- Largo Grimmauld — disse Harry. Os outros dois ficaram pasmos.

- Não seja tolo, Harry, o Snape pode entrar lá.

- O pai de Ron disse que puseram na casa feitiços contra ele, e, mesmo que não tenham funcionado - continuou, vendo que Hermione começava a protestar -, e daí? Juro que não há nada que eu gostasse mais do que topar com o Snape!

-Mas...

- Hermione, que outro lugar nós temos? É a nossa melhor possibilidade. Snape é apenas um Comensal. Se ainda estou carregando o rastreador, teremos hordas deles atrás de nós aonde quer que formos. A garota não teve argumentos, embora seu rosto dissesse que gostaria de ter tido. Enquanto destrancavam a porta do bar, Ron acionou o desiluminador para reacender as luzes do local. Então, quando Harry contou três, eles reverteram os feitiços nas três vítimas e, antes que a garçonete e os Comensais da Morte acabassem de despertar sonolentos, os garotos tinham mais uma vez girado e desaparecido na escuridão compressora.

Segundos mais tarde, os pulmões de Harry se expandiram agradecidos e ele abriu os olhos: estavam parados no meio do pequeno largo mal cuidado que já conheciam. Casas altas e dilapidadas os cercavam de todos os lados. O número doze era visível aos garotos, porque tinham sabido de sua existência pela boca de Dumbledore, o fiel do segredo, e os três correram para a casa verificando, a intervalos, se não estavam sendo seguidos ou observados. Rapidamente galgaram os degraus de pedra e Harry tocou a porta uma vez com a varinha. Ouviram uma série de cliques metálicos e o barulho de uma corrente, por fim a porta se abriu, rangendo, e eles entraram depressa.

Quando Harry fechou a porta às suas costas, as velhas luminárias a gás se acenderam, lançando uma luz bruxuleante no corredor. O lugar tinha a aparência que ele lembrava: lúgubre, cheio de teias, os contornos das cabeças dos elfos penduradas na parede lançando sombras misteriosas sobre a escada. Compridas cortinas escuras ocultavam o retrato da mãe de Sirius. A única coisa fora do lugar era o porta-guarda-chuvas feito com perna de trasgo, que estava tombado de lado, como se Tonks tivesse acabado de derrubá-lo.

— Acho que alguém esteve aqui — sussurrou Hermione, apontando para o objeto.

— Isso pode ter acontecido quando a Ordem deixou a casa - [murmurou Ron em resposta.

- Então, onde estão os feitiços que lançaram contra Snape? — [perguntou Harry.

— Talvez só sejam ativados se ele aparecer, não? — arriscou Ron.

Eles permaneceram juntos ainda no capacho da entrada, com as costas voltadas para a porta, receando entrar no resto da casa.

— Bem, não podemos ficar aqui para sempre - disse Harry, dando um passo à frente.

— Severus Snape?

A voz de Olho-Tonto sussurrou no escuro, fazendo os três se sobressaltarem.

— Não somos Snape! — Harry ainda pôde responder com a voz rouca, mas uma espécie de jato de ar frio foi lançada contra ele e sua língua enrolou para trás, impedindo-o de continuar. Antes que tivesse tempo de sentir a boca por dentro, no entanto, a língua tornou a desenrolar.

Os outros dois pareciam ter experimentado a mesma sensação desagradável. Ron engulhava; Hermione gaguejou:

— Deve t-ter s-sido o F-feitiço da Língua Presa que Olho-Tonto armou contra o Snape!

Cauteloso, Harry deu mais um passo à frente. Alguma coisa se mexeu nas sombras do fim do corredor, e, sem lhes dar tempo de falar, um vulto se ergueu do tapete, alto, cor de poeira e ameaçador. Hermione gritou e foi acompanhada pela sra. Black, pois as cortinas negras do retrato repentinamente se abriram; o vulto cinzento deslizou para eles, cada vez mais rápido, seus cabelos até a cintura e a barba esvoaçando às costas, o rosto fundo, descarnado, as órbitas vazias; horrivelmente familiar, pavorosamente mudado, ele ergueu um braço murcho e apontou-o para Harry.

— Não! - gritou o garoto, e, embora tivesse erguido a varinha, não lhe ocorreu nenhum feitiço. - Não, não fomos nós! Não o matamos...

À menção da palavra ”matamos”, o vulto explodiu formando uma grande nuvem de poeira: tossindo, os olhos lacrimejando, Harry olhou para os lados e viu Hermione agachada junto à porta, cobrindo a cabeça com os braços, e Ron, trêmulo da cabeça aos pés, lhe dando palmadinhas desajeitadas no ombro e dizendo:

— Está tudo b-bem... já p-passou...

A poeira rodopiava em torno de Harry como uma névoa, refletindo a luz azulada do gás, enquanto a sra. Black continuava a berrar.

— Sangues-ruins, lixo, estigmas de desonra, manchas de vergonha sobre a casa dos meus pais...

— CALA A BOCA! — berrou Harry apontando a varinha para ela, e, com um estampido e um clarão de faíscas vermelhas, a cortina tornou a se fechar silenciando a mulher.

- Aquele... aquele era... - choramingou Hermione, enquanto Ron a ajudava a se levantar.

— Era — confirmou Harry -, mas não era realmente ele, era? Só uma coisa para apavorar o Snape.

Teria dado resultado, perguntou-se Harry, ou Snape teria explodido a aparição horripilante, displicentemente, como fizera com o verdadeiro Dumbledore? Os nervos ainda vibrando, ele saiu à frente dos amigos pelo corredor, à espera de que um novo terror se revelasse, mas nada se mexeu exceto um camundongo correndo pelo rodapé.

- Antes de prosseguir, acho melhor fazer uma verificação [cochichou Hermione e, erguendo a varinha, ordenou: - Hominum revelio!

Nada aconteceu.

- Bem, você acabou de levar um grande susto - disse Ron gentilmente. - Para que serviu esse feitiço?

- Serviu para o que eu queria que servisse! — respondeu Hermione, bastante zangada. - Era um feitiço para revelar presença humana, e não tem ninguém aqui exceto nós!

- o velho Poeirão - acrescentou Ron, olhando para o lugar no tapete de onde saíra o espectro.

— Vamos subir - disse Hermione assustada, e, lançando um olhar para o mesmo ponto, subiu à frente a escada rangedeira para a sala de visitas no primeiro andar.

Ao chegar, acenou com a varinha para acender as velhas luminárias a gás. Então, estremecendo na sala ventosa, empoleirou-se no

sofá com os braços apertados em volta do corpo. Ron foi à janela e afastou uns dois centímetros a pesada cortina de veludo.

- Não vejo ninguém lá fora - informou. - E eu diria que, se Harry ainda tivesse o rastreador, eles teriam nos seguido até aqui. Eu sei que não podem entrar na casa, mas... que foi, Harry?

O garoto soltara um grito de dor: sua cicatriz recomeçara a queimar ao mesmo tempo que algo lampejou por sua mente como uma luz forte incidindo sobre a água. Ele viu uma grande sombra e sentiu uma fúria que não era sua percorrer seu corpo, violenta e breve como um choque elétrico.

- Que foi que você viu? - perguntou Ron, avançando para o amigo. — Você o viu na minha casa?

— Não, eu só senti raiva, ele está realmente enraivecido...

- Mas isso poderia ser n’A Toca! — exclamou Ron em voz alta. — Que mais? Não viu mais nada? Ele estava amaldiçoando alguém?

- Não, eu só senti raiva... e não saberia dizer...

Harry se sentiu atormentado, confuso, e Hermione não ajudou muito ao perguntar amedrontada:

— A sua cicatriz novamente? Afinal, que está acontecendo? Pensei que essa ligação tivesse sido fechada!

- Fechou, por algum tempo - murmurou Harry; sua cicatriz ainda doía dificultando a concentração. — Acho que recomeçou a abrir, sempre que ele se descontrola, é como costumava...

— Então, você tem que fechar sua mente! — disse Hermione esganiçada. — Harry, Dumbledore não queria que você usasse essa ligação, queria que você a fechasse, é para isso que devia usar a Oclumência! Do contrário, Voldemort pode plantar falsas imagens em sua mente, lembra...

— Lembro, sim, obrigado - respondeu o garoto entre os dentes; não precisava que Hermione lhe dissesse que Voldemort já usara essa mesma ligação entre eles para atraí-lo a uma armadilha, nem que isso causara a morte de Sirius. Desejou que não tivesse contado aos amigos o que sentira e vira; isso tornara Voldemort mais ameaçador, como se ele estivesse forçando a janela da sala. A dor em sua cicatriz estava aumentando e ele a repelia: era como se resistisse ao impulso de enjoar.

Ele deu as costas a Ron e Hermione, fingindo examinar a velha tapeçaria com a árvore genealógica da família Black pendurada na parede. Então Hermione deu um grito agudo: Harry sacou a varinha e se virou, um Patrono prateado entrou pela janela da sala de visitas e aterrissou no chão diante deles, onde assumiu a forma de uma doninha e a voz do pai de Ron.

- Família a salvo, não responda, estamos sendo vigiados.

O Patrono se dissolveu no ar. Ron deixou escapar um som entre um choro e um gemido e se largou no sofá: Hermione sentou-se com ele, apertando seu braço.

- Eles estão bem, eles estão bem! — sussurrou ela, e Ron ao mesmo tempo ria e a abraçava.

— Harry — disse ele por cima do ombro de Hermione —, eu...

— Não tem problema - respondeu Harry nauseado de dor na cabeça. - É sua família, claro que está preocupado. Eu sentiria o mesmo. - Lembrou-se de Ginny. — Eu sinto o mesmo.

A dor em sua cicatriz foi atingindo o auge, queimando como no jardim d’A Toca. Ao longe, ele ouviu Hermione dizer:

- Eu não quero ficar sozinha. Podemos usar os sacos de dormir que trouxemos e acampar aqui hoje à noite?

Ele ouviu Ron concordar. Não conseguiria resistir à dor por mais tempo: tinha que se entregar.

- Banheiro - murmurou e saiu da sala o mais depressa que pôde, sem correr.

Quase não chegou lá. Trancando a porta com as mãos trêmulas, ele agarrou a cabeça latejante e se largou no chão. Então, em uma explosão de agonia, sentiu a raiva que não lhe pertencia se apoderar de sua alma, viu uma sala comprida, iluminada apenas pela lareira, e o Comensal grandalhão e louro no chão, berrando e se contorcendo, e um vulto mais leve em pé ao lado dele, empunhando a varinha, e Harry falando com uma voz fria e cruel.

- Mais, Rowle, ou vamos encerrar logo e dar você para Nagini comer? Lord Voldemort não tem certeza se desta vez irá lhe perdoar... Foi para isso que me chamou, para me dizer que Harry Potter tornou a escapar? Draco, dê a Rowle mais uma amostra do nosso desagrado... faça isso ou sinta pessoalmente a minha ira!

Uma tora de madeira caiu na lareira: as chamas se avivaram, sua claridade bateu no rosto pálido, aterrorizado e fino... com a sensação de emergir de águas profundas, Harry arquejou várias vezes e abriu os olhos.

Estava estatelado no frio piso de mármore negro, seu nariz a centímetros de um dos rabos de serpente prateados que sustentavam a grande banheira. Sentou-se. O rosto magro e petrificado de Malfoy parecia gravado em sua retina. Harry se sentiu nauseado com a cena que vira, com o uso que Voldemort estava fazendo de Draco.

Houve uma forte batida na porta e Harry se sobressaltou ao ouvir a voz de Hermione.

- Harry, você quer a sua escova de dentes? Eu a trouxe.

- Quero, beleza, obrigado - disse-lhe, procurando manter a voz descontraída ao se levantar para deixar a amiga entrar.

 

A HISTÓRIA DE Kreacher

Harry acordou na manhã seguinte, dentro de um saco de dormir no chão da sala de visitas. Viu uma lasca de céu entre as pesadas cortinas: era um azul frio e claro de tinta aguada, entre a noite e a alvorada, e tudo estava silencioso, exceto pela respiração lenta e profunda de Hermione e Ron. Harry olhou para as sombras escuras que eles projetavam no chão ao seu lado. Ron teve um acesso de galanteria e insistiu que Hermione dormisse sobre as almofadas do sofá, por isso a silhueta dela estava acima da dele. O braço da garota formava um arco até o chão, seus dedos a centímetros dos de Ron. Harry ficou imaginando se teriam adormecido de mãos dadas. A idéia fez com que se sentisse estranhamente solitário.

Ele ergueu os olhos para o teto sombreado, o lustre coberto de teias de aranha. A menos de vinte e quatro horas, estiver a parado à entrada ensolarada de uma tenda, aguardando para conduzir os convidados do casamento aos seus lugares. Parecia que tinha sido em outra vida. Que iria acontecer agora? Deitado ali no chão, ele pensou nas Horcruxes, na missão assustadora e complexa que Dumbledore lhe deixara... Dumbledore...

O pesar que o possuíra desde a morte do diretor agora era diferente. As acusações que ouvira de Muriel na festa pareciam ter se aninhado em seu cérebro, como coisas doentias que infectavam suas lembranças do bruxo que idolatrava. Teria Dumbledore deixado aquelas coisas acontecerem? Teria agido como Dudley, contente em observar o abandono e o abuso desde que não o afetassem? Poderia ter dado as costas a uma irmã que estava presa e escondida?

Harry pensou em Godric’s Hollow, nos túmulos que Dumbledore jamais mencionara; pensou nos objetos misteriosos deixados, sem explicação, no testamento do diretor, e o seu ressentimento cresceu na obscuridade. Por que Dumbledore não lhe contara? Por que não lhe explicara?

Teria tido real afeição por ele? Ou Harry tinha sido apenas um instrumento a ser polido e afinado, sem, no entanto, merecer confiança ou confidencias?

O garoto não suportou ficar deitado ali, tendo por companhia apenas seus pensamentos amargurados. Desesperado para arranjar o que fazer e se distrair, deslizou para fora do saco de dormir, apanhou a varinha e saiu furtivamente da sala. No corredor, sussurrou: ”Lumus”, e começou a subir a escada à luz da varinha.

No segundo patamar ficava o quarto em que ele e Ron tinham dormido na última vez que estiveram na casa; ele espiou para dentro. As portas dos guarda-roupas estavam abertas e as roupas de cama tinham sido arrancadas. Harry se lembrou da perna de trasgo caída no chão da entrada. Alguém revistara a casa desde que a Ordem a deixara. Snape? Ou talvez mundungus, que afanara muita coisa antes e depois da morte de Sirius? O olhar de Harry vagueou até o portaretratos onde por vezes aparecia Fineus Nigellus Black, o tetravô de Sirius, mas estava vazio, exibia apenas um pedaço de forro encardido. Era evidente que Fineus Nigellus estava passando a noite no gabinete do diretor de Hogwarts.

Harry continuou a subir a escada até o último patamar onde havia apenas duas portas. A que estava à sua frente tinha uma plaquinha em que se lia Sirius. O garoto jamais entrara no quarto do padrinho. Ele empurrou a porta, erguendo a varinha no alto para poder iluminar a maior área possível.

O quarto era espaçoso e, antigamente, devia ter sido bonito. Havia uma larga cama com a cabeceira de madeira entalhada, uma janela alta sombreada por compridas cortinas de veludo e um lustre coberto por uma espessa camada de pó, com tocos de velas ainda nos suportes, a cera grossa pendendo como pingos de gelo. Uma fina película de poeira cobria os quadros nas paredes e a cabeceira da cama; uma teia de aranha se estendia do lustre ao topo do grande guarda-roupa, e, quando Harry entrou no quarto, ouviu o tropel de camundongos assustados.

O adolescente Sirius tinha colado nas paredes tantos pôsteres e fotos que deixara visível muito pouco da seda cinza-prateado que a forrava. Harry só pôde supor que os pais de Sirius não tinham conseguido remover o Feitiço Adesivo Permanente que os mantinha colados à parede, porque dificilmente eles teriam apreciado o gosto do filho mais velho em matéria de decoração. Sirius parecia ter saído do caminho para aborrecer os pais. Havia uma coleção de grandes flâmulas da Gryffindor, vermelho desbotado e ouro, somente para enfatizar como ele era diferente do resto da família Slytherin. Havia muitas fotos de motos muggles e também (Harry tinha que admirar a coragem de Sirius) vários pôsteres de garotas muggles de biquíni; Harry sabia que eram muggles porque não se mexiam nas fotos, seus sorrisos eram desbotados e os olhos vidrados pareciam congelados no papel. Faziam um contraste com a única foto bruxa que havia nas paredes, a de quatro alunos de Hogwarts em pé, de braços dados, rindo para o fotógrafo.

Com um assomo de prazer, Harry reconheceu seu pai; com cabelos rebeldes no alto da cabeça como os dele, também usava óculos como ele. Ao lado, estava Sirius displicentemente bonito, seu rosto, ligeiramente arrogante, muito mais jovem e feliz do que Harry jamais o vira em vida. À direita de Sirius, estava Pettigrew, mais de uma cabeça mais baixo, gorducho, os olhos aguados, radiante de prazer por ser incluído em uma turma tão legal, com os rebeldes muito admirados que tinham sido James e Sirius. À esquerda de James estava Lupin, mesmo então malvestido, mas com o mesmo ar de prazerosa surpresa por se ver apreciado e incluído... ou seria simplesmente porque Harry sabia o que acontecera, que ele via tudo isso na foto? Tentou destacá-la da parede; afinal, agora lhe pertencia - Sirius lhe deixara tudo -, mas a foto não soltou. Seu padrinho não correra riscos para impedir que os pais redecorassem o seu quarto.

Harry olhou para o chão. O céu lá fora estava clareando: um raio de luz revelou pedacinhos de papel, livros e pequenos objetos espalhados pelo tapete. Era evidente que o quarto de Sirius também fora revistado, embora desse a impressão de que seu conteúdo fora considerado quase todo, se não todo, imprestável. Alguns dos livros tinham sido sacudidos o suficiente para soltarem as capas, e o chão estava juncado de páginas soltas.

Harry se abaixou, apanhou uns pedaços de papel e examinou-os. Reconheceu um deles como parte de uma velha edição de História da magia, de Batilda Bagshot, e outro como uma página de um manual de manutenção de motos. O terceiro estava escrito a mão e amassado: alisou-o.

Caro Padfoot,

Muito, muito obrigada pelo presente de aniversário que mandou para Harry! Foi o que ele mais gostou até agora. Um aninho de idade e já dispara pela casa montado em uma vassoura de brinquedo, tão vaidoso que estou enviando uma foto para você ver. Sabe, a vassoura só levanta uns sessenta centímetros do chão, mas ele quase matou o gato e quebrou um vaso horrível que Petunia me mandou no Natal

(nada contra). É claro que James achou muito engraçado, diz que ele vai ser um grande jogador de quidditch, mas tivemos que guardar todos os enfeites da casa e dar um jeito de ficar sempre de olho nele quando brinca.

Tivemos um chá de aniversário muito tranqüilo, só nós e a velha Batilda que sempre nos tratou com carinho e vive mimando o Harry. Ficamos com pena que você não tenha podido vir, mas a Ordem vem em primeiro lugar e Harry não tem idade para saber que está fazendo anos! James está se sentindo um pouco frustrado trancado em casa, ele procura não demonstrar, mas eu percebo - além disso, Dumbledore ficou com a Capa da Invisibilidade dele, então não há possibilidade de pequenos passeios. Se você pudesse lhe fazer uma visita, isso o animaria muito. Wormtail esteve aqui no fim de semana passado, achei-o meio deprimido, mas provavelmente foram as notícias sobre os McKinnon; chorei a noite inteira quando soube.

Batilda passa por aqui quase todo dia, é uma velhota fascinante que conta as histórias mais surpreendentes sobre Dumbledore, não tenho muita certeza se ele gostaria disso caso soubesse! Fico em dúvida se devo realmente acreditar, porque me parece inacreditável que Dumbledore

As extremidades de Harry pareceram ter adormecido. Ele ficou muito quieto, segurando o milagroso papel em seus dedos desenervados enquanto, por dentro, uma espécie de erupção silenciosa fazia a felicidade e a dor irromperem em igual medida em suas veias. Atirando-se na cama, ele se sentou.

Releu a carta, mas não conseguiu assimilar mais significados do que da primeira vez, e foi reduzido a contemplar a caligrafia em si. Sua mãe fazia os gês iguais aos dele; ele os procurou um a um na carta, e cada um lhe pareceu uma marola amiga vislumbrada por trás de um véu. A carta era um incrível tesouro, prova de que lily Potter vivera, realmente vivera, que sua mão quente um dia percorrera aquele pergaminho, traçando aquelas letras, aquelas palavras, palavras a respeito dele, Harry, seu filho.

Afastando as lágrimas dos olhos, impaciente, ele releu a carta, desta vez concentrando-se mais no conteúdo. Era como ouvir uma voz parcialmente lembrada.

Eles tinham um gato... talvez ele tivesse morrido, como seus pais, em Godric’s Hollow... ou talvez tivesse fugido quando não houve mais quem o alimentasse... Sirius comprara para ele a primeira vassoura... seus pais conheceram Batilda Bagshot; Dumbledore teria apresentado os três? Dumbledore ficou com a Capa da Invisibilidade dele... havia alguma coisa estranha ali...

Harry parou, refletindo sobre as palavras da mãe. Por que Dumbledore guardara a Capa da Invisibilidade de James? Harry se lembrava nitidamente do diretor lhe dizendo, anos atrás: ”Não preciso de uma capa para ficar invisível.” Talvez algum membro da Ordem menos talentoso tivesse precisado desse auxílio e Dumbledore servira de intermediário? Harry prosseguiu...

Wormtail esteve aqui... Pettigrew, o traidor, parecera ”deprimido”, é? Teria consciência de que estava vendo James e lily vivos pela última vez?

E, por fim, retornamos a Batilda, que contava histórias inacreditáveis sobre Dumbledore: parece inacreditável que Dumbledore...

Que Dumbledore o quê? Havia, porém, uma quantidade de coisas que pareciam incríveis sobre Dumbledore; que um dia ele tivesse recebido as notas mais baixas em uma prova de Transfiguração, por exemplo, ou que tivesse enfeitiçado bodes como fazia Aberforth...

Harry levantou-se e esquadrinhou o chão: talvez o restante da carta estivesse por ali. Ele agarrou papéis, tratando-os, em sua ansiedade, com tão pouca consideração quanto a pessoa que os encontrara primeiro; abriu gavetas, sacudiu livros, subiu em uma cadeira para passar a mão em cima do guarda-roupa e entrou embaixo da cama e da poltrona.

Por fim, de cara no chão, localizou o que lhe pareceu um pedaço de papel rasgado embaixo da cômoda. Quando o resgatou, era a maior parte da foto que lily descrevera na carta. Um bebê de cabelos escuros voando para dentro e para fora do papel, montado em uma minúscula vassoura, às gargalhadas, e um par de pernas que deviam pertencer a James correndo atrás dele. Harry guardou a foto e a carta da mãe no bolso, e continuou a procurar a segunda folha.

Passados mais uns quinze minutos, no entanto, foi forçado a concluir que o resto da carta já não existia. Teria simplesmente se perdido nos dezesseis anos transcorridos desde que fora escrita, ou fora levada pela pessoa que revistara o quarto?

Harry tornou a ler a primeira folha, desta vez procurando pistas para o que poderia ter tornado a segunda folha valiosa. A vassoura de brinquedo não teria interesse algum para os Comensais... a única coisa potencialmente útil que via ali era a possível informação sobre Dumbledore. Parece inacreditável que Dumbledore... o quê?

- Harry! Harry! Harry!

- Estou aqui! - gritou ele. — Que aconteceu?

Ele ouviu uma zoada de passos do lado de fora, e Hermione irrompeu pelo quarto.

- Nós acordamos e não sabíamos onde você estava - disse ofegante. Virando-se, gritou por cima do ombro: — Ron! Encontrei ele!

A voz aborrecida de Ron ressoou a distância de vários andares abaixo.

- Ótimo! Então diga por mim que ele é um bobalhão!

- Harry, não desapareça assim, por favor, ficamos aterrorizados! Afinal, por que veio aqui em cima? - Ela percorreu com o olhar o quarto saqueado. — Que andou fazendo?

- Olhe o que acabei de encontrar.

E estendeu-lhe a carta de sua mãe. Hermione apanhou-a e leu-a observada pelo garoto. Quando chegou ao fim da folha, olhou para ele. -Ah, Harry...

- E tem mais isso.

Entregou a foto rasgada, e Hermione sorriu para o bebê que entrava e saía montado na vassoura de brinquedo.

- Estive procurando o resto da carta - disse Harry —, mas não está aqui.

A amiga correu o olhar pelo quarto.

- Você fez essa bagunça toda, ou uma parte dela já estava feita quando você entrou?

- Alguém revistou o quarto antes de mim.

- Foi o que pensei. Todos os cômodos em que olhei a caminho daqui foram revirados. Que acha que estavam procurando?

- Informações sobre a Ordem, se foi o Snape.

- Mas seria de pensar que ele já tivesse tudo que precisava, quero dizer, ele fazia parte da Ordem, não é?

- Bem, então - disse Harry, ansioso para discutir sua teoria —, informações sobre Dumbledore? A segunda folha desta carta, por exemplo. Sabe essa Batilda que minha mãe menciona, sabe quem ela é?

— Quem?

— Batilda Bagshot, a autora de...

- História da magia - completou Hermione, mostrando interesse. —

Então os seus pais a conheciam? Ela foi uma incrível historiadora da magia.

- E ainda está viva, e mora em Godric’s Hollow, a tia Muriel, do Ron, esteve falando sobre ela no casamento. Ela conheceu a família de Dumbledore também. Seria bem interessante conversar com ela, não?

Para o gosto de Harry, houve um excesso de compreensão no sorriso de Hermione. Ele tirou a carta e a foto de suas mãos e guardou-as na bolsa pendurada ao pescoço, para não precisar olhar para a amiga e se trair.

— Eu entendo por que você gostaria de conversar com ela sobre sua mãe e seu pai, e Dumbledore também - disse Hermione. — Mas isto não iria realmente nos ajudar a achar as Horcruxes, não é? -

Harry não respondeu e ela prosseguiu:

— Harry, eu sei que você realmente quer ir a Godric’s Hollow, mas estou com medo... estou com medo da facilidade com que aqueles Comensais da Morte nos encontraram ontem. Mais que nunca, isso me faz sentir que devemos evitar o lugar onde seus pais estão enterrados. Tenho certeza que estarão esperando a sua visita.

- Não é só isso - respondeu Harry, ainda evitando olhar para a amiga. - Muriel disse umas coisas sobre Dumbledore no casamento. E quero saber a verdade...

Ele contou, então, a Hermione tudo que Muriel dissera. Quando terminou, a garota comentou:

- É claro que entendo por que isso o perturbou, Harry...

- Não estou perturbado - mentiu. — Eu só gostaria de saber se é ou não verdade ou...

- Harry, você acha mesmo que vai chegar à verdade ouvindo fofocas maliciosas de uma velhota como a Muriel, ou de Rita Skeeter? Como pode acreditar nelas? Você conheceu Dumbledore!

- Pensei que conhecia - murmurou o garoto,

- Mas você sabe o quanto havia de verdade em tudo que a Rita escreveu sobre você! Doge está certo, como pode deixar essa gente macular as lembranças que você tem de Dumbledore?

Harry desviou o olhar, tentando não revelar o rancor que sentia.

Ali estava outra vez o impasse: escolher no que acreditar.

Ele queria a verdade. Por que estavam todos tão decididos a convencê-lo de que não devia procurá-la?

- Vamos descer para a cozinha? - sugeriu Hermione após uma breve pausa. - Arranjar alguma coisa para comer?

Ele concordou, mas de má vontade, e seguiu-a ao corredor onde passaram em frente a uma segunda porta. Harry notou que havia fundos arranhões na tinta sob um pequeno aviso que tinha passado despercebido no escuro. Parou, então, no alto da escada para lê-lo. Era um aviso breve e pomposo, caprichosamente escrito à mão, o tipo de coisa que Percy Weasley poderia ter colado na porta do próprio quarto.

Não entre sem a expressa permissão de Regulus Arcturus Black

A agitação foi se infiltrando em Harry, mas ele não teve imediatamente certeza do porquê. Tornou a ler o aviso. Hermione já estava um lance de escada abaixo.

- Hermione — disse ele, surpreso que sua voz estivesse tão calma. — Volta aqui em cima.

- Que foi?

- R.A.B. Acho que o encontrei.

Ouviu-se uma exclamação, e Hermione correu escada acima.

- Na carta de sua mãe? Mas não vi...

Harry balançou a cabeça, apontando para o aviso na porta de Regulus. A garota leu-o e apertou o braço de Harry com tanta força

- O irmão de Sirius? — sussurrou.

- Ele foi um Comensal da Morte, Sirius me contou a história dele, Regulus se alistou quando ainda era muito moço e depois se acovardou e tentou sair; então, eles o mataram.

- Isso faz sentido! — exclamou Hermione. — Se ele foi um (’omensal da Morte, teve acesso a Voldemort, e quando se desencantou deve ter querido derrubar Voldemort!

Ela largou Harry, debruçou-se no corrimão da escada e berrou:

- Ron! Ron! Vem aqui em cima, depressa!

O garoto apareceu, ofegante, um minuto depois, empunhando a varinha.

- Que aconteceu? Se é outro ataque maciço de aranhas, eu quero o meu café da manhã antes de...

Ele franziu a testa ao ver o aviso na porta do quarto, para o qual Hermione apontava silenciosamente.

- Quê? Esse era o irmão de Sirius, não era? Regulus Arcturus... Regulus... R.A.B! O medalhão... você acha...?

- Vamos descobrir — disse Harry. Ele empurrou a porta; estava trancada à chave. Hermione apontou a varinha para a maçaneta e disse: - Alorromora! - Ouviu-se um clique e a porta abriu.

Eles cruzaram o portal juntos, olhando para os lados. O quarto de Regulus era ligeiramente menor que o de Sirius, embora transmitisse a mesma sensação de antigo esplendor. Enquanto o irmão tinha procurado anunciar sua dessemelhança com o resto da família, Regulus tinha se esforçado para ressaltar o oposto. As cores da Slytherin, verde e prata estavam por toda parte, guarnecendo a cama, as paredes e janelas. O brasão da família Black fora laboriosamente pintado por cima da cama com a divisa Toujours Pur. Abaixo uma coleção de recortes de jornal, presos uns aos outros formando uma colagem irregular. Hermione atravessou o quarto para examiná-los.

- São todos sobre Voldemort - disse ela. - Pelo visto, Regulus já era fã dele anos antes de se reunir aos Comensais da Morte...

Uma nuvenzinha de pó se ergueu da colcha da cama quando Hermione se sentou para ler os recortes. Nesse intervalo, Harry tinha reparado em uma foto: um time de quidditch de Hogwarts sorria e acenava do espaço emoldurado. Ele se aproximou mais um pouco e viu as serpentes nos brasões no peito dos garotos: slytherin. Regulus era instantaneamente reconhecível como o garoto que estava sentado no centro da primeira fileira: tinha os mesmos cabelos escuros e o ar ligeiramente arrogante do irmão, embora fosse menor, mais franzino e menos bonito do que Sirius.

- Ele jogava na posição de seeker — comentou Harry.

- Quê?! - exclamou Hermione distraída; ela continuava absorta nos recortes sobre Voldemort.

- Ele está sentado no centro da primeira fila, é onde o seeker... ah, esquece - falou Harry ao perceber que ninguém lhe prestava atenção; Ron estava de quatro procurando alguma coisa embaixo do armário. Harry olhou ao seu redor, procurando escon derijos prováveis, e se aproximou da escrivaninha. Mais uma vez, alguém já a revistara.

O conteúdo das gavetas tinha sido revirado recentemente, a poeira deslocada, mas não havia nada de valor ali: penas velhas, livros de escola antiquados que exibiam os vestígios dos maus-tratos, um tinteiro recentemente quebrado, seu resíduo pegajoso derramado sobre os objetos na gaveta.

- Há um jeito mais fácil - disse Hermione, enquanto Harry limpava os dedos sujos de tinta no jeans. Ela ergueu a varinha e ordenou:

- Accio medalhão!

Nada aconteceu. Ron, que estiver a procurando nas dobras das cortinas desbotadas, pareceu desapontado.

- Então é isso? Não está aqui?

- Ah, poderia até estar aqui, mas protegido por contrafeitiços respondeu a garota. — Feitiços para impedir que se possa convocá-lo por magia, entende.

- Como o que Voldemort lançou na bacia de pedra na caverna — afirmou Harry, lembrando que não conseguira convocar o falso medalhão.

- Como vamos encontrá-lo, então? - perguntou Ron.

- Procurando com as mãos — respondeu Hermione.

- É uma boa idéia — disse Ron, virando os olhos para o teto e retomando o exame das cortinas. Eles verificaram cada centímetro do quarto durante mais de uma hora, mas foram forçados a concluir que o medalhão não estava ali.

Agora o sol já nascera; a luz os ofuscava mesmo através das cortinas sujas dos corredores.

- Mas poderia estar em qualquer outro lugar da casa - sugeriu Hermione, em um tom de convocação, ao descerem as escadas. Enquanto os dois garotos tinham ficado mais desanimados, ela ficara mais decidida. - Quer ele tenha conseguido ou não destruir o medalhão, iria querer escondê-lo de Voldemort, não acham? Lembram aquelas lixar ias todas de que precisamos nos livrar quando estivemos aqui na última vez? Aquele relógio que lançava raios e aquelas vestes velhas que tentaram estrangular Ron; Regulus talvez as tivesse posto lá para proteger o esconderijo do medalhão, ainda que a gente não tenha entendido à... à...

Harry e Ron olharam para Hermione. Ela estava parada com um pé no ar e a expressão abobada de alguém que acabou de ser obliviado; seus olhos tinham até saído de foco.

— ... à época — terminou ela em um sussurro.

— Algum problema? — perguntou Ron.

— Havia um medalhão.

— Quê?! — exclamaram os dois garotos ao mesmo tempo.

— No armário da sala de visitas. Ninguém conseguiu abri-lo. E nós... nós...

Harry teve a sensação de que um tijolo tinha escorregado do seu peito para o estômago. Lembrou-se: tinha até manuseado o objeto quando passou de mão em mão, todos experimentando abri-lo. Por fim, fora atirado em um saco de lixo, junto com a caixa de pó de verrugueira e a caixa de música que deixou todo mundo com sono...

— Kreacher pegou montes dessas coisas escondido de nós - disse Harry. Era a única chance, a única e tênue esperança que lhes restava, e o garoto ia se apegar a ela até que fosse forçado a abandoná-la.

- Ele tinha um verdadeiro tesouro escondido no armário da cozinha. Vamos.

Harry desceu correndo a escada de dois em dois degraus, com os amigos em sua cola fazendo a escada reboar. O barulho foi tamanho que acordaram o retrato da mãe de Sirius ao atravessarem o corredor da entrada.

— Lixo! Sangues-ruins! Ralé! — gritou a bruxa para os garotos quando desceram desembestados para a cozinha do porão e bateram a porta

ao entrar.

Harry continuou sua corrida pelo aposento, parou derrapando à porta do armário de Kreacher e abriu-o com violência. Lá estava o ninho de sujeira, as mantas velhas em que o elfo costumava dormir, mas o armário já não brilhava com as quinquilharias que Kreacher salvara. Havia apenas um velho exemplar de A nobreza natural: uma genealogia dos bruxos. Recusando-se a crer no que via, Harry puxou as cobertas e sacudiu-as. Delas caiu um camundongo morto que rolou lugubremente pelo chão. Ron gemeu ao se atirar em uma cadeira da cozinha; Hermione fechou os olhos.

— Ainda não terminou — disse Harry, e erguendo a voz berrou: — Kreacher!

Ouviram um forte estalo e o elfo doméstico, que relutantemente Harry herdara de Sirius, apareceu de repente diante da lareira vazia e fria: minúsculo, metade da altura de um homem, a pele pálida em pelancas, os cabelos brancos brotando em tufos das orelhas de morcego.

Ainda usava os trapos imundos em que o tinham conhecido, e o olhar de desprezo que lançou a Harry demonstrou que sua atitude, com a transferência de dono, tal como os seus trajes, não havia mudado.

- Meu senhor — coaxou Kreacher com a sua voz de rã-touro, e ele fez uma profunda reverência, resmungando para os próprios joelhos —, de volta à velha casa da minha senhora com o traidor do sangue Weasley e a sangue-ruim...

- Proíbo você de chamar quem quer que seja de ”traidor do sangue” ou de ”sangue-ruim” - rosnou Harry. Teria achado Kreacher, com seu nariz trombudo e seus olhos injetados, um objeto decididamente repulsivo mesmo se o elfo não tivesse entregado Sirius a Voldemort.

- Tenho uma pergunta a lhe fazer - continuou Harry, o coração acelerando ao olhar para o elfo -, e ordeno que me responda a verdade. Entendeu?

- Sim, meu senhor — respondeu Kreacher fazendo nova reverência: Harry viu seus lábios se moverem em silêncio, sem dúvida mastigando os insultos que fora proibido de proferir.

- Dois anos atrás — disse Harry, seu coração agora reboando nas costelas -, havia um medalhão de ouro na sala de visitas lá em cima. Nós o jogamos fora. Você o pegou de volta?

Houve um momento de silêncio em que Kreacher se aprumou para encarar Harry. Em seguida respondeu:

- Peguei.

- Onde está o medalhão agora? - tornou o garoto exultando, sob o olhar animado de Ron e Hermione.

Kreacher fechou os olhos como se não pudesse suportar ver aquelas reações à sua resposta.

- Foi-se.

- Foi-se? - repetiu Harry, a euforia se dissipando. — Que quer dizer com esse ”foi-se”?

O elfo estremeceu. Cambaleou.

- Kreacher — disse Harry ameaçador —, ordeno que você...

- mundungus Fletcher roubou tudo: os retratos da srta. Bella e da srta. Cissy, as luvas da minha senhora, a Ordem de Merlim, Primeira Classe, as taças de vinho com o brasão da família e, e...

Kreacher tentava recuperar o fôlego: seu peito cavado subia e descia rapidamente, então seus olhos se arregalaram e ele soltou um ito de congelar o sangue.

- ... e o medalhão, o medalhão do meu senhor Regulus, Kreacher agiu mal, Kreacher desobedeceu às ordens dele!

Harry reagiu instintivamente: quando Kreacher mergulhou para apanhar o atiçador na grelha da lareira, ele se atirou sobre o elfo e achatou-o no chão. O grito de Hermione se misturou ao de Kreacher, mas Harry berrou mais alto que os dois:

- Kreacher, ordeno que você fique parado!

Ele sentiu o elfo se imobilizar e soltou-o. Kreacher ficou estatelado no piso frio, as lágrimas saltando dos seus olhos empapuçados.

- Harry deixe ele levantar! — sussurrou Hermione.

- Para ele poder se espancar com o atiçador? - bufou Harry, se ajoelhando ao lado do elfo. - Acho que não. Certo, Kreacher, quero verdade: como sabe que mundungus Fletcher roubou o medalhão?

- Kreacher viu! - exclamou ele, as lágrimas escorrendo do nariz ira a boca cheia de dentes cinzentos. - Kreacher viu ele saindo do armário, as mãos cheias com os tesouros de Kreacher. Kreacher mandou o larápio parar, mas mundungus Fletcher riu e c-correu...

- Você disse que o medalhão era do seu senhor Regulus. Por quê? e onde veio o medalhão? Qual era a ligação de Regulus com ele? Kreacher, sente-se e me conte tudo que sabe sobre aquele medalhão, do que o ligava a Regulus!

O elfo sentou, enroscado como uma bola, apoiou o rosto moado entre os joelhos e começou a se balançar para a frente e para trás. Quando falou, sua voz saiu abafada, mas bastante clara no silêncio da cozinha vazia.

- Meu senhor Sirius fugiu, ainda bem, porque ele era um garoto ruim e despedaçou o coração da minha senhora com a sua rebeldia. Mas meu senhor Regulus tinha orgulho; sabia reverenciar o nome Black e a dignidade do seu sangue puro. Durante anos ele falou do Lorde das Trevas, que ia tirar os bruxos da clandestinidade dominar os muggles e os nascidos muggles... e quando fez dezesseis anos, meu senhor Regulus se reuniu ao Lorde das Trevas. Tão orgulhoso, tão orgulhoso, tão feliz de servir...

”E um dia, um ano depois que se alistou, meu senhor Regulus veio à cozinha ver Kreacher. Meu senhor Regulus sempre gostou de Kreacher. E meu senhor Regulus disse... disse...”

O velho elfo balançou-se mais rápido que nunca.

- ... disse que o Lorde das Trevas precisava de um elfo.

- Voldemort precisava de um elfo? - repetiu Harry, olhando para Ron e Hermione, que pareceram tão intrigados quanto ele.

- Ah, foi - gemeu Kreacher. - E meu senhor Regulus tinha oferecido Kreacher. Era uma honra, disse meu senhor Regulus, uma honra para ele e para Kreacher; que tinha de fazer tudo que o Lorde das Trevas mandasse... e depois v-voltar para casa.

Kreacher balançou-se ainda mais rápido, expirando em soluços.

- Então Kreacher foi procurar o Lorde das Trevas. O Lorde das Trevas não disse a Kreacher o que iam fazer, mas levou Kreacher com ele para uma caverna junto ao mar. E para além da caverna havia outra caverna, e na caverna havia um enorme lago preto...

Os pelinhos da nuca de Harry se eriçaram. A voz rouca de Kreacher parecia chegar a ele vinda da outra margem daquela água escura. Ele viu o que acontecera tão claramente quanto se tivesse estado presente.

- ... havia um barco...

É claro que houvera um barco; Harry conhecia o barco, minúsculo e verde espectral, enfeitiçado para transportar um bruxo e uma vítima até a ilha no meio do lago. Então fora assim que Voldemort testara as defesas que cercavam a Horcrux; pedindo emprestada uma criatura dispensável, um elfo doméstico...

- Havia uma b-bacia cheia de poção na ilha. O Lorde das T-trevas fez Kreacher beber...

O elfo tremeu da cabeça aos pés.

— Kreacher bebeu, e enquanto bebia, viu coisas terríveis... As entranhas de Kreacher queimaram... Kreacher gritou para o senhor Regulus ir salvar ele, gritou por sua senhora Black, mas o Lorde das Trevas ria... ele fez Kreacher beber a poção toda... ele pôs um medalhão na bacia vazia... tornou a encher a bacia com mais poção.

”Então o Lorde das Trevas foi embora e deixou Kreacher na ilha...”

Harry via a cena se desenrolando. O rosto branco e serpentino de Voldemort desaparecendo na escuridão, aqueles olhos vermelhos cruelmente fixos no elfo que se debatia e cuja morte ocorreria dentro de minutos, quando ele sucumbisse à sede desesperada que a poção causticante causava na vítima... mas daí em diante a imaginação de Harry não pôde prosseguir, porque não conseguiu visualizar como Kreacher escapara.

- Kreacher precisava de água, arrastou-se até a orla da ilha e bebeu a água do lago preto... e mãos, mãos mortas saíram da água e arrastaram Kreacher para baixo...

- Como foi que você escapou? — perguntou Harry, e não se surpreendeu ao perceber que estava sussurrando.

Kreacher ergueu a cabeça feia e encarou Harry com seus grandes olhos vermelhos.

- Meu senhor Regulus disse a Kreacher para voltar.

- Eu sei... mas como você fugiu dos Inferi? Kreacher pareceu não entender.

- Meu senhor Regulus disse a Kreacher para voltar — repetiu ele.

- Eu sei, mas...

- Ora é óbvio, não é, Harry? - interveio Ron. - Ele desaparatou!

- Mas... não se podia aparatar e desaparatar na caverna - disse Harry -, do contrário, Dumbledore...

- A magia dos elfos não é como a magia dos bruxos, é? - perguntou Ron. - Quero dizer, eles podem aparatar e desaparatar em Hogwarts e nós não.

Fez-se silêncio enquanto Harry digeria a informação. Como Voldemort poderia ter cometido um erro desse? Enquanto pensava, porém, Hermione falou, e sua voz estava gélida.

- É óbvio, Voldemort teria considerado os costumes dos elfos domésticos indignos de sua atenção, exatamente como os sanguespuros que os tratam como animais. Nunca teria lhe ocorrido que eles pudessem ser capazes de uma magia que ele não dominasse.

- A lei máxima para um elfo doméstico é a ordem do seu senhor - entoou Kreacher. - Mandaram Kreacher voltar para casa, então Kreacher voltou para casa.

- Bem, então você fazia o que lhe mandavam, não é? - disse Hermione bondosamente. — Não desobedecia a ordem alguma!

Kreacher fez que não com a cabeça, se balançando furiosamente.

- Então que aconteceu quando você voltou? - perguntou Harry.

- Que disse Regulus quando você contou o que tinha acontecido?

- Meu senhor Regulus ficou muito preocupado, muito preocupado - crocitou Kreacher. — Meu senhor Regulus mandou Kreacher ficar escondido e não sair de casa.

E então... foi um pouco depois disso... meu senhor Regulus veio procurar Kreacher no armário uma noite, e meu senhor Regulus estava esquisito, fora do normal, perturbado, Kreacher percebeu... e ele pediu a Kreacher para levá-lo até a caverna, a caverna onde Kreacher tinha ido com o Lorde das Trevas... E então tinham partido. Harry pôde visualizá-los muito claramente, o velho elfo amedrontado e o seeker magro e moreno que tanto se parecera com Sirius... Kreacher sabia como abrir a entrada oculta para a caverna subterrânea, sabia como erguer o barquinho; desta vez foi o seu amado Regulus quem o acompanhou à ilha com a bacia de veneno...

- E ele fez você beber a poção? — perguntou Harry enojado. Kreacher, porém, sacudiu a cabeça e chorou. Hermione levou as

mãos à boca: parecia ter compreendido alguma coisa.

- M-meu senhor Regulus tirou do bolso um medalhão igual ao que o Lorde das Trevas tinha - disse Kreacher, as lágrimas escorrendo pelos lados do seu nariz trombudo. — E ele disse a Kreacher para pegar e, quando a bacia estivesse vazia, trocar os medalhões...

Os soluços de Kreacher agora saíam em grandes guinchos; Harry precisou se concentrar para entendê-lo.

- E ele deu ordem... para Kreacher ir embora... sem ele. E ele disse a Kreacher... para ir para casa... e nunca contar à minha senhora... o que ele tinha feito... mas para destruir... o primeiro medalhão. E ele bebeu... a poção toda... e Kreacher trocou os medalhões... e ficou olhando... meu senhor Regulus... ele foi arrastado para baixo d’agua... e...

- Ah, Kreacher! — gemeu Hermione, que estava chorando. Ela caiu de joelhos ao lado do elfo e tentou abraçá-lo. Na mesma hora, ele ficou de pé, fugiu dela, deixando óbvia a sua repulsa.

- A sangue-ruim encostou em Kreacher, ele não vai permitir, que iria dizer a senhora dele?

- Eu lhe disse para não chamá-la de ”sangue-ruim”! - vociferou Harry, mas o elfo já estava se castigando: atirou-se ao chão e bateu com a cabeça repetidamente.

- Faça ele parar, faça ele parar! - exclamou Hermione. - Ah, está claro agora como isso é doentio, a obrigação que eles têm de obedecer?

- Kreacher: pára, pára! - gritou Harry.

O elfo ficou deitado no chão, ofegando e tremendo, uma secreção verde brilhando em torno do nariz, um hematoma já se formando na testa pálida no ponto em que a batera, seus olhos inchados e injetados transbordando lágrimas. Harry nunca vira nada tão digno de pena.

- Então você trouxe o medalhão para casa - disse ele inflexível, porque estava resolvido a conhecer a história completa. - E tentou destruí-lo?

- Nada que Kreacher tentou fez mossa no medalhão — lamentouse o elfo. - Kreacher tentou tudo, tudo que sabia, mas nada, nada adiantou... de tão poderosos os feitiços que estavam nele. Kreacher tinha certeza que, para destruir o medalhão, precisava chegar dentro dele, mas ele não abria... Kreacher se castigou, tentou outra vez, se castigou, tentou outra vez. Kreacher não conseguiu obedecer à ordem, Kreacher não conseguiu destruir o medalhão! E sua senhora enlouqueceu de tristeza, porque meu senhor Regulus desapareceu, e Kreacher não pôde contar a ela o que tinha acontecido, não, porque meu senhor Regulus tinha p-proibido Kreacher de contar para a f-família o que tinha acontecido na c-caverna...

Kreacher começou a soluçar tanto que suas palavras deixaram de fazer sentido. As lágrimas escorriam pelo rosto de Hermione, que observava Kreacher, mas ela não se atreveu a tocá-lo novamente. Até Ron, que não era fã do elfo, parecia perturbado. Harry se recostou e sacudiu a cabeça, tentando clarear os pensamentos.

- Não estou entendendo você, Kreacher - disse ele finalmente. Voldemort tentou matar você, Regulus morreu para derrubar Voldemort, ainda assim você ficou feliz em entregar Sirius a Voldemort? Ficou feliz em procurar Narcissa e Bellatrix e por meio delas passar informações a Voldemort.,.

- Harry, não é assim que Kreacher raciocina — disse Hermione enxugando as lágrimas com o dorso da mão. - Ele é um escravo; elfos domésticos estão acostumados a ser maltratados e até brutalizados; o que Voldemort fez a Kreacher não foi muito diferente disso. Que significam as guerras bruxas para um elfo como Kreacher? Ele é leal àqueles que são bons para ele, e a sra. Black deve ter sido boa, e Regulus certamente o foi, portanto ele os servia de boa vontade e repetia as crenças deles.

Sei o que você vai me dizer — continuou ela, quando Harry começou a protestar —, que Regulus mudou de idéia... mas, pelo visto, ele não explicou isso a Kreacher, não é? E acho que sei a razão. Kreacher e a família de Regulus estariam mais seguros se Bontinuassem fiéis ao velho conceito do sangue puro. Regulus estava tentando proteger a todos.

- Sirius...

- Sirius era muito mau com Kreacher, Harry, e não adianta me olhar assim, você sabe que é verdade. Kreacher tinha passado muito tempo sozinho quando Sirius veio morar aqui, e provavelmente estava faminto por alguma afeição. Tenho certeza que a ”srta. Cissy” e a ”srta. Bella” eram absolutamente simpáticas com Kreacher quan’lo ele aparecia por lá, então ele lhes fazia um favor e contava tudo que queriam saber. Sempre disse que os bruxos um dia iriam pagar pelo modo com que tratam os elfos domésticos. Bem, Voldemort pagou... e Sirius também.

Harry não teve o que retorquir. Enquanto observava Kreacher aos soluços no chão, ele se lembrou do que Dumbledore lhe dissera, poucas horas após Sirius morrer: ”Acho que Sirius nunca encarou Kreacher como um ser com sentimentos tão sutis quanto os de um ser humano...”

- Kreacher - disse Harry, algum tempo depois -, quando tiver vontade, ãh... por favor, se sente.

Passaram-se vários minutos até Kreacher calar seus soluços. Sentou então, esfregando os olhos com os nós dos dedos, como uma criancinha.

- Kreacher, vou lhe pedir para fazer uma coisa - disse-lhe Harry, e olhou para Hermione pedindo ajuda: queria dar uma ordem gentilmente, mas ao mesmo tempo não poderia fingir que não era uma ordem. Contudo, a mudança no seu tom de voz parecia ter recebido aprovação da amiga: ela sorriu encorajando-o.

”Kreacher, eu quero que você, por favor, encontre mundungus letcher. Precisamos descobrir onde o medalhão, o medalhão do seu sHenhor Regulus, está. É realmente importante. Queremos terminar a tarefa que o seu senhor Regulus começou, queremos... ãh... garantir que ele não tenha morrido em vão.”

Kreacher baixou os punhos e ergueu os olhos para Harry Potter. - Encontrar mundungus Fletcher? — repetiu rouco.

- E trazê-lo aqui, ao Grimmauld Place - acrescentou Harry. Bfocê acha que poderia fazer isso para nós?

Ao ver Kreacher assentir e ficar em pé, o garoto teve uma súbita inspiração. Apanhou a bolsa que Hagrid lhe dera e tirou a falsa Horcrux, o medalhão substituto em que Regulus colocara o bilhete para Voldemort.

— Kreacher, eu... ãh... gostaria que você ficasse com isso - disse, colocando o medalhão nas mãos do elfo. — Isto pertenceu a Regulus, e tenho certeza que ele gostaria de lhe dar como prova de gratidão pelo que você...

— Destruiu, colega - disse Ron, quando o elfo, dando uma olhada no medalhão, deixou escapar um uivo de choque e desespero e tornou a se atirar ao chão.

Levaram quase meia hora para acalmar Kreacher, que ficou tão comovido em receber de presente uma herança da família Black que sentiu os joelhos fracos demais para se manter em pé. Quando finalmente pôde dar alguns passos, os garotos o acompanharam ao seu armário, viram-no guardar o medalhão nas cobertas sujas, e tranqüilizaram o elfo de que a proteção do objeto seria sua maior prioridade enquanto ele estivesse ausente. Então Kreacher fez duas reverências profundas para Ron e Harry, e até uma leve contração gaiata em direção a Hermione que talvez fosse uma tentativa de saudá-la respeitosamente, antes de desaparatar com o costumeiro estalo.

 

O SUBORNO

Se Kreacher PODIA ESCAPAR de um lago cheio de Inferi, Harry confiava que a captura de mundungus levaria no máximo algumas horas, e ele andou pela casa a manhã inteira em estado de grande expectativa. Contudo, Kreacher não voltou aquela manhã nem à tarde. Quando anoiteceu, Harry se sentiu desanimado e ansioso, e o jantar composto principalmente de pão bolorento, no qual Hermione tentara uma variedade de malsucedidas transfigurações, não ajudou em nada.

Kreacher não retornou no dia seguinte, nem no próximo. Apareceram, no entanto, dois homens de capa no largo em frente ao número doze, e ali permaneceram noite adentro, olhando em direção à casa que não podiam ver.

- Na certa, Comensais da Morte — disse Ron, enquanto ele, Harry e Hermione observavam das janelas da sala de visitas. Acham que eles sabem que estamos aqui?

- Acho que não - respondeu Hermione, embora parecesse amedrontada -, ou teriam mandado Snape atrás de nós, não?

- Vocês acham que ele esteve aqui e o feitiço de Moody prendeu a língua dele? — sugeriu Ron.

- Acho — respondeu Hermione -, do contrário, teria podido contar àquele bando como entrar, não? Mas eles provavelmente estão vigiando para ver se aparecemos. Sabem que a casa é do Harry.

- Como puderam...? - começou Harry.

- Os testamentos bruxos são examinados pelo Ministério, lembram? Saberão que Sirius deixou a casa para você.

A presença de Comensais da Morte ali fora intensificou a atmosfera agourenta no número doze. Os garotos não tinham ouvindo nada de pessoa alguma fora do largo Grimmauld desde o Patrono do sr. Weasley, e a tensão estava começando a se manifestar. Inquieto e irritável, Ron tinha desenvolvido o incômodo hábito de brincar com o desiluminador dentro do bolso:

isto enfurecia particularmente Hermione, que passava o tempo em que aguardavam Kreacher estudando Os contos de Beedle, o bardo e não estava gostando de que as luzes piscassem.

- Quer parar com isso! - exclamou, na terceira noite da ausência de Kreacher, quando a luz da sala de visita foi apagada mais uma vez.

- Desculpe, desculpe! - disse Ron, acionando o desiluminador e acendendo as luzes. — Não estou fazendo isso conscientemente!

- Bem, não pode procurar alguma coisa útil para se ocupar?

- O quê, ler histórias escritas para criancinhas?

- Dumbledore me deixou o livro, Ron...

- ... e me deixou o desiluminador, quem sabe esperava que eu o usasse!

Incapaz de suportar essas briguinhas, Harry saiu da sala sem os dois perceberem. Desceu à cozinha, que ele não parava de visitar, porque tinha certeza de que era ali que Kreacher provavelmente reapareceria. No meio da escada para a entrada, no entanto, ele ouviu uma batida na porta da frente, e em seguida cliques metálicos e a corrente.

Sentiu cada nervo do seu corpo se retesar: sacou a varinha e se ocultou nas sombras ao lado das cabeças dos elfos decapitados, onde ficou aguardando. A porta abriu: ele entreviu o largo iluminado e um vulto de capa entrou sorrateiro na casa e fechou a porta. O intruso deu um passo à frente e a voz de Moody perguntou:

- Severus Snape?

Então, o vulto de pó se ergueu no final do corredor e avançou para ele, a mão cadavérica erguida.

- Não fui eu que o matei, Albus - respondeu a voz baixa.

O feitiço se desfez, o vulto de pó explodiu e foi impossível ver o recém-chegado através da densa nuvem cinzenta que o espectro deixou ao desaparecer.

Harry apontou a varinha para o meio da nuvem.

- Não se mexa!

Ele esquecera, porém, o retrato da sra. Black: ao som de sua ordem, as cortinas que a ocultavam se abriram repentinamente e a bruxa começou a gritar:

- Sangues-ruins e escória desonrando minha casa...

Ron e Hermione desceram atrás de Harry reboando pela escada, as varinhas apontadas para o estranho no corredor, as mãos para o alto.

- Guardem as varinhas, sou eu, Remus!

- Ah, graças aos céus — exclamou Hermione em voz baixa, dirigindo a varinha para a sra. Black; com um estampido, as cortinas tornaram a fechar e fez-se silêncio. Ron também baixou a varinha, mas Harry não.

- Apareça! - falou.

Lupin deu um passo para a luz, as mãos ainda no alto em um gesto de rendição.

- Sou Remus John Lupin, lobisomem, também conhecido como Moony, um dos quatro criadores do mapa do maroto, casado com Ninfadora, mais conhecida como Tonks, e o ensinei a produzir um Patrono, Harry, que assume a forma de um veado.

- Ah, tudo bem - disse Harry, baixando a varinha —, mas eu tinha que verificar, não?

- Na qualidade de seu antigo professor de Defesa contra as Artes das Trevas, concordo plenamente que precisasse verificar. Ron, Hermione, vocês não deviam ter baixado a guarda tão rapidamente.

Os garotos desceram o resto da escada e correram para o recém-chegado. Protegido por uma grossa capa de viagem preta, ele parecia exausto, mas satisfeito em revê-los.

- Então, nem sinal de Severus? - perguntou.

- Não - respondeu Harry. - Que está acontecendo? Estão todos bem?

- Estão - confirmou Lupin -, mas vigiados. Há uns dois Comensais da Morte no largo aí em frente...

- ... sabemos...

- ... precisei aparatar exatamente no último degrau à frente da porta para garantir que não me vissem. Não sabem que vocês estão aqui, ou tenho certeza que postariam mais gente lá fora; estão tocaiando todos os lugares que têm alguma ligação com você, Harry. Vamos descer, tenho muito que lhes contar e quero saber o que aconteceu depois que saíram d’A Toca.

Eles desceram à cozinha, onde Hermione apontou a varinha para a lareira. As chamas subiram instantaneamente: deram a ilusão de aconchego às frias paredes de pedra e se refletiram na superfície da mesa de madeira.

Lupin tirou algumas cervejas amanteigadas debaixo da capa de viagem, e todos se sentaram.

- Eu teria chegado aqui há três dias, mas precisei me livrar do Comensal que estava me seguindo - comentou Lupin. - Então, vocês vieram direto para cá depois do casamento?

- Não - respondeu Harry —, só depois de toparmos com dois Comensais em um bar na Tottenham Court.

Lupin derramou quase toda a cerveja no peito.

- Quê?

Os garotos explicaram o que havia acontecido; quando terminaram, Lupin estava horrorizado.

- Mas como encontraram vocês tão depressa? É impossível rastrear uma pessoa que aparata, a não ser que a agarrem antes de desaparecer!

- E é pouco provável que estivessem apenas passeando pela Tottenham Court na hora, concorda? - comentou Harry.

- Pensamos - arriscou Hermione - que talvez Harry ainda tivesse o rastreador, que acha?

- Impossível - respondeu Lupin. Ron fez cara de quem acertou, e Harry se sentiu imensamente aliviado. — Sem me aprofundar, se Harry ainda carregasse o rastreador, eles teriam certeza absoluta de sua presença aqui, não é mesmo? Mas não vejo como poderiam ter seguido vocês a Tottenham Court, e isso me preocupa, realmente me preocupa.

Ele pareceu perturbado, mas, se dependesse de Harry, a pergunta poderia esperar.

- Conte o que aconteceu depois que saímos, não soubemos de nada desde que o pai de Ron nos avisou que a família estava bem.

- Bem, Kingsley nos salvou — disse Lupin. - Graças ao seu aviso, a maior parte dos convidados pôde desaparatar antes da invasão.

- Eram Comensais da Morte ou gente do Ministério? - interrompeu-o Hermione.

- Os dois; para todos os efeitos, agora os dois são a mesma coisa — disse Lupin. — Eram uns doze, mas não sabiam que você estava lá, Harry. Arthur ouviu um boato que procuraram descobrir o seu paradeiro, torturando Scrimgeour antes de matá-lo; se for verdade, ele não o traiu.

Harry olhou para Ron e Hermione; seus rostos refletiam a mescla de choque e gratidão que ele sentia.

Jamais gostara muito de Scrimgeour, mas, se o que Lupin dizia fosse verdade, o último gesto do homem fora protegê-lo.

- Os Comensais revistaram A Toca de cima a baixo - continuou Lupin. - Encontraram o vampiro, mas não quiseram chegar muito perto; depois interrogaram horas seguidas os que permaneceram na casa. Estavam querendo obter informações sobre você, Harry, mas, naturalmente, ninguém mais além dos membros da Ordem sabia que você tinha estado lá.

”Ao mesmo tempo em que acabavam com o casamento, outros Comensais estavam invadindo as casas no campo que tinham ligação com a Ordem. Não mataram ninguém”, acrescentou, depressa, prevendo a pergunta, ”mas foram violentos. Queimaram a casa de Dedalus Diggle, mas, como você sabe, ele não estava, e usaram a Maldição Cruciatus na família de Tonks, tentando descobrir aonde você tinha ido depois de visitá-los. Eles estão bem... obviamente abalados... mas, sob outros aspectos, bem.”

- Os Comensais da Morte romperam todos os feitiços de proteção? - perguntou Harry, lembrando-se de sua eficácia na noite em que ele se acidentara no jardim dos Tonks.

- O que você precisa compreender, Harry, é que os Comensais agora têm o Ministério todo na mão — disse Lupin. - Têm o poder de usar feitiços cruéis sem medo de serem identificados ou presos. Conseguiram penetrar cada feitiço defensivo que lançamos contra eles e, uma vez dentro, agiram abertamente.

- E por que estão se dando o trabalho de inventar desculpas para descobrir o paradeiro de Harry por meio de tortura? - perguntou Hermione, com um fio de irritação na voz.

- Bem... — começou Lupin. Hesitou um momento, então tirou da capa um exemplar dobrado do Profeta Diário. - Leia — disse, empurrando o jornal para Harry do outro lado da mesa —, você irá saber mais cedo ou mais tarde. É o pretexto que estão usando para procurar você.

Harry abriu o jornal. Uma enorme fotografia sua ocupava a primeira página. Leu a manchete.

PROCURADO PARA DEPOR SOBRE A MORTE DE Albus DUMBLEDORE

Ron e Hermione gritaram indignados, mas Harry ficou calado. Empurrou o jornal para longe; não queria ler mais nada: sabia o que dizia. Ninguém, exceto os que estavam no alto da torre quando Dumbledore morreu, sabia quem realmente o matara, e, como Rita Skeeter já divulgara para o mundo bruxo, Harry fora visto fugindo do local momentos depois da queda de Dumbledore.

- Lamento, Harry - disse Lupin.

- Então os Comensais da Morte tomaram o Profeta Diário também? — perguntou Hermione, furiosa.

Lupin assentiu.

- Mas com certeza as pessoas percebem o que está acontecendo, não?

- O golpe foi hábil e virtualmente silencioso - respondeu Lupin. - A versão oficial para o assassinato de Scrimgeour é que ele renunciou; foi substituído por Phil Thicknesse, que está sob a influência da Maldição Imperius.

- Por que Voldemort não se declarou ministro da Magia? - perguntou Ron.

Lupin riu.

- Não precisa, Ron. Ele é de fato o ministro da Magia, então, para que iria se sentar atrás de uma mesa no Ministério? Seu fantoche, Phil Thicknesse, está cuidando da burocracia diária, deixando Voldemort livre Para estender sua influência para além do Ministério.

”Naturalmente muitas pessoas deduziram o que aconteceu: nos últimos dias houve uma acentuada mudança na diretriz ministerial, e muitos estão murmurando que Voldemort deve estar por trás disso. Contudo, aí reside o problema: murmuram apenas. Não ousam trocar confidencias, não sabem em quem confiar; têm medo de se manifestar, porque suas suspeitas podem se confirmar e suas famílias serem atingidas. Sim, Voldemort está fazendo um jogo inteligente. Expor-se poderia ter provocado uma rebelião aberta: nos bastidores, criou confusão, incerteza e medo.”

— E essa mudança acentuada na diretriz ministerial — indagou Harry - inclui alertar o mundo bruxo contra mim e não contra Voldemort?

- Com certeza, e é um golpe de mestre. Agora que Dumbledore morreu, você, O-Menino-Que-Sobreviveu, certamente seria o símbolo e o núcleo de qualquer resistência contra Voldemort.

Mas, ao sugerir que você participou na morte do velho herói, ele não só pôs a sua cabeça a prêmio como também semeou a dúvida e o medo entre aqueles que o teriam defendido.

”Nesse meio-tempo, o Ministério saiu em campo contra os nascidos muggles.”

Lupin apontou para o Profeta Diário.

- Vejam a página dois.

Hermione virou as páginas do jornal com a mesma expressão de nojo com que segurara os Segredos das artes mais tenebrosas. E leu em voz alta:

- Registro para os Nascidos muggles

”O Ministério da Magia está procedendo a um censo dos chamados ’nascidos muggles’ para melhor compreender como se tornaram detentores de segredos da magia.

”Pesquisas recentes feitas pelo Departamento de Mistérios revelam que a magia só pode sei transmitida de uma pessoa a outra quando os bruxos procriam. Portanto, nos casos em que não há comprovação de ancestralidade bruxa, os chamados nascidos muggles provavelmente obtiveram seus poderes por meio do roubo ou uso de força.

”O Ministério tomou a decisão de extirpar esses usurpadores da magia e, com essa finalidade, enviou um convite para que se apresentem a uma entrevista com a recém-nomeada Comissão de Registro dos Nascidos muggles.”

- As pessoas não vão deixar isso acontecer — disse Ron.

- Já está acontecendo - informou Lupin. - Os nascidos muggles estão sendo arrebanhados, por assim dizer.

- Mas como supõem que eles possam ter ”roubado” a magia? Isso é pura debilidade, se fosse possível roubar magia não haveria bruxos abortados, não acham?

- Concordo - disse Lupin. - Contudo, a não ser que você possa provar que tem, no mínimo, um parente próximo que seja bruxo, concluirão que obteve o seu poder ilegalmente e será passível de punição.

Ron olhou para Hermione e disse:

- E se os sangues-puros e os mestiços jurarem que um nascido muggle faz parte da família? Eu direi a todo mundo que Hermione é minha prima...

Hermione pôs a mão sobre a mão de Ron e apertou-a.

- Obrigada Ron, mas eu não poderia deixar...

- Você não terá escolha - disse Ron impetuosamente, segurando a mão dela. - Eu a ensino a reconhecer a minha árvore genealógica e você poderá responder às perguntas deles.

Hermione deu uma risada gostosa.

- Ron, como estamos fugindo com Harry, a pessoa mais procurada deste país, acho que isso não tem importância. Se eu fosse voltar para a escola seria diferente. E quais são os planos de Voldemort para Hogwarts? - perguntou ela a Lupin.

- A freqüência agora é obrigatória para todas as crianças bruxas. Anunciaram ontem. É uma mudança, porque antes nunca foi obrigatória. Naturalmente quase todos os bruxos da Grã-Bretanha foram educados em Hogwarts, mas os pais tinham o direito de ensinar-lhes em casa ou mandá-los estudar no exterior, se preferissem. Com isso, Voldemort terá toda a população bruxa sob vigilância desde muito jovem. E é outra maneira de extirpar os nascidos muggles, porque os alunos devem receber um registro sangüíneo, indicando que provaram ao Ministério sua ascendência bruxa, antes de poderem se matricular.

Harry sentiu repugnância e raiva: naquele momento crianças de onze anos excitadas estariam examinando pilhas de livros de feitiços recém-comprados, sem saber que jamais veriam Hogwarts ou talvez nem as próprias famílias.

- É... é... — murmurou, tentando encontrar palavras que fizessem justiça aos pensamentos horripilantes que lhe passavam pela cabeça, mas Lupin disse-lhe brandamente:

- Eu sei.

O ex-professor hesitou.

- Eu compreenderei se você não puder confirmar, Harry, mas a Ordem está desconfiada de que Dumbledore lhe confiou uma missão.

- Confiou, e Ron e Hermione a conhecem e vão me acompanhar.

- Você pode me contar qual é a missão?

Harry encarou aquele rosto prematuramente enrugado, com a sua moldura de cabelos bastos, mas grisalhos, e desejou que pudesse lhe dar uma resposta diferente.

- Não posso, Remus, lamento. Se Dumbledore não lhe revelou, acho que também não posso.

- Supus que essa seria a sua resposta - disse Lupin, desapontado. - Ainda assim, eu poderia lhe ser útil. Você me conhece e sabe o que sou capaz de fazer. Eu poderia acompanhá-lo para lhe fornecer proteção. Não haveria necessidade de me dizer exatamente o que pretendem.

Harry hesitou. Era uma oferta tentadora, embora ele não conseguisse imaginar como iriam poder guardar segredo se Lupin estivesse com eles todo o tempo.

Hermione, no entanto, pareceu intrigada.

- E Tonks? — perguntou.

- Que tem ela?

- Bem — tornou Hermione, enrugando a testa —, vocês são casados! O que ela está achando dessa sua viagem conosco?

- Tonks estará perfeitamente segura. Na casa dos pais dela.

O tom de Lupin foi estranho; quase frio. Havia algo esquisito na idéia de Tonks ficar escondida na casa dos pais; afinal, ela era membro da Ordem e, pelo que Harry conhecia, a auror provavelmente iria querer participar da ação.

- Remus — perguntou Hermione hesitante -, está tudo bem... entende... entre você e...

- Tudo está ótimo, obrigado — respondeu ele, enfaticamente. Hermione corou.

Houve uma segunda pausa, inoportuna e constrangedora, então Lupin acrescentou com ar de quem era forçado a admitir algo desagradável:

- Tonks vai ter um bebê.

- Ah, que maravilhoso! — guinchou Hermione.

- Excelente! - disse Ron, entusiasmado.

- Parabéns - acrescentou Harry.

Lupin lançou aos garotos um sorriso forçado, mais parecia uma careta, antes de perguntar:

- Então... aceitam a minha oferta? Os três poderão ser quatro? Não acredito que Dumbledore desaprovasse, afinal foi ele que me nomeou professor de Defesa contra as Artes das Trevas. E, confesso, creio que estamos enfrentando uma magia que muitos de nós jamais encontraram ou imaginaram existir.

Ron e Hermione olharam para Harry.

- Só... só para deixar bem claro — disse o garoto. - Você quer deixar Tonks na casa dos pais e nos acompanhar?

- Tonks estará perfeitamente segura, eles cuidarão dela - respondeu Lupin, com uma firmeza que beirava a indiferença. — Harry, tenho certeza que James iria querer que eu estivesse ao seu lado.

- Bem — disse Harry, lentamente —, eu não. Tenho certeza que o meu pai iria querer saber por que você não vai ficar ao lado do seu próprio filho.

A cor sumiu do rosto de Lupin. A temperatura da cozinha parecia ter caído dez graus. Ron correu o olhar pelo aposento como se o tivessem mandado memorizar cada detalhe, enquanto os olhos de Hermione iam e vinham de Harry para Lupin.

- Você não entende - disse Lupin, finalmente.

- Explique, então. Lupin engoliu em seco.

- Cometi um grave erro me casando com Tonks. Agi contrariando o meu bom senso, e tenho me arrependido muito desde então.

- Entendo, então você vai simplesmente abandonar a moça e o filho e fugir conosco?

Lupin se pôs repentinamente de pé: a cadeira tombou para trás e ele encarou os garotos com tanta ferocidade que Harry viu, pela primeira vez na vida, a sombra do lobo em seu rosto humano.

- Você não entende o que fiz à minha mulher e ao meu filho que vai nascer? Eu jamais devia ter casado com Tonks, eu a transformei em uma pária! - Lupin chutou para o lado a cadeira que derrubara.

”Você até hoje só me viu na Ordem, ou sob a proteção de Dumbledore, em Hogwarts! Você não sabe como a maioria do mundo bruxo encara as criaturas como eu! Quando descobrem a minha desgraça, nem conseguem mais falar comigo! Você não percebe o que eu fiz? Até a família dela se desgostou com o nosso casamento, que pais querem ver a única filha casada com um lobisomem? E o filho... o filho...”

Lupin chegou a arrancar tufos dos próprios cabelos; parecia muito descontrolado.

- A minha espécie normalmente não procria! Ele será como eu, estou convencido. Como poderei me perdoar, quando conscientemente corri o risco de transmitir a minha deficiência a uma criança inocente? E se, por milagre, ela não for como eu, então estará melhor, mil vezes melhor sem um pai do qual sempre se envergonhará!

- Remus! - sussurrou Hermione, os olhos marejados de lágrimas.

- Não diga isso, como uma criança poderia ter vergonha de você?

- Ah, não sei, Hermione — disse Harry. — Eu teria muita vergonha dele.

Ele não sabia de onde vinha a sua raiva, mas o sentimento o fizera se levantar também. A expressão de Lupin era a de quem tinha sido esbofeteado por Harry.

- Se o novo regime acha que os que nasceram muggles são criminosos, que fará com um mestiço de lobisomem cujo pai pertence à Ordem? Meu pai morreu tentando proteger a mim e minha mãe, e você acha que ele lhe diria para abandonar seu filho e nos acompanhar em uma aventura?

- Como... como se atreve? - disse Lupin. - Não se trata de um desejo de... correr riscos ou obter glória pessoal... como se atreve a insinuar uma...

- Acho que você está sendo audacioso - disse Harry. — Querendo ocupar o lugar de Sirius...

- Harry, não! - suplicou Hermione, mas ele continuou a encarar o rosto lívido de Lupin.

- Eu nunca teria acreditado — continuou Harry. - O homem que me ensinou a combater dementadores... um covarde.

Lupin sacou a varinha tão rápido que Harry mal teve tempo de apanhar a própria; seguiu-se um forte estampido e ele se sentiu arremessado para trás como se tivesse levado um murro; ao bater contra a parede da cozinha e escorregar para o chão, viu a ponta da capa de Lupin desaparecer pela porta.

- Remus, Remus, volte! — gritou Hermione, mas Lupin não respondeu. Instantes depois ouviram a porta da frente bater. — Harry! gritou, chorosa. - Como pôde fazer isso?

- Foi fácil - respondeu Harry.

Ele se levantou; sentiu um galo crescendo no lugar em que sua cabeça batera na parede. Sua raiva era tanta que o fazia tremer.

- Não olhe para mim desse jeito! — disse rispidamente a Hermione.

- Não se vire contra ela! — rosnou Ron.

- Não... não... não devemos brigar! — disse Hermione atirando-se entre os dois.

- Você não devia ter dito aquilo a Lupin - disse Ron a Harry.

- Ele estava pedindo - respondeu Harry. Imagens fragmentadas sobrepunham-se celeremente em sua mente: Sirius atravessando o véu; Dumbledore suspenso, desconjuntado, no ar; um lampejo de luz verde e a voz de sua mãe pedindo misericórdia...

— Os pais — disse Harry - não devem abandonar os filhos, a não ser... a não ser que não possam evitar.

— Harry... - disse Hermione, esticando a mão para consolá-lo, mas ele repeliu-a e se afastou, fixando as chamas que a garota tinha conjurado. Uma vez falara com Lupin por aquela lareira, buscando consolo por causa do pai, e o professor o ajudara. Agora o rosto torturado e pálido de Lupin parecia flutuar diante de seus olhos. Ele sentiu uma onda nauseante de remorso. Nem Ron nem Hermione falaram, mas ele tinha certeza de que estavam se entreolhando às suas costas, comunicando-se em silêncio.

Harry se virou e surpreendeu-os voltando rapidamente as costas um para o outro.

— Sei que não devia tê-lo chamado de covarde.

— Não, não devia — concordou Ron, imediatamente.

— Mas é como ele está agindo.

— Mesmo assim... - disse Hermione.

— Eu sei. Mas se isto o fizer voltar para Tonks, terá valido a pena, não?

Ele não pôde evitar o tom de súplica em sua voz. Hermione pareceu receptiva, Ron, inseguro. Harry olhou para os próprios pés pensando no pai. James teria apoiado o que ele dissera a Lupin ou teria se zangado com o filho pelo modo com que tratara seu velho amigo?

A cozinha silenciosa pareceu vibrar com o impacto da cena recente e a reprovação muda de Ron e Hermione. O Profeta Diário que Lupin trouxera continuava sobre a mesa, a foto de Harry na primeira página virada para o teto. Ele se aproximou e se sentou, abriu o jornal a esmo e fingiu ler. Não conseguia entender as palavras, sua mente ainda arrebatada pelo confronto com Lupin. Sabia que Ron e Hermione tinham retomado sua comunicação silenciosa por trás do Profeta. Ele virou a página com violência, e o nome de Dumbledore saltou aos seus olhos. Harry levou alguns instantes para entender o significado da foto em que havia uma família. Sob a foto a legenda: A família Dumbledore: da esquerda para a direita, Albus, parsiphal, segurando Ariana recém-nascida, Kendra e Aberforth.

Atento, Harry parou para examinar a foto. O pai de Dumbledore, parsiphal, era um homem bonito, com olhos que pareciam cintilar mesmo na velha foto desbotada. O bebê, Ariana, era pouco maior que uma forma de pão e igualmente desprovido de traços marcantes. A mãe, Kendra, tinha cabelos muito negros presos em um coque.

Seu rosto parecia esculpido. Apesar do vestido de gola alta que usava, Harry lembrou-se de índios americanos ao estudar seus olhos escuros, malares altos e nariz reto. Albus e Aberforth usavam paletós iguais com gola de renda e cortes idênticos nos cabelos até os ombros. Albus parecia vários anos mais velho, mas sob outros aspectos, os dois meninos eram muito semelhantes, porque a foto fora tirada antes de Albus ter o nariz fraturado ou começar a usar óculos.

A família parecia bem feliz e normal e sorria serenamente. O bebê acenava, sem direção, com o braço fora da manta. Harry olhou para o alto da foto e leu a manchete:

TRECHO EXCLUSIVO DA BIOGRAFIA DE Albus DUMBLEDORE A SER LANÇADA EM BREVE por Rito Skeeter

Pensando que não poderia se sentir pior do que já se sentia, Harry começou a ler:

Orgulhosa e arrogante, Kendra Dumbledore não poderia suportar permanecer em Mould-on-the-Wold depois da comentada detenção do marido parsiphal e sua prisão em Azkaban. Ela decidiu, portanto, cortar esses laços e se mudar para Godric’s Hollow, a aldeia que anos mais tarde se tornaria famosa como cenário do ataque de Você-Sabe-Quem a Harry Potter e a inexplicável sobrevivência do menino.

Godric’s Hollow, tal como Mould-on-the-Wold, era o refúgio de muitas famílias bruxas, mas, não as conhecendo, Kendra estaria a salvo da curiosidade que o crime de parsiphal despertara em sua antiga aldeia. Repelindo as tentativas de aproximação dos vizinhos bruxos, em pouco tempo ela garantiu que sua família fosse deixada em paz.

”Kendra bateu a porta na minha cara quando passei para lhe dar as boas-vindas levando um tabuleiro de bolos de caldeirão”, conta Batilda Bagshot. ”No primeiro ano em que moraram lá, só vi os dois meninos. Não saberia que havia uma filha se não estivesse colhendo plangentinas ao luar no inverno depois da mudança e visse Kendra saindo com Ariana para o jardim dos fundos. Deu uma volta com a criança segurando-a com firmeza, depois tornou a entrar. Eu nem soube o que pensar daquilo.”

Aparentemente, Kendra achou que mudar para Godric’s Hollow seria a oportunidade perfeita de esconder Ariana para sempre, coisa que provavelmente vinha planejando havia anos.

O momento era oportuno. Ariana ainda não completara sete anos quando deixou de ser vista, e sete anos é a idade em que, se existir, a magia se revelará, segundo a maioria dos estudiosos. Nenhuma das pessoas ainda vivas se lembra de Ariana demonstrar o menor pendor para a magia. Parece evidente, portanto, que Kendra tenha decidido esconder a existência da filha para não sofrer a vergonha de admitir que dera à luz uma bruxa abortada. Afastar-se dos amigos e vizinhos que conheciam Ariana, naturalmente, tornaria a sua prisão em casa tanto mais fácil. O pequeno número de pessoas que a partir daí conheceram sua existência guardaria o segredo, inclusive seus dois irmãos, que contornavam as perguntas embaraçosas com a resposta que a mãe lhes ensinara: ”Minha irmã é muito doentinha para freqüentar a escola.”

Na próxima semana: Albus Dumbledore em Hogwarts - os prêmios e o fingimento.

Harry tinha se enganado: o que acabara de ler fez com que se sentisse pior. Ele tornou a contemplar a foto da família aparentemente feliz. Seria verdade? Como poderia descobrir? Queria ir a Godric’s Hollow, ainda que Batilda não estivesse em condições de conversar com ele; queria visitar o lugar em que ele e Dumbledore tinham perdido entes queridos. Já estava baixando o jornal, para perguntar a opinião de Ron e Hermione, quando um estalo ensurdecedor ecoou pela cozinha.

Pela primeira vez em três dias, Harry tinha esquecido Kreacher completamente. No primeiro momento, pensou que Lupin estivesse irrompendo de volta ao aposento e, por uma fração de segundo, não percebeu o número de pernas que apareceram se debatendo na cozinha ao lado de sua cadeira. Ergueu-se de um salto enquanto Kreacher, que se desvencilhava e lhe fazia uma profunda reverência, crocitou:

- Kreacher retornou com o ladrão mundungus Fletcher, meu senhor.

mundungus levantou-se com dificuldade e sacou a varinha; Hermione, no entanto, foi mais rápida que ele.

— Expelliarmus!

A varinha de mundungus saiu voando pelo ar e a garota a recolheu. De olhos arregalados, o bruxo se atirou em direção à escada: Ron derrubou-o e mundungus bateu no piso de pedra com um ruído abafado.

- Quê? - berrou, contorcendo-se em tentativas para se livrar das garras de Ron. — Que foi que eu fiz? Mandando um desgraçado de um elfo doméstico atrás de mim, que brincadeira é essa, que foi que eu fiz, me solte, me solte, ou...

- Você não está em posição de fazer ameaças - disse Harry. E, atirando o jornal para o lado, atravessou a cozinha em poucos passos e se ajoelhou ao lado de mundungus, que parou de lutar aterrorizado. Ron se levantou, ofegando, e ficou observando Harry apontar deliberadamente a varinha para o nariz do bruxo. mundungus fedia a suor velho e fumaça de tabaco: seus cabelos estavam embaraçados e as vestes manchadas.

- Kreacher pede desculpas pela demora em trazer o ladrão, meu senhor — crocitou o elfo. - Fletcher sabe como evitar ser capturado, tem muitos esconderijos e cúmplices. Mesmo assim, Kreacher acabou encurralando o ladrão.

- Você fez um ótimo serviço, Kreacher - disse Harry, e o elfo fez nova reverência.

”Certo, temos algumas perguntas a lhe fazer”, disse Harry a mundungus, que imediatamente gritou:

- Entrei em pânico, o.k.? Nunca quis ir, sem querer ofender, colega, nunca me ofereci para morrer por você, e o infeliz do Você-Sabe-Quem veio voando direto para mim, qualquer pessoa teria se mandado, eu disse o tempo todo que não queria fazer...

- Para sua informação, nenhum dos outros desaparatou interrompeu-o Hermione.

- Ora, vocês são metidos a heróis, é o que são, mas eu nunca fingi que pretendia me matar...

- Não estamos interessados em suas razões para abandonar Olho-Tonto - disse Harry, chegando a varinha mais perto dos olhos empapuçados e vermelhos do bruxo. — Nós já sabíamos que você não prestava.

- Então, por que diabos estou sendo caçado por elfos domésticos? Ou é aquela história das taças novamente? Não tenho mais nenhuma comigo, senão você poderia ficar com elas...

- Também não queremos falar de taças, embora você esteja esquentando. Cale a boca e ouça - disse Harry.

Era uma sensação maravilhosa ter o que fazer, ter alguém de quem exigir uma pequena parcela de verdade.

A varinha de Harry agora estava tão próxima da ponte do nariz de mundungus que o bruxo ficara vesgo tentando não perdê-la de vista.

- Quando você limpou esta casa de tudo que tinha valor... começou Harry, mas mundungus interrompeu-o outra vez.

- Sirius nunca ligou para aquela lixaria...

Ouviram um som de pezinhos apressados, um lampejo de cobre reluzente, uma batida metálica e ressonante e um grito de dor: Kreacher tinha corrido até mundungus, acertando-o na cabeça com uma caçarola.

- Tira ele daí, tira ele daí, ele devia ser preso! - berrou o bruxo, se encolhendo quando Kreacher tornou a erguer a caçarola de fundo pesado.

- Kreacher, não! - gritou Harry.

Os braços finos de Kreacher estremeceram sob o peso da caçarola que segurava no alto.

- Só mais uma vez, meu senhor Harry, para dar sorte. Ron riu.

- Precisamos dele consciente, Kreacher, mas, se houver necessidade de persuadi-lo, você fará as honras da casa - disse Harry.

- Muito, muito obrigado, meu senhor - disse Kreacher com uma reverência, e recuou alguns passos, seus grandes olhos claros ainda pregados em mundungus, com repugnância.

- Quando você limpou esta casa de todos os valores que conseguiu encontrar — começou Harry novamente —, levou um monte de coisas do armário da cozinha. Havia ali um medalhão. - A boca de Harry ficou repentinamente seca: ele sentiu a tensão e a excitação em Ron e Hermione. — Que foi que você fez com ele?

- Por quê? — perguntou mundungus. — Tinha valor?

- Você o guardou! - gritou Hermione.

- Não, não guardou - disse Ron com perspicácia. — Ele está imaginando se poderia ter pedido mais dinheiro por ele.

- Mais? - respondeu o bruxo. — Pô, teria sido difícil... entreguei aquele troço de graça. Não tive escolha.

- Como assim?

- Estava vendendo coisas no Diagon Alley e a mulher chega pra mim e pergunta se eu tenho licença para negociar artefatos mágicos. Uma desgraçada metida. Ia me multar, mas gostou do medalhão e disse que ia levar e deixar barato daquela vez e que eu me desse por feliz.

— Quem era a mulher? — perguntou Harry.

— Não sei, uma megera do Ministério.

mundungus parou para pensar um instante, enrugando a testa.

— Mulher pequena. Laço de fita na cabeça.

Ele franziu mais um pouco a testa e acrescentou:

— Cara de sapa.

Harry deixou cair a varinha: o objeto bateu no nariz de mundungus e soltou faíscas vermelhas nas sobrancelhas dele, que pegaram fogo.

— Aguamenti! - gritou Hermione, e um jato de água saiu de sua varinha e cobriu o bruxo, que cuspia água e se engasgava. Harry ergueu os olhos e viu o seu próprio choque refletido nos rostos de Ron e Hermione. As cicatrizes no dorso de sua mão direita pareciam estar formigando outra vez.

 

MAGIA É PODER

A MEDIDA QUE AGOSTO FOI PASSANDO, o quadrado de capim alto no meio do largo Grimmauld foi secando ao sol até se tornar marrom e quebradiço. Os habitantes do número doze nunca eram vistos por ninguém das casas vizinhas, nem o número doze em si. Os muggles que moravam no largo havia muito tempo tinham aceitado o divertido erro de numeração que deixara o número onze ao lado do número treze.

E, no entanto, o largo, aos poucos, vinha atraindo visitantes que pareciam achar a anomalia muito curiosa. Não se passava um dia sem que uma ou duas pessoas chegassem ao lugar sem outro objetivo, ou assim parecia, que não o de se debruçar nas grades diante dos números onze e treze, para observar a emenda das duas casas. Não eram sempre os mesmos, dois dias seguidos, embora se parecessem na aversão por roupas comuns. A maioria dos londrinos que passavam pelos visitantes estavam acostumados a trajes excêntricos e nem reparavam, ainda que, ocasionalmente, um deles pudesse olhar para trás imaginando por que alguém usaria capas tão compridas naquele calor.

Os curiosos não pareciam extrair grande satisfação de sua vigília. Por vezes, um deles partia em direção à casa, agitado, como se, enfim, tivesse visto algo interessante, apenas para acabar recuando, desapontado.

No primeiro dia de setembro, havia mais pessoas rondando o largo do que jamais houvera. Meia dúzia de homens com longas capas pararam atentos e silenciosos, observando, como sempre, as casas onze e treze, mas a coisa que esperavam ver continuava a lhes escapar. À medida que a noite foi caindo e trazendo, pela primeira vez em semanas, inesperadas rajadas de chuva fria, ocorreu um desses momentos inexplicáveis em que eles tiveram a impressão de ter visto algo interessante.

O homem de cara torta apontou-o para o companheiro mais próximo, um homem pálido e gorducho, e ambos avançaram, mas, momentos depois, retomaram a descontraída inatividade anterior, com um ar de contrariedade e decepção.

Entrementes, no interior do número doze, Harry acabara de entrar no corredor. Quase perdera o equilíbrio quando aparatou no degrau à frente da porta, e achou que os Comensais da Morte pudessem ter percebido o seu cotovelo momentaneamente à mostra. Fechando com cuidado a porta ao passar, tirou a Capa da Invisibilidade, pendurou-a no braço e correu pelo corredor lúgubre em direção ao porão, apertando na mão o exemplar do Profeta Diário que roubara.

O sussurro habitual de ”Severus Snape?” saudou-o, o vento gelado passou por ele e sua língua enrolou por um instante.

- Eu não o matei - respondeu, quando pôde, e prendeu a respiração enquanto o espectro poeirento explodia. Aguardou até alcançar a metade da escada da cozinha, fora do alcance da sra. Black e da nuvem de poeira, para gritar: - Trouxe notícias, e vocês não vão gostar.

A cozinha estava quase irreconhecível. Todas as superfícies agora brilhavam: as panelas e tachos de cobre tinham sido polidos até adquirirem um brilho rosado, o tampo da mesa de madeira luzia, as taças e pratos, a postos para o jantar, cultuavam à luz das chamas vivas que dançavam na lareira, onde fumegava um caldeirão. Nada no aposento, porém, apresentava uma mudança mais dramática do que o elfo doméstico, que agora veio correndo receber Harry, vestido com uma alvíssima toalha, os pêlos de sua orelha limpos e fofos como algodão, o medalhão de Regulus balançando no peito magro.

- Tire os sapatos, por favor, meu senhor Harry, e lave as mãos antes do jantar — crocitou Kreacher, apanhando a Capa da Invisibilidade e sacudindo-a para pendurar em um gancho na parede, ao lado de várias vestes antiquadas recém-lavadas.

- Que aconteceu? - perguntou Ron, apreensivo. Ele e Hermione estiveram estudando um maço de anotações e mapas feitos à mão, e que cobriam uma das extremidades da longa mesa da cozinha. Agora, no entanto, pararam para observar a aproximação de Harry que atirou o jornal em cima dos pergaminhos espalhados.

Uma grande foto de um homem de cabelos negros, nariz curvo, muito conhecido dos três, encarou-os sob a manchete: SEVERUS SNAPE CONFIRMADO DIRETOR DE HOGWARTS.

- Não! - exclamaram Ron e Hermione.

A garota foi mais rápida; agarrou o jornal e começou a ler a notícia em voz alta.

- Severus Snape, há anos professor de Poções na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, foi hoje nomeado diretor na mudança mais importante entre as que foram realizadas no corpo docente da tradicional escola. Aleto Carrow assumirá a função de professora de Estudos dos muggles face ao pedido de demissão da titular, enquanto seu irmão, Amico, ocupará o posto de professor de Defesa contra as Artes das Trevas.

”Agradeço a oportunidade de defender os melhores valores e tradições bruxos...”

- Suponho que sejam matar e cortar orelhas! Snape, diretor! Snape no gabinete de Dumbledore: pelas calças de Merlim! - guinchou Hermione, sobressaltando Harry e Ron. Ela se levantou da mesa de um salto e se precipitou para fora da cozinha, gritando: — Volto em um minuto!

- Pelas calças de Merlim? - repetiu Ron, achando graça. - Ela deve estar bem perturbada.

Ele puxou o jornal para perto e correu os olhos pelo artigo sobre Snape.

- Os outros professores não vão aceitar isso. McGonagall, Flitwick e Sprout sabem a verdade, sabem como Dumbledore morreu. Não vão aceitar Snape como diretor. E quem são esses Carrow?

- Comensais da Morte — respondeu Harry. — Tem fotos deles aí dentro. Estavam no alto da torre quando Snape matou Dumbledore, é a reunião dos amigos. E - continuou Harry, amargurado, puxando uma cadeira - não vejo opção para os outros professores senão permanecerem nos cargos. Se o Ministério e Voldemort estão apoiando Snape, terão de escolher entre ficar e ensinar ou passar uns aninhos em Azkaban, isto é, se tiverem sorte. Calculo que ficarão, para tentar proteger os alunos.

Kreacher veio apressado em direção à mesa, trazendo uma grande terrina nas mãos, e serviu a sopa nos pratos imaculados, assoviando entre os dentes.

- Obrigado, Kreacher - disse Harry, fechando o Profeta para não precisar olhar para a cara de Snape. - Bem, pelo menos sabemos exatamente onde ele está agora.

Harry começou a levar a colher de sopa à boca. A qualidade da culinária de Kreacher tinha melhorado drasticamente desde que ganhara o medalhão de Regulus: a sopa de cebola de hoje era a melhor que Harry já provara.

- Ainda tem uma pá de Comensais da Morte vigiando a casa disse ele a Ron enquanto comia— mais do que de costume. - É como se estivessem esperando que a gente saísse carregando os malões da escola para tomar o Expresso de Hogwarts.

Ron consultou o relógio.

- Estive pensando nisso o dia todo. O expresso partiu faz umas seis horas. É esquisito não estar a bordo, não é?

Harry pareceu rever em imaginação a mary Fumaça, quando ele e Ron a seguiram pelo ar, tremeluzindo por campos e montanhas, uma lagarta vermelha ondulando sobre trilhos. Tinha certeza de que Ginny, Neville e Luna estavam sentados juntos neste momento, talvez se perguntando onde ele, Ron e Hermione estariam, ou discutindo a melhor maneira de sabotar o novo regime de Snape.

- Eles quase me viram voltando para casa, agora há pouco disse Harry. — Aterrissei de mau jeito no degrau da porta, e a capa escorregou um pouco.

- Faço isso todas as vezes. Ah, aí vem ela - acrescentou Ron, esticando-se na cadeira para ver Hermione entrando na cozinha.

- - em nome dos cuecões folgados de Merlim, que aconteceu?

- Me lembrei disto aqui - Hermione ofegava.

Trazia nas mãos um enorme retrato emoldurado, que apoiou no chão antes de apanhar a bolsinha de contas no aparador da cozinha.

Abrindo-a, tentou forçar o quadro para dentro, e, embora ele fosse visivelmente grande demais para caber naquela bolsinha minúscula, em segundos desapareceu, como tantas outras coisas, em suasamplas profundezas.

- Fineus Nigellus - explicou Hermione, atirando a bolsa na mesa da cozinha, com o estrondo metálico habitual.

— Desculpe? — perguntou Ron, mas Harry entendeu. A imagem de Fineus Nigellus era capaz de sair do retrato no Grimmauld Place e visitar o outro que havia pendurado no gabinete do diretor de Hogwarts: a sala circular no alto da torre onde, sem dúvida, Snape estava sentado neste momento, na posse triunfal da coleção de deliIcados objetos mágicos de prata que pertencera a Dumbledore: a penseira, o Chapéu Seletor e, a não ser que a tivessem levado para outro lugar, a espada de Gryffindor.

- Snape poderia mandar Fineus Nigellus dar uma olhada aqui em casa para ele - explicou Hermione a Ron, tornando a ocupar o seu lugar à mesa. - Que experimente fazer isso agora, só o que Fineus vai ver é o interior da minha bolsa.

— Bem pensado! — exclamou Ron, impressionado.

- Obrigada - sorriu Hermione, puxando o prato de sopa para perto. - Então, Harry, que mais aconteceu hoje?

- Nada. Vigiei a entrada do Ministério durante sete horas. Nem sinal dela. Mas vi seu pai, Ron. Está com ótima aparência.

Ron agradeceu, com a cabeça, a notícia. Eles tinham concordado que era perigoso demais tentar se comunicar com o sr. Weasley entrando ou saindo do Ministério, porque estava sempre cercado por outros funcionários. Tranqüilizava, porém, vê-lo nesses rápidos relances, mesmo que parecesse muito ansioso e esgotado.

- Papai nos contou que a maioria dos funcionários do Ministério usa a Rede de Flu para ir trabalhar - disse Ron. - É por isso que não temos visto a Umbridge, que jamais andaria a pé. Ela se acha muito importante.

— E aquela velha bruxa engraçada e o bruxo miúdo de vestes azul-marinho? - perguntou Hermione.

- Ah, é, o cara da Manutenção Mágica - respondeu Ron.

- Como sabe que ele trabalha na Manutenção Mágica? - tornou Hermione, com a colher de sopa suspensa no ar.

— Papai falou que todo o mundo que trabalha no departamento usa vestes azul-marinho.

- Mas você nunca nos disse isso!

Hermione largou a colher e puxou para perto o maço de anotações e mapas que ela e Ron estavam examinando quando Harry entrou na cozinha.

— Não há nada aqui que fale em vestes azul-marinho, nada! disse ela, folheando os papéis febrilmente.

— Ora, faz mesmo diferença?

— Ron, tudo faz diferença! Se vamos entrar no Ministério sem nos trair, sabendo que eles estão superatentos aos intrusos, cada detalhezinho faz diferença! Já repassamos isso mil vezes, quero dizer, de que adiantam todas essas viagens de reconhecimento se você nem se dá o trabalho de nos dizer...

— Caramba, Hermione, esqueci uma coisinha...

- Você entende, não, que no momento é provável que não exista lugar mais perigoso para nós no mundo do que o Ministério da...

- Acho que devíamos agir amanhã — disse Harry. Hermione parou de falar, o queixo caído; Ron engasgou-se um

pouco com a sopa.

- Amanhã? - respondeu Hermione. — Você não está falando sério, Harry!

- Estou. Acho que não estaremos melhor preparados do que estamos, mesmo se continuarmos a rondar a entrada do Ministério mais um mês. Quanto mais adiarmos, mais distante o medalhão ficará. E sempre há uma boa chance de que a Umbridge o tenha jogado fora; a coisa não abre.

- A não ser - lembrou Ron - que ela tenha arranjado um jeito de abrir e esteja possuída.

- Não faria a menor diferença, ela já era maligna desde o começo - disse Harry, sacudindo os ombros.

Hermione mordia os lábios, absorta em seus pensamentos.

-Já sabemos tudo que é importante - continuou Harry, dirigindo-se à amiga. - Sabemos que pararam de aparatar e desaparatar no Ministério. Sabemos que só os funcionários mais graduados podem ter suas casas ligadas à Rede de Flu, porque Ron ouviu aqueles dois inomináveis reclamando. E sabemos, mais ou menos, onde fica a sala da Umbridge, por aquela conversa que você ouviu do cara com o colega...

- ”Estarei no Nível um, a Dolores quer me ver” - repetiu-a Hermione imediatamente.

- Exato — disse Harry. — E sabemos que eles entram usando umas moedas engraçadas, ou fichas, ou o que sejam, porque vi aquela bruxa pedindo uma emprestada à amiga...

- Mas não temos nenhuma!

- Se o plano funcionar, arranjaremos — continuou Harry, calmamente.

- Não sei não, Harry... tem um montão de coisas que podem dar errado, são tantas as que dependem da sorte...

- Isso não vai mudar, mesmo que a gente gaste mais três meses se preparando — replicou Harry. - A hora é essa.

Ele percebeu pelas caras de Ron e Hermione que os amigos estavam amedrontados; e ele próprio não se sentia tão confiante assim, mas tinha certeza de que chegara a hora de pôr o plano em ação.

Tinham gastado as quatro semanas anteriores se revezando sob a Capa da Invisibilidade para espionar a entrada oficial do Ministério, que Ron, graças ao sr. Weasley, conhecia desde a infância. Os garotos tinham seguido funcionários a caminho do Ministério, ouvido suas conversas e descoberto, através de cuidadosa observação, quais deles apareciam infalivelmente sozinhos, à mesma hora todos os dias. De vez em quando, tinham tido oportunidade de furtar um Profeta Diário da pasta de alguém. Aos poucos, foram preparando os diagramas e anotações agora empilhados diante de Hermione.

- Tudo bem — disse Ron, lentamente -, digamos que a gente tente amanhã... acho que devíamos ir só o Harry e eu.

- Ah, não comece com isso outra vez! — suspirou Hermione. — Pensei que isso já estava decidido.

- Uma coisa é ficar parado nas entradas protegido pela capa, mas desta vez a coisa é diferente, Hermione. — Ron apontou para um exemplar do Profeta Diário de dez dias antes. - Você está na lista dos nascidos muggles que não se apresentaram para o interrogatório!

- E você supostamente está morrendo de sarapintose n’A Toca! Se alguém deve ficar, é o Harry, anunciaram um prêmio de dez mil galeões pela cabeça dele...

- Ótimo, ficarei aqui. Não se esqueçam de me avisar se conseguirem derrotar Voldemort, tá?

Enquanto Ron e Hermione riam, a dor atravessou a cicatriz em sua testa. Harry ergueu subitamente a mão: viu a amiga apertar os olhos, e tentou disfarçar o movimento, afastando os cabelos da testa.

- Bem, se nós três formos, teremos que desaparatar separados Ron foi dizendo. — Não cabemos mais embaixo da capa juntos.

A dor na cicatriz de Harry foi se intensificando. Ele se levantou. Na mesma hora, Kreacher correu para ele.

- O meu senhor não terminou a sopa, o meu senhor prefere um ensopado gostoso, ou então a torta de caramelo que o meu senhor gosta tanto?

- Obrigado, Kreacher, mas voltarei em um minuto... ãh... banheiro.

Consciente de que Hermione o observava desconfiada, Harry subiu correndo a escada até o corredor de entrada e dali ao primeiro andar, onde embarafustou pelo banheiro e trancou a porta. Gemendo de dor, debruçou-se na pia preta com torneiras em forma de serpentes de bocas escancaradas e fechou os olhos...

Ele estava deslizando por uma rua ao crepúsculo. De cada lado, os prédios tinham telhados altos de duas águas; pareciam casas de biscoitos.

Ao se aproximar de um deles viu a brancura da própria mão de dedos longos encostar na porta. Bateu. Sentiu uma crescente agitação...

A porta abriu: à entrada, surgiu uma mulher sorridente. Seu rosto aparentou desapontamento ao ver Harry, o bom humor sumiu substituído pelo terror...

- Gregorovitch? - disse a voz aguda e fria.

A mulher sacudiu a cabeça: estava tentando fechar a porta. A mão branca segurou-a com firmeza, impedindo que a mulher o deixasse de fora...

- Procuro Gregorovitch.

- Er wohnt hier nicht mehr! - exclamou ela, balançando a cabeça. Ele não morar aqui! Ele não morar aqui! Não conhecer ele!

Abandonando a tentativa de fechar a porta, ela começou a recuar para o hall escuro, e Harry entrou, deslizando ao seu encontro; as mãos de longos dedos sacaram a varinha.

- Onde está ele?

- Das weiss ich nicht! Ele mudar! Não saber, não saber!

Ele ergueu a varinha. Ela gritou. Duas crianças entraram correndo no hall. Ela tentou protegê-las com os braços. Houve um lampejo de luz verde...

- Harry! HARRY!

Ele abriu os olhos; desfalecera no chão. Hermione batia com força na porta.

- Harry, abra!

Tinha berrado, sabia que sim. Levantou-se e destrancou a porta; Hermione entrou aos tropeços, recuperou o equilíbrio e olhou para os lados, desconfiada. Ron vinha logo atrás, parecendo nervoso ao apontar a varinha para os cantos do banheiro gelado.

- Que estava fazendo? — perguntou Hermione com severidade.

- Que acha que eu estava fazendo? - respondeu Harry em uma débil tentativa de desafio.

- Você estava aos berros! - explicou Ron.

- Ah sim... devo ter cochilado ou...

- Harry, por favor não insulte a nossa inteligência — tornou ”Hermione, inspirando profundamente várias vezes. — Sabemos que a sua cicatriz doeu lá embaixo, e você está branco feito cal.

Harry se sentou na borda da banheira.

- Ótimo. Acabei de ver Voldemort matando uma mulher. A essa altura, ele provavelmente já matou a família toda. E não precisava. Foi a morte de Cedric revivida, as pessoas estavam ali...

- Harry, você não devia deixar isso acontecer mais! — exclamou Hermione, sua voz ecoando pelo banheiro. - Dumbledore queria que você usasse a Oclumência! Ele achou que a ligação era perigosa: Voldemort pode usá-la, Harry! Que pode haver de bom em vê-lo matar e torturar, de que lhe adianta isso?

- Mostra o que ele anda fazendo - respondeu Harry.

- Então, você não vai nem ao menos tentar fechar a ligação?

- Hermione, não consigo. Você sabe que sou péssimo em Oclumência, nunca aprendi direito.

- Você nunca tentou de verdade! - retrucou a menina exaltada.

- Eu não entendo, Harry, você gosta de ter essa ligação, ou relação especial, ou seja lá o que for...

Ela vacilou sob o olhar que o amigo lhe lançou ao se levantar do chão.

- Gosto? - disse em voz baixa. - Você gostaria?

- Eu... não... desculpe, Harry, não quis...

- Odeio, odeio que ele seja capaz de penetrar minha mente, que eu tenha de observá-lo quando é mais perigoso. Mas vou usar isso.

- Dumbledore...

- Esqueça Dumbledore. A escolha é minha, de mais ninguém. Quero saber por que está atrás de Gregorovitch.

- Quem?

- Um fabricante estrangeiro de varinhas. Foi quem fabricou a varinha de Krum, e Krum o considera genial.

- Mas, segundo você - lembrou Ron —, Voldemort mantém ollivanders preso em algum lugar. E, se já tem um fabricante de varinhas, para que ele quer outro?

- Talvez ele concorde com Krum, talvez pense que Gregorovitch é melhor... ou talvez pense que Gregorovitch seja capaz de explicar o que a minha varinha fez quando ele me perseguiu, uma vez que ollivanders não foi.

Harry olhou para o espelho partido e empoeirado e viu Ron e Hermione trocando olhares céticos às suas costas.

- Harry, você fala o tempo todo do que a sua varinha fez - disse Hermione -, mas foi você que fez aquilo acontecer! Por que teima tanto em rejeitar a responsabilidade por seu próprio poder?

- Porque sei que não fui eu! E Voldemort também sabe, Hermione! Nós dois sabemos o que realmente aconteceu!

Os dois se encararam. Harry sabia que não convencera Hermione e que ela se preparava para contra-argumentar suas teorias: sobre a própria varinha e a insistência em ver a mente de Voldemort. Para seu alívio, Ron interveio.

- Deixa pra lá - aconselhou-a. — Ele é quem decide. E, se vamos ao Ministério amanhã, não acha bom repassarmos o plano?

Com uma relutância visível, Hermione parou de discutir, embora Harry estivesse seguro de que ela voltaria a atacar na primeira oportunidade. Nesse meio-tempo, eles voltaram à cozinha, onde Kreacher serviu a todos o ensopado e a torta de caramelo.

Os três só foram dormir tarde da noite, depois de passarem horas revendo e tornando a rever o plano, até serem capazes de repeti-lo, uns para os outros, sem erros. Harry, que agora ocupava o quarto de Sirius, deitou-se e ficou apontando a luz da varinha para a velha foto de seu pai, Sirius, Lupin e Pettigrew, e gastou mais dez minutos murmurando o plano para si mesmo. Ao apagar a varinha, no entanto, não estava pensando na Poção Polissuco, nem nas Vomitilhas, nem nas vestes azul-marinho da Manutenção Mágica; pensava em Gregorovitch, o fabricante de varinhas, e por quanto tempo ele teria esperança de se esconder de Voldemort, que o procurava com tanta determinação.

O amanhecer se seguiu à meia-noite com indecente rapidez.

- Você está com uma cara horrível. — Foi o cumprimento de Ron quando entrou no quarto para acordar Harry.

- Não será por muito tempo - respondeu ele, bocejando.

Os dois encontraram Hermione na cozinha. Kreacher lhe servia café com pães frescos, e a garota tinha no rosto aquela expressão maníaca que Harry associava às revisões para as provas.

- Vestes... - disse ela baixinho, registrando a presença dos dois com um aceno de cabeça nervoso e continuando a mexer na bolsinha de contas - Poção Polissuco... Capa da Invisibilidade... Detonadores-Chamariz... levem uns dois por precaução... Vomitilhas, Nugá Sangra-Nariz, Orelhas Extensíveis...

Os garotos engoliram o café da manhã e tornaram a subir, Kreacher lhes fazendo reverências e prometendo esperá-los com um empadão de carne e rins.

— Abençoado seja - disse Ron, carinhosamente —, e pensar que já imaginei decepar a cabeça dele e pendurá-la na parede!

Eles se dirigiram ao degrau da porta com imenso cuidado: dali viram uns dois Comensais da Morte de olhos inchados vigiando a casa do outro lado do largo enevoado. Hermione desaparatou com Ron primeiro, em seguida, voltou para apanhar Harry.

Passada a momentânea escuridão e quase sufocação de sempre, Harry se viu em uma minúscula travessa onde deviam executar a primeira parte do plano. Ainda estava vazia, exceto por dois latões de lixo; os primeiros funcionários do Ministério, em geral, não apareciam ali antes das oito da manhã.

- Certo, então — disse Hermione, consultando o relógio. — Ela deve chegar dentro de cinco minutos. Depois que eu a estuporar...

— Hermione, já sabemos - disse Ron com rispidez. - E pensei que íamos abrir a porta antes de a bruxa chegar, não?

Hermione deu um gritinho agudo.

- Quase me esqueci! Para trás...

Ela apontou a varinha para a porta de incêndio a um lado, fechada a cadeado e totalmente rabiscada, e ela se abriu com estrondo. O corredor escuro à mostra conduzia, como haviam registrado em suas cuidadosas viagens de reconhecimento, a um teatro vazio. Hermione tornou a puxar a porta para fazer parecer que continuava fechada.

— Agora — continuou, virando-se para encarar os amigos na travessa —, nos cobrimos novamente com a capa...

- ... e esperamos - completou Ron, atirando-a sobre a cabeça de Hermione, como se fosse uma capa para gaiola de periquito australiano, e revirando os olhos.

Um minuto depois ou pouco mais, ouviram um estalido mínimo e uma bruxa miúda do Ministério, com os cabelos grisalhos revoltos, desaparatou a meio metro, piscando um pouco na claridade repentina; o sol acabara de sair de trás de uma nuvem. Ela, no entanto, não teve tempo de aproveitar o inesperado calor, porque logo o silencioso Feitiço Estuporante de Hermione a atingiu no peito, e ela desabou.

- Perfeito, Hermione — disse Ron, emergindo de trás de um latão à porta do teatro, enquanto Harry despia a Capa da Invisibilidade. Juntos, eles carregaram a bruxa para o corredor escuro que levava aos bastidores do palco. Hermione arrancou-lhe uns fios de cabelo da cabeça e adicionou-os a um frasco com a parda Poção Polissuco que tirara da bolsinha de contas. Ron procurou alguma coisa na bolsa da bruxa.

- É Mafalda Hopkirk - informou ele, lendo um pequeno crachá que identificava a vítima como assistente da Seção de Controle do Uso Indevido da Magia. — É melhor você levar isso, Hermione, e tome as fichas.

Ele lhe entregou umas pequenas fichas douradas que retirara da bolsa da bruxa, onde havia gravadas as letras M.O.M.

Hermione bebeu a Poção Polissuco, agora em um belo tom de heliotrópio, e em segundos surgiu diante dos garotos um duplo de Mafalda Hopkirk. Quando ela retirou os óculos da bruxa e colocouos no rosto, Harry verificou o relógio.

- Está ficando tarde, o sr. Manutenção Mágica vai chegar a qualquer segundo.

Eles se apressaram em fechar a porta para esconder a verdadeira Mafalda; Harry e Ron se cobriram com a Capa da Invisibilidade, mas Hermione ficou à vista, aguardando. Segundos depois, ouviram um novo pop, e um bruxo franzino com cara de furão apareceu diante deles.

- Ah, olá, Mafalda.

- Alô! — respondeu Hermione com uma voz tremida. — Como estamos hoje?

- Nada bem, para ser franco — replicou o bruxo, que parecia extremamente deprimido.

Hermione e o bruxo rumaram para a rua principal, Harry e Ron em sua cola.

- Lamento saber que não está bem — falou Hermione com firmeza por cima da cabeça do bruxo, quando ele começou a explicar los seus problemas; era essencial detê-lo antes de chegarem à rua. — - Tome, coma uma bala.

- Eh? Ah, não, obrigado...

- Eu insisto! - tornou Hermione agressivamente, sacudindo o saco de pastilhas em seu rosto. Com um ar assustado, o bruxo franzino se serviu de uma.

O efeito foi instantâneo. Assim que a colocou sobre a língua, ele começou a vomitar tanto que nem reparou quando Hermione lhe arrancou um punhado de cabelos do alto da cabeça.

- Ah, coitado! - exclamou ela, enquanto o bruxo sujava a travessa de vômito. - Talvez seja melhor tirar o dia de folga!

- Não... não! - O homem tinha engasgos e ânsias, tentando prosseguir embora estivesse incapaz de andar direito. - Tenho que... hoje... tenho que ir...

- Mas isso é uma tolice! — disse Hermione alarmada. - Você não pode trabalhar nesse estado: acho que devia ir ao St. Mungus e pedir para darem um jeito em você!

O bruxo caíra de quatro, arquejante, ainda tentando chegar à rua principal.

- Você simplesmente não pode ir trabalhar assim! - exclamou Hermione.

Por fim, ele pareceu aceitar que a colega tinha razão. Agarrando-se a uma Hermione enojada para se pôr de pé, ele rodopiou e desapareceu sem deixar nada exceto a pasta que Ron tirara de sua mão enquanto ele andava com alguns pedaços de vômito no ar.

- Arre — exclamou Hermione, levantando a saia das vestes para evitar as poças de vômito. - A sujeira teria sido bem menor se eu tivesse estuporado ele também.

- É - falou Ron, saindo debaixo da capa com a pasta do bruxo -, mas ainda acho que um monte de gente desacordada teria chamado mais atenção. Ele gosta muito de trabalhar, não? Então, joga logo essa poção com o cabelo.

Em dois minutos, Ron estava diante deles, franzino e com cara de furão como o bruxo, trajando as vestes azul-marinho que estavam dobradas dentro da pasta dele.

- Esquisito que ele não estivesse usando as vestes hoje, não, pela ansiedade que demonstrava em chegar ao trabalho. Enfim, sou Reg Cattermole, segundo a etiqueta nas minhas costas.

- Agora, espere aqui - disse Hermione a Harry, que continuava sob a Capa da Invisibilidade -, voltaremos com alguns cabelos para você.

O garoto teve que esperar dez minutos, que lhe pareceram bem mais longos, rondando sozinho a travessa suja de vômito, ao lado da porta que ocultava a Mafalda estuporada. Finalmente, Ron e Hermione reapareceram.

- Não sabemos quem ele é — disse Hermione, entregando a Harry vários fios de cabelos crespos e negros -, mas foi para casa com um horrível sangramento no nariz! Tome aqui, ele é bem alto, você vai precisar de vestes maiores...

Ela tirou da bolsa um conjunto de vestes antigas que Kreacher lavara para eles, e Harry se retirou para tomar a poção e se trocar.

Uma vez completada a dolorosa transformação, Harry passou a medir mais de um metro e oitenta e, pelo que pôde sentir pelos seus braços musculosos, tinha um físico avantajado. Tinha também uma barba. Guardando a Capa da Invisibilidade e os óculos sob as novas vestes, ele se reuniu aos outros dois.

- Caramba, isso é assustador — exclamou Ron, erguendo a cabeça para Harry, agora mais alto que ele.

- Apanhe uma das fichas da Mafalda - disse Hermione a Harry —, e vamos logo, são quase nove horas.

Eles saíram da travessa juntos. A uns cinqüenta metros na calçada apinhada, havia grades pontiagudas e pretas ladeando duas escadas, uma destinada a Cavalheiros e outra a Damas.

- Então, vejo vocês daqui a pouco - disse Hermione nervosa, e desceu hesitante a escada para o banheiro feminino. Harry e Ron se juntaram a vários homens com roupas estranhas que desciam para o que parecia ser um simples banheiro público de metrô, azulejado em preto e branco encardido.

- Dia, Reg! - cumprimentou outro bruxo de vestes azul-marinho ao inserir a ficha dourada na ranhura da porta de um cubículo onde entrou. - Um pé no saco, hein? Obrigar a gente a entrar no Ministério dessa maneira! Quem estão esperando que apareça, Harry Potter?

O bruxo deu gargalhadas com a própria piada. Ron forçou uma risada.

- É, é muita imbecilidade, não?

E ele e Harry entraram em cubículos contíguos. À esquerda e à direita, Harry ouviu barulho de descargas. Agachou-se e espiou pelo vão inferior do cubículo em tempo de ver as botas de alguém entrando no vaso ao lado. Olhou para a esquerda e viu Ron piscando para ele.

- Temos que dar descarga para entrar? - sussurrou.

- É o que parece - sussurrou Harry em resposta; sua voz saiu grave e solene.

Os dois se levantaram. Sentindo-se excepcionalmente tolo, Harry entrou no vaso.

Percebeu imediatamente que fizera a coisa certa; embora parecesse estar dentro da água, seus sapatos, pés e vestes continuaram secos. Ele esticou o braço, puxou a corrente e, no momento seguinte, desceu veloz por um cano curto e emergiu em uma lareira no Ministério da Magia.

Levantou-se desajeitado; agora tinha muito mais corpo do que estava acostumado. O grande átrio pareceu mais sombrio do que Harry se lembrava. Antigamente, uma grande fonte dourada ocupava o centro do saguão, projetando focos tremeluzentes no soalho e nas paredes de madeira lustrosa. Agora, uma gigantesca estátua de pedra negra dominava o ambiente. Era um tanto apavorante essa enorme escultura de uma bruxa e um bruxo sentados em tronos entalhados, contemplando os funcionários ejetados das lareiras abaixo.

Gravadas em letras de trinta centímetros de altura na base da estátua, havia as palavras: MAGIA É PODER.

Harry recebeu uma forte pancada atrás das pernas: outro bruxo acabara de voar para fora da lareira às suas costas.

- Sai do caminho, não... ah, desculpe, Runcorn! Visivelmente assustado, o bruxo careca afastou-se depressa.

Aparentemente o homem de quem Harry usurpara a identidade, Runcorn, intimidava os outros.

- Psiu! - ouviu ele e, ao olhar para os lados, avistou uma bruxa miudinha e um bruxo da Manutenção Mágica com cara de furão gesticulando para ele do outro lado da estátua. Rápido, Harry foi se reunir aos dois.

- Você entendeu tudo, então? — cochichou Hermione para ele.

- Não, Harry ainda está preso na bosta - disse Ron.

- Ah, muito engraçado... é horrível não é? — comentou ela para Harry que estudava a estátua. — Você viu no que eles estão sentados?

Harry olhou com mais atenção e percebeu que aquilo que imaginou serem tronos ornamentados eram, na realidade, esculturas humanas: centenas de corpos nus, homens, mulheres e crianças, todos com feições idiotas e feias, torcidos e comprimidos para sustentar os bruxos com belos trajes.

- muggles - sussurrou Hermione. - No lugar que realmente lhes cabe. Andem, vamos indo.

Eles se juntaram ao fluxo de bruxos e bruxas que se dirigiam para as grades douradas no fim do saguão, espiando a toda volta o mais discretamente possível, mas não viram sinal do vulto característico de Dolores Umbridge. Passaram pelos portões e entraram em um hall, onde se formavam filas diante das vinte grades douradas que encerravam igual número de elevadores. Tinham acabado de entrar na mais próxima, quando uma voz chamou:

- Cattermole!

Olharam: o estômago de Harry revirou. Um dos Comensais da Morte que presenciara a morte de Dumbledore vinha a largos passos em sua direção. Os funcionários do Ministério, próximos aos garotos, ficaram em silêncio, de olhos baixos; Harry sentiu o medo que perpassava por eles, em ondas. O rosto carrancudo e ligeiramente abrutalhado do homem destoava de suas vestes magníficas e amplas, bordadas com fios de ouro. Alguém na multidão à volta dos elevadores cumprimentou-o, bajulador:

- Dia, Yaxley! - O homem ignorou todos.

- Pedi alguém da Manutenção Mágica para dar um jeito na minha sala, Cattermole. Ainda está chovendo lá dentro.

Ron olhou para os lados como se esperasse que mais alguém interviesse, mas ninguém falou.

- Chovendo... na sua sala? Isso... é mau, não?

Ron deu uma risada nervosa. Os olhos de Yaxley se arregalaram.

- Você está achando graça, Cattermole, é?

Umas duas bruxas saíram da fila do elevador e se afastaram afobadas.

- Não - respondeu Ron -, é claro que não...

- Você se dá conta de que estou descendo para interrogar sua mulher, Cattermole? Na verdade, estou muito surpreso que você não esteja lá embaixo segurando a mão dela enquanto espera. Já desistiu de ajudá-la porque se convenceu de que não vale a pena? Provavelmente tem razão. Da próxima vez, certifique-se de que está casando com alguém de sangue puro.

Hermione deixou escapar um gritinho de horror. Yaxley virouse. Ela tossiu baixinho e se afastou.

- Eu... eu... - gaguejou Ron.

- Mas se minha mulher fosse acusada de ter sangue ruim - disse Yaxley -, não que alguma mulher com quem eu tenha casado pudesse ser confundida com essa ralé, e o chefe do Departamento de Execução das Leis da Magia precisasse de um serviço, eu daria prioridade a esse serviço, Cattermole. Você está me entendendo?

- Estou.

- Então vá cuidar disso, Cattermole, e se minha sala não estiver completamente seca dentro de uma hora, o Registro Sangüíneo de sua mulher estará sob uma dúvida maior do que já está.

A grade dourada diante deles abriu estrepitosamente. Com um aceno de cabeça e um sorriso desagradável a Harry, que ele evidentemente esperava que apreciasse o tratamento dispensado a Cattermole, Yaxley saiu majestosamente em direção a outro elevador. Harry, Ron e Hermione entraram no outro, que aguardavam, mas ninguém os acompanhou: parecia que tinham uma doença contagiosa. As grades se fecharam com um ruído metálico e o elevador começou a subir.

- Que vou fazer? — perguntou Ron, na mesma hora, aos outros dois; ele parecia incapacitado. - Se apareço, minha mulher, quero dizer, a mulher de Cattermole...

- Iremos com você, devemos ficar juntos... - começou Harry, mas Ron sacudiu a cabeça febrilmente.

- Isso é loucura, não temos tanto tempo assim. Vocês dois vão procurar a Umbridge, e eu vou resolver o problema na sala de Yaxley... mas como vou fazer parar de chover?

- Experimente Finite Incantatem - respondeu Hermione, imediatamente. - Isso deve fazer parar a chuva, se ela for um feitiço; se não parar, é porque deu defeito em algum Feitiço Atmosférico, o que será mais difícil de consertar. Então, experimente Impervius, para proteger os pertences dele provisoriamente...

- Repete isso, devagar - disse Ron procurando, desesperado, uma pena nos bolsos, mas naquele momento o elevador parou com um tranco. Uma voz feminina incorpórea anunciou: ”Nível quatro, Departamento para Regulamentação e Controle das Criaturas Mágicas, que inclui as Divisões de Feras, Seres e Espíritos, Seção de Ligação com os Duendes, Escritório de Orientação sobre Pragas”; as grades tornaram a se abrir e entraram dois bruxos e vários aviões de papel lilás-claro que esvoaçaram em torno da luz no teto do elevador.

- Dia, Albert — cumprimentou um homem de costeletas peludas, sorrindo para Harry. Ele deu uma olhada em Hermione e Ron quando o elevador recomeçou a subir rangendo;

Hermione agora cochichava, freneticamente, instruções para Ron. O bruxo se curvou para Harry, malicioso, e murmurou: - Dirk Cresswell, hein? Da Ligação com os Duendes? Uma boa divisão, albert. Agora estou seguro de que vou conseguir o emprego dele!

O bruxo deu uma piscadela. Harry retribuiu o sorriso, esperando que fosse suficiente. O elevador parou; as grades se abriram. ”Nível dois, Departamento de Execução das Leis da Magia, que inclui a Seção de Controle do Uso Indevido da Magia, o Quartel-General dos Aurores e Serviços Administrativos da Suprema Corte dos Bruxos”, anunciou a voz incorpórea.

Harry viu Hermione dar um discreto empurrão em Ron e o amigo saiu logo do elevador seguido por outros bruxos, deixando os dois a sós. No momento em que a porta dourada fechou, Hermione disse depressa:

- Harry, acho que é melhor eu ir atrás dele, acho que Ron não sabe o que está fazendo e, se for apanhado, o plano todo...

”Nível um, ministro da Magia e Serviços Auxiliares.”

As grades douradas tornaram a se abrir e Hermione ofegou. Viram quatro bruxos à sua frente, dois absortos em conversa; um bruxo de cabelos longos trajando magníficas vestes pretas e douradas e uma bruxa atarracada, com cara de sapo e um laço de veludo nos cabelos curtos, segurando uma prancheta ao peito.

capítulo treze

A COMISSÃO DE REGISTRO DOS NASCIDOS muggles

- Ah, Mafalda! - EXCLAMOU UMBRIDGE, olhando para Hermione. Travers mandou-a?

- F-foi - chiou Hermione.

- Que bom, você servirá perfeitamente. - Umbridge se dirigiu ao bruxo em ouro e preto. - Aquele problema está resolvido, Ministro, se Mafalda puder ser dispensada para secretariar a sessão, poderemos começar imediatamente. — Ela consultou a prancheta. Dez pessoas hoje, e uma delas mulher de um funcionário do Ministério! Tsc, tsc... até aqui, no coração do Ministério! - Umbridge entrou no elevador com Hermione, e o mesmo fizeram os dois bruxos que tinham estado atentos à conversa dela com o ministro. — Vamos descer direto, Mafalda, você encontrará tudo que precisa no tribunal. Bom-dia, albert, você não vai sair?

- Vou, é claro - respondeu Harry, na voz grave de Runcorn.

O garoto saiu do elevador. As grades douradas fecharam ruidosamente às suas costas. Olhando por cima do ombro, ele viu o rosto ansioso de Hermione desaparecer de vista, um bruxo alto de cada lado dela, o laço de veludo na cabeça de Umbridge à altura do seu ombro.

- O que o traz aqui em cima, Runcorn? - perguntou o novo ministro da Magia. Seus longos cabelos e barba negros eram raiados de fios prateados e a grande testa proeminente sombreava seus olhos brilhantes, lembrando a Harry um caranguejo espiando debaixo de uma pedra.

Precisava dar uma palavrinha com - Harry liesitou por uma fração de segundo Arthur Weasley. Alguém me informou que ele estaria aqui no Nível um.

- Ah - disse Phil Thicknesse. - Apanharam-no contatando um Indesejável?

- Não - respondeu Harry, com a garganta seca. — Não, nada disso.

- Ah. É só uma questão de tempo — comentou Thicknesse. — Se quer a minha opinião, os traidores do sangue são tão nocivos quanto os sangues-ruins. Bom-dia, Runcorn.

- Bom-dia, Ministro.

Harry observou o bruxo se afastar pelo espesso carpete do corredor. No momento em que ele desapareceu, o garoto puxou a Capa da Invisibilidade de sob a pesada capa preta, atirou-a sobre o corpo e saiu em direção oposta a do ministro. Runcorn era tão alto que Harry foi forçado a se curvar para garantir que seus enormes pés ficassem cobertos.

O pânico vibrava na boca do seu estômago. Ao passar pela seqüência de portas de madeira envernizadas, cada uma com uma plaquinha indicando o nome do ocupante e a respectiva função, o poder do Ministério, sua complexidade, sua impenetrabilidade, pareceram esmagá-lo, fazendo com que o plano que estivera cuidadosamente preparando com Ron e Hermione, nas últimas quatro semanas, parecesse risivelmente infantil. Tinham concentrado todos os seus esforços na tática para entrar sem serem pegos: não tinham dedicado um instante sequer a pensar no que fariam se fossem obrigados a se separar. Agora Hermione estava presa em uma sessão do tribunal, que, sem dúvida, demoraria horas; Ron estava se esfalfando para fazer uma mágica, que, Harry tinha certeza, estava acima de sua capacidade - e, possivelmente, a liberdade de uma mulher dependia do resultado que obtivesse e ele, Harry, estava vagueando pelo último andar, sabendo perfeitamente que sua presa acabara de descer no elevador.

Ele parou de caminhar, encostou-se na parede e tentou resolver o que fazer. O silêncio o oprimiu: ali não havia movimento, nem conversas, nem passos apressados; os corredores acarpetados de roxo eram silenciosos como se um Abafffiato tivesse sido lançado sobre o local.

A sala dela deve ser aqui em cima, pensou Harry.

Era muito improvável que Umbridge guardasse as jóias em sua sala; por outro lado, parecia tolice não dar uma busca para se certificar. O garoto, portanto, recomeçou a andar pelo corredor, sem encontrar ninguém, exceto um bruxo de testa franzida, murmurando instruções para uma pena que flutuava à sua frente, escrevendo em um longo pergaminho.

Agora, prestando atenção aos nomes nas portas, Harry virou um canto. Na metade do corredor seguinte, desembocou em um espaço aberto, onde uma dúzia de bruxos e bruxas estavam sentados a pequenas escrivaninhas enfileiradas que lembravam as da escola, embora muito mais lustrosas e sem rabiscos. Harry parou para observá-los, porque o efeito era hipnotizante. Em sincronia, eles gesticulavam com as varinhas fazendo quadrados de papel colorido voarem em todas as direções como pequenas pipas cor-de-rosa. Após alguns segundos, Harry percebeu que havia ritmo nessa coreografia, que os papéis formavam o mesmo desenho, e, em seguida, percebeu que a cena que observava era a produção de panfletos, que os quadrados de papel eram folhas que, quando reunidas, dobradas e baixadas magicamente, caíam em pilhas ordenadas ao lado de cada funcionário.

Harry se aproximou, embora os funcionários estivessem tão concentrados naquele serviço que ele duvidava que notassem passos abafados pelo tapete, e fez deslizar um panfleto pronto da pilha de uma jovem bruxa. Examinou-o por baixo da Capa da Invisibilidade. A capa cor-de-rosa do panfleto estava adornada com um título dourado:

SANGUES-RUINS e os perigos que oferecem a uma sociedade pacífica de sangues-puros

Sob o título, havia a foto de uma rosa vermelha, e, entre suas pétalas, um rosto afetando um sorriso estrangulado por uma erva verde com presas e aspecto feroz. Não havia nome de autor no panfleto, mas as cicatrizes no dorso de sua mão direita pareceram novamente formigar quando ele o examinou. Então, a jovem bruxa ao seu lado confirmou suas suspeitas ao perguntar, ainda acenando e girando a varinha:

- Alguém sabe dizer se a bruxa velha vai passar o dia inteiro interrogando sangues-ruins?

- Cuidado - disse o bruxo mais próximo, olhando nervoso para os lados; uma de suas folhas escorregou e caiu no chão.

- Será que agora, além do olho, ela tem orelhas mágicas também? A bruxa olhou para a lustrosa porta de mogno defronte ao espaço que ocupavam; Harry acompanhou seu olhar, e a raiva se ergueu em seu peito como uma serpente armando o bote.

No lugar em que haveria um olho mágico na porta de uma casa muggle, fora embutido, na madeira, um grande olho redondo com uma brilhante íris azul; um olho escandalosamente familiar a quem tivesse conhecido Alastor Moody.

Por uma fração de segundo, Harry esqueceu quem era e o que estava fazendo ali: esqueceu até que estava invisível. Dirigiu-se à porta para examinar o olho. Estava imóvel: virado para o alto, congelado. Na placa, sob o olho, lia-se:

Dolores Umbridge Subsecretária Sênior do Ministro

Abaixo, uma plaqueta nova um pouco mais reluzente informava: Chefe da Comissão de Registro dos Nascidos muggles

Harry se virou para olhar o grupo de produtores de panfletos: embora concentrados no que faziam, eles dificilmente deixariam de notar se a porta de um escritório vazio se abrisse à sua frente. Por isso, apanhou em um bolso interno um estranho objeto com perninhas que sacudiam e um chifre bulboso de borracha à guisa de corpo. Agachando-se sob a capa, colocou o Detonador-Chamariz no chão.

No mesmo instante, o objeto saiu correndo entre as pernas dos bruxos na sala. Depois, enquanto Harry aguardava com a mão na maçaneta, ouviu-se um forte estampido e elevou-se uma nuvem de fumaça acre e escura a um canto. A jovem bruxa na primeira fila soltou um grito: folhas cor-de-rosa voaram para os lados quando todos, sobressaltados, procuravam à volta a origem do tumulto. Harry girou a maçaneta, entrou na sala de Umbridge e fechou a porta.

Teve a sensação de regredir no tempo. A sala era exatamente igual ao escritório da bruxa em Hogwarts: cortinas de renda, paninhos bordados e flores secas cobriam todas as superfícies disponíveis. As paredes exibiam os mesmos pratos ornamentais, cada um deles com um gato muito colorido e laçarote de fita, aos saltos e cambalhotas, enjoativãmente bonitinho. Sobre a escrivaninha, havia uma toalha florida arrematada com babados. Por trás do olho de Olho-Tonto, um acessório telescópico permitia a Umbridge espionar os funcionários do outro lado da porta. Harry deu uma olhada e viu que ainda rodeavam o Detonador-Chamariz. Ele arrancou o telescópio da porta, deixando um buraco, soltou o olho e guardou-o no bolso.

Tornou, então, a se virar para a sala, ergueu a varinha e murmurou:

- Accio medalhão.

Nada aconteceu, mas ele não esperara que acontecesse; sem dúvida, Umbridge conhecia todos os feitiços de proteção que havia. Portanto, correu à escrivaninha e começou a abrir as gavetas. Viu penas, cadernos e magidesivo; clipes encantados que serpeavam para fora da gaveta feito cobras e só voltavam a tapa; uma caixinha de renda contendo laçarotes e presilhas para os cabelos; mas nem sinal de medalhão.

Havia um arquivo atrás da escrivaninha: Harry começou a revistá-lo. Tal como o arquivo de Filch, em Hogwarts, estava cheio de pastas, cada uma com um nome na etiqueta. Somente quando Harry chegou à última gaveta, viu algo que o distraiu de sua busca: a pasta do sr. Weasley.

Puxou-a para fora e abriu-a.

ARTHUR WEASLEY

Registro Sangüíneo: Sangue-puro, mas com inaceitáveis inclinações pró-muggles.

Membro notório da Ordem da Fênix. Família: Mulher (sangue-puro), sete filhos, os dois menores em Hogwarts.

NB: O filho mais jovem no momento em casa acamado com grave doença, confirmada por inspetores do Ministério. Segurança: RASTREADO. Todos os seus movimentos estão sendo monitorados.

Forte probabilidade que Indesejável nº 1 o contate (hospedou-se com a família Weasley anteriormente).

- Indesejável Número Um — murmurou Harry com seus botões, ao repor a pasta do sr. Weasley e fechar a gaveta. Tinha idéia de que sabia quem seria e, com efeito, ao se erguer e correr o olhar pela sala à procura de outros esconderijos, viu na parede um pôster com sua imagem e as palavras INDESEJÁVEL N° 1 gravadas no peito. Nele havia preso um bilhetinho rosa com um gatinho no canto. Harry aproximou-se para lê-lo e viu que Umbridge tinha escrito ”A ser punido”.

Mais enraivecido que nunca, começou a apalpar os fundos dos vasos e das cestas de flores secas, mas não se surpreendeu que o medalhão não estivesse ali. Deu uma última olhada na sala, e seu coração parou de bater por um segundo.

Dumbledore o fitava de um pequeno espelho retangular, apoiado em uma estante de livros ao lado da escrivaninha.

Harry atravessou a sala correndo e agarrou-o, mas percebeu, no momento em que seus dedos o tocaram, que não era um espelho. Dumbledore sorria melancolicamente da capa acetinada de um livro. Harry não notara imediatamente o rebuscado título em verde sobre seu chapéu: A vida e as mentiras de Albus Dumbledore, nem nos dizeres ligeiramente menores sobre o seu peito: de Rita Skeeter, autora do bestseller Armando Dippet: prócer ou palerma?

Harry abriu o livro a esmo e viu uma foto de página inteira de dois adolescentes abraçados, às gargalhadas. Dumbledore, então com os cabelos na altura dos cotovelos, tinha deixado crescer uma barba rala que lembrava a de Krum, que tanto irritara Ron. O garoto que gargalhava em silêncio ao lado de Dumbledore tinha um ar alegre e rebelde. Seus cabelos louros caíam em cachos sobre os ombros. Harry ficou imaginando se seria o jovem Doge, mas, antes que pudesse ler a legenda, a porta do escritório se abriu.

Se Thicknesse não estivesse espiando por cima do ombro ao entrar, Harry não teria tido tempo de se cobrir com a Capa da Invisibilidade. Nas circunstâncias, pareceu-lhe que o ministro talvez tivesse percebido algum movimento, porque por um momento o bruxo parou muito quieto, observando, curioso, o lugar onde Harry acabara de sumir. Concluindo, talvez, que tivesse visto apenas Dumbledore coçando o nariz na capa do livro que Harry repusera rapidamente na prateleira, o bruxo finalmente foi até a escrivaninha e apontou a varinha para a pena mergulhada no tinteiro. A pena saltou e começou a escrever um bilhete para Umbridge. Muito devagar, mal se atrevendo a respirar, Harry foi recuando para fora da sala, de volta ao espaço aberto em frente.

Os produtores de panfletos continuavam agrupados em torno dos restos do Detonador-Chamariz, ainda apitando fracamente e soltando fumaça. Harry correu pelo corredor e ouviu a bruxa jovem comentar:

- Aposto que veio, sem ninguém saber, dos Feitiços Experimentais, eles são tão descuidados, lembram aquele pato venenoso?

Na corrida para os elevadores, Harry reviu suas opções. Sempre fora improvável que o medalhão estivesse no Ministério, e não havia esperança de descobrir, por magia, o seu paradeiro, enquanto Umbridge estivesse sentada em um tribunal lotado.

A prioridade deles agora era sair do Ministério antes que os descobrissem e tentar novamente em outro dia. O primeiro passo era encontrar Ron, então poderiam combinar um modo de tirar Hermione do tribunal. O elevador estava vazio quando chegou. Harry entrou rápido e tirou a Capa da Invisibilidade quando o veículo começou a descer. Para seu imenso alívio, quando o elevador parou aos trancos no Nível dois, entrou um Ron encharcado e de olhos arregalados.

- Dia - gaguejou para Harry, quando o elevador tornou a se pôr em movimento.

- Ron, sou eu, Harry!

- Harry! Caramba, esqueci a sua cara... por que Hermione não está com você?

- Teve que ir ao tribunal com a Umbridge, não pôde recusar e... Antes que Harry pudesse terminar a frase, o elevador tornara a

parar: as portas se abriram e o sr. Weasley entrou, conversando com uma velha bruxa, cujos cabelos louros estavam tão eriçados para o alto que lembravam um formigueiro.

- ... entendo bem o que está dizendo, Wakanda, mas acho que não poderei me envolver com...

O sr. Weasley parou de falar; reparara em Harry. Era muito esquisito ver o sr. Weasley olhar para ele com tanta antipatia. As portas do elevador se fecharam e os quatro recomeçaram a descer.

- Ah, olá, Reg — disse o sr. Weasley, virando-se ao ouvir a água escorrendo sem parar das vestes de Ron. - Sua mulher não veio ao Ministério hoje para o interrogatório? Ah... que aconteceu com você? Por que está tão molhado?

- Está chovendo na sala de Yaxley - respondeu ele em direção ao ombro do sr. Weasley, e Harry entendeu que o amigo receava que o pai pudesse reconhecê-lo se os seus olhos se encontrassem. — Não consegui estancar, então me mandaram buscar Bernie... Pillsworth, acho que foi esse o nome...

- Ultimamente tem chovido em muitos escritórios — disse o sr. Weasley. — Você experimentou o meteolojinx recanto? Funcionou na sala do Bletchley.

- Meteolojinx recanto? - sussurrou Ron. - Não, não experimentei. Obrigado, p..., quero dizer, Arthur.

As portas do elevador abriram; a velha bruxa com o penteado de formigueiro saiu, e Ron disparou atrás dela e desapareceu de vista.

Harry fez menção de segui-lo, mas viu seu caminho bloqueado pela entrada de Percy Weasley, de nariz enterrado em uns papéis que estava lendo.

Só depois que as portas fecharam foi que Percy percebeu que estava no elevador com o pai. Ergueu os olhos, viu o sr. Weasley, ficou vermelho como um pimentão e desembarcou no instante em que as portas reabriram. Pela segunda vez, Harry tentou sair, mas, agora, sua saída foi bloqueada pelo braço do sr. Weasley.

- Um momento, Runcorn.

Quando as portas do elevador fecharam e eles desceram, sacudindo, mais um andar, o sr. Weasley falou:

- Ouvi dizer que você denunciou Dirk Cresswell.

Harry teve a impressão de que o breve encontro com Percy não diminuíra a ira do sr. Weasley. Concluiu que sua melhor chance era se fazer de desentendido.

- Desculpe?

- Não finja, Runcorn - retorquiu o sr. Weasley, com ferocidade.

- Você capturou o bruxo que falsificou a árvore genealógica dele, não foi?

- Eu... e se capturei? - desafiou Harry.

- Dirk Cresswell é dez vezes mais bruxo que você — disse o sr. Weasley em voz baixa, enquanto o elevador continuava a descer. - E, se sobreviver a Azkaban, você terá contas a prestar a ele, isso sem falar à mulher, aos filhos e aos amigos...

- Arthur - Harry interrompeu-o -, você sabe que está sendo monitorado, não sabe?

- Isso é uma ameaça, Runcorn? — interpelou-o o sr. Weasley.

- Não — disse Harry —, é um fato! Estão vigiando todos os seus movimentos...

As portas do elevador abriram. Tinham chegado ao átrio. O sr. Weasley lançou a Harry um olhar fulminante e saiu rápido do elevador. Harry ficou ali, tremendo. Gostaria de ter assumido o papel de outro bruxo que não Runcorn... as portas do elevador fecharam com o fragor habitual.

Harry apanhou a Capa da Invisibilidade e vestiu-a. Tentaria livrar Hermione sozinho, enquanto Ron resolvia o problema da sala em que chovia. Quando as portas reabriram, ele desembarcou em um corredor com piso de pedra, iluminado por archotes, muito diferente dos corredores com painéis de madeira e carpetes, nos níveis acima.

Quando o elevador partiu chocalhando, Harry sentiu um leve arrepio ao avistar, ao longe, a porta preta que assinalava a entrada para o Departamento de Mistérios.

Ele foi andando, seu destino não era a porta preta, mas o portal à esquerda, que, segundo lembrava, levava à escada e às câmaras dos tribunais. Ao descer, debateu mentalmente suas possibilidades: ainda tinha uns dois Detonadores-Chamariz, mas talvez fosse melhor bater na porta do tribunal, entrar como Runcorn e pedir para dar uma palavrinha rápida com Mafalda. Naturalmente, ele ignorava se o bruxo seria suficientemente importante para agir assim, e mesmo que ele, Harry, fosse bem-sucedido, a prolongada ausência de Hermione poderia desencadear uma busca, antes que pudessem deixar o Ministério...

Absorto em seus pensamentos, ele não registrou imediatamente o frio anormal que começou a envolvê-lo como se penetrasse um nevoeiro. E foi se tornando mais forte a cada passo que dava: um frio que entrava por sua garganta e forçava seus pulmões. Então sobreveio aquela sensação sub-reptícia de desespero, uma desesperança que foi se expandindo dentro dele...

Dementadores, pensou.

Quando alcançou o pé da escada e virou à direita, deparou com uma cena pavorosa. O corredor escuro ao longo das câmaras judiciais estava repleto de vultos altos e encapuzados, seus rostos completamente ocultos, sua respiração entrecortada o único som que se ouvia. Paralisados de terror, os nascidos muggles trazidos para interrogatório tremiam apertados nos bancos duros de madeira. A maioria escondia os rostos nas mãos, num gesto instintivo para se proteger das bocas vorazes dos dementadores. Alguns estavam em companhia da família, outros sentavam-se sozinhos. Os dementadores deslizavam de um lado para outro diante deles, e o frio e a desesperança que impregnavam o local atingiram Harry como uma maldição...

Resista, disse a si mesmo, mas sabia que não poderia conjurar um Patrono, ali, sem revelar instantaneamente sua identidade. Então, continuou avançando, o mais silenciosamente que pôde, e, a cada passo, a dormência parecia se apoderar furtivamente do seu cérebro. Ele fazia um esforço para pensar em Hermione e Ron, que precisavam dele.

Caminhar entre os altos vultos negros era aterrador: os rostos sem olhos, ocultos sob os capuzes, se viraram quando ele passou, dando-lhe a certeza de que o sentiam, sentiam talvez uma presença humana que ainda possuía esperança, resistência...

Então, de modo abrupto e chocante, no silêncio gelado, uma das portas da masmorra, à esquerda, abriu-se violentamente, deixando ecoar os gritos em seu interior.

- Não, não, sou mestiço, sou mestiço, estou lhes dizendo! Meu pai era bruxo, era, verifiquem, Arkie Alderton, um conhecido projetista de vassouras, verifiquem, estou lhes dizendo, tirem as mãos de mim, tirem as mãos de...

- Este é o seu último aviso. - Ouviu-se a voz suave de Umbridge, magicamente amplificada de modo a se sobrepor com clareza aos gritos desesperados do homem. — Se resistir, será submetido ao beijo do dementador.

Os gritos do homem cessaram, mas seus soluços secos continuaram a ecoar pelo corredor.

- Levem-no — ordenou Umbridge.

Dois dementadores apareceram à porta da câmara, suas mãos podres e encrostadas apertando os braços do bruxo que parecia desfalecer. Deslizaram pelo corredor com o prisioneiro, e a escuridão que deixaram em seu rastro engoliu o homem fazendo-o desaparecer.

- Próximo: Mary Cattermole — chamou Umbridge.

Uma mulher miúda se ergueu; tremia da cabeça aos pés. Seus cabelos negros estavam puxados para trás em um coque e ela usava vestes longas e simples. Seu rosto estava completamente exangue. Ao passar pelos dementadores, Harry a viu estremecer.

Ele agiu instintivamente, sem plano formado, porque detestou vê-la entrar sozinha na masmorra: quando a porta começou a se fechar, escorregou para dentro do recinto.

Não era a mesma sala em que fora interrogado por uso impróprio da magia. Era bem menor; embora o teto tivesse igual altura, deu lhe a sensação claustrofóbica de estar preso no fundo de um comprido poço.

Havia outros dementadores ali, cobrindo o local com sua aura congelante; estavam postados como seittinelas sem rosto nos cantos mais afastados da imponente plataforma. Ali, atrás de uma balaustrada, sentava-se Umbridge com Yaxley, de um lado, e Hermione, com o rosto quase tão lívido quanto o da sra. Cattermole, do outro.

Ao pé da plataforma, um gato de pêlos longos e prateados andava de um lado para outro, e Harry percebeu que sua função era proteger os promotores do desespero que emanava dos dementadores: aquilo era para afetar os acusados e não os acusadores.

- Sente-se — disse Umbridge, com sua voz suave e sedosa.

A sra. Cattermole encaminhou-se aos tropeços para o único assento no centro da sala abaixo da plataforma. No momento em que se sentou, as correntes tilintaram nos braços da cadeira e a prenderam.

- Você é Mary Elizabeth Cattermole? - indagou Umbridge. A mulher acenou uma única vez com a cabeça trêmula.

- É casada com Reginald Cattermole, do Departamento de Manutenção Mágica?

A sra. Cattermole caiu no choro.

- Não sei onde ele está, devia ter vindo se encontrar comigo aqui!

Umbridge ignorou-a.

- E mãe de Maisie, Eliah e Alfred Cattermole? A mulher soluçou ainda mais.

- Eles estão apavorados, acham que eu talvez não volte para casa...

- Poupe-nos - disse Yaxley, com rispidez. - Os pirralhos dos sangues-ruins não nos inspiram simpatia.

Os soluços da sra. Cattermole mascararam os passos de Harry, que se dirigia cautelosamente aos degraus da plataforma. No momento em que ele passou pelo lugar que o gato Patrono patrulhava, sentiu a mudança de temperatura: ali era cálido e confortável. O Patrono certamente era de Umbridge, e brilhava intensamente, porque a bruxa estava muito feliz, em seu elemento, aplicando leis deturpadas que ela própria ajudara a redigir. Lenta, mas cuidadosamente, Harry contornou a plataforma por trás de Umbridge, Yaxley e Hermione, e se sentou às costas da amiga. Estava preocupado em não sobressaltá-la. Pensou em lançar um Abaffiato em Umbridge e Yaxley, mas até mesmo o murmúrio do encantamento poderia fazer Hermione se assustar. Então Umbridge alteou a voz para se dirigir à sra. Cattermole, e Harry aproveitou a oportunidade.

- Estou atrás de você - sussurrou ao ouvido de Hermione. Conforme previra, ela levou um susto tão violento que quase derrubou o tinteiro que devia usar para registrar o interrogatório, mas os dois bruxos estavam concentrados na sra. Cattermole e o movimento brusco lhes passou despercebido.

- A varinha que tinha em seu poder quando chegou hoje ao Ministério, sra. Cattermole, foi confiscada - ia dizendo Umbridge. Vinte e dois centímetros e dois décimos, cerejeira, núcleo de pêlo de unicórnio. Reconhece a descrição?

A sra. Cattermole assentiu, enxugando os olhos na manga.

- Pode, por favor, nos dizer de que bruxa ou bruxo tirou essa varinha?

- T-tirei? — soluçou a sra. Cattermole. — Não t-tirei de ninguém. Comprei-a aos onze anos de idade. Ela... ela... ela me escolheu.

E chorou ainda mais.

Umbridge deu uma risadinha suave e infantil que fez Harry ter vontade de atacá-la. Inclinou-se para o balaústre, para melhor observar sua vítima, e um objeto dourado balançou para frente e ficou flutuando no espaço: o medalhão.

Hermione o viu e deixou escapar um gritinho, mas Umbridge e Yaxley, ainda atentos à sua presa, estavam surdos a todo o resto.

- Não — replicou Umbridge -, não, acho que não, sra. Cattermole. Varinhas só escolhem bruxos. A senhora não é bruxa. Tenho aqui as respostas ao questionário que lhe foi enviado; Mafalda, passe-as para mim.

Umbridge estendeu a mão pequena: ela parecia tão batráquia naquele momento que Harry se surpreendeu com a ausência de membranas entre seus dedos curtos. As mãos de Hermione tremiam de espanto. Ela procurou em uma pilha de documentos equilibrados em uma cadeira ao seu lado, e, por fim, retirou um rolo de pergaminho com o nome da sra. Cattermole.

- Que... que bonito, Dolores - comentou Hermione, apontando para o medalhão que brilhava entre os babados da blusa de Umbridge.

- Quê? — exclamou Umbridge abruptamente, baixando os olhos.

- Ah, sim: uma velha herança de família - disse, levando a mão ao medalhão sobre o busto avantajado. - O ”S” é de Selwyn... sou parenta dos Selwyn... na verdade, há poucas famílias de sangue-puro com quem eu não seja aparentada... uma pena - continuou ela em voz mais alta, folheando o questionário da sra. Cattermole - que não se possa dizer o mesmo sobre a senhora. Profissão dos pais: verdureiros.

Yaxley deu uma risada de desdém. Embaixo, o peludo gato prateado patrulhava de lá para cá, e os dementadores aguardavam postados nos cantos.

Foi a mentira de Umbridge que fez o sangue subir à cabeça de Harry e obliterar toda a sua cautela; que ela estivesse usando o medalhão que achacara de um marginalzinho para legitimar suas credenciais de sangue-puro. Ele ergueu a varinha, sem se dar o trabalho de ocultá-la sob a Capa da Invisibilidade, e ordenou:

— Estupefaça!

Houve um clarão vermelho: Umbridge desmontou e bateu com a testa na borda do balaústre; os papéis da sra. Cattermole escorregaram do seu colo no chão e, embaixo, o gato prateado desapareceu. Um ar gélido atingiu-os como se fosse uma ventania. Yaxley, aturdido, olhou para os lados, à procura da origem do problema e viu a mão incorpórea de Harry apontando uma varinha em sua direção. Tentou sacar a própria varinha, mas tarde demais.

— Estupefaça!

Yaxley escorregou da cadeira e caiu dobrado no chão.

— Harry!

— Hermione, se você acha que eu ia ficar parado aqui vendo ela fingir...

— Harry, a sra. Cattermole!

O garoto se virou, arrancando a Capa da Invisibilidade; embaixo os dementadores saíram dos seus cantos; deslizavam para a mulher acorrentada: fosse porque o Patrono desaparecera, fosse porque seus senhores não estavam mais no comando, pareciam ter abandonado o comedimento. A sra. Cattermole deixou escapar um terrível grito de medo quando a mão pegajosa e encrostada agarrou seu queixo e empurrou sua cabeça para trás.

— EXPECTO PATRONUM!

O veado prateado voou da ponta da varinha de Harry e avançou contra os dementadores, que recuaram e tornaram a se fundir com as sombras. A luz do veado, mais forte e mais quente do que a proteção do gato, encheu toda a masmorra ao correr repetidamente pelo seu perímetro.

— Apanhe a Horcrux — disse Harry a Hermione.

Desceu, então, os degraus, correndo, enquanto guardava a Capa da Invisibilidade em sua pasta, e se aproximou da sra. Cattermole.

- Você? - sussurrou ela, fitando-o no rosto. — Mas... Reg disse que foi você que me denunciou para ser interrogada!

- Fiz isso? - murmurou Harry, puxando as correntes que prendiam os braços da mulher. - Bem, mudei de opinião. Diffindo! — Nada aconteceu. - Hermione, como me livro dessas correntes?

- Espere, estou tentando uma coisa aqui em cima...

- Hermione, estamos cercados por dementadores!

- Eu sei, Harry, mas se Umbridge acordar e o medalhão tiver desaparecido... preciso fazer uma duplicata... Geminio! Pronto... isto deve enganá-la...

Hermione desceu da plataforma correndo. -Vejamos... Relaxo!

As correntes reuniram e soltaram os braços da cadeira. A sra. Cattermole parecia tão amedrontada quanto estivera antes.

- Não estou entendendo - sussurrou.

- A senhora vai sair daqui conosco - disse Harry erguendo-a da cadeira. - Volte para casa, apanhe seus filhos e vá embora, saia do país, se for preciso. Disfarcem-se e fujam. A senhora já viu como é, aqui não terá nem meia audiência imparcial.

- Harry - perguntou Hermione -, como vamos sair daqui com todos esses dementadores no corredor?

- Patronos - respondeu o garoto, apontando a varinha para o seu próprio: o veado parou de correr e se encaminhou, ainda brilhando intensamente, para a porta. - Todos que pudermos reunir; conjure o seu, Hermione.

- Expec-expecto patronum - disse a garota. Nada aconteceu.

- E o único feitiço com que ela sempre teve problema - disse Harry à sra. Cattermole completamente bestificada. - E realmente uma pena... anda logo Hermione...

- Expecto patronum!

Uma lontra prateada irrompeu da ponta da varinha da garota e flutuou graciosamente no ar para se juntar ao veado.

- Vamos - chamou ele, e conduziu Hermione e a sra. Cattermole para a porta.

Quando os Patronos deslizaram para o corredor, ouviram-se gritos assustados das pessoas que aguardavam ali. Harry olhou: os dementadores começavam a recuar de ambos os lados, fundindo-se com a escuridão, dispersando-se ante o avanço das criaturas prateadas.

- Ficou decidido que vocês devem voltar para casa e entrar na clandestinidade com suas famílias - disse Harry aos nascidos muggles ofuscados pelo brilho dos Patronos e ainda levemente encolhidos de medo. — Vão para o exterior, se puderem. Fiquem bem longe do Ministério. Essa é... ah... a nova posição oficial. Agora, se acompanharem os Patronos, poderão sair pelo átrio.

O grupo conseguiu subir a escada de pedra sem ser interceptado, mas, ao se aproximar dos elevadores, Harry começou a ficar apreensivo. Percebeu que, se chegassem ao átrio com um veado de prata, uma lontra voando a seu lado e vinte e tantas pessoas, metade delas acusadas de terem nascido muggles, eles atrairiam uma indesejável atenção. Acabara de chegar a essa desagradável conclusão quando o elevador parou com um tranco diante deles.

- Reg! - gritou a sra. Cattermole se atirando nos braços de Ron.

- Runcorn me tirou daqui, ele atacou Umbridge e Yaxley e nos disse para fugirmos do país, acho que é o melhor a fazer, Reg, acho mesmo. Vamos depressa para casa apanhar as crianças e... por que está tão molhado?

- Água - resmungou Ron, desvencilhando-se. - Harry, eles sabem que há intrusos no Ministério, estão falando alguma coisa sobre um buraco na porta da Umbridge, calculo que temos cinco minutos, se tanto...

O Patrono de Hermione desapareceu com um estalo quando ela virou o rosto horrorizado para Harry.

- Harry, estamos presos aqui...!

- Não estaremos se nos mexermos depressa. - Ele se dirigiu às pessoas silenciosas que os acompanhavam boquiabertas. - Quem tem varinha?

Metade delas levantou as mãos.

- Qk., cada um de vocês que não tem varinha precisa acompanhar alguém que tenha. Precisamos ser rápidos: antes que nos detenham. Vamos.

Eles conseguiram se apertar em dois elevadores. O Patrono de

Harry montou guarda diante das grades douradas enquanto elas se

fechavam, e os elevadores começavam a subir.

”Nível oito”, disse a voz tranqüila da bruxa. ”Átrio.”

Harry percebeu imediatamente que estavam encrencados. O

átrio estava cheio de gente correndo de uma lareira à outra para

lacrá-las.

- Harry! — guinchou Hermione. - Que vamos...?

- PAREM! - trovejou Harry, e a voz potente de Runcorn ecoou pelo átrio: os bruxos que estavam lacrando as lareiras se imobilizaram. - Venham comigo - sussurrou ele para os nascidos muggles aterrorizados que se adiantaram juntos, pastoreados por Ron e Hermione.

- Que aconteceu, albert? - perguntou o mesmo bruxo careca que saíra com Harry da lareira mais cedo. Parecia nervoso.

- Esse pessoal precisa sair antes de vocês lacrarem as saídas disse Harry, com toda a autoridade que conseguiu reunir.

O grupo de bruxos do Ministério se entreolhou.

- Mandaram lacrar todas as saídas e não deixar ninguém...

- Você está me contradizendo? — vociferou Harry. — Quer que eu mande examinar a árvore genealógica de sua família, como fiz com a de Dirk Cresswell?

- Desculpe! - ofegou o bruxo careca, recuando. - Não quis ofender, albert, mas pensei... pensei que eles estavam aqui para ser interrogados e...

- O sangue deles é puro - disse Harry, e sua voz grave ecoou impressionantemente pelo átrio. - Diria que mais puro do que o de muitos de vocês. Agora vão saindo — trovejou ele para os nascidos muggles, que correram para as lareiras e começaram a sumir aos pares. Os bruxos do Ministério se mantiveram afastados, alguns parecendo confusos, outros expressando medo ou raiva. Então...

- mary!

A sra. Cattermole olhou por cima do ombro. O verdadeiro Reg Cattermole, que parará de vomitar, mas continuava pálido e fraco, acabara de sair correndo de um elevador.

- R-Reg? — Ela olhou do marido para Ron, que soltou um sonoro palavrão.

O bruxo careca ficou de boca aberta, sua cabeça girando absurdamente de um Reg Cattermole para outro.

- Ei... que está acontecendo? Que é isso?

- Lacrem as saídas! LACREM!

Yaxley irrompera de outro elevador e agora vinha correndo para o grupo junto às lareiras pelas quais os nascidos muggles, exceto a sra. Cattermole, haviam desaparecido. Quando o bruxo careca empunhou a varinha, Harry ergueu seu punho enorme e arremessou-o longe com um murro.

- Ele esteve ajudando os nascidos muggles a fugir, Yaxley! - gritou Harry.

Os colegas do bruxo careca protestaram aos gritos, mas, aproveitando a confusão, Ron agarrou a sra. Cattermole, puxou-a para dentro da lareira ainda aberta e sumiu. Aturdido, Yaxley olhava de Harry para o bruxo esmurrado, enquanto o verdadeiro Reg Cattermole berrava:

- Minha mulher! Quem era aquele com a minha mulher? Que está acontecendo?

Harry viu Yaxley girar a cabeça, e a percepção da verdade começar a se espalhar naquele rosto brutal.

- Vamos! - berrou Harry para Hermione; agarrou a mão dela e juntos pularam dentro da lareira no momento em que a maldição de Yaxley passava por cima de sua cabeça. Os dois rodopiaram por alguns segundos antes de emergir no vaso do cubículo. Harry escancarou a porta; encontrou Ron diante das pias, ainda se debatendo com a sra. Cattermole.

- Reg, não estou entendendo...

- Me largue, não sou o seu marido, a senhora tem que ir para casa!

Ouviu-se um barulho no cubículo às costas deles; Harry olhou; Yaxley acabara de aparecer.

- VAMOS! - berrou. Ele agarrou Hermione pela mão e Ron pelo braço e rodopiou.

A escuridão engolfou-os ao mesmo tempo que a sensação de compressão, mas alguma coisa estava errada... a mão de Hermione parecia estar escorregando da sua...

Harry pensou que ia sufocar, não conseguia respirar nem enxergar e as únicas coisas sólidas no mundo eram o braço de Ron e os dedos de Hermione, que lentamente iam lhe fugindo...

Então ele viu a porta de número doze, no largo Grimmauld, com a aldraba em forma de serpente, mas, antes que pudesse tomar fôlego, ouviu um grito seguido de um clarão roxo; a mão de Hermioue prendeu-o com firmeza e tudo escureceu.

 

- O LADRÃO -

Harry abriu os olhos e se sentiu ofuscado por uma claridade ouro e verde; não tinha idéia do que acontecera, só sabia que estava deitado no que lhe pareciam folhas e gravetos. Lutando para insuflar ar nos pulmões que sentia achatados, ele piscou os olhos e compreendeu que a luminosidade excessiva vinha do sol se infiltrando por um dossel de folhas. Então, um objeto se mexeu próximo ao seu rosto. Ele se apoiou nas mãos e nos joelhos, pronto para enfrentar um animal pequeno e feroz, mas viu que era apenas o pé de Ron. Olhando ao redor, percebeu que os três estavam deitados no chão de uma floresta, aparentemente sozinhos.

O primeiro pensamento de Harry foi a Floresta Proibida e, por um momento, mesmo sabendo como seria tolo e perigoso aparecerem nos terrenos de Hogwarts, seu coração pulou de alegria à idéia de atravessá-la furtivamente até a cabana de Hagrid. Contudo, nos poucos instantes que Ron levou para gemer baixinho e Harry começar a rastejar até o amigo, ele notou que não era a Floresta Proibida: as árvores pareciam mais jovens, mais espaçadas e o chão mais limpo.

Deparou com Hermione, também de quatro, junto à cabeça de Ron. Quando seu olhar recaiu sobre o amigo, todas as outras preocupações fugiram de sua mente, porque o sangue encharcava todo o lado esquerdo de Ron e seu rosto se destacava, branco-acinzentado, na terra forrada de folhas. A Poção Polissuco ia se dissipando agora: na aparência, Ron era um meio-termo entre Cattermole e ele próprio, seus cabelos cada vez mais ruivos e o rosto perdendo a pouca cor que lhe restava.

- Que aconteceu com ele?

— Estrunchou — respondeu Hermione, os dedos ocupados com a manga do amigo, onde o sangue estava mais profuso e escuro.

Harry observou-a, horrorizado, rasgar a camisa de Ron.

Sempre pensara no estrunchamento como algo cômico, mas isso... suas entranhas se contorceram desagradavelmente ao ver Hermione expor parte do braço de Ron onde faltava um naco de carne, reluzindo por inteiro como se o tivessem cortado a faca.

— Harry, depressa, na minha bolsa, tem um frasquinho com a etiqueta Essência de Ditamno...

— Bolsa... certo...

Harry correu para o lugar onde Hermione aterrissara, apanhou a bolsinha de contas e enfiou a mão nela. Na mesma hora, objetos após objetos começaram a se apresentar ao seu toque: ele sentiu as lombadas de couro dos livros, as mangas de lã dos suéteres, saltos de sapatos...

— Depressa!

Ele apanhou sua varinha no chão e, apontando para o fundo da bolsa mágica, ordenou:

— Accio ditamno!

Um frasquinho marrom voou da bolsa; ele o aparou e voltou correndo para Hermione e Ron, cujos olhos agora estavam semicerrados: traços de córneas brancas era tudo o que se via entre suas pálpebras.

— Ele desmaiou - disse Hermione, que também estava muito pálida; já não se parecia com Mafalda, embora seus cabelos ainda conservassem algumas mechas grisalhas. — Destampe-o para mim, Harry, minhas mãos estão tremendo.

O garoto arrancou a tampa do frasquinho e entregou-o a Hermione, que aplicou três gotas da poção na ferida ensangüentada. Ergueu-se uma nuvem de fumaça esverdeada e, quando se dissipou, Harry viu que o sangramento cessara. O ferimento agora parecia ter ocorrido há vários dias; uma pele nova se estendia sobre a carne antes exposta.

— Uau! - exclamou Harry.

— É só o que consigo fazer sem correr riscos - disse Hermione, trêmula. — Há feitiços que o deixariam novo em folha, mas não me atrevo a usá-los por medo de errar e causar mais estrago... ele já perdeu muito sangue...

— Como foi que ele se machucou? Quero dizer — Harry sacudiu a cabeça, tentando clarear as idéias e compreender seja lá o que tivesse acontecido —, por que estamos aqui? Pensei que estávamos voltando para o largo Grimmauld, não?

Hermione inspirou profundamente. Parecia à beira das lágrimas.

- Harry, acho que não podemos voltar para lá.

- Que foi que você...?

- Quando desaparatamos, Yaxley me agarrou e não pude me livrar dele, foi mais forte e continuava me segurando quando chegamos ao largo Grimmauld, aí... bem, acho que ele deve ter visto a porta, e pensou que fôssemos entrar, então afrouxou a mão e consebill me desvencilhar, e trouxe todos para cá!

- Mas cadê ele? Espere aí... você não quer dizer que Yaxley está no largo Grimmauld? Ele não pode entrar lá, pode?

Os olhos da garota cintilaram com as lágrimas acumuladas quando assentiu.

- Harry, acho que ele pode. Eu... eu o forcei a me largar com um Feitiço Repelente, mas já o deixara penetrar a proteção do Feitiço Fidelius. Desde que Dumbledore faleceu, somos fiéis do segredo, portanto entreguei a ele o segredo, não?

Era impossível fingir. Harry sabia que a amiga tinha razão. O golpe era acachapante. Se Yaxley agora podia entrar na casa, não havia como regressarem. Naquele exato momento, ele poderia estar levando outros Comensais da Morte por aparatação. Embora a casa fosse sombria e deprimente, fora seu único refúgio: e, agora que Kreacher estava mais feliz e amigo, uma espécie de lar. Com uma pontada de pesar que não estava ligada propriamente à comida, Harry imaginou o elfo doméstico ocupado em preparar o empadão de carne e rins que Harry, Ron e Hermione jamais provariam.

- Harry, sinto muito, sinto muito!

- Não seja idiota, não foi sua culpa! Se foi de alguém, foi minha... Harry levou a mão ao bolso e tirou o olho mágico de Olho-Tonto. Hermione se encolheu, horrorizada.

- Umbridge tinha cravado o olho na porta da sala para espionar as pessoas. Eu não podia deixá-lo lá... mas foi assim que eles souberam que havia intrusos.

Antes que Hermione pudesse responder, Ron gemeu e abriu os olhos. Continuava cinzento, e o suor brilhava em seu rosto.

- Como está se sentindo? - sussurrou Hermione.

- Péssimo - respondeu Ron rouco, fazendo uma careta ao tocar o braço ferido. - Onde estamos?

- Na floresta onde foi realizada a Copa Mundial de quidditch informou Hermione. — Eu queria um lugar fechado, escondido e esse foi...

- ... o primeiro em que pensou. - Harry terminou a frase por ela, correndo os olhos pela clareira aparentemente deserta. Não pôde deixar de lembrar o que acontecera na última vez que tinham aparatado no primeiro lugar que ocorrera a Hermione; como tinham sido encontrados pelos Comensais da Morte em poucos minutos. Teria sido Legilimência? Voldemort ou os seus capangas já saberiam onde Hermione os levara?

- Você acha que devemos ir para outro lugar? — perguntou Ron a Harry, que percebeu no rosto do amigo que lhe ocorrera o mesmo pensamento.

- Não sei.

Ron ainda estava pálido e suado. Não tinha feito a menor tentativa de sentar e, pelo seu aspecto, parecia fraco demais para tentar. A perspectiva de removê-lo era assustadora.

- Por enquanto, vamos ficar aqui — respondeu Harry. Com uma expressão de alívio, Hermione se pôs de pé.

- Aonde está indo? - perguntou Ron.

- Se vamos ficar aqui, devíamos lançar alguns feitiços de proteção ao nosso redor — replicou ela e, erguendo a varinha, começou a caminhar em um amplo círculo em torno de Harry e Ron, murmurando encantamentos. O garoto observou pequenas turbulências no ar em torno; era como se Hermione tivesse lançado uma névoa de calor sobre a clareira.

- Salvio hexia... Protego totalum... Repello mugglarum... Abaffiato... Você podia ir apanhando a barraca, Harry...

- Barraca?

- Na bolsa!

- Na... é claro — disse ele.

Desta vez, ele não se deu o trabalho de meter a mão na bolsa, mas usou outro Feitiço Convocatório. A barraca saiu em um disforme bolo de lona, corda e paus. Harry reconheceu, em parte pelo cheiro de gatos, que era a mesma barraca em que tinham dormido na noite da Taça Mundial de quidditch.

- Pensei que pertencesse àquele cara do Ministério, o Perkins.

— Aparentemente ele não a quis mais, seu lumbago está doendo demais - respondeu Hermione, executando com a varinha uma figura complicada em oito movimentos —, então o pai de Ron disse que eu podia pegar emprestada. Erecto! - acrescentou ela, apontando a varinha para o amontoado de lona, que, em um movimento fluido, se ergueu no ar e se acomodou, inteiramente montado, no chão diante do surpreso Harry, de cuja mão voou um espeque que aterrissou com um baque final na ponta de uma corda.

”Cave inimicum”, terminou Hermione, com um floreio para o alto. ”Isso é o máximo que sei fazer. No mínimo, nos avisarão da chegada deles; não posso garantir que impedirão a entrada de Vol...”

— Não diga o nome! - interrompeu-a Ron, rispidamente. Harry e Hermione se entreolharam.

— Desculpem - tornou ele, gemendo um pouco ao se erguer para encarar os amigos —, mas dá uma sensação de... azaração ou coisa parecida. Será que não podemos chamá-lo de Você-Sabe-Quem... por favor?

— Dumbledore dizia que o temor de um nome... - começou Harry.

— Caso você não tenha reparado, colega, chamar Você-Sabe-Quem pelo nome, afinal, não deu muito certo para Dumbledore retrucou Ron. - Quer... quer... pelo menos demonstrar algum respeito por Você-Sabe-Quem?

— Respeito? - repetiu Harry, mas Hermione lhe lançou um olhar avisando-o para não discutir com Ron enquanto o amigo estivesse tão fraco.

Harry e Hermione carregaram e, ao mesmo tempo, arrastaram Ron pela entrada da barraca. O interior era exatamente o que Harry lembrava: um pequeno apartamento, completo, com banheiro e uma minicozinha. Ele empurrou uma velha poltrona para o lado e depositou o amigo com cuidado na cama de baixo de um beliche. Mesmo esse percurso tão pequeno deixara Ron ainda mais pálido, e, quando terminaram de acomodá-lo no colchão, ele tornou a fechar os olhos e ficou algum tempo calado.

— Vou preparar um pouco de chá - disse Hermione, sem fôlego, tirando uma chaleira e canecas do fundo da bolsa e se dirigindo à cozinha.

Harry achou a bebida quente tão providencial quanto o uísque de fogo na noite em que Olho-Tonto tinha morrido; pareceu queimar um pouco o medo que se agitava em seu peito. Minutos depois, Ron quebrou o silêncio.

- Que acham que aconteceu com os Cattermole?

- Com um pouco de sorte, terão conseguido fugir - disse Hermione, apertando a caneca para se tranqüilizar. - Desde que tenha mantido a presença de espírito por algum tempo, o sr. Cattermole terá transportado a mulher por Aparatação Acompanhada e estarão fugindo do país com as crianças neste exato momento. Foi esse o conselho de Harry à mulher.

- Caramba, espero que tenham escapado — disse Ron, tornando a baixar a cabeça nos travesseiros. O chá parecia estar lhe fazendo bem; recuperara um arzinho de cor. - Mas tive a impressão de que Reg Cattermole não era muito inteligente, pela maneira com que as pessoas se dirigiam a mim enquanto fui ele. Deus, espero que tenham conseguido... se eles acabarem em Azkaban por nossa causa...

Harry olhou para Hermione e a pergunta que tinha na ponta da língua - se a falta de varinha impediria a sra. Cattermole de aparatar com o marido — morreu em sua boca. Hermione estava vendo Ron se preocupar com o destino dos Cattermole, e havia tanta ternura era seu rosto que Harry teve a sensação de quase surpreendê-la beijando o amigo.

- Então, pegou? - perguntou Harry, em parte para lembrar Hermione de sua presença.

- Pegou... pegou o quê? - perguntou ela, um pouquinho assustada.

- Para que foi que passamos por tudo isso? O medalhão! Onde está o medalhão?

- Você pegou? — gritou Ron, erguendo-se um pouco mais nos travesseiros. - Ninguém me conta nada! Caramba, podiam ter falado!

- Ora, estivemos correndo dos dementadores para não morrer, não foi? - justificou-se Hermione. — Tome aqui.

E, tirando o medalhão do bolso das vestes, entregou-o a Ron.

Era grande como um ovo de galinha. Uma letra ”S” floreada, engastada com pedrinhas verdes, lampejou sombriamente à luz difusa que se infiltrava pelo teto de lona da barraca.

— Há alguma chance de alguém tê-la destruído desde que esteve na posse de Kreacher? — perguntou Ron esperançoso. - Quero dizer, temos certeza de que continua a ser uma Horcrux?

— Acho que sim - respondeu Hermione, retomando o medalhão das mãos dele e examinando-o atentamente. - Haveria algum sinal de dano se o conteúdo tivesse sido magicamente destruído.

Ela passou-o a Harry, que virou e revirou o medalhão nos dedos. O objeto parecia perfeito, intacto. Lembrou-se dos restos estraçalhados do diário e da pedra no anel-Horcrux que fendera ao ser destruída por Dumbledore.

— Acho que Kreacher tinha razão. Temos que descobrir como abrir essa coisa para podermos destruí-la.

A súbita consciência do que segurava, do que estava vivo por trás das portinhas de ouro, atingiu Harry enquanto falava. Mesmo depois de todos os esforços para encontrá-lo, ele sentiu um violento impulso de arremessar longe o medalhão. Controlando-se, tentou abri-lo com os dedos, depois experimentou o feitiço que Hermione usara para abrir a porta do quarto de Regulus. Nenhum dos dois deu resultado. Devolveu, então, o medalhão a Ron e Hermione, cada um fez o que pôde, mas não tiveram maior sucesso.

— Mas você consegue sentir? - perguntou Ron com a voz abafada, ao apertar o objeto na mão.

— Como assim?

Ron passou-lhe a Horcrux. Instantes depois, Harry pensou ter entendido o que ele queria dizer. Estaria sentindo o sangue pulsar em suas veias, ou havia alguma coisa no medalhão batendo como um minúsculo coração metálico?

— Que vai fazer com isso? - perguntou Hermione.

— Guardá-lo em segurança até descobrirmos como destruí-lo — respondeu Harry e, por menos que isso lhe agradasse, prendeu a corrente ao pescoço, deixando o medalhão pender, oculto, sob suas vestes, onde repousou sobre seu peito, ao lado da bolsa que Hagrid lhe dera.

— Acho que devíamos nos revezar para vigiar a barraca por fora

- acrescentou Hermione, se pondo de pé e se espreguiçando. — E também teremos que pensar em alguma coisa para comer. Você fica aqui — acrescentou, rapidamente, quando Ron tentou se levantar e seu rosto adquiriu um feio tom verdoso.

Equilibrando com cuidado sobre a barraca o bisbilhoscópio que Hermione dera de presente a Harry em seu aniversário, os dois passaram o resto do dia dividindo os turnos de vigia. O bisbilhoscópio, no entanto, permaneceu silencioso e parado o tempo todo, e, fosse por causa dos feitiços de proteção e Feitiços Antitrouxas que Hermione lançara ao redor, ou porque as pessoas raramente se aventuravam naquelas paragens, a clareira permaneceu deserta exceto por raros pássaros e esquilos. A noite não trouxe alteração alguma; Harry acendeu a varinha ao substituir Hermione às dez horas e contemplou uma paisagem deserta, registrando os morcegos que voavam muito alto no retalho de céu estrelado que se avistava da clareira protegida.

Sentia fome, agora, e um pouco de tontura. Hermione não estocara alimentos na bolsinha mágica, pois supusera que eles fossem retornar ao largo Grimmauld naquela noite. Não havia, portanto, comida, exceto alguns cogumelos silvestres que a garota colhera entre as árvores mais próximas e cozinhara em uma vasilha. Depois de comer dois bocados, Ron afastara sua porção, parecendo enjoado; Harry só persistira para não magoar Hermione.

O silêncio circundante era quebrado por sons indistintos ocasionais e, talvez, gravetos estalando. Harry achou que fossem produzidos por animais e não por gente, contudo, empunhou com firmeza a varinha, pronta para uso. Suas entranhas, já avariadas pela porção insuficiente de cogumelos borrachudos, tremiam, causando-lhe mal-estar.

Pensara que sentiria euforia se conseguissem reaver a Horcrux, mas por alguma razão isso não acontecera; tudo que sentia, sentado naquela escuridão, da qual sua varinha iluminava uma ínfima parte, era apreensão pelo que aconteceria a seguir. Parecia que estivera se precipitando velozmente até aquele lugar durante semanas, meses, talvez anos, mas agora estacara abruptamente, era o fim da estrada.

Havia outras Horcruxes lá fora em algum lugar, mas ele não fazia a menor idéia de onde poderiam estar. Nem mesmo sabia o que eram. Nesse meio-tempo, não lhe ocorria como destruir a única que encontrara: a Horcrux que, no momento, jazia sobre seu peito nu. Curiosamente, o objeto não roubara calor do seu corpo, estava tão frio ali, sobre sua pele, que poderia ter saído da água gelada. De vez em quando, Harry pensava, ou talvez imaginasse, que podia sentir um batimento de coração mínimo, no mesmo compasso que o seu.

Pressentimentos inomináveis o assaltavam, ali no escuro: tentava resistir-lhes, afastá-los, contudo eles recorriam sem descanso. Nenhum poderá viver enquanto o outro sobreviver. Ron e Hermione, agora conversando baixinho na barraca às suas costas, poderiam ir embora se quisessem: ele não poderia. E parecia-lhe, naquela imobilidade em que tentava dominar o medo e a exaustão, que a Horcrux sobre seu peito marcava o tempo que lhe restava... Que idéia idiota, disse a si mesmo, não pense isso...

Sua cicatriz estava recomeçando a formigar. Receava que estivesse provocando aquilo ao entreter tais pensamentos, e tentou redirecioná-los. Pensou no pobre Kreacher, esperando a chegada deles em casa e, em vez disso, recebendo Yaxley. O elfo guardaria silêncio ou contaria ao Comensal da Morte tudo que sabia? Harry queria acreditar que Kreacher mudara sua relação com ele durante o mês que passara, que se manteria leal, mas quem sabia o que iria acontecer? E se os Comensais da Morte torturassem o elfo? Imagens tétricas fervilharam em sua mente e ele tentou afastá-las também, porque não havia nada que pudesse fazer por Kreacher: ele e Hermione já tinham decidido não convocá-lo; e se alguém do Ministério viesse junto? Eles não podiam contar que a aparatação de elfos fosse isenta da falha que levara Yaxley ao largo Grimmauld agarrado à manga de Hermione.

A cicatriz de Harry agora queimava. Lembrou que havia tanta coisa que ignoravam: Lupin estava certo quando falara em magia que jamais tinham enfrentado ou imaginado. Por que Dumbledore não lhe explicara mais? Teria pensado que haveria tempo; que viveria anos, séculos talvez, como seu amigo Nicolau Flamel? Se assim fosse, enganara-se... Snape se encarregara disso... Snape, a serpente I adormecida, que atacara no alto da Torre... j E Dumbledore caíra... caíra...

- Entregue-me, Gregorovitch.

A voz de Harry saiu aguda, clara e fria: sua varinha estendida à frente por uma mão branca de dedos longos. O homem para quem apontava estava suspenso no ar de cabeça para baixo, embora não houvesse cordas segurando-o; ele balançava, invisível e sinistramente preso, os membros enrolados no corpo, seu rosto aterrorizado, no mesmo nível que o de Harry, vermelho por causa do sangue que lhe afluíra à cabeça. Tinha cabelos absolutamente brancos e uma barba cerrada de pêlos espessos: um Papai Noel no espeto.

- Não a tenho, não a tenho mais! Roubaram-me há muitos anos!

- Não minta para Lord Voldemort, Gregorovitch. Ele sabe... ele sempre sabe.

As pupilas do homem pendurado estavam grandes, dilatadas de medo, e pareciam inchar, cada vez mais, até que seu negrume engoliu Harry inteiro...

E agora ele se via correndo por um corredor escuro atrás do atarracado Gregorovitch, que segurava uma lanterna no alto: o bruxo adentrou um aposento no final do corredor e sua lanterna iluminou o que lhe pareceu uma oficina; aparas de madeira e ouro reluziam no foco trêmulo de luz, e ali, no peitoril da janela, achava-se, empoJeirado, como uma grande ave, um jovem de cabelos dourados. Na fração de segundo que a luz da lanterna incidiu nele, Harry viu prazer em seu belo rosto, então o intruso lançou um Feitiço Estuporante de sua varinha e saltou, de costas, do peitoril com um grito de triunfo.

E Harry se viu recuando velozmente daquelas pupilas enormes como túneis, o rosto de Gregorovitch aterrorizado.

- Quem foi o ladrão, Gregorovitch? - perguntou a voz aguda e fria.

- Não sei, nunca soube, um jovem... não... por favor... POR FAVOR!

Um grito interminável seguido de um lampejo verde...

- Harry!

Ele abriu os olhos, ofegante, a testa latejando. Tinha desmaiado contra a parede da barraca: escorregara de lado pela lona e se estatelara no chão. Ergueu os olhos para Hermione, cujos cabelos cheios obscureciam o retalhinho de céu visível através da escura ramagem acima.

- Sonho — disse ele, sentando-se depressa e tentando enfrentar a carranca de Hermione com um ar de inocência. - Devo ter cochilado, desculpe.

- Sei que foi a sua cicatriz! Percebo no seu rosto! Você estava espiando a mente de Vol...

- Não diga esse nome! — Ouviram a voz irritada de Ron vinda das profundezas da barraca.

- Ótimo - retorquiu Hermione. — Então, a mente de Você-Sabe-Quem!

- Não quis que acontecesse! - defendeu-se Harry. — Foi um sonho! Você consegue controlar o que sonha, Hermione?

— Se você ao menos tivesse aprendido a usar a Oclumência... Harry, porém, não estava interessado em levar uma descompostura de Hermione; queria discutir o que acabara de ver.

— Ele encontrou Gregorovitch, Hermione, e acho que o matou, mas, antes de matar, leu a mente do homem e vi...

— Acho que é melhor eu assumir a vigia, se o seu cansaço é tanto que você está cochilando - disse Hermione friamente.

— Eu posso terminar a vigia!

— Não, obviamente você está exausto. Vá se deitar.

Ela se largou na entrada da barraca, decidida. Aborrecido, mas querendo evitar uma briga, Harry entrou.

O rosto ainda pálido de Ron se ergueu, curioso, do beliche; Harry subiu na cama de cima, deitou-se e ficou olhando para o teto escuro de lona. Passados vários minutos, Ron falou muito baixinho para Hermione não ouvir, encolhida na entrada.

— Que é que Você-Sabe-Quem está fazendo?

Harry apertou os olhos se esforçando para recordar cada detalhe, então sussurrou no escuro:

— Encontrou Gregorovitch. Amarrou-o e estava torturando o homem.

— Como é que Gregorovitch vai fazer uma nova varinha para ele se está amarrado?

— Não sei... é esquisito, não é?

Harry fechou os olhos, pensando em tudo que vira e ouvira. Quanto mais lembrava, menos sentido fazia... Voldemort não tinha dito nada sobre a varinha de Harry, nada sobre os núcleos gêmeos, nada sobre a idéia de mandar Gregorovitch fazer uma varinha nova e mais poderosa para derrotar a de Harry...

— Queria alguma coisa de Gregorovitch - disse Harry, ainda com os olhos bem fechados. - Pediu que lhe entregasse, mas Gregorovitch disse que tinham lhe roubado... e então... então...

Harry lembrou como ele, no corpo de Voldemort, parecera invadir os olhos de Gregorovitch até sua memória... I - Leu a mente de Gregorovitch e viu um rapaz louro, empoleiIrado no peitoril da janela, que lançou um feitiço em Gregorovitch e, Idando um salto para trás, desapareceu. Ele roubou, roubou seja o [que for que Você-Sabe-Quem procura. E eu... eu acho que já vi o rapaz em algum lugar...

Harry desejou poder dar mais uma olhada naquele rosto risonho. O roubo acontecera havia muitos anos, segundo Gregorovitch. Por que o jovem ladrão lhe parecia familiar?

Os ruídos da mata soavam abafados no interior da barraca; só o que Harry escutava era a respiração do amigo. Passado algum tempo, Ron sussurrou:

- Você não viu o que o ladrão estava segurando?

- Não... devia ser alguma coisa pequena.

- Harry?

As ripas de madeira da cama de Ron rangeram quando ele mudou de posição.

- Harry, você não acha que Você-Sabe-Quem estava atrás de outro objeto para transformar em Horcrux?

- Não sei - respondeu ele, lentamente. - Talvez. Mas não seria perigoso criar mais uma? Hermione não disse que ele já tinha forçado a alma ao máximo?

- É, mas ele talvez não saiba disso.

- É... talvez - disse Harry.

Tivera certeza de que Voldemort andava procurando uma maneira de contornar o problema dos núcleos gêmeos, certeza de que buscava uma solução com o velho fabricante de varinhas... contudo, matara-o, aparentemente sem lhe fazer uma única pergunta sobre varinhas.

Que é que Voldemort estava tentando encontrar? Por que, com o Ministério da Magia e o mundo bruxo a seus pés, ele foi para longe, decidido a encontrar um objeto que no passado pertenceu a Gregorovitch e lhe foi roubado por um ladrão desconhecido?

Harry ainda via o rosto do rapaz louro, era alegre e rebelde; havia nele um ar à la Fred e George e seus bem-sucedidos logros. Ele voara do peitoril da janela como um pássaro, e Harry já o vira antes, mas não conseguia lembrar onde...

Com Gregorovitch morto, era um ladrão de rosto alegre que agora corria perigo, e foi nele que se detiveram os pensamentos de Harry quando os roncos de Ron começaram a ecoar da cama de baixo e ele próprio recomeçou lentamente a adormecer.

 

- A VINGANÇA DO DUENDE -

Cedo NA MANHÃ SEGUINTE, antes que os outros acordassem, Harry deixou a barraca em busca da árvore mais antiga e de aparência mais nodosa e elástica que pudesse encontrar. Ali, à sua sombra, ele enterrou o olho de Olho-Tonto Moody e marcou o local gravando, com a sua varinha, uma pequena cruz na casca. Não era muita coisa, mas Harry sentiu que Olho-Tonto teria preferido isso a ficar engastado na porta de Dolores Umbridge. Voltou, então, à barraca e esperou os outros acordarem para discutir o que fariam a seguir.

Harry e Hermione acharam que era melhor não pararem em lugar algum muito tempo, e Ron concordou, com a única ressalva de que o próximo deslocamento os deixasse próximos a um sanduíche de bacon. Hermione desfez, portanto, os feitiços que lançara sobre a clareira, enquanto os dois amigos apagavam todas as marcas e impressões no solo que pudessem indicar que haviam acampado ali. Em seguida, desaparataram para a periferia de uma pequena cidade comercial.

Depois de armarem a barraca ao abrigo de um pequeno arvoredo que cercaram com feitiços defensivos, Harry arriscou uma surtida sob a Capa da Invisibilidade para procurar alimentos. Sua tentativa, porém, não saiu conforme planejara. Mal acabara de entrar na cidade quando um frio anormal, uma névoa baixa e um repentino escurecimento do céu o fizeram estacar, congelado.

— Mas você sabe conjurar um Patrono genial! - protestou Ron, quando Harry voltou à barraca de mãos vazias, sem fôlego, dizendo uma única palavra: ”dementadores”.

- Não consegui... produzir um - arquejou, comprimindo uma pontada no lado do corpo. - Não quis... aparecer.

As expressões de pesar e desapontamento dos amigos deixaram-no envergonhado.

Fora uma experiência aterrorizante ver ao longe os dementadores deslizando da névoa, e compreender, quando o frio paralisante obstruiu os seus pulmões e gritos distantes encheram seus ouvidos, que ele não ia conseguir se proteger. Harry precisou de toda a sua força de vontade para se despregar do chão e correr, deixando os dementadores sem olhos se deslocarem entre os muggles que talvez não os vissem, mas que, certamente, sentiriam o desespero que eles lançavam por onde quer que passassem.

- Continuamos, então, sem comida.

- Cala a boca, Ron — cortou-o Hermione. — Harry, que aconteceu? Por que acha que não conseguiu conjurar o seu Patrono? Ontem você fez isso perfeitamente!

- Não sei.

Harry afundou-se em uma das velhas poltronas de Perkins, sentindo-se, a cada momento, mais humilhado. Receava que alguma coisa tivesse desabilitado dentro dele. O dia de ontem parecia ter sido muitos séculos atrás: hoje, sentia-se novamente com treze anos, o único garoto que desmaiara no Expresso de Hogwarts.

Ron chutou o pé de uma cadeira.

- Quê? - rosnou para Hermione. - Estou morrendo de fome! Depois que quase morri de tanto sangrar, só comi uns dois cogumelos!

- Então vá e abra caminho à força entre os dementadores — retrucou Harry, mordido.

- Eu iria, mas estou com um braço na tipóia, caso você não tenha reparado!

- Muito conveniente.

- E que quer dizer...

- É claro! - exclamou Hermione, dando um tapinha na testa e fazendo os dois se calarem de susto. - Harry, me dá o medalhão! pediu impaciente, estalando os dedos para o garoto ao ver que não reagira. - Você ainda está usando a Horcrux!

Ela estendeu as mãos e Harry tirou a corrente de ouro pela cabeça. No momento em que o objeto desencostou de sua pele, o garoto se sentiu livre e estranhamente leve. Não tinha percebido que estava suado e que havia um peso comprimindo seu estômago até as duas sensações desapareceram.

- Melhor? — perguntou Hermione.

- Nossa, muito melhor!

- Harry - tornou ela, agachando-se à sua frente e usando um tom de voz que o garoto associava a visitas a gente muito doente —, você não acha que foi possuído, acha?

- Quê? Não! — exclamou ele, na defensiva. - Lembro-me de tudo que fizemos enquanto estive usando o medalhão. Eu não saberia o que fiz se estivesse possuído, não é? Ginny me contou que, às vezes, ela não conseguia se lembrar de nada.

- Hum - disse Hermione, contemplando o pesado medalhão. Bem, talvez seja melhor não o usarmos. Podemos simplesmente guardá-lo aqui na barraca.

- Não vamos deixar essa Horcrux por aí — disse Harry, com firmeza. - Se a perdermos, se a roubarem...

- Ah, tá bem, tá bem - respondeu ela, colocando o medalhão no próprio pescoço e escondendo-o por baixo da blusa. - Mas vamos nos revezar, assim ninguém irá usá-la por muito tempo.

- Ótimo - disse Ron, irritado —, e agora que já acertamos isso, será que podemos comer alguma coisa?

- Tudo bem, mas vamos procurar em outro lugar - propôs Hermione, lançando um olhar rápido para Harry. — Não tem sentido ficar aqui, sabendo que os dementadores estão atacando.

Eles acabaram pernoitando em um extenso campo de uma propriedade rural isolada, na qual obtiveram ovos e pão.

- Não estamos roubando, não é? - perguntou Hermione, em tom preocupado, enquanto devoravam ovos mexidos com torrada. Não se eu deixei um dinheiro no galinheiro, concordam?

Ron virou os olhos para o alto e disse com a boca estufada:

- Er-mi-ne, cê precupo demais. Elaxa!

E, de fato, ficou muito mais fácil relaxar depois de estarem bem alimentados: a discussão sobre os dementadores foi esquecida entre risos, e Harry se sentiu animado, e até esperançoso, quando assumiu a primeira das três vigias da noite.

Esta foi a primeira vez que constataram que uma barriga cheia gera bom humor; e, uma vazia, desentendimento e tristeza. A Harry, isso não surpreendeu muito, porque chegara várias vezes à beira da inanição na casa dos Dursley. Hermione suportou razoavelmente bem as noites em que só conseguiam arranjar frutinhas e biscoitos velhos, sua paciência talvez um pouco mais curta do que o normal e seus silêncios melancólicos.

Ron, no entanto, fora acostumado a três deliciosas refeições por dia, cortesia de sua mãe ou dos elfos domésticos de Hogwarts, e a fome o tornava irracional e irascível. Sempre que a falta de comida coincidia com sua vez de usar a Horcrux, ele se tornava decididamente desagradável.

— E agora? - Era o seu constante refrão. Não parecia ter idéias a contribuir, mas esperava que Harry e Hermione sugerissem planos, enquanto ele ficava parado, remoendo a escassez de comida. Assim, Harry e Hermione passavam horas infrutíferas, tentando decidir onde procurar as outras Horcruxes e como destruir a que tinham em seu poder, suas conversas se tornando cada vez mais repetitivas, pois não tinham novas informações.

Uma vez que Dumbledore dissera a Harry que acreditava que Voldemort tivesse escondido as Horcruxes em lugares que julgava importantes, os dois não paravam de desfiar, em uma espécie de ladainha enfadonha, os lugares onde sabiam que o lorde vivera ou visitara. O orfanato onde nascera e crescera, Hogwarts onde fora educado, Borgin & Burkes, onde trabalhara ao terminar a escola, depois a Albânia, onde passara os anos de exílio: essa era a base de suas especulações.

— É, vamos à Albânia. Não vamos gastar mais do que uma tarde para vasculhar o país inteiro - disse Ron, sarcasticamente.

- Não pode haver nada lá. Ele já tinha criado cinco das Horcruxes quando foi para o exílio, e Dumbledore tinha certeza de que a cobra era a sexta — contrapôs Hermione. — Sabemos que a cobra não está na Albânia, normalmente acompanha Vol...

— Eu não pedi paro você parar de dizer isso?

- Ótimo! A cobra normalmente está com Você-Sabe-Quem... feliz agora?

— Nem tanto.

- Não consigo vê-lo escondendo nada na Borgin & Burkes disse Harry, que já defendera esse ponto de vista muitas vezes, mas repetiu-o apenas para quebrar o incômodo silêncio. — Borgin e Burke eram especialistas em objetos das Trevas, teriam reconhecido uma Horcrux imediatamente.

Ron bocejou acintosamente. Reprimindo um forte impulso de atirar alguma coisa no amigo, Harry continuou:

- Ainda acho que ele poderia ter escondido alguma coisa em Hogwarts.

Hermione suspirou.

— Mas Dumbledore a teria encontrado, Harry!

O garoto repetiu o argumento que sempre trazia à baila em favor de sua teoria.

— Dumbledore confessou a mim que nunca presumiu conhecer todos os segredos de Hogwarts. E estou lhe dizendo que se havia um lugar que Vol...

-Oi!

— VOCÊ-SABE-QUEM, então! - gritou Harry, irritado além da conta. - Se havia um lugar que Você-Sabe-Quem considerava realmente importante era Hogwarts!

— Ah, corta essa - caçoou Ron. - A escolo dele?

— É, a escola dele! Foi o primeiro lar verdadeiro que ele teve, o lugar que o tornava especial, que significava tudo para ele, e mesmo depois que saiu...

— É de Você-Sabe-Quem que estamos falando, certo? Não é de você, é? - indagou Ron. Puxava a corrente da Horcrux em seu pescoço: Harry foi assaltado pelo desejo de agarrar a corrente e usá-la para estrangular o amigo.

— Você nos contou que Você-Sabe-Quem pediu a Dumbledore para lhe dar emprego depois que saiu da escola - disse Hermione.

— Isso.

— E Dumbledore achou que ele só queria voltar para procurar alguma coisa, provavelmente um objeto de outro dos fundadores para transformá-lo em uma Horcrux?

-É.

— Mas ele não conseguiu o emprego, certo? — conferiu Hermione. — Então, ele nunca teve oportunidade de procurar lá o objeto de um fundador e escondê-lo na escola!

— O.k., então — concordou Harry, vencido. — Esqueça Hogwarts. Sem outras pistas, eles viajaram a Londres e, protegidos pela

Capa da Invisibilidade, procuraram o orfanato onde Voldemort fora criado. Hermione entrou escondida em uma biblioteca e descobriu, pelos registros, que o estabelecimento fora demolido havia anos. Visitaram o local e depararam com uma torre de escritórios.

— Poderíamos tentar cavar nas fundações? — sugeriu Hermione sem muita convicção.

— Ele não teria escondido uma Horcrux aqui - disse Harry, que, na verdade, sempre soubera disso: o orfanato fora o lugar de que Voldemort estava decidido a fugir; ele jamais teria escondido uma parte da alma lá. Dumbledore mostrara a Harry que o lorde buscava grandiosidade ou misticismo na escolha de seus esconderijos; esse canto desolado e cinzento de Londres nem de longe poderia lembrar Hog war ts ou o Ministério ou um edifício como Gringotts, o banco dos bruxos, com suas portas de ouro e seus pisos de mármore.

Mesmo sem novas idéias, eles continuaram a viajar pelo campo, a cada noite armando a barraca em um lugar diferente, por medida de segurança. Toda manhã, eles se certificavam de ter removido as pistas de sua presença, então partiam em busca de outro lugar isolado e protegido, deslocando-se por aparatação a outras matas, a fendas sombrias em rochedos junto ao mar, a charnecas arroxeadas, a encostas de montanhas cobertas de tojos e, uma vez, a uma enseada pedregosa. A cada doze horas, mais ou menos, eles passavam a Horcrux de um para outro, como se estivessem jogando em câmara lenta uma partida perversa de passar o anel, temendo a hora em que, se errassem, a prenda seriam doze horas de mais ansiedade e medo.

A cicatriz de Harry não parava de formigar. Acontecia com maior freqüência, segundo observou, quando estava usando a Horcrux. Por vezes, ele não conseguia evitar demonstrar a dor.

- Quê? Que foi que você viu? - indagava Ron, sempre que via Harry fazer caretas.

- Um rosto - murmurava Harry, todas as vezes. — O mesmo rosto. O ladrão que roubou Gregorovitch.

E Ron lhe dava as costas sem fazer esforço algum para esconder o seu desapontamento. Harry sabia que o amigo estava esperando notícias de sua família ou dos membros restantes da Ordem da Fênix, mas, afinal, ele, Harry, não era uma antena de televisão; só podia ver o que Voldemort estava pensando no momento, e não sintonizar o que lhe agradasse. E, pelo que via, o lorde estava refletindo demoradamente sobre o jovem desconhecido de rosto sorridente, cujo nome e paradeiro Harry tinha certeza de que Voldemort sabia tanto quanto ele. Uma vez que sua cicatriz continuava a arder e o rapaz sorridente de cabelos dourados tantalizava sua memória, ele aprendeu a reprimir qualquer sinal de dor ou mal-estar, porque os outros dois manifestavam impaciência à simples menção do ladrão. Não podia culpá-los inteiramente, vendo-os tão desesperados para encontrar uma pista que os levasse às Horcruxes.

À medida que os dias se alongavam em semanas, Harry começou a suspeitar que Ron e Hermione estivessem conversando sem ele e sobre ele. Várias vezes tinham parado abruptamente de falar quando ele entrara na barraca, e, em outras duas, Harry os encontrara por acaso, conversando em segredo a uma pequena distância, as cabeças juntas, falando rapidamente; em ambas, os amigos tinham se calado ao perceber sua aproximação e se apressado a fingir que estavam ocupados em apanhar lenha ou água.

Harry não podia deixar de se perguntar se teriam concordado em acompanhá-lo nessa viagem, que agora julgavam sem objetivo e errática, apenas porque pensaram que tinha um plano secreto de que eles tomariam conhecimento no devido tempo. Ron não estava fazendo o menor esforço para esconder o seu mau humor, e Harry começava a recear que Hermione também estivesse desapontada com a sua falta de liderança. Desesperado, ele tentou pensar em outros locais para Horcruxes, mas o único que continuava a lhe ocorrer era Hogwarts, e, como os amigos não achavam que fosse provável, ele parou de sugeri-lo.

O outono foi desdobrando-se sobre os campos à medida que eles se deslocavam: agora, estavam montando a barraca sobre palhas secas e folhas caídas. Névoas naturais se misturavam àquelas lançadas pelos dementadores; o vento e a chuva aumentavam seus problemas. O fato de que Hermione estivesse identificando melhor os cogumelos comestíveis não chegava a compensar inteiramente o seu isolamento contínuo, a falta da companhia de outras pessoas, ou sua total ignorância sobre o que estava acontecendo na guerra contra Voldemort.

- Minha mãe - disse Ron certa noite, quando se achavam na barraca, à margem de um rio em Gales — é capaz de conjurar do nada uma comida gostosa.

Ele cutucava, rabugento, os pedaços de peixe carbonizado em seu prato. Harry olhou automaticamente para o pescoço de Ron e viu, conforme esperava, o brilho da corrente de ouro da Horcrux. Conseguiu refrear o impulso de xingar o amigo, cuja atitude melhoraria um pouco no momento em que tirasse o medalhão.

- Sua mãe não conjura comida do nada - disse Hermione. Ninguém pode fazer isso. Comida é a primeira das cinco principais exceções à Lei de Gamp sobre a Transfiguração Elemen...

- Ah, vê se fala em língua de gente, tá! — retorquiu Ron, extraindo uma espinha de peixe presa entre os dentes

- É impossível preparar comida boa do nada! Você pode convocá-la se souber onde achar, você pode transformá-la, você pode aumentar a quantidade se já tem alguma...

- ... pois não se dê o trabalho de aumentar esta aqui, tá uma porcaria — retrucou ele.

- Harry apanhou o peixe e eu fiz o melhor que pude! Estou notando que sempre sou eu que acabo resolvendo o problema da comida; porque sou uma menina, suponho!

- Não, porque a gente supõe que você seja melhor em magia! — disparou Ron.

Hermione se levantou de repente e os pedaços de peixe assado escorregaram do seu prato de estanho para o chão.

- Você pode cozinhar amanhã, Ron, você pode procurar os ingredientes e tentar transformá-los em alguma coisa que valha a pena comer, e eu vou me sentar aqui e fazer cara feia e reclamar e você vai poder ver...

- Calem a boca! — exclamou Harry, levantando-se de um salto e erguendo as mãos. - Calem já a boca!

Hermione fez cara de indignação.

- Como você pode apoiar o Ron? Ele quase nunca cozinha...

- Hermione, fica quieta, estou ouvindo alguém!

Harry ficou muito atento, as mãos ainda erguidas, alertando-os para não falarem. Então, sobrepondo-se à correnteza do rio escuro ao lado, ele tornou a ouvir vozes. Virou-se para o bisbilhoscópio. Não se mexera.

- Você lançou o Abaffiato sobre nós, certo? - sussurrou ele para Hermione.

- Lancei tudo — sussurrou ela em resposta —, o Abaffiato, o Antimuggles e o da Desilusão, todos. Sejam quem for, não devem poder nos ver nem ouvir.

Passos arrastando e atritando no solo, somados ao ruído de gravetos e pedras deslocados, indicavam que várias pessoas desciam a encosta íngreme e arborizada em direção ao estreito barranco do rio, onde os garotos tinham armado a barraca. Eles apanharam as varinhas e aguardaram. Os feitiços que tinham lançado ao redor deviam bastar na escuridão quase total para protegê-los da curiosidade dos muggles e dos bruxos normais.

Se esses fossem Comensais da Morte, então, pela primeira vez, suas defesas iriam ser testadas pelas Artes das Trevas.

As vozes foram alteando, mas continuaram ininteligíveis à medida que os homens alcançavam a margem. Harry estimava que seus donos estivessem a menos de seis metros de distância, mas o rio encachoeirado os impedia de ter certeza. Hermione passou a mão na bolsinha de contas e começou a remexer nela; um momento depois, puxou três Orelhas Extensíveis e jogou uma para cada garoto, que imediatamente inseriu as pontas dos fios cor da pele nos ouvidos e pôs as outras pontas fora da entrada da barraca.

Em segundos, Harry ouviu uma preocupada voz masculina.

— Devia haver salmão aqui ou acham que ainda está muito no início da temporada? Accio salmon!

Ouviram-se claramente os peixes espadanando e, em seguida, batendo contra corpos. Alguém resmungou apreciativamente. Harry empurrou a Orelha Extensível mais fundo no ouvido: acima do murmúrio do rio, distinguiu outras vozes, mas não estavam falando inglês nem outro idioma que ele já tivesse ouvido. Era uma língua dura e pouco melodiosa, uma seqüência de ruídos rascantes e guturais, e, aparentemente, havia dois homens, um com a voz ligeiramente mais grave e lenta que a do outro.

Uma fogueira foi acendida do outro lado da lona; grandes sombras passaram entre a barraca e as chamas. O aroma delicioso de salmão assado flutuou torturante em sua direção. Em seguida, ouviram o tinido de talheres sobre pratos, e o primeiro homem tornou a falar.

— Tome aqui, Griphook, Gornope.

— Duendes! — articulou Hermione, silenciosamente, para Harry, que apenas assentiu.

— Obrigado — agradeceram os duendes, ao mesmo tempo, em inglês.

— Então, há quanto tempo vocês três estão fugindo? - ouviram uma nova voz melodiosa e agradável; era vagamente familiar a Harry, que imaginou um homem barrigudo de rosto jovial.

— Seis semanas... sete... não lembro - disse o homem cansado. Topei com Griphook nos primeiros dois dias e unimos forças com Gornope logo depois. É bom ter alguma companhia. — Houve uma pausa, enquanto os talheres raspavam os pratos e canecas eram erguidas e repostas no chão.

- O que o fez fugir, Ted? — continuou o homem.

- Sabia que vinham me prender - respondeu Ted, o homem de voz melodiosa, e Harry repentinamente identificou-o: era o pai de Tonks. - Tinha ouvido falar que os Comensais da Morte estavam na área a semana passada, e concluí que era melhor sumir. Recusei-me a fazer o registro para nascidos muggles por princípio, entende, portanto sabia que era uma questão de tempo, sabia que, no final, teria que partir. Minha mulher deve estar bem, ela tem sangue puro. Encontrei, então, o Dean há, o quê, alguns dias, filho?

- É - confirmou outra voz, e Harry, Ron e Hermione se entreolharam em silêncio, mas transbordando de contentamento ao reconhecerem, sem sombra de dúvida, a voz de Dean Thomas, seu colega na Gryffindor.

- Nascido muggle, hein? - perguntou o primeiro homem.

- Não tenho certeza - respondeu Dean. - Meu pai abandonou minha mãe quando eu era pequeno. Não tenho prova de que ele fosse bruxo.

O grupo ficou em silêncio por um tempo, exceto pelos ruídos de mastigação; então Ted tornou a falar.

- Devo confessar, Dirk, estou surpreso de encontrar você. Satisfeito, mas surpreso. Correu a notícia de que você tinha sido preso.

- Fui. Estava a caminho de Azkaban quando tentei fugir, estuporei Dawlish e roubei a vassoura dele. Foi mais fácil do que se poderia esperar. Acho que ele não está muito normal no momento. Talvez tenha sido confundido. Se foi, eu gostaria de apertar a mão do bruxo que fez isso, porque provavelmente salvou a minha vida.

Houve mais uma pausa em que a fogueira estalejou e o rio correu em cachoeira. Então, Ted perguntou:

- E vocês dois como se encaixam? Eu, ah, tive a impressão de que a maioria dos duendes apoiava Você-Sabe-Quem.

- Teve uma impressão falsa - disse o duende de voz mais aguda.

- Não tomamos partido. É uma guerra de bruxos.

- Por que estão na clandestinidade, então?

- Por prudência - respondeu o duende de voz mais grave. — Recusei um pedido que considerei impertinente, e percebi que tinha posto em risco a minha segurança pessoal.

- Qual foi o pedido que lhe fizeram? - retornou Ted.

- Tarefas que não são condizentes com a dignidade da minha raça — informou o duende, sua voz mais áspera e menos humana quando acrescentou: - Não sou um elfo doméstico.

- E você, Griphook?

- Razões semelhantes - disse o duende de voz mais aguda. - O Gringotts não está mais sob o controle total da minha raça. Não reconheço senhores bruxos.

E acrescentou alguma coisa entre dentes, em grugulês, que fez Gornope rir.

- Qual foi a piada? - perguntou Dean.

- Ele disse - respondeu Dirk — que há coisas que os bruxos também não reconhecem.

Fez-se um breve silêncio.

- Não entendi — tornou Dean.

- Fui à forra antes de partir — disse Griphook, em inglês.

- Grande homem... grande duende, melhor dizendo — emendou Ted, rapidamente. - Conseguiu prender um Comensal da Morte em uma das caixas-fortes, imagino.

- Se tivesse conseguido, a espada não o teria ajudado a sair - replicou Griphook. Gornope tornou a rir e até Dirk deu uma risada seca.

- Dean e eu não estamos entendendo muito bem - disse Ted.

- Severus Snape também não, embora ele não saiba disso - afirmou Griphook, e os dois duendes soltaram gargalhadas maliciosas.

Na barraca, a respiração de Harry saía ofegante de excitação: ele e Hermione se entreolhavam, prestando a maior atenção possível.

- Você não ouviu essa história, Ted? - admirou-se Dirk. — Dos garotos que tentaram roubar a espada de Gryffindor do gabinete de Snape em Hogwarts?

Uma corrente elétrica pareceu atravessar Harry, fazendo vibrar cada nervo do seu corpo pregado no chão.

- Nunca ouvi uma palavra. Não saiu no Profeta, saiu?

- Dificilmente sairia - comentou Dirk, entre risadinhas. - O Griphook aqui me contou, soube pelo bill Weasley, que trabalha no banco. Um dos jovens que tentou se apossar da espada foi a irmã mais nova dele.

Harry olhou para Hermione e Ron, que estavam agarrados às Orelhas Extensíveis como se fossem cordas salva-vidas.

- Ela e uns dois amigos entraram no gabinete de Snape e quebraram a redoma de vidro em que ele, aparentemente, guardava a espada. Snape agarrou-os quando desciam a escada tentando levá-la.

- Ah, que Deus os abençoe - exclamou Ted. - Que pensavam fazer, usar a espada contra Você-Sabe-Quem? Ou contra o próprio Snape?

- Bem, seja o que for que pensaram, Snape decidiu que a espada não estava segura em Hogwarts — contou Dirk. - Uns dois dias mais tarde, quando recebeu permissão de Você-Sabe-Quem, imagino, enviou-a a Londres, para ser guardada no Gringotts.

Os duendes recomeçaram a rir.

- Ainda não estou entendendo a graça — disse Ted.

- É uma imitação - explicou Griphook, rouco.

- A espada de Gryffindor!

- Sim, senhor. É uma cópia: uma excelente cópia, é verdade, mas fabricada por bruxos. A original foi forjada séculos atrás pelos duendes e tem certas propriedades que somente as armas fabricadas por nós possuem. Seja onde for que esteja, a espada verdadeira de Gryffindor não está na caixa-forte do Banco de Gringotts.

- Entendi - disse Ted. - E acho que não se deram o trabalho de informar isso aos Comensais da Morte.

- Não vi nenhuma razão para incomodá-los com essa informação - comentou Griphook, presunçoso, e agora Ted e Dean fizeram coro às risadas de Gornope e Dirk.

No interior da barraca, Harry fechou os olhos, desejando que alguém fizesse a pergunta que precisava ser respondida, e, decorrido mais um minuto que lhe pareceram dez, Dean lhe fez esse favor: o garoto também tinha sido (lembrou-se Harry, assustado) namorado de Ginny.

- Que aconteceu com Ginny e os outros? Os que tentaram roubar a espada?

- Ah, foram castigados, e cruelmente - respondeu Griphook com indiferença.

- Mas eles estão o.k., não? — perguntou Ted, em seguida. - Quero dizer, os Weasley não precisam de mais um filho aleijado, não é?

- Eles não sofreram nenhum ferimento grave, pelo que sei - tornou Griphook.

- Sorte a deles. Com o histórico de Snape, suponho que devemos nos alegrar que ainda estejam vivos.

- Você acredita nessa história, então, Ted? - perguntou Dirk. — Você acredita que Snape matou Dumbledore?

- Claro que sim. Você não vai ficar aí me dizendo que Potter teve alguma participação nisso, vai?

- É difícil hoje em dia saber no que acreditar - resmungou Dirk.

- Conheço Harry Potter - disse Dean. — E considero que ele é autêntico, o Eleito, ou o nome que quiserem lhe dar.

- É, tem muita gente que gostaria de acreditar que é, filho replicou Dirk. - Eu, inclusive. Mas cadê ele? Fugiu para se salvar, pelo que parece. Eu diria que, se ele soubesse alguma coisa que ignoramos, ou tivesse algum dom especial, estaria aí lutando, convocando a resistência, em vez de se esconder. E, como você sabe, o Profeta fez acusações bem plausíveis contra ele...

- O Profeta? - caçoou Ted. - Você merece que lhe mintam, se ainda lê aquele lixo, Dirk. Se quer saber dos fatos, experimente ler The Quibbler.

Houve uma súbita explosão de engasgos e engulhos, e muitas batidas de pés; pelo barulho, Dirk engolira uma espinha de peixe. Por fim, engrolou:

- The Quibbler?, aquela revistinha delirante do Xeno Lovegood?

- Não está tão delirante, ultimamente. Você está precisando dar uma lida. Xeno está publicando tudo que o Profeta tem omitido, e não fez uma única menção a Bufadores de Chifre Enrugado na última edição. Mas, entenda, quanto tempo vão deixá-lo livre para fazer isso, não sei. Xeno diz, na primeira página de toda edição, que a prioridade número um de qualquer bruxo contrário a Você-Sabe-Quem deveria ser ajudar Harry Potter.

- É difícil ajudar um garoto que desapareceu da face da Terra — disse Dirk.

- Escutem, o fato de não o terem apanhado ainda, caramba, é um feito e tanto - defendeu-o Ted. - Eu teria prazer em receber umas dicas. É isso que estamos tentando fazer, não é, continuar livres?

- É, bem, você tem razão — concedeu Dirk. - Com o Ministério em peso e todos os informantes procurando por ele, era de esperar que já o tivessem capturado. Mas, veja bem, quem pode afirmar que já não o tenham prendido e matado na surdina?

- Ah, não diga isso, Dirk — murmurou Ted.

Houve outra longa pausa preenchida pelo ruído dos talheres. Quando alguém recomeçou a falar foi para discutir se deviam dormir no barranco ou recuar para uma área arborizada na encosta.

Decidindo que as árvores lhes ofereceriam maior proteção, eles apagaram a fogueira e tornaram a subir o morro, suas vozes morrendo ao longe.

Harry, Ron e Hermione enrolaram as Orelhas Extensíveis. Harry, que achara a necessidade de ficar calado mais difícil quanto mais escutava, agora só foi capaz de dizer:

- Ginny... a espada...

- Eu sei! - disse Hermione.

E se precipitou para a bolsinha de contas, desta vez enfiando nela o braço inteiro até a axila.

- Pronto... pronto... aqui... - disse ela com os dentes cerrados, e tirou um objeto que evidentemente estava no fundo da bolsa. Lentamente, surgiu a borda de uma moldura ornamentada. Harry correu a ajudá-la. Ao desenredarem da bolsa a moldura vazia do retrato de Fineus Nigellus, Hermione apontou a varinha para o quadro, pronta para entrar em ação a qualquer momento.

”Se alguém trocou a espada verdadeira por uma falsa quando estava no escritório de Dumbledore”, ofegou ela, enquanto o quadro era aprumado na parede da barraca, ”Fineus Nigellus teria visto, porque está pendurado bem ao lado da redoma!”

- A não ser que estivesse dormindo — lembrou Harry, mas ainda prendendo a respiração; Hermione se ajoelhou diante da tela vazia, para cujo centro apontava a varinha, pigarreou e disse:

- Ah... Fineus? Fineus Nigellus? Nada aconteceu.

- Fineus Nigellus! - repetiu ela. - Professor Black? Por favor, poderíamos falar com o senhor? Por favor?

- ”Por favor” sempre ajuda - disse uma voz fria e depreciativa, e Fineus Nigellus deslizou para a tela. No mesmo instante, Hermione exclamou:

- Obscuro!

Uma venda preta apareceu sobre os olhos escuros e inteligentes do bruxo, fazendo-o bater contra a moldura e gritar de dor.

- Quê... como se atreve... que é que você...?

- Sinto muito, prof. Black - disse Hermione -, mas é uma precaução necessária!

- Remova esse acréscimo nojento imediatamente! Remova-o, estou dizendo! Você está estragando uma grande obra de arte! Onde estou! Que está acontecendo?

- Não faz diferença onde estamos - respondeu Harry, e Fineus congelou, abandonando suas tentativas de remover a venda pintada.

- Será possível que seja a voz do intangível sr. Potter?

- Talvez - respondeu Harry, sabendo que isto manteria seu interesse. - Temos umas perguntas para lhe fazer sobre a espada de Gryffindor.

- Ah - disse Fineus Nigellus, agora virando a cabeça para cá e para lá, esforçando-se para vislumbrar Harry —, sim. Aquela tolinha foi muito imprudente...

- Não fale da minha irmã - disse Ron, rispidamente. Fineus Nigellus ergueu as sobrancelhas com superioridade.

— Quem mais está aí? - perguntou, virando a cabeça para os lados. - O seu tom de voz me desagrada. Aquela menina e seus amigos foram extremamente temerários. Roubar um diretor!

- Não estavam roubando - argumentou Harry. - Aquela espada não pertence ao Snape.

— Pertence à escola do prof. Snape - corrigiu o bruxo. - Exatamente qual era o direito da menina Weasley sobre a espada? Ela [mereceu o castigo que recebeu, bem como o idiota Longbottom e a esquisita Lovegood!

— Neville não é idiota e Luna não é esquisita! - protestou Hermione.

- Afinal, onde estou? - repetiu Fineus Nigellus, recomeçando a [se debater com a venda. - Onde me trouxeram? Por que me tiraram da casa dos meus antepassados?

- Isso não faz diferença! Que castigo Snape deu a Ginny, Neville e Luna? - perguntou Harry, ansioso.

- O professor Snape mandou-os para a Floresta Proibida, para fazer um serviço com o imbecil do Hagrid.

— Hagrid não é imbecil! - esganiçou-se Hermione.

— E Snape talvez tenha pensado que isso fosse castigo - disse Harry -, mas Ginny, Neville e Luna provavelmente deram boas gargalhadas com Hagrid. A Floresta Proibida... eles já enfrentaram coisa muito pior do que a Floresta Proibida, grande coisa!

O garoto se sentiu aliviado; estivera imaginando horrores, no mínimo a Maldição Cruciatus.

- O que realmente queríamos saber, prof. Black, é se mais alguém, hum, algum dia retirou a espada do gabinete? Talvez a tenham levado para ser limpa ou... outra coisa assim? - disse Hermione.

Fineus Nigellus fez nova pausa em seus esforços para ver e deu uma risadinha.

— Gente nascida muggle — desdenhou. - As armas fabricadas por duendes não precisam de limpeza, menina simplória. A prata dos duendes repele a sujeira mundana, absorve apenas o que a fortalece.

— Não chame Hermione de simplória — protestou Harry.

— As contradições me cansam — reclamou Fineus. - Talvez seja hora de eu voltar ao gabinete do diretor, não?

Ainda de olhos vendados, ele começou a tatear pela moldura, procurando sair desse quadro e retornar ao de Hogwarts. Harry teve uma súbita inspiração.

— Dumbledore! O senhor pode nos trazer Dumbledore?

— Perdão? — exclamou Fineus Nigellus.

— O retrato do prof. Dumbledore... não poderia trazê-lo consigo para a mesma moldura?

Fineus Nigellus virou o rosto na direção da voz de Harry.

— Evidentemente não são apenas os nascidos muggles que são ignorantes, Potter. Os retratos de Hogwarts podem se comunicar uns com os outros, mas não podem viajar para fora do castelo, exceto para visitar o próprio retrato pendurado em outro lugar. Dumbledore não pode vir comigo, e, depois do tratamento que recebi em suas mãos, posso lhe assegurar que não farei uma nova visita!

Ligeiramente desconcertado, Harry observou Fineus Nigellus redobrar seus esforços para abandonar a moldura.

— Prof. Black - disse Hermione —, o senhor poderia nos dizer, por favor, qual foi a última vez que a espada foi retirada da redoma? Antes de Ginny tê-la apanhado, quero dizer?

Fineus bufou impaciente.

— Creio que a última vez que vi a espada de Gryffindor sair da redoma foi quando o prof. Dumbledore a usou para rachar um anel.

Hermione virou-se para olhar Harry. Nenhum dos dois ousou dizer mais nada diante de Fineus Nigellus, que, finalmente, conseguira localizar a saída.

— Bem, boa noite para vocês - disse o bruxo, um tanto irascível, e começou a desaparecer mais uma vez. Somente um pedacinho da aba do seu chapéu ainda era visível quando Harry soltou subitamente um grito.

— Espere! O senhor disse a Snape que viu isso?

O bruxo tornou a enfiar a cabeça com a venda na moldura.

- O prof. Snape tem coisas mais importantes em que pensar do que as muitas excentricidades de Albus Dumbledore. Adeus, Potter!

E dizendo isso, sumiu inteiramente, deixando atrás apenas o fundo encardido do retrato.

- Harry! — exclamou Hermione.

- Eu sei! — gritou Harry, em resposta. Incapaz de se conter, ele deu um soco no ar: era mais do que se atrevera a esperar. Andou de um lado para o outro na barraca, sentindo que poderia ter corrido dois quilômetros; já nem sentia fome. Hermione estava comprimindo o quadro de Fineus Nigellus outra vez na bolsinha de contas; depois de fechá-la, atirou a bolsa para o lado e ergueu um rosto radiante para Harry.

- A espada pode destruir Horcruxes! Lâminas fabricadas por duendes só absorvem o que as fortalece: Harry, aquela espada está impregnada de veneno de basilisco!

- E Dumbledore não a entregou a mim porque ainda precisava dela, queria usá-la no medalhão...

- ... e deve ter percebido que não deixariam você ficar com ela se a incluísse no testamento...

- ... então fez uma cópia...

- ... e colocou a falsa na redoma...

- ... e deixou a verdadeira... onde?

Eles se entreolharam; Harry sentiu que a resposta pairava, invisível, sobre suas cabeças, terrivelmente próxima. Por que Dumbledore não lhe dissera? Ou, na realidade, dissera, mas Harry, na hora, não tinha entendido?

- Pense! - sussurrou Hermione. - Pense! Onde a teria deixado?

- Não em Hogwarts - afirmou Harry, recomeçando a andar.

- Algum lugar em Hogsmeade? — sugeriu Hermione.

- Na Casa dos Gritos? — arriscou Harry. - Ninguém nunca vai lá.

- Mas Snape sabe como entrar, não seria um pouco arriscado?

- Dumbledore confiava em Snape - lembrou Harry.

- Não o suficiente para lhe contar que tinha trocado as espadas.

- É, você tem razão! — disse Harry sentindo-se ainda mais animado em pensar que Dumbledore fizera ressalvas, ainda que mínimas, à confiabilidade de Snape. - Teria, então, escondido a espada bem longe de Hogsmeade? Que acha, Ron? Ron?

Harry olhou em volta. Desnorteado por um instante, pensou que o amigo tivesse saído da barraca, então viu que estava deitado no beliche, à sombra da cama de cima, parecendo chapado.

- Ah, se lembraram de mim, foi? - respondeu ele. -Quê?

Ron bufou, com os olhos fixos no fundo da cama do alto.

- Você dois podem continuar. Não quero estragar o seu prazer. Perplexo, Harry olhou para Hermione pedindo ajuda, mas ela

abanou a cabeça, aparentemente tão pasma quanto ele.

- Qual é o problema? - perguntou Harry.

- Problema? Não tem problema - replicou Ron, recusando-se a olhar para o amigo. - Pelo menos você não acha que tenha.

Ouviram vários ploques no teto de lona da barraca. Começara a chover.

- Bem, obviamente você tem - disse Harry. — Quer desembuchar de uma vez?

Ron girou as longas pernas para fora da cama e sentou. Parecia hostil, diferente do normal.

- Muito bem, vou desembuchar. Não esperem que eu fique dando saltinhos na barraca porque tem mais uma droga que a gente precisa procurar. É só juntar mais essa à lista do que você ignora.

- Eu ignoro? — respondeu Harry. - Eu é que ignoro?

Ploque, ploque, ploque: a chuva caía mais forte e pesada; chapinhava no rio e na margem coberta de folhas a toda volta, matraqueando pela escuridão. O medo arrefeceu o grande contentamento de Harry: Ron estava dizendo exatamente o que Harry suspeitara e receara que estivesse pensando.

- Não é que eu não esteja me divertindo a valer aqui - replicou Ron. — Sabem, com esse braço aleijado e nada para comer, e o rabo congelando toda noite. Eu só esperava, entende, depois de ficar andando em círculos algumas semanas, que a gente tivesse conseguido alguma coisa.

- Ron — disse Hermione, mas em voz tão baixa que o garoto poderia fingir que não tinha ouvido por causa da forte percussão da chuva na lona da barraca.

- Pensei que você soubesse no que estava se engajando - disse Harry.

- É, eu também pensei.

- Então, qual é a parte que não está correspondendo às suas expectativas? — perguntou Harry. A raiva sobreveio agora em sua defesa. - Você achou que íamos nos hospedar em hotéis cinco estrelas? Encontrar uma Horcrux por dia? Achou que voltaria para passar o Natal com mamãe e papai?

- Pensamos que você soubesse o que estava fazendo! — berrou Ron, se pondo de pé; e suas palavras atingiram Harry como facas em brasa. — Pensamos que Dumbledore tivesse lhe dito o que fazer, pensamos que você tivesse um plano de verdade!

- Ron! - chamou Hermione, desta vez claramente audível, apesar da chuva retumbando no teto da barraca, mas novamente ele a ignorou.

- Bem, lamento desapontar você - disse Harry, a voz calma, embora ele se sentisse vazio e inepto. - Fui franco com você desde o início, lhe contei tudo que Dumbledore me disse. E, caso você não tenha reparado, achamos uma Horcrux...

- É, e estamos tão próximos de nos livrar dela como estamos de encontrar as outras: em outras palavras, não estamos próximos de nenhuma!

- Tire o medalhão, Ron - disse Hermione, sua voz anormalmente alta. — Por favor, tire. Você não estaria falando assim se não o estivesse usando o dia todo.

- Estaria, sim - retorquiu Harry que não queria que ela arranjasse desculpas para Ron. - Vocês acham que não notei os dois cochichando às minhas costas? Acham que eu não percebi que era isso que pensavam?

- Harry, não estávamos...

- Não minta! - Ron jogou na cara de Hermione. - Você também disse, disse que estava desapontada, disse que pensou que ele tivesse mais em que se basear do que...

- Não disse isso assim... Harry não disse! - gritou ela.

A chuva martelava a barraca, as lágrimas escorriam pelo rosto de Hermione, e a excitação de minutos antes desaparecera como se nunca tivesse existido, um fogo de artifício de curta duração que espoucara e morrera, deixando tudo escuro, molhado e frio. A espada de Gryffindor estava escondida e desconheciam onde, eram três adolescentes, em uma barraca, cujo único feito, até o momento, era não terem morrido.

- Então, por que ainda está aqui? — Harry interpelou Ron.

- Não tenho a mínima idéia.

- Então, volte para casa.

- É, eu talvez volte! - gritou Ron, e deu vários passos em direção a Harry, que não recuou. - Você não ouviu o que disseram sobre minha irmã? Mas você não está nem aí, não é, é só a Floresta Proibida, Harry Jó-Enfrentou-Pior Potter não se importa com o que acontecer a Ginny lá, pois eu me importo, tá, aranhas gigantes e piração...

- Eu só quis dizer que... ela estava com os outros, e estavam com Hagrid...

-... é, entendo, você não se importa! E com o resto da minha família, ”os Weasley não precisam de outro filho aleijado”, você ouviu?

- Ouvi, eu...

- Mas não se preocupou com o significado disso, não é?

- Ron! — disse Hermione, se interpondo aos dois à força. — Acho que não significa que tenha acontecido nada de novo, nada que a gente não saiba; pense, Ron, bill já está cheio de cicatrizes, a essa altura muita gente deve ter visto que George perdeu uma orelha, e você, supostamente, está morrendo de sarapintose, tenho certeza de que foi a isso que ele se referiu...

- Ah, você tem certeza, não é? Então, está bem, não vou me preocupar com eles. Tudo bem para vocês dois, não é, com os seus pais em segurança e fora do caminho...

- Meus pais estão mortos! — berrou Harry.

- E os meus podem estar indo pelo mesmo caminho! — berrou Ron.

- Então VAI! - urrou Harry. - Volte para eles, finja que se curou da sua sarapintose e mamãe poderá enchê-lo de comida e...

Ron fez um movimento repentino: Harry reagiu, mas, antes que eles sacassem as varinhas dos bolsos, Hermione já erguera a dela.

- Protego! — ordenou, e um escudo invisível se expandiu entre ela e Harry, de um lado, e Ron do outro; todos foram forçados a recuar alguns passos, por força do feitiço, e os garotos se encararam cada um de um lado da barreira como se estivessem se vendo claramente pela primeira vez. Harry sentiu um ódio corrosivo de Ron: alguma coisa se rompera entre eles.

- Deixe a Horcrux - lembrou Harry.

Ron arrancou a corrente pela cabeça e atirou o medalhão sobre uma cadeira próxima. Virou-se para Hermione.

- Que vai fazer?

- Como assim?

- Você vai ficar, ou o quê?

- Eu... - Ela pareceu angustiada. - Vou... vou sim. Ron, nós dissemos que viríamos com Harry, dissemos que ajudaríamos...

- Entendi. Você escolhe ficar com ele.

- Ron, não... por favor... volte aqui, volte aqui!

Ela foi impedida pelo próprio Feitiço Escudo; até removê-lo, o garoto já saíra furioso noite adentro. Harry ficou muito quieto e silencioso, escutando Hermione soluçar e chamar por Ron entre as árvores.

Decorrido algum tempo, ela voltou, os cabelos escorrendo, colados no rosto.

- Ele f-f-foi embora! Desaparatou!

Ela se atirou em uma poltrona, se enroscou e caiu no choro.

Harry se sentiu aturdido. Abaixou-se, recolheu a Horcrux e colocou-a em torno do próprio pescoço. Puxou os cobertores da cama de Ron e cobriu Hermione. Depois subiu no beliche de cima e ficou olhando para a lona escura do teto, escutando a chuva bater.

 

GODRIC’S HOLLOW

Quando Harry acordou no dia seguinte, levou vários segundos até lembrar o que acontecera. Depois desejou, infantilmente, que tivesse sonhado, que Ron continuasse ali e jamais tivesse partido. Contudo, ao virar a cabeça no travesseiro, viu a cama do amigo vazia. Ela parecia atrair o seu olhar como um cadáver o faria. Harry pulou de sua cama, evitando olhar a de Ron. Hermione, já ocupada na cozinha, não desejou a Harry um bom dia, mas virou depressa o rosto quando ele passou.

Ele partiu, disse Harry de si para si. Ele partiu. Sentiu necessidade de repetir a frase mentalmente, enquanto se lavava e se vestia, como se com isso pudesse embotar o abalo que sofrera. Ele partiu e não vai voltar. E essa era a verdade pura e simples. Harry sabia que os feitiços de proteção impossibilitariam que Ron os reencontrasse, quando saíssem desse lugar.

Ele e Hermione tomaram café em silêncio. Os olhos dela estavam inchados e vermelhos; parecia não ter dormido. Depois, eles guardaram seus pertences, Hermione demorando-se. Harry sabia por que a amiga queria prolongar o tempo à margem do rio; viu-a várias vezes erguer a cabeça, esperançosa, e teve certeza de que se iludia, pensando que ouvira passos apesar da chuva pesada, mas ninguém de cabelos ruivos aparecera entre as árvores. Toda vez que Harry a imitava, olhando para os lados (pois não podia deixar de alimentar esperanças), e nada via exceto a mata lavada pela chuva, outra pequena parcela de fúria explodia em seu peito. Ouvia Ron dizendo: ”Pensamos que você soubesse o que estava fazendo!”, e retomava a arrumação das coisas sentindo um bolo na boca do estômago.

O rio barrento ao lado estava subindo rapidamente, e logo transbordaria pelo barranco. Demoraram-se uma boa hora além do horário em que normalmente deixariam o acampamento.

Por fim, tendo rearrumado a bolsinha de contas três vezes, Hermione pareceu incapaz de encontrar outras razões para retardar a partida: ela e Harry se deram as mãos e desaparataram, reaparecendo em um urzal, na encosta de um morro assolado pelo vento.

No instante em que chegaram, Hermione largou a mão dele e se afastou, sentando-se, por fim, em um pedregulho, o rosto nos joelhos, o corpo sacudindo, Harry sabia, por soluços. Parou para observá-la, imaginando que deveria consolar a amiga, mas alguma coisa o manteve pregado no chão. Por dentro, sentia-se frio e tenso: revia a expressão de desprezo no rosto de Ron. Saiu, então, caminhando pelo urzal, descrevendo um largo círculo em torno da aflita Hermione, lançando os feitiços de que ela normalmente se encarregava para garantir a proteção de todos.

Nos dias que se seguiram, eles não falaram em Ron. Harry estava decidido a jamais voltar a mencionar o nome dele, e Hermione parecia entender que não adiantava forçar o assunto, embora, por vezes, à noite, quando achava que Harry estava dormindo, ele a ouvisse chorar. Nesse meio-tempo, ele se habituou a tirar da mochila o mapa do maroto e examiná-lo à luz da varinha. Esperava o momento em que o pontinho com o nome de Ron reapareceria nos corredores de Hogwarts, comprovando que retornara ao confortável castelo, protegido por sua condição de sangue-puro. Contudo, Ron não aparecia e, passado algum tempo, Harry viu-se examinando o mapa simplesmente para ver o nome de Ginny no dormitório feminino, se perguntando se a intensidade com que o fitava poderia penetrar o sono da garota, se de alguma forma ela poderia saber que estava pensando nela, desejando que estivesse bem.

Durante o dia, eles se ocupavam com tentativas para determinar os possíveis esconderijos da espada de Gryffindor, mas quanto mais discutiam onde Dumbledore poderia tê-la guardado, tanto mais desesperadas e improváveis se tornavam as suas especulações. Por mais que vasculhasse o cérebro, Harry não conseguia se lembrar de Dumbledore mencionando algum lugar onde pudesse esconder alguma coisa. Havia momentos em que ele não sabia se estava mais zangado com Ron ou com Dumbledore. Pensamos que você soubesse o que estava fazendo... pensamos que Dumbledore tivesse lhe dito o que fazer... pensamos que você tivesse um plano de verdade!

Harry não podia esconder de si mesmo: Ron tinha razão. Dumbledore não lhe deixara virtualmente nada. Tinham descoberto uma Horcrux, mas não os meios para destruí-la; as outras continuavam tão inatingíveis como sempre tinham estado. A desesperança ameaçava engolfá-lo. Espantava-se, agora, ao pensar em sua presunção quando aceitou o oferecimento dos amigos para acompanhá-lo nessa viagem tortuosa e inútil. Nada sabia, nada lhe ocorria, e estava constante e dolorosamente alerta ao menor sinal de que Hermione também estivesse prestes a lhe dizer que estava farta, que ia embora.

Passavam muitas noites praticamente em silêncio, e Hermione adquiriu o hábito de tirar o retrato de Fineus Nigellus e aprumá-lo em uma cadeira, como se ele pudesse preencher uma parte do enorme vazio que a partida de Ron deixara. Apesar da afirmação anterior de que jamais tornaria a visitá-los, Fineus Nigellus parecia incapaz de resistir à oportunidade de descobrir mais sobre as atividades de Harry, e consentia em reaparecer, de olhos vendados, a intervalos irregulares. O garoto sentia-se até satisfeito de vê-lo, porque era uma companhia, ainda que do tipo depreciativo e sarcástico. Tinham prazer em saber o que estava acontecendo em Hogwarts, embora Fineus não fosse o informante ideal. Venerava Snape, o primeiro diretor da Slytherin, depois dele próprio, a assumir a escola, e os garotos precisavam se cuidar para não criticar nem fazer perguntas impertinentes sobre Snape, ou Fineus abandonaria imediatamente o retrato.

Contudo, ele deixava fragmentos de notícias. Pelo visto, Snape estava enfrentando uma insubordinação menor, mas constante, de um núcleo de alunos irredutíveis. Ginny fora proibida de ir a Hogsmeade. Snape restabelecera o velho decreto de Umbridge de proibir reuniões de três ou mais alunos ou quaisquer associações estudantis informais.

De tudo isso, Harry deduzia que Ginny e, provavelmente, Neville e Luna estavam fazendo o possível para dar continuidade à Armada de Dumbledore. Essas mínimas notícias faziam Harry desejar rever Ginny com tanta intensidade que chegava a lhe doer o estômago; mas o faziam também pensar em Ron, e em Dumbledore, e na própria Hogwarts, da qual sentia tanta falta quanto da ex-namorada.

De fato, quando Fineus Nigellus falava das medidas radicais do diretor, Harry sentia uma loucura, que durava uma fração de segundo, em que simplesmente imaginava voltar à escola para se engajar na desestabilização do regime de Snape: ser alimentado, ter uma cama macia e outros no comando parecia-lhe, no momento, a perspectiva mais maravilhosa do mundo. Lembrava-se, então, de que era o Indesejável Número Um, que havia um prêmio de dez mil galeões por sua captura, e que entrar em Hogwarts esses dias era tão perigoso quanto entrar no Ministério da Magia. Na verdade, Fineus Nigellus enfatizava esse fato involuntariamente quando inseria perguntas importantes sobre o paradeiro de Harry e Hermione. Sempre que fazia isso, a garota enfiava-o na bolsinha de contas. Fineus Nigellus, invariavelmente, se recusava a reaparecer por vários dias depois dessas despedidas pouco cerimoniosas.

O clima foi esfriando gradativamente. Por não ousarem permanecer em área alguma por muito tempo, em vez de acamparem no sul da Inglaterra, onde o congelamento do solo seria a pior de suas preocupações, eles continuaram a viajar em ziguezague pelo país, enfrentando uma encosta montanhosa, onde o granizo açoitava a barraca, um brejo plano, onde a barraca foi inundada por água gelada, e uma minúscula ilha no meio de um lago escocês, onde a neve soterrou metade da barraca durante a noite.

Eles já haviam encontrado árvores de Natal piscando nas janelas de salas das visitas, antes da noite em que Harry resolveu sugerir, mais uma vez, a única avenida inexplorada que lhes restava. Tinham acabado de comer uma refeição excepcionalmente boa: Hermione fora a um supermercado com a Capa da Invisibilidade (e, ao sair, escrupulosamente deixara o pagamento em uma caixa aberta) e Harry achou que ela poderia ser mais persuasível com a barriga cheia de espaguete à bolonhesa e peras enlatadas. Tomara também a precaução de sugerir que, durante algumas horas, não usassem a Horcrux, que penduraram no beliche ao lado dele.

— Hermione?

— Hum? — Ela estava enroscada em uma das poltronas fundas lendo Os contos de Beedle, o bardo. Harry não conseguia imaginar o quanto mais a amiga poderia extrair daquele livro, que, afinal, nem era tão longo; mas era evidente que estava decifrando alguma coisa, porque tinha o Silabário de Spellman aberto sobre o braço da poltrona.

Harry pigarreou. Sentiu-se repetindo exatamente o que fizera quando, vários anos antes, perguntara à profa. McGonagall se poderia ir a Hogsmeade, apesar de não ter conseguido persuadir os Dursley a assinarem a permissão.

— Hermione, estive pensando e...

- Harry, você poderia me ajudar aqui?

Aparentemente, ela não o escutara. Curvou-se para frente e estendeu-lhe o livro.

- Olhe esse símbolo - disse, apontando para o alto da página. Acima do que Harry supôs ser o título do conto (não podia afirmar, pois não sabia ler runas), havia um símbolo que lembrava um olho triangular, a pupila cortada por uma linha.

— Eu nunca estudei Runas Antigas, Hermione.

- Sei disso, mas não é uma runa e não consta no silabário, tampouco. Todo esse tempo pensei que fosse um olho, mas acho que não é! Foi feito à tinta, olhe, alguém o desenhou aqui, não faz realmente parte do livro. Pense, você já viu isso antes?

- Não... não, espere aí. - Harry olhou mais atentamente. — Não é o mesmo símbolo que o pai de Luna estava usando pendurado ao pescoço?

— Bem, foi isso que pensei também!

— Então é a marca de Grindelwald. Ela encarou-o, boquiaberta. -Quê?

— Krum me contou que...

Harry repetiu a história que Vítor Krum lhe contara no casamento. Ela pareceu perplexa.

- A marca de Grindelwald?

Hermione olhou de Harry para o estranho símbolo e novamente para ele.

- Nunca soube que Grindelwald tivesse uma marca. Não vi isso mencionado em nada que tenha lido a respeito dele.

— Bem, como eu disse, Krum falou que esse símbolo foi gravado em uma parede de Durmstrang e que achava que Grindelwald o teria posto lá.

- É muito esquisito. Se for um símbolo das Artes das Trevas, que estará fazendo em um livro de histórias para crianças?

— É, é bizarro - concordou Harry - E seria de esperar que Scrimgeour o reconhecesse. Era ministro, tinha que ser especialista em magia das Trevas.

- Eu sei... talvez ele achasse que era apenas um olho, exatamente como eu. Todos os outros contos têm pequenos desenhos sobre os títulos. — Ela se calou e continuou a examinar a estranha marca. Harry fez nova tentativa.

- Hermione?

-Hum?

- Estive pensando. Quero... quero ir a Godric’s Hollow.

Ela ergueu a cabeça, mas tinha os olhos desfocados e isso deu a Harry a certeza de que ainda estava pensando na misteriosa marca.

- Sim. Sim, estive pensando nisso também. Acho realmente que teremos de ir.

- Você me ouviu direito?

- Claro que ouvi. Você quer ir a Godric’s Hollow. Concordo. Acho que devíamos. Isto é, também não consigo pensar em mais nenhum lugar onde possa estar. Será perigoso, mas, quanto mais penso, mais provável me parece que esteja lá.

- Ah... o quê está lá? — perguntou Harry.

Ao ouvir isso, Hermione pareceu tão confusa quanto ele.

- Bem, a espada, Harry! Dumbledore certamente sabia que você iria querer voltar lá, quero dizer, Godric’s Hollow foi onde Godric Gryffindor nasceu...

- Sério? Gryffindor era de Godric’s Hollow?

- Harry, algum dia você ao menos abriu História da magia?

- Ãh - disse ele, sentindo que sorria pela primeira vez em meses: os músculos do seu rosto lhe pareceram estranhamente rígidos. - Eu talvez tenha aberto, sabe, quando o comprei... só uma vez...

- Bem, como a aldeia tem o nome dele, imaginei que você talvez tivesse feito a ligação - retrucou Hermione. Seu tom de voz agora estava muito mais parecido com o da velha Hermione do que ultimamente; Harry quase esperou que ela anunciasse que ia à biblioteca. — No livro, tem um trechinho sobre a aldeia, espere aí...

Ela abriu a bolsinha de contas e procurou um momento, por fim, tirou o seu exemplar do livro-texto de Batilda Bagshot, pelo qual correu o polegar até encontrar a página que queria.

- Com o assinatura do Estatuto Internacional de Sigilo em Magia em 1689, os bruxos entraram para sempre na clandestinidade.

Talvez fosse natural que formassem pequenas comunidades dentro de uma comunidade. Muitas aldeias e pequenos povoados atraíram várias famílias bruxas que se uniram para mútuo apoio e proteção. As aldeias de Tinworth na Cornualha, Upper Flagley em Yorkshire e Ottery St. Catchpole na costa sul da Inglaterra destacaram-se como lar para grupos de famílias bruxas que conviviam com muggles tolerantes e por vezes confundidos. O mais famoso desses lugares semibruxos talvez seja Godric’s Hollow, uma aldeia no oeste da Inglaterra onde nasceu o grande mago Godric Gryffindor e onde Bowman Wright, um ferreiro bruxo, fabricou o primeiro snitch. O cemitério local está repleto de nomes de antigas famílias bruxas, e isto, sem dúvida, explica as histórias de assombrações que há séculos assolam sua pequena igreja.

- Você e seus pais não são mencionados - disse Hermione, fechando o livro -, porque a professora Bagshot aborda apenas os eventos até o fim do século XIX. Mas você está entendendo? Godric’s Hollow, Godric Gryffindor, a espada de Gryffindor; você não acha que Dumbledore teria esperado que você fizesse a ligação?

- Ah, é...

Harry não quis admitir que nem sequer pensara na espada quando sugeriu que fossem a Godric’s Hollow. Para ele, a atração da aldeia residia nos túmulos de seus pais, a casa onde, por um triz, ele escapara da morte, e na pessoa de Batilda Bagshot.

- Lembra-se do que a Muriel disse? - perguntou ele, após algum tempo.

- Quem?

- Você sabe. - Harry hesitou: não queria mencionar o nome de Ron. - A tia-avó de Ginny. No casamento. A que falou que você tinha tornozelos finos demais.

- Ah - disse Hermione.

Foi um momento difícil: Harry sabia que ela pressentira a menção do nome de Ron. Continuou depressa:

- Muriel disse que Batilda Bagshot ainda vive em Godric’s Hollow.

- Batilda Bagshot - murmurou Hermione, passando o dedo indicador pelo nome da escritora em relevo na capa do livro de história da magia. — Bem, suponhamos...

Ela ofegou tão fortemente que as entranhas de Harry deram uma cambalhota; ele sacou a varinha, olhando para a entrada, quase esperando ver uma mão forçando a aba de lona da barraca, mas não havia nada ali.

- Quê? — exclamou ele, entre zangado e aliviado. - Por que fez isso? Pensei que, no mínimo, tivesse visto um Comensal da Morte abrindo o zíper da barraca...

— Harry, e se Batilda tiver a espada? E se Dumbledore a confiou a ela?

Harry considerou a possibilidade. A essa altura, ela estaria extremamente idosa e, segundo Muriel, gagá. Seria provável que Dumbledore escondesse a espada de Gryffindor com ela? Nesse caso, ele achava que Dumbledore relegara muita coisa ao acaso: jamais revelara que tivesse substituído a espada por uma falsificação, e tampouco mencionara sua amizade com Batilda. Agora, porém, não era o momento de lançar dúvidas sobre a teoria de Hermione, não quando estava disposta, de modo surpreendente, a concordar com o seu maior desejo.

— É possível. Então vamos a Godric’s Hollow?

- Vamos, mas teremos que planejar a viagem com muito cuidado. — Hermione empertigou-se na poltrona, e Harry percebeu que a perspectiva de ter novamente um objetivo definido melhorara o ânimo dela tanto quanto o dele. - Para começar, precisamos praticar desaparatação a dois sob a Capa da Invisibilidade e, por prudência, uns Feitiços da Desilusão também, a não ser que você ache que devemos botar para quebrar e usar a Poção Polissuco. Nesse caso precisaríamos recolher fios de cabelos de alguém. Na verdade, acho que isso seria melhor, Harry, quanto mais impenetráveis os nossos disfarces, melhor...

Harry deixou-a falar, assentindo e concordando sempre que havia uma pausa, mas sua mente se alheara da conversa. Pela primeira vez desde que descobrira que a espada no Gringotts era falsa, sentia-se estimulado.

Estava em vias de ir à sua terra, em vias de retornar ao lugar onde tivera uma família. Se não fosse por Voldemort, em Godric’s Hollow ele teria crescido e passado todas as férias escolares. Poderia ter convidado amigos a sua casa... poderia até ter tido irmãos e irmãs... sua mãe é que teria feito o seu bolo de dezessete anos. A vida que ele perdera nunca lhe parecera tão real como neste momento, em que sabia estar prestes a conhecer o lugar em que tudo aquilo lhe fora roubado. Aquela noite, depois que Hermione foi se deitar, silenciosamente Harry tirou a mochila da bolsinha de contas e apanhou o álbum de fotografias que Hagrid lhe dera tantos anos atrás.

Pela primeira vez em meses, examinou em detalhe as velhas fotos dos seus pais, sorrindo e acenando para ele em imagem, que era só o que lhe restava deles.

Harry teria, de bom grado, partido para Godric’s Hollow no dia seguinte, mas Hermione tinha outras idéias. Convencida de que Voldemort esperaria que Harry voltasse à cena da morte dos pais, ela decidira que só viajariam depois de assegurar que tivessem os melhores disfarces possíveis. Portanto, só uma semana mais tarde após obterem fios de cabelos de muggles inocentes que faziam compras de Natal, e praticar aparatação e desaparatação sob a Capa da Invisibilidade —, Hermione concordou em viajar.

Deviam aparatar até a aldeia protegidos pela escuridão da noite, portanto, a tarde ia adiantada quando finalmente beberam a Poção Polissuco, e Harry se transformou em um muggle de meia-idade, com os cabelos rareando, e Hermione em uma esposa pequena e apagada. A bolsinha de contas com todos os seus pertences (afora a Horcrux que Harry usava ao pescoço) estava guardada no bolso interno do casaco de Hermione, abotoado até em cima. Harry cobriu-os com a Capa da Invisibilidade, e eles penetraram mais uma vez na sufocante escuridão.

Sentindo o coração bater na garganta, Harry abriu os olhos. Achavam-se parados de mãos dadas em uma estradinha coberta de neve, sob um céu azul-escuro em que as primeiras estrelas da noite começavam a piscar palidamente. Havia chalés de ambos os lados da via estreita, e decorações de Natal cintilavam às janelas. Um pouco adiante, um clarão dourado de lampiões de rua indicava o centro da aldeia.

— Quanta neve! - sussurrou Hermione sob a capa. - Por que não pensamos na neve? Depois de todas as precauções que tomamos, vamos deixar pegadas! Temos que nos livrar delas: você vai na frente e eu cuido disso...

Harry não queria entrar na aldeia como um cavalo de pantomima, tentando mantê-los invisíveis ao mesmo tempo em que ocultavam magicamente os vestígios de sua passagem.

- Vamos tirar a capa — sugeriu Harry e, ao ver o rosto amedrontado de Hermione, completou -, ah, vamos, não parecemos nós mesmos e não há ninguém por aqui.

Ele guardou a capa sob o paletó e prosseguiram desembaraçados, o ar gélido beliscando seu rosto ao passarem por outros chalés: qualquer um deles poderia ser aquele em que James e lily tinham vivido ou o que Batilda vivia agora. Harry observou as portas, os tetos carregados de neve, os pórticos, imaginando se ainda se lembraria de algum deles, sabendo, intimamente, que era impossível, tinha pouco mais de um ano quando deixara a aldeia para sempre. Não sabia ao certo se conseguiria ver o chalé; nem o que acontecia quando os portadores do Feitiço Fidelius morriam. Então, a estradinha em que iam fez uma curva para a esquerda, e o coração da aldeia, uma pracinha, surgiu aos seus olhos.

A todo redor havia lâmpadas coloridas penduradas, e, no centro, o que lhe pareceu um memorial de guerra, parcialmente sombreado por uma árvore de Natal sacudida pelo vento. Havia diversas lojas, um correio, um bar e uma igrejinha cujos vitrais brilhavam como jóias do lado oposto da praça. A neve ali se compactara: estava dura e escorregadia por onde as pessoas tinham passado o dia todo. Aldeões cruzavam a sua frente em todas as direções, seus vultos brevemente iluminados pelos lampiões de rua. Eles ouviram fragmentos de risos e música pop quando a porta do bar se abriu e fechou; depois ouviram um coral natalino começando a cantar na igreja.

— Harry, acho que é noite de Natal! — exclamou Hermione.

-É?

Perdera a noção da data; havia semanas que não viam um jornal.

— Tenho certeza de que é — tornou Hermione, com os olhos na igreja. - Eles... eles estarão lá, não? Sua mãe e seu pai? Estou vendo o cemitério paroquial.

Harry sentiu uma emoção indefinida que transcendia a excitação, assemelhava-se mais ao medo. Agora, tão perto, estava em dúvida se queria mesmo ver. Talvez Hermione soubesse o que ele estava sentindo, porque pegou-o pela mão e assumiu a liderança pela primeira vez, puxando-o para prosseguir. No meio da praça, no entanto, ela parou subitamente.

— Harry, olha!

Ela apontava para o memorial de guerra. Ao passarem pelo monumento, ele se transformara. Em vez de um obelisco coberto de nomes, havia uma estátua de três pessoas: um homem de cabelos rebeldes e óculos, uma mulher de cabelos longos e rosto bonito e bondoso, e um menininho aninhado nos braços dela. A neve se depositara em suas cabeças, como gorros brancos e fofos.

Harry aproximou-se fitando os rostos dos pais. Nunca imaginara que haveria uma estátua... como era estranho ver-se representado em pedra, um menininho feliz sem cicatriz na testa...

- Vamos - disse Harry, ao se dar por satisfeito, e os dois retomaram o caminho para a igreja. Ao atravessarem a rua, ele espiou por cima do ombro: a estátua se transformara mais uma vez em um memorial de guerra.

A cantoria foi se elevando à medida que se aproximavam. Harry sentiu a garganta apertar, lembrou-se com tanta intensidade de Hogwarts, de Peeves berrando paródias grosseiras das canções de dentro das armaduras, das doze árvores de Natal no Salão Principal, de Dumbledore usando a touca que ganhara em uma bala de estalo, de Ron com o suéter tricotado a mão...

Havia um portão que dava passagem a uma pessoa por vez, na entrada do cemitério. Hermione o abriu, o mais silenciosamente possível, e os dois entraram de lado. Nas laterais do caminho escorregadio que levava às portas da igreja, a neve estava alta e intocada. Eles atravessaram a neve, deixando profundas valas ao contornarem o prédio, mantendo-se à sombra das janelas iluminadas.

No adro da igreja, fileiras e mais fileiras de túmulos nevados emergiam de um manto azul muito claro com ofuscantes malhas vermelhas, amarelas e verdes, que eram a luz dos vitrais incidindo sobre a neve. Apertando a varinha no bolso do paletó, Harry se dirigiu ao túmulo mais próximo.

- Olhe esse, é de um Abbott, talvez seja um parente da Hanah falecido há muito tempo!

- Fale baixo — pediu Hermione.

Eles foram se embrenhando no cemitério, cavando, ao passar, pegadas escuras na neve, inclinando-se para espiar as inscrições nas velhas lápides, apertando de vez em quando os olhos para enxergar na escuridão circundante e se certificar plenamente de que estavam sozinhos.

- Harry aqui!

Hermione estava a duas fileiras de distância; ele precisou voltar até a amiga, seu coração decididamente ribombando no peito. -É...?

- Não, mas venha ver!

Ela apontou para uma pedra escura. Harry se abaixou e viu, no granito congelado e manchado de liquens, as palavras Kendra Dumbledore, e abaixo das datas de seu nascimento e morte, e sua filha Ariana. Havia também uma citação:

Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.

Então Rita Skeeter e Muriel tinham entendido alguns fatos corretamente. A família Dumbledore vivera realmente ali, e parte dela morrera ali.

Ver o túmulo era pior do que ouvir falar nele. Harry não pôde deixar de pensar que Dumbledore e ele tinham profundas raízes neste cemitério, e que o diretor devia ter lhe dito isso; entretanto, jamais pensara em partilhar tal conexão. Poderiam ter visitado o lugar juntos; por um momento, Harry se imaginou vindo ali com o diretor, o vínculo que teriam formado, o quanto isto teria significado para ele. Parecia, porém, que, para Dumbledore, o fato de suas famílias jazerem lado a lado no mesmo cemitério fosse uma coincidência insignificante, irrelevante, talvez, para o trabalho que desejava ver Harry realizar.

Hermione observava-o, e Harry ficou contente que as sombras ocultassem seu rosto. Ele tornou a ler as palavras na lápide. Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração. Não compreendia o que significavam. Com certeza tinham sido escolhidas por Dumbledore, por ser o membro mais velho da família após a morte da mãe.

- Você tem certeza de que ele nunca mencionou...? — começou Hermione.

- Não — respondeu Harry, secamente, e em seguida: - Vamos continuar olhando. — E lhe deu as costas, desejando não ter visto a lápide; não queria que a sua intensa vibração fosse contaminada pelo rancor.

- Aqui! - tornou a exclamar Hermione, da escuridão, instantes depois. - Ah, não, desculpe! Pensei ter lido Potter.

Ela estava esfregando uma lápide esfarelada, coberta de musgo, e a estudava com uma pequena ruga no rosto.

- Harry, volte aqui um momento.

Ele não queria ser novamente desviado de sua busca e foi resmungando que retornou pela neve até Hermione. -Quê?

- Olhe só isso!

O túmulo era extraordinariamente velho, desintegrado pelas intempéries, e ele quase não conseguia enxergar o nome. Hermione mostrou-lhe o símbolo logo abaixo.

- Harry, é a marca que estava no livro!

Ele olhou para o ponto que a amiga indicava: a pedra estava tão gasta que era difícil ver a gravação, embora parecesse haver uma marca triangular sob o nome quase ilegível.

- É... poderia ser...

Hermione acendeu a varinha e iluminou o nome na lápide.

- Diz aqui Ig-Ignotus, acho...

- Vou continuar procurando os meus pais, tá? — respondeu Harry, com certa rispidez na voz, e tornou a se afastar, deixando-a agachada ao lado do velho túmulo.

De vez em quando, ele reconhecia um sobrenome que, como Abbott, encontrara em Hogwarts. Às vezes havia várias gerações da mesma família bruxa representadas no cemitério; Harry percebia pelas datas que a família ou se extinguira ou seus membros atuais tinham se mudado de Godric’s Hollow. E prosseguia avançando entre os túmulos e, cada vez que encontrava uma lápide nova, sentia um aperto de apreensão ou de expectativa.

A escuridão e o silêncio pareceram se tornar, de repente, muito mais profundos. Harry olhou ao redor preocupado, pensando nos dementadores, e se deu conta de que o coral havia terminado, que a conversa e o alvoroço dos fiéis iam morrendo à medida que se dirigiam à praça. Alguém na igreja acabara de apagar as luzes.

Então, das trevas, veio a voz de Hermione pela terceira vez, alta e clara, a poucos metros de distância.

- Harry, eles estão aqui... bem aqui.

E ele soube pelo seu tom de voz que desta vez eram os seus pais: aproximou-se sentindo que um peso comprimia-lhe o peito, a mesma sensação que tivera logo depois da morte de Dumbledore, uma dor que chegava a pesar em seu coração e seus pulmões.

A lápide estava apenas duas fileiras atrás da de Kendra e Ariana. Era de mármore, tal como a de Dumbledore, e isso facilitava a leitura, pois parecia brilhar no escuro. Harry não precisou se ajoelhar nem chegar muito perto para ler as palavras ali gravadas.

James Potter, nascido 27 de março 1960, falecido 31 de outubro 1981 lily Potter, nascida 30 de janeiro 1960, falecida 31 de outubro 1981

Ora, o último inimigo que há de ser aniquilado é a morte.

Harry leu as palavras devagar, como se fosse ter uma única chance de entender seu significado, e leu as últimas em voz alta.

- ”Ora, o último inimigo que há de ser aniquilado é a morte”... - Ocorreu-lhe um pensamento horrível, acompanhado de uma espécie de pânico. — Essa não é a idéia dos dementadores? Por que está ali?

- Não significa aniquilar a morte como querem os dementadores, Harry — disse Hermione, em tom meigo. — Significa... entende... viver além da morte. Viver após a morte.

Eles, entretanto, não estavam vivos, pensou Harry: estavam mortos. As palavras vazias não podiam disfarçar que os restos dos seus pais jaziam sob a neve e o mármore, indiferentes, inconscientes. E as lágrimas vieram antes que ele pudesse contê-las, escaldantes e instantaneamente congeladas em seu rosto, de que adiantava enxugá-las ou fingir? Deixou-as cair, seus lábios contraídos, os olhos fixos na neve espessa que ocultava o lugar em que jaziam os despojos dos seus pais, agora, certamente apenas ossos ou pó, sem saberem nem se importarem que seu filho sobrevivente se achasse tão perto, seu coração ainda palpitando, vivo por causa do seu sacrifício e quase desejando, neste momento, que estivesse dormindo com eles sob a neve.

Hermione pegara sua mão e a apertava com força. Ele não conseguia fitá-la, mas retribuiu o aperto, e agora inspirava haustos profundos e cortantes do ar noturno, tentando suportar, tentando se controlar. Ele deveria ter trazido alguma coisa para lhes oferecer e não pensara nisso, e todas as plantas no cemitério estavam desfolhadas e congeladas. Hermione, porém, ergueu a varinha, fez um círculo no ar e, diante dos seus olhos, fez brotar uma coroa de heléboros. Harry apanhou-a e depositou-a no túmulo dos pais.

Assim que se levantou, quis ir embora: achava que não agüentaria ficar ali nem mais um minuto. Harry passou o braço pelos ombros de Hermione, e ela passou o dela por sua cintura, viraram-se em silêncio, se afastaram pela neve, deixando para trás o túmulo da mãe e da irmã de Dumbledore, e voltaram em direção à igreja e ao portão estreito e pouco visível.

 

O SEGREDO DE BATILDA

— Harry, pare.

— Que foi?

Tinham acabado de alcançar o túmulo do Abbott desconhecido.

— Tem alguém ali. Alguém nos observando. Sinto. Ali, perto dos arbustos.

Eles ficaram muito quietos, abraçados, olhando a densa sebe escura em torno do cemitério. Harry não conseguia enxergar nada.

— Tem certeza?

— Vi uma coisa se mexer. Poderia jurar que vi... Ela o largou para deixar livre a mão da varinha.

— Estamos parecendo muggles — lembrou Harry.

— muggles que acabaram de depositar flores no túmulo dos pais! Harry, tenho certeza de que há alguém ali!

Harry pensou no História da magia; diziam que o cemitério era mal-assombrado: e se...? Então, ele ouviu um ruído abafado e viu um montinho de neve deslocada no arbusto para o qual Hermione apontara. Fantasmas não deslocam neve.

— É um gato - disse Harry, após alguns segundos — ou um pássaro. Se fosse um Comensal da Morte já estaríamos mortos. Mas vamos sair daqui e poderemos tornar a vestir a capa.

Eles olharam para trás várias vezes enquanto se dirigiam à saída do cemitério. Harry que não se sentia tão corajoso quanto fingia estar quando tranqüilizou Hermione, ficou feliz de alcançar o portão e a calçada escorregadia. Tornaram, então, a se cobrir com a Capa da Invisibilidade. O bar estava mais cheio do que antes: vozes em seu interior agora cantavam a canção natalina que tinham ouvido ao se aproximar da igreja. Por um momento, Harry pensou em sugerir que se refugiassem ali, mas, antes que pudesse falar, Hermione murmurou:

— Vamos por aqui. — E puxou-o pela rua escura, que saía da aldeia, na direção oposta àquela da qual tinham vindo.

Harry divisou ao longe o ponto em que os chalés terminavam e a estradinha entrava em campo aberto. Eles caminharam o mais rápido que ousaram, passaram por outras tantas janelas em que cintilavam luzes multicolor idas, os contornos de árvores de Natal erguendo sombras através das cortinas.

- Como vamos encontrar a casa da Batilda? — perguntou Hermione, que tremia um pouco e não parava de espiar por cima do ombro. - Harry? Que acha? Harry?

Ela puxou-o pelo braço, mas Harry não a escutara. Estava olhando para uma massa escura onde acabavam as casas. No momento seguinte, ele acelerou o passo, arrastando Hermione; ela escorregou um pouco no gelo.

- Harry...

- Olhe... olhe aquilo, Hermione...

- Não estou... ah!

Ele estava vendo; o Feitiço Fidelius devia ter se extinguido com James e lily. A sebe crescera livremente nos dezesseis anos desde que Hagrid retirara Harry dos escombros ainda espalhados pelo capim, que chegava à cintura. A maior parte do chalé permanecia de pé, embora inteiramente coberta de hera escura e neve, mas o lado direito do andar superior explodira; por ali, Harry estava seguro, o feitiço se voltara contra quem o lançara. Ele e Hermione pararam ao portão, contemplando as ruínas do que tinha sido, no passado, uma casa exatamente como as vizinhas.

- Por que será que ninguém a reconstruiu? — sussurrou Hermione.

- Talvez não se possa reconstruí-la? Talvez seja como os ferimentos produzidos pelas Artes das Trevas que não são curáveis?

Ele passou a mão para fora da capa e segurou o portão muito enferrujado e coberto de neve, sem querer abri-lo, mas tentando, simplesmente, tocar alguma parte da casa.

- Você não vai entrar, vai? Parece perigoso, pode... ah, Harry, olhe! Seu toque no portão parecia ter bastado. Erguera-se uma placa

diante deles, através do emaranhado de urtigas e ervas daninhas, como uma flor bizarra que crescesse instantaneamente e, na inscrição dourada na madeira, ele leu:

Neste local, na noite de 31 de outubro de 1981, lily e James Potter perderam a vida. Seu filho, Harry, é o único bruxo a ter sobrevivido à Maldição da Morte. Esta casa, invisível aos muggles, foi mantida em ruínas como um monumento aos Potter e uma lembrança da violência que destruiu sua família.

A toda volta desse texto conciso, havia rabiscos feitos por outros bruxos que tinham visitado o local em que O-Menino-Que-Sobreviveu realizara tal feito. Alguns assinaram seus nomes em tinta perpétua; outros gravaram as iniciais na madeira, outros, ainda, deixaram mensagens. As mais recentes, que se destacavam, reluzentes, sobre os dezesseis anos de grafitos mágicos, diziam mais ou menos o mesmo:

”Boa sorte, Harry, onde quer que esteja.” ”Se ler esta mensagem, Harry, saiba que estamos com você!” ”Viva Harry Potter.”

— Eles não deviam ter rabiscado a placa! - comentou Hermione, indignada.

Harry, porém, sorriu para ela.

- É genial. Fico feliz que tenham escrito. Eu...

E se calou. Um vulto muito agasalhado capengava pela estradinha em sua direção, recortado pela iluminação clara, na praça ao longe. Harry achou, embora fosse difícil julgar, que era o vulto de uma mulher. Ela se movia com lentidão, possivelmente receosa de escorregar no chão nevado. Suas costas curvadas, sua corpulência, seu andar arrastado, tudo indicava uma idade muito avançada. Eles observaram sua aproximação em silêncio. Harry estava aguardando para ver se ela entraria em um dos chalés pelo caminho, mas sabia, instintivamente, que não faria isso. Por fim, ela parou a uns poucos metros dos dois e, simplesmente, ficou ali no meio da rua congelada, encarando-os.

Ele não precisou que Hermione beliscasse seu braço. Praticamente não havia chance de que a mulher fosse muggle: estava parada de olhos pregados em uma casa que lhe seria inteiramente invisível se não fosse bruxa.

Mesmo supondo que fosse uma bruxa, no entanto, era um comportamento estranho sair em uma noite tão fria, simplesmente para contemplar uma velha ruína. Pelas regras da magia normal, ela não deveria poder vê-los. Contudo, Harry tinha a estranha impressão de que sabia da presença deles ali, e também sabia quem eram. No momento em que ele chegou a essa inquietante conclusão, a mulher ergueu a mão enluvada e fez sinal para que se aproximassem.

Hermione se achegou a Harry sob a capa, seu braço comprimindo o dele.

— Como é que ela sabe?

Ele sacudiu a cabeça. A mulher tornou a chamá-los, mais energicamente. Harry poderia pensar em muitas razões para não obedecer, contudo, suas suspeitas a respeito da identidade dela tornavam-se mais fortes a cada segundo em que continuavam parados, se encarando na rua deserta.

Seria possível que estivesse esperando por eles todos esses longos meses? Que Dumbledore lhe tivesse dito para esperar porque Harry acabaria aparecendo? Não seria provável que fosse a coisa que se mexera nas sombras do cemitério e os seguira até ali? Até a sua capacidade de senti-los sugeria um poder à la Dumbledore, que ele jamais encontrara. Harry, por fim, falou, fazendo Hermione ofegar sobressaltada.

- A senhora é Batilda?

O vulto agasalhado assentiu e tornou a lhes fazer sinal para se aproximarem.

Sob a capa, Harry e Hermione se entreolharam. Ele ergueu as sobrancelhas; Hermione fez um aceno breve e nervoso com a cabeça.

Os dois foram ao encontro da mulher e, na mesma hora, ela deu meia-volta e saiu manquejando pelo caminho que viera. Conduzindo-os pela fileira de casas, entrou por um portão. Os garotos a seguiram por um caminho ladeado por um jardim quase tão crescido quanto o que tinham acabado de deixar. Ela se atrapalhou um instante com a chave à porta, abriu-a e se afastou para deixá-los entrar.

A bruxa cheirava mal, ou talvez fosse a casa: Harry torceu o nariz ao passarem por ela, e tirou a capa. Agora ao seu lado, o garoto percebeu como era miúda; curvada pela idade, mal alcançava o seu peito. A bruxa fechou a porta, as juntas dos dedos azuis e manchados contra a tinta descascada, então se virou e espiou o rosto de Harry.

Seus olhos tinham cataratas e pregas fundas de pele transparente, e todo o seu rosto era riscado de pequenas veias rompidas e manchas marrons. Ele ficou em dúvida se a mulher realmente poderia vê-lo; e, mesmo que pudesse, o que veria se não o muggle careca cuja identidade ele roubara?

O odor de velhice, de poeira, de roupas sujas e de comida rançosa piorou quando ela retirou o xale preto roí do de traças, revelando uma cabeleira branca e rala que deixava visível o couro cabeludo.

— Batilda? — repetiu Harry.

Ela tornou a assentir. Harry percebeu a presença do medalhão contra sua pele; a coisa ali dentro, que por vezes batia, acabara de despertar; ele a sentia pulsar através do ouro frio. Será que entendia que a coisa que a destruiria estava tão perto?

Batilda passou por eles arrastando os pés, empurrando Hermione para o lado como se não a tivesse visto e desapareceu, provavelmente em uma sala de visitas.

— Harry, não me sinto muito segura - sussurrou Hermione.

— Olhe o tamanho dela; acho que poderíamos dominá-la, se fosse preciso - comentou Harry. — Escute, devia ter lhe dito, eu já sabia que não está batendo bem da bola. Muriel chamou-a de gagá.

— Entre! - convidou Batilda da sala vizinha. Hermione se assustou e agarrou o braço de Harry.

— Tudo bem — disse ele, tranqüilizando-a, e entrou à sua frente. Batilda andava vacilante pela sala, acendendo velas, mas o lugar continuava muito escuro, para não falar de sua extrema sujeira. Os pés de Harry esmagavam uma grossa camada de poeira e seu nariz sentia, sob o odor de mofo e umidade, algo pior, talvez carne estragada. Perguntou-se quando teria sido a última vez que alguém viera à casa de Batilda para verificar se estava tudo bem. Ela parecia ter esquecido seus dotes de magia, porque se atrapalhava acendendo as velas, seus punhos de renda em constante risco de pegar fogo.

— Deixe-me ajudá-la — ofereceu-se Harry, tirando os fósforos de sua mão. Ela o observou terminar de acender os tocos de vela sobre pires por toda a sala, precariamente equilibrados sobre pilhas de livros e mesinhas laterais cheias de copos rachados e bolorentos.

A última superfície em que Harry localizou uma vela foi uma cômoda bombée, em que havia um grande número de fotografias. Ao acender a vela, a chama se refletiu nos vidros e porta-retratos de prata empoeirados.

Ele viu as fotos se mexerem brevemente. Enquanto Batilda apanhava umas achas de lenha para a lareira, Harry murmurou ”Tergeo”. A poeira desapareceu das fotos e ele viu imediatamente que faltava uma meia dúzia delas nos porta-retratos mais trabalhados. Ficou em dúvida se Batilda ou outra pessoa as teria removido. Então, a visão de uma foto mais ao fundo da coleção atraiu sua atenção, e ele a apanhou.

Era o ladrão de cabelos dourados e rosto risonho, o rapaz que se empoleirara no peitoril da janela de Gregorovitch, sorrindo indolentemente para Harry, em seu porta-retrato de prata. E ocorreu-lhe instantaneamente onde o vira antes: em A vida e as mentiras de Albus Dumbledore de braço dado com Dumbledore, e devia ser lá que estavam as fotos desaparecidas: no livro de Rita.

- Sra... srta. Bagshot? - disse ele, e sua voz tremeu um pouco. Quem é ele?

Batilda estava parada no meio da sala observando Hermione acender o fogo para ela.

- Srta. Bagshot? - repetiu Harry, e adiantou-se com a foto nas mãos, no instante em que as achas pegavam fogo na lareira. Batilda ergueu os olhos ao ouvi-lo, e a Horcrux bateu mais rápido em seu peito.

”Quem é esse rapaz?”, perguntou Harry, estendendo a foto. Batilda olhou solenemente para a foto e em seguida para Harry.

- A senhorita sabe quem é? — insistiu em um tom mais lento e alto do que o normal. — Esse rapaz? A senhorita o conhece? Como é o nome dele?

Batilda tinha um ar hesitante. Harry sentiu uma horrível frustração. Como Rita fizera aflorar as lembranças da bruxa?

- Quem é esse rapaz? — perguntou, mais uma vez, em voz alta.

- Harry, que está fazendo? - indagou Hermione.

- A foto, Hermione, é do ladrão, o ladrão que roubou Gregorovitch! Por favor! — pediu ele a Batilda. - Quem é?

Ela, porém, continuou olhando calada.

- Por que a senhora nos pediu para acompanhá-la, sra... srta... Bagshot? - perguntou Hermione, também alteando a voz. — A senhora queria nos dizer alguma coisa?

Sem dar sinal de ter ouvido Hermione, Batilda agora se adiantou para Harry. Com um pequeno movimento de cabeça, ela espiou para o hall de entrada.

- Quer que a gente vá embora? - perguntou ele.

Ela repetiu o gesto, desta vez apontando primeiro para ele, depois para si mesma e, em seguida, para o teto.

- Ah, certo... Hermione, acho que ela quer que eu suba com ela.

- Está bem, vamos.

Quando, porém, Hermione começou a andar, Batilda sacudiu a cabeça com surpreendente energia, e mais uma vez apontou para Harry, depois para si mesma.

- Quer que eu vá com ela, sozinho.

- Por quê? - perguntou Hermione, e sua voz soou alta e ríspida na sala iluminada a velas; a velha sacudiu levemente a cabeça de leve ao ouvir o barulho.

- Talvez Dumbledore tenha dito para entregar a espada a mim e somente a mim?

- Você realmente acha que ela sabe quem você é?

- Acho — respondeu Harry, olhando para os olhos esbranquiçados fixos nos dele. - Acho que sabe.

- Bem, então o.k., mas seja rápido, Harry.

- Vá na frente - disse Harry a Batilda.

Ela pareceu entender, porque passou por ele e se encaminhou para a porta. Harry olhou para trás e sorriu querendo tranqüilizar Hermione, mas não sabia se a amiga teria visto o seu gesto; ela parou apertando o corpo com os braços em meio à sujeira iluminada a velas, o olhar na estante. Quando Harry foi saindo da sala, sem que Hermione ou Batilda vissem, ele guardou, no paletó, o portaretrato de prata com a foto do ladrão desconhecido.

Os degraus eram altos e estreitos: Harry se sentiu tentado a colocar as mãos nas nádegas da corpulenta Batilda para garantir que não caísse de costas por cima dele, o que parecia extremamente provável. Devagar, arquejando um pouco, ela subiu ao primeiro andar, virou à direita e levou-o para um quarto de teto baixo.

Estava muito escuro e fedia horrivelmente: Harry acabara de divisar a borda de um penico embaixo da cama quando Batilda fechou a porta e até isso foi engolido pela escuridão.

- Lumos — disse Harry, e sua varinha acendeu. Levou um susto: Batilda se aproximara dele naqueles segundos de escuridão, e ele nem a ouvira.

- Você é Potter? - sussurrou ela.

— Sim, sou.

Ela assentiu lenta e solenemente. Harry sentiu a Horcrux batendo depressa, mais depressa do que o seu próprio coração: foi uma sensação desagradável e enervante.

— A senhora tem alguma coisa para mim? — perguntou Harry, mas a bruxa pareceu se distrair com a ponta acesa de sua varinha.

”A senhora tem alguma coisa para mim?”, repetiu ele.

Então, ela fechou os olhos e várias coisas aconteceram ao mesmo tempo: a cicatriz de Harry ardeu dolorosamente; a Horcrux vibrou tanto que o peito do suéter do garoto chegou a mexer; o quarto escuro e fétido se dissolveu momentaneamente. Ele sentiu uma súbita sensação de alegria e falou com uma voz aguda e fria: segure-o!

Harry oscilou sem sair do lugar: o quarto escuro e malcheiroso pareceu tornar a se fechar ao seu redor; ele não sabia o que acabara de acontecer.

— A senhora tem alguma coisa para mim? - perguntou, pela terceira vez, bem mais alto.

— Aqui — sussurrou ela, apontando para um canto. Harry ergueu a varinha e viu os contornos de uma penteadeira muito cheia sob uma janela com cortinas.

Desta vez, Batilda não foi à frente. Harry passou entre ela e a cama desfeita, a varinha erguida. Não queria tirar os olhos dela.

— Que é? — indagou ao chegar à penteadeira em que havia uma pilha de alguma coisa que, pelo cheiro e aspecto, parecia roupa de cama suja.

— Ali — disse ela apontando para a massa informe.

E, no instante em que ele virou a cabeça e varreu com o olhar o amontoado confuso à procura de um punho de espada, um rubi, ela fez um movimento estranho: Harry percebeu-o pelo canto do olho; o pânico fez com que se voltasse e o horror o paralisou ao ver o velho corpo se despojar e uma grande cobra sair do lugar onde fora o pescoço da bruxa.

A cobra atacou-o quando ele ergueu a varinha: a força da mordida em seu braço fez a varinha girar para o alto em direção ao teto, sua luz rodopiou sem direção pelo quarto e se apagou: então, um poderoso golpe de cauda em seu diafragma deixou-o completamente sem ar: ele tombou de costas sobre a penteadeira, no meio do monte de roupa imunda...