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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


ASAS DE MORTE / Michael Crichton
ASAS DE MORTE / Michael Crichton

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

ASAS DE MORTE

 

Aquelas malditas coisas pesam duzentos e cinquenta toneladas, fazem um terço da volta ao mundo e transportam passageiros com mais conforto e segurança do que qualquer outro veículo na história da humanidade. Agora, vocês pretendem dizer-nos que são capazes de fazer melhor do que nós? Estão a dar a entender que sabem alguma coisa a respeito do assunto? Na minha opinião, estão apenas a agitar as pessoas por razões que só vocês conhecem.

 

Charley Norton, aviador lendário de 78 anos, falando aos jornalistas em 1970, depois da queda de um avião.

 

A ironia da Era da Informação está no facto de esta ter dado uma nova respeitabilidade às opiniões não informadas.

 

John Lawton, jornalista veterano de 68 anos, falando à Associação Americana de Jornalistas de Rádio em 1995.

 

           SEGUNDA-FEIRA

           A BORDO DO VOO TPA 545

           5:18

 

Emily Jansen suspirou de alívio. O longo voo estava a chegar ao fim. A luz da madrugada entrava pelas janelas do avião. No seu colo, a pequena Sarah semicerrou os olhos para a inusitada claridade enquanto sorvia o resto do biberão e o empurrava com os pequenos punhos.

 

Foi bom, não foi? perguntou Emily. Muito bem, vamos lá a levantar...

 

Ergueu a criança até ao ombro e começou a dar-lhe pancadinhas nas costas. O bebé soltou um arroto gorgolejante e o seu corpo descontraiu-se.

 

No assento ao lado, Tim Jansen bocejou e esfregou os olhos. Dormira durante toda a noite, desde a partida de Hong Kong. Emily nunca adormecia nos aviões. Sentia-se demasiado nervosa.

 

Bom disse Tim, olhando para o relógio. Já só falta mais um par de horas, querida. Viste alguns sinais de pequeno-almoço?

 

Ainda não respondeu Emily, abanando a cabeça.

 

Haviam apanhado um avião da Transpacific Airlines, um voo charter de Hong Kong. O dinheiro poupado na viagem iria ser-lhes útil quando tivessem de montar casa na Universidade do Colorado, onde Tim ia ser professor assistente. O voo fora suficientemente agradável. Encontravam-se na frente do aparelho mas as hospedeiras pareciam desorganizadas e as refeições apareciam a horas estranhas. Emily recusara o jantar porque Tim estivera a dormir no seu colo.

 

Naquele preciso momento, Emily ficou surpreendida com o comportamento casual da tripulação. Tinham mantido a porta da cabina de pilotagem aberta durante o voo. Sabia que as tripulações asiáticas o faziam com frequência, mas ainda considerava essa atitude como inapropriada. Era demasiado informal, demasiado descontraída. Os pilotos passeavam pelo interior do avião à noite, brincando com as hospedeiras. Um deles saía da cabina naquele preciso momento, encaminhando-se para a cauda do avião. É claro que, muito provavelmente, estavam apenas a desentorpecer as pernas. O facto de a tripulação ser chinesa não a incomodava. Depois de um ano passado na China, admirava a eficiência e a preocupação com os pormenores demonstrada pelos Chineses. Mesmo assim, aquele voo deixara-a nervosa.

 

Emily voltou a pousar Sarah no colo. O bebé olhou para Tim e sorriu, radiante.

 

Ah, quero apanhar isto! exclamou Tim. Remexeu no saco que metera por baixo do assento e fez aparecer a câmara de vídeo, que apontou para a filha. Agitou a mão livre para lhe chamar a atenção.

 

Sarah... Sarah... Sorri para o papá... Sorri... Sarah sorriu e fez um ruído gorgolejante.

 

Que tal te sentes, agora que estás na América, Sarah? Pronta para conheceres a terra dos teus pais?

 

Sarah emitiu outro ruído e agitou as mãozinhas no ar.

 

Se calhar, vai pensar que toda a gente, na América, tem um ar esquisito comentou Emily. A filha nascera sete meses antes, em Hunan, onde Tim estivera a estudar a medicina chinesa.

 

Emily viu a lente da câmara apontada para ela.

 

Então e tu, mamã? perguntou Tim. Estás satisfeita por voltar para casa?

 

Oh, Tim! protestou. Por favor! Depois de tantas horas de voo, devo estar com um péssimo aspecto.

 

Ora, deixa-te disso, Emily! Em que estás a pensar? Precisava de se pentear. Precisava de ir urinar.

 

Bom, sabes... respondeu. O que realmente desejo, aquilo com que sonho há meses... é com um cheeseburger.

 

Com molho picante Xu-xiang? inquiriu Tim.

 

Meu Deus, não! Um cheeseburger... explicou com cebolas, tomate, alface, picles e maionese. Ah, e com mostarda francesa!

 

Também queres um cheeseburger, Sarah? perguntou Tim, voltando a apontar a câmara para a filha.

 

Sarah agarrara os dedos dos pés com um dos seus minúsculos punhos. Puxou o pé, meteu-o na boca e olhou para Tim.

 

É saboroso? comentou Tim rindo-se. O riso fez com que a câmara lhe estremecesse nas mãos. E o teu pequeno-almoço, Sarah? Não queres esperar pela hospedeira?

 

Emily ouviu um ruído baixo e surdo, quase como uma vibração, que lhe pareceu vir da asa do avião. Virou a cabeça de repente.

 

O que foi aquilo?

 

Acalma-te, Em disse Tim, ainda a rir-se. Estamos quase em casa, querida.

 

Sarah também soltou risadinhas de delícia.

 

Porém, no preciso momento em que Tim falava, o avião pareceu estremecer e baixar o nariz. De súbito, tudo se encontrava inclinado num ângulo estranho. Emily sentiu Sarah a deslizar para a frente, no seu colo. Agarrou a filha e apertou-a contra o corpo. À seguir, o avião pareceu começar a precipitar-se em direcção ao solo, para voltar a subir, e Emily sentiu o estômago comprimido contra o assento. A filha era como um bloco de chumbo a comprimir-lhe o corpo.

 

Que diabo...? perguntou Tim.

 

De repente, Emily sentiu-se a ser erguida no assento, com o cinto de segurança a cortar-lhe as coxas. Estava muito leve e enjoada. Viu Tim a saltar do assento e a bater com a cabeça no compartimento de bagagem por cima dele, enquanto a câmara de vídeo passava a voar junto do rosto dela.

 

Da cabina de pilotagem chegavam-lhe aos ouvidos insistentes toques de alarme e uma voz metálica que dizia "Stall!, Stall!". Teve um relance dos braços cobertos de azul dos pilotos a movimentarem-se rapidamente sobre os comandos, enquanto berravam um para o outro, em chinês. Por todo o avião, as pessoas gritavam, histéricas. Ouviu-se o som de vidros partidos.

 

O avião voltou a mergulhar numa descida abrupta. Uma velha chinesa deslizou de costas pela coxia, gritando. Emily olhou para Tim mas o marido já não se encontrava no seu lugar. As máscaras amarelas do oxigénio caíam e havia uma a balouçar na sua frente, mas Emily não conseguia agarrá-la por estar a segurar no bebé.

 

Foi comprimida contra as costas do assento enquanto o aparelho descia rapidamente, muito inclinado, emitindo um zumbido incrivelmente agudo. Havia sapatos e malas a fazerem ricochete nas paredes da cabina de passageiros, tilintando e estrondando. Havia corpos contraídos nos assentos e no chão.

 

Tim desaparecera. Emily virou-se, procurando-o, e de súbito houve uma pesada mala que a atingiu na cabeça. Sentiu um safanão súbito, dor, escuridão e estrelas. Estava entontecida e fraca. Os alarmes continuavam a tocar. Os passageiros continuavam a gritar. O avião continuava a mergulhar.

 

Emily baixou a cabeça e apertou o bebé contra o peito. Pela primeira vez na sua vida, começou a rezar.

 

         CONTROLO DE APROXIMAÇÃO SOCAL

         5:43

 

Controlo de Aproximação SocaL, fala o Transpacific cinco quatro cinco. Temos uma emergência.

 

No edifício escurecido que abrigava o Controlo de Aproximação de Tráfego Aéreo do Sul da Califórnia, o controlador Dave Marshall ouviu a chamada do piloto e lançou uma olhadela ao ecrã do seu radar. O TransPacific 545 partira de Hong Kong para Denver. O voo fora-lhe entregue pela ARINC de Oakland alguns minutos antes e era perfeitamente normal. Marshall tocou no microfone junto à sua face.

 

Prossiga, cinco quatro cinco respondeu.

 

Autorização para uma aterragem prioritária de emergência em Los Angeles.

 

O piloto parecia calmo. Marshall olhou para os sempre mutáveis blocos de informação a verde que identificavam cada um dos aviões que se encontravam no ar. O TPA 545 aproximava-se da costa da Califórnia e passaria muito em breve por cima de Marina Del Rey. Estava ainda a meia hora de distância de Los Angeles.

 

Okay, cinco quatro cinco respondeu Marshall, entendido. Pede autorização para aterragem de emergência. Indique a natureza da emergência.

 

Temos uma emergência com os passageiros declarou o piloto. Precisamos de ambulâncias à nossa espera, trinta ou quarenta ambulâncias, ou talvez mais.

 

Marshall ficou siderado.

 

TPA cinco quatro cinco, confirme. Está a pedir-nos quarenta ambulâncias?

 

Afirmativo. Enfrentámos fortes turbulências durante o voo. Temos feridos entre os passageiros e os tripulantes.

 

"Por que diabo não começou por me dizer isso?", pensou Marshall. Girou a cadeira e fez sinal à sua supervisora, Jane Lê vine, que pegou num par de auscultadores, ligou-os e ficou à escuta.

 

Transpacific, recebi o seu pedido de quarenta ambulâncias.

 

Jesus! exclamou Levine, fazendo uma careta. Quarenta?] O piloto continuava calmo quando respondeu:

 

Ah, roger, controlo. Quarenta.

 

Também necessitam de pessoal médico? Qual é a natureza dos ferimentos?

 

Não tenho a certeza.

 

Levine rodou a mão no ar, como que a dizer para manter o piloto a falar.

 

Podem dar-nos uma estimativa? perguntou Marshall.

 

Lamento, não é possível uma estimativa.

 

Há alguém inconsciente?

 

1 SOCAL é uma sigla que designa Southern Califórnia, o Sul da Califórnia. (N. do T.)

 

Não, não me parece afirmou o piloto, mas temos dois mortos.

 

Santo Deus! murmurou Jane Levine. Agora é que ele o diz! Quem é este tipo?

 

Marshall carregou numa tecla do seu painel, abrindo uma janela no canto superior do ecrã, onde constava o manifesto para o voo TPA 545.

 

Comandante John Chang, piloto da Transpacific.

 

Vamos lá a ver se não temos mais surpresas continuou Levine. O avião está bem?

 

TPA cinco quatro cinco, qual é a situação do seu aparelho? inquiriu Marshall.

 

Temos danos na cabina dos passageiros retorquiu o piloto. Apenas pequenos danos.

 

E qual é a situação na cabina de pilotagem? insistiu Marshall.

 

Está operacional. FDAU nominal. Tratava-se da Flight Data Acquisition Unit, a unidade de aquisição de dados de voo que registava todas as deficiências do avião. Se dizia que o aparelho estava em bom estado, então era provável que estivesse.

 

Entendido, cinco quatro cinco. Qual é a situação da tripulação? continuou Marshall.

 

Comandante e co-piloto em boas condições.

 

Ah, cinco quatro cinco, mas disse-nos que havia feridos entre a tripulação...

 

Sim, duas hospedeiras.

 

Pode especificar a natureza dos ferimentos?

 

Lamento, mas não posso. Uma não está consciente. Quanto à outra, não sei o que tem.

 

Marshall abanava a cabeça.

 

Acabou de dizer que não havia ninguém inconsciente.

 

Este tipo não me convence declarou Levine, pegando no telefone vermelho. Coloca os bombeiros em alerta. Chama as ambulâncias. Manda equipas de ortopedia e neurologia ao encontro do avião e diz aos serviços médicos para alertarem os hospitais de Westside. Olhou para o relógio. Vou falar para o FSDO de Los Angeles. Vão ter um dia em cheio.

 

         LAX

         5:57

 

Daniel Greene era o funcionário de serviço no Gabinete Distrital de Padrões de Voo da FAA, instalado na Imperial Highway, a oitocentos metros de LAX, o aeroporto de Los Angeles. Os FSDOs ou Fizdos, tal como eram designados supervisionavam as operações de voo das transportadoras comerciais, verificando tudo, desde a manutenção dos aviões ao treino dos pilotos. Greene chegara mais cedo ao serviço para arrumar os papéis que tinha em cima da mesa. A sua secretária demitira-se na semana anterior e o director recusava-se a substituí-la, citando as ordens recebidas de Washington como desculpa para evitar atritos. Por isso, Greene fora para o trabalho a resmungar. O Congresso reduzia o orçamento da FAA, dizendo-lhe para fazer mais com menos e fingindo que o problema era uma questão de produtividade e não de quantidade de trabalho. Porém, o tráfego de passageiros aumentava quatro por cento ao ano e as frotas comerciais envelheciam. Esta combinação originava muito mais trabalho no solo. Claro que os FSDOs não eram os únicos a sentirem-se na miséria. Até a NTSB estava falida. A Comissão de Segurança só recebia um milhão de dólares por ano para acidentes com aviões, e...

 

O telefone vermelho que se encontrava sobre a mesa começou a tocar. A linha de emergência. Greene pegou-lhe. Era uma mulher do controlo aéreo.

 

Acabámos de ser informados de um incidente a bordo de um transportador estrangeiro que está a chegar neste momento disse a mulher.

 

Hum, hum... fez Greene, procurando um bloco de notas. "Incidente" era uma palavra com um significado muito preciso para a FAA, e referia-se a um problema de voo de baixo nível que os transportadores eram obrigados a comunicar. "Acidentes" envolviam mortos ou danos estruturais nos aviões e eram sempre graves, mas com os "incidentes" nunca se sabia. Continue.

 

É o Transpacific cinco quatro cinco de Hong Kong para Denver. O piloto pediu uma aterragem de emergência em Los Angeles. Diz que encontraram turbulência durante o voo.

 

O avião está em boas condições?

 

Dizem que sim respondeu Levine. Têm feridos e requisitaram quarenta ambulâncias.

 

Quarenta!

 

Também têm dois cadáveres.

 

O quê? Greene endireitou-se. Quando aterra?

 

Dentro de dezoito minutos.

 

Dezoito minutos... Jesus, porque é que só agora me informam?

 

Porque o piloto só agora nos informou. Já notifiquei os serviços médicos e coloquei os bombeiros em alerta.

 

1 FAA é uma sigla que designa a Federal Aviation Agency, organismo que supervisiona todos os aspectos que dizem respeito à aviação comercial nos EUA. (N. do T.)

 

Bombeiros? Pensei que me tinha dito que o avião estava em bom estado.

 

Nunca se sabe... retorquiu a mulher. O que o piloto diz não faz grande sentido. Pode estar em choque. Vamos entregá-lo à torre dentro de sete minutos.

 

Está bem disse Greene. Já vou a caminho.

 

Pegou no distintivo e no telefone celular e saiu. Quando passou por Karen, a recepcionista, perguntou-lhe:

 

Temos alguém no terminal internacional?

 

O Kevin está lá.

 

Contacta-o. pediu Greene. Diz-lhe para ir ter ao encontro do TPA cinco quatro cinco, vindo de Hong Kong, que aterra dentro de quinze minutos. Diz-lhe para se colocar junto à porta... e para não permitir a saída da tripulação.

 

Está bem retorquiu Karen, pegando no telefone.

 

Greene precipitou-se ao longo de Sepulveda Boulevard, a caminho do aeroporto. Um momento antes de a estrada passar por baixo da pista, olhou para cima e viu o grande corpo do avião da Transpacific, claramente identificável pela cauda amarela, a deslizar em direcção à porta de desembarque. A Transpacific era uma companhia de voos charter com base em Hong Kong. A maior parte dos problemas da FAA com as companhias estrangeiras dizia respeito aos voos charter. Muitas delas eram operadoras com baixos orçamentos que não seguiam os rigorosos padrões de segurança das companhias comerciais regulares. Porém, a Transpacific tinha uma excelente reputação.

 

Pelo menos, o "pássaro" já estava no chão, pensou Greene. Não via quaisquer danos estruturais no aparelho. O avião era um N-22, construído pela Norton Aircraft, em Burbank. Estivera em serviço durante cinco anos e tinha um invejável registo de segurança.

 

Greene carregou no acelerador e atravessou o túnel, passando por baixo do gigantesco avião.

 

Correu através do edifício do terminal internacional. Pelas janelas, viu o jacto da Transpacific já parado junto ao portão, com as ambulâncias alinhadas na pista de cimento por baixo dele. A primeira começava naquele momento a afastar-se, com a sirena a uivar.

 

Greene atingiu o portão, mostrou o distintivo e correu pela rampa. Os passageiros desembarcavam, pálidos e assustados. Muitos deles coxeavam e tinham as roupas rasgadas e ensanguentadas. De cada um dos lados da rampa, os paramédicos amontoavam-se em volta dos feridos.

 

Quando se aproximou do avião, o enjoativo odor a vomitado tornou-se cada vez mais forte. Uma hospedeira da TransPac, assustada, empurrou-o quando ia a chegar à porta, tentando impedi-lo de entrar e falando rapidamente em chinês. Greene mostrou-lhe o distintivo e disse:

 

FAA! Serviço oficial! A hospedeira recuou. Greene passou junto de uma mulher agarrada a um bebé e entrou no aparelho. Olhou para o interior e parou de repente.

 

Meu Deus! murmurou, baixinho. Que se passou com este avião?

 

         GLENDALE, CALIFÓRNIA

         6:00

 

Mãe? De quem gostas mais: do Rato Mickey ou da Minnie?

 

De pé, na cozinha do bangaló, ainda envergando os calções usados durante a sua corrida matinal de oito quilómetros, Casey Singleton terminou a sanduíche de atum e colocou-a na lancheira da filha. Singleton tinha trinta e seis anos e era uma das vice-presidentes da Norton Aircraft, em Burbank. A filha encontrava-se sentada à mesa, comendo os seus flocos.

 

Então? insistiu Allison. De quem gostas mais, do Mickey ou da Minnie? Tinha sete anos e ainda precisava das coisas muito bem classificadas.

 

Gosto dos dois respondeu Casey.

 

Eu sei, mãe... continuou Allison, exasperada, mas de qual gostas mais?

 

Da Minnie.

 

Eu também afirmou a filha, empurrando o livro de banda desenhada para o lado.

 

Casey meteu uma banana e um termo com sumo na lancheira e fechou-a.

 

Acaba de comer, Allison, temos de nos despachar.

 

O que é "quart"?

 

Um quart? É uma medida para líquidos.

 

Não, mãe... Qua-urt repetiu a filha.

 

Casey olhou e viu que a filha pegara no seu novo cartão de identificação, com a fotografia por cima do nome, C. SINGLETON, seguido por grandes letras azuis: QA/IRT.

 

O que é Qua-urt?

 

É o meu novo trabalho, na fábrica. Represento o Controlo de Qualidade na equipa de investigação de incidentes (IRT).

 

Ainda fazes aviões? Desde que a mãe se divorciara, Allison mostrava-se sempre atenta a todas as mudanças. Bastava uma pequena alteração no penteado de Casey para provocar repetidas discussões e o tema vinha constantemente à baila durante dias seguidos. Não era de surpreender que a filha tivesse reparado no novo cartão.

 

Sim, Allie, ainda faço aviões. Está tudo na mesma mas fui promovida.

 

Continuas a ser uma bum? perguntou a filha.

 

No ano anterior, Allison ficara deliciada ao saber que Casey era uma Business Unit Manager, uma BUM. "A mamã é uma bum", dizia aos pais das amigas, causando grande sensação.

 

Não, Allie. Calça os sapatos. O pai deve estar a chegar, para te levar.

 

1 Sigla que designa o cargo que a personagem ocupa: Quality Assurance Incident Review Team. (N. do T.)

2 Trocadilho intraduzível. BUM é uma palavra formada pelas iniciais de Business Unit Manager (algo como "gerente de unidade de negócios"), mas na linguagem corrente também significa "vadia". (N. do T.)

 

Ainda não, o pai chega sempre atrasado retorquiu Allison. O que quer dizer promovida?

 

Casey debruçou-se e começou a enfiar os sapatos de ginástica nos pés da filha...

 

Bom... explicou continuo a trabalhar no controlo de qualidade, mas já não verifico os aviões que estão na fábrica. Agora, verifico-os depois de saírem da fábrica.

 

Para teres a certeza de que voam?

 

Sim, querida. Verificamo-los e resolvemos os problemas que possam aparecer.

 

É melhor que voem... comentou Allison ou então caem! Começou a rir-se. Caem todos do céu, em cima das pessoas que estão nas suas casas a comer os flocos! Isso não era bom, pois não, mãe?

 

Não, não era nada bom respondeu Casey, também a rir-se. As pessoas, lá na fábrica, iam ficar muito aborrecidas. Acabou de dar os nós nos atacadores e largou os pés da filha. Onde está a tua camisola?

 

Não preciso dela.

 

Allison...

 

Mãe, nem sequer está frio!

 

Mas pode arrefecer durante a semana. Vai buscar a camisola, por favor.

 

Ouviu um carro a apitar na rua e viu o Lexus preto de Jim parado em frente da casa. Jim encontrava-se por trás do volante, a fumar um cigarro. Estava de casaco e gravata. Talvez tivesse uma entrevista para um emprego, pensou Casey.

 

Allison andava de um lado para o outro, no seu quarto, abrindo e fechando gavetas. Voltou com um ar infeliz, com a camisola pendurada num canto da mochila.

 

Porque ficas sempre tão tensa quando o pai me vem buscar? perguntou.

 

Casey abriu a porta e caminharam as duas para o carro sob o enevoado sol da manhã. Allison gritou:

 

Olá, papá! E começou a correr. Jim acenou-lhe, com um sorriso de ressaca.

 

Casey avançou até junto da janela de Jim.

 

Não fumas com a Allison no carro, está bem?

 

Bom dia para ti também disse Jim, mirando-a com uma expressão sombria. Parecia estar realmente a sofrer de uma ressaca e tinha o rosto balofo e pálido.

 

Fizemos um acordo quanto a fumares ao pé da nossa filha, Jim.

 

Vês-me a fumar?

 

Estou só a lembrar-te.

 

Já o fizeste antes, Katherine retorquiu. Por amor de Deus, já ouvi isso mais de um milhão de vezes.

 

Casey suspirou. Estava decidida a não discutir na frente da filha. A terapeuta dissera que fora por isso que Allison começara a gaguejar. Todavia, já estava melhor, mas Casey fazia sempre um esforço para não discutir com Jim, mesmo quando esse esforço não era recíproco. Jim, pelo contrário, parecia gostar de tornar os contactos entre os dois tão difíceis quanto possível.

 

Está bem disse Casey, com um sorriso. Vemo-nos no domingo.

 

O acordo fora o de que o pai ficaria com Allison uma semana por mês levando-a na segunda-feira e devolvendo-a no domingo seguinte.

 

No domingo concordou Jim, como sempre.

 

No domingo, às seis.

 

Meu Deus!

 

Estou só a confirmar, Jim.

 

Não, não estás! Tentas controlar, como sempre fizeste...

 

Jim, por favor. Não comecemos...

 

Está bem ripostou Jim, num tom seco. Casey debruçou-se para a janela.

 

Adeus, Allie.

 

Adeus, mãe respondeu Allie, mas os seus olhos já se mostravam distantes e a voz era mais fria. Transferira a sua lealdade para o pai ainda antes de ter colocado o cinto de segurança. Jim carregou no acelerador e o carro afastou-se, deixando-a parada no passeio. O carro contornou a esquina e desapareceu.

 

Casey viu, no fim da rua, a figura dobrada do seu vizinho Amos a dar o habitual passeio matinal com o seu cão, que rosnava a toda a gente. Tal como Casey, também trabalhava na fábrica. Acenou-lhe e o homem correspondeu.

 

Casey virou-se para voltar para casa. Tinha de se vestir para ir para o trabalho, mas os seus olhos repararam num carro azul estacionado do outro lado da rua. Estavam dois homens lá dentro. Um lia um jornal e o outro olhava pela janela. Parou por instantes. O seu vizinho Alvarez fora roubado recentemente. Quem seriam aqueles homens? Não tinham ar de pertencer a um bando. Deveriam ter cerca de vinte anos e o seu aspecto era alinhado e vagamente militar.

 

Casey pensava em tomar nota da matrícula quando o seu pager emitiu um guincho electrónico. Soltou-o dos calções e leu a mensagem:

 

     MJfl El/ 0100 SC PODE T

 

Casey suspirou. Três estrelas assinalavam uma mensagem urgente; John Marder, que dirigia a fábrica, convocava uma reunião da Equipa de Investigação de Incidentes para as sete da manhã, na sala de conferências. Uma hora antes da reunião habitual. Passava-se qualquer coisa. As letras finais confirmavam-no, no calão da fábrica:

 

Presença Obrigatória Ou Estás Tramada.

 

         AEROPORTO DE BURBANK

        6:32

 

O trânsito da hora de ponta arrastava-se sob a pálida luz da manhã. Casey torceu o retrovisor e inclinou-se para a frente para verificar a maquilhagem. Com os seus cabelos curtos e escuros, de pernas compridas e atléticas, era atraente, de uma maneira arrapazada. Jogava na primeira base da equipa de softball. Os homens sentiam-se bem junto dela. Tratavam-na como uma irmã mais nova, facto que lhe dava muito jeito, na fábrica.

 

De facto, Casey não tinha grandes problemas no trabalho. Crescera nos subúrbios de Detroit, como filha de um editor do News de Detroit. Os seus dois irmãos eram engenheiros na Ford. A mãe morrera quando ela era criança, pelo que fora criada numa casa de homens. Nunca fora aquilo que o pai costumava designar por uma "rapariga feminina".

 

Depois de um curso de jornalismo na Southern Illinois, Casey fora fazer companhia aos irmãos, na Ford. Contudo, concluíra que escrever comunicados para a imprensa era pouco interessante e aproveitara o programa da empresa para tirar um mestrado na Wayne State. Ao longo desse percurso, casara com Jím, um engenheiro da Ford, e tivera uma filha.

 

Porém, a chegada de Allison dera cabo do casamento: confrontado com mudanças de fraldas e horários de alimentação, Jim começara a beber e a voltar para casa muito tarde. No fim, tinham acabado por se separar. Quando Jim anunciara que se ia mudar para a costa oeste, para trabalhar na Toyota, Casey também decidira mudar-se. Queria que Allison crescesse em contacto com o pai. Estava farta das políticas da Ford e dos áridos invernos de Detroit. A Califórnia surgia-lhe como um recomeço. Imaginara-se a guiar um descapotável e a viver numa casa ensolarada, perto da praia, com palmeiras no exterior das janelas. Imaginara a filha a crescer bronzeada e saudável.

 

Em vez disso, vivia em Glendale, no interior, a hora e meia de distância da praia. Casey comprara na verdade um descapotável mas nunca lhe descia a capota. Apesar de o sector de Glendale onde vivia ser encantador, os territórios dos bandos começavam a apenas alguns quarteirões de distância. Por vezes, quando a filha dormia, ouvia o som fraco dos tiros. Casey preocupava-se com a segurança de Allison. Preocupava-se com a sua educação num sistema escolar em que se falavam cinquenta línguas. Também se preocupava com o futuro porque a economia da Califórnia continuava em depressão e os empregos eram poucos. Jim já estava sem trabalho há dois anos, depois de a Toyota o despedir por beber demasiado. Casey sobrevivera a ondas e ondas de despedimentos na Norton, onde a produção diminuíra graças à recessão global.

 

Nunca imaginara que acabaria a trabalhar numa fábrica de aviões, mas, para sua surpresa, descobrira que o seu pragmatismo simples e franco do Midwest se adaptava perfeitamente à cultura dos engenheiros que dominavam a companhia. Jim considerava-a demasiado rígida e agarrada às normas, mas a sua atenção aos pormenores fora-lhe muito útil na Norton, onde era vice-presidente do Controlo de Qualidade havia um ano.

 

Gostava do trabalho, embora a sua divisão tivesse uma missão quase impossível. A Norton Aircraft estava dividida em duas grandes facções produção e engenharia perpetuamente em guerra uma com a outra. O Controlo de Qualidade equilibrava-se, inseguro, entre as duas. Estava envolvida em todos os aspectos da produção e autorizava todos os passos da fabricação e montagem. Quando surgia um problema, esperava-se que o Controlo de Qualidade fosse até ao fundo do assunto, o que rarament os deixava nas boas graças dos mecânicos das linhas de montagem ou dos engenheiros.

 

Ao mesmo tempo, também se esperava que o Controlo de Qualidade enfrentasse os problemas de apoio aos clientes. Muitas vezes estes mostravam-se infelizes com as decisões que eles próprios haviam tomado e culpavam a Norton, dizendo que as galleys que haviam encomendado se encon travam nos locais errados, ou que havia poucas casas de banho nos aviões. Era preciso paciência e muita habilidade política para manter toda a gentt satisfeita e para conseguir que os problemas fossem resolvidos. Casey, que nascera para o apaziguamento, era muito boa nesse trabalho.

 

Para compensar o facto de se encontrarem permanentemente numa corda bamba política, eram os funcionários do Controlo de Qualidade que dirigiam a fábrica. Como vice-presidente, Casey estava envolvida em todos os aspectos do trabalho da companhia. Tinha muita liberdade e uma ampla gama de responsabilidades.

 

Sabia que o título era mais impressionante do que o trabalho. A Norton Aircraft abarrotava de vice-presidentes. Só na sua divisão existiam quatro e a concorrência entre eles era feroz. Agora, porém, John Marder promovera-a a elemento de ligação para a IRT. Tratava-se de uma posição com uma considerável visibilidade, e punha-a em linha para a chefia da divisão. Marder não fazia essas nomeações por acaso. Casey sabia que o homem tivera boas razões para lhe propor a nova posição.

 

Virou com o Mustang descapotável da Golden State Freeway para a Empire Avenue e seguiu ao longo da vedação que marcava o perímetro sul do aeroporto de Burbank. Dirigia-se para os complexos comerciais da Rockwell, da Lockheed e da Norton Aircraft. Mesmo àquela distância, já podia ver as fileiras de hangares, com o emblema alado da Norton pintado por cima das...

 

O telefone do carro tocou.

 

Casey? É a Norma. Sabes da reunião?

 

Vou a caminho respondeu. Norma era a sua secretária. Que se passa?

 

Parece que ninguém sabe respondeu Norma, mas deve ser mau. O Marder tem andado a gritar com os engenheiros e convocou toda a gente.

 

John Marder era o chefe de operações da Norton. Fora o gestor do programa do N-22, o que significava que supervisionara o fabrico desse avião. Era um homem impiedoso e ocasionalmente inconsequente, mas obtinha resultados. Para além disso, estava casado com a única filha de Charley Norton. Nos últimos anos, estivera muito envolvido nas vendas. As duas coisas, em conjunto, tornavam-no no segundo homem mais poderoso

 

1 Galley é a designação inglesa para as cozinhas a bordo de navios e aviões. O termo também é utilizado em Portugal pelo pessoal da aeronáutica. (N. do T.)

 

da empresa, logo a seguir ao presidente. Fora Marder quem promovera Casey e fora...

 

... com o teu assistente? perguntou Norma.

 

O meu quê?

 

O teu novo assistente. O que queres que faça com ele? Está à espera, no teu gabinete. Esqueceste-te?

 

Oh, é verdade! Na realidade, esquecera-se. Um qualquer sobrinho da família Norton ia abrindo caminho pelas várias divisões. Marder entregara o garoto a Casey, o que queria dizer que tinha de se ocupar dele durante as próximas seis semanas.

 

Que tal é ele, Norma?

 

Bom... já não se baba.

 

Norma...

 

É melhor do que o último.

 

A resposta não era esclarecedora. O último caíra de uma asa de avião e quase se electrocutara numa instalação de rádio.

 

Muito melhor?

 

Estou a ler o seu currículo retorquiu Norma. Tirou advocacia em Yale e esteve um ano na GM. Passou os últimos três meses no marketing e nada sabe de produção. Vais ter de lhe ensinar tudo desde o princípio.

 

Pois... queixou-se Casey, suspirando. Marder devia estar à espera que ela o levasse à reunião. Diz-lhe para esperar por mim em frente à administração dentro de dez minutos. Certifica-te de que o garoto não se perde, sim?

 

Queres que o leve lá?

 

Sim, é melhor.

 

Casey desligou e olhou para o telefone. O trânsito avançava devagar. Precisaria de dez minutos para chegar à fábrica. Impaciente, tamborilou com a ponta dos dedos em cima do painel. Qual seria o motivo daquela reunião? Devia ter-se verificado um acidente, ou a queda de um avião.

 

Ligou o rádio, para saber se haveria alguma informação nos noticiários. Apanhou uma estação em que alguém dizia: "... não é justo obrigar as crianças a usarem uniformes para irem para a escola. É elitista e discriminatório..."

 

Casey carregou num botão e mudou de posto.

 

"... tentando impor a sua moralidade pessoal a todos nós. Não creio que um feto seja um ser humano..."

 

Carregou noutro botão.

 

"... esses ataques dos media provêm todos de pessoas que não gostam da livre expressão..."

 

"Onde param os noticiários?", pensou. "Houve algum acidente com um avião?"

 

Surgiu-lhe uma imagem do pai, que aos domingos lia um montão de jornais de todo o país, depois da igreja, e resmungava sozinho. "Não é esta a história, não é esta, dizia, atirando as páginas dos jornais para o monte de papel que já rodeava a sua cadeira. Claro, o pai fora jornalista, nos anos sessenta. O mundo era diferente. Agora, acontecia tudo na televisão... e nas conversas insensatas da rádio.

 

A entrada principal da Norton estava na sua frente. Casey desligou o rádio.

 

A Norton Aircraft era um dos grandes nomes da aviação americana. A companhia fora iniciada em 1935 por Charles Norton. Durante a Segun da Guerra Mundial havia fabricado o lendário bombardeiro B-22, o caç P-27 Skycat, e o cargueiro C-12, para a força aérea. Agora, era apenas uma entre as quatro companhias que ainda construíam grandes aviões para o mercado global. As outras eram a Boeing, em Seattle, a McDonnel Douglas, em Long Beach, e o consórcio europeu Airbus, em Toulouse

 

Conduziu através do imenso parque de estacionamento até ao portão número 7, parando na barreira para que a segurança pudesse verificar í sua identificação. Como sempre, sentiu uma certa excitação ao penetrar na fábrica, com os seus três turnos de trabalho e com os rebocadores amarelos a puxar carregamentos de peças. Não era uma fábrica, mas sim uma pequena cidade, com um hospital, um jornal e uma força de polícia. Quando entrara para a companhia trabalhavam ali sessenta mil pessoas. A recessão reduzira esse número para trinta mil, mas a fábrica continuava a ser enorme, cobrindo quase quarenta e um quilómetros quadrados. Era ali que construíam o N-20, o jacto de corpo estreito com dois motores, o N-22, a versão de corpo mais largo, e o KC-22, um avião para transporte de combustível, destinado à força aérea. De onde se encontrava podia ver os principais edifícios da montagem, com quase dois quilómetros de comprimento cada um.

 

Dirigiu-se para o edifício de vidro da administração, no centro das instalações. Parou no seu lugar de estacionamento e deixou o motor a funcionar. Avistou um jovem com um ar de colegial, envergando um casaco de desporto e gravata, calças de caqui e sapatos baratos. O rapaz acenou, acanhado, quando a viu sair do carro.

 

         EDIFÍCIO 64

         6:45

 

Sou o Bob Richman anunciou, o seu novo assistente. O aperto de mão foi educado e reservado. Casey não se recordava a que lado da família Norton ele pertencia, mas reconhecia o tipo. Muito dinheiro, pais divorciados, uma passagem indiferente por boas escolas e um inabalável sentido da sua importância.

 

Casey Singleton respondeu. Vamos, estamos atrasados.

 

Atrasados? repetiu Richman, subindo para o carro. Ainda nem sequer são sete horas.

 

O primeiro turno começa às seis explicou Casey. A maior parte do pessoal da Qualidade acompanha o horário dos turnos. Não era assim, na GM?

 

Não faço ideia. Trabalhei nos serviços legais.

 

Passaste algum tempo na produção?

 

O mínimo que me foi possível.

 

Casey suspirou. Iam ser umas longas seis semanas na companhia daquele tipo, pensou.

 

E aqui, só estiveste no marketing.

 

Sim, alguns meses. Encolheu os ombros. As vendas não são o meu forte.

 

Casey seguiu para sul, na direcção do Edifício 64, a enorme estrutura onde eram montadas as fuselagens dos grandes aviões.

 

A propósito, que carro conduzes?

 

Um BMW retorquiu Richman.

 

Acho melhor que o troques por um modelo americano afirmou Casey.

 

Porquê? É feito cá.

 

É montado cá corrigiu-o Casey. Não é feito cá. O valor acrescentado fica no estrangeiro. Os mecânicos da fábrica conhecem a diferença e são todos sindicalizados. Não gostam de ver um BMW no parque de estacionamento.

 

Está a querer dizer-me que pode acontecer-lhe alguma coisa? perguntou o jovem, olhando pela janela.

 

Podes ter a certeza. Os mecânicos não brincam em serviço.

 

Vou pensar nisso respondeu Richman, suprimindo um bocejo. Jesus, é muito cedo. Para onde vamos com tanta pressa?

 

Para a IRT. A reunião foi adiantada para as sete.

 

IRT?

 

Sim, a Equipa de Investigação de Incidentes. Sempre que acontece alguma coisa a um dos nossos aviões, a IRT reúne-se para descobrir o que se passou e decidir o que fazer a esse respeito.

 

Reúnem-se muitas vezes?

 

Mais ou menos de dois em dois meses.

 

Tantas? comentou o jovem.

 

"Vais ter de o ensinar desde o princípio."

 

Na verdade disse Casey, trata-se de reuniões pouco frequentes.

 

Temos três mil aviões em serviço, em todo o mundo. Com tantos pássaros no ar... é natural que aconteçam coisas. Levamos muito a sério o nosso apoio aos clientes. Por isso, fazemos todas as manhãs uma conferên cia telefónica com os nossos representantes espalhados por todo o mundo. Informam-nos de tudo o que possa ter causado um atraso num avião, no dia anterior. São quase sempre coisas pequenas: uma porta de casa de banho encravada, uma luz da cabina de voo que não acende. A Qualidade acompanha todos esses problemas, faz uma análise e passa os resultados para o Apoio de Produtos.

 

Hum, hum... fez Richman, parecendo aborrecido.

 

Depois prosseguiu Casey, de vez em quando, surge um problema que leva a uma reunião da IRT. Tem de ser grave, algo que afecte a segurança do voo. Aparentemente, foi o que aconteceu hoje. Se o Marder convocou a reunião para as sete, podes ter a certeza de que não se tratou de um simples atraso na partida de um avião.

 

O Marder?

 

O John Marder foi o gestor do programa para o N-Vinte e Dois antes de passar a ser chefe de operações. Portanto, trata-se provavelmente de um incidente com um avião desse tipo.

 

Casey abrandou e parou à sombra do Edifício 64. O hangar cinzento pairava por cima deles, com o equivalente a oito andares de altura e quase mil e seiscentos metros de comprimento. O asfalto em frente do edifício estava salpicado por protectores descartáveis para os ouvidos, que os mecânicos utilizavam para não ensurdecerem com o barulho das pistolas de rebites.

 

Passaram pelas portas laterais e entraram num corredor interior que rodeava todo o edifício. Havia máquinas de fornecimento de alimentos amontoadas em pequenos grupos, separadas por distâncias de cerca de quatrocentos metros.

 

Temos tempo para um café? perguntou Richman.

 

O café não é permitido aqui disse Casey, abanando a cabeça.

 

Não há café? gemeu o jovem. Porquê? Por ser feito no estrangeiro?

 

O café é corrosivo... e o alumínio não gosta dele explicou Casey, conduzindo Richman para outra porta, que dava acesso à montagem.

 

Jesus! exclamou o jovem.

 

As enormes fuselagens dos jactos, parcialmente montadas, brilhavam sob as luzes de halogéneo. Havia ali quinze aviões, em várias fases de construção, dispostos em duas longas filas sob um telhado em abóbada. Mesmo na frente deles via-se um grupo de mecânicos a instalar portas de carga em secções de fuselagem. Os grandes cilindros das fuselagens estavam rodeados por andaimes e por baixo via-se uma floresta de estruturas de montagem, ferramentas enormes, pintadas num azul-brilhante. Richman colocou-se debaixo de uma delas e olhou para cima, de boca aberta. A estrutura era tão larga como uma casa e tinha seis andares de altura.

 

Espantoso disse. Apontou para cima, para uma grande superfície plana. Aquilo é uma casa?

 

É o estabilizador vertical respondeu Casey.

 

É o quê?

 

A cauda, Bob.

 

Aquilo é uma cauda. Casey acenou uma confirmação.

 

A asa está além disse, apontando para o outro lado do edifício. Tem sessenta metros de comprimento... e é quase tão comprida como um campo de futebol.

 

Soou um apito. Uma das gruas por cima da cabeça deles começou a mover-se e Richman virou a cabeça para olhar.

 

Quarenta anos?! exclamou Richman, incrédulo. Constroem-nos para durar quarenta anos?

 

É verdade confirmou Casey. Ainda temos muitos N-Cinco em serviço por todo o mundo... e deixámos de os construir em mil novecentos e quarenta e seis. Temos aviões que acumularam quatro vezes o seu tempo de vida previsto, ou seja, o equivalente a oitenta anos. Os aviões da Norton conseguem fazê-lo. Os aviões da Douglas conseguem fazê-lo. Mais nenhum avião está preparado para isso. Compreendes o que quero dizer?

 

Ena! murmurou Richman, engolindo em seco.

 

Costumamos dizer que isto aqui é a "quinta dos pássaros" prosseguiu Casey. Os aviões são tão grandes que se torna difícil ter uma noção de escala. Apontou para o aparelho à sua direita, onde pequenos grupos de pessoas trabalhavam, nas mais variadas posições, com luzes portáteis a brilhar no metal. Não parecem ser muitos operários, pois não?

 

Não, não são muitos.

 

Pois olha... há provavelmente duzentos mecânicos a trabalhar naquele avião. O suficiente para pôr em funcionamento toda uma linha de montagem de automóveis. Contudo, esta é apenas uma posição na nossa linha de montagem... num total de quinze. Há cinco mil pessoas a trabalhar neste edifício, neste preciso momento.

 

Parece vazio. O jovem sacudiu a cabeça, espantado.

 

Infelizmente declarou Casey, está quase vazio. A linha de montagem funciona apenas a sessenta por cento da sua capacidade... e três daqueles aviões têm caudas brancas.

 

Caudas brancas?

 

É a tua primeira visita à montagem?

 

Sim... Richman virava-se para aqui e para acolá, olhando para todo o lado. É assustador.

 

Sim, são grandes concordou Casey.

 

Porque é que são todos verdes?

 

Cobrimos os elementos estruturais com resina epóxida para evitar a corrosão. Os forros das fuselagens estão cobertos para não serem danificados durante a montagem. Foram altamente polidos e são muito dispendiosos. Ficam com aquela cobertura até irem para a pintura.

 

Isto não se parece nada com a GM afirmou Richman, continuando a olhar em todas as direcções.

 

É verdade. Quando comparados com estes aviões, os carros são uma anedota.

 

Richman virou-se para ela, surpreendido.

 

Uma anedota?

 

Pensa um pouco. Um Pontiac tem cinco mil componentes e pode ser montado em dois turnos. Dezasseis horas. É muito pouco. Por outro lado, estas coisas... fez um gesto para o avião que se erguia por cima deles são bichos completamente diferentes. Um avião deste tamanho tem um milhão de componentes que precisam de setenta e cinco dias para serem montados. Não há, em todo o mundo, nenhum outro produto fabricado industrialmente com a complexidade de um avião comercial... nem existe nada que se pareça. Nada é construído para durar tanto tempo. Pega num carro e obriga-o a andar todo o dia, todos os dias, e verás o que acontece. Ficará arrumado em poucos meses. Pela nossa parte, desenhamos os jactos para terem um período de vida útil, sem quaisquer problemas, de pelo menos vinte anos, e construímo-los para durarem o dobro.

 

"São aviões que estamos a montar sem terem comprador. Construímo-los a um ritmo mínimo para mantermos a linha em funcionamento e não recebemos todas as encomendas de que necessitamos. A região do Pacífico é o sector de maior crescimento, mas esse mercado não faz encomendas por causa da recessão no Japão. Os outros mantêm os aviões no ar durante mais tempo. É um negócio muito competitivo. Por aqui...

 

Começou a subir um lanço de escadas metálicas, caminhando depressa. Richman seguiu-a com os pés a ressoar no metal. Atingiram um patamar e subiram novo lanço.

 

Vou dizer-te uma coisa, para que compreendas o que se vai passar nesta reunião. Os nossos aviões são muito bem construídos. As pessoas orgulham-se daquilo que fazem... e não gostam de saber que houve algo que correu mal.

 

Atingiram um passadiço metálico muito acima do piso da montagem e encaminharam-se para uma sala envidraçada que parecia suspensa do tecto. Casey abriu uma porta.

 

Isto... é a "Sala de Guerra" disse.

 

           SALA DE GUERRA

           7:01

 

Casey olhou para a sala como se fosse novidade, como se a visse através dos olhos do novato. Era uma grande sala de conferências forrada a alcatifa cinzenta, com uma mesa redonda em formica e cadeiras metálicas tubulares. As paredes estavam cobertas por painéis de afixação, mapas e planos de engenharia. A parede numa das extremidades era em vidro e permitia ver toda a linha de montagem.

 

Estavam ali cinco homens em mangas de camisa e gravata, uma secretária com um bloco de apontamentos, e também John Marder, que envergava um fato azul. Casey ficou surpreendida. O director de operações só raramente ia às reuniões da IRT. Era um homem moreno, a meio da casa dos quarenta e com cabelos negros penteados para trás. Parecia uma cobra prestes a atacar.

 

Este é o meu novo assistente, o Bob Richman explicou Casey.

 

Bob, seja bem-vindo disse Marder, levantando-se e apertando a mão ao rapaz com um dos seus raros sorrisos. Aparentemente, com o seu apurado sentido para as questões de política da empresa, estava pronto a ser simpático para qualquer membro da família Norton, mesmo que se tratasse de um sobrinho afastado. Casey interrogou-se sobre se o jovem não seria mais importante do que ela pensava.

 

Marder apresentou Richman aos outros, instalados em volta da mesa.

 

Doug Doherty, encarregado das estruturas e mecânica... Fez um gesto para um homem de quarenta e cinco anos com excesso de peso, uma grande barriga, uma má pele e óculos espessos. Doherty vivia num estado de perpétuo pessimismo. Falava num tom monótono e lamentoso, e era certo e sabido que os seus relatórios diziam sempre que as coisas corriam mal e estavam a piorar. Naquele dia, usava uma camisa aos quadrados e uma gravata às riscas. Devia ter saído de casa sem que a mulher o visse. Doherty fez um aceno triste e pensativo para os lados de Richman.

 

Nguyen Van Trung, aviónica... Tung tinha trinta anos, era delgado e tranquilo, muito contido. Casey gostava dele. Os vietnamitas eram os melhores trabalhadores da fábrica. Os tipos da aviónica eram especialistas, autores dos programas de computador dos aviões. Representavam a nova vaga na Norton, pois eram mais jovens, tinham melhor formação e melhores maneiras.

 

Ken Burne, motores... Kenny tinha cabelos ruivos e sardas. Atirou o queixo para a frente, pronto para uma discussão. Era um homem profano e ofensivo, conhecido na fábrica pela alcunha de Queima Fácil por causa do seu temperamento explosivo.

 

Ron Smith, sistemas eléctricos... Calvo e tímido, apalpava as canetas que tinha no bolso, num gesto nervoso. Ron era extremamente competente e parecia saber de cor todos os esquemas eléctricos dos aviões. Todavia, era dolorosamente envergonhado. Vivia com a mãe inválida em Pasadena.

 

Mike Lee, que representa a transportadora... Era um homem de cinquenta anos, bem vestido, com os cabelos cinzentos muito curtos, envergando um blazer azul com uma gravata às riscas. Mike era um antigo piloto da força aérea e um general na reforma, bem como o representant da Transpacific junto da fábrica.

 

E Barbara Ross, com o seu bloco de apontamentos. A secretária da IRT devia ter quarenta anos e excesso de peso. Lançou a Casey uma olhadela de franca hostilidade. Casey ignorou-a.

 

Marder fez sinal ao jovem para que se sentasse e Casey instalou-se a seu lado.

 

Primeiro assunto começou Marder. A Casey é agora o elemento de ligação entre a Qualidade e a IRT. Tendo em conta o modo como lidou com aquela situação de DA no DFW, será a nossa porta-voz para a imprensa a partir de agora. Alguma pergunta?

 

Richman abanava a cabeça, confuso. Marder virou-se para ele e explicou:

 

A Singleton fez um bom trabalho junto dos jornalistas quando de uma descolagem abortada em Dallas-Fort Worth, no mês passado. Vai ter de lidar com as perguntas dos media. Compreendido? Bom, vamos a isto. Barbara? A secretária começou a distribuir maços de folhas de papel agrafadas.

 

Voo cinco quatro cinco da Transpacific prosseguiu Marder. Um N-Vinte e Dois com a fuselagem número dois sete um. O voo partiu do aeroporto de Kaitak em Hong Kong às vinte e duas horas de ontem. Descolagem e voo sem problemas até cerca das cinco horas desta madrugada, quando o aparelho encontrou aquilo que o piloto descreveu como sendo forte turbulência...

 

Ouviram-se resmungos na sala. "Turbulência!" Os engenheiros abanaram as cabeças.

 

... forte turbulência, que provocou graves oscilações em voo.

 

Meu Deus exclamou Burne.

 

O aparelho continuou Marder fez uma aterragem de emergência em LAX, onde as unidades médicas já o esperavam. Os relatórios preliminares indicam cinquenta e seis feridos e três mortos.

 

Oh, isso é muito mau... lamentou-se Doug Doherty, num tom monótono, pestanejando por detrás dos óculos espessos. Isso quer dizer que vamos ter a NTSB às costas.

 

Casey inclinou-se para Richman e sussurrou:

 

É habitual que a Comissão Nacional de Segurança para os Transportes se envolva sempre que há mortos.

 

Não neste caso acrescentou Marder. Trata-se de uma transportadora estrangeira e o incidente ocorreu no espaço aéreo internacional. A NTSB está cheia de trabalho por causa do aparelho que caiu na Colômbia. Pensamos que não irá intervir.

 

Turbulência resmungou Kenny Burne. Há alguma confirmação?

 

Não retorquiu Marder. O avião encontrava-se a onze mil metros de altitude quando o incidente se verificou. Nenhum outro aparelho, nessa posição e altitude, relatou quaisquer problemas com o tempo.

 

Os mapas meteorológicos por satélite? perguntou Casey.

 

1 NTSB é uma sigla que designa o National Transportation Security Board, organismo que promove a segurança dos transportes nos EUA, levando a cabo investigações e estudos a acidentes. Pode ser traduzido por Comissão Nacional de Segurança para os Transportes. (N. do T.)

 

Vêm a caminho.

 

E quanto aos passageiros? insistiu. O comandante fez algum anúncio? O aviso para a colocação dos cintos estava aceso?

 

Ainda ninguém falou com os passageiros. As primeiras informações sugerem que não houve qualquer aviso.

 

Richman tinha novamente uma expressão confusa. Casey escravinhou no seu bloco de notas e inclinou-o para que o jovem o pudesse ler: Não foi turbulência.

 

Já interrogaram o piloto? inquiriu Trung.

 

Não respondeu Marder. A tripulação apanhou um voo de ligação e saiu do país.

 

Formidável! murmurou Kenny Burne, atirando o lápis para cima da mesa. Temos um caso de atropelamento e fuga!

 

Tenham calma interveio Mike Lee, num tom frio. Em nome da transportadora, creio que temos de reconhecer que a tripulação agiu responsavelmente. Não estava sujeita a penalidades neste país, mas enfrentava possíveis problemas com as autoridades da aviação civil de Hong Kong e foram para casa para esclarecer o assunto.

 

Casey escreveu: Tripulação ausente.

 

Bom, sabemos quem era o comandante? perguntou Ron Smith timidamente.

 

Sim, sabemos afirmou Mike Lee, consultando a sua agenda, encadernada a couro. Chama-se John Chang. Quarenta e cinco anos de idade, residente em Hong Kong, seis mil horas de voo. É o principal piloto da Transpacific para o N-Vinte e Dois. É muito competente.

 

Ah, sim? perguntou Burne, inclinando-se sobre a mesa. Quando foi que fez o último exame?

 

Há três meses.

- Onde?

 

Aqui mesmo informou Mike Lee. Fê-lo nos simuladores da Norton, sob a supervisão dos vossos instrutores.

 

Burne recostou-se, fungando de desagrado.

 

Qual era a sua classificação? inquiriu Casey.

 

Das melhores disse Mike Lee. Podem verificar os vossos próprios registos.

 

Casey escreveu: Não foi erro humano (?)

 

Achas que o poderemos entrevistar, Mike? perguntou Marder, virando-se para Lee. Estará disposto a falar com o nosso representante em Kaitak?

 

Estou certo que a tripulação cooperará afirmou Lee, em especial se lhes apresentarem perguntas escritas. Creio que poderemos ter uma resposta dentro de dez dias.

 

Hum... fez Marder, incomodado. Tanto tempo...

 

Se não entrevistarmos o piloto interveio Van Trung, podemos ter um problema. O incidente aconteceu uma hora antes da aterragem. Os gravadores da cabina de pilotagem só registam os últimos vinte minutos de conversação. Neste caso, esse registo é inútil.

 

É verdade, mas ainda temos o FDR.

 

Casey escreveu: Flight Data Recorder. Registo de dados de voo.

 

Sim, temos o FDR... disse Trung. Contudo, era claro que o facto não lhe aliviava as preocupações e Casey sabia porquê. Os aparelhos não eram de confiança. Nos meios de comunicação eram referidos como misteriosas caixas negras que revelavam todos os segredos de um voo, na realidade era frequente não funcionarem.

 

Farei o que puder prometeu Mike Lee.

 

Que sabemos a respeito do avião? perguntou Casey.

 

É novo afirmou Marder. Tem três anos de serviço, quatro horas de voo e novecentos ciclos.

 

Casey escreveu, para Richman: Ciclos = aterragens e descolagens.

 

E quanto às inspecções? interveio Doherty, com o seu tom som brio. Suponho que teremos de esperar semanas pelos registos.

 

Foi verificado em Março. Obteve um C.

 

Onde?

 

LAX.

 

Então, é provável que a manutenção fosse boa.

 

Certo confirmou Marder. À primeira vista, não podemos atribuir o incidente ao tempo, a factores humanos ou à manutenção. Estamos num beco sem saída. Examinemos eventuais possibilidades de falhas. Há alguma coisa, neste avião, que possa causar um comportamento semelhante a turbulência? Estruturas?

 

Oh, claro disse Doherty, muito infeliz. Poderia ter sido causado por uma saída dos slats. Verificaremos a hidráulica de todas as superfícies de controlo.

 

Aviónica?

 

Trung escrevinhava apontamentos.

 

Neste momento, interrogo-me por que motivo o piloto automático não se sobrepôs ao piloto. Saberei mais alguma coisa quando examinarmos o FDR.

 

Sistemas eléctricos?

 

É possível que um circuito deficiente provoque a saída dos slats disse Ron Smith, abanando a cabeça. É possível...

 

Motores?

 

Sim, podem ter sido os motores declarou Burne, passando a mão pelos cabelos vermelhos. Se tivessem seleccionado os thrust reversers2 em pleno voo, o nariz do aparelho oscilaria. Todavia, se isso aconteceu, haverá danos residuais. Verificaremos as mangas.

 

Casey olhou para o bloco, onde escrevera:

 

Estrutura: accionamento de slats

 

Hidráulica: accionamento de slats

 

Aviónica: piloto automático.

 

Sistemas eléctricos: circuito deficiente

 

Motores: reversers

 

Tratava-se, basicamente, de todos os sistemas do avião.

 

Vão ter muito que fazer afirmou Marder, levantando-se e recolhendo os seus papéis. Não os prendo mais.

 

Ora... comentou Burne. Descobriremos isto em cerca de um mês. Não estou preocupado.

 

1 Dispositivos de sustentação situados na asa do avião e utilizados nas aterragens e descolagens. (N. do T.)

2 Os thrust reversers são dispositivos que invertem o impulso produzido pelos reactores (N. do T.)

 

Mas eu estou ripostou Marder, porque não temos um mês. Dispomos de uma semana.

 

Ouviram-se exclamações em volta da mesa.

 

Uma semana?! Jesus, John!

 

Sabes bem que uma investigação destas leva sempre um mês.

 

Não desta vez contrapôs Marder. Na sexta-feira passada, o nosso presidente, o Hal Edgarton, recebeu uma encomenda provisória do Governo chinês para a compra de cinquenta N-Vinte e Dois, com opção para mais trinta. A primeira entrega será dentro de dezoito meses.

 

Fez-se um silêncio de espanto.

 

Olharam uns para os outros. Havia muito que se falava numa grande venda à China. A conclusão do negócio fora declarada iminente em vários comunicados... mas ninguém, na Norton, acreditara que fosse verdade.

 

É verdade acrescentou Marder, e não preciso de vos dizer o que isso significa. Trata-se de uma encomenda de oito biliões de dólares para um dos mercados aeronáuticos com maior crescimento em todo o mundo. Serão quatro anos de produção em pleno e a empresa entrará no século vinte e um com uma sólida base financeira. Teremos fundos para o desenvolvimento tanto do N-Vinte e Dois como do N-XX, mais avançado. O Hal e eu estamos de acordo: para a empresa, esta venda significa a diferença entre a vida e a morte. Marder meteu os papéis na mala e fechou-a. Voarei para Pequim no domingo, para me juntar ao Hal e para assinarmos a carta de intenções com o ministro dos Transportes... que vai querer saber o que aconteceu com o voo cinco quatro cinco. É conveniente que lhe possa dar uma explicação, ou acabará por assinar com a Airbus. Nesse caso, estarei metido num grande sarilho, a companhia terá problemas.. e todos vocês ficarão sem emprego. O futuro da Norton Aircraft depende desta investigação. Por isso mesmo... só quero ouvir respostas. Quero-as dentro de uma semana. Vemo-nos amanhã.

 

Deu meia volta e saiu da sala.

 

         SALA DE GUERRA

        7:27

 

- É assim que pensa moralizar

 

Que besta! manifestou-se Burne. É assim que pensa moralizar as tropas? Vá-se lixar!

 

O Marder foi sempre assim disse Trung, encolhendo os ombros.

 

Que pensam disto? perguntou Smith. Podem ser notícias realmente muito boas... mas será que o Edgarton tem mesmo uma encomenda da China?

 

Aposto que tem... declarou Trung. A fábrica tem andado a equipar-se. Prepararam mais um conjunto de ferramentas para o fabrico das asas. Estão prestes a serem enviadas para Atlanta. Aposto que têm um negócio em perspectiva.

 

O que ele tem em perspectiva interveio Burne é um bom exemplo de bodes expiatórios.

 

Que queres dizer?

 

O Edgarton pode estar prestes a conseguir a encomenda de Pequim... mas oito biliões de dólares é muita massa. A Boeing, a Douglas e a Airbus também devem andar atrás da encomenda; Os Chineses podem decidir-se por qualquer um deles no último minuto. É o seu estilo. Fazem-no constantemente. Por isso, o Edgarton anda a cagar rebites, preocupando-se com a possibilidade de não conseguir fechar o negócio... e de se ver forçado a ir dizê-lo à administração. E que faz ele? Atira tudo para cima do Marder. E que faz o Marder?

 

Atira tudo para cima de nós respondeu Trung.

 

Exacto. O voo da TPA coloca-os numa posição perfeita. Se fecharem o negócio com Pequim, serão heróis. Se o acordo falhar...

 

... a culpa será nossa concluiu Trung.

 

Aí tens. Vamos ser responsabilizados pela perda de um negócio de oito biliões...

 

Nesse caso... declarou Trung é melhor darmos uma olhadela àquele avião.

 

         ADMINISTRAÇÃO

         9:12

 

Quando John Marder entrou, Harold Edgarton, o recém-nomeado presidente da Norton Aircraft, encontrava-se no seu gabinete do décimo andar, olhando pela janela virada para a fábrica. Edgarton era um homem grande, antigo jogador de futebol americano, com um sorriso fácil e olhos frios e vigilantes. Trabalhara anteriormente na Boeing e fora levado para ali três meses antes, para melhorar o marketing da Norton.

 

Edgarton virou-se e franziu a testa para Marder.

 

Um belo sarilho disse. Quantos morreram?

 

Três respondeu Marder.

 

Santo Deus! exclamou Edgarton. E tinha de acontecer precisamente agora. Informaste a equipa de investigação a respeito da possível encomenda? Disseste-lhes até que ponto o assunto é urgente?

 

Estão informados.

 

Resolves o assunto numa semana?

 

Estou eu próprio a chefiar o grupo. Faremos o trabalho.

 

E quanto à imprensa? Edgarton continuava preocupado. Não quero o gabinete de imprensa a tratar deste caso. O Benson é um bêbedo e os jornalistas odeiam-no. Os engenheiros não estão habilitados. Se nem sequer conseguem falar inglês...

 

Já tratei do assunto, Hal.

 

Sim? Não quero que sejas tu a falar com a imprensa. Seria impossível.

 

Eu sei confirmou Marder. Entreguei essa tarefa à Singleton.

 

Singleton? Aquela mulher da Qualidade? perguntou Edgarton. Vi a gravação que me enviaste, com ela a falar aos jornalistas sobre a história de Dallas. É bonita, mas é capaz de ser demasiado directa, Hal.

 

É isso o que pretendemos, não é? A boa franqueza americana, com muita sensatez. E ela aguenta-se, Hal.

 

É melhor que o faça ripostou Edgarton. Se esta história se complicar... vai ter de saber representar.

 

Podes ficar descansado disse Marder.

 

Não quero nada que possa dar cabo do negócio com a China.

 

Ninguém quer, Hal.

 

Por momentos, Edgarton olhou para Marder com um ar pensativo. Depois, afirmou:

 

É melhor que as coisas fiquem bem esclarecidas. Não quero saber com quem estás casado... Haverá muita gente a sofrer se este negócio não se concretizar. Não serei apenas eu. Rolarão muitas outras cabeças.

 

Compreendo disse Marder.

 

Escolheste essa mulher. A responsabilidade é tua. A administração sabe-o. Se as coisas não correrem bem com ela ou com a IRT... estarás metido em problemas.

 

As coisas vão correr bem afirmou Marder. Está tudo sob controlo.

 

Acho bem que esteja concluiu Edgarton, virando-se para olhar pela janela.

 

Marder saiu da sala.

 

         LAX, HANGAR DE MANUTENÇÃO 21

         9:48

 

O pequeno mini-autocarro azul atravessou a pista e avançou para a fila de hangares de manutenção do aeroporto de Los Angeles. A cauda amarela do avião da Transpacific destacava-se do hangar mais próximo, com o emblema a brilhar ao sol.

 

Os engenheiros começaram a conversar excitadamente logo que viram o aparelho. O mini-autocarro entrou no hangar, parou debaixo de uma asa e os engenheiros precipitaram-se para o exterior. Uma outra equipa estava já a trabalhar. Era composta por meia dúzia de mecânicos instalados sobre a asa, presos por arneses, que gatinhavam de um lado para o outro.

 

Vamos a isto! gritou Burne, enquanto trepava a escada que dava acesso às asas. Fez com que a frase parecesse um grito de guerra. Os outros engenheiros foram atrás dele. Doherty foi o último, subindo a escada com um ar abatido.

 

Casey saiu do mini-autocarro na companhia de Richman.

 

Vão todos direitos às asas comentou o jovem.

 

É verdade. A asa é a parte mais importante de um avião, e é também a estrutura mais complicada. Começam por a examinar e a seguir fazem uma inspecção visual do resto do exterior. Por aqui.

 

Onde vamos?

 

Lá para dentro.

 

Casey avançou para o nariz do avião e trepou a escada para a porta da cabina anterior, logo por trás da cabina de pilotagem. Quando se aproximou sentiu imediatamente o enjoativo cheiro a vomitado.

 

Jesus... murmurou Richman, por trás dela. Casey entrou.

 

Sabia que a cabina de passageiros da frente seria a que estaria menos danificada, mas mesmo assim alguns dos assentos tinham as costas partidas. Uns quantos apoios para os braços tinham sido arrancados e estavam tombados para a coxia. Por cima, havia compartimentos de bagagens estalados, com as portas abertas. As máscaras de oxigénio balouçavam, suspensas do tecto. Faltavam algumas. Via-se sangue na alcatifa e no tecto, bem como poças de vomitado nos assentos.

 

Meu Deus disse Richman, tapando o nariz. Tinha o rosto pálido. Tudo isto aconteceu por causa de turbulência?

 

Não respondeu Casey. Quase de certeza que não.

 

Então porque é que o piloto...

 

Ainda não sabemos.

 

Casey avançou para a cabina de pilotagem. A porta estava aberta e tudo parecia normal. Toda a documentação desaparecera. Havia um minúsculo sapatinho de bebé caído no chão. Ao dobrar-se para o apanhar, Casey reparou numa massa de metal preto amachucado encravada debaixo da porta da cabina. Era uma câmara de vídeo. Puxou-a e desfez-se-lhe nas mãos, transformando-se num montão de placas com circuitos, motores prateados e laçadas de fita a saírem de uma cassete partida. Entregou-a a Richman.

 

Que faço eu com isto?

 

Guarda-a.

 

Casey dirigiu-se para a traseira, sabendo que as coisas, lá atrás, deveriam ser muito piores. Já formava na mente uma ideia do que acontecera durante o voo.

 

Não há dúvidas, este avião sofreu severas oscilações. O nariz andou a saltar para cima e para baixo.

 

Como sabe? inquiriu Richman.

 

Porque é isso que põe os passageiros a vomitar. Aguentam bem os balanços laterais... mas a arfagem fá-los vomitar.

 

Por que razão terão desaparecido algumas máscaras?

 

As pessoas agarraram-se a elas, quando caíram explicou Casey. Devia ter sido isso o que acontecera. As costas dos assentos estão partidas... Sabes qual a força necessária para partir um assento de um avião? São desenhados para suportarem um impacte de dezasseis vezes a força da gravidade. As pessoas dentro desta cabina andaram aos saltos, tal como os dados dentro de um copo. A julgar pelos prejuízos, isso aconteceu durante algum tempo.

 

Quanto?

 

Dois minutos, pelo menos. Num incidente como aquele, dois minutos eram uma eternidade, pensou Casey.

 

Passando para lá da cozinha destruída a meio do avião, penetraram na cabina central. Ali, os danos eram muito maiores. Havia mais assentos partidos. Via-se uma enorme mancha de sangue espalhada pelo tecto e as coxias estavam repletas de objectos, sapatos, roupas rasgadas, brinquedos de criança.

 

Uma equipa de limpeza envergando uniformes azuis com as letras NORTON IRT reunia todos os objectos pessoais, metendo-os dentro de grandes sacos plásticos. Casey virou-se para uma mulher.

 

Encontraram algumas máquinas fotográficas?

 

Cinco ou seis, até agora disse a mulher e um par de câmaras de vídeo. Há por aqui todo o tipo de coisas. Estendeu o braço para debaixo de um assento e fez aparecer um diafragma castanho, em borracha. Eu não lhe disse?

 

Passando cuidadosamente por cima do lixo que cobria as coxias, Casey avançou ainda mais para a traseira do avião. Passou por outro separador e entrou na cabina traseira, perto da cauda.

 

Richman aspirou o ar com força.

 

Parecia que uma gigantesca mão havia esmagado o interior. Havia assentos completamente destruídos, os compartimentos para as bagagens tinham-se soltado e quase tocavam no chão, os painéis do tecto estavam rachados, deixando ver fios eléctricos e isolamentos prateados. Havia sangue por todo o lado e alguns dos assentos estavam ensopados de castanho. As casas de banho da traseira encontravam-se rebentadas, com espelhos partidos e gavetas de aço inoxidável contorcidas e abertas.

 

Casey virou a sua atenção para a esquerda da cabina, onde seis paramédicos se debatiam com uma forma pesada, envolta numa rede de nylon branco que se encontrava suspensa junto ao tecto, perto de um compartimento para bagagens. Os paramédicos mudaram de posição, o nylon deslizou e surgiu a cabeça de um homem, de rosto cinzento, boca aberta, olhos sem vida e farrapos do cabelo a oscilar.

 

Oh, meu Deus! exclamou Richman, virando-se e fugindo. Casey aproximou-se dos paramédicos. O cadáver era de um chinês de meia-idade.

 

Qual é o problema? perguntou.

 

Desculpe, minha senhora... disse um deles mas não conseguimos tirá-lo. Encontrámo-lo aqui, encaixado, e tem a perna esquerda bem presa.

 

Um dos paramédicos apontou uma lanterna para o alto. A perna esquerda do homem enfiara-se no topo do compartimento de bagagens e penetrara no isolamento prateado por cima do painel da janela. Casey ten tou recordar-se de quais eram os cabos que passavam ali, e se algum dele seria fundamental para a segurança em voo.

 

Tirem-no daí com muito cuidado pediu.

 

Da galley chegou-lhe a voz de uma das mulheres da limpeza.

 

É a coisa mais esquisita que já vi.

 

Como é que isso foi parar aí? perguntou outra voz de mulher.

 

Casey foi ver de que estavam elas a falar. Uma das mulheres da limpeza segurava num boné de piloto com uma dedada ensanguentada na parte superior.

 

Onde o encontraram? perguntou Casey, estendendo a mão para o boné.

 

Aqui mesmo disse a mulher. No exterior da cozinha. Estava muito longe da cabina, não acha?

 

Sim... Casey revirou o boné nas mãos. Tinha umas asas prateadas na frente, com o emblema amarelo da Transpacific ao centro. Era um boné de piloto, com a risca de comandante, pelo que deveria pertencer a alguém da tripulação de substituição... Isto se existisse uma segunda tripulação a bordo. Ainda não o sabia.

 

Oh, céus, isto é terrível... Casey ouviu a característica voz monótona e levantou a cabeça para ver Doug Doherty, o engenheiro de estruturas, a entrar na cabina traseira. Que foi que fizeram ao meu belo avião? gemeu. Levantou os olhos e viu Casey. Sabes o que foi isto, não sabes? Não se tratou de turbulência. Entraram em porpoising.

 

Talvez respondeu Casey. Porpoising era o termo utilizado para uma série de mergulhos e ascensões, como um golfinho aos saltos na água.

 

Podes ter a certeza resmungou Doherty, sombrio. Foi isso o que aconteceu. Perderam o controlo. É terrível...

 

Um dos paramédicos interrompeu-o.

 

Mister Doherty?

 

Oh, não me digam exclamou Doherty, olhando para o lado dos paramédicos. Foi aí que o encontraram encaixado?

 

Sim, senhor...

 

Tinha de ser mesmo junto à antepara traseira... comentou, com um ar muito infeliz. É aí que confluem todos os sistemas mais críticos... Está bem, deixem-me ver. O que é aquilo? O pé?

 

Sim, senhor. Apontaram a luz da lanterna para que pudesse ver melhor. Doherty empurrou o corpo para um lado, pondo-o a oscilar na rede.

 

Podem segurá-lo? Bom... alguém tem uma faca, ou coisa parecida? É provável que não, mas...

 

Um dos paramédicos entregou-lhe uma tesoura e Doherty começou a cortar. Bocados do isolamento prateado flutuaram para o chão. Doherty cortou, e voltou a cortar, com a mão a mover-se muito rapidamente. Por fim, parou.

 

Muito bem. Não acertou no cabo A cinquenta e nove. Também não tocou no A quarenta e sete. Está à esquerda das linhas hidráulicas e do conjunto electrónico... Não me parece que tenha prejudicado o avião...

 

Os paramédicos, segurando no corpo morto, fitavam-no.

 

Podemos cortá-lo? perguntou um deles.

 

Doherty continuava muito concentrado nos sistemas do avião.

 

Como? Ah, sim, podem cortá-lo.

 

Recuou e os paramédicos aplicaram as grandes maxilas de metal no compartimento das bagagens e no tecto, abrindo-os. Ouviu-se um grande estalo quando o plástico rebentou.

 

Não posso ver isto queixou-se Doherty, virando-se. Não suporto vê-los a destruir o meu belo avião. Encaminhou-se para a frente do aparelho, com os paramédicos a olharem-no, espantados.

 

Richman regressou, com uma expressão um pouco embaraçada, e apontou para as janelas.

 

Que estão aqueles tipos a fazer em cima da asa?

 

Casey debruçou-se para espreitar por uma janela e viu os engenheiros em cima da asa.

 

Estão a inspeccionar os slats respondeu. São as superfícies de controlo do bordo de ataque da asa.

 

Para que servem esses slats?

 

"Vais ter de lhe ensinar tudo desde o princípio."

 

Sabes alguma coisa de aerodinâmica? Não? Bom, um avião voa por causa da forma das asas. A asa parecia simples, explicou, mas era na verdade o mais complicado componente físico do avião e era o que levava mais tempo para construir. Em comparação, a fuselagem era muito simples. Não passava de uma série de tubos cilíndricos ligados uns aos outros. A cauda pouco mais era do que um plano vertical, com superfície de controlo. Todavia, a asa era uma verdadeira obra de arte. Com quase sessenta metros de comprimento, era incrivelmente resistente e podia suportar todo o peso do avião. Porém, simultaneamente, tinha um formato com uma precisão que ia até ao milésimo de centímetro.

 

Essa forma continuou Casey é crucial. É encurvada por cima e plana por baixo. Isto significa que o ar que passa por cima da asa tem de se deslocar mais depressa e que, portanto, de acordo com o princípio de Bernoulli...

 

Andei em Direito... recordou-lhe Richman.

 

O princípio de Bernoulli diz que quanto maior for a velocidade de um gás, menos será a sua pressão. Desse modo, a pressão num fluxo de ar em movimento é inferior à pressão do ar envolvente declarou Casey. Como o ar se move mais rapidamente na parte superior da asa, cria um vácuo que puxa a asa para cima. Como a asa é suficientemente forte para aguentar a fuselagem, todo o avião é puxado para o alto. É isso que lhe permite voar.

 

Estou a ver...

 

Bom. São dois os factores que determinam essa força ascensional: a velocidade com que a asa se desloca no ar e a sua curvatura. Quanto maior for a curvatura, maior será a força ascencional.

 

Muito bem...

 

Durante o voo, quando a asa se move rapidamente, talvez a Macli zero vírgula oito não precisa de muita curvatura. Na verdade, tem de ser quase plana. Porém, quando o avião se desloca mais devagar, durante as descolagens e aterragens, a asa precisa de uma curvatura maior para manter a sustentação. Por isso, nessas situações, aumentamos a curvatura, fazendo sair secções na frente e na traseira da asa, flaps no bordo de fuga e slats no bordo de ataque.

 

Quer dizer que os slats são como os flaps, mas à frente?

 

Sim, mais ou menos.

 

Nunca tinha reparado neles disse Richman, espreitando pela janela.

 

Os aviões mais pequenos não os têm explicou Casey, mas este pesa perto de trezentos mil quilogramas quando está completamente carregado. É por isso que um aparelho deste tamanho precisa de slats.

 

Enquanto observavam, o primeiro slat deslocou-se para o exterior e inclinou-se. Os homens instalados na asa observaram-no, de mãos metidas nas algibeiras.

 

Por que razão são os slats tão importantes? inquiriu Richman.

 

Porque respondeu Casey uma das possíveis causas para a turbulência em voo é a saída dos slats. Com eles saídos, o avião pode tornar-se instável.

 

E o que os levaria a sair?

 

Um erro do piloto. É a causa mais vulgar.

 

Contudo, parte-se do princípio de que este avião tinha um bom piloto.

 

É verdade, parte-se desse princípio.

 

E se não tiver sido um erro do piloto?

 

Há uma situação começou Casey, depois de hesitar denominada "saída extemporânea de slats", o que significa que se abrem sozinhos, sem aviso.

 

Isso pode acontecer? perguntou Richman, com uma careta.

 

Já tem acontecido... mas não nos parece que seja possível neste tipo de avião. Não ia explicar os pormenores àquele rapaz, pelo menos por enquanto.

 

Richman continuava com a testa franzida.

 

Se não é possível, que estão eles a verificar?

 

Porque pode ter acontecido... e porque temos a obrigação de verificar tudo. Talvez exista um problema com este avião. Talvez os cabos de comando não estejam devidamente colocados. Talvez haja uma falha nos sistemas hidráulicos. Talvez os sensores de proximidade tenham falhado Talvez a electrónica tenha falhas. Verificaremos todos os sistemas até descobrirmos o que aconteceu... e porquê. Neste momento, não temos a mínima pista.

 

Estavam quatro homens amontoados na cabina de pilotagem, debruçados sobre os comandos. Van Trung, que estava especializado naquele avião, instalara-se no assento do piloto. Kenny Burne encontrava-se no assento do co-piloto, à direita. Trung fazia funcionar as superfícies de controlo, uma após outra: flaps, slats, lene de profundidade. Cada vez que realizava um teste, os instrumentos de bordo eram verificados visualmente.

 

Casey parou no exterior da cabina, com Richman.

 

Já tens alguma coisa, Van?

 

Ainda não respondeu Trung.

 

Não encontrámos nada acrescentou Kenny Burne. Este pássaro está perfeito, não tem qualquer problema.

 

Então, nesse caso, sempre pode ter sido turbulência comentou Richman.

 

Turbulência, uma ova! ripostou Burne. Quem disse isso? O nonato?

 

Sim, fui eu esclareceu Richman.

 

Explica-lhe como são as coisas, Casey pediu Burne, olhando por cima do ombro.

 

A turbulência disse Casey para Richman é uma desculpa muito conhecida para tudo o que corre mal na cabina de voo. Por vezes há realmente turbulência e nos velhos tempos os aviões passavam maus bocados. Hoje, porém, os casos de turbulência suficientemente maus para causar feridos são muito raros.

 

Porquê?

 

Por causa dos radares, rapaz atirou-lhe Burne. Os aviões comerciais estão equipados com radares meteorológicos. Os pilotos podem reconhecer o tempo que têm pela frente e evitá-lo. As comunicações entre aviões também são muito melhores. Se um avião, duzentos quilómetros à tua frente, apanha mau tempo, és informado e mudas de rumo. Os dias de turbulência grave já acabaram há muito.

 

Richman estava aborrecido com o tom de Burne.

 

Não sei... murmurou. Já estive em aviões em que a turbulência foi violenta...

 

Já alguma vez viste alguém morrer num desses aviões?

 

Bem, não...

 

Já viste as pessoas atiradas para fora das cadeiras?

 

Não...

 

Viste algum tipo de ferimentos?

 

Não, não vi.

 

Então, aí tens concluiu Burne.

 

Mas de certeza que é possível que...

 

Possível? interrompeu-o Burne. Tal como nos tribunais, onde tudo é possível?

 

Não, mas...

 

És advogado, não és?

 

Sou, sim, mas...

 

Então, para já, vê se compreendes uma coisa. O que fazemos aqui não é advocacia. A advocacia é um monte de tretas. Isto é um avião. Uma máquina. Ou aconteceu alguma coisa a esta máquina... ou não. Não é uma questão de opiniões. Portanto, porque não te calas e nos deixas trabalhar?

 

Richman estremeceu mas não desistiu.

 

Está bem, mas se não foi turbulência, deverão existir indícios...

 

Certo. Tal como o sinal para apertar os cintos retorquiu Burne. O piloto apanha turbulência... e a primeira coisa que faz é acender o sinal e avisar os passageiros. Toda a gente aperta os cintos e ninguém se magoa. Este tipo não fez nada disso.

 

Talvez o sinal não funcione...

 

Olha para cima. O sinal soou e iluminou-se por cima da cabeça deles.

 

Então, talvez o aviso...

 

A voz de Burne, amplificada, ressoou pelo aparelho:

 

Funciona, funciona, podes ter a certeza.

 

Dan Greene, o gorducho inspector de operações da FSDO entrou a bordo, ofegante por causa das escadas.

 

Eh, rapazes, tenho autorização para levar o avião para Burbank. Calculei que o quisessem levar para a fábrica.

 

Queremos, sim disse Casey.

 

É verdade, Dan... interveio Kenny Burne. Parabéns pelo bom trabalho... ao deixares escapar a tripulação.

 

Vai-te lixar ripostou Greene. Coloquei um tipo no portão um minuto depois de o avião pousar... e a tripulação já se tinha ido embora Virou-se para Casey. Já tiraram o corpo?

 

Ainda não, Dan. Está bem preso...

 

Mandámos embora os outros mortos e enviámos os feridos graves para os hospitais de Westside. Aqui tens a lista. Entregou-lhe uma folha de papel. Ainda há uns quantos na enfermaria do aeroporto.

 

Quantos? perguntou Casey.

 

Uns seis ou sete, incluindo um par de hospedeiras.

 

Posso falar com eles?

 

Não vejo porque não retorquiu Greene.

 

Van? Quanto tempo vais demorar? inquiriu Casey.

 

Conta com uma hora, no mínimo.

 

Está bem. Vou levar o carro.

 

Sim, e leva contigo esse advogadozeco pediu Burne.

 

         LAX

         10:42

 

Já a conduzir o mini-autocarro, Richman expulsou o ar dos pulmões com toda a força.

 

Jesus! comentou. São sempre assim tão amigáveis?

 

São engenheiros respondeu Casey, encolhendo os ombros. Perguntava a si mesma: de que estaria ele à espera? Não lidara com engenheiros da GM? Emocionalmente, têm todos treze anos. Ficaram todos naquela idade em que os rapazes deixam os brinquedos porque descobrem as raparigas. São pouco sociáveis, vestem-se mal... Mas são extremamente inteligentes e bem treinados, e também muito arrogantes, à sua maneira. Quem não pertence ao grupo não entra no jogo.

 

Em especial os advogados...

 

Toda a gente. São como mestres de xadrez. Não perdem tempo com amadores... e neste momento estão sob uma grande pressão.

 

Não é engenheira?

 

Eu? Não! Para além disso, sou mulher e pertenço à Qualidade. Três boas razões para que eu também não conte. Agora, o Marder nomeou-me para elemento de ligação entre a IRT e a imprensa, o que é mais uma desvantagem. Os engenheiros odeiam a imprensa.

 

A imprensa vai meter-se nisto?

 

É provável que não disse Casey. Trata-se de uma transportadora estrangeira, os mortos eram estrangeiros e o incidente não teve lugar nos Estados Unidos. Para além disso, não têm imagens. Não vão prestar atenção ao assunto.

 

No entanto, parece grave...

 

"Grave" não é um critério retorquiu Casey. No ano passado houve vinte e cinco acidentes envolvendo consideráveis prejuízos em aviões. Vinte e três tiveram lugar no estrangeiro. De quantos te recordas?

 

Richman franziu a testa.

 

O acidente em Abu Dhabi, que matou cinquenta e seis pessoas? prosseguiu ela. O acidente na Indonésia, que matou duzentas? O de Bogotá, que matou cento e cinquenta e três? Lembras-te de algum deles?

 

Não... afirmou Richman mas não houve qualquer coisa em Atlanta?

 

É verdade, houve um caso com um DC-Nove, em Atlanta. Quantas pessoas morreram? Nenhuma. Quantas ficaram feridas? Nenhuma. Porque te lembras disso? Porque viste imagens no noticiário da noite.

 

O mini-autocarro saiu da pista, passou a vedação do aeroporto e saiu para a rua. Viraram para a Sepulveda e dirigiram-se para os contornos azuis e arredondados do Hospital Centinela.

 

De qualquer modo disse Casey, neste momento temos outras coisas com que nos preocupar. Entregou um gravador a Richman, prendeu-lhe o microfone na lapela e disse-lhe o que iam fazer.

 

        HOSPITAL CENTINELA

         12:06

 

Querem saber o que aconteceu? perguntou o homem de barbas, num tom irritado. Chamava-se Bennett, tinha quarenta anos e era distribuidor das calças de ganga Guess. Fora a Hong Kong visitar a fábrica. Fazia-o quatro vezes por ano, sempre na Transpacific. Agora, estava sentado na cama, num dos cubículos rodeados por cortinas. Tinha ligaduras na cabeça e no braço direito. O avião quase se despenhou, foi o que aconteceu!

 

Compreendo respondeu Casey, mas perguntava a mim mesma se...

 

Afinal, quem diabo são vocês? inquiriu o homem. Casey estendeu-lhe um cartão-de-visita e voltou a apresentar-se.

 

Norton Aircraft? Que têm vocês a ver com o assunto?

 

Construímos o avião, Mister Bennett.

 

Aquela merda? Vão-se lixar! Atirou o cartão na direcção de Casey. Ponham-se a andar daqui...

 

Mister Bennett...

 

Desapareçam daqui! Mexam-se!

 

Já fora do cubículo, Casey olhou para Richman.

 

Tenho muito jeito para lidar com as pessoas disse, pesarosa.

 

Casey passou ao cubículo seguinte e parou. Percebeu que do outro lado das cortinas havia alguém que falava chinês rapidamente. Primeiro uma voz de mulher e depois a de um homem. Decidiu avançar para a cama seguinte. Abriu as cortinas e viu uma mulher chinesa, adormecida, com o pescoço envolto em gesso. A enfermeira que se encontrava no quarto olhou para cima e levou um dedo aos lábios.

 

Casey passou para outro cubículo.

 

Era uma das hospedeiras de bordo, uma mulher de vinte e oito anos chamada Kay Liang. Tinha grandes esfoladelas na face e no pescoço, que estavam vermelhas e em carne viva. Encontrava-se sentada numa cadeira, ao lado da cama, folheando uma Vogue velha de seis meses. Explicou que decidira ficar no hospital para fazer companhia a Sha-Yan Hao, outra hospedeira, instalada no cubículo ao lado.

 

É minha prima disse. Receio que esteja em muito mau estado, Não me deixaram ficar no quarto, junto dela. Falava bem o inglês, com um sotaque britânico.

 

Quando Casey se apresentou, Kay Liang pareceu confusa.

 

Vem da parte do fabricante? perguntou. Mas... acabou de sair daqui um homem...

 

Que homem?

 

Um chinês. Esteve aqui há minutos...

 

Não sei nada a esse respeito, mas gostava de lhe fazer algumas perguntas.

 

Claro! Pousou a revista e cruzou as mãos sobre o colo, muito composta.

 

Há quanto tempo está na TransPacific? inquiriu Casey.

 

Três anos declarou Kay Liang. Antes disso, estive outros tantos na Cathay Pacific. Voo sempre nas linhas internacionais porque sei línguas, inglês e francês, para além do chinês.

 

Onde estava quando o incidente aconteceu?

 

Na cabina central, logo por trás da classe executiva. As hospedeiras tratavam do pequeno-almoço explicou. Eram cerca de cinco da manhã, ou talvez passassem alguns minutos.

 

Que aconteceu?

 

O avião começou a subir disse. Sei-o, porque preparava bebidas e estas começaram a deslizar no carrinho. A seguir, quase imediatamente, iniciou uma descida muito íngreme.

 

Que foi que fez?

 

Não pudera fazer nada, explicou, excepto segurar-se. A descida fora muito violenta. As bebidas e a comida tinham caído para o chão. Pensava que a descida durara uns dez segundos, mas não tinha a certeza. Depois acontecera nova subida, extremamente íngreme, e nova descida. Durante a segunda descida batera com a cabeça na antepara...

 

Perdeu a consciência?

 

Não, mas foi nessa altura que esfolei a cara. Apontou para o rosto.

 

Que se passou a seguir?

 

Não tinha a certeza, disse. Ficara confusa porque a segunda hospedeira, Miss Jiao, embatera contra ela e ambas tinham caído.

 

Ouvíamos os gritos dos passageiros afirmou, e é claro que os víamos nas coxias.

 

A seguir, o avião voltara a ficar nivelado. Conseguira levantar-se para ir ajudar os passageiros. A situação era muito má, em particular na traseira do aparelho.

 

Havia muitas pessoas magoadas, a sangrar e com dores. As hospedeiras não tinham mãos a medir. Miss Hão, a minha prima, que se encontrava na traseira, estava inconsciente, o que perturbou as outras hospedeiras. Tínhamos três passageiros mortos. A situação era aflitiva.

 

E o que foi que fez?

 

Fui buscar o estojo médico de emergência para tratar dos passageiros. A seguir dirigi-me à cabina de voo. Queria ver se a tripulação estava bem. Também queria dizer-lhes que o co-piloto ficara ferido, na galley das traseiras.

 

O co-piloto estava na traseira quando o incidente teve lugar? perguntou Casey. Kay Liang pestanejou.

 

Sim, o da tripulação de reforço.

 

Não era o da tripulação de serviço?

 

Não, era o co-piloto da tripulação de reforço.

 

Tinham duas tripulações a bordo?

 

Sim.

 

Quando foi que mudaram as tripulações?

 

Talvez três horas antes, durante a noite.

 

Como se chamava o co-piloto ferido? inquiriu Casey.

 

Bom... não tenho a certeza disse, depois de nova hesitação. Nunca tinha voado com aquela tripulação de reforço.

 

Compreendo. O que viu quando entrou na cabina?

 

O comandante Chang tinha o avião sob controlo. A tripulação estava abalada, mas não se ferira. O comandante Chang disse-me que pedira para fazer uma aterragem de emergência em Los Angeles.

 

Já antes voara com o comandante Chang?

 

Sim, e é muito bom. É um excelente comandante. Gosto muito dele.

 

Eram demasiadas manifestações de apreço, pensou Casey. A hospedeira, anteriormente calma, agora parecia inquieta. Liang fitou Casey de relance mas desviou imediatamente os olhos.

 

Pareceu-lhe ver alguns danos na cabina de pilotagem?

 

Não respondeu a hospedeira, depois de pensar um pouco, de testa franzida. Parecia perfeitamente normal sob todos os aspectos.

 

O comandante Chang disse-lhe mais alguma coisa?

 

Sim, explicou que se verificara uma saída extemporânea dos slats e que fora isso o que provocara o incidente, mas que já estava tudo sob controlo.

 

Pois era, pensou Casey. Os engenheiros não iam ficar satisfeitos com aquilo, mas o que mais preocupava Casey era a expressão técnica utilizada pela chinesa. Era improvável que uma hospedeira soubesse alguma coisa a respeito de uma "saída extemporânea dos slats". No entanto, podia estar apenas a repetir o que o comandante lhe dissera.

 

O comandante explicou por que motivo os slats saíram?

 

Não. Limitou-se a dizer que se tratara de uma saída extemporânea dos slats.

 

Estou a ver comentou Casey. Sabe onde fica o manípulo dos slats?

 

Sei, sim confirmou Kay Liang, com um aceno. Fica na consola central, entre os assentos.

 

Estava certo, pensou Casey.

 

Quando esteve na cabina, reparou na posição desse manípulo?

 

Sim. Estava para cima e trancado.

 

Mais uma vez, Casey reparou na terminologia técnica. Aquilo era o que um piloto diria. Uma hospedeira usaria os mesmos termos?

 

O comandante disse-lhe mais alguma coisa?

 

Estava preocupado com o piloto automático, que tentara tomar o controlo do avião. Disse: "Tive de lutar contra o piloto automático para conseguir o controlo."

 

Compreendo. Como se comportou o comandante, durante esse tempo?

 

Estava calmo, como sempre. É um bom piloto.

 

Os olhos da jovem estremeceram, nervosos. Contorcia as mãos sobre o colo. Casey decidiu calar-se por instantes. Deixar que fossem os interrogados a quebrar o silêncio, era um velho truque.

 

O comandante Chang provém de uma distinta família de pilotos disse Kay Liang, engolindo em seco. O pai foi piloto durante a guerra, e o filho também é piloto.

 

Estou a ver...

 

A hospedeira mergulhou novamente no silêncio. Houve uma pausa. Olhou para as mãos e só depois voltou a fitar Casey:

 

Quer saber mais alguma coisa?

 

Já no exterior do cubículo, Richman perguntou:

 

Não me disse que nunca poderia ter acontecido uma saída extemporânea dos slats.

 

Não disse que não pode acontecer, mas sim que não acreditava que fosse possível neste avião. Se aconteceu... então são mais as perguntas do que as respostas.

 

E quanto ao piloto automático...

 

Ainda é cedo para termos certezas declarou Casey, entrando no cubículo seguinte.

 

Deve ter sido por volta das seis horas afirmou Emily Jansen, abanando a cabeça. Era uma mulher delgada, de cerca de trinta anos, com uma nódoa negra numa face. Tinha um bebé a dormir no seu colo. O marido jazia na cama, por trás dela, metido num suporte metálico que ia dos ombros ao queixo. Emily explicou que o marido tinha o maxilar partido.

 

Tinha acabado de dar de comer ao bebé e conversava com o meu marido. De súbito, ouvi um barulho...

 

Que espécie de barulho?

 

Um ruído surdo, de metal a raspar. Pensei que vinha da asa. Aquilo não era nada bom, pensou Casey.

 

Por isso continuou a mulher, olhei pela janela, para a asa.

 

Viu alguma coisa invulgar?

 

Nada. Parecia tudo normal. Pensei que o som pudesse ter vindo do motor, mas também parecia normal.

 

De que lado estava o Sol a essa hora?

 

Do meu lado. Brilhava do meu lado.

 

Então, o Sol iluminava a asa? -Sim?

 

E reflectia-se na sua direcção?

 

Não me recordo... respondeu Emily Jansen, abanando a cabeça.

 

O aviso para apertarem os cintos estava ligado?

 

Não. Nunca esteve.

 

O comandante fez algum aviso?

 

Não.

 

Voltemos a esse som. Descreveu-o como sendo um ruído surdo?

 

Sim, algo desse género. Não sei se o ouvi ou se o senti. Foi uma espécie de... vibração.

 

Uma espécie de vibração.

 

Quanto tempo durou?

 

Vários segundos.

 

Cinco segundos?

 

Mais do que isso. Diria que durou dez ou doze segundos.

 

Era uma descrição clássica de uma saída extemporânea dos slats em voo, pensou Casey.

 

Muito bem, e depois?

 

O avião começou a descer... Emily fez um gesto com a mão aberta... assim.

 

Casey continuou a tomar apontamentos, mas na verdade já não a ouvia. Tentava reconstruir a sequência dos acontecimentos para que os engenheiros soubessem como proceder. Não havia dúvidas de que ambas as testemunhas contavam uma história consistente com uma saída extemporânea dos slats. Primeiro, um rumor durante doze segundos, precisamente o tempo que os slats levavam a sair. Depois, o nariz do avião virado para cima... E a seguir subidas e descidas, enquanto a tripulação tentava estabilizar o aparelho.

 

Que sarilho, pensou.

 

Como a porta da cabina estava aberta dizia Emily Jansen, consegui ouvir os alarmes. Havia sons de aviso e frases em inglês que me pareceram gravadas.

 

Lembra-se do que essas vozes diziam?

 

Pareceu-me ser qualquer coisa como: "Fall... fall..." Era o alarme de stall, pensou Casey. As vozes gravadas diziam: "Stall... Stall."

 

Maldição.

 

Deixou-se ficar mais alguns minutos com Emily Jansen e saiu do cubículo.

 

No corredor, Richman inquiriu:

 

Aquele rumor nas asas significa que os slats saíram?

 

Pode ser... Casey estava tensa e nervosa. Queria voltar para o avião e falar com os engenheiros.

 

De um dos cubículos existentes mais adiante, no corredor, emergiu uma figura encorpada, de cabelos cinzentos. Ficou surpreendida ao ver Mike Lee e sentiu uma vaga de irritação. Que diabo andava o representante da transportadora a fazer, conversando com os passageiros? Era inapropriado. Lee não deveria estar ali.

 

Recordou-se do que Kay Liang lhe dissera: "Esteve aqui um chinês."

 

Lee aproximou-se deles, abanando a cabeça:

 

Mike exclamou, estou surpreendida por te ver aqui.

 

Porquê? Devias dar-me uma medalha. Um par de passageiros estava a pensar em ir para tribunal, mas convenci-os a não o fazerem.

 

Pois é... mas falaste com os membros da tripulação antes de nós. Não é correcto.

 

Achas que os convenci a inventarem uma história? Nem penses. Foram eles que me contaram uma história. Não há grandes dúvidas sobre o que aconteceu. Lee olhou-a fixamente. Tenho muita pena, Casey, mas o voo cinco quatro cinco passou por uma situação de saída extemporânea dos slats, o que significa que vocês ainda têm problemas no N-Vinte e Dois.

 

De volta ao mini-autocarro, Richman perguntou:

 

Que queria ele dizer com aquele ainda têm problemas? Casey suspirou. Já não valia a pena ficar calada.

 

Tivemos alguns incidentes de saída extemporânea dos slats no N-Vinte e Dois.

 

O quê? Um momento! exclamou Richman. Quer dizer que isto já tinha acontecido"?

 

Não deste modo disse Casey. Nunca se tinham verificado ferimentos graves... mas é verdade, tivemos outros problemas com os slats.

 

1 "Queda... queda..." (N. do T.)

2 Em termos de aeronáutica, a palavra stall significa "perda de controlo". (N. do T.)

 

         PELO CAMINHO

         13:05

 

O primeiro episódio teve lugar há quatro anos, num voo para San Juan disse Casey, quando seguiam de volta ao aeroporto. Os slats saíram em pleno voo. Ao princípio pensámos tratar-se de uma anomalia isolada, mas num par de meses tiveram lugar mais dois incidentes do mesmo tipo. Quando investigámos, descobrimos que em todos esses casos os slats tinham saído durante períodos de actividade na cabina de voo, depois de uma mudança de tripulação, quando marcavam as coordenadas para ruma nova etapa de voo, ou coisas desse género. Por fim compreendemos que o manípulo era accionado casualmente pela tripulação. Batiam-lhe com a prancheta, prendia-se-lhes nas mangas, etc...

 

Está a brincar...

 

Não, não estou. Construímos uma fenda de encaixe para o manípulo, semelhante à da posição de "estacionamento" existente nos carros com mudanças automáticas. Apesar disso, o manípulo continuou a ser deslocado acidentalmente.

 

Richman olhava-a com a expressão céptica de um acusador público.

 

Então, sempre é verdade que o N-Vinte e Dois tem problemas.

 

Era um avião novo explicou Casey, e todos os aviões têm problemas quando são lançados no mercado. É impossível construir uma máquina com um milhão de peças que não tenha pequenas deficiências. Fazemos tudo o que podemos para as evitar. Começamos pelo desenho, que a seguir é posto à prova. A seguir construímo-los e pomo-los à prova em voo. No entanto, isso não impede que surjam problemas. A questão está em saber resolvê-los.

 

Como é que os resolvem?

 

Sempre que descobrimos um problema enviamos um boletim de serviço às operadoras, descrevendo as alterações que recomendamos. Não temos autoridade para as impor obrigatoriamente. Algumas transportadoras fazem-nas, outras não. Se o problema persiste, a FAA entra em campo e emite uma directiva para as transportadoras, ordenando-lhes que corrijam, dentro de um determinado prazo, todos os aviões que têm em serviço. Há sempre directivas dessas, para todos os tipos de aviões. Temos orgulho no facto de a Norton ter recebido menos directivas do que qualquer outro fabricante.

 

É o que diz.

 

Vai verificar. Estão todas em arquivo, em Oak City.

 

Estão onde?!

 

Todas as directivas já emitidas encontram-se arquivadas no Centro Técnico da FAA em Oklahoma City.

 

Nesse caso, receberam uma dessas directivas a respeito do N-Vinte e Dois?

 

Sim, e emitimos um boletim de serviço recomendando que as transportadoras instalassem uma cobertura metálica com dobradiças por cima do manípulo. O comandante tinha de abrir essa cobertura antes de poder accionar os slats, mas o problema ficou resolvido. Como de costume, algumas transportadoras instalaram a cobertura, mas outras não o fizeram. Por isso, a FAA emitiu uma directiva tornando a instalação obrigatória. Foi há quatro anos. A seguir verificou-se apenas um incidente, que envolveu uma transportadora indonésia que não instalara a cobertura. Neste país, a FAA pode obrigar as transportadoras a obedecerem-lhe, mas no estrangeiro é mais difícil... Casey encolheu os ombros. As transportadoras fazem o que querem.

 

E é tudo? É essa a história?

 

É tudo. A IRT investigou, as coberturas metálicas foram instaladas e nunca mais tivemos problemas de slats no N-Vinte e Dois.

 

Até hoje disse Richman.

 

É verdade. Até hoje.

 

         LAX, HANGAR DE MANUTENÇÃO

         13:22

 

Um quê"? gritou Kenny Burne na cabina de voo do 545 da TransPacific. Disseram que foi o quê? Saída extemporânea dos slats respondeu Richman.

 

Oh, vão-se lixar declarou Burne, começando a sair do assento. Desculpas de merda! Eh, advogadozeco, vem cá! Vês este assento? É o do co-piloto. Senta-te aí.

 

Richman hesitou.

 

Vamos, advogadozeco, senta-te aí!

 

Desajeitado, Richman encolheu-se para passar por entre os outros homens que se encontravam na cabina e sentou-se na cadeira da direita.

 

Muito bem disse Burne, estás confortável? Por acaso não és piloto?

 

Não declarou Richman.

 

Perfeito. Então, aqui estás tu, pronto a fazer voar este avião. Agora, se olhares para a frente apontou para o painel de controlo directamente em frente de Richman, formado por três monitores de vídeo com vinte centímetros de lado tens aí três CRTs a cores que te fornecem dados de voo, de navegação e sobre os sistemas do aparelho. Cada um daqueles pequenos semicírculos representa um sistema diferente. Quando estão verdes, isso quer dizer que todos funcionam bem. No tecto, por cima da tua cabeça, encontra-se outro painel de instrumentos. As luzes estão todas apagadas, o que significa que está tudo bem. Mantêm-se apagadas até surgir um problema. À tua esquerda está aquilo a que chamamos consola central.

 

Burne apontou para uma estrutura em forma de caixa, instalada entre os dois assentos, onde se via meia dúzia de manípulos, instalados em fendas.

 

Da esquerda para a direita, esses comandos correspondem a flapsslats, duas alavancas de potência para os motores, spoilers, travões e motores. Os slats e flaps são controlados pelo manípulo que se encontra mais perto de ti, o que tem uma pequena cobertura de metal. Estás a vê-lo?

 

Estou confirmou Richman.

 

Muito bem. Levanta a cobertura e acciona os slats.

 

Accionar os slats...

 

Sim, empurra o manípulo para baixo.

 

Richman levantou a cobertura e debateu-se com o manípulo durante alguns instantes.

 

Não, não! Segura-o com força, puxa-o para cima, para a direita e para baixo... disse Burne como se fosse a alavanca das mudanças de um carro.

 

Richman fechou os dedos em volta do manípulo e accionou-o tal como lhe tinham dito. Ouviu-se um murmúrio distante.

 

Muito bem. Agora, olha para o painel. Vês aquela luz cor de laranja que diz SLATS EXTD? Está a dizer-te que os slats estão a sair, percebes? Precisam de doze segundos para o fazerem. Agora que já saíram, a luz está branca e diz SLATS.

 

Estou a ver confirmou Richman.

 

Muito bem. Agora, recolhe os slats.

 

Richman inverteu os seus gestos anteriores, puxando o manípulo para cima, fazendo-o deslizar para a esquerda e colocando-o na posição original. A seguir, fechou a cobertura metálica.

 

O que acabaste de fazer disse Burne foi uma saída normal de slats.

 

Muito bem murmurou Richman.

 

Agora, executa uma saída extemporânea de slats.

 

Como é que isso se faz?

 

Como quiseres, meu amigo. Para começar, podes tentar bater no manípulo com a mão.

 

Richman estendeu a mão para a consola e tocou no manípulo com a mão esquerda. Contudo, a cobertura metálica protegia-o. Nada aconteceu

 

Vamos, bate-lhe com força!

 

Richman fez a mão balançar para um lado e para o outro, batendo no manípulo. Fê-lo cada vez com mais força mas nada aconteceu. A cobertura protegia o manípulo pelo que os slats continuavam recolhidos.

 

Talvez possas bater-lhe com o cotovelo insistiu Burne. Ou então, experimenta bater-lhe com esta prancheta disse, retirando a prancheta de entre os dois assentos e entregando-lha. Vamos, dá-lhe uma valente pancada. Estou à espera de ver um acidente.

 

Richman bateu no manípulo com a prancheta, que ressoou contra a cobertura metálica. A seguir, tentou bater com o rebordo da prancheta directamente no manípulo. Nada aconteceu.

 

Queres continuar a tentar? perguntou Burne. Ou começas a compreender? Não pode ser feito, advogadozeco, desde que a cobertura esteja no seu lugar.

 

Talvez a cobertura não estivesse fechada... propôs Richman

 

Eh, boa ideia! exclamou Burne. Talvez consigas abrir a cobertura por acidente. Tenta bater-lhe com a prancheta!

 

Richman atirou a prancheta contra o rebordo da cobertura. Porém, esta tinha uma superfície suavemente encurvada e a prancheta deslizou sobre ela. A cobertura continuou fechada.

 

É impossível declarou Burne, pelo menos por acidente. Tens mais alguma ideia?

 

Pode ser que a cobertura estivesse aberta.

 

Está bem. Parte-se do princípio de que ninguém voa com essa cobertura aberta, mas só o diabo sabe o que eles andaram a fazer. Vamos a isso e abre-a.

 

Richman fez rodar a cobertura na sua dobradiça. O manípulo ficou inteiramente exposto.

 

Muito bem, agora bate-lhe.

 

Richman pegou na prancheta e atirou-a contra o manípulo. Na maior parte das vezes, a cobertura, apesar de aberta, continuava a servir de protecção. A prancheta batia-lhe antes de tocar no manípulo. Por vezes, o impacte fazia com que a cobertura se fechasse por si. Richman tinha de voltar a abri-la para continuar a experimentar.

 

Talvez se usares a mão... sugeriu Burne.

 

Richman tentou accionar o manípulo batendo-lhe com a mão... que ficou vermelha muito rapidamente, sem a deslocar.

 

Está bem disse, recostando-se no assento. Compreendo o que querem dizer.

 

Não pode ser feito repetiu Burne. Uma saída extemporânea dos slats é impossível neste avião. Ponto final.

 

Do exterior da cabina, Doherty perguntou:

 

Já acabaram com as brincadeiras? Quero recuperar os registos de voo e ir para casa.

 

Quando saíram da cabina de voo, Burne tocou no ombro de Casey.

 

Posso falar contigo por instantes? perguntou.

 

Com certeza disse Casey.

 

Conduziu-a de volta ao interior do avião, para longe dos ouvidos dos outros. Inclinou-se para ela.

 

Que sabes a respeito desse miúdo? indagou.

 

É da família do Norton respondeu, encolhendo os ombros.

 

E que mais?

 

O Marder nomeou-o meu assistente.

 

Informaste-te a seu respeito?

 

Não disse Casey. Parti do princípio de que é um tipo decente, uma vez que foi o Marder quem mo enviou.

 

Pois olha, conversei com alguns amigos meus no marketing afirmou Burne, que me disseram que o tipo é um furão e que convém não lhe virarmos as costas.

 

Kenny...

 

Estou a dizer-te que há algo de estranho nesse miúdo, Casey. Tem cuidado. Investiga-o.

 

Com um zumbido metálico proveniente das chaves de parafusos eléctricas, os painéis do chão saltaram, revelando a massa de cabos e de caixas ocultas por baixo da cabina.

 

Jesus! murmurou Richman, espantado.

 

Era Ron Smith quem dirigia a operação, passando a mão pela cabeça careca, num gesto nervoso.

 

Assim está óptimo disse. Agora, tirem o painel da esquerda.

 

Quantas caixas tem este pássaro, Ron? perguntou Doherty.

 

Cento e cinquenta e duas respondeu Smith. Casey sabia que todos os outros teriam de bisbilhotar uma enorme quantidade de esquemas antes de conseguirem responder àquela pergunta. Contudo, Smith conhecia todos os esquemas de cabeça.

 

Que vamos nós tirar? inquiriu Doherty.

 

Retira o CVR, o DFDR e o QAR, se existir pediu Smith.

 

Não sabes se têm um QAR? perguntou Doherty, provocando.

 

É opcional, instalado pelos clientes. Não me parece que o tenham. No N-Vimte e Dois è quase sempre instalado na cauda, mas já fui espreitar e não o vi.

 

Richman virou-se para Casey. Estava novamente com um ar intrigado.

 

Pensei que iam procurar as caixas negras...

 

É o que estamos a fazer declarou Smith.

 

Então... há cento e cinquenta e duas caixas negras?!

 

Claro confirmou Smith. Estão espalhadas por todo o avião, mas neste momento só estamos interessados nas mais importantes, nas dez ou doze NVMs que contam.

 

NVMs repetiu Richman.

 

Isso mesmo confirmou Smith, virando-lhe as costas e debruçando-se sobre os painéis abertos.

 

Casey viu-se na necessidade de lhe dar uma explicação. A percepção do público a respeito de um avião era a de que se tratava de um grande engenho mecânico, com alavancas e botões que faziam subir e descer superfícies de controlo. No meio dessa maquinaria existiriam duas caixas negras mágicas, que registavam os acontecimentos do voo. Eram as caixas negras de que os noticiários falavam. O CVR, o gravador de voz da cabina, era essencialmente um gravador de som muito resistente, que registava a última meia hora de conversa dos pilotos numa fita magnética contínua. A seguir havia o DFDR, o registo digital de dados de voo, que armazenava informações pormenorizadas sobre o comportamento do avião para que os investigadores, depois de um acidente, pudessem descobrir o que acontecera.

 

Porém, explicou Casey, esta imagem pública era incorrecta quando se tratava de um grande avião comercial. Os jactos comerciais tinham muito poucas alavancas. Na verdade, tinham muito poucos sistemas mecânicos de qualquer tipo e era quase tudo hidráulico e eléctrico. O piloto, na cabina, não movia os ailerons ou flaps à força de músculos. Na verdade, tudo funcionava como a direcção assistida, num automóvel. Quando o piloto movia a manche e os pedais, enviava impulsos eléctricos que faziam funcionar os sistemas hidráulicos que agiam sobre as superfícies de controlo.

 

A verdade é que um avião comercial era controlado por uma rede electrónica extraordinariamente sofisticada, composta por dúzias de sistemas computorizados ligados entre si por centenas de quilómetros de fios eléctricos. Havia computadores para a gestão de voo, para a navegação, para as comunicações. Para além disso, os computadores também regulavam os motores, as superfícies de controlo e o ambiente da cabina.

 

Cada um dos grandes sistemas computorizados controlava toda uma gama de subsistemas. Assim, o sistema de navegação controlava o ILS para aterragem por instrumentos, controlava o DME, para medição de distâncias, o ATYC, para o controlo do tráfego, o TCAS, para evitar colisões, e o GPWS, para aviso de aproximação ao solo.

 

No meio de todo esse ambiente electrónico complexo, era relativamente fácil instalar um DFDR, um registo digital de dados de voo. Como todos os comandos eram já electrónicos, limitavam-se a fazê-los passar pelo DFDR, sendo armazenados num suporte magnético.

 

Um DFDR moderno regista oitenta parâmetros diferentes de voo em cada segundo de voo.

 

Em cada segundo? Então, que tamanho tem essa coisa? perguntou Richman.

 

Ali está ele disse Casey, apontando. Naquele momento, Ron fazia aparecer uma caixa às riscas pretas e cor de laranja, que tirava do meio do equipamento de rádio. Era do tamanho de uma grande caixa de sapatos. Pousou-a no chão e substituiu-a por uma caixa nova, para o voo que o avião iria fazer até Burbank.

 

Richman debruçou-se e levantou o DFDR pegando-lhe pela asa em aço inoxidável.

 

É pesado.

 

Sim, por causa da cobertura resistente aos choques disse Ron. A engenhoca que lá está dentro pesa talvez cento e oitenta gramas.

 

E as outras caixas, para que servem?

 

As outras caixas existiam, explicou Casey, para facilitar a manutenção. Como os sistemas electrónicos do avião eram muito complicados, era necessário controlar o comportamento de cada um deles no caso de se verificarem erros ou falhas durante o voo. Cada sistema verificava o seu próprio funcionamento, graças ao que era denominado por memória não volátil, ou NVM. Naquele dia iriam retirar oito sistemas NVM: o computador de gestão de voo, que armazenava dados sobre o plano de voo e sobre as instruções introduzidas pelo piloto, o controlador digital de motores, que geria o consumo de combustível e os motores, o computador digital de dados aéreos, que registava a velocidade do ar, altitude e alarmes de excesso de velocidade...

 

Pronto, está bem, já percebi... declarou Richman.

 

Nada disto seria necessário comentou Ron Smith, se tivéssemos um Q AR.

 

-Q AR?

 

É mais um sistema de manutenção disse Casey. As equipas de manutenção que vêm a bordo depois de o avião aterrar precisam de obter uma leitura rápida de tudo que aconteceu de errado durante o último voo.

 

Não interrogam os pilotos?

 

Os pilotos comunicam algumas falhas mas, num avião tão complexo como este, podem não notar muitas outras, em particular porque a construção destes aviões inclui muitos sistemas redundantes. Todos os sistemas importantes, como os hidráulicos, têm sempre um segundo sistema de apoio, e às vezes até um terceiro. Uma falha num sistema de apoio pode não ser notada, na cabina de voo. Por isso, as equipas de manutenção sobem a bordo e vão directas ao QAR, o registo de acesso rápido, que cospe cá para fora todos os dados relativos ao último voo. Ficam a saber o que se passou e tratam imediatamente de fazer as reparações.

 

E não há um registo de acesso rápido neste avião?

 

Aparentemente, não há confirmou Casey. Não é obrigatório. Ao que parece, a transportadora não o instalou neste avião.

 

Ou então, não o conseguimos encontrar disse Ron. Pode estar escondido num buraco qualquer.

 

Estava de gatas, debruçado sobre um computador portátil ligado aos painéis eléctricos. O ecrã mostrava uma listagem de dados.

 

Parecem dados do computador de controlo do voo disse Casey, A maior parte das falhas encontra-se numa única coluna, quando o incidente ocorreu.

 

Como é que interpretam isso? inquiriu Richman.

 

Esse problema não é nosso retorquiu Ron Smith. Limitamo-nos a descarregar os dados e a levá-los para a Norton. Os rapazes da Digital metem-nos nos seus enormes computadores e transformam-nos numa imagem do voo.

 

Pelo menos, temos essa esperança comentou Casey, endireitando-se. Ainda falta muito, Ron?

 

Dez minutos, no máximo.

 

Oh, claro... protestou Doherty, do interior da cabina de voo. Dez minutos, no máximo. Agora, já não interessa. Queria adiantar-me à hora de ponta, mas já não vou conseguir. O meu filho faz anos hoje e não chegarei a casa a tempo da festa. A minha mulher vai dar-me cabo do juízo.

 

Ron Smith já estava a rir-se.

 

Não te consegues lembrar de mais nada que possa correr mal, Doug?

 

Claro que sim. Montes de coisas. Salmonelas nos bolos, por exemplo... e os miúdos todos envenenados.

 

Casey espreitou pela porta. O pessoal da manutenção descera da asa do avião. Burne terminava a sua inspecção aos motores. Trung carregava o DFDR na viatura.

 

Era tempo de ir para casa.

 

Quando começou a descer as escadas reparou em três carrinhas da segurança da Norton estacionadas a um canto do hangar. Havia cerca de vinte homens da segurança em volta do avião e espalhados pelo hangar. Richman também os viu.

 

Para que é aquilo? perguntou, fazendo um gesto na direcção dos guardas.

 

Os aviões ficam sempre sob vigilância até seguirem para a fábrica disse Casey.

 

E são precisos tantos guardas?

 

Bom, pois é... respondeu Casey. É um avião importante

 

Todavia, reparou que os guardas tinham armas à cintura. Não se recordava de alguma vez ter visto guardas armados. Um hangar do aeroporto de Los Angeles já era, por si só, um lugar de alta segurança. Não havia necessidade de tantos guardas armados. Ou haveria?

 

         EDIFÍCIO 64

         16:30

 

Casey caminhava no canto nordeste do Edifício 64, para lá das estruturas em que as asas eram fabricadas. Essas estruturas eram enormes andaimes feitos de barras de aço cruzadas, pintadas de azul, que se erguiam seis metros acima do chão. Apesar de terem as dimensões de um pequeno prédio de apartamentos, estavam alinhadas com uma precisão de um milésimo de centímetro. No alto da estrutura encontravam-se oitenta pessoas a andar de um lado para o outro, montando uma asa.

 

À sua direita viu grupos de homens que embalavam ferramentas em grandes caixotes de madeira.

 

O que é aquilo? perguntou Richman.

 

Parecem ser ferramentas de rotação explicou Casey.

 

De rotação?

 

Sim, são ferramentas sobressalentes que entram em serviço na linha no caso de haver alguma coisa que corra mal com o primeiro conjunto de ferramentas. Construímo-las como preparação para a venda à China. As asas são o que leva mais tempo a construir. Por isso, a ideia é montá-las nas nossas instalações em Atlanta, para depois serem enviadas para aqui.

 

Reparou numa figura de camisa e gravata, com as mangas enroladas para cima, que se encontrava entre os homens que trabalhavam nos caixotes. Era Don Brull, o presidente do sindicato local. O homem viu Casey, chamou-a e avançou para ela. Fez um gesto fugidio com a mão e Casey percebeu o que ele queria. Virou-se para Richman:

 

Dá-me um minuto. Encontramo-nos no meu gabinete.

 

Quem é aquele?

 

Irei ter contigo ao gabinete.

 

Richman continuou parado, enquanto Brull se aproximava.

 

Talvez queira que eu fique e...

 

Bob... disse Casey põe-te a andar.

 

Relutante, Richman afastou-se, encaminhando-se para o gabinete, sem deixar de espreitar repetidamente por cima do ombro.

 

Brull apertou-lhe a mão. O presidente do sindicato era um homem solidamente construído, um ex-pugilista com o nariz partido. Falou numa voz suave.

 

Sabes, Casey, sempre gostei de ti.

 

Obrigado, Don respondeu Casey. O sentimento é mútuo.

 

Durante aqueles anos que permaneceste na montagem nunca te perdi de vista. Livrei-te de problemas...

 

Sei disso, Don. Casey ficou à espera. Brull era bem conhecido pelos seus longos rodeios.

 

Sempre pensei: a Casey não é como os outros.

 

Que se passa, Don? perguntou.

 

Temos problemas com esta venda à China afirmou Brull.

 

Que espécie de problemas?

 

Problemas com as compensações.

 

Que têm elas de especial? inquiriu Casey, encolhendo os ombros, Sabes que estas grandes vendas são sempre acompanhadas por compensações. Nos anos mais recentes, os fabricantes de aviões haviam sido forçados a fabricar parte dos aparelhos no estrangeiro, nos países que faziam as encomendas. Um país que encomendava cinquenta aviões esperava obter uma boa fatia do bolo. Era um procedimento corrente.

 

Eu sei concordou Brull, mas antigamente vocês só enviavam partes da cauda, ou do nariz, ou até dos interiores. Apenas partes.

 

É verdade.

 

Contudo, aquelas ferramentas que estamos a encaixotar são para a asa declarou. Para além disso, o pessoal dos transportes diz-nos que as ferramentas não vão ser despachadas para Atlanta... mas sim para Xangai. A empresa está a dar a asa à China.

 

Não conheço os pormenores do acordo, mas duvido que...

 

A asa, Casey insistiu o homem. É uma tecnologia básica, Nunca ninguém dá a asa como compensação. Nem a Boeing, nem ninguém. Se deres a asa aos Chineses, estás a dar-lhes tudo. Nunca mais precisarão de nós e poderão construir a próxima geração de aviões sem qualquer ajuda. Dentro de dez anos, todos nós estaremos desempregados,

 

Don interveio Casey, vou verificar esse assunto, mas não acredito que a asa faça parte do acordo de compensação.

 

E eu digo-te que faz insistiu Brull, abrindo as mãos, num gesto de convicção.

 

Don, vou investigar... mas agora estou muito ocupada com este incidente do cinco quatro cinco e...

 

Não estás a dar-me atenção, Casey. O pessoal tem um problema com a venda à China...

 

Compreendo muito bem, mas...

 

Um grande problema. Fez uma pausa e olhou-a. Compreendes o que quero dizer?

 

Compreendia. Os operários sindicalizados que ali trabalhavam tinham um controlo total sobre a produção. Podiam retardá-la, adoecer, partir ferramentas e criar centenas de outros problemas irresolúveis.

 

Falarei com o Marder afirmou. Estou certa de que não deseja problemas na linha de montagem.

 

O problema é o Marder.

 

Casey suspirou. Era uma típica má interpretação por parte do sindicato. A venda à China fora feita por Hal Edgarton e pela equipa de marketing. Marder era apenas o chefe de operações. Dirigia a fábrica. Não tinha nada a ver com as vendas.

 

Voltarei a falar contigo amanhã, Don.

 

Seria óptimo disse Brull. Estou só a informar-te, Casey. Pessoalmente. Detestava que te acontecesse alguma coisa.

 

Don, estás a ameaçar-me?

 

Não, não declarou Brull, rapidamente, com uma expressão dorida. Não me interpretes mal... mas ouvi dizer que a venda à China pode ficar arruinada se essa história do cinco quatro cinco não for resolvida rapidamente.

 

É verdade.

 

E tu falas em nome da IRT.

 

Também é verdade.

 

Por isso, estou a informar-te repetiu Brull, encolhendo os ombros. Há sentimentos muito fortes contra essa venda. Alguns daqueles tipos já estão a ferver. Se fosse a ti, tirava uma semana de férias.

 

Não posso, estou no meio de uma investigação. Brull ficou parado, a olhá-la.

 

Don, irei falar com o Marder a respeito da asa repetiu Casey, mas tenho de fazer o meu trabalho.

 

Nesse caso disse Brull, pousando-lhe a mão no braço, tem muito cuidado contigo, querida.

 

         ADMINISTRAÇÃO

         16:40

 

Não, não disse Marder, andando de um lado para o outro ao longo do seu gabinete. Isso é uma estupidez, Casey. Nem pensar em mandar a asa para Xangai. Pensam que estamos loucos? Seria o fim da empresa.

 

Mas o Brull disse...

 

O pessoal dos transportes está a lixar os membros do sindicato da aeronáutica, mais nada. Sabes bem como os boatos se espalham por toda a fábrica. Lembras-te de quando decidiram que os compósitos os deixavam estéreis? O pessoal não quis vir trabalhar durante um mês... e não era verdade. Agora, isto também não é verdade. Aquelas ferramentas vão para Atlanta declarou, e por boas razões. Vamos fabricar a asa em Atlanta para que o senador da Georgia deixe de se intrometer cada vez que vamos ao Banco Ex-Im em busca de um grande empréstimo. O fabrico da asa originará mais empregos, que beneficiarão o mais velho senador da Georgia Compreendes?

 

Então é melhor que esclareçam o pessoal disse Casey.

 

Por Cristo! exclamou Marder. Eles sabem-no. O representante do sindicato está presente em todas as reuniões de gestão. Em geral costuma ser o próprio Brull.

 

Sim, mas não esteve presente nas negociações com a China.

 

Falarei com ele afirmou Marder.

 

Gostaria de ver o acordo de compensações pediu Casey.

 

E irás vê-lo, logo que seja final.

 

Que parte do fabrico iremos dar-lhes?

 

Secções do nariz e da empenagem esclareceu Marder, tal como no acordo com a França. Não podemos oferecer-lhes mais nada por que não têm competência suficiente para o fabrico.

 

O Brull sugeriu uma interferência com a IRT, para impedir a venda à China.

 

Uma interferência? Como? perguntou Marder, de testa franzida. Ameaçaram-te?

 

Casey encolheu os ombros.

 

Que foi que ele te disse?

 

Recomendou-me uma semana de férias.

 

Oh, por amor de Deus! protestou Marder, levantando as mãos ao céu. Isto é ridículo. Falarei com ele esta noite, para esclarecer as coisas. Não te preocupes e mantém-te concentrada no teu trabalho, está bem?

 

Está bem.

 

Obrigado pela informação. Tratarei disto por ti.

 

         NORTON DIVISÃO DE QUALIDADE

         16:53

 

Casey desceu no elevador desde o nono andar até ao seu próprio gabinete, no quarto piso. Reviu mentalmente a sua conversa com Marder e concluiu que o homem não estivera a mentir. O seu exaspero fora genuíno. Era verdade o que Marder lhe dissera: havia constantemente boatos a espalharem-se por toda a fábrica. Um par de anos antes, durante toda uma semana, os tipos do sindicato tinham-na abordado constantemente, perguntando-lhe, muito solícitos: "Como te sentes?" Tinham-se passado alguns dias até Casey concluir que correra o boato de que ela sofria de um cancro.

 

Apenas um boato. Mais um boato.

 

Caminhou ao longo do corredor, passando pelas fotografias de famosos aviões Norton do passado, como celebridades a posar junto aos aparelhos. Franklin Roosevelt ao lado do 6-22 que o levara a Yalta, Errol Flynn, rodeado de raparigas sorridentes, nos trópicos, em frente de um N-5, Henry Kissinger no N-12 que o levara à China em 1972. As fotografias eram num tom sépia para transmitirem uma sensação de idade e de estabilidade da companhia.

 

Abriu a porta dos seus serviços. Tinha vidros martelados, com as letras "Divisão de Garantia de Qualidade", e entrou numa grande sala sem divisórias. As secretárias encontravam-se naquele espaço aberto enquanto os gabinetes dos executivos se alinhavam ao longo das paredes.

 

Norma tinha o seu lugar junto à porta. Era uma mulher corpulenta, com uma idade indeterminada e um cigarro pendurado na boca. Era contra os regulamentos de fumar dentro do edifício, mas Norma fazia o que lhe apetecia. Trabalhava na companhia há muito tempo e corria o boato de que fora uma das raparigas da fotografia de Errol Flynn, e que nos anos cinquenta tivera um ardente caso de amor com Charley Norton. Quer fosse ou não fosse verdade, era um facto que sabia onde se encontravam todos os esqueletos ocultos. Dentro da companhia, era tratada com uma deferência que quase atingia as raias do medo. Até Marder se mostrava cauteloso junto dela.

 

Que temos por aí, Norma? perguntou Casey.

 

O pânico do costume respondeu a mulher. Faxes aos montes.

- Entregou o maço a Casey. O nosso representante em Hong Kong telefonou três vezes, à tua procura, mas agora já foi para casa. O de Vancouver estava ao telefone há meia hora. Talvez ainda o consigas apanhar.

 

Casey acenou. Não era de admirar que os FSRs, os representantes de serviço de voo nos principais centros, quisessem entrar em contacto. Tratava-se de empregados da Norton junto das transportadoras, e estas deveriam estar preocupadas com o último incidente.

 

Ah, é verdade prosseguiu Norma. Os nossos serviços em Washington estão numa grande agitação. Ouviram dizer que a FAA vai explorar este incidente a favor da Airbus. Como se isso fosse uma surpresa!

 

O representante em Dusseldórfia quer confirmação de que se tratou de um erro do piloto. O de Milão quer informações. O de Abu Dhabi quer passar uma semana em Milão. O de Bombaim ouviu dizer que se tratou de uma falha nos motores. Corrigi essa ideia. E a tua filha mandou dizer que não precisou da camisola.

 

Óptimo.

 

Casey levou os faxes para o seu gabinete e encontrou Richman instalado na sua secretária. O rapaz olhou-a, surpreendido, e levantou-se rápida mente da cadeira.

 

Desculpe.

 

A Norma não te arranjou um gabinete? perguntou Casey.

 

Sim, já tenho um confirmou Richman, dando a volta à secretária.

 

Estava apenas a perguntar a mim mesmo o que deveria fazer com isto

 

Exibiu um saco de plástico com os restos da câmara de vídeo que haviam encontrado no avião.

 

Eu fico com ela.

 

Que irá acontecer agora? inquiriu Richman, entregando-lhe a câmara.

 

Acho que já terminámos, por hoje disse Casey, pousando os faxes na secretária. Aparece aqui amanhã, às sete.

 

O rapaz saiu e Casey sentou-se. As coisas pareciam encontrarem-se tal como as deixara. No entanto, notou que a segunda gaveta da secretária não estava completamente fechada. Richman teria andado a bisbilhotar?

 

Casey abriu a gaveta, revelando caixas com discos de computador, papel, uma tesoura, algumas canetas de ponta de feltro numa pequena bandeja. Tudo lhe parecia em ordem. Mesmo assim...

 

Ouviu Richman sair e regressou à sala, dirigindo-se à secretária de Norma.

 

Aquele miúdo disse estava sentado à minha secretária.

 

Olha que admiração comentou Norma. O patife pediu-me que lhe fosse buscar um café.

 

Surpreende-me que o marketing não o tenha ensinado retorquiu Casey. Andou por lá durante um par de meses.

 

De facto afirmou Norma, acabei de falar com a Jean, do marketing. Disse-me que raramente o viam. Andava sempre por fora.

 

Por fora? Um novato, e da família do Norton?! O marketing nunca o mandaria para a rua. Que poderia ele fazer?

 

A Jean não sabe disse Norma, abanando a cabeça. Queres que telefone aos tipos das viagens, para descobrir?

 

Sim, já agora gostaria que o fizesses.

 

De volta ao gabinete, Casey virou-se para o saco de plástico em cima da secretária, abriu-o e retirou a cassete do interior da câmara de vídeo despedaçada. A seguir marcou o número de Jim, na esperança de poder falar com Allison, mas foi atendida pelo gravador de chamadas. Desligou sem deixar um recado.

 

Folheou os faxes. O único que lhe interessava provinha do FSR ei Hong Kong. Como sempre, o homem adiantara-se.

 

         DE: RICK RAKOSKI, FSR HK

         PARA: CASEY SINGLETON, QA/IRT NORTON BBK

A TRANSPACIFIC AIRLINES COMUNICOU HOJE QUE O VOO 545, UM N-22 COM A FUSELAGEM 271, REGISTO ESTRANGEIRO 098/443/B09, EM VOO DE HK PARA DENVER EXPERIMENTOU TURBULÊNCIA DURANTE CRUISE FL370, APROXIMADAMENTE àS 0524 UTC, POSIÇÃO 39 NORTE/170 ESTE. ALGUNS PASSAGEIROS E TRIPULANTES SOFRERAM FERIMENTOS LIGEIROS. AVIÃO ATERROU DE EMERGÊNCIA EM LAX.

EM ANEXO: PLANO DE VOO, MANIFESTO DE TRIPULAÇÃO E PASSAGEIROS. É FAVOR INFORMAR RAPIDAMENTE.

 

O fax era seguido por quatro páginas com os nomes dos passageiros e da tripulação. Casey lançou uma olhadela aos nomes dos tripulantes:

 

     JOHN ZHEN CHANG, COMANDANTE 5/7/51

     LEU ZAN PING, CO-PILOTO 3/11/59

     RICHARD YONG, CO-PILOTO 9/9/61

     GERHARD REIMANN, CO-PILOTO 7/23/49

     HENRI MARCHAND, TÉCNICO DE VOO 4/25/69

     THOMAS CHANG, TÉCNICO DE VOO 6/29/70

     ROBERT SHENG, TÉCNICO DE VOO 6/13/62

     HARRIET CHANG, ASSISTENTE 5/12/77

     LINDA CHING, ASSISTENTE 5/18/76

     NANCY MORLEY, ASSISTENTE 6/4/72

     JOHN WHITE, SUPERVISOR DE CABINA 1/30/70

  1. V CHANG, COMISSÁRIO 4/1/77

     SHA YAN HÃO, ASSISTENTE 3/13/73

     YEE JIAO, ASSISTENTE 11/18/76

     HARRIET KING, ASSISTENTE 10/10/75

     B, CHOI, COMISSÁRIO 11/18/76

     YEE CHANG, COMISSÁRIO 1/8/74

 

Era uma tripulação internacional, do tipo usado frequentemente pelas companhias de voos charter. As tripulações originárias de Hong-Kong provinham muitas vezes da Royal Air Force e eram extremamente bem treinadas.

 

Contou os nomes: dezoito, no total, incluindo sete para a cabina de voo. Uma tripulação tão grande não era estritamente necessária. O N-22 fora desenhado para ser pilotado por uma equipa de apenas dois homens, um comandante e um co-piloto. Porém, todas as transportadoras asiáticas passavam por uma rápida expansão e tinham em geral grandes tripulações para que o pessoal tivesse mais horas de treino.

 

Casey continuou. O fax seguinte era do FSR de Vancouver.

 

DE: S. NIETO, FSR VANC PARA: C. SINGLETON, QA/IRT

TRIPULAÇÃO DO TPA 545 TRANSFERIDA PARA TPA 832 DE Lffl PARA VANCOUVER. CO-PILOTO LU ZAN PING EVACUADO PEla EMERGÊNCIA MÉDICA DE VANCOUVER DEVIDO A LESÕES Na CABEÇA ANTERIORMENTE NÃO IDENTIFICADAS. ESTÁ EM COMA NO HOSPITAL GERAL DE VANCOUVER. SEGUIRÃO PORMENORES. RESTANTE TRIPULAÇÃO TPA 545 EM TRÂNSITO SEGUE HOJE PARA HONG KONG.

 

Afinal, o co-piloto também tivera lesões graves. Devia encontrar-se na cauda quando o incidente tivera lugar. Era o homem cujo boné de piloto tinham encontrado.

 

Casey ditou um fax para o FSR de Vancouver, pedindo-lhe para entrevistar o primeiro oficial logo que possível. Ditou outro para o FSR a Hong-Kong, sugerindo uma entrevista com o comandante Chang logo que este regressasse.

 

Norma chamou-a pelo intercomunicador.

 

Não tive sorte com o rapaz disse.

 

Então porquê?

 

Falei com a Maria, das Viagens. As deslocações do Richman não eram tratadas por eles. Eram pagas por uma conta especial da companhia reservada para despesas fora do orçamento. No entanto, a Maria ouviu di zer que ele se fartou de gastar dinheiro.

 

Sabes quanto? perguntou Casey.

 

Ela não sabia disse Norma, com um suspiro. Contudo, amanhã irei almoçar com a Evelyn, da Contabilidade. Vai contar-me tudo

 

Está bem. Obrigado, Norma.

 

Casey voltou a prestar atenção aos faxes. Os restantes diziam respeito a outros assuntos:

 

Steve Young, do Gabinete de Certificação da FAA, queria informações sobre os testes aos retardadores de fogo nos estofos dos assentos, realizados no anterior mês de Dezembro.

 

A Mitsubishi queria informações sobre avarias nos ecrãs de cinco polegadas da primeira classe nos N-

 

Uma lista de modificações a fazer no Manual de Manutenção (MP. 06 -62-02) dos N-20.

 

Uma revisão do protótipo das unidades de Virtual Heads-Up Displays que seria entregue nos próximos dois dias.

 

Um memorando da Honeywell aconselhando a substituição de todos os componentes D2 das unidades FDAU que tivessem a numeração d a-505/9 a a-609/98.

 

Casey suspirou e atirou-se ao trabalho.

 

         GLENDALE

         19:40

 

Quando chegou a casa, estava verdadeiramente cansada. A casa parecia-lhe vazia sem a viva tagarelice de Allison. Demasiado fatigada para cozinhar, Casey foi à cozinha e comeu um iogurte. A porta do frigorífico estava coberta pelos coloridos desenhos da filha. Casey encarou a possibilidade de lhe telefonar, mas estava na hora de a filha ir para a cama e não queria interromper Jim, não fosse o caso de este já estar a deitá-la.

 

Também não queria que Jim pensasse que o tentava controlar. Essa era uma questão que provocava muitos atritos entre eles. Jim tinha a mania de que todos os telefonemas eram para saber o que estava ele a fazer.

 

Casey dirigiu-se à casa de banho e pôs o chuveiro a correr. Ouviu o telefone a tocar e voltou à cozinha para o atender. Provavelmente, era Jim. Levantou o auscultador.

 

Olá, Jim... disse.

 

Não sejas estúpida, cadela disse uma voz. Se queres sarilhos, vais arranjá-los. Estamos a vigiar-te, neste preciso momento.

 

Clique.

 

Ficou parada na cozinha, com o auscultador na mão. Casey sempre se considerara uma pessoa calma, mas tinha o coração a martelar. Obrigou-se a respirar fundo enquanto pousava o auscultador. Sabia que aquelas chamadas aconteciam de vez em quando. Já ouvira falar de outros vice-presidentes que recebiam chamadas ameaçadoras à noite. Contudo, aquilo nunca lhe acontecera e surpreendia-se com o medo que sentia. Respirou fundo mais uma vez e tentou esquecer o assunto. Pegou no iogurte, ficou a olhá-lo e acabou por o pousar. De súbito, ganhara consciência de que se encontrava numa casa, com todas as persianas abertas.

 

Deu a volta à sala, fechando as persianas. Quando chegou à janela da frente, olhou para a rua. A luz dos candeeiros da rua permitiu-lhe ver um carro azul parado a poucos metros da sua casa.

 

Estavam dois homens lá dentro.

 

Podia ver-lhes os rostos claramente, através do pára-brisas. Os homens fitaram-na enquanto Casey permaneceu à janela.

 

Merda!

 

Encaminhou-se para a porta da frente, trancou-a e colocou a corrente de segurança. Ligou o alarme contra ladrões, com os dedos a tremer, desajeitados, enquanto carregava nas teclas para marcar o código. A seguir apagou as luzes da sala, comprimiu o corpo contra a parede e espreitou pela janela.

 

Os homens continuavam no carro, conversando. Enquanto os observava, um deles apontou para a casa.

 

Voltou à cozinha, remexeu na mala, encontrou o spray atordoante e soltou-lhe a patilha de segurança. Com a outra mão, pegou no telefone e levou-o até à sala. Sempre a vigiar os homens, ligou para a Polícia.

 

Polícia de Glendale.

 

Casey indicou o seu nome e endereço.

 

Estão dois homens num carro estacionado em frente à minha casa. Já lá estavam esta manhã e acabei de receber um telefonema ameaçador.

 

Muito bem, minha senhora. Está alguém consigo, em casa?

 

Não. Estou sozinha.

 

Muito bem. Feche a porta e ligue o alarme, se o tiver. Já vai um carro a caminho.

 

Despachem-se pediu Casey.

 

Lá fora, os homens saíam do carro... e avançavam para a casa.

 

Estavam vestidos casualmente, com camisas do tipo pólo e calças, mas tinham expressões sombrias e duras. Quando se aproximaram mais, separaram-se. Um dirigiu-se para o relvado e o outro encaminhou-se para as traseiras da casa. Casey sentiu o coração a saltar-lhe no peito. Teria fechado a porta das traseiras? Sem largar o spray atordoante, voltou à cozinha e apagou a luz. Passou pelo quarto e foi direita à porta das traseiras. Esprei tando pelo vidro da porta, viu o homem parado nas traseiras. Olhava em volta, cauteloso. A seguir virou-se para a porta. Casey agachou-se e colocou a corrente de segurança.

 

Ouviu o som de passadas suaves a aproximarem-se da casa. Olhou para a parede, logo por cima da sua cabeça. Tinha ali o teclado do alarme e um grande botão vermelho com as letras EMERGÊNCIA. Se lhe batesse, o alarme começaria a berrar. O homem fugiria? Não tinha a certeza. Onde estava a maldita polícia? Há quanto tempo lhes telefonara?

 

Apercebeu-se de que já não ouvia as passadas. Com cuidado, levantou a cabeça até poder espreitar pelo canto inferior do vidro. O homem avançava para o outro lado das traseiras, afastando-se, até desaparecer na es quina. Voltava para a rua.

 

Mantendo-se dobrada, Casey correu mais uma vez para a frente da casa, para a casa de jantar. O primeiro homem já não se encontrava no relvado. Entrou em pânico. Onde se metera ele? O segundo homem apareceu no relvado, olhou para a fachada da casa e regressou ao automóvel. Só então Casey viu que o primeiro homem já lá se encontrava, sentado no banco do passageiro. O segundo abriu a porta do carro e instalou-se ao volante. Instantes depois, um carro-patrulha da Polícia, pintado a preto e branco, parou por trás do automóvel azul: os dois homens pareceram surpreendidos mas não se mexeram. O carro da Polícia ligou um projector e um dos polícias saiu, avançando cautelosamente. Falou com os dois homens durante alguns momentos. Depois, os dois homens saíram do carro e o grupo, incluindo o polícia, avançou para a porta da casa.

 

Casey ouviu a campainha da porta e foi abrir. O jovem polícia perguntou:

 

Minha senhora, chama-se Singleton?

 

Sim.

 

Trabalha para a Norton Aircraft?

 

Trabalho, sim...

 

Estes cavalheiros são da segurança da Norton. Dizem que estão a guardá-la.

 

O quê! exclamou Casey, surpreendida.

 

Quer ver as credenciais?

 

Sim, se fazem favor.

 

O polícia acendeu uma lanterna enquanto os dois homens mostravam as carteiras. Casey reconheceu as credenciais dos Serviços de Segurança da Norton.

 

Lamentamos muito, minha senhora disse um dos homens. Pensávamos que sabia da nossa presença. Ordenaram-nos que passássemos pela sua casa pelo menos de hora a hora. Está tudo bem?

 

Sim respondeu, está tudo bem.

 

Precisa de mais alguma coisa, minha senhora? inquiriu o polícia. Casey sentia-se embaraçada. Murmurou agradecimentos e voltou para dentro de casa.

 

Certifique-se de que fecha bem a porta disse-lhe o polícia, num tom bem-educado.

 

Sim, também os tenho em frente da minha casa disse Kenny Burne. A Mary apanhou um susto quando os viu. Que diabo se passa? A negociação dos contratos de trabalho é só daqui a dois anos...

 

Vou telefonar ao Marder declarou Casey.

 

Estamos todos sob protecção afirmou Marder, pelo telefone. Se o sindicato ameaça alguém da nossa equipa, destacamos os guardas. Não te preocupes com isso.

 

Falaste com o Brull? perguntou Casey.

 

Sim, falei, mas vai ser preciso esperar algum tempo até que os esclarecimentos cheguem aos ouvidos de toda a gente. Até isso acontecer, toda a gente tem guardas.

 

Bom, está bem...

 

É apenas uma precaução acrescentou Marder. Nada mais.

 

Está bem.

 

Vai dormir disse Marder, desligando.

 

         TERÇA-FEIRA

         GLENDALE

 

Acordou inquieta, ainda antes do toque do despertador. Enfiou um roupão, foi à cozinha ligar a máquina do café e espreitou pela janela da frente. O carro azul continuava parado na rua, com os homens lá dentro. Pensou em fazer a sua habitual corrida de oito quilómetros. Precisava daquele exercício para começar o dia, mas concluiu que era melhor desistir. Sabia que não deveria sentir-se intimidada... mas não valia a pena correr riscos.

 

Serviu-se de uma chávena de café e sentou-se na sala. Naquele dia, tudo lhe parecia diferente. Ontem, o seu bangaló parecera-lhe confortável. Hoje, era pequeno, sem defesa e isolado. Ainda bem que Allison fora passar aquela semana com Jim.

 

No passado, Casey já sobrevivera a outros períodos de tensão laboral. Sabia que, em geral, as ameaças eram vãs. Contudo, as cautelas eram sensatas. Uma das primeiras lições que Casey aprendera na Norton fora a de que as salas de montagem eram um mundo duro, ainda mais duro do que o das linhas de montagem da Ford. A Norton era um dos poucos sítios onde um indivíduo acabado de sair do liceu e sem qualificações profissionais conseguia ganhar oitenta mil dólares por ano, com as horas extraordinárias Os empregos daquele tipo eram escassos e tornavam-se cada vez mais raros. A competição para os conseguir e para os conservar era feroz. Se os membros do sindicato pensavam que o negócio com a China iria custar postos de trabalho, poderiam muito bem agir com violência para o impedir.

 

Deixou-se ficar sentada, com o café no colo, e compreendeu que estava com receio de ir para a fábrica. Contudo, tinha de ir, é claro. Casey pousou a chávena e dirigiu-se ao quarto, para se vestir.

 

Quando saiu e se meteu no Mustang, viu um segundo carro a parar por trás do primeiro. Guiou ao longo da rua e o primeiro carro arrancou, seguindo-a.

 

Portanto, Marder mandara-lhe dois grupos de guardas. Um para vigiar a casa e outro para a seguir.

 

As coisas deviam estar piores do que pensara.

 

Penetrou nos terrenos da fábrica com um invulgar sentimento de inquietação. O primeiro turno já se iniciara. Os parques de estacionamento estavam cheios com quilómetros e quilómetros de automóveis. O carro azul manteve-se atrás dela quando Casey parou junto dos guardas do Portão 7. O guarda fez um gesto, dizendo-lhe para avançar e permitiu que o carro azul, talvez graças a um qualquer sinal invisível, a seguisse sem ter de parar na barreira. O carro azul seguiu-a até Casey estacionar o Mustang no espaço que lhe estava reservado junto ao edifício da administração.

 

Saiu do carro. Um dos homens espreitou pela janela e disse:

 

Tenha um bom dia, minha senhora.

 

Obrigada, farei por isso respondeu.

 

O guarda acenou e o carro azul afastou-se. Casey olhou em volta, para os enormes edifícios cinzentos. O Edifício 64 ficava para sul. O 57 para leste, onde construíam os twinjets. O Edifício 121 era o da pintura da aviões. Os hangares de manutenção formavam uma fila, para oeste, agora iluminados pelo Sol que se erguia sobre as montanhas San Fernando. Era uma paisagem familiar. Passara ali cinco anos. Todavia, hoje, estava incomodamente consciente das suas vastas dimensões e do vazio que a rodeava àquela hora da manhã. Viu duas secretárias a caminhar para o edifício da administração. Mais ninguém. Sentiu-se só.

 

Encolheu os ombros, sacudindo os receios. Estava a ser tola, disse para si mesma. Tinha de ir trabalhar.

 

         NORTON AIRCRAFT

         6:34

 

Rob Wong, o jovem programador dos Sistemas de Informação Digital da Norton, desviou os olhos dos monitores de vídeo.

 

Lamento muito, Casey disse ele. Temos o registo dos dados de voo... mas há um problema.

 

- Não me digas... comentou Casey, suspirando.

 

É verdade, há um problema.

 

Não ficava surpreendida com a novidade. Os registos de dados de voo raramente funcionavam bem. Nos meios de comunicação, esses falhanços eram explicados como sendo devidos ao impacte aquando dos acidentes. Se um avião embatia no solo a novecentos quilómetros por hora, parecia razoável que um gravador pudesse não ficar em condições de funcionar.

 

Porém, no interior da indústria da aeronáutica, os pontos de vista eram diferentes. Toda a gente sabia que os gravadores de dados de voo falhavam constantemente, mesmo quando o avião não caía. O motivo estava no facto de a FAA não exigir que o dispositivo fosse verificado antes de cada voo. Na prática, a sua funcionalidade só era confirmada cerca de uma vez por ano. As consequências eram previsíveis: as chamadas caixas negras raramente funcionavam.

 

Todos se encontravam a par do problema: a FAA, a NTSB, as companhias aéreas e os fabricantes. Alguns anos antes, a Norton efectuara um estudo, que incluíra uma investigação, por amostragem, aos DFDRs em serviço. Casey pertencera à comissão que fizera esse estudo, e tinham concluído que apenas um em cada seis aparelhos funcionava correctamente.

 

A razão por que a FAA tornara obrigatória a instalação dos FDRs sem exigir que estivessem funcionais antes de cada voo era motivo para discussões nocturnas até às tantas da madrugada, em todos os bares ligados ao pessoal da aeronáutica, deste Seattle a Long Beach. A opinião mais cínica era a de que o mau funcionamento dos FDRs era conveniente para toda a gente. Numa nação repleta de advogados raivosos e com uma imprensa sensacionalista, a indústria não via grandes vantagens em dispor de um registo objectivo e de confiança de tudo o que acontecera de errado num avião.

 

Fazemos o melhor que podemos, Casey disse Rob Wong, mas o registo de voo tem anomalias.

 

Que quer isso dizer?

 

Aparentemente, o circuito número três rebentou cerca de vinte horas antes do incidente, pelo que se perderam os frames de sincronização nos dados subsequentes.

 

Os frames de sincronização?

 

Sim. Sabes, os FDRs registam todos os parâmetros em rotação, em blocos de dados denominados frames. Tens uma leitura para, digamos... a velocidade do ar, e depois tens outra semelhante quatro blocos mais tarde. Todavia, as leituras de velocidade do ar deviam ser contínuas em todos os frames. Se assim não acontece, isso quer dizer que os frames não estão sincronizados e não podemos reconstituir o voo. Vou mostrar-te...

 

Virou-se para o monitor e carregou nalgumas teclas.

 

Normalmente continuou, podemos extrair os dados e gerar uma imagem do avião num sistema com três eixos. Pronto, aqui está ele preparado para partir...

 

No ecrã surgiu a imagem estrutural de um N-22 da Norton. Enquanto Casey a observava, os espaços encheram-se, até a imagem tomar a aparência de um verdadeiro avião em voo.

 

Muito bem disse Rob, agora vamos fornecer-lhe os dados do teu registo...

 

O avião pareceu ondular. Desapareceu do ecrã, para voltar a aparecer. Desapareceu novamente e quando reapareceu tinha a asa esquerda separada da fuselagem. A asa inclinou-se noventa graus enquanto o avião rolava para a direita. A seguir, a cauda desapareceu. Todo o aparelho se apagou voltou a surgir e a apagar-se...

 

Vês, o computador tenta desenhar o avião explicou, mas encontra descontínuidades: os dados correspondentes às asas não coincidem com os da fuselagem, e estes não coincidem com os da cauda. Por isso, a imagem quebra-se.

 

Que fazemos agora? perguntou Casey.

 

Temos de sincronizar os frames, mas isso vai levar tempo.

 

Quanto tempo? O Marder não me larga...

 

Pode ser demorado, Casey. Os dados estão em mau estado. Então í o QAR?

 

Não existia.

 

Bom, se estás realmente apertada, posso levar estes dados aos tipos das simulações de voo, que dispõem de alguns programas muito sofisticados. Talvez consiga preencher os vazios mais depressa, para saberes o que se passou.

 

Rob...

 

Com este tipo de dados... não posso fazer promessas, Casey. La mento muito.

 

         EDIFÍCIO 64

         6:50

 

Casey encontrou Richman no exterior do Edifício 64. Caminharam juntos para a entrada, sob a luz do princípio da manhã. Richman bocejou.

 

Estiveste nas vendas, não foi?

 

É verdade confirmou Richman. Nunca tínhamos de nos levantar tão cedo.

 

Qual era o teu trabalho?

 

Pouca coisa respondeu. O Edgarton pôs todo o departamento a trabalhar na venda à China. Era tudo muito secreto, não admitiam estranhos. Entretiveram-me com alguns trabalhinhos legais referentes às negociações ibéricas.

 

Viajaste?

 

Apenas viagens pessoais retorquiu, com um sorriso afectado.

 

Como assim? inquiriu Casey.

 

Bom, como a secção de vendas não tinha nada para me dar, fui esquiar.

 

Parece interessante. Onde foste?

 

Também faz esqui? inquiriu Richman. Pessoalmente, penso que o melhor lugar para esquiar, para além de Gstaad, é Sun Valley. É o meu sítio favorito... quando tenho de esquiar nos Estados Unidos.

 

Casey compreendeu que o jovem não respondera à pergunta. Por essa altura já haviam passado pela porta lateral do Edifício 64. Casey notou que os trabalhadores se mostravam abertamente hostis e que a atmosfera era fria.

 

Que se passa? perguntou Richman. Estão com algum ataque de raiva?

 

O sindicato pensa que estamos a trocá-los pela China.

 

A trocá-los? Como?

 

Acham que a direcção vai entregar o fabrico das asas a Xangai. Perguntei ao Marder e ele disse-me que não.

 

Soou um apito, que ecoou por todo o edifício. Mesmo por cima deles, a gigantesca grua amarela ganhou vida, e Casey viu o primeiro grande caixote contendo as ferramentas para a asa a erguer-se metro e meio, suspenso por grossos cabos. O caixote era feito de contraplacado reforçado, tão grande como uma casa, e muito provavelmente pesava à volta de cinco toneladas. Uma dúzia de operários caminhava ao lado do caixote, como se transportassem um caixão, estabilizando a carga enquanto este avançava para uma das portas laterais, em direcção ao camião que a aguardava.

 

Se o Marder diz que não continuou Richman, então qual é o problema?

 

O pessoal não acredita.

 

Ah, sim? Porquê?

 

Casey lançou uma olhadela para a esquerda, onde outras ferramentas eram embaladas para transporte. As enormes peças azuis começavam por ser envoltas em espuma, eram amarradas internamente e só depois encaixotadas. Casey sabia que todas aquelas protecções eram essenciais, isto porque as ferramentas eram calibradas ao milésimo de centímetro, no obstante terem seis metros de comprimento. Transportá-las era, só por si uma verdadeira arte. Voltou a olhar para o caixote em movimento na grua.

 

Os homens que se encontravam por baixo dele tinham desaparecido. O caixote ainda se movia lateralmente, a dez metros do local onde se encontravam.

 

Oh, oh! fez Casey.

 

O que é? perguntou Richman. Casey já estava a empurrá-lo.

 

Foge! gritou-lhe, atirando Richman para a direita, para o abrigo de um andaime que sustentava uma fuselagem parcialmente montada.

 

Richman resistiu. Parecia não compreender que...

 

Corre! gritou Casey. Vai cair!

 

Richman correu. Por trás dela, Casey ouviu os estalos de contraplacado a ceder e uma vibração metálica quando o primeiro cabo se partiu e o gigantesco caixote começou a soltar-se dos outros cabos. Tinham acabado de chegar ao andaime da fuselagem quando novo cabo rebentou e o caixote se esmagou no chão de cimento. As lascas de contraplacado explodiram em todas as direcções, zumbindo no ar. Seguiu-se tremendo estrondo quando o caixote tombou sobre um dos lados. O som ficou a ecoar no edífício.

 

Jesus Cristo! exclamou Richman, virando-se para Casey. O que foi aquilo?

 

Aquilo... foi o que designamos por um acto de sabotagem. Viam-se homens a correr, embora não passassem de formas enevoadas

 

no meio da poeira que se levantara. Ouviam-se gritos e pedidos de ajuda. O alarme médico soou, retinindo pelo edifício. Do outro lado do mesmo, Casey avistou Doug Doherty, abanando a cabeça com tristeza.

 

Richman olhou por cima do ombro e puxou uma lasca de contraplacado com vinte centímetros que se lhe espetara nas costas do casaco.

 

Céus... murmurou. Despiu o casaco e inspeccionou o rasgão, metendo um dedo pelo buraco.

 

Foi um aviso afirmou Casey. Para além disso, deram cabo da ferramenta, que agora terá de ser desembalada e reconstruída. Serão semanas de atraso.

 

Os supervisores, com as suas camisas brancas e gravatas, corriam para os homens amontoados em volta do caixote caído.

 

Que vai acontecer agora? perguntou Richman.

 

Vão tomar nota de nomes e berrar... mas não servirá de nada Amanhã, haverá um novo incidente. Não temos maneira de o evitar.

 

Foi apenas um aviso? Richman voltou a vestir o casaco.

 

Sim, à IRT explicou Casey. Tratou-se de um sinal muito claro, Tenham cuidado com as vossas costas e cabeças. Vão cair ferramentas e verificar-se-á todo o tipo de acidentes sempre que nos virem aqui. Precisamos de ter cuidado.

 

Dois operários separaram-se do grupo em volta do caixote e começaram a avançar para Casey. Um dos homens era encorpado, usava calças de ganga e uma camisa vermelha aos quadrados. O outro era mais alto e usava um boné de basquetebol. O homem da camisa de trabalho empunhava uma barra de aço que fazia oscilar de um lado para o outro.

 

Ah, Casey...? murmurou Richman.

 

Estou a vê-los respondeu. Não iria deixar-se intimidar por um par de rufiões.

 

Os homens continuaram a avançar para ela. De súbito, apareceu na frente deles um supervisor com uma prancheta com um bloco de notas, que exigiu que mostrassem as identificações. Os homens pararam, olhando para Casey por cima da cabeça do supervisor enquanto falavam com ele.

 

Não nos darão mais problemas disse Casey. Daqui a uma hora, já cá não estarão. Regressou ao andaime e pegou na pasta. Vamos, estamos atrasados.

 

         EDIFÍCIO 64 IRT

         7:00

 

As cadeiras arrastaram-se pelo chão quando toda a gente se aproximou da mesa de formica.

 

Muito bem declarou Marder, vamos começar. O sindicato deu início a um certo número de acções destinadas a atrasar esta investigação. Não se preocupem com isso. Mantenham-se focados no problema. Primeira questão: os dados meteorológicos.

 

A secretária entregou folhas de papel a todos os que estavam presentes na sala. Era um relatório do Centro de Controlo de Tráfego Aéreo de Los Angeles, num impresso encabeçado pelas palavras "Administração Federal da Aviação/RELATÓRio SOBRE ACIDENTE COM AVIÃO".

 

Casey leu:

 

     DADOS METEOROLÓGICOS

     CONDIÇÕES NA ÁREA DO ACIDENTE

     NO MOMENTO DO ACIDENTE

 

O voo JAL054, um B747IR seguia 15 minutos à frente do TPA545 e na mesma rota, 300 metros acima. O JAL054 não apresentou qualquer relatório sobre turbulências.

 

     RELATÓRIO MOMENTOS ANTES DO ACIDENTE

 

O voo UAL829, um B747IR comunicou turbulência moderada na posição FIR 40.00 Norte/165 Este em FL350, 120 milhas a norte e 14 minutos à frente do TPA545. O UAL829 não assinalou nenhuma outra turbulência.

 

     PRIMEIRO RELATÓRIO SUBSEQUENTE AO ACIDENTE

 

O voo AAL722 assinalou turbulências ligeiras e contínuas a 39 Norte/170 Leste em FL350. O AAL722 encontrava-se na mesma rota,

600 metros mais abaixo e 29 minutos atrás do TPA545. O AAL722 não assinalou nenhuma outra turbulência.

 

Ainda estamos à espera dos dados dos satélites, mas creio que as provas falam por si. Os três aparelhos que se encontravam mais perto do da Transpacific em relação ao momento e ao local comunicaram apenas turbulências muito ligeiras. Portanto, excluo a turbulência como causa para este acidente.

 

Viram-se acenos em volta da mesa. Ninguém discordava.

 

Há mais alguma coisa a acrescentar? perguntou Marder.

 

Sim afirmou Casey. Todos os entrevistados, entre passageiros e tripulantes, concordam que o aviso para apertar os cintos nunca esteve ligado.

 

Muito bem. Então, as condições climatéricas estão eliminadas O que aconteceu ao avião não se deveu a turbulência. Registo de voo'

 

Os dados fornecidos são anómalos declarou Casey. Já estão a ser trabalhados.

 

Inspecção visual ao avião?

 

O interior ficou seriamente danificado disse Doherty, mas o exterior está em perfeitas condições.

 

Bordo de ataque?

 

Nenhum problema visível. O avião irá chegar aqui ainda hoje e investigarei as calhas e os trincos. Até agora... nada.

 

Testaram as superfícies de controlo?

 

Nenhum problema.

 

Instrumentação?

 

Impecável.

 

Quantos testes fizeram?

 

Depois de a Casey nos comunicar a história contada por uma passageira, fizemos dez testes consecutivos, tentando encontrar uma discordância. Estava tudo normal.

 

Qual história? A Casey? Conseguiste alguma coisa com as entrevistas?

 

Sim, uma passageira comunicou ter ouvido um ligeiro rumor vindo da asa, que terá durado entre dez a doze segundos...

 

Merda! exclamou Marder.

 

... logo seguido por uma subida abrupta, e por uma descida...

 

Maldição!

 

...e por violentos movimentos para cima e para baixo...

 

Estás a dizer-me que são outra vez os slats? perguntou Marder, fitando-a. Continuamos a ter um problema de slats neste avião?

 

Não sei respondeu Casey. Uma das hospedeiras de voo afirmou que o comandante lhe dissera que tinham sofrido saída extemporânea de slats, e que também tivera problemas com o piloto automático...

 

Jesus Cristo! Problemas com o piloto automático?!

 

Que se lixe o comandante exclamou Burne. Esse tipo muda de história de cinco em cinco minutos. Diz ao Controlo de Tráfego que se tratou de turbulência, diz à hospedeira que foram os slats. Neste momento... aposto que está a contar uma história inteiramente diferente à transportadora. Só temos uma certeza: não sabemos o que se passou naquela cabina.

 

Trata-se obviamente de um problema de slats afirmou Marder.

 

Não é assim tão óbvio interveio Burne. A passageira com quem a Casey falou afirmou que o som tinha vindo da asa ou dos motores, não é verdade?

 

Certo disse Casey.

 

Porém, quando olhou para a asa, não viu os slats saídos. Se isso tivesse acontecido, devia tê-los visto.

 

Também é verdade confirmou Casey.

 

Por outro lado, não podia ver os motores, por estarem escondidos pela asa. É possível que os inversores tivessem funcionado continuou Burne. À velocidade de cruzeiro, teriam provocado um rumor muito definido, seguido por uma súbita diminuição da velocidade do ar e talvez por oscilações. O piloto assustou-se, tentou compensar, fê-lo demasiado... e pronto!

 

Há alguma confirmação de que isso tenha acontecido? perguntou Marder. Mangas danificadas? Abrasões invulgares?

 

Foi uma das coisas que examinámos, ontem... disse Burne, mas não vimos nada. Faremos análises por ultra-sons e por raios X. Se houver alguma coisa, acabaremos por a descobrir.

 

Muito bem prosseguiu Marder. Portanto, estamos a lidar con os slats e inversores e precisamos de mais dados. E quanto aos NVMs, Ron? As falhas sugerem alguma coisa?

 

Viraram-se para Ron Smith. Vendo-se sob todos aqueles olhares, Róm encolheu-se, como se quisesse fazer desaparecer a cabeça entre os ombros. Pigarreou para limpar a garganta.

 

Então? insistiu Marder.

 

Bom... pois é, John... Temos uma indicação de slats nos dados retirados do FDAU.

 

Portanto, sempre é verdade que os slats saíram.

 

Bom, na realidade...

 

O avião começou aos saltos, sacudiu os passageiros e matou três É isso o que estás a dizer-me?

 

Ninguém se manifestou.

 

Jesus! exclamou Marder. Que se passa convosco, pessoal? Esse problema deveria estar resolvido há anos! Dizem-me que não está?

 

O grupo ficou em silêncio e olhou para o tampo da mesa, embaraçado e intimidado com a fúria do homem.

 

Maldição! explodiu Marder.

 

John, é melhor não nos deixarmos levar pela excitação disse Trung, o chefe da aviónica, falando num tom tranquilo. Estamos a es quecer um factor muito importante: o piloto automático.

 

Verificou-se um prolongado silêncio. Marder fitou-o, furioso.

 

Que há quanto a isso? inquiriu, ríspido.

 

Mesmo que os slats saíssem em pleno voo disse Trung, o piloto automático manteria uma estabilidade perfeita. Está programado para compensar erros desse tipo. Os slats saem, o piloto automático faz a compensação, o comandante vê o sinal de aviso e recolhe-os. Entretanto, o avião prossegue o seu voo sem problemas.

 

Talvez ficasse sem piloto automático.

 

Pode ser, mas... porquê?

 

Talvez o teu piloto automático não esteja em condições retorquiu Marder. Pode existir um erro no programa.

 

Trung exibiu uma expressão de cepticismo.

 

Já tem acontecido insistiu Marder. Houve um problema como! piloto automático num voo da US Air em Charlotte, no ano passado. O avião começou a rolar sem controlo.

 

É verdade confirmou Trung, mas isso não foi por causa de um erro no programa. Os tipos de manutenção retiraram o computador para o repararem. Quando voltaram a colocá-lo no seu lugar, não o empurraram o suficiente para que os pinos de ligação ficassem bem encaixados. As ligações eléctricas tornaram-se intermitentes, mais nada...

 

Porém, a hospedeira do voo cinco quatro cinco afirmou que o comandante teve de lutar com o piloto automático para conseguir controlar o avião.

 

Tal como seria de esperar... afirmou Trung. Logo que o avião' exceda os parâmetros de voo previstos, o piloto automático tenta tomar o comando de um modo activo. Observa um comportamento errático e parte do princípio de que não há ninguém nos comandos.

 

Há indicações nesse sentido, no registo de falhas?

 

Sim. Indicam que o piloto automático tentou intervir de três em três segundos. Pressuponho que o piloto procurou sobrepor-se, insistindo em dominar ele mesmo o avião.

 

Mas... tratava-se de um comandante com grande experiência...

 

É por isso que penso que o Kenny tem razão retorquiu Trung. Não fazemos ideia sobre o que se passou naquela cabina.

 

Viraram-se todos para Mike Lee, o representante da transportadora.

 

Então, Mike? perguntou Marder. Conseguimos uma entrevista com o comandante, ou não?

 

Sabem... suspirou Lee, filosófico. Já passei muito tempo em reuniões deste género... e a tendência é sempre a de atirar as culpas para o homem que não está presente. Faz parte da natureza humana. Já vos expliquei por que motivo a tripulação abandonou o país. Os vossos próprios registos confirmam que se trata de um piloto de grande nível. É possível que tenha cometido um erro... mas dada a história de problemas com este avião... de problemas com os slats, eu começaria por examinar o aparelho. Examinava-o muito a sério...

 

É o que faremos disse Marder. Claro que sim, mas...

 

Não haverá vantagens para ninguém... prosseguiu Lee em começarmos a assacar responsabilidades. Vocês estão preocupados com o vosso acordo com Pequim. No entanto, devo recordar-lhes que a TransPacific também é um bom cliente da vossa companhia. Já comprámos dez aviões e seguir-se-ão mais doze. Estamos a expandir as nossas rotas e a negociar um acordo com uma transportadora doméstica. Neste momento, não estamos interessados em maus comentários por parte da imprensa, comentários que também não seriam bons nem para os aviões que vos compramos, nem para os nossos pilotos. Espero ter sido claro.

 

Claro como um sino afirmou Marder. Eu próprio não o teria dito melhor. Rapazes, já têm as vossas ordens de marcha. Ao trabalho. Quero respostas.

 

         EDIFÍCIO 202

         7:59

 

O voo cinco quatro cinco? respondeu Felix Wallerstein. É muito estranho. É na verdade muito estranho. Wallerstein era um homem de Munique, elegante e de cabelos prateados. Dirigia os simuladores de voo e o programa de treino de pilotos da Norton com uma eficiência alemã.

 

Porque dizes que é estranho? perguntou Casey.

 

Porque sim! retorquiu, encolhendo os ombros. Como podia aquilo ter acontecido? Não me parece possível.

 

Caminhava através da grande sala principal do Edifício 202. Os dois simuladores de voo, um para cada modelo de avião em serviço, erguiam-se por cima deles. Pareciam-se com narizes de aviões, truncados, sustentados por uma confusão de sistemas hidráulicos.

 

Conseguiste extrair dados do registo de voo? O Rob disse-me que vocês talvez os conseguissem ler.

 

Tentei... mas sem êxito. Hesito em dizer que são inúteis, mas... E quanto ao QAR?

 

Não havia QAR, Felix.

 

Ah! fez Wallerstein, com um suspiro. Aproximavam-se dos painéis de comando, formados por toda uma série de monitores de vídeo e de teclados, instalados num dos lados do edifício. Era ali que os instrutores se sentavam enquanto os pilotos eram treinados nos simuladores. Naquele momento, estavam ambos a ser utilizados.

 

Felix disse Casey, estamos preocupados com a possibilidade de os slats terem saído durante o voo... ou talvez se verificasse uma selecção dos inversores.

 

Sim? retorquiu Felix. Então porquê?

 

Já tivemos outros problemas com os slats...

 

Pois sim, Casey, mas foram resolvidos há muito tempo. Para além disso, os slats não explicam um acidente tão grave. Um acidente em que morrem pessoas? Nunca! Não foram os slats, Casey.

 

Tens a certeza?

 

Absoluta. Olha, vou mostrar-te. Virou-se para um dos instrutores instalados no painel de comandos. Quem está a voar no N-Vintet Dois?

 

O Ingram, um comandante da Northwest.

 

É bom?

 

Médio. Tem cerca de trinta horas.

 

Casey olhou para o monitor do circuito fechado de televisão e viu um homem a meio da casa dos trinta anos sentado no lugar do piloto, no simulador.

 

Onde é que se encontra neste momento? perguntou Felix.

 

Hum, deixe-me ver... respondeu o instrutor, consultando os seus instrumentos. Vai a meio do Atlântico, a uma altitude de três-trinta, a zero ponto oito.

 

Óptimo comentou Felix. Portanto, encontra-se a trinta e três mil pés de altitude, ou nove mil e novecentos metros, e voa a oitenta por cento da velocidade do som. Já voa há algum tempo e tudo corre bem. Está descontraído e talvez um pouco preguiçoso...

 

Sim, senhor.

 

Perfeito. Faz sair os slats a Mister Ingram.

 

O instrutor estendeu a mão e carregou num botão. Felix virou-se para Casey.

 

Agora, observa com atenção.

 

No monitor, o piloto continuava com uma expressão descontraída. Porém, alguns segundos depois, inclinou-se para a frente, repentinamente alertado, fazendo uma careta para os instrumentos.

 

Felix apontou para os comandos na frente do instrutor e para os monitores.

 

É ali que podes ver o que lhe chamou a atenção. O indicador de slats acendeu-se no seu monitor de gestão de voo. Já deu por isso. Como vês, o avião sobe ligeiramente...

 

Os sistemas hidráulicos zumbiram e o grande cone do simulador inclinou-se para o alto, apenas alguns graus.

 

Mister Ingram começa por verificar o manípulo dos slats, tal como se esperava que fizesse. Descobre que está travado, o que é estranho e significa que tem uma saída extemporânea de slats...

 

O simulador continuava inclinado para o alto.

 

Por isso, Mister Ingram pensa no assunto... Tem muito tempo para decidir o que deve fazer. O avião está em piloto automático e permanece estável. Vejamos qual é a sua decisão. Ah, decide experimentar os comandos... Puxa o manípulo dos slats para baixo... e de novo para cima, para tentar apagar a luz de aviso. Não resulta. Compreende que tem um problema com os sistemas do seu avião mas mantém-se calmo. Continua a pensar... Que poderá fazer? Olha, modifica os parâmetros do piloto automático... passa para uma altitude inferior e reduz a velocidade do ar... Absolutamente correcto... O nariz do avião ainda está apontado para cima, mas as condições de altitude e velocidade são agora mais favoráveis. Decide voltar a experimentar os slats...

 

Livramo-lo deste problema? perguntou o instrutor.

 

Porque não? retorquiu Felix. A nossa demonstração já está feita...

 

O instrutor carregou num botão. O simulador endireitou-se.

 

Pronto disse Felix. Mister Ingram voltou a um voo normal. Toma nota do problema para informar o pessoal da manutenção e prossegue o percurso para Londres.

 

Sim, mas sempre com o piloto automático comentou Felix. Se o tivesse desligado?

 

Para que haveria de fazer isso? O voo é normal, o piloto automático controla o aparelho há pelo menos meia hora...

 

Sim, mas se o fizesse?

 

Felix encolheu os ombros e virou-se para o instrutor.

 

Provoca-lhe uma falha no piloto automático.

 

Sim, senhor.

 

Soou um sinal de alarme, perfeitamente audível. No monitor, viram o piloto olhar para os instrumentos e agarrar a manche. O alarme calou-se e a cabina ficou silenciosa. O piloto mantinha-se agarrado à manche.

 

Está a voar manualmente? perguntou Felix.

 

Sim, senhor respondeu o instrutor. Voa a oito mil e setecentos metros, setenta por cento da velocidade do som, sem piloto automático.

 

Muito bem, acciona os slats.

 

O instrutor voltou a carregar num botão.

 

No monitor do painel de instrumentos, o aviso de slats acendeu-se, primeiro num tom alaranjado e depois branco. Casey olhou para o monitor ao lado e viu o piloto inclinar-se para a frente. Vira o sinal de aviso na cabina.

 

Aí tens explicou Felix. O avião está novamente com o nariz para cima... mas agora terá de ser Mister Ingram a controlá-lo... Por isso puxa a manche para si, muito levemente, com toda a delicadeza... Ópti mo, já o estabilizou... Estás a ver? inquiriu, virando-se para Casey i encolhendo os ombros. É intrigante. O que aconteceu no voo da Trans Pacific nada teve a ver com os slats... nem com os motores. O piloto automático compensaria e manteria o controlo. O que se passou com este avião é um mistério... e sou eu quem to diz, Casey.

 

De volta à luz do Sol, Felix caminhou para o seu jipe, que tinha uma prancha de surf presa sobre a capota.

 

Tenho uma nova prancha Henley disse. Queres vê-la?

 

Felix retorquiu Casey, o Marder começa a ficar histérico.

 

E então? Deixa-o ficar. Ele até gosta.

 

Que achas que aconteceu ao cinco quatro cinco?

 

Bom... sejamos francos... As características de voo do N-Vintet Dois são tais que se os slats saírem em pleno voo e o comandante desligar o piloto automático, o avião torna-se muito sensível. Sabes bem disso, Casey. Fizeste um estudo a esse respeito, há três anos, depois do ajuste final nos slats.

 

É verdade confirmou Casey, recordando-se. Organizámos uma equipa especial para rever a estabilidade de voo do N-Vinte e Dois, mas concluímos que não existia nenhum problema nesse campo, Felix.

 

E concluíram bem afirmou Felix. Não há nenhum problema. Todos os aviões modernos mantêm a estabilidade em voo graças aos computadores. Um caça a jacto nem sequer poderia voar sem os computadores. Os caças são inerentemente instáveis. Os aparelhos comerciais são menos sensíveis, mas, mesmo assim, os computadores regulam o combustível, ajustam a atitude e a potência dos motores. Executam continuamente pequenos ajustes para que o avião se mantenha estável. Sim, mas também podem ser pilotados sem o piloto automático!

 

Absolutamente confirmou Felix, e treinamos os nossos pilotos para essa contingência. Quando o nariz sobe, e uma vez que o avião é muito sensível, o piloto deve fazê-lo baixar com muita suavidade. Se exagerar a correcção, o nariz desce. Nesse caso terá de o fazer subir, também com todo o cuidado. Se exagerar, o avião voltará a subir... Parece ter sido o que aconteceu com o voo da Transpacific...

 

Então, estás a dizer que foi um erro do piloto.

 

Normalmente, pensaria que sim... excepto que, neste caso, o piloto era o John Chang.

 

É um bom piloto?

 

Não declarou Felix. O John Chang é um piloto soberbo.

 

Passam por aqui muitos, e alguns deles são verdadeiramente dotados. Não se trata apenas de reflexos rápidos, conhecimentos e experiência. É mais do que isso. É uma espécie de instinto. O John Chang é um dos cinco ou seis melhores comandantes que jamais treinei para esse tipo de avião, Casey. Por isso, seja o que for que aconteceu ao voo cinco quatro cinco, não foi erro do piloto. Nunca, com o John Chang sentado na cadeira. Lamento, Casey, mas tem de ser um problema do avião. Tem de ser o avião.

 

         HANGAR 5

         9:15

 

Avançavam através do parque de estacionamento, com Casey perdida em pensamentos.

 

Então... disse Richman, de repente. A que conclusão chegamos?

 

A nenhuma.

 

Por muito que juntasse as provas de que dispunha, era sempre essa a conclusão a que chegava. Ainda não havia nada de sólido. O piloto dissera que fora turbulência, mas não fora. Uma passageira contara uma história consistente com uma saída de slats, mas esta não explicava as terríveis con sequências para os passageiros. A hospedeira dissera que o comandante lutara contra o piloto automático, mas Trung afirmava que só um piloto incompetente o faria. Felix declarara que o comandante em causa era soberbo.

 

Nada.

 

Não tinham por onde começar.

 

A seu lado, Richman continuava a andar, em silêncio. Mantivera-se ca lado durante toda a manhã. Era como se o enigma do voo 545, que tanto o interessara no dia anterior, fosse agora demasiado complexo.

 

Contudo, Casey não se sentia desencorajada. Para ela, não constituira nenhuma surpresa que as primeiras provas parecessem em discordância, is to porque era muito raro que os acidentes aéreos fossem causados por um único acontecimento ou erro. À equipa IRT esperava sempre depararem -se-lhe acontecimentos em cascata, com cada um deles a dar origem a ou tros, e estes a mais outros. No fim, a história definitiva seria muito com plexa. Um sistema falhara, o piloto reagira, o avião respondera de uma maneira inesperada... e metera-se em problemas.

 

Os acontecimentos eram sempre em cascata.

 

Uma longa cadeia de pequenos erros e infortúnios.

 

Ouviu o zumbido de um jacto. Olhou para cima e viu a grande fuselagem de um N-22 recortada contra o Sol. Quando passou por cima dela avistou a insígnia amarela da Transpacific pintada na cauda. Era o avião vindo de Los Angeles. O grande jacto pousou com suavidade, com as rodas a lançarem baforadas de fumo, e dirigiu-se para o Hangar de Manutenção.

 

O seu pager tocou e Casey retirou-o do cinto.

 

         EDIFÍCIO 64 IRT

         9:20

 

"Isto foi o que se passou há momentos no Aeroporto Internacional de Miami quando um avião da Sunstar Airlines se incendiou depois de o motor esquerdo de estibordo ter explodido sem aviso, salpicando a pista cheia de gente com uma saraivada de mortíferas peças de metal."

 

Ah, vão-se lixar gritou Kenny Burne. Quando Casey entrou na sala, depararam-se-lhe meia dúzia de engenheiros amontoados em volta do televisor, impedindo-lhe a visão.

 

"Miraculosamente, nenhum dos duzentos e setenta passageiros a bordo ficou ferido. O N-Vinte e Dois preparava-se para a descolagem quando os passageiros repararam em nuvens de fumo negro a sair do motor. Segundos depois, o avião foi abalado pela explosão do motor esquerdo de estibordo, que se desfez em pedaços e que foi rapidamente envolvido pelas chamas."

 

O ecrã não mostrava nada daquilo. Via-se apenas um N-22 a uma certa distância, com um denso fumo negro a aparecer debaixo de uma asa.

 

Motor esquerdo de estibordo... rosnou Burne. Em oposição a motor direito de estibordo, sua burra?

 

Agora, o televisor mostrava grandes planos dos passageiros que andavam de um lado para o outro no terminal. Um garoto de sete ou oito anos disse: "Toda a gente ficou excitada por causa do fumo." A imagem passou para uma rapariga adolescente que abanou a cabeça, atirando o cabelo para cima do ombro, e declarou: "Foi mesmo, mesmo assustador. Vi o fumo e foi mesmo assustador." A entrevistadora perguntou-lhe: "Quais foram os seus pensamentos quando ouviu a explosão?" "Foi mesmo assustador", disse a jovem. "Pensa que se tratou de uma bomba?" "Foi mesmo!", declarou a rapariga. "Uma bomba de terroristas."

 

Kenny Burne girou sobre os calcanhares e ergueu as mãos ao céu.

 

Vocês acreditam nesta merda? protestou. Estão a perguntar aos miúdos o que eles pensaram! Que diabo de noticiários! "Que foi que pensaste?" "Nada, engoli o chupa-chupa!" Aviões que matam... e passageiros que os adoram!

 

No ecrã, o programa de televisão mostrava uma mulher idosa que afirmava: "Sim, pensei que ia morrer. Claro que tinha de o pensar." Seguiu-se um homem de meia-idade: "A minha mulher e eu começámos a rezar. Toda a nossa família se ajoelhou na pista e agradeceu ao Senhor." "E tiveram medo?", insistiu a entrevistadora. "Pensámos que íamos morrer", disse o homem. "A cabina encheu-se de fumo... Foi um milagre termos escapado com vida."

 

Burne estava novamente aos berros.

 

Minha grande besta! Num carro, terias morrido! Num clube nocturno, terias morrido! Nunca num dos nossos aviões! Desenhámo-los para que pudesses escapar com a tua vidazinha de merda!

 

Acalma-te pediu Casey. Quero ouvir isto. Escutava atentamente, para ver até onde iria aquela história.

 

Uma bela mulher hispânica com um fato bege, de Armani, enfrentava a câmara com um microfone na mão. "Apesar dos passageiros parecerem estar agora a recuperar da provação, o seu destino foi bastante mais incerto algum tempo atrás, nesta mesma tarde, quando um N-Vinte e Dois Norton explodiu na pista, lançando grandes chamas alaranjadas para o céu..."

 

A televisão voltou a mostrar a mesma imagem, a grande distância, à um avião parado na pista com fumo a sair debaixo da asa. O fumo parecia tão perigoso como o que poderia sair de uma fogueira de acampamento meia apagada.

 

Eh, um momento! protestou Kenny. Um avião da Norton explodiu? O que explodiu foi a merda de um motor da Sunstar. Apontou para a imagem no televisor. A porcaria do rotor rebentou e os fragmentos das lâminas perfuraram a cobertura do motor... e foi precisamente o que eu lhes disse que iria acontecer!

 

Disseste-lhes? perguntou Casey.

 

Sim, claro que disse! retorquiu Kenny. Sei perfeitamente o que se está a passar. No ano passado, a Sunstar comprou seis motores AeroCivicas. Fui o consultor da Norton para esse negócio. Inspeccionei os motores e descobri-lhes uma montanha de deficiências, incluindo lâminas estaladas nos rotores. Disse à Sunstar para os rejeitar. Kenny agitava as mãos no ar. Porém, para quê perder uma pechincha? A Sunstar preferiu repará-los. Durante a desmontagem, deparou-se-nos imensa corrosão pelo que os documentos da manutenção no estrangeiro deviam ser falsos. Voltei a dizer-lhe: deitem-nos para o lixo. Não concordaram e montaram-nos nos aviões. Agora, rebentou um rotor... Olha que grande surpresa. Os fragmentos cortaram a asa e o fluido hidráulico não inflamável está a fumegar. Não há qualquer incêndio porque o fluido não arde. Achas que a culpa é nossa? Rodopiou e apontou para a televisão.

 

"... pregando um grande susto aos duzentos e setenta passageiros que se encontravam a bordo. Felizmente, não houve feridos..."

 

Claro que não! comentou Burne. Os fragmentos não penetraram na fuselagem e não feriram ninguém. Foi a asa, a nossa asa, que absorveu os impactes.

 

"... aguardamos uma oportunidade para conversar com os funcionários da companhia aérea a respeito desta assustadora tragédia. Passo-te a emissão Ed."

 

A imagem regressou ao estúdio, onde o elegante locutor respondeu

 

"Obrigado, Alicia, por esse relato em directo sobre o acontecimento da chocante explosão no aeroporto de Miami. Daremos mais pormenores à medida que forem surgindo. Agora, voltamos ao nosso programa habi tual..."

 

Casey suspirou, aliviada.

 

Nem acredito nesta merda! gritou Kenny Burne. Virou-se e saiu precipitadamente da sala, batendo com a porta.

 

Que se passa com ele? inquiriu Richman.

 

Uma vez sem exemplo... acho que tem razão respondeu Case; De facto, quando há um problema com os motores, a culpa não é da Norton...

 

Que quer dizer? Se foi ele o consultor...

 

Olha... interrompeu-o Casey. Tens de compreender uma coisa. Nós construímos aviões. Não construímos motores nem os reparamos. Não temos nada a ver com motores.

 

Nada. Então como...?

 

Os motores são fornecidos por outras companhias, como a GE, a Pratt e Whitney, a Rolls-Royce. Contudo, os jornalistas nunca compreenderam essa distinção.

 

Parece-me um preciosismo... disse Richman, com uma expressão de cepticismo.

 

Não é nada disso. Se a electricidade falhar em tua casa, chamas a companhia do gás? Se te rebentar um pneu... atiras as culpas para o fabricante do carro?

 

Claro que não... mas neste caso o avião continua a ser vosso, incluindo os motores.

 

Não ripostou Casey. Construímos o avião e instalamos a marca de motor escolhida pelo cliente... tal como tu podes escolher entre várias marcas de pneus para equipar o teu carro. Todavia, se a Michelin produzir um lote de maus pneus e estes rebentarem, a culpa não é da Ford. Se permitires que os pneus fiquem carecas e tiveres um acidente, a culpa também não é da Ford. Connosco passa-se o mesmo.

 

Richman ainda não parecia convencido.

 

Tudo o que podemos fazer prosseguiu Casey é garantir que os nossos aviões voarão em segurança com os motores que instalamos. Todavia, não podemos obrigar as companhias a fazer a devida manutenção aos motores durante todo o tempo de vida do avião. É uma tarefa que não nos compete... e a compreensão do facto é fundamental para sabermos o que realmente aconteceu. Na verdade, aquela jornalista contou a história ao contrário.

 

Ao contrário?! Porquê?

 

Naquele avião, houve um rotor que rebentou explicou Casey. As lâminas saltaram do rotor e o invólucro do motor foi insuficiente para conter os fragmentos. O motor rebentou porque a sua manutenção não foi bem feita. O incidente nunca deveria ter acontecido... mas a nossa asa absorveu os fragmentos, protegendo os passageiros no interior da cabina. Portanto, o verdadeiro significado do incidente é este: os aviões da Norton são tão bem construídos que protegeram duzentos e setenta passageiros contra o rebentamento de um mau motor. Na realidade, somos heróis... mas, amanhã, o valor das acções da Norton vai descer. Algumas pessoas irão ter medo de voar em aviões da Norton. Será a resposta apropriada ao que realmente aconteceu? Não... mas é uma reacção apropriada para aquilo que a televisão acabou de dizer. Para o pessoal que aqui trabalha... é frustrante.

 

Bom comentou Richman - pelo menos não mencionaram a Transpacific...

 

Casey acenou. Fora essa a sua principal preocupação, o que a fizera atravessar o parque de estacionamento a correr para procurar uma televisão. Pretendera saber se os jornalistas associariam o rebentamento de um rotor em Miami com o incidente ocorrido com o voo da TPA no dia anterior. Tal não se verificara... por enquanto. Acabaria por acontecer, mais cedo ou mais tarde.

 

Agora, vamos começar a receber telefonemas disse. O gato já tem o rabo de fora...

 

         HANGAR 5

         9:40

 

Havia uma dúzia de homens da segurança no exterior do Hangar 5, onde o jacto da Transpacific estava a ser inspeccionado. Era um procedimento habitual sempre que uma equipa do RAMS, o serviço de recuperação i manutenção, entrava na fábrica. As equipas RAMS percorriam o mundo solucionando problemas em aviões imobilizados, e tinham autorização da FAA para os reparar in loco. Porém, como os seus membros eram selecccionados pelas suas capacidades e não pela antiguidade, não pertencia" ao sindicato, e os conflitos eram frequentes sempre que entravam na fábrica.

 

No interior do hangar, o enorme aparelho da Transpacific destacava-se sob o clarão das luzes de halogéneo, quase escondido por trás das complicadas estruturas dos andaimes que o rodeavam. Viam-se técnicos espalhados por todo o avião. Casey avistou Kenny Burne a trabalhar nos motores, praguejando para o seu pessoal. Tinha posto à vista algumas peças dos" versores e realizavam testes de fluorescência e condutividade sobre as placas encurvadas.

 

Ron Smith e a equipa de electricistas encontravam-se sobre uma plataforma elevada, instalada por baixo do centro da fuselagem. Um pouco mais acima, Casey avistou Van Trung através da janela da cabina de voo, onde a sua equipa testava os sistemas electrónicos.

 

Doherty subira para a asa, chefiando o seu pessoal das estruturas. O grupo servira-se de um pequeno guindaste para remover um dos slats uma secção de alumínio de dois metros e meio de comprimento.

 

Começam por inspeccionar os componentes de maiores dimensões disse Casey, virando-se para Richman.

 

Chama-se a isso... destruir todas as provas declarou uma voz por trás deles.

 

Casey virou-se. Ted Rawley, um dos pilotos de teste, aproximava-se deles. Usava botas de cowboy, uma camisa do Oeste e óculos escuros. Tal como a maioria dos pilotos de teste, Teddy cultivava um ar de perigosa sedução.

 

Este é o Ted Rawley explicou Casey, o nosso principal piloto de testes. Também lhe chamam Rawley, o Destruidor.

 

Eh! protestou Teddy. Ainda não destruí nenhum... E sempre é uma alcunha melhor do que Casey e os Sete Anões...

 

É isso o que lhe chamam? inquiriu Richman, subitamente intteressado.

 

Isso mesmo. Casey e os seus anões. Rawley fez um gesto vago para designar os engenheiros. Os pequeninos. Ho, Ho! Desviou o olhar do aparelho e deu uma palmada no ombro de Casey. Então, como te correm as coisas, garota? Telefonei-te, há alguns dias...

 

Eu sei. Tenho andado atarefada.

 

Aposto que sim declarou Teddy. Estou certo de que o Marde; não deixa ninguém descansar. Os engenheiros já descobriram alguma coisa? Espera um minuto, deixa-me adivinhar: absolutamente nada, não é assim? O seu belo avião é perfeito... e portanto foi um erro do piloto.

 

Casey não fez comentários e Richman pareceu incomodado.

 

Oh... continuou Teddy. Não fiquem envergonhados. Já ouvi essa história muitas vezes. Confessem, os engenheiros pertencem todos ao clube dos difamadores de pilotos. É por isso que desenham os aviões para voarem automaticamente. Odeiam a ideia de alguém os pôr a voar. É incomodativo ter um corpo humano sentado no lugar do piloto. Portanto, sempre que acontece qualquer coisa, a culpa é obviamente do piloto. Tem de ser. Não acham que tenho razão?

 

Ora vamos, Teddy disse Casey. Conheces as estatísticas. A grande maioria dos acidentes é causada por...

 

Foi nesse momento que Doug Doherty, agachado na asa por cima deles, se inclinou para a frente e declarou, com uma expressão pesarosa:

 

Casey, tenho más notícias. Vais querer ver isto.

 

O que é?

 

Já sei o que se passou com o voo cinco quatro cinco.

 

Casey trepou para o andaime e caminhou sobre a asa. Doherty estava agachado junto ao rebordo da mesma. Os slats haviam sido retirados, pondo à vista o interior da estrutura. Colocou-se de gatas a seu lado e olhou.

 

O espaço ocupado pelos slats era assinalado por toda uma série de calhas, distanciadas cerca de noventa centímetros, onde os slats deslizavam, empurrados por êmbolos hidráulicos. Na extremidade das calhas via-se uma peça oscilante que permitia que os slats se inclinassem para baixo. Casey viu, no fundo do compartimento, os êmbolos que empurravam os slats ao longo das calhas. Naquele momento, não passavam de braços de metal a sobressair num espaço vazio. Como sempre, ficava com uma sensação de enorme complexidade sempre que via o interior das asas de um avião.

 

O que é? perguntou.

 

Olha, aqui respondeu Doug.

 

Debruçou-se sobre um dos braços de metal e apontou para uma pequena peça de metal encurvado, em forma de gancho, que se encontrava na sua extremidade. A peça era pouco maior do que o seu polegar.

 

E então?

 

Doherty estendeu a mão e empurrou a peça com a mão. Quando a largou, a peça voltou ao seu lugar.

 

Este é o trinco que fixa os slats explicou. Tem uma mola e funciona por intermédio de um solenóide. Quando os slats voltam ao seu lugar, o trinco salta para a frente e fixa-os.

 

E depois?

 

Olha bem para ele respondeu Doherty, abanando a cabeça. Está torto.

 

Casey franziu a testa. Talvez a peça estivesse torta, mas não para os seus olhos. Parecia-lhe perfeitamente direita.

 

Doug...

 

Não, repara! Colocou uma régua de metal contra a peça, mostrando-lhe que a mesma se encontrava desviada alguns milímetros para a esquerda. E não é tudo. Olha para a superfície, aqui, em cima. Está desgastada. Vês?

 

Entregou-lhe uma lente. Nove metros acima do solo, Casey inclinou-se ainda mais e espreitou a peça. Era verdade, viam-se sinais de desgaste.

 

Havia uma superfície rugosa no trinco metálico. No entanto, era de esperar um certo desgaste no sítio onde o metal do trinco prendia os slatts.

 

Doug, achas que isto é realmente significativo?

 

Oh, sem dúvida! declarou, num tom fúnebre. Temos aqui dois ou talvez três milímetros de desgaste.

 

Quantos destes trincos seguram o s/aí?

 

Apenas um.

 

E se este não estiver bom?

 

Os slats podem soltar-se em pleno voo, o que não significa que se abram completamente. Recorda que se trata de superfícies de controlo para baixas velocidades. À velocidade de cruzeiro, o seu efeito amplifica-se. Uma ligeira saída altera toda a aerodinâmica.

 

Casey voltou a franzir a testa, espreitando a pequena peça através da lente.

 

Mas porque haveria este de se soltar de repente, em pleno voo?

 

Olha para os outros trincos disse Doherty, abanando a cabeça e apontando para outro ponto da asa. Não há desgaste das superfícies.

 

Talvez os outros fossem substituídos e este não...

 

Nada disso. Penso que os outros são os originais. Este é que foi substituído. Repara no trinco seguinte. Vez a marca gravada na base?

 

Casey viu um pequeno desenho gravado, um H no interior de um triângulo, com uma sequência de números. Todos os fabricantes de com ponentes gravavam aqueles símbolos.

 

Sim, estou a ver...

 

Agora, olha para este. Vês a diferença? Aqui, o triângulo está invertido. É uma peça falsificada, Casey.

 

Para os fabricantes de aviões, as falsificações eram o maior problema que tinham de enfrentar agora que se aproximavam do século xxi. A atenção dos meios de comunicação focava-se principalmente nas falsificações de artigos de consumo, tais como relógios, discos compactos ou software para computadores, mas existia um florescente negócio em toda a espécí de artigos manufacturados, incluindo peças para automóveis e aviões. Aí o problema das falsificações ganhava características novas e assustadoras. Ao contrário do que acontecia com uma imitação de um relógio Cartier, a falsificação das peças de avião podia matar.

 

Muito bem disse Doherty, verificarei os registos de manutenção para descobrir de onde veio esta peça.

 

A FAA exigia que as transportadoras comerciais mantivessem registos extraordinariamente pormenorizados de todos os trabalhos de manutenção. Sempre que era substituída uma peça, esta era assinalada num registo de manutenção. Para além disso, os fabricantes, embora não tivessem de o fazer, mantinham um registo exaustivo de todas as peças utilizadas originalmente em cada avião, com a indicação dos respectivos fabricantes. Toda essa papelada significava que era possível localizar, até à sua origem qualquer peça entre o milhão de componentes que constituíam um avião. Se uma peça era retirada de um avião para ser posta noutro, essa mudança ficava registada. Se era retirada e reparada, também existia um registo. Cada peça de um avião tinha uma história própria. Com tempo, poderia saber com exactidão de onde viera, quem a instalara e quando.

 

Casey apontou para a peça defeituosa.

 

Já a fotografaste?

 

Claro, está perfeitamente documentada.

 

Então, retira-a pediu Casey. Vou levá-la aos Metais. A propósito, achas que esta situação poderia dar origem a um aviso de slats.

 

Doherty brindou-a com um dos seus raros sorrisos.

 

Podia, sim, e penso que foi o que aconteceu. Tens aqui uma peça não autorizada, Casey, que provocou uma falha.

 

Ao descer da asa, Richman manifestou-se, excitado.

 

Então, foi aquilo? Uma peça defeituosa? O assunto está resolvido?

 

Uma coisa de cada vez retorquiu Casey, a quem o rapaz começava a enervar. Temos de verificar.

 

Verificar? Verificar o quê? Como?

 

Primeiro que tudo, temos de saber de onde veio aquela peça explicou. Volta para o gabinete. Diz à Norma para se certificar de que o LAX nos envia os registos de manutenção. Pede-lhe para mandar um fax para o representante em Hong Kong, a pedir os registos da transportadora. Diz-lhe que a FAA os pediu mas que queremos ser os primeiros a vê-los.

 

Está bem retorquiu Richman.

 

Afastou-se em direcção à entrada do Hangar 5 e da luz do Sol. Caminhava com uma certa insolência, como se fosse uma pessoa importante, detentora de informações valiosas.

 

Contudo, Casey não estava certa de que já tivessem conseguido todas as explicações... pelo menos, por enquanto.

 

         NO EXTERIOR DO HANGAR 5

         10:00

 

Casey saiu do hangar, pestanejando sob a luz do Sol da manhã. Junto do Edifício 121, Don Brull saía do seu carro. Encaminhou-se para ele.

 

Olá, Casey disse o homem, batendo com a porta do automóvel. Perguntava a mim mesmo quando virias ter comigo.

 

Falei com o Marder disse Casey. Jurou-me que a asa não vai ser fabricada na China.

 

Telefonou-me a noite passada concordou Brull com um aceno.i com um tom de voz que não parecia muito satisfeito. Disse-me a mesma coisa.

 

O Marder insiste que se trata de um boato.

 

Mente declarou Brull. Vai fazê-lo.

 

Não acredito retorquiu Casey. Não faz sentido.

 

Olha... começou Brull. Tudo isto, para mim, não faz grande diferença. Se fecharem a fábrica daqui a dez anos, já estarei reformado. Contudo, será mais ou menos por essa altura que a tua filha entrará para a universidade. Vais ter de enfrentar aquelas elevadas propinas e estarás sem emprego. Já pensaste nisso?

 

Don insistiu Casey, foste tu mesmo quem o disse. Não faz sentido entregar o fabrico da asa. Seria uma insensatez...

 

O Marder é insensato. Fitou-a com os olhos semicerrados, por causa do sol. Sabe-lo muito bem. Sabes aquilo de que é capaz.

 

Don...

 

Espera interrompeu-a Brull. Sei do que estou a falar. As ferramentas não estão a ser enviadas para Atlanta, Casey. Vão para San Pedro, onde estão a construir contentores marítimos especiais.

 

Então, era assim que o sindicato via as coisas, pensou.

 

Don, aquelas ferramentas são enormes. Não podem ser enviadas por estrada ou por caminho de ferro. São sempre enviadas por barco. Constróem contentores para que as possam transportar pelo canal do Panamá. É a única via para chegarem a Atlanta.

 

Eu vi os conhecimentos de embarque declarou Brull, abanando a cabeça. Não dizem que as peças vão para Atlanta, mas sim para Seul na Coreia.

 

Coreia? repetiu Casey, com uma expressão de estranheza.

 

Isso mesmo.

 

Don, isso não faz nenhum sentido...

 

Faz, sim. É uma manobra de diversão afirmou Brull. Levam-nas para a Coreia... e depois fazem-nas seguir daí para a China noutro navio.

 

Tens cópias dos conhecimentos de embarque?

 

Não as tenho comigo.

 

Gostaria de as ver.

 

Está bem, posso arranjar-tas, Casey murmurou Brull com um suspiro. Estás a colocar-me numa situação muito difícil. A rapaziada não deixará que esta venda se concretize. O Marder pediu-me para me acalmar... mas que posso eu fazer? Só dirijo um pequeno grupo... e não todo o pessoal da fábrica.

 

Que queres dizer?

 

O assunto já não está nas minhas mãos. -Don...

 

Sempre gostei de ti, Casey... mas se continuares a andar por aí... não poderei ajudar-te declarou, afastando-se.

 

         NO EXTERIOR DO HANGAR 5

         10:04

 

O sol da manhã já brilhava. À sua volta, a fábrica mostrava-se alegremente atarefada, com os mecânicos pedalando nas suas bicicletas quando se dirigiam de um edifício para outro. Não havia qualquer sensação de ameaça ou de perigo. Porém, Casey sabia o que Brull quisera dizer-lhe. Agora, encontrava-se numa espécie de terra-de-ninguém. Ansiosa, puxara pelo telefone celular para ligar para Marder, mas viu a figura pesada de Jack Rogers que se dirigia para ela.

 

Jack cobria os assuntos aerospaciais para o Telegraph-Star, um jornal do condado de Orange. Ia no fim da casa dos cinquenta anos e era um bom e sólido jornalista, uma recordação de uma anterior geração de te mens da imprensa que sabiam tanto dos assuntos de que tratavam como as pessoas que entrevistavam. O homem fez-lhe um aceno casual.

 

Olá, Jack disse Casey. Que há de novo?

 

Vim procurar-te retorquiu Jack por causa do acidente que teve lugar esta manhã no Edifício Sessenta e Quatro e que envolveu as ferramentas para o fabrico das asas. Aquelas que a grua deixou cair.

 

Foi um azar.

 

Houve outro acidente esta manhã. Carregaram um daqueles caixotes gigantescos num camião, mas o condutor descreveu uma curva demasiado apertada junto do Edifício Sessenta e Quatro e o caixote caiu. Foi uma grande confusão.

 

Huum... fez Casey.

 

É óbvio que se trata de acções do sindicato afirmou Rogers. As minhas fontes dizem que o sindicato se opõe à venda à China.

 

Também já ouvi dizer o mesmo confirmou Casey.

 

A asa vai ser montada em Xangai como parte do contrato de venda

 

Ora, vamos, Jack protestou, isso é ridículo.

 

Tens a certeza?

 

Jack... retorquiu Casey, recuando um passo. Sabes que posso discutir a venda. Ninguém pode, até que a tinta fique seca.

 

Está bem. Rogers puxou pelo bloco de apontamentos. Na verdade, trata-se de um boato com um toque de loucura. Nunca nenhuma companhia cedeu a construção das asas como compensação. Seria um suicídio.

 

Exactamente confirmou Casey. No fim, a sua mente regressa sempre à mesma questão. Para que iria Edgarton dar a asa? O que leva uma qualquer companhia a fazê-lo? Era absurdo.

 

Rogers levantou os olhos do bloco de apontamentos.

 

Porque será que o sindicato pensa que as asas vão ser fabricadas no estrangeiro?

 

Terás de lhe perguntar retorquiu Casey, encolhendo os ombros. O homem tinha fontes de informação no sindicato. De certeza que incluíam o próprio Brull e talvez também outros.

 

Ouvi dizer que possuem documentos que o provam.

 

Mostraram-te esses documentos?

 

Não respondeu Rogers, abanando a cabeça.

 

Não percebo porquê... se na verdade os têm.

 

Rogers sorriu e tomou mais um apontamento. A seguir continuou.

 

Foi uma pena, aquele rebentamento de um rotor, em Miami.

 

Só sei o que vi na televisão.

 

Pensas que vai afectar a opinião do público quanto ao N-Vinte e Dois? Tinha a caneta no ar, pronto para anotar a resposta de Casey.

 

Não vejo porquê. O problema foi com um motor e não com o avião. Calculo que acabem por descobrir que rebentou um disco de um compressor.

 

Não tenho dúvidas quanto a isso concordou Rogers. Falei com o Don Peterson, da FA A. Disse-me que o incidente se deveu precisamente ao rebentamento de um disco, enfraquecido por bolsas de nitrogénio.

 

Inclusões alfa? perguntou Casey.

 

Exacto admitiu Jack. Para além disso, deveu-se também a fadiga do material.

 

Casey acenou. As peças dos motores funcionavam a temperaturas de 2500 graus Fahrenheit, muito acima da temperatura de fusão da maior parte das ligas, que se transformavam em sopa aos 2200 graus. Por isso mesmo, eram feitas com ligas de titânio e por intermédio dos processos mais avançados. Fabricar algumas dessas peças era uma verdadeira arte. As pás dos rotores eram essencialmente "cultivadas" como um único cristal de metal, o que as tornava fenomenalmente fortes. Porém, o processo de fabrico era inerentemente delicado, mesmo quando levado a cabo por mãos habilidosas. A fadiga do metal, devida ao tempo de utilização, era uma condição em que o titânio utilizado nos discos dos rotores dava origem a colónias de microestruturas, fragilizando-o e fazendo-o estalar.

 

E quanto ao voo da Transpacific? perguntou o homem. Também foi um problema de motor?

 

O incidente com a Transpacific foi ontem, Jack. Só agora começámos a investigar.

 

Estás ligada à qualidade, no IRT, não é verdade?

 

Sim, é verdade.

 

Estás satisfeita com o modo como a investigação decorre?

 

Jack, não posso fazer comentários sobre isso. É demasiado cedo.

 

Talvez... mas não é demasiado cedo para começarem as especulações retorquiu o jornalista. Sabes como são essas coisas, Casey. As pessoas falam. Mais tarde, os erros de interpretação podem ser difíceis de desmentir. Gostaria de deixar tudo bem claro. Já excluíram os motores?

 

Jack, não posso fazer comentários.

 

Então, ainda não excluíram os motores?

 

Sem comentários.

 

O homem escreveu qualquer coisa no bloco. Sem levantar os olhos, disse:

 

Suponho que também estão a investigar os slats.

 

Estamos a investigar tudo afirmou Casey.

 

Dado que o N-Vinte e Dois já tem uma história de problemas com os slats...

 

São histórias passadas declarou Casey. Resolvemos esse problema há anos. Se bem me lembro, escreveste um artigo sobre esse assunto.

 

Sim, mas agora tivemos dois incidentes em dois dias. Não te preocupa a possibilidade do público começar a pensar que o N-Vinte e Dois É um avião com problemas?

 

Casey via a direcção que o artigo do jornalista iria tomar. Não queria fazer comentários, mas o homem estava a dizer-lhe o que iria escrever se ela não falasse. Era a habitual pequena chantagem da imprensa, sem grau de gravidade.

 

Jack retorquiu, temos trezentos N-Vinte e Dois em serviço em todo o mundo. O modelo tem um excepcional registo de segurança. De facto, em cinco anos e até ao dia anterior, nunca se tinham verificado vítimas envolvendo aquele tipo de aparelho. Era motivo para o orgulho mas preferiu não o mencionar porque já estava a imaginar um título: As primeiras vítimas de um N-22 da Norton aconteceram ontem... Em vez disso, declarou: O público fica melhor servido quando recebe informações fidedignas. De momento, não tenho informações para dar. As especulações da minha parte seriam uma irresponsabilidade.

 

A resposta deu resultado. O homem guardou a caneta.

 

Está bem disse. E não tens nada para me dizer, off the recor? Não o publicarei.

 

De acordo. Casey sabia que podia confiar no homem. Se não é para publicação, posso dizer-te que o avião sofreu severas oscilações, Pensamos que andou aos saltos. Não sabemos porquê. A caixa negra não está em condições e serão precisos vários dias para reconstruir os dados. Estamos a trabalhar o mais depressa que podemos.

 

O incidente irá afectar a venda à China?

 

Espero que não.

 

O piloto era chinês, não era? Um tal Chang?

 

O piloto era de Hong Kong. Não sei qual a sua nacionalidade,

 

Isso irá dificultar as coisas se tiver sido um erro do piloto?

 

Sabes como são estas investigações, Jack. Seja qual for a causa que acabemos por descobrir... o resultado irá ser difícil para alguém. Temos de esperar para ver o que acontece.

 

Claro. A propósito, a encomenda da China já é definitiva? Tenho ouvido dizer que não.

 

Com toda a honestidade... não sei respondeu Casey, encolhendo os ombros.

 

O Marder já falou contigo a esse respeito?

 

Comigo, pessoalmente, não. Era uma resposta com as palavras cuidadosamente escolhidas. Casey esperava que o jornalista não as aprofundasse... e não o fez.

 

Muito bem, Casey disse Rogers, vou deixar esse assunto em paz, mas... tens alguma coisa para me dar? Preciso de escrever um artigo...

 

Por que não escreves sobre aquelas companhias aéreas com tarifas ao preço da chuva? perguntou Casey. Ainda ninguém se virou para aí.

 

Estás a brincar? retorquiu o jornalista. Não há ninguém que não tenha escrito sobre isso.

 

Pois é... mas ainda ninguém contou a verdadeira história ripostou Casey. Trata-se apenas de uma vigarice na bolsa...

 

Na bolsa?

 

Sim afirmou Casey. Compras alguns aviões, tão velhos e com uma tão má manutenção que nenhuma companhia respeitável os quereria, nem sequer para peças sobressalentes. Depois, subcontratas a manutenção para limitares as tuas responsabilidades. Ofereces tarifas ao preço da chuva e usas o dinheiro para adquirires novas rotas. É um esquema em pirâmide mas, no papel, parece formidável. As vendas sobem, os lucros aumentam... e a Wall Street adora-te. Poupas tanto na manutenção que os teus lucros não param de crescer. O preço das tuas acções duplica e volta a duplicar. Quando os cadáveres se começarem a empilhar, tal como muito bem sabes que irá acontecer, já fizeste uma verdadeira fortuna graças às acções e podes permitir-te contratar os melhores advogados. É o que a não regulamentação tem de genial, Jack. Quando a conta surgir... ninguém a paga.

 

Excepto os passageiros.

 

Exacto confirmou Casey. A segurança, durante os voos, foi sempre uma questão de honra. A FAA foi organizada para não perder de vista as transportadoras, mas não é uma força de polícia. Por isso, se a não regulamentação acabar por alterar as regras, devemos avisar o público... ou conceder mais verbas à FAA. Não há outra hipótese.

 

Na verdade concordou Rogers, com um aceno, o Barry Jordan, do Times de Los Angeles, disse-me que andava a trabalhar na questão da segurança. Contudo, é preciso ter muitos recursos e muito tempo para investigar... bem como advogados para estudar o artigo que escrevemos. O meu jornal não dispõe desses recursos... e preciso de qualquer coisa que possa utilizar esta noite.

 

Em privado... disse Casey tenho uma boa dica, mas não podes referir a fonte de informação...

 

Está bem aceitou Rogers.

 

O motor que explodiu era um dos seis que a Sunstar comprou à AeroCivicas explicou Casey. O Kenny Burne foi o consultor técnico. Examinou os motores ao boroscópio e descobriu-lhes muitas deficiências.

 

Que tipo de deficiências?

 

Corrosão e pás de rotores com fendas.

 

Tinham fendas de fadiga nas pás dos rotores? exclamou Rogers.

 

É verdade. O Kenny disse-lhes para rejeitarem os motores, mas a Sunstar reconstruiu-os e montou-os nos aviões. Quando aquele motor rebentou, o Kenny ficou furioso. Talvez ele te possa dar nomes, na Sunstar... mas não poderás dizer onde obtiveste a informação, Jack. Temos de continuar a fazer negócios com essa gente...

 

Compreendo... e obrigado. Porém, o meu chefe vai querer saber coisas sobre os acidentes de hoje, na fábrica. Diz-me, estás convencida de que a história da entrega das asas à China não tem fundamento?

 

Voltámos ao mesmo? perguntou Casey. -Sim.

 

Não sou a pessoa indicada para responder a isso disse Casey. Terás de ir falar com o Edgarton.

 

Telefonei-lhe, mas disseram-me que estava fora. Para onde foi? Pequim?

 

Não faço comentários.

 

E quanto ao Marder? insistiu Rogers.

 

Que queres dizer?

 

Toda a gente sabe... explicou Rogers, encolhendo os ombros que o Marder e o Edgarton se atiram à garganta um do outro. O Marder esperava ser nomeado presidente, mas a administração ultrapassou-o. Por outro lado, estabeleceu um contrato de um ano com o Edgarton... pelo que este só tem doze meses para mostrar resultados. Segundo me têm dito, o Marder anda a sabotar as iniciativas do Edgarton sempre que pode,,

 

Nada sei a esse respeito disse Casey. Claro que já ouvira boatos. Não era nenhum segredo que Marder ficara amargamente desapontado com a nomeação de Edgarton. O que poderia fazer a esse respeito era outra história. A mulher de Marder controlava onze por cento das acções da companhia. Graças às ligações de Marder, este talvez conseguisse mais cinco por cento a seu favor. Porém, dezasseis por cento não era suficiente para se impor, em particular porque Edgarton tinha um forte apoio por parte da administração.

 

Por isso, a maior parte das pessoas da fábrica pensava que, pelo menos de momento, Marder não tinha outra escolha senão acompanhar a linha seguida por Edgarton. Talvez se sentisse infeliz, mas não tinha mais opções. A companhia debatia-se com um problema de fluidez monetária e já chegara ao extremo de construir aviões sem ter compradores. No entanto, para garantir o seu futuro, mantendo-se no negócio, necessitaria de biliões de dólares para poder desenvolver a próxima geração de aviões.

 

Desse modo, a situação era clara. A companhia precisava daquela venda, e toda a gente o sabia, incluindo Marder.

 

Não ouviste dizer que o Marder anda a tramar o Edgarton? perguntou Rogers.

 

Não comento respondeu Casey. Aqui entre nós, e não é para publicares, isso não faz sentido. Toda a gente, na companhia, incluindo o próprio Marder, deseja concretizar essa venda. Neste momento, está a pressionar-nos para solucionarmos a questão do cinco quatro cinco, para que a venda avance.

 

Achas que a imagem da companhia pode ser prejudicada por rivalidades entre os seus principais dirigentes? Não faço ideia.

 

Bom, está bem concluiu o jornalista, fechando o bloco de notas, Telefona-me, se souberes alguma coisa a respeito do cinco quatro cínco, está bem? Claro, Jack.

 

Obrigado, Casey. Ao afastar-se, Casey compreendeu que ficara exausta com a entrevista. Naqueles dias, falar com um jornalista era algo de semelhante a um combate mortal. Tinha de se manter vários passos à frente, tinha de imaginar todas as deturpações das suas palavras que o jornalista poderia vir a fazer, A atmosfera era de uma inimizade impiedosa.

 

Nem sempre fora assim. Em tempos idos, quando um jornalista queria informações, limitava-se a fazer perguntas directas, respeitantes aos acom tecimentos. Procurava obter uma imagem precisa e, para o conseguir, tinha de fazer um esforço para ver as coisas à maneira dos outros, para compreender de que modo eram encaradas. No fim podia não concordar, mas, por uma questão de orgulho profissional, transmitia os pontos de vista dos outros com toda a precisão, antes de os rejeitar.

 

Agora, os jornalistas enfrentavam as histórias com um guião já definido nas suas cabeças, e viam o seu trabalho como sendo a procura de provas para a conclusão a que já tinham chegado. Não queriam informações, mas sim provas de vilania. Desse modo, eram abertamente cépticos em relação aos pontos de vista dos outros, uma vez que partiam do princípio de que estes se limitavam a ser evasivos. Agiam de acordo com a presunção de uma culpa universal, numa atmosfera de hostilidade encoberta e de suspeitas. Essa nova abordagem era intensamente pessoal. Queriam fazer tropeçar o entrevistado, apanhar-lhe o mais pequeno erro ou a mais ligeira tolice... ou apenas uma frase que pudesse ser retirada do contexto para fazer com que o entrevistado parecesse estúpido ou insensível.

 

Como o foco das perguntas era pessoal, os jornalistas estavam sempre a pedir especulações pessoais. Pensa que um acontecimento pode ser prejudicial? Acha que a companhia irá sofrer? Tais especulações haviam sido irrelevantes para a anterior geração de jornalistas, que se concentravam exclusivamente nos acontecimentos. O jornalismo moderno era intensamente subjectivo "interpretativo e alimentava-se das especulações, mas Casey considerava-o fatigante.

 

No entanto, pensou, Jack Rogers era um dos melhores. Os jornalistas da imprensa eram sempre melhores. Os piores, aqueles com quem era preciso ter cuidado, eram os da televisão. Esses, sim, eram verdadeiramente perigosos.

 

         NO EXTERIOR DO HANGAR 5

         10:15

 

Enquanto atravessava a fábrica, pescou o telefone celular no fundo da mala e ligou para Marder. A sua assistente, Eileen, disse-lhe que ele se encontrava numa reunião.

 

Acabei de falar com o Jack Rogers explicou Casey. Creio que planeia um artigo em que dirá que vamos entregar a asa à China, e que há problemas nos gabinetes da direcção.

 

Oh, oh! exclamou Eileen. Isso não é nada agradável.

 

Seria bom que o Edgarton falasse com ele, para o tranquilizar.

 

O Edgarton não fala à imprensa afirmou Eileen. O John estará de volta às seis horas. Queres falar com ele, nessa altura?

 

É capaz de ser o melhor...

 

Está bem, meto-te na lista concluiu Eileen.

 

         ENSAIOS DE RESISTÊNCIA

         10:19

 

Parecia-se com um depósito de sucata aeronáutica. A paisagem estava salpicada por velhas fuselagens, caudas e bocados de asas, pousadas sobre andaimes ferrugentos. Porém, o ar estava cheio do constante zumbido dos compressores e viam-se fortes tubos a penetrar nas peças de aviões, como se fossem tubos intravenosos ligados a um paciente. Era ali que os aparelhos eram esforçados ao máximo, e era também o domínio do infame Amos Peters.

 

Casey avistou-o à sua direita. Era uma figura curvada, em mangas de camisa e com umas calças que mais pareciam sacos, por baixo da secção traseira da larga fuselagem de um N-22 da Norton.

 

Amos chamou, acenando enquanto se aproximava. O homem virou-se e olhou-a de relance.

 

Vai-te embora respondeu.

 

Na Norton, Amos era uma verdadeira lenda. Solitário e obstinado, tinha quase setenta anos, ultrapassara há muito a idade da reforma obrigatória mas no entanto continuava a trabalhar porque era vital para a companhia. A sua especialidade era o misterioso campo da resistência aos danos, ou da fadiga dos metais... e os testes de fadiga eram agora muito mais importantes do que tinham sido dez anos antes.

 

Desde que deixara de existir regulamentação, as transportadoras forçavam os aviões a voar muito mais tempo do que alguém jamais esperara. Na frota doméstica, havia agora três mil aviões com mais de vinte anos, e esse número duplicaria dentro de cinco anos. Ninguém sabia o que iria acontecer a tais aviões à medida que fossem envelhecendo.

 

Ninguém... excepto Amos.

 

Em 1988, fora Amos o escolhido pela NTSB como consultor para o famoso acidente do Aloha 737. A Aloha era uma transportadora que operava entre as ilhas no Havai. Um dos seus aviões viajava a 7200 metros de altitude quando, de repente, cinco metros e meio da sua "pele" exterior se soltaram, desde a porta da cabina até à asa. A cabina sofrera uma descompressão e uma hospedeira fora puxada para o exterior e morrera. Apesar da explosiva descompressão, o avião conseguira aterrar em segurança em Maui, onde fora imediatamente mandado para a sucata.

 

O resto da frota da Aloha fora examinada, em busca de sinais de corrosão e fadiga. Dois outros velhos 737 haviam ido para a sucata e um terceiro passara por meses de reparações. Todos tinham extensas fendas na cobertura exterior e outros sinais de corrosão. Quando a FAA emitira uma directiva ordenando inspecções ao resto da frota dos 737, tinham-se descoberto quarenta e nove outros aviões, pertencentes a dezoito companhias diferentes, a sofrer dos mesmos males.

 

Os observadores da indústria ficaram perplexos com o acidente, porque se partia do princípio que a Boeing, a Aloha e a FAA estariam a vigiar a frota de 737 da transportadora. As fendas provocadas pela corrosão era um problema conhecido desde os tempos dos primeiros 737 produzidos, e a Boeing já avisara a Aloha, informando-a de que o clima húmido e salgado do Havai constituía um ambiente "severamente" corrosivo.

 

Mais tarde, a investigação descobrira causas múltiplas para o acidente. Concluíra-se que a Aloha, com os seus pequenos saltos entre as ilhas acumulava ciclos de aterragens e descolagens a um ritmo demasiado grande para poder ser acompanhado pelas equipas de manutenção. Essas tensões, combinadas com a corrosão provocada pelo ar marítimo, produzia uma série de pequenas fendas na "pele" dos aviões. A Aloha não dera por elas por ter falta de pessoal treinado. A FAA não dera por elas porque o seu pessoal era insuficiente e tinha uma excessiva carga de trabalho. O principal inspector de manutenção da FAA em Honolulu supervisiona" nove empresas transportadoras e sete locais de manutenção espalhados pelo Pacífico, desde a China a Singapura e até às Filipinas. Eventualmente verificara-se um voo em que as fendas se haviam ampliado e a estrutura cedera.

 

Depois do incidente, a Aloha, a Boeing e a FAA tinham formado um círculo de acusações, disparando uns contra os outros. A não detecção dos danos estruturais na frota da Aloha foi atribuída a má gestão, má manutenção, más inspecções da FAA, má engenharia. Essas acusações fizeram ricochete de um lado para o outro durante anos.

 

Porém, o incidente com o voo da Aloha também servira para obrigar a indústria a prestar atenção ao problema do envelhecimento dos aviões, e fizera com que Amos ficasse famoso dentro da Norton. Convencera a administração a comprar mais aviões velhos, transformando as asas e fuselagens em objecto de testes intensivos. Dia após dia, os seus instrumentos aplicavam repetidas pressões aos velhos aviões, simulando as tensões das aterragens e descolagens, dos ventos e das turbulências, para que Amos pudesse ver como e onde estalavam.

 

Amos disse Casey, aproximando-se, sou eu, a Casey Singleton.

 

Ah, Casey murmurou Amos, pestanejando por causa da miopia.

 

Não te reconheci. O médico deu-me novos óculos... Hum, como estás?

 

Fez um gesto a dizer-lhe para o acompanhar e dirigiu-se para um pequeno edifício a alguns metros de distância.

 

Na Norton, ninguém compreendia como era que Casey conseguia en tender-se com Amos. Contudo, eram vizinhos, o homem vivia sozinho com o seu cão, um buldogue anão, e Casey ganhara o hábito, mais ou menos uma vez por mês, de lhe preparar uma refeição. Em troca, Amos regalava-a com histórias a respeito dos acidentes de aviões em que trabalhara, desde as primeiras quedas dos Comets da BOAC nos anos cinquenta. No que tocava aos aviões, os conhecimentos de Amos eram enciclopédicos. Casey aprendera muito na sua companhia. Para ela, Amos tornara-se uma espécie de consultor.

 

Não te vi numa destas manhãs? perguntou Amos.

 

Sim, com a minha filha.

 

Foi o que pensei. Queres café? Abriu a porta de um armário i Casey sentiu o forte odor a café queimado. O café de Amos era sempre terrível.

 

É boa ideia, Amos.

 

Espero que esteja bom disse o homem, enchendo-lhe uma chave na. Peço desculpa, mas não tenho natas.

 

Serve muito bem, assim como está. Amos não tinha natas havia mais de um ano.

 

Amos serviu-se de café, enchendo uma velha caneca manchada, e fez-lhe sinal para se sentar na desconjuntada cadeira colocada na frente da sua secretária, coberta por montanhas de relatórios. Casey leu alguns títulos: Simpósio Internacional FAAINASA sobre Integridade Estrutural Avançada. Durabilidade e Tolerância de Estruturas. Técnicas de Inspecção Termográfica. Controlo da Corrosão e Tecnologia de Estruturas. Amos pôs os pés em cima da secretária e abriu uma passagem entre as pilhas de publicações para a poder ver.

 

Digo-te uma coisa, Casey. É aborrecido trabalhar apenas com estes velhos aparelhos. Anseio pelo dia em que voltarei a ter outro T Dois.

 

T Dois repetiu Casey.

 

Oh, é claro, não sabes o que é. Só cá estás há cinco anos e durante esse tempo não fabricámos um único modelo novo. Quando construímos um novo avião, o primeiro a sair da linha de montagem é o T Um. É enviado para os testes estáticos. Colocamo-lo num banco de ensaios e sacudimo-lo até se desfazer em pedaços, para sabermos onde são os seus pontos fracos. O segundo avião a sair da linha é o T Dois. É utilizado para testes de fadiga, que constituem um dos problemas mais difíceis. Ao longo do (empo, o metal perde resistência e torna-se quebradiço: por isso, agarramos no T Dois, metemo-lo numa engenhoca e aceleramos os testes de fadiga. Simulamos aterragens e descolagens dia após dia, ano após ano. De acordo com a política da Norton, o aparelho é sujeito a esforços de fadiga equivalentes ao dobro do tempo de vida previsto pelos desenhadores. Se os engenheiros desenham um avião para durar vinte anos, ou seja, cerca de cinquenta mil horas de voo e vinte mil ciclos, fazemos o dobro disso nos testes, antes de o entregarmos ao cliente. Assim, temos a certeza de que os aviões aguentam. Que tal está o café?

 

Casey tomou um pequeno gole e conteve um estremecimento. Amos punha a água a correr através das mesmas borras, durante todo o dia. Era por isso que o seu café tinha um gosto muito característico.

 

Está óptimo, Amos.

 

É só pedir. Há mais de onde esse veio. De qualquer modo, a maior parte dos construtores fazem testes correspondendo ao dobro do tempo de vida previsto para o avião. Nós fazemo-los até quatro vezes esse tempo. É por isso que costumamos dizer que as outras companhias fabricam carcaças... e nós fabricamos croissants.

 

Sim comentou Casey, mas é por isso que o John Marder está sempre a dizer que os outros ganham dinheiro e nós não.

 

O Marder! resmungou Amos. Só sabe pensar em dinheiro. Nos velhos tempos, diziam-nos: façam o melhor avião que puderem. Agora dizem: façam o melhor que puderem, dentro de um certo preço. São ordens muito diferentes, se é que me entendes. Bebericou o café. Bom, então o que é, Casey? O cinco quatro cinco?

 

Casey confirmou com um aceno.

 

Quanto a essa história, não posso ajudar-te declarou Amos.

 

Porque dizes isso?

 

O avião é novo. A fadiga não é um factor.

 

Há um problema com este trinco, Amos disse Casey, mostrando a peça, metida dentro de um saco plástico.

 

Hum... Amos revirou a peça nas mãos e segurou-a sob a luz Isto deve ser... Espera, não me digas... o trinco de bloqueio do segundo slat.

 

Tens razão.

 

Claro que tenho razão retorquiu, franzindo a testa. Esta pá não presta.

 

Sim, eu sei.

 

Então, qual é o problema?

 

O Doherty pensa que foi o que provocou a falha no avião. Será possível?

 

Bom... Amos ficou a olhar para o tecto, a pensar. Aposto cem dólares em como não foi isto que falhou.

 

Casey suspirou. Voltara à estaca zero. Não tinham pistas.

 

Ficaste desanimada? perguntou-lhe Amos.

 

Para ser franca... sim.

 

Então não estás a prestar atenção retorquiu o homem. Trata-se de uma pista muito importante.

 

Porquê? Se tu mesmo disseste que não foi a causa da falha.

 

Casey... murmurou Amos, abanando a cabeça. Usa os miolos e pensa.

 

Tentou pensar, ali sentada, cheirando aquele péssimo café. Tentou descobrir onde Amos queria chegar... mas a sua mente estava vazia. Olhou-o do outro lado da secretária.

 

Estou a deixar escapar qualquer coisa? Explica-me.

 

Os outros trincos de fixação foram substituídos?

 

Não.

 

Foi apenas este?

 

Sim.

 

Porquê apenas este, Casey?

 

Não sei.

 

Então... trata de descobrir.

 

Para quê? Para que servirá isso? Amos levantou as mãos ao céu.

 

Casey, vamos lá, pensa no assunto. Tens um problema de slats no cinco quatro cinco. É um problema na asa.

 

Certo.

 

Agora, descobriste que substituíram uma peça da asa.

 

Certo.

 

Porque a substituíram?

 

Não sei...

 

A asa terá sido danificada, no passado? Aconteceu-lhe alguma coisa que levasse à substituição desta peça? Terão sido substituídas algumas outras peças? Haverá outras partes em mau estado, na asa? Ainda há vestígios de danos na asa?

 

Nenhum... que eu conseguisse ver.

 

Esquece o que podes ver, Casey retorquiu Amos, sacudindo a cabeça de impaciência. Vai ver os registos, incluindo os da manutenção. Investiga esta peça e obtém uma história da asa... porque há mais qual quer coisa errada.

 

Penso que irás descobrir mais peças falsas. Amos levantou-se, suspirando. Nos nossos dias, há cada vez mais aviões equipados com peças falsificadas. Suponho que seria de esperar. Parece que toda a gente acredita no Pai Natal...

 

Que queres dizer?

 

Pensam que podem ter qualquer coisa em troca de nada explicou Amos. Sabes, o governo acabou com os regulamentos a que as companhias aéreas estavam sujeitas, e toda a gente aplaudiu. Conseguimos viagens mais baratas... e toda a gente aplaudiu. Porém, para isso, as transportadoras têm de cortar nos custos. A comida passa a ser péssima. Não faz mal. Há menos voos directos e mais transferências. Não faz mal. Os aviões são mais sujos porque os interiores são renovados com menos frequência. Não faz mal. Mesmo assim, as companhias têm de cortar mais custos. Por isso, utilizam os aviões durante mais tempo e compram menos aviões novos. As frotas envelhecem. Não faz mal... durante algum tempo, mas os problemas acabarão por surgir. Entretanto, prosseguem as pressões sobre os custos. Onde irão cortá-los? Na manutenção? Nas peças? Onde? Os cortes não podem continuar indefinidamente. É impossível. Claro que, agora, o Congresso ajuda as companhias reduzindo as verbas para a FAA, pelo que haverá menos inspecções. As transportadoras podem diminuir as despesas de manutenção porque não há ninguém para as vigiar. O público não se preocupa porque, durante trinta anos, este país teve o melhor registo de segurança aeronáutica de todo o mundo. A questão está em que... pagámos para o ter. Pagámos os aviões novos e mais seguros, e pagámos as inspecções, para termos a certeza de que a manutenção era bem feita. Todavia, esses tempos acabaram. Agora, toda a gente acredita que é possível ter qualquer coisa em troca de nada.

 

Então, onde vamos parar? perguntou Casey.

 

Aposto os meus cem dólares declarou Amos que voltarão a regulamentar dentro de dez anos. Verificar-se-ão acidentes... e terão de o fazer. Os defensores do mercado livre vão protestar mas, na verdade,

 

O mercado livre não nos dá segurança. Só a teremos com a regulamentação. Se queremos bons alimentos, precisamos de inspectores. Se queremos uma boa água para beber, precisamos de inspectores. Se queremos um bom mercado bolsista, precisamos de um organismo que o controle. Se queremos companhias aéreas seguras, também temos de as regulamentar. Acredita, acabarão por o fazer.

 

E no cinco quatro cinco...

 

As companhias estrangeiras estão sujeitas a regulamentações menos rigorosas afirmou Amos, encolhendo os ombros. Fazem mais ou menos o que lhes apetece. Procura os registos de manutenção... E, se desconfiares de alguma peça, olha bem para os correspondentes documentos...

 

Casey começou a levantar-se, mas Amos prosseguiu:

 

No entanto, espero... Casey virou-se para ele.

 

-Sim?

 

... que compreendas bem a situação. Para verificares essa parte, tens de começar pelos registos do avião...

 

Eu sei... que estão no Edifício Sessenta e Quatro. Se fosse a ti, não ia lá... muito menos sozinha.

 

Ora, Amos, já trabalhei na montagem. Não me acontecerá nada. Amos abanava a cabeça.

 

O voo cinco quatro cinco é uma verdadeira batata quente. Sabes como aqueles rapazes pensam. Se conseguirem estragar a investigação, acabbarão por o fazer... por todos os meios. Tem cuidado.

 

Está bem.

 

Não te esqueças, tem cuidado, muito cuidado.

 

         EDIFÍCIO 64

         11:45

 

Ao longo do centro do Edifício 64 existia toda uma série de compartimentos que abrigavam as peças que entravam na linha de montagem bem como alguns locais de trabalho. Estes encontravam-se no interior de pequenos compartimentos e continham um leitor de microfichas, um terminal de computador para as peças e um outro terminal ligado ao computador central.

 

Casey debruçava-se sobre um leitor de microfichas, percorrendo as fotocópias onde se encontravam os registos da Fuselagem 217, pois era essa a designação original da fábrica para o avião envolvido no acidente com o voo TPA 545.

 

Jerry Jenkins, o controlador do abastecimento de peças, mantinha-se a seu lado, nervoso, tamborilando com a caneta na mesa.

 

Já encontraste? perguntou. Já encontraste?

 

Jerry... disse-lhe Casey. Tem calma.

 

Estou calmo respondeu o homem, olhando para o recinto da montagem. Estava apenas a pensar que podias ter feito isto no período entre turnos.

 

Era um facto que Casey teria despertado menos atenções se ali tivesse ido nessa altura.

 

Jerry explicou, este assunto é urgente.

 

Anda toda a gente muito excitada com a venda à China afirmou Jerry, voltando a tamborilar com a caneta. Que direi eu aos rapazes?

 

Diz aos rapazes... começou Casey que, se perdermos a venda à China, esta linha de montagem será encerrada e todos nós ficaremos sem emprego.

 

Isso é verdade? inquiriu o homem, engolindo em seco. Tenho ouvido dizer...

 

Jerry, deixa-me ver os registos, está bem?

 

O registo era formado pela enorme massa de documentação, composta por um milhão de papéis, um para cada peça, que fora utilizada para a montagem do avião. Toda essa papelada, bem como outra ainda mais extensa que era exigida pela FAA para a certificação dos aviões, continha informações que eram propriedade exclusiva da Norton. A FAA não armazenava esses dados porque, se o fizesse, a concorrência podia ter acesso aos mesmos, invocando a Lei da Liberdade de Informação. Assim, a Norton guardava, num enorme edifício em Compton, um total de duas mil e quinhentas toneladas de documentos, que enchiam vinte e quatro metros de prateleiras para cada avião. Tudo isso fora passado a microfichas para poder ser consultado na linha de montagem. Porém, encontrar o documento correspondente a uma única peça era uma tarefa demorada e...

 

Já encontraste? Já encontraste? insistiu.

 

Sim declarou Casey, finalmente. Já o encontrei.

 

Olhava para a fotocópia de uma folha de papel da Hoffman Metal Works, de Montclair, Califórnia. O trinco de fixação dos slats era descrito por um código que correspondia ao dos desenhos de engenharia:

 

A/908/B-2117L (2) Ant SI Ltch. SS/HT. Indicava a data de fabrico, tinha um carimbo com a data de entrega na fábrica e uma data de instalação. Seguiam-se dois outros carimbos, um assinado pelo mecânico que instalara a peça, e outro assinado pelo inspector da Qá que aprovara o trabalho.

 

Então perguntou Jerry, era uma peça de origem, ou não:

 

Sim, era de origem. A Hoffman era a fabricante original do equipamento e fornecera a peça directamente, sem a intervenção de um distribuidor.

 

Jerry continuava a olhar para a sala de montagem. Aparentemente, ninguém lhes prestava atenção, mas Casey sabia que estavam a ser vigiados.

 

Vais-te embora agora?

 

Sim, Jerry, vou-me já embora.

 

Atravessou a sala de montagem, mantendo-se no corredor ao longo das caixas com as peças, longe das gruas que se encontravam lá em cima í olhando para os passadiços superiores, para ter a certeza de que não havia lá ninguém. Não havia. Aparentemente, iam deixá-la em paz.

 

O que descobrira até ali era perfeitamente claro: a peça que fora instalada originalmente no TPA 545 viera directamente de um fornecedor de confiança. A peça original fora boa. A que Doherty encontrara na asa não prestava.

 

Amos tivera razão.

 

No passado, acontecera qualquer coisa àquela asa. Uma coisa que dera origem a uma reparação.

 

O que fora?

 

Ainda tinha muito trabalho pela frente... e pouco tempo para o fazer

 

         NORTON DIVISÃO DE QUALIDADE

         12:30

 

Se a peça era de má qualidade, de onde viera? Precisava dos registos de manutenção, que ainda não tinham aparecido. Onde estava Richman? De regresso ao gabinete, folheou um monte de faxes. Todos os representantes da empresa espalhados pelo mundo pediam informações a respeito do N-22. O fax do representante em Madrid era típico.

 

     DE: S. RAMONES, FSR MADRID

     PARA: C. SINGLETON, QA/IRT

TENHO PERSISTENTES INFORMAÇÕES POR INTERMÉDIO DO MEU CONTACTO NA IBÉRIA, B. ALONSO, DIZENDO QUE DEVIDO AO INCIDENTE EM MIAMI A FAA IRÁ ANUNCIAR MAIS UM ADIAMENTO NA CERTIFICAÇÃO DO N-22 CITANDO "PREOCUPAÇÕES QUANTO A FIABILIDADE".

         POR FAVOR, INFORME.

 

Casey suspirou. O que o homem lhe comunicava era de esperar. A JÁ A era o organismo europeu equivalente à FAA americana. Recentemente, aos fabricantes americanos tinham-se-lhe deparado muitas dificuldades junto dessa organização. A FAA exercitava os seus novos músculos regulamentadores e incluía muitos burocratas que não faziam uma distinção clara entre vantagens comerciais negociadas e temas como a fiabilidade dos aparelhos. Havia algum tempo que a FAA fazia esforços especiais para forçar os Americanos a utilizar motores a jacto europeus. Os Americanos resistiam, pelo que era lógico que a FAA se aproveitasse do rebentamento de um rotor em Miami para fazer pressões sobre a Norton, adiando a certificação.

 

Porém, no fundo, tratava-se de um problema político que não lhe dizia respeito. Passou para o fax seguinte.

 

     DE: S. NIETO, FSR VANCOUVER

     PARA: C. SINGLETON, QA/IRT

CO-PILOTO LU ZANG PING SUBMETIDO A CIRURGIA DE URGÊNCIA àS 04:00 HORAS DE HOJE NO HOSPITAL GERAL DE VANCOUVER POR CAUSA DE HEMATOMA SUBDURAL: NÃO ESTARÁ ACESSÍVEL PARA INTERROGATÓRIO PELO MENOS 48 HORAS. SEGUIRÃO MAIS PORMENORES.

 

Casey esperara conseguir uma entrevista com o homem antes daquele período de quarenta e oito horas. Queria saber por que motivo se encontrava na traseira do avião e não na cabina... mas parecia que a resposta a essa pergunta teria de esperar até ao fim-de-semana.

 

Passou para o fax seguinte e olhou-o, espantada:

 

     DE: RICK RAKOSKI, FSR HONG KONG

     PARA: CASEY SINGLETON, QA/IRT

RECEBI PEDIDO REGISTOS DE MANUTENÇÃO PARA VOO TPA 545, FUSELAGEM 271, REGISTO ESTRANGEIRO 098/443/HB09 E TRANSMITIDO À TRANSPORTADORA.

EM RESPOSTA AO PEDIDO DA FAA A TRANSPACIFIC FORNECEU TODOS OS REGISTOS DA MANUTENÇÃO DE KAITAK, EM HONG-KONG, SINGAPURA E MELBURNE. FORAM TRANSMITIDOS PARA O SISTEMA ONLINE DA NORTON ÀS 22:10 HORA LOCAL. AINDA ESTOU A TENTAR AS ENTREVISTAS. É MUITO MAIS DIFÍCIL. SEGUIRÃO PORMENORES.

 

Era uma boa jogada da transportadora, pensou Casey. Como não qeriam autorizar as entrevistas, haviam decidido fornecer tudo o mais, numa aparente exibição de cooperação.

 

Os registos de Los Angeles estão a chegar agora declarou Norma, entrando no seu gabinete. Os de Hong Kong já cá estão.

 

Sim, já sei. Sabes o nome do ficheiro?

 

Aqui está. Norma entregou-lhe uma tira de papel e Casey martt lou algumas teclas no terminal por trás da sua secretária. Verificou-se um pequeno atraso enquanto era estabelecida a ligação ao computador principal... e o ecrã iluminou-se.

 

     REG. MANUT. N-22

     FUSELAGEM 271 098/443/HB09

   DD 5/14

     MANUT KAITAK

     MANUT SNGPOR

     MANUT MELB

     AS 6/19 MOD 8/12

     REG MANUT (A-C)

     REG MANUT (APENAS B)

     REG MANUT (A, APENAS)

 

Muito bem disse Casey, lançando-se ao trabalho.

 

Passou-se uma boa hora antes de Casey conseguir algumas respostas. Porém, no final dessa hora já tinha uma boa imagem sobre o que acontecera ao trinco dos slats do avião da Transpacific.

 

No dia 10 de Novembro do ano anterior, num voo de Bombaim para Melburne, o aparelho da Transpacific tivera um problema de comunicações por rádio. O piloto fizera uma paragem, não prevista, na ilha indonésia de Java. O rádio fora reparado sem dificuldades. Bbastara mudar um painel com um circuito fundido) e as equipas de terra javanesas haviam reabastecido o avião antes de este prosseguir o voo para Melburne.

 

Depois de o avião aterrar em Melburne, as equipas de terra australianas tinham verificado que a asa direita estava danificada.

 

Obrigada, Amos!

 

A asa fora danificada.

 

Os mecânicos de Melburne assinalaram que a estação de combustível da asa direita estava torcida, e que o trinco dos slats que lhe ficava adjacente também fora levemente danificado. Tinham chegado à conclusão de que o problema fora causado pelo pessoal de terra, em Java, durante o reabastecimento.

 

As estações de combustível do N-22 localizavam-se na parte inferior da asa, logo a seguir ao bordo de ataque. Uma equipa de terra inexperiente utilizara um equipamento inapropriado para reabastecer o N-22 e torcera a estação de combustível quando da ligação da mangueira. Isso dobrara o suporte, bem como a placa de acoplamento e o trinco adjacente.

 

Os trincos dos slats só raramente eram mudados e os serviços de manutenção de Melburne não possuíam um sobressalente. Em vez de atrasarem o avião na Austrália, fora decidido que prosseguisse para Singapura, onde efectuaria a reparação. Contudo, em Singapura, um mecânico de olhos mais atentos achara que o documento que acompanhara o trinco sobressalente tinha um aspecto suspeito. Os serviços de manutenção haviam ficado com dúvidas a respeito da genuinidade da peça.

 

Como esta, já colocada no seu lugar, funcionava normalmente, Singapura preferira não a substituir e o avião seguira para Hong Kong, para o terminal da Transpacific, onde a peça seria trocada por uma autêntica. Os serviços de manutenção de Hong Kong, conscientes de que se encontravam num dos grandes centros mundiais de falsificação, tomavam precauções especiais para garantir que as suas peças de substituição eram genuínas e encomendavam-nas directamente aos fornecedores originais, nos Estados Unidos. A peça nova fora instalada no dia 13 de Novembro do ano anterior.

 

A documentação parecia em ordem. A fotocópia surgiu no ecrã de Casey. A peça procedia da Hoffman Metal Works, em Montclair, Califórnia, o fornecedor original da Norton. No entanto, Casey sabia que o documento era falso, uma vez que a peça era falsa. Mais tarde, iria investigar o assunto para saber qual a sua verdadeira proveniência.

 

Contudo, de momento, a questão mais importante era aquela que Amos levantara: teriam sido substituídas outras peças?

 

Sentada no seu terminal de computador, Casey percorreu os registos da manutenção de Hong Kong para o dia 13 de Novembro, para investigar que mais havia sido feito ao avião naquele dia.

 

Era um trabalho lento. Tinha de analisar fotocópias de documentos, com anotações escrevinhadas pelos vários mecânicos. Todavia, acabou por descobrir uma lista dos trabalhos feitos na asa.

 

Havia três anotações.

 

CHG RT LDLT FZ-7. Mudar o fusível das lâmpadas de aterragem do lado direito.

CHG RT SLTS LK PIN. Mudar o trinco de fixação dos slats do lado direito.

CK ASS EQ PKG. Verificar o equipamento associado. Seguia-se uma anotação do mecânico: NRML, o que significava que o equipamento fora examinado e considerado normal.

 

O equipamento associado era constituído por um subgrupo de peças que deveriam ser verificadas sempre que surgia uma peça defeituosa. Por exemplo, se os vedantes da estação de combustível do lado direito estivessem gastos, era costume verificarem-se os vedantes do lado esquerdo, uma vez que faziam parte do equipamento associado.

 

A mudança do trinco dos slats desencadeara uma verificação do equipamento associado por parte da manutenção.

 

Mas... que equipamento?

 

Casey sabia que esses subgrupos de equipamento eram definidos pela Norton. Porém, não podia procurar a lista no computador do seu gabinete. Para a conseguir, teria de voltar ao terminal instalado na sala de montagem.

 

Empurrou a cadeira para trás e levantou-se.

 

         EDIFÍCIO 64

         14:40

 

O Edifício 64 estava praticamente deserto e a linha de montagem parecia abandonada no período de mudança de turnos. Havia uma hora de diferença entre o fim do primeiro e o começo do segundo, porque era esse o tempo necessário para que os parques de estacionamento se esvaziassem. O primeiro turno terminara às 14:30 e o segundo iniciava-se às 15:30.

 

Fora naquele período que Jerry Jenkins lhe dissera para examinar os registos, uma vez que ninguém estaria a ver. Casey teve de admitir que o homem tivera razão. Não havia por ali ninguém.

 

Dirigiu-se directamente ao compartimento do encarregado das peças, em busca de Jenkins, mas este não se encontrava lá. Deparou-se-lhe o dirigente da secção local da QA, instalado no seu compartimento rodeado por redes de arame e perguntou-lhe por Jerry Jenkins.

 

O Jerry? Foi para casa.

 

Porquê?

 

Disse que não estava a sentir-se bem.

 

Casey franziu a testa. Jenkins não deveria ter saído antes das dezassete horas. Encaminhou-se para o terminal do computador, para obter a informação que desejava.

 

Dedilhou o teclado e chamou a base de dados sobre os subgrupos de peças associadas. Inseriu a indicação RT SLATS LK PIN e recebeu a resposta que procurava:

 

     RT SLATS DRV TRK (22 RW

     RT SLATS LVR (22 RW

     RT SLATS HYD ACT (22 RW

   RT SLATS PSTN (22 RW

     RT SLATS FD CPLNG (22 RW

     RT PRX SNSR (22 RW

     RT PRX SNSR CPLNG (22 RW

     RT PRX SNSR PLT (22 RW

     RT PRX SNSR WC (22 RW

     2-5455 2-5769 2-7334 2-3444 2-3445 4-0212 4-0445 4-0343 4-0102

   SLS) SLS) SLS) SLS) SLC) PRC) PRC) PRC) PRW)

 

Fazia sentido. O subgrupo de peças associadas era constituído pelos outros cinco elementos dos slats: a calha, a alavanca, o actuador hidráulico, o êmbolo e o travão de actuação.

 

Para além disso, a lista dava instruções aos mecânicos para verificar o sensor de proximidade que se encontrava mais perto, bem como o seu sistema de fixação, cobertura e fios.

 

Sabia que Doherty já inspeccionara a calha. Se Amos tivesse razão, deveriam inspeccionar o sensor de proximidade com muito cuidado. Não lhe parecia que alguém o tivesse feito.

 

O sensor de proximidade estava localizado nas profundezas da asa. Era difícil de atingir e de inspeccionar.

 

Poderia ter sido a causa do problema?

 

Sim, admitiu. Era possível.

 

Desligou o terminal e começou a atravessar a sala de montagem, de volta ao seu gabinete. Precisava de telefonar a Ron Smith, para lhe dizer para inspeccionar o sensor. Avançava por baixo de aviões vazios, na direcção das portas na extremidade norte do edifício.

 

Quando se aproximou das portas, viu dois homens a entrar, recortados contra o sol do meio-dia. Mesmo assim, conseguia ver que um deles usava uma camisa vermelha, aos quadrados. O outro usava um boné de basebol.

 

Casey virou-se para o homem da QA para lhe pedir que chamasse a Segurança. Porém, o homem desaparecera e o seu compartimento de arame encontrava-se vazio. Casey olhou em volta e de súbito compreendeu que a sala estava deserta. Não se via ninguém excepto uma negra idosa no outro extremo do edifício, que varria o chão. Encontrava-se a oitocentos metros de distância.

 

Lançou uma olhadela ao relógio. As pessoas só começariam a aparecer dentro de quinze minutos.

 

Os dois homens avançavam para ela.

 

Casey virou-se e começou a afastar-se, refazendo o caminho por onde viera. Podia lidar com aquilo, pensou. Calmamente, abriu a mala e pegou no telefone celular, para ligar para a Segurança.

 

Contudo, o telefone não funcionava. Não tinha rede. Compreendeu que se encontrava no centro do edifício, que tinha o telhado forrado com uma rede de fios de cobre a fim de bloquear as transmissões de rádio exteriores sempre que os sistemas dos aviões eram testados.

 

Não poderia utilizar o telefone celular enquanto não chegasse ao outro lado do edifício.

 

A oitocentos metros de distância.

 

Caminhou mais depressa, os seus sapatos estalavam no chão de cimento. O som parecia ecoar por toda a enorme sala de montagem. Estais realmente sozinha? Claro que não. Naquele momento encontravam-se ali várias centenas de pessoas, embora não conseguisse vê-las. Estavam dentro dos aviões ou por trás dos enormes andaimes que os rodeavam. Havia centenas de pessoas à sua volta. Ia vê-las de um momento para o outro.

 

Espreitou por cima do ombro.

 

Os dois homens ganhavam terreno.

 

Apressou o passo, quase a correr, pouco firme sobre os saltos altos. De súbito, pensou: isto é ridículo. Sou uma executiva da Norton Aircraft..,! corro através da fábrica em pleno dia.

 

Diminuiu o ritmo do andamento e voltou a um passo normal.

 

Respirou fundo.

 

Olhou para trás. Os homens estavam mais perto.

 

Deveria enfrentá-los? Não, concluiu. A não ser que visse por ali outras pessoas.

 

Caminhou mais depressa.

 

Para a sua esquerda ficava uma zona de armazenamento. Normalmente, estariam ali dúzias de homens, à procura de peças ou a trabalhar em caixotes... mas a zona encontrava-se vazia.

 

Deserta.

 

Olhou por cima do ombro. Os homens encontravam-se a cinquenta metros e aproximavam-se.

 

Sabia que, se começasse a gritar, faria aparecer pelo menos uma dúzia de mecânicos. Todavia, aqueles dois rufiões afastar-se-iam, desaparecendo por trás de ferramentas e andaimes, e ela faria papel de parva. Não sobreviveria a uma coisa dessas. Passaria a ser a rapariga que ficara histérica na sala de montagem.

 

Não gritaria.

 

Nunca.

 

Onde diabo estavam os alarmes contra incêndios? Os alarmes das emergências médicas? Os alarmes para os materiais perigosos? Sabia que se encontravam espalhados por todo o edifício. Passara anos a trabalhar ali. Devia ser capaz de se recordar da sua localização. Carregaria num dos botões e diria que fora um acidente...

 

Não via qualquer botão de alarme.

 

Os homens encontravam-se a trinta metros. Se começasse a correr, apanhavam-na em segundos. No entanto, estavam a ser cautelosos. Também eles esperavam deparar-se-lhes outras pessoas de um momento para o outro.

 

Mas... Casey não via ninguém.

 

À sua direita erguia-se uma floresta de vigias azuis. Eram as grandes estruturas que mantinham as secções da fuselagem no seu lugar, enquanto eram rebitadas umas às outras. Era o seu último esconderijo.

 

Sou uma executiva da Norton Aircraft. Não posso...

 

Para o diabo com tudo isso.

 

Virou para a direita e dobrou-se para passar sob as vigas. Passou por escadas e por lâmpadas suspensas. Ouviu os homens, por trás dela, a soltarem uma exclamação de surpresa e a começarem a segui-la. No entanto, já se movia rapidamente, numa escuridão quase total.

 

Casey sabia como se deslocar ali em baixo. Avançava depressa, confiante, olhando para o alto para ver se havia alguém por cima dela. Em geral, encontravam-se vinte a trinta homens em cada uma das posições de trabalho, no alto dos andaimes, juntando as secções das fuselagens sob o clarão das luzes fluorescentes. No entanto, não via ninguém.

 

Por trás dela, ouvia os homens a resmungar e a bater nas vigas transversais, praguejando.

 

Começou a correr, desviando-se das vigas mais baixas, passando por cima de cabos e caixotes, e de súbito deparou-se-lhe uma clareira. Era a chamada posição de trabalho número catorze. Um avião, pousado sobre o trem de aterragem, erguia-se muito acima dela. Muito mais acima, em volta da cauda, encontravam-se os "jardins suspensos", a dezoito metros de altura.

 

Levantou os olhos para a fuselagem e viu a silhueta de alguém, no interior. Havia alguém numa janela.

 

Uma pessoa no interior do avião.

 

Finalmente! Trepou as escadas para o avião, com os pés a martelar nos degraus de metal. Subiu o equivalente a dois andares e parou para olhar. Lá no alto, por cima dela, nos "jardins suspensos", avistou três mecânicos encorpados, com os seus capacetes de protecção. Encontravam-se apenas a três metros do telhado, a trabalhar no rebordo superior do leme do avião. Conseguia ouvir o zumbido rápido e forte das ferramentas motorizadas.

 

Olhou para baixo e viu os dois homens que a perseguiam. Livraram-se da floresta de pilares azuis, olharam para o alto, avistaram-na e avançaram.

 

Casey continuou a subir.

 

Alcançou a porta traseira do avião e correu para o interior. A grande fuselagem, por terminar, era enorme e estava vazia. Não passava de uma sucessão de arcos com um brilho baço, semelhante à barriga de uma baleia de metal. A meio encontrava-se uma solitária mulher asiática, instalara os cobertores de isolamento, prateados, que forravam as paredes. A mulher olhou-a com uma expressão tímida.

 

Há mais alguém a trabalhar aqui? perguntou Casey.

 

Não, respondeu a mulher, abanando a cabeça. Tomou um ar assustado, como se tivesse sido apanhada a fazer algo de errado. Casey virou-se e correu de volta à porta.

 

Lá em baixo, os homens estavam apenas a um andar de distância. Casey atirou-se para as escadas, subindo para os jardins suspensos.

 

Quando começara a subir, a escada de metal tinha três metros de lar gura, mas fora estreitando e estava agora reduzida a sessenta centímetros. Para além disso, era mais íngreme, parecendo trepar no vazio rodeada por uma entontecedora confusão de cruzetas de andaimes. A toda a sua volta viam-se cabos eléctricos suspensos como lianas numa selva. Os ombros de Casey embatiam em caixas metálicas de junção à medida que subia. A escada oscilava sob os seus pés e desviava-se abruptamente para a direita em ângulos rectos, mais ou menos a cada dez degraus. Casey estava agora doze metros acima do solo e olhava para baixo, para a parte superior da fuselagem do avião, e para o alto, para o topo da cauda que se erguia por cima dela.

 

Estava muito alto. Repentinamente, sentiu-se invadida pelo pânico. Virando-se para os homens que trabalhavam na cauda, gritou:

 

Eh! Eh!

 

Os homens ignoraram-na.

 

Olhou para baixo e viu os dois homens que a perseguiam, com os corpos visíveis apenas de uma maneira intermitente por entre as barras dos andaimes.

 

Eh! Eh!

 

Os homens continuaram a ignorá-la. Continuou a subir e compreendeu por que razão não lhe respondiam. Usavam protecções de ouvidos, sob forma de tampas de plástico negro colocadas por cima das orelhas.

 

Não podiam ouvi-la.

 

Continuou a trepar.

 

Quinze metros acima do solo, a escada desviou-se abruptamente para a direita, em volta da superfície plana e negra dos lemes horizontais que só bressaíam da cauda do avião. Os lemes horizontais impediam-na de ver os homens que lá estavam em cima. Casey avançou lentamente, arrastando-se em volta dos lemes. As suas superfícies eram negras por serem fabricadas com resinas compósitas e recordou-se que não lhes devia tocar com as mãos nuas.

 

No entanto, desejava poder agarrar-se a elas. Dali para cima, as escadas não tinham sido feitas a pensar em pessoas que fugiam. Oscilavam loucamente e os seus pés escorregavam nos degraus. Agarrou-se ao corrimão com as mãos suadas quando se sentiu a deslizar, para baixo, talvez metro e meio, antes de parar.

 

Continuou a subir.

 

Já não conseguia ver o pavimento da sala. Encontrava-se oculta pelas diversas camadas de andaimes por baixo dela. Não lhe era possível verificar se o segundo turno começara ou não a trabalhar.

 

Continuou a subir.

 

Um pouco mais acima, começou a sentir o espesso ar quente aprisionado sob o telhado do Edifício 64. Recordou-se do nome que os homens davam àquela posição de trabalho: a sauna.

 

Continuando a subir, atingiu finalmente os lemes horizontais. Quando continuou a subir, as escadas descreveram novo ângulo, recuando e aproximando-se da superfície vertical da cauda, ocultando-lhe os homens que trabalhavam do outro lado. Já não queria olhar para baixo... E via os grandes barrotes de madeira do telhado, que ficavam a curta distância. Mais metro e meio... mais um desvio das escadas... contornou a cauda... e então...

 

Parou e ficou a olhar.

 

Os homens haviam desaparecido.

 

Espreitou e viu os três capacetes amarelos por baixo dela. Encontravam-se numa plataforma motorizada e desciam para o pavimento da fábrica.

 

-Eh! Eh!

 

Os homens com os capacetes não olharam para cima.

 

Casey virou a cabeça para trás e para baixo, ouvindo os ruídos metálicos dos dois homens que continuavam a subir as escadas atrás dela. Sentia a vibração das suas passadas. Sabia que estavam perto.

 

Já não tinha por onde escapar.

 

Directamente na sua frente, as escadas terminavam numa plataforma metálica, um quadrado com um metro e vinte de largura, encostado à cauda do avião. Era rodeada por um corrimão... e por baixo era o vazio.

 

Encontrava-se a dezoito metros de altura, numa plataforma minúscula, ao lado da enorme superfície da cauda do avião.

 

Os homens vinham a caminho.

 

Não tinha para onde ir.

 

Nunca devia ter começado a subir, pensou. Teria sido melhor ficar lá em baixo. Agora, não tinha escolha.

 

Casey passou uma perna por cima do corrimão da plataforma. Esticou-se na direcção do andaime e agarrou-o. O metal fora aquecido pelo ar junto ao telhado. Passou a outra perna por cima do corrimão da plataforma.

 

A seguir começou a descer pelo exterior do andaime, procurando apoios.

 

Casey compreendeu, quase imediatamente, que cometera um erro. O andaime fora construído com vigas cruzadas, em X. Quando as agarradas mãos deslizavam, e os seus dedos embatiam dolorosamente no ponto de cruzamento das vigas metálicas. Os seus pés também escorregavam sobre as superfícies inclinadas. As barras tinham rebordos aguçados e difíceis de agarrar. Depois de descer apenas por instantes, já estava sem fôlego. Prendeu-se a um cruzamento de barras com os braços e parou, para normalizar a respiração.

 

Não olhou para baixo.

 

Virando-se para a esquerda, viu os dois homens empoleirados na pequena plataforma. O homem da camisa vermelha e o homem do boné de basebol. Estavam parados, olhando-a, tentando decidir o que deveriam fazer a seguir. Casey encontrava-se cerca de metro e meio mais abaixo, suspensa no exterior dos andaimes.

 

Viu um dos homens a calçar luvas de trabalho.

 

Compreendeu que precisava de continuar a descer. Cuidadosamente desencaixou os braços e desceu. Metro e meio. Mais metro e meio. Estava ao nível dos lemes horizontais do avião, que já conseguia ver por entre vigas cruzadas.

 

Contudo, as vigas oscilavam.

 

Olhou para cima e viu o homem da camisa vermelha a descer atrás dela. Era forte e movimentava-se rapidamente. Iria alcançá-la dentro de poucos instantes.

 

O segundo homem descia as escadas, parando de vez em quando para espreitar através dos andaimes.

 

O homem da camisa vermelha encontrava-se a uns meros três metros de distância, por cima dela.

 

Casey continuou a descer.

 

Tinha os braços em fogo e a respiração era irregular e ofegante. Os andaimes encontravam-se cobertos de gordura em sítios inesperados e as suas mãos deslizavam. Sentia o homem por cima dela, sempre a descer. Olhou e viu as suas grandes botas de trabalho alaranjadas, com pesadas solas de crepe.

 

Dentro de instantes, o homem pisar-lhe-ia os dedos.

 

Quando Casey continuou a descer, houve qualquer coisa que lhe bateu no ombro esquerdo. Olhou para trás das costas e viu um cabo eléctrico suspenso do telhado. Tinha cerca de cinco centímetros de espessura e estava coberto por plástico isolador cinzento. Que peso conseguiria aguentar? Por cima dela, o homem continuava a descer.

 

Era tudo ou nada.

 

Esticou-se e deu um puxão no cabo. Parecia firme. Olhou para cima i não viu qualquer caixa de junção. Puxou o cabo para ela e rodeou-o com um braço. A seguir, rodeou-o com as pernas. Quando as botas do homem já quase a atingiam, Casey largou o andaime, ficou pendurada no cabo... e começou a deslizar.

 

Tentou descer mão a mão, mas os seus braços estavam demasiado enfraquecidos. Deslizou para o solo, com as mãos a arder.

 

Ia demasiado depressa. Não conseguia controlar a descida.

 

A dor provocada pela fricção era intensa. Desceu três metros... mais três metros. Descontrolou-se. Os seus pés embateram numa caixa de junção e parou, oscilando em pleno ar. Passou as pernas para lá da junção prendeu o cabo entre os pés e deixou que o peso do corpo a levasse.

 

Sentiu o cabo começar a soltar-se na caixa de junção.

 

Houve uma chuva de faíscas e os alarmes das emergências berraram ao longo de todo o edifício. O cabo oscilava para um lado e para o outro. Em baixo, ouviam-se gritos. Olhou e ficou chocada ao descobrir que estava apenas a cerca de dois metros e meio do solo. Havia braços estendidos para ela. As pessoas gritavam.

 

Casey largou-se e caiu.

 

Ficou surpreendida com a rapidez com que recuperou. Pôs-se de pé, enbaraçada, sacudindo as roupas.

 

Estou bem repetiu para as pessoas amontoadas à sua volta. Estou bem, a sério. Os paramédicos apareceram a correr mas Casey recusou a sua assistência com um gesto.

 

Naquele momento, os operários que se encontravam na sala de montagem já tinham reparado no seu cartão identificador, marcado com uma tora azul, e estavam confusos. Que fazia ali uma executiva, pendurada nos cabos? Mostravam-se hesitantes e recuavam, sem saberem muito bem como reagir.

 

Estou bem, está tudo bem. Continuem o que estavam a fazer...

 

Os paramédicos protestaram, mas Casey abriu caminho através da multidão, afastando-se. De repente, Kenny Burne estava a seu lado e passava-lhe um braço por cima dos ombros.

 

Que diabo se passa aqui? perguntou.

 

Nada.

 

Casey, não devias estar na sala de montagem, lembras-te?

 

Lembro-me, sim afirmou.

 

Deixou que Kenny a acompanhasse até ao exterior do edifício, para a luz do Sol. Semicerrou os olhos por causa da claridade. O enorme parque de estacionamento já se encontrava cheio com os carros do segundo turno. O sol reflectia-se em filas e filas de pára-brisas.

 

Tens de ter mais cuidado, Casey disse Kenny, enfrentando-a. Percebes o que quero dizer?

 

Claro que percebo!

 

Casey olhou para baixo, para as roupas. Viu uma grande faixa negra, de óleo, ao longo da blusa e da saia.

 

Tens alguma muda de roupas aqui na fábrica? inquiriu Burne.

 

Não. Preciso de ir a casa.

 

Será melhor que te dê uma boleia disse o homem. Casey ia começar a protestar, mas calou-se.

 

Obrigado, Kenny respondeu.

 

         ADMINISTRAÇÃO

         18:00

 

John Marder levantou os olhos por trás da secretária.

 

Ouvi dizer que houve uma confusão no Sessenta e Quatro. Que se passou?

 

Nada. Estava apenas a verificar uma coisa.

 

Não te quero sozinha na sala de montagem, Casey declarou, com um aceno, em particular depois do que aconteceu hoje de manhã com a grua. Se precisarem de lá ir, pede ao Richman ou a um dos engenheiros que te acompanhe.

 

Está bem.

 

O momento não é o mais oportuno para correres riscos.

 

Compreendo.

 

Bom... Marder agitou-se na cadeira. Que história é essa a respeito de um jornalista?

 

O Jack Rogers está a trabalhar num artigo que pode ser desagradável explicou Casey. O sindicato afirma que vamos entregar o fabrico da asa ao estrangeiro. Alguém lhes entregou documentos que, alegada mente, o comprovam... e o homem está a relacionar essa fuga de informações com... hum... fricções entre os dirigentes.

 

Fricções? perguntou Marder. Que fricções?

 

Disseram-lhe que tu e o Edgarton estão em guerra. Perguntou-me se eu pensava que os conflitos entre os gestores poderiam afectar a venda.

 

Oh, Cristo! exclamou Marder, num tom aborrecido. Isso é ridículo. Quanto a isto, apoio o Hal a cem por cento. A venda é essencial para a companhia... e não houve qualquer fuga de informações. Que lhe disseste?

 

Nada... respondeu Casey. Mas se queremos impedir que escréva o artigo, temos de lhe dar algo de melhor. Uma entrevista com o Edgarton... ou um exclusivo sobre a venda à China. É a única maneira.

 

Está bem... disse Marder. O Hal não fala com a imprensa. Posso pedir-lho, mas tenho a certeza de que não aceitará.

 

Bom, alguém terá de o fazer declarou Casey. E se fores tu?

 

Poderá ser difícil murmurou Marder. O Hal deu-me instruções para evitar os meios de comunicação até que a venda se concretize. Preciso de ter cuidado. Esse tipo é de confiança?

 

Sim, de acordo com a minha experiência.

 

Se eu lhe der qualquer coisa, pedindo para não ser citado, achas que o fará?

 

Sem dúvida. Só precisa de elementos para um artigo.

 

Então... está bem, falarei com ele. Marder escrevinhou um apontamento. Mais alguma coisa?

 

Não, é tudo respondeu Casey, virando-se para sair do gabinete.

 

A propósito, como vai o Richman?

 

Vai bem, mas tem falta de experiência.

 

Parece-me um tipo brilhante disse Marder. Aproveita-o. Dá--lhe qualquer coisa para fazer.

 

Está bem concordou Casey.

 

Foi esse o problema com as Vendas. Não lhe deram trabalho para fazer.

 

Está bem repetiu Casey.

 

Vemo-nos amanhã, na reunião da IRT concluiu Marder, levantando-se.

 

Logo que Casey abandonou o gabinete, abriu-se uma porta lateral e surgiu Richman.

 

Estúpido! disse-lhe Marder. Quase deram cabo dela esta tarde, no Edifício Sessenta e Quatro. Onde estavas?

 

Bem, estava no...

 

Vê se percebes uma coisa interrompeu-o Marder. Não quero que aconteça seja o que for à Singleton! Precisamos dela inteira. Não poderá fazer o seu trabalho a partir de uma cama de hospital.

 

Já compreendi, John...

 

Espero bem que sim... Quero que nunca a percas de vista até que toda esta história chegue ao fim.

 

         DIVISÃO DE QUALIDADE

         18:20

 

Casey regressou ao seu gabinete no quarto andar. Norma ainda se encontrava sentada à sua secretária, com um cigarro pendurado nos lábios.

 

Há mais um monte de papéis na tua secretária disse.

 

Está bem, obrigada.

 

O Richman já se foi embora continuou Norma.

 

Óptimo!

 

Parecia ansioso por sair. Sabes, falei com a Evelyn, da Contabilidade.

 

E então...?

 

As viagens que o Richman fez pelas Vendas foram debitadas como serviços aos clientes, por intermédio de um "saco azul" que utilizam para "luvas". O miúdo gastou uma verdadeira fortuna.

 

Quanto?

 

Estás preparada? Duzentos e oitenta e quatro mil dólares.

 

Ena! exclamou Casey. Em apenas três meses?!

 

É verdade.

 

Isso dá para muitas viagens a estâncias de esqui... comentou Qasey. Como é que classificavam as contas? Entretenimento... sem especificarem o cliente.

 

Quem aprovou essas despesas? A conta está ligada à produção explicou Norma, pelo que é Marder quem a controla.

 

O Marder aprovou essas despesas?

 

Aparentemente. A Evelyn prometeu confirmar. Irá dar-me mais in formações. Norma remexeu nos papéis que tinha em cima da secretária. A FAA vai atrasar-se na transcrição do CVR. Ouve-se muita coisa em chinês e os tradutores estão a discutir uns com os outros a respeito do significado das frases. A transportadora também está a fazer a sua própria tradução, por isso...

 

Ou seja, nada de novo disse Casey, suspirando. Em incidentes daquele tipo, os gravadores de voz da cabina de voo eram enviados para a FAA, que produzia uma transcrição escrita das conversas entre os pilotos isto porque as suas vozes eram propriedade da transportadora. Porém,! discussões a respeito das traduções eram vulgares sempre que os voos eram de companhias estrangeiras. Não se tratava de uma novidade.

 

A Allison telefonou?

 

Não, querida. A única chamada pessoal foi do Teddy Rawley.

 

Não é importante...

 

Se queres a minha opinião... também acho que não.

 

Já no gabinete, Casey folheou os papéis que Norma colocara na sua secretária. Referiam-se quase todos ao voo 545 da Transpacific. A primeira folha exibia um resumo dos documentos que se seguiam:

 

IMPRESSO FA A 8020-9, ACIDENTE/INCIDENTE, NOTA PRELIMINAR IMPRESSO FAA 8020-6, RELATÓRIO SOBRE ACIDENTE COM AVIÃO IMPRESSO FAA 8020-6-1, RELATÓRIO SOBRE ACIDENTE COM AVIÃO IMPRESSO FAA 7230-10 REGISTO DE POSIÇÃO

HONOLULU ARINC

Los ANGELES ARTCC

CALIFÓRNIA DO SUL ATAC REGISTO AUTOMÁTICO SIGN IN/SIGN OFF

CALIFÓRNIA DO SUL ATAC IMPRESSO FAA 7230-4, REGISTO DIÁRIO DE OPERAÇÕES

Los ANGELES ARTCC

CALIFÓRNIA DO SUL ATAC IMPRESSO FAA 7230-8, PLANO DE Voo

Los ANGELES ARTCC

CALIFÓRNIA DO SUL ATAC PLANO DE Voo, ICAO

 

Viu uma dúzia de páginas de cartas com o plano de voo, transcrições das gravações dos controlos de tráfego aéreo e relatórios meteorológicos. A seguir vinha material da Norton, incluindo um maço de folhas com dados sobre falhas constantes nos registos, dados que constituíam, até ao momento, os únicos elementos concretos com que podiam trabalhar.

 

Decidiu levar os documentos consigo. Estava fatigada. Podia estudar aqueles elementos em casa.

 

         GLENDALE

         22:45

 

Sentou-se na cama abruptamente, virou-se e pousou os pés no chão.

 

- Pois é, querida... - disse, sem olhar para ela. Observou-lhe os músculos nas costas nuas, a saliência da espinha e as fortes linhas dos ombros.

 

- Foi formidável - declarou. - Foi óptimo voltar a ver-te...

 

- Hum, hum - fez ela.

 

- mas, como sabes, amanhã é um grande dia...

 

Teria preferido que ele ficasse. Na verdade, sentia-se melhor quando o tinha ali, à noite. Todavia, sabia que ele se iria embora... como sempre.

 

- Compreendo. Não faz mal, Teddy - respondeu.

 

Aquela resposta fê-lo virar-se para a olhar, lançando-lhe o seu sorriso malandro mas encantador.

 

- És a melhor, Casey. - Debruçou-se para a beijar e foi um beijo muito prolongado. Sabia que aquilo era porque ela não iria implorar-lhe que ficasse. Devolveu-lhe o beijo, sentindo o seu leve odor a cerveja. Passou-lhe a mão em volta do pescoço e acariciou-lhe os cabelos finos.

 

O homem afastou-se quase imediatamente.

 

- Desculpa, tenho de ir.

 

- Com certeza, Teddy.

 

- A propósito, ouvi dizer que andaste a passear nos jardins suspensos! entre turnos... - Sim, é verdade. - É melhor não te meteres com as pessoas erradas... - Eu sei. - Tenho a certeza que sim - retorquiu, com um sorriso. - Beijou-o na face e dobrou-se para apanhar as meias. - De qualquer modo, é melhor ir andando... - Claro, Teddy. Queres que te faça café, antes de ires? - Hum... não, querida - respondeu, calçando as suas botas de caw boy. - Foi óptimo ver-te.

 

Não desejando ficar sozinha na cama, também se levantou. Vestiu a enorme t-shirt, acompanhou-o à porta e deu-lhe um breve beijo de despedida. Teddy tocou-lhe na ponta do nariz, sorrindo.

 

- Foi óptimo. - Boa noite, Teddy - retorquiu. Fechou a porta e ligou o alarme Regressando ao interior da casa, desligou o equipamento estereofónico e olhou para verificar se o homem ali deixara alguma coisa. Era frequent que os homens se esquecessem de coisas, para terem um motivo para voltarem. Teddy nunca o fazia. Não havia um único vestígio da sua presença exceptuando os restos da cerveja, na mesa da cozinha. Atirou a garrafa para o lixo e limpou o círculo de humidade.

 

Havia meses que dizia a si mesma que devia acabar com aquilo. Acabar o quê? O quê", perguntou-lhe uma voz, mas, por qualquer motivo nunca conseguira pronunciar as palavras. Andava tão atarefada com o trabalho e era tão difícil encontrar pessoas... Seis meses antes, na companhia de Eileen, a assistente de Marder, fora a um bar country-and-western em tudio City. O local era frequentado por jovens ligados ao cinema e por animadores da Disney. Eileen afirmara tratar-se de gente divertida. Para Casey fora um sofrimento. Não era bonita, nem jovem, e não possuía aquele encanto sem esforço exibido pelas raparigas que deslizavam pela sala com jeans e camisolas coladas ao corpo.

 

Os homens eram todos demasiado novos para ela, tinham rostos lisos e ainda mal formados. Não soubera o que lhes dizer. Sentira-se demasiado séria para um tal ambiente. Tinha um emprego, uma filha e aproximavam-se os quarenta. Nunca mais voltara a sair com Eileen.

 

Isso não queria dizer que não estivesse interessada em conhecer pessoas, mas... era muito difícil. Nunca dispunha do tempo ou da energia suficientes. No fundo, também não se preocupava.

 

Por isso, quando Teddy telefonava, dizendo que se encontrava nas redondezas, abria-lhe a porta e metia-se no duche, para se preparar.

 

As coisas eram assim havia quase um ano.

 

Fez chá e voltou para a cama. Apoiou-se na cabeceira da cama, pegou o maço de papéis e começou a rever os dados correspondentes ao voo, olheando o impresso saído do computador:

Eram nove páginas cheias de dados. Não estava muito certa a respeito do significado de algumas daquelas leituras, em particular as referentes às falhas AUX. Uma dizia provavelmente respeito à unidade geradora auxiliar, a turbina instalada na traseira da fuselagem, que funcionava a gás, que fornecia energia quando o avião estava parado no solo e que constituía a maior reserva de apoio no caso de falha eléctrica durante o voo. Mas... o que eram as outras? Leituras de linhas auxiliares? Verificações de sistemas redundantes? E o que significava AUX CÔA?

 

Teria de perguntar a Ron.

 

Passou adiante, para as listas DEU, que assinalavam as falhas em cada uma das etapas do voo. Percorreu-as rapidamente, bocejando, mas parou de repente:

Casey franziu a testa.

 

Não podia acreditar no que estava a ver.

 

Uma falha num sensor de proximidade.

 

Exactamente o que a sua investigação aos registos de manutenção dissera que devia procurar.

 

Depois de mais de duas horas de voo, fora assinalado um erro nose sor de proximidade. As asas estavam equipadas com muitos sensores! proximidade, pequenos sistemas electrónicos que assinalavam a presença de metal na sua vizinhança. Esses sensores eram necessários para confirmar se os slats e flaps se encontravam nas posições devidas, uma vez que o piloto não os podia ver a partir da cabina.

 

De acordo com aquele registo, surgira uma divergência entre os sensores da esquerda e da direita. Se o problema fosse do sistema de registo, teriam sido assinaladas falhas em ambas as asas. Todavia, a deficiência ocorrera apenas na asa direita. Casey passou à frente, para verificar se a falha voltara a aparecer. Folheou a lista rapidamente. Á primeira vista, não se via mais nada. Porém, bastava aquela falha isolada para que o sensor tivesse de ser verificado. Mais uma vez, teria de pedir a Ron...

 

Era difícil conseguir obter uma imagem do voo a partir daqueles elementos dispersos, pelo que precisava dos dados do registo de voo. De manhã, telefonaria a Rob Wong, para saber se este já conseguira qualquer coisa.

 

Entretanto...

 

Casey bocejou, acomodou-se nas almofadas e continuou a trabalhar.

 

         QUARTA-FEIRA

         GLENDALE

         6:12

 

O telefone estava a tocar. Acordou, estremunhada, e rolou para um lado, ouvindo o som de papel a amarrotar-se por baixo do seu cotovelo. Olhou e viu as folhas de dados espalhadas por toda a cama.

 

O telefone continuava a tocar e Casey agarrou no auscultador.

 

Mamã... O tom era solene, muito perto das lágrimas. -Olá, Allie.

 

Mamã, o papá quer que eu vista o vestido vermelho e eu quero levar o azul, com florinhas.

 

Qual deles usaste ontem? perguntou Casey, com um suspiro.

 

O azul... mas não está sujo, nem nada!

 

Era a luta do costume. Allison gostava de usar o vestido do dia anterior. Tratava-se do conservadorismo inato de uma garota de sete anos.

 

Querida, sabes que gosto que leves roupas limpas para a escola.

 

Mamã, o vestido está limpo... e eu odeio o vermelho.

 

No mês anterior, o vestido vermelho fora o seu favorito e Allison insistira em usá-lo todos os dias.

 

Casey sentou-se na cama, bocejou e olhou para os papéis com as suas densas colunas de dados. Ouvia a voz queixosa da filha no telefone e pensou: Será que preciso disto? Perguntou a si mesma porque seria que Jim não resolvia o assunto. Ao telefone, era tudo muito mais difícil. Jim não cumpria o seu papel e não era firme com a filha. A tendência natural das crianças para lançar um dos pais contra o outro levava a intermináveis encontros a longa distância, como aquele.

 

Problemas triviais, birras de crianças.

 

Allison declarou, interrompendo a filha. Se o teu pai te disse para usares o vestido vermelho, então é isso o que tens de fazer.

 

Mas, mamã...

 

Agora, é ele quem manda.

 

Mãe...

 

É tudo, Allison. Nada de mais discussões. Usa o vestido vermelho.

 

Oh, mãe... murmurou a filha, começando a chorar. Detesto-te! acrescentou, desligando.

 

Casey pensou em voltar a ligar mas concluiu que seria melhor não o fazer. Bocejou, levantou-se, dirigiu-se à cozinha e ligou a máquina do café. O fax zumbia no canto da sala. Casey foi ver a folha de papel que saía da máquina.

 

Era uma cópia de um comunicado de imprensa de uma firma de Washington. Apesar de ter um nome neutro, Instituto para a Investigação Aeronáutica, Casey sabia que se tratava da firma de relações públicas que representava o consórcio europeu que fabricava o Airbus. O comunicado tinha um formato semelhante aos das agências noticiosas e até tinha um título. Casey leu:

 

FAA ATRASA A CERTIFICAÇÃO DO N-22, REFERINDO AS SUAS CONTINUADAS PREOCUPAÇÕES COM A SEGURANÇA DOS VOOS

 

Casey suspirou. Ia ser um dia infernal.

 

         SALA DE REUNIÕES

         7:00

 

Casey trepou as escadas de metal para a Sala de Reuniões. Quando chegou ao passadiço, John Marder já lá se encontrava, à sua espera, andando de um lado para o outro.

 

Ah, Casey!

 

Bom dia, John.

 

Viste esta coisa da FAA? perguntou, agitando o fax.

 

Vi, sim.

 

É uma estupidez, claro, mas o Edgarton trepou pelas paredes. Está muito preocupado. Em primeiro lugar, tivemos dois incidentes em dois dias... e agora isto! Receia que a imprensa nos caia em cima e não acredita que o pessoal do Benson saiba lidar com o assunto.

 

Bill Benson era um dos mais antigos colaboradores da Norton. Estava encarregue das relações com os meios de comunicação desde os tempos em que a companhia vivera dos contratos com os militares e nunca dava informações à imprensa. Teimoso e rude, Benson nunca conseguira ajustar-se ao mundo pós-Watergate, um mundo em que os jornalistas eram celebridades que derrubavam governos. Era famoso pelos seus conflitos com os jornalistas.

 

Este fax pode gerar o interesse da imprensa, Casey, em especial entre os jornalistas que não sabem até que ponto a FAA é astuta. Como é óbvio, não vão querer falar com um tipo das relações públicas, mas sim com um executivo da empresa. Por isso, o Hal quer que sejas tu a tratar de todas as perguntas relacionadas com a FAA.

 

Eu?! exclamou Casey, pensando: porquê eu? Já tenho um emprego. O Benson não vai ficar muito satisfeito convosco...

 

O Hal falou com ele pessoalmente. Não levantará objecções.

 

Tens a certeza?

 

Para além disso continuou Marder também penso que devemos preparar um bom comunicado para a imprensa sobre o N-Vinte e Dois. Tem de ser melhor do que a habitual conversa fiada das Relações Públicas. O Hal sugeriu que compilasses uma extensa lista de argumentos capazes de refutar as afirmações da FAA. Horas de serviço, registos de segurança, dados sobre a fiabilidade... e tudo o mais.

 

Está bem... Iria ter muito mais trabalho e...

 

Disse ao Hal que andas muito atarefada e que isto irá ser um fardo adicional afirmou Marder, pelo que ele aprovou uma subida de dois escalões na tua Cl.

 

A compensação para incentivo, o sistema de bónus da empresa, constituia uma grande parte dos rendimentos dos executivos. Uma subida de dois escalões significava uma grande quantidade de dinheiro extra para Casey. Está bem repetiu.

 

A questão está prosseguiu Marder em que temos bons argumentos para responder a este fax, e o Hal quer ter a certeza de que os fazemos valer. Posso contar com a tua ajuda?

 

Sem dúvida retorquiu Casey.

 

Óptimo disse Marder, continuando a subir as escadas e entrando na sala.

 

Richman já se encontrava presente, muito elegante, envergando um casaco desportivo e uma gravata. Casey instalou-se numa das cadeiras.

 

Marder tomou o comando da reunião, excitado, brandindo o fax da FAA earengando aos engenheiros.

 

Provavelmente já repararam que a FAA está a brincar connosco. Escolheu o momento mais apropriado para pôr em risco a nossa venda à China. Contudo, se lerem bem o seu memorando, verificarão que o assunto se refere apenas à questão daquele motor, em Miami, e não tem nada a

ver com a Transpacific, pelo menos por enquanto...

 

Casey tentou prestar atenção mas estava distraída, calculando quanto iria passar a receber depois de uma subida de dois escalões. Fez um cálculo de cabeça... e concluiu que era o equivalente a um aumento de vinte porcento. Jesus, pensou. Vinte por cento! Podia enviar Allison para um colégio particular. Também podiam ir passar as férias a um sítio agradável, tal como o Havaí, ou outro do mesmo género. Instalar-se-iam num bom hotel. No ano seguinte, mudar-se-iam para uma casa maior, com um grande pátio, para que Allison pudesse brincar e... Toda a gente, em volta da mesa, estava a olhar para ela.

 

Casey repetiu Marder. O DFDR? Quando é que teremos os dados?

 

Desculpem... disse Casey. Falei com o Rob hoje de manhã. Acalibração avança muito lentamente. Talvez amanhã já se saiba mais alguma coisa.

 

Muito bem. Estruturas?

 

Doherty respondeu com o seu habitual tom monótono e infeliz:

 

John é muito difícil, realmente muito difícil. Encontrámos um mau trinco no slat número dois. É uma peça falsificada e...

 

Então temos de a verificar declarou Marder, interrompendo-o.

- Hidráulica?

 

Continuamos a investigar. Até agora, está tudo bem. Os cabos estão de acordo com as especificações.

 

Quando esperam concluir a investigação?

 

Hoje, no fim do primeiro turno.

 

Sistemas eléctricos?

 

Já verificámos os cabos principais respondeu Ron. Não há falhas. Penso que devíamos fazer um exame completo aos sistemas.

 

De acordo. Pode fazê-lo durante a noite, para pouparmos tempo?

 

Claro admitiu Ron, encolhendo os ombros, mas vai ser dispendioso.

 

Ao diabo com as despesas. Há mais alguma coisa?

 

Bom, sim, há mais uma coisa... disse Ron. A lista de falhas DEU indica que pode ter-se verificado um problema com os sensores de proximidade da asa. Se os sensores falharam, pode ter surgido uma falsa indicação de saída extemporânea de slats...

 

Fora o que Casey também descobrira na noite anterior. Tomou nota, para mais tarde interrogar Ron a esse respeito, e também sobre os dados UX constantes nos documentos.

 

Voltou a distrair-se, pensando no aumento. Agora, Allison podia ir para uma boa escola. Já a via numa pequena mesa, numa sala com poucos alunos...

 

Motores? perguntou Marder.

 

Ainda não sabemos se houve uma selecção de inversores declarou Kenny Burne. Precisamos de mais um dia.

 

Continuem, até poderem excluir essa possibilidade. Electrónica

 

Até este momento, está tudo em ordem afirmou Trung.

 

A questão do piloto automático...

 

Ainda lá não chegámos. Essa é a última coisa, na sequência da investigação. Teremos de fazer um teste de voo.

 

Muito bem prosseguiu Marder. Verifiquemos, hoje mesmo essa nova pista referente aos sensores de proximidade. Ficamos à espera do resgisto de voo e dos resultados dos testes aos motores e à electrónica, Não é assim?

 

Toda a gente acenou uma confirmação.

 

Não deixem que eu vos atrase concluiu Marder. Preciso de respostas. Mostrou o fax da FAA. Isto é apenas a ponta do icebergue, rapazes. Acho que não necessito de vos recordar o que aconteceu com o CD-Dez. Era o mais avançado avião do seu tempo, uma verdadeira maravilha de engenharia. Sofreu um par de incidentes, com algumas ima gens feias... e passou à história. Por isso... arranjem-me respostas!

 

         NORTON AIRCRAFT

         9:31

 

Quando atravessavam a fábrica em direcção ao Hangar 5, Richman disse:

 

O Marder parecia muito enervado, não é verdade? Será que acredita em tudo aquilo?

 

Referes-te ao DC-Dez? Sim. Houve um acidente que acabou com o avião.

 

Que acidente?

 

Com um voo da American Airlines de Chicago para Los Angeles respondeu Casey. Foi em Maio de 1979. Estava um dia bonito, com bom tempo. Pouco depois da descolagem, o motor da asa esquerda caiu. O avião entrou em perda e caiu perto do aeroporto, matando todos os que se encontravam a bordo. Foi muito dramático e aconteceu tudo em trinta segundos. Houve umas pessoas que gravaram o voo, pelo que as televisões tiveram imagens para mostrar nos noticiários. Os meios de comunicação enlouqueceram e afirmaram que o aparelho era um caixão voador. As agências de viagens foram inundadas com pedidos de cancelamento em voos no DC-Dez. A Douglas nunca mais conseguiu vender um desses aviões.

 

O que levou à queda do motor?

 

Má manutenção explicou Casey. A American não seguiu as recomendações da Douglas sobre como retirar os motores do avião. Esta disse-lhes para começarem por retirar o motor da asa. Porém, para poupar tempo, a American tirava todo o conjunto de uma só vez... o que representava sete toneladas de metal numa só empilhadeira. Uma das empilhadeiras ficou sem combustível durante a operação e fez estalar o suporte. Contudo, ninguém reparou... e o motor acabou por cair. Por isso, tratou-se apenas de uma má manutenção.

 

Pode ser... comentou Richman. Mas os aviões não deviam poder voar só com um motor?

 

É verdade. O DC-Dez foi construído para sobreviver a esse tipo de falhas. O DC-Dez era perfeitamente fiável. Se o piloto tivesse mantido a velocidade, tudo correria bem e teria conseguido aterrar.

 

Porque não o fez?

 

Porque, como de costume, teve lugar toda uma sequência de acontecimentos até ao desastre final disse Casey. Neste caso, a energia eléctrica que alimentava os instrumentos do comandante, na cabina, provinha do motor esquerdo. Quando este caiu, os instrumentos ficaram sem energia, incluindo os avisos de perda e o vibrador da manche. Trata-se de um sistema que faz vibrar a manche para avisar o piloto que o avião entrou em perda. O co-piloto ainda tinha energia nos seus instrumentos, masnão dispunha de um vibrador. A sua instalação é opcional para o copiloto, mas a American não a encomendara. Por outro lado, a Douglas não tinha sistemas de aviso redundantes. Por isso, quando o DC-Dez entrou em perda, o co-piloto não soube que precisava de aumentar a potência.

 

Muito bem, mas... insistiu Richman. Para começar, os instrumentos do comandante não deviam ter ficado sem energia.

 

Não, tratava-se de um sistema de segurança incluído nos desenhos originais. A Douglas desenhara e construíra o avião de modo a poder só breviver a todas essas falhas. Quando o motor esquerdo se soltou, o avião cortou deliberadamente a energia ao comandante para evitar outras falhas no sistema. Recorda-te de que todos os sistemas dos aviões são redundantes. Se um falha, o sistema de apoio entra em funcionamento. Era fácil repor a energia nos instrumentos do comandante. Bastava que o engenheiro de voo ligasse um relê ou a energia de emergência. Contudo, não o fez.

 

Porquê?

 

Ninguém sabe respondeu Casey. O co-piloto, que não dispunha das necessárias informações nos seus instrumentos, reduziu intencionalmente a velocidade, o que fez o aparelho entrar em queda e cair.

 

Caminharam em silêncio durante alguns instantes.

 

O acidente podia ter sido evitado de muitas maneiras diferentes continuou Casey. As equipas de manutenção, depois de os terem assistido de uma maneira incorrecta, deveriam ter verificado os suportes do motor em busca de danos estruturais. Não o fizeram. A Continental já provocara fendas em dois suportes ao utilizar empilhadeiras, e poderia ter informado a American, dizendo que o processo era perigoso. Não o fizeram. A Douglas comunicara à American os problemas que a Continental estava a enfrentar, mas não lhe deram ouvidos.

 

Richman abanava a cabeça.

 

Depois do acidente, a Douglas não pôde dizer que se tratara de problemas de manutenção porque a American era um cliente muito apreciado. Por isso, a Douglas não pôde explicar-se perante o público. Neste tipo de incidentes, é sempre a mesma coisa... a verdadeira história nunca vem a público, excepto quando os meios de comunicação a descobrem. Porém, tratava-se de uma história complicada, o que se torna difícil para a televisão... pelo que se limitaram a passar as imagens. As imagens mostram o motor a cair, o avião a inclinar-se para a esquerda e a precipitar-se no solo. Deixaram implícito que o avião fora mal desenhado, que a Douglas não previra a falha do pilone e que o aparelho não fora construído para lhe sobreviver. Era um ponto de vista completamente errado, mas a Douglas nunca mais vendeu um DC-Dez.

 

Bom... comentou Richman. Não me parece que se possa censurar os meios de comunicação. Não fazem as notícias, limitam-se a informar o público.

 

É aí mesmo que eu quero chegar afirmou Casey. Não informaram ninguém, limitaram-se a passar o filme. O acidente de Chicago foi uma espécie de ponto de viragem para a nossa indústria. Pela primeira vez, um avião foi destruído por uma má imprensa. O golpe final foi dado pelo relatório da NTSB, que saiu em 21 de Dezembro. Ninguém lhe prestou atenção.

 

"Por isso, agora, quando a Boeing apresenta o seu novo 777, organiza uma verdadeira campanha de imprensa a coincidir com o lançamento. Permitem que uma televisão filme os anos de desenvolvimento e no fim há um verdadeiro show televisivo. Simultaneamente, publicam um livro. Fazem tudo o que podem para criar, antecipadamente, uma boa imagem para o avião, porque o que está em jogo é muito importante.

 

Custa-me a acreditar que os meios de comunicação tenham um tão grande poder declarou Richman, caminhando ao lado de Casey.

 

O Marder tem motivos para estar preocupado retorquiu Casey, abanando a cabeça. Se alguém da imprensa descobre o que aconteceu ao voo cinco quatro cinco, então teremos dois incidentes em dois dias... e estaremos metidos em grandes sarilhos.

 

         "NEWSLINE"/NOVA IORQUE

           13:54

 

Nas instalações do programa de televisão noticioso Newsline, situada no vigésimo terceiro piso de um edifício no centro de Manhattan, Jennifer Malone encontrava-se na sala de montagem analisando a gravação de uma entrevista com Charles Manson. Deborah, a sua assistente, entrou na sala largou um fax sobre a mesa e declarou com um ar casual.

 

O Pacino pôs-se a andar.

 

O quê?! exclamou Jennifer, carregando no botão de pausa.

 

O Al Pacino foi-se embora.

 

Quando?

 

Há dez minutos. Irritou-se com o Marty e foi-se embora.

 

O quê? Passámos quatro dias a gravar nos cenários, em Tânger O seu novo filme estreia esta semana... e estava previsto dar-lhe doze minutos... Uma peça de doze minutos no Newsline, o programa noticioso mais visto da televisão, constituía o tipo de publicidade que nem sequer dinheiro conseguia comprar. Todas as estrelas de Hollywood queriam aparecer no programa. Que se passou?

 

O Martin estava a conversar com ele durante a maquilhagem e recordou que o Pacino não conseguiu um único filme de êxito nos últimos quatro anos. Acho que ficou ofendido e pôs-se a andar.

 

Em frente da câmara?

 

Não, foi antes.

 

Jesus! exclamou Jennifer. O Pacino não pode fazer uma coisa dessas. O seu contrato exige-lhe que faça publicidade. Foi tudo preparado há meses...

 

Pois foi... mas pirou-se.

 

Que disse o Marty?

 

Está furioso e diz: "Era de esperar, temos um programa noticioso que faz perguntas difíceis." Uma reacção típica do Marty.

 

Jennifer soltou uma praga e acrescentou:

 

Era precisamente o que todos nós receávamos que viesse a acontecer...

 

Marty Reardon era um entrevistador famoso por não ter papas na língua. Embora dois anos antes tivesse abandonado os noticiários para ir trabalhar no Newsline por um salário muito mais elevado ainda se con siderava a si mesmo como um jornalista duro mas justo, para quem não existiam limitações. Na prática, contudo, gostava de embaraçar os entrevistados fazendo-lhes perguntas extremamente pessoais, mesmo que não fossem pertinentes para a história. Ninguém quisera ver Marty a entrevis tar Pacino, porque o homem não gostava de celebridades e não queria participar em peças "fúteis". Contudo, Frances, a jornalista geralmente encarregue de entrevistar as celebridades estava em Tóquio para uma entrevista com a princesa.

 

O Dick já falou com o Marty? Há alguma maneira de salvar a situação? Dick Shenk era o produtor executivo do Newsline. Tivera a habilidade suficiente para, em apenas três anos, transformar um programa em que ninguém estava interessado num grande êxito, que era agora exibido no horário nobre. Era Shenk quem tomava todas as decisões importantes, e era também a única pessoa com suficiente influência para lidar com uma prima donna como Marty.

 

O Dick ainda está a almoçar com Mister Early. Os almoços de Shenk com Early, o presidente da rede, prolongavam-se sempre até meio da tarde.

 

Quer dizer que ainda não sabe?

 

Não, não sabe.

 

Formidável! murmurou Jennifer, dando uma olhadela ao relógio. Eram duas da tarde. Se Pacino desistira, tinham um buraco de doze minutos para encher e menos de setenta e duas horas para o fazerem. Que espécie de reservas temos, nos "enlatados"?

 

Nada. O programa sobre Madre Teresa está a ser remontado. O do Mickey Mantle ainda não chegou. Tudo o que temos é aquela história do garoto que jogava basebol e anda agora de cadeira de rodas.

 

O Dick nunca aceitaria isso gemeu Jennifer.

 

Eu sei confirmou Deborah. É uma porcaria.

 

Jennifer pegou no fax que a sua assistente largara sobre a mesa. Era um comunicado de imprensa de um qualquer grupo de relações públicas, igual a centenas de outros que as estações de televisão recebiam todos os dias. Tal como os restantes, fora formatado de modo a parecer-se com o comunicado de uma agência noticiosa e até tinha um título. Dizia:

 

FAA ATRASA A CERTIFICAÇÃO DO N-22, REFERINDO AS SUAS CONTINUADAS PREOCUPAÇÕES COM A SEGURANÇA DOS VOOS

 

O que é isto? perguntou, com uma careta.

 

O Hector mandou-me entregar-to.

 

Porquê?

 

Porque pensou que pode haver aí qualquer coisa.

 

Porquê? O que diabo vem a ser a FAA? Jennifer analisou o texto. Tratava-se de conversa aeronáutica, de que não entendia nada. Pensou: não há imagens.

 

Aparentemente, trata-se do mesmo tipo de avião que se incendiou em Miami.

 

Oh! O Hector quer fazer uma peça sobre a segurança aeronáutica? Boa sorte! Já toda a gente viu as imagens do avião a arder, que nem sequer eram grande coisa. Atirou o fax para um lado. Pergunta-lhe se não tem mais nada para me dar.

 

Deborah afastou-se. Sozinha, Jennifer olhou para o rosto imóvel de Charles Manson no ecrã que se encontrava na sua frente. Desligou-o e decidiu pensar durante alguns instantes.

 

Jennifer Malone tinha vinte e nove anos e era a produtora mais jovem em toda a história do Newsline. Progredira rapidamente porque era boa naquilo que fazia. Já anteriormente revelara o seu talento. Quando ainda estudava na Brown e fora trabalhadora eventual da televisão durante as férias do Verão tal como Deborah o era agora, passara muitas noites a investigar, dedilhando no terminal do Nexis, prescrutando os comunicados das agências noticiosas. Depois, com o coração na boca, fora ter com Dick Shenk para lhe propor uma história sobre um estranho vírus que apareceu em África, e sobre o corajoso médico do Centro de Controlo de Doenças que se encontrava no local. A proposta conduzira à famosa peça sobre o ébola, a grande cacha do ano para o Newsline, e a mais um Prémio Peah para Dick Shenk pendurar na sua parede.

 

A seguir, Jennifer propusera o programa sobre Darryl Strawberry,! programa sobre a mina a céu aberto em Montana, e um outro sobre jogo. Nunca uma jovem de um colégio interno vira um programa seu a ser emitido. Jennifer fizera quatro. Shenk anunciara que gostava do seu faro e propusera-lhe um emprego. O facto de ser brilhante, bela e jovem não era inconveniente. No seguinte mês de Junho, depois de concluir o curso, Jennifer começara a trabalhar para o Newsline.

 

O programa tinha quinze produtores a trabalhar. Era-lhes designado um apresentador talentoso, e cada um deles devia apresentar uma história de duas em duas semanas. Em média, eram precisas quatro semanas para a conclusão de uma história. Depois de duas semanas de investigação, os produtores iam ter com Dick, para obter uma autorização para seguir em frente. Depois, visitavam os locais, filmavam cenas e realizavam as entre vistas secundárias. A história era montada pelo produtor e narrada pelo apresentador estrela, que aparecia no local apenas por um dia, fazia a narração e as principais entrevistas, e voltava a meter-se num avião para irfa zer o mesmo serviço noutro local qualquer. Entretanto, o produtor tratava da montagem final. Algum tempo antes de o programa ir para o ar, o apresentador aparecia no estúdio, lia o guião preparado pelo produtor e fazia a narração sobre as imagens.

 

Quando a peça ia para o ar, o apresentador aparecia como sendo um verdadeiro jornalista. O Newsline protegia a reputação das suas estrelas. Porém, de facto, os verdadeiros jornalistas eram os produtores. Escolhiam as histórias, investigavam, davam-lhes forma, escreviam os guiões e montavam as imagens. O apresentador estrela limitava-se a fazer o que lhe mandavam.

 

Era um sistema que Jennifer apreciava. Dava-lhe um poder considerável e agradava-lhe trabalhar nos bastidores, sem que ninguém conhecesse o seu nome. O anonimato era-lhe útil. Por vezes, quando conduzia entrevistas, era tratada com desdém e os entrevistados falavam livremente mesmo apesar de as câmaras estarem a gravar. A certa altura, os entrevistados acabavam sempre por perguntar: "Quando é que tenho a oportunidade de conhecer o Marty Reardon?" Jennifer respondia, com solenidade, dizendo que essa decisão ainda não fora tomada, e continuava a fazer perguntas. Durante esse processo, acabava por apanhar em falso o burro que pensava que aquilo era apenas um ensaio.

 

Na verdade, era ela quem fazia as histórias, e não se importava que o crédito fosse todo para as estrelas do ecrã. "Nunca dizemos que são eles quem faz a reportagem", afirmava Shenk. "Nunca deixamos implícito que entrevistaram alguém que na verdade não entrevistaram. Neste programa,; o entrevistador não é a estrela. A estrela é a história. O entrevistador é apenas um guia, que conduz a audiência ao longo da história. É alguém em quem confiam e com quem se sentem bem ao convidá-lo a aparecer em suas casas."

 

Era verdade, pensou Jennifer. De qualquer modo, não havia tempo para fazer as coisas de outra maneira. Uma estrela dos media, tal como MattyReardon, tinha mais compromissos a cumprir do que o Presidente, e era mais famoso e mais facilmente reconhecido nas ruas. Não era de esperar que uma pessoa como Marty perdesse tempo a investigar e a tropeçar em falsas pistas para conseguir uma história.

 

Não havia tempo para isso.

 

Aquilo era a televisão. Nunca havia tempo suficiente.

 

Volta a olhar para o relógio. Dick não voltaria do almoço antes das três, ou três e meia. Marty Reardon não iria pedir desculpa a Al Pacino. Por isso, quando Dick voltasse do almoço, iria explodir, dar cabo de Reardon... e só depois se mostraria desesperado por encontrar qualquer coisa para encher aquele buraco de doze minutos.

 

Jennifer tinha uma hora para descobrir essa qualquer coisa.

 

Ligou a televisão e começou a saltar de canal para canal. Olhou novamente para o fax que tinha em cima da mesa.

 

FAA ATRASA A CERTIFICAÇÃO DO N-22, REFERINDO AS SUAS CONTINUADAS PREOCUPAÇÕES COM A SEGURANÇA DOS VOOS.

 

"Espera aí!", pensou. Continuadas preocupações com a segurança? Aquilo quereria dizer que o avião tinha problemas de segurança? Se assim era. talvez houvesse ali uma história. Não sobre a segurança aérea, assunto que já fora tratado um milhão de vezes naquelas infindáveis histórias sobre os controladores aéreos, os velhos computadores dos anos sessenta que ainda utilizavam e sobre todos os perigos do sistema. Histórias como essa só serviam para deixar as pessoas ansiosas. As audiências não vibravam porque nada podiam fazer a esse respeito. Porém, um avião específico, com um problema, era um assunto diferente... Tratava-se de um produto com pouca segurança. Não comprem esse produto. Não voem nesse avião.

 

"Pode ser muito, muito eficiente", concluiu.

 

Pegou no telefone e marcou um número.

 

           HANGAR 5

           11:15

 

Casey encontrou Ron Smith com a cabeça enfiada num compartimento de acessórios logo atrás do trem de aterragem da frente. À sua volta, a equipa de electricistas trabalhava afanosamente.

 

Ron pediu, explica-me esta lista de falhas. Levara consigo a lista de dez páginas.

 

Que queres saber?

 

Há aqui quatro leituras AUX, referentes às linhas um, dois, três e CÔA. Para que servem?

 

Isso é importante?

 

É o que estou a tentar decidir.

 

Bom... suspirou Ron. AUX refere-se ao gerador auxiliar. A turbina a gás que se encontra na cauda. AUX Dois e AUX Três são linhas redundantes, para o caso de o sistema ser melhorado e poder necessitar delas. AUX CÔA é uma linha auxiliar para adições opcionais do cliente. É nessa linha que o cliente instala equipamentos, tal como o QAR... que este aparelho não tem.

 

Todas estas linhas indicam um valor zero insistiu Casey. Isto significa que estão a ser utilizadas?

 

Não necessariamente. O valor por omissão é, zero. Para saberes se estão a ser utilizadas terás de as verificar.

 

Muito bem. Casey dobrou as folhas de papel. E quanto à falha no sensor de proximidade?

 

Estamos a verificá-lo agora. Talvez cheguemos a uma qualquer conclusão. Olha, os dados sobre as falhas são instantâneos de um determinado momento. Nunca saberemos o que se passou com este voo só com instantâneos. Precisamos dos dados do DFDR. Tens de os conseguir, Casey.

 

Tenho andado a insistir com o Rob Wong...

 

Então... insiste mais declarou Smith. O registo de voo é a chave do mistério.

 

Chegou-lhe aos ouvidos um grito de espanto, vindo das traseiras do avião.

 

Raios os partam! Não acredito no que estou a ver! Fora Kenny Burne quem soltara o grito.

 

Encontrava-se numa plataforma por trás do motor esquerdo, agitando os braços de ira. À sua volta, os outros mecânicos abanavam as cabeças.! Casey aproximou-se.

 

Encontraram alguma coisa?

 

Deixa-me fazer uma lista retorquiu Burne, apontando para o motor. Em primeiro lugar, os vedantes do sistema de arrefecimento estão colocados ao contrário. Houve um qualquer idiota de manutenção que os montou mal.

 

Afectam o voo?

 

Sim... mais tarde ou mais cedo. Mas não é tudo! Dá uma olhadela! esta cobertura interior dos inversores...

 

Casey subiu o andaime até à parte traseira do motor, onde os mecânicos espreitavam para o interior.

 

Mostrem-lhe, rapazes pediu Burne.

 

Apontaram uma lanterna para a superfície interior de uma das tampas. Casey viu uma sólida superfície de aço, encurvada com precisão e coberta por uma fina camada de fuligem do motor. Aproximaram a lanterna do símbolo da Pratt Whitney, gravado perto do rebordo do metal.

 

Estás a ver? perguntou Kenny.

 

O quê? Referes-te à marca? retorquiu Casey. O símbolo da Pratt Whitney era um círculo com uma águia no interior, e com as letras P e W.

 

Isso mesmo, a marca.

 

Que tem de especial?

 

Casey murmurou Burne, abanando a cabeça, a águia está invertida. Está virada para o lado errado.

 

Oh! Casey não notara aquele pormenor.

 

Agora, achas que a Pratt Whitney iria gravar uma águia invertida? Nem pensar. É mais uma peça falsificada.

 

Está bem... e poderia afectar o voo?

 

Era essa a questão crítica. Já tinham encontrado outras peças falsificadas naquele avião. Amos previra que existissem mais e tivera razão. Contudo, o problema estava em saber se alguma delas poderia ter afectado o comportamento do aparelho durante o acidente.

 

É possível disse Kenny, agitando-se. Porém, por amor de Deus, não posso desmontar o maldito motor! Precisaria pelo menos de duas semanas.

 

Então, como vamos saber?

 

Precisamos do registo de voo, Casey. Precisamos de ter acesso a esses dados.

 

Queres que vá ver se o Wong já conseguiu alguns progressos? perguntou Richman.

 

Não respondeu Casey. Não serviria de nada. Rob Wong podia mostrar-se temperamental. Pressioná-lo ainda mais não teria qualquer utilidade. Era perfeitamente capaz de se ir embora, para só voltar dois dias depois.

 

O telefone celular de Casey tocou. Era Norma.

 

A festa começou declarou. Recebi telefonemas do Jack Rogers, do Barry Jordan, do Times ãe LA, e de alguém chamado Winslow, que trabalha para o Post de Washington. Para além disso, recebi um pedido de material informativo sobre o N-Vinte e Dois, vindo do Newsline.

 

Newsline! O programa de televisão?

 

Esse mesmo.

 

Vão emitir uma reportagem?

 

Não me parece respondeu Norma. Penso que estão apenas à pesca...

 

Está bem disse Casey. Depois telefono-te. Sentou-se num canto do hangar e pegou no bloco de apontamentos. Começou a escrever uma lista de documentos a serem incluídos nas informações para os meios de comunicação. Um sumário dos processos de certificação da FAA para um avião de novo tipo; a confirmação da certificação, pela FAA, do N-22.

 

Norma teria de a descobrir nos arquivos de há cinco anos. O último relatório anual da FAA a respeito de segurança de voo. O relatório interno na companhia sobre a segurança de voo do N-22 desde 1991 até ao presente. A lista de alterações recomendadas, que era muito pequena. A folha de características técnicas básicas do N-22, onde se incluíam a velocidade, alcance, dimensões e peso. Não queria revelar demasiado. Aqueles documentos deviam ser suficientes para cobrir as perguntas mais básicas Richman observava-a.

 

E agora? perguntou.

 

Casey arrancou a folha do bloco e entregou-lha.

 

Dá isto à Norma. Diz-lhe para preparar uma pasta com documentos para a imprensa, e para os enviar a quem lhos pedir.

 

Está bem. Richman olhou para a lista. Não me parece que consiga ler...

 

A Norma consegue. Entrega-lhe essa lista.

 

Está bem.

 

Richman afastou-se, cantarolando alegremente. O telefone voltou a tocar. Era Jack Rogers, que a contactava directamente.

 

Continuo a ouvir dizer que as asas vão ser montadas no estrangeiro. Disseram-me que a Norton vai enviar as ferramentas para a Coreia, para depois seguirem para Xangai.

 

O Marder falou contigo?

 

Não. Os nossos telefonemas desencontraram-se.

 

Fala com ele pediu Casey, antes de escreveres seja o que for.

 

O Marder prestará declarações para serem publicadas?

 

Fala com ele.

 

Está bem disse Rogers, mas vai desmentir, não é verdade?

 

Fala com ele.

 

Olha, Casey respondeu Rogers, com um suspiro, não quero perder uma história que já tenho nas mãos... para vir a lê-la, daqui a dois dias, nas páginas do Times de Los Angeles. Dá-me uma ajuda. Há alguma verdade nessa conversa sobre as asas... ou não?

 

Não posso dizer-te nada.

 

Está bem... Contudo, vês algum inconveniente em que eu escreva que várias fontes da Norton, a alto nível, desmentem que as asas venham a ser fabricadas na China...?

 

Não vejo nenhum inconveniente. Era uma resposta cautelosa i uma pergunta também cautelosa.

 

Muito bem, Casey. Obrigado. Vou telefonar ao Marder declarou desligando.

 

         "NEWSLINE"

           14:25

 

Jennifer Malone marcou o número indicado no fax e pediu para falar com a pessoa encarregue dos contactos: Alan Price. Mr. Price ainda estava a almoçar, pelo que falou com a sua assistente, Miss Weld.

 

Segundo sei, há um atraso na certificação europeia do avião da Norton. Qual é o problema?

 

Refere-se ao N-Vinte e Dois?

 

Exactamente.

 

Bom, o assunto é contencioso, prefiro não dar informações para publicação.

 

E se não for para publicação?

 

Posso dar-lhe as linhas gerais.

 

Está bem.

 

No passado, os Europeus aceitavam as certificações da FAA para os novos aviões porque as consideravam suficientes. Contudo, ultimamente, a FAA tem posto em causa os métodos americanos de certificação. Pensam que a agência americana, a FAA, se pôs de acordo com os fabricantes americanos, pelo que pode ter começado a utilizar padrões pouco exigentes.

 

Ah, sim? "Perfeito", pensou Jennifer. Uma burocracia americana ineficiente. Dick Shenk adorava esse tipo de histórias. A FAA estava sob ataque havia anos, devia ter muitos esqueletos escondidos. Há provas?

- inquiriu.

 

Bom, os Europeus consideram todo o sistema como pouco satisfatório. Por exemplo, a FAA nem sequer arquiva os documentos de certificação. Permitem que sejam os fabricantes de aviões a fazê-lo. Acham que se trata de... demasiadas facilidades.

 

Hum... fez Jennifer, anotando: A FAA alinha com os fabricantes. Corrupção?

 

De qualquer modo, se quiser mais informações, sugiro que fale directamente para a JÁ A, ou para a Airbus. Posso dar-lhe os números...

 

Jennifer preferiu telefonar para a FAA. Ligaram-na a um tal Wilson, dos Serviços de Relações Públicas.

 

Segundo sei a FAA recusa-se a aceitar a certificação do N-Vinte e Dois da Norton.

 

Sim confirmou Wilson. Arrastam os pés já há algum tempo.

 

A FAA já certificou o N-Vinte e Dois?

 

Oh, claro. No nosso país não se pode construir um avião sem que a FAA aprove e certifique o desenho e os processos do fabrico, do princípio ao fim.

 

E os senhores têm os documentos de certificação?

 

Não. São guardados pelo fabricante. É a Norton quem os tem. "Ah, ah!", pensou. Então, sempre era verdade. A Norton guarda os documentos e não a FAA. A raposa de guarda ao galinheiro!

 

Incomoda-vos que seja a Norton a ter os documentos em seu poder?

 

Não, de modo nenhum.

 

E estão seguros de que o processo de certificação é o mais correcto?

 

Sem dúvida. Como já disse, o avião foi certificado há cinco anos.

 

Tenho ouvido dizer que os Europeus não estão satisfeitos com o processo de certificação.

 

Bom, sabe... começou Wilson, adoptando um tom diplomático.

 

A JÁ A é uma organização relativamente recente. Ao contrário da FAA, não dispõe de uma autoridade real. Por isso, penso que estão apenas a tentar decidir como devem proceder.

 

Jennifer ligou para as informações das Indústrias Airbus, em Washington, e puseram-na em contacto com um homem das Vendas, chamado Sámuelson. Com alguma relutância, confirmou que ouvira falar no atraso da certificação da FAA, mas que não conhecia os pormenores.

 

Contudo, a Norton está a enfrentar muitos problemas declarou.

 

Por exemplo, penso que a venda à China não está tão garantida como afirmam.

 

Era a primeira vez que Jennifer ouvia falar numa venda à China. Anotou: Venda à China, N-22?

 

Hum, hum... retorquiu.

 

Com toda a franqueza prosseguiu Samuelson, o Airbus A-Trezentos e Quarenta é um avião superior sob todos os aspectos. É mais recente do que o avião da Norton. Tem maior alcance. É melhor sob todos os pontos de vista. Temos tentado explicar isso aos Chineses, que começam agora a compreender a nossa perspectiva. Na minha opinião, a venda da Norton à República Popular da China não vai concretizar-se. É claro que essa decisão terá em conta as questões de segurança. Aqui entre nós, creio que os Chineses estão muito preocupados com a possibilidade de o' avião não ser seguro. Novo apontamento: Os Chineses pensam que o avião não é seguro.

 

Com quem poderei falar a esse respeito? perguntou. Bem, como sabe, os Chineses mostram-se geralmente relutantes em discutir negociações que estão em curso afirmou Samuelson. No entanto, conheço um tipo no Comércio que talvez a possa ajudar. Trabalha para o Banco Ex-Im, que concede financiamentos a longo prazo para as exportações para o estrangeiro.

 

Como é que ele se chama?

 

O homem chamava-se Robert Gordon. A telefonista do Departamento do Comércio precisou de quinze minutos para conseguir localizá-lo. Jennifer fez garatujas. Por fim, a secretária do homem declarou:

 

Lamento, mas Mister Gordon está numa reunião.

 

Estou a telefonar do Newsline disse Jennifer.

 

Oh... Houve uma pausa. Um momento, por favor. Jennifer sorriu. O truque nunca falhava.

 

Gordon apareceu na linha e Jennifer perguntou-lhe o que havia quanto' à certificação da FAA e à venda da Norton para a República Popular da China.

 

É verdade que essa venda está em perigo?

 

Todas as vendas de aviões estão em perigo até serem concluídas, Miss Malone respondeu Gordon. No entanto, segundo sei, a venda está bem encaminhada. Por outro lado, ouvi um boato a respeito de a Norton ter problemas com a certificação da FAA para a Europa.

 

E qual é a dificuldade?

 

Bom retorquiu Gordon, não sou, na verdade, um especialista aeronáutico, mas a companhia tem enfrentado muitas dificuldades...

 

A Norton tem dificuldades.

 

Houve aquele acidente ontem, em Miami prosseguiu o homem, e suponho que já terá ouvido falar no incidente em Dallas...

 

Qual incidente?

 

No ano passado, houve um motor que se incendiou na pista. Toda a gente saltou do avião. Algumas pessoas ficaram com as pernas partidas ao saltar das asas.

 

Incidente em Dallas. Motor incendiado. Pernas partidas. Imagens? Jennifer comentou:

 

Hum, hum...

 

Não sei o que se passa consigo declarou Gordon, mas eu não gosto muito de voar e... Jesus Cristo, não quero meter-me num avião de onde as pessoas têm de fugir.

 

Jennifer escreveu:

 

Pessoas a saltar! Ena!

 

Avião pouco seguro.

 

Acrescentou, um pouco mais abaixo, em grandes letras maiúsculas:

 

         ARMADILHA MORTAL

 

Telefonou para a Norton Aircraft para ouvir a sua versão da história. Ligaram-na a um tipo das relações públicas chamado Benson. Soava a um daqueles executivos de voz arrastada e sonolenta tão habituais nas grandes empresas. Jennifer decidiu-se por um ataque de surpresa.

 

Queria falar consigo a respeito do incidente de Dallas.

 

Dallas? A voz do homem pareceu surpreendida. Óptimo.

 

Sim, que teve lugar no ano passado. Um motor incendiou-se, as pessoas saltaram do avião e partiram as pernas.

 

Ah, sim. Esse incidente envolveu um Sete Três Sete respondeu Benson.

 

Incidente com 737.

 

Hum, hum... Que pode dizer-me a esse respeito?

 

Nada retorquiu o homem. Não era um dos nossos aviões.

 

Ora, vamos lá, já estou a par do incidente...

 

Era um avião da Boeing.

 

Jesus! exclamou Jennifer, com um suspiro. Não me venha com essa. Era um aborrecimento... o modo como os tipos das relações públicas se faziam de parvos. Como se uma boa jornalista de investigação não acabasse por descobrir a verdade. Parecia pensarem que, se eles não a dissessem, ninguém o faria.

 

Lamento muito, Miss Malone, mas não fabricamos esse tipo de avião.

 

Bom, se isso é verdade ripostou Jennifer, claramente sarcástica, suponho que é capaz de me dizer quem o poderá confirmar?

 

Sim, senhora respondeu Benson. Ligue o indicativo dois zero e peça para falar com a Boeing. Eles poderão ajudá-la.

 

Clique!

 

Jesus! Que estupor! Como é que aquelas companhias se atreviam a tratar uma jornalista com tão maus modos? Quando um jornalista se irrita vinga-se. Ou ainda não o sabiam?

 

Telefonou para a Boeing e pediu para falar com o Departamento de Relações Públicas. Respondeu-lhe uma gravação, com a voz de uma cabra qualquer a recitar um número de fax e a dizer que as perguntas deviam Ser enviadas por fax e que só depois seriam respondidas. Era incrível, pensou Jennifer. Uma grande empresa americana e nem sequer atendiam o telefone.

 

Irritada, desligou. Não valia a pena ficar à espera. Se o incidente de Dallas envolvera um Boeing, não havia história.

 

Não tinha por onde pegar.

 

Martelou com a ponta dos dedos na mesa, tentando decidir o que fazer.

 

Voltou a ligar para a Norton, dizendo que queria falar com alguém da gestão e não com as relações públicas. Ligaram-na ao gabinete do presi dente, mas depois transferiram a chamada para uma mulher chamada Singleton.

 

Segundo sei, tem havido um atraso na certificação europeia do N-Vinte e Dois. Qual é o problema com o avião? inquiriu Jennifer.

 

Não há nenhum problema retorquiu Singleton. O N-Vinte e Dois já voa há cinco anos, neste país.

 

Pois é, mas tenho ouvido dizer que o avião não é seguro afirmou Jennifer. Ontem, houve um motor que se incendiou em Miami...

 

Na verdade, tratou-se do rebentamento de um rotor. O caso está a ser investigado. A mulher falava calmamente, como se a explosão de um motor fosse a coisa mais natural do mundo.

 

Rebentamento de um rotor!

 

Hum, hum... fez Jennifer. Compreendo. No entanto, se é verdade que o vosso avião não tem problemas, porque é que a FAA atrasou a certificação?

 

A mulher, do outro lado da linha, fez uma pausa.

 

A esse respeito, só posso falar em linhas gerais, e o que eu disser não é para ser divulgado. Parecia incomodada, um pouco tensa. Óptimo. Estava a chegar a qualquer lado.

 

Não há qualquer problema com o avião, Miss Malone. A questão diz respeito a motores. Neste país, o avião voa com motores da Pratt I Whitney. Porém, a FAA insiste que, se quisermos vender o avião na Europa, temos de o equipar com motores IAE.

 

IAE?

 

Trata-se de um consórcio europeu, tal como a Airbus, que fabrica motores.

 

Hum, hum... murmurou Jennifer. IAE = consórcio europeu.

 

Alegadamente prosseguiu a mulher chamada Singleton. A FAA quer que equipemos o avião com motores da IAE para satisfazer as normas europeias referentes ao ruído e às emissões, que são mais apertadas do que nos Estados Unidos. Porém, nós fabricamos aviões e não motores, e pensamos que a decisão final quanto aos motores deverá ser do cliente. Instalamos o motor que o cliente pedir. Se quiserem um IAE, nós instalamo-lo. Se quiserem um Pratt Whitney, nós também o instalamos. Se quiserem um GE, pois que seja um GE. As coisas foram sempre assim, neste negócio. O cliente é quem escolhe o motor. Por isso, consideramos que a posição da FAA é uma intrusão reguladora inapropriada. Teremos um grande prazer em montar motores IAE se a Sabena ou a Lufthansa os pedirem... mas pensamos que a FAA não pode ditar os termos de entrada no mercado europeu. Por outras palavras, a questão nada tem a ver com segurança de voo.

 

Quer dizer que se trata de um conflito de regulamentos? perguntou Jennifer, franzindo a testa.

 

Exactamente. Trata-se de uma questão comercial. A FAA tenta obrigar-nos a utilizar motores europeus. Se é isso o que pretendem, devem fazer essa imposição às companhias europeias e não a nós.

 

Conflito regulador!

 

E porque não fizeram essa imposição aos Europeus?

 

Terá de perguntar à FAA. Francamente, suponho que já o tentou e que as companhias a mandaram dar uma volta. Os aviões são construídos de acordo com as especificações dos clientes. São as operadoras que definem os motores, os sistemas electrónicos e as configurações interiores. A escolha é deles.

 

Jennifer fazia garatujas. Escutava o tom de voz da mulher no outro lado da linha, tentando sentir as suas emoções. Parecia ligeiramente aborrecida, como uma professora no fim de um dia de aulas. Jennifer não detectava tensões, hesitações ou segredos ocultos.

 

"Merda", pensou. "Não há história."

 

Fez uma última tentativa: telefonou para a Comissão Nacional de Segurança nos Transportes, em Washington. Ligaram-na a um homem chamado Kenner, das Relações Públicas.

 

Estou a telefonar por causa da certificação do N-Vinte e Dois pela FAA.

 

Bom, sabe... Kenner parecia surpreendido. Não temos nada a ver com isso. O melhor será contactar alguém da FAA.

 

Pode dar-me alguns pormenores sobre o que está a passar-se?

 

Bem... a certificação pela FAA é extremamente rigorosa e tem servido de modelo para as regulamentações estrangeiras. Desde que me lembro, as agências estrangeiras de todo o mundo sempre consideraram a certificação da FAA como sendo suficiente. Agora, a FAA quebrou com essa tradição e não me parece que os seus motivos constituam um segredo. Trata-se de política, Miss Malone. A FAA quer que os Americanos usem motores europeus, pelo que ameaçam atrasar a certificação. Por outro lado, a Norton está prestes a fazer uma venda de N-Vinte e Dois à China, e a Airbus quer impedi-la, para vender os seus próprios aviões.

 

É por isso que a FAA está a levantar problemas?

 

Sim. No mínimo, conseguem levantar dúvidas.

 

Dúvidas legítimas?

 

Não, no que nos diz respeito. O N-Vinte e Dois é um bom avião, que já deu provas. A Airbus diz que tem um avião novo, mas a Norton contrapõe, afirmando que o deles já mostrou o que vale. Para além disso, é menos dispendioso.

 

Sim, mas o avião é seguro?

 

Oh, absolutamente!

 

A NTSB diz que o avião é seguro.

 

Jennifer agradeceu e desligou. Recostou-se e suspirou. Não tinha história. Nada. Ponto final.

 

Merda! exclamou.

 

Ligou o intercomunicador.

 

Deborah disse, quanto àquela história do avião...

 

Também estás a ver? retorquiu Deborah, num guincho.

 

A ver o quê?

 

A CNN! É inacreditável! Jennifer pegou no controlo remoto.

 

         RESTAURANTE EL TORITO

         12:05

 

El Torito oferecia uma comida aceitável a um preço razoável, para além de cinquenta e dois tipos de cerveja, e era o local preferido dos engenheiros. Os membros da IRT encontravam-se todos sentados à mesa central da sala principal, perto do bar. A empregada acabara de receber a encomenda e afastava-se quando Kenny Burne disse:

 

Então, ouvi dizer que o Edgarton está com alguns problemas...

 

Não os temos todos? retorquiu Doug Doherty, estendendo a mão para as batatas fritas e para o molho.

 

O Marder odeia-o.

 

E então? perguntou Ron Smith. O Marder odeia toda a gente.

 

Sim, mas a questão está em que... começou Kenny continuo a ouvir dizer que o Marder não...

 

Oh, Jesus! Olhem! gritou Doug Doherty, apontando na direcção do bar.

 

Todos se viraram para a televisão instalada por cima do bar. Não tinha som, mas a imagem era inconfundível: mostrava o interior de um N-22 da Norton, visto por uma câmara que tremia muito. Os passageiros estavam literalmente a voar, em pleno ar, ressaltando nos compartimentos das bagagens e nos painéis das paredes, e caindo sobre os assentos.

 

Santo Deus! murmurou Kenny.

 

Levantaram-se da mesa e correram para o bar, gritando:

 

O som! Aumentem o som! O televisor continuava a mostrar as imagens horríveis.

 

Quando Casey conseguiu chegar junto ao bar, já as imagens haviam terminado. A televisão mostrava agora um homem magro, de bigode, usando um fato azul cuidadosamente cortado que sugeria, de algum modo, um uniforme. Casey reconheceu Bradley King, um advogado especializado em acidentes com aviões de passageiros.

 

Era de prever comentou Burne. É o Sky King.

 

Penso que estas imagens falam por si declarava Bradley King. Foi o meu cliente, Mister Song, quem as forneceu, e retratam vivamente a terrível provação a que os passageiros estiveram sujeitos durante este voo amaldiçoado. O avião entrou num mergulho descontrolado e completamente injustificado e esteve a cento e cinquenta metros de se despenharno oceano Pacífico!

 

O quê? exclamou Burne. O avião fez o quê?!

 

Como sabem, também sou piloto e posso afirmar, com absoluta convicção, que o que aconteceu foi o resultado das já bem conhecidas falhas do jacto N-Vinte e Dois. A Norton está a par dessas falhas há anos e nada fez para as corrigir. Têm-se verificado amargas queixas por parte de pilotos, operadores e especialistas da FAA. Pessoalmente, conheço pilotos que se recusam a voar no N-Vinte e Dois por ser pouco seguro.

 

Em especial os que estão na tua lista de pagamentos comentou Burne.

 

Na televisão, King prosseguia:

 

Todavia, a Norton Aircraft nada fez de substancial para resolver esses problemas de segurança. O facto de os conhecerem e de não tomarem medidas é verdadeiramente inexplicável. Dada a sua negligência criminosa, era apenas uma questão de tempo até ocorrer uma tragédia como esta, Agora, no preciso momento em que falamos, temos três mortos, duas pessoas paralisadas e um piloto em coma. No total, cinquenta e sete passageiros necessitaram de hospitalização. É uma desgraça para a aviação.

 

Pedaço de merda! explodiu Burne. Sabe perfeitamente que não é verdade!

 

Contudo a televisão mostrava mais uma vez a gravação, agora em câmara lenta, com os corpos a rodopiar no ar, alternadamente desfocados e nítidos. Casey começou a suar ao ver as imagens. Sentia-se tonta e gelada com o peito apertado. O restaurante à sua volta tornou-se indistinto e ganhou um tom esverdeado. Sentou-se rapidamente num dos bancos do bar e respirou fundo.

 

A televisão passara a mostrar um homem barbudo, com um ar de estudioso, de pé, junto de uma das pistas do aeroporto de Los Angeles. Por trás dele, viam-se aviões a rolar no solo. Não conseguia ouvir o que o homem dizia porque todos os engenheiros à sua volta gritavam para a imagem.

 

Burro!

 

Cara de cu!

 

Aldrabão!

 

Filho de uma...

 

Fazem favor de se calar? pediu O homem barbudo, no ecrã,. Era Frederick Barker, um antigo funcionário da FAA, mas que já não trabalhava para a agência. Nos anos mais recentes, Barker testemunhara várias vezes contra a companhia, em tribunal. Os engenheiros odiavam-no.

 

Oh, sim... dizia o homem. Receio que não haja qualquer dúvida quanto a esse problema. "Qual problema?", pensou Casey, mas a imagem da televisão regressou ao estúdio da CNN em Atlanta, com a apresentadora em frente de uma fotografia do N-22. Por baixo da fotografia via-se as palavras PERIGOSO? em grandes letras vermelhas.

 

Cristo, haverá quem acredite nisto? perguntou Burne. O estupor do Sky King e o Barker. Não sabem que o Barker trabalha para o King?

 

O ecrã passara a mostrar um edifício bombardeado, algures no Médio Oriente. Casey virou-lhe as costas, desceu do banco e aspirou o ar com força.

 

Maldição, preciso de uma cerveja declarou Kenny Burne, regressando à mesa. Os outros seguiram-no, murmurando coisas a respeito de Fred Baker.

 

Casey pegou na mala, procurou o telefone celular e ligou para o seu gabinete.

 

Norma pediu, telefona para a CNN e arranja-me uma cópia da gravação que acabaram de passar sobre o N-Vinte e Dois.

 

Ia sair para... Agora! ordenou Casey. Trata disso imediatamente! '

 

         "NEWSLINE"

           15:06

 

Deborah! berrou Jennifer, olhando para a televisão. Telefona para a CNN e arranja-me uma cópia daquela gravação da Norton! Jennifer continuou a olhar, hipnotizada. Estavam outra vez a passar a gravação, agora em câmara lenta, a seis imagens por segundo. E a gravação aguentava-se! Fantástico!

 

Viu um pobre diabo aos trambolhões no ar como um mergulhador fora de controlo, com os braços e pernas a agitarem-se em todas as direcções. Foi embater contra um assento e o seu pescoço partiu-se, com o corpo a contorcer-se, antes de ressaltar e ir embater no tecto... Incrível! Um pescoço a partir-se, ali mesmo, captado pela câmara!

 

Era a melhor gravação em vídeo que jamais vira. E o som! Fabuloso! As pessoas gritavam de puro terror e eram sons impossíveis de falsificar. Algumas gritavam em chinês, o que tornava a cena muito exótica. Para alem disso, havia todos aqueles incríveis ruídos de coisas a esmagarem-se, enquanto as pessoas, os sacos e sabe-se lá que mais embatiam nas paredes e no tecto. Jesus!

 

Era uma gravação fabulosa! Incrível! Prosseguia durante quarenta e cinco segundos, uma verdadeira eternidade... e todas as imagens eram boas. O facto de, de vez em quando, ficarem desfocadas e confusas só servia para aumentar o seu impacte. Não era possível pagar a um operador de câmara para fazer aquilo!

 

Deborah! gritou. Deborah!

 

Estava tão excitada que sentia o coração a martelar. Era como se não coubesse em si! Teve uma vaga consciência do tipo que apareceu no ecrã, um qualquer advogado com cara de fuinha que fazia comentários. A gravação deveria ser dele. No entanto, Jennifer sabia que o homem a entregaria ao Newsline porque queria dar nas vistas e aparecer nos ecrãs... o que significava que tinham uma história! Fantástico! Algumas entrevistas, gravações, montagem... e pronto!

 

Deborah apareceu a correr, corada e excitada, Jennifer disse-lhe:

 

Arranja-me todas as imagens que tivermos relacionadas com a Norton Aircraft dos últimos cinco anos. Faz uma busca no Nexis a respeito do M Vinte e Dois, de um tipo chamado Bardley King e um outro chamado... -Deteve-se e voltou a olhar para o ecrã... Frederick Barker. Copia todos os dados. Agora!

 

Vinte minutos depois já fizera o esboço de uma história e informações sobre as personagens principais. Tinha em seu poder o artigo do Times de LOS Angeles sobre apresentação, certificação e voo inaugural do primeiro Norton N-22 encomendado por um cliente. Falava em sistemas electrónicos avançados, autopiloto, blá, blá, blá...

 

Tinha o artigo do New York Times sobre Bradley King, o controverso advogado, muito censurado por abordar as famílias das vítimas de acidentes aéreos ainda antes de as transportadoras lhe comunicarem oficialmente a morte dos seus familiares. Possuía um outro artigo do Times de Los Angeles sobre Bradley King, que chegara a acordo num processo relativo ao acidente de Atlanta. Tinha o Independent Press Telegram, de Long Bead que dizia que a Ordem dos Advogados do Ohio repreendera Bradley King por conduta pouco ética ao contactar os familiares das vítimas. King negara tratar-se de falta de ética. O artigo do New York Times inquiria: Tem Bradley King ido demasiado longe?

 

Outra história do Times de LA a respeito da controversa saída de Frederick Barker da FAA. Barker, um declarado crítico do sistema, dizia que abandonara a agência por causa da sua oposição ao N-22. O seu superior afirmava que Barker fora despedido por ter transmitido relatórios confidenciais aos meios de comunicação. Depois, Barker iniciara um negócio privado como "consultor de aeronáutica".

 

No Independent Press Telegram, Fred Barker lançava uma cruzada contra o N-22 da Norton, afirmando que o aparelho tinha um "historial de incidentes de segurança inaceitável". No Telegraph-Star do condado ^ Orange, Barker fazia campanha para tornar as companhias de aviação mais seguras. No mesmo periódico, Barker era a principal testemunha do processo movido por Bradley King, processo esse resolvido fora do tribunal.

 

Jennifer começava a ver a forma que a sua história iria tomar. Era óbvio que tinham de se manter longe de Bradley King, o "caçador de vítimas". Porém, Barker, um antigo funcionário da FAA, poderia ser muito útil. Muito provavelmente, também seria capaz de criticar as práticas de certificação da FAA.

 

Jennifer reparou que Jack Rogers, o jornalista do Telegraph-Star, tinha pontos de vista particularmente críticos a respeito da Norton Aircraft e assinalou vários artigos recentes assinados pelo jornalista.

 

Telegraph-Star de Orange: Edgarton sob pressão para conseguir novas vendas de modo a aliviar os problemas da empresa. Dissensões entre directores e quadros superiores. Havia dúvidas quanto às possibilidades de êxito de Edgarton.

 

Telegraph-Star de Orange: drogas e actividade de gangs nas linhas de montagem dos twinjets da Norton.

 

Telegraph-Star de Orange: boatos sobre problemas sindicais. Os trabalhadores opunham-se à venda à China, dizendo que arruinaria a empresa.

 

Jennifer sorriu.

 

As coisas começavam a tornar-se interessantes.

 

Entrou em contacto com Jack Rogers, no seu jornal.

 

Estive a ler os teus artigos sobre a Norton. São excelentes. Deram-me a entender que a empresa está a enfrentar alguns problemas.

 

Muitos problemas confirmou Rogers.

 

Estás a referir-te aos aviões?

 

Bom, sim, mas também têm problemas sindicais.

 

A que propósito?

 

Não se percebe muito bem. O pessoal anda agitado e a direcção não intervém. O sindicato está irritado com a venda à China e diz que talvez fosse melhor não a concretizar.

 

És capaz de o dizer em frente da câmara?

 

Claro. Não poderei revelar as minhas fontes, mas direi tudo o que sei.

 

"Claro que o dizes", pensou Jennifer. O sonho de todos os jornalistas da imprensa era o de conseguirem aparecer na televisão. Compreendiam que o dinheiro a sério provinha do facto de aparecerem na caixa mágica. Por muito grande que fosse o êxito que tivessem nos jornais, não eram ninguém enquanto não fossem vistos na televisão. Depois de terem o nome reconhecido nos ecrãs, podiam passar para o lucrativo circuito das conferências, levando cinco ou dez mil dólares apenas para falar às pessoas durante um almoço.

 

Provavelmente, será lá para o fim da semana... Os meus serviços voltarão a contactar contigo.

 

Basta que me digam quando retorquiu Rogers.

 

Jennifer telefonou para Fred Barker, para Los Angeles. O homem até parecia estar à espera da chamada.

 

Aquele vídeo era muito dramático disse-lhe.

 

É assustador... respondeu Barker. Sempre que os slats de um avião saem quase à velocidade do som. Foi o que se passou com o voo da Transpacific. É o nono incidente desse tipo desde que o avião entrou ao serviço.

 

O nono?!

 

Oh, sim. Não foi nenhuma novidade, Miss Malone. Pelo menos três outros casos foram atribuídos ao mau desenho da Norton, mas a companhia nada fez.

 

Tem uma lista?

 

Dê-me o número do seu fax.

 

Jennifer ficou a olhar para a lista. Era demasiado pouco pormenorizada para o seu gosto, mas não deixava de ser interessante:

 

Incidentes envolvendo a saída de slats no N-22

 

1 4 de Janeiro de 1992. Saída de slats em FL350, a uma velocidade de Mach 0,84. O manípulo foi deslocado inadvertidamente.

 

2 2 de Abril de 1992. Os slats saíram quando o avião seguia o Mach 0,81. Aparentemente, a prancheta de um bloco de notas caiu sobre o manípulo.

 

3 17 de Julho de 1992. Incidente inicialmente considerado como devido a forte turbulência. Contudo, mais tarde, concluiu-se que se devera a uma saída de slats por causa do accionamento ocasional do manípulo. Cinco passageiros feridos, três em estado grave.

 

4 20 de Dezembro de 1992. Os slats saíram em pleno voo sem o correspondente accionamento do manípulo. Dois passageiros feridos.

512 de Março de 1993. O avião quase entrou em perda a Mach

0,82. Descobriu-se que os slats saíram e que o manípulo não se encontrava travado.

 

6 4 de Abril de 1993. O co-piloto pousou o braço no manípulo e deslocou-o, provocando uma saída dos slats. Vários passageiros feridos.

 

7 4 de Julho de 1993. O piloto comunicou que o manípulo dos slats se deslocara levando à sua saída. O avião seguia a Mach 0,81.

 

8 10 de Junho de 1994. Os slats saíram com o avião em voo sem o accionamento do respectivo manípulo.

 

Jennifer voltou a pegar no telefone e ligou para Barker.

 

Está disposto a falar destes incidentes em frente da câmara? perguntou.

 

Testemunhei a esse respeito em várias ocasiões, nos tribunais afirmou Barker. Não me importo nada de falar para as câmaras. De facto, até quero ver esse avião com todos os defeitos corrigidos, antes que morra mais gente. Aparentemente, ninguém quer corrigi-los, nem a com panhia, nem a FAA. É uma desgraça!

 

Como pode ter a certeza de que, neste caso, se tratou de um inci dente com os slats?

 

Tenho uma fonte no interior da Norton replicou Barker. Um empregado descontente que está farto de tantas mentiras. Foi essa fontt que me disse terem sido os slats, e que a companhia está a abafar o caso.

 

Jennifer largou o telefone e carregou no botão do intercomunicador.

 

Deborah! gritou. Liga-me aos tipos das viagens!

 

Fechou a porta do gabinete e deixou-se ficar sentada. Sabia que tinha uma história.

 

Uma história fabulosa.

 

Agora, o que estava em causa era: qual o ângulo? Com que enquadramento?

 

Num programa como o Newsline, o enquadramento era extremament importante. Os velhos produtores do programa falavam de "contexto" e que para eles significava apresentar a história num cenário mais amplo. Pretendiam dar a entender o significado da história narrando o que acontecera antes, ou falando de coisas semelhantes, que já tivessem tido lugar. Esses tipos mais velhos pensavam que o contexto era tão importante que parecia encararem-no como uma espécie de obrigação moral ou ética.

 

Jennifer não estava de acordo. Quando se punham de parte todas as tretas hipócritas, o contexto era apenas uma invenção, uma maneira de empolar a história, e nem sequer muito útil, uma vez que envolvia uma referência ao passado.

 

Jennifer não tinha qualquer interesse pelo passado. Pertencia àquela geração que entendia que uma televisão excitante se referia ao agora. Osacontecimentos que tivessem lugar agora, um fluxo de imagens num perpétuo e infindável hoje electrónico. O contexto, pela sua própria natureza requeria algo mais do que o agora, e o seu interesse não ia para além d" se agora. Nem os interesses de mais ninguém. O passado estava morto e enterrado. Quem se importava com o que havia comido ontem? Que fez você ontem? A única coisa imediata e excitante era o agora.

 

A televisão, no seu melhor, era agora. Por isso, um bom enquadramento nada tinha a ver com o passado. Na verdade, a lista de anteriores incidentes que Fred Barker lhe forneceu constituía um problema, porque chamava a atenção para um passado distante e maçador. Tinha de arranjar maneira de a rodear. Mencioná-la-ia rapidamente e seguiria em frente.

 

O que procurava era uma maneira de dar forma à história para que se desenvolvesse agora, num padrão que o espectador pudesse seguir. Os melhores enquadramentos, os que prendiam a atenção do espectador, eram os que apresentavam a história como um conflito entre o bem e o mal. Tinha de ser uma história com moralidade, para que os espectadores a entendessem. Se a história fosse enquadrada desse modo, a aceitação era imediata, uma vez que falava a linguagem das audiências.

 

Porém, como a história também tinha de se desenrolar rapidamente, essa modalidade teria de ficar implícita numa série de sugestões que não precisavam de ser explicadas. Coisas que a audiência já sabia serem verdadeiras. Já sabiam que as grandes empresas eram corruptas, e que os seus dirigentes eram porcos sexistas e ambiciosos. Não era preciso prová-lo.

 

Bastava mencioná-lo. Já sabiam que as burocracias governamentais eram incompetentes e preguiçosas. Aí estava outra coisa que não era preciso provar. Também já sabiam que os produtos eram manufacturados com cinismo, sem qualquer preocupação pela segurança dos consumidores. Era

sobre esses elementos, com que toda a gente estava de acordo, que deveria construir a sua história com moralidade. Uma história muito rápida, a ter lugar agora.

 

Claro que o enquadramento ainda necessitava de algo mais. Primeiro que tudo, tinha de vender a ideia a Dick Shenk. Tinha de a apresentar sob um ângulo que lhe agradasse, que estivesse de acordo com a sua visão do mundo. Não seria uma tarefa fácil, uma vez que Shenk era muito mais sofisticado do que a audiência. Mais difícil de satisfazer.

 

Nos gabine