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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


ATIRE A PRIMEIRA PEDRA / Harold Robbins
ATIRE A PRIMEIRA PEDRA / Harold Robbins

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

ATIRE A PRIMEIRA PEDRA

 

Jesus por amor

— Pregador!

O grito sussurrado, em voz rouca, pairou no ar úmido e ensombreado da selva. Houve um farfalhar nas moitas que fez os pássaros alçarem vôo ruidosamente para o alto das árvores e depois o silêncio. A voz do Pregador, quando soou, estava baixa e calma:

— Onde você está?

— Aqui, no buraco. Depressa, Pregador. Estou bastante machucado.

Um momento depois, a cabeça e os ombros do Pregador apareceram na beira da pequena cratera. Ele olhou para o soldado preto ferido e acenou com a cabeça, sem dizer nada. Adiantou-se e resvalou desajeitadamente pela cratera, rolando e sentando-se lá embaixo, com a braçadeira branca com a cruz vermelha quase invisível, de tanta lama que cobria o uniforme. Ele tirou a mochila de primeiros socorros dos ombros e colocou-a no chão ao seu lado.

— Onde você foi atingido, Washington? — perguntou ele, sem desviar os olhos da mochila que estava abrindo.

O soldado pegou-lhe o braço e disse, apavorado:

— Vou morrer, Pregador. Quer ouvir a minha confissão?

— Você está louco, Joe? — O Pregador fitou-o. — Você não é católico e eu não sou padre.

— E daí? — balbuciou Joe. — Você não é um pregador?

— Não, não sou. Não sou sequer ministro.

— Mas todo mundo o chama de Pregador. E sabemos que está sempre com uma Bíblia.

— Isso nada significa.

— Mas você é um conchie, recusa-se a usar armas por objeção de consciência. Deve ser alguma espécie de religioso, para livrar a cara com uma alegação dessas.

— Não acredito em matar. E isso é tudo. — A mochila estava aberta diante dele. — E agora me diga onde você foi atingido.

— Nas costas, Pregador. Doeu como o diabo a princípio, mas agora sinto uma dormência se espalhando pelo corpo inteiro. É assim que a gente sabe que vai morrer. Estarei liquidado quando a dormência chegar ao coração. Não quero saber que espécie de pregador você é, mas tem de ouvir minha confissão. Não quero ir para o inferno com todos os pecados na alma.

— Como quiser. Mas vire-se primeiro, a fim de que eu possa ver onde foi atingido.

Joe rolou no chão, gemendo com o movimento.

— Puxa, como dói! — balbuciou Joe. — Deus do céu, que merda! Oh, desculpe, Pregador. Saiu sem querer.

— Não foi nada.

Os fundilhos da calça de Joe estavam encharcados de sangue. O Pregador pegou uma tesoura na mochila e começou a cortar a calça. Joe começou a murmurar:

— Perdoe-me pelos meus pecados, Pai celestial. Bebi, praguejei e usei o seu santo nome em vão. Cometi o pecado da luxúria com duas irmãs em Saigon, botei na bunda das duas e obriguei-as a chuparem meu...

— Pode parar agora — disse o Pregador subitamente. — Você não vai morrer.

Joe virou a cabeça e fitou-o.

— Como sabe?

— Ninguém jamais morreu por causa de um tiro no rabo.

O Pregador pegou uma mecha de algodão e começou a limpar a nádega com um anti-séptico. Joe teve um sobressalto.

— Está ardendo!

— Agüente firme. Quero pôr uma compressa para acabar com a hemorragia.

— Posso puxar um fumo?

— Claro.

— Tem dois baseados no bolso da minha túnica. Pode pegar um para mim?

Sem dizer nada, o Pregador abriu o bolso e tirou um baseado. Joe prendeu-o entre os lábios e com a outra mão levantou um isqueiro pequeno. Uma chama e o baseado estava aceso. Ele puxou fundo e suspirou de satisfação.

— Assim é melhor.

Poucos minutos depois, o Pregador acabou de colocar a compressa.

— Terá de ficar de barriga para baixo, Joe. Não quero que fique com terra no rabo. Pode pegar muitas infecções deste chão. Mandarei os padioleiros virem buscá-lo.

Joe soergueu-se, apoiado no cotovelo, e fitou-o.

— Você é um cara legal, Pregador — disse ele, estendendo o baseado. — Quer dar uma puxada? Este fumo é de primeira.

O Pregador sacudiu a cabeça.

— Não, obrigado.

Ele começou a arrumar a mochila de primeiros socorros. A voz de Joe estava bastante relaxada quando ele perguntou, curioso:

— Mas qual é a sua religião?

O Pregador parou de arrumar a mochila por um momento e fitou-o.

— Minha mãe era ortodoxa grega e meu pai era metodista. Mas a única igreja que havia na cidade em que eu cresci era a unitária. Era a que freqüentávamos. Assim, acho que é o que sou.

— Todos os conchies são unitários?

— Não. Eu simplesmente acredito nisso. Cristo disse... Joe soltou uma risada.

— Fui criado como batista. E ouvi todos os sermões. Não vai querer me fazer uma pregação, não é mesmo?

O Pregador fitou-o em silêncio por um momento.

— Não.

— Será que vão me mandar para casa?

— Provavelmente.

— Então não foi tão ruim assim. Ser condecorado com uma Purple Heart e uma viagem para casa por causa de um tiro no rabo até que sai barato.

— Tem razão, não é nada mau. O Pregador fechou a mochila.

— Acho que vou me juntar aos muçulmanos negros quando voltar. Esses crioulos são agora importantes lá na América. — Ele observou o Pregador começar a se levantar. — Cuidado, Pregador. Fique de cabeça abaixada. Os filhos da puta dos viets podem ver no escuro.

O débil eco do tiro soou quase no mesmo instante em que as palavras saíam da boca de Joe. A bala acertou no braço do Pregador, fazendo-o dar meia-volta e jogando-o no chão. Ele ficou imóvel por um momento, depois se sentou, sentindo muita dor. Olhou para o sangue que escorria pela manga da túnica. E depois olhou para Joe.

— Agora é que você me diz.

Com a outra mão, ele abriu a mochila e tornou a tirar a tesoura. Cortou rapidamente a manga. O sangue jorrava de um buraco de bala na parte superior do braço.

— Terá de me ajudar a fazer um torniquete.

— Claro, Pregador.

Joe rastejou até ele e os dois conseguiram aprontar um torniquete para estancar a hemorragia.

— Sinto muito, Pregador.

O Pregador conseguiu exibir um sorriso.

— É a vontade de Deus. — Ele fez uma pausa. — Vou dar uma puxada nesse baseado agora.

O soldado tornou a acender o baseado e estendeu-lhe. Ficou observando o Pregador puxar o baseado várias vezes.

— Seu braço está doendo muito? O Pregador fitou-o.

— Não está tão ruim assim. Pelo menos poderei sentar no avião de volta para casa.

— Acabo de pensar numa coisa — disse Joe. — Meus colhões estão dormentes. Acha que também fui atingido lá?

O Pregador soltou uma risada.

— Não há a menor possibilidade, com uma bunda tão gorda quanto a sua.

Ele devolveu o baseado e Joe deu uma puxada funda.

— Quanto tempo acha que vai demorar para eles virem nos buscar?

— Não muito. Eles sabem que vim para cá.

— Puxar fumo sempre me deixa com tesão, Pregador. Estava pensando naquelas garotas, as duas que estavam na minha confissão. E estou começando a ficar de pau duro.

— Eu não disse que você estava bem? — O Pregador riu e tirou o baseado dos dedos de Joe. Puxou algumas vezes e recostou-se na parede da pequena cratera. — Tenha pensamentos puros. É o que minha mãe sempre dizia.

Ele enxugou-se com a toalha ao sair do chuveiro e depois estendeu-a sobre a tampa do vaso, sentando-se em seguida. Cuidadosamente, começou a examinar o pênis. O prepúcio estava vermelho, inflamado e dolorido, quando o puxou para examinar a glande, que também estava inchada, com veias azuladas saltadas. Não adiantava, pensou ele, enquanto começava a espalhar uma camada fina de vaselina. Estava fazendo demais. A cada dia, jurava a si mesmo que ia parar, mas no dia seguinte a mesma coisa voltava a acontecer. Como agora, no chuveiro.

Estava fazendo tudo certo. Água gelada. De congelar. E depois acontecia, no momento em que começava a ensaboar os órgãos genitais. Quase antes que percebesse o que estava fazendo, usando a espuma de sabão para se empolgar. E depois o sêmen esguichando freneticamente contra os ladrilhos brancos, deixando-o vazio e envergonhado. Olhou para baixo. Não era absolutamente o que quisera fazer. E depois a urina se projetara, dolorosamente, ardendo, misturando o amarelo com a água que escorria pelo ralo. Doía, doía muito.

Quando ele saiu do chuveiro, estava firmemente decidido a parar com aquilo de vez. Mas no instante mesmo em que pensava nisso, já sabia que não poderia parar. Aconteceria de novo, na escola. Correria para o banheiro depois de ver as garotas com suas roupas de ginástica justas. E depois à tarde, na confeitaria, onde todos se encontravam e ficavam tomando Coca, as garotas provocantes, com as bundas e peitos balançando, o que o mandaria outra vez para o banheiro. Havia ocasiões em que ele não conseguia sequer esperar: acontecia quando ainda estava sentado à mesa com os outros; ele sentia o jato pegajoso por dentro da cueca. Era um doente. Tinha certeza disso. Era um doente.

— Constantine!

A voz da mãe passou pela porta do banheiro. Ele detestava aquele nome. A mãe era ortodoxa grega, de Chicago, dera-lhe o nome do pai dela. Ele nunca o usava na escola. Lá, todos os garotos chamavam-no de Andy, a abreviação de Andrew, seu nome do meio.

— Constantine! É melhor se apressar. Vai chegar atrasado na escola.

— Já estou indo, mamãe!

Ele desceu para a cozinha e sentou-se à mesa. A mãe colocou à sua frente três ovos mexidos com bacon, que acabara de fritar. Ele pegou as torradas quentes com manteiga e começou a comer, vorazmente.

— Onde está papai? — perguntou ele, entre duas garfadas.

— Seu pai saiu cedo para uma reunião na Igreja Unitária. Propuseram torná-lo membro do conselho, se ingressasse formalmente na igreja.

— E ele vai entrar?

— Acho que sim. Afinal, freqüentamos a igreja há muitos anos. Seu pai diz que, no fundo, não faz qualquer diferença. É também uma igreja cristã.

— E é a única igreja na cidade.

A mãe assentiu, arriando numa cadeira, no outro lado da mesa.

— E você, mamãe? O que acha de tudo isso?

— Não sei. Mas a igreja ortodoxa grega mais próxima fica em Chicago, a quase mil quilômetros de distância.

Ele fitou-a atentamente.

— Mas não é a mesma coisa, não é? A mãe sacudiu a cabeça.

— Não, não é.

— Então qual é o problema? Nós nos temos dado muito bem do jeito que estamos.

— O negócio de seu pai está se tornando muito importante na cidade. E os conselheiros da igreja acham que ele deve dar-lhes um apoio integral.

— E se ele não quiser?

— Não sei o que pode acontecer. — A voz da mãe estava perturbada. — Você os conhece tão bem quanto eu. Eles podem se virar contra a gente num instante. Como fizeram com aquele judeu, o Rosenbloom. Depois de seis anos, ele teve de fechar o negócio e deixar a cidade.

Ele terminou de comer e levantou-se.

— Talvez as coisas não sejam tão ruins assim.

— Talvez. — A mãe fitou-o nos olhos. — Há outra coisa que eu preciso falar com você.

— O que é? — perguntou ele, subitamente cauteloso. A mãe desviou os olhos e sua voz parecia subitamente constrangida.

— Mandy mostrou-me os lençóis que tirou da sua cama esta manhã.

— E o que tem isso? — perguntou ele, na defensiva. A mãe continuava a evitar os olhos dele.

— Estão todos manchados. Mandy disse que isso vem acontecendo há muito tempo.

— Por que aquela negra não se mete só com a sua vida e trata de lavar as roupas sem fazer intrigas, como deveria? — disse ele bruscamente, furioso.

— Ela achou que eu deveria saber. Não contei a seu pai porque você sabe como ele fica furioso. Mas você precisa acabar com isso.

— Não posso evitar, mamãe. Não tenho nada a ver com o que acontece quando estou dormindo.

A mãe tornou a fitá-lo nos olhos.

— Pode dar um jeito, Constantine. Tenha apenas pensamentos puros. Nada além de pensamentos puros. Isso é tudo.

Ele sustentou o olhar da mãe, pensando em todas as garotas da escola com os corpos provocantes.

— Não é tão fácil assim, mamãe.

— Mas você pode fazê-lo, Constantine. Tenha apenas pensamentos puros.

 

O sol forte ardia sobre Fisherman’s Wharf, quando o carro da polícia entrou na área de estacionamento proibido e foi parar no outro lado da rua. Eram quase três horas da tarde e a multidão da hora do almoço deixava os restaurantes, de chapéu, com camisas coloridas de turistas, palitando os dentes tranqüilamente, vagueando pelas ruas, espiando as lojas e barracas de souvenirs.

— Os negócios andam muito bem — comentou o sargento, satisfeito, para o guarda que guiava o carro. — É um prazer saber disso.

— É mesmo.

O guarda não estava se importando. O sargento fazia aquela ronda há anos. Ficava com toda a grana.

— DiMaggio ainda é a grande atração — acrescentou o sargento. — Mesmo agora, o pessoal ainda vem dar uma olhada em Joltin' Joe.

— Tem razão.

A voz do guarda ainda era indiferente. Tudo o que ele queria era dar uma tragada. Mas não havia a menor possibilidade, com o sargento ao seu lado. Ficaram sentados em silêncio por um momento. Depois, o sargento indagou subitamente:

— Está vendo aquilo?

O guarda olhou. Não viu nada.

— O quê?

— Ali, no meio da multidão que está no cais.

— Ainda não estou vendo nada.

— Aquelas garotas com vestidos compridos antigos. São seis ou sete. Às que estão sacudindo latas.

— E daí?

— Nunca as vi antes.

— Há sempre garotas por aqui pedindo dinheiro.

— Mas não como aquelas. Parecem organizadas. Como se tivessem um plano. Está vendo como elas se dividem e atacam a multidão? Se a primeira não arranca nada do cara, outra avança imediatamente.

O guarda ficou curioso.

— Acha que elas são punguistas?

O sargento observou-as atentamente.

— Acho que não. Elas se mantêm bem separadas e jamais chegam perto das pessoas. E estendem a lata na frente.

— Todas elas são bonitas — comentou o guarda. — E limpas também. Não se parecem com a maioria das hippies e viciadas.

— Tem razão. Gostaria de saber qual é a delas.

— Podemos cercar umas duas e descobrir.

— Não. Vamos esperar para ver o que elas fazem. O guarda não podia mais se agüentar.

— Importa-se que eu fume um pouco, sargento?

O sargento fitou-o com uma expressão de compaixão.

— Está bem. Mas mantenha o cigarro abaixado. Eu não gostaria que o tenente passasse e visse.

— Obrigado, sargento.

Havia uma gratidão genuína na voz do guarda. Ele abaixou-se e acendeu o cigarro, aspirando a fumaça bem fundo. Deu outra tragada rápida e depois olhou de lado para o sargento.

— O que está acontecendo?

— As garotas estão indo muito bem. Todo mundo está largando moedas nas latas.

O guarda deu outra tragada e depois apagou cuidadosamente o cigarro, empertigando-se no assento.

— Obrigado, sargento. Não pode imaginar como eu estava precisando.

O sargento virou a cabeça para ele.

— Devia aprender a mascar tabaco. Ninguém o veria fazendo isso.

O guarda riu.

— Talvez seja uma boa idéia.

O sargento continuava a observar as garotas.

— A multidão está se dispersando agora, e as garotas estão indo embora. Vamos seguir a última e descobrir para onde elas estão indo.

O guarda ligou o carro.

— Basta me dizer quando devemos partir, sargento.

— Agora. Elas estão subindo a rua transversal perto da barraca de Orange Julius.

O guarda virou a esquina e logo adiante parou abruptamente.

— Mas que merda, sargento! É uma rua de mão única, em sentido contrário ao que estamos.

— Conheço a rua. É bastante comprida. Dê a volta no quarteirão. Vamos alcançá-las no meio do caminho.

Mas quando deram a volta e olharam, a rua estava vazia.

— Elas sumiram, sargento.

— Não sumiram, não. Tem um beco no meio do quarteirão. Elas só podem estar lá.

O guarda parou o carro, bloqueando a saída do beco. O sargento acertara. Nos fundos do beco estava um furgão pintado de roxo. Nos lados, pintadas em letras brancas e grandes, estavam as palavras A comunidade de deus!

— Dê a nossa posição — disse o sargento. — Peça um carro de apoio. Mas avise que não estamos esperando qualquer encrenca. É apenas uma verificação de rotina de algumas garotas.

A porta lateral do furgão estava aberta e as garotas haviam se concentrado em torno dele. Não perceberam a aproximação dos guardas até que eles estivessem quase em cima delas. A conversa e os risos cessaram no mesmo instante, e as garotas se viraram para fitá-los. O sargento tocou no quepe, polidamente.

— Boa tarde, moças. — Ele percebeu a apreensão e o medo no rosto delas. — Não há motivo para ficarem preocupadas. É apenas uma verificação de rotina. Poderiam me mostrar a identidade ou carteira de motorista, por favor?

Uma das moças, que parecia um pouco mais velha que as outras, adiantou-se.

— Por quê? — indagou ela, em tom ligeiramente beligerante. — Não fizemos nada de errado.

— Não falei que fizeram, dona. Mas é que são novas aqui e temos a obrigação de saber o que estão fazendo.

— Conhecemos os nossos direitos — insistiu a moça. — Não precisamos mostrar coisa alguma, a menos que sejamos acusadas.

O sargento fitou-a com uma expressão contrafeita. As crianças de hoje em dia pareciam todas advogadas.

— Que tal pedir dinheiro na rua sem permissão, para começar? — disse ele, em tom ainda cordial. — E depois prejudicar a ordem pública, interrompendo o tráfego de pedestres e colocando em risco a vida alheia? Estavam num cais e as pessoas podiam cair na água, tentando se desviar de vocês.

A moça fitou-o em silêncio por um momento e depois olhou para as outras. Virou-se para a porta aberta do furgão e chamou:

— Pregador!

O homem emergiu da escuridão do interior do furgão e saltou para a rua. Usava uma calça Levi's desbotada metida em botas militares e uma camisa caqui sob uma túnica de soldado surrada e ligeiramente puída. Não era um homem alto, devia ter um metro e setenta de altura, talvez menos; os cabelos compridos, cor de areia, caíam pelos ombros, presos em torno da cabeça por uma faixa larga, de contas índias. A boca e o queixo estavam cobertos por um bigode e uma barba, ao estilo de Jesus. A princípio parecia que os olhos eram intensamente azuis e podiam penetrar fundo nas pessoas. Depois, no entanto, pareceram mudar, assumiram uma tonalidade castanha, ficaram afáveis, como se um véu os cobrisse. A voz era profunda, ressonante e agradável, quando disse:

— Bem-vindo à Comunidade de Deus, seu guarda. O que deseja?

O sargento fitou-o atentamente. Tudo o que precisava na sua ronda era de outro Jesus. Encontrava pelo menos uns vinte por dia, e quase todos drogados. Mas estava na polícia há muito tempo, e nada do que pensava ou sentia transparecia em sua voz.

— Pedi a essas moças que mostrassem a carteira de identidade, mas parece que elas não querem cooperar.

O homem acenou com a cabeça, pensativo, depois virou-se para as moças.

— Está tudo bem, crianças. Podem atender ao pedido do guarda.

O carro de apoio chegou e mais dois guardas se aproximaram apressadamente pelo beco, enquanto as moças começavam a mostrar suas carteiras. O sargento disse ao seu motorista:

— Pegue as carteiras de identidade, Tom, leve para o carro e entre em contato com a delegacia, pedindo que façam uma verificação completa. — Ele virou-se para o homem, que ainda estava parado à sua frente. — Pode me dar também a sua carteira de motorista e o registro do veículo?

— Claro, seu guarda. Estão lá dentro. Terei o maior prazer em pegar para lhe entregar.

Ele virou-se para a porta e o sargento apressou-se em dizer:

— Espere um instante. Importa-se que eu entre com você?

— Claro que não, seu guarda — disse o homem, tranqüilamente.

Ele subiu no furgão e o sargento foi atrás, com alguma dificuldade. Já não era mais tão ágil como antigamente. O interior do furgão era totalmente diferente do que ele esperava. Veículos assim geralmente eram imundos, com colchões e roupas sujas amontoados, recendendo a maconha, vinho e corpos sem banho.

Aquele furgão era limpo, arrumado, todo pintado de branco. Quando nada, era mais como um escritório ambulante do que qualquer outra coisa. Por trás da cabine do motorista, havia uma pequena escrivaninha e uma cadeira, aparafusados no chão, a fim de que não se deslocassem com o veículo em movimento. Na parede oposta à porta havia prateleiras de aço do chão ao teto, com resmas de papel empacotadas. Em outra mesa, também aparafusada no chão, havia uma máquina de escrever, devidamente coberta, tendo ao lado um pequeno mimeógrafo, com a bandeja para recolher as folhas impressas cheia pela metade. No lado da porta havia dois bancos, ambos aparafusados no chão, cada um com quatro cintos de segurança. O homem percebeu que o sargento apreendia tudo num só olhar.

— Nem todos podemos sentar na frente — explicou ele. — E algumas estradas são péssimas. Gosto de saber que as crianças estão em segurança.

O sargento soltou um grunhido e fungou. Sempre dissera que podia farejar maconha melhor que qualquer dos cachorros treinados para isso. Mas parecia quase bom demais para ser verdade. Tudo ali estava em ordem.

O homem sentou-se à escrivaninha e abriu uma gaveta. Tirou o registro do veículo e a sua carteira de motorista, e entregou-os ao sargento.

O sargento examinou primeiro a carteira de motorista. Estava emitida em nome de Constantine Andrew Talbot, datada de janeiro de 1967, dois anos antes. Era de fato o mesmo homem, só que agora a aparência era diferente. Na fotografia, ele tinha os cabelos curtos. O homem era mais velho do que o sargento calculara inicialmente. Pensara que ele tivesse vinte anos ou pouco mais, mas constatava agora que sua idade era vinte e nove anos. Tudo conferia: a cor dos cabelos, a cor dos olhos. Havia apenas uma coisa que o sargento não podia ver.

— Tem uma cicatriz no braço esquerdo. Como a conseguiu?

— Ferimento de bala. Estive no Vietnam.

— Meu filho está com os boinas-verdes — informou o sargento, orgulhoso.

— Estive no corpo médico.

— Por quanto tempo?

— Quatro anos. Fui como voluntário.

— Por que o corpo médico?

— Não creio em matar. Mas também não creio que um homem deva se esquivar ao serviço de seu país.

— Ouvi a moça chamá-lo pregador. É um ministro ordenado?

— Não, senhor. Mas algum dia espero ser.

O sargento ajeitou a carteira de motorista por baixo do registro do veículo.

— Essa Comunidade de Deus é uma igreja reconhecida?

— É, sim. Temos uma certidão de registro do Estado da Califórnia.

— E onde exatamente a igreja está sediada?

— Como pode verificar pelo registro do veículo, estamos sediados nos arredores de Los Angeles. Mas, como minha mãe costumava dizer, "a Comunidade de Deus está implantada no coração de cada homem".

Haviam jantado em silêncio quase total. Foi só quando estavam tomando o café que ele falou. Olhou para os pais por cima da mesa e disse:

— Vou embora no fim de semana. A mãe prontamente protestou:

— Mas faz só seis meses que você voltou para casa!

— E não tem feito outra coisa durante todo esse tempo a não ser ficar vadiando em casa, saindo todas as noites só Deus sabe para fazer o quê e fumando a maconha em que se viciou no exército — disse o pai, rispidamente. — Não se ofereceu uma única vez para me dar uma ajuda na loja. Não sei o que seis anos no exército fizeram por ele. Já está com vinte e cinco anos, em tempo de assentar a cabeça.

Quando eu tinha essa idade, já era um homem casado, com responsabilidade.

— O que quer fazer com a sua vida, Constantine? — perguntou a mãe.

— Não sei direito, mamãe. Recebi um chamado, mas não tenho certeza para quê. Sinto que tenho uma mensagem de Deus para levar às pessoas. Mas não sei como fazê-lo ou mesmo por onde começar. Sei apenas que vi homens demais morrerem sem que ninguém tomasse quaisquer providências quanto às suas almas, e perderem o dom da vida eterna que Jesus prometeu.

O pai lançou-lhe um olhar furioso.

— Se é realmente assim que pensa, por que não foi à igreja e conversou com o pastor?

— Já o fiz, papai. E muitas vezes. Mas ele não tem as respostas para mim. Acho que Deus pertence a todos os cristãos e não apenas ao unitários. É uma comunidade muito maior, que não pode se limitar a esta pequena igreja.

— No fundo, o seu problema é que não quer realmente trabalhar. Fica satisfeito em receber seu cheque de veterano de guerra, que inclui o adicional por ter sido ferido. E isso lhe dá a possibilidade de ficar vagabundeando.

— Constantine... — murmurou a mãe. Ele virou-se para a mãe.

— É nisso que você realmente acredita?

— É, sim, mamãe.

Ela virou-se para o marido.

—— Então não compete a nós julgá-lo, papai. Devemos deixá-lo partir e descobrir aquilo em que acredita. Pode ser que ele esteja certo, pois há uma comunidade de Deus implantada no coração de cada homem.

 

O guarda meteu a cabeça pela porta.

— Todas estão limpas, sargento. Não tem nenhuma fichada.

O sargento acenou com a cabeça e estendeu-lhe a carteira de motorista do Pregador e o registro do veículo.

— Verifique esse homem também.

O guarda desapareceu, enquanto o Pregador dizia:

— Não confia em ninguém, hein, sargento?

— Minha função é não confiar. Quanto tempo vocês pretendem ficar por aqui?

— Apenas o fim de semana. Precisamos de algum dinheiro para pagar as sementes e o fertilizante na comunidade. As coisas estão saindo mais caras do que calculávamos.

— O que estão cultivando?

— Alfaia, sementes de girassol, açafrão e feijão. Tentamos cultivar toda a nossa alimentação. Somos vegetarianos.

O sargento assentiu. Tudo combinava.

— Há quantas pessoas na comunidade?

— Cerca de quarenta e cinco, no momento. Mas estamos crescendo. A cada semana aparecem mais duas ou três pessoas.

— Todas moças? — indagou o sargento, insinuante-mente.

O Pregador riu.

— Há cerca de quinze homens entre nós.

— Não estou vendo nenhum com você.

— Precisamos deles na comunidade para o trabalho pesado. Só podemos dispensar as moças.

O sargento fitou-o fixamente. O Pregador não era nenhum tolo. Sabia que angariar dinheiro era mais fácil para moças do que para homens. As pessoas comuns não tinham medo delas. O guarda tornou a aparecer na porta.

— Também está limpo — disse ele, devolvendo os documentos ao sargento.

O sargento ainda tinha uma pergunta:

— Todo mundo dorme aqui dentro? O Pregador sorriu.

— O dono do depósito, no beco, teve a bondade de alugá-lo para nós por dez dólares a noite. As moças dormem lá. Eu fico aqui.

O sargento se levantou.

— Mas ainda precisam de uma permissão para pedir dinheiro nas ruas.

O Pregador pegou outro papel na escrivaninha.

— Já temos, sargento. Pegamos ontem na prefeitura. O sargento olhou para o papel. O Pregador pensara em tudo. A autorização era válida por três dias, até o final da semana. Ele devolveu-a, relutante.

— Muito bem. Tome cuidado, mantenha as moças fora de encrencas e providenciarei para que a polícia não o incomode.

O Pregador também se levantou. Havia uma insinuação de sorriso em seus olhos.

— Obrigado, sargento. Deus o abençoe.

O sargento ficou surpreso ao se ouvir dizer, quase que por reflexo:

— Obrigado, pregador.

O Pregador ficou parado na porta do furgão, junto com as moças, observando os guardas se afastarem pelo beco, entrarem em seus carros e partirem. Depois que eles se foram, as moças sorriram de repente e olharam para o Pregador. Ele riu.

— Eles caíram direitinho — disse a moça mais velha, a que falara com o sargento.

O Pregador assentiu, lentamente.

— É verdade. Mas, mesmo assim, temos de tomar cuidado. Aquele sargento não tem nada de tolo. Vai voltar para algumas visitas de surpresa. Vocês terão de representar muito bem, até que eu possa providenciar tudo para sairmos daqui.

— Mas estou morrendo de vontade de puxar um fumo! — protestou a moça.

— Mas terá de se agüentar, Charlie. Precisamos nos livrar dos cinqüenta pacotes que estão lá no depósito. Depois que fizermos isso, poderemos sair daqui e ter uma festa de verdade.

— Mas, Pregador...

Ele não deixou que a outra moça continuasse a falar, fitando-a com uma expressão severa.

— Você me ouviu, Alice. Todas vão fazer o que estou mandando. Precisamos do dinheiro que vamos receber, se quisermos continuar a realizar o serviço do Senhor. — O Pregador tornou a saltar do furgão. — Qual de vocês está com a chave da pickup? Tenho de ir ao centro para fazer um contato.

O Pregador encontrou uma vaga no meio-fio, junto a um parquímetro, no início da Califórnia Street. Parou ali, saltou do carro, pôs uma moeda no parquímetro e depois encaminhou-se para a Grant. O cheiro de comida chinesa pairava no ar, como um perfume convidando-o a entrar num dos mil restaurantes que povoavam Chinatown.

Ele desceu pela Grant, passando pelos restaurantes e lojas de souvenirs. Depois de alguns quarteirões, a rua tornou-se mais prosaica, com velhos prédios de apartamentos e pequenos estabelecimentos comerciais. Parou diante de um prédio. O andar térreo era uma loja, com as vitrines pintadas de cinza e uma placa acima da entrada: Soong Ding CO. Exportações, Somente Atacado. A porta estava trancada. Ele apertou a campainha. Um momento depois, a porta se abriu e um homem espiou.

— Pois não?

— Bárbara Soong — disse o Pregador.

— Quem deseja falar com ela?

— Basta dizer que o Pregador está aqui.

O homem acenou com a cabeça e tornou a fechar a porta. Voltou poucos minutos depois, abrindo desta vez toda a porta.

— Entre.

O Pregador entrou na loja e esperou que o homem fechasse e trancasse a porta. Seguiu-o depois para os fundos, através da loja repleta de caixas e engradados. O homem apertou o botão do elevador. A porta se abriu.

— Terceiro andar — disse o homem.

Ele ficou parado ali, até que o Pregador entrasse no elevador e a porta se fechasse. Um homem impecavelmente vestido, de terno escuro, camisa branca e gravata preta, recebeu o Pregador, quando ele saiu no apartamento do terceiro andar, luxuosamente mobiliado.

— Acompanhe-me, por favor — disse ele, polidamente. O Pregador seguiu-o por um corredor largo, decorado com lindas gravuras chinesas em silk-screen e estatuetas de jade e marfim, de valor incalculável. Chegaram a uma porta de madeira toda esculpida. O homem abriu a porta, fazendo um gesto para que o Pregador entrasse. Ele entrou atrás e fechou a porta. Virou-se para o Pregador, indagando polidamente:

— Tenho a sua permissão? A Casa de Soong tem muitos inimigos.

— Claro.

O Pregador levantou os braços, a fim de que o homem pudesse apalpá-lo, à procura de uma arma. O homem empertigou-se um momento depois, satisfeito.

— Obrigado.

Ele foi até a mesa e apertou um botão. Uma porta se abriu no outro lado da sala e uma jovem apareceu. Era alta para uma chinesa e estava sorrindo, as mãos estendidas à frente, num gesto de boas-vindas.

— Já faz muito tempo, Pregador — disse ela, afetuosamente. — Pensei que tivesse esquecido de nós.

— Não se pode esquecer os bons amigos, Bárbara — disse ele, pegando as mãos da jovem. Largou-as no instante seguinte e acrescentou, com a voz subitamente séria: — Acabei de tomar conhecimento da morte de seu honrado pai. Permita-me apresentar minhas condolências, embora um pouco atrasadas.

Bárbara foi para trás da mesa que pertencera a seu pai e sentou-se.

— Obrigada, Pregador. É muito triste. Mas é também a vida. Deve continuar, mesmo quando é difícil. — Ela fez uma pausa. — Em que a Casa de Soong pode servi-lo?

O Pregador permaneceu de pé. Não seria polido sentar-se enquanto não fosse convidado.

-— Está a par do trato que eu tinha com seu pai? Ela assentiu.

— Tenho cinqüenta pacotes — disse ele.

— Chegou num momento difícil, Pregador. Está havendo uma crise no mercado. Parece que todos os negociantes dispõem de mais mercadoria do que podem vender.

— O que é compreensível. Examinei algumas amostras. O artigo que estão vendendo é péssimo. Não há razão para que alguém queira comprar.

— Mesmo assim, a crise existe.

— Tem razão. — O Pregador sorriu. — Então não vou mais incomodá-la. Cumpri a minha palavra com a Casa de Soong e vim aqui primeiro. Tenho outros contatos em Los Angeles que certamente ficarão com a mercadoria.

Bárbara apressou-se em dizer:

— Não falei que não estamos interessados, Pregador. Disse apenas que havia uma crise no mercado.

— Nunca há mercadoria de boa qualidade em quantidade suficiente. E tenho a melhor. A colheita é própria e conferimos tudo quimicamente. O teor de THC é quarenta por cento acima da média.

— Quanto está querendo?

— Quinhentos dólares por pacote, menos a sua comissão de vinte por cento, é claro.

— Alto demais para este mercado. O preço máximo atual está em trezentos e cinqüenta.

— Então levarei a mercadoria para Los Angeles. Eles têm mais dinheiro para gastar com os pequenos prazeres da vida. Além do mais, preciso do dinheiro para manter a comunidade por mais um ano.

— Talvez possamos chegar a um acordo. Por que não se senta e conversamos, enquanto tomamos uma xícara de chá?

O carro da polícia avançava lentamente pelo tráfego noturno da North Beach.

— Ei, sargento, olhe ali na frente! — disse Tom.

O sargento olhou na direção indicada. O furgão roxo estava parado na esquina, com as portas traseiras escancaradas. Uma cortina preta, com uma cruz branca pintada, estava pendurada, ocultando o interior do veículo. Projetando-se das portas, havia uma pequena plataforma de madeira, da qual o Pregador estava falando, com um microfone na mão.

— Pare aqui — disse o sargento. — Quero ouvir o que ele tem a dizer.

A voz do Pregador era vigorosa, mas também suave e cordial. Saía pelos alto-falantes instalados nos dois lados da plataforma com uma veemência e uma convicção compulsivas:

— Se aceitarem em seus corações o fato de que Jesus Cristo nosso Senhor morreu na cruz por nossos pecados, então terão dado o primeiro passo para se juntarem à Comunidade de Deus. Pois na Comunidade de Deus o homem não tem pecados, não tem culpas, não tem guerras. Só tem amor por Deus e por seu semelhante. Na Comunidade de Deus o homem pode encontrar a verdadeira paz, dentro de si mesmo e com seus vizinhos. Na Comunidade de Deus, você pode também dar as mãos a seus vizinhos e viver com os justos. Creia em Nosso Senhor Jesus Cristo e venha viver na Comunidade de Deus.

Ele fez uma pausa e ficou olhando para as pessoas reunidas diante da plataforma. Levantou as mãos numa espécie de bênção. Sob os faróis dos carros, a sombra projetada por trás dele se parecia aos vagos contornos de Cristo, na cruz branca.

— Que Deus os abençoe e guarde a todos.

Ele manteve o gesto por um momento, saboreando o súbito silêncio da multidão; depois baixou os braços bruscamente, enquanto as moças contornavam o furgão, estendendo as latas de coleta com uma das mãos e distribuindo folhas mimeografadas com a outra. O Pregador desapareceu por trás de uma cortina.

— Ele tem uma conversa e tanto — comentou o sargento. — Por um momento, quase me levou a acreditar.

Tom soltou uma risada.

— Não é uma questão de conversa, sargento. A atração está naquelas garotas. Elas poderiam me fazer acreditar em qualquer coisa.

Um homem deixou cair uma das mensagens mimeografadas perto do carro da polícia. O sargento saltou e pegou-a. Voltando ao carro, leu-a à luz do painel:

Para mais informações sobre a Comunidade de Deus, preencha e remeta este formulário, com ou sem sua contribuição, para:

A Comunidade de Deus

Caixa Postal 119

Los Altos, Califórnia

Ele olhou pela janela. A cortina preta já desaparecera, a plataforma fora retirada para o interior do furgão, as portas estavam fechadas. O furgão arrancou um momento depois. O sargento olhou para trás. As moças andavam pela rua, ainda distribuindo as mensagens mimeografadas e sacudindo as latas de coleta. Ele olhou para o relógio. Eram nove horas da noite.

— Está na hora de recolher — disse ele. — Seis horas neste carro já é tempo demais.

— Concordo plenamente, sarja — disse Tom, com o maior entusiasmo.

O sargento estava pensativo.

— Vamos fazer-lhes outra visita amanhã. Há alguma coisa nessa gente que está me perturbando.

 

— Acredita mesmo em Deus, Pregador?

Ele se virou na cama e fitou-a. Ela estava sentada, recostada nos travesseiros de fronhas de seda. A claridade entre avermelhada e dourada que se filtrava das pequenas lanternas chinesas transformava a pele dela em puro marfim. O Pregador esperou até que ela terminasse de acender o cigarro, antes de responder:

— Você sabe que acredito. Ela fitou-o nos olhos.

— Às vezes fico em dúvida, com todas as coisas que você faz. A maconha. As garotas. Tudo parece muito livre e fácil. Seu Deus não diz que essas coisas são pecado?

— É tudo uma questão de interpretação. Nada é pecado quando se faz com amor. Se acreditamos que Cristo, o Redentor, morreu por nossos pecados e nos entregamos inteiramente a Seus cuidados, então não podemos mais pecar.

Ela tocou-lhe o rosto e deixou que seus dedos descessem até o queixo.

— Você é um homem estranho e bonito, Pregador.

— Obrigado.

— Fazia muito tempo que não ficávamos juntos. Pensei muitas vezes em você.

— Eu também tenho pensado muito em você, Bárbara.

— Fiquei imaginando como seria quando você voltasse... se voltasse. Seria a mesma coisa de antes, quando meu pai estava vivo e eu não tinha a responsabilidade da Casa de Soong nos ombros?

— E foi?

Ele observava-a atentamente. Bárbara sustentou seu olhar.

— Sim e não.

— Qual é a diferença?

— Estou me questionando agora, coisa que não fazia antes.

Ele ficou calado por um momento.

— Negócios? Bárbara assentiu.

— Isso mesmo. Você está comigo pelo que sente, Pregador? Ou por quinhentos dólares por pacote?

— O que você sente?

— Não sei direito, Pregador. Mas quero que diga o que você sente.

Ele pôs a mão entre as coxas dela e sentiu o calor de sua reação.

— Estou com você pelo motivo por que sempre estive, Bárbara. Por amor.

— E as outras? Estão com você também por amor? Ele fitou-a nos olhos.

— Não pode haver outro motivo, Bárbara. Somos todos filhos do mesmo Deus e tudo o que temos para dar uns aos outros é amor.

A campainha do telefone parecia um som estranho naquele quarto de seda e tapeçaria chinesa. Bárbara atendeu. Escutou por um momento, depois falou rapidamente, em chinês. Finalmente cobriu o fone com a mão e virou-se para o Pregador.

— Podemos transferir tudo esta noite, se você quiser aceitar quatrocentos e vinte e cinco. — Ele ficou pensando. Bárbara acrescentou, com a voz subitamente profissional: — Se quer meu conselho, Pregador, aceite logo. Cinqüenta pacotes é muita coisa para se guardar, e a polícia desta cidade nada tem de estúpida. Através de nossos contatos na chefatura, já descobrimos que você foi incluído na lista de pessoas que devem ser verificadas diariamente. No instante em que se espalhar a notícia de que um grande carregamento chegou à cidade, eles vão cair em cima de você para valer.

O Pregador fitou-a nos olhos.

— Você está falando igualzinho a seu pai.

— Espero mesmo que assim seja. Ou eu não estaria à frente da Casa de Soong.

— Está certo. Quando e onde eles vão querer a entrega?

Bárbara tornou a falar em chinês pelo telefone e depois disse a ele:

— Agora. E no lugar que você indicar.

Ele já tinha saído da cama e estava se vestindo.

— Diga-lhes que estarei na esquina do seu escritório. Eles estarão com o dinheiro?

— Não. Eu lhe darei tudo amanhã de manhã.

— Combinado.

Ela virou-se para o telefone e falou rapidamente, desligando em seguida. Ficou observando-o terminar de se vestir.

— Pregador...

— O que é?

— Faça com que esta seja a última vez. Não vale a pena. É apenas dinheiro.

— Preciso do dinheiro. De que outra maneira posso manter minha família reunida?

— Tem de haver uma maneira melhor do que se arriscar a ir para a cadeia.

Ele fitou-a em silêncio por um momento.

— Vou pensar no caso.

Bárbara pegou um quimono e saiu da cama.

— Terei de acompanhá-lo. Depois de oito horas da noite o elevador só funciona com a chave.

— Está bem. — Ela se aproximou; o Pregador tomou-a nos braços e beijou-a. — Não se esqueça do que eu disse. Apenas por amor.

Ela fitou-o nos olhos e sorriu.

— Sei disso, Pregador.

Ele seguiu-a até o elevador e esperou enquanto ela inseria a chave e apertava o botão. A porta se abriu. Ele a manteve aberta com o pé, enquanto dizia a Bárbara:

— Vou dar a eles as chaves de uma pickup de três quartos de tonelada. Os pacotes estão num fundo falso. Diga-lhes para deixarem a pickup em algum lugar seguro, depois que a esvaziarem. Pegarei as chaves com você pela manhã.

— Por volta de dez horas, Pregador.

— Dez horas, Bárbara.

Ele apertou o botão. Bárbara ficou observando a porta se fechar e depois a luz no painel descer, até chegar ao térreo. A luz se apagou. Ela retirou a chave e voltou para o seu quarto, lentamente.

Em algum lugar nas proximidades, um sino de igreja repicou quatro vezes, enquanto o Pregador caminhava pela calçada, envolto pela neblina noturna, perto do cais. O primeiro barco pesqueiro já chegara com sua carga de siris, levantados em redes por um guincho e despejados nos caldeirões de água fervendo à beira do cais. O Pregador parou ali por um momento e ficou observando; depois atravessou a rua e subiu o quarteirão até o beco.

Seus passos ecoavam pelas pedras do calçamento à medida que ele se aproximava do furgão. Ele parou de novo, tateando os bolsos, à procura da chave para abrir a porta do furgão. Mas a porta foi aberta antes que ele encontrasse a chave.

— Charlie... Por que não está dormindo?

— Não consegui. Estava preocupada com você. Ele subiu no furgão.

— Não havia motivo para se preocupar. Ela fechou a porta.

— Você estava com aquela chinesa.

— Isso mesmo.

Charlie chegou mais perto.

— Posso sentir o cheiro dela na sua barba. O Pregador riu.

— Isso é chow mein. Não tive tempo de me lavar.

— Não vejo graça nenhuma. Sei qual é a diferença entre cona e chow mein.

O Pregador tirou a túnica, depois a camisa, e sentou-se numa cadeira para arrancar as botas. Perguntou, em tom de censura:

— Você não está com ciúme, não é mesmo?

Charlie ajoelhou-se diante dele e arrancou-lhe a bota.

— Não. Sei que isso não teria sentido. O ciúme é uma coisa doentia. Mas queria estar com você.

— Está comigo. E sabe disso.

Ela arrancou a segunda bota quase com raiva.

— Não me venha com essas merdas, Pregador. Não sou uma garota estúpida como as outras. Tenho vinte e cinco anos e você sabe muito bem do que estou falando. Todas elas ficam felizes de esperarem a sua vez, sempre que você as quer. Mas eu quero muito mais. E queria o seu pau explodindo dentro de mim, não no buraco de alguma chinesa.

O Pregador fitou-a fixamente. Sua voz estava fria quando falou.

— Esses são pensamentos nocivos, Charlie. Ela começou a chorar.

— Não posso evitar, Pregador. Eu o amo muito.

Ele afastou as mãos com que ela cobrira o próprio rosto.

— É Deus que você ama, Charlie. O mesmo Deus que está em todos nós.

— Sei disso — murmurou ela, ainda choramingando. — Mas é pecado querer você?

— É pecado apenas se for um sentimento egoísta. Charlie ficou de cócoras, olhando para o chão. E balbuciou:

— Então estou em pecado. Ele levantou-se.

— Terá de rezar para que Deus perdoe seus pecados, Charlie.

— Mas você me perdoa, Pregador?

— Não sou eu quem concede perdão, Charlie. Apenas Deus pode perdoar.

Ela pegou a mão dele e beijou-a.

— Desculpe, Pregador. Ele ajudou-a a se levantar.

— E agora entre e trate de dormir. Já vai amanhecer e teremos muito o que fazer.

A porta lateral do furgão estava aberta quando o sargento se aproximou pelo beco. Ele olhou pela porta. O Pregador estava sentado à mesa, escrevendo.

— Pregador... Ele virou o rosto.

— Olá, sargento.

— Estou incomodando? O Pregador sorriu.

— Claro que não.

— Importa-se que eu entre?

— É um prazer.

O sargento entrou no furgão. Olhou para as anotações na mesa.

— O que está escrevendo?

— Meu sermão para amanhã.

— Ouvi-o falando ontem à noite. Tem uma língua de prata, como costumavam dizer quando eu era garoto.

O Pregador sorriu.

— É fácil falar com as palavras de Deus. O sargento acenou com a cabeça.

— As coletas estão indo bem?

— Muito bem. Deveremos estar com quase setecentos dólares ao terminarmos esta noite e voltarmos para casa.

— Não vão ficar até amanhã? — O sargento estava surpreso. — Domingo é o dia mais movimentado no cais. Vocês devem angariar pelo menos duas vezes mais que em qualquer outro dia da semana.

O Pregador sorriu.

— É também o sabá. "E no sétimo dia Ele descansou de Seus trabalhos." Devemos voltar para os serviços do domingo.

— Mas vocês já estão aqui. Parece-me que seria uma pena renunciar a todo esse dinheiro.

— Não precisamos realmente de tanto dinheiro assim, sargento. Nossas necessidades são muito simples. O verdadeiro motivo da nossa presença aqui é disseminar a palavra de Deus.

O sargento observou-o atentamente. Ele parecia estar sendo sincero. Até mesmo o tenente da polícia de Los Altos, com quem o sargento falara naquela manhã, parecia convencido de que aquela gente estava certa. Informara que eles possuíam uma fazenda de vinte acres nos arredores da cidade. Até mesmo a mulher do tenente comprava ovos e legumes deles. O tenente dissera ainda que se assemelhavam aos seguidores das Testemunhas de Jeová ou dos Adventistas do Sétimo Dia. Eram sempre discretos e bem-comportados, distribuíam sua literatura enquanto vendiam os produtos da fazenda de porta em porta. Mesmo assim, havia o rumor de que uma tonelada de maconha estava chegando a San Francisco e tinha de vir de algum lugar.

— Parece estar sozinho aqui, Pregador. Onde estão as meninas?

— Saíram com as suas latas de coleta.

— Nunca vi o lugar em que elas dormem.

— A porta está aberta. Pode olhar.

— Importa-se de me mostrar?

— Claro que não.

O Pregador se levantou e o sargento seguiu-o até o depósito. Ele empurrou a porta e os dois entraram. Havia dez sacos de dormir meticulosamente enrolados no chão, que fora varrido. Afora isso, o pequeno depósito estava vazio. O sargento olhou ao redor. Não havia o menor cheiro de maconha no ar. Ele olhou para o Pregador.

— Está tudo arrumado, sinal de que já se preparam para ir embora.

O Pregador limitou-se a assentir. O sargento voltou para o beco. Virou-se, enquanto o Pregador fechava a porta.

— Recolheram um bocado de dinheiro. Fique de olhos bem abertos, pois alguém pode querer assaltá-los.

— Não creio que alguém pense nisso — disse o Pregador, sorrindo tranqüilamente. — Deus cuida dos seus.

— Mas tome cuidado assim mesmo. E, se precisar de ajuda, não hesite em nos chamar.

— Obrigado, sargento.

O sargento virou-se, como se fosse se afastar. Mas tornou a se virar para o Pregador.

— Há rumores de que um grande carregamento de maconha está chegando à cidade. Soube de alguma coisa?

O Pregador sustentou o olhar dele.

— Não ouvi qualquer rumor.

O sargento fitou-o em silêncio por um longo momento, depois acenou com a cabeça.

— Creio mesmo que não ouviria. Está longe de tudo isso. — Ele estendeu a mão. — Espero que compreenda que estou apenas cumprindo o meu dever.

O aperto de mão do Pregador era firme.

— Compreendo perfeitamente, sargento.

— Adeus, Pregador. Boa sorte.

— Adeus, sargento. Deus o abençoe.

Ele ficou observando o policial afastar-se pelo beco, a caminho do carro parado na rua. Bárbara estava certa. Aquela seria a última vez. O Pregador tinha o estranho pressentimento de que só não estava sendo pressionado porque o sargento gostava dele. Era quase como se ele dissesse: "Muito bem, só desta vez. Não haverá outra chance".

Pensativo, o Pregador voltou ao furgão e entrou. Olhou para a mesa. O título do sermão para o dia seguinte parecia fitá-lo: "Vá e não peque mais".

 

Eram quase sete horas da manhã quando ele entrou na estrada de terra no alto do morro que levava à fazenda da Comunidade de Deus. Passou pelas placas grandes de proibida A PASSAGEM --— PROPRIEDADE PARTICULAR, dos dois lados da estrada de terra. Fez a curva no alto do morro, parou a pickup e saltou. Foi até a beira da estrada e olhou para baixo.

Espalhadas pelo pequeno vale lá embaixo estavam as construções de madeira, impecavelmente pintadas, que formavam a comuna. Quatro prédios. O prédio das mulheres era o maior, porque abrigava a grande parcela da população da comunidade, vinte e oito mulheres e sete crianças. O prédio dos homens era menor. Incluindo ele próprio, havia dezessete homens. Entre os dois, estava o segundo maior prédio, que alojava o refeitório e a cozinha, e o menor de todos, onde ficava a sala de reuniões e que também servia de igreja e sala de recreação. Por trás dos prédios, ficavam os telheiros grandes, sob os quais estavam estacionados os diversos carros e máquinas que pertenciam à comunidade ou a seus membros. Mais além, ficava o pequeno prédio em que ele vivia e que também lhe servia de escritório.

Uma tênue fumaça azul se elevava da chaminé por cima da cozinha. O Pregador viu que o furgão roxo já estava estacionado sob um telheiro. Acenou com a cabeça para si mesmo, satisfeito. Significava que as meninas não haviam encontrado qualquer dificuldade na viagem desde San Francisco. Tinham chegado antes por terem seguido direto pela auto-estrada. Ele viera por estradas secundárias, não querendo correr qualquer risco de ser detido na auto-estrada. O compartimento traseiro da pickup recendia a maconha. Os chineses haviam sido negligentes ao descarregarem, rompendo alguns dos pacotes meticulosos. Ou talvez não fossem negligentes, estivessem simplesmente verificando se estavam recebendo aquilo por que pagavam. De qualquer forma, uma das primeiras coisas a se fazer era limpar o fundo falso da pickup, lavando-o cuidadosamente. Talvez fosse até melhor remover completamente o fundo falso, já que, dali por diante, não teria qualquer utilidade.

O Pregador voltou à pickup e desceu o morro. Levou mais dez minutos para percorrer a estradinha de terra, devido aos sulcos formados pelos pneus, e chegar à fazenda. A esta altura, parecia que quase todos na comunidade estavam na frente dos prédios, esperando para saudá-lo. Todos sorriam e acenavam enquanto ele passava, lentamente.

— Bom sabá, Pregador. Ele acenava em resposta.

— Bom sabá, crianças.

Parou a pickup diante de sua pequena casa. Tarz, um rapaz louro, alto e magro, de óculos antiquados, conhecido como o Organizador e seu principal auxiliar, aproximou-se da pickup enquanto ele saltava, seguido de perto por Charlie, que guiara o furgão na viagem de volta.

— Bom sabá, Pregador — disse Tarz, exibindo os dentes brancos e grandes num sorriso.

O Pregador pegou-lhe a mão.

— Bom sabá, Tarz — disse e virou-se para Charlie.

— Fizeram boa viagem?

Ela sorriu.

— Não houve problemas. Foi muito fácil.

— Fico contente com isso. Todas as crianças estão bem?

— Muito bem. Estão felizes por terem espalhado a palavra de Deus entre o povo e querem saber quando poderão fazer a mesma coisa outra vez.

O Pregador sorriu.

— Sei como elas se sentem. — Ele virou-se para Tarz.

— Poderia fazer o favor de guardar a pickup debaixo do telheiro para mim? Quero tomar um banho e me arrumar, antes do café da manhã.

Tarz assentiu.

— Claro, Pregador. — Ele hesitou por um momento.

— Tudo correu bem? Levantamos dinheiro suficiente para cobrir o pagamento da hipoteca este ano?

O Pregador acenou com a cabeça.

— Vai deixar o seu banqueiro muito feliz quando for procurá-lo amanhã.

Tarz sorriu.

— Ele certamente ficará feliz. Estava começando a ficar nervoso, à medida que se aproximava o fim do mês.

— Ele se acalmará agora — disse o Pregador, encaminhando-se para a casa.

Charlie seguiu-o até o interior da casa.

— Parece muito cansado, Pregador. Vou esquentar um pouco de água, e poderá descansar na banheira.

— Um banho de chuveiro será suficiente.

— Só desta vez, Pregador, aceite a minha sugestão. Ele fitou-a em silêncio por um momento e depois suspirou.

— Está certo. Estou mesmo cansado. O Pregador arriou numa cadeira.

— Assim é melhor. — Charlie tirou um baseado do bolso da blusa e o acendeu. Estendeu-o para ele. — Tome. Dê umas tragadas. Vai relaxar, enquanto acendo o fogo. Voltarei num instante para tirar suas roupas.

O Pregador puxou fundo o baseado.

— Você está se comportando como se eu fosse um bebê.

Ela riu.

— Todos os homens pensam que são grandes e fortes. Mas ser tratado como bebê não faz mal nem aos melhores deles.

O Pregador deu outra tragada funda no baseado, enquanto Charlie passava para o cômodo ao lado, a fim de acender o fogo. Ele recostou-se na cadeira. Percebeu de repente que estava muito mais cansado do que imaginara. Charlie estava certa. Ser tratado como um bebê de vez em quando não fazia mal nenhum.

Tarz entrou enquanto ela despejava água quente da chaleira de ferro na banheira grande de madeira, colocada no chão da cozinha.

— Onde está o Pregador?

— Na sala. Dormindo na cadeira.

Tarz foi até a porta aberta e olhou. Charlie estava certa. Os olhos do Pregador estavam fechados, a cabeça recostada no encosto da cadeira. Continuava vestido. Só tirara as botas. Tarz voltou para junto de Charlie.

— Estão esperando-o na casa de reuniões.

— Ele não poderá ir. Passou a noite inteira acordado, guiando por mais de sete horas.

— O que devo dizer a eles?

— A verdade. É o sabá. E até mesmo o Senhor teve de tirar um dia de descanso. — Tarz ficou calado e Charlie acrescentou: — Diga a eles para rezarem e avise que o Pregador irá procurá-los depois de dormir um pouco. Ele já deverá estar inteiramente recuperado no meio da tarde.

Tarz acenou com a cabeça, fitando-a nos olhos.

— Está bem. Precisa de ajuda? Charlie riu.

— Posso dar um jeito sozinha. Afinal, ele não é tão grande assim.

Tarz retirou-se e Charlie despejou outra chaleira de água quente na banheira. Tirou um vidro de cristais coloridos da sacola de papel que deixara em cima da mesa e despejou-o lentamente na banheira. Mexeu devagar, com uma colher de pau grande. A fragrância de pinho elevou-se com o vapor. Charlie aspirou fundo. O cheiro era, de fato, agradável.

O Pregador sentiu a mão dela em seu ombro e abriu os olhos.

— Caí no sono.

— Sei disso.

— Que horas são? Tenho um sermão prontinho.

— Mas vai esperar até de tarde. Já avisei a eles. Trate de tirar as roupas agora. O banho está pronto.

O Pregador levantou e começou a desabotoar a camisa. Farejou o ar.

— Que cheiro esquisito é esse?

— Sais de banho de pinho — respondeu Charlie, soltando uma risadinha. — Comprei na cidade. O homem da drogaria disse que é muito bom para aliviar o cansaço.

— Está querendo que eu fique cheirando que nem uma fábrica de perfume.

— Não se queixe enquanto não experimentar. Será muito melhor do que o chow mein.

O Pregador riu.

— Veremos.

Um momento depois, quando ele já estava na banheira, Charlie fitou-o e perguntou:

— O que está achando?

O Pregador arriou ainda mais na banheira, recostando a cabeça e virando-a para fitá-la.

— Sensacional. Eu tinha quase esquecido como é um banho de verdade.

Charlie sorriu.

— Achei que ia gostar.

— E estava certa, Charlie.

Ela entregou-lhe uma esponja e uma barra de sabão.

— Trate de se esfregar direitinho. Vou preparar alguma coisa para você comer.

O Pregador sorriu.

— Minha mãe sempre costumava me dar banho.

— Não sou sua mãe — disse Charlie, rindo. — Você já é grande o bastante para se lavar sozinho.

— Está certo. Já que vai sair, aproveite para dizer a Tarz que preciso falar com ele imediatamente.

— Não pode esperar? Eu queria que você descansasse um pouco.

— É muito importante.

Ele estava se enxugando quando Tarz entrou.

— Como está se sentindo, Pregador?

— Muito bem. Eu estava apenas me sentindo cansado, mais nada.

— Charlie disse que era importante. O Pregador fitou-o nos olhos.

— E é mesmo. A primeira coisa que terá de fazer amanhã será pegar os dois tratores e seis homens. Quero que o campo 10 seja meticulosamente revolvido. Tem de ser um trabalho bem feito, para que nada reste da colheita anterior. E, depois, quero que semeie tudo com alfafa.

Tarz ficou surpreso.

— Não vamos conseguir ganhar dinheiro com alfafa.

— E também não vamos conseguir ganhar dinheiro se toda a comunidade for presa por cultivar e vender maconha.

— O dinheiro serve para pagar a hipoteca.

— Teremos de encontrar outro meio de levantar dinheiro. Nós nos saímos muito bem em San Francisco. Talvez possamos iniciar um programa regular de coleta, trabalhando numa cidade diferente a cada semana.

— As crianças não vão gostar. Muitas estão aqui porque acham que as regras do mundo exterior não se aplicam na comunidade. Gostam da liberdade que a Comunidade de Deus lhes oferece. E gostam de saber que ninguém as julga.

— Todo mundo continuará livre para fazer o que quiser. Vamos apenas deixar esse negócio, mais nada.

Tarz sacudiu a cabeça.

— As crianças não vão encarar a coisa por esse ângulo. Vão pensar que você está cedendo ao sistema.

O Pregador fitou-o atentamente.

— E não estarão enganadas. Mas a opção é pragmática. Não creio que alguém possa gostar da perspectiva de ir para a cadeia. É algo que não me atrai.

— Mas as crianças ainda vão querer cultivar a sua própria erva.

— Isso é problema delas. Poderão fazê-lo. Tudo o que estou dizendo é que não vamos mais cultivar aqui. E quem for apanhado violando essa regra será banido.

Tarz ficou em silêncio por um momento e depois assentiu.

— Está certo. Os tratores começarão a trabalhar às seis horas da manhã.

— Estarei lá com vocês.

— Qual é o problema, Pregador? — indagou Tarz, com algum ressentimento transparecendo na voz. — Não confia mais em mim?

O Pregador riu.

— Sabe muito bem que não é isso, Tarz. Apenas quero me certificar de que o trabalho será bem feito. Ainda sou o único que entende de fazenda por aqui. Vocês, gente da cidade, não sabem de nada.

Tarz sorriu.

— Como achar melhor, Pregador. Mas terá de explicar tudo às crianças. Elas jamais aceitarão, caso seja eu a comunicar.

— Pode deixar que cuidarei disso também, Tarz. Não devemos nos esquecer de que o único trabalho importante que temos a fazer é o trabalho de Deus. Tudo o mais é conseqüência disso.

 

Ele se revirou, irrequieto, na cama e finalmente sentou-se. Uma semana transcorrera desde que voltara de San Francisco, e ainda não fora capaz de dormir uma noite inteira. Um estranho presságio o dominava, e ele ainda não podia definir a causa de sua ansiedade. E nada do que fazia era capaz de atenuar o seu estranho nervosismo. Nem oração, jejum, maconha ou sexo. Embora cada coisa lhe proporcionasse algumas horas de descanso, o sentimento sempre voltava a atormentá-lo.

O quarto estava completamente às escuras, pelas janelas só se via a escuridão da noite sem lua. Ele sentiu um movimento ao seu lado; estendeu a mão e tocou num corpo jovem e nu. Tentou recordar com quem estava quando adormecera, mas não conseguiu. Sabia que diversas garotas estavam com ele, mas puxara fumo demais e ainda sentia a cabeça tonta.

— Pregador...

A voz era um sussurro.

— O que é?

— Está se sentindo bem?

— Estou, sim. Apenas não consigo dormir. — Ele fez uma pausa. — Também não posso ver nada. Está escuro demais.

— Sou Melanie. — Houve uma risadinha abafada. — Estava mesmo alto. Todas nós tivemos de trazê-lo para a cama.

— Todas?

— Sarah, Charlie e eu.

Ele sentiu um movimento no outro lado, enquanto a moça se sentava na cama. Conhecia muito bem a voz que indagou:

— Está se sentindo bem, Pregador?

Era Charlie.

— Não consigo dormir.

— Não tem conseguido dormir direito desde que voltou de San Francisco. — Havia uma evidente amargura na voz dela. — E também não tem conseguido fazer quase mais nada. Acho que aquela cadela chinesa deixou-o enfeitiçado.

— Isso é blasfêmia, Charlie. Não existe tal coisa. A Idade Média já acabou.

Saindo da cama, ela disse:

— Vou fazer um chá de ervas.

Charlie acendeu uma vela ao lado da cama. À luz bruxuleante, o Pregador pôde ver as três moças. Estavam inteiramente nuas, como ele. Charlie pegou um vidro pequeno que estava sobre o caixote de madeira que servia de mesinha-de-cabeceira e estendeu-o para Melanie.

— Guardei esse vidro de Óleo de Almíscar Kama Sutra. As meninas vão passar em seu corpo, Pregador. Isso vai relaxá-lo.

— Quero um cigarro — disse ele.

— Já puxou fumo demais.

— Quero um cigarro.

— Há mais de um ano que está sem fumar. Não vai querer voltar agora.

— Não discuta comigo — disse ele, rispidamente. Charlie ficou calada por um momento; depois, pegou um maço em cima da mesa. Tirou um cigarro e estendeu a vela para que ele acendesse. O Pregador aspirou fundo, sentindo a fumaça arder enquanto descia. Não pôde evitar a tosse.

— Está se sentindo melhor agora? — perguntou Charlie, sarcasticamente.

— Muito melhor — respondeu ele bruscamente, dando outra tragada no cigarro.

— Então deite-se e deixe que as meninas cuidem de você.

Ele assentiu e estendeu-se na cama. Charlie acendeu outra vela e ajeitou-a num castiçal pequeno, em cima do caixote. Encaminhou-se para a porta.

— Não vou demorar.

O Pregador virou a cabeça para ela.

— Obrigado, Charlie.

— Não precisa nos agradecer, Pregador. Todas nós o amamos.

— E eu também amo vocês.

— Vire-se para cá, Pregador — disse Sarah, sentando-se de pernas cruzadas por trás dele. — E ponha a cabeça no meu colo.

Ele mudou de posição ligeiramente, fazendo o que ela pedia. Deu uma última tragada no cigarro. Era bom de verdade. Fora estupidez de sua parte deixar de fumar. Não podia entender por que tomara tal decisão. Ele suspendeu o cigarro, Melanie pegou-o e pôs num cinzeiro. O tênue perfume do óleo Kama Sutra penetrou-lhe pelas narinas, enquanto as moças passavam um pouco nas mãos e começavam a massageá-lo.

Sarah, por trás dele, pôs-se a trabalhar em seu pescoço e ombros, enquanto Melanie, ajoelhada, começava pelos pés e ia subindo pelos tornozelos e pernas. Charlie estava certa. O contato suave das moças e o óleo eram relaxantes. Ele fechou os olhos e entregou-se à sensualidade da massagem, que parecia atingir todos os terminais nervosos logo abaixo da superfície da pele.

As mãos de Sarah deslizaram dos ombros para o peito, deslocando-se em círculos lentos e suaves sobre os mamilos e costelas, enquanto Melanie começava a massagear-lhe as coxas.

— Não lute contra nós, Pregador — disse Melanie. — Suas pernas estão contraídas, tensas. Deixe que os músculos relaxem, que fiquem completamente soltos.

— E como posso fazer isso?

— Fale-nos sobre Deus, Pregador — pediu Sarah. — Se puder se concentrar em Deus, vai tirar os pensamentos de si mesmo.

Ele abriu os olhos e fitou-a; ela estava inclinada sobre seu corpo, com os braços estendidos para alcançar-lhe a barriga. Pôde ver a tênue patina de suor que cobria o corpo dela e sentiu o odor do sexo que se irradiava de seu colo.

— Não vai ser fácil — disse ele. — Posso sentir o seu cheiro.

Ela soltou uma risadinha.

— Então eu própria lhe falarei sobre Deus.

— Está bem.

— Não sei... — murmurou ela, hesitante. — Tive um sonho. Mas estou com medo de contar. Pode ser uma blasfêmia.

— A única blasfêmia verdadeira na comunidade é o medo de partilhar tudo. Até mesmo as suas dúvidas.

— Melanie conhece o sonho. Contei para ela.

— Então pode me contar também.

Ela começou a massagear-lhe os músculos da barriga, e seus dedos comprimiam com mais força do que haviam feito no peito.

— É noite no sonho e estou ajoelhada ao pé da cruz no Calvário. Estou rezando aos pés de Nosso Salvador. De repente, alguma coisa me faz levantar a cabeça. Jesus está me fitando nos olhos. Posso sentir um brilho branco me correndo pela alma. É tão intenso que por um momento não posso ver. E quando meus olhos se desanuviam, não é o rosto dele que estou vendo, mas o seu rosto. Não são os olhos dele, mas os seus olhos. Posso ver tanta angústia que sinto vontade de me estender e tocá-lo, confortá-lo. Por mais que eu me estique e tente, no entanto, nem mesmo consigo tocar seus pés. Começo a chorar. E é então que acordo.

O Pregador sentiu as lágrimas em suas faces. Fitou-a. Ela estava chorando enquanto o massageava. Ele não disse nada.

— O que isso significa, Pregador? — indagou Sarah. — É uma visão? Ou você é mesmo Jesus Cristo?

— De uma coisa tenho certeza: não sou Jesus Cristo. Não sei que outra coisa posso ser. Tudo o que posso sentir é que você vem procurando Nosso Senhor com tanta ansiedade que, subconscientemente, está convertendo a identidade dele em alguém que está mais perto, a quem pode tocar e alcançar.

— Isso é blasfêmia? Ele sacudiu a cabeça.

— Não. Todos procuramos Deus, em nós mesmos ou em imagens que possamos reconhecer. O importante é não criarmos falsas imagens para idolatrar, lembrar sempre que existe um único e verdadeiro Deus e que Ele nos mandou Seu único filho, Jesus Cristo, para nos redimir e levar-nos à salvação.

O Pregador sentiu os dedos cheios de óleo tocarem seu pênis, no mesmo instante em que Melanie lhe tocava os testículos. Um fogo começou a arder em sua virilha. As moças retiraram as mãos abruptamente.

— Vire-se de barriga para baixo — disse Sarah. — Charlie mandou que o virássemos de costas no momento em que começasse a ficar duro.

— Por quê?

— Ela quer que esteja completamente relaxado quando tomar o chá de ervas — respondeu Melanie.

— Estou relaxado agora.

— Vire-se — insistiu Sarah. — Estará ainda mais relaxado quando acabarmos.

Ele estava meio cochilando quando Charlie voltou e indagou:

— Como se sente agora, Pregador? Ele virou a cabeça para fitá-la.

— Relaxado.

— Ótimo. — Charlie sorriu. — Agora sente-se e tome isto.

O Pregador sentou-se na cama e pegou a caneca que ela lhe estendia. Levou-a aos lábios.

— Tome cuidado — advertiu Charlie. — Está quente. Hesitante, ele tomou um gole. Fez uma careta.

— O gosto é horrível. O que é?

— Tome tudo. Vai lhe fazer bem.

— Não está me dizendo o que é.

— Chá de ginseng. A coisa verdadeira. Fiz com a raiz inteira, não com os saquinhos de chá. Foi por isso que demorou tanto tempo.

— E qual o efeito que deve fazer?

— Vai lhe dar forças.

O Pregador virou a cabeça para fitá-la.

— Os chineses dizem que dá virilidade. Charlie sorriu.

— Isso também.

Ele tomou outro gole do chá.

— Acha que estou precisando disso?

— Pode usar toda a ajuda que obtiver. Não tem se mostrado muito animado ultimamente.

— Sei disso. Mas nunca lhe ocorreu que eu poderia estar com outros problemas na cabeça?

— O que quer que seja, isso deve ajudá-lo a restabelecer as perspectivas apropriadas.

O Pregador tornou a provar o chá.

— O gosto é horrível.

— Tome tudo. Quanto mais depressa acabar, mais depressa poderemos todos voltar para a cama.

— Isto vai me ajudar a dormir?

— Não terá problemas para dormir — respondeu Charlie, com um tênue sorriso.

Ela observou-o acabar de tomar o chá, pegou a caneca e pôs no caixote de madeira ao lado da cama.

— Quer que apaguemos as velas? — perguntou Melanie.

— Não — respondeu Charlie. — A luz de velas é muito romântica.

Ela virou-se para o Pregador e pôs as mãos nos ombros dele; empurrou-o de costas para a cama, e sua boca cobriu a dele. No mesmo instante, ele sentiu uma das moças pôr a mão em seus órgãos genitais, depois uma boca quente a envolvê-lo.

— Ei, mas o que está acontecendo? — indagou o Pregador, com um sorriso a se insinuar nos lábios. — Estou começando a me sentir como um cordeiro sendo engordado para o matadouro.

— Não sabe o que é? — perguntou Charlie, levantando o rosto e fitando-o.

Ele sacudiu a cabeça.

— Queremos que faça um filho em cada uma de nós.

— Esta noite? — indagou o Pregador, incrédulo.

— Isso mesmo — responderam as três, quase em uníssono.

Ele estava aturdido.

— Para quê?

— Dessa maneira nenhuma de nós poderá perdê-lo. Mesmo quando estiver longe, ainda teremos um pouco de sua divindade conosco.

— Mas isso é uma loucura!

— Não é, não — insistiu Charlie. — Todo mundo sabe que você vai nos deixar.

— De onde foi que tiraram essa idéia?

— As coisas não são mais as mesmas desde o momento em que acabou com a colheita. Você mudou muito, Pregador. Achamos que, se todos ficássemos juntos de novo, você voltaria para nós.

Ele saiu da cama abruptamente e acendeu um cigarro. Olhou atentamente para Charlie.

— Quem lhe meteu essa idéia na cabeça?

— Ninguém. Mas a comunidade está inquieta. Metade do pessoal está querendo ir embora antes que você vá.

Ele deu uma tragada no cigarro.

— E acha que se todas tiverem filhos isso vai endireitar tudo?

— Foi o que pensamos.

— Não estou planejando ir a parte alguma — disse o Pregador, bruscamente. — E agora saiam daqui e avisem isso aos outros. Podem também dizer que, se tiverem alguma queixa, que me procurem diretamente.

Charlie começou a chorar. Ele olhou para as outras duas moças. Elas também estavam chorando. O Pregador sacudiu a cabeça, na maior frustração. Não havia meio de fazê-las compreender.

— Está zangado conosco, Pregador? — perguntou Charlie.

— Não, não estou zangado com vocês. São minhas crianças.

— Nós o amamos, Pregador — disse Sarah, pegando-lhe a mão e beijando-a.

Melanie pegou a outra mão.

— Queremos apenas ficar com você, como ficávamos antes.

— Ainda estão comigo. Nada mudou.

— Então deixe-nos ficar aqui esta noite, Pregador — suplicou Melanie. — Prometemos que nunca mais tornaremos a fazer uma coisa dessas.

Ele olhou por cima da cabeça de Melanie para Charlie. As lágrimas ainda escorriam pelo rosto dela.

— Está bem — disse ele, com a voz subitamente gentil. — Apaguem essas velas e vamos dormir.

Mas o sono continuou a se esquivar. Foi só pela manhã, quando viu os homens barbados, com chapéus pretos de abas largas, descerem do carro na frente da casa de reuniões, que ele compreendeu o significado do seu presságio.

Eram o irmão Ely e o irmão Samuel, da Igreja dos Filhos de Deus. O Pregador compreendeu naquele instante para quem a Casa de Soong vendera os pacotes.

 

O Cadillac branco conversível estava parado diante da casa de reuniões, enquanto ele se aproximava. A capota estava arriada, revelando o interior de couro vermelho, brilhando ao sol da manhã. Ele deu a volta até o lado do motorista e inclinou-se sobre o volante para ler o registro pregado no painel com fita adesiva. O carro estava registrado em nome da Igreja do Juízo Final, de San Francisco. O Pregador empertigou-se e entrou no prédio.

Tarz estava sentado à mesa com os dois visitantes. Ambos vestiam-se sobriamente, de preto, com os chapéus da mesma cor, de abas largas, camisas e calças pretas... Até mesmo as barbas, cheias, eram pretas. Levantaram-se quando ele entrou na sala. O Pregador não lhes estendeu a mão, limitando-se a dizer:

— Irmão Ely, irmão Samuel.

O irmão Ely, o mais baixo, sorriu.

— É um prazer tornar a vê-lo, Pregador. O Pregador acenou com a cabeça. Não sorriu nem respondeu.

— Soubemos que esteve na cidade — disse o irmão Samuel. — Por que não foi nos procurar?

— Não havia motivo — respondeu o Pregador, bruscamente.

— Mas passou três dias lá — disse o irmão Ely. — Deveria ter aparecido. Sabe muito bem que o irmão Robert o tem em alta conta. Ele acha que ninguém trabalha pelo Senhor com mais afinco do que você.

O Pregador fitou-o atentamente por um momento, depois foi sentar-se numa cadeira no outro lado da mesa. Acendeu um cigarro e recostou-se na cadeira, sem sorrir.

— Tenho certeza de que o irmão Robert não mandou vocês até aqui para me dizerem isso.

O irmão Ely olhou para Tarz significativamente, depois tornou a fitar o Pregador.

— Ele queria que tivéssemos uma conversa em particular com você.

— Não escondemos segredos uns dos outros na Comunidade de Deus. Pode falar abertamente na presença dele ou de qualquer das outras crianças. Nada temos a esconder.

O irmão Samuel levantou-se. Era um homem alto e corpulento, com bem mais de um metro e oitenta de altura e ombros largos.

— A mensagem que o irmão Robert nos encarregou de transmitir deveria ser apenas para os seus ouvidos — disse ele, incisivamente.

O Pregador fitou-o nos olhos. Conhecia a reputação do homem. Ele fora leão-de-chácara em boates ordinárias e depois cobrador de agiotas, antes de ter supostamente encontrado a luz e ingressado na Igreja dos Filhos de Deus. Mas seu trabalho para o irmão Robert era o mesmo que sempre fora: intimidar os dissidentes e mantê-los na linha.

— Está perdendo seu tempo, irmão Samuel — disse o Pregador, tranqüilamente.

— Sente-se, irmão Samuel — disse o irmão Ely. — O Pregador sabe o que está fazendo.

O irmão Samuel sentou-se, com uma expressão feroz. Cruzou as mãos sobre a mesa e ficou olhando fixamente para elas, em silêncio. O irmão Ely tornou a virar-se para o Pregador.

— Talvez já saiba que acabamos de concluir uma missão vitoriosa por todo o Estado, conseguindo mais de duzentos convertidos para a nossa igreja.

— Eu já sabia — disse o Pregador, bruscamente.

Era verdade. Haviam percorrido o Estado de um lado a outro, recrutando os membros de pequenas comunas e famílias que estavam à beira da inanição, prometendo salvá-las do colapso total e da destruição da sociedade, que os Filhos de Deus afirmavam ser iminente.

— Duzentos — repetiu o irmão Ely, incisivamente. — Somos agora mais de quinhentos membros, com igrejas em Los Angeles e San Diego.

O Pregador assentiu, sem dizer nada.

— Estamos nos tornando uma grande força — continuou o irmão Ely. — Muito em breve não poderão mais nos ignorar.

— Meus parabéns — disse o Pregador, sarcasticamente.

— Temos mais de oitocentos mil dólares em caixa e em propriedades, estamos coletando mais de mil dólares por semana. Possuímos pequenos negócios nas cidades em que temos igrejas. Estamos realmente crescendo.

— Vocês também têm Crazy Charlie — comentou o Pregador.

— Ele não está mais conosco — disse o irmão Ely, rapidamente. — O irmão Robert expulsou-o. As coisas que ele queria fazer não podiam ser admitidas por nós. Estamos com Deus em nossas posições sobre a castidade. Mas Charlie só queria sexo e bancar Jesus.

— Mas Charlie veio com o irmão Robert, da Cientologia.

— Isso não é verdade. O irmão Robert deixou L. Ron há muito tempo. Não conheceu Charlie quando estava lá. Contou-me que Charlie estava mentindo a respeito de tudo, que estava na cadeia durante o tempo em que dizia estar na Cientologia.

— Onde está Charlie agora? — perguntou o Pregador.

— Em algum lugar nos arredores de Los Angeles. Pegou um bando de garotos e os mantém em viagem durante todo o tempo, com erva e com ácido. É a única maneira que ele tem de fazê-los acreditar que é J. C. e que poderá salvá-los no Dia do Juízo Final.

— Ele não presta — disse o Pregador. — Algum dia ainda vai matar alguém.

— Não ele pessoalmente — protestou o irmão Ely. — Charlie não passa de um covarde.

— Então, vai mandar alguns dos garotos malucos matarem em seu lugar.

— O problema é dele — respondeu o irmão Ely. — Não temos nada a ver com Charlie.

O Pregador ficou em silêncio por um momento.

— Mas não é esse o motivo pelo qual vieram até aqui, não é mesmo?

— O irmão Robert quer que você pense na possibilidade de se juntar a nós. Ele acha que, juntos, podemos ser muito importantes. Talvez ainda maiores que L. Ron.

O Pregador riu.

— Não há a menor possibilidade. Somos uma comunidade cristã muito simples. Não aceitamos a fusão de Jeová, Jesus Cristo e Lúcifer que vocês fazem. Acreditamos apenas na Sagrada Redenção que nos foi prometida por Nosso Salvador Jesus Cristo.

— Mas o irmão Robert já comprovou que Jesus foi trazido por uma reconciliação entre Seu Pai, Jeová, e seu tio, Lúcifer. No dia do Juízo Final, Jesus vai reunir os justos sob a proteção de Seu Pai, enquanto Lúcifer destruirá todos os outros.

— Ele não comprovou isso para mim. Ou para qualquer outra pessoa que acredita no que a Bíblia nos ensinou. Não há a menor possibilidade de nos juntarmos.

— Quantas crianças você tem aqui? — perguntou o irmão Ely.

— Quarenta e tantas.

— Junte-se a nós e terá mais de cem num instante.

— Não estou interessado.

— Talvez devesse estar — disse o irmão Ely, ameaçadoramente. — A polícia já está atrás de você. Sabe que andou vendendo a erva em San Francisco. Mas podemos mantê-la a distância.

— A polícia pode fazer o que bem quiser — respondeu o Pregador. — Estamos limpos aqui. Ninguém vai encontrar qualquer coisa.

— Ora, Pregador, não venha com essa pra cima de mim. Afinal, quinhentos pacotes exigem pelo menos cinco acres de plantação.

— Alguém está enganado. Não há um único pé de erva crescendo em nossa fazenda.

O irmão Ely fitou-o atentamente.

— Não foi o que nos disseram na Casa de Soong.

— Compraram erva deles?

— Quinhentos pacotes. Na mesma ocasião em que você esteve em San Francisco, levantando dinheiro.

— Isso é muito interessante — murmurou o Pregador. — É por essa razão que pensam que estamos cultivando e vendendo a erva?

— Não. Soubemos por uma fonte segura. Há homens na Casa de Soong que não gostam do que você vem fazendo com Bárbara. Querem afastá-la. Não há lugar para uma mulher numa tong tão importante.

O Pregador levantou-se.

— Tudo isso é bobagem. Pode voltar e dizer ao irmão Robert que a Comunidade de Deus não está interessada em qualquer acordo com ele.

O irmão Ely fitou-o nos olhos.

— Se tem aqui uma verdadeira comunidade, não se importará em permitir que as crianças façam uma votação e decidam por si mesmas o que querem fazer, não é mesmo?

— Claro que não me importo. As crianças podem ir embora no momento em que quiserem. Mesmo assim, não haverá qualquer acordo com o irmão Robert.

— Então não nos culpe se a polícia cair em cima de você.

O irmão Samuel tornou a se levantar.

— Bem que falei que o único jeito de tratar com um palhaço assim é mostrar-lhe o erro de sua atitude — resmungou ele, avançando ameaçadoramente para o Pregador.

O Pregador sustentou o olhar dele firmemente.

— Não recomendo que tente me ensinar qualquer coisa. O irmão Samuel desferiu um soco na cara do Pregador.

Virando a cabeça ligeiramente, o Pregador evitou o golpe. O punho imenso passou zunindo pelo lado de seu rosto, inofensivamente.

— Por que não se acalma? — disse o Pregador, tranqüilo. — Sabe que não acreditamos em violência aqui.

— Vou lhe mostrar em que deve acreditar! — grunhiu o irmão Samuel, pulando para a frente e desferindo-lhe outro soco.

Desta vez, o Pregador pareceu desviar-se parcialmente, como se estivesse tentando escapar. O irmão Samuel foi atrás dele. Não chegou a ver o pé do Pregador subindo em direção a seu rosto, até que a bota atingiu-o em cheio no lado. Houve um barulho alto de osso esmigalhado e ele caiu de lado no chão, com o sangue esguichando pelo nariz e pela boca. Tentou se levantar, apoiando-se nas mãos, e lançou um olhar furioso e surpreso para o Pregador. Mas o esforço era demasiado. Ele tornou a desabar no chão, com um gemido. O Pregador fitou-o por um instante e depois olhou para o irmão Ely, que ainda estava sentado na cadeira.

— Tire-o daqui e leve-o de volta para o irmão Robert, com o recado que acabei de dar. Não queremos nenhum acordo com os Filhos de Deus.

— Pensei que tivesse dito que não acreditava na violência — comentou o irmão Ely.

— E não acredito. Mas eu não disse que não acreditamos na legítima defesa. Esqueceram que passei três anos no Vietnam.

O irmão Ely ficou em silêncio por um momento. Não fez menção de ajudar o grandalhão caído.

— De qualquer forma, eu gostaria que pensasse na proposta do irmão Robert.

— Já pensei — respondeu o Pregador, taxativamente, saindo da sala.

Pela janela de sua pequena casa, ele observou o irmão Ely e Tarz ajudarem o irmão Samuel a entrar no carro. O irmão Samuel tinha uma toalha branca no rosto. Murmurou alguma coisa para Tarz, que lhe virou as costas e afastou-se.

— O que aconteceu? — indagou Charlie, chegando à janela e olhando, enquanto o Cadillac branco fazia a volta e começava a se afastar.

— Nada — respondeu o Pregador.

Ele observou quando Tarz tornou a entrar na casa de reuniões. Alguma coisa estava errada. Normalmente, Tarz teria vindo lhe falar. Por um momento, o Pregador pensou que talvez Tarz tivesse mantido algum contato com eles, antes daquele dia. Mas logo tratou de afastar esse pensamento.

A Comunidade de Deus era unida. Não havia a menor possibilidade de existir um Judas entre eles.

 

Ele estava sentado na pickup, esperando que Charlie voltasse da agência dos correios. Geralmente ele não ia à cidade, para buscar a correspondência, mas naquele dia estava se sentindo inquieto. O encontro com os dois representantes dos Filhos de Deus deixara-o mais perturbado do que estava disposto a admitir, apesar de considerá-los apenas como um dos muitos cultos estranhos que haviam proliferado na Califórnia, atraindo e dominando os hippies e os garotos que vagueavam de um lado para outro, desencantados com suas vidas e procurando alguma coisa que não sabiam definir.

Eram os L. Rons, os irmãos Roberts e os Crazy Charlies que pareciam atrair a maioria, pregando a rebeldia contra a sociedade e prometendo uma utopia. Mais de uma criança já se descobrira em virtual escravidão a um homem ou a um grupo, que a usava apenas pelo que se podia arrancar dela. E mais estranho ainda era o fato de que as crianças usadas ficavam felizes com isso, pois se sentiam necessárias e importantes.

Não era o que Deus lhes prometera ou mesmo o que Deus planejara para elas, mas havia um estranho poder que o Pregador não compreendia. O Senhor lhe ordenara que levasse socorro aos perdidos, e era isso o que ele tentava fazer. Mas talvez não fosse suficiente. Talvez houvesse alguma coisa que ele próprio estava perdendo. Talvez lhe faltasse alguma coisa. Era possível que a autoridade que ele pregava fosse a de Deus, enquanto as pessoas procuravam por uma autoridade temporal. Mas ele não podia simular ser qualquer outra coisa senão o que de fato era: um homem que disseminava a palavra de Deus. Não podia fazer a mesma coisa que os outros e se situar acima deles, como o eleito de Deus, seu representante neste mundo, impondo assim uma obediência absoluta. Eram todos filhos de Deus, e ele era apenas um deles.

Pelo pára-brisa, ele viu Charlie sair da agência dos correios carregando o saco de correspondência. Ela sorria ao abrir a porta.

— Recebemos mais de cem cartas, Pregador. E pelo que pude ver, todas vieram de San Francisco.

— Isso é ótimo — disse ele, ligando a pickup. — Os volantes que distribuímos deram algum resultado.

— Ah, sim, eu já ia até esquecendo. Chegou este telegrama para você.

Ele rasgou o envelope amarelo e leu o telegrama: importante VOCÊ ME TELEFONAR PARA 777-2121 IMEDIATAMENTE. BARBARA.

O Pregador olhou para a data no alto do telegrama. Fora despachado de San Francisco dois dias antes. Deveria tê-lo recebido no dia anterior. Era estranho que Tarz, que recolhera a correspondência, não o tivesse levado. Mas era possível também que o telegrama só tivesse chegado depois de Tarz ter ido embora. Ele abriu a porta e saltou da pickup.

— Volto num momento.

Charlie percebeu a expressão no rosto dele.

— Algum problema, Pregador?

— Não sei.

Ele foi até a cabine telefônica ao lado do estacionamento. Pela porta de vidro fechada da cabine, viu Charlie abrindo algumas das cartas. As moedas desceram ruidosamente pela fenda e o telefone no outro lado da linha começou a tocar. Bárbara atendeu, depois do segundo toque da campainha.

— Alô?

— Aqui é o Pregador.

A voz dela estava estranhamente abafada e nervosa:

— Por que demorou tanto a ligar?

— Acabei de receber o telegrama.

— Você vai receber visitantes.

— Já recebi. Esta manhã. E expulsei-os.

— Hã...

— Qual é a relação entre você e os Filhos de Deus?

— Não existe nenhuma — sussurrou Bárbara. — Mas meu tio decidiu que uma mulher não pode ficar à frente da Casa de Soong. Foi ele quem fez o negócio com os Filhos de Deus e revelou de quem compramos a mercadoria.

— E não podia impedi-lo?

— Não havia nada que eu pudesse fazer. Ele assumiu o controle. Estou virtualmente prisioneira aqui, trancada em meu apartamento. A maioria dos meus primos já passou para o lado dele.

— Nenhum deles é leal a você?

— Não sei dizer. Não estão permitindo que ninguém fale comigo.

— Por que não sai daí?

— Já tentei. Mas puseram dois homens na porta lá embaixo. Não me deixariam sair. Meu tio denunciou-me à família como prostituta, porque passamos a noite juntos.

O Pregador ficou em silêncio por um momento.

— O que eles vão fazer agora?

— Não sei. Mas estou com medo. Meu tio convocou um conselho de família para depois de amanhã. Os primos estão vindo de Los Angeles, Chicago e Nova York.

— O que eles podem fazer?

— Podem me afastar definitivamente do comando. E eu não teria como evitar que isso acontecesse. Nem sequer terei permissão para comparecer ao conselho.

— Isso não é tão terrível assim. Não exagere no seu senso de responsabilidade.

— Não está entendendo, Pregador. Uma remoção para a Tong significa outra coisa.

Ele ficou chocado.

— Eles não fariam isso!

O tom de Bárbara era fatalista:

— É sempre assim que acontece. A sucessão na Tong só pode ocorrer quando o chefe anterior está morto.

— Terá de sair daí.

— Já lhe disse que não posso.

— Então vou tirá-la.

— Não terá a menor possibilidade de chegar aqui em cima. Há dois homens permanentemente na porta do elevador e meu tio ficou com todas as chaves. Só se pode subir, mesmo para trazer a comida, quando ele abre a porta pessoalmente.

— Você ainda está com a sua chave?

— Estou, mas isso de nada adianta. Não tenho a menor possibilidade de entregá-la a você. Se não fosse por esta linha particular, não poderia sequer enviar-lhe o telegrama.

— Se bem me lembro, o elevador é Otis, não é?

— É, sim.

— Vá pegar a sua chave. Tem um número atrás.

— Espere um instante. — Houve um retinido quando Bárbara largou o telefone. Ela voltou a falar um momento depois: — Estou com a chave.

O Pregador já estava com papel e lápis à mão.

— Leia o número.

— Um, zero, sete, dois, três, cinco, ki. Ele leu de novo o número para confirmar.

— É isso mesmo, Pregador. Mas de que vai adiantar?

— A Otis tem um registro. Sempre guardam, para o caso de haver alguma emergência. Darei um jeito para que me arrumem uma chave.

— Mesmo assim, ainda terá de passar pelos homens lá embaixo.

— Deixe isso comigo. Telefonarei para você amanhã, por volta das duas horas da madrugada. Mas, quer eu ligue ou não, arrume uma valise com roupas. Irei buscá-la.

Bárbara pensou por um instante, antes de voltar a falar:

— Você não é obrigado a fazer qualquer coisa, Pregador. Não foi por isso que telefonei para você. Não quero que nada lhe aconteça.

— Todos vivemos pela misericórdia de Deus. Ambos rezaremos pela orientação e proteção dele. Eu a verei amanhã de madrugada.

— Ficarei rezando por você, Pregador.

Ele desligou. Um momento depois, o telefone tocou e a telefonista disse:

— São 95 cents adicionais, por favor.

Pensativo, ele pôs as moedas na fenda e ouviu-as descerem tilintando.

— Obrigada — disse a telefonista.

O Pregador repôs o fone no gancho e voltou lentamente à pickup.

Ele estendeu a calça preta na cama, cuidadosamente, depois dobrou o suéter preto de gola rulê e a máscara preta de esquiar de tricô, ajeitando-as em cima da calça. Enrolou tudo num fardo pequeno e apertado e prendeu-o com um cinto preto e fino. Pôs o fardo num saco de papel pardo. Deixou a casa, jogou o saco no banco da frente da pickup e depois encaminhou-se para a casa de reuniões.

Tarz, Charlie e seis outros já estavam lá, sentados à mesa comprida, abrindo os envelopes da correspondência que chegara pela manhã e dividindo as cartas em três pilhas. Uma pilha era para as cartas com contribuições, que receberiam em resposta o folheto de luxo, em cores. A segunda era formada por pedidos de informações, que receberiam as folhas mimeografadas. A terceira e última era de mensagens negativas. Seriam respondidas com uma carta formal, pedindo que não demonstrassem ódio mas sim uma verdadeira misericórdia cristã, procurando o conselho e o perdão nos ensinamentos da Bíblia e de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

Tarz levantou o rosto quando o Pregador entrou. A voz dele transbordava de satisfação:

— Recebemos cento e dez dólares na correspondência entre ontem e hoje. Isso é ótimo.

O Pregador assentiu.

— E o que me diz de novos recrutas?

— É difícil determinar. Mas creio que temos duas ou três possibilidades que me parecem excelentes. Enviarei um convite especial para que venham até aqui e passem o fim de semana como nossos hóspedes.

— Boa idéia. Isso é mais importante que o dinheiro. Uma alma levada ao Senhor vale mais do que todas as riquezas do mundo.

— Amém — disse Tarz.

O Pregador fez um gesto e Tarz se levantou, seguindo-o até a pequena sala nos fundos do prédio. O Pregador fechou a porta e virou-se para fitá-lo.

— Tenho de voltar a San Francisco esta tarde. Passarei todo o dia de amanhã lá e só estarei de volta na manhã seguinte.

— Vai procurar irmão Robert, no final das contas? — indagou Tarz, ansioso.

O Pregador fitou-o atentamente. Tarz parecia ansioso demais.

— Não — respondeu ele, bruscamente. — É um assunto pessoal. E você me ouviu. Já lhes dei a resposta.

— Eles vão criar problemas para nós.

— Não poderão fazer nada. Estamos limpos.

— Não é a isso que estou me referindo. Sabe como os Filhos de Deus operam. Vão aparecer aqui, uma porção deles, assustar todo mundo com a ameaça do inferno e da danação, porque estaremos cometendo o pecado da prevaricação quando chegar o Juízo Final.

— Se Deus não quisesse que fizéssemos amor uns com os outros, não teria feito nossos corpos com todos os equipamentos para isso. Cuide apenas de evitar que eles dêem ácido para as crianças, se aparecerem enquanto eu estiver ausente. Poderia deixá-las doidas o bastante para fazerem qualquer coisa.

— E se eles trouxerem chicotes e porretes, Pregador? Sabe como aquela gente gosta de bater nas garotas. Não são de brincadeira. E não há homens aqui em quantidade suficiente para contê-los.

O Pregador fitou-o nos olhos.

— Você parece apavorado.

— E estou mesmo. Não se esqueça de que passei um ano com eles. Sei o que são capazes de fazer.

O Pregador pensou por um momento.

— Nesse caso, chame a polícia pelo seu rádio transmissor no momento em que eles aparecerem. A polícia cuidará deles.

— As crianças não vão gostar. Quase todas odeiam os tiras também.

— Mas será melhor do que levarem uma surra. — O Pregador respirou fundo. — Mas não vou me demorar tanto tempo assim, Tarz. É quase certo que eles não aparecerão antes da minha volta. Isto é, se vão mesmo aparecer...

— Tenho certeza que vão — murmurou Tarz, sombriamente.

— O que o faz ter tanta certeza?

— Irmão Ely disse que irmão Robert não gostou nada da maneira como você espancou irmão Samuel. Disse que eles voltarão.

— É possível. Mas faça o que falei e não haverá maiores problemas.

— Está certo, Pregador.

O Pregador indagou, mudando subitamente de assunto:

— Quanto dinheiro temos em caixa?

— Não sei — respondeu Tarz, cautelosamente. — De quanto está precisando?

O Pregador sorriu. Tarz era sempre cauteloso com dinheiro. Todo mundo sabia que ele era um sovina.

— Quinhentos dólares. — Percebendo a consternação no rosto de Tarz, ele apressou-se em acrescentar: — Mas, como eu disse, é pessoal. Vou lhe dar um recibo pelo dinheiro.

Tarz sorriu.

— Nesse caso, acho que posso arrumar o que está precisando.

 

Ele encontrou uma vaga de parquímetro diante do armazém que servia como oficina de manutenção da companhia de elevadores. Faltavam quinze minutos para as cinco horas da tarde. Saltou do carro e pôs uma moeda de dez cents no parquímetro, enquanto seus olhos esquadrinhavam a multidão que deixava o trabalho, ao final do expediente. Levou apenas um momento para descobrir o que procurava.

Avançou rapidamente pela multidão e foi bater no ombro de um jovem chinês. O rapaz, vestindo um blusão azul desbotado e calça Levi's, virou-se para ele e indagou, com os olhos estreitados avaliando o Pregador de relance:

— O que está querendo?

O Pregador estendeu a nota de vinte dólares dobrada em sua mão, para que o rapaz pudesse ver o valor.

— Preciso de um favor.

— Não tenho fumo.

O Pregador sorriu.

— Não se trata de fumo.

— Você é tira?

O Pregador sacudiu a cabeça.

— Não. Quero apenas que você entre naquele prédio e pegue uma chave para mim.

— Se isso é tudo, por que você não entra e pega a chave pessoalmente?

— Porque meus olhos não são enviesados como os seus. É a chave do apartamento da minha garota e o velho dela a mantém trancada. Mas ele não estará em casa esta noite. Poderei entrar lá e tirá-la, se tiver a chave.

O jovem chinês sorriu.

— O velho não gosta do formato dos seus olhos, hem?

— Algo assim.

— Tem certeza de que não é nada ilegal?

— Pode ficar tranqüilo que é tudo certinho, cara. Nada além de romance. O amor não tem fronteiras.

— Posso entender a situação. Muitos velhos são assim. Devia ouvir o que minha mãe diz quando saio com uma garota que não é chinesa. Pode-se escutá-la a três quarteirões de distância.

— Então vai fazer o que estou pedindo? O rapaz assentiu.

— Basta me dizer o que quer.

— É muito simples. — O Pregador tirou um pedaço de papel do bolso. — Vá ao balcão de atendimento dos fregueses e diga que veio buscar a chave para a srta. Soong. Mostre-lhe este papel com o número da chave. Quando lhe entregarem, verifique o número. Se conferir, traga para mim.

— E se não conferir?

— Então deixe a chave lá e diga que voltará pela manhã. Saia e me devolva o papel. Receberá os vinte dólares de qualquer maneira.

— O que o leva a pensar que eles terão uma chave? Afinal, essas chaves precisam ser encomendadas.

— Telefonei antes. Disseram-me que a chave estaria pronta por volta das quatro horas. E já são quase cinco.

O Pregador observou o rapaz entrar no prédio e depois voltou para a pickup. Encostou-se no lado, acendeu um cigarro. Acabara de fumar quando o rapaz saiu, sorrindo.

— Conseguiu? — indagou o Pregador, empertigando-se.

O chinês assentiu.

— Consegui. Não houve qualquer dificuldade. Eles até me perguntaram: "Vai pagar agora ou devemos colocar na conta?" Claro que respondi que pusessem na conta.

O Pregador sorriu.

— Fez bem.

— Achei que seria ainda mais divertido se o velho é que tivesse de pagar a conta.

Ele entregou um envelope ao Pregador, que tirou a chave e conferiu o número. Era o mesmo do papel. Ele entregou os vinte dólares ao rapaz.

— Obrigado, companheiro.

— Eu é que agradeço. — O chinês meteu a nota no bolso. — Boa sorte. Espero que tudo corra bem.

Ele tornou a se misturar com a multidão e o Pregador ficou observando-o até que virasse a esquina e desaparecesse; depois voltou à pickup e se afastou.

Uma hora depois, o Pregador saiu da ponte no lado de Oakland, fez uma curva fechada, desceu quase até a beira da baía e foi parar a pickup diante de uma velha casa cinzenta, numa rua miserável. Trancou a pickup, subiu os degraus da casa e tocou a campainha.

A porta se entreabriu e um preto alto espiou pela fresta; a luz do vestíbulo brilhava atrás dele.

— O que é?

— Ali Elijah.

— Quem quer falar com ele?

— Basta dizer que o Pregador está aqui.

O homem acenou com a cabeça e fechou a porta, sem dizer mais nada. O Pregador ficou esperando. O homem voltou alguns minutos depois e abriu a porta.

— Siga-me — disse ele, em tom inexpressivo.

O Pregador entrou no vestíbulo estreito e esperou que o homem fechasse e trancasse a porta, passando um trinco e uma corrente com cadeado. Seguiu-o depois por uma escada estreita. Avançaram por um corredor até uma porta de aço, na extremidade. O homem parou e virou-se para o Pregador.

— Levante os braços.

O Pregador obedeceu, e o homem revistou-o rapidamente. Constatando que o Pregador não estava armado, ele acenou com a cabeça.

— Pode entrar.

O homem não fez menção de abrir a porta, limitando-se a recuar e ficar atrás do Pregador, que virou a maçaneta. Ele abriu a porta e entrou. Era um cômodo bastante grande e todas as janelas que podiam ter existido antes estavam tapadas por tijolos. A iluminação era proporcionada por um lustre antigo que pendia do teto, com as lâmpadas envoltas por copas de pano vermelho. Havia uma escrivaninha na parede do outro lado, atrás da qual estava sentado o homem que o Pregador viera procurar; ele tinha uma expressão de curiosidade no rosto. Não era amistosa nem hostil, apenas curiosa.

— Faz muito tempo, Pregador — disse ele.

— Quatro anos.

— Você não mudou.

— Mudei, sim. Todos mudamos.

— Tem razão — disse Ali Elijah. — Eu encontrei Alá. Alá é deus e Maomé é seu profeta.

— Todos procuramos Deus à nossa maneira. Eu encontrei-o à minha maneira. E fico contente por saber que você também o encontrou, à sua maneira.

Ali Elijah fitou-o atentamente.

— Foram quatro anos, mas você não mudou. Não veio procurar Alá. O que, então, veio procurar?

O Pregador olhou para trás. O homem que o conduzira ainda estava parado na porta aberta. Ele tornou a virar-se para Elijah.

— Tenho o seu registro.

Ele tirou do bolso uma pequena bolsa de pano. Puxou o cordão e despejou o conteúdo em cima da mesa. Elijah olhou para as três balas usadas, à sua frente. Levantou a mão e dispensou o homem na porta. Foi só depois que a porta se fechou com um estalido que ele levantou os olhos para o Pregador.

— Eu estava em outra vida naquela ocasião. Aquele homem era Joe Washington.

— O Senhor dá, o Senhor tira. Louvado seja o Senhor.

— Graças a Alá, o misericordioso. — Elijah pegou as balas e olhou para o Pregador. — São muito pequenas. Ainda não posso acreditar como doeu quando foram arrancadas do meu corpo. Pareciam até balas de canhão.

O Pregador permaneceu calado.

— O que quer de mim?

— Preciso de ajuda.

Ali Elijah sorriu pela primeira vez.

— Essa é muito boa! Aqui estamos nós, escondidos, com o mundo inteiro nos caçando, sem dinheiro nem para comprar comida para nossos filhos, e é você quem precisa de ajuda.

O Pregador meteu a mão no bolso e tirou seis notas de cinqüenta dólares. Espalhou-as sobre a mesa.

— Quer você possa ou não me ajudar, esse dinheiro é para as crianças. Elas não merecem sofrer por nossos pecados.

Elijah olhou para o dinheiro e depois para o Pregador. A voz dele estava suave agora:

— Eu estava certo. Você não mudou. — Abruptamente, ele pegou uma nota de cinqüenta dólares e foi abrir a porta. — Dê isso a Rebecca e diga-lhe para ir ao mercado que fica aberto à noite e comprar alguma comida. Diga a ela para levar o garoto mais velho para carregar as compras. Ele fechou a porta e voltou para junto do Pregador.

— Como soube onde nos encontrar?

— Precisei apenas consultar a lista telefônica. Quando você estava ferido, pediu-me que escrevesse uma carta para sua mãe. Este era o endereço dela. Não sabia se o encontraria aqui, mas calculei que seria um bom lugar para começar a procurar.

Elijah voltou para trás da mesa e tornou a sentar-se. Apontou para uma cadeira e o Pregador se acomodou.

— De que tipo de ajuda está precisando?

— Quatro granadas de fumaça não-letais, com foguetes vermelhos de magnésio que pareçam fogo de verdade. Um explosivo plástico com detonador de dez segundos, forte o bastante para derrubar a porta de aço de uma loja. E uma escada de corda de seda comprida o bastante para ser lançada de uma janela do terceiro andar.

— É uma encomenda e tanto, Pregador. Esse tipo de equipamento não está disponível na loja da esquina. É preciso reunir tudo, de várias procedências.

— Sei disso. Mas estou lembrado de que na outra vida você era um sargento da turma de demolição. Se alguém pode conseguir tudo isso, há de ser você.

— Para quando vai precisar?

— Amanhã.

Elijah sacudiu a cabeça.

— Não é muito tempo.

— É todo o tempo de que disponho.

— Vamos precisar de algum extra para o material. O Pregador tirou do bolso mais cem dólares.

— Isso deve ser suficiente. Elijah fitou-o nos olhos.

— Deve ser muito importante.

— É, sim.

Elijah ficou em silêncio por um momento.

— Não conseguirá cuidar de tudo sozinho. Você não passa de um amador. Vai acabar explodindo a si mesmo.

— Você me ensina. Aprendo depressa.

— Ninguém aprende tão depressa assim. É melhor eu ir com você.

— O problema é meu. Você já tem problemas à beça. Não precisa de mais nenhum.

— Não estou perguntando nada a você. — Elijah riu.

— Acho que não mudei tanto quanto pensava. Lembro que no Vietnam estava sempre me oferecendo como voluntário.

— Também me lembro.

— Além do mais, há dois meses que não saio desta casa. Acho que está na hora de respirar um pouco de ar fresco.

— De jeito nenhum. Há gente demais dependendo de você.

Ali Elijah pegou de novo as três balas usadas.

— Não vou deixar nenhum registro para trás desta vez. Se Alá, louvado seja o seu nome, achou por bem guiá-lo até nossa porta, então seria pecado se permitíssemos que se lançasse sozinho ao perigo.

 

Havia dois carros diante da velha casa que ficava sob a ponte quando o Pregador virou a esquina em sua pickup, às onze da noite seguinte. Cautelosamente, ele passou pela casa e deu a volta no quarteirão, antes de parar. Foi até a esquina e encaminhou-se para a casa. Antes de alcançá-la, a porta se abriu e vários homens saíram, carregando pequenas caixas e malas. Duas mulheres desceram os degraus atrás deles, carregando sacolas. O Pregador ficou observando-os guardarem tudo nas malas e bancos traseiros dos carros. Um dos homens tornou a subir os degraus e entrou na casa.

O homem tornou a sair um momento depois, com outra mala. Foi seguido por uma mulher com uma criança nos braços, à frente de várias outras crianças. Já haviam embarcado nos dois carros quando Ali Elijah desceu os degraus, com um garotinho nos braços. Ele foi até o primeiro carro. Abriu a porta e entregou o menino à mulher no banco da frente, enquanto o homem ao volante ligava o motor.

Elijah falou à mulher por um momento. Ela acenou com a cabeça e ele beijou-a, recuando em seguida e fechando a porta. Os dois carros arrancaram um momento depois. Ele ficou parado na calçada, observando-os. Levantou o braço e acenou em despedida, até que os carros viraram a esquina e desapareceram. Virou-se e começou a subir os degraus até a porta da frente da casa.

Olhou para um lado e outro da rua mais uma vez, antes de abrir a porta. Avistou o Pregador avançando em sua direção. Esperou até que ele subisse os degraus e disse, em tom inexpressivo:

— Chegou cedo.

O Pregador assentiu, sem dizer nada. Entrou na casa atrás de Elijah e esperou que a porta fosse trancada. Não era como na noite anterior. Havia um súbito e estranho silêncio na casa, como se toda a vida tivesse se esvaído. Ainda em silêncio, ele subiu a escada atrás de Ali Elijah. Entraram na sala de porta de aço. O Pregador ficou parado, enquanto Elijah se encaminhava para trás da mesa.

— Algum problema?

Elijah virou-se para fitá-lo. Fez menção de falar, mas se engasgou. Limitou-se a sacudir a cabeça. O Pregador tirou um maço de cigarros do bolso. Estendeu-o para Elijah, que tirou um cigarro, com os dedos tremendo ligeiramente. O Pregador pegou também um cigarro, depois riscou um fósforo e estendeu-o. Esperou até que Elijah acendesse o cigarro, antes de falar, gentilmente:

— Pode falar comigo. Ainda sou seu amigo.

Ali Elijah arriou na cadeira, soprando uma nuvem de fumaça.

— Comecei a pensar, depois que você foi embora ontem à noite. Conseguiu descobrir o nosso paradeiro. Quanto tempo mais se passaria antes que alguém se lembrasse de fazer a mesma coisa?

O Pregador não disse nada.

— Aqui estávamos nós, com a casa cheia de mulheres e crianças. E de repente a casa poderia ficar cheia de porcos, disparando suas armas e brandindo seus cassetetes. Era inevitável que muita gente saísse machucada. Não tinha sentido.

O Pregador deu uma tragada no cigarro, ainda em silêncio.

— Eu tinha o direito de expor todo mundo a toda essa merda? Eles não tinham nada a ver com o que aconteceu. Por isso, peguei o resto do dinheiro que você me deu e mandei todo mundo para a Carolina do Sul, onde vive a minha família. Lá eles estarão bem.

— E onde você fica nisso tudo? Ele sustentou o olhar do Pregador.

— Sempre posso dar um jeito. Pensei que, depois de encerrarmos o nosso trabalho desta noite, poderia ir para Los Angeles. Talvez os irmãos de lá possam me arrumar um abrigo. — Um sorriso amargo insinuou-se em seus lábios. — Ouvi dizer que Ron Karenga tornou-se um grande astro da televisão e está ganhando uma nota alta para comparecer a todos aqueles programas de entrevistas. Ou talvez eu vá para Nova York. Os Panteras estão levantando muito dinheiro no circuito dos coquetéis judeus. Talvez paguem uma boa grana para conhecer um crioulo mau de verdade.

O Pregador apagou o cigarro.

— É isso o que realmente está querendo?

Ali Elijah baixou os olhos.

— Não.

— Então por que não vai para junto de sua família?

Havia uma angústia intensa na voz de Elijah quando ele respondeu:

— Porque tenho uma ficha imensa, cara. Os porcos iriam atrás de mim, e a merda tornaria a chover em cima deles. Mandei-os para lá a fim de evitar que isso aconteça.

O Pregador sacudiu a cabeça.

— Não estou entendendo.

— O que há para entender, cara? Fui eu quem fez todo o trabalho sujo e é atrás de mim que os porcos estão. Os generais ficaram à distância e eu fiquei com toda a fama. Eles me dizem agora que a revolução está entrando em outro estágio. A mesa de negociações. Vão resolver tudo na base da conversa e depois não haverá problemas. Mas, neste momento, querem que eu fique escondido. Não posso fazer nada que represente um risco de virar a canoa. Eu sou o maior embaraço para eles.

— Sinto muito.

— Não há motivo para isso. O problema não é seu.

-— O problema que eu trouxe até aqui também não é seu, mas você vai me ajudar.

— Isso é diferente. Não há nada que você possa fazer para me ajudar.

— É possível. Mas você pode ficar na comunidade comigo, até ter a oportunidade de pensar direito nas coisas e decidir o que fará em seguida.

— E o que seus amigos diriam? — indagou Ali Elijah. — A maioria do pessoal das comunas não gosta de pretos. Os olhos dos dois se encontraram.

— Somos todos filhos do mesmo Deus, Elijah. Ali Elijah permaneceu em silêncio.

— Não precisa se decidir agora — acrescentou o Pregador. — Lembre-se apenas de que tem essa possibilidade. Será bem-vindo, a qualquer momento que quiser aparecer.

Elijah acenou com a cabeça, depois virou-se, pegou uma caixa no chão ao seu lado e colocou-a em cima da mesa.

— Tenho aqui tudo o que você quer.

Era quase uma hora da madrugada quando o Pregador avançou lentamente pela rua, passando pela loja no andar térreo da Casa de Soong. Apontou para a porta de aço.

— É aquela porta que teremos de explodir. Elijah observou-o atentamente.

— É mesmo pesada.

— Eu disse que era. E temos de arrombá-la na primeira explosão.

— Vamos conseguir — declarou Elijah, confiante. — Tive um pressentimento e por isso trouxe uma carga extra. — Ele soltou uma risada, antes de acrescentar: — Vamos acabar com eles.

— Não quero que ninguém saia machucado — disse o Pregador, virando a esquina com a pickup.

— Tem alguém lá dentro?

— Dois homens, ao que eu saiba.

— Eles estarão em algum lugar nas proximidades da porta?

— Acho que não. Geralmente ficam nos fundos, mas não posso garantir.

— Então vamos explodir pelas dobradiças. Assim, as paredes receberão todo o choque e a porta cairá para o lado da rua.

O Pregador virou a cabeça para fitá-lo.

— Tem o suficiente para fazer isso?

Elijah riu.

— Tenho o suficiente para arrancar todo o lado do prédio, se você quiser.

— Há uma viela ao lado do prédio que vai até a rua que passa pelos fundos. Deixarei a pickup embaixo da janela.

— Três andares numa escada de corda é muita coisa. Espero que ela seja ágil. Se não for, ficaremos com a metade dos tiras de San Francisco em cima de nós.

— Eu também espero que ela seja rápida. — O Pregador entrou com a pickup na viela, desligou o motor e apagou as luzes. — Vamos saltar aqui e empurrar a pickup pelo resto do caminho. Não estou disposto a correr o risco de alguém nos ouvir.

— Mas que merda! — exclamou Ali Elijah. — Eu já estava começando a pensar que seria fácil demais.

Em silêncio, os dois homens empurraram o veículo pela viela. O Pregador observava atentamente o prédio. Finalmente levantou a mão. Elijah contornou a pickup e olhou para cima. O Pregador acenou com a cabeça, apontando. Voltaram através da viela para a rua que passava por trás. O Pregador consultou seu relógio de pulso à luz de um lampião. Faltavam quinze minutos para as duas horas da madrugada.

— Preciso dar um telefonema.

Havia uma cabine telefônica na esquina, no outro lado da rua.

O Pregador entrou e pôs uma moeda na fenda. Discou rapidamente o número de Bárbara.

— Alô?

A voz dela era um sussurro.

— Pregador falando. Está tudo bem? Você está sozinha?

— Estou.

— Faça exatamente o que eu mandar — disse ele, rapidamente. — Vista uma calça comprida e sapatos sem saltos. Não importa o que aconteça lá embaixo, não entre em pânico. Espere na porta do elevador até eu chegar aí em cima. Entendido?

— Entendido.

— Lembre-se apenas de que tudo o que vai ouvir será muito barulho. Não há qualquer perigo concreto. Trate apenas de esperar por mim.

— Está bem, Pregador.

Ele saiu da cabine telefônica. Em silêncio, os dois homens tornaram a avançar pela viela e chegaram à pickup. O Pregador estendeu os braços e Elijah ajeitou a escada de corda enrolada em suas costas. Puxando a máscara preta de esquiar sobre o rosto, o Pregador sussurrou:

— Ficarei com as granadas enquanto você prepara a porta.

— Está certo.

— Assim que a porta cair, vamos lançar as granadas. Eu entrarei no momento em que os chineses que estão lá dentro saírem. Você volta para a pickup.

— E se os chinas não saírem?

— Então terei de dominá-los.

— Não vai dar certo — disse Ali Elijah bruscamente. — Perderá tempo demais. Pode deixar que eu cuidarei deles. Você pode subir pelo elevador.

O Pregador fitou-o nos olhos.

— Está certo. Mas nada de matar.

Ali Elijah sorriu.

— Vou só acalmá-los um pouco.

O Pregador acenou com a cabeça. Verificou o relógio. Eram duas horas da madrugada.

— Vamos embora.

 

Saíram da viela e esperaram até que um carro passasse. O Pregador olhou para o alto da ladeira. A rua estava vazia. Ele acenou com a cabeça para Elijah, sussurrando:

— Só mais uma coisa. Assim que eu entrar, você volta para a pickup e liga o motor.

— Pode deixar.

Elijah encaminhou-se para a área de sombra projetada pelo portal, enquanto o Pregador seguia em frente. O Pregador olhou para um lado e outro da rua. Ainda estava vazia. Começou a voltar na direção da porta. Elijah veio correndo e quase o derrubou.

— Volte!

A voz dele estava rouca. Não haviam se afastado mais de dez passos quando soou uma explosão abafada. Como se fosse um filme em câmara lenta e mudo, a porta começou a cair para o lado da rua, ao mesmo tempo em que os vidros das vitrines se espatifavam e ruíam, caindo na calçada.

— Agora! — disse Elijah.

Ele arrancou duas das granadas do Pregador, puxou os pinos e jogou pelas vitrines destruídas. Sem perder um só movimento, pegou as outras duas e também jogou no interior da loja.

Um momento depois, o interior da loja se iluminou com um ameaçador clarão vermelho. A fumaça começou a sair pela fachada da loja. Um alarme soou, sacudindo a noite com seu clangor estridente. No instante seguinte, um chinês de terno escuro saiu correndo da loja, a caminho da caixa de alarme de incêndio na esquina. Não viu os dois homens parados nas sombras.

— Não disse que eram dois? — sussurrou Elijah. — O outro ainda está lá dentro.

— É o que vamos descobrir — disse o Pregador, sombriamente.

Com o rosto coberto pela máscara de esquiar, ele passou pela porta aberta, atravessou a primeira linha de fumaça e correu para o elevador nos fundos.

O clarão vermelho transformara o interior da loja num gigantesco inferno. Ele estava quase no elevador, quando o outro chinês saiu de trás de uma escada. Pelo canto do olho, o Pregador viu o homem levantando a mão e a luz se refletindo no metal de seu revólver.

O Pregador começou a desviar-se da mira do chinês. Antes mesmo que concluísse o movimento, porém, Ali Elijah acertou o homem pelo lado. O revólver caiu no chão, ruidosamente. Ali Elijah atingiu o chinês mais duas vezes, enquanto ele tombava. Acenou com a cabeça para o Pregador, sem dizer nada, depois encaminhou-se para a porta dos fundos.

O Pregador inseriu a chave e virou-a. Por um instante, nada aconteceu. Depois, a porta do elevador se abriu lentamente. O Pregador entrou e apertou o botão do terceiro andar. A porta pareceu levar uma eternidade para fechar e outra eternidade transcorreu enquanto o elevador subia. Mas quando a porta tornou a se abrir, Bárbara lá estava, à sua espera.

— Vamos! — disse ele, sem dar-lhe tempo de dizer qualquer coisa.

Já podiam ouvir o barulho das sirenes dos bombeiros, enquanto corriam pelo quarto. O Pregador abriu a janela rapidamente e tirou a escada de corda dos ombros. Prendeu os grampos de metal no peitoril e jogou a escada pela janela.

Pôs a cabeça para fora. Ali Elijah já estava parado ao lado da pickup. Ele acenou e o Pregador recuou para o interior do quarto.

— Você vai na frente, Bárbara.

— Minhas malas...

— Você primeiro. As malas podem ir depois. Ela olhou pela janela. Empalideceu.

— Eu não posso...

— Claro que pode! — O Pregador agarrou-a e fê-la passar pelo peitoril. — Ponha um pé num degrau da corda, segure o outro com as mãos, vá descendo, um degrau de cada vez. E agora desça! Depressa!

— Estou com medo, Pregador!

— É melhor ficar apavorada do que morta! — Ele bateu na mão dela. — Depressa!

Ela começou a descer pela escada, vagarosamente. A escada balançava, batendo contra a parede do prédio. O Pregador pôs a cabeça para fora da janela e gritou:

— Segure a corda e a mantenha firme, longe da parede!

Ali Elijah segurou os últimos degraus, firmando a escada com todo o peso do seu corpo. Bárbara passou a descer mais depressa, agora que sentia a escada firme. O Pregador virou-se para o interior do quarto. Havia duas valises perto da cama. Ele pegou-as e voltou para a janela. Ali Elijah ajudava Bárbara a descer para o chão quando ele tornou a olhar.

— Duas malas descendo! — gritou o Pregador. Elijah empurrou Bárbara para o lado e gritou em resposta:

—-Pode mandar!

O Pregador largou a primeira valise. Elijah deu um passo para o lado e deixou-a cair no chão, depois pegou-a e jogou-a na traseira aberta da pickup.

— Lá vai a outra!

O Pregador largou a valise e no instante seguinte estava na escada, sem esperar que batesse no chão, descendo rapidamente, como um macaco. Desceu da escada a tempo de ouvir Elijah exclamar:

— Mas que merda!

Virou-se para ver a valise entreaberta, deixando à mostra uma pilha de notas. O Pregador pegou a valise e jogou-a na cabine da pickup, gritando:

— Não há tempo para se divertir agora! Vamos sair daqui!

Ele contornou a pickup correndo e se sentou ao volante, enquanto Bárbara e Elijah entravam pela outra porta. Engrenando a pickup, ele saiu do beco com os faróis ainda apagados. Acendeu-os no instante em que alcançou a rua. Seria uma estupidez permitir que a polícia o detivesse agora por causa de uma irregularidade de trânsito. Já estavam a dez quarteirões de distância quando ele finalmente falou:

— Ali Elijah... Bárbara Soong. — Nenhum dos dois disse nada. O Pregador acrescentou: — Não conseguiríamos escapar sem a ajuda dele.

Bárbara olhou para Elijah.

— Fico agradecida. Como posso retribuir?

Elijah sorriu.

— Muito facilmente, minha cara. Com dinheiro.

— Mil dólares seriam suficientes?

— Cinco mil dólares seria muito melhor. Aquela sua valise parece estufada com muito mais do que isso.

— Sou chinesa. Nunca pagamos o preço pedido. Dois mil e quinhentos dólares.

Elijah riu.

— Está bom para mim, Madame Dragão. Ela ficou surpresa.

— Por que me chama assim?

— Você não é Bárbara Soong?

Ela assentiu, compreendendo tudo de repente.

— Está querendo dizer... que é assim que me chamam?

— Isso mesmo. É considerada da pesada. — Ele virou-se para o Pregador. — Como veio a conhecê-la?

— Somos velhos amigos. Conheci o irmão dela no Vietnam.

— Existe alguém de cujo rabo você não tenha tirado balas? — perguntou Elijah.

— Meu irmão está morto. Foi o Pregador quem trouxe as coisas dele para casa.

— Ah... — Ali Elijah ficou em silêncio por um momento. — Acha que poderia me levar até em casa? Ela me dá o dinheiro e depois nos separamos.

— Não há problema — respondeu o Pregador.

Não havia tráfego àquela hora da madrugada, e atravessaram a ponte de Oakland em menos de vinte minutos. O Pregador já ia virar na rua de Ali Elijah quando avistou as luzes azuis. Quatro carros de patrulha e dois camburões estavam parados diante da casa. Ele seguiu em frente. Já estavam outra vez na ponte, quando ele disse:

— Foi por um triz. Alguém o denunciou.

Ali Elijah, que arriara no banco por baixo da janela e não tornara a se levantar desde que avistara os carros da polícia, resmungou:

— Tem razão.

— Alguma idéia? — indagou o Pregador.

— Não. — Elijah ficou em silêncio por um momento.

— Ainda bem que tirei minha família de lá a tempo. Será que aconteceu alguma coisa com eles? Terão sido apanhados?

— Não creio — respondeu o Pregador. — Eles não são tão rápidos assim. Alguém que queria vê-lo em cana deu a dica.

Ali Elijah não disse nada. O Pregador deixou a ponte e entrou na estrada que levava à Coast Highway, a auto-estrada litorânea.

— Quais são os seus planos agora?

— Não tenho nenhum. — Elijah virou a cabeça para fitá-lo. — Falou sério sobre a minha permanência na comunidade?

— Claro que falei.

— Parece que você me pegou. Elijah começou a rir.

— Qual é a graça? — perguntou o Pregador.

— Fico imaginando o que suas crianças vão dizer, quando aparecer com a Madame Dragão e um muçulmano preto ao mesmo tempo.

 

Eram quatro e meia da madrugada quando eles pararam numa lanchonete que ficava aberta a noite inteira, na Coast Highway. O Pregador desligou a pickup e recostou-se no assento.

— Acho que todos estamos precisando de um café.

— E de comida também — acrescentou Elijah. — Não como nada desde o jantar.

O Pregador virou-se para Bárbara.

— Vamos levar a valise. A outra também tem alguma coisa valiosa?

Ela fitou-o, sem dizer nada.

— Está certo, vamos levar as duas.

Saltaram da pickup e trancaram a cabine. Entraram na lanchonete, cada homem levando uma valise. Dois motoristas de caminhão estavam sentados ao balcão; afora eles, a lanchonete estava vazia. O homem por trás do balcão estava encostado na caixa registradora, escutando o rádio, enquanto uma garçonete de aparência cansada arrumava as mesas nas cabines, preparando-as para o movimento da manhã. Eles entraram numa cabine e puseram as valises sob os assentos. A garçonete aproximou-se com xícaras de café fumegante e cardápios.

— Bom dia, pessoal. Já sabem o que vão querer?

— Uma porção dupla de ovos e presunto — disse Elijah.

— Tudo misturado e bem passado?

— Isso mesmo. Mas não deixe queimar.

— Certo.

Ela olhou para Bárbara.

— Chá forte com torradas.

— Certo. Dois saquinhos de chá. — A garçonete virou-se para o Pregador. — E você?

— Omelete à oeste. Sem carne, apenas com legumes.

— Desculpe, mas a mistura já está pronta.

— Então omelete de queijo.

— Bem passado?

O Pregador assentiu e ela afastou-se. Ao lado da cabine, perto da janela, havia uma fenda para inserir moedas na vitrola automática. O alto-falante ficava na mesa, permitindo que cada freguês fizesse a própria escolha. Um cartaz informava que três músicas custavam vinte e cinco cents. Logo abaixo, havia outro cartaz. Dez minutos de rádio por vinte e cinco cents. Ali Elijah tirou uma moeda do bolso, e disse:

— Tem um noticiário completo no rádio agora, na emissora que fica na faixa 77.

O Pregador sintonizou e a voz do locutor saiu suavemente pelo alto-falante:

"A polícia de Los Angeles chegou à conclusão definitiva de que os assassinatos de Sharon Tate e seus amigos, na casa dela, em Cielo Drive, e os assassinatos dos LaBiancas, há vários quilômetros de distância, foram cometidos pela mesma quadrilha. Embora os motivos para os assassinatos ainda sejam desconhecidos, a polícia determinou que as mesmas armas talvez tenham sido usadas. A polícia espera uma pista importante nos casos para as próximas horas. Um grupo de hippies foi visto nas duas áreas pouco antes de os crimes serem cometidos. Um porta-voz da polícia disse hoje que esses hippies deverão ser detidos em breve, para interrogatório. Vamos fazer agora um intervalo para os comerciais e voltaremos daqui a pouco com as notícias da área da baía".

— Os porcos são os mesmos em toda parte — comentou Elijah. — Sempre escolhem os hippies ou os pretos como bodes expiatórios.

O Pregador não disse nada, limitando-se a tomar um gole do café. A garçonete voltou com o chá e as torradas de Bárbara.

— Trarei o resto dos pedidos dentro de um momento — disse ela, antes de se afastar.

Depois dos comerciais, o locutor voltou a falar: "A polícia manifestou o receio de que uma nova guerra de Tongs possa ser iminente em Chinatown, San Francisco. Pouco depois das duas horas desta madrugada, bombas incendiárias foram lançadas pelas vitrines da Casa de Soong, destruindo as portas e a fachada da loja, que ocupava o andar térreo. Os bombeiros dominaram rapidamente o incêndio.

Aparentemente, não houve vítimas, porque a loja, usada basicamente como depósito, estava vazia na ocasião. Foi iniciada uma investigação imediata das causas do incêndio. A polícia foi chamada e encontrou fragmentos de bombas incendiárias de fabricação caseira. A Casa de Soong é a sede da Wong Dip Tong, uma das maiores sociedades chinesas da América, normalmente chefiada por um membro da família Soong. O último chefe conhecido da Tong foi Charles Duk Tong, que morreu no ano passado, aos setenta e um anos, deixando o cargo vago, já que seu único filho, e sucessor natural, morreu no Vietnam, há quatro anos. Nenhum outro membro da família ou da Tong foi encontrado até agora para prestar declarações. Os bombeiros calculam que os prejuízos materiais do prédio se elevam a cerca de quinze mil dólares. As investigações prosseguirão". O Pregador olhou para Bárbara.

— Não houve qualquer referência à descoberta da escada de corda.

— Se bem conheço meu tio, ele subiu antes dos outros e removeu-a. Não vai permitir que a polícia se intrometa nos assuntos da família.

— Ele tem alguma idéia do que você pegou?

— Duvido muito. Estava tudo no meu cofre particular. Ninguém sabia o que havia lá.

— De qualquer forma, ele vai procurá-la. Bárbara assentiu, pensativa.

— Sei disso.

A garçonete trouxe os pratos. Eles ficaram calados, enquanto ela ajeitava tudo na mesa.

— Espero que gostem — disse ela, antes de se afastar. Eles ficaram ouvindo o locutor, enquanto comiam: "Com base em informações fornecidas por um informante, o fbi e a polícia de Oakland efetuaram uma batida de surpresa num esconderijo que se acreditava ocupado por Joseph “Engenheiro” Washington, também conhecido como Ali Elijah, um muçulmano negro procurado por suspeita de participação em diversos homicídios e explosões, ocorridos nos últimos anos e atribuídos aos muçulmanos negros. A casa sob a Ponte da Baía, em Oakand, pertencia à mãe de Washington. Estava abandonada. A polícia informa que apresentava sinais de ocupação recente e acredita que o fugitivo ainda se encontre em algum lugar nas proximidades. Está sendo feita neste momento uma busca em toda a área".

O Pregador olhou de um para outro e comentou, sorrindo:

— Estou sentado em companhia de uma dupla de celebridades.

— Astros, cara, astros de verdade. — Elijah sorriu, levando mais um pouco de comida à boca. — Não disseram nada sobre a minha família. Portanto, eles devem ter escapado.

-— O que é um bom sinal.

O Pregador espetou um pedaço do omelete com o garfo, sem muito entusiasmo. Não estava saboroso.

— Não poderei ficar com você — disse Bárbara subitamente.

O Pregador virou-se para ela.

— Ei, de que está falando?

— Meu tio não é nenhum tolo. A comunidade será o primeiro lugar em que irá procurar. E ele sabe onde encontrá-lo. Já informou aos Filhos de Deus onde você está.

— Não tem qualquer outro lugar para ir, Bárbara. Conhece algum chinês que esteja disposto a se arriscar por você? Seu tio estará vigiando em toda parte.

— E ele não é de brincadeira. Muita gente inocente poderá sair machucada. Eu não gostaria que isso acontecesse com você.

O Pregador fitou-a, pensativo. Bárbara tinha razão. A Comunidade de Deus não era um exército de lutadores. E alguém acabaria por denunciá-la, mais cedo ou mais. tarde. Ele teve uma idéia. Levantou-se de repente e disse:

— Fiquem esperando aqui. Preciso dar um telefonema. O Pregador foi até a cabine telefônica nos fundos da lanchonete. Pôs a moeda e deu à telefonista o número de sua mãe. O telefone começou a tocar.

— Mais sessenta e cinco cents, por favor — disse a telefonista.

O Pregador depositou as moedas no momento em que sua mãe atendia. A voz dela estava engrolada de sono.

— Alô?

— Mamãe...

Ela ficou imediatamente assustada.

— Constantine! Você está bem?

— Estou, sim, mamãe.

— São cinco horas da ma...

— Sei disso, mamãe. Desculpe tê-la acordado, mas preciso que você me faça um favor muito importante.

— Está metido em alguma encrenca?

— Não, mamãe. Apenas preciso de um favor. Uma amiga minha precisa de um lugar para ficar, e queria deixá-la aí por algum tempo.

— Ela é uma boa moça?

— É, sim, mamãe.

— Ela é cristã?

— É, sim.

— Não é uma hippie?

— Não, mamãe. Fui amigo íntimo do irmão dela. Ele morreu nos meus braços no Vietnam. O pai dela está morto agora e o tio quer roubar tudo o que lhe pertence. Ela precisa de um lugar em que possa se refugiar, até que os advogados resolvam tudo.

— Qual é o nome dela?

— Beverly... — o Pregador hesitou por um instante. — Beverly Lee.

— Lee? — A mãe estava aturdida —• Mas que tipo de nome é esse?

— Chinês. Mas ela é americana, mamãe. Estudou na universidade. Não vai criar qualquer problema. Além do mais, será bom para você, pois ela lhe fará companhia. Sem o papai, será bom ter alguém em casa com quem você possa conversar.

A mãe hesitou.

— Tem certeza de que ela é uma boa moça?

— Tenho, sim, mamãe. — Ele percebeu a hesitação dela e apressou-se em acrescentar: — Será um ato de caridade cristã, mamãe. Ela precisa muito de uma amiga como você.

O Pregador ouviu a mãe respirar fundo.

— Está bem. Mas se eu achar que ela não é uma boa moça, não permitirei que continue em minha casa.

— Ela não vai criar qualquer problema, mamãe. E quero que saiba que Deus a amará pelo que está fazendo.

— Você vai trazê-la?

— Não posso, mamãe. Tenho alguns problemas importantes para resolver. Mas providenciarei para que ela chegue aí.

— Quando?

— Esta noite. Pode colocá-la no meu quarto.

— De jeito nenhum, Constantine. Ela vai ficar no quarto de hóspedes.

— Está bem.

— E quando vou ver você?

— Em breve, mamãe. Talvez no fim de semana.

— Ela chegará esta noite?

— Isso mesmo, mamãe. Obrigado.

— Cuide-se bem, Constantine.

— É o que farei.

— Deus o abençoe.

— Deus a abençoe também, mamãe.

O Pregador desligou e voltou à mesa. Ficou em pé por um instante, olhando para os dois.

— Acho que resolvi o problema.

— Como? — perguntou Bárbara.

— Minha mãe disse que pode ficar com você por algum tempo — respondeu ele, tornando a se sentar. — Não haverá qualquer problema. Por falar nisso, eu informei a ela que seu nome é Beverly Lee. Esqueça Bárbara Soong. Daqui por diante, você é Beverly. Eu me sentirei mais seguro se não houver qualquer ligação.

Bárbara não disse nada.

— Quando chegarmos a Los Altos, eu a levarei ao banco e você poderá alugar um cofre para guardar seu dinheiro. Depois lhe arrumaremos um carro e você irá para Fullerton.

— Não posso aceitar a hospitalidade de uma pessoa totalmente estranha — disse Bárbara.

— Ela não é uma estranha — respondeu o Pregador, sorrindo. — É minha mãe.

 

Era quase meio-dia quando ele parou a pickup diante de seu chalé. Seus olhos estavam injetados devido à falta de sono, mas certamente se sentiria melhor depois de um banho frio de chuveiro. Ele levara mais tempo do que calculara para despachar Bárbara para a casa de sua mãe. No último momento, ele resolvera enviar Ali Elijah junto, a fim de que ela não ficasse sozinha. Bárbara quisera guardar o dinheiro num banco próximo ao lugar em que ficaria, e o Pregador não discutira. Afinal, o dinheiro era de Bárbara; ela tinha o direito de fazer o que bem quisesse com ele.

A comunidade estava estranhamente quieta, mas ele estava cansado demais para perceber. Entrou no chalé e começou a se despir. Bombeou água para a caixa e foi para baixo do chuveiro. A água gelada da fonte provocou-lhe um choque e deixou-o completamente desperto. Respirou fundo e começou a se esfregar vigorosamente, depois enxaguou-se. Pegou uma toalha e enxugou-se. A porta se abriu. Era Charlie. Ela estivera chorando.

— O que houve, Charlie?

— Eles foram embora, Pregador.

— Quem foi embora? De que está falando?

— Disseram que você não voltaria. Não quiseram me escutar.

O Pregador segurou-a pelos ombros.

— Quem?

— Tarz e os outros. Disseram que não era mais a mesma coisa. A comunidade estava ficando igual a todos os lugares, com uma porção de regras. Não podiam mais ser livres. Eles entraram em seus carros e foram embora.

O Pregador estava aturdido.

— Quando isso aconteceu?

— Esta manhã, logo depois do café.

— Disseram para onde estavam indo? Charlie sacudiu a cabeça.

— Eles iam se dispersar. Tarz dividiu o dinheiro e depois eles partiram. — Ela levantou a mão. — Ainda tenho o meu dinheiro. Está vendo?

Diversas notas amarrotadas estavam na mão dela.

— De onde ele tirou o dinheiro?

— Pegou no cofre. Disse que era nosso. Todos haviam trabalhado para ganhá-lo.

O Pregador pegou a calça Levi's.

— Alguém mais ficou aqui com você?

— Apenas uma dúzia. Só garotas. Todos os homens foram embora, e não havia mais lugar nos carros. Mas quase todas as garotas estão pegando suas coisas. Pretendem ir embora também.

O Pregador abotoou a camisa e calçou as botas.

— Chame-as e encontrem-se comigo na sala de reuniões. Ele saiu correndo do chalé.

O cofre estava aberto. Ele ficou olhando, completamente aturdido, sentindo um calafrio espalhar-se por seu estômago. O cofre estava vazio. Até mesmo o dinheiro da hipoteca desaparecera. Vinte mil dólares. Ele ouviu as moças às suas costas e virou-se. Elas fitavam-no fixamente.

— Alguém sabe para onde Tarz foi?

Elas se entreolharam, sacudindo a cabeça. Charlie respondeu por todas:

— Ele não disse.

— Quem foi no carro com ele?

— Ninguém. Ele foi embora sozinho. O Pregador ficou calado.

— O que vamos fazer, Pregador? Eles levaram praticamente tudo.

— Haveremos de dar um jeito — respondeu ele, tão firmemente quanto podia. — Significa apenas que teremos de trabalhar com um empenho ainda maior, mais nada.

— Mas há algumas coisas que não podemos fazer. Precisamos de homens para esses trabalhos.

— Nossa missão é reunir almas para Deus. As mulheres podem fazer esse trabalho tão bem quanto qualquer homem. A primeira coisa que vocês têm de fazer é se controlar e manter os prédios limpos. Charlie, destaque duas garotas para cuidarem da cozinha. Vou à cidade tentar contratar alguns mexicanos para fazerem o trabalho pesado, enquanto nos reorganizamos.

— Eu disse que Tarz estava mentindo — disse Charlie às outras moças. — O Pregador está de volta. Ele não foi embora.

— E de que adianta? — indagou Melanie, desanimada. — Não vai dar certo. Não há gente suficiente.

O Pregador virou-se para ela.

— Isso não é verdade, Melanie. Lembre-se do que João disse na Segunda Epístola. — Ele podia sentir uma nova intensidade em sua voz. — "Tomem cuidado para não perdermos as coisas por que trabalhamos, mas para que possamos receber a plena recompensa." — Ele fez uma pausa, sustentando o olhar das moças. — Quanto a Tarz e os outros, vamos deixá-los ir embora. E João outra vez diz melhor do que eu poderia: "Quem transgride e não respeita a doutrina de Cristo, não tem a Deus. Aquele que respeita a doutrina de Cristo tem ao Pai e ao Filho".

O Pregador foi até a porta e virou-se.

— Estarei de volta dentro de duas horas. Quando eu chegar, espero ver a todas arrumando as coisas. Vamos retomar uma rotina regular amanhã. Daqui por diante, vamos trabalhar por Cristo com um afinco ainda maior do que antes. Estão comigo?

Houve um momento de hesitação e depois todas as vozes chegaram aos ouvidos dele:

— Estamos, Pregador.

Ele parou a pickup no estacionamento do banco e entrou no prédio. Foi para o gabinete do presidente. A secretária fitou-o.

— Sou o pregador Talbot, da Comunidade de Deus. Gostaria de falar com o sr. Walton, por favor.

A moça acenou com a cabeça e pegou um telefone. Ela falou por um instante e depois gesticulou.

— Pode entrar.

O sr. Walton era um homem magro. Estendeu a mão, sorrindo.

— É sempre um prazer vê-lo, pregador Talbot. O Pregador apertou-lhe a mão.

— Obrigado, sr. Walton.

O presidente do banco apontou para uma cadeira.

— Em que posso servi-lo?

— Eu gostaria de verificar nosso saldo.

— Pois não. — O sr. Walton pegou o telefone. Percebeu alguma coisa diferente na expressão do Pregador e perguntou: — Algum problema?

O Pregador sustentou o olhar dele.

— Não sei. Meu tesoureiro partiu quando eu estava numa viagem de negócios e não vai voltar.

O sorriso deixou o rosto do banqueiro. Um minuto depois, o Pregador estava com o saldo. A conta estava vazia. Ele olhou para o banqueiro.

— Poderia verificar se foi efetuado o pagamento da prestação da hipoteca?

A prestação não fora paga e já estava atrasada. O banqueiro mostrou-se compreensivo. Claro que poderia protelar a data do pagamento. Não estava absolutamente preocupado. A propriedade da comunidade era garantia mais do que suficiente para o empréstimo.

O Pregador deixou o banco e foi direto para uma cabine telefônica. Ligou para a mãe.

— Beverly já chegou?

— Ainda não.

— Assim que ela chegar, mamãe, poderia pedir ao motorista que voltasse imediatamente à comunidade? Tenho umas coisas importantes para ele fazer.

Ele desligou, foi à agência de empregos e acertou para que três trabalhadores diaristas aparecessem na fazenda na manhã seguinte. Depois voltou à pickup e seguiu para a comunidade.

Ele avistou diversos carros parados na frente da casa de reuniões quando desceu o morro. Um deles era familiar. O carro de Tarz. O Pregador experimentou uma súbita alegria. Tarz voltara. Ele sentira desde o início que isso aconteceria. Entrou no prédio.

Seus braços foram agarrados no instante em que passou pela porta. E ele ouviu a voz do irmão Ely:

— Como vai, Pregador?

O irmão Ely estava sentado no outro lado da mesa. Numa cadeira ao seu lado, com o rosto todo machucado e ensangüentado, os olhos quase fechados de tão inchados, estava Tarz. As moças estavam atrás deles, encolhidas contra a parede, vigiadas por dois homens com chicotes compridos. Elas olharam para o Pregador com uma expressão apavorada.

O Pregador contorceu-se para desvencilhar os braços, mas não conseguiu se livrar dos dois homens.

— Podem largá-lo — disse o irmão Ely.

O Pregador ficou parado por um momento, flexionando os braços, a fim de atenuar a dor. Olhou para a mesa.

— Eu lhe disse para não voltar. O irmão Ely sorriu.

— Estamos apenas lhe prestando um favor. Tarz tem sido um mau menino. E achamos que deveríamos trazê-lo de volta para você.

— Como souberam onde encontrá-lo?

O irmão Ely riu.

— Foi fácil. Ele nos telefonou. Queria que o aceitássemos de volta. Mas sabe como é o irmão Robert. É sempre muito exigente em questão de honestidade. Não gosta de tratar com patifes. — Ele jogou um pacote em cima da mesa.

— Trouxemos até o seu dinheiro de volta. Está tudo aí. Mais de vinte mil dólares. Pode contar.

O Pregador fitou-o em silêncio por um instante, depois contornou a mesa, aproximando-se de Tarz. Gentilmente, segurou o rosto do rapaz entre suas mãos e examinou-o. Estava praticamente em carne viva; era quase certo que o nariz e o malar direito haviam sido fraturados.

— Há um equipamento de primeiros socorros na sala dos fundos — disse ele. Queira permitir que uma das moças vá buscar um pouco de gelo na cozinha. Posso deixá-lo um pouco mais confortável, até podermos providenciar um médico.

Os lábios inchados de Tarz se mexeram.

— Desculpe, Pregador.

— Não tente falar — disse o Pregador, suavemente. Ele olhou para o irmão Ely. — E então? O irmão Ely assentiu.

— Quase esqueci que você foi enfermeiro no exército.

— Ele acenou para um dos seus homens.

— Vá buscar o que ele está pedindo.

O Pregador trabalhou rapidamente. Limpou o rosto de Tarz em poucos minutos, colocando pequenos curativos sobre os talhos. Tarz gemia de dor. O Pregador aplicou uma seringa com morfina no braço do rapaz. Um momento depois, Tarz estava adormecido. O Pregador empertigou-se e olhou para o irmão Ely.

— O irmão Robert não está fazendo tudo isso por caridade cristã, não é mesmo?

— Claro que está. — O irmão Ely sorriu. — Poderia haver outro motivo?

— Poderia. — O Pregador olhou para as moças. — Por que não deixa as crianças cuidarem de seus afazeres enquanto conversamos?

— Não há problema. Elas podem ouvir o que eu tenho a dizer.

O Pregador puxou uma cadeira e sentou-se no outro lado da mesa.

— Muito bem, pode falar.

— O irmão Robert ainda acha que podemos nos sair muito bem juntos.

— Não estou convencido de que isso seja possível. O irmão Ely acenou com a cabeça.

— Ele calculou que você poderia dizer isso. E tem outra proposta a fazer.

— Qual é?

O irmão Ely fitou-o nos olhos.

— Bárbara Soong.

— O que há com ela?

— Diga-nos onde podemos encontrá-la e seguiremos por caminhos separados.

— Isso é fácil. No terceiro andar da Casa de Soong, na Grant Street.

— Sabe muito bem do que estamos falando. Ela desapareceu de lá ontem à noite. O tio acha que foi você quem a levou. E Tarz nos contou que você passou dois dias em San Francisco.

O Pregador sacudiu a cabeça.

— Está me dando muito mais crédito do que mereço.

— Talvez. — O irmão Ely gesticulou para as moças. — Há onze de suas crianças ali. Parece uma troca bastante justa. Onze por uma.

— Bem que seria, se eu tivesse essa uma.

O irmão Ely fez um pequeno gesto. Um dos homens parados perto das moças recuou e estalou o chicote. Soou como o estampido de um rifle na sala grande. Ele tornou a estalar o chicote. Desta vez, rasgou a frente do vestido da moça que estava mais próxima, cortando-o como uma navalha e deixando-a quase nua. O chicote tornou a estalar. Desta vez um filete de sangue estendeu-se pelo corpo da moça, começando perto do pescoço, passando entre os seios, estendendo-se pela barriga e desaparecendo nos pêlos púbicos. A moça soltou um grito, depois olhou para o próprio corpo, como se não acreditasse no que acontecera. Levou a mão ao pescoço. Retirou-a coberta de sangue. Empalideceu, revirando os olhos, e resvalou para o chão, sem sentidos. O irmão Ely olhou para o Pregador.

— Uma já foi, faltam dez.

— Está perdendo seu tempo — disse o Pregador. — Não posso fazer uma troca por algo que não tenho.

— São suas crianças.

O irmão Ely virou-se para gesticular de novo. O Pregador passou por cima da mesa, aproveitando a fração de segundo em que os olhos de todos estavam focalizados no homem de chicote. Caiu no chão com o irmão Ely na sua frente, enquanto suas mãos seguravam as orelhas do homem. A seringa descartável que pegara furtivamente estava encostada no ouvido esquerdo do irmão Ely.

— Não se mexa! — gritou o Pregador, com a voz rouca. — Esta seringa está cheia de morfina. Se se quebrar, você vai morrer pouco a pouco, à medida que seu cérebro ficar paralisado, uma célula de cada vez.

O irmão Ely pareceu ficar congelado.

— E agora vamos nos levantar. Bem devagar. Não queremos que aconteça nenhum acidente, não é mesmo? E diga a seus amigos para ficarem longe de nós. A seringa tem menos de um quinto de polegada de espessura, e não agüenta a menor pressão.

— Ouviram o homem falar — balbuciou o irmão Ely.

— Muito bem, vamos devagar.

O Pregador levantou-se cautelosamente, sem largar as orelhas do homem. O irmão Ely também se levantou, igualmente cauteloso.

— E agora venha até a parede comigo — disse o Pregador. — Bem devagar.

Um passo de cada vez, eles foram recuando, até que o Pregador sentiu a parede em suas costas.

— Já chega — disse ele. — E agora não se mexa.

Do lugar em que estava, o Pregador podia ver toda a sala. Havia mais quatro homens ali, todos fitando-o fixamente. O Pregador olhou para eles, acenando lentamente com a cabeça.

— Diga a eles para tirarem as roupas, até ficarem de cueca.

— Vocês ouviram — disse o irmão Ely com voz tensa.

— Mas não estou usando cueca, irmão Ely! — protestou um dos homens.

— Dispa-se assim mesmo — ordenou o Pregador. O homem hesitou.

— Faça o que ele está mandando! — insistiu o irmão Ely, quase gritando.

Poucos segundos depois, havia uma pilha de roupas na frente de cada homem. De certa forma, eles não pareciam tão assustadores na nudez como antes, quando estavam vestidos.

— Muito bem, irmãos, entrem em fila, virados para a parede, ao lado da porta — disse o Pregador. Ele esperou até que os homens estivessem na posição determinada. — E agora, crianças, peguem as roupas deles e levem para a sala dos fundos.

As moças obedeceram rapidamente. O Pregador acrescentou:

— Charlie, cuide de Jane. Há pedaços de gaze com anti-séptico no equipamento de primeiros socorros. — Ele olhou para o irmão Ely. — Quem está com as chaves do carro?

— Estão comigo. No bolso.

— Tire-as e largue no chão. Devagar. Não se esqueça. Um momento depois, as chaves retiniram ao cair no chão.

— Onde estão as chaves do carro de Tarz?

— Ainda estão no carro — respondeu um dos homens.

— Vá buscá-las — disse o Pregador a Melanie. Ela voltou um momento depois com as chaves.

— Fique com elas — disse o Pregador. — E chute as chaves que estão no chão na direção dos homens.

As chaves deslizaram pelo chão.

— Muito bem, irmãos — disse o Pregador —, peguem o carro e voltem para casa.

— Espere um pouco! — disse o homem nu, desesperado. — Não podemos ir embora sem roupas!

— Talvez seja melhor você convencê-los — disse o Pregador, aumentando um pouco a pressão nas orelhas do irmão Ely.

— Façam o que ele está mandando!

Um dos homens pegou as chaves e saiu. Um instante depois, os outros o seguiram. O barulho do motor chegou aos ouvidos do Pregador, depois o ranger dos pneus na terra.

— Vamos até a porta, irmão Ely... bem devagar. Chegaram à porta a tempo de ver o carro subindo pela estrada que margeava a comunidade. O Pregador ficou parado ali, observando, até que o carro desaparecesse do outro lado do morro.

— O que vai fazer comigo agora? — perguntou o irmão Ely.

— Não tenho opção — respondeu o Pregador. — Se o soltasse, você acabaria voltando.

— Prometo que não voltarei — disse o irmão Ely, freneticamente. — E vou até dar um jeito para que o irmão Robert não o incomode mais.

— Sinto muito.

O Pregador bateu com as mãos abruptamente e recuou, largando o homem. O irmão Ely levou a mão às orelhas. Depois, olhou para o sangue em seus dedos. Fitou o Pregador com uma expressão horrorizada, balbuciando, com a voz trêmula de medo:

— Não fez nada comigo, não é mesmo?

O Pregador fitou-o em silêncio por um longo momento e depois disse, mostrando a seringa intacta na mão:

— Não, não fiz. Tudo o que fiz foi um pequeno arranhão. Mas, que Deus me perdoe, desta vez tive vontade de fazer algo mais.

Quase que furiosamente, ele esmagou a seringa descartável e jogou-a pela porta aberta. Puxou o irmão Ely para o interior da sala.

— Tire as roupas!

— Eu também?

— Você também! — Ele observou o irmão Ely despir-se, depois virou-se para as moças. — Ponham as roupas dele junto com as outras e tranquem-no no depósito, até resolvermos o que vamos fazer com ele.

Quatro moças cercaram o irmão Ely e empurraram-no para o depósito, sem a menor gentileza. O Pregador foi até Jane, que estava sentada com as costas na parede. Ela não estava mais sangrando.

— Vou ficar boa, Pregador? Ele assentiu.

— É apenas um arranhão superficial. Não ficará sequer uma cicatriz. — Ele virou-se para Charlie. — Chame uma das moças para ajudá-la e leve Tarz para o hospital.

— Está bem.

O Pregador foi até a cadeira e levantou o rapaz ainda inconsciente. Levou-o para o carro e ajeitou-o no banco traseiro. Charlie aproximou-se por trás dele.

— O que devo responder quando me perguntarem o que aconteceu com ele?

— Diga que ele se encontrou com os caras errados e engoliu mais do que podia mastigar. — O Pregador fitou-a nos olhos. — E diga também que pagaremos a conta do hospital.

Ele voltou à casa de reuniões e arriou numa cadeira, ao lado da mesa. Melanie aproximou-se.

— Obrigada por tomar conta de nós, Pregador. Ele olhou para ela e sorriu.

— Não agradeça a mim, mas sim a Deus. É somente por Sua misericórdia que podemos fazer as coisas.

— Todas nós o amamos, Pregador.

— E eu amo vocês.

— Posso trazer-lhe uma xícara de café?

— Não, obrigado. Acho que apenas ficarei sentado aqui por algum tempo.

— Quer ficar sozinho?

— Se não se incomodam...

Em silêncio, as moças se retiraram. O Pregador ficou olhando para o embrulho de papel que estava sobre a mesa. Puxou-o finalmente e abriu-o. As pilhas de notas eram de um verde forte, em contraste com a cor de madeira da mesa. Furioso, o Pregador bateu com o punho no dinheiro. As tiras de papel que prendiam tudo se romperam e o dinheiro espalhou-se pela mesa, e algumas notas caíram no chão.

Ele ainda estava sentado lá, várias horas depois, quando Ali Elijah entrou. Os dois homens se fitaram em silêncio por um longo tempo. Elijah finalmente disse:

— Parece que você andou pensando muito, Pregador.

— Talvez.

— Teve algum problema aqui?

— Tive. Estou com o irmão Ely, dos Filhos de Deus, trancado no depósito lá atrás.

— O que vai fazer com ele? O Pregador deu de ombros.

— Acho que nada. Vou deixá-lo ir embora pela manhã.

— Terá de mudar seu número agora.

O Pregador levantou a cabeça para fitá-lo.

— Por quê?

— Ouvi pelo rádio, quando estava vindo para cá. Acabam de encanar um bando de hippies pelo assassinato de Sharon Tate. Intitulavam-se a família Manson. Vi a fotografia dele na tevê quando parei para tomar um café. O cara tem cabelos e barba iguais aos seus.

— Era inevitável que alguma coisa assim acontecesse — comentou o Pregador. — Ele era chamado de Crazy Charlie.

— Você o conhece?

— Vi-o algumas vezes em Haight Ashbury.

— Está com uma grana firme aí em cima da mesa. Parece que o negócio de Jesus é muito melhor que o negócio de Maomé. Nunca vimos tanto dinheiro assim.

— Não se trata de negócio. Estamos com Jesus por amor.

— Pode chamar como quiser. Ainda me parece uma grana firme. Acho que está sentado numa pilha de ouro e nem mesmo pode perceber.

— Acha mesmo?

— Pode apostar seu rabo branco nisso. Ainda me lembro da velha na reunião do Evangelho. Quando o tal pregador começava a gritar, o pessoal o soterrava com dinheiro. Tudo o que ele precisava fazer era abrir a boca e berrar "Jesus!"


 Jesus por dinheiro

Jake Randle estava confortavelmente instalado no assento traseiro do seu Mercedes 600 preto, a salvo e invisível do mundo exterior por trás do vidro marrom-escuro, à prova de bala. Lá fora, o sol forte do Texas crestava a terra, provocando um calor de quarenta e três graus centígrados. Mas Old Jake não o sentia. O ar-condicionado do carro fixava a temperatura lá dentro em vinte e cinco graus.

Um havana apagado balançava em sua boca, enquanto ele o mastigava, cuidadosamente, a fim de não deslocar a dentadura. Metade do prazer de um bom charuto estava em mastigar, não em fumar. A única coisa que ele não gostava no charuto era o fato de os comunas controlarem tanto a fonte como o fornecimento. Se pudesse impor a sua vontade, mandaria os filhos da puta de volta à Rússia ou a qualquer lugar de onde tivessem vindo, entregando a ilha às pessoas que demonstrassem o devido respeito aos americanos. Afinal, se não fosse pelos americanos, eles ainda estariam de joelhos diante da Espanha.

Ele olhou pela janela, enquanto o carro deixava a rua principal da cidade que recebera o nome de seu avô e entrava na estrada especialmente construída que levava a seu rancho, a sessenta e cinco quilômetros de distância. O último prédio, um velho estábulo quase em ruínas, abandonado há vinte anos, desde que o rio próximo minguara para um mero córrego, ficou para trás. Foi o cartaz ao lado do estábulo que fez com que ele se empertigasse subitamente no assento. Tinha seis metros de comprimento e dois de altura, estava suspenso entre duas estacas, com as letras vermelhas e pretas sobre um fundo branco, ofuscante ao sol forte. Ele bateu na divisória de vidro do compartimento do motorista.

— Pare aqui.

— Pois não, sr. Randle.

O Mercedes parou no acostamento da estrada. Old Jake pôs os óculos e olhou para o cartaz. As letras eram grandes, fáceis de ler.

VOCÊ JÁ OS VIU NA TV.

Abaixo, havia quatro fotografias, cada uma com um nome: Oral Roberts, Rex Humbard, Jerry Falwell, James Robison. Havia abaixo uma fotografia ainda maior; dos lados, estavam as palavras: agora, em pessoa, ao vivo! C. Andrew Talbot. E abaixo da fotografia estava escrito o seguinte: O MAIOR DE TODOS OS PREGADORES DO EVANGELHO! ESTE DOMINGO, ÀS QUATRO HORAS DA TARDE. JESUS QUER você, não o seu dinheiro, entrada grátis. Letras menores estendiam-se, em seguida no cartaz: patrocinado pela IGREJA DA COMUNIDADE DE DEUS DA AMÉRICA CRISTÃ TRIUNFANTE, LOS ALTOS, CALIFÓRNIA.

Ele acabara de ler o cartaz quando uma nuvem de poeira elevou-se no campo; no meio dela erguia-se o toldo de um circo. Quando a poeira assentou, Old Jake pôde avistar os tratores puxando as cordas. Quase no mesmo momento uma plataforma na qual estava afixada uma imensa cruz branca elevou-se do outro lado do toldo. Poucos segundos depois, uma carreta cheia de bancos de madeira aproximou-se do local. Vários homens puseram-se a colocar os bancos em fileiras, diante da plataforma. Por trás da plataforma caiu uma aba de lona, na qual havia outro retrato de C. Andrew Talbot, com o dedo apontando para os bancos, da mesma maneira usada por Tio Sam nos cartazes de recrutamento do exército. Só que as palavras eram diferentes: Jesus quer você!

Olhando além do toldo, Randle pôde ver os caminhões que haviam trazido todo o equipamento estacionado em fila na extremidade do campo. Havia diversos caminhões e pequenos ônibus. Ele tornou a olhar para o toldo. Tudo estava em movimento, com uma precisão quase militar. Rolos de carpete eram estendidos pelos corredores entre os bancos, na direção de um semicírculo de carpete maior, diante da plataforma. Ao mesmo tempo, o sistema de som e a iluminação eram instalados em postes. A princípio, parecia haver muitos homens, mas depois Randle contou e verificou que eram apenas oito, todos trabalhando rapidamente, sob a supervisão de um negro alto. Ele apertou o botão que baixava a divisória para o compartimento da frente, onde estavam o motorista e seu guarda-costas.

— Vamos para aquele campo!

O motorista acenou com a cabeça e entrou no campo, indo até a frente da barraca e parando.

— Aqui está bom, sr. Randdle?

Old Jake não se deu ao trabalho de responder. Apertou outro botão para abaixar a janela do seu lado. Vários homens haviam parado de trabalhar por um momento, olhando para ele. Mas logo, a uma palavra do negro, todos recomeçaram a trabalhar. Old Jake meteu a cabeça para fora da janela e gritou:

— Ei, crioulo, venha até aqui!

Joe Washington fitou-o por um instante, depois encaminhou-se para o Mercedes. Se viu o guarda-costas no banco da frente tirar o revólver do coldre no ombro, não deixou transparecer.

— Pois não, senhor? — disse ele, polidamente.

Old Jake fitou-o com uma expressão furiosa. Não gostava de negros. De negros e de mexicanos. Não se podia absolutamente confiar neles.

— Que diabo estão fazendo aqui?

— Arrumando as coisas para a reunião do Evangelho, senhor — respondeu Joe, falando deliberadamente à maneira dos pretos do sul.

— E quem deu permissão? Joe deu de ombros.

— Recebemos a autorização da prefeitura.

— Sou dono deste terreno e ninguém me disse nada. Joe tornou a dar de ombros.

— Não sei nada sobre isso, senhor. Apenas trabalho aqui.

Old Jake virou-se para o motorista.

— Chame o meu gerente ao telefone. — Um momento depois, ele disse ao telefone: — Cedeu o Lote 20 para uma reunião evangélica?

— Cedi, senhor. Eles nos pagaram duzentos dólares.

— E por que não fui informado?

— Não achei que isso fosse importante o bastante para incomodá-lo, sr. Randle.

A voz do gerente estava trêmula.

— Quantas vezes já lhe disse que quero saber de tudo o que está acontecendo por aqui?

— Eles tinham ótimas referências, sr. Randle. Foram recomendados tanto pelo reverendo Lydon como pelo diácono Ellsworth.

Old Jake ficou em silêncio por um momento. Os dois homens eram os pilares da igreja local.

— Pois da próxima vez me informe — resmungou ele finalmente. — Não importa o que seja.

— Pois não, sr. Randle.

Old Jake desligou e virou-se para Joe.

— Quem é o pregador C. Andrew Talbot? Nunca ouvi falar dele.

Joe assumiu uma expressão de surpresa.

— Ele é um dos pregadores mais importantes do país. Todo mundo o conhece.

— Nunca o vi na televisão.

— Tem televisão a cabo?

— Ainda não chegou aqui.

— Então é por isso. Ele fala na televisão a cabo na Califórnia. Mas pode estar certo de uma coisa: se já o tivesse ouvido, nunca mais iria esquecer. Quando ele prega o Evangelho, até o velho diabo se levanta e sai correndo.

Old Jake estreitou os olhos.

— Um pregador de um inferno antiquado e da danação eterna, hem?

Joe assentiu.

— Isso mesmo, senhor.

— Não tem nada dessas besteiras açucaradas?

— Não, senhor. Ele só está interessado em acabar com o pecado e pôr as pessoas de joelhos diante de Jesus e da salvação.

Old Jake ficou em silêncio por um momento, depois acenou com a cabeça em aprovação.

— É o meu tipo predileto de pregador. Não suporto os outros.

— Ele também não.

— Talvez eu volte. Mas primeiro gostaria de ter uma conversa particular com ele. Onde posso encontrá-lo?

— Ele não está aqui neste momento, senhor. Foi à Igreja Batista para rezar com a congregação. Mas tenho certeza de que ele terá o maior prazer em recebê-lo quando voltar. Talvez depois da reunião evangélica.

— Talvez. — Old Jake tirou do bolso uma nota de cem dólares. — Reserve um banco na primeira fila para mim. Gosto de sentar sozinho.

Joe olhou para a nota.

— A entrada é grátis, senhor. Não posso aceitar esse dinheiro. Mas pode deixar que reservarei o banco.

— Está certo, rapaz.

Old Jake recostou-se no assento e levantou o vidro. Joe ficou observando o Mercedes preto voltar à estrada e se afastar, aumentando a velocidade. Um dos trabalhadores aproximou-se dele.

— Aquele cara era demais. E não pude acreditar em meus ouvidos quando você começou a bancar o negro servil.

Joe lançou um olhar irritado para o trabalhador.

— Você tem a língua comprida demais, Johnson. Se mantivesse as mãos tão ocupadas quanto a boca, a esta altura já teríamos acabado todo o serviço.

Johnson estava olhando para o Mercedes que desaparecia à distância.

— Puxa, aquele carro é grande de verdade. Mais um pouco e ficava do tamanho de um camburão.

— É onde você vai parar, se não voltar logo ao trabalho.

Johnson levantou as mãos, num gesto apaziguador.

— Está bem, chefe, está bem...

Joe observou-o juntar-se aos homens que estavam colocando os bancos por baixo do toldo e depois virou-se para olhar o Mercedes mais uma vez. Mas o carro já desaparecera. Ele sacudiu a cabeça tristemente e foi para trás do toldo, até a Winnebago do Pregador. O veículo prateado, com as palavras "Comunidade de Deus", pintadas em preto, parecia faiscar à luz do sol. Ele abriu a porta e enfiou a cabeça lá dentro.

— Você está aí, Beverly?

A voz dela veio dos fundos do veículo:

— Pode entrar, Joe.

Ele entrou e fechou a porta. Ficou parado por um momento, deixando os olhos se ajustarem ao escuro e saboreando o ar condicionado, depois do calor lá fora. Encaminhou-se finalmente para os fundos do veículo.

Beverly estava sentada à pequena mesa de jantar, que também servia como escrivaninha improvisada, com uma pilha de papéis à sua frente.

— Como estão as coisas, Beverly? Ela levantou a cabeça para fitá-lo.

— Estamos sem dinheiro, como sempre. Parece que nunca conseguimos sair do buraco. O dinheiro só dá para ir de uma cidade a outra.

— Falou com ele?

— Sabe muito bem que falei, até não me agüentar mais. Só que ele não quer escutar. Diz que esse é o trabalho de Deus. Ninguém deve ganhar dinheiro com ele.

— Mas ele tem de crescer — disse Joe. — As igrejas locais ficarão satisfeitas com vinte por cento da coleta. Ele não precisa dar cinqüenta por cento.

Beverly permaneceu calada.

— Sabe quanto esses pregadores de tevê estão ganhando? — indagou Joe, para logo depois responder a si mesmo: — Milhões. Não criam calos andando de um lado para outro do país em suas pregações, vivendo numa porra de um carro como este. Têm os seus próprios jatos particulares e se hospedam nos melhores hotéis, em todos os lugares a que vão.

— Sei disso.

— E só comem rosbife com batatas todas as noites. Um tênue sorriso insinuou-se nos lábios de Beverly.

— Não chegam a comer um chow mein de vez em quando?

Joe sorriu subitamente e sacudiu a cabeça.

— Não consigo entender por que você está metida nisso, Beverly. Tem dinheiro suficiente. Não está precisando de mais.

Os olhos dela brilharam de repente.

— Pelo mesmo motivo que você e todos os outros estão metidos nisso. Nós o amamos.

Ele não tinha como contestar. Se alguém previsse naquela noite, anos antes, quando o Pregador aparecera em sua casa em Oakland, que iria se descobrir sob o sol escaldante do Texas, em companhia de um maníaco de Jesus, ele acharia a perspectiva tão absurda que não lhe daria qualquer atenção. Mas ali estava ele. E Beverly também. E todos os outros.

Às vezes ele se perguntava se o Pregador conhecia de fato o poder que tinha sobre as pessoas, se percebia até que ponto o escutavam, acreditavam e se entregavam. Ele realmente levava Deus à vida das pessoas. Só precisava se fixar em algum lugar e deixar que as pessoas fossem a ele. O dinheiro não mais pararia de entrar.

Mas o Pregador não estava querendo saber disso. Talvez nunca ouvisse os argumentos deles. Quando o assunto de se fixar num lugar e construir uma igreja era levantado, uma expressão distante surgia em seus olhos, e ele sempre respondia com um tom paciente. Era quase como se eles fossem crianças e não pudessem compreender.

— Não. Uma única igreja não é o meu cenário. O Senhor não me destinou a plantar minhas próprias raízes, mas sim as dele. E posso ouvir Suas palavras, quase como Ele próprio as pronunciou para Seus discípulos. — Ele fazia uma pausa prolongada e depois acrescentava a citação de São Marcos, que encerrava definitivamente a discussão: "Saia pelo mundo inteiro, e pregue o Evangelho para todas as criaturas".

 

Por volta das três horas da tarde, Joe já contara cento e oitenta e sete carros e pickups estacionados no campo e quatrocentos e noventa e uma pessoas, sem incluir as crianças. Havia ainda uma longa fileira de carros na estrada, esperando a vez de entrar no estacionamento. Ele acenou a cabeça com satisfação. Haveria um bom movimento. Talvez mais de oitocentas pessoas.

A música evangélica do gravador na barraca saía pelos quatro alto-falantes e se irradiava para a estrada. O ritmo era moderno, uma música evangélica no melhor estilo country. Joe podia ver que as pessoas reagiam favoravelmente, com um ar festivo. Os bancos sob o toldo já estavam sendo ocupados. Havia lugar para setecentas e cinqüenta pessoas sentadas. Joe viu as seis moças com túnicas brancas e soltas conduzirem as pessoas a seus lugares; entregavam a cada uma o programa, pequeno, encadernado em branco. Ele sorriu para si mesmo. Conhecia a rotina e sabia que sempre dava certo.

— Sejam bem-vindos em nome de Nosso Salvador Jesus Cristo — diziam as moças ao acomodarem os visitantes e lhes entregarem o programa, sempre sorrindo.

— Amém — dizia geralmente o visitante — Obrigado. A moça tornava a sorrir e estendia a mão.

— O custo de cada programa é um dólar. O dinheiro, é claro, vai para os pobres e necessitados, em nome de Nosso Salvador.

Havia um momento de hesitação e depois o dólar aparecia. Nunca um programa era devolvido. O nível de exposição pública era muito elevado e o visitante tinha certeza de que todos os vizinhos estavam observando-o naquele momento.

— Obrigada, em nome de Jesus Cristo — dizia a moça, guardando o dinheiro numa pequena bolsa pendurada na cintura e afastando-se pelo corredor entre os bancos para conduzir o visitante seguinte.

Joe lançou um último olhar para os carros que se deslocavam pela área de estacionamento e depois encaminhou-se para o furgão do Pregador, estacionado atrás da barraca.

— Pregador!

— Estou aqui.

Joe entrou no veículo e fechou a porta. O Pregador estava sentado à pequena mesa; as anotações para o sermão haviam sido feitas em pequenos cartões espalhados à sua frente.

— Acredita em Deus, Pregador?

O tom do Pregador ao responder era de surpresa:

— É uma pergunta tola, Joe. Você sabe muito bem que acredito.

— Se Deus lhe enviasse um milagre, seria capaz de reconhecê-lo?

Uma expressão aturdida estampou-se no rosto do Pregador.

— Onde está querendo chegar?

— Tenho um pressentimento, Pregador. Um milagre vai acontecer aqui, hoje.

O Pregador ficou em silêncio por um momento. Quando falou, seu tom era desconfiado:

— De que está falando?

— Um homem apareceu aqui quando você estava na Igreja Batista. Veio num Mercedes preto que parecia ter um quilômetro de comprimento. Começou com a intenção de nos expulsar de sua propriedade e terminou dizendo que compareceria ao encontro, se eu reservasse um banco na primeira fila para que ele pudesse sentar-se sozinho.

O Pregador fitou-o nos olhos.

— E você reservou o banco?

Joe confirmou, com um aceno de cabeça.

— Ele já chegou?

— Não. Mas ainda é cedo. Ele virá.

— O que o faz ter tanta certeza? O Pregador estava curioso.

— Ele me perguntou se você era um pregador à antiga, do tipo que ameaçava com o fogo do inferno. Respondi que era. Ele disse que não suportava as baboseiras dos outros pregadores. Recomendei-lhe que voltasse, pois você era o tipo de homem que ele apreciava. O Pregador sacudiu a cabeça.

— Não devia ter feito isso. Sabe que não sou assim. Joe fitou-o atentamente.

— Mas não poderia ser, apenas por esta vez? Uma pequena pregação evangélica antiquada nunca fez mal a ninguém.

— Mas não é o meu estilo.

Joe ficou em silêncio por um momento.

— Eu não queria dizer isso antes da reunião, mas acho que agora não tenho outro jeito. Todos os homens irão embora se não receberem logo depois da reunião de hoje. Ficar sem nada também não é o estilo deles. E não se esqueça de que eles têm família para sustentar e que os salários já estão quatro semanas atrasados.

— Eles sabem que receberão assim que tivermos dinheiro.

— Claro que sabem. Mas já desistiram de esperar. Podem ver o que está acontecendo. E sabem que não haverá o suficiente para continuarmos.

— Com um bom número de pessoas, Joe, talvez possamos levantar dois mil dólares hoje.

— Se conseguirmos, o dinheiro vai acabar num instante. São duzentos dólares pelo aluguel do terreno, outros duzentos para o posto de gasolina, cinqüenta dólares para a companhia de eletricidade, metade da receita, mil dólares, para a igreja local. O que nos restará? Apenas quinhentos dólares. Tirando o dinheiro da comida, não haverá o bastante para pagar— os salários atrasados de um só homem. — O Pregador ficou calado, e Joe acrescentou: — Terá de pedir mais dinheiro a Beverly.

— Não posso fazer isso. Ela já deu mais do que o suficiente.

— Então você está precisando de um milagre. Mas seria capaz de reconhecê-lo, se o encontrasse?

A expressão do Pregador tornou-se subitamente sombria.

— Seria. Basta que você me aponte o homem.

— Não haverá necessidade — respondeu Joe, sem sorrir. — Ele estará sentado sozinho num banco na primeira fila. O nome dele é Jake Randle.

Depois que Joe se retirou, o Pregador ficou olhando para os pequenos cartões espalhados sobre a mesa, à sua frente. Haviam percorrido um longo caminho desde o Deus de paz e amor que ele pregava na comunidade. Aquele era um Deus de tolerância e compreensão, que ouvia as orações de todos os homens, que lhes enviava seu filho como o Redentor, a fim de que todos os que aceitassem o Cristo pudessem ir ao seu encontro. Mas aquele era um Deus de outro tempo, de outro lugar. Um Deus de um mundo desiludido consigo mesmo, com o materialismo de sua sociedade, com a doença e os horrores das guerras. Um Deus para crianças.

Mas as crianças estavam crescidas agora. E o Deus de hoje, embora fosse o mesmo Deus, era mais o Jeová do Antigo Testamento que o Cristo do Novo Testamento. Era o Deus da vingança, da punição, que condenaria ao fogo eterno do inferno todos aqueles que não aceitassem seu filho como Cristo, o Messias. E não seria tolerado qualquer desvio às suas palavras como haviam sido escritas, não se permitiria qualquer outra interpretação. O homem nasceria em pecado e morreria em pecado, a menos que fosse a Ele, se purificasse com o Sangue do Cordeiro e renascesse.

O Pregador fechou os olhos. Era o mesmo Deus, o mesmo Deus, o mesmo Deus. O que acontecera com esse Deus que ele não fora capaz de perceber? Ou será que ele estava cego e não pudera ver durante todo o tempo, até o dia em que os carros da polícia desceram ruidosamente pelo morro e entraram na comunidade?

Havia catorze policiais, em quatro carros. Pararam diante da casa de reuniões, em meio a uma nuvem de poeira. O Pregador olhou ao redor, à procura de Ali Elijah. Mas ele já se fora, desaparecera ao primeiro vislumbre dos carros da polícia no alto do morro. Aliviado, o Pregador saiu do prédio, enquanto os guardas saltavam dos carros.

Um guarda adiantou-se, sacou a arma do coldre e acenou bruscamente para o Pregador:

— Você! Vire-se e ponha as mãos na parede! O Pregador ficou aturdido.

— Mas o que é isso?

— Limite-se a obedecer — disse outro guarda.

Em silêncio, o Pregador começou a virar-se, enquanto algumas moças saíam do prédio.

— Todas vocês! — gritou um guarda. — Venham até aqui!

Elas olharam para o Pregador, assustadas. Ele acenou com a cabeça, quase imperceptivelmente. As moças se aproximaram dele, lentamente.

— Revistem todos os prédios! — gritou outra voz. — Deve haver mais do que esses cinco!

O Pregador encostou as mãos na parede do prédio e inclinou-se. Um guarda revistou-o, rudemente.

— Pode me dizer agora o que está acontecendo? O guarda que o revistou não respondeu.

— Isto é propriedade particular — insistiu o Pregador. — Tem um mandado de busca?

Um homem corpulento, com as insígnias de tenente no uniforme, aproximou-se.

— Claro que temos um mandado.

O Pregador pegou o documento que lhe era estendido para examinar.

— Posso poupar-lhe o trabalho de ler — acrescentou o tenente. — Estamos procurando tóxicos, armas letais e coisas roubadas.

O Pregador sentiu algum alívio. Pelo menos não era Ali Elijah que eles estavam procurando.

— Estão perdendo seu tempo. Somos uma comunidade religiosa.

O guarda lançou-lhe um olhar furioso.

— Foi isso o que Manson disse quando o agarraram no Rancho Spahn.

— Não somos iguais a ele.

— Talvez. Mas todos os hippies parecem iguais para mim. Você até parece com ele, com os cabelos compridos e a barba de Jesus.

— Eu não sabia que parecer com outra pessoa era crime — retrucou o Pregador. Ele sacudiu a cabeça, com uma expressão de lamento. — Não estou entendendo. Estamos aqui há três anos e nunca tivemos qualquer problema. Por que estão fazendo isso agora?

O tenente mostrou-se vago:

— Recebemos algumas queixas.

— De gente da cidade? Mas sempre nos demos muito bem com todo mundo por lá. Pode verificar no banco. E com as donas-de-casa. Muitas delas compram legumes e frutas frescas de nós.

— Não vão mais comprar. O conselho municipal acaba de revogar sua licença de vendedor.

O Pregador ficou aturdido.

— Não havia motivo para isso...

— Eles não precisam de qualquer motivo. — O tenente fez uma pausa. — Importa-se que eu dê uma olhada por aí?

— Não tenho opção, não é mesmo?

O tenente sacudiu a cabeça. Gesticulou e os outros guardas se dispersaram, entrando nos prédios, em duplas. Dois guardas ficaram com o tenente.

— Gostaríamos de ver a carteira de motorista ou de identidade de todas as pessoas aqui — acrescentou o tenente.

— E queremos também os registros de todos os veículos.

Dois guardas voltaram, trazendo Charlie e Melanie. O rosto de Charlie estava vermelho de raiva.

— Os porcos nos arrancaram do fogão no meio do preparo do jantar. Agora, a comida vai estragar.

— É uma pena — disse um guarda, em tom sarcástico. Ele empurrou Charlie rudemente. — Fique na parede, junto com os outros.

— Tire as mãos de mim, porco! — gritou Charlie.

— Fique calma, Charlie — advertiu o Pregador, suavemente.

Mais além, ele podia ver outros guardas voltando, em companhia das três moças e dos trabalhadores mexicanos que estavam nos campos. O tenente esperou até que todos estivessem reunidos.

— Há mais alguém?

O Pregador sacudiu a cabeça.

— Não.

— Ele está dizendo a verdade, tenente — informou um dos guardas. — O relatório dizia que eram dez moças.

— Muito bem. — O tenente virou-se para o Pregador.

— Vou começar pelos seus documentos.

Os guardas levaram quase três horas para verificar tudo. Ao final, só haviam encontrado dois cigarros de maconha pela metade, na cabine da pickup. O tenente mostrou-se ao Pregador.

— Tem outros cigarros assim por aqui?

— Não sei dizer, tenente. Não tenho o hábito de guardar guimbas.

O tenente virou-se para os outros guardas.

— Encontraram mais alguma coisa que possa incriminá-los?

— Há uma porção de facões afiados na cozinha — informou um guarda.

O tenente fitou-o com uma expressão irritada. Outro guarda interveio:

— Podemos revistar as moças. Não se pode saber o que elas têm escondido debaixo dos vestidos. Ouvi dizer...

O tenente interrompeu-o, furioso:

— Não seja idiota. Sabe muito bem que precisamos de uma mulher da polícia para fazer isso.

— Não poderíamos apenas apalpá-las? — sugeriu o guarda.

— Ponha as mãos em mim e fritarei seu rabo nos tribunais! — gritou Charlie.

— Cale a boca, Smitty. — O tenente virou-se para o Pregador. — Você está limpo por enquanto, mas quero que saiba que ainda não acabamos. Vamos ficar de olho em você. Um único erro e estarão liquidados. Não queremos gente como vocês por perto da nossa cidade.

Todos ficaram em silêncio, enquanto os carros da polícia subiam o morro. As moças finalmente se viraram para o Pregador. E Charlie formulou a pergunta que todas tinham em mente:

— O que vamos fazer agora?

Ele fitou-as em silêncio por um longo momento, antes de responder:

— Voltem ao trabalho. Irei à cidade amanhã e acertarei tudo.

Mas no instante mesmo em que ele falava, as palavras do tenente da polícia ressoavam em seus ouvidos. E ele sabia que o tenente não estava brincando.

 

O clima na cidade mudara. O Pregador pôde senti-lo no dia seguinte, quando foi ao banco. Antes, o presidente do banco se mostrava cordial e relaxado. Agora estava tenso, cauteloso e embaraçado, quando o Pregador foi introduzido em sua sala.

— Acho que já soube que a licença para vender nossos produtos na cidade foi cancelada — disse o Pregador.

O sr. Walton assentiu.

— Ouvi falar sobre isso.

— Não sei por que fizeram isso. E fiquei imaginando se não poderia interceder em nosso favor. Nunca tivemos qualquer problema com nenhuma pessoa da cidade.

— O conselho municipal toma as suas próprias decisões, Pregador. E eles não gostam quando alguém tenta influenciá-los.

O Pregador ficou surpreso. Não era exatamente a verdade. Quando solicitara inicialmente a licença, o sr. Walton fora um patrocinador entusiástico.

— Qual é o problema, sr. Walton? O que mudou? O sr. Walton evitou os olhos dele.

— Talvez alguns comerciantes tenham se queixado de que vocês estavam tirando a freguesia deles.

O Pregador sacudiu a cabeça.

— Sabe muito bem que não é esse o problema. A maioria das pequenas lojas faz negócios com a gente. E são até os nossos maiores fregueses.

O presidente do banco permaneceu calado.

— Dependemos dessa receita para pagar nossas contas. Inclusive as prestações da hipoteca. Ficaremos em dificuldades se não pudermos vender nossos produtos.

— Não posso fazer nada.

— Mas o que vamos fazer?

O sr. Walton finalmente fitou-o nos olhos.

— Podem vender a propriedade. O banco teria o maior prazer em encontrar um comprador. Para dizer a verdade, sabemos que há várias pessoas interessadas.

O Pregador acenou com a cabeça. Estava escrito na parede. Até mesmo o banco queria que eles fossem embora.

— Mas investimos muito dinheiro lá! O sr. Walton tornou-se mais confiante.

— Podemos dar um jeito para que não tenham prejuízo. E talvez tenham até mesmo um pequeno lucro.

— E se não vendermos?

— A decisão compete a vocês. Mas devo dizer que o meu comitê de empréstimos adotou uma posição definitiva. Tenho instruções para exigir os pagamentos do empréstimo nos prazos marcados. Não posso mais ter qualquer indulgência.

O Pregador levantou-se lentamente. Olhou para o presidente do banco, que ainda estava sentado atrás da mesa.

— Não somos ruins, sr. Walton. Tudo o que pedimos é a oportunidade de viver em paz e à nossa maneira.

O presidente do banco falou em voz baixa, como se receasse que alguém pudesse ouvi-lo:

— Sei disso, sr. Talbot. Mas, infelizmente, nada posso fazer. Estou com as mãos atadas.

O Pregador assentiu, sem dizer nada. Encaminhou-se para a porta. A voz do banqueiro deteve-o:

— Não se esqueça do que eu disse, sr. Talbot. Se resolverem vender a propriedade, temos algumas pessoas que estão realmente interessadas.

— Não esquecerei, sr. Walton. Obrigado.

O Pregador saiu e fechou a porta. Foi à prefeitura. O funcionário que o recebeu mostrou-se desdenhoso.

— Pode apelar da decisão do conselho, se quiser. Mas não vai adiantar. Eles já se decidiram.

— Mesmo assim, eu gostaria de uma audiência.

— Muito bem, se é assim que deseja... Vou inscrevê-lo para a próxima reunião. Será no mês que vem.

-— Não haverá outra reunião antes?

— O conselho municipal só se reúne uma vez por mês. E a reunião deste mês já foi realizada.

O Pregador voltou ao estacionamento. Havia dois guardas parados ao lado de sua pickup. Um deles acabara de prender uma multa no limpador de pára-brisa. Ele tirou-a e olhou. Estacionamento em local proibido. Virou-se para os guardas.

— Por quê? Pus o dinheiro no parquímetro.

O guarda apontou para a placa na entrada do estacionamento: proibido A veículos de carga. O Pregador correu os olhos pelo estacionamento. Diversas outras pickups estavam estacionadas ali. Não tinham multas.

— E as outras pickups? — indagou ele. — Não estou vendo as multas.

— Ainda não chegamos a elas — respondeu o guarda, olhando fixamente para o Pregador, sem se mexer.

— Mas vão multar? O guarda assentiu.

— Claro. Mas agora está na hora de nosso intervalo para um café. Vamos multá-las mais tarde.

Sem dizer mais nada, o Pregador embarcou na pickup e deixou o estacionamento. Pelo espelho retrovisor, percebeu que os guardas o observavam, até que virou a esquina. Olhou para o mostrador do tanque. Estava quase sem gasolina. Entrou no posto com que sempre trabalhava.

— Pode encher, Mike — disse ele ao homem que saiu do escritório.

— Claro, Pregador. — O homem encaminhou-se para a bomba. Parou de repente, olhando para trás. — Por falar nisso, você está com dinheiro aí?

— Estou, sim. Mas por quê? Sempre tivemos uma conta corrente aqui.

— Novos regulamentos — respondeu Mike, evitando os olhos do Pregador. — Não há mais contas particulares. Somente a dinheiro ou com cartões de crédito.

Ele ajeitou a mangueira no tanque, ligou o automático e virou-se para o Pregador.

— Quer que eu dê uma olhada no capô? O Pregador sacudiu a cabeça.

— Não precisa. Está tudo em ordem.

Mike voltou à bomba e esperou até que o tanque ficasse cheio.

— Dá oito dólares e vinte e cinco cents, Pregador. Em silêncio, o Pregador estendeu uma nota de dez dólares. Mike tirou o troco do bolso.

— Obrigado, Pregador. Tenha um bom dia. O Pregador fitou-o nos olhos.

— Sempre fomos amigos, Mike. Não poderia me contar o que está acontecendo por aqui?

Uma expressão constrangida insinuou-se no rosto de Mike.

— Não sei de nada, Pregador.

— Não vou falar com ninguém, Mike. Pode me contar. Mike olhou para um lado e outro da rua, antes de falar, quase num sussurro:

— É aquela história do Manson. Todo mundo está apavorado. E vocês estão vivendo lá no vale como a família dele.

— Mas eles sabem que não somos como Manson. Nunca tivemos qualquer problema. A queixa deve ter partido de alguém.

— Não sei, Pregador. Juro que não sei. Mas soube que os sermões em todas as igrejas no último domingo foram sobre os hippies e sua maneira pecaminosa de viver, com tóxicos, sexo e tudo o mais. Todos disseram que Manson foi uma conseqüência dessas coisas.

O Pregador respirou fundo e depois deixou o ar escapar lentamente. Era algo que deveria ter previsto. Fora repelido em todas as suas tentativas de fazer amizade com os ministros das igrejas locais.

— Obrigado, Mike. Fico muito grato por você ter-me contado.

A parada seguinte foi na agência dos correios, a fim de recolher a correspondência. Ele viu desta vez a placa de proibição de veículos de carga e deixou a pickup na rua. Entrou na agência e abriu a caixa postal com sua chave. Havia cerca de quinze cartas. Guardou-as no bolso da camisa e trancou a caixa. Percebeu que o funcionário o observava, por trás de seu guichê. O Pregador geralmente conversava com ele durante algum tempo. Desta vez, porém, o funcionário virou o rosto e fingiu estar ocupado, quando o Pregador olhou em sua direção. Este entendeu o recado e saiu sem dizer nada.

Sentou-se na pickup e começou a abrir a correspondência. Ficou olhando aturdido para a primeira carta. Estava escrita a lápis.

SAIAM COM A SUA SORDIDEZ DESTA CIDADE AGORA, ANTES QUE A GENTE APAREÇA POR LÁ E ACABE COM VOCÊS.

Não havia assinatura. O Pregador abriu rapidamente as outras cartas. Quase todas eram similares. E todas eram anônimas. Ele verificou o carimbo postal. Todas eram locais e haviam sido remetidas no dia anterior. Em silêncio, ele pôs as cartas no painel e ligou a pickup. Era difícil aceitar, mas parecia que, quase da noite para o dia, o mundo se tornara inteiramente diferente.

Olhou pelo espelho retrovisor ao entrar na estrada. Um carro da polícia virou a esquina e começou a segui-lo. O Pregador foi guiando com extrema cautela, cuidando de não violar qualquer regra de trânsito. Passou pelos limites da cidade e entrou na rodovia estadual que conduzia à comunidade. O carro da polícia continuou atrás dele, mesmo depois de ter passado pela placa que indicava o limite urbano. O Pregador seguiu em frente por mais dois quilômetros, depois entrou no acostamento e parou. O carro da polícia parou ao lado.

— Algum problema? — gritou o guarda na janela do seu lado.

O Pregador sacudiu a cabeça.

— Não.

— Então por que parou?

O Pregador fitou-o nos olhos. Eram guardas da cidade e não tinham jurisdição além do limite urbano.

— Pensei que vocês poderiam estar interessados em saber que estamos três quilômetros além do limite urbano.

O rosto do guarda ficou vermelho. Ele olhou para o motorista ao seu lado, depois novamente para o Pregador.

— Estávamos apenas esperando alcançar um lugar seguro para fazer a volta.

— Já alcançaram. Não há qualquer tráfego aqui. O guarda lançou-lhe um olhar furioso.

— O que você é? Um espertinho?

— Não, senhor — disse o Pregador, polidamente. — Apenas um cidadão tentando ser prestativo. Não gostaria que vocês tivessem algum problema com a patrulha rodoviária estadual. Devem saber como eles são zelosos de sua jurisdição.

O guarda fitou-o em silêncio por um longo momento, sem dizer mais nada, depois acenou com a cabeça para o motorista. O carro da polícia avançou mais alguns metros, fez uma curva em U e depois voltou para a cidade. O Pregador esperou até que eles desaparecessem, antes de partir novamente. Sentia-se um pouco melhor, mesmo sabendo que não fora absolutamente uma vitória.

Eles ainda estavam jantando quando ouviram os primeiros rugidos das motocicletas. O Pregador levantou-se de um pulo e foi até a porta, no instante em que a primeira pedra atingia a janela.

Quando ele saiu, as motocicletas já haviam dado a volta pela comunidade e tornavam a subir o morro, ruidosamente. À claridade tênue do crepúsculo que rapidamente se desvanecia, pôde avistar quatro motociclistas, de capacete branco, debruçados sobre as máquinas. As moças estavam passando pela porta quando ele se virou.

— Tornem a entrar — disse o Pregador. — Eles já se foram.

Ele entrou atrás delas no prédio. Ali Elijah entregou-lhe um bilhete.

— Estava enrolado na pedra.

O bilhete estava escrito em tinta preta: este é nosso ÚNICO AVISO. SAIAM ENQUANTO PODEM. NA PRÓXIMA VEZ A COISA SERÁ DIFERENTE.

O Pregador arriou na cadeira. Sentia-se subitamente exausto. Não havia saída, não podia fazer mais nada. Empurrou o bilhete para as moças, murmurando:

— Leiam. Há mais quinze mensagens parecidas no painel da pickup.

— O que isso significa, Pregador? — indagou Charlie. Ele sacudiu a cabeça.

— Exatamente o que diz. Não querem a gente por aqui.

— Se não podemos ficar, Pregador, para onde iremos?

— Não sei. Precisaremos de dinheiro em qualquer lugar que escolhermos, e tudo o que tenho está investido aqui.

Uma das moças começou a chorar.

— O que foi, Beth?

— Não vai nos mandar embora, não é mesmo, Pregador?

— Não quero fazer isso, mas não é seguro para vocês continuarem aqui.

— Conseguimos levantar um bom dinheiro em San Francisco — disse Charlie. — Se arrumarmos outro carro, podemos todos cair na estrada.

— Isso não vai mais dar certo. Tenho a impressão de que as atitudes em relação a nós mudaram em toda parte.

Não creio que as pessoas continuem a ser tão generosas como antes.

— Por causa de Manson? O Pregador assentiu.

— Em grande parte.

Charlie ficou calada por um momento.

— Há outras maneiras de ganharmos dinheiro. O Pregador fitou-a, sem dizer nada, esperando.

— Passei algum tempo com Moise David antes de vir para você — acrescentou Charlie. — As garotas arrumavam um bocado de dinheiro para ele.

— Moise David é um doente. Ele desvirtua a palavra de Deus para alcançar os seus fins diabólicos. Jesus nunca pediu que prostituíssemos nossos corpos por ele. Não podemos transformar a graça de Deus em lascívia, fornicação e busca de carne estranha. Se o fizermos, estaremos nos condenando à eternidade do inferno, não importa o quanto tentemos nos justificar.

— Mas temos feito amor e é muito bom.

— Porque a razão é amor e nenhuma outra. O que Moise David obriga suas seguidoras a fazer é outra coisa. — O Pregador fez uma pausa. — Estamos todos cansados. Por que não tentamos descansar um pouco? Amanhã, quando nossas mentes estiverem revigoradas, talvez possamos encontrar uma solução.

Charlie olhou para as outras moças e depois novamente para o Pregador.

— Não importa o que venha a decidir, Pregador, não se esqueça de uma coisa: nós o amamos.

— E eu amo todas vocês.

Ele ficou observando-as se retirarem, até que finalmente ficou a sós com Ali Elijah. O Pregador olhou para ele e murmurou:

— Não é fácil.

— O que você vai fazer?

— Não tenho opção. Preciso encontrar um lugar em que elas possam ficar e despachá-las.

Elijah fitou-o atentamente.

— Não precisa fazer isso. Ainda há uma maneira pela qual pode manter a comunidade unida.

— Como?

— Se não pode vencê-los, junte-se a eles. Mas isso significa que você terá de mudar toda a sua imagem. Corte os cabelos, faça a barba, volte ao meio do caminho. Poderá então sair por aí pregando o Evangelho, exatamente como os pregadores do rádio e televisão. Pode oferecer um espetáculo sensacional, com as dez garotas de vestidos brancos transparentes de pé ao seu redor, enquanto faz uma pregação veemente contra o pecado.

— Não é tão fácil. Isso também exigiria dinheiro.

— Bárbara... isto é, Beverly, poderia emprestar. Ela está com uma mala cheia de dinheiro na sua casa.

— Eu não poderia fazer isso. Ali Elijah riu.

— Por que não? Ainda estaria transmitindo a palavra de Deus às pessoas. Não é isso o que você quer?

O Pregador não respondeu.

— Faça isso, Pregador. Sou o primeiro convertido. Retomarei o meu próprio nome, Joe Washington. E esquecerei toda aquela história dos muçulmanos negros. Cara, será como nascer outra vez.

— Está falando sério?

— Claro que estou, Pregador. Tenho certeza de que Deus não tenciona que isso possa detê-lo. Não depois que lhe deu tanta garota gostosa para ajudá-lo a divulgar Seu Evangelho.

 

Exatamente às quatro horas da tarde, o Mercedes preto parou diante da barraca evangélica. O guarda-costas saltou do seu lugar ao lado do motorista e abriu a porta do passageiro. Jake Randle empurrou a mão estendida do homem e saltou do carro sem qualquer ajuda. Andando devagar, apoiando-se em parte na bengala de ébano com castão de ouro, ele foi até a entrada da barraca.

Do outro lado, Joe fez o sinal combinado. No mesmo instante, duas das moças de vestidos brancos compridos adiantaram-se para conduzir o velho ao seu lugar. Houve primeiro um silêncio e depois sussurros espalharam-se pela multidão. Jake Randle. Jake Randle. Para muitos, era a primeira vez que viam o homem cujo nome era o da cidade em que viviam.

Em silêncio, todos ficaram observando-o avançar lentamente pelo corredor até o banco que lhe fora reservado. Sabiam agora por que ninguém tivera permissão para sentar ali. Por mais estranho que pudesse parecer, não havia ressentimento em ninguém, apenas uma compreensão tácita. Era um direito dele. Randle foi para o meio do banco e sentou-se, sem olhar ao redor. As moças deram-lhe um programa sem pedir a contribuição. Ele o pôs no banco ao seu lado, sem olhar. O guarda-costas foi sentar-se na extremidade do banco, bem longe.

Lentamente, Randle tirou o chapéu e o pôs também no banco, deixando à mostra uma vasta cabeleira branca. Olhou para a plataforma. A fotografia imensa do Pregador o fitava fixamente, as palavras Jesus quer você pareciam tremeluzir aos reflexos da luz. Da plataforma vazia, os olhos dele desviaram-se para os barris grandes de madeira, com batoques dourados, sobre pedestais, cinco em cada lado da plataforma. No instante seguinte, um clangor de trombetas e um ressoar de tambores saíram pelo sistema de som. Os olhos de Randle se desviaram, acompanhando um facho de luz ao lado da barraca.

A lona foi levantada, revelando o Pregador, sozinho, sob a luz do refletor, usando uma batina preta com um colarinho branco por cima do terno, com os cabelos castanho-claros impecavelmente escovados, o rosto pálido e sereno, tendo na mão uma Bíblia branca, encadernada em couro, com letras douradas. O ressoar dos tambores continuou. Depois de um momento, o Pregador avançou lentamente para a plataforma. Parou e pôs a Bíblia no pódio, no instante em que o ressoar dos tambores terminava. Ele correu os olhos pela congregação, em silêncio. Uma voz sonora e profunda saiu pelos alto-falantes:

— Sejam bem-vindos, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, à Igreja da Comunidade de Deus da América Cristã Triunfante. O Reverendo C. Andrew Talbot, pastor.

Houve um farfalhar de roupas e movimentos, enquanto a congregação se acomodava nos assentos da melhor forma possível, a fim de esperar o sermão. O Pregador contemplou-os por um longo momento, antes de começar a falar. Sua voz finalmente saiu pelos alto-falantes, firme e forte, mas com um ligeiro sotaque do sudoeste, que fazia com que todos o reconhecessem como um dos seus.

— Somos todos pecadores!

Ele tinha agora a atenção total da congregação. Havia um silêncio total, as pessoas esperavam que ele continuasse.

— Vocês me olham e indagam: "Como eu posso ser um pecador? Não compareci aos serviços da minha igreja esta manhã mesmo? Não escutei o meu bom pastor pregar a palavra de Deus?"

O Pregador fez outra pausa.

— Claro que escutaram. Mas o simples comparecimento aos serviços do Senhor no sabá não é suficiente. Sondem bem fundo as suas almas. Pensem nos dias que passaram e nos dias que virão. Podem sinceramente dizer que estarão a salvo da ira de Deus quando Ele descarregá-la dos céus sobre todos os ímpios e iníquos?

"Podem dizer que não repeliram Deus, entregando-se ao pecado pelos desejos de seus corações, desonrando seus próprios corpos pela fornicação, maldade, cobiça, hipocrisia, inveja e outras invenções do diabo... sodomia, felação, cunilíngua e homossexualismo?

"Podem dizer que não são culpados de intemperança, da busca ávida de prazeres pessoais e físicos, de lucros ou bens que não lhes pertencem por direito? Ou simplesmente que não desejaram no fundo de seu coração as coisas a que não têm direito?"

Ele fez uma nova pausa, seus olhos correram pela multidão.

— E eu lhes digo: se houver um só homem entre vocês que possa se adiantar e declarar que não é culpado desses pecados, então poderei afirmar que todos estão salvos.

Outra pausa. O silêncio era absoluto. Ninguém se mexia. O Pregador respirou fundo. A voz tornou a sair pelos alto-falantes, com uma intensidade ainda maior.

— Então lhes direi as mesmas palavras que Paulo, o Apóstolo, disse aos romanos: "Não estou envergonhado do Evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para a salvação de todos os que crêem".

"Este será o tema da minha mensagem para vocês hoje. Os problemas da América não ocorrem porque Deus nos virou as costas, mas sim porque nós viramos as costas a Ele. Este país foi criado em nome dele e só vamos recuperar a nossa força e determinação quando trouxermos o nome dele de volta. Essa é a razão da Igreja da América Cristã Triunfante. Trazer de volta aos Estados Unidos da América as bênçãos de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo!"

Começou como um murmúrio e transformou-se num terremoto de aprovação. O som reverberou contra o toldo.

— Amém!

O Pregador tornou a correr os olhos pela congregação. Nenhum indício do que ele sentia transparecia em seu rosto. Mas ele os dominava, e sabia disso. Os rostos estavam levantados em sua direção, aguardando ansiosamente as próximas palavras.

— O demônio está em vocês! E onde estarão, no dia em que o Redentor vier buscar nossas almas? E podem estar certos de que esse dia se aproxima, não está muito distante. Irão com Jesus para o paraíso e ficarão com Ele diante do trono de Deus? Ou o demônio irá levá-los para o fogo eterno do inferno? Somente vocês próprios podem decidir!

Dramaticamente, ele levantou os braços e olhou para cima.

— Ó Jesus misericordioso, ajude-me a mostrar o Seu caminho a esses pecadores que estão à minha frente. Ajude-me, ó bem-aventurado Jesus!

A audiência gritou ainda mais alto dessa vez, sem perceber que estava sendo levada e amplificada por uma fita gravada anteriormente e irradiada pelo sistema de som.

— Amém! Louvado seja o Senhor!

Por mais de trinta minutos, ele gritou, censurou, amaldiçoou e ameaçou com as mais terríveis imagens do inferno a que estariam condenados, até que todos estivessem reduzidos a um estado quase apavorado de abnegação. Ele parou abruptamente; seu rosto e seus cabelos brilhavam com o suor, o colarinho estava aberto e úmido. Em silêncio, o Pregador contemplou-os por um longo tempo.

— Vou descer entre vocês, pois em alguns vejo o demônio mais do que em outros. Vou descer entre vocês em nome de Jesus Cristo e com Ele ao meu lado vou batalhar com o demônio por suas almas.

Todos ficaram observando, num silêncio apavorado, enquanto ele descia lentamente os degraus da plataforma. O Pregador avançou devagar pelo primeiro corredor, olhando atentamente para cada rosto. Acabou parando e apontou um dedo para um rapaz, que parecia estar tentando se fazer invisível.

— Você! Venha até aqui!

O rapaz sacudiu a cabeça, dominado pelo medo.

— Não.

O Pregador inclinou-se e literalmente puxou o rapaz do banco. Obrigou-o a ficar de joelhos à sua frente.

— Confesse! Confesse que pecou!

O rapaz sacudiu a cabeça. Tentou freneticamente desvencilhar-se do Pregador. Mas estava seguro com firmeza.

— Confesse! — gritou o Pregador. — Confesse!

Ele começou a esbofetear o rapaz, primeiro numa face, depois na outra.

— Saia, demônio! Abandone este pecador! Saia! Deixe que os lábios dele pronunciem as palavras de sua redenção!

O rapaz começou a tremer, quase espasmodicamente. Parecia estar tentando falar, mas apenas saliva saía de sua boca.

— Demônio! Solte esta língua!

O Pregador deu outro bofetão no rapaz; derrubou-o, deixando-o quase inconsciente. O Pregador não hesitou. Ajoelhou-se sobre o rapaz e obrigou-o a ficar de pé outra vez. A cabeça do rapaz pendia sobre os ombros.

— Confesse!

O rapaz caiu de joelhos e levantou as mãos num gesto de súplica.

— Eu confesso! Eu confesso, Jesus, eu confesso! Perdoe-me, pois tenho pecado! Tomei uísque e fumei maconha, fui para a cama com mulheres! Conspurquei meu corpo e minha alma! Perdoe-me, Jesus misericordioso!

Ele levou as mãos ao rosto e cobriu-o, com o corpo sacudido pelos soluços. Triunfante, o Pregador correu os olhos pela congregação. Depois, levantou o rapaz gentilmente e começou a empurrá-lo pelo corredor entre os bancos.

— Deixe-me lavá-lo e purificá-lo com as águas sagradas trazidas do rio Jordão a um grande custo, a fim de que você possa ingressar novamente na Comunidade de Deus e apresentar-se a seu Salvador com as mãos limpas!

Ele parou diante de um dos barris. Fez o rapaz ficar de joelhos e gesticulou para uma das moças de vestido branco comprido, que prontamente se adiantou e puxou o batoque.

A água escorreu. O Pregador estendeu a mão por baixo e começou a lavar o rosto do rapaz. Depois, pegando um pouco de água na mão em concha, despejou-a sobre a cabeça do rapaz.

— Com esta água sagrada do rio Jordão, eu o batizo uma vez, em nome do Senhor... — outro punhado de água — em nome de Jesus Cristo, o filho... — outro punhado de água —, e em nome do Espírito Santo. Amém.

A congregação explodiu junto com ele:

— Amém!

O Pregador levantou o rapaz.

— E agora, meu jovem, repetindo as palavras de Nosso bem-aventurado Salvador Jesus Cristo, vá e não peque mais!

Ele ficou parado ali, enquanto duas moças conduziam o rapaz para a entrada lateral da barraca e deixavam-no sair. O Pregador virou-se outra vez para a congregação.

— Agora, quais entre vocês vão se apresentar para lavar suas mãos e serem batizados com a água sagrada do rio Jordão? Ou devo voltar e arrastar cada um, voluntariamente ou não, para a salvação?

Houve um momento de silêncio e depois um homem se levantou lá no fundo.

— Eu irei, irmão Talbot!

Outro homem se levantou em seguida, depois uma mulher. E, subitamente, os corredores estavam apinhados de pessoas a caminho da salvação. O Pregador subiu os degraus da plataforma e foi para o pódio. Sua voz ressoou pelo sistema de alto-falantes:

— Vocês estão se purificando na mesma água do sagrado rio Jordão em que outrora se lavou Nosso Senhor Jesus Cristo. Como eu já disse, a água foi trazida a um grande custo. Assim, usem comedidamente, pois não há muita. E aqueles que quiserem contribuir para trazermos mais água sagrada da salvação para outros que se seguirão, podem colocar cinco dólares ou mais, se quiserem, na pequena caixa ao lado de cada barril. Nossas santas assistentes irão agradecer-lhes, assim como eu agradeço, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo. E devo acrescentar que metade do dinheiro recebido aqui neste dia será entregue à Primeira Igreja Batista de Randle, Texas, dr. John Lydon, pastor, a cujo convite estamos aqui para pregar o Evangelho.

O Pregador desceu da plataforma e passou a apertar a mão de cada pessoa, depois que se purificava na água e saía da barraca. Levou mais de uma hora até que toda a congregação saísse. Só uma pessoa ficou: Jake Randle, ainda sentado em seu banco solitário, com as mãos sobre o castão de ouro da bengala, observando o Pregador.

O Pregador sustentou o olhar dele sem dizer nada.

Depois de um momento, o velho levantou-se para caminhar pelo corredor. O Pregador chamou-o:

— Não vai se adiantar e lavar as mãos na água sagrada, sr. Randle? Ou está tão livre do pecado que não precisa?

O velho virou-se, sempre apoiado na bengala, fitou-o nos olhos. E disse, com a voz rouca:

— É um impostor, sr. Talbot. Não há água sagrada do rio Jordão nesses barris, assim como não há mais água no córrego ressecado lá atrás.

— Se acredita nisso, sr. Randle, então poderá vir comigo por um momento?

O velho fitou-o atentamente, hesitou por um instante e depois acenou com a cabeça. O Pregador saiu lentamente da barraca. Por trás dele, as moças já estavam recolhendo as caixas de coleta e levando-as para o furgão, onde o dinheiro seria contado.

Em silêncio, o Pregador e o velho, seguidos pelo guarda-costas, foram até a margem do córrego. O velho ficou olhando fixamente, a princípio incrédulo, depois espantado. O córrego estava cheio pela metade; a água corria, faiscante, na direção das plantações. Jake Randle olhou para o Pregador.

— É um milagre — murmurou ele, com a voz rouca. O Pregador sacudiu a cabeça.

— Não, sr. Randle, não é um milagre. À uma hora desta tarde, as comportas foram abertas pela primeira vez na represa do vale do rio Pecos. A água deveria chegar aqui por volta das quatro horas.

Jake Randle ficou em silêncio por um momento. Quando falou, havia um novo respeito em sua voz:

— Quer jantar comigo esta noite, sr. Talbot?

— Reverendo Talbot.

— Onde recebeu sua ordenação?

— Na Escola Superior da Unidade Cristã, em Sioux Falls.

Randle fitou-o com uma expressão maliciosa.

— É um curso por correspondência.

— É possível. Mas é uma escola cristã legítima. Randle assentiu.

— Está bem, reverendo Talbot. Quer jantar comigo às oito horas desta noite?

— Se mandar o seu carro me buscar, sr. Randle, terei o maior prazer.

 

Ele saiu do boxe do chuveiro no veículo, pegou uma toalha e começou a se enxugar. A voz de Charlie soou do outro lado da cortina que separava o banheiro.

— Quer puxar um fumo?

— Bem que estou precisando de alguma coisa. Sinto-me completamente esgotado.

Ela abriu a cortina e entrou no banheiro. Ainda usava o vestido branco comprido. Ele pegou o baseado que ela estendia e pôs na boca. Charlie acendeu-o. Ele deu uma tragada funda e sacudiu a cabeça.

— Ah, como é bom... Ela sorriu.

— Nada além do melhor. Vire-se, Pregador. Vou enxugar-lhe as costas.

Charlie pegou a toalha, enquanto ele se virava.

— O que está acontecendo agora, Charlie?

— Tarz e Beverly estão contando o dinheiro, enquanto os outros estão fazendo a limpeza.

O Pregador aproximou-se de uma pequena janela e olhou. A barraca já estava desmontada e os homens enrolavam as lonas nas estacas. Os bancos estavam sendo levados de volta ao caminhão. Ele deu outra tragada e tornou a virar-se para Charlie.

— Já chega. Estou me sentindo bem agora. Ela fitou-o nos olhos.

— Nem comecei.

O Pregador riu, recuperando a toalha.

— Não seria nada conveniente se eu aparecesse para jantar no rancho do velho Randle completamente apagado.

— Não sei por que está perdendo tempo com esse homem. Ouvi dizer que ele é tão sovina que não abre a mão nem para dar bom-dia.

— Quando soube disso?

— Um dos homens que passa bandeja na igreja me contou. Quando ele aparece para o serviço, o que não acontece com muita freqüência, dá apenas um dólar de prata.

O Pregador riu.

— Combina com ele.

— Então por que vai ao jantar?

— Acho que por curiosidade. Além do mais, ele me convidou. Deve ter uma razão para isso. — O Pregador enrolou a toalha na cintura. — Vamos ver como estão as coisas.

Charlie deu uma tragada rápida, depois apagou cuidadosamente o baseado e seguiu-o para os fundos do veículo. Tarz e Beverly estavam sentados à mesa, com o dinheiro meticulosamente empilhado à frente deles. Beverly levantou os olhos para o Pregador.

— Conseguimos quatro mil cento e dezesseis dólares. Ele soltou um assovio baixo.

— Está ótimo!

— Mais do dobro do que em qualquer outra ocasião anterior.

— Por que terá sido?

A voz de Joe soou atrás dele:

— Você lhes deu o que eles querem, para variar. Essa gente não está querendo a mesma conversa mole de seus pregadores. Querem ficar com o maior cagaço do fogo do inferno e da danação eterna.

O Pregador virou-se para ele.

— Acredita mesmo nisso?

— Claro que acredito. Não observou a cara deles? Pois eu fiquei observando. Quando você começou a bater em Tarz, eles adoraram cada minuto. Para eles, você estava enchendo o demônio de porrada.

— E meus dentes ainda estão doendo para confirmar isso — comentou Tarz. — Fico contente por saber que não vai ser preciso fazer isso todas as vezes.

— Desculpe — disse o Pregador prontamente. — Não tive a intenção de machucá-lo.

Tarz riu.

— Não estou me queixando. Por todo esse dinheiro, valeu a pena.

Joe limpou a garganta e olhou para Beverly.

— Quer contar a ele ou prefere que eu fale?

— Eu direi. — Beverly olhou para o Pregador. — Estivemos conversando. Achamos que você não deve dar à igreja local mais de quatrocentos dólares.

O Pregador sacudiu a cabeça.

— Prometemos a metade.

— Eles não vão saber a diferença — disse Joe. — Charlie descobriu que eles não conseguem nem mesmo duzentos dólares nas coletas de domingo. Vamos lhes dar duas vezes mais. Eles ficarão felizes como porcos na merda.

— Não é honesto — insistiu o Pregador.

— Também não é honesto deixar de pagar os homens por seu trabalho. Acho que devemos mais à nossa própria gente do que aos outros. Afinal, eles nada fizeram para nos ajudar. Pagamos tudo diretamente, o aluguel, o gás, a eletricidade. Os quatrocentos dólares serão mais do que suficientes para eles.

O Pregador ficou calado.

— Se concordar, Pregador — disse Beverly —, poderemos pagar aos nossos homens os salários desta semana e mais uma semana dos atrasados. E ainda sobrará alguma coisa.

— Assim, todos ficarão felizes — disse Joe. — Não se esqueça de quanto vai nos custar esta semana. A próxima reunião será na quinta-feira. Isso significa que teremos quatro dias sem entrar qualquer dinheiro.

O Pregador olhou para eles, pensativo.

— Deixe-me pensar. Só vamos sair daqui amanhã. Darei a resposta pela manhã.

Ele foi para a frente do veículo e puxou a cortina que a separava do resto. Puxou o beliche para baixo e se deitou. Pôs as mãos atrás da cabeça e ficou olhando para o teto. Dinheiro. Por que tudo sempre acabava em dinheiro?

A cortina farfalhou e ele virou-se para ver Charlie passar. Ela sentou-se ao pé do beliche.

— Está muito tenso, Pregador. Dá para se perceber. Talvez esteja precisando puxar mais um pouco de fumo.

Ele sacudiu a cabeça.

— É melhor não.

— Eles estão certos, Pregador. Ele não disse nada.

— Sei que não é da minha conta — acrescentou Charlie. — E pode estar certo de que as meninas não estão se queixando. Mas sei que elas não estão se sentindo muito felizes. Não é apenas o dinheiro, mas sim o fato de que não nos divertimos mais como antes. Estamos sempre correndo de um lugar para outro, não temos chance de ficar num lugar por tempo suficiente sequer para ir a um cinema. E não podemos fumar, beber ou nos divertir como antes, porque estaremos perdidos se nos pegarem. Acima de tudo, sentimos falta de sua companhia. À noite, você sempre fica sozinho aqui, nunca pede a uma de nós para lhe fazer companhia.

— Não se pode pregar uma coisa e ser outra.

— Não estamos dizendo que você deveria fazer isso. Mas também não somos santas. O que você faz quando fica com tesão? Bate uma punheta?

O Pregador fitou-a fixamente, sem dizer nada.

— Desculpe, Pregador. Não quis ofendê-lo.

— Não foi nada.

As lágrimas começaram a escorrer pelas faces de Charlie.

— Por que eles tinham que nos expulsar da comunidade, Pregador? As coisas eram maravilhosas quando estávamos lá.

Ele pegou-lhe a mão.

— Não sei, Charlie. Mas tenho certeza de que Deus tinha os seus motivos para que isso acontecesse. Talvez fosse a maneira de Ele nos testar.

— Não é justo, Pregador, não é justo...

Ela inclinou-se subitamente e beijou-lhe os genitais expostos, depois se levantou e foi para a cortina.

— Não se esqueça, Pregador, de que nós o amamos. Ela se foi, antes que ele pudesse dizer qualquer coisa.

O Pregador continuou deitado por mais um momento, depois sentou-se. Eram quase sete horas e teria de se vestir. O carro do velho não deveria demorar.

O carro preto e grande percorreu os sessenta e cinco quilômetros do caminho em trinta minutos, desde o momento em que saíram da cidade até passarem pelo velho portão de madeira em arco, onde se liam as palavras rancho randle, gravadas com um ferro em brasa. De lá até a casa imensa havia mais três quilômetros.

Olhando pela janela, a caminho da casa, o Pregador avistou a pista de pouso e o hangar. Três jatos pequenos, dois helicópteros e um Cessna bimotor estavam no campo. Também ali, como já acontecera no portão, um guarda armado, de uniforme, saiu de uma pequena casa para olhar o carro que passava, com o chapéu de cowboy de aba larga puxado sobre o rosto. Menos de um quilômetro adiante, chegaram a uma cerca branca que contornava a casa. Havia um portão e outro guarda, que foi abri-lo para que o Mercedes passasse.

Não estavam mais avançando pelas pradarias. Havia ali um jardim de deserto, cuidadosamente projetado, com arbustos, cactos, árvores e flores, e um lago artificial que terminava quase junto ao gramado na frente da casa. O carro parou diante da casa. O Pregador olhou pela divisória de vidro que o separava do motorista e do guarda-costas. Os dois estavam imóveis, sem virar a cabeça para olhá-lo, sem sequer lhe falar, como havia acontecido durante todo o percurso. Um homem desceu os degraus da casa e abriu a porta do carro.

Era alto, usava calça listrada, casaca, colarinho branco engomado e gravata-borboleta. Fez uma pequena reverência ao abrir a porta do carro, dizendo, com um ligeiro sotaque britânico:

— Seja bem-vindo ao Rancho Randle, reverendo Talbot. O Pregador saiu do carro.

— Obrigado.

O mordomo gesticulou.

— Por aqui, senhor.

O Pregador subiu os degraus para a porta na frente dele. Outro homem abriu a porta e fechou-a depois que eles passaram. O Pregador piscou, aturdido. Era um vestíbulo espetacular. O teto de vigas e as paredes revestidas de madeira em estilo rústico contrastavam incongruentemente com o chão de mármore, de placas pretas e brancas irregulares. O lustre de cristal cintilante combinava mais com um palácio europeu do que com um rancho texano.

— O sr. Randle e os outros convidados estão na biblioteca — disse o mordomo.

O Pregador assentiu. Estava satisfeito agora por ter posto o seu terno escuro, a camisa branca e a gravata preta, além das botas pretas de verniz. Ele parou por um momento diante de um espelho. Sua aparência era boa. Na lapela, tinha um alfinete com a bandeira americana, com uma cruz por cima, o que não fazia mal algum. Combinava patriotismo com religião, o que redundava em respeitabilidade. O mordomo abriu uma imensa porta de madeira.

A biblioteca era vasta, com prateleiras de carvalho nas paredes, cheias de livros encadernados em couro. Cobriam três lados da sala. Portas de vidro corrediças, do chão ao teto, cobriam o quarto lado. Os móveis eram pesados, maciços, sofás de couro escuro, poltronas iguais, mesas de madeira mexicanas. Uma escrivaninha grande, com três telefones e uma cadeira imensa, estava no outro lado da sala. Havia no canto um aparelho de telex, cujo matraquear discreto servia como música de fundo para a conversa na sala. Três homens estavam de pé diante da poltrona que Jake Randle ocupava. Havia duas mulheres sentadas em poltronas na frente dele. No meio, o fogo ardia intensamente na lareira, afugentando o frio da noite. O velho não se levantou. Estendeu a mão e disse:

— Reverendo Talbot.

— Sr. Randle.

O aperto de mão do velho era firme e forte. Randle virou-se para os outros.

— Este é o jovem de quem eu estava falando. Reverendo Talbot, quero apresentá-lo a alguns dos meus amigos e associados que vieram de avião de Dallas e Houston, especialmente para conhecê-lo.

O Pregador fitou-o. Não deixou que a surpresa transparecesse em seu rosto.

— É uma honra conhecer seus amigos, sr. Randle. O velho acenou com a cabeça.

— Primeiro, o homem grande ao seu lado, Dick Craig, presidente da Americanos para uma Vida Melhor. Ao lado dele, John Everett, presidente da Everett & Singer, empresa de relações públicas. O outro cavalheiro é Marcus Lincoln, presidente da Randle Communications. Possuímos e operamos cinco emissoras de televisão em grandes cidades e mais de cento e trinta emissoras de rádio espalhadas pelo país. Antes de o ano terminar, teremos o nosso próprio satélite em operação.

O Pregador apertou a mão de cada homem, murmurando o nome, a fim de não esquecê-lo. Virou-se de novo para o velho, com uma expressão inquisitiva.

— Finalmente, mas nem por isso menos importantes, as duas senhoras. Na poltrona à sua esquerda, a sra. Helen Lacey, presidente do Conselho de Mulheres Cristãs.

O Pregador inclinou-se sobre a mão da mulher de meia-idade, de cabeça prateada.

— Sra. Lacey.

O olhar dela era avaliador, a voz era fria:

— Reverendo Talbot.

— A dama à direita é a srta. Jane Dawson, vice-presidente executiva da Randle Computer Services. Não deixe que o rostinho bonito dela o engane. É um dos gênios matemáticos dos nossos tempos.

O Pregador sorriu ao pegar a mão dela.

— Estou impressionado, srta. Dawson. Nunca fui capaz de somar uma coluna de números e encontrar duas vezes o mesmo resultado.

A jovem riu.

— Então é evidente, reverendo Talbot, que está precisando de um computador pessoal.

Ele acenou com a cabeça, sorriu e tornou a virar-se para Randle.

— Não esperava encontrar companhia tão distinta.

— Foi uma idéia de última hora — disse Randle. — Gostaria de tomar um drinque antes do jantar? Temos um excelente bourbon.

O Pregador sacudiu a cabeça.

— Não, obrigado. Randle fitou-o atentamente.

— Uma questão de temperança?

— Não. Apenas não suporto muito bem as bebidas mais fortes. Mas tomarei um copo de vinho tinto, se tiver.

— Bordeaux ou Borgonha? O Pregador riu.

— Infelizmente, isso está além do meu alcance. Gallo ou Christian Brothers é mais o meu estilo.

Randle soltou uma risadinha.

— Bordeaux. Tenho certeza de que vai gostar. Não existe nada melhor que um bom clarete. Além do mais, vai combinar com o jantar.

O jantar foi descontraído. A maioria das conversas, sempre iniciadas pelo velho, era relacionada com as atividades do Pregador. Quando o jantar terminou, Randle já sabia que havia vinte e uma pessoas envolvidas na troupe evangélica, que havia em média três reuniões por semana, e que mal conseguiam angariar o suficiente para as despesas. Depois do jantar, eles voltaram à biblioteca para o café.

Conhaque e charutos foram distribuídos e todos os homens aceitaram, com exceção do Pregador. Ele e as mulheres acenderam cigarros. A mulher mais velha também tomou um conhaque.

Randle estava de volta à poltrona diante da lareira. Olhou para o Pregador.

— Imagino que esteja querendo saber por que tudo isso, não é mesmo?

O Pregador assentiu.

— Tenho de admitir que estou curioso.

— Desde esta tarde que venho fazendo uma pequena verificação a seu respeito.

Ele pegou uma pasta de arquivo numa prateleira de revistas ao lado da poltrona e abriu-a. Pegou uma folha de papel e estendeu-a para o Pregador.

— É a sua biografia completa. Dê uma olhada e me diga se está essencialmente correta.

O Pregador leu rapidamente. Onde quer que o velho houvesse obtido as informações, a verdade é que fora meticuloso. Ali estava tudo. Os pais, escolas, serviço militar, baixa, a Comunidade de Deus, o início do movimento evangélico. Ali estava registrado até o dinheiro que investira na propriedade de Los Altos, que ainda possuía, e o investimento nos equipamentos para as reuniões evangélicas. Devolveu a folha ao velho.

— Está tudo correto.

Jake Randle olhou para os outros.

— Creio que provavelmente encontramos o homem que estávamos procurando. Ele é jovem, está com trinta e quatro anos, é veterano do Vietnam, foi ferido em ação, teve uma baixa honrosa, Purple Heart, quase quatro anos de serviço. Dedicou-se a atrair os jovens para Cristo desde que deixou o exército, primeiro com uma comunidade religiosa; depois, como isso não fosse amplo o bastante, resolveu pregar o Evangelho pelas estradas, a fim de alcançar o maior número possível de pessoas. Tem boa aparência, é um americano típico, solteiro. As mulheres vão se apaixonar, enquanto os homens reagirão à sua aparência de força. Creio que devemos aprofundar as discussões com esse jovem, a fim de descobrirmos se ele pode de fato atender às nossas necessidades e se possui realmente as mesmas convicções que nós.

O Pregador interveio:

— Um momento, por favor, sr. Randle. Não estou entendendo absolutamente nada.

Jake Randle virou a cabeça para fitá-lo.

— Estamos procurando um líder religioso que possa reunir a América.

O Pregador sacudiu a cabeça.

— Por que eu? Há outros muito mais conhecidos... homens que já têm uma reputação firmada, incontáveis seguidores e muita influência. Billy Graham, Jerry Falwell, Oral Roberts, Rex Humbard, até mesmo o jovem James Robison. Comigo, seria necessário começar do ponto de partida. Ninguém me conhece.

Os olhos de Randle se encontraram com os dele.

— É justamente essa a sua vantagem. Podemos fazer com que se torne tudo o que quisermos. Temos o dinheiro e a máquina. Tudo depende de verificar se pensamos da mesma forma.

O Pregador ficou calado.

— Todos esses homens de que falou são ótimos — continuou Randle. — Mas estão absorvidos em suas próprias atividades, grandes negócios, que faturam de vinte a trinta milhões de dólares por ano. Eles não têm motivação para se envolver com ninguém mais, pois poderiam perder o controle de seus próprios negócios. Além disso, achamos que o povo americano está pronto para alguém novo. De certa forma, é como o show business. A cada ano, a televisão lança um novo astro. Creio que a religião está precisando muito da mesma coisa.

O Pregador continuou calado. Marcus Lincoln, da Randle Communications, apressou-se em dizer:

— Deve compreender, reverendo Talbot, que teremos de levar em consideração outros fatores além de suas qualificações. Precisaríamos fazer alguns testes de vídeo e pedir ao pessoal de pesquisa que determinasse o seu grau de atração. Às vezes, as melhores pessoas não ficam bem na televisão.

— É verdade — disse Everett, o homem de relações públicas. — Teríamos de verificar como se comporta com textos preparados, de improviso, como controla a imprensa, se possuí— agilidade mental.

O Pregador olhou de um para outro, lentamente.

— Sinto-me profundamente lisonjeado com toda essa atenção. O que estão me dizendo é fascinante. Mas, até agora, ninguém mencionou o que mais me interessa.

— E o que é, reverendo Talbot? — indagou Randle. O Pregador fitou-o nos olhos.

— Deus. Onde Ele se enquadra em tudo isso?

 

O velho fitou-o atentamente e sua voz tornou-se um tanto sarcástica:

— Quer saber onde Deus entra nisso tudo, meu rapaz? Pois vou lhe dizer.

Ele se levantou, apoiando-se na bengala de castão de ouro. Gesticulou para a janela, antes de continuar:

— Há muitos anos, quando eu era pequeno, andava todas as manhãs por quase sete quilômetros, até a escola que ficava lá na estrada. E sabe qual era a primeira coisa que fazíamos todas as manhãs, quando a escola abria? Fazíamos o juramento de fidelidade.

Ainda apoiado na bengala, ele pôs a mão direita sobre o coração. A voz tornou-se mais forte.

— Juro fidelidade à bandeira dos Estados Unidos da América e à república que representa, uma nação voltada para Deus, indivisível, com liberdade e justiça para todos.

Ele ficou em silêncio por um momento, depois tornou a arriar na poltrona.

— Uma nação voltada para Deus. Sabia que há esquerdistas e liberais querendo que essas palavras sejam suprimidas de nossas escolas? Sendo assim, é de admirar que tenhamos perdido no Vietnam? É de admirar que nossos jovens estejam afundados em tóxicos, álcool e sexo, com uma total falta de respeito por seus pais e pelo país?

"Não, não é. Eles têm acompanhado os intelectuais e inocentes úteis do leste desde que Franklin Roosevelt iniciou um processo de entrega das riquezas desta nação aos preguiçosos deste país, que preferem o bem-estar ao trabalho, e ao resto do mundo, inclusive a Rússia soviética, cuja única ambição é nos dominar e destruir, como já conseguiram fazer com mais da metade do mundo.

"Eu estava com trinta anos quando Roosevelt foi eleito e ainda me lembro das palavras de meu pai quando ouvimos a notícia pelo rádio: “É o começo do fim, meu filho. Primeiro, vão paralisar nosso dinheiro e arrancar tudo através de impostos. Depois, vão nos levar à guerra, exatamente como Wilson fez, a fim de libertar o mundo para a democracia. E depois que tudo terminar, Roosevelt e os outros vão entregar tudo o que temos”.

"Foi exatamente o que aconteceu e vem acontecendo desde então. Mas agora chegou o momento de os americanos cristãos, de pensamento justo, recuperarem o seu próprio país. Devemos ter o direito de dizer se gostamos ou não do que está acontecendo. Devemos retomar os nossos padrões de temor a Deus e parar de nos empobrecer em benefício dos vermelhos, judeus e negros. Eu não quero ver tudo por que tanto trabalhei desaparecendo nas mãos de pessoas assim."

Ele parou de falar, meio sem fôlego, e olhou para os outros. Todos assentiram e murmuraram sua aprovação. Ele tornou a virar-se para o Pregador.

— Fui bastante claro, meu rapaz?

— Muito claro.

— E o que você acha?

O Pregador ficou pensativo por um momento.

— Quais eram aqueles vinhos que mencionou assim que cheguei aqui?

— Bordeaux e Borgonha.

— Parece-me, senhor, que é como um homem chorando com uma garrafa de vinho debaixo de cada braço. E vinho importado, diga-se de passagem. Como já disse, não sou muito bom em aritmética, mas estou disposto a apostar que tem hoje cem ou talvez quinhentas vezes mais do que possuía no tempo em que seu pai lhe disse aquelas palavras. Sendo assim, é difícil para mim compreender direito do que está reclamando. Fiz apenas uma pergunta simples: Onde Deus entra em tudo isso? E o senhor não me respondeu.

Houve silêncio na sala; todos olhavam para o velho. Ele não desviou os olhos do Pregador, permanecendo calado por um longo tempo.

— Está querendo me dizer que sou cheio de merda, reverendo Talbot? — perguntou ele finalmente, num tom enganadoramente suave.

A voz do Pregador estava igualmente suave:

— Foi o senhor quem disse isso, sr. Randle, não eu. O velho desatou a rir inesperadamente.

— Uma coisa não posso negar, meu rapaz: você tem coragem e capacidade de iniciativa.

O Pregador ficou calado. Randle virou-se para os outros.

— Eu estava certo. Este é o homem que estávamos procurando. Ele não se deixa levar por qualquer coisa além daquilo em que acredita. E ele acredita em Deus e no país.

— Ele tornou a virar-se para o Pregador. — Falei certo, reverendo?

— Falou, sim, senhor.

Era quase uma hora da madrugada quando a limusine preta levou o Pregador de volta. Quando ele saltou, viu que a última lona estava sendo colocada no caminhão. Agradeceu ao motorista e começou a atravessar o campo, a caminho de seu furgão. Joe afastou-se dos homens que estavam em torno do caminhão e passou a acompanhá-lo.

— Como foi, Pregador?

— Muito bem.

— Beverly e Tarz estão no furgão, querendo saber qual é sua decisão sobre o dinheiro que daremos à Igreja Batista.

Joe entrou atrás dele e foram para os fundos do veículo. Beverly e Tarz estavam sentados à mesa, cada um com uma xícara de chá à sua frente.

— Você parece cansado — disse Beverly. — Vou lhe arrumar um chá de ginseng.

O Pregador sacudiu a cabeça.

— Não é preciso. Estou bem. Beverly olhou para Joe.

— E você?

— Vou tomar uma cerveja. — Joe pegou uma lata de cerveja na geladeira pequena, abriu-a e tomou um gole. — Puxa, como faz calor por aqui! O caminhão grande pode pegar a estrada às nove horas da manhã.

— Não vamos a parte alguma — disse o Pregador. — Ficaremos aqui. Os homens podem começar a montar tudo de novo amanhã.

— Mas já mandamos mais de mil dólares em depósitos para os dois próximos compromissos! — protestou Beverly.

— Perderemos o dinheiro se não aparecermos!

O Pregador não disse nada.

— Nesse caso, não temos alternativa — continuou ela. — Não haverá a menor possibilidade de dar à Igreja Batista a metade da receita. E nem mesmo poderemos pagar os salários desta semana.

— Dê a eles o dinheiro que prometemos — disse o Pregador. — Nunca trapaceamos, e não tenciono começar agora.

— Precisa ser prático, Pregador — insistiu Beverly, veementemente. — Está na hora de compreender que deve dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Vamos precisar do dinheiro para sobreviver.

O Pregador meteu a mão no bolso interno do paletó e tirou um envelope. Largou-o em cima da mesa.

— Há dez mil dólares aí. Deve ser suficiente para cobrir todas as despesas.

Todos olharam para ele, espantados. Joe foi o primeiro a falar:

— O que aconteceu?

— O sr. Randle quer que façamos outra reunião evangélica aqui.

Joe pegou o envelope e tirou o dinheiro.

— E isso vale dez mil dólares para ele?

— Ele vai transmitir pela televisão.

— Televisão?

O Pregador assentiu. O rosto de Joe se desmanchou num sorriso. Emocionado, ele jogou o dinheiro para o ar e abraçou o Pregador, enquanto as notas caíam como folhas de uma árvore no outono.

— É um milagre! Eu não disse? No instante em que vi o homem, tive certeza de que um milagre estava prestes a acontecer!

O Pregador riu.

— Não é nenhum milagre. Ele não passa de um filho da puta egoísta, mas pensa que pode nos usar.

— E quem se importa com o que ele pensa? — disse Joe. — Basta que ele tenha o dinheiro para pagar tudo.

— Eu me importo — disse o Pregador. — Mas o bom Deus age por caminhos misteriosos. Quer que eu espalhe o Evangelho, e Randle pode ser o caminho que Ele me oferece para fazer isso.

— Qualquer que seja o caminho, obrigado, Senhor — disse Joe, feliz da vida.

O Pregador sorriu.

— Não vai ser fácil. Não será apenas uma das nossas reuniões evangélicas normais. Uma porção de pessoas virá até aqui, a partir de amanhã, para nos ajudar a preparar tudo. Planejam fazer uma grande produção. Televisão é muito mais complicado do que simplesmente falar para uma barraca cheia de pessoas.

Joe arriou numa cadeira.

— Não estou absolutamente preocupado. Acho que vou escrever agora mesmo para a minha gente, avisando que poderão nos ver pela televisão. Todos seremos astros.

— Nada disso — murmurou o Pregador. — Não podemos nos esquecer de quem será o verdadeiro astro do espetáculo.

— Tem toda razão — disse Joe prontamente. — Você vai ser o astro principal.

O Pregador fitou-o nos olhos ao responder:

— Não eu, mas Deus.

 

Ele saiu do furgão estreitando os olhos ao sol forte. Joe aproximou-se.

— Estão procurando por você na barraca.

— Eu estava mesmo indo para lá. — O Pregador olhou para a estrada. Um gigantesco caminhão de reboque estava entrando no campo em marcha à ré. — Outro?

Joe assentiu. Já havia dois caminhões ligeiramente menores no campo.

— Parece que eles não querem correr qualquer risco. Estão trazendo energia suficiente para iluminar toda uma cidade. O dinheiro que o velho Randle nos deu deve ser uma ninharia em comparação ao que está custando todo esse equipamento.

— É bem possível. Como estão as coisas por lá?

— Estão mudando os vestidos das garotas de branco para azul-claro. Dizem que cinqüenta por cento das televisões do país ainda são em preto e branco, e nessas telas o branco aparece como cinza sujo.

Eles chegaram à barraca. O Pregador entrou. Todo o interior estava diferente. Os bancos de madeira haviam sido substituídos por cadeiras dobradiças douradas, com assentos forrados de veludo. Um carpete vermelho cobria agora todo o chão e havia baterias de refletores por toda parte. Refletores adicionais estavam suspensos acima da plataforma. A fotografia imensa do Pregador, com as palavras Jesus quer você, que servia como pano de fundo, fora substituída por um diorama branco e prateado, em que cenas diferentes seriam projetadas, no decorrer da reunião.

O Pregador foi avançando sobre os cabos espalhados pelo chão, até o local em que Marcus Lincoln estava parado, cercado por vários homens. O Pregador acenou com a cabeça ao ser apresentado a Jim Woden, que era o diretor, Mike Bailey, seu assistente encarregado do roteiro e da continuidade, e Perry Smith, o diretor de fotografia. Lincoln sorriu, gesticulando pela barraca e perguntando:

— O que está achando, reverendo? O Pregador retribuiu o sorriso.

— É algo inesperado, sr. Lincoln. Nunca pensei que fosse necessário tanto trabalho só para filmar uma reunião evangélica.

— Será mais do que apenas filmar a reunião, reverendo — disse o diretor. — Temos de lembrar que também estamos oferecendo um espetáculo. Como vamos entrar no ar em horários diferentes por todo o país, não temos meios de saber qual será a concorrência. E se não mantivermos os espectadores interessados em cada minuto, eles poderão facilmente mudar de canal para uma reprise de I Love Lucy.

"A audiência de televisão é muito diferente das pessoas que comparecem à reunião. As pessoas vêm aqui porque estão interessadas, mas o espectador não tem de ir a parte alguma. Ele se limita a ficar em sua sala de estar, girando o botão de sintonia, que vai para qualquer lugar que quiser."

— Já está com o seu script... isto é, com o seu sermão pronto, reverendo? — perguntou Bailey. — Não estou querendo pressioná-lo, mas vamos precisar dele a fim de programar o trabalho das câmaras.

— Beverly o está datilografando neste momento, sr. Bailey — informou o Pregador. — Deverá estar pronto dentro de uma hora. Mas quero que saiba que não é um sermão pronto. São apenas anotações em cartões, para me lembrar das coisas que planejo falar.

— Isso já é suficiente, reverendo.

— Estivemos conversando, reverendo — interveio Lincoln —, e tivemos algumas idéias que poderão acrescentar um fator positivo ao programa.

— Estamos sempre precisando de ajuda, sr. Lincoln. Eu gostaria de ouvir essas idéias.

— Na abertura do programa, pensamos em usar um helicóptero para filmar os carros chegando e as pessoas entrando aqui — disse Woden. — O helicóptero estará reservado, caso concorde com a sugestão.

— Acho que é uma boa idéia.

— Também achamos que aqueles barris na frente da plataforma parecem um pouco artificiais. Prejudicam o visual do espetáculo.

— Mas os barris são importantes — protestou o Pregador. — Preciso deles para as pessoas que serão batizadas.

— Sei disso, reverendo — disse Woden, respeitosamente. — Mas ponha uma porção de gente na frente daqueles barris e ninguém poderá ver o que está acontecendo. Numa tela pequena, vai parecer um bando de formigas arrastando-se de um lado para outro.

O Pregador pensou por um momento.

— Não sei de que outra maneira poderia fazer.

— Tem um córrego cheio de água atrás da barraca — lembrou Woden. — Poderia servir como o rio Jordão.

— Não há a menor possibilidade de levar as pessoas até lá — disse o Pregador. — Todos aqui estarão com as suas melhores roupas e não vão querer dar um mergulho.

— Temos um meio de contornar esse problema — insistiu Woden. — Não precisamos realmente dessa gente. Se levar as moças para o córrego e as batizar, posso providenciar uma centena de profissionais para se misturarem à multidão. Eles podem começar a seguir para o córrego. Tudo parecerá espontâneo e natural. E garanto que ficará surpreso com o que acontecerá então. A partir do momento em que eles forem, muito mais pessoas do que pode imaginar vão entrar naquele córrego.

O Pregador ficou em silêncio por um momento.

— Isso não seria honesto, sr. Woden. Essas pessoas não estariam procurando realmente a salvação.

— Como pode saber, reverendo? Todos serão instruídos sobre o que devem fazer. Mas caberá a eles decidir se vão fazer ou não. E se resolverem fazer, talvez seja a salvação que estão procurando, quer saibam ou não.

O Pregador não disse nada. Lincoln gesticulou com as mãos.

— Este programa vai custar muito dinheiro ao sr. Randle. Ele está investindo tudo em sua pessoa, reverendo. Mas por mais que seja bom, que seja convincente, não será suficiente. Se quer que as pessoas voltem e liguem a televisão para assisti-lo todas as semanas, terá de apresentar um programa de sucesso, preparado com todo o cuidado. O final tem de ser espetacular. Não há um programa no ar que possa dispensá-lo, pois é justamente o que leva o espectador a sintonizar todas as semanas. E pode estar certo, reverendo, que a sugestão é o final mais sensacional que poderia imaginar.

— Ainda estou em dúvida, sr. Lincoln. Não quero fazer nada que possa aviltar a palavra de Deus.

— Isso não vai acontecer, reverendo. Quando muito, vai aparecer nas telas de televisão como uma espetacular confirmação da fé.

O Pregador ainda hesitava.

— Tenho uma idéia — disse Woden. — Posso trazer cinqüenta pessoas para cá amanhã de manhã. Faremos uma experiência. Se não der certo, esqueceremos a idéia.

O Pregador fitou-o em silêncio por um momento e depois assentiu.

— Está certo. Mas se eu não gostar, não vamos fazer.

— Você é quem manda — disse Woden. O Pregador olhou para Lincoln.

— Mais alguma coisa?

— Isso é tudo o que temos, por enquanto — respondeu Lincoln. — Falaremos com você se aparecer mais alguma coisa.

— Então voltarei para o meu carro.

— Não se esqueça de avisar a Beverly para me entregar o sermão assim que acabar de batê-lo, reverendo — disse Bailey.

— Está certo.

O Pregador saiu da barraca. Joe foi atrás dele.

— O que está achando da idéia, Pregador?

— Acho que eles estão doidos.

— Não creio que seja tão ruim assim. Afinal, não é pior do que a falsa surra que você aplica em Tarz.

O Pregador parou abruptamente e virou-se para fitá-lo.

— Acho que não está entendendo, Joe. Não disse que não gosto. Acho que é a coisa mais sensacional que já aconteceu desde o Ford de bigode. Só espero que tudo dê certo. Mas continuo achando que eles estão doidos.

— Muito bem, reverendo — disse Woden. — Sei que fez isso muitas vezes antes, mas não diante de uma câmara. Quando a entrada da barraca se abrir, você avança. Está com a Bíblia na mão. Não olha para baixo, não olha para cima, não olha para o lado, apenas fixamente para a frente, além da câmara, que estará avançando em sua direção. Não deixe de se manter nas marcas brancas de giz, para que não haja a menor possibilidade de nós o perdermos. Suba os degraus lentamente, ponha a Bíblia no pódio, depois olhe para a audiência e faça a sua saudação. "Sejam bem-vindos à Igreja da Comunidade de Deus" e todo o resto. Entendido? O Pregador acenou com a cabeça. O diretor recuou para o interior da barraca e gritou:

— Agora!

A entrada de lona se levantou. O Pregador entrou. Foi andando devagar, fazendo exatamente o que lhe fora determinado. Começou a falar:

— Sejam bem...

— Muito bem, pode parar! -— gritou o diretor. — Está ótimo.

Alguém sussurrou em seu ouvido. Ele olhou para o Pregador na plataforma.

— Estava perfeito, reverendo. Mas tem alguma objeção a que lhe apliquemos um pouco de maquilagem? Está parecendo muito pálido na tela.

O Pregador fitou-o nos olhos.

— Isso é realmente necessário?

— Venha verificar pessoalmente.

O Pregador desceu da plataforma e seguiu-o até uma tela grande que estava montada ali perto.

— Muito bem, podem rodar o replay — disse Woden.

Houve um borrão e depois a imagem do Pregador apareceu na tela. Ele viu a si mesmo pela primeira vez. Era muito estranho. Nunca percebera que sua pele era tão branca.

— Não sou tão pálido assim.

— A câmara capta o tom da pele que não vemos a olho nu — explicou Woden. — Acontece com freqüência. Mas um pouco de maquilagem pode resolver o problema.

— Está bem. — O Pregador olhou para Woden. — Quando estará pronta a gravação que fizemos esta manhã? Pensei que tivesse dito que poderíamos vê-la imediatamente.

— Precisava ser editada. Os vestidos de algumas moças não ficaram muito bem. Tivemos de dar um jeito. Mas deverá estar tudo pronto dentro de mais dez minutos. Se quiser voltar ao seu furgão agora, eu o chamarei mais tarde.

O Pregador assentiu. Sabia o que o diretor estava querendo dizer. Quando as moças saíram da água, a nudez delas ficara evidente através dos vestidos. Mas ele quase esquecera, quando outras pessoas começaram a entrar na água. De uma maneira estranha, ele próprio se deixara contagiar pelo fervor. A coisa se tornara quase real. Ainda ressoavam em seus ouvidos os gritos:

— Louvado seja o Senhor! Estou salvo! Nasci de novo! Obrigado, meu bom Jesus!

O Pregador disse a Woden, antes de sair da barraca:

— Ficarei esperando em meu carro.

Quando ele já estava se afastando, a moça chamou-o:

— Reverendo Talbot! Ele se virou.

— Pois não, srta. Dawson?

— Já estou com as gravações que fez para os telefones. Gostaria de ouvir?

— Gostaria sim, obrigado.

— Tem algum lugar sossegado?

— Meu furgão. Estava indo para lá. Ela entrou atrás dele, olhou ao redor.

— Muito agradável! O Pregador sorriu.

— Não é grande coisa, mas é meu lar. — Ele a levou até a mesa. — Pode pôr o gravador aqui.

Ela ajeitou o gravador, explicando:

— Creio que já sabe como funciona. Quando o telefone toca, o gravador responde automaticamente e depois transfere a ligação para a telefonista livre.

— Já me falaram tudo isso.

Era parte do esquema de verificação da audiência. Ao longo do programa, seria anunciado que os espectadores poderiam ligar para um determinado número, dando seu nome, endereço e data de nascimento. Receberiam pelo correio uma carta assinada pelo reverendo C. Andrew Talbot, contendo os nomes de cinco grandes americanos nascidos na mesma data, além de uma prece de orientação escrita por ele, tudo grátis. Não era preciso mandar dinheiro, nada havia para comprar, não se precisava nem mesmo pagar o telefonema. Era tudo absolutamente grátis. A moça apertou o botão e a voz dele saiu pelo alto-falante:

"Alô. Aqui é o reverendo C. Andrew Talbot, da Igreja da Comunidade de Deus da América Cristã Triunfante, agradecendo por ter telefonado, em nome de Nosso Salvador Jesus Cristo. Se fizer a gentileza de esperar um momento, vou transferir a ligação para uma de nossas telefonistas, que terá o maior prazer em anotar seu nome e endereço. Mais uma vez obrigado por telefonar e fique com a bênção de Deus".

A moça desligou o gravador.

— O que acha?

— Está muito longo.

— Sei disso. Mas nossas pesquisas mostram que as pessoas gostam assim. Proporciona à sua resposta uma impressão de credibilidade.

Ele deu de ombros.

— Você é quem sabe.

— É o nosso ofício. Você conhece a Bíblia. Nós conhecemos as pessoas.

— A Bíblia são as pessoas.

Ela fitou-o com uma expressão irônica.

— Não parece estar muito excitado com tudo isso.

— É tudo estranho. Mas estou aprendendo. A moça levantou-se.

— Tenho a impressão, reverendo, de que vai aprender muito depressa.

Houve uma batida na porta e uma voz avisou:

— O playback está pronto, reverendo.

— Já estou indo. — O Pregador virou-se para a moça. — Vão me mostrar a cena do batismo que fizemos esta manhã. Gostaria de ver?

— Adoraria.

O homem que estava à espera informou:

— Vamos para o caminhão de edição.

Eles atravessaram o campo. O caminhão de edição era um imenso reboque, cheio de equipamentos. Marcus Lincoln, Woden, Bailey e Perry Smith estavam reunidos diante da tela grande.

— Apague as luzes e pode rodar — disse Woden, no momento em que o Pregador e a srta. Dawson entraram.

As luzes foram apagadas e a gravação começou a ser projetada. O Pregador achou difícil acreditar que tudo aquilo não acontecera espontaneamente, de tão real que parecia. Acabou em poucos minutos e as luzes foram acesas. Lincoln virou-se para ele.

— E então, reverendo?

O Pregador acenou com a cabeça.

— Estava certo, sr. Lincoln. Ficou muito bom. Só tenho uma objeção.

— Qual é?

— Os vestidos das moças. Elas parecem nuas demais.

— Estamos tomando as providências necessárias para corrigir isso, reverendo — disse Woden prontamente. — Encomendamos combinações para as moças usarem por baixo dos vestidos. Chegarão a tempo para o programa. Não haverá qualquer coisa com que se preocupar.

— Tem acertado até agora, sr. Woden — disse o Pregador. — Aceitarei sua palavra.

Lincoln estava sorrindo.

— Vamos fazer um bom programa, reverendo. Posso sentir nos ossos.

— É o que espero, sr. Lincoln.

— Reverendo Talbot — chamou Bailey, o assistente do diretor e redator.

— Pois não?

— Tomei a liberdade de redatilografar os seus cartões de anotações. Não fiz qualquer alteração no seu texto ou no assunto, apenas acrescentei indicações em vermelho, a fim de que saiba para que câmara se virar nos momentos de maior ênfase. Creio que será útil. Verifique as indicações e me chame se tiver alguma dúvida. Terei o maior prazer em esclarecer.

O Pregador pegou os cartões.

— Obrigado, sr. Bailey. — Ele virou-se para os outros. — Se não há mais nada, voltarei para o meu carro.

— Está tudo resolvido por enquanto, reverendo — -disse Lincoln.

Ele deixou o caminhão e Jane Dawson seguiu-o.

— O que vai fazer agora, reverendo?

— Não sei. — Ele deu de ombros. — Aconteceu tanta coisa que tenho vontade de sair por aí e entrar numa prise.

A moça ficou espantada.

— Ora, reverendo, eu não sabia que os pregadores sequer pensavam em tais coisas.

— Somos apenas humanos, srta. Dawson. — Ele riu. — Além do mais, o que acha que São Francisco fazia durante todo o tempo em que ficou no deserto? Comia plantas silvestres estranhas e tinha visões espetaculares.

Ela fitou-o nos olhos.

— Nunca pensei por esse ângulo.

— Não se esqueça de que passei três anos no Vietnam, srta. Dawson. E precisaria ser muito estúpido para não descobrir uma porção de coisas por lá.

Ela pensou por um momento.

— Tenho uma erva que é uma verdadeira dinamite lá no meu hotel.

O Pregador sacudiu a cabeça.

— Não seria sensato da minha parte ir até lá.

— Mas tenho alguns baseados aqui na bolsa. Ele sorriu.

— Nesse caso, por que não voltamos para o meu carro e verificamos aquela gravação mais algumas vezes? Quem sabe o que pode acontecer? Talvez até consigamos melhorá-la...

 

Dez dias depois da gravação do programa, o Pregador voltou ao Rancho Randle. Desta vez, porém, não era para jantar, mas sim para uma reunião de negócios, às dez horas da manhã.

Estavam presentes as mesmas pessoas que haviam participado do primeiro encontro. Sentaram-se em torno da mesa de reuniões, numa sala particular, contígua à biblioteca. Jake Randle ficou à cabeceira, mastigando o havana, com uma expressão satisfeita no rosto.

— Pode apresentar os dados, sr. Lincoln — disse ele. Marcus Lincoln acenou com a cabeça e abriu uma pasta à sua frente.

— Transmitimos o programa duas vezes em nossas próprias emissoras. Na manhã de terça-feira, às onze horas, e na noite de quinta-feira, às dez horas. Na manhã de terça-feira alcançamos um índice de onze pontos da audiência exclusiva das emissoras de rede, enquanto na noite de quinta-feira o índice elevou-se para quinze pontos. Tiramos do programa uma gravação de meia hora para o rádio e transmitimos diariamente, durante cinco dias, em diversos horários, em cento e sete das nossas próprias emissoras, sendo que quarenta e duas em fm. Em todos os casos, alcançamos um índice de audiência maior na reprise. Começamos com seis pontos em algumas emissoras e subimos até o máximo de vinte e dois pontos no final da semana. Durante toda a semana de transmissão pelo rádio, alcançamos uma média de audiência superior a dezesseis pontos. — Ele fechou a pasta e levantou a cabeça. — Creio que esses resultados são animadores. Indicam um potencial de audiência positivo para o programa.

Randle olhou para a srta. Dawson.

— Sua vez, srta. Dawson.

— Pois não, sr. Randle. — Ela pegou uma folha de papel. — As apresentações na televisão resultaram num total de cento e onze mil quinhentos e vinte e um telefonemas, o que constitui uma resposta extraordinariamente alta em relação ao índice de audiência citado pelo sr. Lincoln. Nos programas de rádio, em que pedimos a remessa de cartas, ainda estamos no processo de recebimento e contagem. A esta altura, no entanto, já podemos calcular que receberemos um pouco mais de duzentos mil cartões-postais e cartas. É também uma resposta média extremamente elevada, tendo em vista os índices apresentados pelo sr. Lincoln.

Ela baixou o papel e arrematou:

— Em tudo e por tudo, creio que posso dizer com toda segurança que temos um programa de grande sucesso.

— Obrigado. — Randle virou-se para Dick Craig. — Sei que uma porção de sua gente assistiu ao programa. O que eles acharam?

— Os Americanos para uma Vida Melhor estão bastante satisfeitos com o programa, sr. Randle. Acham que pode proporcionar uma ótima oportunidade para a projeção de suas opiniões.

— Sra. Lacey — disse Randle.

— As diretoras do Conselho de Mulheres Cristãs acham que o reverendo Talbot é um exemplo extraordinário de jovem cristão americano, e teremos o maior prazer em contribuir para o seu programa por todos os meios possíveis.

Randle virou-se na cadeira.

— É a sua vez, sr. Everett.

O homem de relações públicas limpou a garganta. Correu os olhos pela mesa.

— Creio que todos compreendem que efetuamos nossas pesquisas de uma maneira completamente diferente. Analisamos um programa em busca da reação à imagem projetada por seu astro principal. — Ele fez uma pausa, a fim de ressaltar a importância de sua declaração. — Descobrimos que a reação ao reverendo Talbot, tanto dos homens como das mulheres, foi extremamente favorável. Os homens vêem nele as qualidades de força e liderança que admiram, enquanto as mulheres vêem a força e o idealismo que atraem seu instinto maternal, combinados a uma reação sutil, quase sexual. — Everett fez outra pausa, e tornou a correr os olhos pela mesa. — Na minha opinião, embora se deva ressaltar que nada é fácil, deverá ser relativamente simples firmarmos uma imagem nacional para o reverendo Talbot que se ajustará aos nossos objetivos.

— Ótimo. — O velho sacudiu a cabeça, olhando para o Pregador. — Reverendo Talbot, parece que está querendo dizer alguma coisa.

— Quero sim, sr. Randle. Tudo o que ouvi aqui é muito interessante, mas ainda tenho uma pergunta a formular. O que vamos fazer em seguida?

— Boa pergunta, reverendo, mas a resposta terá de ser discutida numa conversa particular entre nós dois. — Randle levantou-se. — Senhoras e senhores, muito obrigado pela presença de todos.

A reunião estava encerrada. Depois das despedidas, o Pregador e o velho foram os únicos que permaneceram na sala. Randle fitou-o em silêncio por um momento, ainda mastigando o charuto. O Pregador sustentou seu olhar, sem dizer nada. Randle tirou o charuto da boca e examinou-o, murmurando, pensativo:

— Eu poderia torná-lo maior que o papa.

O Pregador continuou calado.

— Claro que muita coisa dependeria de você. O Pregador persistiu no silêncio.

— Você teria de refinar seu número. Livrar-se daquele crioulo e da garota china. Eles não se ajustam à sua imagem. As pessoas não gostam de negros e chinas. E aquelas dez garotas que lavam seus pés, como se você fosse Cristo... Elas falam demais. A esta altura, todo mundo que participou do programa já sabe que você andou trepando com todas elas. Terá de se livrar delas também.

— Isso é tudo?

— Não. — Randle desviou os olhos do charuto para o Pregador. — Você terá também de parar de trepar com a srta. Dawson. Virou-lhe a cabeça de tal forma que ela está negligenciando todo o resto do trabalho de que a encarreguei. Além disso, tenho um interesse muito pessoal nessa moça.

O Pregador se levantou.

— Eu lhe agradeço por tudo, sr. Randle. Aprendi bastante.

— O que aprendeu?

— Que não preciso de sua ajuda. Posso fazer tudo sozinho.

Randle soltou um grunhido.

— Onde vai arrumar os cinco milhões de dólares necessários para lançar o programa no ar?

— Também ouvi os relatórios, sr. Randle. O programa foi exibido em muitos lugares. Não é o único a quem poderei recorrer.

— Só vai encontrar tostões. Levará anos para conseguir dinheiro de verdade. Filho, posso fazê-lo ganhar trinta, quarenta ou até cinqüenta milhões de dólares por ano, tão depressa que ficará tonto.

— Ainda sou jovem, sr. Randle. Posso esperar. Não tenho pressa.

— O que há de tão difícil em fazer o que estou pedindo? Essas pessoas não são tão importantes assim. Podem ser substituídas.

O Pregador fitou-o nos olhos.

— Creio que não compreende, sr. Randle. Há muito mais entre mim e aquelas pessoas do que pode imaginar. Há amor, fé e confiança. Aquelas pessoas estão comigo há anos, enfrentando todas as lutas e dificuldades. Jamais traíram a fé que tenho nelas. Judas traiu Nosso Senhor por trinta peças de prata. Acha que pode oferecer o bastante para fazer-me trair essas pessoas?

Randle fitou-o em silêncio por um momento, depois tornou a pôr o charuto na boca.

— Sente-se, meu rapaz. Temos de encontrar um local para construir sua igreja.

O Pregador sentou-se.

— Tenho uma propriedade em Los Altos, Califórnia.

— Não serve. As pessoas acham que todos os malucos estão lá na Califórnia. Temos de encontrar um lugar para você no sul ou no sudoeste. — Ele mastigou o charuto, pensativo. — Uma cidade não muito grande, mas também não muito pequena. Uma cidade com bons meios de comunicação e transporte para o resto do país. E que ainda não tenha o seu pregador na televisão nacional.

— O que acha de Nova Orleans? A localização é boa e sempre gostei da cidade.

— Não serve. É católica demais.

— E Atlanta? É uma cidade maravilhosa.

— Também não serve. É liberal demais.

— E Memphis? É bastante central.

— Hum...

O Pregador fitou-o nos olhos.

— Está brincando comigo outra vez, sr. Randle. Já escolheu um lugar.

— Tem razão.

— Então me diga qual é.

O velho assumiu uma expressão maliciosa.

— Vai parar de trepar com a srta. Dawson?

— Já parei.

— Então tenho o lugar perfeito para você. Cheio do nosso tipo de gente.

O velho sorriu e encostou um fósforo aceso no charuto. Olhou para o Pregador através de uma nuvem de fumaça.

— Aqui mesmo. Randle, Texas.

— Só pode estar brincando, sr. Randle. Já há duas igrejas aqui e nenhuma delas tem dinheiro suficiente para sobreviver direito, com apenas três mil contribuintes.

— Está esquecendo duas coisas. Primeiro, a cidade é minha e posso fazer tudo o que quiser. Segundo, o ministério que você vai começar não será apenas para Randle, mas para todos os Estados Unidos.

— Mas ainda teremos de trazer pessoas para cá. E só há uma parada de ônibus numa linha da Greyhound em Randle.

— Cuide de sua pregação e deixe o resto comigo, meu rapaz. Trarei todas as pessoas que forem necessárias.

 

Passava de uma hora da madrugada quando o Mercedes deixou o Pregador diante do furgão e depois foi embora. Ele parou por um momento, olhando para o alto. As estrelas faiscavam intensamente no céu azulado do Texas.

— Estou com medo, Senhor — disse ele em voz alta. — Não sei para onde está me levando e acredito que irá me proteger. Mesmo assim, estou com medo.

Ele ficou imóvel por um instante, prestando atenção ao céu silencioso. Respirou fundo.

— Não quero dar a impressão de que estou duvidando e blasfemando, Senhor, mas sou um homem simples que nada quer além de levar Seu Evangelho às pessoas, como Seu filho Jesus ordenou. Eu lhe imploro, Senhor, que me envie um sinal, a fim de que eu possa saber que é Seu trabalho que estou prestes a fazer e que não estou sendo desencaminhado pelas tentações venais do demônio.

O Pregador ficou esperando, esquadrinhando o céu silencioso. Já estava prestes a se virar e subir os degraus do veículo quando viu. Uma estrela cadente passou pelo céu por cima de sua cabeça e foi cair além do horizonte. Ele prendeu a respiração, sentindo um estranho calor espalhar-se por seu corpo. Outra estrela cadente passou pelo céu, seguindo a mesma trilha que a primeira. Depois que desapareceu, uma terceira estrela cadente, ainda maior e mais brilhante que as anteriores, passou pelo céu, parecendo ficar suspensa por cima dele por um instante, antes de cair também além do horizonte.

Ele sentiu as lágrimas aflorarem a seus olhos e caiu de joelhos. Cruzou as mãos e abaixou a cabeça. Três estrelas cadentes passando por cima de sua cabeça. Ele as conhecia. O Pai, o Filho e o Espírito Santo. Tinham vindo tranqüilizá-lo.

— Obrigado, Senhor. Perdoe minhas dúvidas e temores. Não sinto mais medo. Empenho minha vida a Seu serviço e espalharei todas as mensagens que me forem ordenadas por Seu filho Jesus Cristo, que morreu na cruz por meus pecados e os da humanidade. Obrigado, Senhor. Amém.

O Pregador ficou ajoelhado ali por um longo tempo. Finalmente se levantou. Sentia-se estranhamente forte e revigorado. De alguma forma, tudo agora parecia novo e brilhante. Um tênue sorriso insinuava-se em seus lábios quando subiu os degraus e abriu a porta.

Beverly e Joe estavam sentados à mesa, jogando cartas. Beverly tinha uma pilha de moedas à sua frente. Joe largou suas cartas, irritado, enquanto ela recolhia às moedas que estavam no centro da mesa. Joe olhou para o Pregador.

— Ela é terrível. Nunca jogue cartas com essa mulher ou vai perder até o rabo.

O Pregador pareceu não ouvi-lo. Acenou com a cabeça distraidamente e depois foi para sua cama e puxou a cortina. Pegou a Bíblia na prateleira e sentou-se na cama. A cortina se afastou antes que ele pudesse abrir a Bíblia. Joe e Beverly fitavam-no.

— Você está bem? — perguntou Joe, visivelmente preocupado.

Os olhos do Pregador ainda estavam distantes, quase como se contemplassem um mundo muito além.

— Vamos construir uma igreja aqui. Joe ficou surpreso.

— Esta porra desta cidade precisa de qualquer coisa, menos de outra igreja. Eles não podem sustentar nem mesmo as igrejas que já existem.

O Pregador ficou calado.

— Randle hipnotizou-o com o dinheiro dele — comentou Joe. — Mas o dinheiro não basta para fazer a igreja. Lembre-se de que uma igreja é feita de pessoas, e não há pessoas em quantidade suficiente aqui.

— Sei disso.

— Então não seja estúpido. Se ele quer lhe dar dinheiro para construir uma igreja, pelo menos escolha algum lugar em que haja uma boa chance de sucesso.

Os olhos do Pregador se encontraram com os dele.

— É aqui que Deus quer. E é aqui que vamos construir a igreja.

— O que o faz ter tanta certeza de que Deus quer que seja aqui? Ele lhe disse pessoalmente?

— Disse.

Joe fitou-o com uma expressão aturdida.

— Esteve puxando fumo ou bebendo? O Pregador sacudiu a cabeça.

— Pedi a Deus um sinal e Ele me enviou.

— Ei, espere um pouco! — protestou Joe. — Não se esqueça de que é comigo que está falando.

O Pregador levantou-se.

— É verdade. Lá fora, antes de eu entrar, pedi a Deus que me desse um sinal do que Ele queria que eu fizesse, que não estava me deixando levar pelo demônio. E Ele respondeu. Enviou a Santíssima Trindade voando por cima de minha cabeça. Três estrelas cadentes, cada uma mais brilhante que a anterior. E quando a última ficou pairando sobre minha cabeça por um momento, senti que o conhecimento dele entrava em mim, que Seu calor se espalhava pelo meu corpo.

— Tem certeza de que não está imaginando coisas? — insistiu Joe. — O céu do Texas está sempre cheio de estrelas cadentes.

— Não como aquelas. Sei o que senti.

Joe ficou calado, observando-o. Depois de um momento, Beverly pôs a mão no braço dele.

— Vamos, Joe. Estamos todos cansados. É melhor dormirmos agora. Poderemos conversar pela manhã.

— Está bem. — Joe virou-se para o Pregador. — Tem certeza de que está bem? Precisa de alguma coisa?

— Nunca estive melhor, Joe.

— Está certo. — Joe ainda estava hesitante. — Então boa noite.

— Boa noite, Pregador — disse Beverly.

Eles deixaram a cortina deslizar pela frente da cama e voltaram à mesa. Joe virou-se para Beverly e sussurrou:

— O que você acha?

— Não sei.

— Vamos até a janela. Em apenas uma hora poderei lhe mostrar cem estrelas cadentes.

— É possível — disse ela, ainda sussurrando. — Mas não serão as estrelas que ele viu.

— Então acredita nele?

Os olhos de Beverly estavam arregalados.

— Claro que acredito. Sempre acreditei. E você também. Se não acreditássemos, que outro motivo poderíamos ter para estar aqui? Não vamos ficar ricos por isso.

— Você o ama?

— Claro que amo. E você não? Joe assentiu.

— Acho que também o amo.

— Mas não estou apaixonada por ele. É uma coisa diferente.

— Sei disso. Não sou estúpido. Beverly fitou-o nos olhos.

— Mas está se comportando como se fosse.

— Ei, pensei...

— Pare de pensar — murmurou Beverly, encostando um dedo nos lábios dele, enquanto ia para os seus braços. — Não é bom para você.

Ele estava sentado na cama, a Bíblia ainda fechada no colo, quando ouviu os dois saírem e a porta ser fechada em seguida. Levantou-se e começou a se despir, lentamente. Muita coisa estava acontecendo. Era como se fosse apanhado por uma onda que não podia controlar, uma onda que o levava para uma praia distante que não podia ver.

Estendeu-se na cama, nu, com o travesseiro sob a cabeça. Acendeu a lâmpada para leitura na parede ao seu lado. Pegou a Bíblia e abriu no primeiro salmo. Começou a ler, murmurando as palavras para si mesmo:

"Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores nem se assenta no círculo dos desdenhosos.

O seu prazer está na lei do Senhor e na sua lei medita de dia e de noite.

Ele é como árvore plantada junto a corrente de água que no devido tempo dá seus frutos e sua folhagem não murcha; tudo quanto ele faz será bem-sucedido".

O Pregador largou a Bíblia, apagou a luz e ficou olhando para o escuro. Cruzou os braços por trás da cabeça. Algumas de suas dúvidas estavam respondidas. Não estava escrito que tudo quanto ele fizesse seria bem-sucedido? Não havia nada de errado se ele se beneficiasse por espalhar o Evangelho; estava fazendo o trabalho de Deus.

Mas ainda persistiam algumas tênues dúvidas. Estaria iludindo a si mesmo, a fim de justificar a decisão de fazer o que queria? Ele saiu da cama e ajoelhou-se ao lado, cruzando as mãos em prece à sua frente. A voz ecoou pelo veículo vazio, repetindo as palavras finais do Salmo 139:

"Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração: prova-me e conhece os meus pensamentos; Vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno".

Ainda ajoelhado, ele cruzou os braços sobre a cama e neles repousou a cabeça. Lembrou-se do que a mãe lhe dissera um dia:

"Você não é como os outros, Constantine. Não poderá pregar a sua visão de Deus enquanto não estiver no púlpito de sua própria igreja. E então encontrará o mundo".

Na ocasião, ele não compreendera o que a mãe estava dizendo. Mas compreendia agora. Seu Deus era um Deus muito pessoal, seu Jesus era um Filho de Deus muito humano, com uma profunda compreensão das fraquezas do homem, porque era um deles e assim podia encontrar em Si mesmo o perdão para os homens e a força para assumir todos os pecados e morrer por eles, a fim de que todos pudessem encontrar a absolvição. Não havia ameaças, guerras ou punições. Não era como o Senhor vingativo, seu Pai. Apenas perdão e absolvição na aceitação dele.

O Pregador não ouviu a porta do furgão se abrir, e somente quando a cortina foi puxada, percebeu que havia mais alguém lá dentro.

— Pregador...

A voz de Charlie soou atrás dele. O Pregador virou-se para fitá-la. Ela usava um roupão de lã desbotado por cima da camisola.

— Sim?

— Beverly e Joe estão trepando no banco traseiro do carro ao lado do nosso furgão.

Ele sentou-se na cama.

— Por que veio me dizer isso?

— Fiquei com inveja. Eles estão se divertindo tanto que me deu o maior tesão.

Subitamente, ele riu. Nada realmente mudara. As pessoas ainda eram as mesmas, ainda eram crianças. Pela primeira vez naquela noite, ele sentiu que um peso era removido de seus ombros.

— Posso compreender.

— Pode mesmo? Pensei que não sentisse mais tesão. O Pregador levantou-se, pegou a mão dela e a guiou para sua ereção.

— O que a faz pensar assim?

 

Os motores do helicóptero giravam lentamente, enquanto o Mercedes preto se aproximava, parando a poucos metros de distância. O motorista abriu a porta e o Pregador desceu. Randle meteu a cabeça para fora da cabine do helicóptero.

— Vamos logo, filho — gritou ele, acima do barulho. — Não temos o dia todo!

O piloto estendeu a mão pela porta para ajudar o Pregador a subir na cabine.

— O assento ao lado do sr. Randle é seu, senhor — disse ele, fechando a porta.

Assim que o Pregador prendeu o cinto de segurança, o helicóptero alçou vôo. Era um Bell para seis passageiros, e além de Randle e do piloto já havia outro homem sentado lá dentro, na frente. Randle soltou uma risada.

— Levantou cedo, não é mesmo, filho?

O Pregador olhou para o relógio. Sete e meia.

— Sim, senhor.

— Sempre digo que as pessoas devem se levantar com o nascer do sol. Um homem sempre trabalha melhor no começo da manhã. Achei que devia tirá-lo de lá antes que aquela garota tivesse a oportunidade de lhe sugar toda a seiva matutina.

O Pregador fitou-o em silêncio. Randle sustentou o olhar dele.

— Já lhe disse que sei de tudo o que está acontecendo por lá.

O Pregador permaneceu calado.

— Está se perguntando por que é tão importante o lugar para onde vamos esta manhã, não é mesmo?

O Pregador assentiu.

— Vamos dar uma olhada no local em que construiremos a igreja.

— Não poderíamos ir de carro?

— É mais fácil assim. Fica sessenta e cinco quilômetros ao norte da cidade. — Ele inclinou-se para a frente e bateu no ombro do homem que estava sentado ao lado do piloto. — As plantas ficaram prontas, Chuck?

— Estão aqui, sr. Randle.

O homem virou-se e estendeu uma prancheta grande para o velho. Olhou para o Pregador.

— Chuck Michael, dr. Talbot — disse Randle, pegando a prancheta. — Chuck é presidente da Companhia Construtora Randle.

Os dois homens trocaram um aperto de mãos, enquanto Randle prendia a prancheta no encosto do assento do piloto. Virou-se para o Pregador.

— Sabe ler mapas?

— Um pouco. Era necessário no Vietnam, para o caso de ficarmos isolados de nossas tropas.

Randle olhou pela janela e depois apontou uma linha no mapa.

— Estamos aqui neste momento. Vamos sobrevoar a cidade e depois seguir para o norte pela Rodovia 10. — O dedo deslocou-se para o canto superior direito do mapa. — Estamos indo para cá.

O Pregador inclinou-se para a frente e leu as letras pequenas: "Churchland, uma cidade incorporada". Virou-se para Randle.

— Nunca ouvi falar de uma cidade por aqui chamada Churchland.

Randle soltou uma risada.

— Não podia ouvir falar porque a cidade não existe.

— Não estou entendendo.

— Mas vai entender. Já lhe disse que trabalho depressa. Não tenho tanto tempo como os jovens para desenvolver as coisas lentamente. Há muito tempo que venho esperando encontrar o homem certo para o tipo de igreja que tirará a América do barbarismo. Enquanto esperava, fiquei planejando.

Ele virou a primeira folha que estava na prancheta, revelando outro mapa por baixo. No alto, estava impressa a palavra churchland. O Pregador olhou. Era uma planta completa de uma pequena cidade. Ele virou-se para Randle.

— Não é mole.

Randle ficou aturdido, sem entender o comentário.

— É bem grande — explicou o Pregador.

— É tão fácil fazer algo grande quanto uma coisa pequena. — O velho sorriu. — Tenho mais de mil acres por lá, o próprio ermo de Deus, aguardando ansiosamente o momento de ter um aproveitamento cristão. Tenciono fazer com que se transforme num farol para a América. — Randle inclinou-se para a janela e olhou para baixo. Depois, avisou ao piloto: — Estamos quase chegando. Desça sobre a Rodovia 10. Quero mostrar uma coisa ao dr. Talbot.

— Pois não, senhor.

O helicóptero começou a descer na direção da estrada.

— Ali — Randle apontou. — Dê uma olhada.

O cartaz gigantesco estava na beira da estrada. O helicóptero pairou um pouco acima. O Pregador leu:

CHURCHLAND

A FUTURA SEDE DA COMUNIDADE DE DEUS

IGREJA DA AMÉRICA CRISTÃ TRIUNFANTE

DR. C. ANDREW TALBOT, PASTOR CONSAGRADO AO SERVIÇO DE DEUS E DO PAÍS INAUGURAÇÃO EM MAIO DE 1976

O Pregador olhou para o velho.

— Faltam menos de dois anos. Levará muito mais tempo. Oral Roberts, Shuller, Falwell, Pat Robertson, todos eles levaram muitos anos para chegar onde estão.

— Eles começaram antes da televisão — respondeu o velho. — E a partir do momento em que entraram para a tevê, começaram a crescer, apesar de si mesmos. E ainda não sabem o que realmente possuem, ainda estão tateando o caminho. Mas nós sabemos o que temos. Contamos com a experiência e o equipamento. Projetaremos este ministério como uma rede de televisão cria o sucesso de um seriado. Tudo estará testado e definido até a inauguração. Estudos de mercado, programas de teste, relações públicas, todos os dados serão fornecidos aos computadores e reunidos no mesmo programa. Em maio de 1976 você já será o pregador mais conhecido da América.

O Pregador ficou calado. Olhou pela janela, enquanto o helicóptero tornava a subir e começava a atravessar a pradaria. Passaram sobre um pequeno bosque e nos campos adiante avistaram o que parecia ser uma atividade frenética. Pequenos caminhões corriam de um lado para outro, deixando em sua esteira uma trilha de linhas brancas. O Pregador observou aturdido por um momento, depois virou-se e consultou o mapa na prancheta. Compreendeu subitamente o que estavam fazendo. Tudo o que ele via no mapa estava sendo devidamente marcado no solo. Ele olhou para Randle. O velho estava sorrindo.

— Eu lhe disse que não tenciono perder tempo. — Ele fez uma pausa. — Chuck vai lhe explicar a planta quando voltarmos ao rancho.

O mapa ampliado estava montado num quadro que cobria toda uma parede do escritório de Randle, no rancho. O mordomo trouxe café numa bandeja de prata e depois retirou-se discretamente, fechando a porta. Randle acenou com a cabeça para Michaels.

— Pode começar.

O corpulento construtor pegou uma vareta de apontar. Olhou para o Pregador.

— Gostaria de falar um pouco dos antecedentes. Achei que poderia gostar de saber que não se trata de uma idéia meio indefinida, projetada às pressas. O sr. Randle e eu temos conversado a respeito disso há vários anos. O plano é o resultado dessas conversas. As plantas preliminares foram reformuladas ao longo dos anos, até chegarmos ao que está vendo agora no mapa à sua frente.

"Vamos começar pelo que se vê ao seguir para a estrada de Churchland, depois de deixar a rodovia. Passa-se por um parque, cuidadosamente tratado, com pequenos lagos, jardins, árvores. A primeira construção que se encontra é um prédio de torres gêmeas, de sete andares. As torres são unidas por uma cruz gigantesca, que se estende pelo ar por mais cinco andares e deverá ser visível de dia ou de noite a uma distância de cinqüenta a oitenta quilômetros. Será o prédio principal, que abrigará a igreja. A igreja propriamente dita será na verdade um grande auditório de teatro, com capacidade para mil e quinhentas pessoas sentadas no andar principal e mais seiscentas pessoas no balcão. Haverá um palco totalmente eletrônico, com plataformas automáticas que poderão levantar, abaixar, deslocar-se para a frente ou para trás. Todo o teatro terá instalações de televisão embutidas, podendo-se transmitir tudo o que acontecer na igreja, do palco a qualquer parte da audiência. Tudo será operado por controle remoto, da sala de comando na arcada do proscênio, por cima do palco, invisível para a audiência. A altura interna do auditório será de cinco andares. Os dois andares restantes, acima, serão ocupados por escritórios e quartos para visitantes, para os convidados que irão participar dos programas. Haverá um estacionamento atrás do prédio com capacidade para setecentos carros."

Ele apontou para um conjunto de prédios em semi-círculo, atrás da igreja de torres gêmeas.

— O prédio maior, no centro do semicírculo, será a residência do pastor, onde ele viverá com sua equipe. Terá três andares. O andar superior será o apartamento do pastor, com nove cômodos. O andar abaixo terá diversos apartamentos, de dois e três cômodos. O térreo consistirá de escritórios e salas de reunião. Os prédios menores, dois de cada lado, serão capelas em que visitantes de diferentes fés poderão meditar. Haverá um prédio para católicos e outro para protestantes, assim como prédios para as pessoas de fé islâmica e hebraica.

"Estão planejados também dois motéis, cada um com trezentos quartos, cozinhas e áreas recreativas, incluindo piscinas, quadras de tênis, campos de golfe pequenos, berçários e playgrounds. Haverá ainda cem chalés independentes para as famílias em visita ou em férias. Uma área de duzentos acres na extremidade da propriedade já foi aprovada pela Comissão Federal de Aviação para a construção de um aeroporto particular, com capacidade para receber aviões a jato até o tamanho dos Boeings 727. Todos os visitantes que planejarem ficar serão devidamente registrados no centro de recepção e depois conduzidos a seus aposentos por ônibus internos. Eu poderia acrescentar muitos outros detalhes, mas creio que já descrevi o projeto em termos globais. Terei a maior satisfação em discutir qualquer idéia adicional que queira apresentar."

— Obrigado, sr. Michaels. — O Pregador virou-se para o velho. — Está me deixando tonto.

O velho sorriu.

— Creio que pensamos em tudo.

— Talvez eu não me sentisse tão nervoso se começássemos numa escala menor — comentou o Pregador. — Não sou Billy Graham. Por que alguém viria até aqui só para ouvir um desconhecido?

— Quando inaugurarmos o conjunto, você não será mais um desconhecido. Já estão sendo tomadas as providências necessárias para que você apareça e faça a sua pregação em todos os principais programas religiosos de televisão da América. E não apenas uma vez, mas várias. Vai se tornar muito conhecido.

— Mas por que alguém iria me pôr no ar? — indagou o Pregador. — Afinal, não posso oferecer nada que eles já não tenham.

Randle soltou uma risada.

— Não há um só deles que não possa ser alcançado, de um jeito ou de outro. Tudo o que se precisa para isso é dinheiro.

 

— Temos trinta dias para montar o nosso número — disse Marcus Lincoln. — O Clube 700 de Pat Robertson é o programa religioso de televisão de maior índice de audiência da América. Não foi fácil conseguir que seja o primeiro programa a apresentá-lo.

O Pregador olhou para ele.

— Não estou entendendo. Sou um pregador, não um ator.

— Vai ser as duas coisas. O Clube 700 é um programa de entrevistas. Robertson mistura convidados e sermões. Se você não quiser ser apenas mais uma presença, é melhor aparecermos com alguma coisa diferente.

— Por que não posso simplesmente dizer o que sinto em relação a Deus?

— É o que todo mundo faz. Precisamos de um tema, além de uma apresentação diferente. Falar não é suficiente. A televisão é um meio de comunicação visual. Não podemos esquecer isso.

— Não sei o que fazer.

— Também não sei — disse Lincoln. — Foi por isso que trouxe os rapazes. Juntos, poderemos encontrar uma solução.

O Pregador olhou para os outros, Jim Woden, que dirigira a filmagem da reunião evangélica, e Mike Bailey, que coordenara o roteiro. Ele sacudiu a cabeça.

— Deus deve ser suficiente.

— Com o devido respeito, reverendo — interveio Woden —, não é para a televisão. Não se esqueça de que Ele é apresentado a todo instante na televisão. Mas será você que teremos de lançar.

— Eu nem saberia como começar — murmurou o Pregador.

— Poderíamos começar com você falando sobre sua vida — sugeriu Bailey. — Com suas próprias palavras. Talvez possamos encontrar nosso tema aí.

O Pregador sorriu.

— Não é grande coisa. Tenho a impressão de que por toda a minha vida estive à procura de um Deus cuja palavra pudesse transmitir às pessoas.

Foi a vez de Bailey sorrir.

— Já é um começo. O tema poderia ser "Procurando por Deus". Começaríamos com fotografias suas quando era pequeno, depois no Vietnam, dando baixa e iniciando a primeira Comunidade de Deus, seguindo-se a sua decisão de pregar o Evangelho pelas estradas da América.

O Pregador soltou uma risada.

— Parece sensacional. O único problema é que não tenho nenhuma fotografia.

— Isso não seria problema — disse Woden. — Conheço alguns fotógrafos que podem cuidar dessa parte.

— Eu era diferente naquele tempo — disse o Pregador. — Os cabelos eram compridos, eu usava barba. Levaria um ano para deixar a barba crescer e ficar do mesmo tamanho.

Woden sacudiu a cabeça.

— Isso não seria necessário. Perucas, barba falsa e maquilagem resolverão o problema. — Ele virou-se para Lincoln. — Se a idéia o atrai, vamos fazer um roteiro baseado nisso.

Lincoln assentiu.

— Está certo. Pode tentar. Pelo menos será um ponto de partida.

Menos de três meses depois, o Pregador estava sentado numa pequena sala verde, observando Katherine Kuhlman na tela de televisão, flutuando pelo palco do Auditório Capela, em sua túnica branca, enquanto o locutor de voz suave anunciava:

— Senhoras e senhores, a famosa mestra do Evangelho, srta. Katherine Kuhlman!

A câmara focalizou a audiência que aplaudia, depois tornou a focalizar a srta. Kuhlman, que sorriu, fez uma pequena reverência e ergueu os braços acima da cabeça, com uma Bíblia encadernada em couro vermelho numa das mãos. Ela foi até o pequeno pódio, pouco antes do centro do palco, e pôs a Bíblia ali. Finalmente ela falou, com uma voz bem suave, que o sistema de alto-falantes transmitiu por todo o auditório. Mas havia naquela voz uma autoridade que prendia a atenção de todos. Ela olhou para a Bíblia e depois tornou a levantar os olhos, enquanto a câmara dava um dose em seu rosto.

"Nenhum homem jamais viu Deus. Se amarmos uns aos outros, Deus permanecerá em nós e o Seu amor será em nós aperfeiçoado.

Por isso sabemos que permanecemos nele e Ele em nós, porque nos deu Seu Espírito. E nós temos visto e testemunhado que o Pai enviou o Seu Filho como Salvador do mundo.

Aquele que confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanecerá nele e ele em Deus."

Ela ficou em silêncio por um momento, depois afastou-se ligeiramente do pódio.

— Confesse e testemunhe — disse ela. — As palavras-chaves. Quantos de nós estão dispostos a fazer isso? Não uma coisa ou a outra, mas as duas. Não apenas uma vez por ano, uma vez por mês ou uma vez por semana, mas todos os dias de nossas vidas. Quantos de vocês, ao despertar esta manhã, disseram a si mesmos: "Jesus é o Filho de Deus, Jesus é meu Salvador, Jesus morreu na cruz por meus pecados e pelos pecados de todo o mundo"? E depois foram tomar o café da manhã e testemunharam isso para a mulher e os filhos?

Ela ficou outra vez em silêncio, olhando para a audiência.

— Não muitos de nós, infelizmente. — A voz dela tornou a se animar. — Mas hoje temos conosco um jovem muito especial. Um jovem que tem levado a palavra de Deus a muitos lugares estranhos e difíceis, através das areias movediças do pecado e da corrupção, apenas para descobrir que sua força não vem de si mesmo, mas do Espírito de Deus que nele habita. Seu primeiro pensamento todas as manhãs era confessar e testemunhar que Jesus era seu Salvador. A história dele foi uma inspiração para mim, como sei que será para vocês. E é por isso que eu peço a ele que venha até aqui para contá-la.

A porta da sala verde se abriu e um rapaz entrou.

— Dr. Talbot, a srta. Kuhlman está quase pronta para lançá-lo. Quer me acompanhar, por favor?

O Pregador levantou-se. Olhou para Joe e Marcus, ainda sentados no sofá. Joe fitou-o, sorriu e levantou o polegar.

— Mostre para eles, Pregador.

Marcus desviou os olhos do aparelho de televisão.

— Enfatize um pouco mais as tentações da carne com ela. Não se esqueça que a audiência dela é constituída pelo mesmo grupo que assiste às novelas matutinas, de segunda a sexta-feira. Fiz uma série de fotografias especiais para ela. Pegue as deixas das fotografias.

O Pregador assentiu. Sentiu a mão do rapaz em seu braço e virou-se para segui-lo. Passaram por um corredor e foram sair atrás de uma cortina. O rapaz pôs a mão na cortina.

— Deve entrar assim que ouvir seu nome. Pare por um instante, a fim de que a congregação possa vê-lo, depois encaminhe-se para a srta. Kuhlman, que estará sentada num pequeno sofá no meio do palco. Sente-se na beira do sofá, no outro lado. Ficará em ângulo reto em relação a ela, para melhor posicionamento da câmara. Vai encontrar um jarro com água e copos na mesinha à sua frente. Eu puxarei a cortina para você entrar.

— Obrigado.

A voz dela soou pelos altos-falantes:

— Meus amigos, quero que recebam calorosamente... o reverendo C. Andrew Talbot!

A cortina foi puxada bruscamente e o Pregador avançou para a bateria ofuscante de refletores.

Insinuante. Suave. Açucarado. Por baixo, no entanto, havia uma determinação inabalável, que se podia perceber na maneira como ela repetia cada resposta que ele dava, ressaltando os pontos que mais a interessavam. O Pregador não podia deixar de sentir admiração por ela. Aquela mulher aparentemente frágil era feita de aço da melhor têmpera. Era o seu púlpito. Ela era a estrela. E jamais deixava que alguém pudesse se esquecer disso.

Qualidade de estrelato, como Marcus dissera. Era o que todos tinham em comum, uma presença indefinível que fazia com que se elevassem acima da multidão de ministros comuns. Era diferente em cada um, mas não obstante estava ali.

Nos dois meses em que estava na trilha evangélica da televisão, o Pregador aparecera nos programas de todos eles. Pat Robertson representava o interesse generoso e a cordialidade do vizinho ideal de todos os americanos; Jim Bakker era o garoto de rosto redondo que morava na casa ao lado; Jerry Falwell era o homem afável e sincero que presidia a Câmara de Comércio local; Robert Shuller tinha o sorriso animador e jovial do médico de bairro, que sempre atraía sua atenção para o lado mais ameno da vida; Paul Crouch, com seus paletós bem coloridos, era o vizinho sempre disposto a embarcar em seu carro e partir para aventuras em lugares distantes e maravilhosos; Oral Roberts era o fervoroso visionário do bairro, com idéias maravilhosas para reformular o mundo; Jimmy Swaggart era o piedoso do bairro, que chorava por todos os sofredores do mundo; Rex Humbard era o mestre rigoroso; e, por último, mas nem por isso menos importante, Billy Graham, o pai a quem todos podiam recorrer em momentos difíceis.

Todos diferentes. Todos com a qualidade do estrelato. Todos com o seu relacionamento pessoal com Deus e Seu único filho, Jesus Cristo, o Salvador da humanidade.

Katherine Kuhlman também tinha a mesma coisa. Era a tia que o procurava em tempos de crise. Levando bolinhos que ela própria fazia. Ou canja. Tudo para fazê-lo sentir-se melhor.

A lâmpada que indicava um recado estava piscando no telefone quando eles voltaram ao hotel.

— Quer que eu descubra quem telefonou? — indagou Joe.

— Quero, sim, por favor — murmurou o Pregador.

Ele foi para o quarto e jogou-se na cama. Estava exausto. E também entediado. Contara a mesma história tantas vezes que estava cansado de ouvi-la. O único consolo é que aquela fora a última escala da atual excursão. No dia seguinte estaria de volta a Randle, junto com sua gente. Joe apareceu na porta:

— Quem telefonou foi aquela garota que trabalha para Randle, Jane Dawson. Ela deixou um telefone para ligar em Dallas. Disse que é urgente.

— Ligarei mais tarde. Não pode ser tão importante assim. Há meses que não a vejo.

— A mensagem diz que é urgente.

— Está certo, Joe. Ligue para mim.

Joe voltou à sala da suíte. Um momento depois, gritou para o Pregador no quarto:

— Ela está na linha!

O Pregador pegou o fone, recostando-se no travesseiro.

— Olá, Jane. O que há de tão urgente? A voz dela estava tensa:

— Preciso vê-lo pessoalmente.

— Você sabe perfeitamente que não podemos nos encontrar. Já lhe disse como ele se sente em relação a isso.

— Você pode parar em Dallas na volta. Ele não precisará saber que nos encontramos.

— Não. Dei minha palavra a ele. — O Pregador começou a procurar por um cigarro. — Mas o que aconteceu de tão importante que você não pode me dizer pelo telefone?

— Há sempre uma possibilidade de que haja alguém escutando o telefone.

— Não do meu lado.

— Pois não tenho tanta certeza assim. Fico às vezes com a impressão de que meu telefone está sendo grampeado.

O Pregador não conseguiu encontrar um cigarro e começou a ficar irritado.

— Não me importo absolutamente que alguém esteja escutando ou não. Você vai me contar logo qual é o problema ou então é melhor esquecer de uma vez por todas.

Ela começou a chorar.

— Pare com isso! Está se comportando como uma garotinha.

— Eu... eu não posso evitar. Estou grávida.

— Mas que merda! — O Pregador sentou-se na cama, rígido. Pensou rapidamente. — Trate de se controlar. Tentarei pegar um avião para Dallas ainda esta noite.

Ele bateu com o telefone e saiu da cama. Joe ouviu o barulho e apareceu na porta.

— Qual é o problema?

— Estamos fodidos... fodidos de verdade. — O Pregador estava furioso. Virou-se para Joe. — Pegue o telefone e veja se consegue me arrumar um avião para Dallas ainda esta noite.

 

Ela estava sentada ao lado do portão quando ele apareceu. Seu rosto estava pálido e contraído, os olhos ansiosos a fitarem-no, a voz quase sumida quando disse:

— Pregador...

Ele inclinou-se e beijou-a no rosto, sem dizer nada.

— Trouxe bagagem? — perguntou ela.

— Não. Mandei tudo com Joe.

— Meu carro está no estacionamento.

Ele seguiu-a em silêncio pela esteira rolante que conduziu-os ao saguão de entrada. O aeroporto estava quase vazio. O Pregador olhou para o relógio na parede. Era uma e quarenta da madrugada. Jane Dawson olhou para ele.

— Você está zangado comigo.

— Estou mais zangado comigo mesmo — respondeu ele, bruscamente. — Calculei que você tomaria as providências necessárias para evitar. Nem mesmo uma garota de ginásio é estúpida o bastante para fazer qualquer coisa sem estar prevenida.

Ela não disse nada. Ficaram calados até chegarem ao prédio de apartamentos em que ela morava. Ela saltou do carro, entregando as chaves ao porteiro. O Pregador seguiu-a até o saguão. No elevador, ela apertou o botão para a sua penthouse.

Foi só depois que ela abriu a porta do duplex que o Pregador compreendeu que ela vivia num dos apartamentos mais caros da cidade. Tinha dois andares, com um amplo terraço além das portas de vidro do chão ao teto. Era mobiliado luxuosamente, em estilo contemporâneo. O Pregador reconheceu alguns dos quadros pendurados nas paredes como obras de mestres modernos.

— Quer beber alguma coisa? — perguntou ela, ao entrarem na sala de estar.

— Bem que estou precisando de um trago — murmurou ele, correndo os olhos pelo apartamento.

— O que vai querer?

— Um scotch, se tiver.

— Tenho, sim.

Ela virou-se. O Pregador chamou-a.

— Esse quadro é autêntico ou uma cópia? — indagou ele, apontando para um Picasso.

— É autêntico.

— Nunca imaginei que você tivesse tanto dinheiro assim. Até hoje eu só tinha visto Picassos em museus.

— Vou buscar seu uísque.

Ele estava no terraço, contemplando a cidade, quando Jane voltou com o uísque. O Pregador pegou o copo e tornou a virar-se para a vista da cidade.

— Daqui se vê uma porção de luzes.

— É verdade. Foi justamente por isso que escolhi este (apartamento. A vista é espetacular.

— Nunca vi um apartamento como este, a não ser no cinema. É Randle quem paga?

Ela assentiu, em silêncio.

— Se você é esperta o bastante para fazer aquele velho (filho da puta sustentá-la em grande estilo, como pôde ser tão estúpida a ponto de estragar tudo? — perguntou o Pregador, sarcasticamente.

— Pensei que estivesse protegida. Meu médico suspendeu a pílula por algum tempo, e eu estava usando um diafragma.

O Pregador pensou rapidamente. Havia quase três meses que não se encontravam.

— De quanto tempo você está?

— O médico disse que estou no final do terceiro mês.

— Por que levou tanto tempo para descobrir?

— Já falei. Pensei que estivesse protegida. Além disso, nunca fui muito regulada. E ocasionalmente deixava de ter uma regra ou mesmo duas. Foi só esta semana, quando comecei a sentir uma náusea estranha pela manhã, que comecei a pensar que alguma coisa poderia estar errada.

— Oh, merda! — O Pregador tomou um gole grande de uísque. — Pediu a ele para fazer um aborto?

— Ele não faria.

— Por que não?

— É contra o aborto.

— Ele é católico?

— Não. É batista, com convicções profundas sobre o direito à vida.

Ele tomou o resto do uísque.

— Graças a Deus ele não é o único médico no mundo. Ela ficou chocada.

— Está querendo que eu faça um aborto?

O Pregador fitou-a com uma expressão irritada.

— Claro que estou. Pela primeira vez na vida tenho a oportunidade de formar a minha própria igreja. Qual seria a reação das pessoas se descobrissem que tenho um filho bastardo? E por quanto tempo acha que poderá continuar a viver assim, se não fizer o aborto? Randle lhe daria um chute no rabo tão depressa que você nem perceberia o que aconteceu.

Ela ficou calada por um longo momento.

— Podemos nos casar. Ele sacudiu a cabeça.

— Não sou do tipo de casar. O casamento nunca fez parte dos meus planos. — O Pregador levantou o copo. — Onde está o bar? Estou precisando de outro trago.

Ela conduziu-o em silêncio pelas portas de vidro, voltando à sala de estar. Apontou. O bar onde estava a garrafa de scotch ficava num pequeno nicho, no canto da sala. O Pregador foi servir-se de outra dose e depois voltou para junto dela.

— É bem possível que você seja conhecida demais por aqui para fazer uma coisa dessas. É melhor ir para a Califórnia.

Ela arriou no sofá, olhando para ele.

— Não posso acreditar no que estou ouvindo. Você diz que é um ministro do Evangelho. De que maneira prega, com a boca ou com o coração?

— Prego o Evangelho. E lembre-se que até mesmo os batistas, em sua convenção de 68, declararam que o aborto é uma questão de decisão individual — disse ele, furioso. — Já que estamos falando nisso, quero que me diga em que lugar da Bíblia está escrito que tenho de me casar com cada garota que eu engravidar.

A voz dela tornou-se fria:

— Houve outras?

— Como vou saber? Mas sempre andei com garotas, e você é a primeira que me aparece com esse problema. E como posso saber que o filho é meu? Há três meses que não estamos juntos. Você poderia ter trepado com outro desde o primeiro dia em que nos separamos.

As lágrimas começaram a escorrer pelas faces dela.

— Isso não aconteceu.

O Pregador ficou calado por um momento.

— Está bem, você não trepou com mais ninguém. Mas isso não faz a menor diferença.

— Faz alguma diferença o fato de eu amar você?

— O Senhor diz que devemos amar uns aos outros.

— Não é desse tipo de amor que estou falando, e você sabe disso perfeitamente.

Ele tomou um gole do uísque e arriou no sofá diante dela.

— Santo Deus, está tornando as coisas mais difíceis para mim. O que você acha que poderá acontecer quando o velho Randle descobrir? Ele me fez prometer que ficaria longe de você. Vai nos expulsar a ambos com pontapés no rabo e perderemos tudo... eu perco a igreja e você perde esta vida mansa.

Ela sorriu.

— Talvez não seja bem assim. Quem sabe se ele não vai ficar satisfeito?

— De que diabo está falando?

— Por que acha que ele queria que você parasse de se encontrar comigo?

— Ele disse que eu estava deixando você completamente tonta e que todo mundo começava a falar nisso. E acrescentou que tinha um interesse muito especial em você.

— E a única coisa que você pôde pensar foi que eu era a puta dele? — Agora ela estava furiosa. — Mas como você é estúpido! Que homem em seu juízo perfeito haveria de querer que a filha se envolvesse com um maluco que está disposto a renunciar a tudo no mundo só para pregar o Evangelho?

— Está querendo dizer...

O cérebro do Pregador ainda estava absorvendo as palavras dela no instante em que o telefone começou a tocar. Jane não fez menção de atender.

— Deve ser ele.

O Pregador fitava-a aturdido, incapaz de falar.

— Atenda — disse ela. — É bem provável que ele esteja querendo falar com você. Eu lhe disse que achava que meu telefone estava grampeado.

O Pregador atendeu o telefone e murmurou, hesitante:

— Alô?

A voz do velho trovejou em seu ouvido:

— André w?

— Eu mesmo, senhor.

— Parabéns, filho. Não quero que você se preocupe com nada. Já tomei todas as providências para o casamento.

 

Jake Randle cumpriu a palavra. Churchland estava pronta em maio de 1976, como ele dissera que aconteceria. Mas a inauguração oficial foi marcada para 4 de Julho, a fim de coincidir com a comemoração, em escala nacional, do bicentenário da independência americana.

Por volta das onze horas da manhã, os computadores do centro de recepção já haviam registrado dois mil quatrocentos e vinte e um visitantes. Trinta e um ônibus estavam no estacionamento, sete jatos particulares já tinham chegado. Havia três DC-9 e um Boeing 727-200 no aeroporto. Mais de setecentos automóveis estavam nos estacionamentos secundários e mais quinze ônibus e três grandes jatos fretados eram aguardados antes das duas horas da tarde.

O Pregador estava parado na janela de seu escritório, no sétimo andar da torre da igreja. Podia ver lá embaixo a multidão circulando por Churchland, famílias inteiras, homens, mulheres e crianças em seus melhores trajes domingueiros. Todos pareciam estar se divertindo, o clima era festivo. A campainha em sua mesa soou e ele foi até lá. Apertou um botão e disse pelo interfone:

— Pois não?

— Sua mulher está ao telefone, dr. Talbot — informou a secretária.

Ele atendeu o telefone particular.

— Bom dia, Jane.

— Olá, querido. Senti saudade de você esta manhã.

— Saí muito cedo. Você estava dormindo tão serenamente que não quis acordá-la.

Ela riu.

— Não acha que é emocionante? Não pude acreditar quando olhei pela janela e vi tanta gente.

— Já há quase duas mil e quinhentas pessoas.

— Quantas mais está esperando?

— Não sei. Ninguém me disse. Ela tornou a rir.

— Tolinho. Não é preciso que alguém lhe diga. É para isso que tem um minicomputador na sua mesa. Pode obter qualquer informação que quiser do banco central.

— Não sei como funciona.

— É muito simples. Basta dar o código. A informação aparecerá na tela automaticamente.

Ele sacudiu a cabeça.

— Lamento, mas sou um caso perdido. Esqueci o código.

— Mas não tem seu livro de código?

— Tenho, mas não consigo entender nada. É complicado demais para mim.

— Deve ser um bloqueio mental. Você pode lembrar todas as palavras da Bíblia, mas não é capaz de ler um simples livro de códigos. Vou lhe dar o código: 21-30-219-17.

O Pregador apertou os números no teclado do computador. A resposta apareceu na tela no mesmo instante.

— Haverá três mil quatrocentas e dezesseis pessoas.

— Não será possível colocar todo mundo na igreja. Ainda bem que as capelas estão equipadas com telas de projeção de tevê. Poderão acomodar pelo menos mil pessoas.

— É melhor eu avisar a recepção. Ela riu de novo.

— Não precisa fazer nada. O computador distribuirá todos os lugares. Está programado para desviar os visitantes para as capelas, assim que a igreja estiver lotada.

— Não sei o que eu faria sem você, Jane. Ela riu mais uma vez.

— É um elogio ambíguo. Ainda seria um solteiro badalador e não o pai de dois filhos.

O Pregador sorriu. Little Jake estava com quase quinze meses de idade e Linda Rae completaria três meses na semana seguinte.

— Como eles estão esta manhã?

— Muito bem. O avô está com eles. Nunca o vi tão feliz. Mas não foi por isso que liguei. Queria saber se você dispõe de tempo para vir almoçar conosco.

— Acho que não. Ainda tenho muita coisa para fazer. Neste momento, por exemplo, preciso descer para cumprimentar Ruth Carter Stapleton.

— Quem é ela?

— É a irmã de Jimmy Carter.

— Também não sei quem é ele.

— É o governador da Geórgia que está disputando a candidatura presidencial pelo Partido Democrata. Ele é um cristão renascido e ela é pregadora. E logo depois terei de ir ao aeroporto. O governador do Texas vai chegar em seu avião particular.

— Sinto muito. Quando voltaremos a vê-lo? O Pregador riu.

— É uma expressão antiga, mas bastante apropriada: vejo-a na igreja.

— Se eu não o amasse, seria muito fácil odiá-lo.

— Eu também a amo.

Ele desligou. A campainha soou no mesmo instante e a secretária disse:

— O sr. Lincoln está aqui.

— Mande-o entrar.

O produtor entrou na sala, com um script na mão. Estava sorrindo.

— Acho que conseguimos. O Pregador também sorriu.

— Espero que sim. Marcus pôs o script na mesa.

— Vai encontrar aí tudo o que precisa. Deixamos quinze minutos para o seu sermão.

— Isso é tudo? O que aconteceu com o resto do tempo? Pensei que tivéssemos uma hora e meia.

Marcus riu.

— Cerca de quarenta e cinco minutos serão usados para a apresentação dos convidados, que poderão dizer algumas palavras.

— Isso ainda deixa meia hora de sobra.

— Vamos apresentar filmes de Churchland, trechos de sua participação em outros programas, coisas assim. — Ele arriou numa cadeira no outro lado da mesa. — Mas não precisa se preocupar com isso. O mais importante é lembrar que temos de começar exatamente às três horas e terminar exatamente às quatro. Isso nos deixa quatro horas para editar o programa e lançá-lo no ar. Temos de entrar no ar às dez horas no leste e às sete horas no oeste.

— Está certo.

— Jim Woden o manterá avisado sobre o tempo. Siga a orientação dele e não teremos qualquer problema. — Marcus levantou-se. — Se tiver alguma dúvida, estarei na minha sala. Providenciei para que todos estejam no palco quinze minutos antes de começarmos.

— Isso é ótimo. Marcus sorriu.

— Boa sorte.

— Obrigado. Vamos precisar.

O som de um jato penetrou na sala. O Pregador voltou à janela e olhou. Um jato comercial aproximava-se do aeroporto, com as asas prateadas faiscando ao sol. Ele respirou fundo.

Quase dois anos já se haviam passado desde aquela manhã em que ele chegara de Dallas com Jane. Desembarcaram de um dos jatos Lear do velho no campo de pouso particular do rancho. Em vez de ir para a casa com Jane, ele pegou o Mercedes, que o levou diretamente à tenda grande, que ainda estava armada nos arredores da cidade. As notícias haviam-se espalhado rapidamente. Joe e Beverly estavam à sua espera.

— Como foi? — perguntou Joe.

O Pregador tentou se mostrar indiferente.

— Tudo bem.

— Quando será o casamento? Ele não pôde disfarçar a surpresa.

— Como soube?

— Não há segredos. Ela telefonou para cá primeiro, querendo saber onde você estava.

— Isso nada significava.

— Ela estava chorando quando lhe falei — disse Beverly. — Perguntei qual era o problema e ela me disse que estava grávida. — Beverly fez uma pausa, acendendo um cigarro. — Pela manhã, bem cedo, Charlie foi falar comigo. Ela estava transtornada. Vinha saindo com o guarda-costas de Larry Randle. Ele apareceu às três horas da madrugada e disse a Charlie que você ia se casar com a filha do velho.

O Pregador ficou calado.

— Sabia que ela era filha do velho? — indagou Beverly.

Ele sacudiu a cabeça.

— Só descobri ontem à noite.

— E vai aceitar o casamento?

— Tenho opção? Se não aceitar, perderemos tudo. A voz de Charlie soou atrás dele:

— A puta!

O Pregador virou-se, surpreso. Não a ouvira entrar.

— A puta! — repetiu Charlie. — Preparou a armadilha direitinho!

— Não foi assim, Charlie. A culpa não foi dela.

— Nenhuma mulher é tão estúpida que precise esperar três meses para descobrir que está grávida. Você diria a mesma coisa se uma de nós lhe aplicasse esse golpe? Trataria de nos despachar para o médico mais próximo.

Ele não disse nada. Charlie acrescentou, em tom acusador:

— Você nem mesmo está apaixonado por ela. Está ofuscado pelo dinheiro do velho.

— O aborto é um pecado — disse ele. — É contra as Sagradas Escrituras.

— Ora, deixe de merda! Estou cansada de ouvi-lo citar as Escrituras sempre que isso lhe convém. Por que não admite a verdade só uma vez... que é o dinheiro que você realmente quer?

— Não é o dinheiro, mas sim a oportunidade de me entregar inteiramente ao trabalho do Senhor.

— Pode acreditar nisso, se quiser, mas as garotas e eu não engolimos. Houve um tempo em que acreditamos em você, mas isso não acontece mais. Você acaba de estragar tudo. Vamos embora esta manhã.

— Ei, Charlie, vamos com calma! Dê-me uma chance. Nada vai mudar. Ainda estamos juntos, trabalhando por Jesus Cristo.

— Você é muito estúpido — disse ela, desdenhosamente. — Nem mesmo é capaz de perceber que está trabalhando para Jake Randle e não para Jesus Cristo.

Antes que o Pregador pudesse dizer alguma coisa, ela virou-se e saiu correndo. Ele olhou para Joe e Beverly.

— Saiam atrás dela. Talvez possam fazer com que ela compreenda.

— Joe e eu passamos a manhã toda conversando — disse Beverly. — Não podemos fazer com que elas mudem de idéia. Estão convencidas de que você as traiu. Apenas Tarz vai ficar.

Ele continuou em silêncio por mais um momento.

— E vocês?

— Também vamos ficar — respondeu Joe. — Não nos incomodamos de meter a mão numa boa grana.

— Acha que é o dinheiro que está me levando a fazer tudo isso?

— É uma questão que não me interessa. Você é um pregador e tem de pregar. Qualquer que seja a maneira como o faça, está certo para mim.

— E você, Beverly, como se sente? Ela sorriu.

— Tomei a decisão de acompanhá-lo há muito tempo. O que você faz não é importante. Além do mais, uma budista não tem o direito de julgar um cristão.

— O mais importante é outra coisa — disse Joe. — Você quer que a gente fique?

O Pregador fitou-o nos olhos.

— Você sabe que sim. Joe olhou para Beverly.

— Então vamos ficar.

O Pregador fitou-a. Ela acenou com a cabeça.

— Ótimo — disse ele. — Fico muito contente.

— Continuaremos a chamar muita atenção — comentou Joe. — E vão pressioná-lo para se livrar de nós.

— Ninguém pode me obrigar a fazer isso.

— Já que toda essa conversa de casamento está no ar. Pregador, você teria alguma objeção a que Beverly e eu nos casássemos?

— E sua mulher e filhos, que estão na Carolina?

— Nunca fomos casados de verdade. Além do mais, ela casou com outro cara.

— Nesse caso, não tenho qualquer objeção. Joe sorriu.

— Então podemos todos nos dar os parabéns mutuamente.

O Pregador respirou fundo.

— Ainda não. Primeiro, quero conversar com as garotas pessoalmente. Não posso permitir que nos abandonem. Não desse jeito.

 

Ele atravessou o campo até o trailler das moças, subiu os três degraus e bateu na porta. A voz soou abafada do outro lado:

— Quem é?

— O Pregador.

— Vá embora. Não temos nada a falar com você.

— Mas eu tenho uma coisa para dizer a vocês.

— Não queremos ouvir. Vá embora.

Ele experimentou a porta. Estava trancada.

— Abram a porta.

— Não.

Ele pegou a maçaneta e girou. Ao mesmo tempo, desferiu um chute violento. A porta frágil se abriu e ele entrou no trailer.

— Desculpem.

As moças estavam de pé, perto dos beliches. Havia caixas de papelão e valises no chão. Um tênue cheiro de maconha pairava no ar. O Pregador fitou uma a uma, lentamente. Elas sustentaram seu olhar, sem dizer nada.

— Muito bem — disse ele. — Quem está com o baseado?

Ninguém respondeu.

— Não sejam egoístas. Bem que estou precisando dar uma puxada.

Elas se entreolharam e depois Melanie estendeu-lhe um baseado pela metade. Ele o acendeu. Sentou-se numa cadeira perto da porta e deu duas tragadas. Acenou com a cabeça, pensativo, sem falar. Deu outra tragada e depois devolveu-o a Melanie. Ela deu uma puxada e passou-o a Charlie, que estava a seu lado. Charlie puxou também e passou adiante. Ao chegar à última moça, o baseado praticamente já acabara. Nenhuma delas dissera qualquer coisa até aquele momento. Finalmente, o Pregador disse:

— Vocês têm outros?

— Foi para isso que arrombou a porta? — perguntou Charlie.

Ele fitou-a nos olhos.

— Depois do que você me disse, pode pensar num motivo melhor?

Ela baixou os olhos, sem falar. Ele tornou a encarar uma a uma, antes de dizer:

— Acontece que tenho um motivo melhor para entrar aqui. Nós nos conhecemos há muito tempo, enfrentamos muitas coisas juntos. Amo vocês demais para deixá-las irem embora assim.

Mais uma vez, foi Charlie quem falou por elas:

— Você não precisa mais de nós. Está indo para outro lugar.

— Não vou a parte alguma a que vocês não possam ir também. Preciso de vocês agora mais do que nunca.

— Se isso for verdade, então por que você fica correndo por todo o país, enquanto nós ficamos sentadas aqui, sem fazer nada? E mesmo quando você está aqui, por uns poucos dias, nem sequer fala com a gente, está sempre metido numa porção de reuniões. E de repente descobrimos que vai casar com aquela dona rica.

— Eu não sabia que ficar solteiro era a condição para permanecermos juntos. Pensei que o amor que sentíamos uns pelos outros e por Jesus fosse o que contasse.

— Você fica falando no amor que tem por nós, mas é ela que está comendo durante todo o tempo.

— Sabe muito bem que não é assim, Charlie.

— Não sei mais o que pensar.

Ela virou-se rapidamente, mas não antes que o Pregador visse as lágrimas aflorando em seus olhos. Ele ergueu-se e pegou-lhe a mão, fazendo com que ela se virasse para ele.

— Charlie...

Ela escondeu o rosto contra o ombro dele.

— Por que não nos deixa ir embora, Pregador? O que mais está querendo de nós?

Ele afagou os cabelos dela.

— O que eu sempre quis, Charlie. — Ele olhou para as outras por cima da cabeça dela. — Lembram-se do que falei quando deixamos a comunidade em Los Altos? Queria que construíssemos um ministério juntos. Um lugar onde pudéssemos ajudar as pessoas a encontrar o Senhor. E eu queria que vocês me ajudassem.

Ele fez uma pausa. Nenhuma delas falou.

— Isso não mudou. E eu também não mudei. Ainda preciso de vocês. Preciso de sua fé, confiança e amor. Sem isso, nada poderei conseguir.

Então, Melanie disse:

— Andamos ouvindo dizer, antes mesmo que isso acontecesse que você pretende nos mandar embora.

— Onde foi que ouviram isso?

— Dos moradores locais. Disseram que o velho Randle está insistindo para você se livrar do seu harém.

— E por que lhes deram atenção? Por que não foram me procurar?

— Bem que quisemos. Mas você estava sempre muito ocupado. Quase não parava aqui.

O Pregador ficou em silêncio por um momento.

— Vou fazer uma promessa a vocês. Toda vez que quiserem falar comigo, sobre qualquer coisa, podem me procurar. Prometo que sempre arrumarei um tempo para vocês. —— Todas estavam agora olhando para ele. — Vão ficar?

O Pregador olhou para o impresso de computador e depois para Beverly, sentada no outro lado da mesa.

— Mais de seis milhões de dólares?

— Isso mesmo — disse ela. — Foi o que a Fundação Randle aplicou em Churchland. Eles possuem o terreno e os prédios. Arrendaram para nós por um período de dez anos, a seis mil dólares por ano. Pagamos a manutenção e todas as demais despesas.

— O que dá mais de cinqüenta mil dólares por ano.

— Também estamos devendo quinhentos mil dólares que eles nos adiantaram para relações públicas e compra de tempo na televisão.

O Pregador sacudiu a cabeça.

— É muita coisa para se começar.

— Foi esse o acordo — disse Beverly, sem qualquer expressão. — Você assinou o contrato. Se tivermos sucesso, Randle vai ficar numa ótima situação.

— E se não tivermos?

— Eles podem nos expulsar e ficar com tudo.

— E o que ele fará com tudo isso?

Beverly deu de ombros.

— Não sei.

Subitamente, o Pregador começou a rir.

— Não há nada que ele possa fazer. Se não efetuarmos os pagamentos, ele não irá nos expulsar. Ficará com tudo isso engasgado na garganta se nos mandar embora. Acho que desta vez ele foi além da sua esperteza.

O rosto de Beverly continuava impassível.

— É possível.

— Quando começa o arrendamento?

— Já começou. Estamos lhe devendo neste momento um quarto de milhão de dólares.

— Ótimo. Vamos deixar chegar até um milhão antes de pagarmos alguma coisa.

— Como podemos fazer isso? Já há quase trezentos mil dólares de contribuições das três primeiras correspondências e ainda nem inauguramos oficialmente.

— Você não é a tesoureira da igreja?

— Sou.

— Quem é a primeira pessoa a contar o dinheiro?

— Eu.

— Não é muito diferente da época em que andávamos pelas estradas, fazendo as reuniões evangélicas de cidade em cidade. Quem conta o dinheiro decide o que e a quem pagar.

— Não era isso o que você costumava fazer naquele tempo.

— Agora é diferente. Tenho certeza de que o dinheiro pode ser mais bem aproveitado no serviço de Deus, em vez de tornar meu sogro ainda mais rico.

— Está certo.

Beverly começou a recolher os papéis de cima da mesa. A voz da secretária saiu pelo interfone nesse momento:

— O sr. Woden telefonou da cabine de controle. Disse que o programa vai começar dentro de uma hora e quer saber se pode mandar a maquiladora subir agora.

— Diga-lhe que ela poderá vir dentro de quinze minutos. — O Pregador gesticulou para Beverly, que estava se levantando. — Espere um pouco.

Ela ficou de pé, olhando para ele.

— Todos os nossos recibos vão para o computador? Beverly assentiu.

— Há algum jeito de evitar que uma parte entre no computador?

— Não será fácil. É o departamento de sua mulher. E Jane sabe tudo sobre computadores.

— Não tenho a menor dúvida quanto a isso — disse ele, secamente. — Mas não estou perguntando a ela e sim a você. É possível?

— Não será fácil. Mas é possível.

— Pois então comece a trabalhar nisso. Quero dez por cento da receita numa conta de que só eu e você teremos conhecimento.

— Está certo. — Um breve sorriso insinuou-se no rosto de Beverly. — Está ficando muito chinês.

— Nada disso. Apenas cauteloso. Muitas igrejas já foram tomadas por pessoas inescrupulosas. Só quero evitar que a mesma coisa aconteça conosco.

Ele ficou observando-a sair, depois pegou o telefone e fez uma ligação. Charlie atendeu.

— Como estão as crianças?

A voz dela transbordava de excitação ao responder:

— Muito bem. Acabamos de nos vestir e vamos agora começar a maquilagem.

— Ótimo. Vocês estão numa boa?

— Claro. Não queremos correr qualquer risco.

— Assim é melhor. Vamos nos encontrar lá embaixo. E nos encontraremos depois do programa para puxar um fumo.

— Será maravilhoso!

— Deus a abençoe.

O Pregador desligou. Apertou o botão e disse pelo interfone:

— Chame o irmão Washington.

Um momento depois, a campainha do telefone soou. Era Joe.

— Está pronto? — indagou o Pregador.

— Pus minha roupa de ir à igreja aos domingos.

— Então trate de subir. A maquiladora deve aparecer aqui a qualquer momento.

— Já estou subindo. — Joe riu. — Mas não precisarei dessas coisas. Já sou moreno demais.

Cerca de quarenta e cinco minutos depois, o Pregador estava na pequena plataforma de elevador por baixo do palco que o levantaria, como num passe de mágica, à sua posição por trás do púlpito. Ele observou a tela do pequeno monitor na prateleira à sua frente. Ouviu o coro por cima de sua cabeça, enquanto a tela se acendia.

A primeira imagem foi de uma câmara num helicóptero sobrevoando Churchland. A câmara fez um zoom na entrada da igreja, mostrando a multidão que passava pelos portões. Mostrou depois a cruz gigantesca suspensa entre as duas torres. Abruptamente, houve um corte para o interior da igreja. A câmara passou a mostrar a congregação, enquanto a voz de barítono do locutor começava a sair pelos altos-falantes:

— De Churchland, Texas, neste dia do bicentenário dos Estados Unidos da América, a Igreja da Comunidade de Deus da América Cristã Triunfante dá as boas-vindas a todos, na cerimônia de abertura do seu primeiro Festival da Fé.

A câmara passou lentamente pelo palanque no palco, parando por um breve instante ao focalizar cada convidado, a fim de que pudessem ser reconhecidos pela audiência, enquanto a voz do locutor continuava:

— Distintos convidados, senhoras e senhores, a Igreja da Comunidade de Deus da América Cristã Triunfante tem o maior orgulho em apresentar o seu pastor...

O pequeno fone de rádio no ouvido do Pregador crepitou por um instante, enquanto o pequeno elevador estremecia e começava a subir, lentamente. Ele ouviu a voz de Jim Woden:

— Agüente firme, dr. Talbot. Está a caminho do paraíso.

O Pregador sorriu consigo mesmo do gracejo. Enquanto o elevador alcançava o palco por trás do púlpito, a voz trovejante do locutor abafava todos os demais sons:

—O reverendo dr. C. Andrew Talbot!

A congregação começou a aplaudir. Contemplando-a pela primeira vez, o Pregador sentiu o poder que havia nele, o poder de alcançar todas aquelas pessoas, o poder de mudar suas vidas, o poder de levá-las para mais perto de Deus. Lentamente, ele correu os olhos pelo imenso auditório. Não havia um só lugar vago. Todos o fitavam ansiosamente, esperando pela fé e esperança que ele ia proporcionar-lhes.

Ele ergueu as mãos acima da cabeça, até que os aplausos cessassem e todos ficassem imóveis em seus assentos. Virou-se e olhou por um momento o palanque às suas costas; depois, tornou a contemplar a audiência. A sua voz era gentil e reverente, mas veemente de convicção:

— Irmãos e irmãs em Cristo, vamos começar com uma oração.

Ele cruzou as mãos e olhou para baixo, esperando por um instante para que a congregação pudesse imitá-lo.

— Nós Lhe agradecemos, ó Senhor, por tornar tudo isto possível. E nos consagramos, e a este ministério, a Seu serviço e ao culto na conformidade do Evangelho de Seu único filho, Jesus Cristo. E empenhamos nossas mentes, corações e corpos para levar a Sua sagrada mensagem ao mundo inteiro.


 Jesus por poder

— Desculpem o atraso — disse o Pregador, entrando na sala de reunião e indo ocupar seu lugar à cabeceira da mesa. — Mas quando ouvimos a notícia de que o presidente Reagan foi vítima de um atentado, cancelei o programa que estava sendo feito e transformei-o numa reunião de preces por sua recuperação, de seu assistente, James Brady, e do agente do serviço secreto, que também foram baleados na ocasião. Estaremos no ar com esse programa às sete horas da noite, horário do leste, e quatro horas da tarde, horário do Pacífico. Seremos o único programa religioso de televisão com isso. Todos os outros gravam seus programas com antecedência de um dia a uma semana. Faremos com que todos pareçam ultrapassados.

— O que aconteceu? — perguntou Jake Randle, do outro lado da mesa. — Estávamos assistindo à televisão aqui. Tudo o que sabemos é que o presidente foi levado para o hospital. Mas ninguém sabe se está gravemente ferido.

— Talvez o estado dele não seja crítico — respondeu o Pregador. — Há uma informação de que ele entrou andando no hospital. Mas ainda não foi confirmada.

— Podemos estar com sorte — comentou Randle. — Se tudo correr bem, nosso pessoal de relações públicas vai providenciar para que todos saibam que nossas orações foram as primeiras a levar Jesus em socorro do presidente.

O Pregador fitou-o, sem dizer nada. O velho sustentou o olhar.

— Neste momento, estou contente por você ter feito amizade com o pessoal de Bush, embora na ocasião eu achasse que você tinha enlouquecido. Se o presidente Reagan morrer, Falwell vai querer chutar o próprio rabo, por ter tentado persuadi-lo a tirar Bush da chapa.

— Pensei que também estivesse envolvido nisso — comentou o Pregador, deliberadamente.

— Apenas dei algum dinheiro ao comitê, mais nada — respondeu Randle, embaraçado. — Pessoalmente, achava que Haig deveria ser o homem escolhido. Mas isso só prova uma coisa. Temos de garantir o controle da Câmara nas eleições de 82. Se eles liquidarem Reagan e depois Bush, então ficaremos com Tip O'Neill e os democratas voltam à Casa Branca.

— Ainda falta um ano e meio para as eleições de 82 — disse o Pregador.

— Nunca é cedo demais para se começar a trabalhar. Temos de nos proteger, caso contrário acabaremos perdendo tudo o que conseguimos ganhar.

O Pregador assentiu, sem fazer qualquer comentário, e correu os olhos pela mesa.

— Creio que está na hora de iniciarmos a reunião e cuidarmos de nossos próprios negócios. —— Houve acenos de cabeça e murmúrios de aprovação. O Pregador pegou o martelo de madeira e bateu na mesa. — A reunião do Conselho de Administração da Igreja da Comunidade de Deus da América Cristã Triunfante está aberta.

Ele virou-se para Beverly, sentada à sua direita.

— Peço à secretária para ler a lista de chamada e depois as atas da última reunião.

Beverly levantou-se. Leu os nomes automaticamente:

— Sr. Jake Randle, sr. Richard Craig, sr. John Everett, sr. Charles Michaels, sr. Marcus Lincoln, sra. Helen Lacey, sra. Jane Talbot, dr. C. Andrew Talbot. — Ela fez uma pausa, depois pegou um livro preto, de folhas soltas. — Há uma cópia das atas da última reunião na pasta que está na frente de cada um. Vou começar a lê-las.

Randle interveio:

— Proponho dispensar a leitura das atas e aprová-las pelo que está escrito.

— Apoio a proposta — disse Craig. O Pregador levantou-se.

— A proposta está apresentada e vamos fazer uma votação. Os que estão a favor digam sim.

A proposta foi aprovada por unanimidade. Ele acenou com a cabeça para Beverly.

— Pode ler agora o relatório financeiro cobrindo o último trimestre.

Beverly pegou outra pasta.

Uma cópia detalhada deste relatório também está nas pastas. Com permissão de todos, lerei apenas os itens mais importantes.

Receita de coletas e contribuições: 12,1 milhões

Receita de dividendos, juros e outras fontes: 4,7 milhões

Receita total: 16,8 milhões

Menos: despesas operacionais: 10,5 milhões

Excesso líquido de receita sobre despesas transferido para superávit: 5,3 milhões

Total atual de superávit investido em títulos e depositado em bancos diversos: 41,4 milhões

Levantando os olhos, Beverly disse:

— Eu gostaria de acrescentar que as despesas operacionais dos dois meses do trimestre que caíram no atual ano fiscal aumentaram em aproximadamente um milhão de dólares por mês, em decorrência do aumento do custo de tempo de televisão e rádio, por causa das novas tabelas das emissoras, que entraram em vigor a primeiro de janeiro.

— A nossa receita também aumentou? — perguntou Randle.

— As coletas e contribuições parecem permanecer aproximadamente nos mesmos níveis do ano anterior, em torno de quatro milhões por mês, senhor — respondeu Beverly. — Claro que a receita de investimento do superávit vai aumentar proporcionalmente. Mas, infelizmente, não será suficiente para compensar os aumentos atuais das tabelas das emissoras e os aumentos adicionais que estão previstos para entrar em vigor na metade do ano.

— O que está dizendo é que devemos esperar um aumento de doze a catorze milhões de dólares nas despesas este ano, sem uma elevação correspondente na receita. É isso?

Beverly assentiu.

— É, sim, senhor.

— Obrigado. — Randle esperou que Beverly se sentasse e depois correu os olhos pela mesa. — Não é uma notícia muito boa.

Ninguém fez qualquer comentário. Todos sabiam que ele ainda não terminara. Randle olhou para o Pregador.

— Parece-me que compete a você encontrar um meio de aumentar a nossa receita.

O Pregador sustentou o olhar dele.

— É possível. Mas tem alguma idéia de como eu poderia fazê-lo?

— Pode fazer o que os outros fazem. Promover campanhas especiais de contribuição. Jerry Falwell, Oral Roberts e outros estão sempre fazendo isso. Não se envergonham de pedir dinheiro ao público.

— Eu também não. Mas, com o devido respeito a todos os bons pastores, não estou empenhado em construir monumentos para mim mesmo, sob a forma de universidades e hospitais. O único monumento que desejo construir é para Deus.

— Amém a isso, dr. Talbot — disse Randle. — Mas como espera realizar ao menos isso, se os custos continuam a subir cada vez mais, até absorver todo o dinheiro que recebe? Precisa aumentar sua audiência, assim como a receita.

— É mais fácil dizer do que fazer.

— Falwell está indo muito bem. Ele se gaba de ter alcançado vinte e cinco milhões de espectadores. Não conseguiu isso ficando de braços cruzados e esperando que fossem ao seu encontro. Saiu em campo e fez com que todos lhe prestassem atenção.

O Pregador virou-se para Marcus Lincoln.

— Sr. Lincoln, trouxe aquele relatório da Arbitron Company que lhe pedi?

Lincoln acenou com a cabeça afirmativamente, pegou uma pasta de arquivo e estendeu para o Pregador, que a abriu e deu uma olhada.

— Este é um relatório da audiência total de todos os programas religiosos transmitidos em cadeia desde 1975, o ano anterior à inauguração de Churchland. Em 75, essa audiência foi de 20,8 milhões de espectadores. Em 76, o ano de nossa inauguração, passou para 22,8 milhões. Permaneceu assim por dois anos, até cair em 79 em quase um milhão, baixando para 21,4 milhões. Em 80 houve outra queda, para 20,5 milhões. E isso abrange a todos nós, inclusive Falwell, que tem apenas um entre os sessenta e cinco programas religiosos transmitidos pela televisão.

O Pregador fechou a pasta e pôs na mesa à sua frente.

— No relatório há também uma análise da audiência, mostrando que os ministérios pela televisão atraem mais a audiência acima de cinqüenta anos de idade, com uma porcentagem muito maior de mulheres do que de homens. Diante dessas circunstâncias, creio que é um fato extraordinário estarmos conseguindo manter os níveis de coleta. E temos a nosso favor um elemento com que os outros não contam. Não devemos nada a ninguém. Cada conta que recebemos é paga pontualmente, e ainda temos um superávit considerável. Podemos agradecer ao Senhor por isso.

— Amém — disse Jake. — Acha então que devemos ficar de braços cruzados esperando para ver o que acontece?

O Pregador virou-se para ele.

— Não foi isso que eu disse.

— Então o que foi?

— Acho que o dinheiro que está nos bancos e aplicado em títulos não está servindo em nada ao Senhor. Acho que o dinheiro deve ser investido para levar esta igreja, a igreja dele, para mais perto do povo.

Ele fez uma pausa. Todos estavam calados, até mesmo o velho. O Pregador respirou fundo.

— Quando eu viajava com a missão evangélica, costumávamos visitar apenas as cidades em que a igreja local recebesse favoravelmente o nosso ministério, ajudando a converter nossa presença num esforço cooperativo para levar mais pessoas a Jesus Cristo. O dinheiro que coletávamos era dividido com as igrejas locais, uma parte permanecendo assim na cidade, em benefício de seus paroquianos.

"O ministério pela televisão não faz isso. Começamos a avaliar o nosso sucesso em dólares e não em almas salvadas e levadas para o Senhor. Podemos controlar o dinheiro, mas qual entre nós pode fazer um registro das almas? Como podemos saber se as almas que levamos para Cristo permanecem com Ele? Não há qualquer possibilidade.

"Mas há um lugar que pode fazer o que não podemos. A igreja ou igrejas locais em todos os lugares atingidos por nossos programas. O que proponho é usar uma parte do dinheiro que coletamos e aplicá-lo nas igrejas locais, muitas das quais mal podem garantir a sobrevivência de seus ministros, promovendo uma sociedade conosco para levar e manter a mensagem de Jesus Cristo bem viva nos corações de suas congregações."

Randle comentou:

— Acho que estaríamos jogando fora o nosso dinheiro.

— O dinheiro não é nosso, mas do Senhor. Se não ficássemos com o dinheiro, talvez fosse para as igrejas locais.

— Se não ficássemos com o dinheiro, teria ido para Pat Robertson, Jimmy Swaggart, Ernest Angley ou Paul Crouch.

— Esqueceu-se de mencionar Bob Shuller, Billy Graham, Jerry Falwell e os outros sessenta e seis ou mais ministérios que estão junto conosco neste momento. Mas permanece o fato de que recolhemos o dinheiro e ele está em nossos bancos. A questão é uma só: o que vamos fazer com esse dinheiro? Mantê-lo oculto e seguro em nossos cofres? Ou devemos atender ao que nos foi dito por São Lucas?

O Pregador abriu a Bíblia que estava à sua frente e leu:

— Capítulo 16, versículo 13: "Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar a um e amar ao outro, ou se devotará a um e desprezará o outro. Não se pode servir a Deus e ao dinheiro".

 

— Papai não ficou muito feliz com a reunião de hoje — disse Jane, ao sair do banheiro.

O Pregador estava sentado na cama, assistindo ao videoteipe de um dos mais recentes programas de Ernest Angley. Estava quase no fim e ele acabara de concluir a sessão de cura, virando-se para a câmara. O Pregador observava fascinado, enquanto o dr. Angley dizia:

"E agora pergunto a cada um dentre os que estão me vendo na televisão: está doente ou um ente amado sofre de um problema qualquer? Trata-se de um problema físico ou mental? É incapaz de expulsar os demônios da bebida, tóxicos, tabaco, luxúria ou as doenças de seu corpo? Lembre-se de que Jesus pode curá-lo. Creia que pode ser curado, da mesma forma como as pessoas que acabou de ver sendo curadas, através de sua fé em Jesus Cristo. Lembre-se de que ele é o nosso amado Jesus Cristo e que morreu na cruz por todos nós, por todos os nossos pecados. Nossa fé nele pode curar todos os males, resolver todos os nossos problemas.

"Vou estender minha mão para a câmara. Ponha a sua mão na tela da televisão, por cima da minha, e repita a oração comigo." A mão cobriu a tela. "Creio no Senhor Jesus Cristo e que ele morreu na cruz por meus pecados. Em seu nome, ordeno aos demônios que causam meu sofrimento que me deixem."

O rosto de Angley apareceu por trás de sua mão na tela. A carranca intensa de determinação só era igualada pelo som estridente e autoritário da voz:

"Curem-se! Curem-se! Em nome do Senhor Jesus Cristo, curem-se!"

A câmara recuou, enquanto ele se adiantava, com o rosto agora sorridente.

"Obrigado, doce Jesus. Obrigado por me fazer recuperar a saúde."

A tela ficou preta por um momento e depois tornou a mostrar um dose dele.

"Juntem-se a nós na próxima semana, quando a missão de Ernest Angley se apresentará no Auditório Cívico de Charlotte, na noite de quarta-feira. Até lá, guardem esses presentes e dízimos de amor, assim como qualquer dinheiro extra de que puderem dispor, pois sem a ajuda de vocês não poderíamos levar esse ministério ao povo. Até lá, que o bom Deus os abençoe. Em nome de Nosso Salvador Jesus Cristo, eu lhes agradeço."

O Pregador apertou o botão do controle remoto, desligando o aparelho. Olhou para Jane.

— O que foi mesmo que você disse?

— Você não estava prestando atenção. Já não trata de religião o suficiente o dia inteiro? Será que ainda vai passar a noite assistindo a esses pregadores?

— Não há outro meio de eu saber o que todos os outros estão fazendo. Pode-se pensar o que se quiser a respeito do reverendo Angley, mas pelo menos ele está fazendo uma coisa certa. Comparece ao auditório e fala diretamente com as pessoas. Não se limita a contar apenas com a televisão para entrar em contato com elas.

— Você fala como se fosse isso o que gostaria de estar fazendo.

— Confesso que sinto falta desse contato direto. Há algo diferente em ver os rostos das pessoas quando se está levando a palavra, sentindo a reação delas a você e a Deus.

— Mas não precisa se matar para fazer isso. Está se saindo melhor do que todos eles e jamais pediu dinheiro pessoalmente, como os outros. Portanto, deve estar fazendo algo certo.

— Se está se referindo ao dinheiro que entra, sabe muito bem o que acontece. Não depende de mim, mas de você. A maneira como aciona os computadores, enviando cartas e boletins às pessoas das nossas listas, é melhor do que qualquer coisa que os outros ministérios no ar possuem. Nisso, eles estão muito longe de nós.

— Preferia que eu fosse mais parecida com Tammy Fay Bakker ou Jan Crouch? — indagou ela, sarcasticamente.

O Pregador sacudiu a cabeça.

— Gosto do jeito como você é. — Ele sorriu. — Além do mais, você não é capaz sequer de cantar direito.

— Agora você está sendo tolo — disse ela, sorrindo também.

— Está bem, está bem — murmurou o Pregador, puxando-a para a cama. — E agora me diga: o que foi que você falou?

— Papai não gostou da maneira como transcorreu a reunião de hoje.

O Pregador fitou-a nos olhos.

— Sei disso. — Ele enfiou a mão por baixo da camisola dela e pegou um seio. — Seu pai gosta sempre de impor sua vontade.

Jane pôs a mão sobre a dele, a fim de impedir que os dedos acariciassem o mamilo.

— Estou tentando conversar a sério, Andrew.

— Eu também — murmurou ele, sentindo que o mamilo se enrijecia ao seu contato e sorrindo. — Há quanto tempo não fumamos um baseado juntos?

O rosto dela se desanuviou, os lábios roçaram o rosto do Pregador, a cabeça foi se aninhar no ombro dele.

— Faz muito tempo...

O Pregador beijou-a rapidamente.

— Ponha tempo nisso.

Jane recostou-se no travesseiro, enquanto ele abria a gaveta da mesinha-de-cabeceira. O Pregador tornou a virar-se para ela, com uma caixa de cigarros na mão. Abriu-a. Estava cheia de cigarros de maconha, impecavelmente enrolados. Jane ficou surpresa.

— Onde foi que conseguiu isso?

— Charlie mandou de Los Altos. — O Pregador sorriu. — Seu pai conseguiu impor sua vontade no caso, mas acho que ninguém ficou infeliz por causa disso.

Jane sabia a que ele estava se referindo. O velho levara quase três anos para se livrar do "harém", que é como chamava as moças que acompanhavam o Pregador. Ao final, restavam apenas Charlie e Melanie. Quando o Pregador lhes oferecera a oportunidade de voltarem a Los Altos e reconstruírem a comunidade, elas aceitaram imediatamente, admitindo que nunca haviam se sentido felizes em Churchland.

— Como elas estão, Andrew?

— Muito bem. — O Pregador sorriu. — Tarz acaba de voltar de lá. Já obtiveram as licenças necessárias da prefeitura e as obras começarão em breve. Até o verão, tudo já estará pronto para receber cem garotos pobres por semana e oferecer-lhes férias de verdade no campo. Elas até já acertaram tudo com as igrejas de San Francisco e Los Angeles.

— Fico feliz por elas. Mas ainda não entendo por que você insistiu em pagar todas as contas pessoalmente. A igreja não tem condições de arcar com isso.

— Não podia fazer outra coisa. Elas começaram comigo, e resolvemos manter os vínculos.

O Pregador tirou um baseado da caixa e acendeu-o. Deu duas puxadas fundas e o passou para Jane. Observou-a enquanto ela também puxava.

— Está gostando?

— É fabuloso. — Jane soltou uma risadinha súbita. — Jamais conheci algo parecido antes. Basta duas puxadas e já estou me sentindo em viagem.

O Pregador riu, tornando a pegar o baseado.

— Não podia deixar de ser bom. Aquelas duas são as melhores conhecedoras de maconha do mundo.

Jane observou-o puxar o baseado, depois estendeu a mão para pegá-lo de novo.

— Sente saudade delas? — Ela soltou uma risadinha. — Sente saudade de seu pequeno harém, da possibilidade de escolher uma mulher diferente a cada noite?

O Pregador riu também.

— Quer saber a verdade? — Jane assentiu. Ele riu de novo. — Claro que sinto saudade.

Ela tornou a puxar o baseado, depois largou-o e estendeu os braços para o Pregador.

— Venha para mim, seu tolo. Vai descobrir que um harém de uma só mulher é tudo o que consegue agüentar.

Ele fez um esforço para emergir do sono, a fim de atender ao telefone que tocava insistentemente na mesinha-de-cabeceira.

— Alô? — disse, com os olhos ainda fechados. A voz da secretária ressoou em seu ouvido:

— Bom dia, dr. Talbot. O sr. Randle, o sr. Craig e a sra. Lacey estão aqui para falar-lhe.

Ele abriu os olhos. O relógio digital na mesinha-de-cabeceira indicava oito horas e cinco minutos.

— Mas que diabo! — murmurou ele para si mesmo. Geralmente estava à sua mesa de trabalho antes das oito horas da manhã. Mas dormia até mais tarde justamente no dia em que o velho resolvia aparecer. — Leve-os para a minha sala e sirva-lhes café. Estarei aí dentro de quinze minutos.

Ele empurrou as cobertas para o lado e saiu da cama. No meio do caminho para o banheiro, foi detido pela voz sonolenta de Jane:

— Está tudo bem?

— Está, sim — respondeu o Pregador, olhando para trás. — Dormi demais.

— Não sei como consegue se levantar — murmurou ela, ainda de olhos fechados. — Não posso nem me mexer. Talvez seja melhor você trazer o harém de volta.

— Não há motivo para isso. — O Pregador sorriu. — Nós nos saímos muito bem.

— Quase tinha esquecido como você é uma boa foda. Foi sensacional.

— Também gostei. E agora volte a dormir. Tenho de ir trabalhar.

 

O Pregador entrou em sua sala quinze minutos depois. Eles estavam sentados no sofá, com as xícaras de café na mesinha em frente. O Pregador puxou uma cadeira e sentou-se diante deles, enquanto a secretária lhe entregava uma xícara de café.

— Bom dia — disse ele. — Querem mais café?

— Não, obrigado — respondeu Randle.

Os outros sacudiram a cabeça, em concordância. O Pregador olhou para a secretária.

— Isso é tudo, srta. Grant. Obrigado. — Ele tomou um gole de café, esperando que a porta fosse fechada. Largou a xícara e foi direto ao ponto: — A que devo esta visita inesperada?

Randle limpou a garganta, embaraçado.

— O sr. Craig, a sra. Lacey e eu ficamos preocupados com a sua atitude derrotista na reunião de ontem.

— Derrotista? — A voz do Pregador tinha um tom seco.

— Isso mesmo. Ficamos com a impressão de que está convencido de que nada pode ser feito para melhorar a nossa posição.

— Eu não disse isso. Disse apenas que há um mercado limitado para todos os ministérios de televisão e que o máximo já foi alcançado.

— Não concordamos com isso — insistiu Randle.

— Então por que não falaram na reunião?

— Não havia sentido. Achamos que era uma questão que devia ser resolvida entre nós. Afinal, os outros não passam de empregados.

O Pregador assentiu com a cabeça.

— Estou entendendo. — Ele tomou outro gole do café. — Mas não contestou a minha sugestão de investir uma parcela do nosso dinheiro nas igrejas locais.

— O sr. Craig e a sra. Lacey concordam comigo. Seria jogar dinheiro fora.

— Tem alguma idéia melhor? Randle olhou para Craig.

— Você está mais a par da situação do que eu, Dick. Gostaria que expusesse ao dr. Talbot o que recomendamos.

Craig olhou para o Pregador.

— Creio que sabe que a sra. Lacey e eu temos uma longa história de associação com igrejas evangélicas batistas.

O Pregador assentiu.

— O bom trabalho que ambos têm feito pela igreja cristã está devidamente registrado e eu o aprecio sinceramente. Agradeço também o seu interesse por nós e ouvirei as sugestões com a maior atenção.

Craig sorriu.

— Obrigado, dr. Talbot.

— Não precisa agradecer, sr. Craig. Estou falando com toda a sinceridade.

Craig relaxou um pouco.

— Em nossa opinião, o verdadeiro problema deste ministério é o afastamento do movimento evangélico cristão em geral.

— Está se referindo ao que é comumente chamado de Nova Direita Cristã?

Craig confirmou com um aceno de cabeça.

— De certa forma, é isso mesmo. Não nos empenhamos, por exemplo, no trabalho da Maioria Moral, não assumimos uma posição firme de apoio ao restabelecimento dos valores americanos tradicionais.

— Espero que me perdoe se eu parecer ignorante, sr. Craig, mas não entendo como a filiação a um comitê de ação política pode beneficiar nosso ministério.

— A participação ativa no trabalho deles vai tornar o nosso ministério mais conhecido, justamente como aconteceu com Falwell. Antes desse trabalho, Falwell não passava de um ministro entre todos. Agora, todo mundo nos Estados Unidos conhece o nome dele.

— Ainda não vejo em que isso ajudou o ministério dele. E tenho a impressão de que Falwell está sob intensa pressão financeira para manter as atividades de seu ministério. A acreditar no que ele nos diz, cada atividade de seu ministério está à beira da falência.

— A situação não é tão ruim assim. O dr. Falwell tem problemas financeiros, mas isso também acontece com muitos dos outros, como Oral Roberts, Jim Bakker e Pat Robertson. Até mesmo Jimmy Swaggart tem problemas para manter sua obra missionária de alimentar e cuidar dos necessitados em países do Terceiro Mundo. O dinheiro está se tornando cada vez mais difícil. Todos temos de trabalhar com um afinco cada vez maior para conseguir nosso quinhão.

O Pregador fitou-o nos olhos.

— Sem querer ser desrespeitoso ao bom trabalho que todos esses cavalheiros estão fazendo, sr. Craig, é possível que a queda de audiência global dos ministérios pela televisão, ao longo dos dois últimos anos, coincida com esse ingresso na política e com a tentativa de impor suas versões de moralidade ao sistema.

— Não creio que isso tenha qualquer relação com o problema — insistiu Craig. — O que aconselha? Que enterremos a cabeça na areia como um avestruz e permitamos que os demônios do comunismo e da imoralidade continuem a tomar conta do nosso grande país, como tem acontecido nos últimos quarenta anos?

— Não, sr. Craig, não é nisso que acredito. Mas creio que Deus nos concedeu uma plataforma maior, da qual podemos combater o diabo que não é a política.

— Se está se referindo à televisão — interveio Craig, sarcasticamente —, não é suficiente.

— Concordo em que não seja suficiente, sr. Craig. Mas estou me referindo às igrejas e púlpitos por toda a América. É na casa dele que devemos batalhar contra o diabo.

— O dr. Falwell concorda inteiramente com esse ponto de vista. Sabia que ele já ajudou mais de trezentos graduados do Colégio Batista da Liberdade a fundar suas próprias igrejas? E que planeja ajudar milhares de outros nos próximos dez anos?

— Não tenho motivos para duvidar, sr. Craig. Mas parece-me perfeitamente possível, se isso vier a acontecer, que não reste espaço suficientemente na América para qualquer outra igreja batista que não a da Liberdade. E seria lamentável se isso se consumasse, pois me parece que uma das melhores coisas na fé batista é o fato de cada igreja e cada ministro ter orgulho de sua independência e liberdade de pregar a palavra de Deus da maneira que lhe parece mais certa.

— Mas é o futuro, dr. Talbot. O modo americano de conduzir os grandes negócios é melhor que o sistema dos empreendimentos pequenos, mal equipados e mal financiados.

O Pregador ficou em silêncio por um momento e depois virou-se para a sra. Lacey.

— Também pensa assim?

— Claro. — Ela acenou com a cabeça vigorosamente. — Devemos todos nos unir por um objetivo comum. Juntos, devemos destruir as imoralidades que ameaçam destruir a família americana.

— E qual é a sua posição, sr. Randle?

— Não vejo outro meio, filho. É a única maneira de garantirmos o tipo de governo de que precisamos para salvaguardar a nossa economia. A única voz que os políticos ouvem é a das urnas. Se queremos novas mudanças nas leis, beneficiando nossos interesses, devemos estar em condições de exercer um poder ainda maior do que tivemos para eleger o presidente Reagan e assumir o controle do Senado para os republicanos.

— Seria impertinente se eu calculasse que as alterações nas leis fiscais e a suspensão do controle sobre os preços do petróleo beneficiarão as suas diversas empresas em mais de cem milhões de dólares só neste ano?

— Claro que seria impertinente. Afinal, isso não é da conta de ninguém.

O Pregador insistiu, suavemente:

—— E seria impertinente, senhor, se eu perguntasse qual é a sua idade?

— Seria uma estupidez. Todo mundo sabe a minha idade. Estou com sessenta e oito anos.

O Pregador sorriu interiormente. Ele sabia que o velho já passara havia muito dos setenta anos.

— Pelo que o sr. Craig disse, o dr. Falwell levaria dez anos para realizar o seu plano. Estaria disposto a esperar todo esse tempo?

— Aonde está querendo chegar?

— O que diria se eu lhe demonstrasse que, com o investimento de dez milhões de dólares, ou menos, podemos alcançar o mesmo objetivo em dois anos? — indagou o Pregador, num tom ilusoriamente suave.

Randle lançou-lhe um olhar furioso.

— Eu diria que está louco.

— Galinha Frita do Kentucky.

— Você está mesmo louco.

— McDonald's. — O Pregador percebeu uma luz de compreensão nos olhos do velho e acrescentou: — Quer ouvir o resto?

O velho limitou-se a acenar com a cabeça, sem dizer nada.

— É tudo uma questão de franquia — continuou o Pregador. — Depois da tevê, é a etapa seguinte. Deu certo para eles, também pode dar para nós. Já há pelo menos dez mil igrejas batistas mal conseguindo sobreviver por todo o país. Se lhes proporcionássemos nossa experiência e nossos métodos, assim como uma razoável ajuda financeira, teríamos tantas filiadas sob franquia da Igreja da Comunidade de Deus da América Cristã Triunfante quantas quiséssemos.

— Filho da puta! — exclamou o velho, em tom de admiração. Ele se controlou e virou-se para a sra. Lacey. — Desculpe, madame. — Voltando a fitar o Pregador, com um sorriso radiante, Randle acrescentou: — Eu sabia que estava certo quando o escolhi. Você é mesmo esperto.

 

— Acho que ficou pirado, Pregador — disse Joe. —-Nunca houve qualquer pregador negro na tevê nacional, com exceção do reverendo Ike, que não passa de uma grande piada.

— Então está na hora de termos alguém que as pessoas possam levar a sério.

— Mas quem poderia arrumar? O único que conheço está lá em Los Angeles. Fred Price, do Centro Cristão Chem-saw. Já está em trinta e cinco emissoras de televisão com o seu programa Fé sempre crescente. E mesmo que ele ainda não estivesse numa rede nacional, não precisaria de nós. Já comprou o velho campus da Universidade Pepperdine, em Los Angeles, a fim de construir uma nova igreja, com capacidade para dez mil pessoas, ao custo aproximado de catorze milhões de dólares.

— Você está certo, ele não é mesmo o nosso homem. Principalmente por dois motivos. O primeiro é que se dirige para os negros da classe média, com aspirações da classe média branca, negros que estão querendo apenas um pequeno toque de pregação evangélica negra. Em segundo lugar, é possível que ele já esteja envolvido com Oral Roberts. Soube que ele contribuiu com quantias vultosas para o Hospital Cidade da Fé, em Tulsa.

O Pregador pegou uma folha de impresso de computador que estava em cima da mesa.

— Tenho aqui uma lista de mais de oito mil igrejas batistas evangélicas e pentecostais negras, cada uma com uma congregação variando entre duzentas e mil e quinhentas pessoas. São as pessoas que precisam de nós, as pessoas que podemos ajudar. Nenhuma dessas igrejas está conseguindo recolher o bastante para cobrir as despesas.

— Eles não vão querer nos escutar, Pregador. Pensarão que se trata de outra manobra da igreja branca para dominá-los.

— Eles certamente pensariam assim se eu os procurasse, Joe. Mas acontece que não vou fazer isso. Você é quem irá procurá-los.

— Agora não resta a menor dúvida de que você pirou de vez. Nunca fiz nenhum sermão.

— Então é melhor começar a praticar. Estamos planejando gravar o seu primeiro programa dentro de duas semanas.

Ele começou a rir diante da expressão de Joe, que estava completamente atordoado pela surpresa.

— Não é tão difícil assim, Joe. Segure a Bíblia com uma das mãos, brandindo-a por cima da cabeça, bata no púlpito com a outra mão de vez em quando. Ao mesmo tempo, olhe fixamente para a câmara, fitando a audiência nos olhos, como se fosse o próprio autor do livro sagrado.

— Jamais conseguiremos encher a nossa igreja com um número suficiente de negros para um programa de tevê, Pregador. Não há muitos negros nesta parte do país.

— Sei disso. Mas não quero usar a igreja. No interior já é bastante conhecido e os espectadores não terão a menor dificuldade em reconhecê-lo. Estou planejando um lugar diferente para o seu programa. Terá de ser mais parecido com as igrejas a que eles estão acostumados, um lugar menor, mais íntimo. Vamos gravar o seu programa na primeira capela. Podemos fazer com que trezentas pessoas ali dêem a impressão de que estão apertadas como sardinha em lata. — Ele fitou Joe nos olhos. — O que me diz, pastor? Quer tentar?

Joe sustentou o olhar dele.

— Como foi mesmo que me chamou?

— Pastor. Um homem comum não poderia fazer um programa assim.

— Louvado seja o Senhor, acabei de ser promovido! — comentou Joe, sorrindo. — E espere só para ver o que vai acontecer!

A placa na frente da pequena igreja branca estava tão rachada e desbotada quanto o próprio prédio. As letras em preto estavam quase ilegíveis. O Pregador leu o que estava escrito, enquanto Joe estacionava o carro alugado.

Igreja Batista Pentecostal de Little River

Reuniões de orações todas as noites

às 7 horas exceto aos sábados

Escola Dominical às

8 horas da manhã

Culto dominical às 11 horas

Evangelho ao modo antigo aos sábados, às 9 horas da noite

O Homem com os Dons de Cura, Profecia, Eloqüência e Fé Parker J. Willard, Pastor

 

— Esse Pastor Willard pareceu um pregador e tanto — comentou o Pregador, ao saltar do carro.

— Espere só até conhecê-lo — disse Joe, pegando sua pasta de couro. — Parker Willard construiu esta igreja há trinta anos. Naquela ocasião, sua congregação tinha mais de seiscentas pessoas. Está reduzida agora a cerca de duzentas e cinqüenta.

— E como ele explica isso? Joe virou-se para fitá-lo.

— Televisão. Ele diz que os pregadores da televisão não fazem quaisquer exigências a suas congregações, além de dinheiro. Diz que é mais fácil para as pessoas ficarem comodamente refesteladas em suas casas e assim se divertirem, em vez de comparecerem à igreja, onde precisam participar do serviço. Diz que a religião pela tevê é como a comida pronta... pode não ser tão boa, mas não exige o trabalho de preparar e cozinhar. Basta pôr na mesa e comer.

— Talvez ele não esteja inteiramente errado. — O Pregador parou nos degraus da igreja. — Qual foi a reação dele à nossa proposta?

— Está interessado. Foi por isso que nos pediu que viéssemos conversar. Mostrou-se bastante sincero. Disse que se nada acontecesse para aumentar sua congregação pelo menos até as proporções originais, só um milagre poderia evitar o fechamento da igreja antes do final do ano.

O Pregador acenou com a cabeça, lentamente.

— De certa forma, isso é lamentável. Tantos anos e tanto trabalho redundando em nada. — Ele começou a abrir a porta da igreja. — O Senhor opera por caminhos misteriosos. Talvez ele seja o milagre que estamos procurando.

O interior da igreja estava tão estragado quanto o exterior. O assoalho e os bancos de madeira há anos que não eram pintados, o que transparecia com a maior evidência.

Havia uma rachadura na janela em que a cruz fora pintada, por trás do púlpito. Pedaços da grade, na frente, estavam quebrados ou faltando.

— Os aposentos do pastor Willard ficam atrás da igreja — informou Joe, encaminhando-se para uma porta além da grade e batendo de leve.

Um homenzinho de cabelos brancos encaracolados, usando terno preto de pregador, camisa branca e gravata de cordão, abriu a porta. Seu rosto escuro se abriu num sorriso, revelando os dentes brancos.

— Entre, irmão Washington. Eu já estava começando a pensar que escarnecia de mim, de tão atrasado que chegou.

— Deveria saber que eu jamais faria isso, irmão Willard. É que nosso avião atrasou uma hora. — Joe apertou a mão do velho. — Quero apresentar-lhe o dr. C. Andrew Talbot.

— Sinto como se já o conhecesse pessoalmente, de tantas vezes que o vi na televisão. — O irmão Willard sorriu. — Fala muito bem. Com essa sua voz, pode persuadir todos os besouros a deixar os vinhedos do Senhor.

— Aos olhos do Senhor, todos trabalhamos juntos — disse o Pregador.

O pastor Willard sorriu.

— Creio reconhecer alguma coisa dos Coríntios aí, irmão.

— Tem bons ouvidos, irmão.

O pastor gesticulou para as cadeiras em torno da mesa.

— Não querem sentar-se, irmãos? A sra. Willard fez uma ótima torta de peça antes de sair para o trabalho, está manhã. E levarei apenas alguns minutos para fazer o café.

Depois de terminar de comer o segundo pedaço, Joe afastou o prato vazio para o lado e disse:

— É a torta de peça mais deliciosa que já comi. E terei de começar a fazer dieta amanhã.

O pastor Willard sorriu.

— A sra. Willard ficará muito satisfeita quando eu lhe disser isso. Ela sente o maior orgulho de sua torta de peça.

— E tem toda razão de sentir — comentou o Pregador.

— Poderão dizer a ela pessoalmente, pois deverá chegar do trabalho a qualquer momento. — Willard suspirou. — Não sei o que faria sem ela. Se minha mulher não trabalhasse fora, eu teria perdido esta igreja há dois anos.

— É um homem afortunado — disse o Pregador. — É difícil encontrar uma mulher assim. Há quanto tempo estão casados?

— Vai fazer três anos em setembro. Na ocasião, eu estava viúvo há dois. E mesmo quando a pedi em casamento, não acreditava que ela fosse aceitar.

— Por quê?

— Não sou mais um jovem. Estou com sessenta e três anos e ela tem apenas vinte e três. Não resta a menor dúvida de que a vida é muito estranha. Lembro de tê-la pegado no colo e batizado, quando tinha apenas uma semana.

O Pregador e Joe trocaram um olhar, sem fazer qualquer comentário. Uma expressão pensativa insinuou-se nos olhos do velho.

— Tenho o dom da profecia e da fé desde que era pequeno e minha mãe me levava à igreja. Eu ficava sentado no colo dela e sempre experimentava a sensação de estar muito perto de Jesus... que Ele me deixaria ver coisas muito antes de se consumarem, coisas que ninguém mais via. E sempre soube também que o meu trabalho seria o de pregar as palavras Dele. Ao segurar aquela menina chorosa e imergi-la nas águas do Little River, que passa atrás da igreja, tive a impressão de ouvir a voz de Jesus dentro da cabeça, tão claramente quanto vocês estão ouvindo a minha voz neste momento. "Amo essa criança", disse Ele. "Porque a traz para mim com amor, algum dia a levarei para você."

O pastor fez uma pausa, olhou para eles e continuou:

— Eu não sabia o que ele estava querendo, na ocasião, e com o tempo acabei esquecendo. Na manhã do dia em que casaríamos, eu estava de joelhos orando para Ele, pedindo orientação, indagando se estava fazendo o que era certo, um velho a impor um fardo tão pesado a uma criança. Alguma coisa me fez levantar e ir verificar os registros da igreja. Encontrei a página com o nome dela registrado, vinte anos antes. Recordei as palavras que Ele me dissera e senti um profundo conforto. Era o plano dele desde o início que ficássemos juntos.

A própria simplicidade das palavras do velho deixaram o Pregador comovido. Ele se inclinou por cima da mesa e apertou a mão do pastor Willard. Ficaram em silêncio por um momento e depois as lágrimas afloraram aos olhos do velho. Ele abaixou a cabeça e beijou as costas da mão do Pregador.

— Por que chora, irmão? — indagou o Pregador, gentilmente.

Os olhos do pastor ainda estavam marejados de lágrimas.

— Não sei. Talvez eu esteja apenas cansado. Ou talvez esteja com medo de ser velho demais e não possuir mais forças para continuar. Talvez eu perca tanto minha mulher como minha igreja.

— Por que se sente assim?

A voz do velho estava rouca de angústia:

— Sei que ela quer um filho. Mas nunca fui capaz de ser um marido de verdade.

— Ela já se queixou? Willard sacudiu a cabeça.

— Nunca. Sabe que eu a amo.

Os olhos do Pregador se encontraram com os dele.

— O que o leva a pensar que Jesus será menos compreensivo do que ela? Ele também sabe que você O ama. — O Pregador calou-se por um instante; olhou primeiro para Joe, depois novamente para o pastor. — Acredito que foi justamente por isso que Ele nos reuniu aqui hoje.

 

O pastor Willard estava nervoso. Consultou o relógio. Passava de seis horas.

— Ainda não chegou ninguém — murmurou ele, preocupado.

— As pessoas ainda estão jantando — comentou Joe. — Os anúncios no rádio falaram em sete horas. Pare de se preocupar. Sabemos o que estamos fazendo.

— Rogo ao Senhor que esteja certo — disse Willard, fervorosamente. Ele virou-se e olhou para a gigantesca tela de televisão suspensa do teto, acima do púlpito. E acrescentou, em tom espantado: — Quem já ouviu falar de um encontro de oração em pleno Futebol Noturno da Segunda-Feira?

Joe soltou uma risada.

— Se não pode vencê-los, junte-se a eles. Se os bares e cafés fazem isso por estarem perdendo movimento na noite de segunda-feira, por que a igreja não deveria fazê-lo?

— As pessoas devem comparecer à igreja porque querem ouvir a palavra de Deus.

— O importante é trazê-las até aqui. Depois disso, compete a você fazê-las escutar a mensagem.

— Tem certeza de que essa máquina vai funcionar? Joe sorriu.

— Claro que vai. Já verificamos tudo. É realmente simples.

Ele avançou pela nave até o púlpito, seguido pelo velho. O aparelho estava montado na plataforma.

— Só precisa se lembrar destes quatro botões. Estão claramente marcados: videoteipe, transmissão, música, fala. Tudo o que precisa fazer é apertar cada botão de acordo com a programação no papel datilografado ao lado. E não se preocupe, caso esqueça de apertar algum botão. O aparelho está programado para efetuar as mudanças automaticamente.

O pastor Willard olhou para o aparelho.

— Não é com isso que estou preocupado. Já pratiquei o suficiente para saber como operar a máquina. Mas o que vou fazer se houver algum problema e ela não funcionar?

— Não haverá qualquer problema. Mas se houver... você não é um pregador? Então fale.

Willard sorriu.

— Eis aí uma coisa que sei que posso fazer.

— A música está programada para começar às seis e meia — explicou Joe. — Às sete e meia você vai para o púlpito e aciona o videoteipe. A gravação tem a duração de cinco minutos. Aperte em seguida o botão de fala. Terá vinte e cinco minutos. Exatamente às oito horas, o aparelho começará a transmitir automaticamente. No intervalo, você volta a falar, por mais quinze minutos. A transmissão recomeça e vai até o final da partida. Depois disso, haverá uma nova gravação de cinco minutos, você fala outra vez e a música retorna quando a congregação começar a se retirar.

— É completamente diferente de todas as igrejas que já conheci.

— É a igreja de hoje — comentou Joe, sorrindo. — Haverá um dia em que todas as igrejas serão assim. Deus não nos deu a eletrônica apenas para propósitos seculares, mas também para melhor servi-Lo.

— Estou ouvindo, irmão, e digo amém a isso.

Os primeiros membros da congregação começaram a entrar. Joe olhou para eles e depois novamente para o velho, dizendo:

— É melhor ligar a música agora, irmão Willard. E depois pode ir para a porta, a fim de receber seus paroquianos.

A pequena igreja estava repleta. Todos os bancos estavam ocupados e havia muitas pessoas de pé, no fundo. Joe estava sentado numa cadeira perto da porta que dava para os aposentos do pastor, observando tudo. Eram exatamente sete e meia quando o velho ocupou seu lugar no púlpito.

Um momento depois, a grande tela se iluminou. Apareceu a princípio uma pequena cruz dourada, que foi aumentando, até ocupar a tela inteira. Os créditos em letras de cor púrpura começaram a aparecer nos braços da cruz, enquanto a voz de barítono do locutor saía pelos alto-falantes:

"A Igreja Batista Pentecostal de Little River, do pastor Parker J. Willard, em associação com a Igreja da Comunidade de Deus da América Cristã Triunfante, apresenta o Encontro de Oração do Futebol Noturno da Segunda-Feira. E agora, irmãos e irmãs, o seu próprio pastor, em pessoa, Parker J. Willard!"

O som de aplausos saiu pelos alto-falantes e automaticamente a congregação acompanhou. Sorrindo, o pastor Willard ficou imóvel por um momento. Depois, levantou uma das mãos, pedindo silêncio, enquanto com a outra mão apertava o botão de fala. A tela escureceu. Ele esperou até que os aplausos cessassem por completo.

Ele pôs as mãos na beirada do púlpito, correndo os olhos pela congregação por um momento, antes de começar a falar. O sorriso atenuava a censura gentil de suas palavras.

— Irmãos e irmãs, há muitos de vocês que não vejo nesta igreja há bastante tempo. Mas quero que todos saibam que estou contente em vê-los. E tenho certeza de que o bom Deus também está contente. Pois o importante não é saber se vieram aqui para assistir a uma partida de futebol ou não. O importante é que vieram aqui, à casa dele, para um encontro de oração.

"O que vamos testemunhar agora é um milagre de Deus. O Seu milagre da eletrônica, o Seu presente de amor para tornar a vida do homem neste mundo mais rica e plena, a fim de podermos melhor apreciar o milagre ainda maior que Ele nos concedeu. O presente de Seu Filho Nosso Salvador Jesus Cristo, que morreu na cruz por nossos pecados e os pecados de todos, naqueles tempos e nos tempos a vir, por todos os que sempre haverão de aceitá-Lo e se purificar no Sangue do Cordeiro.

"Há menos de um mês eu estava de joelhos diante deste púlpito. Rezei ao Senhor para que me enviasse um milagre. Um milagre para salvar minha igreja, um milagre para trazer minhas ovelhas de volta à casa dele, a fim de que esta igreja não desaparecesse de suas vistas.

"Ao me levantar, ouvi o telefone tocar. Fui para o meu quarto e atendi. Uma voz que eu nunca ouvira soou em meu ouvido: “Pastor Willard?” Acho que respondi: “Sou eu mesmo”. E a voz disse, então: “Aqui é seu irmão em Cristo, Joe Washington. Estou ligando de Churchland, Texas”. Perguntei: “Em que posso servi-lo, irmão?” E ele disse: “Eu é que devo servi-lo, irmão. Quero ajudá-lo em seu trabalho por Jesus Cristo”. Ao que respondi: “Obrigado, irmão. Preciso de toda ajuda que puder obter. Mas por que ligou justamente para mim, entre tantas igrejas que existem no país?” E ele respondeu: “Não sei dizer. Mas quando estava olhando para as centenas de igrejas relacionadas na minha lista, uma força misteriosa guiou-me os dedos. E no momento seguinte, sem que percebesse direito o que fazia, estava discando o seu telefone”.

O velho fez uma pausa e correu os olhos pela congregação, antes de recomeçar:

— Esse foi o primeiro milagre. Jesus ouvira as minhas preces. — Ele virou-se e acenou para a tela grande às suas costas. — E o que vão testemunhar aqui esta noite é apenas mais um, do fluxo interminável de milagres que podem suceder a cada um e a todos nós, se ficarmos de joelhos e orarmos a Deus.

Ele baixou os olhos para o púlpito por um instante, depois tornou a levantá-los, com um sorriso iluminando-lhe o rosto.

— E, agora, acomodem-se e assistam ao Futebol Noturno da Segunda-Feira em nossa tela gigante. Estarei de volta para falar mais um pouco no intervalo.

Ele apertou o botão de transmissão e desceu do púlpito, sob os aplausos da congregação, enquanto a voz de Howard Cosell saía pelos altos-falantes. Foi sentar-se numa cadeira ao lado de Joe, inclinando-se para ele e sussurrando:

— É como nos velhos tempos. Há muitos anos que esta igreja não ficava tão apinhada. Só espero que continue assim.

— Vai continuar — garantiu Joe, sorrindo. — Mas, para isso, todos teremos de continuar a trabalhar. Providenciaremos para que receba todos os nossos programas especiais durante a semana, mais o nosso sermão gravado de quinze minutos aos domingos, que poderá transmitir antes de começar a falar. Temos também um episódio em vinte minutos da história da Bíblia, que poderá transmitir para a turma da escola dominical. Receberá ainda toda a nossa literatura, além de uma edição especial da Bíblia, a ser distribuída de graça pela congregação. Mandaremos homens para ajudar a consertar e pintar a igreja, a fim de que tenha um aspecto melhor, e para que vocês possam novamente sentir-se orgulhosos dela.

O velho fitou-o nos olhos.

— Vocês estão gastando muito dinheiro só para ajudar uma igreja pobre como a minha.

— Não queremos que continue a ser uma igreja pobre — respondeu Joe, sorrindo outra vez. — Foi por isso que propusemos o acordo de franquia. Você se torna filiado da Comunidade de Deus e nos dá cinqüenta por cento do total das coletas semanais que ultrapassarem duzentos dólares. Dessa maneira, ajudará no alto custo do trabalho que estamos realizando.

— Há dois anos que não consigo angariar duzentos dólares numa única semana. E se a situação permanecer assim?

— Correremos o risco. Afinal, dinheiro não é a única coisa que importa. O trabalho mais importante é servir ao Senhor e levar seu povo a Jesus Cristo.

— Amém.

— Então vai assinar o acordo?

— Logo depois do encontro. — Willard virou a cabeça, contemplando a tela. — Olhe só para essa imagem! O Senhor não é maravilhoso?

— Tem toda a razão. Louvado seja o Senhor. — Joe começou a se levantar. — Incomoda-se que eu telefone para comunicar ao dr. Talbot que você vai assinar o contrato? Ele ficará muito satisfeito.

— O telefone está na cozinha — disse o velho, sem desviar os olhos da tela. — Pode falar. E peça um café à sra. Willard, se estiver com vontade.

A sra. Willard estava sentada à mesa da cozinha. Levantou-se quando Joe entrou, murmurando, em voz suave, com um sotaque sulista:

— Irmão Washington...

— Não quero incomodá-la, sra. Willard. Vim apenas usar o telefone.

Ela apontou para a parede.

— Está ali. Gostaria de tomar um café?

— Eu agradeceria profundamente, irmã Willard.

Joe pegou o telefone e ficou observando-a enquanto fazia a ligação. Era uma moça alta, pelo menos uma cabeça a mais que o marido, de cor um pouco mais clara e cabelos crespos que resistiam a qualquer tentativa de esticá-los. Ele contemplou com aprovação as curvas dos seios e das nádegas cheias, fazendo pressão contra o vestido de algodão. O corpo dela era exatamente o oposto do corpo de Beverly, que era esguia, de contornos delicados. As duas tinham os seus atrativos, mas não se podia negar que a irmã Willard era uma mulher e tanto. Não era exatamente o tipo que se pudesse imaginar que se casaria com o pastor. Joe não conseguiu falar com o Pregador. Deixou um recado com a secretária e desligou, no momento em que a sra. Willard se virava e punha o café na mesa.

— O dr. Talbot não estava — disse ele, sentando-se.

— Lamento muito. Ela ainda estava de pé.

— Não há problema. Deixei recado. — Joe fitou-a, sorrindo. — Porque não se senta, irmã Willard?

Sem responder, ela acomodou-se no outro lado da mesa. Joe tomou um gole do café.

— O café está delicioso.

— Obrigada.

— Parece que tudo está correndo muito bem, irmã Willard. Se as coisas continuarem assim, daqui a pouco não precisará mais sair para trabalhar fora.

— Gosto de trabalhar fora.

— Mesmo que não haja necessidade? Ela acenou com a cabeça.

— Faz com que eu não pense. Joe tomou outro gole do café.

— Pensar em quê?

Ela hesitou por um instante, depois baixou os olhos e murmurou:

— Pensamentos do demônio. Pensamentos pecaminosos.

— Todos temos pensamentos do demônio de vez em quando.

O olhar dela ainda estava fixado na mesa.

— De vez em quando está certo, mas eu penso nisso o tempo todo. O pastor Willard é um homem de bem. Eu não era exatamente uma boa moça quando me casei com ele. Mas pensei que os pensamentos pecaminosos desapareceriam se eu me casasse. Mas isso não aconteceu.

— Rezou a Jesus, pedindo ajuda?

— Rezo todos os dias. — Ela levantou o rosto para fitar Joe. — Mas o demônio é forte demais em mim. Enquanto você estava de pé, falando ao telefone, o demônio me obrigou a ficar olhando para a protuberância em sua calça. Na minha imaginação, parecia estar ficando cada vez maior.

— Não era apenas em sua imaginação, irmã Willard — disse Joe, largando a xícara. — O demônio também estava em mim.

Os olhos dela se arregalaram.

— O que podemos fazer, irmão Washington?

— É melhor ficarmos de joelhos e orarmos juntos para que Jesus nos ajude.

Joe ajoelhou-se no chão, enquanto ela contornava a mesa e vinha se ajoelhar ao seu lado. Sentiu que ela respirava fundo e tremia, quando seus ombros se tocaram. Joe cruzou as mãos à sua frente.

— Jesus, olhe para nós, pobres pecadores, ordene que o demônio da concupiscência nos deixe.

Ela ergueu a cabeça das mãos cruzadas e virou-se para ele, indagando:

— E se Ele não nos ouvir?

Com uma das mãos, Joe virou-a em sua direção, enquanto a outra mão baixava o zíper da calça.

— Há mais de uma maneira de sepultar o demônio.

 

— Negros! — exclamou Randle, desdenhosamente. — Achei que sua idéia de franquia era sensacional. Mas mil e quatrocentas igrejas de negros para quinhentas e trinta igrejas batistas normais é demais. Daqui a pouco vai deixar Churchland apinhada de negros. Não vai haver mais espaço para os brancos.

O Pregador fitou-o nos olhos.

— Há espaço suficiente, e você sabe disso.

— Talvez haja. Mas qual é o branco que se respeita que quer dormir num hotel com um negro no quarto ao lado? Ou na mesma cama em que um negro pode ter dormido na noite anterior?

— E o que me diz de comer no mesmo restaurante? — indagou o Pregador, secamente.

Randle não percebeu o sarcasmo.

— Eles também não vão gostar disso.

O Pregador observou-o atentamente, através da mesa.

— Eles podem não gostar, mas terão de aceitar. Além de a atitude ser anticristã, também é contra a lei de igualdade de direitos.

— São justamente as leis que estamos tentando suprimir. São tão absurdas quanto a emenda dos direitos iguais, que não vamos permitir que seja aprovada.

O Pregador manteve-se calado. O velho acrescentou, em tom mais calmo:

— Será que não percebe, filho, que se continuar assim vai acabar acarretando a ruína da Igreja Batista?

— Não penso assim. Sabia que quase a metade das oitenta e tantas mil igrejas batistas que existem hoje no país são de negros? E que mais de quarenta por cento dos trinta e tantos milhões de batistas do país são negros? Nossos computadores analisaram recentemente alguns dados do último censo e chegaram a algumas conclusões muito interessantes. Segundo os indicadores atuais de crescimento demográfico, dentro de dez anos haverá quinhentos e vinte e cinco negros em cada mil batistas deste país.

— Não acredito.

— Pode verificar pessoalmente os dados de computador, se quiser. Foi Jane quem fez o processamento.

— Mas isso não tem a menor importância. Não quero negros na minha propriedade.

— Está se referindo a Churchland?

— Exatamente. Ainda sou dono da terra e de tudo o que existe nela.

O Pregador fitou-o em silêncio por um momento.

— Prefere que a gente saia daqui?

— Não disse isso. Quero apenas que se livre das igrejas de negros.

— É uma pena que se sinta assim. Já estamos angariando mais de um milhão e meio de dólares por ano das igrejas negras. E agora que aumentamos a audiência, alguns dos outros ministérios pela tevê ficaram subitamente interessados. Pat Robertson já está planejando um programa para seu associado Ben Kinchlow, destinado à audiência negra. Oral Roberts está ajudando Fred Price, de Los Angeles, a aumentar o número de emissoras em que aparece de trinta e cinco para cem, até o final do próximo ano.

— Mas não se vê Jerry Falwell adulando os negros — protestou Randle.

— Tem toda a razão. Mas estou recebendo informações de que graduados do Colégio Batista da Liberdade estão se apresentando em igrejas de negros para oferecer ajuda e distribuir sua literatura. Estão até prometendo algumas bolsas de estudos.

— Como soube disso?

— Comecei a receber queixas de algumas igrejas contra a distribuição a suas congregações do Moral Majority Report. Muitos dos negros ficaram revoltados, achando que os objetivos políticos do jornal são contra eles.

— Isso só acontece porque eles se beneficiam do programa de assistência social. Não querem trabalhar para ganhar seu dinheiro.

— Isso não é verdade — disse o Pregador. — Mas não vou discutir agora. O importante é que várias igrejas negras se associaram e estão querendo começar a publicar o seu próprio jornal. E vieram pedir a nossa ajuda.

— Assim também já é demais. Eu avisei que eles iam querer assumir o controle. Mas é claro que você os repeliu.

O Pregador sacudiu a cabeça.

— Não podia fazer isso. A obrigação do ministério é atender às necessidades de sua congregação. É um credo básico da fé batista. Cada igreja tem o direito de determinar sua própria política sobre a interpretação das Escrituras e o envolvimento nos problemas sociais. É somente por esse motivo que há mais de vinte organizações batistas diferentes no país.

— Não está respondendo à minha pergunta. O que vamos fazer exatamente para eles?

— Já fizemos.

O Pregador pegou um jornal de oito páginas, impresso em offset, e o estendeu para o velho. Randle examinou o jornal. À primeira vista, parecia-se muito com o Moral Majority Report, até mesmo nos tipos usados. Mas o nome, em letras grandes, era diferente: THE MAJOR MINORITY REPORT. Embaixo, em letras menores, estava escrito: o outro lado da moeda. No canto superior esquerdo da primeira página, sob o título credo, havia uma fotografia de Joe, com o nome embaixo: "Reverendo Josephus Washington". A legenda era a seguinte:

"Este jornal foi fundado na crença de que há mais de um ponto de vista que pode ser defendido pelos bons cristãos, e na convicção de que todos os cristãos possuem direitos iguais de expressar suas opiniões. Vamos nos empenhar em oferecer todos os pontos de vista cristãos, quer coincidam ou não com as nossas posições pessoais, demonstrando assim a verdadeira independência da denominação batista, inerente a todas as suas igrejas e congregações".

— Mas que merda! — Randle pegou o jornal, lançando um olhar furioso para o Pregador. — Isso é a própria revolução. Chegou ao extremo de publicar a fotografia desse negro na primeira página, como editor. Por que não entrega logo tudo a ele?

— Já entreguei. Imaginei que você não fosse querer os negros aqui em Churchland. Além do mais, não dispomos de capacidade física para cuidar de toda a operação de franquia. Por isso, estamos transferindo o setor de franquias da Comunidade de Deus para Los Altos.

Randle não disse nada. O Pregador acrescentou:

— Isso acaba com a sua preocupação de os negros dominarem Churchland.

— E o que vai acontecer aqui?

— Prosseguiremos em nossas atividades normais.

— E o dinheiro?

— Vamos controlá-lo através de nossos computadores. Randle ficou em silêncio por um momento.

— Aqueles negros representam muitos votos. Como vamos fazer para mantê-los na linha?

O Pregador sorriu.

— Dando a eles o direito de se expressar e dizendo-lhes a verdade. Depois disso, caberá a eles decidir o que vão fazer. Mas não se esqueça do mais importante.

— E o que é?

— Nosso objetivo é divulgar a palavra de Deus, não usar o púlpito para doutrinação política.

— E o que acha que este maldito jornal vai fazer? — indagou Randle, rispidamente.

— Nada além do que o Moral Majority Report está fazendo. É uma organização inteiramente separada e independente, sem qualquer ligação oficial com a Comunidade de Deus, como também acontece com o outro jornal e o Colégio Batista da Liberdade. Acontece apenas que o nosso editor é Joe Washington, da mesma forma como Jerry Falwell comanda o Moral Majority Report.

— Está procurando encrenca — insistiu Randle. — Tenho certeza de que vai afastar muitos dos nossos contribuintes brancos.

— Duvido muito. Nossas análises de computador também mostram que há tantos brancos quanto negros que se sentem alienados da nossa sociedade.

— Está me parecendo que confia demais nos computadores.

— É possível. Mas posso lembrar que me disse um dia que não teria a menor possibilidade de dirigir seus empreendimentos hoje em dia se não contasse com a ajuda dos computadores. E até agora tem dado certo para nós.

O velho levantou-se.

— Nossos amigos importantes não vão gostar. O Pregador também se levantou.

— A qualquer momento que eles quiserem, podem me pedir para sair e prontamente irei embora. Não tenho qualquer contrato com eles, apenas com Deus.

A voz da mãe soou pelo telefone:

— Parece cansado, Constantine.

— Mas estou bem, mamãe.

— O problema não está apenas em sua voz. Eu o vi no programa do último domingo. Perdeu alguma coisa. Parece estar fazendo tudo automaticamente.

— Talvez eu precise tirar umas férias.

— Acabei de falar com Jane. Já passa de nove horas da noite e você ainda está no escritório. Ela disse que as crianças quase nunca o vêem, a não ser na televisão. Isso não está certo, Constantine. As crianças também precisam do pai.

— É que tenho muito o que fazer, mamãe. Não é apenas o programa que você assiste pela televisão. É uma verdadeira empresa, de que se precisa cuidar a cada minuto do dia. E parece que o trabalho nunca termina. Se a gente relaxa, logo descobre que perdeu audiência para outro ministério de tevê.

— Como faz a sua contagem, Constantine? Pelas almas que leva para Deus? Ou pelo dinheiro que angaria com os programas de televisão?

O Pregador não respondeu.

— Há quanto tempo não prega para uma congregação sem ter uma câmara de televisão à sua frente, Constantine? Há quanto tempo não se posta na porta de uma igreja depois do seu sermão, a fim de se despedir das pessoas?

— Não tenho mais tempo para isso, mamãe.

— Talvez seja esse um dos seus problemas. Há uma palavra que estou sempre ouvindo nos programas de entrevistas: feedback. Você recebe alguma coisa de volta das pessoas depois de um sermão. Mas que espécie de feedback recebe da televisão?

— Estamos recebendo milhares de cartas todas as semanas, mamãe.

— Mas você nem mesmo as lê, Constantine. São todas respondidas pelos computadores. Jane me explicou uma vez como isso funciona. Tudo sobre o autor da carta é programado no computador. Assim, quando a resposta é escrita, todas as referências pessoais são inseridas nos lugares apropriados.

— Não há outro jeito, mamãe. Vivemos numa era eletrônica e a igreja não pode ficar para trás.

— Deus não precisa de um computador para acompanhar todas as almas do mundo. Você respondeu ao chamado dele, não ao de um computador. Não foi Ele quem inventou a igreja eletrônica, mas sim o homem. O Pregador ficou calado.

— Talvez seja por isso que você se sente cansado e vazio, Constantine. Talvez esteja começando a sentir que é apenas uma parte desse computador e que não sabe realmente se está levando almas para Deus ou cheques para o banco.

Ele permaneceu em silêncio.

— Eu o conheço bem, Constantine. Sempre pude saber quando estava feliz e quando se sentia perturbado. E tenho certeza de que não está feliz neste momento.

— Logo estarei bem, mamãe.

— O que você precisa é se afastar de tudo por algum tempo e descansar um pouco. Talvez então possa definir as coisas e descobrir o que realmente quer fazer.

— Nada mudou, mamãe. Ainda quero pregar a palavra de Deus para tantas pessoas quantas puder.

— Talvez seja isso o que está basicamente errado. É possível que você esteja substituindo a quantidade pela qualidade. Acho que era muito mais feliz quando podia pessoalmente levar uma pessoa pela mão até Deus do que agora, quando se dirige a milhares de desconhecidos, que jamais verá ou conhecerá.

— Pode haver outro motivo, mamãe.

— Qual, filho?

— Estou começando a duvidar da minha própria fé, mamãe. A que espécie de Deus estou servindo, que permite que homens gananciosos, sequiosos de poder, manobrem as pessoas em seu nome, a fim de atender a seus interesses egoístas?

— É uma pergunta a que somente você poderá responder, Constantine — disse a mãe, serenamente. — Não se esqueça de que sou sua mãe, não sua consciência.

 

— Estamos começando a perder audiência — disse Marcus. — Segundo o Arbitron, perdemos mais de cem espectadores somente no mês de dezembro.

O Pregador virou-se para Beverly.

— Qual é a situação das coletas?

— Caíram um pouco. Mas qualquer queda maior na audiência só vai ter conseqüências dentro de um ou dois meses.

— E como estão os outros ministérios?

— Não estão melhores do que nós — respondeu Marcus.

— É a recessão — comentou o Pregador. — Está atingindo a todos nós.

— Não é tanto assim — disse Marcus. — Contratamos a A.R.I. de Hollywood para pesquisar nossos últimos programas. A audiência estava entediada. Temos de fazer alguma coisa para animar nosso espetáculo.

O Pregador manteve-se calado e Marcus continuou:

— Não há nada de errado nisso. Assistiu aos especiais de Natal no mês passado? Oral Roberts apresentou as irmãs Lennon, as marionetes Krofft e seu filho cantando e dançando, ao estilo de Fred Astaire, junto com um coro de garotas bonitas, de saias compridas e folgadas numa escada por trás dele, com os decotes descendo até a cintura. Jim e Tammy Bakker apareceram em casa na véspera de Natal, com um bando de personalidades como convidados. Robert Shuller apresentou-se com um espetáculo de um milhão de dólares, transmitido diretamente da Catedral de Cristal e produzido pelo mesmo homem que encenava os espetáculos no Radio City Music Hall, em Nova York.

O Pregador sorriu.

— Acho que estamos perdidos. É tarde demais para eu aprender a cantar e a dançar.

— Estou falando sério, Pregador. Precisamos fazer alguma coisa.

— Também acho, Marcus. Mas o quê? Não sou artista. Não possuo, por exemplo, o talento de Pat Robertson para conversar com as pessoas e fazer um programa de entrevistas. Não posso curar as pessoas diante das câmaras como Ernest Angley. Nem mesmo sei vender sepulturas em Liberty Mountain como Jerry Falwell faz. Tudo o que posso fazer, quando estou diante das câmaras, é mostrar minha fé em Deus.

— Não podemos nos queixar — declarou Marcus, muito compenetrado. — Deu certo até agora. Mas até mesmo o melhor espetáculo de televisão começa a cair depois de quatro anos no ar. Se conhece a televisão, sabe que é um desempenho extraordinário. Mas agora chegou o momento de mudar nossa apresentação ou muito em breve não teremos nenhuma audiência.

— Tem alguma idéia?

— Estou trabalhando em algumas, mas ainda não tenho nada de concreto a propor.

— Pois eu tenho uma idéia. Lembra-se daquele seriado antigo de tevê, Rota 66, em que os dois caras viajavam num carro esporte Corvette, vivendo uma aventura em cada lugar? — Marcus assentiu e o Pregador continuou: — Podemos fazer o mesmo tipo de programa, só que em outra versão. Temos dois caras, só que os nomes deles são Jesus e Pedro. Ao invés de um Corvette, eles usam uma pickup. E têm como missão encontrar o maior pecador de cada cidade e levá-lo ao Senhor.

Marcus fitou-o em silêncio por um momento.

— Não está encarando o problema com a seriedade necessária, Pregador. Admiro e respeito você por sua sinceridade. Mas, como amigo, acho que devo avisar que os três justos da nossa diretoria estão aguardando o primeiro sinal de fraqueza para se adiantarem e estraçalhá-lo, como um bando de lobos famintos.

O Pregador ficou calado, pensando. Podia compreender agora por que fora procurado.

— Obrigado por me alertar, Marcus. Não esquecerei o que me disse. Continue a trabalhar em suas idéias. E eu tentarei pensar em alguma coisa que possa ajudar.

Marcus levantou-se.

— A única sugestão que posso fazer no momento, Pregador, é que deve tentar acrescentar mais alguma dramaticidade aos seus sermões. O demônio e o fogo do inferno sempre foram os melhores recursos dos pregadores do Evangelho.

— Tentarei, Marcus. E, mais uma vez, obrigado. Depois que Lincoln retirou-se, ele virou-se para Beverly e indagou:

— O que acha?

— Alguma das coisas que ele disse são válidas — disse ela, cuidadosamente. — Mas não posso deixar de lembrar que ele sempre trabalhou para Randle. Talvez esteja fazendo a mesma coisa que dar um tiro em sua barriga para mantê-lo na linha.

O Pregador assentiu.

— É bem possível. Mas se eles estão procurando por uma briga, não tenho como impedi-los. Só poderei fazer uma coisa: enfrentá-la quando começar.

Beverly começou a se levantar. O Pregador fez um gesto com a mão para detê-la.

— Não se vá ainda, Beverly. Preciso conversar com você.

Ela tornou a se acomodar na cadeira.

— Está bem, Pregador.

Ele fitou-a por um longo momento antes de falar:

— Acha que alguma coisa aconteceu da maneira como você julgava que deveria ter acontecido?

Ela hesitou por um instante, depois sacudiu a cabeça.

— Não.

— É o que também acontece comigo.

— Sinto muito, Pregador. Ele sorriu tristemente.

— Não há por que lamentar. Eu é que resolvi fazer assim. Ninguém me obrigou.

Beverly manteve-se calada.

— Eu gostaria às vezes de ter continuado com a nossa barraca ambulante. Mesmo com todos os problemas, mesmo sem dinheiro, era mais divertido.

— Não poderia ter continuado, Pregador. Já estava na hora de seguir em frente.

— Tem razão. — Ele fitou-a nos olhos. — O que você fez com todo aquele dinheiro que tinha na valise?

— Investi.

— Conhecendo-a, calculo que a esta altura já representa uma pequena fortuna.

— É verdade.

— Então por que continua comigo, se tudo isso não é o que você esperava?

— Por você. E por Joe. Acho que, de certa forma, sou como vocês. Nenhum de nós pode voltar ao ponto do qual partiu.

— Entendo o que está querendo dizer.

O Pregador abriu uma cigarreira em cima da mesa e empurrou-a na direção de Beverly. Ela sacudiu a cabeça. O Pregador acendeu um cigarro e soprou a fumaça para o alto.

— Vou fazer quarenta e dois anos. Beverly manteve-se calada.

— Dizem que os homens da minha idade sempre passam por uma crise... a crise da meia-idade.

Ela riu.

— Isso só acontece aos cinqüenta anos. O Pregador sorriu.

— É um alívio saber disso. Eu já estava começando a ficar preocupado.

— Pois pode parar de se preocupar.

— É o que vou fazer. Beverly hesitou por um instante.

— Há uma coisa que gostaria de lhe perguntar, Pregador.

— Pode perguntar.

— Eu gostaria de ir para Los Altos, a fim de ficar com Joe. Sinto-me muito solitária aqui. Agora que as meninas se foram, não tenho mais qualquer amigo aqui. Além do mais, que tipo de casamento é esse em que a gente só se encontra com o marido um fim de semana por mês?

— Não posso tentar dissuadi-la.

— Claro que eu só iria embora depois que você encontrasse alguém para me substituir.

— Sei disso. Mas podemos começar a procurar amanhã.

— Obrigada, Pregador.

— E teremos de pensar também em nossa conta particular.

— Já tenho tudo acertado há muito tempo. O dinheiro está numa conta numerada, num fundo de investimentos no exterior. Só não consegui imaginar um meio de continuar a engrossar a conta.

— De qualquer forma, acho que está na hora de suspendermos a operação. A esta altura, já deve haver o suficiente para enfrentar qualquer emergência.

— É um homem estranho, Pregador. Não se importa realmente com dinheiro.

— O que a leva a dizer isso?

— Nunca me perguntou uma só vez quanto havia na conta. Não gostaria de saber?

— Claro que gostaria. Mas nunca precisei pensar a respeito disso. Sabia que você estava cuidando de tudo.

Beverly sorriu.

— Eu poderia estar roubando-o durante todo o tempo e você nunca saberia.

— Não faria diferença se você me roubasse. Eu continuaria a amá-la mesmo assim.

Beverly piscou os olhos rapidamente, a fim de conter as lágrimas.

— Ainda não me perguntou.

— Está bem. Quanto tem?

— Mais de cinco milhões de dólares. O Pregador ficou aturdido.

— Não posso acreditar.

— Vou buscar os recibos para você conferir. Poderá então acreditar.

— Nunca imaginei que chegaria a tanto dinheiro, Beverly. E agora você tem um novo trabalho a fazer.

— Como assim?

— Precisamos encontrar um meio de usar esse dinheiro para ajudar aos que mais precisam. Há muitos doentes e famintos neste mundo para os quais o dinheiro seria mais útil do que se o deixássemos num banco.

— Não se esqueça de que a conta foi aberta para que você tivesse algum recurso, caso Randle tentasse enganá-lo.

O Pregador levantou-se, foi até a janela e olhou para fora. Lá embaixo, um dos ônibus abertos de Churchland parará diante de uma capela. Os passageiros estavam saltando e entrando no prédio. Ele virou-se de novo para Beverly.

— Você acreditaria se eu lhe dissesse que não tem mais importância o que ele possa fazer ou deixar de fazer?

Beverly não disse nada. Ele voltou para trás da mesa e permaneceu de pé, fitando-a.

— Comecei este ministério para levar mais pessoas a Deus e é o que tenho feito. E com ou sem mim, não há nada que ele possa fazer agora para impedir que isso continue a acontecer.

 

Ela abriu a porta do gabinete e olhou. Ele levantou os olhos dos documentos que tinha nas mãos. Ela entrou na sala.

— Já passa de duas horas da madrugada. Não vai se deitar?

— Tenho de examinar todos estes documentos antes. Temos uma reunião de diretoria amanhã.

Ela entrou na sala e foi sentar-se na cadeira diante da mesa.

— Os católicos estão certos quando proíbem seus padres de se casar.

Ele largou os papéis na mesa.

— Por que está falando nisso agora?

— Por causa da maneira como vivemos. Você não pode ser marido e pai ao mesmo tempo que ministro. Não há tempo suficiente para tudo. Você precisa determinar prioridades. E, a esta altura, já sei quais são as prioridades.

— Sabe o quanto eu preciso trabalhar.

— Claro que sei.

— E as coisas não estão ficando mais fáceis. Ao contrário, há sempre mais e mais trabalho.

— E menos e menos tempo para nós. Antigamente a gente podia partilhar uma noite juntos, pelo menos de vez em quando. Mais isso não acontece mais. Nos últimos três ou quatro meses, só conseguimos jantar juntos uma vez.

O Pregador manteve-se calado.

— E nem me lembro quando foi a última vez que fizemos amor. Não sou ingênua o bastante para acreditar que o fogo que ardia tão intensamente quando nos conhecemos poderia continuar para sempre, mas não me parece exagero esperar por uma fagulha de vez em quando. Não posso deixar de pensar que talvez você esteja cansado de mim, que talvez eu não o deixe mais excitado ou até que tenha outras mulheres que sejam mais atraentes.

— Não é nada disso. Estou com quarenta e um anos e simplesmente não tenho mais o mesmo ímpeto e energia de antes.

— O problema não está na sua idade e sim no trabalho. É isso que o está consumindo.

— É possível.

— Não sei o que está acontecendo comigo — murmurou Jane; as lágrimas afloraram aos seus olhos subitamente. — Tem alguma idéia do quanto me custa pegar no sono todas as noites? Há noites em que preciso tomar uma pílula para dormir. Em outras noites acendo um baseado. Quando estou bem alta, começo a fantasiar e me masturbo até a exaustão.

— Sinto muito. Não podia imaginar... Ela se levantou, furiosa.

— Claro que você não imaginava. Como poderia, se não pensa em outra coisa que não seja o trabalho? Afora isso, nada é importante para você.

Jane tirou o chambre e o jogou com toda a força em cima dele; seu corpo nu rebrilhava à luz do abajur.

— Olhe para mim! Nada mudou. Tudo continua igual. Não envelheci nem fiquei feia da noite para o dia.

— Tem razão — murmurou o Pregador, contemplando-a. — Você continua linda.

— Tem razão, você continua linda — repetiu ela, sarcasticamente, com o peito arfando de raiva. — Diga-me uma coisa, sr. Pregador: se fosse outra mulher que se apresentasse nua à sua frente, continuaria sentado atrás dessa mesa a dizer polidamente "Você continua linda"?

Em silêncio, ele se levantou e contornou a mesa, segurando o chambre. Começou a ajeitá-lo em torno dos ombros dela. Jane virou-se e o chambre caiu no chão.

— Fique longe de mim! A última coisa que quero é uma trepada de consolo!

Ela encaminhou-se para a porta e abriu-a.

— Você estava certo — disse ela, em voz fria, virando a cabeça para fitá-lo. — Fui uma tola. Deveria ter feito aquele aborto quando você quis.

O Pregador ficou olhando para a porta fechada por um momento, depois pegou o chambre e voltou a sentar-se à mesa. O chambre ainda exalava o perfume dela. Ele largou-o numa cadeira vazia ao lado e ficou olhando-o por um longo tempo. Finalmente cruzou as mãos sobre a mesa, à sua frente, e baixou a cabeça.

— Não consigo entender, Senhor — sussurrou ele, de olhos fechados. — O que está acontecendo comigo?

Para variar, Jake Randle deixou que alguém mais disparasse o tiro. Desta vez foi Dick Craig quem se encarregou de falar. Examinando o plano impecavelmente datilografado que estava na pasta de couro azul, distribuída no início da reunião, o Pregador compreendeu que não se tratava de algo imaginado da noite para o dia. Mais do que uns poucos meses haviam sido investidos naquele plano. Craig mostrou-se mais do que respeitoso em sua apresentação:

— É muito importante que todos nós compreendamos que esse plano não representa uma crítica ao trabalho de qualquer dos membros deste conselho, assim como também não representa qualquer insatisfação da nossa parte com a extraordinária liderança que o dr. Talbot imprimiu ao nosso ministério e que proporcionou o sucesso de que agora desfrutamos.

Deliberadamente, o Pregador manteve o rosto inexpressivo. Não podia deixar que eles percebessem que sabia tratar-se de uma declaração de guerra. Era melhor que eles ficassem pensando que estavam saindo vitoriosos em sua versão de Pearl Harbor. Ele ficou escutando, enquanto Craig continuava, monotonamente:

— Em vez disso, o plano representa a compreensão de que os problemas e o trabalho de prosseguir nosso ministério tornaram-se maiores do que um homem pode suportar e seria injusto de nossa parte permitir que o dr. Talbot, por mais disposto que esteja, continue a arcar sozinho com todo o fardo. É exclusivamente por esse motivo que propomos acrescentar quatro membros ao nosso conselho, cada um assumindo uma participação ativa no ministério, sob a orientação e liderança do dr. Talbot.

"Cada um desses homens foi meticulosamente investigado e chega a nós com credenciais e experiência mais do que suficientes, em outros ministérios, para realizar o trabalho para o qual foi escolhido. Dois desses cavalheiros ocuparão cargos de pastores associados. São o dr. Thomas Sorensen, antigo pastor associado da Igreja Batista da Liberdade em Lynchburg, e o dr. Mark L. Ryker, antigo diretor de estudos religiosos da Universidade Oral Roberts. O terceiro homem que recomendamos é o sr. Sanford Carrol, que pertencia à Rede de Transmissões Cristãs e vai assumir o cargo de diretor de programação e marketing. Em último lugar, mas nem por isso menos importante, recomendamos o sr. Sutter Duncan, ex-sócio da firma de contabilidade Price, Waterhouse & Company, para assumir o cargo de secretário-geral e tesoureiro, que ficou vago com a renúncia da sra. Beverly Washington, no mês passado.

"Biografias completas desses homens também estão incluídas nas pastas distribuídas. Posso assegurar que o sr. Randle, a sra. Lacey e eu já conversamos pessoalmente com eles e verificamos que estão plenamente de acordo com nossos objetivos e interesses, e que estamos convencidos de que serão totalmente compatíveis com nossa organização. Cada um concordou em aceitar um contrato de emprego de um ano, com uma remuneração de quarenta mil dólares, mais as despesas de casa e comida e uma verba de representação. Teremos também a opção para renovar os contratos anualmente, pelos próximos seis anos, com um aumento anual da remuneração de dez por cento. E agora submeto a proposta à discussão."

Craig sentou-se e ninguém falou. Todos os olhares estavam fixados no Pregador. Em silêncio, o Pregador folheou o relatório. Deliberadamente, absteve-se de qualquer comentário, até que todos estivessem se remexendo em suas cadeiras, irrequietos. Depois, ele levantou o rosto e disse:

— Gosto da idéia.

Ele quase podia ver a expressão de surpresa no rosto de todos. Sorriu interiormente. Estavam loucos se pensavam que iria enfrentá-los numa luta aberta, quando não havia a menor possibilidade de vencê-los numa votação.

— Mas há um fator importante que creio ter sido esquecido. Estou me referindo à operação de franquia. Com uma receita potencial de três milhões de dólares para este ano, creio que devemos reconhecer o valor do sr. Washington para este ministério, elegendo-o também como pastor associado e membro deste conselho. Se todos me acompanharem nesta sugestão, não terei a menor hesitação em fazer com que toda a proposta seja aprovada por unanimidade.

Houve um momento de silêncio e depois a voz de Randle trovejou através da mesa:

— Não tenho qualquer objeção à proposta do Dr. Talbot. Vamos fazer uma votação?

A proposta foi aprovada por unanimidade. Craig tornou a se levantar.

— Proponho a suspensão desta reunião e a convocação de uma reunião especial do conselho daqui a dois dias, com a participação dos novos membros.

A proposta foi aprovada.

Encerrada a reunião, Marcus acompanhou o Pregador até a sala dele. Esperou que a porta estivesse fechada para dizer:

— Soube de alguma coisa antes?

— Não — respondeu o Pregador, encaminhando-se para trás da mesa. — Você sabia?

Marcus sacudiu a cabeça.

— Foi uma surpresa total para mim. Eles fizeram tudo em segredo.

— Tem razão — disse o Pregador, sentando-se.

— Está preocupado?

— Não. Deveria estar?

— A atitude deles pode ser interpretada como uma indicação de que tentarão afastá-lo.

O Pregador sorriu.

— Eles podem tentar, mas não vão conseguir. A Igreja da Comunidade de Deus da América Cristã Triunfante está incorporada em Los Altos, Califórnia, com todas as ações em meu nome.

— Está querendo dizer... O Pregador assentiu.

— Não passamos de arrendatários aqui em Churchland. Mas se eu for pressionado, posso convocar uma assembléia de acionistas e afastar todo o conselho.

— Será que o velho sabe disso?

— Saberia, se parasse para pensar a respeito disso. Mas ele vive tão ocupado com seus próprios planos em relação a nós que nunca tem tempo.

— Deve ter contado com a orientação de um advogado esperto.

— Não foi bem assim. Mas lembro-me de uma conversa com um advogado de Nova York que era amigo de Beverly. O nome dele era Paul Gitlin; jamais esqueci o que ele disse a ela.

— O que foi?

— Nunca dê nada que eles não peçam. — O Pregador sorriu. — E Randle nunca me pediu. Se tivesse pedido, provavelmente eu teria dado.

— Foi ótimo que não tenha acontecido. Tenho uma idéia para o novo programa. Quer ouvir?

— Claro.

— Já ouviu falar de Jimmy e Kim Hickox?

— Quem não ouviu?

Vinte anos antes, eles formavam uma dupla de cantores de sucesso, em discos e na televisão. Mas a popularidade deles definhara inesperadamente e por muitos anos quase não se ouvira falar da dupla. Cerca de sete anos atrás, no entanto, haviam recomeçado a fazer sucesso, como os Cristãos Renascidos. Agora, eram os astros mais cotados do circuito cristão da tevê. Ainda com uma aparência jovem, de americanos típicos, apresentavam-se com um estilo simples e doméstico, que todos pareciam adorar.

— Andei conversando com eles. Estão interessados em fazer o seu próprio programa, cantando e falando, cinco dias por semana. E ambos o respeitam muito.

— Quanto isso nos custaria?

— Eles aceitariam cinco mil dólares por semana, com um contrato de um ano. Normalmente recebem dez mil dólares por um programa. Pode calcular mais dez mil dólares para produzir cada programa e vinte mil dólares por semana para lançá-lo no ar. No total, sairia por menos de dois milhões de dólares por ano.

— Acha que pode fazê-los assinar um contrato a tempo de apresentá-los em nossa próxima reunião, daqui a dois dias?

— Acho que sim. Mas eu teria de ir a Los Angeles para falar com eles pessoalmente. É lá que eles residem.

— Então o que está esperando? — O Pregador sorriu. — Vou mandar aprontar o nosso jato imediatamente para a sua viagem. Volte com o contrato. Também vamos apresentar-lhes a nossa surpresa. Assim, eles não poderão se queixar de que não estamos tentando nada para aumentar a nossa audiência.

O Pregador olhou para a pasta azul que trouxera da reunião quando a porta se fechou, depois da saída de Marcus. Abriu-a e folheou as páginas. No final das contas, talvez não fosse uma idéia tão ruim assim. Eram todos homens de bem e altamente qualificados. Se pudessem assumir uma parte do seu trabalho, teria mais tempo para si mesmo. Talvez pudesse endireitar as coisas com Jane, a fim de que ela não se sentisse mais tão abandonada. Ele ligou para seu apartamento. Uma criada atendeu.

— A sra. Talbot está?

— Não, senhor. Ela saiu com as crianças.

— Disse para onde ia?

— Não, senhor.

O Pregador desligou. Haveria tempo suficiente para conversar com Jane depois. Ele apertou o botão do interfone e a secretária atendeu.

— Ligue para o sr. Washington, em Los Altos. Joe estava ao telefone um momento depois.

— Parabéns, reverendo Washington. É agora membro do conselho e um pastor associado da igreja.

— Ei, essa é boa! — Joe riu. — Mas isso significa que vou ter mais dinheiro?

— Provavelmente. — O Pregador também riu. — O importante, porém, é que você é o primeiro pastor negro de um ministério branco.

— Tem razão. Mas também tenho notícias para você.

— Quais são?

— Lembra-se do pastor da Igreja de Little River, o primeiro com quem falamos?

— Claro que lembro, o pastor Willard.

— Isso mesmo. Lembra-se como ele se lamentou por não ser capaz de satisfazer a sua jovem mulher?

— Lembro-me, sim.

— Pois ele diz que um milagre aconteceu naquela primeira noite em que se juntou a nós. A multidão na igreja deixou-o tão inebriado que depois do serviço conseguiu atender à mulher.

— Isso é maravilhoso. —— O Pregador sorriu. — Mas como soube?

— Ele acaba de me telefonar. — Joe soltou uma risada. — A mulher teve um filho, com três quilos e seiscentos gramas. Ele vai dar o meu nome ao menino.

— Mas por que o seu nome? Joe tornou a rir.

— Ele disse que foi o que eu fiz naquela noite que lhe devolveu as forças.

 

O Pregador terminou de ler a mensagem datilografada e levantou os olhos, largando o papel na mesa. Ficou observando, enquanto o técnico de som fazia a fita voltar, depois tornava a tocá-la. O diretor ficou escutando pelos fones de ouvido. Um momento depois, o diretor ergueu a mão, fazendo o gesto de que estava tudo certo. Ele tirou os fones dos ouvidos e disse:

— Acho que a última gravação ficou perfeita, Dr. Talbot. Se quiser pegar o telefone, vamos transmitir diretamente por sua linha, a fim de que possa ouvir exatamente como ficou.

O Pregador assentiu e pegou o telefone. Levou apenas um momento para que o técnico voltasse a fita e tornasse a tocar. O Pregador ouviu a própria voz pelo telefone:

"Obrigado por ligar para a Igreja da Comunidade de Deus. Esta é uma mensagem gravada do dr. C. Andrew Talbot. Lamentamos muito, mas todas as linhas estão ocupadas neste momento. Sua ligação será transferida para o primeiro conselheiro disponível. Enquanto espera, teremos o maior prazer em oferecer-lhe a famosa interpretação da irmã Aretha Franklin de Amazing Grace, se quiser aproveitar esta ligação grátis. Mas, primeiro, quando ouvir o bip, terá trinta segundos para nos fornecer seu nome completo e endereço, para que possamos encaminhar a ligação para um conselheiro familiarizado com a sua área, a fim de que possa ser prestada uma ajuda maior".

O som de um hip saiu pelo telefone. Houve uma breve pausa e depois a voz dele tornou a soar:

"Obrigado. Deus o abençoe. E não se esqueça de que Jesus o ama".

Um momento depois, os primeiros acordes da canção soaram em seu ouvido. O Pregador desligou.

— Acha que está bom, dr. Talbot? — indagou o diretor.

— Está ótimo.

— Certo. — O diretor sorriu e virou-se para o técnico de som. — Pode guardar tudo.

Ele foi até a mesa e pegou o microfone, comentando polidamente:

— Está ficando melhor a cada dia, dr. Talbot. Fizemos todas as gravações para os próximos três meses em apenas onze vezes. O que é quatro vezes melhor do que na última vez.

O Pregador sorriu.

— Graças a você. Consegue dar um jeito para que tudo saia naturalmente.

— Obrigado, senhor.

O diretor estava enrolando o fio e voltando para junto do técnico de som, que desligou o gravador e se levantou. Os dois se encaminharam para a porta. O diretor virou-se e disse:

— Até a próxima, senhor. Boa noite.

— Boa noite. E obrigado.

O Pregador ficou olhando para a porta que se fechava. A cada mês havia uma nova gravação. A mensagem era ligeiramente mudada de um mês para outro e a canção de espera era substituída. Quer houvesse ou não uma linha disponível, a mensagem era importante. Era o único meio seguro de se obter o nome e endereço da pessoa que ligava, a fim de serem fornecidos ao computador, para uso futuro.

O centro de comunicações estava localizado em Fort Worth, instalado em prédio exclusivo. Churchland não era grande o bastante para abrigar o pessoal necessário à sua operação. Havia mais de cem empregados pagos e cerca de oitocentos a novecentos voluntários. O turno mais movimentado era de meia-noite às cinco horas da manhã. Eram as horas solitárias, as horas em que a maioria das emissoras de televisão saía do ar e as pessoas ficavam sozinhas em seus quartos, tendo por companhia apenas as suas dúvidas e medos.

Quando o conselheiro atendia ao telefone, a voz do interlocutor era a primeira que se ouvia. O conselheiro não completava a ligação antes de bater o nome do interlocutor no teclado de computador e vê-lo na tela à sua frente. Setenta por cento dos conselheiros eram mulheres. Mas todos, homens e mulheres, eram escolhidos por suas vozes cordiais e simpáticas. Tratariam o interlocutor pelo primeiro nome e se identificariam como irmão ou irmã, acrescentando os próprios nomes, agradecendo a chamada e depois indagando em que podiam ajudar. Pareciam dispor de todo o tempo do mundo, mas sua função principal era a de obter todas as informações possíveis sobre o interlocutor e seus problemas, imediatamente fornecidas ao computador. Ofereciam conselhos de bom senso, geralmente incluindo citações da Bíblia que eram pertinentes, sempre fornecidas pela tela de computador e selecionadas de acordo com a classificação de problemas previamente programada. Se necessário, o conselheiro acompanhava o interlocutor numa oração. A conversa terminava quando o conselheiro informava ao interlocutor a localização da igreja filiada mais próxima, dizendo que ele receberia em breve uma carta do pastor local, convidando-o a aparecer e ter uma conversa pessoal, sem qualquer obrigação de entrar para a igreja ou fazer alguma contribuição. (A carta seria na verdade remetida do centro de comunicações, em papel timbrado da igreja local, por cima de uma assinatura impressa do pastor. A própria igreja receberia uma cópia da carta para referência.) É claro que o interlocutor, se quisesse, poderia fazer uma contribuição diretamente à Igreja da Comunidade de Deus, em Churchland, a fim de ajudar a cobrir os custos de manutenção daquele serviço tão meritório de ajuda ao próximo, embora não houvesse qualquer obrigação. Mas, com ou sem contribuição, o mais importante era que o interlocutor lembrasse que, por mais terríveis que as coisas pudessem parecer naquele momento, o amanhã seria melhor, porque Jesus o amava.

Durante os últimos anos, houvera uma média de mil ligações por dia. Recentemente, porém, com a recessão e o desemprego crescente, o número de ligações aumentara de duzentas a trezentas por dia. E continuava a aumentar. Mais de noventa por cento dos interlocutores faziam contribuições de cinco a dez dólares por cabeça. Era difícil calcular com quanto mais contribuíam através da correspondência posterior e das igrejas locais, mas um levantamento avaliara que a contribuição média total de cada interlocutor era de trinta dólares. Isso representava cerca de dezoito milhões de dólares por ano, com seiscentos mil interlocutores.

Eram nove horas da noite quando ele saiu do elevador particular que descia diretamente do seu gabinete para o saguão principal. O guarda uniformizado tocou no quepe respeitosamente.

— Boa noite, dr. Talbot.

— Boa noite, Jeff. Como está sua artrite esta noite?

— Muito melhor, dr. Talbot. Venho dizendo todas as noites aquelas orações que me deu. E quer saber de uma coisa? Estão dando certo. Obrigado, dr. Talbot. Nem preciso mais tomar aspirina para dormir. Muito obrigado.

— Não me agradeça, Jeff... Agradeça a Jesus por sua misericórdia. Foi Ele quem atendeu às suas orações e não eu.

— Obrigado, Jesus — disse o guarda, fervorosamente.

— Assim está melhor. — O Pregador sorriu. — Deus o guarde. Boa noite.

— Boa noite, dr. Talbot.

O Pregador hesitou por um instante, depois encaminhou-se para a entrada principal. Precisava respirar um pouco de ar fresco, antes de seguir para os seus aposentos. Os sons de um coral chegaram a seus ouvidos. Ele foi até a entrada de um dos auditórios e olhou. O guarda na porta virou-se e viu-o. Levou a mão ao quepe e sussurrou:

— Boa noite, dr. Talbot.

— Boa noite, Morris. — O Pregador correu os olhos pelo auditório. Estava quase cheio. — Uma multidão e tanto.

— É o que sempre acontece quando apresentamos A Ressurreição. Temos mais de trinta ônibus lá fora.

— Tem toda a razão. Esqueci que era terça-feira.

O Teatro Amador de Churchland apresentava a sua peça semanal nas noites de terça-feira. Havia dez peças, cada uma sobre uma parte da vida de Jesus, adaptada livremente da Bíblia e das séries televisionadas que eram distribuídas às igrejas locais. Estavam no intervalo, naquele momento. Enquanto o coro cantava, as cestas de coleta, de vime, eram passadas pela audiência.

— Fico sempre contente quando estou em serviço na noite em que essa peça é apresentada — sussurrou o guarda. — É fantástico como eles conseguem fazer aqueles milagres acontecerem no palco, diante dos nossos olhos. Mesmo quando a gente conhece todos os equipamentos e recursos técnicos que são usados.

O Pregador sorriu.

— Não se esqueça de que Jesus fez todos esses milagres acontecerem. E Ele não precisou de quaisquer recursos técnicos ou equipamentos para ajudá-lo.

— Tem toda a razão. Foram milagres de verdade.

— Boa noite, Morris. Deus o guarde.

O Pregador saiu para o ar frio da noite e respirou fundo. Seus pulmões se encheram e ele sentiu as forças e a energia voltarem. Seguiu pelo caminho mais longo para a sua residência, passando pelas fileiras de ônibus e descendo pelo gramado inclinado.

Entrou em casa e subiu a escada direto para o seu gabinete. Pôs a valise na mesa e depois passou para o quarto. Estava vazio. Foi para a sala de jantar. Jane provavelmente começara a jantar sem esperar por ele. Mas a sala também estava vazia, a mesa nem sequer fora posta. O Pregador pegou o telefone no aparador e apertou o botão para falar com a empregada.

— Onde está a sra. Talbot?

— Não sei, senhor. Ainda não voltaram. E já passou da hora de as crianças irem para a cama. Estou preocupada.

— Ela não lhe disse para onde ia?

— Eu não estava em casa quando a sra. Talbot saiu. Era a minha manhã de folga.

— Provavelmente ela foi visitar o pai. E sabe como ele é. Não gosta de deixá-los sair e fez com que ficassem para o jantar. Não precisa se preocupar. Vou ligar para ele.

— Pois não, senhor. Devo lhe servir o jantar agora?

— Por favor. Vou comer em meu gabinete.

O Pregador voltou ao gabinete e ligou para o rancho. O mordomo atendeu.

— Posso falar com o sr. Randle?

— Ele já foi dormir, dr. Talbot.

— A que horas a sra. Talbot saiu?

— A sra. Talbot? — Havia um tom de surpresa na voz do mordomo. — A sra. Talbot não esteve aqui hoje.

O Pregador desligou e ficou olhando fixamente para o telefone. Aquilo não tinha sentido. Para onde Jane poderia ter ido? Ele ligou para a garagem em que os carros ficavam guardados.

— O Mercedes da sra. Talbot está aí?

— Não, senhor.

— Alguém aí a viu sair?

— Não, senhor. Sou o encarregado do plantão noturno. Só entro em serviço às oito horas. E todo o pessoal do dia já foi embora.

O Pregador desligou, repondo o fone no gancho lentamente. Levantou-se e foi para o quarto. Não havia sequer um bilhete. Ele foi para o quarto das crianças. Também nada encontrou ali. Estava voltando ao gabinete quando ouviu o telefone tocar. Correu para atender.

— Jane?

— Sou eu mesma.

— Onde você está? Já estava preocupado. Seu carro não está na garagem e comecei a imaginar todos os acidentes possíveis.

— Estamos bem.

— Onde você está?

— Em Dallas. Na casa de tia Jenny. O Pregador perdeu a calma.

— E que diabo está fazendo em Dallas?

— Eu precisava de distância para poder respirar melhor. Estava enlouquecendo em Churchland.

— Distância para respirar? Mas se era isso o que estava querendo, por que teve de arrastar as crianças?

Jane manteve-se calada por um momento.

— Porque não vamos voltar.

— Ei, espere aí! — disse ele, sem acreditar no que acabara de ouvir. — Não pode fazer uma coisa dessas.

— Já fiz.

— Mas não pode fazer. Não sem conversarmos antes.

— Eu sabia que era melhor não conversarmos antes. Já estou cansada de seu fascínio. Vi funcionar com pessoas demais. Se eu conversasse, nunca iria embora.

— Por acaso se deu ao trabalho de pensar que não teria ido embora porque sabia estar errada?

— Não quero mais escutar. Já tomei minha decisão. Vou ligar para a empregada pela manhã e providenciar para que mande as nossas roupas para cá.

— Não vai fazer nada disso. Vou para aí e a trarei de volta.

— Não acredito — disse Jane, com a voz cansada. — Amanhã de manhã haverá alguma coisa mais importante para você fazer. Nunca vai aparecer aqui.

— Pode me esperar.

Mas ele já estava falando para uma linha muda. Jane desligara. A criada entrou na sala, carregando uma bandeja, enquanto ele ainda olhava para o fone em sua mão.

— Estava falando com a sra. Talbot? — perguntou ela, pondo a bandeja na mesa.

— Estava — respondeu o Pregador, bruscamente.

— Está tudo bem?

— Está, sim. Ela resolveu visitar a tia Jenny, em Dallas.

A criada fitou-o em silêncio por um momento, depois acenou com a cabeça.

— Fico contente por saber que estão todos bem.

Ela se retirou. O Pregador ficou olhando para a bandeja por um longo tempo e finalmente empurrou-a para o lado. Não estava com fome. Podia pegar um avião bem cedo e trazer a família de volta para casa antes do meio-dia.

Tendo tomado essa decisão, ele abriu a valise e tirou a pasta de arquivo com a indicação de "Urgente". Examinou-a rapidamente. Teria no mínimo um trabalho de duas horas para deixar tudo na mesa da secretária pela manhã. Ele acendeu a luz na mesa e começou a ler o primeiro relatório.

 

O Pregador ainda estava sentado à mesa, trabalhando, quase duas horas depois, quando Marcus telefonou.

— Eles concordaram! — Marcus estava muito excitado. — Acabo de voltar do hotel. Os advogados já estão trabalhando numa minuta de contrato, que estará pronta pela manhã.

— Meus parabéns. O programa deles será de grande valia para a igreja. Eles possuem adeptos de todas as congregações: metodistas, batistas, presbiterianos e até mesmo os episcopalianos; todos gostam deles.

— Só há um problema. Eles não querem assinar enquanto não se encontrarem pessoalmente com você e o ouvirem afirmar que todas as promessas que eu fiz são válidas.

— Terei o maior prazer em recebê-los. Traga-os no avião com você amanhã.

— Eles não poderão ir. Já têm um compromisso com Bob Shuller para um programa especial na Catedral de Cristal, amanhã à noite. Você terá de vir a Los Angeles se quiser o contrato assinado para a reunião do conselho.

— Não posso ir. Preciso estar em Dallas amanhã de manhã.

— Pois adie isso. Nada pode ser tão importante quanto a sua vinda a Los Angeles.

O Pregador ficou em silêncio. De certa forma Marcus estava certo. E Jane também. A igreja tinha precedência sobre a sua vida particular. Mas isso era um fato inevitável que toda mulher de ministro religioso tinha de enfrentar. Por outro lado, talvez fosse até melhor que ele não partisse correndo para Dallas atrás de Jane. Depois de pensar por alguns dias, talvez ela mudasse de idéia. No final das contas, a vida em Churchland, para ela, não era tão ruim assim.

— Está certo — disse ele, respirando fundo. — Quanto tempo demora o vôo?

— Cerca de três horas.

O Pregador calculou o tempo. Havia uma diferença de duas horas em relação a Los Angeles. Ainda poderia tomar algumas providências pela manhã e partir por volta das dez horas.

— Vou seguir no Churchland 2. Espere-nos no aeroporto às onze horas da manhã.

— Estarei lá.

O Pregador desligou, pegou um cigarro e acendeu-o. Soprou a fumaça lentamente. Não estava gostando de si mesmo naquele momento. Não lhe agradava ser obrigado a admitir que Jane estava certa ao dizer que aconteceria algo mais importante pela manhã que impediria a sua ida a Dallas. Mas também não havia motivo para que o problema fosse transformado numa disputa entre a igreja e ela. Ele não a amava menos só por causa de seu amor por Jesus.

Ocorreu-lhe um pensamento súbito que fez com que ele esmagasse o cigarro no cinzeiro, furioso. Talvez o que Jane sentia fosse mais verdadeiro do que ela própria imaginava. Ele não havia se casado por estar loucamente apaixonado. À sua maneira, ele a amava, mas não mais do que amava muitas outras moças. Talvez a verdade pura e simples fosse que ele não era capaz de dar a Jane o tipo de amor que ela exigia.

A longa limusine preta, com janelas indevassáveis, parou ao lado do Churchland 2 um momento depois do pouso. O comissário de bordo abriu a porta do avião e apertou o botão que fazia a escada baixar automaticamente. Marcus estava esperando quando o Pregador desceu.

— Fez boa viagem?

— Foi perfeita. — O Pregador sorriu e olhou para a limusine. — Vistosa, hem?

— Esta é uma limusine especial, usada para astros do rock — explicou Marcus, sorrindo também. — Achei que você merecia o melhor. Tem de tudo: bar, televisão, dois telefones, até mesmo uma escrivaninha embutida, se você quiser escrever.

— É mesmo sensacional.

O motorista abriu a porta e o Pregador embarcou, seguido por Marcus.

— Tenho um esboço preliminar do contrato. Podemos examiná-lo no caminho para o hotel e discutir quaisquer mudanças que queiramos fazer com os advogados, antes do encontro final.

O Pregador virou a cabeça para fitá-lo.

— Por que o hotel?

— Pensei que poderia querer tomar um banho e mudar de roupa. Reservei um bangalô no Beverly Hills Hotel para você. Assim, poderá entrar direto, sem passar pelo saguão. Só vamos nos reunir depois do almoço, às duas e meia da tarde, na casa deles.

O Pregador olhou pela janela. Já estavam na auto-estrada que levava ao norte. Não havia agora a menor possibilidade de chegar a Dallas antes do cair da noite.

— Pensei que só faltasse assinar o contrato.

— E é isso mesmo. Mas as coisas se fazem assim no show business. Há duas horas de conversa fiada para cada dois minutos de trabalho.

— Está certo. Vamos examinar esse esboço. Marcus puxou a mesa embutida e abriu sua pasta. Pôs um maço de papéis na frente do Pregador e outro diante de si.

— É praticamente tudo o que conversamos. Mas há algumas coisas que eles querem.

— Por exemplo?

— Querem trabalhar apenas trinta e nove semanas por ano e ter o direito de escolher os convidados que conduzirão o programa nas outras treze semanas, dependendo da nossa aprovação, é claro. Não achei que havia qualquer problema nisso, já que a nossa aprovação seria decisiva.

— E que mais?

— Eles querem que o programa se chame Jimmy e Kim Hickox Show.

— Está certo.

— Querem o crédito de produtores executivos para si mesmos.

— Não há problema.

— Querem que o programa seja um empreendimento conjunto entre a companhia deles e nós. O crédito diria "Uma produção Hickox-Churchland". E queriam dividir o copyright. Mas recusei essa reivindicação.

— Por quê?

— Porque se quiséssemos fazer alguma coisa com o programa depois, teríamos de obter a aprovação deles. Eu disse que poderiam ficar com o crédito da produção, mas não com o copyright.

— E eles concordaram com isso?

— Ainda não. Vão tentar impingir isso a você. Mas se resistir, acho que eles acabarão cedendo.

— Estou com você.

— Ótimo — disse Marcus. — Só há mais um ponto em aberto, que pode ser decisivo. Eles querem gravar o programa aqui. Alegam que não poderiam atrair os convidados que desejam se gravassem em Churchland. Se tivermos de alugar espaço aqui, isso dobrará o custo da produção. Não podemos permitir.

— E como se pode resolver esse problema?

— Não sei. Já tentei tudo o que podia, mas em vão. Agora depende de você.

O Pregador pensou por um momento.

— Temos alguma coisa para oferecer em lugar disso? Marcus sacudiu a cabeça.

— Não.

— Como eles são?

— Ele é um cara muito simpático. Do tipo descontraído, jovial, exatamente como aparece na televisão. Mas ela é diferente. Uma mulher dura na queda. É quem negocia na família. Aparentemente, foi obrigada a assumir o papel quando ele liquidou todo o dinheiro e a carreira, há alguns anos, bancando o bom rapaz. — Marcus respirou fundo. — Não posso afirmar com certeza, mas tenho a impressão de que ela o transferiu para o circuito evangélico porque viu que dava dinheiro e compreendeu que ele não tinha a menor possibilidade na televisão comercial.

O Pregador sondou ainda mais fundo.

— Está querendo dizer que ela não está nisso para valer? Que Deus é mais um negócio do que uma convicção para ela?

Marcus deu de ombros.

— É possível. Mas não posso afirmar com certeza.

O Pregador ficou calado por um momento, depois sorriu.

— Vamos descobrir em breve.

— Como?

— Talvez eu a leve para outro cômodo e reze junto com ela. — O Pregador reparou na expressão de Marcus e riu. — Não precisa ficar assim. É apenas uma das minhas piadas particulares. Sei que este não é o momento para orações.

Se ela é o tipo de mulher que você imagina, vamos ver até que ponto é mesmo dura. Ligue para o advogado dela e comunique que de jeito nenhum concordarei com a gravação do programa aqui. Terá de ser em Churchland. Se eles não concordarem, o negócio está cancelado. Avise também que eu ficarei no hotel até duas horas da tarde. Se até lá não receber o aviso de que eles concordaram em fazer o programa em Churchland, então não haverá sentido em nos reunirmos e seguirei direto para o aeroporto.

Marcus ficou aturdido.

— Está sendo muito duro. Não me deixa qualquer espaço para negociação.

— E não há nenhum. Um dos motivos mais importantes para transmitir de Churchland é que poderemos atrair mais pessoas para lá. Se não tivermos isso, o negócio perderá cinqüenta por cento da validade.

— Não teremos para onde nos virar, se eles nos rejeitarem.

— Eles não podem ser os únicos peixes no mar. — O Pregador pensou por um momento. — O que me diz de Pat Boone? Ele é muito bom e uma atração maior do que Jimmy Hickox jamais conseguiu ser.

— Não o procurei primeiro porque soube que ele está comprometido com um ano de antecedência.

— Está pondo o carro na frente dos bois. Eles ainda não nos rejeitaram. Dê primeiro o telefonema.

Chegaram ao hotel às onze e trinta. Marcus levou-o ao bangalô. Ficava perto da rua, em Crescent Drive.

— Está com fome, Pregador? Devo pedir o almoço? O Pregador sacudiu a cabeça.

— Não, obrigado. Mas estou cansado. Não dormi bem esta noite. Será que tenho tempo para tirar um cochilo?

— Claro. Tenho algumas coisas para fazer agora. Por que não deita um pouco? Voltarei para acordá-lo às treze e quinze.

— Seria ótimo.

Marcus saiu e o Pregador foi para o quarto. Fechou as cortinas, deixando o quarto às escuras. Tirou as roupas e estendeu-se na cama, apenas de cueca. Um momento depois, ele se sentou na cama e pegou o telefone. A telefonista atendeu imediatamente.

— Pois não, dr. Talbot?

Ele pediu uma ligação para Jane em Dallas. O telefone tocou duas vezes e foi atendido.

— Residência da sra. Dawson.

— Aqui é o sr. Talbot. A sra. Talbot está?

— Não, dr. Talbot — respondeu a criada. — Ela e a sra. Dawson saíram com as crianças para fazer compras. Quer deixar recado?

— Quero, sim, por favor. Poderia fazer a gentileza de avisar à sra. Talbot que tive de vir a Los Angeles inesperadamente e que ligarei mais tarde para explicar?

—— Pois não.

— Obrigado.

O Pregador desligou o telefone e recostou-se nos travesseiros. Ficou olhando para a escuridão. Nada parecia estar correndo bem. Primeiro o conselho de diretores, depois Jane e agora os Hickoxes. Era muito estranho. Desde que completara quarenta anos tinha a impressão de que o tempo estava se esgotando e não poderia recuperá-lo. Estava cansado. Muito cansado. Fechou os olhos e mergulhou no sono.

O odor ligeiramente adocicado de maconha penetrou em seu sono. Ele rejeitou-o a princípio. Não era verdade. Estava sonhando. Mas o odor persistiu, tornando-se cada vez mais forte. Ele finalmente abriu os olhos. No escuro, tudo o que podia ver eram os contornos de duas moças, sentadas ao pé da cama, com os cigarros luzindo.

O Pregador sentou-se na cama, estendendo a mão para o abajur na mesinha-de-cabeceira. Uma das moças inclinou-se e pegou-lhe a mão.

— Volte a dormir, Pregador. Não queríamos incomodá-lo.

Ele tirou o baseado dos dedos dela e tragou fundo.

— Não estavam me incomodando, Charlie. Se vou entrar numa viagem, prefiro estar acordado para aproveitá-la ao máximo.

— Nós o amamos, Pregador — disse a outra moça.

— E eu a amo, Melanie. — Ele devolveu o baseado a Charlie. — Posso agora acender a luz?

— Deixe que eu acendo.

Ela estendeu a mão e acendeu o abajur. O Pregador piscou os olhos, ainda meio aturdido. Elas estavam sorrindo.

— Como souberam que eu estava aqui?

— Joe soube por intermédio de Marcus e nos contou — disse Melanie. —— Estamos guiando desde as sete horas da manhã. Queríamos vê-lo.

— Afinal, já se passou quase um ano — acrescentou Charlie.

O Pregador ficou calado por um momento e depois disse:

— Apaguem o baseado. Tenho uma importante reunião daqui a pouco e não posso correr o risco de qualquer tropeço.

— Não está contente por nos ver, Pregador? Charlie parecia magoada.

— Sabe que sempre fico contente em vê-las. — Ele saiu da cama. — É melhor eu tomar um banho frio de chuveiro e desanuviar a cabeça.

— Que tal uma trepada bem quente antes? — indagou Melanie. — Vai deixá-lo relaxado e acabar com todas as tensões que estão subindo para a cabeça.

O Pregador contemplou-as com um sorriso.

— Vocês duas estão lindas. Nunca mudam. O único problema é que não tenho tempo.

— Então trate de arrumar tempo, Pregador — disse Charlie, começando a tirar as roupas. — Suas vibrações nos revelam que está precisando de nós.

— Mande-a parar com isso — disse o Pregador, virando-se para Melanie.

Mas Melanie já estava nua, avançando pela cama em sua direção. Ele começou a virar-se de volta para Charlie. Ela também estava nua.

— Ei...

Rindo, as duas empurraram-no contra a cama, comprimindo-se contra ele. O Pregador ficou imóvel, movendo os olhos de uma para a outra. Respirou fundo.

— Não vai dar certo, crianças.

— Nada pode dar certo se você não quiser, Pregador — murmurou Charlie, com os olhos cheios de lágrimas.

Ele virou-se para fitar Melanie. Também havia lágrimas nos olhos dela.

— Por favor, Pregador, não fique assim com a gente. Não envelheça.

Ele a olhou fixamente, sem falar. Ela coçou o nariz com as costas da mão.

— Porque se você envelhecer, nós também ficaremos velhas.

O Pregador sentiu que seus olhos ficavam marejados de lágrimas. Puxou o rosto delas para os seus ombros e assim ficaram deitados, muito quietos, as lágrimas se misturando, por um longo tempo. Finalmente ele estendeu as mãos para os lados e as duas se levantaram. Ele continuou deitado, em silêncio, observando-as se vestirem. Charlie virou-se para ele e murmurou:

— Desculpe, Pregador. Não deveríamos ter vindo.

— Pensamos que seria como nos velhos tempos — acrescentou Melanie. — Mas estávamos enganadas. Tudo mudou. Até mesmo você. Sabemos disso agora.

— Não vamos voltar à comunidade — informou Charlie. — Lá também não é mais a mesma coisa.

— E para onde vão? — indagou o Pregador, sentando-se na cama.

Melanie deu de ombros.

— Estávamos pensando em voltar a Churchland com você, se nos aceitasse. Mas sabemos agora que isso é impossível.

— Encontraremos um lugar — afirmou Charlie. — Se falar com Joe, avise que o informaremos para onde deverá mandar as nossas coisas, assim que estivermos instaladas.

O Pregador fitou-as em silêncio por um instante e depois sorriu.

— Podem ligar para ele imediatamente e informar.

— Como assim? — indagou Melanie.

— Vocês duas vão voltar para Churchland no meu avião esta noite. — Ele viu a expressão de surpresa das duas e tornou a sorrir. — E agora será que me dão licença de tomar um banho frio de chuveiro?

— Quanto tempo dura o vôo? — perguntou Charlie.

— Três horas.

As duas se aproximaram dele e beijaram-no nas faces. E Charlie murmurou:

— Então não tome um banho frio demais...

 

Jimmy Hickox abriu a porta para eles. Sua aparência juvenil contradizia a idade. Parecia ser um homem de trinta e poucos anos, mas o Pregador sabia que já passara dos cinqüenta.

— É um prazer conhecê-lo, dr. Talbot — disse ele, estendendo a mão.

O aperto de mão de Jimmy foi firme e entusiástico. O Pregador sorriu.

— O prazer é meu, sr. Hickox. Sou seu fã há muito tempo.

— Isso me deixa muito satisfeito. Eu também sou um admirador seu. Fico impressionado pela maneira como realiza o trabalho do Senhor. Este país precisa de mais homens como você, que dediquem a vida à luta contra os pecados que ameaçam corromper a estrutura da família americana e destruir nosso modo de vida.

O Pregador lançou um olhar rápido para Marcus. Havia uma velada expressão divertida nos olhos dele. Era óbvio que Jimmy nunca vira um programa seu, caso contrário saberia que não era isso o que ele costumava dizer.

— Obrigado, sr. Hickox. Todos nós fazemos o melhor que podemos.

— Pode me chamar de Jimmy. Kim e os outros estão esperando na sala.

Havia três outros homens em companhia dela, o agente, o gerente de negócios e o advogado. Jimmy apresentou-os primeiro. O Pregador apertou a mão deles e depois virou-se para Kim Hickox, pegando-lhe a mão antes que Jimmy tivesse a oportunidade de apresentá-los. Ela teve de se levantar. O Pregador segurou-lhe a mão por um instante a mais que o necessário e fitou-a nos olhos.

— Pensei que ele nunca chegaria a você — disse o Pregador.

— Mas agora posso compreender, sra. Hickox. Ele estava guardando o melhor para o fim. É um prazer imenso. Ela tinha corado por baixo da maquilagem quando o Pregador finalmente lhe largou a mão.

— É um prazer também para mim, dr. Talbot. Não tenho palavras para exprimir como nos sentimos honrados por ter-nos chamado para ajudá-lo no trabalho do Senhor.

— Fico satisfeito por saber que todos os problemas foram contornados. Tenho certeza de que é a vontade do Senhor que nos juntemos e trabalhemos para Ele.

Ele viu o ligeiro rubor reaparecer nas faces dela e compreendeu que Kim Hickox percebera o duplo sentido. Ela desviou os olhos e disse:

— Alguém gostaria de tomar um refresco? Café? Chá?

— Não para mim, sra. Hickox — disse o Pregador prontamente. — Infelizmente, não disponho de tempo. Preciso estar em Dallas ainda esta noite.

— É uma pena, dr. Talbot. Pensei que poderíamos conversar um pouco sobre o programa.

— E vamos conversar, sra. Hickox. Talvez encontre um tempo para passar alguns dias comigo em Churchland. Poderá assim verificar pessoalmente como nossas instalações são completas. E poderemos realizar um trabalho realmente construtivo.

Ela assentiu.

— Está certo, dr. Talbot. Isso é muito importante. E quanto mais cedo, melhor será. Pode ser na próxima semana?

— Está ótimo para mim, sra. Hickox.

— Ei, Kim, espere um pouco! — interveio Jimmy. — Já esqueceu que prometi participar da cruzada de Billy Graham no Canadá na próxima semana?

Ela sorriu, mas sua voz tinha um tom sereno de autoridade quando disse:

— Não há problema, querido. Tenho certeza de que será melhor para todos nós se eu aproveitar o tempo para trabalhar no programa, ao invés de ficar sentada em casa sem fazer nada, durante a próxima semana.

— Tem razão —— disse Jimmy, assentindo. — Eu não havia pensado nisso.

— Posso sugerir que examinemos o contrato agora? — disse Marcus. — Quanto mais cedo estiver assinado, mais depressa o dr. Talbot poderá seguir para o aeroporto. É indispensável a presença dele em Dallas esta noite.

O advogado distribuiu cópias do contrato. O Pregador devolveu a sua.

— Nunca leio contratos. Deixo isso aos cuidados do sr. Lincoln e me limito a assinar no lugar que ele indica. — Ele virou-se para Kim, que estava segurando a sua cópia. — Tenho certeza de que faz a mesma coisa, sra. Hickox. Deixa essas coisas nas mãos competentes de seu marido e de seus assessores.

— Claro que sim, dr. Talbot.

Ela pôs a cópia do contrato na mesinha de café e ficou parada ali, hesitante.

— Tem uma linda casa, sra. Hickox. — O Pregador sorriu. — É verdade, como ouvi dizer, que tem uma parede da casa coberta com todos os discos de ouro de seu marido?

— É verdade, sim. Na biblioteca. Gostaria de ver?

— Gostaria muito, sra. Hickox. Acreditaria se eu lhe dissesse que nunca vi um disco de ouro?

— Chame-me de Kim, por favor. — Ela virou-se para o advogado. — Chame-nos assim que tudo estiver pronto.

O Pregador saiu da sala atrás dela, encaminhando-se para a escada no vestíbulo. Ela olhou para os degraus e depois virou-se para fitá-lo.

— A biblioteca fica no segundo andar. O Pregador fitou-a nos olhos.

— Sei disso. Também li essa informação no mesmo artigo que falava dos discos de ouro.

Ela tornou a corar, depois virou-se e conduziu-o à biblioteca. Abriu a porta e entrou, parando logo adiante.

— Os discos estão na parede do outro lado, por trás da escrivaninha.

O Pregador avançou pela sala e foi para trás da escrivaninha. Olhou rapidamente para os discos de ouro e depois virou-se para ela.

— Feche a porta.

Ela hesitou por um instante, depois fechou a porta. O Pregador foi postar-se diante da escrivaninha.

— Você está muito longe.

Lentamente, quase como um zumbi, com os olhos fixados nele, ela atravessou a sala. Parou diante dele. Sua voz estava quase assustada quando disse:

— Por que está fazendo isso comigo?

O Pregador pôs-lhe as mãos nos ombros e sentiu que ela tremia.

— Antes que eu responda, acho que você tem alguma coisa a me dizer.

Ela baixou os olhos.

— Jamais contei a ninguém.

— Conte para mim.

— Nem sempre foi assim. Eu costumava rir e me divertir. Como todas as pessoas. E um dia acordei para descobrir que estava casada com uma casca.vazia e fraca, um alcoólatra que conseguiria perder tudo o que havíamos conquistado com tanto trabalho: a segurança e a carreira. Tentei tudo e nada foi capaz de curá-lo, até que ele tornou a nascer em Cristo. Nessa mesma ocasião, percebi como poderia restaurar a carreira dele, aproveitando a reputação que ele ainda tinha. Por Cristo. — Ela levantou os olhos para fitá-lo. — É isso o que queria ouvir?

— Louvado seja o Senhor — disse o Pregador, em tom zombeteiro. — Essa história ficaria ótima nos programas de Robertson ou Bakker.

— Não acredita em mim?

— Claro que acredito. Mas você me disse apenas o que julgou que eu queria ouvir. Não o que eu queria saber.

— Não estou entendendo. Ele fitou-a nos olhos.

— Você sabia que ele era bicha quando se casaram? Ela sacudiu a cabeça.

— Não.

— É por isso que quer fazer o programa em Los Angeles? Porque receava que o caso transpirasse num lugar pequeno como Churchland?

Ela tornou a baixar os olhos.

— É isso mesmo.

O Pregador levantou-lhe o queixo com a mão, forçando-a a fitá-lo.

— Talvez seja um risco grande demais para todos nós — disse ele, pensativo. — Se transpirasse, tenho inimigos suficientes que se aproveitariam disso para me atingir.

— Não vai transpirar — declarou ela, veemente. — Posso controlá-lo. Como acha que chegamos até este ponto? Nunca houve uma só palavra a respeito disso em qualquer lugar.

— É uma mulher muito forte.

— Tinha de ser. Mas houve ocasiões em que não fui. Ainda sou uma mulher, com os desejos de uma mulher. Nem sempre fui o que deveria ser.

— Tenho certeza de que o Senhor compreende e perdoa. A misericórdia dele não é somente para os pecadores.

— Mas eu sou uma pecadora.

— Todos somos pecadores. Foi por isso que a pressionei.

Ela recuou.

— E não pelo motivo que imaginei? O Pregador não respondeu.

— É um homem estranho, dr. Talbot. Diferente de todos os ministros que já conheci. — Ela respirou fundo. — Eu deveria ter sabido, no momento em que nos conhecemos, que era melhor não brincar com você.

Ela encaminhou-se para a porta, parou, tornou a virar-se.

— Vou para o meu quarto. Importa-se de dizer aos outros que concordamos em discordar? Não me sinto disposta a enfrentar qualquer deles neste momento.

— Sem saber a verdade a respeito de vocês, Kim, eu não poderia assinar o contrato. Mas agora posso. Sei que não vão me deixar na mão.

Ela ficou aturdida.

— Está querendo dizer...

— Isso mesmo. — O Pregador sorriu, aproximando-se dela. — Vamos descer e tratar de negócios.

Quando ele se lembrou de telefonar para Jane, já estava no avião, voltando a Churchland. E era tarde demais.

O aviso do cinto de segurança se apagou quando o avião alcançou a altitude de cruzeiro. O Pregador desafivelou o cinto e olhou para Marcus, sentado do outro lado da mesa.

— Obrigado por se lembrar de deixar o outro avião para Joe. Eu tinha esquecido completamente. Se não fosse por você, talvez ele não tivesse tempo de comparecer à reunião.

— Você já tem muito em que pensar, Pregador.

— Querem um refresco? — indagou o comissário de bordo.

Marcus olhou para ele.

— Se estivéssemos num vôo comercial, eu tomaria uma dose dupla de scotch. Mas como não estamos, vou querer apenas um café.

O Pregador sorriu e olhou também para o comissário.

— Vou querer o meu apenas com gelo. — Ele virou-se para Marcus. — Claro que é extra-oficial, mas tenho um armário pessoal em cada avião.

Marcus retribuiu-lhe o sorriso.

— Para propósitos medicinais — disse. O Pregador assentiu.

— Isso mesmo. É a única maneira de se voar.

Os dois riram. Marcus virou a cabeça e olhou para as duas mulheres sentadas lá na frente.

— O velho não vai gostar de você levá-las de volta.

— Provavelmente não.

— Tem alguma idéia do lugar em que elas poderão trabalhar?

O Pregador esperou que o comissário pusesse os drinques na mesa e se afastasse. Pegou o copo e contemplou a tonalidade dourada do uísque.

— Provavelmente na recepção vip. Elas são especialistas em fazer as pessoas se sentirem importantes.

— Pensei que esse departamento estivesse sob o comando do pessoal de relações públicas, no assunto encerrado.

— Pois então vamos reabri-lo. Marcus tomou um gole do uísque.

— Fiquei surpreso ao ver como ele concordou prontamente com a sua sugestão de acrescentar Joe ao conselho. Não ficou também?

O Pregador sacudiu a cabeça.

— Não, não fiquei. Jake é um negociador astuto. Trocou um por quatro. Não é tão ruim assim.

— Como acha que ele vai reagir ao programa de Hickox?

— Não tem a menor importância qual será a reação dele. O contrato está assinado. Ele não tem opção, a não ser aceitar.

— Mas o conselho não precisa aprovar os contratos?

— Normalmente, precisa. Mas como pastor e presidente do conselho, qualquer contrato que eu assinar é válido e compulsório para a igreja.

Marcus tomou outro gole do uísque.

— Mesmo que ele goste da idéia do programa, não vai gostar de saber que acertei tudo com você, sem avisá-lo. Afinal, tecnicamente, ainda sou presidente da Randle Communications.

— Quanto tempo comprou nas emissoras Randle para o programa?

— Bastante tempo.

— Então ele não terá qualquer objeção. Pode sempre dizer que eu lhe impingi o programa e que você tentou resguardar os interesses dele ao comprar todo esse tempo. Mostre quanto dinheiro todos nós podemos ganhar com isso. É o que mais importa para o velho. Ele não vai combater a possibilidade de ganhar mais dinheiro.

— Mas ambos sabemos que, se fizermos o programa como estamos planejando, sem qualquer solicitação direta, não vamos ganhar dinheiro com a sua transmissão.

— Não direi isso ao velho. Deixe que ele descubra pessoalmente ao assistir ao programa. Se é que assiste a algum.

Marcus riu subitamente.

— Sanford Carrol vai ficar furioso. Vem tentando atrair os Hickoxes para a cbn há mais de um ano, mas nunca ofereceu dinheiro suficiente.

— Que tipo de homem ele é? — indagou o Pregador. — É mesmo bom?

— Muito bom. Extremamente competente e profissional. Passou dez anos com a NBC, antes de se transferir para a CBN.

— Então, sugiro que tenha uma conversa com ele antes da reunião. Não há motivo para que não possamos partilhar uma parte do crédito pela idéia. E se é um programa que ele estava mesmo querendo, nesse caso não vai fazer qualquer objeção.

Marcus ficou aturdido.

— Você tem certeza de que não é um homem de negócios disfarçado de ministro?

— Claro que tenho. — O Pregador sorriu. — Sou um pregador tentando bancar o homem de negócios.

Melanie saiu de sua poltrona e aproximou-se deles. Tinha um baseado aceso na mão.

— Importam-se se nós fumarmos?

O Pregador fitou-a com um tênue sorriso.

— Por que se dá ao trabalho de perguntar? Já estão fumando.

— Eu estava apenas sendo polida. — Melanie estendeu o baseado. — Quer dar uma puxada?

— Essa é que é a pergunta certa. — O Pregador pegou o baseado. — Claro que quero.

Ele aspirou a fumaça até o fundo dos pulmões e depois deixou-a escapar lentamente. Acenou com a cabeça em aprovação.

— É muito bom.

Melanie esperou que ele desse outra puxada e devolvesse o baseado. Ofereceu-o a Marcus.

— Vai querer?

Marcus olhou para o baseado por um momento, mas acabou pegando-o.

— Por que não? Estamos fazendo de tudo mesmo neste avião...

Ela observou-o dar duas puxadas com a maior habilidade, depois devolver o baseado.

— Ei! — exclamou Melanie, com evidente admiração. — Durante todos esses anos fiquei pensando que você era um careta e agora descubro que é gente fina.

Marcus riu.

— O que tem nesse baseado? Bastou duas puxadas e já entrei em parafuso. — Ele meteu a mão no bolso do colete e tirou alguma coisa, escondida na palma da mão. — Não posso ser egoísta. O Pregador entrou com o scotch e vocês trouxeram a erva. Também tenho uma contribuição a fazer.

Ele abriu a mão, mostrando um pequeno frasco marrom.

— Alguém está querendo um cheirinho?

Marcus sorriu. Melanie olhou fixamente para o frasco por um momento, depois virou a cabeça e gritou para a frente do avião, onde as duas viajavam:

— Ei, Charlie! Venha até aqui! Está na hora da festa! Nenhum deles estava sentindo qualquer angústia no momento em que o avião pousou em Churchland.

 

O despertador acordou-o às sete horas da manhã. Ele sentou-se na cama, com um gemido. Seus olhos estavam doloridos e a cabeça latejava, devido à ressaca. Sentia a boca ressequida e áspera.

Saiu da cama cambaleando e foi ao banheiro, onde vasculhou o armarinho de remédios à procura de um Alka-Seltzer. Ao encontrá-lo, pôs quatro tabletes num copo com água. O barulho da efervescência parecia o rugido de um leão em seus ouvidos. Bebeu rapidamente, pousando os braços na pia para se apoiar. Contemplou-se no espelho. Os olhos injetados retribuíram-lhe o olhar. Ele sacudiu a cabeça, tristemente. Não era exatamente o estado em que deveria se apresentar quando abrisse a reunião do conselho.

Voltou ao quarto e ligou para a empregada, pedindo um bule grande de café. Sentou-se na beira da cama e esperou que o latejar nas têmporas cessasse. Tentou imaginar como chegara em casa. A última coisa de que se lembrava era de ter desembarcado do avião.

Houve uma batida na porta e a criada entrou, trazendo uma bandeja com suco de laranja e café. Pôs a bandeja na mesinha-de-cabeceira e virou-se para ele com o copo de suco de laranja na mão.

— Está se sentindo melhor esta manhã, dr. Talbot? Ele fitou-a enquanto pegava o copo, tentando avaliar o tom da voz dela. Mas não pôde determinar se ela estava sendo apenas polida, fria ou desaprovadora.

— Ainda não sei — murmurou ele, enquanto a criada servia o café puro numa xícara grande.

Ela pegou o copo vazio e estendeu-lhe a xícara, informando, impassivelmente:

— Levei as duas moças para o quarto de hóspedes. — Ela percebeu a expressão espantada no rosto dele e apressou-se em acrescentar: — As duas moças que trabalhavam na recepção. Elas disseram que o senhor não estava passando muito bem.

O Pregador tomou um gole do café, sem dizer nada. Elas não haviam errado na informação, embora fosse uma maneira polida de exprimir o estado dele.

— Conseguimos trazê-lo aqui para cima e metê-lo na cama — informou a criada.

— Obrigado. — O café quente estava ajudando. — Elas já acordaram?

A criada sacudiu a cabeça.

— Acho que não.

O Pregador assentiu.

— Tem algum recado para mim?

— O sr. Randle telefonou várias vezes ontem, mas não pediu que o senhor ligasse de volta. E a sra. Talbot também ligou.

— O que ela disse?

— Não sei. Não falei com ela. Foi no momento em que estávamos tentando levá-lo para a cama. Uma das moças atendeu. Quando ela disse quem era, a sra. Talbot desligou.

O Pregador gemeu interiormente, enquanto terminava de tomar o café e estendia a xícara para que fosse enchida de novo. Tomou outro gole.

— Gostaria de comer alguma coisa, dr. Talbot? Tenho certeza de que se sentirá melhor.

Ele sacudiu a cabeça. Não havia a menor possibilidade de suportar qualquer coisa no estômago.

— Não, obrigado. Não estou com vontade. — O Pregador levantou-se. — Mas talvez eu coma alguma coisa quando descer. Certamente vou melhorar depois que fizer a barba e tomar um banho de chuveiro.

Ele esperou até que a criada se retirasse, antes de largar a xícara de café, segurando-a cuidadosamente com as duas mãos. Não queria que ela visse que suas mãos tremiam. Voltou ao banheiro e abriu o chuveiro. A água estava bem fria. Prendendo a respiração, ele entrou debaixo do chuveiro.

A água fria atingiu-o como uma chuva de agulhas. Deixou-a escorrer pelo corpo por um longo tempo, até que o frio o penetrasse, desanuviando-lhe a cabeça. Gradativamente, foi abrindo a água quente, enquanto se ensaboava. Enxaguou-se com água quente, depois tornou a abrir a água gelada, antes de sair do chuveiro.Esfregou-se vigorosamente com a toalha grande. Sentindo-se mais humano outra vez, pegou o telefone ao lado do vaso. Ligou para a cozinha. Sentia-se subitamente faminto.

— Vou querer um prato grande de flocos de trigo, dois ovos estrelados com bacon e muito café. Descerei dentro de dez minutos.

Foi só depois de comer, tomar um café e acender um cigarro, que ele pegou o telefone que sempre ficava na mesa de jantar, ao seu lado, e ligou para Jane. A criada da tia dela atendeu.

— A sra. Talbot ainda está dormindo.

— Então vá acordá-la.

— Sim, senhor.

Jane atendeu quase um instante depois. Pelo som da voz dela, o Pregador compreendeu que a criada mentira. Jane não parecia absolutamente sonolenta.

— Pensei que você tivesse dito que viria para cá ontem.

— Recebeu o meu recado?

— Recebi. — A voz dela estava quase tão gelada quanto a água do chuveiro. — O que aconteceu de tão importante para que você fosse a Los Angeles? Ou aquelas putas são tão importantes que você tinha de ir buscá-las pessoalmente?

— Foi uma viagem de negócios. Contratamos Jimmy e Kim Hickox para um programa diário, a ser transmitido de Churchland.

— Certamente não espera que eu acredite nisso — disse Jane, sarcasticamente. — Melanie atendeu ao telefone em nosso quarto à uma hora da madrugada. Você nem mesmo deu tempo para a cama esfriar depois que eu saí.

O Pregador sentiu a raiva invadi-lo, mas fez um esforço para se controlar e disse devagar, incisivamente:

— Jane, vou dizer uma só vez e depois nunca mais repetirei. Por isso, escute com atenção, quer acredite ou não. Nada aconteceu entre mim e as garotas na noite passada. Elas estavam ajudando Susie a me levar para a cama. Fiquei tão bombardeado que não sabia mais o que fazia. Neste momento, elas estão dormindo em nosso quarto de hóspedes. Nunca estiveram em nossa cama. Fui a Los Angeles exatamente pelo motivo que lhe falei. Eles não queriam assinar o contrato se eu não aparecesse pessoalmente. E eu queria o contrato assinado para apresentar na reunião de hoje do conselho. Não combinei nada nem esperava me encontrar com as garotas em Los Angeles. Elas foram me perguntar se podiam voltar a Churchland. Essa é toda a história, nada mais, nada menos.

— Por que elas queriam voltar? Descobriram de repente que não podiam viver sem você?

— Já falei que não quero continuar a conversar sobre esse assunto. Tenho um dia difícil pela frente e por isso não posso ir a Dallas. Mas mandarei um avião buscá-la.

— Não precisa se incomodar que eu não vou voltar. Não sou como aquelas putas. Posso viver sem você.

— Lamento muito, lamento profundamente...

O Pregador ouviu o clique do telefone enquanto ainda estava falando. Nunca soube se Jane ouvira ou não as suas últimas palavras.

O velho já estava esperando na sala quando o Pregador chegou, às oito horas. Estava sentado numa cadeira, com o queixo apoiado nas mãos cruzadas sobre a bengala de castão de prata. Olhou atentamente para o Pregador, enquanto ele contornava a mesa e se sentava.

— Bom dia, Jake. Aceita um café?

Randle não respondeu. O Pregador apertou o botão do interfone.

— Pode me trazer um café, por favor?

Um momento depois, o café estava em sua mesa e a secretária já se retirara. Ele tomou um gole e olhou para o velho.

— O que está pensando?

— Sabe muito bem o que estou pensando.

— Pode ser uma porção de coisas. Mas como não sou capaz de ler pensamentos, gostaria que me dissesse.

— Que diabo Jane está fazendo em Dallas com as crianças?

— Não falou com ela?

O Pregador estava curioso.

— Claro que falei.

— Então já sabe. — O Pregador tomou outro gole de café. — Ela me deixou.

— Mas que diabo! — explodiu o velho. — Como pôde deixar que uma coisa assim acontecesse? Por que não a impediu?

— Fiquei tão surpreso quanto você. Ela não me avisou do que pretendia fazer.

— Tem de trazê-la de volta. O Pregador fitou-o nos olhos.

— Por quê?

— Por quê? Pois vou lhe explicar. Porque você é o pastor deste ministério! E não pode permitir rumores a seu respeito sem perder a credibilidade, tanto para o ministério como para si mesmo. Como pode esperar que as pessoas o procurem em busca de orientação, se nem mesmo é capaz de cuidar de sua própria vida? Se ela resolver pedir o divórcio estaremos liquidados. Lembra-se dos problemas que Oral Roberts enfrentou quando seu filho se divorciou? Foi o maior transtorno para o seu ministério. Não podemos permitir que algo assim nos aconteça, inclusive porque não temos uma posição consolidada como a dele.

— Sua preocupação é com o ministério ou com sua filha?</