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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


BELEZA DESPERTADA / Gena Showalter
BELEZA DESPERTADA / Gena Showalter

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

Seu nome é Koldo. Ele tem cicatrizes, é poderoso, seu controle lendário e vive somente para vingança contra o anjo que cruelmente removeu suas asas. Mas se ele se render às forças do ódio, será eternamente amaldiçoado.

Nicola Lane nasceu com um coração defeituoso, porém esta humana frágil mostra uma força assombrosa enquanto demônios perseguem todos os seus movimentos, determinados a dar fim nela. Ela é a chave para a libertação de Koldo… e sua queda. Apesar dele lutar por dever, destino e o primeiro gosto viciante do desejo, sua batalha mais difícil será pela vida de Nicola ainda que tenha que sacrificar a dele…

 

 

 

 

O garoto de sete anos chamado Koldo estava sentado tão silenciosamente quanto possível no canto do quarto. Sua mãe penteava os cabelos, adoráveis cachos escuros tecidos com fios do mais puro ouro. Estava posicionada na frente da penteadeira, cantarolando suavemente, mas excitada, com a imagem sorridente e sardenta refletida num espelho oval. Não podia evitar observá-la fascinado.

Cornelia era uma das criaturas mais bonitas já criadas. Era o que todos diziam. Seus olhos eram do mais pálido violeta, emoldurados por cílios de uma mistura negra e dourada, assim como seu cabelo. Os lábios tinham formato de coração, e a pele pálida brilhava tão luminosa quanto o sol.

Com cabelo preto, olhos escuros e pele profundamente bronzeada, Koldo não se parecia nada com ela. A única coisa que tinham em comum eram suas asas, e talvez por isso que ele fosse tão orgulhoso das cintilantes penas brancas amortecidas por felpudas de cor âmbar por baixo. Elas eram seu único aspecto positivo.

O cantarolar dela de repente cessou.

Koldo engoliu em seco.

— Você está me encarando. — ela o repreendeu e qualquer vestígio de seu sorriso desapareceu.

Ele abaixou seu olhar para o chão, como ela preferia.

— Desculpe Mamãe.

— Eu disse para não me chamar disso. — Ela bateu a escova sobre a bancada de mármore. — Você é tão tolo que já se esqueceu?

— Não. — ele suavemente respondeu. Todos enalteciam sua doçura e gentileza tanto quanto a beleza, e estavam certos ao fazê-lo. Ela era generosa em seu louvor e gentil com todos que se aproximavam dela — todos exceto Koldo. Ele sempre experimentou um lado muito diferente dela. Não importava o que fizesse ou dissesse, ela achava defeito. E mesmo assim, ainda a amava com todo o seu coração. Tudo que sempre quis foi agradá-la.

— Criaturinha horrorosa. — ela murmurou enquanto levantava, o cheiro de jasmim e madressilva exalando dela. O tecido roxo de sua túnica dançava em seus tornozelos com as joias costuradas na bainha cintilando na luz. — Assim como seu pai.

Koldo nunca conheceu o pai, mas já tinha ouvido falar do homem.

Mau.

Asqueroso.

Repulsivo.

— Vou receber alguns amigos. — ela disse, sacudindo o cabelo atrás de um ombro. —Deve ficar aqui em cima. Entendeu-me?

— Sim. — Oh, sim. Ele entendia. Se alguém tivesse um vislumbre dele, ela ficaria envergonhada por sua feiura. Ela ia se enfurecer. Ele sofreria.

Ela o perscrutou por um longo momento. Finalmente rosnou.

— Eu devia ter te afogado na banheira quando era muito novo para lutar. — e saiu do quarto com a porta batendo atrás dela.

A rejeição cortou bem fundo, e ele não sabia por que. Ela disse coisas muito piores várias vezes antes.

Só me ame, mamãe. Por favor.

Talvez... talvez ela não pudesse. Ainda não. Esperança se desenrolou em seu peito, e ele levantou o queixo. Talvez não tivesse feito o suficiente para provar a si mesmo. Talvez se ele fizesse algo especial para ela, finalmente percebesse que não era nada como seu pai. Talvez se limpasse seu quarto... e tivesse um buquê de flores frescas esperando por ela... e cantasse uma canção quando ela fosse dormir... Sim! O abraçaria e o beijaria em agradecimento, da maneira como frequentemente abraçava e beijava os filhos dos empregados.

Empolgado, Koldo dobrou os cobertores que usou para sua cama no chão e saltou em pé. Se lançou pelo quarto, pegando túnicas e sandálias descartadas, então afofou os travesseiros espalhados em torno do tapete de centro, onde Cornelia gostava de relaxar e ler.

Ignorou a parede de armas — o chicote, os punhais e espadas. — e endireitou os artigos na penteadeira: a escova, os frascos de perfume, os cremes para a pele de sua mãe e o líquido de cheiro pungente que ela gostava de beber. Ele poliu cada colar, pulseira e anel na caixa de joias.

Quando terminou, o quarto e tudo dentro dele brilhavam como novo. Sorriu, satisfeito com seus esforços. Ela apreciaria tudo que ele fez — simplesmente sabia.

Agora as flores.

Cornelia queria que ele ficasse aqui, e se tivesse prometido obedecer, ele o faria. Mas não prometeu. Disse somente que entendia seus desejos. Além disso, isto era para ela, tudo para ela, e ninguém o veria. Se asseguraria disto.

Andou a passos largos para a sacada, abrindo as portas duplas. Ar frio noturno flutuava acima dele. O palácio estava situado num reino longe dos céus mais baixos, vizinho de milhares de estrelas que brilhavam numa expansão infinita de negro aveludado. A lua estava brilhante e alta, um mero prateado curvado em dois pontos superiores.

A lua estava sorrindo para ele.

Encorajado, Koldo caminhou para a borda da sacada. Não existia nenhuma grade, permitindo que seus dedos do pé se enroscassem na borda. Abriu as asas em todo seu comprimento e a ação trouxe uma cascata de alegria. Amava voar pelo céu, pairando acima e movendo-se abaixo, rolando pelas nuvens, perseguindo pássaros.

Sua mãe não sabia de nada sobre isso. — Nunca deve usar suas asas. — ela anunciou no dia que começaram a brotar em suas costas. Ele planejava considerar o comando, e o fez, mas então, um dia, ela estava gritando sobre o quanto o desprezava, e ele subiu até o telhado para que ela não tivesse que olhar seu rosto feio. Sua miséria o distraiu e ele caiu, abaixo, abaixo.

Logo antes de aterrissar, abriu seus apêndices previamente inutilizados e conseguiu diminuir o impacto. Engatinhou para longe com um braço e perna despedaçados, costelas quebradas, um pulmão perfurado e um tornozelo fraturado. Eventualmente, sarou — e saltou de propósito na vez seguinte. Ficou viciado na sensação da brisa em sua pele, em seu cabelo, e queria mais.

Agora, mergulhava de ponta-cabeça. O ar batia nele, e tinha que bradar seu grito de satisfação. A liberdade... A leve extremidade do perigo... A invasão de calor e força... Ele nunca teria o suficiente. Pouco antes do impacto, se endireitou e estabilizou com as asas pegando a corrente. Aterrissou suavemente com os pés já em movimento.

Um passo, dois, três, eee ele estava um quilômetro dentro da floresta. Não porque fosse rápido — apesar de ser — mas porque podia fazer algo que sua mãe e Os Enviados não podiam. Ele podia se mover de um lugar para outro com um só pensamento.

Descobriu essa habilidade há alguns meses. A princípio, só podia se transportar por um metro, então dois, mas todo dia conseguia ir um pouco mais além do que antes. Tudo que tinha que fazer era acalmar suas emoções e se concentrar.

Finalmente alcançou a extensão de flores silvestres que encontrou da última vez que quebrou as regras e deixou o palácio. Arrancou as mais bonitas do chão, as pétalas no perfeito tom de lavanda, lembrando-o dos olhos de sua mãe. Ele as trouxe até o nariz e cheirou. O aroma de coco que dava água na boca se prendeu a ele, e seu sorriso retornou.

Se Cornelia perguntasse onde conseguiu o buquê, bem, ele lhe diria a verdade. Ele se recusava a mentir, até mesmo para salvar a si mesmo de uma punição. Não só porque Os Enviados podiam saborear quando outro for mentia — diferentemente dele — mas também porque mentir era o idioma dos demônios, e demônios eram quase tão maus quanto seu pai.

Sua mãe apreciaria a honestidade de Koldo. Com certeza.

Com as mãos cheias de talos verdes úmidos, correu para fora da floresta e saltou na atmosfera, indo cada vez mais alto com suas penas se amassando no vento e os músculos em suas costas puxando de maneira mais prazerosa. De cima para baixo suas as deslizaram. O coração trovejou no peito enquanto aterrissava na sacada e espiava pela porta. Não havia nenhum sinal de sua mãe.

Suspirando de alívio, entrou no quarto. Esvaziou o vaso favorito de Cornelia com flores velhas e secas, e então adicionou os talos novos e regados. Retornou ao seu lugar no canto, dobrou suas pernas e esperou.

Horas se passaram.

Mais horas se passaram.

Quando as dobradiças rangeram sinalizando que a porta estava sendo aberta, as pálpebras dele estavam pesadas, os olhos secos e ásperos como lixas, mas conseguiu ficar acordado e agora deu um solavanco de atenção ávida.

Passos suaves caíram. Uma pausa.

— O que você fez? — Sua mãe ofegou. Ela girou, absorvendo cada centímetro do quarto.

— Eu deixei melhor para você. — Me ame. Por favor.

Uma cortante inspiração antes dela pisar duramente, parando bem na frente dele e encarando-o com ódio feroz.

— Como ousa! — Eu gostava das minhas coisas como estavam.

Decepção quase o esmagou pela força com que se assentou em seu peito. Mais uma vez ele falhou com ela.

— Sinto muito.

— Onde conseguiu a ambrosia? — Até enquanto ela falava, seu olhar girou para as portas duplas que davam para a sacada. — Você voou, não é?

Só uma batida de hesitação antes dele admitir:

—Sim.

A princípio, ela não teve nenhuma reação. Então endireitou os ombros com um movimento de determinação.

— Pensa que pode me desobedecer e nunca sofrer nenhuma consequência. É isto?

— Não. Eu somente...

— Mentiroso! — Ela gritou. A palma bateu na bochecha dele e a força do impacto o impulsionou contra a parede. — Você é exatamente como seu pai, fazendo o que quer, quando quer, sem se importar como os outros se sentem sobre o assunto, e não vou mais tolerar este comportamento.

— Eu sinto muito. — ele repetiu, tremendo.

— Acredite em mim, você sentirá. — Ela agarrou seu braço e o arrastou de volta em pé. Ele não lutou, permitindo que ela o jogasse sobre a cama, em seu estômago, e amarrasse seus pulsos e tornozelos aos pilares.

Outro açoitamento pensou. Não se permitindo implorar por piedade que ela não mostraria. Ele se feriria, mas se curaria. Estava certo disso. Ganhou milhares de outras punições assim como esta, mas sempre se recuperava. Pelo menos, fisicamente. Por dentro, seu coração sangraria por vários anos seguintes.

Sua mãe selecionou uma lâmina da parede, ignorando o chicote que normalmente manejava.

Ela ia... matá-lo?

Finalmente Koldo puxou e se retorceu, mas não era forte o suficiente para lutar e se soltar.

— Eu sinto muito. Realmente sinto muito. Nunca mais limparei seu quarto, prometo. Nunca mais sairei daqui.

— Você acha que este é o problema? Oh, menino tolo. A verdade é que não posso deixar você solto. Está manchado pelo sangue vil do seu pai. — O fogo em seus olhos tinham se espalhado pelo resto de suas feições, criando uma expressão selvagem, louca. — Estarei fazendo ao mundo um favor limitando sua habilidade de viajar.

Não. Não!

— Não faça isto, mamãe. Por favor, não faça isto. — Ele não podia perder suas asas. Simplesmente não podia. Preferia morrer. — Por favor.

— Eu te falei para não me chamar desse nome deplorável! — Ela gritou.

O pânico fez pequenos cristais de gelo se formarem em seu sangue.

— Nunca farei isto novamente, prometo. Somente... por favor, não faça isto. Por favor.

— Eu devo.

— Você pode tirar minhas pernas. Só tire minhas pernas!

— E fazer com que dependa de mim pelo resto de sua vida? Não. — Um sorriso lento se ergueu nos cantos de seus lábios. — Devia ter feito isto há muito tempo.

Um segundo depois, ela o atingiu.

Koldo gritou e gritou e gritou... até que sua voz quebrou e sua força foi drenada. Até que viu suas belas asas no chão e as penas encharcadas com seu sangue.

Até que só podia fechar seus olhos e rezar pela morte.

— Pronto. Calma. Está feito. — ela disse quase gentilmente. — Perdeu o que não merecia.

Isto era um sonho, certamente. Sua mãe não era tão cruel. Ninguém podia ser tão cruel.

Lábios macios e mornos pressionaram em suas bochechas molhadas, e o jasmim e madressilva do perfume dela ofuscaram o que sobrava do coco.

— Odiarei você para sempre, Koldo. — sussurrou em sua orelha. — Não existe nada que possa fazer para mudar isto.

Não, não era um sonho. Realidade.

Sua nova realidade.

Sua mãe era muito pior do que cruel.

— Eu não quero mudar isto. — ele disse com o queixo tremendo. Não mais.

Uma risada tímida escapou dela.

— Isto é raiva que ouço? Muito bem. Você já é mais parecido com seu pai do que eu pensava. Talvez seja hora de você o conhecer. — Depois de uma pausa momentânea, ela adicionou. — Sim. Pela manhã, levarei você para o povo do seu pai. Perceberá como fui boa com você — se sobreviver.

 

                   Num mundo de escuridão, a menor luz é um farol.

Dias Atuais

Koldo marchou pela ala da UTI do hospital. Ele e o guerreiro com ele estavam escondidos dos olhos e protegidos do toque humano. Os médicos, enfermeiras, visitantes e pacientes passavam como névoa por eles, completamente inconscientes do mundo invisível que existia ao redor deles. Um mundo espiritual que deu a luz a este mundo natural. O mundo humano.

Um mundo espiritual que era a realidade verdadeira para toda a criação.

Um dia, estes humanos descobririam simplesmente o quão exata aquela declaração realmente era. Seus corpos morreriam, seus espíritos ascenderiam — ou descenderiam — e começariam a entender que o mundo natural era passageiro e o espiritual eterno.

Eterno. Assim como a irritação de Koldo parecia ser. Não queria estar aqui entre os humanos, em mais uma missão tola, e realmente não gostava de sua companhia, Axel. Mas seu novo líder, Zacharel, queria mantê-lo ocupado, distraído, porque suspeitava que Koldo estivesse a ponto de vacilar e quebrar uma lei divina.

Zacharel não estava errado.

Depois de tudo que Koldo suportou no acampamento de seu pai... depois de escapar e passar séculos procurando por sua mãe, Koldo finalmente a encontrou — e a prendeu dentro de uma gaiola numa de suas muitas casas.

Então, sim. Koldo vacilou. Mas nunca causaria à mulher dano irrevogável. Ele nem mesmo se rebaixaria a quebrar uma de suas unhas. Por enquanto, simplesmente esperava ensiná-la o terror de ser aprisionado pelas circunstâncias, como ela o ensinou. Como ainda estava ensinando a ele.

Mais tarde, ele ia... não tinha certeza. Não gostava mais de considerar o futuro.

Por causa de sua repulsa por Cornelia, Koldo foi parar no Exército da Desgraça. Era um nome terrível para tal força defensiva, mas era um que cabia. Os membros eram os piores dos piores. Os mais cruéis dos cruéis... homens e mulheres dos Enviados que estavam em perigo de condenação.

Por várias razões, todos os vinte soldados ignoraram estimadas leis divinas. Deviam amar, mas odiavam. Deviam ajudar aos outros, mas na verdade só machucavam. Deviam construir, mas sempre destruíam.

Três meses atrás, os membros receberam um ano para consertar seus modos perversos, ou seriam despidos de suas habilidades e chutados para o inferno.

Koldo faria o que fosse preciso para impedir aquilo de acontecer — até negar a si mesmo sua verdadeira vingança. Recusava-se a perder a única casa que já conheceu.

Axel o agarrou pelo braço, fazendo ele parar.

— Cara! Viu as coisas de carne naquela garota?

E aí estava a primeira razão porque Koldo tinha um problema para trabalhar com Axel.

— Podia ser mais nojento? — Ele se soltou do aperto do guerreiro. Contato com outro não era algo que apreciasse.

— Sim. — Axel disse com um sorriso irreverente. — Podia. Mas alguém, e não direi seu nome K, precisa tirar sua mente da sarjeta meu rapaz. Não estava falando sobre os peitos dela.

Koldo correu a língua sobre os dentes.

— O que, então?

— Oláaa! Demônios. Olhe.

O olhar deslizou para o quarto à sua direita. A porta estava no processo de se fechar e agora estalou fechada, bloqueando parte de sua visão.

— Tarde demais.

— Só é tarde demais quando está morto. Vamos. Precisa ver isto. — Axel andou e avançou como um fantasma através da entrada.

As mãos de Koldo se fecharam em punhos, e lutou com o desejo de esmurrar uma parede. Tinham uma missão, e distrações só estendiam seu tempo num lugar fervilhando com demônios rindo da dor que os humanos sofriam e sussurrando nas orelhas de qualquer um que escutasse.

Não pode sobreviver, eles diziam. Não existe nenhuma esperança. E estes humanos... eram bonecos, com mãos com garras puxando suas cordas. Se falhassem em contra-atacar, se tornariam vítimas numa guerra entre o bem e o mau, nesta vida ou depois da morte. De uma forma ou de outra.

Era simplesmente assim que as coisas funcionavam.

O Altíssimo governava os céus. “Ele” era na verdade uma trindade sagrada que consistia no Misericordioso, no Ungido e Poderoso, e “Ele” era o Rei dos reis e Sua palavra era lei. Nomeou vários subalternos ao longo dos céus. Germanus — ou Divindade, como alguns da espécie de Koldo o chamavam, referindo-se a um título, nada mais — era um daqueles subalternos. Um rei que respondia ao Rei.

Germanus liderava a Elite Sete — Zacharel, Lysander, Andrian, Gabek, Shalilah, Luanne, Svana — e cada um daqueles sete guiavam um exército dos Enviados. Zacharel, por exemplo, liderava o Exército da Desgraça.

Os Enviados eram exatamente como anjos, mas não eram anjos realmente. Pelo menos não no sentido como o mundo conhecia. Sim, Os Enviados eram alados. Sim, travavam guerras contra o mau e ajudavam humanos, mas na realidade, eram filhos adotivos do Altíssimo e suas vidas estavam amarradas a Dele. Ele era a fonte de seu poder, a essência de sua existência.

Como humanos, Os Enviados lutavam contra os desejos da carne. Experimentavam luxúria, cobiça, inveja, ira, orgulho, ódio, desespero. Anjos, na realidade, eram servos e mensageiros do Altíssimo. Não experimentavam nenhuma daquelas coisas.

Se concentre na missão.

Koldo endireitou sua espinha. Zacharel deu a tarefa a ele e Axel de matar um demônio específico aqui no hospital. O demônio cometeu o engano de atormentador um paciente que sabia sobre o mundo espiritual ao redor ele, um homem que pediu ajuda ao Altíssimo.

O Altíssimo era o amor personificado, disposto a ajudar qualquer um que pedisse. Às vezes anjos eram despachados, às vezes Os Enviados. Às vezes ambos, dependendo da situação e das habilidades necessárias. Desta vez, Koldo e Axel foram escolhidos. Estavam por perto, a caminho de uma sessão de treinamento, quando a voz de Zacharel sussurrou por suas mentes, dando instruções.

Axel espiou com a cabeça pelo centro da porta e disse.

— Cara. Você está perdendo!

— A pessoa naquele quarto não é nossa.

Sorrindo, o guerreiro mais uma vez desapareceu.

— Missão. — Koldo terminou para ninguém mais que si mesmo. Sua raiva se intensificou.

Controle-se.

Podia continuar e combater o demônio com quem deveria lutar sem problemas, mas de acordo com as ordens de Zacharel, não deveria prosseguir sem seu companheiro.

Rangendo seus dentes, marchou adiante. Deslizou pela obstrução de ferro sem qualquer dificuldade, parou e olhou ao redor. O quarto era pequeno, com múltiplas máquinas presas à mulher imóvel na cama. Uma mulher ruiva estava sentada próxima a ela, conversando com facilidade.

A ruiva não fazia nenhuma ideia que havia dois demônios de pé atrás dela, fingindo não ver Os Enviados no quarto.

— Dois dos caras no meu escritório começaram a discutir sobre quem podia correr mais rápido — ela disse — e logo as apostas estavam voando.

Sua voz tinha um tom sussurrante, como se fosse cheia de fumaça e sonhos, e se derramou sobre Koldo como mel morno. Mesmo assim, com o efeito calmante veio uma tensão. Cada músculo em seu corpo se contraiu, como se se preparando para guerra. Ele... queria lutar com uma mulher tão delicada? Mas por quê? Quem era ela?

— Senti como se estivesse no meio de uma bolsa de valores ou algo assim.

Risos borbulharam dela. Um riso tão bonito, puro, com nada contido. Do tipo ele nunca experimentou.

— Decidiram apostar corrida no estacionamento em vez de almoçar, e o perdedor teve que comer o que quer que estivesse na tigela de plástico no refrigerador da sala de descanso. A que esteve lá por mais de um mês e agora estava preta. Ouvi a torcida quando estava saindo do estacionamento, mas não cheguei a ver quem ganhou.

Melancólica agora. Por quê?

— Você teria apostado em Blaine com certeza. Ele só tem um e oitenta de altura, então não ficaria tão mais alto que você, e tem olhos azuis atraentes. Não que sua aparência tenha alguma coisa a ver com sua velocidade, mas conheço você, e sei que iria querer que ele ganhasse de qualquer modo. Sempre teve uma queda por olhos azuis.

Ele só conseguia ver a parte superior dela, mas julgando pela fragilidade de sua estrutura óssea, era uma coisa minúscula. Suas feições eram comuns, sua pele tão pálida quanto porcelana, e os olhos tão cinza quanto uma tempestade de inverno. Sua massa de cabelo cor de morango estava puxada num rabo de cavalo alto, as pontas se encaracolando até a altura do cotovelo.

Havia um ar de fadiga a cercando, e mesmo assim, existia um brilho naqueles olhos de inverno.

Um brilho que os demônios atrás dela logo iriam farejar.

Ele forçou sua atenção para o par. Um estava postado à sua esquerda e outro à sua direita, e ambos tinham uma mão possessiva em seu ombro. Eram do tamanho de Koldo, com olhos escuros e sem pupilas que o lembravam de covas sem fundo. O da esquerda tinha um único chifre protuberante no centro de sua fronte, e escamas vermelhas no lugar de carne. O da direita tinha dois chifres espessos subindo de seu escalpo, e pelo escuro e emaranhado.

Existiam muitos tipos diferentes de demônios, e vinham nas mais diversas formas e tamanhos. Do primeiro de seu tipo, o arcanjo caído Lúcifer, até o viha, o paura, o násilí, o slecht, o grzech, o pică e o envexa. E infelizmente, muitos outros. Cada um buscava a destruição da humanidade — um homem de cada vez, se necessário.

No meio dos tipos de demônios, havia classificações. O da direita era um paura de primeira linha, e interessado no medo. O da esquerda era um grzech de primeira linha, e interessado em doenças.

Demônios gostavam de se prender a humanos e, através de sussurros e engano, infectá-los com uma toxina que fazia seus níveis de ansiedade aumentar, no caso do paura, e o sistema imunológico enfraquecer, no caso do grzech. Então, os demônios se alimentavam do pânico e aborrecimento resultantes, enfraquecendo os humanos ainda mais e fazendo-os alvos fáceis para destruição.

A garota devia ser um verdadeiro bufê.

O quão doente estava?

O da esquerda desistiu de tentar ignorar Axel e o encarou enquanto este dançava ao seu redor, batendo em seu rosto e dizendo.

— Estou batendo em você, estou batendo em você, o que vai fazer sobre isto, hein, hein? — Com sotaque de bom menino do interior que às vezes gostava de usar.

Koldo menosprezava demônios com cada centímetro de seu ser. Não importava seu tipo ou grau, eram ladrões, assassinos e caçadores, assim como o povo de seu pai. Deixavam caos e confusão onde fossem. Arruinavam. E este par não deixaria a garota a menos que fossem forçados — mas mesmo assim ela poderia dar boas-vindas a outros.

Seu peito queimou enquanto mudava seu foco para a garota na cama. Mas... seu olhar passou pela coberta amarrotada, o robe fino do hospital até a pele e o músculo. O que viu o surpreendeu.

Para ele, a loira era agora tão transparente quanto vidro, concedendo-lhe uma visão do demônio que parasitava seu caminho para dentro do corpo dela. Um grzech, diferente daquele que era uma praga para a ruiva. Este tinha tentáculos que se estiravam pela mente da loira e dentro de seu coração, drenando a vida dela.

O Altíssimo frequentemente abençoava os Enviados com habilidades sobrenaturais específicas durante situações difíceis, coisas como esta visão Raio X, como ouviu outros a chamarem. Até agora, Koldo nunca experimentou algo assim. Por que aqui? Por que agora? Por que esta menina e não a outra?

As perguntas foram obscurecidas um segundo mais tarde, quando, num piscar de olhos, Koldo descobriu exatamente como isto aconteceu com ela, as informações parecendo se carregar diretamente em seu cérebro.

Nascidas com vinte e seis semanas, a loira e sua gêmea ruiva lutaram para sobreviver aos problemas cardíacos com os quais nasceram. Necessitaram de múltiplas cirurgias, e ambas quase morreram incontáveis vezes — toda vez invalidando qualquer progresso feito. Ao longo dos anos, seus pais se tornaram aficionados em dizer — Vocês precisam manter a calma ou terão outro ataque cardíaco.

Palavras inocentes com intenção de ajudar o par — ou então parecia.

Palavras eram uma das forças mais poderosas conhecidas — ou desconhecidas — pelo homem. O Altíssimo criou este mundo com Suas palavras. E humanos, que foram criados à Sua imagem, podiam dirigir o curso inteiro de suas vidas com suas palavras e suas bocas como o leme num navio ou a rédea num cavalo. Eles produziam com palavras. Destruíam com palavras.

Eventualmente a loira veio a acreditar que o mais leve crescimento de suas emoções realmente causaria outro ataque cardíaco doloroso, e em sua convicção, o medo se apossou de sua vida.

Medo. — o início da destruição, pois a lei divina declarou que o que a pessoa temia viria sobre ela. No caso da loira, o medo veio na forma do grzech. Ela chamou sua atenção, e foi um alvo muito fácil.

Primeiro, o demônio respirou sua toxina em sua orelha, sussurrando sugestões destrutivas.

Seu coração pode parar a qualquer momento.

Oh! A dor... é insuportável. Não pode viver com ela novamente.

Desta vez, os médicos podem não ser capazes de reavivar você.

Demônios sabiam que os olhos e orelhas dos humanos eram uma entrada para sua mente, e a mente era uma entrada para o espírito. Então, quando a loira assimilou as sugestões terríveis, constantemente rondando por sua mente, o medo se multiplicou e se tornou uma verdade envenenada, fazendo suas defesas se desintegrarem, permitindo que o demônio se esgueirasse dentro dela, criando um lugar seguro e a destruindo de dentro para fora.

Ela realmente teve outro ataque cardíaco, e o órgão vital enfraqueceu além do que a medicina humana podia consertar.

Será que o Altíssimo queria que Koldo a ajudasse, mesmo que não fosse sua missão atual? Sua incumbência era sobre isso?

Suspirando, a ruiva se debruçou para trás na cadeira, atraindo a atenção de Koldo para ela. Mais uma vez, viu carne e sangue em vez de espírito. O presente do Altíssimo não se estendeu a ela.

Não tinha tempo de se perguntar por que. Uma onda de canela e baunilha o atingiu rapidamente seguida do doentio cheiro de enxofre. Um odor que a garota não podia repelir enquanto os demônios ficassem com ela.

— Está na hora de eu ir embora. — ela disse, massageando a nuca como se os músculos estivessem com nós. — Te contarei quem ganhou aquela corrida, La La.

Ela tinha alguma ideia de que o mau a trazia para baixo e perseguia todo os seus movimentos?

Ela sabia que estava repleta de toxina demoníaca, exatamente como sua irmã? Que, se não lutasse, acabaria na mesma circunstância com os demônios parasitando o caminho dentro de seu corpo?

Koldo podia matar o da esquerda e o da direita, mas novamente, outros demônios a sentiriam como uma presa fácil e a atacariam. Tão ingênua quanto claramente era se renderia novamente.

Para qualquer tipo de sucesso a longo prazo, ele teria que ensiná-la a lutar contra a toxina. Mas para fazer isso, precisaria de sua cooperação e tempo. Cooperação que poderia não dar. Tempo que poderia não ter. Mas... talvez ela fosse quem o Altíssimo queria que ele ajudasse. Talvez Koldo tivesse que salvar a ruiva do destino da loira.

De qualquer modo, a escolha entre ajudar — ou não — era de Koldo. Germanus e Zacharel podiam emitir ordens, mas não o Altíssimo. Nem mesmo quando Ele revelava uma verdade. Nunca anulava o livre arbítrio.

— Quer entrar nessa, amigo? — Axel perguntou a ele, continuando a esbofetear os demônios, que agora estavam rosnando atrás da ruiva. — Porque estou a ponto de levar as coisas para outro nível.

— Um nível acima de importuno é meramente irritante. — falou fervendo por dentro, pois já sabia que escolheria a missão. A sobrevivência sempre vinha primeiro.

Por que estava com raiva, de qualquer maneira? Gostava do som da voz da garota — e daí? Quem ela era para ele? Ninguém. Por que devia se importar com ela e seu futuro?

— Temos um dever. — adicionou. — Vamos cuidar dele.

Imediatamente a culpa tentou subir. Não importava quem ela fosse — ou não — era frio e insensível deixá-la nas mãos de um fim tão cruel, não era? Seu pai faria a mesma escolha. Sua mãe... Não estava certo do que ela faria. Ainda parecia amar todo mundo, exceto Koldo.

— Ah, vamos, monstro. — Axel disse. — Pare e jogue, este é meu lema.

— Venha. — ele chamou Axel. — Agora! — Antes que mudasse de ideia.

— Tudo bem, tudo bem. — Axel saiu detrás dos demônios e chutou um deles atrás dos joelhos. O outro girou rapidamente para bater do lado da cabeça de Axel com um punho pesado, enviando o guerreiro em propulsão até a parede mais distante.

Koldo entrou na frente de seu companheiro quando retornou ao quarto, impedindo-o de saltar num ataque completo.

— Toque nele novamente e descobrirá meu talento com a espada de fogo. — disse aos demônios.

Lealdade era importante para Koldo. Merecida ou não.

— Sim. — Axel não soou chateado ou mesmo sem fôlego. Ele soou contente. — É isso mesmo que ele disse.

Koldo lançou nele um olhar, viu que levantou os punhos e estava pulando de um pé para o outro. Não podia ter milhares de anos de idade. Simplesmente não podia.

— Vocês é que são os intrusos aqui. — disse o demônio que fingia que a cabeça de Axel era uma bola de beisebol. Sua voz era tão afiada quanto vidro quebrado. — A garota é nossa.

Lutou contra o desejo de machucar e mutilar os demônios à medida que foi para trás, agarrando Axel pelo colarinho de seu manto e o lançou pela única porta no corredor.

— Rezo que nós nos vejamos novamente. — disse aos demônios.

Eles silvaram enquanto Koldo marchava para fora do quarto.

Axel permaneceu no meio do corredor com o cabelo preto desgrenhado ao redor de um rosto que adorava alegar que as mulheres viam em suas fantasias — porque ele o via nas suas próprias. Seus olhos azuis elétricos fizeram furos em Koldo.

— Cara! Você amarrotou minhas roupas.

Estavam de volta no “cara” em vez de “monstro”. Claramente o guerreiro não tinha nenhuma ideia de quão voláteis eram as emoções de Koldo. Cada passo para longe da garota deixava seu temperamento mais sinistro.

— Por que se importa? Temos que tomar parte numa luta, não ser modelo para a atual moda divina.

— Dã. Mas um sujeito precisa se apresentar da melhor forma, não importa a ocasião. — Uma atendente passou por eles, empurrando um carrinho cheio de bandejas de comida, chamando a atenção de Axel. Ele a seguiu, lançando de volta um sorriso encantador. — Sinto cheiro de pudim!

Que sublime. Fiquei preso com o único guerreiro alado com déficit de atenção.

 

A diversão e brincadeira terminaram no momento que Koldo e Axel se aproximaram do demônio almejado. O humano que a criatura atormentava estava contido em sua cama, e drogado também, se a baba que vazava do canto de sua boca fosse qualquer indicação.

Um slecht pairava no ar à sua direita, sussurrando maldição vil atrás de maldição.

— V-vá embora. — o homem conseguiu murmurar. Ele podia ver o demônio, mas não Axel e Koldo. — Deixe-me em paz! — Quanto mais falava, mais ficava forte... mas ainda não o suficiente.

Você não podia matar um dragão se ainda não tivesse aprendido a matar um urso.

Axel chocou Koldo ao saltar adiante sem uma palavra com as asas disparando de suas costas. O demônio só teve tempo de olhar em sua direção e arfar antes do guerreiro desembainhar duas curtas espadas de dois gumes de um bolso aéreo e atacar.

As espadas eram um presente do Altíssimo que todo Enviado recebia. Os pulsos de Axel se cruzaram para formar uma tesoura muito eficiente, cortando a cabeça do demônio de seu corpo no tempo de uma só batida de coração. Os pedaços caíram com um baque no chão antes de se evaporarem em cinzas.

Bem no fundo, Koldo esperava levar o peso da batalha. Isto era... Isto era...

Não era justo.

O humano caiu contra a cama, sua cabeça refestelando ao lado.

— Ele se foi. — suspirou com alívio. — Ele se foi. — Ele fechou seus olhos e afundou no que era provavelmente seu primeiro sono pacífico em meses.

Axel jogou as armas manchadas de preto de volta no bolso aéreo.

— Droga, não pretendia fazer isso de novo.

De novo?

— Matou depressa assim antes?

— Bem, sim. Todas as vezes antes. Mas uma vez, só uma vez, gostaria de somente ferir meu oponente e conseguir empurrar e golpear um pouco antes de proferir o golpe mortal. Bem, te vejo mais tarde. — Axel voou pelo teto, desaparecendo de vista.

O homem era tão problemático quanto Koldo. Não era de se admirar que fosse enviado para Zacharel.

Quão descontrolado a beira do precipício ele estaria?

Tão perto quanto Koldo?

Vá para casa.

Bom conselho, e milagre dos milagres, veio de sua própria mente. Ele quis dar atenção. Ele quis. Mas um único pensamento mudou sua mente. A ruiva. Queria vê-la. Músculos tencionaram mais uma vez e Koldo rapidamente voltou ao quarto do hospital da loira.

Porém, a ruiva já tinha ido embora.

Decepção o atingiu primeiro, seguida por uma nova maré de frustração e raiva.

Ele voltou para sua casa escondida nos precipícios ao longo da costa sul africana. A ação era chamada de lampejar. Aprendeu muito sobre si mesmo e suas habilidades desde que foi jogado no meio do acampamento de seu pai todos aqueles séculos atrás.

Um homem fará quase qualquer coisa para sobreviver, menino. E provarei isto para você.

Palavras do seu pai — e sim, Nox realmente provou.

Simples assim, frustração e raiva caíram sobre ele, e rugiu. Bateu os punhos contra as paredes, inúmeras vezes, ensopando suas juntas de vermelho e rachando seus ossos assim como a pedra. Cada soco era um teste por séculos de ira. Uma dor no fundo da alma que nunca iria embora, e um ferimento envenenado que sabia que nunca sararia.

Ele era o que era.

Ele era o que seus pais o fizeram.

Tentou ser mais. Tentou ser melhor. Toda vez, falhou miseravelmente. A escuridão constantemente o inundava, batendo contra uma represa já instável feita de memórias estragadas e emoções corrosivas. Uma represa que só era capaz de reconstruir depois de explosões como esta.

O esmurrar continuou até que estava arquejando e gotejando suor. Até que a pele e músculos estavam fatiados, e os ossos quebrados expostos. Até mesmo imóvel, podia ter dado outros mil murros, mas não o fez. Forçou a si mesmo a exalar com precisão calculada e a imaginar uma cascata de escuridão o deixando.

A represa se refortificou.

Dores e aflições se fizeram presentes, mas isso era certo. Parou de bater. No momento, isso era tudo que importava.

Caminhou através da sala de estar. Pelo caminho agarrou o colarinho de sua bata suja e arrancou o tecido por cima da cabeça. Soltou a vestimenta no chão, vento e orvalho chicoteando ao redor dele sem qualquer impedimento. Não tinha nenhuma porta para bloquear os ventos fortes e nenhuma janela para silenciar a canção da natureza; a casa inteira era aberta aos elementos. Até melhor, o teto, paredes e chão se formavam pelos elementos, apresentando um mostruário de reluzente pedra escura.

Parou na borda que dava para uma magnífica cachoeira corrente batendo na pedra dentada abaixo. Camadas pesadas de névoa subiam de um mar turbulento, envolvendo seu corpo desnudo.

Vinha aqui quando queria isolamento e paz. A turbulência ao seu redor tinha um jeito de fazer sua mente parecer mais calma do que estava. O vento aumentou, persuadindo as gotas que se teciam no comprimento de sua barba.

Uma vez ele teve uma cabeça com cabelos para combinar. Longos, espessos e pretos, com complicados bordados de contas pelas estimadas mechas. Agora... Esfregou uma das mãos sobre a suavidade de seu escalpo. Agora era calvo. Seu cabelo precioso sacrificado a favor da vingança.

Agora se parecia com seu pai.

Antes que pudesse impedir, sua mente o levou de volta a uma das várias vezes que ficou em pé no fundo de um precipício profundo e escuro com milhares de demônios serps silvando sobre pés que foram esfolados como peixe... ao redor de um pescoço que foi fatiado como presunto de Natal.

Serps eram muito parecidos com serpentes, e continuamente afundavam suas presas nele, por toda parte dele, soltando veneno diretamente em suas veias. Mas em todo esse tempo ficou completamente imóvel, permanecendo forte, se recusando até mesmo a gemer. Seu pai prometeu remover um dedo para cada sinal de debilidade que exibisse. E quando ele ficasse sem dedos, foi avisado que perderia as mãos, os pés... os braços e as pernas.

Naquela época, ainda não tinha alcançado completa maturidade — consequentemente a razão porque suas asas não cresceram de volta — e seria incapaz de regenerar os membros. Ele sofreria toda a vida, e ele...

Mandou a memória feia para o fundo de sua mente, onde pertencia. Então seu pai o torturou por onze anos. E daí? Foi salvo pelos Enviados, e mais tarde se tornou parte do exército. Não o qual estava atualmente, mas um diferente, comandado pelo agora falecido Ivar. Naquela época, Ivar foi o melhor da Elite, e estar sob seu comando era uma honra.

Mesmo assim, num ataque temperamental muito parecido ao que acabava de demonstrar, Koldo jogou aquela oportunidade fora, superando Ivar na frente de seus homens.

Remorso ainda o assombrava. Tal falta de respeito por um homem tão admirável...

Koldo foi excluído do exército e saiu sozinho — durante algum tempo. Usou aquele tempo para retornar ao acampamento do seu pai e destruir tudo e todos.

O melhor dia de sua vida.

Ele alcançou acima e agarrou a pedra acima dele. Agora sou parte deste novo exército, comandado por um homem uma vez conhecido somente como Gelo. Amanhã, Zacharel teria outra missão para ele, uma bem abaixo de seu nível de habilidade. Koldo sabia disto, porque seu líder o enviava todo dia nas últimas três semanas, não permitindo nenhum tempo para quebrar uma lei divina e trazer o julgamento sobre sua cabeça. Pelo menos, supostamente.

Koldo podia mentir.

Koldo podia roubar.

Koldo podia matar.

Podia fazer uma infinidade de coisas que sua espécie não podia. Mas não fazia.

Felizmente não teria que se preocupar em ser colocado como parceiro de Axel. Zacharel gostava de atribuir um novo parceiro a cada nova missão, provavelmente para mantê-lo fora de equilíbrio.

Infelizmente, estava funcionando.

Ainda assim, percebeu que existia uma luz brilhante. A garota do hospital em Wichita, Kansas. A ruiva. Ainda queria vê-la.

Certamente não era tão minúscula quanto se lembrava. Por tudo que sabia, ela possuía as pernas longas e flexíveis de uma dançarina. Com certeza seu cabelo não era da cor doce dos morangos. Tinha que ser vermelho cor de fogo ou um comum escuro loiro. Certamente ele imaginou a pureza de seu tom. Certamente.

Se endireitou e a antecipação obscureceu todo o resto. Ele tinha que saber, pois o desejo se tornou uma entidade viva dentro dele.

Primeiro, entretanto, teria que caçá-la.

 

Koldo passou o resto da noite desenterrando arquivos divinos mantidos de todos os humanos que já viveram, e descobriu vários detalhes interessantes sobre a loira e a ruiva. A garota em coma era Laila Lane, e a outra, a que ele queria observar, era Nicola Lane. Eram gêmeas de vinte e três anos, Nicola sendo mais velha por dois minutos, e solteiras.

Tão jovens. Muito jovens.

As duas eram idênticas. A única razão de Laila ter cabelo loiro era porque o descoloriu, esperando parecer “única”. As garotas não tinham nenhuma outra família, e contavam somente uma com a outra. Seus pais morreram num acidente de carro há cinco anos.

Koldo deixou a biblioteca e lampejou para o quarto de hospital de Laila. Mais uma vez Nicola não estava em nenhum lugar à vista. Mas não estava preocupado. De acordo com a fofoca das enfermeiras, ela vinha todo dia. Ele só tinha que esperar.

Ele andou a passos largos aos pés da cama. Desta vez, o dom do Altíssimo não estava em operação, portanto quando olhou, viu a loira em vez do demônio sob sua pele.

A visão era quase tão ruim.

Seu cabelo estava seco, fino e embaraçado. Havia olheiras escuras embaixo dos seus olhos e seus lábios estavam rachados. Sua pele estava severamente amarelada, seu fígado obviamente parando de funcionar.

Ela não duraria muito mais tempo.

A Água da Vida era um poderoso líquido capaz de reparar a mais danificada carne humana, e a única coisa capaz de salvá-la. Também a libertaria do demônio. Mas seus pensamentos, palavras e ações influenciariam seu sucesso continuado.

O grzech podia retornar a ela e tentar envenená-la novamente. Então, ainda que Koldo a alimentasse com a Água, ela teria que aprender a lutar contra as forças do mal — e então realmente lutar. Estaria disposta a tomar parte em algum tipo de batalha?

Talvez. Talvez não. De qualquer modo, Koldo não estava disposto a sofrer e se sacrificar, e teria que fazê-lo para ao menos se aproximar da borda da costa do Rio da Vida. Primeiro, seria chicoteado. Segundo, seria forçado a desistir de algo precioso para ele. Da última vez renunciou ao seu cabelo. E não dava para adivinhar o que seria pedido da próxima vez. Sua habilidade de lampejar? Sua mãe cativa?

Nunca!

A prática não foi criada pelo Altíssimo e nem era sustentada por Ele. Mas Germanus se recusou a dar fim a “uma tradição que esteve com sua espécie desde o início”, como um meio de provar a profundidade de sua determinação. Então, uma vez mais o livre arbítrio prevalecia e a prática continuava ano após ano. Koldo não via nenhum meio de contornar isto.

A única porta do quarto se abriu de repente e Nicola entrou. Koldo se endireitou, e até ficou tenso pela visão dela. Ele fez uma cara feia. Seu corpo só reagia deste modo diante da batalha. Por que isto estava acontecendo com ela?

Pelo menos ela não tinha nenhuma ideia que ele estava lá. Ele estava no reino espiritual, e ela no natural, então estava bloqueado do olhar dela.

Ele a olhou de cima abaixo, então de novo abaixo — bem mais lentamente. Aquela cascata de cachos cor de morango estava mais uma vez num rabo de cavalo, o comprimento espesso caindo por um ombro. Havia olheiras escuras sob seus olhos e a cor em suas bochechas era acentuada. Seus lábios estavam rachados de tanto serem mastigados. Apesar do calor do lado de fora, um surrado suéter rosa envolvia seus ombros, as lapelas reunidas firmemente.

Era uma coisinha minúscula de nada justamente como se lembrava, sua estrutura comoventemente delicada. Ele se sobressaía acima dela, e podia facilmente quebrá-la ao meio com uma única torção de seu pulso.

Não posso nem tocá-la, ele disse a ele mesmo.

Por algum motivo, a tensão dentro dele só aumentou.

Os mesmos demônios permaneciam em guarda atrás dela, seguindo próximos ao seu encalço. Viram Koldo e cuspiram um punhado de xingamentos sombrios.

— Por que está aqui?

— O que espera ganhar?

Ele os ignorou, e decidiram fazer o mesmo com ele, talvez esperando que fosse embora desta segunda vez, também.

— Olá La La. — ela disse suavemente. — É Co Co. Disseram que você piorou.

As palavras estavam revestidas de uma borda áspera e deprimente, ainda assim a voz dela o acariciou. Uma pena fazendo cócegas. Um roçar de veludo acariciando. Ele saboreou as sensações estranhas, até... gostou delas?

Nicola empurrou a menor cadeira próxima à cama, lutando com seu peso. Os demônios riram silenciosamente dela. Irritado Koldo andou em direção a ela, pretendendo ajudá-la, mas imediatamente forçou-se a parar. Agora não era hora de se revelar. Ele a assustaria.

Os demônios perceberam sua ação abortada e fizeram uma cara feia. Tanto para o ignorarem.

— Não é bem-vindo aqui, Koldo. — o da esquerda disse.

Responder a um demônio convidava a conversa. Conversa convidava a mentiras. Koldo não era tão tolo assim. Mas não estava surpreso que a criatura soubesse seu nome. Com tantas matanças de demônios que Koldo fez ao longo dos séculos, o mundo dos criminosos inteiro sabia dele.

— Podemos fazer você partir. — o da direita proclamou.

Certo. Ele era tolo. Ele disse.

— Pode tentar. — Não importava o que, eles falhariam.

Nicola se aproximou e gentilmente tocou a mão de sua irmã.

— Oh, eu te disse? Blaine ganhou a corrida.

Os monitores bipavam continuamente, a garota em coma nunca se movendo, nunca se mexendo.

Suspirando, Nicola sentou de volta na cadeira e começou a relatar as dificuldades de seu dia de trabalho.

Desta vez ele a ajudaria, Koldo decidiu. Pra começar, teria que fazer algo para assegurar que o escutasse, e realmente agisse de acordo com o que dissesse.

Este era o único modo dela sair dessa.

E talvez fosse sua única saída, também. Salvando-a, poderia finalmente achar alguma redenção.

Redenção. A palavra ecoou em sua mente. Era algo que às vezes desejava, mas não algo que merecia. Às vezes, quando fechava seus olhos, ainda podia ouvir os gritos agonizantes que causou... ainda podia sentir a farpa de medo de suas vítimas.

Cerrando seus punhos, decidiu-se. Podia fazer isto. E ela também podia.

— Você vai melhorar La La. — de repente anunciou, como se tirando esperança de seus pensamentos. — Tem que se recuperar. Não permitirei qualquer outra coisa. Sou a irmã mais velha e tem que fazer o que digo. Nada mais é aceitável.

Olhos focados em Koldo, o da direita se curvou abaixo e sussurrou em sua orelha. Espalhando veneno.

A cor drenou de suas bochechas.

O da esquerda apertou seu ombro e ela desmoronou pra frente, como se um pouco de sua energia se evaporasse num monte de fumaça.

Ela parou de contar com a vitória e voltou a discutir seu dia.

Koldo esfregou a nuca. O que acabava de acontecer era um exemplo perfeito da vida que ela provavelmente sempre levou, erguendo-se somente para ser derrubada novamente.

Bem, não mais.

Seu corpo enrijeceu de novo, preparando-se para a guerra. Mas isto era diferente do que sentiu quando Nicola entrou no quarto. Não havia nenhuma sensação de antecipação, nenhuma sugestão de excitação. Queria apenas destroçar o inimigo até o chão.

Ele ergueu sua mão e convocou uma espada de fogo — outro presente que cada um dos Enviados recebia do Altíssimo. Um que sempre tinha o direito de usar.

O da direita e o da esquerda ficaram atentos, asas nodosas estalando de suas costas.

— Está certo que quer fazer isto? — O da direita perguntou com um sorriso alegre. Os chifres na cabeça da criatura cresceram... cresceram... tornando-se monstruosas torres de marfim. Presas se estiraram de seus lábios, estendendo-se além da mandíbula. — Irá embora, mas estará em pedaços.

A mesma transformação grotesca aconteceu com o da esquerda, pequenas faíscas de fogo faiscando sob suas escamas.

Koldo não se preocupou em dar uma resposta. Simplesmente se lançou adiante, a lâmina circulando pelo ar. Os dois demônios se separaram, saindo da zona de perigo. Ele previu a ação e se lançou abaixo quando pousou, girando para a direita. Chamas escorregaram pela coxa do da direita.

O demônio grunhiu de dor, o cheiro de cabelo queimado enchendo o quarto.

Koldo saltou pra cima, chutando uma perna pra frente e uma pra trás, atingindo ambos os oponentes ao mesmo tempo. Ele aterrissou e eles se recuperaram o suficiente para saltar nele, esmurrando-o. Ele bloqueou um, mas de propósito tomou o soco do outro, agarrando-se a um dos braços do da esquerda e segurando forte enquanto usava o apêndice como alavanca para balançar ambas as pernas dele na garganta do da esquerda com um brutal estrondo de seus pés calçados com botas. Então girou o da esquerda por cima e o lançou em suas costas para pisar no rosto da criatura. Osso esmigalhado, de repente um quebra-cabeças que precisava ser colocado de volta no lugar.

Antes do segundo passo, o da esquerda rolou ficando de pé e saltou na cama — as mulheres totalmente inconscientes — e, sem parar para pensar em algo mais sábio, bateu nas costas de Koldo. Um rabo longo e grosso se enrolou em seu tronco, apertando. O gancho no fim fatiou até o ventre de Koldo.

O da esquerda levantou garras afiadas, pretendendo cortar sua traqueia, mas Koldo piscou para o outro lado da cama. No momento que aterrissou, debruçou-se pra frente e agarrou a ponta do rabo da criatura, puxando e girando o corpo todo do da esquerda.

Enquanto o demônio se inclinava pra frente, Koldo piscou atrás dele e brandiu sua espada. O demônio tentou escapar, mas não foi rápido o suficiente. Fogo entrou em contato com escamas e ossos, as escamas e osso imediatamente se perderam. O braço do demônio se soltou, espirrando sangue negro sobre o chão.

Sangue que os humanos nunca veriam.

Um uivo de agonia estourou enquanto o da esquerda agarrou o apêndice e voou para fora da janela, na luz solar da tarde. Diferente dos Enviados, demônios não podiam regenerar membros. A criatura teria que ter o braço reatado.

No fundo, Koldo sabia que esta não seria sua última batalha.

Xingando, o da direita girou num meio círculo, suas asas nodosas varrendo na direção de Koldo. Ele podia escapar, mas escolheu permitir que a ponta de uma asa cortasse seus tornozelos, batendo-os juntos, enviando-o voando pelo chão. As contas em sua barba chacoalharam quando ele alcançou o chão, ar irrompendo de seus pulmões. Ele fingiu perder seu aperto na espada e a arma desapareceu.

O da direita mergulhou por cima dele, do jeito que ele queria, presas descobertas. Koldo o esmurrou com toda sua força, e quebrou o nariz do demônio, enviando fragmentos de cartilagem dentro de seu cérebro em decomposição. Então, Koldo piscou atrás dele, convocando a espada de fogo e a brandindo. O demônio disparou adiante, abaixando-se. Mas não baixo o suficiente. O cheiro de fumaça e enxofre enchia o ar. Um baque alto soou. Um dos chifres da criatura estava agora perdido.

Os traços contorcidos com ira, o demônio pulou em pés como patas, sangue negro vazando de seu rosto, de seu nariz arrebentado. Rugindo, ele atacou. Torcendo pela esquerda, torcendo pela direita, Koldo entrou na dança da batalha. O da direita sabia quando e onde se mover, às vezes conseguindo evitar um ferimento. Dançaram de um lado do quarto para outro, subindo pelas paredes, descendo pelas paredes, no chão, no teto, rolando pela cama, caindo sobre Nicola enquanto ela continuava a papear com sua irmã, nem mesmo uma hesitação em sua respiração.

Koldo soltou a espada e agarrou um punhado de pelo no peito do demônio. Ele jogou a criatura na parede mais distante. Um segundo mais tarde, o demônio correu de volta para o quarto.

— A garota é minha. — o da direita rosnou, fazendo um círculo ao redor dele. — Minha! Nunca a deixarei ir.

— Foi tolo quando decidiu seguir Lúcifer em vez do Altíssimo e é tolo agora, pensando que pode me superar. Luta num lugar de derrota, e sempre o fará. — Há muito tempo, o Altíssimo esmagou todas as forças do inferno. Mas as criaturas ainda atingiam os humanos, determinados a machucar aqueles que o Altíssimo amava.

E o Altíssimo amava todos os humanos. Queria adotá-los, como Ele fizera com Os Enviados.

Um silvo de raiva soou.

— Mostrarei a você a derrota! — Em vez de iniciar um ataque completo, o demônio recuou um passo, dois... três. Um sorriso lento ergueu os cantos de seus lábios. — Sim, mostrarei a você a derrota. Muito, muito em breve. — Com isto, desapareceu pela parede.

Koldo esperou de prontidão, mas o demônio não retornou. Sem dúvida foi recrutar alguns de seus amigos.

Estarei pronto.

O único problema era que “muito, muito em breve” não dizia nada a Koldo. Em seu reino, um dia podia ser tão longo quanto mil anos e mil anos tão pouco quanto um dia.

— Que diabos está acontecendo? — Nicola exclamou. — É como se duas pedras fossem erguidas dos meus ombros. — Enquanto falava um sorriso iluminava seu rosto, transformando-o de comum em primoroso. Sua pele pálida ganhou um brilho radiante, seus olhos se tornando da cor do verão em vez do inverno.

A umidade em sua boca secou.

— Oh, LaLa. É maravilhoso!

Maravilhoso sim, mas a toxina ainda fluía em suas veias. Teria que lidar com isso.

Teria que achar um modo de gentilmente se revelar a ela, algo que nunca fez com um humano. Teria que conseguir sua confiança, algo que nunca se importou de tentar. Mas quando? Como? E como ela reagiria?

Seja tão astuto quanto uma serpente e tão inocente quanto uma pomba, Germanus costumava dizer a ele.

Engraçado, mas Koldo estava bem menos seguro de seu sucesso com a garota do que esteve com os demônios.

 

                   No dia seguinte

O elevador tiniu e as portas duplas deslizaram se abrindo. Nicola Lane entrou no pequeno cercado, aliviada por perceber que estava sozinha. Ela estava...

Não estava sozinha, percebeu com um choque de surpresa. Oh, uau. Certo. No canto mais distante um homem muito alto, muito musculoso, moveu-se das sombras. Como podia não tê-lo visto, mesmo por um segundo?

As portas fecharam, selando-a lá dentro com ele. Não julgo pela aparência externa. Realmente não julgo pela aparência externa. Mas oh, uau, uau, uau, ele devia ser um Viking viajando pelo tempo, enviado aqui para sequestrar mulheres modernas para dar aos seus homens na volta ao lar — porque mataram todas as mulheres em sua aldeia.

Eu assisto TV demais.

Ele certamente emitia uma vibração de perigoso-o-tempo-todo. E agora era muito tarde para evitar uma possível pilhagem.

Seu coração tremulou com a batida defeituosa deixando-a tonta.

— Qual o andar? — Perguntou. Sua voz profunda mais repleta de bordas irregulares que um espelho estilhaçado.

— Térreo. — ela conseguiu responder, e ele apertou o botão apropriado.

Era um milagre que o elevador inteiro não se partisse com a força que ele usou.

Houve uma sacudida exagerada e o elevador começou a descer. O cheiro de céu da manhã e — isto podia ser mera fantasia de sua parte — arco-íris encheu o pequeno espaço, e cada sopro vinha do homem. Era, possivelmente, a melhor colônia que já cheirou, e como as garotas nos comerciais do AXE, teve que enfrentar o desejo de se apoiar nele e fungar seu pescoço.

E ele não adoraria isso? Exigiria saber que droga estava usando, ela entraria em pânico e seu coração falharia, assim como o de Laila, e... e... não pensaria sobre sua bela e preciosa Laila agora. Não pensaria em perder outra pessoa querida. Primeiro sua mãe, pai e ir... Não, não ia pensar nisso também. Ela desmoronaria.

E aquele calor delicioso estava vindo do Viking também? Pela primeira vez em anos, Nicola se sentiu envolta em calor, o frio de seus medicamentos e circulação ruim finalmente afugentados.

O homem virou e se apoiou contra a parede, encarando-a completamente. Naquele momento, decidiu que “muito alto, muito musculoso” não era uma descrição adequada para ele. O homem mais alto e mais musculoso que já viu pessoalmente ou na televisão funcionava melhor, mas novamente, a descrição falhava em capturar a essência de sua absoluta grandiosidade. Ele. Era. Enorme.

E certo, sim, também era muito bonito, apesar de sua aura de assassinato e pilhagem. Tinha pele cor de bronze, uma cabeça careca cintilante e uma barba preta amarrada por três contas de cristal. Seus olhos eram de um surpreendente tom dourado e sombreado por duas sobrancelhas espessas com um arco proeminente no centro. Ele vestia uma camisa e calça de linho branco, cada roupa tão fluída quanto água. Em seus pés havia um par de botas de combate.

E ela o estava estudando como se fosse um inseto em um microscópio, percebeu horrorizada com seu comportamento. Nicola frequentemente ia para a escola com eletrodos colados em seu peito e tubos aparecendo por baixo de suas roupas, então sabia a dor de um único olhar arregalado. Sua atenção se voltou para os tênis brilhantes de cor rosa que sua gêmea lhe deu no aniversário delas no ano passado.

— Sou bem grande, eu sei. — ele disse com um sotaque que ela não podia identificar. Pelo menos não soava ofendido.

Ainda assim seu estômago se afundou. Ele notou o exame dela nele, e agora buscava... confortá-la por sua grosseria? Que inesperado e gentil. Bem, então, ela seria valente.

Ela levantou seu queixo e se forçou a encontrar seu olhar.

— Talvez eu apenas seja incrivelmente pequena. — ela disse, tentando um pouco de humor.

As pálpebras dele se estreitaram ameaçadoramente, escondendo todo o dourado, deixando somente o negro de suas pupilas.

— Não minta, nem por implicação. Por nenhuma razão, nem para ser legal.

Seus dedos ficaram entorpecidos e seu coração palpitou novamente. Ele não tinha problema com olhares fixos, mas brincar era uma ofensa mortal. Bom saber.

— Mentira é o idioma do mal. — ele adicionou num tom mais gentil.

Um tom mais gentil, mas ainda assim intenso.

O elevador parou, as portas se abriram e um homem pesado e baixo deu um passo para dentro.

— Tomará o próximo elevador. — o homem grande anunciou.

O homem menor congelou instantaneamente. Lambeu seus lábios recuando.

— Sabe o que? Está certo. Farei isto. — Ele girou e se apressou para longe.

Por um momento Nicola considerou seguir seu exemplo. Havia o educado e havia o esperto, e os dois nem sempre se cruzavam. O fato do Viking querer estar a sós com ela não era um bom sinal.

As portas começaram a fechar. Agora era sua chance de correr.

Mas... não podia fazer isto.

— Não gritou com ele. — ela assinalou incerta de por que estar tendo dificuldade para ficar quieta... e por que ela ficou. — Parece com uma pessoa que grita nessas ocasiões.

— Também não gritei com você. — ele disse com uma cara feia. Um momento passou. Ele movimentou a cabeça como se acabasse de perceber algo importante. — Você é sensível. Serei mais cuidadoso.

O que, ele temia sua ira?

Ele a estudou tão atentamente quanto ela o estudou, fazendo-se se remexer.

— Tem um metro e cinquenta e oito, não é?

— Um e sessenta, obrigada. — Ela nunca esquecia aqueles importantes dois centímetros!

— É uma altura decente para uma mulher, suponho.

— Para um menino de oito anos de idade também. — ela murmurou.

— Nenhum que eu conheça. — ele respondeu impassível.

Ele a estava provocando? Ou era assim tão direto?

Finalmente o elevador parou de vez, e as portas se abriram para o hall de entrada. Seu companheiro educadamente acenou para ela passar. Ela ofereceu um sorriso desconcertado e disse:

—Obrigada. — e se apressou a sair — viva.

Quase sozinha, ela pensou melancolicamente. Seria capaz de organizar seus pensamentos e descobrir o que faria quando sua irmã... quando Laila...

Não conseguia pensar na palavra, embora soubesse que aconteceria mais cedo em vez de mais tarde. Misericórdia para Laila. Outra dor para Nicola. Não sabia quantas mais poderia suportar e ainda sobreviver.

A maioria das pessoas com sua condição e coração subdesenvolvido morriam no final da adolescência. Mas ela e Laila duraram seus vinte e poucos anos, um milagre verdadeiro por si só, e devia estar feliz com o tempo que passaram juntas. Ainda assim, queria mais. Para ambas. Laila não estava satisfeita com sua vida, e uma pessoa deveria estar satisfeita antes de morrer. Certo?

Nicola somente... bem, precisava decidir um plano de ação hoje. Por uma vez, sua mente não estava envolta por um véu espesso de medo e ansiedade. E por que as pessoas estavam olhando para ela como se fosse um monstro. Uma besta horrorosa determinada a...

Não ela, ela percebeu, mas para o homem ao lado dela. O gigante do elevador. Nicola parou e ele também o fez. Ele falhou ao manobrar ao redor dela, como se sua leve presença estivesse de alguma maneira bloqueando seu caminho. Ela o encarou completamente, ancorando suas mãos nos quadris. Ele andou quase um metro para longe dela, e ela se encontrou tremendo de novo.

O calor vinha dele.

Ele a perscrutou, seus olhos dourados emoldurados pelos cílios mais pretos e espessos de todos os tempos, tão inesperado no rosto áspero daquele guerreiro viajante do tempo.

— Posso te ajudar? — Ela perguntou.

— Não, mas pode tomar café comigo.

Não, ele disse. Querendo dizer que ela não podia ajudá-lo. Ele realmente levava a sério aquela coisa de honestidade. E acabava... de chamá-la para sair?

— Por que ia querer fazer isto? — Ela se perguntou em voz alta. E por que não disse simplesmente não? Ela tinha que voltar ao trabalho, tipo, logo. Seu horário de almoço estava quase no fim.

— Não estou pronto para ir para casa.

Ah. Não era um encontro, então. Ele simplesmente queria uma distração do que quer que o trouxe ao Palácio de Lágrimas e Morte, e ah, ela podia ser solidária. E não estava desapontada que ele não quisesse nada romântico com ela. De verdade. Sua mãe estava certa. Garotos eram iguais à excitação e excitação era igual a outro ataque cardíaco. E realmente, nunca sentiu tanta falta assim de garotos e excitação porque sempre teve Laila. Mas Laila estava... estava...

— Café me parece ótimo. — ela respondeu rouca enquanto seu queixo tremia. Claramente precisava de uma distração também. O planejamento podia esperar. Assim como o trabalho. Retirar-se desta cova de piedade era mais importante. — Há uma cantina lá embaixo no corredor mais distante.

Ele caminhou ao lado dela e todo aquele calor delicioso retornou. Andaram mais rápido, recebendo vários outros olhares e até alguns sussurros. As pessoas deviam estar chocadas pela diferença de seus tamanhos, e ela não podia realmente culpá-los. O topo da cabeça de Nicola não conseguia alcançar os ombros volumosos do homem.

— Então, qual o seu nome? — Ela perguntou.

— Koldo.

Cold-oh. Tinha que ser estrangeiro.

— Sou Nicola.

— Nicola. Em latim significa “um povo vitorioso”.

Viraram a primeira esquina, entretanto a paisagem não mudou. Todos os corredores eram os mesmos: branco e prateado com sinais postados pelas paredes.

— Hum, você buscou isso discretamente em seu celular que não consigo ver ou já sabia?

— Eu sabia.

— Por quê?

— As palavras que falamos são importantes, poderosas, e já que nomes são falados todos os dias, dirigidos a indivíduos específicos, pessoas frequentemente se tornam o que são chamadas. Gosto de saber com quem estou lidando.

Bem, ela não diria a ele que era a pessoa mais derrotada de todas e destruir suas ilusões. — O que Laila quer dizer?

— Beleza sombria.

Interessante. Laila era clara, mas ela era adorável.

— O que Koldo quer dizer?

— Guerreiro famoso.

Um guerreiro, como pensou a princípio? Ela se perguntou se estava no exército.

— Você é famoso de verdade?

— Sim.

Nenhuma vacilação. Nenhum orgulho. Em sua mente, devia ter simplesmente declarado um fato. Ela admirava sua confiança.

— E aí, o que você faz Koldo?

— Estou no exército.

Na mosca!

Mais duas esquinas e chegaram à cantina. Ele a levou até uma mesa vazia.

— O que gostaria Nicola?

Seu nome nos lábios dele... um abraço e uma maldição, enrolados juntos. Era um pouco desconcertante.

— Ah, eu posso...

— Não me oferecerá dinheiro e me insultar. — disse, e para variar soou genuinamente ofendido. — Agora então. Vamos tentar novamente. O que gostaria? Eu é que vou comprar.

Ela sorriu. Ninguém nunca insistiu em comprar uma bebida para ela. A maioria dos oferecimentos vinha de colegas de trabalho que sabiam de sua situação, e era apenas simbólico. No momento que mencionava pagar sua conta, a outra pessoa imediatamente consentia.

— Um chá de ervas, por favor. Algo sem cafeína. E muito obrigada.

Um aceno com a cabeça e ele se foi, deixando-a gelada. Ela assistiu enquanto ele se aproximava do balcão. Assistiu enquanto o caixa punk o encarava com total fascinação. Ele não pareceu notar enquanto fazia o pedido e aguardava as bebidas... e muffins, bolinhos e croissants, pelo jeito.

Que tipo de mulher capturaria sua atenção? Ela se perguntou.

Outra guerreira provavelmente. Forte, capaz, com ossos grandes o suficiente para suportar qualquer tipo de abuso — hum, contato.

Ele retornou alguns minutos mais tarde e estendeu um banquete na frente dela, o aroma de frutas silvestres, fermento e açúcar flutuando e fazendo sua boca se encher de água. Parecia que não comia há muito tempo, porque estava muito consumida com a preocupação por Laila, com medo de pagar as contas nas quais nem tinha tocado e, tentando não se afogar num mar de desespero.

Hoje era diferente, entretanto. Mesmo tão chateada quanto estava se sentia melhor do que há um longo, longo tempo, e seu estômago resmungou.

Com as bochechas corando, pegou seu chá e deu um gole no líquido quente, saboreando a doçura.

— De verdade, Koldo. Isto significa muito para mim. Mil vezes obrigada não seria suficiente.

— O prazer é meu, Nicola.

Tão cortês. Ela gostava disso.

E as qualidades certamente estavam excedendo as falhas agora, não estavam?

— A comida é pra você também. — ele disse, empurrando um muffin na sua direção.

Seus olhos se arregalaram com surpresa.

—Tudo?

— Claro.

Claro, ele disse. Como se estivesse acostumada a comer por uma legião inteira.

— Manterá suas forças ao máximo. — ele acrescentou. — Neste momento está muito pálida, muito delicada.

Ela não estava ofendida. Estava pálida e delicada. Nicola escolheu um dos croissants, beliscando um canto morno e amanteigado.

— Então... estava aqui visitando alguém?

— Sim.

Apesar dela esperar, atenta, não ofereceu nada mais que isto.

— Sinto muito.

— Não sinta. Eu não sinto.

Eeee... novamente ele não oferecia mais nada.

— Vem aqui frequentemente?

— Este poderia ser o plano, sim.

Silêncio.

Falava muito. Mas certo, sem problemas. Não estavam realmente aqui para se conhecer, estavam? Estavam aqui para esquecer suas vidas, mesmo que só por um tempinho.

— Estou aqui sempre. — Todo dia, de fato.

— Talvez nos vejamos novamente. — Ele ergueu uma xícara fumegante de café aos lábios macios e vermelhos como uma maçã do amor e sorveu. Sua expressão não mudou. A temperatura ardente de alguma maneira não derretendo e soldando sua língua no céu da boca.

— Talvez. — ela ofereceu.

Novamente, silêncio.

Sobre o que garotas deveriam conversar com garotos nos quais não estavam interessadas romanticamente? Porque, se fosse honesta — algo que ele definitivamente aprovaria — isto era um tanto quanto doloroso. Não era o que ela esperava ou desejava.

— O que faz quando não está aqui, Nicola? — ele perguntou, finalmente tomando as rédeas da conversa.

Aliviada por seus esforços, ela relaxou em sua cadeira.

— Trabalho. Sou contadora todos os dias da semana, de manhã e à tarde. — Um emprego que garantia manter sua pressão sanguínea estável. Podia digitar números, classificar recibos e projetar um plano financeiro para conseguir tirar todos da dívida. Todos menos ela, claro. Ainda estava trabalhando com as contas de seus pais, e os seus custos médicos e de Laila ainda se empilhavam. — Sou caixa num mercado de comida orgânica toda noite e nos fins de semana.

— Nenhum desses trabalhos surgiu de sonhos de infância.

Não, mas sonhos morriam... e se não fosse cuidadoso, os fantasmas assombrariam seu presente.

— Por que acha isto? — Não gostava de seus trabalhos, mas sempre faria o que precisasse para sobreviver.

— Sou bastante observador.

E bastante modesto.

— Então, o que você queria fazer? — Ele perguntou.

Por que não conta a ele a verdade?

— Queria viver. — ela disse. Realmente viver. — Queria viajar pelo mundo, saltar de aviões, dançar em cima de um arranha-céu, mergulhar no fundo do mar e fazer carinho num elefante.

Ele inclinou a cabeça de lado e encontrou seus olhos.

— Interessante.

Porque ela mencionara atividades em lugar de uma carreira? Bem, havia uma razão para isso. Nunca saberia quanto tempo viveria, por isso, uma carreira parecia sem sentido.

— E você? — Ela perguntou. — O que queria fazer?

— Já estou fazendo. — Ele se recusava a baixar o olhar. — Pode ainda fazer todas as coisas que mencionou.

— Na verdade não posso. Meu coração não suportaria. — Deixe que ele assuma que seus nervos levariam a vantagem em lugar da verdade.

— Você está certa.

Espere.

— O que?

— Se palavras são o poder da vida e da morte, acabou de apontar uma arma carregada para sua cabeça.

— Sobre o que está falando? Isto é absurdo.

— Você fala o que acredita, e crê que está condenada. Se há uma coisa que aprendi ao longo dos anos, é que aquilo em que você acredita é o ímpeto para sua vida inteira.

Uma faísca de raiva fez seu coração saltar uma batida.

— Acredito na realidade.

Ele acenou uma mão desdenhosa pelo ar.

— Sua percepção de realidade é distorcida.

Ah, verdade?

— Como?

— Você acredita no que vê e sente.

— Hum, não é assim com todo mundo?

— Tudo neste mundo natural é mutável. Temporário. Mas as coisas que não pode ver ou sentir são eternas.

Ela bateu seu chá em cima da mesa. Líquido espirrou pela borda, queimando sua mão.

— Olha aqui. Talvez não esteja levando suficiente oxigênio lá em cima onde sua cabeça está, mas soa como uma pessoa louca.

— Não sou louco. Sei que pode ser curada.

Curada? Como se já não tivesse tentado de tudo.

— Algumas coisas não podem ser mudadas. Além disso, não tem nenhuma ideia sobre as coisas que fiz ou o futuro que tenho.

— Sei mais do que pensa. Tem tanto medo de viver que na verdade está se matando.

Silêncio pesado caiu. Ele... acertou na mosca, ela pensou. Ela assistia enquanto o medo lentamente acabava com a felicidade de sua irmã, manchando cada aspecto de sua existência. E nos dias antes dela ir para o hospital, isto era tudo que Laila teve. Uma existência.

Seu estômago sempre doía, arruinando seu apetite. Nicola já estava andando a passos largos por aquela estrada.

Laila perdeu peso e até seus ossos pareceram murchar. Dando a Nicola outros poucos meses.

O cabelo de Laila perdeu o brilho. As olheiras azuis e pretas se tornaram uma instalação permanente sob seus olhos. Sim, outros poucos meses deviam cuidar daquilo para Nicola também.

— Em algum lugar no caminho você perdeu a esperança. — Koldo disse e havia uma qualidade sombria em sua voz, como se ele mesmo sofresse uma perda. — Mas se me escutar, se fizer o que eu digo, seu coração e corpo se consertarão e finalmente fará todas as coisas que sempre quis fazer.

— Você é médico? — Ela exigiu. — Como sabe disso? E o que acha que pode fazer para ou por mim que já não foi tentado?

Ignorando suas perguntas, ele disse.

— Selah[1], Nicola.

E com isto desapareceu, estando lá num momento, indo embora no outro.

 

Determinado a provar seu ponto de vista para Nicola, Koldo lampejou do hospital até sua casa subterrânea em West India Quay. O lugar de sua maior vergonha.

O lugar onde mantinha sua mãe.

A caverna pequena e escondida era iluminada por um suave brilho verde emanando de um lago de água não contaminada de vida humana. O ar era tão fresco que literalmente crepitava com a vitalidade que o envolvia.

Assim como a casa na África do Sul, não mantinha móveis aqui, nada pendurado na parede, nenhuma decoração ou amenidades de nenhum tipo. Ao contrário de sua outra casa, havia uma gaiola, um balde para comida, um balde para água e um cobertor. Teria providenciado uma cama para sua mãe, porém, ela nunca lhe deu uma.

— Bem, bem. — ela disse. — Olhe quem retornou.

E lá estava ela. Cornelia. Um nome que significava chifre. E ela era certamente isto. Afiada e mortal, capaz de perfurar o coração de um homem e friamente ir embora enquanto a vida drenava dele.

Estava sentada no canto da gaiola, vestindo uma túnica feita por mãos humanas e tecido natural. Uma que Koldo jogou depois de arrancar aquela feita nos céus, pois as túnicas que seu povo vestia podiam limpar a si mesmos e a quem as vestia. Mas não queria Cornelia limpa de qualquer maneira. Queria que ela conhecesse a sensação de sujeira que nunca podia ser limpa.

Sua pele era pálida, suas sardas um contraste total. Seus cabelos longos foram cortados e agora caíam sobre suas orelhas, as mechas embaraçadas esticadas como espigas. Não foi ele quem fez isso. Algumas semanas atrás, ela foi capturada por uma horda de pică e arrastada ao inferno numa tentativa de forçar Koldo a trair Zacharel. Ele não o fez. Ao invés disso, resgatou-a.

Não tinha nenhuma ideia do que mais fizeram com ela, só que a tortura realmente aconteceu. Quando a encontrou ela pairava a beira da morte, e esta foi a única razão pela qual ela não lutou enquanto a trazia de volta à saúde. Agora, aqui estavam eles.

Ela tão cheia de ódio como sempre.

Ele chocado e insatisfeito com a situação.

Como uma criança presa sob o reinado do seu pai, sonhou em castigá-la dos piores modos. E ainda queria. Ah, como queria. O desejo estava sempre lá, queimando em seu peito. Mas não o fez. Não iria. Tinha se permitido fazer coisinhas, como negar uma cama e túnica apropriadas, mas nada mais. Não era nada parecido com ela e todo dia o provava. Vinha aqui, sentia o desejo de se vingar, então partia.

Homens sábios sabiam que não deviam sequer se aproximar da porta de sua tentação, mas Koldo ainda não se convenceu a parar.

— Olá, Mãe.

Ela respirou fundo.

— Devia ter cortado sua língua da boca quando tive chance. — Ela lançou um pedregulho nele. A pedra quicou em seu ombro e caiu no chão.

— Assim como devia ter me afogado. Eu sei.

Os olhos dela se estreitaram, cílios longos se fundindo e escondendo as profundezas violeta que frequentemente via em seus pesadelos.

— Não tinha estômago para a violência na época. Mas seu pai... esperava mais dele. Devia ter feito o que eu não pude.

— Ah, nunca duvide que ele tentou. — Muitas vezes.

Koldo pensou novamente no dia em que Cornelia o levou ao acampamento de seu pai e o deixou lá. Tão fraco e agonizante como estava, aterrissar doeu mais que a remoção brutal de suas asas.

Um homem enorme e careca com mais músculos e cicatrizes que Koldo já tinha visto caminhou na direção dele. Cornelia o chamou.

— Conheça seu filho, Nox — podem destruir um ao outro. — Antes de voar para longe.

Nox. Um nome que significava noite.

Koldo desmaiou segundos depois disto, só para acordar no chão de uma barraca espaçosa, o homem calvo assomando acima dele, sorrindo largamente, seus olhos tão pretos quanto seu nome implicava.

— Você é meu filho, não é? Criado por uma anja boazinha.

Sua mãe? Boazinha?

— Estou apostando que é cheio de noções tolas sobre o certo e o errado. — Nox continuou. — Não é, menino?

Concentrar-se nas palavras se provou difícil — tudo dentro de Koldo gritava para correr e nunca olhar para trás. Mas estava preso dentro de um corpo muito fraco para se mover ou lampejar. Tudo que podia fazer era assistir enquanto cachos finos de fumaça flutuavam pelos poros do homem, perfumando o ar com enxofre.

Foi quando o entendimento atingiu Koldo com a força de um golpe. Uma cabeça careca, olhos sem fundo e fumaça preta podiam significar só uma coisa. Nefas. Seu pai vinha da mais perigosa, mais vil raça da existência. Uma raça que entrava furtivamente nos humanos e envenenavam devagar, dolorosamente... destruindo totalmente. Uma raça sem consciência.

Uma raça assim como os demônios.

Os Nefas eram negociantes da morte. Sugadores de almas.

A idade de suas vítimas nunca importava. O gênero de suas vítimas nunca importava. Viviam para infligir dor. Matavam. E riam enquanto o faziam.

— Não se preocupe. — o homem disse. — Você pode desaprender.

Nox quis que Koldo abraçasse o estilo de vida dos Nefas, e Koldo resistiu... a princípio. Mas toda vez que tentava escapar riscando para longe, seu pai estava bem em seu encalço, facilmente o encontrando e arrastando de volta — e o castigando. Uma vez, Nox o prendeu e despejou ácido pela garganta dele abaixo. Depois disso, Nox arrancou um de seus olhos e o pregou na barra de sua gaiola, de forma que pudesse assistir a si mesmo se observando. Koldo teve que ganhar o olho de volta — e colocá-lo de volta. Então estava um pouco mais velho e pode parcialmente curá-lo. Ainda assim, sua visão nunca foi a mesma.

Amargura e ódio germinaram dentro dele. Por que ele? Por que ninguém o salvou? Quanto mais seria forçado a suportar?

Por fim perdeu a vontade de lutar. Desistiu. Invadiu aldeias. Ajudou seu pai e outros soldados a colocar suas bocas sobre a boca de suas vítimas e extrair suas almas inocentes, largando somente carcaças inanimadas.

Um homem fará quase qualquer coisa para sobreviver, menino.

Era a única das lições de seu pai que levou no coração.

Agora, Koldo estava certo que passou do ponto da redenção. Podia ter lutado mais forte. Devia ter lutado mais forte. O fato de não o fazer... a culpa sempre o tomaria, e a vergonha sempre o encheria.

Tinha muitas lembranças. As do tipo sombrio que nunca iam embora. Cada uma o fazia desejar arrancar seus olhos, só para clarear sua linha de visão ou cortar suas orelhas, só para silenciar os gritos.

Ao longo dos anos ganhou um nome grande o suficiente para chamar atenção de Germanus. Um exército de Enviados invadiu o acampamento de seu pai para destruir Koldo, viram as cicatrizes em suas costas e erroneamente assumiram que não era Nefas, pois Nefas não podiam crescer asas, e Koldo obviamente as teve uma vez. Então os soldados o capturaram em vez disso.

Esse foi o início de sua nova vida.

Germanus — um nome que significava “irmão” — podia e provavelmente deveria tê-lo massacrado, apesar de suas origens. Koldo era selvagem. Rosnou, xingou e atacou quem quer que se aproximasse dele. Após todas as coisas que fez, após todas as pessoas que matou, deveria se perdoar e adotar uma abordagem “boazinha”? Impossível!

Mas Germanus olhou mais fundo que a superfície, viu a vergonha e culpa nos olhos de Koldo. Emoções cruas e intensas, inclusive naquela época.

O rei dos Enviados passou vários anos persuadindo Koldo de suas iras, fazendo o melhor que podia para confortar um jovem homem com tal passado, assegurando que Koldo fosse treinado para lutar do jeito certo, que tivesse um lugar seguro e confortável para dormir, que sempre tivesse uma refeição apropriada para comer.

Foi o primeiro gosto de Koldo de verdadeiro carinho e preocupação, e logo passaria a amar Germanus — até mesmo morreria para protegê-lo.

— Por que se acasalou com Nox? — ele perguntou à sua mãe enquanto marchava ao redor da gaiola.

— Por que não? Era um homem muito bonito.

Algumas mulheres achariam um macho tão perigoso atraente, Koldo supôs. Apesar da cabeça careca e olhos mortos, tinha de longe o rosto mais adorável que Koldo já vira. Uma pureza nas feições, um esplendor com o qual a maioria de seres só podia sonhar.

— Esperava domesticá-lo? Pensou que seria quem o mudaria?

Cornelia levantou, sempre mantendo o olhar nele, nunca permitindo que estivesse às suas costas, onde suas belas asas brancas e douradas estavam. Ela esperava que ele as removesse. Estava certa ao fazê-lo. Era uma de suas maiores tentações.

— O Mal não pode ser mudado. — ela disse.

— Ele traiu você com outra? Uma de sua própria espécie, talvez? Uma mulher mais apropriada para seus gostos particulares? Ou talvez a tenha trocado por muitas outras mulheres.

— Cale-se.

Mas ele não podia. Estava se aproximando da verdade. Até mesmo enquanto a náusea batia em seu estômago, ele disse.

— Ele costumava rir de você, sabe? Disse que você o amava, implorou que estivesse com você, ficasse com você. Disse que soluçou quando ele partiu. Disse que você...

— Cale-se, cale-se, cale-se! — Ela gritou correndo para as barras onde Koldo estava. Ela as sacudiu com tanta força que ficou surpreso que o metal reforçado se mantivesse firme.

A ferocidade de sua reação deveria tê-lo satisfeito. Era isso o que sempre quis dela, de qualquer maneira. Ira, frustração. Desamparo. Espelhando o que ele sentiu por tantos anos. Mas a náusea se intensificou. Como podia fazer isto com uma mulher? Qualquer mulher?

Como podia machucar outro de sua espécie?

Ela cuspiu em suas botas.

— Odeio você. Odeio tanto que mal posso respirar. Eu te odeio tanto que prefiro apodrecer nesta gaiola que fingir que o amo e pedir desculpas pelo jeito como o tratei. Não me arrependo! Nunca me arrependerei. Você era uma abominação naquela época e agora. No dia que você morrer será o dia que eu regozijarei.

Dor e fúria se juntaram às suas outras emoções, a escuridão em sua mente espessando, mais uma vez atingindo o limite. Ele recuou para longe dela, para que não a atacasse e acabasse com ela — tornando-se como seu pai. O cheiro de jasmim e madressilva o seguiu.

Até aqui ela carregava a fragrância desprezível com ela.

O que um garotinho inocente fez para produzir este tipo de rejeição? Como ela podia culpar Koldo pelo tratamento que sei pai lhe deu?

Como Koldo ainda sentia dor, depois de todo este tempo?

— Se eu algum dia morrer — ele disse — você não será a causa. Você é muito fraca. Sempre foi fraca, e é por isso que Nox a abandonou.

Novamente ela cuspiu em suas botas.

As mãos se apertando em punhos, ele lampejou para sua casa na África do Sul. Ele tinha dezesseis residências ao redor do mundo, cada uma seguramente escondida de olhos humanos espreitadores, mas cada vez mais esta era sua preferida, onde passava a maior parte de seu tempo livre.

Antes mesmo que se manifestasse, estava batendo nas paredes, rasgando a pele recentemente curada de suas juntas. Sangue espirrou. Osso estalou.

Desta vez a ira falhou em escoar tão depressa.

Horas pareceram passar antes que estivesse tirando suas roupas, rasgando o material em sua pressa. A camisa e calças chegaram ao chão e se juntaram por vontade própria, os rasgos e partes formando a túnica perfeita. Gotas de água fria respingaram por sua pele nua enquanto ele olhava a cachoeira turbulenta.

Aquela mulher...

Ele esmurrou o lado da parede, pó e escombros voando pelo ar. Sempre ela o reduzia a isto, a um homem que parecia como se seu coração fosse arrancado do seu peito, pisoteado, chutado longe e queimado até as cinzas. Ele tinha que ganhar dela.

Caso contrário a mataria.

Quando Cornelia respirasse pela última vez, seu espírito deixaria seu corpo. Mas não subiria, não passaria o resto da eternidade com o Altíssimo nos Céus dos céus. Ela não podia. Morrer com ódio ardendo em seu coração era afundar cada vez mais baixo. Era uma lei espiritual que ninguém — nem mesmo um Enviado — podia passar por cima.

Coisas diabólicas não podiam coexistir com coisas divinas.

A razão número um por que o próprio Koldo estava em tal perigo.

Cornelia merecia tal destino, sim. Merecia sofrer por toda a eternidade. Mas não seria ele quem a mandaria para um sepultamento precoce. Não era como ela — e se tivesse que se lembrar todo dia, ele o faria. Mais do que isso, queria... o que nunca podia ter. Respostas. Seu amor.

Absolvição.

Ele friccionou seus dentes. Não, ele não era como ela — e não queria mais aquelas coisas. Um gosto da vingança era tudo que desejava.

O pensamento o atingiu e ele parou. Não tinha nenhum jeito de alguém como ele ajudar uma mulher tão frágil quanto Nicola, tinha?

Deveria ficar longe dela, percebeu. Mas não o fez e agora era muito tarde. Ele lampejou para longe dela para provar a existência de atividade sobrenatural, esperando forçá-la a aceitar e dar o primeiro passo para lutar contra os demônios. Agora ela sabia.

Agora faria perguntas.

Se perguntasse às pessoas erradas, lhe dariam as respostas erradas.

Ele esfregou uma mão sobre a suavidade de seu couro cabeludo. Tinha que seguir seu plano.

E isso não era uma coisa tão ruim, disse a si mesmo. Nicola o intrigava. Sua voz tão macia, tão doce... tão viciante, uma carícia que seus ouvidos já desejavam de novo. Sua sagacidade. Sua resistência. Sua coragem. Ele a cortou, mas mesmo assim ela não soluçou ou pediu piedade.

Ao longo de seu período muito curto na Terra, desastre após outro aconteceram com ela. Talvez os demônios fossem responsáveis ou talvez o mundo imperfeito. Talvez ambos. Qualquer que fosse a razão, queria o melhor para ela. O melhor que ele próprio achou com Germanus.

Koldo só tinha que ensiná-la como lutar contra as toxinas. E tinha que fazer isto. Enquanto a mantinha calma. O medo fortaleceria o que o paura deixou pra trás, e tensão debilitaria seu sistema imunológico, fortalecendo o que o grzech deixou pra trás. Sem medo e tensão, as toxinas enfraqueceriam. Com esperança e alegria, as toxinas enfraqueceriam mais rápido.

Em resumo, o que alimentava crescia e o que matava de fome morria.

Ela podia olhar além de suas emoções negativas e ver a luz?

Uma faísca de antecipação brilhou, de alguma maneira obscurecendo a cascata quase esmagadora de ácido que sua mãe causara. Apesar de tudo, não podia esperar para ver Nicola novamente, descobrir o que tinha decidido sobre seu desaparecimento. Se ela tinha se convencido que o imaginou ou se aceitava que era algo que não era humano.

— Não é a visão que eu estava esperando. — uma voz disse atrás ele.

Ainda nu, Koldo girou e encarou Thane, o segundo em comando no exército de Zacharel. Thane, que significava homem livre. E o guerreiro certamente parecia ser tudo o que a palavra implicava. O apetite carnal do macho era famoso. Caçava uma nova amante todo dia, descartando as que ele terminava como se fossem lencinhos sujos.

E mesmo sabendo disso, as mulheres ainda corriam para ele como se fosse o único macho na criação com cabelos loiros encaracolados e grandes olhos azuis.

— O que Zacharel quer que eu faça desta vez? — Koldo exigiu, alcançando o bolso de ar ao seu lado para retirar outra túnica. Enfiou o material acima de sua cabeça, tentando não olhar para as asas de Thane. Elas arqueavam acima dos ombros largos do guerreiro se estendendo até o chão. Puro branco era quebrado por dourado deslumbrante. Tentando — e falhando.

— Será melhor mostrar em vez de explicar. — disse Thane com uma nota estranha em sua voz.

Isso não parecia bom.

— Muito bem. Vá em frente.

 

A semana seguinte passou como um borrão para Nicola. Todo dia acordava ao amanhecer, ia para o trabalho, via sua irmã no horário do almoço, voltava ao trabalho, ia para o segundo trabalho e trabalhava até altas horas da noite antes de ir pra casa, assistir TV para relaxar, então dormia miseráveis quatro horas — e o ciclo começava tudo de novo.

         Agora, estava sentada em sua escrivaninha nas Indústrias Estella, observando o relógio. Vamos, meio-dia. Chegue logo. O único aspecto de sua vida que mudava eram seus pensamentos. Não podia tirar Koldo da sua cabeça. Quem ele era? O que era?

Depois de seu desaparecimento, ela perguntou à menina da cafeteria se viu ou não um homem gigante com cabeça raspada e barba com contas. A resposta não a surpreendeu.

— Está brincando? Não sou cega. Mas, hum, vocês estão namorando, ou, tipo, ele está disponível? Porque já escrevi meu número num guardanapo se quiser, tipo, dar isto para ele.

A menos que compartilhassem a mesma alucinação, Koldo era real e Nicola não estava louca. Ou talvez estivesse. Ela na verdade pegou o guardanapo, curiosa para saber qual a reação de Koldo.

Mas... o que ele era? Ela se perguntou novamente. O que Selah queria dizer, a última palavra que disse a ela? Ela não tinha ideia de como soletrar, então não podia pesquisar na internet. E como desapareceu num piscar de olhos? Era algum tipo de fantasma que mais de uma pessoa podia ver?

Com tantas experiências de quase morte e morte-por-um-minuto-ou-dois que ela teve, sabia que havia uma vida após a morte. Por várias vezes flutuou nela. Uma vez, conversou com algum tipo de ser.

Isto não é legal? Ele disse. Tinha cabelo claro, olhos tão claros quanto o oceano e um par de belas asas brancas. Era bonito de um jeito de artista de cinema, e vestia uma túnica longa enquanto tentava apressá-la por um longo túnel. Isto não é pacífico? Só deixe sua vida antiga e você pode ter isto para sempre.

Ele a fez se lembrar de anjos que viu em livros ilustrados, mas havia mais em seu tom... algo naqueles olhos... Ela lutou querendo retornar para Laila, e por um segundo, só um por segundo, a máscara afável dele caiu e teve um vislumbre de seus olhos vermelhos, luminosos, ossos retorcidos e presas.

Um monstro. Um monstro como ela costumava ver quando era criança, antes da terapia e drogas a terem convencido do contrário. Agora não estava certa do que pensar sobre Koldo e os monstros, e não tinha ideia de como entender. Havia uma sobrecarga de informações lá fora, mas nada era concreto para ela.

A resposta certa lhe traria paz; sabia disso. A paz sempre acompanhava a verdade.

Koldo só teria que contar. Se alguma vez aparecesse novamente.

E tinha que aparecer! Realmente sabia como curar seu coração? Nesse caso, Laila podia ser curada também?

Quanto mais ela se perguntava, mais esperança a enchia. Ser capaz de adormecer e não se perguntar se acordaria ou se Laila ainda estaria viva... nunca temer perder uma irmã. Ser capaz de subir uma colina segurando a mão de Laila sem nenhuma delas desmaiar... ser capaz de saltar, correr e pular... ser capaz de dançar! Ah, dançar. Apaixonar-se, casar e ter filhos. Viver, realmente viver, como costumavam sonhar antes da tragédia convencê-las a lidar com a “realidade” em vez da “fantasia”.

Koldo disse que visitaria o hospital novamente, mas não mencionou quando. Se esperasse muito mais, ela poderia estrangulá-lo quando ele aparecesse, só para soltar um pouco da raiva. Todo dia o procurava tão diligentemente que as enfermeiras perguntaram se gostaria de um Xanax ou dez para ajudá-la a relaxar.

Quando qualquer coisa boa já aconteceu com você?

A pergunta flutuava por sua mente, e ela franziu o cenho.

Ser otimista só levará à esmagadora decepção.

Não. Não, isso não era verdade.

Precisa de algo mais com que se preocupar agora.

Suas mãos se enrolaram em punhos. Antes de encontrar Koldo, podia ter se enterrado pelo peso daqueles pensamentos. Definitivamente batalharia contra um estômago indisposto, caminharia quilômetros sem nunca sair de sua cadeira e desfiaria as extremidades de seus nervos até que seus membros começassem a tremer incontrolavelmente. Agora...

— Não estou te escutando. — Ou a ela mesma. Dane-se! Tinha esperança pela primeira vez em anos e não abriria mão. Debruçou-se de volta na cadeira em sua escrivaninha. — Ele manterá sua palavra. Aparecerá e responderá todas as minhas perguntas.

Os pensamentos deprimentes pararam e soltou um suspiro de alívio.

Um golpe soou na porta.

— Você é Nicola Lane? — Uma voz dura e cortante perguntou.

Nicola piscou rapidamente e focou na mulher bonita na entrada aberta. Era alta, esbelta e negra, com uma cascata de cachos negros. Sombras consumiam olhos cor de chocolate. Os de Koldo eram mais claros, como caramelo, e — Uau, Nicola devia estar com fome.

A mulher vestia um blazer preto e branco, saia lápis, salto agulha de um metro que complementava perfeitamente as unhas do pé pintadas de preto e branco. Tudo nela gritava estilo, sofisticação e calma fria. Então, o que estava fazendo aqui, na capital da classe média estressante do mundo?

— Sou Nicola, sim.

— Bem, meus parabéns. Sou agora parte de seu departamento.

Sarcasmo no primeiro dia. Maravilhoso.

— Você é Jamila Engill ou Sirena Kegan?

Fazendo uma carranca, a garota disse:

— Jamila Engill.

— Bonito nome. — Ela se perguntou o que Jamila queria dizer. Sem dúvida que Koldo saberia.

— Tem duas novas contratadas?

— Sim. — Nicola juntou as lapelas de seu suéter ainda mais para repelir o frio vindo da atitude da Jamila. Certo, tudo bem. Era a abertura do respiradouro. — Por favor, sente-se e vamos nos conhecer.

Jamila caminhou pelo escritório e se jogou numa cadeira mais distante. Com o queixo erguido no alto, enroscou suas mãos no colo e seus olhos se estreitaram em Nicola, suas costas eretas como pau.

Elas se divertiriam juntas, podia prever.

Cinco dias atrás, seu chefe muito nervoso, muito irritável disse a ela que decidiu contratar mais duas contadoras. Choque quase arrastou Nicola de joelhos. Ela esteve implorando por um novo contratado por meses, e toda vez era informada para se conformar.

Atualmente estava fazendo o trabalho de cinco pessoas. A princípio, conseguia. Depois da hospitalização de Laila, começou a ficar para trás.

— Então... o que será esperado de mim? — Jamila perguntou com firmeza.

Nicola explicou um pouco sobre o sistema operacional, e embora odiasse compartilhar informações pessoais com uma estranha, adicionou.

— Ajudarei o máximo que eu puder, mas a verdade é que minha irmã está... morrendo. — até verbalizar a palavra era difícil. — E ela... bem, estou afastada do escritório cada vez mais. — Mais cedo ou mais tarde Jamila descobriria de qualquer maneira. Os telefonemas chegariam, papelada seria repassada ou colegas de trabalho mencionariam.

Deste modo, ficava claro desde o começo.

Jamila se debruçou de volta numa pose que deveria tê-la relaxado. Ao invés disso, pareceu mais rígida.

— Sinto muito.

As pessoas sempre diziam isto. Nicola se perguntava o que Koldo — o Honesto diria.

Apenas o pensamento dele fez seu coração tremular. Ela pigarreou.

— Às vezes temos que confrontar empregados que não entregaram seus livros. Darão desculpas, mas você tem que ficar em cima deles.

— Isso não será problema.

Não vacile e não empalideça.

— Bom. Então você ficará bem. — A menos que continue me encarando assim.

— Olá, pessoal. Sou Sirena, e estou me reportando ao dever.

A atenção de Nicola se voltou para a garota agora de pé na entrada. Era mais alta que Nicola por dois centímetros, talvez três, e vestia um blazer preto mal ajustado combinando com suas calças, uma blusa rosa de botões quebrando o escuro. Seu cabelo era longo e loiro, e tão liso quanto uma tábua. Seus olhos tão grandes quanto os de uma boneca, uma mistura de marrom e azul; um par de óculos com aros de chifre empoleirados em seu nariz.

— Ah, minha nossa. — disse, fechando a porta atrás dela. Ela deslizou para a outra cadeira e se abaixou, então estendeu uma pequena cesta de presente. — É pra você. Estava tão empolgada em trabalhar com você que não podia esperar para mostrar isso.

Que doce.

— Obrigada. — Nicola aceitou o oferecimento com um sorriso. Um sabonete de corpo de jasmim e uma loção cheirosa com madressilva.

— Olhe para este lugar. — Sirena olhou ao redor. — Não é grande, mas é aconchegante e maravilhoso, não é?

Aconchegante? Maravilhoso? Não chegava nem perto. A sala ostentava paredes brancas simples e um chão de concreto pintado de cinza. A única mobília era a escrivaninha, a cadeira da Nicola e as duas cadeiras na frente. Uma delas não tinha uma almofada.

Nos primeiros meses no escritório Nicola pendurou retratos de sua família nas paredes, mas toda vez que olhava para eles, as memórias a inundavam.

Ela ouvia sua mãe gritar: O que você estão fazendo, rindo assim? A excitação de qualquer tipo não serve para vocês. Vocês querem morrer e me mandar direto para outra depressão?

Lembrava-se de seu pai batendo levemente em suas cabeças e dizendo: Toda noite vou dormir com medo de nunca mais ver minhas meninas amadas.

Bem, seu medo se realizou, mas não pela razão que ele pensava. Sua vida foi encurtada por um motorista bêbado, e ele não as viu novamente.

Retratos de Laila só serviam para lembrar a ela de tudo que logo perderia. Sua melhor amiga, sua confidente, sua líder de torcida. Seu próprio coração.

— Poderá decorar seu cubículo como quiser. — ela disse, lutando com um tremor em seu queixo.

— Mal posso esperar! — O tom feliz de Sirena soou.

Jamila endureceu, como se ofendida.

Um golpe soou na porta. A entrada se abriu antes dela poder pedir à pessoa do outro lado para entrar. Dexter Turner espiou com a cabeça para o lado de dentro. Tinha uma cabeça cheia de cabelos escuros e olhos castanhos que eram doces como de um cãozinho.

— Oi, Nicola, estava pensando... — Seu olhar caiu sobre Jamila, arregalou, deslizou para Sirena, arregalou ainda mais antes de finalmente se fixar em Nicola. Ele engoliu em seco. — Eu, uh, não sabia que tinha companhia.

— Posso partir se você quiser. — Sirena falou ávida para agradar.

— Está tudo bem. — Nicola disse a ela, não querendo que as mulheres se fossem. Dex chamou Nicola para sair várias vezes e ela sempre dizia não. No colegial, ela e Laila foram proibidas de namorar para seu próprio bem. Então, depois que seus pais morreram e ficaram sozinhas, ambas foram um pouco além, saindo com qualquer um que as convidasse.

Tudo bem, só cinco caras chamaram Nicola. Entretanto, estava contente que não foram mais. Ela odiou cada minuto de cada encontro. O nervosismo foi demais para ela, especialmente já que cada um dos garotos esperava que ela fosse mais experiente, considerando sua idade. Ela gaguejava e se retorcia nos silêncios desconfortáveis a seguir.

Depois de vomitar antes do último e quase desmaiar durante o jantar, decidiu não ter um encontro até que seus médicos descobrissem um modo de regular seus batimentos cardíacos de uma vez por todas.

Não Laila, entretanto. Laila floresceu sob a atenção. Alguns meses atrás até tentou uma relação séria. Mas brigaram, brigaram e brigaram, e toda aquela discussão pôs uma tensão em seu corpo. Ela acabou no hospital. Claro, quando os médicos disseram que ela nunca sairia, o cara foi embora e nunca mais voltou.

— Eu te pego mais tarde. — Dex disse e fechou a porta.

Várias segundos de silêncio passaram.

— Ele é seu? — Jamila perguntou.

— Não. — Nicola disse. — Sou solteira.

— Bem, acho que vocês dois fariam um par adorável. — Sirena disse, sua mão indo para suas bochechas como se estivesse corando. — Adorável.

O telefone tocou e Nicola levantou o receptor, agradecida pela distração.

—Escritório de Nicola Lane.

— Senhorita Lane? — Uma forte voz masculina. Familiar.

— Sim. — falou com o coração de repente batendo irregular.

— É o Dr. Carter do County General.

O medo a atingiu e ela experimentou uma onda de vertigem.

— O que aconteceu?

—Nada bom, temo. Sua irmã deu uma piorada. Quão rápido pode chegar aqui?

 

O que fiz para merecer isto? Koldo passou os últimos seis dias com Thane. Uma eternidade, certamente. Um castigo, definitivamente. Viajaram para A Queda, lugar de negócios de Thane. Um palácio de iniquidade, para ser correto. Um que seria visível a olho humano se não fosse pela nuvem o cercando. Mas tinha que ser assim. Só o Altíssimo, Os Enviados, anjos e demônios operavam no reino espiritual. Outras criaturas sobrenaturais, como aquelas que Thane entretinha, seriam incapazes de visitá-lo, caso contrário.

O lugar inteiro estava no processo de uma descida muuuuito lenta em direção à Terra, se movendo alguns meros centímetros por dia.

Caindo.

Como os membros do Exército da Desgraça ao menor sinal de má conduta. Simbolismo em seu melhor, ele pensou. Entretanto, maldade de qualquer tipo causava uma separação com o Altíssimo.

O clube eventualmente acabaria no inferno.

Não pensarei nisso.

Além de completar com sucesso três missões de assassinato de demônios que Zacharel atribuiu ao exército inteiro, Koldo e seus companheiros não deixaram o clube.

Thane e anjos da sua mesma categoria — Xerxes e Bjorn — viviam lá, e Koldo não estava certo de como tinham permissão para manter sua condição como Enviados. Mas agora sabia por que foram enviados para Zacharel. Mais do que usar uma nova mulher a cada noite, lutavam com quem os irritava com intensidade brutal — e quase todo mundo que encontravam os irritava.

Agora os quatro estavam no bar, sentados num canto nas sombras. Raças imortais diferentes vagavam por aí bebendo e dançando, suas mãos vagando. Das Harpias felizes-problemas às Phoenix felizes-gritos e tudo no meio. Vampiros, metamorfos, Fadas e incontáveis outros.

Os shifters de cobra eram considerados os mais perigosos, com a Phoenix sendo o próximo. Mas a raça que superava todos? A raça que ninguém nunca considerava porque todo mundo gostava de fingir que não eram mais que um pesadelo? Os Nefas.

Koldo estava muito contente que ninguém soubesse a respeito do seu pai. Mais contente ainda que ninguém jamais saberia. Até Os Enviados que o salvaram do acampamento todos aqueles séculos atrás não tinham nenhuma pista sobre suas origens.

— Divertindo-se? — Thane perguntou a ele.

— Por que estou aqui? — Ele exigiu.

O guerreiro virou uma dose de vodca.

— Já não falamos sobre isso? Porque Zacharel ordenou que ficássemos juntos, e me recuso a viver numa de suas cabanas.

O nível de frustração de Koldo cresceu. Era uma babá permanente agora? Não. Absolutamente não. Recusava-se. Algo teria que ser feito.

— E a nossa missão? A que você não podia me contar? A que tinha que me mostrar?

— Nunca disse que havia uma missão.

Não deve matar um Enviado.

— Mas se dissesse a você que queria que viesse ao meu canto para se divertir — Thane continuou — teria dito...

— Não. — Nunca.

— E esta é a razão por que dei a entender que havia uma missão.

Koldo bateu seu punho na mesa, ganhou vários olhares bestiais de o-que-há-de-errado-com-você de clientes próximos.

Seu olhar se voltou para Bjorn, sentado à direita de Thane.

— Ele é sempre tão difícil?

— Você é sempre tão curioso? — Foi a resposta irritante.

Bjorn tinha cabelo escuro e pele bronzeada cheia de veias com o mesmo ouro que tecia suas asas. Seus olhos eram um arco-íris de cores, do mais leve dos azuis ao mais escuro dos verdes, com sombras de rosa e púrpura lançadas na mistura.

Seu nome em escandinavo era urso. Novamente, outro ajuste perfeito.

Mandíbula fechada, Koldo olhou para Xerxes.

Xerxes em persa era monarca. O homem tinha o longo cabelo branco puxado pra trás num rabo de cavalo com joias. Sua pele era da cor do leite e alinhada com várias cicatrizes, cada uma em padrões dentados de três. Interessante sim, mas eram seus olhos que de verdade mantinham a atenção da pessoa. Eram de um rubi brilhante-vermelho e ardiam com uma ira infinita rivalizada por poucos.

Sou um dos poucos.

— São sempre tão secretos? — Koldo perguntou a ele.

— Você é sempre tão chato?

Todos os três machos riram de sua própria ridícula genialidade.

Koldo se recusava a invejar sua amizade ou seu completo conforto um com o outro. Ouviu falar que se conheceram dentro de uma fortaleza de demônios, cada um prisioneiro — cada um torturado. Ele não teve ninguém durante seus próprios anos de angústia e talvez fosse por isso que preferia sua vida solitária. Quanto menos pessoas soubessem seus segredos, menos possibilidade de enfrentar a traição.

— Eu te apresentei para muitas mulheres bonitas esperando que uma delas te divertisse e me livrasse do seu fardo. — Thane disse, tomando outra dose de vodca. — Recusou todas. Por quê?

— Não tenho nenhum interesse.

— Já esteve com uma mulher? — Bjorn perguntou.

— Não. — Não tinha nenhum desejo. Ainda não tinha. Exceto que... desde que chegou aqui, Zacharel concedeu a Koldo uma hora de descanso de Thane. Gastou a primeira metade daquela hora com sua mãe resistindo ao desejo de machucá-la, e a segunda metade com Nicola, observando escondido de sua vista.

Ele se asseguraria que nenhum demônio a estivesse seguindo. Perguntava-se como ela pareceria se risse com todo seu coração, despreocupada, e seu sangue se aquecia do modo mais estranho. Um calor formigante. Quase... eletrizante. Ele começava a andar no reino natural, percebia e voltava. E se sua presença causasse estímulo indevido ao coração? E se a machucasse? Tinha as mãos de um assassino, afinal.

Então permanecia no reino do espírito. Mas a tensão dentro dele ficava pior. O zumbir de antecipação ficava mais forte.

Não tinha nenhuma ideia do que fazer, do que pensar.

Até quieto estava ansioso para falar com ela, finalmente descobrir que conclusão ela chegou sobre ele. Como começaria, entretanto?

Sua irmã vai morrer, mas posso ajudar a salvar você mesma.

Sou um Enviado. Siga minhas palavras.

Sou um homem frio e duro. Fiz coisas terríveis. Mas não tenha medo, não prejudicarei você.

— Um virgem. — Xerxes disse com um tom de... inveja? Certamente não. Ele mostrou uma mulher. — Devemos mudar isto.

Chiclete estourou, uma feliz Harpia abordou a mesa. Vestia um sutiã com lantejoulas e shorts de lycra, seu cabelo trançado nos lados em duas cordas perfeitas.

— O que está havendo, pessoal?

— Queremos que dê ao nosso amigo uma Lap Dance[2]. — o guerreiro cheio de cicatrizes disse. Então, para Koldo. — Aposto que não pode resistir a isto.

O olhar dela deslizou para Koldo. Era uma coisinha bonita, com grandes olhos verdes e sardas espalhadas pelo nariz. Ele não gostava de sardas.

— Me quer confortável com este sujeito? — Ela perguntou, mostrando o polegar em sua direção.

— Sim. — Xerxes respondeu inexpressivo.

— Ele parece um assassino de sangue frio.

No caso de Koldo, olhares não enganavam.

— Você não tem que...

— Então claro que darei a ele uma Lap Dance.

Espere. O que?

— Não, obrigado. Eu não quero...

— Uau, isto vai ser divertido. — Seu punho se ergueu no ar. —Está preparado para voar?

— Já estamos no céu, docinho. — Thane disse, claramente lutando com uma onda de divertimento.

Ela revirou seus olhos.

— Tanto faz. Ele sabe o que eu quis dizer. Não é Assassino?

— Prefiro que não... — Koldo começou, só para ser cortado novamente.

— Mova a mesa. — a garota disse, esfregando suas mãos. — Quero tirar este grupo do sério do jeito certo. E este é meu jeito, no caso de alguém não entender o que estou querendo dizer.

Koldo apertou a ponte do seu nariz enquanto Bjorn e Xerxes se ergueram para obedecer a Harpia. Antes dos guerreiros poderem iniciar, ele enrijeceu.

Não por causa de suas intenções e não por causa da Harpia. Bem no fundo, onde seu instinto chiava e crepitava, experimentou um súbito conhecimento.

Nicola estava em apuros.

— Tenho que ir. — Saltou em pé, acidentalmente enviando a mesa tombando ao chão.

— Bem, esta é uma maneira de fazer isto. — a garota murmurou.

As ordens de Zacharel declaravam que Koldo deveria ficar com Thane 23 horas por dia. Se desobedecesse, arriscava ter um castigo. Ele já usou sua hora de hoje.

— E você vem comigo. — ele disse ao guerreiro, apontando para mostrar que haveria consequências se fosse ignorado.

— Espere. Está saindo nesse instante? — Os lábios brilhantes e rosa da Harpia formaram um beicinho sedutor. — Mas nem comecei ainda, e tenho alguns movimentos da hora. Mencionei que sou muito flexível?

O olhar de Thane se estreitou em Koldo.

— Não vamos sair. Se sairmos, nunca conseguirei te trazer de volta aqui.

O guerreiro tinha tanto a perder quanto ele, Koldo percebeu — e isso deu a Koldo todo o poder de barganha que precisava.

— Retornaremos. Tem a minha palavra. Até então, é melhor me seguir. — Ele informou Thane de onde iam e lampejou para o hospital, mas... Nicola não estava lá. Ele lampejou para seu escritório. Não estava lá também. Ele, no entanto, detectou um Enviado, bem como uma garota que não reconhecia, mas pensava que deveria.

Não havia tempo para questionar qualquer mulher. Lampejou para a casa de Nicola, mas sua ruiva não estava lá, tampouco. Seu segundo trabalho... nada. De volta ao hospital, onde se materializou no posto de enfermagem vazio e usou o computador. Uma boa decisão. Laila foi removida para um novo quarto.

Thane aterrissou bem diante dele. Dobrou suas asas do seu lado à medida que olhava em volta.

— O que estamos fazendo aqui?

— Está esperando que eu conclua meus negócios, e estou no processo de finalizar meus negócios.

Sem outra palavra, lampejou para o novo quarto de Laila. E foi quando encontrou Nicola, soluçando em cima do corpo de sua irmã.

 

Koldo avaliou a situação rapidamente. O monitor cardíaco de Laila estava disparado. Havia um forte odor no ar — o cheiro de morte iminente. Havia um chiado em sua respiração, mesmo com as máquinas fazendo todo o trabalho — o som de morte iminente. Apesar de ainda não estar morta, seu espírito já estava na metade de seu corpo, prestes a subir ou descer, qualquer caminho que tenha escolhido para si.

Não duraria muito mais tempo. Uma vez que o espírito saísse completamente, o corpo não sobreviveria.

A testa de Nicola repousava sobre a cama, os ombros frágeis sacudindo enquanto chorava com a força de seu intenso desespero. Desespero... uma mistura de medo e tensão, ambos fortes toxinas. Em breve, cada demônio faminto no hospital se alimentaria dela.        

— Nicola. — ele disse, entrando no reino natural e ficando visível. Sua primeira palavra para ela em todos esses muitos dias. Não devia ter esperado até que a tragédia acontecesse, percebeu.

Sua atenção se voltou para ele, e olhos vermelhos e inchados pousaram em seu rosto. Ofegou.

— Koldo. — Com uma grande dose de surpresa. Seu nariz estava entupido, sua voz não mais rouca e sonhadora, mas áspera. Fios de cabelo grudados nas bochechas manchadas pelas lágrimas. — O que está fazendo aqui? Como me encontrou?   

Como ele podia explicar que sentiu sua dor, quando não tinha certeza de como ou por que isso aconteceu? Ignorando a pergunta, forçou-se a olhar para Laila.

— Ela está morrendo.

Uma pausa. Um tremor.

— Sim. Não devia estar chorando. Sabia que isso aconteceria. — Nicola cobriu o rosto com as mãos enxugando as lágrimas, talvez até tentando esfregar a tensão. — Ela precisa que eu fique calma. Preciso ficar calma.

Eu também.

— Mas...

— Você sofre. — ele disse.

— Sim. — Suspirando, ela caiu contra o encosto da cadeira. Inalou, inalou de novo, e seu nariz se franziu adoravelmente. — Na última vez seu cheiro era maravilhoso. Desta vez, fede como um bordel.        

Não estava envergonhado pelo insulto. Nunca se envergonhou ou se envergonharia. Ele estava... super aquecido. Sim. É por isso que suas bochechas de repente pareciam como se estivesse em chamas.

— E como sabe como um bordel cheira?

— Muito bem. Você cheira como suponho que um bordel cheira. Cigarros, bebidas alcoólicas e perfumes... conflitantes.

— Desculpe. — A primeira parte do que ela disse finalmente penetrou. Antes, achou que ele tinha um cheiro maravilhoso.

O corpo dele ficou tenso, como antes. Mas não havia nenhum desejo de infligir dor... queria apenas tocá-la, oferecer conforto e... não tinha certeza.

O bip do monitor acelerou.

Nicola passou os dedos sobre a mão de sua irmã, depois parou, parou como se a ação fosse demais para ela. Quanta força ela perdeu desde sua última visita?

Não importa a quantidade, a resposta era a mesma. Foi muita.

— O que você é afinal? — Ela perguntou quase distraidamente.

— Não percebeu isso sozinha?

— Não. Como poderia?

— Há muitas maneiras.

— Cite uma.

— Fácil. Um espírito sensível.

Ela soltou um suspiro cansado.

— Tudo que sei é que você não é humano.

— Correto.

— Então, por que não me conta?

— Acreditaria em mim? — Se admitisse que era um Enviado, talvez acreditasse, sem ideia do que era. Se usasse a palavra anjo, poderia ter certas expectativas que ele seria incapaz de atender. — Podemos discutir isso mais tarde. Agora, por que não me deixa ajudar sua irmã?

Imediatamente desejou poder voltar atrás no que disse, mas o fez? Não. Ele as disse. Lidaria com as consequências.

Olhos tão selvagens e turbulentos quanto uma tempestade de inverno se arregalaram.

— Como?

— Eu... posso ganhar um pouco de tempo. Ela se fortalecerá e despertará, mas não acho que viverá mais do que algumas semanas. — Ele se apressou a acrescentar. Ela estava nadando em toxinas. Não só isso, ainda não tinha barreiras internas ou externas contra demônios. Barreiras que tinha que aprender a erguer. Barreiras que poderia não ter tempo para aprender a erguer.    

— Algumas semanas. — Nicola repetiu.

— Não muito, eu sei, mas...

— Aceito! — Ela gritou como se temesse que ele mudasse de ideia.

Tão ansiosa por tão pouco.

— Mas ainda não ouviu minhas condições.

Sua boca bonita se franziu.

— Quer alguma coisa de mim?

Muitas coisas.

— Vou ganhar para sua irmã algumas semanas, e em troca você vai fazer o que eu disser, quando eu disser, até o dia que eu liberá-la da minha responsabilidade. — Ele não tinha ideia de quanto tempo levaria para livrá-la das toxinas e ensiná-la o suficiente para sobreviver por conta própria.

— Isso soa como algo que ouvi no último noticiário da noite. Você espera que eu me torne sua escrava sexual? — Seu tom não era escandalizado, mas curioso.

— Não. — ele respondeu com o cenho franzido. — Não a quero dessa forma. — Não queria, não é? Não mentiu para Thane e os outros. Era virgem. Não estava familiarizado com o desejo, e não tinha certeza se iria reconhecê-lo.

Sabia que admirava a lealdade de Nicola por sua irmã. Sabia que desejava ter alguém que o amasse a metade disso. Mas vê-la nua era... intrigante, percebeu, o sangue se aquecendo em suas veias, tornando-se derretido, queimando-o. Um calor que não tinha nada a ver com a raiva borbulhou, levando embora o homem frio que sabia ser.

Talvez a quisesse desse jeito.

A ideia quase o fez tropeçar para trás. Sua mente cambaleou. Mas... mas... mas era tão delicada, tão frágil. Tão pequena perto ele. Poderia esmagá-la. Por que ela? Por que agora? O desejo por ela era improvável. Impraticável.

— Não. — ele resmungou. Não podia.

— Oh. — ela disse com os ombros caindo. — Então quer que eu o obedeça quando me disser para fazer... O quê?

— Mantenha a calma. Abrace a paz. Semeie alegria.  

— Semear?

— Há uma lei espiritual irrefutável que afirma que uma pessoa colhe o que semeia. Portanto, se semear alegria para os outros, vai colher alegria. Agora precisa de alegria.

— Calma, paz, alegria. — ela repetiu sem convicção. Como se ele fosse louco.

Talvez ele fosse.

— Sim.

— Por que quer que eu sinta essas coisas?

Se você não fizer isso as toxinas vão se acumular, e eventualmente, você vai morrer, assim como sua irmã. Isto não era exatamente calmante, pacífico, palavras alegres, assim ele permaneceu quieto.

— Não prefere que eu, não sei, deixe a barba crescer, fique mais alta e faça o papel de Koldo numa pequena produção chamada O que você está pedindo é impossível? Porque acho que posso fazer.

Humana boba. Pela primeira vez em sua vida, queria sorrir.

— Não.

Desesperada, ela disse:

— Que tal o número da garota da cafeteria? Eu poderia te dar isso e estaríamos quites.

Garota da cafeteria?

— Lembra quando eu disse que poderia ajudá-la a melhorar?

— Como se eu pudesse esquecer.

— Esse é o caminho.

Um momento se passou. Um momento que ela passou piscando para ele.

— Calma, paz, alegria. — ela repetiu. — Diga-me que minha irmã vai viver mais do que algumas semanas, e pronto.

Como se ele estivesse no controle de quanto tempo sua irmã sobreviveria. Mas ela não sabia disso e estava tentando ganhar mais tempo.

— Sinto muito, não fui claro. Fiz minha melhor oferta. Não existe mais nada que eu possa fazer em nome de sua irmã. Portanto, não haverá nenhuma negociação dos meus termos.

— Percebi, mas tinha que tentar. — Ela ofereceu o mesmo sorriso luminoso que lhe deu no elevador, e ele teve a prudência de capturar uma imagem mental desta vez. Uma que se lembraria nas piores noites, quando o passado ameaçasse se levantar e engoli-lo. Ela era a prova que havia mais no mundo que dor e escuridão.

— Temos um acordo? — perguntou.

— Temos.

Ele acenou com a cabeça.

— Muito bem. Não permita que os médicos desliguem seus aparelhos. Voltarei em breve.

— Mas...

Ele saiu antes que ela pudesse terminar sua frase. Agora, cada momento contava.

Ele lampejou para Thane, que andava no corredor do hospital e disse-lhe para onde ia. Em seguida, lampejou para a nuvem de Zacharel no nível mais baixo dos céus. Ele não tinha asas e não podia parar na frente da entrada para aguardar permissão, e foi por isso que Zacharel lhe deu entrada livre — desde que permanecesse no saguão.         

— Zacharel. — ele chamou. Paredes de redemoinhos de névoa o cercavam, ocultando a visão do resto da casa. Mas era dessa maneira que as nuvens funcionavam. Abriam apenas quando se movia pelo meio delas.

Seu comandante atravessou a névoa, seu cabelo preto desarrumado, seu manto sujo, rasgado e manchado de sangue. Asas de ouro sólido curvadas em suas costas, com penas faltando em alguns lugares.

Seus instintos protetores surgiram.

— O que aconteceu com você? — Koldo perguntou. — Precisa de ajuda?

A cabeça escura de Zacharel se inclinou de lado, seus olhos esmeralda opacos, como se tivesse... chorado.

— Sua ajuda não é necessária no momento. Vai descobrir o que aconteceu com o resto dos Enviados. Será chamado em breve para a reunião, e cada exército vai estar lá. Até então... o que está fazendo aqui, Koldo? — A última frase foi dita num suspiro cansado.

Koldo gostava e respeitava Zacharel. O guerreiro assumiu a responsabilidade do exército mais indisciplinado dos céus, e não tinha medo de sujar as mãos para ajudar cada um de seus homens a sair de problemas.

— Dei para Annabelle um frasco da Água da Vida e preciso do que sobrou.

Zacharel o olhou por um longo tempo antes de dizer:

— Por que o quer?

— Sobrou alguma coisa? — Ele perguntou, recusando-se a declarar a razão dele quando ainda não estava certo que havia um prêmio a ser obtido.

Ignorando sua pergunta, Zacharel se virou e acenou para Koldo segui-lo.

Depois de apenas alguns passos, a nuvem se abriu, revelando uma sala adequada para o mais rico dos humanos, com um sofá de veludo com encosto apenas até a metade. Era ideal para qualquer Enviado e sua parceira humana. Havia uma cadeira reclinável combinando, uma intricada mesa de café esculpida em cristais do mundo todo. Uma tapeçaria pendurada na parede de fundo com as palavras no centro: O Perfeito Amor Joga Fora Todo o Medo[3] escritas em grego.

Claramente Annabelle a decorou — Annabelle, que estava sentada na frente da mesa de café, estudando os livros, escrevendo furiosamente trechos num caderno.

— Olá, Koldo. — ela disse quando olhou para cima. Os cabelos dela caíam retos, preto-azulados e ricos olhos cor de âmbar. Sua mãe japonesa e pai americano certamente compartilharam a mistura perfeita de DNA para criá-la, ele pensou, porque não havia um único defeito em seus traços requintados. E, no entanto, ela não podia se comparar com Nicola. Um fato que o encantava. Por quê?

Ele inclinou a cabeça em saudação.

Zacharel se moveu atrás dela no sofá, envolvendo-a entre suas pernas. Recusando-se a dar prioridade para a urgência dentro dele, Koldo reivindicou a cadeira reclinável em frente a eles. Ele não tinha asas, de modo que o encosto da cadeira não oferecia nenhuma restrição para seus movimentos.

Uma pontada incandescente borbulhou em seu peito.

— Perguntou se sobrou alguma coisa. Sim. — Zacharel disse.

— Oh, do que estamos falando? — Annabelle perguntou, deixando cair a caneta.

— Quanto? — Koldo insistiu, ignorando-a.

— Uma única gota.

Annabelle sorriu com prazer.

— A água da vida, então.

Uma gota. Isso era o suficiente para o que Koldo planejava.

— Gostaria de comprá-la de você. — As palavras pareciam ser empurradas por um túnel de vidro quebrado. Derramou sangue por esse líquido. Perdeu o cabelo por ele. E agora tinha que dar algo mais?

Annabelle manteve sua parte do acordo, ele se lembrou. Manteve Zacharel nos céus enquanto Koldo procurava por sua mãe. A água era dela. Não dele. Então, sim, tinha que dar algo mais.

— Mais uma vez, por quê? — Zacharel perguntou.

— Espero salvar uma mulher. — Pelo menos por um tempo.

Annabelle bateu um dedo no seu queixo.

— Humana?

Não ofereceu mais. Essa informação não era necessária.

— A fêmea que mantém presa? — Zacharel pediu firmemente.

Ele sabia que Koldo tinha uma Enviada presa em algum lugar, porque Koldo resgatou duas fêmeas do inferno, todas aquelas semanas atrás. Sua mãe e um dos soldados de Zacharel. Aquele soldado estava toldado pela dor de seus ferimentos e não teve consciência das ações de Koldo. Mas estava ciente do que ela passou. E contou a Zacharel tudo que testemunhou.

Zacharel não tinha ideia que Cornelia era a mãe de Koldo, e ainda tinha que exigir que Koldo a libertasse. Talvez porque soubesse que Koldo simplesmente a caçaria novamente. Em vez disso, ele o manteve ocupado com todas essas missões, e agora, de babá, na esperança de impedi-lo de cometer qualquer transgressão.

Um dia Zacharel perceberia que nada poderia conter Koldo.

— Não. — ele disse. — Não é a que tenho presa. — Novamente, não ofereceu nada mais.

— Ela é...

— Não vou discutir isso.

Zacharel estalou sua mandíbula, a imagem de um comandante que teve muita insolência de seu subordinado.

— Deveria estar com Thane, observando-o. O que está fazendo com uma humana?

Então era para Koldo evitar que Thane cometesse um crime, e não o contrário?

— Vou voltar para Thane. Tem minha palavra. Agora, vai vender a água para mim ou não?

Os olhos esmeralda crepitaram com chamas furiosas.

— Não.

Koldo olhou para Annabelle.       

Os ombros aparentemente delicados se ergueram num dar de ombros.

— Desculpe, mas sei que não dá para dançar tango com Zachy quando está assim teimoso.

Não, ela não o faria. Ela dançava tango com “Zachy” não importava seu humor. Koldo viu — e viu a sua vitória.    

Rangendo os dentes, Koldo ficou em pé.

— Muito bem. — Tentaria comprar uma gota da água de outra pessoa. Se falhasse, se tivesse que se aproximar do Alto Conselho Celestial, ele... não, pensou. Podia suportar uma surra sem problema, mas ainda não tinha certeza de qual seria o próximo sacrifício a ser exigido.

Por isso, tinha que encontrar alguém disposto a vender a água. Se não conseguisse voltar e manter sua parte do acordo, Nicola nunca confiaria nele. E se nunca confiasse nele, nunca o escutaria. Nunca encontraria conforto com ele.

Nunca colheria a alegria que tanto necessitava.

Ele saiu da sala de estar.

— Koldo. — Zacharel chamou.   

Ele se acalmou, seus músculos amarrados de tensão. Ele é seu líder. Mostre-lhe respeito — embora apreciasse arrancar a cabeça do corpo dele. Lentamente se virou e encarou o guerreiro.

— Sim?   

— Não vou vendê-la para você. Porém eu a darei a você. — Zacharel alcançou um bolsão de ar e retirou um frasco claro. Uma única pérola de água rolava brilhante no fundo. — No dia em que você deu a Annabelle esse frasco, derramei uma gota num recipiente separado e a guardei para você, esperando o dia que precisasse. Só rezo para que a use com sabedoria. É uma segunda chance... e não vou oferecer uma terceira.

 

Nicola estava com a cabeça extremamente leve, quase a ponto de desmaiar. Seus nervos em frangalhos, seu coração alternando entre palpitações dolorosas e parando como se espremido por um duro punho de ferro. Koldo saiu há 16 minutos e 32 segundos. Durante esse tempo, o médico veio com a expectativa de desligar os aparelhos de Laila. Acabar com ela. Para sempre.       

Como Nicola manteria a calma, abraçaria a paz e semearia a alegria assim?

Ela pediu mais tempo e o médico tentou convencê-la a se apressar.

Laila está com dor.

Está pronta para ir. Seu corpo não pode suportar sozinho, e sua mente já se foi.   

Ela nunca vai se recuperar disso.

Nicola recusou.

Finalmente ele deixou o quarto. Mas voltaria. Sabia que voltaria.

Se Koldo não conseguisse voltar a tempo...

Laila irá morrer hoje, pensou e quase vomitou.

Sua tontura aumentou, e não tinha certeza se teria forças para permanecer lúcida por muito mais tempo. Se ficasse inconsciente...

Mais uma vez, Laila iria morrer.

Se. Se. Se. Como odiava a palavra! Ela...

Koldo deu um passo em sua visão, como se abrisse uma entrada que não podia ver.

Alívio a golpeou e saltou para ficar em pé. Ele era tão grande e forte quanto se lembrava — talvez maior. Talvez mais forte — e era um guerreiro. Em algum tipo de exército, ele disse. Enquanto estivesse aqui, Laila estaria segura.

Exceto que seus olhos tinham uma mancha sombria.

Por que sombria?

Ela o examinou em busca de uma pista. Ele usava a mesma camisa branca solta e calça de antes, as mesmas botas de combate parecendo confortável, elegante e pronto para a ação. Não havia manchas de sangue que sugeriam que teve que lutar em seu caminho até aqui.

Toda aquela escuridão era por Laila, então.

— Koldo. — ela disse rouca.       

Ele acenou com a cabeça em reconhecimento.

— Pare de se preocupar, Nicola.

— Primeiro me diga se o negócio está de pé. — As palavras saltaram. E uau, ela realmente colocou sua confiança e esperança num estranho como esse? Um estranho de origens duvidosas?

Sim, era verdade. Ela o fez. A sobrevivência de Laila era muito importante.

— Sim, está. — ele assegurou.

Bom. Isso era bom.

— Onde foi? — Ugh! Olhe a acusação. Não quer forçá-lo a fugir.

— Aqui e ali.

Uma adorável resposta esquiva.

— Bem, tem certeza que isso vai funcionar? — O quer que isso... fosse.       

— Tenho certeza que ela vai sentir dor. — Koldo disse, mais uma vez ignorando a pergunta dela. — E vai gritar, mas seu corpo vai se curar. O que acontecerá depois caberá a ela. Ainda quer que eu continue?

Nicola tinha um pequeno talento para analisar tons e desvendar uma suposição apenas insinuada. O que ela concluiu sobre Koldo? Ele não achava que o resultado valia o esforço. Bem, nada mal. Ela sim. Laila valia qualquer esforço. Sua irmã merecia uma segunda chance. Não importa o quanto fosse curta.     

— Sim. — ela finalmente respondeu.

— Muito bem. — Koldo se aproximou da cama e gentilmente separou os lábios de Laila. Abriu a mão para revelar um frasco vazio... não, não vazio. Uma única gota de água rolava no fundo, brilhando na luz.

Ele colocou o frasco sobre a boca aberta de Laila e fez uma pausa. Respirou fundo, como se estivesse tentando se forçar a agir. Sua hesitação fez com que a preocupação de Nicola aumentasse. Talvez esta não fosse a melhor decisão. Talvez tenha feito o negócio com Koldo por suas próprias necessidades egoístas.

— Existe outra...

Mas era tarde demais. Koldo derramou a gota na língua de Laila.

Nicola esperou, esperava que algo acontecesse imediatamente. Os gritos que ele prometeu, talvez. Ou talvez, milagrosamente, um sorriso.

Um minuto se passou. Depois dois, e nada mudou.

Koldo soltou um suspiro pesado.

— Está feito. — disse ele e encontrou seu olhar esperançoso. — Tenho que voltar aos meus deveres ou... não importa. Virei até você amanhã, e seu tempo sob meus cuidados começará.

Pela terceira vez em seu conhecimento, ele desapareceu.

— Mas...

Não havia tempo para lamentar ou se enfurecer sobre sua mais recente deserção. Laila soltou o grito prometido. Um grito que quase furou os tímpanos de Nicola. Preocupada mais uma vez, ela correu para o lado de sua irmã.

— Laila, querida, o que há de errado? O que precisa?

Sua irmã respondeu com outro grito.

Duas enfermeiras irromperam no quarto, as duas desenrolando os estetoscópios ao redor do pescoço.

— O que está acontecendo? — Uma exigiu.

— Eu não sei. — respondeu Nicola com a voz rouca. Koldo alimentou sua irmã com uma gota de... o quê? Não de água, que ela agora sabia muito bem. Mas não podia mencionar o guerreiro sem soar completamente louca.

E se duvidassem de sua sanidade mental eles se recusariam a permitir que visse Laila. O destino de Laila cairia nas mãos de outra pessoa, e outra pessoa começaria a decidir desligar seus aparelhos.

— Dê um passo atrás. — disse a outra, inclusive lhe dando um pequeno empurrão.

Checaram os monitores e controles de uma máquina mais perto da cama. O corpo inteiro de Laila começou a tremer violentamente.

— Será que ela vai ficar bem? — Se Koldo realmente fez algo para prejudicar sua irmã, Nicola o faria... ela iria... não havia ações cruéis o suficiente.

Outra enfermeira entrou correndo dentro do quarto.

— Qual é o problema?

— Tire-a daqui. — as outras ordenaram, apontando para Nicola.

Nicola estava muito fraca para lutar quando foi arrastada do quarto. A enfermeira correu de volta para dentro fechando a porta, deixando Nicola em pé no corredor. Lágrimas escorreram de seus olhos em cascata por suas bochechas. Ela pressionou a mão sobre o coração. A vibração foi embora, mas a batida estava muito forte, muito rápida. Pontos pretos começaram a piscar na sua visão. Respiração chamuscou seus pulmões assim como seu sangue frio.

Sua irmã estava lá, gritando e gritando e gritando, e, obviamente, com mais dor do que nunca. Sua irmã podia estar morrendo neste exato segundo, mas Nicola não estava com ela. Apenas estranhos.

Como pôde ter feito isso? Como pôde ter arriscado tanto, sem saber mais?

Os pontos negros engrossaram. Sua respiração aqueceu a outro grau, e o frio em seu sangue transformou o gelo em lama espessa. Sabendo que desmaiaria a qualquer momento, Nicola tentou sentar. Mas seus joelhos se afrouxaram um segundo mais tarde, já não capaz de manter seu peso, e tombou pra frente.

Seu rosto bateu no chão de azulejos, e não soube de mais nada.

 

Algo arrastou as pálpebras de Nicola à parte, e uma luz brilhante de repente afugentou a escuridão. Pequenos detalhes chamaram sua atenção. Havia um latejar em suas têmporas, um sinal sonoro constante, bip, bip em suas orelhas e um fluxo frio no braço.

Uma voz a chamou, mas não conseguia distinguir as palavras. Uma luz mais brilhante piscou sobre um olho, depois no outro. Ela tentou se afastar, mas sua cabeça estava pesada demais para se mover. Tentou alcançar e empurrar a coisa estúpida para longe, o que fosse, mas seu braço estava ainda mais pesado.

Ela se sentiu como se tivesse adormecido ao volante de um carro e acordasse dentro de um monte de sucata, seu corpo enfraquecido preso no lugar. A ajuda ainda tinha que chegar.

— Nicola?

Apague isso. A ajuda chegou.

Ela piscou rapidamente, e finalmente conseguiu se concentrar. Um homem pairava sobre ela. Tinha cabelos e olhos escuros e sua pele era bem negra. Usava um jaleco e um estetoscópio em volta do pescoço. Dr. Carter do County General, ela percebeu. Médico de Laila.

— Você desmaiou. — disse ele, seu tom suave.

— Não, eu... — tinha desmaiado, sim. A memória foi jogada em sua mente, e ela se viu no quarto de Laila. Koldo deu uma gota de alguma coisa pra sua irmã depois desapareceu, e esta começou a gritar. Uma enfermeira empurrou Nicola pra fora do quarto e o medo a sobrecarregou.      

Agora estava deitada numa cama de hospital, ligada a um soro e usando uma camisola de tecido fino.

— Sua pulsação foi regularizada. — informou.

Não importa.

— Laila. — disse ela, tentando sentar.

O Dr. Carter gentilmente a empurrou de volta para baixo.

— Bateu sua cabeça muito forte quando caiu. Na verdade tem uma concussão, e vamos mantê-la aqui pelo resto do dia e da noite.

— Laila. — repetiu ela, com a voz uma simples rouquidão áspera.

Seus lábios se curvaram num sorriso lento.

— É a coisa mais incrível. Uma vez que conseguimos acalmá-la, percebemos que seus sinais vitais eram realmente mais fortes do que foram nas últimas semanas. Tiramos um pouco de sangue e o resultado nos surpreendeu. O fígado e os rins estão finalmente funcionando corretamente e seu batimento cardíaco é estável.

— Ela... ela...     

— Pode viver. — ele confirmou.

Isso mesmo e a alegria diluída estourou por Nicola, tão potente quanto qualquer droga. A alegria que Koldo semeou nela. Laila estava melhorando! Koldo disse a verdade. Tinha…

Salvado sua gêmea por pouco tempo, Nicola lembrou. Só um pouco. Tiras de decepção se enfiaram dentre a alegria. Ele disse que podia ganhar um tempo para sua irmã, nada mais.

Antes, parecia tão promissor. E agora? Ela queria mais.

Tempo. Tempo. A palavra ecoou em sua mente em sintonia com o tique-taque de um relógio. Quanto tempo sua irmã tinha? Koldo disse que não viveria mais que algumas semanas, e quando Nicola descascou a camada superior dessas palavras e deu uma espiada dentro, percebeu que Laila podia se afastar muito mais cedo. Em questão de dias.

Amanhã mesmo.

Em uma hora a partir de agora.

— Eu quero vê-la. — ela despejou.

O sorriso do Dr. Carter se alargou quando se virou para o lado e acenou com o braço para o paciente na cama ao lado dela.

— Você pode.

Seu olhar caiu sobre a bela loira enterrada sob um monte de cobertores, e sua alegria voltou com força total. Lágrimas correram de seus olhos. Sua amada Laila estava esticada de lado, de frente para ela, a cor em suas bochechas saudáveis pela primeira vez em meses. Seus olhos estavam fechados, sua respiração uniforme. Seu peito subia e descia por conta própria, sem ajuda de aparelhos. Seus lábios estavam curvados num sorriso. Um sorriso suave e feliz.

Nicola se preocupou por nada, percebeu. Na verdade, realmente prejudicou a si mesma. Se permanecesse calma e confiasse em Koldo, podia gostar de ouvir a notícia da recuperação de sua irmã, de pé erguida. Ela podia ter gritado e rido observando o fortalecimento de Laila. Nunca vou cometer o mesmo erro novamente.

— É um milagre. — disse o Dr. Carter. — Se continuar a se recuperar neste ritmo, deve ser capaz de voltar para casa em poucos dias.

— Sério?

— Realmente. Agora está descansando e sugiro que faça o mesmo. Vamos examiná-la de hora em hora. — Ele estendeu a mão e apertou a dela. — Se precisar de alguma coisa, avise-nos.

— Eu vou. E muito obrigada.

Ele balançou a cabeça e saiu do quarto.

Nicola olhou para sua irmã maravilhada. Quantas noites ela e Laila ficaram acordadas na mesma cama, aconchegando-se uma na outra, sussurrando e compartilhando segredos? Incontáveis. E teriam isso de novo.    

Laila soltou um suspiro suave e...

Oh, uau, uau, uau.

Nicola esfregou os olhos, mas... ainda podia ver um macaco feio com tentáculos em vez de braços ao lado da cama de Laila. A criatura estava olhando para Nicola com ódio em seus olhos enquanto acariciava o braço de Laila, como se tentando chamar sua atenção.

Uma alucinação? Certamente. Teve uma concussão, afinal. Mas... mas... parecia tão real. Assim como os monstros que viu quando era criança.

Koldo se materializou ao lado da cama de Nicola, consumindo sua atenção e dominando seus pensamentos. Em qualquer outro momento, a surpresa teria aumentado seus batimentos cardíacos. Porque realmente não pensou que jamais se acostumaria a ver um homem aparecer do nada. Mas havia drogas atualmente muito fortes em seu sistema, impedindo qualquer tipo de reação adversa.

— Viu isso? — Ela exigiu.

— O que? — Respondeu ele, olhando ao redor.

O macaco foi embora, ela percebeu.

— Não importa.

Ele olhou para ela e franziu a testa.

— Recebi permissão para voltar, para deixar a pedra no meu sapato por mais uma hora e ver como você estava. Aparentemente, é melhor eu ficar por perto. E encontro você ferida? — Havia um fio de raiva em seu tom. — Por que está ferida?

— Bati minha cabeça quando desmaiei. — ela admitiu.

— E por que desmaiou? — Ele se inclinou e passou as mãos calejadas pela testa dela, exatamente onde ela golpeou durante seu desmaio. Um lance agudo de dor a fez estremecer, e ele recuou com um brilho de vergonha nos olhos.

Uma parte dela lamentou a perda dele, com dor ou não. Ele acabava de tocá-la de um modo não relacionado a médico, e foi o primeiro que recebeu desde a admissão de Laila aqui. Ela gostou. Muito.

Ele era tão quente. Tão vibrante.

Tão... necessário.

— Bem, é uma espécie de história engraçada. — De repente nervosa, ela torceu o lençol em sua cama, e talvez as drogas não fossem tão fortes afinal, porque seu coração deu um salto. — Olhe, você tinha acabado de dar à minha irmã uma gota de líquido e desapareceu, e ela começou a gritar...

— Como eu disse que faria.

— Sim, mas não estava exatamente preparada e...

A compreensão veio iluminando os olhos de ouro para um âmbar brilhante, de outro mundo.

— Você se preocupou.

— Bem, sim. Mencionei que Laila estava gritando?

Seus lábios se franziram. Com irritação? Ela se perguntou. Sim. Definitivamente com irritação. Ele parecia pronto para matá-la. Provavelmente não ajudaria seu humor se dissesse que de repente a lembrava de um modelo masculino exibindo Blue Steel. Ou Magnum. E que era muito, muito, muito bonito. Tipo, super bonito.

Tenho que assistir menos TV nas noites que não consigo dormir.

— Não estamos tendo um bom começo. — disse ele.

— Sinto muito.

O pedido de desculpas lhe rendeu um curto e breve "faça melhor".

— Eu vou.

— Veja que o faça.

Que grande coração o dele.

—Então, o que você deu a ela?

Uma pausa, então:

— Não estou pronto a compartilhar essa informação.

A julgar pela dureza de seu tom, poderia nunca estar pronto.

— Bem, está pronto para me dizer o que é? Além de um soldado, quero dizer.

— Ainda não tem nenhum palpite? — Ele perguntou coma as feições sombrias pela decepção.

Ela mordeu o lábio.

— Estive muito ocupada.

— Lição número um. — Disse ele. — As pessoas dão prioridade ao que é importante para elas.

— Isso é verdade, mas tenho que trabalhar em dois empregos. Tive que cuidar da minha irmã. Dormia sempre que possível.

— E não podia poupar um minuto, um minuto apenas? Claro que podia! Em vez disso, desculpa-se comigo.

E desculpas não eram permitidas na sala de aula do Sr. Koldo, obviamente. Ele seria divertido para sair por aí, não seria?

— Oh, sim, bem, como vou fazer a coisa da paz e alegria se continuar a ser malvado comigo?

Ele deu um passo atrás, como se chocado.

— Não sou malvado.

Ela olhou para ele, fazendo o melhor que podia para irradiar sinceridade fingida.

— Koldo, sabe a definição da palavra malvado?

— Desagradável. Indelicado. Cruel.

— Talvez para alguns. Mas a definição de Nicola Lane é “um pé no saco”.

Ele esfregou sua nuca.

— Vou me esforçar para ser melhor, então.

De repente ela se sentiu um pouco culpada por provocá-lo. Ele levou a sério.

— Será que pelo menos pode me dar uma dica? Talvez me diga aonde vai quando desaparece?

— Vou para o reino dos espíritos. — disse ele, olhando-a intensamente.

— Então... é um fantasma? — Como suspeitava desde o início?

Ele mostrou os dentes numa temível carranca.

— Fantasmas não existem.

Uau.

— O-kay. — Houve um vislumbre do saqueador Viking do elevador. Aquele que vinha acompanhado por um belo pedaço de carne e mentiras. — Então não é um fantasma. Entendi.    

— Não existem fantasmas. — Reiterou bruscamente. — Espíritos vão pra cima ou pra baixo, mas nunca ficam ou voltam. O que as pessoas consideram fantasmas são realmente espíritos familiares e espíritos familiares são dem... — Suspirando passou uma mão pelo rosto. — Não importa. Tenho mais para te ensinar do que imaginava.

Uma gota de preocupação que ela disse a si mesma que não sentisse se juntou à culpa.

— Não vai mudar de ideia, vai?

Ele mostrou os dentes em mais uma temível carranca.

— Como poderia? Um negócio foi fechado. — E sempre foi um homem de palavra. Ela já sabia isso sobre ele, e tinha que parar inadvertidamente de insultar seu senso de honra. Ele podia ficar por aí, não importa como, mas ela queria que ele fosse tão feliz como ela deveria estar, enquanto estivesse fazendo isso.

— Por que quer ensinar alguém como eu, afinal? — Nicola não tinha nada a oferecer em troca. — E o que quer me ensinar? Pensei que só queria que eu fizesse a coisa da calma, da paz, da alegria.

Ele olhou para longe, dizendo:

— Talvez eu saiba o que é sofrer uma farsa após a outra, desesperado por esperança, mas sem descobrir nenhuma. — Ele estudou sua irmã por um longo tempo. — Só rezo para que Laila mostre tanta aceitação quanto você.

— Será que vai ajudá-la? Salvá-la por mais de algumas semanas? — Um sussurro. Uma lima desesperada.

— Honestamente? Só ela sabe a resposta para isso. Posso ensinar o que for... e não, eu não vou compartilhar os detalhes ainda. Está drogada e esquecerá as partes mais importantes. Vou fazer tudo que puder para fazê-la se sentir calma, em paz e feliz. — Uma ponta de dúvida em seus olhos, seguido de... raiva? Ele balançou a cabeça e acrescentou: — Mas será que ela vai ouvir?

Será? Laila, que era tão teimosa, tão pragmática, argumentaria até ficar sem fôlego. Laila, que possuía a capacidade única de sintonizar qualquer um a qualquer momento. Nicola a amava, mas era muito consciente de suas falhas.

— O que vai nos ensinar, a sentir, vai nos ajudar a curar? — ela perguntou.

— Sim. Vi leprosos purificados. Tenho visto coxos andarem e cegos recuperando a vista.

— Vou fazê-la ouvir, então. — Determinação se misturou com uma dose inebriante de excitação. Ao longo dos anos foi marcada por centenas de médicos. Mil testes foram feitos. Um milhão de procedimentos e cirurgias sofridas. O prognóstico era sempre o mesmo.    

Lamentamos, Srta. Lane, mas não há nada que possamos fazer.

Agora havia esperança para Laila, também.

A expressão de Koldo se suavizou enquanto olhava para ela. Ele realmente parecia orgulhoso dela.

— A única maneira de falhar é desistir, Nicola Lane. Você não é uma derrotista, posso dizer.

Um elogio de um homem tão brusco era mais doce que as palavras de adoração de qualquer sedutor.      

— Nicola?

Nicola se sobressaltou ao som da voz de sua irmã. Uma voz que era áspera, as bordas quebradas, mas ainda incrivelmente bonita.

— Laila! Está acordada!

Koldo deu um passo atrás pra fora do caminho, o olhar de Nicola focado em direção à sua irmã. A primeira coisa que ela notou foi que o macaco não tinha retornado. A segunda coisa, Laila estava brilhando.

Apesar de suas feições serem idênticas, Laila de alguma forma sempre foi a mais bonita. A carismática. As pessoas sempre gravitaram para ela, suspensas sobre cada palavra sua.

Mesmo Nicola, a séria, nunca disposta a assumir um risco, encantava-se com ela.

— Estou com sede. — Laila murmurou. Ainda estava de lado com a cabeça apoiada no travesseiro, mas agora suas pálpebras estavam abrindo e fechando lentamente e repetidamente, como se estivesse lutando para permanecer acordada. — Realmente gostaria de um pouco de água.

Nicola olhou para Koldo.

— Poderia conseguir...

Mas ele não estava mais lá.

Laila franziu a testa, seu olhar finalmente permanecendo aberto e disse:

— Onde o médico foi?

Médico? Sim, o título caberia a Koldo muito bem, pensou ela.

— Eu gostaria de saber.

 

Laila estaria vindo pra casa hoje, muito antes do que se esperava!

Nicola mal podia conter sua excitação enquanto trabalhava em seu escritório, reunindo os arquivos e recibos que precisava. Mesmo o fato de Jamila e Sirena serem as piores colegas de trabalho de todos os tempos e Nicola estar carregando uma carga tão pesada quanto antes, não conseguiu esfriar seu bom humor. Poderia fazer as tarefas mais urgentes hoje à noite, depois de enfiar Laila na cama e terminar as compras do supermercado. Quem precisava dormir, afinal?

— Jamila. — ela chamou.

Silêncio.

— Sirena?

Novamente o silêncio.

Suspirando, Nicola fechou sua bolsa. Entre pausas de meia hora de lanche e almoços de duas horas de duração, as meninas mal tiveram tempo para se sentar em suas mesas.

— Sua testa está se curando bem. Estou satisfeito.

A cabeça de Nicola se ergueu rapidamente, seu olhar colidindo com o marrom dourado de Koldo. Instantaneamente o coração acelerou numa batida frenética.

— Você está aqui.

Na noite passada se deitou naquela cama de hospital pensando nele, querendo tanto ouvir sua voz, atrair seu cheiro, sentir seu calor, se apoiar em sua intensidade. Sua honestidade. Sua força.

Agora ele estava de pé na frente de sua mesa, vestindo uma camisa e calça preta com a sombra escura fazendo o contraste perfeito com o bronze de sua pele, tornando-o mais bonito que qualquer modelo, e sexy de uma forma que deveria ser ilegal. Sério. O gigante guerreiro a deixava babando. Era um Drogo totalmente quente.

Uma cicatriz cortava o lado da testa, acrescentando um ar de perigo. Os cílios eram grossos e negros. O nariz aristocrático, régio, e nunca pensou antes que tipo de barba um homem deveria ter, mas Koldo a fez mudar de ideia com a sombra escura acentuando a pureza masculina de sua mandíbula.

Sua cabeça se inclinou de lado. O estudo sobre ele se intensificando.

— Você é uma estranha mistura de emoção e energia hoje. Feliz, ansiosa, entusiasmada, mas cansada. — Com expressão rígida acrescentou: — Deve cuidar melhor de si mesma Nicola. Isso é uma ordem.

Ela limpou a garganta e se mexeu na cadeira.

— Sim, bem, estou esperando que você me ensine. Dica, dica. — Essa era a resposta mais segura.     

Ele permaneceu impassível quando se virou e caminhou para a parede oposta, onde traçou o dedo sobre a pintura descascada.

Com mãos trêmulas, ela alisou as rugas do algodão branco da camisa de botões que usava. Sim, ele disse que não estava interessado nela romanticamente, e isso estava bem. Realmente. Não queria fazer beicinho sobre isso ou qualquer coisa assim — ou tentar mudar sua mente.

Portanto não sabia por que correu do hospital para casa, para tomar banho e se vestir, gastando um pouco mais de tempo em sua maquiagem e cabelo, apenas no caso dele aparecer. Realmente.

— Isso é o que vim discutir com você. — ele disse. — Esperava começar seu treino hoje, mas se provou impossível. Acabo de voltar de uma missão, e não fui capaz de me preparar.

— Uma missão? Oh! De que tipo? — Ela perguntou, tentando um tom casual.

Ele revirou os ombros, dizendo:

— Do tipo que envolve um exército.

Lutando com algum tipo de inimigo?

— Usando armas?

— Não.

— Adagas?

—Um tipo. — Ele foi até a janela e só verificou a trava. — A partir de amanhã, vou exigir meia hora do seu dia, todos os dias. Vai se dedicar a mim e somente a mim.

Apenas meia hora? Certamente não era decepção nadando e dando voltas em suas veias.

— É seu. Mas tem certeza que é suficiente? Quer dizer, não temos muito terreno a cobrir?

Ele endureceu, dizendo:

— Temos. — Ele massageou a nuca. — Vou te dar quarenta e cinco minutos e... — balançou a cabeça, apertando os olhos. — Isso não é suficiente, não é? Vou te dar... uma hora. — O último saiu como um rangido, como se conceder uma hora a ela fosse uma decisão difícil de tomar.

Metade dela estava ofendida. A outra metade estava muito animada para se importar.

— Obrigada.

— E quando estivermos separados — continuou ele, como se ela não tivesse falado. —, não vai se preocupar. Não vai se estressar, como vocês humanos dizem. Vai fazer apenas as coisas que a deixam feliz.

— Grande, em teoria, mas como sugere que eu aja sobre isso?

Ele olhou para ela, franzindo o cenho enquanto considerava suas palavras.

— Talvez deva ouvir piadas.

A ideia estelar do Sr. Sério, pensou secamente.

— Isso é tudo que tem? Pensei que tinha todas as respostas.

— Gaste tempo com sua irmã. Ela está melhor, acho.

— Está. — Nicola contou à sua irmã sobre Koldo e suas reivindicações, e a irmã riu, pensando que ou as drogas ou a concussão, ou ambas, estavam mexendo com sua mente. Nada do que ela disse foi capaz de convencer a garota de outra forma. — Ela pode precisar de algum convencimento para levar a sério, mas não se preocupe. Vou convencê-la. — A alternativa era ver sua irmã morrer, e simplesmente não ia permitir que isso acontecesse.

Koldo se aproximou e espalmou as mãos sobre a mesa. Ela teve de fechar o punho sobre a calça para se impedir de estender a mão e traçar com as pontas dos dedos ao longo de sua mandíbula. Simplesmente, como ele iria reagir a uma coisa dessas?

— Vai fazer tudo que eu te disser? — Ele perguntou abruptamente.

— Tudo. — Sem hesitação. — Faremos isso.

— Nunca é demais verificar novamente. — Seu olhar caiu sobre seus lábios e ficou lá. —Tão rosa. — ele sussurrou, e franziu a testa. — Tão bonita.

As palmas das mãos começaram a suar. Ele estava olhando para ela como se estivesse espalhada numa mesa de buffet, com um letreiro piscando em cima: Tudo que Você Conseguir Comer de Graça. Como se estivesse morrendo de fome.

Será que mudou de ideia sobre querê-la de “outra” maneira?

Ele respirou profundamente, e piscou. Seu nariz enrugou como se tivesse encontrado algo desagradável.

— Por que cheira assim? — Seu tom era cortante.

— Assim como? — Lixo tóxico?

— Jasmim e madressilva.

— Uh, é um novo sabonete e loção. — Sirena deu a ela.

— Nunca os use novamente. Esta é sua primeira ordem. De fato, jogue fora.

Não, ele não mudou de ideia.

Uma batida ecoou pela sala, e Nicola de alguma forma conseguiu se afastar do magnetismo bestial de seu rosto para olhar à esquerda.

A porta estava aberta, permitindo que Sirena espreitasse dentro sem qualquer permissão dela.

— Ei, Nicola. — ela disse com um sorriso largo e cheio de dentes... um sorriso que lentamente desapareceu quando seu olhar varreu o escritório. — Pensei ter ouvido você falar com alguém, mas não vi ninguém entrar.

A atenção de Nicola disparou para Koldo. Ou melhor, para onde Koldo esteve em pé. Ele se foi, deixando apenas uma lufada de seu aroma de sol no ar. Levou seu calor com ele, e Nicola estremeceu de frio de repente e, bem, um pouco desolada.

— Pensei que estava num intervalo. — disse ela.

— Estava, até que percebi que estaria perdida sem mim. — Admitiu descaradamente e com total convicção. — É claro, me apressei a voltar.

Perdida? Sério? Isso era o que a garota acreditava? Por três vezes nesta manhã Nicola ouviu Sirena desviar as chamadas telefônicas. Nas outras quatro vezes o telefone tocou e a garota deixou cair na caixa de mensagens.

— O que posso fazer por você, Sirena?

— Só queria que soubesse que o Sr. Turner está aqui para te ver. — Colocou sua mão em volta da boca e sussurrou: — E está parecendo poderoso. Deve focar totalmente nisso.

Dex estava aqui? Por quê?

— Obrigada por me avisar. Por favor, mande-o entrar.

Sirena piscou, e voltou com um balanço exagerado de seus quadris.

— Pode entrar agora, Sr. Excitante.

Eeee! Nicola anotou "Bate-papo com Sirena sobre assédio sexual" em sua lista de afazeres. Sublinhou, circulou e colocou asteriscos.

Poucos segundos depois, Dex disparou para dentro. Seu cabelo escuro estava penteado, nem um fio fora do lugar. Seus olhos estavam brilhantes, apesar de sua cor escura. Ele usava uma blusa cinza com botões e calças pretas. Muito empresário. Muito atraente. Mas se estivesse ao lado de Koldo, empalidecia em comparação.

Ele também teria, provavelmente, feito xixi nas calças de medo.

Pare com isso.

— Oi, Dex. — Nicola disse. Agora que Koldo se foi, sua pressa anterior para sair ressurgiu. Sua atenção voltou para a bolsa. Arquivos saiam pelo topo. — O que posso fazer por você? 

— Ouvi dizer que sua irmã está muito melhor.

— Nem tanto. Ainda não, mas está se recuperando.

Ele sentou, se recostou e relaxou, encaixando as mãos sobre a barriga.

— Isso é bom, certo? Vai ter mais tempo livre agora.

— Na verdade, vou ter menos. — Passaria cada segundo livre com Laila... e uma hora por dia com Koldo.

Onde diabos ele estava?

Ela precisava de um espírito sensível para descobrir a resposta, ele disse. Bem, isso parecia muito complicado — de modo que se dispôs a tentar a internet. Mas a busca de um guerreiro invisível que podia curar com a felicidade produziram principalmente artigos sobre soldados que sofrem de stress pós-traumático.        

—… nesse final de semana?      

A voz de Dex a tirou de seus devaneios.

— Me desculpe. O quê?

Suas bochechas avermelharam levemente.

— Queria saber se tem algum plano para este fim de semana?

— Ah. Sim. Tenho a papelada. — disse ela. Além disso, havia seu segundo trabalho na mercearia.

— Sim, mas também tem que comer.

Na verdade, o alimento era opcional.

— Tenho Laila, e isso significa que...

— Ela vai precisar de uma companhia também. A boa notícia é que tenho um amigo. — ele a interrompeu. — Tenho certeza que ouviu que Blaine e sua namorada terminaram há alguns meses, e mesmo ele me obrigando a comer essas porcarias congeladas após nossas corridas, ainda gosto dele.

Blaine. Blaine, que Laila acharia muito bonito para resistir.

No entanto, Laila não teria que estar forte o suficiente para deixar a casa? E se assim fosse, poderia Nicola negar à sua irmã um pouco de diversão antes dela... antes que ela... De qualquer maneira. E se esse divertimento levasse à felicidade necessária?         

Talvez Dex sentisse que ela beirava a capitulação. Ostentando um meio sorriso, ele se inclinou para frente e escreveu algo num pedaço de papel.

— Aqui está meu número. Ligue-me se mudar de ideia.

— Obrigada. — ela sussurrou.   

Ele levantou e caminhou até a porta, só para fazer uma pausa e dizer:

— A propósito, você cheira muito bem. — Retrocedeu novamente em movimento.

— Até mais, bonito. — disse Sirena da área de recepção.

— Uh, com certeza. — Dex respondeu claramente desconfortável.

Então... Koldo pensava que seu cheiro era terrível, e Dex achava que ela cheirava bem. Quem estava certo?

Koldo, o Honesto, nenhuma dúvida.

Ela suspirou. O telefone tocou enquanto estava recolhendo o resto de suas coisas.

O telefone ainda estava tocando, quando saiu do escritório. Sirena e Jamila estavam de pé no espaço entre suas mesas, seus narizes se tocando enquanto bufavam e ofegavam uma para outra. As mãos eram punhos; os membros tremiam.

— Eu sei o que você é. — retrucou Sirena.

— Não posso dizer a mesma coisa. — Jamila sussurrou — Mas sei que está com problemas.

— Quer sobreviver a isto? Vai sair e nunca mais voltar.        

— Desta vez, posso dizer o mesmo.

As duas claramente tinham história.

— Alguém vai atender isso? — Nicola perguntou com o peso dos arquivos já a fazendo ofegar.

As mulheres saltaram de lado, como se as tivesse cutucado com atiçadores quentes.

Sirena lançou um sorriso, todo indício de raiva desaparecendo.

— Claro garota. — ela disse caminhando para sua mesa para pegar o telefone. — Contabilidade. — quando deslizou em sua cadeira, girou o fio entre os dedos. —Bem, você não tem apenas a voz mais doce. — Um riso de menina fez Nicola se encolher. —É. Eu sou. Espere. Diga-me mais devagar para que eu possa ter certeza de transcrever cada palavra fascinante.

Nicola enfrentou Jamila, que ainda estava no lugar, ainda lutando para controlar suas emoções mais escuras.

— Não vou perguntar o que era, e também não vou estar de volta até tarde amanhã. Tudo que quero é que vocês duas se abstenham de comer gatinhos, chutar cachorros e ferver coelhos apenas para atacar a outra.

— Aonde vai? — Jamila exigiu, ignorando o insulto. — Não está pronta para partir por mais três horas e oito minutos.

Que bonito. A menina mais provável de ser votada como Inútil estava questionando sua ética.

— Não que isso seja da sua conta, mas estou indo para casa. E já obtive permissão, obrigada.

— Por que está indo embora? E por que está levando esses arquivos?

— Mais uma vez, não é da sua conta. E porque alguém tem que fazê-los. —Esqueceu o entusiasmo borbulhante de regresso à casa de sua irmã. Ressentimento irradiava dela.         

Os olhos dourados se estreitaram.

— Sei como processar números, e é por isso que estou aqui, não é?

— Não sei. É? Não fez isso até agora.

Jamila apertou a mandíbula.

— Basta dá-los para mim. — Ela pegou a alça da bolsa antes que Nicola pudesse responder. — Vou me certificar que seja feito. Adequadamente. — ela esperou Sirena, que ainda estava ao telefone, rindo.

— Não, eu... — Nicola apertou os lábios. Por ordens de Koldo, precisava de menos estresse em sua vida. — Tudo bem. Só... por favor, não me decepcione.

— Sou de confiança. — a garota retrucou.

Ela ignorava que havia outras maneiras de falar com as pessoas?

— Obrigada. — disse Nicola, e voou do escritório.

— Espere. Nicola. — Sirena chamou, interrompendo-a. Ela bateu o fone no lugar.

Impaciente, Nicola voltou atrás.

— Sim?

— Ficarei feliz em ajudar Jamila. — Sirena sorriu docemente para Jamila, que rangeu os dentes de raiva. — Já que você é o membro mais velho aqui, gostaria de sua permissão para levar metade dos arquivos.

— Claro. Isso vai ser bom.

Quando Jamila cuspiu em afronta, Nicola fugiu.

O edifício tinha um padrão circular, com corredores sinuosos, vários escritórios e muito poucas saídas. Os elevadores estavam sempre cheios, e ela odiava ser espremida dentro, como um picles em um frasco. Perfumes conflitantes lutando pelo título de Perfume Mais Irritante, mas não podia usar as escadas. Tinha 20 andares e ia desmaiar até a metade.

Quando chegou à garagem, um rápido caminhar a levou para seu velho sedan surrado, um carro fora do lugar entre os modelos mais recentes de veículos que o rodeavam. Balde. Era assim que chamava a pilha de metal enferrujado, mais adequado para sucata. Ela ligou o motor e, após a explosão esperada sair pelo cano, pressionou o acelerador... só para pisar no freio.

Um monstro estava na frente do capô.

Gritou, com a mão pressionando sobre o coração batendo. Ele era um rascunho de feiura terrível, com corpo de homem apaixonado por esteroides e um chifre enrolando do lado direito de sua cabeça. Em algum momento deviam ser dois. Havia um coto do lado esquerdo. Ele tinha pelos em vez de carne, e olhos tão escuros como o pior tipo de pesadelo.

Seus lábios repuxaram atrás de seus dentes numa paródia de sorriso, revelando longos dentes afiados.

— Você é minha, e sempre mato o que é meu. — ele disse... pouco antes de desaparecer.

 

Koldo se fechou no quarto de luxo que Thane lhe deu na Queda, e deitou em cima da macia cama com lençol de veludo drapeado. Thane, Bjorn e Xerxes foram para os quartos em seus apartamentos com as fêmeas que escolheram, e sabia que não os veria novamente até de manhã.

Isso era provavelmente o melhor.

Sua visita muito curta à Nicola o deixou queimando.

Sua voz rouca e de sonhos ainda fazia todos os músculos do seu corpo ficarem tensos e zumbindo. Mais uma vez foi capaz de detectar o cheiro subjacente de canela e baunilha, uma fragrância inebriante não mais mascarada pela mancha de demônios. Em vez disso, estava sobreposta pelos maus odores que lembrava sua mãe. Jasmim e madressilva. Muito pior que enxofre.

E, no entanto, esqueceu esse fato quando olhou para os lábios dela. Os seus próprios se suavizaram em preparação para... Alguma coisa. Um beijo, talvez. Uma rápida pressão juntos, ou talvez uma fusão lenta.

E se fosse em frente? Não sabia nada sobre a arte de beijar. Poderia ter pressionado com muita força e a ferido. Poderia ter pressionado muito gentilmente, e a deixar querendo mais.

Faria papel de bobo.

Ela poderia rir. E se ela risse...   

Outra rejeição, pensou. Suas mãos fecharam em punhos. Teria sido uma de milhares — e milhares mais por vir. Nunca foi bom o suficiente, e poderia nunca ser. Nunca foi o que a maioria das pessoas necessitava para amar, e poderia nunca ser.

Respirou fundo, com uma parte de suas palavras registradas. Não quero que Nicola me ame. Não precisava de seu amor.

Não precisava do amor de ninguém.

O que quer que Nicola o fizesse sentir, tinha que parar. O calor. O formigamento. O desejo pelo desconhecido.

Ele saltou para a posição sentada. Faria exercícios até ficar tão cansado que não parasse em pé. Isso deteria tudo.

Thane explodiu através das portas duplas. O cabelo preso do guerreiro estava espetado e a pele arranhada e cheia de marcas de mordidas, mas seu manto havia se transformado em uma armadura de batalha.

— Há uma atividade demoníaca maior que de costume num prédio do Kansas. — Disse o soldado, não tendo tempo para preliminares. — Estamos sendo enviados para investigar.

— Kansas? — Onde Nicola vivia. Koldo saltou de pé e seu manto encolheu, apertando e engrossando, se tornando uma armadura leve para protegê-lo das garras venenosas de seus adversários. — Acabamos de vir de lá. — Ele olhou para o relógio. Três horas atrás, percebeu com uma borbulha de choque. Como o tempo passava depressa. — Onde no Kansas?

— Centro de Wichita. Estella Industries.

Um dos locais de trabalho de Nicola, alojado no prédio onde Koldo acabava de visitar. Isso não podia ser uma coincidência. Direita e Esquerda voltaram com seus amigos?

— Te levo voando. — Thane disse, e fez um sinal de positivo.

— Não. Te encontro lá. — Koldo respondeu. Tinha uma espada de fogo espalmada, no pronto momento que seus pés tocaram a calçada do lado de fora, mas...

Não havia nada. Não havia evidências de um ataque de demônio.

Franzindo a testa, andou em torno do perímetro. Ao redor dele apenas edifícios vermelhos, brancos, altos, baixos e até mesmo uma capela. Havia vários carros na estrada, alguns estacionados, outros serpenteando. Árvores, pedaços de grama. Pássaros no ar e no solo. Canto dos insetos. Mas nenhum assobio, xingamento ou arranhões para sinalizar atividade demoníaca. Nenhuma carícia do mal.

Ele respirou fundo. Nenhum indício de enxofre.

Uma lufada.

Ele girou, encontrando Thane, Bjorn e Xerxes que acabavam de pousar, suas asas estendidas, cada macho animado com antecipação pelas mortes que viriam.

Outra lufada.

Mais uma vez se virou. Zacharel, Axel e Malcolm acabavam de pousar. O único ausente do "círculo íntimo", como ouviu Thane descrever os guerreiros que Zacharel confiava na maior parte, era Magnus, irmão de Malcolm.

— Nenhum ser humano será machucado. — disse Zacharel. Eram as mesmas cinco palavras que anunciava antes de cada batalha. Infelizmente, a repetição era uma necessidade. Os humanos não seriam capazes de ver os Enviados, ou sentir o cheiro de suas armas, a menos que os guerreiros se manifestassem de propósito no reino natural.

No passado, vários guerreiros se manifestaram, pouco se importando com os danos colaterais, muito desesperados para fazer uma matança.

O que aconteceria se um dos guerreiros machucasse Nicola?

Apenas no caso de alguém pensar em anular as instruções de Zacharel, Koldo se encontrou acrescentando:

— Se uma única fêmea for machucada hoje, vou remover a cabeça do culpado. E vou levar meu tempo fazendo isso. E não pense nem por um momento que o medo das consequências vai significar algo para mim.

Seis pares de olhos correram para ele. Alguns arregalados, com confusão, outros se estreitando com agressão. Ele se recusou a perder preciosos segundos explicando e seguiu para o prédio, atravessando através das paredes de tijolos em vez de lidar com uma porta. Humanos de todas as raças e tamanhos passeavam pelos corredores e hall de entrada. Machos e fêmeas, com aparência entre dezoito e setenta anos.

Alguns oprimidos por demônios, como Laila estava e outros influenciados como Nicola. As criaturas criaram uma fortaleza.  

Uma miscelânea de tentação para os guerreiros, ele sabia. Lutou contra a vontade de aparecer e atacar todos em seu caminho. Acalme-se. Firme-se.

Koldo procurou em cada centímetro do local, mas não encontrou nenhum sinal de Nicola. Seu escritório estava vazio. E não deixou notas em sua agenda.

— O que está fazendo, mexendo nas coisas de Nicola? — Uma fêmea exigiu atrás dele.         

Ele reconheceu a voz e se virou lentamente, ficando cara a cara com a mulher que ficou presa no inferno com sua mãe. A mulher que resgatou e trouxe de volta da beira da morte.

A mulher que ainda tinha que agradecer a ele, e que em vez disso correu para Zacharel, revelando o fato que Koldo trancou outro Enviado longe.

Uma vez Portadora da Alegria, agora era uma guerreira. Um dos guerreiros de Zacharel, para ser exato. Jamila. Bonita, em árabe. E ela certamente era. Linda e indescritível, mas estava tão afiada quanto ele. Estavam como duas lâminas e constantemente cortando um ao outro em tiras.  

— Sabe de Nicola Lane? Onde ela está? — Exigiu. Fúria... Uma fúria sombria e terrível estava fervendo dentro dele, ameaçando explodir. Se foi machucada, ele... O que? Arrasaria este lugar? Provavelmente. Mataria todos dentro? Talvez. Ainda não conseguia se importar com as consequências.

Acalme-se. Obtenha suas respostas em primeiro lugar.

— Ela foi para casa. — Com o queixo levantado, Jamila era um show de irritação. — Agora é sua vez de responder minha pergunta. O que está fazendo aqui?

Se estava em casa, estava segura.

— Eu poderia perguntar o mesmo. — disse, relaxando.

— Mas não é a sua vez.

— Sim?

— Sim. — Ela cruzou os braços sobre o peito e olhou para ele. — Zacharel disse-me para relatar o que acontece com Nicola enquanto está em Estella. Tentei ficar no reino espiritual a observando, mas tinha certeza que ela me sentia. Ficava tensa toda vez que me aproximava.

Ela sempre foi tensa. Mas trabalhariam nisso.

— Decidi dar ao reino natural uma oportunidade. — Jamila terminou.

— Por que Zacharel quer que espione Nicola?

— Não me deu explicação, e não me importava o suficiente para perguntar.

Bem, Koldo se importava. Ele perguntaria. Tinha que saber. Isso não podia ser uma coincidência.

— Agora — Jamila disse. —, não receberá outra resposta de mim até eu conseguir uma de você.

O que ele estava fazendo aqui?

— Um alarme foi dado, e nos disseram que havia um aumento de atividade demoníaca.

Ela franziu a testa, dizendo:

— O alarme não foi emitido por mim. O local está cheio do mal desde o primeiro dia, mas não aumentou.

— Então por que fomos chamados? — Exigiu, com uma explosão de frustração como um tornado, que os humanos chamariam de irritado. Já podia sentir os dedos se preparando para o contato com a parede. Quanto mais áspero, melhor. — E quem teria emitido esse alarme?

— Como ninguém nunca me diz nada — ela espetou amargamente. — desde a minha... — O brilho irritado embotou em seus olhos, e os ombros se curvaram pela derrota. — Não importa.

Desde a dela... O que? Sua captura e salvamento? Pessoas a tratavam de forma diferente? Suavemente? Como se tivessem medo que ela fosse se partir? Provavelmente. Foi assim que fizeram com ele, e odiava.

— Não tem que temer tal tratamento comigo. Me irritava antes e me irrita agora. Tratá-la com doçura é a última coisa que quero fazer.

Sua expressão suavizou, mas apenas ligeiramente.

— Obrigada. Isso é tudo que tenho a dizer.

Passos ecoaram atrás deles, duros e ruidosos, o culpado claramente não tentando ser sorrateiro.

— Nunca tivemos um alarme falso antes. — Disse Axel enquanto contornava um canto e caminhava para a sala. Seu cabelo estava desgrenhado, marcas de sangramento de três garras em sua bochecha. — Mas a questão é que este veio de uma fêmea rindo tolamente.

Todas as fêmeas riam — todas, menos Nicola. Iam trabalhar nisso também.

— Matou os demônios sem machucar os humanos, correto?

— Na verdade, não matar foi minha parte. — Um brilho de humor dançava nesse azul elétrico. — Marquei um encontro para a noite de sábado. — Seu olhar deslizou para Jamila, e seus lábios se curvaram nos cantos. — Estava planejando uma noite para dois, mas diga uma só palavra, princesa, e vou tornar isso uma noite para três. Você, a outra garota e minha câmera do telefone.

— Você é nojento. — Jamila o empurrou para fora do caminho e saiu da sala.

— Isso é um sim? — Axel lançou.

— Argh! — Foi sua única resposta.

Axel riu.

— Coisinha irascível, não é? Acho que vou domá-la apenas com sorrisos e me vangloriando de mim mesmo.

Ele esperava ter sexo com ela, sair caminhando e nunca olhar para trás?

— Não vai chegar perto dela. — Koldo encontrou-se ladrando.

— Por quê? — Axel perguntou, piscando em sua veemência. — Você a quer?

— Não.

— Mas não quer que eu a tenha?

— Exatamente.

Uma pausa. Um encolher de ombros.

— É justo. Mas e as garotas do hospital? Estão disponíveis?

Axel era nome hebraico para paz. No caso do guerreiro, o nome era uma completa mentira. Koldo o agarrou pelo colarinho e o jogou através da parede.

— Foi algo que eu disse? — Axel resmungou. Sua voz à deriva através da madeira intocada e gesso.

Limpando as mãos depois de um trabalho bem-feito, Koldo seguiu os passos de Jamila. Sabia que Axel tinha as habilidades necessárias para lutar contra ele, selvagemente e sem misericórdia — e não tinha certeza de quem iria ganhar. Assim, essa atitude com o macho o deixou perplexo.

Dobrou a esquina, só para ver o ritmo de Thane. O loiro parecia atormentado. Sua habitual fachada de eu-quero-algo-perverso-em-meu-café-da-manhã tinha desaparecido. Aconteceu alguma coisa?

Tão logo Koldo chegou perto, o prédio inteiro tremeu, e um estrondo rasgou o ar. Subitamente, vozes humanas cresceram em pânico. Koldo parou, franziu a testa. A agitação continuou, se intensificando. Um coro de gritos doloridos soou acima, no céu.

  Então, tudo se acalmou, ficando quieto.

Retrocedeu de volta em movimento. Um terremoto? Aqui? Agora? E isso afetou os céus? Mas... isso não podia estar certo.

Thane o viu e fez uma pausa.

— O que foi isso?

— Nenhuma pista.

— Bem, não importa de qualquer maneira. Zacharel está tentando descobrir por que fomos enviados aqui, quando claramente não há uma ameaça real. Enquanto isso, vamos para casa. Minha casa.

— Te encontrarei lá. — Primeiro verificaria Nicola, só para ter certeza que tudo estava bem.

Por que... um demônio poderia tê-la seguido até sua casa, percebeu. Houve um tempo que Koldo faria algo assim. Seguiria sua vítima. A atingiria no momento perfeito, longe da proteção da pessoa.

Um demônio poderia tê-la machucado. E ali estava Koldo, de pé num corredor, sem fazer nada. Perfurar as paredes não parecia suficientemente violento. Queria estrangular a si mesmo!

Os gritos dos inocentes... todas as pessoas que machucou... Todas as pessoas que matou... de repente surgiram em sua mente.

Thane o olhou desconfiado.

— Está planejando uma parada extra, não é?

Koldo desapareceu sem dizer uma palavra, aparecendo na pequena casa decadente com tapete esfarrapado e moveis muito usados, tão terríveis que não os teria colocado dentro da gaiola com sua mãe.

Ele ouviu um som — diferente de gritos.

Avançou e encontrou Nicola no quarto mais próximo da sala de estar. Estava cantarolando baixinho, colocando sua irmã na cama. E era linda de uma forma que deveria ser impossível.

— Não temos nenhum chocolate? — Laila perguntou com as palavras um pouco arrastadas de exaustão ou pela medicação.

— Ainda não, mas o teremos. Vou ao mercado.

— Você é a melhor, Co Co.

— Isso é porque tenho tudo de bom do DNA da mamãe e do papai. — Brincou Nicola. — Você ficou com as sobras.

Laila riu, mesmo com os olhos fechados. Os lábios de Koldo tremeram nos cantos.

— Eu te amo.

— Eu também te amo.

Ele devia sair. Não tinha o direito de estar aqui vendo, divertido, enquanto o sangue escorria do passado dele para o chão. Salpicando aqui, salpicando ali, manchando todo lugar que visse.

Seus punhos encontraram o caminho para seus olhos, e ele cambaleou atrás. Piscou se lançando para seu quarto no clube de Thane, e caiu no chão, se esforçando por cada inalação. Estava sujo e Nicola era pura. Ele era gelo; Nicola era fogo.

E estava em apuros. Mais uma vez, queria beijá-la.

Argh! Não devia querer nada dela. Não podia querer mais dela. Não era bom para ela. Não era bom o suficiente.

A ajudaria, mas teria que ter a certeza de mantê-la à distância. A ajudaria — e então a deixaria livre.

Como ele reagiria a isso, não tinha certeza. Mas não seria bonito.

 

Antes de deixar A Queda, Thane pediu à sua amante que permanecesse na cama, de modo que ela estivesse onde a queria quando voltasse. Ela concordou. Agora, em seu retorno, olhou para sua aparência. Cabelos de ouro e escarlate derramados sobre os travesseiros fazendo lembrar de chamas vivas. Correntes finas forjadas por um ferreiro imortal envolviam os pulsos e tornozelos.

Eram algemas de escravos, o metal a obrigando a obedecer a quaisquer comandos emitidos por seu proprietário. Ele desprezava a escravidão, e tentou removê-las. Falhou.

E ainda estava irritado com o fato.      

Teve que escutar, impotente, como demônios violavam Xerxes. Teve de assistir, impotente, como demônios penduravam Bjorn sobre ele, retiravam a pele de todo o corpo do guerreiro e dançavam ao redor da sala no "casaco de carne." Teve que deitar no chão, acorrentado, incapaz de lutar, quando esses mesmos demônios lamberam o sangue do guerreiro de seu peito e pernas.

Gritar fazia os demônios rirem.

Pedir misericórdia fazia os demônios rirem.

Rir, rir, rir. Era tudo que faziam.

Não chegou a ferir as criaturas como tão desesperadamente desejava. Mas o que era pior? Não o machucaram como machucaram aos outros. Sua dor só foi mental e emocional.        

Teria preferido a física.

— Depressa. — Ela implorou, se contorcendo em cima do colchão. — Estive pensando em todas as coisas que vai fazer comigo e preciso de você.

— Precisa do meu dinheiro. — ele disse, despindo-se. Kendra foi encontrada no bairro do sexo e comprada por Bjorn. O guerreiro tinha intenção de libertá-la, mas ela desejava um guardião — e as moedas que vinham com ele. Um trabalho que Thane acolheu.

— Talvez no início. — Ela deslizou a ponta do dedo ao longo de uma trilha indecente. — Mas estou viciada em seu toque. Preciso de você. Só você.

Isso era bom. Não era? Ele podia ter mil amantes diferentes numa semana, às vezes parecia, mas sempre voltava a esta. Ela não tinha vergonha do que faziam, e nunca olhou para ele com horror nos olhos depois. Então, por que se sentia mal do estômago?

Ele acomodou seu peso sobre a cama e se arrastou acima... acima. Cada centímetro mais perto dela, o desejo de ferir se intensificando. O desejo de ser ferido intensificado.

As coisas que foram negadas dentro daquela cela de prisão.

Não era tolo. Sabia que era por isso que se sentia assim. Sabia que era por isso que atacava. E teria se odiado pelos desejos, mas os resultados o agradavam muito bem. Por um momento, apenas um momento, ia gozar de uma satisfação que não podia encontrar em outro lugar.

Era fugaz, mas era o suficiente. Pelo menos, era o que dizia a si mesmo.

— Precisa de mim também. — Acrescentou. — Sou a única pessoa que pode te agradar.

Não. Isso não era verdade.

Ele não queria que fosse verdade. As fêmeas eram muito inconstantes. Amavam num minuto e odiavam no outro. Sorriam e choravam. Ele não podia se permitir depender do que não podia controlar.

Ela mordeu a ponta de seu queixo.

— Nunca vai ficar satisfeito com qualquer outra pessoa. Elas são muito mansas.

Seu sangue se aqueceu com raiva... e excitação.

— Qualquer uma pode me agradar. A qualquer momento. De qualquer forma. —E ele provaria isso.

Com foco intenso, partiu para fazer as coisas que machos normais faziam com suas mulheres. Beijando carinhosamente, tocando suavemente. Ela não pôde resistir e derreteu no momento, sussurrando encorajamentos, gemendo, mas... meia hora se passou com mais do mesmo, e enquanto sua excitação se intensificava, a dele diminuía.

Por quê? Por que não gostava disso?

— Oh, Thane. — ela respirou, balançando debaixo dele. — Nunca soube que podia ser assim.

— Eu... não posso. — ele respondeu com os dentes cerrados. Um brilho fino de suor cobria sua pele. O desejo de fazer coisas com ela... coisas horríveis... o bombardeou. Ela choraria e imploraria. Mas ele não mostraria nenhuma piedade. Depois disso, o faria chorar e implorar. Mas ela não mostraria nenhuma piedade. Ele não deixaria. Então... então ele sentiria.

Deveria ter vergonha. Bjorn e Xerxes tinham. Odiavam o que faziam a si mesmos. Odiavam mais o que faziam com suas mulheres.

Com um grito de frustração, Thane cortou contato com Kendra e levantou da cama... antes que um deles encontrasse satisfação. Ele estava tremendo quando empurrou o manto sobre a cabeça e cobriu sua nudez. O material se amoldou aos tendões em suas asas e caiu suavemente até o chão.

— O que há de errado com você? — Ela ofegou. — Isso foi bom.

Não. Não, não foi.    

Um brilho afiado entrou em seus olhos.

— Está planejando ficar com outra mulher e tentar de novo? — A amargura explodiu dela.

— Isso não é da sua conta. — Ela sabia o que receberia dele antes de concordar em ficar.

— Devia ser mais agradável comigo. — Ela bufou, socando o edredom. — Posso decidir te deixar.

— Posso te mostrar a porta. — E não lamentaria sua perda. Sentiria falta de sua total falta de inibição, sim. Mas a própria mulher? Não. Estava ligado a Bjorn e Xerxes, e não havia espaço em sua vida para outra.

Saiu do quarto e, quando gritou seu nome, fechou a porta, a cortando. Entrou na sala que dividia com os rapazes. Estavam empoleirados nas poltronas de veludo vermelho que encontraram na Índia, com os pés apoiados na mesa de cristal que um dos patronos do clube perdeu num jogo de pôquer.

Os dois já haviam terminado com suas mulheres e estavam bebendo. Ambrosia misturada com uísque no caso de Bjorn, e... cheirou... vodca no de Xerxes.

Ambos estavam tremendo e pálidos. As bochechas de Xerxes encovadas, e Thane sabia que o guerreiro recentemente vomitou. Bjorn tinha os olhos embotados de memórias abusivas.

O toque de outro sempre lembrava os guerreiros das coisas horríveis feitas contra eles naquele calabouço infernal. E ainda faziam sexo pesado com muitas mulheres, como Thane. Talvez tentando provar que eram normais, percebeu agora. Sempre assumiu que esperavam se punir por aquilo que uma vez falharam ao não conseguir deter.

Serviu-se de uma dose de vodca e deslizou na cadeira na frente de seus amigos.

— Koldo está vigiando você. — disse Bjorn após drenar o que restava em seu copo.

Um homem só podia lidar com algumas coisas num dia, e tão teimoso e intratável como Koldo era, Thane tinha que estar no seu melhor para sair disso ileso. Ele não estava.

— Deixe-o me vigiar.

Xerxes esfregou dois dedos ao longo das cicatrizes na mandíbula.

— Ele não parece o tipo que desiste.

— É muito ruim. — Zacharel suspeitava que Koldo oscilava à beira de cair. Também suspeitava que Thane oscilava. Então, decidiu emparelhá-los, pensando que cuidariam um do outro, fornecendo algum tipo de equilíbrio. Pelo menos, era o que Thane imaginava.

Ou era a coisa mais sábia que Zacharel jamais fez, ou a mais estúpida.

— Qual o negócio de Koldo, de qualquer maneira? — Bjorn perguntou.

Xerxes levantou uma sobrancelha incolor.

— Se conheço Thane, e conheço, ele fez uma pequena pesquisa antes mesmo de se aproximar de Koldo.

Thane encolheu os ombros.

— Descobri que nosso convidado passou um pouco mais de uma década num campo de Nefas quando era mais jovem.

Os olhos de arco-íris de Bjorn brilharam perigosamente quando disse:

— O que foi feito com ele?

— De acordo com um dos Enviados que o resgatou, nada que Koldo admitisse. Estava sujo, selvagem, e acabava de abater os habitantes de uma aldeia. Todos humanos.

— Por que faria uma coisa dessas? — Xerxes perguntou.

— Meu palpite? Estava sem esperança. — Um homem sem esperança era uma arma perigosa. Os três sabiam disso muito bem. — Ouvi que em Nefas prendiam seus jovens numa prisão com humanos inocentes, permitindo que apenas um deles saísse... quem matasse os outros. Se ninguém estivesse disposto a cometer assassinato, todos morriam de fome.

Xerxes raspou suas unhas contra uma das cicatrizes em seu braço.

— Ele não pode ter sido criado assim. Nunca o ouvi amaldiçoar. Nunca o vi beber. E todos vimos como ele trata as mulheres.

Mas não viram o que fez Koldo nos bastidores. Não viram os buracos em suas paredes. Buracos do tamanho de seus punhos. Estava tão maluco quanto eles.

Um sinal sonoro soou em seu interfone, poupando-o de ter que tentar formar uma resposta.

— Senhor, Cario tentou se esgueirar de novo. — disse uma voz masculina.

Cario. A menina tola. Esta era sua terceira tentativa de chegar até Xerxes nas últimas três semanas. Por alguma razão, estava obcecada com o macho. O guerreiro, porém, não tinha ideia de quem ela era ou por que queria alguma coisa com ele. Suas origens eram obscuras, mas uma coisa sabiam. Ela podia ler suas mentes e sabia sobre seu passado.

Um passado que estavam determinados a manter em segredo.

— Diga-me que a pegou desta vez. — Xerxes exigiu.

Um estalo de ar no alto-falante.

— Uh, bem...

O guerreiro deu um soco no braço de sua cadeira.

— Essa mulher precisa ser colocada no seu lugar.

— Dobre o número de guardas em cada uma das portas. — Thane disse. Então, para Xerxes, acrescentou: — Nós vamos buscá-la. Não se preocupe.

— O que ela quer com você, afinal? — Bjorn se lançou para o bar e serviu outra bebida. Uma bebida que rapidamente engoliu e pegou outra.

— Não tenho a menor ideia. — movimentando-se para baixo contra o encosto de sua cadeira, Xerxes esfregou a mão pelo rosto. — A primeira vez que a vi foi quando veio para o clube e Thane ofereceu meus serviços sexuais.

— Pensei que estava fazendo um favor.

— Pensou errado, meu amigo. E agora, tenho que ir. — Xerxes se ergueu claramente desconfortável com o tema da conversa. — McCadden ainda tem de ser alimentado.

McCadden era um Enviado caído que tentou assassinar um dos que estavam sob a responsabilidade de Zacharel — e ainda planejava assassinar o homem. Xerxes deveria ter acabado com o macho e se salvar do trabalho de babá, mas matar seu ex-companheiro não era uma opção. Então, o mantinham trancado.

Xerxes saiu da sala sem dizer uma palavra.

Bjorn olhou para o fundo do copo vazio, com os ombros levemente curvados.

— Deveria sair, também.

Não, Thane queria dizer. Fique comigo. Mas ele não era carente.

— Vejo você amanhã, então.

— Amanhã. — a resposta de seu amigo foi vazia, com as costas eretas quando saiu da sala.

O silêncio imediatamente envolveu Thane.

Silêncio. Como o desprezava. Isso o deixava sozinho com seus pensamentos e suas memórias. Carrancudo, se levantou e andou na direção de seu quarto, só para parar. A Fênix ainda estava em sua cama. Ele podia ir para ela, poderia tê-la e, finalmente, dar um fim... Mas não. Acabaria com este envolvimento. Não a receberia em seus braços novamente.

Ele caminhou de sua ala privada pelo prédio espaçoso, o elevador e o bar. Encontraria outra amante aqui, e esqueceria de sua preocupação por seus amigos e manteria a mente fora de seu passado.

No momento que as portas se abriram revelando a caverna escura com paredes forradas de veludo, sofás e mesas de vidro preto, ruídos o assaltaram e foi capaz de relaxar.

Ele vagava pela escuridão, os clientes em todas as direções. Alguns estavam sentados às mesas, bebendo, cheirando ambrosia, enquanto alguns descansavam nos sofás em volta, se inclinando tanto quanto possível em seu companheiro desejado para a noite. Alguns dançavam no centro da sala com mãos errantes. Escutou conversas sussurradas.

—... Você vai gostar, prometo. Basta tentar.

— ... Relacionamento material. Sério. Todos os maravilhosamente quentes são escória.

— ... Realmente acha que eu iria sair com alguém como você?

Seu olhar sondando... examinando... até que finalmente localizou a loirinha Harpia que Koldo rejeitou.

Ela servia, decidiu.

Thane caminhou mais perto dela. Com a clara luz rosa e azul estroboscópia caindo sobre ela, podia ver que optou por não cobrir a pele luminosa com maquiagem. Tons de joias irradiavam dela em uma festa para os olhos.

Uma festa para todos os outros homens, também. Se reuniam em torno de sua mesa, olhando para ela com fascínio abjeto enquanto ela contava uma história sobre... os riscos de um escapamento de carro?

Ele deu um passo atrás dela.

— Vão. — Disse aos homens com um tom brusco que prometia graves consequências se fosse desobedecido.

A maioria se afastou se esbarrando. Alguns demoraram, olhando para ele, até que virou a força de seu olhar em suas direções. Pularam e correram.

A menina se virou para ele, franzindo a testa.

— Por que fez isso? Agora minha experiência está arruinada. Arruinada, eu te digo!

— Que experiência?

— Para ver o quão chata eu poderia ser e ainda balançar a casa.

Ela era uma coisa pequena e divertida, não era? Ele se inclinou e sussurrou em seu ouvido:

— Que tal você me balançar ao invés disso, heim?

— Uh, isso seria um não.   

— Por quê? — Esteve disposta a dar a Koldo uma dança porque ele tinha o rosto de um assassino. Thane tinha os instintos reais.

— Você não é exatamente o que estou procurando.

A recusa era verdade... ou um jogo?

— Eu posso te fazer mudar de ideia, fêmea.

— Não me leve a mal, mas não. Não, você não pode.

Hmm. Quando se endireitou, ele pegou espirais de fumaça flutuando pelo ar. Fumaça que não ondulava de cigarros ou charutos, mas de madeira carbonizada e tecido. Ele estudou o bar em busca das provas de um incêndio. Encontrou Kendra espreitando na direção dele, usando nada mais que um sutiã, uma calcinha e as faixas de escravos.

— Thane. — gritou. — Sabia que viria até aqui.

A multidão se afastou para abrir caminho para ela.

O cabelo vermelho brilhante em pé, como se seus dedos estivessem ligados a uma tomada elétrica. Seus olhos estalavam com fogo ardente de jade, e sua pele brilhava o suficiente para rivalizar com a atração da Harpia. Os braços estavam abaixados, se expandindo e as garras se estendendo e disparando pequenas chamas douradas no chão.

Chamas que não morriam, mas cresciam.

Ela descobriu pequenas presas afiadas e cuspiu:

— Me deixou na cama para vir até aqui brincar com uma prostituta suja?

— Ei! — A Harpia estalou. — Estou completamente banhada hoje!

Ele apontou para o chefe da segurança, e o macho soube que era para esvaziar o salão.

Vozes iradas subiram da multidão, mas o Fae que contratou era bom em seu trabalho e passos logo martelaram para as portas. Thane desprezava demonstrações públicas como esta, e não ia tolerar isso.

Depois, somente ele e a Fênix permaneceram.   

— Nunca prometi fidelidade Kendra — ele disse suavemente. — Na verdade, prometi o oposto. Você dizia estar feliz com nosso acordo.

Seu queixo levantou num show de ressentimento.

— Eu estava. As coisas mudaram.

— Por quê?

Ela pensou por um momento. Obviamente, não podia dar uma resposta satisfatória, porque bateu o pé e disse:

— Se acha que há outra mulher por aí que vai fazer as coisas nojentas que você precisa, está errado. Eu te disse. Sou a única que sempre serei capaz de satisfazê-lo.

Nojentas, ela disse.

E estava certa. Mas sempre o fez pensar que gostava.

Ela mentiu, e ele odiava mentirosos.

— Eu disse a você. — Ele respondeu suavemente, quando a raiva cresceu. —Há muitas pessoas que podem me satisfazer. E elas o fazem. Elas o farão. Mas você não. Nunca mais. — Cortou a distância entre eles, a agarrou pelo pescoço e apertou com força suficiente para tornar a respiração difícil, mas não impossível.

Seus olhos se arregalaram de medo.

— Não deveria ter açoitado meu temperamento, fêmea. Vou puni-la... E prometo, vai desejar que eu tivesse te matado em vez disso.

 

Ela viu um monstro.

Nicola fez o medo se espalhando em seu interior retroceder, acelerando para fora da garagem a tempo suficiente de pegar sua irmã no hospital, assegurar que Laila estava estabelecida em casa, tomar um banho para lavar a loção que Koldo desprezou e andar pelos corredores do supermercado mais próximo. Medo que não devia acalentar. Mas, quando virou o carro em seu bairro para voltar para casa, ele finalmente transbordou — e ela não podia evitar. Ou se pudesse, não sabia como. Em segundos, sentiu como se tivesse bebido o mais tóxico dos champanhes, todos os possíveis efeitos colaterais convergentes: tontura, perturbação do estômago e zumbido nos ouvidos.

Com sua visão turva, estacionou próximo ao meio-fio e inclinou a cabeça contra o volante, respirando com lenta deliberação. Ainda estou lidando com os efeitos colaterais de uma concussão. Isto é tudo. Certamente.

Esperemos.

Ou isso, ou Koldo trouxe algo desagradável para sua vida.

Mas... Não. Ele era um (famoso) guerreiro em sua essência. Era observadora. Teria reconhecido se ele introduzisse algo malévolo. E se o fez, não a teria deixado cuidar de si mesma. Ele não era do tipo que saía fugindo. Não podia ser.

A ajudou quando poderia ter ficado invisível. Ou qualquer outra coisa. Ajudou Laila quando podia ter lavado suas mãos sobre ela.

Isso deixava a concussão — mas não estava satisfeita com essa explicação. Não tinha paz sobre isso. Depois... e se Nicola não estava tendo alucinações? E se a criatura que viu era real? Afinal, Koldo podia chegar e sair num piscar de olhos, e ele não era uma alucinação. Por que não podia outra coisa fazer o mesmo?

Assim, se o guerreiro não levou a criatura à sua porta, então... o que levou? E o que era isso, exatamente?

Quando era mais jovem, ouviu meninas sussurrando juntas na escola, com medo dos monstros em seus armários. Até aquele momento, Nicola não sabia nada sobre tais monstros. Seus pais nunca permitiram que ela e Laila assistissem TV, e escolhiam cuidadosamente cada livro que liam. Ela era tão maravilhosamente inocente em relação aos males lá fora, com medo apenas do que seu corpo fazia com ela.

Mas, claro, tudo mudou depois de ouvir essa conversa.

Parou de dormir. Procurava monstros em cada esquina — e começou a vê-los. Um macaco peludo com presas no ombro de sua mãe. Dois no de seu pai. Um seguindo Laila. Outro seguindo Nicola.

O aumento do medo e do stress constante prejudicou seu coração ainda mais. Mas, depois de meses de terapia e medicamentos novos, conseguiu encontrar uma pequena medida de paz. Paz instável, isto é, que ia e vinha. Mas nunca viu outro monstro. Até recentemente.

Nos últimos dias, viu dois. Um com Laila, e um em seu trabalho.  

Talvez não tenha perdido a paranoia daquela época. Talvez os monstros sempre estivessem lá, e simplesmente fechou os olhos. Mas agora... agora seus olhos estavam abertos novamente.

Seu estômago se retorceu em centenas de pequenos nós, as bordas afiadas o suficiente para cortar. E fizeram cortes, fazendo-a estremecer.

Percebeu que não podia sobre isso agora. Preocupar-se — mais do que já estava — violaria as regras de Koldo. E, além disso, tinha muito a fazer. Laila estava em casa esperando por ela. Nicola tinha o chocolate que sua irmã solicitou, bem como algumas outras necessidades como sorvetes, sanduíches e batatas fritas, e os mantimentos estavam, provavelmente, assando no calor de seu carro, já que o Bucket não tinha nenhum sistema de ar-condicionado.

Respiração profunda dentro... respiração profunda fora. Forçou sua mente a se concentrar em pensamentos calmantes. Laila feliz. Koldo dizendo aquelas piadas que mencionou. Podia imaginar o que ele diria.

Por que o guerreiro atravessou a rua?

Isso é fácil. Para matar o cara do outro lado.

Um broto de diversão a deixou sorrindo.

Toc, toc.

Quem está aí?

Donut.

Donut quem?

Donut corra de mim garota insignificante.

A diversão floresceu o resto do caminho.

Sua visão clareou. Seu estômago se acalmou. Depois de verificar o caminho e encontrá-lo vazio, se dirigiu para frente. Seu olhar passeou rapidamente pela área tristemente degradada, que qualquer pessoa com meio cérebro evitaria. A maioria dos gramados estava alto e cheio de ervas daninhas para esconder a evidência de crimes recentes, tinha certeza — e a maioria das casas fechadas com tábuas. Todas as casas estavam pichadas no tijolo, a dela inclusive.

As sirenes da polícia podiam ser ouvidas durante toda a noite, todas as noites, e ela tinha certeza que o vizinho à sua esquerda tinha um laboratório de metanfetamina no porão. Mas isso era tudo que podia pagar já que a casa de seus pais foi vendida para pagar alguns credores de sua pilha atroz de contas.

Já basta. Nicola tinha uma hora antes de ir ao Y&R Mercado Orgânico. Um lugar que não podia se dar ao luxo de fazer compras, mesmo com seu desconto de empregada. Planejava passar cada minuto com Laila.

Só que, depois de arrumar as compras, descobriu que sua irmã se mudou da cama para o sofá com embalagens de comida vazias ao redor dela enquanto dormia e a TV passando um antigo episódio de Castle. Nicola sorriu. Isso era o que ela queria há muito tempo. Laila, aqui. Laila, relaxando.

Mas seu sorriso desapareceu quando viu dois macacos com presas empoleirados no topo do sofá, ambos olhando para ela, os pelos levantados de forma agressiva. Como a criatura no hospital — de fato, a da esquerda devia ser o que viu — eles tinham tentáculos em vez de braços, os membros deslizando ao redor deles como cobras famintas prontas para uma refeição.

Quando criança, Nicola teria corrido gritando.

Apenas algumas horas atrás, queimaria os pneus de seu carro.

Agora, descobriria a verdade de uma forma ou de outra.

Tremendo, marchou para frente e estendeu a mão. Uma das criaturas desencadeou um grito de raiva, fosse para assustá-la ou avisá-la que estava prestes a perder sua mão. O outro a golpeou com um dos tentáculos, e o contato queimou, deixando um vergão vermelho atrás.

Isso significava... significava que os monstros eram reais.

Antes que pudesse entrar em pânico, ambas as criaturas pularam do sofá e desapareceram além da parede.

Seus joelhos cederam e ela caiu no chão, tentando estabilizar o palpitante coração. Doce misericórdia. O que isso significava? E o que ia fazer sobre isso?

 

Pouco depois da meia-noite, Nicola fechou seu registo no Y&R Mercado Orgânico, e nunca esteve tão feliz por terminar um dia. Não só porque estava ansiosa para voltar para Laila, mas também porque cada colega de trabalho que cruzou seu caminho a insultou. Por nenhuma razão! Cada cliente vindo através de seu caixa gritou com ela. E, ok, sim, tiveram uma boa razão.

Os macacos com tentáculos a seguiram. Eles... e cerca de vinte de seus amigos mais queridos. Mas pelo menos não estavam pairando em torno da pobre Laila.

Dez minutos após a sua chegada, a horda se reuniu dentro do mercado, subindo pelas paredes, ao longo das telhas do teto, caindo sobre os ombros de todos que encontrou, sem o conhecimento deles, rindo e apontando para ela.

Ela gritou.

Ela olhou.

Ela quase desmaiou.

Mas ninguém via. Ninguém reagia. Bem, não aos demônios. Reagiam aos seus ataques agudos de terror.

Cerca de vinte minutos atrás as criaturas a deixaram da mesma forma que vieram.

Ela queria falar com Koldo. E talvez escalá-lo como uma árvore e se esconder lá em cima na estratosfera superior da Terra de Gigantes onde, com sorte, ninguém seria capaz de vê-la e não teria que lidar com esse tipo de coisa.

— Nicola, preciso falar com você em meu escritório.

A voz a puxou de seus pensamentos, e se virou para ver seu chefe em pé no final do estabelecimento. Ele estava com 58 anos, com cabelo cor de areia, olhos castanhos e pele tom de oliva. Seria um cara decente, se não fosse por seus modos desagradáveis.

Era do tipo de massagear nos ombros todas as mulheres que encontrasse, “apenas para ajudar com o esforço". Isso não seria tão ruim, supunha, mas ele também gostava de sussurrar: "Agora, esta sensação não é legal?", quando fazia isso.

— Claro. — Ela disse, e engoliu em seco.

O instinto de correr de repente cresceu dentro dela. Correr deste lugar e nunca olhar atrás.

Oh, não, não, não. Ele ia demiti-la, não era?

Apenas outros seis caixas trabalhavam nesse turno, e todos aceleraram o ritmo, reunindo seus pertences e saindo da loja. As luzes dianteiras já estavam desligadas, mas o estacionamento estava iluminado por vários lampiões, e viu como homens e mulheres entravam em seus carros e iam embora, cuidadosos para não olhar em sua direção.

Sim. O Sr. Ritter estava planejando demiti-la, e eles sabiam disso, também.

Tinha que haver uma maneira de fazê-lo mudar de ideia.

Com as palmas das mãos transpirando, Nicola atravessou a parte de trás da mercearia, ignorando as laranjas e maçãs. Precisava desse trabalho tão desesperadamente quanto precisava do outro. Um pagava o aluguel de sua casa, utilitários e seguro do carro, enquanto o outro pagava alimentação e gás. Sem este dinheiro, passaria dificuldades até encontrar outro trabalho com salário acima do mínimo e horas extras.

A porta do Sr. Ritter estava escorada aberta, e ela forçou seus pés a levá-la para dentro. Corra!

Ele já estava atrás de sua mesa lendo um arquivo. Ela parou.

— Feche a porta. — Disse.

Ela se virou e puxou a maçaneta, e o metal espesso sussurrou fechado. Como sempre, o bloqueio engatou automaticamente. A sala era pequena, cheia de armários de metal e uma mesa de tamanho grande. Havia duas cadeiras. A dele, que estava amortecida por uma almofada, e a dela, que não estava.

— Sente-se.

Quando ela obedeceu, disse:

— Sinto muito sobre meu desempenho de hoje. Vou fazer melhor, prometo. E não vou dar nenhuma desculpa. — Como poderia? Vi monstros que ninguém mais podia ver Sr. Ritter. O que podia dizer sobre isso? — Eu só vou...

— Como está sua irmã? — Ele indagou, finalmente olhando para ela.

Um tremor quase a balançou para fora do assento. Um macaco acabara de aparecer em seu ombro. Era menor que qualquer um dos outros, e muito mais peludo, e olhava para ela com os mesmos olhos cheios de ódio. E enquanto ela observava, ele... ele... não podia estar fazendo o que achava que estava fazendo.

Mas estava. Estava fazendo xixi.

"Ele" era, obviamente, um "ele", e estava mirando em Nicola. Tentando marcar seu...? Como um cão com seu território?

Ela fugiu tão longe para trás em sua cadeira quanto podia, evitando com sucesso qualquer respingo. O Sr. Ritter e seus trabalhos não tiveram tanta sorte.

— Eu fiz uma pergunta, Srta. Lane.

Como não podia saber que sua camisa estava encharcada agora? Como não podia ver a umidade dos papéis? Como não podia sentir esse cheiro... o nariz enrugou... esse aroma nojento?

— Ela está, uh, está melhor. Está em casa.

— Isso é bom. — Seu tom baixou, e assim o fez seu olhar, pousando em seus seios e lá ficando. — Isso é muito bom.

As mãos de Nicola se curvaram em punhos.

— Isso era tudo pelo que você queria me ver?

Um momento se passou antes que ele lembrasse que tinha um rosto. Se recostou na cadeira e cruzou as mãos sobre o ventre com a expressão severa.

— Seu desempenho hoje foi abaixo dos padrões, mas sabe disso. Irritou vários clientes registrando seus itens duas ou três vezes...

—Mas sempre corrigi os erros.

— No entanto — continuou ele suavemente — tenho certeza que em breve vai estar me pedindo para tirar algum tempo para passar com sua irmã, e como sabe, não temos ninguém que possa tomar seu lugar. Vou precisar contratar alguém novo. E se eu contratar alguém novo, por que não pode a pessoa simplesmente pegar todas as suas horas?

Uma maré de medo tomou conta dela, seguida rapidamente por um impulso imenso de correr. Mas por que correr? Ela se perguntava agora. A ameaça já havia sido emitida, e esta era sua chance de oferecer oposição. Então, mais uma vez ela ficou lá.

— Posso prometer que nunca mais teremos outro dia como o de hoje. — A partir de agora, ia ignorar a existência dos macacos. Isso era o que os terapeutas lhe disseram para fazer quando criança, e trabalhou nisso. Certo? — Não vou pedir qualquer dia de folga, tem minha palavra.

O macaco começou a pular pra cima e pra baixo gritando, e ela teve dificuldade para distinguir as próximas palavras do Sr. Ritter.

— E se sua irmã ficar doente de novo? O que, então? E se você ficar doente de novo?

— Não importa. Vou trabalhar.

Franzindo os lábios, ele estendeu a mão e traçou um dedo sobre a foto de sua esposa e três filhos.

— O quanto quer manter este trabalho?

— Muito. — ela disse se inclinando para a frente. — Existe algo que eu possa fazer? Trabalhar horas extras? Defina!

A mão caiu ao seu lado. Ele sorriu.

O macaco ficou quieto — e ele também sorriu.

— Estava esperando que dissesse isso. — disse o Sr. Ritter com um brilho repugnante cintilando em seus olhos. — Quero que comece me dizendo como vai usar sua boca em mim, e no final de que forma vai se curvar sobre minha mesa. Então quero que faça isso.

Um momento se passou em silêncio enquanto sua mente processava o que acabava de ouvir. Ele não... Ele não podia... Ah! Mas podia, e fez.

— Não tem que me demitir. Eu saio. — Ela se levantou e marchou para a porta. A maçaneta continuou imóvel quando a torceu. Raiva se misturava com frustração quando gritou: — Deixe-me sair. Agora!

— Manipulei a tranca. Espero que não se importe. — Sorrindo, o Sr. Ritter ficou de pé, e caminhou ao redor da mesa. O macaco pulou para o chão e o seguiu e o tamborilar de passos com garras retumbando. — Me pergunto como você é na cama, sabe.

Ela tentou a maçaneta de novo, mas novamente resistiu. O medo espremeu o ar de seus pulmões, expurgando todas as outras emoções. Estava presa nesta pequena sala, e ninguém estava lá para ouvir o seu grito pedindo ajuda.

— Deixe-me, Sr. Ritter. — Havia um tremor em sua voz que não conseguia esconder. — Se tentar alguma coisa, vou lutar com você. Você vai ser punido.

— Quero que lute. Não que isso vá fazer qualquer bem. Mas não... não serei punido. Isso eu prometo.

Com o coração batendo forte, ela se virou para ele. A ação a deixou tonta, mas conseguiu se manter em pé.

Ele estava tão perto que só tinha que alcançar e prender uma mecha de seu cabelo entre seus dedos muito finos.

— Disse a todos que planejava demiti-la esta noite. Amanhã, se a polícia vier bater na minha porta, vou deixá-los saber que me ofereceu seu corpo para ficar, e, claro, num momento de fraqueza, sucumbi. E oh, as coisas doentes que me deixou fazer. Depois disso, porém, você ainda estava demitida. Horrível para mim? Sim. Mas merecedor de suas mentiras maliciosas sobre estupro? — Estalou a língua. — Não.

Estupro. A palavra ecoou surdamente em sua mente. Percebeu que foi por isso que seus instintos queriam que corresse, e não porque ele planejava demiti-la. Por que, por que, por que não os escutou?

— N-ninguém vai acreditar em você.

— Não vão? — Ele avançou cada vez mais perto dela. — Sei o que estou planejando fazer, mas até eu acredito. Veja, você me disse que caiu no hospital e bateu sua cabeça. Estou supondo que tem contusões disso. O que serão algumas mais? Como alguém seria capaz de saber a diferença?

Os médicos seriam capazes de saber a diferença. E ela tinha certeza que as autoridades seriam capazes de saber a diferença... mas o que isso importava agora? No momento que descobrissem a verdade, seu ato horrível já estaria feito.

O medo se ampliou, abrindo os braços acolhedores para o pânico. Não podia ceder a isto.

Deve lutar.

Nicola virou um punho com intenção de socá-lo no nariz e conseguir alguns minutos para encontrar uma arma, mas ele pulou fora do caminho, evitando o contato. Antes que ela pudesse golpear com o outro punho, ele chutou sua perna e bateu em seus tornozelos juntos. Ela voou para trás, seu crânio batendo na porta. Uma dor aguda tirou um suspiro dela, enquanto alfinetadas de luz pontilhavam sua visão, e escorregou para o chão de concreto.

Outra concussão? Ela se perguntou distante.

Sorrindo mais amplamente, o Sr. Ritter se inclinou sobre ela.

— Coloquei uma câmera no banheiro das mulheres, sabe. Sua calcinha sempre foi minha favorita.

Sua imagem flutuou desfocada como a do macaco. A criatura estava, mais uma vez, se preparando para fazer xixi. De alguma forma, ela conseguiu encontrar força para virar a cabeça e morder o tornozelo do Sr. Ritter.

Uivando, ele se arrancou de seu aperto. Sangue instantaneamente revestiu sua língua. Bom. Ela tirou um pedaço de pele e músculo.

Com as têmporas latejantes, se levantou e cuspiu o que estava em sua boca para o macaco, fazendo-o oscilar para longe.

— Não vou deixar você fazer isso.

— Não será capaz de me deter. — Ele pulou em cima dela, a empurrando de volta para baixo, ficando de joelhos para se escarranchar em sua cintura. O macaco riu e apontou para ela, assim como seus amigos fizeram anteriormente.

— Não! — Ela gritou, debatendo-se para desalojá-lo. Falhando. — Não! Pare! —Ela socou e socou, cravando-o no ombro, no peito e na lateral, mas como estava fraca, ele foi capaz de suportar o abuso e, eventualmente, pegar... seus... pulsos....

— Te peguei.

E ele o fez. Ele a tinha, e trabalhou rapidamente para amarrar seus braços sobre sua cabeça e na trava da porta. Embora ela mal conseguisse respirar, embora seu coração palpitasse dolorosamente e sua visão estivesse escurecendo, seu corpo se contorcia para chutá-lo. Ele logo teve suas pernas presas e os tornozelos amarrados à sua mesa, deixando-a esticada, aberta ao ataque.

Lágrimas cobriram seus olhos. Ela perdeu, percebeu. Tão facilmente quanto isso, ela perdeu. E... não, não, não... ia desmaiar. A qualquer momento, ia desfalecer totalmente vulnerável, ainda mais indefesa.

— Agora — ele disse. — vou ter certeza que irá se divertir. Não há nenhuma razão para ficar chateada.

— Eu disse não! — disse entre dentes.

— E eu disse: oh, baby, sim. — Ele começou a desabotoar sua camisa.

Isso não estava acontecendo. Estava? Isso não podia estar acontecendo. Podia? Seu chefe, um homem que conhecia há três anos, não apenas a ameaçava, como a amarrou com sua gravata e corda. Ele não estava se despindo. E ela não estava lutando por cada respiração, se segurando ao seu estado de consciência com todas as fibras do seu ser.

— As coisas que vou fazer com você... — Ele descartou o algodão com um encolher de ombros.

— Por favor, não faça isso. — ela pediu.

Ele ignorou suas palavras, a olhando.

— Vou ter muito cuidado com sua roupa, de modo que não haverá nenhum sinal de luta. — Ele estendeu a mão, puxou a camisa e sutiã sobre os seios, a expondo à sua vista, e lambeu os lábios. — Bem, bem. Nunca esperei que fosse tão bonita aqui.

As lágrimas caíam em cascata por suas bochechas queimando.

— Por favor. — A sala estava escurecendo a cada segundo.

— Hmmm, gosto quando você pede. — Ele desabotoou a cintura da calça jeans, baixando lentamente o zíper.

— Por que está fazendo isso? — Ela sussurrou, lutando contra os soluços. Trevas... tanta escuridão...

— Porque quero. Porque posso. — Ela ouviu o sussurro de seu zíper.

Um berro feroz de repente atravessou toda a sala, raspando em suas orelhas. O Sr. Ritter endureceu... pouco antes de seu peso ser jogado fora dela.

Boom!

Nicola piscou. A luz retornou. Viu seu chefe do outro lado da sala, gesso e pó formando uma nuvem ao seu redor.

— Concedo a você batalhar direto com o demônio. — uma voz familiar explodiu, e depois Koldo estava inclinado sobre ela, a soltando, arrumando suas roupas. Suas mãos grandes e fortes eram gentis, reconfortantes. — Mas a humana é minha.

Ele estava aqui.

Ele a salvou.

Os soluços finalmente lutaram para abrir caminho, e ela jogou os braços em volta do pescoço dele, segurando-o tão firmemente quanto podia.

— Você está bem? — Ele perguntou em voz baixa.

Ela tentou responder, mas estava engasgada, ofegante, e não podia emitir uma única palavra.

Ele a levantou contra seu peito, a ancorando com uma mão e endireitando a cadeira que ela deixou vaga com a outra. A colocou no assento e tentou se endireitar, mas ela manteve o aperto nele.

Ele se ajoelhou na frente dela e segurou seu rosto, a obrigando a encará-lo.

— O que fizeram com você, Nicola?

De alguma forma, ela encontrou sua voz.

— Ele... ele... tentou... ia...

Um brilho duro em seus olhos quando ele disse:

— Mas não fez?

— Ainda não.

— Sei que me deu direitos, mas vou me curvar aos seus desejos. O que prefere que eu faça? — Um homem desconhecido perguntou. — Capturar ou destruir?

— Destruir. — Koldo respondeu, e com a palavra, seja qual fosse a corda que tinha seu controle, deve ter rompido. Ele se endireitou, cada centímetro dele vibrando com agressão, e caminhou pesadamente até o Sr. Ritter.

Um soco. Dois. Três. Quatro. Não houve pausas. Sem parar para emitir uma provocação. Koldo simplesmente descarregou seus punhos, batendo no rosto de seu chefe. Sangue se espalhou em todas as direções. O som de ossos quebrando ecoou.

A brutalidade do ato a atordoou. Nunca viu tal raiva centrada.

Seu olhar deslizou na direção do homem, o outro desconhecido. Era do mesmo tamanho de Koldo, e doce misericórdia, era lindo. Assim, loiro e bronzeado e, uau, tinha grandes olhos azuis bebê. Mas o que realmente roubou sua atenção foram as enormes asas de penas arqueando sobre seus ombros e mergulhando todo o caminho até o chão.

Ele era... um anjo?

Concedo a você batalhar direto com o demônio, Koldo dissera.

Anjos batalhavam contra demônios, certo? Então... sim, ele tinha que ser um anjo.

O macho alado ganhou velocidade quando perseguiu o macaco — o demônio — através da sala, sua imagem indefinida. Ele balançou duas espadas ameaçadoras, papéis flutuaram da mesa para o chão. Arquivos se espalharam e móveis tombaram. Finalmente, porém, suas lâminas deslizaram através da pele do macaco — direto pela garganta. A cabeça se separou do corpo e ambos caíram no chão. Uma névoa preta subiu dos pedaços... pedaços agora escaldantes, queimando em cinzas.

Cinzas dançavam no ar, se enrolando, acima e para longe.

Ele jogou as espadas encharcadas de sangue atrás de si, e quando desapareceram, franziu a testa para Koldo.

— Ei, isso é o suficiente — disse ele.

Mas Koldo continuou.

O Sr. Ritter estava muito ocupado morrendo de pesar com sua opinião.

O macho alado abraçou Koldo pelo meio, prendendo-o contra o peito. Koldo empurrou e girou ficando livre, sua expressão fria e ameaçadora, os dentes mais longos e mais penetrantes do que ela já viu. Ele claramente ia morder o outro homem, talvez até mesmo arrancar sua cabeça.

De alguma forma, se conteve a tempo. Pouco antes do contato, fechou a boca. Mas estava se movendo muito rapidamente para parar completamente, e seu rosto bateu no queixo do outro cara, fazendo-o tropeçar atrás. Quando o loiro se endireitou, os dois se enfrentaram.

— Não pode matá-lo. — O loiro rosnou. — Eu nos fiz um favor.

Havia algo em sua voz... algo que causou um estremecimento em Nicola. Uma pureza que nunca ouviu antes. Uma compulsão para acreditar nele e no que dizia.

— Eu sei. — Koldo cuspiu. — Mas posso machucá-lo.

— Você já fez isso.

— Não é o suficiente.

Olhos azuis do outro mundo se estreitaram com cálculo determinado.

— Tudo bem. Termine com o macho, e arrisque arruinar todos nós, e vou cuidar da mulher.

Um segundo depois, Koldo estava de pé na frente dela, mas nunca deu um passo. Seu calor rapidamente a envolveu, e seu cheiro reconfortante seguiu o exemplo.

— Não vai tocá-la.

O loiro assentiu como se decepcionado, mas não conseguia esconder a contração de seus lábios. Claramente, estava se divertindo.

Ele se inclinou e colocou a mão grande em torno do pescoço do Sr. Ritter e o levantou do chão. Seu chefe estava inconsciente, sua face nada além de sangue e polpa. Seus olhos estavam inchados, o nariz achatado contra sua bochecha, e seu lábio partido em vários lugares.

— Quais são seus crimes? — o loiro perguntou a ela.

Koldo estendeu a mão e colocou no ombro dela oferecendo conforto.

— Fez vídeos das meninas que vão ao banheiro. — Ela sussurrou, envolvendo os braços em torno de si mesma. Pelo menos podia riscar a concussão da sua lista. Sua visão estava bem, seu estômago calmo. — Ele me amarrou. Me tocou. Ia... Estava feliz com...

Um rugido irrompeu de Koldo. Esses dentes muito afiados estavam mais uma vez descobertos. Suas narinas dilatavam a cada respiração, e seus músculos tencionavam, parecendo expandir.

— Vai dá-lo a mim e vai embora Thane.

— Dificilmente. — o macho — Thane — replicou. — Disse a você. Já fez o bastante. Vou levá-lo para as autoridades humanas.

Nicola estudou Koldo mais atentamente. Ele podia contornar o limite da selvageria agora, mas sua imagem era sua tábua de salvação para a sanidade. Ele usava um manto longo e branco, assim como o outro cara, mas não havia asas se alongando em suas costas.

Ele não podia ser um anjo. Então... o que era? E por que não estava coberto do sangue do Sr. Ritter? Não havia um único pontinho vermelho em cima dele.

— Não posso permitir que infrinja a regra de ouro de Zacharel. — Thane acrescentou.

— Terei prazer em quebrar essa regra. — Ele rosnou, cada palavra chegando perto do assassinato.

— Koldo. — Nicola sussurrou. Não o queria em apuros por isso.

Imediatamente o guerreiro virou de volta para encará-la, pontas de preocupação em seus olhos dourados.

— Sim?

— Quero ir para casa. Será que você... por favor... abriria a porta? — Seu queixo começou uma nova rodada de tremores, não de lágrimas, não desta vez, mas de frio. Apesar do calor do guerreiro, gelo estava cristalizando em suas veias, o choque dando lugar a uma pesada consciência. Depois disso, sua vida nunca mais seria a mesma.

— De alguma maneira ele trancou o escritório por dentro — ela acrescentou — e não conseguia fazer a porta ceder.

A raiva contorceu suas feições, mas a voz era suave, quando disse:

— Sinto muito por não estar aqui mais cedo.

— Por favor, não seja... — Ela apertou os lábios, e seu coração deu um salto quando se lembrou das palavras que ofereceu ao Sr. Ritter. — ... Por favor, não faça isso... — No entanto, ele as rejeitou. Riu.

— Vou levá-la para casa. — respondeu Koldo, e ela quase caiu de novo com uma nova onda de alívio.

— Obrigada.

— Encontre a prova das câmeras. — Disse Koldo a Thane. — E certifique-se que as autoridades o prendam por seus crimes. Todos os seus crimes. Se não estiver preso pela manhã, não se engane, vou voltar e terminar o que comecei.

— É claro. A propósito — o outro homem disse: — Zacharel apenas falou dentro da minha cabeça.

Koldo assentiu rigidamente.

— Na minha também.

— Então sabe que estamos livres um do outro.

— E que a garota é agora minha responsabilidade. Sim.

Ela era?

— Faz sentido. — Thane disse. — Sabe o quanto ela está em apuros.

Ele sabia?

Koldo estalou sua mandíbula.

— Até a próxima batalha guerreiro. — Thane abriu as asas e catapultou no ar com o Sr. Ritter agarrado ao seu lado.

 

Sua responsabilidade, Koldo pensou. As ações de Nicola agora eram suas. Se matasse um humano, ele seria responsabilizado. Se um demônio a matasse, seria como se ele próprio desse o golpe.

Agora, suas vidas estavam irrevogavelmente ligadas.

Como comandante de Koldo, Zacharel tinha autoridade para colocar alguém, qualquer um, aos cuidados de Koldo. Assim como Germanus tinha autoridade para colocar Koldo aos cuidados de Zacharel. Mas por que Zacharel fez isso com ele? O que o guerreiro da Elite possivelmente tinha esperança de ganhar?

Quaisquer que fossem as respostas, Koldo teria que questionar Zacharel mais tarde. Agora, queria Nicola — em estado de choque — em segurança. E realmente precisava disso para controlar seu temperamento.

O mais suavemente possível, ergueu a trêmula Nicola em seus braços.

— Feche os olhos. — Ele podia lampejar e assim o fez, e foi, portanto, capaz de levá-la para casa com apenas um pensamento. Num momento estavam no escritório, no seguinte estavam no centro de sua sala de estar.

Seus braços caíram em volta dela, e ela cambaleou atrás. Quando se endireitou, seu olhar pegou o ambiente familiar da sala de estar e seu queixo caiu.

— Estou em casa. Mas como... Nós nunca demos um passo e... apenas um segundo se passou!

— É chamado lampejar. É o que faço toda vez que chego e a deixo. Desta vez, a trouxe comigo.

Sua mão voou para o pescoço.

— De onde sou, significa expor seu corpo nu para alguém.

Ele não tocaria nessa afirmação. Não depois de tudo que ela passou até hoje.

— Mas nós não somos do mesmo lugar, não é?

— A-acho que não.

Ele esteve aqui antes, mas ainda assim, olhou ao redor, observando os detalhes que anteriormente ignorou. A casa era pequena e à beira de um colapso, mas estava limpa. As paredes estavam amareladas devido ao tempo e descascando, mas lixadas. Onde o carpete foi arrancado, o chão estava manchado de misturas.

A casa nunca seria digna dela.

Ele devia transferi-la para uma de suas casas.

Sim, pensou. Nunca convidou ninguém para uma de suas casas, embora alguns dos guerreiros tivesse se convidado. Contudo, de repente, ansiava transportar Nicola para a casa de praia ou ao rancho do vulcão, a rodeá-la com veludos, sedas e luxos de todos os tipos.

Se ela protestasse, poderia lembrá-la de seu trato. Pelo tempo que considerasse necessário, ela ia fazer o que ele dissesse, quando dissesse, sem nenhum argumento. Mas...

Ele queria sua concordância.

— Sente-se. Vou fazer chá.

— Você vai ficar? — Ela gritou.

Era o grito um sinal de alívio? Ou decepção?

— Vou ficar. — Apenas tente se livrar de mim. Veja o que acontece.

Ela engoliu em seco, acenando com a cabeça.

Não gostava de como estava pálida e trêmula, e embora odiando se afastar dela, mesmo por um segundo, fez exatamente isso. Na cozinha, procurou até encontrar os itens necessários. Ela tinha uma caçarola, uma panela e dois de tudo. Havia alguns jantares embalados, algumas latas de sopa, mas pouca coisa diferente. Por quanto tempo estava vivendo assim?

Muito tempo, ele decidiu.

Teve que consertar o acendedor, a fim de ferver a água, mas logo teve uma fumegante xícara de chá de camomila nas mãos. Ela descansava no sofá, com as pernas debaixo dela e um cobertor envolto em torno de seus ombros. Um pouco de cor já havia retornado às suas bochechas, e os tremores mais fortes diminuíram.

— Obrigada. — Disse de forma tão correta e educada que o peito doía.

— Não há de quê. Beba enquanto verifico Laila.

— A verifiquei antes de me sentar. — Admitiu.

Ele devia ter adivinhado.

— E como ela está?

— Bem. Está dormindo. — Depois de soprar na superfície do líquido, Nicola bebeu do copo. — Na verdade, isso é tudo que ela tem feito ultimamente. Isso é normal?

— Sim. — Seu corpo esta tentando ficar em dia com seu espírito. — Não se preocupe. Ela não vai passar todo seu tempo restante na cama.

Nicola estremeceu com a referência sobre o relógio sempre correndo.

— Mas se ela está melhor agora, por que não pode ficar desse jeito?

Ele ouviu o desejo em seu tom de voz e sabia que esse era o momento perfeito para apresentá-la ao mundo espiritual ao seu redor.

Koldo se agachou na frente dela. Várias mechas de seu cabelo ondulado tinham escapado da prisão de seu rabo de cavalo e agora caíam em suas têmporas, emoldurando o rosto. Contusões escuras marcavam a carne macia sob seus olhos, e os lábios estavam inchados. Como se os tivesse mordido de medo? Ou teriam sido atingidos?

Calma.

— Vai deixar de trabalhar no supermercado. Entendeu? — Não era o que planejava dizer, mas as palavras escaparam de qualquer maneira.

— Bem, dã! Já desisti. — A declaração aborrecida não escondeu a inundação de vulnerabilidade e humilhação que de repente consumiu suas feições. — No entanto vou precisar encontrar outro emprego o mais rápido possível.

— Não. — Ele queria os primeiros frutos de seu tempo e energia, e não o que sobrava.

— Mas Koldo, eu tenho que...

Ele a cortou, dizendo:

— Se recuperar. Sim.

O olhar de Nicola baixou.

— Não deveria ter que me recuperar. Sabia que era melhor não ir até lá com ele. Tive a sensação que deveria correr.

Seu espírito captou coisas que a mente não podia e tentou avisá-la.

— Por que ignorou o pressentimento?

— Me convenci que ele só queria me despedir, e eu queria uma chance de falar com ele sobre isso.

Um erro desses era cometido muitas vezes.

Um erro que Koldo cometeu frequentemente.

— Por que isso aconteceu comigo? — Ela perguntou em voz baixa.

Porque ela conseguiu um sabor de esperança e felicidade, e os demônios a procuraram para esmagar as belas emoções antes que pudessem florescer em armas espirituais.

— O mundo é habitado por seres com livre-arbítrio, e o livre-arbítrio permite o mal absoluto... e o bem absoluto.

Ela assentiu com a cabeça enquanto falava.

— Mal. Sim. Existia um demônio na sala. O outro guerreiro disse isso.

— Sim. Demônios buscam a destruição da humanidade.

— Por quê?

— Porque desprezam o Altíssimo, e Ele a ama. Não podem atacá-lo de outra forma, de modo que destroem o que Ele quer manter em segurança.

— Por quê? — Ela perguntou de novo, depois corou. — Desculpe. Pareço uma criança de quatro anos de idade. Quem é o Altíssimo? Por que Ele me quer... nos... quer manter em segurança?

Em vez de responder, ele disse:

— Já descobriu o que sou?

Ela o olhou através do escudo espesso de seus cílios.

— Bem, sei que seu amigo é um anjo.

— Mas não eu?

— Você não tem asas.

Ela não quis proferir nenhum insulto. Sabia disso. Declarou simplesmente um fato. Também sabia disso. E ainda uma navalha parecia raspar contra seu peito.

— Vou remover a parte superior do meu manto. Não para machucá-la ou seduzi-la — como se tal coisa fosse mesmo possível — mas para provar o que sou. Tudo bem?

— T-tudo bem.

Ele levantou e, de repente, tremendo, puxou o manto de seus ombros, em seguida, virou-se para revelar as cicatrizes e tatuagens nas costas.

Ela engasgou com... nojo?

— Oh, Koldo. Você é tão bonito.

Não, não desgosto. Maravilha.

Como podia ser isso? Asas eram valorizadas, não pálidas imitações. Ainda assim, ele passou seis dias cobrindo a parte detrás do seu corpo com tinta, colorindo sua coluna com imagens de penas e plumas.

No momento que fez isso, seus poderes regenerativos foram ativados, e ambrosia foi adicionada à tinta para garantir que as cores permanecessem vibrantes. Ambrosia, a que sua mãe usava para adicionar ao vinho. Ambrosia, as flores que ele escolhia para ela.

Ambrosia, um medicamento para imortais.

Cornelia odiava tanto sua vida com seu filho indesejado que se drogava para suportar.

— Você foi ferido. — disse Nicola, vendo as cicatrizes sob as tatuagens. — Como?

— Tortura.

— Oh, Koldo. Eu sinto muito.

Não tinha certeza de como responder. Só sabia que desejava que ela ficasse em pé, se aproximasse e traçasse com as pontas dos dedos sob o tecido erguido.

Mas ela não o fez.

O que foi provavelmente o melhor.

Provavelmente? Não. Definitivamente. Não tinha certeza de sua reação.

Ela disse:

— Então você é um anjo também?

Ele deu de ombros atrás em seu manto e, lentamente, se virou para encará-la. Ela tinha colocado a xícara sobre a mesa ao seu lado, o vapor subindo, caindo sobre ela, criando uma névoa de sonho.

Tinha que estar perto dela.

Em qualquer outro momento, poderia lutar contra a vontade. Mas depois do que ela acabou de passar, se permitiu voltar para o sofá e se agachar entre suas pernas.

— Sou como os anjos em muitos aspectos, mas não sou um anjo. Sou um Enviado.

— Um Enviado. — Nicola repetiu. — O que significa isso?

— Vou explicar o melhor que posso, mas tenho que começar desde o início.

Ela assentiu com a cabeça, ansiosa.

— Por favor.

Aqui vai. Esperava que estivesse pronta.

— Há muito tempo, o mais belo de todos os querubins era Lúcifer, e a ele foi dado o encargo de mais de um terço dos anjos do Altíssimo. Um dia, ele acalentou uma centelha de orgulho... depois outra... e outra e mais outra, até que estava cuidando de sua auto importância como um bebê no peito de uma mãe.

— Conheço a palavra. Querubins. — disse com a sobrancelha franzida. — Querubim é a versão singular, certo? Um tipo real de anjo. E, o Altíssimo é o seu líder, acho.

— Certa em ambos os casos.

— Mas pensei que querubins fossem pequenos, como crianças. E tudo bem, só vou dizer isto... não usam fraldas?

— Lúcifer é mais alto do que eu, mas gosto da imagem dele em uma fralda.

O queixo dela caiu, mas conseguiu expirar.

— Uau! Qualquer um mais alto que você deve ser... quero dizer... ah, eu gosto da sua altura. É apenas certa.

Uma retomada maravilhosa, ele pensou quando continuou sua história.

— Em última análise, Lúcifer tornou-se tão convencido de seu próprio poder que decidiu exaltar seu trono acima do Altíssimo. Ele reuniu os anjos sob seu comando, convencendo-os de que teriam uma vida melhor sob seu reinado. Juntos, atacaram. O Altíssimo os derrotou e condenou os anjos traiçoeiros, expulsando-os dos céus.

Ela estendeu a mão, como se quisesse brincar com as contas em sua barba. Um segundo antes do contato, congelou. Sua mão caiu no colo.

— Fez parte da batalha, ajudando o Altíssimo?

Ele odiava que ela mudasse de ideia sobre tocá-lo... e odiava odiar isso.

— Não. Eu ainda não era nascido.

— Espere. Os anjos nascem?

— Não. Eles foram criados.

— Mas... Ah, eu me lembro. — disse ela com um meio sorriso, que tanto admirava. — Você não é um anjo.

Ela estava começando a entender.

— Então, o que aconteceu depois que os bandidos foram derrotados?

— Naquela época, a terra era diferente do lugar que você conhece, e lar de uma raça de outros seres. E não, não eram humanos. Lúcifer estava tão irritado com o Altíssimo, que infectou esses seres com seu mal. Se tornaram tão vis, a terra foi destruída... Mas os seres sobreviveram no núcleo, no inferno, porque nada do espírito pode morrer. Pelo menos não no sentido que você conhece a palavra.

Seus olhos se arregalaram enquanto ele falava.

— O tempo passou. O Altíssimo recriou e preencheu novamente o mundo, desta vez com os humanos, e foi um verdadeiro paraíso. E para responder à sua pergunta anterior, Ele ama seu povo e quer mantê-la segura, porque Ele te criou. Ele criou você, porque ansiava por companheirismo. Vocês eram para ser Seus filhos amados e para governar a terra como reis.

Ele fez uma pausa, esperando sua reação.

Ela acenou para encorajá-lo a continuar.

— Lúcifer decidiu que não havia melhor momento para um contra-ataque e, através de trapaças e mentiras, roubou as rédeas do controle da terra. Os humanos começaram a procurar a comunhão com ele, a cortar o Altíssimo de suas vidas. — a esperança parecia perdida.

Mais uma vez, ela estendeu a mão. Desta vez, estava tão distraída com sua história que não conseguiu conter a si mesma. Seus dedos deslizaram sobre sua mandíbula.

No momento do contato, ele respirou fundo. Era tão bom. Tão perfeito. Não era de se admirar que os humanos se tocassem sempre que tinham chance. Um aperto de mão. Um tapinha no ombro. Um abraço. Cada ação oferecia conforto. Ele se inclinou para ela, em busca de algo mais profundo, mais íntimo.

Quantos anos ansiou por algo assim? Sonhou com isso? Uma vez, quando criança, até chorou por isso. E agora, aqui estava. Oferecido gratuitamente.

Nunca pare, ele pensou.

— Sinto muito. — Ela ofegou, e deixou cair o braço. — Não tive a intenção de atacar você.

Essa suave carícia era considerada um ataque? O que achava que ele faria com ela? perguntou-se, um pouco mal do estômago.

— Eu gostei. — Koldo tomou sua mão tão carinhosamente quanto possível e a trouxe de volta para o rosto. Pouco a pouco, Nicola relaxou e assim o fez. Em seguida, estava acariciando sua barba por vontade própria, hipnotizada por suas ações. Ele teve que engolir um ronronar de aprovação.

— O que aconteceu depois? — Perguntou ela.

— Lúcifer e seus anjos caídos introduziram doença, pobreza, sofrimento e até mesmo a morte física para o mundo. Quanto aos seres vivos no núcleo da terra, estavam sem corpo, procurando desesperadamente um hospedeiro. Alguns vieram à superfície procurando. São as criaturas que conhece como demônios.

Um tremor de repulsa a envolveu.

— Todos parecem terríveis.

— Eles são. — Mais do que ela percebeu. — Por um tempo, os anjos caídos viveram entre os humanos, chamavam a si próprios de deuses, perseguindo a terra como lazer e atormentando quem desejavam. Alguns até acasalaram com suas fêmeas, e os filhos tornaram-se conhecidos como Nephilim. Eram criaturas horríveis, cheias de ódio e impulsionadas pela ganância. Eram gigantes, selvagens, brutais e... — Como explicar? — Diferentes culturas deram-lhes diferentes nomes.

— Na mitologia. — disse ela, arregalando os olhos.

— Exatamente. Grega, Titan. Egípcia, Norse. De qualquer modo, era o mesmo. Os anjos caídos foram punidos por contaminar a raça humana, e acorrentados sob o inferno, onde não poderiam ser libertados por seus companheiros. Os Nephilins foram aniquilados... pelo menos por um tempo.

Seus braços o soltaram para envolver sua cintura, cortando o contato, e seus tremores se intensificaram novamente. Não com a mesma intensidade do supermercado, mas o suficiente para apressá-lo para junto dela.

Quando ele colocou o cobertor com mais firmeza ao redor de seus ombros, disse:

— Há também demônios no inferno, não para atormentar os espíritos lançados lá. Eles se referem a si mesmos como Altos Senhores e asseclas, mas têm muitos nomes diferentes, muitas diferentes classificações. Alguns preferem ficar aqui.

— Buscando um hospedeiro, você disse.

Ele acenou com a cabeça.

— E alguém para atormentar, para se alimentar a partir dele.

— É isso que querem de mim?

— Sim. Querem bombear e enchê-la de veneno, enfraquecendo suas defesas contra eles, o que lhes permite deslizar em sua pele e em seu corpo. Uma vez lá, lutam para controlar seus pensamentos, suas ações durante todo o tempo se alimentando de suas emoções negativas, a infectando como uma doença.

— Doença. — ela repetiu.

— Sim, mas não há uma cura. Para obtê-la, o Altíssimo lutou e derrotou Lúcifer novamente. — Foi quando o primeiro da espécie de Koldo foi criado, encarregado de escoltar os humanos das trevas de Lúcifer para a luz do Altíssimo.

Ao longo dos séculos, Enviados como Koldo perderam de vista seu objetivo. Mas não mais, ele decidiu. Ele ajudaria Nicola.

— O que é a cura? E por que ainda estou doente? — Nicola perguntou.

— Toda cura vem com instruções. Você ainda tem que seguir as pessoas certas.

Um longo tempo se passou enquanto ela absorvia suas palavras. Finalmente, disse:

— Bem, diga-me as instruções. Estou pronta para segui-las. Honestamente.

Koldo ficou satisfeito com as palavras de Nicola. Não podia exercer o anel da verdade como os outros Enviados, mas ainda assim, ouviu a certeza de suas afirmações. Ela acreditava. Ela aceitava.

Ela queria agir, e a ação era poder.

— Já te dei algumas das instruções. — ele disse. — Os demônios sopraram veneno em seu ouvido, provocando medo. Você abraçou esse medo, o que reforçou o veneno, e muito em breve suas emoções estariam alimentando os demônios. Paz, calma e alegria faz com que o veneno enfraqueça.

— Daí a razão pela qual quer que eu as sinta. — Ela assentiu com a cabeça enquanto falava. — Então... o veneno é como um parasita. Ou um vírus. Tal como a gripe ou Escherichia Coli. Pode crescer, mas também pode morrer.

— Sim. Se os demônios não podem se alimentar, vão fugir. É por isso que guardar seus pensamentos e palavras é tão importante. — Koldo levantou um pouco e girou, abrindo espaço para seu grande corpo no sofá.

Nicola se aconchegou contra ele, surpreendendo-o... Emocionando-o. O rosto descansou contra o ritmo acelerado de seu coração. Ele respirou todo o mel, canela e baunilha.

E oh, altos céus, estava quente e frio ao mesmo tempo. Tremia. Ele... queria mais. Não era o que ela precisava, ele já tinha percebido isso. Seu passado sendo o que era, não tinha o direito de consolar uma mulher. Ele a machucaria demais. Merecia chicotadas, uma surra, não uma carícia. Mas não conseguia se afastar.

— Você é tão quente. — ela disse.

Você é tão macia.

Ela estendeu a mão, os dedos novamente brincando com as extremidades da barba.

— Então, mesmo meus pensamentos importam?

— É claro. Seus pensamentos podem criar uma tempestade de fogo ou um mar calmo.

— Mas não posso controlar...

— Pode. Se o pensamento errado vem, force-se a pensar em outra coisa. — É um bom conselho... por que não segui-lo, também?

Ela suspirou.

— E sobre a água que deu à Laila?

— Curou seu corpo e expulsou o demônio dela, mas o que vai acontecer se for atacada por outros demônios? Será que vai, mais uma vez ceder à toxina e ao medo?

— Ela tinha um demônio dentro dela?

— Sim. — Talvez ele devesse compartilhar esse pedaço específico da notícia mais suavemente.

Vários momentos se passaram em silêncio.

— Eu não tinha ideia. Era tão ignorante. — Um tremor passou pelo seu corpo, e lágrimas quentes ensoparam o tecido de sua túnica.

Lágrimas? Tinha que ver seu rosto. Koldo espalmou sua cintura, ergueu e abriu suas pernas com o joelho. Ela engasgou quando ele a acomodou em seu colo, e só então percebeu a intimidade pura da posição.

Ele engoliu um gemido. De prazer. De dor.

De necessidade. E pesar.

— Medo de mim? — Perguntou asperamente. Disto. Ele preferia morrer do que causar a mesma reação que seu chefe.

— Não. — Os olhos dela estavam úmidos, vítreos, mas as lágrimas pararam. — Só que... Eu nunca estive nesta posição antes.

Nunca?

Um sentimento de possessividade o encheu, mais quente que fogo, mais letal que uma inundação.

— Tem outras perguntas para mim?

— Tenho — Ela enganchou os dedos sobre a gola de sua túnica e esfregou, como se experimentasse a mesma compulsão ao toque. Sua pele roçou a dela, fresca onde ele estava superaquecido, suave onde ele estava calejado.

Devo envolver meus braços em torno dela e incitá-la mais perto... mais perto ainda... então encaixar meus lábios contra os dela... beijá-la... saboreá-la. Devorá-la.

Não o fez. Um pensamento o deteve. Não podia colocar seus lábios sujos, feios numa fêmea tão inocente.

Mas... e se fizesse isso mesmo? Se cedesse? E se ela gostasse?

A tentação chegou, percebeu, sussurrando tão lindamente.

Ele resistiu. Seu frágil coração recebeu muitos estímulos num único dia. E talvez, somente talvez, ele o fizesse.

— Vou responder mais uma. — resmungou. — Apenas uma. Não quero sobrecarregar você.

Ela pensou por um momento e concordou.

— Será que os demônios parecem macaquinhos?

Dois circuitos pareceram conectar em sua mente, e ele franziu a testa. Havia apenas uma maneira que pudesse saber como um dos demônios com classificação mais baixa parecia.

— Viu o do escritório?

— Ele e muitos outros. Dois estavam rondando em torno de Laila — ela admitiu trêmula.

Sim, ele viu os dois. Um estava dentro dela. O outro era seu "amigo". Fugiam cada vez que Koldo se aproximava.

— Vão continuar a voltar para ela enquanto os alimentar.

Tensão irradiava dela.

— E se formos atacadas por outros?

Koldo sentiria isso. Mas... e se não o fizesse... ou se não pudesse chegar até ela?

— Invoque o Altíssimo. Ele vai mandar quem estiver mais próximo para ajudá-la. —Germanus nunca seria tão poderoso quanto o Altíssimo, e não ouviria os gritos de um ser humano. Mais que isso, estava limitado ao número de tropas que pudesse enviar.

— Como sabe com certeza?

— Ele prometeu resgatar todos os humanos que O chamam, e Ele sempre cumpre suas promessas.

— Todo humano. Mesmo eu?

Suas sobrancelhas se franziram até a linha do couro cabeludo — ou o que foi sua linha fina.

— Você é humana?

— Ha, ha. Sabe que sou. Espere. Eu sou certo?

Não sorria.

— Você é. E agora, estou terminando esta conversa. — Para o bem de ambos. — Há tarefas a serem cumpridas, e espero ser homem suficiente para fazê-las.

 

Nicola olhou como Koldo andou por toda a casa, consertando tudo que estava quebrado, reforçando as fechaduras das portas e janelas, e até mesmo riscando dentro e fora para estocar seus armários e geladeira com comida. Ao mesmo tempo, estava tonta.

Os monstros que viu quando criança eram reais.

Demônios a envenenaram e sua irmã.

O cara que não conseguia parar de pensar não era nem humano.

Ela se concentrou sobre ele — o menos complicado. Era naturalmente careca ou raspou a cabeça? Não havia nenhum indício de penugem em seu couro cabeludo, o que a levou a acreditar que não havia folículos. Mas isso pouco importava. Tão bonito como era não precisava de cabelo.

E agora que sabia como suas costas eram sob seu manto, o achou mais que bonito, o achava de tirar o fôlego. Correndo paralelamente pelos dois lados da coluna vertebral havia tecido cicatrizado com cerca de doze polegadas de comprimento e quatro polegadas de espessura. Em algum ponto de sua vida, ele teve asas. Algo ou alguém — um demônio? — as cortou fora. Agora, a tinta vermelha ramificava de ambas as cicatrizes, formando as asas gloriosas. O projeto era tão incrivelmente detalhado que cada pena individual contava. E os músculos abaixo daquelas tatuagens... doce misericórdia.

Como podia um homem que parecia tão feroz como ele ser tão amável? Ou o homem e o Enviado estavam interligados? Não podia haver um sem o outro?

E o fogo latente em seus olhos? Será que daria lugar a um de perigo? Ou desejo?

Ele terminou de estocar seus armários e se encostou na parede do meio entre a cozinha e a sala de estar. Cruzou os braços sobre o peito e balançou a cabeça.

— Então sabe como relaxar.

Há-há.

— Se quer me mimar, vou deixar que cuide de mim.

— Na verdade, gostaria de te questionar. Por que trabalha tão duro?

O que estava realmente perguntando: Por que trabalha tão duro, e ainda vive em tal miséria?

— Contas médicas. — Foi tudo o que ela disse.

Ele abriu a boca, fechou-a, em seguida, expulsou uma respiração pesada.

— Quero pagar suas contas. — Disse hesitante, provavelmente esperando que ela voasse para fora do sofá e o atacasse por se atrever a sugerir uma coisa dessas.

Como se tal tipo de proposta fosse ofendê-la.

— Não estava insinuando ou qualquer coisa assim. — Disse ela com um sorriso. — E espere um segundo. Você tem dinheiro?

— Um monte de dinheiro. Os Enviados são recompensados ​​por seu trabalho. E não gostaria de nada mais que fazer isso.

— Mas...

— Planejava pagar suas contas de uma forma ou de outra. Dessa forma, posso pegar os avisos vencidos empilhados na cesta que rotulou como Ruína, com seu conhecimento, em vez de roubá-los e talvez ganhar uma punição.

Ter um peso financeiro tão grande retirado dos ombros... Não ter que viver com medo de perder sua casa, ter os serviços essenciais cancelados, ser capaz de pagar por Twinkies Hostess reais, em vez de uma imitação seca...

— Oh, Koldo. — Ela saltou do sofá e se jogou contra ele. Primeiro, ficou rígido. Depois de alguns segundos, no entanto, relaxou e passou os braços em torno dela. — Sim, sim, mil vezes sim. Aceito. Não há de quê, por sinal. — Brincou ela, num esforço para mascarar o queixo tremendo. — Quer dizer que sou uma pessoa generosa, e não quero permitir que seja punido.

Ele bufou, e era um som tão lindo.

— Então isso agrada a você? Faz-te feliz?

— Faz. — O coração trovejou em seu peito num boom, boom, boom ritmado. — Sei que deveria me sentir culpada também, parece que estou te usando pelo seu dinheiro ou algo assim, mas simplesmente não pude conter a emoção.

Ele endureceu de novo, dizendo:

— Se sentir um pingo de culpa, vou rescindir minha oferta.

— Ouviu a parte sobre ser incapaz de conter a emoção, certo? E você é rico, não é? Isso é o que significa “um monte”, certo?

— Sim, sou rico. — disse ele, a rigidez o deixando.

É claro que era. Um suspiro sonhador a deixou.

— Tem que ser o homem mais sexy que já conheci. — Beleza, inteligência e cheio de grana.

Ele ficou imóvel.

As palavras ecoaram em sua mente, e ela quase gemeu. Não. Não, não, não. Não acabou de dizer isso em voz alta. Ela não podia ter dito isso em voz alta.

— Quero dizer, tem que ser o homem mais doce que já conheci.

Ele olhou para ela, em silêncio.

— Você me considera sexy? — Ele finalmente perguntou.

Ela considerava. Ela realmente disse isso em voz alta. Calor encheu suas bochechas. Para esconder, ela ocultou o rosto na curva de seu pescoço.

— O que faria se eu dissesse que sim? — Ele poderia tê-la tocado hoje, poderia tê-la abraçado, mas não esqueceu o que ele disse. Eu não a quero dessa forma.

— Eu te diria... que teve uma noite muito agitada, e que terá que esperar até amanhã. — Sua voz era rude. — Ai mostrarei minha reação. — E o que, exatamente, mostraria a ela?

Seu coração acelerou quando a afastou para longe dele e caminhou até a mesa da cozinha, onde a Cesta da Ruína o esperava. Ergueu-a bem alto e ela desapareceu.

Ela piscou, dizendo:

— Uh, o que aconteceu?

— Coloquei os itens dentro de uma bolsa de ar.

Ela se aproximou dele e estendeu a mão, tentando sentir o local onde o cesto foi visto pela última vez, mas era muito baixa. Mesmo quando pulou. E pulou novamente.

Seus lábios se contraíram nos cantos.

— Algum problema?

— Nenhuma piada sobre baixinhos, Gigantor.

— Muito bem. Permita-me. — Koldo envolveu as grandes mãos em sua cintura.

A força do seu punho tirou um suspiro assustado dela, embora ele não fosse nada mais além de suave quando a levantou do chão. Ela apalpou o ar.

— Não há nada de sólido. — disse ela, espantada.

— A bolsa é uma pequena porta entre o mundo espiritual e o natural. — Lentamente, ele a colocou de volta abaixo.

— Reino?

— Um para seu mundo, e outro para o meu.

— Isso é tão legal. — Ela se virou, com intenção de voltar ao sofá.

Ele estendeu a mão e segurou a parte de trás do pescoço dela, obrigando-a a ficar. Não, fazendo mais que isso. Puxando-a mais perto da dureza de seu corpo. Calor rolou por ela, e deu outro suspiro.

— Não tenha medo. Sou forte o suficiente para forçá-la? Sim. Vou fazer isso? Não. — Seu olhar perfurou todo o caminho até sua alma. — Nunca vou te machucar, Nicola.

— Eu sei. — disse e estremeceu. Ele era tão intenso. Espalmou as mãos sobre o peito dele, a suavidade de seu manto, a dureza de seus músculos.

— Disse a mim mesmo que não faria isso, enquanto a memória do que aconteceu hoje fosse tão fresca. Mas, então, tenho minhas mãos em você. — Ele se inclinou, se aproximando cada vez mais, seus lábios a um suspiro de distância dos dela. — Agora tenho um desejo de substituir o mal com o bem. É um desejo que não quero mais resistir.

Não conseguia recuperar o fôlego.

— Eu gosto... da maneira que pensa.

— Então, devemos começar de novo. Me acha sexy?

Ela engoliu em seco, e suavemente admitiu:

— Sim.

Só com isso, suas pupilas se dilataram, o negro consumindo o ouro.

— Muito bem. Minha reação. — Ele abaixou a cabeça e apertou a boca contra a dela, primeiramente um contato suave, não invasivo, e ainda assim a cabeça girava. Então, levantou a cabeça e olhou em seus olhos. Tudo que viu deve tê-lo encorajado, porque, mais uma vez abaixou a cabeça. Desta vez, sua língua a penetrou, saboreando-a, e ele gemeu. Ansiosa por mais, ela se abriu para ele.

Ele mergulhou nela, dobrando sua cabeça, rolando hesitante sua língua contra a dela. No momento do contato, uma cascata de calor derreteu seus ossos, e ela se afundou nele e seu corpo de repente pressionando contra o dele.

A força do beijo aumentou, acelerou.

Isto era... era...

— Bom. — ele murmurou e Nicola não tinha certeza se estava fazendo uma pergunta ou ordenando que gostasse.

— Perfeito. — Mas perfeito não parecia a palavra adequada.

Magnífico. Inebriante. Requintado. Não, não eram boas o suficiente, nenhuma delas.

Sua língua encontrou a dele, impulso por impulso, seus dedos deslizando através da barba, fechando atrás do pescoço, apertando firmemente por vontade própria.

O horror do dia desapareceu. O Sr. Ritter deixou de existir. Havia apenas este momento e Koldo. Ele estava certo. Ela precisava de algo bom para limpar o mal.

— Estou machucando você? — Ele perguntou, e havia algo em seu tom. Algo que ela nunca ouviu antes. Vulnerabilidade, talvez.

— Não. Juro.

— Não estou te dando o suficiente?

— Está me dando muito.

Ele levantou a cabeça. Linhas de tensão se ramificavam de seus olhos e boca, e uma gota de suor escorria pela sua têmpora.

— Meu sangue está aquecido, praticamente em chamas já.

— O meu também.

— Está satisfeita?

— Muito. — Ele estava... não tinha certeza de seu desempenho? Era esse o problema?

Ele voltou a se abaixar, não apenas beijando-a, mas consumindo-a. Suas grandes mãos percorreram suas costas, acima e abaixo, para cima e para baixo, em seguida, montou os cumes de sua coluna vertebral. Tão forte como era, conseguiu manter os toques leves.

— Koldo, eu quero... eu preciso... mais.

— Nicola! — Laila chamou e sua voz cortou a tensão.

Koldo se sobressaltou, em seguida, a afastou dele, olhou para longe dela e rolou seus ombros, como se tivesse asas que quisesse abrir.

— Vou voltar. — disse ele firmemente.

Espere. O quê? Não!

— Aonde vai?

Ele a ignorou, dizendo:

— Ordeno que tire o dia de folga amanhã. Para descansar.

— Eu vou. Mas...

— Não. Sem mas. Não haverá argumentos. Lembra-se?

Ele estava usando seu trato contra ela, percebeu. Então, o que mais podia dizer?

— Não se preocupe comigo. Vou manter a calma, estar em paz e semear alegria. — Sua voz estava tremendo. — E obrigada. Por tudo.

Ele acenou com a cabeça, mas a ação foi dura.

— Faça-nos um favor e proteja seus pensamentos e suas palavras.

— Eu vou.         

— Ótimo. — Ele balançou a cabeça novamente, olhou para seus lábios, deu um passo para ela, deu mais um passo e desapareceu.

Seu coração falhou uma batida.

— Co Co?

O que vou fazer com esse homem?

— Estou indo, La La.

Ela correu para o quarto com as pernas bambas, apenas para fazer uma parada, de repente, esqueceu de tudo. A visão que a saudou trouxe uma nova rodada de lágrimas aos seus olhos. Sua bela irmã estava aqui, em casa, e totalmente lúcida. Ela estava sentada, com os cabelos loiros emaranhados ao redor de seus ombros delicados. Sua cor era mais saudável do que antes e brilhante, seus olhos cinzentos cintilantes.

Nicola nunca pensou em ter isso de novo.

— Quem está aqui? Porque, seja quem for, gosto de sua voz. Muito forte. Muito intensa. — disse Laila, esfregando o sono dos seus olhos antes de mexer as sobrancelhas. — Muito Hubba Hubba.

O quanto deveria dizer a ela? Nicola se perguntou. Quanto podia Laila aguentar agora, quando não acreditava em mais nada que Nicola disse sobre o assunto?

Será que as respostas realmente importavam? Se Koldo ia ensinar a Laila como sobreviver, e iriam, as duas teriam que chegar a um acordo.

Nicola respirou fundo.

— O que sabe sobre anjos e demônios? — ela perguntou.

 

Koldo lampejou para a caverna onde escondeu sua mãe, permanecendo na periferia da porta da caverna. Ele ouviu. Junto com um gotejamento e fluxo de água, podia ouvir Cornelia resmungando sobre o quanto o odiava.

... Podre, assim como seu pai. Vive só para me fazer sofrer.

Ele apertou os dentes. Como podia vê-lo dessa forma? Não agora que tinha toda a razão, mas antes, quando era um menino tão inocente, tão desesperado por sua afeição. Depois de todos estes séculos, ainda não entendia isso.

Ele cometeu o erro de perguntar apenas uma vez.

Tudo sobre você me enoja! Você é mal. Uma abominação. Mas já sabe disso. Eu já lhe disse.

Mil vezes ou mais. Mas sou inocente. Sangue de seu sangue.

Você carrega minha vergonha, nada mais.

Suas mãos se fecharam em punhos. O que Nicola pensaria dele agora, estando aqui com uma mulher que sofria em suas mãos? Nicola, que gostou de tocá-lo. Nicola, que olhou para ele como se fosse digno. Nicola, que o beijou com tanta paixão e pediu mais.

Teve-a em seus braços. Teve seu corpo pressionado contra o dele e seu cheiro no nariz. Sentiu o pulsar estrondoso de seu batimento cardíaco. Que precisamente criou uma violenta tempestade dentro dele, inegável, quase incontrolável.

Suas mãos começaram a queimar tão ferozmente quanto seu sangue, como se vindo à vida pela primeira vez. Em vez de afundar num poço de desespero — as mãos manchadas de sangue sobre uma mulher que merecia algo melhor — ele se divertia pelo conhecimento. Os Enviados produziam a Essência, um pó fino que esperava sob a superfície de sua pele. Koldo nunca o produziu livremente.

Logo, isso mudaria. Se continuasse por este caminho, em breve se infiltraria através de seus poros, deixando um brilho em tudo o que desejava. Um ouro que somente aqueles no reino dos espíritos seriam capazes de ver. Seria um aviso para os demônios. Toque o que é meu, e sofrerá.

Se sua irmã não os tivesse interrompido...

Bem, não ia pensar sobre isso agora. Transportou-se para a casa de Nicola, pousando no quintal. Sua mãe tinha comida e água suficiente para durar uma semana. Koldo não ia abandoná-la por muito tempo, mas daria mais alguns dias para si mesma. Quantas vezes ela o deixou no palácio, levando os servos com ela? Incontáveis. Aos seis anos de idade, teve que caçar e matar sua própria comida para sobreviver. Ela merecia este abandono e muito mais.

E não se sentiria culpado pela forma como a tratava. Não faria isso!

Procurou no quintal por qualquer sinal de ladrões — humanos ou demônios — e felizmente não encontrou nenhum. Quando passou pela janela do quarto, uma fresta entre as cortinas permitiu uma olhada dentro. Fez uma pausa.

Nicola e Laila estavam sentadas na cama. As duas fêmeas tinham seus cabelos enrolados num coque espesso, e uma gosma verde cobrindo seus rostos. Estavam conversando e rindo e pintando as unhas dos pés uma da outra. Faziam uma pausa a cada poucos minutos para pegar um travesseiro e bater na outra.

Os machos que comandou ao longo dos anos estavam certos. Toda vez que duas fêmeas humanas se reuniam, tinham uma luta de travesseiros.

Tal circunstância nunca antes o intrigou. Agora, sua atenção estava cravada em Nicola. Ela estava tão relaxada e feliz como ele precisava que estivesse. E estava totalmente encantadora. A tempestade se acalmou em seus olhos, deixando uma brilhante luz matutina. Um céu perfeito e sem nuvens.

Ele segurou sua cintura fina nas mãos. Envolveu a mão em seu cabelo para tomar tudo o que estava disposta a dar. Talvez a tivesse um dia. Embora, como ela reagiria? Tão avidamente como fez esta noite? Ou seria cedo para pensar em convencê-la da verdade — que ela merecia alguém melhor?

O chocalho da cauda de uma cobra reverberou atrás dele chamando sua atenção. Uma lufada de enxofre com cheiro de fumaça encheu seu nariz.

Terror picou Koldo quando girou e tirou uma espada de fogo. Dois demônios Serp se aproximavam dele, um à esquerda, um à direita, e afundaram suas presas em suas coxas. Em menos de um piscar de olhos, uma onda de veneno diluído disparou através de seu sistema, valentemente tentando enfraquecê-lo.

Vai ter que fazer melhor que isso.

Soltou sua espada, fazendo com que a arma desaparecesse, e se agarrou às criaturas.

— Seu pai disssse Olá. — um assobiou.

— E adeussss. — o outro riu.

Koldo prendeu os dois juntos e os jogou no chão. Eram longos e grossos, como serpentes, com chifres retorcidos crescendo em suas cabeças, olhos vermelhos e pelos intercalados ao longo de suas escamas. Não havia criatura mais hedionda. Seus corpos se contorciam enquanto lutavam para escapar um do outro — e, também dele.

Tarde demais. Recuperou sua espada longa o suficiente para fatiar, removendo ambas as cabeças. Então, ficou ali, pasmo.

Seu pai disse Olá?

Seu pai disse adeus?

Os Serps eram demônios aliados de seu pai sim, mas Nox não podia ter ordenado um ataque. Estava morto. Koldo tinha certeza disso.

Tinham que estar mentindo. Demônios sempre mentiam. Talvez esperassem distraí-lo. Por que... Por quê? Tinham amigos por perto?

E com certeza, tinham. Quando se endireitou, dois outros serps voaram das sombras. Os dois eram seguidos por outro. E outro. E outro. Todos convergindo para ele.

Foi seguido pelas criaturas, percebeu. Sabiam aonde ele viria, seguiram sua trilha e esperaram o momento perfeito para agir.

Koldo agarrou tantos corpos contorcidos quanto possível e os jogou na grama. Uma, duas, três vezes. No entanto, durante todo o tempo vinham ainda mais para ele, mordendo-o, jogando mais veneno dentro dele.

Ele formou a espada de fogo. Silvos eclodiram na primeira explosão de luz, e as criaturas vis se afastaram dele. Deu um passo para frente, preparado para caçar... só para parar. Seus joelhos desabaram. As pernas já não conseguiam suportar seu peso. Ele assistiu, horrorizado, como os demônios deslizavam em direção a casa.

Atacariam Nicola e sua irmã, e as meninas, fracas como estavam, desmoronariam.

Não posso deixar que isso aconteça.

Koldo convocou toda sua força e se esforçou para ficar em pé. Nunca usou sua capacidade de enviar seus pensamentos na mente de um de seus colegas soldados. Odiava a ideia de contato mental, uma ligação, alguém capaz de romper as barreiras da sua mente, como Zacharel sempre fazia, e, talvez, ler seus pensamentos mais íntimos. Mas, para proteger Nicola...

Preciso... ajuda, ele projetou a um guerreiro específico.

Esperava mil perguntas. Em vez disso, a resposta foi simples.

Onde está?

Ele recitou o endereço de Nicola, quando com as chamas transformou dois demônios em cinzas. Outros se arrastavam até os tijolos, alguns se dividindo para a esquerda, alguns para a direita, outros se dividindo acima. Koldo lampejou para um lado, depois o outro, então para o telhado, sempre golpeando com sua arma.

— Uau! — Uma voz familiar, de repente, exclamou. — Papai está aqui, e é hora da surra.

Axel pousou no jardim da frente, abrindo as asas em suas costas. Correu para frente, tirou a espada de fogo e cortou, talhou, golpeou o inimigo. Demônios corriam para longe dele, mas continuou, girando e golpeando, não permitindo que um único inimigo escapasse. Ele girava, se movia abaixo, se movimentava ao redor... ao redor... O mundo estava girando, girando, girando tão rapidamente, Koldo pensava. Mais rápido e mais rápido.

Ofegante, enfraquecendo ainda, se transportou atrás de Axel e caiu de joelhos. Vigiando as costas do guerreiro.

— Cara! Pensei que precisava de ajuda para marcar uma garota. — disse Axel, batendo no ombro dele e quase enterrando seu pescoço profundamente na grama. — Acho que foi o último deles, mas vou fazer uma verificação dupla em torno do perímetro.

Vou apenas esperar aqui. Ele sofria terrivelmente.

Ele ouviu passos. Assobiando.

Horas mais tarde, ou talvez minutos, Axel voltou e pairou sobre sua forma inclinada — Devo ter caído até o solo — seu azul elétrico brilhando com uma luz estranha, do outro mundo.

— Perseguiu peitos grandes ou algo assim? Porque, cara, isso é totalmente seu negócio.

— Não. E não a chame assim. — Sua garganta estava inchada, e mal conseguia forçar as palavras.

— Malvadão. Não sabia que tinha feito uma reivindicação oficial.

Ela era sua responsabilidade, mas fez a reinvindicação, mesmo que ainda não a cobrisse com sua Essência? Talvez. Desprezava a ideia de outro pensamento masculino sobre ela, olhando para ela, ou a tocando.

— Obrigado. Por vir, quero dizer.

— Não tem problema. Estava apenas passando tempo com alguém sem importância.

Alguém. Legal.

Infelizmente, esse foi o último pensamento de Koldo antes que sua mente ficasse em branco.

 

— Sua cara feia me enoja. — sua mãe gritou.

— Vacilou numa matança hoje. — Rosnou o pai. — Deve ser punido.  

Ame-me. Porque não pode me amar?         

— Queria que nunca tivesse nascido! — Sua mãe.

— Vou fazer você se arrepender do dia em que nasceu. — O pai dele.

Tenha orgulho de mim. Só quero que tenha orgulho de mim. Pelo menos uma vez.

— Você não é um Enviado. Não merece respirar o mesmo ar que eu. — Mais uma vez, sua mãe.

— Ainda vou fazer de você um soldado. — Mais uma vez, seu pai.

Por favor... por favor...        

Koldo despertou gradualmente, com a cabeça pesada como um bloco, seus músculos doloridos e tensos. Quando a luz plena finalmente surgiu, piscou rapidamente, em seguida, olhou ao redor. Uma caverna estéril com paredes irregulares manchadas de sangue o cumprimentou. O ar estava frio, o calor de sua respiração criando uma névoa espessa na frente de seu rosto. Estava deitado em cima de um estrado de pedra, nenhuma manta sobre ele.       

Esta não era uma de suas casas, pensou, ficando na vertical. Vertigem o atacou, mas abriu caminho através dela, inalando, exalando.

— Devagar agora. — ouviu Axel dizer.

Axel. Familiar. Ele relaxou, mas só um pouco, sua atenção cortando através da escuridão e encontrando o guerreiro agachado no canto, destroçando uma pedra contra um bastão curto e largo para criar picos perigosos nas extremidades.

— Onde estou? — Perguntou Koldo.

Olhos de cristal azul se ergueram e ficaram em cima dele por apenas um segundo antes de voltar para a arma.

— Só no melhor lugar de sempre: meu lugar. Te carreguei até aqui. E, a propósito, estará recebendo a conta para meu colete ortopédico novo. Alguém já te disse que pesa tipo, 4 toneladas?

— Quanto tempo? — Ele resmungou.

— A conta não terá apenas uma página, talvez oito, tem minha palavra. O bom médico disse...

— Não. Há quanto tempo estou aqui?

— Ah! Três dias.

Três dias? Nicola estava sozinha há três dias. Depois que prometeu gastar pelo menos uma hora por dia com ela. Mas agora podia gastar muito mais que uma hora, não podia? Zacharel a colocou aos constantes cuidados de Koldo.      

Ele podia ter falhado com ela no primeiro dia.

Koldo jogou as pernas para o lado do estrado, e apesar do retorno da tontura, levantou-se. Esperou até que sua visão clareasse, em seguida, olhou para si mesmo. Vestia uma longa túnica branca, o material tão limpo quanto ele. Na verdade, estava tão limpo como se tivesse acabado de tomar algumas centenas de chuveiradas.

— Não se preocupe. — disse Axel, segurando o bastão, fechando um olho e concentrando a atenção numa das extremidades da arma. — Verifiquei sua garota. Está bem. E quero dizer em todos os sentidos da palavra.

Ignorou a última parte.

— Os serps ficaram longe dela?

— É claro. Estavam muito mortos para se moverem. Mas ela tem dois asseclas por lá.         

Dois lacaios estavam circulando em torno de Nicola? Direita e esquerda voltaram? Se assim fosse, teria de lidar com eles — permanentemente.

— E a outra garota? A loira?

— Espere. — Carrancudo Axel deixou a arma de lado e olhou para ele. — Quer dizer que a ruiva é a sua?

— Sim. Por quê? Aconteceu alguma coisa? Será que ela o viu? — O queria?

Raiva floresceu...

— Uh, não. Não. Nem um pouco. Ela está bem, também.

... e retrocedeu.

— Tem certeza? — Koldo perguntou, procurando qualquer sinal de mentira. O bater dos seus lábios. O enrugamento do nariz. A mais profunda tristeza. Axel não exibia nenhum desses.

— Tenho. — Facilmente afirmou. A expressão relaxada.

Muito bem. Os demônios estavam lá por Laila então, e ele já sabia disso.

— Obrigado. — disse ele, apenas um pouco relutante.

— Vou cobrar. Não se preocupe.

Koldo diria o mesmo, e não podia culpá-lo.

— Cobre de mim. Não dela. — Prometeu pagar suas contas, não aumentá-las.

Axel revirou os olhos.

— Como se houvesse alguma dúvida. Ela não tem nada que quero. — Ele limpou as mãos na toalha sobre sua coxa antes de escavar um pedaço de melão da bacia ao lado dele. — Aqui. Coma.

Koldo pegou a fruta e mordeu um pedaço do centro suculento. Sabores doces explodiram em sua língua, e seu corpo ronronou agradecido. Enviados podiam morrer de várias maneiras, e a fome era uma das grandes.

Agradecendo ao Altíssimo, Koldo teve a precaução de estocar os armários de Nicola antes de deixá-la. Ela estaria bem alimentada durante sua ausência. E agradeceria ao Altíssimo para sempre por Axel estar disposto a vir em sua defesa.

Mas Koldo queria fazer mais que confiar em outro Enviado para uma coisa dessas. Se qualquer coisa como isto acontecesse novamente — não que fosse acontecer. Koldo nunca cometia o mesmo erro duas vezes —, Axel pode estar muito ocupado para verificar Nicola. Ele podia perder o interesse, ou decidir que Koldo não tinha nada de valor para oferecer em troca.

Vou ter que marcá-la, Koldo pensava. Não apenas com a essência, mas com tinta. Ele poderia codificá-la.

O Altíssimo fez uma promessa de aliança de sangue com os Enviados. Em troca de obedecer suas leis, receberiam proteção. Koldo não foi expulso dos céus, portanto, a promessa ainda se aplicava a ele, e o código estava ainda gravado em seu coração. E porque Nicola era seu dever, sua responsabilidade, a promessa agora se estendia a ela. Mas teria que dar-lhe um sinal exterior da mesma.

Ele teria o código gravado em sua carne, e o código seria capaz de criar uma barreira entre ela e quaisquer demônio que ousasse se aproximar dela. Tudo que teria que fazer era se concentrar nas sequências numeradas durante um ataque. Quanto mais olhasse para suas tatuagens, mais forte o poder do código se tornaria, até que, finalmente, se expandiria, cobrindo todo o corpo dela e a protegendo.

Mas se um demônio conseguisse distraí-la...       

Não vai acontecer, Koldo assegurou-se. Ele a treinaria para isso, também.

— Então, por que os serps foram atrás de você? — Axel perguntou.

— Gostaria de saber a resposta para isso, também. — Seu pai ainda estava lá ou não?

Koldo não viu o corpo de Nox, apenas assistiu como granada após granada disparava na direção dele, o desprevenido macho sem saber para se transportar para longe. Houve vários booms múltiplos e uma intensa onda de calor com chamas encharcando o chão e saltando para o céu.

Deveria tê-lo matado de perto e pessoalmente. Mas Koldo tinha uma escolha. Destruir Nox cara a cara — ou destruir o homem e tudo que trabalhou num só golpe. Koldo escolheu o último.

Quando os fogos acabaram por morrer, cavou os escombros e encontrou ossos demais para contar.

Se Nox sobreviveu, por que estava se mostrando agora? Como seguiu Koldo até a casa de Nicola?

— Então, o que pretende fazer com a ruiva? — Axel perguntou.

— Por que vive num lugar como este? — Koldo retrucou. — Claramente prospera no que provavelmente considera a adoração de seus companheiros, e ainda assim se isola.

Uma pausa.      

— Então, concordamos em não questionar um ao outro. — o guerreiro finalmente respondeu.

— Concordamos. — Ambos tinham seus segredos. Koldo acabou com o fruto. — E agora tenho que ir.

— Certo, mas hum, bem. — disse Axel, de pé. — Pode querer caçar sua menina e dar-lhe um duro sermão. Normalmente não iria mexericar, mesmo sobre um ser humano, mas se eu ficar quieto isso poderia realmente voltar a me assombrar. Ou seja, vai querer socar minha cara bonita.

Divagando? Agora?

— Só me diga!

— Ela está planejando ir a um encontro com outro cara.

 

Irritado, Koldo se transportou para a casa de Nicola. Não sabia o que ia fazer quando os dois estivessem cara a cara. Só sabia que tinha que vê-la. Mas ela não estava lá, e outro lampejar provou que não estava em seu escritório. Jamila e outra menina, a loira com origens misteriosas, estavam em seu escritório, e as duas estavam jogando maldições uma para a outra — enquanto a menina tinha um homem preso à mesa de Nicola, os dedos enroscados em seu pescoço, sua calça e cueca agrupadas nos tornozelos.

— Dormindo com todos os caras daqui? — Jamila cuspiu. — Sério? Esse é seu plano?

— Parte dele. — a loira sorriu. Pelo menos sua roupa estava no local. — Por que não me faz um favor e vai embora? E da próxima vez bata antes de entrar no escritório.

— Claro, eu vou. A propósito, seu plano é estúpido.

— Sim, bem, seu cabelo é estúpido.

Fêmeas.

Jamila mostrou os dentes numa carranca.

— Por que fazer isso? — Perguntou ela, acenando com a mão na direção do macho. —Quero dizer, realmente.

— Quando a namorada descobrir o que ele fez, ela vai se machucar, sentir vontade de chorar.

— Ele não tem uma namorada.

— Tudo bem. Ele tem um interesse amoroso.

— E quer magoá-la, por quê?

A loira sorriu maldosamente.

As bochechas do macho ficaram vermelhas brilhantes quando lutou para se sentar, mas a menina era obviamente mais forte e conseguiu segurá-lo sem qualquer esforço.

Koldo entrou no mundo natural.

— Onde está Nicola? — Ele exigiu.

Todos os três olhares se viraram para ele.

A loira parou por um momento, momentaneamente sem palavras. Em seguida, ela balançou a cabeça, piscou e sorriu lentamente, perversamente, um convite e uma declaração.

— Bem, olá, bonito. O que posso fazer para ajudar?

O macho aumentou o fervor de sua luta. Ele teria falado, mas a gravata estava recheando sua boca.

Jamila fez uma careta para Koldo, como se sua situação fosse culpa dele.

— Você! Apesar da Pequena Senhorita Humana ser seu dever, Zacharel me disse para ficar aqui.

Um detalhe que ele não gostava.

— Vou perguntar novamente. Onde ela está?

— Sua irmã apareceu e foram almoçar. Mencionaram um parque.

— Esqueça sobre ela. — disse a loira. — Vai estar melhor comigo. Vou cuidar de você de uma maneira que ela nunca irá. Apenas me dê uma chance.

Um parque. Muito bem, ia procurar cada um nas proximidades.

Sem uma palavra, lampejou do escritório. O homem estava muito distraído durante sua chegada para notar sua súbita aparição, mas certamente não ia perder a partida de Koldo.

A loira gritou um protesto, e realmente parecia com raiva. Não que ele se preocupasse com isso, também.

Uma vez que limpou a área da recepção, sem conhecimento dos olhos curiosos que estavam presos nele, lampejou para o parque mais próximo do escritório. Procurou. Não encontrou nenhum sinal dela. Em seguida, tentou o mais próximo de sua casa. Procurou. E...

Viu.

Laila estava ao lado dela. As duas em pé ao longo de um caminho de paralelepípedos, conversando e rindo e comendo chocolates. O par de demônios empoleirados nos ombros de Laila o avistou, pularam para o chão e correram para longe.

Um pouco da tensão desapareceu de ombros de Koldo. Este tipo de interação era bom para ambas as fêmeas. Iam relaxar, se divertir, expurgando o veneno. Ia deixá-las assim, decidiu. Sem gritar com Nicola por marcar um encontro com outro homem.

Ele lampejou para sua casa e começou a empacotar suas coisas. Koldo a queria instalada em uma de suas casas até o final do dia. Não haveria nenhuma discussão, nenhum debate. E isso não tinha nada a ver com sua decisão de entregar sua alegria a outro homem.

Nada.

Nicola provavelmente choraria por causa das ações de Koldo. Teria que acalmá-la, fazer alguma coisa para deixá-la feliz — mas também teria que endurecer seu coração. A mudança era para melhor. Seria capaz de protegê-la melhor.

Mas teria que trazê-la de volta para o encontro, não é? Por que.. e se o homem, de fato, trouxesse sua alegria? O que, então? Ela ia precisar dele. Ele ia ajudá-la a purgar ainda mais a toxina do demônio.

Lampejos de raiva dançaram através de Koldo, e se viu respirando muito mais fortemente, lutando contra a vontade de socar as paredes.

Se cedesse ao seu temperamento, a casa de Nicola iria cair.

Ele foi um pouco áspero com as caixas na parte detrás do seu armário, as coisas dentro tinindo juntas. Verificou para ter certeza que não quebrou nada e encontrou uma caixa de fotos. Quanto mais folheava as fotografias, mais suas ações suavizaram. Havia fotos de Nicola e sua irmã, e as duas com seus pais, bem como um pequeno menino ruivo. Parecia com elas, devia ser um parente, mas... quem era ele? Um irmão? Nicola nunca o mencionou, e ele nunca esteve por perto. Em todas as informações que Koldo descobriu, nada foi mencionado.

Intrigado, Koldo cavou mais fundo dentro da caixa. Encontrou artigos sobre a morte de seus pais e descobriu que um motorista bêbado bateu em seu carro, matando o casal, bem como seu filho mais novo, Robby, e que o motorista foi liberado da prisão no ano passado.

Nicola perdeu mais do que Koldo já imaginava. Perdeu um irmão de seis anos de idade, saudável, com um futuro brilhante, um menino que provavelmente ocupava o primeiro lugar em seu coração.

Nicola devia desprezar o homem que arruinou sua vida. Devia sonhar com sua morte dolorosa. Tinha que desejar vingança. Ela simplesmente não fez o que era devido por falta de tempo e recursos para qualquer coisa sobre isso. Talvez Koldo ferisse o macho em seu nome. Sendo punido ou não. Talvez, então, ela gostasse dele mais do que deste outro...

Ele balançou a cabeça violentamente, parando o pensamento antes que pudesse se formar totalmente. Koldo não estava interessado em ganhar a afeição de ninguém. Tentou isso antes e falhou miseravelmente. Jurou nunca mais fazer isso de novo, e era um voto que ia manter. O pagamento das contas de Nicola não era uma tentativa de ganhar alguma coisa, disse a si mesmo. Ele precisava relaxar Nicola, isso era tudo.

Acabe com isso.

Sim. Ia mantê-la dentro... da Província do Panamá Chiriqui, decidiu, e mandou a maioria de suas coisas para uma de suas casas mais opulentas. Havia exuberantes montanhas verdes em todas as direções, e um céu azul cheio de inchadas nuvens brancas. O tempo era primaveril e constante durante todo o ano. A comida era fresca, orgânica e caseira, e iria nutrir tanto Nicola quanto sua irmã, na melhor das hipóteses. Iam se desenvolver ali — gostassem disso ou não.

Desembalar seus pertences levou muito pouco tempo. Ela tinha tão pouco. Bem, ia comprar para ela e sua irmã um novo guarda-roupa. E as roupas não seriam uma tentativa de ganhar seu afeto também, mas um simples gesto de bondade. Um presente de boas-vindas-para-a-casa-nova.

Mas o que ele sabia de moda humana? Nada.

No entanto, conhecia alguém que sabia.

Koldo se mostrou no foyer da casa de Zacharel e gritou uma saudação. Alguns segundos depois, a névoa se afinou e Annabelle apareceu, vestindo uma camiseta e jeans. Seu cabelo preto-azulado estava preso num rabo de cavalo, o lembrando de Nicola, e seus olhos castanho-dourados brilhavam alegremente.

Ela sorriu quando o viu.

— Ei, Koldo. Zacharel não está aqui.

— Não estou aqui para vê-lo.

O sorriso dela se transformou numa careta de confusão, e olhou atrás. Quando tornou a se concentrar nele, bateu no peito.

— A mim?

— Sim. Preciso de um favor.

— Um favor?

Será que questionaria tudo o que ele dissesse?

— Mas estamos sem água. — acrescentou.

— Sei disso. Eu preciso... — Urgh! Ia realmente fazer isso? Se perguntou, em seguida, imaginou Nicola num top rendado cor de rosa e um short minúsculo que viu uma vez uma fêmea humana vestindo. Um tremor estranho correu de seu nariz ao umbigo. Sim, realmente ia fazer isso. — Preciso levá-la às compras.

Annabelle esfregou suas orelhas.

— Espere. Acabou de dizer limpar? A sua casa está suja e quer uma empregada doméstica? Porque sei que um guerreiro como você nunca diria minha palavra favorita com “C”.

— Será que alguém disse a palavra com C? — Uma mulher gritou. — Porque não pude deixar de ouvir na conversa que estava escutando.

Sons animados ecoaram. Passos acompanharam. Em seguida, quatro das mulheres do exército de Zacharel deram passos através da névoa. Charlotte, Elandra, Malak e Ronen.

Preferia lutar contra uma horda de demônios que enfrentar essas mulheres. Eram soldadas treinadas, monstros no campo de batalha, frias, assassinas impiedosas, e ainda assim gostavam de Twittar incessantemente sobre nada.

— O que procura? — Perguntou Charlotte, uma morena linda com feições ousadas e de pele escura. — Uma espada nova? Bem, uma boa notícia. Tenho uma que sei que vai adorar, e com meus amigos no pacote de benefícios, custará apenas uma porção de sua alma.

— Disse a vocês para ficarem lá atrás e ficarem quietas. — Annabelle as repreendeu.

— Quer dizer que não foi apenas uma sugestão? — Disse Ronen, uma megera de cabelos negros viciada em pipoca.

Elandra era a tímida do grupo, e olhou para o chão, onde rodava a barra do seu manto. Era, de longe, a mais bela mulher que Koldo já viu. Ou foi, até que conheceu Nicola. Do alto de sua cabeça até as solas dos seus pés, Elandra lembrava um diamante vivo. Seu longo cabelo branco brilhava. Seus olhos de prata brilhavam. Sua pele pálida brilhava.  

Malak era a única do grupo com uma falha, embora a escondesse muito bem. Havia uma grande cicatriz redonda no centro de sua testa, provavelmente de uma lesão que recebeu quando era muito jovem para se regenerar. Seu cabelo, que estava tingido de um verde brilhante, ostentava franja grossa para escondê-la.

— Dê ao homem uma chance de explicar. — disse Annabelle.

As fêmeas o olharam, expectantes.

Koldo não tinha ideia do que fizeram para terminar no Exército da Desonra de Zacharel. A menos que suas personalidades irritantes fossem o fator decisivo.

Ele olhou para Annabelle, dizendo:

— Minha... mulher. — Espere. Era isso que Nicola era para ele? Não tinha certeza, considerando que logo sairia para um encontro com outro homem. E seus dentes estavam se alongando como os de seu pai, quando o homem estava furioso?

Teria que ter mais cuidado.

— Tenho uma amiga — ele acrescentou um pouco mais duramente do que pretendia e parou. Ela não era isso, também. — Tenho uma humana, uma mulher, e está precisando de roupas novas.

As enviadas exclamaram entusiasmadas. Ronen até pulou para cima e para baixo e bateu palmas.

— Sempre fofocas suculentas. — disse ela. — Koldo tem um amigo transexual.

— Aposto que ela tem dez metros de altura e seiscentos quilos de músculos. — Charlotte exclamou.

— Vão. Dê-nos um pouco de privacidade. — disse Annabelle, as enxotando.

Embora franzissem a testa e fizessem beicinho, obedeceram.

— Certo. Deixe-me ver se entendi. — disse Annabelle. — Quer me levar, em vez de sua mulher, amiga, humana, fêmea, para escolher e comprar essas roupas?

Sim. Ele ia ferir seus sentimentos agora. Podia arruinar sua felicidade recém-descoberta.

— Não desejo ter que esperar. — disse ele com os dentes cerrados. Verdade. Queria isso feito, fora do caminho. — E... não sei o que as fêmeas preferem.

Sua mão voou sobre o coração, e ela sorriu.

— Zacharel já teve o mesmo problema comigo. Então, por que não compra para ela o que prefere vê-la vestindo?

— Vou comprar o que gosto, sim... — porque não seria capaz de evitar — mas gostaria que tivesse escolhas. — Tinha que fazer isso certo. Dessa forma, não teria nenhuma razão para recusar o presente.

— Sabe mesmo seus tamanhos?

Ele ergueu as mãos.

— Ela é pequena, assim. Delicada.

Annabelle riu com som despreocupado.

— Oh, está em grandes apuros, amigo. Mas, sim, tudo bem. Vou ajudá-lo.

O alívio foi tão potente quanto uma droga.

— Por um preço, é claro.

— Não. Nenhum. Sei que é como gostam de operar, mas isto é gratuito. Apenas me convide para o casamento, e vamos terminar bem.

 

— Tem que provar isso. — Laila enfiou um pedaço de chocolate na boca de Nicola, antes que ela tivesse tempo para formar uma resposta.

Chocolate contém cafeína, e muito raramente se permitia esse luxo. Mas quando se dava... A generosidade pegajosa a encantou, e fechou os olhos para saborear. Um erro. Ela e sua irmã estavam em processo de passear ao longo do caminho de paralelepípedos sinuosos pelo parque, e esbarrou numa lata de lixo.   

O baque trouxe a atenção de Laila para o entorno, e sua gêmea explodiu em risos.

— Co Co doida, chutou uma lixeira.

Embalagens vazias, sanduíches meio comidos e copos de Starbucks se derramaram sobre o concreto, mas Nicola sorriu enquanto limpava a bagunça. Como era maravilhoso ouvir o divertimento de sua irmã. Quando terminou, buscou o gel antibacteriano em sua bolsa e espalhou generosamente nas mãos.

— Tem chocolate no queixo. — disse Laila, tentando se acalmar, mas falhando. O cinza de seus olhos brilhava maravilhosamente. O sol brilhante, lançando raios dourados sobre a pele que não viu o exterior em meses, a iluminava, fazendo irradiar saúde e vitalidade.

Nicola limpou o rosto com as pontas dos dedos.

— Melhor?        

— Muito. Agora está quase tão bonita quanto eu. — Fingindo uma vaidade que nunca possuiu, Laila estudou suas cutículas dizimadas. — Repare que eu disse quase.

— Alguém precisa de óculos. Seu cabelo é loiro, mas suas raízes são vermelhas. — Nicola respondeu, atirando seu rabo de cavalo no ar. — É horroroso.

Laila engasgou com indignação fingida.

— Quero que saiba que esta aparência é a última moda agora. Estilo total e sofisticação.

— Não sigo tendências. As faço.

Sorrindo, sua irmã estendeu a mão.

— Você é tão totalmente chata. Venha, caminhe comigo.

Uniram os dedos e retomaram seu passeio. A tranquilidade do momento ajudou a difundir as memórias do ataque, algo que ela não compartilhou com a irmã. Memórias continuavam tentando subir para a superfície de sua mente enquanto estava no chuveiro, enquanto selecionava as roupas íntimas de hoje e enquanto preparava o café da manhã.

Uma vez, quase se quebrou e chorou. Mas então se lembrou do beijo de Koldo, seu doce e suave beijo. Sua incerteza. Sua vulnerabilidade. Seu desejo de ter certeza que ela estava se divertindo. E tudo mudou.

Ele era um guerreiro, grande e forte. Houve um tempo que pensaria que nada poderia abalar sua confiança. Mas então aconteceu.

Como se sua opinião fosse importante para ele.

— Eu podia ouvi-la no hospital, sabe. — disse Laila, investigando um assunto que já havia evitado.

— Sério? — Ela sempre perguntava. Sempre esperava.

— Sim, e você me manteve lá mais tempo do que eu queria ficar. Sempre que eu me sentia afastar, você estava lá me puxando de volta.

— Isso me faz feliz.

— Mas não a mim. Estava pronta para ir.

As palavras foram como um soco no estômago.

— Bem, nunca vou me arrepender de ter segurado você La La. Eu te amo.

— Eu também te amo. — o sorriso de Laila estava triste. — Mas Co Co, se estivermos de novo naquela situação, quero que me deixe ir.

Nicola parou, forçando a irmã a fazer o mesmo. Elas se enfrentaram, bem ali no meio do caminho, fazendo com que as pessoas atrás delas se desviassem para o lado num esforço para evitar bater nelas.

— Não. — Nicola disse com um aceno de cabeça. — Não vou. Vou lutar por você, com cada pedaço da minha força. — E Koldo lutaria com ela. Certo?    

Ela queria acreditar nisso, mas ele parecia tê-la abandonado. Prometeu dar-lhe uma hora por dia, para ensiná-la, treiná-la, e então desapareceu para sempre, deixando-a acreditar que lamentava mostrar tanto sua vulnerabilidade.

E por que não deveria? Ela não tinha nada a oferecer. Ele era duro, feroz e experiente. Ela era fraca, indefesa e ignorante da verdade.   

Exasperada, Laila abriu os braços.

— Seja prática sobre isso.

Esperar que uma garota de 23 anos morresse de doença cardíaca era prático?

— Koldo diz que temos que...

— Urgh! Koldo isso e Koldo aquilo. — Laila apoiou as mãos em sua cintura demasiada pequena. Ela ganhou peso desde sua liberação do hospital, mas não o suficiente. — Ele é tudo que sempre fala. Quem quer que seja, está mentindo para você, meu amor. Porque não pode ver isso? Ele não é um anjo mais do que sou a fada dos dentes.

— Está certa. Ele não é um anjo. Ele é um...

— Sei, sei, mas isso não importa. Se está tão preocupado com nossa saúde, onde está? — o tom de sua irmã suavizou quando acrescentou: — Por que não está aqui, dando-me esta informação ele mesmo?

Os ombros caíram.

— Eu não sei.

Uma mãe empurrou um carrinho ao redor delas quando Laila estendeu a mão e puxou o final do lóbulo da orelha de Nicola. No fundo, um cão latiu.

— Ele não é um Enviado ou o que quer que seja. É um vigarista.

— Vi a explosão dentro e fora do ar.

— Viu uma ilusão.

— Espere até encontrá-lo.

Laila estalou a língua com uma mistura de exasperação e piedade.

— Querida, ele está apenas procurando te vender uma cura milagrosa.

— Não. Está me dando uma cura milagrosa e pagando nossas contas.

— É o que pensa.

Nicola engoliu um suspiro. Não importava o que dissesse, ou o ângulo que tentasse, sua irmã rejeitava tudo sobre Koldo. Ela chamou os Enviados de "uma ideia romântica". Zombou do conceito de demônios.  

Frustração e chateação tentou fixar residência no interior de Nicola — nenhuma das quais acolheu, por ordens de Koldo. Só... Tinha que passar para sua irmã. A vida de Laila estava em perigo. Ela precisava de salvação, e Nicola faria o que fosse necessário para salvá-la.

Laila sacudiu a cabeça, dizendo:

— Só acredita nele porque tem uma queda por ele. Seus olhos ficam sonhadores cada vez que fala sobre ele.

— Não.

— Ficam sim.

— Não!

— Ficam sim!

Laila deixou cair à caixa vazia de doces e começaram uma briga de tapas, rindo como as meninas que costumavam ser antes da doença, do medo e da perda cobrar um custo tão terrível. Mas Laila ficou séria muito rápido, muito ocupada lutando para respirar.

Nicola pegou a caixa e a jogou na lata de lixo mais próxima, depois pegou o braço da irmã para encorajá-la a continuar. Ela perdeu esse tipo de interação. Alguns anos atrás foi para a faculdade da comunidade local e Laila optou por não "desperdiçar o pouco tempo que tinha". Então Nicola conseguiu um emprego em Estella e Laila focou em sua arte. Em seguida, Laila ficou doente. Bem, mais doente. Depois disso, Laila parou a pintura e começou a passar cada minuto livre dentro de um consultório médico ou na cama.

— Eu te juro. — disse Laila. — Não há um demônio me seguindo.

— Por certo que neste segundo, não.

Outro sorriso triste foi lançado em sua direção.

— Está vendo coisas de novo, isso é tudo. Isso vai parar, assim como antes.

Não, não ia. Não desta vez. Os olhos espirituais de Nicola foram abertos, e nunca os fecharia novamente. Mas não queria passar a hora do almoço discutindo.

— Então, ouça. Já disse sim para isso, e adoraria que se juntasse a mim. Apenas... prometa que vai manter a mente aberta quando eu falar sobre isso, ok? Por favor.

As sobrancelhas de Laila se uniram com confusão.

— Do que está falando?

— Um cara no trabalho me convidou para sair. Convidou nós duas na verdade. Um encontro duplo, mas nada de estranho. — Ela se apressou a acrescentar. Alguns homens ouviam a palavra gêmeas e suas mentes iam a clubes de strip e etiquetavam sexo grupal.      

— Agora estou intrigada. Vá em frente.

— Ontem liguei para ele e aceitei. Para mim, não para você. — E só debateu durante três horas antes de pegar o telefone — e mais uma hora depois disso. Acabou se cansando, e talvez estivesse um pouco ressentida por esperar que Koldo aparecesse. De esperar por algo mais que uma conversa e um beijo dele, sonhando com o que poderia ter acontecido se Laila não os interrompesse, de imaginar como ele olharia para ela da próxima vez que a visse. Com ternura? Ferozmente? Ou tão friamente como um professor com seu aluno?

E se não autorizasse o encontro? Ou, se já estava comprometido com alguém e eternamente fora do mercado?

Uma névoa de fogo rolou através de sua mente, e experimentou o que suspeitava ser uma raiva assassina. Se esse ser desprezível tinha uma namorada...

— Uh, Co Co?

— O que? — Ela rosnou.

— Nada. Nada. — disse Laila, segurando as mãos com as palmas para fora. — Só me diga quando estiver pronta, e nenhum minuto antes, e não vou saber o que é esta mini transformação. Quer dizer, num segundo estava conversando com minha grande irmã, e no seguinte, estava olhando para uma assassina em série.

Acalme-se. Acalme-se. Seu coração estava batendo de forma irregular, e se não tivesse cuidado ia desmaiar. Ou pior, fortalecer a toxina do demônio. E, realmente, isso era bobagem. Estava furiosa por nada. Koldo não era do tipo trapaceiro. Era do tipo estável que dizia que foi feito para você.

— Essa é a irmã que conheço e amo. — disse Laila. — Então... continuando nossa conversa anterior. Aceitou um encontro com um colega de trabalho.

— Sim. E adoraria ligar de volta e aceitar em seu nome. O nome do outro cara é Blaine e ele é...

— Pare aí. O resto das definições não importa. Estou dentro!  

Depois do último relacionamento desastroso de Laila, Nicola esperava um pouco de resistência.

— Sério?

— Com certeza. Não tenho certeza de quanto tempo mais tenho para viver, então sim, vou fazer tudo que puder.

— Isso inclui ouvir o que Koldo tem a dizer, espero.

Laila mostrou a língua.

— Vamos ver. Então, o que esse cara do seu escritório teve que fazer para levá-la a dizer sim? Sempre foi alheia à população masculina.

— Não fui. Só não queria ter que lidar com todas as complicações. — E, ok, sim, o argumento saiu um pouco insípido, considerando que Koldo trouxe mais complicações que a maioria.

Um cara sem camisa e de short azul sorriu quando correu passando por Laila.

— Ei, linda.

— Oi. — Ela devolveu o sorriso com um de seus, e até acenou, fazendo-o ir devagar e depois parar, claramente determinado à abordagem. Sua irmã salvou o problema e fechou a distância.

Suspirando, Nicola saiu do caminho para esperar. Mais cinco minutos, e ela teria que voltar para o trabalho.

Ela evitou um homem passeando com seu cachorro e...

Viu um Koldo barbeado?

Não, não Koldo, percebeu com decepção. A poucos metros de distância havia um homem com o mesmo tipo de corpo que Koldo, com uma cabeça careca e feições arrojadas quase assustadoras em sua similaridade. Este macho usava uma camisa preta e calças de couro preto, e ambos estavam moldados à sua pele. Ele era, talvez, dez ou vinte anos mais velho que Koldo, a pele ao redor dos olhos e da boca com linhas. Era bonito, mas estava sem a barba sexy, ondulada.         

Embora, deviam ter alguma relação. Não havia como dois caras serem tão parecidos e não ter a mesma linha de descendência da família.

Ela acenou, apenas para congelar no lugar quando ele estendeu a mão para acariciar... uma cobra. A grande serpente com pelos saindo sob as malvadas escamas verdes e os longos chifres de multipontos normalmente só vistos em cervos. O resto do corpo da criatura enrolava em torno do homem, a cauda balançando e chacoalhando. Seus olhos eram vermelhos como rubis — e a observavam atentamente.     

Não uma cobra. Essa coisa não podia ser uma cobra. Um.. demônio?

Flutuava na brisa uma leve pitada de enxofre no ar. Oh, sim. Um demônio. E os demônios causavam doença, Koldo disse, e provavelmente milhares de outras coisas que não queria fazer parte.

De nenhuma maneira esse homem era algum tipo de Enviado.

— Laila. — ela chamou com voz rouca.

— Só um segundo. — respondeu Laila. — No momento estou memorizando um número muito importante.

O atleta riu.        

O careca sorriu para Nicola, mas não era um sorriso agradável. Um olhar tão escuro quanto à noite a percorreu da cabeça aos pés, lembrando-a do lascivo Sr. Ritter. Seu coração, já amplificado pelo chocolate, retrocedeu a uma batida irregular.

Nicola correu para frente e agarrou a mão de sua irmã, puxando-a alguns passos atrás.

— Vamos lá. Temos que sair daqui.

— Mas... — começou a correr.

— Por quê? — Laila disse, virando as costas para se concentrar em Nicola. — O que há de errado?

— Vê aquele homem ali?

Laila olhou para a direita.

— Careca? Sim. Então?

— E quanto à sua cobra de estimação? Você a vê?

— Uh, ele não tem uma cobra de estimação. Ou um cachorro ou um gato ou um pássaro. Querida, você está bem? Está pálida e trêmula.

Sua irmã ainda não conseguia ver o demônio, então.

— Vamos. — Ela girou e acelerou o passo, arrastando Laila com ela.

— O que está acontecendo? — Sua irmã exigiu.

— Vou contar mais tarde. — O parque estava lotado de mães e seus filhos, pais e seus cães, bem como empresários e mulheres que saíram para seu horário de almoço como ela, na esperança de absorver um pouco de sol antes de rastejar para dentro das sombras da rotina diária. Ela manobrou em torno deles, mas não estava no seu melhor e esbarrou em alguns.

Ouviu "Ei!" e "Cuidado!" várias vezes, e teve que murmurar algumas desculpas precipitadas. Seu sangue esfriou a um nível perigoso, mesmo enquanto sua pele ameaçava superaquecer. Suor deslizava em sua espinha.

— Devagar — Laila bufou.

Ela lançou um olhar atrás delas. O homem ainda estava lá, ainda sorrindo para ela, e ainda acariciando o demônio. Mas não as estava seguindo. Aliviada, ela abrandou... diminuiu... e finalmente parou.

Ofegante, Laila pressionou a palma sobre o coração.

— Pode me dizer o que foi agora?

Ela abriu a boca para fazer exatamente isso — então outro demônio escorregou da árvore ao seu lado, mostrando longos dentes afiados com gotejamento nas extremidades, e as palavras formaram um nó irregular no centro de sua garganta, só deixando escapar alguns sons gorgolejantes.

Nicola tropeçou para a direita, puxando Laila com ela.

— O que você...

Uma mulher saiu detrás de um tronco grosso, e Laila fechou a boca. A recém-chegada era careca, como o homem. Sua pele era pálida como leite, um contraste marcante com a névoa negra escorrendo de seus poros.

— Vê isso? — Nicola exigiu de sua irmã. — A névoa?

— Não. Mas a mulher...

Os cantos dos lábios da mulher se levantaram num sorriso lento... Revelando possuir presas.

O coração de Nicola falhou uma batida quando ela, mais uma vez, se lançou em movimento, indo em outra direção.

— Estão atrás de nós. — respondeu asperamente. — Temos que sair daqui!

— Quem… são eles? — Sua irmã mal conseguia pronunciar as palavras.

Nenhuma delas estava acostumada a esse tipo de atividade.

— O... que... eles ... querem?

Nicola olhou para trás. A mulher permanecia ainda sob a árvore, mas o demônio optou por seguir Nicola e estava se aproximando rapidamente, seu corpo peludo e com escamas se arrastando sobre o chão, seus chifres tremendo.

O que ele queria com ela? O que faria com ela se a pegasse?

Outro homem careca entrou em seu caminho, sorriu malignamente e ela gritou. Ela empurrou Laila para a esquerda, na única direção desconhecida. Um segundo... um terceiro... um quarto demônio as seguiram desta vez, escorregando, rastejando tão rapidamente como se acabassem de farejar a refeição da tarde: dois ratos Gimpy.

— Nicola, por favor. — pediu Laila. — Não posso... muito... mais.

Ela queria que sua irmã visse o que estava acontecendo ao seu redor, para finalmente acreditar, mas também não queria que sua irmã visse. Medo provavelmente a consumiria, e o medo não lhe faria bem agora.

Ninguém parecia perceber o que estava acontecendo. Pessoas continuavam com seu dia, sorrindo, rindo e soltando pipas, completamente inconscientes de outro reino atualmente repleto de maldade.

— Não posso... — Laila chegou à extremidade física e se curvou ofegante. — Tem que...

Nicola voltou atrás, pulou na frente de sua irmã e abriu os braços, esperando que os demônios a atacassem. Mas se surpreendeu. Deslizaram até parar a poucos metros de distância, cascalho e galhos voando em torno deles. Vis olhares vermelhos se travaram nela.

Nicola lutou contra uma onda de tontura, sua visão escurecendo. Não agora. Por favor, agora não. As criaturas as circularam, mas não podia se mover com eles e continuar a proteger Laila também, pois havia muitos deles para vigiar ao mesmo tempo.

— Vão embora. — ela exigiu.

Um sibilar para ela. Outra cuspida para ela pulverizando o que escorria de suas presas. Os outros exibiram dentes afiados manchados de vermelho, como se o sangue fosse uma obsessão toda manhã.

— Vão embora ou... ou... vou pedir ao Altíssimo por ajuda. — Sim. Isso foi o que Koldo disse para fazer.

Para seu choque total, o sibilar e o cuspir se transformaram em choro, e as criaturas começaram a se afastar dela.

Isso já estava funcionando.

— Altíssimo. — ela gritou, atingida por uma onda repentina de confiança. — Se Você pode me ouvir, poderia realmente usar sua ajuda agora.

Os demônios congelaram no lugar — antes de lentamente se afastar dela.

Estava funcionando, percebeu.

— Altíssimo. — Nicola repetiu mais alto, e terror caiu sobre as criaturas. Eles aceleraram seu ritmo, desesperados para fugir dela. Mas não foram rápidos o suficiente. Dois guerreiros desconhecidos se lançaram do céu e voaram para o parque. Suas asas eram da cor do azul celeste e usavam vestes do branco mais brilhante.

Nicola jogou o braço em volta de sua irmã trêmula, que ainda estava curvada, ofegante.

— Tudo vai ficar bem agora. Eu sei disso.

— Meu coração...      

— Basta respirar dentro... fora ... Boa menina. — Assistiu de olhos arregalados, como os Enviados — Anjos? — desembainhavam espadas de dois gumes e atacavam. Os demônios corriam em direções diferentes, muitos para os dois guerreiros conterem. Mas ela deveria saber que iam encontrar uma forma. Tremeluziam para um e cortavam, em seguida, para o outro e cortavam, em seguida, para outro e outro, seus adversários rapidamente diminuindo.

— Você os vê? — Nicola perguntou.

— Ver quem? — Laila disse através de suspiros.

Bem, o que responder a isso?

Por fim a batalha acabou, e ninguém do outro time foi poupado.

Os guerreiros devolveram suas armas para suas bainhas e olharam para Nicola. Inclinaram a cabeça em saudação, abriram suas asas e, sem uma palavra, voaram de volta ao céu.

 

A porta da frente da casa de Nicola se abriu com as dobradiças gemendo em protesto. As duas fêmeas marcharam para dentro.

— ... Quase me matou — Laila estava dizendo.

— Não, estava protegendo você. — retrucou Nicola.

— Sim, mas de quê?

Finalmente. Elas haviam retornado.

Koldo levantou do sofá, a única peça de mobiliário que deixou atrás, pois não tinha espaço para isso. Pouco tempo atrás, sentiu que Nicola estava em apuros. Mas se transportou ao parque e ela não estava lá. Ele lampejou para todos os outros lugares que ela gostava de visitar, mas não teve sorte.

Ele voltou para sua casa, onde esperou. E esperou.

Agora, o alívio não conseguia ofuscar sua raiva. Onde ela estava? O que aconteceu com ela? Precisava saber. Não porque ela era seu dever. Não porque seria penalizado se algo acontecesse com ela. Mas por que... Só por que...

Ele a procurou num único olhar. Sua cor estava mais elevada que o habitual, e a preocupação naqueles olhos vidrados eram uma tempestade escura. Seu cabelo estava uma bagunça, emaranhado e ostentando vários pedaços de grama.

Nicola deu uma parada abrupta, e Laila bateu nas costas dela.

— Koldo. — Nicola disse com exasperação dando lugar ao nervosismo. Ela passou a mão abaixo pelo comprimento de seu rabo de cavalo. — Está aqui.

Um momento se passou em silêncio. Ele queria exigir respostas, mas segurou a língua. Gritaria, e ela o temeria, o que só fortaleceria as toxinas do demônio.

— Você é Koldo? — Laila perguntou com tom incrédulo. Ela tinha zero de cor em suas bochechas e fadiga embaçava seus olhos. — Mas se parece com... Uh! não importa. Não há nenhuma maneira que eu possa dizer isso e não insultá-lo. E estou divagando. Sinto muito. É que é tão grande e... bem, não importa.

Seu nome foi mencionado. Ele se perguntou o que foi dito.

— Espere. Não fale nada. — Carrancuda Nicola virou num círculo. — Acho que fomos roubadas. Minhas fotos sumiram. Também meus vasos, cobertores e travesseiros. Tudo, menos meu sofá.

Posso ter uma conversa sem levantar a voz. Eu posso.

Uma pequena fêmea humana não podia irritá-lo mais que sua mãe e seu pai já o irritaram.

— Não foi roubada. Mudei tudo para minha casa, no Panamá. Agora, quero que sente no balcão da cozinha pelos próximos dois minutos. Ou mais. — Ele não esperou sua resposta, apenas caminhou para o cômodo desejado.

Para sua surpresa, ela seguiu seus passos, até mesmo pegou em seu pulso. Ele podia facilmente puxar a mão. Em vez disso, se deleitou em seu primeiro contato com ela em três dias. Muito tempo. Tinha que sentir essa pele macia, suave, e aquelas mãos — não mais frias, mas quentes — todos os dias ou não seria feliz.

— Ou então, o quê? E o que está acontecendo? — Ela exigiu. — Por que levou minhas coisas para o Panamá?

Ele se virou e apoiou suas mãos na cintura dela. Levantou-a, girou-a enquanto ela soltava um grito, e a colocou na cadeira mais próxima. Aí. Estava onde a queria, o equipamento de tatuagem no balcão e pronto para uso.

Quando ele juntou as peças da pistola disse:

— Não quero que viva aqui por mais tempo. Não é seguro.

Ela procurou seu rosto, e suspirou.

— Aparentemente, não é seguro em qualquer lugar.

Não era a reação que ele esperava.

— Por que diz isso?

— Estávamos no parque e vários demônios nos perseguiram.

Seus instintos estavam certos. Ela esteve em perigo. E ele não conseguiu protegê-la. Poderia tê-la perdido. Estúpido, tolo, insensato, homem ignorante! Sim. Isso era o que era. Ele a deveria ter procurado mais diligentemente. Devia ter feito alguma coisa. Qualquer coisa.

— Te machucaram?

— Não. — Nicola respondeu, e ele foi capaz de relaxar. — Você me disse para invocar o Altíssimo, e eu fiz. Ele enviou as tropas. Quem estava mais perto, acho, como você prometeu.

Obrigado, Altíssimo.

— Demônios, suspeito. — Laila entrou na cozinha. — Tudo que vi foram gigantes. E sou a irmã gêmea, a propósito. Só para você saber, não sou tão ingênua como minha querida Co Co. Desculpe querida. — ela disse. — Não quero dizer qualquer ofensa.

Nicola ofereceu um pequeno, embora genuíno sorriso.

— Eu sei. Também sei que vai comer essas palavras um dia.

— Os demônios são muito reais, garanto. — Koldo disse, abrindo os pacotes de tinta.

— Sim, e você é um Enviado. — Laila apoiou as mãos na cintura. — Olha, está tirando proveito de uma inocente... Humf!

Ele deixou cair a pistola e a agarrou, puxando-a para a linha dura de seu corpo. Com um último olhar para Nicola, que saltou da cadeira, possivelmente para tentar libertar sua irmã irritantemente faladora, ele lampejou para o telhado de um centro de treinamento de Germanus no reino dos céus.

O enorme edifício estava empoleirado no topo de uma nuvem com quilômetros de extensão, as bordas das nuvens mergulhando no céu azul-piscina, as estrelas cintilantes, mesmo durante o dia. Laila olhou abaixo, abaixo, abaixo, para a terra muito distante, e gritou com medo horripilante.

— Ainda acha que estou me aproveitando? — Não esperou por uma resposta, mas lampejou com a garota para dentro do edifício, para a sala onde os Enviados eram ensinados a lutar contra demônios. Uma vez lá, Koldo permaneceu no reino espiritual, forçando Laila a abrir os olhos interiores e finalmente ver.

O jovem treinando balançou uma espada de fogo, dois envexas correram do chão ao teto, do teto para a parede. O guerreiro tinha asas brancas com tiras finas de ouro, uma indicação de seu status de guerreiro. Portadores da Alegria possuíam asas de um branco homogêneo. Os da Elite, como Zacharel, possuíam asas de ouro homogêneo.

Embora totalmente crescido, os demônios eram do tamanho de um garoto de 10 anos de idade, com corpos humanoides grossos e peles verdes como lodo tóxico. Tinham ganchos em vez de mãos, e longas caudas finas com farpas.

Laila tremeu contra Koldo, sua boca abrindo e fechando, pequenos sons ofegantes emergindo.

— São de verdade — disse Koldo — e são o mal. Vagam pela terra, perseguindo os seres humanos como você, e gostariam mais que tudo de arruinar sua vida e encurtá-la pela metade. E você ia consentir.

— Eu... eu...

— Posso vencê-los, sim. Estou aqui para ajudá-las. — Tendo pena dela, lampejou de volta para a sala de Nicola e deu-lhe um pequeno empurrão na direção do corredor. — Pode ir para o seu quarto agora.

— Q... quarto. Sim. Obrigada. — Com os braços envolvendo a cintura, ela tropeçou no caminho de volta ao quarto. A porta se fechou.

— O que fez com ela? — Nicola exigiu, caminhando para frente e batendo os punhos em seu peito.

Leves como seus punhos eram, mal registrou o impacto.

— Provei que demônios, de fato, existem.

— Devia ter suavizado isso para ela. Laila teve um dia difícil, e esse tipo de estresse não pode ser bom para seus níveis de toxinas.

— Algumas pessoas podem ser suavizadas. Outras devem ser empurradas. Agora vamos voltar para a cozinha. Vou tatuar seus braços e vai me dizer tudo que aconteceu no parque.

— Espere. O quê? Tatuar meus braços? — Nicola gritou.

Ele a instigou para frente.

— Para sua proteção contra os demônios.

Um pouco atordoada, ela caiu na cadeira.

— Vou falar sobre o parque — ela disse —, mas primeiro vai me contar sobre essa mudança. Então vamos falar sobre a tatuagem.

— Minha casa é fortalecida contra o mal. — Ele era dono de uma nuvem de defesa, e essa nuvem agora cercava a propriedade, agindo como uma barreira contra o resto do mundo. — A sua não é.

— Mas...

— Nada de mas. Fui atacado da última vez que estive aqui. Por isso fui embora. Estava em recuperação.

Um suspiro deslizou dela.

— Se machucou?

— Sim.

— Oh, Koldo. Sinto muito. Não tinha ideia. — Ela colocou a mão sobre a dele, um gesto de bondade, remorso.

Um gesto que provocou em seu sangue um flash de calor incrível.

— Não foi culpa sua. — Disse ele, com a voz áspera. Era responsável por sua própria distração. — Agora, o que aconteceu no parque?

Ela apoiou os cotovelos no balcão, terminando o contato, e ele queria uivar.

Estava tão necessitado dela?

Pressionando sua língua contra o céu da boca, ele terminou com a tinta. Escolheu um vermelho profundo e rico que, à primeira vista, a maioria das pessoas poderia assumir que ela estava sangrando. Mas não se importava exatamente com que os outros pensavam. Queria que sua tatuagem combinasse com a dele.

Ela era seu dever, antes de qualquer coisa. Não havia mais que isso.

Pela primeira vez em sua vida, achou que provou uma mentira e fez uma careta.

— Esses demônios... — Ela estremeceu. — Não eram como os macacos. Eram piores. Eram cobras! Deslizaram das árvores e no chão e correram atrás de nós, e...

— Serpentes! — Koldo exclamou com o estômago se retorcendo.

— Com chifres! E pelos! Nos encurralaram, cercaram, e foi aí que chamei o Altíssimo, e Ele enviou anjos... ou talvez Enviados. Tinham grandes asas azuis. Um azul como nunca vi antes, radiante e cintilante, quase como uma cachoeira de glitter. E suas vestes eram do branco mais brilhante que já vi.

— Anjos de verdade. — Ele acenou com a cabeça. — Continue.

— Houve uma batalha, e então, boom! Os anjos venceram, os demônios se foram e Laila e eu fomos capazes de sair do parque sem ferimentos.

Então. Os serps retornaram para Nicola no dia que Koldo acordou de seu envenenamento. Isso não podia ser uma coincidência.

— Nunca vai se arrepender de ser tatuada. — disse a ela. — O que colocarei na sua carne vai protegê-la, como os anjos as protegeram hoje, mas também vai fazer o que eles não podem. Vai fortalecê-la quando estiver mais fraca. Deixe-me fazer isso. Por favor.

— Mas... mas...

— Já menti para você? Alguma vez a aconselhei errado?

— Não. — Nicola admitiu suavemente.

Ele estendeu a mão e traçou o dedo ao longo da curva de sua mandíbula.

— Deixe-me fazer isso. — repetiu ele. — Por favor.

Um momento se passou. Por fim, a determinação endureceu suas feições e ela tirou o suéter e arregaçou as mangas da camisa.

— Muito bem.

Alívio e satisfação colidiram, e Koldo queria bater os punhos em seu peito. Ela confiava plenamente nele e, não o impedia. Essa era a primeira vez, e faria tudo a seu alcance para ganhar o que ela deu a ele. — Gostaria de poder dizer o contrário, mas isso vai doer Nicola.

— Tive o pressentimento. — Ela disse secamente.

Antes que Nicola pudesse mudar de ideia, ele começou a trabalhar. No início, quando a agulha bateu em sua pele, ela se encolheu e arquejou. Por duas vezes ele quase parou, mas nas duas vezes se lembrou de que era para o bem dela. Isso era necessário.

— Distraia-me. — Sua voz era tensa. — Por favor.

— Como?

— Diga-me... Que idade tem? Ou se alguma vez teve.

— Fui menino uma vez, uma criança com meus pais. — Agora, ele e sua mãe pareciam ter a mesma idade. — Amadureci normalmente, como um ser humano, até atingir a idade de 30 anos. Depois disso, minha aparência permaneceu a mesma. E enquanto eu viver, minha aparência vai ficar assim.

Isso era verdade com as raças mais sobrenaturais. Os Nefas, no entanto, com a idade de 50, antes de parar. Ele supôs que era porque a maldade de seus atos apodreciam suas almas, e almas podres produziam carne podre.

Koldo estava feliz que seus traços de Enviado fossem mais fortes que os de Nefa, permitindo que tivesse cabelo em vez de fumaça preta.

— Então... um dia serei uma senhora de idade, mas você ainda vai parecer um jovem Viking viril?

Um Viking? Era assim que o via?

E... estava certa sobre a coisa da idade, percebeu. Ele nunca pensou sobre isso porque nunca se imaginou com uma humana. Mas havia uma maneira de impedir tal resultado. Zacharel amarrou sua vida com a de Annabelle, garantindo que ela não envelhecesse mais. Mas, se um deles morresse, o outro imediatamente o seguiria. Koldo não podia fazer esse mesmo compromisso com Nicola. Teria que dividir um pedaço de sua alma manchada, o que nunca faria.

E por que deveria se preocupar em classificar seus sentimentos sobre o assunto agora, afinal? Estava interessada em outro homem.

— Sim. — Foi tudo que disse, e deixou por isso mesmo. —Existe mais alguma coisa que gostaria de saber?

Nicola respirou fundo quando a pistola deslizou sobre um tendão sensível.

— Vai fazer isso para Laila?

— Se ela me permitir. — Ele se inclinou para trás, estudando as gravuras. Os números escritos começavam em seus cotovelos e envolviam todo o caminho até os pulsos.

 

               161911213327

               219113215122231

               2209131520825418

        

— Concluído. — Ele disse satisfeito.

A cabeça de Nicola se inclinou de lado enquanto olhava por cima da carne vermelha, inchada.

— Isso é algum tipo de código?

— É.

— E o que isso quer dizer?

—Isso quer dizer que está protegida pelo Altíssimo, e Sua força é sua.

— Muito legal. — Ela traçou um dedo ao longo de vários números. — Há algo tão fascinante sobre cada um, não é? Quase como se estivessem vivos, mantendo meu olhar cativo.

Isso porque estavam, em ambos os casos.

— Da próxima vez que ver um demônio, simplesmente olhe para os números como está fazendo agora.

— Olhar fixo? Sério? E desejo... o quê?

— Salvar sua vida.

— Bem, tudo bem.

O aroma de canela e baunilha de sua ferida ao redor dele, misturado com sua pele, chamou sua atenção.

— Nicola. — disse asperamente.

Ela olhou para ele, lambendo os lábios.

— Sim.

Esqueceu tudo que tinha a intenção de dizer. Encontrou-se a espreitando ao redor do balcão, de pé na frente dela, entre suas pernas. Suas mãos abriram passagem através de seu cabelo, os fios macios, sedosos, fazendo cócegas em sua pele.

Ela fechou os olhos e se inclinou ao seu toque.

Queria beijá-la. Mas não podia. Não outra vez. Toda vez que se aproximava dela, o desejo crescia. Não tinha certeza de como ia reagir se crescesse mais.

Jogá-la nos ombros e levá-la? Matar o homem que realmente queria?

— Vai se mudar para o Panamá comigo? — Perguntou.

Ela lambeu os lábios.

— Vai ficar lá comigo?

— Sim. — Que alguém se atrevesse a afastá-la dele.

— E vai ficar feliz em me ter, mesmo que não tenha nada para oferecer?

Nada para oferecer? Ela era o toque suave que sempre almejou. A aceitação que nunca teve antes. E quando o olhava nunca se sentia como se fosse um incômodo, como se estivesse abaixo dela. Sentia... poder.

Mas tudo que ele disse foi:

— Vou ficar feliz.

— Então, eu adoraria. — respondeu ela, numa única batida de hesitação.

— Bom.

— Com duas condições. — acrescentou, piscando rapidamente os olhos.

Ele deu um passo atrás, aumentando a distância entre eles.

— E essas condições são?

Ela engoliu em seco e se mexeu desconfortavelmente em seu assento.

— Tem que nos trazer de volta no sábado. Nós, uh, bem, temos um encontro duplo.

Ele sabia, mas ouvir as palavras de seus lábios fez toda a sua fúria de antes voltar... dez vezes.

— Não vai comparecer a encontro nenhum, Nicola.

Sua boca se abriu e estalou fechada.

— Eu já disse que sim.

— E agora vai dizer não.

Um momento se passou em silêncio forçado.

— É mesmo? — Ela disse com uma calma furiosa.

— Isso mesmo. Deve fazer o que digo, quando eu disser. Lembra-se?

Nicola bateu os dedos sobre o balcão.

— Me disse uma vez para fazer o que era necessário para manter a calma. Uma vez me disse para fazer o que fosse necessário para encontrar a paz e semear a alegria. Bem, o encontro parecia minha melhor aposta no momento. Então, o que quer que eu faça? Agradá-lo ou salvar minha irmã e eu?

Ele apertou a mandíbula dolorosamente. Era como ele suspeitava — e não importavam seus sentimentos, não podia tirar isso dela.

— Muito bem. Vá ao seu encontro. — A concessão raspou sua garganta, deixando-a em carne viva e ardendo.

Talvez, enquanto ela estivesse fora com o macho, Koldo voltasse para A Queda. Talvez permitisse que a Harpia dançasse para ele. Talvez se beijasse e tocasse a Harpia, se esquecesse de tudo que Nicola o fazia sentir. Não ia arruinar a Harpia, e a Harpia não ia culpá-lo por seus problemas.

Sim, era isso que faria, mesmo que cada célula de seu corpo se rebelasse com o pensamento.

— E qual é a segunda condição? — Ele exigiu.

Ela suspirou com força.

— Tem que me levar ao meu trabalho no Estella a cada dia da semana, e me pegar todas as noites.

Outro golpe que não estava preparado para lidar agora.

— Não vai sair?

— Não. Tenho que ganhar a vida.

Era só isso?

— Vou te pagar para viver comigo.

Novamente, sua boca se abriu.

— Não. Você não vai.

— Estou pagando suas contas. É a mesma coisa que a outra.

— Na verdade, não, não é. Não vou ser dependente de você no meu futuro.

Compreensão se enraizou, e dela não brotou uma flor bonita no pedaço de terra. Tinha membros retorcidos e pingava com sangue. Ela permitiria que Koldo limpasse seu passado, mas tinha medo que tornasse seu futuro lamacento — aquele que planejava compartilhar com outro homem.

— Muito bem. — disse ele rigidamente. — Concordo com seus termos. — E faria mais que tomar a Harpia. Tomaria outras. Muitas outras! Tantas quantas precisasse até encontrar alguém que o fizesse se sentir da maneira que Nicola fazia. Ou fez. Neste momento, a única coisa que queria dela era distância. E, tudo bem, um pedido de desculpas.

— Agora sei que está relacionado com o cara do parque. — Disse ela impertinente. —Parece exatamente com ele quando olha assim, fixamente.

Cara do parque? Ele não se permitiu ir embora.

— Que cara?

— Bem, os demônios estavam com algumas pessoas muito assustadoras. Pessoas tão altas quanto você, com cabeças carecas, até mesmo a garota, com presas e uma terrível névoa negra que se levantava de seus corpos. E o primeiro que vi parecia uma versão mais velha sua.

Primeiramente estava muito chocado para reagir. Mas, quando respirou fundo, seus pensamentos se alinharam e o choque deu lugar ao medo.

Seu pai sobreviveu ao bombardeio.

Seu pai estava aqui no Kansas.

Seu pai, ele pensou, atordoado — o mais vil macho que já encontrou.

— Algum deles tocou em você? — Ele exigiu.

— Não. Só olharam para mim e sorriram o pior dos sorrisos.

Koldo devia estar aliviado, mas suas emoções estavam simplesmente muito voláteis. Seu pai se aproximou de Nicola. Seu pai poderia tê-la machucado da pior das maneiras. Poderia fugir com ela, e Koldo não saberia o que aconteceu até ser tarde demais. Mas Nox não fez nada disso. Queria que Koldo soubesse de seu retorno.

Ao que parecia, o homem entregava o medo antes da batalha. E não havia dúvida que haveria uma batalha. Nox estava aqui por vingança. Afinal, Koldo destruiu o acampamento inteiro do macho. Seu harém de amantes, tanto os escravos quanto os livres. Seus melhores guerreiros. A maior parte de seus aliados. Agora, esperava golpear Koldo onde doeria mais. Destruir a primeira mulher que Koldo já tomou sob seus cuidados.

Bem, não vou deixá-lo fazer isso. Koldo teria que encontrar uma maneira de atacar primeiro. Acabar com isso. Agora. Para sempre.

Ele puxou Nicola para deixá-la em pé.

— Pegue sua irmã. Quero você instalada em minha casa dentro de uma hora.

 

Koldo lampejou Nicola e Laila para a sala de estar de sua fazenda.

— Olhe ao redor. — disse, fazendo seu melhor para mascarar sua crescente tensão. Provavelmente falhando. — Mude o que quiser. Coma o que quiser. Voltarei.

Koldo odiava deixá-las de forma tão abrupta, sem boas-vindas, mas sua próxima tarefa não podia esperar.

Quando Nicola balbuciou um protesto, ele lampejou para a caverna onde sua mãe estava escondida. Desta vez não ficou do lado de fora, mas entrou. Com um único olhar, memorizou os detalhes. Cornelia estava mais suja que antes, sua túnica manchada de lama e sangue, a bainha desfiada. Seu cabelo curto estava emaranhado nas laterais. Estava sentada no canto da gaiola, e havia um rato empoleirado em sua mão — um rato que estava alimentando com pedaços de grãos.

Ela viu Koldo e amaldiçoou.

— Não pode me deixar em paz?

— Seu amante precioso está perseguindo minha mulher.

— Não tenho amante. — Ela cuspiu.

— Ah, mas teve. Meu pai, o homem que ansiou por todos esses anos, pensa em me atacar.

Cornelia endureceu quando absorveu suas palavras. No momento que as aceitou como verdade, realmente jogou o rato contra ele, a criatura gritando ao longo do caminho. Koldo o pegou, colocou abaixo e viu quando saiu correndo.

Seu primeiro erro foi assumir que ela tinha um coração, garotinho.

— Cruel até mesmo com seus animais de estimação. — Koldo disse.

Ela tremia, visivelmente lutando para manter seu temperamento sob controle. Se ele não se enganava — e devia ter se confundido — havia um brilho de arrependimento em seus olhos.

— Pensei que estava morto. — Ela sussurrou.

—Como pensei. Nós dois estávamos errados.

Observando-o atentamente, Cornelia ficou com as pernas trêmulas.

— Se está atrás de você, está condenado. Ele é astuto, e não há nada que você possa fazer para impedi-lo.

— Posso matá-lo.

— E isso funcionou muito bem antes. — Ela zombou com uma risada dura. —Especialmente agora que tem uma mulher, não foi o que disse? Estou surpresa que alguém possa realmente suportar olhar para você.

Sua mulher. Foi como chamou Nicola, não foi? Teria que proteger melhor suas palavras, pois a humana não era dele, não dessa maneira, e agora, nunca seria. Ela escolheu outro macho. E Koldo realmente não podia culpá-la. — mesmo que ainda estivesse com tanta raiva que poderia derrubar esta caverna desmontando rocha por rocha. Ela estaria melhor com um de sua própria espécie.

— Provavelmente deva dizer adeus a ela. — Cornelia traçou a ponta do dedo ao longo das barras ao lado dela e sorriu feliz. — Ele vai fazer as coisas mais terríveis com ela, e vai forçá-lo a assistir. Mas você compartilha seu sangue... talvez goste, não é?

Koldo socou a gaiola de forma tão forte que o reforçado aço se curvou para trás.

Cornelia empalideceu e recuou.

Ele foi forçado a assistir esse tipo de comportamento, enquanto estava preso dentro da barraca de Nox, e vomitou o tempo todo. Tentou até decapitar o homem nas primeiras cem vezes que foi autorizado a andar livremente pelo campo — e sempre foi punido por seus esforços. Nunca desfrutou — nunca! — ou apreciou assistir tal tratamento.

— Protejo o que é meu. — Ele disse entre dentes. — Mas você não protege ninguém. Testemunhava tais eventos quando estava com ele, não é, mãe? Será que os dois discutiam isso enquanto se aconchegavam nos braços um do outro?

— Cale a boca! — Ela mudou de rumo, pisoteando para frente. Quando o alcançou, agarrou as barras que ele danificou e tentou sacudi-las.

— Aposto que o fez. Aposto que foi devorada pelo ciúme quando desviou suas atenções para outra.

— Não sabe nada sobre mim!

— Sei que é exatamente como ele. Um rosto bonito escondendo ossos podres. E só para que saiba, vou matá-lo antes que fira a garota. — Ele deveria calar a boca. Devia sair. Seu temperamento o estava ultrapassando. Se não tivesse cuidado, explodiria. Mas sentiu seus pés ancorados no lugar. — Você vai me ajudar. Não porque me ama, mas porque quer que ele sofra por te abandonar. Não é mesmo?

Ela bateu o queixo, um pouco da raiva a deixando.

— Quero que ele sofra.

— Então, me diga. Quais são seus pontos fracos?

— Você passou mais tempo com ele. Deve saber.

Ele deveria, não deveria? Mas, para ele, Nox foi o auge da força. Uma força impossível de ser detida. Koldo ficou surpreso ao entregar o golpe mortal, especialmente à distância.

Deveria ter escolhido de perto e pessoal, como eu desejava.

Então, deveria ter levado tempo para identificar todos os restos. Mas assumiu que Nox foi queimado até as cinzas — queria muito acreditar.

Um erro. Percebeu agora. Não cometeria outro.

— Vai me ajudar ou não? — Ele exigiu.

Cornelia ergueu o queixo altivo, apesar de suas circunstâncias.

— Não vou.

— Nem mesmo por uma humana?

— Ah, vou ajudar um ser humano. Qualquer um, menos a sua. — acrescentou.

Koldo tentou acalmar seus nervos em fúria. Mil vezes nas últimas semanas, poderia ter matado a mulher. Mas nunca a machucou.

Como uma criança, sempre quis apenas seu amor. Oferecido gratuitamente. E quando ficou claro que não o receberia, se ofereceu através de subornos. No entanto, uma e outra vez ela o rejeitou e negou.

Naquele momento, olhando para seu desafiante com o rosto cheio de ódio, sua contenção desapareceu. Seu controle finalmente explodiu. Teve o suficiente.

Pela primeira vez ela conheceria a dor que experimentou em suas mãos. Pela primeira vez ia entender as profundezas da traição. Pela primeira vez ia temer as coisas que Koldo podia fazer com ela.

— Vamos ver se posso fazê-la mudar de ideia, não é? — Ele retirou uma navalha da bolsa de ar ao seu lado e lampejou para o centro da gaiola — a única forma de entrar ou sair. — Pareço com meu pai, apesar de desprezá-lo. Acho que é justo que se pareça com ele também, já que ainda está claramente apaixonada por ele.

Seus olhos se arregalaram, e ela se afastou dele, tanto quanto podia conseguir.

— Não ousaria. — gritou ela. — Meu cabelo está apenas começando a crescer novamente.

Suas palavras apenas provaram o quão pouco sabia sobre ele.

— Assim como não se atreveria a tirar minhas asas?

Ela se inclinou para a esquerda, depois correu para a direita, tentando evitá-lo quando a bloqueou.

— Você me desobedeceu. Tinha que ser disciplinado.

— Não desse jeito. — Koldo lampejou justamente na frente dela e a agarrou pelos braços. Foi seu primeiro contato desde que a tirou das profundezas do inferno e a trouxe aqui. Ela estava mais magra, pele e ossos praticamente, lembrando-o de Laila. Laila, a própria imagem de Nicola. Mas isso não ia amolecê-lo e também não ia impedi-lo. Na verdade, o deixou muito mais irritado.

— Seu único objetivo era me fazer sofrer. — Disse ele, a sacudindo. — Por quê?

Ele não devia perguntar. Lamentou a pergunta imediatamente, e sabia que revelou a mágoa que nunca foi capaz de perder.

— Não podia permitir que ficasse como ele. — Disse ela, e toda sua luta desapareceu. Ela o olhou com mais que ódio. — Deveria saber que era uma causa inútil.

Não sou nada como meu pai!

— Então o desprezava.

— Sim. — Ela sussurrou.

— No entanto, dormia com ele.

— Sim! Tudo bem? Sim. Posso dizer que ele me enganou. Posso dizer que foi um momento de fraqueza. O que quer ouvir?

Seu aperto aumentou quando ele deu-lhe outra sacudida.

— A verdade.

Totalmente calma, ela disse:

— Você foi um erro. Essa é a verdade.

Com suas palavras, ela rasgou uma casca de seu coração, e a ferida sangrou em sua alma.

— Está certa. — disse ele, desejando que fosse sem emoção. Em vez disso, estava tão confuso por dentro que não tinha certeza se seria capaz de se unir novamente. — Fui um erro. E agora vou te mostrar por que.

Ele a empurrou de cara no chão, a segurou abaixo com um joelho no centro de suas costas e, enquanto ela gritava e tentava lutar por liberdade, removeu todos os fios de seu cabelo, até que raspou o couro cabeludo, deixando-o limpo.

O som de uma mulher gritando, a ver lutando, fez crescer tantas lembranças terríveis. Mas mesmo quando fechou os olhos e balançou a cabeça, as imagens não o deixaram.

Percebeu que nunca deixou de ser o homem que seu pai criou. E nunca deixaria.

 

— Os Enviados, Co Co. Os Enviados. — Laila sussurrou enquanto Nicola a colocava na cama.

— Eu sei.

— Demônios, Co Co. Demônios.

— Eu sei querida. Mas não temos que temê-los, e Koldo me garantiu que não poderão nos machucar. — E agora, depois de ter testemunhado o que aconteceu no parque, sua confiança na Equipe do Bem era intocável.

— Como eu não sabia que existiam? Por que não podia vê-los?

— Seus olhos estavam fechados. Agora estão abertos.

— Eu... eu... não tenho certeza se posso lidar com isso.

Nicola se lembrou de quando eram meninas e Laila a enfiou na cama depois que ela viu seu primeiro monstro. Como sua gêmea foi gentil, paciente e amável.

— Sempre foi a mais forte. Vai achar um modo.

Uma risada suave e sem humor deixou uma sensação de tristeza para trás.

— Sempre achou isso. Sempre achou que eu era forte. Mas, Co Co, era você. Sempre foi você. — Laila enfiou nos ouvidos os fones do iPod que Nicola lhe deu no seu último aniversário. Ela poupou e economizou por meses para dispor de um pedaço tão pequeno de tecnologia.

Suspirando Nicola beijou sua irmã na bochecha e a deixou descansar. Não sabendo mais o que fazer, explorou a casa de Koldo. A reverência a atingia continuamente, e parecia como se tivesse entrado em um conto de fadas, em vez de um país do terceiro mundo. A casa foi construída de pinho, e tinha um cheiro rico e limpo, mas os móveis eram o que realmente a atordoavam.

Havia sofás e cadeiras de veludo, mesas com adornos esculpidos. Estatuetas de vidro e tigelas cheias de diamantes, safiras, rubis e esmeraldas tão grandes quanto seu punho. Havia tapeçarias na parede e tapetes felpudos no chão. E essa era apenas a sala de estar!

Koldo realmente era cheio da grana.

A cozinha ostentava balcões de mármore raiados de ouro, vasos de cobre e panelas penduradas numa prateleira de prata, e uma enorme geladeira que combinava com a madeira dos armários. Nada estava fora de lugar. Nem um grão de poeira sobre a superfície da mesa entalhada à mão.

Havia quatro quartos. Laila reivindicou o mais próximo à cozinha, e Nicola escolheu o do final do corredor. Havia uma cama enorme de tamanho monstruoso no centro, o cortinado que a envolvia era de renda rosa. Rosa? De renda? Na casa de um guerreiro?

Uma mulher a decorou?

Nicola mordeu sua bochecha por dentro, lutando contra uma onda de ciúme. O edredom era um tom mais leve de rosa, mas não menos brilhante. E este deve ter sido onde Koldo quis que ela ficasse porque os cobertores que sua mãe costurara algumas semanas antes do carro colidir estavam dobrados e descansando aos pés da cama.

Um ventilador de teto girava devagar no alto. Um mural dos céus foi pintado em todas as quatro paredes, com um sol brilhante no canto direito, brilhando sobre nuvens de todos os tamanhos e formas.

À esquerda tinha uma grande janela panorâmica com vista para um bosque de laranjeiras em flor. E atrás das folhas verdes exuberantes e partes roliças das frutas, podia ver várias montanhas e até mesmo um vulcão exalando fumaça espessa pelo ar. Tinham três lagoas de tirar o fôlego, com peixes saltando na superfície límpida.

Nicola ficou ali de pé maravilhada com a beleza, assistindo ao sol se pôr no horizonte, vermelhos e rosas se formando, criando o contraste perfeito para os verdes luxuriantes e os azuis da Terra inclinada. Pássaros cantavam.

Quanto tempo Koldo ia querer que ficasse aqui? Ela pensou... esperou... Bem, isso não tinha mais importância. Koldo não queria que ela fosse ao encontro — um sinal maravilhoso —, mas ficou tão irritada que insistiu. Que bobagem. Especialmente considerando o fato que só aceitou o encontro porque ele desapareceu naqueles três dias.

Agora estava de volta... mas ela estava presa.

O que faria?

Um farfalhar de roupas atrás dela a fez virar. Koldo estava de pé a poucos passos de distância da cama, com a cabeça baixa e as mãos fechadas em punhos. Fios de cabelo colados no seu rosto e tórax, escuros e leves. Sujeira listrava sua pele. Ele tinha marcas de mordidas em suas mãos. Sua respiração era profunda e regular, mas estava usando muita força, como se a contenção que usava para manter sua fachada tranquila fosse tênue.

— O que há de errado? — Todos os pensamentos do desastroso encontro a deixaram, e correu pra cima dele. — Foi atacado novamente?

Em silêncio, ele simplesmente caiu na cadeira estofada atrás dele.

A preocupação a encheu quando se abaixou diante dele e descansou as palmas das mãos em suas coxas duras como uma pedra. Calor irradiava dele, envolvendo-a, e ela estremeceu por uma razão que não tinha nada a ver com a temperatura.

— Fale comigo. — Ela pediu. — Por favor.

Olhos dourados suplicaram a ela... o quê?

Ela nunca o viu assim. Tão despedaçado. Tão torturado.

Tão quebrado.

— Koldo. — O que mais podia dizer?

Ele se inclinou para trás, batendo a cabeça contra o arco de madeira.

— Eu... fiz uma coisa. Uma coisa terrível. Foi merecido. Eu deveria estar feliz com os resultados, mas... mas...

O que poderia ter feito para causar este tipo de reação?

— Conte-me.

Ele esfregou uma mão seu rosto abaixo.

— E ver o ódio encher suas feições também? — Como Laila, ele riu sem humor. — Não.

As mechas de cabelo flutuaram dele para o ar, rodopiando até o chão. Ele gosta de brincar. De provocar.

— Deu um penteado novo a alguém, não é? — Ela perguntou com um sorrisinho.

Ele fechou os olhos, soltou o fôlego com força e ergueu os braços pra cima e pra trás com ferocidade, abrindo um buraco na parede com o soco. O estrondo alto a sacudiu.

Tal reação... teria realmente dado a alguém um penteado novo?

— Koldo...

— Sinto muito. — Ele disse com voz baixa e rouca, focando nela. — Não deveria ter feito isto.

Certo, então talvez não um penteado novo, mas sua tristeza e melancolia definitivamente tinham algo a ver com cabelo.

— Faça-me esquecer. — Ele suplicou. — Só por algum tempo. Conte-me uma história.

Ela faria qualquer coisa para trazer paz. Mas o que podia dizer a um guerreiro com séculos de idade para entretê-lo? Oh, eu sei!

— Uma vez uma menina da minha classe chamou a mim e Laila de freakazoid[4] Frankensteins por causa dos tubos saindo das nossas roupas — e eu sei, eu sei, é um nome muito original, mas discordo. Isso fez Laila chorar. Note que eu disse Laila. Não eu, só pra deixar claro. Não passei vinte minutos no banheiro, encostada a um vaso sanitário muito insalubre, soluçando tanto que o muco estava borbulhando do meu nariz.

A menor menção de dor desapareceu de sua expressão, e ele passou a mão na linha de sua mandíbula.

— O que aconteceu depois?

Ela estremeceu enquanto dizia.

— Tem que adivinhar a coisa muito polida, muito educada que fiz para dar o troco naquela mocinha.

— O que?

— Adivinhe.

— Você, sendo a casca grossa punk que é, a chamou de um nome muito malcriado.

— Não. Dei um soco na cara dela e quebrei seu nariz. Ninguém chama minha irmã gêmea de freakazoid Frankenstein e sai ilesa. Que isso sirva de lição para você. Pode querer anotar e circular isto.

Ele soltou uma risada. Uma risada muito áspera, muito rouca, que a levou a acreditar que não ria há anos. Talvez nunca. E foi ela quem o trouxe a esse ponto, o empurrando a dar a volta por cima, o puxando para fora das trevas e para dentro da luz. E oh, era tão bonito assim.

Tanto que quis levantar, se arrastar para cima do seu colo e beijá-lo. Só encostar seus lábios nos dele, saboreá-lo, conhecê-lo de novo e oferecer conforto de outra maneira. Mas depois dessa luta...

— Outra história. — disse ele.

— Vou te fazer uma pergunta ao invés disso. — E provavelmente soava necessitada, mas não se importou. — Os Enviados têm encontros? — Obviamente eles beijavam, mas...

Sua testa franziu, como se a mudança de assunto o deixasse confuso.

— Alguns têm.

Não faça isto. Não pressione.

— E você?

— Não.

Oh. A extrema decepção por ser negada caiu sobre ela.

— Nunca?

— Nunca. — Ele olhou para ela, realmente olhou para ela, seu olhar dourado penetrante. Seus braços caíram para os lados. Suas mãos agarraram o tecido da cadeira, como se tivesse que se forçar a ficar quieto.

Para se impedir de fazer outro buraco na parede — ou fazer qualquer outra coisa?

— Se eu dissesse a você que torturei outro Enviado — ele disse —, pensaria que fui um monstro?

Ela pensaria?

— Você o fez?

Silêncio.

Sim. Ele fez. E sentiu que a ação, qualquer que esta fosse, foi merecida. Não foi isso o que ele disse um momento atrás? Mas mesmo assim se arrependeu, ele percebendo ou não.

— O que aprendi ao longo dos anos é que as pessoas não devem ser definidas por um único erro. Todo mundo se mete em confusão. — Ela disse. — Tem que se perdoar e seguir em frente.

Ele passou a língua por cima dos dentes.

— O que faz você pensar que este foi meu primeiro erro?

Ela suspirou.

— Está perdendo o ponto, Koldo.

— Não importa. Seja qual for o ponto, não consigo me perdoar.

— Você pode. Não é um sentimento, mas uma escolha — e então agir sobre essa escolha. E sei que sou eu quem deveria estar buscando alegria, mas está claro que você precisa disso também. Acho que sua falta de vontade de abandonar isso, o que quer que seja, é uma toxina tanto quanto a que os demônios causam.

Outra rodada de silêncio.

Bem, a sabedoria não funcionou. Tentaria o humor novamente.

— Estou falando sério. Todos os melhores terapeutas na TV dizem que focar no passado causa estagnação. E diarreia.

Ele soltou outra risada, então rapidamente ficou sério.

— Já fez alguma coisa para machucar... — Ele apertou seus lábios firmemente.

— Machucar quem?

Ele pigarreou.

— Onde está sua irmã?

Boa evasiva. Mas por estar tão chateado, permitiu.

— Dormindo no quarto dela. — Nicola ficou de pé e estendeu sua mão. — Sei o que vou fazer para que você se sinta melhor. Vamos para a cozinha e vou te arrumar a comida mais medíocre que já teve o prazer de saborear, já que minhas especialidades são cereais e refeições de micro-ondas. Enquanto isso pode me dar outra palestra.

— Não dou palestras. Eu ensino. — Ele colocou a mão na dela, sua palma coberta de calos causando arrepios. Ele parou por um momento, não permitindo que ela o ajudasse a se levantar. Então, sacudiu sua cabeça como acabasse de tomar uma decisão e a arrastou pra baixo.

Dando um gritinho, ela caiu em seu colo e seu rabo-de-cavalo o golpeou no rosto. Ela pôs suas mãos em seus ombros grandes e fortes para se equilibrar — e perdeu o fôlego enquanto ele grudava seus lábios nos dela.

Oh, meu Deus. Exatamente como da última vez, seus ossos imediatamente derreteram. Não importava que fosse muito rude a princípio, em seguida muito suave; ele a marcou, reivindicou, encantou. E seu gosto, oh, seu gosto. Era a decadência, pura e simples, como o verão e o inverno, a primavera e o outono. Cada estação, cada dia, levando-a direto para a eternidade.

Ela envolveu seus braços ao redor dele, o segurando bem perto. Ele gemeu, e então... então descobriu exatamente como queria beijá-la, e a pressão se igualou. Ele inclinou a cabeça, aprofundando o contato. Tomando, dando. Exigindo, pedindo. Possuindo.

Tornou-se mais que um beijo, e em algum nível, isso a assustou. Ele estava lhe dando algo precioso. E ela lhe dando em troca algo bem precioso. Mas não sabia o que era aquela coisa — sua confiança? Um pedaço do seu coração? — e não tinha certeza se queria saber.

O que aconteceria caso se apaixonasse por ele? Se entregasse tudo?

Será que acolheria seus sentimentos por ele? Ou fugiria deles?

Quaisquer que fossem as respostas, a assustavam também. Tudo que sabia era que cada ponto de contato a lembrava que nunca experimentou nada parecido com isto — e provavelmente nunca mais experimentaria. Como poderia? Ele era a luz na escuridão. O porto na tempestade. A esperança que precisava no meio da guerra.

Não havia nenhum outro homem como ele. Era único. E queria que ele encontrasse tanto prazer com ela, quanto encontrava com ele. Queria ser o que ele precisava.

Para agradá-lo, e não desapontá-lo.

As mãos dele percorreram os contornos das suas costas... depois baixaram mais. Ele acariciou e apertou e... e... ela estava consumida, agitada, necessitada. Ofegante e desesperada. E ele estava... tremendo também, ela percebeu. Tão afetado quanto ela. Seus dedos rudes, um pouco desesperados, e o conhecimento a despedaçou.

— Koldo. — Frenética, ela enfiou os dedos sob o colarinho de sua túnica. O tecido se afastou com um simples toque, concedendo-lhe contato pele a pele e o cheiro da carne dele a aquecendo. E quando seus músculos saltaram sob seu toque, como se estivessem procurando um contato mais íntimo, o calor ficou pior — e mil vezes melhor. Ele era tão suave, tão duro, tão... exatamente o que ela sempre quis, sem nunca saber que desejava isto.

— Nicola. — Ele arquejou.

— Mais. — Exigiu. A palavra escapando contra sua própria vontade. Ela continuou a arrancar sua túnica, finalmente desnudando a amplitude total do seu peito.

Oh meu Deus. Ele. Era. Magnífico!

Bronzeado e torneado, seu corpo coberto de músculos e tendões, cinzelado pela mão de um mestre. Seu tórax... aquele estômago ondulado como barras de ferro... aquele umbigo perfeitamente formado. Uma cicatriz aqui, uma cicatriz ali, mas mesmo assim, nada nele era defeituoso. Foi aperfeiçoado num campo de batalha, cada marca uma medalha de força.

Ela beijou seu pescoço, e a cabeça dele caiu no encosto do sofá, permitindo um melhor acesso a ele. Beijou o ombro, a clavícula, imprudente em mostrar a ele o quão profundamente o aceitava, o que quer que tenha feito, o que quer que o futuro reservasse. Ele aumentou o aperto em seus quadris, e ela se ergueu uma vez mais para ajustar os seus lábios. Ele gemeu em sua boca e assumiu o comando, dominando-a da forma mais surpreendente. E ela estava... ela estava...

Lutando pra respirar, ela percebeu, tentando sugar um único fôlego de oxigênio, mas falhando. Sua mente nublou.

— Nicola? — ele exigiu. — O que está errado?

— Eu estou... bem... será... — Não, não, não. Não assim. Não agora. Ela arruinaria o momento — talvez até mesmo seus sentimentos por ela.

Ele puxou a túnica, a endireitando, o material de alguma maneira se consertando. Ele emoldurou seu rosto em suas mãos grandes.

— Inale lento e fácil, certo? Agora exale igualmente lento e fácil. — Os polegares traçaram suas bochechas, sua pele tão quente que ela podia estar apertada contra o sol. — Desse jeito. Dentro. Fora. Sim. Boa menina.

Um minuto se passou. Então dois, três, antes dela finalmente recuperar sua compostura. E então meio que desejou que não tivesse.

Ela percebeu que arruinou o momento. Pior, revelou as profundezas de sua fraqueza e provou justamente como era desprezível no departamento de relação.

Um homem forte como Koldo tinha que desprezar pessoas como ela.

— Estou cansada. — ela murmurou. — Eu deveria ir pra cama.

Seu olhar se prendeu com o dela, inabalável.

— Está chateada. Por quê?

— Só esqueça isto, certo?

— Não posso. Está brava com alguma coisa que fiz?

— Não. — Não podia deixá-lo pensar isso.

— Então o que?

— Deixe isso pra lá. Por favor.

— Não posso. Fale comigo.

— Olha, eu... — Queria deixar o quarto e seu olhar penetrante. Queria partir, se esconder e esquecer que isto sequer aconteceu.

Mas não seria capaz de esquecer, seria? Isto estava queimado em sua mente — e cada célula de seu corpo.

— Toc, toc, tem alguém em casa? — Laila perguntou e tropeçou passando pela porta e entrando no quarto com o cheiro de álcool a acompanhando. Ela deu uma risadinha quando os avistou, oscilando em seus pés.

— Uh-oh. Interrompi alguma coisa? Espere. Isso saiu errado. Eu interrompi alguma coisa. — Um aceno com a cabeça. Outra risadinha. — Muito melhor.

Nicola saiu de cima do Koldo e ficou de pé, quase tropeçando consigo mesma. Pernas estúpidas.

— Pensei que estava dormindo. — ela disse. Feliz com o indulto. Só que deu um pulo sobressaltado pra trás.

Os macacos — os demônios — estavam empoleirados nos ombros de Laila.

— Koldo. — ela sussurrou e apontou. — Olhe.

Laila deu meia volta num círculo completo e quase caiu.

— O que?

Koldo ficou de pé, as contas em sua barba tinindo juntas.

Os macacos guincharam um protesto e se arremessaram do quarto.

— Vou fingir que sei o que está acontecendo. — Laila disse com um tom austero, arruinado por uma expressão idiota.

Por que ela não viu os demônios? Seus olhos foram abertos — devia ser capaz de vê-los agora. Certo?

— Estava na cozinha e encontrei isto. — Sorrindo, Laila ergueu uma garrafa de vodca.

Koldo enrijeceu.

— Onde achou isto?

— Nas mãos de um de seus amigos. E foi bom que trouxesse isto, porque quase morri de um ataque cardíaco quando o avistei e precisei de alguma coisinha para me acalmar.

— Um amigo? Que amigo?

— O cara que vai te apunhalar no peito só para ouvir você gritar.

O olhar de Nicola se projetou para a cadeira que Koldo abandonou. Havia duas impressões incandescentes da palma nas almofadas, com manchas de um brilho dourado do tom exato de seus olhos. Impressões que não estavam ali antes. O que... Como... Estranho, ela terminou.

De pé ao seu lado, ele estendeu a mão, colocou dois dedos sob seu queixo e a forçou a encará-lo.

— Fique aqui. E lembre-se do que eu disse sobre as tatuagens. — Com isto, ele se precipitou do quarto, fechando a porta atrás dele.

 

Koldo jamais esqueceria a sensação deliciosa dos lábios de Nicola contra os seus ou a suavidade de seu corpo apertado contra o dele, ou a doçura do seu gosto e mil outras coisas que deixaram seu sangue queimando, fazendo-o doer e alcançar a borda afiada do desespero.

O tempo inteiro que a teve em seus braços, esqueceu o horror de suas ações anteriores. Sua fragilidade interior foi aliviada, e se sentiu inteiro. Feliz. Em paz pela primeira vez.

O futuro parecia brilhante. Problemas? Que problemas? Não havia nenhuma raiva, nem medo, nenhuma sensação de impotência. Ele estava... normal.

Mas fez algo para irritá-la, sem importar o que ela alegasse. Primeiro, ela derreteu. Então, depois que saiu de seu desmaio, endureceu, preparando-se para escapar.

Ela se arrependeu do que aconteceu?

Provavelmente. Ele a atacou e estava preparada para deixá-lo. Se ela conseguisse, a teria perseguido e... o que? Exigido que continuasse desejando-o?

Ele não seria tão patético. Seria?

Talvez sua deserção fosse o melhor. Ele nunca poderia tê-la, e não poderia se permitir vir a contar com ela. Tinha a si mesmo, e só a ele, e era assim que tinha que ser. Isso era seguro. Era o que ele conhecia.

Entrando a passos largos na cozinha, convocou a espada de fogo. As chamas crepitaram, derramando luzes diante dele. O que esperava encontrar, não tinha certeza. Zacharel não sabia que este lugar existia, nem qualquer outro Enviado. Nem seu pai, mas o macho estava lá fora, o caçando ativamente.

Para sua surpresa, encontrou Axel sentado à sua mesa da cozinha, comendo a comida que Koldo comprou para Nicola e sua irmã.

A raiva se acendeu.

— Como me achou?

Com restos de queijo em seu queixo, o guerreiro disse.

— Posso encontrar qualquer um, em qualquer lugar, a qualquer hora. Um pequeno talento meu. — Ele ergueu um saco de batatas fritas. A única fonte de besteira na casa inteira. — Tem estas em Tabasco?

A raiva imediatamente abrandou. Se Axel podia encontrar qualquer pessoa, podia encontrar o pai de Koldo antes que Nox o encontrasse.

A batalha podia terminar antes sequer de começar.

— Não deveria ter vindo e nem ter trazido álcool. — Uma única bebida e o lado Nefas de Koldo viria correndo à superfície. Seus dentes se alongariam. Suas unhas se curvariam em garras. Seu temperamento tomaria conta dele. Sim. O álcool era tudo que precisava. — Mas já que está aqui, vou botar você para trabalhar. Qualquer que seja seu preço preciso que encontre um... Nefas. — Ele esperou por uma reação. A maioria das pessoas estremecia com a mera menção da raça.

Axel o ignorou, estalando outra batata na boca.

— Devia ter uma conversa com a loira sobre compartilhar sua bebida com convidados... especialmente quando a bebida pertencer ao convidado! Foi muito indelicado da parte dela ameaçar bater na minha cabeça com a garrafa de vodca quando tentei roubá-la de volta. E a propósito, sabia que suas mãos estão brilhando?

— O que você... — o olhar de Koldo se prendeu em suas palmas. Suas palmas ardendo. A essência finalmente começando a vazar pelos seus poros.

Queria tanto Nicola que seu corpo instintivamente buscou marcá-la como sua propriedade exclusiva, embora ela quisesse outra pessoa.

Ele deveria se envergonhar, considerando que nunca se vinculou com ela.

Mas não estava.

— Como passou pela minha nuvem? — O guerreiro deveria ter encontrado uma barreira sólida.

— Se eu te contar, blá, blá, blá.

Ele arqueou uma sobrancelha.

— Teria que me matar?

— Não seja tolo. Só cortaria sua língua para impedi-lo de contar, e cortaria suas mãos para impedi-lo de escrever ou assinar. — Axel esfregou uma mão na outra para limpar os farelos e levantou. — Adoraria ajudá-lo com seu probleminha com os Nefas, mas realmente estou aqui porque Zacharel me convocou para uma reunião nos céus. E afinal, o que você quer com os Nefas? Esses otários são durões.

— Nós também. — Esta reunião era aquela que Zacharel mencionou quando Koldo o visitou em sua nuvem? Quando o guerreiro estava coberto de sangue e ferimentos? — Onde ele nos quer?

— No Templo da Deidade nos céus.

Deidade. Germanus. Koldo esperava ansiosamente ver seu mentor novamente. Eles não se falavam desde que Koldo foi informado que pertencia à Zacharel. E foi isso que Koldo fez. Ficou tão zangado ao saber do seu destino que se manteve distante em vez de gritar. No entanto, Germanus o receberia a qualquer hora.

— O encontrarei lá. — ele disse incisivamente.

— Como se eu realmente quisesse me demorar por aqui e carregá-lo novamente. Mencionei que pesa mais que um edifício? — Axel ficou de pé, tremulou suas asas e saltou no ar, passando pelo teto e desaparecendo.

Koldo caminhou a passos largos corredor abaixo e entrou no quarto da Nicola. Laila estava pulando na cama, cantando uma música fora do tom e perdendo o fôlego.

— ... Alguma coisa, alguma coisa, alguma coisa, você me ama. Sim. Sim. Alguma coisa, juntos.

Nicola descansava no sofá, um cobertor jogado em suas pernas. Um de seus livros sobre estratégias de batalhas divinas estava no seu colo.

— Tem pijamas no armário. — disse e ela levantou o olhar. Encontrar aqueles olhos cinza tempestuosos era sempre um prazer e uma dor. Eram sempre diretos...

Exceto desta vez.

Ela afastou o olhar. Sua face enrubesceu.

Ele se mexeu desconfortavelmente e acrescentou as palavras que Annabelle disse a ele que seriam necessárias.

— Estas coisas foram compradas só pra você. Nenhuma outra mulher jamais as usou.

— Obrigada. — Nicola disse rigidamente.

Esse não era o problema.

Laila continuava a cantar.

— Fui chamado. — ele explicou.

— Ei, legal e oh! — Laila disse, deixando-se cair de costas no colchão e saltando. —Adivinha o que? Vou ter um bebê da sua casa. Eu o amo tanto!

Ele... não tinha nenhuma ideia do que dizer.

— Quando vai voltar? — Nicola perguntou, brincando com um fio solto no cobertor.

— Não tenho certeza, mas vou me certificar que alguém esteja aqui para te escoltar ao trabalho se eu não conseguir retornar até amanhã.

— Não se preocupe. Não trabalho no Estella nos fins de semana.

Isso mesmo. Amanhã será sábado.

— Mas nós temos nosso encontro duplo. — Disse Laila. — E será divertido!

Suas mãos se fecharam em punhos dos lados enquanto ele aguardava, esperando que Nicola desse a última palavra. Mas ela permaneceu em silêncio, claramente ainda desejando ir, mesmo depois de tudo que aconteceu entre eles.

Era melhor assim, ele lembrou a si mesmo.

— Vou me certificar que cheguem lá, conforme o prometido. — disse entredentes.

E agora, deveria ir. Sabia que deveria ir. Ainda assim ele hesitou.

— Comprei um celular pra você. — Disse a Nicola. Annabelle tinha insistido. — Está na primeira gaveta do criado-mudo. Comprei um pra mim também. — No momento descansava no bolso de sua túnica.

— Qual seu número? — Ela perguntou.

— Já está programado no dispositivo. — E era o único. O único que permitiria que ela pusesse lá. — Ligue se precisar de mim. Por qualquer motivo. — Ou mesmo se não tiver nenhum.

Ela assentiu, abriu sua boca, depois a fechou.

— Não se preocupe com nada. Fique tranquila.

— E semeie alegria. — Ela disse com um suspiro. — Já sei.

Ele não se incomodou em dizer a ela para ficar dentro dos limites da propriedade. A nuvem asseguraria que ela o fizesse.

Sem outra palavra, Koldo lampejou para o jardim do templo de Germanus. Tantas vezes esteve aqui ao longo dos séculos que conhecia a área de cor. Dois rios fluíam das colunas de alabastro na frente e ondulavam pelas flores, cascateando de cima ladeando as falésias nas nuvens para banhar as estrelas. Pela primeira vez, porém, toda a extensão estava coberta com os Enviados. Centenas de machos e fêmeas o rodeavam, o ruído totalmente fora de controle.

Koldo lampejou aqui e ali, procurando pelos soldados que pertenciam a Zacharel. Ele os encontrou na extrema esquerda, na frente da escadaria de alabastro e colunas cheias de hera que levavam às portas duplas do templo.

Charlotte e Ronen piscaram e acenaram para ele.

Elandra deu as costas para ele.

Malak estava muito ocupado olhando fixamente para Bjorn para notá-lo.

Bjorn estava muito ocupado conversando com Thane e Xerxes para notar Malak.

Jamila olhou para ele e franziu o cenho. Ela foi empurrando abrindo caminho em sua direção e disse.

— As coisas estão indo por água abaixo em Estella. Sirena está garantindo isso para sua menina. Na verdade, a odeia. As coisas que faz e diz quando Nicola vira as costas... — Ela estremeceu.

As notícias o surpreenderam. Como alguém podia criticar esta humana tão gentil?

— Cuidarei dela. — Quem quer que ela seja. — Sabe o que Sirena é?

— Sim. O mal.

— Então não tem certeza?

— Não. — ela murmurou.

Quando lampejasse Nicola ao trabalho na segunda-feira, encontraria uma maneira de questionar esta Sirena. Ela não era Nefas, nem era demônio. Mas era alguma coisa. E se odiava Nicola, podia estar trabalhando para seu pai.

Neste ponto Koldo devia suspeitar de todo mundo.

Axel se esgueirou para seu lado e deu um tapinha no seu ombro.

— Que bom que pôde deixar a Peituda tempo suficiente para mostrar as caras.

— Chame-a desse jeito de novo, e vou cortar seu coração do peito e entregarei para ela como troféu. — Enquanto falava, avistou Malcolm e Magnus.

Os dois pareciam ser de origem asiática. Malcolm tinha cabelo verde escuro tingido nas pontas, as mechas saindo de um único pico no centro da cabeça. Tinha olhos tão pálidos que eram quase brancos, e ossos tatuados em seu pescoço.

Magnus era tão sério e bem cuidado quanto qualquer empresário humano. Bem, se “qualquer” tivesse mais de dois metros de altura e mais de 130 quilos de músculos.

Axel fez um gesto afastando a ameaça.

— Posso recomendar para descascar a pele do meu corpo, também?

O que se podia dizer a um macho desses?

Seu olhar caiu sobre Thane. O guerreiro fez um gesto de saudação.

Bjorn e Xerxes franziram o cenho enquanto olhavam para cima, subindo os degraus até... Zacharel, que estava caminhando para o estrado ao lado dos outros seis membros da Elite.

Havia quatro machos e três fêmeas, cada um representando um dos exércitos de Germanus. Embora possuíssem as mesmas asas de ouro maciço, esta era sua única semelhança.

O loiro de olhos escuros Lysander deu um passo à frente, levantou as mãos e a multidão imediatamente se aquietou. Com expressão séria, disse sem nenhum pingo de emoção.

— Me dói ser o portador de más notícias, mas a hora chegou. Precisam saber a verdade. Precisam saber que nosso rei... nosso rei está morto.

 

Koldo cambaleou. Não tinha certeza de quanto tempo passou desde que Lysander fez seu pronunciamento, só sabia que o tempo realmente passou. Gritos de negação e desespero ressoaram e grandes emoções e caos se seguiram. Brigas irromperam. Um Enviado contra o outro de forma enlouquecida. Lágrimas foram derramadas e o futuro de sua espécie lamentado. Por fim, as coisas se acalmaram o suficiente para a reunião continuar. Para finalizar. Então, um por um, os exércitos voaram para longe. Todos, menos o de Zacharel.

Zacharel ordenou que ficassem, e então ficaram.

Koldo andou de cá para lá, seu corpo se movendo por conta própria. Seu líder estava... seu rei estava... Germanus estava... morto. Morto.

Ele se foi.

Nunca deveria ter permitido que sua raiva anulasse seu afeto pelo macho e o mantivesse afastado do templo. E não só sua raiva, mas o remorso. Sabia que Germanus desaprovaria seus planos para sua mãe, e não quis dar ao macho uma oportunidade de expressar seu desagrado e advertir Koldo de suas ações.

Agora nunca mais teria a oportunidade de sentar com o Enviado que o encorajou, alimentou e o mergulhou em suas muitas palavras de sabedoria.

Depois de tudo que Koldo sofreu em sua infância, Germanus foi o único a lhe dar esperanças para o futuro. E agora seu corpo era pó, seu espírito estava nos céus com o Altíssimo.

Quando isso podia ter... acontecido? A resposta deslizou no lugar antes da pergunta terminar de se formar. O tremor no escritório de Nicola, ele pensou. Naquele momento, achou que o tremor se originou de algum tipo de terremoto isolado. Mas não. Um ser grande e poderoso morreu, e inclusive o mundo inteiro sentiu isto.

Mas Koldo não sabia, não suspeitara. Seguiu em frente, como se nada estivesse errado.

Zacharel fez um gesto para os soldados se aproximarem mais. Eles deram um passo adiante, e Koldo lutou para se acalmar.

— Nós planejamos contar aos exércitos esta notícia ao mesmo tempo, mas depois de uma reação tão forte à nossa primeira ordem de trabalho... bem. — Zacharel pigarreou. — Quero que saibam que o Altíssimo não quer que a gente se perca, nem por um momento, e por isso Ele colocou um novo rei no comando deste reino. Seu nome é Clerici, e nos próximos meses estará convocando cada um de vocês individualmente para conhecê-lo e tranquilizá-los.

Clerici. Quer dizer, o clero. Koldo nunca encontrou o macho, mas ouviu falar dele — ouviu que era decente, justo e com vontade de vencer.

Mas não era Germanus.

— Z vai direto ao assunto, não é? — Axel murmurou em sua orelha. — Ele é um homem com bolas de bronze.

— Somos guerreiros, não bebês. — Koldo disse abruptamente. — Não precisamos de nenhum mimo. — Mas oh, tudo que queria era voltar para Nicola, arrastá-la para seu colo e enterrar o rosto em seu cabelo. Soluçaria como o bebê que acabou de dizer que não era e lamentaria pela figura de pai a quem deu as costas.

Ela o abraçaria e diria que a dor desta perda ia passar. E ele acreditaria nela.

— Alguém está em seu período, não é? — Axel disse.

Um grunhido subiu do fundo do seu peito.

— Não lamenta a perda de Germanus? — Não estava dilacerado por dentro?

— Não o conheci. Para falar a verdade, não.

— Então devia lamentar isto.

Zacharel continuou a falar, mas não sobre o que Koldo mais queria saber.

— Como foi morto? — Ele finalmente interrompeu, sem poder aguentar mais.

Zacharel franziu a testa.

— Isso foi explicado durante o...

— Explique novamente! — Uma chamada das profundezas de sua alma sangrando.

Em qualquer outro momento, Zacharel o teria derrubado, tinha certeza. Ao invés disso, seus olhos verde jade irradiavam simpatia.

— Lúcifer decidiu fazer outro jogo de poder pela humanidade e enviou seis de seus melhores soldados para matar nosso rei. Não o mataram imediatamente, mas fugiram com ele e tentaram induzi-lo ao mal antes de dar o golpe fatal. Estes demônios são os piores dos piores, e não seguiram adiante com seu plano de destruição.

Demônios.

A fúria queimou seu peito. Fúria e tristeza. Culpa e remorso.

— Por que não nos convocou mais cedo? — Thane rosnou com sua contenção explodindo. — Poderíamos ter caçado os atacantes. Matá-los antes que desferissem o golpe final.

— E teríamos gostado disso. — Bjorn rosnou.

A expressão de Zacharel era sombria.

— Sabe tão bem quanto eu que a única forma dos demônios conseguirem chegar até Germanus foi porque ele permitiu. Por alguma razão, permitiu. Não havia nada que você pudesse fazer que nós já não estivéssemos fazendo. Mas vamos utilizar suas habilidades agora para os demônios que estão se escondendo na Terra. Temos razão para acreditar que estão planejando construir exércitos de humanos possuídos, tornando impossível para nós lutarmos de modo eficaz.

Porque os humanos não deviam ser prejudicados. Porque os humanos não podiam ser possuídos contra sua vontade. Tinham que ficar doentes com a toxina ou acolher os demônios de braços abertos.

— Eles devem ser encontrados — Zacharel continuou — e devem ser detidos antes que o mal se espalhe como a doença que é. E vocês, meus soldados, são os encarregados desta tarefa.

 

Zacharel mandou todos embora, exceto Koldo e Axel.

Thane, Bjorn e Xerxes levantaram voo e dispararam para oeste. As fêmeas saíram da nuvem e se lançaram abaixo, em direção a Terra. Cada um exibia uma expressão similar: uma mistura de choque e horror, fúria e determinação.

Koldo queria amaldiçoar. Só havia um motivo para mantê-lo aqui — uma tarefa que o impediria de caçar os demônios responsáveis pela morte do Germanus.

— Uma horda de Nefas e demônios serpentes fizeram alguns estragos em um parque em Wichita, Kansas. — Zacharel recitou as coordenadas. — Clerici pediu que eu enviasse vocês dois para limpar a bagunça e achar os culpados, já que cada um de vocês tem um interesse pessoal nisto.

— Porque nós lutamos com a escória serpente alguns dias atrás. — disse Axel, uma declaração ao invés de uma pergunta.

Os penetrantes olhos verdes de Zacharel se prenderam em Koldo.

— Esta é uma das razões, sim.

Ele não sabia. Ele não podia saber. Nem mesmo Germanus sabia sobre as origens do Koldo. Zacharel tinha que estar se referindo ao fato que Nicola estava envolvida.

— Eu cuidarei disso. Sozinho. — O povo do seu pai fez o estrago, e seria Koldo aquele que lutaria a batalha — e finalmente eliminaria o clã inteiro. — E então caçarei os demônios responsáveis por esta farsa.

Zacharel curvou uma sobrancelha, divertido em vez de irritado.

— Na verdade, vocês vão fazer isso juntos. Decidi tornar sua parceria permanente. E não, você não vai caçar os demônios responsáveis pela morte do rei. Você está ocupado demais protegendo a humana.

— Posso fazer as duas coisas.

— Mas não vai. Você escolheu tirá-la, e eu permiti que a trouxesse ao nosso mundo porque queria vê-lo feliz. Sei como o amor pode mudar drasticamente seu...

— Eu não a amo. — disse depressa. Ele não podia.

Zacharel deu um tapinha no ombro dele.

— Você concordou em cuidar dela e não pode fazer isso se nunca estiver com ela.

Resumindo: ele tinha que escolher entre ajudar Nicola e vingar seu amigo mais querido.

— Se seus homens não encontrarem os demônios até o momento que Nicola estiver curada e capaz de se defender, assumirei o comando da caça.

— Assumir o comando? Não. Um dia, porém, poderia permitir que você participasse da caça. Uma coisa você precisa aprender, Koldo. — Zacharel disse com firmeza. — Você não pode fazer tudo sozinho. Às vezes tem que aceitar ajuda. É uma lição que também tive que aprender. — Com isto, o Enviado abriu suas asas douradas e disparou direto pra dentro da noite.

— Deveríamos conseguir anéis para selar este acordo. Parceiro vitalício? — Axel perguntou, coçando o queixo.

— Um dia provavelmente vou arrancar sua cabeça. — Koldo respondeu e lampejou para o parque em Wichita.

A mudança de fuso horário o levou para um paraíso ensolarado. Humanos passeavam pela grama e ao longo do caminho de paralelepípedos. Mães empurravam carrinhos de crianças, homens caminhavam com seus cachorros. Árvores bem altas lançavam sombras. Ele sabia que foi ali onde Nicola e Laila avistaram seu pai, mas onde estava a confusão que Zacharel mencionou?

Ele enfiou a mão no bolso a procura do telefone e discou o número da Nicola. Depois de três toques ela atendeu.

— Alô?

O som de sua voz acalmou as bordas mais ásperas de suas emoções — e saber daquilo o irritou.

— Onde você viu o homem careca?

— Ah. — Ela descreveu a área.

— Obrigado. — Uma pausa. — Vou chegar tarde.

— Não se preocupe.

Ele pigarreou.

— Está vestindo o pijama que te dei?

— Estou. Mas, Koldo... está tudo bem? Você parece chateado.

Você se importa? Ele quis perguntar.

Axel pousou ao lado dele, as asas se encaixando no lugar em suas costas.

— Tenho que ir. — disse Koldo trocando de um pé para o outro. — Falarei com você em breve. — Ele fechou o telefone e o enfiou de volta no bolso.

— Então... sem anéis? — Axel perguntou como se sua conversa não tivesse sido interrompida.

Koldo continuou de onde parou também.

— Um dia pode ser hoje. — Ele caminhou até que chegou ao local que Nicola descreveu. Ali! Rastros. Avançou e se abaixou diante de um par de pegadas. As solas das botas foram revestidas com veneno de serpente, deixando a grama chamuscada. Era um padrão que ele conhecia bem. Seu pai ou um de seus homens estiveram de pé neste mesmo lugar e...

Ele farejou. E infectou a casca da árvore também. Franzindo o cenho, Koldo estudou o tronco. Várias áreas foram raspadas e deixadas com bordas irregulares por garras afiadas. A fumaça preta com aroma de enxofre que os Nefas projetavam cobria a madeira. Ali parecia ter centenas de minúsculos insetos rastejando no dano.

A árvore já dava sinais de morte iminente. As folhas estavam murchando. A grama ao redor estava amarelada. Vários pássaros mortos deitados em sua sombra. Um cachorro próximo tentou demarcar a árvore, mas agora estava saltitando ao lado do seu dono e choramingando com suas patas provavelmente queimando.

— Qual é o dano? — Axel perguntou dando um passo ao lado dele.

— Alguma vez foi exposto a fumaça dos Nefas?

— Bem, sim. Quem não foi?

Quase todo mundo ainda respirando. Mas tudo bem. Axel sabia o que esperar se permitisse a si mesmo encostar no material.

— Verifique todas as outras árvores. Qualquer relação com a mancha terá que ser extirpada, a área inteira limpa.

— Então você pretende ser o chefe de nossa pequena parceria? — Axel perguntou casualmente.

Koldo ignorou a pergunta.

— Você tem uma nuvem?

— Este é o dia das perguntas idiotas? Claro que tenho uma nuvem.

— Invoque-a.

Axel assentiu e uma fração de segundo mais tarde, uma névoa branca os envolveu.

— Deixe os humanos verem o parque — Axel disse a nuvem —, mas não permita que se aproximem de nós.

Conforme a névoa clareava, tornando-se translúcida para o olho e um tanto sólida ao toque formando uma bolha ao redor deles, Koldo saltou para o trabalho necessário. O veneno e a fumaça não o mataria, mas o enfraqueceria. Mesmo assim, ele envolveu seus braços em volta do tronco da árvore, e usando toda a sua força, arrancou as raízes do solo. Lançou a coisa inteira em um bolsão de ar para ser queimada mais tarde. Também recolheu cada grão de sujeira carregando o aroma afiado e revelador da fumaça. Apanhou cada folha caída, inclusive os pássaros mortos.

— Havia outras cinco. — disse Axel retornando ao seu lado.

Passaram as horas seguintes na limpeza, Koldo deixando pedaços da nuvem ao redor de cada um dos locais, impedindo que qualquer humano visse o que foi feito. Esta noite, quando as pessoas estivessem seguras nas suas camas, Axel poderia remover a barreira. Os humanos chegariam amanhã de manhã e assumiriam o que eles chamavam de “farsa”.

— O que você sabe sobre os Nefas? — Ele perguntou a Axel enquanto pegavam a última das folhas infectadas.

— Eles gostam de atacar humanos, Enviados ou qualquer um, e eles acham que regras, compaixão e generosidade são coisas estúpidas. Ah, sim, e são tão maus quanto os demônios.

Koldo assentiu.

— Eles são planejadores. Fazem pequenas coisas a princípio, para ver como seu adversário vai reagir, bem como provocar o maior medo possível, já que o medo confunde, enfraquece e faz você fazer coisas que normalmente não faria.

— Sua mãe tomou suas asas, mas vou tomar seu coração e o darei de comer aos cães. — seu pai disse. O brilho da lâmina de prata que ele segurava acenou na luz. — Você quer que eu tome seu coração, menino?

Por que não? Você já o quebrou.

— Eu quero que você morra. — Ele se sentou no canto mais distante da sua jaula, suja e coberta de sangue seco, de suas muitas tentativas frustradas de escapar.

Uma risada zombeteira explodiu.

— Que pena. Estou aqui pra ficar. E te dei cinco dias para fazer o que eu mandei você fazer. Agora você tem cinco segundos para fazer. Mate o humano ou outra coisa qualquer. Um.

— Algum dia farei você sofrer por isto.

— Três.

— Algum dia em breve.

— Cinco. — As dobradiças rangeram enquanto a porta da jaula que ele não podia lampejar pra dentro e pra fora se abriu.

Koldo se levantou de um salto em seus pés trêmulos, caminhou pra cima do humano tremendo que foi empurrado pra dentro da cela e espancado.

No presente, ele apertou os punhos nos seus olhos para interromper as repugnantes imagens banhadas de vermelho por trás deles. Se pudesse voltar atrás... Ele queria tanto voltar atrás.

Você tem que se perdoar, Nicola disse.

Duvidava que ela tivesse proferido essas palavras se soubesse sequer a metade das coisas que ele fez. Deveria ter morrido em vez de desmoronar ao ouvir as exigências do seu pai. Ele deveria ter...

Concentre-se. Distração mata. Certo. Uma antiga guerra agora foi renovada. Primeira rodada, Nox apareceu para Nicola. Segunda rodada, a dizimação deste parque. A terceira aconteceria muito em breve — mas seria pela mão de Koldo.

Ele apostava que seu pai deixou um homem para trás, alguém para vigiar a área para relatar cada reação do Koldo. Ele olhou ao redor, e com toda certeza avistou um homem alto careca e com os olhos escuros de um predador numa barraca de pretzel, comprando um lanche de almoço e perscrutando diretamente na área.

Embora o contato com a fumaça o tenha deixado um pouco instável, Koldo saiu da proteção da nuvem, permitindo que o Nefas o localizasse.

O macho deu um sorriso largo e cheio de dentes, suas presas brancas cintilando à medida que ele abordava. A fumaça não estava vazando de seus poros. A função corporal era algo que todos os Nefas podiam controlar; a maior parte dos dias eles simplesmente optavam por não fazer.

— Vamos fazer isto, não vamos? — Axel perguntou, soando excitado. — Bem, okay então. Ainda bem que eu amarrei meu garotão na cueca hoje.

A antecipação zumbia através de Koldo. Encontrou seu inimigo no meio do caminho, estudou-o novamente. Eles nunca se viram antes. Ou o macho era mais jovem que Koldo por vários séculos ou seu pai o roubou de outro clã de Nefas.

Ele mastigava sua guloseima como se não tivesse nenhuma preocupação na vida, assumindo que Koldo não faria nada na frente de testemunhas humanas.

— Demorou bastante para juntar coragem e se mostrar. — disse o Nefas com uma voz muito profunda. — Tenho uma mensagem para você, Koldo o Terrível.

Koldo não tinha nenhuma vontade de ouvir o resto. Todos os Nefas podiam lampejar e ele tinha que agir rapidamente. Em um movimento fluído, sacou suas espadas curtas de dois gumes do bolso de ar que usava para armazenar suas armas e golpeou, cruzando seus pulsos para formar uma tesoura gigante.

— Nuvem. — Axel disse quando a cabeça do homem foi separada de seu corpo.

A nuvem estava ali em um instante, protegendo os acontecimentos enquanto as duas peças tombaram no chão e uma poça de sangue negro se formou.

— Bem, o pretzel está arruinado. — acrescentou o guerreiro em tom de conversa. —E aí, você não estava curioso a respeito da mensagem?

— Não. Eu sabia o que ele ia dizer. — Um oi do pai de Koldo, bem como uma ameaça para Nicola, tudo em uma tentativa de prolongar a apreensão de Koldo.

— Importa-se de compartilhar com o resto da turma?

— Sim.

— Tá certo, já que eu não estava realmente interessado. Mas tenho que dizer, estou tão orgulhoso agora. — Axel aplainou a mão em cima do seu coração. — Você pegou emprestado meu movimento patenteado, provando que sou feito do mais que incrível. Sou incridelicious. Isto é uma palavra? Provavelmente é uma palavra de garota, mas quem se importa? Sério. Você vê uma lágrima no meu olho? Porque com toda certeza eu sinto uma.

Koldo não entendia o humor do homem, e mesmo assim percebeu que estava gostando de Axel apesar disto. Ele era forte, corajoso e nunca recuava de uma luta. Nunca permitia que o humor de Koldo afetasse o seu, e estava feliz em fazer qualquer coisa que Koldo pedisse. Ou exigisse.

Qual era a história do macho?

— Você é muito estranho. — Koldo observou.

— Não. Eu sou misterioso. Existe uma grande diferença.

— Você é definitivamente estranho.

Koldo colocou o corpo e a cabeça no bolsão de ar junto com as árvores e a sujeira, e procurou por quaisquer outras pegadas espigadas. Não achou nenhuma, entretanto, ele não esperava. Esperava apenas que seu pai tivesse deixado uma trilha para trás, pensando em levá-lo para uma armadilha.

Uma armadilha que você sabia que não era realmente uma armadilha — mas uma arma.

— E aí, pra onde você quer ir daqui? — Axel perguntou.

— Preciso queimar a bolsa de ar e verificar as mulheres. Vamos nos encontrar amanhã à noite e ir à caça dos Nefas.

— Conte comigo lá.

 

Amanheceu, a luz do sol se infiltrando pela fresta nas cortinas que cobriam a janela do quarto da Nicola. Ela estirou os músculos tensos, e sentou-se. Depois que colocou Laila na cama, reclamou um lugar no sofá e leu. Depois de um tempo fechou os olhos, pensando em recarregar, e então... apagou até agora.

Ela não chegou a ir pra cama, mas estava lá agora. Não tinha se coberto, mas estava envolvida no edredom. Não havia nenhum modo de Laila ter levado, de forma que só podia significar que Koldo retornou. Ele apenas não a despertou.

Argh! Ele era muito doce para seu próprio bem. Agora ela não podia evitá-lo para sempre e fingir que o beijo nunca aconteceu. Tinha que enfrentá-lo e agradecer pela sua bondade.

Ela resmungou enquanto se arrastava pra fora da cama, resmungou enquanto escovava os dentes e tomava banho, tomando cuidado com suas novas tatuagens, e resmungou inclusive enquanto vestia um top rosa adorável e short jeans brilhante.

No momento em que se olhou no espelho, as queixas pararam. Ela tinha usado roupa de segunda mão a maior parte de sua vida. Seus pais faziam compras em lojas baratas, e depois quando estava encarregada de suas próprias finanças, ela o fez também. Agora... olhe para ela. Isso era... era... incrível.

Um gemido brotou dela. Mais uma vez, Koldo era responsável por algo maravilhoso em sua vida. E realmente, para um beijo que durou pouco, ela o fez sentir esta mesma sensação de temor. Ela o fez se sentir especial. Sabia disso, jamais esqueceria o modo como ele tremeu.

        Talvez... talvez ela não fosse uma má escolha para ele, afinal. Sim, ela desmaiou durante o segundo momento íntimo deles. E sim, poderia acontecer da próxima vez também. Mas, cortá-lo de sua vida em vez de enfrentar a enfermidade e o embaraço que se seguiu? Quanta tolice ela poderia chegar?

Poderia ser fraca — mas era mais forte que isto, pensou prendendo seu cabelo em um rabo de cavalo enquanto as mechas ainda estavam molhadas. Ela puxou o cabelo da sua mãe, e quase o cortou mil vezes. Mas toda vez que agarrava a tesoura, lembrava-se do modo como sua mãe costumava escová-lo e trançá-lo. O modo como seu pai costumava chamá-la de Mini Kerry, depois de sua mãe, e o modo como seu irmão costumava puxar as pontas.

Seu irmão. Seu bonito Robby.

Sentimos muito, Senhorita Lane, mas seu irmão foi lançado...

Não, não vá por aí. Pensar nele abria feridas que nunca foram realmente curadas. Então, ela sempre o afastava de seus pensamentos antes que eles tivessem tempo de se formar.

Levantando o queixo, marchou pra fora do quarto e decidiu verificar sua irmã primeiro. Mas o quarto de Laila estava vazio, a cama desfeita e as roupas espalhadas pelo chão.

Ela se moveu pela sala de estar — ainda nenhum sinal de sua irmã — e na cozinha. Nicola soltou um suspiro de alívio quando viu Laila à mesa, a cabeça apoiada na palma da sua mão erguida. Uma xícara de chá fumegante diante dela.

— Não fale. — sua irmã resmungou. — Simplesmente... não fale.

— Ressaca?

Laila gemeu.

— Co Co! Por favor.

— Desculpe. — ela sussurrou. Nicola serviu uma xícara de chá pra si mesma, e sorveu o líquido quente e adocicado.

— Você devia comer frutas. — uma voz masculina disse, e Laila emitiu outro gemido.

O coração de Nicola acelerou em uma batida mais rápida quando torceu o tronco para enfrentar Koldo. Ele vestia a mesma camisa e calças brancas soltas que usou no hospital. Havia linhas de tensão marcando seus olhos. Uma tensão que correspondia ao que ela ouviu em sua voz ontem à noite.

Ele parou para olhar para ela de cima abaixo, e seu queixo caiu. Ele começou um exame mais vagaroso dela, suas pupilas dilatando.

— Você... você...

— Sim? — Perguntou esperançosa. É linda? Deslumbrante? Vale a pena tentar beijar novamente?

— Está vestindo a roupa que escolhi pra você. — Um resmungo áspero.

— Sim. — Ela aguardou. Ele não disse mais nada.

Sério? Isso era tudo que teria? O óbvio?

— Vou comer se você comer. — ela resmungou.

Ele pensou por um momento, acenou com a cabeça rigidamente e se sentou à mesa. Nicola se deixou cair na cadeira ao lado dele. Havia um prato cheio com laranjas, morangos, bananas e melão. Ela selecionou um morango e mordeu no meio, o suco escorrendo por sua garganta e fazendo-a gemer.

— Oh, isto é bom. — Quase o suficiente para fazê-la esquecer da falta de apreciação de Koldo da mudança de sua aparência. Quase.

Ele estendeu a mão e enxugou uma gota que pingou em seu queixo. Os olhos dela se arregalaram quando ele levou o dedo até sua boca e provou.

— É. — ele concordou com uma nota rouca em sua voz.

Sua pele formigava onde ele a tocou, queimando do modo mais delicioso. E quando o olhar dele baixou para onde seu dedo estava um brilho de satisfação ardia em seus olhos.

Okay, então ela finalmente esqueceu.

— Você está com um espírito melhor hoje. — ele disse.

Ela gostou que ele estivesse tão em sintonia com ela.

— Estou.

— Por quê?

Sua inquietação com o beijo de ontem era particular, algo entre eles, não algo a ser compartilhado, até mesmo com sua amada gêmea.

— E aí? — ela disse mudando de assunto. — Quem decorou sua casa?

Houve uma pausa antes de dar de ombros, e dizer:

— Fui eu. — surpreendendo-a. O quê? Sem pressionar por uma resposta? Nenhuma preocupação profunda por incomodá-la?

Você está de brincadeira.

— Só pra deixar claro. Você decorou cada quarto?

— Sim, cada quarto.

— Mas... há tanto rosa no meu.

— E não posso gostar de rosa?

Seus olhos se arregalaram.

— O quarto é seu?

— Não. Mas quando eu era mais jovem e tolo, esperava que minha mã... — Ele apertou seus lábios. — Não importa.

Esperava que sua... mãe ficasse com ele? O que o fez pensar que ter tal esperança era tolice?

— Desculpe pessoal, mas preciso desesperadamente de mil confissões. — Laila ficou de pé, empurrando sua cadeira para trás. — E talvez uma massagem completa, um cochilo, um longo banho e uma maratona de TV de Como eu Encontrei Sua Mãe.

— Confissões? — Koldo perguntou.

— Ibuprofeno. — Nicola explicou.

— Assim que agirem, pretendo me preparar para meu encontro. A propósito, sinto muito por ter apagado em seu quarto ontem à noite. Não acontecerá novamente. Provavelmente. — Laila cambaleou pra fora da cozinha.

Koldo prendeu o olhar de Nicola.

— Por que essa mudança? — Ele perguntou, atacando no momento em que estiveram sozinhos.

Ele sabia por que ela evitou a pergunta. Ele se importava. Derretendo...

— Eu estava envergonhada por que desmaiei.

O fôlego dele saiu num sopro, e ela pensou que captou linhas de alívio.

— Eu jamais quero que você fique envergonhada comigo, Nicola.

— Bom, porque superei isso. — ela disse. A maior parte.

— Então você não se arrependeu do que fizemos? Não pensou que fui muito rude?

— Nem um pouco. Você foi incrível.

— Então por que se vestiu deste jeito para o seu encontro? — ele perguntou suavemente. — Como se você quisesse o desejo de outro homem.

Ela engoliu em seco, então respondeu honestamente.

— E-eu não fiz. — Fiz isto por você.

Uma pausa. Então, em uma voz tensa.

— Eu não quero que você vá. Eu... preciso de você aqui. Comigo.

O estômago de Nicola realizou uma série de voltas. O modo como ele disse a palavra preciso — ele se importava. E emitiu um pedido desta vez, em vez de uma ordem. Seu próprio alívio era palpável, sua euforia difícil de conter. Mas...

— Eu queria poder cancelar. Realmente queria. — Naquele momento, mais do que qualquer coisa. — Mas você ouviu Laila. Ela está animada e não vai sem mim. E ela esteve tão chateada, e eu estive tão preocupada com a toxina dentro dela. Preciso dela calma, serena e alegre.

— Você pode controlar suas emoções, não a dela.

— Eu sei, mas tenho que tentar alguma coisa. — Por favor, entenda.

Suas mãos estavam na borda mesa, e suas juntas começaram a ficar pálidas. Finalmente o lado da mesa foi arrancado, fragmentos de madeira chovendo no chão. Koldo se levantou de um salto e saiu pisando duro da cozinha.

Deixando-a sozinha.

Tão dolorosamente sozinha.

 

Thane aterrissou no centro de Teaze, um salão e clube de dança na Terra que atendia imortais. Onze mulheres de espécies diferentes se agitavam em torno do pequeno edifício, cada uma mais bonita e mais escassamente vestida que a outra. O único macho no local era William das Trevas, mais conhecido como Eternamente Excitado. Também conhecido como o guerreiro que se recusou a revelar suas origens, e no momento ele estava sentado em uma cadeira giratória com folhas de papel alumínio em seu cabelo.

— Eu sei que você está aqui. — disse William sorvendo de uma taça o que parecia ser ambrosia misturada com vinho tinto.

Enrijecendo, Thane deu um passo para dentro do reino natural para se revelar completamente ao guerreiro. Imediatamente sentiu o doce aroma do vinho, o cheiro forte de produtos de cabelo, o odor acre de esmalte de unha e a fragrância familiar de sexo. Muito, muito sexo.

William deve ter deitado com cada uma das estilistas.

— Como você soube? — Ninguém podia senti-lo quando ele não queria ser sentido.

— Ele esteve dizendo isso a cada dois minutos pela última hora. — disse a garota se apressando até William para remover o papel laminado.

Olhos azuis elétricos reluziam enquanto William entregava sua taça para uma fêmea que passou caminhando por ele — olhos de um azul elétrico que lembravam o de Axel. Entretanto, havia uma razão para isto.

— Você tem que arruinar tudo, Lakeysha?

A linda garota negra sorriu amplamente.

— Bem, sim. Você me arruinou para outros homens, então pensei em devolver o favor de alguma forma.

Thane estudou o local, meio que esperando que suas brincadeiras fáceis fossem um truque para um inimigo estar esperando nas sombras, pronto para atacá-lo. Ele viu tijolos e cimento, espaços abertos no interior com quinze cadeiras de salão de beleza, ou como quer que fossem chamadas, e uma fileira de secadores de cabelo de pé e pias. Sem sombras ameaçadoras. Nenhum som de uma arma engatilhando.

Nos fundos tinha uma grande porta vermelha. Se a atravessasse sabia que ele entraria no clube, onde havia pequenas gaiolas penduradas do teto, e hastes de pole dance estendendo-se de níveis individuais. Um tump-tump do som do rock sacudia a própria fundação do prédio.

— Eu deveria estar ofendido. — disse William notando o olhar dardejante de Thane. — Não fiz nada para ganhar sua desconfiança.

— Você vive. Você respira. Isto é suficiente.

William foi morar com os Senhores do Submundo — guerreiros imortais que lutavam para se livrar dos impulsos sombrios dos demônios que os oprimiam. Ele passou séculos preso dentro da prisão do Tártaro, por causa dos seus modos mulherengos e seu temperamento selvagem. Ele mataria qualquer um, a qualquer momento, por qualquer motivo.

Sem dúvida, ele não era o mais confiável dos machos. Mas informação era informação, e Thane queria saber o que ele sabia.

Thane perguntou a algumas de suas conexões mais escusas na Queda o que eles sabiam sobre os seis demônios responsáveis pela farsa nos céus, e embora tenha aprendido várias coisas interessantes, não soube nada que realmente prestasse.

— Claramente recebi sua mensagem. — disse William. — Você queria me conhecer, então aqui estamos. O que você quer?

Muitas coisas. Eles começariam com informações.

— Você é irmão de Lúcifer.

Por um instante, a máscara afável que William às vezes usava caiu, revelando o guerreiro cruel em seu núcleo.

— Ele é meu irmão adotivo. Adotivo. Não somos de sangue.    

— Ambos foram adotados por Hades, o guardião do Inferno.

Um estalo de sua mandíbula.

— Sim. E daí?

Então eles dois pensavam da mesma forma. Com toda certeza.

— Onde estão seus asseclas? Os seis demônios responsáveis pela morte do meu rei?

— Como vou saber?

Uma evasão. Uma que não seria tolerada.

— Os demônios agora estão vivendo entre os humanos. Você agora está vivendo entre os humanos. Eles são maus. Você é mau. Eles vieram do inferno. Você passou muitos séculos no inferno. Você deve saber onde eles foram.

Longe de estar ofendido pela descrição, William se sentiu cheio de si.

— Eles podem estar em qualquer lugar. Em todos os lugares. Você terá que atraí-los.

— Como?

— Eu realmente preciso fazer seu trabalho para você? — William encolheu seus ombros largos. — Certo. Eu vou. Poderia haver um pacote inteiro de caras no seu rabo, mas isso não significa que você vá encontrá-los. Então, coloque uma recompensa por suas cabeças. Até suas mães os entregariam — se eles tivessem mães, claro.

Cada instinto guerreiro que ele possuía se rebelou.

— E tirar a matança de minhas próprias mãos?

— Mas o trabalho será feito, então não vejo realmente qual é o problema.

É claro que William não via nenhum problema. Ele só pensava na meta, não no dano colateral.

— O trabalho pode ser feito, mas não desse jeito. Eu não saberia com certeza, já que não seria parte dele. E demônios mentem. Eles nunca são de confiança.

A garota terminou com o papel laminado, e William fez um gesto para ela se afastar.

— Se eu não conseguir destruir suas forças — Thane acrescentou — outra pessoa vai entrar em cena. Seus planos devem ser detidos na raiz.

William deu uma risadinha como um adolescente.

— Você disse raiz.

Esta é uma das muitas razões por que eu mato demônios. Por causa disso aqui. Não, William não era realmente um demônio. Ele inclusive lutou e escapou do inferno, permitindo que a luz brilhasse na escuridão de sua alma. Mas ele já começou a correr estrada abaixo que levava de volta à escuridão. Então, ele se qualificava.

— Olha. Tenho a sensação que você estará um pouco ocupado comprando sutiã para montar uma armadilha para os demônios que você quer ver morto. — William disse. — Você é de que tamanho? Quarenta e dois? Lakeysha ali vai te dar o dela, poupando seu tempo e permitindo a você fazer como sugeri.

Thane teve que admirar sua coragem.

— Como eu disse, demônios mentem. Demônios enganam. Nunca confiarei neles para fazer o trabalho para mim. Eu ou alguém que confio fará a matança. O que você pode fazer para me ajudar?

— Nada.

Talvez o guerreiro reconsiderasse.

— Eu sei que você sempre quis saber quem são seus pais verdadeiros.

William ficou imóvel, e por um momento, pareceu parar de respirar.

— Eu posso te ajudar com isto. — disse Thane. — Ajuda por ajuda.

Uma inalação aguda de ar, provando que a ação não funcionou mal permanentemente.

— Tudo bem. Vou marcar uma reunião com Maleah. Já ouviu falar dela, suponho?

Maleah. Quem não ouviu falar dela?

Uma vez uma Enviada, ela fora o soldado mais condecorado em seu reino nos céus. Ela foi tão condecorada, de fato, que agendar uma reunião com ela era mais difícil do que agendar uma reunião com o rei. Então um dia ela se foi, caída, e ninguém soube por que ou o que aconteceu.

— Marque a reunião. — Thane disse. — Quanto à informação que eu devo, confira com o Enviado chamado Axel. Acho que você descobrirá algo muito interessante durante sua primeira conversa.

 

Thane, Bjorn e Xerxes se armaram para guerra.

A reunião com Maleah foi marcada para acontecer em meia hora. William trabalhou rápido — e o macho infantil teria dado uma risadinha se ele ouvisse os pensamentos de Thane sobre o assunto.

Thane retornou para casa com tempo apenas para se deitar com uma nova fêmea em um esforço de desanuviar a cabeça e aliviar a pressão crescente para ter sucesso. Depois disso, ele alertou seus rapazes. Pelo menos Kendra não estava incomodando-o novamente. Ontem, ele fez o inconcebível.

Ele a entregou ao seu povo.

O número de Phoenix diminuiu severamente ao longo dos séculos, já que pouquíssimas de suas mulheres podiam conceber. Era por isso que os machos caçavam continuamente as fêmeas. Se uma fosse encontrada, era imediatamente levada para um acampamento Phoenix — e mantida lá para sempre.

Neste momento, Kendra já deve estar casada com um guerreiro. Neste momento, ela deveria ser escrava mais uma vez.

Thane devia se sentir culpado.

Mas não se sentia.

Provavelmente nunca sentiria.

        

Eu senti a tensão neste reino dos céus, como também na Terra, e soube que era um prelúdio para a próxima guerra. — Bjorn disse. — Sabia que um inimigo estava planejando algum tipo de ataque, mas presumi que o inimigo brotaria dos Titãs tentando sobrepujar e governar o mundo.

— Titãs... demônios... qual é a diferença? — Xerxes disse.

Não muito.

— Eu não ficaria surpreso ao descobrir que estão trabalhando juntos.

Thane acabou arrastando o metal de seus braços, cada um deles gravado com uma sequência de números para representar a promessa de força do Altíssimo. Em seguida colocou as luvas e deu um tapinha no ombro dos seus amigos. Ele preferia mais esta armadura àquela formada por sua túnica.

— Ninguém vem para nosso território e machuca nosso povo. Os demônios queriam uma guerra, então vamos lhes dar uma.

— Pelo rei. — disse Bjorn.

— Ele ainda não tinha terminado seu curso — Xerxes disse —, mas agora está em paz, seu espírito com o Altíssimo no reino dos céus. Um lugar muito melhor.

Eles compartilharam um momento de silêncio, cada um se lembrando das coisas boas que o rei fez para eles ao longo dos anos.

Juntos eles saíram de seu apartamento e foram até o telhado do clube. Thane bateu suas asas. Um céu escuro se estendeu ao redor dele, as estrelas brilhando de uma forma linda.

— E agora vamos terminar nosso curso. — Thane mergulhou na noite, descendo, descendo, descendo e virando em direção a oeste. Ar chicoteava em sua pele, bagunçava seu cabelo, tornando-se mais quente à medida que se aproximava do chão, inclusive quando o pico coberto de neve da Serra Nevada surgiu à vista. Havia uma grande quantidade de pinheiros e um lago tão claro quanto cristal, cabanas humanas de esqui e humanos marchando pela neve.

E ali era o lugar de Maleah. Uma cabana constituída de pedra e gelo, escondida em um penhasco. Os Enviados gostavam de morar nos elementos, e as fêmeas caídas devem ter se agarrado ao hábito.

Thane atravessou as paredes e se encontrou dentro de uma sala sem qualquer tipo de conforto. Havia computadores, TV, rádios e todos os outros tipos de equipamento, mas não tinha sofá, almofadas ou cobertores. Nenhuma fotografia.

Uma fêmea que ele ouviu falar, mas nunca viu manejar qualquer coisa com um olho afiado e um martelar constante em um teclado. Ela parecia uma princesa gótica, com sua pele branca, longos cabelos brancos, várias tatuagens e piercings. Uma franja comprida escondia sua testa e emoldurava seus grandes olhos azuis.

Bjorn e Xerxes pousaram ao lado dele.

— Bonita. — Bjorn disse olhando para ela. — Eu não ouvi nada sobre esse fato.

Se ela colaborasse, talvez ele a levasse para A Queda por alguns dias para se divertir. Se não...

Ele não poderia matá-la. Isso seria contra as regras. Mas podia fazer outras coisas desagradáveis.

— Eu esperava por você mais cedo. — ela disse subitamente. Sua cadeira girou e ela alfinetou Thane com um olhar fixo sem vacilar.

Ela não deveria ter sido capaz de senti-lo. Pois era humana.

E bonita não lhe fazia justiça, ele percebeu. Suas feições eram ousadas e sensuais. Tinha cílios brancos e espessos e olhos com pálpebras pesadas, o que deixava seu olhar sensual. Um nariz forte, com piercing curvando de ambas as narinas. Maçãs do rosto bem definidas. Lábios exuberantes com duas barrinhas no lábio inferior. Um queixo teimoso.

Ele entrou no reino natural.

— Impossível. — ele disse. — Você sabia exatamente quando eu viria.

— Eu soube quando você marcou para vir. Pensei que estaria com um pouco mais de pressa. — Seu olhar o varreu, fazendo-o entrar. Se ela gostou ou não do que viu, ele não podia ter certeza. Sua expressão endurecida sequer mudou. — William me disse que você era um arrogante.

Ela não ouviu falar dele enquanto vivia nos céus. Ele estava um pouco ofendido.

— Você é amante dele?

Ela riu com diversão genuína — mas não confirmou nem negou.

Bjorn e Xerxes se juntaram a ele no plano natural, e ela deu aos guerreiros o mesmo olhar de cima abaixo. Mais uma vez, sua expressão permaneceu em branco, ilegível.

— Armado para guerra, entendo. — ela disse. — Contra mim? — Não havia medo em seu tom. Só aceitação.

— Por que você caiu? — Thane perguntou.

Outra risada borbulhou dela.

— É. Veja como eu não falo sobre isto.

Muito bem. Ele descobriria mais tarde.

— O que você sabe dos seis demônios...

— Se escondendo aqui na Terra agora? — Ela perguntou com uma sobrancelha arqueada.

Ele deu um passo em direção a ela com as mãos fechadas em punhos.

— Sim.

— Vou te mostrar. — Ela virou para seus monitores e começou a digitar. — Nova York é uma área de alta criminalidade, certo, mas de altos e baixos, e muito raramente há um aumento enorme e repentino. As coisas normalmente se constroem. Bem, ontem à noite houve um pico diferente de qualquer um visto antes. Assassinatos, estupros, roubos, espancamentos, mas a maioria aconteceu no isolamento de lares humanos e não foram relatados. E não foi apenas em uma área seleta, mas generalizado.

— Isso não prova nada. — disse ele.

Ela bufou.

— Como você sabe, a mera presença de um demônio faz com que a própria atmosfera e a energia de um lugar mude.

— Verdade, mas isso não significa que o pico foi causado por demônios.

— Quem matou seu rei agora estaria fraco. Germanus teria lutado, e lutado muito. Os demônios saberiam que vocês logo estariam em seus calcanhares, daí eles iriam querer reconstruir sua força rapidamente. Como eles se alimentam do mal, teriam enviado seus servos para fazer o maior dano possível.

Deslumbrante e inteligente. Sim, ele a queria.

— Então eles se espalharam.

— Definitivamente. — Ela apontou para um mapa do mundo em uma tela separada, batendo seu dedo contra as áreas avermelhadas. — Cada um destes lugares teve um pico similar.

— Há doze lugares — Xerxes disse —, mas apenas seis demônios.

Ela revirou os olhos, dizendo.

— Você sabe tão bem quanto eu que nós não somos negligentes com os esquemas do inimigo. Eles saberiam que nós podemos rastreá-los desta forma, e teriam um modo de contornar isto. Daí os asseclas que mencionei.

Nós, ela disse, como se ainda fosse parte de um exército.

— Você acha que eles estão enviando suas forças para atacar outras áreas longe deles, para dividir nossos esforços.

— Exatamente.

Ele, Bjorn e Xerxes trocaram um olhar. Ela provavelmente estava certa — e eles deveriam ter percebido isso sozinhos.

Então, por onde vamos começar? Xerxes perguntou com a voz sussurrando na mente de Thane. Eles podiam se comunicar com todos os membros do exército do Zacharel deste modo — se quisessem — mas preferiram falar apenas um com o outro.

Não acho que isto importe, disse Bjorn. Não importa para onde vamos, estaremos destruindo parte de um exército de demônios.

Verdade. Mas os seis líderes estarão concentrando seus esforços em ganhar o controle dos humanos. Quanto mais humanos eles recrutam, menos podemos fazer para lutar de volta.

Mas então, por onde você quer começar? Xerxes perguntou.

— Nunca ninguém disse a vocês que é falta de educação ter conversas mentais na frente de uma garota? — Maleah murmurou.

Thane a ignorou. Ele pensou por um momento. Vamos nos dividir, cada um toma uma área. Se um dos seis for descoberto, quem descobrir avisa os outros e entraremos juntos.

Bjorn assentiu.

Xerxes enrijeceu. Muito bem.

Desde seu resgate daquele calabouço de demônios, eles não passaram mais do que uma noite separados. Sempre cuidaram um do outro. Mas ficar juntos agora era retardar sua busca, e eles deviam ao antigo rei mais do que isto.

Vou pegar Nova York, disse Bjorn.

Vou para as Highlands, disse Xerxes.

Las Vegas foi o segundo maior ponto vermelho, mas...

Vou para Auckland. Tenho uma casa lá. Thane protegia o que era seu.

Ele apertou a mão de Bjorn e o puxou para algo que os humanos chamavam de trombada de peito. Então, Bjorn abriu suas asas e se foi. Ele fez o mesmo com Xerxes, e ele também se arremessou para longe.

— Muito obrigado, Maleah. — a garota murmurou sacudindo sua cabeça. — Você nos ajudou muito mesmo, Maleah, e não poderíamos ter feito isto sem você.

— Isso ainda não foi provado. — Thane disse a ela.

Ela fez uma cara feia para ele.

— É melhor aprender boas maneiras antes de se aproximar de mim novamente. Caso contrário, não vou te dar mais nenhuma nova informação.

— Uma promessa?

— Uma ameaça.

Ele lutou com um sorriso. Ainda estava para encontrar uma fêmea que pudesse resistir a ele por muito tempo. E isso não era o orgulho falando, mas a verdade. Senhoras demais tinham uma fraqueza por um rosto bonito, e ele tinha um rosto mais do que bonito. Teria ficado triste pelo fato de que muitos poucos se importavam em olhar além da superfície para o homem dentro dele, se é que alguém já tinha. Queria uma fêmea para ver o homem do lado de dentro.

— Por que está fazendo isto, afinal? — Ele perguntou a Maleah. — Não pode comprar seu caminho de volta. — Ninguém podia. Alguns Enviados retornaram aos céus depois de cair, mas ações não tiveram nada a ver com isso. Eles tiveram que se aproximar do Altíssimo e pedir.

— Eu sei que não posso. — ela disse suavemente.

— E tão por que faz isto? — Ele perguntou de novo.

Ela não o encarou, mas ele podia ver que seu sorriso era triste.

— Você provavelmente está intimamente familiarizado com a minha resposta.

— E qual é?

— Remorso.

 

Nicola queria estar em qualquer lugar que não fosse uma churrascaria chique com dois homens que mal conhecia. Mas estava determinada a aproveitar por causa da sua irmã. E até agora, todo mundo à mesa acreditava que ela estava.

— ... Daí, a cerca de dois anos percebi que ela esteve me traindo com meu irmão durante a maior parte de nossa relação. E sabe o quê? Isso não foi o pior que ela fez! — Blaine, o par da Laila, contou outra história sobre a mulher que partiu seu coração, arruinou sua vida e o deixou enrolado em todos os tipos de destroços sentimentais, parando apenas tempo suficiente para engolir o resto de sua quinta cerveja.

Laila pousou a mão acima do coração, seus olhos lacrimejantes enquanto escutava embevecida e tentava oferecer conforto.

Dex esfregou a parte de trás do pescoço.

Nicola forçou um sorriso e se remexeu em sua cadeira. Ela deixou de usar as confortáveis e bonitas roupas que Koldo lhe deu para usar o vestido preto que usou no funeral triplo de sua mãe, seu pai e seu irmão. Pareceu uma boa ideia quando o retirou do armário. Afinal de contas, provavelmente era melhor parecer antiquada que vestir o que um homem comprou pra ela enquanto passava a noite com outro. Mas ela ganhou um pouco de peso e o material estava apertado, tornando difícil de respirar.

Koldo deu um olhar para ela e fez uma careta.

— É assim como você quer que o humano a veja?

Como ela poderia ter respondido àquilo?

Depois disso, ele concluiu fazendo um sermão sobre segurança.

— Está com seu telefone? Seria melhor levar. Ligue pra mim se ele fizer qualquer coisa que você não goste. Ou se ele não gostar de alguma coisa que você faça. E não esqueça que você tem as tatuagens em seu braço. E que pode invocar o Altíssimo.

— Não esquecerei. Papai.

Sua cara feia se fechou antes dele lampejar com ela e Laila de sua casa. Então ele mandou que não se mexesse enquanto corria suas mãos quentes como chamas pelo seu rosto, braços e até suas pernas — cobrindo cada centímetro de pele exposta com algum tipo de loção brilhante. Depois, sem uma explicação, ele desapareceu. Ela não o viu desde então. Mas pelo menos não levou seu calor com ele. Pela primeira vez em sua vida, ela não estava vestindo um suéter, não foi pressionada contra a fornalha viva conhecida como Koldo, ainda que a temperatura do seu corpo estivesse regulada corretamente. Ela não estava tremendo.

Dex e Blaine chegaram em seguida, e aqui estavam eles, em Kodiak. Sentaram-se em uma mesinha à luz de velas com o ressoar de uma harpa tocando suavemente ao fundo.

Laila parecia linda no vestido de cetim vermelho que Koldo comprou, com seu cabelo loiro derramando pelos ombros. Blaine vestia terno e gravata escuros, sendo que ambos estavam tortos. Dex também vestia terno e gravata escuros, o complemento perfeito para sua constituição magra. Ele não foi nada além de solícito, ansioso para agradá-la, e agarrou-se a cada palavra dela. Toda mulher precisava encontrar um homem como ele, pelo menos uma vez em sua vida. Mas, apesar de tudo aquilo... ela ainda queria Koldo. Apenas Koldo.

— E aí? — Dex disse passando as mãos nos nós dos dedos dela para puxá-la em uma conversa particular, provavelmente queria ficar afinado com Blaine.

Não havia nenhum calor em seu toque, nenhum frisson.

— E aí? — ela disse.

Ele franziu o cenho, inclusive empalideceu e retirou sua mão. Ele olhou pra baixo, estudando seus dedos na luz.

— Algo errado? — Ela perguntou.

— Não. Não. Eu só... pensei que senti um terrível... Uh, não importa. — Ele forçou uma risada. — Então você tem tatuagens, heim?

— Sim.

— Eu nunca teria imaginado.

Ela também não.

— Por que números? — Ele perguntou.

— Por que não? — Ela disse, porque não tinha nenhuma outra resposta louvável.

Ele deu de ombros dizendo.

— Mais do que justo. Então já te contei que não tenho um encontro há meses?

— Mas por quê? — No momento em que as palavras saíram de sua boca, ela percebeu seu erro e corou. — Sinto tanto. Essa foi uma pergunta tão rude. E quem sou eu pra julgar? Não tive um encontro em anos.

Ele sorveu seu vinho, estudando-a por cima da beirada da taça.

— Isto é impossível. Cada homem no escritório está meio apaixonado por você. E se você tivesse mostrado o menor sinal de interesse, eles teriam ficado completamente apaixonados por você.

Apaixonados por ela? Não havia nenhuma maneira.

— Por que eles iriam querer... — Outra pergunta rude, e uma que ela não terminaria.

— Por que eles iriam querer você? — Dex perguntou, completando a frase para ela. Ele deu outra risada. Esta foi relaxada. — Você é tão composta, tão tranquila, e esteve tão triste ultimamente. Tornou-se uma compulsão fazer você sorrir. Está mais bonita a cada vez que te olho, mas você não está nem aí. E eu podia continuar indefinidamente.

— Obrigada. — Respondeu suavemente. Se não mudasse de assunto, explodiria em chamas. — E aí... passou algum tempo com Jamila e Sirena?

Ele esteve no processo de sorver outro gole de vinho e engasgou. Ele tossiu e bateu em seu peito.

— Você está bem?

— Tudo bem, tudo bem. — ele ofegou. — Ei, o que te fez perguntar sobre aquelas duas?

— Eu só estava me perguntando como elas estão indo para o restante do escritório.

— Oh, humm, ótimo, eu acho. Eu... realmente não me preocupei em descobrir mais sobre elas.

O garçom chegou com a comida, colocando os pratos na mesa, e Dex soltou um suspiro aliviado. O aroma acentuado das especiarias acertou-a em cheio, e seu estômago revirou com fome, um apetite voraz exigindo atenção. Só então, ela desejou que tivesse pedido um bife suculento de alcatra em vez de uma tigela de fettuccine.

— Diga-me mais sobre como está se recuperando. — Laila disse — E Blaine fez exatamente isto.

— Eles estão se dando bem. — Dex disse, novamente estendendo sua mão e dando um leve tapinha na mão de Nicola.

A mesa nem sequer se sacudiu e, no entanto, sua taça de vinho de repente virou, entornando o escuro líquido vermelho por cima de sua jaqueta e calças. Dando um grito, ele deu um salto.

— Com licença. — ele disse entredentes antes de correr para o banheiro dos homens.

 

— Você está agindo como uma criança. — disse Axel.

— Isso é engraçado, vindo de você. — Koldo respondeu através dos dentes cerrados.

— Você derramou bebida em um humano fracote.

— Ele tem sorte por ainda estar vivo. Eu poderia ter lançado punhais.

— Espere. Você pensou que eu estava reclamando? Eu estava realmente aplaudindo.

Eles permaneceram ao lado da mesa dos quatro nos últimos vinte minutos, observando os casais interagirem.

Koldo chegou de mau humor, e aquele humor só ficou pior. Rastreou seu pai, o que foi fácil de fazer. Cada lampejar deixava uma marca no ar que ficava vaga, e Nox lampejou muito. Mas a trilha conduzia para a casa de Nicola e ficou fria, um fato que enfureceu Koldo. Raiva que ele não se permitia expressar. Tinha uma mulher sob seus cuidados agora. Não podia mais dar rédea livre ao seu temperamento. E se ele assustasse Nicola? Ou a ferisse sem querer?

Axel, que podia encontrar qualquer um, em qualquer lugar, não teve nenhuma sorte com os Nefas. Então, eles desistiram por enquanto e vieram até aqui.

Koldo quase discou o número dela umas mil vezes. Ele queria dizer a ela o quanto estava bonita — tão bonita que ele não queria que outro homem a olhasse. Queria dizer que estava arrependido por ter dado um fora nela.

Queria dizer a ela que o cara com quem estava se encontrando era um mentiroso e viciado em sexo.

Foi Dex quem Koldo viu fazendo sexo com Sirena bem em cima da escrivaninha de Nicola, naquela vez que visitou seu escritório. E agora o homem estava fingindo não conhecer a garota.

A cada segundo que passava, um fato se tornava incrivelmente claro. Koldo deveria pegar Nicola em seus braços e reivindicá-la de verdade. Outro beijo. Só que mais longo. Mais profundo.

Ela pertence a mim.

E já estava na hora dele provar isso.

Um momento se passou. Ele assentiu. Sim, estava realmente na hora dele provar isso. Pobre Nicola.

Ele era metade Nefas. Era perigoso. Repugnante. Era do mal. Seu passado já tinha se levantado para ameaçá-la. Ele não tinha asas. Nunca esteve com uma mulher, não tinha certeza de como agradá-la dessa forma e não tinha certeza de como ele se sentiria depois.

Ela teve tão pouca alegria em sua vida extremamente curta. Tudo que amou foi roubado dela. Se Koldo a mantivesse, romanticamente falando, ela não estaria muito melhor. O tempo dele seria dividido entre ela, sua mãe, seu pai e por fim, seus deveres. E o que aconteceria a Nicola se ele alguma vez caísse dos céus?

Mesmo assim, isso não o impediu de espalhar sua essência por toda parte de seu corpinho hoje, marcando-a e advertindo a todos os outros machos para ficarem distantes.

Agora havia um brilho radiante e dourado sobre a pele dela.

Koldo podia vê-lo e sabia que Axel também. Mas não Dex. E, no entanto, o humano sentiu o calor dele quando se atreveu a estender a mão e tocar o que pertencia a Koldo. Uma ação que quase conseguiu matá-lo. Koldo tinha rosnado e se lançado adiante, determinado a remover a cabeça do humano de seu corpo — e o teria feito se Axel não o tivesse abordado e jogado no chão.

Ela merecia algo melhor do que Dex. Melhor que Koldo. Mas... ela não obteria. É isso. Ela ia ficar com Koldo. Todos os outros detalhes podiam ser trabalhados depois.

Sangue podia manchar suas mãos, mas ele só a trataria com ternura. E ela não era como Cornelia e Nox; já tinha percebido. Jamais o trataria com ódio e crueldade.

Ela o fazia rir quando ele estava no seu pior. Adorava tê-la em seus braços. Adorava tê-la em seu colo. Conversar com ela, ensiná-la, escutar sua sagacidade e observações, simplesmente respirar e levar seu aroma para dentro dele. Adorava seu gosto, e agora queria tudo dela.

Por que tentar encontrar outra mulher, uma imitação, quando já tinha a coisa de verdade? Nicola era a criatura mais bonita que já viu, e ele queria... tudo dela. Queria abraçá-la. Vê-la com seu cabelo fluindo pelas costas abaixo. Ouvir mais histórias sobre sua infância. Queria vingar as injustiças feitas a ela.

Ele só... queria.

E teria essas coisas — e muito mais.

Um dia você vai querer uma mulher, Nox dissera em um de seus momentos de “ensino”. Fará qualquer coisa para tê-la.

Na época, ele debochou. Agora? Percebeu a verdade daquelas palavras.

Mas quando a tiver, vai terminar com ela. Sua curiosidade será satisfeita, a obsessão diminuirá, e você pode virar seus olhos para a próxima conquista.

Foi isso que aconteceu com minha mãe? Koldo perguntou. Você a quis, teve e deixou de desejá-la?

Nox soltou uma profunda e retumbante gargalhada. Exatamente. Mas oh, entretanto eu gostei dela.

Talvez Koldo perdesse o interesse em Nicola também, mas talvez não. A palavra do seu pai não era exatamente confiável, embora Koldo tivesse visto evidências para sustentar sua alegação. Thane, Bjorn e Xerxes certamente pareciam pensar que as fêmeas eram descartáveis.

Mas isso não importava. Koldo não lutaria mais com a atração. Não se preocuparia com o que pudesse dar errado, com o que Nicola pudesse querer ou o que pudesse acontecer no futuro. Disse a ela para não se preocupar com sua doença ou qualquer outra coisa, que aquilo só a prejudicaria, e agora ele seguiria seu próprio conselho.

Só tinha que descobrir como prosseguir.

— Você parece que está pronto para ter uma ruiva para o jantar. — Axel disse como se lesse seus pensamentos. — Só se revele, lampeje para casa e faça suas coisas. Desse modo podemos voltar a monitorar os Nefas.

— E se ela lutar comigo em público?

— Há apenas 49 por cento de chance que ela realmente ganhe. Então você deve estar seguro.

— Você não pode estar falando sério?

— Quando se trata de matemática, sou sempre sério. Basta fazer alguma coisa ou partir. — Axel disse, lixando as unhas. — Estou entediado. Coisas ruins acontecem quando estou entediado.

— A trilha dos Nefas ficou fria. — lembrou ao guerreiro. — Tudo que podemos fazer é perguntar por aí, e tentar achar seu ninho. E se isso falhar, tudo que podemos fazer é esperar pelo seu próximo ataque. Você não tem nada melhor a fazer.

Ele olhou para Nicola, que agora estava mexendo em sua comida de cá pra lá, observando a irmã. Antes de Dex correr pra longe, ela perscrutou o macarrão com uma fome que Koldo queria dirigida a ele.

Ele olhou para Laila, quem afastava sua comida sem dar uma única garfada e escorava os cotovelos na mesa. Enquanto Blaine cavava em sua costeleta de porco e contava a ela outra história sobre sua ex-amante, ela enxugava seus olhos lacrimejantes, solidária com a sua dor.

Dex apareceu no canto mais distante, sua jaqueta pendurada no braço. Sua simples camisa branca tinha alguns respingos de vermelho, e havia uma mancha úmida no lado esquerdo de sua calça. Ele estava calado quando recuperou seu lugar.

— Nós podemos ir. — Nicola ofereceu.

— Está tudo bem. — Dex respondeu rigidamente. — Minha vaidade tomou um golpe duro, isto é tudo.

— Bem, talvez exista algo que eu possa fazer para ajudar. — Mordiscando em seu lábio inferior, Nicola agarrou seu copo de água, respirou fundo e despejou metade do conteúdo em seu colo.

O queixo de Dex caiu enquanto ela ofegava e sorria — e Koldo odiou aquele outro homem por vê-la tão relaxada, tão feliz, e a quem ela estava se esforçando tão diligentemente para entreter, para agradar.

— Agora nós dois parecemos que urinamos em nossas calças. — ela disse.

Uma gargalhada explodiu do homem.

Risos que deveriam ter sido de Koldo.

— Ok, posso ter que lutar com você por ela. — Axel disse. — Isso realmente foi legal.

Koldo lampejou para fora do restaurante, mentalmente ordenou à sua túnica que se tornasse camisa e calças pretas, e marchou de volta para dentro, desta vez no reino natural, onde todos pudessem vê-lo.

As recepcionistas espiaram e só puderam ficar boquiabertas. Vários grupos estavam esperando por uma mesa, e abriram um amplo espaço para ele. Ofegos soaram. Murmúrios surgiram. Ele não se deu ao trabalho de falar com nenhum dos humanos, e marchou direto para a mesa da Nicola. As conversas cessaram. Ele podia imaginar Axel rindo, mas felizmente não podia vê-lo ou ouvi-lo.

Dex o viu e seu garfo parou no meio do caminho. Seus olhos arregalaram.

— Você!

Blaine o avistou e se endireitou em sua cadeira com um estalo.

— O que... — Laila começou, só para olhar pra cima e gemer. — Ah, não.

Nicola olhou de relance para cima, e levou um instante para a ficha cair.

— Koldo. O que está fazendo aqui?

— Você o conhece? — Dex perguntou com um chiado.

Koldo examinou de cima os ocupantes da mesa. Ele percebeu que devia ter pensado nisso um pouco mais. Não tinha ideia nenhuma do que dizer.

— Nicola. — ele começou.

— Sim? — Ela lançou seu guardanapo na mesa e ficou de pé. A metade inferior do seu vestido estava encharcada, água escorrendo pelas suas pernas nuas.

Ele se elevou sobre ela, e isso deveria tê-lo dissuadido. Ele podia machucá-la sem jamais perceber, e poderia machucá-la o suficiente para matá-la. Mas seus olhos se encontraram e seu sangue aqueceu, e ele soube que não podia continuar outra noite sem tê-la em seus braços.

— Sua irmã teve sua diversão, não é?

— Humm, pra falar a verdade não. — Nicola disse, olhando para o rosto de Laila riscado de lágrimas. — Quando muito, ela está mais triste do que nunca. Desculpe Blaine, mas é verdade.

— Isso pode ser corrigido. — Virou para Axel, que ele ainda não podia ver, e ordenou. — Cuide da irmã. Faça-a feliz. — Pegou a mão da Nicola e a arrastou em direção à saída.

— Koldo. — ela ofegou, porém não ofereceu nenhuma resistência. — Sério. O que está acontecendo? Aconteceu alguma coisa?

Lá no fundo, ele pensou ter ouvido alguém perguntar se ela queria que a polícia fosse notificada.

Ele lhe lançou um olhar por cima do ombro.

— Você é minha. E estou reivindicando você.

 

No momento que ultrapassaram as portas, o ar da noite os abraçando, Koldo envolveu Nicola em seus braços e olhou para ela. O resto do mundo desapareceu de sua consciência. Ele era tudo que ela via enquanto sua mente se agitava com possibilidades e problemas. Estava a reivindicando? Eram palavras inocentes, mas seu tom foi intenso, como se estivesse fazendo uma promessa de vida, jurando na frente de um juiz.       

Estava tentando dizer que eram um casal oficial agora?

— O que está acontecendo? — Ela perguntou, realmente gostando do pensamento. Exceto...

E se não fosse suficiente para ele? E se seu coração nunca se recuperasse, e ela nunca pudesse satisfazê-lo fisicamente?

Fios de pânico de ontem voltaram, tecendo novas sequências de medo, formando um laço em volta de seu pescoço e apertando. Vamos, menina. Já saltou desse caminho. Não pule de volta.

— As circunstâncias mudaram. — Koldo disse.

— Eu sei, mas... — Mas? Sem mas!

Uma pausa crepitante quando ele procurou seu rosto.

— Respire.

— Estou tentando.

— Tente mais forte.

Dentro. Fora. Deeentro. Foooraaa. Aqui. Cada vez melhor, noite afora. O que acontecesse com ela, passariam por isso juntos. Ela sabia disso. Podia contar com isso — com ele.

— Está com medo? — Perguntou ele.

— Não de você. — respondeu com sinceridade.

— De você, então. Mas posso corrigir isso. — A olhou com a mesma intensidade que ela ouviu em sua voz, e com esse calor. — Feche os olhos.

— Por quê? Vai lampejar...

Ele fez. Lampejou com ela. Piscou e se encontrou em pé em seu quarto, no Panamá. Ele a soltou... só para apoiá-la contra a parede mais próxima.

Nicola engoliu em seco.

— Laila…

— Está sendo cuidada.

— Bem, tenho que me desculpar com Dex.

— Você pode. Amanhã. Pode enviar um cartão. — Koldo apoiou as mãos nas suas têmporas, seu perfume inebriante se envolvendo em torno dela, tão certo quanto seus braços o faziam. Ela respirou profundamente, seu batimento cardíaco fora de controle.

— Não pode ficar com outro homem. — ele rosnou. — Não. Nunca mais. Por nenhum motivo.

Apesar do ritmo muito rápido de seu coração, o resto do pânico perdeu força, tanto os antigos quanto os novos.

— Não quero ficar com outro homem. — Ela admitiu.

Ele acenou com convicção.

— Você pertence a mim. Para sempre, apenas a mim. — Mais uma vez, ele soava como se estivesse fazendo um voto.

Tinham que ser um casal.

— Entende o tipo de garota que está recebendo? — Espalmou as mãos sobre o peito dele, o calor escoando através de sua camisa e roçando sua pele. — Sou apenas eu, e venho com alguns desafios.

Ele sorriu, satisfeito.

— Sei disso. O que não sei é como ficar num relacionamento, mas vou aprender. Ao longo do caminho estou fadado a cometer erros. Você simplesmente me diga quando eu errar, e vou corrigir isso. De acordo?

Derretendo mais rápido...

— Concordo.

Ele não disse mais nada. Simplesmente apertou os lábios nos dela.

Não foi o beijo brutal que esperava de um homem tão determinado, ou o beijo doce e terno que compartilharam primeiro. Era calor e eletricidade, necessidade, querer e obsessão. Dependência e desejo. Tomada e doação. Uma reivindicação inabalável.

Ela gemeu pelo prazer, e ele levantou a cabeça. Olhou-a nos olhos, procurando.

— Não estava reclamando. — disse Nicola. — Juro.    

A atraiu de volta para ele, beijando... beijando tão profundamente, rodeando-a com o calor febril de sua pele. Ela mal podia acreditar que aquilo estava acontecendo. Era surreal. Era maravilhoso. Ele pertencia a ela — e não havia ninguém para detê-los prematuramente. Eles estavam sozinhos.

Seu coração vibrou. Seus membros tremeram.

— Está tudo bem? — Ele perguntou asperamente.

— Mmm-hmm.

Ele segurou seu rosto, as mãos abrasando marcas quando a posicionou do jeito que desejava. Suas pupilas estavam dilatadas, seus lábios vermelhos, inchados e úmidos.

— Vai me dizer se isso mudar?

— Sim. Mas não se surpreenda se estiver envergonhada por isso.

— Já disse a você. Nunca a quero envergonhada comigo. Aconteça o que acontecer, vamos lidar com isso. Estamos nisso juntos.

Ele tirou as palavras de sua mente — palavras de esperança, agora confirmadas. Estou mais que derretida. Estou apaixonada por ele. Profundamente.

Foi de volta para ele, tomando, dando. Suas mãos deslizaram ao longo da coluna vertebral dele, as unhas raspando sobre o tecido de sua camisa.

— Sob a roupa. — Koldo murmurou. — Quero sua pele na minha.

Um grunhido baixo retumbou dele quando Nicola obedeceu, estendendo a mão sob a bainha de sua camisa. Seus dedos acariciaram sua força duramente conquistada, e ela se maravilhou novamente. Era de veludo sobre ferro, a perfeição sobre perfeição, e cheirava tão bem quanto o sol que a lembrava do verão. Verão a lembrava de flores desabrochando, e flores desabrochando a lembrava de cores, tantas cores e vida, vida tão vibrante.

Vida. Sim. Isso era Koldo. Perto dele, era mais forte, mais feliz... mais livre. Como as flores, florescia. Tinha a paz que nunca teve.

— Mais. — ele disse e a soltou o tempo suficiente para puxar a roupa sobre a cabeça.

Ela estendeu a mão para ele. Ele a agarrou pela cintura e levantou do chão. Nicola envolveu suas pernas ao redor da cintura dele, e um raio branco se moveu com intensidade por suas veias.

— Eu disse que você é minha? — Ele exigiu.

Uma emoção percorreu através dela.

— Disse. E você é meu. — Ele era um presente, criado com todo desejo secreto de sua mente, e queria tanto ser perfeita para ele. Ser tudo que precisava. Tinha que permanecer consciente, não podia permitir que a enfermidade ganhasse. Não desta vez. E constrangimento não tinha nada a ver com isso. Apenas Koldo importava.

Suas mãos deslizavam acima, mais acima, e a apertaram suavemente, depois com mais força, tirando outro gemido dela.

— Isso é bom. — ele murmurou.

— Mais que bom.

As respirações se misturavam curtas, grossas, ofegantes. Koldo beijou o canto da boca, ao longo do lado de sua mandíbula, às vezes mordiscando. Mais além, lambeu seu pescoço, o pulso martelando, sua clavícula. Ele sempre a tratava como se não conseguisse o suficiente, como se quisesse provar cada centímetro dela ao mesmo tempo.

— Mas isso não é suficiente. — ele disse, voltando para beijá-la na boca.

Nicola emitiu outro gemido.

— Pensei que disse...

Ele puxou o topo de seu vestido abaixo, revelando mais e mais de pele para explorar. O protesto morreu quando a apertou contra a parede. Não vinha para insultá-la. Vinha para exigir mais dela.

Mas ela ficaria feliz em dar.

Koldo deslizou as magníficas mãos para baixo... para baixo, até que finalmente chegou à parte inferior do vestido. Ele levantou a bainha mais e mais, até que o tecido se juntou ao redor de sua cintura. O ar frio roçou contra ela, e sensação carnal após sensação disparou através dela.

Ele arrastou a ponta dos dedos abaixo por sua coxa, provocando um arrepio atrás do outro. Então... arrastou os dedos acima, deixando um rastro de fogo pelo caminho, e, ah, isso era... era... muito bom, muito bom, após o estresse da noite, e... o nevoeiro se formou em sua cabeça, assim como antes.

— Koldo. — ela tentou dizer, mas seu nome não era nada mais que um suspiro. Ele a beijou novamente, roubando o pouco que restava, e todo o tempo os dedos decadentes continuavam a dar mais suaves carícias, levando seu corpo para alturas que não estava pronta para chegar.

Seu mundo se inclinou, e a escuridão caiu.

O tempo deixou de existir. Ruídos desapareceram. As sensações a deixaram...

De repente, algo bateu em seu rosto. Algo frio bateu sobre a testa.

Franzindo a testa, Nicola se puxou da escuridão e piscou os olhos abertos. Koldo pairava sobre ela, e ela... estava deitada na cama, com a cabeça apoiada num travesseiro de pelúcia macia. Seu vestido estava no lugar, estirado sobre suas pernas.

Oh, não.

— Aconteceu de novo, não foi?

— Sim. Você desmaiou. — Sua autopunição era palpável. — Carreguei você para a cama.

Embora Nicola chegasse à conclusão que Koldo gostaria dela de qualquer maneira, apesar de algo assim, o constrangimento ainda aqueceu suas bochechas, assim como suspeitou.

— Eu sinto muito, Koldo.

— Não sinta. Eu te pressionei muito, muito rápido. — A camisa mais uma vez cobria seu peito magnífico, o que era, talvez, a maior tragédia agora. — Da próxima vez, vou mais devagar.

— Da próxima vez. — Ela disse, e queria começar a ronronar com satisfação.

Ele franziu a testa.

— Não quer uma próxima vez?

Mais do que qualquer coisa.

— O que faz você pensar que não? A menos que não me queira uma próxima vez. — ela acrescentou rapidamente. — Está tentando dar a entender que pretende que voltemos a ser apenas amigos?

Ele pressionou a mão contra seu queixo, o polegar acariciando seu rosto.

— Bateu sua cabeça? É claro que não quero ser apenas seu amigo. E deve me conhecer o suficiente para saber que nunca insinuo nada.

Tão verdadeiro. Ela sorriu para ele.

— Poderia ser um pouco mais doce?

Seus lábios se contraíram nos cantos.

— Primeiro. Não me importo se desmaiar a cada vez que fizermos isso. Vale qualquer esforço. Segundo, te faço feliz. Portanto, estou ajudando na sua cura.

Não apenas feliz, ela pensou. Delirante.

— Deseja permanecer apenas amiga? — Koldo perguntou, e desta vez o tom era tão afiado que poderia tê-la cortado. Sua expressão, no entanto, era torturada. — Não sou um homem disposto a comprar seus afetos, mas talvez pudesse fazer outras coisas. Existe algo que queira que não te dei?

Seu coração deu uma guinada.

— Não. — Ela admitiu. — Não quero que sejamos apenas amigos. E você me deu tudo. —Era o homem em quem pensava durante toda a noite. O homem com quem queria ficar. O homem que desejava.

Ele relaxou, assentiu com a cabeça e mudou o toque para o pescoço, onde seu pulso martelava descontroladamente.

— Gosto dos beijos que compartilhamos.

— Gosto deles, também.

— Gosto do seu gosto, de senti-la.

— Sim.

— Quero a toxina fora de você. — Seu tom tinha camadas de determinação. — Para sempre.

Nicola também. Mais que nunca. E tinham que mudar de assunto antes que o pressionasse muito, muito rápido.

— Diga alguma coisa para me distrair. Por favor.

Koldo a olhou por um longo tempo antes de assentir decidido. Rolando de lado, disse:

— A primeira vez que a vi você não estava no elevador.

— Não estava?

— Não. Um dia antes fui enviado ao hospital para ajudar um humano, me enganei e entrei no quarto de sua irmã. O Altíssimo me mostrou que ela estava naquela condição porque acalentava um demônio com medo por tanto tempo, que o demônio foi capaz de rastejar como um verme para dentro de seu corpo. Mostrou-me porque Ele queria que eu a ajudasse. Ela, sim, mas acho que você também. Você estava em perigo de sucumbir da mesma maneira.

Nicola descansou contra ele, encontrando companheirismo, conforto e aceitação. Todos envolvidos numa posição tentadora, apesar do assunto. Ou talvez por causa disso. Conhecimento era poder.

— Estava carregando um demônio? Quer dizer, sei que eu tinha a toxina, mas pensei que... Não sei o que pensei.

— Havia dois deles pendurados ao seu redor.

Um suspiro ficou preso em sua garganta.

— Mas nunca soube. Nunca os vi.

— Se fizer da minha maneira, nunca os verá. — Ele passou o braço sobre seu pescoço em uma suave pressão de estrangulamento — gentil, mas um estrangulamento, no entanto. Ele era tão novo neste tipo de coisa quanto ela, e Nicola estava subitamente lutando contra um sorriso.

 

— Diga-me algo sobre você — disse ela. — Algo que nunca disse a ninguém.

Uma longa pausa. Ele engoliu em seco.

— Quando era criança, vivia com constante medo. Minha mãe me odiava, e meu pai abusou de mim...

— Oh, Koldo. Eu sinto muito. — Foi seu pai quem fez aquelas cicatrizes?

— Nunca sabia que horrores teria que enfrentar da próxima vez, só que, de fato, teria que enfrentá-los.

Não admira que fosse tão feroz, tão distante — tão vulnerável e inseguro. Ele construiu um escudo em torno de si, desesperado para proteger o coração frágil, que foi pisoteado pelas pessoas que mais deveriam tê-lo amado. As pessoas que em vez disso o rejeitaram com seu abuso.

Ela traçou seus dedos ao longo dos gomos de seu estômago, desejando que a camisa desaparecesse, em seguida, repreendendo-se por querer.

— Faça-me uma pergunta. — disse ele. — Qualquer pergunta. Eu gosto de compartilhar com você.

Ela pensou por um momento.

— Por que estava tão chateado quando falamos ao telefone após a reunião de ontem?

— Acabava de descobrir que um homem que eu amava estava morto.

— Oh, Koldo. — Ela repetiu. Ele sofria um golpe atrás do outro, e o conhecimento a entristeceu.

Ela pegou sua mão, levou seus dedos aos lábios e beijou. Em seguida, passou a mão sobre suas bochechas, queixo, barba, fazendo cócegas em sua pele, antes de mais uma vez beijar os nós dos dedos.

— Foi um castigo que eu merecia. — A mesma culpa e vergonha que às vezes ela via em seus olhos agora escorriam de seu tom.

— Vou dizer uma coisa, e não quero que se sinta ofendido, tudo bem?

— Tudo bem — ele disse relutante.

— Isso é a coisa mais ridícula que já ouvi! Você não merecia perder um amigo.

Ele relaxou um pouquinho.

— Não fui sempre o homem que você conhece.

— E não fui sempre a garota que você conhece.

Ele balançou a cabeça.

— Você sempre foi doce, amável e carinhosa, e ponto final.

Não. Ele não sabia a verdade — que ela e Laila já haviam planejado assassinar o homem responsável pela morte de seus pais e irmão. E ela seria eternamente grata pelo plano ter falhado. Um momento de raiva mudaria todo o curso de suas vidas, e não para melhor.

Mas tudo que disse a Koldo foi:

— Está cometendo um erro. — e beijou-lhe o peito. Não havia nenhuma razão para estragar o momento. — E perceba o quão maravilhosa sou apontando exatamente como você pediu.

— Maravilhosa. Sim.

Não havia nenhum sarcasmo na sua voz. Querido homem.

— Diga. — Ela introduziu, lembrando a forma como ele uma vez usou a palavra com ela.

Ele ficou em silêncio.

Ela traçou um X sobre a batida pesada do seu coração.

— O que a palavra significa?

— Para fazer uma pausa e pensar sobre o que foi dito.

Bem, bem. A partir de agora, ela podia usar a palavra depois de tudo o que ela dissesse.

— Então, agora que já desnudamos nossas almas, e estraguei sua mente com minha inteligência, o que quer fazer pelo resto do nosso encontro?

— Descansar. Para o que planejei para amanhã, vai precisar.

 

Pela primeira vez em toda sua vida, Koldo passou a noite na cama com uma mulher. Sua mulher. Algo que queria. Só que, o que realmente queria era despir Nicola, despir-se, beijá-la, tomá-la e tomá-la novamente — e talvez novamente — e cair num sono profundo. Então acordar e tê-la novamente fisicamente. No entanto, ela não estava pronta para isso.

Talvez ele também não estivesse. Nenhum dos dois estivesse.

Da próxima vez precisava desacelerar e deixar ambos prontos. Amava as sensações o percorrendo tanto que beirava a perda de controle. Se isso acontecesse, ele poderia tê-la tomado com muita força. A machucaria do jeito que sempre temeu.

Um pensamento preocupante.

Um pensamento horrível.

O que um homem temia tomava conta dele. Sabia disso. Então, era hora de parar de se repreender e começar a lutar contra essas preocupações no momento que chegassem. Para praticar o que ensinava.

Enquanto conversavam ela se aconchegou ao seu lado, e esperava que o resto de sua excitação desaparecesse. Mas isso não aconteceu.

Só piorou.

Enquanto ela dormia, seu hálito quente se espalhava ao longo de seu pescoço numa carícia decadente. Seu coração batia em sincronia com o dele, ligando-os da mais sutil forma. Seus aromas de almíscar masculino se misturava à doçura feminina, e tudo que queria fazer era continuar de onde tinham parado.

Não podia. Não.

Tudo tinha que ser perfeito para ela. Não queria que ela olhasse atrás e se lamentasse. Preferia morrer. Não seria mais uma tragédia em sua vida. Ele seria outra coisa.

Tenho que ser algo especial.

Toda a sua força foi necessária para permanecer imóvel, ignorando as dores de seu corpo.

No momento que o sol se levantou, Koldo estava tremendo, suando e... ofegante e muito mais desesperado. Desembaraçou-se de Nicola, e mesmo sendo ela a fonte de seu tormento, odiava deixá-la. Ela resmungou um leve suspiro e rolou de bruços, o cabelo morango ainda num rabo de cavalo e derramando sobre todo o travesseiro.

Não posso mergulhar nela. Realmente não posso. Ele não se incomodou em tomar uma chuveirada antes de lampejar para uma serraria próxima e reunir o que precisava para construir uma segunda casa menor, no quintal da fazenda. Sua roupa o limpava por dentro e por fora.

Em seguida, começou a trabalhar. Decidiu mudar sua mãe para o Panamá.

Ela era uma parte de sua vida. Uma parte que não queria mais esconder de Nicola. Ontem à noite, contando a ela sobre seu passado, descobriu uma paz diferente de qualquer outra. Ele gostava. Agora, queria que soubesse de tudo. Queria ser completamente honesto com ela. No entanto, não apenas contaria. Mostraria a ela.

Uma hora acelerou para outra enquanto Koldo trabalhava naquela manhã, serrando e martelando. Eventualmente tirou a camisa. Suor escorria pelo seu peito e costas, e o sol batia contra sua pele. Seus músculos saudaram a tensão.

— Gostaria de algo para beber? — Nicola chamou da porta da cozinha. — Fiz uma limonada.

Ele olhou para cima — e desejou não ter feito. A excitação voltou com força total, como se nunca se afastasse dele. Nicola tomou banho e puxou o cabelo úmido em outro rabo de cavalo. Aqueles olhos de tempestade estavam brilhantes, as bochechas rosadas. Os lábios ainda inchados por seus beijos. Ela usava uma apertada camiseta branca e jeans com strass ao redor da cintura. Tão jovem. Tão fresca.

Só sua.

— Não, obrigado. — Respondeu ele. Se ela viesse aqui, ia agarrá-la e nunca a deixaria ir.

— Tem certeza? — Ela levantou um copo cheio até a borda. — Parece muito, muito quente. E quero dizer, em todos os sentidos.

Ele fez uma pausa, o martelo erguido no ar.

— O que está fazendo aí fora, de qualquer maneira? — ela perguntou.

— Construindo uma gaiola.

Koldo esperava que fizesse outra pergunta para ele.

Ela não fez. Disse:

— Aposto que está trabalhando com bastante sede.

De você.

— Não queira saber.

— Aposto que sei...

Ah, não, você não.

— Está flertando comigo?

— Estou.  

Confirmação. O mataria.

— Volte para dentro, Nicola. Agora.

Um suspiro sonhador a deixou.

— Então comandante. Nunca pensei que teria uma fantasia com um trabalhador braçal hostil, especialmente depois de ficar com raiva de você por rosnar no outro dia.

Ele quase abandonou as ferramentas e caminhou atrás dela. Quase.

Ela se afastou. Poucos segundos depois, Axel caminhou para fora da porta, com seu cabelo escuro desgrenhado, os olhos azuis brilhando enquanto bebia a limonada que foi feita para Koldo. Suas asas estavam escondidas em suas costas, e usava o manto habitual de anjo, o branco reluzente ao sol.

— Ei, sabe alguma coisa sobre um imortal chamado William das Trevas? Ele também atende pelo apelido de Ever Randy. Porque, de repente, sem nenhum motivo, ele decidiu me capturar. — disse Axel entre os goles. — Está realmente começando a ser irritante.

— Não. — No momento que o guerreiro chegou ao seu lado, Koldo arrebatou o copo e bebeu o conteúdo.

— Meu. — ele disse.

— Não foi legal. Alguém precisa aprender o significado de hospitalidade. E compartilhar. E bondade. E fraternidade. E amizade. E altruísmo.

— Vou ter a certeza de verificar essas palavras mais tarde. — Koldo entregou o copo vazio. — Obrigado por cuidar de Laila na noite passada.

Axel jogou o copo no meio dos arbustos atrás de si.

— Cara, aquela garota tem problemas.

— Eu sei.

— Provavelmente não deveria ter dormido com ela.

Koldo estava em processo de martelar um prego no seu próximo movimento para baixo e bateu com tanta força no final da tábua que ela rachou. Certamente não ouviu o que ele pensou que ouviu.

— Você dormiu com ela?

Piscou os olhos.

— O quê? Não sou um galinha ou algo parecido. Ela foi apenas minha terceira foda do dia. E você me disse para fazê-la feliz, certo?

Três. Três mulheres. Num dia? Koldo queria Nicola e somente Nicola, e não podia imaginar dividir a cama com mais ninguém. Sim, cogitou a ideia de voltar ao clube de Thane e tomar a Harpia, e outras, mas nunca seria capaz de ir até o fim com isso. Agora sabia.

Nenhuma outra mulher seria capaz de amenizar a dor. Nenhuma outra mulher teria o mesmo gosto... de doçura e luz. Nenhuma outra mulher seria tão macia. Em nenhuma outra mulher os gemidos seriam tão inebriantes. Ah, sim, apenas Nicola serviria.

— Por que essa veia pulsando em sua têmpora? — Axel perguntou. — Laila não é sua mulher, certo? Ou é? Perguntei antes, mas nunca disse. Está pensando em fazer uma coisa de irmã-esposa? Por que não vai ser a festa que você imagina.

— Não. — ele trincou. — Laila não é minha. — Mas não tinha certeza de como Nicola se sentiria sobre sua irmã ficar com um Enviado que não ficaria com ela. — Se você machucá-la...

— Ei! — o guerreiro disse com as palmas para cima. — A privei de Blainey Boo Bear, ou o que quer que os humanos chatos gostam de apelidar um ao outro, e lhe devia uma grande diversão... E não, não é esse o nome do meu pênis, mesmo que se encaixe. Trocaram tantas histórias sobre seus ex que ficou deprimida. Fiz um favor a ela, e ela me chutou para fora depois, e não o contrário. Só me usou e abandonou, e me fez sentir todo sujo por dentro. Então é claro que estou esperando que possamos fazer isso de novo.

Koldo enxugou a testa com as costas da mão.

— E ela não desmaiou? — ele se encontrou perguntando.

— Bem, sim. A sua também, não foi?

Ele gritou:

— E a tomou de qualquer maneira?

— Olá! Eu a acordei primeiro.

Koldo balançou a cabeça. O macho não tinha vergonha.

— Então, estamos construindo uma gaiola? — Axel perguntou, quando pegou um martelo para si. — Isso é o que disse a Nicola, certo?

— Sem mais perguntas. — ele disse, olhando para longe. Seu olhar caiu sobre Nicola, ao lado de sua irmã na frente da janela da cozinha, olhando para fora. Ela acenou, imperturbável ao ser pega olhando. Ele engoliu uma maldição.

O desejo não era para machucar. Era?

 

Embora os fusos horários fossem diferentes, Koldo sabia quando a segunda-feira amanheceu no Kansas, e lampejou Nicola e Laila para a parte traseira do edifício Estella. As meninas não queriam se separar, e gostou da ideia de ter as duas no mesmo local.    

Ele se materializou no reino natural e andou as acompanhando do beco até a porta da frente.

— Não vai atender meu pedido e sair? — Ele perguntou à Nicola. — Mesmo aqui sendo perigoso?

— Não vou.

Mulher frustrante.

— Por quê?

— Porque ela não vai ter você para sempre, mas sempre vai precisar do trabalho. — Respondeu Laila.

Ele... não tinha nenhum argumento, percebeu. Planejava manter Nicola, mas estava tão incerto sobre seu futuro quanto qualquer humano. Na verdade, estava mais incerto que a maioria.

— Muito bem. — Ele respondeu, porque, realmente, não havia mais nada a dizer. Caminhou para o interior e dentro dos limites do elevador.

Havia dois outros homens no carrinho minúsculo, e se apertaram contra a parede oposta, ficando o mais longe dele quanto podiam. Ele forçou sua carranca a suavizar antes que a dupla começasse a gritar por ajuda.

— Não olhem para as mulheres e ficarão bem. — ele disse.

Instantaneamente desviaram os olhares.

O perfume doce de Nicola flutuava em torno dele, e sua raiva por ela foi perdida para outro soco de excitação. Em que ponto seu corpo simplesmente desligava tornando o desejo por essa mulher demais para suportar? Como deveria ser suave com ela ao fazer amor sem matá-la?

Ela se inclinou para ele e sussurrou:

— Da última vez que estivemos num elevador juntos, eu queria cheirar seu pescoço.

Ele prendeu a respiração. Ela realmente iria matá-lo.

— Me pergunto como você teria reagido.

Laila amaldiçoou.

— Se ficarem nesse amorzinho-docinho, vou vomitar.

Nicola deu-lhe um tapa no braço. Laila bateu de volta, e as duas explodiram numa briga infantil e um ataque de risos.

O elevador soou, e as portas se abriram. Os homens correram para fora, e as meninas deixaram suas travessuras, agindo como se nunca atacassem uma à outra. Humanas bobas. Mas a brincadeira aliviou seu humor. Oh, isso era ter uma companheira.

Ele não tinha certeza ou não se Axel dormiu com Laila novamente ontem à noite, mas de qualquer forma, sua cor estava melhor, e havia balanço em seus passos.

Koldo queria colocar esse mesmo balanço nos passos de Nicola.

Ele tomou sua mão — macia e delicada — e a conduziu ao escritório. Jamila estava sentada numa das mesas da frente, com um vestido preto apertado, o cabelo escuro preso em cima de sua cabeça. Sirena estava longe de ser encontrada.

Proteja-a, ele projetou na mente da Enviada. Uma habilidade que estava cada vez mais e mais confortável em usar, percebeu. Qualquer coisa pela segurança de Nicola. Com sua vida.

Jamila piscou surpresa, mas concordou.

Ele ansiava por beijar Nicola como despedida, mas não podia se permitir o luxo. No momento do contato, convenceria a si mesmo que seria bom levar a coisa mais adiante. Já seus músculos estavam tensos. Seu sangue ardendo. As palmas das mãos coçavam.

— Vou voltar. — Ele rosnou, e não esperou pela resposta de Nicola. Sua expressão era de confusão, mas agora não era o momento para explicar seus pensamentos — e se tentasse, só ia piorar as coisas.

No momento que abriu o porta, entrou no reino espiritual. Andou por todo o edifício, em busca de demônios soltos e Nefas à espreita. Não encontrou nenhum.

Deveria ter forçado Nicola a se demitir, mas... não conseguia coragem para discutir com ela. Não queria que se perturbasse com sua teimosia, não queria que pensasse que era malvado. Que ridículo era isso? Ele era malvado.

Somente queria que ela se focasse em sua cura.

E isso não era uma tentativa de comprar seu carinho, disse a si mesmo. Mesmo assim, cada vez que olhava para ele com aqueles grandes olhos tempestuosos, ele experimentava um desejo desesperado de entregar-lhe o mundo.

Se materializou no natural antes de empurrar a porta para os escritórios de contabilidade. Jamila estava exatamente onde a deixou, mas agora, Sirena também estava no local. Sirena significava sedutora. E ela era certamente — para outros homens. Era a garota que dormiu com Dex. A garota de origens questionáveis.

Era hora de falar com ela, e descobrir o que planejava.

Quando apareceu na frente de sua mesa, ela o olhou por cima das unhas que estava pintando.

— Bem, olá, lindo. — Seu olhar ousado o mediu da cabeça aos pés, demorando em seu peito, entre as pernas, fazendo-o se sentir como um pedaço de carne. — Decidiu voltar. Estou contente.

Koldo espalmou as mãos ao lado do teclado e se inclinou para frente.

— O que é você?

Um sorriso sensual revelou uma boca cheia de dentes brancos.

— O que quer que eu seja?

Os pálidos cabelos e os olhos azuis da megera não conseguiram tentá-lo de qualquer forma, mesmo que ela fosse uma escolha mais adequada para sua companheira. Embora fosse pequena, era mais forte que um humano, com um volume maior de músculos escondidos sob suas roupas volumosas. Ele não ia quebrá-la, e sua saúde não era um fracasso.

— O que é você? — Repetiu ele.

— Ora, sou colega de Nicola Lane. O que mais?

— Sabe o que quero dizer.

Ela deu batidinhas na ponta do seu nariz com uma unha.

— Eu?

Ele sempre se ressentia do fato que não podia provar a mentira de outro.

— Sabe.

— Talvez eu saiba. — Uma pausa onde ela voltou a colocar a tampa do esmalte. — Você é Koldo, não é? O Enviado com uma vontade de aço e um punho duro como ferro. Por um longo tempo, tive esperança de encontrá-lo.

Então ela estava aqui por ele, não por Nicola. Enviada por seu pai? Ele se perguntou de novo. Para... o quê?

— Sou um Enviado, sim, mas também sou protetor de Nicola, e vou destruir qualquer um que pensar em machucá-la para me alcançar.

— Bem, não está fazendo um trabalho muito bom com seus deveres de proteção. — anunciou ela, estalando a língua. — Eu poderia tê-la matado a qualquer momento. E queria, admito. Resistir tem sido difícil.

Um lampejo de raiva praticamente queimou um buraco no seu peito. Podia sentir os dentes e unhas se alongando. Controle-se.

— Já fez alguma coisa para atacá-la, não é?

Ela sacudiu a língua sobre um canino longo demais.

— Fiz, mas antes de começar a me gabar, deve saber que sou a única que deu o alarme falso sobre os demônios. Sabia que você ia voltar de novo e de novo para investigar. E adivinha o quê? Fez isso.

— E você queria me ver... por quê?

— Porque estamos destinados a ficar juntos. — Ela se inclinou atrás e passou o dedo entre os seios. — Quanto ao que fiz para Nicola... Roubei o dinheiro em caixa e falsifiquei algumas de suas contas. E ela seria presa se sua preciosa Jamila não descobrisse e consertasse tudo. Mas não se preocupe. Vou conseguir da próxima vez.

Destinados a ficar juntos? Ele estendeu a mão e agarrou a garota pelo pescoço, erguendo-a no ar. Quando ela gritou, ele lampejou para a caverna onde mantinha sua mãe. Cornelia já estava na outra gaiola que construiu para ela, embora ele ainda não tivesse explicado as coisas para Nicola.

Ele tentou, mas parou a si mesmo. E se ela não fosse capaz de entender?

Deixou Sirena cair no centro, atrás das barras da gaiola e lampejou. Ela se virou de frente para ele, seus olhos estreitados.

— O que pensa que está fazendo?

— Pense? Não Sabe? Sim. Vai ficar aqui por alguns dias. Por sua própria conta, sem nada para fazer além de ponderar a melhor forma de me acalmar. Vou voltar e vai me dizer tudo que quero saber e, provavelmente, milhares de coisas que não quero.

Ela correu na direção dele, tentando alcançá-lo através das barras e agarrá-lo.

Sorrindo friamente, ele lampejou de volta ao escritório.

Mas a ele não foi dada a oportunidade de falar com Nicola. Axel estava lá com Jamila, e os dois estavam discutindo.

— O que está planejando fazer precisa esperar. — Disse o guerreiro quando avistou Koldo. — Encontrei pistas de Nefas fora deste edifício.

 

As luzes do escritório de Nicola apagaram — mas ninguém apertou o interruptor.

Laila parou de dançar.

— A energia caiu? — Ela perguntou com a voz mais alta do que deveria enquanto ouvia seu iPod.

— Não. Meu computador está funcionando.

As luzes ligaram novamente.

— Um curto momentâneo nos fios, talvez?

— Está provavelmente certa. — Laila começou a dançar novamente.

Nicola voltou ao trabalho empilhado na frente dela. Jamila e Sirena só fizeram metade do que prometeram, e nada do que chegou desde então. Totalmente inúteis, ela pensou.

Uma mensagem instantânea apareceu em sua tela.

Dex Turner:

O que aconteceu Sab? Quem era aquele cara?

As palmas das mãos ficaram úmidas quando digitou:

Sinto muito! Koldo é um cara que conheci há algumas semanas. Nunca tínhamos saído, mas tivemos... não importa. É complicado, e sei que isso parece clichê, mas é verdade, no entanto. Porém, lamento. Realmente. Mas agora estou com ele. Com certeza.

Mesmo que tivesse agido como um idiota hoje, a cortando e falando bruscamente com ela antes de partir sem qualquer explicação.

As luzes apagaram. Ligaram. Apagaram

Suspirando, ela apoiou os cotovelos sobre a mesa e apoiou a cabeça entre as mãos erguidas.

Ligado. Apagado. Ligado. Apagado.

— Sério. Isso é chato. — disse Laila, com um tremor em sua voz. — E tudo bem, tudo bem, um pouco assustador.

Nicola nunca se movimentou, mas seu telefone foi jogado de repente na sala. O dispositivo bateu na parede e quebrou com pedaços caindo pelo chão. Laila gritou e correu em sua direção.

Demônios, Nicola entendeu. Terror deslizou por ela.

— Vá para debaixo da mesa — ela ordenou. — E mantenha a calma.

Sua irmã obedeceu, ofegante:

— E quanto a você?

O som de silvos e risadinhas encheram seus ouvidos. Sombras escuras se arrastaram ao longo das paredes. Definitivamente demônios. Seu coração pulou uma batida, o primeiro sinal de que se aproximava o medo, mas ela resistiu.

Não sou impotente. Estou protegida.

Isso mesmo. Ela era. Ficou em pé. No canto, uma sombra espessa se solidificou numa mancha nebulosa e correu por cima da mesa, chegando a roçar seu cabelo. Uma brisa leve polvilhou sua pele, o cheiro de ovos podres se agarrou ao seu nariz.

Foi para as luzes.

Desligadas.

Acesas... e quando o brilho inundou a sala, mais uma vez, cinco demônios apareceram, e pareciam as cobras do parque. Suas escamas eram do mesmo tom de sangue, e suas têmporas dilatadas. Tinham olhos verdes brilhantes, e mandíbulas bem abertas, revelando presas mais afiadas que qualquer faca, com uma substância amarelada pingando, pingando no chão e queimando, provocando chiados no tapete e fazendo subir vapores.

Línguas bifurcadas deslizaram para fora, acenando em sua direção.

Não sou impotente. Realmente não sou. Estou protegida. Eu realmente estou.

— Vou gossstar de ter você no café da manhã. — Um disse sarcástico.

— Sssua irmã ficará abandonada. — acrescentou outro.

Mais risos.

Ela abriu a boca para gritar pelo Altíssimo, mas a porta se abriu silenciando-a. Sirena correu para dentro, o pálido cabelo voando atrás dela. Ela brandiu uma espada longa e fina, e as cobras se jogaram atrás, a xingando.

— Saiam daqui, demônios! Agora. — Ela gritou. Metal assobiou através do ar, e as criaturas se lançaram pela esquerda e pela direita, desesperadas para sair de seu caminho.

Uma das criaturas desapareceu numa nuvem de fumaça negra. Outra logo em seguida.   

Havia uma luz selvagem nos olhos azuis de Sirena, uma que disse que ela era justamente louca o suficiente para lutar contra os demônios com suas mãos, se necessário. Aqueles restantes devem ter sentido sua determinação, porque soltaram um último silvo na direção de Nicola e desapareceram.

Ofegante, Sirena deixou cair a espada no chão.

— Está segura.

Laila espiou por debaixo da mesa quando Nicola correu até ela.

— Está tudo bem, Sirena?

— Estou bem. — A menina jogou seu cabelo claro sobre um ombro. — Juro.

— Como fez isso? — No interior, os instintos de Nicola estavam agitados. Algo não estava certo. — Como sabia que precisava de ajuda?

Ela deu um sorriso rápido.

— Sou como Koldo. Ele me pediu para cuidar de você.

Koldo! Ele não a abandonou, depois de tudo.

— Estou feliz que cheguei aqui a tempo. — Sirena acrescentou um pouco severamente. —Essas coisas são perigosas. É a descendência imunda de demônios Sers e Nefas.    

Nicola colocou a mão em seu estômago para afastar a dor que se aproximava.