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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


BEIJE- ME ENQUANTO DURMO / Linda Howard
BEIJE- ME ENQUANTO DURMO / Linda Howard

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

BEIJE- ME ENQUANTO DURMO

 

"Se percebesse alguém à espreita ou se notasse atrás de mim uma sombra que não fosse a minha, eu certamente agiria rápido e daria o dia por encerrado.”

Era um emprego para matar. Eficiente, profissional e sem o mínimo arrependimento, Lily Mansfield é uma assassina de aluguel contratada pela CIA. Seus alvos eram sempre os poderosos e corruptos, aqueles que nunca são atingidos pela lei.

Agora, depois de dezenove anos de serviço, Lily se envolveu por razões pessoais num jogo perigoso, para o qual não recebeu permissão. Com atitudes cada vez mais ousadas, ela acabou comprometendo seus superiores, atraiu atenção indesejada e arriscou a própria vida. Apesar de o estresse e a tensão fazerem com que ela se sinta invencível e até mesmo um tanto convencida, Lily também sabe que pode ser eliminada num piscar de olhos. E, se for a sua hora, tudo bem. Ela pretende morrer lutando.

Lucas Swain, um agente da CIA, também reconhece os sinais perturbadores na linha de fogo. A ordem que recebe é para matá-la ou prendê-la. Mas ele também é atraído para o jogo com Lily Mansfield, e equilibra-se na corda bamba ao tentar evitar uma catástrofe mundial e, ao mesmo tempo, luta contra um inimigo obstinado que vigia todos os passos deles dois. Mantendo o foco no seu objetivo e, ao mesmo tempo, atenta para não ser pega, Mansfield não vê o perigo mortal que está indo em sua direção. E terá que descobrir que a lealdade tem o seu preço.

 

                                   Paris

Lily inclinou a cabeça e sorriu para seu acompanhante, Salvatore Nervi, enquanto o maitre, em silêncio e com graça, acomodava-os na melhor mesa do restaurante; o sorriso, diferente de quase tudo nela, era genuíno. O azul-claro de seus olhos estava castanho-claro por causa das lentes de contato coloridas; seu cabelo louro tinha sido escurecido para castanho-escuro e havia algumas mechas levemente mais claras. Ela retocava a tintura com freqüência, para que a raiz de seu tom natural não a denunciasse. Para Salvatore Nervi, ela era Denise Morei, um sobrenome bastante comum, uma vez que havia muitos Morei na França, mas não tão comum que levantasse suspeitas. Salvatore Nervi era desconfiado por natureza, este costume salvou sua vida mais vezes do que provavelmente se lembrava. Mas, se tudo desse certo naquela noite, finalmente ele seria pego — em parte por seu pinto. Que ironia.

Sua identidade falsa não fora bem arquitetada; não teve tempo para se preparar melhor. Apostava que ele não a investigaria mais do que já o havia feito, que sua paciência para esperar pelas respostas antes de tentar seduzi-la se esgotaria. Geralmente, quando um falso disfarce se fazia necessário, o pessoal de Langley o preparava para ela, mas dessa vez ela estava sozinha. Fizera o melhor possível no tempo que teve. Provavelmente Rodrigo, o filho mais velho de Salvatore e o número dois na organização Nervi, ainda estava investigando; tinha pouco tempo antes que ele descobrisse que essa tal de Denise Morei havia aparecido do nada alguns meses antes.

— Ah! — Salvatore sentou-se na cadeira suspirando de satisfação e retribuiu-lhe o sorriso. Ele era um charmoso cinqüentão; tinha a aparência de um italiano clássico, com cabelos negros e cheios, olhos escuros e lábios sensuais. Ele se mantinha em forma e seus cabelos ainda não eram grisalhos — talvez ele fosse bom nos retoques. — Você está adorável hoje; já lhe disse isso?

Ele também tinha o clássico charme italiano. Era uma pena que fosse um assassino frio e calculista. Bem, isso ela também era. Eles combinavam bem apenas naquele aspecto, ela sabia que não eram exatamente iguais. Ela precisava de uma deixa, por menor que fosse.

— Sim — ela respondeu, com seu olhar caloroso. Tinha o sotaque parisiense, treinara muito para tê-lo. — Obrigada de novo.

O gerente do restaurante, M. Durand, aproximou-se da mesa e os cumprimentou:

— É um prazer recebê-los mais uma vez, mon-sieur. Tenho boas notícias: recebemos uma garrafa de Château Maximilien 82. Chegou ontem mesmo e, quando vi seu nome na lista de reservas, separei-a para o senhor.

— Excelente! — Salvatore disse, sorrindo. O Bordeaux 82 era de uma safra excepcional e restavam poucas garrafas. Agora eram vendidas a um preço bem elevado. Salvatore era um conhecedor e se dispunha a pagar qualquer preço para adquirir uma raridade. Mais do que isso, ele adorava vinho. Não comprava as garrafas apenas para guardá-las; ele bebia o vinho, sorvia-o, tornava-se poético ao descrever sabores e aromas. Ele estendeu seu sorriso para Lily. — Este vinho é divino, você vai adorar.

— Duvido — ela respondeu calmamente. — Nunca gostei de vinho algum. — Deixara bem claro, desde o princípio, que era uma francesa atípica, que não gostava de vinho. Seu costume era bastante plebeu. Lily, na verdade, apreciava o vinho, mas, quando estava com Salvatore, não, era Lily, era Denise Morei, e Denise bebia apenas café ou água mineral.

Salvatore deu uma risadinha e disse:

— Veremos. — No entanto, pediu um café para ela.

Aquele era seu terceiro encontro com Salvatore. Desde o começo, ela resistia mais do que ele gostaria: recusou os dois primeiros convites para um encontro. Foram riscos calculados, que o deixaram mais interessado. Salvatore estava habituado a ver pessoas ao seu redor procurando chamar sua atenção, receber sua gentileza; não estava acostumado a ser rejeitado. A aparente falta de interesse de Denise havia despertado o seu, porque aquela era uma atitude de pessoas poderosas: elas esperavam que os outros lhes dessem atenção. Ela também resistia a seus gostos, como no caso do vinho. Nos dois primeiros encontros, ele tentara a todo custo fazê-la experimentar seus vinhos, mas ela se manteve irredutível na recusa. Ele nunca estivera com uma mulher que não tentasse agradá-lo, e estava intrigado com a indiferença dela.

Ela odiava estar com ele, odiava ter de sorrir para ele, conversar, até mesmo tolerar seus toques mais casuais. Na maior parte do tempo, conseguia controlar seu aborrecimento, forçando-se a ficar concentrada em seu plano de ação, mas às vezes estava tão tomada pela raiva e pela dor que tinha de se segurar para não atacá-lo com as próprias mãos.

Ela teria lhe acertado um tiro se pudesse, mas ele era muito bem protegido. Ela sempre era revistada antes de encontrá-lo; até mesmo os dois primeiros encontros haviam ocorrido em eventos sociais e todos os convidados foram revistados já na entrada. Salvatore nunca entrava ou saía do carro ao ar livre; seu motorista sempre parava em um lugar fechado, e ele nunca ia a lugar algum onde precisasse sair do veículo sem proteção. Se não houvesse cobertura, então ele não ia. Lily acreditava que ele tinha uma saída segura e secreta de sua casa ali em Paris, para poder se locomover sem que ninguém soubesse, mas, se realmente tinha, ela ainda não a tinha visto.

Aquele restaurante era o seu favorito e tinha uma entrada coberta e reservada que muitos dos clientes usavam. O estabelecimento também era exclusivo; a lista de espera era longa e quase sempre ignorada. Os comensais ali pagavam caro pelo aconchego e pela segurança, e o gerente se esforçava para garanti-los. Não havia mesas próximas às janelas frontais; ali ficavam apenas vasos de flores. Havia colunas de tijolos no salão todo, que serviam para dividir o espaço, impedindo a visão direta pelas janelas. O clima era de conforto e requinte. Um batalhão de garçons em ternos pretos circulava entre as mesas, enchendo taças de vinho, esvaziando cinzeiros, pegando migalhas e, de modo geral, satisfazendo todos os desejos antes de as pessoas expressá-los. Lá fora, a rua estava repleta de carros blindados. Dentro dos veículos havia guarda-costas zelosos a observar a rua e as janelas dos prédios vizinhos, tentando detectar ameaças, reais ou não.

A maneira mais fácil de atacar aquele restaurante, e todos os seus clientes infames, seria com um míssil teleguiado. Qualquer outra forma de ataque dependeria de sorte, e o resultado seria imprevisível. Infelizmente, ela não tinha um míssil teleguiado.

O veneno estava no Bordeaux que seria servido logo em seguida, e era tão potente que metade de uma taça era o suficiente para matar. O gerente fizera grandes esforços ainda para encomendá-lo para Salvatore, mas Lily fizera maiores esforços ainda para pôr suas mãos nele primeiro e fazer com que M. Durand o encontrasse. Quando soube que ela e Salvatore jantariam ali, encomendou a garrafa.

Salvatore tentaria persuadi-la a dividir o vinho com ele, mas não esperaria que ela o fizesse.

Provavelmente esperava que ela dividisse a cama com ele naquela noite, mas ficaria decepcionado mais uma vez. O ódio que ela sentia por ele era tamanho que quase não conseguia tolerar seus beijos e toques mais intensos. De jeito nenhum permitiria que ele passasse disso. Ademais, ela não queria estar com ele quando o veneno começasse a surtir efeito, o que deveria acontecer entre quatro e oito horas após a ingestão, se a estimativa do dr. Speer estivesse correta; nesse meio-tempo, ela estaria ocupada fugindo do país.

Quando Salvatore percebesse que alguma coisa estava errada, já seria tarde demais; o veneno já teria feito grande parte do estrago, afetaria os rins, o fígado e o coração. Ele sofreria falência múltipla de órgãos. Poderia viver algumas horas depois disso, talvez um dia inteiro, até seu corpo finalmente sucumbir. Rodrigo viraria a França de cabeça para baixo à procura de Denise Morei, mas ela já teria desaparecido — por um tempo, pelo menos. Não tinha a menor intenção de sumir definitivamente.

Veneno não era uma arma costumeira; era o modo que lhe sobrava por causa da obsessão de Salvatore com sua segurança. Seu método preferido era a pistola, e ela a teria usado mesmo sabendo que poderia ser morta no mesmo momento, mas não tinha conseguido encontrar um jeito de aproximar-se dele com uma arma. Se não estivesse trabalhando sozinha, talvez... mas, talvez não. Salvatore sobrevivera a várias tentativas de assassinato e aprendera com cada uma delas. Nem mesmo um atirador profissional conseguiria acertar-lhe uma bala. Matar Salvatore Nervi exigia o uso de veneno ou de uma arma de destruição em massa que atingiria outras pessoas inocentes. Lily não teria se importado em matar Rodrigo ou qualquer outra pessoa da organização Nervi, mas Salvatore era inteligente o bastante para sempre se manter entre inocentes. Ela não conseguia matar tão casual e indiscriminadamente; na verdade, ela era diferente dele. Talvez essa fosse a única diferença, mas, para o bem de sua sanidade mental, era uma diferença que ela tinha de preservar.

Lily tinha trinta e sete anos. Estava nesse ramo desde os dezoito, portanto, durante metade de sua vida foi uma assassina competente, levando-se em conta sua longevidade no negócio. A princípio, sua idade fora uma vantagem: ela tinha a aparência tão jovem e vívida que ninguém a percebia como uma ameaça. Não tinha mais aquele trunfo, mas a experiência lhe rendera outros benefícios. No entanto, essa mesma experiência pesava tanto sobre ela que às vezes se sentia tão frágil quanto a casca de um ovo: mais um esforço apenas e ela seria despedaçada.

Talvez ela já estivesse despedaçada e ainda não tivesse percebido. Tinha a sensação de que não lhe restava mais nada, como se sua vida fosse uma porcaria. Conseguia enxergar apenas o objetivo diante de si: Salvatore Nervi seria derrubado, assim como o resto da organização. Mas ele era o primeiro, o mais importante, pois ordenara que as pessoas que ela mais amava fossem assassinadas. Além desse único objetivo, ela não via nada, nenhuma esperança, nenhuma alegria, nenhum raio de sol. O fato de que poderia morrer na execução da tarefa não lhe importava muito.

Isso não queria dizer, de modo algum, que desistiria. Ela não era suicida; era uma questão de orgulho profissional não apenas executar o trabalho, mas também sair ilesa. Ainda existia em seu coração a esperança de que, se conseguisse passar por tudo, um dia sua dor desoladora viesse a diminuir e ela voltasse a sentir alegria. A esperança era uma chama fraca, porém viva. Acreditava manter as pessoas vivas mesmo depois de enfrentarem um desespero aterrador, pois a esperança era a razão pela qual poucos desistiam.

Com isso, ela não tinha ilusões sobre a dificuldade daquilo que queria fazer, ou sobre suas chances durante e depois. Depois que tivesse feito o serviço, teria de sumir do mapa, se estivesse viva. Os engravatados de Washington não ficariam felizes por ela ter acabado com Nervi. Não apenas Rodrigo estaria procurando por ela, mas também seus próprios compatriotas, e ela acreditava que o resultado seria o mesmo, independentemente de quem a pegasse. Ela estava agindo por conta própria, por assim dizer, o que significava que se tornaria dispensável — sempre o fora —, mas que sua demissão seria desejada. De qualquer modo, não seria uma boa situação.

Ela não poderia ir para casa, não teria mais uma casa de verdade. Não poderia expor sua mãe e sua irmã, sem falar na família de sua irmã. De qualquer forma, estava há uns dois anos sem falar com eles... Ou melhor, quatro anos já haviam se passado desde o último telefonema para a mãe. Talvez cinco. Ela sabia que todos estavam bem, pois os mantinha sob observação, mas o mais complicado é que ela não pertencia mais ao mundo deles, e eles não conseguiriam compreender o mundo dela. Não via sua família há quase dez anos. Eles faziam parte do Antes, e ela irrevogavelmente estava no Depois. Seus colegas de trabalho tinham se tornado sua família — e haviam sido assassinados.

Desde que ouvira rumores de que Salvatore Nervi estava por trás da morte de seus amigos, ela se concentrou em apenas uma coisa: aproximar-se o suficiente dele para matá-lo. Ele sequer tentara esconder o fato de ter sido o causador das mortes; aproveitou para deixar o aviso de que ninguém deveria cruzar seu caminho. Ele não tinha medo da polícia; graças aos contatos que mantinha, estava fora do alcance da lei. Salvatore conhecia muitas pessoas em posições importantes, não apenas na França, como na Europa toda, que podiam e faziam tudo que ele quisesse.

Lily percebeu que Salvatore estava falando com ela, e parecia irritado com sua distração.

— Sinto muito — ela se desculpou. — Estou preocupada com minha mãe. Ela me telefonou hoje e disse que caiu da escada em sua casa. Disse que não se feriu, mas eu acho que devo ir até lá amanhã e ver com meus próprios olhos. Ela já tem setenta anos e os idosos fraturam seus ossos com mais facilidade, não é?

Foi uma mentira rápida, e não só porque estava realmente pensando em sua mãe. Salvatore era italiano até a alma; adorava sua mãe e entendia de devoção familiar. Imediatamente demonstrou preocupação.

— Sim, claro que deve. Onde ela mora?

— Em Toulouse — ela respondeu, dizendo o nome de uma cidade tão distante quanto Paris, mas que ainda fosse na França. Se ele dissesse Toulouse a Rodrigo, ela ganharia algumas horas enquanto ele a procurasse no sul. É claro que Rodrigo poderia facilmente pensar que ela dissera Toulouse para conseguir escapar; teria de arriscar. Não podia se preocupar em adivinhar o que eles pensariam. Seguiria com seu plano e esperava que tudo desse certo.

— Quando vai voltar?

— Depois de amanhã, se tudo estiver bem. Se não estiver... — ela deu de ombros.

— Então, vamos nos divertir ao máximo hoje à noite. — A intensidade de seu olhar dizia exatamente o que ele tinha em mente.

Ela não fingiu nada. Em vez disso, afastou-se sutilmente e ergueu as sobrancelhas.

— Talvez — disse com frieza. — Talvez não. — Seu tom de voz denunciava que ela não estava morrendo de vontade de dormir com ele.

Seu distanciamento aumentava o interesse dele e a intensidade de seu olhar. Ela pensou que talvez sua relutância o fizesse lembrar de sua juventude, quando namorava a falecida esposa, mãe de seus filhos. As jovens italianas da geração dele eram muito reservadas e preservavam sua virgindade até o casamento, e talvez ainda o fizessem. Ela não tinha muito contato com jovens de outros países.

Dois garçons se aproximaram, um deles trazia uma garrafa de vinho como se fosse um tesouro inestimável, o outro trazia seu café. Ela agradeceu com um sorriso enquanto o café era servido, sobre a mesa, e ocupou-se em colocar creme em sua bebida, aparentemente sem prestar atenção a Salvatore, enquanto o garçom abria a garrafa e entregava-lhe a rolha para que ele cheirasse. Na verdade, sua atenção estava dissimuladamente voltada para aquela garrafa e para o ritual de servir. Os enólogos eram minuciosos em relação a esses rituais; ela não conseguia compreender. Para ela, o único ritual relacionado ao vinho era servi-lo em um copo e bebê-lo. Ela não queria cheirar uma rolha.

Depois de Salvatore expressar aceitação, o garçom, solenemente e se sabendo observado, despejou o vinho tinto na taça de Salvatore. Lily prendeu a respiração quando Salvatore moveu a taça em círculos, sentiu a fragrância e provou.

—Ah! — ele disse, fechando os olhos de prazer. — Maravilhoso.

O garçom curvou-se, como se fosse o responsável pelo ótimo sabor do vinho, deixou a garrafa sobre a mesa e se retirou.

— Você precisa prová-lo — Salvatore disse a Lily.

— Seria uma perda de tempo — ela disse, bebericando seu café. — Para mim, isto aqui é que tem um sabor agradável. — Ela apontou para seu café. —Vinho... argh!

— Este vinho vai lhe fazer mudar de idéia, eu juro.

— Muitas pessoas já me disseram a mesma coisa. Todas estavam enganadas.

— Apenas um gole, só para sentir um pouco do sabor — ele insistiu, e pela primeira vez ela percebeu a mudança de humor em seu olhar. Aquele era Salvatore Nervi, que não estava acostumado a aceitar recusas, principalmente de uma mulher a quem ele dava a honra de sua atenção.

— Não gosto de vinho...

— Você não experimentou este vinho — ele disse, segurando a garrafa e despejando um pouco do líquido em outra taça, entregando-a para ela. — Se não achar que este vinho é o paraíso, nunca mais pedirei que prove qualquer outro. Estou lhe dando minha palavra.

Aquilo certamente era verdade, já que ele estaria morto. E ela também, se bebesse aquele vinho.

Quando novamente se recusou, a irritação dele ficou ainda mais nítida, pois colocou a taça de vinho com firmeza sobre a mesa.

— Você não faz nada que eu lhe peço — disse, encarando-a. — Gostaria de saber por que está aqui. Talvez eu devesse livrá-la de minha companhia e dar a noite por encerrada?

Ela gostaria que isso acontecesse de fato — se ao menos ele tivesse bebido mais vinho. Não achava que apenas um gole do vinho seria o suficiente para o veneno cumprir seu papel. O veneno era supertóxico e ela injetara pela rolha uma quantidade suficiente para derrubar vários homens do tamanho dele. Se ele fosse embora irritado, o que aconteceria com aquela garrafa de vinho aberta? Será que ele a levaria ou a deixaria sobre a mesa? Como era muito caro, ela sabia que o vinho não seria jogado fora. Algum outro cliente o beberia, ou os funcionários.

— Está bem — ela disse, segurando a taça. Sem hesitar, levou-a até sua boca e a virou, deixando que o vinho molhasse seus lábios cerrados, mas não engoliu nada. Será que o veneno poderia ser absorvido pela pele? Tinha quase certeza que sim; o dr. Speer a aconselhara a usar luvas de borracha quando estivesse lidando com ele. Temia, agora, que sua noite fosse muito interessante, não planejada, mas não havia nada mais que pudesse fazer. Não podia nem ao menos derrubar a garrafa no chão, porque os funcionários inevitavelmente seriam contaminados pelo líquido quando estivessem limpando a bagunça.

Ela não tentou reprimir o arrepio que subiu por seu corpo ao pensar naquilo e, com cara de nojo, colocou a taça sobre a mesa, antes de secar os lábios com seu guardanapo. Em seguida, ela o dobrou cuidadosamente, a fim de evitar contato com a parte molhada.

— E então? — Salvatore perguntou impacientemente, apesar de ter visto sua reação.

— Uvas podres — ela disse, estremecendo uma vez mais. Ele parecia inconformado.

— Podres? — Não acreditava que ela não gostasse daquele vinho delicioso.

— Eu senti o gosto dos antepassados dele, que infelizmente são uvas podres. Está satisfeito? — Ela deixou que seus olhos mostrassem um pouco de irritação. — Não gosto de ser intimidada.

— Eu não...

Sim, você fez isso, com a ameaça de não me ver mais.

Ele tomou outro gole de vinho, ganhando tempo antes de dizer:

Peço desculpas — disse, delicadamente. — Não estou habituado a...

—A ouvir "não"? — ela questionou e bebeu seu café em seguida. Será que a cafeína podia acelerar o efeito do veneno? Será que o creme o retardaria?

Ela estaria disposta a se sacrificar para acertar-lhe um belo tiro na cabeça, mas qual era a diferença? Ela minimizara o risco ao máximo, mas, ainda assim, estava correndo perigo, e morrer envenenada seria horrível.

Ele ergueu seus grandes ombros e lançou um olhar pesaroso a ela.

— Exatamente — disse, mostrando um pouco de seu lendário charme. Ele conseguia ser charmoso quando queria. Se ela não soubesse o que ele tinha feito, poderia se envolver; se não tivesse visto seus dois melhores amigos e a filha adotiva deles sendo enterrados, poderia ter decidido, de modo filosófico, que, em seu trabalho, a morte era um resultado normal. Averill e Tina sabiam dos riscos quando entraram no jogo, assim como ela; Zia, de treze anos, no entanto, era inocente. Lily não conseguia esquecer Zia, nem perdoar. Não conseguia ser estóica.

Três horas mais tarde, com a refeição vagarosamente feita, todo o líquido da garrafa de vinho estava dentro do estômago de Salvatore e eles se levantaram para sair. Já passava da meia-noite e o céu de novembro soltava pequenos flocos de neve que se derretiam imediatamente ao caírem nas ruas molhadas. Lily sentia náuseas, mas achou que poderia ser por causa da tensão, e não pela reação ao veneno, que deveria demorar mais do que apenas três horas para fazer efeito.

—Acho que alguma coisa que comi não me fez bem — ela disse ao entrarem no carro.

Salvatore soltou um suspiro.

— Não precisa fingir nenhum mal-estar para não ir para casa comigo.

— Não estou fingindo — ela disse com firmeza. Ele virou o rosto e olhou para as luzes parisienses. Era bom que ele tivesse bebido todo o vinho, porque ela tinha certeza de que ele a daria como causa perdida, de qualquer maneira.

Ela encostou a cabeça no banco do carro e fechou os olhos. Não, aquilo não era por causa da tensão. O enjôo estava aumentando a cada minuto. Ela sentiu a pressão aumentar em sua garganta e disse:

— Pare o carro! Vou vomitar!

O motorista pisou no freio — estranho como aquela ameaça em especial o fizera agir por instinto, esquecendo seu treinamento — e ela abriu a porta antes de o carro parar totalmente, curvou-se para fora e vomitou no meio-fio. Sentiu uma mão de Salvatore em suas costas e outra em seu braço, segurando-a, apesar de ela ter tido o cuidado de não se curvar tanto, para não se expor à linha de fogo.

Depois de esvaziar seu estômago, ela voltou para dentro do carro e limpou a boca com o lenço que Salvatore silenciosamente lhe entregou.

— Sinto muitíssimo — ela disse, chocada ao perceber como sua voz estava fraca e trêmula.

— Sou eu quem deve lhe pedir desculpas — ele disse. — Não acreditei que você estivesse realmente enjoada, Quer que eu a leve ao médico? Poderia telefonar para meu médico...

— Não, eu já me sinto um pouco melhor — mentiu. — Por favor, me leve para casa.

Ele atendeu seu pedido, com muitas perguntas gentis e a promessa de lhe telefonar no dia seguinte, pela manhã. Quando o motorista finalmente parou diante do prédio onde ela morava, em um flat alugado, ela deu tapinhas na mão de Salvatore e disse:

Sim, por favor, ligue amanhã, mas não me beije; posso estar com algum vírus. — Com essa boa desculpa, ela vestiu o casaco e foi em direção ao prédio sob a nevasca que começava a ficar mais forte, e não olhou para trás enquanto o carro partia.

Ela chegou a seu apartamento, onde se jogou na primeira cadeira que viu. Não havia a menor possibilidade de pegar seus objetos pessoais e ir para o aeroporto, como havia planejado. Talvez fosse melhor mesmo. Arriscar-se era o melhor disfarce. Se ela também passasse mal com o veneno, Rodrigo não suspeitaria dela, não se preocuparia com o que aconteceria a ela quando se restabelecesse.

Se ela sobrevivesse, é claro.

Ela se sentiu muito tranqüila enquanto esperava pelos acontecimentos inevitáveis.

 

A porta de seu apartamento foi arrombada logo depois das nove horas da manhã seguinte. Três homens entraram, todos armados. Lily tentou erguer a cabeça, mas, com um gemido baixo, deixou que ela voltasse a cair sobre o tapete que cobria o assoalho escuro e encerado.

Os rostos dos três homens flutuavam diante dela e um deles se ajoelhou e virou o rosto dela para ele. Ela piscou e tentou fixar a visão. Rodrigo. Engoliu em seco e esticou o braço em sua direção, um pedido silencioso de ajuda.

Ela não estava fingindo. A noite tinha sido longa e difícil. Vomitara várias vezes e sentira ondas de frio e de calor. Uma dor aguda lhe penetrava o estômago, deixando-a curvada em posição fetal, chorando de angústia. Por um momento, acreditou que a dose tinha sido letal, mas agora parecia que as dores diminuíam. Ela estava se sentindo fraca e enjoada demais para levantar-se do chão e ir para o sofá, ou sequer usar o telefone para pedir ajuda. Durante a noite tinha tentado chegar ao telefone uma vez, mas seu esforço não fora suficiente para alcançá-lo.

Rodrigo soltou um palavrão em italiano, em voz baixa, colocou a arma no coldre e deu uma ordem a um de seus homens.

Lily reuniu força suficiente para conseguir dizer:

Não chegue... muito perto. Pode ser... contagioso.

Não — ele disse com seu excelente francês. — Não é nada contagioso. — Momentos depois, Rodrigo envolveu-a com um lençol e levantou-a.

Ele saiu do flat e desceu as escadas dos fundos, onde seu carro esperava com o motor ligado. O motorista saiu do carro ao avistar Rodrigo e abriu a porta traseira.

Lily foi colocada sem cuidados no carro, com Rodrigo de um lado e um dos outros homens do outro. Sua cabeça pendeu para trás, no encosto do banco, e ela fechou os olhos, gemendo ao sentir a dor aguda mais uma vez tomar conta de seu estômago. Ela não tinha forças para se endireitar e sentiu que seu corpo voltava a tombar, vagarosamente. Rodrigo demonstrou irritação, mas se endireitou, de modo que ela pudesse ficar encostada nele.

Grande parte de sua consciência estava prejudicada por causa do envenenamento, mas uma parte clara de seu cérebro permanecia em alerta. Ela ainda não estava morta, fosse pelo veneno ou por Rodrigo. Por enquanto, estava evitando pensar, mas era só isso. Pelo menos ele a estava levando para algum lugar onde ela poderia receber atendimento médico — ela esperava que sim. Provavelmente não a estava levando para nenhum lugar onde fosse matá-la e abandonar seu corpo, pois matá-la no apartamento e fugir teria sido muito mais fácil. Ela não sabia se alguém o vira carregando-a para fora, mas talvez sim, apesar de eles terem saído pelos fundos. Não importava se alguém o visse, pelo menos não muito. Ela achava que Salvatore estava morto ou morrendo, e Rodrigo era, agora, o líder da organização Nervi; como tal, ele herdara muito poder, tanto financeiro quanto político. Salvatore mantinha muitas pessoas comendo em sua mão.

Ela lutou para manter os olhos abertos, a fim de prestar atenção ao caminho, mas suas pálpebras continuavam se fechando. Por fim, ela pensou: "Que se dane", e desistiu de fazer esforço. Independentemente do lugar para onde Rodrigo a estava levando, não havia como reagir.

Os homens ficaram em silêncio dentro do carro, sem fazer qualquer comentário. O clima entre eles parecia tenso e marcado por pesar, preocupação e até ódio. Ela não conseguia entender e, como eles não estavam conversando, não conseguia escutar nada. Até mesmo o barulho do trânsito parecia estar sumindo e, em determinado instante, não escutou mais nada.

O portão do condomínio se abriu quando o carro se aproximou e o motorista, Tadeo, entrou com o Mercedes na vaga, deixando poucos centímetros de espaço de cada lado do veículo. Rodrigo esperou até que o carro parasse sob uma cobertura e Tadeo saísse para abrir a porta do passageiro antes de pegar Denise Morei. Sua cabeça pendeu para trás e ele percebeu que ela havia desmaiado. Seu rosto estava pálido, seus olhos estavam fundos e dela exalava um odor — o mesmo que sentira em seu pai.

O estômago de Rodrigo revirou-se enquanto ele tentava controlar seu pesar. Ainda não conseguia acreditar naquilo — Salvatore estava morto. Assim, rápido, ele se fora. A notícia ainda não havia se espalhado, mas era apenas uma questão de tempo. Rodrigo não poderia se dar ao luxo de chorar; tinha de agir com rapidez, consolidar sua posição e assumir as rédeas, antes que seus rivais agissem como um bando de raposas.

Quando o médico da família disse que o problema de Salvatore parecia envenenamento por cogumelos, Rodrigo agiu com rapidez. Mandou três homens atrás de M. Durand no restaurante para pegá-lo, enquanto ele mesmo, com Tadeo dirigindo, chamou Lamberto e Cesare para irem atrás de Denise Morei. Ela fora a última pessoa com quem seu pai tinha estado antes de se sentir mal, e veneno era uma arma de mulher, indireta e indefinida, dependendo de premeditação e das circunstâncias. Nesse caso, no entanto, a arma tinha sido eficaz.

Mas se seu pai tinha morrido na mão de Denise, ela também havia se envenenado, em vez de fugir do país. Ele não esperava que ela estivesse no apartamento, uma vez que Salvatore dissera que ela iria a Toulouse para visitar a mãe; Rodrigo pensou que aquilo fosse uma desculpa. Parecia que estava enganado — ou pelo menos a possibilidade de erro era grande o bastante para explicar o fato de ele não tê-la matado a tiros.

Ele saiu do carro, colocou as mãos debaixo dos braços dela e jogou-a em suas costas. Tadeo ajudou a segurá-la, até Rodrigo conseguir passar seu braço por baixo dos joelhos dela e levantá-la até seu peito. Ela tinha peso normal, media cerca de 1,67m e era magra; apesar de estar desmaiada, ele conseguiu carregá-la para dentro com facilidade.

— O dr. Giordano ainda está aí? — ele perguntou, e recebeu uma resposta afirmativa. — Avise a ele que preciso falar-lhe, por favor. — Ele a levou para o andar superior, para um dos quartos de hóspedes. Seria melhor se ela estivesse em um hospital, mas Rodrigo não queria dar explicações. Os oficiais conseguiam ser irritantemente oficiais. E, se ela morresse, tudo bem, ele teria feito todo o esforço que estava disposto a fazer. Vincenzo Giordano era um médico de verdade, apesar de não mais trabalhar na área e passar todo o seu tempo no laboratório no centro de Paris, construído por Salvatore. No entanto, se Salvatore tivesse chamado ajuda antes e pedido para ser levado a um hospital, talvez ainda estivesse vivo. Rodrigo não questionou a decisão do pai de chamar o dr. Giordano, pois entendeu. A discrição era tudo em uma situação de vulnerabilidade.

Ele deitou Denise na cama e ficou em pé olhando para ela, tentando imaginar por que seu pai havia se encantado com aquela mulher. Salvatore sempre se encantava com mulheres, mas aquela não tinha nada de especial. Naquele momento estava horrorosa, tinha o cabelo despenteado, o rosto pálido como se estivesse morta, mas, mesmo arrumada, ela não conseguia ser bela. Seu rosto era fino demais, austero demais e ela tinha os dentes um pouco salientes. Isso, no entanto, fazia com que seu lábio superior fosse mais proeminente que o inferior, o que a tornava um pouco atraente.

Paris estava repleta de mulheres com mais beleza e estilo que Denise Morei, mas Salvatore quisera justamente ela, a ponto de ter ficado impaciente demais para esperar que uma detalhada investigação fosse feita antes de aproximar-se dela. Para sua surpresa, ela recusou os dois primeiros convites, e a impaciência de Salvatore transformou-se em obsessão. Será que sua preocupação com ela o deixara desprotegido? Teria aquela mulher sido indiretamente responsável por sua morte?

A dor e a raiva de Rodrigo eram tamanhas que ele seria capaz de estrangulá-la apenas por essa possibilidade, mas, por baixo desse sentimento, uma voz lhe dizia que ela poderia contar-lhe alguma coisa que o levasse ao culpado pelo envenenamento.

Ele teria de descobrir quem havia feito aquilo e eliminá-lo — ou eliminá-la. A organização Nervi não permitiria que o culpado saísse impune ou sua reputação ficaria comprometida. Como estava assumindo o comando agora, não poderia permitir que duvidassem de sua habilidade e firmeza. Tinha de encontrar seu inimigo. Infelizmente, as possibilidades eram ilimitadas. Quando se tratava de morte e de dinheiro, o mundo todo se envolvia. Como Denise também havia sido envenenada, ele tinha de levar em consideração que o perpetrador poderia ser uma ex-amante ciumenta de seu pai — ou um antigo amor de Denise.

O dr. Vincenzo Giordano bateu educadamente no batente da porta aberta e entrou no quarto. Rodrigo olhou para ele; o homem parecia esgotado, seus cachos grisalhos, geralmente bem aprumados, estavam despenteados, como se ele os tivesse puxado. Aquele, médico era amigo de infância de seu pai e tinha chorado sem o menor pudor quando Salvatore morrera, duas horas antes.

por que ela também não está morta? — Rodrigo quis saber, indicando a mulher na cama.

Vincenzo checou o pulso de Denise e auscultou seu coração.

pode ser que ainda morra — ele disse, esfregando a mão em seu rosto cansado. — Seus batimentos cardíacos estão muito inconstantes. Mas talvez ela não tenha ingerido tanto veneno quanto seu pai.

O senhor ainda acha que foram cogumelos venenosos?

— Eu disse que parecia envenenamento por cogumelos — devido às semelhanças. Mas existem diferenças. A velocidade com que ele agiu, por exemplo. Salvatore era um homem grande e robusto; não estava se sentindo mal ontem à noite, quase uma hora da madrugada. Ele faleceu seis horas depois. Os cogumelos demoram a fazer efeito; até mesmo os mais letais levam dois dias para matar. Os sintomas foram muito parecidos; a velocidade, não.

— Não era cianureto ou estricnina?

— Não era estricnina. Os sintomas não eram os mesmos. O cianureto mata em questão de minutos e causa convulsões. Salvatore não sofreu convulsões. Os sintomas de envenenamento por arsênico são um pouco parecidos, mas as diferenças são maiores, o que descarta essa hipótese.

— Existe alguma maneira de identificar o que foi usado? Vincenzo soltou um suspiro.

Não tenho certeza de que tenha sido veneno. Pode ser um vírus e, nesse caso, todos nós fomos expostos a ele.

Então, por que o motorista de meu pai não está doente? Se é um vírus que mata em poucas horas, então ele também deveria estar doente agora.

- Eu disse que pode ser, e não que é. Posso fazer testes; com a sua permissão, posso examinar o fígado e os rins de Salvatore.

Posso comparar a análise do sangue dele com a de... qual é o nome dela?

— Denise Morei.

—Ah, sim, eu me lembro. Ele me contou sobre ela. — Os olhos escuros de Vincenzo se entristeceram. — Acho que estava apaixonado.

— Que nada. Ele ia acabar perdendo o interesse por ela. Sempre acontecia. — Rodrigo balançou a cabeça, como se tentasse esquecer. — Já chega. O senhor pode salvá-la?

— Não. Ou ela vai viver ou morrer. Não posso fazer nada.

Rodrigo deixou Vincenzo fazer seus testes e foi ao porão, onde seus homens estavam mantendo M. Durand. O francês já tinha apanhado tanto que sangrava pelo nariz, mas os homens de Rodrigo se concentravam mais em dar-lhe golpes no corpo, que feriam mais e não eram tão fáceis de se ver.

— Monsieur Nervi! — o gerente do restaurante conseguiu dizer quando viu Rodrigo, e começou a chorar de alívio. — Por favor, seja lá o que tenha acontecido, eu não sei de nada! Eu juro!

Rodrigo puxou uma cadeira e sentou-se diante de M. Durand, recostando-se e cruzando suas longas pernas.

— Meu pai comeu algo em seu restaurante ontem à noite que não lhe caiu bem — disse, deixando a suspeita no ar.

Uma expressão de surpresa e choque passou pelo rosto do francês. Rodrigo pôde ler seus pensamentos: ele estava sendo surrado porque Salvatore Nervi tivera uma indigestão?

— Ma-mas — M. Durand tentou articular. — Vou devolver o dinheiro dele, é claro, ele só tinha que pedir. — E teve a ousadia de dizer: — Isto não era necessário.

— Ele comeu cogumelos? — Rodrigo perguntou. Novamente a expressão de surpresa.

— Ele sabe que não. Ele pediu galinha ao molho de vinho com aspargos, e mademoiselle Morei, um alabote. Não havia cogumelo algum.

Um dos homens no porão era o motorista de Salvatore, Fronte; ele se abaixou e cochichou no ouvido de Rodrigo, que assentiu com a cabeça.

— Fronte está dizendo que mademoiselle Morei vomitou logo depois de deixar seu restaurante. — Então, ela sentiu os efeitos antes, Rodrigo pensou. Será que ela tinha sido a primeira a ingerir o veneno? Ou será que ele agira primeiro nela, por ela ser mais magra?

— Não foi minha comida, monsieur. — Durand estava bastante ofendido. — Nenhum dos outros clientes passou mal ou fez qualquer reclamação. O alabote não estava estragado e, mesmo que estivesse, monsieur Nervi não o comeu.

— Houve algum alimento que os dois comeram?

— Nenhum — M. Durand respondeu rapidamente. — A não ser, talvez, o pão, apesar de não ter visto mademoiselle Morei comê-lo. Monsieur tomou o vinho, um Bordeaux, da safra de 1982, do Château Maximilien, excepcional, e mademoiselle bebeu café, como sempre. Monsieur conseguiu convencê-la a experimentar o vinho, mas ela não gostou.

— Então, eles partilharam do vinho.

— Apenas um pequeno gole. Como eu disse, ela não gostou. Mademoiselle não bebe vinho. — O erguer de ombros bastante gaulês de Durand mostrou que ele não compreendia tal peculiaridade, mas assim o era.

Mas na noite anterior ela tinha tomado o vinho, mesmo que tivesse sido apenas um pequeno gole. Seria o veneno tão potente a ponto de um gole colocar sua vida em risco?

— Sobrou vinho?

— Não. Monsieur Nervi bebeu tudo.

Aquilo não era incomum. Salvatore era bastante resistente ao álcool, bebia mais que a maioria dos italianos. —A garrafa. Você ainda tem a garrafa?

— Com certeza está no lixo. Atrás do restaurante.

Rodrigo mandou dois homens para revirarem o lixo e encontrarem a garrafa vazia de Bordeaux, e voltou-se a M. Durand. — Muito bem. Você vai ser meu hóspede — sorriu ironicamente — até que essa garrafa e seu resíduo sejam analisados.

— Mas isso pode...

— Demorar dias, sim. Tenho certeza de que o senhor vai entender. — Talvez Vincenzo conseguisse respostas antes disso, em seu próprio laboratório, mas precisava checar.

  1. Durand hesitou.

— Seu pai... Ele está muito doente?

— Não — Rodrigo disse, ficando em pé. — Está morto. — E, mais uma vez, as palavras acertaram diretamente seu coração.

No dia seguinte, Lily soube que sobreviveria; o dr. Giordano demorou dois dias para fazer a mesma afirmação. Ela precisou de três dias para poder sair da cama e, finalmente, tomar um banho. Suas pernas tremiam tanto que ela precisava se segurar na mobília para chegar ao banheiro. Estava um pouco tonta e tinha a visão ainda embaçada, mas sabia que o pior havia passado.

Tentou a todo custo ficar consciente, recusou os remédios que o dr. Giordano lhe dava para diminuir as dores e para dormir. Apesar de ter desmaiado no trajeto para o que, obviamente, era a casa de Nervi, não havia sido dopada. Apesar de falar francês com fluência, ele não era seu idioma materno; se fosse sedada, seu inglês nativo poderia aparecer. Ela dissera que temia morrer dormindo, que acreditava que poderia combater o veneno se ficasse acordada e, apesar de o dr. Giordano saber que aquilo era ridículo clinicamente falando, cedera a seus pedidos. Às vezes, ele dissera, o estado mental do paciente ajudava mais em sua recuperação do que o estado físico.

Quando ela, vagarosa e arduamente, conseguiu sair do refinado banheiro de mármore, encontrou Rodrigo sentado na cadeira ao lado da cama, à sua espera. Ele trajava roupas pretas, blusa de gola alta e calça, uma figura negra no quarto branco e creme.

Imediatamente, todos os seus instintos entraram em alerta. Ela não podia enganar Rodrigo como enganara Salvatore. Por mais esperto que o pai tivesse sido, seu filho era mais esperto ainda, mais insensível e mais ardiloso — e isso tinha de ser levado em consideração. Além disso, Salvatore sentira atração por ela e Rodrigo, não. Para o pai, ela era uma mulher mais jovem, uma conquista, mas ela era três anos mais velha que Rodrigo, que já tinha conquistas suficientes.

Ela vestia o próprio pijama, que havia sido trazido de seu apartamento no dia anterior, mas ficou feliz por estar usando o robe turco que havia encontrado no banheiro. Rodrigo era um homem muito sensual e atraente, e ela não deixava de perceber essa faceta de sua personalidade, apesar de conhecer o suficiente sobre ele para sentir repulsa. Ele não ignorava a maioria dos pecados de Salvatore, apesar de ser inocente no caso dos assassinatos que a levaram a se vingar; por acaso, Rodrigo estava na América do Sul naquela época.

Ela andou com dificuldade até a cama e sentou-se, segurando-se em um dos cantos, aos pés da cama, para se apoiar. Engoliu e disse:

— Você salvou minha vida. — Sua voz estava trêmula e fraca. Ela mesma estava trêmula e fraca, sem a menor condição de se proteger.

Ele deu de ombros.

— Parece que não. Vincenzo, o dr. Giordano, disse que não podia fazer nada para ajudar. Você se recuperou sozinha, mas ficará com seqüelas. Acho que ele disse tratar-se de uma válvula cardíaca.

Ela já sabia disso, porque o dr. Giordano tinha lhe dito a mesma coisa naquela manhã. Lily conhecia as possibilidades quando se arriscou.

— O seu fígado, no entanto, vai se recuperar. Já está com uma cor bem melhor.

— Ninguém me disse o que aconteceu. Como você soube que eu estava doente? Salvatore ficou doente também?

— Sim — ele respondeu —, e não resistiu.

Alguma reação que não fosse "Ah, que bom" precisava ser esboçada, por isso Lily pensou em Averill e Tina, em Zia, em sua fragilidade adolescente, seu rosto vivido e alegre e sua tagarelice ininterrupta. Deus do céu, como sentia falta de Zia; sentiu um aperto no peito. As lágrimas lhe encheram os olhos e ela as deixou escorrer por seu rosto.

— Foi veneno — Rodrigo disse, com a expressão e a voz tão calmas como se acabasse de comentar sobre o clima. Ela não se deixava enganar, ele deveria estar sofrendo. — Na garrafa de vinho que ele bebeu. Parece ser um veneno sintético, preparado, muito potente; quando os sintomas surgem, já é tarde demais. Monsieur Durand, do restaurante, disse que você experimentou a bebida.

— Sim, um gole. — Ela secou as lágrimas de seus olhos. — Eu não gosto de vinho, mas Salvatore insistiu e estava ficando irritado porque eu não queria beber, então tomei um gole... um gole bem pequeno, apenas para agradá-lo. Estava horrível.

— Você teve sorte. Segundo Vincenzo, o veneno é tão forte que, se você tivesse ingerido mais do que isso, se o gole não tivesse sido tão pequeno, você estaria morta.

Ela estremeceu, lembrando-se da dor e do vômito; ficara naquele estado sem sequer engolir o líquido, apenas deixando que ele lhe molhasse os lábios.

— Quem fez isso? Qualquer pessoa poderia ter tomado aquele vinho; foi algum terrorista que não se importava com quem morreria?

—Acredito que meu pai fosse o alvo; sua paixão por vinhos era bem conhecida. O Château Maximilien de 1982 é muito raro, mas, mesmo assim, uma garrafa misteriosamente apareceu para o monsieur Durand um dia antes de meu pai fazer uma reserva no restaurante.

— Mas ele pode ter encomendado a garrafa para qualquer pessoa.

— E correr o risco de meu pai ficar sabendo e ofender-se por esse vinho raro não ter sido oferecido a ele? Acho que não. Isso me diz que a pessoa que colocou o veneno na garrafa conhece bem monsieur Durand e seu restaurante, assim como sua clientela.

— Como isso foi feito? A garrafa foi aberta na nossa frente. Como o vinho pode ter sido envenenado?

—Acredito que uma agulha hipodérmica muito fina tenha sido usada para injetar o veneno pela rolha. Não daria para perceber. Ou a garrafa poderia ter sido aberta e novamente fechada se usassem os instrumentos adequados. Para grande alívio do monsieur Durand, não acho que nem ele nem o garçom que os serviu sejam culpados.

Lily estava há tanto tempo fora da cama que tremia de fraqueza. Rodrigo percebeu os tremores que abalavam seu corpo todo.

— Você pode ficar aqui até sentir-se completamente restabelecida — ele disse educadamente, levantando-se. — Se precisar de alguma coisa, só tem que pedir.

— Obrigada — ela respondeu, e então falou a maior mentira de sua vida: — Rodrigo, sinto muito por Salvatore. Ele era... ele era... — Era um assassino filho-da-puta, mas agora era um assassino filho-da-puta morto. Ela conseguiu derramar mais uma lágrima, pensando no rostinho de Zia.

— Obrigado por suas condolências — ele disse inexpressivo e saiu do quarto.

Ela não dançou para comemorar; estava fraca demais, e até onde sabia havia câmeras escondidas no cômodo. Em vez disso, voltou para a cama e tentou encontrar refúgio em um sono que restaurasse suas forças, mas estava se sentindo vitoriosa demais para conseguir ir além de um cochilo.

Parte da missão estava completa. Agora, tudo que precisava razer era desaparecer antes que Rodrigo descobrisse que Denise Morei não existia.

 

Dois dias depois, Rodrigo e seu irmão mais novo, Damone, estavam diante dos túmulos de seus pais na residência onde cresceram, na Itália. O pai e a mãe deles estavam juntos mais uma vez, na morte, como haviam ficado em vida. O túmulo de Salvatore estava coberto de flores e os dois irmãos pegaram algumas outras para cobrir o túmulo da mãe também.

O dia estava frio, porém ensolarado, e uma leve brisa soprava. Damone enfiou as mãos nos bolsos e olhou para o céu azul, seu belo rosto carregado de pesar.

— O que você vai fazer agora? — ele perguntou.

— Encontrar quem fez isso e matá-lo — Rodrigo disse, sem hesitar. Juntos, eles se viraram e começaram a se afastar do local. — Também vou mandar publicar um obituário no jornal pela morte do papai; isso não pode continuar em segredo. A notícia deixará algumas pessoas nervosas, tentarão imaginar como os vários acordos ficarão agora que eu estou no comando, e vou ter de lidar com isso. Podemos perder alguns rendimentos, mas nada que não possamos contornar. E as perdas terão curta duração. Os lucros com a vacina cobrirão os prejuízos, e mais. Muito mais.

Damone disse:

Vincenzo recuperou o tempo perdido? — Ele era mais afeito a negociações do que Rodrigo, e era o responsável pela maior parte das finanças de seus escritórios na Suíça.

— Não tanto quanto esperávamos, mas o trabalho está progredindo. Ele me garantiu que vai terminar até o verão.

— Então, está indo melhor do que eu esperava, levando-se em consideração o quanto foi perdido. — Um incidente no laboratório de Vincenzo destruíra grande parte do projeto atual.

— Ele e seu pessoal estão trabalhando muito. — E estariam trabalhando ainda mais se Rodrigo percebesse que estavam atrasados. A vacina era importante demais para permitir qualquer atraso de Vincenzo.

— Mantenha-me informado — Damone disse. De comum acordo, por questões de segurança, eles não se veriam mais até que o envenenador fosse identificado e preso. Ele virou-se e olhou novamente para o túmulo, seus olhos negros repletos da mesma dor e fúria que Rodrigo sentia. — Ainda é muito difícil de acreditar — ele disse, quase inaudível.

— Eu sei. — Os dois irmãos se abraçaram, sem vergonha da emoção que sentiam, e entraram em carros diferentes no retorno a suas pistas particulares, onde pegariam jatinhos direto para casa. Rodrigo sentira-se reconfortado pela presença de seu irmão mais novo, ao ter o que restava de sua família por perto. Apesar da tristeza pelo propósito daquele encontro, a companhia tinha sido consoladora. Agora, cada um deles voltaria para seus impérios conectados, porem separados: Damone, para cuidar das finanças, e Rodrigo, para encontrar o assassino de seu pai e vingar-se. Independentemente da decisão que tomasse, Rodrigo sabia que Damone o apoiaria.

Mas o fato é que não tinha feito qualquer progresso em encontrar quem matara Salvatore. Vincenzo ainda estava analisando o veneno, o que poderia dar-lhes uma idéia de sua origem, e Rodrigo estava observando seus rivais para saber se eles haviam tomado conhecimento da morte de Salvatore, para perceber alguma mudança no modo de eles fazerem negócios. Qualquer pessoa pensaria que os principais suspeitos seriam aqueles menos ligados à organização, mas Rodrigo não eliminava ninguém de suas suspeitas. Poderia ser qualquer pessoa de dentro da organização, ou alguém do governo. Salvatore metia o dedo em muitos lugares e, evidentemente, alguém tinha sido ganancioso o bastante para querer algo apenas para si mesmo. Rodrigo só precisava descobrir quem.

— Leve mademoiselle Morei para casa — Rodrigo disse a Tadeo depois de uma semana mantendo-a em sua casa. Ela já estava recuperada e, apesar de raramente sair do quarto, ele não se sentia à vontade com uma estranha sob o mesmo teto. Ele ainda estava ocupado consolidando sua posição — infelizmente, algumas pessoas tinham percebido que ele não era como seu pai, o que os havia impelido a desafiar sua autoridade, o que, por sua vez, o impeliu a matá-los — e havia certas coisas que um estranho não deveria ver ou ouvir por descuido. Ele se sentiria mais confortável quando a casa voltasse a ser um porto completamente seguro.

Foram necessários apenas alguns minutos para o carro chegar e para que a mulher e seus poucos pertences fossem acomodados nele. Depois que Tadeo saiu com a francesa, Rodrigo foi para o escritório de Salvatore — seria seu escritório daquele momento em diante — e sentou-se à enorme mesa entalhada de que Salvatore tanto gostava. O relatório de Vincenzo sobre o veneno, baseado na análise dos resíduos de vinho recuperados do lixo do restaurante, estava diante dele. Ele havia feito uma leitura rápida dos papéis quando os recebeu, mas agora os pegou de novo e os estudou cuidadosamente, lendo cada detalhe.

De acordo com Vincenzo, o veneno era artificial. Continha algumas das propriedades de orelanina, o veneno existente no cogumelo fatal galerina autumnalis, e foi por isso que ele suspeitou primeiro de cogumelos. A orelanina ataca vários órgãos, com maior agressão ao fígado, aos rins, ao coração e ao sistema nervoso, mas é notoriamente lenta. Os sintomas surgem após dez horas ou mais, a vítima apresenta uma leve melhora e morre vários meses depois. Não havia um tratamento ou antídoto conhecido contra a orelanina. O veneno também tinha mostrado certa ligação com o minoxidil, com os efeitos de bradicardia, parada cardíaca, hipotensão e insuficiência respiratória — o que ajudaria a tornar o paciente incapacitado de se recuperar da orelanina. O minoxidil agia rapidamente, ao contrário da orelanina; de alguma forma, as duas propriedades haviam sido combinadas para que houvesse uma demora, mas apenas de algumas horas.

Ainda de acordo com Vincenzo, havia somente alguns químicos no mundo capazes de executar tal trabalho, e nenhum deles trabalhava em grandes laboratórios. Devido à natureza de seu trabalho, eles eram caros e raros. Esse veneno em especial, com tamanha potência a ponto de menos de cinco gramas ser capaz de matar um homem de setenta quilos — ou uma mulher — custaria uma pequena fortuna para ser feito.

Rodrigo estalou os dedos enquanto pensava. A lógica lhe dizia que o assassino que ele procurava poderia ser um rival nos negócios ou alguém em busca de vingança, mas sua intuição fazia com que ele continuasse pensando em Denise Morei. Alguma coisa nela o incomodava. Ele não conseguia identificar a razão de seu desconforto; até aquele momento, suas investigações mostravam que ela era exatamente quem dizia ser. Além do mais, ela também tinha sido envenenada, e quase morreu, o que seria razão suficiente e lógica para provar sua inocência. E ela também tinha chorado ao tomar conhecimento da morte de Salvatore.

Nada a incriminava. O garçom que servira o vinho era muito mais suspeito, mas um interrogatório exaustivo feito tanto com M. Durand quanto com o garçom não levou a nada, além da informação de que M. Durand colocara a garrafa pessoalmente nas mãos do garçom e o observara levá-la, sem demora, à mesa de Nervi. Não, a pessoa que ele procurava era aquela que havia deixado o vinho disponível para chamar a atenção de M. Durand e, até aquele momento, não havia pistas de quem seria essa pessoa. A garrafa foi comprada de uma empresa-fantasma.

Portanto, o assassino era bastante experiente, tinha os meios certos para encomendar o veneno e o vinho. Ele — apenas por uma questão de conveniência, Rodrigo pensava no assassino como sendo um homem — pesquisara tanto sua vítima quanto os hábitos dela; sabia que Salvatore freqüentava aquele restaurante em particular, quando fazia reserva, e sabia, com certeza, que M. Durand logicamente separaria aquela garrafa para seu importante cliente. O assassino ainda tivera a habilidade de fornecer uma nota aparentemente verdadeira. Tudo isso mostrava um nível de profissionalismo que poderia ser denominado como "concorrente".

Mas, ainda assim, ele pensava em Denise.

Não era muito provável, mas poderia ter sido um crime passional. Ninguém estava livre de suspeitas até que ele tivesse a certeza de quem matara seu pai. Fosse lá o que seu pai vira em Denise, algum outro homem poderia ter visto também e se tornado igualmente obcecado.

Quanto às ex-namoradas de Salvatore... Rodrigo lembrou-se de todas elas e nenhuma parecia estar envolvida no caso. Além disso, Salvatore estava sempre com uma mulher nova, e nunca ficava tempo suficiente com alguém para estabelecer um relacionamento. Desde a morte de sua esposa, cerca de vinte anos antes, ele se tornara totalmente ativo nos assuntos amorosos, mas nenhuma mulher tinha chegado perto de assumir o lugar de sua esposa.

Além disso, Rodrigo investigara todas as mulheres com quem seu pai se relacionava. Nenhuma delas mostrou qualquer sinal de comportamento obsessivo, nem teriam acesso a um veneno tão exótico, muito menos poderiam comprá-lo, isso sem falar do vinho absurdamente caro. Investigaria todas elas, só por precaução, mas achava que nenhuma teria culpa. No entanto, o que dizer sobre as pessoas do passado de Denise?

Ele a questionara a respeito disso, mas ela não havia citado nomes, limitando-se a dizer: "Não, não há ninguém."

Isso queria dizer que ela havia levado uma vida reclusa e virtuosa? Ele não acreditava nisso, apesar de saber que ela havia recusado os convites de Salvatore. Ou isso queria dizer que houvera amantes, mas ninguém capaz de tal ato? Rodrigo não estava preocupado com o que Denise pensava; queria tirar as próprias conclusões.

Ah, lá estava. Por que ela não dizia a ele nada sobre seu passado? Por que era tão misteriosa? Era isso que o irritava; não havia motivo para ela não lhe dar o nome de alguém com quem tivesse se relacionado desde a adolescência. Estaria protegendo alguém? Tinha alguma idéia sobre quem poderia ter colocado veneno naquela garrafa, sabendo que ela não gostava de vinho e que não beberia?

Ele não a investigara tão minuciosamente quanto gostaria; primeiro porque Salvatore tinha sido impaciente demais para esperar, e depois os encontros entre eles eram tão comuns — exceto o último — que Rodrigo havia praticamente relaxado. Agora, no entanto, ele descobriria tudo que houvesse a ser descoberto sobre Denise Morei; se ela tivesse pensado em dormir com alguém, ele saberia. Se alguém estivesse apaixonado por ela, ele encontraria o homem.

Pegou o telefone e teclou alguns números.

- Quero mademoiselle Morei observada o tempo todo. Se ela sair para fora da porta de sua casa, quero ficar sabendo. Se alguém telefonar para ela, ou se ela fizer alguma ligação, quero que a ligação seja interceptada. Entendido? Ótimo.

Na privacidade do quarto de hóspedes, Lily esforçou-se muito para recuperar sua força. Uma revista detalhada no quarto não revelara câmeras nem microfones, por isso sabia que estava segura, sem ser observada ali. A princípio, só conseguiu fazer exercícios de alongamento, mas forçara seus limites, corria no mesmo lugar, tendo de se segurar no toucador de mármore para não perder o equilíbrio, fazia flexões e abdominais. Forçou-se a comer o máximo possível, a fim de ter sua energia restabelecida. Ela sabia que o esforço poderia ser perigoso com a válvula de seu coração prejudicada, mas era um risco calculado, como quase tudo em sua vida. A primeira coisa que fez quando voltou para o seu flat foi submeter o lugar à mesma revista que dispensara ao banheiro. Para seu alívio, não encontrou nada. Rodrigo provavelmente não suspeitava dela ou teria enchido o local de escutas durante o tempo que ela havia passado doente. Não, ele a teria matado ao menor sinal de suspeita.

Aquilo não significava que estava segura. Quando ele lhe perguntara sobre seus ex-namorados, ela percebeu que tinha apenas alguns dias para fugir, porque ele estudaria o passado de Denise mais a fundo e descobriria que não existia passado algum.

Se seu flat tivesse sido revistado — e ela supunha que isso havia acontecido —, os investigadores teriam sido muito organizados. Mas não tinham encontrado seu esconderijo de objetos para fuga, ou ela não estaria ali naquele momento.

O velho prédio já tinha sido aquecido por lareiras, que depois da Segunda Guerra Mundial haviam sido trocadas por radiadores. A lareira do flat havia sido encoberta por tijolos e um baú estava diante dela. Sob o baú, Lily colocara um tapete, não para evitar que o assoalho fosse riscado, mas sim para mover o móvel sem fazer barulho, puxando-o pelo tapete. Ela afastou o tapete da parede e deitou de barriga para baixo para observar os tijolos. Seu esconderijo não dava para ser notado; ela tinha sujado a argamassa daquela área para que ficasse com uma aparência tão velha quanto a da argamassa ao redor. Também não havia qualquer sinal de poeira no chão que indicasse que alguém havia batido nos tijolos.

Ela pegou um martelo e um cinzel, deitou-se novamente no chão e começou a bater com cuidado contra o rejunte de um dos tijolos. Quando ele se soltou, ela o tirou, seguido de mais dois tijolos. Colocando a mão dentro da cavidade da velha lareira, ela puxou uma série de caixas e sacolas, cada item protegido com plástico para mantê-los limpos.

Em uma pequena caixa ficavam vários documentos: passaportes, cartões de crédito, carteiras de motorista e de identidade, dependendo da nacionalidade que escolhia. Em outra sacola, havia três perucas. Havia diferentes mudas de roupa, que ficavam escondidas por serem fáceis de reconhecer. Com os sapatos era diferente; ela simplesmente colocava os calçados de que precisaria no armário, jogados em uma pilha com todos os outros. Quantos homens prestariam atenção a uma confusão de sapatos? Ela também tinha dinheiro: euros, libras esterlinas e dólares americanos.

Na última caixa havia um telefone celular guardado. Ela o ligou e checou a bateria: BAIXA. Pegou o carregador, ligou-o na tomada e colocou o telefone no suporte.

Estava exausta e algumas gotas de suor escorriam por sua testa. Não partiria no dia seguinte, pensou; ainda estava muito fraca. Mas, no outro dia, ela teria de se mexer, e rápido.

Até aquele momento, estava tendo sorte. Rodrigo mantivera a notícia sobre a morte de Salvatore em segredo por alguns dias, o que deu a ela algum tempo, mas, a cada minuto que passava, aumentava o perigo de que alguém em Langley visse uma foto de Denise Morei, quisesse escaneá-la para o computador e descobrisse que, tirando a cor dos olhos e a dos cabelos, as características de Denise Morei batiam com as de Liliane Mansfield, contratada da Agência Central de Inteligência norte-americana. E então a CIA correria atrás dela, e a agência tinha fontes com as quais Rodrigo Nervi sequer sonhava. Por conveniência, Salvatore mantinha boas relações com a CIA; ninguém por lá ficaria contente com ela por tê-lo matado.

Ela estava em dúvida a respeito de quem sairia à procura dela primeiro: Rodrigo ou alguém enviado pela CIA? Talvez tivesse mais chances contra Rodrigo, porque ele provavelmente a subestimaria. A agência não cometeria esse engano.

Por saber que levantaria suspeitas se não o fizesse, e também porque queria saber se estava sendo vigiada, enfrentou o frio e foi ao mercado do bairro. Avistou um espião assim que saiu do prédio; ele estava dentro de um veículo cinza comum estacionado no meio do quarteirão e, assim que ela começou a andar, ele levantou o jornal para cobrir seu rosto. Amador. Mas, se havia um na frente, ela concluiu que havia outro atrás. O bom era que não havia um espião dentro de seu prédio, o que tornaria as coisas um pouco mais incertas. Ela não queria ter de escapar pela janela do terceiro andar, fraca como estava.

Levava consigo uma sacola de compras de pano, onde colocou alguns produtos e frutas. Um homem que parecia italiano — que não chamava a atenção, a menos que você estivesse procurando especificamente por ele — caminhava perto de onde ela estava, sempre a mantinha dentro de seu campo de visão. Certo, então eram três. Três seria o bastante para a realização de um trabalho competente, mas não o suficiente para vencê-la.

Após pagar por suas compras, ela voltou ao flat, tomando o cuidado de caminhar devagar. Andava de cabeça baixa, a imagem da desolação, exatamente como uma pessoa completamente distraída andaria. Seus observadores pensariam que ela não os tinha percebido e ainda que sua saúde estava tão debilitada que ela mal conseguia se mover. Como não eram extraordinariamente experientes em vigilância, relaxariam a guarda sem perceber, porque ela seria um desafio muito sem graça.

Quando seu celular já estava carregado, ela o levou ao banheiro e abriu a torneira para mascarar sua conversa, no caso de algum microfone parabólico estar direcionado a seu apartamento. A chance de isso estar acontecendo era bem pequena, mas, em sua área de atuação, a paranóia salvava vidas. Fez uma reserva na primeira classe em um vôo somente de ida para Londres, desligou e voltou a ligar, e, com uma nova identidade, fez reserva em um vôo que partiria de Londres meia hora depois de sua chegada, com destino a Paris, para onde absolutamente ninguém esperaria que ela fosse. Depois disso, veria o que fazer, mas essa pequena manobra lhe daria um pouco mais de tempo.

 

                                     Langley, Virgínia

Na manhã do dia seguinte, uma analista júnior chamada Susie Pollard surpreendeu-se com o que o programa de reconhecimento facial acabara de lhe indicar. Ela imprimiu o relatório, passou por um labirinto de cubículos e parou em um deles.

— Isto parece interessante — ela disse, entregando o relatório à analista sênior, Wilona Jackson.

Wilona colocou seus óculos e rapidamente leu o relatório.

— Você tem razão — ela disse. — Boa sacada, Susie. Vou mandar isto para instâncias superiores. — Ela ficou em pé, uma negra de 1,80m com traços austeros e uma atitude direta, dedicada ao extremo a seu marido e aos cinco filhos brigões. Sem outra mulher em casa para ajudá-la, ela dizia que tinha de estar sempre no controle das coisas. Aplicava essa mesma regra em seu trabalho, onde não tolerava bobagens. Tudo que mandava para seus superiores era Previamente bem analisado.

Antes do meio-dia, Franklin Vinay, diretor de operações, estava lendo o relatório. Salvatore Nervi, o cabeça da organização Nervi — não podia chamá-la de corporação, apesar de envolver corporações —, estava morto, acometido por um mal desconhecido. A data exata de sua morte não tinha sido divulgada, mas seus filhos o haviam enterrado em sua residência, na Itália, antes de divulgarem a notícia. Seu último passeio tinha sido a um restaurante parisiense, com um espaço de quatro dias entre aquele dia e o do anúncio de sua morte. Até onde se sabia, encontrava-se em perfeitas condições de saúde, portanto a indisposição havia sido repentina. Acontecia, é claro; ataques cardíacos ou apoplexias derrubavam pessoas aparentemente saudáveis todos os dias.

O que o deixou alarmado foi o programa de reconhecimento facial, que indicava que, sem dúvida, a mais nova amiga de Nervi era ninguém menos que uma das melhores agentes secretas da CIA. Liliane Mansfield escurecera seu cabelo louro-claro e usava lentes de contato escuras para esconder seus olhos azul-piscina, mas, sem dúvida, era ela.

Mais alarmante ainda era o fato de, alguns meses antes, seus dois melhores amigos e a filha adotada deles terem morrido nas mãos de Nervi. Tudo indicava que Lily havia deixado sua discrição de lado, fazendo justiça com as próprias mãos.

Sabia que a CIA não aprovaria o assassinato. Salvatore Nervi era um exemplo de ser humano nojento que merecia a morte, mas ele fora esperto o bastante para jogar dos dois lados e ser útil — uma forma de garantir-se contra vinganças. Ele passava informações extremamente úteis, e fazia isso já há alguns anos. Esse canal de informações agora estava perdido, talvez para sempre; demoraria anos, se é que um dia conseguiriam, para desenvolverem o mesmo relacionamento com seus sucessores. Rodrigo Nervi era notoriamente suspeito e não se dispunha a aceitar nenhuma parceria. A única esperança de Frank nesse sentido era que Rodrigo se mostrasse tão pragmático quanto seu pai.

Frank detestava trabalhar com os Nervi. Eles se preocupavam de verdade com os negócios, sim, mas eram como o deus Jano: tudo que faziam tinha duas caras, um lado bom e outro ruim. Se seus pesquisadores estavam trabalhando na descoberta de uma vacina contra o câncer, outro grupo no mesmo prédio estava desenvolvendo uma arma biológica. Eles doavam enormes quantias para instituições de caridade que faziam muitos trabalhos bons, mas também fundavam grupos terroristas que matavam indiscriminadamente.

Entrar no grupo das políticas mundiais era como brincar no esgoto. Era necessário sujar-se para brincar. Particularmente, Frank achava que o fim de Salvatore Nervi tinha chegado tarde. No que dizia respeito a seu trabalho, no entanto, se Liliane Mansfield fosse a responsável, ele teria de fazer algo a respeito.

Ele puxou o arquivo secreto dela e o leu. Seu perfil psicológico dizia que ela já estava há alguns anos trabalhando bastante estressada. Pela experiência de Frank, podia afirmar que existiam dois tipos de agentes secretos: aqueles que faziam seu trabalho sem sentir qualquer emoção além da que sentiam ao matar uma mosca e aqueles que sabiam o bem que faziam, mas cujas almas, no entanto, ficavam desgastadas pelos abalos constantes. Lily se enquadrava no segundo grupo. Era muito boa, uma das melhores, mas cada trabalho a deixava bastante afetada.

Ela parara de fazer contato com sua família há anos, e isso não era bom. Acabaria se sentindo isolada, excluída do mundo que ela lutava para proteger. Sob essas circunstâncias, seus amigos de trabalho se tornaram mais que amigos; haviam se tornado sua família substituta. Quando foram atingidos, sua alma sofrida provavelmente já tinha agüentado tudo que conseguiria.

Frank sabia que alguns de seus colegas ririam dele, por estar pensando em termos como almas, mas ele estava há tanto tempo nessa área que conseguia ver e entender as situações.

Pobre Lily. Talvez tivesse sido melhor se ele a tivesse afastado aos primeiros sinais de seu esgotamento psicológico, mas agora era tarde demais. Ele precisava lidar com a situação atual.

Pegou o telefone e pediu para a sua assistente localizar Lucas Swain, que, por algum milagre, estava no prédio. As Moiras, as deusas do destino, decidiram sorrir para Frank.

Cerca de quarenta e cinco minutos depois, sua assistente ligou, dizendo:

— O sr. Swain está aqui.

— Mande-o entrar.

A porta foi aberta e Swain entrou na sala como se estivesse passeando. Na verdade, caminhava assim em todos os lugares. Ele andava como um caubói que não tinha lugar algum para ir e não tinha a menor pressa de chegar. As mulheres pareciam gostar disso nele.

Swain era uma daquelas pessoas bonitas que parecem ser sempre bondosas também. Havia um sorriso ingênuo em seu rosto quando disse olá e sentou-se na cadeira indicada por Frank. Por algum motivo, o sorriso funcionava do mesmo modo que seu caminhar: as pessoas gostavam dele. Ele era um ótimo investigador porque encontrava as pessoas. Podia ser um homem feliz demais, podia ter um jeito de caminhar que era a própria definição da preguiça, mas fazia o serviço direito. Vinha fazendo o serviço direito na América do Sul há quase uma década, o que explicava seu forte bronzeado e sua boa forma.

Ele estava começando a aparentar sua idade, Frank pensou, mas isso não acontecia com todos? Havia uns fios brancos nas têmporas e na parte de cima do cabelo castanho de Swain, que era mantido sempre bem curto, devido a um redemoinho na parte da frente. Linhas de expressão marcavam seus olhos e sua testa, com marcas mais fundas em suas bochechas, mas, com a sorte que tinha, as mulheres provavelmente achavam que ele era tão bonitinho quanto seu caminhar. Bonitinho. Frank concluiu que só podia estar ficando louco ao se referir a seu melhor agente como bonitinho.

— O que foi? — Swain perguntou, esticando as pernas compridas e relaxando, sua espinha curvando-se ao afundar na cadeira. A formalidade não era seu forte.

— Uma situação delicada na Europa. Uma de nossas agentes secretas matou, por vontade própria, um informante importante. Precisamos detê-la.

— Uma mulher?

Frank entregou-lhe o relatório que estava sobre a mesa. Swain o pegou, leu rapidamente e o devolveu.

— O estrago já foi feito. O que mais há para ser detido?

— Salvatore Nervi não estava sozinho na situação que resultou na morte dos amigos de Lily. Se ela estiver decidida a pegar todos eles, poderá destruir nossa rede toda. Ela já causou prejuízo demais eliminando Nervi.

Swain coçou o rosto e rapidamente esfregou as duas mãos nele.

— Você não tem um agente irascível e trapaceiro, que esteja afastado, com alguma habilidade especial, que o torne a única opção possível para localizar a sra. Mansfield e pôr fim, de uma vez por todas, à sua matança?

Frank mordeu sua língua para conter um sorriso.

— Isso lhe parece uma produção cinematográfica? —A esperança é a última que morre.

— Considere suas esperanças mortas.

— Tudo bem; então, que tal John Medina? — Os olhos azuis de Swain mostraram divertimento enquanto ele entrava na onda de infernizar Frank.

— John está ocupado no Oriente Médio — Frank respondeu calmamente.

Sua resposta fez Swain se endireitar em sua cadeira, afastando qualquer sinal de preguiça.

- Espere um pouco. Quer dizer que existe um Medina?

— Existe um Medina.

— Mas não há um arquivo para ele... — Swain começou a dizer, interrompeu-se, sorriu e disse: — Opa...

— Isso quer dizer que já procurou.

— Droga, todo mundo na área já checou.

— É por isso que ele não tem um arquivo no sistema. Para permanecer protegido. Mas, como eu dizia, John está ocupado no Oriente Médio e, de qualquer maneira, eu não o usaria para recuperar outro agente.

— Isso quer dizer que ele é bem mais importante que eu. — Swain voltou a esboçar seu sorriso ingênuo, mostrando que estava brincando.

— Ou que ele tem talentos diferentes. Você é o homem que quero, e vai voar para Paris hoje à noite. Vou lhe dizer o que preciso que você faça.

 

Após passar um dia inteiro comendo, descansando e fazendo alguns exercícios físicos moderados para aumentar seu vigor, Lily acordou no dia de sua viagem sentindo-se bem melhor. Cuidadosamente, encheu sua mala de rodinhas e sua bolsa, tomou cuidado para não esquecer nada importante. A maioria de suas roupas ficara no guarda-roupa; as fotografias de desconhecidos que ela havia colocado em porta-retratos baratos e espalhado pelo apartamento para parecer que tinha um passado ficaram onde estavam.

Ela não tirou a roupa de cama nem lavou a tigela e a colher que usara para tomar seu café-da-manhã, apesar de ter tomado a precaução de passar desinfetante em tudo, a fim de eliminar suas impressões digitais. Aquilo era algo que fazia há dezenove anos, e já era um hábito. Tinha limpado até mesmo o quarto de Nervi antes de deixá-lo, apesar de não ter conseguido usar um desinfetante. Ela também limpava seus talheres e copos com um guardanapo antes de eles serem recolhidos, e juntava seus fios de cabelo todas as manhãs, arrancando os fios que se acumulavam nas cerdas da escova.

Sentia-se desconfortável por saber que não podia fazer nada a respeito do sangue que o dr. Giordano tinha tirado para analisar, mas o DNA não era usado para identificação da mesma maneira que as impressões digitais; não havia um banco de dados completo. Suas impressões digitais estavam em seu arquivo em Langley, e em nenhum outro lugar; exceto pelos assassinatos ocasionais, ela era uma cidadã comum. Nem mesmo as impressões digitais serviam para alguma coisa se não houvesse um arquivo em algum lugar que batesse com elas e que resultasse em um nome. Um escorregão não era nada. Dois ofereciam um meio de identificação. Fazia todo o possível para não oferecer um ponto de partida.

Provavelmente o dr. Giordano acharia muito estranho se ela ligasse e pedisse a devolução do sangue restante. Se estivesse na Califórnia, podia dizer que era membro de algum culto religioso esquisito e que precisava do sangue, ou até mesmo que era uma vampira, e provavelmente receberia o que havia sobrado.

Aquela idéia maluca fez com que ela esboçasse um sorriso tolo, e desejou poder contar tal idéia a Zia, que costumava dizer coisas absurdas. Com Averill e Tina, e principalmente com Zia, ela conseguia relaxar e fazer brincadeiras bobas de vez em quando, como uma pessoa normal. Para alguém em sua área de trabalho, relaxar era um luxo e algo que só acontecia com pessoas como ela.

O sorriso sumiu. A ausência deles criara um vazio tão enorme em sua vida que ela não acreditava que um dia seria capaz de preenchê-lo. Com o passar dos anos, havia dedicado seu amor a um grupo cada vez menor, até que, por fim, restaram apenas cinco pessoas nele: sua mãe, sua irmã — a quem não mais ousava visitar, com medo de levar o perigo de sua profissão às casas delas — e três amigos.

Averill tinha sido seu namorado; por um período muito breve, eles afastaram a solidão juntos. Depois se separaram e ela conheceu Tina em um trabalho que exigiu duas agentes. Ela nunca havia se ligado tão rápido a ninguém, e elas eram como irmãs gêmeas que se encontravam pela primeira vez. Elas só precisavam trocar olhares para saber que estavam pensando a mesma coisa no mesmo momento. Tinham o mesmo senso de humor, o mesmo sonho tolo de que um dia, quando não estivessem mais naquele tipo de trabalho se casariam e teriam seu próprio negócio — não necessariamente nessa ordem — e, quem sabe, teriam um ou dois filhos.

Esse dia aconteceu para Tina quando, como um anjo caído do céu, Averill apareceu em seu caminho. Lily e Tina podiam ter muitas coisas em comum, mas a química era uma das diferenças; Averill olhou para a morena e magra Tina e se apaixonou, e o sentimento foi recíproco. A partir daí, entre as missões, eles ficavam juntos e se divertiam bastante. Eram jovens, saudáveis e competentes; era verdade que o fato de serem assassinos fazia com que eles se sentissem durões e invencíveis. Eram profissionais o suficiente para não se iludirem com isso, porém jovens demais para não sentirem essa emoção.

Até que Tina foi baleada, o que os chamou à realidade. Aquele trabalho podia matar. A emoção desapareceu. E eles perceberam que eram seres mortais.

Os dois reagiram a isso se casando, assim que Tina se recuperou o suficiente para subir ao altar. Fixaram residência primeiro em um flat ali em Paris e depois compraram uma casa pequena, longe do centro. Começaram a aceitar cada vez menos trabalhos.

Lily geralmente voltava para visitá-los sempre que podia, e um dia levou Zia consigo. Tinha encontrado o bebê abandonado e faminto na Croácia, logo depois de o país ter anunciado sua independência da Iugoslávia, quando o exército sérvio começou a dizimar pequenas áreas da nova nação no começo da amarga guerra. Nenhuma pessoa a quem Lily perguntara parecia ter qualquer conhecimento a respeito da mãe do bebê, ou pelo menos ninguém admitira conhecê-la, e não tiveram o menor interesse. Era levar o bebê consigo ou deixá-lo, sabendo que teria uma morte triste.

Depois de dois dias, Lily já amava a criança como se fosse sua menina legítima. Sair da Croácia não tinha sido exatamente fácil, principalmente porque carregava um bebê. Teve de conseguir leite, fraldas e cobertores. Não tinha se preocupado com roupas; bastava manter a criança alimentada, seca e aquecida. O bebê passou a se chamar Zia, só porque Lily gostava desse nome.

Surgiu então o problema de conseguir a papelada de Zia, encontrar um bom falsificador e levá-la para a Itália. Quando saiu da Croácia, cuidar da menina ficou menos difícil e ela tinha as coisas de que precisava. No entanto, a tarefa de criá-la não era fácil. Zia reclamava e ficava tensa todas as vezes que Lily a tocava, e freqüentemente regurgitava quase todo o leite. Em vez de sujeitar a criança a mais viagens, uma vez que ela havia experimentado pouca segurança em sua curta vida, Lily decidiu ficar por algum tempo na Itália.

Lily acreditava que Zia tinha poucas semanas de vida quando a encontrou, apesar de a desnutrição ser a causa de Zia parecer menor que as crianças de sua faixa etária. Mas, depois de passar três meses na Itália, quando ganhou peso suficiente e covinhas em suas mãos e pernas, ela babava sem parar porque seus dentes estavam nascendo, e olhava para Lily com a boca aberta, olhos arregalados que mostravam a alegria pura que apenas as crianças pequenas conseguem ter sem parecer idiotas.

Por fim, Lily levou Zia para a França, a fim de conhecer o tio Averill e a tia Tina.

A transferência da custódia aconteceu gradualmente. Sempre que Lily estava trabalhando, deixava Zia com eles; eles a amavam e ela sentia-se bem com eles, apesar de Lily ainda ficar com o coração despedaçado toda vez que tinha de deixá-la, e sentia a maior alegria quando voltava e Zia a via novamente. Seu rostinho se iluminava e ela soltava gritinhos de felicidade, sons que Lily considerava os mais lindos do mundo.

Mas, então, o inevitável aconteceu: Zia cresceu. Precisava freqüentar a escola. Lily, às vezes, se ausentava semanas a fio. Era lógico que Zia ficasse cada vez mais com Averill e Tina, até que finalmente perceberam que tinham de falsificar alguns papéis que mostrassem que a garota era filha do casal. Quando Zia tinha quatro anos, Averill e Tina eram pai e mãe para ela, e Lily era a tia Lil.

Durante treze anos, Zia fora a razão da vida de Lily, e agora estava morta.

Que diabos fizera Averill e Tina voltarem a um negócio do qual estavam bem afastados? Precisavam do dinheiro? Certamente sabiam que tudo que tinham de fazer era pedir a Lily, e ela teria dado a eles cada dólar e euro que tivesse — depois de dezenove anos nesse trabalho, tinha uma bela quantia em um banco na Suíça. Mas algo os fizera voltar à ativa e tiveram de pagar com suas vidas. E Zia também.

Lily usara grande parte de suas economias para conseguir aquele veneno e armar toda a situação. Uma mentira boa custava caro, e, quanto melhor, mais cara. Tivera de alugar o flat, conseguir um emprego de verdade — sem ele, levantaria suspeitas — e colocar-se no caminho de Salvatore Nervi, esperando que ele mordesse a isca. Não tinha certeza, de jeito nenhum, de que ele cairia em sua armadilha. Conseguia ser atraente, mas sabia que não era bonita. Se seu plano não tivesse funcionado, teria pensado em outra coisa; sempre encontrava outra solução. Mas havia funcionado, perfeitamente, até o momento em que Salvatore insistiu para que ela provasse o vinho.

Agora estava com um décimo do dinheiro que tinha antes, uma válvula de seu coração prejudicada, que, segundo o dr. Giordano, teria de ser transplantada, sem forças e sem tempo.

Pela lógica, ela sabia que suas chances não eram boas. Dessa vez, além de não ter os recursos de Langley para ajudá-la, a agência agiria contra ela. Não poderia usar nenhum de seus esconderijos, não poderia pedir reforço ou abrigo, e teria de se proteger de... todo mundo. Não tinha a menor idéia de quem Langley mandaria para pegá-la; poderiam simplesmente localizá-la e chamar um atirador para tirá-la de cena, e nesse caso ela não tinha nada com que se preocupar, pois não podia se proteger de algo que não podia ver. Ela não era Salvatore Nervi, com uma caravana de carros blindados e entradas secretas. A única esperança que tinha era de que ninguém a localizasse.

Mas, pelo lado bom... bem, não havia lado bom.

Isso não significava que ela andaria livremente, tornando-se um alvo fácil. Talvez eles a matassem, mas ela dificultaria a ação o máximo possível. Seu orgulho profissional estava em jogo. Sem Zia e seus amigos, o orgulho era tudo o que lhe restava.

Esperou até o último instante para usar seu celular e chamar um táxi para o aeroporto. Tinha de fazer tudo em cima da hora; assim, Rodrigo não teria tempo de posicionar seus homens. A princípio, os homens que a observavam não saberiam para onde ela estava indo, mas, assim que percebessem que ela estava a caminho do aeroporto, ligariam para Rodrigo em busca de instruções. A chance de Rodrigo já ter alguém — ou várias pessoas — contratado no aeroporto era de pelo menos cinqüenta por cento, mas o aeroporto Roissy Charles de Gaulle era grande e, sem saber exatamente com qual companhia aérea voaria e qual seria seu destino, mantê-la sob vigilância seria difícil. Tudo que poderiam fazer seria segui-la, mas apenas até onde a segurança do aeroporto permitisse.

Se Rodrigo checasse a lista de passageiros, a confusão estaria armada, porque ela não estava usando o nome de Denise Morei, nem mesmo seu nome verdadeiro. Sem dúvida, ele checaria; a dúvida era em quanto tempo conseguiria. A princípio, talvez ele nem ficasse tão desconfiado a ponto de fazer mais do que segui-la.

Ao sair tão despreocupadamente e levando pouca bagagem, ela esperava que Rodrigo ficasse curioso, mas que não desconfiasse de nada, pelo menos pelo pouco tempo de que ela precisaria para desaparecer.

Se os deuses estivessem a seu favor, ele não ficaria desconfiado nem mesmo quando seus homens a perdessem de vista no aeroporto Heathrow, sempre cheio de gente. Ele poderia estranhar o fato de ela viajar de avião, e não de trem ou metrô, mas muitas pessoas pegavam um vôo de Paris para Londres, e vice-versa, quando estavam com pressa.

Na melhor das hipóteses, ele não se importaria com sua viagem por pelo menos alguns dias, até que seu regresso demorasse a acontecer. Na pior das hipóteses, ele colocaria seus homens a postos no aeroporto De Gaulle, sem se importar com testemunhas ou possíveis especulações. Rodrigo não se preocuparia com nada disso. Ela apostava que ele não iria tão longe; até aquele momento, ele não havia descoberto que ela não era quem dizia ser, pois não mandara invadir o flat. Sem saber de tal fato, ele não tinha motivos para causar uma comoção pública.

Lily desceu para esperar pelo táxi, ficando em pé onde conseguia ver a rua, mas de onde seus observadores não pudessem vê-la. Pensou em ir andando os vários quarteirões até um ponto de táxi e esperar na fila, mas isso daria tempo a Rodrigo, algo que ela não queria, e a deixaria cansada. Antes, apenas uma semana atrás, ela poderia ter percorrido o trajeto sem o menor esforço.

Talvez seu coração tivesse sofrido um pequeno abalo, o suficiente para o dr. Giordano detectar o problema, e talvez essa fraqueza traiçoeira desaparecesse. Ficou muito doente por três dias, sem comer nada. O corpo humano perdia energia muito mais rápido do que a ganhava. Ela esperaria um mês; se não voltasse ao normal nesse período, procuraria um cardiologista. Não sabia onde ou como pagaria, mas daria um jeito.

É claro que isso se ela ainda estivesse viva dentro de um mês. Mesmo que escapasse de Rodrigo, teria de escapar de seu antigo empregador. Não havia pensado nessa possibilidade ainda; não queria desanimar.

Um táxi preto parou na rua. Pegando sua maleta, Lily murmurou: Hora do show", e calmamente saiu do prédio. Não teve pressa, não demonstrou nervosismo. Quando entrou no carro, pegou um pequeno espelho de sua bolsa e o ajeitou para poder ver seus perseguidores.

Quando o táxi partiu, um Mercedes prata o seguiu. O motorista diminuiu a marcha, um homem apressou-se e praticamente pulou para o banco do passageiro, e então o Mercedes partiu, até ficar bem atrás do táxi. No espelho, Lily pôde ver a pessoa no banco do passageiro falando ao telefone.

O aeroporto ficava a trinta quilômetros da cidade; o Mercedes ficou atrás do táxi o tempo todo. Lily não sabia se deveria sentir-se ofendida ou não; Rodrigo achava que ela era burra demais para perceber que estava sendo seguida ou que simplesmente não se importaria se percebesse? Por outro lado, as pessoas normais não ficavam olhando para trás para ver se estavam sendo seguidas; por isso o fato de seus perseguidores serem tão diretos podia significar que Rodrigo ainda não suspeitava de nada, apesar de colocar pessoas para vigiá-la. A julgar pelo que ela sabia sobre ele, achava que ele faria aquilo até descobrir quem era o assassino de seu pai. Rodrigo não dava ponto sem nó.

Quando chegou ao aeroporto, ela encaminhou-se calmamente ao balcão da British Airways para fazer o check-in. Em seu passaporte, seu nome era Alexandra Wesley, cidadã britânica, e a foto nele mostrava uma pessoa com a mesma cor de seu cabelo no momento. Voaria na primeira classe, sem despachar nenhuma bagagem; tinha construído aquela identidade com cuidado, durante vários anos, e seu passaporte tinha vários carimbos mostrando que ela visitava a França várias vezes ao ano. Tinha diversas identidades, prudentemente guardadas em segredo até mesmo de seus contatos em Langley, apenas para emergências como aquela.

O embarque para o vôo já havia sido feito quando ela passou pela segurança e dirigiu-se ao portão correto. Não olhou ao seu redor, mas analisava tudo que lhe cercava com sua visão periférica. Sim, ali estava mais um espião; ele a observava e segurava um celular.

Não fez qualquer movimento na direção de Lily, apenas deu um telefonema. Ela estava tendo sorte.

Logo ela estava segura dentro do avião, nos braços do governo britânico. Seu assento era ao lado da janela; o assento do corredor já estava ocupado por uma mulher elegantemente vestida que parecia ter uns trinta anos. Lily pediu licença para passar pela mulher.

Dentro de meia hora, eles já haviam decolado para o vôo curto com destino a Londres. Ela e a mulher ao seu lado trocaram gentilezas e Lily usou um linguajar mais formal, o que pareceu deixar a desconhecida mais à vontade. O sotaque britânico era mais fácil de ser mantido do que o parisiense e ela ficou muito aliviada por relaxar. Cochilou um pouco, cansada da caminhada no aeroporto.

Quando estavam a quinze minutos de Londres, ela se curvou e pegou sua bolsa sob o assento.

— Desculpe incomodá-la — ela disse de modo hesitante à mulher ao seu lado —, mas estou com um problema.

— Pois não? — a mulher respondeu educadamente.

— Meu nome é Alexandra Wesley; talvez você já tenha ouvido falar da Wesley Engenharia? E do meu marido, Gerald. Acontece que... — Lily desviou o olhar, parecendo encabulada. — Bem, acontece que eu estou me separando dele, e ele não está aceitando essa situação muito bem. Contratou homens para me seguir, e receio que eles acabem me pegando. Ele é um tanto violento, teimoso e... não posso voltar atrás.

A mulher aparentou desconforto e desconfiança, como se não gostasse de escutar detalhes tão íntimos de uma estranha, mas, ao mesmo tempo, estava interessada.

— Coitadinha. Claro que não pode voltar atrás. Mas como posso ajudá-la?

— Quando desembarcarmos, você poderia levar esta mala para mim e entrar no banheiro mais próximo? Vou atrás de você para recuperá-la. Há um disfarce dentro dela. — Ela disse com rapidez, e a mulher se mostrou assustada diante do pedido para que carregasse a bolsa de outra pessoa, em uma época de terrorismo. —Veja, olhe tudo — disse, abrindo a bolsa. — Roupas, sapatos, perucas. Nada mais. A questão é que eles podem pensar que eu vou fazer isso — me disfarçar — e vão prestar atenção à bolsa que eu estiver carregando. Eu li um livro sobre como despistar espiões que mencionava isso. Ele vai colocar homens no Heathrow para ficarem à minha espera, sei disso; assim que eu entrar no saguão, eles vão me pegar. — Lily apertou suas mãos, torcendo para estar parecendo desesperada. O fato de ela estar com o rosto magro e abatido a ajudou, além de ser esguia, o que a fazia parecer mais frágil do que na verdade era.

A mulher pegou a bolsa de Lily e cuidadosamente analisou todos os itens. Um sorriso invadiu-lhe o rosto quando viu uma das perucas.

— Escondida bem debaixo do nariz de todos, não é? Lily devolveu o sorriso:

— Espero que dê certo.

— Vamos ver. Caso não dê, podemos pegar o mesmo táxi. Quanto mais pessoas, melhor para confundi-los. —Agora a mulher estava pegando o espírito da coisa.

Se a pessoa ao seu lado não fosse uma mulher, Lily teria improvisado, arriscado, mas esse truque aumentava levemente suas chances, e, naquele momento, estava disposta a se agarrar à menor oportunidade que fosse. Os homens da agência poderiam estar à sua espera, assim como os capangas de Rodrigo, e não seria fácil enganá-los.

Dependendo de como quisessem, poderiam prendê-la assim que ela saísse do avião, e nesse caso ela não poderia fazer nada. Mas eles costumavam ser mais discretos. Se pudessem, evitariam o envolvimento do governo britânico no que era um assunto essencialmente doméstico.

O avião aterrissou e chegou ao portão sem complicações. Lily respirou fundo e sua companheira de vôo deu um tapinha em sua mão.

— Não se preocupe — ela disse, tentando animá-la. — Vai dar certo, você vai ver. Como vou saber se eles a viram?

— Vou lhe dizer onde os homens estão. Vou procurá-los quando entrar no saguão. Então, vou sair do banheiro antes de você e, se, quando você sair, eles ainda estiverem lá, vai saber que funcionou.

— Ai, que emocionante! Lily esperava que não fosse.

A mulher pegou a bolsa e saiu do avião na frente de Lily. Ela andou rapidamente, olhando para os lados, mas sem encarar as pessoas que esperavam no portão de desembarque. Boa menina, Lily pensou, escondendo um sorriso. Ela era boa naquilo.

Havia dois homens esperando por ela, e novamente não fizeram o menor esforço para disfarçar seu interesse. Uma certa alegria tomou conta dela. Rodrigo ainda não suspeitava de nada incomum, não acreditava que ela perceberia estar sendo seguida. Aquilo poderia dar certo.

Os dois homens a seguiram, mantendo uma distância de cinqüenta a setenta metros. Mais à frente, a mulher que a ajudava entrou no primeiro banheiro. Lily fez uma pausa em um bebedouro, dando tempo para que os homens que a seguiam se pusessem a postos, e entrou.

A mulher a esperava lá dentro e entregou-lhe a bolsa.

— Tem alguém lá fora? — ela quis saber. Lily confirmou:

— Dois. Um tem cerca de 1,80m, é forte e está usando um paletó cinza-claro. Está em pé do outro lado do saguão, de frente para o portão, encostado na parede. O outro é mais baixo, tem o cabelo preto e curto, está trajando um terno azul e está a cerca de quarenta metros.

—Apresse-se e se troque. Mal posso esperar para vê-la.

Lily entrou no reservado e rapidamente deu início à sua troca de identidade. Tirou o casaco preto e os sapatos de salto alto; no lugar deles, vestiu uma blusa rosa-choque, com um legging turquesa, botas de cano alto, uma jaqueta turquesa com franjas e uma peruca de cabelos ruivos, curtos e espetados. Ela colocou as roupas que tirou na mala e saiu.

Um sorriso enorme apareceu no rosto da mulher e ela bateu palmas. — Maravilhoso!

Lily não conseguiu deixar de sorrir. Rapidamente aplicou blush em seu rosto pálido, uma camada grossa de batom cor-de-rosa e grandes brincos de pena. Passou sombra cor-de-rosa em suas pálpebras e perguntou:

— O que acha?

— Minha querida, eu não a teria reconhecido, mesmo sabendo o que ia fazer. A propósito, meu nome é Rebecca. Rebecca Scott.

As duas trocaram um aperto de mãos, entusiasmadas por motivos diferentes. Lily respirou fundo.

—Aqui vou eu — ela disse, e saiu decidida do banheiro.

Os dois homens que estavam ali para vigiá-la involuntariamente olharam para ela; todo mundo olhou. Sem olhar diretamente para o homem que estava praticamente à sua frente, Lily acenou com entusiasmo.

— Estou aqui! — ela gritou para ninguém em especial, mas, no meio de tanta gente, seria difícil perceber isso. Dessa vez, ela usou seu sotaque americano e passou pelos homens que a vigiavam como se estivesse indo ao encontro de alguém.

Ao passar pelo homem de cabelo escuro, percebeu que ele desviou o olhar para a entrada do banheiro, como se temesse que aquele momento de desatenção permitisse que a mulher que vigiava fugisse.

Lily andou o mais rápido possível, misturando-se à multidão. As botas com salto de doze centímetros a deixavam com quase 1,80m, mas ela não queria usá-las mais do que o necessário. Ao se aproximar do portão de embarque, entrou novamente em outro banheiro e tirou seu disfarce chamativo. Quando saiu, estava com cabelos pretos e longos, e uma blusa grossa e preta, de gola alta, com os mesmos sapatos que usara durante o vôo. Tinha tirado o batom cor-de-rosa, trocando-o por um vermelho, e trocou a sombra cor-de-rosa por uma cinza. Seus documentos como Alexandra Wesley estavam guardados em sua bolsa e a passagem e o passaporte que estavam em sua mão diziam que ela era Mariel St. Clair.

Logo ela estava no avião voltando para Paris, dessa vez na classe econômica. Jogou a cabeça para trás, relaxando em seu assento, e fechou os olhos.

Até aquele momento, tudo estava indo bem.

 

Rodrigo estava furioso. Ele disse pausadamente:

— Como, precisamente, você conseguiu perdê-la?

— Ela foi seguida desde o momento em que desembarcou — respondeu a voz com sotaque britânico ao telefone. — Entrou no banheiro e não saiu mais.

— Você mandou alguém entrar no banheiro para procurar por ela?

— Depois de certo tempo, sim.

— Quanto tempo depois, exatamente?

— Cerca de vinte minutos se passaram até que meus homens ficaram desconfiados, senhor. Então, eu tive de esperar até que uma mulher fosse mandada para poder procurar lá dentro.

Rodrigo fechou os olhos enquanto tentava se controlar. Imbecis! Os homens que seguiram Denise devem ter se distraído e não Perceberam quando ela saiu do banheiro. Não havia outras saídas, ela só pode ter saído por onde entrou, mas aqueles idiotas conseguiram perdê-la de vista.

O problema não era tão grave, mas a incompetência o deixava irritado. Até que conseguisse saber tudo sobre o passado de Denise, precisava saber exatamente onde ela estava e o que fazia. Na verdade, esperava ter recebido tais informações um dia antes, mas a burocracia, como sempre, estava sendo ineficiente.

— Há algo estranho, senhor.

— O quê?

— Quando meus homens a perderam de vista, imediatamente entrei em contato com a alfândega, mas eles não têm qualquer registro dela.

Rodrigo endireitou-se na cadeira e preocupou-se, fazendo com que suas sobrancelhas se aproximassem.

— O que isso quer dizer?

— Quer dizer que ela sumiu. Quando chequei a lista de passageiros do vôo, não havia nenhuma Denise Morei ali. Ela saiu do avião, mas sumiu de repente. A única explicação plausível é que ela tenha embarcado em outro vôo, mas não tenho registro algum.

Alarmes ressoaram tão alto na cabeça de Rodrigo que quase o ensurdeceram. Ele ficou chocado, paralisado por uma suspeita repentina.

— Cheque tudo novamente, sr. Murray. Ela deve ter feito isso.

—Já chequei tudo duas vezes, senhor. Não há registro algum de ela ter entrado ou saído de Londres. Fui muito meticuloso em minha investigação.

— Obrigado — Rodrigo disse e desligou o telefone. Estava tão enraivecido que sentiu tontura com a força de suas emoções. A piranha o fizera de bobo!

Só para se certificar, ele telefonou para seu contato no ministério.

— Preciso daquela informação imediatamente — gritou, sem se identificar ou explicar qual informação. Isso era dispensável.

— Sim, é claro, mas há um problema.

— Não consegue encontrar essa tal de Denise Morei? — ele perguntou com sarcasmo.

— Como o senhor sabe? Tenho certeza de que posso...

— Não se preocupe. Não vai conseguir achá-la. — Com suas suspeitas confirmadas, Rodrigo desligou novamente e ficou sentado tentando conter o ódio fulminante que lhe corria nas veias. Tinha de pensar com clareza, mas isso estava além de seu alcance naquele momento.

Ela era a culpada pelo envenenamento. Que inteligente da parte dela se envenenar também, mas com uma dose tão pequena que a deixaria doente, sem matá-la. Ou talvez não pretendesse beber o vinho, mas seu pai tenha insistido e ela, por acidente, acabou ingerindo mais do que pretendera. Isso não importava; o importante era que ela havia conseguido matar seu pai.

Ele não conseguia acreditar como ela o enganara, como enganara a todos eles. A papelada dela era perfeita. Agora que era tarde demais, ele conseguia enxergar claramente como as coisas tinham acontecido. Salvatore se deixou enganar pela aparente falta de interesse da parte dela em suas investidas, e Rodrigo, também, acabou relaxando depois dos primeiros encontros de seu pai com ela, que tinham sido bastante comuns. Se ela tivesse demonstrado interesse em estar com seu pai, ele teria sido muito mais exigente na investigação, mas ela fizera tudo com perfeição.

Obviamente, era profissional, sem dúvida contratada por algum de seus rivais. Sendo profissional, tinha outras identidades que poderia usar quando desaparecesse depois, ou talvez tivesse usado seu nome verdadeiro, uma vez que Denise Morei era falso. Certamente estivera naquele vôo para Londres — seus homens a viram lá —, portanto, um dos passageiros era ela. Ele simplesmente tinha de descobrir qual deles e seguir seu rastro dali em diante. A tarefa para ele agora — ou melhor, para seus homens, que fariam o trabalho — era desanimadora, mas ele tinha um ponto de partida. Mandaria seus homens investigarem todas as pessoas daquele avião e a encontraria.

Por mais que demorasse, ele iria encontrá-la. E, então, a faria sofrer mais do que seu pobre pai havia sofrido. Antes de acabar com ela, ele saberia tudo sobre a pessoa que a contratara, como também a faria morrer amaldiçoando a própria mãe por tê-la trazido ao mundo. Isso era um juramento pela memória de seu pai.

Lucas Swain andou silenciosamente pelo flat que Liliane Mansfíeld, conhecida também como Denise Morei, tinha abandonado.

Sim, as roupas dela ainda estavam ali, ou a maioria delas. Ainda havia comida sobre o balcão, uma tigela e uma colher dentro da pia. Parecia que ela tinha saído para trabalhar, ou apenas para fazer compras, mas ele conhecia bem aquela situação. Reconhecia um trabalho profissional ao se deparar com um. Não havia qualquer impressão digital no local, nem mesmo na colher dentro da pia. A limpeza estava perfeita.

A julgar pelo arquivo dela, as roupas que havia deixado ali não faziam seu estilo. Eram as roupas de Denise Morei e agora, que Denise havia cumprido seu papel, Lily a descartara como uma cobra descarta sua pele. Salvatore Nervi estava morto; não havia mais qualquer motivo para Denise continuar existindo.

O que o deixava confuso era o fato de ela ter ficado ali por tanto tempo. Nervi tinha morrido há pelo menos uma semana, mas o dono da casa dissera que mademoiselle Morei tinha entrado em um táxi naquela manhã. Não sabia para onde ela tinha ido, mas viu que levava consigo uma maleta. Talvez fosse uma viagem de fim de semana.

Horas. Ele a perdera por questão de horas.

O dono da casa não tinha permitido sua entrada, é claro; Swain teve de entrar sem ser visto, e arrombou a fechadura. O dono do lugar atenciosamente dissera o número do apartamento, poupando o trabalho de Swain de ter de invadir o prédio à noite em busca do registro de moradores, o que seria uma perda de tempo.

Mas aquilo também era perder tempo. Ela não estava ali e não iria voltar.

Havia uma tigela com frutas sobre a mesa. Ele escolheu uma maçã, limpou-a com sua camiseta e deu uma mordida. Nossa, ele estava com fome e, se ela fizesse questão de comer aquela maçã, simplesmente a teria levado embora. Curioso, abriu o frigobar para ver o que mais ela tinha de comida, e o fechou, desapontado. Comida de mulher: frutas, verduras, queijo cottage e iogurte que já estava velho. Por que as mulheres que moravam sozinhas nunca tinham comida de verdade por perto? Ele seria capaz de matar alguém por um pedaço de pizza carregada de pepperoni. Ou um bife grelhado com uma batata assada enorme recheada com manteiga e creme de leite. Aquilo sim era comida.

Enquanto pensava qual seria seu próximo passo para encontrar Mansfield, comeu outra maçã.

De acordo com sua ficha, Lily sentia-se muito confortável na França e falava o idioma como se fosse uma nativa. Teoricamente, era muito boa com sotaques também. Tinha passado um tempo na Itália e havia percorrido o mundo civilizado, mas, quando parava para descansar, escolhia a França ou o Reino Unido, onde se sentia mais em casa. A lógica diria que ela tinha tirado o time de campo, o que significava que não estava mais na França. Isso deixava a Inglaterra como o lugar mais provável para começar a procurar.

E claro que, como ela era competente, podia ter chegado à mesma lógica, indo para outro lugar, como o Japão. Swain fez uma careta de enfado. Detestava quando superava a si mesmo. Bem, ele poderia também começar pelo início, o lugar mais óbvio; talvez tivesse sorte.

Havia três maneiras usuais para se cruzar o Canal: trem, barco ou avião. Ele escolheu o avião, por ser o meio mais rápido, e ela gostaria de manter distância da organização Nervi. Londres não era o único destino no Reino Unido que ela poderia ter escolhido, mas era mais próximo e ela teria pensado em dar pouco tempo para seus perseguidores organizarem uma interceptação. Informações Poderiam ser passadas rapidamente, mas movimentar seres humanos ainda levava um certo tempo. Isso tornava Londres o destino lógico e deixava dois grandes aeroportos para ele cobrir, Heathrow e Gatwick. Ele escolheu Heathrow primeiro, por ser o mais movimentado.

Swain sentou-se na pequena e confortável sala de estar — nenhuma poltrona, que droga! — e pegou seu celular. Depois de apertar uma seqüência longa de teclas, apertou enviar e esperou alguém atender. Ouviu uma voz alta, com sotaque britânico:

— Aqui é Murray.

— Swain. Preciso de uma informação. Uma mulher chamada Denise Morei talvez possa ter...

— Isso certamente é coincidência.

A adrenalina percorreu o corpo de Swain e ele sentiu que um caçador já tinha encontrado a pista que ele procurava.

— Mais alguém pediu informações sobre ela?

— Rodrigo Nervi. Ele nos pediu para segui-la assim que desembarcasse. Coloquei dois homens na tarefa; eles a seguiram até ela entrar no banheiro do saguão. Entrou e não saiu mais. Não passou pela alfândega e não tenho registros de que ela tenha embarcado em outro vôo. É uma mulher cheia de truques.

— Mais do que você imagina — Swain disse. — Você disse tudo isso a Nervi?

— Sim. Tenho ordens expressas para cooperar com ele — até certo ponto. Ele não me pediu para matá-la; apenas para segui-la.

Mas o fato de ela ter desaparecido completamente mostraria a Nervi suas capacidades e, assim, ele a veria de um modo totalmente diferente. Agora ele já devia saber que não existia nenhuma Denise Morei com essa descrição, e chegaria à conclusão de que ela certamente era a assassina de seu pai. A batata de Lily começava a assar.

Como ela poderia ter escapado do Heathrow? Por alguma entrada para funcionários? Para isso, primeiro ela teria de sair do banheiro sem ser notada, e isso significava que ela estava disfarçada. Uma mulher inteligente como Lily teria pensado em como fazer isso, estaria preparada para tal ação. E deveria ter uma identidade alternativa também.

— Um disfarce — ele disse.

— Pensei a mesma coisa, mas não disse nada ao sr. Nervi. Ele é um homem esperto, vai acabar pensando nisso, apesar de não conhecer muito a respeito de segurança em aeroportos. E vai querer que eu assista à fita da segurança.

— Você já assistiu? — Se a resposta não fosse sim, então Murray não era mais tão eficiente quanto antes.

— Imediatamente depois que meus homens a perderam. No entanto, não posso culpá-los, porque assisti ao filme duas vezes e também não a vi.

— Vou pegar o próximo vôo para chegar aí.

Até chegar ao aeroporto, conseguir um lugar em um vôo etc, Swain estava em Londres seis horas depois. Passou o tempo tirando um cochilo, mas sabia que cada minuto que passava favorecia Lily. Ela sabia como eles trabalhavam, quais eram seus recursos; estaria construindo um esconderijo bem-feito, acrescentando camadas e mais camadas para a sua camuflagem. A demora também dava tempo para que ela tirasse dinheiro de alguma conta bancária desconhecida que certamente tinha. Se ele executasse o tipo de trabalho dela, também teria várias contas bancárias. Mas ele mesmo tinha uma quantia guardada em segurança. Não havia como saber quando algo assim podia ser útil. E, se nunca precisasse usá-la, bem, teria uma aposentadoria um pouco mais sossegada. E ele queria muito ter uma aposentadoria sossegada.

Conforme o prometido, Charles Murray o esperava no desembarque quando Swain finalmente chegou ao Heathrow. Murray tinha estatura mediana, cabelo curto e grisalho, olhos castanhos e era elegante. Seu modo de se portar dizia que ele era um ex-militar; sua atitude era sempre calma e controlada. Era uma das fontes informais da organização Nervi há sete anos e trabalhava para o governo há muito mais tempo que isso. Swain já tinha entrado em contato com Murray algumas vezes ao longo dos anos, o suficiente para se tratarem de modo informal. Ou seja, Swain era informal; Murray era britânico.

— Por aqui — Murray disse após um breve aperto de mãos.

— Como estão a esposa e as crianças? — Swain perguntou, seguindo o inglês.

— Victoria está linda, como sempre. As crianças já são adolescentes.

— Não precisa dizer mais nada.

— E, e você?

— Chrissy está no penúltimo ano da faculdade; Sam está no primeiro. Os dois estão ótimos. Tecnicamente, Sam ainda é adolescente, mas já passou pela pior parte. — Na verdade, seus dois filhos tinham se tornado ótimos jovens, levando-se em consideração o fato de seus pais terem se separado há uma dúzia de anos e o pai deles sempre estar fora do país. Isso se devia, em grande parte, à mãe deles, que, felizmente, se recusara a denegrir sua imagem no divórcio dos dois. Ele e Amy haviam se reunido com os filhos e dito a eles que a separação estava acontecendo por diversas razões, inclusive porque tinham se casado muito jovens, entre outras coisas. Era verdade. O principal, no entanto, é que Amy estava cansada de ter um marido que sempre estava em algum outro lugar e queria ficar livre para procurar outra pessoa. Ironicamente, não voltou a se casar, apesar de ter namorado alguns caras. A vida das crianças não ficou muito diferente de quando Amy e ele ainda eram casados; viviam na mesma casa, estudavam na mesma escola e viam o pai com a mesma freqüência de antes.

Se ele e Amy fossem mais velhos e maduros quando se casaram, nunca teriam tido filhos, pois saberiam que o trabalho de Swain afetaria o casamento. Mas, infelizmente, a idade e a sabedoria parecem aumentar proporcionalmente, e, quando já estavam mais velhos para saber disso, era tarde demais. Mas ele não se arrependia de ter tido filhos. Era um pai que amava aqueles dois com toda a força de seu ser, mesmo que os visse apenas algumas vezes ao ano, e aceitava o fato de não ser tão importante para eles quanto Amy.

— Fazemos o melhor e torcemos para os monstrinhos se transformarem novamente em seres humanos — Murray disse ao atravessarem um curto corredor. — Chegamos. — Ele cobriu um teclado com a mão, digitou um código e abriu uma porta de aço. Dentro da sala, havia uma série de monitores e funcionários atentos observando o vaivém de pessoas dentro do enorme aeroporto.

De lá, eles foram para uma sala ainda menor, onde também havia vários monitores, assim como equipamentos para ver o que as numerosas câmeras registravam. Murray sentou-se em uma cadeira azul de rodinhas e convidou Swain a puxar uma cadeira. Ele comandou pelo teclado e o monitor diante deles acendeu-se. Ali estava uma imagem congelada de Lily Mansfield saindo do avião vindo de Paris naquela manhã.

Swain estudou cada detalhe, percebeu que ela não usava nenhuma jóia, nem mesmo um relógio de pulso. Garota esperta. Às vezes, as pessoas trocavam tudo, menos o relógio de pulso, e esse pequeno detalhe as entregava. Ela vestia um terninho preto e liso e sapatos pretos de salto baixo. Ele a achou magra e pálida, como se estivesse doente.

Ela não olhou para os lados, apenas andou como as outras pessoas que saíram do avião, e entrou no primeiro banheiro que encontrou. Várias mulheres saíram do banheiro e nenhuma se parecia com Lily.

— Não é possível — ele disse. — Passe a fita novamente, em câmera lenta.

Murray atenciosamente voltou a fita para o começo. Swain a viu saindo do avião carregando uma bolsa preta de tamanho médio a tiracolo, que não chamava atenção, por ser o tipo de bolsa que as mulheres usam todos os dias. Ele prestou bastante atenção à bolsa, procurando um jeito de identificá-la: uma fivela, o tamanho da alça, qualquer coisa. Depois que Lily entrou no banheiro, ele ficou atento para ver novamente a tal bolsa. Viu diversos tipos, de vários tamanhos e formatos, mas apenas uma parecia ser aquela. Estava sendo levada por uma mulher de cerca de 1,80m, cujas roupas, cabelo e maquiagem berravam "Cheguei!". Mas ela não carregava apenas aquela bolsa, mas também uma pequena mala, e Lily não estava com uma daquelas. Que mistério.

— Mais uma vez — ele disse. — Desde o começo. Quero ver todas as pessoas que desembarcaram.

Murray obedeceu. Swain observou cada rosto e as bolsas que cada passageiro carregava.

Então, encontrou o que procurava.

— Aí! — disse, aproximando-se da tela. Murray pausou a imagem.

— O quê? Ela ainda não apareceu.

— Não, mas olhe para esta mulher. — Swain apontou o dedo para a tela. — Olhe para esta mala. Certo, prestemos atenção ao que ela vai fazer.

A mulher elegantemente vestida estava bem à frente de Lily. Ela foi direto para o banheiro, o que não era incomum. Várias mulheres daquele mesmo vôo fizeram a mesma coisa. Swain assistiu à fita até a mulher sair do banheiro — sem a mala.

— Bingo — ele disse. — Ela levou a mala para dentro; as roupas do disfarce estavam lá. Retroceda um pouco a fita. Aqui. Ela é a nossa garota. Ela está com a mala agora.

Murray ficou surpreso com a pessoa que aparecia no monitor.

— Puxa! — ele exclamou. — Tem certeza?

— Você viu esta mulher entrando no banheiro?

— Não, mas não estava prestando atenção a ela. — Murray fez uma pausa. — Pode ser que não a tenha visto, não pode?

— Não com essas roupas. — Só os brincos de pena bastariam para prender a atenção. Desde o cabelo vermelho e espetado até as botas de cano alto, aquela mulher era bastante chamativa. Se Murray não a vira entrar no banheiro, era porque ela não tinha entrado. Mas não era de surpreender que os homens de Murray não a tivessem reconhecido com aquele disfarce; quantas pessoas, tentando passar despercebidas, chamariam tanta atenção daquele jeito?

Olhe para o nariz e para a boca. É ela. — O nariz de Lily não era exatamente curvado, mas era muito próximo disso, apesar de ser feminino. Era fino e grande, e era estranhamente atraente em conjunto com sua boca, que tinha o lábio superior mais cheio.

Então é — Murray disse e balançou a cabeça. — Estou perdendo o jeito com isso, pois não tinha percebido.

— Bom disfarce. Esperta. Certo, vamos ver aonde nossa cowgirl carnavalesca vai.

Murray voltou-se para o teclado, abrindo os vídeos que davam seqüência ao caminho de Lily dentro do aeroporto. Ela caminhou alguns metros e entrou em outro banheiro. E não saiu.

Swain esfregou os olhos. Vamos lá, de novo. Concentre-se em encontrar essas bolsas.

Devido à movimentação de pessoas que ocasionalmente bloqueavam a visão da câmera, eles tiveram de assistir ao vídeo diversas vezes para conseguir reduzir a lista de possibilidades para três mulheres e segui-las até conseguirem uma imagem mais clara. Por fim, conseguiram encontrá-la. Estava com os cabelos pretos e longos, vestia uma calça preta e uma blusa preta de gola alta. Estava mais baixa sem as botas. Os óculos também eram diferentes e os brincos de pena tinham sido trocados por argolas douradas. Mas ainda carregava a bolsa e a mala.

As câmeras mostraram que ela atravessou outro portão de embarque, para mais um vôo. Murray rapidamente checou o destino do vôo que saíra naquele horário e cujo embarque havia sido feito por aquele portão.

— Paris — ele disse.

— Filha-da-puta — Swain disse, indignado. Ela tinha voltado.

Você consegue a lista de passageiros para mim? — Era uma pergunta ingênua, é claro que sim. A lista estava em suas mãos minutos depois. Ele olhou os nomes e percebeu que Denise Morei e Lily Mansfield não constavam ali, o que significava que mais uma identidade tinha sido usada.

Agora viria a parte divertida, voltar para Paris e refazer o mesmo processo com as autoridades do aeroporto De Gaulle. Os franceses chatos poderiam não ser tão solícitos quanto Murray, mas Swain tinha seus recursos.

— Faça-me um favor — disse a Murray. — Não passe essa informação a Rodrigo Nervi. — Não queria que aquela corja entrasse em seu caminho; além disso, ele não gostava de fazer nada para ajudar gente como aquela. As circunstâncias podiam forçar o governo dos Estados Unidos a procurar, de vez em quando, estabelecer contato com o outro lado, com as partes mais sujas da organização Nervi, mas Swain não tinha que ajudá-los.

— Não sei do que está falando — Murray disse, amistosamente. — Que informação?

É claro que daria o mesmo trabalho atravessar o Canal, como havia sido chegar a Londres. Ele não tinha como sair de um avião e entrar em outro do jeito que ela tinha feito. As coisas não eram tão fáceis assim. Ela planejara com antecedência; ele estava indo atrás dela, tentando encontrar um lugar em um vôo. Ela tinha pensado em tudo que confundiria e atrapalharia quem tentasse localizá-la.

Mas, mesmo assim, era desanimador saber que ele teria de esperar bastante até o próximo vôo disponível.

Murray deu-lhe um tapinha no ombro.

— Conheço uma pessoa que pode levá-lo até lá muito mais rápido que isso.

— Graças a Deus. Chame-o.

— Você não se incomoda de se sentar no fundo da aeronave, não é? Ele é piloto da OTAN.

— Puta merda! — Swain exclamou. — Vai me colocar em um caça?

— Eu não disse "muito mais rápido"?

 

Lily entrou no apartamento em Montmartre que havia alugado há vários meses, antes de assumir a identidade de Denise Morei. O lugar era muito pequeno. Tratava-se mais de um estúdio do que de um apartamento de verdade, e tinha um minúsculo banheiro. Tinha suas próprias roupas ali, além de privacidade e relativa segurança. Como Lily tinha acertado o aluguel antes de se disfarçar de Denise, não havia nenhum registro que a denunciasse e, além disso, já tinha outra identidade: Claudia Weber, uma alemã.

Como Claudia era loura, Lily fizera uma parada em um cabeleireiro para mudar a atual cor escura de seus cabelos. Ela poderia ter comprado os produtos e feito tudo sozinha, mas tingir o cabelo para uma cor mais clara era muito mais difícil do que cobrir os fios claros com um tom escuro, e temia acabar fazendo algo errado. Também teve de cortá-lo um pouco, para se livrar das pontas secas resultantes do processo de descoloração.

Mas, quando se olhou no espelho, enxergou-se finalmente. As lentes de contato haviam sido retiradas e seus olhos azul-claros a encaravam. Seu cabelo liso estava louro-claro outra vez, chegando até os ombros. Ela poderia passar na frente de Rodrigo Nervi e ele não a reconheceria — assim esperava, porque talvez tivesse de fazer isso.

Cansada, ela colocou sua mala sobre a cama dobrável arrumada e deitou-se ao lado dela. Sabia que deveria checar para ver se não haviam sido colocadas escutas no apartamento, mas tinha se esforçado muito durante o dia e estava tremendo de fadiga. Se conseguisse dormir apenas uma hora, já faria uma diferença enorme.

Apesar de tudo, ela estava contente por ter agüentado bem aquele dia. Estava cansada, era verdade, mas não sentia falta de ar, como o dr. Giordano previra se a válvula do coração tivesse sido muito afetada. É claro que não estava se esforçando; não estava correndo. Por isso, seu coração ainda estava ameaçado.

Fechou os olhos e, no silêncio, concentrou-se em seus batimentos cardíacos; pareciam normais. Tum-tum, tum-tum. Com o estetoscópio, o dr. Giordano conseguira escutar um chiado, mas ela não tinha um estetoscópio e achava que o ritmo de seu coração estava normal. Então, talvez o estrago tivesse sido mínimo, o suficiente para causar um leve chiado. Ela tinha outras coisas com que se preocupar.

Começou a cochilar meio acordada, até que seu corpo relaxou, mas sua mente começou a pensar na situação, reestruturando os fatos que ela conhecia, tentando encontrar respostas para os fatos desconhecidos.

Ela não sabia o que Averill e Tina tinham encontrado pelo caminho ou o que tinham dito a eles. Mas havia sido algo forte o bastante para levá-los de volta para o negócio que tinham abandonado. Ela sequer sabia quem os havia contratado. Certamente não tinha sido a CIA. Provavelmente nem o MI-6, o Serviço Secreto. Apesar de um não controlar o outro, os dois governos e serviços mantinham um forte vínculo de cooperação entre si e, em ambos os casos, havia muitos agentes ativos disponíveis para eles, por isso não haveria a necessidade de chamar pessoas que já estivessem desligadas.

Na verdade, não achava que um governo os contratara; mais parecia uma contratação particular. Em algum momento do caminho

ou melhor, no caminho todo —, Salvatore Nervi tinha pisado em calos alheios, ameaçado, agredido e matado. Encontrar seus inimigos não seria difícil; selecioná-los poderia levar um ano ou mais. Mas quem teria se dado ao trabalho de contratar dois profissionais já aposentados para revidar? Além disso, quem conhecia o passado de seus amigos? Averill e Tina levavam vidas comuns, pois haviam se esforçado para dar aquele tipo de vida a Zia; não alardeavam o passado.

Mas alguém sabia sobre eles, sobre suas capacidades. Isso sugeria alguém que também estivesse nos negócios, ela pensou, ou que pelo menos ocupasse uma posição onde tivesse acesso a contatos. Quem tinha feito isso também sabia que não deveria entrar em contato com um agente ativo, a fim de não chamar a atenção para si daquele modo. Mas a pessoa desconhecida escolhera Averill e Tina por que... Por quê? Por que eles? E com a segurança de Zia na jogada, por que tinham aceitado?

Seus amigos ainda eram jovens e estavam em boas condições físicas — era uma das possíveis razões para a contratação deles, assim ela acreditava. Além disso, eles eram muito habilidosos, calmos, experientes. Ela conseguia ver motivos para eles terem sido escolhidos, mas o que os levara a se envolver? Dinheiro? Eles estavam bem financeiramente, não eram ricos, mas também não precisavam desesperadamente de dinheiro. Uma quantia astronômica poderia ter-lhes convencido, mas, com o passar dos anos, eles tinham adotado a mesma postura casual que Lily tinha a respeito de dinheiro. Desde que começara sua carreira, nunca havia passado financeiramente por maus momentos. Ela não se preocupava com isso, tampouco Averill e Tina. Lily sabia que os dois haviam guardado o bastante para viver com certo conforto pelo resto de suas vidas, e Averill estava ganhando o bastante em sua loja de manutenção de computadores.

Ela gostaria que um deles tivesse lhe telefonado, para dizer-lhe o que estavam pensando em fazer. O motivo para aceitarem o trabalho tinha de ser forte, e ela gostaria de saber que motivo era esse, pois, dessa forma, saberia como atacar. Sua vingança não estava completa apenas porque Salvatore estava morto; ele era só o começo. Ela não se sentiria satisfeita enquanto não descobrisse em que coisa tão horrível seus amigos tinham se metido, algo que faria o mundo todo se voltar contra a organização Nervi, e até mesmo as pessoas no poder que fossem controladas por Salvatore tratariam de se afastar. Ela queria derrubar um por um.

Tinha a impressão de que, se Tina tivesse contado a ela sobre o trabalho novo, se fosse algo importante para tirá-los da inatividade, ela poderia ter-se juntado a eles. Poderia fazer a diferença para ganhar ou perder — ou poderia estar morta como eles.

Mas eles não disseram nada, apesar de Lily ter jantado com eles menos de uma semana antes de serem mortos. Ela estava de saída da cidade, para um trabalho que demoraria alguns dias, ou um pouco mais que isso, mas dissera a eles quando voltaria. Será que já tinham conhecimento do trabalho ou a oferta tinha vindo de repente e precisava ser realizada imediatamente? Averill e Tina não trabalhavam assim. Tampouco ela. Qualquer coisa que envolvesse a organização Nervi exigia estudo e preparação, porque era segurança muito bem armada.

Lily não deixara de pensar sobre nada daquilo nas várias noites que passou sem dormir desde que seus amigos foram mortos. Às vezes, quando o rostinho alegre de Zia aparecia em sua mente, ela chorava com uma violência que a assustava. Pesarosa, sentiu a necessidade de revidar imediatamente, cortar a cabeça da serpente. Foi o que fizera, concentrando-se apenas nisso por três meses, e agora se voltaria para o resto de seu plano.

Em primeiro lugar, precisava descobrir quem tinha contratado Averill e Tina. Uma contratação particular remetia a alguém com muita grana... ou talvez não. Talvez a necessidade tenha sido o fator motivador. Talvez essa pessoa tenha apresentado a eles prova de algo especialmente sórdido em que Salvatore poderia estar envolvido. Em se tratando de Salvatore, poderia ser qualquer coisa; ela não conseguia pensar em nada tão baixo e sujo que ele evitasse fazer. Sua única exigência era ganhar dinheiro.

Mas Averill e Tina eram realistas, e Lily acreditava que eles tinham ficado frente a frente com alguma coisa muito importante para que entrassem em ação, apesar de que, em seu passado, os dois tinham visto tantas coisas que não se chocavam com facilidade. O que poderia ter sido?

Zia. Alguma coisa que ameaçasse Zia. Para protegê-la, eles teriam enfrentado tigres com as próprias mãos. Qualquer coisa que a envolvesse explicaria a urgência e a motivação deles.

Lily sentou-se, piscando. É claro. Por que não vira isso antes? Se não foi dinheiro que os levou de volta àquele mundo, o que mais poderia ter sido tão importante? O casamento, o amor que sentiam um pelo outro, até mesmo Lily... mas, acima de qualquer coisa, Zia.

Ela não tinha provas. Não precisava delas. Conhecia seus amigos, sabia o quanto eles amavam a filha, sabia o que era importante em suas vidas. Aquela conclusão fora intuitiva, mas parecia correta, como nada antes.

Isso lhe deu uma direção. Entre as propriedades dos Nervi, existiam vários laboratórios, voltados a todos os tipos de pesquisa médica, química e biológica. Como Averill e Tina evidentemente haviam sentido que aquilo era algo que precisava receber atenção imediata, tinha sido algo iminente. Mas, apesar de terem fracassado, nada de incomum que havia acontecido desde então lhe veio à mente, nenhuma catástrofe. Ela não conseguia pensar em nada além dos bombardeios terroristas, que não pareciam precisar de razão para acontecer.

Mas talvez eles não tivessem fracassado. Talvez tivessem se dado bem na missão, mas Salvatore havia descoberto quem eles eram e decidira matá-los para mostrar a outras pessoas que ninguém deveria mexer com os Nervi.

O alvo pode não ter sido um dos laboratórios, apesar de eles parecerem os mais óbvios. Salvatore tinha muitas propriedades espalhadas pela Europa. Ela precisava pesquisar edições antigas de jornais para ver se algum incidente envolvendo uma propriedade dos Nervi havia sido noticiado durante a última semana desde que ela tinha visto seus amigos vivos e o dia em que foram mortos. Salvatore era poderoso o suficiente para afastar um pouco a atenção da mídia, ou mesmo para mantê-la afastada completamente se visse a necessidade, mas poderia ainda haver uma pequena porção de... alguma coisa.

Seus amigos não tinham viajado antes de morrer. Lily conversou com os vizinhos deles. Averill e Tina estavam em casa, Zia estava na escola. Portanto, tratava-se de algo local, ou pelo menos próximo.

Ela planejava ir a um cibercafé no dia seguinte para fazer uma pesquisa. Poderia ir naquele momento, mas o bom senso lhe dizia para descansar depois de um dia tão longo. Estava relativamente protegida ali, mesmo da agência. Ninguém sabia sobre Claudia Weber, e ela não estava fazendo nada que chamasse a atenção de alguém. Tivera a boa idéia de comprar umas coisas para comer no aeroporto, sabendo que passaria muito tempo no salão do cabeleireiro, e também um lanchinho para a noite, e mais café para o dia seguinte. Estava abastecida para aquele dia. No dia seguinte, precisaria sair para comprar comida, o que seria melhor que fizesse logo de manhã, antes que os melhores produtos fossem comprados. Em seguida, ela iria a um cibercafé para começar sua procura.

A Internet é maravilhosa, Rodrigo pensou. Se você conhecesse as pessoas certas — e ele conhecia —, quase nada ficava fora de alcance.

Primeiro, seus homens fizeram uma lista com os possíveis fornecedores de um veneno tão letal. Apenas nove químicos seriam capazes desse feito, um número bastante fácil de lidar.

A partir de então, foi tudo uma questão de investigar as finanças. Um deles teria recebido uma grande quantia em dinheiro recentemente. Talvez a pessoa em questão fosse inteligente o bastante para colocar a grana em uma conta-corrente, mas talvez não. Mesmo assim, haveria evidência de movimentação de dinheiro.

Ele encontrou essa evidência no dr. Walter Speer, um alemão que vivia em Amsterdã. O dr. Speer havia sido despedido de uma respeitável empresa em Berlim e depois de outra, em Hamburgo. Recomeçara em Amsterdã, onde estava se virando, mas não ganhava nenhuma fortuna. No entanto, há pouco tinha comprado um Porsche prata, pagando-o à vista. Era brincadeira de criança descobrir onde o dr. Speer tinha conta, e invadir o sistema bancário era igualmente simples para os especialistas contratados por Rodrigo. Há pouco mais de um mês, um milhão de dólares americanos tinham sido depositados na conta do dr. Speer. A taxa de conversão o transformara em um homem feliz.

Americanos. Rodrigo ficou surpreso. Os americanos haviam pagado para matar seu pai? Isso não fazia sentido. O acordo entre eles era muito valioso para os americanos romperem; Salvatore cuidava disso. Rodrigo não tinha exatamente concordado com seu pai a respeito do acordo com os americanos, mas isso vinha dando certo há vários anos e nada acontecera para atrapalhar.

Denise — ou seja lá quem ela fosse — tinha conseguido desaparecer naquele dia, mas agora ele tinha outro caminho que o levaria até ela, para descobrir quem ela era de verdade e para quem estava trabalhando.

Rodrigo não era homem de perder tempo; naquela mesma noite, voou em seu jatinho particular para Amsterdã. Localizar o apartamento do dr. Speer foi moleza, assim como entrar nele. Ele estava esperando, no escuro, quando o dr. Walter Speer finalmente chegou em casa.

Assim que ele abriu a porta, Rodrigo sentiu o forte cheiro de álcool, e o dr. Speer cambaleou um pouco ao se virar para acender a luz.

Rodrigo o atacou por trás um segundo depois, batendo sua cabeça contra a parede para atordoá-lo, e em seguida jogou-o ao chão e sentou-se em cima dele, acertando-lhe socos no rosto. A violência explosiva assusta o desavisado e o deixa em um estado de tamanha confusão e choque que ele fica impotente. O dr. Speer não só estava distraído, como também embriagado. Ele não conseguiria fazer nada para se defender, o que também não seria uma boa idéia. Rodrigo era maior, mais jovem, mais ágil e bastante habilidoso.

Rodrigo o colocou sentado e o encostou à parede, fazendo com que sua cabeça mais uma vez batesse com força. Então, ele segurou o médico pelo colarinho e o puxou para perto para encará-lo. Gostou do que viu.

Enormes galos já estavam inchando no rosto do médico, e o sangue escorria tanto de seu nariz quanto de sua boca. Seus óculos estavam quebrados e pendurados em uma orelha. A expressão em seus olhos era de total incompreensão.

O dr. Speer aparentava ter quarenta e poucos anos. Tinha cabelos castanhos crespos e era atarracado, o que o deixava com a aparência de um urso. Antes da interferência de Rodrigo, seus traços provavelmente eram bem comuns.

— Permita que eu me apresente — Rodrigo disse com um alemão carregado. Não falava bem o idioma, mas conseguia passar seu recado. — Sou Rodrigo Nervi. — Queria que o médico soubesse exatamente com quem estava lidando. Percebeu que os olhos do dr. Speer se arregalaram; ele não estava tão bêbado a ponto de perder o bom senso.

— Há um mês, você recebeu um milhão de dólares americanos. Quem lhe pagou e por quê?

— Eu-eu... o quê? — o dr. Speer gaguejou.

O dinheiro. Quem foi que lhe deu?

Uma mulher. Não sei o nome dela.

Rodrigo o chacoalhou com tanta força que sua cabeça balançou para a frente e para trás, e seus óculos quebrados voaram longe.

— Tem certeza disso?

— Ela... ela não me disse — Speer respondeu.

— Como ela era?

— Ah... — Speer piscou como se tentasse se concentrar em seus pensamentos. — Cabelo castanho. Olhos castanhos, eu acho. Não prestei atenção à sua aparência, sabe?

— Jovem? Velha?

Mais uma vez, Speer piscou, diversas vezes.

— Uns trinta? — ele disse, com entonação de pergunta, como se não tivesse certeza de sua lembrança.

Pronto. Sem dúvida, Denise tinha sido a pessoa que lhe dera um milhão de dólares. Speer não sabia quem tinha dado esse dinheiro a ela — aquele seria outro rastro a ser seguido —, mas aquilo confirmava tudo. Rodrigo soubera, intuitivamente, desde o momento em que ela desapareceu, que Denise era a assassina, mas era bom saber que não estava perdendo seu tempo atrás de pistas falsas.

— Você fez um veneno para ela.

Speer engoliu em seco, mas um brilho de orgulho profissional passou por seus olhos confusos. Ele sequer negou.

— Uma obra-prima, se me permite dizer. Eu peguei as propriedades de várias toxinas letais e as combinei. Cem por cento letal, mesmo que fosse consumido o equivalente a dezesseis miligramas. Quando os sintomas aparecem, o dano já é tamanho que não existe tratamento eficaz. Acredito que a única alternativa seria um transplante múltiplo de órgãos, isso se houvesse todos os órgãos disponíveis, e que todos eles fossem compatíveis, mas, se houvesse alguma toxina no organismo, ela acabaria atacando esses novos órgãos também. Não, não acho que resolveria.

— Obrigado, doutor. — Rodrigo sorriu, um sorriso frio que, se o doutor estivesse um pouco mais sóbrio, o teria deixado aterrorizado. Mas, em vez de temer, devolveu o sorriso.

— De nada — ele disse. As palavras ainda estavam ressoando quando Rodrigo quebrou seu pescoço e o deixou cair como um boneco de pano.

 

Swain ficou deitado na cama do hotel, na manhã seguinte, olhando para o teto e tentando ligar os pontos de maneira lógica. Do lado de fora, uma fria chuva de novembro batia nas janelas; ele ainda estava acostumado com o clima muito mais quente da América do Sul, por isso sentia frio, apesar de estar debaixo das cobertas. Por causa da chuva e da diferença de fuso horário, ele decidiu que precisava descansar. Além disso, não estava totalmente à toa; estava pensando.

Ele não conhecia Lily, por isso estava quebrando a cabeça para imaginar qual seria a próxima atitude dela. Até então, ela havia mostrado ser criativa, corajosa e ter sangue-frio; ele precisava aprender esse jogo muito bem para adivinhar seus pensamentos. Mas adorava um desafio; por isso, em vez de sair correndo por Paris levando fotos dela e perguntando para as pessoas nas ruas se tinham visto aquela mulher — como se isso fosse funcionar —, ele tentou prever qual seria o próximo passo dela, para que pudesse antecipar-se, pelo menos meio passo.

Mentalmente, ele lembrou o que sabia até agora, o que não era muito.

Ponto A: Salvatore Nervi tinha assassinado seus amigos. Ponto B: Ela tinha assassinado Salvatore Nervi.

Logicamente, ali devia ser o fim da missão. Missão cumprida, exceto pelo pequeno detalhe de ter escapado viva de Rodrigo Nervi. Mas ela conseguira; fugira para Londres, usara aquele disfarce e voltara pelo mesmo caminho. Era possível que estivesse ali, em Paris, usando outra de suas aparentemente inesgotáveis identidades. Era possível também que tivesse deixado o aeroporto, trocado de disfarce mais uma vez, voltando para pegar outro vôo para outro lugar. Ela deveria saber que tudo que um passageiro fazia dentro de um aeroporto, fora dos banheiros, era registrado por alguma câmera, por isso ela pensaria que, mais cedo ou mais tarde, alguém que a estivesse procurando fosse seguir sua trilha e, a partir de então, consultar a lista de passageiros e deduzir quais identidades ela tinha usado. Lily tinha sido forçada a fazer mudanças rápidas para confundir Rodrigo Nervi e conseguir um pouco mais de tempo, apesar de isso ter resultado em três identidades queimadas e no fato de que não poderia voltar a usá-las sem levantar suspeitas e ser capturada.

Com aquele tempo, no entanto, ela poderia ter saído do aeroporto e assumido outro nome e aparência, que não tivesse sido registrada pelas câmeras. Seus documentos eram bons; ela conhecia pessoas talentosas. Conseguiria passar pela segurança e pela alfândega sem problemas. Poderia estar em qualquer lugar a uma hora dessas. Poderia estar de volta a Londres, cochilando em um vôo noturno de volta para os Estados Unidos, ou até mesmo dormindo no quarto ao lado.

Ela tinha voltado para Paris. Tinha de haver uma razão para isso. Logisticamente, fazia sentido; o vôo era curto, dava-lhe tempo para aterrissar e fugir antes de a segurança assistir ao vídeo exaustivamente para descobrir como ela tinha agido, e depois, com um processo de eliminação, restringir a lista de passageiros para os nomes que ela usara. Ao voltar para Paris, ela também tinha envolvido outro governo e mais burocracia, tornara o processo ainda mais lento. No entanto, poderia ter feito a mesma coisa voando para qualquer outro país europeu. Apesar de o vôo de Paris a Londres durar apenas uma hora, Bruxelas era ainda mais perto. Assim como Amsterdã e Haia!

Swain colocou as mãos atrás da nuca e olhou para o teto. Havia uma falha naquele raciocínio. Ela poderia ter passado pela alfândega em Londres e saído do aeroporto muito antes de alguém assistir às fitas da segurança e descobrir quais disfarces ela usara. Se não quisesse ficar em Londres, poderia simplesmente ter trocado de disfarce e voltado algumas horas depois para pegar outro vôo e absolutamente ninguém teria feito a ligação. Ela estaria em casa, livre. Na verdade, essa teria sido uma atitude muito mais inteligente do que ficar no aeroporto sob tanta vigilância de câmeras. Então, por que não tinha feito isso? Ou ela pensava que ninguém conseguiria descobrir sua troca de identidades ou tinha um motivo muito bom para voltar a Paris naquela hora.

Está certo, ela não era um agente de campo, treinada em espionagem. Os agentes secretos eram contratados por missão, enviados para uma tarefa específica. O arquivo dela nada dizia sobre ela ser especialista em disfarces ou em técnicas de evasão. Ela deveria saber que a agência estaria à sua procura por ter estragado o acordo com a organização Nervi, mas era possível que ela não conhecesse a fundo o sistema de vigilância em aeroportos de grande porte.

Mas não colocaria sua mão no fogo.

Ela era esperta demais, tinha controle das coisas. Ela deveria saber que as câmeras captavam todos os seus movimentos, apesar de ter criado vários obstáculos para mantê-los um pouco ocupados. Ela deve ter pensado que o fato de lhes dar mais tempo, saindo do Heathrow e voltando mais tarde, lhes ofereceria a chance de... fazer alguma coisa. Ele não sabia o quê. Escanear o rosto dela no banco de dados de reconhecimento facial, talvez? Seus dados constavam no banco de dados da agência e em nenhum outro lugar. No entanto, se alguém tivesse escaneado sua estrutura facial para colocar no banco de dados da Interpol, as câmeras nas entradas do aeroporto teriam sido capazes de localizar um rosto correspondente ao dela antes que ela conseguisse chegar ao portão de embarque. Sim, podia ser isso. Lily podia temer que Rodrigo Nervi tivesse tentado incluí-la nos arquivos da Interpol.

Como ela poderia evitar esse risco? Submeter-se a uma cirurgia plástica seria uma das opções. Isso seria a decisão mais inteligente para uma fugitiva. Mas ela não havia optado por isso; em vez disso, tinha voltado para Paris. Talvez sumir e não voltar a aparecer antes de se recuperar teria levado muito tempo. Talvez ela tivesse um prazo para cumprir alguma outra tarefa.

Como, por exemplo? Visitar a Disneylândia de Paris? Fazer um tour pelo Museu do Louvre?

Talvez assassinar Salvatore Nervi fosse apenas o começo, e não o fim. Talvez ela soubesse que o melhor dos melhores da agência — ele próprio, apesar de ela não fazer idéia de quem ele era — estava cuidando do caso, e seria apenas uma questão de tempo até que ela fosse pega. Essa fé em suas habilidades o fazia se sentir a todo vapor. Mas, de qualquer modo, acreditava que seu raciocínio estava correto: ela tinha alguma tarefa a cumprir, algo tão urgente que todo minuto contava, e ela estava com medo de não ter tempo suficiente.

Swain resmungou e sentou-se na cama, esfregando as mãos no rosto. Havia um erro naquela lógica também. Ela teria uma chance melhor de conseguir o que queria se tivesse se submetido a uma plástica. Ele não parava de pensar nisso. A única coisa que faria sentido para explicar suas atitudes seria a existência de alguma bomba-relógio metafórica em algum lugar, alguma coisa que não pudesse esperar alguns meses e que tivesse de ser realizada agora, ou pelo menos em pouco tempo. Mas, se existisse mesmo alguma coisa desse tipo, algo que fosse uma ameaça ao mundo, ela só precisava pegar um telefone e fazer uma ligação, deixando que um grupo de especialistas cuidasse do problema, em vez de tentar dar uma de Zorro.

Esqueça a "ameaça ao mundo" como motivo.

Algo pessoal, então. Algo que ela desejasse fazer, e que fosse realizado o mais rápido possível.

Ele pensou sobre o conteúdo da ficha dela. O motivo para ela matar Salvatore Nervi era a morte de seus amigos e da filha adotiva deles há alguns meses. Ela havia tomado uma atitude inteligente, deixando seu trabalho por um tempo, aproximando-se de Nervi para executar seu plano. Então, por que ela não estava tomando a atitude mais inteligente agora? Por que uma agente profissional e esperta estava fazendo algo tão estúpido, sabendo que acabaria sendo pega?

Esqueça o motivo, ele pensou de repente. Ele era homem; ficaria maluco ao tentar descobrir o que se passava pela mente de uma mulher. Se tivesse de escolher a situação mais provável, arriscaria dizer que ela não tinha acabado seu trabalho com a família Nervi. Ela os atacara com muita força, mas agora estava dando um tempo. Eles a irritaram de verdade, e ela os faria pagar por isso.

Ele suspirou satisfeito. Pronto. Aquilo sim parecia o mais correto. E era motivo suficiente. Ela tinha perdido pessoas que amava, e pagaria na mesma moeda, independentemente do preço. Ele conseguia entender isso. O raciocínio era simples e claro, sem as adivinhações de "por que fazer isso?" e "por que não fazer aquilo?".

Ele contaria tudo a Frank Vinay em algumas horas, quando o sol nascesse em Washington D.C., mas seu faro lhe dizia que estava no caminho certo e que deveria começar a investigar antes de conversar com Vinay. Ele só precisava decidir por onde começar.

Tudo havia começado com os amigos dela. Seja lá o que eles tinham feito para irritar Nervi, ela usaria como alvo, para fazer um tipo de justiça poética.

Ele se lembrou do arquivo que tinha lido no escritório de Vinay. Não havia trazido nenhum papel consigo, pois isso poderia comprometer sua segurança; olhos não-autorizados não podiam ler o que não estivesse ali. Ele contou com sua excelente memória, que produziu os nomes Averill e Christina Joubran, agentes secretos aposentados. Averill era canadense, Christina era dos Estados Unidos, mas eles viviam na França em tempo integral e estavam aposentados há mais de doze anos. O que poderia ter levado Salvatore Nervi a matá-los?

Bem, primeiro ele teria de descobrir onde eles viviam, como tinham morrido, quem eram seus amigos, além de Lily Mansfield, e se eles tinham conversado com alguém, contado sobre algo de diferente que estivesse acontecendo. Talvez Nervi estivesse fabricando armas biológicas e vendendo-as para os norte-coreanos, mas, se os amigos de Lily tivessem conhecimento de algo desse tipo, por que simplesmente não haviam ligado para seus antigos chefes para contar? Idiotas poderiam tentar lidar com o assunto sozinhos, mas agentes secretos eficientes não eram idiotas, porque, se fossem, estariam mortos.

Não foi uma boa conclusão, porque os Joubran estavam mortos. Droga!

Antes de voltar a pensar em tudo isso, Swain levantou-se da cama, tomou um banho e em seguida ligou para o serviço de quarto e pediu o café-da-manhã. Decidira ficar no Bristol, na região de Champs-Elysées, porque tinha estacionamento e serviço de quarto vinte e quatro horas. Também era caro, mas ele precisava do estacionamento para abrigar o carro alugado na noite anterior, e do serviço de quarto, porque provavelmente trabalharia em horário alternativo. Além disso, os banheiros de mármore eram bacanas.

Quando estava comendo seu croissant com geléia, algo óbvio lhe ocorreu: os Joubran não haviam descoberto nada. Tinham sido contratados para fazer um serviço que ou tinha dado errado ou no qual tinham se dado tão bem que foram mortos depois, quando Nervi contra-atacou.

Lily já deveria saber o que tinha acontecido, mas, mesmo assim, ela continuava brincando de esconde-esconde. Mas se ela não soubesse — e Swain achava que aquilo era provável, uma vez que ela estava envolvida em um trabalho quando os assassinatos ocorreram —, então ela estaria tentando descobrir quem contratara seus amigos e por quê. Certamente estaria fazendo as mesmas perguntas para as mesmas pessoas que Swain pretendia interrogar. Quais eram as possibilidades de seus caminhos se cruzarem?

Ele não gostara dessas possibilidades antes, mas elas pareciam cada vez melhores a cada minuto. Um bom ponto de partida seria descobrir o que havia acontecido — se é que alguma coisa tinha acontecido — na propriedade dos Nervi, na semana que antecedeu a morte dos Joubran. Lily estaria lendo matérias de jornais que poderiam ou não mencionar qualquer fato a respeito de um problema relacionado aos Nervi; ele poderia ir diretamente à polícia da França, mas não queria que soubessem quem ele era e onde estava. Frank Vinay queria que tudo fosse mantido no mais absoluto sigilo; não seria bom para as relações diplomáticas que os franceses soubessem que um agente secreto da CIA aparentemente havia assassinado uma pessoa com tantas ligações políticas quanto Salvatore Nervi, que não era um cidadão francês, mas que já havia morado em Paris e tinha muitas amizades no governo.

Ele procurou na lista telefônica o endereço dos Joubran, mas não constava ali. Não foi nenhuma surpresa.

A sorte de Swain era que ele trabalhava para uma agência que guardava, catalogava e analisava todas as notícias do mundo todo. Outra vantagem era que o campo de informação daquela agência ficava aberto vinte e quatro horas por dia.

Ele usou seu celular para telefonar para Langley, passou pelo processo comum de identificação e verificação, mas, um minuto depois, estava conversando com uma pessoa do departamento, Patrick Washington. Swain informou quem ele era e o que precisava, e Patrick disse:

— Espere um pouco — e Swain esperou. E esperou. Dez minutos depois, Patrick voltou a atender:

— Desculpe pela demora, mas precisei me certificar de algo. — Isso significava que ele havia pesquisado sobre Swain. — Sim, houve um incidente em um laboratório no dia 25 de agosto, com explosão e incêndio. De acordo com as reportagens, o estrago foi pequeno.

Os Joubran foram mortos no dia 28 de agosto. O incidente no laboratório tinha de ser o motivo.

— Você tem o endereço desse laboratório?

— Vou ver.

Swain pôde ouvir Patrick digitando; em seguida, ele disse:

— Rue des Capucines, número 7, perto de Paris.

Isso abrangia uma grande área. — Norte, sul, leste ou oeste?

— Humm, deixe-me usar um localizador de ruas... — Mais teclas sendo digitadas. — Leste.

— Qual o nome do laboratório?

— Nada muito sofisticado. Nervi Laboratórios.

Sim, certo. Mentalmente, Swain traduziu o nome para o francês.

— Precisa de mais alguma coisa?

— Sim. Do endereço de Averill e Christina Joubran. Eles eram agentes secretos aposentados. Nós os requisitávamos ocasionalmente.

— Há quanto tempo?

— No começo dos anos 90.

— Só um minuto. — Digitou um pouco mais. Patrick disse: — Lá vai — e disse o endereço. — Mais alguma coisa?

— Não, só isso. O senhor é muito gentil, sr. Washington.

— Obrigado, senhor.

O "senhor" mostrava que, de fato, Patrick havia checado a identidade e a atuação de Swain. Ele guardou o nome de Patrick em seus arquivos mentais de pessoas a quem procurar, pois havia gostado do fato de o rapaz ter sido cuidadoso o suficiente para não ignorar aquela informação.

Swain olhou pela janela: ainda chovia. Ele detestava aquilo. Tinha passado muitas horas sob o sol escaldante depois de ser encharcado por uma tempestade repentina, e passou a detestar ficar com as roupas molhadas. Há muito tempo não ficava com frio e molhado, mas, pelo que se lembrava, era ainda pior do que ficar com calor e molhado. Não havia levado uma capa de chuva. Nem sabia se tinha uma, e não tinha tempo para fazer compras.

Ele olhou para o seu relógio. Oito e dez; as lojas também não estariam abertas ainda. Ele resolveu o problema ligando para a recepção e pedindo que uma capa de chuva de seu tamanho fosse entregue em seu quarto e cobrada em sua fatura. Isso não evitaria que se molhasse naquela manhã, uma vez que não podia esperar por sua chegada. Pelo menos só andaria na chuva quando estivesse fora de seu carro, e não por quilômetros na mata.

Ele alugara um Jaguar porque sempre quis dirigir um e também porque só os carros mais caros estavam disponíveis quando ele chegou à locadora na noite anterior, apesar de ter cruzado o Canal muito mais rápido" do que o normal, graças ao amigo de Murray, da OTAN. Decidiu que descontaria a quantia comum de aluguel de um veículo de seus gastos e arcaria com o restante. Não existia uma regra que ele não gostasse de burlar, mas era escrupulosamente honesto com suas despesas. Ele achava que poderia ser repreendido e arrastado por causa de dinheiro. Por gostar muito de seu traseiro, ele tentava livrá-lo de um estresse desnecessário.

Ele deixou o Bristol dirigindo o Jaguar. Respirava profundamente e sentia o cheiro do estofado de couro. Se as mulheres quisessem atrair os homens pelo olfato, deveriam usar perfumes que tivessem o cheiro de um carro novo.

Com aquela idéia boba em sua mente, ele entrou no tráfego parisiense. Não ia a Paris há alguns anos, mas se lembrava de que os mais corajosos e imprudentes tinham a preferencial. A regra dizia que você devia entrar no fluxo, com cuidado, à direita, mas que se danasse a regra. Ele cortou um táxi cujo motorista pisou no freio e gritou uns palavrões gauleses, mas Swain acelerou e entrou como uma bala em um espaço livre. Nossa, que divertido! As ruas molhadas eram um grande fator de imprevisibilidade, aumentando sua adrenalina.

Ele seguiu em direção ao sul do distrito de Montparnasse, onde os Joubran viviam, consultando um mapa de vez em quando. Mais tarde, ele iria ao laboratório dos Nervi para olhar a fachada e as medidas de segurança mais óbvias, mas no momento ele queria ir onde achava que Lily Mansfield poderia estar.

Estava na hora de apresentar o seu show. Depois da brincadeira de cabra-cega da qual ela o fizera participar no dia anterior, estava ansioso para medir sua esperteza com ela de novo. Não tinha a menor dúvida de que venceria, mas muita diversão estava por vir.

 

Rodrigo desligou o telefone com raiva, colocou os cotovelos sobre a mesa e cobriu seu rosto com as " as mãos. A vontade de estrangular alguém era imensa. Murray e sua equipe de idiotas evidentemente tinham ficado cegos e burros para deixar que uma mulher os fizesse de otários assim. Murray jurou que colocaria alguns especialistas para analisar as fitas do aeroporto, e nenhum deles conseguiu decifrar para onde Denise Morei tinha ido. Ela havia conseguido evaporar, apesar de Murray ser esperto o bastante para admitir que ela devia estar usando um disfarce, mas de maneira tão inteligente e profissional que não havia semelhanças visíveis que eles pudessem identificar.

Ela não podia escapar impune por ter matado seu pai. Não apenas porque a reputação dos Nervi ficaria maculada, mas porque tudo dentro dele clamava por vingança. O pesar e o orgulho ferido se misturavam, sem lhe dar um minuto de paz. Ele e seu pai sempre tinham sido tão cuidadosos, tão meticulosos, mas essa mulher tinha, de algum modo, derrubado suas defesas e levado Salvatore a uma morte nojenta e dolorosa. Sequer havia lhe dado a dignidade de um tiro; em vez disso, escolhera veneno, a arma de um covarde.

Murray podia ter perdido aquela mulher, mas ele, Rodrigo, não desistiria. Recusava-se a desistir.

Pense, ordenou a si mesmo. Para encontrá-la, primeiro ele tinha de identificá-la. Quem ela era, onde vivia, de onde era sua família?

Quais eram os meios comuns de identificação? Impressões digitais, obviamente. Registros de arcada dentária. Estes últimos não eram uma opção, porque ele teria de saber não apenas quem ela era, mas também quem era seu dentista e, de qualquer forma, esse método era usado principalmente para identificar alguém já morto. Para encontrar alguém vivo... o que fazer?

Impressões digitais. O quarto onde ela havia ficado enquanto estivera ali tinha sido completamente limpo por seus empregados no dia em que ela voltou para seu apartamento, destruindo qualquer impressão digital, e ele também não pensara em pegar uma digital que fosse de um copo ou talher que ela havia usado. Mas seu apartamento era uma possibilidade. Sentindo-se um pouco animado, contatou um amigo no departamento de polícia francês, que não fez qualquer pergunta e apenas disse que cuidaria do assunto naquele mesmo momento, e pessoalmente.

O amigo telefonou uma hora depois. Não tinha feito uma procura minuciosa, mas checara os lugares mais óbvios e não havia qualquer impressão, nem mesmo borrada. O apartamento tinha sido completamente limpo.

Rodrigo engoliu sua ira por ser tão enganado por essa mulher.

— Quais são os outros meios para se descobrir a identidade de uma pessoa?

— Nenhuma que seja garantida, meu amigo. As digitais só ajudam se o sujeito já tiver sido preso e suas impressões estiverem no banco de dados. Assim como todos os outros métodos. O DNA, por mais preciso que seja, só ajuda se houver uma outra amostra de DNA, para que as duas sejam comparadas e possamos dizer: sim, essas duas amostras são ou não são da mesma pessoa. Os programas de reconhecimento facial só identificarão os indivíduos que já constarem nos arquivos, e são usados mais para terroristas. O mesmo ocorre com o reconhecimento de voz, com os padrões de retina, com tudo enfim. Deve haver um banco de dados a partir de onde as comparações possam ser feitas.

— Compreendo. — Rodrigo coçou a testa, com os pensamentos a toda velocidade. O vídeo de segurança! Ele tinha o rosto de Denise no vídeo de segurança, e ainda fotos muito mais claras nas investigações que havia feito. — Quem tem esses programas de identificação facial?

— A Interpol, é claro. Todas as grandes organizações, como a Scotland Yard, o FBI e a CIA.

— Os bancos de dados deles são compartilhados?

— Até certo ponto. O ideal, pelo ponto de vista investigativo, seria que tudo fosse compartilhado, mas todo mundo gosta de guardar segredos, não é? Se essa mulher for uma criminosa, então a Interpol pode nem tê-la em seu banco de dados. E mais uma coisa...

— O quê?

— O dono do lugar disse que um homem, um americano, esteve lá ontem, perguntando sobre essa mulher. Não sabe o nome dele, e a descrição que me deu do cara foi tão vaga que chega a ser inútil.

— Obrigado. — Rodrigo disse, tentando pensar no que isso Poderia significar. A mulher havia sido paga com dólares americanos. Um homem americano estava atrás dela. Mas acontece que, se esse americano fosse o contratante dela, saberia de seu paradeiro e por que estaria atrás dela se ela já tinha cumprido sua missão? Não, ele deveria ser uma pessoa totalmente de fora, talvez um desconhecido.

Ele encerrou a ligação, um sorriso cruel em seus lábios, e digitou uma combinação de números, o que já havia feito inúmeras outras vezes. A organização Nervi tinha contatos por toda a Europa, África e Oriente Médio, e estavam se espalhando pelo Oriente. Sendo um homem inteligente, achou prudente certificar-se de que um desses contatos estivesse convenientemente dentro da Interpol.

— Georges Blanc — atendeu uma voz calma e firme que condizia com seu dono. Rodrigo não conhecia ninguém mais competente que Blanc, a quem nunca tinha encontrado pessoalmente.

— Se eu escanear uma fotografia e mandá-la para o seu computador, você pode verificá-la com seu programa de reconhecimento facial? — Ele não precisou se identificar. Blanc conhecia sua voz.

Houve uma breve pausa, e então Blanc respondeu:

— Sim. — Não houve qualificações, nenhuma explicação a respeito das medidas de segurança que ele teria de burlar, apenas aquela breve afirmação.

— Vou mandá-la para você em cinco minutos — Rodrigo disse e desligou. Do arquivo sobre sua mesa, ele tirou a foto de Denise Morei — ou seja lá quem ela fosse — e a escaneou para o computador, que estava devidamente protegido por toda medida de segurança conhecida. Digitou algumas linhas e a fotografia foi enviada para Lyon, onde a Interpol tinha sua sede.

O telefone tocou. Rodrigo atendeu:

— Sim.

— Eu a recebi — disse Blanc em voz baixa. — Volto a ligar assim que tiver uma resposta, mas quanto ao tempo que vai demorar... — Sua voz se prolongou e Rodrigo o imaginou levantando os ombros.

— O mais rápido possível — Rodrigo disse. — Mais uma coisa.

— Pois não?

— Seu contato com os americanos...

— Sim?

Existe a possibilidade de a pessoa que estou procurando ser americana. — Ou tinha sido contratada por um americano, o que explicava pagamento em dólares americanos. Apesar de ele não acreditar que os Estados Unidos tivessem qualquer coisa a ver com o assassinato de seu pai, até que tivesse a certeza de quem havia contratado a vagabunda, queria manter seus trunfos. Ele poderia ter se dirigido diretamente a suas ligações americanas e pedido o mesmo favor que estava pedindo a Blanc, mas talvez fosse melhor abordar o assunto por vias mais oblíquas.

— Vou pedir para meu contato checar os bancos de dados deles — Blanc disse.

— Discretamente.

— É claro.

 

Apesar da chuva fria que atravessava a proteção de seu guarda-chuva, Lily mantinha a cabeça erguida para ver o que acontecia ao seu redor. Andava com rapidez, esforçando-se para ver como seu corpo respondia. Usava luvas, botas e estava protegida do frio, mas deixava sua cabeça descoberta, para que seu cabelo louro ficasse visível. Se por acaso os homens de Rodrigo estivessem procurando por ela em Paris, estariam atrás de uma morena. Duvidava que Rodrigo a tivesse seguido até ali, pelo menos ainda não.

A agência, no entanto, era um assunto completamente diferente. Lily ficou surpresa por não ter sido detida em Londres assim que saiu do avião. Mas nada havia acontecido e ela não tinha localizado um espião nem quando saiu do aeroporto De Gaulle nem naquela manhã.

Começou a pensar que provavelmente tinha muita sorte. Rodrigo mantivera a morte de Salvatore em segredo por vários dias e divulgou a notícia apenas depois do enterro do pai. Não houve qualquer menção ao veneno, apenas que ele morrera vítima de um mal repentino. Será que não estavam investigando?

Ela não esperaria, não podia baixar a guarda. Até que tivesse terminado seu trabalho, ficaria atenta a fim de evitar problemas. Depois que terminasse — bem, ela não fazia a menor idéia. Naquele momento, tudo que queria era sobreviver.

Não foi ao cibercafé mais próximo a seu estúdio — ela sabia que poderia haver armadilhas em buscas on-line a respeito de qualquer informação sobre a organização Nervi. Pegou o trem para Quartier Latin e decidiu andar o resto do trajeto. Nunca estivera naquele café antes, e aquela era uma das razões para tê-lo escolhido. Uma das regras básicas da evasão era fugir da rotina, ser imprevisível. As pessoas eram pegas porque iam a lugares onde se sentiam mais à vontade, onde tudo era familiar.

Lily tinha passado bastante tempo em Paris, portanto havia muitos lugares e pessoas que agora teria de evitar. Nunca tivera uma residência ali, sempre ficava na casa de amigos — geralmente Averill e Tina — ou em um hotelzinho. Certa vez, durante cerca de um ano, ela havia alugado um flat em Londres, mas desistira de mantê-lo, passava mais tempo fora dele, em viagens, do que dentro, e ele se tornou apenas uma despesa a mais.

Sua área de atuação era basicamente a Europa, portanto, não voltava para os Estados Unidos com freqüência. Por mais que gostasse da Europa e já estivesse familiarizada por lá, a idéia de fixar residência ali nunca havia lhe ocorrido. Se algum dia comprasse uma casa — se conseguisse —, seria nos Estados Unidos.

Às vezes, ela pensava seriamente em se aposentar, como Averill e Tina fizeram, pensava em levar uma vida normal, trabalhar das nove às cinco, entrar para uma comunidade e tornar-se parte dela, conhecer os vizinhos, receber a visita de parentes, falar ao telefone. Não sabia como tinha se enfiado naquilo, como tinha se tornado capaz de acabar com a vida de um ser humano como se pisa em um inseto, de temer sequer ligar para sua própria mãe, pelo amor de Deus. Ela tinha começado muito jovem e aquela primeira vez não fora fácil — tremera como uma vara verde —, mas realizou o trabalho, e depois foi mais fácil, e mais tarde ainda mais simples. Depois de um certo tempo, os alvos foram se tornando menos humanos para ela, e ela desenvolveu a apatia necessária para conseguir realizar o trabalho. Talvez isso fosse bastante ingênuo de sua parte, mas ela acreditava que seu governo não a mandaria caçar ninguém que fosse bom; era uma crença necessária, a única maneira como conseguia trabalhar. E, ainda assim, ela tinha se tornado alguém a quem temia, uma mulher que provavelmente não poderia fazer parte de uma sociedade normal.

Ainda tinha o sonho de se aposentar e fixar residência, mas Lily o via assim, como um sonho, e com pouca possibilidade de se tornar realidade. Apesar de ter saído viva daquela situação, fixar residência era algo que as pessoas normais faziam, e Lily temia não ser mais uma pessoa normal. Matar tinha se tornado fácil demais, instintivo demais. O que aconteceria se ela tivesse de lidar com as mesmas frustrações todos os dias, com um chefe odioso e vizinhos estranhos? E se alguém tentasse atacá-la? Conseguiria controlar seus instintos ou alguém acabaria morto?

Pior ainda, e se ela, sem querer, colocasse em perigo uma pessoa amada? Sabia que literalmente não suportaria se alguém em sua família fosse atingido por causa dela, por causa do que ela era.

Um carro buzinou e Lily se assustou, voltando a prestar atenção ao seu redor. Ficou alarmada por ter se distraído, em vez de manter-se alerta e centrada. Se não conseguisse se concentrar, não poderia seguir com seu plano.

Ela provavelmente tinha se mantido fora do alcance do radar da agência — esperava que sim —, mas isso não duraria muito tempo. Em algum momento, alguém apareceria para procurá-la, e ela acreditava que seria em breve.

Olhando para a situação de modo realista, havia quatro resultados possíveis. Na melhor das hipóteses, ela descobriria o que tinha tirado Averill e Tina da inatividade, e fosse o que fosse, seria tão terrível que o mundo civilizado se afastaria dos Nervi e eles seriam expulsos do negócio. A agência nunca mais a contrataria, é claro; por mais que tivesse seus motivos, um agente secreto que saía por aí matando poderosos era instável demais para o serviço. Então, ela sairia vitoriosa, mas estaria desempregada, o que a levava de volta à sua primeira preocupação: saber se conseguiria levar uma vida normal.

Na segunda melhor das hipóteses, ela não encontraria nada incriminador — a venda de armas para terroristas não seria ruim o suficiente, porque todos tinham conhecimento disso — e seria forçada a passar sua vida escondida sob outro disfarce e, nesse caso, estaria desempregada, o que a fazia retornar à questão de saber se seria capaz de ter um emprego normal e ser apenas uma cidadã comum.

As duas outras possibilidades eram ruins. Ela poderia alcançar seu objetivo, mas morrer. Por fim, e a pior de todas: poderia morrer antes de conseguir fazer qualquer coisa.

Ela gostaria de acreditar que a chance de alcançar um dos primeiros dois resultados era de cinqüenta por cento, mas as quatro hipóteses não eram equivalentes. Acreditava que havia cerca de oitenta por cento de chance de ela não sobreviver, o que poderia ser um ponto de vista otimista. Mas ela lutaria como louca pelos vinte por cento. Não poderia decepcionar Zia desistindo.

O Quartier Latin era um labirinto de ruas estreitas de paralelepípedos, geralmente lotado por alunos da Sorbonne e por consumidores que iam até lá por causa das antigas butiques e ateliês, mas naquele dia a chuva fria afastara as pessoas. O café, no entanto, já estava cheio. Lily observou o local enquanto fechava seu guarda-chuva e tirava o casaco, o cachecol e as luvas, procurando um computador em um local discreto. Por baixo da capa de chuva, ela estava vestindo uma blusa de gola alta azul-escura, que intensificava o tom de seus olhos, e calça larga sobre botas de cano curto. Um coldre em seu tornozelo direito carregava um revólver calibre22, de fácil acesso, graças à bota, e a boca larga da calça escondia qualquer sinal dela. Lily sentira-se completamente indefesa durante as semanas em que não pôde andar armada por causa de todas aquelas malditas revistas às quais tinha de se submeter sempre que chegava perto de Salvatore; armada, sentia-se melhor.

Ela escolheu um terminal que estivesse localizado em um lugar estratégico, onde pudesse ficar atenta à porta. Além disso, era o local mais reservado que ela conseguiria encontrar ali. No entanto, estava sendo usado por uma adolescente americana que obviamente estava checando seus e-mails. Era fácil identificar americanos, ela pensou; não apenas por causa de suas roupas ou de seu estilo, mas pela postura, uma confiança nata que quase sempre beirava a arrogância e que devia ser completamente irritante para um europeu. Ela mesma poderia ainda ter tal arrogância — tinha quase certeza disso —, mas, com o passar dos anos, seu modo de se vestir e suas maneiras tinham mudado. Muitas pessoas a confundiam com uma escandinava, por causa do tom de sua pele, ou, talvez, alemã. Ninguém que olhasse para ela agora pensaria automaticamente em torta de maçã e beisebol.

Ela esperou até que a adolescente terminasse de ler seus e-mails e saísse, e então foi para o computador. O preço por hora ali era razoável, sem dúvida por causa da grande movimentação de estudantes universitários. Ela pagou por uma hora, esperando ficar ali todo o período, ou mais.

Começou com o Le Monde, o maior jornal, procurou nos arquivos entre 21 de agosto, quando jantou com os Joubran pela última vez, e o dia 28 do mesmo mês, quando eles foram assassinados. A única ocorrência de "Nervi" era de Salvatore envolvido em uma história de finanças internacionais. Ela leu o artigo duas vezes, em busca de algum detalhe que indicasse um desdobramento, mas ou ela não entendia nada sobre finanças internacionais, ou não havia nada de suspeito.

Havia quinze jornais na região parisiense, alguns pequenos, outros não. Procurou em todos eles, examinou os arquivos daqueles sete dias em questão. A tarefa foi demorada e, às vezes, o computador ficava lento para fazer o download de uma página. Vez ou outra, a conexão era interrompida e ela tinha de se conectar outra vez. Já estava ali há três horas quando entrou no Investir, um jornal financeiro, e acertou na mosca.

A notícia era apenas uma nota de dois parágrafos. No dia 25 de agosto, um laboratório de pesquisa dos Nervi havia sofrido uma explosão seguida por um incêndio que foi descrito como "pequeno" e "contido", causando um "prejuízo mínimo", que não afetaria de forma alguma as pesquisas sobre vacinas do local.

Averill era especialista em explosivos, a ponto de ser um verdadeiro artista. Ele não via sentido em causar destruições completas, sendo que, com cuidado e planejamento, era possível fabricar algo que acabaria apenas com o necessário. Para que destruir um prédio inteiro quando apenas um cômodo resolveria o problema? Ou um quarteirão todo quando apenas um prédio seria o suficiente? "Contido" era a palavra usada para descrever seu trabalho. E Tina tinha a habilidade de invadir sistemas de segurança, além de ser muito talentosa com uma pistola.

Lily não tinha como precisar se aquela explosão era obra dos dois, mas parecia que sim. Pelo menos ali estava uma pista que ela poderia seguir, e esperar que a levasse ao caminho correto.

Enquanto estava na Internet, pegou a informação sobre o laboratório de pesquisa e não encontrou nada relevante sobre seu colega o dr. Vincenzo Giordano. Muito bem. Digitou o nome dele em um site de pesquisa e não encontrou nada, mas ela não esperava que o telefone dele estivesse na Internet. Seria a maneira mais fácil de encontrá-lo, mas certamente não a única.

Desconectando, flexionou seus ombros e girou sua cabeça para aliviar os músculos tensos do pescoço. Estava na frente do computador há mais de três horas, seu corpo todo estava rígido, e ela precisava usar o banheiro. Estava cansada, mas não tanto quanto no dia anterior, e satisfeita com o modo como seu corpo tinha se comportado durante a rápida caminhada desde a estação de trem.

A chuva ainda estava caindo quando ela deixou o café, mas tinha diminuído para uma garoa fina. Abriu o guarda-chuva, pensou por um momento e partiu na direção oposta àquela de onde chegara mais cedo. Estava com fome e sabia exatamente o que queria comer no almoço, apesar de não comer um daqueles há anos: um Big Mac.

Swain novamente tentava adivinhar. Estava se cansando daquilo, mas não conseguia evitar.

Tinha localizado o endereço antigo dos Joubran e descobriu que o lugar tinha sido esvaziado, limpo e alugado ou vendido para outra família. Pensara em entrar e ver o que encontraria, mas agora seria inútil. Ele havia visto uma jovem mãe receber a babá — sua mãe, pela semelhança — e duas crianças em idade pré-escolar saírem correndo pela porta na chuva, antes que a mulher conseguisse evitar. As duas mulheres conseguiram, depois de muitas risadas e gritinhos, pegar os dois pestinhas e colocá-los para dentro; e então a jovem saíra novamente, carregando um guarda-chuva e uma bolsa. Se ela estava indo trabalhar ou fazer compras, isso não lhe importava. O importante era saber que a residência não estava mais vazia.

Foi então que ele se superou outra vez. Também planejara questionar os vizinhos e o comerciante local sobre os Joubran, quem eram seus amigos, esse tipo de coisa. Mas pensou que, se fizesse essas perguntas antes de Lily, quando ela chegasse, alguém poderia dizer a ela que um homem americano tinha perguntado as mesmas coisas um dia, ou mesmo algumas horas antes. Ela não era idiota; saberia o significado daquilo e sumiria.

Ele passara o dia anterior seguindo seus passos, tentando se inteirar, mas agora tinha de ajustar seu raciocínio. Ele não estava mais necessariamente atrás dela, o que era bom, se ao menos ele soubesse qual seria seu próximo passo. Até lá, não podia assustá-la ou ela desapareceria outra- vez.

Por meio de contatos — com Murray lidando com os franceses ele sabia que Lily tinha voado de volta para Paris usando a identidade de Mariel St. Clair, mas o endereço que constava em seu passaporte era o de um mercado de peixe. Bem engraçadinho da parte dela, ele pensou. Ela não usaria a identidade de St. Clair outra vez; provavelmente teria assumido uma nova identidade, uma que ele não teria como encontrar. Paris era uma cidade grande, tinha mais de dois milhões de habitantes, ela estava muito mais familiarizada ali do que ele. Ele tinha apenas uma chance de cruzar o caminho dela e não queria arruinar essa chance se precipitando.

Insatisfeito, ele dirigiu pela vizinhança para conhecê-la melhor, e observava com mais atenção o rosto das pessoas que passavam pelas ruas. Infelizmente, a maioria delas carregava guarda-chuvas e parcialmente escondiam seus traços e, mesmo que não estivessem um pouco escondidas, ele não tinha a menor idéia do disfarce que Lily poderia estar usando. Ela tinha sido um pouco de tudo, exceto uma freira idosa; então, talvez ele devesse começar a procurar por uma.

Enquanto isso, talvez ele devesse dar uma olhada no laboratório de Nervi para checar as medidas de segurança externas. E se algum dia precisasse entrar ali?

Depois de um almoço nada saudável, porém extremamente prazeroso, Lily pegou o trem SNCF para o bairro onde Averill e Tina viviam. Quando chegou ali, a chuva tinha parado e um sol fraco fazia um tremendo esforço para aparecer em meio às nuvens carregadas. O dia não estava quente, mas pelo menos a chuva não estava deixando as pessoas tristes. Ela se lembrou da breve tempestade de neve da noite em que Salvatore morreu e se perguntou se Paris veria mais neve naquele inverno. Não nevava com tanta freqüência em Paris. Zia adorava brincar na neve! Eles a levavam para esquiar nos Alpes quase todos os invernos, os três adultos que a amavam mais do que tudo. Lily nunca quis esquiar, pois um acidente a afastaria do trabalho por meses, mas, depois que tinham se aposentado, seus amigos se viciaram no esporte.

As lembranças retornavam como cartões-postais: Zia como uma adorável e bochechuda menininha de três anos, com um casaco grosso vermelho vivo, fazendo um boneco de neve pequeno e totalmente torto. Foi em sua primeira viagem aos Alpes. Zia escorregando pela neve e gritando:

— Fiquem me olhando! Fiquem me olhando! — Tina caindo em um banco de neve e levantando-se em meio a risadas, parecendo mais o Abominável Homem da Neve. Os três tomando bebidas ao redor de uma lareira enquanto Zia dormia no piso superior. Zia perdendo seu primeiro dente, indo para a escola, sua primeira apresentação de dança, os primeiros sinais de mudança da infância para a adolescência, sua primeira menstruação, no ano anterior, mexendo em seu cabelo, querendo usar maquiagem.

Lily fechou os olhos por um momento, tremendo de dor e ira. A desolação tomou conta dela, do mesmo jeito que acontecia desde que ficara sabendo da morte deles. Desde então, conseguia ver os raios de sol, mas não senti-los, como se o calor nunca chegasse até ela. Matar Salvatore Nervi tinha sido satisfatório, mas não o suficiente para trazer seu sol de volta.

Ela parou em frente ao local em que seus amigos tinham vivido. Havia outras pessoas vivendo ali e ela tentou imaginar se elas sabiam que três pessoas tinham morrido exatamente ali alguns meses antes. Ela se sentiu violada, como se achasse que tudo tinha de ficar do jeito que era antes, com seus pertences intocados.

No mesmo dia em que voltou a Paris e soube que eles tinham sido assassinados, pegou algumas fotos, alguns jogos e objetos de Zia, alguns de seus brinquedos de infância, o álbum de bebê que ela começara e Tina carinhosamente completara. A casa tinha sido isolada e trancada, é claro, mas aquilo não era empecilho para ela. Primeiro, porque tinha sua própria chave. Em segundo lugar, ela teria arrancado o telhado com as próprias mãos para conseguir entrar. Mas o que havia acontecido com o resto dos pertences deles? Onde estavam suas roupas, seus objetos pessoais, seus equipamentos de esqui? Depois daquele dia, preocupou-se durante algumas semanas, tentara descobrir quem os matara, e começou seu plano de vingança; quando voltou, a casa tinha sido esvaziada.

Averill e Tina tinham alguns parentes, primos etc, mas ninguém era próximo. Talvez as autoridades tivessem notificado esses familiares e eles tivessem vindo para empacotar tudo. Ela esperava que sim. Tudo bem se os parentes tivessem levado suas coisas, mas ela não gostava da idéia de alguma companhia de mudanças impessoal ter ido ali para empacotar as coisas e jogá-las no lixo.

Lily começou a bater às portas, a conversar com os vizinhos, perguntando se eles tinham visto alguém visitar seus amigos na semana em que foram mortos. Já tinha conversado com eles, mas não sabia ao certo o que perguntar. Eles a conheciam, é claro; ela visitava os amigos há anos, cumprimentava os vizinhos, parava para trocar algumas palavras. Tina era uma pessoa muito simpática. Averill era mais sério, mas ninguém era estranho a Zia. Ela se dava muito bem com todos os vizinhos.

Apenas um deles havia visto algo de que se lembrava: era a madame Bonnet, que vivia duas casas adiante. Tinha oitenta e poucos anos e se tornara ranzinza com a idade, mas gostava de ficar sentada diante da janela da frente enquanto tricotava — e ela sempre estava tricotando —, por isso ela via quase tudo que acontecia na rua.

— Mas eu já contei tudo isso para a polícia — ela disse, impaciente, quando atendeu a porta e Lily fez suas perguntas. — Não, não vi ninguém na noite em que eles foram mortos. Sou velha, não enxergo muito bem, não escuto muito bem. E fecho minhas cortinas à noite. Como eu poderia ter visto alguma coisa?

— E antes daquela noite? Algum outro dia daquela semana?

— Isso eu também já contei à polícia — ela disse, encarando Lily.

— A polícia não fez nada.

— É claro que não fizeram nada! Inúteis, todos eles. — Com um movimento de mão, ela dispensou um pequeno exército de policiais que faziam o melhor que podiam todos os dias.

— A senhora viu alguém desconhecido? — Lily repetiu pacientemente.

— Só aquele rapaz. Ele era muito bonito, como um ator de cinema. Fez uma visita certo dia, ficou bastante tempo. Nunca o vira antes.

Os batimentos cardíacos de Lily aumentaram.

— A senhora pode descrevê-lo? Por favor, madame Bonnet.

A senhora olhou-a por mais tempo, murmurou algumas frases nada agradáveis, como "idiotas incompetentes", "tolos", depois disse:

— Eu te disse, ele era bonito. Alto, magro, de cabelo preto. Muito bem-vestido. Chegou de táxi, e outro veio buscá-lo quando ele foi embora. Só isso.

— Pode tentar adivinhar a idade dele?

—Jovem! Para mim, qualquer pessoa com menos de cinqüenta anos é jovem! Não me importune com essas perguntas bobas. — E, após dizer isso, deu alguns passos para trás e bateu a porta.

Lily respirou fundo. Um homem jovem, bonito e de cabelo preto. E bem-vestido. Havia milhares de homens que se encaixavam naquela descrição em Paris, jovens e bonitos. Foi um começo, uma peça do quebra-cabeça, mas, como uma pista isolada, aquilo não significava absolutamente nada. Ela não tinha uma lista de possíveis suspeitos, nem mesmo algumas fotografias que pudesse mostrar à madame Bonnet, na esperança de que a senhora pegasse uma delas e dissesse: "Este aqui. Ele é o homem."

E o que isso significava? Esse homem bonito poderia tê-los contratado para acabar com alguma coisa no laboratório dos Nervi, ou poderia ser um conhecido que tinha vindo para uma visita. Averill e Tina poderiam ter ido a algum outro lugar para se encontrarem com a pessoa que os contratou, em vez de convidá-la para ir à casa deles. Na verdade, isso seria o mais provável.

Ela coçou a testa. Não havia pensado naquilo, mas não sabia se deveria pensar. Não sabia se importava a razão pela qual eles tinham aceitado o trabalho ou de que tipo de trabalho se tratava. Nem sequer tinha a certeza de que havia um trabalho, mas era a única explicação que fazia sentido e ela tinha de seguir sua intuição. Se começasse a duvidar de si mesma agora, largaria tudo.

Distraída em seus pensamentos, ela voltou para a estação de trem.

 

Georges Blanc acreditava piamente na lei e na ordem, mas também era um homem pragmático que aceitava encarar escolhas difíceis e fazia o melhor que conseguia.

Ele não gostava de dar informações a Rodrigo Nervi. No entanto, tinha uma família para proteger e um filho mais velho já no terceiro ano da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos. A anuidade na universidade era de quase trinta mil dólares americanos; só isso já o teria deixado pobre. Mas teria conseguido, de alguma forma, se Salvatore Nervi não tivesse se aproximado dele há mais de dez anos para genialmente sugerir que Georges se beneficiaria imensamente de uma segunda fonte de renda generosa, pela qual ele não teria de fazer nada, além de passar algumas informações de vez em quando e talvez fazer alguns pequenos favores. Quando Georges recusou, educadamente, Salvatore continuou sorrindo e começou a citar uma longa lista de tragédias horripilantes que poderiam acometer sua família, como sua casa ser incendiada, seus filhos, seqüestrados ou até mesmo agredidos. Ele contou como uma gangue de malfeitores tinha entrado à força na casa de uma senhora e a cegado, jogando ácido em seu rosto, e continuou com sua lista, dizendo como as economias poderiam sumir como fumaça, como os carros podiam se envolver em acidentes.

Georges entendera. Salvatore tinha acabado de dizer as coisas que aconteceriam a ele e à sua família se ele se recusasse a fazer o que Salvatore exigia. Portanto, decidira concordar, e tentava, no decorrer dos anos, limitar o prejuízo que causava com as informações que passava e com os favores que fazia. Com aquelas ameaças com o incentivo, Salvatore poderia conseguir as informações de graça, mas havia aberto uma conta para Georges na Suíça e depositava nela, por ano, o equivalente ao dobro de toda a sua renda anual.

Georges tomava o cuidado de viver com seu salário da Interpol, mas era pragmático o bastante para recorrer à conta da Suíça para pagar os estudos do filho. Havia uma bela quantia ali no momento, uma vez que o dinheiro era depositado há dez anos, sem contar os rendimentos. O dinheiro estava ali; ele não o usaria para comprar coisas para si, mas o usava para a sua família. Sabia que teria de fazer alguma coisa com o dinheiro um dia, mas não sabia o quê.

Durante todos aqueles anos, lidava mais com Rodrigo Nervi, o futuro herdeiro de Salvatore, e agora seu herdeiro de fato. Preferiria ter de lidar com Salvatore. Rodrigo era mais frio que seu pai, mais esperto e, como Georges acreditava, provavelmente mais cruel. A única vantagem que Salvatore tinha sobre seu filho era sua experiência e mais anos nos quais acumulara uma lista de crimes diabólicos.

Georges olhou para seu relógio: uma hora da madrugada. Com a diferença de seis horas entre Paris e Washington, eram sete horas da manhã lá, a hora perfeita para telefonar para o celular de alguém.

Ele usou o próprio celular, sem querer que a ligação ficasse nos registros da Interpol. Que invenção maravilhosa era o celular. Deixava o telefone fixo praticamente obsoleto. Não era tão anônimo, é verdade, mas seu celular tinha segurança contra grampos, muito mais conveniente.

— Alô — um homem respondeu depois do segundo toque. Ao fundo, Georges conseguiu escutar o som de uma televisão ligada, com as vozes moduladas dos repórteres.

— Vou mandar-lhe uma fotografia — Georges disse. — Você poderia analisá-la em seu programa de reconhecimento facial o mais rápido possível? — Ele nunca dizia seu nome, tampouco o outro homem. Sempre que um deles precisava de informações, ligavam em seus números pessoais, em vez de passarem por intermediários, o que mantinha o contato oficial o mais curto possível.

— Claro.

— Por favor, me mande todas as informações pertinentes, pelo canal de sempre.

Os dois desligaram; as conversas eram as mais breves possíveis também. Georges não sabia nada sobre seu contato, nem mesmo seu nome. Até onde ele sabia, seu contato em Washington cooperava pela mesma razão que ele mesmo: medo. Não havia o menor sinal de amizade entre ambos. Aquilo era trabalho, isto eles entendiam muito bem.

— Preciso de uma resposta definitiva. Você terá a vacina pronta para a próxima temporada da gripe? — Rodrigo perguntou ao dr. Giordano. Havia um enorme relatório sobre a mesa de Rodrigo, mas ele estava preocupado com a conclusão, que definia se a vacina poderia ser produzida no volume necessário, e a tempo.

O dr. Giordano era muito bem conceituado em diversas organizações de saúde do mundo por desenvolver uma vacina confiável contra a gripe aviária. O laboratório deles não era o único que estava trabalhando para solucionar o problema, mas era o único que tinha o dr. Giordano. Vincenzo tinha ficado fascinado pelos vírus e abandonado seu consultório para ter a chance de estudá-los, tornando-se um reconhecido especialista, visto como alguém que era um gênio considerável ou consideravelmente sortudo por trabalhar com as sujeiras microscópicas.

Uma vacina para qualquer tipo de gripe aviária era muito difícil de se desenvolver, porque a gripe aviária era fatal para os pássaros e as vacinas eram feitas pelo desenvolvimento do vírus em ovos. A gripe aviária, no entanto, matava os embriões; conseqüentemente, não havia vacina. Quem desenvolvesse um processo de produção de uma vacina eficiente e confiável contra a gripe aviária descobriria um grande filão.

Aquilo era, potencialmente, o que mais dava dinheiro na organização Nervi toda, era mais lucrativo até que os narcóticos. Até então, a gripe aviária em si não estava dando em nada: o vírus passava de uma ave infectada para um humano, mas não havia a transmissão de humano para humano. A pessoa infectada morria ou sarava, mas não infectava ninguém. A gripe aviária, como estava então, ainda era incapaz de causar uma epidemia, mas o Centro de Controle e Prevenção de Doenças norte-americano e a Organização Mundial da Saúde estavam muito assustados com certas mudanças no vírus. Os especialistas apostavam que a próxima pandemia de gripe, o vírus da gripe contra o qual os humanos não tinham imunidade, pois nunca haviam entrado em contato com ele antes, seria um vírus de gripe aviária — e respiravam aliviados a cada temporada bem-sucedida de gripe. Até aquele momento, o mundo tivera sorte.

Se o vírus sofresse as mutações genéticas necessárias para conseguir passar de humano a humano, a empresa que desenvolvesse a vacina para aquele vírus seria capaz de pedir o dinheiro que quisesse.

O dr. Giordano suspirou.

— Se não tivermos mais contratempos, a vacina poderá estar pronta no final do próximo verão. Não posso, entretanto, garantir que nenhum outro imprevisto vai acontecer.

A explosão no laboratório no último mês de agosto havia destruído vários anos de trabalho. Vincenzo isolara um vírus de gripe aviária mutante e arduamente desenvolvera um modo de produzir uma vacina confiável. A explosão não só havia destruído o produto, mas também levado uma enorme quantidade de informação. Computadores, arquivos, anotações — tudo destruído. Vincenzo teve de recomeçar do zero.

O processo estava indo mais rápido dessa vez, porque Vincenzo sabia mais sobre o que funcionava e o que não funcionava, mas Rodrigo estava preocupado. Essa temporada de gripe era do tipo comum, mas e a próxima? Produzir um lote de vacina demorava cerca de seis meses, e uma grande quantidade dela tinha de estar pronta para o fim do verão seguinte. Se não cumprissem o prazo final e a próxima temporada de gripe aviária tivesse a mutação genética necessária para ser transmissível entre seres humanos, eles perderiam a grande oportunidade de fazer uma fortuna. O vírus se espalharia pelo mundo, milhões de pessoas morreriam, mas naquela mesma temporada o sistema imunológico daqueles que sobrevivessem se adaptaria e o vírus em questão chegaria ao fim de seu breve sucesso. A empresa que estivesse pronta com uma vacina quando o vírus sofresse a mutação seria a que ganharia os benefícios.

Talvez eles tivessem sorte mais uma vez e a gripe aviária não sofresse a mutação a tempo para a próxima temporada de gripe, mas Rodrigo se recusava a contar com a sorte. A mutação poderia acontecer a qualquer momento. Ele estava em uma corrida contra o vírus, e estava determinado a vencer.

— É obrigação sua garantir que não haja qualquer outro contratempo — ele disse a Vincenzo. — Uma oportunidade como essa surge apenas uma vez na vida. Não vamos perdê-la. — O que ficou subentendido é que, se Vincenzo não fosse capaz de cumprir o trabalho, Rodrigo encontraria alguém que fosse. Vincenzo era um velho amigo, sim — do pai dele. Rodrigo não tinha o peso do sentimentalismo. Vincenzo tinha feito o trabalho mais importante, mas estava em um momento em que outras pessoas poderiam assumi-lo.

Talvez não seja uma vez só na vida — Vincenzo disse. — O que eu fíz com esse vírus posso fazer de novo.

Mas nessas circunstâncias? É perfeito. Se tudo der certo,

ninguém vai saber e, na verdade, seremos vistos como salvadores. Estamos em uma posição perfeita para levar vantagem desta única vez. Com a Organização Mundial da Saúde patrocinando sua pesquisa, ninguém vai ficar surpreso se tivermos a vacina. Mas, se formos ao poço muitas vezes, meu amigo, a água vai ficar barrenta e perguntas a que não queremos responder serão feitas. Não pode haver uma pandemia todos os anos, nem mesmo a cada cinco anos, sem que ninguém suspeite de nada.

— As coisas mudam — Vincenzo argumentou. — A população do mundo está vivendo cada vez mais próxima de animais, mais do que antes.

— Mas nenhuma outra doença é mais estudada do que a gripe. Qualquer variação é examinada por milhares de microscópios. Você é médico, sabe bem disso. — A gripe era a grande assassina; mais pessoas morreram na pandemia de 1918 do que durante a Grande Praga de quatro anos que devastou a Europa na Idade Média. A gripe de 1918 matou, de acordo com as estimativas, entre quarenta e cinqüenta milhões de pessoas. Até mesmo sem epidemias, a gripe matava milhares, centenas de milhares. Todos os anos, duzentos e cinqüenta milhões de vacinas eram produzidas, e isso era apenas uma fração do que seria necessário durante uma pandemia.

Os laboratórios dos Estados Unidos, da Austrália e do Reino Unido trabalhavam sob estritas leis para produzir a vacina que derrubaria o vírus que os pesquisadores diziam ter a maior probabilidade de dominar em cada temporada de gripe. O problema com uma Pandemia, no entanto, consistia em ser sempre causada por um vírus mutante e que a vacina disponível não conseguiria aniquilar eficientemente. O processo todo era um enorme jogo de adivinhação, e colocava milhões de vidas em risco. Na maior parte do tempo, os pesquisadores acertavam. Mas uma vez a cada trinta anos, mais ou menos, um vírus sofria mutação e pegava a todos desprevenidos. Trinta e cinco anos já tinham se passado desde a pandemia de gripe em Hong Kong, de 1968 a 1969; a próxima pandemia já estava atrasada, e o tempo estava passando.

Salvatore tinha usado toda a sua influência e contatos para conseguir a permissão da Organização Mundial da Saúde a fim de desenvolver um método confiável de produção de vacina contra a gripe aviária. Os laboratórios escolhidos que normalmente produziam as vacinas estariam voltados para os vírus comuns, não para os da gripe aviária, portanto suas vacinas seriam inúteis. Por causa da permissão e da pesquisa de Vincenzo, apenas os laboratórios Nervi teriam o conhecimento para produzir a vacina aviária e — a parte mais importante — ter as doses prontas para a venda. Com milhões de pessoas morrendo por causa do novo vírus, qualquer vacina eficiente contra ele teria um valor inestimável. O céu era literalmente o limite para quanto lucro poderia ser obtido dentro de poucos meses.

Não havia uma maneira de produzir o suficiente para proteger a todos, é claro, mas, na opinião de Rodrigo, a população do mundo se beneficiaria com uma diminuição considerável de pessoas habitando o planeta.

A explosão no laboratório tinha ameaçado tudo isso e Salvatore agira rapidamente para controlar os prejuízos. As pessoas que causaram a explosão tinham sido eliminadas e um novo sistema de segurança tinha sido instalado, já que o antigo apresentara falhas muito grandes. Mas, apesar de todos os seus esforços, Rodrigo não tinha conseguido descobrir quem contratara o casal para destruir o laboratório. Um rival na criação da vacina? Não havia nenhum rival, nenhum outro laboratório trabalhando naquele projeto. Um rival nos negócios, de modo geral? Alvos muito maiores poderiam ter sido escolhidos, mas eles foram ignorados.

Primeiro a explosão e, três meses depois, Salvatore tinha sido morto. Será que os dois fatos estavam ligados? Durante muitos anos, ocorreram vários atentados à vida de Salvatore, portanto, talvez não houvesse conexão entre os dois acontecimentos. Talvez aquele tivesse sido apenas um ano muito ruim. Mas... os Joubran eram profissionais — o homem, um especialista em explosões, e a esposa, uma assassina; Denise Morei provavelmente também era uma assassina profissional. Seria possível que todos eles tivessem sido contratados pela mesma pessoa?

Mas os dois acontecimentos eram muito diferentes. No primeiro, o trabalho de Vincenzo tinha sido o alvo da destruição. Já que não era segredo o fato de ele estar trabalhando em um método diferente de produção da vacina da gripe, quem poderia se beneficiar com a destruição? Somente alguém que estivesse trabalhando no mesmo projeto, que soubesse que Vincenzo estava progredindo e que quisesse lhe passar a perna. Sem dúvida, havia laboratórios particulares que estavam tentando desenvolver uma vacina contra a gripe aviária, mas quem entre os vários pesquisadores saberia o quão perto Vincenzo estava e, ainda por cima, teria os recursos financeiros para contratar dois profissionais para detê-lo?

Um dos laboratórios devidamente sancionados que produziam as vacinas contra a gripe, talvez?

Matar Salvatore, por outro lado, de modo algum afetava o trabalho de Vincenzo. Rodrigo tinha apenas se colocado no lugar de Salvatore. Não, o assassinato de seu pai não tinha nenhum propósito naquela área, por isso não conseguia ver uma ligação.

O telefone tocou. Vincenzo levantou-se para sair, mas Rodrigo tez sinal com a mão, pedindo que ele ficasse; ele tinha mais perguntas para fazer sobre a vacina. Atendeu o telefone:

— Sim.

— Tenho uma resposta para a sua pergunta. — Mais uma vez, nenhum nome foi usado, mas ele reconheceu a voz baixa de Blanc.

Não havia nada em nossos bancos de dados. No entanto, nossos amigos descobriram alguém que se encaixa no perfil. O nome dela é Liliane Mansfield, americana, agente secreta, uma assassina profissional.

Rodrigo sentiu um arrepio.

— Eles a contrataram? — Se os americanos tinham se virado contra eles, as coisas ficariam muito mais complicadas.

— Não. Meu contato disse que nossos amigos estão muito incomodados e estão tentando encontrá-la.

Nas entrelinhas, Rodrigo entendeu que a CIA estava tentando encontrá-la para eliminá-la. Ah! Isso explicava o americano que estivera em seu flat, perguntando por ela. Era um alívio ter aquele mistério explicado também; Rodrigo gostava de saber quem eram todos os jogadores naquela partida de xadrez. Com os vastos recursos americanos e o conhecimento extensivo que eles deveriam ter sobre ela, eles tinham uma chance muito maior de localizá-la antes dele... mas ele queria pessoalmente cuidar do problema, que era ela ainda estar viva. Ela ainda estava respirando, portanto era um problema.

— Seu contato pode lhe passar as informações que tiver conforme as for recebendo? — Se ele soubesse o que a CIA sabia, poderia deixar que eles fizessem o trabalho de busca.

— Talvez. Existem mais uma coisa que acredito que será de grande interesse para o senhor. Essa mulher era muito amiga dos Joubran.

Rodrigo fechou os olhos. Lá estava o único detalhe que dava sentido a tudo, que unia toda a história.

— Obrigado — ele disse. — Por favor, me informe quando tiver uma resposta de nossos amigos.

— Sim, claro.

— Gostaria de receber uma cópia de todas as informações que você tiver sobre ela.

— Vou lhe mandar por fax tudo que tiver assim que puder — Blanc respondeu, o que significava que seria quando ele voltasse para casa, naquela noite. Ele nunca enviaria as informações para Rodrigo do prédio da Interpol.

Rodrigo desligou e recostou a cabeça na poltrona. Os dois acontecimentos estavam ligados, afinal, mas não do jeito que ele tinha imaginado. Vingança. Tão simples e algo sobre o qual ele entendia muito bem. Salvatore assassinara seus amigos, por isso ela o matou. Seja lá quem tivesse contratado os Joubran para destruir o trabalho de Vincenzo, tinha dado início a uma série de acontecimentos que haviam resultado no assassinato de seu pai.

— O nome dela é Liliane Mansfield — ele disse a Vincenzo. — O nome verdadeiro de Denise Morei. Ela é uma assassina profissional e era amiga dos Joubran.

Os olhos de Vincenzo se arregalaram.

— E ela também ingeriu o veneno? Sabendo do que se tratava? Brilhante! Tolo de sua parte, mas brilhante.

Rodrigo não tinha a mesma admiração pelas atitudes daquela Liliane Mansfield. Seu pai tinha morrido de forma muito dolorosa, com sua dignidade e controle roubados, e ele nunca se esqueceria daquilo.

Ela tinha cumprido sua missão e fugido do país. Provavelmente estava fora de seu alcance agora, mas não estava fora do alcance de seus próprios compatriotas. Com Blanc no caso, Rodrigo conseguiria ficar por dentro das notícias sobre a busca por ela e, quando eles estivessem chegando bem perto, ele entraria em cena e faria as honras. Com todo prazer.

 

Quando Rodrigo recebeu o fax, ficou olhando por muito tempo para a fotografia da mulher que tinha matado seu pai. Era um fax colorido e ele pôde comparar as diferenças de sua aparência normal com seu disfarce. Seu cabelo era louro-palha e muito liso, seus olhos eram azul-claros. Tinha uma aparência nórdica, com um rosto bem delineado e fino, e bochechas protuberantes. Ele ficou surpreso ao ver como a cor escura que ela usara nos cabelos e os olhos castanho-escuros deixavam seu rosto mais suave; sua estrutura facial continuara inalterada, mas a impressão que passava certamente era diferente. Rodrigo pensou que ela poderia entrar na sala e sentar-se ao lado dele, e ele demoraria um pouco para reconhecê-la.

Ele não conseguia entender, antes, o que seu pai tinha visto nela. Ao ver aquela mulher morena, Rodrigo não sentira nada; mas sua reação a ela loura era muito diferente. Não era apenas a reação natural dos italianos diante de uma mulher loura. Era como se ele a estivesse vendo pela primeira vez, sua inteligência e determinação tão evidentes naqueles olhos claros. Talvez Salvatore tivesse sido mais observador que ele, pois seu pai respeitava a força acima de nualquer coisa. Aquela mulher era forte. Ao cruzar seu caminho, era quase impossível que Salvatore não se sentisse atraído por ela.

Rodrigo folheou as outras páginas que Blanc lhe enviara. Estava interessado no histórico de trabalhos daquela mulher com a CIA americana; era uma assassina de aluguel e ponto. Ele não estava chocado com o fato de os governos usarem tais pessoas; ficaria chocado se não usassem. Aquele era o tipo de informação que ele poderia usar mais tarde se precisasse de um favor específico do governo americano, mas nada que pudesse ajudá-lo naquele momento.

Estava mais interessado na informação a respeito de sua família: uma mãe e uma irmã. A mãe, Elizabeth Mansfield, vivia em Chicago; a irmã mais nova, Diandra, vivia com seu marido e dois filhos em Toledo, Ohio. Se não conseguisse localizar Liliane, pensou, poderia usar sua família para persuadi-la a sair do esconderijo. Então, ele leu que ela não mantinha contato com sua família há anos, e teve de levar em consideração que ela talvez não se importasse com o bem-estar deles.

A última página indicava o que Blanc dissera a ele, que o assassinato de seu pai não havia sido encomendado pelos americanos. Ela havia agido por conta própria, procurando vingar-se pela morte de seus amigos, os Joubran. A CIA havia enviado um agente para acabar com o problema.

Acabar. Era uma bela palavra, mas ele queria acabar com ela pessoalmente. Se possível, ele teria aquela satisfação. Senão, aceitaria de bom grado que os americanos resolvessem a situação.

O último parágrafo o fez endireitar-se na cadeira. Ela tinha viajado para Londres usando outra identidade e, evidentemente, Mudado de nome mais uma vez e voltado para Paris. Os esforços de busca estavam focados ali. A agência acreditava que ela estava se Preparando para outro ataque contra a organização Nervi.

Parecia que Rodrigo havia levado um choque. Todos os pêlos de seu corpo se eriçaram e ele sentiu calafrios na espinha.

Ela tinha voltado para Paris. Estava ali, ao seu alcance. Era uma atitude corajosa e, se não fosse por M. Blanc, ele teria sido pego de surpresa. Sua segurança pessoal era a mais estrita possível, mas e as propriedades dos Nervi espalhadas pela Europa? Mais especificamente, e as da região de Paris? Os sistemas de segurança eram bons, sim, mas, no que dizia respeito àquela mulher, todo cuidado era pouco.

Qual seria seu alvo mais provável? A resposta lhe veio imediatamente à cabeça: o laboratório de Vincenzo. Ele sabia; a intuição era forte demais para ser ignorada. Era ali que seus amigos tinham atacado, e por isso foram assassinados. Ela veria como uma justiça poética conseguir completar o trabalho, talvez instalando uma série de explosivos que demolissem completamente o complexo.

Perder os lucros previstos com a vacina da gripe não o levaria à falência, mas ele estava muito ansioso à espera daquela grande entrada de dinheiro. O dinheiro era o verdadeiro poder no mundo, por trás dos reis e príncipes do petróleo, por trás dos presidentes e primeiros-ministros, com cada grupo tentando ter mais do que o outro. Mas maior que os lucros perdidos seriam as ofensas, a vergonha. Outro incidente no laboratório e a Organização Mundial da Saúde começaria a questionar se o lugar era realmente seguro e, na melhor das hipóteses, simplesmente retiraria o patrocínio, e na pior, insistiria para inspecionar as instalações. Ele não queria que ninguém de fora entrasse no laboratório. Vincenzo provavelmente esconderia ou disfarçaria o que estivesse fazendo, mas qualquer demora estragaria os planos.

Rodrigo não podia deixar que ela vencesse. Além disso, todos ficariam sabendo que Rodrigo Nervi tinha sido enganado, e por uma mulher. Ele provavelmente conseguiria esconder esse fato por algum tempo, mas alguém acabaria revelando. Alguém sempre acabava abrindo a boca.

Isso não poderia ter acontecido em um momento pior. Ele tinha acabado de enterrar seu pai, menos de uma semana atrás. Por mais que soubesse o que precisava ser feito, mesmo assim sabia que em algumas frentes ainda existia a dúvida de que ele pudesse ficar no lugar de seu pai. Ele havia assumido muitas das tarefas diárias de Salvatore e não havia ninguém para fazer o mesmo por ele.

Estava preparando um carregamento de armas de plutônio para a Síria. Havia narcóticos a serem mandados para diversos países, compras de armas que tinham de ser feitas, além de todo o trabalho legal de gerenciar uma empresa de vários ramos. Ele tinha de comparecer a reuniões.

Mas, para pegar Liliane Mansfield, ele arrumaria tempo, mesmo que tivesse de se desvencilhar de todo o resto. No dia seguinte, cedo, todos os seus funcionários na França receberiam uma foto dela. Se ela estivesse andando pela rua, alguém acabaria reconhecendo-a.

A segurança no laboratório era comum, pelo menos do lado de fora. Havia cercas e portões — uma entrada na parte da frente e outra atrás, ambas vigiadas —, o laboratório em si era uma série de prédios interligados, em sua maioria sem janelas. A arquitetura era comum, os prédios de alvenaria. No estacionamento à esquerda, havia cerca de cinqüenta veículos.

Swain percebeu tudo isso ao passar com seu carro diante do local. O Jaguar chamava a atenção, por isso ele não poderia passar novamente por ali sem que os guardas percebessem. Em vez disso, ele esperou até o dia seguinte para passar mais uma vez e, nesse meio-tempo, usou todos os seus contatos para localizar as especificações do prédio, para saber por onde Lily poderia entrar. Pelo lado de fora, a segurança era basicamente o que se podia ver: a cerca, os portões de entrada, os guardas. A noite, o lugar era vigiado por um guarda com um pastor alemão ao seu lado e era bem iluminado.

Por motivos óbvios, ele pensou que ela tentaria entrar à noite, mesmo com a presença do cachorro. A iluminação noturna era boa, mas criava sombras que poderiam ser incriminadoras. Não havia muitas pessoas por ali à noite; além disso, as pessoas ficavam naturalmente cansadas durante a madrugada. Ela era especialista em pistolas, e poderia tirar tanto o guarda quanto o cão de seu caminho com dardos sedativos. Não seria instantaneamente, era verdade, e o guarda poderia gritar e chamar atenção. Sim, ela também poderia matá-los; se usasse um silenciador, os guardas no portão não ouviriam nada.

Swain não gostou daquele pensamento. Ele não se importaria se ela matasse o guarda, mas lhe dava náuseas pensar em ferir o cão. Ele adorava cães, mesmo os cães de guarda. As pessoas eram outra história; algumas simplesmente pareciam pedir para morrer. Ele excluía a maioria das crianças dessa teoria, colocando-as no mesmo grupo que os cães, apesar de já ter conhecido algumas crianças sem as quais o mundo ficaria muito melhor. Ele se sentia muito feliz por seus próprios filhos não se terem transformado em idiotas, porque isso seria vergonhoso.

Ele esperava que Lily não atirasse em cães. Muito de sua simpatia natural por ela iria pelo ralo se ela fosse capaz disso.

Havia um belo e pequeno parque do outro lado da rua, na frente do laboratório. Nos dias quentes de verão, muitos dos funcionários dos estabelecimentos próximos ficavam ali para relaxar durante seus intervalos de almoço. Havia algumas pessoas corajosas ali mesmo em um dia frio de novembro, passeando com seus cachorros, lendo; havia bastante gente, o suficiente, na verdade, para que um homem a mais não fizesse diferença.

As ruas naquela região eram mais amplas do que as mais antigas de Paris, mas estacionar ali ainda era algo complicado. Finalmente Swain encontrou uma vaga e foi andando até o parque.

Comprou um copo de café e encontrou um banco sob o sol onde pudesse observar o movimento no laboratório, familiarizar-se com a rotina, talvez notar alguma falha de segurança que não tivesse visto. Com um pouco de sorte, Lily poderia escolher o mesmo dia para fazer a mesma coisa. Não havia como saber que trajes ela estaria usando, ou a cor de sua peruca, por isso ele teria de andar por ali e observar o nariz e a boca das pessoas. Ele achava que reconheceria o formato dos lábios de Lily em qualquer lugar.

O prédio do laboratório era bastante comum; a segurança externa era como qualquer pessoa esperaria em qualquer estabelecimento de produção: um perímetro cercado, acesso restrito, guardas sem uniforme nos portões. Qualquer coisa além daquilo, como paredes de concreto de três metros de altura com cerca elétrica na parte de cima, serviria apenas para atrair a atenção.

A sofisticação estaria ali dentro, Lily pensou. Identificação de impressões digitais ou de retina para entrada nas áreas mais restritas. Sensores de movimento. Emissores de laser. Sensores para janelas quebradas, sensores de peso, tudo o que mais fosse possível. Ela precisava saber exatamente o que havia ali dentro, e talvez tivesse de contratar alguém que pudesse burlar aqueles sistemas. Conhecia diversas pessoas no negócio, mas queria manter distância desses conhecidos. Se as notícias de que ela era agora persona non grata na agência tivessem se espalhado, ninguém se mostraria disposto a ajudá-la. Poderiam até trabalhar contra ela, dando informações a quem pudesse interessar sobre sua localização e intenções.

A vizinhança era uma mistura interessante de ateliês, butiques da moda — como se existissem butiques de outro tipo —, cafeterias e conjuntos residenciais. Um pequeno parque quebrava um pouco a atmosfera de cidade urbana, apesar de a maioria das árvores estar sem folhas por causa da aproximação do inverno e do vento frio, que fazia os galhos baterem como ossos uns contra os outros.

Ela se sentia muito melhor naquele dia, quase normal. Suas pernas tinham agüentado bem a rápida caminhada desde a estação de trem e não estava ofegante. No dia seguinte, ela pensou, tentaria dar uma corrida mais lenta, mas naquele dia estava satisfeita andando.

Ela parou em uma cafeteria e comprou um copo de café puro e forte, além de um croissant que quase se dissolveu em sua boca quando ela o mordeu. O parque estava a apenas cinqüenta metros, por isso ela andou até ali e escolheu um banco sob o sol, onde pôde devotar-se àquele croissant divino e a seu café. Quando terminou, lambeu os dedos, tirou um caderno de anotações fino de sua bolsa, abriu-o em seu colo e abaixou a cabeça em direção a ele. Fingiu estar distraída com o que estava lendo, mas, na verdade, seus olhos estavam inquietos, olhando de um lado para o outro, perscrutando as pessoas no parque e a localização de certas coisas.

Havia um grupo de pessoas no pequeno parque; uma jovem mãe com um bebê cheio de energia, um idoso passeando com um cão igualmente idoso. Outro homem sentado sozinho, tomando um copo de café e olhando para seu relógio de pulso constantemente, como se estivesse esperando por alguém de forma impaciente. Outras pessoas andavam por entre as árvores: um jovem casal de mãos dadas, dois rapazes chutando uma bola de futebol um para o outro enquanto seguiam adiante, pessoas aproveitando o dia ensolarado.

Lily tirou uma caneta de sua bolsa e fez um desenho rápido do parque, marcando as posições dos bancos, das árvores, arbustos, cestos de lixo de metal e a pequena fonte no meio. Em seguida, virou a folha e fez o mesmo com o prédio que abrigava o laboratório, marcando onde as portas estavam em relação ao portão, às janelas. Ela precisaria fazer a mesma coisa com os quatro lados do prédio. Naquela tarde ela alugaria uma motocicleta e esperaria que o dr. Giordano deixasse o local, isso se ele estivesse ali, é claro — ela não fazia idéia de qual era o horário de trabalho dele. Tampouco sabia a marca e o modelo do carro que ele dirigia. Estava apostando no entanto, que ele devia manter uma rotina regular, próxima da rotina normal do país. Assim que ele saísse, ela o seguiria até sua casa. Simples. O número de seu telefone podia não estar publicado mas os velhos métodos ainda funcionavam.

Mais uma vez, ela nada sabia sobre a vida familiar do homem ou sequer se ele tinha uma família ali em Paris. Ele era seu trunfo. Conhecia a segurança do prédio e, como o diretor, tinha acesso a todas as partes dele; o que não era certo era o quão facilmente ele daria essas informações. Entretanto, Lily preferia não usá-lo, porque, uma vez que o pegasse, teria de agir com rapidez, antes que qualquer pessoa percebesse que ele tinha desaparecido. Ela tentaria descobrir sobre os métodos internos de segurança por outros meios, tentaria entrar sem usar o dr. Giordano. Mas ela queria saber onde ele vivia o mais rápido possível, como garantia.

Lily conhecia muito bem suas limitações naquela área. Nunca havia lidado com nada além dos sistemas de segurança mais comuns. Não era especialista em nada além de observar seu alvo e aproximar-se para cumprir sua missão. Quanto mais pensava sobre o que teria de ser feito, mais percebia como a situação era desfavorável, mas isso não diminuía sua determinação. Não havia um sistema de segurança perfeito no mundo; sempre existia alguém que soubesse burlá-lo. Ela encontraria esse alguém ou aprenderia a fazer aquilo sozinha.

Os dois rapazes não estavam mais chutando a bola. Em vez disso, estavam falando no telefone celular enquanto olhavam para Uma folha de papel, e depois para ela.

Um alarme interno a despertou. Lily guardou o caderno e a caneta em sua bolsa, e, em seguida, fingiu derrubar acidentalmente sua bolsa no chão, ao lado de sua perna direita. Ela se abaixou e, usando a bolsa para esconder seus movimentos, escorregou a mão dentro do cano de sua bota e puxou o revólver.

Usou a bolsa para manter a arma escondida ao se levantar, seguindo na direção oposta aos dois homens. Seu coração batia acelerado. Estava acostumada a ser a caçadora, mas naquele momento era a caça.

 

Lily saiu em disparada e sua repentina corrida os pegou de surpresa. Ela ouviu um tiro e, instintivamente, jogou-se ao chão menos de um segundo depois que o disparo agudo e profundo de uma pistola de grosso calibre interrompeu o murmurinho comum do dia. Ela rolou para trás de uma lixeira de concreto e ficou apoiada em um de seus joelhos.

Ela não era tola de deixar sua cabeça à vista, apesar de nem todas as pessoas serem tão boas de mira com uma pistola. Em vez disso, ela deu uma olhada ao redor e atirou com sua arma. A certa distância, cerca de trinta ou trinta e cinco metros, ela também não era tão boa; a bala atingiu o chão bem na frente dos dois homens, levantando poeira e forçando-os a correr à procura de proteção. Ela ouviu pneus cantando, pessoas gritando quando percebiam que os sons que ouviam vinham de armas de fogo. Do canto do olho, viu a jovem mãe agarrar seu bebê e colocá-lo embaixo de seu braço, como se ele fosse uma bola de futebol americano, enquanto corria Para se proteger. O menininho gritava de alegria, pensando se tratar de uma brincadeira. O idoso tropeçou e caiu, soltando o cão. O velho cão, no entanto, não tinha a menor intenção de fugir e sentou-se no gramado.

Rapidamente ela olhou ao redor para localizar alguma ameaça vindo de trás dela, mas tudo que viu foram pessoas fugindo, e não correndo em sua direção. Segura daquele lado, pelo menos por enquanto, ela olhou para o outro lado da lixeira e viu dois guardas sem uniforme saírem correndo do laboratório, carregando armas.

Ela disparou na direção dos guardas, fazendo-os mergulhar no chão, apesar de estarem longe demais para ser acertados. Usou uma Beretta modificada, modelo 87, atirando grandes balas de calibre22, com um pente de dez balas. Ela acabara de usar duas delas e não tinha mais nenhuma munição, pois não imaginara que fosse precisar usá-la. Idiota! Ela se repreendeu. Ela não sabia se aqueles caras eram da agência ou capangas de Rodrigo, mas apostava que eram da agência, dada a rapidez com que a encontraram. Ela deveria ter se preparado melhor, em vez de subestimá-los e superestimar a si mesma.

Voltou sua atenção para os dois que jogavam bola. Os dois estavam armados e, quando voltou a espiar, os dois atiraram; um dos tiros passou longe e ela ouviu um barulho de vidro sendo estilhaçado, seguido por mais gritos e pelos berros de alguém que tinha acabado de ser ferido. O outro tiro acertou o recipiente de lixo, mandando um pedaço de concreto para o céu e cobrindo o rosto de Lily com estilhaços. Ela atirou mais uma vez — três vezes — e checou os guardas. Os dois estavam protegidos, um atrás de uma árvore e o outro atrás de outra lixeira igual à que ela usava para se esconder.

Eles não estavam mudando de posição, então ela se voltou outra vez para os jogadores. Aquele que estava à sua esquerda tinha ido ainda mais para a esquerda, impedindo que ela mirasse nele, uma vez que ela era destra e o concreto que a protegia estava, até certo ponto, servindo de proteção também para ele.

Aquilo não era nada bom. Havia quatro armas contra uma, conseqüentemente, na teoria, pelo menos quatro vezes mais munição do que ela possuía. Eles poderiam mantê-la ali até que ela ficasse sem munição, ou até que a polícia francesa chegasse — o que deveria acontecer a qualquer minuto, porque, mesmo com o zumbido em seus ouvidos causado pelos tiros, ela conseguia ouvir as sirenes e tomasse conta deles.

Atrás dela, o tráfego havia se complicado, pois os motoristas tinham parado seus carros e corrido para se proteger atrás deles. Sua única chance seria correr para se proteger atrás dos carros e usá-los para esconder seus movimentos; ela teria de pegar um atalho, entrando em uma loja, provavelmente, ou torcer para alguém passar de bicicleta, para que pudesse tomá-la. Não achava que podia confiar em sua capacidade de correr qualquer distância que fosse.

O idoso que tinha caído estava tentando se levantar e, ao mesmo tempo, aproximar seu cão assustado para perto de si.

— Fique abaixado! — Lily gritou para ele. Ele olhou para ela aterrorizado, sem compreendê-la, com seus cabelos brancos muito despenteados. — Fique abaixado! — ela repetiu, fazendo um sinal com sua mão para baixo.

Graças a Deus, ele finalmente entendeu e deitou no chão. Seu cão aproximou-se dele e deitou ao lado de sua cabeça, ficando o mais perto possível.

Por um momento, o tempo pareceu congelar, o horror parecia tomar conta do parque, apesar do vento frio. Ela ouviu os dois rapazes que jogavam bola dizendo algo um para o outro, mas não conseguiu entender as palavras.

Do seu lado direito, veio o barulho de um motor poderoso e bem regulado. Ela olhou na direção do som e viu um Jaguar cinza cortar o meio-fio, vindo ao seu encontro.

Seus batimentos cardíacos ressoavam em seus ouvidos, quase ensurdecedores. Ela tinha apenas alguns segundos; tinha de pular no momento certo ou o carro a esmagaria. Ela encolheu as pernas sob seu corpo, preparando-se para saltar...

O motorista virou o volante e o Jaguar derrapou de lado entre ela e os jogadores de futebol, os pneus levantando poeira e grama ao tentarem frear, a traseira do carro rodando para parar virado na mesma direção de onde viera. O motorista se esticou para abrir a porta do passageiro.

— Entre! — ele gritou em inglês, e Lily atirou-se no banco da frente. Sobre sua cabeça, veio um tiro forte de uma arma de grosso calibre e o cartucho da bala bateu no assento e depois em seu rosto. Ela afastou a cápsula quente.

Ele pisou fundo no acelerador e o Jaguar foi para a frente. Houve mais tiros, vários deles, os estalidos e estrondos de armas de diversos calibres se misturavam. O vidro traseiro do lado do passageiro foi acertado e o motorista se jogou para a frente quando os estilhaços caíram sobre ele. — Merda! — Ele riu e desviou de uma árvore.

Lily avistou uma confusão embaçada de carros enquanto eles seguiam pela rua. O motorista virou o volante novamente e o Jaguar mais uma vez rodou, jogando Lily no assoalho do carro. Ela tentou agarrar-se ao banco, à porta, a qualquer coisa em que conseguisse se segurar. O motorista ria como um louco enquanto o carro mais uma vez cortava o meio-fio, ziguezagueava e entrava por um espaço apertado, brevemente saindo do chão e pousando na rua com um forte tranco que fez com que os dentes de Lily batessem, assim como o chassi do carro contra o asfalto. Ela não conseguia respirar.

Ele pisou no freio, virou violentamente à esquerda e acelerou para sair dali. A força da gravidade a jogou de volta ao assoalho, sem conseguir subir no banco. Ela fechou os olhos quando ouviu uma forte freada diretamente ao lado de sua porta, mas não houve colisão. Ele virou à direita, passando por um terreno muito incerto; o carro passava tão próximo aos prédios que ela pensou que eles perderiam os espelhos retrovisores laterais, e ela percebeu que eles deveriam estar em uma viela. Deus do céu, aceitara a carona de um maluco.

No final da rua, ele desacelerou, e suavemente entrou no tráfego e reduziu sua velocidade à dos veículos ao seu redor, dirigindo tão cuidadosamente quanto qualquer vovozinha em uma manhã de domingo.

Mas ele riu e jogou sua cabeça para trás ao dar uma grande gargalhada.

— Nossa, foi muito divertido!

Estava com as duas mãos no volante, com a grande automática em cima do banco ao lado dele. Aquela parecia a melhor chance que ela teria. Lily continuou no chão do carro. Procurou sua pistola, que ela tinha deixado cair quando o carro chacoalhou como se estivessem em uma montanha-russa. Ela a encontrou sob o banco do passageiro e, com um gesto rápido e suave, colocou a arma para cima, apontada entre os olhos dele.

— Pare o carro e me deixe sair — ela disse.

Ele olhou para a pistola e voltou sua atenção novamente ao trânsito.

— Tire essa arma de brinquedo da minha frente antes que me aborreça. Que droga, moça, eu acabei de salvar sua vida!

Era verdade, e a única razão pela qual ela ainda não tinha atirado nele.

— Obrigada — ela disse. — Agora, pare o carro e me deixe sair.

Os jogadores de futebol não eram da agência; ela os ouvira gritar um com o outro em italiano; então, eles eram homens de Rodrigo. O que significava que aquele homem era, provavelmente, da agência. Certamente era americano. Ela não acreditava em coincidências, pelo menos não em grandes coincidências, e para aquele cara ter aparecido quando ela estava encurralada, com habilidades de direção de um profissional e carregando uma "eckler e Koch de nove milímetros que custava cerca de mil dólares... Sim, ele não podia ser outra coisa além de um membro da agência. Ou talvez fosse contratado, um assassino de aluguel, assim como ela.

Ela franziu a testa. Aquilo não fazia sentido. Se ele fosse um assassino de aluguel enviado para matá-la, tudo que precisaria fazer seria ficar fora daquela confusão, e ela certamente teria sido morta um pouco depois, sem que ele tivesse de mover um dedo sequer. Ela tentaria escapar daquela situação, mas não sabia até onde conseguiria chegar com quatro indivíduos armados atrás dela e seu vigor físico ainda comprometido. Seu coração ainda estava acelerado e, frustrada, percebeu que ainda estava ofegante.

Também existia a possibilidade de ele ser um lunático. Levando em conta o modo como ele ria, era uma hipótese a ser considerada. De qualquer forma, ela queria sair do carro dele.

— Não me obrigue a puxar o gatilho — ela disse suavemente.

— Você não faria uma coisa dessas. — Ele olhou para ela novamente e seus olhos já se fechavam em outro de seus sorrisos. — Só espere que eu me afaste um pouco mais do local do crime, tá? Se você não percebeu, eu também me envolvi naquela confusão, e um Jaguar com o vidro estilhaçado chama a atenção. Que merda! É um carro alugado. A American Express vai ficar louca da vida.

Lily o observou, tentando entendê-lo. Ele parecia realmente indiferente ao fato de ela segurar uma arma em sua direção. Na verdade, aparentemente ele pensava que tudo aquilo era divertido.

— Você já foi internado em algum manicômio?

— O quê? — Ele riu e lançou-lhe mais um de seus rápidos olhares.

Ela repetiu a pergunta:

— Você está falando sério? Acha mesmo que sou maluco?

— Você estava rindo como um, em uma situação completamente sem graça.

— Um de meus vários defeitos é rir. Eu estava prestes a morrer de tédio, sentado em um pequeno parque, cuidando das minhas coisas quando um tiroteio começou a ocorrer atrás de mim. Eram quatro contra um, e esse um era uma loura. Estava entediado, com tesão, então pensei que, se dirigisse meu Jaguar até ali e levasse um tiro tentando salvar a vida dela, tivesse um pouco de diversão e a loura quisesse transar comigo como forma de agradecimento. E, então, o que acha? — ele arqueou as sobrancelhas de modo convidativo.

Surpresa, Lily riu. Ele parecia completamente tolo, erguendo suas sobrancelhas daquele jeito.

Ele parou com aquilo e piscou para ela.

— Você já pode sentar-se no banco. Pode continuar apontando a arma para mim.

— Do jeito que você dirige, acredito que estarei mais segura no chão do carro. — Ela sentou-se no banco e não colocou o cinto de segurança, pois teria de desviar sua pistola para poder prendê-lo. Percebeu que ele também estava sem cinto.

— Não há nada de errado no meu modo de dirigir. Estamos vivos, não estamos? Não há sangue em lugar algum — bem, talvez só um pouco.

— Você foi atingido? — ela perguntou rapidamente, virando-se em sua direção.

— Não, foi só um estilhaço de vidro em minha nuca. Coisa pequena. — Ele passou a mão direita atrás de seu pescoço. Seus dedos saíram um pouco sujos de sangue. — Viu?

— Ok. — Delicada como seda, ela levantou a mão esquerda Para pegar a arma que estava ao lado da perna dele.

Sem olhar para baixo, ele segurou o pulso dela com sua mão direita.

— Não — ele disse, sem o menor vestígio de descontração em sua voz. — Esta é minha.

Ele era rápido, surpreendentemente rápido. Em um instante, o Jeito brincalhão desaparecera e, em seu lugar, havia um olhar frio e severo que indicava que ele não estava brincando.

Estranhamente, ela se sentiu tranqüilizada por aquele olhar, como se a partir daquele momento estivesse vendo um homem de verdade e soubesse com quem estava lidando. Ela se afastou ainda mais dele, ficando o mais perto possível da porta, não por temê-lo, mas para dificultar o acesso à arma que segurava com um de seus movimentos ligeiros. E talvez estivesse com um pouco de receio; ele era um desconhecido, e em seu trabalho o que ela não conhecia podia matá-la. O medo era bom, ele a deixava sempre atenta.

Ele revirou os olhos ao notar sua atitude.

— Olha, você não precisa agir como se eu fosse um psicopata ou coisa assim. Vou deixar você ir embora sã e salva, prometo, a menos que você me dê um tiro, e nesse caso eu vou acabar batendo em alguma coisa e não vou poder garantir nada.

— Quem é você? — ela perguntou com seriedade.

— Lucas Swain, a seu dispor. Quase todo mundo me chama de Swain. Por algum motivo, o Lucas nunca pegou.

— Não quero saber o seu nome. Para quem você trabalha?

— Para mim mesmo. Não sou muito bom com o lance da rotina das nove horas da manhã às cinco da tarde. Estive na América do Sul cerca de dez anos e as coisas ficaram meio tensas por lá, por isso pensei que viver na Europa por um período seria uma boa idéia.

Ele era bastante bronzeado, ela pôde perceber. Nas entrelinhas, ele estava dizendo que era um aventureiro, um mercenário ou um agente contratado. Ela ainda apostava na última opção. Mas, então, por que ele tinha se envolvido na situação? Era aquilo que não fazia sentido. Se ele tinha recebido ordem para matá-la, poderia ter feito isso assim que ela entrara no carro, se não quisesse que os capangas de Rodrigo fizessem o serviço por ele.

— Seja lá no que estiver envolvida — ele disse —, parece que está sendo vencida e precisa de ajuda. Estou à disposição, sou bom e estou entediado. Então, o que estava acontecendo por lá?

Lily não era uma pessoa impulsiva, pelo menos não em seu trabalho. Era cuidadosa, fazia sua lição de casa e tinha planejamento. Mas já tinha percebido que precisaria de ajuda para entrar no laboratório e, apesar de seu bom humor inadequado, Lucas Swain provara ser habilidoso em muitas coisas. Ela tinha passado os últimos anos tão sozinha que a solidão lhe pesava no coração. Havia alguma coisa naquele homem que inspirava confiança, algo que diminuía a dor de sua solidão.

Ela não respondeu. Em vez disso, perguntou:

— Você é bom com sistemas de segurança?

 

Ele contraiu os lábios, pensando na pergunta. — Conheço o bastante para me virar, mas não sou especialista. Depende do sistema. No entanto, conheço alguns especialistas que podem me dizer tudo que preciso saber. — Ele fez uma pausa. — Você está falando sobre fazer alguma coisa ilegal?

— Sim.

— Ah, que bom. Estou me animando mais a cada minuto.

Se ele ficasse mais animado, Lily pensou, ela teria de atirar nele para proteger a própria sanidade mental.

Ele entrou em outra rua, olhou ao seu redor e perguntou:

— Você faz idéia de onde estamos?

Lily virou-se de lado e colocou as pernas sobre o banco, bloqueando qualquer movimento que ele pudesse fazer para pegar sua pistola, e depois ousou olhar ao redor.

— Sim. No próximo semáforo, vire à direita e, um quilômetro e meio depois, vire à esquerda. Eu lhe digo onde.

— Onde estaremos?

— Na estação ferroviária. É lá que pode me deixar.

Pare com isso. Estamos nos dando tão bem. Não me deixe tão cedo. Acreditava que seríamos parceiros.

— Sem saber quem você é? — ela perguntou incrédula.

— Acho que isso seria tolice.

— Pode crer. — Dez minutos com um americano e ela se pegava usando o mesmo linguajar que ele, confortavelmente. — Em que lugar está hospedado? Entro em contato com você.

— No Bristol. — Ele virou à direita, onde ela havia indicado. — Quarto 712.

Ela ergueu as sobrancelhas.

— Alugou um Jaguar, está hospedado em um dos hotéis mais caros de Paris. O seu dia de trabalho deve ser bem remunerado.

— Todos os meus empregos pagavam bem; além disso, eu tinha de ter algum lugar onde pudesse estacionar o Jaguar. Que droga! Agora tenho de alugar outro carro, e ainda não posso devolver este, ou serei investigado quando souberem do prejuízo.

Ela olhou para o vidro quebrado, pelo qual o vento gelado estava entrando.

— Quebre-o por completo e diga na locadora que algum vândalo o quebrou com um taco.

— Isso vai funcionar, a menos que alguém tenha anotado minha placa.

— Do jeito que você estava dirigindo?

—- Há essa possibilidade, mas por que arriscar? Na França todos são considerados culpados até que provem o contrário. Então, vou tentar me manter afastado da mira dos gendarmes, obrigado.

—A escolha é sua — ela respondeu com indiferença. — É você quem vai pagar pelo aluguel dos dois carros,

— Não seja patética; vou começar a achar que você se importa. Aquele sarcasmo fez com que ela involuntariamente esboçasse um sorriso. Ele não levava a si mesmo a sério; ela não sabia se isso era uma vantagem ou um perigo, mas ele, com certeza, era divertido. Ele tinha se oferecido para ajudá-la exatamente quando ela estava decidindo com quem contaria para isso, portanto seria muito tolo de sua parte recusar a oferta de forma categórica. Ela checaria as informações sobre ele e, se houvesse o menor sinal da agência ou falta de confiança, ela simplesmente nunca mais entraria em contato. Ele não tinha agido como se tivesse sido contratado para matá-la; ela estava começando a se sentir confortável com isso. Quanto a saber se ele era bom ou não, e confiável, era algo que ainda precisaria ser checado. Ela não telefonaria para a sua fonte de sempre da agência para investigá-lo, mas conhecia alguns caras suspeitos que poderiam descobrir para ela.

Ela usou o tempo que restava até a estação de trem para observá-lo. Ele era um homem de boa aparência, ela percebeu com pouca surpresa; enquanto ele falava, ela prestava atenção nele. Era alto, mais de 1,80m e magro. Suas mãos eram fortes, tinha dedos compridos, sem anéis, com veias proeminentes e unhas curtas e limpas. Seus cabelos eram curtos, castanhos, com alguns fios grisalhos nas têmporas; seus olhos eram azuis, muito mais azuis do que os dela. Os lábios eram um pouco finos, mas bem delineados. Um queixo grande que quase se dividia em duas partes. Um nariz nobre, fino e bem-feito. Exceto por seus fios grisalhos, ele aparentava ser mais jovem do que provavelmente era. Ela acreditava que ele devia ter a mesma idade que ela, perto dos quarenta, ou quarenta e poucos anos.

Ele estava vestido como milhões de homens no continente se vestiam, nada que chamasse a atenção ou que denunciasse "sou americano", não trajava calça Levi's nem um par de tênis Nike, tampouco usava um moletom com o nome de seu time favorito de futebol profissional. Em vez disso, ele vestia uma calça marrom-clara, uma camisa azul e um belo casaco preto de couro. Ela invejou aquele casaco. E seus sapatos de couro italiano estavam limpos e engraxados.

Se tinha acabado de voltar da América do Sul, havia adotado o estilo dos cidadãos parisienses com rapidez.

— Vire a próxima rua à esquerda — ela disse quando eles se aproximaram.

Também havia adotado o estilo de direção rápida dos parisienses; dirigia com ousadia, vivacidade e um certo desleixo. Quando alguém tentou cortá-lo, Lily percebeu que ele também fora rápido para adotar alguns dos gestos dos parisienses. Estava sorrindo quando cortou o outro carro; um brilho em seus olhos dizia que ele gostava do desafio do tráfego parisiense. Definitivamente, era um maluco.

— Há quanto tempo você está em Paris? — ela quis saber.

— Três dias. Por quê?

— Encoste ali. — Ela apontou para a calçada na frente da estação do trem. — Você já está dirigindo como um francês.

— Quando você nada com os tubarões, tem de mostrar seus dentes para que saibam que você não está de brincadeira. — Ele parou o carro. — Foi um prazer, senhorita...1?

Lily não baixou a guarda. Recolocou sua pistola no coldre em sua bota e continuou o movimento, abrindo a porta e saindo do carro. Ela se curvou para dentro, para olhar para ele. — Eu te ligo — ela disse, fechou a porta e foi embora.

Ele não estava em um estacionamento, por isso não pôde esperar para ver em qual trem ela entraria; tinha de sair dali e, apesar de ter olhado para trás, sua cabeça loura já estava fora de vista. Ele não achava que ela tinha puxado uma peruca de seu bolso para se disfarçar, por isso chegou à conclusão de que ela tinha se misturado propositalmente em meio a outros passageiros mais altos.

Ele poderia ter tentado, deixado seu carro onde estava e a seguido, mas o bom senso lhe dizia que persistir em um momento como aquele não era uma idéia muito inteligente. Se ele tentasse segui-la, ela sumiria. Deixaria que ela o procurasse.

Ela iria consultar sua ficha. Que droga. Pegou seu celular e fez uma ligação urgente para os Estados Unidos, para dar o seu salário a algum nerd especialista em computação e certificar-se de que ninguém soubesse de nada a respeito de Lucas Swain, além de alguns detalhes altamente editados e, em sua maioria, inventados.

Depois de cuidar disso, Swain voltou seu raciocínio para a resolução de um problema menor: o Jaguar. Aquela janela precisava ser consertada antes de o carro ser devolvido à locadora, porque ele estava falando sério quando disse não querer que os policiais franceses tomassem conhecimento dele. Não era uma boa política e ele também tinha de se lembrar que uma organização como a Nervi tinha informantes em todos os lugares que interessavam, o que certamente incluía a polícia.

Ele adorava o Jaguar, mas teria de trocar de carro. Chamava muita atenção. Talvez um Mercedes... não, também muito chamativo. Um carro de fabricação francesa, então, um Renault ou algo assim; apesar de que, pensando bem, ele adoraria dirigir um carro esporte italiano. Ele tinha de pensar no trabalho em primeiro lugar, que droga, e Lily poderia se recusar a andar com ele se estivesse dirigindo algo muito ostentoso.

Deus, ele quase engasgara com seu café ao vê-la andar casualmente no parque como se não estivesse sendo caçada em todos os cantos da Europa. Ele sempre fora bastante sortudo, e a sorte continuava a seu lado. Nada de pesquisa em computadores, dedução, porcarias do tipo — tudo que teve de fazer foi sentar-se em um banco em um simples parque e lá estava ela, menos de quinze minutos depois dele. Tudo bem, então a dedução o ajudara a escolher o laboratório como o local onde ela tinha uma probabilidade maior de aparecer; mesmo assim, tinha sido sortudo.

Também não tinha levado nenhum tiro, o que era sorte demais. Só o Jaguar sofreu. Vinay diria que Swain estava se arriscando outra vez o que seria verdade. Ele gostava de sentir um pouco de adrenalina em sua vida. Vinay perguntaria que diabos ele estava pensando ao brincar desse jeito, em vez de fazer o trabalho para que tinha sido contratado, mas ele sempre fora curioso, além de sortudo. Queria saber o que Lily planejava fazer, o que havia de tão interessante naquele laboratório. Além disso, ela tinha uma vantagem sobre ele.

Estranho, mas ele não tinha ficado preocupado. Lily Mansfield era uma assassina de aluguel, e só porque não matava pessoas boas não deixava de ser perigosa. Mas ela não quis que aquele idoso do parque se ferisse, e tinha tomado o cuidado de não atirar onde pessoas inocentes pudessem ser atingidas — diferentemente dos jogadores de futebol, que fizeram exatamente isso. Só por causa disso, ele se sentiria tentado a ajudá-la, mesmo que ela não fosse a pessoa que ele tinha de perseguir.

Pensou e decidiu não contar nada a Vinay ainda, porque ele poderia não compreender o porquê de Swain ter deixado Lily escapar sem que tivesse a menor idéia de como entraria em contato com ela de novo.

Ao apostar que ela ligaria para ele em um ou dois dias, estava confiando na natureza humana. Ele a ajudara, a fizera rir e não lhe fizera qualquer ameaça. Oferecera-se para ajudá-la mais. Dera-lhe informações a respeito de si. O motivo pelo qual ela não abaixava aquela maldita pistola era o receio de que ele usasse sua própria arma e, por sequer ter tentado, Swain deixou tudo ainda mais confuso.

Ela era boa demais, perigosa demais e, se ele tomasse qualquer atitude cedo demais, poderia acabar com algumas cicatrizes, que manchariam sua reputação de sortudo. E, se estivesse enganado e ela não lhe telefonasse, então teria de recorrer ao meio tedioso de encontrar pessoas: computadores e dedução.

Ele passou o resto do dia procurando alguém que pudesse trocar o vidro do Jaguar e alugando outro carro. Começou a negociar um Renault pequeno e comum, mas, na última hora, decidiu-se pelo Mégane Renault Sport, um modelo transado e turbinado com marcha de seis velocidades. Não se tratava exatamente de um carro discreto, mas ele achava que poderia ter de enfrentar situações em que precisasse ser veloz e não queria ser pego por economia ou timidez. A locadora tinha um modelo vermelho que chamou sua atenção, mas ele escolheu o prateado. Não havia o menor cabimento em balançar uma bandeira vermelha e gritar: "Estou aqui, olhem para mim!"

Ele voltou para o Bristol quando já escurecera. Estava com fome, mas não queria companhia, por isso foi para a sua suíte e chamou o serviço de quarto. Enquanto esperava que a comida fosse entregue, tirou seus sapatos e seu casaco e jogou-se na cama, onde ficou olhando para o teto — ele sempre pensava melhor nessa posição — e pensando em Lily Mansfield.

Ele a reconhecera imediatamente da foto colorida em seu arquivo. No entanto, nenhuma fotografia poderia passar a energia e a intensidade de todos os seus movimentos. Ele gostou de seu rosto, quase magro, porém de traços fortes, com bochechas proeminentes, aquele nariz empinado e — Deus Todo-Poderoso — aquela boca. Só de olhar para aquela boca já ficava excitado. Seus olhos, pareciam duas pedras de gelo, mas sua boca, era delicada, vulnerável e sexy, e tantas outras coisas que ele era capaz de sentir, mas incapaz de expressar com palavras.

Ele não estava brincando quando dissera que esperava que ela transasse com ele. Se ela tivesse aceitado, ele estaria de volta ao Bristol com ela em tempo recorde.

Swain conseguia se lembrar exatamente de como ela era, o que estava vestindo: calça de tom cinza-escuro com botas pretas, camisa de tecido oxford azul e um casaco azul-escuro. Ele também se lembrava de que, em uma das botas, havia uma arma. Usava um corte de cabelo comum, na altura de seus ombros, e algumas mechas lhe caíam pelo rosto. Apesar de o casaco esconder boa parte de seu corpo, pelo comprimento e formato de suas pernas ele acreditava que ela era magra. Também parecia um pouco frágil, com olheiras, como se estivesse doente ou cansada.

Sentir tesão por ela não facilitaria seu trabalho; na verdade, ele estava incomodado com o que teria de fazer. Ele burlaria um pouco as regras, mas não as desobedeceria. Bom, não muito. Ele realizaria o trabalho no seu ritmo e se houvesse alguns empecilhos pelo caminho, tudo bem. Não haveria problema algum em descobrir o que estava por trás do assassinato dos Joubran, quem os contratara e por quê. Os Nervi eram maus e, se ele pudesse causar-lhes um pouco de problemas, melhor.

Isso lhe daria mais tempo com Lily. Era uma pena que, no final, teria de traí-la.

 

Ouve um problema ontem — Damone disse calmamente da porta da biblioteca. — Conte-me o que está acontecendo.

— Você não deveria estar aqui — Rodrigo disse, levantando-se para cumprimentar seu irmão. Ele tinha ficado surpreso quando a segurança o avisou que Damone havia chegado. O acordo era que os dois não voltariam a se encontrar até que o assassino de seu pai fosse pego. Saber que Liliane Mansfield, a identidade verdadeira de Denise Morei, havia matado Salvatore para vingar a morte de seus amigos, não quebrava aquele acordo de jeito algum. Na verdade, além de revelar a Damone a identidade da mulher, Rodrigo não tinha dado qualquer outra informação, a não ser dizer que já estavam à procura dela.

Damone não era um fraco, mas Rodrigo sempre quis proteger seu irmão mais novo, em primeiro lugar por ser mais novo, e em segundo lugar porque ele nunca estivera na ativa com seu pai como Rodrigo. O filho mais velho conhecia as artimanhas das guerras urbana e empresarial, e Damone, o mais novo, conhecia as artimanhas dos mercados e do fundo de ações.

— Você não tem ninguém que o ajude como ajudava o papai — Damone respondeu, sentando-se na cadeira que Rodrigo sempre usava quando Salvatore era vivo. — Não é certo que eu passe meu tempo estudando mercados financeiros e negociando fundos quando a responsabilidade pelas operações está toda em suas costas. — Ele gesticulou. — Eu também recebo notícias tanto da Internet quanto da mídia impressa. A nota que li hoje pela manhã não era muito esclarecedora, apenas mencionava um incidente em um parque ontem, onde várias pessoas trocaram tiros. Os culpados não foram identificados, além de dois guardas de um laboratório das redondezas que ouviram os tiros e correram para ajudar. — Ele semicerrou seus olhos grandes e expressivos. — O nome do parque foi omitido.

Rodrigo perguntou:

— Mas por que você está aqui? O incidente foi controlado.

— Porque esse é o segundo incidente no laboratório de Vincenzo. Tenho que acreditar que se trata de uma coincidência? Estamos contando com a entrada dos lucros com a vacina da gripe. Existem muitas oportunidades pendentes das quais vou ter de abrir mão se esse dinheiro não entrar. Quero saber o que está havendo.

— Um telefonema não teria sido o suficiente?

— Não consigo ver seu rosto no telefone — Damone respondeu e sorriu. — Você é um mentiroso talentoso, mas te conheço muito bem. Eu presto atenção a você desde quando éramos pequenos, quando você olhava para o papai e negava que havíamos feito qualquer traquinagem, apesar de sempre sermos culpados. Se você mentir para mim na minha frente, vou saber. Pois é. Não sou bobo. Está acontecendo alguma coisa no laboratório de Vincenzo e, em meio a tudo isso, nosso pai foi morto. Essas duas coisas têm relação?

Aquele era o problema com Damone, Rodrigo pensou; ele era inteligente demais e, ainda por cima, intuitivo. O fato de nunca conseguir mentir para seu irmão mais novo o irritava; era capaz de mentir para qualquer pessoa no mundo, menos para Damone. E talvez proteger seu irmão mais novo tivesse sido bom quando eles tinham sete e quatro anos de idade, mas já eram homens agora. Era um hábito que precisava mudar.

— Sim — ele respondeu por fim. — Têm.

— Como?

— A mulher que matou o papai, Liliane Mansfield, era amiga íntima dos Joubran, o casal que entrou no laboratório em agosto e destruiu grande parte do trabalho de Vincenzo.

Damone esfregou as mãos nos olhos como se estivesse cansado, depois passou os dedos pelo nariz antes de abaixar sua mão.

— Então, foi uma vingança.

— Essa parte, sim.

— E a outra parte? Rodrigo suspirou.

— Ainda não sei quem contratou os Joubran. Seja lá quem tenha sido, pode muito bem contratar outra pessoa para atacar o laboratório de novo. Não podemos permitir outro atraso. Essa mulher que assassinou o papai não estava trabalhando para ninguém, acredito eu, mas pode estar agora. Meus homens a viram no parque ontem; ela estava analisando as redondezas do complexo. Independentemente de ela ter sido contratada ou estar trabalhando por conta própria, o resultado é o mesmo. Ela vai tentar sabotar a vacina.

— Será que ela sabe que vacina é essa?

Rodrigo gesticulou.

— Sempre existe a possibilidade de algum de nossos contratados nos trair, alguém que trabalhe no laboratório, e assim ela saberia. Pelo visto, mercenários como os Joubran não trabalham por pouca grana, portanto estou investigando a situação financeira de todos os empregados do laboratório para saber se algum deles teria dinheiro para contratá-los.

— O que você sabe sobre essa mulher?

Ela é americana e era uma assassina profissional; uma agente secreta da CIA.

Damone ficou chocado.

Os americanos a contrataram?

Não para matar o papai. Ela fez isso sozinha e, como você pode imaginar, eles estão muito bravos com ela. Até já mandaram uma pessoa para "acabar com o problema". Acho que foi essa frase que usaram.

— E, enquanto isso, ela está estudando um modo de entrar no laboratório. Como ela conseguiu escapar ontem?

— Ela tem um cúmplice, um homem dirigindo um Jaguar. Ele posicionou o carro entre ela e os homens, protegendo-a enquanto atirava.

—Anotaram a placa?

— Não; o ângulo não permitiu que meus homens a vissem. Havia testemunhas, é claro, mas elas estavam ocupadas demais tentando se proteger.

—A pergunta mais importante: ela tentou atingi-lopessoalmente?

— Não — Rodrigo respondeu surpreso.

— Então, eu estou correndo menos perigo que você. Portanto, ficarei aqui, e você pode me delegar algumas de suas tarefas. Posso supervisionar a busca por essa mulher, ou qualquer outro problema, se você fizer questão de cuidar disso. Ou podemos fazer tudo juntos. Quero ajudar. Ele também era meu pai.

Rodrigo suspirou, percebendo que estivera enganado ao manter Damone afastado de tudo; afinal, seu irmão era um Nervi. Queria vingança tanto quanto Rodrigo.

— Tenho outro motivo para querer resolver tudo isso — Damone prosseguiu. — Estou pensando em me casar.

Completamente surpreso, Rodrigo ficou olhando para o irmão, Sem nada dizer por um momento, e logo caiu na risada.

— Casar! Quando? Você não me contou que tinha encontrado uma mulher especial!

Damone riu também e sua face enrubesceu.

— Não sei quando, porque ainda não fiz o pedido. Mas acredito que ela dirá sim. Estamos juntos há mais de um ano...

— E você não nos contou? — O "nós" incluía Salvatore, que ficaria muito feliz em saber que um de seus filhos pretendia se casar e lhe dar netos.

— Mas começamos a namorar sério, de verdade, há alguns meses. Queria ter certeza antes de dizer qualquer coisa. Ela é suíça, de uma família muito boa; seu pai é banqueiro. O nome dela é Giselle. — Sua voz ficou mais suave ao dizer o nome da namorada. — Percebi desde o princípio que ela era a mulher certa.

— Mas ela demorou mais tempo para perceber a mesma coisa, não é? — Rodrigo voltou a rir. — Ela não viu seu rostinho simpático e no mesmo momento decidiu que você lhe daria filhos bonitos?

— Ela percebeu isso na mesma hora sim. — Damone respondeu com confiança. — Mas duvidou de minha capacidade de ser um bom marido.

— Todos os Nervi são bons maridos — Rodrigo disse, e era verdade, isso se a esposa não se importasse com uns casos extraconju-gais esporádicos. Damone, no entanto, provavelmente seria fiel; estava em sua personalidade.

Aquela boa notícia explicava por que Damone queria resolver a questão de Liliane Mansfield. Apesar de querer uma resposta, se os acontecimentos de sua vida pessoal não o tivessem apressado a tomar uma atitude, ele seria paciente para esperar que Rodrigo resolvesse a situação.

Damone olhou para a mesa de Rodrigo e viu a fotografia que estava sobre ela. Aproximando-se, ele virou as folhas de seu arquivo e analisou o rosto da mulher.

— Ela é atraente — ele disse. — Não é bela, mas... é atraente.

Folheou o resto do arquivo, lendo-o rapidamente. Olhou para o irmão, surpreso.

— Este é o arquivo da CIA sobre ela. Como você o obteve?

Pagamos alguém de lá para nos passar as informações e, claro. E também na Interpol, e na Scotland Yard. De vez em quando é conveniente saber certas coisas com antecedência.

—A CIA liga para cá? Você liga para eles?

— Não, claro que não; todas as ligações são registradas e, talvez, até gravadas. Tenho um número particular para nosso contato na Interpol, Georges Blanc, e ele entra em contato com a CIA ou o FBI por meio de seus canais normais.

— Você já pensou em pedir a Blanc o número do celular da pessoa da CIA enviada para procurar Mansfield? A CIA não faz esse tipo de serviço; ela contrata outra pessoa para fazer o trabalho, não é? Tenho certeza de que essa pessoa tem um celular, todo mundo tem. Talvez ela esteja interessada em ganhar ainda mais dinheiro do que a CIA está pagando se algumas informações vierem primeiramente para nós.

Intrigado com a sugestão, e envergonhado por não ter pensado naquilo antes, Rodrigo olhou com admiração para Damone.

— Olhos novos — ele disse para si mesmo. E seu irmão era um Nervi: algumas coisas estavam no sangue. — Você tem uma mente muito esperta — ele disse e riu. — Com nós dois em ação, essa mulher não tem a menor chance.

 

Frank Vinay sempre acordava cedo, antes do amanhecer. Desde a morte de sua esposa, Dodie, quinze anos antes, era extremamente difícil para ele encontrar motivos para não trabalhar. Ainda sentia falta dela, insuportavelmente em algumas ocasiões; em outras, sua ausência era mais como uma dor constante, como se algo em sua vida não estivesse muito bem. Nunca tinha pensado em casar-se outra vez, pois achava que seria terrivelmente injusto casar com outra mulher, já que ainda amava sua falecida esposa com todas as suas forças.

Mas ele não vivia sozinho, tinha Kaiser para lhe fazer companhia. O lugar escolhido pelo grande pastor alemão para dormir era um canto da cozinha — talvez a cozinha fosse onde se sentisse melhor, já que era ali que tinha ficado quando filhote, até se acostumar com o novo ambiente — e ele saía de sua cama, abanando o rabo, assim que escutava os passos de Frank descendo as escadas.

Frank entrou na cozinha e afagou Kaiser atrás das orelhas, dizendo coisas tolas que ele se sentia à vontade para dizer porque Kaiser não revelava segredos. Ele deu um biscoito ao cão, checou se havia água em sua tigela e então ligou a cafeteira que Bridget, sua empregada, havia deixado pronta na noite anterior. Frank não tinha qualquer habilidade doméstica; para ele, era um mistério o fato de conseguir transformar água, pó de café e filtro em algo insípido, sendo que Bridget usava os mesmos componentes e fazia um café maravilhoso. Ele a observava preparando-o, tentava fazer as mesmas coisas, mas o resultado era uma água suja. Aceitando que qualquer outro esforço para conseguir fazer café seria definido como insanidade, Frank reconheceu sua derrota e poupou-se de mais humilhações.

Dodie facilitara as coisas e ele ainda seguia suas regras. Todas as suas meias eram pretas, para que não precisasse se preocupar em combiná-las. Todos os seus ternos eram de cores neutras, suas camisas eram azuis ou brancas e combinavam com qualquer terno, e suas gravatas também eram do tipo que combinava com tudo. Ele podia pegar qualquer peça de roupa e saber que combinaria com todas as outras de seu guarda-roupa. Ele nunca ganharia nenhum concurso de moda, mas, pelo menos, não passaria vergonha.

Já tinha tentado passar o aspirador na casa... uma vez. Ainda não sabia o que fizera para explodi-lo.

De qualquer forma, era melhor deixar as questões domésticas com Bridget, enquanto ele se concentrava na papelada. Era o que fazia agora, cuidar da papelada. Lia, digeria os fatos, dava sua opinião experiente — um outro jeito de dizer "a melhor resposta" — ao diretor, que então passava ao presidente, que tomava as decisões sobre operações com base no que lia.

Enquanto o café estava sendo passado, ele acendeu as luzes de segurança externas e deixou que Kaiser saísse no quintal para fazer Sua ronda, além de cuidar de suas necessidades naturais. Kaiser estava ficando velho, Frank pensou enquanto observava o cão, mas ele também estava. Talvez os dois devessem pensar em se aposentar, para que Frank pudesse ler algo além de relatórios de inteligência e Kaiser pudesse abandonar suas obrigações de guarda e ser apenas um cão de companhia.

Há anos Frank pensava em aposentar-se. A única coisa que o impedia de tomar tal atitude era o fato de John Medina ainda não estar pronto para sair da ativa, e Frank não via mais ninguém que pudesse substituí-lo. Não que ele fosse escolher quem ocuparia o cargo, mas sua escolha pesaria muito quando a decisão fosse tomada.

Talvez em breve, Frank pensou. Niema, a esposa de John há dois anos, havia comentado, de modo um tanto proposital, que pretendia engravidar e gostaria que John já tivesse largado aquele emprego quando ela estivesse esperando um bebê. Os dois tinham feito muitos trabalhos juntos, mas o trabalho atual de John não a incluía e a separação estava sendo difícil para os dois. Além disso, o relógio biológico de Niema seguia funcionando, e Frank acreditava que John finalmente passaria suas tarefas para outra pessoa.

Alguém como Lucas Swain, talvez, apesar de Swain já ter passado bastante tempo na ativa também, e seu temperamento era completamente diferente do de John. John era paciente; Swain era do tipo que cutucava a onça com vara curta só para ver um pouco de ação. John havia treinado desde os dezoito anos — na verdade, até antes — para se tornar tão bom em seu trabalho. Eles precisavam de alguém jovem que o substituísse, alguém que pudesse suportar a rigorosa disciplina física e mental. Swain era um gênio na obtenção de resultados — apesar de obtê-los de maneiras surpreendentes —, mas tinha trinta e nove anos, e não dezenove.

Kaiser entrou trotando pela porta dos fundos, balançando o rabo. Frank deixou que o cão entrasse e lhe deu mais um biscoito, em seguida serviu-se de uma xícara de café e a levou para a biblioteca, onde se sentou e começou a ler as notícias do dia. Àquela hora, seus jornais já haviam sido entregues, e ele os leu enquanto estava sentado, comendo uma tigela de cereais — algo que ele conseguia preparar sem a ajuda de Bridget — e bebendo mais café. Sempre tomava banho e se barbeava depois do café-da-manhã, e às sete e meia em ponto ele saía pela porta, ao mesmo tempo em que seu motorista parava o carro no meio-fio.

Frank relutara muito antes de ter um motorista, preferindo assumir o volante. Mas o trânsito de Washington era um pesadelo e o tempo que gastava na direção poderia ser usado para o trabalho, então acabou cedendo. Seu motorista, Keenan, trabalhava com ele há seis anos e eles haviam estabelecido uma boa rotina, como um casal de idosos. Frank ia no banco da frente — sentia náuseas sentado no banco traseiro, lendo —, mas, além do cumprimento que trocavam todas as manhãs, não conversavam durante o trajeto. A volta para casa era diferente; no trajeto de volta, Frank ficara sabendo que Keenan tinha seis filhos, que sua esposa, Trisha, era uma pianista de concertos e que seu filho tinha causado um incêndio na casa ao tentar cozinhar. Com Keenan, Frank podia falar sobre Dodie, sobre os bons tempos que eles tiveram juntos e como tinha sido sua infância antes da invenção da televisão.

— Bom-dia, sr. Vinay — Keenan disse, esperando que Frank colocasse seu cinto de segurança antes de partir vagarosamente.

— Bom-dia — Frank respondeu distraidamente, já concentrado no relatório que estava lendo.

Ele levantava a cabeça de vez em quando, uma precaução que tomava para evitar ficar enjoado, mas, na maior parte do tempo, ele ficava alheio ao tráfego pesado e às centenas de milhares de pessoas que chegavam à capital para mais um dia de trabalho.

Estavam em um cruzamento, na pista da direita, fazendo uma conversão à esquerda no sinal verde, quando um barulho de freada fez com que ele levantasse a cabeça para ver de onde vinha o som. Frank viu uma caminhonete de entregas de flores cortando o cruzamento, ignorando a pista dupla de veículos e virando à esquerda, com os faróis de um carro de polícia logo atrás. Ele viu a frente da caminhonete que vinha em sua direção. Ouviu Keenan gritar

"Merda!" enquanto virava o volante o mais rápido possível para entrar na fileira de carros à esquerda deles. Logo em seguida, houve uma batida estrondosa, como se ele tivesse sido agarrado e lançado ao chão por um gigante, e sentiu o choque.

Keenan recobrou a consciência com um gosto de sangue em sua boca. O carro parecia estar cheio de fumaça e algo parecido com um preservativo enorme estava despudoradamente saindo do volante. Havia um zumbido em sua cabeça, e cada movimento era tão complicado de ser realizado que ele não conseguia levantar a cabeça de seu peito. Olhou para o preservativo gigante, tentando entender o que ele fazia ali. Um barulho irritante soava em seu ouvido esquerdo, dando a impressão de que sua cabeça ia estourar, e havia um outro som parecido com gritos.

Por um tempo que pareceu uma eternidade, Keenan ficou olhando para o preservativo do volante, mas, na verdade, foram apenas alguns segundos. Ele voltou a pensar com clareza e percebeu que era mesmo o air bag, e a "fumaça", o pó dele.

Com um estalar quase inaudível, ele voltou à realidade.

O carro fora reduzido a um monte de ferragens retorcidas. A sua esquerda havia outros dois carros, com fumaça saindo do radiador de um deles. Uma caminhonete estava amassada do lado direito. Ele se lembrou de ter tentado virar o carro para não serem prensados e de ter escutado um barulho estrondoso. A caminhonete tinha acertado em cheio a porta do lado do passageiro, onde estava o sr. Vinay...

Ai, meu Deus.

— Sr. Vinay — ele resmungou, um som nada parecido com sua voz. Ele virou sua cabeça e olhou para o diretor de operações. Todo o lado direito do carro estava amassado, e o sr. Vinay estava em uma confusão indecifrável de metal, banco e homem.

Alguém finalmente desligou a buzina do carro e, no relativo silêncio repentino, ele conseguiu ouvir uma sirene distante.

— Socorro! — ele gritou, apesar de não passar de um sussurro. Cuspiu o sangue que estava em sua boca, respirou fundo, o que lhe causou muita dor, e tentou outra vez: — Socorro!

—Agüente firme, amigo — alguém disse. Um policial uniformizado subiu no capô de um dos veículos à esquerda, mas os dois estavam tão juntos que não conseguiu entrar entre eles. Então, ele se abaixou sobre o carro, ficando de quatro, e olhou para Keenan. O socorro já está a caminho, amigo. Está muito ferido?

— Preciso de um telefone — Keenan disse, percebendo que o policial não conseguia ver a placa do carro deles. Seu celular estava em algum lugar daquela bagunça.

— Não se preocupe em fazer qualquer ligação...

— Preciso de um maldito telefone! — Keenan repetiu, de forma ríspida. Esforçou-se para respirar de novo. As pessoas da CIA nunca se identificavam como funcionários da CIA, mas aquela era uma emergência. — O homem ao meu lado é o diretor de operações...

Não precisou dizer mais nada. O policial tinha trabalhado tempo suficiente na capital e não perguntou: "Que tipo de operações?" Em vez disso, pegou seu rádio e gritou algumas palavras, depois se virou e perguntou: —Alguém tem um celular?

Pergunta tola. Todo mundo tinha. Logo depois, o policial estava se esticando no capô para entregar a Keenan um pequeno aparelho. Keenan esticou sua mão trêmula e suja de sangue e pegou o telefone. Digitou alguns números, percebeu que aquele não era um celular protegido, mentalmente disse "Merda" e continuou.

— Senhor — ele disse, para se manter consciente. Ainda tinha um trabalho a realizar. — Aqui é Keenan. O diretor e eu sofremos Um acidente e ele está muito ferido. Estamos em... — sua voz falhou. Não tinha a menor idéia de onde estavam. Entregou o telefone para o policial. — Diga a ele onde estamos — disse e fechou os olhos.

 

Apesar de não poder contar com seus contatos de sempre, Lily conhecera, ao longo dos anos, várias pessoas de caráter questionável com habilidades inquestionáveis que, pela quantia certa, jogavam a própria mãe na lama. Ela ainda tinha um pouco de dinheiro, mas não muito, então esperava que "certa" fosse a mesma coisa que "razoável".

Se a ficha de Swain saísse limpa, ajudaria em sua situação financeira, porque ele havia se oferecido a trabalhar com ela. Se tivesse de contratar uma pessoa, esgotaria sua conta bancária. É claro que tinha de levar em consideração o fato de Swain ter admitido não ser um especialista em sistemas de segurança, mas dissera que conhecia pessoas competentes. A grande pergunta era: essas pessoas exigiriam um pagamento? Se quisessem, seria melhor que ela contratasse alguém antes de gastar dinheiro investigando Swain. Infelizmente, ali estava algo que ela não conseguiria saber até ser tarde demais para agir. Ela queria que a ficha de Swain estivesse limpa. Queria descobrir que ele não tinha fugido de uma clínica psiquiátrica ou que, mais importante ainda, não tinha sido contratado pela CIA.

Quando estava se dirigindo a um cibercafé, percebeu que tinha cometido um grande erro ao se afastar de Swain no dia anterior. Em caso de a CIA tê-lo contratado, Swain já teria conseguido fazer uma ligação pedindo que seu arquivo fosse preparado, para se enquadrar em qualquer história que ele contasse. Independentemente do que ela ou qualquer outra pessoa conseguisse descobrir sobre ele, não teria como saber se as informações condiziam com a verdade.

Ela parou bruscamente. Uma mulher trombou em suas costas e lhe lançou um olhar de reprovação por ter parado tão repentinamente.

— Excusez-moi — Lily disse, indo em direção a um banco para se sentar e pensar.

Que droga, havia tantas artimanhas de espionagem que ela não conhecia; estava em grande desvantagem. Não havia razão para investigar Swain; ele era ou não da CIA. Ela simplesmente tinha de decidir se entraria em contato com ele ou não.

A atitude mais segura seria não telefonar para ele. Ele não sabia onde ela vivia, nem o nome que estava usando. Mas, se ele fosse da CIA, tinha conseguido deduzir que ela estaria rondando o laboratório Nervi, e estava ali esperando sua chegada. Se ela não abandonasse seu plano totalmente, ele a encontraria ali outra vez.

Em relação ao laboratório, as circunstâncias tinham se tornado enormemente complicadas. Rodrigo obviamente havia descoberto quem ela era de verdade e conseguira uma foto sua sem qualquer disfarce; caso contrário, os jogadores de futebol não a teriam reconhecido tão rapidamente. O pequeno tumulto no parque o deixaria ainda mais atento, e a segurança no complexo sem sombra de dúvida seria reforçada.

Ela precisava de ajuda. Não haveria como conseguir nada sozinha. Concluiu que ou deveria deixar que Rodrigo Nervi continuasse a vencer, sem fazer qualquer esforço para descobrir o que tinha sido tão importante para Averill e Tina acabarem perdendo a vida ou poderia tentar a sorte e aceitar o auxílio de Swain.

Ela desejava que ele estivesse sendo sincero, percebeu, surpresa. Ele parecia viver de modo tão alegre, e alegria era algo que não existia na vida de Lily havia vários meses. Ele a fizera rir. Ele poderia não saber há quanto tempo ela não ria, mas Lily sabia. A minúscula faísca de vida dentro dela, que o pesar não havia extinguido, queria rir outra vez. Ela queria voltar a ser feliz, e Swain irradiava felicidade, como o sol. Tudo bem, ele parecia maluco, mas a seriedade que havia demonstrado ao impedi-la de pegar sua arma a deixara mais confiante. Se ele fosse capaz de fazê-la rir, se ela conseguisse sentir alegria outra vez, talvez isso por si só já valesse a pena para tê-lo como parceiro.

Também havia a atração física. Esse aspecto a deixou um tanto surpresa, mas não poderia dar muita importância àquele interesse. Não poderia deixar que ele atrapalhasse qualquer decisão que tivesse de tomar sobre Swain. Mas faria alguma diferença aceitar a ajuda dele porque ele a fazia rir ou porque ela o achava atraente? A verdade era que a necessidade emocional era maior que a física. Além disso, duvidava que se deixasse levar pela atração física. Não tivera muitos amantes em sua vida, enfrentou longos períodos de abstinência sexual sem se importar. Seu último amante, Dmitri, havia tentado matá-la. Seis anos já haviam se passado desde então, e depois dele Lily passou a ter sérios problemas para confiar nas pessoas.

Então, a pergunta era: já que não haveria como saber ao certo se ele era da CIA, e sua única alternativa era fugir e não fazer nada em relação aos Nervi, ela deveria procurá-lo porque ele era bonito e a fazia rir?

— Dane-se! Por que não? — disse a si mesma, e riu alto, fazendo um pedestre olhar assustado para ela.

Ele estava hospedado no Bristol, nos Champs-Élysées. De impulso, ela entrou em uma cafeteria, comprou uma xícara de café e pediu a lista telefônica emprestada para procurar um número de telefone. Anotou o telefone do Bristol, terminou seu café e saiu.

Ela poderia ter telefonado e pedido para se encontrarem em algum lugar, mas, em vez disso, pegou o trem, e estava em uma rua paralela à do hotel quando parou em um telefone público e ligou. Se ele fosse da CIA e todas as suas ligações fossem rastreadas, aquilo evitaria que o número de seu celular e o lugar onde ela estava morando fossem revelados.

Lily deu o número do quarto de Swain para a recepcionista que atendeu e ele respondeu no terceiro toque, com um sonolento "Sim" seguido de um bocejo. Ela sentiu um certo prazer ao ouvir seu sotaque, a pura informalidade norte-americana em seu modo de responder.

— Pode me encontrar no Palais de I'Élysée em quinze minutos? — ela perguntou, sem se identificar.

— Quê...? Onde? Espere um pouco. — Ela ouviu um outro longo bocejo; então, ele disse, desnecessariamente: — Estava dormindo. Você é quem eu estou achando que é? É loura de olhos azuis?

— E ando com uma arma de brinquedo.

— Estarei lá. Peraí. Onde diabos fica esse lugar? — perguntou.

— Descendo a rua. Pergunte ao porteiro. — Ela desligou e se posicionou de modo a conseguir olhar para a entrada do hotel. O palácio era bem perto, e apenas um idiota iria até lá de carro, em vez de ir a pé, mas era longe o suficiente, e ele não conseguiria cumprir o prazo de quinze minutos se demorasse. Quando ele saísse do hotel, viraria na direção oposta de onde ela estava, e ela poderia segui-lo.

Ele saiu do hotel cinco minutos depois; se tinha feito algum telefonema, fora enquanto descia para a recepção, caso contrário não teria tempo. Ele parou para falar com o porteiro, agradeceu com um meneio de cabeça e começou a descer a rua. Ou melhor, andou vagarosamente, com um balançar de quadril que fez com que ela desejasse ver suas nádegas enquanto ele caminhava. Infelizmente, ele estava vestindo aquele lindo casaco de couro outra vez, que cobria o resto.

Lily caminhou rapidamente, o barulho de suas botas de solado macio foi abafado pelo barulho do trânsito. Não havia ninguém com Swain e ele não estava falando ao telefone ao caminhar, o que era bom. Talvez estivesse realmente sozinho. Ela diminuiu a distância entre eles e, com passos largos, chegou ao seu lado.

— Swain.

Ele olhou para ela.

— Oi. Eu te vi quando saí do hotel. Algum motivo especial para irmos ao Palais?

Surpreendida, ela teve de sorrir e dizer, dando de ombros:

— Nenhum. Vamos andar e conversar.

— Não sei se você notou, mas está frio e o sol já está prestes a se pôr. Você se lembra de que eu disse que já estive na América do Sul? Isso quer dizer que estou acostumado com o calor. Vamos encontrar uma cafeteria onde você possa me contar o que está acontecendo tomando uma bela xícara de café quente.

Ela hesitou. Apesar de saber que estava sendo paranóica, que Rodrigo não podia ter um informante em todas as lojas e cafés de Paris, sua influência era muito grande e ela não queria se arriscar.

— Não quero conversar em público.

— Tudo bem, vamos voltar para o hotel. Meu quarto é tranqüilo, e é quente. E tem serviço de quarto. Ou então, se teme não se controlar ao se ver em um quarto comigo e uma cama, podemos pegar o carro e dirigir sem rumo por Paris, queimando gasolina que custa quarenta dólares o galão.

Ela rolou os olhos.

— Não custa tudo isso. E são litros, não galões.

— Percebi que você não negou a parte do controlar-se. — Ele não estava sorrindo, mas parecia estar perto disso.

— Vou conseguir — ela disse secamente. — O hotel. — Se era para confiar nele, melhor começar logo. Além disso, ver seu quarto de hotel sem que ele tivesse tempo de arrumá-lo e guardar as coisas íntimas devia ser interessante — não que ele fosse chamá-la para ir a seu quarto se houvesse alguma coisa incriminadora à vista.

Eles voltaram e, quando chegaram ao hotel, o inexpressivo porteiro abriu a porta para os dois. Swain indicou o caminho para os elevadores, colocando-se de lado para permitir que ela entrasse primeiro.

Destrancou a porta e ela entrou em um quarto claro e bonito com duas janelas que iam do chão ao teto e que mostravam um pátio. As paredes eram de cor creme, a cama tinha uma macia colcha azul e amarela e, para seu alívio, havia um grande espaço onde poderiam se sentar, com duas cadeiras e um sofá dispostos ao redor de uma mesa de centro. A cama estava arrumada, mas um dos travesseiros tinha a marca de sua cabeça e a colcha estava um pouco desarrumada no local onde ele estivera cochilando. Sua mala não estava à vista e ela concluiu que deveria estar dentro do guarda-roupa. Além de um copo de água sobre o criadormudo e a colcha um pouco desarrumada, o quarto estava muito arrumado, como se não houvesse hóspede algum ali.

— Posso ver seu passaporte? — ela perguntou assim que ele fechou a porta.

Ele a olhou com certa dúvida, mas pegou o documento dentro de seu casaco. Lily ficou tensa; mal se moveu, mas ele percebeu seu nervosismo repentino e hesitou. Propositadamente, ele abriu seu casaco com a mão esquerda para que ela visse que em sua mão direita não havia nada além de um passaporte azul.

— Por que você quer ver meu passaporte? — ele perguntou ao entregar-lhe o documento. — Pensei que fosse pegar informações sobre mim.

Ela abriu o passaporte, sem parar para ver a foto, mas verificou os carimbos de entrada. De fato, ele estivera na América do Sul — em todos os países — e havia retornado aos Estados Unidos cerca de um mês antes. Estava na França há quatro dias. — Não me dei ao trabalho — ela disse brevemente.

— Por que não? — Ele parecia abismado, como se ela tivesse dito que não valia a pena investigá-lo.

— Porque errei ao deixá-lo ir embora ontem.

— Você me deixou ir embora? — ele perguntou, levantando as sobrancelhas.

— Quem estava com a arma apontada para quem? — Ela imitou sua expressão ao lhe devolver o passaporte.

— Tem razão. — Colocou seu documento no bolso interno e, em seguida, tirou o casaco e o jogou sobre a cama. — Sente-se. Por que errou ao me deixar ir embora?

Lily sentou-se no sofá, de costas para a parede.

— Porque, se você pertence à CIA, ou é alguma espécie de contratado, teve tempo suficiente para limpar de seu arquivo qualquer informação que lá estivesse.

Ele colocou as mãos em sua cintura e olhou para ela:

— Se sabe disso, que diabos está fazendo aqui no meu quarto? Meu Deus, moça, eu posso ser qualquer tipo de pessoa!

De certo modo, a bronca que ele lhe deu foi engraçada e ela começou a sorrir. Se tivesse sido contratado para matá-la, estaria se importando com o fato de ela não ter sido cuidadosa?

— Não tem graça — ele disse. — Se a CIA estiver à sua procura, você tem de tomar muito cuidado. É uma espiã ou algo assim?

Ela balançou a cabeça.

— Não. Matei uma pessoa que eles não queriam que morresse. Ele não se surpreendeu com o fato de ela ter matado uma pessoa. Em vez disso, pegou o cardápio e o jogou sobre seu colo.

— Vamos pedir alguma coisa para comer — disse. — Meu estômago ainda não se adaptou a esse fuso horário.

Apesar de ser muito cedo para o jantar, Lily olhou rapidamente o cardápio e fez sua escolha, depois ficou escutando Swain fazer o pedido. Seu francês era razoável, mas ninguém acharia que ele era um nativo. Ele desligou o telefone e sentou-se em uma das cadeiras de tecido azul. Dobrando a perna, de modo que seu tornozelo direito ficasse sobre seu joelho esquerdo, ele perguntou:

— Quem você matou?

— Um empresário italiano, bandido e cruel, chamado Salvatore Nervi.

— Ele merecia ser morto?

— Com toda certeza — ela disse em voz baixa.

— Então, qual é o problema?

— Não foi um ato permitido.

— Permitido por quem?

— Pela CIA. — Seu tom foi irônico. Ele olhou para ela analisando-a.

— Você é da CIA?

— Não exatamente. Eu sou... eu era uma agente secreta.

— Então, você abandonou sua profissão de assassina?

— Digamos que eu duvido que mais trabalhos aparecerão.

— Você pode ser contratada por outra pessoa. Ela fez que não.

— Não? Por que não?

— Porque eu só aceitava o trabalho se achasse que era o certo a ser feito — ela disse em um tom de voz baixo. — Talvez fosse ingenuidade, mas eu confiava em meu governo em relação a isso. Se ele ordenasse, eu teria de acreditar que ele estava sendo justo. Não teria essa mesma confiança em outra pessoa.

— Não é ingenuidade, mas idealismo, sem dúvida. — Seus olhos azuis mostravam gentileza. — Você não acha que eles vão esquecer essa questão do Nervi? — perguntou, e obteve outra negativa.

— Sei que ele era informante. Passava informações para a CIA.

— Então, por que você o matou?

— Porque ele mandou alguém matar meus amigos. Tem muita coisa que eu não sei, mas... eles estavam afastados do negócio, criando a filha deles, vivendo normalmente. Por algum motivo, eles entraram no laboratório onde estivemos ontem... ou pelo menos eu acho que foi isso que fizeram... e Salvatore os matou. — Sua voz ficou mais grave. — E também a filha deles de treze anos, Zia. Ela também foi morta.

Swain suspirou.

— Você nem imagina por que eles entraram lá?

— Como eu disse, nem ao menos tenho certeza de que fizeram isso. Mas cruzaram o caminho de Salvatore de alguma forma, e isso é a única coisa que sei que aconteceu com as propriedades dos Nervi nessa época. Acho que alguém os contratou para o serviço, mas não sei quem ou por quê.

— Não tenho a intenção de ser insensível, mas eles eram profissionais. Conheciam os riscos.

— Eles sim. Se apenas os dois tivessem morrido, eu ficaria brava, sentiria a falta deles, mas eu não... não sei se teria ido atrás de Salvatore. Mas Zia... não poderia deixar isso passar. — Ela pigar-reou e as palavras pareciam jorrar de dentro dela. Não conseguira falar com ninguém sobre Zia desde os assassinatos, e agora as palavras fluíam de forma incessante. — Encontrei Zia quando ela tinha apenas algumas semanas de vida. Estava faminta, abandonada, quase morta. Ela era minha, era minha filha, apesar de eu ter permitido que Averill e Tina a adotassem porque eu não teria como cuidar dela ou oferecer-lhe um lar estável quando estivesse em alguma missão. Salvatore matou minha filhinha. — Apesar de se esforçar para contê-las, as lágrimas escapavam de seus olhos e corriam por seu rosto.

— Ei — ele disse, alarmado. Com as lágrimas borrando sua visão, ela não o viu se mover, mas, de repente, ele estava ao seu lado no sofá, passando o braço pelos seus ombros e puxando-a para perto de si, de modo que sua cabeça descansasse na curva de seu ombro. — Não a condeno. Eu também teria matado o filho-da-puta. Ele deveria saber que não se toca em inocentes. — Ele estava passando a mão em suas costas, confortando-a.

Lily entregou-se àquele abraço por um momento, fechando os olhos ao aproveitar aquele contato, o calor de seu corpo, o cheiro másculo de sua pele. Estava faminta por carinho, para sentir o toque de alguém que se importasse com ela. Ele podia não se importar, mas entendia sua dor, e aquilo já era o suficiente.

Por ter permitido que aquele abraço fosse um pouco mais longo, afastou-se dele e rapidamente secou o rosto.

— Sinto muito — ela disse. — Não tinha a intenção de chorar em seu ombro — literalmente.

— Pode usar meu ombro sempre que quiser. Então, você matou Salvatore Nervi. Acredito que os caras que tentaram matá-la ontem estão atrás de você por causa disso. Por que você ainda está aqui? Você já fez o que queria.

— Apenas parte do que queria. Quero saber por que Averill e Tina fizeram aquilo, o que havia de tão importante para eles aceitarem o trabalho, sendo que já estavam afastados há tanto tempo. Deve ter sido algo muito ruim para eles terem feito, e quero que o mundo inteiro saiba sobre o que se trata. Quero a organização Nervi desmantelada, destruída, odiada no mundo dos negócios.

— Então, você está planejando entrar no laboratório e encontrar alguma coisa?

Ela respondeu afirmativamente.

— Não tenho um plano definido; apenas comecei a juntar informações.

-— Você sabe que a segurança deve ter sido reforçada depois que seus amigos entraram lá.

— Sei disso, mas também sei que não existe sistema que não Possa ser burlado. Sempre existe um ponto fraco e quero descobri-lo.

— Tem razão. Acho que o primeiro passo é descobrir quem desenvolveu o sistema, e depois estudar as especificações.

— Isso se elas não tiverem sido destruídas.

— Só um idiota faria uma coisa dessas, pois o sistema pode precisar de reparos. Se o Nervi era realmente inteligente, guardou as especificações, em vez de deixar que a empresa de segurança ficasse com elas.

— Ele era inteligente e precavido o bastante, deve ter pensado nisso.

— Não era tão precavido, ou não estaria morto — Swain disse. — Já ouvi falar de Nervi, apesar de ter passado dez anos em um outro hemisfério. Como conseguiu se aproximar dele o bastante para usar aquele seu revólver de brinquedo?

— Não usei minha arma — ela respondeu. — Coloquei veneno em seu vinho, e quase morri junto, porque ele me fez prová-lo.

— Que merda! Você sabia que era veneno e, mesmo assim, o bebeu? Você é muito mais corajosa que eu, porque eu não faria uma coisa dessas.

— Ou fazia aquilo ou ele sairia dali sem beber o suficiente para eu ter certeza de que morreria. Estou bem, só tive uma válvula do coração afetada, mas não acredito que seja algo sério. — A não ser por ela, no dia anterior, ter ficado ofegante dentro do carro, o que não era nada bom. Não tinha sequer corrido, mas acreditou que o perigo de levar um tiro aumentava a adrenalina e os batimentos cardíacos tanto quanto uma corrida.

Ele estava olhando para ela com um ar de surpresa, mas, antes de dizer qualquer coisa, alguém bateu à porta.

— Ótimo, a comida chegou — ele disse, levantando-se e indo em direção à porta. Lily levou a mão à sua bota, pronta para entrar em ação se o garçom do serviço de quarto fizesse algo errado, mas ele entrou com o carrinho e serviu tudo com precisão. Swain assinou a nota e o rapaz se retirou.

Pode tirar a mão de sua arma de brinquedo — Swain disse ao puxar duas cadeiras para perto do carrinho. — Por que não anda com alguma coisa capaz de deter alguém?

— Minha arma de brinquedo cumpre bem o seu papel.

— Isso se você for certeira no tiro. Se falhar, a pessoa vai ficar zangada e ainda vai conseguir ir atrás de você.

— Eu não falho — ela disse suavemente. Ele olhou para ela e sorriu.

— Nunca?

— Nunca quando preciso acertar.

A notícia de que o diretor de operações tinha sido gravemente ferido em um acidente de carro não causou apenas agitação na comunidade da inteligência, causou terremotos. A primeira possibilidade a ser investigada era de que o acidente não havia sido um mero acidente. Havia mais maneiras eficientes de se matar alguém do que um acidente de carro, mas, ainda assim, a idéia tinha de ser considerada. Tal suspeita havia sido descartada depois que perguntas discretas, porém esclarecedoras, foram feitas ao policial que estava perseguindo a caminhonete por ter passado no sinal vermelho. O motorista do veículo infrator, morto no acidente, tinha uma longa lista de multas a pagar.

O diretor foi levado ao Bethesda Naval Hospital, onde a segurança seria mais forte, e encaminhado rapidamente para a sala de cirurgia. Enquanto isso, sua casa foi protegida, ordens foram dadas a empregada do diretor, Bridget, para que cuidasse de Kaiser, e o vice-diretor assumiu o lugar do sr. Vinay até seu retorno, se sobrevivesse. O lugar do acidente foi cuidadosamente varrido à procura de papéis importantes, mas o sr. Vinay sempre era muito meticuloso com a papelada e nada relevante foi localizado.

Depois de uma cirurgia que durou muitas horas, sua sobrevivência ainda era uma dúvida. Se Keenan não tivesse conseguido afastar um pouco o carro antes de a caminhonete colidir com eles, o diretor teria morrido na hora. Seu braço direito sofreu duas fraturas expostas, a clavícula foi quebrada, assim como cinco costelas e o fêmur direito. O coração e os pulmões estavam muito comprometidos, seu rim direito rompido; um pedaço de vidro tinha entrado em sua garganta como uma seta e ele estava com uma concussão que tinha de ser muito bem monitorada para evitar o aumento da pressão em seu crânio. O fato de ele ainda estar vivo devia-se ao air bag lateral que havia se aberto, reduzindo o impacto em sua cabeça. Ele sobreviveu às diversas cirurgias necessárias para consertar seu corpo em frangalhos e foi levado à UTI, onde foi mantido sedado e monitorado. Os cirurgiões haviam feito o melhor possível; agora dependia do sr. Vinay.

 

Blanc não ficou muito contente ao receber outra ligação de Rodrigo tão cedo.

— Como posso ajudá-lo? — ele perguntou um tanto tenso. Ele não gostava do % que fazia; ter de fazer aquilo com freqüência era como cutucar uma ferida. Ele estava em casa e receber uma ligação ali o fazia sentir que tinha trazido o mal para muito perto das pessoas que amava.

— Em primeiro lugar, meu irmão, Damone, vai trabalhar comigo de agora em diante — Rodrigo disse. — Pode ser que às vezes ele ligue no meu lugar. Acredito não haver problemas, certo?

— Não, monsieur.

— Excelente. É sobre aquele problema para o qual pedi sua ajuda. O relatório dizia que nossos amigos nos Estados Unidos tinham mandado alguém para resolver a situação. Gostaria muito de ter o contato dessa pessoa.

— O contato dele? — Blanc repetiu, repentinamente nervoso. Se Rodrigo se encontrasse com o agente secreto — Blanc acreditava tratar-se de um agente secreto, pois era assim que um "problema" era resolvido —, seria possível que Rodrigo dissesse alguma coisa que o contratado acabaria levando para seus contratantes, e isso não seria bom.

— Sim, gostaria de ter o telefone celular dele, por favor. Tenho certeza de que existe um modo de contatá-lo. Você sabe o nome dessa pessoa?

— É... não. Não acho que tal informação constava no relatório que recebi.

— É claro que não — Rodrigo retrucou. — Ou não estaria pedindo, não é?

Ele, na verdade, estava pensando que Blanc mandava para ele todas as informações recebidas. O que não tinha acontecido e nunca fora o caso. Para minimizar o estrago, Blanc sempre removia informações importantes. Ele sabia que, se fosse descoberto, os Nervi o matariam, mas ele se tornara muito bom equilibrando-se naquela corda bamba.

— Se essa informação estiver disponível, vou consegui-la — assegurou a Rodrigo.

— Aguardo seu retorno.

Blanc olhou para seu relógio e calculou que horas eram em Washington. Era perto de meio-dia lá, talvez seu contato estivesse almoçando. Depois de encerrar a ligação com Rodrigo, ele foi para fora para que ninguém — principalmente sua esposa, que era uma pessoa muito curiosa — pudesse escutar sua conversa, e então apertou a devida seqüência de números.

— Sim. — A voz não estava tão amigável quanto costumava ser quando Blanc ainda o encontrava em casa, então ele provavelmente estava onde mais alguém pudesse ouvir o que ele estava dizendo.

— Sobre aquele assunto que discuti com você anteriormente, é possível conseguir o número do telefone celular da pessoa que foi mandada para cá?

— Verei o que posso fazer.

Nada de perguntas, nenhuma hesitação. Talvez ele não conseguisse número algum, Blanc pensou, voltando para dentro. A temperatura havia caído depois do pôr-do-sol e ele estava com frio por não ter vestido um casaco,.

— Quem era? — sua esposa perguntou.

— Trabalho — ele respondeu, beijando-lhe a testa. Às vezes, podia falar sobre o que fazia, às vezes não, e, apesar de ter ficado claro que ela queria fazer mais perguntas, acabou se contendo e não disse mais nada.

— Você podia pelo menos ter vestido um casaco antes de sair — ela o repreendeu em tom afetuoso.

Menos de duas horas depois, o celular de Blanc tocou. Rapidamente, ele pegou uma caneta, mas não conseguiu encontrar um pedaço de papel.

— Não foi fácil, amigo — seu contato disse. — Houve uma profusão de telefones celulares diferentes. Tive de procurar bem para encontrar o número. Ele leu a seqüência e Blanc anotou na palma de sua mão esquerda.

— Obrigado — disse. Após desligar, encontrou um pedaço de papel, onde escreveu o número, e em seguida lavou as mãos.

Deveria telefonar para Rodrigo naquele mesmo momento, ele sabia, mas não o fez. Em vez disso, dobrou o papel e o colocou em seu bolso. Talvez telefonasse para ele no dia seguinte.

Quando Lily deixou o quarto dele no hotel, Swain começou a segui-la de volta para seu esconderijo, mas mudou de idéia. Não porque pensou que ela o veria; ele sabia que isso não aconteceria. Ela era boa, mas ele era muito bom. Não a seguiu porque não lhe pareceu certo. Era um tanto maluco de sua parte, mas queria que ela confiasse nele. Ela o procurara, o que já era um bom começo. Também lhe dera o número de seu celular, e ele dera o seu para ela.

Era engraçado como aquilo parecia uma troca de telefones entre namoradinhos no colégio.

Swain não tinha feito o que Vinay o mandara fazer. Ele continuava adiando, em parte por curiosidade e, em parte, porque ela estava lutando contra gigantes e precisava de toda a ajuda que conseguisse, e também porque ele estava muito interessado em levá-la para a cama. Ela estava envolvida em um jogo muito arriscado com Rodrigo Nervi, e Swain adorava correr riscos e queria entrar no jogo. Tinha de tirá-la do caminho, mas quis saber o que estava sendo feito no laboratório. Se conseguisse descobrir, talvez Vinay não o confinasse a uma mesa por não ter cumprido sua missão assim que chegou perto de Lily.

Mas, de modo geral, estava se divertindo. Estava hospedado em um ótimo hotel, dirigindo um carrão e comendo comida francesa. Depois das situações difíceis que teve de enfrentar durante os últimos dez anos, precisava de um pouco de diversão.

Lily era um ótimo desafio. Era desconfiada e esperta, tinha um ar incansável, e ele nunca se esquecia de que ela era uma das melhores assassinas na ativa na Europa. Pouco importava que ela tinha o ideal cor-de-rosa de apenas executar trabalhos corretos, até ir atrás de Salvatore Nervi; sabia que não podia falhar nem mesmo uma vez com ela.

Ela também era triste, pesarosa pela morte dos amigos e da garota que tinha como filha. Swain pensou nos próprios filhos e em como se sentiria se um deles fosse assassinado. De jeito nenhum o assassino escaparia impune, ou sequer seria julgado — independentemente de quem fosse. Ele a compreendia totalmente nesse aspecto, mas isso não mudava o resultado final.

Ele deitou-se em sua cama aquela noite e a imaginou bebendo o vinho que sabia estar envenenado para que Salvatore continuasse bebendo o dele. Minha nossa, ela tinha se arriscado muito. Pelo que ela lhe dissera a respeito do veneno, sobre sua potência, ele soube que ela tinha passado por momentos muito ruins e que provavelmente ainda estava muito fraca. Não tinha a menor possibilidade de entrar no laboratório sozinha, não do jeito que estava, e provavelmente foi por isso que ela o aceitou. Ele não se importava com o motivo; estava feliz por ela ter ligado.

Ela estava começando a confiar nele. Tinha chorado em seus braços, e ele teve a impressão de que ela não deixava que as pessoas se aproximassem dela com muita freqüência. Deixou claro um sinal de NÃO TOQUE, mas, pelo que ele podia perceber, era mais uma forma de se defender do que uma atitude de frieza. Ela não era uma pessoa fria, apenas desconfiada.

Talvez estivesse louco por se sentir tão atraído por ela, mas e daí? Fêmeas atraem seus machos para depois o comerem, durante o ato, então ele achava que não estava tão fora de controle; Lily ainda não o matara.

Ele queria saber o que a irritava, o que a fazia rir. Sim, com certeza queria fazê-la rir. Obviamente ela não se divertia há algum tempo, e uma pessoa sempre precisa ter um pouco de diversão. Ele queria que ela relaxasse e baixasse a guarda quando estivesse com ele, rir e brincar, contar piadas, fazer amor. Swain vira um pouco de humor, e queria mais.

Estava caminhando a passos largos para a obsessão, sem dúvida. Poderia perder a cabeça e morrer feliz.

Um cavalheiro não deveria seduzir uma mulher a quem teria de matar, mas ele nunca tinha sido um cavalheiro. Fora como um rude moleque texano, que se recusava a ouvir o que os adultos diziam e que se casou com Amy quando os dois tinham dezoito anos e tinham acabado de sair do colégio; foi pai aos dezenove, mas nunca sossegou. Não traíra Amy, porque ela era uma garota ótima, mas também não a ajudara muito. Agora que era mais velho, estava mais responsável e sentia vergonha pelo modo como basicamente deixou que a ex-esposa criasse seus dois filhos sozinha. O melhor que ele poderia dizer a si mesmo é que tinha financiado sua família, mesmo depois do divórcio.

Ao longo dos anos, tinha viajado muito, ficara mais sofisticado, mas ter bons modos e saber como fazer um pedido em um restaurante em três idiomas diferentes não o tornavam um cavalheiro. Ainda era grosseiro, continuava avesso a regras, e gostava de Lily Mansfield. Conhecera poucas mulheres capazes de saber lidar com ele, mas Lily conseguia: sua personalidade era tão forte quanto a dele. Ela decidia o que fazer e fazia, independentemente do que acontecesse. Tinha um ar de durona, mas, ao mesmo tempo, um jeito e uma suavidade femininos. Para descobrir tudo sobre ela, um homem precisaria de uma vida inteira. Ele não tinha a vida inteira, mas aproveitaria tudo que tinha. Estava começando a pensar que alguns dias com Lily seriam mais intensos do que dez anos com qualquer outra mulher.

A grande pergunta era: o que faria depois?

Blanc ficou tenso quando seu telefone tocou cedo no dia seguinte.

— Quem será? — sua esposa perguntou, irritada por eles estarem sendo interrompidos no meio do café-da-manhã.

— Deve ser do escritório — ele disse e levantou-se para atender o telefone fora de casa. Apertou o botão talk e disse:

— Aqui é Blanc.

— Monsieur Blanc — a voz era suave e calma, de um tipo que ele nunca tinha ouvido antes. — Sou Damone Nervi. O senhor já conseguiu o telefone que meu irmão pediu?

— Não diga nomes — Blanc disse.

— É claro. Achei necessário desta vez, já que nunca nos falamos antes. Tem o número?

— Ainda não. Evidentemente há uma certa dificuldade...

— Consiga-o. Hoje.

— A diferença de horário é de seis horas. O mais cedo que poderei ligar é no começo da tarde.

— Estarei esperando.

Blanc desligou e, por um momento, ficou em pé, com os punhos cerrados. Para o inferno com os Nervi! Esse tinha um francês melhor que o outro, parecia mais gentil, mas na essência eles eram todos a mesma coisa: bárbaros.

Ele teria de lhes entregar o número de telefone, mas tentaria dizer a Rodrigo que não era aconselhável entrar em contato com o cara da CIA, que ele e seu contato poderiam facilmente ser processados. Talvez não, talvez o homem que a CIA havia mandado não se importasse com quem o contratara, mas Blanc não se sentia seguro em relação a isso.

Ele voltou para dentro e olhou para a sua esposa, seu cabelo negro ainda despenteado, a fita do robe amarrada e marcando sua cintura fina. Ela dormia com camisolas curtas porque sabia que ele gostava, apesar de no inverno colocar um cobertor extra no seu lado da cama, porque sentia frio. E se alguma coisa acontecesse a ela? E se Rodrigo cumprisse as ameaças feitas anos antes? Ele não conseguiria suportar.

Teria de entregar-lhes o número. Adiaria tal momento o máximo que pudesse, mas no final não teria opção.

 

Swain teve uma brilhante idéia no meio da noite: em vez de descobrir quem tinha instalado o sistema de segurança dos Nervi, entrar no escritório e conseguir o manual de funcionamento, por que não usar os recursos que estavam ao seu alcance? Os meninos — e as meninas — e seus brinquedos encontravam um caminho para chegar a qualquer coisa. Se estivesse em algum computador, e esse computador estivesse conectado à Internet, poderiam consegui-lo. Era compreensível que a empresa de segurança contratada pelos Nervi usasse tecnologia de ponta, o que significava que provavelmente trabalhavam com computadores. Com senhas de proteção, sim, mas qual a dificuldade nisso? Tal problema não passaria de um mosquitinho irritante para os hackers contratados de Langley.

Além disso, isso significava que eles teriam de fazer o trabalho, e não Swain. De modo geral, considerou esse fato uma grande idéia. Ficou tão satisfeito com ela que se sentou e acendeu a lâmpada ao lado de sua cama, tirou seu telefone do carregador e fez a ligação no mesmo instante. Passar pelas verificações de segurança pareceu demorar muito, mas, por fim, ele conseguiu conversar com alguém que tinha um pouco de autoridade.

— Verei o que posso fazer — a mulher disse. Ela tinha se identificado, mas Swain estava preocupado e não guardou seu nome. — As coisas estão complicadas aqui, por isso não sei quando... Espere um minuto. Está listado como pertencente a Salvatore Nervi, falecido, e agora a Rodrigo e Damone Nervi. Eles estão na lista de trunfos. Por que está interessado em romper o sistema de segurança deles?

— Pode ser que deixem de ser trunfos em breve — Swain respondeu. — Dizem que eles acabaram de receber um carregamento de armas de plutônio. — Aquilo parecia ser ameaçador o bastante para exigir alguma atitude.

— Você fez um relatório sobre isso?

— Hoje cedo, mas ninguém me retornou...

— É por causa do sr. Vinay. Eu te disse que as coisas estavam complicadas.

— O que houve com o sr. Vinay? — Meu Deus, será que Frank tinha sido substituído?

— Não ficou sabendo?

— É claro que não ou não estaria perguntando.

— Sabendo do quê?

— Ele sofreu um acidente de carro hoje de manhã. Está em estado crítico no Bethesda. O vice-diretor de operações assumiu o lugar dele até que ele volte, se voltar. Parece que os médicos não estão muito otimistas.

— Merda. — A notícia o atingiu como um chute na boca do estômago. Ele trabalhava para Frank Vinay há anos, e tinha por ele um respeito que não sentia por mais ninguém naquela organização. Frank contornava bem as situações ao lidar com políticos, mas com os agentes abaixo dele ele era muito correto e disposto a defendê-los. Em Washington, tal atitude não somente era incomum, mas também quase um suicídio, profissionalmente falando. O fato de Frank não apenas ter sobrevivido, como também ter progredido em seu emprego, primeiro como vice-diretor e agora como diretor, era uma prova de seu valor — e de sua habilidade de lidar com todas as circunstâncias.

— De qualquer forma — a mulher disse —, verei o que posso fazer.

Swain teve de se contentar com aquilo, porque conseguia imaginar a incerteza e a dança das cadeiras que estava acontecendo. Ele conhecia o vice-diretor, Garvin Reed; Garvin era um homem bom, mas não era Frank Vinay. Tudo que Reed sabia sobre espionagem era menos do que Frank já tinha esquecido sobre o assunto; além disso, Frank era muito bom em estudar pessoas e enxergar peculiaridades e dissimulações onde ninguém mais conseguia.

Swain sentiu-se inseguro quanto à sua própria posição também. A solução de Frank para lidar com o problema Lily poderia não ser a mesma de Garvin. A visão de Garvin em relação aos Nervi poderia não ser igual à de Frank. Swain sentiu como se a corrente que o mantinha preso ao seu barco tivesse sido arrebentada e ele estivesse sendo levado pelas ondas; ou, para usar outra metáfora, que ele já estava patinando no gelo fino, adiando o propósito de sua missão, e que agora conseguia ouvir o gelo rachando sob seus pés.

Que droga! Ele manteria o mesmo curso até que fosse expulso da missão ou recebesse a ordem de alterá-la — não que já não a tivesse alterado, ou pelo menos a adiado, mas ninguém além dele sabia disso. Na dúvida, siga em frente. É claro que o capitão do Titanic provavelmente tivera o mesmo pensamento.

Ele não dormiu bem o resto da noite, o que o deixou mal-humorado na manhã seguinte. Até que os especialistas em computação entrassem em contato com ele, se é que o fariam, ele não tinha mais nada a fazer além de passar de carro pelo laboratório, deixando seu traseiro à mostra para os guardas. Como estava frio, seu traseiro ficaria gelado, portanto essa opção estava fora de cogitação, a menos que ele fosse provocado.

Em um impulso, pegou seu telefone e ligou para o celular de Lily, so Para ver se ela atenderia.

Bonjour—ela disse, e Swain pensou que talvez ela não tivesse visto quem era, mas era mais provável que atendesse em francês por força do hábito ou precaução.

— Olá. Já tomou café?

—Ainda estou na cama, portanto não, ainda não comi nada.

Ele olhou para o seu relógio: ainda não eram seis horas. Ele a perdoaria por ser preguiçosa. Na verdade, estava contente por tê-la surpreendido na cama, porque ela estava com a voz sonolenta e suave, sem sua rigidez contumaz. Tentou imaginar o que ela vestia para dormir, talvez um minúsculo top e uma calcinha, talvez nada. Definitivamente, não devia vestir nada transparente e sensual. Tentou imaginá-la em uma camisola longa, ou uma camiseta larga, e não conseguiu. No entanto, conseguiu imaginá-la nua. Ele imaginou tão bem que seu pênis se animou e começou a enrijecer, exigindo que ele tivesse controle.

— O que está vestindo? —A própria voz saiu mais lenta e grave do que o normal.

Ela riu, surpreendida.

— Este é um telefonema obsceno?

— Poderia ser. Estou sentindo que emoções fortes virão. Diga-me o que está vestindo. — Ele a imaginou sentada, encostada nos travesseiros, puxando o cobertor para debaixo de seus braços, afastando seu cabelo despenteado do rosto.

— Uma camisola de flanela de vovozinha.

— Mentirosa. Você não é o tipo de mulher que veste esse tipo de camisola.

— Você ligou por algum motivo além de me acordar e perguntar o que estou vestindo?

— Sim, mas me distraí. Vamos lá, me diga.

— Não faço sexo verbal. — Ela parecia estar se divertindo.

— Por favor, vai! Poooor favooooor.

Ela voltou a rir.

— Por que quer saber?

— Porque minha imaginação está me matando. Você parecia tão sonolenta quando atendeu, e eu imaginei você toda macia e quente debaixo das cobertas. Foi daí que as coisas começaram a subir. — Ele olhou sorrateiramente para a sua ereção.

— Pode parar de imaginar. Não durmo nua, se é o que quer saber.

— Então, o que está vestindo? Eu preciso mesmo saber, para imaginar direito.

— Pijama.

Droga, ele tinha se esquecido dos pijamas.

— Curto? — atreveu-se a perguntar, esperançoso.

— Em outubro troco pelos longos, e volto para os curtos em abril. Ela estava estragando seus sonhos. Ele a imaginou de pijama e o efeito não foi o mesmo. Suspirou.

— Você poderia ter dito que estava totalmente nua — reclamou. — Que mal isso faria? Eu estava me divertindo aqui.

— Talvez um pouco demais — ela disse de modo seco.

— Mas não o suficiente. — Seu pênis estava voltando ao normal, um esforço em vão.

— Sinto muito por não ter sido mais incentivadora.

— Tudo bem. Pode se redimir pessoalmente.

— Só porque você quer.

— Querida, você não faz idéia de quanto quero. Agora, o motivo de meu telefonema...

Ela riu, e ele sentiu um frio na barriga. Estava todo contente por tê-la feito rir. De novo.

— Não tenho nada para fazer hoje e estou entediado. Por que não vamos para a Disneylândia?

— O quê? — ela disse sem entender, como se ele estivesse falando um outro idioma.

— Disneylândia. Você sabe, aquela saindo da cidade. Nunca fui em nenhum dos parques nos Estados Unidos. Você já esteve em algum?

— Duas vezes — ela disse. — Tina e eu fomos duas vezes com Zia. Averill nunca ia, porque não gostava de enfrentar filas.

— Só um homem de verdade agüenta ficar em filas.

— E sem reclamar — ela acrescentou.

— E sem reclamar. — O que mais ele poderia fazer, além de concordar? — Tenho um contato investigando o sistema de segurança, mas provavelmente não vou descobrir nada hoje. Tenho de matar tempo, e você tem tempo para matar, então para que ficaremos olhando para a parede quando podemos ver o castelo da Cinderela?

— A Bela Adormecida, não a Cinderela.

— Tanto faz. Eu sempre achei a Cinderela mais bonita que a Bela Adormecida, porque ela era loura. Tenho uma queda por louras.

— Não tinha percebido. — Parecia que ela ia rir outra vez.

— Pense da seguinte forma: alguém vai procurá-la na Disneylândia?

Houve um breve silêncio enquanto ela pensava nos desdobramentos daquela proposta. Ele não podia dizer a ela que estava nervoso e preocupado com Frank, e que achava que acabaria enlouquecendo se tivesse de ficar sentado no quarto do hotel o dia todo. Ele não gostava muito de parques de diversão, mas era algo para se fazer e não teriam de ficar preocupados com espiões. Nervi nunca pensaria em colocar pessoas vigiando as entradas da Disneylândia; afinal, quem seria idiota de parar para dar uma volta na Thunder Mountain no meio de uma briga de gato e rato?

— O dia vai estar ensolarado hoje. Vamos lá — ele incentivou. — Vai ser divertido. Podemos andar nas xícaras malucas, ficar tontos e vomitar.

— Parece maravilhoso, mal posso esperar. — Ela estava segurando uma risada, mas ele percebeu.

— Então, você vai? Ela suspirou.

— Por que não? É uma idéia idiota ou brilhante, e não tenho certeza de qual das duas.

— Ótimo. Por que não coloca um chapéu, óculos e vem para cá e tomamos café antes de sair? Estou louco para dirigir esse carro que peguei no lugar do Jaguar. Ele tem duzentos e vinte e cinco cavalos, e quero colocar pelo menos duzentos deles para correr.

— Ah, sim. Agora eu sei por que você ligou. Quer dirigir como um maluco, com uma mulher ao seu lado, para poder se exibir e para fazer as devidas caras e bocas.

— Não me provoque. Faz tempo que não faço isso.

— Vou me esforçar. Estarei aí pelas oito horas; se sentir fome antes disso, pode comer. Eu me viro depois.

Seu limite de duas horas não dizia onde ela estava. Em duas horas, ele poderia chegar ali de qualquer lugar da região. Que droga, ela provavelmente conseguia chegar ali vinda de Calais, na Inglaterra, com aquele tempo. — Estarei à sua espera. Diga-me o que quer e vou fazer o pedido cerca de vinte minutos antes das oito.

Ela pediu um croissant e um café, e ele pensou que pediria também algo mais consistente. Quando ela estava para desligar, ele disse:

— A propósito...

Ela fez uma pausa e disse:

— Sim?

— Se por acaso estiver curiosa, eu durmo sem roupa.

Lily fechou seu celular, olhou para ele, jogou-o entre os travesseiros e deu uma gargalhada. Não se lembrava de quando tinha sido a última vez em que fora provocada e paquerada de modo tão explícito, talvez nunca. Era gostoso, assim como era gostoso rir. Estava viva, afinal. Sentiu-se um tanto culpada por estar rindo, porque Zia nunca mais riria.

Ficou séria ao pensar naquilo, e a dor, tão familiar, fez com que seu coração apertasse. A dor nunca sumiria, pensou, mas haveria momentos em que talvez pudesse esquecê-la um pouco. Naquele dia, tentaria esquecer.

Saiu da cama e se alongou, fez a seqüência de exercícios que vinha fazendo todos os dias em um esforço de recuperação. Estava melhorando, com seu vigor físico aumentando a cada dia. Depois de trinta minutos de exercícios, ela estava empapada de suor, mas não sentia falta de ar; seu coração estava agüentando firme. Ela entrou debaixo do chuveiro sem precisar tirar uma peça de roupa, porque dormia nua. Mentir para Swain parecia uma boa idéia, além de ser divertido.

Divertido. Lá estava aquela palavra de novo. Ela parecia sempre estar relacionada a ele.

Ela não tinha se perguntado se ele dormia nu, mas agora sua imaginação lhe oferecia uma imagem dele acabando de acordar, alongando-se, com o rosto escurecido pela barba por fazer. Sua pele com um odor quente e almiscarado, e sua ereção matinal aparente, exigindo atenção...

Por um momento, ela quase conseguiu sentir esse cheiro de homem, e a lembrança foi tão vívida e tão clara que ela por um segundo se surpreendeu por conhecer seu cheiro. Até que se lembrou de ter chorado em seu ombro, sendo abraçada por ele. Provavelmente seu subconsciente havia gravado aquele cheiro e seu cérebro havia arquivado a lembrança para acessá-la mais tarde.

Ela não conseguia acreditar que tinha aceitado passar o dia com ele na Disneylândia, justamente lá. Achava que nunca mais Voltaria àquele lugar. No último verão, Zia recusara-se a ir; estava bem grandinha para aquele lugar de crianças, ela tinha dito com Um desdém evidente, que apenas uma adolescente de treze anos conseguia mostrar, ignorando o fato de a maioria dos freqüentadores do parque de diversão ser mais velha que ela.

Sempre havia muitos americanos lá também, o que sempre deixava Lily surpresa, porque pensava que, se os americanos sentissem vontade de visitar uma atração da Disney, um dos parques nos Estados Unidos seria muito mais perto do que o de Paris. Ela e Swain não seriam percebidos, seriam apenas mais dois americanos.

Ela usou o secador de cabelos e surpreendeu-se à procura de artigos de maquiagem. Estava se embelezando para ele, pensou com um pouco de descontração e um pouco de surpresa — por estar gostando daquilo. Ela sempre se preparava para seus encontros com Salvatore, mas era mais como aplicar uma maquiagem para encenar uma peça de teatro. Mas, com Swain, parecia um encontro de verdade, e Lily sentiu-se nervosa e ansiosa, feminina.

Ela tinha uma pele bem cuidada, já que nunca gostara de se expor ao sol. Não precisava usar base, mas precisava de uma máscara para cílios, para que não parecesse não tê-los. Seus cílios eram longos, mas, por serem castanho-claros, sem maquiagem, quase desapareciam. Delineou seus olhos, aplicou sombra nas pálpebras e usou um tom rosa nas bochechas e nos lábios. Uma camada de pó deu o toque final.

Lily olhou para seu reflexo no espelho enquanto colocava os brincos, pequenas argolas douradas que pareciam apropriadas para um dia em um parque de diversão. Ela nunca seria realmente bela, mas, em seus bons dias, era mais do que apresentável. Aquele era um bom dia.

Com sorte, ficaria melhor.

 

Quanto mais se aproximava da Disneylândia, mais tensa Lily ficava, conforme sua ansiedade ia diminuindo e as lembranças tomavam conta de sua mente.

— Não vamos mais para a Disneylândia — ela disse.

Ele ergueu as sobrancelhas.

— Por que não?

— Tenho muitas lembranças de Zia.

— Você vai evitar tudo que a fizer lembrar-se dela?

Seu tom de voz era prático, não desafiador. Lily olhou pela janela.

— Não tudo. Não para sempre. Mas não... agora.

— Tudo bem. Aonde quer ir?

— Nenhum lugar em especial. Deve haver alguma coisa que possamos fazer além de esperar que seu amigo descubra a respeito do sistema de segurança do laboratório.

— Além de ficar passando na frente do laboratório com este carro, para que os guardas desconfiem dele, não tenho nenhuma outra sugestão.

Será que o cara era incapaz de escolher um carro menos chamativo? Sim, aquele Renault era prata, assim como o Jaguar, mas o Mégane Renault Sport não era exatamente o que poderia ser chamado de carro comum. Pelo menos ele não tinha escolhido um vermelho.

— Quais são as maneiras possíveis de se entrar em um prédio? — ela perguntou sensatamente. — Portas e janelas, é claro. Você também pode entrar pelo teto...

— Ninguém perceberia nossa presença em cima do prédio com uma serra?

— Mas não é viável — ela terminou, olhando para ele de modo desaprovador. — E de baixo? O prédio tem de estar conectado à rede de esgoto.

Ele ponderou.

— É uma possibilidade. Não gosto dela, mas não deixa de ser uma possibilidade. Nos filmes sempre parece que eles estão perdidos no meio da água, mas, quando você pára para pensar o que existe no esgoto, chega à conclusão de que eles ficam perdidos no meio de outra coisa.

—A parte antiga de Paris é cheia de túneis subterrâneos, mas o laboratório localiza-se nas cercanias da cidade, então provavelmente não existe um túnel decente em qualquer parte dali.

— Só por curiosidade, no caso de irmos parar no esgoto, que tipo de laboratório é esse? O que eles fazem lá?

— Pesquisa médica.

— E como o lixo é descartado? É tratado primeiro? Os bichinhos nojentos são mortos?

Ela suspirou. O bom senso dizia que o lixo devia ser tratado antes de ser lançado ao esgoto, nesse caso não haveria uma ligação direta entre o prédio e o sistema de esgoto. O lixo devia ir para uma espécie de tanque onde recebia tratamento e de lá para o esgoto. O bom senso também dizia que eles não gostariam de entrar em contato com o lixo sem tratamento.

Ele disse:

— Voto contra o esgoto.

Combinado. As janelas e as portas são uma opção melhor.

Ou... poderíamos nos enfiar em caixas grandes e sermos despachados ao laboratório. — Aquela idéia surgiu repentinamente.

— Humm — ele pensou na hipótese. — Temos de descobrir se todos os pacotes e as caixas passam por raios X ou algo do tipo, se são abertos assim que chegam e se recebem grandes entregas... coisas assim. Imagine, não poderíamos sair das caixas até a noite, pelo menos até meia-noite, quando houver menos pessoas por perto. Ou será que o laboratório funciona vinte e quatro horas por dia?

— Não sei, mas é algo que teremos de verificar. Teremos de saber de qualquer forma, mesmo que consigamos obter as especificações do sistema de segurança.

— Vou passar por lá de carro hoje à noite, ver quantos carros estão no estacionamento, tentar ter uma idéia de quantas pessoas trabalham lá à noite. Sinto muito, deveria ter feito isso ontem à noite. Enquanto isso, temos o dia de hoje. A Disneylândia foi descartada. Vamos voltar para os nossos respectivos quartos, onde passaremos o dia inteiro entediados? O que mais podemos fazer? Depois do que você fez, não a aconselharia a sair por Paris, fazendo compras.

Não, Lily não queria voltar para o seu apartamento. Ele sequer tinha a vantagem de ser antigo e interessante; era apenas conveniente e seguro.

— Vamos continuar andando de carro. Podemos parar para o almoço quando estivermos com fome.

Eles seguiram a leste e, quando estavam bem longe de Paris e do trânsito intenso, ele escolheu uma reta da estrada e acelerou. Há muito tempo ela não corria pelo simples prazer de sentir a velocidade, e acomodou-se em seu assento, com o cinto de segurança devidamente afivelado, enquanto uma agradável sensação de aventura fazia sua pulsação aumentar. Sentia-se mais uma vez como uma adolescente, quando ela e sete ou oito amigos se apertavam em um carro e partiam a toda por uma estrada. Era um milagre todos eles terem sobrevivido e conseguido terminar o ensino médio.

— Como você entrou nesse negócio? — ele quis saber. Assustada, ela olhou para ele.

— Você está dirigindo rápido demais para conversar. Preste atenção na estrada.

Ele sorriu, tirou o pé do acelerador e o ponteiro do velocímetro baixou para os 100 kmh.

— Consigo andar e mascar chiclete ao mesmo tempo — ele disse, protestando.

— Nenhum dos dois requer muita atenção. Conversar e dirigir é outra história.

Ele disse:

— Para uma pessoa que se arrisca tanto nesse negócio, até que você não é muito afeita a riscos, não é?

Ela observava a paisagem pela janela.

— Acredito que não me arrisco. Planejo tudo cuidadosamente; não brinco com o perigo.

— E bebeu o vinho que sabia estar envenenado, arriscando-se, acreditando que talvez a dose não fosse letal? Uma pessoa que está sendo caçada em Paris inteira, mas continua na cidade porque está dando andamento a um plano de vingança?

— Essas são circunstâncias especiais. — Ela não mencionou os riscos que assumiu decidindo confiar nele, mas ele era esperto o bastante para percebê-los.

— Foi alguma circunstância especial que fez com que você começasse a matar pessoas?

Lily ficou quieta por um momento.

— Não me vejo como uma assassina — disse em voz baixa. — Nunca feri um inocente. Fiz os trabalhos que meu país me contratou para fazer e não acho que as decisões por parte dele fossem tomadas sem muita consideração. Não pensava assim quando era nova, mas agora sei que existem pessoas que são tão ruins que não merecem viver. Hitler não foi um caso à parte, você bem sabe. Veja, por exemplo, Stalin, Pol Pot, Idi Amin, Baby Doe, Bin Laden. Você consegue dizer que o mundo não está ou que não ficaria melhor sem eles?

— E centenas de outros ditadores menos expressivos, chefes do tráfico de drogas, os pervertidos e os pedófilos. Eu sei. Concordo. Mas você já tinha decidido isso quando aceitou seu primeiro serviço?

— Não. Jovens de dezoito anos geralmente não são muito afeitos à filosofia.

— Dezoito. Nossa, começou cedo.

— Eu sei. Acho que foi por isso que fui escolhida. Eu era simplória — ela disse, rindo um pouco. — Tinha um rostinho jovem e inocente, sem qualquer sinal de sofisticação, apesar de que, naquela época, me achava bacana e entediada. Fiquei até lisonjeada por ter sido chamada.

Ele balançou a cabeça ao se surpreender com tamanha inocência. Ela parou de falar e ele disse:

— Continue.

— Chamei a atenção deles porque entrei para um clube de tiro ao alvo. O cara por quem eu me interessava era um caçador ávido e eu queria impressioná-lo sabendo falar sobre diferentes tipos de armas, calibre, alcance, essas coisas. Mas acabei ficando muito boa naquilo; eu me sentia muito bem com uma pistola na mão. Logo eu estava atirando melhor que quase todo mundo no clube. Não sei de onde vinha aquilo — ela disse, olhando para as próprias mãos, como se elas tivessem a resposta. — Meu pai não era atirador, não serviu o exército. Meu avô paterno era advogado, não gostava de viver ao ar livre, e meu avô materno trabalhava em uma fábrica da Ford em Detroit. Ele pescava às vezes, mas não caçava, pelo menos até onde eu sei.

— Talvez seja apenas uma junção de DNA, eu acho. Talvez seu Pai não gostasse de caça, mas não quer dizer que não poderia ter um talento natural para o tiro. Você pode tê-lo herdado de sua mãe.

Lily piscou, depois riu.

— Nunca pensei nisso. Minha mãe é uma pessoa da paz, mas a personalidade nada tem a ver com a habilidade física, não é?

— Nunca percebi. Voltemos ao clube de tiro.

— Não tenho muito para dizer. Alguém me viu atirando, disse para outra pessoa e um dia um homem gentil e de meia-idade foi falar comigo. Primeiro ele me contou sobre uma pessoa, um homem, me disse tudo que ele tinha feito e todas as pessoas que tinha matado, e reforçou o que dizia me mostrando reportagens de jornal e cópias de relatórios policiais, coisas assim. Quando eu já estava bastante horrorizada, o cara legal me ofereceu muito dinheiro. Fiquei horrorizada de novo, disse não, mas não conseguia parar de pensar em tudo que ele me dissera. Ele deve ter adivinhado, porque me ligou dois dias depois e eu disse que sim, aceitaria. Eu tinha dezoito anos.

Ela deu de ombros. — Passei por um curso rápido sobre o que fazer e, como disse, eu parecia tão inocente que ninguém me via como uma ameaça. Cheguei perto do cara sem o menor problema, fiz o serviço e fui embora. Vomitei por uma semana depois daquilo, sempre que lembrava do que fizera. Tive pesadelos por mais tempo ainda.

— Mas, quando o cara legal lhe fez a oferta de um novo serviço, você aceitou.

—Aceitei. Ele me disse que eu tinha prestado um grande favor ao meu país com o primeiro serviço, e acontece que ele não estava mentindo ou me manipulando. Estava sendo sincero.

— Mas ele estava certo?

— Sim — disse calmamente. — Estava. O que eu faço é ilegal, eu sei disso, e tenho de conviver com o que sou. Mas ele estava certo, e a conclusão disso é que eu me dispunha a fazer o serviço sujo. Alguém tem de fazê-lo, então por que não eu? Depois da primeira vez, eu já estava suja mesmo.

Swain esticou o braço e segurou a mão dela, levou-a à sua boca e deu um leve beijo em seus dedos.

Lily ficou surpresa, abriu a boca para dizer alguma coisa, mas a fechou e olhou pela janela, com os olhos arregalados. Swain riu e colocou a mão dela onde estava, e então, durante trinta minutos cheios de adrenalina, dirigiu o mais rápido que pôde.

Pararam para almoçar em uma pequena lanchonete na próxima cidade que encontraram. Ele pediu uma mesa ao sol, mas longe de onde mais ventava, e estavam muito à vontade sentados no lado de fora. Ela pediu uma salada com queijo de cabra curado, ele pediu costeletas de carneiro e os dois tomaram vinho, seguido por café forte. Enquanto tomavam o café, ela disse:

— E você? Conte-me sua história.

—- Nada de incomum. Um caipira do Texas que não conseguiu sossegar, o que é uma vergonha, porque me casei e tive dois filhos. Assustada, ela perguntou:

— Você é casado?

Ele balançou a cabeça.

— Divorciado. Amy — minha ex-mulher — acabou concluindo que eu não iria sossegar e se cansou de criar dois filhos sozinha enquanto eu estava em outros países fazendo coisas sobre as quais ela não queria saber. Não a culpo. Eu também teria me divorciado. Agora que sou mais velho, vejo como fui idiota e me arrependo muito de não ter acompanhado o crescimento de meus filhos. Não posso voltar atrás. Graças a Deus, Amy fez um bom trabalho com eles. Os dois são ótimos, mas não graças a mim.

Ele pegou sua carteira, puxou duas fotos pequenas e colocou-as sobre a mesa para que ela as visse. As duas eram fotos da formatura do ensino médio, de um garoto e de uma garota, os dois muito parecidos com o homem sentado à sua frente.

— Minha filha Chrissy e meu filho Sam.

— São muito bonitos.

— Obrigado — ele disse, sorrindo. Sabia muito bem que os dois se pareciam com ele. Pegou as fotografias e as observou antes de guardá-las novamente em sua carteira. — Chrissy nasceu quando eu tinha dezenove anos. Eu era jovem e bobo demais para me casar, que dirá para ter um filho, mas, quando você é jovem e bobo, não ouve as pessoas que sabem mais que você. E, se fosse preciso, faria tudo de novo, porque não consigo me imaginar sem meus filhos.

— Você os encontra hoje em dia?

— Não tanto quanto a mãe deles, porque ela é muito mais importante para eles do que eu. Ela estava presente quando eu estava ausente. Eles gostam de mim, até me amam, por eu ser o pai deles, mas não me conhecem como conhecem Amy. Fui um pai e um marido ruim — ele disse com franqueza. — Nunca fui ruim. Nem preguiçoso, mas nunca estava em casa. O melhor que posso dizer é que sempre os sustentei.

— É mais do que alguns homens fazem.

Ele revelou para ela o que achava desse tipo de homem, algo que começou com "idiotas" e terminou com "filhos-da-puta", com várias outras palavras nada agradáveis no meio.

Lily ficou tocada pelo modo como ele se culpava. Tinha cometido erros e com maturidade conseguiu enxergá-los e se arrepender deles. Conforme os anos foram passando, ele conseguiu reconhecer todas as coisas na vida de seus filhos que ele tinha perdido, e sentia-se grato à ex-esposa por minimizar o estrago causado pela sua ausência.

— Está pensando em sossegar agora, voltar para casa e viver perto de seus filhos? Foi por isso que saiu da América do Sul?

— Não, eu saí porque estava em um rio cheio de jacarés famintos. — Ele riu. — Gosto de um pouco de aventura em minha vida, mas, às vezes, um homem precisa subir em uma árvore e reavaliar a situação.

— O que você faz exatamente? Estou me referindo a trabalho.

— Sou um tipo de topa-tudo. Quando as pessoas querem que alguma coisa aconteça, elas me contratam.

A resposta tinha sido muito vaga, ela pensou, mas percebeu que ele fizera de propósito. Ela estava à vontade, sem saber todos os detalhes de sua vida. Sabia que ele amava seus filhos, que andava no lado sombrio, mas tinha consciência, que gostava de carros velozes e que a fazia rir. E estava disposto a ajudá-la. Por enquanto, era o suficiente.

Depois do almoço, os dois saíram para andar. Ele avistou uma loja de chocolates e imediatamente ficou com vontade de comer alguns, apesar de eles terem acabado de almoçar. Comprou uma dúzia de tipos diferentes e, enquanto caminhavam, Swain foi comendo os doces e oferecendo-os a ela, até acabarem. Em uma determinada parte do passeio, ele pegou na mão dela e não soltou mais.

De certo modo, o dia parecia estranhamente alheio à realidade, como se eles estivessem protegidos em uma bolha. Em vez de estar destilando seu veneno contra Rodrigo, ela estava passeando por uma cidadezinha sem nada para fazer além de olhar vitrines. Não sentia preocupação nem estresse; um belo homem segurava sua mão e provavelmente planejava atacá-la antes de o dia acabar. Ela ainda não sabia se queria aquilo ou não, mas não estava preocupada. Se dissesse não, ele não iria chorar. Achava que Swain nunca tinha chorado em sua vida. Ele simplesmente entenderia e passaria para a próxima diversão.

Tinha sido submetida a um imenso estresse por meses, e só agora, quando conseguia relaxar, conseguia perceber como estava mentalmente exausta. Não queria pensar naquele dia, não queria sofrer com lembranças dolorosas. Só queria viver.

Quando voltaram para o carro, o sol já estava se pondo e o dia agradável ficara frio. Ela esticou o braço para abrir a porta do carro, mas ele segurou sua mão e gentilmente a apertou, virando-a de frente para ele, e, com um gesto suave, soltou a mão dela e segurou seu rosto com suas duas grandes mãos, puxando seu queixo para cima ao mesmo tempo em que abaixava sua cabeça.

Lily não disse não. Simplesmente agarrou seus pulsos enquanto ele a segurava. Sua boca era surpreendentemente suave, um beijo delicado, e não forte. Com gosto de chocolate.

Ela percebeu que o beijo acabaria ali, que não tinha mais como continuar — não naquele momento, pelo menos. Ela poderia retribuir sem que ele tentasse tirar suas roupas ou apertá-la contra o carro. Encostando-se um pouco nele, ela pôde sentir o calor de seu corpo, aproveitar a proximidade. Foi ela quem o provocou um pouco com sua língua, pedindo mais. Ele cedeu, não foi insistente, mas provocou-a também, enquanto conheciam os gostos e os toques um do outro e a maneira como suas bocas se encaixavam. Então, ele parou de beijá-la, sorriu e passou seu polegar sobre os lábios dela antes de abrir a porta do carro e fazê-la entrar.

— Para onde vamos agora? — ele perguntou ao entrar no carro. — De volta para Paris?

— Sim — ela disse, claramente desapontada. O dia tinha sido uma fuga bem-vinda, mas estava quase no fim. No entanto, ela tinha descoberto algo importante: Swain não podia ser da CIA, de jeito nenhum, porque ela ainda estava viva. Era sempre uma vantagem se, ao final de um encontro amoroso, o cara não a matasse.

 

Ao final daquela tarde, Georges Blanc recebeu um outro telefonema de Damone Nervi. Ele sabia quem era do outro lado da linha e sentiu um nó na boca do estômago. Estava dentro de seu carro, sem correr o risco de sua conversa ser ouvida, o que era uma bênção e a única coisa boa que ele conseguia ver na situação. Ele parou no acostamento e atendeu.

O tom de voz de Damone era muito calmo.

— Sou um homem mais razoável que meu irmão. Entretanto, não sou do tipo que gosta de ser ignorado. Você conseguiu a informação que lhe pedi?

— Sim, mas... — Blanc hesitou, e resolveu abrir o jogo:

— Recomendo, e espero, que o senhor não use esse número.

— E por que isso?

Para o alívio de Blanc, Damone pareceu mais curioso do que bravo. Respirou fundo. Talvez houvesse uma esperança.

— Esse número só poderia ser obtido de um jeito: se uma pessoa da CIA americana o desse. Esse homem para quem os senhores querem ligar trabalha para eles. O senhor acredita que ele não vai ficar curioso para saber como conseguiram localizá-lo pelo celular? Acredita que ele seja tão idiota que não consiga ver o óbvio? A pergunta a ser feita é: ele é fiel a seus contratantes? Não vai dizer isso aos seus superiores? E será que eles não vão investigar? Se usar esse número, monsieur, poderá destruir tanto a mim quanto a meu contato.

— Entendo. — Houve uma pausa, enquanto Damone analisava o que tinha acabado de ouvir. Depois de um momento, ele disse: — Rodrigo está impaciente; acredito que seja melhor ele não saber disso. Às vezes, seu desejo por ação atropela a prudência. Direi a ele que esse homem ficou de alugar um celular aqui e que ainda não entrou em contato com ninguém.

— Obrigado, monsieur. Obrigado. — Blanc fechou os olhos, aliviado.

— Mas — Damone disse — percebi que agora você me deve um favor.

Blanc lembrou-se de que, razoável ou não, Damone também era um Nervi e, conseqüentemente, perigoso. A tensão voltou a incomodar. O que mais lhe restava fazer, além de concordar?

— Sim — disse, tenso.

— Isso é particular. Tem algo que preciso que faça para mim, algo que não pode dizer a ninguém. A vida de seus filhos depende disso.

Lágrimas se formaram nos olhos de Blanc e ele as secou com a mão. Seu coração batia com tanta força que pensou que fosse desmaiar. Nunca havia cometido o erro de subestimar a brutalidade da qual os Nervi eram capazes.

— Entendo. O que tenho de fazer?

Eles estavam perto do hotel quando Swain disse;

— Deixe-me levá-la em casa. Você não deveria pegar o trem, já que está muito mais segura dentro do carro.

Lily hesitou, instintivamente sem querer revelar a localização de seu apartamento.

— Peguei o trem esta manhã — disse. — Eles são mais rápidos. Ela tinha escondido seu cabelo com uma touca e usava óculos escuros, como ele havia sugerido, para o caso de Rodrigo ter colocado pessoas para vigiarem as estações de trem. Havia muitas estações em Paris. Vigiar todas elas exigiria um grande número de homens, mas é claro que Rodrigo não teria de contratá-los. Com sua influência, conseguia que outras pessoas realizassem o trabalho por ele.

— Sim, mas hoje de manhã o sol estava forte, agora está escuro. Vai chamar a atenção com esses óculos. — Ele sorriu. —Além disso, quero ver sua cama e saber se ela é suficientemente grande para mim.

Ela desdenhou. Por um beijo ele já esperava levá-la para a cama? Ela gostou do beijo, mas ela só tinha se rendido ao seu charme, não ficara burra de uma hora para outra.

— Não é — ela disse. — Portanto, você nem precisa vê-la.

— Depende. Ela é estreita ou curta? Se for só estreita, tudo bem, porque ficaremos um em cima do outro mesmo. Mas, se ela for curta, terei de reconsiderar meu interesse por você, porque há alguma coisa de errado com uma mulher que não compra uma cama comprida o suficiente para seu homem esticar as pernas.

— Ela é as duas coisas — Lily disse, tentando segurar um sorrisinho malicioso. Não ria assim desde os seus dezoito anos, mas um desses estava preso em sua garganta. — Curta e estreita. Eu a comprei de um convento.

—As freiras vendem suas camas?

— Fizeram um grande bazar para angariar fundos.

Ele jogou a cabeça para trás e riu, sem se importar com a recusa dela. Todas as frases que ele dizia e as propostas que fazia eram tão ousadas que ela pensou que ele só podia estar brincando, mas, se ela o levasse a sério em qualquer uma delas, como a maioria dos homens, ele não perderia a chance para o sexo.

Ele a distraíra de sua primeira sugestão, mas ela não a esquecera. Ela tinha de considerar o risco que corria ao revelar onde ficava seu apartamento e o de pegar o trem. Às vezes, não poderia evitar pegar o transporte público, mas para que abrir caminho para o azar sem que houvesse necessidade? Ela acabou chegando à questão: quem lhe oferecia mais riscos, Swain ou Rodrigo? Não havia comparação. Até aquele momento, Swain tinha ficado firme ao seu lado, apesar de não ter outro motivo para querer ajudá-la, além de tédio e tesão.

— Moro em Montmartre — ela disse. — E fora de mão. Ele deu de ombros.

— E daí?

Se ele não se importava, por que ela se importaria? A segurança era o único motivo pelo qual ela permitiria que ele a levasse para casa, porque os trens eram um meio muito mais conveniente para uma pessoa se locomover em Paris, mas era um motivo relevante.

Ela lhe explicou como chegar a seu endereço e se acomodou no assento; deixaria que ele se preocupasse em driblar o trânsito. Ele o fazia com sua impaciência de sempre, gritando palavrões e fazendo gestos diversos. Ele se empolgava um pouco, chegou a acelerar uma vez, quando um grupo de turistas tentou atravessar a rua na frente dele. Como estavam em Paris, naturalmente o carro que estava ao seu lado acelerou também. Aceleraram também para uma mulher gorda de meia-idade, e Lily ficou horrorizada. Os olhos da mulher se arregalaram quando viu os dois carros indo em sua direção.

— Merda! — Swain gritou. — Seu filho-da-puta! — Ele virou o volante rapidamente na direção do carro ao lado deles, e o motorista, em pânico, virou o volante para a esquerda enquanto pisava no freio. Swain diminuiu a marcha e entrou em um espaço entre a pedestre e o carro em ziguezague, enquanto a mulher se atrapalhava para voltar para a calçada.

As buzinas gritavam atrás deles, e Lily virou-se em seu assento para ver que tipo de carnificina estava ficando para trás. O carro que tinha tentado impedi-los de entrar na pista da esquerda estava virado de lado na larga rua, havia outros veículos virados em diferentes ângulos ao redor dele. Muitos buzinavam e os motoristas, irritados, já tinham saído de seus carros, sacudiam os braços e punhos. Ela não viu nenhum corpo no chão; portanto, evidentemente, os pedestres estavam em segurança.

— Deixe-me sair — ela disse com fúria. — Estarei mais segura no trem com os homens de Rodrigo do que dentro de um carro que você esteja dirigindo!

— Eu tinha espaço para entrar até que aquele idiota ao meu lado acelerou — ele disse, defendendo-se com ingenuidade.

— É claro que ele acelerou! — ela gritou. — Estamos em Paris! Ele preferiria a morte a permitir que você entrasse na frente dele.

Lily acalmou-se, respirando com força e furiosa. Alguns minutos depois, ela disse:

— Mandei você me deixar sair.

— Sinto muito — ele disse, arrependido. — Vou tomar mais cuidado. Prometo.

Já que ele não mostrava sinais de que pararia o carro para deixá-la sair, ela concluiu que teria de ficar no automóvel com um maluco. Sua única opção era dar-lhe um tiro, alternativa que se tornava cada vez mais atraente. Coitada daquela mulher! Se ela tivesse algum problema de coração, o susto poderia matá-la. Ela parecia estar bem, pois foi uma das pessoas que estavam reclamando, voltando para a rua a fim de observar o carro de Swain se afastar, depois de toda a confusão que ele tinha causado.

Depois de cinco minutos dirigindo cuidadosamente e em total silêncio, Swain perguntou:

— Você viu a cara dela?

Lily começou a gargalhar. Era muito cruel de sua parte, sabia disso, mas a imagem do rosto vermelho e irado da mulher, arregalando os olhos de medo, nunca mais sairia de sua memória. Tentou controlar sua risada, porque o que ele tinha acabado de fazer não tinha a menor graça e ela não queria deixá-lo pensando que tinha se livrado impunemente.

— Não posso acreditar que você esteja rindo — ele disse com desaprovação, apesar de estar esboçando um sorriso. — Que coisa mais feia!

Era mesmo, mas ela sabia que ele estava brincando. Ela segurou a risada, secou seus olhos e, com a maior força de vontade, forçou-se a parar de rir.

Ela cometeu o erro de olhar para ele. Como se estivesse esperando uma platéia, ele arregalou os olhos para ela, exatamente da mesma forma que a mulher tinha feito, e Lily caiu na gargalhada mais uma vez. Curvou-se até onde o cinto de segurança permitia, com as duas mãos na barriga. Para castigá-lo, deu-lhe um soco no braço, mas sua risada era tão forte que o golpe foi mínimo.

Ele virou o carro rapidamente, saiu da rua principal, e como por milagre encontrou uma vaga. Lily parou de rir.

— O que está havendo? — ela perguntou alarmada, olhando ao redor para avistar alguma ameaça, enquanto se abaixava para pegar a arma do coldre em seu tornozelo.

Swain desligou o motor e a pegou pelos ombros.

— Você não precisa da arma — ele disse com uma voz grave ao puxá-la para si, o máximo que seu cinto de segurança permitiu. Ele a beijou de modo sedento, voraz, com a mão esquerda segurava a cabeça dela por trás, e a direita foi direto para os seios. Depois de um gritinho de surpresa, Lily deixou-se levar por ele. O câmbio estava pressionado contra seu quadril, sua perna estava dobrada de modo desconfortável, mas ela não se importou.

Não sentia um tesão tão forte há tanto tempo que foi pega de surpresa, tanto pelo desejo dele quanto pelo dela. Não tinha percebido o quão carente estava, o quanto desejava um abraço. Precisando de mais, ela abriu seus lábios para ele e o abraçou.

Ele fazia amor como dirigia, impetuoso e entusiástico. Quase não parou no segundo ato, e foi para o terceiro, escorregou a mão entre as pernas dela e massageou sua vagina. Por puro reflexo, ela agarrou seu pulso, mas não foi capaz de afastar a mão dele. Swain posicionou a palma de sua mão no fundilho de sua calça e fez um movimento para a frente e para trás, e Lily foi às alturas.

Apenas o fato de estarem dentro do carro a salvou. A perna dobrada começou a doer e ela se soltou dele, contorceu-se estranhamente para esticar sua perna, limitada pelo cinto de segurança e pelas mãos dele. Ela soltou um gemido rouco de dor e apertou seus lábios.

— O que foi? — ele perguntou enquanto tentava endireitá-la em seu banco. Eles se atrapalharam, dando cotoveladas no volante, no painel, enroscando-se um no outro, como dois bobos. Por fim, Lily conseguiu voltar para seu assento e com um gemido de alívio esticou a perna o máximo que conseguiu. Não foi o suficiente; ela soltou seu cinto de segurança e puxou o banco para trás o máximo que pôde.

Ofegante, ela tentava respirar enquanto massageava sua coxa.

— Câimbra — ela conseguiu dar uma explicação. Seu músculo retraído começou a relaxar e a dor diminuiu. — Estou velha demais para ficar dando amassos dentro de um carro — ela disse, suspirando. Encostando sua cabeça contra o assento, ela soltou uma risada cansada. — Espero que ninguém tenha filmado essa cena cômica.

Ele ainda estava virado para ela, com as luzes da rua iluminando seu rosto. Estava sorrindo, com a expressão estranhamente delicada.

— Acha que poderia ser chantageada?

— Certamente. Imagine como nossas reputações sofreriam. O que fez você agir assim?

Seu sorriso ficou malicioso.

— Já lhe disse que sua risada me excita?

— Não, acho que não. Tenho certeza de que me lembraria. — Ele estava enganado; ela precisava de sua arma, sim. Deveria ter lhe dado um tiro antes de permitir que ele a beijasse daquele jeito, porque agora não tinha certeza de que conseguiria ficar um dia sem aqueles beijos.

Ela voltou o banco para seu lugar e ajeitou o cabelo.

— Acha que pode dirigir sem matar nenhum pedestre do coração, sem causar nossa morte ou me atacar outra vez? Gostaria de chegar em casa antes da meia-noite.

— Você gostou de ser atacada. Admita. — Ele pegou a mão esquerda dela e entrelaçou seus dedos com os dela. — Se não fosse por aquela cãimbra, você teria gostado ainda mais.

— Nunca saberemos o quanto, certo?

— Quer apostar?

— Por mais que eu tenha gostado, não vou para a cama com um cara que conheci há poucos dias. Ponto final. Por isso, não deixe que suas esperanças aumentem, nem qualquer outra coisa.

— Tarde demais, nos dois sentidos.

Ela segurou uma risada, mordendo a língua. Gentilmente, ele apertou a mão de Lily, soltou-a e deu partida no carro. Deram meia-volta e voltaram para a via principal.

Montmartre costumava ser repleta de artistas de todos os tipos, mas grande parte da área tinha se deteriorado desde os seus belos dias. Havia ruas de mão única sinuosas, com valetas abertas, prédios muito próximos uns dos outros e muitos turistas à procura de agitação noturna. Lily o guiou pelo labirinto e, por fim, disse:

— Ali, a porta azul. É ali que fica meu prédio.

Ele parou do lado de fora. Não havia lugar para estacionar o carro sem bloquear a rua, portanto ele não teria como subir com ela. Lily se curvou, deu-lhe um beijo no rosto e depois na boca.

— Obrigada por hoje. Foi divertido.

— O prazer foi meu. Nos vemos amanhã? Ela hesitou, depois disse:

— Me liga. Vamos ver. — Talvez o amigo dele aparecesse com a informação sobre a segurança do laboratório. Swain também poderia aparecer com outro convite maluco que, de alguma forma, a atrairia, apesar de achar que estaria mais segura se dirigisse no lugar dele — mesmo sabendo que dirigia mal.

Ele a observou entrar no prédio e buzinou de leve antes de partir. Lily subiu os degraus, mais devagar do que o costume, alegre por estar só um pouco ofegante ao chegar a seu apartamento no terceiro andar. Ela entrou, trancou a porta e soltou um grande suspiro.

Swain estava derrubando suas defesas, e os dois sabiam disso.

Assim que Swain conseguiu encontrar uma saída para o labirinto que era Montmartre e pôde prestar atenção a outra coisa além de tentar descobrir onde estava, ligou seu celular para checar as mensagens. Não havia nenhuma, então ele telefonou para Langley enquanto dirigia e pediu para ser transferido para o escritório do diretor Vinay; talvez sua assistente ainda estivesse lá, apesar de passar das cinco da tarde nos Estados Unidos. Quando ele reconheceu a voz da moça, sentiu um alívio.

—Aqui é Lucas Swain. Pode me dar informações a respeito do estado de saúde do diretor? — E então prendeu a respiração, rezando para Frank estar vivo.

— Ainda está em estado crítico — ela disse. Ela parecia abalada. — Ele não tem nenhum parente próximo, apenas duas sobrinhas e um sobrinho que vivem no Oregon. Entrei em contato com eles, mas não sei se poderão vir.

— Sabe o prognóstico?

— Os médicos afirmaram que, se ele sobreviver às próximas vinte e quatro horas, suas chances aumentam consideravelmente.

— Você se importa se eu voltar a ligar para ter mais notícias?

— Claro que não. Mas não preciso lhe dizer que isso está sendo mantido no mais absoluto sigilo, não é?

— Não, senhora.

Ele agradeceu e desligou, depois rezou em silêncio. Ele fora capaz de entreter a si mesmo e a Lily naquele dia, mas saber que Frank poderia morrer o mantivera preocupado, deixando-o triste. Ele não sabia o que poderia ter feito se não fosse por Lily. Só de estar com ela e preocupar-se em fazê-la rir foram coisas que o mantiveram distante das preocupações.

Seu coração ficava apertado ao imaginá-la, com dezoito anos, a mesma idade que seu filho Sam tinha no momento, sendo recrutada para assassinar uma pessoa a sangue-frio. Deus, quem tivera sido capaz de fazer uma coisa dessas com ela deveria levar um tiro. Aquele homem roubara sua chance de ter uma vida normal quando ela ainda era jovem demais para perceber o quão alto seria o preço que teria de pagar. Ele entendia como ela era vista como a arma perfeita, jovem, inexperiente e muito inocente, mas aquilo não era certo. Se ele algum dia ficasse sabendo o nome do homem — isso se ele tivesse dado a ela seu nome verdadeiro —, levaria em consideração sair à caça do cretino.

Seu telefone celular tocou. Ele franziu a testa, sentindo um vazio no estômago. Pelo amor de Deus, não podia ser a assistente de Frank dizendo que ele acabara de falecer...

Ele pegou o telefone e olhou para o número no visor. Era um número da França e ele se questionou quem estaria ligando para ele de lá, pois não era Lily — ela teria usado o próprio celular — e mais ninguém ali tinha seu número.

Ele o abriu e o posicionou entre seu maxilar e seu ombro, ao mesmo tempo em que mudava a marcha para entrar em uma rua.

— Sim.

Um homem disse com voz baixa e calma:

— Há um delator na sede da CIA onde você trabalha que está passando informações a Rodrigo Nervi. Achei que você deveria saber.

— Quem está falando? — Swain perguntou, alarmado, mas não obteve resposta. A pessoa já tinha desligado.

Xingando, ele fechou o telefone e o colocou de volta em seu bolso. Um delator? Merda! Não podia duvidar, no entanto, pois como o homem francês teria conseguido seu número? E quem ligara certamente era francês. Tinha falado em inglês, mas o sotaque era francês. Mas não de Paris. Swain captara o sotaque de Paris em um dia.

Um arrepio percorreu sua espinha. Será que tudo que ele pedira tinha sido passado diretamente a Rodrigo Nervy? Em caso afirmativo, qualquer direção que ele e Lily tomassem poderia levá-los direto a uma armadilha.

 

Swain andava de um lado para outro em seu quarto de hotel, e sua expressão bem-humorada tinha dado lugar a um ar sério e frio. O delator inimigo em Langley poderia ser qualquer pessoa: o assistente de Frank; Patrick Washington, de quem Swain gostara tanto que uma vez tinha conversado com ele; qualquer um dos analistas; os funcionários... puxa, até mesmo o vice-diretor, Garvin Reed. A única pessoa ali em quem Swain confiava completamente era Frank Vinay, que estava em coma e poderia não sobreviver. Com a revelação feita pela pessoa misteriosa, Swain teve de levar em consideração que o acidente de carro de Vinay talvez não tivesse sido acidental.

Mas, se ele pensara nisso, então provavelmente milhares de pessoas em Langley devem ter pensado a mesma coisa. E se o delator estivesse convenientemente em uma posição de onde pudesse limpar as suspeitas a respeito do acidente.

A questão, no entanto, era que acidentes eram variáveis, incertos, certamente não era o método mais confiável de eliminar uma pessoa; algumas pessoas saíam ilesas de acidentes que destruíam seus veículos. Por outro lado, se quisesse matar alguém, e evitar que as pessoas pensassem que tinha sido de propósito, você podia fazer com que os acontecimentos parecessem acidentais. A qualidade da encenação dependia da confiabilidade das partes envolvidas e da quantia de dinheiro por trás de tudo.

Mas como alguém poderia arquitetar um acidente de carro que matasse o diretor de operações? Logicamente, prever onde uma pessoa estaria em um determinado momento no trânsito de Washington D.C. era impossível, com as pequenas retenções, os problemas mecânicos e os pneus furados na cidade toda, que atrasavam e desviavam o trânsito. Além do fator humano, tal como perder a hora de acordar, parar em algum lugar do caminho para tomar café — ele não via como tal coisa poderia ter sido feita, como uma pessoa poderia cronometrar as circunstâncias com tamanha perfeição.

De qualquer modo, e com toda a certeza, o motorista de Frank não fazia o mesmo caminho para o trabalho todos os dias. Isso era fundamental. Frank não permitiria uma coisa dessas.

Então, logicamente, o acidente tinha de ser o que parecia ser: apenas um acidente.

O resultado era o mesmo. Se Frank sobrevivesse ou se morresse, neste momento estava afastado, incomunicável. Swain era um agente secreto há muito tempo, mas trabalhava em campo, trabalhou com muitos insurgentes e grupos militares na América do Sul; não tinha passado muito tempo na sede da CIA. Não conhecia muitas pessoas de lá, e elas não o conheciam. Ele sempre vira como uma vantagem o fato de raramente ir para lá, mas isso agora o colocava em uma situação difícil, porque não tinha ninguém em quem confiasse o bastante.

Portanto, não teria mais nenhuma ajuda de Langley, não poderia mais pedir informações. Ele tentou analisar o que isso significava naquela situação em particular. Conforme conseguia ver, ele tinha duas opções: acabar com Lily agora e completar sua missão, e rezar para que Frank vivesse a fim de encontrar aquele maldito delator, ou poderia ficar ali, ajudando Lily a burlar a segurança dos Nervi e tentar descobrir quem era o traidor. Entre as duas opções, ele preferia ficar ali. Em primeiro lugar, porque já estava ali e, por melhor que a segurança no laboratório Nervi fosse, não seria nada em comparação com a segurança em Langley.

E ali ele tinha Lily. Ela o tocava, impressionava e excitava mais do que ele esperava que pudesse acontecer. Sim, ele a achara atraente desde o princípio, mas, quanto mais tempo passava com ela, quanto mais a conhecia, mais intensa a atração se tornava. Ele estava indo cada vez mais fundo com ela, mais do que havia planejado, mas ainda não bastava. Ele queria mais.

Então ele ficaria e faria o melhor que conseguisse para resolver as coisas, totalmente sozinho. Concordara em ajudar Lily em seu plano de entrar no laboratório por curiosidade — além de um grande desejo de levá-la para a cama —, mas agora precisava encarar aquilo com seriedade. E não estava totalmente sozinho; tinha Lily, que não era uma novata, e também tinha essa pessoa misteriosa que ligara. Fosse lá quem fosse, o cara estava muito bem posicionado para saber o que estava acontecendo e, ao alertar Swain, ele tinha se colocado no lado dos anjos.

Graças àquela função muito útil do telefone celular, de guardar os números das ligações recebidas, Swain tinha o telefone do cara e poderia saber de quem se tratava. Hoje em dia, era quase impossível fazer qualquer movimento sem deixar vestígios eletrônicos ou em papel em alguma parte. Às vezes, isso era uma vantagem, às vezes uma desvantagem, dependendo de se você estivesse procurando ou se escondendo.

Era possível até que o cara do telefone soubesse o nome do delator, mas Swain não acreditava nessa hipótese. Caso contrário, para que lhe daria um aviso tão vago? Se ele tinha se importado o bastante para avisar a Swain, então teria dado o nome do delator, se o tivesse.

Mas às vezes uma pessoa sabe de coisas que não percebe saber, informações e detalhes que ela simplesmente não conecta de modo coeso. A única maneira de descobrir seria perguntando.

Ele não quis ligar para esse informante desconhecido usando seu celular, correndo o risco de que o cara não quisesse falar com ele e não atendesse depois de ver seu número no identificador. Da mesma forma, não queria que o homem soubesse que ele estava hospedado no Bristol; precisava ser seguro. Ele havia comprado um cartão telefônico no dia em que chegou à França, acreditando que nunca o usaria, mas se precavendo no caso de seu celular ficar sem bateria repentinamente. Saindo do hotel, ele desceu a Faubourg-Saint-Honoré, ignorando o primeiro telefone público e escolhendo um mais adiante.

Ele estava sorrindo ao fazer o telefonema, mas não estava se divertindo. Era mais como a boca de um crocodilo que se fechava para comer sua presa. Ele olhou para o relógio de pulso enquanto ouvia o telefone chamando: 1h43 da madrugada. Ótimo. Provavelmente tiraria o cara da cama, e era o que ele merecia por ter desligado na cara de Swain daquele jeito.

— Sim?

A voz parecia cansada, mas Swain a reconheceu.

— Olá — disse amistosamente, em inglês. — Não acordei ninguém, não é? Não desligue agora. Fique na linha e tudo o que vai receber é um telefonema. Se desligar, vai receber uma visita.

Houve uma pausa.

— O que você quer? — Diferentemente de Swain, o homem do outro lado da linha falava francês; Swain ficou contente por saber o suficiente do idioma para se virar.

— Nada muito importante. Só quero saber tudo que você sabe.

— Um momento, por favor. — Swain ouviu o homem falando em voz baixa com alguém, uma mulher. Apesar de ter sido difícil entender o que ele dizia com o telefone afastado de sua boca, Swain acreditou ter ouvido algo como "pegue o telefone lá embaixo".

Ah! Então, ele estava em casa.

Então, o homem voltou ao telefone, dizendo rapidamente:

— Sim? Como posso ajudá-lo? Disfarçando para a sua esposa, Swain pensou.

— Pode me dar um nome, para começo de conversa.

— Do delator? — Ele devia estar longe de sua esposa, porque voltara a falar em inglês.

— Certamente, mas estava querendo o seu. O homem fez mais uma pausa.

— Seria melhor que você não soubesse.

— Melhor para você, sim, mas não estou preocupado em poupá-lo.

— Mas eu estou, monsieur. — Ele foi firme; o cara não era bobo. — Estou colocando em risco a minha vida e a das pessoas de minha família. Rodrigo Nervi não perdoa quem o trai.

— Você trabalha para ele?

— Não. Não diretamente.

— Estou um pouco confuso. Ele lhe dá dinheiro ou não. E aí?

— Se eu der certas informações a ele, monsieur, ele não matará minha família. Sim, ele me paga; o dinheiro me incrimina ainda mais, não é? — disse isso com uma certa amargura. — É uma garantia de que não vou entregá-lo.

— Entendi. — Swain parou um pouco de agir como o cara esperto e durão — ou pelo menos controlou seu comportamento —, o que lhe era tão natural que provavelmente não se tratava de encenação. — Tem uma coisa que não consigo entender. Como Nervi sabia que eu estava aqui para ficar perguntando sobre mim? Acredito que foi assim que meu nome surgiu, e como ele conseguiu meu telefone.

— Ele estava pesquisando a identidade de um de seus agentes secretos. Acredito que tenha sido um programa de identificação facial que a tenha identificado. O informante acessou o arquivo dela e havia uma observação de que você tinha sido enviado para resolver o problema que ela causou.

— Como ele sabia que ela era uma agente secreta?

— Não sabia. Estava usando diversos modos diferentes de identificá-la.

Então foi assim que Rodrigo tinha conseguido uma foto de Lily sem o disfarce que ela usara com Salvatore. Ele sabia como Lily era e seu nome verdadeiro. Swain perguntou:

— Nervi sabe meu nome?

— Não sei. Sou um intermediário entre a CIA e Nervi, mas não dei seu nome a ele. Ele quis saber como poderia entrar em contato com você.

— Pelo amor de Deus. Para quê?

—- Para lhe fazer uma proposta, penso eu. Muito dinheiro em troca de informações que você tiver sobre o paradeiro da mulher que ele procura.

— O que o fez pensar que eu aceitaria a proposta?

— Por que você pode ser contratado, não é?

— Não — Swain disse brevemente.

— Você não é um agente contratado?

— Não. — Ele não disse mais nada. Se a CIA o havia mandado, e ele não era um agente contratado, então só havia uma categoria na qual enquadrá-lo: agente secreto. Ele suspeitava que o cara era esperto o bastante para entender.

— Ah. — Ele ouviu a respiração pesada do homem. — Então tomei a decisão correta.

— Qual?

— Não dei a ele seu número de telefone.

— Apesar de sua família estar correndo perigo?

— Tenho uma pessoa que me ajudou. Trata-se de um outro Nervi, o irmão mais novo, que é... um pouco diferente dos outros de sua família. Ele é inteligente, e razoável. Quando lhe expliquei os riscos em contatar alguém que trabalhasse para a CIA, de que essa pessoa chegaria à conclusão de que a única forma de Rodrigo obter o telefone seria por meio de um funcionário da CIA — e, além disso, essa pessoa poderia ser muito fiel a seu país —, Damone viu que eu tinha razão. Ele disse que falaria a Rodrigo que essa pessoa da CIA — ou seja, você, é claro — tinha comprado um telefone celular aqui e ainda não o fornecera ao escritório, portanto não haveria um número de telefone disponível.

Aquilo fazia sentido, apesar de a explicação estar um tanto confusa. Rodrigo provavelmente não sabia que os agentes secretos, quando estavam fora de seus países, usavam telefones celulares internacionais seguros ou telefones de satélite.

Outra coisa também se encaixava perfeitamente nisso. Para que as informações fossem passadas da CIA por meio desse homem a Rodrigo Nervi, o interlocutor tinha de ocupar uma posição de onde pudesse pedir esse tipo de informação tão secreta — e tinha muito a perder se alguém descobrisse.

— Você é o quê? — ele perguntou. — Da Interpol?

Ele ouviu uma inspiração e pensou, triunfante: Bingo! Acertou na primeira. Parece que Salvatore Nervi tinha enfiado o dedo em lugares onde não deveria.

— Então, o que você está fazendo — ele disse — é responder a Nervi sem colocar sua família em risco. Não pode se recusar a fazer nada que ele peça, não é?

— Tenho filhos, monsieur. Talvez o senhor não entenda...

— Tenho dois; então, sim, eu entendo perfeitamente.

— Ele os mataria sem hesitar se eu não cooperasse. Nesse assunto com o irmão dele, eu não neguei um pedido; o irmão dele tomou uma decisão sobre isso.

— Mas, já que você tinha meu número, pensou que faria bom uso dele numa ligação anônima para me alertar sobre o informante.

— Oui. Uma investigação iniciada por uma suspeita interna é bem diferente de uma iniciada por fora, não e?

— Concordo. — Aquele cara queria que o informante fosse pego; queria aquele canal fechado. Devia estar se sentindo culpado pelas informações que passou ao longo dos anos e estava tentando se redimir de alguma forma.

— Você já causou muitos danos?

— À segurança nacional, muito pouco, monsieur. Quando eles pedem, eu tenho de oferecer pelo menos algumas informações interessantes, mas sempre removi as partes relevantes.

Swain aceitou aquela explicação. Afinal, o cara tinha consciência; caso contrário, não estaria ligando para alertá-lo.

— Você sabe o nome do informante?

— Não, nunca usamos nomes. Ele não sabe meu nome, tampouco. Quero dizer, nossos nomes verdadeiros. Temos nomes que usamos para nos identificar, é claro.

— Então, como ele consegue a informação para você? Acredito que ele a mande por canais; portanto, tudo que é mandado por fax ou que é escaneado teria de ser enviado a seus cuidados.

— Criei uma identidade fictícia no computador de minha casa para essas coisas que devem ser enviadas eletronicamente, o que é quase tudo. Raramente alguma coisa é mandada por fax. Uma coisa dessas poderia ser rastreada, isso se a pessoa soubesse pelo que procurar. Posso acessar a conta de meu... a palavra me foge. O pequeno computador de mão no qual uma pessoa coloca seus compromissos...

— PDA — Swain disse.

— Oui. O PDA — dito com um sotaque francês, era pei d'ay.

— O número que você usa para contatá-lo...

—Acredito que seja um telefone celular, já que sempre consigo encontrá-lo quando ligo.

— Você já teve esse número rastreado?

— Não investigamos, monsieur, coordenamos.

Swain sabia bem que a Interpol proibia diretamente a organização de conduzir a própria investigação. Esse cara tinha acabado de confirmar que era da Interpol, mas Swain já não tinha mais dúvidas.

— Tenho certeza de que o telefone celular estaria registrado sob um nome falso — o francês continuou. — Isso seria fácil de ele fazer, acredito eu.

212

— Em um estalar de dedos — Swain concordou, passando a mão sobre seu nariz. Uma carteira de motorista seria fácil de conseguir, principalmente para as pessoas em sua área de trabalho. Lily tinha usado três identidades diferentes para escapar de Rodrigo. Para uma pessoa que trabalhava em Langley, qual seria a dificuldade nisso?

Ele tentou pensar nos diversos meios disponíveis para prender aquele cara.

— Com que freqüência vocês se comunicam?

— Às vezes, passamos meses sem contato. Mas nos falamos duas vezes nos últimos dias.

— Então, um terceiro contato em breve não seria comum?

— Muito incomum. Mas será que ele suspeitaria? Pode ser que sim, pode ser que não. O que está pensando?

— Estou achando, monsieur, que o senhor está entre a cruz e a espada e gostaria de sair dessa. Estou certo?

— A cruz e a...? Ah, eu entendo. Eu gostaria muito.

— O que eu preciso é de uma gravação de sua próxima conversa com ele. Desligue o gravador enquanto estiver falando, se quiser.

O conteúdo da conversa não importa, apenas sua voz.

— Você terá um gráfico de impressão vocal.

— Sim. Também vou precisar do gravador que você usar. E então tudo que eu tenho de fazer é encontrar uma voz que combine. — A análise da impressão vocal era bem exata; esses programas e os de reconhecimento facial tinham sido usados para diferenciar Saddam Hussein de seus dublês. Uma voz era um produto da estrutura da garganta de cada pessoa, das fossas nasais, da boca e eram difíceis de falsificar. Nem mesmo os sonoristas conseguiam imitar com precisão uma voz. As variáveis vinham com as diferenças entre microfones, gravadores, escutas e por aí em diante. Usar o mesmo gravador facilitava a identificação.

— Estou disposto a fazer isso — o francês respondeu. — É perigoso para mim e para a minha família, mas acredito que o risco seja controlável, com sua cooperação.

— Obrigado — Swain disse com sinceridade. — Você está disposto a ir um pouco além e talvez afastar uma ameaça?

Houve uma pausa muito longa; então ele disse:

— Como o senhor faria isso?

— Você tem contatos em quem confia?

— Mas é claro!

— Alguém que talvez pudesse encontrar as especificações de um sistema de segurança em um certo prédio?

— Especificações?

—A planta do sistema. Detalhes técnicos.

— Esse prédio pertence à organização Nervi?

— Sim. — Swain deu a ele o nome do laboratório e o endereço.

— Verei o que consigo fazer.

 

Lily sorriu quando seu telefone tocou na manhã seguinte. Esperando uma nova ligação meio séria e meio obscena de Swain, ela não checou o número no identificador de chamadas antes de atender. De brincadeira, ela mudou sua voz para um tom grave, quase masculino, e soltou um impaciente "Alô" ao atender.

— Mademoiselle Mansfield? — a voz que ela ouviu não era de Swain; era uma voz que tinha sido eletronicamente distorcida e as palavras soavam como se saídas de um tambor.

Lily ficou paralisada com o choque e sem conseguir pensar. Já ia desligar o telefone, mas manteve a calma. Só porque alguém tinha o número de seu celular não significava que sabiam como localizá-la. O telefone estava registrado em seu nome verdadeiro; o apartamento e tudo relacionado a ele estavam no nome de Claudia Weber. Na verdade, era um bom sinal a pessoa ao telefone referir-se a ela como "Mansfield"; isso significava que sua identidade Claudia ainda era segura.

Quem tinha acesso àquele número de telefone? Era seu celular, que ela usava apenas para assuntos pessoais. Tina e Averill tinham o número, é claro, e Zia; Swain também. Quem mais? Antigamente ela tinha um grande círculo de conhecidos, mas isso foi na era pré-celular; desde o dia em que encontrara Zia, o círculo de conhecidos foi ficando cada vez menor, conforme ela foi se dedicando à menina e ainda menor depois de seu envolvimento desastroso com Dmitri. Ela não conseguiu pensar em mais nenhuma pessoa que tivesse aquele número, além de Swain.

— Mademoiselle Mansfield — a voz distorcida voltou a perguntar.

— Sim? — Lily respondeu, fazendo um esforço para manter a calma. — Como conseguiu este número?

Ele não respondeu, mas disse em francês:

— Você não me conhece, mas eu conheci seus amigos, os Joubran.

As palavras soavam estranhas, além da distorção que a disfarçava, como se a pessoa do outro lado da linha tivesse dificuldades para falar. Ela ficou ainda mais tensa ao ouvi-lo falar de seus amigos.

— Quem é você?

— Desculpe-me, mas isso deve ser mantido em segredo.

— Por quê?

— É mais seguro.

— Mais seguro para quem? — ela questionou secamente.

— Para nós dois.

Tudo bem, ela poderia tolerar aquilo.

— Por que ligou?

— Fui eu quem contratou seus amigos para destruir o laboratório. Não tinha a intenção de que acontecesse o que acabou acontecendo. Ninguém deveria ter morrido.

Novamente chocada, Lily procurou a cadeira atrás de si e soltou seu corpo pesadamente nela. Ela queria respostas e, sem aviso, elas estavam vindo de mão beijada. A frase "cavalo dado não se olha os dentes" se misturou com "cuidado com presente de grego".

Então, o que era a pessoa que estava fazendo a ligação, figurativa-mente falando: um cavalo ou um grego?

— Por que você os contratou? — ela perguntou por fim. — Ou melhor, por que está me ligando?

— Seus amigos obtiveram êxito na missão, temporariamente. Infelizmente, a pesquisa foi recomeçada e deve ser detida. Você tem um motivo para querer vencer: vingança. Foi por isso que matou Salvatore Nervi. Assim, eu gostaria de contratá-la para completar a missão.

Um arrepio percorreu sua espinha. Como ele sabia que ela tinha matado Salvatore? Ficou tentada a perguntar, mas seguiu por outro caminho. Concentrou-se no restante da frase. Aquele homem queria contratá-la para fazer o que ela já planejava fazer. A ironia daquilo quase a fazia rir, mas se sentiu mais amargurada do que alegre.

— Que missão é essa?

— Existe um vírus, da gripe aviária. O dr. Giordano o alterou para torná-lo transmissível entre seres humanos, para criar uma pandemia e, assim, uma grande demanda da vacina que ele também desenvolveu. As pessoas não têm resistência a esse vírus; a humanidade nunca se deparou com ele. Para criar ainda mais pânico, o dr. Giordano, de algum modo, conseguiu torná-lo mais severo para as crianças, que não têm o sistema imunológico tão bem desenvolvido quanto os adultos. Milhões de pessoas morrerão, mademoiselle. Será uma pandemia maior do que a de 1918, que, acredita-se, tenha matado vinte a cinqüenta milhões de pessoas.

Torná-lo mais severo para as crianças. Zia. Lily estava certa ao pensar que era algo relacionado a Zia que tinha levado Averill e Tina ao ato que resultará em suas mortes. Ao tentarem proteger Zia, tinham causado sua morte. Ela queria gritar por causa da injustiça daquilo tudo, da ironia. Ela cerrou o punho, lutando para se controlar, brigando para conter a fúria e a dor que vinham fortes como a lava de um vulcão.

— O vírus foi desenvolvido perfeitamente. Assim que a vacina ficar pronta, os lotes serão entregues em todas as partes do mundo, nas maiores cidades, onde o contato humano é maior. O vírus vai se espalhar rapidamente. Quando o pânico estiver instalado no mundo todo, milhares, talvez milhões de pessoas terão morrido. E então o dr. Giordano anunciará que desenvolveu uma vacina para a gripe aviária, e a organização Nervi poderá colocar o preço que quiser. Eles farão fortuna.

Sim, fariam. Era óbvio. Controlar o estoque e então criar uma demanda para ele. De Beers fizera o mesmo com diamantes; ao limitar a quantidade de diamantes disponíveis no mercado, eles mantiveram o preço muito alto. Os diamantes não eram raros, mas a distribuição era controlada. Era quase a mesma situação com o petróleo e a OPEC, mas, no caso do petróleo, o mundo tinha criado sua própria demanda.

— Como sabe de tudo isso? — ela perguntou com raiva. — Por que não informou às autoridades?

Houve uma pausa; então, a voz distorcida disse:

— Salvatore Nervi tinha muitas ligações políticas, pessoas em cargos importantes que lhe deviam muitos favores. Esse mesmo laboratório está desenvolvendo a vacina contra o vírus, portanto a existência do vírus ali está explicada. Não havia prova que fosse mais forte que a influência dele. Por isso fui forçado a contratar profissionais.

Infelizmente, era verdade; havia muitos políticos influentes que comiam na mão de Salvatore, tornando-o intocável.

Também era verdade que ela não fazia idéia de quem era a pessoa com quem estava conversando, se ele estava sendo sincero ou se Rodrigo tinha encontrado seu número de celular e estava usando aquela desculpa para encontrá-la. Ela seria muito tola se aceitasse tudo o que aquele homem lhe dissesse de cara.

— Aceita? — ele perguntou.

— Como posso dizer sim sem saber quem é você? Como posso confiar em você?

— Eu entendo seu problema, mas não tenho solução.

— Não sou a única pessoa que você poderia contratar.

— Não, mas sua motivação talvez seja maior e, além disso, você está aqui agora. Não tenho de perder tempo procurando outra pessoa.

— Tina Joubran era especialista em sistemas de segurança. Eu não sou.

— Não precisa ser. Fui eu quem deu aos Joubran os detalhes do sistema de segurança dentro do laboratório.

— O sistema deve ter mudado após o incidente em agosto.

— Foi mesmo. Já consegui essa informação também.

— Se sabe de tudo isso, deve entrar no laboratório. Poderia destruir o vírus.

— Tenho razões para não fazer isso.

Novamente, ela percebeu uma certa dificuldade em sua fala e, de repente, lhe veio à mente que seu interlocutor poderia ter algum impedimento físico.

— Vou lhe pagar um milhão de dólares americanos para esse trabalho.

Lily esfregou sua testa. Aquilo estava errado, a quantia era elevada demais. Seus instintos começaram a se alarmar.

O homem continuou ao notar que ela nada diria:

— Tem mais uma coisa. O dr. Giordano também deve ser morto. Se ele continuar vivo, vai refazer suas pesquisas com o vírus. Tudo deve ser destruído: o médico, suas pesquisas, seus arquivos de computador, o vírus. Tudo. Cometi um erro da primeira vez não pedindo tudo isso.

Repentinamente, um milhão de dólares não lhe pareceu tão impossível. Tudo que ele dissera até agora era razoável e respondia a muitas das perguntas que ela tinha, mas a atenção instintiva a manteve na defensiva. Tinha de haver um jeito de ela se proteger se aquilo fosse uma armadilha, mas aquela ligação a pegara despreve-nida e ela não tinha conseguido ordenar seus pensamentos. Precisava pensar em tudo antes de tomar uma decisão.

— Não posso lhe responder agora — ela disse. — Preciso pensar em várias coisas.

— Compreendo. Isso poderia ser uma armadilha. Você é inteligente e pensará em todas as possibilidades, mas o tempo é um problema. Acredito que o serviço que lhe ofereci já fosse um objetivo seu e que você tem mais chances de atingir com a minha ajuda. Quanto mais esperar, maiores serão as chances de Rodrigo Nervi conseguir encontrá-la. Ele é inteligente, implacável, e dinheiro para ele não é problema. Ele tem pessoas em todos os cantos de Paris, na Europa toda, nas lojas e em delegacias de polícia. É uma questão de tempo até ele encontrá-la. Com o que vou lhe pagar, você terá como desaparecer.

Ele tinha razão. Um milhão de dólares melhoraria e muito sua situação. Mas ela ainda não podia aceitar a proposta, não podia ignorar a possibilidade de a isca anular seu bom senso e acabar levando-a ao anzol.

— Pense em tudo isso. Vou ligar novamente amanhã. Você deve me dar uma resposta ou terei de procurar outra solução.

A conexão foi interrompida. Automaticamente Lily checou seu registro de chamadas recebidas, mas não se surpreendeu ao ver que a informação tinha sido bloqueada; um homem que tinha um milhão de dólares para contratar um sabotador tinha também como se manter bastante protegido.

Mas será que uma pessoa tão rica trabalhava no laboratório? Não era possível. Então, como ele tinha aquela informação? Como conseguira os esquemas do sistema de segurança?

Quem era ele e como conseguira saber aquilo eram coisas muito importantes. Ele podia muito bem ser um parceiro no esquema de Salvatore que mudou de idéia ao pensar em todos os inocentes que morreriam — apesar de que, na opinião de Lily, pessoas como os Nervi e sua corja simplesmente não se preocupavam com quantos morressem, contanto que alcançassem seu objetivo.

Ou será que o próprio Rodrigo Nervi havia conversado com ela, para contar a verdade do que tinha acontecido e colocar suas mãos nela? Ele era inteligente e corajoso o bastante para criar tal enredo e interpretá-lo, a fim de torná-lo completamente realista, como dizer a ela que matasse o dr. Giordano.

Rodrigo Nervi também tinha como encontrar o número de seu telefone celular, que, por questão de segurança, ela não tinha listado nas Pages Blanches, a lista telefônica francesa.

Seus dedos tremiam enquanto ela telefonava para Swain.

Ao terceiro toque, ela ouviu sua voz sonolenta:

— Bom-dia, gata.

— Tenho novidades — ela disse com a voz tensa, ignorando sua saudação. — Precisamos conversar.

— Quer que eu vá buscá-la ou quer vir até aqui? — Ele parecia assustado.

— Venha me buscar — ela disse; o alerta sobre Rodrigo ter homens em todos os cantos a deixara nervosa. Sabia disso e tinha se sentido segura andando de trem, cobrindo seu cabelo e usando óculos escuros, mas ser procurada tão facilmente por alguém que sabia tudo a deixava tensa. A maioria dos parisienses usava os trens, porque o trânsito era um pesadelo. Colocar pessoas vigiando as estações de trem à procura de alguém com a descrição dela era muito fácil.

— Dependendo do trânsito, estarei aí em... ah, entre uma hora e dois dias.

— Me ligue quando estiver próximo e eu o encontrarei na rua — ela disse e desligou sem responder à piada.

Ela tomou um banho e se vestiu, pôs a calça e as botas de sempre. Ao olhar pela janela, avistou um céu ensolarado; ainda bem, pois não chamaria a atenção usando óculos. Prendeu seu cabelo para que pudesse usar um chapéu, e então se sentou na pequena mesa e analisou sua arma meticulosamente, colocando mais munição na bolsa. Aquela ligação realmente a assustara, algo que não acontecia com muita freqüência.

— Daqui a cinco minutos estarei aí — Swain avisou uma hora e quinze minutos depois.

— Estarei esperando — Lily respondeu. Ela colocou o casaco, o chapéu, seus óculos escuros, pegou sua bolsa e se apressou para descer. Pôde ouvir o som de um motor de carro potente passando pela rua estreita, em uma velocidade alta, e então o carro prateado apareceu e parou bem na frente dela com uma freada brusca. Andou novamente quase antes de ela fechar a porta.

— O que houve? — Swain perguntou, sem o ar brincalhão de antes. Ele também estava de óculos escuros e dirigia o carro com rapidez, mas sem brincadeiras.

— Recebi uma ligação em meu celular — ela disse enquanto colocava seu cinto de segurança. — Não dei o número para mais ninguém além de você, por isso atendi sem olhar quem era. Não teria adiantado nada, ele estava protegido. A voz estava eletronicamente distorcida, mas era um homem e ele me ofereceu um milhão de dólares americanos para eu destruir o laboratório Nervi e matar o cientista responsável.

— Continue — ele disse, diminuindo a marcha para fazer uma curva fechada.

Ela contou o resto para ele, incluindo todos os detalhes de que se lembrava. Quando ela chegou na parte do vírus da gripe aviária, ele disse em voz baixa:

— Filho-da-puta — e ouviu o restante sem fazer comentários. Quando ela terminou, ele disse:

— Vocês conversaram por quanto tempo?

— Cinco minutos, mais ou menos. Talvez um pouco mais.

— O bastante para encontrar sua localização, então. Não a localidade exata, mas a região. Se tiver sido Nervi, ele pode encher a área de pessoas com sua foto e acabar te pegando.

— Não tenho nenhum conhecido aqui. O apartamento foi alugado de uma pessoa que está fora do país.

— Isso ajuda, mas seus olhos são muito chamativos. Você deve ser meio siberiana. Qualquer pessoa que a veja lembrará desses olhos.

— Obrigada — ela disse secamente.

—Acho que você deve pegar o que precisa de seu apartamento e ficar comigo de agora em diante. Pelo menos até que ele ligue. Se for coisa dos Nervi e ele conseguir rastrear seu telefone, será em um distrito totalmente diferente e isso vai confundi-lo.

— Então, ele vai pensar que estou me mudando constantemente, sem parar em um lugar só.

— Se tivermos sorte. É possível que o próprio hotel interfira no rastreamento do sinal. Prédios grandes sempre atrapalham os meios eletrônicos.

Ficar com ele. Era um bom plano; eles estariam juntos, ela não teria de fazer o check-in e quem estaria à sua procura em um hotel de luxo?

Havia muitos prós no plano e apenas um contra. Era bobagem de sua parte se apegar a isso, mas ainda estava relutante quanto a ter intimidades com ele, e não era ingênua o suficiente para acreditar que isso não aconteceria se eles estivessem dividindo o mesmo quarto. Havia coisas mais importantes com que se preocupar além de adivinhar se eles fariam sexo, mas ela ainda estava em dúvida.

Ele lhe lançou um olhar sério e certeiro que dizia que estava lendo sua mente, mas não se apressou em acalmá-la dizendo que ele não colocaria as mãos nela ou que não tentaria tirar vantagem da situação. É claro que ele tiraria vantagem. Estava quase dito.

— Tudo bem — ela disse.

Ele não demonstrou malícia nem sorriu. Apenas disse:

— Ótimo! Agora me conte tudo sobre o vírus da gripe aviária mais uma vez; na verdade, conheço uma pessoa em Atlanta que pode me dizer se tudo isso é viável, antes de nos apressarmos a salvar o mundo por causa de um esquema inútil.

Ela repetiu tudo que se lembrava enquanto ele voltava pelas estreitas ruas que levavam ao apartamento dela. Parando o veículo no meio-fio, ele perguntou:

— Quer dirigir por uns cinco minutos enquanto eu subo e vejo se há alguém em seu apartamento?

Lily deu um tapinha em sua bota.

— Obrigada, mas posso fazer isso sozinha.

— Vou ficar dando voltas, isso se nada estiver bloqueando o caminho. E vou fazer aquela ligação nesse meio-tempo.

— Por mim, tudo bem. — Ela subiu as escadas que tinha descido há menos de uma hora. Ao sair do apartamento para encontrar Swain pela primeira vez aquela manhã, ela tinha tirado um fio de cabelo, molhou-o e o colocou entre a porta e o batente dois centímetros acima do chão. O fio de cabelo louro era tão invisível quanto uma linha de pescar. Ela se abaixou para olhar e respirou aliviada. O cabelo ainda estava lá. O apartamento estava seguro. Destrancando a porta, ela entrou e correu, recolhendo suas roupas e pertences pessoais, tudo que achava que fosse precisar. Só Deus sabia quando ou se ela conseguiria voltar para pegar o resto de suas coisas.

 

Há alguns velhos amigos cujos números de telefone Permanecem conosco para sempre. Micah Sumner não era um deles. No entanto, enquanto Lily estava em seu apartamento pegando suas roupas, Swain tentava dirigir pelas ruas estreitas, mudando a marcha e apertando uma seqüência de números que parecia não acabar mais ao passar pelas barreiras eletrônicas necessárias para conseguir informações nos Estados Unidos, tudo ao mesmo tempo. Então, ele não tinha como anotar o número, muito menos uma terceira mão que precisaria para fazer tudo; por isso, quando a gravação perguntou se ele gostaria de ser transferido, ele respondeu:

— Merda, quero — e apertou o número que correspondia a isto.

No quinto toque, Swain começou a duvidar que alguém atenderia. Mas, no sexto toque, houve um som de alguém se atrapalhando com o telefone e uma voz sonolenta disse:

— Sim, alô.

— Micah, aqui é Lucas Swain.

— Puxa vida, fílho-da-puta. — Ouviu um grande bocejo. — Faz um tempão que não tenho notícias suas. Gostaria de continuar sem saber. Por acaso, sabe que horas são?

Swain olhou para o seu relógio.

— Vejamos, são nove horas aqui, então devem ser... três da manhã aí, certo?

— Cretino. — Isso foi dito com outro bocejo. — Tudo bem, por que me acordou? É melhor que tenha um bom motivo.

— Não tenho certeza se tenho ou não. — Swain encaixou o telefone entre seu maxilar e seu ombro para mudar de marcha. — O que você sabe sobre a gripe aviária?

— Gripe do frango? Você está tirando sarro da minha cara, né?

— Não, estou falando seríssimo. Ela é perigosa?

— Não para animais selvagens, mas para os domésticos. Você se lembra de ter visto no telejornal muitos anos atrás... 1997, acredito eu... houve um aumento repentino de gripe aviária em Hong Kong e eles mataram quase dois milhões de frangos para se livrar dela?

— Era meio difícil assistir à televisão onde eu estava morando na época. Então, matava pássaros?

— Sim. Não cem por cento deles, mas o bastante. O problema é que às vezes o vírus sofre uma mutação e é transmitido de pássaros para seres humanos.

— É mais perigosa do que a gripe normal?

— Muito mais. Se for um vírus ao qual o corpo humano não tenha se exposto ainda, então não há resistência do sistema imuno-lógico a ele e você fica muito doente. Então ou você morre ou não.

— Que consolador!

— Estamos tendo sorte até agora. Tivemos algumas mutações que permitem a transmissão de pássaro para ser humano, mas nenhum conseguiu se transformar para ser transmissível entre seres humanos. Como eu disse, até agora. Estamos esperando há muito tempo que um vírus recombinante nos pegue com força, mas o vírus da gripe aviária que tem atingido Hong Kong não parece de fato com o vírus da gripe aviária. Mas também está infectando pessoas. Se ele sofrer uma mutação pequena que é necessária para o contágio entre seres humanos, então estaremos numa grande enrascada, pois nesse caso teríamos ainda menos resistência a ele do que teríamos para um vírus recombinante do qual conhecêssemos pelo menos uma parte.

— E as vacinas para ela? — Swain fez uma curva e chegou ao prédio de Lily, mas ela não estava na rua com todas as suas coisas, então ele passou direto pelo prédio, para dar mais uma volta.

— Não temos. Os novos vírus aparecem rápida e implacavelmente; as vacinas levam meses para serem testadas, para serem liberadas para a população. Quando conseguíssemos encontrar uma vacina eficiente para um vírus da gripe, muitas pessoas já teriam morrido. É ainda mais difícil desenvolver uma vacina contra a gripe aviária do que para os vírus comuns da gripe, pois as vacinas são cultivadas em ovos e — adivinhe? — a gripe aviária mata os ovos.

— O Centro de Controle e Prevenção de Doenças está preocupado com isso?

— Está brincando? A gripe mata muito mais pessoas do que os casos extremos que chamam a atenção da mídia, como a febre hemorrágica.

— Então, se algum laboratório ou algo do tipo desenvolvesse a vacina com antecedência, e exterminasse o vírus, conseguiria ganhar bastante dinheiro?

— Ei, espere aí. — Toda a sonolência tinha desaparecido do tom de voz de Micah. — Swain, está me dizendo o que estou pensando? Existe a possibilidade de isso acontecer?

— Acabei de saber; ainda não chequei sua veracidade. Não sei se tem a ver com gripe aviária. Só queria saber se isso é viável.

— Viável? É brilhante, mas é um pesadelo maldito. Escapamos nos últimos anos, apenas os vírus comuns da gripe apareceram, mas estamos ansiosos e tentando encontrar um método confiável de produzir a vacina antes que uma dessas coisas horrorosas nos acometa. No mundo todo, até mesmo com as drogas antivirais e os remédios para tratar essas complicações, milhões morreriam.

— Afetaria mais as crianças?

— Certamente. As crianças não têm o sistema imunológico tão desenvolvido quanto os adultos. Elas não foram expostas a tantos vírus.

— Obrigado, Micah, era o que eu precisava saber. — Não era o que gostaria de ter escutado, mas pelo menos agora ele sabia com o que estava lidando.

— Não desligue! Swain, tem alguma coisa do tipo acontecendo? Você tem de me dizer, cara, não pode deixar que sejamos pegos de calças curtas por algo assim.

— Não vou deixar. — Assim esperava; teria de tomar algumas precauções à prova de falhas. — É apenas um boato, nada concreto. A temporada de gripe já começou, não e?

— Sim, até agora está tudo aparentemente normal. Mas, se descobrir que tem algum filho-da-mãe tentando fazer uma fortuna com isso, gostaríamos de saber.

— Vocês serão os primeiros — Swain mentiu. — Vou ligar para você na próxima semana e lhe contar o que está acontecendo, bom ou ruim. — Ele ligaria, mas Micah provavelmente não seria o primeiro.

— Mesmo que seja às três da manhã — Micah resmungou.

— Tudo bem. Obrigado, amigo.

Swain desligou e colocou o telefone em seu bolso. Que droga! Tudo bem, então o esquema contado para Lily não somente era possível, como um problema real. Swain tentou pensar em caminhos alternativos de enfrentá-lo. Não podia telefonar para Langley porque Frank não estava lá, havia um maldito delator ali que estava passando informações para Rodrigo Nervi, e ele não fazia idéia de em quem podia confiar. Se Frank estivesse lá... bem, uma ligação e o laboratório todo estaria destruído no dia seguinte, mas Frank não estava lá, por isso Swain tinha de destruí-lo por conta própria. De algum jeito.

Ele poderia ter dado os detalhes a Micah, mas o que ele poderia fazer? Nada além de alertar a Organização Mundial da Saúde. Mesmo se a Organização Mundial da Saúde pedisse que uma batida policial fosse feita sem que alguém da polícia local avisasse os Nervi primeiro, sim, eles encontrariam o vírus, mas o laboratório Nervi estava desenvolvendo uma vacina para o vírus, portanto era claro que o vírus teria de estar ali para ser testado etc. Era um bom esquema, logicamente arrumando desculpas para explicar tais testes. Ele tinha de admirá-lo.

Ele voltou para o prédio e, dessa vez, Lily estava ali, carregando duas malas e uma bolsa bastante familiar, pendurada em seu ombro. Ele sorriu ao olhar para a bolsa. Se não fosse por ela, talvez ele nunca a tivesse encontrado.

Ele saiu do carro para guardar sua bagagem. Estavam pesadas, e ele percebeu que ela estava um pouco ofegante, e se lembrou de que o veneno tinha causado um dano em uma válvula de seu coração. Ele sempre se esquecia disso, porque ela era uma pessoa muito ágil, mas a verdade é que apenas duas semanas tinham se passado desde que ela matara Salvatore Nervi e quase morrera. Por menor que fosse o dano causado a seu coração, não havia como ela ter se recuperado em tão pouco tempo.

Ele a observou ao abrir a porta do carro para ela. Seus lábios não estavam roxos e suas unhas sem esmalte estavam rosadas. Ela respirava normalmente. Ela tinha feito esforço, subindo e descendo três lances de escada, então era óbvio que estivesse ofegante. Ele também estaria. Aliviado, ele a deteve quando ela estava pronta para entrar no carro. Ela olhou para ele com uma expressão questionadora e ele a beijou.

Sua boca era macia e ela se entregou a ele com tanto desejo que seus batimentos cardíacos se aceleraram. A rua não era um lugar apropriado para o jeito como ele queria beijá-la, mas ele se contentou com aquele breve gosto. Ela sorriu, um daqueles sorrisos completamente femininos que deixavam um homem embriagado, confuso e feliz, tudo ao mesmo tempo, e entrou no carro, fechando a porta em seguida.

— Merda — ele disse enquanto sentava-se ao volante. — Provavelmente terei de me livrar deste carro.

— Por que alguém pode ter me visto nele?

— Sim. Apesar de parecermos um casal saindo de férias, é melhor não corrermos o risco. Agora, que modelo devo escolher?

— Talvez algo um pouco menos chamativo, como um Lamborghini vermelho? —Aquilo não era justo, uma vez que o Mégane Renault não estava na mesma categoria de um Lamborghini, mas, ainda assim, era um carro chamativo.

Ele riu.

— Gosto de carros. Pode me processar.

— Você entrou em contato com seu amigo dos Estados Unidos?

— Sim, mas ele ficou reclamando da hora que liguei, por causa da diferença de fuso horário. A má notícia é que a mutação desse vírus não só é possível, como é o pior pesadelo do Controle e Prevenção de Doenças.

— Qual é a boa notícia?

— Não há nenhuma. A não ser que Nervi não libere o vírus até que a vacina esteja disponível, porque é claro que ele quer ser o primeiro a ser vacinado, certo? E uma vacina leva meses para ser desenvolvida. Já que seus amigos causaram danos ao programa em agosto e presumivelmente o cientista maluco teve de começar de novo, acredito que estamos certos ao pensar que eles não vão liberar o vírus durante essa temporada de gripe. Esperarão até o próximo ano.

Lily respirou aliviada.

— Isso faz sentido para mim. — Ela hesitou. — Estive pensando. Não conhecia esse vírus antes, mas agora... Isso não é algo que temos de fazer sozinhos. Apesar de não estar muito bem com a CIA no momento, poderia usar um telefone para ligar para meu ex-contato de lá, a fim de avisar o que está acontecendo. Eles poderiam lidar com algo dessa magnitude de um modo muito melhor que nós dois. Swain quase teve um ataque.

— Pelo amor de Deus, não faça isso! — O raciocínio dela estava correto, mas ela não sabia nada sobre o delator, e ele não poderia dizer a ela sem levantar suspeitas.

— Por que não? — Seu tom era mais de curiosidade do que de qualquer outra coisa, mas ele pôde sentir aqueles olhos azuis o atravessarem como laser. Ela conseguiria cortar aço com aquele olhar.

Ele não tinha uma boa razão na ponta da língua, e por um segundo pensou que tudo fosse vir à tona, mas teve uma idéia de gênio. Podia dizer a ela tudo que era essencial, sem contar a verdade toda. Tudo dependia de como explicaria.

— Você sabe que Nervi tem contatos e influência lá.

— Ele é um trunfo, um informante, mas...

— Mas também é um homem muito rico. Quais são as chances de alguém de lá estar em sua lista de informantes? — Era uma explicação simples e verdadeira. Só estava omitindo alguns detalhes. Ela virou-se em seu assento e disse: — As chances são grandes. Salvatore era meticuloso, e Rodrigo é ainda mais. Portanto, não devemos procurar ninguém, não é?

— Ninguém em quem posso pensar, que não faria parte de sua lista de informantes. Não a polícia francesa, nem a Interpol... — Ele parou de falar e deu de ombros. — Sei lá. Acho que temos de salvar o mundo sozinhos.

— Não quero salvar o mundo — ela disse com mau humor. — Prefiro coisas menores. Quero que seja algo pessoal.

Ele teve de rir, porque sabia a que ela se referia. Por mais que quisesse desmantelar a organização Nervi antes, agora ela precisava fazer aquilo.

O trabalho era muito mais difícil do que ele tinha imaginado no começo. Com um vírus como aquele para deter, a segurança estaria no mesmo nível da do Centro de Controle e Prevenção de Doenças, em Atlanta. Entrar exigiria mais do que apenas informação sobre o sistema de segurança; eles precisariam de ajuda interna. Como conseguir essa ajuda seria o problema.

— Teremos de acreditar que o cara que entrou em contato com você está por dentro de tudo — ele disse. — Caso contrário, estaremos perdidos.

— Estava pensando a mesma coisa — ela disse, surpreendendo-o. Às vezes, era assustador o modo como seus cérebros pareciam funcionar da mesma maneira e no mesmo ritmo. — A segurança instalada por causa do vírus será aumentada e o vírus em si, mantido em quarentena. Precisamos de alguém de dentro.

— Você terá de se encontrar com ele. É a única forma de sabermos que não se trata de Rodrigo Nervi. Se for Rodrigo, ele vai aproveitar a chance e levá-la com ele. Mas ele não sabe a meu respeito — bem, pode ser que ele imagine, depois do tiroteio do outro dia, mas ele não sabe como eu sou —, por isso posso ficar na retaguarda.

Ela lhe deu um leve sorriso.

— Se for Rodrigo, ele estará com tantos homens à espreita que você não vai conseguir fazer nada. Mas concordo que esse seja o único jeito. Vou ter de fazer isso. Mas, se for Rodrigo e eles me pegarem, faça-me um favor: mate-me. Não permita que eles me levem viva, porque acredito que Rodrigo vai querer usar e abusar de mim antes de me matar. Gostaria de pular essa parte.

Swain sentiu um nó no estômago ao imaginar Nervi colocando as mãos nela. Havia decisões difíceis que ele tinha de tomar, mas aquela não era uma delas.

— Não vou permitir que isso aconteça — ele disse em voz baixa.

— Obrigada. — Seu sorriso se alargou, como se ele a tivesse presenteado, e o nó de seu estômago apertou ainda mais.

Nenhum dos dois tinha tomado o café-da-manhã, e então depois de Lily colocar seus óculos e seu chapéu, eles pararam em uma cafeteria, comeram croissants e tomaram café. Ele a observou comendo, com o coração aos pulos, enquanto pensava se aquele seria o último dia que teria com ela. Ele pensara ser possível adiar aquele momento, mas as circunstâncias os apressavam. Se a pessoa do telefone fosse Rodrigo Nervi, não havia como eles saberem até que a reunião acontecesse, e então seria tarde demais.

Ele gostaria de encontrar outra maneira de fazer aquilo, mas não havia. A reunião tinha de acontecer. Ela teria de aceitar a proposta do homem quando ele entrasse em contato no dia seguinte, marcar o encontro. E então... eles saberiam se era Rodrigo ou outra pessoa. Deus do céu, ele rezava para que fosse outra pessoa. Queria mais do que um só dia com ela. Queria mais do que uma só noite.

Ele mesmo partia para cada trabalho acreditando que poderia ser o último, sabendo que, quando se trabalha com pessoas violentas, a violência pode se voltar contra você. Lily fazia o mesmo; colocava-se na linha de frente e assumia os riscos. Saber que era sua escolha estar ali não tornava a situação mais fácil.

Mas, se Nervi e seus capangas aparecessem e ele perdesse Lily, ele jurava por Deus que o filho-da-mãe pagaria. Pra valer.

 

Swain devolveu o Megane e, pela insistência de Lily, alugou um pequeno Fiat azul com quatro cilindros de uma locadora diferente. — Não! — ele respondeu horrorizado quando ela disse qual carro pretendia alugar. — Vamos pegar um Mercedes. Há muitos Mercedes na rua. — E teve outra idéia. —Já sei. Vamos alugar um Porsche. Talvez precisemos da potência. Ou um BMW. Os dois são bons.

— O Fiat — ela disse.

— Gesundheit,

Ela começou a esboçar um sorriso, mas conseguiu se conter.

— Você não quer nada chamativo.

— Quero sim — ele disse com teimosia. — Não importa quem me veja, porque ninguém sabe quem sou. Se eu estivesse procurando alguém, prestaria mais atenção às pessoas dirigindo um Fiat, porque é o tipo de carro que elas usam quando querem passar despercebidas.

Usando essa mesma teoria, ela havia colocado uma peruca ruiva como disfarce, então ele tinha razão. Mas agora a diversão estava tão grande que ela queria vê-lo dirigindo um dos Fiats menores por pelo menos um dia, apenas para saber até onde ele conseguia ir com suas reclamações.

— Você começou dirigindo um Jaguar, e hoje você me buscou em um Megane. Se alguém nos viu, qualquer pessoa que estivesse à sua procura já saberia que você gosta de carros potentes. Um Fiat seria o último modelo com que se importariam.

— Fala sério — ele reclamou.

— O Fiat é um carro bom. Podemos pegar um Stilo; é um carro esporte...

— O que quer dizer que posso ir pedalando com ele a 10kmh, em vez de cinco?

Ela teve de morder a língua para segurar o riso de tão ridícula que era a cena dele em um triciclo, suas pernas compridas dobradas até as orelhas enquanto pedalava como um doido.

Ele estava reclamando tanto que não queria ir para o balcão da locadora, até que ela se virou para ele e disse:

— Quer que eu alugue o carro com meu cartão de crédito? Rodrigo ficaria sabendo em menos de uma hora.

— O meu cartão de crédito pode expirar de vergonha por ter um carro desse tipo alugado com ele — disse, mas então endireitou os ombros e seguiu adiante resoluto. Ele não se abateu nem mesmo quando o carro foi trazido e teve todas as suas características apresentadas. O Fiat Stilo era um carro pequeno e veloz, com uma boa aceleração, mas Lily percebeu que Swain achava que o carro não tinha muita força no motor.

Ele guardou as malas dela enquanto Lily acomodava-se no banco do passageiro e prendia seu cinto de segurança. Swain colocou o banco para trás antes de entrar, para ter espaço para as pernas.

Ele enfiou a chave na ignição e ligou o motor.

— Ele tem um sistema de navegação — Lily apontou.

— Não preciso de um sistema de navegação. Consigo usar um mapa. — Engatou a primeira marcha e fez um barulho agudo ao acelerar. Infelizmente, o som que ele emitira era idêntico ao barulho de um motor, e Lily por pouco não conseguiu controlar seu riso. Ela tentou escondê-lo, passando a mão em seu nariz e virando a cabeça para olhar pela janela, mas ele viu seus ombros se chacoalhando e disse secamente:

— Fico feliz por alguém achar tudo isso engraçado. Estou hospedado no Bristol; você não acha que alguém de lá pode achar estranho que eu esteja dirigindo um Fiat, e não um carro mais requintado?

— Você é muito fresco com carros. Muitas pessoas alugam carros econômicos. É uma atitude inteligente.

—A menos que tenham de partir rapidamente e estejam sendo seguidos por carros com motores mais potentes. — Ele mantinha uma expressão séria. — Acho que fui castrado. Provavelmente não vou conseguir ter uma ereção enquanto estiver dirigindo isto.

— Não se preocupe — ela o confortou. — Se não conseguir, deixo você pegar o carro que quiser amanhã.

Como num passe de mágica, sua expressão ficou mais leve e ele começou a sorrir, mas logo o sorriso se transformou em uma careta de dor quando percebeu a escolha que ela acabara de lhe dar.

—Ai, que merda — ele reclamou. — Que coisa diabólica. Você vai para o inferno por pensar em uma coisa tão má.

Ela lançou-lhe um olhar inocente e meneou os ombros, em um gesto que dizia "E daí?". Ele mesmo havia encaminhado o assunto para o sexo; se não tinha gostado de aonde aquilo os levara, era sua culpa.

Ela ficou surpresa por ele ser tão divertido, levando em consideração o que estavam enfrentando, mas era como se tivessem entrado em um acordo de terem aquele dia apenas para eles, porque podia ser tudo o que teriam. Ela conhecia alguns assassinos de aluguel que, devido à natureza do trabalho que realizavam, viviam totalmente o presente. Ela nunca agira assim, mas naquele dia viu a necessidade de não se preocupar com o dia seguinte. Sentia algo muito bom enquanto observava as expressões dele, um reconhecimento do que poderia acontecer entre eles se tivesse a chance de permitir que o sentimento crescesse. Ele a fazia sentir-se suave por dentro e imersa em uma afeição que prometia tantas coisas que era quase assustadora. Ela poderia amá-lo, pensou. Já o amava, um pouco, por seu senso de humor e pura vontade de viver que conseguia tirar a alma dela do fundo do poço. Precisava rir, e ele lhe dera aquela chance.

— Vamos renegociar — ele disse. — Se conseguir levantá-lo, amanhã posso escolher um modelo diferente.

— E se não conseguir, até quando vai dirigir este? Ele riu e disse de modo brincalhão:

— Ah, claro, como se isso fosse acontecer.

— Então, cadê a negociação? — Lily passou a mão no banco. — Gosto desse carro. Estou gostando cada vez mais. Diferentemente de você, minha sexualidade não está ligada a uma máquina.

— Os homens não conseguem separar. Nascemos com um câmbio, e é nosso brinquedo favorito a partir do momento em que nossos braços se tornam longos o bastante para alcançá-lo.

— Este carro tem um câmbio — ela disse.

—Não seja tão técnica. Não há testosterona aqui. — Ele voltou a fazer o som agudo. — Viu? Ele é um soprano. Um soprano de quatro cilindros.

— É um ótimo carro para o trânsito da cidade. É fácil de dirigir, econômico, seguro.

Ele desistiu.

— Tudo bem. Você venceu. Vou dirigi-lo, mas vou precisar fazer terapia depois por causa do dano emocional que você está me causando.

Ela olhou diretamente pelo vidro da frente.

— Terapia de massagem?

— Hmmmm. — Pensou. — Sim, aceito. Mas vou precisar de muita.

— Acho que posso dar um jeito.

Ele sorriu e piscou para ela. Repentinamente, ela se questionou se não tinha atropelado as coisas e deixado que ele a convencesse a fazer algo sobre o qual ela não tinha cem por cento de certeza. A velha insegurança ainda a atrapalhava.

Com aquela estranha capacidade que ele tinha de adivinhar o que lhe passava pela mente, ele ficou totalmente sério e disse delicadamente:

— Não permita que eu a pressione a fazer alguma coisa que não queira. Se não quiser dormir comigo, só precisa dizer não.

Ela olhou pela janela.

— Você já quis alguma coisa e sentiu medo dela ao mesmo tempo?

— Você quer dizer algo como entrar em uma montanha-russa morrendo de vontade de se divertir, quando seu estômago já está revirado só de pensar na primeira descida?

Até mesmo as ansiedades que ele sentia estavam ligadas à diversão, ela pensou, e sorriu um pouco.

— Da última vez que me envolvi com um cara, ele tentou me matar. — Ela disse isso com tranqüilidade, mas o pesar e a tensão que ainda tomavam conta dela até então eram qualquer coisa, menos tranqüilos. Ele assoviou.

— Isso acabaria com seu dia, tudo bem. Ele era um maluco ciumento ou algo assim?

— Não. Foi contratado para me matar.

— Oh, querida — ele disse com uma tristeza verdadeira em sua voz, como se entendesse sua dor. — Sinto muito. Consigo entender sua precaução.

— Precaução é apelido.

— Extremamente temerosa?

— Demais.

Ele hesitou, como se não tivesse certeza de que queria saber.

— Até que ponto?

Ela deu de ombros e disse:

— Isso aconteceu há seis anos.

Swain se atrapalhou com o volante e o carro foi para o lado fazendo o motorista da outra pista buzinar em sinal de alerta.

— Seis anos? — Ele parecia incrédulo. — Faz seis anos que não se envolve com ninguém? Isso é levar a precaução ao extremo.

Ele podia pensar assim, mas não tinha sido quase morto por alguém que amava. Ela achava que nada poderia feri-la mais do que a traição de Dmitri, até que soube da morte de Zia.

Swain pensou um pouco mais sobre aquilo e disse:

— Eu me sinto honrado.

— Não se sinta assim. Eu não estaria tão envolvida com você se as circunstâncias não tivessem nos juntado — ela explicou. — Se tivéssemos nos encontrado socialmente, eu o teria descartado como fazemos com um jornal velho.

Ele coçou o lado de seu nariz.

— Você não se sentiria atraída por meu charme? Ela disse com voz grave:

— Você não teria se aproximado o suficiente para eu perceber o seu charme.

— Isso pode parecer um tanto insensível, mas, se é assim, fico feliz por você ter se metido em um tiroteio há alguns dias. Se você acredita em destino, então era para eu estar ali, sentado, entediado, quando você estava se dando mal.

— Ou foi o acaso. Precisamos ver se foi sorte ou azar — para você, é claro. — E talvez para ela também, apesar de ela achar que tinha de valorizar o que tinha acontecido, pois, mesmo que os eventos ficassem drasticamente ruins, pelo menos ela voltaria a sorrir em sua vida por um momento.

— Posso lhe dizer que foi a grande sorte que tive nos últimos tempos — ele disse.

Ela observou seu rosto e tentou imaginar como era ser ele, ser tão otimista e em paz consigo mesmo. Não conseguia se lembrar de ter se sentido daquele jeito desde que era adolescente, apesar de ter sido feliz enquanto teve Zia.

Depois da morte de Zia, a paz e a felicidade se tornaram coisas totalmente estranhas. Ela havia se mantido muito centrada; só pensava em vingar o assassinato de seus amigos, por Zia. Agora Swain estava em sua vida e seu objetivo tinha se transformado de algo tão pessoal para algo tão importante que ela teve de lutar para entender. Seus sentimentos pessoais se tornaram insignificantes, e a realidade a levara a uma perspectiva diferente. Ela sabia que, apesar de uma pessoa nunca deixar de sentir pesar com a morte de seus entes queridos, a qualidade do pesar se transformava de dor aguda e insuportável a uma dor comum, aceitação, a lembrar-se dos bons tempos — e, às vezes, todas essas coisas eram sentidas dentro de pouco tempo, sem uma ordem definida. Seu foco tinha saído de si mesma, de sua perda, para algo externo, e, com essa mudança, a dor havia se transformado, tornando-se menos imediata e devoradora.

Lily não sabia até quando a interrupção duraria, mas se sentia grata por cada segundo. Swain era responsável por grande parte da mudança de seu humor, e ela sabia disso, apenas por ser um americano tranqüilo. É claro que ele conseguia melhorar o humor de qualquer mulher apenas por andar daquele jeito preguiçoso e descontraído. Ela sabia muito bem porque tinha percebido o olhar das mulheres sobre ele, e sabia o efeito que ele causava nela.

Ele pegou a mão dela e a apertou.

— Pare de se preocupar tanto. Tudo vai dar certo. Lily riu.

— Você quer dizer: o misterioso homem do telefone não será Rodrigo; ele pode nos dizer tudo que precisamos saber sobre a segurança do laboratório; entramos sem qualquer problema, destruímos o vírus completamente, matamos o dr. Giordano para que ele não faça nada de novo e saímos de lá ilesos?

Ele pensou um pouco.

— Talvez não tudo; é uma lista muito extensa. Mas você tem de acreditar que as coisas vão acontecer da melhor maneira possível, de um jeito ou de outro. Não podemos e não vamos falhar.

— Vamos usar o poder do pensamento positivo?

— Não o subestime. Ele tem funcionado comigo até agora. Por exemplo, eu fiz pensamento positivo, assim que te vi, para transar com você, e veja onde estamos.

Eles estavam novamente à espera, tinham mil coisas que precisavam saber e nada poderiam fazer naquele dia. O especialista em sistemas de segurança de Swain não havia entrado em contato, mas agora que sabiam o que tinham de enfrentar, os dois achavam que as medidas de segurança no local seriam muito mais complexas do que os especialistas comuns conheciam.

Apenas para pesquisar, eles foram a um cibercafé em busca de informações sobre a gripe antes de irem ao hotel. Havia tanta coisa a ser lida que, interessados em economizar tempo, cada um foi para um computador e compartilharam suas descobertas.

Em certo momento durante a tarde, Swain olhou para o relógio, pegou o celular e apertou uma longa série de números. De onde estava, Lily não conseguiu ouvir o que ele dizia, mas sua expressão era séria. Sua conversa foi breve, e, quando terminou, ele mas-sageou a testa como se estivesse com dor de cabeça.

Enquanto o computador estava carregando um arquivo pesado, ela foi até ele.

—Aconteceu alguma coisa?

— Um amigo meu sofreu um acidente de carro nos Estados Unidos. Liguei para saber dele.

— Como ele está?

— Na mesma. Os médicos dizem que isso é bom. Ele sobreviveu às primeiras vinte e quatro horas, por isso estavam um pouco mais otimistas do que antes. — Ele balançou a mão. — Mas ainda há riscos.

— Você precisa ir para lá? — ela perguntou. Não sabia o que faria sem ele, mas se fosse um amigo muito íntimo...

— Não posso — ele disse brevemente.

Ela entendeu que literalmente ele não podia, que talvez ele fosse persona non grata nos Estados Unidos e não pudesse entrar. Ela tocou o ombro dele com empatia, porque sabia como ele se sentia. Ela também provavelmente nunca mais poderia voltar para casa.

Ele estava navegando no site do Centro de Controle e Prevenção de Doenças. A primeira vista, não encontrou nada de interessante, mas continuou clicando em sites relacionados que tinham links para o CDC e soltou um gemido de satisfação quando uma extensa lista apareceu na tela.

— Finalmente. — Ele clicou em Imprimir.

— O que encontrou? — Lily perguntou, curvando-se para ler por cima de seu ombro.

Ele falou baixo para ninguém escutar o que estavam dizendo:

— Uma lista de agentes infecciosos e as precauções de segurança em relação a cada um deles. — Ele apontou para o computador que ela usava. — O que encontrou aí?

— Uma projeção de doenças e mortes durante a próxima pandemia. Nada muito útil, eu acho.

— Isso poderia nos mostrar o que precisamos. Senão, meu amigo em Atlanta pode preencher as lacunas. Eu deveria ter feito a ele um monte de perguntas esta manhã, mas não tive tempo de pensar sobre isso e ele me chamou de filho-da-mãe, pois eram três da manhã quando liguei.

— Compreensível.

— Também achei. — A mão dela ainda estava sobre o ombro dele, e ele a cobriu com a dele. — Vamos levar tudo isso para lermos no hotel. Podemos ligar para o serviço de quarto e você pode desfazer suas malas e se acomodar.

— Teremos de informar o hotel que agora há duas pessoas em seu quarto, e não apenas uma.

— Direi que minha esposa chegou. Sem problemas. Se você ficar de óculos escuros e não deixar que nenhum funcionário veja seus olhos, vai dar tudo certo.

— Vou parecer bem idiota de óculos dentro de um quarto de hotel. Lentes de contato seriam melhores.

— Não são apenas os seus olhos que são fáceis de identificar. É o pacote todo, desde a cor de seu cabelo ao formato de seu rosto. Entre no banheiro quando o funcionário do serviço de quarto estiver por lá. Além da faxineira, será o único momento em que seremos interrompidos. — Ele saiu da rede, e pegou todas as páginas que estavam impressas. Pagou pelo serviço enquanto Lily fazia a mesma coisa.

Eles saíram para a rua e o vento bateu em seus rostos. Apesar de o dia estar ensolarado, estava bastante frio e muitas pessoas estavam usando chapéu e cachecol. Lily puxou seu chapéu para baixo para cobrir seu cabelo ao andarem até o local onde Swain tinha estacionado o carro. Ele parecia ter sorte em encontrar vagas para estacionar em uma cidade tão engarrafada, mas estava pensando que Swain era uma pessoa de muita sorte. Mesmo que tivesse alugado um Hummer, ainda assim encontraria um local para estacioná-lo.

Ele se absteve de fazer quaisquer outros comentários sobre o veículo, apesar de ela tê-lo escutado fazendo aquele som algumas vezes. Os dias tinham ficado muito curtos, o inverno já se aproximara, o sol já havia se posto quando eles chegaram ao hotel, fazendo os óculos de Lily se tornarem desnecessários. Ela os tirou, mas lembrou-se de que ainda tinha óculos com lentes cor-de-rosa que usara como parte de seu disfarce em Londres, e os tirou de sua bolsa. As lentes eram claras o bastante para poder enxergar, sem parecer uma idiota usando óculos escuros à noite, mas isso foi o suficiente para esconder a cor de seus olhos.

Ela os colocou e virou-se para Swain.

— Como estou?

— Sexy e fashion — ele lhe fez um sinal de aprovação. — Mantenha seus olhos meio fechados, como se estivesse sonolenta, e estaremos a salvo.

Ele estava certo. Ninguém prestou atenção neles quando ele atravessou o lobby carregando suas malas, com ela indo logo atrás. Quando chegaram ao quarto dele, ele telefonou para a recepção e avisou que sua esposa tinha chegado, que agora havia duas pessoas em seu quarto; em seguida, ligou para o serviço de quarto e pediu mais toalhas. Lily se ocupou desfazendo suas malas, guardando as roupas nas gavetas ou pendurando-as ao lado das roupas de Swain no guarda-roupa, e seus cosméticos no banheiro.

Ela se assustou ao colocar um par de sapatos ao lado dos dele na parte inferior. Havia algo muito íntimo naquilo, seus sapatos eram muito menores e mais delicados que os dele, e ela acabou se dando conta de que agora, para todos os efeitos, estava morando com ele.

Ela olhou para cima e o encontrou observando-a, entendendo seu desconforto.

— Vai dar tudo certo — ele disse delicadamente e abriu seus braços para abraçá-la.

 

Lily foi em sua direção e se abrigou no calor confortável daquele corpo. Encostou a cabeça em seu ombro e sentiu um pouco da tensão diminuir quando ele a abraçou. Swain beijou a cabeça dela.

— Repito, não precisamos fazer sexo esta noite. Se estiver se sentindo desconfortável com essa idéia, podemos esperar.

— Podemos? — ela perguntou em voz baixa. — Normalmente eu esperaria muito mais tempo, porque um relacionamento não se constrói com dois beijos e uns amassos...

Ele riu.

— Acho que não, mas, apesar de nos conhecermos há poucos dias, uma parte de mim sente que já faz mais tempo. Uma semana, talvez — ele brincou. — Foram só uns amassos?

— Só.

— Então, certamente, foi só uma vez, porque você se lembraria de mais amassos. — Ele massageou suas costas, fazendo com que seus músculos tensos relaxassem.

— Esta noite pode ser a única que teremos — ela disse, tentando manter um tom sério, mas sem conseguir deixar de fora um pouco de descontração. Aquele fato ficara o dia todo em sua mente. Ela não teria tempo de ir com calma, conhecê-lo, "criar" um relacionamento. Vista daquele modo, sua decisão foi simples: poderia morrer no dia seguinte e não queria passar sua última noite na Terra sozinha. Não queria morrer sem fazer amor com ele, sem dormir tão agarrada nele a ponto de conseguir ouvir seu coração. Ela queria que ele fosse seu amor, mesmo que não tivesse a chance de descobrir se aquele amor era pra valer. Pelo menos manteria a esperança de que fosse.

— Ei — ele interrompeu. — Lembre-se do poder do pensamento positivo. Esta é a primeira noite, e não a única.

— Você sempre brincou de Poliana?

— Poliana via alguma coisa boa em tudo. Não vejo nada de bom neste Fiat.

Surpresa por sua repentina mudança de assunto, ela disse:

— Pois eu vejo. Ri muito de sua reação quando o alugamos. Ele ficou parado.

— Quer dizer que escolheu esse carro de propósito para zombar de mim?

Ela não tentou negar, apenas soltou um suspiro de satisfação ao roçar seu rosto contra seu peito. — Queria vê-lo dirigindo o Fiat só por um dia. É um carro muito bom; certa vez, tive um Fiat, portanto sei que ele é bom e econômico, mas você age como se fosse um grande sofrimento.

— Você vai ter de pagar por isso — ele disse balançando a cabeça. — E não com aquela massagem que me prometeu. Isso é muito grave. Terei de preparar uma vingança.

— Só não demore muito.

— Vou te dizer esta noite — ele prometeu, inclinando a cabeça dela para cima para lhe dar um caloroso beijo, que foi prolongado, multiplicado e aprofundado. Diferentemente da noite anterior, ele acariciou os seios dela, delicadamente, e tocou nos mamilos por cima da roupa. Lily já estava esperando ser jogada sobre a cama, mas ele nem sequer escorregou a mão debaixo de sua blusa. Ela ficou contente por isso; não estava nem um pouco excitada. No entanto, os carinhos dele eram bons e, quando ele a soltou, ela estava mais quente e mais solta do que antes.

Uma leve batida na porta sinalizou o serviço de quarto com mais toalhas. Swain recebeu a funcionária e pegou as toalhas com a mesma rapidez com que entregou uma gorjeta, sem deixar que a camareira entrasse, apesar de que ela teria colocado as toalhas no banheiro sem qualquer problema.

— Vamos ler todos esses papéis e ver o que temos — ele disse depois de guardar as toalhas, mostrando tudo que tinham imprimido. — Há muitas coisas nesses artigos de que não vamos precisar.

Ela gostava do fato de ele querer cuidar dos negócios antes de se divertir, por isso ela se juntou a ele, na sala de estar, onde ele tinha espalhado tudo sobre a mesa de centro.

— Ebola... Marburg... Não precisamos de tudo isso — ele disse, deixando folha sobre folha no chão. Lily pegou um maço de folhas e começou a analisá-las, procurando informações sobre a gripe.

—Aqui — ela disse um momento depois. — "Como os vírus da influenza são tratados em laboratório." Vejamos... "Não há registro de infecções relacionadas a laboratórios", mas cuidado com as doninhas.

— O quê? — ele perguntou, assustado.

— É o que diz. Evidentemente as doninhas infectadas passam o vírus para os humanos com muita facilidade, e vice-versa. Elas nos deixam doentes, nós as deixamos doentes. É justo — ela disse em tom jocoso. — O que mais... "Um vírus alterado geneticamente... de potencial desconhecido. Nível 2 de biossegurança". O que é Nível 2 de biossegurança?

— Tenho essa informação aqui... em algum lugar. — Rapidamente ele folheou um maço de páginas. —Aqui. Tudo bem. O risco é considerado leve. "Os funcionários devem ser instruídos para lidar com o vírus, o acesso ao laboratório é limitado quando o trabalho estiver em andamento", mas acredito que possamos dizer com certeza que o acesso ao laboratório Nervi é limitado em todos os momentos. "As pessoas têm de lavar suas mãos... não podem comer ou beber no local... o lixo é descontaminado antes de ser descartado" — bom saber. Então, acho que poderíamos entrar com segurança pelo sistema de esgoto.

— Estou feliz de termos mudado de idéia.

— Talvez precisemos voltar atrás.

Ela fez uma careta ao pensar naquilo. Mesmo sabendo que o esgoto fora idéia sua e que acabaria entrando por ali se não tivesse outro jeito, ela preferiria não ter de fazer aquilo.

— "Um sinal de dano biológico deve ser divulgado" — ele continuou. — "Cuidados extras devem ser tomados quando instrumentos pontiagudos estiverem sendo manipulados"—Aham —, todas essas precauções os funcionários do laboratório tomam quando lidam com os vírus. "O laboratório deve ter portas com tranca; nenhum sistema de ventilação específico é exigido." — Ele largou os papéis e coçou o queixo. — Parece um laboratório básico, sem câmaras de vácuo, escaneamento de retina, portas que se abrem mediante identificação digital ou qualquer coisa assim. Parece que estávamos atrás de problemas, porque, se o dr. Giordano seguir essas instruções, tudo que teremos de enfrentar será uma porta trancada.

— E um monte de pessoas armadas. Ele balançou a mão.

— É bem comum. — Jogou os papéis sobre a mesa e se recostou, entrelaçando os dedos atrás da cabeça. — Estou surpreso. Pensei que, quando alguém lidasse com vírus infecciosos, seguisse todos os tipos de procedimentos minuciosos; mas aqui se trata de segurança pessoal, e não externa.

Eles trocaram olhares e deram de ombros.

— Voltamos ao ponto inicial — Lily disse. — Precisamos de informação sobre o sistema de segurança externo. Quando estivermos dentro, procuraremos a porta com o sinal de perigo biológico.

— Um X deve marcar o local — ele concordou. Os dois sabiam que não seria tão simples; por um lado, o laboratório poderia estar em qualquer lugar dentro do prédio. Poderia até mesmo estar no subsolo, o que limitaria suas opções de fuga.

Após terem descoberto o que precisavam saber, muito menos do que esperavam, não havia mais a necessidade de guardarem as folhas que tinham imprimido. Swain pegou as que tinha jogado ao chão, enquanto Lily juntava todas as outras; em seguida, jogaram tudo no lixo.

Ela não sabia o que fazer. Ainda era bem cedo; eles não tinham sequer jantado. Ela ainda não queria tomar um banho, e felizmente ele não parecia doido para levá-la para a cama. Por fim, ela pegou o livro que levara consigo, tirou as botas e encolheu-se no sofá para ler.

Swain pegou a chave do quarto.

— Estou indo à recepção para pegar alguns jornais. Quer alguma coisa?

— Nada, obrigada.

Ele saiu do quarto. Lily contou até trinta, levantou-se e examinou as coisas dele com muita atenção. Suas roupas íntimas estavam organizadamente dispostas em uma gaveta, sem coisas escondidas entre as cuecas samba-canção dobradas. Ela bateu nos bolsos de todas as peças penduradas nos cabides e nada encontrou. Não havia uma mala, mas ela puxou sua bolsa de couro e procurou dentro dela. Não parecia haver bolsos ou um fundo falso nela; sua Heckler e Koch de nove milímetros estava ali, cuidadosamente travada. Na cabeceira havia um livro de suspense cheio de orelhas da metade em diante. Ela folheou as páginas rapidamente, mas nada caiu do meio delas.

Passou a mão debaixo do colchão, em toda a sua extensão, e olhou embaixo da cama. Seu casaco de couro estava sobre a cama, onde o havia jogado. Ela revistou os bolsos e encontrou seu passaporte em um bolso com zíper, mas já o tinha visto, por isso não o puxou para fora.

Não havia nada que indicasse que ele era alguém diferente do que lhe dissera. Aliviada, voltou para o sofá e continuou lendo.

Swain voltou em cinco minutos, trazendo dois jornais grossos e uma pequena sacola de plástico.

— Fiz vasectomia depois que meu filho nasceu — ele disse —, mas comprei algumas camisinhas mesmo assim, se por acaso você se sentir mais segura.

Sua preocupação a deixou tocada.

— Você já fez alguma coisa arriscada? Sexualmente, quero dizer.

— Certa vez, fiz sexo em pé em uma rede, mas eu tinha dezessete anos.

— Não fez não. Na rede, tudo bem, mas em pé certamente não. Ele sorriu.

— Na verdade, a rede virou e me derrubou de bunda no chão, e nunca mais tentei fazer isso de novo. Acabou com o clima. Não consegui transar aquele dia.

— Posso imaginar. Ela deve ter rido muito.

— Não, ela gritou. Fui eu quem riu. Nem mesmo uma menina de dezessete anos consegue levar a transa adiante quando o cara está dando gargalhadas. Isso sem falar que eu parecia um idiota, e as meninas dessa idade se apegam muito à imagem e coisas assim. Ela chegou à conclusão de que eu era muito babaca e foi embora rapidinho.

Ela deveria ter adivinhado que era ele quem tinha rido. Sorrindo, apoiou o queixo na palma da mão e perguntou:

— Mais alguma aventura?

Ele sentou-se na cadeira mais próxima dela e esticou as pernas, apoiando os dois pés na mesa de centro.

— Vejamos. Logo depois disso, eu e Amy começamos a ficar juntos e eu fui fiel a ela desde o primeiro dia até nosso divórcio.

Tive algumas amigas íntimas de lá para cá, tive relacionamentos que duraram alguns meses, no máximo dois anos, mas nada eventual. Estive, durante grande parte desse tempo, em lugares sem qualquer vida noturna, exceto as de quatro patas. Sempre que estava em uma área civilizada, não queria passar meu tempo em boates.

— Para uma pessoa que passou grande parte de sua vida adulta no meio do mato, você é bem sofisticado — ela murmurou, repentinamente desconfortável com aquele detalhe. Ela deveria ter percebido antes, mas não estava muito assustada porque sabia que a arma dele estava em sua bolsa, dentro do guarda-roupa — e a dela não.

— Só porque eu falo francês e me hospedo em hotéis de luxo? Fico em lugares como este quando posso, pois em determinados momentos não tinha nada. Gosto de dirigir carros bacanas porque às vezes tive de me locomover a cavalo — isso quando havia cavalos.

— Não sabia que o francês era comum na América do Sul.

— Você se surpreenderia. Eu aprendi quase tudo que sei do idioma com um expatriado francês na Colômbia. Agora, meu espanhol é muito melhor que meu francês, e também falo português e ainda um pouco de alemão. — Ele deu um leve sorriso. — Os mercenários são poliglotas por necessidade.

Ele nunca tinha dito ser um mercenário, apesar de que ela entendia que ele só podia ser aquilo mesmo, ou algo muito próximo. As pessoas o contratavam para fazer as coisas acontecerem, era o que ele tinha dito, e ela nem por um minuto sequer pensou que ele estivesse falando sobre contratações de corporações. O desconforto que ela sentia sumiu; era necessário que ele falasse vários idiomas.

— Ser casada com você deve ter sido um inferno — ela disse, pensando na ex-esposa dele, em casa com duas crianças pequenas, sem saber onde ele estava ou o que estava fazendo, se ele voltaria ou se morreria em uma região remota, sem que seu corpo fosse encontrado.

— Muito obrigado — ele disse, esboçando um sorriso. Seus olhos azuis brilharam para ela. — Mas as pessoas se divertem muito quando estou por perto.

Não havia a menor dúvida a esse respeito. Em um impulso, ela se levantou e sentou-se em seu colo, escorregando a mão dentro do colarinho de sua camisa e segurando-se na parte de trás de seu pescoço enquanto se aproximava dele. O beijo dele era quente, seu pescoço era rígido. Ele a segurou apoiando seu braço esquerdo nas costas, e sua mão direita imediatamente começou a acariciar sua coxa e seu quadril. Ela beijou embaixo de seu queixo, sentindo a barba por fazer raspando contra seus lábios e o cheiro de homem misturado ao perfume da colônia pós-barba que ele tinha usado aquela manhã.

— O que significa isso? — perguntou, mas não esperou pela resposta antes de lhe dar um daqueles beijos lentos e profundos que faziam com que ela se sentisse derreter.

— É um presente por ser muito divertido — ela murmurou quando ele afastou sua boca; então, ela foi atrás de mais beijos. Os lábios dele estavam mais vorazes agora, sua língua mais insistente. A mão de Swain apertou a cintura dela, escorregou para baixo de sua camiseta e subiu para seu seio. Ela segurou a respiração enquanto ele subia o sutiã dela e moldava seus seios com a palma de sua mão. A mão dele estava quente contra a pele fria dela, e seu polegar acariciava delicadamente seu mamilo.

Ela afastou sua boca da dele e respirou profundamente, apertando seu rosto de encontro ao pescoço dele enquanto um grande prazer tomava conta de seu ser. Ela não sentia desejo há tanto tempo que tinha se esquecido de como o tesão se espalhava por seu corpo, deixando sua pele ultra-sensível, fazendo ela sentir vontade de se esfregar contra ele como uma gata.

Ela queria que ele fosse mais rápido, que a estranha primeira vez passasse e ela conseguisse relaxar, mas, apesar de seu amor pela velocidade, a pressa não parecia fazer parte de seus planos naquela noite. Ele acariciou seus seios até eles ficarem tão sensíveis que a sensação beirasse a dor; em seguida, colocou o sutiã de volta em seu lugar e a apertou forte de encontro a ele. Ela sabia que ele estava excitado; ou então ele tinha uma pistola extra em seu bolso, uma45 com dez balas no pente, pelo que pôde sentir. Mas ele parou de apertá-la, deu-lhe um beijo na ponta do nariz e disse:

— Não há motivo para pressa. Vamos jantar, relaxar um pouco. Não vou morrer se tiver de esperar.

— Não, mas a espera pode me matar — ela retrucou, sentando-se e encarando-o.

Ele esboçou um sorriso.

— Seja paciente. Você conhece o ditado: "Quem espera sempre alcança"? Tenho minha própria versão para ele.

— É mesmo? Qual?

— Quem espera alcança gostoso. Ele merecia uns tapas, de verdade.

— Você vai pagar por isso — ela disse, levantando-se do colo dele. Ela pegou o cardápio e jogou sobre ele. — Peça alguma coisa.

Swain obedeceu: lagostas e vieiras, uma garrafa de Beaujolais e torta de maçã. Determinada a agir tão naturalmente quanto ele, ela continuou lendo enquanto esperavam pela entrega do serviço de quarto. Ele folheou os dois jornais, telefonou para os Estados Unidos para saber sobre o estado de saúde de seu amigo, sem mudanças, o que o deixou com cara de preocupado.

Ele não era completamente despreocupado, Lily pensou, observando sua expressão. Por mais que sorrisse e fizesse brincadeiras, não demonstrava todos os seus sentimentos. Em alguns momentos, ficava perdido em pensamentos, sem qualquer vestígio de bom humor em seu rosto e em seus olhos; dentro deles, ela tinha visto, de relance, uma determinação fria. Deveriam existir mais coisas sobre ele do que apenas a diversão ou não teria se dado bem como assassino, apesar de Lily não saber se uma pessoa escolhia ser mercenária ou se acabava entrando naquela vida gradativamente. Evidentemente, ele tinha ganhado algum dinheiro naquela área, o que queria dizer que era competente. Aquele jeito simpático e charmoso era apenas uma parte dele; a outra parte tinha de ser impetuosa e letal.

Lily havia se distanciado de relacionamentos com homens normais com o passar dos anos, homens que tinham empregos comuns e preocupações normais. Uma pessoa normal não entenderia suas atividades, e ela sempre temeu ter mais poder que um homem dentro de um relacionamento desse tipo. Ela tinha de ser impetuosa e decidida, e era algo que não podia ser medido ou controlado. Quando o assunto era romance, ela não queria dominar, queria a parceria, por necessidade ela precisava de alguém com a personalidade tão forte quanto a dela. Lily percebia nele uma naturalidade e autoconfiança que não se deixavam ameaçar. Não tinha de massa-gear o ego dele, não tinha de ocultar sua própria personalidade para não intimidá-lo.

Se Swain algum dia tinha se sentido intimidado em sua vida, seria uma surpresa para ela. Podia apostar que ele sempre fora desafiador e audacioso.

Quanto mais o observava, mais o respeitava. Estava caindo rapidamente e com força, e não havia nenhuma rede para ampará-la.

 

Depois que terminaram de comer, ele assistiu a um um pouco do noticiário e Lily seguiu com sua leitura. Eles poderiam passar por um casal que estava junto há muito tempo, devido à paciência que ele estava demonstrando, mas ela se lembrou da ereção que sentira contra seu quadril e mudou de idéia. Um homem não tinha uma ereção tão forte quando não estava interessado. Ele estava lhe dando tempo para relaxar, sem pressioná-la; ele sabia, é claro, que eles acabariam indo para a cama juntos e que o inevitável aconteceria. Ela também sabia disso e a sedução estava justamente aí. Lily não conseguia olhar para ele sem pensar que logo os dois estariam nus, logo ela o sentiria dentro dela, logo aquela tensão contida encontraria um modo de se libertar. Às dez horas, ela disse:

— Vou tomar um banho — e o deixou assistindo ao noticiário. Os produtos de beleza que estavam sobre a pia do banheiro eram de marcas famosas e havia perfumes deliciosos. Ela não teve pressa, lavou seus cabelos, depilando suas axilas e pernas — um hábito americano que ela não perdera —, e espalhou uma loção perfumada por seu corpo todo antes de secar seus cabelos com o secador e escovar os dentes. Sentindo-se mais pronta do que nunca, e tendo passado quase uma hora ali, ela vestiu um dos grossos roupões do hotel e o amarrou com força ao redor da cintura antes de voltar descalça para o quarto.

— Você adora o banheiro — ele acusou, desligando a televisão e levantando-se. Seu olhar foi desde o cabelo sedoso dela até as pontas de seus dedos. — Esperava que você fosse sair do banho vestindo seu pijama. Estava pensando em despi-la.

— Não uso pijamas — ela disse, e bocejou. Ele ergueu as sobrancelhas.

— Mas você disse que usava.

— Menti. Eu durmo nua.

— Quer dizer que estragou uma fantasia perfeita só para se divertir?

— Não era da sua conta o que eu vestia para dormir. — Ela lhe lançou um sorriso e foi para o sofá, onde pegou seu livro e sentou-se, recolhendo as pernas sob seu corpo. Teve a certeza de que tinha mostrado tudo por baixo do roupão — pelo menos tinha sido essa a sua intenção — porque ele se virou abruptamente e entrou no banheiro sem dizer mais nada e, trinta segundos depois, ela ouviu a água do chuveiro caindo. Agora ele estava com pressa.

Observando o relógio na cabeceira da cama, ela controlou o tempo dele. Seu banho durou menos de dois minutos. E então ouviu a torneira da pia aberta por cerca de quarenta e cinco segundos. Vinte e dois segundos depois ele saiu do banheiro vestindo uma toalha úmida ao redor de sua cintura, e nada mais.

Lily olhou para seu rosto barbeado.

— Não acredito que você tenha se barbeado tão rápido. É de surpreender que não tenha cortado o pescoço.

— O que é uma jugular cortada comparado com levá-la para a cama? — ele perguntou, indo até o sofá e pegando sua mão, e ela ficou em pé. Ele apagou o abajur e a levou para a cama, apagando as luzes pelo caminho até o quarto ficar completamente às escuras exceto por uma lâmpada ao lado da cama. Ele afastou a colcha e voltou-se para ela.

Em pé ao lado da cama, ele segurou seu rosto e a beijou. Sua boca cheirava a pasta de dente; em algum momento naquela correria no banheiro, ele também tinha feito sua higiene bucal. Lily ficou surpresa com a destreza dele, porque, agindo com toda aquela rapidez, se não tinha se cortado ao se barbear, poderia ter enfiado a escova de dentes no olho.

Apesar da pressa, ele a beijou com muita calma. Ela colocou seus braços ao redor dele e apertou suas costas, sentindo a pele úmida e macia, e o contorno de seus músculos. Durante o beijo, ele perdeu a toalha, e o nó no roupão dela se desfez. Lily permitiu que o roupão escorregasse por seus ombros, passasse por seus braços e caísse a seus pés. Quando não restou mais nada entre eles, além de suspiros e ansiedade, ele apagou a última lâmpada e a deitou sobre os lençóis frios.

Ela esticou o braço para tocá-lo ao lado dela na cama, permitindo que suas mãos o explorassem até seus olhos se ajustarem à escuridão. Sentiu os pêlos arrepiados de seu peito, seu abdome rígido e sua pele macia, escorregou as mãos por seus braços musculosos e pelas curvas de seus ombros. Ele estava ocupado com sua própria exploração, acariciando sua vagina, suas coxas e fazendo com que ela se arqueasse para trás, beijando desde os lábios até o queixo e o pescoço, escorregando sua boca entreaberta por seu seio, até abocanhar um mamilo. Ele o chupou delicada e vagarosamente, e Lily soltou um leve gemido de prazer.

— Adoro isso — ela suspirou, colocando sua mão na nuca dele para mantê-lo ali.

— Estou vendo. — Ele gastou o mesmo tempo com o outro mamilo, deixando-os duros e molhados, como duas cerejas.

— Do que você gosta? — Ela passou a mão vagarosamente pela barriga dele, apenas tocando a ponta de seu pênis ereto, para logo em seguida mudar de direção e acariciar seus mamilos, provocando-os até arrepiá-los.

— Isso — ele disse com uma voz rouca. — Tudo isso. — Ele se arrepiou com as ondas de prazer. Sem o menor pudor, pegou a mão dela e a colocou onde queria que ficasse. Ela envolveu seu pênis com os dedos e o membro contraiu-se, pulsando em sua mão. Para observar sua reação, ela o acariciou com movimentos mais demorados; seus dedos mal conseguiam envolvê-lo completamente e ela se excitou ao sentir seu tamanho.

Ele suspirou e afastou sua mão. Lily protestou com um gemido e tentou pegá-lo com a outra mão, fazendo mais alguns movimentos antes que ele novamente a impedisse.

— É melhor você me deixar mais tranqüilo ou tudo estará terminado antes de começar.

— Depois de toda a propaganda que fez a respeito de si mesmo só vai durar uma rodada? — ela murmurou. — Não acredito nisso.

— Provocando, não é? — Ele segurou a cabeça dela com as duas mãos e se curvou sobre ela. — Vou lhe mostrar a primeira rodada. — Finalmente, o peso dele pressionou-a e suas pernas automaticamente se abriram para recebê-lo, e Lily posicionou-se de modo a deixar suas coxas no quadril dele. Ela pôde sentir-se se abrindo para recebê-lo. Swain afastou a mão esquerda dela para posicionar seu pênis. Fez bastante pressão para penetrá-la, e ela se ergueu, querendo sentir aquela primeira penetração longa e deslizante em seu corpo, mas a pressão começou a aumentar e nada acontecia. Ele se afastou um pouco e tentou de novo. Dessa vez, não conseguiu evitar um pequeno gemido de dor quando novamente sua vagina o recusou.

Envergonhada, sentiu seu rosto começar a enrubescer.

— Desculpe. — Estava embaraçada com sua falta de lubrificação. — Sempre tive dificuldades em me entregar ao momento. Parece que não consigo parar de pensar.

Ele deu uma risada rouca, e o som foi abafado pelos cabelos dela. Falou, beijando sua cabeça:

— Se é preciso não pensar, acho que não estou fazendo direito, porque nunca consigo parar de pensar. Ou melhor, por cerca de dez segundos, eu realmente não penso. — Seus lábios foram até a orelha dela e ele passou a mordiscá-la. — Sou eu quem deve pedir desculpa, querida, por apressá-la assim. — Seu sotaque estava mais forte, dizia as palavras arrastando certas sílabas. — Uma mulher que está há seis anos sem fazer sexo precisa de muito carinho, e eu pulei certos passos muito importantes.

— Passos? — Ele fazia tudo aquilo parecer uma programação de videocassete. Ela pensou em retrucar, mas os beijinhos que ele estava lhe dando tiraram sua concentração.

— Sim. — Ele estava mordiscando seu pescoço, e depois seu colo. — Ou melhor, pontos. Como este aqui. — Mordeu com delicadeza um ponto entre o pescoço e o ombro, e Lily prendeu a respira- ção ao sentir um prazer surpreendente tomar conta de seu corpo.

Ela o apertou.

— Faça isso de novo.

Ele foi obediente, beijou e mordiscou seu pescoço até ela estar arqueada sob ele, ofegante. Aquelas leves mordidas eram tão excitantes que Lily acreditou que conseguiria ter um orgasmo apenas com elas. Ele beliscou seu mamilo, uma pressão firme que a teria machucado alguns momentos antes, mas que agora a faziam gemer e esfregar seus seios na mão dele.

Swain foi descendo pelo corpo dela, colocando a ponta de seu dedo mindinho sobre o umbigo, mordendo sua cintura, seu quadril, escorregando as mãos pelo corpo dela, apertando suas nádegas em um movimento ritmado. Tentou alcançá-lo para dar-lhe um pouco do prazer que estava recebendo, mas ele afastou suas mãos.

— Não, não — ele disse com uma voz rouca e ofegante. — Só tenho uma necessidade, e já estou executando-a.

— O que é? — ela conseguiu perguntar, apesar de ter de se esforçar para ser coerente.

— Respirar.

Ela não pôde se controlar, teve de rir, e ele a castigou com uma mordida na parte interna de sua coxa, que conseguiu lhe roubar o ar e afastar suas pernas ainda mais. Ela sabia o que ele ia fazer, estava morrendo de ansiedade enquanto ele descia, mas, mesmo assim, o primeiro toque de sua língua foi como uma descarga elétrica. Ela gritou, afundando seus calcanhares no colchão, e se arqueou. Ele a segurou e a trouxe novamente para si, para senti-la mais, com sua língua e seus dedos. A sensação de penetração foi forte, atiçando a sua pele como pequenas ondas de choque que se intensificavam com o entra-e-sai.

Uau, ele era bom. Mesmo quando já estava pronta para ele, quando conseguia sentir a umidade entre suas pernas, ele parecia feliz em prolongar a sensação com beijos e carícias até ela se contorcer na cama, implorando para que parasse, ou que não parasse, tudo parecia a mesma coisa. Por fim, ela segurou em suas orelhas e sussurrou:

— Estou pronta — para o caso de ele não ter percebido. Com raiva, ela sentou-se na cama. — Ou você vem ou não vem! Está me deixando maluca!

Ele riu e a deitou na cama. Antes que ela pudesse se equilibrar, ele estava sobre ela, penetrando-a com uma pressão vagarosa e inexorável que a deixou ofegante. Ela ficou parada e com os olhos fechados enquanto tentava absorver todas as sensações, a pressão, o calor e o peso do corpo dele.

Ele começou os movimentos, movendo-se sobre ela. Instintivamente, ela ficou tensa, contraindo seus músculos internos em um esforço para contê-lo e controlar o ato. Ele gemeu, parou e sussurrou:

— Faça isso de novo. — Dessa vez, foi ele quem ficou parado enquanto ela o apertava com suas contrações. O ato de apertá-lo, depois conscientemente relaxar e contrair de novo a levou à beira do orgasmo — mas não foi o suficiente.

Ele colocou os braços sob as pernas dela e a ergueu, assumindo total controle. Ela não conseguia limitar a profundidade da penetração naquela posição, não conseguia erguer-se ao encontro dele, não podia fazer nada além de sentir os movimentos longos e vagarosos enquanto ele se empenhava em um ritmo constante. Ele se manteve posicionado alto o suficiente, na posição perfeita para ela sentir o máximo de fricção, mas os minutos passavam e o orgasmo continuava distante. Lily sentiu como se estivesse sendo aberta ao meio, tamanha era a tensão. Seus braços começaram a tremer, seu corpo todo tremia e ela quase chorou ao perceber que ele não agüentaria muito mais tempo e que ela ainda não tinha alcançado o orgasmo.

— Quero te pegar por trás — ele murmurou, e saiu de dentro dela. Antes que ela conseguisse mudar de posição, ele deitou-se ao seu lado e a colocou sobre ele, de costas, com a cabeça pendendo em seu ombro esquerdo. Sua respiração quente a atiçou e suas mãos acariciaram seus seios, descendo por sua barriga. Ela abriu as pernas, colocando-as uma de cada lado do corpo dele. Colocando seu corpo para baixo, ele posicionou seu pênis. Ela gemeu quando ele a penetrou, causando um espasmo que a levou perto do orgasmo, mas que novamente não se completou. Ela se sentia terrivelmente exposta sem o corpo dele para lhe cobrir. O ar gelado passava por todo o seu corpo quente, suas pernas estavam bem abertas, e com a cabeça jogada para trás ela estava estranhamente perdida, sem controle.

— Calma, estou te segurando — ele disse com uma voz confor-tadora, e ela percebeu que provavelmente tinha gritado assustada. Ele ergueu o quadril, segurou-a por trás e continuou a penetrá-la. Aquela posição era um pouco mais firme, com uma sensação mais apurada dos movimentos. Ele escorregou sua mão esquerda pela barriga dela e curvou os dedos entre suas pernas, prendendo seu clitóris no meio de seus dois primeiros dedos. Delicadamente ele os fechou e a segurou ao ir para baixo e para cima, e a sensação de prazer aumentou dentro dela a um nível insuportável.

Ela soltou um gemido alto e afundou os calcanhares no colchão, forçando seu quadril para baixo, para acomodar cada centímetro que pudesse de seu pênis, e movendo-se para cima em direção àqueles dedos enlouquecedores. Tremia dos pés à cabeça, sem força nas pernas, com sua respiração saindo como soluços de sua garganta. Mais perto, mais perto...

Um grito baixo saiu de sua garganta quando foi levada a um ponto de onde não havia como voltar. Fortes espasmos tomaram conta de suas entranhas, levando embora seus últimos vestígios de controle. Finalmente, finalmente — ela estava tendo um orgasmo, estava realmente acontecendo, mais forte do que ela se lembrava, e se esqueceu de tudo, menos do prazer que tomava conta de seu corpo.

Vagamente percebeu que estava chorando, apesar de não saber por quê. Ainda estava tremendo, tão exausta que não conseguia sequer levantar um braço. Não teve de fazer isso. Swain saiu de trás e foi para cima dela, penetrando-a. O ritmo era severo e rápido, levando-a à beira da loucura repetidas vezes. Ele estava tão suado quanto ela, com todos os seus músculos tremendo quando foi mais fundo para alcançar seu orgasmo. Perdeu o ritmo, e um gemido rouco e profundo saiu de seu peito, de sua garganta, e com um grito grave ele arqueou-se, puxando-a com tanta força que deixava as marcas de seus dedos em sua pele. Então, vagarosamente, ele se curvou para a frente, ainda tremendo, ainda se movendo, com os olhos fechados enquanto seus braços trêmulos faziam com que ele apoiasse seu peso sobre ela.

Seus pulmões pareciam berrar, com a respiração ofegante. Lily ainda tentava recuperar o fôlego, usar seus membros, enquanto seu coração batia com tanta força que ela pensou que fosse desmaiar. Conseguia sentir sua pulsação até mesmo na ponta dos dedos.

Ela pensou que, se aquele tivesse de ser seu último orgasmo, que fosse o maior.

Por fim, ela conseguiu levantar o braço e secar as lágrimas de seu rosto. Por que estava chorando? Atingir o clímax tinha sido um esforço hercúleo, mas o resultado tinha valido a pena.

Com o rosto virado para baixo, ao lado da orelha esquerda de Lily, Swain disse:

— Puxa vida, eu senti tudo até a ponta do pé. — Ele não saiu de cima dela, apenas jogou seu peso sobre seu corpo cada vez mais. Ela não se importou. Envolveu-o em seus braços e o apertou o máximo que conseguiu.

— Vou me levantar logo — ele prometeu com uma voz exausta.

— Não — Lily disse, mas ele já estava se esforçando para deitar ao seu lado, de frente para ela. Swain colocou uma mão no quadril dela e a puxou para si, fazendo-a encostar sua cabeça em seu ombro.

— A primeira rodada está oficialmente terminada — ele disse.

— Retiro o que disse. Acho que não vou conseguir agüentar uma segunda rodada. Mas a respiração calma e profunda dele indicava que ele já estava dormindo. Ela respirou profundamente duas vezes e sentiu-se adormecer, juntando-se a ele. Pela primeira vez, ela se sentiu segura, presa em seus braços.

 

Lily acordou nos braços de Swain e teve a sensação de que ali era seu lugar. Desejou poder congelar o tempo naquele momento, para nunca perder a sensação de felicidade e segurança. Ela não se permitiu pensar no possível desastre que aquele dia podia lhe trazer; faria o que tinha de fazer e não havia motivo para se preocupar com isso. Se tivesse sorte, a próxima noite aconteceria como a anterior.

Para a sua surpresa, ela agüentara mais duas rodadas, apesar de quase se arrepender delas, dada a dor que sentia. Quase. Ele a acordara às duas da manhã acendendo o abajur, porque dessa vez queria vê-la. Ela sentiu vergonha do estado em que se encontrava por ter adormecido sem se limpar, mas ele tinha provado que, tirando os carros, ele não era muito exigente. — O sexo é uma bagunça — ele dissera com um sorriso malicioso ao segurá-la por trás quando ela tentou sair da cama para se lavar. — E sou a causa da bagunça, por que me importaria?

Ficar com a luz do abajur acesa não a incomodava, apesar de que, de alguma forma, ele tinha percebido que a primeira vez seria mais fácil para ela se fosse às escuras. Ela tinha trinta e sete anos, não era uma menininha, mas mantinha seu corpo em forma e sua estrutura física era naturalmente esguia, além de ter seios pequenos; então, mesmo quando algumas partes ficassem flácidas, o que aconteceria inevitavelmente, eles não cairiam tanto. Com certeza, Swain parecia gostar de cada centímetro de seu corpo.

Atingir o clímax da segunda vez tinha sido mais fácil, como se seu corpo tivesse reaprendido o caminho. Não ficara tensa nem desesperada, além disso Swain tornava tudo divertido, com seu prazer despudorado e seus elogios. Em seguida, os dois tomaram um banho juntos e ela colocou toalhas sobre as partes molhadas da cama para poder voltar a dormir mais algumas horas.

A terceira vez, um pouco depois das cinco da manhã, tinha sido longa e lenta, sem qualquer pressa. Ela mal se lembrava de ter voltado para a cama depois, e tinha dormido tão profundamente que não se lembraria de sonho algum, mesmo que tivesse sonhado. A luz do sol já invadia os cantos das cortinas pesadas e ela quis saber que horas eram, mas não se preocupou em olhar para o relógio.

Ele fez um barulho que era meio de um homem sonolento, meio de um urso rosnando, levantou o cabelo dela e beijou a parte de trás de seu pescoço.

— Bom-dia — ele disse, e a puxou para mais perto de seu corpo.

— Bom-dia. — Ela adorava sentir toda aquela masculinidade em suas costas, adorava a sensação de ter a perna dele entre as dela e o peso de seu braço sobre sua cintura.

— Ainda tenho que dirigir aquele Fiat? — Parecia que estava meio inconsciente, mas aquele assunto tinha de ser importante para ele, caso contrário não seria a primeira coisa na qual pensaria logo ao acordar.

Ela bateu em seu braço, feliz por estar de costas para ele, para conseguir esconder seu sorriso.

— Não, você pode escolher o modelo que quiser.

— Fui tão bom assim? — ele perguntou, brincalhão, agora mais acordado.

Ele merecia mais do que um tapinha no braço por seu desempenho, então ela colocou a mão para trás e bateu em suas nádegas.

— Você foi espetacular — ela disse com um tom monótono e mecânico. — Sua técnica é fabulosa e seu pênis é o maior que já vi. Sou a mulher mais sortuda do mundo. Esta é uma gravação...

Ele rolou para ficar de barriga para cima e riu. Lily saiu da cama e fugiu para o banheiro enquanto ele ria, antes que pudesse se vingar. Ela olhou para seu reflexo no espelho e se surpreendeu com sua aparência descansada. Uma noite de sexo e ela parecia rejuvenescida?

Não era o sexo, ela percebeu, apesar de que o profundo relaxamento de seu corpo era uma vantagem a mais. Era Swain, o carinho e a consideração que dispensava a ela, e a sensação de ser amada. Era a proximidade, a ligação, o fato de não estar sozinha. Há meses se sentia completamente só, afastada do mundo que via ao seu redor, como se nada nem ninguém fosse capaz de tocá-la, cercada por um fosso de dor e sofrimento. O entusiasmo de Swain e sua personalidade a tiraram de sua solidão e a ligaram novamente à vida.

Que droga, estava realmente se apaixonando por ele. Que coisa mais tola naquele momento, com tudo que estava acontecendo, mas como poderia evitar? Não podia se afastar, precisava da ajuda dele, mas, acima de qualquer coisa, não queria se afastar. Queria tudo que ele pudesse lhe dar, cada minuto. Não podia sequer preocupar-se se ele estaria ao seu lado para sempre, por que não sabia o que seria para sempre. Aquele dia podia ser tudo que teria, ou o dia seguinte. Tudo que ela tinha era o agora, e já era o bastante.

Como só havia um banheiro, ela se apressou em entrar primeiro. Ela não tinha nenhuma peça de roupa no banheiro e seu roupão estava no chão, ao lado da cama, portanto ela teve de ir nua até o quarto, o que não importava, uma vez que Swain ainda não tinha se vestido. Ele levantou da cama quando ela saiu do banheiro, seus olhos sonolentos fixando-se nas partes do corpo dela que lhe interessavam, antes de puxá-la a seu encontro para dar-lhe um longo abraço. Sua ereção matinal se fez presente e ela sentiu o pênis dele contra seu estômago, e desejou não estar tão dolorida.

— Quer tomar um banho comigo? — ele disse sobre a cabeça dela.

— Acho que prefiro ficar imersa na banheira por bastante tempo.

Ele massageou suas nádegas, deixando-a nas pontas dos pés.

— Está dolorida?

— Muito.

— Me desculpe, não pensei direito. Duas vezes seriam o bastante. Eu não deveria ter partido para a terceira.

— Foi a terceira vez que o libertou do Fiat. — Ela acariciou suas costelas, passou a mão em suas costas e apertou os dedos em sua espinha.

Ela sentiu os lábios dele se mexerem contra seu cabelo.

— Nesse caso, veja seu sacrifício como compensado.

— Não sei por quê, mas pensei que você fosse dizer alguma coisa assim. — Mas ela também sorria quando esfregou o nariz contra seu ombro. — É bom saber que posição ocupo em sua lista de prioridades.

Ele parou e perguntou:

— Eu tinha de dizer alguma coisa romântica?

— Sim, mas falhou no quesito romance.

Outra pausa; então, ele a provocou com sua ereção:

— Isto não conta?

— Levando em consideração que estaria assim mesmo se estivesse sozinho, não.

— Ele já teria se acalmado a essa hora. É você quem está mantendo-o em pé. Viu? Eu sou romântico.

Ele queria devolver a brincadeira que ela fizera sobre a gravação, mas o leve balançar de seus ombros o entregou. Ela olhou para seus olhos azuis que estavam brilhando na tentativa de segurar uma risada, mas, como ela estava prestes a rir também, perdoou a brincadeira. Ela lhe deu um tapinha nas nádegas e se afastou para pegar seu roupão.

— Prepare-se, garotão. Está com fome agora? Posso pedir o café?

— Claro, e peça alguma coisa para comermos. — Ele checou seu relógio. — São quase dez horas.

Tudo isso! Ela se surpreendeu com o quanto tinha dormido, mas também se lembrou de que o homem misterioso telefonaria a qualquer momento. Enquanto Swain estava no banheiro, ela checou seu celular, que ela havia colocado para carregar na noite anterior. O telefone estava ligado, tinha sinal, então ela percebeu que não perdera uma chamada. Tirou o telefone do carregador e o colocou no bolso de seu roupão.

Ela ligou para o serviço de quarto e pediu croissants e geléia, com café e suco de laranja. Swain não demonstrara uma preferência por nada além do café-da-manhã tradicional da França, então foi o que escolheu. Em relação à comida, também, ele tinha provado ser bem sofisticado e adaptável. Havia muita coisa que ele não tinha dito a ela sobre seu passado, mas ela também não havia lhe dito tudo sobre si mesma, e provavelmente nunca o faria. Ele estava bem, ela estava completa e, por enquanto, ele era dela. Aquilo bastava.

Ele colocou a cabeça para fora da porta do banheiro.

— Quer entrar na banheira agora enquanto espero pelo serviço de quarto ou quer esperar até mais tarde?

— Mais tarde. Não quero ser interrompida em meu banho pela comida.

— Então, vou tomar uma ducha. — Ele entrou no banheiro e um momento depois ela ouviu o chuveiro.

Ele se aprontou pouco antes de o café-da-manhã ser entregue, elegante, com uma calça preta e uma camisa simples sem colarinho, com as mangas enroladas até a metade de seus musculosos antebraços. Ele assinou a nota, enquanto Lily ficou de costas para o quarto, olhando pela janela, e Swain manteve o garçom na porta. Ele tinha acabado de fechar a porta quando o celular de Lily tocou.

Ela respirou fundo e pegou o telefone de seu bolso. Uma rápida olhada no visor do celular indicava que o número de quem tinha telefonado havia sido bloqueado.

— Acho que é ele — ela disse, e abriu o telefone. — Pois não, alô — ela disse em francês.

—Já tomou sua decisão?

Ao ouvir a voz mecanicamente distorcida, ela fez um sinal a Swain com um leve meneio de cabeça e ele aproximou-se para colocar sua cabeça ao lado da dela. Ela afastou o telefone um pouquinho de sua orelha para ele também poder ouvir.

— Sim, já. Aceito, mas com uma condição. Temos de nos encontrar pessoalmente.

Houve uma pausa.

— Isso não é possível.

— Precisa ser. Você está me pedindo para eu arriscar minha vida, mas não está correndo risco algum.

— Você não me conhece. Não consigo entender como um encontro serviria para acalmá-la.

Ele tinha razão, mas ela já estava calma. Se fosse Rodrigo quem estivesse ligando, ele teria aceitado no mesmo momento o convite. Mandaria outra pessoa para encontrá-la, atraindo-a para uma armadilha e usando alguém a quem ela não reconhecesse. Seria mais simples. Aquele homem não era Rodrigo e não trabalhava para ele.

Ela começou a dizer que ele tinha razão, que um encontro não se fazia necessário, mas Swain fez um sinal, mexeu a boca, dizendo, sem emitir som, a palavra "encontro" e balançou a cabeça, afirmando que ela deveria insistir em encontrá-lo.

Lily não conseguiu ver qualquer razão para aquilo, mas deu de ombros e concordou com ele.

— Quero ver o seu rosto. Você conhece o meu, não é?

O homem hesitou e ela sabia que tinha adivinhado corretamente.

— Que diferença faz você ver o meu rosto? Eu poderia lhe dar qualquer nome e você não saberia a verdade.

Aquilo também era verdade, e ela não conseguiu pensar em nenhum motivo lógico para continuar insistindo, por isso recorreu ao ilógico.

— É a minha condição — ela disse abruptamente. — É pegar ou largar.

Ela o ouviu respirando profundamente, demonstrando sua frustração.

—Aceito. Estarei no jardim do Palácio Real amanhã, às duas da tarde. Esteja com um cachecol vermelho e eu vou encontrá-la. Vá sozinha.

Swain balançou a cabeça, com uma expressão determinada que lhe dizia que ele não aceitava aquela condição.

— Não — ela disse. — Um amigo vai me acompanhar. Ele insiste. Você não corre risco algum comigo, monsieur, e ele quer ter certeza de que eu não corro risco algum com o senhor.

O homem riu, o que se transformou em ruídos altos pelo aparelho eletrônico.

— Você é dura na queda. Pois não, mademoiselle. Tem mais alguma condição?

— Sim — ela disse, apenas para contrariá-lo. — Você também deve estar usando um cachecol vermelho.

Ele voltou a rir e desligou o telefone. Lily fechou o celular e suspirou aliviada.

— Não é Rodrigo — ela disse, desnecessariamente.

— Parece que não. Isso é bom. Pode ser que ele esteja dando um tempo.

— Por que quer estar comigo?

— Porque um homem que reluta tanto em ser visto deve ter alguma coisa a esconder, e eu não confio nele. — Ele pegou uma xícara de café e entregou a ela, depois piscou. — Adivinhe o que isso significa.

Lily piscou, ainda pensando na ligação e em suas implicações.

— O quê? — ela perguntou, surpresa.

— Quer dizer que temos o dia para nós. — Ele encostou a xícara dele na dela para brindar. — E a noite.

Sem nada para fazer além de se divertirem, ele quis dizer. Ela esboçou um leve sorriso. Indo em direção à janela, ela abriu as cortinas e olhou o dia ensolarado.

— Se você se sentir entediado, podemos fazer aquele passeio à Disneylândia — ela disse. Achava que poderia fazê-lo naquele momento e lembrar de Zia com alegria, sem sofrer.

— Podemos ficar nus lá? — ele perguntou, bebericando seu café.

Sabendo exatamente aonde aquela conversa os levaria, ela disse:

— De jeito nenhum.

— Então, não vou sair deste quarto.

 

O dia seguinte, sábado, estava ensolarado, agradável, atraindo os turistas para as ruas. Swain pensou que haveria poucos turistas naquela época do ano, mas tinha se enganado. Muitos deles tinham sentido a necessidade de visitar os jardins do Palácio Real ou talvez houvesse algum festival acontecendo. Tinha de estar acontecendo algum evento que explicasse aquele número de turistas.

Infelizmente, "no jardim" acabou sendo uma instrução bastante vaga. O parque decorado era grande e cercado em três de seus lados por lojas, restaurantes e galerias de arte. A entrada do parque tinha um amplo pátio com colunas de pedras, que ele acreditou serem a idéia de alguma artista a respeito de... alguma coisa, mas pareciam bem modernas e não combinavam com a arquitetura de 1600. Havia uma grande fileira de colunas mais altas, imponentes, que atrapalhavam ainda mais a vista. Entre as colunas e a multidão, na qual muitas pessoas pareciam estar usando cachecóis vermelhos, encontrar uma pessoa era mais difícil do que ele imaginava.

Ele percebeu que aquele tinha sido um modo ruim de combinarem o encontro, mas era também bastante confortador. Um profissional teria escolhido um outro jeito, o que mostrava que o cara com quem estava lidando era muito amador, possivelmente alguém que trabalhasse no laboratório Nervi e estivesse assustado com as próprias descobertas. Swain e Lily teriam vantagens sobre ele.

Lily ficou ao lado de Swain, olhando ao seu redor. Ela estava usando óculos escuros para esconder seus olhos, assim como lentes de contato em um tom castanho para o caso de precisar tirar seus óculos e a mesma touca que usava para cobrir seu cabelo. Swain olhou para ela e pegou sua mão, puxando-a para perto dele.

Swain se considerava um homem simples em relação a seus desejos e necessidades, ao que gostava e ao que não gostava, mas não havia nada de simples naquela situação com Lily ou em como ela o fazia se sentir. Ele estava preso em um dilema e sabia disso. O melhor que podia fazer era cuidar de uma coisa por vez, em ordem de importância, e torcer para tudo dar certo. Não poderia dar certo com Lily, é claro, e ele sentia uma pontada no coração todas as vezes que pensava no que tinha de fazer.

Se ao menos pudesse conversar com Frank. Seu amigo estava vivo, mas completamente sedado, e ainda na UTI. Na opinião de Swain, "consciente" não descrevia exatamente sua condição, pois, de acordo com a assistente de Frank, ele respondia a pedidos de "aperte minha mão" e, de vez em quando, mexia a boca pedindo água. Para Swain, consciente estava a pessoa que era capaz de conversar e de raciocinar. Frank estava muito longe disso. Ele não tinha a menor condição de receber um telefonema, mesmo que seu quarto tivesse um aparelho telefônico, o que não era o caso.

Tinha de existir uma outra solução para Lily. Ele queria conversar com ela: sentar-se, segurar suas mãos e dizer exatamente o que estava acontecendo. As coisas não tinham de acontecer da maneira que Frank decretara.

Não contaria tudo, pois não tinha a menor dúvida de qual seria sua reação. Na melhor das hipóteses, sumiria. Na pior, tentaria matá-lo. Levando em conta seu passado e como ela era fria e desconfiada, ele apostava na pior opção. Se já não tivesse sido traída por um cara por quem tinha se apaixonado... talvez Swain tivesse outra chance. Ele se assustara quando ela contou a ele esse episódio de sua vida, porque sabia que era um terrível precedente em sua mente. Depois de conseguir escapar com vida daquilo, ela não estaria disposta a lhe dar o benefício da dúvida e conversar antes de atirar.

As emoções dela estavam à flor da pele, ele bem sabia disso. Tinha sido surrada pela perda e pela traição a ponto de ter quase se fechado completamente, por não ser capaz de agüentar outro golpe. Ele sabia bem que apenas as circunstâncias a tinham levado até ele, apesar de ele ter sido rápido ao tirar proveito da situação. Ela estava carente de contato humano, ao mesmo tempo em que o rejeitava, e sua vida estava completamente privada de riso, diversão, alegria. Pelo menos ele pôde lhe dar aquilo, por um tempo, e, como ele dissera a ela, era um filho-da-mãe de um sortudo porque aquilo era exatamente seu ponto fraco.

Ele ficava tocado pelo modo como ela tinha se aberto nos últimos dias. Ele não se gabava, achando que aquilo se devia à sua técnica de fazer amor ou mesmo à sua personalidade segura; o simples contato humano tinha sido o responsável, tirando-a de sua concha, trazendo sua risada e seu bom humor à tona, e fazendo com que ela desse e aceitasse carinho. Mas alguns dias não poderiam vencer meses, anos de condicionamento; ela ainda estava tão fragilizada que o menor sinal de traição destruiria a confiança que surgira entre eles.

Ele estava desorientado, porque fora pego de surpresa tanto quanto ela. Se ele tocara seu coração, ela também tinha tocado o dele. Aquelas duas últimas noites fazendo amor com ela tinham sido... tinham sido os melhores momentos de sua vida. Perdê-la o destruiria, e ele tinha deixado as coisas chegarem a um ponto no qual ficaria sem ela independentemente do que fizesse, porque, se contasse a ela quem ele era e como a tinha encontrado, tudo que ela enxergaria diante de si seria traição. Cretino. Acreditou que conseguiria lidar com a situação, ter um pouco de diversão e diverti-la um pouco, mas não imaginava que ela se tornaria tão importante para ele. Também não sabia como Lily estava desgastada emocionalmente, e tal condição a cegaria se ele abrisse o jogo agora. Ele fora um imbecil arrogante, usou a cabeça de baixo, e não a de cima, e agora tanto ele quanto Lily pagariam por isso.

Tudo bem, ele merecia pagar, mas ela não. No mínimo, poderia dizer que ela era a mocinha naquela situação. E daí que ela tinha matado um trunfo da CIA? O filho-da-puta tinha merecido morrer, principalmente por causa do que ele planejava fazer com o vírus da gripe aviária. Mesmo sem saber desse fato quando o matou, seu motivo tinha sido pura e simplesmente vingar-se, mas, para Swain, não tinha a menor importância. O certo é que Lily não tinha desistido. Ela continuava se metendo em qualquer confusão, disposta a se sacrificar para fazer o que considerava ser correto. Poucas pessoas tinham essa firmeza de caráter, ou simples teimosia, fosse lá o nome dado àquilo.

Sentiu um aperto na boca do estômago e seu coração começou a bater com força quando percebeu o que tinha acontecido, como não tinha visto o que estava tão claro.

— Jesus amado! — ele disse em voz alta. Apesar do frio que fazia, ele suava.

Lily olhou para ele, confusa.

— O que foi?

— Estou apaixonado por você. — Ele disse rapidamente, chocado ao perceber o que estava sentindo e o desastre se formando diante dele. Ele contraiu a mandíbula, como se estivesse se segurando para não dizer tudo. Sentia-se como se tivesse acabado de saltar em um abismo.

Por causa dos óculos escuros, ele não pôde ver seus olhos muito bem, mas pôde perceber que ela piscou várias vezes e sua boca ficou entreaberta.

— O quê? — ela voltou a perguntar, mas dessa vez a voz saiu muito fraca.

O telefone celular dela começou a tocar. Ela fez uma careta de desaprovação.

— Estou muito cansada desses malditos telefones! — ela disse ao tirar o aparelho de seu bolso.

Frustrado pela interrupção, ele pegou o telefone.

— Entendo o que quer dizer — resmungou ao olhar rapidamente no visor. Fez uma pausa ao ver o número. Conhecia aquele número; tinha ligado para ele uns dias antes. O que aquilo significava...? — Temos um número desta vez — ele disse para disfarçar sua pausa; abriu o telefone e falou: — Pois não, o que é?

—Ah... acho que liguei para o número errado.

— Acho que não — Swain disse com fúria quando o silêncio confirmou sua suspeita. — Está ligando por causa de um encontro?

Talvez o homem do outro lado da linha também tenha se lembrado de sua voz, porque houve um longo momento de silêncio, tão longo que Swain começou a se perguntar se a ligação não tinha sido cortada. Por fim, o homem respondeu:

— Oui.

— Sou o amigo a quem ela se referia — Swain disse, torcendo para ele não entregá-lo. Ele sabia que Swain era da CIA; se perguntasse sobre isso a Lily, tudo estaria perdido.

— Não compreendo.

Não, é claro que não entendia, porque acreditava — e estava certo — que Swain tinha sido mandado para a França para cuidar do problema, ou seja, de Lily. Mas Swain parecia estar trabalhando para ela.

— Não tem de entender — Swain respondeu —, só diga se o encontro ainda está de pé.

— Oui. Não sabia que este parque estaria tão... Estou no lago do centro. É um ponto de encontro mais fácil. Estarei sentado à beira do lago.

— Estaremos aí em cinco minutos — Swain disse e fechou o telefone.

Lily tomou o telefone de sua mão.

— Por que fez isso? — perguntou.

— Para ele ter a certeza de que você não está sozinha — ele disse. Era uma desculpa qualquer, além de ser a única que lhe ocorreu. — Ele está à nossa espera no centro do parque, no lago. — Ele pegou o braço dela para levá-la ao parque.

Ela tirou seu braço.

— Espere.

Ele parou onde estava e olhou para ela.

— O que foi? — Ele ficou preocupado que ela insistisse em falar sobre a desculpa que ele inventara, porque até onde sabia as mulheres adoravam discutir as coisas à exaustão; mas sua mente estava em outra direção, completamente diferente.

— Acho que devemos nos prender ao plano original. Fique escondido onde possa me ver. Rodrigo pode ter sido esperto o bastante para adivinhar que suspeitaríamos se ele aceitasse na mesma hora o encontro.

Deixá-la encontrar-se sozinha com um cara que sabia que ela era da CIA? De jeito nenhum.

— Não se trata de Rodrigo — ele disse.

— Como você sabe?

— Porque o cara não conhecia este parque; ele não sabia que a entrada, em um sábado, lotada de pessoas, não era um bom lugar para nos encontrarmos. Você acha que Rodrigo não teria conferido isso? E olhe ao seu redor; acha que Rodrigo poderia seqüestrar uma mulher com todas essas pessoas por perto? Provavelmente trata-se de alguém honesto.

— Provavelmente, mas não com certeza — ela disse.

— Tudo bem, vamos analisar assim: se for Rodrigo, a presença de outra pessoa o impediria de levar seu plano até o fim?

— Não, mas seria impossível para ele fazer o que pretendesse sem atrair atenção.

— Exatamente. Confie em mim, não estou arriscando sua vida nem a minha. Rodrigo teria escolhido um lugar escondido para nos encontrarmos, porque seria burrice não fazê-lo.

Ela pensou sobre aquilo por um momento e, por fim, balançou a cabeça.

— Você tem razão. Rodrigo não é estúpido.

Ele entrelaçou seus dedos nos dela e começaram a andar. Ao segurar a mão dela, Swain sentiu um aperto no coração e a confiança que ela depositava nele pesava como uma bigorna. Deus, o que ele faria?

— Só para a sua informação, ouvi o que você disse. — Ela olhou por cima da armação de seus óculos de sol. Ele levou um susto ao ver um par de olhos castanhos encarando-o, no lugar dos azuis, como se estivesse em um outro mundo.

Ele rapidamente apertou sua mão.

— E?

— E... estou feliz. — Foi algo dito de modo muito simples e lhe tocou o coração. A maioria das mulheres conseguia dizer "eu te amo" com muito mais facilidade que os homens, mas Lily não era a maioria das pessoas. Para ela, amar, e admitir tal fato, devia tomar conta de cada ponta de coragem que ela possuía — e se tratava de muita coragem. Ela o dominava de um jeito que ele não esperava, e não sabia como reagir.

Eles entraram de mãos dadas no enorme parque, que já tinha pertencido ao cardeal Richelieu. O grande lago com a fonte no centro ficava bem no meio da área. As pessoas passeavam pelo jardim, aproveitando suas belezas, apesar de ele não ser tão viçoso em novembro, como nos meses anteriores, e alguns posavam à beira do lago para ter aquelas fotos como lembranças de férias. Swain e Lily andaram ao redor do lago, à procura de um homem solitário vestindo um cachecol.

Ele ficou em pé quando os viu se aproximarem. Rapidamente, Swain o analisou. Era um homem apresentável, de cerca de 1,85m, olhos e cabelos escuros e um rosto com ossos proeminentes que deixavam claro que ele era francês. Por seu casaco ser justo ao corpo, ou ele estava desarmado ou, como Lily, tinha uma arma no tornozelo. Carregava uma maleta, um detalhe que o diferenciava do restante das pessoas presentes ali; era sábado, não era um dia de trabalho. Não tinha malícia de espionagem, caso contrário saberia que tinha de se misturar à multidão, e não se diferenciar.

Os olhos escuros do homem analisaram o rosto de Swain primeiro, e depois passaram para o de Lily. Surpreendentemente, seu ar sério se desfez.

— Mademoiselle — ele disse, e curvou-se, uma saudação completamente natural e respeitosa. Sim, era exatamente a voz baixa da qual Swain se lembrava. Mas não gostou de como o cara olhou para Lily e a puxou um pouco mais para seu lado, com um daqueles gestos usados pelos homens para mostrar aos outros que estão entrando em território alheio.

O homem da Interpol já sabia seu nome, mas, para evitar um escorregão na frente de Lily, que não pudesse ser explicado, Swain disse:

— Me chame de Swain. Agora já sabe o nome dela e o meu. Qual é o seu?

Os olhos escuros e astutos o observaram. O homem da Interpol não hesitou porque não sabia o que fazer, mas porque estava analisando todos os ângulos. Evidentemente, deve ter decidido que não havia motivos para segredos, já que Swain sabia seu número de telefone e os recursos para ligar um nome a ele se quisesse.

— Georges Blanc — o homem respondeu. Ele apontou a maleta. — Tudo que precisa saber sobre o sistema está aqui dentro, mas, depois de uma análise cuidadosa, acredito que uma entrada clandestina não seja viável no momento.

Swain olhou atentamente ao redor, certificando-se de que não havia ninguém ouvindo. Era uma coisa boa o fato de a voz do homem ser naturalmente baixa.

— É melhor irmos para um local mais reservado — ele disse.

Blanc também olhou para os lados, e fez um movimento de cabeça para sinalizar que compreendia.

— Desculpe-me — ele disse. — Não estou muito acostumado com essas coisas.

Eles andaram em direção a uma fileira de topiaria. Swain não gostava de jardins podados, preferia ver a natureza em seu aspecto mais selvagem, mas havia alguns bancos de pedra espalhados pelo parque e ele supôs que em um dia calmo eles seriam um local tranqüilo. Apesar de Swain não gostar desse cenário, ele parecia atrair muitas pessoas. Eles encontraram um desses bancos de pedra e Blanc convidou Lily para sentar-se. Colocou a maleta ao lado dela.

Repentinamente assustado, Swain deu um passo à frente e pegou a maleta, afastando-a de Lily. Ele a entregou de volta a Blanc.

— Abra — ordenou em um tom duro e áspero. Uma maleta podia muito bem guardar uma bomba.

Lily estava em pé, Swain moveu-se de modo que ela ficasse atrás dele e colocou a mão dentro de seu casaco. Se a maleta tivesse uma bomba, talvez pudesse protegê-la, apesar de ele duvidar que Blanc explodiria uma bomba estando tão perto dela. Mas e se Blanc não estivesse com o detonador, e sim outra pessoa?

Blanc assustou-se tanto pela rapidez dos movimentos de Swain quanto pela seriedade em sua expressão.

— Ela só tem papéis — ele disse, pegando a maleta e apertando os botões para abri-la. A maleta se abriu e ele levantou a tampa, mostrando o maço de papéis ali dentro. — Pode confiar em mim. — Ele fixou seu olhar nos olhos de Swain, que entendeu a mensagem.

Ele pareceu mais relaxado e tirou a mão de sua arma.

— Desculpe — ele disse. — Não deixo de me preocupar com Rodrigo Nervi.

Lily bateu em suas costas.

— O que acha que está fazendo? Ela tinha ficado brava por ele ter tentado protegê-la. Se soubesse o que poderia estar acontecendo, ela teria se colocado diante dele para protegê-lo, mas ela não estava treinada naquele tipo de coisa, assim como Blanc, e por alguns segundos não percebeu o que Swain estava fazendo. Ele não se desculparia por ter feito algo que ela teria feito. Lançou-lhe um olhar atravessado sobre seu ombro e disse:

— Conforme-se com meu jeito.

Ela o encarou, passou pelo lado dele e voltou a sentar-se no banco.

— Por favor, sente-se, tnonsieur Blanc — ela disse com seu francês perfeito.

Com um olhar divertido a Swain, Blanc sentou-se.

— Você disse que uma entrada forçada pode ser inútil no momento — Lily disse, começando a conversa.

— Sim, as medidas de segurança externa adicionais dificultariam essa entrada, principalmente à noite, quando há mais guardas em todas as entradas, até mesmo no hall. Na verdade, há menos segurança de dia, quando mais funcionários estão ali.

Aquilo era lógico, Swain pensou. Não era bom para o propósito que tinham, mas era lógico.

— Proponho que entrem durante o dia.

— Como faremos isso? — Swain perguntou.

— Consegui que vocês fossem contratados pelo Nervi mais novo, Damone, que veio da Suíça para ajudar seu irmão. Já o conhece, mademoiselle? — Blanc perguntou a Lily.

Ela balançou a cabeça negativamente.

— Não, ele estava sempre na Suíça. Pelo que sei, ele é um gênio das finanças. Mas por que ele precisaria contratar alguém para alguma coisa? Rodrigo não faria isso ele mesmo?

— Como eu disse, ele está aqui para tomar conta de algumas questões administrativas. Ele deseja que as medidas de segurança externa sejam reforçadas, para torná-las o mais infalíveis possível. Como isso é para proteger o laboratório, Rodrigo concordou.

— Rodrigo sabe como eu sou — Lily explicou. — Todos os seus funcionários sabem.

— Mas não sabe como o monsieur Swain é, não é mesmo? —-Blanc disse. — Isso é bom. E acredito que a senhora seja boa com disfarces.

— Até certo ponto — Lily disse, surpresa por ele saber uma coisa dessas.

— Então, esse Damone vai nos contratar sem nos ver? — Swain perguntou, incrédulo.

Blanc sorriu. — Recebi a tarefa de localizar alguém para ele. Ele confia em mim e não vai questionar minha decisão. Damone Nervi em pessoa vai ajudá-los a passar pela segurança para entrar no laboratório. — Ele separou as mãos. — O que poderia ser melhor?

 

- Nãoé um trabalho simples — Swain disse.

Por segurança, os três foram para uma pequena cafeteria, onde se sentaram à mesa mais isolada com seus cafés e analisaram o conteúdo da maleta. Falavam em inglês e em francês e perceberam que se davam bem assim. Blanc conseguia se expressar com mais clareza em francês, mas Swain conseguia entender, e vice-versa. Aparentemente sem grandes esforços, Lily usava os dois idiomas, alternadamente.

— Vou precisar de pelo menos uma semana para completar minha lista de compras — ele continuou.

Swain ficou irritado quando Blanc imediatamente olhou para Lily, como se estivesse pedindo uma confirmação. Ela deu de ombros e disse:

— Não sei nada sobre explosivos e demolição. Swain é especialista no assunto.

Ele não dissera a ela que era especialista, mas gostou do voto de confiança. Pelo que parecia, ele sabia como usar um detonador.

— A história que você contou a Damone é boa — ele explicou —, mas temos de nos proteger. Pelo que você disse, Damone não é idiota...

— Não — Blanc respondeu. — Muito longe disso.

—.. E pode apostar que Rodrigo pelo menos ficará curioso o bastante para checar nossas credenciais.

— No mínimo — Lily disse secamente. — Se tiver tempo, fará uma investigação meticulosa.

— Teremos de nos certificar de que ele não tenha esse tempo. Teremos de plantar os explosivos na primeira vez que entrarmos, porque pode ser que não tenhamos uma segunda chance. Damone confia o bastante no senhor para nos levar para o laboratório antes que Rodrigo tenha a chance de nos investigar?

— Sim — Blanc respondeu sem hesitar. — Direi a ele que fiz uma investigação completa.

Swain começou a perguntar se Damone não sabia que a Interpol não fazia investigações, mas deteve-se, pois não saberia o que dizer para explicar a Lily como ele sabia que Blanc era da Interpol. Blanc não era o único a navegar com cuidado naqueles mares revoltos.

— Precisaremos de uma van ou caminhonete, cartões de visita, artigos de papelaria, macacões — todos os requerimentos externos de um negócio. A van pode levar tudo de que precisamos; pelo menos essa planta do complexo me dá uma idéia da área que teremos de cobrir. Você sabe onde exatamente o laboratório está localizado dentro do prédio?

Blanc fez um gesto para mostrar que não sabia.

— Nem sei se tudo relacionado a ele está em apenas uma área. Os arquivos podem estar espalhados pelo complexo, apesar de que, nesse caso, seriam gravações de má qualidade, não é?

— Ou boas o suficiente para servirem de backup se certos arquivos forem destruídos. É algo que teremos de descobrir quando estivermos lá. Será que Damone pode pedir ao dr. Giordano para nos mostrar todo o lugar? Trata-se da segurança de seu próprio trabalho, por isso ele pode nos indicar o local onde guarda as cópias de segurança para que as mantenhamos protegidas — Lily disse.

Eles estavam trabalhando com muitas incertezas, mas Swain se lembrou de que Lily era boa em reconhecer as intenções das pessoas. Foi por isso, exceto por um detalhe, que ele fora autêntico com ela. Não queria que ela descobrisse qualquer falsidade nele. Lily tinha conhecido o dr. Giordano, observado seu jeito de ser. Ela dissera que ele sentia muito orgulho de seu trabalho; profissionalmente, era um gênio. Então, sim, ele possivelmente mostraria a eles todas as medidas de segurança do lugar para proteger seu material de pesquisa. Já tivera muitas coisas destruídas uma vez; não desejaria uma nova ameaça.

Uma expressão de preocupação apareceu nos olhos de Blanc.

— Vocês detonarão os explosivos com tanta gente por perto ou esperarão até a noite, quando menos pessoas estiverem por lá?

— Não podemos correr o risco de alguém encontrar os explosivos se nós os deixarmos lá até a noite. Eles terão de ser detonados o mais rápido possível depois da instalação.

— Poderíamos simular um exercício de ameaça de bomba — Lily sugeriu. — Anunciar imediatamente que, em determinado momento do dia, o alarme soará e eles terão de sair rapidamente. Se alguém vir algo suspeito, provavelmente vai pensar que faz parte da simulação. Na verdade, podemos usar isso como parte do treinamento: dizer a todos que explosivos falsos estão sendo instalados em todos os locais do prédio, e que o testaremos se todos eles conseguem ser encontrados enquanto os funcionários estiverem realizando suas tarefas rotineiras. Eles não precisam procurá-los, apenas ficar atentos, esse tipo de coisa. Um bônus para quem encontrar os explosivos. Não devem tocá-los, apenas dizer onde se localizam.

— Fazer com que os funcionários participem da encenação? — Swain semicerrou os olhos ao pensar na sugestão. Isso tiraria grande parte da incerteza do plano, pois, nesse caso, ele e Lily não levantariam suspeitas por estarem instalando objetos estranhos. O dr. Giordano poderia até mostrar a eles alguns bons lugares mais escondidos para os explosivos. O plano era tão astuto e impetuoso que ninguém os estaria vigiando. O maior desafio provavelmente seria disfarçar Lily bem o suficiente para o dr. Giordano não reconhecê-la. — Isso é diabólico. Gosto disso. Teríamos até mesmo uma desculpa para levarmos os explosivos para dentro, se forem detectados; poderíamos mostrar aos funcionários como é um Semtex ou um C-4, para que possam reconhecê-los no futuro.

— Vai usar explosivos plásticos? — Blanc perguntou.

— É mais seguro — para quem os manuseia, é claro — e os mais estáveis. Swain não sabia qual conseguiria obter, Semtex ou C-4, mas, quanto ao manuseio, não havia muita diferença entre eles. Os dois eram estáveis, potentes e ambos exigiam detonadores para explodir. O Semtex poderia estar mais disponível ali, uma vez que era produzido na República Tcheca, mas a nova versão também perdia sua plasticidade depois de três anos. Portanto, se conseguisse um Semtex, teria de se certificar de que não era muito velho.

— Marque uma reunião nossa com Damone para daqui a uma semana — Swain disse a Blanc. — Entrarei em contato com você se houver uma demora para conseguirmos tudo de que precisamos.

— Pretende encontrar-se com ele em um sábado?

— Se houver menos empregados dentro do prédio no sábado, seria melhor.

— Sim, entendo. Vou tentar marcar a reunião para esse dia.

— Tem mais uma coisa — Lily disse.

— Pois não, mademoiselle?

— O pagamento de um milhão de dólares. Quero que ele seja depositado em minha conta antes de entrarmos em ação. Precisaremos do dinheiro para comprar tudo.

Blanc pareceu surpreso.

— Dólares americanos — Lily especificou. — Esse foi o acordo.

— Sim, é claro. Eu vou... ver o que pode ser feito.

— Esta é minha conta bancária, e meu banco. — Ela rabiscou um nome, um número e lhe entregou. — Na segunda à tarde, checarei meu saldo.

Blanc pegou o pedaço de papel. Swain achou que ele ainda tinha um olhar de surpresa, como se não conseguisse acreditar que Lily realmente aceitaria o dinheiro, em vez de agir por pura bondade. Swain sabia que ela aceitaria o trabalho mesmo que tivesse de pagar pelo privilégio, mas, como Blanc se oferecera a pagar, não seria tola de recusar aquele dinheiro.

Swain pagou o café enquanto Lily arrumava os papéis dentro da maleta. Ela esticou o braço para apertar a mão de Blanc, mas o francês pegou sua mão, levou-a até seus lábios e a beijou. Irritado, Swain separou as mãos dos dois e disse:

— Pare com isso. Ela é comprometida.

— Eu também, monsieur — Blanc disse. — No entanto, não sou mal-educado.

— Que bom. Agora vá ser educado com outra pessoa.

— Compreendo — Blanc disse e novamente havia um sentido mais profundo por trás de suas palavras.

Lily estava rindo enquanto eles se afastavam.

— Os franceses beijam as mãos das mulheres. E não têm segundas intenções com essa atitude.

— Que bobagem. Ele é homem, não é? Ele quer dizer alguma coisa com essa atitude.

— Você sabe disso por experiência própria?

— Com certeza. — Ele segurou a mão dela. — Os malditos franceses beijam tudo que podem. Não dá para saber onde andaram colocando a boca.

— Isso quer dizer que eu deveria colocar minha mão na água fervente para me livrar dos germes?

— Não; se ele voltar a beijá-la, vou colocar os lábios dele para ferver.

Ela sorriu, encostando a cabeça em seu braço. Suas bochechas coraram, mostrando a ele que, em parte, ela gostava de sua petulância. Ele colocou seu braço no ombro dela e a puxou para si enquanto andavam.

Uma semana! Apesar de saber que estariam ocupados, Swain sentia-se como se tivesse recebido uma dádiva. Teria Lily sete noites mais, pelo menos. Em uma semana, Frank estaria bem o suficiente para falar ao telefone — se não piorasse.

— Não estava tentando pegar sua parte do dinheiro — Lily disse abruptamente, tirando Swain de seus pensamentos. — Vou transferir metade para você.

— Eu nem estava pensando no dinheiro — ele disse com sinceridade. Estava trabalhando para os conterrâneos do Tio Sam, ali, apesar de suas decisões espontâneas; ainda estava contratado. — Fique com ele. Eu tenho dinheiro e, pelo que você disse, precisa refazer suas economias. —Aquilo também era verdade. Saber se ela estaria viva para aproveitá-lo era a grande dúvida.

Ela precisava sobreviver. Ele não conseguia imaginar uma situação diferente. Frank precisava se recuperar.

Naquela noite, quando estavam no quarto do hotel, ela se aproximou dele, que estava sentado à mesa estudando a planta e os esquemas que estavam na maleta. Blanc havia marcado a função de cada cômodo da planta do prédio, então Swain conseguiu demarcar a área na qual teriam de trabalhar. Não precisariam cobrir toda a construção, apenas algumas partes. Por exemplo, não precisariam colocar explosivos nos banheiros e nas salas de reunião. Isso seria desperdiçar material. Quando Swain conseguisse as medidas exatas da área, conseguiria fazer uma estimativa da quantidade necessária de explosivos.

Lily encostou-se em suas costas, envolveu-o com seus braços e, em seguida, deu-lhe um beijo debaixo de sua orelha.

— Também te amo — ela disse séria. — Eu sei, tenho certeza. Assustador, não é?

—Aterrorizante. — Ele soltou a caneta que estava usando para calcular a medida das salas e virou-se na cadeira para sentá-la em seu colo. — Pensei que fôssemos apenas nos divertir; e a próxima coisa que sei é que estava preocupado, querendo saber se você tinha tomado seu café-da-manhã. Você é como um bombardeiro Stealth. Meu radar não a detectou. — Ele franziu a testa e olhou para ela.

— Não me culpe — ela protestou. — Nada disso foi planejado. Eu estava cuidando de minhas coisas, envolvida em um tiroteio no qual eu estava levando a pior quando você se meteu. A propósito, você dirigiu muito bem, deslizando daquela maneira com o Jaguar.

— Sinto saudade daquele carro — ele disse, pensativo. — E obrigado, senhorita. Aquilo se chama cavalo-de-pau, para quando você quiser mudar de direção sem se preocupar com manobras minuciosas.

— Pensei que tivesse se contentado com o Mercedes.

Na tarde do dia anterior, eles tinham devolvido o Fiat, e ele havia escolhido um outro carro de luxo com um motor potente, um Mercedes S-Class. Lily, na verdade, se sentia mais confortável no Fiat, mas evidentemente o ego de Swain estava diretamente relacionado ao número de cilindros existentes debaixo do capô de seu carro, por isso ela concordou com a escolha. O Fiat tinha sido divertido enquanto durara e, como era ele quem estava pagando, achava que ele tinha de dirigir o que quisesse. Só estava feliz por não terem encontrado nenhum Rolls Royce disponível.

— Estou satisfeito — ele disse. — Ninguém tem motores como os alemães. Mas o Jaguar era bacana também. E o Megane foi bonzinho.

Lily se perguntou como eles tinham mudado o assunto de amor para carros. Colocou seus braços ao redor do pescoço dele, encostando-se. Para onde iriam dali em diante? E havia razão para se preocuparem com o futuro quando nem tinham a certeza de que teriam um?

— Fique no... — Swain começou.

— Não comece... — Lily interrompeu. — Não vou ficar neste carro de jeito nenhum.

— Vai ficar mais segura — explicou com uma lógica impecável.

— Mas você não vai — ela respondeu, igualmente lógica. Ele olhou bravo para ela. Odiava o fato de a lógica dela ser tão impecável quanto a dele. Ela o encarou também, fazendo uma careta para imitá-lo.

— Não preciso de ninguém na minha retaguarda.

— Ótimo. Então vou junto, já que não há perigo algum.

— Que merda! — Ele esfregou a mão em seu rosto e tambori-lou os dedos no volante. Pelo menos o volante era de um carro de verdade, um Mercedes S-Class preto; era o único conforto que conseguia sentir naquele momento.

Aquela compra o deixara tão nervoso como um gato perto de uma cadeira de balanço. Swain estava com a pulga atrás da orelha e seu sexto sentido lhe dizia que as coisas poderiam ficar ruins. Se fosse o único envolvido, poderia lidar melhor com a situação, aceitar aquilo como um desafio a seu talento, mas Lily estava junto e isso mudava tudo.

Ele demorou três dias para encontrar um fornecedor que tivesse a quantidade de explosivos necessária, e o cara tinha insistido para eles se encontrarem em um lugar barra-pesada de Paris. Swain achou aquele lugar o mais barra-pesada de todos. Favelas eram favelas, e ele havia estado em muitas delas, mas havia um cheiro ruim ali que o deixava em alerta.

Supostamente, o fornecedor se chamava Bernard. Era um nome bastante comum e talvez fosse seu nome verdadeiro. Swain duvidava, mas não se importava com o nome verdadeiro do sujeito. O que mais lhe importava era certificar-se de que o explosivo era bom, entregar o dinheiro e sair dali vivo. Alguns indivíduos desonestos ganhavam uma boa grana vendendo a mesma mercadoria ilegal diversas vezes; simplesmente mate o comprador, fique com o produto e com o dinheiro.

Provavelmente alguns compradores tinham a mesma idéia, ao contrário: mate o vendedor, fique com o dinheiro e com o produto. Dos dois jeitos, alguém lucrava. Isso queria dizer que esse Bernard estaria tão alerta quanto Swain, o que não era nada bom.

— Não posso ficar em sua retaguarda aqui no carro — Lily disse, checando o que conseguia ver de seu reflexo no espelho retrovisor. Estava testando seus disfarces. Naquela noite, estava vestida de preto da cabeça aos pés e usava um casaco preto de couro que deixava seus ombros mais quadrados, disfarçando seu corpo magro, porém feminino. No lugar de suas botas rasteiras, calçava botas com solado de cinco centímetros, que a deixavam mais alta e que eram grandes o suficiente para esconder o tamanho de seus pés. Tinha comprado látex para próteses cor-da-pele em uma loja especializada em maquiagem de efeitos especiais e estava aprendendo a aplicá-la em seu rosto e em sua testa para parecer mais masculina. Ela também estava usando lentes de contato escuras e seu cabelo louro estava coberto por uma touca preta que estava puxada até quase suas sobrancelhas, que tinham sido escurecidas para combinarem com o bigode falso.

Ele tinha dado muita risada ao vê-la pela primeira vez daquele jeito, mas, agora que a única luz era a do painel do carro, o disfarce parecia muito mais real. Ela estava com uma cara masculina e assustadora. Lily tinha começado a aparar seus cílios para que não parecessem tão femininos depois que ela usasse maquiagem para escurecê-los, mas Swain a impediu. Se alguém olhasse para ela perto o suficiente para conseguir ver seus cílios, eles já estariam com problemas.

Ela segurava sua pistola. Se precisasse usá-la, os segundos que perderia pegando-a de sua bota seriam decisivos.

Swain estava com medo de ela sair do carro. Se as coisas tivessem seguido sua vontade, ele a teria feito vestir uma armadura, e talvez ele usasse um colete à prova de balas. Infelizmente, tinha perdido a discussão se ela deveria ou não ficar no hotel, e agora perdia mais uma: se ela devia ou não ficar no carro. Parecia que estava perdendo todas as discussões que tinha com ela ultimamente, e não sabia o que fazer com relação a isso. Ele pensou em amarrá-la à cama do hotel, mas teria de desamarrá-la em algum momento — e ela era Lily Mansfield, e não uma mãe submissa em férias. Ele não sabia o que ela faria, mas tinha certeza de que acabaria pagando caro.

Uma frente fria tinha tomado conta do dia e o que era frio, porém agradável, ficou nublado e gelado quando o sol se pôs. Mesmo assim, Swain deixou os vidros parcialmente abaixados para eles conseguirem escutar a aproximação de alguém, e ele tinha colocado os retrovisores laterais para baixo, para ver se alguém se aproximava abaixado. Quanto ao resto da área, ele e Lily só tinham de continuar observando. A única direção por onde ele não esperava ser atacado era de cima, mas isso porque ele tinha estacionado longe o bastante dos prédios e ninguém conseguiria pular sobre eles.

Ele desligou as luzes do painel para deixar o interior do automóvel totalmente escuro e segurou a mão de Lily. Ela estava usando luvas para que ninguém visse suas mãos femininas — e aquele seria outro problema se eles resolvessem que ela deveria entrar no laboratório disfarçada de homem. Ele apertou seus dedos. Ela estava dura como uma pedra, sem demonstrar um pingo de ansiedade. Pensando bem, ele preferia que ela estivesse em sua retaguarda, e ninguém mais em seu lugar.

Um carro virou a esquina, vagarosamente em direção a eles. Os faróis estavam acesos e ele ouviu um barulho alto. Bernard, o filho-da-mãe, estava dirigindo um Fiat. Swain imediatamente ligou o carro e acendeu os faróis também. Se Bernard não queria que eles vissem quantos outros estavam no carro com ele, Swain tinha a mesma intenção.

Como ele tinha desligado as luzes internas do carro, também não houve qualquer luz que denunciasse a saída de Lily quando ela abriu uma brecha da porta, apenas o suficiente para rapidamente sair; ela escorregou, em vez de sair e ficar em pé como normalmente fazia. Com seus faróis cegando os ocupantes do Fiat para aquele gesto sutil, ninguém a viu sair do carro e, ainda abaixada, ir para trás do veículo.

Swain escorregou o corpo diante do volante, posicionando-o de modo a bloquear que a parte mais forte do farol ficasse diretamente em seus olhos. Com essa pequena diferença na visão, ele pôde ver o formato de três cabeças no Fiat.

O Fiat se aproximou. Quando estava a sessenta metros do carro de Swain, parou. Para ver se Bernard o imitava, ele baixou o farol do Mercedes. O farol alto tinha feito seu papel, mas já estava terminado. Alguns segundos depois, as luzes do Fiat diminuíram.

Ufa, graças a Deus. Pelo menos agora, não estavam todos cegos. Ele olhou pelos espelhos retrovisores, mas não conseguiu ver Lily em lugar algum.

A porta do passageiro do Fiat abriu-se e um homem alto e forte com uma barba escura e rala saiu.

— Quem é você?

Swain saiu do Mercedes com a maleta de Georges Blanc na mão. Ele não gostava do fato de não ter o carro entre eles para se proteger, mas tentou se consolar com o fato de que o outro cara tinha apenas uma porta do carro entre ele e uma bala também — o que não queria dizer muita coisa. Uma bala poderia atravessar a porta de um carro como uma faca quente na manteiga. A única parte do carro que oferecia alguma proteção era o motor.

— Swain. Quem é você?

— Bernard.

Swain disse:

— Estou com o dinheiro.

Bernard relatou:

— Estou com a mercadoria.

Jesus. Foi tudo o que Swain conseguiu pensar para não rolar os olhos. Eles pareciam atores de um filme de espionagem de quinta categoria.

Ele levava sua arma em um coldre de ombro debaixo de seu casaco de couro, e por isso mantinha a mão direita livre. No entanto, estava bastante alerta aos dois homens sentados dentro do Fiat. Bernard não tinha uma arma em suas mãos, mas Swain tinha certeza absoluta de que os outros dois homens dentro do carro tinham.

Bernard não tinha nada em suas mãos.

— Onde está a mercadoria? — Swain perguntou.

— No carro.

— Vamos vê-la.

Bernard virou-se para o carro e abriu a porta do passageiro. Ele tirou dali uma pequena mala de mão que continha alguma coisa. Até que Swain visse com seus próprios olhos, não acreditaria que ela estava cheia de explosivos.

— Abra a mala — ele instruiu.

Bernard resmungou, colocou a mala no chão e puxou o zíper. Os faróis dos dois carros mostraram bem os objetos parecidos com tijolos, envolvidos em papel celofane. — Tire um deles — Swain disse. — Pela parte de cima, por favor. E o desembrulhe.

Bernard resmungou impaciente, mas enfiou a mão na bolsa, escolheu um deles e o puxou. Rasgou o plástico que o envolvia.

—Agora aperte um dos lados e o role entre seus dedos — Swain explicou.

— É novo — Bernard disse impaciente.

— Quero confirmar.

Outra vez demonstrou irritação. Bernard arrancou um pedaço do explosivo e o enrolou, formando uma bolinha.

— Viu? Ainda é maleável.

— Ótimo. Agradeço sua honestidade — Swain disse com ironia. Ele abriu a maleta para mostrar o dinheiro dentro dela. Dólares americanos, conforme o combinado, oitenta mil. Por que ninguém queria receber em euro? Ele fechou a mala e a travou.

Bernard colocou a bola de plástico de onde a havia tirado e jogou o material dentro da mala. Um sorriso malicioso apareceu em seu rosto.

— Obrigado, monsieur. Pegarei o dinheiro agora e, se você for bastante cuidadoso, tudo vai dar certo...

— Monsieur. —A voz era de Lily, e estava tão baixa que apenas Bernard e Swain conseguiram ouvi-la. — Olhe para baixo.

Ele congelou de medo ao ouvir a instrução dada por aquela voz inesperada. Olhou para baixo, mas não conseguiu ver nada; os faróis o impediram.

— Não consegue me ver, não é? —A voz de Lily estava tão baixa que, se Swain não soubesse que se tratava de uma mulher, não teria como saber. — Mas eu posso vê-lo. Por este ângulo, receio que meu melhor tiro acerte seus testículos. A bala entraria por baixo, é claro, rasgando sua bexiga e seu cólon, assim como parte de seu intestino. Pode ser que sobreviva, mas a pergunta é: gostaria de sobreviver?

— O que você quer? — Bernard gaguejou, mas é claro que sabia.

—Apenas a mercadoria — Swain disse. Ele sentiu que Bernard poderia dizer o que eles queriam. A ameaça de Lily fizera seu sangue gelar. — O dinheiro é seu. Não somos trapaceiros e não gostamos de ser trapaceados. Com muita calma, faremos a troca. Então, você pedirá a seu motorista para dar ré, e você vai andar ao lado do veículo. Não entre no carro antes de ele chegar ao final do quarteirão. Entendeu?

Enquanto Bernard não estivesse dentro do carro, seria um alvo fácil. Andar ao lado do carro era uma garantia de que o cara ao volante não avançaria no Mercedes enquanto Lily estivesse debaixo dele. O Mercedes era mais pesado, mas uma batida forte feita pelo Fiat o arrastaria até certo ponto.

Cuidadosamente, Bernard se aproximou.

— Não façam nada! — ele disse, aumentando o tom de sua voz para alertar seus comparsas do Fiat.

Swain esticou o braço esquerdo, segurando a maleta, e Bernard estendeu em sua direção a bolsa com a mercadoria com seu braço esquerdo. Swain soltou a maleta e, por um segundo, Bernard tanto a segurou quanto a bolsa, mas a mão de Swain fechou-se ao redor da alça da bolsa e ele a pegou para si. Sua mão direita estava dentro de seu casaco.

Bernard se afastou, segurando a maleta.

— Honramos nosso negócio. Não há necessidade de entrar em pânico.

— Não estou entrando em pânico — Swain disse calmamente. — Mas o seu carro também não está se afastando, por isso acho que um ataque de pânico pode acontecer a qualquer momento.

— Idiota! — Bernard disse, sem que deixasse claro se estava se referindo a seu motorista ou a Swain. — Dê ré até a esquina, devagar. Não atire! — Ele provavelmente estava imaginando uma bala entrando a toda em seu escroto.

— Lily — Swain sussurrou. — Saia de baixo do carro agora!

— Já saí — ela disse do outro lado do carro, enquanto abria a porta e entrava.

Que merda, ela não tinha esperado para ver se Bernard atenderia à ordem deles, mas quantos homens ignorariam tal ameaça? Swain jogou a bolsa no colo dela e rapidamente entrou e deu ré, virando o carro com um gesto brusco no volante e acelerando com um cantar de pneus. Atrás deles, uma porta de carro fechou-se com força; ouviu-se um som agudo quando deram a partida no Fiat e ele saiu em disparada atrás do Mercedes. Swain achou que parecia uma máquina de costura. E um tiro ressoou atrás deles.

— O safado está atirando em nós — Swain disse secamente. Se tivesse de trocar de carro mais uma vez, ficaria muito bravo.

— Tudo bem — Lily disse, abaixando o vidro e ficando de joelhos. — Estou revidando. —Atirar em movimento em um alvo também em movimento era como querer um milagre e não uma demonstração de habilidade, mas ela se segurou o melhor que pôde com metade do corpo para fora da janela e mandou um tiro bem mirado. Atrás deles, o Fiat ziguezagueou rapidamente e voltou a se endireitar, mostrando que Lily havia conseguido acertar pelo menos o pára-brisa.

Swain pisou fundo no acelerador. O Fiat rapidamente ficou para trás e Swain riu baixinho ao imaginá-los pedalando frenetica-mente, com seus joelhos indo para cima e para baixo.

— Qual é a graça? — Lily perguntou.

— Se eu ainda estivesse dirigindo a máquina de costura, não teríamos conseguido escapar.

 

Você me deixa muito assustado — Swain disse preocupado, tirando seu casaco de couro, jogando-o sobre a cama e tirando o coldre de seu ombro.

— Posso saber por quê? — Lily perguntou gentilmente, sucumbindo a um desejo constante todas as vezes que via aquele casaco. Ela o pegou, passou a mão pelo couro macio, e o vestiu. A peça era muito grande, é claro, sobrava em seus ombros, e as mangas cobriam suas mãos, mas estava com o calor do corpo dele e a sensação do couro era tão deliciosa que ela quase ronronou.

— O que está fazendo? — ele perguntou, divertindo-se.

— Vestindo seu casaco — ela respondeu, olhando para ele como a dizer "o que lhe parece que eu esteja fazendo?".

— Como se fosse lhe servir.

— Não. Só queria senti-lo. — Ela o fechou, ficou em pé diante do espelho e riu de seu reflexo. Ainda estava usando o bigode e as roupas pretas, com a touca cobrindo seu cabelo. Ela parecia um cruzamento de punk com Charlie Chaplin.

Rapidamente arrancou o bigode e o disfarce de seu rosto, em seguida tirou a touca e passou os dedos em seus cabelos para arrumá-los. Ela ainda parecia engraçada, por isso tirou o casaco e o jogou sobre a cama, sentou-se e começou a tirar suas botas.

— Por que eu te assusto? — ela perguntou, voltando ao assunto anterior.

— Você não me assusta; fico assustado por você. Apesar de eu ter sentido um chute nas bolas quando você disse a Bernard onde iria acertar-lhe um tiro, mas acredito que qualquer homem teria essa reação. Você o assustou. Meu Deus, Lily, e se o Fiat tivesse avançado em nosso carro enquanto você ainda estivesse debaixo dele? Sabe como... o que está fazendo?

— Tirando minhas roupas — ela disse com aquele olhar de indignação de novo. Estava só de roupa íntima, tirou seu sutiã e o jogou sobre a cama, tirou sua calcinha. Totalmente nua, pegou o casaco dele novamente, o vestiu e voltou para a frente do espelho.

Isso, agora sim. O casaco ainda a engolia, mas agora estava sexy, de cabelo despenteado e as pernas de fora. Ela colocou as mãos dentro dos bolsos, endireitou seus ombros e jogou a cabeça para trás. Virou-se para olhar-se por trás.

— Adoro este casaco — ela disse, subindo a barra o suficiente para mostrar a curva de suas nádegas. Ela se sentiu ofegante e um certo calor, como se alguém houvesse aumentado o termostato do quarto. Subiu a barra um pouco mais.

— Pode ficar com ele — ele disse com a voz rouca. Os olhos dele estavam vidrados. Ele veio por trás e pegou suas nádegas com as duas mãos. — Só não pode vesti-lo com outras roupas.

— Isso limita terrivelmente a possibilidade de eu usá-lo. — Ela estava muito excitada. Os bicos de seus seios estavam tão rígidos que chegavam a doer, e Swain ainda não os tinha tocado. De onde aquele desejo sexual intenso tinha saído? Ela não sabia, mas parecia que ia morrer se ele não a penetrasse.

— É pegar ou largar. —As palmas de suas mãos estavam quentes quando segurou seu traseiro.

— Tudo bem, vou pegar. — Ela tirou as mãos dos bolsos e bateu nas mangas. — Você é muito duro na arte de negociar.

— Não é só na arte de negociar que sou duro — ele disse, descendo o zíper da braguilha. — Curve-se.

Como ela já estava se entregando, e seus músculos internos se retraíram com o desejo que tomava conta dela, ela se curvou e apoiou as mãos na parede, ficando na ponta dos pés enquanto ele flexionava os joelhos. Ele segurou a respiração e posicionou a grande cabeça de seu pênis na entrada de sua vagina, e foi até o fim com um movimento longo e firme. Segurou os quadris dela, travando-a para se afastar e penetrá-la de novo.

Lily quase foi levantada do chão, e sua cabeça bateu contra a parede. Ele deixou escapar um palavrão e envolveu sua cintura com um braço, segurando-a, e a levou para a cama. Não saiu de dentro dela, não mudou a posição que estavam, apenas a colocou sobre a cama e continuou.

Normalmente, ela precisava de estimulação direta para chegar ao orgasmo, mas estava tão pronta para ele que apenas a fricção daqueles movimentos longos estava sendo suficiente. Havia alguma coisa na combinação de adrenalina, na sensação do couro em seu corpo nu, saber que estava nua, exceto por aquele casaco, enquanto ele continuava completamente vestido, a posição primitiva que rapidamente lhe causava reações. Ela juntou suas pernas, apertan-do-o dentro dela, e sentir o movimento apertado dele dentro dela foi tudo de que precisou. Contendo um grito, ela enterrou seu rosto na colcha da cama e apertou o tecido conforme os espasmos faziam seu corpo todo estremecer.

Swain curvou-se sobre ela, segurando seus ombros, com movimentos tão fortes que a chacoalhavam. Emitiu um som gutural e seu pênis ficava cada vez mais rígido; então, ele começou a fazer movimentos curtos, arqueou-se e começou a gozar, segurando forte nos quadris de Lily e apoiando-se nela.

Cinco minutos depois, os dois conseguiram voltar à realidade.— Não se mexa — ele disse com a voz grave, afastando-se e colocando o casaco para cima para poder ver as nádegas dela. —Ah, eu acho que acabei de descobrir um fetiche.

— Meu ou seu? — ela conseguiu perguntar. Pequenas ondas de arrepio ainda estavam passando por seu corpo e ela achava que a mesma coisa estava acontecendo com ele, porque não estava tão relaxado.

— Sei lá, o que importa? — Ele suspirou e apertou seu traseiro, separando suas nádegas e deixando que seus polegares escorregassem até se encontrarem em sua vagina, que mantinha o pênis dele.

O corpo dela se flexionou com a sensação proporcionada pela massagem e, aos poucos, ela foi relaxando.

— Isso é depravação — murmurou sonolenta. — Atiraram em nós esta noite. Deveríamos estar chateados, e não excitados.

— A adrenalina causa coisas estranhas ao corpo, e precisamos descarregá-la de alguma forma. Mas, se é assim que você reage, eu mesmo vou começar a atirar em você.

Ela deu risada, fazendo com que ele saísse de dentro dela. Gemendo, ele endireitou-se e começou a tirar suas roupas.

— Vamos tomar um banho. Eu fiquei suado.

Ela se livrou do casaco de couro e entrou com ele no banheiro. Gostaria de tomar um bom banho de imersão, mas temia acabar dormindo, por isso se contentou com o chuveiro. Revigorada, vestiu uma calcinha, uma das camisetas dele e um par de meias para esquentar seus pés. O quarto estava bagunçado, havia roupas espalhadas por toda parte, mas ela não estava disposta a juntá-las, e, além de pendurar seu casaco no cabide — tinha de cuidar bem daquele casaco —, Swain também não parecia muito disposto. Em vez disso, depois de vestir uma calça e nada mais, ele abriu a bolsa e começou a testar as barras de Semtex.

Foi colocando as boas de um lado e as ruins de outro. Depois de ter tirado todas as barras da bolsa, restaram apenas cinco delas, velhas demais para serem utilizadas.

— Estamos bem armados — ele disse. — Há um número suficiente de armamento bom. E ainda estou contando que algumas falhem, só por precaução. — Começou a guardar as barras boas dentro da bolsa.

Lily indicou uma barra velha com seu dedão do pé.

— O que faremos com estas?

— Acredito que jogá-las no lixo não seria muito inteligente da nossa parte. O único modo que conheço de se desfazer de explosivos é queimando-os ou explodindo-os, portanto acho que teremos de levar essas barras conosco para o laboratório e tentar detoná-las com as outras. Mesmo que não explodam, vão se queimar no incêndio. — Ele tinha um canivete suíço: faca, alicate, uma serrinha e mais várias outras coisas, tudo em um objeto só, que era proibido em todas as companhias aéreas — e usou uma lâmina para marcar as barras velhas, para não confundi-las com as outras. Em seguida, guardou-as e colocou a bolsa na prateleira de cima do guarda-roupa.

— Espero que não haja camareiras desastradas neste hotel — ele disse, e bocejou. — Quero dormir um pouquinho. E você?

Lily estava cada vez mais sonolenta desde o seu banho, e o bocejo de Swain influenciou o dela.

— Estou cada vez com mais sono. Qual é o nosso próximo passo?

— Detonadores com controle remoto. Teremos de estar a uma distância segura quando eu acionar os explosivos, e deixar centenas de metros de fio espalhados no laboratório todo pode levantar suspeitas. Quando fizermos o principal, trabalharemos no restante: os cartões de visitas, os uniformes e a van. Não serão coisas muito difíceis de conseguir, e um sinal magnético do lado da van vai servir como normalizador.

— Então, não nos resta mais nada para fazer esta noite. — Ela bocejou mais uma vez. — Eu voto em dormir. —Agora que a adrenalina havia sido descarregada e o sexo selvagem a fizera relaxar, ela sentia que seu corpo estava cada vez mais cansado. Ela foi em direção à cama e deixou as luzes para ele apagar. Estava tão cansada que tudo que fez foi tirar suas meias e cair na cama.

Ela percebeu vagamente que Swain estava tirando sua camiseta e sua calcinha. Teria conseguido dormir confortavelmente com elas, mas gostava de ficar nua nos braços dele. Suspirou quando ele deitou-se e a puxou para perto dele. Sua mão roçou o peito dele.

— Eu te amo — ela sussurrou. Ele a abraçou com mais força.

— Também te amo. — Ela sentiu os lábios dele em sua têmpora e dormiu.

Swain passou bastante tempo acordado naquela noite, abraçan-do-a perto de si e de olhos abertos na escuridão.

No sábado, o Dia D, Lily demorou diante do espelho de maquiagem. O disfarce tinha de ser o melhor possível ou as coisas não dariam certo. Se o dr. Giordano a reconhecesse, tudo estaria perdido.

Suas opções tinham sido cortar os cabelos, tingi-los ou comprar outra peruca. Ela não se importava em tingi-los de outra cor, mas não queria adotar um corte masculino, a menos que não houvesse outra alternativa. Felizmente em Paris havia perucas muito boas à venda. A peruca que ela comprou era de cabelos um tanto compridos para um homem, mas não tão incomum. Ela também tinha preferido não voltar ao tom castanho que usara como Denise Morei, nem continuar com seu tom louro. Sobrava o preto ou o vermelho. Ela optou pelo preto, por ser uma cor muito mais comum do que a vermelha. Na verdade, a maioria da população mundial tinha cabelos pretos. Sobre a peruca, ela colocou um boné que trazia as iniciais da empresa fictícia de segurança que Swain tinha inventado, Swain Security Contractors, SSC. Ele tinha escolhido um nome americano, já que não conseguia passar por cidadão de qualquer outra nacionalidade.

Ela tinha experimentado uma máscara de silicone para se disfarçar, como as utilizadas em alguns filmes. Ela nem se comparava com um maquiador profissional, mas não podia se dar ao luxo de dedicar anos ao aperfeiçoamento da técnica. Conseguiu aumentar um pouco sua mandíbula, engrossar a ponta de seu nariz, para ficar com um perfil romano clássico e não afilado — a única solução que ela encontrou para disfarçar seu perfil, que era tão chamativo quanto a cor de seus olhos — e escureceu suas sobrancelhas e cílios, e usou o bigode para esconder uma parte de seu lábio superior, grosso. Decidiu não aumentar a área acima de seus olhos, porque não conseguia acertar e ficava parecendo um homem de Neanderthal. Lentes de contato castanho-escuras — mais escuras do que as que tinha usado em seu disfarce de Denise Morei — e óculos de armação de metal completavam o disfarce facial. Ela teve de tomar cuidado para escolher a cor da base com a qual coloriria o látex para ficar com o mesmo tom de sua pele, pois não queria que ninguém notasse que se tratava de maquiagem.

Tinha até mesmo coberto os furos de suas orelhas com o látex. Era normal que um homem tivesse uma das orelhas furadas, e até mesmo usar um brinco para trabalhar, mas poucos homens tinham as duas orelhas furadas. Sabia que não seria algo totalmente inco-mum, mas procurou não chamar a atenção para si.

O frio de dezembro ainda estava presente, o que era uma bênção. Para disfarçar os seios, ela usou uma faixa de plástico ao redor de seus seios, e o macacão azul-escuro que ela vestia era largo o bastante para disfarçar seus quadris. O tempo estava bastante frio e ela pôde usar um colete grosso por cima do macacão, e esse último toque ajudava a completar o disfarce. Botas de trabalho com solado grosso e palmilhas aumentaram sua altura em cerca de sete centímetros.

Suas mãos eram um problema. As unhas não estavam pintadas e ela as tinha aparado bem curtas, mas seus dedos eram finos e inegavelmente femininos. Por causa do tempo, ela poderia usar luvas quando estivesse lá fora, mas e quando estivesse dentro do laboratório? Não poderia deixar de ajudar Swain a instalar os explosivos e não poderia ficar com as mãos nos bolsos o tempo todo. O melhor que ela conseguiu foi usar sombra azul para marcar as veias nas costas de suas mãos para deixá-las mais saltadas, e, para dar o toque final, enrolou curativos em dois dedos, para dar a impressão de que sofria os percalços de quem executa trabalhos manuais.

Pelo menos ela não teria de falar muito. Swain falaria; ela trabalharia. Ela conseguia engrossar a voz, mas tinha dificuldade em mantê-la assim. Para deixar sua voz mais rouca quando tivesse de falar, tinha se forçado a tossir o suficiente para irritar sua garganta.

Swain, é claro, achava sua voz rouca sexy. Ela estava começando a pensar que ele consideraria sensual até mesmo um espirro seu. Pela quantidade de vezes que ele fizera amor com ela na última semana e meia, ela acreditava que ele mentira sobre sua idade e que, na verdade, tinha vinte e dois anos, e fios de cabelos brancos nascendo prematuramente. Não que a atenção dele não lhe fosse agradável; na realidade, ela a sugava como uma planta seca absorve a água da chuva.

No entanto, eles tinham feito mais coisas além de se comportarem como um casal de coelhos. Swain tinha o dom de encontrar os caras mais mal-encarados da cidade, ou realmente tinha alguns conhecidos muito suspeitos. Enquanto Lily — sempre disfarçada — tinha lidado com as coisas necessárias para a empresa que haviam criado, como encontrar uma van que tivesse todos os requisitos de que eles precisavam, encomendar as logomarcas para serem colocadas na van, assim como os cartões de visita e as notas fiscais com a logo da SSC que realmente parecessem verdadeiras, pranchetas, uma variedade de ferramentas, os macacões e as botas, Swain entrara em contato com os tipos mais durões para comprar os detonadores que seriam necessários.

Ele quisera construir o controle remoto sozinho, algo que ela disse ser muito fácil com o sistema de controle remoto de qualquer brinquedo desse tipo, como um carrinho ou aviãozinho, disponível em qualquer loja grande de brinquedos ou de eletrônicos, mas decidiu que usar um controle montado pareceria mais profissional, portanto ele pagou o que foi preciso e ficou reclamando sobre o preço do aparelho durante alguns dias.

Depois, checando a informação contida na planta, ele determinou onde os explosivos deveriam ser colocados e o quão potentes deveriam ser. Lily nunca tinha pensado em demolições de um ponto de vista matemático, apesar de ter ficado sabendo que Averill se orgulhava em calcular a potência exata necessária para a realização do trabalho, e nada além disso. Swain explicara tudo, citando os números como se fossem uma coisa muito simples: um tanto de Semtex faria um certo tanto de estrago. Ele usava os termos explosivos e Semtex intercaladamente, mas, quando ela perguntou, ele reconheceu que os dois não eram exatamente a mesma coisa. C-4, explosivos plásticos e Semtex faziam parte da mesma família de explosivos, mas explosivo plástico era o termo mais conhecido e usado de modo geral, mas incorretamente. Lily detestava quando os detalhes davam errado; muitas vezes, sua vida dependera de que os detalhes dessem certo, por isso ela insistiu que ele dissesse Semtex quando estivesse se referindo a Semtex. Ele fizera uma careta de tédio, mas atendera a seu pedido.

Ele tinha passado horas mostrando a ela como e onde colocar uma bomba e acionar o detonador. O detonador era a parte simples, mas ele foi muito minucioso a respeito de onde os explosivos ficariam. Tinha numerado os locais, preparou as bombas para cada um deles e marcou em cada uma delas o número do local onde as colocaria. Os dois estudaram até conseguirem se lembrar de cada local e seu número correspondente sem hesitação, memorizaram a planta e estudaram as medidas que ele havia marcado para que tivessem uma melhor noção do prédio e de quanto tempo o trabalho demoraria.

A boa notícia é que eles já conheciam bem o prédio. A ruim era que, dependendo do que encontrassem quando entrassem, colocar todas as bombas poderia demorar algumas horas ou mais. Quanto mais tempo ficassem ali, maior seria a chance de serem descobertos. Swain estava seguro; Lily não, principalmente se, por algum motivo, Rodrigo aparecesse. Ele saberia, por meio de Damone, que "especialistas em segurança" estariam dentro do prédio e poderia ficar curioso. Se ele aparecesse, Swain assumiria as apresentações, enquanto Lily se ocuparia em outro lugar, esperando que Rodrigo não insistisse em conhecer o outro "especialista".

O dr. Giordano era o outro perigo quanto a reconhecer Lily. Assim, ela tentaria não chamar sua atenção, apesar de que isso seria mais difícil. Afinal de contas, o estabelecimento era dele e seu trabalho era seu prazer e sua alegria. Ele ficaria interessado na opinião de Swain a respeito das medidas de segurança do local. Como Swain era o suposto dono da SSC, chamaria mais atenção do que Lily, mas ela não podia esconder-se o tempo todo.

Nenhum dos dois tinha se esquecido de que aquele deveria ser o último dia da vida do dr. Giordano. Lily se lembrou de como ele fora gentil com ela quando ela estava mal, mas, ao mesmo tempo, ela sabia que ele era a peça principal de um esquema maquiavélico. Enquanto Giordano estivesse vivo, o segredo de como modificar a natureza do vírus, tornando-o transmissível entre humanos, poderia ser usado para produzir uma pandemia. Se não fosse da gripe aviária, seria de alguma outra doença. Os vírus já eram fatais o bastante sem a ajuda dele. A pandemia poderia ocorrer de qualquer forma, a qualquer momento, mas ela seria muito má se deixasse uma coisa como essa ser livremente manipulada por alguém que quisesse ganhar uma fortuna.

O plano, depois que as bombas estivessem plantadas, seria simular uma evacuação por suspeita de bomba, para saber a rapidez com que o complexo poderia ser esvaziado. Quando todo mundo estivesse do lado de fora, Swain detonaria as bombas e quase ao mesmo tempo Lily executaria o dr. Giordano. O barulho e o fogo da explosão certamente causariam pânico, talvez até deixassem alguns feridos. Swain e Lily usariam protetores auriculares antes da detonação e se certificariam de estar atrás de alguma coisa, abrigados. Na confusão, eles entrariam na van e iriam embora — assim esperavam. Tudo fora minuciosamente planejado.

Um hotel de luxo não era o melhor lugar que eles poderiam escolher para preparar explosivos. Tudo tinha de ser recolhido todos os dias antes da chegada da camareira, e não queriam deixar as bombas dentro da van, conforme iam ficando prontas, para o caso de a van ser arrombada. A última coisa que eles queriam no mundo era que um punk roubasse aquele monte de Semtex.

— Está pronto, Charles? — Swain perguntou. Charles Fournier era o nome que eles tinham escolhido para Lily. Swain estava se divertindo tanto com isso que a chamava de Charles mesmo quando estavam sozinhos.

— Acho que é o melhor que vou conseguir fazer — ela disse, saindo do banheiro e dando voltinhas para ele da melhor maneira possível, já que estava usando as botas pesadas. — Estou bem?

— Depende da sua definição de "bem" — ele disse. — Eu não a paqueraria, se é o que quer saber.

— Ótimo — ela disse satisfeita. Ele sorriu.

— Nem quero te beijar. Esse bigode me dá pavor. — Ele tinha acabado de guardar as bombas, algumas na bolsa e outras em uma caixa. Os detonadores estavam em uma caixa à parte e, por precaução, ele tinha tirado as pilhas do controle remoto.

Ele estava trajando um macacão que combinava com o dela, com as iniciais SSC bordadas no bolso do lado esquerdo do peito, mas, por baixo, estava vestindo uma camisa e uma gravata, para mostrar que era o chefe e, assim, chamar a atenção para si. O macacão estava aberto o suficiente para mostrar a gravata e era largo o bastante para encobrir o volume do coldre que ele usava no ombro. Ela optara por seu familiar coldre no tornozelo, apesar de que, com aquelas botas, pegar sua pistola era mais complicado do que o normal. Mas eles não estavam em uma corrida; quando a hora chegasse, se tudo estivesse dando certo, ela teria tempo suficiente para puxar sua arma.

Ele pegou a bolsa e a caixa contendo as bombas, enquanto ela levava a caixa com os detonadores. Eles estavam sozinhos no elevador, mas não conversaram, nem repassaram o plano. Os dois sabiam o que tinham de fazer.

— Você dirige — Swain disse quando eles chegaram à van, pegando as chaves de seu bolso e jogando-as para ela.

Ela ergueu as sobrancelhas.

— Está me deixando dirigir?

—A: eu sou o chefe e tenho de ser levado, e não levar. B: não é divertido dirigir uma van.

— Foi o que pensei — ela disse secamente. A van deveria se mover à velocidade de uma baleia encalhada para Lucas Swain sentir vontade de deixá-la guiar.

Eles tinham de encontrar Damone Nervi no prédio às três da tarde. Swain tinha escolhido aquele horário porque à tarde as pessoas ficavam mais cansadas e relapsas ali. Quando chegaram ao prédio, Lily não conseguiu deixar de olhar para o pequeno parque onde o tiroteio ocorrera duas semanas antes. O incidente tinha sido mencionado no noticiário; mas, como ninguém morreu e, por isso, não havia mais o que ser dito, foi esquecido no dia seguinte. Ela ficou contente em ver que, apesar de ser um fim de semana, o tempo frio afastou as pessoas do parque. Estava quase deserto, exceto por uma ou outra pessoa corajosa que enfrentava o frio para levar o cachorro para passear. Quanto menos pessoas estivessem por ali, melhor.

Ao se aproximarem do portão onde dois guardas estavam à espera, ela tossiu várias vezes de novo, para engrossar a voz. Um guarda levantou a mão e ela gentilmente parou o carro e abaixou o vidro. Uma rajada de vento gelado a deixou contente por estar vestindo o colete. — Monsieur Lucas Swain para monsieur Nervi..

Antes que ela pedisse, Swain entregou sua carteira de habilitação internacional para o guarda checá-la. Ela pegou sua nova habilitação falsa e a entregou também.

— Fournier — o guarda disse, lendo o nome no documento-

Eles procuraram os nomes em uma lista, que, ela percebeu, tinha apenas dois nomes; portanto, a tarefa não demorou.

— Sigam até a entrada principal, à esquerda — o guarda instruiu, entregando os documentos para eles. — Estacionem na vaga reservada para visitantes. Vou ligar para monsieur Nervi e avisá-lo de que vocês chegaram. Ao lado da porta tem uma campainha; toquem-na e alguém de dentro abrirá a porta para vocês entrarem.

Lily concordou e colocou o documento dentro de seu bolso, subindo o vidro para impedir a entrada do vento gelado. Tossiu várias vezes mais, porque achou que sua voz não estava grossa o suficiente quando falou com o guarda. Quanto mais ela tossia, pior a tosse ficava, como se sua garganta estivesse entrando no jogo. Ela já estava um pouco irritada, por isso precisava tomar o cuidado de não exagerar.

Dois homens saíram pela porta de entrada. Um era o dr. Gior-dano.

— Aquele, à esquerda, é o médico — ela disse a Swain. — O outro homem deve ser Damone Nervi.

Havia, de fato, uma forte semelhança familiar, mas, apesar de Rodrigo ser um homem muito bonito, Damone Nervi provavelmente era o homem mais lindo que ela já tinha visto, mas não era delicado. Seus traços eram clássicos, desde seu espesso cabelo preto ao tom moreno-claro de sua pele. Ele era alto e esbelto, elegantemente vestido com um terno cinza-carvão que lhe caía tão bem como só os italianos conseguiam se vestir. O dr. Giordano os recebia com um sorriso, mas o rosto de Damone tinha uma expressão alheia e um tanto dura.

— Há alguma coisa estranha — Lily murmurou.

— Como assim? — Swain perguntou.

— Supostamente estamos aqui por insistência de Damone, portanto ele não deveria estar com cara de poucos amigos.

— É um homem discreto — ele observou. — Entendo o que você quer dizer. O médico está sorrindo, mas Damone não. Talvez ele não faça o tipo sorridente.

Às vezes, a explicação mais simples é a melhor, mas Lily não conseguia se livrar de sua vaga inquietação. Ela estacionou a van na vaga correta e tentou não olhar muito para os homens.

Swain não esperou. Ele saiu da van e andou com firmeza até a entrada, trocando rápidos apertos de mãos com os dois homens. Seu modo de agir tinha mudado, Lily pôde perceber. Seu caminhar relaxado habitual dera lugar a passos que pareciam dizer "saia do meu caminho". Sua linguagem corporal toda havia mudado sutil-mente e ele parecia um homem de negócios agressivo e sensato.

De acordo com o plano deles, ela sairia e iria para o fundo da van, abriria as portas e pegaria duas pranchetas que traziam um bloco grosso de notas, mais dois testadores de circuito que eram completamente inúteis para o que eles iriam fazer, mas Swain achava que eles impressionariam. Talvez testassem um ou outro circuito, só para parecer que estavam fazendo alguma coisa.

Sobrecarregada com essa parafernália, tomando o cuidado de segurá-la como um homem a seguraria, sem levar as pranchetas abraçadas ao corpo, como as mulheres costumavam fazer, ela se aproximou dos três homens.

— Meu ajudante, Charles Fournier — Swain disse, apontando Lily. — Damone Nervi, dr. Giordano. O doutor concordou em nos mostrar o local para que nos inteiremos de todas as medidas de segurança e possamos economizar tempo.

As mãos dela estavam ocupadas para evitar que ela tivesse de apertar a mão deles, por isso todos se contentaram com meneios de cabeça e cumprimentos. O dr. Giordano ainda estava relaxado e simpático, mas a expressão de Damone tinha ficado ainda mais dura. O nervosismo de Lily aumentou na mesma medida. Por que Damone estava agindo como se essa "inspeção" não tivesse sido sua idéia desde o princípio?

Droga. Será que tudo aquilo tinha sido planejado simplesmente para atraí-la para uma armadilha em um prédio particular onde qualquer coisa pudesse acontecer a ela sem que ninguém soubesse de nada? Rodrigo era ainda mais esperto do que ela supunha? Se aquele fosse o caso, ela teria de admitir que ele tinha seguido o mesmo caminho que ela e conseguido levá-la a uma armadilha ao não se precipitar em prendê-la nas primeiras oportunidades que tivera. Pegá-la na rua seria um circo, e, apesar de Rodrigo ter o capital para varrer qualquer vestígio de um incidente, por que gastaria dinheiro quando simplesmente podia ser paciente e levá-la a um lugar onde ninguém perceberia nada? Até onde ela sabia, o laboratório estava sem funcionários e os carros no estacionamento eram apenas parte de uma encenação.

Se tivesse se enganado, causaria não apenas a própria morte, como também a de Swain. Ela pensou em toda aquela alegria e amor pela vida sendo levados embora e sentiu um arrepio. O mundo seria um lugar mais sombrio sem Lucas Swain. Se alguma coisa acontecesse a ele por causa dela...

Mas agora Damone tinha se virado e o dr. Giordano o repreendeu por estar desanimado, pois sua noiva havia cancelado uma visita que estava marcada.

— Talvez você devesse visitá-la — o médico brincou, dando um tapinha nas costas de Damone. —As mulheres gostam quando nós, homens, as procuramos.

— Talvez amanhã — Damone disse, dando de ombros e com um ar levemente envergonhado.

Lily relaxou. Estava dando asas à sua imaginação; Damone apenas estava de mau humor porque sua namorada não o visitara.

O dr. Giordano apertou uma seqüência de números em um teclado na porta e ela se abriu com uma campainha.

— Costumávamos ter um cartão para cada um dos funcionários, que inseríamos em um scanner, mas as pessoas sempre perdiam seus cartões e a empresa de segurança resolveu que um teclado seria mais seguro — ele disse ao entrar e ser seguido pelos outros.

— É verdade — Swain disse —, contanto que ninguém passe o número de entrada para pessoas de fora. Entretanto, estou aqui há dois minutos e já sei que a seqüência que o senhor digitou para entrar foi seis-nove-oito-três-um-cinco. O senhor não cobriu o teclado com seu corpo ao teclar. Pior ainda, o teclado é de tom. Consegui ouvir. — Ele puxou um pequeno gravador digital de seu bolso. — Eu ativei isto aqui quando o senhor começou a destravar a porta, só por garantia. — Ele apertou o botão play e uma série de seis curtos bipes foi ouvida. — Com isto, conseguiria abrir a porta mesmo se não soubesse quais eram os números.

O dr. Giordano mostrou-se bastante envergonhado.

— Eu lhe garanto que não sou tão descuidado. Não pensei que deveria ficar alerta com o senhor.

— Tem de estar alerta com qualquer pessoa — Swain respondeu, interpretando muito bem seu papel. — E o teclado deve ser mudado para um que não seja por tom. É um grande erro.

— Entendo. — O dr. Giordano tirou um bloco do bolso de seu avental e fez uma anotação nele. — Vou cuidar disso imediatamente.

— Ótimo. Depois de nos mostrar o local, há dois exercícios que eu gostaria de realizar, se possível. Meu ajudante e eu vamos plantar explosivos falsos em várias partes do complexo e veremos quanto tempo os funcionários vão demorar a perceber algo que considerem suspeito. Se ninguém notar nada, gostaria de avisá-los sobre o que fizemos, chamá-los para que vejam os explosivos e alertá-los de que devem avisar ao senhor sempre que virem algo suspeito. Isso os deixará mais atentos, primeiro por saberem que essas bombas falsas foram colocadas sem que ninguém percebesse, e ainda poderemos ensinar a eles onde e o que procurar. Por último, gostaria de realizar uma simulação de evacuação por suspeita de bomba, para cronometrar o tempo que todos levam para sair do prédio, analisar quais saídas usarão e saídas alternativas possíveis. Seria melhor que todos os funcionários estivessem presentes, mas hoje foi o único dia disponível, portanto teremos de trabalhar com o que há.

Lily ficou impressionada. Swain estava se saindo maravilhosamente bem em sua encenação. Não apenas isso, mas ela também não sabia da existência daquele pequeno gravador. Ele provavelmente o comprara quando estava à procura dos outros aparelhos eletrônicos.

— Claro, é uma idéia brilhante — o dr. Giordano disse. — Agora, por favor, sigam-me.

Para desconforto de Lily, Damone passou a caminhar ao lado dela enquanto Swain caminhava ao lado do dr. Giordano. A última coisa que ela queria era conversar com alguém. Como suas mãos estavam ocupadas, ela não podia cobrir sua boca, mas virou a cabeça para seu ombro e tossiu com força duas vezes.

Swain olhou para ela e disse:

— Charles, sua tosse parece estar piorando. Você deveria tomar algum remédio para curá-la.

— Mais tarde — ela disse e, para parecer mais real, voltou a tossir.

— Você está doente? — Damone perguntou educadamente.

— Apenas com tosse, monsieur.

— Talvez você devesse usar uma máscara. O dr. Giordano está trabalhando com vírus de gripe, e qualquer pessoa que já esteja doente estaria mais vulnerável.

O dr. Giordano virou sua cabeça e disse, preocupado:

— Não, não entraremos naquele laboratório.

— Seus funcionários sempre ficam doentes, afetados pelos vírus com os quais trabalham? — Swain questionou.

— Acontece, é claro, com tanta freqüência que ninguém se dá ao trabalho de registrar. Mas estou tentando desenvolver uma vacina para um determinado vírus mais forte, e qualquer um que entre no laboratório não deve estar doente; além disso, instituí medidas estritas quanto ao uso de máscaras e luvas.

Era bom saber que o médico estava tomando cuidado para aquele vírus não se espalhar para a população em geral antes que a vacina estivesse disponível para eles conseguirem milhões de dólares, Lily pensou. Ela olhou para as costas do dr. Giordano, para a sua cabeça. Ele parecia ser um homem tão gentil, mas era o causador de tudo. Por causa dele, Zia estava morta.

Ultimamente — desde que conhecera Swain —, às vezes ela conseguia pensar em Zia sem a dor aguda do pesar, mais como uma lembrança querida e saudosa. Mas olhar para o dr. Giordano sabendo que por causa dele Zia não estava mais com ela fazia tudo voltar com força total. Ela travou sua mandíbula para evitar emitir qualquer som e segurou as lágrimas. Não seria adequado que "Charles" começasse a chorar.

Eles — Averill e Tina — sempre se preocupavam porque Zia parecia muito vulnerável a todas as doenças. Aos dez anos de idade, já tivera pneumonia duas vezes. Não sabiam se essa fragilidade de seu sistema imunológico devia-se às suas primeiras semanas de vida, quando não recebeu cuidados necessários, ou se simplesmente era falta de sorte. Todos os invernos, Zia ficava doente diversas vezes, e sempre pegava gripe pelo menos uma vez todos os verões, que inevitavelmente virava uma bronquite. Ela certamente contrairia uma gripe como a que o dr. Giordano estava planejando soltar no mundo, e grandes seriam as chances de ela ser um dos infelizes a morrer.

Tentando evitar que isso acontecesse, Averill e Tina tinham colocado em ação uma série de acontecimentos que levaram àquele resultado da mesma forma. A ironia naquilo tudo era amarga.

Juntamente com a dor, uma onda de ódio muito intensa a fez tremer. Lily respirou fundo, tentando lutar contra as suas emoções e controlá-las antes que fizesse alguma coisa idiota e estragasse tudo.

Andando ao seu lado, Damone lhe lançou um olhar curioso. Lily escondeu-se, virando sua cabeça e tossindo mais uma vez. Estava torcendo para que a prótese em seu rosto resistisse a tanto estresse. Mais ainda, esperava que Damone não percebesse que ela tinha bigode, mas nenhum sinal de barba.

Eles atravessaram um longo corredor e viraram à direita.

— Este é meu escritório — o dr. Giordano disse, indicando uma porta com seu nome disposto em letras douradas e com mais um teclado. — Ao lado dele, fica o laboratório principal, que eu gostaria de mostrar a vocês. É onde faço grande parte de meu trabalho. Monsieur Founier, talvez o senhor devesse permanecer do lado de fora.

Lily concordou. Swain pegou um dos blocos de anotações e o testador de circuito dela e disse:

— Não vamos nos demorar. — Ela encostou-se na parede do jeito que via os homens fazerem, mostrando paciência enquanto os três entravam no laboratório. Ficou feliz por Damone não ter decidido ficar ali fora com ela.

Eles saíram dez minutos depois e Swain fazia anotações. Ela esperava que ele tivesse usado seu gravador para obter os tons da seqüência de números digitados pelo dr. Giordano ao entrar, porque o médico tinha sido cuidadoso, cobrindo o teclado com seu corpo. Eles precisariam entrar no laboratório e no escritório para plantar as bombas.

— Charles — Swain disse. — Quero que cheque o modulador GF, detector BS 365, no escritório do doutor.

— Sim, senhor — Lily respondeu, fazendo as anotações. Não fazia a menor idéia do que era um modulador GF, se é que tal coisa existia, e a única coisa com as letras B e S que ela reconhecia ali eram as besteiras que saíam da boca de Swain quase todas as vezes que ele a abria. Mas parecia sério e deu-lhe uma boa desculpa para entrar no escritório do dr. Giordano.

E a visita prosseguiu da mesma maneira; sempre que eles "inspecionavam" uma área que Swain demarcara em sua lista de locais que seriam atacados, ele lhe dizia uma série de instruções para que ele ou Lily conseguisse voltar naquela área. Ele não repetia nada, provavelmente por não conseguir se lembrar dos números e iniciais ditos anteriormente. O dr. Giordano estava claramente impressionado com o conhecimento amplo de Swain, e a expressão de Damone estava mais enigmática. Lily suspeitava que Damone devia ser difícil de convencer, o que enfatizava o tamanho de sua confiança em Georges Blanc para ter aceitado a recomendação do francês.

Finalmente tinham terminado e Swain sorriu brevemente.

— Isso já é o suficiente, acredito eu. Agora, se nos dão licença, checaremos os itens que mencionei a Charles e sairemos por aí escondendo nossos explosivos surpresa. Isso vai levar... uma hora, talvez um pouco mais. Depois nos divertiremos um pouco com seus empregados e espero que eles percebam que devem ficar muito atentos. Em seguida, faremos a simulação de evacuação.

— Pois não — Damone disse e inclinou-se levemente para a frente. — Obrigado por terem vindo. Se não se importarem, não ficarei aqui. O dr. Giordano conhece muito mais sobre o local do que eu e é ele o responsável por toda a pesquisa aqui. Foi um prazer conhecê-los. — Ele apertou a mão de Swain e depois a estendeu para Lily, que não teve outra escolha a não ser aceitá-la. Ela tentou segurar a mão dele com firmeza e simulou um breve chacoalhar antes de soltá-la e colocar a própria mão em seu bolso.

Damone lançou-lhe um olhar demorado e indecifrável, mas nada disse e se retirou. Lily ficou mais relaxada com a ausência dele. Ele tinha sido apenas educado, mas Lily percebera que a olhava como se percebesse alguma coisa de estranho nela, sem saber exatamente o quê.

Depois que Damone saiu, Lily e Swain voltaram para a van e começaram a dividir os explosivos entre eles. As anotações anteriores mostraram onde cada bomba deveria ser colocada. Swain havia mostrado a ela como usar os detonadores; não era nada difícil. Destruir era sempre muito mais fácil que construir.

— Quase pronto — Swain disse. — Você está bem? Você quase se descontrolou no começo.

Então, ele percebera que suas emoções estavam à flor da pele.

— Sim — ela disse, com olhos secos e mãos firmes. — Estou pronta.

— Então, vamos em frente. Eu queria lhe dar um beijo de boa sorte, mas seu lábio superior está peludo.

— Só por isso, vou usar este bigode na hora de dormir hoje à noite. — Fazer piada parecia estranho, dado o que eles estavam prestes a fazer, mas, de certo modo, o bom humor a ajudava. Ela só esperava que, quando a noite chegasse, os dois estivessem vivos e juntos.

— Que coisa assustadora. — Ele levantou os ombros, como se estivesse tentando aliviar a tensão. Seus olhos azuis estavam muito sérios ao analisá-la. — Tome cuidado. Não deixe que nada de mal lhe aconteça.

— Eu digo o mesmo para você. Ele olhou para o seu relógio.

— Certo, vamos nos apressar. Quero que tudo esteja pronto em meia hora.

Os dois voltaram para dentro do prédio e, depois de se olharem longamente, seguiram em direções opostas. Nenhum deles olhou para trás.

 

Como Swain tinha numerado os locais na planta e as bombas correspondentes, Lily já sabia onde cada explosivo deveria ser colocado. Ele havia mostrado a ela onde colocá-los para obter um melhor resultado, mas escondidos o suficiente para permanecerem despercebidos até o prédio ser evacuado.

Está quase acabando. Esse pensamento tomava conta de sua mente enquanto andava pelos corredores do complexo, sem tentar se esconder. Quase ninguém prestava atenção a ela e nenhuma pessoa lhe fez perguntas. Era como se o simples fato de estar dentro do prédio lhe desse o direito de continuar ali. Os Nervi e o dr. Giordano tinham ficado muito mais atentos em relação à segurança após o primeiro incidente, mas, para todos os outros, tudo parecia normal como sempre. O número de empregados era baixo, já que estavam no final de semana. Os que estavam ali provavelmente eram tão dedicados a ponto de não enxergarem mais nada, ou talvez estivessem cansados e chateados por estar trabalhando quando a maioria dos outros não estava. O final do expediente se aproximava e muitos estavam apenas matando o tempo.

Está quase acabando. Por quatro longos meses, ela teve um objetivo: vingança. Mas aquilo se tornara algo muito maior do que seu problema pessoal com os Nervi, algo mais importante. O que Averill e Tina tinham começado, ela estava prestes a terminar, em homenagem a uma garota ainda adolescente.

A própria vida de Lily tinha sofrido uma reviravolta quando ela tinha dezoito anos, mas ela esperava ver Zia levando uma vida normal e feliz: casar, ter filhos, viver da mesma forma que grande parte da população mundial. Aqueles que seguiam o fluxo, que se encaixavam na sociedade, geralmente não faziam a menor idéia da sorte que tinham. Eles tinham seu lugar no mundo. Ela queria que Zia tivesse seu lugar no mundo, que tivesse as coisas que Lily nunca tivera ou às quais fora forçada a abrir mão.

Que criança especial Zia tinha sido! Como se, de alguma maneira, soubesse que sua vida seria curta, ela a vivera intensamente. Tudo era fonte de encanto e alegria para ela. E era muito tagarela, tentava dizer tudo de uma vez, falava em um ritmo frenético, até que eles dessem risada e pedissem para ela ir devagar.

A batalha de Lily estava quase acabada. Ela colocou uma bomba na parede atrás do armário onde estava a documentação do dr. Giordano a respeito das experiências e seus resultados e prendeu um detonador à massa de Semtex. Em breve, tudo aquilo não passaria de cinzas.

Quase acabando, ela pensou ao colocar os explosivos nos escritórios onde todos os registros eram gravados em disquetes e arquivados. Uma pequena bomba debaixo de cada computador e mais uma grande onde ficavam os disquetes. Tudo tinha de ser destruído. Não podia restar nada da pesquisa de Giordano.

Swain estava cuidando do escritório do médico e dos dois laboratórios onde o vírus vivo era mantido. Infelizmente, ali também era o espaço onde a vacina estava sendo desenvolvida.

Lily gostaria que houvesse um jeito de salvarem as vacinas em estudo, porque, dentro de um ano ou mais, o mundo poderia precisar delas desesperadamente. Eles não podiam fazer nada a respeito, não podiam proteger essa parte da pesquisa do médico. Lily só esperava que, quando se fizesse necessário, algum outro laboratório estivesse estudando a mesma coisa e fosse capaz de ajudar.

Ela desceu um comprido lance de escadas até o porão e colocou os explosivos maiores Sob as paredes certas, para garantir que a destruição fosse total. Quando subiu as escadas, estava sem fôlego e com o coração acelerado.

Não sentia que estava recuperando sua força. Não restavam dúvidas: qualquer esforço a deixava ofegante. Não sabia dizer se essa falta de ar estava piorando, mas já tinha aceitado a verdade: quando pudesse, procuraria um bom cardiologista para ver o que poderia fazer a fim de consertar aquela válvula cardíaca.

Muito do que faria depois de tudo aquilo dependeria de Rodrigo Nervi. Ela teria de deixar a França; não havia a menor dúvida. Deixar a Europa, na verdade. Swain não tinha dito nada sobre o depois, nem ela. Primeiro veriam se haveria um depois. Ela tentava imaginar-se sozinha no futuro e não conseguia. Sempre se imaginava com Swain.

Onde seria um lugar seguro para ele? Não de volta à América do Sul, e nenhum dos dois estaria protegido se retornassem aos Estados Unidos. O México, talvez o Canadá. Isso os deixaria perto de casa. A Jamaica era uma possibilidade. Swain não gostava do frio, por isso ela achava que não deveria escolher o Canadá, apesar de que aquele país seria sua primeira escolha. Talvez eles pudessem passar o verão no Canadá e o inverno mais ao sul.

Um homem apressado vestindo um avental e carregando um caderno grosso passou por ela e fez um meneio de cabeça. Olhando por uma janela, ela viu que o sol estava se pondo; o curto dia de dezembro estava quase no fim. O horário que eles escolheram tinha sido bom. Naquela hora do dia, todos já estavam pensando em voltar para casa.

Os explosivos já tinham sido colocados, sem problemas ou a interferência de alguém. Tinha sido tão fácil que dava até medo.

Ela voltou para o escritório do dr. Giordano. Swain já estava lá, sentado em um sofá confortável e tomando uma xícara de café. O dr. Giordano mostrou a cafeteira.

— Por favor, sirva-se — ele disse. O café fará bem para a sua garganta.

— Merci — ela respondeu. Ela tinha tossido tanto que realmente irritara sua garganta. O primeiro gole de café aliviou a irritação e ela quase suspirou de prazer.

— O senhor tem um problema — Swain estava dizendo ao médico. — Espalhamos os explosivos sem que ninguém nos perguntasse o que estávamos fazendo. A atenção é a primeira defesa, e seus funcionários estão tão concentrados em seus trabalhos que não estão pensando em mais nada.

— Mas cientistas são assim mesmo — o dr. Giordano protestou, levantando as mãos em um gesto tipicamente italiano. — O que posso fazer? Dizer para eles não pensarem em seus trabalhos?

Swain fez um movimento negativo de cabeça.

—A solução óbvia é ter pessoas aqui dentro que não sejam cientistas — seguranças profissionais —, em vez de depender tanto de equipamentos eletrônicos. É preciso que haja os dois. Estou surpreso com o fato de sua empresa de segurança não ter sugerido isso.

— Mas eles sugeriram. Nosso trabalho aqui é tão cuidadoso que eu escolhi não ter pessoas no complexo que não entendessem as medidas de segurança que devemos ter com esse vírus.

— Então, foi uma troca que o senhor decidiu fazer. Isso deixa uma grande falha em sua segurança, mas se tem consciência disso... — Swain deu de ombros, indicando que não podia fazer nada a respeito. — Colocarei minhas recomendações em um relatório. Implemente as que desejar. Agora, está pronto para ver se seus funcionários conseguem encontrar os explosivos?

O dr. Giordano olhou para o seu relógio.

— Eles estão perto da hora de sair. Acredito que terá de ser um exercício rápido.

— Claro. Eles se dirigiram ao sistema de comunicação interna e o dr. Giordano apertou o botão que ligava os alto-falantes. Ele pigarreou e começou a explicar o que tinha acontecido naquela tarde. Lily imaginou que em todas as partes do prédio os funcionários estavam trocando olhares entre si e observando as coisas ao seu redor. O dr. Giordano voltou a checar seu relógio.

— Vocês têm cinco minutos para ver se conseguem encontrar essas bombas falsas. Não toquem nelas, apenas me avisem.

Ele desligou os alto-falantes e perguntou a Swain:

— Quantos desses explosivos estão espalhados?

— Quinze. Eles esperaram, cronometrando. Quatro ligações foram feitas no tempo especificado. O dr. Giordano suspirou, parecendo chateado, e anunciou os resultados pelos alto-falantes. Ele se virou para Swain com uma expressão em seu rosto que queria dizer: "O que eu posso fazer?"

Lily sentou-se e esfregou sua perna direita como se estivesse com dor. Estava sentindo uma tristeza inesperada agora que o momento se aproximava. Levando em consideração sua raiva e seu ódio, por que se sentia triste agora? Mas a verdade era que estava triste.

Estava muito cansada de matar. Tentava imaginar se um dia aquilo teria um fim. Rodrigo Nervi a perseguiria até o fim de seus dias; ela teria de ver todos os estranhos como possíveis ameaças, sem nunca conseguir relaxar em público. Swain se levantou.

— O senhor não contou a eles sobre a simulação de evacuação por suspeita de bomba. Eu acho que isso é bom. Seus funcionários estão bastante distraídos, portanto vamos ver se talvez eu possa incitá-los a agir mais rapidamente. O senhor me permite? — Ele indicou o sistema de comunicação interna e o dr. Giordano permitiu o uso, sorrindo. Swain voltou a ligar os alto-falantes e, com seu francês carregado, disse:

— Os explosivos são de verdade! Houve um erro! Saiam, saiam, saiam!

Ele se virou e começou a guiar o médico em direção à porta. Atrás deles, Lily começou a tirar a pistola de sua bota, mas Swain virou-se e fez um movimento firme de cabeça. "Tire a van de lá", ela pôde ler os lábios dele, sem emitir o som.

Ela não conseguia acreditar que eles não tinham pensado naquilo antes. A van estava estacionada muito próxima ao prédio. Se não a levasse para um local seguro, longe dali, eles ficariam sem meio de transporte. Swain não podia tirá-la de lá porque Lily estava com as chaves, e ele já estava ocupado pegando as pilhas para o controle remoto no seu bolso, tentando encaixá-las enquanto se movia rapidamente.

As pessoas saíam apressadas de várias salas e laboratórios, muito confusas.

— O que é isso? — uma mulher perguntou. — Uma brincadeira?

— Não — Lily disse brevemente. — Corra!

Ao saírem pela porta, para que o dr. Giordano não percebesse, ela disse:

— Preciso pegar uma coisa na van — e correu em direção ao veículo.

Evidentemente, vendo a atitude dela como algo que eles mesmos tinham de fazer, os funcionários do laboratório que iam trabalhar de carro e não de trem começaram a correr em direção a seus automóveis. Os guardas no portão, vendo aquele movimento inco-mum, saíram da guarita com a mão no cabo de seus revólveres, deixando-os ainda no coldre, mas prontos para serem usados em caso de necessidade.

Lily deu a partida na van e rapidamente engatou a ré para sair da vaga. O dr. Giordano virou-se para observá-la, mas Swain disse algo e chamou sua atenção apontando para o que os outros funcionários estavam fazendo, ao mesmo tempo andando com pressa para um lugar mais seguro e levando o médico com ele. Ela parou a van entre Swain e os guardas, bloqueando a visão deles, mas também posicionando o veículo de modo a protegê-los da explosão que estava para acontecer. Quando saiu, ouviu Swain perguntar:

— O senhor acha que todos já saíram?

— Não sei — o médico respondeu. — Poucos estavam trabalhando hoje, mas não sei quantos estavam aqui... — Ele deu de ombros.

— O senhor deve sempre saber; caso contrário, como poderá fazer a contagem? — Swain perguntou e, para a surpresa de Lily, virou-se e entregou-lhe o controle remoto.

— Você terá o prazer — ele disse.

Ela o observara testando o equipamento e recebera informações sobre como tudo funcionava, mas por que ele estava mudando o plano? Lily não teve tempo de perguntar, pois o dr. Giordano já estava com a expressão confusa. Antes que ele pudesse fazer qualquer pergunta ou se assustar, ela ativou o equipamento. Uma luzinha verde piscou, mostrando que estava ligado, e ela apertou o botão que enviou o sinal aos detonadores.

Houve um som profundo e longo: vuuuuuup, e tudo explodiu.

Partes do complexo voaram longe e o barulho da explosão tomou conta do lugar. Uma fumaça negra e o fogo subiram e uma nuvem escura de destroços surgiu. As pessoas gritavam, abaixavam-se, tentando se proteger da melhor forma. Os estilhaços acertaram várias pessoas como se fossem flechas. Um homem passou sob uma onda de ruínas que caíam como pedras lançadas por um gigante.

O dr. Giordano virou-se para Swain com uma expressão de horror em seu rosto. Lily abaixou-se para pegar sua arma, mas Swain já estava com a mão dentro de seu macacão. Ele puxou para fora a grande H&K, apontou-a diretamente para o peito de Giordano e puxou o gatilho duas vezes. O médico caiu no chão já morto.

Rapidamente, Swain puxou Lily para a van. Ela sentou-se no banco do motorista, mas ele a empurrou para passar para o carona e sentou-se ao volante. O motor ainda estava ligado. Ele bateu a porta, engatou a primeira marcha e começou a sair enquanto um dos guardas passava por eles. O outro estava ao telefone na guarita, gritando como um louco. Ainda fazia seu telefonema quando a van saiu pelo portão.

Damone estava no escritório de Rodrigo quando o telefone tocou. Rodrigo atendeu e seu rosto moreno ficou estranhamente pálido.

Damone ficou em pé.

— O que houve? — ele perguntou quando Rodrigo desligou. Rodrigo abaixou a cabeça e seus ombros estavam caídos.

— O laboratório foi destruído — ele disse com a voz embargada. — Bombas. E Vincenzo está morto. — Vagarosamente, ergueu a cabeça, com os olhos repletos de horror. — Ele foi morto pelos homens da empresa de segurança que você deixou entrar no complexo.

Damone respirou fundo várias vezes. Então, com a voz baixa, disse:

— Eu não podia permitir que você espalhasse aquele vírus.

— Não podia...? — Rodrigo piscou rapidamente, tentando melhorar o sentido daquelas palavras. Mas elas continuavam a mesma coisa e Damone estava em pé com uma expressão muito calma. — Você... você sabia o que eles iam fazer?

— Eu paguei pelo serviço.

Rodrigo sentiu como se o mundo tivesse girado, e nada que ele achava ser verdadeiro tinha importância. Em um rápido momento de clareza, ele percebeu.

— Você estava por trás da primeira explosão. Você contratou os Joubran!

— Infelizmente, Vincenzo conseguiu recuperar seu trabalho, por isso eu tive de tomar atitudes mais drásticas.

— Por sua causa, o papai está morto! — Rodrigo gritou, ficando em pé e procurando a arma que sempre guardava na primeira gaveta de sua mesa.

Damone foi mais rápido, com a própria arma muito mais próxima de seu alcance. Não hesitou. Puxou o gatilho três vezes, colocando duas balas no peito de Rodrigo e uma de garantia em sua cabeça. Seu irmão caiu sobre a mesa e depois ao chão, virando o cesto de lixo.

Damone deixou a mão cair ao lado de seu corpo e uma lágrima rolou por sua face.

Aquele era o resultado dos acontecimentos que ele havia desencadeado em agosto. Respirou fundo e secou seus olhos. A estrada para o inferno realmente era pavimentada por boas intenções. Tudo que queria desde o começo é que aquele vírus tivesse sido destruído. Não podia permitir que seu pai fosse adiante com seu plano de espalhá-lo.

Giselle, sua linda, corajosa e frágil Giselle, não sobreviveria se contraísse a gripe. Ela tinha passado por um transplante de fígado no ano anterior, tinha de tomar remédios que debilitavam seu sistema imunológico, e nem mesmo a vacina poderia salvá-la. Ela havia relutado muito em aceitar o pedido de casamento dele, pois sabia que não poderia lhe dar filhos, e sabia como italianos em geral prezavam a família, mas ele conseguira convencê-la. Ele a amava mais do que conseguia expressar, mais do que conseguia explicar a si mesmo. Por ela, ele tinha tomado as ações necessárias para destruir o vírus.

Nunca imaginou que seu pai descobriria quem tinha armado a primeira explosão, e sentiu um grande pesar ao saber que ele havia encomendado a morte dos Joubran e da filha deles, para as pessoas saberem o que poderia acontecer com elas se cruzassem o caminho de Salvatore Nervi.

Mas os Joubran tinham uma amiga, Lily Mansfield, e ela tinha se engajado em uma luta por vingança que acabou tirando a vida de seu pai.

Ela era a escolha perfeita para completar a missão dos Joubran. Com a ajuda de Georges Blanc — Damone quase entrara em pânico quando ela exigiu um encontro, mas um telefonema urgente a Blanc o persuadira a ir em seu lugar —, ele tinha armado um plano para colocar Lily e seu amigo dentro do complexo.

Não tinha se preparado para o que sentiria quando a visse de fato, a mulher que tinha assassinado seu pai. Por um momento, ele quis matá-la, puni-la pela angústia que lhe causara. Tinha certeza de que "Charles Fournier" era aquela mulher disfarçada, apesar de o disfarce ser tão bom a ponto de deixá-lo em dúvida quanto ao envolvimento de uma terceira pessoa. Mas forçara um aperto de mãos, de propósito, e o toque daquela mão macia e feminina na sua o convencera de que realmente se tratava de Liliane.

Então, ela tinha cumprido sua missão — e o forçado a lhe dar um milhão de dólares pelo trabalho. Ele não tinha a intenção de honrar o pagamento, mas ela fora mais esperta ao exigir o pagamento adiantado.

Gostaria que ela tivesse morrido na explosão. Talvez tivesse; ele ainda não sabia se existiam mais vítimas fatais além de Vincenzo. Mas, se ela tivesse escapado com vida, ele lhe daria uma trégua. Lily Mansfield estava livre da organização Nervi. Ela tinha reagido a um incidente que Damone causara e, assim como uma bola de neve em uma descida provoca uma avalanche, as coisas tinham chegado àquele ponto.

Ele tinha assassinado seu irmão. Talvez sua alma fosse eternamente castigada por isso, mas acreditava que as vidas que tinha salvado com a destruição do vírus compensariam. E tinha salvado Giselle.

Damone saiu. O som dos tiros tinha sido ouvido, obviamente, mas ninguém se atrevera a entrar. Ele viu vários homens nervosos ali fora, receosos. Ele olhou para aqueles rostos e deteve seu olhar no de Tadeo, o homem de confiança de Rodrigo.

— Rodrigo está morto — ele disse tranqüilamente. —Assumi o controle de todas as operações. Tadeo, tome todas as providências para que o corpo de meu irmão receba todo o respeito. Vou levá-lo para casa para enterrá-lo ao lado de papai.

Com o rosto pálido, Tadeo fez um sinal afirmativo com a cabeça. Ele sabia como as coisas funcionavam. Poderia se tornar o homem de confiança de Damone ou morrer. Escolheu viver. Deu algumas instruções em voz baixa para os outros homens e foi para dentro do escritório a fim de cuidar do corpo de Rodrigo.

Damone foi para outro cômodo e fez uma ligação.

— Monsieur Blanc. Acabou. Não precisarei mais de seus serviços.

Por que a Grécia? — Lily perguntou enquanto rapidamente juntava suas coisas no quarto de hotel de Swain.

— Porque é quente e porque foi o primeiro vôo que consegui para nós. Você tem um passaporte?

— Vários.

Ele parou o que estava fazendo e lhe deu um sorriso estranhamente gentil.

— O que está com seu nome verdadeiro. Foi com ele que reservei seu lugar no avião.

Ela titubeou.

— Isso pode nos causar problemas. — Ela não tinha se esquecido de que precisava ficar atenta em relação à CIA também, apesar de achar que eles já tinham desistido dela. Depois do acontecido daquele dia, era difícil prever se as coisas permaneceriam assim. — Ligue a TV. Vamos ver o que está sendo transmitido no noticiário.

Ou a explosão estava sendo ocultada, ou eles tinham perdido a divulgação da notícia e não tiveram tempo de esperar pelo bloco seguinte. Em vez de chamar um carregador de malas, Swain carregou a bagagem dos dois sozinho e fez o check-out no hotel.

— Temos de ir ao meu apartamento — Lily disse quando eles estavam no carro. Tinham deixado a van estacionada a vários quarteirões do hotel e haviam caminhado o resto do trajeto.

Swain olhou para ela com um ar incrédulo.

— Sabe quanto tempo isso vai nos atrasar?

— Preciso pegar minhas fotos de Zia. Não sei quando ou se poderei voltar; portanto, não vou deixá-las para trás. Se perceber que vamos perder nosso vôo, vou ligar, cancelar nossas reservas e fazê-las novamente em outro vôo.

— Talvez consigamos chegar — ele disse com um sorriso maquiavélico em seu rosto e Lily se preparou para a maior corrida de sua vida.

Eles conseguiram chegar inteiros ao apartamento, mas Lily manteve os olhos fechados na maior parte do tempo e não os abria por mais perto que as freadas e buzinadas lhe parecessem.

— Só preciso de um minuto — ela disse quando ele parou o carro.

— Vou subir com você.

Ela lhe lançou um olhar de incredulidade quando ele saiu do carro e travou as portas.

— Mas você está bloqueando a rua. E se alguém quiser passar?

— Eles podem muito bem esperar.

Ele subiu as escadas com ela, sua mão esquerda nas costas dela e a direita no cabo de sua pistola. Lily destrancou a porta e Swain foi o primeiro a entrar e acender a luz, apontando sua arma para a direita e para a esquerda até ter a certeza de que não havia ninguém à espera dos dois.

Lily entrou e fechou a porta.

— Podemos deixar nossas armas aqui. — Ela tirou uma caixa com cadeado de um armário. — Este apartamento está alugado por um ano e ainda tenho oito meses.

Os dois colocaram suas armas na caixa e ela a trancou, devolvendo-a ao armário. Eles poderiam ter colocado suas armas na mala que despachariam, desmontadas e em uma caixa de segurança, declará-las na companhia aérea e talvez não ter problemas, mas duvidava que as coisas iriam tão bem desse jeito. Sempre era mais fácil adquirir armas no lugar aonde chegava do que tentar levar a sua consigo. Além disso, não queriam chamar a atenção de nenhum funcionário da companhia aérea.

Ela pegou as fotografias de Zia, colocou-as em sua bolsa e eles saíram. Enquanto desciam a escada, Swain perguntou, sorrindo:

— Aquela era a cama que você comprou de uma freira? Lily respondeu:

— Não, já estava no apartamento.

— Eu não engoli a história da freira.

Apesar de ele dirigir como um demente fugido do manicômio, ficou claro que não conseguiriam chegar ao aeroporto a tempo de pegar o vôo. Lily telefonou para cancelar a reserva e fazer uma outra em um próximo vôo. Enfim, ele, às vezes, parava de acelerar e ela conseguiu manter os olhos abertos.

— Por que você atirou no dr. Giordano? — ela perguntou, olhando para o trânsito e não para ele, pois o fato de ele ter mudado os planos a deixara incomodada. Será que ele tinha percebido aquele momento que ela ficou emocionada e temeu que ela pudesse errar o tiro?

— Estava curioso para saber quando esse assunto surgiria — ele disse e suspirou. — Fiz porque aquilo tinha se tornado algo pessoal para você, e porque achei que você não precisava da culpa que sentiria depois.

— Salvatore Nervi também era um assunto pessoal — ela disse. — Não sinto a menor culpa por tê-lo matado.

— É diferente. Na verdade, você gostava do dr. Giordano antes de descobrir o que ele estava fazendo. Matá-lo a deixaria magoada.

Ele provavelmente tinha razão, ela pensou, descansando sua cabeça no encosto do carro. Ao planejar o ataque a Salvatore, ela estava tomada por uma onda de dor tão grande que ofuscara todo o resto. Mas, entre aquele dia e hoje, Lily tinha reencontrado a alegria; de alguma forma, matar o dr. Giordano lhe tiraria essa alegria. Ela não compreendia. Giordano seria morto justamente, talvez a morte mais justificável de todas — mas ela estava contente por não tê-lo matado. Era essa satisfação que a confundia e chateava. Será que ela tinha perdido o controle... e Swain tinha percebido? Por isso ele tinha feito o que fez?

Ele esticou o braço e segurou a mão dela.

— Pare de se preocupar com isso. Já está feito.

Estava feito. Terminado. Encerrado. Ela sentiu como se uma porta houvesse se fechado atrás dela, selando seu passado. Além de ir para a Grécia com Swain, ela não tinha a menor idéia do que faria depois. Pela primeira vez em sua vida, estava livre.

Eles chegaram ao aeroporto e devolveram o Mercedes à locadora, foram ao balcão da companhia aérea e fizeram seu check-in. Tinham algumas horas antes do vôo, e estavam com fome, por isso foram a um restaurante do aeroporto. Escolheram as mesas mais afastadas, de onde pudessem observar a porta de entrada, apesar de não terem tido qualquer problema ao fazerem o check-in. Ninguém havia tentado impedi-los; ninguém pareceu se preocupar com o nome de Lily. Aquilo era enervante.

O restaurante tinha vários televisores na parede para que os clientes pudessem assistir às notícias, aos esportes e à previsão do tempo enquanto comiam. Os dois olharam para uma delas ao ouvirem o nome "Nervi" ser mencionado.

"Uma notícia chocante esta noite: Damone Nervi anunciou que a explosão que devastou uma das propriedades da família Nervi no final da tarde de hoje resultou na morte de seu irmão mais velho, Rodrigo Nervi. Os irmãos perderam seu pai, Salvatore Nervi, há menos de um mês. Damone assumiu a liderança de todas as empresas da família. A explosão que vitimou Rodrigo Nervi acredita-se ter sido causada por um vazamento de gás. As autoridades estão investigando."

Lily e Swain trocaram olhares.

— Rodrigo não estava lá — ele sussurrou.

— Eu sei. — Ele parecia pensativo. — Filho-da-puta. Acredito que isso foi um golpe.

Lily teve de concordar. Damone evidentemente tinha aproveitado a oportunidade para matar Rodrigo e fazer o assassinato parecer um acidente. Deve ter sido um impulso, uma decisão tomada precipitadamente por causa da destruição do laboratório. Mas Damone era brilhante, aquele que parecia ter o toque de Midas; será que ele tinha agido tão impulsivamente quando o resultado poderia ter sido a própria morte?

A única possibilidade restante era que a morte de Rodrigo não tivesse sido um impulso. E isso só poderia ser possível se...

— Meu Deus — ela disse. — Ele planejou tudo.

Três semanas depois, Lily acordou de um cochilo no final da tarde e ouviu Swain na varanda, conversando em seu telefone de satélite, dizendo com certa raiva:

— Que droga, Frank... Não. Não. Foda-se, não. Eu disse tudo bem, mas não gosto disso. Você me paga. Isso, eu disse você me paga; portanto, tem de ter certeza do que está fazendo. — Ele bateu o telefone e andou até a mureta da varanda, onde colocou as palmas das mãos em seus quadris e olhou para o mar azul grego.

Ela saiu da cama e passou pela porta dupla que levava à varanda, aproximando-se por trás dele e passando os braços por sua cintura. Ela descansou a cabeça em suas costas nuas e beijou seu ombro.

— Finalmente conseguiu falar com Frank? — Frank era o amigo dele que tinha sofrido o acidente de carro. Duas semanas antes, Frank tinha deixado a UTI e estava em um quarto de hospital comum, mas evidentemente tinha sido cuidado por alguém que tomara a precaução de não permitir que ele fosse incomodado. No dia anterior, ele tinha passado para um centro de fisioterapia, mas, pelo jeito que Swain tinha conversado com ele, a primeira conversa entre os dois não fora muito agradável.

— O cabeça-dura filho-da-mãe — ele reclamou, mas pegou uma das mãos dela e apertou contra seu peito.

— O que houve?

— Ele quer que eu faça uma coisa que não quero fazer.

— O que é?

— Um trabalho do qual não gosto.

Aquela notícia não era boa. Durante as três semanas que tinham passado na Grécia, na ilha Eubéia, os dois tinham se adaptado a uma rotina preguiçosa que parecia o paraíso. Os dias geralmente eram mais nublados, porém mais quentes que em Paris, com a máxima chegando a 21°C. As noites eram frias, mas assim era melhor para dormirem agarrados na cama. Aquele dia tinha sido quase perfeito, ensolarado e tão quente que Swain passara grande parte do tempo sem camisa. Agora que o sol estava se pondo, a temperatura cairia drasticamente, mas por mais alguns minutos eles não sentiriam frio.

Eles faziam amor; dormiam tarde; comiam quando sentiam fome; passeavam pela cidade. Estavam hospedados em uma casa nas montanhas da cidade portuária de Karystos, tinham uma vista espetacular para o mar. Lily tinha adorado a casa, uma construção simples e branca com janelas azuis e uma atmosfera de paz. Ela seria capaz de ficar ali com ele para sempre, apesar de saber que os momentos de ócio chegariam ao fim.

Evidentemente, terminariam mais cedo do que ela esperava. Se Swain aceitasse esse trabalho que não queria aceitar — e Frank obviamente o estava forçando a dizer sim —, ele teria de deixar a ilha. Ela poderia ficar ali sem ele, é claro, mas a pergunta era: queria isso? Uma pergunta ainda mais difícil era saber se teria a opção de ir com ele. Eles ainda não tinham discutido o futuro; o presente estava tão agradável que ela tinha se entregado a ele, deixando que os dias passassem.

— Se aceitar o trabalho, para onde terá de ir?

— Ainda não sei.

— Então, como sabe que não quer?

— Porque vou ter de sair daqui. — Ele virou-se dentro do círculo que ela formava com seus braços e beijou sua testa. — Não quero ir embora.

— Então não vá.

— Frank veio com uma história de "faça isso por mim".

— É óbvio que não pode fazer sozinho. Quanto tempo ele passará fazendo fisioterapia?

— Por pelo menos um mês, ele disse, e só Deus sabe quando ele vai conseguir voltar ao normal.

— Se aceitar o trabalho, quanto tempo vai ficar fora?

Ele ficou em silêncio, e o coração dela acelerou-se. Bastante tempo, então.

— Eu podia ir com você — ela se ofereceu, apesar de não querer ter dito aquilo. Se ele a quisesse com ele, pediria. É claro que ele queria, não é? Ele dizia "eu te amo" todos os dias, diversas vezes. Mostrava que a amava na alegria óbvia que sentia ao estar em sua companhia, na atenção que lhe dispensava, no modo como a tocava.

— Você não pode ir — ele disse, por fim. — Se eu aceitar, essa não será uma opção.

Então era isso. Quando tem de decidir?

— Em alguns dias. Não agora, de jeito nenhum. — Ele segurou o queixo dela e levantou seu rosto, estudando seus traços à luz da noite que caía, como se estivesse tentando memorizá-los. Seus olhos azuis fixaram-se nela com intensidade.

— Não sei se posso fazer isso — ele sussurrou. — Não quero sair daqui.

— Então não saia — ela disse simplesmente, e ele riu.

— Gostaria que fosse fácil assim. Frank... bem, é muito difícil dizer não para ele.

— Ele tem alguma coisa contra você?

Ele riu, mas a risada saiu mais com ironia do que com humor.

— Não é isso. Ele só é uma pessoa muito insistente. E detesto admitir, mas confio nele mais do que em qualquer outro homem que conheço. — Ele sentiu um arrepio, como se não conseguisse mais suportar a queda de temperatura. — Vamos entrar. Consigo pensar em diversas coisas que eu poderia estar fazendo em vez de me preocupar com um trabalho que talvez não aceite.

Ele não tocou mais no assunto, e por isso Lily também não disse mais nada. Eles entraram para saborear um jantar simples de batatas cozidas com endro e alcaparras, queijo feta com azeite de oliva, pão e vinho Boutari. Eles tinham contratado uma mulher da cidade, chamada Chrisoula, para cozinhar para eles todos os dias; no começo, ela quis preparar grandes refeições noturnas, à tradição grega, mas eles disseram a ela que gostavam de comer coisas mais leves à noite. Ela não gostou muito, mas aceitou. Pelo menos ela conseguia chegar em casa mais cedo, onde podia desfrutar de grandes jantares com a própria família.

A casa não tinha TV e nenhum dos dois sentia falta de uma. Nas três semanas que estavam ali, Swain tinha comprado jornal duas vezes. A falta de interferência externa era tudo de que eles precisavam, uma oportunidade de apenas ser, sem pressões, sem olhar para trás. Nos dias mais quentes, ela ficava sentada na varanda por horas, tomando sol, relaxando. Tinha colocado uma das fotos de Zia em um lugar onde conseguia vê-la, e no dia seguinte Swain tirou as fotos de seus filhos de sua carteira e as colocou ao lado da de Zia. Chrisoula pensava que os três filhos eram deles, e eles não se deram ao trabalho de explicar a verdade, porque nenhum dos dois tinha um bom domínio do idioma grego e o inglês de Chrisoula não era muito melhor. Eles conseguiam se comunicar quando necessário, mas com grande esforço.

Naquela noite, sabendo que havia a possibilidade de Swain partir em breve, Lily estava pensando muito em Zia. Alguns dias eram assim mesmo, as lembranças tomavam conta dela todos os momentos, apesar de ela já conseguir passar vários dias sem chorar. E, como estava pensando tanto em Zia, começou a se questionar se em certos dias Swain pensava mais em seus filhos.

— Não sente falta deles? — ela perguntou. — De Chrissy e de Sam?

— Tanta que chega a doer — ele respondeu rapidamente. — Acho que mereço isso.

Ela sabia que ele se sentia culpado por causa de seus filhos; só não tinha percebido que ele remoía sua culpa.

— Em vez de se culpar tanto, por que não se aproxima deles? Já perdeu grande parte da infância deles, mas isso não quer dizer que tenha de perder a vida adulta também. Dia desses, você vai se tornar avô. Vai se manter afastado de seus netos?

Ele virava o copo em sua mão, olhando para ele, pensativo.

—Adoraria vê-los com mais freqüência. Só não sei se eles gostariam de me ver mais. Quando nos encontramos, eles são amigáveis, carinhosos, mas isso talvez se deva ao fato de eu estar fora da vida deles. Se eu tentar entrar... quem sabe?

— Então, pergunte a eles. Ele deu um sorriso rápido.

— Uma resposta simples para um problema simples, não é? Para uma criança pequena, nada importa mais do que apenas a presença dos pais, e eu os decepcionei. Essa é a verdade difícil de aceitar.

— É mesmo. Você vai deixar que essa seja a verdade difícil de aceitar pelo resto de sua vida?

Swain olhou para ela por bastante tempo, bebeu o resto de seu vinho e colocou o copo sobre a mesa.

— Talvez não. Talvez eu tenha a coragem de falar com eles.

— Se Zia ainda estivesse viva, não haveria nada que me impedisse de estar com ela. — Aquela era outra verdade difícil de aceitar, e implícita na frase estava: ela não está viva, mas seus filhos estão. Lily não sabia por que estava insistindo tanto com ele sobre aquele assunto, mas provavelmente era por estar pensando muito em Zia e também porque ele não estaria ali com ela por muito mais tempo. Eles já tinham falado sobre isso antes, mas ele não parecia ter mudado sua opinião — isso ou então tinha tanta consciência de seus erros que castigava a si mesmo mantendo-se afastado dos filhos. Quanto mais ela o conhecia, mais admitia a segunda opção como verdadeira.

— Tudo bem — ele disse com um sorriso. — Vou pensar sobre isso.

— Você está pensando sobre isso há anos. Quando vai fazer alguma coisa?

O sorriso transformou-se em riso.

— Nossa! Você é tão má quanto uma tartaruga mordedora!

— As tartarugas são más?

— Dizem que, se uma tartaruga mordedora te pegar, não vai largar até ouvir um trovão.

Ela inclinou sua cabeça.

— Acho que não ouvi nenhum trovão desde que chegamos aqui.

— Não mesmo. Tudo bem, vou ligar para meus filhos.

— E...?

— E dizer a eles que fui um pai imprestável; mas perguntar se eles detestariam me ver com mais freqüência? — Ele transformou a frase em uma pergunta, como se não tivesse certeza da resposta correta, mas seus olhos azuis estavam alegres.

Ela bateu palmas, como alguém aplaudindo uma criança em uma apresentação.

— Espertinha. — Ele estava rindo agora, levantando-se e pegando em sua mão para puxá-la para os seus braços. — Eü ia lhe mostrar algo novo esta noite, mas agora acho que você vai ter a mesma coisa de sempre.

Se ele achava que aquilo era um castigo, estava bem enganado. Lily escondeu um sorriso ao apertar seu rosto contra seu ombro. Ela o amava tanto que aproveitaria seu tempo com ele até o último minuto, sem se preocupar se ele aceitaria ou não o trabalho que seu amigo Frank queria que ele fizesse. Isso não fazia parte do que ela acabara de falar para ele, sobre aproveitar ao máximo os momentos com as pessoas que amamos, já que não sabemos até quando elas durarão?

Ela não iria pensar em como era azarada por amá-lo e perdê-lo. Em vez disso, poderia considerar-se uma pessoa de sorte por tê-lo encontrado em um momento de sua vida quando precisava tanto dele.

O dia seguinte foi outro dia incomum, bastante sol, com a temperatura subindo tão rapidamente quanto descia à noite. Em abril, a temperatura de dia chegava aos 32°C; em julho, passar dos 37°C não era raro. Mas o clima do começo de janeiro era agradável, mesmo com um pouco de chuva, principalmente quando comparado ao de Paris naquela época do ano. Chrisoula preparou para eles um almoço com pastéis de carne temperada com ervas e fritos em azeite de oliva, acompanhados de arroz com açafrão. Eles comeram na varanda, aproveitando a temperatura. Como as pedras na varanda retinham o calor do sol, Lily trajava um vestido branco largo e fino que tinha comprado na cidade, mas mantinha um xale por perto caso precisasse. Gostava de vestir o que quisesse sem ter de se preocupar se a roupa escondia o coldre em seu tornozelo, e tinha adotado a moda dos turistas da ilha com entusiasmo. Os moradores dali provavelmente pensavam que ela era maluca por usar roupas de verão em janeiro, mas ela não se importava. Queria usar sandálias, e tinha comprado uma correntinha prateada para usar no tornozelo e que a fazia se sentir feminina e livre. Provavelmente ficaria em Eubéia mesmo que Swain fosse embora. Adorava aquele lugar.

— Quem foi o cara que te alistou? — ele perguntou bruscamente, mostrando que os pensamentos dele estavam muito longe daquele dia agradável. -O cara que te colocou no negócio. Qual era o nome dele?

— Sr. Rogers — ela disse com um sorriso irônico. Ele quase engasgou com o vinho.

— Ele nunca me disse seu primeiro nome, mas pode apostar que não era Fred. Não importa; duvido que fosse seu sobrenome verdadeiro. Por que está me perguntando?

— Eu estava olhando para você, observando sua aparência jovem, e pensando que tipo de cafajeste poderia aproximar-se de uma garota com um emprego daqueles.

— O tipo que consegue o que quer.

Depois do almoço, ela cochilou em uma das espreguiçadeiras da varanda e acordou sentindo um imenso prazer causado pela língua de Swain. Ele havia levantado sua saia até a cintura, tirado sua calcinha e ajoelhado entre suas coxas. Lily tentou controlar-se, seu corpo arqueando-se de prazer, e disse:

— Chrisoula vai ver...

— Ela foi embora há pouco — Swain murmurou e cuidadosamente penetrou dois dedos nela. Ela chegou ao orgasmo rapidamente com aquele estímulo duplo, e ainda estava tremendo com os últimos espasmos quando ele abriu sua calça e cobriu seu corpo com o dele. Sua penetração foi suave e lenta, com o encaixe perfeito agora, depois de terem feito amor tantas vezes no último mês. Ele foi carinhoso e atencioso, controlando-se até ela gozar pela segunda vez, penetrando-a profundamente e segurando-se ali enquanto sentia seu próprio orgasmo.

Fazer amor ao ar livre era maravilhoso, ela pensou já completamente vestida outra vez. O vento parecia seda contra a sua pele, aumentava sua reação. Ela se espreguiçou, totalmente relaxada, e sorriu para Swain quando ele trouxe duas taças de vinho. Ela pegou a dela e ele sentou-se ao lado de suas pernas na espreguiçadeira, com a mão quente dele escorregando por baixo de sua saia para lhe acariciar a coxa.

Por que Chrisoula foi embora tão cedo? — ela quis saber enquanto bebericava o vinho perfumado, pensando que não tinha dormido tanto tempo. Chrisoula não teria tido tempo de fazer o jantar.

— Ela quis ir ao mercado buscar alguma coisa. Eu acho. — Swain sorriu. — Foi isso ou havia um porco em cima da casa dela.

— Acho que ela foi ao mercado. — Às vezes, as tentativas de comunicação entre eles tinham resultados engraçados, mas Swain via tudo aquilo com entusiasmo.

— Provavelmente. — Agora acariciava o tornozelo dela. Ele brincou com sua correntinha prateada, levantou seu pé e beijou-lhe o tornozelo. — Pode ser que tenhamos carne de porco para o jantar, e aí veremos se minha tradução estava certa.

— O que quer fazer o resto da tarde? — ela perguntou, terminando de beber seu vinho e afastando a taça. Não sabia se iria conseguir mover um músculo. Os dois orgasmos fizeram-na perder as forças. Ela detestava não aproveitar um dia lindo como aquele; por isso, se ele quisesse ir a Karystos, ela faria um esforço.

Ele balançou a cabeça.

— Nada. Talvez ler um pouco. Ficar sentado aqui olhando o mar. Contar as nuvens. — Ele deu um tapinha em seu tornozelo, levantou-se e andou até o muro da varanda, onde ficou bebericando seu próprio vinho ocasionalmente. Ela o observou, admirando suas costas largas e seu traseiro mais estreito, mas divertindo-se mais com aquele andar relaxado e sensual que dizia que ele era um homem que se dedicava ao que fazia. Até mesmo Chrisoula reagia a ele, jogando charme e rindo, e ela certamente era uns vinte anos mais velha. Sem contar que, quando flertava com ele, ele geralmente não entendia nada do que ela dizia, mas isso não o impedia de responder ao que achava que ela dissera. Lily também não sabia o sentido exato das palavras, mas, pelo rosto corado e pela linguagem corporal de Chrisoula, podia ver que ela realmente o paquerava.

Um grande cansaço tomou conta de seu corpo e ela fechou os olhos. Estava tão sonolenta, tão relaxada... não devia ter tomado aquela taça de vinho... tinha lhe dado sono...

Ela forçou-se a abrir os olhos e encontrou Swain olhando para ela com uma expressão em seu rosto que ela não reconheceu, alerta e observador, sem qualquer vestígio de humor.

Idiota, uma voz dentro dela disse. Ela tinha sido enganada como enganara Salvatore Nervi.

Conseguia sentir a letargia espalhando-se por seu corpo. Tentou ficar em pé, mas mal conseguiu sentar-se antes de cair prostrada na espreguiçadeira mais uma vez. O que poderia fazer? Não podia vencer o que já estava impregnado nela.

Swain voltou e agachou-se ao lado dela.

— Não resista — ele disse delicadamente.

— Quem é você? — ela conseguiu perguntar, apesar de ainda conseguir pensar com bastante clareza para entender. Ele não era um empregado dos Nervi, portanto só havia uma possibilidade. Era da CIA; ou um dos agentes secretos ou um contratado; o resultado final era o mesmo. Independentemente de qual fosse seu objetivo depois de ajudá-la a derrubar os Nervi, a missão dele estava completa. Ela tinha se apaixonado completamente por sua atitude, mas percebera o excelente ator que era, e isso devia ter lhe servido como aviso. Mas já era tarde demais, pois já estava apaixonada.

—Acho que você já sabe.

— Sim. — Suas pálpebras estavam tão pesadas, e seus lábios estavam letárgicos. Ela tentou ser coerente: — O que vai acontecer agora?

Ele afastou uma mecha de cabelo de seu rosto com seu toque delicado.

— Você só vai dormir — ele sussurrou. Ela nunca o ouvira falar de modo tão carinhoso antes.

Nada de dor, então. Que bom. Não iria morrer agonizando.

— Foi verdade? Alguma coisa foi verdadeira? — Ou todos os toques e todos os beijos tinham sido uma mentira?

Os olhos dele ficaram marejados, ou pelo menos ela pensou que estivessem. Poderia ser sua visão que estava ficando embaçada.

— Foi verdade.

— Então... — ela perdeu a linha de raciocínio e lutou para retomá-la. O que ela estava...? Sim, conseguia se lembrar agora. — Você... — Ela mal conseguia falar, e não conseguia vê-lo. Ela engoliu, fez um esforço —.. pode me dar um beijo de boa-noite?

Ela não tinha certeza, mas achou que o tinha ouvido dizer:

— Sempre. Tentou tocá-lo, e em sua mente conseguiu. Seu último pensamento foi que gostaria de tocá-lo.

Swain acariciou o rosto dela e observou o vento brincar com seu cabelo. As mechas claras se ouriçavam e levantavam-se, caíam de novo e levantavam-se, como se estivessem vivas. Ele sentou-se, beijou seus lábios quentes e ficou segurando sua mão por muito tempo.

As lágrimas queimavam em seus olhos. Maldito Frank. Ele não quis ouvir, não desistiu de seu plano original, e se Swain não pudesse fazer o trabalho, jurou que mandaria alguém que conseguisse.

Sim, tudo bem. Se não fosse pelo detalhe de um delator que ele tinha de encontrar, Swain teria dito a Frank o que ele poderia fazer com o maldito emprego. Mas ele tinha a gravação que Blanc tinha lhe dado durante aquela semana de preparação para destruir o laboratório Nervi e, quando voltasse para Washington, tinha de cuidar desse assunto. Tinha escutado Lily se mexendo no quarto no dia anterior, à tarde, e não conseguira contar a Frank tudo que estava acontecendo, apenas a sujeira que o dr. Giordano estava comandando e uma rápida discussão a respeito do que Frank queria que ele fizesse com Lily.

Ele tinha dispensado Chrisoula aquela tarde porque queria mais uma vez estar a sós com Lily, queria segurá-la perto dele e olhar dentro de seus olhos enquanto ela atingia o orgasmo, queria sentir os abraços dela.

Tudo estava acabado agora.

Ele a beijou mais uma vez e fez uma ligação.

Logo o inconfundível barulho do helicóptero ressoou em uma montanha próxima. Ele pousou no gramado, e três homens e uma mulher saíram. Eles trabalharam em silêncio, competentemente, cobrindo Lily e preparando-a para ser transportada. E então um dos homens disse à mulher:

— Pegue os pés — e Swain foi em sua direção.

— Os pés dela — ele disse selvagemente. — Ela é uma mulher, não uma coisa. E é uma patriota. Se não tratá-la com respeito, arrebento sua cara.

O homem olhou para Swain com consternação.

— Claro, senhor. Não quis ofendê-la. Swain cerrou o punho.

— Eu sei. Então... prossiga.

Alguns minutos depois, o helicóptero partiu. Swain ficou em pé observando-o até se transformar em um pontinho preto no céu; então, apático, virou-se e foi para dentro da casa.

 

                             Seis meses depois

Lily atravessou o corredor em direção ao consultório da dra. Shay, para o que ela esperava que fosse a última consulta. Seis meses de intensa desprogramação, terapia e conselhos eram o bastante. Depois de sua raiva inicial por acordar e estar sob custódia, ela se sentia agradecida por essa segunda chance e cooperara da melhor forma possível, mas já estava pronta para ir embora.

Os seis meses não foram apenas de terapia. Depois de dois meses, ela foi submetida a uma cirurgia para a correção daquela válvula danificada de seu coração, e a recuperação não tinha acontecido da noite para o dia. Ela se sentia muito bem agora, mas as primeiras semanas após a cirurgia tinham sido ruins, apesar de o cirurgião ter usado uma técnica minimamente invasiva. Qualquer cirurgia no coração exigia que ele não estivesse batendo, por isso ela havia sido ligada à máquina cardiorrespiratória enquanto o trabalho estava sendo realizado. Ela ainda sentia medo de pensar naquilo, mesmo sendo coisa do passado agora.

A dra. Shay não era a imagem que Lily fazia de um psiquiatra. Ela era baixa, gorducha, uma pessoa muito alegre, tinha os olhos mais gentis que já tinha visto. Lily seria capaz de matar pela dra. Shay, e era por isso que ainda continuava na clínica particular.

Ela tinha sofrido com a dúvida de conseguir ou não se adaptar a uma vida normal, mas as terapias que a dra. Shay tinha realizado com ela provaram o quão distante Lily estivera dessa normalidade. Até fazer os testes que testaram seus impulsos, Lily não percebera como estava pronta para matar, como aquela era sempre — sempre — sua reação inicial a qualquer confronto. Ao longo dos anos, ela tinha se tornado muito boa em evitar conflitos por causa dessa tendência, sem perceber que o fazia. Tinha minimizado os riscos ao não se associar com muitas pessoas.

Praticara os exercícios exaustivamente, até ter treinado a si mesma, e por meio de muitas sessões com a dra. Shay, até que sua raiva e sua dor se tornaram mais controláveis. O pesar era algo terrível, mas o isolamento também e ela tinha piorado as coisas para si mesma se isolando. Ela precisava de sua família e, com o incentivo da dra. Shay, tinha reunido a coragem necessária para telefonar para a sua mãe algumas semanas antes. As duas tinham chorado juntas, mas Lily sentira uma sensação de alívio imenso por mais uma vez se ligar àquela parte de sua vida.

Swain era a única parte de sua vida que ela não tinha discutido com a dra. Shay.

Lily não podia receber visitas ou qualquer pessoa de fora até telefonar para a sua mãe, por isso não era de surpreender que ela não o tivesse visto ou recebido notícias dele desde aquele dia em Eubéia, quando pensou que ele a havia matado. Não sabia se Swain percebera que foi isso o que ela pensou naquele momento.

Não sabia se ele teria problemas devido à forma como conduziu sua missão, e até que ponto da história a agência conhecia, por isso ela não tinha dito nada, tampouco à dra. Shay.

Ela bateu à porta da dra. Shay e ouviu uma voz que não reconheceu:

— Entre.

Ela abriu a porta e olhou para o homem que estava sentado à mesa.

— Entre — ele repetiu, sorrindo.

Lily entrou no consultório e fechou a porta. Silenciosamente, sentou-se na mesma cadeira de sempre.

— Sou Frank Vinay — o homem disse. Ele aparentava ter cerca de setenta anos, talvez, e tinha um rosto gentil, mas o olhar mais penetrante que ela já tinha visto. Ela reconheceu o nome, um tanto chocada. Era o diretor de operações da agência.

Ela ligou alguns pontos e disse:

— O Frank do Swain?

Ele afirmou:

— Sim.

— Você realmente sofreu um acidente de carro?

— Sim, foi verdade. Não me lembro de nada, é claro, mas li todas as reportagens. Isso colocou Swain em uma situação complicada, porque ele descobriu que havia um delator dentro da CIA passando informações a Rodrigo Nervi, mas não sabia de quem se tratava e eu era a única pessoa que ele sabia não ser esse traidor, por isso não tinha a quem recorrer. Ficou totalmente desamparado naquela missão — a não ser por você, é claro. Por favor, aceite os agradecimentos do seu país pelo que fez.

Seja lá o que esperasse ouvir, não era aquilo. Ela disse:

— Pensei que vocês iam me matar. O rosto gentil ficou sério.

— Depois de todos os seus anos de serviço ao país? Eu não trabalho assim. Eu leio os relatórios, sabe? Eu vi que você estava muito estressada, mas não lhe dei a atenção necessária. Depois do assassinato de Salvatore Nervi, fiquei com medo de você desmantelar a rede toda, mas nunca pensei em matá-la, a menos que não houvesse outra escolha. Esta era minha primeira opção — ele disse, indicando o consultório da dra. Shay. — Mas eu sabia que você não acreditaria nisso se o plano lhe fosse revelado. Você fugiria, mataria ou faria as duas coisas. Você tinha de ser detida, por isso mandei meu melhor caçador à sua busca. Foi uma escolha muito feliz, porque outro agente poderia não ter guiado a situação como ele fez quando as circunstâncias mudaram.

— Quando ele descobriu sobre o delator e quando eu descobri o que estava realmente acontecendo no laboratório.

— Exatamente. Foi uma situação complicada. Quando Damone descobriu o que seu irmão e seu pai estavam planejando, tentou evitar que o vírus fosse espalhado contratando Averill Joubran e a esposa dele para destruírem o trabalho, e isso fez com que toda a bagunça começasse.

Um homem tão belo quanto uma estrela de cinema, foi como a Madame Bonnet descrevera o homem que tinha visitado seus amigos. Era Damone Nervi, afinal.

— Então, ele sabia quem eu era o tempo todo, aquele dia no laboratório — ela murmurou. — E sabia que eu tinha matado o pai dele.

— Sim. É um ótimo homem. Ele não teria se importado se você tivesse morrido na explosão, é claro, ou se um dos guardas tivesse lhe acertado um tiro enquanto você e Swain estavam indo embora, mas ele não fez nada para atrapalhar sua missão.

Ele era uma pessoa mais bondosa que ela, Lily admitiu silenciosamente. Ela quase tinha se descontrolado e atacado o dr. Giordano — mas não fizera isso, percebeu. E Damone Nervi devia ter se sentido da mesma maneira. Ele não era uma pessoa tão bondosa assim.

— A questão é que talvez não tenhamos feito nada de bom — ela disse. — O vírus da gripe aviária pode se transformar sozinho, a qualquer momento.

— Isso é verdade e não podemos fazer nada para detê-lo. Mas o Centro de Controle e Prevenção de Doenças e a Organização Mundial da Saúde estão trabalhando duro para desenvolver um método confiável de produzir a vacina, e se o vírus sofrer alguma mutação antes de isso acontecer... — Ele levantou as mãos. — Pelo menos ninguém o está espalhando sem mais nem menos e ganhando uma fortuna com a morte de milhões de pessoas. E isso me faz lembrar de um outro problema de saúde — ele disse delicadamente, trocando de assunto. — Como você está?

— Estou me sentindo bem, finalmente. A cirurgia não foi brincadeira, mas deu certo.

— Fico feliz em saber. Saiba que Swain esteve lá.

Ela se sentiu como se ele tivesse jogado uma pedra em seu colo.

— O quê? —A palavra saiu de sua boca como um soluço fraco.

— No dia da sua cirurgia. Ele quis ficar junto. Quando você foi ligada à máquina cardiorrespiratória, ele quase desmaiou.

— Como... como sabe disso? — Ela quase não conseguia falar de tão chocada que estava.

— Ah, eu também estava lá, é claro. Eu estava... preocupado. Não foi uma cirurgia simples. Ele ficou com você na sala de recuperação, mas teve de ir embora antes que você acordasse.

Ou quis sair antes que ela acordasse. Ela não sabia como aceitar tudo aquilo ou o que pensar.

— Pode sair daqui quando quiser — Vinay prosseguiu. — Já sabe o que quer fazer?

— Visitar minha mãe e minha irmã, antes de qualquer coisa. — Depois... Não sei. Preciso de um emprego — ela disse ironicamente.

— Tem alguma área na qual gostaria de atuar...? Sempre teremos vagas para pessoas dedicadas, habilidosas e leais.

— Obrigada pela oferta, mas terei de pensar no assunto. Sinceramente, não sei o que quero fazer.

— Talvez eu possa ajudá-la um pouco — ele disse, levantando-se com certa dificuldade. Estava usando uma muleta, ela percebeu, apoiando seu peso nela.

— Ele está esperando. Quer vê-lo?

Não havia a necessidade de perguntar quem estava à sua espera. Seu coração acelerou-se.

— Sim — ela respondeu sem a menor hesitação. Ele sorriu.

— Fico feliz. Não sei se você entendeu como as coisas foram difíceis para ele.

— A princípio, não — ela disse honestamente. — Eu estava chocada demais para perceber... mas depois comecei a raciocinar.

Ele deu a volta na mesa com dificuldade e deu-lhe um tapinha no ombro.

— Tenha uma vida boa, Liliane.

— Terei, obrigada... sr. Rogers.

Frank Vinay sorriu e saiu do consultório. Dez segundos depois, a porta se abriu e Lucas Swain estava ali, bonito como sempre, mas não estava sorrindo. A expressão em seus olhos azuis era quase... assustada.

— Lily — ele começou. — Eu...

— Eu sei — ela interrompeu e, com uma risada, partiu em sua direção. Os reflexos dele estavam excelentes, ele abriu os braços e a pegou.

 

                                                                                Linda Howard 

 

                      

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