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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


BEM VINDO A LOS ANGELES / Nancy Holder
BEM VINDO A LOS ANGELES / Nancy Holder

 

 

                                                                                                                                   

 

 

 

 

 

Para Angel, a vida como vampiro sempre foi uma aventura constante. Poder, perigo, roupas da moda (nunca envelhecer, uma grande vantagem). Mas no fim, tudo se reduzia a matar – até que ele matou a garota errada.

“Os ciganos são bastantes vingativos, sei disso por experiência própria.

Eles me amaldiçoaram. Devolveram-me minha alma. Tive que conviver com tudo o que tinha feito – e para sempre. Foi preciso outra mulher para me mostrar que a minha vida eterna valia a pena.”

Buffy, a Caça-Vampiros, foi o primeiro amor verdadeiro de Angel, mas o relacionamento estava condenado desde o começo: um momento de real felicidade faria com que Angel perdesse sua alma novamente. Então ele deixou para trás Sunnydale, Buffy e tudo que importava para ele.

“Vivo há 244 anos, achei que já tinha visto tudo. Então vim para L.A.”

Los Angeles. Dominada por forças maléficas e poderosas. Uma cidade injusta para a população local. Se Angel quiser se salvar, terá de salvá-la... de algum modo. Com a ajuda de dois aliados pouco prováveis – um meio demônio e a ex-Rainha da Primavera -, ele abrirá seu escritório...

E protegerá sua cidade.

 

 

 

 

Nas sombras, no topo de um prédio, Angel estava sozinho. Ele observava o vasto campo de luzes abaixo, na cidade de Los Angeles. L.A.: um manancial brilhante de esperanças, sonhos e desejos, alguns dos quais seriam realizados em breve para os poucos sortudos. Coisas boas acontecem não apenas para pessoas boas. O próprio destino despeja aleatoriamente sua bondade. Carreiras bem-sucedidas são feitas da noite para o dia, pessoas se apaixonam para sempre, e bebês nascem.

Às vezes Deus envia seus anjos.

Porém, às vezes, horrores inimagináveis emergem do subterrâneo e devoram os inocentes. Os monstros vieram e o levaram de assalto.

Você poderia ter lutado, implorado ou rezado, mas eles o levariam assim mesmo. Você poderia ter sido bom, honesto e se sacrificado pelos outros, protegendo àqueles que ama, gritando: “Leve-me em seu lugar!”

E assim eles fizeram.

Sozinho, no alto de um arranha-céu, Angel não sabia por que tinha voltado a Los Angeles. Tudo o que sabia era que tinha de sair de Sunnydale, a pequena cidade sobre a boca do inferno também conhecida pelos imigrantes espanhóis como Boca del Infierno, a Boca do Inferno.

E tinha sido a Boca do Inferno para ele, de várias maneiras. Buffy o tinha enviado ao Inferno pessoalmente, com a espada empunhada e um beijo de amor.

Para ela, ele ficaria no Inferno para sempre. Sua necessidade de estar com a Caça-Vampiros, a Escolhida de sua geração, tinha crescido a ponto de desejar Buffy Anne Summers mais do que a própria alma. Por mais uma noite em seus braços, ele estava disposto a ser amaldiçoado para sempre. Só para sentir seu toque, seu suspiro...

O que era um milênio de torturas comparado a um único e precioso momento no paraíso?

A paisagem iluminada brilhava em seus olhos. Ele os fechou, enquanto as memórias o inundavam. Não esperava que o passado pesasse tanto nessa cidade do amanhã. As noites eram dominadas pelas imagens vividas de sua longa vida; durante o dia, sua mente girava em sonhos febris.

Parado no topo do arranha-céu, olhando a cidade abaixo. Alguém poderia acreditar que ele observava o ritmo frenético dos humanos em L.A.

Qualquer pessoa poderia acreditar que estava disposto, mas na verdade estava esgotado. Aparentemente no comando, mas à mercê de forças ainda desconhecidas.

 

Angel não fazia idéia de que, de outro arranha-céu, alguém o observava. Seu nome era Doyle e o que via era o fato mais estranho — para ele — nesse vasto campo da existência: um vampiro com alma. Pelo que sabia, Angel era o único dessa espécie demoníaca com a humanidade restaurada.

Na mente de Doyle isso tornava Angel uma figura imensamente trágica.

Um herói.

Uma vítima.

Mas um vencedor.

Um homem com uma cruz.

E um propósito.

Um homem que, ao olhar para sua nova cidade, certamente ficava perplexo pela maneira como viveu, morreu e por que diabos continuava existindo.

“Por que diabos mesmo?”, pensou Doyle.

“Posso caminhar como um homem. Mas não sou um.”

Foi o que Angel disse certa vez a Buffy.

“Então quem sou eu?” — questionou Angel. — “O que sou agora?”

Ele observava a cidade.

Observou-a até amanhecer.

 

Outra noite.

Outras milhares de lembranças.

“Los Angeles. Uma cidade como nenhuma outra”, pensou Angel. “E como todas as outras.”

Ao pôr-do-sol, os arranha-céus brilham como composites, do tipo que as agências de talento enviam às toneladas aos selecionadores de elenco em toda a região: com rostos atraentes e sorrisos brilhantes e felizes. “Entre, tenho os melhores.”

Com um breve sorriso, ele se pegou lembrando do medo de Buffy quando ela e seus dois amigos, Willow Rosenberg e Xander Harris, foram forçados a participar do show de talentos da escola Sunnydale. Ele havia lutado ao seu lado para reduzir uma gangue de vampiros a uma pilha de pó, sem que tivessem tempo de gemer.

Porém, quando enfrentou o medo típico de uma adolescente, ela tinha sido... bem, uma típica adolescente.

Angel dirigiu pelas ruas em seu conversível, tentando familiarizar-se novamente com Los Angeles. Juntamente com os demais carros no trânsito, ele passou pelas luxuosas lojas da Rodeo Drive. À direita estavam as famosas estátuas brancas de turistas tirando fotos uns dos outros; no final da rua ficava o hotel em que o personagem de Eddie Murphy em Um tira da Pesada tinha se hospedado.

Os consumidores — os verdadeiros — eram como pérolas, realmente lindos de serem observados. Casais, mães, garotas carregadas de pacotes, vestidas de maneira fashion, em roupas que lhes caíam perfeitamente bem. Em sua maior parte, pareciam imperturbáveis. Relaxadas, em uma calma controlada, nada em seu comportamento demonstrava qualquer tipo de preocupação em suas vidas.

A poucos quarteirões dali, Beverly Hills se revelava, com suas lindas mansões. A casa de Lucille Bali era tão grande que tinha o endereço de duas ruas. Alguns desses palácios tinham aparecido nos filmes — a mansão Greystoke veio à mente; alguns eram verdadeiros sets de filmagem — acabou passando pela “casa das bruxas”.

Essas eram pessoas para quem o sonho de Hollywood havia virado realidade. Aconteceu. E, para alguns, a riqueza e a fama eram ainda melhores do que imaginaram que seria.

Em contraste com o céu acinzentado, as pessoas iam para suas casas. As amplas alamedas de Beverly Hills inchavam com suas Range Rovers, longas limusines e ônibus de turismo. O trânsito era terrível. Angel tinha lido que havia mais Mercedes-Benz per capita ao sul da Califórnia do que em qualquer outro lugar dos Estados Unidos. Somente os moradores locais tinham coragem de virar à esquerda cruzando as faixas de trânsito, mesmo quando o farol estava aberto para eles. Mesmo quando seus carros valiam meio milhão de dólares.

Ou quando, assim como Angel, perceberam que viveriam para sempre.

O transporte de massa era para os operários. De carro, a triste e suja Western Boulevard não era tão longe de Beverly Hills. Qualquer garoto que tivesse participado de um jogo de escola poderia abandonar a estação de ônibus infernal, ir até a locadora de automóveis mais próxima, alugar um Porsche e tentar invadir os famosos portões do estacionamento da Paramount.

Dirigindo em direção ao sul, ele chegou a algumas das partes tristes e ruins da cidade. Aqui estava a pobreza. Aqui, os sonhos haviam morrido. No crepúsculo, algumas velhas páginas do Hollywood Repórter voavam contra as cercas de ferro. O rap fazia as janelas de um sobrado tremer, sacudir e abalar. Crianças pequenas brincavam de pega-pega entre ervas-daninhas e latas amassadas de cerveja. Colt .45 ou Billy D’s, como eram chamadas. Mas não havia muitas por ali: podiam ser vendidas por alguns trocados. Havia muita reciclagem acontecendo por ali. Muitas coisas eram vendidas por algumas moedas: vidro, jornal, sangue e amigos sem certificado de garantia.

Angel supunha que isso era compreensível. Algumas moedas podiam comprar algo para comer: um taco, uma lata de ração para gatos. Ou algo para beber: uma Pepsi, uma lata de Thunderbird. Ou uma fuga: um ingresso para qualquer coisa que estivesse em cartaz nos teatros.

Um ingresso para qualquer coisa disponível para injetar no braço.

Esses eram os habitantes de Los Angeles que Angel acreditava serem mais parecidos com ele. Isolados. Cansados. Figuravam como amigos que o abandonariam em algum momento, seja porque você não estava à altura, porque eles morriam ou porque iam para a prisão. Se seu amigo não o magoasse, você acabaria magoando-o.

Então era melhor não ter amizade nenhuma.

Melhor ficar a salvo e protegido, porque o mundo era um enorme e perigoso campo minado.

Só que no seu caso ele era o campo minado.

Na semana passada, uma família de dez pessoas que vivia em um cômodo em Compton tinha perdido a vida em um incêndio. Eles eram da Guatemala, e seis deles davam suporte aos demais trabalhando ilegalmente, pela metade do salário mínimo, em um restaurante chinês.

A maioria das pessoas não vinha a L.A. na esperança de se dar bem no tráfico de drogas. Eles só queriam se dar bem, ponto final.

Mas algumas pessoas realmente vinham pela vida fácil e suja. A gangue dos Crips, os Bloods, os Hell’s Angels, as gangues asiáticas, a yakuza japonesa. Los Angeles era a porta da costa do Pacífico para o crime nos Estados Unidos: entregue-me suas lembranças degeneradas e psicopatas para ganhar milhões.

Angel dirigiu até Culver City, onde a Sony tinha seu set de filmagens. Era uma grande fábrica de sonhos. Ele tinha ouvido falar que o set de E o Vento Levou, na Rua Atlanta, tinha pegado fogo. Na verdade, antigos sets de outros filmes tinham sido consumidos pelas chamas.

De vez em quando havia um terrível acidente nos sets: dublês ficavam mutilados para toda a vida, atores morriam. Assim como aconteceu em Além da Imaginação. Do mesmo modo como no filme O Corvo.

Porém, assim como quando os aviões caem, essas eram as histórias que interessavam à mídia. Na maior parte do tempo, os dublês saíam de suas ‘façanhas’ com nada além de alguns arranhões.

Imortais, como Angel.

 

Com o cair da noite, Los Angeles despertou os sonhos. As garotas que lutavam na lama no Tropicana sonhavam em encontrar um homem que esquecesse seu passado sujo ou em conseguir o papel de figurante em um filme de terror barato. Isso acontece com freqüência, mas, pelo que Angel sabia, não fazia a menor diferença na vida delas.

Os garçons e vendedores das lojas em Melrose, onde as roupas despojadas e as grandes livrarias se misturavam com lojas eróticas e cadeias de restaurantes temáticos, sonhavam em encontrar um empresário, conquistar um papel com algumas falas, conseguir aquele documento tão importante da D.R.T. Isso acontecia com freqüência suficiente para manter todos os outros garçons e vendedores de loja com salários de subemprego, trabalhando em prol dessa grande chance.

Os alunos de cinema da UCLA sonhavam em ser o próximo James Cameron ou Joe Eszterhas. Bastava que acontecesse uma vez a cada geração para manter a chama acesa.

Onde mais o sonho poderia levá-lo da posição de manobrista de carros para diretor de Tom Cruise em menos tempo do que o necessário para receber o diploma da faculdade? Isso não significava que você era o máximo nem o mais talentoso, nem ao menos o mais persistente. Significava que tinha mais sorte.

Los Angeles era uma cidade mais obcecada com a sorte do que qualquer outra do mundo, incluindo Las Vegas, Reno e Atlantic City.

Essa era a excitação do lugar. Não havia como controlar a sorte. Não havia como conquistá-la. Não havia como evitá-la.

Era por isso que Los Angeles erguia os azarados, atirava-os no chão e acabava com eles.

Mas também era por isso que Los Angeles podia ser o mais generoso oásis do bom carma. Esfregue duas moedas uma contra a outra — faça um contato aqui, outro ali — e talvez você se arrume para o resto da vida. Muito dinheiro, amigos inteligentes, trabalho interessante — isso também acontecia em Los Angeles.

“A cidade tem centenas de rostos, todos diferentes, todos acenando”, pensou Angel enquanto dirigia.

Nos bairros pobres como Watts, Little Saigon e East L.A., ele viu michês assustados, com a pele da cor do cacau; prostitutas com cabelos vermelhos e rostos lívidos escondendo as marcas de agulhas tão grossas quanto espinhos de rosas negras quando os carros da polícia se aproximavam.

Em Hollywood, propriamente, a polícia tentava manter as ruas limpas. Mas lá era possível encontrar de tudo: prostitutas, bêbados, mendigos. Os sem-teto, que davam má fama às ruas e as emporcalhavam com pedaços de papelão. Os drogados, que esqueciam qual clínica estava aberta a que horas e ficavam confusos tentando entrar no lindo Hotel Roosevelt, que havia sido restaurado, para usar o banheiro.

No entanto, lado a lado com os azarados estavam os visitantes empolgados e enérgicos com seus telefones celulares e Palmtops, bem-vestidos e com os nomes certos: Steven, Leo, Angelina. Pessoas que conheciam as pessoas certas.

Pessoas que eram as pessoas certas.

Tantas contradições. Tantas tramas e confusão.

 

“As pessoas eram atraídas para cá. Pessoas, e tudo mais. Elas vinham por todos os tipos de motivos. Meu motivo? Tudo começou com uma garota.”

— Uma garota realmente muito bonita — disse Angel.

Havia um copo à sua frente; estava sentado no Setor 1.8 do desfile do álcool no sangue; bêbados inveterados à sua volta, ignorando-o totalmente, vomitando qualquer coisa que funcionasse no ritmo da América: a pulsação irascível do sucesso urbano. Artistas dos apartamentos do centro da cidade; jovens profissionais liberais desenvolvendo sua gestão de redes; atores desempregados procurando chorar suas mágoas uns nos ombros dos outros. Ou qualquer outro lugar. Mesmo que de graça.

A cidade continuava sonhando seu sonho de 70 milímetros.

— Não, quero dizer que ela era quente — corrigiu Angel.

Ninguém à sua volta se importava com o fato de ele ter amado Buffy, a Caça-Vampiros, na linda Sunnydale, em cima da Boca do Inferno, nem um pouco mais do que dois minutos atrás. Talvez pelo fato de ele não ter contado que Buffy Anne Summers era o nome dela e que ela era a Escolhida — a única garota em toda a sua geração chamada para combater vampiros, demônios e forças das trevas.

Talvez porque não tenha mencionado que quase a matou duas vezes e que, quando a deixou, olhou-a pela última vez, mas nunca disse adeus.

Ninguém ficou impressionado com o fato de ele ser especial, mesmo entre os membros de sua espécie: Angel era o único vampiro com alma. Era de esperar que isso lhe rendesse uma ou duas rodadas de graça.

Claro que, para ser honesto, ninguém no bar sabia que ele era vampiro. Quando não estava com fome — ou realmente irritado —, ele parecia igual a qualquer cara de estatura mediana, cabelos castanhos e estranhamente pálido para alguém do sul da Califórnia. Em certas ocasiões, as pessoas haviam ficado assustadas com sua pele fria, o que fazia sentido, já que, tecnicamente, ele estava morto.

Para o resto da população vampírica, eles não passavam de demônios vivendo na casca de um cadáver. A alma do morto sumia. Talvez voasse para o céu. Quem sabe? Angel tinha vivido somente no inferno. No seu caso, o demônio dentro dele tinha de suportar a presença de sua alma, o que tornava sua existência muito mais complicada do que a da maioria dos sanguessugas.

Mais solitária, para dizer a verdade.

E, por falar em alegria, outra coisa era certa: os vampiros podiam ficar — e realmente ficavam — bêbados. Que diabos, o ex-companheiro de caçadas de Angel, Spike, tinha estabelecido recordes enquanto tentava esquecer sua amante infiel, Drusilla. E, como Spike demonstrou amplamente, os vampiros também podem se apaixonar entre si.

Mas as queimaduras saravam depressa. Eram as outras feridas — aquelas que não apareciam, aquelas internas — que tardavam a cicatrizar.

Parecia uma eternidade.

“Ah, e daí.”

— Ela tinha... seus cabelos eram... sabe, você é meio parecido com ela — disse Angel, de forma instável.

O homem negro sentado a seu lado não fez nenhum comentário. Simplesmente continuou bebendo.

— Porque, sabe, o cabelo. Quero dizer, vocês dois têm cabelos.

E continuou bebendo.

A risada de uma mulher chamou a atenção de Angel de volta aos três rapazes que jogavam sinuca com duas mulheres bem atraentes. Então veio o sofrimento: uma delas se parecia um pouco com Buffy. Claro que ele a via em todos os lugares. Podia ver seu rosto em uma parede branca como as pessoas viam a Virgem Maria em uma tortilla.

As bolas se chocaram na jogada. Um dos rapazes da mesa de sinuca veio até o bar e espremeu-se ao lado de Angel. Ele carregava uma nota de cinqüenta nas mãos como se fosse um dólar. Os cheiros de cerveja e colônia pós-barba se misturavam, enquanto ele se dirigia ao barman:

— Vamos fechar a conta.

Angel virou-se para ele.

— As garotas são legais.

O cara o olhou com desprezo, pegou o troco e saiu.

O grupo se reuniu e passou por Angel em direção à saída dos fundos. Angel girou lentamente em seu banco, observando-os. Assim que estava fora do campo de visão deles, sua postura mudou completamente. Seus olhos ficaram frios e decididos, e sua expressão atordoada ficou séria e concentrada. Ele estava extremamente alerta.

É, os vampiros podiam ficar bêbados.

Mas Angel estava completamente sóbrio.

Seguiu o grupo jovial até o lado de fora, um homem com uma missão, em direção ao estacionamento atrás do bar. O lugar estava escuro e muito deserto. A garota que tinha rido — aquela parecida com Buffy — conversava empolgada com o Sr. Cinqüenta Paus.

Ela disse:

— Vocês realmente conhecem o porteiro? Conseguem colocar a gente para dentro do Lido?

O rapaz deu de ombros.

— Não quero mais ir a danceteria alguma — disse, jogando os braços em volta dela, olhando, apalpando. — Quero fazer uma festinha aqui mesmo.

Ele deixou claro de que tipo de festa estava falando. Angel se manteve a distância, mas pronto para atacar. Ele já sabia o que acabaria acontecendo havia pelo menos duas horas. E aqui estava ele — e estava pronto.

A garota não gostou do tratamento.

— Ei, cai fora.

— Ei — o cara voltou para cima dela. — Cale a boca e morra.

E, exatamente como Angel esperava, o rapaz urrou e se transformou em um tenebroso vampiro, com olhos amarelos e dentes afiados. Agarrou a garota, enquanto seus amigos se transformaram e agarraram a amiga dela.

As mulheres estavam apavoradas demais até mesmo para gritar quando Angel apareceu na frente delas, aparentemente bêbado.

— Desculpe-me, desculpe-me, alguém viu meu carro? É grande e brilhante — disse, olhando à sua volta com um ar estúpido. — Por que ele continua fazendo isso comigo?

O vampiro cheio da grana se manteve na escuridão enquanto advertia:

— Cai fora, cara.

Angel tropeçou no cara. Olhou para o rosto do vampiro e registrou um susto embriagado no rosto. Franzindo a testa, Angel enfiou a mão no bolso e puxou um pouco de fio dental.

— Não — insistiu com o vampiro em um tom de honestidade. — Quero que você fique com isso.

O rapaz dos dentes afiados foi para cima de Angel, que decidiu que era hora de parar de bancar o bêbado; deu-lhe uma cotovelada no queixo, jogando-o com toda força em cima de um carro, enquanto o segundo dos três vampiros se aproximou. Angel girou e chutou-o em cheio, antes que o número três tivesse tempo de chegar perto.

Angel e o terceiro vampiro trocaram vários golpes. A luta foi brutal, selvagem e terminou assim que Angel jogou o vampiro contra uma pilha de lixo, quebrando algumas caixas na queda.

A garota tentava estancar o sangue que corria de sua cabeça enquanto ela e a amiga observavam a carnificina. O segundo vampiro levantou-se e veio para cima de Angel. Vampiro vê, vampiro faz: o número três não era mais original do que seus outros colegas de caninos longos.

Angel ficou parado, esperando calmamente e com eficiência, até que eles corressem em sua direção, vindos de ambos os lados. Levou as mãos para trás e liberou de suas costas duas armas secretas.

Duas estacas afiadas de madeira, presas a dispositivos de lançamento em seus pulsos, com o gatilho nas mãos. Abriu os braços para os dois lados e acertou ambos os adversários ao mesmo tempo.

Também ao mesmo tempo os dois explodiram num show pirotécnico de cinzas.

Angel recolheu suas estacas. Ouviu o som de passos vindo atrás dele e virou para o último vampiro que o atingiu com uma lata de lixo na cara. Não foi tanto a dor, mas a pressão — foi isso que o manteve distante —, porém ele tinha a sensação de que ainda estaria retirando pedaços de metal do meio dos dentes dali uma semana.

Angel foi ao chão, uma queda dura, em cima das duas garotas.

Agora ele estava realmente irritado.

— Você não devia ter feito isso — disse ao vampiro vira-lata.

Vampirizou-se, enquanto partia para cima de seu oponente. Era óbvio que o outro cara não tinha percebido que Angel era um deles — com pequenas modificações. Mesmo agora que tudo estava claro, ele ainda se encontrava confuso.

Angel aproveitou essa vantagem. Ele urrou, arrancando tudo de cima, mandando o inferno para cima do vampiro, batendo até arrancar sangue antes de jogá-lo de cabeça contra o pára-brisa de um lindo automóvel europeu. Isso acabou com o monstro e fez o alarme disparar.

Por um momento, o único som era o ruído do alarme. Então a garota correu atrás de Angel.

— Oh, Meu Deus, você salvou nossas vidas — disse, com voz trêmula.

Angel manteve-se de costas para as mulheres — para aquela que tinha falado e sua amiga, que se parecia com Buffy.

— Vão para casa — disse com voz rouca.

Mas a garota não se deteve. Lançou-se atrás dele enquanto se refazia do choque.

— Eles eram... oh, Deus... obrigada... Ela agarrou seu braço e virou-o.

Ele ainda mostrava seu verdadeiro rosto.

Seu rosto monstruoso.

O rastro de sangue que saía da ferida na cabeça da garota escorria pelo pescoço. Os instintos vampíricos de Angel ficaram afiados, compelindo-o, instigando-o, provocando-o.

— Saia de perto de mim. — Ela não reconhecia esse pedido de agonia.

Ela saiu com violência, afastando-se rapidamente seguida pela amiga.

De modo assustador, Angel afastou-se das garotas que entraram correndo no carro. Sem interromper seu ritmo, ele agarrou um pedaço de madeira quebrada do meio do lixo e aniquilou o vampiro semiconsciente jogado na capota do Mercedes.

Voltou à sua feição normal. Agora era apenas mais um cara caminhando pelas ruas nas noites de Los Angeles.

Caminhando nas sombras.

Revivendo lembranças demais... sobre como foi parar ali, naquela estrada longa e cheia de curvas...

 

                   A Queda

                   Galway, Irlanda, 1753

Angelus não estava de bom humor.

Na verdade, estava no pior dos seus humores.

Sua cidade, a vila irlandesa de Galway, não tinha nenhum atrativo em si — claro que não para alguém de seu nível social, não para mestre Angelus, filho mais velho da família, que sofria de um tédio aterrador.

Ele caminhava pelas ruas com um nervosismo que não se importava em ocultar. Apesar de as ruas estarem repletas, era com pessoas que não interessavam: sapateiros e fofoqueiras, velhas senhoras que tinham a ousadia de fumar seus longos cachimbos nas ruas. Crianças de pés descalços — tantas em todos os lugares — observando o artesão fabricar seus cestos, estendendo o vime para dar início a uma nova cesta para ostras.

A monotonia abundava; um excesso de coisas ordinárias. Angelus tinha certeza de que as maiores cidades da Irlanda — ou, melhor ainda, da Inglaterra — continham as maravilhas negadas aos camponeses das pequenas vilas e cidades.

Era aí que seu coração lhe dizia para fugir. E pensar que antigamente, por todos os santos, ele costumava abandonar um momento de seus estudos para desenhar o rosto de uma linda garota que passasse pelas ruas. Logo seu pai vinha brigando, reclamando sobre o valor que pagava pelos estudos e perguntando pelo dinheiro da carroça que ele devia ter comprado.

Havia boatos de que Taffy Maclise tinha jurado pela honra de sua amada que seu cavalo não perderia jamais, devido ao fato de ter alimentado a criatura com um maravilhoso novo preparado que o deixaria tão veloz quanto o próprio Mercúrio.

Trapaça, era o que alguns podiam dizer. Uma certeza, como Taffy insistiu. Certo, mas não tão certo assim: o cavalo chegou em último lugar. E então morreu, para não fazer rodeios.

— E essa noite ele encontrará sua própria amada, Brigid O’Donnel, na cama com outro homem — murmurou Angelus enquanto atravessava o cais.

Então sorriu consigo mesmo.

“E eu serei o homem a desonrar a doce Brigid”, pensou. Então, abandonou esse pensamento por ser algo além de suas capacidades. Ela era uma dama, não o tipo comum que ele costumava visitar. Até mesmo ele ainda tinha alguns escrúpulos.

Além do mais, ela tinha cabelos escuros, e ele preferia as damas de cabelos claros. Como Bess, sua favorita, da Casa de Tolerância da Sra. Burton. Não era um lugar decente para um jovem cavalheiro estar... ou melhor, deixar-se encontrar.

Caso tivesse uma moeda de prata, ele a gastaria ali todas as noites. Precisava de um pouco de diversão — bebida em sua caneca, uma dama no colo... e, assim, até mesmo Galway podia ser tolerável.

Estava ao lado do cais agora. O odor de peixe era forte e inesquecível. As redes de pesca e seus pescadores assemelhavam-se a teias de arranha e suas pernas, envolvendo-o para se alimentar dele depois — uma vez que tivesse concluído os estudos.

Essa era sua maldição, caso houvesse uma.

— Angelus, meu amigo!

Era Sandy Burns, vindo dos barcos de pesca. Era o melhor amigo de Angelus em todo o mundo. O jovem rapaz estava vestido com o mais fino da moda e já observava a frota pesqueira que um dia herdaria do tio.

Angelus sorriu e acenou, reduzindo o passo para que Sandy pudesse alcançá-lo.

— É uma bênção tê-lo encontrado — disse Sandy, meio sem fôlego. — Seu pai recebeu uma carta do velho Nicholas — este era Paddy Nocholl, professor da escola — e está procurando por você com um chicote nas mãos.

Angelus suspirou:

— Não tenho a menor dúvida disso. E isso significa que não posso ir para casa hoje à noite — sorriu para o amigo. — Você tem algum dinheiro, Sandy? Podemos jantar na Sra. Burton.

Sandy deu risada.

— Exatamente o que eu pensava, Angelus! Tenho pouco dinheiro, não muito. Vamos jogar para ganhar mais, ver o que podemos ganhar. E então pagaremos pela sua Bess.

— Feito — disse Angelus, rindo. — Que tal faraó? Jogo isso como um mestre, é sério.

— Claro, isso é verdade. — concordou Sandy. — Teremos dinheiro suficiente para todas as garotas na casa da Sra. Burton.

— Apenas me dê a Bess — disse Angelus.

— Um romântico, com a sua idade — reprovou Sandy.

Os dois amigos partiram.

Ao entardecer, já eram prisioneiros da sorte. As bebidas e as péssimas apostas tinham devorado a pequena economia de Sandy. Bess estava lasciva e ardente, mas Angelus não tinha um só centavo nos bolsos.

Por isso, o porteiro da Sra. Burton, o Velho Tim, tinha posto os dois rapazes para fora, queixando-se dos caloteiros.

Foi então que Angelus teve a idéia de roubar os talheres de prata do pai. Sandy concordou, e os dois partiram para a missão.

Porém, nesse momento, o uísque subiu à cabeça de Sandy, que ficou pelas ruas bêbado e estirado, como as mãos em dia de pagamento.

Assim, Angelus lhe desejou boa-noite e cambaleou pelo resto da rua sozinho.

Foi então que ele a viu.

Era uma dama, certamente de posses, vestida na mais alta moda. Ele quase podia ouvir o farfalhar de suas sedas e cetins.

O som de moedas em sua bolsa.

A cadência de sua voz enquanto suspirava.

Ela caminhava sozinha pela rua deserta. Ele era um cavalheiro: preocupado somente com sua segurança, claro, foi atrás dela. Suas pernas trançavam um pouco, mas era óbvio que ela não se importaria. Ele era jovem, e os jovens bebiam demais.

Ela parou sob a luz da lua e era linda. Uma mulher de cabelos loiros em um vestido de festa, sua beleza amplamente revelada.

Seu coração acelerou enquanto se aproximava, e ela ficou parada, esperando por ele.

Ele perguntou o que uma dama de sua classe fazia desacompanhada em um lugar como aqueles.

Ela era tímida e falava de solidão. Desafiava-o com palavras e olhares para que a abraçasse.

Ele aceitou o desafio, sim, com muita vontade.

E então ela prometeu mostrar-lhe o mundo, se ele tivesse coragem para isso. Ele estava bastante enlouquecido pela luxúria e paixão que ela prometia.

Ela se moveu em sua direção e tocou seu peito. Seu coração estava acelerado. Disse-lhe para fechar os olhos.

Ele assim o fez.

Naquele instante, ele abandonou Galway para sempre, deixando o mundo para trás.

Os caninos dela encontraram seu pescoço e o dilaceraram para que pudesse beber seu sangue. Ele ficou paralisado, imóvel pela dor; incapaz de se mover, de gritar, de resistir de alguma forma.

O mesmo aconteceu quando ela passou a unha pelo próprio peito e segurou o rosto dele contra seus seios, fazendo com que bebesse.

A princípio, ele sentiu vontade de vomitar. Mas o gosto... havia algo em seu sangue; uma mágica, um poder; era uma fada, decidiu, um desafio, uma rainha do além... Seu coração de homem jovem pulsava; seu corpo jovem estremecia com a excitação, o medo e o perigo. Ele sabia que estava em perigo e diante de algo amargo e demoníaco. Era um perigo mortal; se ele não parasse de beber das veias dela, morreria mais do que uma vez: sua alma morreria.

No fundo, ele sabia. Sabia e continuou bebendo.

E sabia algo mais: que em determinado momento, por já ter bebido o sangue dele, ela o deixaria. Ele sentiu suas mãos relaxarem, apenas um pouco. Sentiu os dentes afiados afastarem-se um pouco de suas veias. Era sua última chance. Ele sabia com a clareza que nenhum velho Paddy Nicholl poderia tê-lo ensinado.

Mas sua resposta ao risco que corria sua alma foi essa: ele a segurou com mais força, puxando-a para si. Talvez mais tarde ele dissesse que isso se deu por ela ser tão alva e linda; ou porque sua pele era como alabastro; ou porque seu perfume o intoxicava. Que ela o tinha enfeitiçado.

Deixar que ela o contaminasse dessa maneira era algo contra os sacramentos, mas era algo mais, algo além dos professores, das prostitutas, de embebedar-se e jogar uíste e faraó. Ia além de suas experiências, o que fez com que ficasse ainda mais sedento para continuar, até que sua alma voasse para o céu... ou, se seu pai estivesse certo, direto para as eternas chamas do Inferno.

Seu pai era mestre em defender seus direitos. Se você permite que alguém lhe faça mal, isso é o mesmo que estar fazendo mal a você mesmo. Melhor morrer nesse suicídio do que ficar velho e fraco, atolado na lama dessa vida ordinária.

Agora ele bebia seu sangue aos goles, deixando claro com sua avidez que essa era sua escolha. Ainda que não conseguisse parar de beber, ele dizia a si mesmo que não queria parar. Que era essa a sua decisão.

Mas a verdade que ele precisaria um dia era essa: ele não conseguiu parar.

O nome dela era Darla, e ela o havia transformado em um vampiro. Ela era sua criadora.

Nesse novo mundo de sombras, ela se tornou sua companhia constante, sua amante, sua tentação, seu amor obscuro. Eles viveram juntos por séculos, caçando e jogando, e ela o ensinou a ferocidade, a selvageria e o gozo daquilo que eram. O mundo das mil e uma noites estava a seus pés, e eles eram como cometas gêmeos riscando os céus dos campos, terrenos baldios e penhascos, queimando tudo o que tocavam.

Que universo! Que maravilha! Foi uma existência gloriosa. Foi mais do que ele, pobre aluno de Galway, poderia ter sonhado, e não havia nada que não fizesse por Daria para compensá-la por sua generosidade.

Tudo o que ela pedia era sua companhia, algo que ele ficava feliz em oferecer.

Sua vida tinha se tornado puro êxtase.

Até que algo saiu errado.

 

“Uma cidade infernal, cara. Muita diversão se você for algum tipo de criatura do mal. Um pouco difícil para os humanos. As pessoas se perdem, morrem ou algo ainda pior. Todos têm seus demônios.” — Doyle

“Darla, minha criadora.

Eu a matei para salvar Buffy.

O pior pecado que um vampiro pode cometer. Mas, mesmo assim, não hesitei.”

Angel vinha pensando em Darla havia algumas noites. Pegou-se em luto por causa dela. Ele sabia como era ser transformado; assim como ele tinha sido lembrado antes, ela também conheceu o beijo fatal de um vampiro e foi transformada por ele. Os vampiros que caminhavam pela noite eram híbridos dos Ancestrais — os demônios que tinham governado o mundo antes da chegada da humanidade — e da própria raça humana. Darla já tinha sido uma linda garota de cabelos loiros.

Alguém assim como Buffy.

Não. Ninguém era como Buffy.

Em Los Angeles, as ruas dos negócios legítimos fechavam cedo. Apesar das fofocas nos tablóides, até mesmo os bares que serviam a clientela mais jovem ficavam bastante desertos por volta da meia-noite. Os atores tinham de estudar suas falas e apresentar-se para cabelo e maquiagem com o nascer do sol. Sem muita surpresa, o ritmo da cidade girava em torno do ‘talento’.

Os grandes jogadores da West Coast — aqueles que supriam o talento com seus talões de cheque — tinham de estar atualizados sobre o mercado financeiro em todo o mundo — o Nikkei no Japão, o Bourse em Paris e a Bolsa de Valores de Nova York, só para citar alguns. Portanto, acordavam com o raiar do dia — olhos abertos em todas as horas —, fazendo negócios e reunindo informações valiosas. Como estrelas sérias e trabalhadoras do entretenimento, iam cedo para a cama, acordavam cedo e, como resultado, estavam ricos.

As altas horas pertenciam àqueles que nunca, nunca ouvem os chamados para despertar: drogados, fugitivos, vagabundos. O mesmo acontecia nas casas de strip-tease, jogos clandestinos e bocas-de-fumo.

Angel passava por rostos vazios e ficava na sua, como todos os outros. Entrou em uma pequena rua, que era uma mistura de antigos edifícios residenciais e pequenos prédios comerciais. Havia boatos de que Nathaniel West, autor de O dia do Gafanhoto, já havia morado ali. Angel não sabia se era verdade, mas tinha lido o romance. Tratava-se de um livro cruel e pesado sobre Hollywood e as vidas grotescas daqueles que nunca foram nada e não podiam aceitar que a varinha mágica simplesmente não os tivesse tocado nos ombros.

Ele entrou em um prédio velho de uma série de prédios velhos. Havia velhos escritórios no térreo e apartamentos nos andares acima. Não havia nada de inspirador ou que valesse a pena.

Destrancou uma porta e entrou. O escritório vinha com seu apartamento, mas ele não precisava de um. Não tinha negócios nem loja. Contudo, possuía um espaço para escritório externo e interno. Naturalmente o lugar estava deplorável e malcuidado. Havia uma mesa surrada, algumas cadeiras e dois armários cheios de mofo nos cantos das paredes.

Ele não fazia idéia de para que o antigo inquilino tinha usado o escritório; tinha ouvido dizer que havia algum tipo de operação com caldeiras, uma artimanha para convencer os velhinhos a comprar calhas de alumínio para suas casas ou qualquer bobeira do tipo. Seja como for, o lugar tinha sido barato.

Angel colocou o ferrolho no lugar e certificou-se de que a porta estava trancada. Atravessou a sala até o outro canto e entrou no velho elevador. Embora os outros apartamentos estivessem localizados nos andares mais altos, ele não subiu. Angel morava no porão, bem longe do sol. Parecia não importar onde morasse, ele estava destinado a passar boa parte do seu dia embaixo da terra. O que se encaixava muito bem, de certo modo, já que andava se sentindo ainda mais morto ultimamente.

Ele sabia que, de fato, muitos dos mortos entravam em desespero. Outros se revoltavam contra a luz. Alguns eram verdadeiros zumbis e caminhavam sem atenção por entre as tumbas, tropeçando por aí sem nenhum senso de direção. Como ele.

A porta do elevador se abriu, revelando mais algumas memórias para Angel de Sunnydale. Alguns de seus efeitos podiam ser encontrados no lugar limpo e de uma elegância eclética: alguns de seus próprios desenhos entre as tapeçarias e objetos de arte. Em uma gaveta, um punhado de fotografias de Buffy e seus amigos estavam voltadas para baixo, mas ele as conhecia de cor.

Uma flor que Buffy lhe dera certa vez ficava em cima das fotos. Estava murcha, as pétalas como cinzas.

Uma estante continha uma série de livros misteriosos como aqueles que o Sentinela de Buffy, Giles, costumava folhear horas a fio, tentando deixar a Caça-Vampiros sempre um passo a frente de seus adversários sobrenaturais. Angel tinha duas poltronas bem confortáveis para alguém cuja vida não era nada fácil.

Armas.

Havia muitas armas.

Tirou o casaco e jogou-se em uma das poltronas. Com os movimentos semiconscientes de alguém que já tinha feito isso muitas e muitas vezes, ele desamarrou os dois lança-estacas presos em seus antebraços e jogou-os sobre a mesa. Outras estacas, facas e um machado de luta preenchiam a superfície da mesa.

O vampiro debruçou-se sobre a mesa, encarando seu arsenal, lembrando-se das expressões nos rostos das garotas cujas vidas ele tinha salvado.

Lembrou-se de Buffy, que certa vez tinha dito que já não prestava atenção aos momentos em que seu rosto era de um demônio e quando aparentava feições humanas, que o beijou com força e paixão, independentemente de sua aparência.

“Buffy”...

Aquelas feridas... quando o tempo as curaria? Porque talvez ele simplesmente decidisse dormir por cem anos.

“É, e sonhar com nada além de Buffy por um século.”

Os sonhos dos Caça-Vampiros geralmente viravam realidade. E quanto aos sonhos dos vampiros?

Outra lembrança invadiu sua mente, dessa vez um pesadelo em que Buffy sonhou que Dru o mataria um dia.

Na época ele a abraçou, garantindo que até mesmo os Caça-Vampiros às vezes tinham sonhos que não significavam nada. Mas ela não acreditou.

— Foi tão real — ela lhe disse, e descreveu em um nível de detalhes tão completo que ele sentiu como se ele próprio tivesse sonhado:

 

Em seu sono, Buffy despertou. Abriu os olhos, registrando o silêncio, e acendeu a luz do abajur que estava de cabeça para baixo no criado-mudo. Bebeu um gole de água e saiu lentamente da cama.

Caminhou pelo corredor até o banheiro, vestindo as calças do seu pijama de cetim azul e uma regata preta...

...”Ah, lá está ela”, pensou Drusilla, enquanto seguia atrás da Caça-Vampiros até o final do corredor. O sangue coagulava no canto da boca, um belo contraste com sua camisola negra...

...Buffy abriu a porta do banheiro e, sem explicação, entrou no Bronze.

A música ecoava assustadora pelas paredes, enquanto casais sorridentes deslizavam na pista. Não havia banda. A penumbra do salão estava pintada com pontos de luz dourados, e todos se moviam mais lentamente que o normal. Desorientada, Buffy sentia como se estivesse embaixo d’água. Mesmo assim, sentia fazer parte dessa cena de outro mundo, como se ela também não fizesse sentido.

Então viu Willow sentada em uma mesa alta com uma grande xícara de café sobre um pires. O macaco de um demônio moedor de órgãos vestindo uma jaqueta vermelha e um boné estava ao lado dela. Como se fosse algo muito banal, Willow disse, em francês:

— O hipopótamo roubou as calças dele.

Ela sorriu animada e acenou para Buffy, que acenou de volta com certa hesitação.

Perplexa, ela seguiu em frente.

Parada ao lado de uma coluna, sua mãe estava bebendo café em uma xícara muito parecida com a de Willow. Ao levá-la a boca, ela perguntou à filha:

— Você realmente acha que está pronta, Buffy?

Buffy franziu a testa.

— O quê?

O pires escapou da mão de Joyce, caiu no chão e espatifou. Como se não tivesse notado, ela virou as costas e saiu andando.

Novamente, Buffy seguiu em frente.

Estava na pista de dança. Os casais dançavam, a estranha música os envolvia, enquanto Buffy caminhava sozinha.

Então a multidão se abriu.

E lá estava ele.

“Angel”, ela pensou radiante, enquanto o misterioso vampiro sorria para ela. Vestido todo de negro, ele estava no centro do salão; havia luz em seu rosto, para ela; ele fazia sentido, cercado por todas essas coisas estranhas. Ele era uma conexão, era a conexão. Ela sentia como se ele realmente a estivesse tocando, enquanto caminhavam um em direção ao outro, mãos estendidas.

Então Drusilla apareceu por trás dele. Enquanto Buffy via horrorizada, a vampira o apunhalava pelas costas.

Buffy gritou:

— Angel!

Sua mão trêmula estendida na direção de Buffy, virando cinzas perante seus olhos.

Ele teve tempo para olhar em seus olhos, agonia no olhar — amor perdido, desejo, tudo perdido —, e então explodiu em cinzas.

Drusilla estava parada, revelando-se completamente, seus olhos dourados brilhando de alegria.

— Feliz aniversário, Buffy — disse ela, saboreando o desespero de Buffy.

 

Pelo que Angel sabia, Dru ainda estava viva. Só porque o sonho ainda não tinha virado realidade, isso não significava que não aconteceria.

Talvez Dru o seguiria até Los Angeles para matá-lo. Talvez era por isso que ele estava ali.

Talvez o passado o encontrasse, mais cedo ou mais tarde. Talvez por isso ele não conseguia mais se conectar ao presente. Simplesmente se deixava levar, perdendo-se cada vez mais nas lembranças, como um ancião.

De repente, sentiu que não estava mais sozinho. Virou-se lentamente, ciente de que tinha um arsenal à sua disposição.

Na porta estava um homem de cabelos escuros, traços angulosos e olhos negros. Tinha a postura de alguém que assumia estar sendo esperado.

Ele disse:

— Bem, gostei desse lugar. Não tem uma vista muito boa, mas possui um ar de Batcaverna.

Falava como se conhecessem um ao outro. Tinha sotaque irlandês. Angel também era irlandês, mas não conseguia reconhecer esse estranho para salvar sua... alma.

— Quem é você?

— Doyle — informou-lhe o homem. — E, não, nós não nos conhecemos, então não fique envergonhado.

Angel franziu a testa.

— Não estou — e acrescentou. — Você não tem cheiro de humano.

O rapaz — Doyle — sentiu-se um pouco afrontado.

— Bem, isso é um pouco grosseiro. Acontece que sou bastante humano...

Ele espirrou e instantaneamente transformou-se em uma coisa azul e cheia de escamas. De maneira casual, sacudiu-se e voltou à sua aparência humana novamente.

— ...pelo lado materno. De qualquer modo, entrei sem ser convidado, então sabe que não sou um vampiro como você.

Ele entrou na sala, passou por Angel, atraído pelas armas.

Angel perguntou:

— O que você quer?

— Fui enviado — respondeu Doyle — Pelos Poderes que São.

— Pelos Poderes que São o quê?

— Um belo arsenal para lutar contra o crime você tem aqui — Doyle pegou uma estrela ninja. — Não acredito que você realmente saiba como usar uma dessas.

Angel olhou com raiva para sua visita indesejada.

— Estou ansioso para mostrar a você.

Doyle deu de ombros.

— Vou lhe dizer uma coisa, amigo: estou tão feliz por estar aqui quanto você em me ver. Mas temos trabalho a fazer, e você foi chamado. Deixe-me contar-lhe uma historinha para que você possa ir para a cama.

— Mas não estou com sono.

Doyle o ignorou.

— Era uma vez um vampiro, e ele era o vampiro mais cruel de toda a Terra. Os outros vampiros tinham medo dele porque ele era um filho da mãe.

Seu sotaque irlandês fazia parecer um conto de fadas, mas Angel sabia aonde isso ia chegar. Ele sabia de quem se tratava.

Dele próprio, como costumavam dizer no Velho País. Provavelmente ainda falavam assim.

— Durante cem anos esse cara matou, mutilou e tudo mais. Até que um dia ele foi amaldiçoado. Pelos Ciganos. Eles restauraram sua alma humana, e de repente ele ficou louco pela culpa, “o que eu fiz”, muito perturbado. Então ficou triste por mais cem anos...

Angel o interrompeu.

— Certo, agora estou com sono.

— É uma história bastante chata — concordou Doyle, e Angel deixou de prestar atenção, voltando aos seus pensamentos.

— Acredito que a história estivesse precisando de um pouco de sexo, e é aí que a garota entra em cena. Linda loirinha, a Caça-Vampiros, e nosso vampiro apaixona-se perdidamente por ela.

Angel queria que ele se calasse, mas não disse nada. Não fazia sentido deixar que Doyle percebesse que o tinha tirado do sério. Hoje em dia ninguém tirava Angel do sério.

Assim como em Manhattan, ninguém havia mexido com ele.

Exceto um demônio, enviado pelo mesmo motivo, ou assim aparentava.

 

                               Manhattan, 1996

Um rato por mês — era tudo que Angel comia. Estava louco por causa da fome e do isolamento e nem se dava conta.

Então Whistler apareceu, em seu terno barato que de algum modo lembrava camisas de jogar boliche, com seu chapéu estúpido, com seu sotaque do Queens, e começou a conversa com uma declaração franca:

— Meu Deus, você está nojento.

Angel se retraiu, completamente desacostumado a conversas, e começou a arrastar-se novamente para as sombras do beco.

— Esse cheiro é realmente inesquecível — continuou Whistler. — É o odor da morte que você trouxe para cá. E sua aparência diz “Lunático Sem-Teto”. — Ele sacudiu a cabeça. — Isso não é nada bom.

— Saia de perto de mim.

Whistler fingiu estar apavorado.

— O que você vai fazer, me morder? Oh, que medo! Um vampiro!

Angel o encarou. Ele não tinha idéia de quem era aquela pessoa ou como sabia quem Angel era. Mas ele sabia.

— Oh, mas você não vai me morder por causa da sua pobre alma torturada — prosseguiu Whistler, zombando dele. — É tão triste um vampiro com alma. Que melodrama. Acho que vou vomitar aqui mesmo.

— Quem é você? — exigiu Angel.

— Um demônio, tecnicamente. Mas não sou do mal. Nem todos os demônios se dedicam à destruição de vidas. Alguém precisa manter o equilíbrio, sabe. O Bem e o Mal não podem existir um sem o outro, blá-blá-blá. Não sou como uma fada madrinha nem nada do tipo. Só estou tentando manter o equilíbrio. Estou muito na defensiva?

Angel não tinha resposta, mas Whistler tinha muito mais a dizer.

— Você poderia se tornar um roedor ainda mais inútil do que é hoje ou poderia ser... alguém. Uma pessoa. Alguém que valesse a pena.

A voz de Angel estava repleta de ódio por si próprio:

— Só quero ficar sozinho — disse, sinceramente. Mas mesmo assim não podia deixar de imaginar como esse demônio o tinha encontrado e por quê. Talvez fosse autopreservação ou curiosidade e egoísmo. Ele não tinha certeza.

— Você está sozinho há quanto tempo? Noventa anos? E que belo pacote você é: um cara fedorento. — Whistler enrugou o nariz.

Era Angel quem estava na defensiva.

— Você não sabe das coisas com que tenho de lidar. Tudo o que já fiz.

Whistler revirou os olhos e suspirou:

— Você está me irritando! Essa história de autopiedade não vai ajudar a arrumar mulher. É um saco.

Sabendo que estava caindo nas mãos daquele estranho petulante, Angel perguntou:

— O que você quer de mim?

Whistler ficou muito satisfeito.

— Quero que você veja algo. Vai acontecer daqui a pouco. Precisamos sair agora. Você observa e depois me diz o que quer fazer.

O que Angel viu foi Buffy, um pouco mais jovem do que quando finalmente se conheceram. De certo modo diferente, mas igual às demais garotas. Ela era popular, vivia cercada por garotas bonitas e superficiais que podiam ter sido seus clones. Elas estavam conversando e rindo dos garotos e de suas roupas. Até que Merrick chegou.

Merrick tinha sido seu primeiro Sentinela. O homem lhe havia contado sobre seu destino: uma menina em cada geração é a Escolhida; ela e somente ela lutaria contra os demônios, vampiros e forças das trevas. Ela era a Caça-Vampiros.

Ela não acreditou em Merrick, mas então ele a levou até o cemitério e ensinou-lhe alguns golpes de luta. Naquela mesma noite, ela eliminou seu primeiro vampiro.

Chegou tarde em casa e teve de mentir; enquanto lágrimas corriam pelo seu rosto, ouvia do banheiro seus pais culpando um ao outro pelo péssimo trabalho que estavam fazendo ao educá-la.

Whistler apontou para o óbvio, mas era exatamente o que Angel estava pensando.

— Vai ser difícil para ela, a Caça-Vampiros. É apenas uma menina, e o mundo está cheio de coisas ruins.

Angel ficou preocupado.

— Quero ajudá-la — disse sinceramente. — Quero... quero me tornar alguém. Quero ajudar.

Mesmo assim, Whistler deu seu golpe de misericórdia.

— Nossa, olhe para você. Ela deve ser mais bonita do que a última Caça-Vampiros.

Angel baixou os olhos. Ele tinha matado vários Caça-Vampiros, e Whistler sabia disso.

— Não vai ser fácil. Quanto mais você vive no mundo, mais vê como está distante dele. — Whistler o alertou. — E esse é um trabalho perigoso. Agora mesmo você não agüentaria lutar três rounds com uma mosca.

Angel aceitou seus comentários ferinos. Queria ajudar a jovem garota.

— Quero aprender com você.

— Certo.

Caminharam juntos, e então Angel disse:

— Mas não quero me vestir como você.

Whistler fingiu sentir-se um pouco insultado:

— Viu? Você está me irritando de novo.

— E isso é bom — disse Doyle, trazendo Angel do seu devaneio de volta ao presente. — Ele faz alguma coisa, luta contra o mal, mas então os dois acabam na cama e na hora em que ele... bem, o termo técnico é felicidade perfeita.

Ele olhou para Angel.

— E assim que o nosso garoto chega lá, vira malvado de novo. Mata de novo. A coisa fica feia. Então, quando recupera sua alma pela segunda vez, percebe que não pode mais ficar perto da Senhorita Coxas Grossas sem colocar os dois em perigo.

Angel manteve a máscara sobre seu rosto. Tudo estava ali, toda a triste história. A sua história. Sua história com Buffy.

— Então ele vai embora. Vai para L.A. lutar contra o mal e expiar seus crimes. É uma sombra, um campeão sem rosto da miserável corrida humana. Você tem algum tipo de cerveja?

Angel respondeu lacônico:

— Não.

Doyle parecia não acreditar:

— Você deve ter alguma coisa aqui além de sangue de porco.

Foi até a geladeira de Angel e deu uma olhada.

— Certo, você me contou a história da minha vida que, como estava presente, eu já sabia. Por que não o chuto daqui para fora? — indagou Angel.

De mãos vazias, o demônio fechou a geladeira.

— Porque agora eu vou lhe contar o que acontece depois. Veja só, esse vampiro acha que está ajudando. Lutando contra demônios, afastando-se dos humanos para não cair em tentação — disse, gesticulando sobre o apartamento. — Cumprindo penitência em sua pequena cela.

Ele caminhou na direção de Angel, sem desviar o olhar.

— Mas ele está afastado de tudo. Das pessoas que ajuda; elas nem são pessoas para ele, mas apenas vítimas, estatísticas. Somente números.

— Mesmo assim as salvo. E daí se não paro para bater papo? — Sua voz estava áspera; ele odiava sua própria atitude defensiva. Mas estava abalado, cansado e um pouco...

— Quando foi a última vez que bebeu sangue? — perguntou Doyle de modo abrupto... irritado.

Angel não disse nada. Não estava interessado em dizer nada.

Mas Doyle já sabia a resposta.

— Foi ela, sua amiga Caça-Vampiros. Muffy, não foi?

Apesar do que sentia, Angel respondeu:

— Eu estava doente, morrendo. Ela me alimentou para me curar.

“E eu quase a matei”, pensou. “Ela foi parar no hospital por causa da perda de sangue. Bebi seu sangue até quase secar.”

Doyle seguiu em frente.

— Você ficou com certo desejo, não foi? Bem, esse desejo vai aumentar. E algum dia uma dessas pobres vítimas com quem você não se importa parecerá apetitosa demais para ser desperdiçada. E você vai pensar: “O que é uma pessoa contra todas as que salvei? Acho que vou comer essa aqui; ainda sairia ganhando no final das contas”.

Doyle o encarou, e a mente de Angel encheu-se com a imagem do sangue que escorria pelo pescoço da garota que ele tinha salvado naquela noite. Era verdade, a fome o tinha assaltado com tamanha fúria que ele se sentiu tonto. No entanto, havia resistido.

Mas ele também sabia, no fundo, que chegaria o momento em que não resistiria. Sabia agora e já sabia antes.

Às vezes, acordava sonhando com o sangue de Buffy.

“E como seria sonhar com isso por cem anos?” Paixão e pesadelo em uma mistura da qual não podia despertar?

Doyle mudou de humor:

— Vamos, estou cansado de toda essa baboseira. Vamos comprar uma Billy D.

 

Pouco tempo depois, Angel e seu novo amigo demônio saíram de uma loja de bebidas vinte e quatro horas. Doyle bebia cerveja em uma garrafa dentro de um saquinho de papel.

— Ah, isso que é bebida boa — disse, com grande satisfação. — Depois pago para você; é que estou meio sem dinheiro essa semana.

“É, provavelmente todas as semanas”, imaginou Angel. Doyle parecia tão à vontade nas ruas que Angel se pegou imaginando por que todos os demônios que apareciam para ele como Fantasmas do Natal Passado não tinham nenhuma classe.

— Então, o que faço? — perguntou a Doyle. — Assumo que você tenha vindo aqui com algumas alternativas. Como posso mudar as coisas?

— É preciso se misturar — informou Doyle. — Chegar perto dos humanos. Não se trata apenas de lutar e coisas assim.

Uma mendiga aproximou-se deles, enquanto Doyle prosseguia com o assunto.

— Trata-se de chegar perto das pessoas, preocupar-se com elas, mostrar-lhes que ainda há esperança nesse mundo... — Ele olhou para a mulher e disse: — Vá arrumar um emprego, sua vagabunda. — Então, virou-se para Angel e acrescentou: — É preciso deixá-las entrar no seu coração.

Seu olhar era quase maligno.

— Você já está com medo?

Angel disse:

— Quero saber quem o mandou.

Doyle deu de ombros.

— Honestamente, não tenho certeza. Eles não falam diretamente comigo. Tenho visões, que é o mesmo que dizer que possuo terríveis dores de cabeça que vêm com imagens. Um nome, um rosto. Não sei quem as envia; só sei que, seja lá quem for, é mais poderoso do que você ou eu, e estão tentando fazer a coisa certa.

Isso parecia familiar. Parecia com aquilo que Whistler havia dito. Mesmo assim, Angel não tinha certeza se devia acreditar em tudo isso.

— Por que eu?

Doyle simplesmente respondeu:

— Porque você tem potencial. E o lado da balança não está exatamente a seu favor agora.

“Verdade.”

— Por que você?

De repente, o demônio ficou sério.

— Todos nós temos algum pecado para expiar.

Houve um silêncio. Angel esperou. Mais silêncio. Deixou como estava.

Então Doyle ficou todo falante novamente, e pegou um pedaço de papel de seu bolso.

— Tive uma visão essa manhã. Depois que a dor que me cegava passou, escrevi isso.

Angel pegou o papel. Leu: “Tina. Coffee Spot”.

— Garota bonita — acrescentou Doyle. — Precisa de ajuda.

Apesar de tudo, Angel estava intrigado.

— Ajuda com o quê?

Doyle deu de ombros.

— Isso é com você. Eu só consigo os nomes.

Angel franziu a testa.

— Não entendi. Como vou saber se ela...

— Você tem de se envolver, lembra-se? — Doyle gesticulou. — Entrar na vida dela.

— Por que uma mulher que nunca me viu conversaria comigo?

Doyle olhou para Angel sem poder acreditar.

— Você tem se olhado no espelho ultimamente? — Ele deve ter se dado conta de que Angel, sendo vampiro, não tinha reflexo no espelho. — Não — disse. — Acho que não.

Angel fez uma pausa. Certo, ele sabia o que tinha de fazer. Mas mesmo assim...

— Não sou bom com pessoas.

Doyle disse:

— Bem, essa é a razão de todo esse exercício, não é? Conhecê-la. Se puder ajudá-la, ambos sairão ganhando. Você está no jogo?

“Jogo?”

De volta ao jogo?

Graças aos “Poderes Que São” e a um demônio irlandês com um péssimo gosto para cerveja?

 

Depois que Doyle foi embora, a noite voou. As luzes se fundiam, enquanto Angel tentava raciocinar sobre tudo o que tinha acontecido. O sol rugia no céu como um vulcão, amanhecendo em uma explosão que o fazia lembrar daqueles de sua espécie que explodiam quando eram golpeados com estacas.

Ele permaneceu dentro de casa durante o dia. Preguiçoso com a necessidade de descansar, achou que tudo na noite anterior assumia um ar irreal; ele meio que esperava que aquele pedaço de papel sumisse, enquanto o observava por longo tempo, então o jogou sobre o criado-mudo.

Lembrou-se de quando havia conversado com Buffy sobre envolver-se novamente na batalha. Ele havia sido o mensageiro naquela época.

O Doyle dela.

 

                             Sunnydale, 1997

Ele estava esperando que ela aparecesse. Depois que Whistler revelou Buffy Summers para Angel em Los Angeles, ele esteve aguardando sua chegada.

No breve ano que havia passado, ela parecia muito mais velha e mais madura. Ou talvez fosse simplesmente o fato de estar infeliz: ela presumira que, ao mudar-se de Los Angeles, estaria livre de suas responsabilidades de Caça-Vampiros. Mas Sunnydale era uma das convergências mais místicas da Terra: havia uma Boca do Inferno ali que atraía um grande número, aparentemente infinito, de vampiros, demônios e todo tipo de horrores, todos morrendo de vontade de lutar com a Caça-Vampiros.

Então a última chance de Buffy ter uma vida normal foi-lhe arrancada, mas ela lutaria até o fim por isso.

Por conseqüência, provavelmente estava louca de vontade de lutar na primeira vez em que ele e ela se encontraram de verdade.

Ela caminhava pelo Bronze, e ele a seguia.

Ele tinha a impressão de que ela sabia de sua presença, quando ela virou abruptamente em um beco. Ele foi atrás, mas encontrou o beco deserto.

Caíra na emboscada, quando ela saltou de uma parada de mão de uma calha três metros acima da cabeça dele. Derrubou-o com o golpe e, embora tenha se levantado rapidamente, ela o agarrou e o jogou contra a parede. Só quando ele ergueu as mãos em rendição foi que ela abandonou o plano original de dar-lhe uma bela surra.

— Algum problema, senhorita? — perguntou pausadamente. Estava perplexo e viu que ela tinha percebido.

Também percebeu que ela deu uma olhada com o rabo do olho e pareceu gostar do que tinha visto.

Contudo, ela assumiu a postura da Caça-Vampiros quando respondeu:

— Tenho um problema, sim. Por que você está me seguindo?

— Sei o que você está pensando — começou ele.

Ela achou que ele fosse um vampiro. Bem, ele era um vampiro.

Mas não podia revelar esse lado de sua vida.

— Mas não se preocupe — continuou. — Eu não mordo.

Pronto, aí estava a verdade sem aqueles cortes ou explicações complicadas.

Ela recuou, um pouco perplexa.

— A verdade é que — disse — achei que você fosse mais alta. Ou maior. Cheia de músculos e tudo mais. Mas você é bem magrinha.

Ela não mudou de assunto, e isso o impressionou ainda mais.

— O que você quer?

— O mesmo que você — respondeu.

— Certo, então o que eu quero?

Ele disse, bastante nervoso:

— Matá-los, matar todos eles.

Mas essa era uma resposta muito simples. Será que queria matar sua própria criadora, Darla, quando ela ameaçasse Buffy? Apunhalá-la pelas costas, vê-la virar-se em choque e balbuciar seu nome antes de explodir em uma nuvem de poeira?

Ele queria matar Drusilla, a quem levara à loucura? Quando ela e Spike chegaram a Sunnydale, ele pediu que fossem embora. Não havia tentado matá-la; até mesmo ocultou sua presença de Buffy.

E, afinal de contas, o que ambos queriam além de matar, apunhalar e enfiar estacas era um ao outro — como poderia ser mais simples?

 

Ele se levantou e olhou para o pedaço de papel em seu apartamento em Los Angeles. Não podia dar para trás agora, assim como não pôde dar para trás quando Buffy foi chamada. “Droga.”

Assim que escureceu, Angel entrou no carro e dirigiu até o número 10 da rua Santa Mônica. O parque de diversões permanente no píer estava iluminado, a roda-gigante girava graciosa, e as luzes brilhavam no oceano.

Parou em um farol vermelho tendo o Hilton à sua esquerda; lá, viu um jovem casal sentado em um SUV na frente dos manobristas. RECÉM-CASADOS estava pintado com sabão na lateral do veículo.

O casal saiu. Estavam vestidos com roupas casuais, porém caras — linho, algodão, seda —, e a mulher, uma loira de pernas longas, estava de chapéu.

Ela olhou para o rapaz — seu marido — e ficou na ponta dos pés para beijá-lo, ficando de frente para Angel. Então seu olhar desviou-se direto para Angel, e seus olhares se cruzaram.

Ele desviou o olhar, não queria perturbar sua privacidade. O farol abriu, e ele seguiu adiante.

A jovem mulher ainda olhava para ele.

“Esse casamento não vai durar”, pegou-se pensando.

Acabou chegando: Coffee Spot. Era um lugar legal, de classe, e isso o agradou. Seja lá quem fosse essa Tina, pelo menos não estava servindo lixo em uma lanchonete imunda.

Angel entrou. Mais parecia um café do que uma lanchonete. Os empregados vestiam calças pretas e camisas brancas, e a clientela era sofisticada. Patricinhas, mauricinhos.

Angel pegou um café e examinou a cena, permanecendo em um canto. Um homem — possivelmente o gerente, a julgar pelo ar de autoridade — conversava com uma linda garota com cabelos loiros até os ombros. A garota parecia frustrada; o gerente, um pouco pesaroso.

— Tina — disse ele —, preciso levar em conta o tempo de casa. Todos querem fazer horas extras.

— Eu sei. É que preciso... — ela tentou outra tática. — Posso ficar nos sábados à noite se outras pessoas quiserem sair. Trabalharei dois turnos, sem problema.

— Você está na lista, tudo bem?

Ele só queria pôr um ponto final na conversa, e ela sabia.

— Obrigada — disse, desanimada.

Ela agarrou um pano de limpeza e foi na direção de Angel. Ele deu um passo à frente, como se quisesse dizer algo.

Porém, quando ela olhou para ele, ele não conseguiu pensar em nada para dizer. “Estou enferrujado. Estou acostumado a ficar sozinho.”

Angel desviou o olhar e bebeu um gole do café. Ela seguiu em frente e limpou uma mesa um pouco mais adiante.

Então ele viu um homem com um lindo cachorrinho. Duas garotas que passavam por ali pararam para acariciar o animal.

Tina voltava para o balcão. Angel aproveitou o momento, inclinando-se em direção ao cachorro, estendendo a mão para acariciá-lo.

— Que cachorrinho... — começou.

Tina passou por ele, sem ouvir o começo de sua cantada. Enquanto isso, o lindo animalzinho afastou-se de Angel e deitou-se, com medo.

— ...lindo — terminou Angel, embaraçado.

Parecia que todos estavam olhando para ele.

Sem notar nada, Tina começou a limpar a mesa ao lado dele.

Angel reuniu forças e tentou de novo.

— Você, hum, até que horas o café fica aberto?

Ela se assustou. Olhou para ele e perguntou:

— Você está falando comigo?

Ao dizer isso, ela esbarrou sem querer em uma xícara cheia de café que estava no canto da mesa.

— Oh! — ela gritou.

Angel pegou a xícara a meio caminho do chão e entregou-lhe.

— Uau! — ela estava impressionada. — Você tem ótimos reflexos.

Sem dizer nada, Angel concordou com a cabeça. “Nossa, como sou ruim nisso”, pensou. A moça disse:

— Obrigada, eles iam descontar essa xícara do meu salário.

— Então — ele começou — você é... feliz?

“Essa foi boa.”

“Seu idiota.”

— O quê?

Claro que ela estava confusa, e não era para menos. Mas era tarde demais para retroceder.

— Você parecia uma pouco... triste.

Agora ela estava irritada.

— Você estava me observando?

— Não. É só que eu estava olhando para lá... — gesticulou — e você veio andando de lá...

Ela abriu um sorriso genuíno. Sua surpresa era genuína, para ser mais exato.

— Você não costuma dar em cima das garotas com muita freqüência, não é?

— Já faz algum tempo — confessou. — Sou novo na cidade.

Seu sorriso se apagou.

— Faça um favor a você mesmo. Não fique.

Ela começou a sair.

Angel disse:

— Você não respondeu à minha pergunta.

— Se estou feliz? — Ela o encarou. — Você tem três horas?

“Ganhei.”

— Tenho cara de alguém ocupado?

Ela fez uma pausa, considerou.

— Eu saio às dez.

 

Finalmente eram dez horas. Angel estava encostado em seu carro quando Tina apareceu. Ela estava usando um lindo vestido e tinha uma enorme bolsa pendurada nos ombros. Caminhava em sua direção com um propósito.

— De repente me sinto mal vestido — disse ele, sentindo-se um pouco mais no controle da situação. As artimanhas estavam voltando. Socializar é como andar de bicicleta.

“Talvez.”

Ele continuou:

— Você quer tomar um aperitivo ou...

Ela ergueu seu chaveiro, ameaçando-o com um spray de pimenta.

— Eu sei quem você é e o que está fazendo aqui. Fique longe de mim e diga a Russell para me deixar em paz.

O spray de pimenta não causaria um dano permanente, mas arderia bastante. Além do mais, ele tinha uma missão. Disse:

— Não conheço nenhum Russell.

Ela não baixou a guarda nem por um segundo.

— Você está mentindo.

Ele disse honestamente:

— Não, não estou.

— Então por que estava me observando?

— Porque você parecia solitária — fez uma pausa — e achei que isso fazia com que tivéssemos algo em comum.

Ela olhou para ele por longo tempo, então baixou o spray. Claro que suas palavras pareceram familiares.

— Desculpe-me — disse ela. — Realmente...

— Tudo bem — sua voz ficou suave.

Era sincero, realmente estava tudo bem.

— Não está não... — ela se abriu. — Estou com alguns problemas de relacionamento. Acho que já deve ter percebido.

“Entra em cena o Batman”, ele pensou. “Ou será O Toque de um Anjo?”

Mas isso parecia cinismo demais. A garota estava apavorada e precisava de um super-herói.

Ou pelo menos de um amigo.

— Quem é Russell? — indagou.

Ela sacudiu a cabeça.

Ele a pressionou um pouco.

— Gostaria de ajudar.

— A única ajuda de que preciso é uma passagem de volta para casa, e não estou pedindo dinheiro. Já peguei... dinheiro antes. — Isso era uma humilhação, e ele sabia disso. — Ele nunca vem de graça.

— Onde é sua casa?

— Missoula, Montana. Muita terra, muitos caubóis bêbados. — A saudade de casa em sua voz aparecia em alto e bom-tom. — Vim para cá para ser uma estrela de cinema, mas, hum, eles não estavam contratando. No entanto, conheci muitas pessoas extravagantes no caminho, e é por isso que ando armada.

Ele a olhou com sinceridade.

— Parece justo.

Ela disse:

— Você me faz lembrar os garotos da minha cidade. Só que você não está bêbado.

Com uma tremenda cara-de-pau, ele disse:

— Eu bebo a vida.

— É, legal. — Ela sorriu e olhou para o relógio. — Bem... preciso ir a uma fabulosa festa de Hollywood. — Apontou para seu vestido. — Por isso todo o glamour. A garota que me emprestou ficou com a minha grana como depósito, caso eu estrague o vestido.

Ela hesitou, como se não tivesse certeza do que mais poderia dizer. Finalmente finalizou com chave de ouro.

— Bem, foi um prazer ameaçá-lo.

“Oh, não, não vá.”

— Quer uma carona?

Ela pensou por um instante, então deu um passo em sua direção.

— Qual é o seu nome? — perguntou.

— Angel.

Ele sentiu como se tivesse revelado mais do que seu nome.

 

Era um apartamento de classe, o tipo de endereço que valia muito dinheiro em Los Angeles. As pessoas que não possuíam dinheiro para viver em lugares assim freqüentemente pagavam as empresas de correio para dar-lhes os números certos e os nomes de ruas para seus cartões de visita e correspondência comercial, pois, desse modo, podiam fingir para o mundo que tinham se dado bem. Até que funcionava.

Eles pararam no estacionamento do subsolo, que era bem vigiado por seguranças. Então, entraram no elevador que os levou direto ao último andar.

Tina mostrou o caminho. Quando a porta se abriu, uma câmera de vídeo apontou direto para eles. A mulher que a manipulava era um clone de Tina com mais cinco anos de vida difícil. Com seus cabelos castanhos levemente ondulados, sobrancelhas delicadas e pescoço delgado, ela fazia Angel se lembrar — com desgosto — de Jenny Calendar, cujo pescoço delgado ele tinha quebrado havia dois anos.

Jenny era a professora de ciências da computação na escola Sunnydale. Ainda mais significativo, ela também foi a tecnopagã que começou a assistir Giles nas várias batalhas contra as forças das trevas — especialmente aquelas na Internet.

Eles se apaixonaram, mas esse amor ficou tenso quando um demônio que Giles tinha invocado quando jovem possuiu o corpo dela. Naquela época, Angel salvou sua vida, forçando o demônio a entrar em seu corpo em vez de no dela. Mas Angel tirou sua vida depois. E, enquanto a câmera o encarava como um olho cheio de ódio, todas as memórias corriam por sua cabeça:

Ele estava perdido naquela época, sua alma arrancada novamente. Jenny, além de ser tecnopagã, era uma espiã enviada pelo clã dos ciganos, os Kalderash, para observá-lo, para garantir que ele sofresse pelos crimes que cometera contra seu povo.

Porque, caso vivenciasse um momento de verdadeira felicidade, sua alma seria novamente arrancada de seu corpo, e ele voltaria a seu puro estado de vampiro demoníaco.

E foi o que aconteceu: ele encontrou tal felicidade — nos braços de Buffy, na noite em que ela completou dezessete anos. Eles se entregaram um ao outro depois que Angel colocou o anel Claddagh no dedo dela. Isso foi o mais parecido com um casamento e uma lua-de-mel que já puderam ter.

No entanto, depois dessa bênção, a maldição dos Kalderash foi revertida. Um dos vampiros mais cruéis jamais criado — Angelus, Aquele com Rosto Angelical — foi solto sobre o mundo.

Jenny tentou restaurar sua alma. Ela teria conseguido na noite em que ele veio procurá-la.

 

                                 Sunnydale, 1998

Como qualquer pessoa boa com computadores, Jenny Calendar perdeu-se do resto do mundo enquanto seguia trabalhando na tradução dos anais dos Rituais dos Mortos-Vivos. Enquanto estava sentada na sala de aula, digitando no teclado, ela conversava com a tela.

— Vamos, vamos — murmurava.

O brilho da tela cobria seu rosto. Ela encarou o monitor por um momento e então deu risada.

— É isso! Vai funcionar. Isso vai funcionar.

Pressionou outra tecla, girou a cadeira em direção à velha impressora matricial e observou os caracteres sendo impressos.

Então, ergueu os olhos apenas um pouco e levantou-se de puro pânico.

Angelus, sentado em uma mesa com um sorriso no rosto, a observava havia pelo menos dez minutos.

— Angel — disse, tentando disfarçar o pânico, enquanto se afastava aos poucos. — Como você entrou aqui?

— Fui convidado — disse inocentemente, dando de ombros, como se fosse a coisa mais óbvia. — A placa na porta da escola? Formatia trans sicere educatorum.

Jenny ficou sem ar:

— Entrem todos aqueles que buscam conhecimento.

Ele se levantou.

— O que posso dizer? Sou ávido por conhecimento — com as mãos à mostra, ele começou a caminhar em sua direção.

— Angel — murmurou aterrorizada —, tenho boas notícias.

— Ouvi dizer — pelo tom de voz, ele parecia estar falando com uma criança. — Você foi fazer compras na Pequena Loja de Horrores.

O brilho na mesa dela chamou sua atenção. Ele pegou a esfera de cristal e sua voz ficou densa:

— O globo de Thesulah. Se minha memória não está falhando, isso deve invocar a alma de uma pessoa do éter e prendê-la até que possa ser transferida.

Ele o ergueu.

— Sabe o que eu mais odeio? — perguntou com gentileza.

Então, lançou o globo contra o quadro-negro, muito perto da cabeça dela. Jenny se agachou e gritou enquanto o globo se espatifava.

Ele deu risada.

— Eles são tão frágeis. Deve ser aquele artesanato barato dos ciganos, né?

Ele voltou sua atenção ao computador dela.

— Nunca deixo de me surpreender com quanto o mundo mudou em apenas dois séculos e meio.

Ela recuava, como se ele não fosse perceber. Sua boa audição reconheceu o girar da maçaneta. Mas ele sabia que a porta estava trancada.

— É um milagre para mim — prosseguiu ele, com os olhos arregalados. — Você colocou o segredo para restaurar minha alma aqui... — Com selvageria, derrubou o computador no chão. O monitor foi esmagado contra o linóleo e pegou fogo — ...E aparece bem aqui. — Pegou os papéis da impressora. — O Ritual da Restauração. Uau! — Ele deu risada. — Isso me traz recordações.

Rasgou os papéis.

Os olhos dela se arregalaram:

— Espere! É sua...

— Oh, minha ‘cura’? — fingiu pedir desculpas enquanto continuava rasgando. — Não, obrigado. Já estive lá e déjà vu não é mais como costumava ser. Bem, esse parece ser meu dia de sorte. — Segurou as páginas sobre o monitor em chamas. — O computador e as páginas. — Deixou que pegassem fogo e depois as deixou cair. Então, fingiu aquecer as mãos junto ao fogo. Agachou-se. — Parece que vou matar dois coelhos com uma cajadada só.

Ela começou a esgueirar-se em direção à outra porta. Mas então ele se virou para ela, com seu rosto de vampiro, e disse pausadamente:

— Com a professora são três.

Ela tentou correr até a porta. Ele correu e agarrou-a facilmente. Ela gritou. Com a força sobrenatural da sua espécie, ele a ergueu contra a parede. Ela bateu na porta, e a força do impacto fez com que abrisse.

Lentamente ele se aproximou. A testa dela sangrava. Ela se levantou, ofegante pelo pânico, e saiu correndo pelo corredor.

— Ah, ótimo — disse Angelus em tom ameaçador. — Preciso ficar com mais apetite antes.

Ela corria para se salvar. Seus saltos faziam barulho quando ela alcançou a primeira porta do corredor. Então, correu para a direita, passou pelos armários em direção à saída.

A porta estava trancada.

Ela voltou e viu a sombra dele projetada contra os painéis de vidro nas portas duplas. Pegou outra saída. Correu pela passagem coberta entre os edifícios, braços latejando, olhando para trás para ver diminuir a distância entre os dois. A luz e a sombra brincavam em sua cara monstruosa.

Como uma presa sendo caçada, ela foi obrigada a entrar novamente na escola. Por alguns instantes, Angelus pensou que a porta também estivesse trancada, mas ela finalmente abriu caminho depois de vários empurrões frenéticos.

Jenny perdeu tempo, e Angel estava praticamente em cima dela quando finalmente a porta se abriu. Ele urrou como um animal antecipando a caça. Ela bateu a porta na cara dele e saiu correndo.

As luzes fluorescentes lançavam um brilho azul e frio sobre os dois, enquanto ela perdia mais terreno. Então, ela jogou o carrinho de limpeza sobre ele, fazendo-o tropeçar e cair feio no chão.

Enquanto estava caído, ela correu para as escadas mais próximas. Ofegante e quase sem ar, olhou por cima dos ombros enquanto passava direto por uma janela semi-circular — as luzes da rua e os carros que passavam, o mundo normal da noite urbana, sem suspeitas nem preocupações —, dando de encontro com ele.

Ela corria rápido, mas ele corria ainda mais rápido. Os olhos dela se arregalaram quando ele colocou seus dedos gelados sobre sua boca, obrigando-a a se calar. Sua risada era inumana. Ela não podia falar, piscar, respirar.

— Desculpe-me, Jenny. É aqui que você se manda — disse em voz baixa e gentil. E então agarrou a cabeça dela e torceu.

Seu pescoço fez um som interessante ao quebrar.

Seu lindo corpo caiu no chão. Um pouco sem ar, Angelus respirou fundo algumas vezes e então ergueu a cabeça.

— Nunca me canso de fazer isso.

Sem olhar duas vezes para a mulher morta, seguiu em frente.

 

— Sorria para a câmera — ordenou a mulher na festa. Ela acrescentou com apreciação. — Quem é esse gato alto, moreno e lindo?

— Um amigo — disse Tina. — Margo, preciso mesmo falar com você.

Margo disse de improviso:

— Pegue uma bebida, volto já.

Ela ligou a câmera em cima de outros convidados que chegavam. Tina e Angel se dirigiram à mesa de comida. O apartamento era elegante, com uma linda vista da cidade. Estava lotado de pessoas jovens e da moda, todo mundo que importava, fazendo seus contatos ao mesmo tempo em que tentavam não parecer desesperados.

Tina indicou a montanha de sanduíches em formato de estrela.

— Que gracinha — disse. — Todo mundo é uma estrela.

Angel foi direto ao assunto:

— Quem é Russell?

Ela parecia assustada.

— Você não vai querer saber.

— Na verdade, quero.

Ela respondeu:

— Ele é alguém em quem cometi o erro de confiar.

Margo veio até eles e anunciou:

— Aqui estou.

Tina disse a Angel:

— Isso não vai demorar.

Margo sorriu insinuantemente para o vampiro.

— Eu não deixaria esse aí sozinho — disse.

As duas mulheres se afastaram. Angel olhou em volta para a multidão que conversava e bebia. A sensação de estranho no ninho voltou com toda força. Ele se sentiu deslocado, e isso o deixou um pouco cansado. Provavelmente Doyle não sabia o que tinha pedido a Angel.

Quanto tinha pedido a Angel.

Então, ele reparou em um homem arrumadinho no estilo empresário. Tinha cerca de 45 anos e ficou encarando Angel com muita insistência.

Ele disse:

— Você é um homem lindo, muito lindo.

Angel não sabia o que fazer.

— Ah, obrigado.

— Você é ator — continuou o homem.

— Não.

O homem entregou-lhe um cartão:

— Isso não foi uma pergunta. Sou Oliver; pergunte a qualquer pessoa sobre Oliver. Eles lhe dirão que sou um animal feroz. Serei seu empresário assim que você ligar.

Angel insistiu:

— Não sou ator.

Oliver sorriu.

— Engraçado. Gosto do humor, gosto de tudo. Spelling está rodando um piloto no momento. Não sei do que se trata, mas você é perfeito. Ligue. Isso não é uma cantada; estou em um relacionamento sério com um arquiteto.

Oliver, o animal feroz, sumiu. Angel não tinha idéia do que dizer. Deixou o cartão na mesa e virou-se para olhar ao redor mais um pouco.

Então, ouviu uma risada familiar.

Uma risada muito familiar.

Curioso, contornou um canto da sala e lá estava da, conversando com dois homens de terno: Cordelia Chase. Rainha C.

Como descrever Cordelia? A garota mais egocêntrica, corajosa e profundamente narcisista de Sunnydale? Cordelia cresceu rica e mimada e, como tal, talvez tenha aprendido que geralmente havia pouca conseqüência ao dizer exatamente o que lhe vinha à mente. — Tato é simplesmente não dizer as verdades — ela gostava de dizer. — Eu tô fora.

Uma linda garota em corpo de mulher com cabelos escuros e olhos grandes e profundos, um rosto um pouco anguloso e lábios carnudos — Cordelia tinha sido a maldição da vida de Buffy em Sunnydale, começando com o primeiro dia na escola. Ela tinha escolhido Buffy como sua protegida e depois nunca perdoou a Caça-Vampiros por tê-la forçado a engolir Xander Harris e Willow Rosenberg. Os dois eram carta fora do baralho, mas amigos mais fiéis não poderiam ser encontrados em nenhum outro lugar. Ambos cresceram muito ao conhecer Buffy e lutar a seu lado; Willow até mesmo descobriu um talento para lançar feitiços.

Mas Cordelia? Será que ela também tinha mudado como os demais? Angel não tinha certeza. Parecia que sim, por certo tempo, devido ao sacrifício extremo (para ela) de sua posição social quando namorou Xander publicamente. Mas então ela o pegou beijando Willow e voltou a ser como antes.

Quando conheceu Angel, ela se sentiu atraída por ele e não escondeu tal fato. Mesmo quando soube de sua verdadeira natureza. Mas agora eles não estavam mais em Sunnydale. Era estranho vê-la fora de seu habitat.

Seriam diferentes um com o outro?

— Oh, Calloway é um porco! — dizia ela para o grupo ao seu redor. — Nem farei mais qualquer teste para ele. Como você acha que Carrie conseguiu o papel? Ah, por favor. — Ela fez aquilo com os olhos. — Há uma distância muito curta entre atuar e fingir. De qualquer modo, ela é velha demais. Devia ser alguém mais novo, sabe, como a jovem Natalie Portman.

Angel a chamou:

— Cordelia?

Ela se virou para ele e fingiu uma cara de surpresa.

— Ah, meu Deus! Angel!

Sua platéia começou a se dispersar, enquanto ela seguia em direção a Angel. Ela observou ansiosa enquanto eles se afastavam, lamentou, mas de algum modo Angel ganhou no cara ou coroa.

— Eu não sabia que você estava em L.A. Está morando aqui?

— É. E você?

Ela enfeitou um pouco o panorama:

— Malibu. Um pequeno condomínio na praia. Não é uma praia particular, mas sou jovem, então posso agüentar.

Ele estava feliz por ela.

— Você está atuando?

— Dá para acreditar? — Ela fez aquilo com o cabelo. — Começou como um meio de ganhar dinheiro rápido e então... boom! Agora é minha vida. Muito trabalho. Estou tentando manter o pé no chão, não deixar subir à cabeça. Então, você ainda é um... — Ela fez garras e dentes. — ...grrr?

— Sou. — Ele deu de ombros. — Não há uma cura para isso.

— Certo — disse ela com leveza. — Mas você não é do mal. Não está aqui para... sabe, morder as pessoas...

Ele não a culpou por querer se certificar. O passado continha uma parte significativa de O Médico e O Monstro.

— Só dei carona para uma amiga — garantiu.

— Ótimo. — Ela era toda sorrisos e olhos brilhantes. — Não é uma festa maravilhosa?

— Fabulosa — concordou, honestamente. — “Nem tanto.”

Ela não entendeu, não prestou atenção.

— Então, quem você conhece? — Ela pressionou. Pela expressão no olhar de Angel, ela tentou novamente. — Quem você conhece aqui? Alguém?

— Só a Tina. Essa não é exatamente a minha praia.

— Bem, certo, você é o único vampiro aqui.

Angel não pôde resistir.

— Duvido.

Ela também não entendeu. “A velha Cordy de sempre.”

— Bem, é melhor eu circular um pouco; eu realmente deveria conversar com pessoas que são alguém — disse com leveza. — Mas foi divertido!

Ela se afastou.

Tina estava voltando, e não parecia nada feliz. Nesse momento, foi abordada por um cara meio durão — feições rudes, sobrancelhas grossas — em um terno com corte perfeito.

“Uma coisa boa sobre ser vampiro por tanto tempo”, pensou Angel. “Tive ótimas roupas na minha época.”

O cara, que francamente parecia um criminoso, trocou algumas palavras com Tina. Ficou claro que ela também não estava feliz com isso. Então, ele a agarrou pelo braço, e ela o arrancou com força.

Foi até Angel e disse, aturdida:

— Claro que ela ainda não tem o dinheiro. Podemos ir embora daqui?

Angel deu uma boa olhada no cara de terno.

— Quem é aquele?

— Um idiota. Podemos ir, por favor?

Angel concordou, e ambos foram para a porta.

 

Stacey observou enquanto os dois saíam, então pegou seu telefone celular.

Ela não tinha amassado seu terno.

Um ponto a seu favor, mas apenas um.

 

Tina tentou respirar. Fazia tempo que vivia segurando a respiração, ou respirava ofegante, respirações superficiais demais para trazer qualquer benefício.

Ela não fazia idéia de como tinha se metido em tamanha encrenca. “Um pequeno passo por vez”, dizia a si mesma. “Primeiro você faz alguma coisa um pouco fora dos trilhos, depois outra, e logo está atolada até os joelhos. Daí você percebe que passou os últimos seis meses de sua vida nadando em areia movediça.”

Ela olhou para Angel. O perfil dele já estava gravado em sua cabeça. Seus olhos eram tão escuros que era possível cair dentro deles. Ele era o tipo de cara que a gente vê por dois segundos, mas nunca mais esquece nenhum detalhe. Aqueles cabelos escuros, sua postura. Como um lutador que sabia que podia vencer qualquer um, mas ainda assim era muito cauteloso.

Havia algo nele, uma presença, algo diferente. Estava claro que ele tinha seus próprios demônios, não se sentia à vontade, mas havia uma aura de poder em volta dele.

Afinal, quem era ele? Será que estendia uma corda para puxá-la para fora desse buraco só para que pudesse enforcá-la depois?

Montana nunca pareceu tão distante. Às vezes era quase como se não existisse mais. Ou como se lar fosse algo que ela tinha inventado para se sentir melhor em relação à sua vida.

“O que eu não daria por um caubói bêbado”, pensou, e quase sorriu.

Ela não queria nem ao menos pensar em ter alguém como Angel em sua vida. Realmente em sua vida. Do modo como se sentia, isso era almejar demais.

As portas do elevador se abriram, e ela e Angel saíram na garagem do prédio.

Quando os dois deram conta da presença de três homens, já era tarde demais.

Dois deles agarraram Angel e empurram-no de volta para o elevador. As portas se fecharam.

Tina enfrentou o terceiro homem. Ela o conhecia, sabia quem o havia mandado.

Havia dois elevadores. As portas do segundo elevador se abriram, e, claro, Stacey estava lá.

“Por que imaginei que conseguiria me livrar disso?”, pensou com agonia.

Derrota.

— Certo, não tem problema.

Ele apontou para uma BMW 750 que os esperava. O coração de Tina acelerou enquanto ela foi obedientemente até o carro. Suas mãos estavam frias como gelo.

Ela se soltou assim que pôde.

Seus sapatos faziam barulho enquanto ela fugia. Podia ouvi-los atrás dela, ganhando terreno. Ela se escondeu entre alguns carros estacionados.

E então eles a pegaram.

Mãos a agarraram por trás e a prenderam enquanto ela tentava se soltar. Era o cara que havia bloqueado sua passagem depois que levaram Angel de volta ao elevador.

— Solte-me! — ela gritou, debatendo-se. — Solte-me!

Eles a colocaram no carro.

E ela soube, bem ali, naquele momento, que morreria.

 

No estacionamento, a BMW acelerava. O cara que tinha agarrado Tina estava na direção. Tina estava no banco de trás com o ‘idiota’.

As portas do elevador se abriram e Angel saiu de lá de dentro, avaliando a situação o mais rápido que pôde.

Os dois homens que o atacaram estavam no chão, definitivamente fora do jogo. Não foi um grande desafio, mas eles o tinham atrasado tempo suficiente; era o que parecia.

Enquanto Angel observava, o motor da BMW roncava longe.

Sem hesitar, Angel saiu correndo na direção oposta. Imaginou a disposição da garagem e sabia que eles teriam de dar voltas para sair de lá.

Desesperado para ganhar tempo, saltou em um carro estacionado e correu sobre vários outros. Podia ouvir o motor da BMW, apesar do som pesado de suas botas no chão. Ou talvez fosse seu coração — que nunca batia.

Forçou-se a não pensar em tropeçar e cair ou qualquer outra coisa que o fizesse perder tempo. O mais alto que pôde, saltou sobre o último carro e aterrissou precisamente no banco do motorista — “vamos, Speed Racer!” — do conversível... que não era dele.

Seu carro estava perto, mas não era esse. Não esse cujo motorista, assim como qualquer outro de Los Angeles, havia levado as chaves consigo.

— Droga — resmungou Angel.

Não havia tempo para mais nada: saiu do carro e pulou no seu próprio conversível como um piloto em seu caça Harrier durante uma batalha.

A BMW cantou pneu em uma curva, em uma clara disparada para a saída.

Nesse momento, Angel já estava no carro e deu a partida. Agora pisava fundo em direção à BMW.

O motorista seguia em frente. Angel não desacelerou, não virou, não piscou.

Mais parecia um pega brutal para provar a coragem dos motoristas.

E Angel não se importava com isso.

Os motores aceleraram; ambos pisavam fundo, mais parecia uma disputa até a morte entre Guerreiros do Asfalto. Angel não sabia se sobreviveria, mas era mais provável que ele saísse vivo dali do que o outro cara. Mesmo assim, fosse lá o que fosse...

A rapidez com que vinham...

Os pára-choques dianteiros estavam prestes a colidir; no último minuto, o outro cara virou a direção com força.

A BMW desviou e bateu direto em uma parede de concreto, arrastando-se em uma chuva de faíscas e lascas de metal. Angel imaginou que a única coisa que evitou que o carro ficasse achatado como uma panqueca foi a renomada engenharia alemã.

Angel já estava lá na hora em que o motorista saiu do carro e sacou um revólver. Ele chutou a arma, arrancando-a da mão dele. Ela saiu voando pelos ares. O criminoso a acompanhou com os olhos; Angel deu um soco na cara dele, agarrando a arma no ar e enfiando-a no pescoço do outro cara — o companheiro de festa indesejado — enquanto ele saía do banco de trás. Tina saía também.

O colega de banco dela disse:

— Não sei quem você é, mas não vai querer se envolver nisso, confie em mim.

Angel o ignorou e disse:

— Tina, entre no carro.

Ela entrou.

O outro cara olhou para ele com desdém.

— Sabe de uma coisa? — provocou. — Acho que você não vai puxar esse gatilho.

Sem piscar, Angel o socou no rosto. O cara foi ao chão em um instante.

— Acertou! — disse Angel.

Entrou no carro. O cara que estava no chão praticamente rangia os dentes enquanto encarava Angel com ódio.

— Festa legal, hein? — disse Tina.

Angel respondeu:

— Um pouco fabulosa demais para mim.

Ele engatou a marcha e saiu em disparada. Estava furioso, talvez muito mais por ainda se lembrar de uma época em que era ele quem aterrorizava mulheres indefesas dessa maneira. Na verdade, ele as transformava em monstros. E esses monstros criavam mais monstros.

E esses monstros mataram muitas pessoas.

E bastava olhar para seus filhos demoníacos, Dru e seu amante, Spike, para ver como ele era culpado.

 

                               Dublin, 1838

Era Natal, e a neve caía densa, rápida e uniforme. Cobria a rua; as pessoas e as carruagens passavam por ali, fazendo compras e sorrindo, na expectativa das festas e da comilança. Os corais cantavam, e os órfãos mendigavam. Pela primeira vez suas mãos cheias de frieiras tocavam moedas: afinal, era tempo de festa.

E ele veio, com seu chapéu alto e de aparência furtiva. Daniel era seu nome, e ele era um covarde trapaceiro. Devia dinheiro a Angelus, bastante dinheiro, e continuava fazendo apostas com pessoas que provavam não ter valor algum. Pior, Angelus ficou sabendo que ele empenhara a herança de sua estimada família e agora não tinha como se manter.

Daniel tentou evitá-lo por várias semanas, ficando cada vez mais nervoso com o passar do tempo, e Angelus permitiu que ele imaginasse que o enganava com sucesso. Foi divertido observar o pobre coitado degenerar-se, imensamente agradável observar seus nervos se esgotarem pouco a pouco.

Claro que isso também poderia ter algo a ver com a proximidade do casamento de Daniel com a filha de uma família que esperava que sua querida menina fosse sustentada à altura. Uma palavra sobre sua condição deplorável e a noiva de Daniel seria arrancada dele em um piscar de olhos.

Mas, para Angelus, o jogo estava ficando sem graça. Mesmo assim, desde aquela noite de Natal, Angelus nunca teve certeza do que o motivara a matar Daniel naquela noite em especial.

Não que isso o incomodasse. Era simplesmente... intrigante.

Daniel implorou por sua vida, lembrou Angelus sobre sua noiva, tentou negociar o empréstimo. Angel permitiu que o homem tivesse um sopro de esperança e então saboreou seu próprio presente de Natal.

Bela em um lindo casaco de pele branco e com um chapéu encantador, Darla estava parada sob a neve, nenhum suspiro emanando de seus lábios cor de sangue. Seus olhos brilhavam como gelo. Enquanto Angelus espalhava sangue sobre a neve branca e limpa, ela observava das sombras, encarando-o.

— Bravo, meu querido — disse ela, com uma voz doce feito mel.

— Então você aprova? — indagou ele, limpando a boca com o dorso da mão.

— Claro — ela sorriu com doçura.

Ela aprovava tudo o que Angelus fazia.

Pelo menos naquela época.

 

                                         Londres, 1860

Mas até mesmo os amantes mais unidos precisam de férias depois de um século juntos. Não importa a proximidade, a intimidade, a alegria: simplesmente é preciso ter um momento para voltar a ser um só novamente.

A separação foi amigável, e eles prometeram voltar um ao outro depois de uma década.

A princípio, Angelus sentiu muita falta de Darla. Ela era sua criadora e, francamente, a única vampira que ele conhecia bem o suficiente para confiar um pouco mais do que desconfiar. Pegava-se pensando “Terei de contar isso a ela” depois de cada grande aventura.

Assim, a necessidade de registrar cuidadosamente cada detalhe de suas noites virou um hábito, e ele percebeu que era capaz, dessa forma, de vivenciar mais completamente o que estava acontecendo no momento da façanha. Isso trouxe um tempero à sua vida, algo que anteriormente faltava.

E foi assim que se manteve distante por um tempo mais longo do que o planejado. Quinze anos, depois dezesseis.

E então vinte.

Pode ser verdade que a ausência aumenta o amor.

Mas isso só acontece se você ainda tiver um coração.

Angelus, sendo um morto-vivo, oficialmente possuía o órgão, mas ele não batia mais.

No vigésimo quinto ano, sentia cada vez menos a falta de Daria. Foi nessa época que realmente começou a viver por si só. Viajou muito e desenvolveu uma bela reputação entre as forças das trevas. Era temido em todo o universo. Ninguém queria cruzar com Angelus, o Flagelo da Europa. Era emocionante, para dizer o mínimo.

Finalmente chegou a Londres, a cidade dos seus sonhos da juventude, e era ainda mais surpreendente do que ele imaginava. Claro que o mundo todo era mais surpreendente do que quando ele era vivo. Havia se passado um século e tantas coisas tinham surgido: motores a vapor, eletricidade, o telégrafo. E tantas outras maravilhas estavam a caminho.

Mas nada se comparava à antiga maravilha da caçada. A alegria primária da matança.

A eterna celebração do mal.

Como nesse momento em particular, quando Angelus entrou no confessionário de uma pequena capela, rasgou a garganta de um padre católico e o matou.

Ele estava sentado com o corpo do homem ainda quente em seu colo quando percebeu que alguém tinha entrado do outro lado para se confessar.

A voz trêmula de uma garota anunciou que fazia dois dias desde a sua última confissão.

Seu coração morto que não batia foi arrebatado. Bancando o padre, encorajou a jovem a confiar seus pecados a ele. Confiar nele.

A jovem disse que tinha visões. Havia visto o acidente na mina, naquela manhã, antes que acontecesse. Sua mãe insistiu que prever o futuro era uma habilidade que pertencia ao Todo-Poderoso. Uma pobre coitada não pode ser capaz de tais coisas... a menos que estivesse amaldiçoada pelo próprio Diabo.

Estranhamente tocado e muito surpreso, ele garantiu que isso era verdade. Ela era filha do inferno e, portanto, trabalharia para o mal. Cumpriria os desígnios de Deus realizando feitos malévolos. A pobre garota ficou desnorteada, mas no fundo era uma boa garota, e as boas garotas dão ouvidos aos seus padres.

Então, ela continuou buscando mais de seus terríveis conselhos. Seu nome, ele soube depois, era Drusilla.

Assim como fez com a própria família, Angel matou todos os parentes dela. Ele rasgou as gargantas de suas amigas e de um garoto com quem ela esperava se casar um dia.

Qualquer pessoa de quem ela falasse a seu confessor morria logo em seguida. Convencida de sua maldade inerente, a jovem fugiu para um convento e por algum tempo ele deixou que mergulhasse na pureza das boas irmãs ao seu redor.

Então, no dia em que ela deveria fazer os votos, ele a transformou como Darla havia feito com ele.

Foi isso que a deixou completa e irreversivelmente louca.

Agora os dois andavam juntos, e Darla acabou se juntando a eles. Dru transformou um jovem inglês de nome William, o Sangrento, e eles formaram um bando. Um clã temido dos vampiros mais brutais da história.

Angelus os levou à selvageria e à crueldade. Ele os inspirou a torturar e atormentar suas vítimas. William tornou-se ‘Spike’, ou ‘cravos’, por seu hábito de enfiar cravos de estrada de ferro em suas vítimas.

Drusilla descobriu que tinha o maravilhoso dom de hipnotizar suas vítimas. Era como uma cobra enrolada para dar o bote, prendendo o olhar de sua presa enquanto ela tremia e estremecia. Era glorioso observar.

Foi altamente satisfatório para Angelus tê-la conseguido. Com suas habilidades naturais muito além das de Darla, ele tinha gerado uma maravilhosa criatura.

Drusilla foi sua conquista mais gloriosa, e ele era parcialmente responsável, pelo menos, por boa parte de seus feitos particularmente sádicos.

 

                                   Londres, 1883

Drusilla estava parada olhando, olhos brilhando, enquanto Angelus flertava com Margaret, uma jovem serviçal. Drusilla trajava uma fina capa de veludo vermelho e usava um colar de granada no pescoço. Havia rosas natalinas e pérolas em seus cabelos, e Angelus trajava roupas formais e elegantes — estava lindo em suas roupas de festa.

A jovem serviçal — tola miserável — estava embaraçada com as atenções do convidado de seu patrão. Como mulher, mortal ou vampira, resistiria aos beijos e carinhos de Angelus, Aquele com Rosto Angelical? O Flagelo da Europa, o Terror da Mongólia...

...Criador de Drusilla e do grande amor da vida dela?

— Olhe, Spike — sussurrou, e Spike olhou em sua direção. Ele estava incomodado com suas roupas de festa; sendo londrino, como ela, ainda não estava acostumado a burlar o sistema de classes. Não importava, ele era seu outro amado, e ela o tinha criado.

— Spike, é ótimo observá-lo, não é? — murmurou. — Ele é um mestre, um romântico.

Ele resmungou.

— Ele sempre faz isso — reclamou. — Provoca um frisson. Acho melhor bater logo, mostrar os dentes e resolver rápido. Pelo menos ele deveria torturá-la um pouco. Mas é sempre isso... ele dançando esse minueto.

— É uma questão de elegância — insistiu Drusilla. — Ele tem. Vem de uma classe social mais alta do que a nossa, sabe.

— Pfff, ele é irlandês. — Spike fez uma careta. — Qualquer mendigo inglês é melhor do que um rei irlandês.

— Cuidado — disse ela, deliciando-se. — Ele vai arrancar seu pescoço se ouvir isso.

— Pois que tente. — Spike tocou na bochecha dela. — Queria que ele tentasse. Eu o mataria e então teria você toda para mim.

— É o que você pensa. — Seus olhos brilharam, sorrindo, dando risada. Ela adorava ambos, seus dois homens fortes. Sentia-se como uma duquesa quando os dois disputavam sua companhia. Sempre de brincadeira... ou assim gostariam que ela acreditasse. Mas eram como quaisquer dois garotos: bancando os durões, mas cada um tinha uma faca escondida caso as coisas saíssem do controle.

Enquanto isso, a serviçal implorava para que Angelus a deixasse voltar para a festa, mas ele bloqueava a passagem. Ela estava realmente ficando com medo. Drusilla podia sentir o cheiro do medo, ouvir o coração da mulher bombeando todo aquele sangue quente e saboroso.

— É delicioso — murmurou Drusilla.

— Por falar em delícia, quando ele terminar com isso, não haverá mais nada decente nessa casa para beber — reclamou Spike. — Você tomou aquele ponche? O que tem nele, açúcar e leite? O champanhe já acabou.

— Você deveria ter ido com os homens tomar brandy depois da ceia. Angelus foi — acrescentou ela.

— Você disse que estava com fome — resmungou.

— Disse mesmo — confirmou. Ela deu um jeito de livrar-se dele; ele saiu e agarrou uma garota que vendia nozes na esquina. Enquanto isso, ela e Angelus tiveram alguns momentos de privacidade e carinho sozinhos no terraço. Assim era a natureza de sua pequena família.

Ela apenas beliscou a garota, e Spike esteve zangado desde então, falando sem parar sobre o trabalho que teve para arrumar uma refeição decente para ela. Tanto barulho — era pior do que um vendedor de peixes.

— Além do mais — acrescentou de modo exagerado —, você ingere bebidas muito fortes. Você não bebia nem metade disso antes de eu o transformar. — Ela correu as unhas pela lateral do rosto dele. — Não está feliz, querido? Não sabe que eu o amo mais? É só que ele é meu criador.

— Não acredito em você um só minuto. — Irritou-se, mas ela podia ver a esperança em seus olhos. Adorava sua fraqueza.

Lentamente, ela se virou e sussurrou:

— Vou compensar seus esforços, Spike. Não é sempre assim? — Seus olhos se arregalaram. — Ouço os sinos do trenó. Ou serão fadas e anjos mortos implorando ao Papai Noel que lhes devolva suas almas?

— É o uivo de lobos irlandeses — murmurou Angel atrás dela.

— Angelus — disse ela com alegria.

A boca dele estava suja de sangue. Drusilla pegou um lenço do corpete do vestido e começou a limpá-la.

— Deixe disso — disse Spike, irritado. Para Angelus ele perguntou: — Onde está o corpo?

— Seco e esturricado — Angelus respondeu casualmente.

— Isso não é muito educado — reprovou Drusilla. — Spike fez o impossível para me deixar feliz. E eu mal toquei na minha comida. — Ela sorriu com doçura para Spike, que se recusou a sorrir de volta.

— Meu jantar tem um filho — anunciou Angelus.

Drusilla bateu palmas.

— Oh, carne fresca e tenra — disse alegremente para Spike. — Viu? Ele pensou em você, afinal. E você tão rabugento. — Ela apertou as bochechas de Spike. — É Natal, meu amor. Diga Feliz Natal.

Spike olhou para Angelus. Angelus o encarou de volta.

— Feliz Natal Sangrento — disse Spike entre as bochechas apertadas.

Drusilla ficou feliz.

— Esse é o espírito natalino.

 

Cordelia sabia que não era um condomínio em Malibu.

Não era nem ao menos um condomínio.

Era um apartamento deprimente e pequeno em um prédio deprimente e pequeno.

Mas o vestido era lindo.

E Cordelia tomou bastante cuidado com ele. Ela o passava depois de cada festa e o pendurava cuidadosamente em seu armário caindo aos pedaços.

Tinha aprendido muito sobre cuidar das roupas legais, mas não sobre quando poderia comprá-las sem olhar para a etiqueta de preço. Foi depois que seus pais perderam todo o dinheiro por não se darem ao trabalho de entregar parte dele ao governo.

Então não havia dinheiro para a faculdade nem para o vestido de formatura — Xander teve de pagar por seu vestido, dentre todas as pessoas —, muito embora pudesse admitir isso para si mesma, porque esse era realmente o tipo de coisa que ele faria.

Não havia dinheiro para nada, nem mesmo para os sonhos.

Sentada de pijama em sua pequena cama, ela apertou o botão da secretária eletrônica.

“Você tem uma nova mensagem”, informou a secretária.

Ela continuou ouvindo.

— Cordy, é o Joe da agência. Não demos sorte de novo. Estou com problemas para agendar testes. As redes dizem que já a viram o suficiente. O que significa que é hora de dar um tempo, deixá-los esquecer que a conhecem... então não ligue, sabe, não precisa me ligar. Eu a aviso se aparecer alguma coisa. Tchau.

A máquina acrescentou: “Você não tem mais mensagens”.

Cordelia ficou sentada por um bom tempo, então pegou um guardanapo e o desembrulhou, revelando dois sanduíches em formato de estrela que trouxera da festa. Seu jantar.

Levou um deles até a boca, deu uma mordida e mastigou devagar.

Pela janela, a cidade parecia escura. Ela não se lembrava de já ter se sentido tão perdida em toda sua vida. Certo, exceto quando ela e Buffy foram acorrentadas no porão de uma república de estudantes e o deus réptil deles, Machida, tentou mastigá-las para o jantar.

Isso sem mencionar a vez em que seu namorado supostamente morto, Daryl, quase levou seu irmão mais novo a cortar a cabeça dela para que pudesse ser a peça principal de sua última namorada remendada à Frankenstein.

Ou no Halloween, quando todos, exceto ela, ficaram um pouco loucos (um pouco? Muito!), e Buffy virou uma garota metida e sem personalidade.

Mais ou menos como Cordelia era.

Decidida, terminou os sanduíches. Então pegou seu livro Atores e testes.

Enquanto lia compenetrada, seu estômago roncava de fome.

— Pare com isso. Que falta de educação — Cordelia se queixou, quase em lágrimas.

 

Eles estavam no apartamento de Angel.

Tina saiu do banheiro com uma camiseta por cima de suas calças pretas do trabalho. Largou seu vestido de festa na mochila grande que carregava.

— Meu treinamento de escoteira — explicou. — Esteja preparada. Posso viver com essa mala durante dias, se precisar.

“Escoteira”, pensou Angel com tristeza. “Ela provavelmente fez aulas de balé e dava risada dos garotos quando ia dormir na casa das amigas.”

“Algumas vidas atrás.”

— Ótimo — disse. — Porque você não pode voltar para a sua casa. Pode ficar aqui.

— É. — Ela olhou para a cama. — Acho que essa é a parte em que você me consola. Não que você não mereça.

Ela olhou para ele com aspereza, suas emoções em ebulição por baixo da fachada.

Quando ele se moveu em sua direção, ela ficou tensa.

Ele disse:

— Não. Essa é a parte em que você tem um lugar seguro para ficar enquanto decidimos o que fazer.

O rosto dela revelou sua confusão.

— Você não quer...?

— Já tem muita gente tirando vantagem de você no momento.

Seus olhos se encheram de lágrimas. Ela tentou se livrar delas.

— Nossa, será que você não está na cidade errada?

Ela se jogou no sofá e chorou. Angel lhe deu um lenço.

Ela disse:

— Obrigada.

Gentilmente, ele perguntou:

— Que tal um pouco de chá?

Ela assentiu com a cabeça. Ele foi até a cozinha e começou a encher o bule.

— Estou tão cansada — disse. — Não consigo dormir. Ele vai me encontrar. — Ela parecia totalmente derrotada. — Russell sempre me encontra.

— O Russell tem sobrenome?

— Tem, mas você não precisa saber — disse com firmeza. — Já fez o suficiente. Aqui é L.A. Caras como ele não são pegos por assassinato.

Ele não havia esquecido que um certo demônio que podia se conectar com os Poderes Que São tinha dado o nome de Tina e do local em que ela trabalhava.

“Talvez seja por isso.”

— Quem ele matou? — perguntou.

— Não sei. Talvez ninguém. Ele tem dinheiro, gosta de sair com aspirantes a atriz e coisas do tipo. — Ela deu de ombros. — No começo ele foi legal. Sou uma idiota. “Sei que ele vai querer alguma coisa em troca”, pensei, “mas dane-se, pelo menos estou comendo bem”.

Angel se inclinou para ela.

— O que ele quer em troca?

Ela estava envergonhada.

— Ele gosta de... ele gosta de dor. Quero dizer, ele gosta mesmo; fala da dor como se fosse uma amiga dele.

Angel entendeu de cara. Ele conhecia monstros como esse.

Ele próprio, por exemplo.

— E a gente não pode abandoná-lo — ela continuou. — Ele a avisa quando já se cansou. Conheci uma garota, Shanise; ela tentou escapar. Desapareceu da face da Terra. Ele sempre encontra a gente.

— Não mais — disse. Prometeu a ela.

O bule apitou, e Angel foi até a cozinha.

 

Menos de meia xícara depois, ela caiu no sono. Angel a cobriu com um cobertor e ficou olhando para ela por um momento.

Então, seu olhar caiu sobre sua mala.

Ele a colocou sobre a mesa e vasculhou o interior.

A primeira coisa que encontrou foi sua agenda de endereços. Ela tinha escrito seu nome e endereço na primeira página — o que normalmente não é uma boa idéia se você está se metendo com as pessoas com as quais ela andava se metendo.

Ele começou a folhear. Um cartão caiu de dentro. Ele deu uma olhada. WOLFRAM & HART, ADVOGADOS.

“Logotipo estranho”, pensou, deixando o cartão de lado.

Continuou folheando a agenda até encontrar o que estava procurando.

“Shanise Williams.”

Todos os telefone ao lado do nome foram riscados.

“Apagada”, pensou.

 

No início do século XX, Charlie Lummis, na época chefe da Biblioteca Pública de Los Angeles, criou um ferro para marcação, copiando o modelo daqueles usados nas bibliotecas do México e dos monastérios. Tais ferros eram chamados de Marcas Del Fuego. Marcas de Fogo. Lummis o usava para marcar as capas dos livros mais importantes da biblioteca.

Assim, só pode ter sido ironia tantos livros da biblioteca terem sido queimados no terrível incêndio em 1986. Aqueles que podiam ser substituídos o foram, mas o ferro nunca foi recuperado da imensa pilha de cinzas encharcadas — resultado do eficiente sistema de extintores de incêndio.

Agora, tarde da noite, a biblioteca reformada era uma caverna deserta e de pouca luz. Se qualquer um dos lugares favoritos de Angel se assemelhava à Batcaverna, era esse.

Ele se perguntou quando veria o demônio irlandês de novo. Não duvidava exatamente que o veria, mas ocorreu-lhe que esse podia ser um teste para o novo sistema de defesa de super-heróis em Los Angeles. Se ele não resolvesse isso, talvez os Poderes Que São procurariam outro candidato para salvador de Los Angeles. Talvez existisse algum outro vampiro trouxa com uma alma que precisasse de um passatempo.

A tela do computador se acendeu, iluminando seu rosto com o brilho dos suaves raios X. Ele entrou em um site de jornal nesse monitor específico. Chamou-o de computador três. Já tinha iniciado outros dois computadores. Estava reunindo os dados de todos os três.

Chame-o de O Homem que Caiu na Terra.

No teclado do site de notícias, Angel digitou ASSASSINATO, MULHERES JOVENS.

Enquanto isso, na segunda tela, as informações vinham em resposta à busca: WILLIAMS, SHANISE.

Podia-se ler: ATRIZ, MEMBRO DA S.A.G., A.F.T.R.A.; DANÇARINA EM LAS VEGAS COM O NOME DE LYLA WILLIAMS, LYLA JONES.

Ele digitou WILLIAMS, LYLA e JONES, LYLA e clicou em Busca.

Enquanto isso, foi até a terceira tela e deu uma olhada nos ARQUIVOS POLICIAIS.

De volta à primeira tela, vasculhou várias manchetes de segunda página. Mulher Não Identificada Encontrada Estrangulada... Alpinista Encontra Corpo no Alto da Floresta de Los Angeles... Vítima de Assassinato Jogada na Lixeira...

Ela nunca teria chegado às primeiras páginas. Página virada até o fim, do pó ao pó, em um necrotério como uma indigente congelada esperando pelo fechamento do caso. Afinal, quem era ela? No grande drama que é Hollywood, nada mais do que uma figurante.

Ele suspirou enquanto olhava a segunda tela. Lá estava ela: LYLA JONES, DANÇARINA A.K.A. SHANISE WILLIAMS. Vestida em uma fantasia de Las Vegas. Parecia feliz na fotografia. Ele duvidava que realmente estivesse feliz na época, se é que já tinha estado algum dia.

Na tela número três, vasculhou os RELATÓRIOS DE PESSOAS DESAPARECIDAS e INDIGENTES. Parou, pensando ter encontrado alguma coisa, e voltou.

Era o relatório de uma INDIGENTE: l,75m, 52 kg — MARCAS DE IDENTIFICAÇÃO: tatuagem no ombro esquerdo.

Na segunda tela, voltou para a foto de Lyla Jones em Las Vegas.

Ela tinha uma pequena flor tatuada no ombro esquerdo.

 

Estava quase amanhecendo quando Angel estacionou o carro na garagem coberta do prédio. O sol aquecia os últimos vestígios da noite. Ele chegou bem na hora.

“Oh, bem, algumas pessoas saltam de pára-quedas para sentir emoção”, pensou ironicamente.

Era estranho como o sol mexia com ele, deixando-o cansado. Ele nunca entendeu precisamente por quê. Ainda não tinha tido tempo para investigar. Sempre achou que tivesse algo a ver com o fato de ser demoníaco, das forças das trevas, blá-blá-blá. Fosse o que fosse, ele não ficava bem com a luz do sol.

Enquanto caminhava pelo corredor, ouviu uma mulher gritando.

— Não! Por favor, não! Não posso.

Tina ainda estava no sofá, no meio de um pesadelo. Ele foi até ela.

— Não posso — gritou.

— Tina — disse.

Ela gritou, revirando-se, arranhando seu rosto, o horror em seu olhos.

— Não! — gritou ela.

— Tudo bem — acalmou-a. — Está tudo bem.

Ela o reconheceu e então se jogou em seus braços.

— Ele esteve aqui — disse com a voz cortada.

Ele a abraçou.

— Foi apenas um sonho, está tudo bem agora.

— Não me deixe ir — ela implorou.

Ela o abraçou ainda mais forte, embalando um pouco, tocando seus cabelos, seu rosto. Ele lutou contra as memórias da última vez em que havia sido tocado... quando segurou Buffy em seus braços.

Foi há muito tempo. Em outro mundo, outro lugar. Agora ele tinha de esquecer aquele momento.

Colocou as mãos sobre as dela, correspondendo. Então se controlou e tirou as mãos, gentilmente.

Sabia que ela estava assustada, mas tinha de perguntar para confirmar sua descoberta.

— Sua amiga Shanise tinha uma tatuagem no ombro esquerdo?

Ela fez que sim.

— Uma margarida.

“Droga.”

— Acho que foi assassinada. — Não havia um modo gentil de dizer isso. — E houve outras. Ele escolhe garotas sem família, sem ninguém que cuide delas.

Ela olhou para ele, então afastou o olhar, muito assustada.

— Você não precisa ficar com medo — disse. “Você tem alguém que cuide de você” — acrescentou em silêncio. — Está segura aqui.

Ainda olhando em outra direção, ela disse:

— Não.

— Sim — ele insistiu.

Mas ele tinha perdido sua atenção, porque ela estava olhando para um pedaço de papel amassado sobre o criado-mudo.

Aquele que Doyle havia lhe dado: TINA, COFFEE SPOT, S.M.

— Por que você tem esse papel? — Seu tom de voz aumentou enquanto se afastava dele, ficando de pé. — Você sabia quem eu era quando entrou no café ontem à noite!

— Não — ele protestou. — Não sabia. Eu só... tinha seu nome. — As palavras só o frustravam. — É complicado.

Ela estava apavorada.

— Tenho certeza. O jogo complicado que Russell está fazendo comigo. Quanto ele está pagando a você?

— Ele não está. Você precisa...

— Você é igualzinho a ele! — Ela o empurrou e agarrou um abajur. — Fique longe de mim. Vou dar o fora daqui.

Ele não podia deixá-la ir, pois isso seria sua sentença de morte.

— Deixe-me...

Ela arremessou o abajur contra a cabeça dele e saiu correndo pela porta dos fundos.

Correu como nunca pelo corredor, passando pelo carro de Angel, que estava estacionado na garagem coberta. Angel apareceu, correndo atrás dela.

— Tina!

Ela continuou correndo, deixando a cobertura da garagem, Angel bem atrás dela. Assim que correu em direção à luz do sol, ele agarrou o braço dela.

— Por favor, ouça...

O sol atingiu a mão dele, que estava sobre o braço dela, e a mão pegou fogo. A dor percorria seu corpo enquanto Tina gritava, e ele recolheu a mão de volta à sombra, urrando de dor.

Nesse momento extremo, ele se transformou em vampiro. Os gritos de Tina se tornaram ainda mais agudos, e ela saiu correndo feito louca.

Angel caiu no chão, segurando a mão, respirando com dificuldade, vendo-a ir embora.

 

“Vou perder o dinheiro do depósito do vestido”, Tina se pegou pensando em uma estranha mistura de pensamento cotidiano com o pânico que a cegava. Estava se esforçando para fazer planos, não perder a concentração, mas tudo em que podia pensar era como o espião de Russell havia se transformado em monstro bem diante de seus olhos. “Será que ter o nome de Angel era algum tipo de piada?”

Ela agarrou uma pequena mala de viagem e jogou-a aberta no sofá. “Essa cama tem essa mola que sempre machucava minhas costas; esse lugar é um chiqueiro; oh, meu Deus, ele simplesmente se transformou em um... em um demônio ou coisa assim. Em um minuto ele é um cara lindo e...”

Ela se inclinou e levantou o colchão fino, pegou seu revólver 38. Quando voltasse para casa, atiraria em latas vazias de salada de fruta com ele. Nunca havia sonhado, nem em um milhão de anos, que realmente precisaria de uma arma.

Jogou algumas coisas na mala.

Então, sentiu a presença de alguém e se virou apontando a arma imediatamente.

Para Russell.

Lá estava ele. O homem que gostava de dor. Quarenta e poucos anos, charmoso, incrivelmente bem-vestido. Seu lábio inferior carnudo estava curvado em um sorriso que era sua assinatura, seus cabelos penteados para trás. Tinha uma ótima aparência, era difícil acreditar que fosse a pior notícia em todo o planeta.

— Tina, o que você está fazendo? — perguntou, sua voz cheia de preocupação. — Onde você esteve? Estive preocupado com você.

Ela manteve a arma apontada para ele.

— O que você fez com Shanise?

Ele parecia um pouco surpreso.

— Nada.

Sua voz tremeu.

— Eu quero a verdade, Russell!

— Ela queria ir para casa — disse, com um tom de voz moderado —, e eu comprei uma passagem para Pensacola.

— Não, ela está morta.

Sua surpresa se transformou em perplexidade.

— O que você está dizendo? Ela me ligou ontem. Está tentando voltar para a escola, queria que eu mexesse alguns pauzinhos. Quem andou falando essas coisas para você?

Ela manteve sua postura, mas não tinha mais certeza. Não sabia o que pensar.

— Olhe, nós dois sabemos que minha vida não é nada convencional, mas não saio por aí matando meus amigos.

Ele se moveu em direção a ela, chegando muito perto. Ele parecia tão gentil, tão preocupado. Ela estava ainda mais confusa.

— Coloquei todas as pessoas que conheço atrás de você, procurando-a — continuou ele.

Ela só olhava, paralisada naquele ponto. Pouco antes de perceber o que ele estava fazendo, ela já havia deixado que ele tomasse a arma de suas mãos.

Mas foi um certo alívio. Talvez se ele soubesse que ela confiava nele... se ela confiasse nele... ele seria digno de confiança.

— Se você está cansada de L.A., se precisa do aluguel... você sabe que eu só quero ajudá-la. — Ele parecia tão gentil, era tão rico e poderoso. Tinha dito que cuidaria dela, e cuidaria, não é?

— Apenas me diga o que você quer — completou.

Ela disse com tristeza.

— Eu quero ir para casa.

— Feito. Pobrezinha. — Ela deixou que ele a abraçasse. — Quem andou virando sua cabeça desse jeito?

— Não sei. Achei que você o tivesse contratado — ela confessou. — Ele se transformou em uma coisa...

Ele segurou o queixo dela e olhou-a com doçura.

— Foi a coisa mais horrível que já vi — ela acrescentou, abrindo-se com ele.

Ele disse:

— Bem, você é jovem.

Então ele se transformou em algo parecido com o monstro em que Angel tinha se transformado — só que muito, muito pior.

Tudo fugiu de seus pensamentos, exceto o puro terror. Seu último gesto foi abrir a boca, mas não pôde mexer os lábios, não conseguiu gritar.

Ela não conseguiu fazer nada quando o demônio que antes fora o milionário Russell Winters mordeu-a com força e avidez e a matou.

 

                         Em algum lugar na Hungria, 1956

Quando o Dia das Bruxas estava perto, Spike e Dru não tinham como saber que sua pequena vila rústica estava prestes a ser invadida pela União Soviética.

O adorável casal estava lá porque ouviu rumores de que Angelus tinha sido visto, e Dru insistia em procurar por ele. Ela sempre insistia em procurá-lo. Os Cavaleiros da Távola Redonda do rei Arthur não procuraram pelo Santo Graal com o zelo que Dru procurava por ele.

Ela não via seu criador fazia quase sessenta anos. Ninguém o vira. Ela não fazia idéia de se ele estava vivo ou morto — falando em termos vampíricos —, mas nunca parou de perguntar por ele.

Eles deveriam tê-lo encontrado em Cárpatos, em 1898, para fazer uma pequena viagem pelo Velho País. Mastigar alguns camponeses e apreciar o vinho local. Porém, o sujeito nunca apareceu.

Um ano se passou, depois dois, e a única coisa em que Dru pensava era no que teria acontecido com Angelus, e nada mais. Sua ansiedade era compreensível, já que se tratava de seu criador, mas, honestamente, isso ficou muito chato. Tudo o que ela falava era que o ar sussurrava para ela dizendo que ele não estava morto, nem entre os vivos, blá-blá-blá. Algo sobre sua alma, que eles todos sabiam ter sido arrancada quando Darla passou-lhe seu dom.

Depois de algum tempo, Spike acabou aprendendo a lidar com isso. Ou assim acreditava. Até mesmo a ajudou nessa busca estúpida. Acabou se tornando um tipo de hobby.

Uma semana antes, em Budapeste, Dru pagou a um demônio menor uma bela quantia pela informação assustadora de que Angelus tinha sido visto no Bloco Comunista. Bisbilhotando um pouco mais, mais algumas leituras de tarô e visões, eles se estabeleceram na Hungria como local mais provável de busca. Então, ali estavam dois caçadores para concluir sua caçada.

Enquanto isso, a praça do lado de fora do pequeno café — Minou — estava repleta de soldados soviéticos.

Um número incrível deles. A população foi tomada pelo medo aterrador e pelo pânico. Spike temia uma dispersão em massa.

— Dru, minha querida, ela não virá, certo? É mais provável que tenha sido atropelada por um desses malditos tanques. Acho que está na hora de sairmos daqui — disse Spike, não pela primeira vez naquela noite, e não pela qüinquagésima, desde que esse encontro tinha sido arranjado.

— Ela virá. — Dru bateu as unhas sobre a toalha verde que cobria a mesa. — Se souber o que é bom para ela. — Lançou um daqueles olhares convidativos para ele. — Certo?

— Certíssimo, Dru.

Dru era uma mulher faceira. Havia momentos em que derretia Spike com seu jeito doce. Era sua criadora, e ele devia muito a ela por essa maravilha que era ser vampiro. Ele tentava lembrar-se disso quando ela perdia a cabeça por causa de Angelus.

A Hungria não havia mudado muito em todos esses anos que Spike tinha vivido como vampiro. Ainda era bastante peculiar e simples, apesar do fato de os soviéticos terem-na invadido dois anos antes. Eles estavam até as orelhas de contra-revolucionários enforcados, mas todos ainda trajavam coletes bordados e lindas botas de cano curto.

Ele sabia que Dru adorava esse tipo de aspecto cultural. Seu gosto pelos vestidos da sua própria época se misturava perfeitamente ali. Ela podia rodopiar e dançar para alegrar seu coração com laços e corpetes e sentir-se em casa nas festas do castelo.

Ah, o doce castelo: era incrivelmente fácil encontrar comida; todos estavam tão apavorados e tímidos por causa dos russos grandes e malvados. Tudo o que precisava fazer para uma refeição de cinco pratos era pedir para olhar alguns documentos, ver o pobre coitado ficar pálido e desajeitado e atacar.

Duas taças de vinho dispostas na mesa. A taça de Spike estava vazia, e a de Drusilla permanecia intocada. Ela continuava fazendo pequenos movimentos com os dedos e murmurando consigo mesma. Isso ajudava a mantê-la calma, mesmo que Spike pedisse para ela parar de tempos em tempos. Porém, não com muita freqüência. Ela não gostava que ele a mandasse parar.

De qualquer modo, ele não tinha certeza de que ela poderia. Isso já tinha se tornado um hábito. Ou um tique nervoso. Ou uma extensão de sua insanidade.

— Dru, querida, você pode ouvir o barulho do lado de fora? São os soldados zumbindo feito abelhas em uma colméia. Algo está acontecendo. Esse lugar não é seguro.

 

O que Drusilla não tinha contado a Spike é que ela adorava soldados. Todo aquele barulho! Ela adorava os jovens russos de uniforme e postura séria.

Na verdade, ela os adorava tanto que tinha jantado um deles mais cedo naquela noite, enquanto Spike havia saído para marcar o encontro com a cigana que dizia ter visto Angelus.

Agora arrotou com delicadeza e sorriu do outro lado da mesa.

— Ooops — disse, agitando um pouco seus cílios. Agora ele estendeu a mão sobre a mesa para pegar a dela.

— Seus dedos são os mais longos — disse. Ela fez um movimento contundente. — Muito fortes, também.

— Você quer beber o meu vinho? — perguntou. Ele parecia tentado. Quase fez menção de pegá-lo, então viu o olhar pensativo no rosto dela.

— O quê? — perguntou de forma petulante, percebendo que ela estava toda faceira sobre se finalmente iriam se reunir com ele.

Ela sacudiu a cabeça:

— Meu Spike está de mau humor — observou. — Não gosto disso, me dá dor de cabeça.

— Só estou nervoso, docinho — admitiu livremente. — Prometa que, se o velho morcego estiver morto, vamos embora.

Ela era toda sorrisos e carinhos.

— Poderíamos voltar para a Espanha.

Ele sorriu para ela.

— Os touros.

Ela abaixou o queixo e olhou-o com sedução pelos cílios:

— Os touros.

— Magnífico. — Ele pegou a taça dela e deu um belo gole. — Podemos fazer sua festa de aniversário lá.

Ela sorriu para ele.

— Estou chegando na idade em que uma garota não quer mais ser lembrada de seu aniversário.

— É um motivo de orgulho para os da nossa espécie — observou. — Quanto mais vivemos... — Ele tocou sua têmpora. — O cérebro é que faz com que vivamos mais. E um bom soco no queixo. — Sorriu. — E crueldade, claro.

— Grrr. — Ela fez um gesto como se fosse cortar a garganta dele.

Os dois sorriram de forma adorável.

Nesse instante, a porta da frente se abriu, e uma figura em um vestido sem formas apareceu. Um lenço cobria completamente seus cabelos. As feições dela eram angulosas, e seu nariz, curvo. As sobrancelhas eram muito brancas, os olhos, muito negros. Tinha pêlos no rosto como uma barba por fazer.

— É a cigana — murmurou Spike. — Então não levamos o cano.

— Você tem certeza? — perguntou Dru, então acrescentou: — De que é uma mulher?

— As aparências podem enganar, mas acredito que ela seja mulher — respondeu Spike, sabendo parecer um pouco na defensiva.

A cigana olhou para Dru e fez o sinal-da-cruz. Dru se acovardou um pouco com o insulto, mas manteve a compostura.

Mas isso só depois de fazer alguns gestos de dor e pensar ter visto a cabeça de Spike brilhar com a luz da lua, quer dizer.

A cigana foi até eles. Segurava algo nas mãos, e Dru e Spike recuaram à medida que ela se aproximava.

— Oh, droga, ela trouxe alho — resmungou Spike. — Provavelmente encheu os bolsos de cruzes e água-benta, Dru. Vamos dar o fora daqui. Essa viagem foi um grande erro.

Dru estava apavorada. Também sentia isso — que não estava certo —, mas não podia fugir sem saber se a mulher realmente sabia sobre Angelus.

Então ela alinhou os ombros e murmurou:

— Dê-me uma chance com ela. Por favor, Spike.

— Você está arriscando nossas vidas.

— Devo isso a ele.

— Dru, querida, encare os fatos — disse, ansioso. — Todos esses anos ou ele está morto ou abandonado...

— Não — grunhiu Dru. — Deitado, cachorro mau!

Ela se levantou da cadeira.

A cigana ficou paralisada. Ergueu uma cruz e disse:

— Upreiczi.

— Isso é romeno? — perguntou Spike de maneira suspeita.

— Não sei. — Dru estava agitada. — Os ciganos vêm de todas as partes. Eu...

A cigana gritou, e a porta se abriu. Pelo menos meia dúzia de soldados entraram por ela. Eles foram seguidos por uma multidão, pelo menos trinta pessoas que caíam umas sobre as outras para pegar Dru e Spike.

— Strigoiu! — alguém gritou.

— Acho que isso é húngaro. — Spike aumentou o tom de voz enquanto saía da mesa e a tombava a seu lado. Agarrou o braço de Dru e começou a arrastá-la na direção oposta.

— Spike! — Ela gritou quando sua bota ficou presa na perna da mesa. Soltou o pé, enquanto ele inadvertidamente puxava seu braço com força, fazendo com que perdesse o equilíbrio.

Em um movimento entre queda e escorregão, Dru se inclinou sobre o outro pé, dobrando-se sobre os joelhos, e ele a arrastou para que ficasse de pé novamente. Olhou para ela com aspereza, gritando “Venha, querida”, enquanto a multidão vinha em sua direção.

Ouviu-se barulho de tiros.

Nesse momento, Spike a puxava, gritando qualquer coisa sobre o mundo estar enlouquecendo. Pelo que ela pôde entender, enquanto saíam pela porta dos fundos do café, o soldado que ela havia matado para o jantar tinha sido encontrado. A cigana, a caminho do café, reconheceu as marcas de mordidas e informou os residentes locais. E os soldados russos pensaram que fosse algum tipo de rebelião e vieram atrás para pôr um fim nisso.

Na verdade, foi um pouco divertido, ou pelo menos assim pensou, rindo para si mesma enquanto Spike liderava o caminho pelos pequenos becos pavimentados. Ele estava empenhado em sair dali, até um pouco frenético, na verdade, e ela queria pedir que pegasse leve, com se diz hoje em dia.

— Vamos, vamos — ele ordenou, sacudindo-a com força ao entrar em outro beco e olhar para os dois lados da rua. A luz suave das janelas iluminava seu caminho.

— Spike, fique frio, Papai — disse, contendo a risada.

Seus olhos queimavam.

— Dru, isso aqui é coisa séria. Será que você pode prestar atenção?

Ela deu de ombros, ainda rindo. Sacudiu o braço que ele vinha agarrando no beco vazio.

— Nós os despistamos, Spike. Estamos sãos e salvos. — Girou em círculos, sua saia negra e rubra com bordados abria com o movimento. — Sou um sino. Blém, blém!

— Oh, meu Deus, Dru. Na maior parte do tempo acho sua loucura um charme. Mas nesse momento... — Ele correu os dedos pelos cabelos. — Nós não vamos estar seguros até sairmos dessa droga de cidade. Essas pessoas estão em guerra. Estão apavoradas com tudo. O que mais querem é matar alguém.

— Ah, abracadabra, somos sombras. — Ela estalou os dedos para ele. — Booo, somos invisíveis.

Então, como se fosse para desmentir suas palavras, eles chegaram.

Vieram das duas extremidades do beco. Boinas pretas e camisas bufantes, soldados nos piores uniformes, olhos brilhando; alguns tinham chegado aos telhados acima de Dru e Spike.

Enquanto Spike girava em círculos, os homens nos telhados gritavam uns com os outros, correndo e apontando para o casal.

Então Dru fez algo muito estúpido: transformou-se.

Suas feições de vampira estavam claras para que todos pudessem ver.

Todos ficaram paralisados. Ela urrou, os olhos amarelos fulminando o grupo de agressores de um lado do beco e a multidão do outro.

Então, ao mesmo tempo, ambos os grupos correram para eles.

Spike também se transformou e correu com um urro para atacar o primeiro homem a alcançá-lo. Ele era alto e tinha cabelos grisalhos, carregava uma estranha faca de entalhar madeira que ergueu acima da cabeça.

Spike levantou a mão e agarrou o braço erguido do homem que ainda corria em sua direção e usou a força desse encontro para deslocar o ombro do agressor. Gritando de dor, o homem soltou a faca. Spike a agarrou com habilidade e arrancou suas vísceras como se fosse um peixe.

Em seguida, usou o corpo como escudo, enquanto mais dois homens chegavam até ele, um deles um soldado soviético armado, o outro, um local, e esfaqueou o soldado no estômago. Quando o soldado foi ao chão gritando, o outro homem tropeçou nele e tudo o que Spike teve de fazer foi dar-lhe um chute certeiro na têmpora.

Arriscou olhar para Dru e não pôde reprimir sua admiração. De algum modo, ela tinha conseguido agarrar duas armas impressionantes, uma em cada mão, e disparava ambas simultaneamente. Sua garota, uma pistoleira. Quem era aquela garota americana com todas aquelas armas? Annie Oakley.

Enquanto Dru encontrava o ritmo, pelo menos três pessoas caíram, entre elas uma linda jovem, e seis ou sete brutamontes tombaram para trás. Dois deles caíram no estrume e ficaram por lá.

Com um sorriso feroz no rosto, sua querida disparava suas grandes armas. Ela derrubou pelo menos mais três pessoas antes de ficar sem munição.

Spike agachou e pegou a arma do soldado, precisamente no instante em que alguém atirava na área com fogo inimigo. As balas passaram raspando no alto da cabeça de Spike, que se escondia atrás do soldado morto, virando o cadáver de lado para aumentar a área de cobertura.

— Dru! — gritou.

Então, mais balas passaram voando e furiosas, uma série delas como a chuva inglesa. Spike cobriu sua cabeça com as mãos, gritando:

— Que inferno!

Uma bala perfurou o dorso de sua mão esquerda. Doeu. Muito.

Ele se esquivou para a direita, saiu em ziguezague, procurando uma maneira de escapar, e então finalmente se jogou através de uma janela suja e escura.

Caiu em uma sala deserta. O chão estava imundo. Coberto de sujeira, ficou de pé e saiu da frente da janela, encostando na parede mais distante.

Sua mão sangrava, mas por ser vampiro e tudo mais ele poderia dar um jeito.

Do lado de fora, do outro lado do beco, Dru gritava. Spike rangeu os dentes e fechou o punho direito. Naquele momento, à medida que as ondas de raiva e fúria rugiam em seu interior, ele se transformou. Seu rosto ficou agudo e anguloso, seus dentes, duas presas afiadas como navalha. Seus olhos brilhavam.

Ela gritou de novo. Spike entrou em um ritmo frenético, procurando armas à meia-luz da sala escura. Estava em algum tipo de armazém. Na parede oposta, havia várias latas do que podia ser combustível. No chão, em meio a pedaços de madeira e velhos restos de jornal, estava o providencial trapo de pano.

A seu lado havia um fogão portátil. Porém, o mais importante, uma caixa de fósforos. Ironicamente, era do café de onde tinham acabado de fugir.

Tudo o que ele precisava era de uma garrafa.

Que foi imediatamente lançada pela janela quebrada.

— Valeu, cara — murmurou.

Ele se deitou no chão e rastejou até a garrafa, ignorando os cortes que os cacos de vidro faziam na carne de sua mão. Agarrou a garrafa, rolando para evitar a nova rajada de balas.

Pela primeira vez, teve sorte: havia querosene nas garrafas.

Tão rapidamente quanto pôde, Spike encheu a garrafa. Agarrou um dos trapos e enfiou-o lá dentro, deixando boa parte para fora.

Com a caixa de fósforos que alguma boa alma tinha deixado ao lado do fogão, Spike acendeu a parte do pano que ficou para fora e então atirou a garrafa pela janela.

Ergueu-se um grito em coro seguido por uma explosão considerável. Enquanto isso acontecia, Spike deu uma olhada pela janela.

O que viu o aterrorizou. Eles tinham amarrado e pendurado Dru em um poste e tentavam atear fogo em seu lindo vestido. Ela se agarrava à corda em volta do seu pescoço e chutava com fúria. Seu coquetel Molotov caíra muito perto dos dedos descalços do pé esquerdo de sua amada.

— Dru — sussurrou com voz rouca.

Os olhos dela estavam esbugalhados; ela se segurava à corda.

Foi então que ele viu que as pessoas estavam jogando água de pequenas garrafas sobre ela — provavelmente água-benta — e esfregando alguma coisa em seus pés e mãos. O cheiro chegou até ele: alho.

Acima de tudo, estavam tentando envenená-la.

Spike inclinou a cabeça para trás e urrou com selvageria. O som perdeu-se nos gritos e bramidos da multidão que torturava sua querida.

Voltou correndo para as latas de querosene e começou a abrir as tampas e jogá-las para o lado de fora da janela. Boa parte da multidão havia esquecido dele; ele evitava as poucas armas miradas em sua direção, continuando a trabalhar.

Quando já tinha jogado metade das latas, encontrou outra garrafa vazia.

— Isso! — exultou, beijando a garrafa.

De repente, alguém gritou. Outra pessoa respondeu. Ele olhou para cima.

Alguns dos agressores começaram a atirar nele. Outros atiravam pedras e tijolos. Além de um pedaço de pão já comido, o que considerou um grande insulto.

Encheu a garrafa com combustível, enfiou nela um pedaço de pano e deu um salto camicase pela janela. Como um jogador do Manchester United, chutou a bomba. Ela subiu e subiu, e os bárbaros, ao perceber o que era, começaram a dispersar.

Aqueles que não correram, Spike deu um jeito neles. Enfiou os dedos sob a costela de um homem baixo e gordo, arrancando-a, enquanto o homem se contraía de dor. Outro, ele agarrou pelo gogó. Perfurou os intestinos de outro com o cotovelo, então o empurrou com toda força; o homem cambaleou e caiu sobre outros dois ou três, que se estatelaram no chão.

Nesse instante, a bomba já tinha caído, e as poças de líquido inflamável subiam como fontes romanas. Spike agarrou, mordeu e lutou até chegar a Dru, enquanto as chamas se erguiam. Seus pobres pés estavam esfolados e sangrando; onde a água-benta havia tocado sua pele estava queimado e preto.

Ela o olhou, lábios se movendo, mas nenhum som saía deles.

— Agüente firme, meu amor! — ele gritou.

Agarrou uma arma de alguém, atirou na pessoa que a segurava e depois mirou na corda que a enforcava. A bala passou longe. Tentou de novo. Longe de novo. Ele agarrou um soldado russo e gesticulou.

— Atiresky — ordenou ao homem, seus caninos no pescoço dele caso o coitado tivesse a brilhante idéia de atirar em Dru.

O soldado era esperto. Entendeu exatamente o que Spike queria e na primeira tentativa ele a libertou. A amada de Spike aterrissou frágil como uma mariposa de asas quebradas e esfarrapadas. Spike correu para ela, mas não antes de rasgar a garganta do soldado russo e jogá-lo no chão. Assim que tivesse certeza de que Dru estava bem, cometeria um massacre.

Não fazia sentido deixar qualquer um deles vivo.

Não fazia sentido algum.

Uma coisa era certa: era hora de deixar de procurar por Angelus. Agora, se pudesse convencer Dru disso, ambos poderiam realmente viver para ver mais alguns sóis se porem.

Imaginou que essa seria uma tarefa ainda mais difícil do que matar todos esses húngaros comedores de gulash. Porém, se havia alguém capaz de tal tarefa, esse alguém era Spike.

Portanto: nada mais de Angelus. No que dizia respeito a Spike, o bastardo estava morto.

Ele nunca diria a Dru, mas a verdade era que achou que ficariam melhor assim.

De fato, ele até esperava que isso fosse verdade.

Angelus significava confusão.


Chces li tajnou vec aneb praváu vyzvédéti

Blazen, dite opily clovéc o tom umeji povodeti.

“Caso queira saber uma verdade ou um mistério, um bêbado, um tolo ou uma criança pode revelá-lo.”

— Provérbio romeno

 

Angel chegou até o apartamento de Tina em parte por instinto, em parte pela adrenalina. Que teoricamente não deveria percorrer suas veias no momento. Mas ele estava literalmente louco de preocupação com ela.

Deveria tê-la impedido. Desviado do abajur com mais velocidade; droga, impedido sua passagem se fosse preciso. Se alguma coisa tivesse acontecido, qualquer coisa...

Ele nem poderia ir até lá.

Correu pelo corredor.

A porta estava entreaberta, e suas esperanças explodiram.

Tentou dizer a si mesmo que, na pressa de fugir, ela tinha deixado a porta aberta.

Mas ele sabia.

Seu corpo ficou rígido quando entrou, mas ele sabia.

Lá estava ela, no chão, ao lado do sofá-cama. Morta.

Sua garganta estava aberta, o sangue esgotado.

Mesmo assim, ele correu até ela e verificou o pulso. Não havia pulsação, e ele já sabia que não haveria.

Ele falhou com ela.

Poderia muito bem tê-la matado ele próprio.

“Um vampiro fez isso”, pensou. “Por que a surpresa?” Existia praticamente o mesmo número de vampiros em Los Angeles que havia em Sunnydale. Mas Tina... e toda aquela maldade e monstruosidade...

Ele parou e viu o sangue dela em suas mãos.

Ficou olhando, fixamente. Muito além da tentação. O sangue o chamava, cantava para ele. Sangue humano. Ele se lembrou do gosto, da maravilha. Não podia negar que o tinha desejado, assim como Doyle insistira.

Antes de perceber o que estava fazendo, enfiou dois dedos sujos de sangue na boca.

Vacilou; seus olhos se fecharam com a sensação maravilhosa — muito mais do que sabor, ou cheiro, ou alimento, era o que ele era; o sangue era a vida — sua vida e alma, seu ser.

“Oh, oh, mais.”

Seus olhos se abriram.

O que tinha feito?

Sentiu náuseas. Recuando, tropeçou até o banheiro e abriu a torneira de água quente, mais quente do que podia suportar. Enfiou as mãos debaixo do fluxo de água quase fervente e lavou-as, esfregando-as sem parar até que estivessem praticamente em carne viva.

Como pôde fazer isso com ela? O último ato de traição em sua triste vida.

Cometido pela única pessoa em quem realmente deveria ter confiado.

Ou deveria ter sido capaz de confiar.

Continuou esfregando, lembrando-se de como tentou se descontaminar depois de voltar a ser Angelus, após uma temporada como Angel. Depois do amor de Buffy ter reativado sua maldição.

Spike e Dru riram tanto dele. Olhavam atravessado para ele de vez em quando, verdadeiramente aterrorizados pela idéia de um de sua espécie haver se regenerado. Matando os da sua própria espécie, lado a lado com os humanos. Como havia pouca honra entre os vampiros, eles o aceitaram de volta; Dru com os braços abertos, Spike inicialmente satisfeito, mas nunca chegou a perder a suspeita de que Angelus não ficaria ali por muito tempo.

Spike nunca esteve tão certo.

Ou será que Angelus teria ficado, afinal? Aquele demônio espreitava por dentro, aguardando, esperando o momento certo de aceitar uma contra-oferta para ressurgir?

Angel olhou para o espelho, em que não havia nenhum reflexo seu. Mas podia ver atrás de si, no chão, o corpo de Tina. Ela era a testemunha silenciosa de suas memórias e arrependimentos, para seu desespero.

“Nunca devo assumir que sou o mocinho”, pensou. “Poderia ter sido eu, literalmente, sob as circunstâncias certas.” Ele estava atordoado por ainda encarar a ferida na garganta dela com fascinação. Ainda hoje.

Foi até o telefone, seu olhar sem desviar do rosto dela. Discou 911 em silêncio.

 

“Deve ter sido assim depois que matei Jenny”, pensou. “E Giles estava lá observando cada momento impessoal e descuidado de tudo isso.”

O apartamento de Tina foi invadido. Um médico-legista estudava o corpo de Tina enquanto dois detetives vasculhavam o local em busca de pistas. Um perito procurava digitais no lugar do crime.

Tudo isso, Angel pôde ver de um ângulo privilegiado, do alto do telhado vizinho. Ele esperou, calado e estático, enquanto o corpo dela era ensacado e levado embora.

Então se virou, irado, ficou de pé na beirada do telhado e pulou.

Aterrissou em outro telhado mais baixo e desapareceu na escuridão.

Tinha muito que compensar.

Não tinha certeza de se a eternidade seria tempo suficiente para fazer isso.

 

Russell Winters vivia em um enorme e pomposo forte. Os portões de ferro fortaleciam os muros de pedra que o cercavam; um guarda ficava de prontidão em uma guarita ao lado dos portões durante todas as horas do dia e da noite.

Quando se é alguém — e aquilo — que Russell Winters é, é preciso tomar precauções.

Tudo bem.

Russell Winters certamente poderia pagar por tudo isso.

Estava recostado e satisfeito em seu escritório assistindo ao vídeo de Tina que Margo havia gravado na festa. Sua sala era grande e espaçosa, cheia de ferramentas de negócios: computadores, monitores enormes, quadros, uma mesa vazia e cortinas grossas que barravam a luz do sol. Pilhas gigantescas do material o protegiam contra o famoso sol do sul da Califórnia.

Desse ninho de vasta luxúria, Russell mantinha seu dedo no pulso do mundo econômico. Mais informações chegavam à sua sala do que algumas das maiores agências de ações de Wall Street recebiam de todas as suas filiais. Ele tinha mais dinheiro do que muitas pequenas nações. Com ele havia comprado uma existência maravilhosa em Los Angeles. Lindas obras de arte, roupas e carros finos.

Pessoas bonitas.

O interfone tocou, e William disse:

— O Sr. Donald, da Wolfram & Hart, está aqui, senhor.

“Ah, outra de suas precauções.”

— Faça-o entrar, William.

 

William, o mordomo, acompanhou Lindsey McDonald do saguão da mansão de Russell Winters em direção ao escritório. Era um percurso que Lindsey tinha feito várias vezes e mesmo assim nunca deixava de ficar impressionado — e inspirado — por ele. Empregadas uniformizadas polindo e limpando; tudo espelhava uma incrível riqueza e poder. Lindsey aspirava a tudo isso.

Faria tudo que fosse necessário para chegar lá.

— Olá, Sr. Winters, desculpe-me incomodá-lo em casa — disse polidamente, enquanto William fez uma pequena reverência ao sair da sala, deixando-os a sós.

O Sr. Winters rebobinou o filme. Era a garota. A garota jovem, linda e morta.

— Um homem só é perturbado por alguém do escritório de advocacia quando vai receber más notícias — disse o Sr. Winters de imediato. — Serei perturbado, Lindsey?

— Não — garantiu-lhe Lindsey, em tom equilibrado e profissional, embora estivesse bastante orgulhoso de todas as coisas boas que tinha feito por Russell Winters nas últimas vinte e quatro horas. — A fusão da Eltron é um fato. Eles cuidaram de tudo para você... negociaram com o diretor financeiro deles. Traremos os números finais para o seu escritório amanhã.

O Sr. Winters ouviu.

— Mas mesmo assim você veio aqui hoje.

Lindsey concordou com a cabeça, olhando para a garota na tela.

O Sr. Winters disse:

— Ela tinha algo especial, não tinha? — Rebobinou a fita novamente. — É um pouco triste quando as mato tão jovens.

Lindsey fixou o olhar na garota e então, com apatia, abriu sua pasta, retirando uma série de documentos que mostrou ao Sr. Winters.

— Na verdade, você não a vê há várias semanas — informou ao seu cliente. — Você estava ontem em uma conferência com seus advogados falando sobre o contrato quando o infeliz acidente ocorreu. E localizamos uma testemunha que diz que viu um homem negro sair da cena do crime com as mãos sujas de sangue.

Winters estava impressionado.

— Estou pagando o suficiente para vocês na Wolfram & Hart?

“Ele atira e acerta!”

— Sim — disse Lindsey, calmamente. — Vejo-o amanhã.

Escondendo a sensação de triunfo, voltou os papéis para dentro da pasta enquanto o Sr. Winters continuava assistindo ao vídeo. Novas cenas da mesma festa desfilavam pelo monitor.

— Quem é esta? — indagou o Sr. Winters, com interesse na voz.

Lindsey olhou para a tela. Ele e o Sr. Winters estavam olhando para uma jovem vivaz com um corpo escultural e cabelos negros brilhantes. Adorável. Mais adorável do que a garota de ontem. E que sorriso!

Com ponderação, ele fechou a pasta e perguntou:

— Devo alertar à empresa que essa jovem pode se tornar um novo... investimento de longo prazo?

O Sr. Winters estudou a imagem da garota.

— Acho que não. Só quero alguma coisa para comer. Isso me faz lembrar... Produtos Alimentícios Short Brew, quatrocentas mil ações.

Lindsey fez uma anotação mental.

Perto do Sr. Winters ele sempre fazia anotações.

Não que já tivesse cometido qualquer erro.

A alma do profissionalismo, esse era Lindsey. A face deslavada da ambição, desprovido de avareza. Ele era o advogado perfeito para um homem — uma coisa — na posição do Sr. Winters. Discreto, leal, nada crítico. O que o Sr. Winters quisesse que a lei fizesse, a lei faria.

Lindsey McDonald cuidaria de tudo.

 

O metrô de Los Angeles, desde o início, sempre foi um projeto controverso de transporte público. Pelo menos dois trabalhadores da construção morreram. Foi tão além do orçamento que algumas seções dele custaram trezentos milhões de dólares por quilômetro.

Com as enormes escavadeiras que foram usadas, os trabalhadores descobriram fósseis com mais de oito milhões e meio de anos. No norte de Hollywood, uma equipe de escavação desenterrou o piso original do prédio em que foi assinado o tratado que punha fim à fase da guerra entre mexicanos e americanos na Califórnia. Nos novos túneis embaixo da Union Station, milhares de artefatos da primeira Chinatown de Los Angeles foram encontrados.

Boatos diziam que muitas outras coisas foram encontradas; coisas que as pessoas não sabiam identificar: ossos em formatos estranhos; objetos bizarros atualmente rotulados como “Miscelânea Asiática”.

Para Angel, parecia cada vez mais provável que Sunnydale não perdia em nada para Los Angeles.

Ele se sentou sozinho na escuridão de um dos túneis subterrâneos em construção. O barulho distante do metrô era como o urro de alerta de um grande animal.

Doyle se aproximou devagar. Claro que sabia da morte de Tina.

De forma estúpida, Angel comentou:

— Ela queria ir para casa.

Doyle ficou do seu lado.

— Sim.

— Eu gostaria de cumprimentar os Poderes Que São por seu plano brilhante. Realmente salvei o dia.

— Não deu certo — concordou Doyle.

— Não deu certo? — Angel sentiu uma onda de raiva. — Tina morreu. Um vampiro dilacerou a garganta dela. Era essa a grande idéia?

— Ninguém controla o futuro. Você é um soldado. Luta — gesticulou. — Às vezes, perde.

Isso era verdade. Ele já tinha perdido antes. Buffy tinha perdido antes.

Até mesmo os melhores não são os melhores sempre.

— Eu... eu me importei com ela — disse, as palavras saindo com dificuldade. — E não foi o suficiente. Eu deveria ajudá-la...

Doyle o interrompeu:

— Não sei. Talvez ela devesse ajudá-lo. Talvez tivesse algo para lhe dar.

— O quê?

— Tristeza, pesar.

Angel olhou para ele, considerando.

— Há um vampiro especialmente cruel por aí. Rico, protegido, pode fazer as maldades que deseja. Ele matou e continuará matando até que alguém fique louco o suficiente para acabar com ele.

Doyle encarou Angel.

— O que você precisa, cara, é de um pouco de terapia. Sente uma imensa dor. É hora de compartilhá-la.

Angel considerou. Como se compartilha uma dor como essa? Era algo particular. Mais importante ainda, era necessária para sua alma.

Não era?

 

                                 Romênia, 1898

No inverno de 1898, Angelus percorreu com uma carruagem os Cárpatos em direção a um rendez-vous com Spike e Drusilla. Bisbilhotando a conversa sobre fantasmas que a velha e enrugada dama de companhia murmurava à agradável jovem que acompanhava, uma delicada herdeira, ele sorriu e ficou imaginando o que ela pensaria se soubesse que tipo de monstro estava sentado à sua frente lendo um romance francês.

Na segunda noite da viagem, o eixo traseiro da carruagem quebrou, e ela derrapou perigosamente próximo a um abismo profundo. As mulheres eram como galinhas, tremendo e voando dentro da carruagem, e foi apenas ao assumir o comando da situação que Angelus conseguiu escapar sem nenhum arranhão. Mandou que se unissem a ele no lado oposto da carruagem — seus pesos combinados serviriam como contrapeso. Saiu primeiro (naturalmente), tocando os cavalos para que fossem para a direita, usando o peso deles. Ajudou as mulheres pálidas feito cera a saírem e conseguiu, com a ajuda dos cavalos, arrastar o veículo para longe do abismo.

O cocheiro tinha sido lançado para longe; o pescoço havia quebrado com o impacto. Embora Angelus tivesse garantido às mulheres que podia dirigir a carruagem, ou preferencialmente levá-las no lombo dos cavalos, elas voltaram ao pânico estúpido. Os gritos e gemidos eram tão intensos que eles acabaram sendo atacados por lobos. As criaturas da noite cercaram os três viajantes e pareciam muito famintas, olhos brilhantes enquanto a neve começava a cair.

Os cavalos empinaram e relincharam, e os lobos enrijeceram os músculos, preparando-se para atacar. Quando Angelus ficou entre eles e os cavalos, eles recuaram em uma postura submissa.

Quanto às duas mulheres, elas se agarraram uma na outra e começaram a rezar e a fazer o sinal-da-cruz, até que Angelus não pôde mais agüentar. Rasgou a garganta da mais velha, o que fez com que os lobos atacassem os cavalos. Angelus foi capaz de salvar dois deles, mas, para seu arrependimento, os lobos aproveitaram a oportunidade e arrastaram a jovem herdeira. Seus rastros de sangue na neve avisavam que tinham ido embora, mas ele percebeu que não havia sobrado mais nada que valesse a pena recuperar.

Então, fez uma fogueira e sentou-se ao lado dela por algum tempo. A tempestade de neve piorava a cada minuto, e ele imaginou o que deveria fazer para se abrigar quando o sol nascesse. Pensou na carruagem e decidiu que, se não houvesse nada mais, pelo menos ela o manteria protegido do sol. Que esconderijo chato e apertado seria! Talvez a neve pesada fosse suficiente para manter a luminosidade do dia afastada.

O fogo crepitava, e ele, sentado, batia ritmadamente os dedos contra o chão. De vez em quando, um lobo se aventurava a chegar perto, mas, ao perceber quem ele era, todos se mantinham a distância.

Uma hora passou arrastada. Então, a neve caía pesada demais para que ele pudesse ver seu relógio de bolso. Sentiu-se um pouco ridículo. Ficou imaginando se Spike e Dru já tinham chegado a Budapeste.

Assim, em meio a toda aquela neve, uma mulher de cabelos loiros apareceu. Cantava docemente e, quando ele ergueu a cabeça para dar uma olhada através da tempestade, ela disse:

— Olá, precioso.

Darla. Sua maravilhosa Darla.

— Tempo maravilhoso, não é? — ironizou.

Foi como se nunca tivessem se separado. Ela veio até ele e o beijou, e eles se enrolaram na neve, indiferentes ao clima glacial. Os olhos dela eram de um azul cristalino, como as águas congeladas do rio Siretul. Seus lábios, rosados e brilhantes. Ela era mais bela do que ele recordava.

— Por onde esteve, menino malcriado? — Ela reprovou.

— A caminho de Budapeste — informou-a.

— Sozinho? — Ela tocou seu rosto. Ele se transformou para ela, e ela, para ele.

— Não mais.

Ambos rolaram na neve, saltando como os lobos que os observavam.

Os lobos que sabiam muito bem que não deveriam atacar esses esplêndidos predadores.

 

A neve parou de cair ao meio-dia do dia seguinte, e o sol surgiu. Angelus e Darla se esconderam na carruagem, divertindo-se ao relatar suas experiências.

Os cavalos sobreviveram à tempestade, e os dois vampiros montaram neles, cavalgando sem sela.

Viajaram para Budapeste. Spike e Dru os encontraram. Houve um terremoto, para melhorar ainda mais a situação, e no caos delicioso entre a população humana os quatro colhiam o fruto direto da vinha. Foi um banquete para os vampiros.

Mas era disso que se tratava ser vampiro.

 

Depois disso, Dru falou da Espanha e que queria muito ir para lá. Darla se recusou a ir; tinha péssimas lembranças da Inquisição espanhola, uma época não muito feliz para as criaturas da noite. Apesar de a barbárie da Inquisição estar concentrada nos seres humanos acusados de bruxaria e heresia, a verdade é que os monges e padres tinham reduzido significativamente o poder do mal sobre a Terra.

Darla exigiu ficar nos Bálcãs. Spike aproveitou o momento e sugeriu que acompanhasse Dru até a Espanha sozinho — ênfase em sozinho, muito obrigado — enquanto Angelus “acompanhava sua criadora”.

Assim ficou decidido, apesar de Drusilla ficar um pouco triste. Eles se encontrariam depois em Bucareste.

Mas, claro, nunca se encontraram.

Darla e Angelus voltaram para as florestas dos ciganos, vagando pelos campos como os lobos que cantavam para eles à noite.

Foi nessa época que ela o apresentou ao Mestre, um vampiro ancestral cujo nome em vida tinha sido Heinrich Joseph Nest. Angelus nunca o tinha visto senão com seu rosto verdadeiro, e era mais demoníaco do que o seu próprio, quase como um roedor. Angelus invejava sua aparência.

Darla era claramente uma das favoritas do Mestre, que tomou um gosto instantâneo por sua criação, Angel. Disposta a impressioná-lo com seu julgamento, ela contou muitas proezas de Angelus para ele. Logo, Angelus foi numerado entre o círculo íntimo do Mestre, e soube-se que ele declarou Angelus como a criatura mais vil que já conhecera. Prometeu a Angelus que, quando chegasse o dia em que seus planos de dominação do mundo dessem frutos, Angelus se sentaria à sua direita.

Em retorno, Angelus jurou lealdade e devoção a todas as causas do Mestre. Foi uma promessa levada a sério — e uma que ele realmente pretendia cumprir.

Naquela época.

 

O ano idílico passou, chegando o verão. Angelus concordara em encontrar Spike e Drusilla em setembro, e agora já era agosto.

Talvez Darla quisesse mantê-lo ali, com ela, o Mestre e a corte. Ele nunca teve chance de falar com ela.

Em uma noite quente, eles riam e se amavam, vestindo exóticos quimonos de seda que um dos filhos do Mestre trouxera de uma viagem turbulenta pelo Japão. Sua pele fria debaixo da seda o excitava; seus beijos o inflamavam.

Então, ela o levou pela floresta para uma caçada à meia-noite. Alguns ciganos tinham chegado durante o dia e escolhido parar suas carroças no terreno de caça dos vampiros.

— Que camaradas — disse Angelus em voz baixa.

— Olhe ali, precioso.

Darla apontou para a mulher mais bonita que Angelus já tinha visto. Ela vestia uma saia rodada de listras e uma blusa branca bufante, sua silhueta esplêndida era marcada por um corpete apertado logo abaixo do seio. Estava descalça, e, em cada tornozelo, correntes de moedas de ouro chacoalhavam. Seus cabelos negros estavam soltos e livres, e seu rosto... ah, era a própria lua.

— Para você — disse Darla com generosidade. — Para garantir que aprecie as boas coisas da vida.

Eles sorriram um para o outro.

Então se separaram para flertar com a presa. Darla encontraria um jovem bonito, disso Angelus tinha certeza. Enquanto isso...

— Olá — disse ele suavemente, indo em direção à linda cigana que caminhava pela margem do rio.

Ela o encarou. O olhar assustado em seu rosto não diminuiu quando ele saiu das sombras. Seus olhos se lançavam para a esquerda e para a direita.

Ele apontou para sua boca.

— Estou com sede.

Ela piscou.

— Pai?1 — ela perguntou com voz doce e agradável.

— Pai — concordou, sorrindo com gentileza.

Ele podia ouvir seu coração; estava acelerado. Ela estava morta de medo.

— Estou aqui com uns amigos e acabei me perdendo — disse em sua língua materna. — Estou caminhando nessa floresta há horas.

Com isso, ela saiu correndo. Angelus a observou ir, altamente impressionado, terrivelmente encantado. Naquele instante, decidiu tomá-la para si.

O olhar de terror e traição no rosto dela quando ele fosse tirar a sua vida tornaria a caçada ainda mais doce.

 

E assim o fez; foi a caçada mais maravilhosa de sua vida até aquele momento. Ela tinha vindo até ele e dito, com as poucas palavras precárias que ele a havia ensinado:

— Angelus, eu te amo.

Então ela o beijou de forma muito doce. Contrário ao preconceito comum, as mulheres ciganas, quando apaixonadas, eram castas até o casamento.

Como tal casamento não poderia e nunca aconteceria, Angelus decidiu que era hora de celebrar seu triunfo com ela. Foi cuidadoso ao permitir que ela visse sua transformação; mais cuidadoso ainda ao dar-lhe uma cabeça de vantagem antes que a derrubasse e dilacerasse seu pescoço.

 

O que Angelus não havia percebido é que tinha sido visto assassinando a garota, cujo nome ainda o desconcertava.

Ele tinha um rival, um cigano ousado que a adorava, mas não se considerava digno dela. Ela era a filha favorita do clã, e ele, apenas um de muitos primos.

Isso não evitou que ele se apaixonasse por ela e quisesse saber quem fora aquele a ganhar seu coração.

Envergonhado de si mesmo, tinha decidido segui-la naquela mesma noite.

E viu tudo.

 

No acampamento cigano, a garota foi disposta com ternura. Seu vestido para o enterro foi o melhor que o clã possuía. O lamento de dor foi uma maravilhosa ode à selvageria de Angelus. No caminho de volta ao reino subterrâneo do Mestre, ele parou para ouvir. Não esperava que eles a encontrassem tão rápido. Agora, estava dividido entre fingir que havia sido atraído até o acampamento pelo som e retornar à corte do Mestre para se gabar de seu feito.

 

1- “Pai” é um termo da língua do grupo cigano Kalderash que significa “água” (N. da T.).

 

— Mulo — murmurou a mulher cigana. Termo cigano para pessoa morta associado à sujeira. Significava vampiro.

Ela trajava um xale e tinha pintado um sinal na testa. Sacudia as mãos sobre o Globo de Thesulah e começou o encantamento:

 

Nici mort nici al fiintei,

Te invoc, spirit al trecerii

Reda trupului ce separa omul de animal

Cu ajurtorul acestui magic glod de cristal.

 

Nem morto, nem vivo.

Espíritos do interregno, eu os invoco.

Restaure no invólucro corporal que nos separa dos animais.

Use este globo como seu guia.

 

Na floresta, uma dor terrível varou Angelus. Ele tropeçou, olhando por cima dos ombros, tentando ver o que o tinha atacado. Claro que não havia nada à sua frente.

Caiu de joelhos, sem ar.

Nunca tinha sentido uma agonia tão terrível. Estava sendo rasgado ao meio por dentro, por um inimigo invisível. Correu pela floresta, sem saber para aonde ia.

Caiu novamente e dessa vez perdeu a consciência por um breve momento.

Quando se levantou, debilitado e confuso, um velho cigano se aproximou e disse:

— Dói, não é? — disse no idioma de Angelus. — Bom. Vai doer ainda mais.

Angelus estava confuso.

— Onde estou?

O homem estava altivo, amargo e cheio de raiva.

— Você não se lembra. Tudo o que fez durante cem anos em um momento você lembrará. O rosto de todos que você matou — o rosto de nossa filha —, eles o assombrarão, e você saberá o que é o verdadeiro sofrimento.

— Matei? — Angelus repetiu, confuso. Pensou consigo mesmo “Onde está Sandy Burns? Onde está aquela mulher charmosa que segui até o beco...” — Eu não...

Em um instante as memórias o invadiram — Darla, sua transformação, sua selvageria, as torturas que impingia às suas vítimas. Drusilla. Serventes, damas, homens, crianças, bebês.

A garota cigana, tão doce e confiante...

Ele tinha feito tudo aquilo.

— Oh, não, não. — Sua culpa era insuportável. — Não!

Enquanto o cigano olhava com satisfação, Angelus começou a gritar.

 

                             Buffy

“Ela foi o meu primeiro amor. Não estou dizendo que foi um relacionamento fácil. Mas foi real. Acho que eu sabia que não poderia durar. Sabe, os ciganos me pregaram uma boa peça. Se eu viesse a experimentar um momento de verdadeira felicidade, se algum dia minha alma encontrasse paz, eu a perderia, me tornaria um monstro novamente. Então, tive de ir embora. Queria me isolar do mundo. Nada mais de amor, nada mais de dor, nada mais de demônios.”

 

E foi nisso que tudo resultou: a dor tinha um nome. Buffy.

Darla o colocou em tentação. Drusilla foi corrompida por ele. Faith, ele falhou com ela.

Tina estava morta. Tina, cuja confiança foi abalada inúmeras vezes. Que fugiu de uma pessoa por quem deveria ter sido capaz de procurar.

Mas Buffy...

Todos os pensamentos que teve, todos os momentos que reviveu desde que retornou a Los Angeles eram relacionados ao seu amor pela Caça-Vampiros.

Ele tinha se apaixonado por Buffy na primeira vez em que a vira. Lembrava-se de ter dito isso logo de cara; alguma coisa sobre como ela expunha seu coração e do desejo que ele sentiu de apertá-lo contra seu peito. Acabou se saindo muito mal, e os dois riram muito.

Pensando nisso agora, ele ainda sorria com saudades. Estava sempre pensando nela, tentando imaginar o que ela estava fazendo.

A dor o inundava em grandes ondas.

“Buffy”...

Lembrou-se da noite que passaram juntos, sua única noite, e, ao lembrar, percebeu que finalmente estava dizendo adeus. As memórias começariam a se apagar.

A ferida pior do que todas as outras.

As memórias se apagariam.

 

                                 Sunnydale, 1998

O demônio azul chamado Juiz tentou queimá-los, matá-los, para que sua humanidade carregasse suas baterias de força malévola. Juntos, através da estranha quase telepatia entre eles, Buffy e Angel criaram uma distração, derrubando uma pilha de aparelhos de TV, cujos cacos felizmente se espalharam pelo chão.

Voilà, rota de fuga instantânea.

Para tristeza dos dois, foram parar no esgoto. Em silêncio, sem necessidade de conversar, arrastaram-se pela lama até encontrar uma porta de controle aberta. Com a economia de movimentos que daria inveja a qualquer Boina Verde, enfiaram-se lá dentro e fecharam a porta atrás deles.

Os seguidores de Spike e Dru entraram no esgoto logo depois. Os dois estavam no caminho certo, mas não puderam ver as frestas quase invisíveis da porta e seguiram em frente.

Depois de esperar alguns minutos a mais do que achavam necessário, Buffy e Angel voltaram ao túnel. Assim como todo bom planejamento da cidade teria, havia uma escada próxima que os levou até a rua acima de suas cabeças.

A chuva caía em pancadas, lavando a rua até ficar de uma cor negra brilhante, quando Buffy abriu a tampa do bueiro para sair. Ela tremia quase sem controle quando Angel saiu e fez uma pesquisa mental de onde estavam.

— Vamos — falou alto sob o som dos trovões, — Precisamos nos abrigar.

Foram até o apartamento dele debaixo daquele temporal. Sempre cavalheiro — deve ter algo a ver com a época em que nasceu —, ele destrancou a porta e a deixou entrar primeiro.

A luz fraca fez com que Buffy parecesse ainda mais fria ali parada no centro da sala. Na parede, logo acima de sua cama, o reflexo da chuva na janela fazia uma estranha escultura cinética.

Angel tirou o casaco e virou-se para ela, tocando seus ombros.

— Você está tremendo feito vara verde — disse.

Ela fez que sim, tremendo violentamente.

— F-frio.

— Deixe-me pegar alguma coisa para você — foi até o armário e pegou uma blusa de moletom branca e folgada e uma calça. As roupas pareciam ter acabado de sair de uma secadora de roupas bem quentinha.

Entregando-lhe, ele sugeriu:

— Vista isso e entre debaixo das cobertas. Só para se esquentar.

Um pouco hesitante, talvez se sentindo envergonhada, Buffy caminhou até a cama perfeitamente arrumada. Parou diante dela por um instante antes de se sentar no colchão, as roupas limpas nos braços. A colcha e as fronhas eram escarlate.

A chuva continuava sua escultura na parede. Trovões distantes ressoavam.

Um raio iluminou o céu.

Angel veio até ela e ficou olhando. Quando ela olhou em sua direção, ele percebeu que a estava encarando e disse “Desculpe-me”, virando-se para o outro lado.

Mesmo assim, ela estava muito perto. Ele quase podia sentir seu cheiro, os cabelos molhados, o frescor inebriante da sua pele. Buffy sempre teve um cheiro bom, apesar de sempre discordar.

Ela se sentia desconfortável ao desabotoar o casaco do seu twin set. Ao tirar a manga esquerda, gemeu. Havia algo de errado com seu ombro.

— O que foi?

— Oh, é... acho que tenho um corte ou algo assim — murmurou, enquanto terminava de tirar o casaco. Ele sabia que ela sabia que ele queria vê-la, e ela agia com uma timidez tocante.

— Posso... Deixe-me ver — Sua voz era gentil, mas firme. Ele não aceitaria um não como resposta; se Buffy estava ferida, ele queria saber.

— Tudo bem.

Modestamente ela colocou o casaco na frente para se cobrir. Ele ficou tocado por sua inocência. Assim era a Buffy que vira em várias ocasiões, mas vê-la aqui, no seu quarto, na sua cama... isso fez com que se sentisse extremamente protetor em relação a ela.

Sentou atrás dela na cama ao mesmo tempo em que ela se virou para mostrar-lhe a ferida nas costas.

Os dedos dele tocaram seu ombro quando ele abaixou a alça de sua blusa de baixo. Seu toque era infinitamente gentil e carinhoso. As duas mãos se moveram para o alto de suas costas.

— A ferida já fechou — disse com voz rouca. — Tudo bem.

Nenhum dos dois se mexeu. Buffy tremia ainda mais. Angel engoliu em seco. Ele tinha certeza de que podia ouvir o coração dela batendo — ou seria seu próprio pulso restaurado como em um passe de mágica, acelerado enquanto os braços a apertavam?

Ela se virou, encostou-se nele. Respirou fundo. As lágrimas brotavam. Ele foi vencido por sua proximidade, pelo fato de quase tê-la perdido. Naquela noite ele imaginou que nunca mais a veria.

Ecoando seus pensamentos, ele disse:

— Quase a perdi hoje.

As pontas dos seus dedos a tocavam enquanto ele a abraçava, tensão em seu corpo. Estava cuidando dela; lutava contra o que tomava conta dos dois: o medo e a necessidade. Ficava dizendo a si mesmo que ela era muito jovem e inocente nesses assuntos. Como poderia ser diferente? Ela passava boa parte das horas em que estava acordada lutando contra monstros, não beijando garotos. Ele disse:

— Nós dois quase morremos.

Ela começou a chorar.

— Angel, eu sinto... se eu o perdesse... — Respirou fundo. — Mas você está certo. Não podemos ter certeza de nada. — Moveu os lábios para a lateral do rosto dele e chorou.

— Sssh. Eu...

Ela abriu os olhos, esperando. Olhou para ele.

— Você o quê?

— Eu te amo.

E, quando disse isso, seus olhos brilharam de alegria, embora as lágrimas ainda estivessem presentes. Ele amava Buffy. Sabia que era isso que ela queria ouvir fazia muito tempo e, mesmo assim, havia muita tristeza em suas palavras e na certeza daquilo que mal tinha ousado sonhar. Angel a amava e agora, ao saber disso, tinha muito mais a perder.

— Tento não amá-la, mas não consigo evitar — disse com a voz cortada.

— Eu também. — A voz dela sumia com a inundação de emoções. — Também não consigo. — Apertou seu nariz contra o dele.

Eles se beijaram. O beijo ficou intenso. Estavam cruzando uma ponte, iam juntos a um lugar em que nunca estiveram antes. O coração de Buffy batia forte, como se soubesse que esse beijo era o começo de algo muito maior; era um compromisso, uma promessa, o primeiro passo.

A paixão aumentou. Angel estava faminto por seu gosto; tremia com a necessidade de tê-la.

Ofegante, ele se afastou:

— Buffy, talvez a gente não deva...

— Não. — Ela tocou o rosto dele e o segurou. — Apenas me beije.

Seus lábios se encontraram de novo, e de novo.

Angel deitou Buffy em sua cama. “Ela é tão linda”, pensou. “Tão maravilhosa. A pele, o cabelo...” Sentiu seu cheiro. O perfume, a suavidade de cetim do seu pescoço, os ombros. As mãos acariciando sua pele.

“Oh, Buffy, Buffy, deixe que eu me perca em você.”

“Faça amor comigo.”

Ao derreterem-se um no outro, Angel flutuava de alegria. Pela primeira vez em duzentos e quarenta anos ele tinha a esperança do paraíso.

 

Um trovão ecoou forte no céu.

Angel acordou com uma dor inacreditável rasgando-o por dentro. A agonia queimava seu corpo e sua alma.

Arquejou, lutando contra. Era uma dor antiga, e ele sabia o que ela significava. Sabia o que vinha a seguir e estava desesperado para acabar com isso. Agarrou as cobertas e se levantou, enquanto Buffy dormia ao seu lado.

“Não, não, agora não... não pode ser... Buffy...”

Tudo estava desmoronando. Enquanto se contorcia, ele se agarrava a um pensamento: era preciso distanciar-se dela o máximo possível.

“Protegê-la... oh, meu amor, oh, Buffy...”

“Protegê-la de mim...”

Angel se vestiu e saiu correndo na tempestade, no meio da noite, agarrado à idéia de que isso ia passar, que não aconteceria. Mas, ao cair de joelhos, ele soube: sua alma tinha sido arrancada mais uma vez.

— Buffy! — gritou.

Ela foi o último pensamento do homem que a amou.

E então a dor foi silenciada.

Mas ainda crescia.

 

                           Sunnydale, 1998

Buffy sabia que ele estava tentando acabar com o mundo e sabia como. Ele não se importava se ela soubesse o porquê.

Tudo o que ele sabia era que tinha de matá-la o mais rápido possível — ou tudo estaria perdido.

Ela tinha vindo até ele armada com uma poderosa espada que ganhou de Kendra, a Caça-Vampiros que Drusilla matara recentemente. Enquanto lutavam — sem que ele soubesse —, Willow invocava o Feitiço da Restauração de Almas em seu benefício.

Mas ele não sabia disso e não teria desejado, dado o seu estado. Tudo o que queria era matar Buffy para que ela não interferisse em seus planos de enviar todo e qualquer ser humano direto para o Inferno.

Lutou com ela com todas as suas forças e em determinado momento achou que tinha ganhado. Então, reservou algum tempo para brincar — sempre a fraqueza de Angelus ao lidar com seus inimigos; a tentação de acrescentar um pouco de crueldade era algo doce demais para deixar passar.

No jardim da mansão que dividia com Spike e Dru, que tinham vindo para Sunnydale, a Caça-Vampiros estava estirada no chão de ladrilho. Ela estava confinada; todo movimento que tentasse ele revidava e brincava com a espada perto do rosto dela, adorando cada momento de seu tormento.

— Isso é tudo, hein? — perguntou, fingindo preocupação. — Sem armas, sem amigos. Sem esperança. Tire tudo isso e o que sobra?

Suas palavras pareciam familiares. Ela parecia exausta e terrivelmente triste quando fechou os olhos.

Ele tomou impulso, atirou o braço para a frente, a espada direto para seu rosto.

Sem abrir os olhos, ela segurou a espada com as palmas das mãos, parando-a a dois centímetros do seu rosto.

— Eu — disse.

Em um solavanco, ela recuperou a espada, atingiu o rosto dele com o cabo e deu-lhe um chute certeiro no peito.

Ele voou para dentro da mansão, batendo com força no chão. Ao levantar-se, ela o desafiou, espada em punho, golpeando-o enquanto ele revidava com sua própria espada; levando-o para trás.

Ela arrancou a espada da mão dele, cortando-o ao fazer isso.

Ele ficou parado na frente dela, cansado e derrotado.

 

Naquele momento, no hospital, Willow terminou o ritual de restauração da alma de Angel.

 

Sentindo uma dor incrível novamente, Angel caiu de joelhos.

Buffy estava prestes a decapitá-lo quando ele olhou nos olhos dela.

Ela deve ter visto o brilho de sua alma, mas, mesmo depois de chamá-la com doçura — “Buffy?” —, recuou com extrema precaução.

— Buffy, o que está acontecendo? — perguntou, olhando à sua volta. — Não me lembro. Onde estamos?

Angel não se lembrava de nada por ter se mudado para a mansão com Dru e Spike depois de ter perdido sua alma.

A voz de Buffy tremeu ao dizer:

— Angel?

Ele viu suas feridas e disse:

— Você está ferida.

Foi até ela e a pegou pela mão, enrolando-a em seu abraço.

— Meu Deus, sinto como se não a visse há meses. Buffy, tudo está tão confuso.

 

Mais tarde, ele soube que ela podia ver o vórtice que levaria o mundo ao Inferno crescendo na boca do demônio de pedra atrás dele. Porém, naquele momento, não tinha idéia do que estava acontecendo.

 

Só sabia que ela estava muito perturbada e que se agarrava a ele como se nunca fosse deixá-lo ir.

— O que está acontecendo, Buffy? — murmurou.

— Sssh — disse. — Não importa. Ela o beijou com paixão e disse:

— Eu te amo.

— Eu te amo... — Sua voz estava cheia de alegria: Será que finalmente ficariam juntos? Será que era um sonho ou poderia virar realidade?

Então ela disse suavemente:

— Feche os olhos.

Ele obedeceu, confiante e feliz.

E ela empurrou a espada contra seu peito, jogando-o contra o demônio de pedra.

O vórtice que emanava de sua boca levou-o direto ao Inferno.

 

Ele foi torturado e atormentado pelo equivalente a quinhentos anos na Terra.

E então, por alguma razão, foi trazido de volta.

De volta ao seu mundo, sim, mas não para os braços de Buffy.

Nunca mais nos braços de Buffy.

E assim, depois de algumas tentativas frustradas de estabelecer um relacionamento mais simples com ela — uma amizade, até mesmo ódio, até mesmo nada —, ficou claro que o Inferno tinha vindo atrás dele.

 

Agora pertencia a Los Angeles. Onde, de acordo com Doyle, seu trabalho não era apenas proteger, mas ajudar, cuidar, compreender.

Suspirou profundamente. Não era o Inferno, mas estava perto.

Então era o Purgatório.

E, se houvesse redenção a ser encontrada ali, então algum dia...

Ele fechou os olhos...

Algum dia haveria o paraíso.

 

A placa ao lado da janela dizia EQUIPAMENTOS DE GINÁSTICA STACEY.

Ela ainda estava lá depois de o brutamontes ter atravessado a janela, deixando-a em cacos.

Angel trazia o seqüestrador de Tina — cujo nome supunha ser Stacey — pela garganta, pressionando-o contra a parede. Precisava ficar falando para si mesmo que não deveria matar esse cara porque ele tinha as informações necessárias para que Angel pegasse o monstro que havia tirado a vida de Tina.

— Onde ele mora? Como é a segurança do lugar?

Apesar de sua situação, Stacey agia com desdém.

— Escute aqui, gostosão — disse a Angel —, seja lá o que ela era para você, é melhor você esquecer. Você não tem a menor idéia de com o que está lidando aqui.

Angel apertou o punho em volta do pescoço de Stacey.

— Russell? Deixe-me adivinhar. O cara não gosta muito da luz do sol nem de espelhos e bebe muito Blood Mary?

Óbvio que Stacey ficou surpreso por Angel saber que seu chefe era um vampiro. Mesmo assim resmungou:

— Se você cruzar o caminho dele, ele irá matá-lo, irá matar todos aqueles com quem você se importa.

O punho de Angel apertou ainda mais e mais forte. Stacey quase desmaiou. Angel disse:

— Não sobrou mais ninguém com quem eu me importe.

 

Depois que Angel saiu, ele se pegou pensando em alguém que tinha feito a mesma declaração. Ela acreditou que não tinha ninguém, e essa noção endureceu seu coração, arruinou sua vida.

O nome dela era Faith e já tinha visto coisas bastante feias na vida, mesmo antes de se tornar uma Caça-Vampiros. Testemunhar a morte de seu próprio Sentinela marcou sua alma.

Ela tinha ido a Sunnydale em busca de Buffy, e as duas se uniram para acabar com os vampiros.

Mas, desde o início, Faith canalizava um lado mais obscuro da caçada aos vampiros — gostando do poder e das vantagens, sem reconhecer qualquer autoridade. Tudo chegou ao ápice certa noite, em um beco escuro, quando matou acidentalmente um humano. Uma fronteira foi cruzada, e esse fato horrível levou Faith direto a uma amaldiçoada aliança com o prefeito de Sunnydale.

Angel, que não pôde se salvar sem a ajuda de Buffy, tentou retribuir o favor salvando Faith.

 

                 Mansão de Angel, Sunnydale, 1999

Angel capturou Faith e a algemou a uma parede. Ela era uma Caça-Vampiros poderosa; ele a tinha visto em ação e sabia que tinha de ter cuidado perto dela.

Angel disse:

— Sei o que está acontecendo com você.

— Bem-vindo ao clube — disse irônica. — Todo mundo parece ter uma teoria.

— Mas eu sei como é tirar uma vida. Sentir um futuro, um mundo de possibilidades, esmagado por sua própria mão. Conheço esse poder. — Olhou-a de perto. — A empolgação. Era como uma droga para mim.

Ela deu um sorriso amarelo e puxou as correntes com força.

— É? Parece que você precisa de ajuda. Talvez ajuda profissional.

Ele sacudiu a cabeça.

— Um profissional não poderia ter me ajudado. Tudo parou quando recuperei minha alma. Meu coração humano.

— Bom para você — bufou de raiva. — Se vamos fazer uma festa, é melhor começar logo. Caso contrário, será que você poderia me soltar dessas coisas?

Angel não seria distraído. Nem se deixaria afetar.

— Faith, você tem uma escolha. Experimentou algo que poucos conhecerão. Matar sem remorso é sentir-se como um deus...

Óbvio que ela não queria ouvir aquilo, então começou a lutar.

— Agora mesmo, tudo o que sinto é câimbra no punho. Solte-me!

— Mas você não é um deus — ele persistiu. — Você não passa de uma criança, e esse caminho a arruinará. Você não pode imaginar o preço do mal verdadeiro.

Havia um brilho nos olhos dela. Algo tinha atingido o alvo. Mas, mesmo assim, ela não cedia.

— É? Espero que o mal aceite Mastercard.

— Você e eu, Faith, somos muito parecidos.

Ela urrou.

— Bem, você está meio morto...

— Como eu disse. Muito parecidos.

— Desculpe-me, amigo. Estou viva e saltitante. Na verdade, tenho uma necessidade fisiológica que precisa ser atendida agora mesmo.

Angel era insistente, pois sabia que estava mexendo com ela, sabia que ela estava quase lhe dando ouvidos.

— Você não está viva — disse. — Só está correndo. Com medo de sentir, com medo de ser tocada.

Parte dela reagiu a essas palavras. Mas ela desviou o olhar e murmurou:

— Guarde isso para os cartões da Hallmark. Preciso fazer xixi.

— Houve um tempo — ele prosseguiu — em que eu acreditava que os humanos só existiam para machucar uns aos outros.

Faith olhava para ele agora. Estava calada.

“Finalmente”, pensou agradecido. “Acho que toquei o acorde certo.”

— Mas então eu vim para cá — ele forçou a barra — e descobri que há outros tipos de pessoas. Pessoas que realmente queriam fazer a coisa certa. Elas ainda cometem erros, caem, mas continuam tentando. Continuam se preocupando.

Houve uma longa pausa. Ela estava escutando, claramente querendo acreditar. Angel pôde ver. Ele foi até ela, falando do fundo do coração.

— Se você confiar em mim, Faith, tudo isso pode mudar. Você não precisa desaparecer na escuridão.

 

Mas ela precisou. Pobre Faith, ela precisou.

“Então quem eu penso que sou”, ele pensou, “para ser capaz de ajudar alguém?”

E então pensou: “Não importa o que eu acho. Assim como com Buffy. Ela não achava que seria uma boa Caça-Vampiros, mas é a melhor”.

Por ironia, Buffy tinha sido exilada de Los Angeles para Sunnydale. Ele tinha sido forçado a deixar Sunnydale para vir a L.A. Na verdade, os dois tinham trocado de lugar.

Algo estalou dentro dele.

“Eu realmente deveria estar aqui”, pensou.

Com sofrimento, Angel finalmente deixou Sunnydale para trás. As memórias começariam a desaparecer. Ele sabia disso agora, sentiria falta delas.

Mas estava em casa.

 

Cordelia, de calça de moletom e camiseta, estava em posição de lótus enquanto respirava fundo para restaurar sua energia. “Dentro, verde. Fora, vermelho.”

Ela tinha um novo livro de auto-ajuda, Meditação para uma vida abundante, ao seu lado. Ela sabia que alinhar seus chakras com a ressonância vibracional da mensagem positiva do livro traria resultados.

— Sou alguém — respirou fundo.

— Eu importo — outra respiração.

— As pessoas serão atraídas por minha energia positiva e me ajudarão a atingir meus objetivos.

Ela olhou para o seu telefone. O número de mensagens registrava um grande zero. O último telefonema que recebera fora aquele em que Joe deixara aquela terrível mensagem. Ela nem ao menos saiu com ninguém nas últimas duas semanas.

“Aposto que eles iam morrer de rir em Sunnydale se pudessem me ver agora.”

Lembrou-se de como tinha sido esnobe com Buffy ao falar de Angel. Sempre tentando encontrar um ponto fraco nele, muito decepcionada quando não encontrou nada. E então, claro, descobriu que ele era um vampiro.

 

                               Sunnydale High, 1997

Buffy e Willow estavam sentadas no banheiro feminino do colégio, tagarelando, matando aula ou qualquer outra coisa que os perdedores fazem. Cordelia entrou para lavar as mãos e retocar a maquiagem e percebeu que a conversa cessou assim que ela entrou no banheiro. Foi quando decidiu dar a Buffy um novo assunto.

— Buffy — ela começou, em um tom de voz doce e acusativo —, você fugiu na noite passada e deixou Angel sozinho. Fiz tudo o que pude para confortá-lo.

— Aposto que sim — respondeu Buffy.

“Hah. Um ponto para a Rainha C.”

— O que há com ele, afinal? Quero dizer, nunca vi o cara por aqui.

— Pelo menos não durante o dia — interferiu Willow, como se isso fosse algo importante.

— Ah, por favor, não me diga que ele ainda mora com os pais — resmungou Cordelia, imaginando de repente se um gato feito ele poderia realmente ser um idiota desse tipo. — Não me diga que ele precisa esperar o papai chegar em casa para poder pegar o carro?

Buffy disse com um trunfo nas mangas:

— Acho que os pais dele morreram há uns duzentos anos.

Cordelia não estava prestando muita atenção.

— Ah, ótimo. — Então foi preciso um tempo para que processasse a piadinha de Buffy. — Quero dizer... O quê?

— Angel é um vampiro. — Buffy parecia gostar de lhe dar a notícia. — Achei que você soubesse.

Por um momento Buffy a tinha enganado, então Cordelia disse em tom sarcástico:

— Oh. Ele é um vampiro. Claro. Mas do tipo bonzinho, como um dos Ursinhos Carinhosos com caninos salientes.

Willow insistiu:

— É verdade. — A guardiã da guardiã, essa era Willow Rosenberg.

Cordelia lançou um olhar esnobe para Buffy.

— Sabe o que eu penso? Que você está tentando me assustar porque tem medo da competição. Olhe, Buffy, talvez você seja muito quente quando se trata de demoniologia ou seja lá o que for, mas quando se trata de namorados eu sou a Caça-Vampiros.

 

“É, certo. Aqui estou eu, caçando todos. Arrebatando todos. Tão ocupada que nem mesmo tenho tempo para ficar sozinha no meu apartamento ridículo e sentir saudade de Xander, pelo amor de Deus.”

Ela baixou os olhos sobre o livro, lembrando que a energia positiva era magnética, e a negativa, repelente.

— Estou exatamente onde deveria estar e não estou morrendo de fome!

Atirou o livro do outro lado da sala, sentada ali quase em prantos. Estava morrendo de fome, assustada, queria ser rica novamente. Odiava toda essa dificuldade.

O telefone tocou.

Cordelia levantou da cama de um sobressalto e atendeu. Ela disse, usando seu tom de voz positivo:

— Alô, Cordelia Chase.

— Cor, é a Margo — disse a voz do outro lado da linha. Cordelia ficou empolgada. — Você foi um sucesso na festa.

“Isso, isso, isso.”

— Obrigada. Eu me diverti muito. Quero que você venha me visitar no meu apartamento — ela recuou — assim que eu terminar de decorá-lo.

— Bem, adivinha quem a viu na fita da festa e adivinha quem quer conhecê-la? — conduziu Margo, dando a entender que só podia ser alguém importante. Alguém que poderia ajudá-la.

— Um diretor? — perguntou excitada. — Um empresário? Um assistente do assistente que está pronto para me convidar para almoçar?

— Russell Winters.

Cordelia mal pôde acreditar no que seus ouvidos escutaram.

— Aquele investidor?

— Ah, Cordelia, ele é muito mais do que isso — disse Margo, claramente entusiasmada. — Ele ajuda as pessoas a começarem suas carreiras. Conhece todo mundo e... quer conhecê-la hoje à noite.

Os olhos de Cordelia se arregalaram.

— Hoje à noite? Bem, deixe-me dar uma olhada na minha agenda. — Ela estava tão empolgada que pensou que fosse desmaiar. Mesmo assim, forçou-se a esperar um pouco, como se realmente tivesse de considerar o assunto antes de responder.

— Terei de cancelar algumas coisas, mas tenho certeza de que posso ir... Espere. — Ela respirou fundo. — Não preciso fazer sexo com ele, né? Porque não dá... Tenho quase certeza de que não dá...

— Não, não — garantiu Margo do outro lado. — Ele só gosta de ajudar as pessoas. Nem acho que goste de sexo.

Cordelia se alegrou.

— Ah, ótimo.

— Ele vai mandar uma limusine pegá-la às oito.

 

E não era piada. A limusine realmente veio. Um tubarão negro longo e reluzente como aqueles que dirigiam pelas estradas, começando pela extremidade norte de Orange County. Quanto mais perto se chega das pontas de Los Angeles, seja no sul ou no norte, mais limusine se vê. E agora ela estava em uma delas e não era a festa de formatura nem nada assim. Era a vida real.

Estava no banco de trás em meio a muito conforto. A Rainha C, triunfante. Bebeu água mineral e mastigou algumas nozes; deliciosas nozes recheadas de proteína e energia. Não pôde evitar cantarolar uma melodia feliz e desafinada para si mesma. Agora, assim é que as coisas deveriam ser.

A limusine deslizou em direção a uma luxuosa mansão. A enorme casa era como um castelo, um daqueles lugares em que as pessoas passam anos vivendo em um quarto sem que ninguém perceba sua presença. Era uma riqueza maravilhosa, perfeita, e uma rede excepcional de possibilidades. Isso é que era ter boas ligações. Ela mal acreditava em sua sorte. Mas precisava acreditar, acreditar completamente.

A limusine se aproximou de um enorme portão de ferro. Havia um vigia em uma pequena guarita que apertou um botão. O portão abriu.

Enquanto o carro entrava, Cordelia entoou:

— As pessoas serão atraídas por minha energia positiva e me ajudarão a atingir meus objetivos.

“É isso aí”.

Feliz, enfiou outra noz na boca.

Atrás da limusine, os grandes portões eram fechados com um som estridente.

 

No apartamento de Angel, Doyle observava, claramente impressionado, enquanto Angel carregava um arsenal de guerra: cronômetro, detonadores, explosivo plástico, um pequeno conjunto de ferramentas e outras bugigangas.

— Nossa, você realmente vai começar uma guerra por aqui. — Doyle parecia pensativo. — Acho que já viu algumas na sua vida.

Angel deu uma olhada em seu material.

— Catorze. Isso sem contar a do Vietnã. Eles nunca declararam essa guerra.

Doyle concordou com a cabeça.

— Bem, isso é bom. Você está assumindo o controle e lutando contra — disse, olhando com curiosidade para a coleção de Angel. — Você realmente precisa de tudo isso?

Angel fez uma rápida verificação mental. Sim, ele precisava de tudo aquilo. Se pudesse levar mais alguma coisa — um lança-granadas, se fosse de alguma ajuda —, ele levaria. Usaria o que fosse necessário para garantir que Russell Winters tivesse a noite mais longa da Terra.

Sentiu uma nova pontada de dor ao pensar em Tina e simplesmente disse:

— Uma escoteira me disse: Esteja preparado.

— Bem, boa sorte. — Doyle parecia muito preocupado e extremamente sincero. — Apostei um bom dinheiro nos Vikings hoje à noite, mas estarei com você em espírito.

Angel o impediu de sair.

— Você dirige.

Doyle ficou um pouco chocado.

— O quê? Mas... não. Não, não. Não estou pronto para o combate — insistiu. — Sou apenas um mensageiro.

— E eu sou a mensagem — respondeu Angel.

 

Na mansão de Russell Winters, Cordelia disse a si mesma, com certa vertigem, que deveria ter trazido um cantil e uma bússola. Era enorme, fabulosa, linda.

“Nossa.”

“A casa dele é do tamanho de um campo de futebol americano.”

“Nossa.”

“Ele tem mordomo.”

“E quer me conhecer.”

“Nossa.”

Ela queria se beliscar, mas não deixar nenhuma marca. Não que ele se importasse. Certo, talvez se importasse. Mas não se importaria porque ela poderia fazer qualquer coisa com os próprios braços. Ele não ia querer conferir seus braços. Afinal, não se importava com nenhuma parte de seu corpo, certo? Exceto seja lá o que o tenha atraído nela. A risada? O sorriso?

Ela nem tinha reparado que Margo o conhecia ou enviaria a fita da festa e também não fazia idéia de como ele era. Para ser honesta, quando o mordomo abriu a porta, ela quase disse: “Oi, Sr. Winters”.

O mordomo caminhava em silêncio, e Cordelia tinha certeza de que ele podia ouvir seu coração acelerado. Finalmente, finalmente, as coisas começariam a dar certo. A vida era boa. O futuro era bom. Porque ela tinha importância.

Acabou sendo conduzida ao que tinha de ser o escritório de Russell Winters. Espaçoso e elegante, dava a impressão de muito dinheiro ter sido gasto na decoração; era maior do que seu apartamento inteiro. Por um breve momento, ela se imaginou entregando o aviso ao proprietário dizendo que sairia daquela ratoeira, e então lá estava ele, levantando-se para cumprimentá-la.

— Oi. Sou Russell — disse com voz bastante amigável. — Obrigado por vir.

Ele dispensou o mordomo, que saiu em silêncio.

Cordelia pensou: “Hora do show”. Imaginou que ainda tentaria impressioná-lo. Nunca se sabe quando você conseguirá a venda.

Não que estivesse vendendo alguma coisa. Nada disso. Exceto sua imagem e energias positivas.

— Então — ela começou, com sorriso brilhante —, lugar legal — gesticulou. — Adorei as cortinas. — “Nossa, há toneladas delas.” — Você não tem medo de carregar nas cortinas.

Ele deu de ombros, com modéstia.

— Gosto de coisas antigas.

— Cresci em uma casa legal — garantiu-lhe Cordelia. — Não era assim, mas tínhamos um quarto ou dois que nem ao menos sabíamos para que serviam.

Ele sorriu.

— Então o Leão ficou irritado porque meus pais esqueceram de pagar os impostos, bem, sempre, e levou tudo.

— Margo me disse que você é atriz — disse. — E isso está indo bem?

— Ah, sim, ótimo. — “Tom de voz positivo; radiar energia positiva não é mentir.” — Tive muitas oportunidades. As mãos naquele comercial de sabonete líquido quase foram minhas; por questão de uma ou duas garotas e, bem... isso não é tudo que eu...

Ela parou, sua fachada começava a desmororar. Olhou para ele e se sentiu miserável, perguntando-se o que ele queria dela.

Perguntando se teria a coragem de não fazer, especialmente se fosse algo repulsivo.

 

“Alguns vampiros vivem em porões, outros em mansões”, Angel pensou enquanto Doyle manobrava o conversível para estacionar ao lado da guarita que ficava na frente da casa de Winters. Isso o fez lembrar das antigas casas de campo de Galway e arredores. A maioria delas era museus agora ou parte do esquema de penhora pública.

Angel saiu do carro e aproximou-se do vigia. O rapaz estava sentado na frente de mais monitores do que um departamento de segurança de um cassino de Las Vegas. As telas mostravam a propriedade de vários ângulos — entrada, fundos, leste e oeste da casa. Arbustos, árvores. Muitas árvores. E fantasmas. Não, na verdade, estátuas de mármore. — Oi. Acho que nos perdemos — disse Angel ao guarda nada sorridente. — Estou procurando a Cliff Drive. Ei, o que você está vendo? É o jogo dos Vikings?

Angel se inclinou para dentro da guarita e olhou o monitor que mostrava seu carro e a frente da casa. Estendeu o braço, agarrou o fio de transmissão da câmera de vídeo no portão e o arrancou. O monitor ficou inativo.

— Ei — disse o guarda, irritado —, o que você... Ele procurava a arma enquanto Angel o fez desmaiar com um soco.

Angel disse a Doyle:

— Amarre-o. Sairei em dez minutos ou não sairei mais.

— Dez minutos — repetiu Doyle.

Angel agarrou seu equipamento e saiu.

Pulou, agarrou o topo do muro e subiu. Correu em cima do muro no meio da noite.

Finalmente chegou à seção mais próxima da casa. Parou e agachou quando um guarda armado veio caminhando pela propriedade. O homem não parecia perceber nada de incomum, estava apenas fazendo sua ronda.

Virou uma esquina, e Angel voltou a correr pelo muro. Então saltou, aterrissando no telhado da mansão. Escorregou pelo telhado e saltou novamente.

Caiu no jardim lateral. Depois de verificar se havia guardas, prendeu um explosivo plástico e o detonador em um gerador auxiliar. “Isso causará uma bela explosão.”

Seguiu contornando a curva da casa até a caixa de fusíveis e começou a trabalhar nela.

 

“Ele é tão compreensivo”, pensou Cordelia, esperançosa. “Sabe ouvir tão bem.”

Sentou-se com Russell Winters em seu escritório, e ele a ouvia atentamente, enquanto ela se abria muito mais do que pretendia.

— Eu me esforcei muito mesmo, sabe? Geralmente, quando tento alguma coisa, me dou bem logo de cara. Achei que isso seria... mas não tenho ninguém. Nem ao menos tenho amigos por aqui.

— Agora você me conhece — lembrou-a — E não precisa mais se preocupar.

Ela baixou os olhos. “Não pode ser apenas bondade”, disse a si mesma. “Caso contrário, isso seria como estar vivendo em um filme, e eu deixei todo esse tipo de coisas para trás, exatamente onde deveriam ficar, em Sunnydale.”

— O que você quer que eu faça? — perguntou.

— Apenas me diga o que você quer.

Ela tentou se recompor; sabia que tentava se esquivar da conversa. Tudo o que queria ele poderia lhe dar. Uma carreira... mas ela tinha talento, sabia que tinha. Precisava de ajuda para começar, só uma pequena oportunidade.

Uma oportunidade não sairia tão caro, não é?

Ela começou a desmoronar.

— Meu Deus! Sinto muito. — Ela enxugou os olhos. — Aqui estou eu, toda chorona na sua frente...

Olhou ao redor em busca de um espelho, um único espelho.

— Provavelmente estou com a cara assustadora. Finalmente sou convidada para um lugar legal sem espelhos e muitas cortinas e, ei, você é um vampiro. — Encarou-o.

Ele foi pego de surpresa.

— O quê? Não, não sou.

Ela ergueu o queixo.

— É sim.

Afastando-se dela, ele disse:

— Não sei do que você está falando.

— Sou de Sunnydale — anunciou, orgulhosa. — Tínhamos nossa própria Boca do Inferno. Conheço um vampiro quando...

“Ah, meu Deus, o que estou fazendo?”

— ...encontro-me sozinha com um em sua casa que mais parece um forte e você sabe que estou tão avoada por causa da fome que estou louca e brincando! — Riu. -— Ha-ha-ha...

Por seu olhar, ela acrescentou com fraqueza:

— Ha.

“Oh-oh.”

 

Angel terminou de passar o fio no terceiro gerador auxiliar que havia prendido à parede.

“Deus”, pensou. “Essa beleza vai explodir bem na hora.”

Então ouviu passos. Era outro guarda caminhando ao lado da casa.

Por questão de um segundo, Angel foi capaz de se erguer, saindo do ângulo de visão do guarda. Assim que o vigia passou pelo gerador e desapareceu de vista, Angel desceu silenciosamente até o chão mais uma vez.

Configurou o cronômetro que prendeu ao gerador para dez segundos.

“Por que dar a Winters a chance de sair em segurança? Melhor mandá-lo para o inferno o mais rápido possível.”

 

“Fique calma”, ordenou Cordelia a si mesma. Era seu novo mantra. Se pudesse respirar, faria qualquer coisa para criar uma ressonância vibracional mais positiva, pois precisava de toda ajuda que pudesse conseguir.

— Você sabia que um dos meus amigos mais queridos é um vam... Prefere que eu diga “pessoa noturna”?

Russell disse com prazer:

— A verdade é que estou feliz por você saber. Isso significa que podemos pular a parte das formalidades.

Toda esperança de calma se foi. No vácuo, o terror puro a invadiu de uma só vez.

— Por favor — implorou Cordelia.

Ele urrou e se transformou. O rosto de Cordelia ficou em choque ao perceber que ele era ainda mais horrendo do que qualquer outro vampiro que já tivesse visto. Em seguida, gritou e saiu correndo do escritório.

Chegou no saguão principal, então subiu as escadas. Ofegante, fugiu o mais rápido que pôde, mas ele estava logo atrás. Agarrou-a com facilidade, e Cordelia estava perdida.

Então, ouviu-se o som inconfundível de algo explodindo três vezes — ou talvez três coisas explodindo na seqüência. POU, POU, POU!

E todas as luzes se apagaram.

 

A sala estava escura, exceto pelos raios do luar. O vampiro grotesco olhava à sua volta, atordoado; Angel podia ver sua arrogância, a presunção de que era invisível e sempre se livraria das conseqüências de seus atos.

— Russell Winters.

Angel saiu das sombras.

— Angel? — chamou Cordelia, esperançosa.

— O que você quer? — O vampiro parecia alarmado e irritado.

Angel mal podia se conter. “Não imaginei que Cordelia estaria aqui”, pensou. “Mas isso faz sentido. Ela estava na mesma festa que Tina e eu. Cor deve tê-la conhecido.”

Ele disse:

— Tenho uma mensagem de Tina.

O vampiro empalideceu um pouco ao ouvir o nome. Então, Angel entendeu tudo: Esse tinha sido o monstro. Caçava garotas jovens, alimentando as esperanças delas, saciando sua necessidade de prazer sarcástico, e então... simplesmente se alimentava.

Pensou no sangue de Tina em sua boca. A coisa que fingia ser Winters havia sugado tudo até acabar. Mas ambos se alimentaram dela; sob suas máscaras, eram basicamente a mesma coisa.

Perceber isso deixou Angel profundamente enjoado.

Winters se recuperou e disse:

— Você cometeu um grande erro ao vir aqui.

— Você não sabe quem ele é, não é? — Cordelia amedrontou Winters. — Minha nossa, você está prestes a levar a maior surra! — disse feliz, apesar de ainda estar assustada.

Angel esperava não decepcioná-la.

Os dois vampiros partiram um para cima do outro, trocando alguns socos rápidos. Russell atingiu Angel com força suficiente para que os reflexos deste entrassem em ação: seu rosto se transformou, revelando ser, no fundo, outro da espécie de Winters.

— Um de nós? — disse Winters, surpreso. — Você não recebeu o manual do proprietário? Nós não os ajudamos, nós os comemos.

Como Spike diria: “Nossa razão de ser”.

Com seu dispositivo debaixo das mangas, Angel preparou uma estaca e lançou-se para cima de Winters. Winters recuou, ganhando de Angel e afastando sua estaca.

As portas se abriram, e dois guardas entraram, armas em punho.

Winters gritou:

— Matem-na!

Os dois homens apontaram suas armas para Cordelia. Angel atirou Winters para longe e se colocou na frente dela quando os guardas atiraram.

As balas o atingiram, causando um mínimo momento de dor, enquanto ele a protegia e os jogava escada abaixo. Os seguranças caíram no chão e fugiram pela porta dos fundos.

 

“Claro, e isso é uma quantidade excessiva de balas”, pensou Doyle, sentado atrás do volante do carro de Angel.

E ainda houve mais um disparo.

— Chega, vou embora.

Engatou a marcha e queimou o pneu no asfalto. O cheiro de borracha equivalia ao do seu medo.

Ele estava assustado e não sentia orgulho disso. E Angel estava lá, arriscando sua morte-vida para pôr um fim ao mal que Doyle tinha, essencialmente, trazido para sua vida...

— Droga.

Deu um cavalo-de-pau, virando o conversível com tudo, 180 graus. As rodas guinchavam como porcos mas o carro não capotou.

Acelerou em direção às enormes grades de metal.

— Yaaahhhhhhhhhh! — gritou, imaginando ser Mel Gibson em Coração valente. Só que o cara era escocês, e todo mundo sabia que os melhores demônios são irlandeses; bastava olhar para ele e Angel.

“Não, não abra o olho...”

O carro ganhou velocidade e foi arremessado contra os portões.

Que ficaram intactos, muito obrigado, diferentemente do pára-choque dianteiro e da capota do carro, que foram esmagados como um brinquedo barato. Talvez até mesmo um feito nos Estados Unidos.

Doyle ficou parado e perplexo por um momento, então disse:

— Portão resistente.

Deu ré no pobre carro, que soltava fumaça, para se afastar do portão. A doce criatura resmungou, mas o motor ainda funcionava.

Foi quando apareceram no espaço deixado por Doyle uma garota extremamente bonita e Angel, que parecia muito ferido.

Eles subiram no carro.

Doyle começou a explicar o probleminha com o bem mais precioso de Angel:

— Eu tive um pequeno...

“Mais tiros!”

— Conversamos mais tarde — sugeriu Doyle.

Ele pisou fundo e saiu correndo.

 

Angel tirou a camisa. Cordelia havia explicado para Doyle como usar a pinça para extrair as balas, mas Angel supunha que Doyle nunca tinha visto um kit de primeiros socorros antes — nem anatomia —, e talvez isso doesse ainda mais do que levar o tiro, para começo de conversa.

Infelizmente, havia muitas balas e, portanto, muita dor.

Cordelia disse, ansiosa:

— Não dá para matá-lo de verdade, a menos que seja enfiada uma estaca no seu coração, certo?

Trancando os dentes, Angel resmungou:

— Acho melhor você pegar uma.

— Consegui. — Doyle deixou cair a bala ao lado das outras três que havia extraído. Cordelia estava muito aliviada:

— Finalmente. Achei que ia acabar vomitando ou desmaiando.

Angel deu um sorriso amarelo enquanto Doyle e Cordelia faziam o curativo sobre seu peito. Essa era a Cor que Angel lembrava de Sunnydale: sempre tão preocupada com as outras pessoas.

— Então acabou tudo, né? — indagou Cordelia. — Nós dois vamos ficar bem. Você deixou aquele Russell morto de medo, e ele não vai voltar a me procurar, certo?

Angel trocou olhares com Doyle. “Grandes mentes têm pensamentos parecidos.”

Doyle parecia tão preocupado quanto Angel.

 

Era uma torre de poder no centro da cidade, e a placa luxuosa de aço escovado dizia RUSSEU, WINTERS EMPREENDIMENTOS.

Do lado de dentro, na sala de conferência principal, Lindsey estava sentado em uma das pontas da mesa, próximo da porta. Os advogados estavam alinhados nas laterais da mesa de mármore polido, e o Sr. Winters, sentado na cabeceira, olhando para o lado contrário da grande parede de janelas de vidro.

A pasta de Lindsey, adornada com o logotipo da Wolfram & Hart, estava aberta ao seu lado enquanto ele removia o primeiro bloco de documentos.

— A papelada da fusão da Eltron já está pronta para sua assinatura — anunciou.

Passou os documentos a uma brilhante jovem advogada à sua direita. Eles caminharam até o final da mesa para as mãos do Sr. Winters.

— Além disso, conversamos com o nosso escritório em Washington essa manhã — continuou, percebendo com orgulho que todos os olhares se dirigiam a ele. No entanto, essa era uma reação que tentava esconder. — A nova lei tributária que trabalhamos em lobby reduzirá três por cento dos impostos brutos e aumentará proporcionalmente os lucros. Ficamos muito felizes com isso na empresa.

“Chega de se gabar”, preveniu-se. Passou mais documentos.

— Quanto ao intruso que invadiu sua casa ontem à noite, as autoridades locais não têm informações sobre ele, mas temos vários excelentes detetives particulares...

A porta se abriu, e um homem alto e moreno entrou.

— ...tentando descobrir seu paradeiro — terminou Lindsey no mesmo instante.

O Sr. Winters disse:

— Acredito que já o localizaram.

Lindsey aproximou-se do homem, cujo nome devia ser Angel, e entregou-lhe um cartão.

— Trabalho para a Wolfram & Hart — disse ao vampiro. — O Sr. Winters nunca foi e nunca será acusado de qualquer crime. Nunca. Caso você continue importunando meu cliente, seremos forçados a expô-lo à luz do dia. Uma situação que, como fui informado, não é muito saudável para você.

Lindsey sorriu.

Angel deu uma olhada no cartão que agora estava em suas mãos e depois olhou para o Sr. Winters.

Este disse:

— Essa cidade é muito grande, Angel. Ela funciona de maneiras consagradas há muito tempo. Você não faz parte desse lugar. Se eu fosse você, sairia daqui enquanto é tempo. Diga a Cordelia que a verei em breve.

O Sr. Winters sorriu, olhar fixo em Angel. O estranho olhou à sua volta, claramente derrotado por perceber que o Sr. Winters estava em melhor posição — legalmente e em todos os outros sentidos da palavra.

Angel disse:

— Acho que, se você é rico e poderoso o suficiente, se tem os advogados certos, pode fazer tudo o que quiser.

O cliente de Lindsey parecia orgulhoso de si.

— É bem por aí.

— Você sabe voar? — indagou Angel.

O sorriso do Sr. Winters ficou amarelo. Então, antes que qualquer pessoa pudesse fazer algo para impedi-lo, Angel ergueu o pé, colocou-o na cadeira entre as pernas do Sr. Winters e empurrou-a com toda a sua força.

Lindsey ficou boquiaberto ao ver o Sr. Winters, em sua cadeira, ser jogado para trás, quebrando a janela e voando através dela.

Saiu voando sob a luz do sol. Enquanto caía, aos berros, queimou até virar pó de vampiro.

Angel, evitando a luz do sol que entrava pela janela quebrada, ficou parado olhando. Lindsey e o bando de advogados com cara atônita estavam atrás dele.

Angel falou lentamente:

— Acho melhor não.

Angel se virou para sair, fazendo uma pausa para entregar o cartão de volta ao bolso do terno de Lindsey.

Perfeito cara-de-pau, Lindsey disse:

— Bem.

Mantendo a compostura, fechou a pasta de documentos. Os outros fizeram o mesmo com calma e equilíbrio.

Haveria outros clientes ricos e poderosos. A cidade estava repleta de vampiros.

De todos os tipos.

Afinal, aqui era Hollywood.

 

Russell Winters Empreendimentos: a cadeira caiu, espatifou-se no chão e ricocheteou, as cinzas espalhando-se ao redor.

 

Ainda era dia, mas Angel não estava com sono. Exausto, sim, mas sabia que nesse dia não descansaria.

Estava sentado sozinho ao lado do telefone. Depois de um tempo, pensou “Que se dane”, pegou o fone, discou e esperou.

A voz de Buffy invadiu seu coração:

— Alô? Alô?

Angel desligou. Tinha certeza de uma coisa: não tinha sido levado até Tina para aprender o verdadeiro significado da tristeza, afinal.

Seu nome ainda era Buffy.

E as lembranças não desapareceriam tão cedo.

Doyle entrou na sala.

— O que aconteceu com Russell?

Angel respondeu:

— Foi iluminado.

— Mesmo assim você não parece estar comemorando. — Doyle parecia um pouco intrigado.

Angel deu de ombros:

— Matei um vampiro, e isso não ajudou ninguém.

— Você tem certeza disso?

Do andar de cima, veio o som de um grito.

Os dois correram para ver.

Entraram no escritório de Angel, encontrando mesas e arquivos velhos que tinham sido espanados e distribuídos pelos espaços interno e externo da sala. Cordelia, vestindo uma das camisas de Angel com as mangas arregaçadas, estava limpando e organizando a mobília.

— Aaaaghh! Uma barata! — gritava feito louca. — No canto. Mais parece um rato.

Doyle foi verificar.

Cordelia se virou para Angel.

— Certo — disse. — Primeira coisa, temos de chamar a dedetização. E mandar fazer uma placa. Precisamos colocar um nome na porta.

— Certo, agora estou confuso — resmungou Angel. — De novo.

Cordelia sorriu.

— Ah, Doyle me contou sobre sua pequena missão e tudo mais, e eu acho que, se vamos ajudar as pessoas, talvez devêssemos cobrar alguma coisa, uma taxa, sabe, algo para ajudar a pagar o aluguel e o meu salário...

Ele a encarava sem saber o que dizer.

Ela prosseguiu:

— Você precisa de alguém para organizar as coisas e não anda muito atualizado, Sr. Estou-vivo-há-duzentos-anos-e-nunca-fiz-uma-pasta-de-investimentos.

A cabeça de Angel analisava suas frases rápidas. O mais importante é que seu coração estava gostando do que ela oferecia.

Mesmo assim, perguntou:

— Você quer cobrar das pessoas?

— Não de todo mundo — assegurou. — Mais cedo ou mais tarde você terá de ajudar pessoas ricas, certo? — Ela olhou para Doyle. — Certo?

Doyle respondeu:

— É possível.

— Me dá essa caixa — ordenou a Angel. — Então acho que cobraremos caso a caso, mas trabalharei por um salário fixo.

Angel a observou por um momento, ainda assimilando tudo aquilo. Por um instante, toda a pose desmoronou, e ela parecia mais dócil.

— Quero dizer, isso se você achar que eu poderia ajudar...

Houve uma pausa. Então Angel lhe entregou a caixa, sorrindo. Ela a pegou toda feliz e foi para a parte externa do escritório, falando por cima dos ombros:

— Claro que isso é temporário, só até o meu estrelato inevitável acontecer.

“A boa e velha Cor.”

“A sensação mais próxima da minha antiga vida.”

Doyle disse:

— Você fez uma boa escolha. Ela será sua conexão com o mundo. Sua influência é bastante humanizadora.

Angel não se deixou enganar nem por um segundo.

— Você acha que ela é gostosa.

Doyle ficou envergonhado por ter sido desmascarado.

— Ela é uma gata, não posso negar. Mas pode ajudá-lo.

Angel disse:

— Verdade.

— Há muitas pessoas nessa cidade precisando de ajuda. — Doyle acrescentou, como se estivesse curtindo o momento.

Angel deixou que ele curtisse.

— Foi o que percebi.

Doyle estava feliz.

— Você está no jogo?

Angel pôde sentir um pequeno sorriso capenga brotar em seu rosto.

 

Na noite escura, em guarda como um sentinela, Angel observava a cidade. Toda Los Angeles estava à sua frente. Para ser defendida e protegida.

Havia muito que ele não entendia, muito para descobrir.

Muito para sentir.

Coisas demais para sentir.

Los Angeles era a cidade dos sonhos, dos corações acelerados e das lágrimas.

Ao olhar para o céu, imaginava se Buffy estava fazendo o mesmo. Se esses eram os pensamentos que ela tinha.

Se ele a veria de novo.

Se um dia a dor iria passar.

Mas agora ele cumpriria sua pena. Encontraria redenção não pela graça divina, mas por boas ações.

O trânsito varria as avenidas. Os prédios de vidro brilhavam.

A lua estava cheia, quente e dourada; pendurada no céu como a luz do luar no quarto de uma pequena criança.

Angel estava sozinho; sempre esteve sozinho. Qualquer coisa em contrário não passava de um pedido a uma estrela cadente.

Ou será que não?

 

Doyle observava, como costumava fazer.

— Há muitas pessoas na cidade precisando de ajuda — dissera a Angel. — Você está no jogo?

“Você está dentro, Angelus, Aquele com Rosto Angelical, ou está fora?”

Angel ficou parado curtindo a brisa, seu casaco agitando-se como asas.

Então, virou-se e olhou diretamente para Doyle. Ele sabia que o demônio estava ali havia muito tempo.

Disse a Doyle:

— Estou no jogo.

 

                                                               Nancy Holder

 

 

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