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BATALÃO DE MULHERES / Heinz G. Konsalik
BATALÃO DE MULHERES / Heinz G. Konsalik

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

BATALÃO DE MULHERES

 

Ele não a vira chegar, nem mesmo a ouvira. A fera maldita aproximara-se dele furtivamente, silenciosa, pérfida e insidiosa, como se suas patas estivessem dentro de sacos repletos de plumas de ganso. Somente quando ela se ergueu, pôs a cabeça gorda e redonda na nuca, deu um berro abafado, rancoroso, e o seu hálito quente atingiu o pescoço dele — somente então ele compreendeu que perdera a batalha a dois, que durara várias horas.                                 

Ninguém jamais poderia afirmar que Piotr Herrmannovitsch Salnikov fora um homem medroso. Quando ele apareceu em Novo Calga, no ano de 1946, com sua jovem mulher Stella Antonovna, um rapaz alegre, que cuspia nas mãos e dizia: “Só agora a vida começa realmente!”, quando começou a construir uma casa e se preparou para arar um pedaço da taiga, pretendendo trabalhar sozinho com a meta de garantir o seu pão de cada dia, as pessoas do pequeno povoado logo souberam: este é um camarada que não se deixa derrubar pelos nossos invernos, como algumas árvores, arrebentadas com fragor pela geada.

E assim era mesmo. Piotr Herrmannovitsch, naquela época um homem de 28 anos com atentos olhos azuis, músculos fortes e temperamento alegre, construiu para si mesmo uma bela casa na fronteira de Novo Calga, empregou-se como caçador estadual, percorria a taiga, atirava em coelhos de neve e martas, zibelinas e raposas, ursos e lobos, iniciou uma cultura de castores e até foi votado membro do soviete daquela jurisdição. Neste cargo conseguiu, graças à sua capacidade de persuasão, obter, para Novo Calga, incessantemente, apropriações especiais de têxteis, sapatos e aparelhos elétricos, e nos feriados governamentais — por exemplo no aniversário de Lenin ou no dia da Revolução de Outubro — destacava-se como responsável por desfiles e paradas dos operá­rios e dos camponeses e pela decoração da sede do partido.

Piotr e Stella Antonovna formavam um belo e esforçado par. A mulherzinha não se contentava, de forma alguma, cuidando do jardim, curtindo as peles caçadas e parindo dois filhos — um menino e uma menina. Construiu um aposento extra na casa e começou uma tecelagem. Inicialmente, trabalhava apenas para os vizinhos de Novo Calga; mais tarde chegou a fornecer até para Sjuddjukar, a localidade maior mais próxima, sita à beira do Rio Viljui, onde os iacutas residentes admiravam os modelos russos antigos, que lhes eram desconhecidos. O negócio ia tão bem, que Stella Antonovna empregou mais cinco mulheres, encomendou três teares de Jakutsk e abriu uma espécie de fábrica. Isto já era uma iniciativa de risco. Somente o transporte dos teares de Ja­kutsk para Novo Calga já fora uma aventura; afinal de contas, não era possível dirigir-se para lá com um caminhão e entregar as encomendas como em Moscou ou Leningrado. Novo Calga se situa ao norte do Viljui, na área fértil, cheia de florestas, muitas vezes pantanosas, do rio não explorado Yayetta. No oeste, no leste e no norte começa a imensa solidão, a floresta sem fim, que é limitada pela tundra plana e pelos rochedos sempiternos das montanhas de Viljuisskij. Quando perguntamos aos habitantes de Novo Calga por que motivo ainda residem pessoas neste local, obtemos respostas espantosas. O povoado já se iniciara em 1825, época na qual o Levante dos Dekabristas em São Petersburgo fora derrotado e o Czar Nicolau I não apenas ordenara enforcar ou exilar para a Sibéria os chefes da revolta, mas também enviara para a selva muitas pessoas simples, especialmente burgueses que tinham visto com agrado a rebelião. A polícia secreta do Czar fez uma limpeza em regra, e desta forma também Pantelej Maximovitsch Rubalki chegou à área de Yayetta, fundou um po­voado e o denominou Novo Calga, em homenagem à sua terra natal, Calga, no Lago Peipus. Com Rubalki outras seis famílias também se deslocaram para a amplitude ilimitada do Viljui, fizeram amizade com os iacutas e vivenciaram uma liberdade absoluta, como se fossem os únicos habitantes desta terra.

Hoje Novo Calga possui exatamente 1.014 pessoas lá domiciliadas, uma serraria, a fábrica de tecelagem de Stella Antonovna, um armazém estadual, uma kolchose (a cooperativa agrícola com o nome Progresso), uma pequena igreja de madeira, uma casa sede do partido, um local de pesquisas geológicas, duas escolas, uma casa de cultura com um teatro e um pequeno hospital diri­gido pelo Dr. Viljam Matvejevitsch Semaschko.

Era maravilhoso observar o casal Salnikov, admirar sua diligência, encantar-se com a maneira pela qual Piotr arava seu campo, como compreendia a caçada, como florescia o jardim e a casa aumentava cada vez mais. E como Piotr ficava mais forte, de ano para ano, forte como um pinheiro da taiga, cuja madeira endurece de inverno para inverno, até que o aço do machado ricocheteia nela sem causar nenhum efeito.

Não, este Piotr não era um fraco, não! Nem agora com seus 54 anos! Os cabelos e a barba encaneceram um pouco e em seu rosto curtido pelo sol, pelo vento e pela friagem as rugas deixaram suas marcas; eram marcas do destino, cicatrizes de uma vida dura, mas ele ainda provocava o efeito de uma inflexibilidade idêntica à da própria taiga.

Neste momento Piotr estava de pé, rígido, imóvel, com os braços abaixados e as mãos vazias, e sabia perfeitamente que nem a sua coragem nem qualquer prece poderiam salvá-lo.

A seis metros de distância o fogo baixo do acampamento ainda.fumegava. A pequena panela de chá e uma caçarola com sopa de repolho pendiam de um cavalete de varas de vime. Ao lado, sobre uma folha de jornal, estava um pedaço de carne de rena, esperando para ser colocado em uma vara de vime e assado ao fogo. E imediatamente ao lado ele via a sua boa carabina de cano curto, uma Moisin-Nagant M-54 com telescópio de mira e aumento quádruplo, a sua velha amiga, bem-amada, que até o presente momento nunca lhe falhara. Era capaz de montá-la e desmontá-la de olhos fechados. Adaptara-se tão bem a ela que só precisava visar o alvo com o olhar. Sempre acertava. O homem e a carabina formavam uma unidade.

Agora, porém, seis metros o separavam da Moisin-Nagant e isso era mais longe do que o caminho para as estrelas. Não se tratava apenas dos três grandes pulos necessários para alcançar a arma, não, ainda precisava do tempo para se abaixar, levantá-la, destravá-la e mirar diretamente no olho. O primeiro tiro disparado teria de ser mortal. Não duvidava de que pudesse consegui-lo . . . mas não dispunha de meios para chegar até a carabina. Os seis metros representavam seis eternidades.

Quanta coisa um homem pode pensar em dois segundos!

Piotr Herrmannovitsch se virou, simultaneamente arremessou os punhos para a frente e se abaixou.

Isto sim é que era um urso!

Tratava-se do urso mais largo, maior, de pêlo mais denso, mais forte e mais belo da sua vida. Chegava a paralisar a respiração. . . como se tivesse vindo de outro mundo, um monstro, oriundo da proto-história. Seu pêlo era marrom-escuro, quase preto, e pontilhado de muitos fios brancos. O peito arqueava como um timbal, a cabeça poderosa, redonda como um círculo, só era interrompida pelo focinho terminando em ponta e pela bola úmida do nariz, sobre a qual os olhos frios e imóveis jaziam como botões de vidro, pretos e polidos. O urso escancarara as patas dianteiras, alto, em postura reta, e impedia Piotr Herrmannovitsch Salnikov de olhar para o céu. Era arrebatadoramente belo, tão poderoso em sua força, tão invencível neste instante, que Piotr respirava, audivelmente, e depois segurava, paralisando-a, a respiração.

Ele já sabia que deveria tratar-se de um espécime extremamente lindo. Descobrira-o de madrugada, lá embaixo, no lago selvagem repleto de pedras. . . O urso estava sentado n’água e aguardava os peixes, que pulariam pelas correntezas. Meu Deus, pensara Piotr, escondendo-se atrás de uma árvore, este é um animal! Ninguém sabe que tal urso vive nestas florestas, nem eu mesmo o vi em todos estes anos. E deve ser velho — um solitário, um excêntrico, pois os que aqui costumam vagar com as ursas eu conheço. Ou será ele um tirano? Um dos poderosos dominantes, que não se preocupa com família e clã, que, ao querer se acasalar, afugenta todos os outros ursos e toma as fêmeas, como em épocas pregressas os senhores sacanas, que se compraziam com as moças dos escravos. Sim, deveria ser um deles! E quando o urso saiu do rio, a trotar, Piotr deixara escapar a oportunidade de caçá-lo, nele atirando com sua carabina; só o observara com uma admiração irrestrita e se deliciara com sua beleza.

Fora um erro, que não poderia ser reparado e que agora custaria a vida a Piotr. Mal o urso deixara o rio, percebera o faro do homem, olhara para Piotr, virara-se e correra floresta adentro. Começara a luta entre o homem e o animal; esta luta a dois.

Piotr seguiu o urso, sorrateiramente se aproximou, contra o vento, andou ao redor dele, em círculos, correu por florestas de lanços e bambus espessos; deitou-se atrás de arbustos de bagos, à espreita; arrastou-se, como na guer­ra, a carabina na curva do braço, por pântanos e abismos rochosos. Mas sem­pre que acreditava ter o urso no visor, quando levantava a arma e tinha o brutamontes preto-marrom no reticulado, o urso era mais rápido, jogava-se para o lado, desaparecia entre as pedras, afundava na floresta virgem espessa.

Há 30 anos não fora diferente. Também naquela época era importante tornar-se invisível e com isso manter o adversário no reticulado e disparar sus­pendendo a respiração. E sempre soubera, antes de sentir o retrocesso da ar­ma: eu acertei. Uma marca no livro de tiros. Cada vez lhe custara sobrepujar uma resistência interna registrar tal marca, mesmo dizendo a si próprio: é guerra! O inimigo lá do outro lado não age de outra forma, e hoje você foi, sem dúvida, mais ligeiro e mais ardiloso do que ele. Amanha ele poderá ser melhor e aí é você mesmo que estará deitado na terra esburacada pelas granadas, com um buraco redondo e limpo na testa. O gosto de fel, que sentia, ao registrar tal marca, permanecia: este foi um homem.

Aqui era um urso. E esse urso um camarada danado de esperto. O combate a dois durara nove horas, por nove horas seguidas os dois se evadiam, se espreitavam, brincavam de esconder, até que Piotr se resignou e desistiu da lu­ta. Esta é a sua pátria, pensou. Aqui você conhece o terreno. Mas eu também conheço você agora, meu ursinho! Você não escapará de mim para sempre. Amanhã estarei aqui de novo, e depois de amanhã, e na próxima semana, e, se for necessário, também durante todo o próximo mês. Estarei neste local tan­tas vezes quantas for preciso, até que o vença. Não se trata da sua linda pele, meu urso, não; agora é questão de honra, compreende? Ninguém que Piotr Herrmannovitsch uma vez conseguiu pegar no visor lhe escapou.

Mas isto não era verdade. Houve um momento, sim, em que vira o seu adversário clara e nitidamente no telescópio de mira, em que o ponto médio das linhas reticuladas estava exatamente sobre a testa e teria sido suficiente um simples curvar do dedo, para enriquecer o livro de tiros com outra marca a mais. Mas ele não disparara. Sentia, então, como se um peso lhe tivesse caído sobre o coração — e abaixara a carabina.

Foi assim que tudo começara, tudo que agora, 30 anos após, terminaria. Outrora, no dia 1º de julho de 1943, ao sul de Belgorod, no Donez situado ao norte. Ele vacilara. E com esta hesitação jogara fora sua vida antiga e ganhara uma vida nova.

Piotr se ocupava com estas recordações ao atiçar o fogo, soprar as chamas, pendurar a chaleira e a caçarola de sopa, afiar a vara de vime para a carne e tomar providências para uma refeição substancial. Era uma bela tarde de início de verão, e a taiga brilhava azul ao sol. Os fios de lariços reluziam no verde-azul saturado, como se o céu tivesse por eles escorrido; a terra exalava um perfume acre e uma revoada de pássaros trinava e flutuava nas copas. No recôncavo a água do riacho selvagem borbulhava sobre as pedras lisas polidas.

A natureza canta, dissera Stella certo dia. Estavam deitados na floresta, os dois, e faziam amor entre fetos, vergônteas de pinheiros bravos e arbustos de bagos. Isto ocorrera há 20 anos. O primeiro filho já havia nascido, muito tempo transcorrera desde que viera ao mundo; eles possuíam uma linda casa, um imenso fogão de tijolos e uma larga cama de madeira, mas, quando iam juntos para a taiga, caçar, era como se a embriaguez os assaltasse, e então faziam amor sob o imenso céu ou sob as árvores altas como torres e eram felizes como jamais o tinham sido antes. Assim também geraram Nani, seu Segundo filho, uma menina. . . em um riacho selvagem como este, 11 verstas* mais adiante, ao sul. A manhã estava tão quente, que a floresta atrás do casal parecia estar em ebulição e névoas de vapor passaram por eles, no momento em que Stella mordia o ombro nu de Piotr e o acolhia.

Piotr ainda se recordava nitidamente desse episódio.

Afastou-se do fogo, deixou a carabina rolar pela grama e deu alguns passos em direção aos arbustos de morangos silvestres, baixos, nos quais conseguira vislumbrar os primeiros frutos vermelhos. Não era, de modo algum, característico de Piotr recusar tal alimento oferecido pela natureza. Abaixou-se, colheu a mão cheia, experimentou os frutos, percebeu que ainda estavam muito duros e amargos; mesmo com toda essa atividade, continuava pensando, incessantemente, em Stella — o que fez com que esquecesse o urso.

Contudo, o urso não esquecera Piotr. Faz parte das artimanhas dos ursos fugir do inimigo, esconder-se e depois de dar uma volta imensa retornar, para finalmente surgir da retaguarda. Piotr só pensou nesta antiga sabedoria quando um rugir abafado ecoou atrás dele, o que fez com que deixasse cair todos os morangos e se virasse.

Ficaram então os dois a se observar. O urso era muito maior que Piotr, em altura o excedia de duas cabeças, seus ombros tinham o dobro da largura dos de seu adversário, as pernas se assemelhavam a dois troncos de árvores, grossos e cheios de folhagens, e as garras pretas e recurvadas em suas patas  erguidas eram tão compridas como as escadas de ferro utilizadas pelos eletricistas para subir até o topo dos postes com fios. O urso emitiu mais um rugjdo. O seu hálito cheirava a algo podre, em decomposição, e o vento fazia com que atingisse Piotr em cheio no rosto. Os olhos frios e pequenos da fera observavam o homem rigidamente e sem piedade.

Não devo me mexer, pensava Piotr. Fugir era algo fora de cogitação. O que você fizer, nesta situação, ele será sempre mais rápido! Fale com ele, dirija-lhe a palavra, converse com ele como se fosse um bom amigo. . . ele nunca ouviu uma voz humana, talvez a sua o deixe perplexo. Com a voz já consegui tantas coisas. . . tranqüilizei cachorros raivosos, atraí javalis que tinham escapado, até consegui levar na conversa um lobo, que se assustou tanto com isso que me permitiu levantar rápido a arma e matá-lo. E hoje? Só seis metros me separam da carabina, e bastam três segundos para atirar. . .

Piotr, fale com ele. . .

Isto foi muita esperteza de sua parte, meu ursinho — disse Salnikov com voz rouca e áspera. Tenho medo, percebeu. Na realidade, é o medo que me faz falar assim, com uma voz tão inibida. O medo nu do impotente. Segure-se, Piotr Herrmannovitsch! Você não pode esconder seu medo deste adversário. — Muito esperto — repetiu ele. — Você vem simplesmente, de modo sorrateiro, saindo do esconderijo e agora está aqui. Sei perfeitamente o que você irá fazer se eu me mexer. Vejo suas garras. Elas me arrebentarão, de cima para baixo, como se eu fosse uma boneca de papel de seda colorido. São cinco ganchos de aço, que me estraçalharão. Confesso, sinceramente, meu lindo urso: você venceu! Mas agora podemos negociar, o que acha? Você me deixa retroceder, passo a passo, e em troca lhe prometo não matá-lo hoje. De acordo, ursinho?

Piotr fitou rigidamente os olhos gélidos do urso. Estes o observavam sem pestanejar. Assemelhavam-se, realmente, a dois botões de vidro costurados no rosto. Depois o urso respirou, inspirou profundamente, o peito alargou-se, de mais um terço, e Piotr ouviu, espantado, o imenso animal emitir um suspiro quase humano. Em seguida o corpo do urso curvou-se para a frente e duas patas se apoiaram nos ombros de Piotr.

Os joelhos de Salnikov amoleceram, suas pernas tremiam, o peso o fazia afundar, sangue jorrava dos dois ombros, cobrindo-lhe o peito e as costas; só então sentiu a dor, ouviu o horrível ranger das garras nas suas omoplatas e deu um berro tão terrível, como ele próprio jamais o escutara sair da boca de um ser humano.

O urso quedou estupefato. Suas garras desvencilharam-se de sua vítima. Recuou, olhou para Piotr, pensativamente, com a cabeça virada para o lado e levantou o nariz, farejando.

Salnikov ajoelhou-se. Todo o seu corpo tremia, seus nervos cederam. Ele não queria chorar, mas as lágrimas irromperam, incontroláveis, dos seus olhos e escorreram pela face em convulsão. O vulto marrom-preto peludo pareceu crescer, atingir o céu, tomou conta da floresta e das nuvens, perdeu todos seus contornos e se misturou com os raios do sol. . . Piotr caiu na grama, de frente, mordeu a terra quente e fofa e soluçou.

O urso deixou-se cair sobre as patas dianteiras, trotou em sua direção, empurrou-o quatro vezes com o nariz, lambeu-o na nuca e depois afastou-se, com um rugido profundo, cheio de ódio.

Piotr levantou a cabeça, cuspiu fora um punhado de grama e depois caiu novamente por terra.

— Você é um filho da puta desgraçado, urso. . . — praguejou com uma respiração ofegante. — Você não me mata. . . me deixa morrer feito uma cria­tura qualquer!

Estirou-se e esperou pela morte. Morrer pela perda de sangue é uma morte suave, dizem, pensou. A vida escorre da gente, ficamos cansados e a escuridão grande e eterna nos invade como um sono esperado. Você verá, Piotr Herrmannovitsch — não demorará muito.

Depois pensou em sua mulher, Stella Antonovna, e pediu-lhe descul­pas pela vida em comum durante 30 anos, uma vida difícil, na qual as horas belas tinham sido tão raras quanto passas em um bolo caseiro.

Quando as pálpebras se tornaram pesadas, Piotr sorriu triste. Nada mais lhe doía, nas costas sentia apenas uma leve queimadura. A falta de peso come­çara.

Constatou espantado como era lindo morrer.

De noite o encontraram, e ele ainda vivia.

Stella Antonovna esperara até escurecer; então, inquieta, foi â janela, olhou para a taiga lá fora; várias vezes saiu e ficou na frente da porta e depois perto da cerca de vime, como se assim pudesse atrair Piotr, para que ele saísse da floresta. Quanto mais a escuridão descia sobre a terra, mais se intensificava seu temor, mais certa ficava de que lá fora, na selva, algo de terrível havia acontecido.

Tratava-se de umas destas noites pretas de lua nova que tornavam opaca a taiga. Stella Antonovna pôs um lenço sobre os cabelos e correu para a casa de Fedja Alexandrovitsch Stupka, o Prefeito de Novo Calga e chefe local do partido.

Stupka era um homem gordo e tranqüilo. Vivia de acordo com uma filosofia muito determinada, cheia de sentido, que se fundamentava no se­guinte fato simples: Aqui estamos em Novo Calga e Moscou está a léguas de distância! É verdade que podemos escutar Moscou, mas Moscou não nos vê. Desta forma Novo Calga se transformara em um povoado tranqüilo, que paga­va seus impostos obrigatórios e no qual os controladores da capital do município se embebedavam, até caírem desacordados, com licores de bagos destilados pela própria população local. Já que estava situada nas fronteiras longín­quas do mundo civilizado, Novo Calga ficava a salvo de todos os abalos da grande política.

Fedja Alexandrovitsch estava sentado diante de seu rádio e escutava uma ópera transmitida de Jakutsk. Ouvia-se, neste momento, o Coro dos Marinheiros, do Fliegendem Holíànder (0 Navio Fantasma), de Wagner, quando Stella bateu na porta, abriu-a no mesmo instante, entrou às pressas no quarto e gritou:

— Piotr ficou na floresta! Fedja. . . ele não voltou. . . e agora está escuro como breu. . . Fedja, aconteceu algo terrível, sinto que deve ser alguma coisa horrível! Sinto-o na alma! Atravessa impetuosamente as minhas artérias com cada batida do meu coração. . . Nunca ele ficou sozinho de noite na floresta, nunca. . . Vocês precisam procurá-lo, todos devem procurá-lo.. .

Ela se apoiou na parede, juntou as mãos e com o olhar procurou o lindo canto onde costumeiramente arde a luz eterna diante de uma imagem de santo. Na casa de Stupka já não havia mais uma imagem como essa. Na qualidade de chefe local do partido ele não podia mais se dar a tal luxo. Ao invés de Jesus Cristo, agora Lenin estava no lindo canto. Stella não conseguia se conso­lar com aqueles olhos.

O Coro dos Marinheiros começara a dança retumbante, era a parte favo­rita de Stupka. No entanto, desligou o rádio, cocou o nariz gordo e vermelho que se assemelhava a uma batata e mirou Stella com perplexidade.

— Como é que Piotr não está aí? — perguntou.

— Porque está na floresta, seu idiota chapado! — berrou Stella. — Ele se perdeu na floresta.

— Não podemos dizer nada enquanto não tivermos certeza de que Piotr realmente sumiu, sem deixar rastro. E por que deveria desaparecer? Para onde pode ter ido?

— É possível. . . é possível que o tenham assassinado — gaguejou Stella, torcendo as mãos.                                                                         

— Quem? Ele só tinha amigos!

— Nômades de Jakutsk, que não o conhecem...

— Impossível. Em qualquer Aul iacuto Piotr Herrmannovitsch é conhecido. E qualquer forasteiro que chegue a esta área ouve falar logo de Piotr. E se realmente o mataram, então não desapareceu, mas está em qualquer can­to da floresta.

Stella fechou os olhos e encostou a cabeça na parede. Seu corpo tremia desde a ponta dos pés até os fios do lenço que usava na cabeça. A maneira pérfida de Stupka, que observava todas as coisas com uma tranqüilidade desarvorante, quase a fazia desesperar-se.

— Procurem-no. . . — pediu em voz baixa. — Por favor, procurem-no. . . Eu sei, aproximadamente, onde pode estar. Ele me disse em que região pretendia caçar. . . Não podemos deixar de encontrá-lo. . . nós. . . nós o encontraremos. . .

Sua voz se quebrou. Puxou o lenço de cabeça, cobrindo o rosto e soluçou. Stupka a fitou em silêncio durante algum tempo, mordeu o grosso lábio inferior e ficou semelhante a um peixe gordo, com os olhos arregalados. Depois vestiu o casaco e novamente cocou o nariz.

— Vamos, vamos — chamou, procurando tranqüilizar Stella. — Ele ainda não está no caixão. Provavelmente está lá fora agachado junto do fogo, sadio como um touro, e tem em mente fazer algo de especial.

— Ele nunca ficou uma noite fora de casa, sem avisar antes — choramin­gou Stella. — Por que deveria estar agachado junto do fogo?

— E eu lá sei? — Talvez tenha descoberto um animal raro.

— Durante a noite? Quem é que vai caçar no meio da noite?!

— É, isto faz sentido! — Stupka arfava alto. — Fique tranqüila, Stellan-ka. Nós o procuraremos. E se o encontrarmos vivinho da silva, festejaremos! E isto sairá caro, asseguro-lhe!

Uma hora mais tarde todo mundo estava de pe, todos em Novo Calga que podiam se locomover. Apenas as crianças e os muito velhos ficaram em casa. Como de hábito, Stupka era meticuloso. Não fez apenas com que soasse o alarma de incêndio, mas também deu ordem para que tocassem os sinos das igrejas. O carro de bombeiros partiu, e em sete caminhões dirigiram-se to­dos para a taiga, com tochas, lâmpadas de acetileno, holofotes movidos a ba­terias, lâmpadas de mão e lanternas de construção com mechas de querosene.

Era um verdadeiro fogo de artifício, que percorria a floresta e os coros falados sempre ecoavam pela noite: “Piotr! Piotr Herrmannovitsch!” Se Salnikov não tivesse ficado repentinamente cego e surdo, teria de ouvir de longe essa barulhada e responder.

Mas Piotr Herrmannovitsch Salnikov não se apresentava. Stella, que cor­ria pela floresta, com Stupka e o Dr. Semaschko, na vanguarda das colunas em marcha, a cada vez levantava os braços em desespero, ao constatar que depois de um grito só reinava silêncio impregnado de expectativa e a resposta espe­rada não ocorria. Apenas animais assustados fugiam das colunas de fogo, em pânico selvagem, e irrompiam através das árvores.

Contudo, acabaram encontrando-o. Ele havia-se arrastado até o fogo, já baixo, pusera o casaco de linho sobre os ombros feridos e jazia agora, com o rosto virado para a esquerda, de bruços. Estava inconsciente e respirava fraca­mente. Seus lábios tremiam, estavam incolores, quase cinza, á luz das tochas e das lâmpadas de mão.

Stella agachou-se rígida ao lado de Piotr e colocou ambas as mãos sobre sua cabeça. O Dr. Semaschko levantou o casaco de linho. Um murmúrio horrorizado escapou das bocas dos espectadores e alguém disse com voz rouca:

— Irmãos, rezemos. . .

Stupka ajoelhou-se ao lado de Stella.

— Ele ainda está vivo - falou o Dr. Semaschko, com voz entrecortada. — Isto é um verdadeiro milagre. E um segundo milagre haverá se ele continuar vivo.

Já no retorno, dentro do carro de bombeiros, Salnikov recebeu uma infusão de sal de cozinha. Stella segurava-lhe a cabeça, Semaschko tomava cuidado para que a agulha de injeção não saísse da veia com o sacolejar do carro e Stupka, ao lado do bombeiro que guiava o carro, o xingava de idiota, mes­mo sabendo que era impossível passar por tais trilhas da floresta sem sola­vancos.

— Ele viverá? — perguntou Stella, pouco depois que alcançaram a rua pavimentada para Novo Calga. —Diga-me a verdade, Viljam Matvejevitsch. Toda a verdade. É possível sobreviver com tais ferimentos?

— Os ferimentos não são o problema. — O Dr. Semaschko trocou o fras­co com a infusão. Controlava os batimentos cardíacos e o pulso. Curvou-se sobre a cabeça de Piotr e observou-o demoradamente. Mais um milagre, meu amigo, pensou, deixe que ocorra um segundo milagre. Sobreviva! Você tem um coração forte, sempre foi um homem duro feito árvore. Aceite a infusão, deixe que a sua bomba, vazia de sangue, volte a bater. Eu não posso fazer ou­tra coisa senão deixar, incessantemente, que líquido e mais líquido entre no seu corpo.

— A perda de sangue. . . — disse Stella Antonovna com os lábios compri­midos.

— Sim. É isso.

— Mas ele ainda vive.

— É exatamente o que não consigo compreender. Ele não tem mais san­gue algum nas artérias mas ainda respira. . . Não posso explicar tal fato clini­camente. Mas a minha esperança agarra-se a isto.

— Piotr continuará vivendo?

— Só Deus pode decidir.

— Não acredito em Deus, Viljam Matvejevitsch. — Ela o fitou com os olhos arregalados. Em seu olhar havia consternação, espanto, não-compreen-são. — O quê? Você acredita Nele?

— Um médico muitas vezes vê Deus perto de si. Mas eu não posso lhe explicar isto. Você nunca o entenderia.

— Talvez o pudesse. — Ela acariciou a cabeça de Piotr e beijou-lhe os olhos fechados. —Agora mais do que nunca. Gostaria de falar com você a esse respeito mais freqüentemente, Viljam Matvejevitsch.

Ela o fitou e sorriu, fracamente. É um homem idoso. Seus cabelos brancos ficam de pé, como cerdas de vassoura. Dizem que já passou dos 70; por ocasião da Revolução de Outubro já era estudante. E algum tempo depois lutou como subtenente ao lado dos Brancos, perto de Denikin, em um regi­mento de cossacos no Don e em Rostov. Foi aprisionado pelos Vermelhos que o condenaram à morte. Mas, quando aguardava a execução, operou o General Chamkassky de uma hérnia. Foi escolhido para fazer a operação porque encontraram nos papéis de Viljam um relatório segundo o qual ele era o me­lhor cirurgião de sua turma. A cirurgia foi um sucesso. Chamkassky perdoou Semaschko e não deixou que o enforcassem, exilando-o para a Sibéria, onde praticou a medicina em Jakutsk. Não se sabe ao certo como foi parar em Novo Calga, onde ele descobriu que o homem ainda poderia viver livre, sob o amplo céu. A partir deste momento pertencia à comunidade como a terra sobre a qual ela fora erigida. Envelhecia, certo, mas em Novo Calga era consi­derado imortal. Ninguém conseguia admitir que algum dia não poderia mais ver seus cabelos brancos ondulados e nem ouvir mais como ordenava a seus pacientes:

— Baixa as calças, mesmo que não tenha tomado banho. A injeção não vai te fazer mal; estás imunizado contra a sujeira!

Ele acredita em Deus, pensava Stella, devaneando, e continuava a acari­ciar a cabeça branca como cera, exangue, de Piotr. Veja, isto se salvou dos tempos dantanho. Quem o acreditaria? Nunca foi à igreja; se o tivesse feito, as pessoas teriam comentado. Ele deve ter uma idéia de Deus diferente da do Pope*. Preciso conversar com ele a respeito. . . quando Piotr se curar. . .

No pequeno hospital de Novo Calga o Dr. Semaschko fez o que pôde. Aplicou, intracardialmente, um remédio forte para reavivar o coração de Piotr, injetou sangue fresco nas suas veias, fez-lhe massagens no tórax; mas, com tudo isto, não ousava olhar para Stella Antonovna. Ela permanecia de pé, do outro lado da mesa de cirurgia, com as mãos em volta da cabeça de Piotr e esperava que o peito dele se abrisse para uma respiração genuína.

Tão logo o sangue novo fora ligado, ela disse, hesitantemente:

— Mas tudo sai de novo pelas costas...

— Estou percebendo! — Semaschko comprimiu os lábios. Os grossos lençóis empapavam-se de sangue. Era como naquela tola anedota antiga, em que um camponês bombeia água em um balde e se espanta quanta água o seu balde pode conter, e nunca se encher, até que vem alguém e lhe diz: “Seu bur­ro! Você não está vendo que o balde não tem fundo!”

Viraram Piotr. Os terríveis ferimentos estavam à vista, na luz ofuscante dos focos de luz. A carne dilacerada pendia, em pequenos punhados, da pele e dos nervos. O que alguém poderia ainda remendar e costurar ali? Fal­tavam pedaços enormes. Nacos de terra e tufos de capim, agulhas secas de la­nços e morangos silvestres amassados estavam colados no sangue coagulado.

 

— Ele o atingiu até os ossos — disse Viljam Matvejevistcsh, abalado. — Foi um urso. Aqui em cima, nos ombros, ainda se vêem as marcas das ganas. Enigmático. Na realidade, muito enigmático. Como é que Piotr se deixou sur­preender por um urso?

Retirou a sujeira mais grossa das feridas, com uma pinça, e depois tentou fazer parar as hemorragias mais intensas por meio de grampos. Repentinamente o corpo de Salnikov foi sacudido por um leve tremor, os músculos se distenderam completamente e sua respiração parou.

Semaschko pousou a pinça na mesa, fechou a pequena torneirinha da transfusão de sangue e apoiou-se, pesadamente, na mesa de cirurgia. Em frente dele Stella Antonovna levantou a cabeça e fitou-o calada, com olhos que nada viam.

— Sim. . . — falou baixinho Viljam Matvejevitsch. — Sim. Não existem dois milagres sucessivos. A coisa é assim, Stella Antonovna. É preciso aceitá-lo. . . não podemos fazer mais nada.

Ela acenou com a cabeça, curvou-se sobre Piotr, virou o rosto dele para o lado e beijou-o na face. Suas mãos ficaram sujas de sangue, ela as levantou em direção à luz e as olhou.

— Eu gostaria de levar um pouco do sangue de Piotr comigo — pediu, repentinamente.

Semaschko sobressaltou-se, como se lhe tivessem dado um golpe baixo. Sua boca abriu-se.

— O que é que você quer? — gaguejou atônito.

— Quero levar comigo o sangue dele. . . você acabou de me ouvir.

— O sangue dele? — O médico engoliu a saliva convulsivamente. — Para quê?

— Quero tê-lo.

— Quanto?

Ela baixou as mãos sujas de sangue e com elas acariciou as costas arrebentadas de Piotr..

— Uma garrafinha cheia.

— Irá coagular logo, formar grumos...

— Você tem recursos para fazer com que permaneça líquido.

— Stellinka...

— Por favor, Viljam Matvejevitsch...

— Mas não é mais o sangue dele! —O Dr. Semaschko cobriu o corpo arrebentado com um pano. Suas mãos tremiam, como se estivesse nu, lá fora, na geada. — Trata-se de sangue injetado. . .

— Mas vem de seu corpo! Passou por ele, o seu coração ainda o bombeou pelas artérias. Então é sangue dele! Basta uma garrafinha, Viljam Matve­jevitsch.

Ela cariciou mais uma vez o corpo coberto, e o fez com tanta ternura que Semaschko rangeu os dentes. Depois ela saiu da sala de cirurgia, não como uma viúva alquebrada mas de cabeça erguida e passos firmes. Parecia que ela recebera de Piotr Herrmannovitsch uma missão importante, que agora deveria executar.

O enterro se transformou em uma festa.

Só agora percebiam quão querido era Salnikov e quão bem o conheciam, muito além das fronteiras de Novo Calga. Ninguém disse uma única palavra má a seu respeito. Stella só escutou elogios e manifestações de luto sincero. Sem derramar uma só lágrima, ela aceitou os pêsames oferecidos. Todos a abraçaram, a apertaram contra o peito, beijaram-na na face ou na testa; as mulheres lamentavam-se em voz alta, os homens expressavam seus pêsames com rostos sérios. Armou-se uma tenda atrás da casa. Dez vizinhas cozi­nhavam e assavam bolos, as mesas de madeira estavam repletas de coisas gos­tosas para comer. Havia seis tipos diferentes de carne assada, batatas cozidas, legumes, saladas de cogumelos e panquecas recheadas com galinha. De sobre­mesa havia bolos com bagos cristalizados, tortas com creme de Chantilly e pudins coloridos. Para beber havia cerveja, vinho de morangos, vinho de bétula, vodca e uma aguardente que Stupka preparara pessoalmente, a partir de uma mistura de amoras e bagos silvestres e álcool de batata.

Quão importante fora Piotr para o partido depreendia-se do fato de que o camarada secretário viera pessoalmente, usando um helicóptero laqueado de vermelho, de Mirny, cidade sede da administração municipal Viljui Superior, para Novo Calga, a fim de participar das soknidades. Ele próprio disse as palavras solenes para encomendar o morto:

— Ele morreu como um homem da Sibéria poderia desejar morrer: lá fora, na taiga, em combate com a selva. A maioria de nós morre na cama, isto é normal, isto todos podemos fazer. . . mas ser vencido honrosamente em combate com um urso. . . uma tal partida deste mundo é digna de um Piotr Herrmannovitsch!

Depois foram todos ao túmulo enfeitado. A bandeira vermelha esvoaçava na frente, Stupka e o secretário do partido carregavam o caixão aberto, com outros quatro homens, a capela de Novo Calga tocou uma marcha fúnebre. Jamais se viram tantas pessoas em um enterro; as crianças foram liberadas das aulas e os jovens pioneiros cantavam, à medida que o cortejo se aproximava do cemitério.

Stella Antonovna caminhava atrás do caixão aberto, abraçada pelo Dr. Semaschko. Ela não necessitava de apoio mas Viljam Matvejevitsch julgou cor­reto que no último passeio ela fosse acompanhada por um homem.

Chegando ao túmulo, Stella Antonovna aproximou-se do caixão aberto, olhou para o rosto sério, enrugado, de Piotr e acenou com a cabeça, assim como o fizera durante quase 30 anos, quando ele lhe fazia alguma pergunta ou quando ela desejava acentuar alguma coisa que lhe parecia muito importante.

— Eu o amo — falou ela com voz calma. — Como fomos felizes, durante metade da vida que é concedida aos seres humanos. Você e eu, um amor como o nosso jamais existirá neste mundo. — Recuou, olhou para o atônito Stupka, que não compreendia estas palavras de despedida, e levantou a mão. — Fechem o caixão! — ordenou em voz alta. — Deixem-no repousar.. .

Abaixaram o caixão na cova, jogaram terra por cima e voltaram para a cidade, para a ceia fúnebre. Apenas Stella e o Dr. Semaschko permaneceram junto ao túmulo. . . as pessoas acreditaram que se tratava de uma despedida silenciosa, uma última, e não os perturbaram. Apenas Semaschko deveria ter compreendido melhor o que acontecia, mas na realidade também de nada sabia.

— Por que não vamos embora? — murmurou ele, quando os últimos convidados tinham deixado o cemitério.

— Ainda estou esperando por alguma coisa.

O Dr. Semaschko entrelaçou os dedos e estalou as articulações. Sempre fazia isso, quando estava excitado, e não sabia o que fazer ou dizer.

— Levantar o caixão e sair novamente ele certamente não o fará — rosnou. — O que você está esperando?

— Aguardo ele. . . — Fez um movimento de cabeça em direção à esquer­da. Do outro lado do cemitério aproximava-se, em vestes pretas, o Pope de Novo Calga. Na frente dele, vinha um menino carregando a cruz. Tinham esperado, ocultos atrás dos arbustos, até que terminasse o enterro do partido e ninguém mais se encontrasse na vizinhança. O Dr. Semaschko passou as duas mãos pelo seu cabelo branco eriçado. Incrível, pensou. Isto é realmente incrível.

— Você lhe pediu que viesse?

— Sim. — Stella cruzou as mãos sobre- o peito e fitou a cruz que lentamente dela se aproximava, oscilante.

— Mas você não crê em Deus! - Semaschko tossia abalado, quando o Pope começou a cantar com voz profunda. — E Piotr Herrmannovitsch tam­bém era ateu. . .

— Tem certeza?

— Ele o proclamava aos quatro ventos.

— Falar é fácil.

— Mas ele nunca freqüentou a igreja.

— Não, ele nunca foi à igreja. Você também não. E você acredita em Deus. — Ela fitava o Pope, enquanto ele se aproximava do túmulo e abria as mãos em sinal de bênção, sobre o caixão já coberto de terra. — Sabemos se Piotr não desejaria um Pope? Não quero fazer nada errado. Sempre soubemos o que o outro queria. Apenas na morte nunca pensamos. Esquisito, não? Eu nunca pensei se Piotr talvez acreditasse em Deus e só era inimigo da igreja por minha causa. Nunca falamos a respeito disso. E de repente me vejo pensando: o que foi que ele fez quando percebeu que iria morrer?! Em que pensou? Ele disse alguma coisa? Exclamou algo? Praguejou ou rezou? Ninguém jamais poderá me responder estas questões. E se ele tivesse gritado: Deus! Deus, me ajude! Deus, deixe-me continuar vivendo! Isto é possível, não? Por que um homem forte como Piotr não poderia gritar em busca de auxílio, quando a vida se lhe escorria pelas costas? E por que não poderia apelar para Deus? Isto não seria covardia, Viljam Matvejevtisch! E se ele cha­mou por Deus, eu seria uma má esposa se o deixasse ser enterrado sem Deus. . . mesmo que eu mesma não acreditasse neste Deus.

Segurou o braço do Dr. Semaschko, quando o Pope cantou com voz profunda a prece fúnebre e fez a cruz oscilar sobre a tumba.

— Não lhe parece igual a um teatro? — murmurou Stella.

— E por acaso Stupka fez coisa diferente com a bandeira vermelha?

Ela o fitou, estupefacta. Quando o Pope também a abençoou, levantou a cabeça, ao invés de abaixá-la, e esperou, até que os dois estivessem de novo sós diante da cova.

— O que farei sem você, Piotr? — exclamou e repentinamente começou a chorar, derramando lágrimas amargas. Viljam Matvejevitsch a segurou por detrás e deu-lhe apoio, pois temia que ela pudesse jogar-se na tumba.

— Não existe mais nada para mim sem você. . . Mais nada.

De noitinha, quando todos se embebedavam e se empanturravam, dançavam e faziam algazarra, e o toldo por detrás da casa oscilava e balouçava, Stella Antonovna estava, sentada no canto mais escondido do banco do fogão e fitava o horizonte com olhos vazios.

Viljam Matvejevtisch ficou perto dela, mas evitava permanecer de frente, para que o olhar dela não o alcançasse. Em que pensa ela agora, refletiu ele. Meu Deus, que vida teve! Veio para Novo Calga em 1946, sem nada, a não ser a própria força. Construíram a casa, criaram um pequeno reino, geraram dois filhos, Gamsat, o menino, e Nani, a menina. Com 10 anos Ggmsat morreu de uma septicemia idiota, depois de ter pisado em um prego enferrujado. E Nani foi vítima dos chifres de uma rena raivosa, quando tentava colocá-la no trenó. Tinha 19 anos e desejava ir para a Academia de Jakutsk, para ser pintora. E agora um urso leva Piotr Herrmannovitsch. Que vida, Stella Antonovna!

Em algum momento desta noite, os bêbados a fazerem algazarra sob o toldo, Stella lembrou ao Dr. Semaschko:

— Você não esqueceu a garrafinha com o sangue de Piotr?

— Está lá na minha casa. Você acredita que eu iria carregá-la comigo, como uma garrafa de vodca?

— Está coagulado?

Semaschko novamente estalou as articulações dos dedos.

— Coloquei um aditivo. Está líquido. Exatamente como você queria.

— Obrigada, Viljam Matvejevitsch. Irei buscá-la amanhã de manhã cedo.

De madrugada, às 4:00, ela dançou um bailado folclórico com o secretá­rio do partido de Mirny, pois o camarada, inchado de vinho e de vodca, afir­mava aos berros que uma viúva em idade ainda respeitável deveria ficar alegre, e que sua vida não deveria limitar-se a regar as flores do túmulo.

Todos batiam palmas e cantavam juntos, enquanto Stella dançava. Apenas Viljam Matvejevtisch a observava, pensativo, e procurava interpretar seu olhar. Admirava-se de que ninguém além dele mesmo percebesse quão afasta­da ela estava, apesar de suas pernas se moverem ao ritmo da música e de sua boca sorrir .. .

Na manhã seguinte Stella Antonovna vestiu calças e um casaco de pele macia de rena e botas compridas, feitas a mão, que iam até os joelhos. Depois em­purrou o cabelo louro, já com alguns fios grisalhos, por baixo de um boné de couro redondo com uma aba ampla. Em um tamborete perto da porta estava uma mochila repleta de coisas. Compassadas tranqüilas ela foi a um armário, abriu-o e dele retirou uma carabina. Tratava-se de uma arma bem-cuidada e visivelmente untada de óleo, um modelo que hoje em dia quase ninguém conhece, a não ser que visite um museu da Grande Guerra Patriótica. Lá estão penduradas carabinas, do mesmo tipo, em vitrines de vidro, e um veterano explica à juventude como os heróis as usaram, naquela época, para lutar contra os alemães e vencê-los.

Stella levantou a carabina, de modo que ficasse iluminada pelos raios do sol matutino que passavam pela janela, experimentou o fecho de segurança, olhou pelo telescópio de mira montado, abriu uma caixa com cartuchos enfileirados, de cinco em cinco, e carregou a arma. Arrumou 10 tiras de cinco cartuchos em uma sacola de couro, que lhe pendia dos ombros, fechou o armário novamente e pôs a carabina nos ombros, presa por uma corda.

Diante da casa uma das tecelãs aguardava com um cavalo já selado, uma égua forte, vermelho-cobre, de 10 anos, com pêlo luzidio, olhos atentos e na­rinas largas. Stella deu a volta ao redor da égua, controlou as cilhas da sela, ba­teu levemente com a mão no pescoço do animal e acariciou as narinas moles, alargadas.

— Conseguiremos, Almas — disse Stella com voz decidida. — Não preci­samos mais contar as horas e os dias.

Amarrou a mochila atrás da sela e acenou, animando-a, para a moça que segurava as rédeas. Como se tivesse crescido em cima de um cavalo, jogou-se sobre a sela, segurou as rédeas e cavalgou, em trote leve, saindo do jardim para a rua.

O Dr. Semaschko, no hospital, já tomara conhecimento de tudo isto, quando Stella bateu à sua porta. A viúva Salnikov cavalga pela cidade, diziam, com uma carabina às costas. Um verdadeiro diabo, essa mulher. Está sentada na sela como um cossaco, vestida de couro. Provavelmente quer curtir sua tris­teza e dor na taiga.

— Que aparência você tem! — berrou o Dr. Semaschko, apontando com a mão estendida para a velha carabina pendurada nas costas de Stella, e sacu­diu a cabeça.

— Não se incomode com isso — respondeu ela, duramente. — Onde está a garrafa com o sangue de Piotr?

— Para onde você quer ir?

— Perguntas. Sempre perguntas! Será que eu não posso fazer mais nada, sem que me perguntem o motivo? E é da sua conta, para onde quero ir? Me dê a garrafa.

— Você quer ir ao encontro do urso — falou Viljam Matvejevitsch com voz fúnebre e cheia de pressentimentos. — Você quer vingar-se dele, não é?

Ela ficou em silêncio, esticou a mão direita e estalou os dedos. Se­maschko retirou a garrafinha da geladeira e a colocou na mão de Stella. Ela pôs os dedos em volta do vidro frio. Seu corpo tremia. Mas rapidamente se recuperou e guardou a garrafa junto com a munição na sacola.

— Você é amigo de verdade, Viljam Matvejevitsch — falou, com voz em­bargada. Visivelmente, tinha dificuldade em falar.

— Informarei Stupka — respondeu Semaschko. — Você não pode ir sozi­nha enfrentar o urso.

— Esqueça que sabe disso, Viljam. . . — Semaschko percebeu um luzir estranho nos olhos dela, como jamais vira. — Ou você tem de esquecer que jamais nos conhecemos.

— Você sozinha com o urso! Você! Nunca permitirei que isso aconteça! — berrou Viljam Matvejevitsch. — Não é suficiente que ele tenha matado Piotr?! Você quer ser mais esperta que ele? O urso o ludibriou. . . veio sorrateiramen­te pelas costas e Piotr não ouviu nada. É uma fera! Mas você quer ser mais esperta. . .

— Eu poderia lhe contar muitas coisas. . . — Olhou-o longamente, percebeu intensa preocupação em seu olhar e sorriu tristemente. Nós já nos conhecemos há 26 anos, pensou ela. Primeiro o chamamos de Paizinho, porque éramos tão jovens e você já tinha cabelos brancos. Mas então você disse: “Pai­zinho é uma palavra boa. Mas me deixe ser amigo de vocês. Aqui na taiga isso tem mais importância.” Mas na realidade você sempre permaneceu nosso paizinho, Viljam Matvejevitsch. Agora também é a preocupação de um pai que o incomoda, mas eu não posso ajudar você. Preciso ir para a floresta. Eu prometi a Piotr enquanto segurava sua cabeça, quando ele estava morrendo. — Mais tarde — concluiu ela enquanto ajeitava a arma sobre os ombros.

— O que significa mais tarde?

— Há muito que contar, Viljam Matvejevitsch.

— Você não vai poder contar mais nada, quando o urso a tiver pegado! — gritou Semaschko, cheio de dor.

— Ele não me ludibriará — respondeu Stella, sacudindo a cabeça.

A segurança de sua voz quase enlouqueceu Viljam. Como é que ela pode estar tão segura, uma voz dentro dele gritava. Ela empunha uma carabina e pensa que isto basta! Por acaso ela jamais deu um tiro? Quem é que jamais a viu lidar com uma arma? Piotr quase sempre caçava sozinho; quando ela ia junto, somente ficava sentada ao lado e se preocupava apenas com a comida. Por acaso ela sabe o que é um telescópio de mira? Para que está montado na arma? Ela morreria de susto ao olhar por ele e ver o urso fitando-a, como se estivesse diretamente na sua frente.

— Por acaso você sabe atirar? — gritou para Stella. — Você sabe como se segura uma carabina?

Ela o fitou quase assustada, tão estupefacta ficou com esta pergunta; depois sacudiu a cabeça várias vezes e pôs a mão na coronha da arma.

— Quero ficar só — respondeu séria. — Sozinha na floresta, você me en­tende, Viljam Matvejevitsch. Não mande ninguém atrás de mim! Estou adver­tindo-o. Quem matar meu urso é meu inimigo. . .

— Você está doida, Stellanka. Totalmente maluca! A morte de Piotr virou sua cabeça! O seu lugar é na cama, amarrada com cintos de couro!

O Dr. Semaschko ficou parado, impotente, ao ver que Stella Antonovna lhe virava as costas e ia para a porta. Ela parecia muito bélica em sua vestimenta de couro, com as botas longas e a velha carabina de cano comprido às costas.

— Por acaso ela ainda atira. . . ainda atira. . . essa bisavó de uma carabi­na? — gritou Viljam Matvejevitsch desesperado, quando Stella já estava na so-leira da porta. — Ou será que você pretende estraçalhar a cabeça do urso com a coronha? A calota craniana de um urso é dura feito aço. . .

— A bisavó. . .? — Stella virou-se e pôs o polegar esquerdo por baixo da correia da carabina. A expressão do seu rosto era muito séria, quase solene. — Contar-lhe-ei a respeito dela, Paizinho. . . depois do meu regresso.

Ela abriu a porta à força e saiu do hospital apressadamente. Semaschko viu, pela janela, como ela pulou, como se fosse uma jovem, na sela e cavalgou rua abaixo, e de repente percebeu que vivera 26 anos com e ao lado dos Salnikovs, como pai substituto e amigo, e que esta bela mulher sempre represen­tara para ele um enigma, um enigma que agora, depois da morte de Piotr, parecia mais insolúvel que nunca.

Ela está totalmente diferente, sentiu Viljam Matvejevitsch com um assombro ilimitado. Totalmente diferente do que vimos até hoje. Naturalmen­te ela sabe atirar, naturalmente ela sabe como se segura uma carabina, não há dúvida de que sabe mirar com o telescópio. E certamente irá acertar no urso. Ele não irá ludibriá-la. Ela o deixará aproximar-se, fria até a alma, gélida como a neve de janeiro, e depois curvará o dedo no gatilho. E quando ele cair e se debater no estertor da morte, ela dirá: “Piotr, meu querido, agora você pode seguir tranqüilo para a eternidade...”

— Meu Deus — falou baixinho o Dr. Semaschko e pôs as mãos em posi­ção de prece. — Como podemos ser tão cegos. Eu sou realmente um idiota.

Stella Antonovna ficou quatro dias e quatro noites sozinha na floresta. Mal se afastava do lugar onde Piotr tinha feito o seu foguinho, para assar a carne. A terra ainda estava empapada de sangue no local onde o urso o atingira. Só chovera uma vez durante os últimos dias, não o suficiente para diluir o sangue e fazê-lo desaparecer na terra da floresta. Stella se sentara no chão, diante da grande mancha vermelha-escura e colocara as mãos espalmadas sobre a grama pegajosa. Internamente, dialogava com Piotr. Ela sabia que ele a ouvia. Ele estava perto dela, ao seu redor, estava sentado a seu lado, ela o sentia nitida­mente e estava feliz, até alegre, e acreditava, repentinamente convicta, que não existe morte definitiva, apenas uma transformação da matéria. . . do corpóreo que se pode segurar, ao espiritual sentido. Eternidade. . . Agora com­preendia este conceito, ao tocar com as mãos o sangue de Piotr e sentir sua proximidade.

O urso retornaria, disso tinha certeza. Cada animal tem seu território, no qual vagueia, dentro dos seus limites. O território de um urso é largo; es­tende-se por muitos verst, mas apesar disso tem fronteiras. E assim um certo dia ela retornará também para este lugar, onde estraçalhou um homem. Será que ele se recorda disso? Um urso possui memória? Como quer que seja. . . ele voltará e verá Stella Antonovna. Irá mirá-la, como está agora, sentada junto ao fogo, com a carabina velha, de cano comprido, sobre os joelhos. . . a viúva Salnikova, que espera por ele e deseja vingar-se.

Ele a sentirá? Sairá da floresta espessa e se apresentará? Ou irá também espreitar essa pessoa, acercar-se silenciosamente, furtivamente, e enganá-la?

Stella esperava pacientemente. Não se deu ao trabalho de percorrer a taiga, procurar a pista do urso e segui-lo. Tinha-se posto á vontade no local onde Piotr morrera, recolhido bastante lenha para o fogo noturno, construí­do um teto protetor de troncos de lanços e grossos ramos de pinheiros, ali­mentando-se das conservas que trouxera na mochila. Conseguiu resistir à ten­tação de atirar em um coelho, que corria sem temor pela clareira em direção ao riacho selvagem e se sentou ao sol, sobre uma pedra polida.

Fique quieta, completamente quieta, pensava. Qualquer ruído pode assustar o urso, pode adverti-lo e afastá-lo daqui. Raramente deixava seu acampamento e só ia para o rio borbulhante para se lavar, na deliciosa água fria. Perto do meio-dia, quando o calor do verão precoce estancava sob as árvores, ela se deitava nua na correnteza ondulante; mas também nesses momentos permanecia perto da margem, com a carabina ao alcance das mãos, de modo que um só pulo fosse o suficiente para levantar, rápido, a arma sempre pronta para atirar, sempre destravada. Era impossível surpreender Stella Antonovna.

Deixava Almas correr livremente. Ela representava a melhor advertência. Se o urso se aproximasse sorrateiramente, a égua sentiria seu faro e correria, com os flancos a tremer, para perto de sua dona.

No quinto dia apareceu o Dr. Semaschko. Veio de motocicleta, uma coisa que fazia um barulho horrível e deixava escapar tanta fumaça, que Stella ouviu e viu de longe, o que a levou a praguejar de modo totalmente não femi­nino. Semaschko penetrou no silêncio como uma tempestade. Vestia um vellho terno de caçada com botas de amarrar, um traje no qual as pessoas iam à taiga talvez há 50 anos. O cabelo branco estava coberto por um boné de tricô azul. Ao descer da sela daquele monstrengo ruidoso de duas rodas, balançava pelos ares uma nova carabina militar.

— Quatro dias desperdiçados! — disse Stella zangada, ao ver Semaschko radiante diante dela. — Viljam Matvejevitsch, você estragou tudo! Se ele esta­va pelas redondezas, decerto já se mandou!

— Foi a única maneira de evitar que Stupka e 10 de seus homens viessem às escondidas para a floresta e fazer um cerco a este local. Realmente, era esse o seu propósito. Depois discutimos e Stupka perguntou: “Há muito o que fazer no hospital?” “Não”, respondi. “Apenas duas camas estão ocupadas.” “Com quem?”, perguntou Stupka. Eu redargüi: “Uma perna em gesso e um aborto espontâneo.” E Stupka berrou: “Inacreditável! Então uma perna en­gessada e um aborto espontâneo povoam o hospital. É difícil aceitar isso! Oh tempos decadentes, de gente mimada! Ponha-os na rua, Viljam Matvejevitsch, feche a porta e tire uns dias de férias na floresta.” Eu me defendi. “Como pos­so fazer isto, Fedja Alexandrovitsch? Um hospital de portas fechadas. . . não se pode agir assim! Temos compromissos éticos, humanos e médicos. . . E se ocorrer alguma emergência aguda. . .?” E o que respondeu Stupka? “Não ocorrerá nenhuma emergência médica em Novo Calga, enquanto você estiver de férias na floresta, Viljam Matvejevitsch. Disso cuido eu!” — O médico sus­pirou, sentou-se sob o toldo protetor e tirou o boné de tricô da cabeça encanecida. — Só assim me foi possível vir sozinho, sem Stupka e seus 10 homens. Tive de jurar que não voltaria antes que você também encontrasse a paz! Isto é um problema, Stellanka. Não podemos deixar o hospital fechado até o Dia de São Nunca. Ordens não impedem as pessoas de adoecerem.

— E então você agora quer ficar aqui? - perguntou Stella, excitada. Suas faces ardiam de ira. Fez a volta pelo fogo baixo, deu um forte chute na motocicleta deitada de lado e se controlou com dificuldade para não prague­jar como o fizera antes, ao ouvir a barulhada pela primeira vez. — De onde veio essa carabina?

— Pertence a Stupka. Esta é a nova arma militar. Uma Simonow-SKS. Alcance de mira até 1.000 metros. . . — Semaschko lhe apresentou a arma. — Com isso você pode atirar melhor do que com seu velho mastodonte. . .

— A minha vovozinha, como você a denomina, tem um alcance de mira de 2.000 metros. . .— respondeu Stella, como se não estivesse dando muita importância ao que falava. — Com um cartucho M-30, tipo B-30, quebro qual­quer couraça. O projétil possui uma velocidade inicial de 850 metros por se­gundo. . . Isto nenhum outro cartucho consegue. . .

Semaschko arregalou os olhos, sem fala, e cocou a cabeça com os cabelos brancos esvoaçando ao vento. Depois estalou as juntas dos dedos e apoiou-se na linda e moderna carabina militar como se fosse uma bengala.

— As palavras me fogem — falou ele finalmente. — Então você andou re­presentando um papel para nós durante 26 anos?

— Você não precisa cuidar de mim como um cachorro domesticado, só porque agora sou viúva! — redargüiu ela grosseiramente. — Volte para os lei­tos do seu hospital. Não estou doente. Sinto-me sadia como nunca me senti antes. Nem pensar que isto possa continuar! A pobre viuvazinha. . . tão só. . . é preciso infundir-lhe coragem. . . não devemos deixar que ela se sinta abando­nada. . . ela poderia tropeçar, a almazinha. . . machucar-se ao levantar um bal­de. . . afinal de contas, já não é mais um broto, a mulherzinha. . . formem uma comissão, vocês vizinhos queridos, discutam entre si e elaborem um calendário: quem deve estar a postos amanhã e depois de amanhã e no dia 17 de agosto. . .? A pobre Stella Antonovna. . . precisamos nos ocupar dela. . . — Deu outro chute irado na motocicleta e empertigou-se diante do Dr. Semaschko. Como uma feirante, cujos tomates tivessem sido amassados, ela fincou os braços contra o tronco. — Dê o fora, Viljam Matvejevitsch! — praguejou com olhos a faiscar de raiva. — Quando eu precisar de você, então o chamarei!

O Dr. Semaschko, com seus setenta e tantos anos, tinha experiência em lidar com mulheres. Jamais casara, mas no decorrer do tempo tivera algumas amantes, que sempre despedira sem causar grande escândalo, o que decididamente demonstrava sua capacidade de tato. Além disso, um médico é sempre um confessor de seus pacientes. Dessa forma coleciona uma verdadeira monta­nha de experiências e obtém variados discernimentos da vida do dia-a-dia. Assim, após meio século, pode dizer sem exagerar: o homem, queridos irmãos, este eu conheço!

O médico pestanejou para a mulher enraivecida; depois, apoiado na linda carabina Simonov, foi para perto do fogo, sentou-se no chão e esticou as pernas.

— Gostaria de uma xicarizinha de chá — pediu calmamente.

— Que o diabo o prepare para você! — rosnou Stella.

— Também pode ser um diabinho. — Viljam Matvejevitsch riu, cacarejando. — Não faça fita, Stellanka. Por que você está tão enfurecida? Se Piotr pudesse nos ver agora, me abraçaria e diria: Bem feito, meu amigo! Não deixe minha mulherzinha só.

Tratava-se de uma argumentação ardilosa, para a qual Stella não encontrou resposta. Se Piotr nos pudesse ver. . . esta frase a tornava indefesa, Pois ela sentia a presença de Piotr neste lugar, já que conversara com ele durante quatro dias e quatro noites.

Na madrugada do sétimo dia veio o urso.

Da baixada subiam véus de névoa, penduravam-se como lenços esfarrapados nas copas das árvores e arrastavam-se pela clareira. Havia um cheiro agridoce de decomposição, de madeira mofada e musgo úmido. Almas, a égua cor de cobre reluzente, o farejou primeiro. Ela se levantou, jogou as patas dianteiras para o alto, em direção ao ar úmido da manhã; depois ficou parada, ao lado do toldo de proteção, com os flancos a tremer e as narinas dilatadas, fitando com grandes olhos redondos a orla da floresta; lá, onde começava o suave declive para o riacho selvagem.

Semaschko ajoelhou-se detrás de sua motocicleta como atrás de um tan­que blindado e ajeitou a arma sobre a sela. A voz lhe faltou, de tanto medo. Dormira enrolado em um cobertor e protegido contra a umidade por um saco plástico que puxara até a altura do pescoço. O rosnar ameaçador de Lebjotka o despertara, e ainda antes de avistar o urso sabia que a hora da decisão chega­ra. Desvencilhara-se do cobertor e do saco e pegara a carabina. Só então perce­beu que Stella não estava debaixo do toldo protetor.

Oh céus!, pensou. Meu Deus! Será que o drama vai se repetir? Olhou apreensivo em torno de si e descobriu Stella Antonovna lá embaixo, no rio. Ela tomara banho, estava vestindo a blusa de algodão e espremia a última umi­dade dos cabelos. Como sempre, a carabina estava a seus pés, ao alcance da mão. Isto tranqüilizou um pouco o médico, mas o perigo que ameaçava Stella, este ainda não fora domado.

Devo gritar?, pensou Viljam Matvejevitsch. Se eu berrar agora, o urso foge e Stella irá me despachar como um cão vagabundo. Se eu não gritar, o urso irá rodeá-la, ardilosamente, e tentar o mesmo jogo mortal que fez com Piotr Herrmannovitsch. Deus do céu, pela minha alma, o que devo fazer?

Pôs a sua linda e nova Simonov em posição de atirar e mirou pelo telescópio. Mas o urso era um canalha refinado. Ficou sob a sombra dos troncos, não entrou na clareira; dissolvia-se entre o verde das folhas, o marrom dos ra­mos e o nevoeiro ondulante. Só de vez em quando aparecia, como um fantas­ma, ao trotar silenciosamente de uma árvore para outra.

Sem de nada suspeitar, como parecia, surgiu Stella, refrescada pelo banho, subindo a pequena encosta, a arma quase solta na mão direita. Acenou para o Dr. Semaschko, deu uma palmadinha nas costas de Lebotjka, que se acercara dela com as pernas trêmulas, e agachou-se para atiçar o fogo. Depois pendurou a caçarola na armação e nela despejou água fresca retirada de um balde plástico. O Dr. Semaschko sentia uma fraqueza decididamente não mas­culina nos joelhos.

— O urso está aí. . . — falou em voz baixa.

— Cale a boca! — respondeu ela calma. — Eu sei.

— Agora está saindo. . . Está olhando para nós.

— Não lhe dê atenção, Viljam Matvejevitsch.

— Meu Deus, que camarada. Nunca vi um urso assim. Nem mesmo em fotografias!

—  Qualquer outro não teria vencido Piotr.. .

Ela deu meia-volta, ficou tranqüila ao lado do fogo e olhou para o urso.

Aí está você, pensou. Então é assim que você é, seu assassino! Você ma­tou Piotr, mas só o conseguiu porque veio por trás. Que você seja ardiloso, isto não levo a mal, meu amigo. . .. é preciso vencer o inimigo com todos os meios de que dispomos. Isto nós treinamos, e houve uma época em que muitas vezes uma fração de segundo decidia se morreríamos ou sobreviveríamos. Nunca pensei que eu necessitaria disto de novo. . . este frio até o coração, a necessidade absoluta de que cada músculo de meu corpo reaja de forma adequada no próximo segundo, esta clareza no cérebro, na qual todo o nosso pensamento se concentra em uma só linha: a linha pelo telescópio de mira enroscado, sobre o ponto de mira até a encruzilhada da cruz reticulada, na qual se vislumbra a cabeça do adversário, sua testa, a raiz do nariz, seus olhos. . . sua morte.

Quanto tempo faz. . . mas isso a gente não desaprende. Mas é que eu nunca mais queria fazer uso dessa habilidade. Nunca mais! Deveria estar enter­rado sob os anos, sua lembrança eliminada. Mas você, urso, assassino de Piotr, você me faz esquecer decênios. Estou tão fria como dantes, tão calma, tão concentrada. . . e agora paro de pensar. . . só resta a linha, a linha diante dos olhos, da cruz reticulada para você...

O urso desconfiou do perigo. Ficou parado na orla da floresta, cercado pela névoa. Ele agora se sentia seguro, protegido por árvores e arbustos. Silen­ciosamente andava sobre as patas endurecidas na direção do rio. A água o se­duzia, tinha sede e pensava em um peixe suculento.

Bem devagar, evitando qualquer movimento apressado, Stella levantou a carabina. O Dr. Semaschko, que estava deitado atrás da motocicleta, quase arrancava os cabelos brancos.

— Mas você não vê nada... — murmurou veementemente.

— Vejo o suficiente. — Stella levantou a carabina à altura dos ombros. A coronha bateu nas axilas, como se quisesse lá acampar.

— Mas ele está longe demais! — rosnou Semaschko. — Como é que vo­cê quer acertar nele assim?!

A sua cabeça é mais gorda, três vezes mais gorda que um capacete de ferro com um rosto pálido como alvo por debaixo, pensava Stella. Viljam Matvejevitsch, agora cale a boca. Você nem tem idéia. Ele está tão perto para mim, que poderia acariciá-lo.

O dedo no gatilho curvava-se para o ponto de disparar. Na cruz reticulada estava a cabeça do urso, uma juba peluda grossa, marrom-preta, com ore­lhas pequenas, que se viravam para todos os lados. Vire-se, assassino, pensava Stella. De lado é ruim. Preciso ser capaz de encarar você nos olhos. . . neste ângulo o cartucho irá bater na sua cabeça, esmigalhar seu cérebro, é um cartu­cho B-30 com ponta preta, por assim dizer uma bala pesada, que também fura um tanque blindado. . . entrará na sua cabeça como se ela fosse uma esponja . . . mas você ainda não está na posição certa! Eu sempre só atirei quando via os olhos. . . este último olhar, indefeso, sem nada suspeitar, na cruz reticulada da minha arma.

O urso levantou a cabeça, farejou na direção do Dr. Semaschko. . . para Viljam Matvejevitsch não era mais do que uma mancha indistinta na névoa matutina.

O tiro foi seco, não muito alto. Ficou sem eco na floresta molhada e não rolou pelas árvores, mas foi absorvido como por algodão. Semaschko estremeceu, olhou para Stella e percebeu que ela tinha deixado cair novamente a carabina. Depois mirou pelo seu telescópio, examinou a orla da floresta sem êxito e saiu de detrás da motocicleta.

— Agora ele sumiu! — disse cheio de admoestações.

— É, foi embora.

— É impossível atirar de uma distância como essa! Mas convença-se uma mulher! Terminou a caçada!

— É, terminou.

— Voltemos para Novo Calga. Não tem mais jeito. O urso não volta mais.

— Não. . . ele não volta mais. . .

Alguma coisa na voz de Stella irritava o Dr. Semaschko. Ficou parado, olhou para a beira da floresta e novamente arrepiou os cabelos com ambas as mãos.

— Venha. . . — ela chamou.

Pegou a sacola, deixou a carabina ao lado do fogo e dirigiu-se lentamen­te para a encosta. Viljam Matvejevitsch agarrou sua arma e correu atrás dela. Isto não é possível! Pensamentos incríveis lhe passavam pela cabeça. Isto é to­talmente impossível! Isto é feitiçaria. Com esta distância, com este nevoeiro, somente era possível ver uma sombra. . . quem me acreditará, se eu o contar? Eu mesmo não o acreditaria e chamaria qualquer um, que afirmasse tal coisa, de fanfarrão. Mas agora eu mesmo o vivenciei! Agora, há cinco minutos, na taiga ao norte de Novo Calga.

O urso estava deitado de lado, como se estivesse dormindo. A morte o surpreendera tão rápido, que nem poderia ter sentido dor, quando o cartucho B-30 estraçalhou-lhe o cérebro. Semaschko, mobilizado, abaixou-se na direção do urso, emocionado, antes de mais nada, pelo imenso tamanho e força do animal, e o fitou nos olhos. Mas agora só existia um único olho brilhando rai­vosamente. . . no lugar do olho esquerdo havia um buraco redondo como um círculo, do qual apenas escorria um fino fio rubro, de sangue.

Stella Antonovna não deu atenção a Semaschko, que fitava atônito o tiro e sua vítima. Ela se sentou na grama, ao lado da cabeça do urso, abriu a bolsa e retirou a garrafa com o sangue de Piotr. Depois agarrou o focinho do animal, abriu-lhe os dentes com uma força que novamente deixou Semaschko desconcertado, quebrou a garrafa nas presas brancas e deixou o sangue de Piotr escorrer pela goela fedorenta.

— Meu Deus — balbuciou o Dr. Semaschko torcendo as mãos. — Oh, meu Deus. . . Como você consegue odiar tanto, Stellinka.

Chegaram de volta a Novo Calga de noite. Foi uma verdadeira sensação. Na frente ia o Dr. Semaschko, com sua motocicleta barulhenta; depois seguia Stella montada na sua Almas. Ela estava muito séria, não reagia aos acenos amistosos da multidão. Atrás da égua, amarrado por uma corda forte, o urso era puxado; a robusta égua o arrastara assim pela taiga. Agora ele ia pela rua, aos solavancos, com forte ruído, as patas imensas esticadas, com a goela suja de sangue, uma corda em volta do gordo pescoço. Em priscas eras Hector arrastou assim o vencido Patroclos pelas muralhas de Tróia, em seu carro de combate, um vencedor que usava o horror como se fosse um lauréu.

— Ele deve ser preparado. . . — falou Stella mais tarde, na sua casa. — Preparado e empalhado. Quero tê-lo sempre na minha frente. Quero cuspir na sua cara, bater nele, rogar-lhe uma praga! E não se deve substituir o seu olho . . . quero ver o buraco!

— Sim, o olho. — O Dr. SemascbJco estava sentado no banco ao lado do fogão, perto de Stella, e de novo fazia estalar as juntas dos dedos. O que o preocupava por dentro era difícil expressar por meio de palavras. Aí só ajudava torcer as mãos e estalar as juntas. Bebeu dois goles de vinho de bétula en­quanto observava Stella, que se levantara, fora a uma cômoda, abrira uma ga­veta e retirara um gordo maço de papéis, envolto em papelão. Ela o colocou na mesa e voltou ao banco. — Você queria dizer alguma coisa? — perguntou o médico.

Ela acenou com a cabeça, tomou um gole de vinho e encostou a cabeça bem para trás, no fogão frio, de tijolos. Em uma moldura, sobre a qual fora amarrado um véu preto, na parede defronte, havia uma fotografia de Piotr Herrmannovitsch. Ainda jovem neste retrato, que fora feito há quase 20 anos pelo fotógrafo Schemelnik, que falecera há muito, Piotr era um homem bonito. Nesta época Gamsat, seu filho, ainda vivia. Sim, o jovem Salnikov fora um ho­mem belo, assim como a jovem Stella também fora linda. Ainda hoje se podia perceber. . . ela possuía algo da maturidade dourada de um outono abençoado.

— Como me chamo? — perguntou ela repentinamente. O Dr. Semaschko pestanejou, fitando-a abobalhado.

— Stella Antonovna Salnikova. O que quer dizer isto?

— Salnikov. Sim. . . Este nome nós o inventamos. Ou melhor: nós o rou­bamos.

— Vocês o roubaram?! — Os dedos do médico rangiam perigosamente. — Não faça brincadeiras tolas, Stellanka.

— Foi em 1943, perto de Charkov. Piotr. . . ele então não se chamava ainda Piotr. . . necessitava de documentos. . . era um homem sem nome, um nada, na realidade ele não existia, e eu também não existia. . . não mais. . . apesar de toda a Rússia me conhecer. — Olhou para Semaschko e sorriu apaziguadoramente. — Você vai entender logo, Viljam Matvejevitsch. Vivíamos em Charkov, era tempo de guerra, e estávamos abrigados pior que ratos, e tam­bém éramos caçados como ratos. Ao retirar soldados feridos de um caminhão, operação esta na qual Piotr estava ajudando, um camarada morreu nos seus braços. Esse homem se chamava Piotr Herrmannovitsch Salnikov. O meu Piotr tomou os documentos para si e a partir daquele momento se chamou assim. O morto foi enterrado sem nome. Nós choramos de alegria. Agora éramos nova­mente gente, tínhamos um nome, podíamos sair do porão de ratos à luz do sol, podíamos viver. . . — ela voltou a tomar um gole de vinho de bétula, olhou para a fotografia de Piotr e acenou para ele, como se lhe tivesse dito: Está bem assim, Stellinka. . . conte para ele. Viljam Matvejevistch é um bom amigo. . .

— Você conhece Korolenkaja? — ela perguntou de sopetão.

O Dr. Semaschko, que estava empenhado em assimilar, com muito es­forço, o que acabara de ouvir, estremeceu novamente.

— Trata-se de um lugar?

— Ora, envergonhe-se, Viljam Matvejevitsch! E diz que é um patriota?! Korolenkaja é um nome...

— Que devemos conhecer?                  

— Este nome está esculpido em pedra em um monumento de Moscou. Pode ser lido nos livros escolares. Milhares de rapazes e moças conhecem a his­tória. . . a história da Korolenkaja, “Heroína da União Soviética”.

— Agora, parece que me vem algo à mente — respondeu o Dr. Semasch­ko, pausadamente. — Oh, céus, há quanto tempo! Quantos nomes foram cita­dos nessa época!

— Na Grande Guerra Patriótica só houve 91 mulheres que se tornaram Heroínas da União Soviética. Moças que combatiam nas frentes de batalha, as mais próximas das unhas inimigas. Mais da metade dessas heroínas eram artilheiras. . . Korolenkaja também. Ela caiu, foi morta a tiros pelos alemães e en­terrada. Está escrito em todos os livros escolares: Perto de Casatschja-Lopan, na via férrea entre Charkov e Cursk, a Korolenkaja deu sua vida pela Rússia.

— Você a conheceu? — O Dr. Semaschko segurou o copo de vinho e não sabia mais o que devia pensar, acreditar e dizer. O tiro no olho do urso, aquele tiro de mestre, certeiro, com nevoeiro e distância imensa. . . Deus do Céu, aonde chegaremos?

— Leia aqueles documentos, redigidos por Piotr. — Ela apontou para a mesa e para o grosso maço de papéis, envolto em papelão. — Temos algo a re­cuperar. . . — Encostou-se de novo no fogão frio, olhou para a fotografia de Piotr na parede e lhe sorriu. — Você ainda não sabe o nome e o patronímico da Korolenkaja?

— Nem tenho idéia. . . — respondeu o Dr. Semaschko, abafadamente. Tinha a sensação de cair em um abismo profundo, escuro e macio.

— Stella Antonovna.

Nenhum dos dois proferiu mais uma só palavra. Na vizinhança um cachorro latia miseravelmente.

Viljam Matvejevitsch levantou-se do banco perto do fogão, arrastou-se pesadamente para a mesa, tomou os papéis nas mãos e se sentou na janela, aos raios vermelhos do sol do crepúsculo.

O que seria da Rússia sem a Sibéria, pensou, quase respeitosamente. Ela absorve destinos como uma esponja a água.

 


Do relatório do Comandante do Batalhão, Capitão Giovanni Langhesi, ao Estado-Maior do Oitavo Exército italiano na área Millerovo-Kantemirovka, com ligação do grupo militar alemão Don:

“. . . também é necessário informar que quatro vezes ocorreram deser­ções misteriosas de postos avançados na área inimiga do Primeiro Exér­cito soviético. Todas essas ocorrências se desenrolaram na seção Tschjertkovo.

Os postos avançados, compostos de dois homens cada um, já não mais estavam em seus lugares de observação quando as tropas libertadoras lá chegaram. Nada deixaram para trás. Levaram suas armas e munição. Na seção de artilharia não houve ocorrências especiais, a situação estava tranqüila, exceção feita da atividade mais intensa, a partir de meados de dezembro de 1942, por parte de iniciativas soviéticas isoladas, como ar­tilheiros, ações de tropas de espionagem e propaganda por alto-falantes, que convida à deserção.

No caso dos homens desaparecidos trata-se — segundo o relatório dos chefes da companhia — de soldados sem mácula, alguns tendo recebido a Cruz de Ferro. Entre as pessoas sumidas também se acha um suboficial A partir das posições de nossas tropas não se pôde perceber nada que in­dique uma ofensiva inimiga contra os postos avançados. Portanto, te­mos de admitir que todas as oito sentinelas desertaram e se incorpora­ram às tropas soviéticas.

Peço conselhos a respeito das medidas defensivas a tomar. O moral da tropa é espetacular. Tanto mais estranhas são tais ocorrências. . .”

Este relatório levou seis dias até alcançar, passando de mesa em mesa de regimentos e divisões, cada vez com mais assinaturas, qualificando-o “urgen­te”, o Estado-Maior do Oitavo Exército italiano. Entremeptes, mais três senti­nelas desapareceram, o que foi motivo de queixa de um novo comunicado por parte do Capitão Langhesi, rotulado “muito urgente”, o qual terminava com uma frase totalmente não-militar: “Estou diante de um enigma!”

— Há algo de podre na cabeça de Langhesi! — disse o Coronel Bartolini, do Estado-Maior, e colocou os relatórios em uma pasta de cartolina vermelha. — Como pode falar do elevado moral de sua tropa, se esses sujeitos desertam em massa?! Essa propaganda soviética, transmitida pelos alto-falantes, é tão ri­dícula que ninguém se deixa tapear por ela! Meus senhores, podem imaginar que alguém irá acreditar nessa porcaria? Exatamente na área de Tschjertkovo e em nenhum outro lugar?! Cada um de nós sabe o que nos espera lá do outro lado como prisioneiros de guerra. O russo não faz nenhuma distinção entre os que aprisiona e os que desertam. . . tudo isso não passa de propaganda.

— Eles agora inventaram coisa diferente, Coronel — respondeu um jovem Major, que chegara de Milão há nove dias e tinha como missão preparar uma contrapropaganda. Há dois dias visitara as posições mais avançadas.

— E daí? Mentira é mentira.

— Uma frase especialmente marcante diz: “Larguem as armas! Venham para o nosso lado! Para vocês a guerra terminou. Vocês sobreviverão. Mil lá­bios femininos rubros esperam vocês em Moscou...”

— Mas isto é totalmente idiota! — O Coronel retirou a poeira da parte dianteira de sua farda com as mãos, como se a propaganda o tivesse sujado. — Loucura total!                                                                                   

— Sei que estão discutindo isso secretamente. Lábios femininos rubros . . . para um italiano esfomeado. . .

— Vinzenzo, isso é uma piada tola! — O Coronel Bertollini fitou o jovem Major meio perplexo e sem saber o que fazer. — As tropas devem estar morrendo de rir dessa idiotice contida na propaganda soviética! Em Moscou lábios femininos rubros os esperam. . . por causa disso ninguém se bandeia pa­ra o outro lado! E mesmo se ao ouvir a palavra mulher as calças lhe rebenta­rem. . . Vinzenzo, o senhor acha que o desaparecimento misterioso das sentinelas realmente tem relação com isso?

— Trata-se apenas de uma idéia entre muitas, Coronel.

— Então colocaríamos bordéis nas Unhas de frente? Para cada companhia uma fortaleza de fêmeas em cio! Isto forja uma nova palavra: puta especial das linhas de combate principais (PELCP)! Não! Há algo de podre na cabeça do Capitão Langhesi! Eu enviaria o batalhão para a retaguarda por uma sema­na e cozinharia o cu deles, se soubesse como preencher a lacuna. Mas não pos­so! Aqui só há um jeito: mostrar a essa gente que depois da vitória é mais lin­do viver na Toscana do que na Sibéria! Lutar e vencer. . . ou desertar e apo­drecer na taiga! Afinal de contas, esta é uma alternativa dura, mas claríssima.

Desta forma aconteceu que nada aconteceu — até que uma delegação de nove oficiais do Grupo do Don, do Quartel-General do Marechal-de-Campo .von Manstein, visitou o Oitavo Exército italiano, para discutir a situação à vis­ta de cartas que trouxeram consigo, informes coletados de prisioneiros de guerra soviéticos e de discernimentos oriundos das próprias observações.

Nos primeiros dias de janeiro de 1943 tudo era tranqüilidade na frente. Mas a calma era ilusória. Os ventos gélidos, que passavam céleres pela estepe do Don, a rigidez total da natureza em virtude da geada, o frio mortífero, que podia queimar as pessoas, não impediam os russos de construir, ao longo de uma linha de 550 quilômetros, uma frente de ataque que ainda não podia ser claramente discernida. Sabia-se apenas que 10 exércitos russos, muitíssimo bem armados e descansados, estavam diante de seis exércitos alemães dizima­dos. E nem isto era totalmente verdadeiro. . . entre os seis exércitos alemães havia três aliados: o Segundo Exército húngaro, o Oitavo Exército italiano e o Terceiro Exército romeno. Nos estados-maiores alemães essa frente combalida era vista com preocupação. Em Stalingrado o Sexto Exército, cercado, comba­tia desesperadamente por cada metro de terra, por cada ruína, por cada mon­te da estepe. Ele ainda podia ser provido de víveres e armas pelos aeroportos de Pitomnik e Gumrak. Ainda se tinha esperança de poder quebrar, de alguma forma, o cerco soviético, apesar de novos grupos de tropas russas se estabele­cerem a leste do Don, como se Stalingrado não passasse de uma bolha de sa­bão, que cedo estouraria. As novas tropas se agrupavam diante das posições alemãs, que puderam ser estabelecidas porque o Sexto Exército em Stalingra­do se sacrificava para isso, mantendo estacionados os exércitos soviéticos de elite. Todo o flanco direito do Grupo do Don era uma miséria... dois exérci­tos aliados contra cinco russos, e bem no sul, em Rostov, apenas o Quarto Exército Blindado contra toda a frente sul do Marechal Jeremenko.

A situação era a mesma de sempre: uma proporção de um a sete. Nos quartéis dos estados-maiores ninguém se iludia a respeito. Stalingrado estava perdida, mesmo que estivesse sendo defendida com uma coragem heróica, alu­cinada. Ao mais tardar em meados de janeiro, a ofensiva soviética de inverno se dirigiria, saindo da estepe, para Orei, Cursk, Charkov, Stalino e Rostov, com o objetivo de despedaçar a asa direita dos alemães e recuperar, mais ao sul, o Transcáucaso.

Quão desinteressantes eram, em tal situação, os informes a respeito do desaparecimento de algumas sentinelas na região de Tschjertkovo. O Coronel Bartollini nem os apresentou as camaradas alemães. . . a vizinhança do Tercei­ro Exército romeno preocupava-o muito mais. De lá, ouvira coisas imprová­veis: diziam que os soldados romenos trocavam suas metralhadoras e outras armas, em encontros secretos com o inimigo, na terra de ninguém, por cigar­ros de Machorka e vodea. Algo parecido também ocorrera com o Quarto Exército romeno diante de Stalingrado, antes de ser simplesmente esmagado pelas tropas do General Trufanov, com o que o destino do Sexto Exército tomara o seu rumo funesto.

Foi o Major Vinzenzo quem, depois de um bom jantar e uma rodada de conhaque, chamou, sub-repticiamente, a atenção dos convidados alemães para o caso dos desertores do Capitão Langhesi.

— Eu sei, meus senhores, o que estão pensando — disse ele e sorriu meio sem jeito. — Estes itacos, quando ouvem falar de mulheres! Basta que os Ivans acenem com uma calcinha e já eles desertam. Conheço as anedotas alemãs a respeito de nós italianos! Comunicado do Exército italiano: Uma companhia de tropas de assalto italianas conseguiu obrigar um inimigo, que passeava de bicicleta, a apear. Conquistaram a roda de trás, mas ainda houve um combate mortífero pelo guidom. . . — Vinzenzo pediu com um gesto para que paras­sem, quando os oficiais alemães quiseram protestar, mas sem muita convicção.

—  Ao contrário do Coronel Bartollini, o desaparecimento das sentinelas des­perta em mim um sentimento estranho. Por que se trata sempre dos observa­dores nos postos avançados?

— Eles têm diante de si o caminho mais curto para a suposta liberdade —  respondeu sobriamente um oficial alemão. — Está claro, não?. . . E além disso estão sozinhos durante a noite. Ninguém os observa quando se arrastam para os braços do Ivan. As coisas aconteceram sempre durante a noite, não é?

— Sim.

— Então, não há nada a questionar.

— Para mim, há. — O Major Vinzenzo esperou até que a ordenança tives­se terminado de encher novamente os copos de conhaque. Estavam sentados na sala de estar de uma fazenda perto de Starobelsk, onde quatro fogões de ferro chiavam de calor, o recinto cheirava a madeira úmida e peles molhadas, postas para secar. — Irei amanhã para a frente, observar atentamente a divisão.

— E o que o senhor espera ver? — Um dos oficiais alemães sorriu ironi­camente. Por que razão os italianos têm de fazer uma ópera a respeito de tu­do, lia-se no seu olhar. Então, alguns tipos covardes e cansados da guerra de­sertam. . . e daí? No máximo quando os Ivans lhes arrancarem os relógios do pulso e os roubarem de alto a baixo, perceberão que idiotas foram. . . Para que perder tempo falando disso?

— Alguma coisa deve estar transtornando esses homens!

— O senhor acredita que isto ainda esteja acontecendo nas tropas desse Capitão Langhesi?

— Ontem desapareceu o Segundo-Tenente Pietro Lucca. E ele tinha sido condecorado com a Cruz de Ferro I.

— Ora, até oficiais condecorados com a Cruz da Ordem dos Cavaleiros já fizeram cocô nas calças! — O Tenente-Coronel von Rahden, um dos convida­dos alemães, apagou o cigarro no cinzeiro de vidro, na mesa, a seu lado. — Confesso que é estranho que exatamente nesta divisão se acumulem os deser­tores. Nas outras divisões não?

— Não! Nem um único caso de deserção! Só na região de Tschjertkovo.

— Diacho, alguma coisa aí não está certa! — von Rahden olhou estupe­fato para os seus dois colegas. Tratava-se dos Majores de Estado-Maior Heinrich Schlimbach e Peter Halberbaum, oficiais de tropa experientes, com Cruz de Ferro, condecoração por combate corpo a corpo, medalhas por ferimentos em combate, “medalha da carne congelada” e com a Cruz Dourada alemã. — Como é? Vamos acompanhar nosso camarada italiano amanhã?

Os outros hesitaram. Suas ordens rezavam discutir com os oficiais do Oitavo Exército italiano com conceito tático contra a ofensiva russa, mas não, a título de pura curiosidade, ir para a linha principal de combate, com o objetivo de observar italianos cansados da guerra. Além do mais, seria totalmente descabido. Um soldado não pode — mesmo na guerra — deslocar-se para a frente de batalha, quando quiser. Qualquer ação militar pressupõe uma ordem. Qualquer ação ocupa uma série de repartições competentes. O Tenen­te-Coronel von Rahden descartou as objeções com um gesto manual eloqüente.

— Se a deserção crônica é tão fora do comum, também é do interesse do grupo que comanda o Exército. Afinal de contas é o nosso flanco direito que, sem que o saibamos, talvez esteja mole como manteiga! Se esta saudade da Si­béria se espalhar. . . ora, levante também a saia, vovó. . . então o caso é de arrepiar e nos agradecerão efusivamente que nós nos preocupamos com ele impulsivamente! — Mirou Vinzenzo com seus olhos claros. — Quando é que o senhor parte, Major?

— Amanhã cedo para o regimento. . . à hora do crepúsculo para a LPC (Linha Principal de Combate). A posição é visível para os soviéticos. . . estepe, chata como uma barriga raspada a gilete .. .

— Isto é, com pequenas ondulações.

— É isto mesmo.

— Merda de posição!

— Não tem outra. Toda a região é igual. Consolamo-nos com o fato de que o Ivan também pode ser visto por nós. Todo o tráfego público só pode acontecer de noite. E aí temos a catástrofe! Os soviéticos trazem víveres, mu­nição e reforços com trenós motorizados. . .

— E aí ninguém os afugenta com algumas baterias de artilharia?

— Ordem número 1: Poupar munição! Cedo necessitaremos de cada tiro. Esta maravilhosa notícia os senhores próprios trouxeram. A grande ofensiva de inverno ocorrerá dentro de pouco tempo.

— Nós o acompanharemos, Major Vinzenzo — falou von Rahden, ansio­so por agir. — Estaremos de volta depois de amanhã?

— Na noite seguinte? Sim. Os senhores receberão escolta para retornar. Eu permanecerei lá fora e me postarei dentro de um buraco de sentinela.

— Então virá o fantasma desconhecido e o comerá.. .

— Talvez...

O Tenente-Coronel von Rahden riu alto e esticou bem as pernas vestidas com botas reluzentes. — Meu querido Vinzenzo, agora compreendo, cada vez melhor, porque a Itália é o país dos grandes dramas teatrais! Bebamos mais um conhaque!

De manhã cedo viajaram de Starobelsk para a frente em um carro de cuba. Ti­nham-se enrolado em grossas mantas de carneiro. O frio era como uma faca — cortava qualquer fazenda, a pele, os músculos, os ossos e picava o corpo em pedacinhos. Os cobertores de pele de carneiro esquentavam um pouco, é ver­dade, mas a respiração logo formava um filme de gelo, colava nos cachos de pele, entupia as narinas, pendia, em pequenos bagos, das sobrancelhas.

O motorista, um pequeno cabo de Trapani, na Sicília, estava agachado atrás do volante como um torrão de gelo. O cano de descarga fumegava como um farol de neblina.

— Com este gelo os Ivans também não pegam em nada! — comentou von Rahden satisfeito. — Os dedos deles congelam nos gatilhos das carabinas como os nossos! Afinal de contas, os Ivans também curvam os joelhos ao ca­gar. . .

O regimento já tinha tomado conhecimento da chegada deles. O Major Vinzenzo tinha-se ocupado do aviso, às escondidas. Os camaradas alemães fo­ram recebidos com aguardente e manifestações de boas-vindas, a cozinha pre­parara macarrão com carne de boi e assara um imenso Panetone, um bolo que tinha até passas.                                                     

À guisa de surpresa convocaram o Capitão Langhesi. Ele saudou a dele­gação meio constrangido e lacônico, pois suspeitava do que dele se pensava: nenhum ânimo na tropa, típica moral de espaguete. . . bastaria um único sar­gento alemão em cada companhia, e os italianos fariam continência antes de cada pipi.

— Agora deslocamos sempre quatro homens para a frente — disse Lan­ghesi amargamente. — Quatro não desertam tão facilmente como dois. Não chegam a um acordo. É uma bosta. . .

— E o que dizem os homens? — Vinzenzo fumava nervosamente e com precipitação. Langhesi lhe contara que os soviéticos estavam deslocando suas tropas na região de Tschjertkovo. Durante as noites podiam ser observados trenós chatos, velozes, deslizando pela estepe coberta de neve e desaparecen­do no terreno ligeiramente ondulado. Mesmo bolas luminosas disparadas, que inundavam a região com uma luz pálida mas intensa, penduradas em pára-que­das, não os perturbavam. Elas demonstravam sua superioridade. Algumas ve­zes atiraram nas posições soviéticas com lançadores de minas, sem conseguir nada de excepcional. Apenas significava: ainda estamos aqui, estamos vendo tudo. Venham. . . O que dissera Hitler? Um alemão vale por 12 russos!

Que importância tinha, realmente, para eles, esta frase louca? Eles eram italianos. . .

— O senhor os verá e falará com eles, Major — sugeriu o Capitão Langhe­si aflito. — O moral das tropas é bom. . . quero enfatizar isto expressamente! Todos xingam os desertores. . .

— A grande ária da condenação. — O Tenente-Coronel von Rahden riu, um tanto provocadoramente, quando Vinzenzo lhe fez a tradução. — Não me leve a mal, Vinzenzo. . . mas de alguma forma isto tem de estar vinculado à mentalidade sulista. O caráter mediterrâneo. . .

À hora do crepúsculo viajaram para a LPC. Até a tenda de combate do batalhão usaram os trenós motorizados, mas daí por diante só se podia an­dar a pé. Vinzenzo e os três oficiais alemães vestiram as roupas brancas de camuflagem sobre seus uniformes e se juntaram a uma tropa que levava para a linha de frente, em mochilas e latas de alumínio presas à cintura, novas provisões para as cozinhas da companhia.

Alcançaram, sem ser molestados, as posições avançadas, um sistema de trincheiras com pontos de gravidade nos abrigos de terra. Sulcos achatados pe­los quais podiam arrastar-se levavam para trás, em direção a um declive, onde ficava o abrigo da companhia. Um jovem tenente cumprimentou os convida­dos com o rosto franzido. No âmbito da Segunda Companhia, só nela, tinham desaparecido quatro homens.

— Nada de especial ocorreu — participou aos presentes e olhou para os alemães com olhos nada amistosos. — Somos visitados como se fôssemos uma ruína romana. Uma triste fama, a de ter o maior número de desertores.

— Quando iremos para os postos? — perguntou von Rahden decidido.

— O melhor será por volta de meia-noite. — O Major Langhesi olhou o relógio de pulso. — Dentro de três horas. O senhor poderá ver então como os soviéticos vão de lá para cá, sem se preocupar com coisa alguma. São como formigas. De dia pode-se dormir, pois do lado de lá tudo está morto e vazio. Só da terra sai fumaça. . . os fogões nos abrigos.

— Bem, então nos esquentemos um pouco primeiro — convidou o Major Schlimbach, enquanto tirava algumas coisas da sua sacola de linho. — O inten­dente do seu regimento nos doou uma garrafa de Grappa.

Mais tarde estavam deitados, bem temperados por dentro, no cume do monte achatado e olhavam com binóculos noturnos para as posições soviéti­cas. Um grupo de trenós motorizados deslizava pela estepe branca, dois carros blindados tropeçavam sobre o terreno cheio de buracos, indistintamente sur­giram três tanques T-34, movimentando-se como fantasmas pela noite e sendo depois engolidos pela escuridão.

— Isto é uma sem-vergonhice! — disse o Tenente-Coronel von Rahden, rouco de tanta irritação. — Se a gente pudesse ir lá!

— Se pudéssemos, verdadeiramente, nos locomover em toda a frente — retrucou Langhesi sarcasticamente. — Então já estaríamos no Ural. . .

— Erro seu! Então a Rússia já se chamaria Terra Oriental e no próximo ano seria o nosso celeiro de trigo! Mas estes ses determinam a história do mundo. Temos de nos conformar com o fato de que estamos deitados aqui e observamos o Ivan e que de tanta raiva a nossa bunda treme.

Pouco depois de meia-noite foram bem para a frente, receberam o informe de um sargento, que em vista de tantas autoridades elevadas, começou a gaguejar, e depois se arrastaram, ao longo da trincheira de comunicação, para as posições avançadas. Como o buraco era demasiado pequeno para abrigar todos, tinham retirado as sentinelas uma meia hora antes. O Major Halbermann fitou, quase amorosamente, a corda da posição dianteira para a trinchei­ra. O barbante terminava em uma trave de madeira com latas de conservas va­zias. Quando as latas começavam a chocalhar, isto significava: Alarme, saiam dos abrigos de terra! Ataque do Ivan!

Durante alguns momentos Halbermann pensou na época em que era chefe de companhia diante de Leningrado, antes de ter sido desligado e envia­do para a Escola de Comando e Estado-Maior e depois se tornara Major i. G. O chocalhar das latas de conservas — a gente parava de pensar, só era arma.

Estavam deitados no buraco das sentinelas avançadas e olhavam para a frente, para as posições soviéticas. Langhesi estava agachado bem à esquerda e estava aborrecido porque uma protuberância de terra lhe tapava em parte a visão; depois, em ordem, estavam o Major Schlimbach, o Tenente-Coronel von Rahden e o Major Halbermann. Tinham colocado seus binóculos noturnos sobre a borda de terra e fixavam rigidamente a estepe.

— Distância? — perguntou von Rahden. — Aproximadamente?...

— Até as pequenas colunas de fumaça dos abrigos? — Halbermann em­purrou para a frente o lábio inferior.

— Sim.

— Talvez 400 metros.

— Ou 500?

— Não creio. Isto ilude.

— Portanto, os sujeitos se arrastaram, feito focas, cerca de 400 metros pela estepe adentro, para desertar. Não podemos admitir que tenham marchado eretos, com os braços levantados. . . senão teriam sido vistos das trincheiras. Portanto, arrastam-se e chegam ao outro lado, sem ser molestados. O que o senhor deduz disto?

— Os soviéticos os estavam esperando.

— Correto! Costuma-se atirar logo em um homem que se arrasta para as linhas inimigas! Os Ivans também têm observadores bem na vanguarda. Quem sabe onde estão deitados? Talvez possamos acenar para eles!

— E foi exatamente o que fizeram os desertores e depois saíram por aí, feito focas! — disse o Major Schlimbach, convencido. — Isto explica o absolu­to silêncio da façanha.

— Devíamos experimentá-lo! — O Major Halbermann riu, cacarejando.

— O quê? — von Rahden olhou de esguelha para o lado.

— Levantar um lenço branco. Veremos como reagem.

— Negativo! Nada de provocações, Halbermann! Eu não quero provocar nenhuma salva de tiros de morteiro. Em minha opinião chegamos um pouco mais perto da verdade. Que merda! Milhares de lábios rubros te esperam em Moscou. . . Que eles com isto conseguem seduzir, para o seu lado, uma só ca­beça apenina cacheada! Meu Deus, que soldados. . .

Empurrou-se um pouco mais para cima, observou as bandeirolas de fumaça sobre os abrigos de terra e viu, feito sombras, algumas formas movimen­tarem-se de um para o outro lado. Parecia que os víveres eram trazidos para a frente. Leite congelado em pedaços, pão que depois de descongelado se trans­formava em pasta. Sopa de repolho que depois de esquentada fedia a fel.

— São uns pobres porcalhões, lá do outro lado, exatamente como nós. . . Olhe para isto, Halbermann! Chamou Von Rahden excitado. — Isto não pode ser verdade. Os meus óculos ficam embaçados! Lá. . . um pulo de polegar da coluna de fumaça da direita na nossa frente, para a esquerda, em dire­ção ao meio. Percebeu? Isto é incrível.. .

— Mulheres! — O Major Schlimbach empertigou-se um pouco mais no buraco das sentinelas. — Duas mulheres! Sem dúvida alguma!

— Podemos percebê-los pelos cabelos compridos, encaracolados! Eles re­cebem visitas femininas na posição! — von Rahden bateu com o punho na borda da terra. — Gente! Que coisa! Isto faz até um negro ficar branco!

Todos se esticaram, saindo metade do buraco e levantaram seus binóculos.

Sua roupa branca de camuflagem fazia com que fossem confundidas com a neve.

Usavam botas macias, grossas, de pele, um boné bem apertado de lã, que só deixava livre os olhos e uma nesga sobre a boca, para respirar, capuzes forrados de pele e luvas brancas, tricotadas, de lã grossa.

Estavam deitadas em um buraco de granada, duas formas esticadas, lisas. Respiravam com a boca encostada na terra, para que a respiração não as denunciassem, e fitavam, silenciosas, através dos telescópios de mira. Até suas carabinas de canos compridos estavam pintadas de branco.

O funil era suficientemente grande para três. Estavam deitadas á vontade, podiam se movimentar livremente e podiam ficar aconchegadas atrás da arma. A noite era razoavelmente escura; sobre a neve havia uma claridade difu­sa. A fraca claridade concentrava-se no telescópio de mira e circundava o obje­to visado com uma espécie de áurea. A morte tinha uma auréola de santo.

— Cada uma toma aquele que estiver à sua frente — murmurou a forma do meio. — Contarei de 10 para trás. Ao chegar a zero, atiraremos em conjunto.

— E o quarto? — perguntou a forma à esquerda.

— Dou 30 tiros em um minuto. . . — respondeu a da direita.

— Fanfarronice! Você só tem cinco no arsenal.

— Em Frunse atirei com seis espingardas, uma atrás da outra. Trinta em um minuto. Está nos meus papéis.

— E quantos acertaste?

— Vinte e quatro. . . no meio. . .

— Artista! — A forma do meio colocou o dedo indicador, vestido com a luva branca tricotada, no gatilho da carabina. As duas outras a imitaram. Esta­vam deitadas na neve, planas, como uma leiva sobre a qual passara um trator, invisíveis, mesmo que alguém estivesse um metro diante delas.

— Conto... Dez... nove... oito... sete...

Na cruz reticulada dos telescópios de mira rostos pálidos com binóculos luziam foscamente. Sob os capuzes de camuflagem as beiradas dos capacetes de aço. Depois um queixo livre, um pescoço, a gola do uniforme. Não eram al­vos bons, os binóculos atrapalhavam, descartavam os olhos como alvo. Só res­tava um pedacinho mínimo sobre a raiz do nariz, o lugar entre o binóculo e a beirada do capacete de aço, ou talvez pelo pescoço, mas isto já era menos se­guro. . . muitos já tinham sobrevivido com um tiro no pescoço; aí seria neces­sário usar um cartucho explosivo. Mas isto elas desdenhavam. . . bastava-lhes o cartucho M-30 com a ponta amarela, o cartucho que apelidavam a “pomba gorda”. Quando a M-30 acertava, podia-se fazer nova marca no livro de tiros. E acertavam sempre.

Elas miraram pelo telescópio. . . a pequena mancha branca sobre a raiz do nariz estava em linha reta. Conheciam suas carabinas como o próprio cor­po; não havia desvio, estavam familiarizadas com cada palmo. . . se não acer­tassem no alvo, não fora a arma que fracassara, mas o atirador.

—  . . . seis. . . cinco. . . quatro. . . três. . .

O indicador curvou-se para o disparo. Os rostos no reticulado, brilhando à luz obscura da neve, quase cresceram para elas. Aumentavam, saíam mais da terra. . . os canos das espingardas os acompanharam, o campo de visão melho­rou, os binóculos desapareceram dos rostos, os olhos ficaram livres, um alvo quase ideal. . . olhos que fitavam em sua direção, sem as ver.

— . . . dois. . . um. . . zero.

Ecoou como um só tiro. Dois segundos após soou o quarto. Mais rápido ninguém podia atirar. Abrir a trave, colocar o cartucho, fechar a trave, disparar. . . em dois segundos.

— Tarde demais! — A forma do meio virou a cabeça para o lado. — Isto também não era possível. O reflexo de agachar-se ser mais rápido do que o seu de carregar a arma.

Soava sombrio como o julgamento no campo de treino de tiro. Novamente olharam pelos telescópios de mira e viram como o quarto adversário, acossado, meio engatinhando, meio correndo para a frente, fugia em direção às posições alemãs. Já não era mais um alvo. Seria desonroso acertar talvez na sua bunda.

As três formas quase invisíveis viraram-se para o lado e se entreolharam. Sorriram uma para a outra e puxaram as carabinas para si.

— Parabéns — disse a do meio. — Parabéns, Schanna.

— Parabéns, Lida.

— Parabéns, Darja.

Elas ainda esperaram alguns minutos, mas do lado dos alemães tudo era silêncio. Depois rastejaram, em fila, até uma trincheira onde se deixaram cair. Lá se abraçaram, beijaram-se na face e correram, abaixadas, para as posi­coes construídas, bem camufladas. Só no abrigo de terra arrancaram as boi­nas das cabeças.

Elas tinham cachos marrons, pretos e castanho-avermelhados e rostos bonitos, quase infantis, de mulher. . .

O Tenente-Coronel Von Rahden descobrira o mistério dos desertores. Pelo me­nos, acreditava nisto. Mirava, encarniçado, os vultos femininos ao lado do abrigo de terra soviético.

— Mais perguntas? — Olhou rapidamente para o Capitão Langhesi. —Sinto muito ter de dizê-lo, mas isto só pode acontecer a italianos. Vêem lá do outro lado algumas bundas espetaculares de putas. . . e pronto, lá estão! Que merda é esta! Onde está uma saia, para eles abre-se a dobradiça. O senhor sabia que os Ivans recebiam visitas de mulheres?

— Não. . . — respondeu o Capitão Langhesi, rouco de raiva. — E protes­to! Não admito que difamem a minha nação!

— Sr. Capitão. . .! — disse rispidamente o Tenente-Coronel Von Rahden. Ora vejam! Um oficial subalterno protestando contra a verdade?! — O que eu vejo, vejo! E eu sei pensar logicamente! E terceiro: Eu estive meio ano na frente italiana nos Bálcãs. Como observador. Cruz credo, o que vivi! De espan­to o boné pairava nas pontas dos cabelos! — Von Rahden virou-se novamente para as linhas soviéticas a fim de observar as mulheres. Elas haviam desapareci­do. A ampla estepe estava abandonada, sob a luz difusa da noite de neve. — Agora, não estoure logo por orgulho nacional ferido! Nem todos podemos ser prussianos! As mulheres sumiram! Meus senhores, a meu ver, a questão dos desertores está esclarecida.

Baixou o binóculo e pestanejou, olhando para a amplidão. Também o Major Schlimbach e o Major Halbermann baixaram os seus. Neste instante, ecoou um tiro. O Capitão Langhesi, instintivamente, jogou-se no buraco, de lado. Quase simultaneamente, soou um segundo tiro. Langhesi ouviu a bala chispar sobre sua cabeça, agachou-se, levantou os ombros e encolheu-se como um ouriço. Se agora viessem também atiradores de granadas, a situação pode­ria ficar mais crítica.

— Sumam! — sibilou para os três oficiais alemães. — Eles estão começan­do a atirar de verdade!

Mas os oficiais não se moveram. Estavam deitados à beira do buraco, com as cabeças abaixadas e pareciam aguardar. Só era estranho que estivessem deitados com as cabeças em cima da beirada.

Quando tudo permaneceu em silêncio, o Capitão Langhesi esticou a ca­beça para fora, a fim de fazer uma pergunta. Neste momento, chamou sua atenção a postura espasmódica do Major HaJbermann. Ele estava deitado na beirada, a perna esquerda encolhida e os braços abertos, como se quisesse alçar vôo, à guisa de pássaro. Ao lado dele estava deitado o Tenente-Coronel von Rahden, com a cabeça virada para o lado, parecendo dormir. O Major Schlimbach estava na ponta mais longe. . . deitado com o tórax sobre a beirada e com o rosto na neve. Só então o Capitão Langhesi compreendeu. Engoliu em seco várias vezes; depois arrastou-se de barriga para fora do bura­co na trincheira plana e correu, acossado, de volta para as posições alemãs.

O Major Vinzenzo estava agachado no abrigo da companhia, ao telefone de campanha, e falava com o regimento. O seu plano, acompanhar os oficiais alemães aos postos avançados, fora desbaratado por um chamado de Bartollini. Ele queria ir logo depois atrás deles.

— Por um acaso soube onde o senhor está! — berrou Bartollini. — O senhor endoideceu, Vinzenzo?! Já não basta que o senhor se deixou pirar com essa história dos desertores, não, agora o senhor também arrasta os três camaradas alemães para essa idiotice! Se nesse piquenique sem sentido alguma coisa acontecer. . .

— O que poderia acontecer, coronel? — respondeu Vinzenzo, confiante. — Os senhores alemães decerto não irão desertar.

— Coloco a responsabilidade nos seus ombros, Vinzenzo!

— Esta parte da frente está calma como um cemitério. Seguirei logo os alemães. Não existe perigo algum.

— O senhor é responsável por tudo, Vinzenzo! — O Coronel Bartollini continuava cético. Estes jovens oficiais de estado-maior! Lá vem um fedelho de Milão, entupido de conhecimentos acadêmicos e teoria sagrada; ficou alguns meses na Grécia, na frente de batalha, e pouco tempo na África do Norte, mas quanto à Rússia, não tem idéia alguma do que seja. Pensa que a guerra é igual por toda parte. Onde se atira, agachar-se e atirar de volta, e quando a gente percebe que é o mais fraco, ver como se sai do aperto. Tão simples é a guerra. . . — A delegação alemã veio para uma conferência de esta­do-maior e não para observar as trincheiras.

— Foi decisão própria dos senhores, coronel.

— Sim, depois que o senhor lhes acenou com um bombom! Naturalmen­te iriam mordê-lo! Vinzenzo, a responsabilidade é sua!

O Major Vinzenzo não teve oportunidade de seguir os camaradas alemães. Depois da do regimento ainda recebeu uma chamada da divisão. Em ou­tro local uma tropa de choque tinha feito alguns prisioneiros. Seu interrogató­rio pintava um quadro dantesco da situação da frente. Já que Stalingrado não representava mais um grande problema para os soviéticos e não prendia mais suas tropas, exércitos repousados, descansados, marchavam na estepe do Don para tomar de assalto as linhas alemãs já dizimadas. Poderia tratar-se apenas de alguns dias até que fosse solto o rolo compressor de fogo. As perspectivas eram desesperançadas.

Vinzenzo levantou o olhar ao ver o Capitão Langhesi tropeçar para den­tro do abrigo e se apoiar contra a parede de terra, reforçada, respirando com dificuldade, os pulmões sibilantes. Lá fora se ouviam passos rápidos e uma gritaria louca. Engoliu espasmodicamente.

— Obrigado — disse ao telefone. — Fim. — Depois colocou o fone no gan­cho e respirou fundo. — O que aconteceu, Langhesi? Meu Deus, não o diga...

— Artilharia. — Langhesi escorregou da parede e sentou-se em um banco. — Soou como um tiro.

— Soou. . .

— Mas foram três.

O coração de Vinzenzo gelou, como se tivesse virado picolé. A figura do Capitão Langhesi dissolveu-se diante de seus olhos, esfumaçou-se como um vulto refletido na água.

— O que quer dizer com isto. . . — murmurou.

— Sim. Tiros na cabeça. Todos três.

— E por que motivo o senhor ainda está vivo? De onde tirou a petulância de ainda estar aqui sentado?!

O Capitão Langhesi enxugou o rosto. Suas mãos tremiam. Estava completamente nauseado.

—  Talvez eu estivesse deitado no ângulo errado. . . não sei. Rolei logo para o lado. . . o quarto tiro quase me acertou. . . Foi questão de um segundo.

— O senhor deveria ter esperado durante este segundo! — disse Vinzen­zo cansado. — Meu Deus, o que fazemos agora?

— Mandarei buscar os mortos. Dar notícia. . . o senhor comunicará este acontecimento às autoridades? Ou devo fazê-lo eu?

— Falarei com o comando geral. — Vinzenzo levantou-se, passou por Langhesi e saiu para o ar livre. Alguns soldados da tropa, empenhados em rachar lenha, empertigaram-se e se colocaram em posição de sentido. Sob um telhado de madeira fumegava a cozinha de campanha. Cheirava a sopa de lentilhas. O sargento-mor da companhia discutia com quatro soldados envolvi­dos em mantas, diante do escritório, a nova situação: três oficiais do Estado-Maior, simplesmente despachados! Como se fosse nada, em uma posição abso­lutamente tranqüila. Madonna mia, este espetáculo ainda vai continuar! O chefe da companhia já se pusera em marcha, com uma tropa e três trenós planos, para buscar os mortos.

Ao perceber o Major Vinzenzo, o sargento-mor calou imediatamente a boca e escondeu-se no abrigo do escritório.

O senhor é responsável. O senhor responderá por tudo!

Vinzenzo fechou os olhos e não sentiu o frio, que imediatamente encheu sua cabeça desprotegida de mínimos cristais de gelo. Então é isso aí, Mamma, pensou, com amargura no coração. Em Milão, na estação do trem, você disse: “Meu pequeno Angelino, volte são. Agora você pertence ao Estado-Maior, não precisa mais ir para a frente. Fique sempre perto do seu general. . . a grande maioria dos generais sobrevive â guerra. Pense que você precisa assu­mir o negócio de papai. Você não quer ser soldado para sempre, quer? Um negócio de ferro tão grande não existe outro em Milão. Pense nisto, Angeli­no. . . sempre ficar perto do general, aí você está seguro!” E então ela segu­rou sua mão, correu ao seu lado, na janela do trem, até que suas pernas cederam, acenou com os dois braços e chorou, e ele levou este retrato para a Rússia — o retrato da pequena Amélia Vinzenzo, tão corajosa, que acenava para seu filho único e estava tão feliz, porque ele não precisava mais deitar-se nas trincheiras, mas podia sempre andar ao lado do general.

Você chorará um pouco, mas depois a vida continuará, minha linda Loretta, e você aprenderá a amar outro homem. Quão lindo fora, quando estávamos deitados, perto da casa da Tia Rosa, sob as oliveiras, cansados de fazer amor, suados e apenas esperávamos que novas forças voltassem, para nos devorar mutuamente, mais uma vez. “Eu quero um filho seu!”, disse você. “Não me importo com o que os outros digam. Afinal de contas, casaremos depois. Mas agora eu quero um filho! Quem sabe quanto tempo a guerra ainda vai durar, então quero algo seu. Não apenas uma fotografia, não apenas o medalhão, não só as cartas. . . eu quero um pedaço de você mesmo.” Não o fiz, tomei precauções e você ficou realmente zangada, Loretta. Está vendo como fiz bem? O que você teria agora, se estivesse grávida? Uma mulher solteira com uma criança — isto é sempre um problema na Itália. Então, desse jeito, você é uma moça jovem, livre. Esqueça Ângelo Vinzenzo depressa, Loretta, por favor o esqueça. Continue vivendo. Eu a amo. . .

Vinzenzo afastou-se, foi para o abrigo da companhia e viu Langhesi, que ainda estava sentado, apoiado na parede. O seu rosto estava todo enrugado. Parecia um ancião.

— Trarei os camaradas alemães de volta ainda esta noite — disse o Major Vinzenzo. — Isto é melhor do que transmitir a notícia agora por telefone. O senhor pode entregar o seu relatório mais tarde. E esqueça o que eu falei antes.

— Não sei o que o senhor quer dizer, major.

— Perguntei-lhe por que não foi o quarto. — Vinzenzo enxugou com ambas as mãos o rosto, no abrigo aquecido, procurando tirar os cristais de gelo semidissolvidos dos cabelos e da face. — Deveria ter dito: por que não sou eu o quarto?

Uma hora mais tarde o Tenente-Coronel von Rahden, o Major Schlimbach e o Major Halbermann estavam deitados, lado a lado, diante do abrigo da companhia, em cima de trenós planos. Fora possível resgatar os cadáveres sem troca de tiros. Os russos não deram um pio. Mas todos tinham certeza de que olhos atentos observavam todos os detalhes do transporte.

Vinzenzo retirou as cobertas que haviam sido estendidas sobre os mortos. Como todos os outros que tinham visto aquelas cabeças, sentiu um choque lancinante.

Todos os três tinham morrido da mesma maneira: um tiro exatamente no olho esquerdo. Exato como um ponto, quase inacreditável. No lugar do olho agora só havia um buraco no crânio. Nem demasiado perto do nariz, nem demasiado perto das têmporas, não, os olhos tinham sido arrancados com pre­cisão, como se se desejasse colocar novos no lugar.

— Inacreditável! — exclamou o Capitão Langhesi rouco. — Devem ser ti­pos da Sibéria. A maioria dos artilheiros provém da taiga.

Vinzenzo cobriu novamente os mortos. Caíram pelo Fuehrer e pela pátria, dirão a seus pais e a suas mães, às esposas e filhos. Combateram corajosamente pela vitória final, para a manutenção do Reich. E na realidade tinham sido apenas curiosos e levantaram demasiado as cabeças, porque tinham avis­tado mulheres. E a isso se chama uma morte de herói. . .

De madrugada a pequena coluna alcançou o posto de saúde de emergên­cia do regimento. Lá os três oficiais alemães foram levados para um caminhão e transportados para o Estado-Maior do Exército. Vinzenzo declinara sentar-se na frente, ao lado do motorista, e agachara-se perto dos cadáveres, sob o toldo.

Era uma viagem aos solavancos sobre a estrada congelada para Staro-belsk. O caminhão sacolejava, o motor berrava angustiado, várias vezes as ro­das derraparam, chiando. Com este barulho é impossível escutar um tiro lá na frente, onde está sentado o motorista, ao volante.

O próprio Coronel Bartollini saiu ao relento, para vigiar o descarrega-mento dos três cadáveres.

Eram quatro mortos.

Com um gesto pétreo o Coronel Bartollini colocou a mão no boné, quando transportaram, por último, Vinzenzo, em maça.

Na carta que ele escreveu a Amélia Vinzenzo, a mãe, disse: “Ângelo cumpriu seu dever. Isto é o máximo que se pode relatar de um homem. A senhora pode orgulhar-se dele.”

Amélia Vinzenzo jamais compreendeu como seu filho poderia ter caí­do morto ao lado de um general. Foi para ela um enigma, que lentamente obscureceu seu espírito.

Todos que tiveram ciência de que tipo de comando fora entregue a Foma Igo-revitsch Miranski, estalavam gostosamente com a língua, fitavam-no brejeiramente, e o invejavam.

— Um sortudo! — diziam. — Logo ele acerta em cheio! Prestem atenção, quanto tempo ele o agüentará! Já não é dos mais fortes, e agora isto! Nos pri­meiros tempos irá correr por aí com a braguilha aberta, o filho da puta imun­do, mas depois terá dificuldade até em achar a sua espada orgulhosa! Como é que um tipo da laia de Foma Igorevitsch ganha um comando desses?! Sempre escolhem os errados. . .

Durante algum tempo Miranski perambulou como um galo premiado, deixou-se admirar, cuidou do bigode, graças ao qual tinha uma certa semelhança com o Camarada Stalin, mandou cortar os cabelos já pintados de cinza, e arranjou no mercado negro botas altas, macias, que nem um marechal usava.

Seis semanas após voltou de férias por três dias e tinha uma aparência completamente diferente. Ficava sentado mudo, quando caíam em cima dele e o atormentavam com perguntas. Com olhos murchos fitava os amigos, que ainda estalavam bobamente com a língua.

Seu vizinho Tichon Ignatjevitsch gritou, intencionalmente:

— Camaradas, deixem-no em paz, o pobre coitado. Vocês não estão vendo que lhe chuparam todo o tutano dos ossos. . .

Só então Foma deixou escapar uma observação:

— Oh, seus idiotas chapados! Por acaso vocês sabem o que significam 239 mulheres em um montão?! Preferiria o inferno com um número igual de diabos! Se eu tivesse tido alguma suspeita a respeito do que iria fazer teria me escondido no buraco mais fundo, junto com os esquilos. . .

Na realidade, não estava exatamente animado com sua nova missão. Era difícil entender o que aí havia para que se queixasse. Afinal de contas, rece­bera a incumbência honrosa de cuidar espiritualmente, como comissário po­lítico, de uma tropa especial, composto só de mulheres. Atenção, só mulheres jovens, moças de famílias escolhidas, camaradas bonitas, corajosas, empolga­das pela guerra, que tinham sido recolhidas de todas as direções da rosa-dos-ventos. Uma verdadeira unidade de elite, e Foma Igorevitsch se queixava amargamente e desejava até estar no inferno!

Era-lhe demasiado difícil e penoso explicar aos camaradas tudo que se vivenciava entre 239 mulheres, maravilhosamente treinadas, rigidamente disci­plinadas e totalmente isentas de medo. O pior nem era o fato de que ele era, ao lado de um tenente-instrutor, um subofícial das armas e um inspetor que só aparecia esporadicamente, o único homem que precisava viver constantemente entre essas moças. O tenente, Victor Ivanovitsch Ugarov, um rapazinho de 25 anos com olhos marrons protuberantes, logo cativara a comandan­te das tropas, a Capitoa Soja Valentinovna Bajda. Apesar de ser seis anos mais velha que Victor e estar dois graus acima dele na hierarquia militar, eles rapidamente dividiram o colchão e fizeram construir uma porta bonita, grossa, que sempre era levada junto no carro-bagageiro, para onde fosse que os comandas­sem. Mal tinham assumido uma nova posição e construído o abrigo, a porta era colocada na entrada e pronto estava o esconderijo dos chefes, inexpugná­vel. Por detrás da porta maciça ouvia-se, de quando em vez, a fogosa Soja Valentinovna suspirar e arfar, mas todos lhe outorgavam esse prazer. Seu marido fora morto em 1941, bem no início da guerra, e a uma viúva, que sabe o que vale um homem no momento certo, não se pode proibir seu pão de cada dia.

Portanto, o tenente foi rapidamente aprovisionado.

O subofícial de armas era um homem mais velho, carrancudo, que ti­nhá ao lado de seu catre a fotografia de uma mulher gorda com sete filhos, e que dizia a todos ter saudades de Marusja. Um dia até fugiu, rubro de ver­gonha, quando um grupo de moças o seduziu para a Banja, onde 10 corpos nus sacanas o rodearam, dançando. Só uma única vez tentou aproximar-se da gorducha Dusja. Escondeu-se com ela em um celeiro, chegou a abaixar as calças, mas depois a sua excitação e culpa psíquica foi tão grande que co­locou abalado as mãos sobre o seu penduricalho destituído de vontade. Dus­ja quase morreu de rir, sacudiu os peitos diante do nariz dele e berrou: — Até uma pulga tem um ferrão mais forte!

E deixou o pobre coitado sozinho no feno. Foma Igorevitsch teve um trabalho desgraçado para evitar que o suboficial se castrasse, com uma faca.

O inspetor era um covarde. Como todos os outros homens perambulava atrás na retaguarda, e administrava as moças como se fossem caixas de sapatos. Se alguma vez se acercava das tropas, ficava arrogante e convencido, reclamava de tudo, lamentava o gasto, na sua opinião excessivo, de calcinhas e sutiãs, e obrigava as moças a calcular exatamente quantos absorventes higiênicos necessitavam por mês.

É compreensível, portanto, que de um tal sujeito nojento nenhuma atração se irradiasse. Foma Igorevitsch afirmava que o motivo para o comportamento repelente desse camarada sequérrimo era o medo puro. De uma uni­dade de elite similar vinha uma fofoca de que um comissário era de tal modo aberto a todos os prazeres, que fora necessário transportá-lo para um hospi­tal, senão teria simplesmente ressecado.

Com Foma Igorevitsch acontecia coisa diferente. Era respeitado como comissário político, aparentemente era considerado assexuado e o utilizavam como padre confessor, e isto era o pior de tudo!

Além disso, a unidade da Capitoa Bajda era uma unidade muito especial — a elite das elites, a melhor das melhores, as mais corajosas das corajosas: artilheiras que eram capazes de acertar, de uma distância de 100 metros, uma moeda de um kopek no topo de uma garrafa.

Quando Foma Igorevitsch viu esse feito pela primeira vez, desejou jamais brigar com uma daquelas moças. Nem conseguia pensar em ciúme. Como único homem ainda disponível, tinha a sensação de que constantemente 239 canos de carabinas estivessem dirigidos contra si.

Camaradas, confessem, um homem precisa de nervos para agüentar tais coisas!

Quando Foma Igorevitsch contou tais episódios em suas férias, em todos os cantos dominou um grande espanto. E para dramatizar ainda mais, acrescentou, como se fosse uma bagatela:

— Ah, queridos irmãos, preciso me calar. Tudo é um grande segredo. Se vocês soubessem. . . — pestanejou e fez um ar de recato. — Acontecem coi­sas que preciso guardar no fundo do meu coração. Talvez depois da vitória ouvir-se-á mais de nós. . . talvez não. Mas é uma tarefa especial, que eu preciso dominar.

Há três semanas voltara para a frente, estava agachado no abrigo de terra molhada e esperava a mobilização. As moças se exercitavam, construíam bonecas e estrelas e outras figuras para a festa de Natal ou para o dia de Papaizinho do Gelo, com madeira e palha, pedaços de fazenda coloridos e papel pintado, entediavam-se ou escutavam rádio. Vibravam com cada notícia de vitória de Stalingrado, acompanhavam os progressos do Exército Vermelho em um enorme mapa e Foma Igorevitsch — responsável, na qualidade de comissário político — aproveitou a oportunidade, fez conferências sobre a cora­gem dos soldados e o caráter diabólico dos alemães e vaticinava que ainda este inverno os agressores seriam expulsos da Rússia, como coelhos assustados.

Finalmente veio a liberação do serviço de retaguarda. Durante a noite foram levados para a linha mais avançada, por meio de trenós. Ocuparam uma trincheira comprida e vários abrigos de terra e observavam os alemães até que o Tenente Ugarov deu a notícia de que os do outro lado não eram Njemtsi e sim italianos.

Isto levantou consideravelmente os ânimos. Pela primeira vez em suas vidas as moças tinham oportunidade de conhecer italianos! Quem é que vai a Roma ou Veneza, saindo de Ust-Balaisk ou Karangada, de Tschemlaki ou Tassken? Quem tinha dinheiro para isso? Todas só conheciam a Itália das revistas, com suas fotografias coloridas; deveria ser uma terra maravilhosa, na qual viviam pessoas alegres e especialmente muitos homens bonitos.

Contudo, tais pensamentos não as fazia esquecer a guerra. Schanna Ivanovna Babajeva foi a primeira que pôde registrar uma nova marca em seu livro de tiros: quando estava há apenas cinco horas da linha mais avançada, viu um inimigo, que estava ocupado em aumentar um buraco de sentinela avançada e agia sem muitas precauções. Era a hora do crepúsculo, os montões de terra voavam pelos ares, de vez em quando surgia uma pá, depois a cabeça, às vezes os ombros. Como uma minhoca o homem se embrenhava no solo congelado.

Schanna Ivanovna observava o rapaz ativo. Pôs a parte de trás de sua cabeça na mira e curvou o indicador no gatilho. Foi o primeiro morto por uma artilheira na região de Tschjertkovo.

Com uma caneca de chá fumegante o tiro certeiro foi registrado no livro. Schanna estava feliz e orgulhosa. Tinha só 18 anos, cachos pequenos e pretos como um carneiro do Karakul, olhos escuros redondos esbugalhados e um verdadeiro rosto de Madona. Nascera em Tompa, um lugarejo no Lago Baikal; lá cuidara de um rebanho de carneiros e teria permanecido pastora toda sua vida, se em Nishnij Angarsk não tivessem ouvido falar dela. Lá, na cidade mais próxima, falava-se de uma pastora de carneiros que atirava em. ursos e águias, raposas e coelhos de neve, de modo a que parecessem ter tido um infarte fulminante. Nenhum buraco no pêlo. . . cada tiro no olho ou no meio da testa; portanto lá, onde a bala não causa danos à pele. Só possuía, entretanto, uma espingarda velhíssima, que herdara do avô, uma arma de retrocesso que qualquer pessoa normal, temerosa de que a bala saísse por trás ao invés de pela frente, não teria segurado mais do que uma única vez.

Buscaram Schanna Ivanovna — nesta época tinha 14 anos e não sabia ler nem escrever — levando-a para Nishnij Angarsk. Observaram como atirava em um alvo e a enviaram a Irkutsk. Lá, ao perceberem seu incrível talento, puseram-na em um internato e em três anos fizeram dela uma pessoa excepcionalmente inteligente e a condecoraram com a Ordem dos Artilheiros de Komsomol. Schanna Ivanovna simplesmente acertava em tudo para o que dirigia o cano de sua espingarda. Com apenas 17 anos, enviaram-na finalmen­te para Moscou, para a escola central de artilheiros femininos em Veschnjaki — não havia honra maior.

Em Veschnjaki encontrou as outras moças — Marianka, Lida e Darja. Elas se exercitavam no pátio da caserna, carregavam pesadas mochilas de linho em marchas violentas, de quebrar os ossos, embaixo de sol ou de nevascas; aprenderam a se camuflar e se enfiar terra adentro, a se transformar em arbustos, a trepar em árvores e se tornar invisíveis nos ramos; aprenderam a afundar nos pantanais e só respirar por tubos de cana — nada lhes foi poupado. Assim como para os homens das unidades de elite foi-lhes exigida uma disciplina militar férrea; tornaram-se exímias em lutas corpo a corpo, e cumpriam missões solitárias com uma coragem fria como gelo, que superava qual­quer pensamento; transformaram-se em criaturas que esqueciam sua humani­dade no momento exato em que uma cabeça surgia na cruz reticulada de seu telescópio de mira.

Quando receberam seus uniformes de campo e iam ser enviadas para a frente, a comandante da escola central fez um breve discurso:

— Vocês chegaram aqui como mocinhas tolas e agora são verdadeiras guerreiras! — gritou a Coronel Olga Petrovna Rabutina com uma voz clara, semelhante a uma trombeta. — Guerreiras disciplinadas, entusiastas, tempera­das a aço, física e psiquicamente! Vocês estão preparadas para executar qual­quer ordem da pátria! A pátria deposita suas esperanças em vocês! À vitória!

Sim, elas estavam todas muito orgulhosas. Receberam os livros de tiros, pequenos livros de aparência inofensiva, que podiam ser guardados na bolsa, com muitas páginas em branco, que desafiavam a ambição das proprietárias.

Um livro da morte registrada. Um livro de bolso da ausência de piedade, do matar frio; um livro que era dedicado à arte de acertar a bala exatamente na raiz do nariz, fazendo um buraco.

Um registro de sangue e lágrimas e morte rápida em segundos.

Elas eram capazes de atirar de qualquer posição e com qualquer iluminação. Moças jovens, alegres, bonitas nos uniformes cor de terra, que agora eram enviadas para a frente. Eram amigas e juraram ficar juntas, se possível, e matar muitos alemães. As que tinham recebido as melhores avaliações cedo formaram um pequeno grupo e se apresentaram à Capitoa Soja Valentinovna Bajda e ao seu formoso Victor Ivanovitsch: Marianka Stepanovna Dudovska-ja, Schanna Ivanovna Babajeva, Darja Allanovna Klujeva, Dda Hjanovna Se-lenko.

Elas eram as melhores de sua turma. Mas já em Veschnjaki se murmura­va que ainda havia um verdadeiro gênio de artilharia, uma tecelã da Ucrânia, de 20 anos de idade, um verdadeiro diabinho, diziam. Quando os alemães in­vadiram a Ucrânia, tinha-se deitado em florestas e cavernas; junto com nove homens tinha feito voar pelos ares as ruas, assaltado caminhões da retaguar­da alemã, colocado minas, incendiado armazéns de provisões, aniquilado tro­pas de espia que procuravam guerrilheiros e transformado depósitos de gaso­lina em imensas tochas.

Era uma das poucas que possuía um livro de tiros ao chegar a Moscou. Com 24 tiros documentados. Também já tinha a condecoração pela coragem. Mas tudo isso eram boatos. Ninguém a tinha visto ou falado com ela, não fazia parte da última turma em Veschnjaki; muitas moças não levavam a sério essas histórias e julgavam que a mulher só fora inventada para animar a tropa. Mesmo quando se soube o seu nome, permaneceram céticas. Afinal de contas, o que é um nome?

Como se chamava a camarada da Ucrânia? Stella Antonovna Korolenkaja?

Se ela realmente existir, certamente logo ouviremos algo a seu respeito.

O nome foi rapidamente esquecido — o dia-a-dia da frente prendia a atenção das moças. A Capitoa Soja Valentinovna tivera uma idéia, a respeito da qual riram gostosamente, embora se tratasse de um jogo perigoso com a morte. Mas durante a tediosa espera pela grande ofensiva a vir, era uma distração que excitava os nervos.

— Escutem! — disse certo dia a normalmente tão severa Bajda. — Essa história de ficar rolando por aí, sem nada fazer, não funciona. . . Vocês fu­ram o céu com o olhar, pensam. . . bem, não vou dar nomes aos bois. . . e só por acaso vocês vêem um inimigo e podem demonstrar o que aprenderam. E isso vai continuar assim? Não, penso que devemos tomar alguma iniciativa. Não podemos atacar, as ordens são muito severas, mas podemos cuidar de organizar alguma confusão. — Ela olhou a seu redor, no círculo das moças, e pestanejou algumas vezes. Ficou realmente alegre, a Soja Valentinovna usual­mente tão dura. Sua idéia parecia entusiasmá-la. — Diante de nós, na terra de ninguém, jazem, como vocês sabem, nove observadores inimigos. Geralmente trata-se de dois soldados em um buraco. Eu podia pensar que até seria agradá­vel olhá-los mais de perto...

As moças riram às escondidas. O que a Bajda quer dizer com isso?

— Explique melhor, camarada. O que quer dizer “olhá-los mais de perto”? Devemos esgueirar-nos para junto das sentinelas e liquidá-las?

— Amanhã vem uma tropa com alto-falantes — disse Soja Valentinovna. — Camaradas da divisão de propaganda. E ao pensar nisso, tive repentinamen­te a idéia. Escutem. . .

Em outro abrigo o Tenente Ugarov e o Comissário Foma Igorevitsch Miranski estavam agachados perto de uma mesa fabricada com tábuas toscas e jogavam xadrez. Há quase uma hora fitavam as peças e não conseguiam ir adiante. Era de desesperar.

— Isto não me agrada nada — falou Ugarov repentinamente.

— Também sou desta opinião. Vamos interromper o jogo — concordou Miranski.

— Não estou falando deste jogo imbecil. — Ugarov apoiou-se na parede de terra. — Penso no plano maluco de Soja.

— Ela tem um plano? — perguntou Miranski perplexo. — Que plano? Eu sou o responsável pelos planejamentos!

— Ela quer seqüestrar homens. . . — respondeu Ugarov, sombrio. Miranski esqueceu que seus joelhos estavam por baixo da mesa, estre­meceu e virou o jogo de xadrez.

— Estou escutando direito? — gritou espantado. — Victor Ivanovitsch, o senhor andou bebendo demais?

— Ela quer furtar homens. Simplesmente surrupiá-los. . .

— Onde? — gaguejou Miranski fora de si. — Ela enlouqueceu?

— Lá fora. Na terra de ninguém.

— O senhor está febril, meu caro Ugarov — Miranski olhou com pieda­de para o tenente. — Deite-se, estire os membros e beba uma caneca de chá. E transpire bastante. Nada como os velhos remédios caseiros! A minha vovozinha foi curada de difteria em criança, quando a obrigaram a beber a sua pró­pria urina.

Ugarov fitou Miranski com um olhar torturado e sacudiu a cabeça.

— Mas compreenda, Foma Igorevitsch: Soja quer seqüestrar as sentinelas avançadas do inimigo. . .

— Simplesmente levá-las consigo? — perguntou Miranski, como se falas­se com um doido varrido, perigoso, que só pudesse ser domado pela calma, para que não tivesse um ataque. — Colocar os homenzinhos no bolso, não é? Levar uma sacola e entulhá-los nela. É muito simples, né? O que o espanta nis­to, Victor Ivanovitsch?

— Entendo a sua ironia, Foma Igorevitsch. Mas Soja está levando esse plano a sério. Ela quer esvaziar os buracos de sentinelas. Silenciosamente e sem derramar sangue! Os homens devem ter simplesmente desaparecido, quando vierem outros para os render.

— Mas isto é pura idiotice! — berrou Miranski, indignado, batendo com os punhos nas coxas e tossindo excitado.

— Soja quer seduzir os homens.

— Com quê? Talvez queira untar suas calças com mel?

— É mais ou menos isto, Foma Igorevitsch. Seja sincero: o senhor também não ficaria chocado, se de repente surgissem duas moças na sua frente, abrissem a blusa, por um só momento informativo, e murmurassem ternamente: “mio caro”!

— Murmurar o quê? — perguntou Miranski ofegante, abalado com toda aquela história.

— Talvez também caro mio. . . eu lá sei! Os italianos estão na nossa fren­te. Soja pensa que este mio caro com um olhar para os peitos é suficiente para fazer sumir todas as idéias belicistas. Antes que os homens se tenham recupe­rado do espanto, receberão, pensa Soja, um golpe na cabeça e serão apanhados.

— Apanhados como? — perguntou Miranski. Seus olhos piscavam ner­vosos.

— Os surpreendidos serão trazidos para cá.

— Para cá? Aqui?

— É isto.

— Não, não é isto! — berrou Miranski, fora de si. — O que vamos fazer com italianos seduzidos pelas mamas?!

— Eles serão prisioneiros de guerra comuns, Foma Igorevitsch. Serão transportados para outro lugar. Segundo a opinião de Soja, a confusão do outro lado será imensa. Nenhum combate, nenhum tiro, nenhum rastro. . . serão considerados desertores! Isto vai causar desavenças e um imenso quebra-cabe­ça. A moral será minada.

Miranski sacudiu a cabeça. Uma puta doida varrida, esta Soja, pensou. Por que tenho de suportar isto, por que sou tão duramente castigado? O que fiz a Deus, que ele me faz cuidar de 239 fêmeas?

— Não existem prisioneiros — murmurou ele e suspirou fundo. — Não pode haver prisioneiros, Victor Ivanovitsch. Estou-lhe confiando, porque o se­nhor dorme na cama com Soja e com isto pode me ajudar muito: tenho or­dens de não fazer prisioneiros! Nenhum dos que encontrarem as nossas camaradas deve permanecer vivo! O Ukas é cristalino: uma divisão de artilharia não deixa atrás nenhum sobrevivente!

O Tenente Ugarov fitou Miranski, sério.

— Posso dizer isto a Soja Valentinovna?

— Aí não lhe dou nenhum conselho. Isto o senhor deve saber, Victor.

— Portanto nossa missão só reza matar!

— Pensei que o senhor soubesse disso. Estamos em guerra e devemos executar o que de nós esperam. Temos de eliminar o adversário e liberar a pátria. Todos podem fazer prisioneiros, Ugarov. . . só nós não! — Miranski abaixou-se e recolocou as peças no tabuleiro de xadrez. — Com isto o plano da Camarada Bajda é recusado.

Quase no mesmo instante Soja Valentinovna dizia, no abrigo vizinho, às moças escolhidas:

— Sempre irão quatro. Duas camufladas e com arma como defesa, duas de saia e blusa. Vocês sentirão frio, minhas caras, mas o êxito vale alguma tremedeira.

Nesta noite foram seqüestrados os dois segundos-cabos Luigj Tarnozzi e Salvatore Uganti.

Miranski dormia profundamente e sem de nada desconfiar no seu catre, depois de ter admoestado longamente Soja Valentinovna. Ela acenara com a cabeça e dissera:

— Isto faz sentido, camada comissário!

Miranski ficara tranqüilo e satisfeito.

O Tenente Ugarov estava sentado, contrito, no abrigo de comando, quando as quatro moças se esgueiraram para a terra de ninguém. Teve de suportar ser xingado pela sua querida Soitschka: um covarde, uma panela enferrujada, um galo envelhecido.

— Ele irá mandar puni-la! — lamentou-se. — Todos nós conhecemos Fo­ma Igorevitsch! É um imbecil vaidoso! Ele nunca a perdoará. . .

Por volta das 2:00 as quatro artilheiras arrastavam os dois prisioneiros italianos ao longo das trincheiras em direção ao abrigo de comando.

Fora tão fácil dominar os dois rapazes. Quando Darja abriu a blusa, ficaram petrificados em seu buraco e só a fitavam, sem nada compreender. Dei­xaram-se abater com um golpe na nuca feito bezerros idiotas.

O que se faz com dois prisioneiros que não se pode ter?

Foma Igorevitsch dormia o sono do satisfeito, mas ai!, quando ele acordasse e em sua ronda de todas as manhãs, pelas posições, se deparasse com os dois italianos! Naturalmente iria berrar, era seu pleno direito, mas o que viria depois? Responsável, naturalmente, era Soja Valentinovna Bajda; para ela o seqüestro de sentinelas não era apenas uma idéia maluca mas também uma medição de forças com o comissário. Entre os dois havia uma rivalidade secreta, desde há muito, exatamente falando, desde o momento em que Miranski tinha assumido a supervisão política da unidade especial feminina, se plantara diante das mulheres curiosas e proclamara em brados:

— A seção de escolarização política lhes dá as boas-vindas! Não basta encontrar a viseira e a ponta, mas cada tiro também deve ser acompanhado de amor à pátria! Coragem sem entusiasmo comunista é como limonada sem açúcar! E o que é isso? Água sem gosto! Vocês querem ser água insossa? Eu vim para entusiasmá-las ao combate!

— Ih! — chiou então a Capitoa Bajda. — O que foi que nos colaram na saia! Olhem para o homenzinho. E isto deve nos entusiasmar. . . um rato se-bento desses!

Já dissemos: Miranski teria preferido, mil vezes, trocar aquelas mulheres por um número igual de diabos e certamente ter-se-ia sentido melhor. Acontecesse o que acontecesse, onde quer que estivessem, na retaguarda, na frente, em Stalingrado ou agora na estepe perto do Don, sempre Miranski sentia que esbarrava contra uma parede de borracha, quando tinha de lidar com Soja Valentinovna. E sempre tinha de lidar com ela, diariamente, a cada hora, sempre. . . Bastava que Foma abrisse a boca e a Capitoa Bajda o fitava, como se ele estivesse cuspindo caroços de girassol contra o seu peito.

Mas hoje até Soja tinha sérias preocupações. Os dois prisioneiros foram levados para o abrigo do segundo trem e lá colocados no chão. Tiraram-lhe os capacetes e lhes abriram os uniformes sobre o peito. Ainda estavam incons­cientes e pareciam dormir — dois rapazes jovens com cachos negros e rostos infantis.

— Amanha” cedo, quando o camarada comissário acordar, eles já deverão ter desaparecido! — disse Soja Valentinovna com voz entrecortada. — Vocês foram corajosas, cumpriram maravilhosamente sua missão, provaram que nada pode impedi-las! Com isto o desafio terminou!

Ela acenou ligeiramente, ainda lançou um olhar para os dois vultos inconscientes e saiu do abrigo. Lá fora, no frio cortante, estava o Tenente Ugarov torcendo as mãos.

— Eles precisam ir para a retaguarda rápido! — disse excitado. — Imedia­tamente! Quanto mais depressa, melhor. Leve-os para o trem, aí então estare­mos livres deles.

— Hoje não vem mais nenhum trenó. — Soja esticou o pescoço e fitou a estepe ampla. — Só amanhã. . .

— Isto redundará numa catástrofe! Não podemos esconder os dois durante um dia inteiro!

— Não. Isto não é possível. — Bajda empurrou para a frente o lábio inferior. No boné de pele, que lhe emoldurava o rosto, brilhavam cristais pequeníssimos. O frio fizera o rosto avermelhar-se, os olhos ligeiramente enviesados miravam Ugarov. No seu olhar estavam ternura e frieza. Victor Ivanovitsch ter-se-ia deixado estraçalhar para agradar a essa mulher.

— O que será deles? — perguntou Ugarov, meio impotente.

— E eu lá sei? — Soja Valentinovna o abraçou e acenou para o seu abri­go. — Vamos, meu ursinho. . .

Ugarov fincou as pernas na neve congelada. Do abrigo do grupo II ecoa­vam risos alegres, nos quais repentinamente se misturaram os tons da bajan, um pequeno acordeão de botões. Era uma canção ligeira, que Ugarov conhecia por acaso. Era cantada nas longas noites frias de inverno, quando as pessoas se sentavam ao lado do fogão farfalhante de tijolos ou em redor de uma mesa no canto do quarto, onde o ar quente se acumulava. Uma canção que lembrava a primavera, as primeiras flores, a água fresca dos riachos, o calor desejado do sol. “Mocinha, levanta a tua sainha — dança com as pernas nuas — és alegre como um beija-flor — que beija os primeiros botões flori­dos. . .”

— O que é isto? — gaguejou Ugarov. — Elas endoideceram agora por completo?

— É Marianka — respondeu a Bajda, pondo a mão no ombro de Ugarov. — Venha logo. Está fazendo frio.

— Por acaso estão cantando uma cançãozinha para os prisioneiros?

— E o que me interessa isso?

— Amanhã cedo eles têm de estar longe! — berrou Ugarov e afastou bruscamente a mão de Soja. — Miranski vai dar parte de mim também!

Todos temiam essas notificações para o regimento e para a divisão. Os acusados eram chamados para se apresentar, muitas discussões não havia. Todas as infrações das normas eram consideradas atentados contra a moral de combate e eram registradas nos documentos. Também podia-se ser degradado ou enviado para regiões menos tranqüilas. Ou então recebia-se, como sanção, a missão de se juntar aos guerrilheiros atrás das linhas inimigas na região de Orscha-Mogjlev-Gomel e de sabotar os reforços alemães. Tudo isso agradava pouco a Ugarov. Ele não tinha ambição de se tornar herói. Estar na frente de batalha lhe bastava. Considerava-se um felizardo porque eram exatamente os italianos os seus adversários imediatos e não uma divisão totalmente alemã ou até uma brigada SS. Além disso a diversão diária nos braços macios de Soja era um favor que não poderia esperar ter em nenhuma outra frente. Tudo isso estava em jogo, quando Miranski acordasse e visse os dois prisioneiros. A sua boca fumegaria, espumante, de raiva; já tinham vivenciado isto várias vezes. Foma Igorevitsch podia ficar tão enfurecido, que todos pensavam: agora ele vai cair! Pode ter um colapso. Mas Miranski era um camarada duro, mesmo que não o parecesse.

— Amanhã cedo terão desaparecido — disse a Bajda quase consoladora.

— Como, se não vem mais nenhum trenó!

— Para que precisamos de um trenó? Venha logo, o frio me fura os ossos!

Ugarov vacilou, ficou á espreita e ainda escutava os tons da bajan. Durante um momento teve a idéia de dar uma olhadela no abrigo, para se convencer do estado dos dois prisioneiros. Mas Soja Valentinovna o acossava de­masiado, beijava-o nos olhos e puxava-o pelas calças, e contra tal argumento ele não tinha mais resposta. Afastou-se e a seguiu para o abrigo de comando com a pesada porta de madeira, à prova de som. O calor que o pequeno fogão redondo de ferro irradiava era como uma parede que se precisava quebrar. Soja retirou o boné de pele e o casaco, enxugou o rosto congelado com uma toalha e depois se livrou do restante de seu vestuário. Quando ela estava com­pletamente nua e o seu corpinho branco, maravilhoso, de formas bem arre­dondadas o seduziu, o sangue subiu à cabeça de Ugarov — e não só para este local — e por instantes esqueceu os dois italianos.

Isto foi o melhor que poderia ter acontecido a Ugarov, pois se ele quisesse executar conscienciosamente sua missão, teria de usar um chicote ou até puxar sua pistola. O que acontecia no abrigo do trem n° 2 já não era tolerável, mesmo com a interpretação mais liberal do espaço decisório que lhe pertencia na qualidade de oficial controlador da unidade feminina especial.

Luigi Tarnozzi e Salvatore Uganti eram amigos desde a infância”. Tinham nascido no mesmo povoado — Sorvanola, na Calábria — cresceram juntos em terrível miséria e aprenderam, depois dos primeiros passos independentes, que a vida era só uma luta amarga para encher a barriga, e que o direito de existir tinha de ser reconquistado eternamente em uma campanha incessante contra os ricos, os que tinham bens materiais, contra os funcionários e a polícia. Aos nove anos de idade foram presos pela primeira vez, porque tinham rouba­do toda a bagagem de turistas ingleses que acampavam na orla do povoado de Sorvanola. Com 12 anos desprezaram a escola e se mandaram para as mon­tanhas. Mais tarde trabalharam em uma pedreira; acreditaram depois que na cidade de Reggio estava a chave da felicidade, fundaram lá uma quadrilha de ladrões e desapareceram mais duas vezes atrás das portas da prisão; depois se filiaram — como sempre juntos — ao Partido Fascista e passaram a usar orgu­lhosos suas camisas pretas. Quando a guerra os chamou, tiveram a grande sor­te de ir para a mesma companhia e agora o destino quis que também fossem seqüestrados juntos no seu buraco de sentinela.

Acordaram porque a água fria, que lhes foi jogada sobre as cabeças, sus­citou um choque nos seus corpos. Levantaram-se de um golpe, olharam atôni­tos em redor e só compreenderam onde estavam ao ver os uniformes soviéti­cos. Instintivamente levantaram os braços para se render.

Risos alegres caíram sobre eles. Muitas mãos os seguraram, rasgaram os casacos dos uniformes, pegaram seus cabelos. Empurraram suas cabeças para trás e deixaram cair sobre seus rostos, em cheio, o clarão da lanterna de querosene. Tarnozzi e Uganti piscaram na luz. Moças! Diacho, eram moças! De repente apareceram diante do buraco de sentinela, abriram a blusa. . . mamma mia, tudo se podia esperar na linha de frente, mas não isto, ser acossado por peitos nus. Onde estavam agora? Prisioneiros das mulheres? Em um abrigo russo? Madonna, o que será de nós?

Fitaram as moças com os olhos arregalados de medo, essas moças que formavam um círculo ao redor deles e pairavam agitadas. Uma mulheraça gorducha ajoelhou-se diante deles, puxou, com força, as suas camisas do corpo e sorriu para eles, ironicamente, com seu rosto largo, asiático.

— Vejam só, como são bonitos! — gritou Naila Tahirovna, enquanto acariciava o rosto de Uganti. — Como são jovens e fortes! Devemos deixar uma coisa assim estragar-se? Desde criança me inculcaram: nenhum leite é tão azedo que não possa ser bebido! Olhem para isto! — Com dedos ágeis desabotoou a calça de Tarnozzi, puxou-a um pouco para baixo e colocou a mão larga e firme sobre seu abdômen. — Ha, aí bate como um moinho de martelos! O corpo de Tarnozzi entrou em convulsão. O terror surgiu dentro dele e o estrangulou. Uganti sentia algo parecido; de repente cruzou as mãos dian­te do peito nu.

— Por favor. . . — pediu em italiano. — Por favor. . . - E depois em ale­mão, pois ouvira dizer que muitos russos compreendiam alemão: — Por fa­vor. . . nós soldados coitados. . . não matar. . . nós felizes. . . a guerra mixou. . . por favor. . .

Schanna Ivanovna agachou-se diante dele e o mirou com olhos a queimar. Ao lado dela ajoelhava-se Lida. Ela havia estudado, cinco semestres de odondologia em Odessa, e sabia bem alemão. Estava no aperfeiçoamento da Osoaviachim, da Sociedade para Fomento da Defesa, quando os alemães conquistaram Odessa. Lida, como boa artilheira já condecorada com a medalha Artilheira Voroschilov, matara a tiros 19 alemães em luta corpo a corpo e foi, como todas suas camaradas, levada para a escola central em Veschnjaki. Não havia nada — desde pular de pára-quedas até lutar contra tanques blin­dados — que Lida não soubesse fazer.

— Sejam corajosos — exortou-os Lida Djanovna lenta e nitidamente. — Todos temos de morrer um dia.

Os cantos dos lábios de Uganti começaram a tremer.

— Morrer não — gaguejou. — Por favor, por que morrer?! Nós prisioneiros. . . a guerra terminou. . .

— A guerra não terminará nunca — respondeu Lida duramente. – Não enquanto um único soldado alemão estiver em solo russo!

— Nós somos italianos! — gritou Tarnozzi. Ele se contorceu. A gorda mão de Naila fazia-lhe massagens no pênis, como se quisesse torcê-lo. — Ita­lianos!

— Com uniformes alemães. . .

— Nos obrigaram. . .

— Isto dizem todos! — Lida se levantou. Uma outra moça debruçou-se sobre Uganti. Começou a rasgar-lhe a calça e depois, repentinamente, um redemoinho de cabeças femininas e mãos que atacavam os rodeou, as botas lhes foram arrancadas dos pés, as calças arrancadas, as cuecas dilaceradas — e um acordeão começou a tocar. Risos os circundavam como ondas. Estavam deitados de costas, retos, dedos frios mas ágeis como esquilos brincavam com eles e enquanto o terror, misturado com uma esperança inesgotável, neles permanecia e os paralisava, a sua masculinidade crescia, independente de qual­quer vontade, acompanhada de gritos entusiastas e aplausos verdadeiros.

A gorda Naila Tahirovna foi a primeira a usufruir da oferta.

— Ele não é um tourinho? — disse jubilosamente e se jogou sobre Tar-nozzi. — Sonhei semanas com isto! O diabo leve Foma Igorevitsch e suas prescrições! Ele não passa de um burro castrado! Ha! Isto vai fundo na minha alma. . .

Ela se debruçou sobre Tarnozzi estarrecido, jogou seus peitos gordos na sua cara e quase o sufocou entre sua carne maciça. As moças gritavam “Bra­vo” e batiam palmas ritmicamente. Marianka Stepanovna tocou uma melodia ligeira em sua bajan. Era um barulho dos diabos, que ainda aumentou quando Naila caiu numa fúria selvagem e mordeu Tarnozzi em todos os lugares que podia alcançar.

Uganti, preso por braços e pernas, não teve oportunidade de se admirar com este jogo infernal. Sobre ele voou, como um vento cataclísmico, a peque­na Antonina, um diabrete de quadris estreitos, peitos pontiagudos, de Ulan-Ude; tomou-o com um grito claro, com cada movimento emitia um tom agu­do e com dedos febris lhe arranhava o rosto. Uganti empinou-se debaixo dela; não sentia o sangue que lhe escorria sobre o rosto, saindo das feridas, nem mesmo a dor. Aí estava esse sentimento louco, doce em suas ancas, ele via o rosto magro, bonito, pele cor de oliva da moça, escutava seus gritos de êxtase e no fundo música e canto. Por momentos esquecia onde se encontrava e o que faziam com ele. Só sentia Antonina, seu corpo magro, em convulsões, e seu ventre estreito, mas quando quis levantar os braços e agarrar seus seios, percebeu que estava sendo preso no chão e que não era outra coisa senão um poste, no qual alguém se esfregava.

— Você não vai nos tocar! — disse uma voz clara atrás de sua cabeça. Ele não a compreendeu e também não lhe teria dado atenção, porque neste instante Antonina caiu para a frente e escondeu o rosto no ombro dele. — O que você pensa que é? Tocar-nos? Você quer ser um cavalo jovem? Isto vai passar rapidinho!

Tarnozzi gemeu baixinho, quando Naila escorregou de cima dele e uma outra mulher dele se apoderou. Levantou um pouco a cabeça, fitou ao seu redor com olhos rígidos e percebeu, à luz bruxuleante da lâmpada de querosene, que ainda havia muitas moças nuas no recinto, cantando e rindo. Algumas delas seguravam Uganti, sobre o qual uma mulher se mexia, como se o quises­se esmagar contra o chão.

Uma dor quente, lancinante o açoitou.

— Você, Satã! — ofegava a moça, cujas coxas agora o aprisionavam. — Olhe para mim. Quero cuspir entre os seus olhos!. . . E realmente, ela cuspiu nele, a saliva escorreu sobre seu nariz, em direção à boca, mas seu corpo queimava em cima dele e ela se comportava como se quisesse se despedaçar a si própria no espinho dele.

Meu Deus, pensou Tarnozzi e fechou os olhos. O que pretendem fazer conosco? Virão todas em cima de nós, uma depois da outra, eu não sei quantas são, talvez sempre serão mais, de todos os abrigos elas vêm, toda uma companhia de mulheres loucas no cio. Mas isto vai acabar, não poderemos mais, é bastante natural, não se pode evitar. O que farão então as outras que esperaram e se sentirão ludibriadas? Será que nos esconderão aqui? Será que ficaremos presos aqui, como putas masculinas para um batalhão de mulheres? Salvatore, que prisão é esta! Que guerra alegre será! Uganti e Tarnozzi, as facas de afiar do Don! Se pudermos sobreviver assim. . . venham então, pombinhas no cio. Vocês não ficarão desapontadas. Mas vocês têm de nos permitir respirar um pouco, só um pouquinho de ar, a natureza não funciona simplesmente mediante ordens.

A noite foi terrível. Algumas vezes as moças jogaram água nos seus pri­sioneiros cobertos de suor, quando eles, fatigados, já não eram capazes de fazer mais nada. Depois os esfregaram com panos grossos, lhes deram a be­ber um licor de mel doce e trabalharam seus corpos com tanta perseverança e ternura que — realmente é de estranhar — sempre uma torrente de força escor­reu em suas ancas.

Ao alvorecer a música do acordeão parou. As moças usavam novamente seus uniformes, os lindos corpos haviam desaparecido sob botas de feltro maçudas e casacos largos, sem forma. Uganti e Tarnozzi estavam deitados na ter­ra, agonizantes, com os olhos fechados. As pálpebras tremiam de exaustão. Seus corpos estavam deformados por pancadas, arranhões, mordidelas e belis­cões. Estavam deitados com as bocas semi-abertas, e só de pensar na aparên­cia da Maila Tigranovna nua, um medo impotente se apoderava deles.

— Amanhã. . . — disse Uganti pesadamente. — Por favor. . . amanhã. . .

Naila Tahirovna sacudiu a cabeça. Com passos surpreendentemente le­ves ela foi em direção a Uganti e Tarnozzi, deu um chute forte em cada um deles e depois mostrou a mão direita, que até então escondera atrás das cos­tas. Por mais fraco que estivesse, Uganti ainda tinha forças suficientes para rastejar até a parede do abrigo e lá levantar as mãos. A pistola que Naila apon­tava o seguiu. Ele rastejou para o outro lado, pôs as mãos no rosto e começou a soluçar alto.

— Mas por quê? — gaguejou Tarnozzi. — Em duas, três horas poderemos de novo. Vocês não podem simplesmente nos matar a tiros, agora. . . depois de tudo que aconteceu. . . por favor. . . — Levantou as mios suplicando, lá­grimas lhe escorriam pelo rosto.

— Tischje!* — disse ela, duramente. — Estamos em guerra! Por que você quer viver ainda uma hora? Miranski fuzila você, com certeza! Você me fez bem, meu querido, meu jovem tourinho. . . mas agora tudo passou.

Tarnozzi ainda queria dizer algo, quando viu o fogo sair da arma. Um punho bateu contra sua testa mas ele não sentiu. Com a boca aberta escorregou da parede e caiu por terra. Uganti gritou, um grito agudo, de rebentar o coração. Em defesa sem sentido afastou-se da parede e se atirou contra o mostro de pele branca, nu, com os grandes seios em forma de pêra. Mas Nai-la Tahirovna foi mais rápida, a pistola na sua mão só pulou para cima uma vez, e Salvatore Uganti foi atirado de volta, abriu os braços e já estava morto ao tocar o chão.

Com toda a calma Naila se vestiu; no final pôs a boina de pele no seu cabelo preto crespo e saiu do abrigo. Acenou para algumas camaradas, que estavam na trincheira, e se dirigiu para o abrigo de comando, a fim de notificar a Capitoa Bajda de que tudo fora feito.

Luigi Tarnozzi e Salvatore Uganti foram arrastados para um buraco de granada já escolhido, lá jogados e cobertos com algumas pás de terra. Na realidade isto nem era necessário — no gelo crepitante os cadáveres nus imediatamente entravam em rigor mortis, ninguém olharia para dentro do bu­raco e quando a primavera chegasse e o sol novamente descongelasse os dois mortos, elas já estariam há muito tempo em outro local da frente, estariam acossando os alemães em direção ao oeste e poderiam deixar para as colunas de retaguarda o trabalho de enterrar os dois corpos nus.

Bem-humorado e repousado o Comissário Milanski fez a sua ronda de inspeção pela região da companhia de manhã. Encontrou tudo em perfeita ordem, as moças lhe acenavam amistosamente, e de duas sentinelas alemãs seqüestradas não se via nada.

— A minha advertência funcionou — disse ele mais tarde, à hora do chá, para o Tenente Ugarov. — Precisamos encontrar as palavras certas. . . é isto! Elas desistiram dessa besteira de seqüestrar sentinelas. Ha, como eu as teria tratado! Tê-las-ia cozinhado como ovos na frigideira! E como! Teria alarma­do o Camarada General Kitajev! Que bom que elas tomaram juízo!

— Mas o que elas iam fazer com as sentinelas? — respondeu Ugarov, hi­pocritamente. — Dois prisioneiros, de que valem para nós?

Pensou nas coisas que deveriam ter acontecido no abrigo II. Os cabelos da gente se arrepiavam. Colocou as mãos sob o catre e retirou o tabuleiro de xadrez.

— Uma partida, Foma Igorevitsch? Isto distrai. . . Miranski bebericava seu chá e acenou afirmativamente.

— O senhor ouviu música esta noite? — perguntou repentinamente. Uga­rov teve a impressão de que um pedaço de gelo estava escorregando por suas costas.

— Música? Não! Onde? Aqui? — Para não ser obrigado a fitar Mirans­ki, arrumava as peças no tabuleiro de xadrez com excessiva meticulosidade.

— Eu não sei. Senti como se a tivesse escutado. Pode ter vindo do lado de lá! Esses italianos. . . música para eles é o mesmo que um gole de vodca para nós! Deixe-os ficar alegres, sem preocupação; em alguns dias eles não existirão mais! Correremos por cima deles como minhocas. Victor Ivanovitsch, o primeiro lance é seu!

O bom Miranski foi, portanto, ludibriado pela astúcia feminina. Mais três ve­zes um comando seqüestrou as sentinelas avançadas italianas, mas de manhã cedo todas as pistas tinham sido obliteradas, os prisioneiros sumido. Apenas o Tenente Ugarov passeava de lá para cá com o rosto franzido. Estava pálido e com aparência doentia. Queixava-se de dores de cabeça e cada noite suplica­va, quase de joelhos, a Bajda, que desistisse daquela loucura. Respirou quase aliviado e ter-se-ia deixado arrebatar para uma dança de alegria quando Schanna, Lida e Darja deram notícia da morte bem-sucedida dos três oficiais ale­mães. Isto não poderia ficar sem conseqüências, isto os alemães não engoli­riam e pronto. . . e isto significava, também, que a operação “seqüestrar sen­tinelas” terminara.

Miranski fez uma conferência e testemunhou o êxito no livro de tiros.

Lida Djanovna Selenko                                           — 24 acertos.

Schanna Ivanovna Eíabajeva                                   — 29 acertos.

Darja Allanovna Klujeva                                         — 29 acertos.

— Vocês ainda se tomarão todas Heroínas da União Soviética! - exclamou Miranski orgulhoso. — Vocês sabem que nós somos a melhor divisão? Cedo toda a Rússia nos conhecerá! Amanha ou depois de amanhã, não sei ao certo, vem, aliás, uma camarada famosa para nossas fileiras: Stella Antonovna Korolenkaja. Se isto não é uma honra! Vem diretamente da frente de Brjansk! Dizem que ela tem 41 acertos! Em tão pouco tempo! Veio recentemente de Moscou! Bem, veremos. Vocês estão percebendo alguma coisa, queridinhas? Se Stella Antonovna vem se reunir a nós, aqui, logo, logo acontecerão coisas espantosas.

— Eu a conheço. — Schanna Ivanovna franziu o cenho, como se lhe tivessem colocado vinagre na caneca de chá. — Dizem que é orgulhosa! Comporta-se como se fosse uma privilegiada! Uma mascote dos camaradas em postos elevados! Como era em Veschnjaki! Todos sabiam que ela, como nós, estava na escola, mas ninguém a viu jamais. Apenas ouvíamos cada semana que ela novamente acertara todos os tiros! Na área do tiro ao alvo batiam palmas! Stella Antonovna pode acertar a glândula de uma aranha, tão precisos são seus tiros! Sempre Stella Antonovna! Se isto continuar assim, cedo lhe erguerão uma estátua! E uma vez também a vi, quase por acaso. Lá vou eu ao serviço hospitalar, para pegar alguns comprimidos contra acidez. Ali estava uma mulher menor que eu, com cachos louros, olhos azuis-claros. . . uma boneca, penso, uma tal que o capitão médico guarda para as suas noites, um verdadeiro brinquedo, nada mais. E como está em pé, as mãos nas costas, os seios redon­dos apontando para diante, eu penso: mais do que isso você não sabe fazer, sua boboca, do que arregalar os olhos e empurrar os seios através da blusa, isto é do que os homens gostam. E ao esperar pelos meus cumprimentos, vem um sargento e diz: “Você pode entrar agora, Camarada Stella Antonovna. As chapas de raios X estão boas. Nada quebrado. Parabéns!” Senti como se me tivessem dado um golpe na cabeça e ela passa por mim, sorri e bum!, a porta fechou. Então essa era Stella! Mais tarde perguntei à camarada médica: “Ela está doente?” e ela me respondeu: “A camarada Korolenkaja ontem pulou de um avião de pára-quedas e este só se abriu quando já estava quase tocando o solo. Na queda todos os ossos devem ter sido fraturados, pensamos. Valha-nos Deus, Stella Antonovna, você não andará mais por aí. Mas o que fez ela? Deslizou, ao cair, como um gato que cai do telhado, se levantou, retirou as cordas, juntou o pára-quedas, veio em nossa direção e acenou alegremente.” Mais tarde soubemos que todo seu corpo estava coberto de hematomas. Mas ela anda por aí e sorri feito um coelhinho de Páscoa. — Schanna Ivanovna depositou a caneca na mesa e olhou ao redor. Todas a tinham escutado com atenção. — Então ela é uma dessas! Com ela ainda teremos muitas aventuras!

Duas noites após a fala de Schanna, Stella juntou-se à sua nova tropa. Evidentemente como vingança pela morte dos três oficiais alemães a artilha­ria italiana submeteu as posições soviéticas a uma verdadeira chuva de grani­zo, com granadas e mais granadas. Tratava-se apenas de duas armas leves, de 7,5cm, mas o fogo rasteiro bastava para manter todos alerta nas trincheiras. Os trenós, que costumavam trazer todas as noites víveres e novos soldados, fica­vam atrás do batalhão. Fora necessário colocar em campo pessoas que buscas­sem comida. Isto muitas vezes era um comando de morte — carregados com panelas ou com uma lata de zinco amarrada as costas os indicados, geralmente voluntários, corriam céleres pelas trincheiras ou pelo campo aberto, de volta para as cozinhas de campanha, a fim de buscar provisões para si e seus camara­das. Duas vezes pelo inferno, pulando de funil para funil. . . deitar-se. . . espe­rar o barulho surdo das granadas. . . a explosão. . . depois mais adiante, mais adiante. . . até que o barulho sobre si de novo escurecia e escurecia e só um pulo para o funil oferecia a última escapatória. Já tinham desenvolvido um sentido aguçado para isso e, pensando na velha sabedoria da frente, que num mesmo buraco jamais caía uma segunda granada, se jogavam nos buracos recém-abertos, ainda quentes.

Buscar comida era uma corrida com a morte. E algumas vezes essecam­peonato era perdido.

Quatro moças, que por volta das 3:00, com suas latas de provisões às costas, esgueiravam-se de volta para os abrigos, trouxeram consigo Stella An­tonovna. Quase uma hora ficaram presas na estepe porque a artilharia inimiga se tinha concentrado nessa região. As granadas, de novo e sempre de novo, atingiam a terra, os esguichos de terra irrompiam, os estilhaços quentes, a queimar, varavam a noite e durante segundos os impactos das granadas lampejavam, brilhantes.

Era um tiroteio idiota, um verdadeiro gasto inútil de munição. Além de uma série de buracos no chão a ofensiva nada adiantava. Sim, destruíram um pedaço de trincheira, mas estava desocupado. As moças se agachavam nos abrigos, fitavam as escoras de madeira e o teto e escutavam o ruído seco das granadas.

— Maluquice! — disse Soja Valentinovna Bajda no abrigo de comando. — Que ganham eles com isto? Querem nos mostrar quão fortes são? Ridículo!

Quando o fogo de artilharia diminuía, as moças saíam correndo dos abrigos e ocupavam as trincheiras. Como se fossem homens estavam deitadas atrás de suas metralhadoras, as granadas de mão a seu lado, prontas para atirar, as carabinas com os telescópios de mira empurradas pela murada protetora. Será que eles vêm agora? Atacam? Idiotas. . . a sua artilharia abriu fogo longe demais.

Depois das explosões trovejantes de repente reinou um silêncio total. Ficou tão silencioso, que se podia ouvir a própria respiração e sentir cada bater de dentes nas trincheiras, cada ranger das botas e cada grito como um novo estalo. Miranski corria pelas trincheiras e gritava sem cessar:

— Tudo em ordem? Nenhuma baixa? Tiveram sorte, queridinhas! Cora­gem, coragem!

As moças mal lhe prestavam atenção. Não necessitavam de palavras ani­madoras. Quando sentiam a coronha da espingarda na axila, quando fitavam pelo telescópio de mira, quando o seu dedo indicador, ligeiramente recurvado, pousava no gatilho, elas paravam de sentir.

— Você é a carabina e a carabina é você! — dissera a Coronel Olga Petrovna Rabutina em Veschnjaki. — A carabina é toda a vida de vocês! Vocês não têm coração e não têm sangue. Vocês são um só e único pensamento: morte ao inimigo! Quando a nossa pátria for de novo liberada, vocês serão mu­lheres novamente; então deverão ser mulheres, esta é a sua segunda tarefa! Mas, até então, durmam com sua carabina! Amem-na com todas as suas forças!

De que valiam ali as tolas falas de Miranski?

O Tenente Ugarov estava em sua saliência da trincheira, atrás de uma pesada MG (metralhadora) e fumava, nervosamente, para dentro da mão oca. Ao lado dele Darja Allanovna estava agachada diante da caixa aberta de muni­ções. Ela preparara os cintos com cartuchos, com três caixas de madeira ainda empilhadas, a seu lado. Os soviéticos não tinham falta de munição. Tinham de tudo o suficiente — armas suficientes e pessoas também em número suficien­te. Antes de mais nada, gente — e a amplidão inconcebível do país. Quem po­deria vencer a Rússia? Seria possível vencê-la? Mesmo se alguém atravessasse o Ural, só podia ajoelhar-se e rezar: diante de si estava a Sibéria, é aqui que realmente começa a inconcebilidade desta terra. Quem quer conquistar esta amplidão infinita?

Apesar de Darja Allanovna ter sido designada para manobrar a pesada metralhadora DS 1939, a sua carabina, a M 91/30, com o grande telescópio de mira PE, estava encostada, pronta para ser posta em ação, na parede da trin­cheira. Ela lhe pertencia. Onde estava ela, também estava sua carabina.

— Os apanhadores de comida ainda não estão aqui! — exclamou Miranski.

— Devem estar deitados na estepe.

— Espero que vivos.

— Deveríamos ir lá ver! — sugeriu Ugarov, inteligentemente.

— É exatamente isto que eu ia propor. — Miranski mordeu o lábio infe­rior, olhou para as posições inimigas e cocou o nariz. — O senhor acredita que os italianos atacarão?

— Não! Senão já estariam aqui! Ora, a tática é sempre a mesma. O trator de fogo se adianta, a artilharia mantém tudo em cheque e sob proteção da cortina de granadas a infantaria assalta. — Ugarov apontou para o outro lado. — Mas lá nada se mexe.

— Então o senhor não acredita, Victor Ivanovitsch, que ainda atirará ho­je com a MG? - perguntou Miranski cautelosamente. Era um homem astuto, que para espanto de todos sempre chegava ao alvo mediante rodeios. Também Ugarov caiu na armadilha, sem de nada suspeitar.

— Isto está fora de cogitação, Foma Igorevitsch. Se só agora saíssem das trincheiras, seria verdadeiro suicídio.

— Eu aqui não tenho ordens a dar, a não ser que se trate dos princípios básicos do comunismo. E da disciplina! E com este pensamento, meu caro Ugarov, veio-me à mente a idéia de que o senhor poderia ajudar a camarada Bajda, tão preocupada, ao ir ver o que está acontecendo.

— Isto o senhor poderia ter expressado mais claramente, Miranski. — Ugarov empurrou o capacete de aço, pintado de branco, para a nuca. Está bem. Eu me ocuparei dos apanhadores de comida.

Dez minutos mais tarde o Tenente Ugarov encontrou a tropa na estepe. Eram quatro moças do grupo Bajda, transportando panelas e com latas de zinco nas costas. Estavam agachadas em um grande buraco de granada e se ocu­pavam colocando ataduras em uma camarada ferida. Um estilhaço raspara seu ombro e atingira a lata. A moça estava sentada, com o dólmã aberto a tesoura­das e com um grande pedaço de gaze na ferida, mas mais do que pelos feri­mentos, ela se chateava porque a comida escorrera.

Ugarov deixou-se cair no funil, escorregou pela parede e caiu perto da moça, que não pertencia à unidade. Apesar da mulher usar um grosso casaco acolchoado, via-se que era alta e esguia. Tinha puxado a boina de pele e estava ocupada em retirar uma grossa atadura de sua capa protetora. Na raiz de seus cabelos negros o suor começava a congelar, formando pequenos cristais. Olhos grandes, escuros, fitaram Ugarov com desagrado.

— Seu hipopótamo! — exclamou a linda moça. — O que o senhor está fazendo aqui, chutando sujeira para todos os cantos? O senhor não está vendo que alguém se feriu?!

Ugarov não conseguiu responder nada. Fitava a moça e logo perdoou qualquer palavrão saído daquela boca maravilhosa. Sentia-se queimar diante do olhar daqueles olhos pretos reluzentes. Afastou-se sem proferir uma palavra, olhou em redor e descobriu um segundo rosto desconhecido. Estava cinza-sujo, a boina escorregara para trás, uma mecha de cabelos louros claros caía-lhe sobre a testa.

É ela, sobressaltou-se Ugarov. Esta é Stella Antonovna! É muito mais baixa do que acreditávamos. Sim, de estatura mediana. Quem a vê assim pensa: pois é, uma pessoa inexpressiva. Nem todo mundo pode ser um cisne orgulhoso.

Ugarov foi em sua direção, pousou a mão no capacete e disse com aque­la voz vibrante, de cujo efeito erótico, nas moças, ele estava seguro; mesmo com Soja Valentinovna, a mulher experiente, ela não tinha fracassado:

— Stella Antonovna? É você, não? Logo a reconheci! Que sem-vergonhi­ce do adversário, cumprimentando-a de modo tão pouco amistoso.

— Para o curarmos disto é que estamos aqui, Camarada Tenente! — Sua voz era nítida e clara. Soa como se tivéssemos tocado em uma jarra de prata, pensou Ugarov, encantado. Mas agora, quando uma segunda voz, mais profun­da e quente, começou a falar, atrás da sua nuca, Ugarov estremeceu.

— É difícil ganhar a guerra com homens cujo cérebro sumiu! Qual é a sua função, Camarada Tenente?

Ugarov virou-se. A linda moça de cabelos negros, cuja visão fazia parar a respiração, estava ocupada em limpar as mãos sangrentas em um pedaço de gaze. Também a sua roupa branca de camuflagem tinha manchas de sangue. A moça ferida estava agachada na beira do funil e bebia, aos goles, uma caneca de chá na qual fora dissolvido um medicamento analgésico.

— Eu sou o oficial de ligação entre a unidade feminina especial e o regimento — disse Ugarov. A voz estava pastosa, como se ele tivesse bebido água gelada em demasia.

— Então o senhor não nos tem de dar ordens?

— Antes de mais nada. . . aconselhar. . . — gaguejou Ugarov e sabia que o tinham posto em xeque-mate, inexoravelmente.

— Neste caso seria um bom conselho para o senhor, Camarada Tenente, se retirasse daqui a camarada ferida. — Ela levantou a cabeça e, como Ugarov podia observar, até segurava a respiração, ao espreitar. — O ataque de artilha­ria terminou. Traremos os feridos de volta para o hospital do batalhão! Se nos apressarmos, poderemos estar de novo nas posições de madrugada! — Fitou Ugarov com olhos fogosos. — O senhor gosta de comer peixe, camarada?. . .

— Apaixonadamente. . .

— Já imaginava isto! O senhor tem a mesma expressão estúpida de um badejo!

As moças riram à socapa. Ugarov ficou de rosto vermelho, engoliu tudo que lhe queimava a garganta, foi em direção à moça ferida e a ajudou a se le­vantar. Ela deu um gritinho feito pássaro, mas depois sorriu corajosamente.

Dessa forma Victor Ivanovitsch Ugarov havia conhecido a médica Gali-na Ruslanovna Opalinskaja, que fora convocada para a unidade especial. E na­turalmente não podia nem suspeitar de que com a Opalinskaja uma série de problemas agudos atingiriam as moças.

A apresentação de Stella Antonovna à Capitoa Bajda foi curta e — nesta carac­terística feminina nem o uniforme alterava coisa alguma — cheia de curiosida­de cética. Mesmo a primeira crítica não faltou. Deram-se as mãos, nomearam-se mutuamente, e Stella entregou seus documentos, que Soja Valentinovna imediatamente colocou em cima de uma mesa de madeira, sem lê-los. Ela sa­bia o que neles estava escrito. O regimento já havia transmitido as informa­ções essenciais pelo telefone de campanha. Só não tinham mencionado que Stella se apresentaria à LPC. Só esta exceção tornava Soja amarga. Porque ti­nha ela direitos especiais? Qual era o camarada poderoso de Moscou que a apoiava? E por que era tão mimada? Apenas porque já matara mais de 40 ale­mães? Porque cada um de seus tiros acertava no alvo? De onde viera? Tinha aprendido o ofício de tecelã, com seu pai, que tinha um pequeno negócio em Fastov, perto de Kiew. A Ucrânia ainda estava nas mãos dos alemães, mas Stella ouvira, pelo serviço de informações dos guerrilheiros, o que acontecera entrementes no seu povoado natal: a casa com a tecelagem fora incendiada, o pai sumira; provavelmente os alemães o tinham morto a tiros e enterrado. A mãe fugira para a floresta e lá desaparecera. Apenas a respeito do irmão de Stella, Constantin, se sabia alguma coisa mais definitiva: tinha sido enforcado, em uma forca erigida às pressas na praça da feira de Fastov, porque numa reação impotente jogara pedras no suboficial que estava incendiando a tecelagem do pai.

Fora pura sorte de Stella se encontrar em Kiew para um treinamento em tecelagem quando as tropas alemãs assaltaram sua pátria. Fugiu para Go­mei e juntou-se a um grupo de defesa de mulheres. Lá cedo chamou a atenção porque seus olhos desenvolviam a capacidade de uma águia, ao olhar por um telescópio de mira. Já na sua primeira ação contra as divisões alemãs, que pareciam avançar inexoravelmente, pois na fase inicial da guerra estraçalhavam, com movimentos de pinça gigantescos, o Exército soviético em todas as frentes, Stella Antonovna matou 19 alemães, com sua carabina M-91/30, com tiros limpos na cabeça, feito raios. No pantanal perto de Ogorodnje ela ficou deitada durante seis semanas com três outras moças, totalmente sozinhas contra um batalhão alemão, que fora deixado na retaguarda exatamente para limpar a região. As divisões alemãs conquistaram Roslavl e Kiew, Brjansk e Orel. Os seus tanques blindados dirigiam-se para Moscou; era uma campanha vito­riosa ímpar. E no meio dessas batalhas, que muitas vezes se desenrolavam pa­ralelamente às ruas e estradas nas quais as divisões e a retaguarda alemãs avan­çavam, Stella Antonovna e suas três camaradas marchavam para o oeste, de volta àquelas partes do Exército Vermelho, que tentavam incessantemente se arrochar à terra natal, apesar de serem sempre alcançadas pelos alemães.

Caminharam durante quatro meses por regiões ocupadas; dormiam nas florestas, em cavernas, em casas incendiadas e nos buracos das granadas, onde se cobriam com terra e punham sobre as cabeças um toldo, novamente cober­to de terra. Se alguém olhasse para dentro do funil, elas estavam invisíveis — mas atrás da linha de frente ninguém se preocupava com um buraco de granada.

Quatro vezes foram surpreendidas por patrulhas alemãs e quatro vezes. Stella Antonovna resolvera o problema com sangue-frio. Antes dos alemães sa­berem o que tinham descoberto no meio das árvores derrubadas — eram mo­ças jovens, bonitas, isto chegaram a perceber, já tinham sido alcançados pelas balas mortíferas. A tática das moças era sempre a mesma: duas iam lentamen­te, de mãos e braços levantados, em direção aos soldados alemães. Fazia calor, elas tinham desabotoado as blusas até a altura da saia, e a sua visão alegrava o coração de qualquer soldado raso, mesmo em se tratando de russas, as quais deveriam ser enfrentadas com cuidado, especialmente nas florestas. A distra­ção demorava alguns instantes, que eram suficientes para dar a Stella e às ou­tras moças escondidas por detrás das árvores um bom alvo.

Stella Antonovna registrava conscienciosamente seus tiros no livro apro­priado. Os soldados alemães desapareciam. Para não deixar rastros, especial­mente para não delatar aos alemães, pelos certeiros tiros na cabeça, que guer­rilheiros estavam operando atrás de suas costas — o que sem dúvida alguma te­ria provocado um grande alarma — as moças enterravam imediatamente os cadáveres e à guisa de camuflagem arrastavam ramos de árvores sobre as covas.

Quando o inverno surgiu de repente e impediu o avanço dos alemães; quando o frio fazia mais vítimas do que as armas; quando tempestades de neve e um frio de 30 graus negativos literalmente paralisavam as divisões alemãs, não preparadas para um tal inverno; e quando as autoridades soviéticas come­çaram a acreditar em um novo milagre, Stella e suas companheiras romperam as posições alemãs e conseguiram alcançar as próprias tropas. Duas moças fo­ram feridas. Haviam entrado de cheio em um fogo cruzado da artilharia sovié­tica. Atingidas pelos estilhaços das próprias granadas, ainda foram cuidadas por Stella e pelas outras moças e carregadas para um celeiro de feno vazio. Le­vá-las consigo era impossível.

Stella estava sentada entre as duas moças gravemente feridas e fitava, rí­gida, a imensa parede do celeiro. Pelos grandes buracos das tábuas curvas de madeira, pregadas nos postes, a tempestade fazia entrar o frio gélido.

Morrerão duas vezes, pensou Stella, em função dos ferimentos e pelo frio. Ninguém mais pode ajudá-las. Mas nós temos de ir adiante, para nossos irmãos. Aceitamos uma missão e esta será cumprida até o último tremor de nossas mãos: Morte aos alemães!

O que será de vocês, irmãs!

Olhou para baixo, para a moça ferida que jazia a sua esquerda. Ela abrira os olhos. Só a cabeça saía da palha com a qual a tinham coberto e que só oferecia uma proteção precária contra o frio.

— Você precisa prosseguir. . . — disse ela ofegante. A cada palavra, saía um estertor de sua boca. Provavelmente o pulmão também fora atingido.

— Sim. Precisamos prosseguir imediatamente.

A moça fechou os olhos e virou a cabeça para o lado.

— Faça-o — pediu em um sussurro.

— O quê?

— Você sabe! Por favor, faça-o. . . Pela Mãe de Cristo, a Misericordiosa, eu lhe imploro, faça!

— Você acredita em Deus? — perguntou Stella, com voz abafada. — Ain­da agora você acredita em Deus?

— Sim. Exatamente agora...

— Onde está o seu Deus? Ele permite que a Rússia seja devastada, que seja incendiada, que o sangue corra por ruas, atalhos, campos e florestas! Então deve haver um Deus? Um do qual ainda dizem que é justo? O que fizemos nós, para que o seu Deus nos castigue assim?! Katjuscha, diga-me, você tam­bém acredita em uma vida após a morte?

— Acredito — murmurou a moça ferida. — Você só mata o corpo estra­çalhado, não a mim. Nós nos veremos novamente, Stellanka. Não seja tão in­fantil. O que é morrer, afinal de contas? Você mesmo sabe que pode morrer a qualquer instante. E você tem medo? Seja honesta...

— Tenho medo. — Stella Antonovna juntou os dedos endurecidos em forma de punho. Temos de prosseguir, pensou ela. Só nas verstas a mais. Já podemos ouvir a frente. O trovejar incessante dos canhões. Já percebemos quão perto estamos! A nossa própria artilharia nos acertou! E nós ficamos aqui sentadas, falando a respeito de Deus. Uma conversa totalmente sem sentido. Mas parece tranqüilizar Katjuscha.

— Eu não sinto mais medo — disse Katja, quase inaudivelmente. Stella teve de se abaixar para poder ouvi-la. Uma espuma sangrenta apareceu nos lá­bios da moça ferida e aumentava a cada palavra proferida. — Então já não es­tou morta? Me dê a mão, Stellinka.

Stella vasculhou a palha, até achar a mão gelada de Katja e a segurou. De fora veio a outra moça, Tamara Fjodorevna. Sua vestimenta estava coberta de cristais de gelo, diante da boca uma nuvem branca espessa. Ela se encostou na porta e apertou ambas as mãos contra o peito. Correra, como se o diabo a perseguisse.

— Tanques. . . — gritou, interrrompida por quentes soluços. — A rua es­tá repleta de tanques alemães! Temos de partir! Partir imediatamente!

— Você realmente continuará vivendo? — perguntou Stella. Curvou-se sobre Katja, enxugou-lhe a espuma da boca e acariciou-lhe o rosto. A moça fe­rida fez um esgar com os lábios; deveria representar um sorriso.

— Sim, Stellinka.

— Você jura?

— Sim, eu juro. . . Nós. . . nós nos veremos de novo. . . com certeza. . . eu. . . eu estarei esperando por você...

Stella se levantou, em um silêncio respeitoso. Cobriu Katja novamente com a palha, uma última vez acariciou, com indizível ternura, o rosto e bei­jou os olhos cerrados; depois destravou a mola de segurança da carabina. Ta­Mara Fjodorevna, encostada na porta, juntou as mãos em um gesto de prece e virou a cabeça para a parede de madeira congelada.

Dois tiros ecoaram. Depois Stella empurrou a soluçante Tamara e abriu a porta. O vento gelado bateu-lhe no rosto; ela se agachou, encolheu a cabeça entre os ombros e escapuliu para fora. Tamara a seguiu imediatamente, alcançou-a e puxou-a pelo antebraço.

— Por que você fez isto?! — berrou, contra o vento uivante.

— Olga já estava morta. . . foi só pela segurança! — berrou Stella de vol­ta. Seu rosto parecia dissolver-se.

— E Katja?!

— Ela continuará vivendo. Tem seu Deus! Isto ela me jurou! — Stella puxou Tamara para si e berrou junto a seu rosto. — Deveria tê-la deixado mor­rer como um cachorro vagabundo?! O que eu deveria ter feito? Diga-me, o que eu deveria ter feito?

Tamara não respondeu. Da rua vinha o ruído dos tanques alemães a se aproximar. Agacharam-se e continuaram correndo sob a proteção da floresta.

Quatro dias depois caíram de joelhos e choraram de alegria quando, repentinamente, ouviram ruídos russos vindo de um terreno montanhoso. Uma patrulha atrasada da Segunda Companhia de Fuzileiros estava examinando a região.

Foi a primeira vez que o nome Stella Antonovna Korolenkaja foi mencionado em um relatório do Estado-Maior.

Mais do que com a chegada de Stella na frente, Soja Valentinovna preocupava-se com a colaboração inusitada que levara o Tenente Ugarov para o lado da nova médica.

Inicialmente, fitara, com espanto, as trazedoras de comida, ao saber da ação de busca de Ugarov. Vira Victor Ivanovitsch pela última vez ao lado da pesada MG, e acreditava que ele ainda estava lá, quando a pequena tropa de recebimento de víveres apresentou-se. Apenas depois de ter cumprimentado Stella Antonovna e tê-la apresentado às outras fuzileiras do comboio II, no qual Stella seria admitida, soube da saída não acompanhada de seu amante. Ficou rubra de raiva e preocupação até a raiz dos cabelos, deixou as moças estarrecidas em pé, a sós, e correu pela trincheira até o abrigo do Comissário Miranski. Foma Igorevitsch estava ocupado em banhar os pés em água quente com sabão. Há anos sofria de comichão nos pés, como se suas artérias estives­sem povoadas por um exército de formigas. Contra isso o único remédio era um banho em água quente com sabão. Miranski chegara a essa conclusão depois que todos os conselhos e terapias médicas se revelaram ineficazes.

— Nunca devemos esquecer os velhos remédios caseiros! — dizia ele, a partir de então, quando outras pessoas sofredoras lhe explicavam seus sintomas. — Toda a merda da medicina moderna nada vale contra uma erva caseira bem cozinhada!

— Onde está Victor? — gritou Soja Valentinovna, ao aparecer repentinamente no abrigo. Miranski patinhou no balde de zinco e colocou uma toalha sobre as coxas, já que estava vestido apenas com uma cueca aberta no meio. Fitou a Bajda espantado.

— Você está me perguntando? — respondeu pausadamente. — Mas até o melhor galo necessita de um canto para descansar!

— O que é que Victor está fazendo lá fora na estepe?

— Deixei claro para ele que deveria ir ver o que havia acontecido com as trazedoras de comida.

— As trazedoras de comida voltaram.

— Que sorte! — Miranski olhou para as pernas. Como é que vou enx gá-las agora, pensou. Se eu levantar a toalha, a Bajda verá minha cueca aberta. O melhor é não deixar que tal confiança se instale. — O que elas trouxeram? So­ja Valentinovna, leia o cardápio para mim!

— Victor não voltou com elas!

— Deus do Céu! — Miranski tirou as pernas da infusão de sabão. —Aconteceu alguma coisa?!

— Quem sabe? Victor foi para o lugar onde os feridos são cuidados, acompanhando uma moça que foi atingida. Uma médica o obrigou.

— Obrigou? — Foma Igorevitsch não acreditou no que ouvia. Empurrou os dedos indicadores no buraco dos ouvidos e se sacudiu. — Alguém obrigou Victor?

— Dizem que ela é muito bonita. Grande e dominadora! As moças contam que xingou Victor de idiota!

— Com certeza é uma psicóloga! — exclamou Miranski e sorriu como um macaco satisfeito. — O que a preocupa tanto, Camarada Capitão?

— Ele a acompanhou sem discussão.

— É, é coisa para pensar. — Miranski, este diabo, estalou a língua e revirou os olhos como um veado, pronto a pular. — Essa camarada médica deve ser uma verdadeira mulher-maravilha, se Victor Ivanovtsch pula de seus bra­ços, Soitschka...

A Bajda estraçalhou Miranski com o olhar, empurrou para a frente os lá­bios cheios, deu um forte pontapé na porta do abrigo e foi embora. Miranski finalmente pôde enxugar os pés. Salpicou-os com um pó amarelo, que fedia a enxofre, e calçou novamente suas grossas meias de lã.

Uma nova médica vem juntar-se a nós, pensava, em devaneio. E como estou ouvindo, uma diabolicamente linda. Quando tivemos a última médica própria da unidade? Vejamos, era na estepe do Don, quando o cerco de Stalingrado se fechou e o Sexto Exército alemão foi isolado. Naquela época a médica Marfa Vadimovna viajava conosco, uma verdadeira puta, meu Deus, com um rosto sério, seios que pareciam tetas de vaca e uma bunda na qual se poderia rachar lenha. E ela não temia nada, operava em pleno campo, sob ataque de tanques, bem no meio da estepe, tendo ao lado uma bandeira com a Cruz Vermelha Alemã, que fora conquistada e que pendia de um poste de madeira. Qualquer um que só visse a bandeira de longe desistia logo de atirar naquele pedaço de terra. E então lá estava fincada a mulher diabólica que extraía balas a bisturi, fazia curativos, costurava pedaços de carne e com três sar­gentos ajudava a levar os feridos para um lugar seguro. No dia 27 de setembro de 1942 ela morreu na linha férrea entre Olchovka-Kamuschin, ao norte de Stalingrado, quando, ao balançar a bandeira da Cruz Vermelha sobre a cabeça, procurava feridos na estepe. Uma bomba de um Stuka alemão, que atacava a linha do trem, a atingiu em cheio. Nem dela nem das cinco enfermeiras ficou um só pedaço.

Pouco após retiraram a divisão e a colocaram, fazendo um grande desvio sobre o Volga, na direção do Don médio, na frente sudoeste do General Vatutin. Lá ela ajudou a rebater as tentativas alemãs de salvar Stalingrado. Uma médica própria à divisão já não tinha mais. Só agora vem uma nova médica para a frente, e isto só pode significar que a ofensiva esperada não demorará a acontecer.

Miranski calçou as botas de pele, enfiou-se no grosso casaco de pele e foi para o abrigo II. As moças estavam acocoradas em seus catres, comiam a ração recém-distribuída e mordiam pão duro. Havia um cheiro ácido, desagra­dável, de repolho. Miranski franziu o cenho. Essa gente da cozinha não pensa em mais nada de novo, cogitou amargo. Então a Rússia só é feita de repolho azedo? Bem, esquenta o estômago, tem-se a sensação de estar aumentado, os intestinos incham como depois de uma orgia, e na realidade saem fezes baru­lhentas, que fazem lembrar dos bons tempos em que se comiam cebolas, lin­das, rosas, grossas e suculentas, e pepinos apimentados. Mas, com todos os diabos, mesmo depois de dois anos de guerra, deve haver ainda outra coisa além do repolho. Quem está se empanturrando com os milhares de vacas, carneiros, os incontáveis porcos, as galinhas, os patos e os gansos? E os cavalos? Camaradas, a Rússia sufoca de carne, basta pensar sobriamente, mas onde — ao diabo com a administração — onde fica toda essa carne? Certamente aqui na frente, na linha dianteira, aqui ela não chega, ou, para ser sincero e justo, só muito raramente. Uns poucos nacos, que nadam solitariamente na sopa e se envergonham por ser tão miseráveis. Então, quem está comendo toda essa carne? Quem consome montanhas inteiras de bifes suculentos?

Miranski suspirou e estremeceu assustado, quando uma moça se postou diante dele e se apresentou militarmente lacônica, com voz clara.

— Camarada Stella Antonovna Korolenkaja, presente!

— Muito prazer! — respondeu Miranski um pouco confuso e de forma nenhuma como deveria se comportar um oficial superior. Deu a mão a Stella e a achou bem simpática, mas nada tão imponente, como lhe tinham dito. Depois ele se sentou ao lado das moças, sobre um catre. No fundo do coração es­tava ofendido porque nenhuma repartição superior lhe comunicara a vinda da nova médica. Ela simplesmente estava ali, xingava o Tenente Ugarov, fazia a Bajda entrar em um delírio de ciúme e tinha a desfaçatez de enviar Ugarov pa­ra a retaguarda, ajudando a transportar um ferido.

Um tal estado de coisas Miranski não ia tolerar assim tão facilmente.

— Como foi essa história do Tenente Ugarov? — perguntou. — Eu quero saber de tudo, certinho.

— Tínhamos uma companheira ferida — respondeu Stella Antonovna. — Exatamente quando a Camarada Opalinskaja estava colocando gaze nos feri­mentos, o Tenente Ugarov caiu no nosso buraco de granada. Ele estava nos procurando.

— Continue — instou Miranski. — Isso eu já sei há muito tempo.

— Não há mais nada a dizer. Galina Ruslanovna e o Tenente Ugarov transportaram a companheira ferida para a retaguarda. Nós fomos para a frente.

— Por que nenhuma de vocês foi para a retaguarda?

— Então o Tenente ia carregar as latas e as panelas? — perguntou Stella e fitou Miranski com um olhar de censura.

É uma boa explicação, pensou Miranski, sim, é até um argumento lógi­co, irrefutável. Com isto pode-se até consolar Soja Valentinovna. Olhou agradecido para Stella, deu-lhe umas palmadinhas nas costas estreitas e saiu de no­vo para o frio cortante.

Contudo, percebeu que Soja Valentinovna não podia nem desejava ser consolada; com as mulheres, aliás, é impossível fazer tais distinções sutis. Ela apenas fitou Miranski com olhos zangados, faiscantes, quando ele lhe explicou que correr pela estepe com caçarolas às costas era algo abaixo da honra de um oficial de ligação.

— Tudo se descobrirá, Foma Igorevitsch! — exclamou a Bajda sombria. —  Amarre suas calças, se o medo lhe abrir a braguilha! Tenho bons olhos. Logo ficará claro para mim o que aconteceu com o Victor.

— Permita uma só pergunta! — berrou Miranski em um ataque repentino de desespero. — Isto aqui é um bordel ou uma divisão do Batalhão de Mulheres?!

— Ambos, seu bode fedorento, ambos, para que você o saiba! — berrou ela de volta. — Nós usamos um uniforme, podemos sofrer, sangrar e morrer. Lutamos pela nossa pátria como homens e nenhuma de nós jamais se queixou, nenhuma jamais fraquejou. Mas, e o que está por debaixo da saia, hem? Então estamos costuradas, só porque usamos um uniforme? Imprensar a carabina en­tre as pernas, isto é um substituto?! E aí ele ainda pergunta se somos um bor­del! Oh céus, um dia só gostaríamos de não ser mais nada do que putas!

Miranski percebeu que era impossível frear agora a Bajda. Tinha uma pena enorme do Tenente Ugarov; em segredo lhe reiterou sua piedade e achava que o melhor que podia fazer era sumir o mais rápido possível.

Soja Valentinovna cuspiu atrás dele, mas isto ele não chegou mais a ver.

De madrugada, ainda sob proteção da escuridão, a médica Opalinskaja e Ugarov retornaram. Cansados, tropeçavam nas trincheiras e esbarraram na Baj­da que, quase congelada, feito um pedaço de gelo, esperava os dois na trin­cheira principal.

— Bem-vindos! — sibilou ela venenosamente, fitando Ugarov, como se o quisesse retalhar com o olhar. — Eu sou a Capitoa Bajda.

— Eu sei, minha querida — respondeu a Opalinskaja com uma confiança diabólica, que apenas expressava o fato de que se considerava igual à outra. Uma médica não permite que lhe dêem ordens. — Victor Ivanovitsch me falou a seu respeito.

— Ah, é? — A voz de Soja Valentinovna assemelhava-se a um soluço. — O bom Victor. Ele tem um bom papo, não?

— Nós nos entendemos bem! — respondeu a Opalinskaja simplesmente. — Onde é que eu posso instalar minha posição hospitalar? A senhora tem um abrigo livre?

— Nós não sofremos baixas!

Pela primeira vez na vida Ugarov viu a Badja ficar sem resposta.

— Ainda não. — Galina Ruslonovna mirou as posições alemãs. — Isto vai mudar em breve. Lá atrás, na estepe, esperam sete mil tanques blindados, dez mil armas e mais de um milhão de soldados. A senhora não tem nenhum abri­go livre? Então me instalarei no seu, minha querida Soja Valentinovna. ..

Pela primeira vez na vida Ugarov viu a Bajda ficar sem resposta.

Ainda mais agitada ficou, quando os dois se viram a sós. Como Galina Ruslanovna na realidade tomou conta do abrigo de comando e o demonstrou retirando as coisas de sua mala de enfermagem e esparramando pela mesa pacotes de ampolas, recipientes de aparelhos de injeção, um fogãozinho de este­rilização com chama de querosene, os bisturis em uma sacola de pano de vela e uma porção de ataduras de gaze, Soja Valentinovna não teve receio em transformar o abrigo de Miranski em palco para uma grande dramatização.

— Seu filho da puta desgraçado! — berrou, sacudindo os punhos. — Sua titica de diabo, seu. . .! Oh, como o odeio, seu diabo de nove rabos! Bas­ta que venha aí uma sirigaita com pernas compridas, revirando os olhos e pei­tos pontudos, e já os botões da sua calça voam! Então você acha que eu vou ficar quietinha vendo isso! Devo me esconder em um buraco de ratos e escu­tar como vocês gemem tão alto que até o céu os ouve?! O que você pensou, seu rabo de Satã?! He, você não me conhece bem, seu anão de boca torta! Quer que eu lhe corte alguns centímetros, que fazem com que você se sinta tão superior? O que será então você, hem? Segurem-me. . . vou fazê-lo! Cor­tarei o seu peru! Ele não merece ter uma coisa dessas!

Miranski permaneceu quieto em seu catre e deixou que ela tivesse o seu ataque de fúria. Uma mulher de sangue quente, pensou, enquanto um calafrio quase sagrado lhe passou pelas costas. O bom Ugarov nunca sobreviverá a isso. No máximo pode ter a esperança de que os alemães matem essa fúria. Enquanto ela viver, o Ugarov não passará de um capacho.

Soja Valentinovna vociferou durante quase uma hora. Durante todo esse tempo Ugarov não disse uma só palavra, mui inteligentemente; só quando de repente a respiração de Soja falhou e ela se encostou, ofegante, contra a parede de terra, ele se virou para Miranski e lhe perguntou:

— O senhor é meu amigo, Foma Igorevitsch, não?

— Mas você sabe disso, Victor Ivanovitsch. Que pergunta!

— O senhor pode nos deixar seu abrigo por uma hora? Seria, na mais verdadeira acepção da palavra, um ato de amor.. .

Miranski fitou Ugarov abobalhado; compreendeu, jogou o casaco de pele sobre os ombros e saiu do abrigo. Que costumes são esses, pensou, chocado. Oh, aonde chegamos?! Lá do outro lado a morte nos espreita e eu preciso pas­sear no gelo, porque um bom amigo necessita da cama. Só espero que ninguém tome conhecimento disto!

Ugarov esperou até que Miranski tivesse saído do abrigo. Deixou.cair as calças, sem dizer uma palavra, e com o polegar acenou para o catre.

— Venha! — disse singelamente. — Então, venha logo.. .

Com um suspiro abafado Soja Valentinovna se jogou nos seus braços e o mordeu na curva do pescoço.

Na noite seguinte aconteceu algo de desagradável: as quatro moças do comboio I, que se haviam esgueirado para seqüestrar sentinelas na terra de ninguém, esbarraram numa resistência com que não tinham contado. Ao aparecerem diante da posição dos observadores e abrirem as blusas, não foi um espanto incomensurável que as esperou — fogo as atingiu, partindo de três carabinas.

Este foi o grande momento do Tenente Giovanni Lambordi, mas também foi o último.

A morte dos três oficiais alemães produziu consternação e perplexidade no comando superior do Oitavo Exército italiano. O Coronel von Starcken, um dos oficiais de ligação com o grupo do Don, fez um relatório minucioso para o Marechal-de-Campo von Manstein, que o recebeu dois dias após, junta­mente com os três cadáveres. O que se desejava calar, de vergonha, agora se tornara público: na região de Tschjertkovo desapareciam sentinelas de van­guarda “sem influência estranha” — em bom jargão burocrático alemão — e do lado soviético tinham colocado fuzileiras. Os tiros, precisamente alojados nos olhos esquerdos dos três oficiais mortos, visíveis, sem dificuldade alguma nas fotografias anexas, receberam com isso um valor quase documentário.

Entre o Grupo do Don e o escritório do Coronel von Starcken, nos “Alpinis”, como chamavam os italianos, os fios de telefone esquentaram. Era me­nos a morte dos oficiais que alarmava o Estado-Maior, que se reuniu para uma conferência extraordinária. Já era bem desagradável que uma curiosidade sem propósito tivesse levado a tal tragédia. Não, eram especialmente as circunstâncias acessórias que davam motivo para preocupação.

Como desaparecem sentinelas avançadas, sem deixar rastro? Por que o Exército italiano não julga necessário informar tais acontecimentos? Será que aqui aparece uma desmoralização dos italianos que, com a ofensiva russa esperada, pode levar a um desastre semelhante ao que ocorreu, no ano passado, por ocasião do avanço soviético sobre o Terceiro Exército romeno, na curva do Don, entre Jelanskaja e Kletskaja? Foi assim que havia começado a tragédia de Stalingrado. Os russos conseguiram cercar o Sexto Exército e 60 divisões soviéticas empurraram suas pontas entre as tropas de Paulus e os outros exércitos alemães, bem distantes, na estepe.

Será que algo semelhante irá acontecer entre o Don e o Donez?

Começava com a negligência de não relatar os desertores e poderia terminar com uma eclosão da frente em uma extensão de 100 quilômetros.

Os chefes das companhias foram intimados a comparecer ao regimento. Lá estava um tenente-coronel puto de raiva; berrava, falava da honra italiana e recordava os feitos heróicos dos romanos, cuja moral e vontade de luta eram exemplares naquela época, que depois conquistaram o mundo e ensinaram aos germanos o que era um aqueduto, um banho quente e um aquecimento de chão — esses mesmos germanos, que agora duvidavam da ética militar de seus aliados com um sorriso sardônico.

— A partir de agora irá pelo menos um sargento lá para fora junto com os observadores! — berrou o comandante do regimento. — Não quero saber de mais nenhuma deserção! De agora em diante cada oficial será responsável por cada desertor! Falei claramente ou não, seus palermas?

Ora, um tal xingamento o Tenente Giovanni Lambordi não iria aceitar cabisbaixo. Durante três noites sucessivas ele saiu junto com o seu observador mais avançado, deitou-se no buraco bem construído e olhou fixamente para os soviéticos. Ao passo que as sentinelas foram revezadas, Lambordi não dei­xou o lugar antes da madrugada e da posição de observação ser abandonada.

Na quarta noite elas vieram. Quatro sombras percorreram a terra rasgada, coberta de neve e se aproximaram deles. Lambordi respirou fundo. Não somos covardes, pois. De alguma forma estava se sentindo feliz. Ninguém de­sertou. Elas vieram cada vez como agora, silenciosamente, flexíveis como co­bras, quase invisíveis em suas roupas brancas de camuflagem. Era necessário ter olhos excepcionalmente bons para divisá-las a tempo. A tempo — aqui es­tava a solução de todos os problemas. Nenhum dos pobres coitados viu o ini­migo a tempo e, ao reconhecê-lo, já tinham sido surpreendidos e conquista­dos. Só isto pode ter acontecido, meus camaradas alemães! Perdemos nossos homens em um combate honesto. Agora podemos prová-lo.

— Deixe-os chegar perto — murmurou para as duas sentinelas. — Perma­neçam bem tranqüilos, meus amici. Deixe-os aproximar-se o mais possível. E depois, com a voz do comando, fogo livre. Os mortos levaremos conosco. . . eles serão as nossas provas!

Estavam deitados no seu buraco, as carabinas prontas para atirar, agachados atrás da terra que os protegia e esperavam com os corações a bater for­temente.

As sombras brancas movimentaram-se na sua direção; depois desapareceram subitamente como num passe de mágica, para depois reaparecer em ou­tros lugares onde não eram esperadas. Acercaram-se em completo silêncio, co­mo se os quisessem torturar.

Deveríamos disparar uma bola de fogo, refletia Lambordi. O campo de tiro ficaria claro como a luz do dia e elas estariam diante de nós como alvos. Mas nós também, e lá do outro lado os fuzileiros só esperam que algo se movi­mente aqui, entre nós.

Desistiu da bola de fogo, acenou para as sentinelas, procurando tranqüilizá-las e fez que não com a cabeça. Ainda não, deixem que cheguem ainda mais perto. Eles pensam que podem nos surpreender, mas hoje, somos nós quem os surpreenderemos.

Mais 10 metros. . . talvez sete... O Tenente Lambordi encostou a carabina contra o ombro com mais força. A mão esquerda, ao lado de sua cabeça, atrás da parede protetora, estava pronta para dar o sinal.

Neste momento duas das formas brancas se levantaram diante deles, bem eretas, uma voz de moça, clara, lhes falou alguma coisa, e Lambordi viu nitidamente como abriram os uniformes. Na luz fosca da noite cintilavam seios brancos.

— Madonna mia. . . — gaguejou uma das sentinelas.

Lambordi engoliu em seco. Tinha a sensação de que o estavam jogando em um fogaréu e as chamas o estavam incendiando. Então é isso, pensou. Foi por este motivo que nunca se disparou um tiro. Quem é capaz de atirar nestes seios?

— Fogo! — disse com voz rouca. — Fogo!

Ele atirou primeiro e as duas sentinelas seguiram seu exemplo. Mas atiraram mal. . . Suas mãos tremiam. Com um grande salto as duas moças desapareceram no campo de neve, deixaram-se rolar para o lado e deitaram-se, esticadas, sob a proteção de um pequeno monte. Ao mesmo tempo levantaram as carabinas e estavam prontas para atirar, no mesmo instante em que se deitaram por terra. Tinha sido ensaiado, isto elas sabiam fazer, precisão perfeita, como lhes tinha sido ensinado em Veschnjaki, e até o presente momento sempre lhes salvara a vida. Sabiam cair e rolar como gatos e se tornar invisíveis como raposas brancas na neve.

O Tenente Lambordi ainda teve tempo de colocar nova munição em sua arma. Para mais o seu destino não lhe deu oportunidade. À sua direita ecoou um tiro. A bala o atingiu com precisão na têmpora, ali, onde o capacete de aço, na pressa, escorregara um pouco para a esquerda. Um segundo mais tarde um tiro ecoou à esquerda. O cabo Paolo, que tentava virar de costas seu te­nente, foi empurrado para trás, pela força do impacto na cabeça. Abriu a bo­ca, da sua garganta saiu uma torrente de sangue, um segundo tiro alcançou seu pescoço. Mas este ele já não sentiu mais. Morreu tão depressa que não pôde mais pensar: você foi acertado.

O suboficial Fernando Bruzzi, o terceiro homem no buraco, fingiu-se de morto, na louca esperança de poder assim escapar. Antes, porém, ainda puxou a linha que os ligava às trincheiras.

Nos cavaletes de pau as latas de conserva vazias começaram a sacolejar. Um barulho ensurdecedor, que assustou a todos. Qualquer soldado da infanta­ria conhecia aquele barulho.

Alarme! Alarme!

Os homens pularam dos abrigos de terra, correram para suas posições, arrancaram as coberturas das metralhadoras, arrebentaram as fechaduras das caixas de munições, levantaram os canos dos lançadores de granadas, amontoaram as granadas de mão a seu lado na trincheira. No abrigo da companhia o sargento-mor, que dirigia a companhia na ausência do Tenente Lambordi, virava a manivela do telefone de campo chamando o batalhão e a tropa princi­pal da companhia, situada mais atrás, na reserva.

Alarme das sentinelas de vanguarda. Ainda não se pode ver nada. Eles devem estar se esgueirando.

Na área do regimento soavam as sinetas de alarme. As posições de artilharia foram ocupadas, os canhões colocados na terra, o melhor meio de defesa contra os tanques soviéticos T-34, estavam prontos para atirar em minutos. Na segunda linha foram carregados os pesados atiradores de minas. Mais atrás, entre o regimento e o estado-maior da brigada, esperavam cinco tanques Ti­gre, para, em caso de necessidade, fechar um avanço.

O suboficial Fernando Bruzzi teve uma sorte incrível. Estava deitado feito morto, ao lado do seu tenente caído, quando uma cabeça de moça se esgueirou pela margem do buraco de sentinela. Ele tinha deixado cair o queixo e revirado o corpo de forma bizarra, para surtir melhor efeito.

Os olhos femininos o examinaram friamente e pareciam estar convencidos, apesar de não se poder ver o buraco feito pela bala, porque o capacete de aço tinha escorregado, cobrindo os olhos. A cabeça desapareceu novamente. Depois a sombra branca escapuliu, misturando-se com a estepe cheia de neve, ainda antes que as bolas de fogo das trincheiras inimigas cruzassem o céu no­turno.

Fernando Bruzzi engatinhou, de volta, com o corpo a tremer. Caiu nos braços de dois camaradas, repentinamente perdeu o domínio de si, começou a esbravejar, dar socos em sua volta, pontapés, a cuspir e arranhar e só sossegou depois que alguém lhe deu dois tapas no rosto. Ficou sentado no abrigo, desanimado, olhando em redor com olhos rígidos e vazios e gaguejando:

— Mulheres! Mu. . . Mu. . . Mu. . . lheres. .. Sa. . . Sa. . . co. . . saco. . . sacodem os sei. . . sei. . . seios. . . Mu. . . mu. . . mulheres. . .

Levaram-no para o hospital de campanha em um trenó de transporte.

— Choque — disse o médico do Estado-Maior, que o examinou. — Este recebeu um choque para valer! Pode ser que fique meio pirado para sempre! — Deu uma injeção de morfina em Bruzzi, pois outra coisa não possuía, es­perando que o sono drogado o retirasse do estado de choque. — Então lá fora a penúria é tanta? O que ele quer dizer com tetas sacolejantes?!

—  Sr. médico, existem mulheres lá fora, adversárias — informou o sar­gento que trouxera Bruzzi para o hospital de campanha. — Fuzileiras! E elas seqüestram as nossas sentinelas. Quem jamais teria acreditado nisto? Nem é possível.. .

Já na manhã seguinte a notícia chegara ao Grupo do Exército do Don. O Ib a entregou pessoalmente ao Marechal-de-Campo von Manstein. Com uma expressão imóvel, como era seu feitio, Manstein leu a notícia. Quando termi­nou, mesmo assim o seu rosto de traços agudos, com o nariz adunco, não de­monstrou qualquer sentimento. Deixou cair a folha de papel sobre a escriva­ninha recoberta de mapas e fitou friamente o seu Ib.

— Isto só pode ser uma piada, meu caro!

— Relacionando a notícia com a morte heróica do Coronel von Rahden, do Major Schlimbach e do Major Halbermann ela ganha em verossimilhança. Provavelmente eles também foram surpreendidos pelas mulheres. Não há dúvi­da de que o inimigo colocou um batalhão de mulheres nesta parte da frente. Pelo menos uma unidade especial.

— Transmita isto como curiosidade ao OKH! — ordenou von Manstein com ar contrariado. Ele tinha preocupações muito diferentes e um punhado de mulheres que, segundo diziam, seqüestravam sentinelas italianas mostrando o busto não o fariam perder a calma. As notícias, que recebia de todos os lugares, eram de molde a formar um quadro horripilante. O Exército Vermelho terminara a sua marcha ofensiva. Somente na sua divisão da frente, no Grupo do Exército do Don, havia cinco exércitos soviéticos contra suas tropas dizimadas, em parte só existentes no papel. Suas solicitações ao Quartel-Gene-ral do Fuehrer em Rastenberg eram respondidas com reservas e simples pro­messas. Todos os olhares se dirigiam para Stalingrado. Lá o Sexto Exército morria uma morte violenta. Trezentos e sessenta mil soldados alemães esta­vam prestes a morrer à mingua. Não obstante, com sua atividade heróica, sui­cida, paralisavam 60 divisões russas e davam tempo aos outros exércitos ale­mães para que pudessem se firmar em novas posições.

Mas as outras frentes alemãs também estavam estremecendo. O General Eisenhower desembarcara no Marrocos e na Algéria com 500 navios e agora avançava em direção ao Corpo da África alemão. Rommel entrara em um combate de duas frentes, teve de deixar a posição de El-Alamein no Egito pa­ra o Oitavo Exército britânico e recuava, diante das tropas do General Montgomery, passando pela Cirenaica, para a Líbia. Em todos os lados as linhas ale­mãs desmoronavam. A ofensiva vitoriosa de 1941 e 1942 já fazia parte da histó­ria e não se repetiria mais. A Alemanha se esvaía em sangue na ferida de Sta­lingrado.

E então a gente deveria ainda se preocupar com algumas mulheres que, de busto desnudo, provocavam a deserção de um punhado de homens?

O Ib do Grupo do Don tomou a notícia de volta e deixou seu chefe. Como o Marechal-de-Campo lhe sugerira, enviou-a para o OKH de Berlim. A tí­tulo de curiosidade.

No entanto, o OKH levou a coisa a sério. Não o fato de as sentinelas se­rem seqüestradas, mas o aparecimento de divisões de fuzileiros femininos. Tais notícias não provinham só do Don — também do Décimo Sétimo Exército no Cáucaso, no Primeiro Exército Blindado no Terek, no Segundo Exécito perto de Voronesch e especialmente na área do 18º Exército na frente de Volchov. Além disso, guerrilheiros presos, antes de serem mortos a tiros ou enforcados, tinham relatado que na área dos pântanos de Pripjet, nas cercanias de Bobruisk, nas florestas do Dnieper e até em Borisov, ou seja, bem na retaguarda do Grupo do Exército do Meio operavam aproximadamente 1.200 mulheres, pertencentes a um grupo de mais de 26 mil guerrilheiros. Estas mulheres tinham recebido um treinamento perfeito e eram corajosas até a morte, frias como gelo ao operar. As unidades especiais da SS e da SD, convocadas para combater os guerrilheiros, já o tinham vivenciado muitas vezes: as mulhe­res se punham com os punhos erguidos sob a forca ou contra a parede, despe­diam-se de Stalin e de sua Rússia soviética e morriam com um orgulho inacre­ditável.

No comando supremo do Exército em Berlim, o Coronel von Hoetzendorf colecionava os relatórios. Estes eram complementados por notícias de agentes da divisão “Exércitos Estrangeiros do Oeste” e da defesa do Admiral Canaris: praticamente ninguém mais duvidava de que os soviéticos tinham co­locado batalhões de mulheres no serviço da frente.

— Isto é o máximo! — exclamou o Coronel von Hoetzendorf, quando a notícia do Grupo do Don chegou a suas mãos. — Com o busto desnudo para as tropas de choque! Estas devem ser uma espécie insólita de mulheres! Se is­to fizer escola em todas as frentes, a tropa vai precisar de mais soda na comida do que munições. Espero que pelo menos tenhamos suficiente soda. . .

Um chiste amargo, atrás do qual se ocultava uma impotência mais amar­ga ainda.

Porque cada tiro que aquelas moças disparavam significava um soldado alemão a menos. Elas só raramente erravam um tiro, muito raramente.

Peter Hesslich*, com um e e dois s, como costumava frisar, era, apesar do som do seu nome, um homem mais para bonito do que feio.

Era um homem forte, não muito alto, talvez l,75m, mas seus ombros eram largos e bem proporcionados e nos quadris estreitos era ágil como um dançarino. Era algo quase óbvio que em uma época na qual um “rapaz alemão” deveria ser “rápido como um cão de caça, forte como couro e duro como aço de Krupp”, Peter Hesslich fosse instado por todos a se tornar um desportista. Ele poderia escolher o que desejasse. . . jogador de disco, corre­dor, salto de altura, malabarista, lutador ou nadador — com suas aptidões po­deria fazer qualquer uma destas coisas. Mas ele não desejava fazer nada.

— A única coisa de que me poderiam convencer seria tornar-me nadador, estilo nado de peito. . . mas com as moças! — dizia, rindo, sempre que o assunto vinha à baila, de que era uma vergonha e uma verdadeira perda para o grande Reich alemão, e também para o esporte em geral, quando uma tal apti­dão atlética deixava de ser utilizada.

Em 1936, quando a juventude do mundo — como o dizia a propaganda NS (nacionalsocialista) — se encontrava em Berlim, para os Jogos Olímpicos e diante dos olhos horrorizados do Fuehrer um negro, Jesse Owens, ganhou três medalhas de ouro, Hesslich chegou a receber a visita do Gauleiter substituto.

— Nem isto o faz despertar, Peter? — perguntou, horrorizado, o homem do partido, vestido com um traje amarelo-marrom e decorado com tiras de ouro. — Um preto degrada a raça branca! Que triunfo da inferioridade! E o senhor fica aí sentado, apesar de ter o tutano para bater todos esses homens de segunda categoria e provar o que é a raça germânica! Não fique aí sorrindo feito besta, Peter! Nós sabemos quão bem é capaz de correr e que altura é capaz de saltar! Nós sabemos que o senhor pode ser, no esporte, um ás, um malho, que irá jogar no lixo todos esses sujeitos moles da América! Peter, o seu coração não se despedaça, o seu coração de alemão, ao ver que um negro leva os três pequenos carvalhos que o Fuehrer doou?! Três carvalhos alemães em uma favela de negros! O senhor viu o jornal cinematográfico? O Fuehrer parecia petrificado. O Reichssportfuehrer estava prestes a chorar. Goering estava sentado, feito múmia. A alegria dos americanos e de seus amigos de­vem ter soado aos ouvidos do Fuehrer como um escárnio da raça branca! E o senhor o que faz, Peter Hesslich? O senhor não faz nada. . . e com isto trai a sua pátria! A sua consciência não se mexe?

Hesslich, na realidade, não sentia dores de consciência. Ao contrário, ninguém podia obrigá-lo a correr, pular, fazer malabarismos na barra, levantar halteres ou empurrar uma bola. Nem o Gauleiter nem o próprio Fuehrer. Não se pode dar ordens a músculos. Não se pode planejar os resultados em décimos de segundo, exatamente. Aí sempre está participando um homem, um corpo sujeito a acidentes, um fator de insegurança incontrolável.

Nesta época Peter Hesslich estava realizando seus exames de conclusão do curso de 2º grau. Seu pai era professor de geografia e francês e muito querido pelos seus alunos no Schlageter-Gymnasium em Wupppertal. Nas au­las de francês muitas vezes relatava seus anos de estudos em Paris e Grenoble, suas descidas de esqui nos Alpes cobertos de neve e umas férias aventureiras na Argélia, na cadeia dos Atlas e nas imensas dunas de areia do grande Erg. Com isso também fixava o tema para a próxima aula de geografia. Friedrich-Wilhelm Hesslich era, indubitavelmente, um grande pedagogo, que sabia despertar o interesse de seus alunos. Mas exatamente isso o fazia malvisto e sus­peito na sociedade de professores do Partido Nacionalsocialista e no colegiado de escolas da Província em Duesseldorf. Despertar saudades de países lon­gínquos não era do interesse da educação do povo. As noites do grupo jovem e da juventude de Hitler, aos sábados, e o domingo, que como dia da Juventu­de do Estado estava reservado para a prestação de serviços da JH (Juventude Hitlerista), eram decididamente objetivos mais elevados que as choças de lama imunda dos berberes. E, afinal de contas, um professor de francês precisa ser tão francófilo, a ponto de romantizar os Alpes de Savoy? Então já esquece­mos Versalhes? A paz vergonhosa de 1918? A desonra da Alemanha na sala de espelhos? As reparações? A ocupação da região do Reno pelos franceses? E Schlageter, cujo nome o ginásio recebera,, o patriota alemão digno, que fez voar pelos ares a retaguarda das tropas de ocupação e que fora por isso, como de direito, fuzilado pelos franceses no campo de Golzheim, nas cercanias de Duesseldorf, no dia 26 de maio de 1923? Sim, por tudo que é honra no mun­do, como é que um professor alemão pode simplesmente ignorar tudo isso?

Friedrich-Wilhelm Hesslich era observado cuidadosamente e secretamen­te também o censuravam pelo fato de seu filho Peter, que parecia ter nascido para o esporte, não querer fazer nada em prol da glória da Alemanha. Peter cresceu em uma atmosfera de desconfiança geral, que nunca o deixou. Colara-se nele como um sinal de nascença.

Depois de concluir o 2º grau ele não se tornou professor, como o desejava o pai, mas se ocupava da natureza, de plantas, árvores e animais. Queria ser guarda-florestal. De certa forma, isto se adaptava a ele: quem olhava para Peter, nos seus olhos ternos, compreendia repentinamente que Peter Hesslich podia ficar sentado durante horas em um banco alto ou atrás de um arbusto, para observar os animais. Para o esporte nacionalsocialista ele estava definitivamente perdido. Enquanto os outros treinavam com o suor a lhes escorrer das faces, ele andava pelas florestas, escutava o canto das aves nos carvalhos, alegrava-se com o batucar dos pica-paus, espreitava os galos silvestres e apren­dia, em uma clareira da floresta, deitado no musgo quente e perfumado, as artes do amor com uma mulher madura. Até então Peter Hesslich só conhe­cera moças da sua idade, que ficavam de costas, gemendo. Agora ele havia caí­do nas mãos experientes da mulher do residente florestal — e seu amor à na­tureza se potencializou.

Era aluno na classe preparatória para a academia de residentes florestais e seus amigos o interpelavam constantemente, tentando convencê-lo a entrar para a SA, para o grupo de esportes ou para o NSKK, o corpo de motoristas de veículos pesados do Partido Nacionalsocialista. Até o seu professor julgava que se Hesslich desejasse progredir na sua carreira era imprescindível ter qualquer distintivo do partido. Sem o emblema de zinco ele seria, como funcionário do governo, sempre o último na lista das promoções. Afinal de contas, um sentimento nacionalista patente era agora a melhor legitimação, cem vezes melhor do que todos os boletins escolares e desempenhos. Infelizmente o professor Friedrich-Wilhelm Hesslich morreu repentinamente. Melhor dizendo, sufocou-se com uma espinha de peixe encravada na laringe. Antes que um médico pudesse interceder, Hesslich ficara azul e deixara de respirar.

Com a morte insensata do marido, Wilhelmine Hesslich, a mãe de Peter, ficou muito deprimida, caindo em uma psicose da qual não se refez mais. Fi­cava horas sonolenta; finalmente tiveram de interná-la e nem mais reconhecia o próprio filho.

Só algumas semanas depois dessa tragédia doméstica seguiu-se uma pro­fissional. Há meses caçava-se furtivamente na região de Peter Hesslich; atirava-se, sem nenhuma seleção, em bodes e corças grávidas. Animais feridos morriam miseravelmente - era realmente uma merda incrível. Patrulhas rondavam dia e noite, não havia nenhum suspeito e também não havia rastro nenhum, exce­to os lugares cheios de manchas de suor e os animais feridos, agonizantes.

Em uma noite de lua clara Peter Hesslich repentinamente se viu diante do caçador ilícito desconhecido. Num atalho, exatamente na fronteira da região, o desconhecido saiu da floresta — um homem grande, pesado, com um traje de treinamento azul-escuro e botas de borracha.

Peter Hesslich o chamou, de acordo com as normas.

— Pare! Fique parado!

Mas o homem nem pensou em obedecer. Virou-se rápido como um raio, levantou a espingarda e mirou Hesslich, que estava totalmente indefeso.

Mais tarde Hesslich não sabia como explicá-lo: ele fora mais rápido. O seu tiro ecoou um pestanejar antes do tiro do seu adversário. Ao passo que a bala do caçador ilícito se perdeu alhures no céu noturno, o tiro de Peter acertou. Espantado Hesslich viu como o homem caiu, a espingarda escapou-lhe das mãos e o corpo se distendeu. Correu horrorizado em sua direção, ajoelhou-se a seu lado e levantou a cabeça do homem em que acertara. Era terrível, Ele matara um homem. Certo, tinha sido em defesa própria, mas ele o matara!

Na casa do residente florestal embriagou-se. Tinham colocado o cadáver numa cela vazia no curral dos porcos vizinho, até que chegasse a polícia e o transporte funerário.

— Matei um homem — disse Peter Hesslich, repetidas vezes, com voz monótona. — Vocês podem tentar me consolar como quiserem. . . eu o matei. Isto nenhum de vocês jamais fez! Vocês nem imaginam como me sinto.

Todos os funcionários superiores, inclusive o Forstrat, apareceram no lugar do delito, examinaram o cadáver no curral de porcos e admiraram o tiro.

— Bem no meio da testa — concluiu o regente florestal, o chefe imedia­to de Peter. — Imaginem. . . um tiro desses a partir de uma reação rápida como um raio! Legal, não?

— Uma vocação natural. — O Forstrat acenou várias vezes, elogiando o tiro. — Então, ninguém percebeu esse talento nos exercícios de tiro ao alvo?

— Os resultados foram normais, isto é, sempre os melhores! Mas quem é que ia pensar. . .

— A cegueira diante do que está na nossa frente é o que sempre prejudica o desenvolvimento do povo — disse sabiamente o Forstrat. — Meu Deus, quando se pensa quantos talentos inutilizados estão adormecidos nesse Hesslich! Ele é um bom rapaz mas no fundo um cachorro preguiçoso. O que não poderia vir a ser? Por que o fedelho não tem ambição nenhuma? Deve ser pos­sível fazer alguma coisa.. .

Na realidade, “fizeram alguma coisa”: a autoridade estadual florestal de­sistiu de solicitar, na época apropriada, novamente uma liberação do aluno Peter Hesslich do serviço militar em função da sua indispensabilidade e o libe­rou imediatamente para o Exército. O Forstrat escreveu confidencialmente ao comandante do comando militar da província: “Peter Hesslich é altamente dotado em todos os tipos de esportes e um atirador de primeira. Nossa repartição tem muito interesse em fomentar seus talentos também no Exército. Peter Hesslich justifica, em alto grau, as esperanças do Fuehrer de que uma sele­ção dos melhores homens alemães assegurará o futuro do Reich.

Uma carta infame, mas que ao mesmo tempo iria representar para Peter Hesslich uma espécie de passaporte protetor. O comando de defesa da provín­cia, em Muenster, levou a carta a sério. O próprio general pediu o comparecimento de Hesslich, mas não conseguiu ver nele nada de especial, a não ser os olhos românticos, cor de corça marrom.

Espantoso, pensou, então esses olhos suaves conseguem acertar infalivelmente no alvo. Bem, veremos, pois, o que uma educação militar rígida vai conseguir fazer nele!

Após um ano de serviço na Companhia de Infantaria em Wesel, sempre interrompidos por cursos desportivos, Peter alcançou o posto de cabo, o que seus superiores julgavam uma pura vergonha. O seu chefe de companhia o xin­gou, o seu tenente o atazanou (para que em você finalmente o cu arda na água e seu cérebro fique livre); das manobras sempre saía como o mais imundo, nas manobras em Muenster e no campo de Lueneburg era aquele que dava os re­cados e o acossavam até que ofegava feito um cão. Mas quando o seu capitão lhe perguntou:

— Então, Hesslich, como é que se sente? Como alferes e depois como oficial não precisará mais disto. . . então o senhor mandará os outros pular. . .

Respondeu desafiadoramente:

— Não sinto vocação para ser oficial, Sr. Capitão. Eu sou guarda-florestal.

Tudo se modificou quando Hitler, na sexta-feira, dia 1º de setembro de 1939, diante do Reichstag, onde comparecera pela primeira vez em unifor­me de campanha cinza, exclamou com voz de trovão:

“Decidi falar com os poloneses na mesma língua com que eles dialogam conosco há meses. . . A partir das 5:45 iremos revidar os tiros. . .”

A fala terminou com a notícia, impossível de interpretar erroneamente, do que seria a partir de então o destino de todos os alemães:

“Assim como eu mesmo estou pronto para sacrificar minha vida a qualquer instante — qualquer um ma pode roubá-la — para o meu povo e para a Alemanha, também exijo o mesmo de todos os outros. Mas quem acreditar puder resistir, direta ou indiretamente, a esta ordem nacional, cairá! Os trai­dores nada têm a esperar senão a morte! Todos acatamos apenas, com isto, o velho preceito: é totalmente desprezível se vivemos, mas é necessário que a nossa pátria, o nosso povo, a Alemanha viva!”

Ao ouvir esta fala do Fuehrer, no pequeno rádio de baquelite, Peter Hesslich já estava na posição de ofensiva em Neusalz no Oder. Pertencia à tro­pa da companhia, portanto estava com a cozinha da campanha, o escritório e os soldados atrás da linha dianteira e agüentava com uma paciência divina os comentários do sargento-mor de sua companhia, que culminavam com a frase:

— Você deve ter uma avó em comum com o Fuehrer, senão você não estaria aqui e sim na frente, com a primeira tropa de choque!

Em janeiro de 1943, depois da campanha contra a França e na ofensiva russa na divisão do meio do Nono Exército, Peter Hesslich ainda não tinha chegado a mais do que suboficial. Nos seus documentos militares encontrava-se a seguinte avaliação:

“Ele não tem ambição, cumpre seu dever conforme as ordens que recebe, não chama a atenção em nada, muitas vezes é displicente. Um bom camarada em qualquer frente, como chefe de grupo um pouco frouxo, mas o melhor fuzileiro da divisão. Ganhou todos os campeonatos de tiro ao alvo com o maior número possível de pontos positivos.”

Uma avaliação péssima, com exceção do final, que selou o destino de Hesslich.

Durante todo o ano de 1942 ele viajava pela frente com um comando especial. Por onde aparecesse, era recebido com espanto ou olhares malévolos. Em qualquer lugar em que do lado soviético fuzileiros da Sibéria transforma­vam a guerra de posição em um duelo mortífero, aparecia Peter Hesslich com sua unidade especial. Isto aconteceu em Demjansk, diante de Leningrado, no Lago de Peipus, em Smolensk, em Voronesch e na região de guerrilheiros nos pântanos de Pripjet e na via rodoviária peito de Orscha.

— Eles também só cozinham com água! — diziam os fuzileiros dos bata­lhões alemães, quando aparecia Hesslich, se instalava nos buracos da terra de ninguém e depois, com uma calma quase sinistra, ganhava os duelos com os adversários soviéticos. Denominavam isto de “Corta!”. Era uma tarefa inexo­rável, da qual Peter Hesslich não escapava mais. Depois de ter vivenciado algu­mas vezes quão precisamente os siberianos matavam os apanhadores de comida, os portadores de relatórios, as sentinelas de observações e até enfermeiros com o sinal da Cruz Vermelha, como a rapaziada da taiga e da tundra esgueiravam-se friamente e sempre acertavam seu alvo, a sua visão ética do mundo se modificou. O sentimento horripilante — ter matado conscientemente um homem — deu lugar a um princípio simples: você ou eu!

Em 1942 Peter Hesslich foi condecorado com a Cruz de Ferro I, com a medalha dourada do combate frente a frente e recebeu um aperto de mão do General von Kluge, o comandante principal do Grupo do Exército do Meio. Depois foi retirado da frente e deslocado para Posen. Lá então ficava sentado em um quarto quente, com cortinas nas janelas, muito tempo de lazer e tédio; durante seis horas diárias ficava diante do alvo ou “acertava” em alvos móveis; esgueirava-se pelo campo, onde de repente surgia um camarada de papelão, que ele imediatamente acertava com um tiro; passeava por florestas, onde nas copas das árvores alvos escondidos o aguardavam, atirava ao correr e ao cair, ao rolar para longe e enterrado na água até o pescoço; engatinhava, camuflado de arbusto, sobre estepes planas, e aguardava em troncos ocos de árvores os adversários de madeira, pintados, que lhe tinham sido designados.

Tudo isso fazia parte de um treinamento especial dado a um grupo pequeno. Ele vivia nos arrabaldes de Posen, em um velho edifício industrial; era comandado por um major e era anônimo. No portão de entrada da fábrica não havia nenhum signo tático, nenhuma indicação da unidade. Apenas uma tabuleta com a advertência: “Entrada expressamente proibida. Perigo de epidemia!”

— Coisa melhor não nos poderia acontecer — disse o pequeno e ágil suboficial Uwe Dallmann, satisfeito, quando chegou, junto com Peter Hesslich, a Posen e estava diante do portão da fábrica. Hesslich viera de Voronesch, Dallmann de Rostov. A caminho do quartel se encontraram e logo se tornaram amigos. Dallmann era um rapaz alegre, louro, de 22 anos, com claros olhos azuis e mãos delicadas. — Aqui ninguém nos controlará mais. Se conse­guirmos sorrateiramente deixar entrar mulheres, estamos a salvo. Temos bastante lugar para nos esconder.

O Major Molle não parecia ficar estranho a tais ponderações. Quando Hesslich e Dallmann se apresentaram, ele disse quase paternalmente:

— Nós somos aqui um pequeno grupo, que está ligado pela morte e pela destruição. Recebemos um estatuto especial do OKH, as armas mais novas e melhores e o equipamento mais perfeito, alvo de inveja de qualquer unidade SS. Vocês serão aprovisionados como touros de exposição, mas isto não signi­fica que devam agora pular em cima de cada saia! O serviço que os aguarda irá entrar em seus ossos e rebentá-los até o tutano. Vocês nem terão mais tesão de mulher, mas se tornarão os melhores fuzileiros da Wehrmacht! Melhor que o pessoal da Sibéria, isto eu prometo a vocês, e se não o fizerem, irão lamber o chão da fábrica, até que ele fique limpo! Trata-se aqui de um comando secreto, compreenderam? Se qualquer coisa transpirar lá fora, se eu descobrir uma única puta aqui, haverá uma corte marcial com todo o carnaval! Vocês entenderam o que quero dizer com carnaval?!

—  Sim senhor, major! — berraram Hesslich e Dallmann.

— Um o tentou. Agora está no 999!

Novecentos e Noventa e Nove era um batalhão de punição da Wehrmacht, do qual se falava muito, embora ninguém soubesse nada de definitivo. Só uma coisa estava clara: quem ia para o 999 passava a ter o seu atestado de óbito em branco na bolsa.

Se Hesslich julgara, até então, ser um bom fuzileiro, o Major Molle, ali em Posen, lhe mostrou que em comparação com a sua própria habilidade Peter não passava de um enurético, um artista de urina. Só quando Hesslich em um campo encoberto conseguiu apagar um camarada de cartolina, com um uniforme soviético e o rosto de uma jovem linda, mediante um maravilho­so tiro na cabeça, o Major Molle se deu por satisfeito.

Nesta moça de cartolina todos os outros componentes do curso tinham fracassado. Ao ver o lindo rosto com os cachos pretos, que aparecia repentinamente, de lado, no terreno ondulado, hesitavam perplexos durante um segundo ou mais. Antes que pudessem atirar, o Major Molle já berrava no alto-falante. Tinha visão plena da situação através de seus binóculos.

— O senhor está morto, Dallmann! — trovejava. — Se fosse a sério, o se­nhor já teria um buraco no crânio! Por que o senhor ficou aí olhando feito uma besta? Só porque é uma mulher? Dallmann, a morte tem mil disfarces! Quantas vezes mais lhe devo dizer isto?!

Isto acontecia com todos, só Hesslich “atirava” sem hesitar. Como recompensa, pôde deixar a fábrica. Folga na cidade até a hora da chamada matinal.

Aonde vai um soldado depois de nove semanas de isolamento com boa alimentação?

— Agora o bordel de Posen necessita de baldes inteiros de água vegeto-mineral para esfriar — disse Dallmann, cheio de inveja. — Gente, este terá o que contar quando voltar para casa! Quem de vocês ainda sabe como é um bico de seio?!

Mas com Hesslich as coisas eram diferentes. Não correu para o bordel. Foi, porém, ao teatro estadual de Posen e assistiu a uma representação da peça Uma Briga Fraterna em Habsburg, de Franz Grillparzer.

— Totalmente pirado! — gemeu D”allmann abalado, quando Hesslich lho contou. — E uma coisa dessas recebe folga até a chamada matutina! Grillparzer...

No dia 10 de janeiro de 1943, o Major Molle mandou chamar Hesslich e Dallmann.

— Amanha” os senhores serão desligados, vinculados ao Grupo Don e de­vem se apresentar ao Oitavo Exército Italiano.

— Chê. . . — disse Dallmann, audacioso.

Molle o fitou com espanto.

— O que quer dizer isto, Sr. Suboficial?

— Para os itacos! Deveremos mostrar a eles como se carrega uma carabina?

— O seu preconceito contra os nossos aliados desaparecerá rápido, Dall­mann. Os italianos realizaram feitos heróicos. Quando o Primeiro Exército soviético atacou em massa na frente do Don, o Oitavo Exército italiano, qua­se congelado pelo frio mortífero, bateu em retirada com uma defesa a ser elogiada. Os italianos, acostumados com o sol, choraram de desespero nesta frente, mas conseguiram livrar-se do cerco. Bateram em retirada, finalmente assentaram posição na linha de trem Millerovo-Rossosch e deste modo forma­ram uma cunha entre o Sexto Exército soviético e o Primeiro. Apesar do Ge­neral Badanov, do Primeiro Exército afirmar: “Os italianos foram varridos pelo vento!”, isto não era verdade. Eles estão mantendo a posição! E é para lá que os senhores irão viajar amanhã. Os italianos têm preocupações na região de Tschjertkovo.

— Então é isso! — exclamou Uwe Dallmann.

O Major Molle olhou sério para Hesslich e Dallmann e depois abriu uma pasta.

— A ordem vem do próprio OKH. Notícias da defesa e da divisão de exércitos estrangeiros oeste confirmam as seguintes observações dos italianos: Em Tschjertkovo há um batalhão de mulheres na linha de frente. Fuzileiras. As perdas são alarmantes. Rapazes — Molle falou de modo amistoso e até re­laxado — eu espero que vocês não esqueçam no Don o que aprenderam aqui em Posen. Quer sejam lábios rubros ou tetas firmes, a morte está diante de vocês. Nada mais! Pensem sempre nisto: a morte tem mil disfarces!

Naquela noite os dois tomaram um porre para valer. Ao chegar a madrugada Dallmann começou a ficar melancólico e chorava incessantemente:

— Oh, merda! Oh, que merda! Temos de lutar contra mulheres. . . eu preciso matá-las, sem deitar-me sobre elas. . . Oh, merda de guerra! — Estava deitado de costas, fitava com olhos rígidos o teto e o seu rosto tremia como se estivesse preso de convulsões.

Mas dois dias após, em 12 de janeiro, eles acabaram por não partir.

No dia 12 de janeiro a frente do Don, a partir da grande curva do sul até 500 quilômetros para o norte, em Novosil, a oeste de Orei, estalou com o trovejar de 16 mil canhões.

A ofensiva de inverno soviético começara.

A frente de Brjansk, comandada pelo General Reiter, a frente de Voronesch, comandada pelo General Golikov, a frente sudeste, comandada pelo General Vatutin e a frente sul, comandada pelo Coronel-General Jeremenko flutuavam para este. Flutuavam no mais verdadeiro sentido da palavra: 13 exércitos soviéticos com 7.100 tanques e 2 milhões e 400 mil soldados correram contra seis exércitos alemães e aliados, contra divisões alemãs, muitas vezes só com a força de brigadas, contra companhias alemãs, que eram compostas de 40 ou 50 homens enervados pelo frio cortante e só pele e ossos, que de há muito tinham perdido todas as esperanças.

Um mar vermelho inundou a estepe do Don. O Primeiro Exército sovié­tico jogou com toda a força sobre o Oitavo Exército italiano e arrebentou as posições com uma corrida de choque de infantaria e tanques, depois que a ar­tilharia as tinha massacrado durante horas.

Toda a frente alemã cedeu diante do impacto. A retirada começou sob tempestades uivantes de gelo, os soldados se socorriam fugindo dos cercos soviéticos, ubíquos; em marchas violentas levavam o que ainda conseguiam carregar, fugiam das massas de soldados russos descansados e de sua superiori­dade material, contra a qual não havia defesa possível.

Um dia antes da grande rajada de artilharia, com a qual começou a ofen­siva, a unidade feminina especial da Capitoa Soja Valentinovna Bajda reti­rou-se da linha principal de combate; primeiro se afastou por meio de trenós e depois com caminhões, da região imediata da frente. Só em Bokovskaja no Teschir, ainda detrás das posições firmes da artilharia pesada, ela parou e recebeu um quartel em um edifício administrativo da sovchose Don Eterno.

Miranski respirou aliviado. Aqui a guerra estava suficientemente longe, de modo que podia dizer com convicção: mais uma vez tudo deu certo. Tinha temido que também sua divisão teria de entrar no combate como o fizeram — por exemplo em Leningrado e Stalingrado — outras companhias femininas. Mas o General Vatutin decidira de forma diferente. Um dia antes da ofensiva recebera a visita do General Ivan Rasulovitsch Kitajev, um camarada da central de ordens de Moscou. Kitajev tinha dado a entender que exatamente esta divisão feminina era valiosa demais para ser exposta a uma ofensiva de choque. Ela era especializada na guerra de trincheiras. Uma moça como Stella Antonovna era uma lutadora solitária invisível, não um membro a correr junto com a massa, que ao avistar o inimigo berrava, com uma voz capaz de estraça­lhar os nervos: “Hurra!”

Enquanto Peter Hesslich ainda permanecia em Posen, lia as notícias da Wehrmacht e acompanhava com um Atlas escolar o que se entendia por dimi­nuição tática da frente, Stella Antonovna era recebida pelo General Vatutin, o comandante da frente sudoeste. No turbilhão da ofensiva vitoriosa, na con­fusão de pessoas, carros, tanques, cavalos e canhões, Vatutin arranjou alguns minutos para vê-la. Apertou-lhe a mão, estudou seu livro de tiros e a abraçou carinhosamente.

— Quarenta e nove alemães! Nós estamos orgulhosos de seus feitos, ca­marada Korolenkaja!

Ela recebeu a sua segunda medalha pela coragem. No Exército Vermelho só existia uma fuzileira, uma única, que sobrepujava Stella Antonovna —a lendária Ludmüla Pavlitschenko, da 25a Divisão de Infantaria. Até o presen­te momento, tinha 105 acertos.

— Você ainda a alcançará, Stellanka — disse Miransld, quando ela voltou para Bokovskaja depois da visita ao General Vatutin. — Ludmilla tem mais tempo de serviço que você. Espere até que a gente volte de novo para a fren­te. Ou atrás das tinhas alemãs, de pára-quedas. Mostre sua nova medalha. Olhe, como cintila ao sol! É de ouro? Não, certamente só folheada a ouro, mas, que importa? É uma grande honra. . . todos podem ver como você é corajosa!

Os exércitos russos avançavam, sem que nada pudesse detê-los, na dire­ção de Rostov e Charkov. O Grupo B, comandado pelo Coronel-General von Weichs, praticamente deixara de existir.

Em Posen, Uwe Dallmann comentou, à vontade:

— Com essa merda no Don nossa posição junto com as mulheres já foi enfiada no cu! Graças a Deus, isto me metia um medo terrível!

Uwe Dallmann enganava-se redondamente.

No mês de abril o mundo se modificara. Não parecia estar melhor — como é que poderia? — mas pelo menos o futuro se delineava mais claramente. Isto nada tinha a ver com a primavera, nada com o degelo e com a camada de gelo a se quebrar nos rios, nada com as ruas totalmente enlameadas e com os primeiros raios do sol, esquentando a terra, que, como por milagre, durante a noite, deixavam a grama ficar verde, magicamente faziam surgir o açafrão da terra, tingiam de amarelo os bambuzais e deixavam cintilar, feito prata, os choupos. Por mais que a natureza se deixasse ficar presa ao ritmo anual ordenado por Deus, apesar de tanques e granadas continuarem a assolar a re­gião e os incêndios enegrecerem vastas extensões de terras — o que importa­va era que os quatro grupos dos exércitos soviéticos tinham empurrado to­da a frente alemã do sul, de modo que o Don novamente era um rio russo, no qual se podia pescar com anzóis e pequenas redes, depois do gelo estalar, e em cuja estepe, nos campos e nos jardins dos povoados, a pá novamente abria a terra, plantavam-se mudas e espalhavam-se sementes. Em primeiro lugar recuperaram Voronesch. Cursk ficava no ponto médio de uma cunha da frente soviética, que cindira as linhas alemãs entre Orei e Charkov. Rostov comemorou a volta dos irmãos russos e começou logo com a reconstrução, apesar das posições alemãs em Taganrog estarem quase ao alcance da mâo; isto, porém, não incomodava ninguém. . . Sabiam, tinham certeza de que os alemães nunca mais conseguiram chegar novamente ao Don.

No sul o Grupo A, sob o comando geral do Coronel-General von Kleist tivera de abandonar todo o Cáucaso e se dissolvera. O Primeiro Exército Blindado pudera alcançar o Donez, em marcha forçada, o Décimo Sétimo Exército recuou para a Península Taman, que se imiscui entre o Mar de Asov e o Mar Negro e lá foi cercado. Um destino, como aquele que sofrerá o Sexto Exército em Stalingrado, agora também se delineava para o Décimo Sétimo. Hitler ordenou que resistissem, sem qualquer condição. O apelo urgente de von Manstein, evacuar para o Krim, porque cinco exércitos soviéticos avançavam contra as tropas alemãs, cansadas e exangues, foi simplesmente varrido da mesa no Quartel-General do Fuehrer.                                          „

A ofensiva vitoriosa das divisões russas só terminou no dia 26 de março. Tinham conquistado o grande alvo, Charkov, mas o perderam de novo em virtude de uma rápida ofensiva contrária de von Manstein. Com uma mobilização inacreditável, alimentada pelo desespero, o Primeiro Exército que acabara de chegar do Cáucaso, totalmente esgotado, o 30º Corpo do Quarto Exército Blindado e a Divisão Kempf conseguiram deter o avanço soviético, que alcançara até Crasnograd e a região próxima ao Dnjepropetrovsk e depois encurralaram, apoiados pelo Corpo Kraus e pelo Corpo Blindado SS II, o Terceiro Exército Blindado e o Quadragésimo Exército russos, que avançavam inexoravelmente.                                                                     

Charkov, o símbolo desta ofensiva de inverno, foi novamente ocupada pelos alemães. A frente se estabilizou no Donez e no Mius — começava uma nova guerra de trincheiras.                                                                 

Nesta primavera de 1943 a morte respirou mais uma vez, por assim dizer descansou algumas semanas, mas na realidade apenas afiava a foice com a qual costumava erradicar povos inteiros.

Tanto do lado russo como do alemão as posições foram estabelecidas. Atrás do Donez, na estepe até Oskol e ao norte de Cursk, em uma grande curva, que os soviéticos tinham conquistado, centenas de milhares construíam os sistemas de trincheiras mais fortes e melhores, os mais perfeitos, que nunca dantes tinham sido erigidos: sete linhas fortes uma atrás da outra, abrigos e posições de artilharia, grupos de tanques e reservas, depósitos de aprovisionamento e bases aéreas. A frente central sob o comando General Rokossovskij e a frente do Voronesch com o General Vatutin, esta cunha entre o Grupo do Meio e o Grupo Sul, transformaram-se em uma fortaleza terrestre ímpar. No sul, ao redor de Charkov, dois novos grupos militares soviéticos se entricheiraram: a Frente da Estepe sob o comando do General Conjev e a Frente Sudeste com o Coronel-General Malinovskij.

O descanso era urgentemente necessário. A batalha do inverno de 1942/43 tinha exaurido os alemães — mais de 100 mil mortos, 5 aviões abatidos, 9 mil tanques destruídos ou conquistados, milhares de outros veículos, mais de 20 mil fuzis e outras armas — como é que a Alemanha, totalmente isolada, poderia superar isto?

As perdas soviéticas eram ainda maiores - mas lá as contas eram feitas de outro modo. “Material humano” havia bastante. Material inerte,como caminhões, tanques, armas, canhões, munição, aço e petróleo, trigo e outros grãos vinham de enxurrada, da América, para os portos da Sibéria do Oeste e podiam ser levados para a frente sem que ninguém o impedisse. A amplidão da Sibéria, a perder de vista, um verdadeiro continente, invencível, se transformou toda em um arsenal. Enquanto as forjas de armas dos alemães desmoronavam sob o granizo das bombas das flotilhas aéreas dos aliados, as fábricas de aço soviéticas continuavam a fumegar, a uma distância de 12 mil quilôme­tros, na região de Chabarovsk e Vladivostok, inalcançáveis e seguras.

Sim, o mundo se modificara nessa primavera de 1943. A auréola dourada dos exércitos alemães empalidecera. Eles desmoronavam, pela amplidão da Rússia, pelo frio mortífero, pela lama, na qual todas as reservas atolavam; nas massas humanas, cada vez mais novas, que avançavam do interior, nas cunhas de tanques inesgotáveis, na floresta de canos de canhões, a cuspir fogo, aos combatentes invisíveis, agora já numerando mais de 49 mil, na retaguar­da das divisões alemãs, que faziam voar pelos ares pontes e trilhos, atacavam de surpresa as colunas e transformavam os quartéis em colunas de fogo.

Em um domingo, em fins de abril de 1943, o Grupo Bajda se organizou ao norte de Bjelgorod, aquém do Donez, na trincheira na linha de frente.

Em Melechovo na Rosumnaja o Estado-Maior se instalou em duas casas de camponeses, reconstruídas. Ali também foram instalados o hospital de campanha, o acampamento de alimentação, as oficinas, as armas do batalhão, os escritórios e a estação de rádio. Também um carro especial apareceu em Melechovo — um veículo com uma imensa antena a sacolejar, cheio de fios, e um toldo removível.

O Comissário Miranski deu a notícia, orgulhoso, ao voltar para a trincheira da frente:

— É uma maravilha!

Ele estivera em Melechovo para lutar por sua posição com um membro da repartição para doutrinação política. A ordem de Stalin, retirar os comissários políticos das tropas e substituí-los por oficiais, desencadeara em Foma Igorevitsch um horror ímpar. Andava de cá para lá, feito galo depenado, de quem fora roubada a fantasia masculina e se queixava do Uka de Moscou, tão afastado da realidade; ou ficava sentado, deprimido, em um banquinho e ruminava argumentos e idéias para uma grande.solicitação à Central.

Voltou então com uma miragem de esperança para suas “moças”, como chamava as fuzileiras. O camarada de Moscou lhe prometera dar uma palavri­nha no sentido de lhe ser conferido o posto de major-oficial. Com isso pode­ria permanecer na sua unidade.

— Conseguiremos — o inspetor animou o Comissário Nliranski, que por dentro tremia. — A fama de sua tropa é excelente. Parabéns, Foma Igorevitsch. O senhor reuniu à sua volta as melhores fuzileiras do Exército. Naturalmente eles o sabem em Moscou. E também sabem que a moral interna, sem similar, das camaradas, é obra sua! Tenha esperança, camarada!

Quando alguém falava de moral na presença de Miranski, podia acontecer que ela começasse a morder nervosamente o lábio inferior. Na realidade Foma Igorevitsch se transformara no dia 3 de março. O Terceiro Exército Blindado capturara Charkov e estava em marcha tormentosa em direção a Poltova, quando o Grupo Bajda foi deslocado para a cidade liberada. Instalaram-se em uma linda casa perto do teatro e aguardaram ordens de entrar em combate.

Foi uma época tediosa. As moças bordavam, ouviam música, faziam bonecas ou escreviam. Algumas levavam rapazes jovens para o porão da casa, onde tinham estendido colchões, e extravasavam seu tesão acumulado. Tam­bém se ia ao teatro, que foi logo posto para funcionar, depois da conquista, e Miranski de vez em quando ia pescar no Rio Uda. Primeiro em um buraco de gelo, onde ele colocou quatro varas e esperava pacientemente, sentado em uma grossa pele de raposa, até que as cordas tremessem, e depois na água livre, onde se agachava em uma canoa velha, amarrada à margem por um cabo.

Na realidade foi por culpa dessa canoa que Miranski entrou em conflito com a moral. Um belo dia levara Darja Allanovna Klujeva para pescar. Ela mesma dissera que o desejava e prometara ficar quietinha, sem abrir a boca, sentada no barco, nada fazer que pudesse assustar os peixes e obedecer a todas as ordens de Foma Igorevitsch. Sempre se interessara por pescarias, disse ela, e peixes eram seu alimento preferido. E Miranski foi o suficientemente ingênuo, para aceitá-lo, e assim a levou para o Uda.

É preciso ter conhecido Darja Allanovna para entender em que Miranski se metera. Ela possuía cabelos vermelho-alourados, que cintilavam ao sol como cobre polido e em toda a parte, como se poderia esperar de uma jovem esbelta de 20 anos, seu corpinho fora beneficiado com curvas delicadas. Seus olhos verde-cinzentos faiscavam e, quando ria, apareciam duas covinhas em forma de estrela nas duas faces. Só mirá-la já era um prazer e quando começa­va a contar histórias, excitada, soava como um rouxinol. Miranski já a tinha observado várias vezes, quando acreditava que ninguém o via; tinha admirado seu andar flexível e o suave balouçar de seus quadris estreitos. No seu livro de tiros havia até o momento 32 marcas — deixando de lado as três vezes em que seqüestrara sentinelas. Depois de Schanna, a pastora do Lago Baikal, ela era a mais jovem da unidade. E além disto era a mais alegre.

Portanto, Darja estava sentada, neste dia ensolarado, fora do comum, na canoa ao lado de Miranski, que lançara o anzol e fitava a cortiça flutuante. Na realidade estava quente demais para um dia de início de março. No Rio Uda o gelo ainda flutuava em pedaços grandes e pesados, mas o lugar que Mi­ranski escolhera estava livre do gelo. Ficava em uma pequena enseada, na qual os peixes gostavam de procurar abrigo.

Seja como for, talvez Darja estivesse sentindo falta de ar, talvez o sol e o anúncio da primavera na atmosfera fizessem seu sangue ferver — de qualquer modo ela, para imenso espanto de Miranski, que a observava pelo canto do olho, primeiro puxou a saia para cima, até as coxas; depois desabotoou a blusa, esticou-se e espreguiçou-se, o que fazia ressaltar seus seios jovens e enrijecia as lindas pernas esguias.

Sob os cabelos de Foma Igorevitsch, já tingidos de cinza, começou uma comichão. A pele firme, branca, cintilante daquelas coxas, que pareciam ser talhadas em madrepérola, deixou sua garganta ficar seca. Quando o olhar caía nos seios de Darja, sua laringe se fechava como se estivesse tendo es­pasmos.

— Você vai se resfriar! — alertou com voz rouca, quando Darja afastou a blusa dos ombros. — Ainda não estamos na primavera!

— Mas eu a sinto! — Ela riu, cacarejando, e deu um empurrão no lado de Miranski, com a ponta dos pés — ou você acha que perturba os peixes, eu me mostrar assim?

— Os peixes não sentem. . . — rosnou Miranski.

— O gelo também não?

— Naturalmente que não!

— E a areia da margem. E também os bambuzais, os arbustos de avelãs, a grama, os seixos, o vime, a canoa e a água. . . o vento, o sol, o céu, as nu­vens. . . todos não sentem! Então a quem perturbo?

— A mim! — respondeu Miranski sombriamente. Ele se virou, na direção de Darja, fitou-a com os olhos umedecidos e lhe parecia que era torturado com milhares de pequenas pontadas no peito, ao ver a pele suave, branca e firme da moça. Empurrou para diante o lábio inferior, como se quisesse cuspir em Darja, e mexeu nervosamente no paletó.

— Como isto pode perturbar você? — perguntou ela e o olhou sardonicamente. — Foma Igorevitsch, não me diga que você sente alguma coisa!

— Eu sou um homem! — disse Miranski duramente.

— Se estiver escrito em seus documentos, deve ser verdade. Ah, é, uma vez, por acaso, vi como você estava em pé, diante da parede de um celeiro e urinou, com um lindo jato. Uma mulher não consegue fazer isso. . .

A ironia impregnou-se fundo na alma de Miranski, como ácido sulfúrico concentrado. Respirou profundamente pelo nariz, bateu com os dedos contra o peito e fitou, com olhos esbugalhados, o lugar onde se uniam as coxas de Darja. Até lá a saia tinha já escorregado.

— Até um garanhão cego fareja a égua — disse Miranski, com uma voz abafada.

— Se ainda for um garanhão. — Darja riu novamente, cacarejando, reco­meçou a se estirar, e a canoa começou a oscilar e balançar. — Você é casado, não, Foma Igorevitsch?! Há quanto tempo?. . . Oh, o que estou perguntando. Você ainda se lembra da aparência dela? Ela tem uma bunda redonda? Seios grandes? Quando foi que transou com ela pela última vez? Naturalmente, há mais de cinco meses, quando você teve férias. Bem, só foi uma semana. . . mas, todos os meus santos, o que não se pode fazer em uma semana inteira! Como é que ela se chama, a mulherzinha nas teias de aranha? Praskovja Ivanovna não é verdade? Como é que Foma Igorevitsch mereceu uma mulher­zinha tão abnegada como Praskovja?

— Cale a boca, sua puta fodida! — berrou Miranski. — Você já vai ver o que vai lhe acontecer! Eu lhe darei uma surra e depois ninguém poderá dizer que foi injusta! Sua gata quente! Vista-se, digo! Isto é uma ordem! Nós esta­mos em guerra, além disso na frente de batalha! Você está a serviço, sua sirigaita sacana. . . Você vai ou não se cobrir?!

Ele deu um pulo, para puxar a saia novamente sobre as coxas dela mas com isto fez um movimento tão impetuoso que a canoa começou a oscilar perigosamente. O comissário procurou apoio, já se via a cair na água gelada, tateou em sua volta, passou as mãos pelos seios de Darja, rígidos e firmes, e neles se segurou. O acaso quis que ele escorregasse no chão sujo da canoa. Caiu para a frente com todo seu peso e Darja também caiu. Ela imediatamente o abraçou, o aprisionou com as pernas e riu diretamente na cara dele, vermelha como púrpura, contorcida.

Como dissemos, a partir desse dia 3 de março Miranski evitava a palavra moral. Também não tinha para ela uso nenhum, já que Darja Allanovna passou a se esgueirar todas as noites para o quarto dele e só de madrugada vol­tava, às escondidas, para o domicílio que o Grupo Bajda usava como quartel. Miranski deveria ser, ao contrário de todas as fofocas até então circulantes, um excelente amante. Quando se perguntava a Darja, ela não respondia. Ape­nas os olhos verde-acinzentados, de gata, brilhavam. O Tenente Ugarov, que trabalhava duro no dormitório de Soja Valentinovna, mulheraça cheia de tesão, submeteu Miranski a um inquérito durante uma partida de xadrez.

— O pessoal comenta. . . — começou ele com um tom de censura. — O senhor e Darja Allanovna. . .

— Mas eu lhe dou liberdade de transar com a Bajda! — interrompeu Mi­ranski.

— Eu não sou casado.

— Isto é problema meu.

— Como é ela? — Ugarov inclinou-se para a frente. Sua voz era a de um conspirador. — Interesse de amigo, Foma Igorevitsch. Uma égua tão jovem. . .

— O que dizer? — Miranski sorriu, entre irônico e orgulhoso. — Ela é estudante de arquitetura. Bem, e sempre tem idéias novas, quando se trata de construir alguma coisa!

Era uma época alegre, quase isenta de preocupações, em Charkov. Mas depois os alemães reconquistaram a cidade e o Grupo Bajda foi novamente deslocado para Kupjansk no Oskol. Lá as moças esperaram, até que no dia 25 de março as frentes se fixaram e todos viam claramente: agora vem o gran­de descanso, o refazer das forças, a guerra de posições.

A grande época das fuzileiras.

O tempo do espreitar e esgueirar-se para junto dos homens, que já estavam mortos ao aparecer no reticulado do visor. Os poucos segundos de vida que ainda lhes restavam não eram contados. . .

Miranski voltara de Melechovo e trouxera a notícia de que como major continuaria a cuidar da unidade feminina. A Capitoa Bajda o abraçou, Ugarov deu-lhe uma palmadinha nas costas, Darja Allanovna esperava impacientemente a escuridão para se aconchegar junto dele.

Era uma verdadeira posição de luxo, a que fora ali instalada. O Sétimo Exército, que ocupara a região, pertencia à nova frente da estepe do General Conjev. Homens descansados, fortes, da reserva, regimentos que de tanta abundância de material quase deixavam abrir as costuras. O sistema de trincheiras, de sete etapas, que erigiram, era uma obra exemplar de engenharia. Havia trincheiras escoradas e abrigos com grossas tábuas de madeira, fortins de terra com vigas triplas, trincheiras de passagem, nas quais não era necessário correr agachado, com posições dianteiras, também ligadas com trincheiras profundas, nas quais se ficava sentado em buracos com toldos, bem protegidos contra estilhaços, invisíveis para os observadores aéreos, e totalmente seguros contra tiros diretos. E mais atrás eram transportados milhões de metros cúbicos de terra por soldados e pela população civil sobrevivente, para construir posições inexpugnáveis de acolhimento. Lá poderiam — já que tudo é possível em uma guerra — se refugiar as divisões soviéticas, caso os alemães realmente tivessem novamente êxito em uma ofensiva e conseguissem ultrapassar a linha sétupla.

As fuzileiras do Grupo Bajda ocuparam uma parte das trincheiras com abrigos de terra espaçosos e trincheiras de passagem direta para o batalhão. Não muito atrás delas, entre modestas elevações e pedaços de florestas, estavam as baterias de artilharia dianteiras, pesados lançadores de granadas, Paks e Flaks, canhões de defesa antiaérea. Perto de Melechovo já estavam os tanques e o que Miranski classificara de maravilha: um carro de escuta. Um veícu­lo especial com uma floresta de antenas. Captava todas as emissões radiofôni­cas alemãs no circuito da região. Especialistas em códigos decodificavam os informes cifrados.

Stella Antonovna examinara cuidadosamente a nova posição. Diante delas estava o Donez norte, aquele rio lento, arenoso, com margens ondula­das, muitas enseadas pequenas e as penínsulas criadas pelas correntezas e pelo movimento do gelo. Agora ele estava na terra de ninguém e formava uma fronteira, que deveria ser vencida por cada lado, se ocorresse novo ataque. Do outro lado estavam os alemães em um sistema de trincheiras cujas linhas em ziguezague se espraiavam especialmente na direção de Bjelgorod. Bjelgorod era um nome fatídico como Charkov, quatro vezes conquistada e quatro vezes perdida, e agora ponto de encontro entre o Quarto Exército Blindado alemão e da Divisão Kempf. Adolf Hitler começara a sonhar com Bjelgorod desde que acompanhara, em seu Quartel-General Wolfsschanze, perto de Rastenburg, a estabilização da frente, no dia 26 de março de 1943, em cima de um mapa. Bjelgorod, um punhal no flanco macio sul da frente Voronesch de Vatutin. Bjelgorod — assim sonhava o Fuehrer — aqui o destino mudaria, a partir dali começaria uma ofensiva vitoriosa e se iniciaria a liquidação total do Exército soviético. O povo alemão e o mundo deveriam esquecer, de uma vez por todas, Stalingrado, o sangrento Menetekel* desta guerra.

Do lado soviético todos já tinham tomado conhecimento da situação. Um círculo de espionagem, com o nome disfarçado “Luzy”, que operava a partir da Suíça neutra, transmitia informações excelentes. Suas ramificações iam, como uma rede de cogumelos, até os estados-maiores alemães e as repar­tições encarregadas do planejamento dos preparativos bélicos. Praticamente nenhum detalhe lhes escapava. A construção lenta mas precisa de uma ofensi­va alemã, a preparação das melhores armas e materiais, o rolar de tanques Ti­gre e o novo tanque blindado Pantera, com seu canhão de longo alcance de 7,5cm, sem concorrentes, o aparecimento do misterioso tanque-mirim, tele­guiado, Goliath, uma supergranada rolante — a respeito de tudo isso Mos­cou recebia notícias sóbrias e fidedignas da Suíça.

“Dora para o Diretor. . .”, “Diretor para Dora. . .”, assim começava cada noticiário radiofônico. A central de notícias do Exército soviético tinha um ouvido na fortaleza mais protegida do mundo, no Quartel-General do Fuehrer. Os generais soviéticos liam o segredo da ofensiva alemã planejada como se fosse uma comunicação matutina rotineira.

Stella Antonovna levou dois dias até saber qual era sua tarefa. Ficava deitada horas a fio na grama alta das margens do Donez e olhava, por cima do rio, para as posições alemãs. Só com o melhor dos binóculos era possível reconhecer, esfumaçadamente, as fortalezas alemãs. Entre o Donez e os batalhões inimigos ficavam algumas centenas de metros de estepe e terrenos cober­tos de pinhais baixos, pedaços dilacerados de floresta e habitações abandona­das, dos camponeses que tinham se retirado.

Stella tinha certeza de que lá do outro lado, na ampla terra de ninguém, tropas de reconhecimento alemãs — ou apenas homens a passeio — chegavam até o rio. Do lado soviético muitos tomavam banho à noite nas enseadas do Donez. Um lugar de recreio na proteção da calma ilusória e da letargia — um pedaço de terra livre, um rio que brilhava,cintilando,prateado, no sol, campos

 

verdejantes em margens arenosas. Como era lindo ficar deitado na terra quente, olhar o céu azul, contar as nuvens, ouvir o ruído das abelhas, o canto dos alcaravãos e o cricrilar dos grilos. O mundo está cheio de paraísos — e é impossí­vel compreender por que o homem, com uma obstinação profunda, só pensa em destruí-los.

— Amanhã de noite começaremos — disse Stella Antonovna para a Capi-toa Bajda. — Existem inúmeras possibilidades. Levarei comigo Marianka, Schanna, Lida e Darja.

Soja Valentinovna acenou com a cabeça. Nestas semanas de repouso ela engordara ainda mais. Seus seios se projetavam, amplos, sobre o cinto da blusa do uniforme. Quando Ugarov a via despir-se, gemia internamente e tinha me­do dessa abundância crescente.

A frente de certo modo adormecera, mas as ações isoladas não paravam. Eram como pontadas de agulha em um corpo que procurava o repouso — uma lembrança constante: Morte aos agressores! Morte aos fascistas! Enquanto um único pé alemão estiver no solo russo, lutaremos!

Durante a noite Stella e suas camaradas ultrapassaram a fronteira pela primeira vez. Usaram um pequeno bote de borracha, amarelo-acinzentado, que se movia a remo e passava quase inaudivelmente pela correnteza. Ao chegar na outra margem, descarregaram suas carabinas e subiram, sorrateiramente, a encosta. Lá, deitadas, se deram as mãos e se separaram.

Dezenove soldados, sete suboficiais e sargentos, um alferes e um tenente foram assassinados. Um grupo de quatro pioneiros, que queriam pescar no Donez, não voltou e foi considerado desaparecido. Dois cabos da companhia de comunicações, que cuidavam de dois suínos em um curral na terra de ninguém e que tinham neste momento arranjado 12 galinhas, foram achados ao lado dos baldes de ração, que se tinham entornado. Mais quatro homens de uma tropa encarregada de atravessar o Donez de noite, para observar o campo soviético dianteiro, estavam deitados nas margens arenosas, enfileirados como animais abatidos.

Trinta e nove mortos — e todos tinham morrido com um tiro na testa. Não havia outros sinais de combate, nenhum outro ferimento. Todos morreram, sem suspeitar de nada, a morte em segundos. Trinta e nove mortos em um combate isolado dentro de apenas 10 dias.

Miranski irradiava orgulho, a Bajda mandou vir vinho da Criméia da re­serva, que o camarada administrador do acampamento de víveres tinha secre­tamente entesourado, e Ugarov esperava, assim como todos os outros mem­bros do grupo, uma nova bênção, sob forma de medalhas, e um louvor do Ge­neral Conjev.


Fins de abril de 1943. Uma primavera como cetim e seda jazia sobre o leito do Donez. Em Charkov os soldados se douravam ao sol nos parques destruídos, banhavam-se nos rios, aplaudiam as representações dos teatros de arena da frente. Os homens da infantaria alemã caçavam os devotschki e tudo o mais que usasse saias. Enquanto isso os comandos especiais da SS e SD passa­vam pelos povoados e liquidavam os guerrilheiros, os traidores, os espiões e todos aqueles que suspeitavam de sê-lo. Na ópera de Charkov um conjunto re­presentava O Czar e o Carpinteiro.

No dia 13 de abril tinham sido descobertos, em Katyn, enterrados em massa, mais de 4.000 oficiais poloneses executados a tiros. A propaganda ale­mã entoou a tese dos selvagens asiáticos em todo o mundo. Uma comissão in­ternacional de médicos e especialistas em tiros constatou, sem que pudesse ha­ver sombra de dúvida, que esses oficiais tinham sido mortos antes do avanço alemão, isto é, por soviéticos. A indignação foi imensa, mas não conseguiu desviar a atenção dos campos de concentração alemães e do extermínio dos judeus pelos alemães.

Em Posen o Major Molle mandou vir os seus dois favoritos, Peter Hesslich e Uwe Dallmann. Sem uma palavra lhes mostrou documentos cheios de ca­rimbos por cima da mesa. Tratava-se de ordens de se pôr em marcha.

— Eu sabia — falou Dallmann com amargura — que nós não tínhamos aqui um posto vitalício. Onde é o incêndio? Tudo está tranqüilo! Os camaradas estão deitados ao sol e deixam esquentar as barrigas inchadas de sopa.

— Para o Donez! — O Major Molle fitou Hesslich e Dallmann pensativamente. As notícias que recebera eram terríveis, mesmo despidas de todo o sensacionalismo. — A noroeste de Bjelgorod houve 39 perdas na terra de nin­guém, por tiros na cabeça. Depois do décimo segundo uma equipe de médicos no hospital militar de Bjelgorod fez uma autópsia nos cadáveres dos outros. Especialistas em balística tinham constatado que das 27 vítimas examinadas pelo menos 14 tinham sido mortas pelo mesmo fuzileiro. As marcas das balas eram as mesmas. Isto significava: lá no Donez estamos às voltas com um mes­tre de sua arte, ou então uma mestra.

— As mulheres ainda estão por lá? — Uwe Dallmann dobrava a sua ordem de marcha.

— O senhor treinou durante meses, Dallmann.

— É coisa diferente, Sr. Major, atirar em um camarada de papelão ou em uma moça viva.

— Essa moça tem na consciência mais de várias dúzias de seus colegas, Dallmann! E ela também o matará, se o senhor não for mais rápido!. . . Como é mesmo o provérbio, Sr. Suboficial?

— A morte tem mil disfarces! — Dallmann fez uma continência. — Peço folga ao Sr. Major, até a chamada matutina.

— O seu trem parte amanhã cedo, Dallmann.

— Mesmo assim. — Dallmann encostou o queixo na gola. — Eu gostaria de ainda uma vez segurar uma moça de verdade, antes de atirar em outras moças.

— Concedido! — O Major Molle acenou, afirmativamente. — Eu avisarei o escritório. O senhor também, Hesslich?

— Por favor, sim, Sr. Major. No teatro da cidade estão representando O Primo de Dingsda.

— Seu sonhador! — disse Uwe Dallmann já lá fora e bateu com os dedos na testa. — Uma opereta ao invés de uma bunda fodida! Até os gladiadores da antiga Roma tinham seu bordel e ainda levantavam um, antes de marchar para a morte na arena, como nós agora! Venha comigo, Peter!

— Deixe-me ir ao teatro! — Hesslich sorriu levemente. — Pode ser que eu o siga depois. Afinal de contas sei onde você estará.

— Isto sim é que é palavra! — Dallmann lhe acenou, alegre. — Eu esquentarei uma para você e a terei preparado. Você só precisará pular em cima dela. . .

Cinco dias mais tarde eles se apresentaram, inicialmente, à divisão, depois ao regimento, depois ao batalhão e finalmente lá na frente junto ao comandante da Quarta Companhia, Tenente Franz Bauer III.

— Epa, aí estão os rapazes maravilhosos! — exclamou o Tenente Bauer III sarcasticamente e bateu com os dedos nos telescópios de mira das carabinas dos dois. — Então é com isto que vocês querem ganhar a guerra! Muito bem, vamos então! — Acenou para a terra de ninguém, lá longe. Na luz verme­lha do sol poente se via o Donez, as casas dispersas dos camponeses, as peque­nas florestas, a estepe. — Elas estão por aí, esgueirando-se! Desde ontem sabe­mos com quem estamos lidando! Dois pioneiros as observaram, durante a noite, quando remavam de volta em um barco de borracha. São fuzileiras!

— Aí temos a merda! — disse Dallmann, amargo. — Com Molle ainda era uma suposição, agora o sabemos! Com todos os diabos, se eu já tivesse dado o primeiro tiro! É como uma virgem: da primeira vez, ainda dói!

Já nessa noite Peter Hesslich entrou furtivamente na terra de ninguém e se deitou, à espreita, entre as casas dos camponeses e o rio. Um quilômetro mais para o norte Uwe Dallmann engatinhava pela estepe e aguardava em um terreno coberto de pinhais.

O lugar onde Stella Antonovna desceu ficava exatamente entre os dois. Observara durante três noites como os alemães, em uma pequena ponta de terra, sob a proteção da escuridão e de duas metralhadoras, tomavam banho. Essa audácia a espantou. Mas um soldado alemão, que sobrevivera à retirada do Volga para o Donez não se assustava mais com coisa alguma — nem mesmo com um fuzileiro soviético. Afinal de contas, tinham trazido duas metralhado­ras — então que o Ivan viesse!

Na manhã seguinte Stella Antonovna e Schanna Ivanovna noticiaram dois acertos.

Dois fuzileiros alemães com metralhadoras.                                  ,

Soja Valentinovna Bajda as abraçou e beijou. Miranski ofereceu conhaque de sêmola, que recebera em Melechovo, do seu amigo do acampamento de víveres, o gordo camarada chefe. Miranski lhe prometera, em troca, enviar-lhe, na primeira ocasião propícia, a gorducha Nani, que se queixava incessan­temente de que necessitava de um homem, senão explodiria como uma mina. Peter Hesslich estava em pé, sob a proteção de uma casa de camponês, com os olhos semicerrados, fitando o Donez e as longínquas trincheiras sovié­ticas. Uwe Dallmann estava sentado, apoiado na parede e mastigava um peda­ço de pão dormido.

— Bem mijados estamos aqui! — disse estalando os beiços. — Diante do nosso nariz. . . dois tiros de cabeça, limpos!

— Eu as pegarei! — Peter Hesslich cerrou os punhos e respirou fundo. — Esta agora é a tarefa da minha vida: pegarei esta canalha. . .

Era como um juramento.

Quando a guerra adormece, nem que seja por poucas horas; quando o sadismo e a destruição param para respirar, preparando-se para novas mortes, a huma­nidade acorda em uma saudade de paz, que a sacode fundo.

Uma pausa no combate durante o cerco de Leningrado. Dos buracos na terra, das ruínas nos subúrbios, dos porões e trincheiras saem enfermeiros, se levantam, acenam uns para os outros e se encontram. Do lado soviético moças em uniformes cor de terra correm, entre elas as que carregam maças — enfer­meiras, auxiliares, médicas, que durante semanas, sob granadas que explo­diam, suportaram a morte uivante dos Stukas e das metralhadoras alemãs, pensavam as feridas dos atingidos nos porões, operavam e amputavam membros sobre portas tiradas das dobradiças ou sobre mesas oscilantes, retiravam estilhaços de corpos arrebentados e de noite, sob tiroteio direto, levavam os sobreviventes para trás, para a cidade — em carroças ou trenós, muitas vezes em barracas de acampamento, metro após metro, fugindo da linha de fogo para o lugar de acolhimento dos feridos, mais ou menos seguro. Lá recebiam chá quente, respiravam fundo e depois corriam de volta para a frente.

Vinham agora de todos os lados e recolhiam os feridos entre as posições — os enfermeiros alemães com a cruz vermelha na bandeira branca, em braçadeiras e até em tiras em redor dos capacetes de aço; os russos sem sinais, apenas com sacolas de enfermagem, sem capacetes, com quepes ou boinas de pele.

Aí estão os dois jovens médicos que se encontram na terra de ninguém, um russo e um alemão. O russo se ajoelha ao lado de uma ruína, junto a um ferido, e segura-lhe a cabeça. O ferido ofega audivelmente e todo seu corpo treme; seus dedos se enterram no chão, se agarram a pedras e pó. Com os olhos bem abertos, arregalados, fita o céu; seu olhar já deixou esta presença.

— Posso ajudá-lo? — pergunta o médico alemão. Passa por cima de um pedaço de parede rachada e se aproxima do russo.

— Obrigado. Não adianta mais nada — o médico soviético responde em um alemão impecável. — Mas talvez você tenha algo que possa combater as dores. Nós não temos mais nada na cidade. Só nos resta ranger os dentes.

O médico alemão se ajoelha ao lado do russo ferido, abre a camisa sangrenta do uniforme e depois a fecha novamente. Um estilhaço de granada lhe estraçalhara o peito; da ferida saem tecidos do pulmão. Abre a bolsa sem dizer uma palavra, retira uma agulha de injeção, quebra a ponta de uma ampola e injeta morfina no russo moribundo. Os dois médicos esperam juntos até que o corpo em convulsões se relaxe. Depois o russo coloca a cabeça do ferido, cuidadosamente, sobre um grande tijolo e se levanta.

— Depois o transportaremos — diz ele e olha em redor. Em todos os cantos mortos e feridos são transportados. Em maças ou panos de barracas, nas costas ou a dois, em trenós planos, puxados por dois homens — ou duas moças, no caso dos soviéticos. — Nós também queremos levar os mortos.

— Nós também.

— Desejamos que repousem em sua terra natal.

— Então nisto vocês levam vantagem.

— Estamos em casa aqui e vocês vieram para nos matar. — O médico rus­so enxuga o rosto. — Quando um dia chegarmos â Alemanha, os seus mortos também estarão em casa! Como é o seu nome?

— Felix Baumann.

— Eu sou Sergei Ivanovitsch Losskovski. Quantos anos você tem?

— Vinte e três.

— Eu também. Moro em Rybinsk no Volga.

— Eu venho de Detmold.

— Será que nos veremos novamente?

— Se sobrevivermos ao conflito. . . Eu me lembrarei. Sergei Losskovski de Rybinsk.

— Felix Baumann de Detmold. O que você quer ser depois da guerra terminar?

— Cirurgião.

— Eu, neurologista. — Losskovski sorriu amargamente. — Isto não é um bom treinamento para tal objetivo. Você tem um cigarro, Felix?

— Claro. — Baumann põe a mão no bolso do uniforme e retira o maço. Está amassado, cheio de pregas e sujo. Sergei retira um cigarro com as pontas dos dedos.

— Um R6 — diz ele e sorri novamente. — Na cidade fumamos folhas secas.

— Estes cigarros minha mãe nos mandou.

— Uma boa mãe. — Losskovski deu alguns tragos profundos e olhou para o campo de batalha. Sobre a ruína de uma casa treme a bandeira da Cruz Vermelha. — Mande-lhe um abraço meu, quando você voltar de novo para ca­sa. Agora tenho de partir, Felix. Em uma hora termina o cessar-fogo. Lá já es­tão acenando. — Ele inala mais uma vez, uma tragada profunda, e depois atira o cigarro no chão. — Até logo, Felix.

— Até logo, Sergei.

Eles nunca mais se viram.

Stalingrado. Um parlamentar soviético conseguiu ir, pulando sobre as ruínas e balançando uma bandeira branca, para o pavilhão de luta do batalhão dos ale­mães, e pediu, em nome de seu comandante, duas horas de cessar-fogo. Agora os russos e os alemães evacuam seus mortos, procuram entre ruínas e nos po­rões, nos buracos de granada e nos montes de escombros os caídos e os feridos.

O suboficial do Serviço de Saúde, Pavel Ignatevitsch Taganjev está agachado na beira de um porão rebentado e espera um grupo de carregadores. À procura de feridos encontrou esta casa e nela nove camaradas soviéticos, que um acerto total de uma mina alemã estraçalhara no porão. A confusão de pe­daços de membros e corpos, cabeças e restos de pano oferece um espetáculo dantesco. Só contando as cabeças é que Taganjev soube que neste porão estão deitados nove membros do Exército Vermelho.

Pavel Ignatevisch se sentiu nauseado. Agora fuma um cigarro de palha, um Papirossa, encosta-se contra a parede da casa estraçalhada e só olha para o lado rapidamente, ao ver um vulto cair nos escombros, a dois metros de distância. Levanta a mão com o cigarro e saúda mudamente.

O sargento do Serviço de Saúde Hermann Brosser acena para Pavel Igna­tevitsch, senta-se a seu lado sobre os restos da parede, passeia o olhar pelo po­rão e diz rouco:

— Que merda, hem? Todo um porão cheio! E este frio de rachar os ossos. Como é que você quer transportar esta gente? Mas eles já viraram pico­lés! Não me diga que você ainda quer separá-los a golpes de machado! O me­lhor: jogar terra em cima e basta! — Ele bate com os braços em seu tórax, sopra nas palmas das mãos e olha desconsolado para Pavel. — Mas você não sabe alemão! Também pudera. . . de onde? Você é um pastor da estepe, não? É, e agora está sentado diante de um monte de mortos e fica de vigília e não sabe o que fazer com eles. É, meu caro, isto acontece quando se ataca com tantos homens. Uma coisa como essa não ocorre conosco; o nosso batalhão só tem agora 68 homens! Em três dias tivemos só quatro baixas. . .

— Cedo. . . todos mortos! — disse Pavel Ignatevitsch duramente.

— Ô cara! Você massacra o alemão? — Hermann Brosser empurra o ca­pacete para a nuca. — Onde o aprendeu?

— Escola. . .

— Na estepe?

— Em Blagoveschtsch.

— Onde fica isso?

— No Amur. . .

— E por onde corre ele?

— Ásia. . . Grande China, fronteira. . . Sibéria. . . rio grande. . . muito longe. . .

— É, nós nunca chegaremos lá, não é?

— Nunca!

— E lá, por todos esse lugares, há russos?

— Mais longe ainda. . .

— E aí nós queremos ganhar a guerra?

— Vocês é que devem saber. . .

— Eu o sei! Mas se o nosso Fuehrer o sabe, hem? Tudo isto é merda, pu­ra merda, Ivan!

— Merda de primeira! — Taganjev põe a mão no bolso do casaco ragado, mostra a Hermann Brosser um pedaço de papel de jornal e umas migalhas de Machorka e junta as pontas dos dedos. — Papirossa?

— Claro! Você é um sujeito legal, Ivan! Me enrole um. . . mas lamber quero eu!

A dois enrolam o cigarro. Pavel enrola o tabaco no papel de jornal, Her­mann lambe as bordas esfarrapadas. Pavel até tem um fósforo, destes de cai­xinhas de papelão. Brosser dá quatro tragos, depois devolve a Papirossa a Pavel.

— Casado? — pergunta ele.

— Nyet...

— Mas eu sou! — Brosser tirou um retrato da bolsa. Uma mulher loura, bochechuda e um bebê. Ela sorri para a câmara; a criança boceja. — Ela se chama Erna. Erna-Maria. E a pequena é Magda. Erna o quis assim. Admira a Magda Goebbels. Você conhece a Magda Goebbels? Não? Bem, não importa! Só porque a Magda Goebbels é loura como ela. . . ou ao contrário, a Erna é tão loura como a. . . não dou bola, não, então, a nossa filha teve de ser chama­da Magda! O retrato tem cinco meses! Bati a foto nas minhas últimas férias. Aí, meti o pau. Talvez um Hermann agora esteja a caminho. A Erna também o admira, o gordo, com um monte de lata no peito. Você sabe o que é um monte de lata? Não? Não importa. . .

— Bonita mulher! — diz Pavel, olhando a foto com satisfação.

— E se é bonita, Ivan! Eu preferiria estar deitado lá, ao invés de ficar aqui agachado ao seu lado. — Tira novamente a foto das mãos de Pavel e a guarda. — Você não tem nenhum retrato?

— Só Mamitschka...

— Mostra.

Pavel retira uma fotografia do casaco. Uma mulher pequena, gorducha, com o rosto largo, calçando botas de feltro, calças sujas de lama e um casaco pespontado. Em volta dos cabelos um lenço desbotado. No braço curvado está pendurado um cesto de vime cheio de cebolas grandes.

— Em jardim. . . — diz Pavel com a voz trêmula.

— Homem, que cebolas! Como cabeças de crianças! Você se parece com sua mãe. . .

Depois de uma hora se abraçam, se beijam na face e voltam para suas posições, correndo através das ruínas. O cessar-fogo terminou. Um grupo de choque alemão é visado por um Pak soviético. Eles têm suficiente munição — com canhões de defesa blindados atiram em soldados alemães isolados.

É, isto existe. Quando a guerra dá um cochilo, a humanidade sai dos escombros. Aconteceu mil vezes em todas as frentes — um dava a mão ao outro, mostravam retratos, fumavam juntos, contavam histórias da família — e de­pois corriam de volta para as posições — e continuavam a assassinar.

Quem jamais poderá compreender os homens.

Peter Hesslich tinha ficado à espreita durante nove dias.

O que não tinha conseguido fazer como rapaz e depois como aluno de florestagem — ficar à espreita de um animal e depois abatê-lo — agora ele con­siderava uma tarefa inevitável, com um ser humano. Diante dele estava um ad­versário, que não conhecia outra coisa senão matar, matar com toda habilida­de e astúcia, uma máquina de destruição perfeita, com carabina, telescópio de mira, olhos e cérebro, que só era dominado por um único pensamento: Morte. . . Morte. . . Morte. . . Com cada curvatura do dedo indicador: Morte!

Mas a frente dormia.

Nenhum bote de borracha atravessava mais o Donez de noite para desembarcar fuzileiras. A artilharia soviética, que de vez em quando abrira um fogo para atrapalhar, emudecera. A terra ampla estava quieta, em uma paz ilu­sória, sob um céu primaveril azulado; o sol pálido ficava cada vez mais doura­do e quando se olhava para a imensidão, ninguém se espantaria de ver campo­neses e mulheres que iam para o campo, guiavam o gado ou que ficavam sen­tados nos bancos diante das casas; depois de um longo inverno, limpavam as ferramentas, cuidavam dos jardins e das hortas ou pescavam no rio. Mesmo se, em algum lugar, soasse um sino de igreja e os homens fossem para a prece do­minical, pelos atalhos campestres, isto seria aceito. Tão calmo estava o Donez, tão pacífica a primavera sobre a estepe e o rio.

Fritz Ploetzerenke gozava a paz cheia de sol: banhava-se nu, de dia, no rio. As posições soviéticas estavam afastadas a cerca de 800 metros da outra margem do Donez. Entre eles havia alguns sítios destruídos com jardins aban­donados e cerejeiras em flor. Até os pequenos salgueiros e choupos brilhavam, era um prazer fitá-los.

Fritz Ploetzerenke tomou um banho completo, nadou para longe no rio, submergiu, fingiu-se de morto, depois subiu de novo na beira do rio e cor­reu algumas vezes, de braços curvados, como se estivesse em um campo de desportes.

Não aconteceu nada. Ploetzerenke deixou-se secar ao sol e voltou orgulhoso para a sua companhia. Lá o Tenente Bauer III já o aguardava. Contudo, primeiro foi recebido pelo alabarda da Quarta Companhia, o sargento-mor Richard Pflaume.

Alguém se chamar Pflaume* já é suficientemente trágico. No Exército, especialmente no caso de um oficial comandante, um nome desses significa um combate incessante contra risos sardônicos e chistes bobos. Usualmente surge a expressão tão querida dos subalternos: “Oh, sua Pflaume triste!”, o que realmente inibe muito as possibilidades de expressão. O sargento-mor Pflaume, portanto, sempre ficava cuidadosamente a observar se nos rostos do pessoal que vinha da reserva — especialmente no caso de rapazolas que tinham recebido apenas uma formação básica de seis semanas — se estampava um riso irônico ou uma muda alegria, quando ele se apresentava polidamente.

— Vou apagar este sorriso idiota da sua cara, seu safado! — berrava ele cada vez que isso acontecia. — Deitar-se! Beijar a Mãe Terra! Você verá, daqui a pouco vai sair fumaça do seu eu!

No entanto isso não impedia a Quarta Companhia de enfurecer Richard Pflaume, a ponto de ele parecer uma panela com água em ebulição, em qualquer ocasião propícia. Começando com um cartaz anônimo na parede da cozi­nha de campanha: “Receita para bolo de ameixa! Tome-se: uma ameixa especialmente grande, madura, antes que comece a feder de podre. . .”, até aquele acontecimento em que toda a companhia, em posição de descanso, com o co­mando: “Uma canção!”, ao invés de começar a cantar: “Oh, a linda floresta de leste. . .”, entoou: “Oh, a linda ameixeira. . .” não transcorria um só dia no qual Richard Pflaume não sofria por causa do seu nome.

Hoje o sargento-mor aguardava na trincheira dianteira. Com o estado geral de tranqüilidade na frente, também a tropa da companhia, que costumava ficar mais atrás, veio para a frente — os dois escrivães, o suboficial para armas e ferramentas, o intendente, o sargento do trem, os dois motociclistas. Fica­vam deitados ao sol, jogavam baralho, escreviam cartas, liam revistas ou livros de bolso, zanzavam pela região ou xingavam a guerra. Richard Pflaume acabara de discutir com o Tenente Bauer III os pedidos de férias. Ainda não se sa­bia que o comando-mor do Exército mandara sustar até segunda ordem todos os pedidos de folga e que o Marechal-de-Campo von Manstein e o seu colega Marechal-de-Campo von Kluge, o chefe do Grupo do Exército do Meio, várias

 

vezes tinham apelado, pessoalmente, para Hitler, tentando obter um fortalecimento de suas divisões ou a chegada de novas divisões.

Na Quarta Companhia havia 19 solicitações de férias a serem passadas em casa, entre elas também uma de Fritz Ploetzerenke. Justificativa: Há nove meses não volto para casa. Meu pai tem 74 anos, minha mãe sofre de reumatismo e minha mulher deseja um garoto sadio para a Grande Alemanha. . .

— Apresentar-se ao chefe de uniforme completo! — disse Richard Pflau­me satisfeito, quando Ploetzerenke voltou do Donez. — As férias foram para o brejo! Você está pirado? Como é que foi tomar banho no rio de dia?

— Mas está um lindo dia, Sr. sargento-mor! — Ploetzerenke olhou para o céu azul-claro, sem uma única nuvem. - Nos jardins do outro lado até as ameixeiras estão em flor. . . — Parou, fitou Pflaume, viu, como este respirava fundo, e acrescentou rápido: — e as cerejeiras também. . .

— Apresentar-se pronto para a marcha! — berrou Pflaume. — Em 10 mi­nutos, apresentar-se ao chefe! E depois nós nos falaremos ainda, Ploetzerenke!

O Tenente Bauer III estava sentado em uma mesa desconjuntada e tomava café, quando Ploetzerenke se apresentou. Ele entrou ruidosamente no abrigo, bateu com os calcanhares e puxou, esticando-a, a corda da carabina. A lata com a máscara contra gases batia contra a pá que também carregava.

Bauer III pousou a caneca esmaltada na mesa, observou Ploetzerenke como se este fosse um pobre-diabo e depois sacudiu lentamente a cabeça. Não adianta berrar com um cabo. Isto é uma velha sabedoria de tropa. Quem a ignora só se toma ridículo. Abalar um cabo é mais difícil do que coçar as so­las dos pés de um elefante.

— O que foi que o senhor pensou ao nadar como alvo vivo no Donez? — perguntou o Tenente Bauer III, suavemente.

Ploetzerenke olhou para a parede do abrigo, fugindo ao olhar do chefe. Epa! O velho vem com luvas de pelica. Então agora está começando a ser peri­goso. Ele sempre dizia: o velho, apesar de, com seus 26 anos, ser dois anos mais velho do que Bauer III.

— Nada, Sr. Tenente.

— Isto imaginei! O senhor por acaso sabe o que é pensar?

— Não tenho certeza...

— Pensar é aquilo que termina quando alguém nos sapeca um pequeno buraco redondo na testa! Ficou claro?

— Mas lá nos Ivans está tudo calmo!

— Seu idiota chapado, lá do outro lado estão mulheres à espreita. Um batalhão de fuzileiras! Mas isto não lhe interessa, né? E o senhor pula por aí nu como nasceu.

— Talvez a minha aparência tenha impedido que as mulheres atirassem em mim.

— Ploetzerenke. . . — falou o Tenente Bauer III, em tom de advertência.

— Lisbeth, a minha mulher, sempre diz: “Fritz, quando você tira as calças. . . mete medo!”

— Pra fora! — Bauer III fez um sinal em direção à porta. — Três noites de sentinela!

— Sim senhor, Tenente! — Ploetzerenke estava de pé, reto como um nú­mero um. — Ainda tenho um relatório. . .

— O quê? Alguém o fotografou?

— No povoado entre o Donez e as posições russas os Ivans cuidam, com toda tranqüilidade, de seus jardins. Até porcos andam por lá. Porcos, Sr. Te­nente. . . — O rosto de Ploetzerenke se iluminou. — E dois porquinhos. . .

— Cabo. . . — disse Bauer III, novamente em tom de advertência.

— Sr. Tenente. . .

— Olhe, se nos próximos dias houver um assado de porco aqui, eu darei parte do senhor, está claro?

— Pode se tratar de desertores, Sr. Tenente.

— Sobre o Donez?

— Porcos sabem nadar.

— Para fora! — Bauer III fez novo sinal para a porta. Ploetzerenke deu meia-volta, ruidosamente, e saiu do abrigo.

Lá fora aguardava-o o sargento-mor, como uma águia que espreita um rato. Ele sorria, e isto era perigoso.

— O senhor não tem nada para me dizer? — o sargento-mor atiçou Ploe­tzerenke, quando este pretendeu ir marchando sem parar.

— Três noites de sentinela, Sr. Mor! — Ploetzerenke parou e riu ironicamente.

— E. . .?

— Devo perguntar ao cozinheiro se ele pode defumar presunto e toucinho e preparar molotschnij porosjonok para o Senhor Tenente. . .

— Que é isso? — Pflaume arregalou os olhos.

— Uma especialidade russa: leitão assado com ameixas secas. . .

O sargento-mor Pflaume lembrou-se do antigo ditado: a vingança só amadurece com o tempo, e desistiu de berrar sem sentido.

— Quando o senhor morrer a morte de um herói — disse apenas — eu proferirei a oração fúnebre. Isto ninguém me tirará! E depois tomarei um porre. Suma, Ploetzerenke!

Todas as observações se juntavam nas mios de Hesslich e Dallmann. Viviam no abrigo do chefe da companhia, como “comandados”, ou esgueiravam-se, juntos ou isoladamente, pela terra de ninguém. Às vezes davam notícia e ficavam lá fora dois dias e duas noites. Abrigavam-se nas casas e nos celeiros destruídos ou ficavam deitados na margem do Donez e esperavam nova vinda das fuzileiras.

Às vezes viam, através de fortes binóculos de campo, no povoado em sua frente, algumas formas cor de terra, que trabalhavam, com toda tranqüilidade, nos jardins. Os casebres tinham sido incendiados e estavam em escombros; muitas vezes tudo que restava eram algumas paredes, das quais saíam al­gumas ripas pretas como carvão. Mas entre as ruínas as plantas cresciam e flo­resciam como se nunca um trator de fogo tivesse passado por aquela terra. A vida eterna, que jazia na terra, irrompia com força indômita fazendo com que brotassem as plantas. O que a mão do homem destruíra, a natureza reconquis­tou e cobriu com uma magia de verde e flores coloridas.

— Chegaram a plantar girassóis! — exclamou Dallmann, atônito. — Você o compreende?

— O que seria a Rússia sem girassóis?

— Mas eles nunca vingarão! O nosso próximo fogo de artilharia os elimi­nará!

— Não sei. — Hesslich olhou para o lado dos russos. Via nitidamente cin­co moças que trabalhavam em um jardim. Estavam com os cabelos soltos ao vento quente e tinham desabotoado as blusas. A partir da cintura usavam cal­ças militares e botas toscas. — Parece que acham impossível que nós jamais possamos ultrapassar de novo o Donez. Elas se plantam diante de nossos olha­res. . . tão seguras se sentem. Devíamos refletir acerca disso, Uwe. Os de lá nos crêem inermes, vencidos. Eles sabem mais do que nós.

— Ou só nos querem excitar. Isto é pura provocação. ..

— Não creio. — Hesslich continuava a observar as moças no jardim. Lá estão elas, pensou. Agora cuidam de flores. . . mais tarde curvam o dedo no gatilho e matam. Frias como gelo, precisas. Um tiro na cabeça. Como é possí­vel que moças sejam tão destituídas de sentimentos? Que possam ficar à es­preita, reconhecer um rosto, grande, no reticulado, e depois atirar, sem que o seu coração estremeça e o estômago se rebele?! O que fizeram com essas mo­ças? Como mataram suas almas? Como destruíram seus sentimentos?

Estavam deitados, protegidos por arbustos, ao sol, e tinham tirado toda a roupa, exceto as calças. Dallmann desabotoara a sua e a fizera cair até os quadris.

— Tudo sente saudade do ar primaveril! — Riu sardonicamente. — Por que eu deveria aprisioná-lo?

Depois estendeu os braços e se dedicou todo ao sol quente.

Hesslich deixou de lado o binóculo, deixou-se cair na grama e fechou os olhos. Não era de se esperar que logo agora alguém, do lado dos soviéticos, ultrapassasse o rio. Bem longe deles, na região da Primeira Companhia, um avião de reconhecimento russo dava voltas em torno do Donez, uma dessas máquinas lentas, barulhentas, que faziam, tranqüilamente, curvas sobre as po­sições alemãs; deixavam-se ser alvos para as metralhadoras e para as carabinas e sempre voltavam para casa, ilesas, graças a sua grossa couraça. Sabiam exa­tamente onde estavam estacionados os Flaks — e lá não apareciam. Não precisavam temer os aviões de caça alemães; a Força Aérea alemã ficava feliz quando não se exigia demais dela. Havia falta de máquinas e especialmente de combustível. Só levantavam vôo para missões muito importantes e o combate às “máquinas de fazer café”, como apelidavam os perturbadores soviéticos da paz, não era considerado uma missão importante. Afinal de contas, o que os observadores russos fotografavam não era nada de especial — o novo sistema de trincheiras alemão, que cada dia era melhorado, de vez em quando alguns tanques camuflados e posições de artilharia, colunas de reserva e trens de transporte. Muito mais exatas eram as notícias da Suíça, onde números preci­sos eram colecionados e enviados, por rádio, para Moscou. O círculo de espionagem secreto “Luzy” sabia de tudo! Conferências a respeito de datas de ata­que no Quartel-General do Fuehrer — Moscou sabia disso dois dias depois! Os planos de von Manstein e de von Kluge — “Luzy” dava notícias exatas. A con­ferência do Coronel-General Model, feita para Hitler, a respeito da posição de seu Nono Exército na curva de Cursk, a construção da muito discutida Linha de Hagen na região do Exército do Meio, onde os exércitos alemães, depois das manobras de recuo da frente poderiam se recolher como em uma fortaleza — “Luzy”, na Suíça, sabia de tudo.

Hesslich olhou para o outro lado, para a “máquina de fazer café” isolada, que fazia suas curvas apesar do fogo crepitante, calma como se nada estivesse acontecendo, e fechou novamente os olhos. O sol ofuscava, a água do Donez brilhava azul.

— Imaginemos que uma moça venha para cá. E então?

— O que quer dizer: e então? — retrucou Dallmann.

— Você atiraria?

—  Depende.

— Depende de quê?

— Depende da aparência da moça! Se ela for bonita, com pernas compridas e seios firmes, eu esperarei até ela chegar em terra. Depois a moça se aproxima. . . eu ainda espero. . . ela se aproxima bastante, e eu digo, suavemen­te, mas com firmeza também: “Então tire toda a roupa, Marusja, deite-se boazinha. . . eu já estou sem calças!” — Dallmann exalou um suspiro profundo. — Merda! Você é um sádico! Um tema desses, quando o sol já o está cozinhan­do. . .

— Em outra coisa você não pensa, né?

— Neste momento. . . não!

— A moça possui um livro de tiros. E cada acerto é um camarada alemão!

— E para cada acerto ela terá de trepar 10 vezes! — respondeu Dallmann, à vontade. — Isto vai se transformar numa luta corpo a corpo. . .

— Então você não atiraria logo?

—  Não com uma carabina! — Dallmann deu um largo sorriso irônico. Depois ficou sério, virou-se de barriga e olhou inquisitivamente para Hesslich. — Você dispara logo, não? Tem a belezoca no reticulado. . . e dedo no gatilho! Peter, você é um cachorro frio feito gelo, hem?

— Quando eu matei a tiros o meu primeiro homem, eu chorei.

— Eu vomitei, até que o estômago me veio à boca. . . — Dallmann aper­tou o rosto contra a grama alta e quente. — Foi um tiro de merda. Arrancou o queixo dele.

— Mas você já era fuzileiro. . .

— É isso aí. — Dallmann se deitou de novo de costas. — Quando todos atiram, é diferente. Durante um ataque, ao defender-se de uma ofensiva, na tropa de choque, aí é necessário atirar para sobreviver. E foi assim que eu des­pertei a atenção. Aí veio o primeiro treinamento. Mas um alvo não é um ho­mem vivo. E depois a gente fica deitado aqui, espera e sabe, indubitavelmente: se agora vier um Ivan, você se faz ainda menor, mais pregado ao chão, mais in­visível, e a partir da invisibilidade você o mata! Na realidade, isto é um assas­sinato!

— A guerra não é nada mais do que um só assassinato. . .

— É, e se você disser isso em voz alta, enforcam-no! Então o que é que a gente faz? Assassinar também ou se deixar enforcar? Sobreviver ou ficar dependurado de uma árvore? Peter — Dallmann levantou um pouco, a cabeça e fitou Hesslich — você quer viver, não? Você quer estar de novo em casa, ter uma profissão, ganhar dinheiro, construir uma casa com um jardim em volta, ter mulher e filhos, nas férias viajar para o mar e uma vez ficar deitado, pre­guiçoso, na areia, ou então ir para as montanhas. . . Gente, a vida tem tanta coisa bonita! É nisto que penso, sabe, quando eu agora tenho uma cabeça no reticulado e imediatamente curvo o dedo no gatilho. Penso na vida, quando mato. Pirado, não? Eu penso: Uwe, você tem de dar o fora daqui. Você tem de sobreviver à Rússia! E você só irá sobreviver se curvar o dedo... assim como os de lá só sobrevivem se curvarem o dedo. A única coisa que conta nesta história toda é quem primeiro. . . é este jogo bélico de merda! Mas você é di­ferente, não? Você poderia agora, se uma moça dessas viesse da outra mar­gem, calmamente pegar a carabina, mirar e atirar. Você poderia fazê-lo, ou. . .

Peter Hesslich dobrou o joelho esquerdo e manteve os olhos fechados.

— Não sei. — respondeu lentamente. — Talvez eu esperasse até ela levan­tar a carabina. Aí vira legítima defesa. Mas poderá ser tarde demais. No caso de um fuzileiro da Sibéria eu não esperaria. Mas é esta a maldade deste mundo cão. Eles colocam moças, porque sabem que hesitar um segundo significa a morte, sabem-no muito bem. . .

Na outra margem, atrás de uma duna de areia e um arbusto, estavam deitadas Stella Antonovna, Marianka Stepanovna e Lida fljanovna. Enquanto três grupos da companhia trabalhavam nos jardins, elas mantinham seguro o rio.

Também Miranski arranjara um jardim e cuidava dele junto com sua amante Darja Allanovna. A antiga cocheira ainda era razoavelmente habitável e só tinha um estrago no teto. Em um canto, diante dos boxes vazios, onde antes grunhiam os porcos, havia um grande monte de palha. Quando Darja Allanovna se esquentava demais no trabalho braçal do jardim, às vezes tirava toda a roupa, corria nua pela cocheira e se comportava como um duende vermelho que ainda quer ajudar o velho espírito terreno a dar pulos.

Foma Igorevitsch, nesses momentos, também não hesitava muito e empurrava a puta de pele lisa na palha. Ainda dá, pensava ele, cada vez, satisfeito consigo mesmo. Quem sabe, durante quanto tempo? Quem pode adivinhar quando a febre de Darja irá se extinguir? Na realidade, para mim é um enigma, que ela transe comigo. Eu não sou tão grande e forte, com os meus 43 anos podia ser o seu papaizinho; na cama conjugal nunca fui levado a desempenhos de mestre e agora me esfalfo como um corredor de maratona. Então, o que é que ela vê em mim? Deixe a gente aproveitar a hora.

Não pensar, Foma Igorevitsch!

Um dia, repentinamente, a guerra irá despertar novamente. Então lamentaremos todas as oportunidades perdidas.

— São dois — disse Stella, enquanto mordia um ramo verde de bambu, deitada na margem do Donez.

— A posição não é favorável. . .

— Um tem ombros largos e bonitos e cabelos escuros no tronco! — Marianka riu baixinho e acariciou sua carabina. — Um sujeito como esse a gente devia aprisionar e esconder entre nós! Deveríamos alimentá-lo bem, como um javali. . . cevá-lo, até que os músculos rompessem a pele! Com ovos, carne, creme. . . — Deu um estalido com a língua e fitou, curiosa, a outra margem, com o telescópio de mira. — Cada uma de nós estaria pronta para abrir mão de uma parte de suas provisões. Que vida boa seria!

— Agora ele está puxando as pernas para perto do corpo! — disse Lida.

— Por acaso você quer rasgar-lhe a rótula com um tiro? — Stella Antonovna visou as pernas de Hesslich. Estas só ficaram um instante no reticulado, depois caíram de novo na grama. Mas uma cabeça se levantou, uma cabeça com cabelos castanhos, que o vento desarrumava. Stella mordeu o lábio infe­rior.

— Não atire! — murmurou Marianka, como se eles a pudessem escutar, lá do outro lado. — Ainda não. Ele não é um rapagão?

—  Um alemão! — A voz de Stella era dura. — Existe um alemão bonito para nós?!

— Ele não nos escapa. Estará aí de novo amanhã, tenho certeza. Olhe, aí vem o outro, ele se levanta. Oh, como são louros seus cabelos! Louros como palha desbotada! Vocês já viram cabelos louros como esses? Eu não! Como é jovem! Um camaradinha para afagar e apertar! Epa, o que vejo?! Stellinka, tenho razão? Tem a calça desabotoada. . . meu Deus do céu, está à vista, exposto. . . eu o vejo nitidamente!

— Decepe-o com um tiro! — falou Stella Antonovna com raiva. — Com aquilo ele gera novos alemães, que um dia nos atacarão novamente. Eles nun­ca param. Sempre irão marchar de novo para o oeste. São como formigas: po­demos envenenar seus caminhos, e elas se arrastam sobre os cadáveres dos mortos, pelos mesmos atalhos.

Mas elas não atiraram, contentando-se em observar os dois alemães pelos telescópios. Só quando outros soldados alemães se acercaram, esgueirando-se pelas margens, a partir dos escombros dos últimos casebres dos campone­ses, as moças pegaram seus binóculos normais. Reconheceram Fritz Ploetzerenke, que tinha nadado nu no Donez sob seus olhares e que só não tinha sido morto porque Schanna gritara entusiasticamente:

— Este eu quero ter! Por favor, mo deixem! Ele não é um verdadeiro touro?! Deixem-no de presente para mim.

Elas satisfizeram, rindo, o pedido, e Ploetzerenke não morreu nesse dia porque Schanna não levara consigo sua carabina; apenas uma pá para o jardim.

— Que visão, hem? — disse Ploetzerenke. Jogou-se na grama ao lado de Hesslich e pôs as mãos na nuca. — Que bonecas entre elas! Homem, a calça lhe rebenta!

— Ou o cérebro, quando a bala bater exatamente na raiz do nariz sob a sua cabeça idiota. . .

— Eu gostaria de pegar uma assim como prisioneira! — Ploetzerenke le­vantou a cabeça, sem adivinhar que Stella Antonovna agora o tinha direto no reticulado. — Rapazes, isto daria um interrogatório! Os abrigos tremeriam. . .

— Dessas moças do lado de lá nós nunca pegaremos nenhuma — disse Hesslich, sério. — Elas sabem muito bem. Se nós virmos os seus livros de tiros, elas serão imediatamente encostadas na parede mais próxima.

— Exatamente como vocês dois, hem? — Ploetzerenke fitou Hesslich e Dallmann pensativamente. — Se elas os pegarem. . . vocês são dois tipos espe­ciais. Digam-me, vocês se sentem bem em sua pele?

— Naão. . . — Dallmann levantou a calça e abotoou-a novamente. — Mas alguém tem de fazer essa sujeira de trabalho. E se moças o conseguem. . .

Calou-se abruptamente e pestanejou ao sol. Bem de longe o vento trazia, para seus ouvidos, um trovejar rancoroso de canhões. Mais para o sul uma parte da frente se intranqüilizara. Talvez se trate novamente das tropas de propaganda, pensou Dallmann, essas investidas malucas, com as quais cada soldado raso sorri e faz um sinal na testa: “pirado”! Aí vêm alguns camaradas da propaganda, instalam, nas trincheiras dianteiras, imensos alto-falantes com amplificadores e berram, em um russo perfeito, slogans e notícias para as li­nhas soviéticas. Chamam Stalin de criminoso e assassino de massas, lembram os bons tempos da Rússia antes do bolchevismo — como se a Rússia alguma vez tivesse tido bons tempos, sob os czares ou sob Lenin, sempre era o povo que as classes dominantes subjugavam — incitam à deserção e até afirmam que a Alemanha tem pão e trabalho suficientes para todos os soldados vermelhos que largarem suas armas. Até moças russas, especialmente da Ucrânia, vêm pa­ra a frente com a tropa dos alto-falantes e contam algo a respeito dos sonhos de paz de milhares de mulheres, que só se poderão realizar se aqui e agora o soldado soviético for para as linhas alemãs, com os braços levantados, carre­gando bandeiras brancas.

A resposta era sempre a mesma: fogo de artilharia, lançadores de minas, ataques dos Flaks, granadas; o lindo silêncio do início do verão era dilacerado, havia novamente feridos e até alguns mortos, e os médicos xingavam os idio­tas nos sacos de campanha.

Também na região da Quarta Companhia aparecera uma tropa de propaganda. Transmitia, por meio de grandes alto-falantes, música popular russa ligeira, da Calinca até a patrulha dos cossacos; depois falava uma mulher e contava tudo que era possível comprar livremente nas lojas de Berlim. Deveria ser um ver­dadeiro paraíso.

Ploetzerenke, que estava deitado ao lado do chefe especial da tropa de propaganda, cutucou-o.

— E eles devem acreditar nisto tudo?

— Por que não?

— Toda a região fede com estas mentiras!

— Por acaso você sabe mais, seu fazedor de merda?

— Eu sou berlinense. Estive de férias. . .

— Mas eles não. . .

— Vocês pensam que o Ivan é tão besta?

— Sim. — A mulher terminara sua peroração e o homem da propaganda ligou novamente discos com canções melancólicas da estepe. — A pesquisa ra­cial demonstrou que um cérebro eslavo normal só possui a metade da capaci­dade de pensamento de um cérebro germânico.

— Seu buraco de cu!

— Cale a boca.

Os alto-falantes faziam rolar a música sobre o Donez. Depois novamente palavras bonitas, a citação das baixas soviéticas, a enumeração dos êxitos ale­mães. O Tenente Bauer III, prevenido, tinha dado ordens de prontidão. Não poderia demorar muito mais e a artilharia soviética começaria a atirar a qual­quer momento. Todos se esconderam nos abrigos com os grossos pisos de tábuas e terra.

— Não se pode desligar isso? — Bauer III perguntou ao batalhão pelo te­lefone.

— Não. — O comandante do batalhão, Major Schelling, estava no apare­lho, ele próprio. — Infelizmente não. Isto pertence à guerra psicológica.

— Besteira!

— Bauer, não critique uma ordem do OKH!

— Mas não adianta nada!

— A quem o senhor está dizendo isto? Mas o que podemos fazer contra essa atitude? Nada! Conheço a resposta da repartição responsável pela propaganda: os soviéticos fazem o mesmo! Um argumento irrespondível, não é? Bauer, não explique a mim que os Ivans respondem logo com granadas e que pode haver perdas! Faz parte da guerra que haja barulho e que os homens sejam estraçalhados!

— Mas aqui não é necessário, Sr. Major!

— Oh céus, Bauer! Não fale de necessidade! Afinal de contas não iremos filosofar de abrigo para abrigo por telefone! Proteja-se, se os tiros ecoarem. . . e boa sorte!

Mas não houve resposta da artilharia. Tudo permaneceu calmo do lado soviético. As moças do Grupo Bajda estavam todas nas trincheiras, ouviam a música e riam, quando a ucraniana falava a respeito de Berlim ou quando o Camarada Stalin era xingado de assassino de milhares. Só Miranski se exaltava, ficava possesso, arrancava os cabelos e corria nas trincheiras como um lobo aprisionado.

— Isto é uma infâmia! — berrou ele, bem no meio da linda música e ficou olhando a margem alemã. Ao lado dele estavam o Tenente Ugarov e Soja Valentinovna Bajda. — Uma audácia sem limites! Que piada! Correm de nós como coelhos, perdem a guerra e cospem nos olhos do Camarada Stalin! Ha, a minha raiva ainda vai me arrebentar! Escutem isso! Nós estaremos liquida­dos no fim do ano? Faz parar minha respiração, meus amigos! Por favor, me batam nas costas, para que eu não sufoque!

Depois de uma hora a ofensiva verbal terminou. O grupo de alto-falantes alemão desmontou seus aparelhos e abandonou as posições avançadas de observação. O chefe especial da unidade parou várias vezes e olhava para trás. A tranqüilidade insólita o incomodava.

— Vocês têm certeza de que do lado de lá existem russos? — perguntou a Ploetzerenke.

— Epa, se você quiser morrer a morte de um herói, venha comigo. Eu a arranjarei para você. . .

— Mas eles não reagem. . .

— Talvez tenha algo a ver com a meia capacidade de assimilação do cére­bro eslavo, hem? — Ploetzerenke riu irônico e dando a entender que o outro era um idiota. — Além disso, lá há mulheres. . .

— O quê? — O chefe especial parou, subitamente, e encolheu a cabeça.

— Alguma coisa parecida com um batalhão de mulheres.

— Fuzileiras?

— E como! Elas são capazes de lhe arrancar o bico do seio. . .

— Maldição! E só agora vocês mo dizem?! — O chefe especial correu pa­ra trás, agachado. — Eu conheço essas mulheres! Diante de Charkov tivemos quatro baixas. . . Tiros na cabeça.

— São as nossas gatinhas! — Ploetzerenke riu gostosamente. Bateu nas costas do chefe especial e depois piscou para a margem do rio. — Não fique em pânico! Até aqui elas não alcançam. É preciso que a gente esteja na margem do rio. . . ou correr para o visor delas, quando estão, de noite, à espreita, entre as ruínas do povoado. Oh, bichão, você pode levantar a cabeça sem susto!

O chefe especial desistiu de responder e só respirou aliviado quando se viu sentado no abrigo de terra do Tenente Bauer III e bebeu um conhaque que lhe incendiou as entranhas. O lado soviético continuava em silêncio. Nenhum fogo de artilharia. Calma de verão.

— Deve ser um sentimento danado de engraçado, estar diante de mulhe­res — comentou o homem da propaganda, enquanto um jovem soldado que em tempos calmos funcionava como ordenança do chefe, servia o jantar, um gostoso franguinho grelhado.

— A gente se acostuma. — Bauer III deu de ombros.

— Mas vocês devem ter vontade de vomitar de tanto ódio dessas mulhe­res de carabinas!

— Por quê? São soldados como nós. Elas usam uniforme.

— Elas os matam de emboscada!

— O que significa emboscada? — Bauer III fez um gesto largo com os braços. — A guerra está em toda parte. Não existe frente ou atrás, em cima ou embaixo. Onde e como nos encontramos. . . faz diferença? É preciso ser mais rápido, ver o outro em primeiro lugar, atirar melhor. . . ou só ter um bocadinho de sorte! Nós também temos aqui dois “especialistas” desse tipo. Vamos ver o que eles conseguem. São combatentes isolados, duros feito granito, que sabem perfeitamente, os dois, têm certeza, de que em cada instante já estão na escada que leva ao céu.

— Interessante. — O homem da propaganda mastigava, com prazer, seu franguinho. — Esses eu quero ver. Dá um lindo relatório. Onde posso falar com eles?

— Em qualquer lugar por aí. — Bauer III fez sinal para a região do Do-nez, que brilhava, vermelho-alaranjado, ao sol do crepúsculo. — Talvez no rio? Não sei. Às vezes eles ficam lá fora dias a fio. O senhor se quiser pode procu­rá-los. Não posso impedir o senhor. . . só adverti-lo. No rio o senhor está ao al­cance das moças.

De noite a coluna de propaganda despediu-se e retirou-se para o regimento, levando seus alto-falantes e toca-discos. A ucraniana, uma moça esbelta, de cabelos cor de mel e olhos azuis protuberantes, só se separou com difi­culdade da Quarta Companhia, pois entrementes conhecera o recém-chegado Oficial Lorenz von Stattstetten. Ele também era esbelto, louro, de olhos azuis, tinha um sorriso alegre e usava, colocado de lado na cabeça, audacio­samente, um boné de campo amassado. Ao receber o boné, imediatamente ti­rou o arame que lhe dava forma e amassara-o.

— Este o pessoal devia colocar como especialista junto às mulheres de lá — dissera Ploetzerenke, quando von Stattstetten se apresentara à Quarta Companhia. — Ele se posta na margem do rio e. . . bum, bum, as moçoilas jogarão longe as carabinas e levantarão as saias! Gente, ele aparece aqui como se quisesse logo colocar um pé atrevido no chão!

Mas isto enganava. O raio de sol louro da companhia já chegara à sua nova tropa com a medalha de combate corpo a corpo e duas cruzes de ferro. Agora acompanhava a ucraniana da divisão de propaganda mais um pedacinho, para a retaguarda, e quando a despedida foi inevitável, a beijou.

— Nós nunca mais nos veremos — disse ela baixinho e segurou a mão de­le sobre o peito.

— Não sei. Se você não voltar. . .

— Meu nome é Olga Fedorovna Nasarova. Eu vou lhe dar o meu endereço. Você pode me escrever.

— Farei isto. — von Stattstetten anotou o seu número de caixa postal de campanha e o seu endereço domiciliar. Ela viera de Krementschug, Dnieper, e uma vez desejara ser professora da língua alemã.

— Eu o amo — disse ela singelamente. Só se conheciam há três horas, mas para Olga Fedorovna os olhos dele já se tinham tornado inesquecíveis. A partir de agora sonharia com ele, com seus lábios, com suas mãos esguias e macias e com seu riso juvenil, que se embrenhara em seu coração.

Oh, sim, a gente pode sentir, em três horas, como uma vida se modifica. Pode-se introjetar uma pessoa em tão pouco tempo, de modo tão completo, que a gente se sente inseparavelmente ligado a ela.

— Quando a guerra terminar. . .

— Quem sabe onde estaremos.

— Nós nos encontraremos. . . nós deveremos procurar um ao outro, realmente procurar. . . eu a procurarei. . .

Beijaram-se uma vez mais; depois von Stattstetten ficou para trás e ainda acenou para Olga Fedorovna, até que o caminhão que a levava para o regimento desapareceu no terreno ondulado da estepe.

Nessa noite mesmo von Stattstetten escreveu sua primeira carta a Olga.

“Quando eu fecho os olhos, a vejo diante de mim, e quando fecho os ouvidos com as mãos, afastando todos os outros ruídos, então escuto sua voz... Como você é linda, Olitschka...”


Nessa noite Peter Hesslich atravessou o Donez. Usou uma velha canoa de ma­deira que encontrara em um celeiro e que Dallmann consertara. Fora necessá­rio remendar dois buracos e substituir uma pá do remo. Com o chegar da escuridão eles puxaram a canoa para o rio è a puseram na água. A canoa não afundou, os remendos não deixavam mais passar água.

— Deixe eu ir junto, Peter! — disse Dallmann pela centésima vez. — Quatro olhos vêem melhor que dois.

— Mas sozinho serei mais ágil. Você sabe disso!

— E exatamente o que você pretende fazer do lado de lá? — Dallmann entregou os remos a Hesslich, que já estava sentado na canoa. — Eu estou lhe dizendo, você está cometendo um erro imperdoável! E se eles tiverem coloca­do minas nas margens! Aí você voa pelos ares, por nada e mais nada. Morte de herói por idiotice! Peter, deixe as moças virem para o nosso lado. . . aqui tam­bém nós as pegaremos! E estaremos mais seguros. Aqui conhecemos cada buraco, cada monte de terra. Mas eu sei o que você quer! Você quer mostrar a elas: Cuidado! O que vocês podem fazer nós também podemos! Aqui tam­bém existe alguém que é capaz de acertar no meio da testa.

— Exato. — Hesslich pôs os remos na água, silenciosamente. — Quero fazer um arranhão na segurança delas. Elas devem sentir que também possuem nervos. . .

Acenou para Dallmann, sorriu e se afastou da margem. A canoa deslizou pela água com um ruído abafado. O bater das ondas e o vento quente da noi­te engoliam o barulho.

Dalmann ficou estirado na grama da margem e fitou Hesslich. Este deixou-se levar um pouco pela correnteza; depois remou com força contra ela e alcançou, só visível feito uma sombra, a margem soviética, perto de um grupo de arbustos.

— Que Deus o proteja — pediu Dallmann, baixinho, e voltou para os es­combros da casa campesina, onde estavam alojados há quatro dias. Retirou uma metralhadora leve de uma caixa de madeira, embrulhou um pacote com municão e voltou para o Donez. Se houvesse problemas e Peter tivesse de bater em retirada, queria lhe dar a proteção necessária.

Armou a metralhadora na margem, deitou-se ao lado e esperou. A noite estava repleta de sons, nas poças d’água rasas coaxavam sapos. Aves noturnas, cujos nomes Dallmann não conhecia, gritavam na escuridão.

Que guerra, pensou. Destrói-se a terra, os homens morrem de hemorragia mas, apesar de tudo isso, ainda há sapos que coaxam e pássaros que voam pelo ar, que geralmente pertence às granadas.

Sem o perceber, adormeceu ao lado da metralhadora. No seu cérebro o coaxar dos sapos se transformou em uma música maravilhosa. Uwe Dallmann sonhou que estava em um concerto sinfônico e pela primeira vez na vida não se sentia entediado. Tão linda era a música.

Peter Hesslich alcançara a primeira cocheira e o primeiro jardim, sem pisar em uma mina nem encontrar uma sentinela soviética.

Depois de chegar à margem russa deitara-se, inicialmente, na grama, sem se mexer, durante alguns minutos, e procurara ouvir na noite. Tinha amarrado a canoa em uma raiz velha, que saía do arvoredo da margem, com um cabo de cânhamo. Se alguém o tivesse observado, agora viria o ataque. A tática antiga, que consistia em iludir o adversário, que pensava estar em segurança, para de­pois inesperadamente atacá-lo, era algo que Peter julgava ridículo. A ele nin­guém e nada poderia surpreender. Quando Hesslich saía em campo com seu fuzil, os seus sentidos se aguçavam. Farejava como um animal, que tudo ouve, tudo cheira e tudo vê, tudo que está a seu redor.

Apertou-se contra o chão arenoso, o fuzil ao lado, o cano seguro na curva do braço. Só levava consigo a arma, duas bolsas cheias de munição e um canivete de bolso, com uma lâmina que saltava com uma simples pressão. Mais nada. Tudo que poderia fazer ruído — a espingarda de lado, a máscara de gás, a garrafa térmica, a pá — tudo que poderia atrapalhá-lo, ao esgueirar-se, ficara para trás. Também desistira de levar o capacete de aço. Os seus cabelos esta­vam cobertos por uma boina cinzento-escuro, tricotada a mão.

Por causa desta boina já tinham ocorrido algumas discussões muito violentas. Quando Hesslich aparecera com ela pela primeira vez, para desempenhar uma missão, caíra direto nos braços de um major.

— Ei, segundo-sargento, venha cá! — o major berrara com disposição. — O senhor está pirado, hein? O que é isso que o senhor está usando na cabe­ça?! Uma touca para dormir?! Por acaso vai para a caminha? Homem! Tire essa coisa ridícula! Eu darei parte do senhor; o senhor está zombando do uni­forme! Pensa que é palhaço, né?! Tire essa coisa!

— A boina pertence ao meu equipamento, Sr. Major! — Hesslich tentara explicar polidamente. — Minha tia Erna a tricotou pessoalmente. Em Wuppertal-Elberfeld.

— O senhor está querendo me lamber no cu? — berrara o major, com o rosto afogueado. Fitara, estarrecido, a boina redonda cinzenta de tricô e respirara fundo. — Nome. . .

— Sra. Erna Villrath, Wuppertal-Hberfeld. . .

— O seu nome, palhaço! Mas eu o curarei destas gracinhas. . . Tropa!

— Comando especial E/I. Fuzileiro. . .

— O quê?

— Eu sou fuzileiro, Sr. Major. — Peter Hesslich fizera um enorme esforço para não rir ironicamente. Logo que a palavra fuzileiro era pronunciada, experimentara isso várias vezes, os seus parceiros de diálogo mudavam de ati­tude, tanto fazia se se tratava de simples soldados rasos ou generais. Era como se de repente ele estivesse rodeado do fedor de cadáveres, como se o outro su­bitamente sentisse frio, um frio mortífero. Fuzileiro significava um buraco na cabeça. Diante das pessoas estava uma máquina, com corpo de homem. Uma máquina de matar. — A boina pertence ao meu equipamento.

— Como assim? — isto já soara mais brando. O homem se dignava escutá-lo.

— Esta boina é algo como camuflagem. Ela é leve, não chacoalha como um capacete de aço, não cintila à luz da lua, cobre a testa se eu a puxar até os olhos. Esta boina é uma espécie de seguro de vida, Sr. Major.

— Mas ela não é oficial, é?

— Não compreendo, Sr. Major.

— Homem, esta boina pertence ao uniforme do Exército?

— Não. Ela foi feita pela minha tia Erna. Nas nossas missões podemos usar o que quisermos para nos camuflar. Eu prefiro a boina da tia Erna. . .

— Dispensado! — dissera o major, acidamente. Depois, sacudindo a ca­beça, olhara para o sargento que se retirava, que andava por aí, completamen­te fora das normas militares, com uma boina de tricô na cabeça.

Desde esse encontro Hesslich só colocava sua “boina de camuflagem” imediatamente antes de iniciar uma missão. Mesmo assim havia questionamen­to por parte dos chefes de companhia, empossados naquelas ocasiões, apesar de não no tom de voz do major do Estado-Maior. Só o Tenente Bauer III não se preocupava com isso. Quando Hesslich apareceu pela primeira vez com a boina da sua tia Erna, Bauer III só lhe dispensou um breve olhar.

Mais tarde, quando Hesslich lhe perguntou por que não ficara surpreso, Bauer III retrucou:

— Eu me desacostumei, não faço mais perguntas. Especialmente com tipos como você, Hesslich. Por mim o senhor pode andar por aí com um chapéu tirolês com uma enorme pena. . . isto é problema seu! Na realidade, que merda de diferença faz como nós esticamos as canelas?

Para um homem de 24 anos era uma filosofia espantosamente simples.

Hesslich só prosseguiu depois de se convencer de que ninguém observara seu passeio de canoa pelo Donez. Silenciosamente se esgueirou para junto daquele complexo de casas que tinha sempre observado com o binóculo. Era o povoa­do destruído com os novos jardins. Se as moças também ficavam lá durante a noite, isto ele não sabia. Levou meia hora até o primeiro celeiro incendiado. Engatinhou, para a esquerda e para a direita, para a frente e para trás, rodean­do as tábuas encarvoadas e sentiu-se, então, já que escapara do terreno aberto e plano, um pouco mais protegido.

Toda a margem do rio estava livre de minas. Eles estão se sentindo dema­siado seguros, se não tomam nem esta simples precaução. Nem pensam mais que possamos um dia atravessar de novo o Donez. Só acreditam no êxito do Exército Vermelho. E diante de nossos olhos reconstroem a terra, ao alcance das nossas armas, sob a bola de fogo com que nossa artilharia poderia. . . Poderia. . . se tivéssemos suficiente munição! Se não tivéssemos que contar cada granada!

Eles devem sabê-lo. Senão, como poderiam sentir-se tão seguros?

Hesslich decidiu não retornar naquela noite e sim passar o dia na margem russa do rio. Andou cuidadosamente pelo povoado destruído e viu, com espanto, tudo que os inimigos já tinham conseguido. Os jardins estavam cuidados; em quatro estábulos grunhiam os leitões; em um celeiro grande, razoavel­mente intacto, se apertavam 10 carneiros. De dia pastavam em um declive que não podia ser visto do lado alemão. Cercas de arame impediam que os carnei­ros debandassem.

Se Ploetzerenke soubesse disso, pensou Hesslich e sorriu. Ninguém con­seguiria impedi-lo de “organizar” um carneiro. O perigo de vida não contava. Gente, aqui as provisões passeiam na nossa cara — é caso de honra, não ficar só olhando sem nada fazer.

Descobriu um esconderijo perfeito no grande celeiro, sob o teto ainda metade intacto. As vigas formavam lá, com as tralhas jogadas, enferrujadas, uma confusão indiscernível, que ninguém iria examinar, Ele subiu por um poste, se balançou sobre uma viga livre e alcançou o sótão. Lá, sempre à espreita, arrumou um esconderijo. Empurrou para a frente um telão metade enferrujado, metade apodrecido, fez um local seguro, do qual podia observar o que se passava em volta, com palha, sacos, cestas rasgadas, uma capota abaulada de um motor e um pneu mofado e depois se sentou atrás no recinto apertado entre o chão e o teto.

Embaixo dele os carneiros faziam barulho e pisavam forte. Sentiam a presença de um estranho e só se tranqüilizaram lentamente. Hesslich se esticou. “Burro como um carneiro!”, isto é algo completamente errado. Os animais são mais inteligentes do que pensamos. Se eu agora entrasse no celeiro, teria de me esconder logo. Os carneiros me delatariam: aqui há algo de errado!

As horas da noite são eternas quando é necessário esperar que findem. Hesslich olhava de vez em quando para o seu relógio de pulso. Antes que uma hora tivesse transcorrido, suspeitou que o relógio havia parado de funcionar. Hesslich o levou algumas vezes ao ouvido; ele realmente fazia tique-taque mas os segundos pingavam, os ponteiros andavam lentos feito tartarugas pelo mostrador. He realmente sentia que a noite nunca terminaria.

De madrugada Hesslich esfregou o rosto com as duas mãos e depois se sentiu refrescado. A ativação da circulação sangüínea o despertara completamente. Deitou-se de barriga, empurrou-se para a frente; podia assim observar quase todo o celeiro. Os carneiros estavam muito próximos uns dos outros, como um só colosso peludo, branco-acinzentado.

Cerca de 7:00 chegou Schanna Ivanovna. Usava saia e blusa e escondera o cabelo preto sob um lenço, como uma camponesa. Só duas coisas faziam lembrar que era um soldado: as botas militares e o fuzil com o telescópio de mira, que segurava na mão esquerda. Naquele dia Schanna tinha como missão cuidar dos animais. Os outros membros do Grupo Bajda se tinham reunido — com exceção de três sentinelas — na terceira trincheira lá atrás e estavam sen­tados em bancos toscos de madeira na antiga stolovaja, a sala comunitária do povoado Burjenkova.

Escolarização política. Um camarada de Moscou chegara para explicar, com o auxílio de grandes mapas, como iriam se desenrolar os anos de 1943 e 1944. Foma Igorevitsch Miranski, que entrementes recebera a notícia de que realmente seria admitido como oficial com todos os direitos, tinha saudado o caro amigo da Central com emoção, lhe dera dois beijos estalados e depois fizera um discurso inflamado. Agora estava ofegante. Sentou-se, sentindo falta de ar, no seu banco, e gratificou-se com os aplausos.

Um tal dia escolar tem seu lado bom, meus queridos. Não, que depois a gente saiba mais sobre o que irá ocorrer ou se torne mais inteligente — não, a gente recebe também provisões da cozinha do batalhão! No Grupo Bajda, não obstante, isto se assemelhava mais a uma punição, já que ele vivia melhor lá na frente do que aqui atrás no batalhão. Mas isto não era comentado. Afi­nal de contas quem é que tinha alguma coisa a ver com o fato de que Miranski e Ugarov, auxiliados pela imponente Soja Valentinovna, tinham, no prazo de dois meses, juntado todo um rebanho de carneiros e criado, no Donez, uma minúscula kolchose? Os inspetores, que apareciam de vez em quando, para vi­sitar a unidade feminina, nunca eram levados para as ruínas do povoado e sim apenas até a margem das trincheiras.

— Lá os alemães nos espionam! — diziam sempre. — Camaradas, não de­safiem o destino, fiquem protegidos!

Os inspetores se apressavam em seguir tal conselho, muito satisfeitos.

Schanna empurrou o trinco do celeiro para trás e entrou. Lá em cima, junto ao teto, Peter Hesslich colocou, lenta e silenciosamente, o polegar no dispo­sitivo de segurança de seu fuzil, destravando-o. Pela primeira vez via de perto uma das moças lendárias. . . Estava tão perto que quase podia tocá-la. . . ele podia contar as flores no lenço de cabeça, flores de verão e panículas. . . As cores estavam muito desbotadas. O lenço tinha manchas.

Aí está ela, pensou Hesslich. Uma moça educada para matar. Realmente uma moça bonita, que esquece as batidas do seu coração, ao ver o adversário no reticulado. Ele respirou fracamente e viu quando Schanna Ivanovna se acercou dos carneiros e revolveu a lã.

— Já vamos para o pasto. Um pouco de paciência, queridinhos! — disse, ela. Sua voz era clara e infantil. Movia-se graciosamente, quase dançando. Agora retirava de um canto dois baldes e um tronco de madeira, no qual iria pendurar os baldes.

Ah, pensou Hesslich, primeiro ela busca água e dá de beber aos carneiros. Onde eles pastam, não há água. Ele esperou até que Schanna se afastou novamente do celeiro, aparentemente para tirar água de um poço próximo. Uma idéia louca germinara em sua cabeça: eu a levarei comigo. Eu a dominarei e a levarei para lá como prisioneira.

A primeira prisioneira do misterioso batalhão de mulheres!

Um segundo de surpresa deveria ser suficiente. Um choque, como um raio, quando ele a chamasse. Só não sabia ainda como iria levá-la até a canoa no Donez. E antes de mais nada: ela estava sozinha? Ou no jardim lá fora trabalhavam outras moças?

Hesslich saiu de seu esconderijo, foi até a porta e espreitou. O sol matutino, ainda fraco, brilhava sobre tranqüilidade e solidão. Ele viu a moça voltar com os baldes de água cheios. Estava sozinha. Nada se movia no povoado semidestruído.

Ele pulou silenciosamente de volta, escondeu-se atrás de uma viga quebrada e esperou até que Schanna entrasse de novo no celeiro. Admirou o seu andar gracioso, apesar das pesadas botas militares, e pela primeira vez viu o seu rosto por completo. Olhos pretos, grandes, maravilhosos; uma boca estrei­ta, maxilares salientes. Sob o lenço de cabeça apareciam alguns fios de cabelos pretos, caindo-lhe na testa. A pastora Schanna Ivanovna do Lago Baikal, a moça com o segundo melhor livro de tiros do Grupo Bajda. Ela havia sido re­comendada para receber a Medalha Sudorov em bronze, uma das mais impor­tantes condecorações soviéticas para recompensar a bravura.

Hesslich respirou profundamente. Schanna tinha pousado os baldes no chão, jogado o tronco de madeira no feno e agora retirava o lenço dos cabelos.

Agora, pensou Hesslich. Tem de ser agora. . . neste segundo ela pensa em qualquer coisa, menos na possibilidade de que um alemão possa estar atrás dela. Ela está sentindo calor. Irá sacudir os cabelos, talvez até desabotoar a blusa. . . Minha menina, em um segundo a sua vida se terá transformado!

Ele levantou o fuzil até a altura do peito, respirou fundo e gritou alto, rompendo o silêncio:

— Stoj!

O raio que deveria atingir Schanna a paralisá-la não ocorreu. Ela não estava nem paralisada nem incapaz de usar sua vontade. Reagiu à exclamação sem pensar, de forma reflexa, e isto com a agilidade de um animal selvagem. Seu corpo esguio estirou-se, virou-se, caiu ao lado dos carneiros, sobre um monte de entulho. Foi Hesslich que ficou paralisado por um instante por essa reação. Não podia compreender, simplesmente, como uma pessoa podia fazer, com tal rapidez, o contrário daquilo que realmente dela se esperava. Mal se recuperara do choque, já ouviu o primeiro tiro, e agora era ele que se jogava para o lado, escorregando para um canto, e esperou.

Schanna Ivanovna mordeu o lábio inferior. Só ao sentir o sangue quente, que escorria pelo seu queixo, abriu os dentes. Errara! Pela primeira vez na vida errada um tiro! Dos seus olhos escorreram lágrimas de raiva, os lábios tremiam e as mãos se fecharam convulsivamente em volta do fuzil. Tudo funcio­nara — nenhum segundo de susto, ainda no pulo puxar o fuzil, virar-se ao cair e visar e atirar logo que seu corpo tocasse o chão. Mas ela não acertara. Isto para ela era incrível, seu desapontamento era infinito. Engoliu em seco, bai­xinho, e de repente não era mais do que uma moça jovem, de 18 anos, que não quer fazer outra coisa a não ser chorar alto.

Este instante de tempo, infinitesimal, representava a oportunidade para Hesslich. Ele não sabia exatamente onde a moça estava deitada; só via o mon­te de escombros ao lado dos carneiros, que agora baliam alto e se empurra­vam. E neste monte ele atirou, sem escolha, danado, porque o tinham blo­queado.

Sua suja, seu urubu, pensou. Você é uma profissional, isto você acabou de demonstrar. Você é uma das que mataram meus camaradas com precisão e sangue-frio. Quantos você tem no seu livro de tiros, hein? 10 ou 20 ou até mais? Mas agora eu estou aqui, e você pode jogar fora seu livro de tiros, pois não precisa mais dele! Você não escapa de um Peter Hesslich.

Ele esperou. Lá de fora não vinha reação alguma. As paredes do celeiro e os carneiros barulhentos abafavam tanto os tiros, que já nos jardins quase não se podia ouvir nada. Será que ele realmente estava a sós com esta moça? Será que hoje ninguém mais trabalhava no povoado?

Ele atirou mais uma vez no monte de entulho.

Atrás de uma caixa Schanna Ivanovna estremeceu e caiu para trás. Um balde virou e revelou seu esconderijo. Seu ombro esquerdo ardia e pulsava co­mo se estivesse recebendo choques elétricos. Ela sentiu o calor do sangue a jorrar e sabia que fora atingida. Desesperada procurava se levantar, pegar de novo o fuzil que escapara de suas mãos, para se matar a tiros. Mas repentinamente não tinha mais forças para se mexer.

Ser prisioneira, não!, pensava Schanna. Nunca! Isto aprendemos com a Coronel Olga Petrovna Rabutina: É sempre possível evitar cair nas mãos dos alemães. A última possibilidade é dar um violento pontapé nos culhões do ini­migo. Aí ele irá abatê-la. Mas melhor ainda é nem vê-lo mais. Vocês precisam morrer, antes de fraquejar durante o interrogatório! Vocês nunca podem ser prisioneiras! Vocês, não!

Ela não conseguiu mais alcançar o fuzil. O alemão já estava diante dela e se curvou para vê-la.

Schanna Ivanovna queria dar um chute nos culhões de Hesslich mas suas pernas fracassaram. Ela tremia. O tiro devia ter acertado em um nervo que excitava o corpo todo. Ela fechou os olhos, para não ver o rosto odiado do alemão.

— Atire! — disse ela. — Atire finalmente, seu cachorro!

Hesslich não a compreendeu. Viu o sangue, que saía do ombro esquerdo e empapava a blusa, que ele arrancou-lhe do corpo. Ela não estava usando na­da por baixo. Seus seios pequenos, firmes, achegaram-se às suas mãos, quando ele apertou-lhe o peito. Ela se defendeu contra o toque e o seu corpo se em­pertigou. Quando a empurrou contra o chão, ela chegou a cuspir-lhe no rosto.

— Agora preste atenção, sua gata! — disse Hesslich ofegante. De repente a pessoa embaixo dele não era mais um inimigo, um assassino de camaradas, um ser que era necessário matar para salvar a vida dos outros, mas uma moça jovem, sangrando, que procurava bater nele mas que precisava ser ajudada apesar de tudo. — Você não entende o que eu falo e eu não entendo o que você fala. Ferida assim como você está, não posso levá-la comigo. Mas eu também não posso simplesmente deixá-la aí para morrer miseravelmente. Você é demasiado jovem e bonita; aliás, eu não consigo fazer isto. Como guarda-florestal aprendi o que é um tiro de misericórdia. Se você fosse um animal, eu lho daria. Mas você é um ser humano. Eu poderia matá-la porque vocês fazem a mesma coisa. Nada de prisioneiros! Mas nem isto é possível, minha filha! Eu não posso abater uma moça indefesa! Que situação idiota! Pena que você não me entenda. Se eu pelo menos soubesse o que está acontecendo lá fora. . .

— Cachorro! — gritou Schanna Ivanovna e rangeu violentamente os dentes. — Seu filho da puta, seu merda de alemão! Me mate!

Hesslich levantou os ombros.

— Se eu pudesse entender isso. Não soa como uma declaração de amor. O que faremos agora? Primeiro pensar a ferida? Não, primeiro segurança!

Ele largou Schanna, pegou o fuzil dela e bateu com ele com toda a força possível contra uma viga velha. Na terceira batida a coronha se partiu, na quinta o fecho estalou e o cano se partiu. Schanna o mirava com os olhos arregalados de horror.

Meu fuzil, pensava ela, meu querido fuzil! Oh, este porco. Se ele me tivesse matado, seria uma liberação. Mas ele mata meu fuzil. . . ele rebenta. . . eu o escuto gritar. . . meu fuzil grita. . . como grita feio o meu fuzil. . .

Novamente ela tentou se erguer mas quase não se levantou do chão. Ao cair de volta, o sangue jorrou de novo da ferida do ombro, e ela recomeçou a tremer. Viu o alemão voltar: suas mãos estavam sujas de sangue. Mas ela não pensou: é meu sangue; um só pensamento a dominava: meu fuzil san­grou. . . sangrou e gritou. . .

— Agora faremos um curativo — disse Hesslich e ajoelhou-se ao lado de Schanna, no entulho, — E se cuspir mais uma vez em mim, menina, você rece­be uma bofetada! Isto você ainda agüenta, apesar do seu ombro estraçalhado. Seja razoável, pequena. . .

Tirou as faixas de gaze do bolso, desenrolou-as e mostrou-as a Schanna Ivanovna.

Ela o fitou atônita, como se não pudesse compreender que ele não ia matá-la e sim, ao contrário, até ia salvá-la.

E realmente não o compreendeu. “É preciso matar um inimigo”, esta frase ela compreendera. A frase “Também se pode salvar a vida de um inimigo” estava além da sua capacidade de compreensão.

Ela enrijeceu o corpo quando Hesslich a levantou e começou a enfaixá-la. A cabeça dele agora estava bem perto da dela. Eu poderia arrancar-lhe a orelha a dentadas, pensou ela e gemeu, quando ele encostou a gaze na feri­da. Eu podia arrancar com os dentes um pedaço de sua bochecha. Se eu fizer isso, será que ele me mata?! Se eu morder o pescoço dele, posso até estraçalhar sua carótida.

Mas ela não fez nada disso, não se lançou para a frente, em um ímpeto, só para morder, mas ficou deitada no seu braço protetor, deixou-se enfaixar e depois que ele terminou, disse com voz frágil e lamurienta:

— Obrigada. . . Seu cachorro imundo!

Alguns minutos após desmaiou. A perda de sangue a enfraquecera demasiado.

Hesslich acomodou Schanna na palha, sentou-se ao lado dela e colocou o fuzil sobre os joelhos. Ele sabia que só poderia voltar quando escurecesse. Tinha todo um dia pela frente.

Ninguém sentiu falta de Schanna — afinal de contas, ela estava cuidando dos carneiros.

A escolarização política do Grupo Bajda terminou com canções alegres. Enquanto as moças faziam música na stolovaja, Miranski fez uma ronda de inspeção com Gulnara Petrovna, terminando no depósito do batalhão. Miranski levara Gulnara consigo por motivos bem razoáveis. Ela nascera na Geórgia, tinha olhos de fogo, e quando respirava fundo, as pessoas presentes a observavam, em grande expectativa, para ver se seus seios fariam voar os botões da blusa. A maneira pela qual fitava os homens era realmente diabólica. Seus cílios caíam parcialmente sobre os olhos e, por detrás desta cortina, raios atingiam os homens indefesos. Mesmo oficiais superiores, a quem se cre­ditariam um autocontrole absoluto, utilizavam todos seus truques, depois de um tal olhar de Gulnara Petrovna, para convencer esse cavalinho fogoso a sair da cocheira. Um rapaz especialmente esperto, o Major Schelsky, do Estado-Maior de Moscou, chegou a comandar um exercício noturno extraordinário, cujo único objetivo era declarar Gulnara ferida na batalha simulada e ele pró­prio enfaixar-lhe o peito atingido por uma bala.

Miranski logo percebera as possibilidades oferecidas pela irradiação sexual e pela permissibilidade de Gulnara. Quando havia algum problema com camaradas especialmente obtusos, que se escondiam atrás de seus regulamentos, Miranski aparecia em companhia de Gulnara, deixava que ela atirasse um de seus olhares cobertos por um véu e depois apresentava suas solicitações. Mesmo os camaradas mais fechados em pouco tempo estavam tão abertos a seus pedidos como portas de celeiros.

Portanto, Miranski apareceu no depósito do batalhão e apresentou ao administrador, um homem casmurro, ossudo, com um bigode caído e olhos tristes de bassê, uma lista de seus desejos. Em primeiro lugar estava uma garrafa de vodca.

— Esta é Gulnara Petrovna — falou Miranski com ingenuidade fingida, dando uma palmadinha na bunda firme de sua companheira. Gulnara riu, um riso abafado, disparou o seu primeiro olhar destrutivo e distendeu a blusa, ao respirar profundamente. As pontas do bigode do administrador começaram a tremer. — Ela lhe irá explicar, caro camarada e irmão, tudo que nós precisa­mos lá fora, nas trincheiras. Não é, Gulinka, minha pombinha. . . você lho ex­plicará? Bem, eu agora deixarei vocês a sós e cuidarei de que ninguém os per­turbe.

Uma hora depois Miranski carregava um carrinho de mão cheio até a borda de guloseimas. O administrador do depósito e Gulnara beijaram-se afetuosamente, abraçaram-se uma vez mais e acenaram um para o outro, até que Miranski estivesse a salvo com seu saque, tendo já virado a esquina.

Todos esses acontecimentos contribuíram para que o Grupo Bajda só retornasse de noite para suas posições — cacarejando alegremente como um bando de galinhas e carregadas com as guloseimas que Miranski “organizara” e Gulnara pagara, em uma espécie de troca de mercadorias.

— Este foi um dia lindo! — exclamou o Tenente Ugarov, cumprimentando Galina Ruslanovna. A médica ficara nas trincheiras, a pintar. Era seu passatempo favorito, sentar-se diante de uma tela e pintá-la, com flores ou paisagens de sonho ou simplesmente com uma orgia de cores, em que todas as formas eram separadas umas das outras por um ritmo interno.

O amor que nascera entre ela e Ugarov esfriara. Soja Valentinovna ven­cera.

— Você tem a opção — dissera ela a Opalinskaja, quando Ugarov, o que não era segredo para ninguém, começara a correr atrás da médica como um cachorrinho. — Ou você se deixa transferir para outra unidade ou alguém irá despedaçar o crânio de Victor Ivanovitsch e o seu também! Ele me pertence, eu não o dou a mais ninguém, e quem quiser tirá-lo de mim, pode ir tratan­do de escolher seu túmulo. E também não quero compartilhá-lo com nin­guém, mesmo sem considerar o fato de que ele nem agüentaria isso! O que ele tem só é suficiente para mim mesma. Ou preciso me expressar com maior cla­reza ainda?

A Opalinskaja, durante duas semanas, andou furtivamente por aí, como um assassino que não consegue chegar perto de sua vítima. Mas depois a razão sobrepujou a saudade. Ela saiu de férias durante uma semana e, ao voltar, trouxera um cavalete de viagem, lápis de cera, aquarelas e tubos de tinta a óleo, pincéis de todas as larguras e tamanhos e uma grande palheta de mão, assim como giz e guache; em suma: o seu abrigo se transformou em um atelier de pintura. E a primeira que serviu de modelo para um lindo retrato feito por Galina Ruslanovna foi exatamente Soja Valentinovna.

Com isto o caso Ugarov terminara para a Opalinskaja. Victor Ivanovitsch permaneceu seu bom amigo, que até ia buscar com ela creme para abrandar suas feridas, quando Bajda, uma vez mais, em seu amor e êxtase lhe mordia todo o corpo. Então a Opalinskaja refrescava as inúmeras peque­nas hemorragias subcutâneas e depois se apresentava a Bajda no abrigo de comando e dizia:

— Irmãzinha, assim a coisa não vai. Você não pode engolir o Victor, por mais que seu paladar lhe agrade. O Exército Vermelho ainda precisa desse te­nente. — E depois as duas riam escancaradamente. Na realidade, se entendiam.

Hoje então, depois da volta da escolarização, Ugarov trouxe um presente para a médica: uma grande garrafa de terebintina para misturar e diluir as tintas e para cuidar dos pincéis.

— Se atentarmos para o que diz o Camarada Samsonov, de Moscou, já ganhamos a guerra. Isto ele nos demonstrou na base dos mapas. Uma conferência interessante, é preciso dar-lhe crédito. Tudo muito lógico. . . só que não sabemos se os alemães vão seguir esta lógica. — Ele olhou em direção ao Donez. O vermelho do crepúsculo brilhava sobre a terra como as cores nas pinturas românticas de Galina. — Tudo calmo do outro lado?

— Como sempre. A gente até se acostumou com este silêncio enganador. Qual é o barulho de um canhão? Qual é o som da explosão de uma granada? Todos nós levaremos um susto, quando as balas recomeçarem a uivar!

— Alguém está no povoado?

— Só Schanna. Com os carneiros.

— Ainda não voltou?

— Ela ficou o dia todo lá fora. Estava bem quente. Ela deve ter-se deitado no sol, como sempre, nua, na grama. . .

Ugarov acenou com a cabeça e esqueceu Schanna Ivanovna no mesmo instante. Ela vai voltar logo, não tinha dúvida alguma a respeito.

Mas Schanna não voltou. Depois que o céu fogoso engoliu o dia e a noi­te caiu sobre a estepe, Stella Antonovna se apresentou a Soja Valentinovna. Bajda estava sentada com Miranski e Ugarov, diante de um rádio de pilha. Escutavam a transmissão da ópera Príncipe Igor, pela rádio de Moscou. Mi­ranski pôs um dedo nos lábios, apontou para um lugar no catre e acenou para Stella. Mas esta sacudiu a cabeça e ficou de pé na porta.

— Schanna ainda não veio! — disse em voz alta, no meio de um dueto.

Bajda levantou a cabeça.

— Como? Ela não está aí?

— Está lá fora com os carneiros.

— O dia todo e também agora de noite...?

— Ela deve estar dormindo na palha! — Soja Valentinovna fitou Stella interrogativamente. — Não pode ter acontecido nada. Era um dia totalmente calmo! Com certeza ela já está dormindo! Vá lá e a acorde.

Um quarto de hora depois elas voltaram. A forte Marianka Stepanovna carregava Schanna nas costas. Lida Djanovna corria na frente e já de longe gri­tava:

— Galina! Rápido, rápido. Ela está morrendo! Galina. . . atiraram nela! Gaaaaliiina. . .

Na trincheira houve uma confusão como em um formigueiro destruído. Todos corriam de um lado para outro. Foram de encontro a Marianka, que gemia sob seu fardo, pegaram Schanna e a levaram, às pressas, para a posição. Miranski e Ugarov saíram correndo do abrigo, Bajda berrava ordens, no abri­go da Opalinskaja o cavalete e as tintas foram jogados para um canto e a pe­quena mesa de cirurgia desmontável foi armada. Puxaram a caixa de metal com os instrumentos e os medicamentos, e Galina Ruslanovna arrancou o jaleco de pintor do corpo.

Colocaram Schanna cuidadosamente na mesa. Ela estava consciente, abrira os grandes olhos pretos e fitava a luz forte do teto, que Galina havia pu­xado para mais perto. Bajda estava à cabeceira, segurava a mão de Schanna e a acariciava. Agora Stella Antonovna, carregando nas mãos uma tenda de acampamento dobrada, entrou no abrigo e deixou cair, sem dizer uma pala­vra, uma das pontas da tenda. O fuzil destroçado de Schanna caiu ruidosamente no chão.

Soja Valentinovna ficou rígida, como se de repente tivesse virado gelo.

— Todo mundo para fora! — ordenou com voz abafada. — Todos! Você, não, Stella! Mas todos os outros. . . fora!

Ela esperou até ficar sozinha com Miranski, Ugarov, Stella e a médica; largou as mãos de Schanna, abaixou-se para os destroços do fuzil e levou alguns deles para perto da luz. Enquanto isto, Galina tinha desenrolado a faixa ensangüentada e deixado a ferida livre. Tinha sido um tiro limpo, o osso estava intacto. A bala saíra por detrás e lá fizera um buraco maior, redondo. A fe­rida de Schanna não a punha em perigo de vida.

Galina curvou-se sobre Schanna, cujos olhos pretos ainda fitavam o teto, parecendo olhar para a amplidão e o céu.

— Você continuará vivendo! Ninguém morre de um negócio destes. Lo­go irei lhe dar algo para anestesiá-la, limpar o canal do tiro e enfaixar a feri­da novamente. Além disto você receberá uma infusão de cloreto de sódio na veia. Amanhã tudo parecerá mais cor-de-rosa, acredite em mim.

— Alto! — Bajda levantou a mão subitamente. — Nada de anestesia por enquanto! — Chegou-se mais para perto da mesa e se postou diante de Schanna. Miranski empurrou para a frente o lábio inferior, Ugarov coçava, nervosa­mente, o dorso do nariz. — Ela pode me ouvir, Galina?

— Naturalmente. — A médica acenou afirmativamente com a cabeça. — Não perdeu os sentidos, só está muito fraca. . .

— Mas não fraca demais para me responder! Schanna, o que aconteceu com o seu fuzil?

A cabeça da Babajeva rolou devagar para o lado. Olhou para Soja Valentinovna com ar de apelo.

— Ele. . . ele foi melhor. . . — respondeu baixinho.

— Você encontrou um alemão?

— Ele estava esperando por mim junto aos carneiros. . . no celeiro. . .

— E ele atirou logo?

Os grandes olhos de criança imploravam. A boca tremeu várias vezes.

— Não. . .

O rosto da Bajda endureceu.

— Quem atirou primeiro?

— Ele me chamou: Stoj! Atirei ainda ao saltar. . .

— E errou o tiro. . .

Schanna fechou os olhos e mexeu a cabeça, quase imperceptivelmente. Nas horas que se tinham passado ela se torturara com autocensuras: Você fracassou. Schanna Ivanovna, recomendada para a Ordem Suvorov em bronze, fracassou. Deixou que destruíssem seu fuzil, deixou que um alemão o fizesse, e ainda vive! Se a desonra fosse um ácido, estaria corroendo agora o corpo de Schanna.

— Ele foi mais rápido. . . — respondeu bem baixinho.

— O quê? Não, isto não pode ser verdade! — Bajda fitou malevolamente Schanna. — Ele atira e acerta! E ainda destrói o seu fuzil!

— Eu queria. . . queria, que ele me matasse. . . — respondeu Schanna, com dificuldade. Galina apanhou a garrafa com a infusão e os instrumentos. Todos, inclusive Schanna, os ouviram chocalhar. Ao abrir os olhos, viu Miranski e Ugarov. Foma Igorevitsch a fitava como se ela fosse um boi. Victor Ivanovitsch ainda esfregava o nariz. — Eu. . . que. . . queria dar-lhe um ponta­pé. . . nos culhões. . .

— Não! Que coisa! — murmurou Miranski abalado. Bajda o beneficiou com um olhar de censura.

— Ele teria de me matar, se eu o pisoteasse. . . mas. . . eu estava fraca. . . fraca demais. Tudo em mim. . . tremia. Acreditem. . . por favor. . . acreditem em mim. — Schanna respirou, gemendo. Galina encheu uma seringa de injeção e deu a entender que para ela agora cuidar da doente era mais importante que o interrogatório. — E depois. . . ele me enfaixou. . . não me matou. . .

Bajda rasgou, excitada, a própria blusa e se curvou sobre Schanna.

— O quê? Ele enfaixou você? Curvou-se sobre você! Estava bem perto? E por que você não o mordeu na garganta?! Não lhe arrancou o pomo-de-adão com os dentes. . .?!

— Eu. . . eu não podia. . . — Schanna fechou novamente os olhos e jogou a cabeça para o outro lado. — Ele. . . ele falou. Falou como um pai. . . Me enfaixou. . . três vezes. . . ficou sentado a meu lado durante todo o dia. . . buscou água. . . Foi embora, quando escureceu. . . Eu não podia me mexer. . .

— Qual era a aparência dele? — perguntou Bajda, impiedosamente, apesar dos acenos enérgicos de Galina: Parar!

— Ele usava. . . um uniforme alemão. . .

— Sua cabeça de vento! Então iria vir nu para atirar?!

— Usava uma boina esquisita. . . uma boina de tricô. . .

— Usava o quê! — perguntou atônito Miranski.

— Uma boina cinza-escuro. . . de lã. . . uma boina redonda. . . até os olhos. . . como. . . como posso dizer qual era a aparência dele. . .?

Soja Valentinovna abotoou a blusa, empertigou-se e olhou friamente para Schanna, para seus seios e para a ferida que sangrava. Sua voz tornou-se cortante.

— Schanna Ivanovna Babajeva! — disse ela e não se preocupou com o fa­to de que Miranski, ao lado, tossia e Ugarov queria fazê-la compreender, com o olhar, que deveria ser mais misericordiosa. — A senhora fracassou! Fracas­sou miseravelmente! Embora seja meu dever, não vou noticiar o ocorrido! Também, como poderia fazê-lo?! Todo o batalhão foi desonrado pela senho­ra, e uma coisa destas vem da minha divisão! Nós vamos esquecer que a se­nhora foi ferida! A senhora nunca recebeu um tiro! Nada irá para seus docu­mentos!

— Obrigada. . . — murmurou Schanna e começou a chorar. — Obrigada. . .

— Obrigada?! — Bajda perdeu o controle e começou a berrar: — Preste atenção, Schanna Ivanovna! A senhora só pertencerá novamente ao nosso grupo, depois de provar que é uma verdadeira combatente. Corajosa, dura e alguém que luta até a última gota de sangue. Um soldado, que só conhece sua pátria, que só vive porque defende a União Soviética. A senhora fracassou diante de um inimigo da nossa pátria querida. . . A senhora só voltará para a nossa comunidade, depois que mais 10 alemães estiverem em seu livro de tiros! Até então, viverá entre nós. . . mas ninguém lhe dará atenção! — Soja Valentinovna acenou para a médica que aguardava. — Agora você pode começar, Galina Ruslanovna. Tudo foi dito. Ponha-a em ordem como puder, para que ela possa cumprir seu dever o mais rápido possível.

Olhou mais uma vez para Schanna, fitou seus grandes olhos pretos, humildes, afastou-se bruscamente e saiu do abrigo. A Opalinskaja empurrou a agulha de injeção no antebraço de Schanna.

— Logo as dores cessarão — disse.

Schanna acenou fracamente. Chorava alto, como uma criança e ainda soluçava, quando estava prestes a desmaiar.

— Vocês ouviram isto? — perguntou Bajda lá fora na trincheira, encos­tada na parede de terra. — Aí vem um alemão, totalmente só, para o nosso la­do; pode matar Schanna mas, ao invés de fazê-lo, salva a vida dela. Fica a seu lado até de noite e depois desaparece de novo atravessando o rio. Um homem com uma boina cinzenta de tricô! Um camarada perigoso! Com ele teremos ainda trabalho. . .

— Vou cuidar dele — disse Stella Antonovna, olhando em direção do rio. A terra brilhava, como prateada, na noite clara de lua cheia. — Ele irá pagar pela desonra de Schanna. Ele me excita, esse diabo alemão!

— Sozinha, como ele, você não vai para o outro lado! — disse duramen­te Bajda. — Isto seria loucura!

— Eu o aguardarei aqui. . .

— Ele não voltará.

— Voltará, sim, Soja Valentinovna. — Stella Antonovna encostou o fuzil contra o peito, como se estivesse em uma parada militar. — Ele voltará. Um homem sempre volta! Eu sei. . . eu mesma não sou diferente!

Miranski a fitava. Neste segundo compreendeu por que Stella Antonovna era uma moça que ficava além de todas as normas habituais.

Dallmann estava inquieto, deitado na grama, ao lado de sua metralhadora, quando Peter Hesslich finalmente voltou da margem soviética do rio. A ve­lha canoa se acercava, com um barulhinho suave. Hesslich remava com força e parecia nem se preocupar com o fato de que poderiam observá-lo. Seguro morreu de velho — pensou Dallmann — e colocou municão na metralhadora, preparando-se, se fosse necessário, para dar cobertura a Hesslich.

— Então, como é? — chamou Dallmann, quando a canoa finalmente ran­geu na areia da margem e Hesslich pulou para fora. — O que foi que você des­cobriu?

— Nada! — respondeu Hesslich, casmurro.

— Nada de seios bacanas?

— Cale a boca! — Hesslich acomodou o fuzil no braço e marchou de vol­ta para as casas destruídas dos camponeses. Lá retirou a boina de tricô, enfiou-a no bolso das calças e se jogou na palha. Dallmann, com a metralhadora leve sobre os ombros, se postou diante dele.

— Que foi?. . . Então você viu uma bunda redonda de mulher e agora está puto porque não pode. . .

— Estou cansado! — Hesslich fechou os olhos. A imagem da jovem russa ferida retornara. Ele tinha estancado o sangue, que escorria do ombro dela, e molhara seus seios pequenos, e ela ficara quieta e só cuspira nele quatro vezes. Durante o decorrer do dia, Hesslich tinha refrescado a cabeça da moça, lhe trouxe água para beber e lhe contou, mesmo que ela não entendesse o que ele dizia, como a guerra era suja, insensata e imbecil, assim como a tarefa de ambos, matar um ao outro, e como a vida poderia ser bela. Ao despedir-se, à hora do crepúsculo, beijara-a na testa, nos olhos e finalmente na boca que tremia, e aí ela não cuspiu mais nele.

— Você vai voltar? — Dallmann sentou-se na palha, ao lado de Hesslich. A metralhadora caiu no solo, com fragor.

— Não sei. — E como ele o sabia! Uma coisa era certa: por enquanto, nada de idas isoladas. A divisão das fuzileiras, depois de descobrir a camarada ferida, estaria de prontidão. — Jogue-se na palha, Uwe, e agora tire uma soneca! Deus, que merda!

— O quê?

— Tudo! Tudo, meu rapazola! A gente realmente deveria parar de pensar!

Em alguns momentos, lá pela madrugada, ele sonhou com a pequena russa. Ela estava montada nua no seu colo. De seus grandes olhos negros faiscavam chamas. A sua boca cuspia fogo.

Maldito sonho!

Peter Hesslich esperou durante cinco dias e cinco noites a vingança das mulhe­res. O encontro com Schanna o convencera de que a tal divisão de fuzileiras era subestimada por todos; era mais perigosa e disposta para a luta do que acreditavam. O próprio Tenente Bauer III, quando Hesslich e Dallmann se apresentaram à companhia, somente sacudira a cabeça e dissera:

— Preocupações têm eles lá em cima no Exército! As cabeças incham por causa das mulheres de carabina. Claro, temos baixas. Mas isto é assim mes­mo quando se está diante de fuzileiros. Mas vocês não acreditam que nós tam­bém teríamos dado conta sem vocês, seus especialistas?

E Fritz Ploetzerenke disse danado de raiva:

— Uma corja de covardes, são eles, covardes mesmo! Espreitar e bum!! E isto ainda é uma guerra honesta? Eu lhes digo, sou capaz de atirar tão bem quanto elas. Se ao menos eu pudesse vê-las. . .

Era isto. Não se podia vê-las. Só se viam os tiros na cabeça, que eram creditados em sua conta. Guerra honesta! Um sujeito sádico, quem tinha inventado tal conceito, um infame, quem ainda queria estilizar o matar para uma questão de ética. O que é uma guerra honesta? Corpos humanos estraçalhados, casas em ruínas, a terra arada a fogo e a espada, toda a vida queimada, a erradicação de toda uma geração? O que é honesto, quando se utilizam, com um olhar firme, de soldado, instrumentos de homicídio aperfeiçoados?

Hesslich gastou uma noite inteira para “abrir a cabeça” de Bauer III. Contou-lhe a respeito de MM, do Major Molle, de Posen, do chefe dessa esco­la especial para combatentes solitários, e relatou o que ele lhes confiara.

— O problema também está no psicológico — disse Hesslich. — A partir de observações em diversas partes da frente até o OKH tomou conhecimento de que os soviéticos implantaram batalhões de mulheres. Não unidades de saúde, não unidades auxiliares como entre nós. . . não, verdadeiros grupos de combate, infantaria, artilheiras de Flak, artilheiras de couraçados, motoristas de tanques blindados, pioneiras com lançadores de chamas e dinamite, pilotos de aviões de caça, todo um cortejo de bombardeiros, só pilotados por mulhe­res. . .

— Você está pirando! — Bauer III enrolou para si e para Hesslich um cigarro de tocos de cigarros, terceira “edição”.

— Fuzileiras especialmente. . . nesta área está a sua força especial. Não há nada que os impeça de utilizarem mulheres. Elas fazem tudo que os homens fazem. Diante de Leningrado, mantiveram as cabeças-de-ponte até o último homem. . . quero dizer, até a última mulher. No Cáucaso, no outono de 1942, um batalhão inteiro de mulheres foi dizimado. E uma unidade SS não enfrenta mais homens e sim só mulheres! E elas não se defenderam ape­nas, não, elas atacaram! Tentaram tomar de assalto as posições SS!

— Você delira! — exclamou Bauer III rindo. Deu o cigarro pronto para Hesslich e o acendeu. — Mas isto é puro latim de fuzileiro. Como conversa de caçador.

— MM tinha cifras exatas. Cada dia em Posen tínhamos aula: sete horas no terreno e atirar, três horas de teoria. Cada dia! Sr. Tenente, ali os números eram postos na mesa. Havia grandes mapas das regiões, coalhadas de pontos e círculos vermelhos. Isto significava: mulheres por toda parte! Em todos os lugares marcados a vermelho foram observados grupos de combate femininos, dizia MM. E apesar de nós também, no início, rirmos ironicamente, os nú­meros nos foram marcados a ferro e fogo. O que quer dizer isto. . . um punha­do de mulheres! Essas nós pegamos, colocamo-las de costas e as fodemos. Afinal de contas é a única coisa de que carecem e o senhor faz um alarde. . . Sr. Tenente, MM nos olhou e disse: “Seus idiotas fedorentos! Aprendam pri­meiro o que está acontecendo lá! Primeiro vocês irão decorar os fatos, como antes a tabuada na escola! E por favor, pensem nisto, quando virem uma saia de mulher cor de terra ou alguns cachos sob uma boina do Ivan! Fixem na memória, uma vez por todas: do lado de lá não os espera uma vagina dispos­ta a transar, e sim a morte certa!” Devo recitar a tabuada de MM para o se­nhor, tenente?

— Vá em frente, sargento. . .

— Por meio dos relatórios dos agentes sabemos que quase toda a defesa aérea de Moscou e Leningrado foi feita por mulheres. A escola central das artilheiras de Flak fica em Moscou. A mobilização das mulheres para o serviço no Flak se apóia nas ordens do Comitê Estadual Soviético de Defesa, de 23/3/1942 e 13/4/1942. A Moscou chegaram e foram treinados para o Flak, em poucas semanas, 2.670 moças da região de Tscheljabinsk, 4.057 moças de Suerdlovsk, 2.579 moças da região de Perm. Só o 22º Regimento de Flak recebeu 936 moças do Ural. Quando nós nos aproximamos de Moscou, no outono de 1941, Stalin ordenou concentrar todas as forças aéreas soviéticas na região de Volokalamsk, para evitar, por meio de uma mobilização maciça, um cerco alemão. Juntaram-se 762 máquinas, de aviões de caça até pesados bombardeiros, entre eles três regimentos aéreos independentes com 30 aviões cada, especialmente bombardeiros. Chefe da tropa feminina: Coronel M.M. Raskova! — Hesslich respirou fundo, tomou um gole de chá frio com substituto de limão, de uma caneca de esmalte, e fumou as últimas baforadas que o cigano feito de restos ainda permitia. — Continuemos, Sr. Tenente: A Flot lha de Bombardeio Diurno nº 125, que também foi colocada em ação diante de Stalingrado: só mulheres! Nós o sabemos porque uma das capitoas é uma aviadora: Olga Nikolajevna Jamschtschikova! Ela voa desde 1916 e tem o recorde feminino mundial de vôo a longa distância!

— Você está pirando! - repetiu Bauer III, abalado. — Sai mais alguma coisa desta caixa?

— A tabuada do Major Molle é longa! A Flotilha de Vôo Noturno nº 588, só mulheres! No mar do oeste há botes limpa-minas com tripu­lação exclusivamente feminina! Depois havia uma Jekaterina Selenko: No dia 12 de setembro de 1941 ela se jogou, com um avião de caça, sobre uma flotilha de Stukas alemães. Depois de ter esgotado toda a munição, colidiu com um Stuka e caiu com ele! E em outubro de 1941 nós atacamos a cidadezinha de Sutoki-Biakovo. Um batalhão de infantaria soviético, composto na maioria de mulheres, defendeu a cidade, literalmente, até a última mulher; mas não até o último cartucho! Só duas moças, Natascha Kovschova e Mascha Polivanova se salvaram. Elas levaram o resto da munição, granadas de mão, minas, granadas de espingarda, para a prefeitura e a transformaram em uma verdadeira bomba viva. Quando nós assaltamos a prefeitura, elas fizeram voar pelos ares a si mesmas e quase toda uma companhia alemã. E novamente Stalingrado: na marcha pela estepe combatentes isolados femininos, com car­gas de dinamite, atacaram os couraçados Tigre e os fizeram explodir. A fábri­ca de armas Barricada Vermelha, em Stalingrado, foi defendida, também, por pesada artilharia soviética. Conquistaram 37 canhões. . . todos comanda­dos por mulheres! Pergunte aos homens da Divisão Strachwitz, da 16? Divi­são de Couraçados, que foi assaltada pela artilharia feminina! E assim conti­nua, ponto por ponto, nos mapas que MM pregara na parede, para que os vís­semos. Em cada unidade mulheres. Só podemos estimar o seu número. Só na infantaria são mais de 100 mil — e diariamente chegam novas! A unidade mais perigosa é a das fuzileiras, e o grupo, que está diante de nós, é o mais famoso de todos. Pudemos traçar certinho o seu caminho. Surgiu pela primeira vez no inverno de 1942, na região do Oitavo Exército italiano, em Tschjertkovo. Lá tiveram a audácia de seqüestrar as sentinelas avançadas. Já nessa ocasião deveríamos ter cuidado desse assunto, mas veio a retirada. Hoje sabemos que essa divisão fica no Donez, lá do outro lado, Sr. Tenente, e elas não são, Deus é testemunha, mulheres insatisfeitas, que atiram feito feras porque não po­dem foder, e sim soldados maravilhosamente treinados, contra os quais até o seu Ploetzerenke não passa de um mijador nas botas! — Hesslich respirou fundo, mais uma vez, e se encostou na parede do abrigo. — Esta é a situação! Cheia de mijo até a beira, mas não desesperançada. Agora ficou claro por que nós estamos aqui?

O Tenente Bauer III entendera. A partir desse momento Hesslich e Dallmann podiam fazer o que quisessem e achassem certo e ninguém mais abria o bico. De alguma forma as mulheres de lá deveriam ter percebido que “a ma­tança” se tornara perigosa. Durante três semanas não houve mais mortos por tiros de fuzileiras: as “visitas femininas” pararam.

Portanto, Bauer III também não objetou quando Hesslich ocupou 10 homens da companhia, para vigiar dia e noite a margem do rio. Hesslich lhe dissera:

- Sinto que dentro em breve algo vai acontecer. A gente precisa ter tais sentimentos, senão não sobrevive! É preciso sentir a proximidade do perigo como uma coceira na pele! Quando as vemos, já é tarde demais. Especialmen­te com essas moças. E eu sinto algo...

Era horripilante, tal sentimento, mesmo que nada acontecesse. Fora estabelecida uma ponte de pensamentos.

No Grupo Bajda, na realidade, nestes dias se formaram dois subgrupos, com opiniões diferentes.

Stella Antonovna, Marianka, Schanna, Lida e 19 outras moças, inclusive a médica Galina Ruslanovna, queriam atravessar o rio e matar tudo que do la­do alemão lhes passasse pelo visor.

E Soja Valentinovna, Míranski, Ugarov, 36 outras moças, e, há que espantar-se, também Darja Allanovna, que agora morava no abrigo com Miranski, como se fosse sua mulher, achavam que neste momento qualquer ação era insensata.

— A raposa esperta espera na toca, até que o caçador tenha sumido —disse a Bajda no calor da discussão.

Mas Stella respondeu com sua voz clara:

— Mas o lobo corajoso ataca! E nós somos lobos! Por que deveríamos nos esconder?! Talvez por causa de um homem com uma boina cinzenta trico­tada?! Por acaso vocês estão com medo?! Mas antes de mais cada eu pergunto: como é que Schanna jamais poderá voltar ao nosso convívio, se não lhes derem oportunidade de matar 10 alemães?! Isto é ilógico e injusto! Se nós não pudermos ir para o outro lado, então pelo menos Schanna!

— De acordo. . . — disse Bajda hesitantemente. Lógica sempre a convencia. — Schanna pode ir. Mas sozinha. . . isto é besteira!

— Isto é problema da Schanna, não nosso! — Stella fitou Miranski, em busca de ajuda, mas o comissário era suficientemente esperto para não to­mar partido em uma questão tão crucial. — O que posso dizer a Schanna?

— Vamos deixar passar primeiro uma semana. — Bajda suspirou fundo. É paz, pensava muitas vezes, ao estar deitada na cama ao lado de Victor Ivanovitsch e acariciar seu corpo. Realmente paz. Quão divina! Nunca deveria ser diferente. Em tais momentos felizes ela esquecia as paredes do abrigo, apoiadas por vigas e tábuas, os bancos e as mesas toscas de madeira, a cama de campanha e as armas e os uniformes, que pendiam de pregos; esquecia o te­lefone de campanha e as caixas de munições e só via a porta maciça, que carregava para todos os lados, e pensava: estou em um castelo. Sozinha em um castelo com o meu Victor. . . — Vamos fazer com que os alemães pensem es­tar seguros, e com isto afrouxem a vigilância. Depois Schanna poderá voltar mais rápido para o nosso círculo. Vocês estão de acordo?

Era difícil objetar. Stella aceitou ficar olhando paja a margem alemã do rio, durante uma semana, sem nada fazer, mas cheia de rancor.

Foi exatamente a semana na qual Peter Hesslich esperou em vão.

Não existia ninguém na frente de batalha, ou em qualquer outro lugar, que jamais tivesse considerado Foma Igorevitsch Miranski um homem extraordinário. Nem sua aparência externa, nem sua inteligência, e especialmente nem mesmo a sua masculinidade, o justificavam. E especialmente esta últi­ma lhe dava muito o que fazer, desde que a fogosa Darja Allanovna, este diabinho vermelho, fora morar com ele.

Já não é fácil tomar um diabinho de 20 anos e lhe dar o que espera e precisa. Principalmente quando a nossa alma sempre leva uma pontada quando ela mistura a seus murmúrios carinhosos palavras tão alarmantes como “tiozinho”, “papaizinho” e até “meu velhinho”. Sempre que Darja dizia, naqueles momentos em que ele próprio julgava estar tendo um excelente desempenho, com voz trêmula: “Oh, meu velhinho. . .oh... oh. . . não vá ter um infarte. . .” Miranski se sentia atingido por um raio, da cabeça até as plan­tas dos pés. Ele ofegava então como um cavalo do Nilo raivoso, desmanchava os cabelos de Darja, beliscava seus seios rígidos, a empurrava de um lado para outro, e a soterrava de epítetos, dos quais “puta fodida” ainda era o mais suave. Mas então Darja Allanovna, por sua vez, ficava realmente excitada e Miranski tinha de fazer um imenso esforço para agüentar até o final feliz.

— Preciso de um conselho — disse ele ao Tenente Ugarov. — Um conselho de homem para homem. Sei que sua Soja Valentinovna é uma caçarola de água fervendo, e ai de quem levantar a tampa. . . ferve e assobia, não? Isto é vulcânico, força vital. Uma mulher de sangue quente como essa pode aniqui­lar um homem! Mas o que acontece com você, meu caro amigo Victor Ivanovitsch? Eu o observo há meses: seja de manhã, seja de noite, o senhor abre a pesada porta do abrigo, sai, abre os braços e parece estar saindo de um banho refrescante! O senhor tem a aparência de alguém que foi purificado, e não ani­quilado, por um vulcão que cospe fogo! Meu melhor amigo, me conte o segre­do de sua força enigmática!

— As aparências enganam, meu caro Foma Igorevitsch. — Ugarov olhou para a frente, pensativo, e batucava com os dedos contra as coxas. — Eu sem­pre me sinto como um pedaço de pau ressecado pelo fogo! Penso que se al­guém me tocasse, eu me desmancharia em pedaços, com um clack. Em confiança. . .

— Totalmente em confiança, meu caro Victor.

— Na cama Soitschka é uma assassina.

— E eu não o dizia! Como é que o senhor consegue sobreviver, meu ca­ro? — Miranski suspirou fundo. Pensava que o dia estava findando e que Darja o esperava no abrigo. Já ao entrar sabia o que o esperava. Se sentisse o cheiro de ovos fritos, não havia mais piedade. Se, ao contrário, só cheirava à sopa da cozinha de campanha, ele podia ter a esperança de suportar o ardor de Darja com uma dor lancinante na coluna vertebral.

— Com um truque — murmurou Ugarov, em tom de conspirador.

Miranski assobiou.

— O senhor tem um truque? Para o diabo com o senhor, Victor Ivanovitsch!

— Nascido da necessidade! As maiores invenções russas surgiram da compulsão para a improvisação. . .

— O senhor improvisa com Soja Valentinovna? — gaguejou Miranski, abalado.

— Improviso, sim.

— E ela não o percebe?  — Não, que coisa, pensou Miranski. Improvisar! E o que é que se pode improvisar numa situação destas?

— Ela só percebe que faz bem a ela. . .

— Fenomenal! O senhor é o meu melhor amigo, Ugarov! Me confie sua descoberta! Ser-lhe-ei eternamente grato. Darja me esvazia por completo...

E assim Miranski soube pelo Tenente Ugarov como domar mulheres vul­cânicas. E, como ouvimos, isto aconteceu em sigilo; não temos, pois, licença de falar a respeito! Ficou provado, porém, que Miranski sobreviveu as sema­nas seguintes bem disposto e que Darja Allanovna o chamava novamente de “meu tourinho bravo” ao invés de “meu velhinho”. Seus olhos verde-cinzentos de gata brilhavam e Miranski abraçou o Tenente Ugarov várias vezes, secre­tamente, e o beijou na face, agradecido.

Naturalmente que no batalhão cedo souberam o que estava acontecen­do na divisão feminina. Mas isto não era motivo para advertências ou medidas disciplinares. Enquanto não houvesse ciúme e dramas histéricos corresponden­tes entre as mulheres, fechavam os dois olhos, secretamente parabenizavam o favorecido Miranski e ficavam felizes quando, de tempos em tempos, algumas moças iam para a retaguarda, buscar víveres, munição, material ou ferramen­tas. Então, especialmente os oficiais tinham uma longa noite pela frente — e deles dependia, afinal de contas, se determinadas ocorrências eram notifica­das aos comandos superiores.

No fundo tudo era muito normal. Onde homens e mulheres trabalham e lutam juntos, e agora até podiam morrer juntos, não é possível proibir que também vivam juntos e se amem. Tinham até um nome para essas mulheres. “Polevaja pochodnaja schena”, abreviado PPSch ou mais simplesmente, “mulheres da campanha”. Quem abrigava uma PPSch em sua moradia era alguém a invejar mas não a advertir. A coisa só começava a ficar complicada e a dar margem a preocupações quando a marcha começava e não parava, como na época de janeiro a março de 1943. Então as PPSch iam junto com o trem e nunca se sabia se elas não se consolavam com os camaradas filhos da puta que iam na retaguarda, para aprovisionar as tropas e tinham muito tempo para olhar, por debaixo das saias.

As grandes catástrofes vêm subitamente, sem aviso prévio, como do nada, e é por isso que seu efeito é tão devastador.

A catástrofe de Foma Igorevitsch Miranski se chamava Praskovja Ivanovna.

Ela era sua esposa.

A Miranskaja era uma mulherzinha de exatamente 39 anos; estava, portanto, em uma idade na qual a pessoa já se acostumou a um certo estilo de vida e começa a se inquietar quando as circunstâncias se alteram. Miranski vol­tara de férias, pela última vez, há sete meses, se esquecermos os três dias que “abafara” de um curso político em Moscou. Mas ali só se embebedou com os amigos, falou do batalhão de mulheres e foi invejado e admirado, e não teve ouvidos nem sentimentos para as queixas da Praskovja.

As mulheres que se acham em situações como essas conseguem ter as idéias mais incríveis. A Praskovja não hesitou em escrever ao comandante do regimento do seu marido, comunicando-lhe que Foma Igorevitsch Miranski era comissário da unidade de fuzileiras e como — afinal de contas, isto se ouvia no rádio e se lia no Pravda — estava tudo tão tranqüilo na frente, que até era possível ouvir cacarejar as galinhas, ela então solicitava permissão para visitar seu querido marido. Afinal de contas ele iria ficar tão feliz que se tornaria um soldado ainda mais audacioso, do que já era. . .

Um comissário só está subordinado a um comandante militar condicionalmente, ou seja, no que se refere ao combate. A decisão sobre seu bem-estar ou não pertence à Central para Educação Política de Moscou. E lá havia cama­radas, que de nada sabiam, que realmente acreditaram que Miranski iria ficar satisfeito com uma visita de Praskovja Ivanovna. Deram-lhe um passe e ainda ficaram felizes da vida com esta travessura!

Em um belo dia de sol, em meados de junho de 1943, Praskovja Ivanov­na Miranskaja realmente chegou ao Donez! Primeiro viajou de trem, depois em um caminhão e a última etapa do caminho foi vencida em uma velha car­roça de camponês, puxada por dois cavalos velhos e cansados. Ela estava car­regada com repolho de verão, que o camponês levava para o batalhão onde, enriquecido com trigo e cevada, era transformado em um legume empapado. O vovozinho falava pouco, fumava um tabaco horrendo em um cachimbo fei­to por ele mesmo e ouviu, sem comentários, o que a Praskovja pensava fazer nos próximos dias. Só bem no final, quando pararam diante do depósito do batalhão, o velho disse:

— Todas as mulheres podem visitar seus homens na frente? Deus meu, isto dá uma corrida.

— Não sei. — Praskovja pulou da boléia e alisou a saia nova de algodão, que ela mesma costurara. — Eu tentei, vovozinho, e me deram permissão.

— O seu marido é oficial, não?

— Não. Comissário. . .

O vovozinho a fitou com os olhos semicerrados, sugando o cachimbo.

— O que é ele? Comissário? Ha, ha. . .

— Sim, Comissário Político. . . orgulhosa respondeu a Praskovja.

O velho tossiu, respirou fundo e depois cuspiu, com pontaria certeira, no ombro esquerdo da Praskovja. A Miranskaja ficou petrificada, até que o vovozinho desapareceu no depósito. Ela refletia se valia a pena gritar alto: “Ele cuspiu na mulher de um comissário, porque seu marido é um comissário!” Mas depois não sabia que efeito tal gritaria poderia ter, pegou sua sacola de linho e foi em direção a uma casa sobre cuja porta havia uma placa com os dizeres KOMMANDANTURA.

Fomascha vai ficar satisfeito, pensou ela. Eu lhe estou trazendo um grande bolo de manteiga e 300 gramas de vodca.

A infelicidade — ou a felicidade, depende do ponto de vista — de Pras­kovja Ivanovna foi o fato de que o oficial de serviço do estado-maior do bata­lhão, que conhecia exatamente o que se passava lá no batalhão de mulheres, neste momento se achava na banja e se deixava esfregar por um auxiliar de en­fermagem, sentado em uma grande cuba de madeira. Desta forma a mulherzinha amorosa e corajosa foi recebida no escritório por um subtenente, que só estava no batalhão há 14 dias; um rapazola de Camtschatka, que nem tinha idéia do que acontecia, lá na frente, nesta época de calma divina. Estava ocu­pado em registrar as novas tropas, que vinham de todos os cantos da União Soviética, para formar um novo grupo de exércitos — a frente da estepe do Coronel-General Conjev. Só na pequena divisão do Donez — de Prochorovka até Voltschansk, em uma pequena distância de 100 quilômetros —havia qua­tro exércitos soviéticos. Neste pequeno espaço marchavam tropas descansa­das, sadias, bem alimentadas e com excelentes armas, animadas pela vontade de lutar, com a firme idéia de deter a ofensiva alemã de verão, aguardada e no­ticiada pela central de espionagem “Luzy” na Suíça, e depois, em um assalto violento, aniquilá-la. Deveria ser um assalto nunca dantes visto nesta guerra cruel. . . uma marcha vitoriosa até a Polônia, até Berlim, até a derrota defini­tiva dos exércitos alemães. Em uns ridículos 100 quilômetros quatro exércitos descansados e intactos — e não só no Donez isto ocorria. Em todas as frentes, de Leningrado até o Mar Negro, o retrato era o mesmo. O Exército Vermelho marchava com 860 divisões, com 8.400 couraçados e 20.770 canhões. 5.512.000 soldados russos estavam prontos para esmagar os alemães com um trator de fogo ímpar. E se o Diabo em pessoa não ajudar o lado alemão, o propósito ti­nha de dar certo. Afinal de contas, o que os alemães tinham, para se defen­der? 2.468.500 soldados rasos cansados, estropiados, triturados por reiteiradas retiradas e lutas desesperadas, que precisavam contar sua munição e aos quais faltava o combustível para os aviões. A isto se junte ridículos 8.037 ca­nhões e 2.304 couraçados, dos quais apenas 700 estavam em perfeitas condi­ções para entrar em ação!

E isto era só a frente russa. A África já fora perdida. Rommel retornara da aventura no deserto. Na área do Mediterrâneo os Aliados preparavam o de­sembarque na Itália. O primeiro golpe deveria atingir a Sicília. Ali, melhor do que no flanco mole do sul, acreditava-se poder partir para o ataque à própria Alemanha. Se a partir da Itália os americanos e os ingleses empurrassem a frente, se a Rússia com seu trator de fogo impulsionasse os exércitos alemães para diante, então não haveria mais como deter o avanço, e a incrível coragem e perseverança das tropas alemães já não poderiam mais ajudar.

Nestes dias quentes de junho a frente ainda dormia, e ninguém adivinha­va que a terra pacífica, sobre a qual o sol brilhava, cedo se transformaria em um vasto cemitério.

Aconteceu o que tinha de acontecer! O jovem subtenente de Camtschatka, que não compreendia a grande estratégia, mas que estava ocupadíssimo com o registro das infindáveis levas de pessoas e material, recebeu Praskovja com de­sesperada falta de tempo. Deu uma rápida vista d’olhos no papel de Moscou, aquele passe, carimbou-o apressadamente, assinou-o e disse:

— Está tudo em ordem, Camarada Miranskaja. O próximo carro-correio a levará para a frente. Não existe perigo por enquanto. Tudo está calmo. Co­mo já está ciente, sua visita é um risco que a senhora mesma quis correr.

— Já me disseram. — Praskovja riu feliz, pegou a sacola de linho e se dispôs a esperar. O escritório lhe prometera avisá-la logo que um veículo fosse na direção do Grupo Bajda.

Ela se sentou em cima de uma pilha de lenha diante da parede da casa, apertou a sacola de linho cheia entre as pernas e ficou observando o aparente ir e vir insensato dos soldados, a barulhada e as ordens, as motocicletas e os caminhões e uma divisão de cossacos, que, como nos tempos d’antanho galoparam pelo povoado em cavalos pequenos, sarnentos, rápidos e imediatamente entraram em uma briga feia com o administrador do depósito. Ameaçaram enforcá-lo, amarrá-lo na cauda de um cavalo, castrá-lo e empurrar seus pró­prios testículos garganta abaixo — e aí um tenente veio ajudar o pobre, ber­rou com os cossacos desgrenhados, disse que estavam se comportando como piolhos, perguntou se eles também queriam ser tratados como piolhos!

Que vida esta a da frente! Praskovja não se cansava de observar e pensa­va incessantemente no seu Foma Igorevitsch. Coitado! Estava deitado lá na frente, na trincheira, e se afligia. O que dissera em sua última carta? “Como fi­carei satisfeito quando a guerra terminar. Esforço-me muito, sinto que as mi­nhas forças já não são suficientes...”

Bem, isto correspondia à verdade, mas a Praskovja só conseguia imaginar, em sua fantasia, as piores privações e chorou muito com essa carta. O po­bre Fomascha. . . suas forças estão acabando. . . como deve estar sofrendo! O que não se exigia de um combatente! Como um suculento bolo de manteiga da pátria irá levantar sua moral!

Foi culpa do próprio Miranski. Para que apelar para a piedade da Praskovja, se toda a sua estafa decorria de razões muito diferentes das que a sua mulher poderia fantasiar! Ele também poderia ter escrito: Eu estou bem. Aqui tudo está tranqüilo. Já engordei dois quilos, o uniforme se estica sobre a minha barriga. . . Aí a Praskovja teria dito: Ah, olhem, o cachorro preguiçoso vive em um açougue! E ela teria feito o bolo, com provisões que poupara, para si mesma.

Como a gente faz as coisas, sempre dá errado, e o próprio Diabo sempre vira as coisas de tal maneira, que a gente o pode cheirar.

Ao cair da noite um jipe doado pela ajuda americana saiu em direção do Grupo Bajda. A Praskovja pôde sentar-se atrás, encostou a sacola de linho contra os seios dignos de atenção e se jogou na grande aventura, a respeito da qual iria muitas vezes contar histórias: ela ia para a frente!

Foi vontade de Satã — uma outra explicação é dificilmente concebível — que a Praskovja, ao passar pela trincheira de comunicação, traseira, percebesse a entrada de um abrigo, onde estava escrito simplesmente COMISSA-RIADO. Antes que alguém pudesse detê-la, até antes que a Bajda a tivesse vis­to ou mesmo soubesse que chegara a visita, Praskovja abriu a porta sem bater, em uma expectativa feliz.

Fora um dia muito quente. Darja Allanovna encontrava-se em pé em uma banheira de zinco e estava muito ocupada jogando água fria sobre o corpo, por meio de um balde, para se refrescar, quando a porta rebentou e a mulher desconhecida entrou às pressas no abrigo.

Darja pousou o balde no chão, permaneceu de pé na banheira de zinco e ofereceu sua bela nudez aos olhares da Praskovja.

Quando a visita apenas ficou ofegante, excitada, e não deu um pio, Dar­ja disse amigavelmente:

— Você se enganou, com toda certeza, camarada! Este é o abrigo do Comissário Foma Igorevitsch Miranski.. .

— Aha! — respondeu a visita apenas e continuou a fitar a forma nua na ba­nheira. Depois de uma pausa curta, Praskovja Ivanovna disse novamente: — Aha!

Depois pegou a sacola de linho com o bolo de manteiga e a vodca e a atirou, com pontaria certeira e rápida como um raio, contra a cabeça de Darja Allanovna. Quando a moça nua saiu tropeçando da banheira e a virou, e a água escorreu pelo chão do abrigo, a Praskovja riu malevolamente.

Não adiantou nada a Darja ter sido treinada para uma luta de corpo a corpo e conhecer todos os truques com os quais se pode ludibriar o inimigo mesmo quando este pensa já ter vencido há muito tempo. O golpe da garrafa de vodca contra seu crânio a atordoou; durante vários segundos ela se desequi­librou, incapaz de se defender ou mesmo compreender a situação, e a sua cabeça zunia como se nela estivesse um enxame de abelhas. Esses segundos fo­ram suficientes para que a Praskovja, mesmo sem um treinamento especial, vencesse Darja Allanovna. Ela atacou com as duas mãos, deu um golpe no queixo da mulher nua e a pôs a nocaute, em uma espécie de estupor, semi-consciente.

Darja caiu na cama de Miranski e tentou desesperada sobrepujar a paralisia que a cercava, como algodão.

— Então ele mantém uma putinha, o vesgo Foma Igorevitsch! — excla­mou a Praskovja com um tom abafado na voz. — Aí a gente vem, tem uma trabalheira para chegar até a frente, para tornar feliz o seu maridinho querido, e o que a gente encontra ao invés de um homem que vive na penúria? Um bode velho, que mantém uma cabra disposta a tudo! A gente morre de sauda­de e desgosto e secretamente reza a Deus que poupe Foma da guerra; e qual é a recompensa? Ele vive com uma porcalhona, com uma égua de cabelos ver­melhos, com uma vaca depravada! A bílis que me corroa por dentro! O san­gue me sobe à cabeça. . . ou é uma tempestade de fogo?! Olhem como ela está deitada aí, com as pernas longas, mãos tremendo, seios rígidos. . . ha, que sem-vergonhice, que desgraça, que merda de diabo é esta puta fodida!

A Praskovja se entregou, sem inibições, ao seu ódio, ao seu desapontamento e á sua vingança. Novamente, golpeou Darja no queixo, pondo-a em um estado de obnubilação, mas sem que a fizesse perder os sentidos por completo. A Praskovja revelou ser um talento natural —ela triturava o adversário mas lhe permitia ver indefeso o espetáculo de sua própria derrocada.

— Escute. . . escute. . . — gaguejou Darja. — Engano. . . tudo um enga­no. . .

— Eu vejo o que vejo! — rosnou Praskovja, rangendo os dentes. — Este é o abrigo de Miranski? Então! Você, sua puta, fica nua no quarto dele. . . quer negar isto? Então estava se preparando para a noite, hem?! Bem lavadi-nha, para que depois cheire a sabão e não a cabra. . . E ele virá logo, a calça na mão, a grunhir como um garanhão e a revirar os olhos, a saliva lhe escorrendo da boca. . . é assim?

Ela pegou a cabeça de Darja com seus cabelos cor de cobre e a golpeou várias vezes contra a parede traseira do abrigo, apoiada por vigas.

— Quem. . . quem é você. . . — gaguejou Darja. Ela queria levantar os braços mas sentia que remava em uma nuvem de penas de ganso. — Me escute. . . por favor, me escute. . .

— Quem sou eu? — berrou Praskovja. A idéia do que iria acontecer neste abrigo e já ocorrera muitas vezes roubou-lhe as últimas inibições. O sangue percorria suas artérias a ferver e cozinhou-lhe a razão no cérebro. — Sou a mu­lher dele, a Miranskaja. . . Praskovja Ivanovna. . . Sim, sou ela! Sou sua esposa há 14 anos, até que venha uma como você, com uma bunda a bolinar e pernas abertas. Até que Foma Igorevitsch se transforme em um joão-ninguém, um idiota, um cego e surdo, o meu Fomascha, o meu homem, sua puta sem-vergo­nha! Um idiota, que suga os teus seios como um nenê. Em mim você nunca pensou, né? Nunca pensou que eu poderia sentir medo, medo do que poderia lhe acontecer, um medo sagrado, enquanto você aqui trepa com ele?. . . Você nunca pensou que existe alguém que chora por ele, sua mulher, sua mulher sempre fiel? Por acaso virei puta porque ele se afastou? Recebi outros homens na minha cama? Afinal de contas, ainda sou uma mulher apetitosa. . . existem homens em abundância que se transformam em touros quando levanto a saia . . . Mas não, não. . . Fui fiel a ele, rezei por ele, mesmo que tenha de rir de Deus por ser ele comissário. . . fiquei sempre sua mulher, fiel como um cão. E o que faz ele? Toma uma porca em cio do charco! Cachinhos vermelhos por todos os lados, foi isto que o tornou selvagem? Ha, então você ainda quer di­zer algo? Você quer falar comigo? Emitir um único som?! Não, que coisa!

A Praskovja golpeou no instante exato em que Darja sentia que as forças lhe retornavam. O golpe no canto do queixo jogou Darja para trás.

Pegou no canto do abrigo um bastão que Miranski usava para esmagar os gordos ratos que estavam começando a aparecer ocasionalmente, fitou a jovem nua e começou a espancá-la. O primeiro golpe rebentou a pele do ombro de Darja. Ela gemeu alto; na realidade acreditava estar berrando mas não conseguia mais fazê-lo; a paralisia dos nervos lhe roubava os sentidos.

A Praskovja batia e batia. O sangue escorria aos borbotões do corpo de Darja, mas ela já não sentia mais nada, porque um golpe contra a testa a liberara de todas as sensações e dores. Mais um golpe certeiro lhe arrebentou a laringe e acabou com a vida da fuzileira e ex-estudante de arquitetura Darja Allanovna Klujeva.

Só quando a Miranskaja acordou de sua confusão psíquica e compreendeu que estava golpeando uma morta, é que largou o bastão dos ratos e recuou, assustada com o que fizera, para a porta do abrigo. O montão sangrento diante de seus olhos agora pouco se assemelhava a um ser humano.

Neste momento Foma Igorevitsch irrompeu no abrigo.

A notícia da visita de sua mulher Praskovja o alcançara durante um jogo de cartas com o Tenente Ugarov e a Bajda no abrigo de comando. Ele sabia que Darja estava tomando banho e se preparava para uma noite tempestuosa, depois de ter ficado deitada ao sol durante todo o dia. Ela era como uma ba­teria que sempre se recarregava. Miranski, depois de reconhecer este fato hor­ripilante, fugira para Ugarov e lhe sugerira um joguinho de cartas. Talvez ele pudesse retardar a volta para o próprio abrigo até que Darja, de tanta raiva por ter de esperar, tivesse perdido a vontade de trepar.

Quando o sargento que acompanhara Praskovja enfiou a cabeça no abri­go e disse, sem nada adivinhar: “Camarada Comissário, acabei de trazer a sua querida esposa”, Miranski sentiu como se um estilhaço de granada o tivesse atingido. As cartas caíram de suas mãos, enrijeceu e gaguejou com um olhar inquieto:

— Você fez o quê?

— Olhem, ele está estatelado de tanta alegria! — o sargento riu alto, zombeteiro. — Sua mulher está aí, Camarada Comissário. Ela foi para o seu abrigo. . .

Foma Igorevitsch emitiu um som abafado; depois levantou-se rápido, quase jogou no chão o sargento parado na porta e disparou, a toda velocidade, trincheira abaixo.

— Isto é que a gente chama amor! — gritou o sargento sem perceber que Ugarov e Soja Valentinovna se entreolhavam, horrorizados. — Lá vai ele em disparada, como um carro de bombeiros ao escutar o alarme de incêndio, já com a mangueira na mão. . .

Ele riu às gargalhadas da própria piada e voltou ao depósito da companhia. A Bajda segurou Ugarov pelas calças, quando ele deu um pulo da cadeira.

— Tarde demais! — disse ela enigmaticamente. — Agora é tarde demais. O que você pretende fazer lá? Vai virar briga de casal e Darja vai ter de tomar chá de sumiço. Eu só vou me preocupar com isso, quando a mulher dele en­tregar uma queixa oficial. . .

Quem poderia adivinhar os acontecimentos horripilantes que se tinham passado no abrigo de Miranski?

Também Foma Igorevitsch estava contando com tudo, aguardava uma discussão acalorada e até bofetadas de acordar os mortos, tudo, desde um choro imenso até censuras dramáticas. Mas a visão com que se deparou, ao entrar no abrigo, fez o seu sangue literalmente estancar nas artérias. Parecia que seu coração parará de bater.

— Praskovja. . . — gaguejou. Ela parecia como se alguém a tivesse salpi­cado de sangue, de alto a baixo, com um jato de mangueira. Em um canto do abrigo jazia um monte de carne sangrenta e Miranski soube logo que aquilo fora uma vez a linda Darja Allanovna, seu diabinho sempre insatisfeito, sem­pre cobrando, que podia cantar Stenka-Rasin durante o ato de amor. — Pra. . . Praskovja. . .

Mais longe não foi. Um terrível golpe com o bastão dos ratos o jogou contra a parede. Uma chuva quente lhe correu pelo rosto e o cegou, e ele disse para si próprio: Isto é sangue. Agora é a minha vez. Agora Praskovja também vai me liquidar. . . Me mata com o bastão de ratos, sem ao menos me ouvir. Sem que eu possa lhe explicar que eu também sou uma vítima, a vítima da concupiscência de Darja.. . Praskovja, você está sendo injusta comigo! Eu não a amei. . . eu até tinha medo do seu corpo insaciável. . . Me deixe explicar tudo. . .

Miranski se encolheu e caiu de joelhos, com o rosto entre as mãos. Pras­kovja o golpeava com os dentes fortemente trincados, sempre com toda a for­ça. Era como se estivesse batendo em um lobo que a atacara, como se se tra­tasse de salvar a própria vida.

Miranski levantou a cabeça mais uma vez. Mas ele não conseguia ver mais nada através da cortina de sangue diante dos olhos e também não escuta­va mais nada, porque a Praskovja lhe estraçalhara os dois ouvidos; sim, nem sentir podia mais, pois um nervo fora atingido, o que durante algum tempo eliminara a sensação de dor. Só tinha um pressentimento, o de que sua mulher estava, delirante, decidida a destruir tudo aquilo que antes destruíra a alma dela, e, ao levantar a cabeça pela última vez, pediu-lhe perdão.

O golpe seguinte atingiu o crânio de Miranski. O seu corpo tremeu e es­ta sensação foi a última que o Comissário percebeu, antes do eterno silêncio dele se apoderar.

Uma hora mais tarde Ugarov e Soja Valentinovna se puseram a caminho, para apaziguar a luta conjugal de Miranski. Caso eles ainda não se tivessem reconciliado. Talvez o pobre precisasse de ajuda.

— Agora talvez tenha chegado a hora — disse a Bajda, olhando para o seu relógio. — Agora estarão roucos de tanto berrar! Aqueles patetas do batalhão! Enviam uma visita sem avisar! Mas eles ouvirão o que eu vou lhes dizer! Venha, Victor Ivanovitsch. . .

Ao entrarem no abrigo de Miranski, o cheiro de sangue penetrou em suas narinas. A Bajda emitiu um grito de horror. O Tenente Ugarov sentiu-se nauseado. Praskovja Ivanovna Miranskaja estava sentada ao lado do cadáver estraçalhado de seu Foma Igorevitsch, com o crânio dele fendido em dois no colo. Ao lado dela, em um canto, jazia o corpo, não menos terrivelmente mutilado, que uma vez fora Darja Allanovna.

— Finalmente vocês chegaram — disse Praskovja abafada mas inteligivelmente. — Finalmente. . . Quanto tempo isto demora com vocês. Peguem suas pistolas e me matem. . . peguem alguma coisa com que possam me matar. . . mas, eu lhes imploro, por favor, me matem! Acabem comigo. . . depressa, aca­bem comigo. . . eu estou lhes implorando, meus caros. . .

De madrugada Praskovja Ivanovna conseguiu fugir.

Naturalmente a Bajda e o Tenente Ugarov não a tinham matado. Aquilo que já acontecera era suficiente para suscitar um escândalo, era mais do que suficiente para que chovesse sobre eles uma pletora de investigações penosas e inquéritos, notificações e punições. Com toda a certeza tanto a Central para Educação Política em Moscou como o General Conjev no Quartel-General da Frente da Estepe se ocupariam daquela tragédia. Um comissário e uma fuzileira famosa mortos a golpes de bastão de ratos por uma esposa ciumenta, e isto diretamente na frente! Que escândalo! Incrível! Camaradas, onde é que nós estamos? Onde estamos vivendo? Só uma coisa pode mobilizar nossas almas: A Grande Guerra Patriótica! Mais nada. . .

Depois que todas as moças tinham olhado os cadáveres terrivelmente mutilados de Miranski e Darja e fitado, em silêncio, a criminosa Praskovja, prenderam a Miranskaja, essa mulher terrível, que andou de cabeça erguida pelas trincheiras e depois tomou chá quente e comeu biscoitos de cevada no abrigo de comando e lhe explicaram que na manhã seguinte a levariam para o batalhão. Lá saberiam como continuar.

Para seus atos a Praskovja não tinha comentários.

— Eu não sei mais nada. — Divagava com voz arrastada. — De repente vi muito sangue a minha volta, e Fomascha estava deitado diante de mim, e uma moça, que antes estava tomando banho nua. . . e eu descobri que Foma me traía. . . e aí senti um rumorejar profundo dentro de mim, em minha volta, em todo lugar. . . E depois sangue, sangue. . . Muito sangue. . .

Mais não foi possível arrancar dela. A Bajda acreditava que ela estivesse em estado de choque e que no dia seguinte, quando Praskovja compreendesse o que fizera, tudo seria ainda pior.

— Isto nos vai arrastar a todas em um turbilhão — disse Soja Valenti­novna cheia de pressentimentos, depois que aprisionaram a Miranskaja. — Quando eles em Moscou ficarem com raiva! Olhe, entre nós se mata um Comissário. . . Victor Ivanovitsch, sinto calafrios, só de pensar o que nos espera! Seremos submetidos a um inquérito como se nós fôssemos os homicidas. E aí muita coisa irá aparecer à luz do dia, coisas que até agora conseguimos disfar­çar e que Miranski omitiu em seus relatórios. Sobre nós e as moças abater-se-à uma catástrofe!

Ela se apoiou em Ugarov, à procura de proteção, não mais a comandante da unidade feminina mais temida, e sim apenas uma mulher medrosa, uma pombinha indefesa, que procurava calor e proteção. Victor Ivanovtisch, até então sempre pronto para encontrar uma desculpa ou um ardil, mordia o lábio inferior e refletia.

— A gente poderia esquecer tudo — disse depois de algum tempo.

— O que quer dizer esquecer, meu amor?

— Não aconteceu nada — explicou Ugarov simplesmente.

— Como? — A Badja o fitou atônita e pôs a mão de Victor sobre seus seios magníficos. — Você sente como meu coração bate? Tenho medo. Você pode entender isto? Soja Valentinovna Bajda tem medo. . . não dos alemães, mas de Moscou. . .

— Estamos em guerra! — falou Ugarov, como se estivesse meditando. — Ninguém vai ficar chateado conosco, se tivermos baixas. . .

— Que quer dizer esta besteira? — interrompeu Soja amargamente. — Você fica aí fazendo piadas tolas, quando a vontade que a gente tem é de cho­rar. . .

— A piada é, Soitschka, que Miranski e Darja foram mortos pelos alemães ao defender sua pátria. Você vai escrever um relatório, um relatório bem patriótico, e eles ainda vão dar uma condecoração póstuma a Darja, promover Miranski, considerar ambos heróis e gravar seus nomes em alguma placa come­morativa. E naturalmente nós enterramos os dois heróis aqui. Até mostrare­mos túmulos de honra cheios de coroas de flores. Afinal de contas ninguém vai ter a idéia de exumá-los. . . E a morte do querido amigo Foma Igorevitsch e da nossa doce Darjanka será algo muito natural. . . Morreram defendendo a pátria. . .

— Você é um diabo, um verdadeiro filho de Satã! — exclamou a Badja, com admiração. — Mas não é possível.

— Não vejo obstáculo nenhum.

— Ainda há a assassina, Praskovja Ivanovna! Ela com toda certeza não vai ficar calada. . .

— Nem mesmo se assim puder salvar a sua vida?!

— Mas ela não quer salvar a sua vida, ela quer morrer! Tão depressa quanto possível!

— Desejos infantis como estes deveriam ser satisfeitos! — disse Ugarov tranqüilamente. — Se a gente puder fazer a pessoa ficar feliz assim. . .

— Você quer matá-la, Victor? — gritou Soja Valentinovna horrorizada.

— Ela deveria ter a oportunidade de satisfazer seu desejo. Soitschka, a gente deveria pensar a respeito, com toda calma. Por que diabo os alemães não nos poderiam prestar um favor uma vez?!

E assim aconteceu que, de madrugada, a porta do abrigo não estava trancada, quando a Miranskaja a sacudiu. Ela se espantou, saiu, viu que estava só, escapuliu da trincheira e correu, com a saia a esvoaçar, ao longo da estepe e através do povoado destruído, em direção ao rio.

A sentinela deu a notícia a Soja Valentinovna.

— Só é preciso saber pensar logicamente — disse Ugarov satisfeito, colo­cando o binóculo de longo alcance em volta do pescoço. — Agora é só esperar que os alemães não nos desapontem. ..

Praskovja Ivanovna alcançara a margem do Donez e mirou a supefície da água, que cintilava prateada no sol matutino. Então era isto, finalmente se podia morrer: a gente se jogava na água e se afogava. Não era uma morte agra­dável mas Foma Igorevitsch também não tivera uma morte bonita.

Ela desceu, cuidadosamente, a pequena encosta em direção ao Donez e se acercou da água.

Na sua frente, camuflado por um arbusto, estava Uwe Dallmann e a observava por seu telescópio de mira. Tinha servido como vigia noturno e já ia abandonar seu posto no momento em que percebeu o vulto feminino, que saía das ruínas do povoado e se aproximava da margem.

Hesslich insistira, apesar da tranqüilidade enganadora, que o rio continuasse a ser vigiado. Bauer III havia retirado os homens que colocara à dispo­sição, entre eles Fritz Ploetzerenke, que fizera a proposta de pescar no Donez, com granadas de mão, coisa que Bauer III proibiu categoricamente. Hesslich e Dalmann, contudo, permaneceram lá fora, como até então; escondiam-se no celeiro do campo dianteiro e continuavam esperando.

— Elas vêm! — Hesslich repetia incessantemente. — Confiem em mim. . . elas vêm! Isto agora é um jogo de paciência, uma verdadeira prova de nervos!

Stella Antonovna não pensava diferentemente. Também ela repetia sem cessar! Esperem! Ele vem! Esse homem com a boina tricotada tem de voltar. Ele não pode agir de outra forma.

Sem que os dois soubessem seu duelo já começara.

Depois que passara a vigia a Dallmann, Hesslich finalmente se deitou na palha, para repousar. Quando chegou a hora de render o outro, a manhã sur­giu como uma fita estreita no horizonte. Só mais uma meia hora e o sol come­çaria a brilhar. Então Dallmann também poderia se deitar. De dia moça ne­nhuma atravessava o rio — todos se limitavam a observar os outros, de mar­gem para margem, por meio de grandes binóculos. Também Ploetzerenke, que nadara mais uma vez nu no Donez, não recebeu nenhum tiro.

— Este nós guardaremos — disse Marianka Stepanovna,observando-o, e estalou a língua. — Eu arrancarei o seu peru a tiros. . . será um prazer!

Depois Bauer III retirou seus soldados e o rio ficou verdadeiramente so­litário, pois Hesslich e Dallmann permaneciam invisíveis. Sua camuflagem en­tre os bambuzais e a grama alta era perfeita.

Dallmann observava a mulher e hesitava. O que quer dizer isto, perguntou a si próprio. Será uma armadilha? De manhã, com tudo já claro, ela vem para o rio, pacificamente, fica ao lado da água e olha para as ondas, e se ela agora tirar a roupa e pular n’água, me belisquem no cu. . . mas eu não posso atirar em uma mulher nua! E Peter também não o consegue, topo qualquer aposta! Se ela ao menos tivesse uma carabina nas mãos. . .

A Praskovja não tirou a roupa, para quê? É mais fácil afogar-se vestida, com roupas que se encharcam d’água e puxam a gente para o fundo. Ela fitou a outra margem do Donez e nem imaginava que lá estavam inimigos alemães. Se o soubesse, teria entrado no rio, de cabeça erguida e berrado: “Seus porcos fascistas! Seus assassinos! Seus violadores de crianças! Condenados sejam para sempre, seus filhos da puta leprosos.” Teria ameaçado com os punhos, faria tudo para provocar os alemães — com o objetivo de que eles a liberassem de sua vida sem valor.

Mas ela não tinha nenhum pressentimento. Olhava, sem nenhum receio, para a outra margem e apenas se perguntava quão forte seria a correnteza e quão profundo o rio nesse lugar. Depois levantou a mão, retirou os cabelos da testa e decidiu simplesmente se deixar cair no rio. Queria deixar a água en­trar dentro de si pela boca aberta. Deus, seja misericordioso. Me deixe morrer depressa.

Não foi Deus quem satisfez seu desejo, e sim Uwe Dallmann.

No momento em que a Praskovja levantou o braço, mostrou a testa e deu mais um passo para dentro d’água, Dallmann atirou. O tiro solitário ecoou seco pelo silêncio matutino; alguns pássaros d’água, assustados, se levantaram e depois afastaram-se, batendo as asas, por cima do rio. Depois rei­nou de novo o silêncio total. Praskovja Ivanovna caiu silenciosamente para trás, na areia branco-amarelada da margem.

— O problema está resolvido — disse o Tenente Ugarov. Ele estava dei­tado, com a Bajda e Stella Antonovna, na ruína do sítio campestre dianteiro e observava a margem de lá com seu binóculo. — Vocês viram onde estava o fuzileiro?

— Não! — Soja Valentinovna pousou o rosto sobre os antebraços. A morte de Praskovja a abalava, mas até ela percebera que tinha sido a melhor solução. Três, que morreram pela pátria. . . Por que deveriam fazer os de Moscou ficar nervosos com uma apresentação realista dos fatos? — Não prestei atenção.

—  Ele deve estar deitado entre os arbustos, mas exatamente onde, eu também não sei — acrescentou Stella Antonovna. — Mas isto descobriremos, quando dermos uma olhada por lá. . .

— Quem vai buscá-la? — perguntou a Bajda.

Ugarov a mirou espantado.

— Que pergunta é essa, Soitschka. . .

— Mas ela não pode ficar lá deitada o dia todo...                     

— Por que não? Ela não sente mais nada.

— É desumano.

— Nem isto ela percebe agora. De dia não podemos buscá-la. Os alemães irão fazer uma festa, se nós formos até o rio como alvos móveis!

— Poderíamos levar uma bandeira branca conosco. . . — disse a Bajda, com voz abafada.

Ugarov sacudiu violentamente a cabeça.

— O que diria Miranski agora? “Nunca um batalhão de mulheres mostrou a bandeira branca. Para ele só existe a bandeira vermelha da vitória!” De­vemos desonrar esta tradição por causa de Praskovja Ivanovna?

— Vou perguntar a Galina Ruslanovna — disse Soja, com a voz embarga­da de emoção. — Ela é médica. Pode colocar sua tira distintiva. Ninguém vai atirar nela.

— E se o fizerem? Existe alguma garantia?

— Vamos deixar que Galina decida. — A Badja esgueirou-se de volta pa­ra a ruína e se levantou. Ugarov e Stella a seguiram. — Vamos agora notificar o batalhão. Três mortos por artilheiros alemães. . .

Mas antes de fazê-lo, enterraram Foma Igorevitsch e Darja Allanovna Clujeva, isto é, o que restara dos dois. Não pareciam mais seres humanos. A Miranskaja os matara de um modo que se podia suspeitar que usara um machado e não um bastão de ratos.

Costuraram os cadáveres em fazenda de tendas de acampamento, abriram três covas em um dos jardins diante dos casebres incendiados dos campo­neses e desceram os mortos. A terceira cova ficou vazia; faltava ainda a Mi­ranskaja.

Soja Valentinovna pronunciou um breve discurso; depois jogaram terra em cima de Darja e Foma e puseram em cada um dos dois montes planos uma pedra do rio, nas quais Schanna Ivanovna pintara uma estrela vermelha. Ela ainda andava com o ombro enfaixado; seu rosto estava avermelhado pela fe­bre. Também lhe permitiram jogar algumas pás de terra sobre os mortos, mas a Bajda não olhava para ela e nem lhe dirigia a palavra.

Nossa comunidade está fechada para você. Primeiro nos traga 10 cadáveres alemães.

Por volta de meio-dia a médica Galina Ruslanovna Opalinskaja rumou para o rio. Ugarov falara com ela com palavras angélicas, mas emudecera, de­pois que a Bajda lhe murmurou, venenosamente:

— Que medo você tem! Ha, vá alguém arrancar um só fio de cabelo do seu anjinho! Coloque-a em uma redoma de vidro, sua gatinha. . .

Aí Ugarov desistiu de deixar a antiga briga estourar de novo; levantou-se e disse, grosseiro:

— Vocês mulheres que o resolvam entre vocês! Eu agora vou escrever o relatório sobre a morte heróica dos três camaradas corajosos. . .

A Opalinskaja ajeitou a tira com o distintivo de médica sobre a manga e foi com a enfermeira Marfa Vassilijevna para o rio. Andaram lenta e corajosa­mente pela estepe, levando uma maça de tela com duas varas de alumínio.

No Donez Hesslich e Dallmann estavam em seu esconderijo e observavam-nas. Pouco depois que Dallmann matara a mulher, Hesslich, alarmado com o tiro, aparecera a seu lado.

— O que foi? — perguntou. Dallmann tinha apontado para a forma deitada na areia e mordera nervosamente o lábio inferior.

— Ela veio para o rio. . . e então. . .

— Homem, Uwe. . . mas ela não está usando uniforme. . .

— Isto pode ser um truque! Aqui entre as frentes não existem mais civis. Talvez os de lá agora tenham posto guerrilheiros em ação. . .

— De dia?!

— Eu sei, é uma merda. Ela estava ali, de repente. . . e eu atirei. E então? Você acha que os de lá não atirariam também, se você aparecesse na mar­gem, vestido de calça de tirolês e camisa e gravata?! Era uma das fuzileiras, acredite. Porque ela foi passear assim no rio, feito besta, eu também não sei, mas isto não é problema meu.

Ainda de manhã, mais tarde, receberam uma visita. Na tropa da companhia surgira um médico auxiliar, Helge Ursbach. Recebera a missão de instalar um campo avançado de cuidado dos feridos — o que também era um sinal da ofensiva alemã projetada. O sargento-mor Pflaume estava muito contente com o novato, já que o médico auxiliar Ursbach anunciara ser um jogador perigoso de skat e Pflaume estava à procura de um para as longas noites claras de soli­dão. O terceiro homem do jogo de cartas era o Alferes von Stattstetten, que es­crevia, todos os dias, uma carta lírica a sua ucraniana da companhia de propa­ganda.

— É certo que aqui existem fuzileiros? — perguntou Urshach em uma vi­sita na linha dianteira.

— Na divisão do batalhão há 12 homens. Entre nós estão as estrelas, dois rapazes duros como granito. — O sargento-mor Pflaume que, juntamente com o Tenente Bauer III, mostrava os arredores ao médico auxiliar, apontou para as ruínas. — Lá estão eles de espreita e esperam as mulheres de carabina.

— Então é realmente verdade que diante de nós existe um batalhão de mulheres?

— Se realmente se trata de um batalhão inteiro, não o sabemos. — O Tenente Bauer III deixou a trincheira e se dirigiu com Ursbach para as ruínas. Pflaume ficou para trás e procurou Ploetzerenke, para brigar com ele. Uma briga feroz com o cabo era como o sal na sopa. . . colocava tempero no dia rotineiro e chato.

— De qualquer maneira temos a ver com uma divisão feminina que não apenas atira mas também assalta — continuou Bauer III. — Na retirada para o Donez fomos atacados algumas vezes por mulheres. Não nós da Quarta Com­panhia diretamente, mas ao sul, perto de Charkov, elas assaltaram. Que se tra­tava de mulheres, isto só foi verificado quando, ao recuperar algumas posi­ções, vimos os mortos. Dizem que deu um forrobodó danado no Exército! E agora nós temos as mulheres na nossa divisão. Uma sorte, que o rio nos separa.

— É possível chegar perto do rio? — perguntou Ursbach.

— Claro. Mas não como pedestre. Nunca se sabe quando elas estão com vontade de aumentar o número de marcas em seu livro de tiros. — Bauer III olhou de lado para Ursbach. — O senhor faz questão de ir lá?

— Sim. O senhor me acompanha?

— Não. Eu estou a serviço da minha companhia, não dos dois “furadores” lá fora. — Estavam sob a proteção da última ruína, não longe da beira do rio. — O senhor está vendo o grupo de arbustos lá do outro lado? Devem estar deitados por lá. Sargento Hesslich e suboficial Dallmann. Eu lhe recomendo ir agachado, sempre com a cabeça para baixo. . . as moças têm um fraco por tes­tas a descoberto. . .

Agora Ursbach estava deitado ao lado de Hesslich no emaranhado dos arbustos e observava a vítima de Dallmann pelo binóculo. Praskovja estava deitada, estirada, na areia da margem, os pés, com os sapatões n’água. Era muito fácil vê-la com a lente forte, perceber que o braço esquerdo estava sobre a cabeça, como se tivesse acenado no momento exato em que o tiro mortal a acertara.

— Mas ela não usa uniforme — Ursbach estranhou também. Dallmann vi­rou os olhos para o céu e suspirou.

— Há quase dois meses temos um cessar-fogo. É possível que as moças tenham saudade de vez em quando dos trajes civis. Elas também trabalham nos jardins, com as blusas desabotoadas e pernas nuas, quando faz muito ca­lor. Pode-se ver tudo daqui. . . Outro dia uma até andou pelada por aí! Fica-se de língua para fora, feito cachorro! O que quer dizer civil? — Dallmann cuspiu fora o pedaço de grama, que estivera a mastigar. — São inimigos. Se o senhor tivesse visto os buracos limpos nas testas dos nossos camaradas, pensaria de outra forma.

Por volta de meio-dia Galina Ruslanovna e Marfa Vassilijevna apareceram com a maça e desceram para a margem do rio. Curvaram-se sobre a morta Praskovja, retiraram-na da água e a puseram na maça. Galina observou lon­gamente o buraco pequeno, redondo como um círculo, na testa de Praskovja. Um tiro de mestre. Será que fora o soldado alemão com a boina cinza de tricô, a respeito do qual falara Schanna?!

Sentia quase corporalmente que era observada lá da outra margem. Mas ela não se virou.

— Não olhe para lá — sussurrou para Marfa, como se pudessem ouvi-las. — Finja que estamos sozinhas. . .

No monte de arbustos Hesslich se virou para Ursbach.

— Visita de sua colega russa — disse à vontade. — Como se ela adivinhas­se que o senhor está aqui. Então isto não se chama de telepatia? Mas agora o senhor vê: elas usam uniforme. E retiram os mortos.

—  Então era uma da tropa! — Dallmann suspirou e ficou satisfeito. Es­tava aborrecido porque Hesslich parecia não concordar com o que ele fizera.

Ursbach observava a jovem médica pelo binóculo. Quando ela levantou a maça, depois de dar uma ordem a Marfa, ele viu nitidamente seu rosto, o pescoço, a blusa de campanha desabotoada e o início dos seios.

— Incrível, como é bonita! — exclamou rouco.

Hesslich acenou com a cabeça.

— Eles lá têm mulheres danadas de bonitas! A gente poderia imaginar uma morte mais linda? Com elas a morte tem cara de anjo.

— Ela não usa sutiã! — exclamou Ursbach, competentemente.

— Ora vejam, logo ele irá se afogar na água do próprio queixo! — Dall­mann riu baixinho. —Sr. médico auxiliar, o senhor gostaria de fazer papel de assistente para ela?

Observaram como Galina e Marfa levaram a morta Praskoyja para cima da margem e depois marcharam de volta para o povoado reduzido a cinzas.

— Jesus Cristo, mas a outra tem uma bunda lasciva! — disse Dallmann e seguiu Marfa com o binóculo. — Mas isto é o que se chama liquidação total da capacidade de defesa! E sua colega, Sr. médico auxiliar. . . ela tem pernas que vão até o pescoço!

— E como! — Ursbach seguiu Galina Ruslanovna com o binóculo, até que ela desapareceu entre as ruínas. Depois baixou-o e se virou para o lado. — Elas têm a sua própria divisão de saúde. Deve tratar-se, pois, de uma unidade da maior importância. Mas se tudo é permitido na guerra. . . se o senhor me pergunta, direi que continua sendo uma sujeira pôr em campo mulheres arma­das. Na pátria. . . sim. Como enfermeiras, nas fábricas, como ordenanças, nos escritórios. . . mas na frente, bem na frente, como tropa de choque. . . isto é realmente uma porcaria. . .

— Oxalá fossem elas tropas de assalto — disse Dallmzmn rindo, assinalan­do o duplo sentido da frase. — Mas elas o entendem de modo muito diverso. . .

— E geralmente são voluntárias. — Hesslich olhou para o relógio de pul­so. — Madonas com dedo indicador mortífero. É sempre necessário recordar isto, mesmo quando sacodem a bunda e os seios lhes escapolem das blusas! — Hora do almoço. Posso convidá-lo para comer, Sr. médico auxiliar? Temos sopa de macarrão com miúdos de galinha. . .

— Fantástico. — Ursbach acenou para Hesslich. — Mas vocês vivem co­mo Deus na França!

— Não! Como a morte na Rússia. . . — Hesslich esgueirou-se de volta, fez um rodeio para não revelar seu esconderijo e só se levantou ao chegar à ruína.

Stella Antonovna estava deitada na outra margem do rio, equipada com uma paciência inesgotável. Ela só estava esperando que alguém aparecesse do lado de lá. E agora o viu. . . pela primeira vez.

É ele, pensou e seu coração bateu até a laringe. Tem de ser ele! Na realidade não está usando a boina tricotada, esta ele só põe na cabeça quando se esgueira por aí feito fera. Mas não pode haver dúvida. . . é ele! Então é assim que se parece, este grande adversário. Ele é mais rápido que Schanna. . . nem se acreditaria nisso, só de olhá-lo. Mas que ombros largos!

Hesslich desapareceu nas ruínas. Stella Antonovna baixou o binóculo. Esgueirou-se de volta, até não mais poder ser vista e depois foi para o povoado. Lá a Praskovja estava deitada em cima de uma tela, ao lado da cova aberta, e as moças estavam prestes a costurar o pano com pontos largos e barbante fino.

— Olhe para isto! — exclamou Ugarov com voz trêmula. — Exatamente na testa. A partir dessa distância. . . é incrível!

— Eu o vi. — Stella estava convencida de que o homem que observara também fora o atirador. Curvou-se sobre Praskovja e observou a ferida. — Eu serei melhor que ele! É preciso lidar com ele como se Lida com um lobo cin­zento. . .

Dois dias depois Miranski, Darja Allanovna e até Praskovja Ivanovna, apesar de ser civil e ter vindo somente visitar o marido, foram citados, elogiosamente, no relatório do Exército. Tinham dado suas vidas pela pátria.

Mas o próprio General Conjev, o comandante da frente da estepe, deu ordens ao Grupo de Fuzileiras da Bajda: Liquidar os adversários alemães.

Isto significava simplesmente: Vocês têm liberdade incondicional! Tudo que fizerem para liquidar o inimigo é permitido.

— A calma passou... — disse Soja Valentinovna em um pequeno discur­so para as moças. — O Camarada General Conjev agora quer ação! Nós iremos elaborar os planos em conjunto.

Muitas vezes a vida é assim: quando impera a satisfação e as pessoas se sentem bem no dia-a-dia tranqüilo, sempre há um grande Puff! em algum lugar, e tu­do desmorona novamente. Segundo um velho ditado popular, o destino cuida para que as árvores não cresçam até o céu, e parece que há algo de verdade nisto, mesmo que os homens poucas vezes o tomem a sério, pois é demasiado profético e incômodo.

Até mesmo o cabo Ploetzerenke não pensava nisso. Pode-se transformar um touro bravo em um animal domesticado, se o amarrarem por meio de um anel, antes colocado em seu nariz. Mas ninguém até hoje conseguiu amarrar um cabo alemão que descobriu um leitão lindo, rosado, de aproximadamente 150 quilos de peso!

E exatamente isto Ploetzerenke observara: do lado soviético, em um ter­reno com uma clareira na floresta, um casebre de camponês e ondulações cheias de arbustos, caminhava grunhindo um lindo porco — na realidade uma obra de mestre. Um porco modelo! Se houvesse um concurso de beleza para porcos — aquela porca teria ganho!

Não foi mais possível segurar Ploetzerenke. Naturalmente ele deixou de relatar sua descoberta a Bauer III. Já sabia, de antemão, como ele iria reagir: uma ordem — esquecer a porca. Também não compartilhou seu segredo com o sargento-mor Pflaume, aliás com ninguém, exceção feita de um suboficial da divisão dos guerilheiros, que estava ao lado da Quarta Companhia. Quando a ofensiva alemã disparasse era tarefa desta tropa proteger o rio e construir uma ponte. Além disso supervisionavam os vários botes infláveis, que estavam prontos para levar as tropas de assalto alemãs para a outra margem.

Ploetzerenke pediu emprestado a esse fiel amigo um pequeno bote e ne­gociou em troca um assado de porco, de um quilo e meio, juntamente com um pernil e metade de uma cabeça para fazer gelatina. O suboficial era um franco da região de Culmbach, e há muito sonhava com gelatina de cabeça de porco.

Sozinho, carregado com quatro granadas de mão e sua carabina, Ploetzerenke atravessou o Donez em uma noite quente e escura, para buscar o lindo porquinho. Seu pequeno bote inflável foi observado com agrado. . . Schanna Ivanovna e quatro camaradas foram para a margem e se jogaram na grama alta, quando Ploetzerenke de repente atracou e pulou para a margem do rio.

Ele esperou, aguçou os ouvidos na escuridão, mas não escutou outra coisa que não o coaxar dos sapos e o leve bater das ondas na margem do rio. Contente, prosseguiu em direção ao terreno ondulado, onde descobrira o porco.

A cerca de 100 metros da margem as moças o deixaram entrar na armadilha. Subitamente Schanna e uma camarada de nome Vanda estavam diante dele; atrás dele apareceram mais duas moças; de lado, à direita, surgiu uma quinta sombra. Uma voz clara gritou, duramente:

— Stoj!

Ploetzerenke só hesitou um segundo, depois caiu para o lado com um verdadeiro pulo de gato. Novamente Schanna chegara tarde demais. . . Ela estava com o fuzil pronto, mas não pôde atirar porque o adversário sumira.

Em compensação Ploetzerenke atirou logo que caiu na grama. Viu como a sombra isolada caiu. Ele rolou logo para longe e puxou uma granada de mão. Começou o contar em silêncio os segundos de espera até jogar a grana- da. . . 21. . . 22. . . 23. . . para longe com a coisa! A granada de mão voou pela noite. . . Ploetzerenke empurrou a cabeça contra a terra.

A explosão foi um espocar abafado, combinado com uma pequena nuvem de fumaça.

Seguiu-se um grito estridente; depois se ouviram gemidos terríveis e gritos trêmulos.

Ploetzerenke levantou a cabeça. Viu como duas sombras corriam para o lugar da explosão e atirou novamente. A sombra dianteira vacilou um pouco, levantou os braços e depois desmoronou. Então foi, pensou Ploetzerenke satisfeito. Não necessito de um Peter Hesslich. . . isto eu sei fazer sozinho!

Esgueírou-se cuidadosamente para a frente, alcançou o primeiro cadáver e viu com horror que se tratava de uma moça. Oh merda, pensou Ploetzerenke assustado; compreendeu que o lindo porquinho fora uma armadilha, um engo­do. Simplesmente tentaram e especularam que um porco à solta não deixaria um soldado impassível. Certamente esperavam mais do que um único alemão, daí a tropa de cinco — só que com um Ploetzerenke não contaram.

Ele não teve muito tempo para refletir. Do lado alguém pulou e se jogou sobre ele. Quando Vanda foi morta, ao seu lado, Schanna deixara cair o fuzil. Não longe dela se queixavam as duas camaradas, que tinham sido estraçalhadas pela granada de mão, mas os seus lamentos cessaram rápido. Depois viu o alemão diante de si; sacou da faca, feito punhal, e se jogou sobre ele — como se exercitara muitas vezes no treinamento para o combate corpo a cor­po — matar em silêncio, apunhalar ainda no vôo. Colocar toda a força do corpo no golpe!

Ploetzerenke teve uma sorte descarada. Schanna caiu sobre ele, mas a sua punhalada acertou o chão ao lado da cabeça dele e o golpe foi tão forte, que ela não conseguiu retirar imediatamente a arma da terra.

A lâmina penetrara no chão da estepe até o punho.

Ploetzerenke agiu movido por puro instinto. Agarrou o pescoço de Schanna com as duas mãos e apertou. Ela o golpeou com os joelhos, no cor­po, e fez força para se levantar, mas ele a mantinha presa e a sufocava; depois de uma defesa curta, desesperada, o corpo de Schanna ficou mole nas suas mãos e ela perdeu os sentidos.

Ele ficou deitado na grama alta, quieto, durante alguns minutos. Segura­va Schanna junto ao corpo e estava preparado para utilizá-la como escudo vi­vo, caso alguém atirasse de novo. Depois levantou cuidadosamente a cabeça, apertou mais uma vez, de leve, a laringe de Schanna e a arrastou pela grama, puxando-a pelas pernas. Ao se aproximar da beira do rio, colocou-a sobre os ombros e correu, com sua carga, para o bote inflável.

Ploetzerenke remou tão rápido quanto possível para o outro lado do Donez, pôs Schanna de novo nas costas e a levou para uma das casas campesinas destruídas, que ficavam já na divisão dos guerrilheiros. Lá a jogou na pa­lha, amarrou-a pelos pés e pelas mãos e correu para fora.

Naturalmente tinham ouvido os tiros e o espocar da granada de mão. Mas as sentinelas estavam irritadas — a barulhada vinha do outro lado, dos soviéti­cos. Diante das linhas alemãs tudo estava tranqüilo. Portanto, também não dispararam bolas de fogo. O que poderiam ver, afinal? Quem sabia o tipo de festa que os Ivans celebravam lá e por que disparavam para o ar?

Ploetzerenke voltou para o casebre, ligou a lanterna de mão e iluminou o rosto de Schanna. Ela recobrara os sentidos; fechou os olhos e abaixou a cabeça.

— Gente — disse Ploetzerenke — você é uma doce pombinha, Lastotsch-ka. . . entende? Queria me liquidar, hem? Que foi que você pensou? Agora vo­cê é que vai ser liquidada, mas não como está pensando. — Sentou-se ao lado de Schanna, pegou nos seus seios, e quando ela cuspiu nele, presa de uma rai­va impotente, ele riu alto. — Ninguém sabe o que eu consegui pegar. . . isto é legal, não? Você vai ficar aqui, vai ser alimentada, vai ter o que beber, e eu vi­rei todos os dias vê-la. E depois nós dois montaremos, e eu digo, depois da pri­meira vez você não vai mais agüentar esperar. . . A guerra agora será linda pa­ra nós, hem, Madka? Me entende? Guerra para nós acabada. . . você e eu... só fode, fode, fode... merda, como é que vocês chamam isso! Bem, isto você vai entender rápido. . . — Ele rasgou a blusa de Schanna, assobiou entre dentes de admiração e viu seu ombro enfaixado. — Aha. Também está ferida! Uma com­batente corajosa?! — Riu sardonicamente e acariciou-lhe os seios nus. — Va­mos ver o que você sabe fazer na luta corpo a corpo; o melhor é uma defesa feroz. . .

Deu um golpe em Schanna, ela caiu para trás, na palha, e encolheu as pernas. Ploetzerenke riu abafado. Deitou a lanterna de mão no chão e desabotou as calças.

— Então preste atenção ao que vamos jogar agora. — Fitou, rindo, os seios jovens. — O lindo conto de fadas Tischlein deck dich, Esel streck dich, Knueppel aus dem Sack. . .! * A partir de amanhã você não vai querer ouvir outra coisa.

Schanna não conseguiu mordê-lo na laringe quando ele se deitou sobre ela. Mas arrancou a dentadas um pedaço do pescoço. Ploetzerenke gemeu alto e revirou os olhos.

— Eta gata brava! — gaguejou. — Merda. . . oh merda. . . você quer me devorar?!

 

Colocou a mão espalmada por baixo do queixo de Schanna, fazendo com que ela ficasse totalmente indefesa. Schanna começou a chorar, seu corpo relaxou e ela se rendeu a seu destino, pensando: Também assim se pode morrer! Isto também é uma morte! Não precisa sempre ser uma bala. . .

Jamais alguém vira a Bajda ter um ataque de fúria igual ao dessa manhã. Ela perdera totalmente o controle, seu corpo todo tremia; corria de lá para cá com o rosto arreganhado. Quem podia, saía do seu caminho, mas isto só poucas conseguiram. Soja Valentinovna ordenou o comparecimento de toda a divisão. Vociferava tanto, que as artérias do pescoço inchavam como em um peru em época de cio.

Um grupo de procura, que Ugarov mandara sair, ao ver que de manhã Schanna e suas quatro companheiras ainda não tinham retornado, encontrara quatro cadáveres que foram transportados de volta. Realmente tinham escutado, lá longe, alguns tiros e uma explosão, mas ninguém acreditou que o tiro­teio visava à tropa de observação de Schanna. Além disso, tudo ficou calmo em seguida as sentinelas nem puderam determinar direito de que direção viera o barulho. Podia até ter-se originado das linhas alemãs.

Agora o sabiam — as quatro mortas jaziam lado a lado na trincheira, duas mortas a tiros, duas por uma granada de mão. E Schanna desaparecera, isto era o inacreditável! Deram uma busca completa em toda a região, na espe­rança de que ela se tivesse escondido, gravemente ferida, à espera de ajuda, pa­ra que lhe salvassem a vida. Mas não a acharam em lugar nenhum. Não deixara rastro. Só havia uma explicação para isto: o alemão, que liquidara a tropa de espreita, conseguira aprisionar Schanna.

E era isto que quase roubava a lucidez da Bajda. Pela segunda vez Schan­na, uma das melhores fuzileiras do Exército Vermelho, fracassara miseravel­mente. Da primeira vez o homem misterioso com a boina de tricô a deixara fi­car. Já isto Soja Valentinovna sentira como uma tremenda provocação, que só podia significar: levem-na de volta, é apenas uma mulher! Hoje então a vergo­nha era total: Schanna não estava deitada na estepe, como quinto cadáver, mas se deixara raptar.

— Com isto a tranqüilidade desapareceu definitivamente! — berrou Soja Valentinovna, feito uma fúria, sacudindo violentamente os braços. — Em qualquer canto onde se possa encontrar agora os alemães, vocês estarão a pos­tos! Olhem para elas, suas camaradas, sujas de sangue, seus corpos estraçalha­dos. . . e pensem nisso, que uma vez houve entre vocês uma Schanna Ivanovna, que teve a oportunidade de se tornar um dia Heroína da União Soviética. Agora ela está nas mãos dos fascistas! Eles a enforcarão, isto vocês sabem. Se­rá submetida a inquérito, torturada, atormentada até lhe arrancarem sangue — e depois: uma corda no pescoço! Mantenham este quadro sempre diante de seus olhos! A partir de hoje, noite e dia, só há uma coisa: Morte ao inimigo! Não esperaremos mais que eles venham, nós iremos para o outro lado e busca­remos os alemães! O camarada General Conjev me deu liberdade total para agir!

Enterraram os quatro cadáveres e uma salva de honra ecoou sobre as co­vas. Stella Antonovna recitou uma poesia de Maxim Gorki e muitas das moças choravam baixinho ou soluçavam alto. Depois a Bajda dividiu os novos grupos de combate. . . a margem do Donez foi ocupada; as moças ficavam deitadas, camufladas com tufos de grama e arbustos amarrados nas costas, na areia da margem do rio. Depois do cair da noite cavavam buracos estreitos, nos quais mal conseguiam se mexer. Alcançá-las com uma granada, seria um acerto de sorte — se começassem os tiros, elas se agachavam nos buracos estreitos, colo­cavam sobre suas cabeças uma tampa de madeira grossa e esperavam tranqüi­las. À esquerda e à direita havia olhos suficientes para observar o adversário, e não servir de alvo a tiros. Se os alemães realmente fossem suficientemente ma­lucos para querer atravessar o Donez, então o alarme soaria logo.

Já na noite seguinte Stella Antonovna, Marianka Stepanovna e Lida Iljanovna se deixaram flutuar para a outra margem do rio. Tinham construído, pa­ra esta façanha, uma jangada, em cuja superfície pregaram arbustos. Na água parecia uma pequena ilha flutuante, que a correnteza arrancara de algum lugar da margem e agora boiava, lentamente, Donez abaixo. Entre os arbustos es­conderam as carabinas e a munição, os uniformes e as botas. Depois agarra­ram-se nuas na beirada da jangada e empurraram, invisíveis para todos, a “ilha” para a frente, para o lado alemão, nadando. Lá ficaram na água, durante al­guns minutos, com a atenção concentrada, espreitavam e avaliavam cada som que ouviam, e só saíram do rio, inaudivelmente, quando tiveram certeza de que ninguém percebera sua jangada. Vestiram-se, encostaram os fuzis no peito e esgueiraram-se pela terra como grandes lagartas verde-marrons.

Em outras posições outros grupos de moças atravessavam o Donez, depois de terem observado o lado inimigo durante todo o dia. Lá os alemães tinham afrouxado a vigilância. Quase três meses de tranqüilidade e agora uma espécie de frescor veranil levavam a uma euforia quase maluca. Perderam o sentido da realidade. . . viam as flores a vicejar, cheiravam a grama e se estica­vam ao sol. O rio, cintilante, de um azul prateado, seduzia, o gorgorejar dos pássaros soava como o canto de um mundo que parou para respirar. E as noites do Donez eram quentes, a intendência distribuíra licor e agora até vinho, e só faltavam na realidade, algumas mulheres bonitas, meigas, para que a harmo­nia fosse completa.

As sentinelas ficavam deitadas durante longos intervalos e fitavam a área, casmurros. O Ivan pode vir agora! De repente, bem quieto e inaudível, talvez de meias? Besteira! Se o Ivan vier, ele o fará com os tubos abertos! Isto a gen­te percebe em tempo. Então a terra treme e todos o percebem.

Naturalmente Fritz Ploetzerenke visitou novamente nessa noite sua linda prisioneira. De dia viera duas vezes ver Schanna Ivanovna, lhe trouxera ca­fé de malte frio, biscoitos e carne de lata. Entretanto, ela cuspira tudo em seu rosto e o xingara. Ploetzerenke não compreendia suas palavras, mas quando alguém cospe na gente, certamente não o sentimos como uma expressão de simpatia.

— Nós ainda nos acostumaremos um ao outro — disse ele, rindo satisfeito. — Da última vez foi bom, não? E lhe garanto, será sempre melhor. . .

Fez um laço com um cabo longo, colocou-o no pescoço de Schanna e a levou para fora da casa, como um cachorro que deve fazer pipi. E exata­mente disto se tratava.

— Não se envergonhe — aconselhou Ploetzerenke e se virou polidamente para o lado. — Isto é humano, e tudo que é humano é normal. Agache-se! Eu já caguei há quatro anos pendurado numa tábua. Dá, basta entortar bastante as pernas e esticar a bunda. Então, menina, vamos! Na minha calça já começa a martelar. . .

Schanna se conformou. Se ela não quisesse se molhar de urina, não tinha outra escolha. Ploetzerenke lhe deu tempo. Ela pôde se lavar em uma  cuba de água, e ao se fitar no espelho do líquido, sentiu nojo de si mesma. Além disso, o laço continuava no seu pescoço. Tentara três vezes retirá-lo, mas Ploetzerenke sempre o percebera, apertara mais o laço e dissera, tranqüilamente:

— Menina, deixe de besteira! Para onde você quer ir? Eles estão aí, você não vai andar nem cinco metros. ..

Depois de tais passeios Schanna ficava novamente deitada na palha, com os braços amarrados, e suportava, com os olhos fechados, Ploetzerenke a grunhir. Mordia os lábios até sangrar, mas não gritava e ficava deitada embaixo dele como um pedaço de tábua de madeira. Ploetzerenke pouco se importa­va com sua passividade. Possuir seu corpo jovem lhe dava prazer, e ao sair, deixou um tablete inteiro de chocolate ao lado da moça. E Schanna comeu o chocolate. Mesmo com as mãos amarradas conseguia pegar o tablete e levá-lo à boca. Por mais ágil que fosse, não conseguia alcançar as cordas que atavam suas pernas. Sua única esperança era atingir com os dentes a laringe dele, mas depois da mordida que lhe dera no pescoço, Ploetzerenke ficara mais precavi­do e conseguia afastar-se em tempo. Quando ela levantava a cabeça, sapecava-lhe uma bofetada.

— Uma vez só e nunca mais, sua patife selvagem! — dizia, satisfeito con­sigo mesmo. — Todas vocês fazem isto na Sibéria?

Agora era noite. Ploetzerenke viera, trouxera uma caçarola cheia de sopa de feijão e um pedaço de torta de passas, que o Suboficial Senkler lhe dera de presente. Ele próprio a recebera de casa. Três sacos com pacotes e cartas tinham chegado. Os soldados estavam sentados em todos os cantos, liam as cartas, mostravam fotografias, comiam os bolos feitos pelas mães e seus olhos estavam marejados de lágrimas, de tanta saudade.

A pátria. Eles estão bem. Todos nos esperam — de férias, de volta, na época da paz.

Lá fora, no Donez, as fuzileiras atracaram e saltaram em terra.

Ploetzerenke não tinha pressentimento algum de que a morte estava se aproximando dele, pela grama da estepe. Pôs a mesa. Tinha trazido consigo um holofote mais forte, movido a bateria; colocou-o na palha, para que a luz fosse mais suave; depois retirou o casaco do uniforme e sentou-se junto de Schanna, vestido só de camiseta e calças. Ela o olhava de soslaio, procurando decidir qual a melhor maneira de dominá-lo. O que viria depois da comida, ela o sabia, e sentia-se aflita só em pensar. Defender-se era impossível...

Mas Ploetzerenke também cuidava de Schanna. Enfaixara novamente sua ferida, logo de manhã cedo, depois de tê-la escondido na casa incendiada.

Galina Ruslanovna tinha desinfetado o canal do tiro o melhor possível, mas era provável que alguns fiapos tivessem permanecido na ferida. Esta começou a se inflamar, inchou, a carne ficou avermelhada; brilhava e ameaçava formar pus. Apesar disto Bajda tinha recusado veementemente enviar Schan­na para o hospital de campanha, onde havia meios e remédios para evitar que a infecção se alastrasse.

— Aqui não existe nenhuma Schanna Ivanovna ferida! — exclamou ela, veementemente. — Ou algum de nós viu ou ouviu que Schanna encontrou um alemão que conseguiu sobreviver a este encontro?! Existe no nosso círculo al­guma Schanna que foi aprisionada pelos alemães e que os fascistas, piedosos, liberaram, hein?! Então, quem pode tê-la ferido? Onde está a pessoa aqui que tenha a audácia de declarar que Schanna está ferida?!

Até Galina Ruslanovna calou-se, apesar de, como médica, dever protestar. Mas ela conhecia o conceito de honra das divisões femininas. Sua primeira posição como médica fora em um campo de prisioneiros, onde os alemães des­filavam nus diante dela e ela dizia, com voz tranqüila, sempre igual: “Apto para trabalhar! Apto para trabalhar!” Para muitos isto era uma condenação à morte — caíam aos pedaços nas brigadas de cortar lenha e nas pedreiras. De­pois ela cuidou de uma companhia de treinamento de infantaria e lá conheceu pela primeira vez o código de honra do batalhão de mulheres: Ser melhor do que os homens! Mais corajosas, mais audazes, mais resistentes e mais ágeis. . . e morrer sem se queixar! Nada mais vale em sua vida: apenas a mãe-pátria, a terra de origem!

Desta forma Galina veio preparada para as fuzileiras da frente. Aqui, com Soja Valentinovna, tudo era muito mais duro, mais fanático, mas, diante da perspectiva de morte, também mais humano. Bajda, então, embora destituída de razões de ordem pessoal, fazia vista grossa aos casos amorosos de suas moças com os oficiais.

Só quando se tratava da disciplina e da honra das combatentes, Bajda não aceitava tergiversações. Para Schanna Ivanovna só havia uma possibilida­de de se tornar de novo um ser respeitado: 10 acertos em testas alemãs. . . A ferida nem preocupava Bajda.

— Mas o que tem ela? — perguntou uma vez a Opalinskaja? — Ela se ar­ranhou em uma ponta de um muro? Por que vocês estão fazendo tanto barulho em torno disto?!

Ploetzerenke logo reconhecera, ao enfaixar a ferida pela primeira vez, a seriedade da infecção. Desta vez trouxera, além da sopa de feijão e do bo­lo de passas, um tubo de pó de sulfonamida, que pedira ao enfermeiro da companhia.

— Para quê? — perguntara o cabo. Havia escassez de pó contra infecções. A farmácia do batalhão só o fornecia mediante a apresentação de uma receita devidamente examinada e assinada, no âmbito da Quarta Companhia, pelo médico auxiliar Helge Ursbach.

— Para quê?! — berrara Ploetzerenke subitamente. — Decerto que não é para pés fedorentos!

— Aí, no seu caso, só resolve uma amputação. . .

— Tá bem, preciso por causa de uma gonorréia!

— Jogar pó em cima? Estamos em um bordel?! Vamos, tire o peru, vou lhe dar uma injeção...

Finalmente Ploetzerenke conseguiu o tubo de sulfonamida. Se o pó ajudaria, isto ele não sabia. Mas diziam que aquele remédio era útil contra todas as infecções; então, umas aplicações no ombro de Schanna não podiam fazer mal.

— Venha cá, minha fofura, e não me olhe como se quisesse me comer — disse Ploetzerenke, afastando a blusa de Schanna. Resistiu à tentação de colo­car as mãos em seus seios jovens, firmes; pôs as faixas e o tubo com o pó a seu lado e sorriu para Schanna. — Eu só quero ajudá-la, menina. Esta ferida está feia. Deve doer, não? Que pena, que a gente não pode entender o que o outro fala. . . Você neca ponnimei germanski, né? — Levantou o tubo e o mostrou a Schanna. — Isto é pó, pó para feridas, entendeu?

— Pudra. . . - respondeu Schanna hesitantemente. — Pudrenitsa. . .?

— Exato! — berrou Ploetzerenke e aplaudiu, de tanta alegria. — É isso! Pudra! Bom para ferida! — Tocou levemente o ombro machucado de Schanna.

— Rana. . . — disse Schanna.

— Tudo bem, para mim também pode serrana. Contra infecção. . .

Schanna acenou com a cabeça e olhou atônita para Ploetzerenke. — Sarasa. . . Lichoradka. . . (Febre infecciosa.)

— Isto vai ótimo, menina! O que quer que você diga... você tem razão! Ainda vou dar um jeito nisso, minha filha! Sua samsena vai ceder. . .

— Sarasa. . .

Ela ficou quieta enquanto Ploetzerenke a desenfaixava. A ferida estava feia, as bordas inchadas. Schanna virou a cabeça e fitou o ferimento. Há dias seu ombro doía, latejava, ela sentia pontadas.

— Bom! — dissera Soja Valentinovna. — Isto lembrará a você que sua missão é matar 10 alemães!

— E se eu tiver febre? — perguntara Schanna.

— E então? — Bajda rira maldosamente. — Nós atiramos até sem olhos, ao farejar o inimigo. . .

O que ela poderia ainda retrucar?

Enquanto Ploetzerenke punha pó em sua ferida e a enfaixava de novo, se aproximou tanto dela, que Schanna poderia ter mordido sua garganta, bastando, para tanto, levantar rápido a cabeça. Mas ela não o fez. O pensamento —  ele está me ajudando — o que Bajda consideraria um crime, a sobrepujava. Ele é um porco, me estupra; confirma e reforça em mim um ódio insaciável contra tudo que é alemão. Mas ele me ajuda! Ele quer debelar a infecção e a febre. Preocupa-se comigo como se fosse um amante, um companheiro para toda a vida. No entanto sabe que sua morte se aproxima a cada hora. . .

— Terminamos — disse Ploetzerenke satisfeito, depois que a enfaixou. —  Faremos o mesmo várias vezes ao dia e cada vez o menino bonzinho ganha uma recompensa. Mas agora vamos primeiro comer o nosso bolo, sim? Um verdadeiro bolo alemão! Com pó de ovos e cor amarela. . . antes eram ovos de verdade. Uma dúzia, era costume lá em casa. Quando minha mãe fazia um bolo de cobertura de damasco, metade da cobertura já tinha sido comida, an­tes do bolo ir para o forno. Oh, você não me entende. Venha, coma. . .

Desamarrou-lhe as mãos; depois pôs o bolo no colo dela e começou a tomar a sopa de feijão que estava na caçarola. Naturalmente estava fria e grumenta mas isto não incomoda um cabo. Para ele, qualquer coisa é comestí­vel. Enquanto o homem vive, quer empanturrar-se, embebedar-se e trepar. Qualquer outra filosofia de vida é doentia. A gente fica sofrendo. A ética de Ploetzerenke só se preocupava com estas três atividades e o seu bem-estar, até o presente momento, só fortalecia sua crença de que o homem no fundo é muito simples e que o que denominamos ética só complica as coisas desneces­sariamente.

Naturalmente Ploetzerenke não expunha isso de forma tão erudita. Falou:

— Mas é tudo uma merda! Um prato de carne, uma boa cerveja e depois algo de firme no colchão. . . aí o papai não sofre de arteriosclerose!

Schanna o observou. Ele lambeu os beiços, lambeu a colher de zinco, raspou o fundo da panela e depois arrotou três vezes, satisfeito. Ela quebrou três pedacinhos pequenos de bolo, amoleceu-os com a saliva, até que pôde en­golir a papa e disse a si mesma: “Isto não significa capitulação! Você só está comendo para sobreviver e poder se vingar! É um ardil bélico. Você precisa fi­car forte, para liquidá-lo.”

Ela ainda comeu o resto do chocolate da tarde e sabia que agora viria a “sobremesa” de Ploetzerenke. A terrível humilhação de Schanna Ivanovna, que ela acreditava só poder vingar com o sangue dele. Quando Ploetzerenke tirou as calças, ela cerrou os dentes e respirou ofegante.

— Eu gostaria de lhe explicar tanta coisa — disse ele e se sentou a seu la­do. Ela constatou espantada que Ploetzerenke não a amarrara, como até então, com as pernas abertas, em um poste. — Mas você não sabe alemão e eu sou burro demais para saber russo. Sei que você quer me matar mas você não sabe que eu gosto de você, gosto mesmo! Isto não é conversa fiada, menina!  Bem, eu tenho uma mulher em casa, mais robusta que você, eu lhe digo; nela  tudo é redondo, a gente tem onde se agarrar. Mas alguma coisa tão tenra, jovem, como você, eu nunca tive. Você não vai acreditar, sempre só tive mulheres massudas. . . você não vai acreditar se eu lhe disser que me apaixonei por você. . . sim, por você! Idiotice, ficar caidinho por uma mulher de carabina. Mas contra isso a gente não pode lutar, fica-se impotente, o coração o faz so­zinho. . . E agora eu me pergunto: o que você vai fazer com a pequena quan­do a guerra rebentar de novo? Isto é um problema real. Seria burrice mandar você para a prisão. Aí a SD enforca você. Estão doidos para pegar uma de vocês. Fuzileira. . . menina, como é que você pôde se tornar uma coisa assim? Uma coisinha bonita como você. . . — Ele se deitou ao lado dela na palha e Schanna poderia se jogar sobre ele como uma tigresa e o matar. Mas ela não o fez. Só escutava a sua voz, e embora não entendesse uma palavra, o ouvia.

Foi sorte dele que o grupo sob o comando de Stella Antonovna se diri­giu para a direita e não para a esquerda e se movimentou em direção a um gru­po de casas, atrás de cujas janelas cobertas por pesados cobertores ela acredi­tou ver um clarão de luz. Desta forma as moças penetraram no domínio da divisão de metralhadoras, que se instalara em uma antiga fazenda, um lugar excelente, com visão plena até o rio. Se os soviéticos tivessem a idéia de assal­tar, correriam direto para dentro dos braços de um fogo concentrado.

A lassidão da guerra, que dominava há três meses, também tomara conta completamente da divisão de metralhadoras. Depois de terem bem instalado a posição, começou a grande falta de preocupação. Ela também se manteve, quando começaram a falar, aqui e ali, dos assaltos da unidade feminina situada na sua frente, dos limpíssimos tiros de cabeça, que preocupavam até o OKH. A própria inserção de dois fuzileiros da escola especial de Posen não modificava nada; em todo lugar dominava a sonolência e de boca em boca corria a opinião: O Ivan ficou cansado de tanto correr! Stalingrado realmente o deixou exangue. E depois a marcha pela estepe do Don, a ofensiva no Cáucaso, a conquista de Rostov e Crasnodar, a batalha de Cuban, isto nem um russo agüenta, por mais que tenha a Sibéria três vezes nas costas!

Isto foi um erro generalizado, cujo esclarecimento mortífero estava sendo preparado há meses, em completo silêncio.

O Sargento Hermann Busch só colocou uma sentinela, e esta se deitou lá fora, em uma escavação coberta de palha, e adormeceu pacificamente. Um russo que ataca tem sempre proteção da artilharia e vem com tanques. Geralmente só corre depois da primeira onda de tanques. Sozinho, sem proteção bélica, ele não vem. Isto era algo de que todos já se tinham convencido há muito tempo. A época em que um esquadrão de cossacos se aproximava a galope, com as lanças penduradas e sacudindo os sabres, sem se incomodar com as metralhadoras e os lançadores de granadas já se tornara uma lenda. Diante de Stalingrado e na estepe do Don ainda houve tais galopes heróicos, fadados a terminarem com a morte, dos cossacos contra os tanques Tigre alemães.

Mas agora o russo também poupava seus soldados — e no travesseiro desta convicção também dormia a sentinela, apesar de cometer o mais grave delito que um soldado poderia ser culpado. Mas aqui, no Donez, relaxado por três meses de descanso e de sol, da visão de uma estepe florescente e um doce nada fazer, muito era perdoado. Os próprios chefes de companhia chegaram a instituir um serviço formal: limpar os metais, bater continência, marchar, remendar roupas, aulas de filosofia.

Tom original do Sargento-Mor Pflaume:

— Soldado Hansemann! O que o senhor responde, quando o Fuehrer lhe pergunta: O senhor está satisfeito na Wehrmacht?

Hansemann, um tanto hesitante:

— Não digo nada. Fico pensando. . .

— O que o senhor faz? — berrou Pflaume.

— Nós aprendemos: Um soldado alemão reflete antes de responder.

— O senhor tem uma sorte desgraçada de que o Fuehrer não está conversando com a pessoa errada! Naturalmente o senhor responde: Estou orgulhoso de ser soldado! Repita, Hansemann!

— Eu estou orgulhoso de ser soldado. . .

— Uma canção! — O Sargento-Mor Pflaume levantou três dedos: núme­ro 3 na lista de canções da companhia.

É tão lindo ser soldado.

Roooosamaaariiaa...

No Donez, nestes dias, tudo era diferente: Só a morte não mudava.

O grupo de Stella Antonovna cercou o buraco da sentinela e fitava, atônito, o alemão que dormia pacificamente. Estava deitado de costas, tinha a boca entreaberta e roncava baixinho, com tons finais sibilantes.

Stella levantou o polegar. Não atirar! Senão os outros dentro da casa acordam. Fez um sinal para Tamara Fillipovna, uma moça do Ural. Tâmara acenou, pôs a mão no cinto e escorregou cuidadosamente para dentro do buraco.

A punhalada na laringe veio silenciosa, rápida como um raio, e acertou em cheio. Só houve um gemido abafado e um jato de sangue. O cabo Wilmsen não sentiu que morria. Nenhum cérebro adormecido reage tão rápido.

O Sargento Busch com seu grupo foi também surpreendido ao dormir — no recinto central da fazenda, onde estavam esticados, lado a lado, sobre pa­lha e cobertores. Stella Antonovna e suas moças se esgueiraram silenciosamen­te no edifício e ficaram na sombra. O lampião de querosene, em cima de uma mesa, fumegava um pouco. Tinham-no baixado, mas foi o seu leve clarão que chamara a atenção de Stella.

Não chegou a haver luta. O que aconteceu ali foi uma liquidação em massa. Diante das seis moças jaziam nove homens adormecidos. Entre eles, havia mais um fuzileiro treinado em Posen — o Sargento Theodoro Krahneburg. Ainda naquela tarde conversara com Peter Hesslich a respeito da mulher que Dallmann matara.

— Não sei por que elas lá do outro lado estão tão quietas — dissera Hes­slich. — Isto não me agrada. O que acontece com você, Theo?

— Suave repousa o mar. . .

— Mas isto não é normal!

— Para mim, é! Estou satisfeito da vida, quando não sou obrigado a atirar em moças. Fuzileiras ou não. . . continuam sendo moças. Aí eu teria de fazer uma força danada. . .

Neste conflito ele nem entrou. Primeiro golpes violentos de coronha tinham posto três alemães a nocaute. Theo Krahneburg estava entre os primeiros seis que foram mortos a tiros. Depois também mataram os três outros. Os tiros ecoavam pelo recinto amplo, mas as paredes ainda intactas faziam com que o barulho — similar ao estalar de um chicote — só fosse ouvido lá fora abafadamente. Apesar disso as moças saíram correndo e se jogaram na grama. Tudo aconteceu em silêncio, sem acenos nem ordens. Cada moça sa­bia direitinho como se devia comportar. Correram e formaram um semicírculo. Ninguém que caísse nessa armadilha tinha qualquer chance de sobreviver.

O ouvido de um velho porco da frente reage alergicamente a todos os ruídos que possam lembrar, vagamente, tiros. Ploetzerenke, intensivamente ocupado com Schanna, de repente levantou a cabeça e escutou. Também Schanna o ouvira. Seu coração batia selvagemente, seus músculos se retesaram. Fitava, com olhos arregalados, as vigas negras do teto.

Aí estão elas, pensou. Estão me procurando. São Stella e Lida, Marianka e as outras camaradas. Venham aqui! Rápido. . .

Depois fitou Ploetzerenke, que tinha rolado para o lado, ajoelhando-se e carregando sua metralhadora.

— Porcaria! — exclamou ele com voz profunda. — Nem foder em paz a gente pode. Ouviste, menina?! Isto foram tiros, e perto daqui. Certamente eram tiros! Quem é que está jogando balas por aí?!

O tom de sua voz, o desapontamento no rosto e a sua transparente impotência, apesar da arma que segurava na mão, fizeram com que Schanna não gritasse. Aliás, não adiantaria de nada. Ao primeiro som Ploetzerenke teria logo batido nela com a coronha, por mais que gostasse dela. E se fosse Stella, que atravessara o rio para procurar Schanna, ela não teria mais tempo para ir atrás de um único grito depois do tiroteio. Portanto, Schanna ficou deitada, apertou as mãos sobre o coração e começou a chorar, às escondidas.

Fracassei pela terceira vez, pensou. Pela terceira vez! Posso ainda sobreviver? Tenho ainda uma centelha de honra? Como é que posso, ainda, me chamar uma camarada soviética?!

Ela olhou para Ploetzerenke, que ainda estava ajoelhado a seu lado, com a metralhadora na mão, e escutava. Na sua pele brilhavam gotas de suor, seu estômago tremia, excitado. Também ele teme a morte, pensou Schanna, e repentinamente se tranqüilizou. Todos nós sentimos este medo. Quem afirmar que é possível jogar fora sua vida, sem sentir medo, mente! Nós gostamos tanto de viver. Só somos heróis quando querem fazer de nós heróis. Sim, ser herói é algo de que podemos nos orgulhar — mas a gente é mais feliz quando pode viver em paz!

— Agora tudo está quieto! — Ploetzerenke pousou a metralhadora destravada e carregada na palha. — Talvez um cachorro burro de uma sentinela tenha caçado um coelho, hein? — Olhou para seu próprio corpo, riu e se jogou de costas, ao lado de Schanna. — Agora toda a maravilha passou, está vendo? Eu também não tenho mais vontade. . . né, isto põe você feliz! — Acariciou mais uma vez o corpo e os seios de Schanna; depois se vestiu e ajeitou a faixa do ombro dela. — Tudo em ordem, menina. Durma agora.

Amarrou novamente as mãos e pés de Schanna, beijou os grandes olhos pretos, apagou a lâmpada e saiu da casa. Diante da porta ficou parado na escu­ridão e olhou para o rio.

Ploetzerenke teve sorte, uma vez mais. O grupo de Stella Antonovna rumou para o Donez, fazendo uma grande volta, que o distanciava da Quarta  Companhia, e alcançou a ilha artificial, sem que ninguém o visse ou ouvisse. Só ao chegarem ao rio, pendurarem-se novamente nuas na jangada camuflada e se dirigirem para o outro lado, falaram umas com as outras.

— Foi um belo ataque — disse Stella Antonovna orgulhosa. — Até o Camarada General Conjev irá saber disso. Vocês todas receberão medalhas. Podemos nos orgulhar.

Dez alemães mortos jaziam por terra — se Schanna Ivanovna tivesse rea­lizado sozinha tal façanha, ela teria sido novamente incluída na comunidade de suas camaradas.

Nas posições de comando alemãs a excitação era enorme.

Dez mortos em uma frente totalmente calma, dentre eles nove com um limpo tiro na cabeça, o cartão de visita das fuzileiras. O mais alarmante era que esse grupo de moças, com a morte na mão, pudera atravessar o Donez, invisível e sem ser molestado, andando com segurança pelo campo fronteiro alemão. Nem mesmo os nove tiros tinham despertado alguém.

Só quando não veio ninguém buscar comida na cozinha de campanha, ninguém da divisão de metralhadoras, e o pedido matinal costumeiro do Sargento Busch, “Por favor, ao invés de pasta de salsicha, marmelada como sempre.”, não viera, tiveram a idéia de ir à fazenda e lá encontraram os cadáveres.

Ploetzerenke tomou muito cuidado e não revelou suas observações, pois  isto significaria o fim de Schanna. Peter Hesslich recebeu primeiro um pito do batalhão, depois uns berros do regimento e finalmente lhe ordenaram que se apresentasse à divisão. O próprio comandante o recebeu, depois de tê-lo feito esperar durante duas horas, tomando chá de cadeira. Hesslich se apresentou em uniforme de campo completo, com capacete de aço, máscara contra gases, carabina e pá, saco de pão e garrafa térmica. O fuzil especial ficara na ante-sala.

O major-general fitou Hesslich com as sobrancelhas franzidas durante algum tempo, antes de começar a falar.

— Como é que uma coisa dessas pôde acontecer? Dez homens liquidados, sim, liquidados! De Posen nos mandam os chamados especialistas. . . e o que acontece? Embaixo de seus olhos vêm essas mulheres soviéticas atravessando o Donez e nos fazem passar vergonha, de corar até a raiz dos cabelos! Eu quero uma explicação plausível, como é que uma coisa dessas pôde acontecer?! Vocês lá na frente não fazem outra coisa senão dormir?!

— Ficou constatado que o grupo de Busch realmente dormia, ao ser ata­cado — respondeu Hesslich, com cuidado. — A sentinela foi apunhalada. Devem tê-la surpreendido.

— Mas é disso que se trata! Uma sentinela alemã não pode deixar-se sur­preender! Isto não existe!

— Sr. General, tenho permissão para lembrar a operação “seqüestrar sentinelas”, que nos levou a examinar mais de perto este batalhão de mulheres, quando operava junto ao Oitavo Exército italiano? Também nesta ocasião as sentinelas foram surpreendidas. . .

— Que história é essa, sargento? — O major-general franziu o cenho. — Não vou admitir que os meus soldados reajam a uma saia de mulher assim como os italianos.

— Estamos lidando com mulheres que são combatentes perfeitas, Sr. General. Elas conhecem todos os truques.

— Mas o senhor também, me informaram disto!

— A ação não se passou na minha divisão; o Sargento Krahneburg, que foi designado para lá, também foi vítima do ataque.

— Uma vergonha para nós. . . isto o senhor admite, não? — O major-ge­neral corria de um lado para o outro no quarto e batia nas costas com as mãos trançadas. — Eu fiz com que os chefes de companhia me descrevessem a situação. Podemos pagar a essas mulheres soviéticas na mesma moeda. Mas eu não quero sacrificar mais homens do que o necessário em tal empreendimento. Isto é problema seu, sargento. O senhor veio para cá com esta missão: comba­te isolado das fuzileiras. — O major-general se postou subitamente diante de Hesslich. — O senhor tem alguma sugestão?

— Vou tentar, Sr. General, provocar intranqüilidade do lado de lá.

— Ah! O senhor vai tentar! Que bom! Quão tranqüilizador! E o que vai resultar desta tentativa?!

— Atravessarei o rio. . .

— O senhor sozinho?

— Preciso do Suboficial Dallmann e de dois outros camaradas como pro­teção pelas costas. Eu prefiro trabalhar sozinho. . .

— Trabalhar. . . — O major-general fitou Hesslich pensativamente. — O senhor acredita que esta é a expressão mais adequada, sargento? O senhor está lutando pelo Fuehrer e pela mãe-pátria! O senhor está defendendo a sua pátria. Onde foi que o senhor recebeu a sua EK I?

— Já na primeira ofensiva, Sr. General. Também a medalha de combate corpo a corpo.

— O senhor completou os seus estudos, Hesslich. O senhor não deseja ser oficial?

— Não, Sr. General.

— Por que não?

— Eu não sou um bom soldado, general. Cumpro meu dever, mais nada. Quando a guerra findar, tirarei meu uniforme com imenso prazer. . .

— A sua sinceridade é praticamente autodestrutiva, Hesslich! Às vezes é bom ser sincero mas, na maioria das vezes, muito idiota! Pelo menos eu sei agora com quem estou lidando. Portanto, o senhor irá esgueirar-se como um lobo solitário lá junto dos soviéticos. . .

— Sim, Sr. General.

Hesslich e o comandante da divisão se entreolharam por um breve período. Tinham-se entendido.

— E se eu, apesar de tudo, recomendá-lo para oficial, Hesslich? — perguntou o major-general.

— Eu não seria aprovado na escola de guerra, Sr. General.

— O senhor simplesmente não quer. . .

— Eu não sei, Sr. General, que vantagem a Wehrmacht teria se eu me tornasse oficial. Creio que este argumento deva ser decisivo.

— Suma da minha frente, sargento! — O general fez um gesto correspondente com a mão e Hesslich bateu com os calcanhares. — E muita sorte com as fuzileiras! O diabo que os carregue se vocês se deixarem surpreender mais uma vez!

A volta da divisão, passando pelo regimento e pelo batalhão, foi uma verdadeira tortura. Em todos os lugares xingaram Peter Hesslich.

— Nós queremos ver algo! — disse o Tenente-Coronel Maltzahn, malicio­samente. — Ficar deitado no sol e se deixar queimar até a barriga, isto não foi objetivo das pessoas que o treinaram, hein?

E o Major Bernstein ironizou:

— Aparentemente o senhor também não é uma das armas secretas com a qual poderemos ganhar a guerra, Hesslich! O senhor deveria uma vez olhar pelo seu telescópio de mira, ao invés de para as nuvens. . .

Só Bauer III, que conhecia a situação de primeira mão, disse, piedosamente, quando Hesslich retornou à Quarta Companhia:

— Agora o senhor primeiro precisa tomar um banho no rio, não? Enche­ram-no de merda de cima para baixo, não é verdade?! Como é que o senhor se sente, Hesslich?

— Excelente. — Hesslich despiu o dólmã e ficou só de calça e camiseta. — Todos foram muito amistosos, praticamente doces como açúcar. Estão colados em mim como um bombom. — Engoliu um copo de conhaque que Bauer III lhe dera, e ficou degustando o álcool. — Esta noite partirei. . .

— Para o lado das moças?

— Sim. O general quer ver êxitos. . . — Bauer III encheu o copo de novo e Hesslich ainda tomou alguns goles. — Seria bom se o senhor pudesse postar alguns homens na margem do rio.

— Quantos devo enviar com o senhor?

— Enviar comigo? Pelo amor de Deus, nenhum! Eles só devem manter a margem do rio em segurança. Eu vou sozinho para o outro lado.

— Mas isto é loucura, Peter!

— As moças nos mostraram que é possível desorganizar uma divisão in­teira com ferroadas de vespas.

— Era uma tropa de choque.

— E eu tenho mais mobilidade sozinho. — Hesslich vestiu uma camisa fina, do uniforme de verão, e ajustou o bibico na cabeça. — Eu vou para casa. — Com isto queria dizer que iria para o casebre arruinado e incendiado, onde se instalara com Dallmann. — Exatamente à meia-noite necessito de 10 homens. . . somente para vigiar a margem!

— Os homens se apresentarão ao senhor. Enviarei junto três metralhado­ras leves e um lançador de granadas. Nunca se sabe o que pode acontecer.

— Nada de tiroteio! — Hesslich apertou a mão de Bauer III. — Necessito de calma absoluta. Acima de tudo, muito obrigado, Sr. Tenente.

— Meu nome é Franz. . .

— Obrigado, Franz.

— Aguce os ouvidos, Peter. . .

Deram umas palmadinhas nas costas, um do outro; sabiam que sua amizade sobreviveria à guerra, conquanto que os dois conseguissem sobreviver ao conflito.

Exatamente à meia-noite 10 homens da Quarta Companhia, chefiados pelo Sargento Plinner, se apresentaram a Peter Hesslich. Seus capacetes de aço estavam rodeados por fortes elásticos, nos quais tinham prendido pe­daços de grama e ramos, uma camuflagem simples, mas muito eficaz de noite.

Hesslich já estava vestido para o “trabalho”. Usava a boina de tricô, botas de meio cano macias com grossas solas de borracha, semelhantes às dos caçadores e pára-quedistas, um cinto de tecido de linho grosso, do qual pendiam dois sacos de municão e uma camisa manchada, de camuflagem. Dallmann estava vestido de forma idêntica, com exceção da boina de tricô. Na cabeça usava um capacete de aço pintado com uma cor que não emitia reflexos.

Quando os 10 homens chegaram, Hesslich estava ocupado em se untar com lama, para que seu rosto adquirisse a cor da terra da estepe.

— Pode ser que fique por lá uns tempos — disse ao Sargento Plinner. — Não se preocupem. . .

— O que quer dizer uns tempos, Peter?

— Dois, três dias.

— E quando devemos começar a nos preocupar? — Plinner olhou de esguelha para Hesslich.

— Digamos: depois de quatro dias. . . então algo aconteceu.

— O tenente sabe disso?

— Não.

— Saúde! — Plinner empurrou o capacete para a nuca. — Três dias de in­certeza. Ficaremos mofando. . .

— Afinal de contas vocês também devem tirar algum proveito deste joguinho! — Hesslich riu, maldosamente. Parecia agora como um homem de bar­ro da Nova Guiné. — Vamos, rapazes! Quem quiser, pode rezar. . .

Uma hora mais tarde Peter Hesslich desembarcava no lado soviético.

Que alegria, quando Stella Antonovna comunicou:

— Dez adversários liquidados!

Soja Valentinovna abraçou Stella, a apertou contra si, a beijou; depois foi de moça em moça, também as beijou e as chamou “minhas irmãzinhas corajosas”.

Ugarov disse, orgulhoso:

— Isto vai ser um comunicado! Irá correr até o Camarada General Conjev, garantido! Há muito tempo não havia um feito tão heróico! Aí esquecerão que os alemães mataram o pobre Miranski, sua querida mulher Praskovja e nossa Camarada Darja Allanovna.. . Stella, você nos devolveu a nossa honra!

— Ainda não sabemos onde está Schanna e o que fizeram com ela.

Bajda ficou novamente séria. O problema Schanna Ivanovna pesava na sua alma. Por maior que fosse o êxito da tropa de choque de Stella, enquanto o destino de Schanna não fosse esclarecido, Soja Valentinovna nunca mais sentiria uma verdadeira alegria.

Isto naturalmente não impediu que festejassem. A orquestra das moças tocou canções e músicas alegres para dançar, sobressaindo Assja Michailovna com a bajan, o acordeão de botões, e Rossija Stepanovna na bandura, o ins­trumento de cordas similar a uma cítara. Ugarov telefonara para a cozinha e encomendara um monte de culebjaki, panquecas grossas, que eram dobradas como um envelope e enchidas com uma variedade de guloseimas.

O camarada da administração da cozinha inicialmente imaginou que o Tenente Ugarov não estava “bom da bola”, ao ouvir seus desejos.

— Perfeitamente, Sua Alteza! — respondeu cheio de ironia. — Inteiramente às suas ordens. Nós também temos esturjões cozidos aqui, e, se lhe con­vier, patos de março assados em manteiga, maravilhosos pelmeni, excepcionais panquecas de carne de coelho. Ou, se preferir, posso enviar à Sua Majestade um presunto de urso defumado, garni com cogumelos. Os lacaios devem ir de libré? Talvez com perucas empoadas de branco? A Grande Catarina também gostava disso...

— Escute aí, sua garoupa esbugalhada! — respondeu o Tenente Ugarov em voz alta, sem se irritar com a história. — Nós estamos aqui festejando uma vitória que chegará até os ouvidos do Camarada General Conjev! Enquanto você trepa com as putas da aldeia, nós lutamos! Não me diga que não o tem no depósito. Eu sei, por parte do santo Comissário Miranski, tudo que vocês escondem em cantos e gavetas! Espero uma refeição de festa! Meu caro cama­rada fumaça de cozinha, também na sua posição alguém pode ser removido. . .

Desta forma, à tardinha, o veículo de provisões não trouxe apenas um recipiente com cheirosos culebjaki para a frente, mas também algumas garrafas da diabólica aguardente Samogonka, depois de cuja degustação o feliz beberrão pode ficar idiota durante alguns dias, assim como um balão de vidro com vinho de frutas e duas garrafas de licor de ameixa.

Ugarov ficou muito satisfeito, telefonou para o camarada chefe da cozinha e agradeceu.

— Nós ouvimos falar de seus feitos heróicos! — respondeu o camarada da cozinha. — Responsabilizar-me-ei por uma distribuição especial e a registrarei nos livros de saída. Parabéns às jovens heroínas, camarada tenente.

Não foi só um dos lados que cometeu um erro: também os soviéticos esqueceram nesta noite uma regra básica da guerra: O inimigo pode estar em qualquer lugar.

Soja Valentinovna colocou apenas três moças de sentinela. As outras festejavam no grande abrigo de comando, cantavam e dançavam, comiam e bebiam — um único tiro certeiro poderia ter aniquilado nesta noite toda a elite das fuzileiras soviéticas. Um pouco antes de meia-noite as moças voltaram cantando para seus abrigos e se deitaram, repletas de licor doce e da diabólica Samogonka, nos seus catres de madeira. Bajda, Ugarov e quatro das moças ainda agüentaram até depois de meia-noite. Confiavam nas sentinelas que estavam sentadas, entediadas, nas ruínas do povoado, e que logo dariam o alarme se os alemães viessem. Mas por que razão deveriam vir? Os alemães estavam felizes, quando a paz reinava. . . eram como animais caçados, que lambiam suas feridas. Assim ninguém vigiava a margem e ninguém viu Peter Hesslich atravessar o rio. Quando desembarcou, Bajda e Ugarov tinham acabado de se deitar, felizes pela ação do álcool e incapazes de dar alguns pas­sos. Tiveram de se segurar e apoiar mutuamente.

Somente a heroína do dia, Stella Antonovna, apesar de ter brindado com as outras, bebera pouco. Ela não gostava de aguardente. Suas bebidas preferidas, o vinho temperado, um tanto doce, de bétula ou o suave vodca destilado de trigo selvagem, não apareceram na festa. Ela foi sozinha para o seu abrigo. Quando seu olhar caiu sobre os contornos bizarros das ruínas, que se destacavam como sombras escuras no céu da noite, decidiu visitar as moças que estavam a serviço de sentinelas.

E aí Stella Antonovna também cometeu um erro, que nunca poderia ter ocorrido a alguém com sua experiência: esqueceu de ir primeiro buscar seu fuzil no abrigo. Foi em direção ao povoado, desarmada.

Enquanto isso Hesslich alcançara as primeiras ruínas e se deitara, em um dos jardins, atrás de um monte de tábuas velhas. Começava o jogo “caça cega” — em algum lugar, isto era certo, havia sentinelas à espreita, mas não ha­via como descobrir exatamente onde estavam. Aí só adiantava paciência, calma total e uma espreita persistente, procurando distinguir os ruídos dos menores e mais baixos. Um chocalhar, um tossir abafado, pés que rastejavam ou um espirro, logo estancado. O melhor seria observar a rendição. Aí se saberia exatamente onde estava o inimigo — desde que tivesse a sorte de estar à espreita, bem próximo, e realmente poder ver a rendição.

Hesslich primeiro descobriu Dunja Alexandrovna, uma moça de UlanBator com traços fisionômicos largos, sempre sorridentes, e lindos olhos enviesados de amêndoa. Dunja facilitou seu trabalho. Contagiada pela convicção geral de que os alemães estavam satisfeitos porque os deixavam em paz, Dunja saiu do casebre incendiado, onde se protegera, e foi passear, ingenuamente, na luz difusa da noite estrelada. A noite era quente, quase sem vento e muito calma — só do lado do rio se ouvia, em surdina, o rumor das ondas.

Dunja Alexandrovna jogara a carabina nas costas se dirigira para um to­nel, a fim de refrescar o rosto com água. Usou as duas mãos para recolher a água e a deixou correr por sua cabeça; isto refrescava e afastava o cansaço.

Hesslich empurrou silenciosamente a carabina pelo monte de madeira e visou Dunja. Viu-lhe o rosto de perfil e seu coração começou, como ocorrera na ocasião em que encontrara Schanna, a bater agitado. Respirou fundo porque a idéia de em poucos segundos matar uma moça o fazia sentir náuseas. Mas ele depois pensou que ela poderia ter sido uma das que mataram 10 camaradas seus, adormecidos, eles também pessoas jovens, que não podiam se defender e que à morte surpreendera na escuridão.

Lentamente ele curvou o dedo até o ponto de apertar. Só estava esperando uma coisa: não queria atirar de lado, não em sua têmpora. A bala deveria atingi-la entre os olhos, uma polegada acima da raiz do nariz. O tiro deveria ser uma advertência para as outras fuzileiras: aqui está alguém que consegue fazer isto tão bem quanto vocês! Agora os tempos vão mudar. . .

Dunja Alexandrovna já se refrescara e se afastava do tonel. Seu rosto asiático largo apareceu completo no reticulado. Hesslich apertou os dentes e sustou a respiração. O seu indicador se curvou.

O tiro ecoou seco no silêncio noturno. Dunja caiu para trás, sem um ai, dentro dos girassóis à meia altura. Ao mesmo tempo Hesslich fugiu calçado com as botas de grossas solas de borracha, pulou para dentro de outra casa incendiada e lá se jogou no chão, atrás de uma parede destroçada.

Stella Antonovna ficou rígida como estátua de sal, ao ouvir o tiro solitá­rio perto de si. Mas sua rigidez só durou um segundo; depois ela também se jogou por terra e esperou. Não ouvia mais nada, mas seu ouvido, treinado para o perigo iminente, lhe dizia que não se tratava de um tiro perdido, não fora uma carabina que disparara espontaneamente. Coisas assim não aconteciam entre elas.

O homem com a boina de tricô, pensou logo, e sentiu um calafrio, ao se recordar que estava desarmada, logo agora, quando o diabo estava tão próximo dela ou até se esgueirava pela vizinhança à cata de novas vítimas.

Em quem atirara? Em quem acertara?

Stella Antonovna serpenteou pelo chão, engatinhou para a frente, freqüentemente parava e procurava distinguir cada ruído. Da posição em que se encontrava, era impossível para Hesslich ver Stella. Também o lugar onde jazia Dunja estava fora do alcance do seu olhar. Em Posen, MM — o Major Molle — o treinara até que os seus ossos inflamaram. Sempre que possível, mudar de posição imediatamente após um tiro. Nunca mostrar ao adversário onde se está. Nunca ir em direção reta, sempre fugir em curva. Pensar como pensa o adversário e fazer tudo diferente. Momentos de surpresa decidem entre a vi­da e a morte. Um combate solitário é fantasia. MM tinha um arsenal de des­crições poéticas para o verbo “matar”.

Quando Stella descobriu o corpo de Dunja entre os girassóis, engatinhou lentamente para lá e se curvou sobre ela. O rosto ainda estava molha­do da água refrescante, no cabelo preto ainda cintilavam as gotas. E exata­mente sobre a raiz do nariz havia um pequeno buraco, do qual escorria um fino fio de sangue.

Stella colocou a cabeça sobre o peito de Dunja e por um instante fechou os olhos. É realmente ele, sentiu. Tem de ser ele. A boina cinzenta de tricô. Só dele espero um tiro destes — com qualquer iluminação, a qualquer distância, de qualquer posição. Aconteceu o que eu sempre profetizei: ele voltou! Vocês riram de mim. . . será que continuarão a rir, ao ver a cabeça de Dunja? Como dizia o complacente Ugarov: “Vejam como a Stella sonha com o alemão! Provavelmente gostaria de tê-lo na cama, hein? Deveríamos irradiá-lo pelo alto-falante: Vem para cá, diabinho da boina de tricô! Stella Antonovna não consegue mais dormir por sua causa. . .”

O que ele vai dizer agora, o belo Victor Ivanovitsch?!

Ela fechou as pálpebras de Dunja sobre os olhos mortos, arrancou-lhe o fuzil das costas e também retirou os cartuchos da bolsa. Agora ela tinha uma arma serviçável, não a sua própria, que conhecia como a palma da própria mão, mas pelo menos não estava mais indefesa contra a sombra mortífera, que espreitava em algum lugar nas ruínas do povoado. Stella carregou a arma rapidamente. O ruído, na calada da noite, lhe pareceu como um tiro de canhão. O adversário também deveria tê-lo escutado. Rápida como um gato ela se jogou para o lado e rolou mais para diante.

Hesslich não escutou nada mas Flora Victorovna percebeu o ruído. O tiro a sobressaltara em seu buraco de sentinela. Agora ela vinha, um pouco agachada para a frente, correndo na direção do jardim, onde sabia estar Dun­ja. Flora pulava habilmente de ruína para ruína, utilizava cada tábua chamuscada para se proteger e só passava, rápida como um raio, com um ou dois saltos, pelo terreno aberto, e mesmo isto era feito com a graça e a ligeireza de uma gazela.

Flora Victorovna era de Gorki. Alta, muito esguia, ossos e músculos de aço. Campeã juvenil de salto em altura. Ela gostava de rir e sempre contava de novo a sua primeira experiência amorosa. Fora depois de uma competição esportiva. O amante era um bom lançador de disco mas quando os dois se separaram no quarto de material esportivo do estádio e ele percebeu, como sangrava a Flora deflorada, o rapaz durão desatou a chorar e saiu correndo, em pânico. Quando Flora contava esta história, torcia-se de tanto rir.

Peter Hesslich estava ajoelhado atrás de um resto de parede. Flora ia exatamente em sua direção. Se quisesse atingir o jardim, onde estava Dunja, teria de passar rente a ele.

Stella parecia pressenti-lo. Apertou contra o peito o fuzil de Dunja e gritou tão alto quanto pôde:

— Deitar! Alarme! Alarme! Proteger-se. . .!

O grito atingiu Flora como um golpe. Estava nesse momento em um espaço descoberto. A próxima proteção, uma chaminé quebrada, distava cerca de cinco metros.

Também Hesslich estremecera com o grito lancinante de Stella mas imediatamente recuperou a calma. Era a calma do sem-saída, que lhe ensinara uma verdade: ficar frio como um pedaço de gelo é o companheiro do impossível.

Levantou rápido a arma, viu a cabeça de Flora no visor e atirou. Acertou-a no último pulo desesperado. Ela lançou os braços para o alto, como se quisesse pegar as estrelas e nelas se segurar; seus dedos se retesaram. Depois sucumbiu e caiu de rosto no chão.

Stella Antonovna acompanhou, com os olhos arregalados, a morte violenta de sua camarada. Não podia atirar, porque o alemão estava fora do seu campo de visão. Mas agora ela sabia onde procurá-lo.

Hesslich fugiu novamente, em completo silêncio, graças às grossas solas de borracha. Deu uma volta e esperou em um celeiro incendiado a moça que dera o grito de advertência. Puxou a boina de tricô mais para perto dos olhos, apesar da lama já ter escurecido seu rosto a ponto de transformá-lo em uma mancha quase imperceptível. Escolheu um canto no monte de vigas, a partir do qual tinha visão livre do terreno, e lá se encostou, à espreita.

Stella Antonovna não se preocupou com Flora Victorovna. Sabia que ali já não havia mais o que fazer e que agora estava a sós com um adversário de igual valor — o seu grande desejo secreto fora satisfeito. Devem ter ouvido os tiros, pensou, e continuou deitada. Ou os meus gritos. Mas depois lembrou-se de que tinham comemorado e bebido demais e que Soja Valentinovna e o Tenente Ugarov não tinham mais capacidade para ouvir qualquer coisa ou dar ordem alguma. Todas, exceto as camaradas que ficaram a serviço, de sen­tinela, estavam deitadas nos abrigos e dormiam. A próxima rendição devia ocorrer daí a quatro horas e enquanto isto também as moças que iriam ren­der as anteriores dormiam. Dois tiros isolados não as acordariam.

Três sentinelas estavam diante das trincheiras do Grupo Bajda e duas delas já tinham morrido. Era lógico aguardar que a terceira sentinela viesse ver o que acontecera, o que pudera levar Flora ou Dunja a atirar duas vezes. Elas não tinham dado nenhum alarme; portanto, não se podia tratar de nada especial.

Peter Hesslich realmente só podia agradecer ao acaso ter visto a sombra rápida que corria pelas ruínas do povoado. A maneira pela qual a moça se mo­vimentava, como utilizava qualquer possibilidade de proteção e qualquer som­bra escura, como desaparecia depois de cada salto e não servia mais de alvo, o fascinava. São realmente competentes, pensou. Em comparação a isto um soldado raso alemão se movimenta como um hipopótamo, que sobe para a terra. Esta rapidez, esta graça, esta adaptação completa ao terreno — fantástico!

Que pena, menina, que hoje você esteja correndo exatamente para o visor de um Peter Hesslich. Você também estava presente, quando abateram meus 10 camaradas?

Marianka Stepanovna Dudovskaja, a graciosa padeira de Caluga, ainda tinha um ar meio infantil sem o uniforme. Mas esta primeira impressão enganava; afinal de contas, fora ela que exigira Ploetzerenke para si e queria arrancar-lhe o peru a tiros, quando o encontrasse novamente. Ficou parada agora, na sombra escura da parede de um celeiro, para se proteger. O pressentimento de Hesslich fora certo: Marianka estivera presente na liquidação da divisão de metralhadoras e pudera registrar dois alemães em seu livros de tiros. Agora podia exibir 32 tiros certeiros e tinha duas medalhas por bravura.

Hesslich fitava a parede sombria, na qual a moça desaparecera. Mantinha nas mãos a arma, pronto para levantá-la imediatamente e atirar. Isto era uma especialidade sua, que ninguém conseguia imitar: conseguia fixar um alvo com o olho nu, levantar rápido a arma, a linha de visão, o entalhe e o ponto de mira coincidiam em uma fração de segundo, e já a bala assobiava, para atin­gir com pontaria mortífera.

Stella Antonovna esgueirou-se silenciosamente pelos jardins. Assim como Hesslich, fez uma volta em torno do lugar, onde acreditava estar o adversário, e se aproximou dele pelo outro lado. Mas desta vez ela se equivocava — Hesslich há muito correra para diante e agora se ajoelhava atrás de um pequeno monte de entulho, a uma distância de menos de cinco metros do cadáver de Dunja. Fizera um círculo e agora estava quase no mesmo lugar onde Stella se jogara por terra, quando ele atirara pela primeira vez. Estavam agora, sem o saber, novamente um diante do outro, entre os cadáveres de Dunja e Flora. Marianka ainda estava sob a proteção da parede do celeiro, fora desta zona de morte, e Hesslich ainda acreditava que aquela moça lá adiante era a que emitira o grito de advertência.

A espera torturava; os nervos começavam a vibrar. Marianka, que não conseguia ver nem Dunja nem Flora, buscava uma explicação para os dois tiros isolados. Não pensava que um alemão sozinho pudesse ter atravessado o Donez e agora estava matando com precisão de máquina — esta idéia era por demasiado absurda, impossível. Na realidade Schanna fracassara com um só fuzileiro, mas tanto Bajda como Ugarov, além de Marianka, riram da pro­fecia de Stella, de que o diabo com a boina de tricô voltaria. Era muito mais provável que as sentinelas tivessem visto um coelho. Poderiam tê-lo assustado em sua ronda e a idéia de vê-lo, deliciosamente assado, no abrigo, as levara a interromper a calada da noite com alguns tiros.

— Dunja. . . — chamou Marianka, baixinho, protegida pela sombra. —Dunja! Sou eu! Você atirou? Foi um coelho? Dunja. . .

Hesslich pesou o fuzil em suas mãos. Tentava furar com o olhar a parede sombria diante de si. A voz viera dali — um tom claro, jovem. Saia, pensou, e novamente seu coração bateu até o pomo-de-adão e dificultou sua respira­ção. Um só passo, um só, basta. Como foi esta história com os 10? Eles dor­miam uns ao lado dos outros dentro de casa e vocês se postaram diante de­les e atiraram em suas cabeças. Vocês também sentiram o coração a bater? Talvez. . .

Saia da sombra, menina. . .

E novamente ecoou um grito, claro e penetrante:

— Proteja-se, Marianka! Um alemão!

Como atingida por um raio, Marianka caiu no chão e se dissolveu na ter­ra. Hesslich mordia nervosamente o lábio inferior. Duas então, pensou, e le­vantou um pouco os ombros. A outra está exatamente no lugar onde eu mesmo estava há três minutos. Ela veio se esgueirando, sabia exatamente de que direção partiu o segundo tiro. Putinha esperta, a de lá!

Ele não se mexeu; esperou e observou a grande parede escondida na sombra, sob cuja proteção estava deitada Marianka; depois espreitou, esforçando-se, na direção em que jazia Stella Antonovna, esperando que o ale­mão cometesse um erro e se denunciasse.

Tentemos um truque simples, pensou Hesslich, um que já aparecia em qualquer filme de bangue-bangue, quando eu era um menino. Um truque muito antigo dos índios, mas extremamente eficaz, porque, acompanhado de uma tensão nervosa altíssima, pode provocar choque e reações erradas.

Abaixou-se silenciosamente, pegou uma pedra e a jogou, sobre o corpo de Dunja, para o outro lado do jardim. Houve um ruído metálico, de alumínio. Quanta sorte de uma vez só, pensou Hesslich satisfeito. Atingi um balde ou coisa parecida. Isto tem o mesmo efeito que um raio.

Imediatamente levantou a carabina, para atirar sem hesitar, caso em algum lugar aparecesse fogo de um cano.

Ninguém levou um choque. . . Marianka permaneceu deitada sobre a terra e só levantou um pouco a cabeça. Stella Antonovna não se mexeu. Um riso maldoso passou por seu rosto.

Isto foi um erro, diabo, pensou. Agora nós sabemos que você está perto. Jogar uma pedrinha. . . quem é que cai nessa?! Você pensa que so­mos tão idiotas? Deveria saber que nós só atiramos quando temos o alvo se­guro no reticulado. Sabemos esperar. . .

Hesslich deu de ombros. Perdão, pensou. Isto foi um erro. Vocês realmente não têm nervos. É extremamente difícil surpreendê-las. Os soldados alemães só vêem em vocês as mulheres bonitas e em pensamento até as despem. . . Realmente poucos sabem que vocês podem matar sem piedade, ninguém as conhece realmente, não sabem quão frias e sádicas vocês são, com o fuzil nas mãos.

Uma mistura de raiva e ódio surgiu nele. Deitou-se cuidadosamente por terra, atrás do seu monte de entulhos, e já se dispunha a aguardar nesta posição o nascer do sol, quando a situação se tornou muito crítica, tanto para ele como para as moças. Quem procura, também pode ser visto. E quem é visto, já está morto.

Marianka aproveitou a sombra em que estava. Esgueirou-se bem devagarzinho em volta da parede e só atrás dela se levantou. Aí meteu a mão no cinto, retirou uma pistola de cano largo e atirou uma bola branca de luz no céu noturno. Imediatamente todo o povoado destruído ficou banhado em uma luz brilhante. Hesslich se apertou contra um resto de muro e abaixou bem a cabeça. Agora sabia onde estava a moça. O cartucho luminoso, a subir pelos ares, tinha revelado sua posição.

Stella Antonovna internamente praguejou. Você é uma idiota, Marianka! Você não sabe esperar? Para que precisamos de iluminação? Você agora vê mais? Onde está o diabo alemão? Em pé na luz a acenar, hein?! Isto foi um erro. É preciso espreitar a boina de tricô como um urso. Ele não cai em nenhuma armadilha. Marianka, nossa tarefa agora será ainda mais difícil.

Depois de uma grande curva o cartucho de luz caiu novamente no chão e se apagou na grama da estepe. Depois da luz ofuscante a escuridão era especialmente impenetrável, e Stella Antonovna aproveitou os poucos segundos em que os olhos precisam se reabituar. Saiu correndo da sua posi­ção de cobertura e foi em direção ao lugar, onde acreditava estar agora o ale­mão. A pedra, que atingira o balde, só podia ter vindo dessa direção, um case­bre abandonado, para onde Stella agora deslizava com saltos largos, ágeis.

Mas Hesslich, ao mesmo tempo, mudou de esconderijo. Também ele fora movido pela idéia de que era o melhor momento para mudar de cobertura.

Novamente correram, sem o pressentir, um quase raspando no outro e se jogaram no chão. Só Marianka ficou onde estava — o seu muro protetor estava em terreno visível, em todas as direções os jardins se espraiavam e, se ela saísse correndo, seria vista.

Hesslich encontrara uma ruína cheia de entulho e vigas de madeira chamuscadas. Mal se jogara atrás de um monte de pedras, viu diante de si uma forma a pular. Com um só movimento, a arma estava em seu ombro, o teles­cópio de mira visava a cabeça. A moça estava atrás de uma carroça quebrada e se protegia. Mas a morte estava atrás dela, a uma distância de menos de 30 passos.

Stella Antonovna empurrara a cabeça um pouco para a frente e aguardava um ruído. Seus sentidos sinalizavam que o perigo estava muito perto dela. Sentia-o como uma coceira na pele. Manteve-se à espreita, atrás da carroça, com o fuzil de Dunja em ambas as mãos. Também olhou para trás duas, três vezes — e nestes segundos Hessüch via o seu rosto no reticulado, seu rosto lindo, de sorriso aberto, rodeado de cabelos louros. Ele, pela primeira vez, via sua inimiga mortal. Muitas vezes tentara imaginá-la, a fuzileira, a res­peito da qual os camaradas soviéticos presos contavam que já matara mais de 100 alemães e que se tornaria imortal. Diziam que era muito bonita, com ca­chos louros e uma covinha na face esquerda. Diziam que no jornal do Exército aparecera uma fotografia dela, ao lado de um discurso de louvor do general.

Agora Peter Hessüch via este rosto no reticulado e sabia: é ela! Cachos louros, a covinha na face esquerda. O seu dedo indicador não se curvou mais. Ele fitava Stella Antonovna e sentia uma tal admiração por ela, que por um momento ficou quase paralisado. Quando percebeu esta hesitação e quis atirar, ela já desaparecera do seu campo de visão e pulara para mais adiante. Hesslich abaixou o fuzil e se escondeu no monte de entulho.

Sua hesitação nos segundos decisivos o abalara tanto, que desistiu de qualquer ação por aquela noite. Uma coisa dessas não pode acontecer nunca mais, pensou. Ela não pode ser uma mulher para você. Você só pode vê-la co­mo uma fuzileira, que mata sem pestanejar, dura feito granito. Mais nada! A admiração lhe teria custado a vida, se ela o tivesse visto. Então ela hesitaria em apertar o gatilho? Duvido muito!

Você sabe que a sua hesitação amanhã pode ser paga com a morte de vários amigos seus?! E você então também será responsável por essas mortes.

Ele se escondeu em um monte de escombros e se sentiu muito mal. Não pense nisto, Peter Hesslich! Pare com essas auto-acusações! Da próxima vez, faça-o melhor! Atire simplesmente, sem pensar — mesmo que ela tenha ca­chos louros e uma linda covinha na face esquerda...

Ele permaneceu três dias e três noites no lado soviético.

Trocava incessantemente de esconderijo. Aparecia, qual fantasma, nos domínios do Grupo Bajda, nos lugares os mais diversos, e desaparecia tão rapi­damente quanto aparecera. Onde surgia, deixava vítimas — em três dias e três noites matou nove adversárias.

Bajda vociferava, berrava e chorava; fazia as moças correrem por todo o terreno. Foi organizada uma verdadeira caçada; examinaram, palmo por pal­mo, o povoado destruído. Ugarov solicitou apoio aéreo; assim, no terceiro dia, uma “máquina de fazer café” voava lenta e muito baixo sobre a margem soviética do Donez e examinava o terreno ondulado.

Nessas horas críticas Hesslich se agachava em um buraco estreito de gra­nada, sobre o qual colocara um arbusto. Algumas vezes tropas de choque pas­saram rente ao seu esconderijo. Ouvia as vozes das moças, o batucar de suas botas e sustava a respiração.

À hora do crepúsculo aparecia novamente e atirava, e só foi visto uma única vez. Dascha Borisovna se salvou com um pulo desesperado para dentro de um monte de tábuas chamuscadas, quando, ao seu lado, Marina Pawlovna caiu com um buraco na testa.

— É ele. . . — gaguejava depois e tremia feito vara verde. — O homem com o boné de tricô! Eu o vi nitidamente! É o diabo. . . o diabo. . . o diabo. . .

Dascha berrava e berrava, golpeava com os braços tudo que estava a seu alcance e estava perto da loucura. Galina Ruslanovna teve de lhe dar um soporífero forte.

O Tenente Ugarov corria, agitado, de um lado para o outro e proferia impropérios violentos, que de nada adiantavam. Bajda estava sentada ao la­do das nove moças mortas, as fitava com o olhar vazio e não compreendia co­mo não se conseguia descobrir um homem sozinho. Um homem que se esgueirava, entre elas, pelo seu próprio terreno.

— Onde está Stella Antonovna? — perguntou mais uma vez. — Por que ela não aparece mais?. . .

— Ela está lá fora. Há três dias e três noites. . . — respondeu Lida Dja-novna, que bebia chá frio de limão encostada na parede. O cansaço parecia pe­sar como toneladas. Também ela estava de serviço há 39 horas. — Não se pode mais nem falar com ela. . . Ela parece uma leoa. . .

Na noite seguinte Peter Hesslich voltou para a margem alemã do rio. Co­mo as moças haviam feito, camuflou sua bagagem com arbusto, que colocara em cima de uma pequena jangada de borracha. Nadou atravessando o Donez e subiu nu pela margem.

Diante dele, um pouco para o lado, estava Stella Antonovna. A essa dis­tância e com as condições desafavoráveis de iluminação ele era inalcançável com o fuzil, mas ela podia vê-lo nitidamente no telescópio. Chegara apenas al­guns minutos tarde demais. Inicialmente nem quisera ir ao rio, pois acreditava que esse diabo ainda estava se esgueirando à procura de uma nova vítima; de­pois, porém, viu subitamente como saía da água, retirava o fuzil da jangada camuflada e desdobrava o uniforme. E viu, também, como ele retirou da ca­beça a boina molhada, sacudiu-a e torceu.

Durante cinco dias Fritz Ploetzerenke conseguiu ocultar a conquista de Schanna; depois percebeu que a situação estava começando a se tornar crítica.

Apesar da mudança constante de curativos, de pó de sulfonamida e outras pomadas, o estado da ferida no ombro de Schanna piorava de dia para dia. Os cantos da ferida estavam inchados, como se estivessem recheados de fermento, o ferimento estava vermelho e cheio de pus. No quarto dia do seu aprisionamento Schanna pegou a febre temida; não era mais possível sustar a infecção.

Ploetzerenke perguntou, cautelosamente, ao enfermeiro suboficial o que podia acontecer se um ferimento, provocado por um tiro, se inflamasse. O catálogo era grosso: ‘Tudo desde simples pus de uma septicemia até tétano.” O suboficial estava atônito com o interesse demonstrado por Ploetzerenke.

— Por quê? Por acaso você pisou em um prego enferrujado?

— Estou lendo um livro que trata de um ferimento que se transformou em infecção.

— Mas, gente, onde estamos?! Irrompeu o paraíso?! Ploetzerenke lê um livro?! Na realidade? Um livro de verdade? Com muitas páginas encadernadas? Fritz, você está querendo me gozar?

— Vá tomar no cu! — Ploetzerenke respondeu aborrecido. — Só porque você tem o certificado de conclusão do 1º grau, ainda não é um Einstein! Té­tano. . . isto é a foice, não?

— Quase sempre! As perspectivas são miseráveis. Eu vi alguns casos des­ses no hospital. . . todos esticaram as canelas! O que está escrito em seu livro inteligente?

— É, um camarada levou um tiro no ombro, e agora formou-se pus e es­tá inflamado, vermelho, e febre ele também tem. . .

O enfermeiro sacudiu a cabeça várias vezes.

— Continue lendo, Fritz! — falou calmamente. — Em que página você está?

— Cerca de 150. . . — Ploetzerenke olhou o enfermeiro com os olhos ra­sos d’água.

— Se o autor for honesto e não estiver romanceando, pelo menos lá pela altura da página 200 ele estará morto. Continue lendo. . .

Esta informação deixou Fritz em estado de pânico. Os dias e noites com Schanna representavam, para ele, a coisa mais linda que já vivenciara, apesar de Schanna nunca abandonar sua atitude passiva e só se submetia, resignada, a tudo que acontecia. Ele agora também já sabia o nome de sua “moça”, a “pequenininha”. . . Apontara para si mesmo e dissera:

— Eu. . . Fritz. Poninimel Eu. . . Fritz. . .

— Schanna Ivanovna. . . — respondera ela, acenando com a cabeça.

— Schanna? Que nome! Schanna. . . é, outra coisa nem se adaptaria a você, menina. . .

Portanto, Ploetzerenke estava feliz... A grande questão, do que iria acon­tecer com Schanna, quando a ofensiva ou a retirada recomeçasse, podia ser recalcada. Mas era impossível ignorar sua ferida. Ela morre, se eu não fizer al­guma coisa, pensou. Pode pegar tétano ou uma septicemia e aí ela sucumbe de maneira horrível! O que posso fazer? Afinal de contas, não posso pô-la nas costas e levá-la para a divisão. Meu Deus, dê-me uma idéia! Me ajude! Você sabe tudo. . . afinal de contas, você vê tudo. . . Você deve se lembrar: eu fui ajudante de missa durante três anos e balancei a garrafinha com água benta. . . Sempre fui um bom cristão. . . Deus, me ajude. . .

Ele torturava o cérebro, para encontrar uma solução, mas tudo em que pensava acabava no mesmo: ele teria de entregar Schanna! Qualquer que fosse a maneira de vê-lo, o que quer que se fizesse ou deixasse de fazer, o destino de Schanna estava traçado. Ou ela morria sob dores atrozes em função da septi­cemia ou do tétano, ou no regimento a “mulher-fuzileira” seria encostada na parede. Não parecia mais haver chance de sobrevivência. Este pensamento era tão terrível que Fritz nem conseguia levá-lo a termo.

No entanto, segundo o percebia, tudo estava transcorrendo bem. Schan-na já não cuspia mais nele, quando ele lhe punha o laço no pescoço e a levava para fazer pipi ou cocô, aqueles minutos humilhantes, nos quais qualquer sen­timento de dignidade, de auto-estima queimavam em um fogo de ódio e deses­pero. Ela também não tentava mais morder-lhe o pescoço, quando estava deita­da embaixo do alemão e a ternura dele a torturava.

Ploetzerenke tentava tudo para mostrar a Schanna que ele a amava, que ela representava mais para ele do que um divertimento carnal. O fazia por mil pequenos gestos. Como não podiam se comunicar verbalmente e cada um no máximo só podia adivinhar pelo tom de voz o que o outro queria dizer, Ploetzerenke subitamente lembrou-se de utilizar um meio de expressão universalmente compreensível — a música.

Com ela possuía experiência. Três vezes já, durante os chamados pique-niques na floresta, pudera, deitados em uma ensolarada clareira de pinheiros, afastar, como um sopro, com os tons de sua gaita, os últimos restos de pudor de suas acompanhantes desejadas, mas um pouco ariscas.

Subitamente Ploetzerenke recordou-se disto com Schanna Ivanovna. Ele sabia que o cabo Rumpe possuía uma gaita velha, amassada, que o acompa­nhara durante toda a ofensiva e retirada na estepe do Don. Não era senão um instrumento barato, que Ploetzerenke antigamente nunca tocaria, por consi­derá-lo indigno de si. Rumpe também só tocava raramente o instrumento. Mas levava-o consigo por toda parte, no seu saco de chão, como um objeto de esti­mação — sua mãe lho mandara, 10 dias antes de morrer de tuberculose.

Ploetzerenke pediu a gaita emprestada e como pagamento sacrificou os seus cigarros. Rumpe aceitou os cigarros e não se preocupou em perguntar muito porque Ploetzerenke, subitamente, estava tão interessado na gaita. De noite, então, Ploetzerenke agachou-se ao lado da atônita Schanna e tocou me­lodias berlinenses: “Este é o ar de Berlim. . . ar. . . ar. . .” e : “Em Schoeneberg no mês de maio. . .” Pela primeira vez Schanna sorriu e o ódio abandonou seus grandes olhos pretos.

Foi uma noite quase artística quando Ploetzerenke, da vez seguinte, trouxe um pequeno bandolim, que pertencia ao suboficial Hammacher da oficina da companhia. Agora ele podia até tocar e cantar. . . Schanna Ivanovna fitou-o, atônita, e compreendeu então que o diabo, grande como um urso, violento, que constantemente a estuprava, realmente a amava e tudo fa­zia para alegrá-la.

Depois que Ploetzerenke mais berrou do que cantou: “Dar-te-ei de presente lindas rosas vermelhas, linda moça. . .”, virou-se para a frente e sorriu para Schanna, como se quisesse dizer: “Então, minha pequena, você gostou? Imagine que agora estivéssemos em paz, deitados em um caramanchão no La­go Wann. . .”

— Você conhece Lili Marleen? — perguntou. Tirou alguns acordes do

bandolim e fitou Schanna inquisitivamente. — Naturalmente você conhece. Preste atenção, agora vou cantar isto para você. Mas eu tenho uma outra versão, da qual gosto mais. . .

Novamente tirou alguns acordes do bandolim e começou com sua Lili Marleen especial:

 

Com a Lili Marleen.Ploetze

Ploetzerenke terminou sua composição com um acorde súbito. Olhou para Schanna:

— Então, não foi bonito? — perguntou.

— Muito bonito. . . — Schanna fechou os olhos, porque Ploetzerenke se abaixara e a beijara. Tenho de matá-lo, pensava. Tenho de matá-lo, mesmo que ele me ame e cuide de mim. É meu dever matá-lo, ou eu nunca mais pode­rei ser Schanna Ivanovna, condecorada com a medalha Suvorov de bronze, na luta heróica contra os fascistas alemães. E o que será de mim, se eu não puder mais ser Schanna Ivanovna Babajeva?! Fritz. . . tenho de matar você!

Sua cabeça ardia em febre, a ferida do ombro inchara perigosamente, do canal do tiro saía um pus esverdeado, fedorento. Suas forças decaiam a olhos vistos.

Ploetzerenke desistiu de seus arroubos de amor. . . Schanna estava doen­te demais, para ainda poder suportá-lo. Seu estado piorava, de hora em hora. Ploetzerenke entrou em pânico. . . limpou o pus, lavou a ferida, colocou o pó, refrescou a cabeça de Schanna e depois, vez após vez, o seu corpo em brasa, sacudido por tremores. Sabia  porém que tudo isto não adiantava nada.

Certa noite, quando Ploetzerenke novamente quis ir ver Schanna e estava firmemente decidido a liberá-la do sofrimento, quando começasse a morrer, só quando realmente não houvesse mais nenhuma esperança, encontrou o médico auxiliar Helge Ursbach.

Ursbach retornava do povoado destruído, onde fora visitar Peter Hesslich. Depois do seu primeiro encontro tinham-se tornado amigos, e quando Ursbach o podia fazer, discutia no “ninho” de Hesslich, à margem do rio, os problemas do mundo. Estavam de acordo: agora estavam vivendo os anos per­didos.

Ploetzerenke fechou os olhos ao ver o médico auxiliar Ursbach caminhar pela trincheira. Nele surgiu uma última, desesperada esperança. Deus, fa­ça com que seja um homem, rezou de todo o coração. Um médico e um homem e não um soldado nazista! Faça-o pensar: aí jaz alguém morrendo — e não: bom que estique as canelas, a mulher do fuzil! Deus, por favor, faça com que só seja médico. . .

— Sr. médico auxiliar. . . — disse Ploetzerenke e se pôs em posição de sentido diante de Ursbach, como se fosse um general. Sua voz estava rouca e ele tremia. — Senhor. . . eu. . . eu tenho. . . eu quero. . . lhe pedir. . . um grande favor. . . O senhor. . . Como médico, o senhor tem de manter segredo, isto eu li.. . isto também vale na guerra?

Ursbach fitou Ploetzerenke espantado.

— O senhor está doente, Ploetzerenke? — perguntou. — Se algo o atingiu, o que pode haver de segredo nisto? Do ponto de vista militar, é uma hon­ra! E se o senhor me aparece com uma sífilis, isto também é registrado. É pre­ciso ter ordem! O que está havendo?

— Trata-se. . . trata-se de vida ou morte, senhor. . .

— Mas o senhor não parece tão doente assim, Ploetzerenke.

— Eu. . . eu tenho confiança no senhor. . . — gaguejou Ploetzerenke. O medo de perder Schanna acabou com todas as outras preocupações. — Eu. . . eu quero. . . quero lhe pedir, Sr. médico, lhe imploro. . . o senhor tem que pro­meter não dizer nada. . . por favor. . .

— Ploetzerenke!

— Por favor! O senhor é a minha única esperança, Sr. médico. . . só o se­nhor ainda pode ajudar, se é que há ajuda possível. Trata-se de uma ferida infeccionada. . .

— Maluco! — Ursbach fitou Ploetzerenke. — Onde é que está essa ferida séptica, hem? No máximo, na sua cabeça!

Ploetzerenke estendeu-lhe a mão que tremia.

— Sr. médico, por favor, me prometa: não fale com ninguém. . . O senhor pode prometer. . . Isto só afeta o senhor como médico. . . não como soldado. . .

Ursbach acenou. Ploetzerenke estava fora de si, isto qualquer um podia ver. O que havia?! Deu-lhe uma palmadinha no ombro, empurrou-o para um lugar na trincheira, como se esta fosse uma sala de consultório, particular, e ordenou:

- Então, desembuche. O que o está preocupando tanto?

Ploetzerenke novamente estendeu a mão para Ursbach.

— Palavra de honra?

— Claro. — Ursbach apertou-lhe a mão.

— Eu. . . eu ocultei. . . um ferido. . . — murmurou Ploetzerenke tão bai­xinho, que Ursbach teve dificuldade em entender o que ele estava dizendo. Mesmo que Ploetzerenke tivesse berrado, também seria difícil de compreender.

— O senhor fez o quê? — perguntou Ursbach irritado.

— Primeiro pensei que a ferida não era tão séria. Apenas um tiro no om­bro. . . a gente não morre disso. Mas agora está cheia de pus, muito vermelha e inchada. . . agora estou com medo. . .

— Ploetzerenke, o senhor está com febre? Que ferido?! E o que quer dizer, escondido? Quem é que o senhor escondeu?

— É. . . — Ploetzerenke olhou para Ursbach como um cachorro que levou um pontapé. — Sr. médico auxiliar. . . é uma mulher!

— O quê?

— Uma moça. Uma do batalhão de mulheres, lá do outro lado. Eu queria roubar um porco e aí a aprisionei. . . Eu a trouxe para este lado e a tenho mantido escondida em um celeiro. Há seis dias. . .

— Ploetzerenke!

— Eu aamo, Sr. médico. . .

— O senhor está guardando na palha uma dessas malditas fuzileiras?!

— Ferida, Sr. médico auxiliar. . . e. . . e. . . parece ser tétano. . .

— Meu Deus, que bosta o senhor arranjou, Ploetzerenke!

— Me ajude, Sr. médico, por favor, me ajude. O senhor me deu sua pala­vra de honra! O senhor prometeu só pensar como médico! Ela é uma moça doente, nada mais. Ela precisa do senhor! Senão morre. . .

— Mas se for realmente tétano, eu também não posso fazer mais nada, Ploetzerenke. Não aqui. Aí é preciso mandá-la para o hospital. . .

— Mas para lá ela nunca pode ir, como fuzileira. . .

— Isto é possível. — Ursbach fitou as ruínas do povoado, na margem do Donez, por sobre a cabeça do Ploetzerenke. Que situação, pensou assustado. Se isto chegar aos ouvidos de alguém, pode custar a cabeça de Ploetzerenke; depende muito do tipo de juiz militar. Uma das temidas fuzileiras como amante secreta. . . isto não pode ser verdade! — O que foi que o senhor pen­sou, Ploetzerenke, ao se meter nisso?

— Nada!

— É, acredito. E como é que isso vai continuar?. . .

— Não sei, Sr. médico. Ela é tão linda. . .

— E o senhor está gamado por ela. . .

— Sim. . .

— Profilaticamente a gente deveria operar o senhor, Ploetzerenke! Sim­plesmente castrá-lo!

— Que significa profilático?

— Profilático quer dizer preventivo. . .

— Tarde demais. Já aconteceu tudo. . . Por favor, ajude. . .

Ursbach deu de ombros.

— Vamos ver a moça — disse grosseiramente. — Eu lhe dei minha palavra de honra, Ploetzerenke. . .

— Obrigado. . .

— Mas eu lhe digo desde já: se for tétano, então farei exatamente o que o senhor me pede como médico: enviarei a moça para um hospital! Não posso deixá-la por mais tempo no seu esconderijo, isto a minha consciência de médi­co me proíbe!

— Existe alguma esperança com tétano?

— Muito pequena, Ploetzerenke.

— Então por que entregá-la?

— O senhor acha que devemos deixá-la morrer na palha?

— Se ninguém puder ajudar, tanto faz onde morra. Se o pior vier, eu. . . eu. . . eu posso. . . — Ploetzerenke engoliu em seco e virou a cabeça. Ursbach suspirou profundamente. — Podemos ir vê-la, Sr. médico?

— Não tenho nada comigo.

— Lá tem tudo. . . gaze, pó de sulfonamida, pomada. . . mas não ajuda.

— O caso está feio. . .

— Eu sei. . .

Saíram da trincheira e andaram, silenciosamente, pela noite. Ao atingirem as primeiras ruínas, quando estavam ocultos na sombra da parede de uma casa, Ploetzerenke disse, de repente:

— Sr. médico, há dias estou pensando. Se eu disser que se trata de uma camponesa que, secretamente, esgueirou-se para seu velho povoado, para reti­rar algumas coisas de sua casa, e eu a vi e lhe dei um tiro. . . devem acreditar nisto. . .

— Ela está de uniforme?

— Sim —Ploetzerenke torceu as mãos. — Mas em algum lugar deve ser possível arranjar roupas de civis, lá na retaguarda, na divisão ou no regimento. O senhor. . . o senhor não poderia dar um jeito?. . .

— O senhor quer me transformar em um cúmplice completo, Ploetzerenke!

— Só como médico. . .

— Com isto a gente não pode ocultar tudo! Bem, então roupas de camponesa. E depois?

— Aí ela não é mais uma fuzileira, e a SD não a enforca.

— Como é que o senhor sabe que ela também quer isto. . . usar roupas de civil?!

— Mas ela quer também continuar vivendo! — No olhar de Ploetzerenke havia um espanto ingênuo, infantil. — Todos querem continuar vivendo!

— Com esse tipo de mulher eu não tenho tanta certeza. Primeiro preciso vê-la.

Esgueiraram-se pelas ruínas do povoado como se fossem patrulheiros. Ploetzerenke fez questão disso, porque queria evitar, a todo custo, que alguma sentinela descobrisse o esconderijo. Deram algumas voltas, propositadamente, antes de entrar no celeiro. Ploetzerenke fez brilhar sua lanterna de mão, olhou radiante para Schanna e depois acendeu a lâmpada de querosene.

Schanna Ivanovna estava deitada na palha, com dois cobertores por ci­ma. Mantinha os olhos bem abertos e tremia, em um novo ataque de calafrios. Sentia pontadas no ferimento, como se alguém afundasse uma lança atrás da outra em seu ombro; a dor penetrava até a ponta dos dedos dos pés e ardia em todos os nervos. Gemeu alto, quando Ploetzerenke se ajoelhou diante dela, re­tirou os cobertores e a desamarrou. Ursbach pigarreou. A juventude e a beleza de Schanna o comoveram de forma enigmática; não se tratava de erotismo, era mais como uma empatia, que sentimos, ao ver uma criança sofrer.

— Tinha de ser assim? — perguntou com voz embargada.

— Mas se não o fosse, ela teria escapulido, Sr. médico.

— Então decididamente um amor unilateral. . .

— Por enquanto. . .

— Isto não vai se alterar, Ploetzerenke, seu sonhador idiota. — A magia desaparecera. Ursbach agora via Schanna e a situação de forma realista. A fuzileira, ferida, que caiu nas mãos de Ploetzerenke e agora é estuprada, incessan­temente. Uma merda, para não dizer coisa pior! — Teria sido realmente me­lhor deixá-la fugir. . .! A gente deveria castrá-lo, Ploetzerenke!

Ursbach sentou-se ao lado de Schanna e retirou de cima do ombro dela a blusa do uniforme. O olhar de Schanna era violento e defensivo, apesar das dores.

— Njet! — disse Ursbach e sacudiu a cabeça. — Não vou lhe fazer mal. — Apontou para si e sorriu tranqüilizadoramente para Schanna Ivanovna. — Jawratsch. . . doktor. . . Ja rana prowerjat. . .

Ploetzerenke passou as mãos pelos cabelos.

— O senhor fala russo. . . — Sua voz tremia de felicidade.

— Oh, Deus, não. Isto a gente não pode chamar de russo. Junto algumas palavras e espero que ela me entenda.

O olhar de Schanna relaxou um pouco. Fitou Ursbach, interessada, e disse algumas palavras que o médico não compreendeu. As palavras pareciam saídas de um forno quente, eram sopradas como por um ar a queimar.

Ursbach retirou o curativo. O cheiro doce-podre do pus, que o atingiu, revelava o suficiente. Quando conseguiu deixar a ferida do ombro a descober­to e Ploetzerenke dirigiu a luz da lanterna para cima dela, Ursbach percebeu que ali só uma operação podia ajudar. Com medicamentos já não se podia fazer mais nada, principalmente com aqueles que havia à disposição na frente.

— Té. . . tétano. . .? — gaguejou Ploetzerenke cheio de medo.

— Ainda não. Mas se não acontecer algo bem depressa, o senhor pode esperar por ele. Ela necessita ser operada. O canal do tiro não foi bem limpo. . . aí é preciso abrir e retirar...

— E. . . e o senhor pode fazer isso, Sr. médico?

— Aqui?

— Sim!

— Não! Trata-se de uma operação verdadeira, Ploetzerenke. Com aneste­sia e tudo o mais.

— Quando estivemos atacando e depois ao bater em retirada fizeram coisas ainda mais difíceis, em pleno terreno de luta. Eu o vi, Sr. médico. Lá amputaram membros, retiraram estilhaços de granada de intestinos. . . Houve um que tinha todas as costas rasgadas e o costuraram! Isto só é uma feridinha . . . Por favor, tente. . .

Ursbach examinou cuidadosamente a ferida, sorrindo para Schanna, quando esta gemia de dor ou cerrava os dentes.

— Ja xotschu pomotsch. . . (Eu quero ajudar) — disse ele. Schanna o compreendeu e acenou com a cabeça. Ele colocou novo pó na ferida e enfaixou-o novamente. Mais do que isto não podia fazer. — Saftra ja pritti. . . (Amanhã eu volto) — Mostrou as mãos esguias para Schanna e moveu os dedos. — Operazija. . .

Depois ajeitou Schanna cuidadosamente na palha e a cobriu novamente. Ploetzerenke retirou mantimentos de seu saco de pão: chocolate, um pedaço de marmelada de quatro frutas embrulhado em papel de pergaminho, um pe­daço de pão, um pedaço de queijo e duas latas de cerveja. Com um sorriso ani­mador mostrou seu tesouro, mas Schanna sacudiu a cabeça e fechou os olhos.

— Ela não pode comer. Tem dificuldade em engolir — explicou Ursbach.

— Amanhã cedo arranjarei uma sopa de trigo. Isto vai, não?

— E como o senhor vai conseguir isso?

— Só preciso de pó de leite. Ainda tenho trigo. Cozinho no abrigo. O pó de leite eu arranjo na cozinha da campanha. . . para isso, contarei três anedo­tas sujas ao pessoal!

— Antes de mais nada, Ploetzerenke, o senhor não pode mais amarrar a moça. Isto é uma verdadeira tortura!

— E se ela fugir?

— Para onde? Atravessando o rio? Ela está tão fraca, que nem chega até a margem.

Ploetzerenke olhou para Schanna. Seu rosto, emoldurado pelos cabelos negros, ficara ainda mais magro, mais infantil. Como ela é linda, pensou. Esta bosta de guerra! Sem ela, está claro, eu não a teria conhecido — mas agora a guerra podia acabar! Schanna, por você eu me mataria de trabalhar, dia e noi­te. Você teria uma vida boa comigo, nada lhe faltaria; verdade, eu posso traba­lhar como um touro, nada é demasiado pesado ou sujo para mim; eu tenho mãos que podem pegar no pesado. Isto poderia ser uma boa vida, com uma casinha e um jardim. Sim, esta eu vou construir para nós e os outros vão ficar espantados e embranquecer de tanta inveja! E você aprende alemão ou eu rus­so, veremos o que é mais fácil, isto não oferecerá obstáculos, Schanna. Só esta merda de guerra nos impede, só ela. . .

— O senhor tem razão — disse ele para Ursbach. — Para onde ela pode ir? Não a amarrarei mais. . .

Curvou-se sobre ela, beijou-lhe os olhos e a testa e apagou a lâmpada de querosene. Já lá fora, junto à parede do celeiro, Ursbach subitamente segurou Ploetzerenke.

— O senhor já se deu conta de que, se a descobrirem lá dentro, o senhor será condenado à morte?

— Se o senhor calar a boca, ninguém vai descobri-la. . .

— E se eu não puder ajudá-la mais?

Ploetzerenke fitou o céu noturno pálido. Era uma dessas noites de verão, quentes como veludo, de um preto suave, nas quais a pessoa não quer dormir e sim passear.

— Então a matarei com um tiro — respondeu Ploetzerenke baixinho. — Eu a amo. Não quero que sofra, que morra uma morte lenta cheia de dores.

O melhor seria que ela amanhã cedo já tivesse desaparecido, pensou Urs­bach. Eu o percebi no seu olhar. Ela não pertence ao tipo de moça que se re­signa ao seu destino. Ela luta por cada hora, que ela mesmo pode comandar. Ploetzerenke a ama — mas o que dela possui é apenas seu corpo indefeso. A ternura que ele possui não penetra na pele dela, nem um milímetro. Mas isto ele não compreende.

Ela deveria realmente fugir. . . nem que seja para morrer, feito cachorro, em um canto isolado.

Voltaram lentamente para a posição. Quando uma sentinela, agachada junto a um muro, os interpelou: “Senha!”, Ploetzerenke respondeu: “Buraco de merda ao quadrado!”, o que era absolutamente suficiente, porque todos sabiam quem dava esse tipo de resposta. Depois alcançaram a entrada do abrigo.

— Quando é que o senhor vai voltar para lá? — perguntou Ursbach.

— De manhã cedo. Se eu não tiver arranjado a sopa de trigo, levarei chá e pão com mel artificial.

— E ninguém ainda suspeitou de nada? O senhor vive se esgueirando por aí!

— Não. Só tenho medo de Hesslich e Dallmann, estes dois ouvem e vêem tudo. Mas até agora não a descobriram. Além disso, eu tenho aí fora um jardinzinho de que cuido, todos sabem disto.

— E se alguém da companhia o visitar?

— Então estou por aí e determino o que acontece. E se eu não estiver, também ninguém vai me visitar.

Esta lógica era irrefutável, e até então funcionara. Ursbach apertou a mão de Ploetzerenke, prometeu voltar no dia seguinte com instrumentos cirúrgicos e tudo o mais de que necessitaria, e voltou para a companhia.

O Tenente Bauer III, o sargento-mor Pfiaume e o Alferes Lorenz von Stattstetten, o “portador dos seis Ts”, como o chamavam, estavam sentados em volta de uma mesa e jogavam skat. Também para eles aquela noite aveludada era boa demais para desperdiçar dormindo. Stattstetten só viera jogar skat a contragosto, depois que uma ordenança o viera buscar, a mando de Bauer III. Enquanto isto, dava uma de poeta e escrevia poemas para sua pequena ucraniana da companhia de propaganda. Até o presente momento só havia recebi­do uma carta lacônica. O grupo de alto-falantes a que ela pertencia estava a serviço, sem cessar, e ia de lugar para lugar na frente. Mal começava o traba­lho, os soviéticos respondiam com bombas e granadas, fazendo mortos e feri­dos nas tropas alemãs. Em função disto, o grupo da propaganda era malvisto; os chefes das companhias protestavam contra sua presença, mas todos os ar­gumentos eram em vão. A resposta bem imponente era: esta missão especial foi abençoada pelos poderes divinos. Todos nós sabemos que, quando eles sur­gem, começa o tiroteio, mas não o podemos impedir. Guerra psicológica — existe uma repartição de peso para isso, em Berlim.

“Tenho pouco tempo para escrever”, desenhara a pequena ucraniana em sua carta. “Mas você escreve tão bonito. Eu o amo, meu querido. Oh Deus, se conseguirmos sobreviver a esta guerra...”

Lorenz von Stattstetten encomendou um pacote de papel do escritório e ficou a fazer longos versos, em estilo de ode ou soneto, de acordo com modelos gregos ou ritmo livre.

Tu, que és Sol e Estrela,

Imutável na mutação da noite e do dia,

Infinita na pulsação de toda a vida,

Tu és para mim átomo e espaço sideral. . .

Isto soava bonito, apesar de Bauer III, que lera alguns desses poemas, dizer:

— Lorenz, para que isto? Você não verá nunca mais esta moça, e versejar, isto Hoelderlin fazia melhor! Venha para um skat decente. . .

Ursbach tirou o boné e o casaco e sentou-se à mesa. Bauer III tinha nas mãos um naipe valioso e ganhava vaza após vaza.

— Finalmente o senhor chegou, seu quebrador de ossos! — exclamou, rindo. — Onde é que o senhor estava? Procuramo-lo por toda parte. O senhor precisa render nosso alferes, ele joga skat como um chinês com hepatite!

— Eu estava no Donez — disse Ursbach, arregaçando as mangas. — Esta amplidão e este silêncio! Mal podemos acreditar que estamos em guerra, tão lindo é. . .

— Oh, José e Maria, este também está começando a ficar lírico! — gritou Bauer III. Jogou as cartas na direção de Ursbach e esfregou as mãos. — Mistu­re para começar, médico auxiliar! O seu sentimentalismo vai descer lindo para as calças, quando o Ivan apertar de novo o botão!

Naquela noite Schanna Ivanovna conseguiu um feito ímpar.

Queimando de febre e sacudida por calafrios, ela engatinhou, apoiando-se nos joelhos e nas mãos, para fora do celeiro. Arrastava a lâmpada de queresene nos dentes. Enfiara-os a fundo na alça, e a cada movimento o querosene se sacudia e pingava em seus lábios. O gosto era nauseante mas ela o suportou, assim como também suportava a dor diabólica que exauria seu corpo.

Para fora, pensava. Para fora! Só postar-se diante da porta. E depois, acender a lâmpada e dar um sinal. Elas o verão, elas precisam vê-lo, elas não podem simplesmente ter esquecido de mim. Nome: Schanna Ivanovna Babajeva. Riscado. Não existe mais! Minhas queridas camaradas, eu ainda estou aqui!

As lágrimas corriam de seus olhos, mas ela conseguiu deixar o celeiro, engatinhou para fora, com a lâmpada entre os dentes, e depois deitou-se, chorando e tremendo, nas pedras do quintal. Conseguiu rolar de costas e fitou o céu estrelado.

Passou-se meia hora antes que ela tivesse forças para se erguer e pegar os fósforos, que Ploetzerenke colocara ao lado da lanterna.

Se me avistarem, virão amanhã, pensava Schanna Ivanovna. Stella, Marianka, Lida e as outras. . . e não conhecem piedade. Elas o matarão, Fritz! Eu vou ficar triste. Você me cuidou, me deu de comer e beber, você tocou e can­tou para mim. Mas depois você sempre caiu em cima de mim como um animal e arrastou minha honra pela lama. E eu sempre jurei: Vingança! Vingança! Vingança! Eu sei que você me ama mas você é um lobo, que primeiro lambe as feridas de suas vítimas e depois acaba por esmigalhá-las. Eu vou ficar um pouco triste, quando você morrer, Fritz, certo, ficarei triste. Mas com pensa­mentos de tristeza não podemos salvar a Rússia, só se conseguirmos liquidar vocês, seus alemães! Eu recebi uma missão, isso vocês precisam compreender, uma missão do Camarada Stalin, que disse: “Todo o Exército Vermelho preci­sa estar a postos para as batalhas decisivas com os ocupantes alemães fascistas. Ele precisa vingar o sangue e as lágrimas de nossas mulheres e nossos filhos, de nossos pais e de nossas mães, de nossos irmãos e irmãs, uma vingança sem pie­dade, morte aos invasores alemães!”

Veja, Fritz, esta é a nossa missão. Onde há então lugar para o seu amor?

Também eu sangro por um tiro de uma carabina alemã, também eu chorei quando você me estuprou. Sangue e lágrimas, precisamos nos vingar. Existe uma Rússia eterna. O que representa você em comparação, Fritz. . .

Ela acendeu um fósforo, encostou-o no pavio e deixou brilhar o lampião de querosene. Gemendo de dor, ergueu-se, conseguiu ajoelhar-se e começou a balançar o lampião, de um lado para o outro, na direção da margem, sem cessar. E soluçava, escancarava a boca, respirava o ar da noite e chorava alto. Não era apenas a dor que lhe queimava o corpo.

Do lado soviético um lampejar curto. Mais nada. Um clarão de luz, por um segundo. Schanna Ivanovna apagou o lampião, colocou-o a seu lado e se deixou cair novamente por terra.

Elas me viram. Elas virão amanhã e me buscarão. Agora sabem que Schanna Ivanovna Babajeva ainda existe! Minhas queridas amigas, deixem-me morrer junto de vocês. . .

Já era quase madrugada, quando engatinhou de volta para o celeiro, novamente com o lampião entre os dentes. Depois se deitou de novo na palha e se cobriu, tremia de frio, apesar do seu corpo arder.

Por volta das 7:00 Ploetzerenke apareceu com o café da manhã: chá, biscoitos e mel artificial. Como sempre, sentou-se ao lado de Schanna, a beijou e riu. Ela sorriu fracamente. Sua vida é tão curta, Fritz, e você nem o imagina. . .

—Esta noite. . . doutor vem — disse ele e fez com os dedos o movimen­to de cortar com uma tesoura, como se quisesse lhe fazer entender: Ele vai rasgar o ferimento. Ele ajuda você.

Ela acenou, concordando, comeu um biscoito com mel e bebeu o chá. Ploetzerenke teve de sustentar-lhe a cabeça, tão fraca ela já estava.

— Ele é um bom médico — continuou Ploetzerenke. — Doktor dobro. . . entende. . . dobro. . . Merda! A partir de amanhã eu aprenderei russo, Schanna. . . Amanhã a febre passou. . . neca de febre! Nix aua. . .

Schanna Ivanovna sorriu novamente. Em verdade, você é um homem bom, pensou. Mas é um fascista alemão, e não existe alemão bom, isto nós aprendemos.

Ela mastigava o segundo biscoito com dificuldade e Ploetzerenke a fitava com os olhos brilhando de felicidade.

Não sabiam que Ugarov, do outro lado do rio, já tinha observado a luz, com seu telescópio aguçado, e que agora os soviéticos sabiam onde se encontrava Schanna. Os sinais luminosos que partiam do lado alemão foram primeiro vistos pela sentinela Vanda Alexandrovna. Pelo telefone de campa­nha, que ligava a posição dianteira com a trincheira principal, ela logo alar­mou Soja Valentinovna Bajda, que vestiu, às pressas, o uniforme, tirou Ugarov da cama e com ele foi correndo para o lugar de onde se podia observar a luz oscilante.

Aí já tinham chegado, entrementes, 10 soldados russos e discutiam quem é que poderia estar fazendo aqueles sinais, lá do outro lado. Também a médica Galina Ruslanovna saíra do seu abrigo e mirava a orftra margem com um binóculo noturno potente.

— É possível ver algo? — perguntou Bajda ofegante, tirando o binóculo das mãos de Galina.

— Muito pouco! É uma lâmpada e alguém a balança perto do chão. Mas de quem se trata, isto não é possível ver, com a melhor das boas vontades!

— Vocês acreditam que possa ser Schanna? — Bajda agora tinha a lâm­pada no seu campo de visão. A luz oscilante passava, de vez em quando, por uma mancha mais clara, que se assemelhava a uma blusa, a um pano. Depois mais uma mancha, bem rápido, ainda mais clara que a primeira, talvez uma ca­beça, um rosto. — Por que razão ela não deixa de ser boba e não levanta a lâmpada à altura do rosto?! Saberíamos então quem está por detrás dos sinais. — Deixou cair o binóculo. — Também pode ser uma armadilha, uma armadi­lha simples e infame. O diabo da boina de tricô seria capaz de fazer uma coisa dessas. Ele nos faz um sinal, nós atravessamos o rio e bumba, diretamente no fogo!

— E se for realmente Schanna Ivanovna? —perguntou Ugarov, observan­do por sua vez a margem alemã através do binóculo.

— Depois de seis dias? — A expressão do rosto de Bajda endureceu nova­mente. — Onde estava há tanto tempo?

— Prisioneira. . .

— Impossível! Nenhuma das minhas moças sobrevive um só dia aprisio­nada!

— E lá sabemos em que circunstâncias conseguiram prender Schanna?

— Não existe circunstância alguma que me possa impedir de escapar de um inquérito alemão! — disse Soja Valentinovna duramente. — Nada, Victor Ivanovitsch! Não consigo acreditar que Schanna ainda esteja viva e consiga transmitir sinais luminosos depois de seis dias na prisão! É isto que me deixa perplexa!

— Ao menos, deveríamos responder — sugeriu Ugarov. — Não nos pode prejudicar em nada. Se se tratar de uma armadilha, então eles ficarão a nossa espera!

Ligou sua forte lanterna de mão e iluminou a noite, contou até três e depois a desligou de novo. Pouco depois a luz do outro lado também sumia.

— Ela nos compreendeu! — disse Ugarov, quase feliz.

Bajda o fitou, de relance.

— Para você, é Schanna, não?

— Pode ser.

— E quem irá buscá-la? Eu só deixo ir voluntárias. E não mais de três! Já tivemos suficientes baixas por causa da boina de tricô!

— Eu vou! — gritou Marianka Stepanovna Dudovskaja. — Schanna é a minha melhor amiga.

— Eu também vou! — Lida Djanovna Selenko levantou a mão. — Eu. . . eu tenho pena dela. . .

— Covardes não merecem piedade! — Bajda passou ambas as mãos pe­los cabelos pretos. — O que quer que tenha acontecido lá, se realmente for Schanna, nós teremos de lhe perguntar: Por que você ainda está viva depois de seis dias prisioneira dos fascistas? Também se trata da honra de vocês, camara­das! Ela pertenceu à nossa unidade! Uma unidade de elite! Não o esqueçam!. . . Mais uma voluntária?

— Sim. Eu! — Galina Ruslanovna levantou a mão. Bajda sacudiu energicamente a cabeça.

— Negativo! Nós ainda precisamos muito de você, Galinanka! Estou fe­liz por termos um médico aqui! Também Stella fica! Aliás, por onde anda?

— Há dias ela dorme no povoado e espera o seu inimigo pessoal. — Ugarov deu de ombros.

Haviam tentado dissuadi-la mas desde que Stella vira o diabo da boina de tricô subir na margem como um nadador satisfeito, refrescado por um banho, ela só vivia pela esperança de um dia defrontar-se de novo com ele.

— Vocês não quiseram acreditar! — repetia incessantemente. — Mas eu o sei: ele volta! E desta vez voltará novamente e agora ele não me escapa. Até aí não descansarei...

— Então deixem Stella ficar onde está! — Bajda afastou-se da parede da trincheira e fitou o rosto de todas as moças que estavam em volta. — Refli­tam! Ainda permito uma voluntária. Mas antes de vocês trazerem Schanna de volta, perguntem como foi que ela atravessou o rio com um alemão! Se ela não conseguir responder, é melhor que fique por lá. Onde, aparentemente, se sente mais à vontade do que entre nós! — Fitou Marianka, que imediatamente abaixou a cabeça. — Aliás, existe ainda outra possibilidade. . .

Todas sabiam o que Soja Valentinovna queria dizer. O castigo do fracas­so e da covardia diante do inimigo era conhecido. Em uma unidade de elite, como a das fuzileiras, não havia mais o que perguntar.

— Vamos primeiro escutar o que Schanna tem a dizer —falou Ugarov, procurando ser mediador. — Nem sempre podemos mandar no destino, mesmo quando o imaginamos. . .

— Amanhã de noite. — Soja Valentinovna devolveu o binóculo à sentinela Vanda Alexandrovna. — Isto não é uma ordem, camaradas, apenas uma constatação.

Afastou-se com passos ligeiros e percebeu, irritada, que Ugarov ficara para trás. Tem de ser, pensou. Eu tenho de ser assim. Disciplina é tudo na vida que nós agora levamos. Só a coragem não basta, nem o amor à pátria. Para que possamos ganhar esta guerra, temos de nos rodear de uma forte couraça de aço, que impeça tudo de alcançar nosso coração. Temos de ser duras, mais duras que pedra, pois até pedras podem quebrar. Naturalmente tenho pena de Schanna. . . mas ninguém pode percebê-lo!

— Se for Schanna — disse Ugarov baixinho, antes de seguir a Bajda —tragam-na com vocês. Ela é uma pessoa. . . e ninguém pode transformar uma pessoa em máquina! Ha tem sangue nas veias e não óleo lubrificante. . . Tra­gam-na para cá, camaradas!

É sempre assim: quando precisamos de alguém, é justamente quando está fora do nosso alcance. Nesta noite Uwe Dallmann estava só em seu esconderijo. O regimento solicitara a presença de Peter Hesslich. Expressando-o mais clara­mente: pediram-lhe que falasse a respeito de sua saída solitária. O comandan­te do regimento mandara preparar uma refeição e Hesslich se viu sentado no meio dos oficiais, contando como eliminara as sentinelas femininas.

— Mas o que está acontecendo com essas moças? — perguntou um major da Flak. — É preciso visualizá-lo: aí está uma coisa jovem, bonita, à espreita, vê uma cabeça humana no reticulado e nem treme ao curvar o dedo sabendo: agora eu o mato! Não, ela atira. . . De onde arranjam tal frieza?! Mas isto é contrário a tudo que é feminino!

— Elas vivem do ódio! — Hesslich pegou o charuto, que o comandante do regimento lhe oferecia. Até isto ainda havia nos domínios da retaguarda: ciganos, charutos, conhaque, licor e carne assada em abundância. — Outra coisa é impossível pensar. E também não ouvimos outra coisa delas. As poucas fuzileiras que conseguimos prender até hoje mantiveram um silêncio de ferro, até que nós as matamos a tiros ou as enforcamos. A única coisa que gritaram, quando o laço já estava em torno de seus pescoços, foi: “Viva a União Soviética. Viva a Pátria! Viva o Camarada Stalin! Morte aos invasores!” E es­tes somos nós!

Hesslich deixou que um tenente lhe acendesse o charuto, fumou com gosto e olhou para a fumaça azul-branca. Os oficiais o fitavam em silêncio. Pa­ra eles esse sargento era uma espécie de monstro, uma máquina de matar com corpo humano. Apesar da guerra e das mortes diárias ele era um estranho em seu meio. Ninguém gosta de sentar na mesma mesa que a morte — mesmo no calor do verão acredita-se sentir um sopro gélido. Todos consideravam legíti­mo matar ao atacar e para se defender. Mas liquidar, calma e concentradamente, a partir de um esconderijo, uma pessoa solitária, com um tiro na cabeça de­cididamente artístico, era coisa completamente diferente. Isto era uma morte premeditada, para isso necessitava-se de nervos mais fortes que a consciência.

Ele se recostou na cadeira. Não sabia por que o tinham convidado para um almoço com seis pratos, a começar com uma sopa fria de morangos até um pudim de chocolate delicioso, com creme de baunilha; não sabia o que poderiam querer dele. Não era mais possível recomendá-lo para uma condecora­ção. Já possuía a EK I, não fazia jus à Cruz Alemã”, e a Cruz de Cavaleiro exi­gia algo mais do que a liquidação de algumas sentinelas. No máximo poderiam promovê-lo a sargento-mor. Pensar, porém, que um corpo de oficiais do regi­mento o convidasse para almoçar por um motivo desses era pelo menos muito insólito.

— Poderíamos perguntar da mesma maneira: Por que somos fuzileiros? — continuou Hesslich. Acreditava poder ler esta pergunta nos olhos dos oficiais. — Somos combatentes solitários. Os combatentes solitários porém, jamais podem decidir uma guerra, a não ser que liquidem os políticos, que meteram a todos na guerra. Uma coisa dir-lhes-ei, meus senhores: eu odeio a minha missão! Eu sou guarda-florestal, e agora preferiria mil vezes passear por uma floresta no verão e observar os animais, o esquilo, que faz ginástica nas árvores, um abelhão, que zumbe, de flor em flor, um inseto, que se arras­ta penosamente pela grama ou um pássaro, que cuida de suas crias. Tudo seria melhor do que ficar aqui no Donez, à espreita, para matar moças. Julgo que os senhores pensam e sentem da mesma forma. Mas aí existe um fenômeno que nós só poderemos analisar se sobrevivermos a esta guerra: puseram-nos em um uniforme e nos deram ordens, e veja. . . nossos cérebros se desligam e só fazem aquilo que lhes impuseram. E eles o fazem de forma rápida e precisa, maquinalmente, pois uma máquina não conhece nem escrúpulo nem lógica. . . Estamos sentados aqui no meio da Rússia e nos espantamos de que os russos querem se ver livres de nós! Conquistamos e incendiamos sua terra, caçamos, matamos ou transferimos seu povo e fingimos não saber o motivo de seu ódio contra nós. Milhões foram mortos, centenas de milhares aprisionados; em cada família houve perdas, as cidades estão em ruínas, a terra foi revolvida por bombas e granadas. . . e ficamos atônitos diante do fato de que os russos não nos querem mais! De certa forma, meus senhores, isto é verdadeiramente fenomenal! Nós só reconheceremos esta contradição em toda sua grandeza quando tivermos despido novamente o uniforme. Enquanto usar­mos este casaco cinza, qualquer argumentação lógica escorre de nós como água de uma toalha de cera.

— Sargento, o que o senhor acabou de dizer é suficiente para mandar matá-lo, a tiros, três vezes! — exclamou o comandante do regimento, bonachão. — O senhor por acaso acredita que entre nós, filhos de pastores, pode falar desta forma insolente! Não obstante, uma coisa o senhor provou: o senhor não sabe o que é medo! Não tem medo de nada e de ninguém!

— Eu só queria explicar por que sou fuzileiro. Primeiro, veio a ordem. Decerto, eu poderia tentar escapar dela, errando todos os tiros. Mas ninguém acreditaria em mim, pois em todas as tropas a minha fama de guarda-florestal que nunca erra um tiro chegava antes de mim. Existe uma carta de recomendação de meu chefe, o Forstrat, ao comandante do Wehrbereichkommando, que circula, em cópia, por toda parte. Ainda assim. .. eu poderia ter tentado inventar uma doença misteriosa dos olhos, que os médicos não saberiam curar. Um piscar, que impede qualquer tiro certeiro. Mas aí fizeram comigo a mesma coisa que eles lá fazem com as moças: mostraram-me fotografias de camara­das com tiros na cabeça, limpos, colocados exatamente com uma precisão de milímetros. Tiros exatamente sob a beira do capacete de aço. Tiros certei­ros no coração. “Isto foi obra dos fuzileiros siberianos!”, disseram para nós. “Olhem bem para as fotografias, assim os siberianos atiram! Nossas baixas já se contam pelos milhares. Só poderemos enfrentá-los se tivermos fuzileiros igualmente bons! Homem contra homem, não existe outra solução! Isto é uma forma de guerra especial!” Bem, nós o compreendemos e assim eu me tornei fuzileiro. E depois soubemos que aqui, na área do Sétimo Exército russo, uma divisão de mulheres tinha tomado a si a missão de matar solitariamente, e que o faziam melhor e de forma ainda mais precisa do que os homens. Acreditem em mim, internamente eu resisti à idéia! Desejei nunca ter uma dessas moças no visor. Atirar em uma mulher. . . nem cogitar! Mas depois, ali estavam novamente as fotografias, que me eram mostradas em cada divisão. . . tiros na cabeça! E cada um desses tiros era obra dessas moças! Eu nunca acreditaria que a gente poderia pensar apenas: um inimigo! Nada mais! E: seja melhor e mais rápido do que ele! Mas desde que 10 camaradas da nossa divisão de metralhadoras foram liquidados só penso assim.

Hesslich colocou o charuto apagado em um cinzeiro de vidro e olhou em redor.

— Esta então é a resposta à sua pergunta, meus senhores; o que se passa com estas moças. E só necessário saber o que se passa conosco, e aí a gente sabe!

—  Eu recomendei sua promoção a sargento-mor, Hesslich — disse o comandante do regimento e se levantou. Hesslich pôs-se de pé, rápido.

— Mil agradecimentos, Sr. Tenente-Coronel.

— A assinatura do general é questão só de burocracia. O senhor já pode ir encomendando as estrelas.

— Sim, Sr. Tenente-Coronel.

— O senhor tem folga até amanhã de manhã, Hesslich. Dê uma volta por aí. Temos um carro de cinema. Hoje à noite apresentam O Homem que Lê os Medidores de Gás, com Heinz Ruehmann e Anny Ondra. Uma vez algo alegre com toda esta merda! Divirta-se!

Com isto Peter Hesslich foi despedido. Bateu os calcanhares e deixou a casa do comandante.

— Uma sorte que hoje não tínhamos nenhuma visita da SS — disse um capitão e tomou um gole de seu conhaque. — Aí ninguém mais poderia salvá-lo! Mas talvez esses homens tenham que ser insolentes, para poder visar com tranqüilidade. Eu o digo sem rodeios: esses camaradas me assustam.

De noite Peter Hesslich estava sentado no chão diante da tela e viu o fil­me O Homem que Lê os Medidores de Gás. Trezentos soldados, entre eles também alguns com ferimentos leves, dobravam-se de rir com as peripécias de Heinz Ruebmann. O sentido mais profundo da comédia, o combate do homem pequeno contra os monstros do mundo, não os tocava. Para eles o filme representava uma distração bem-vinda, que os fazia esquecer, durante duas horas, a guerra, toda essa merda, da qual tinham vindo e para a qual retorna­riam. . . O mundo se transformava ao rirem.

Mais tarde, Hesslich estava sentado no quartel de uma tropa de construção e se embebedava com aguardente russa de bolbo. Na frente, tudo era cal­ma; a tropa de combate estava diretamente ligada à divisão de pioneiros, que ficava ao lado da Quarta Companhia.

— Vocês são sortudos — disse um dos suboficiais, que sentara na mesma mesa que Hesslich. — As mulheres tão perto. . . é só esticar a mão! Por que vocês não buscam algumas?

— Tente. — Hesslich fitava sombrio a mesa. - Elas têm opinião diferente.

— Ataque com as calças abertas, isto faz até elas capitularem!

— Vocês não passam de buracos de merda! — respondeu Hesslich, grosseiro, levantando-se. — Venham para a frente e busquem o seu buraco na tes­ta. . .

Ele se deitou em um saco de palha e pensou na moça soviética, com os cabelos louros, que tivera em sua mira mas não matara. Da mesma forma, na época em que era guarda-florestal, ao invés de matar, muitas vezes observara um veado, cuja beleza o fascinava.

A loura era um animal lindo, selvagem. Tivera uma trégua, mas ele sabia que a mataria se a encontrasse novamente.

Com esses pensamentos, adormeceu. Em sonhos, ela estava nos seus bra­ços, tremendo de paixão; mas quando ele dera tudo que pudera, ela relaxou, e ele viu que abraçava um cadáver, que se desfazia em uma poça de água.

Escondidas atrás de uma jangada camuflada em ilha flutuante Marianka, Lida e Vanda atravessaram o Donez em uma posição plana, ao norte das ruínas, nas quais acreditavam estar Schanna. Uma vez chegadas na margem só vestiram as blusas e as calcinhas, e nos pés grossas meias de lã. Era uma visão doi­da: as longas pernas nuas, sobre elas as calcinhas, a blusa do uniforme, no cin­to a bolsa de munição; nos cabelos molhados, dos quais a água escorria, o gor­ro em forma de barquinho cor de terra, os rostos empretecidos com carvão. Assim esgueiraram-se pela margem acima e desapareceram na grama da este­pe. Suas carabinas de precisão, de cano longo, as Moisin-Nagant 1891/30, com os pesados cartuchos, estavam atravessadas em seus braços. Seguiram silenciosamente, em direção ao povoado destruído, do qual viera o sinal luminoso, que acreditavam ter sido feito por Schanna.

O Tenente Ugarov fizera um esquema do povoado e marcara com preci­são a casa da qual tinham visto Ploetzerenke entrar. Fora possível observá-lo nitidamente pelo binóculo.

— É ele, meu rabo de boi! — exclamara Marianka, em júbilo. — Minhas queridas, vocês me prometeram que ele me pertence. Lembrem-se disso! Ho­je de noite irei buscá-lo!

Aproximaram-se da casa, de lado, e perceberam a luz fraca que se irradiava de algumas frestas.

Marianka, que engatinhava na frente das outras, levantou a mão. Elas permaneceram deitadas, destravaram as armas e fitaram a parede. A porta, a uma distância de apenas 10 pulos, estava encostada.

Da casa ouviam-se acordes melodiosos. Alguém estava tocando bandolim. Tocava alto e cantava com voz rouca. Poderiam ter vindo, sem pestanejar, de carro, sem que fossem ouvidas.

Marianka se levantou e acenou. Também Lida e Vanda deixaram a grama que as protegia e se dirigiram eretas, as carabinas ao lado, prontas para atirar, para a porta encostada. Andavam bem próximas, quase tocando umas nas outras; a água do Donez ainda escorria pelos seus cabelos e pelos seus ros­tos tensos.

— Eu sei o que ele está cantando — murmurou Lida. Ela fora estudante, já completara quatro semestres de odontologia e se teria tornado uma boa dentista em Gorki, se no círculo esportivo estudantil não tivessem descober­to sua extraordinária capacidade de acertar no alvo. A grande guerra patrióti­ca a chamou imediatamente; dentistas não eram tão importantes nesse mo­mento, mas fuzileiros, estes sim, eram necessários em todas as frentes. Desta forma veio ela, como todas as moças, indicada para a escola especial de Veschnjaki, para Moscou e para a férula do Coronel Nikiforova e Olga Petrovna Rabutina. Depois de quatro meses de treinamento ela era uma das melho­res fuzileiras. Hoje em dia tinha 37 marcas em seu livro de tiros. Todos se or­gulhavam dela.

Marianka pousou o dedo sobre os lábios. Lida sorria, satisfeita.

— A canção se chama: A Lorelei. . . — continuou, ainda murmurando. — A primeira estrofe é: “Eu não sei o que isto significa...”

— Ele vai descobrir logo! — disse Marianka e devolveu o sorriso.

Ainda estavam afastadas três passos da porta encostada.

Dentro do celeiro, Ursbach ajoelhara-se ao lado de Schanna e espalhara, diante dela, sobre uma toalha, o seu instrumento cirúrgico. Já limpara a feri­da do ombro, em estado lastimável. Agora preparava a operação. Já colocara a ampola, com o anestésico, na seringa. Schanna estava sentada, apoiada em um barril de madeira vazio, no chão do celeiro; tinha um pedaço de madeira entre os dentes e o mordia com força, quando as ondas de dor ameaçavam sobrepujá-la.

Diante dos dois, com as costas para a porta, Ploetzerenke estava agachado em um toco de madeira, tocava o bandolim e cantava a sua Lorelei.

— Isto irá distraí-la — dissera ele. —Senhor médico auxiliar, eu conheço isto: a música anestesia como um comprimido! Uma vez li a respeito: música no estábulo. As vacas dão mais leite, os porcos engordam mais, as galinhas põem um ovo cada dia. Eu lhe digo: quando eu canto, Schanna fica mais tranqüila e não sente mais medo. . . Posso?

— Para mim, tanto faz! — rosnara Ursbach. — Mas se eu sentir náuseas, lhe dou um pontapé na bunda!

Portanto, Ploetzerenke cantava a Lorelei e até que não soava tão mal. Schanna mordia o pedaço de madeira e fitava a porta. O seu instinto, treina­do como pastora no Lago Baikal, aquele formigamento, que lhe indicava o perigo e lhe permitia pressentir, com muita antecipação, uma águia que que­ria derrubar uma ovelha, ou um urso à espreita, atrás de um rochedo, lhe dizia que o momento chegara.

— . . . e tranqüilo flui o Rio Reno. . . — cantava Ploetzerenke e fitava Schanna amorosamente.

Marianka, Lida e Vanda estavam diante da porta.

Agora, só um toque. . .

— . . . ao sol do crepúsculo. . . — berrava Ploetzerenke e puxava as cor­das com força.

Schanna arregalou os olhos. Ursbach, que acabara de se curvar e preparava a injeção com a anestesia, não o percebeu. E Ploetzerenke iniciou a segunda estrofe.

— Lá em cima está sentada, maravilhosa, a mais linda das virgens. . .

Quando Marianka empurrou a porta, Schanna reagiu de uma forma completamente diferente da que planejara. Empurrou, com toda as forças possíveis, usando as duas mãos, o médico que estava ajoelhado à sua frente, fazendo com que ele caísse para trás, agitando os braços, ainda com a seringa na mão. Ao mesmo tempo Schanna gritou, e a sua voz irradiava terror.

— Fritz!

Ploetzerenke reagiu imediatamente. Na mesma fração de segundo, em que Marianka e Lida atiraram, ele se jogou para o lado. Vanda, que só agora entrava correndo no celeiro — pois só duas pessoas podiam passar ao mesmo tempo pela porta — atirou dois segundos depois.

O tiro, que visara Ursbach, passou raspando pela coxa de Schanna e bateu na palha. Ploetzerenke, contudo, foi atingido duas vezes. Empinou-se, seu corpo se curvou, durante um instante formou uma ponte trêmula; depois caiu e começou a tremer convulsivamente. No silêncio súbito ainda se ouviam as cordas do bandolim, que o tiro de Lida raspara, antes de atingir Ploetzerenke.

Marianka, Lida e Vanda se protegeram logo depois da primeira salva de tiros, atrás de uma carroça quebrada, já que ainda não sabiam se os dois ale­mães eram os únicos inimigos que se encontravam no celeiro. Diante delas Schanna estava sentada no chão, com as mãos tapando o rosto. O soldado, que ela empurrara, se esforçava para se erguer. Agora era visível que usava uma faixa da Cruz Vermelha, enquanto o “touro”, como o denominara Marianka, estava deitado de costas e gemia de fazer dó.

— Um enfermeiro. . . — murmurou Lida e não se mexeu, quando Ursbach se levantou e mostrou a seringa. — Ele está aqui para ajudar Schanna.

— Liquide-o! — disse Vanda duramente, empurrando Marianka. — Va­mos! Médico ou não. . . o inimigo é sempre o inimigo!

Marianka sacudiu a cabeça e fitou Lida.

— Fale com ele. Você sabe alemão. Pergunte se estão sozinhos.

Lida respirou fundo. Fitou, com olhos arregalados, Ursbach, cujos cabelos louros estavam cheios de palha. Agora ele abria os braços e dava de om­bros. Era um gesto cheio de resignação, como se quisesse dizer: olhem, não estou armado; só tenho a seringa na mão, e lá, ao lado de Schanna, estão os instrumentos cirúrgicos. Vocês podem atirar em mim como um alvo, estou à disposição de vocês. Conheço bem os tiros que vocês plantam no meio da testa.

Ouviu Ploetzerenke gemer atrás de si e se virou. Bem, então atirem na minha nuca. Eu preciso cuidar dos feridos. ..

— Stoj! — chamou Lida grosseiramente e saiu de detrás da carroça que a protegia. Marianka e Vanda, assustadas com esta manobra perigosa, cerraram os dentes e curvaram os dedos indicadores nos gatilhos de suas armas.

Ursbach virou-se lentamente, ainda com os braços esticados. Quando Lida apareceu e deu dois passos em sua direção, ele a fitou como se fosse um ser de outro mundo. A blusa do uniforme, as pernas nuas, compridas, a calcinha fina e as meias de lã — esta visão era demasiado fantástica, impossível de ser compreendida imediatamente.

— Não tem mais ninguém aí? — perguntou Lida.

Ursbach sacudiu a cabeça.

— Você é enfermeiro?

— Médico. — Ursbach ouvia a própria voz como um ruído oco, estranho. — Você fala alemão?

— Um pouco. — Lida Djanovna deu mais um passo à frente e agora esta­va em plena luz. Sua beleza era arrebatadora. Só o olhar duro não combina­va com o corpo esguio, o rosto oval e os cabelos castanhos.

Marianka e Vanda também se ergueram. Com as armas apontadas para Ursbach, gritaram para Schanna algo que o médico não compreendeu. Mas Schanna não reagiu. Estava sentada, imóvel, as mãos escondendo o rosto.

— Venha cá! — chamara Marianka. — Ou será que você não pode se mexer?!

— Eu estou aqui para ajudar sua camarada ferida — disse Ursbach com voz rouca. — A ferida é feia. Está cheia de pus. Eu ia começar a operar. —Deixou cair os braços e fitou Lida com o cenho franzido. — Agora vocês atiraram em meu camarada e eu preciso me ocupar dele. Schanna pode esperar. Você compreende?

Ele tentou se voltar para Ploetzerenke, mas a voz de Lida o imobilizou.

— Você fica! Você não pode mais ajudá-lo.

— Isto decido eu!

— Você não tem mais nada a decidir aqui. — O cano da arma de Lida se ergueu mais um pouco e agora visava diretamente o peito de Ursbach.

— Eu sou médico!

— E é só por este motivo que ainda está vivo! Só por ser médico, você ainda nos pode ver.

— Isto quer dizer, então, que ainda não ficou decidido, se vocês também vão me matar a tiros?

— É, pode-se dizer isso.. .

— Então seria bom se vocês conseguissem chegar a um acordo com certa rapidez.

Ursbach olhou para sua mão direita, como se só agora percebesse que ainda estava com a seringa de injeção na mão. — Eu tenho um dever a cumprir. Você cumpra o seu. . .

Virou-se, aproximou-se de Ploetzerenke que gemia e ajoelhou-se diante dele. Os dois tiros tinham-lhe atingido o peito e penetrado num pulmão. A espuma sangrenta, que saía dos lábios de Ploetzerenke em cada respiração ofegante e escorria pelo queixo e pelo pescoço, tornava fácil o diagnóstico.

O ferido estava plenamente consciente e fitava Ursbach com olhos arregalados. Queria dizer alguma coisa mas não conseguia emitir uma só palavra. Apenas a espuma vermelha que saía de sua boca se avolumava. Ursbach arran­cou-lhe a camisa do corpo e tentou, inutilmente, virá-lo de bruços, para examinar os dois buracos de bala nas costas. Mas Ploetzerenke era pesado demais. Elas não atiram, pensou Ursbach, sentindo como os pêlos da nuca se eriçavam e sua pele tremia como se atingida por um jato de gelo. Talvez porque eu lhes tenha virado as costas? Era esse o maldito código de honra dos fu­zileiros de que lhe falara Peter Hesslich? Nas costas, não! O inimigo deve fitar você! Você deve poder ver seus olhos. Ursbach percebera isto como uma deci­dida perversão do matar, para uma desumanidade fria e uma arrogância ímpar: só um tiro entre os olhos é um tiro do qual possa alguém se orgulhar! Deus do céu, estas moças pensam realmente assim?

Ploetzerenke parecia decair em cada respiração. Seu rosto empalideceu e se tornou amarelado. Era como se literalmente se encolhesse com cada movimento do peito, como se o ar o deixasse, como se dos dois buracos no peito toda sua força se esvaísse. O pulmão dilacerado trabalhava, desesperado, assobiando, borbulhantes, e transformava em espuma o sangue que por ele corria.

Fritz Ploetzerenke morria de hemorragia interna. Ursbach fitou-o sério e acariciou-lhe o rosto trêmulo.

Ploetzerenke compreendeu. Ele, o homem forte, que até ali resolvera todos os problemas com os punhos, cuja boa vida fora marcada por sua força corporal, agora estava totalmente impotente. Nem mesmo o médico podia ainda fazer algo.. Ele o acariciava, como se acaricia um cachorro que já recebeu a injeção mortífera e continua a fitar leal e amoroso o seu dono.

A ternura da despedida final.

Ploetzerenke queria falar e seus lábios se movimentaram sob a espuma sangrenta. Acreditou até ouvir a sua voz, embora, na realidade, fosse incapaz de articular qualquer som.

— Onde está Schanna? — perguntou. — Elas mataram Schanna? Senhor médico auxiliar, cuide de Schanna, não de mim. . . As moças o deixam viver, não? Uma braçadeira com a Cruz Vermelha faz uma diferença! Vá ver Schan­na. O senhor não precisa ficar aí sentado do meu lado. Eu não sinto dores, não sinto dor nenhuma. Só frio. Que coisa louca! Um frio desgraçado. Espe­cialmente nas pernas. . .

Ele gemia e Ursbach sacudiu a cabeça, acariciou-lhe novamente o rosto, refletindo se devia dar-lhe o narcótico que destinara a Schanna.

Atrás de si escutava as vozes, não muito altas, mas excitadas, das moças. Lida, Marianka e Vanda tinham cercado Schanna. Babajeva encostara a cabeça no ombro de Marianka e chorava baixinho.

— Você consegue andar? — perguntou Lida. — Nada de muitas palavras, Schanna. . . para isto teremos tempo depois! Nada de explicações. . . Nós a carregaremos. . .

— Soja Valentinovna mandou vocês? — perguntou a doente, soluçando.

— Não. Somos voluntárias. Soja nunca a teria mandado buscar, nem mesmo depois de seu sinal luminoso!

— Fui expulsa, não?

— Você tem muito a explicar, Schanninka.

— Eu. . . eu tenho de matar 10 alemães, para poder pertencer novamente ao grupo de vocês.

Quando Ploetzerenke gritou, gemendo, ela apertou as mãos contra os ouvidos.

— Um. . . um eu entreguei a vocês. — E agora ela também gritava e seus olhos negros pareciam querer saltar das órbitas. — Matem-no! — berrou. - Por que vocês não o matam?! Ele vive ainda, suas gralhas cegas, suas mise­ráveis trapalhonas! O que vão pensar de vocês?! Ele ainda vive. . .

— Levem-na para fora — ordenou Lida Iljanova e acenou para Marian­ka e Vanda. — Segui-las-ei logo. O que ainda tem de ser feito, eu assumo.

Marianka e Vanda ajudaram Schanna a se erguei e a apoiaram. Ela esta­va muito fraca, mal podia andar; no entanto, suficientemente forte para dar dois passos em direção a Ploetzerenke. Fitou-o silenciosamente — o rosto amarelo, que se tornava cada vez menor, a espuma de sangue na boca e no pescoço, o peito manchado de sangue, com os dois buracos das balas que o tinham atingido. Os pés de Ploetzerenke tremiam, os calcanhares batiam no chão. Ele sentia que internamente queimava e morria gelado. Agora o seu olhar havia deixado Ursbach e descobriu Schanna. Fitaram-se durante segundos e depois o rosto de Ploetzerenke abriu-se em uma careta grotesca, que não era outra coisa senão um sorriso feliz, com o qual Fritz se despedia de Schanna.

Ela está de pé. . . ela vive. . . ela veio para mim! Schanna, isto é lindo. . .  você me advertiu um instante tarde demais. Mas você também não sabia que elas viriam. Obrigado, Schanna. . . O que irão fazer com você agora?

Ela o fitou em silêncio. Seus olhos o cumprimentavam, até pediam perdão. Depois apoiou-se em Marianka e se virou.

— Vamos... — chamou. — Foi você que o atingiu?

— Um tiro foi de Lida, o outro meu.

— Você sempre o quis ter, o “touro”! Agora você o pegou...

Elas arrastaram Schanna para a porta, pararam um instante, espiaram para fora, para detectar algum perigo, e depois saíram do celeiro. A noite era quente e calma, ninguém aparentemente ouvira os dois tiros. Vanda se apoiou na parede. Em uma construção vizinha os gansos grasnavam.

— Vamos esperar Lida?

— Ela virá logo.

— Ela irá liquidar o médico?

— Nós o ouviremos. — Marianka segurou Schanna, cujas pernas cediam. — Você não consegue mais andar, Schanna?

— Não.

— Nós iremos arrastar você para o rio em um cobertor. . . — Marianka deixou que Schanna escorregasse para o chão. Schanna começou a bater com os dentes de tanta dor. — O alemão ia operar você?

— Ia, sim.

— Isto Galina Ruslanovna também sabe fazer! Fique tranqüila, Schannanka, agora você está salva.

No celeiro, Lida estava ao lado de Ursbach e observava-o aplicar uma in­jeção em Ploetzerenke. Nesse instante o médico percebeu as longas pernas nuas, até a calcinha estreita, sobre as quais começava a blusa do uniforme. O triângulo preto de Lida aparecia nitidamente através da calça fina e estreita. Segurava a carabina apertada de encontro às coxas brancas.

— Você ainda pode ajudá-lo? — perguntou Lida. Djanovna.

— Não. Aliás, sim. . . Eu agora posso ajudá-lo a morrer sem dores.

— Você o dopará?

— Farei com que seu coração ensangüentado adormeça. — Ursbach retirou a agulha da injeção da veia do braço de Ploetzerenke e colocou a seringa ao lado. — Só mais alguns minutos. . .

— E depois?

— Depois? Depois você pode me matar! Vocês matam qualquer um que esteja na frente de vocês!

Ploetzerenke se tranqüilizava. A injeção surtia efeito. Já não sentia dores, o frio gélido passara, tudo se tornou leve e maravilhosamente em paz. Virou a cabeça para Ursbach e o fitou agradecido. Depois seu olhar caiu sobre as pernas nuas de Lida Djanova e novamente um esgar passou pelo seu rosto, através da espuma sangrenta. Antes de ficar inconsciente e passar para a eternidade, ainda percebeu a estreita calcinha de Lida — esta foi a última impressão que se gravou em seu cérebro, antes de cair na maciez da escuridão.

Lida se ajoelhou ao lado de Ursbach, comprimiu um monte de palha com as mãos e limpou a espuma da boca de Ploetzerenke. As bolhas vermelhas não voltaram, não se sentia mais a respiração.

— Ele está morto — disse ela e com a palma da mão fechou as pálpebras de Ploetzerenke. — Ele prendeu Schanna?

— Sim. E cuidou dela. Escondeu-a, porque sabia que não sobreviveria se a SD se apoderasse dela.

— E você ainda diz que nós todas matamos? —Pôs a carabina no chão, a seu lado, e olhou em redor. Onde Schanna estivera sentada, os instrumentos cirúrgicos se encontravam ainda sobre a toalha branca. Ursbach olhou de esguelha para a carabina. Poderia segurá-la com um só movimento. Provocadoramente, esticou a mão e a pôs sobre o fecho da espingarda, Lida não o impediu. Não se mexeu, apenas o mirou com um olhar longo, inquisitivo.

— Você não tem medo? — perguntou ele.

— De você, não. Quanto ao resto. . . Oh, sim, tenho medo. Nós não seríamos seres humanos, se não tivéssemos medo.

— E que tipo de seres humanos vocês são?

— Moças que amam sua pátria. Que odeiam vocês, fascistas, porque in­vadiram nosso país. O que vocês querem aqui? Por que você está aqui, em um povoado do Donez e não em algum hospital na Alemanha? O que faria você, se eu estivesse diante de você em Berlim?

— Tentarei imaginar. Estamos em paz. . .

— Não! Em guerra!

— Estamos em tempos de paz e você entra. . . Um verão como este. O vento quente ainda agita os seus cabelos. Você usa um vestido fino, florido e sorri; está na minha frente e diz: “Aqui estou eu! E agora?!” E eu não respondo, mas a acolho em meus braços e a beijo. . .

— Paz! — O rosto lindo, oval, não demonstrava emoção alguma; o seu olhar desviou-se dele. — Mas estamos em guerra! Nós nos odiamos! Nós temos de nos matar! — Ela retirou a mão do médico da carabina e puxou-a para si. — Dentro de um ano eu seria dentista, mas aí vocês vieram. . .

Ursbach curvou-se sobre Ploetzerenke, pôs a camisa rasgada, ensangüen­tada, sobre a cabeça de Fritz e se levantou. Também Lida se ergueu; ela tinha quase a mesma altura de Ursbach. Andou diante dele silenciosamente, com suas meias grossas, um andar leve e quase a voar, e ele a fitou como se fosse um milagre que se tivesse tornado um corpo. Na porta ela parou e se virou novamente.

— Entre vocês existe algum que usa uma boina de tricô, quando vai caçar pessoas?

Ursbach hesitou. Devia tratar-se de Hesslich, pensou. Uma boina de tricô pertence a seu equipamento, eu a vi.

— Sim — respondeu cautelosamente. — O que há com ele?

— Você pode adverti-lo. Todas nós o odiamos, especialmente Stella Antonovna!

— Quem é Stella Antonovna? Você?

— Não, eu sou Lida Djanovna.

— Lida. — Ursbach curvou-se ligeiramente. — Meu nome é Helge Urs­bach.

— E a quem isto interessa? — respondeu Lida, fria e defensivamente, mas seus olhos azuis demonstravam que, na realidade, ela queria dizer coisa bem diferente.

— O que há com essa Stella?

— Ela é a melhor fuzileira da União Soviética. E jurou vencer essa boina de tricô.

— Eu darei o recado a ele. — Ursbach aproximou-se um pouco de Lida. — Cara linda colega da medicina dentária.. .

— Pare! — a voz de Lida, apesar da dureza, soava insegura e trêmula. Ela levantou a carabina e visou a barriga de Ursbach. — Pare imediatamente! Stoj!

— Você não vai atirar.

— E como é que você tem tanta certeza disso, hein?

— Os seus olhos mo dizem. . .

O rosto de Lida ficou rígido e sem expressão. Só os lábios se moviam, quase imperceptivelmente.

— Você me ameaça. Também. . . Nós também matamos médicos, quando estes nos ameaçam. . .

Ursbach sentou-se próximo a ela, empurrou o cano da carabina para o lado, com uma mão, e com a outra acariciou-lhe os cabelos e a face. Sentiu como os músculos dela se retesavam. Ela parecia enrijecer. Os lábios estavam fortemente comprimidos mas seus olhos brilhavam. A mão espalmada de Urs­bach passeava novamente sobre o rosto, desenhava os contornos de seus olhos, nariz, boca e queixo. Parou à altura do pescoço; não teve coragem de palmilhar o caminho até os seios. Quando ele retirou a mão, ela expirou o ar, que sustara, em golpes sucessivos. Suas narinas tremiam.

— Fritz Ploetzerenke — Ursbach apontou para trás com o polegar, por cima do ombro. — Fritz Ploetzerenke realmente amou Schanna. A seu modo, naturalmente. Fez por ela tudo que era humanamente possível, e agora até deu sua vida por ela. Schanna deve ter pensado de forma totalmente diferente. Era uma prisioneira que ele maltratou. O mundo que nos cerca está totalmente maluco e desequilibrado. Nós todos somos só vítimas, nada mais. Mas por que nos queixamos? Afinal de contas, compartilhamos esta loucura. Vemos sangue e ruínas, fogo e caos, e milhões de pessoas, do seu lado e do meu, morreram e ainda irão morrer, sem que perguntemos: por quê?!

— Nós sabemos por quê! Nós morremos para salvar nossa pátria! — A voz de Lida saiu abafada, os lábios mal se moviam.

— Fechemos os olhos por um único minuto e sejamos apenas nós mesmos. . . duas pessoas singulares, afastadas de qualquer realidade.

— Por quê? O que é um minuto?

— Feche os olhos, Lida. . .

— Não!

— Por favor. . .

— O que você quer? Eu não confio em você. . .

— Feche os olhos e pense: é verão em Moscou. Eu estou deitado às mar­gens da Moskva, o sol está quente, a água bate de leve na beira do rio, um bo­te branco de turismo passa ao longe, ouve-se música, canções alegres, e nos avassala uma imensa saudade, de abraços, de amor, de realização, de felici­dade. . . E eu também fecho os olhos e penso: estou deitado na areia azul-dourada, fina como poeira, do Lago Ost. . . O mar brilha azul sob o céu sem nu­vens. Sobre os castelos de areia e as cestas oscilam bandeirinhas, as crianças brincam na água rasa. E aí estendo a mão e sinto você, seus cabelos, a pele lisa, as curvas do seu corpo e a felicidade me empolga de tal maneira que eu não quero mais abrir os olhos e sim permanecer neste estado flutuante. Va­mos tentá-lo, Lida?

Lida ficou rígida, como uma estátua talhada em pedra, toda defesa, do topo da cabeça até as plantas dos pés. Mas fechou os olhos e era linda de se ver. Apenas as narinas vibravam no rosto rígido. Ursbach segurou a cabeça de Lida com ambas as mãos e a beijou. Ainda assim ela não se moveu, os lábios continuaram comprimidos, as mãos segurando a carabina.

Foi um beijo longo, Ursbach sentia o calor dos lábios de Lida, a proximidade de seu corpo, a respiração ofegante, que tocava seu rosto. Depois a soltou e baixou os braços.

Neste mesmo momento Lida encostou a carabina contra si com uma das mãos e com a outra bateu na cabeça de Ursbach. Soava como uma toalha mo­lhada, que era golpeada contra um pedaço de madeira.

— Fascista! — exclamou quase inaudivelmente. — Oh, seu maldito fas­cista! Você quer ser feliz?! Você merece ir para o inferno, como todos os ou­tros alemães! Maldito seja!

Virou-se bruscamente, abriu a porta de sopetão e atirou-se para fora. Lá esbarrou com Vanda, que protegia a porta e observava o terreno. Marianka co­locara o braço em volta da nuca de Schanna e assim a protegia, para que não caísse.

— Eu não ouvi nada — disse Vanda baixinho. — Ele ainda vive?

— Um médico. . .

— Um alemão. Espere, eu dou um jeito nisso. . .

Vanda tentou voltar ao celeiro mas Lida a segurou pela blusa. Seus olhos brilhavam, seu corpo tremia de excitação.

— Eu decidi que ele viverá. . . pelo menos por hoje! — respondeu aspera­mente. — Não se oponha! Quem está no comando hoje à noite?! Ele quis ou não ajudar Schanna? Vamos para o rio! Nós temos de atravessar depressa

— Soja Valentinovna ordenou que qualquer pessoa que nos visse teria de morrer!

— Eu assumo a responsabilidade! — Empurrou Vanda para o lado e diri­giu-se para onde estavam Marianka e Schanna. — Voltaremos pelo mesmo ca­minho. Rápido.

— Schanninka não consegue andar — disse Marianka, amparando a mo­ça quase inconsciente.

— Bem, colocá-la-emos em um cobertor! Vanda. . . vá na frente para o rio e nos proteja. Eu vou buscar um saco.

Lida voltou correndo para o celeiro, bateu a porta atrás de si e levan­tou a carabina. Ursbach estava ajoelhado ao lado do morto, procurando ves­ti-lo com o paletó do uniforme.

— Preciso de um cobertor ou de um saco. Qualquer coisa sobre a qual possamos colocar Schanna — disse ela asperamente. Com três passos estavam juntos ao local onde Schanna estivera deitada e pegou um dos cobertores que Ploetzerenke trouxera. — Por que você não deu nenhum alarme?

— Vocês estão transportando um ferido. Isto é um ato de humanidade.

— Eu matei este aí. — Ela apontou para Ploetzerenke. — Um dos tiros foi meu.

— Estamos em guerra. Algum dia um de nós matará você também!

— E você vai ficar feliz com isso, não?

— Ficarei muito triste. — Ele se manteve ajoelhado, quando ela se apro­ximou e se plantou na sua frente. As longas pernas nuas, a calcinha estreita, o triângulo escuro que transparecia sob o tecido fino, em cima a blusa do uni­forme cor de terra, o cinturão com as bolsas de cartuchos e o fuzil com o telescópio de mira ao lado da coxa direita branca. . . Ursbach novamente tomou consciência do absurdo da situação.

Ela o empurrou, duramente, com a coronha e ordenou:

— Levante-se!

Ele obedeceu. Mas mal se punha de pé diante dela, Lida o agarrou com a mão esquerda pelos cabelos e apertou seus lábios contra a boca de Ursbach. Foram só alguns segundos, mas o momento era suficiente para que ele pudesse perceber que ela abrira os lábios e empurrava a ponta da língua contra seus dentes. Com um golpe o empurrou, então, de encontro a uma viga.

— Seu cachorro! — disse rouca. — Seu porco fascista! Por causa disto cinco de seu grupo terão de morrer, não o esqueça!

Jogou o cobertor no ombro e correu novamente para fora.

Lá, Vanda já correra para o rio e protegia a retirada. Marianka e Lida puseram Schanna sobre o cobertor e a puxaram pela estepe, em direção à mar­gem. Quando passava sobre qualquer aspereza do terreno Schanna gemia, con­trolada, ou rangia os dentes de causar pena.

Na metade do caminho Lida se virou e olhou para trás.

Na porta do celeiro distinguia, com dificuldade, uma sombra alta e esguia. Levantou o braço por um momento e acenou. Ela não queria fazê-lo mas o impulso interno, que dominava qualquer vontade, era mais forte. Para Ma­rianka, parecia apenas que Lida tinha mudado a mão com que segurava a pon­ta do cobertor.

Helge Ursbach, pensava Lida Djanovna. Um médico alemão. Adeus. . . não, morra em paz. . . Você é do tipo que a guerra não poupa. Foi um minuto lindo, a minha margem do Moskva e o seu Lago Ost no verão. Como você po­deria saber que eu nunca havia tocado um homem com minha língua. . .

Arrastaram Schanna para a água e a puseram na ilha artificial entre os arbustos lá colocados. Depois se despiram novamente, entraram no rio como grandes peixes brancos, cintilantes, e nadando empurraram a jangada para a outra margem.

A correnteza estava fraca. O rio, que se transformara em uma torrente arrebatadora, borbulhante, que mordia a vegetação das margens, depois da neve se desfazer, agora corria lentamente em seu leito de areia. A jangada só derivou um pouco e parou em uma enseada, um pouco abaixo do povoado destruído, onde a água já era tão rasa, que as moças tocavam o fundo com suas barrigas. Mas só à sombra da pequena encosta saíram da água.

Mesmo assim foram observadas por Uwe Dallmann, bem seguro no seu esconderijo. Ele estava sozinho — Hesslich fora convocado pelo regimento — e observara a margem soviética até a meia-noite. Depois de ter telefonado para o Alferes Stattstetten e de ter obtido dele a notícia de que três sentinelas da Quarta Companhia estavam lá fora, no terreno, foi dormir.

Acordou por volta das 3:00, impelido pela sua bexiga cheia. Fazer pipi a essa hora fazia parte do seu ritmo de vida. Saiu para o jardim, encostou-se em uma cerejeira estropiada e bocejou alto, ao urinar.

Nesse lugar, perto da cerejeira, era fácil observar a margem soviética. Ali a estepe era plana como uma mesa, sem proteção alguma. Dallmann espiou a jangada-ilha, que descia pelo rio em direção à margem oposta. E, com imenso espanto, viu, subitamente, três moças nuas, assim como Afrodite, gerada pela espuma do mar, subirem as margens do Donez.

Segurando entre o polegar e o indicador o pênis ainda molhado de urina, ele deu um passo em volta da cerejeira e fitou as mulheres nuas. A luz era demasiado fraca e a distância excessivamente grande para permitir perceber todas as minúcias, mas seios, abdomens, coxas eram perfeitamente reconhecíveis. . . Agora duas das moças se curvaram, mostrando-lhe as bundas, e puxaram seus uniformes e carabinas da ilha. Dallmann via exatamente quatro nádegas brancas, aprazíveis.

— Oh, minha vovozinha! — exclamou, emocionado. — Isto depois de meio ano sem folga! Deus do céu, que mulheres!

Ele deu meia-volta, correu para a casa, buscou o binóculo e a carabina e correu, sem ao menos fechar as calças, em direção à cerejeira. Com o binóculo viu-as mais de perto. . . duas das moças já tinham posto o uniforme e arrastavam um vulto encosta acima. A terceira moça — tratava-se de Vanda Alexandrovna — ainda mexia, nua, na ilha, amarrando-a depois à margem e pulando várias vezes de um lado para o outro. Os seus seios cheios, redondos, balançavam como sinos laqueados de branco.

Dallmann suspirou fundo e manteve Vanda à vista, até que ela também se vestiu, pegou a carabina do chão e olhou na direção de Uwe, naturalmente sem poder vê-lo. Era um olhar de espreita. Dallmann podia reconhecê-lo perfeitamente.

Só neste momento percebeu que fora testemunha de uma ação soviéti­ca contra seus camaradas. Quatro fuzileiras retornavam de uma emboscada no lado alemão, exatamente como Peter Hesslich com suas saídas em uma jangada camuflada de ilha. Deveria ter havido, apesar de ele não ter escutado nada, um encontro com o inimigo, pois uma das moças estava ferida e era car­regada.

Dallmann pegou novamente a carabina. Sua respiração quase parava com a idéia de que deveria ter havido mortes. Agora já conheciam esse adversário implacável: se três fuzileiras conseguiam atravessar o rio impunemente, transportando uma ferida, então deveriam ter deixado mortos atrás de si.

Os cabelos da nuca de Dallmann arrepiaram-se como os de um cachorro que levou um pontapé. Puxou a carabina para cima, visou Vanda Alexandrov­na, mas nesse exato momento a moça desapareceu entre os arbustos da mar­gem. Suas costas eram como uma mancha que se dissolve nos ramos.

Dallmann deixou cair a arma, voltou cabisbaixo para a casa e hesitou muito antes de ligar para o abrigo de comando. Um suboficial sonolento apre­sentou-se.

— Seu buraco de cu! — berrou, ao reconhecer o nome de Dallmann. — Não assuste a gente assim. O que é que há?

— Nada. E com vocês?

— Houve explosões no abrigo VI. . .

— Como? — disse Dallmann, sustando a respiração.

— O cabo Putlang peidou quatro vezes! Só especialistas conseguem dis­tinguir isto de um lançador de granadas.

— Idiota! Nenhum evento?

— Dezenove homens estão ocupados em sustentar o teto com um cabo de tenda. . . sonham com Eeerika. . .

Dallmann desligou. Tudo calmo, tudo tranqüilo, nada de luta, nenhum morto. De onde tinham vindo as moças? E a ferida, onde fora atingida? Pegou novamente a carabina, saiu e se esgueirou para a margem do Donez. Lá ele se jogou entre os arbustos e passou a perscrutar o lado soviético com o binóculo.

Nada havia para ver, nada se movia na escuridão. Dallmann sabia que as sentinelas das fuzileiras estavam nas ruínas do povoado.

Decidiu não comentar suas observações. Calar a boca é uma das melhores medidas de autodefesa do soldado. Quem nada sabe não pode responder a pergunta alguma. A burrice é plenamente reconhecida mas a inteligência provoca desconfiança; no Exército é assim mesmo. A sabedoria dos três macacos — não falar, não escutar, não ver — deve ser sempre seguida por um soldado.

Dallmann engatinhou de volta para a casa. Não conseguiu adormecer novamente. O que teria feito Hesslich em meu lugar, pensava, incessantemen­te. Teria atirado nas lindas nádegas nuas? Poderia ter visado os seios maravi­lhosos? Merda, eu gostaria de saber se ele realmente é um filho da puta tão gélido!

Peter Hesslich só retornou ao povoado por volta do meio-dia. Aí Dall­mann já tomara conhecimento do que ocorrera. A companhia telefonara para ele, e Dallmann, obedecendo ao que se determinara fazer, bancou o bobo. Bauer III o xingou de maior dorminhoco do Exército e Uwe engoliu a ofen­sa. Poderia ter sido pior.

— Ploetzerenke morreu! — exclamou Hesslich, jogando uma garrafa de conhaque, que trouxera do regimento, para Dallmann.

— Eu sei. — Dallmann não levantou os olhos. Não lhe era possível, nes­te momento, fitar Hesslich. — Mas ninguém percebeu ou ouviu coisa nenhu­ma. Por volta das 3:00 eu telefonei para o oficial de plantão mas ele só conse­guiu me dizer porcarias!

— Dois tiros num pulmão! Acharam-no em um celeiro na área dos pio­neiros.

— Ah! Então foi por causa disso. . .

— Mesmo lá não escutaram nada! — Hesslich sentou-se em uma c dei­ra remendada e acendeu o cachimbo. — Tudo isso é muito estranho.

— O quê? — Dallmann pegou a garrafa e engoliu o conhaque como se fosse limonada.

— O que será que Ploetzerenke estava fazendo no domínio dos pioneiros? O que queria ele na casa? Ainda mais, no meio da noite. Encontraram restos de comida, só isso. Mas os restos demonstram que Ploetzerenke costumava ir lá freqüentemente. Por quê?! E mais um enigma: o médico auxiliar Ursbach, que o examinou imediatamente, afirma que Ploetzerenke recebeu, antes de morrer, uma injeção. Mas isto é delírio: alguém o mata e ainda lhe dá uma injeção para minorar as dores! Absolutamente inacreditável! Mas Ursbach des­cobriu uma marca fresca de injeção na veia do braço.

— E. . . quem encontrou Ploetzerenke?

— Os pioneiros. Ele estava deitado na palha, vestido com o casaco do uniforme e a camisa rasgada sobre o rosto. Mais maluca a coisa não pode ser . . . Levaram-no imediatamente para a Quarta Companhia e acordaram o médico, que por acaso estava na trincheira.

Dallmann tomou mais um gole prolongado e fechou a garrafa.

— Eu sei em que você está pensando, Peter — disse com voz rouca. — Nas fuzileiras. . .

— Só em uma! Só uma é capaz de uma coisa destas. — Hesslich fitava o chão de madeira. — Eu a vi. . .

— O quê? — Dallmann curvou-se para a frente. — Quando?. . .

— Ela é loura, muito bonita, estatura mediana, olhos redondos, nariz reto, boca estreita, queixo redondo. Eu tinha o seu olhar no reticulado.

— E aí você fraquejou e a deixou escapulir. . .

— Não, eu cheguei dois segundos atrasado.

— Porque ficou tempo demais olhando para ela.

— É possível que tenha sido isso. . . — Hesslich bateu com um punho contra a outro. — Acredito que ela possa ter surpreendido Ploetzerenke e depois ainda cuidado dele. Gostaria de me encontrar uma vez com ela, a sós.

— E se você de novo chegar dois segundos atrasado?

— Isto é risco e azar meu.

— Mas você a mataria?!

— Sim!

O sim foi duro e claro e tornara desnecessárias quaisquer outras pergun­tas. Dallmann levantou os ombros, como se sentisse calafrios. Agora sei, pensou. Teria atirado até nas mulheres nuas. Nem teria visto seus seios e coxas, mas apenas o alvo a atingir. Ele é uma fera fria, totalmente diferente do tem­po de treinamento em Posen. Lá todos pensávamos que iria começar a chorar depois de cada tiro que acertava em uma cabeça. E, no entanto, tratava-se so­mente de camaradas de papelão e bonecas de palha.

— Amanhã Ploetzerenke será enterrado — falou Hesslich, com voz abafada. — Estaremos presentes quando derem a salva de tiros.

— Isto é necessário? — Dallmann olhava para a parede em frente.

— Sim. Precisamos finalmente aprender a esquecer nossos sentimentos ao atirar. E isto será mais fácil se virmos as sepulturas abertas de nossos cama­radas.

Na posição soviética Galina Ruslanovna recebeu a pequena tropa. Reco­nheceu o estado alarmante da ferida no ombro de Schanna e imediatamente mandou transportá-la para o abrigo de enfermagem. Como o fizera Ursbach, preparou, sem hesitar, a operação.

Entrementes Marianka foi ver Bajda para dar-lhe a noticia de que tinham retornado. Quando Marianka bateu discretamente, Soja Valentinovna veio à porta, vestida em um roupão cor de vinho, que pertencia a Ugarov.

— Êxito completo, camarada! — exclamou Marianka, rindo gostosamen­te. — O touro morreu!

— E Schanna Ivanovna?

— Estava prisioneira dos alemães! Nós a trouxemos de volta.

— Prisioneira? — Bajda parecia cuspir a palavra. — Trazer de volta! Por que vocês não a perderam no meio do caminho? Teria sido melhor para ela.

Bateu a porta e voltou para a cama. Ugarov levantou a cabeça. Bajda tirou o roupão e se deitou nua sobre a colcha.

— O que há, minha pombinha? — perguntou Victor Ivanovitsch.

— Schanna está de volta! Ela viveu entre os fascistas! — Soja Valentinov­na encolheu as pernas, como se estivesse sofrendo de cólicas violentas. — Me diga como é que posso continuar vivendo com tal desonra. . .

A morte de Ploetzerenke permaneceu oculta em denso mistério. Ninguém conseguia explicá-la — e Dallmann continuou calado. Especulações estranhas circulavam no batalhão. Por exemplo, diziam que Ploetzerenke e um camara­da ainda incógnito costumavam encontrar-se às escondidas, no celeiro em ruí­nas, para poder entregar-se, sem serem perturbados, a jogos de azar. Só agora descobriram que Ploetzerenke era um artista no jogo de cartas, um daqueles tipos que em tempos d’antanho seria enforcado ou morto a tiros no Faroeste; portanto, um trapaceador altamente hábil, que conseguia arranjar seis ases, sem que ninguém o percebesse. Poderia ter sido possível — esse era o boato — que subitamente eclodira uma luta entre Ploetzerenke e seu parceiro, com um desfecho mortal. Ploetzerenke deveria ter sido surpreendido, já que não havia sinais de defesa. E neste momento o artilheiro vira Ploetzerenke, banhado em sangue, deitado no chão, e se deu conta do que fizera em um ataque de raiva. Procurou ajudá-lo e, ao ver que todas as tentativas de salvação eram inefica­zes, lhe deu uma injeção para proporcionar-lhe uma morte sem dor.

Pelo menos aqui essa versão se transformava novamente em uma farsa: quem possui uma seringa de injeção?! Afinal de contas, nem mesmo os enfer­meiros, só os médicos nos abrigos de feridos e nos hospitais de campanha. Que o jogador e homicida tivesse vindo de lá, era totalmente inverossímil.

O médico auxiliar Ursbach, que chefiava a investigação por ordem do batalhão e posteriormente na presença do médico do regimento, fora forçado a ouvir, em particular, que ele ainda era muito jovem e teria de aprender muito para poder lidar com situações críticas dessa natureza.

— Cale a boca e constate morte heróica! — ordenou o médico-chefe do regimento. — É assim que a gente faz, jovem colega! De que lhe adianta agora a sua honestidade? Só trabalho e aborrecimentos e uma papelada idio­ta! O pobre Ploetzerenke não vai para o túmulo dos heróis, um grupo de pes­soas se ocupa do problema, e cada um pensa, sem expressá-lo abertamente: mas se esse médico pelo menos tivesse calado a boca! Milhares podem mor­rer em um dia, isto é normal e a gente registra. Mas com um caso de morte não-explicada o diabo da burocracia está à solta. Diga-me, Ursbach, o senhor não poderia ter deixado de ver essa injeção?

— Eu pensei. . . — Ursbach engoliu várias vezes em seco, o que o médico do regimento interpretou como embaraço — a verdade. . .

- A verdade é: o cabo Ploetzerenke, Fritz, morreu pela pátria e pelo Fuehrer, com dois tiros no pulmão! Por acaso isto não corresponde à verda­de? Então! E agora, o que fazemos com ele?

— Enterramo-lo com todas as honras militares.

— E quem o matou, afinal de contas?

— Uma tropa de choque soviética. . .?

— Que ninguém viu nem ouviu? Isto nenhum chefe de companhia acei­ta. Isto arranha a honra do Exército. E como é que o senhor irá explicar que uma tropa de choque aplica uma injeção em Ploetzerenke e lhe põe a camisa sobre o rosto?!

— Como podemos explicar uma coisa assim, Sr. médico-chefe?

— Pois é! Agora temos uma linda merda na sola do sapato. . . Uwe Dallmann escutava tudo — e não dizia nada.

Algumas vezes começava a revelar o segredo a Hesslich, com um aperto de mão para obrigá-lo a nada dizer, por seu lado; mas depois desistia de fazê-lo. Simplesmente estava com medo. Não tinha certeza absoluta da reação de Hesslich, quando soubesse a verdade. Apesar de se conhecerem há tanto tempo, Hesslich ainda era, para Uwe, um enigma. Um homem que vai ao tea­tro e assiste a óperas, ao invés de freqüentar um bordel, mesmo sabendo que será enviado a um comando suicida; um homem que não é capaz de dar um golpe na nuca de um coelho mas faz a tiros, com absoluta precisão, buracos em testas humanas. Tudo isto, Dallmann o sentia obscuramente, não combi­nava.

Ploetzerenke foi enterrado em um jardim ao lado do posto de comando do batalhão. Uma cruz de bétula, com o capacete de aço nela pendurado, for­mava uma lápide singela mas bonita. Bauer III pronunciou a oração fúnebre. Doze homens, entre eles quatro artilheiros, deram a última salva de tiros. Um pouco afastado, com as mãos em forma de prece e um rosto muito sério, estava o médico auxiliar Ursbach.

Isto foi tudo que eu pude fazer por você, Ploetzerenke, pensava. Jamais alguém irá saber que filho da mãe você era. E. . . apesar de tudo. . . quão humano. O seu segredo ficará no túmulo com você para sempre, porque ficarei calado. Como eles teriam reagido, se tivessem descoberto a verdade nua e crua? Com toda certeza não com um enterro destes. Jamais com toda a honra, que fez de você, agora, um herói.

Depois do enterro o médico-chefe do regimento chamou o seu jovem colega Ursbach.

— Isto conseguimos — disse secamente. — O comandante queria virar a mesa. Uma salva de tiros para um trapaceador no jogo! Quase teve um ataque histérico. Mas depois eu lhe mostrei algo que o senhor não percebeu, caro Urs­bach: as balas mortíferas. Eu as retirei do pulmão, mediante uma operação.

— Elas estavam no corpo? — Ursbach fitava o médico-chefe, com uma sur­presa que revelava sua incapacidade de acreditar no que estava ouvindo. — Co­mo foi possível? Afinal de contas, nós vimos os horríveis buracos de saída, do tamanho de punhos. . .

— Aí aconteceu uma coisa de louco! — O médico do regimento ria, comedidamente. — Os dois tiros devem ter sido dados quase à queima-roupa. Pe­netraram no tórax de Ploetzerenke, saíram por trás, provavelmente ricochetearam no chão e feito um bumerangue novamente penetraram no corpo de Ploetzerenke. Afinal de contas, balas podem ricochetear. Os dois grandes buracos eram ao mesmo tempo entrada das balas que tocaram o chão e retornaram. Fenomenal, não?! Portanto, pude mostrar as balas. Indubitavelmente trata-se de projéteis soviéticos! O que o senhor me diz agora?

— Nada.

— Pois é, o comandante também não sabia o que dizer, e por isso aceitou que fizéssemos de Ploetzerenke um herói. Contudo, a coisa ficou preta para os chefes de companhia, lá na frente: Ploetzerenke foi morto a tiros pelos soviéticos, e ninguém viu ou ouviu coisa alguma! Isto ainda vai dar um lin­do carnaval.

Ursbach acenou, calado, e voltou para o cassino do batalhão, onde o esperavam com vinho e charutos. Nesses dias vivia-se bem na frente. . . Em Charkov, um oficial o contara, houvera um jantar com 26 pratos, com conhaque do Cáucaso, champanha francês, vinho doce da Grusinia e um bale de voluntários em uniformes da Tscherkessia. A coisa era absolutamente verossí­mil, pois o oficial até trouxera fotografias desse “jantar”.

Dallmann, que procurava seu amigo Hesslich, achou-o junto ao túmulo de Ploetzerenke. Hesslich se postara diante do capacete de aço pendurado na cruz de bétula e fitava o pequeno monte de terra.

— Peter, venha! — exclamou Dallmann um tanto grosseiramente. — Afi­nal de contas, ele não foi um grande amigo seu.

— Descobri que encontraram nele balas soviéticas.

— E daí? — Dallmann mordia o lábio inferior.

— Portanto, elas estiveram aqui e ninguém as viu! — Fitava o túmulo ri­gidamente. — Se pudéssemos perguntar a ele. . . Afinal de contas, não estava sozinho no celeiro! De noite! Ploetzerenke, sozinho? Não, ele era um homem gregário, sempre necessitava de gente a sua volta. Não era do tipo que se isola. Para quê? Para que dormir sozinho em um celeiro, se nos abrigos os jogadores de skat o aguardam? Isto não casa. E se ele não estava sozinho, onde estão os outros? Por que se escondem? Não falta ninguém. Ninguém foi seqüestrado pelas mulheres, como naquela vez em Tschjertkovo. E se as moças estiveram aqui, é absolutamente fora de questão que só tenham matado Ploetzerenke e deixado os outros fugir! Seus livros de marcas de tiros são bíblias. . . — Hess­lich fitou Dallmann pensativamente. — O que realmente aconteceu, Uwe?

— Por acaso eu sou Hanussen, o profeta? Além disso ninguém exige de você que deslinde este enigma. . .

— A mim preocupa o silêncio horripilante em que tudo aconteceu. Isto mostra que elas também podem nos surpreender.

— Olhe, agora nós vamos primeiro à cozinha de campanha e comeremos até ficarmos redondos como uma bola! — convidou Dallmann, com uma ale­gria forçada. — Tem Gulasch com massa. E depois um pudim Wackelpter. Quando uma coisa redonda dessas está diante de mim, no prato, a tremer, sempre penso em uma teta de vaca. . .

Hesslich deixou Dallmann plantado diante do túmulo e foi embora. Dall­mann encheu as bochechas de ar, disse, baixinho: “Uff!” e o seguiu manten­do certa distância.

Schanna foi operada. Galina Ruslanovna fizera exatamente o que Ursbach pretendera fazer — aumentar o canal da ferida, retalhá-lo, e limpá-lo cuidado­samente com uma solução que deveria combater a infecção. Dera a Schanna uma injeção contra a febre alta e o tétano. Mais não era possível fazer agora — pelo menos não ali, na frente, na trincheira.

Nos Estados Unidos da América estavam fabricando um remédio milagroso, do qual se esperava que, por força do auxilio militar americano, cedo também chegaria à Rússia. Seu nome era penicilina. Parecia que se fundamen­tava em um cogumelo mofado, com a propriedade de devorar e digerir, sem problemas, as bactérias. Em algumas conferências esse medicamento milagro­so fora apresentado, dessa forma simplificada, a médicos do Exército. Galina também recebera, entrementes, um relatório científico, que prometia curas realmente miraculosas. Mas a penicilina ainda não chegara ao Donez e, portan­to, não poderia salvar Schanna.

De manhã cedo.Bajda apareceu, totalmente uniformizada, no abrigo da enfermagem. Schanna ainda estava profundamente anestesiada. Opalinskaja acabara de lavar as mãos e os braços e estava vestindo o avental branco. O rosto de Schanna estava magro e parecia assustadoramente infantil — uma cabecinha de boneca rodeada de cabelos pretos. Sua expressão já era de um desligamento sereno da terra.

Bajda aproximou-se do leito, curvou-se sobre o corpo magro e o fitou longamente. Galina Ruslanovna, que, no fundo do abrigo, fazia chocalhar uma chaleira e cozinhava um chá depois da noite trabalhosa, não a interrompeu, Lida Iljanovna, que ajudara a médica com a operação, caíra, fatigada, em um catre; dormia e nem acordou com o aparecimento súbito e barulhento de Soja Valentinovna. Uma enfermeira estava ocupada em esterilizar os instrumentos cirúrgicos que tinham sido usados na operação.

— Ela disse alguma coisa? — perguntou Bajda, repentinamente e com voz dura.

Galina esmigalhava um pedaço de chá compacto e o jogava na chaleira.

— Não. Está fraca demais para isso.

— Como está ela?

— Péssima. Precisa ir, urgentemente, para o hospital.

— Você sabe que isto é impossível! — A Bajda endireitou o corpo, sen­tou-se em um canto do catre, no qual Lida dormia, e apertou as mãos entre os joelhos. — Não temos, entre nós, uma ferida chamada Schanna Ivanovna.

— Poderíamos dar uma explicação. . .

— Eu não dou explicações, só faço relatórios claros! — Olhou novamen­te para Schanna e empurrou o lábio inferior para a frente. — Será que agora já sabem algo de mais seguro desse seu aprisionamento maldito?

— O soldado fascita, que Marianka apelida de “touro”, manteve Schanna escondida durante seis dias. Lida e Marianka o liquidaram.

— Ela. . . ela foi sua puta? Mal consigo pronunciar isto. . .

— Isso não sabemos. — Galina jogou água fervendo sobre o chá. Este ti­nha de ser preparado da forma mais simples possível. Na linha da frente não existia um samovar, como era de uso geral nos estados-maiores. — Não acredi­taria que ela fizesse algo desse tipo.

— Mas ficou seis dias com ele. . .?

— Ficava mais fraca a cada dia que passava.

— Tão fraca que não poderia dar um jeito sozinha?

— Ela estava esperando que a buscássemos. Afinal de contas, não nos deu um sinal? Em função dessa esperança agüentou tudo. Recebera a ordem de matar 10 alemães. Quando finalmente se deparou com uma oportunidade, conseguiu transmitir sinais. Deveríamos registrar o “touro” em seu livro de tiro, isto seria justo.

— Justo seria formular uma centena de perguntas e emitir uma centena de julgamentos.

— Por quê? — Galina encheu uma xícara com o chá. Apoiou-se na pare­de do abrigo e bebeu em goles pequenos e cuidadosos. — Soja Valentinovna, por que você é tão inflexível? Eu sei, ouvi-o por toda parte. . . você é mais te­mida do que qualquer outro comandante. . .

— Isto me alegra! — Bajda não modificou sua atitude. — Nem pode ser diferente. Afinal de contas, somos a melhor unidade do Exército Vermelho! Graças à nossa disciplina! E ela — Bajda fez um movimento com a cabeça na direção de Schanna — ela me difamou! Era uma das melhores. Ter-se-ia transformado numa Heroína da União Soviética, eu sei disso! Assim, co­mo Stella e Lida se tornarão heroínas. E talvez Marianka e Vanda também. A maioria das heroínas são da minha unidade! Por acaso isto não é um compro­misso, Galina Ruslanovna?

— Por que diz você que Schanna “ter-se-ia” tornado heroína? Ela ainda vive. . . e continuará vivendo, se a levarmos imediatamente a um hospital! Ela não difamou você. Ela não foi covarde, não humilhou você, mas agüentou to­dos os sofrimentos, para nos dar um sinal luminoso! Que mais poderia ter feito?

— Não se deixar aprisionar pelos alemães!

— Isto pode acontecer com qualquer uma de nós. Até com você. . .

— Vocês têm medo de mim. . . e me conhecem tão pouco! Na escola mi­litar de Frunse aprendemos muitas coisas. Lemos poetas alemães, estudamos os melhores estrategistas militares alemães, discutimos a ciência militar alemã. Na época dos czares havia muitos estadistas e generais alemães. E foi aí que encontrei uma frase, de um poeta alemão, que atingiu a minha alma como um raio. Compreendi subitamente por que os alemães sempre venciam, por que eles, apesar de sempre serem inferiores no que diz respeito a recursos mate­riais e humanos, ainda atacavam, mesmo quando uma ofensiva era pura loucu­ra? Atrás de seus oficiais, corriam diretamente para os braços da morte. Por quê? Agora eu o sei. Este poeta alemão. . . seu nome é Walter Flex; natural­mente você não o conhece; afinal de contas quase ninguém o conhece, pois morreu em 1917, na Primeira Guerra Mundial, no combate pela Ilha Oesel. . . dele é a frase: “Ser oficial significava viver e ser um modelo para seus homens . . . morrer diante deles é apenas uma parte deste modelo.” Isto ficou gravado na minha memória, e também me diz respeito. E eu exijo de todas vocês: sa­ber morrer, para que possamos viver! — Olhou novamente Schanna, imóvel, deitada. — Foi por isso que ela me traiu, Galina Ruslanovna: Ela não soube morrer no momento certo. Permaneceu seis dias com um alemão. O que ela ainda vai querer me explicar?

Bajda se levantou, puxou o casaco do uniforme, para que ficasse, bem reto, e saiu do abrigo com o mesmo barulho com que nele entrara. Suas botas ressoavam nas tábuas de madeira e a porta se fechou com estrondo.

— E agora? — perguntou a enfermeira, junto do aparelho esterilizador, com voz de lamúria.

— Ainda não sei. —Opalinskaja bebericava o chá quente, que lhe parecia um verdadeiro elixir de vida depois da noite tão repleta de emoções. — Vamos ter uma briga feia! Mas ela não pode me dar ordens. Eu sou médica! O que vai acontecer com Schanna determino eu! Vai ser duro, muito duro. Aqui a conversa não é de poetas alemães, e sim a vida de uma das nossas camaradas. Isto eu vou ter de deixar bem claro para Bajda!

Schanna permaneceu anestesiada, inconsciente, até o cair da tarde. Pelo menos, assim parecia. Na realidade já acordara durante a visita de Bajda e ouvira esta manifestar seu desprezo. O desmaio fingido parecia a Schanna a me­lhor proteção para a ocasião. Queria ganhar tempo, um bocadinho só, sem perguntas, inquéritos, palavrões e humilhações. Uma pequena pausa para respirar, para readquirir forças e poder refletir como as coisas iriam se desenrolar daí em diante.

Como poderia ela responder a todas as perguntas que a atingiriam como golpes? Sim, fiz o papel de puta do alemão, ele me forçou, várias vezes duran­te o dia e de noite também, e eu tentei arrebentar-lhe a veia jugular com os dentes, mas falhei, assim como falhei em tudo nestes últimos meses. E sim, depois eu realmente estava fraca demais para me defender, só pude ficar dei­tada como um pedaço de carne, que ele moía, quase me rebentava cada vez; afinal de contas vocês o conheciam, o “touro”. Mas me digam, o que eu pode­ria ter feito, com a minha ferida no ombro, com a febre, com os calafrios? Ele sempre me amarrou e depois sentou-se ao meu lado, me deu de comer e de be­ber, cantou canções, tocou gaita e bandolim. . . Aí ele já não era mais um pa­tife, e sim apenas um rapaz.

Afinal de contas não consegui transmitir-lhes um sinal, para que vocês o pudessem matar? Ele não morreu? De que me acusam? Que ele me penetrou seis dias e seis noites, como um pau de gelo fervente, do qual eu não podia es­capar? Que eu não me suicidei? Mas me digam: com quê? Meus pés e minhas mãos estavam amarrados. Pode-se morrer, simplesmente parando de respirar? Mo demonstrem! Não dá, eu experimentei! Os pulmões são mais fortes, eles abrem a boca da gente. Precisamos respirar, quando se vive de oxigênio. Não é possível dar a si mesma uma ordem simples: pare de respirar! Isto não dá. É possível a gente se enforcar, se afogar, se asfixiar — quando as mãos estão li­vres! Mas de que me acusam? O que eu deveria ter feito? O que deixei de fa­zer? Soja Valentinovna, você, com a sua frase alemã do “morrer servindo de modelo”: como é que você se teria matado?! Explique isto!

As horas passavam. Galina Ruslanovna vinha de vez em quando, sentia o pulso de Schanna, auscultava seu coração, media a febre. E depois Schanna ficava novamente só.

Galina, ao deixar Schanna cada vez, pensava: o que ela pretende fazer? Galina já sabia há muito tempo que a paciente não estava mais inconsciente mas deixou que ela acreditasse estar iludindo todo mundo e não lhe dirigiu a pala­vra. Mas por que esse ardil? Ela estava esperando o quê? Será que desejava es­capar dos interrogatórios e salvar algumas miseráveis poucas horas?

Por volta do meio-dia lhe aplicou mais uma injeção contra a febre e sor­riu silenciosamente quando Schanna estremeceu com a picada. Uma pessoa in­consciente não sente uma coisa dessas...

Depois Schanna estava novamente sozinha e perguntava e não achava respostas. Quando a injeção fez efeito, deslizou para um estado crespuscular, o presente se ampliou para o infinito, e ela percebeu, emocionada, que voltara ao Lago Baikal. Estava sentada à beira do lago, com seu grande rebanho de ovelhas; os cachorros cercavam o rebanho, nuvens brancas, volumosas, passa­vam lentamente pelo céu azul profundo. Deitava-se, as pernas nuas cruzadas, na grama alta. Sobre ela circulavam três açores e Schanna os ameaçou com o punho, mostrando-lhes sua arma. Era uma espingarda velha, com cano com­prido, que só podia ser carregada com um só cartucho e com a qual sempre se corria o risco de que o próximo tiro a desmanchasse. Mas Schanna conseguia, com ela, acertar qualquer ave no ar, qualquer rato à beira do lago, qualquer raposa ardilosa e qualquer lobo uivante no inverno.

Epa, o que estou vendo? Não vem aí Gamsat Vadimovitsch, o filho do pescador? Ei, Gamsat, estou deitada aqui! Você está me procurando? Como foi a pescaria hoje de manhã? Eu vi você no bote, daqui de cima. A rede pare­cia boa, metade cheia! Você pode estar satisfeito, não? Ora, venha, sente-se a meu lado, Gamsat! Mas o que você está fitando com ar de idiota?! Minhas pernas nuas? Mas estas você já conhece! Os meus seios sob a blusa fina? Olhe para o lado, se estão incomodando você! Mas o que quer dizer esta mão sobre a minha barriga? Pare com isto, Gamsat Vadimovitsch! Pare de mexer nos meus seios! Dar-lhe-ei um tapa, ouviu?! Não sou um peixe, a debater-se na sua rede! Afaste-se, seu pilantra atrevido! O que você está dizendo? O que você quer? Que eu tenho 15 anos e deveria saber o que pensa um homem ao ver uma moça tão bonita deitada na grama?! Gamsat, pare com isso! Não resfolegue tanto! Nenhum cão rasteja como você! Gamsat! Olhe, lhe dou um pon­tapé! Sua salamandra besta, de boca torta! Então você está querendo rasgar minha blusa! Levantar minha saia? Eu devo ser uma pedra? Eu? Uma pedra? Olhe, você vai é levar uma pedrada na cabeça! Gamsat! Seu idiota. . .

Ora veja, agora você está deitado na grama e sangrando. Eu adverti você, .Gamsat. Fique com seus peixes e me deixe em paz. Você pode vir me visitar, todos os dias, se quiser, mas deixe sua calça no cinto! Por acaso sou uma cade­la?! Sim, está bem, vá embora, me xingue de buraco fechado. . . volte amanhã, quando estiver mais calmo. Provavelmente foi a alegria pela boa pescaria. Você pensa que pode ter tudo, hein? Os peixes e a pastora! Vá embora, Gamsat Vadimovitsch, eu não preciso disso. Posso viver muito bem sem o seu pau! Quando eu precisar de um homem, procurá-lo-ei sozinha. Será você? Talvez...

O lago. Como brilha ao sol do crepúsculo. Primeiro dourado, depois ver­melho, depois violeta e o céu se divide em camadas flamejantes, e entre as camadas pode-se ver a eternidade. O vento quente. Agora os rochedos estão fi­cando escuros, as árvores se transformam em projeções de recortes, que a gen­te segura contra a luz do céu. Como você é lindo, meu lago. Quão incompreensível. Sibéria. Não quero sair daqui nunca, quero morrer aqui na beira do lago, quero cair no lago. Eu te amo, eu só amo a ti, minha Sibéria. . . mais nada na vida!

Agora está escuro, mas o lago continua a brilhar. Brilha a partir das pro­fundezas, de dentro para fora, um cintilar de uma profundidade misteriosa. Sua pele ligeiramente ondulada é prateada. Os rochedos se espelham em seu brilho. Oh, Baikal, eu te adoro. . .

De tarde, totalmente só no abrigo de enfermagem, Schanna se levantou e cambaleou, à procura de algo. Finalmente encontrou, sob diversos capotes, o estojo de couro com a pistola Tokarev 7,62 de Galina. Retirou a arma, fi­tou a estrela vermelha soviética gravada na coronha, viu que a pistola estava carregada e segura, e voltou para a cama com a arma.

Deitou-se, tentou colocar o cano na boca, mas isto a incomodou e fê-la ter vontade de vomitar. Retirou a pistola e encostou o cano na têmpora direita. Teve de tentar várias vezes, até achar a posição correta; fechou os olhos e disparou. Só sentiu um impacto abafado. Depois seu cérebro deixou de sentir o que quer que fosse.

— Realmente ela merecia ser uma de nós! — disse Bajda, a quem chama­ram logo. Curvou-se sobre Schanna, acariciou-lhe a cabeça sangrenta e depois limpou as próprias mãos no jaleco branco de Galina. Fingiu não ouvir os soluços das moças e das outras pessoas ao redor. — Eu teria ficado muito ma­goada se ela me tivesse desapontado. . .

O Tenente Ugarov pegou um lençol de Unho e o desdobrou, colocando-o sobre a falecida.

Dois dias depois Soja Valentinovna deu a notícia da morte de Schanna Ivanovna Babajeva. Morta a tiros por um fuzileiro fascista durante uma ronda. Sabia-se, até, quem fora o fuzileiro — aquele maldito alemão com a boina de tricô!

Ninguém teve ensejo de duvidar disso. Schanna foi enterrada ao lado de Darja e de Miranski. O enterro foi muito cerimonioso, similar ao que ocorrera com Fritz Ploetzerenke. Não houve, naturalmente, salva de tiros, mas um coro de moças cantou uma canção do Lago Baikal. E muitas chora­ram, até Soja Valentinovna, a durona, o que todos acharam ser milagre, pois até este momento só Ugarov a vira chorar. E nesse caso sempre fora lágrimas de um ciúme violento. Que Bajda pudesse realmente sentir luto, isto era novidade, e só em si já representava um evento emocionante.

Dois dias após receberam, do Sétimo Exército, a Ordem de Bronze Suvorov, há tanto tempo prometida a Schanna Ivanovna. O próprio General Conjev, comandante-em-chefe da Frente da Estepe, escrevera a carta que acompanhava a comenda.

— Valente Camarada Schanna. . .

Bajda leu a carta diante do túmulo e pendurou a medalha na pedra rasa do rio com que tinham decorado o jazigo.

Com a mesma remessa do correio Stella Antonovna Korolenkaja foi promovida a sargento e elogiada publicamente. Todas a abraçaram e beijaram, e Bajda disse, esperançosamente:

— Esperemos, minhas queridas. Stella ainda irá liquidar esse maldito ho­mem da boina!  Aí a unidade receberá a Ordem da Bandeira Vermelha e sere­mos singulares entre os batalhões de mulheres!

Como Hesslich diante do túmulo de Ploetzerenke, assim Stella também ficou só, diante do jazigo da camarada morta. O segredo, que esta levara consigo, não deixava Stella em paz. A notificação oficial de Soja, que o homem com a boina de tricô fora o assassino de Schanna, ou melhor, o seu adversário vitorioso, fora uma mentira estratégica, por todas compreendida. Mas que exatamente esse diabo alemão tivesse de ser o responsável, era alarmante. Mostrava quão profundamente enraizado estava, em Bajda, o medo desse adversário.

Somente Stella adivinhava a verdade. Sabia exatamente aquilo que Lida lhe confiara. Também ouvira falar do médico alemão, o homem com um no­me quase impossível de pronunciar, Helge Ursbach, e sabia que ele beijara Lida e que esta devolvera o beijo. Isto era um horror. Stella ficara rígida de tanto espanto, enquanto os olhos de Lida começaram a brilhar, com a recordação do fato, como se estivesse falando de seu amante.

— E o que foi que ele respondeu, quando você lhe disse o meu nome e informou que eu quero liquidar esse cachorro com a boina de tricô? — perguntou, com a voz embargada.

— Disse que lhe daria o recado. Agora o diabo já sabe disso. . .

— E você não se envergonha de ter beijado um fascista?!

— Não! Penso nele constantemente.

— Se é que eu conheço. Soja Valentinovna, ela mandaria açoitar você, se soubesse disso! Liduschka, você endoideceu?

— Sim. . . — respondeu Lida, simplesmente.

— Céus! Você realmente o ama?!

— Não sei. Não consigo esquecê-lo. . .

— E se você o encontrar novamente?

— Ele é médico, não posso matá-lo. Portanto, o amarei. . .

Realmente, isto já era demasiado! Stella Antonovna torceu as mãos.

— Lida, peça que a enviem para outro lugar — disse, enfaticamente —Para outra divisão. Bem longe daqui. Tenho certeza de que você será capaz de achar um motivo. Aqui acabará se tornando uma carga para nós! Diabo, o que está acontecendo com a gente? Por acaso os de lá nos atacam com bacilos, que nos endoidecem? — De noite Stella Antonovna estava de pé, diante dos últimos jardins do povoado em ruínas, e fitava a outra margem do rio. Era fá­cil ver as ruínas do lado alemão. Mas atirar não. Com aquela distância acertar um tiro seria pura sorte. E nenhum fuzileiro se mete numa destas.

— Aí está ela! — exclamou Peter Hesslich. — Minha loura linda! — Ele estava deitado na margem do rio, ao lado de Dallmann. Podiam ver Stella através dos binóculos. — Sem arma. — continuou Hesslich. — Portanto, uma visita. Agora, preste atenção. . .

Ele tentou levantar-se, mas Dallmann o agarrou pelas calças e o puxou de volta para a grama.

— Ficou pirado?! O que vai fazer?!

— Como pessoa cortês farei uma contravisita. . .

— Peter! Deixe de besteira!. . .

Já era tarde. Hesslich se livrou de Uwe com um golpe;levantou-se, deu um passo à frente, pôs a mão no bolso das calças e retirou a boina de tricô, colocando-a sobre os cabelos. Assim ficou na margem do Donez e abriu os braços. Ao lado dele Dallmann, deitado na grama, tremia de medo e mantinha Stella no visor.

Quando o homem do lado de lá se levantou, colocou a boina de tricô e abriu os braços, Stella sentiu como um golpe que abalasse todo o seu corpo. Seu coração batia, parecia estar já na garganta, seu sangue se assemelhava a uma corrente efervescente, na cabeça os nervos zuniam e sobrepujavam todos os outros ruídos.

Durante um momento estavam um diante do outro, separados pelo rio, desprovidos de armas, inalcançáveis e no entanto tão próximos como se pudessem se tocar, no claro ar da noite.

E depois se cumprimentaram.

Stella Antonovna levantou o punho contra o céu.

Peter Hesslich acenou-lhe como se fosse um amigo.

Você ou eu — não existe mais outra possibilidade!

Dois dias mais tarde um novo membro apareceu na Divisão Bajda, junto com o carro de víveres do batalhão. Tinham comunicado o fato a Soja Valentinovna, pouco antes, por telefone, e ela foi correndo procurar Ugarov, o qual, apenas vestido de calção de banho, estava sentado ao sol e de tanto tédio fabricava pequenas figuras ridículas de madeira — coelhos, veados, camundongos, raposas, muito toscas, anatomicamente não muito corretas, mas reconhecíveis.

— Que história é esta?! — berrou Bajda, tremendamente excitada. —Imagine só! O pessoal do batalhão telefona: “Vêm substitutos!” Digo eu: “Bem, obrigada, camaradas. Podemos precisar deles. Afinal de contas, esta guerra singular também faz vítimas, vocês bem o sabem. De quantas moças se trata?” E o que escuto? Lá vem o camarada comandante: “Minha querida Soitschka, o que espera? Nada de moças. . . nós lhe mandamos um homem. Um bom homem! Depois da morte do nosso caro Miranski a senhora precisa de um apoio forte. O camarada que chegará hoje é um dos melhores fuzileiros do Sétimo Exército!” — Bajda parou, resfolegando. Como se quisesse dividir o mundo em dois, Ugarov jogou o canivete no chão. Bajda continuou: — E ele fala desse jeito, tão levianamente! Vem um homem! E nenhuma opor­tunidade de protesto. O camarada general ordenou e basta! Ponto final! Vic­tor Ivanovitsch, o que vou fazer aqui com um novo homem? Miranski. . . que descanse em paz. . . já era uma carga com as suas eternas recriminações tolas. E isto agora vai se repetir?

Ugarov percebia acercarem-se problemas muito diferentes. Um novo ho­mem — quem é que podia saber como se comportava, qual era a sua aparência, como agia sobre as mulheres — mais um homem representava, antesde tudo, um perigo para a paz doméstica que Ugarov agora usufruía. A vindade uma nova mulher, Galina Ruslanovna, só não terminara em tragédia porqueSoja e Galina tinham chegado a um acordo, o de que o caro, lindo e diligenteUga­rov teria ficado sobrecarregado, se lhe exigissem satisfazer duas mulheres do seu tipo. Cederam a esse discernimento inteligente, e a paz não fora rompida.

E agora será que sabiam de antemão se o novo homem seria igualmente perspicaz e se deixaria de dar a Soja sinais evidentes de favore cimento? Ugarov imaginava como dever-se-ia sentir um homem desses, que, subitamente, seria obrigado a conviver com 69 mulheres, mais ou menos bonitas, mas com toda certeza sedentas de amor. Isto era como cair em um formigueiro —picavam, beliscavam e cocavam por todos os lados. E se esse novo homem ain­da tiver um belo corpo, for jovem, forte e capaz de um bom desempenho, Victor Ivanovitsch também via surgirem certos perigos para a própria Soja Valentinovna.

— Falarei imediatamente com ele — disse Ugarov, com olhar sombrio.

— Nem deveria vir! — berrou Bajda. — Quem sabe que tipo é? Talvez um espião? Um miserável fofoqueiro? Ouvidos e olhos dos estados-maiores da re­taguarda?! A primeira coisa que irá fazer é dar a notícia: Capitoa Bajda e o Tenente Ugarov vivem e dormem juntos, no mesmo abrigo, como se fossem um casal. . .

— Eu o matarei! — rosnou Ugarov. — Sim, é isso, liquidá-lo-ei. Vou matá-lo, se descobrir que é um espião do Estado-Maior! Que bom, que a gente tenha o homem de boina de tricô. . . podemos fazê-lo de bode expiatório de tudo!

Naturalmente tudo isso não passava de reflexões teóricas, que não conduziam a nada de concreto. Ugarov tentou novamente com o estado-maior do batalhão, mas de lá lhe disseram, friamente, que se tratava de uma decisão do general, e se ele, o Tenente Ugarov, por acaso quisesse criticá-la, se fosse esse seu desejo. . . muito bem, notificariam o Exército.

Ugarov desistiu de discutir com o camarada do Sétimo Exército. O que poderia conseguir, a não ser uma chuva de palavrões e uma pergunta do batalhão: quem é este idiota Ugarov? Tem coragem de criticar o general? Camara­das, fiquem de olho nele. . .

E era exatamente isso que Ugarov queria evitar a todo custo. Não criar sensação, não chamar a atenção de alguém superior, manter-se um grão de areia em um monte de outros grãos — aí a gente vive tranqüilo, mesmo que, uma, vez ou outra, se sinta o peso de uma bota. É assim que se precisa pensar. Chamar a atenção dos poderosos, ao contrário, pode ser nocivo.

— Temos de aceitá-lo! — disse Ugarov a Soja Valentinovna. — Mas dei­xe-o chegar! Vou dar-lhe uma recepção, que sentirá nas entranhas!

Mas isto não foi tudo que aconteceu nesse dia. Juntamente com a notícia da chegada do novo camarada, Stella Antonovna recebeu ordens de voltar com o carro de provisões que iria trazer o homem já malvisto antes de chegar.

— E por acaso isto será uma troca? — berrou Bajda no telefone e franziu o cenho. — Então querem tirar Stella de mim? A melhor que existe?! Camara­das, protesto! Sim, irei até a presença do General Conjev! Eu mesma! O que pretendem fazer conosco? Somos uma unidade de elite ou uma estação de trem onde se trocam os comboios?!

Soja Valentinovna jogou-se de corpo e alma no protesto e não havia mais como fazê-la parar. O comandante do batalhão desligou o telefone, suspiran­do, e quando o telefone, logo após, voltou a tocar, disse a seu ajudante com um olhar de súplica:

— Se for novamente Soja. . . caro amigo, liquide-a com os palavrões mais brabos que conhece. Isto é a única coisa que ela entende! Eu capitulo diante desta fúria! Como é que o Ugarov a agüenta! Só por isto merecia uma condecoração. . .

Stella Antonovna aceitou a ordem sem se perturbar. Modificara-se nestes últimos dias, ficara mais quieta, pensava muito e dava poucas respostas. Muitas vezes ficava sozinha entre as ruínas do povoado, arava a terra ou ficava deitada às margens do Donez e observava o lado alemão.

A gente se modifica quando o diabo nos cumprimenta, isto é compreensível. Fica-se mais pensativa e internamente aceita que pode sair perdedora no conflito. E neste caso perder era o equivalente a morrer — uma morte honrosa depois de um combate impiedoso, a dois, mas afinal de contas não era muito importante como se morria.

Stella Antonovna jamais pensara tanto e tão intensivamente na morte como nestes dias. Nunca tivera medo de morrer. Quando tais idéias surgiam em sua mente, costumava reprimi-las com otimismo: Eu sou mais rápida do que os meus adversários. Eu sempre venço! A mim jamais pegarão!

Mas isto tudo agora se modificara. O homem com a boina de tricô a cumprimentara. Sorrira para ela, e ela não conseguia esquecer aquele sorriso. Fizesse o que fizesse, onde estivesse, tinha de pensar nele. Era como uma febre que dela se tivesse apoderado, dominava sua vida com uma compulsão esmagadora e a punha em tal estado de inquietação interna, que ameaçava paralisar sua respiração. Quer estivesse deitada na grama e fitasse o céu azul, amplo, estival, quer trabalhasse no jardim ou estivesse almoçando com as outras moças, quer cantasse, feliz, em ronda, quer dançasse ao som da bajan, ou ficasse acordada de noite, e tentasse captar os ruídos da estepe — sempre o homem do outro lado estava com ela, ela o via acenar, seu riso a iluminava. Ela não conseguia liberar-se da imagem de seus braços abertos, que a chamavam: Venha! Atravesse o rio! Aqui estou à sua espera. . .

Ele se tornara parte de seu destino, sentia. Sua vida só conduzia em sua direção, passava por ele, o trespassava ou terminava por ele ou com ele. Este discernimento a tornou quieta e pensativa.

De noite Stella vestiu o uniforme, pôs a sua Moisin-Nagant nas costas e esperou pelo carro de provisões. Ugarov, Bajda e um grupo de camaradas esta­vam em volta, para observar o homem novo, que viera, a comando do general, participar da vida na gaiola de gatas selvagens.

Soja Valentinovna se tranqüilizara um pouco. Aparentemente não se tratava de enviar Stella para outra divisão. Ugarov conseguira falar com o aju­dante do batalhão.

— Como, com bagagem? — o primeiro-tenente devolvera a pergunta, atônito. — Mas quem foi que ordenou que Stella Antonovna viesse com equi­pamento completo? O que está acontecendo com vocês aí fora? Por acaso o sol está ressecando o líquido de seus cérebros? Dissemos apenas: Stella deve se apresentar aqui. Mais nada! Se devesse vir com equipamento completo, tê-lo-íamos dito. Victor Ivanovitsch, não se deixe paralisar por Soja Valentinov­na. . .

Esta notícia tranqüilizara um pouco Bajda, mesmo que ela continuasse a berrar, feito louca, que o ajudante era um bode fedorento. Portanto, só faltava a vinda do novo camarada, o melhor fuzileiro masculino do Sétimo Exér­cito. Ugarov jurara dar-lhe uma forte bronca logo que chegasse, para que ele percebesse, imediatamente, o que o esperava nessa unidade. Antes de mais nada, queria humilhá-lo com a pergunta: “Antes de arrumar sua cama, cama­rada, primeiro me explique por que Lenin usava uma barba pontuda!”

Era impossível responder a isto. Esta pergunta iria confundir quem quer que fosse. Ele se sentiria pouco culto, até idiota, e nada prejudica mais a repu­tação de um homem, se dele se diz: “Vejam como é burro! Um verdadeiro oligofrênico!” Com toda a certeza o novato não iria suportar tal choque.

Na hora dó crepúsculo o carro com as provisões chegou, um caminhão velho, barulhento, pintado com cor de terra da estepe, cujo motor berrava, cuspia e gemia. Provavelmente era o veículo mais antigo que conseguiram arranjar na frente. Freou com guinchos e resfolegando. Ugarov deu um tapinha nas costas de Bajda, para tranqüilizá-la, e se dirigiu para o caminhão.

Da cabine do motorista desceu um homem, fez três mesuras e depois cumprimentou o tenente em posição de sentido.

— Sargento Bairam Vadimovitsch Sibirzev, a serviço!

Pois é, ali estava ele. Não só vinha da Sibéria, o que imediatamente se percebia pelos olhos verde-acinzentados, oblíquos, ardilosos, e maxilares proeminentes, mas até se chamava assim. Era de estatura mediana e forte, com ombros largos, pernas grossas e coxas redondas, um verdadeiro corre­dor das florestas da taiga, um caçador de renas e linces, que pernoitava em buracos de terra e se podia nutrir de raízes cruas. Sorriu brejeiramente e pis­cou o olho para as moças. Seus cabelos pretos estavam cobertos de poeira, pela viagem através da estepe, sua carabina estava jogada nas costas, como a de Stella Antonovna, que aguardava ao lado de Soja Valentinovna. Como Ugarov não respondera ainda à sua apresentação, Sibirzev permaneceu em posição de sentido.

Ugarov respirou aliviado. Constatou satisfeito: não representa nenhum perigo para mim e para Soitschka. Claro, é um homem, mas parece-se mais com um macaco. Esta apreciação era excepcionalmente agressiva, pois Sibirzev era um homem da taiga, de boa aparência, infatigável, inatingível por tem­pestades de neve, por ventos quentes, por enchentes e por pântanos ardilosos. Na realidade, ninguém conseguia dobrá-lo. Isso já havia sido constatado por ocasião do seu treinamento especial em Ulan-Ude. Passara por um bordel como um incêndio desproporcional: ao sair, estava assobiando uma cançãozinha alegre, ao passo que todas as piranhas descansavam, exaustas, em suas ca­mas e gemiam, solicitando panos frescos.

Quem olhasse mais de perto para Sibirzev, poderia adivinhar algo parecido — suas pernas fortes, as coxas, o tórax grande, os músculos nos braços e nas costas, o pescoço gordo. . . Era da estirpe daqueles caçadores que perseguem um urso ferido durante dias, até que possam lhe arrancar a pele.

Ugarov, já mais brando, pois convencera-se de que Bairam Vadimovitsch não fazia o gênero da Soitschlca, perguntou em tom seco de comando:

— Descansar! Sargento, isto aqui é uma tropa especial! Antes de ir ocu­par seu catre, me explique primeiro por que Lenin usava uma barba pontuda...

Sibirzev relaxou, abriu a boca num riso largo e respondeu:

— Ele percebeu que uma barba comprida fazia com que a metade da so­pa ficasse presa nos fios. . .

Ugarov ficou sem saber o que dizer. Atrás dele Bajda bateu palmas, gritou: “Bravo, sargento!”, aproximou-se e lhe estendeu a mão. Bairam Vadimovitsch novamente bateu com os calcanhares —afinal de contas Bajda era capitoa e com isto superior ao tenente — enfiou a cabeça nos ombros e parecia uma estátua para a praça do mercado de Novoselitsa: O Combatente.

Ugarov fungou. Nada adiantara — ele teria de odiar Sibirzev e mantê-lo subjugado. Tem uma lábia maldita e também pensa rápido. O próprio Ugarov jamais conseguiria responder àquela pergunta maluca que fizera. Pelo menos não tão bem nem com tanta malícia.

— Pegue sua bagagem! — berrou Ugarov, quando a mão de Bajda deixou a larga garra de Sibirzev. — De que povoado vem o senhor?

— Eu sou de Evenke — respondeu Sibirzev e novamente piscou para as moças que estavam em volta, em pequenos grupos, rindo às escondidas. — Mas fui criado em Ulan-Ude com meu tio. Ele era padeiro-confeiteiro. Com 16 anos fui para a taiga, me juntar aos caçadores. . . não me dava bem venden­do biscoitos amanteigados e doces de mel.

— Eu já imaginava isso! — exclamou Ugarov, olhando de soslaio, zanga­do, para Soja, que se torcia de rir e empinava os seios para a frente, como se quisesse jogá-los, como minas, na direção de Sibirzev. — Que tarefa lhe de­ram? O senhor recebeu ordens especiais?

— Devo apoiá-lo, camarada tenente.

— A mim? Em quê? — Ugarov ficou vermelho de raiva. — Eu não neces­sito de apoio!

— O senhor tem problemas com os alemães.

— Nenhum que a gente não possa solucionar sem ajuda. Temos, entre nós, a melhor fuzileira da União Soviética.

— Eu sei. Stella Antonovna Korolenkaja. Ela está aqui?

— Presente. — Stella deu um passo à frente e fitou Sibirzev friamente.

— Você tem uma excelente reputação, camarada. — Sibirzev estendeu-lhe a mão mas Stella fez de conta que não a viu. Ela não podia explicá-lo, mas Bairam  Vadimovítsch despertara imediatamente sua antipatia. Não sua aparência, não sua maneira de falar — apenas a sua presença bastava para alarmar a sua disposição de se defender. O seu instinto lhe sinalizava: ele quer tirar de mim o homem da boina de tricô! Só por isto veio, só esta pode ser a verdadeira ordem que recebeu. Ele deve me ajudar. O General Conjev não confia em mim, não acredita que eu possa liquidar sozinha esse diabo.

— Quantas marcas você tem em seu livro de tiros? — perguntou gelidamente.

Sibirzev retirou a mão. Sentiu sua animosidade, pois suas palavras pare­ciam golpes de chicote.

— Trinta e três. . .

— Miserável! — Stella Antonovna virou a cabeça e fitou Bajda. — Com 33 as piores entre nós se esconderiam de tanta vergonha.

Sibirzev lançou um rápido olhar para Ugarov, cujo sorriso aberto constatou seu temor: aqui, Bairam Vadimovitsch, você é uma visita indesejada. Vão infernizar sua vida quanto puderem. E,. você não vai ter paz. . .

Com um só movimento arrancou a carabina das costas e a segurou nas mãos. Com a mesma rapidez estava diante de seus olhos e o tiro ecoou. A cabeça de um girassol ainda diminuto voou, pelos ares, despedaçada.

Mas no mesmo instante em que Sibirzev apoiara a arma contra o queixo já o cano longo da carabina de Stella se ergueu. Seu tiro ecoou apenas um se­gundo depois, e acertou a maior parte do girassol despedaçado ainda no vôo.

Sibirzev baixou a cabeça, pousou a arma na grama da estepe, diante de seus pés e esticou as mãos espalmadas na direção de Stella. Um gesto de submissão incondicional. As moças, na retaguarda, bateram palmas, entusiasmadas. A nossa Korolenkaja! Quem poderá igualá-la?

— Bairam Vadimovitsch, metade da sopa ainda está colada em sua barba — disse Stella Antonovna quieta e dominadoramente. — Tente outra dispu­ta comigo, quando conseguir levar a sopa até a sua boca...

Ugarov sentiu-se no sétimo céu. Poderia abraçar e beijar Stella. Isto fora uma lição para esse megalomaníaco; com toda certeza, ele o sentiu! Vem para cá como se se tratasse de atirar em coelhos de neve! Vai ficar ale­gre e feliz quando lhe permitirem voltar para onde quer que estivesse antes de vir. Irá fazer sete cruzes, de tanto alívio.

— Vamos descarregar as provisões! — ordenou Ugarov acidamente. — O senhor, camarada sargento, irá começar a ajudar desde já! E depois o senhor irá assinar um relatório, que redigirei: uso indevido de arma e esbanjamento de munição para fins alheios à guerra! Vamos, mexa-se. . .

Sibirzev acenou e começou a trabalhar calado.

Esperem, pensava raivoso. Vocês ainda não me conhecem! Dão um pon­tapé na minha bunda, mas esta é mole e agüenta os golpes. Sua corja de safa­dos vaidosos, morarei em seus pêlos como milhares de piolhos! Por detrás de uma caixa de papelão, que retirara do caminhão de carga, fitou Stella An­tonovna. Ela estava um pouco afastada, aguardando a partida do veículo.

O que tem ela?, pensou Sibirzev. Por que me enfrenta com um ódio tão patente? O que foi que eu fiz? Mal a conheço, só uns minutos, disse que a admirava, e o que faz ela? Me cospe no rosto com palavras! É possível pergun­tar qual o motivo disso tudo? Eles todos são pessoas esquisitas aqui, o senti logo. Uma unidade de conspiradores! Bairam Vadimovitsch, aqui você será sempre um estranho.

Duas horas mais tarde o velho caminhão, em estado lastimável, voltou ao batalhão. Stella estava sentada na frente, ao lado do motorista, lá onde no caminho de ida ficara Sibirzev. Bajda se despedira dela, como se Stella fosse fazer uma viagem sem retomo.

— Sibirzev informou por que foi enviado para a nossa unidade? - perguntou ela ao motorista, um jovem soldado do Exército Vermelho, com o rosto coberto de acne.

— Nenhuma sílaba, camarada.

— Então falou de quê?

— Contou histórias a respeito da taiga.

— Mais nada?

— Só a respeito das putas de Ulan-Ude. . .

O rapaz enrubesceu. Stella Antonovna pôs-lhe a mão sobre o braço.

— Está bem — falou quase maternalmente; no entanto, ela própria só tinha 20 anos. — Homens desse tipo costumam viver essa espécie de aventuras.

No batalhão foi recebido pelo próprio comandante, que a ajudou a descer do veículo.

— Você vai ficar espantada! — exclamou ele, muito alegre. — Você per­tence ao grupo dos escolhidos. Não. Não faça perguntas, Stella! Eu não vou lhe contar nada. Nós levaremos você. . . todos estamos orgulhosos de poder lhe oferecer.. .

A mesa parecia um altar.

Estava coberta com uma toalha branca, flores em redor, no fundo um retrato do Generalíssimo Stalin. Sobre a toalha estava um fuzil novo.

Stella Antonovna ficou atônita, sem saber o que pensar ou dizer, dian­te da mesa enfeitada. Ouvia atrás de si o pigarro, cheio de expectativa, do comandante. Depois de uma insinuação tão grandiloqüente ela esperara algo equivalente — uma comenda importante, uma distinção do próprio Stalin, qualquer coisa fora do cumum. E o que via agora! Uma arma! Realmente, era uma arma nova, com um modelo de telescópio de mira novo, não-familiar, com um cano relativamente reduzido, embutido em uma coronha de madei­ra fendida, com um depósito para a munição e um abafador de som, com duas fendas grandes. Stella fitou tudo isso e ficou calada. O que poderia dizer?

— Amanhã virá o Coronel Starostin da Central de Pesquisas de Armas e falará com você — disse, atrás dela, o comandante do batalhão, em tom quase solene. — E até o Camarada General Kitajev avisou que viria ver você. Que honra, hein? Estamos todos orgulhosos de você!

Stella Antonovna acenou.

— Que devo fazer? — perguntou.

— O que ela deve fazer? — O comandante aproximou-se dela e a abraçou. Vejam como está emocionada a nossa corajosa camarada. Podemos compreen­dê-lo! Venha, pegue a arma. . .

Ela curvou-se, retirou a arma de cima da toalha de mesa branca e a pesou nas mãos. Não era mais leve do que a sua velha Moisin-Nagant, mas o peso era mais bem distribuído. A arma se ajeitava logo na mão, como uma mola. Ao erguê-la, ganhar-se-iam frações de segundo, um intervalo de tempo mínimo, infinitamente pequeno, uma diferença ridícula, mas que em circunstâncias reais poderia decidir a favor da vida ou da morte.

— Esta é a nova Tokarev SVT, fabricada especialmente para fuzileiros de primeira categoria — informou o comandante do batalhão, como se estives­se explicando o valor de uma obra de arte rara em uma exposição. —O Coro­nel Starostin explicar-lhe-á tudo amanhã, e depois você pode treinar com a ar­ma e ficar com ela. Você é a única, em toda a divisão, que possui esta Toka­rev. Você vai ficar espantada com as coisas que ela pode fazer. Como já expli­quei, trata-se de uma fabricação especial!

Stella Antonovna levou a arma nova para o seu alojamento. Depois de um bom jantar com os camaradas oficiais e uma garrafa de vinho da Criméia, ela se fechou no quarto e pôs a arma em cima da cama. Agora, a sós com a no­va arma, todos os pensamentos, que a dominavam há dias, voltaram.

Você está frito, sua boina de tricô lá do outro lado, pensou, e fechou os olhos. Lá estava ele de nova no Donez, rindo, de braços abertos. Frito, seu diabo! Agora eu possuo a melhor arma do mundo. . .

Treinou duas horas seguidas com a sua nova Tokarev. Deixou-a cair, fê-la rolar pelo chão, jogou-se atrás da mesa, da cama, das cadeiras, protegida, e sempre, em todas as posições, acertava no alvo visado, escutava interiormente o estalido semelhante a um chicote e via cair o adversário.

Mais tarde estava deitada, com a arma a seu lado, qual amante. Adormeceu profundamente e sonhou com o rio, em cuja margem ela ia e voltava, ficava à espreita do homem com a boina de tricô. Mas ele não vinha, ela até o chamava, incessantemente. . . No sonho o terreno estava vazio, o rio pesado como chumbo, a estepe cinzento-acobreada e seca, o céu sombrio e ameaçador. Não conseguia perceber nenhum sinal de vida a seu redor, apenas ela mesma vivia ainda e clamava em um isolamento, um silêncio ilimitado.

Não era um sonho bonito mas ela não gemia. Dormia apertando a arma contra a coxa, o seu seio direito sobre o cano, o telescópio de niira se aconchegava em seu colo. . . e seus nervos o percebiam como tranqüilizador.

Por volta de meio-dia o Coronel Leonid Nicolajevitsch Starostin apareceu em companhia de três oficiais. Stella Antonovna estava à espera deles no gabinete do comandante. A arma fora posta em cima de uma mesa, diante dela, agora já com o depósito de munição repleto e pronta para atirar.

Starostin, que Stella via pela primeira vez, a fitou entusiasmado. Que cisne, pensou. Já a fotografia, que o General Kitajev me mostrou, era impressionante, apesar do fotógrafo dever ter sido um cego. Uma foto miseravelmen­te malfeita — dever-se-ia obrigar o filho da puta a engolir o negativo e todas as cópias! Ela é uma verdadeira beleza! Decerto! Cachos louros, olhos azuis, um corpo forte mas não aparentando gordura. E pernas esguias ela tem, isto a gente até adivinha, apesar destas botas pesadas! E o que a blusa esconde, pois sim, camaradas, será permitido estalar a língua em segredo? Então esta é Stella Antonovna Korolenkaja. A moça no roteiro íngreme para o posto de Heroína da União Soviética! Com seu centésimo acerto o Camarada Stalin dar-lhe-á essa honraria máxima. E no entanto parece uma filhinha que faria bater mais forte, de alegria, o coração de qualquer pai. . .

Starostin rapidamente alterou esta sua idéia um tanto burguesa a respeito de Stella. Inicialmente deu-lhe uma explicação pormenorizada acerca do trabalho de elaboração dessa arma de precisão e de todas as minúcias relevantes. Agora ela o sabia: uma Tokarev SVT, dotada de um carregador a gás, que punha os cartuchos automaticamente no cano, não precisava mais de trabalho com a alavanca da fechadura; o depósito tinha espaço para 10 tiros, o número de tiros, 30 por minuto, era três vezes maior do que a da sua antiga Moisin-Nagant; a rapidez da boca alcançava 829 metros por segundo, o visor alcançava até 1.500 metros e a distância necessária para um tiro absolutamente certeiro era de 500 metros. O novo telescópio de mira possuía um dispositivo para visar à noite, um campo de visão maior, e abrangia, de forma cristalina, qualquer objeto a uma distância de 1.400 metros. Era a melhor arma que jamais fora preparada para fuzileiros na União Soviética.

Depois dessas indicações Starostin desmontou a arma e montou-a nova­mente. Após fazê-lo, empurrou-a na direção de Stella e disse suavemente:

— Agora você também experimente, Camarada Korolenkaja.

Stella pegou a arma, desmontou-a com seus dedos ágeis, mirou desafiadoramente o atônito Starostin e com a mesma rapidez a montou novamente. Isto ela também treinara na noite anterior. Só se pode dominar uma arma, quando se a conhece até o último parafuso. Assim como sói acontecer com as pessoas, cujo bem-estar é nossa responsabilidade, é preciso conhecer a anatomia para reconhecer a doença.

A segunda surpresa de Starostin ocorreu no campo de tiro ao alvo.

Stella Antonovna atirou 10 vezes; ficou, então, sabendo como reagia a arma, que perfídias ocultava, quais eram seus defeitos. De modo geral, a nova Tokarev era uma ferramenta de mestre. Acertava em cheio e não insegura pela dispersão. Tudo que se visava, era atingido — o êxito dependia exclusivamente da qualidade da mira e de mão tranqüila.

Quaisquer que fossem os alvos apresentados a Stella — ela acertava bem no centro. Garrafas atiradas ao ar quebravam. Alvos móveis, como flores balouçando ao vento, espirravam para o céu. Starostin, em admiração silente, acolhia em si o quadro com que se deparava: uma moça loura, de pé, as per­nas um pouco afastadas, no chão da estepe, encostava uma arma contra o queixo e atirava, e cada tiro representava um acerto.

Ao final Stella Antonovna mostrou aquilo com que, já na escola especial de Veschnjaki, deixara atônita de espanto a Coronel Olga Petrovna Rabutina: rapidamente, um atrás do outro, disparou cinco tiros na direção de uma trave de madeira, apoiada em um teto de palha, a uma distância de 200 metros. Quando foram verificar, só acharam um buraco. Starostin ficou encabulado, e disse em tom de desculpa:

— Qualquer pessoa pode ficar cansada, Stella Antonovna. Não fique amargurada!

Stella, no entanto, riu alto, mostrou o buraco e respondeu:

— Fure com uma faca, Camarada Coronel! O senhor realmente acha que eu iria desperdiçar um só tiro?!

Starostin sentia que seus cabelos se arrepiavam. Mandou alargar o bura­co e foram achados cinco projéteis, um em cima do outro.

— Isto ninguém vai acreditar, se eu contar! — exclamou com a voz em­bargada de emoção e deixou as cinco balas, rolarem, de lá para cá, na mão. — Como se pode explicar isto? É inacreditável! É contrário à lei da natureza, uma coisa ser exatamente igual à outra, mesmo que pareça igual. Stella An­tonovna, a senhora está virando para baixo as leis da física! Como pode ser?! A senhora é mágica?

— Eu não sei. — Stella apertou contra o peito a nova arma. —Só às vezes é horripilante. Eu não faço mais nada do que muitos outros. . . viso o alvo e aperto o dedo no gatilho.

— Deveríamos elaborar um protocolo a respeito! — exclamou o Coronel Starostin, impressionado. — Isto deve ser registrado. Somos todos testemu­nhas, camaradas.

Olhou novamente para as cinco balas achatadas em sua mão, sacudiu a cabeça e se dirigiu à comandatura.

À tardinha Stella Antonovna voltou para o rio. Foi recebida com guirlandas de flores, abraços e beijos. De há muito se sabia, por telefone, o que ocorrera no estado-maior do batalhão. O ajudante transmitira a notícia. Bajda tremia de orgulho e emoção.

— Então, você lhes mostrou, hein, minha filhinha? — gritou e apertou Stella contra seus magníficos seios. — Como ficaram embasbacados. . . feito touros em noite de tempestade! Gostaria de ter estado lá. É assim que as coisas acontecem entre nós, eu diria aos camaradas superiores. Temos mais desta estirpe na tropa. Não exatamente como Stella, mas cada uma de nós é capaz de arrancar-lhes, a tiros, a meleca do nariz!

Sibirzev também veio cumprimentar Stella. Examinou a nova arma, ficou amarelo de inveja e fitou Stella maldosamente, com seus olhos oblíquos.

— Agora não há dúvida de que venceremos a Grande Guerra Patriótica — disse, cheio de ódio. — Nós o veremos, esperem só! Stella irá arrancar as bandeiras dos postes em Berlim e com uma bala escanhoar a barba de Hitler.

Riram disso, mas Ugarov, um pouco mais tarde, disse baixinho para Stella:

— Um homem antipático, esse Bairam Vadimovitsch! Eu sou patriota, um bom comunista, decerto, odeio os fascistas! Mas no caso de Sibifzev eu ficaria contente se os de lá rapidamente tivessem sua cabeça no visor. Ouvi o que ele disse de Sotischka: o úbere de pernas abertas! Poderia matá-lo a pancadas, cortar-lhe a cabeça com a espada!

Nessa noite Stella não sonhou. Dormiu como uma criança morta de cansaço, que segura nos braços sua boneca.

A boneca era a sua nova arma.

Poder-se-ia dizer de Sibirzev o que se quisesse, poder-se-ia odiá-lo e lhe dese­jar mil mortes; todos concordavam que era um tipo antipático — mas só uma coisa não se podia dizer dele: não era covarde!

Não, covarde Bairam Vadimovitsch não era. Nenhuma fera o assustava — e o inimigo do outro lado agora era a fera que devia caçar e liquidar.

Não se tinham passado nem dois dias na linha de frente e os alemães perceberam que algo se modificara, e que a vida tranqüila, idílica, do verão no Donez deixara de existir.

Sibirzev apanhou dois pioneiros alemães que se banhavam no rio. Esperou, sem pressa, que estivessem nadando no meio do Donez e se encontrassem ao alcance de sua arma. Estava deitado na margem, sob um arbusto, fechara os olhos oblíquos até formarem uma fenda estreita, respirava contidamente e visou tranqüilamente.

O primeiro tiro acertou exatamente na cabeça. O alemão não deu um ai, não se mexeu, simplesmente afundou feito uma pedra. O segundo tentava, desesperadamente, voltar para a margem alemã, em nado estilo crawl, mas es­se tem a característica fatídica de deixar a cabeça e a nuca acima da água e a cabeça cortando a água como um arado.

Isto foi o suficiente para permitir a Sibirzev acertar um tiro exato na nuca. Também o segundo alemão afundou e foi levado pela correnteza, rio abaixo, enquanto a água ao seu redor se tingia de sangue. Bairam Vadimo­vitsch retornou satisfeito para a posição, apresentou-se a Ugarov e solicitou permissão para registrar duas novas marcas em seu livro de tiros.

— O senhor tem testemunhas? — perguntou Ugarov, sabendo perfeitamente que sua indagação era infame. Qual é o fuzileiro, operando sozinho, que pode apresentar testemunhas? Acredita-se na sua palavra de honra, e isto basta. Sibirzev fitou Ugarov, sem acreditar no que ouvia, e engoliu em seco.

— Testemunhas? — repetiu.

— E eu lá o conheço tão bem, camarada?! Quando Vanda ou Marianka, Stella ou Lida ou alguma outra das minhas moças vêem, tudo bem, registro logo! Mas o senhor é novato, sai sozinho e depois volta e diz simplesmente: Por favor, duas marcas no livro. Favor registrar! E aí naturalmente eu me pergunto. . .?!