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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


BLACK and BLUE / Gena Showalter
BLACK and BLUE / Gena Showalter

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

Corbin Blue é um homem de muitos talentos. Um dos mais poderosos extraterrestres jamais nascido, ele é um rico astro do futebol americano profissional e uma lenda no quarto. Mas somente uns poucos sabem que ele também é um agente Black Ops... e que não havia melhor assassino. Quando ele e sua equipe são atacados e separados, é forçado a se virar para a filha do seu chefe para obter ajuda — uma mulher com mais segredos do que Blue.

... ELA SE TORNA SUA ÚNICA OBSESSÃO

Evangeline Black sempre foi cautelosa, reservada. Nenhum homem jamais abriu uma brecha em suas paredes. Até Blue. Nunca foi negado a ele o que quer, e agora decidiu que a quer. Enquanto a varre para dentro de sua vida dupla de sedução, intriga e perigo, ele a ajuda a enxergar por trás da escuridão do passado dela. Mas enquanto um inimigo se aproxima, Blue terá que deixar Evie ir para mantê-la segura — mesmo que prefira morrer a viver sem ela.

 

 

 

 

CORBIN BLUE COLOCOU A SUA namorada de lado, deu seu sorriso patenteado de quem acabou de sair da cama e encarou as câmeras, interpretando o papel de safado irreverente com perfeição. Como sempre.

Na realidade, ele é o Melhor Espião e Assassino do Mundo (essa marca registrada ainda estava pendente), com a habilidade singular de matar todos ao seu redor com apenas um pensamento. Que pena que homicídio em massa não estivesse na ordem da noite.

Outra leva de flashes quase o cegou, e vozes assaltaram seus ouvidos.

— Blue! Noelle! Aqui!

— Vamos ouvir os sinos da igreja no futuro agora que a Ordem do Novo Mundo legalizou o casamento entre humanos e extraterrestres?

— Blue, como se sentiu ao quebrar a coluna de Mack no jogo da semana passada?

A multidão ficou em silêncio, desta vez disposta a esperar pela sua resposta.

— Senti que deveria ter batido mais forte. — ele disse. Futebol americano era o seu disfarce. E Mack, bem, ele era o zagueiro dos Strikes, o segundo melhor time na Liga Nacional de Futebol Extraterrestre, e era um efeito colateral.

Além disso, não é como se o cara tivesse sofrido por mais que alguns dias. Ele era Arcadian, como Blue, e se curava com uma rapidez sobrenatural. Na verdade, o filho da mãe arrogante já estava recuperado.

Noelle bateu no peito de Blue, seus olhos cinzentos brilhando de modo travesso.

— Está esperando por um dano mais permanente da próxima vez. — ela anunciou com sua voz de eu-só-quero-é-ficar-nua.

Enquanto ofegos de choque e alegria rolavam pelos paparazzi — os tubarões sentiram cheiro de sangue — Blue levou Noelle até o salão de baile lotado do hotel que foi transformado em um país das maravilhas cintilante. Flores multicoloridas penduradas no teto e veludo negro incrustado com luzes de falsos diamantes cobria as paredes.

Uma coleção de perfumes aromatizava o ar, misturada à efervescência do champanhe e ao cheiro de salmão defumado em bolachas salgadas com ervas servidas em bandejas por mais de cem garçons.

As mesmas conversas que Blue já ouviu um milhão de vezes ecoavam.

— O que está vestindo?

— Ouviu falar em... Blá, blá, blá.

Dois minutos daquilo e a Operação Canção de Ninar já estava entediando.

Qual é, pessoal? Vamos tentar uma coisa nova por aqui. Ele amava seus dois trabalhos e certamente era ótimo em ambos, mas nada mais o desafiava. Tudo vinha tão fácil. De missões a jogos… e mulheres.

Onde estava a diversão? A excitação? O perigo?

— Depois de falarmos com todos — Noelle bebia uma taça de champanhe — vamos fugir para o banheiro e transar.

Não podia suspirar. Ele checou o relógio. Dez e trinta e quatro. Ele teria tempo para uma rapidinha “vamos-ou-não-vamos-ser-flagrados”? Não, provavelmente não. Mesmo que esperasse que o plano daquela noite encontrasse zero problemas, sabia que seria melhor agir como se o pior pudesse acontecer.

— Desculpe, Elle. Não dá. — Para impedir qualquer resistência, ele disse. — Não é assim que agimos em público, é?

Ela abaixou a cabeça, vergonha tingindo suas bochechas.

— Acho que não.

E o prêmio de Namorado do Ano não vai para Corbin Blue.

Ele odiava dar o tratamento de criancinha malcriada para Noelle, mas às vezes era o único jeito de impedir que ela, de maneira não intencional, arruinasse uma missão.

Ela era uma boa garota, embora praticamente criasse presas e chifres quando alguém atiçava seu temperamento. Apesar de Dra. Doçura e Senhorita Diabo que ele de fato gostava, ela não era seu tipo. Ela não fazia ideia que foi escolhida a dedo pelo seu chefe e mentor, Michael Black, ou que Blue trabalhava para o governo e que ficou com ela durante o último ano apenas por suas conexões.

Ela achava que eles estavam apaixonados.

Sim, ele era um total imbecil por mentir para ela. Sabia disso e tentava recompensá-la com orgasmos.

— Espere só até chegarmos em casa… — sussurrou esperando apaziguá-la. Ele beijou a depressão em seu pescoço antes de andar pela multidão.

Pessoas inteligentes saíam do seu caminho. Ele tinha a reputação de causar “derramamento de sangue desnecessário” em um esporte enaltecido pela sua brutalidade, e como Arcadian, uma das raças mais temidas que já atravessou a ponte das fendas que se abrem entre os mundos para viver na terra, ele possuía incontáveis habilidades sobrenaturais. Não que os bons cidadãos do mundo soubessem sobre a maioria delas.

Como, por exemplo, o fato dele conseguir lançar o hotel pelos céus se alguma vez libertasse o poder que fervia dentro de si. Podia fazer com que certo número de pessoas fizesse qualquer coisa que quisesse só com algumas palavras. Podia curar os outros com só um toque, embora precisasse receber a dor que sentiam. Conseguia drenar a vida alheia com a mesma facilidade.

Podia fazer milhares de outras coisas, mas só raras pessoas conseguiam sentir realmente a energia que vibrava dentro dele.

Ele vasculhou o mar de rostos procurando por sua equipe. Avistou John Sem Sobrenome primeiro. O Rakan de pele dourada detestava multidões, mas ali estava ele, vestido em um fraque de garçom, oferecendo a uma senhora uma taça de vinho tinto enquanto a mulher atrás dele lhe dava uma boa e velha fodida com os olhos.

Eeeee… lá estava o enorme e monstruoso Solomon Judah de pé em frente a uma fileira de portas que davam para o terraço panorâmico agindo como segurança. Nem mesmo os amigos mais próximos de Solo conheciam suas origens. Só sabiam que deviam se afastar o máximo que pudessem sempre que seu lado mais sombrio o dominava. Ele fazia o Hulk parecer um bebê depois que lhe tomaram o seu cavalinho.

Blue, John e Solo se conheceram há duas décadas depois que Michael resgatou cada um deles de lares arruinados. Ou, no caso de Blue, de uma rua escura. E embora eles tivessem ido parar em famílias diferentes, juntavam-se toda semana para treinarem e rapidamente formaram um laço. Eles tinham trabalhado juntos, matado juntos… e, no fim, salvado um ao outro. Não havia quem Blue amasse mais.

Uma risada baixa e rouca passou pelo caleidoscópio de ruídos para acariciar os seus ouvidos. O sangue em suas veias esquentou, surpreendendo-o. Deixando-o interessado. Músculos tensos com uma avidez repentina, procurou pelo salão a fonte — ali.

Aí entraram em ação os efeitos especiais em câmera lenta. Seus arredores borraram, uma única mulher se tornando o centro de sua atenção. A única coisa que notava. Ela não estava de frente para ele, e sim de lado. Seu vestido era de um azul safira, o tecido colava ao seu corpo esguio até se abrir aos seus pés e se estender atrás dela como ondas no mar.

A comparação combinava. Ela era uma isca e tanto para um homem, e ele já foi fisgado e puxado. Seu cabelo tão negro quanto a noite caía em cachos pelas costas como fitas longas e brilhantes. Pele branca com tons de rosa pálido resplandecia como se tivesse acabado de rolar da cama — não completamente satisfeita, já que não tinha rolado da sua.

Cinco minutos a sós com ela. Isso era tudo que precisava para levá-la do “não completamente” ao “absolutamente”. Ela estava, de modo impressionante, animada ao falar com uma mulher loira em um vestido vermelho, as mãos se movimentando no ar. Então virou em sua direção sorrindo, claramente procurando alguém. Seu olhar passou por ele sem se deter — mas que diabos? — enquanto apontava e a outra garota assentia.

A força da sua beleza o atingiu. Seguida pela sua identidade. Sua boca secou no momento em que percebeu que estava cobiçando ninguém mais, ninguém menos, que Evangeline Black. A filha mais nova de Michael.

Início dos vinte, adorável… e completamente fora dos limites.

Blue tinha que saber que ela estaria ali entre os ricos e famosos, celebrando oitenta anos de paz entre humanos e extraterrestres. Mais cedo, Michael havia lhe mostrado uma foto dela.

Fique de olho nela, mas não a toque, ele disse com seu tom incisivo. Não consegui ser um pai para ela enquanto crescia, então estou compensando minha ausência agora. Ela jamais pode vir a ser uma conquista.

Deflorar a prole de um homem que respeitava? Nunca.

Na foto ela parecia inocente e bonita, então não teve problema algum em garantir a Michael que suas intenções eram puras. Sem problemas foi o que disse.         Pessoalmente ela parecia libertina e linda de morrer, e Blue estava com problemas controlando a própria respiração.

Deflorar? Com prazer.

Aparentemente, ela passou a maior parte da vida fora do país com a mãe, e os dois últimos anos treinando em segredo com o pai. Hoje era sua última lição. Michael queria que ela caísse no meio de uma missão sabendo o mínimo possível dos fatos, vendo apenas fotografias da sua equipe.

— Oh, não. Minha mãe acabou de me ver. — murmurou Noelle, lembrando-o de sua presença. — Tenho que me esconder antes que ela me encurrale e fale sobre todas as formas em que a decepcionei. Vem comigo?

— Tenho que dizer “oi” à filha do Michael. — disse arrancando o olhar da garota de cabelos negros.

Noelle fez uma careta.

— Acho que levou a pior. Boa sorte.

Pior do que a gêmea idêntica do diabo?

— Espere. — segurou a namorada pelos ombros. Exatamente. Você tem uma namorada. Lembre-se disso. — Você a conhece?

— Nós nos conhecemos na última vez que fui a Westminster. Vamos apenas dizer que ela é inesquecível e deixemos assim. Por que arruinar a surpresa?

Inesquecível não era uma coisa ruim.

— Ela superou você? Bem, duvido que terei o mesmo problema. Acontece que sei bem como encantar as damas. — Uma pontada de culpa acompanhou as palavras. Se ela soubesse metade das coisas que fez…

Ela sorriu com uma antecipação travessa e lhe deu um pequeno empurrão na direção da Srta. Black.

— Vá encantá-la então. Dê tudo o que tiver. Pode me contar tudo quando chegarmos em casa — depois de cuidar do Ranger Azul e dos seus amiguinhos adoráveis.

Ninguém poderia ser tão ruim quanto Elle o estava levando a crer.

Quando ela correu para evitar a mãe, Blue mirou Evangeline. Ele se sentia um caçador que havia acabado de avistar a mais deliciosa das presas. Ao seu lado, notou o cheiro de mel e amêndoas que emanava dela.

O fogo em suas veias chiou e fez fumaça.

— Muito linda. — ela dizia à bela loira, sua voz com sotaque macia e rica, sua risada bem parecia com uma carícia. — Sério. Pelo menos uns dez caras já tiraram mentalmente a sua calcinha. Só estou surpresa por ainda não ter sido multada por exposição indecente.

A garota riu por trás da mão.

Aproveitando a oportunidade, ele disse.

— Srta. Black. Eu sou...

Ela sorveu o ar, a ação tão inerentemente sensual que seu corpo respondeu como se ela tivesse metido a mão dentro da sua calça e agarrado seu membro. Cuidado.

Quando o sorriso se dissolveu, ela virou em sua direção. Seus olhares se chocaram, prenderam, e ele experimentou um choque instantâneo de tensão sexual. Os olhos dela eram de um marrom rico da cor do chocolate, e quanto mais o olhava, mais suas pupilas dilatavam.

Um sinal de atração.

Estou ferrado.

— Sei quem é você. — ela disse finalmente, seu tom não entregando nada. — Você é Corbin Blue. Quebrador de colunas e corações. Uma lenda dentro e fora do campo. E um instrumento completo e absoluto.

Um instrumento. Como forte, confiável. Capaz de consertar qualquer problema. Ele assumiria que era isso que estava querendo dizer.

Ele passou a língua nos dentes. Charmoso. Tomando sua mão — não que ela tivesse oferecido —, ele depositou um beijo em seus dedos. A pele era surpreendentemente calejada e cheia de cicatrizes, ainda assim deliciosamente morna, e pela primeira vez na vida, vibrou de fato em contato com outra pessoa… como se ele fosse uma mulher que estivesse exagerando na dose de comédias românticas melosas. Recriminou-se mentalmente.

— Por favor — disse com os dentes cerrados —, me chame de Blue.

As bochechas dela ficaram rosadas quando se desvencilhou de suas mãos.

— Suponho que possa me chamar de Evie.

Tom formal, mas oh, aquele rubor… ou era um sinal de uma atração mais profunda?

De qualquer forma, ereção instantânea.

Não pode pensar nisso com essa, lembra? Mesmo que Blue estivesse apenas usando Noelle, ele nunca a traiu — exceto quando o trabalho exigia. Não começaria agora. Especialmente com a preciosa de Michael.

Com os olhos estreitos, Evie apontou para ele com o polegar e disse à loira.

— Ele é exatamente o tipo de homem do qual eu a alertei. Belo por fora, veneno por dentro. Fique bem, bem longe.

Irritação foi que nem um gancho em seu peito, arrancando várias outras emoções mais perigosas. Ela nem o conhecia e ousava falar dele daquela forma? Essa aí você leu errado. Não tem chance de estar atraída.

A loirinha era alguns anos mais nova que Evie, provavelmente não tinha mais de dezoito, bem como mais baixa, com mais curvas, e nem de perto tão confiante. Ela espiou o chão ladrilhado em preto e branco ao dizer.

— Encantada em conhecê-lo, Sr. Blue. Eu sou Claire.

Ele arqueou uma sobrancelha para Evie.

Ela elaborou, sua expressão suavizando.

— Claire é minha irmã. Por parte de mãe, não de pai.

Ela claramente adorava a garota.

Ele tentou tocar a mão de Claire, mas Evie se colocou entre eles, bloqueando-o. Segurando Claire pelos ombros, ela disse.

— Querida, vou ter uma conversinha com Blue, então vou deixá-la por alguns minutos. Vai ficar bem?      

Claire ofereceu um sorriso certo e largo.

— Sim, claro.

Depois de beijar a garota na bochecha, Evie se virou e enganchou o braço no de Blue, praticamente o arrastando pela multidão de convidados risonhos e falantes. O calor que ela irradiava atravessou o tecido do seu terno, acariciando sua pele. Era bom. Bom demais. Ele engoliu uma porção de palavrões.

— Vou ser direta e sempre serei sincera com você, não importa o quanto cruel possa parecer. — ela disse, acenando para um conhecido ao passar pelo salão. — Começarei com essa pequena verdade. Não estou interessada em ser legal com você. Estamos aqui por uma razão. Vamos logo tratar do assunto e depois cada um vai para o seu lado.

Levou um momento para que ele percebesse que ela falava sério. Mulheres simplesmente não falavam com ele daquele jeito. Elas se abanavam. Flertavam. Provocavam.

— Matei seu gato ou coisa parecida e não me lembro? Qual é o seu problema comigo?

— Por onde começar? — ela disse suspirando. — Oh, eu sei. Que tal pelo fato de você ser um galinha? Ou prefere o termo “vadio”? — O seu sentido de irritação aumentou. Não era de admirar Noelle ter lhe avisado sobre a garota.

— Viveu a vida de modo tão perfeito que ganhou o direito de me julgar?

John parou na frente deles e estendeu uma bandeja de bolinhos de siri com os olhos dourados brilhantes de determinação.

— Posso providenciar algo, senhor?

Blue queria dizer: Uma mesa de tortura e um chicote. Mas não disse. John encontraria um modo de lhe conseguir esses itens.

— Por enquanto nada. — murmurou, arrastando a garota em direção ao terraço.

— Você é surdo? — ela exigiu saber, retornando a conversa como se nunca tivesse sido interrompida. — Todos menos sua namorada sabem dos seus casos. Alguma vez já namorou alguma e não traiu? Espere. Não responda. Se minha opinião sobre você decair ainda mais, ficarei tentada a matá-lo — do mesmo modo que estou tentada a contar a Noelle o que está fazendo com ela. Acontece que gosto dela e acho que merece coisa melhor.

Tudo bem. Vamos lá. O pior aconteceu.

Com os dentes rangendo, ele conseguiu dizer.

— Você sabe por que fiz o que fiz.

— Sim, e a qualquer hora poderia ter dito não a Michael. Meu palpite? Você gosta de distribuir seu suquinho do amor pelas costas da sua namorada. — ela disse.

Suquinho do amor? O quê, eles tinham catorze anos?

Antes que pudesse comentar, ela tropeçou nos próprios pés, surpreendendo-o com sua falta de jeito quando foi tão graciosa momentos atrás e bateu em...

No alvo deles, ele percebeu. A esposa de um oficial do governo. Uma mulher que não tinha ideia de que foi pega vendendo os segredos do marido para quem pagasse mais.

— Perdão. — Evie disse a ela. — O idiota grandão aqui não aprendeu a dividir a passagem.

Blue mordeu a parte de dentro da boca em um esforço de liberar a tensão. A atração que inicialmente sentiu pela filha de Michael Black estava em processo de murchar, e isso só colocava um fim ao trabalho. Ele moveu o braço à sua cintura, prendendo-a contra o corpo, só no caso dela decidir fugir da ira que estava por vir.

As curvas do corpo dela se moldavam perfeitamente ao seu. O calor dela queimou sua palma do melhor jeito possível.

Não que tivesse notado.

— Tem ideia do que acabou de fazer? — ele rosnou baixinho.

— Claro que tenho. — ela respondeu, usando a linguagem que Michael ensinava aos seus agentes. Uma linguagem de sua própria criação, garantindo que ninguém mais a entendesse. — Já cuidei das coisas. Nosso alvo morrerá nos próximos cinco minutos.

Ele sacudiu a cabeça, mas isso apenas intensificou sua confusão.

— Do que está falando?

— Eu a perfurei com o meu anel. — Ela levantou a mão e mexeu os dedos. Uma safira do tamanho de uma noz brilhava de modo inocente.

— Você o quê? — ele gritou. As pessoas em volta olharam feio para o seu lado. Com os lábios apertados para silenciar uma corrente de palavrões, ele puxou Evie passando pelas portas do terraço e por Solo.

Solo os encerrou do lado de fora, dando-lhes um momento de privacidade.

Quando Evie o encarou, Blue ficou irritado ao perceber que a atração não havia morrido como pensava. Sob a luz da lua a mulher era uma deusa, e ficou momentaneamente abobalhado. Sua pele clara brilhava, fazendo-a parecer uma pérola de valor inestimável presa em um mar escuro.

Então ela abriu a boca e arruinou tudo.

— Você me ouviu. — disse, seu tom esnobe. Ela levantou o queixo. — Acabei de fazer o trabalho que era seu. A propósito, não tem de quê.

Harpia!

— Sua arrogância não tem precedentes.

— Obrigada. — Ela mexeu no cabelo como se ele tivesse acabado de lhe fazer o maior elogio.

— E não é merecida. — ele terminou cuspindo as palavras. — Isso vai matar alguém.

Ela franziu o cenho de modo adorável.

— Não é o objetivo de toda a operação desta noite?

— Quando falei de alguém, eu me referi a você. — ele corrigiu.

— Está com inveja? É disso que se trata?

Ele bufou.

— Inveja? Por favor. — Talvez um pouco.

O sorriso dela foi pungente e frio como uma lâmina.

— Mentiroso. Mas acho que essa vai ser uma verdade bem difícil para você. Estou só ficando melhor. E muito. Sou tão boa em defesa quanto em ataque.

Não posso matá-la.

Ela é a filha de Michael.

Você respeita Michael. Você o ama.

Se ele tivesse que lembrar a si mesmo mil vezes, era o que faria. E quanto foi tolo ao desejar um desafio? Desafios eram uma merda.

— Só para que saiba, farei uma avaliação da sua performance, Srta. Black.

— Ótimo. Vou fingir que me importo.

Michael não é um amigo tão bom assim, ele decidiu.

— Você não é tão superior quanto acha que é. Não tem experiência de fato. — Uma leve soprada de vento fez com que uma mecha de cabelo dançasse por cima do decote em “v” profundo do vestido, atraindo sua atenção para o local. Seios pequenos do tamanho de xícaras de chá perfeitamente exibidos. Ele cerrou os punhos. — A morte do alvo devia parecer natural.

— E assim será. Usei uma poção de minha criação. Completamente não identificável.

— Nada é completamente não identificável.

— Não viu meu trabalho. Ainda.

Ele passou uma mão pelo rosto. Não conseguiria ganhar com aquela garota, conseguiria?

— Deveria colocá-la nos meus joelhos.

Ela riu com escárnio.

— Uma surra? Sério? Essa é a sua solução?    

— Pra começar. — Ele não contemplaria como desejaria terminar.

— Por que está com tanta raiva, afinal? Não é como se tivesse muitas escolhas. Não podia atirar nem esfaqueá-la. Sua única opção real seria transar com ela até que morresse.

Acho que odeio essa garota.

— Olhe. — ela disse com um suspiro. Os olhos escuros suavizaram, revelando… uma pitada de vulnerabilidade? — Admito que estava predisposta a não gostar de você, John e Solo por que... Bem, não importa. O problema é meu e estou tentando lidar com ele. Sinto muito se fui muito dura com você, mas precisava matar dessa vez.

Blue sempre foi capaz de sentir as emoções dos outros. Na verdade, ao começo de cada dia, ele desativava propositalmente todas as coisas relacionadas à empatia. Só que as emoções de Evie eram tão fortes que penetravam suas barreiras. Ele sentiu a mágoa profunda que ela sentia. Uma raiva desmedida. Um medo aterrador.

Por quê?

Estava desesperado pra saber.

Desesperado? Ele?

Nunca.

Afastou-se dela. Acabe com isso agora. Agora.

— Desculpas aceitas. — disse. — Para futura referência, você cometeu dois erros críticos esta noite. Não trabalhou em equipe — nem com o plano que já tínhamos em ação — e permitiu que sua arrogância a conduzisse. Essa é a melhor forma de tomar as piores decisões. Você não será a única a morrer.

— É mesmo? — Os olhos estreitos dela olharam para trás dele observando a festa que ainda acontecia a pleno vapor além das portas. — Calibrei o veneno para a massa e química corporal específicas do alvo. Se meus cálculos estiverem corretos, esta missão terminará em três, dois, um…

Alguém gritou.

Passos frenéticos soaram. Evie sorriu, todo toque de vulnerabilidade sumiu.

— O alvo agora foi embalado e marcado. Tudo graças a mim. Boa sorte da próxima vez, Sr. Blue.

 

                         Quatro anos depois

Evie Black executou o seu quinquagésimo salto na piscina enorme e retangular que ocupava metade do seu quintal. O sol brilhava forte, aquecendo sua pele do mesmo modo que a água. Caro. Durante a guerra humano-alienígena, uma boa porção do suprimento mundial foi contaminada.

Mas na época, ela era obscenamente rica e não se importava com nada.

Também tinha um trabalho fantástico. Aos vinte e seis anos, era a cirurgiã mais jovem do St. Anthony.

Não era a vida que ela em algum momento visualizou para si mesma, mas de qualquer modo era uma vida boa.

Então por que se sentia tão completamente insatisfeita?

Cinquenta e um.

Tinha que estar faltando alguma coisa. Não era um homem.

Cinquenta e dois.

Ela não tinha tempo pra namorar. Além disso, não havia ninguém com quem quisesse sair. Seus hormônios estavam em hibernação, e estavam assim há anos.

Cinquenta e três.

Desde Claire.

Não. Não, não, não. Não era uma linha de pensamento aceitável.

Cinquenta e quatro.

— Eden Black requisitando uma videoconferência. — anunciou uma voz computadorizada.

Perfeito. Uma distração.

— Procede. — disse Evie, e nadou até a escada da piscina. Ao sair da água o holograma de sua irmã apareceu na sua frente.

Eden Black era uma bela mulher. Uma das raras Rakans que já vieram ao planeta, com olhos, pele e cabelos dourados. Adotada por Michael, treinada como agente. Uma das melhores. Respeitada por nomes como John Sem Sobrenome, Solo Judah, e — por mais que odiasse admitir — Corbin Blue.

Os homens que o seu pai amava como se fossem carne de sua carne e sangue de seu sangue.

Aquele sempre foi um ponto sensível para Evie, que não tinha conhecido Michael até o seu aniversário de dezoito anos. E dez anos depois disso, só o viu em ocasiões que dava para se contar nos dedos de uma mão. Ainda assim, ele parecia não funcionar sem o Trio Dinâmico.

Por que ninguém me quer por perto? Era mesmo assim tão terrível?

Blá, blá, blá. Bebezinha! Pare de choramingar.

Ela culpava a Síndrome dos Sem Pais. Pela maior parte da sua infância assumiu que Michael a odiava e isso acabou com ela. Até mesmo agora, sabendo que esse não era o caso, lutava com os seus problemas de autoestima. Mas ao menos estava a caminho de uma recuperação. Primeiro passo: admitir o problema.

— Olha só a Senhorita Gostosona no seu biquininho minúsculo. — disse Eden, mexendo as sobrancelhas. — Ai, que inveja.

Evie foi até a espreguiçadeira para pegar a toalha, o holograma de sua irmã se movendo com ela para que sempre ficassem uma de frente para a outra. Antes de se secar fez uma pose e disse.

— Obrigada, obrigada. Eu tento.

Eden revirou os olhos.

— Bobona.

Dificilmente. Todas as outras pessoas chamavam Evie de mimada e esnobe, uma garota que só gostava de farrear e que não tinha papas na língua, que deixou o dinheiro do pai lhe comprar uma carreira que não merecia. Bem, tente excessivamente sincera. E desconsidere o fato de Evie não ir a uma festa de verdade há anos.

— Outro trabalho? — ela perguntou, esfregando o cabelo entre as camadas de tecido.

— Sim. Michael quer que eu faça um reconhecimento rápido do interior de uma prisão em Xangai. Vou pegar o transporte amanhã de manhã e não sei quanto tempo passarei lá.

— Cara...

— Eu sei. — Eden fez bico por um momento, depois se animou. — Ei, pule no avião e venha comigo. Podemos lutar com as internas em dupla.

Ela nem tentou esconder o calafrio.

— Prefiro ser cortada e vendida em partes.

— Qual é, Evie? Já faz três anos desde que...

— Não toque no assunto. — ela se apressou. Lembrar doía. Doía muito.

Sem se deixar abater, Eden disse.

— Você precisa se perdoar.

Preciso? Não.

Alguma vez se perdoaria? Outra vez não.

Bem, inferno, por que não se lembrar? Ela pensou então. Merecia a dor.

Certa vez Evie estava desesperada pra provar seu valor a Michael. Pra superar seus adorados garotos. Pra ser forte como Éden. E a princípio, ela conseguiu. Mas a cada missão, a cada vitória, sua confiança crescia e sua arrogância se intensificava — até que bum!  

O que Blue previu aconteceu.

Ela levou o pior tipo de criminoso direto à porta de Claire. Doce e inocente Claire. Brutalizada. Assassinada.

Morta.

Ácido corroeu o estômago de Evie e lançou-se abrasador em suas veias.

Ela saiu da agência de Michael e passou os meses seguintes saindo cada vez mais de controle. Então Éden invadiu sua vida e literalmente a surrou até que visse as coisas com lucidez, voltando assim a se levantar. Ela até terminou antecipadamente a residência no hospital.

Seu pai ainda a usava em um trabalho ou outro, mas só como um trunfo quando precisava infiltrar outro agente em algum estabelecimento ou festa de alta classe. Ele nunca a usava como assassina.

— Tudo bem. — disse Éden com um suspiro. — Garota teimosa. Eu sofrerei durante missão completamente sozinha.

— Como se fosse mesmo sofrer. — Evie entrou na casa, a imagem da sua irmã permanecendo ao seu lado. Ar frio beijou sua pele nua quando passou pelo sofá de couro, pela mesinha de centro de vidro e pela televisão de holovisão de quarenta polegadas. — Garanto que seu namorado dará um jeito de entrar na prisão para satisfazer todos os seus desejos. — Lucius Adaire também era um agente e vivia para fazer Éden feliz.

— Verdade. — O sorriso de Éden era sonhador. — Falando em namorados… está saindo com alguém?

Evie parou na cozinha para encher uma taça de vinho.

— Você faz essa pergunta sempre que nos falamos e a resposta nunca mudou. O que a faz pensar que hoje seria diferente?

— Porque você não é a megera de coração gelado que finge ser, e um dia vai sair desse torpor e querer que algum cara a pegue forte e de jeito.

— De jeito nenhum.

Não tão rápido.

Uma imagem de Corbin Blue apareceu em sua mente. Embora ele tivesse o cabelo branco e os olhos cor de lavanda tão perfeitos de sua raça Arcadian, tudo mais nele era somente seu. Pelo menos um metro e noventa e oito de pura força bruta, tinha um corpo preenchido por músculos de dar água na boca que ganhou jogando futebol. Que nome mais bobo para aquele esporte. Ele tinha o rosto de um anjo, tão lindo que às vezes doía olhá-lo. Também tinha o sorriso do diabo. Perverso. Absoluta tentação.

E poder — uau, aquele homem estalava de poder. Ficar perto dele bastava para arrepiar os pelos de sua nuca. Quando se encontraram pela primeira vez, Evie ficou embasbacada pela visão bem de perto que teve dele e lutou de um modo bem desajeitado para conseguir erguer suas defesas impenetráveis. Ele não era apenas o namorado de uma conhecida, mas também tinha a reputação de um rato de esgoto.

Ser apenas mais uma de suas conquistas não exercia encanto.

Ao menos Noelle Tremain tinha criado juízo e dispensado o filho da mãe convencido depois do baile de gala de paz. Não que ele tivesse ligado. No passar dos anos saiu com mais mulheres do que era possível contar — todas loiras, todas com seios fartos, deixando perfeitamente claro para Evie que ela nunca foi nem nunca seria seu tipo.

Então ele conheceu Pagan Cary. Mais loira e mais peituda do que qualquer uma das outras. Os dois estavam juntos há vários meses e agora tinham noivado. Pra ser sincera, o relacionamento deles confundia Evie.

Blue foi pego traindo Pagan ao menos uma dúzia de vezes. Emissoras de notícias amavam lançar as fotos explícitas das suas aventuras.

Galinha!

E mesmo assim, Pagan continuava com ele. A garota nunca parecia se importar com o que ele fazia. Na verdade, a garota era associada a vários outros homens.

Muito embora… ela entendesse por que as mulheres caíam sob seu feitiço. Realmente entendia. Aquele sorriso de derreter calcinha… quando o lançava na sua direção, você se sentia a única mulher do planeta. A amante dos seus sonhos mais eróticos. A outra metade do seu coração.

Eu sou patética.

Mas, diferente das outras mulheres, sabia que ele era um selvagem, que não seguia nenhum tipo de código moral. Era seguro, imparcial e vivia pelas suas próprias regras — mas até mesmo essas ele às vezes ignorava. E era calculista. Ninguém jamais seria capaz de impedir que chegasse onde queria, não importava onde fosse.

Não, obrigada.

Então por que estou tremendo?

Porque está frio. É. É por isso.

— Alô. Ainda estou aqui, viu? Estava falando de todos os caras que arrumei pra você escolher. Quando chegar a hora, é claro.

A voz de Éden arrancou Evie de seus pensamentos e piscou para voltar a se concentrar. Encostou no bar da cozinha, seu copo de vinho parado a meio caminho da boca.

— Desculpe. — murmurou. — Não estava ouvindo.

— Obviamente. Você está corada, e sei que minhas descrições não eram assim tão divertidas. — sua irmã disse, seu tom repentinamente travesso. — Em exatamente o que… ou em quem… você estava pensando, hum?

Evie tirou uma uva da tigela de temperatura controlada do centro do balcão e a atirou na irmã. A pequena fruta verde atravessou a imagem agora risonha de Éden.

— Tão libidinoso assim, hein?

— Adeus, Éden. — ela disse com secura.

— Tchau, Eves.

Elas sorriram uma pra outra por uma fração de segundo antes do holograma desaparecer.

Com um suspiro, Evie apertou o botão de ligar do controle remoto da TV e a tela da cozinha acendeu.

Um jovem repórter bonito estava na frente de um completo caos. Fumaça soprava pelo ar criando um plano de fundo sinistro de absoluta carnificina. Proprietários de residências estavam espalhados pelos pátios de suas casas, observando os bombeiros e a polícia que adentravam sobre pilhas e pilhas de escombros queimados.

— Um homem não identificado foi levado às pressas ao hospital mais próximo. — o repórter dizia. — Fomos informados que está em estado grave, e ainda assim de algum modo desapareceu cinco minutos após sua chegada. Ninguém parece saber o que aconteceu com ele.

Um endereço apareceu na tela e Evie ofegou. O endereço da casa de Michael.

Tremendo, ela colocou o copo de lado e pegou o celular.

— Michael Black. Pai. — A linha tocou, um ruído abrasivo em seus ouvidos.

Ela foi direto para a secretária.

Ela nunca ia direto para a secretária.

Homem não identificado… hospital… desaparecido… Tinha que ser seu pai. Se foi ferido e socorrido por civis, seu pessoal teria aparecido e o levado embora para um hospital deles. Era assim que os Black Ops operavam.

Ok. Ok. Pronto. Se fosse acreditar no que o repórter dizia, o estado de Michael era grave, mas ele estava vivo. Se Evie se apressasse poderia chegar ao hospital em meia hora. Poderia ajudá-lo.

O mais rápido possível recolheu as coisas e pulou no carro. O sol estava escondido por trás das nuvens quando decolou pela estrada a uma velocidade que carros não deveriam ser capazes de alcançar. Mas também, a maioria das pessoas não podia reconstruir o sistema sensorial do mesmo modo que ela, nem sabiam que poderiam desabilitar limites de velocidades preestabelecidos.

Você pode tirar a garota da agência, eu acho, mas não a agência da garota.

Felizmente, escudos vendidos ilegalmente impediam que fosse avistada por qualquer policial nas vizinhanças.

Quanto mais se afastava de sua casa, menos prédios e lojas apareciam até desaparecerem por completo. Finalmente seu destino surgiu. Um bloqueio de metal cercava uma estrutura irregular com paredes escuras de concreto e escudos protetores ao invés de janelas.

Canhões de luz de halogênio iluminavam o solo do teto parecido a uma torre, caçando qualquer sombra.

Ela parou no portal frontal. Um segurança armado — humano — se adiantou para bater em sua janela.

Ela abaixou a partição e mostrou a identificação da qual nunca se desfez.

Ele sacudiu a cabeça.

— Sinto muito, Srta. Black, mas hoje ninguém entra.

— Só estou aqui para ver meu pai e...

— Sinto muito, Srta. Black, mas precisa dar meia volta agora.

Ah! Ela tentou outra vez.

— Que inferno, é meu pai.

— Sinto muito, Srta. Black, mas nenhuma informação pode sair. Nem pra você. Nem para ninguém.

Não posso matá-lo. Michael estava lá dentro?

Com certeza. Por que mais aquele guarda agiria daquele modo senão para proteger seu pai de coisa pior?

— Pode apenas me dizer...

— Não. — ele disse, uma mão acenando para que ela recuasse, a outra se fechando em volta de sua pyre-gun. — Agora, sugiro que vá embora antes que eu seja forçado a obrigá-la.

— Gostaria vê-lo tentar. — ela retrucou. Com o toque em um botão poderia temperá-lo com balas.

— Mas vamos deixar nossa briga para outra hora, sim? — Ela deu a marcha ré, salpicando cascalho no rosto dele.

Em casa juntaria os equipamentos que trancou em seu porão há três anos. Então invadiria as instalações da agência e abriria as portas de todos os tipos de inferno possíveis. Ninguém a mantinha afastada das pessoas que amava.

Ninguém.

 

DEPOIS DE UMA REUNIAO DE UMA HORA com Michael, Solo e John, Blue recebeu uma nova missão: Operação Lata de Lixo. Um novo alvo: Gregory Star. E uma nova mulher para seduzir e obter informações: Tiffany Star.

A noiva de Blue, Pagan Cary, não fazia ideia de que ele tinha uma vida dupla, mas descobriria o que aconteceu com Tiffany. O mundo inteiro descobriria. Blue não tentava mais esconder seus “affairs”.

Acabou mesmo de colocar essa palavra entre aspas? Você tem affairs de fato.

É, mas as aventuras de uma só noite não são pelo meu prazer. São pelo meu trabalho. Portanto, não contavam.

Fale isso para a Peste Negra. Seu apelido para Evie. Na verdade, tinha uma porção de apelidos para a Senhorita Evie. “Ratel[1]” era o seu segundo favorito.

Não pense nela ou sua raiva vai te provocar um surto de poder.

Bem no início do seu relacionamento com Pagan, disse a ela que sempre haveria outras mulheres. Ela não se importou na época nem se importava agora. Ficava com ele pelo seu corpo, seu dinheiro, sua fama, e não necessariamente nessa ordem.

Pra ele tudo bem, porque estava com ela pela conveniência. Uma esposa evitaria que as outras planejassem um futuro com ele.

Pesado demais? Talvez. Mas, no fim, bem mais piedoso.

— Tenho um pressentimento ruim sobre essa missão. — murmurou Solo.

— É porque ela vai ser uma droga. — respondeu John na mesma altura.

— Do que vocês estão reclamando? Eu é que vou ter que pôr as mãos e outras coisas na massa. — disse Blue enquanto ia na frente do par até a porta de entrada do escritório de Michael. Ele virou a maçaneta preparado para sair.

Bum!

Uma explosão violenta de vento o tirou do chão e o arremessou pra trás. Ele foi esmagado contra uma parede.

Um tinido terrível e agudo vibrou em seus ouvidos, seu mundo se encolheu a uma única e diminuta bolha e tudo se transformou em branco e preto. Conseguiu respirar com seus pulmões parcialmente esmagados, e imediatamente se arrependeu. O ar queimou e formou pústulas, acendendo uma fogueira.

Lava se derramava sobre ele… pressão apertou seus membros, seu peito… algo duro caiu em sua perna e braço quebrando os ossos, e tudo se provou demais, dor o percorria, consumindo-o, derretendo-o, e então arrancando seu corpo pedaço por pedaço.

Ele perdia e recuperava a consciência, seus músculos pesados e travados demais para sequer convulsionar. O tinir em seus ouvidos eventualmente diminuiu, permitindo que ouvisse o estalar das chamas misturado a partes de diálogos — “ficar com ele.”

Blue piscou, uma façanha quase impossível. Suas pálpebras eram como dois pedaços de lixa colados. Um humano se inclinou em cima dele, um que nunca viu antes.

Pessoal de uma equipe médica?

Uma nuvem grossa de fumaça cercava o homem, ocultando suas feições.

Que diabos tinha acontecido?

Blue abriu a boca pra perguntar, mas ao invés de palavras, algo quente e molhado saiu em gargarejo e escorreu pela sua bochecha.

— Alienígena estúpido. — murmurou o homem, derramando água fria no corpo de Blue. Não, água não. O aroma pungente de acelerador feriu suas narinas. — Apostei o dobro ou nada em você pela próxima temporada. Sem você os Invaders vão estragar tudo e vou perder uma fortuna.

Um fósforo foi aceso, as chamas imediatamente capturando sua atenção. Amarelo-dourado e bruxuleante ficando cada vez maior… bem bonito… caindo… aterrissando… em Blue.

O que restava de sua camiseta agiu como um graveto, alimentando as chamas como uma deliciosa guloseima, e a pele já dizimada de Blue borbulhou e se liquefez, gotejando… pelas laterais, deixando apenas músculos… mas até eles começaram a fritar.

Um rugido agonizante explodiu de sua garganta quando forçou seus membros doloridos e petrificados a se moverem, e se sentou. Um pedaço enorme de reboco deslizou de cima dele — era aquilo que o prendia? Tanto faz. Ele bateu nas chamas até elas morrerem, só para parar e fitar com horror a condição de seu corpo. Seu braço esquerdo estava com a ponta mutilada, sua mão não estava mais lá. O resto dele era uma massa de sangue e carne. Podia ver vários ossos apontando por baixo dos músculos tostados.

O homem tropeçou para trás, ofegando.

— Você está vivo.

Uma onda de fúria ativou o poder Arcadian de Blue e foi capaz de se colocar de pé. Tontura… balançando… tanta dor… E mesmo assim, abastecido pelos instintos animais que geralmente mantinha em rédeas curtas, conseguiu tropeçar pra frente e agarrar o homem pelo pescoço, usando a mão que restava, apertando e levantando.

— Quem. Você? — Os pensamentos de Blue vinham rápido, rápido demais, e depois se desfaziam antes que pudesse separá-los e falar de modo coerente. — Por que. Matar. Eu?

Sons de engasgo. Sem palavras.

Sua fúria aumentou e Blue apertou com mais força.

O tom da pele ficou da cor de safira… violeta… olhos se arregalaram… lábios abriam e fechavam… então a coluna do homem se partiu e sua cabeça caiu para o lado.

Silêncio.

Erro.

Irritado, Blue atirou o corpo frouxo no chão.

Ele vasculhou seus arredores, surpreso com o que encontrou. Fogo aqui e ali, paredes caídas e queimadas, móveis em ruínas, entulho por todos os lados, mas nenhum sinal de John. Nenhum sinal de Solo. Por favor. Nenhum sinal de Michael também.

Foram levados? Não teriam ido sem ele voluntariamente.

Não posso ficar.

Preciso me curar. Encontrá-los. Mas para onde poderia ir?

Se uma das casas de Michael estava destruída, era seguro assumir que todas as outras estavam comprometidas.

Por ora Blue tinha que operar como se a pessoa responsável soubesse os nomes e ocupações dos três agentes que tinha acabado de tentar matar, porque só alguém que era bem-vindo à casa de Michael poderia ter inserido uma bomba lá dentro. Blue tinha que evitar suas residências então. Talvez até a de Pagan.

Pagan. Ela era um alvo também?

Precisava encontrá-la e descobrir.

Saiu dos escombros e da fumaça. Ignorando a agonia de seu corpo, saiu à luz do dia.

Sirenes cantavam à distância, o som misturado aos murmúrios em pânico dos espectadores. As duas casas ao lado sofreram bastante dano.

Um grito aterrorizado soou atrás dele.

Blue se virou, a ação quase o derrubando. Seu olhar atordoado pousou em uma mulher humana.

Ele a reconhecia. Ela vivia do outro lado da rua. Tinha quarenta e oito anos. Dois filhos. Sempre dava uma festa no Dia de Ação de Graças.

A informação o atingiu como várias balas, uma após a outra. Todas inúteis.

Ela colocou a mão na barriga, ofegando.

— Monstro.

Monstro? Ele? Provavelmente.

Não posso ficar, ele lembrou a si mesmo.

Autoridades chegariam a qualquer minuto e tentariam questioná-lo. Elas exigiriam saber quem era, por que estava ali e o que estava fazendo, e naquele estado comprometedor poderia admitir algo que não deveria.

Blue voltou a andar descendo a rua, ficando o mais perto possível das sombras.

Todos que o avistavam ofegavam com horror e saíam correndo do caminho. Ninguém perguntou se ele precisava de ajuda. Ótimo. Não precisava.

Colocando o braço arruinado contra o peito, correu em alta velocidade indo o mais rápido que seu corpo violado permitia. Era difícil, cada passo era um solavanco, agonizando-o, mas ele havia treinado para qualquer eventualidade no correr dos anos, até para algo assim. Ninguém seria capaz de prendê-lo.

Ele passou por um Shopping Center lotado — mas não antes de capturar o próprio reflexo nos vidros de uma das lojas. Seu cabelo desapareceu. Até suas sobrancelhas, e um dos olhos estava na altura da bochecha. Ele tinha um pedaço de pele do lado esquerdo, mas só isso. Tudo mais estava exposto e vermelho.

Horripilante.

Que fosse. Já sofreu ferimentos piores. Sararia. Até apareceria outra mão.

Havia a casa de Pagan. Uma casa de arenito pardo de três pisos, restaurada que comprou para ela. Quanto tempo mais aguentaria em pé? A pouca força que lhe restava diminuía a… cada… segundo…

        

Os risos o acordaram.

Blue se levantou de supetão, chiando quando uma angústia assustadora oriunda da carne queimada reclamou seu ser. Uma crosta negra havia se formado por cima dos seus músculos expostos, rachando com seu movimento. Cada um dos seus ossos parecia quebradiço, pronto para esfarelar a qualquer momento.

Ele olhou em volta, avaliando sua cercania. Paredes de um vermelho escuro, uma pia e um assento sanitário preto. Tinha conseguido entrar na casa de Pagan, percebeu, mas devia ter desmaiado no banheiro social pensando em se limpar antes de confrontá-la. Quanto tempo havia passado?

— Em três meses vou ser a Senhora Corbin Blue. — alardeou Pagan. — Dá para acreditar nisso?

— Ele é tão lindo. Todo aquele cabelo branco e sedoso… aqueles olhos cor de lavanda… e oh, aqueles lábios! Tão carnudos e vermelhos. Eu diria que eles foram feitos para uma mulher, mas ficaram lindos demais nele.

A voz da irmã dela.

— Eu sei. — Pagan disse com uma risadinha. — Ele é absolutamente perfeito.

— Mas não se preocupa com as… — a irmã dela continuou mais seriamente.

— As o quê? — incentivou Pagan.

— Bem, com as infidelidades dele.

Sua noiva bufou e sua admiração por ela triplicou.

— Ele e eu temos um relacionamento aberto. Ele me diz quando vai ficar com outra pessoa, e eu lhe dou a mesma cortesia.

— O quê! Andou com outros homens? — a irmã arfou.

— Ele acha que sim.

— Mas na verdade não andou? — A garota insistiu.

— Não.

— Mas… por que iria querer que ele pensasse que sim? Ele não fica com ciúme?

— Primeiro, homens querem o que os outros homens querem. Segundo, não, ele não fica.

Aquilo era amargura em sua voz?

— Mas e se ele se apaixonar por um dos casos dele? — a irmã perguntou.

— Blue? Se apaixonar? — Pagan ridicularizou. — Não importa o quanto ele sorria ou provoque, aquele homem tem um bloqueio emocional completo. Mas, ok, vamos dizer que ele faça o impossível e se apaixone. E daí? Eu serei sua esposa e a mãe dos seus filhos. Ele jamais vai me deixar.

Uma abertura na porta permitiu que espiasse a sala de estar onde as garotas estavam sentadas bebendo vinho.

Pagan usava um vestido colado na pele que parava bem acima da linha da calcinha. Se é que estava usando calcinha. Na maioria das noites ela não usava. Seus seios volumosos praticamente saíam do seu top de alcinhas, bem do jeito que ela sabia que ele gostava. Sua pele era um dourado amarronzado perfeito bronzeada por um sol reverente. Sexy. Um cabelo loiro platinado com um corte chique emoldurava um rosto que a maioria dos homens só veria em seus sonhos mais eróticos, mais loucos.

Ela não estava sob ataque como havia temido. Ele devia ir embora. Se revelasse sua presença, ela não o reconheceria. Quem o faria? Pode até ser que fosse capaz de convencê-la de sua identidade, mas ela insistiria em levá-lo a um hospital. Não podia se arriscar a isso.

No momento, a pessoa responsável pela sua condição poderia assumir que ele estava morto. Seria melhor para Blue — e Pagan — se essa pessoa continuasse a pensar assim.

Devia ter pensado nisso primeiro.

Agora ao menos sabia que Pagan não foi visada.

Para onde poderia ir?

Em quem podia confiar?

Quem tinha tentado matá-lo? E por quê?

E onde estavam seus amigos? Tinham sobrevivido?

Precisavam. Não acreditaria no contrário.

Escuridão… contorcendo sua visão…

Tinha que ir a algum lugar e rápido, antes que perdesse a consciência outra vez. Havia uma boa chance dele não voltar a acordar em breve.

Ninguém que jogava no time dos Invaders sabia do seu outro trabalho. Apenas Michael, John e Solo sabiam... Não, isso não era verdade. Evie sabia.

Ela ajudaria?

Ele a machucaria quando ela o irritasse? Porque ela definitivamente o irritaria. Se ele perdesse o controle de suas habilidades…

Não havia outra escolha.

Blue lutou para se pôr de pé, gemendo quando a agonia se tornou demais.

Ouviu um ofego assustado.

— Quem está aí? — perguntou Pagan, soando preocupada. Sem dar uma palavra, pulou a janela e saiu.

 

EVIE IRROMPEU NO QUARTO e correu na direção do seu closet. A chave do porão, era disso que precisava. Mas onde havia colocado a maldita chave?

— Acender luz. — disse, e a escuridão instantaneamente foi exterminada pela lâmpada do teto. Ela...

Gritou e pegou a faca que sempre deixava no bolso.

Uma criatura odiosa estava estirada em cima de sua adorada cama king-size. O que quer que fosse era do sexo masculino e grande.

Muito grande, tanto em altura quanto em largura, seus pés pendurados para fora do colchão. Sua pele era vermelha e preta — não… aquilo não era pele. Havia sangue e carne queimada. Seu corpo estava dilacerado e estava sem uma mão. Vários ossos apareciam quando não deveriam.

O cheiro de fumaça foi levado pelo ar, ferindo suas narinas.

— Evie. — a criatura disse com um gemido. — Blue.

Choque a atingiu em cheio. Ele falava com a voz de Blue e até mencionou o seu nome. E… e… ele a olhava com os olhos de Blue. Aquele lavanda adorável, normalmente cercado por cílios longos e negros que faziam parecer que ele sempre usava delineador.

— Blue? — ela exalou. De jeito nenhum. Não, de jeito nenhum.

— Não sabia… mais… para onde ir.

Hesitante, ela se aproximou da cama. Ele observava todos os seus movimentos, lembrando-a de um predador se preparando para o ataque. O que ele faria se fosse para mais perto?

Porque era ele, decidiu. Mesma altura, mesma massa corporal. Mesmo estalo de poder tão único do playboy jogador de futebol.

Um estalo que a deixou cega para qualquer coisa que não fosse luxúria nos poucos segundos da primeira vez que se encontraram.

— Preciso dizer, Blue, você já esteve mais bonito.

O som que ele emitiu podia ter um tom sarcástico. Difícil dizer quando estava gargarejando sangue.

— Como entrou aqui? — Um alarme ainda deveria estar soando.

— Janela. Desarmei… segurança. Dentro e fora. Desculpe.

Ela esticou o pescoço, olhando para a caixa de identificação que ficava no interior. Como previsto, a tampa foi arrancada da parede e os fios expostos, obviamente cortados e realinhados.

— Isso vai custar uma fortuna para consertar.

Mas só porque ela mesma é quem faria o conserto, e seu tempo valia muito dinheiro, e oh, uau, ela realmente precisava de um tempinho para conseguir processar o que estava acontecendo.

— Me mande… a conta. — ele disse entre os dentes. — Primeiro… me ajude.

— Claro, claro. — ela disse. — Vou ligar para o chefe de medicina Arcadian do St. Anthony. Carinha legal. Normalmente é preciso esperar uns três meses para ter uma consulta com ele, mas para mim ele vem atender em casa. Você, claro, vai ser o responsável pela conta, bem como por me dever um enorme favor. — Pare de falar pelos cotovelos.

— Não. Você.

Ela entendeu o que ele tentava dizer, mas queria não ter entendido. Por um ano inteiro, aquele homem a tinha ferrado sempre que foram forçados a trabalhar juntos. Nada demais, e nada que comprometeria o resultado final do trabalho — isto é, do trabalho dele. Ele a deixava sozinha. Dizia os lugares errados dos encontros, deixava-a atolada fazendo todos os tipos de papelada. Pior de tudo, ele sempre fazia uma avaliação por escrito das suas performances.

O resumo de cada avaliação? A Srta. Black fede a traseiro.

Ela o viu algumas vezes desde o assassinato de Claire quando ela colaborava com a agência. Ele sempre a ignorava, como se ela não fosse digna de sua atenção, e fazia um estardalhaço nas demonstrações públicas de afeto com a namorada da vez.

Quem quer que fosse.

O tratamento completamente idiota a atingia até o âmago, mesmo que odiasse o cara. Como se precisasse de outro homem deixando claro o ponto de que ela não era boa o bastante — pra nada!

E um homem galinha e convencido daqueles fazendo isso? Um homem disposto a montar em qualquer coisa que se movesse? Altamente humilhante.

— Ignorando? — ele disse agora. — Típico.

Eu devia fazê-lo implorar.

— Tudo bem. — ela bufou de raiva. — Vou te ajudar. — Por Michael. E em troca de informações. — Só fique ciente. Arcadians não são uma das minhas centenas de especialidades, e ficarei de olho no seu comportamento. Pode esperar meu relatório por escrito. — Falando pelos cotovelos outra vez.

Ela arrastou o olhar pelo corpo dele, o olho clínico avaliando a quantidade imensa de ferimentos, sua mente finalmente computando o quanto devia estar fraco. Suas narinas estavam negras. Ele podia ter inalado uma quantidade letal de fumaça. Ela poderia ter que pôr um tubo em sua traqueia. Isso levaria uma quantidade maior de oxigênio aos seus pulmões. Ele também precisaria de hidratação venosa.

Poderia até precisar de uma transfusão de sangue. Claramente, mais de dez por cento de suas células sofreram hemólise, e isso poderia causar disfunção renal.

Se ele fosse humano. Mas não era. Droga. Ela realmente não tinha experiência com a sua raça.

— Assumo que você não estava brincando de Atirar Outro Arcadian na Barbie, e sim na explosão que dizimou a casa de Michael. — ela disse, indo até o guarda-roupa e retirando sua caixa de “medicamentos caseiros”, como chamava. Remédios que ela… gostava de desenvolver.

— Sim. Acordei. Michael… sumiu. Todos sumiram.

Ótimo. Ele sabia tanto quanto ela. E tanta esperança tentando trocar seus serviços por informação.

— Você ficaria melhor em um hospital, sabe disso. — Mais uma vez ao seu lado, ela injetou no seu braço. — Isso deve amenizar um pouco a dor.

— Hospital não. Por favor… não. Muito… perigoso. Star… bomba… ainda poderia… — Ele se calou, a cabeça caindo para o lado.

Inconsciente? Ou morto?

O anestésico fez mal a ele?

Ela procurou um pulso, franziu o cenho. Ele não tinha — Ali! Estava bem fraco, muito leve, mas presente. Alívio a invadiu.

Evie correu até o banheiro e preparou um banho. Recolheu tudo o que precisaria — ou melhor, tudo que tinha que serviria. Tesouras, materiais para terapia intravenosa, e soros que usou na época em que praticava, bem como sabonete líquido medicinal geralmente colocado em banhos de enzima, e um recipiente de antibióticos que mantinha sempre à mão. Ela trataria Blue como trataria um humano, e esperaria que desse certo.

Colocou uma das pílulas embaixo de sua língua, rezando que dissolvesse e ajudasse a impedir uma septicemia.

Então cortou o que restava de sua roupa e removeu os seus sapatos.

Quando ele ficou — bem, não poderia dizer com a pele — mas com a carne exposta, declarou em voz alta.

— Blue, preciso que acorde agora.

Ele piscou os olhos, e gemeu.

— Não seja um bebezão. — ela disse, sendo cruel para ser gentil… talvez. — Tenho que colocá-lo na banheira, e embora possa ser forte não sou um guindaste e não consigo te carregar. — Ela deslizou o braço debaixo dos seus ombros com a intenção de ajudá-lo a se levantar, mas ele recuou ante a agonia do contato.

— Não toque! — ele berrou.

Não grite! Apesar da sua aparência calma, ela estava meio que em um torvelinho por dentro e ele só estava piorando.

— Seja um queridinho e levante sozinho. Preciso que vá até o banheiro. — Blue conseguiu se colocar de pé com dificuldade e saiu cambaleando em direção à banheira. Ela nem conseguia imaginar a enorme quantidade de força necessária para se manter em uma posição em pé na situação dele quando uma perna estava quebrada, e tentou não ficar impressionada.

— Bom garoto. Agora entre na banheira. — disse.

Ofegando e fazendo careta, ele afundou lentamente na água.

— Prometo que esse não vai ser o asseio médico das suas fantasias — ela disse se agachando ao lado da banheira de pedra para lavá-lo com o sabonete e minimizar a possibilidade de infecção —, mas preciso fazer isso.

— O que for… necessário. — ele chiou.

Seu sorriso era ausente de humor.

— Me dê alguns minutos. Provavelmente vai se arrepender de dizer isso.

        

O tempo parou de existir para Blue. Ele vivia apenas em momentos.

Havia uns onde estava completamente sozinho, perdido na dor e na escuridão. Havia outros em que se encontrava preso a um pesadelo, quando a reunião com Michael terminava e levantava-se com John e Solo e eles caminhavam até a porta, sem saber que suas vidas estavam prestes a serem alteradas para sempre. Havia ainda outros onde uma mulher o acariciava e murmurava coisas para ele, seu cheiro de mel e amêndoas o absorvia e sua voz rouca o enchia de prazer.

Ele amava esses momentos.

— Já faz uma semana — ela disse agora — e você já formou uma nova camada de pele sem cicatrizes, claro, porque você é padrão mais elevado ao qual todos os homens são comparados, e defeitos não são permitidos existirem. Ugh. Também apareceu outra mão e uma nova cabeleira. — Dedos macios passaram pelas madeixas. — É repugnante.

Ele queria se entregar mais ao seu toque, ao seu calor, mas seu corpo se recusava a obedecer à ordem mental.

Ele odiava o seu corpo.

— Precisa de uma cicatriz. É bonito demais. Por que não acorda?

Eu vou. Para você. E depois vou tirar sua roupa e tomá-la, e você vai gritar o meu nome várias e várias vezes, e não vou parar até ficar saciado, e você exausta demais para me pedir um repeteco.

— E como está fazendo a minha mobília levitar? Pare com isso!

Seu poder devia estar vazando. Teria que fazer um trabalho melhor ao controlá-lo.

Quem era ela?

Ele tinha ido à casa de Pagan… e sua noiva estava com a irmã. Sim. Ele se lembrava disso.

As duas falavam dele e Pagan mencionou que seria mãe. Ele achava que ela tinha entendido que crianças nunca fizeram parte do acordo que tinham.      

Humanos e extraterrestres podiam procriar, mas não era fácil. Mesmo assim, Blue tomou medidas para garantir que isso jamais ocorresse. Além do mais, ele sempre usava camisinha. Não precisava se proteger de doenças, já que humanos não podiam lhe passar nada; mas quando era jovem, muitas garotas apareceram dizendo que a camisinha havia estourado e que a gravidez era o resultado. Uma mentira dupla, mas as alegações o assustaram. De jeito nenhum iria querer criar um filho com uma aventura. Ou pior, com um alvo. Uma simples cirurgia de leve negou todas as possibilidades de filhos.

Preciso ter uma conversa com Pagan. Ele a faria entender que filhos estavam fora de questão ou cada um iria para um lado.

Mas a mulher com ele não era Pagan, ele pensou. Seu cheiro era melhor e sua voz mais sensual. Ela era mais magra, mas mesmo assim mais macia. Seu tom não era tão gentil e ficou contente com isso. Ele não era nada fácil de quebrar.

— Ontem invadi o banco de dados de Michael e li seu arquivo mais recente, sabe. E por “ler” quero dizer dar uma olhada. Não estava tão interessada. Ainda assim, você fez uns trabalhinhos sexuais bem impressionantes.

Inferno, sim, ele fez. Eliminou seu primeiro alvo quando tinha treze anos.

Um homem nunca esquecia o seu primeiro.

Blue tinha de fato feito uma bagunça, uma facada à queima-roupa, acabando por ser agarrado pela vítima e também cortado no processo. De algum modo, mesmo com seus ferimentos, encontrou força para golpear primeiro e pôr um fim à luta. Não foi bonito de se ver, mas a vitória teve um sabor, oh, tão doce.

Aprendeu bastante desde então. Agora suas vítimas nem sabiam o que as esperava.

E talvez tivesse nascido para aquele tipo de trabalho porque não era como Solo ou John. Nunca sentiu um momento de arrependimento por fazer o que considerava uma prestação de serviço público. O equivalente a um humano recolhendo o lixo.

— Então, minha pergunta é, por que permitiu que Michael o deixasse no departamento dos rameiros? — a mulher continuou. — Você arrasa com armas, facas, e até espadas. É incrível em combate mano a mano. Comparado a qualquer um, excluindo eu, claro. E fiquei particularmente impressionada com seu período disfarçado como lutador de MMA. Vencer seis Bree Lians ao mesmo tempo? Delícia.

Ele queria bater com os punhos no peito. Ela estava impressionada com ele. Por algum motivo, isso tinha importância.

— Ugh. Por que estou elogiando você? Você já tem um ego superinflado. E aposto que é porque ninguém nunca te disse que cara chato que você é. Nenhuma mulher quer ofender o homem responsável pelos seus orgasmos. Ou você é um amante do tipo egoísta? Esquece completamente do prazer da sua parceira?

Nunca me esquecerei do seu. Ele queria dizer a ela. Tentou dizer a ela. Falhou.

— Nenhuma resposta? Nenhuma réplica mordaz? Qual é, Blue? Fale comigo. — O colchão afundou de um lado.

As cobertas foram remexidas. O cheiro de mel e amêndoas intensificou, e sua boca de fato se encheu d’água. O calor saía dela com a intensidade de um forno, envolvendo-o. Era perfeito, melhor que perfeito, e de repente ficou tão duro quanto um cano de aço.

— Odeio gritar com Arcadians em estado de coma, realmente odeio. Vou te dar mais uns dias pra acordar, e depois vou jogá-lo pra fora pela janela, fique vendo se não jogo. Por que você, Sr. Galinha, é a porra de um ladrão de cobertor, e estou cansada disso.

Galinha…

A palavra ressoou em sua cabeça, irritando-o. Quem o chamaria assim?

Em uma fração de segundo, lembrou de invadir uma casa chique de dois andares pertencente a… Evangeline. Isso.

Evangeline Black. Evie.

A identidade da sua cuidadora o chocou. Também o enraiveceu um pouco. Aqui estava, que nem um maricas pra cima da Peste Negra e de fato sentindo certa afeição por ela. Ele até considerou lhe dar prazer. Ainda estava duro por causa dela, porra! Que tipo de loucura era essa?

Talvez a explosão tivesse fritado a fiação do seu cérebro.

— Quando isso acabar — ela murmurou — provavelmente vou precisar de uma antitetânica. Como diz o ditado, convidar um homem para a sua cama é como convidar todas as suas amantes anteriores. Isso explicaria bem porque me sinto dividindo a cama com uma multidão no momento.

A raiva aumentou e rasgou seu peito. Estava desesperado para devolver os golpes. Mas embora seus músculos se contraíssem — finalmente, movimento! — ele continuou imóvel.

Não estava preocupado com sua incapacidade de agir. Seu corpo estava em processo de se recriar e agora se encontrava nos estágios finais de cura. Muito em breve, uma corrente elétrica correria por dentro dele, trazendo os novos nervos e células de volta à vida. Ele voltaria a ser… o que sempre foi… e faria Evie… O calor insistente dela o entorpeceu, ninando-o cada vez mais longe dentro da escuridão…

 

Evie suspirou no travesseiro. A última semana passou em um borrão de atividade. Trabalhou no hospital. Tomou conta de Blue. Uma noite finalmente explorou a instalação militar em que suspeitava que o seu pai estava, mas não conseguiu entrar. Eles tinham uma segurança maior e ela estava sem prática. Não podia arriscar ser capturada enquanto houvesse um homem que era mais animal do que homem que precisava ser alimentado.

O que aconteceria quando acordasse? Como reagiria? Ele não poderia...

Uma explosão massiva de energia assolou o quarto, eletrizando o ar. Sua pele ficou toda arrepiada, e sua adrenalina acelerou, cada célula do seu corpo despertando para dar um “oi”.

Ela ofegou, assustada.

— Cheiro bom. — murmurou Blue.

Essas foram as primeiras palavras que ele disse desde a noite em que o encontrou, e sua voz a despertou do choque. Uma excitação rastejou dentro dela. Ele finalmente estava voltando a si?

Ela logo se livraria dele e da sensação irritante de tensão sexual que sua mera presença invocava? Nunca foi tão consciente dos seus seios, ou dos tremores em seu estômago, ou da dor entre suas pernas do que nos últimos dias. E não gostava disso!

Antes que pudesse se virar para ver como estava, ele atirou um braço pesado por cima dela e a puxou para aquela curva do corpo, formando uma conchinha. Um fôlego morno fez cócegas em sua nuca… e, nossa, ela se derreteu contra ele. Tão bom.

— É, Blue. — ela disse, envergonhada pelo tremor em sua voz.

— Hum, tocar é ainda melhor. — Enquanto esfregava a ereção na fenda do seu traseiro — de jeito nenhum aquela coisa era tão grande quanto parecia ser — os dedos dele deslizaram debaixo da sua camiseta. De repente ela estava com a pele colada na pele quente do seu maior inimigo. Ele envolveu um dos seus seios, ronronando. — Que xicarazinha de chá gostosa. Mal posso esperar para colocar a boca nela.

O seu mamilo enrijeceu, ansiando exatamente pelo que ele prometeu. Boca, com língua e dentes. Mais.

— Blue. — ela arfou. — Pare. — Não ouse parar. — Não sou do tipo das suas mulheres e não estou aqui para servi-lo em tudo. Você é noivo de outra. — É verdade. Oi. Ela se encheu de vergonha. — E por mais que eu saiba que isso não quer dizer nada pra você, quer dizer pra mim.

— Minha mulher. — Ele beliscou seu mamilo e beijou a sua nuca, a língua saindo para sentir o seu gosto. Era êxtase. Era agonia.

Era errado.

Colocando o braço para trás, Evie agarrou Blue pelo cabelo e puxou.

— Eu disse para parar.

— Ai. — ele gritou, o abraço finalmente cedendo.

Embora isso quase a matasse, afastou-se do seu calor, ficando em cima dele e prendendo seus ombros com os joelhos.

— Acho que é hora de termos uma conversinha, sim?

 

BLUE DESPERTOU DO TORPOR mais espetacular e sensual de sua vida. Acostumado a ter que pensar e agir rápido, fez um sumário da situação em um instante. A luz da lua iluminava um quarto femininamente decorado e espaçoso.

O quarto de Evie Black.

Todas as peças de mobília flutuavam do chão, inclusive a cama.

Com um rápido comando mental, cada pedaço do quebra-cabeça caiu no lugar. A cama sacudiu e Evie quase caiu. Ele a agarrou pela cintura para firmá-la — uma cintura fina e perfeita. Suas palmas incendiaram ao contato.

Já tinha notado que se encaixavam bem antes. De algum modo, agora era melhor.

Ela bateu nos seus pulsos com força bastante para deixá-lo saber que o negócio era sério, só não o bastante para se livrar por completo de suas mãos. Ele a soltou por conta própria. Mas ao invés de recompensá-lo por bom comportamento, ela o olhou com raiva.

— O que foi? — ele exigiu saber. Estava morando com ela, lembrou, e foi ela quem cuidou dele. — Por que está em cima de mim? — Por que seu corpo já estava excitado a ponto de ebulição?

— Você me agarrou. — ela disparou. — Meteu as mãos nos meus seios diminutos.

Ele se encheu de horror. Horror… e uma excitação mais intensa.

— Mentira.

— Verdade. Quer que eu escreva uma avaliação da sua performance? Feito.    

Primeira linha: a versão do Apalpador do Senhor Blue não merece um louvável O[2].

— O de orgasmo? — Pirralha irritante. — Está mentindo.

— Está sugerindo que me deu um orgasmo?

— Garota de mente suja. Não. — Mas gostaria de dar. — Estou dizendo que não a agarrei.

— Vamos olhar as evidências. Você tem uma jiboia entre as pernas e ela está me cutucando neste exato momento.

Ele mordeu o lado da língua. Para se impedir de praguejar ou rir, ele não tinha certeza. Uma jiboia? Obrigado.

— Isso não é evidência de que a toquei. É evidência de que sou um homem. O que refuta a sua teoria do apalpador? Você não faz o meu tipo e meus dedos não sofreram congelamento.

Por um momento ele sentiu a pontada de dor da rejeição e franziu o cenho. Ela não o tinha rejeitado, então...

Ela abriu a porta da rejeição, foi ela quem sofreu, ele percebeu. Tentou desconectar sua habilidade empática, mas o sentimento de rejeição continuou mesmo assim, machucando-o. Mas… ela era uma harpia sem emoções, preocupada apenas com a destruição de toda a humanidade. Nada que ele dizia deveria incomodá-la.

— Bem. — ela anunciou, o tom agora firme. — Posso dizer sinceramente que essa é a primeira vez que sou rejeitada por ser maravilhosa demais. Porque o seu tipo é uma droga. Loiras com peitos tão grandes que poderiam ser usados como dispositivos flutuantes e cabeças tão cheias de ar que são comparáveis a balões. Clichê!

Sim, ele realmente preferia esse tipo de mulher. Mesmo que nenhuma jamais o tivesse excitado como Evie.

E por que diabos ele queria implorar o seu perdão? Ela tinha acabado de lhe cuspir coisa pior.

E droga, por que ele agora estava focando em seu par perfeito de xícaras, praticamente salivando, definitivamente desesperado para sugar aqueles mamilos pequenos e durinhos na boca? Como se os “seios diminutos” dela fossem as guloseimas mais doces que já teve o privilégio de pôr as mãos.

Eles eram. Ele sabia disso no fundo da alma.

Tudo bem. Então não havia como negar que tinha tocado neles… nem que queria tocá-los novamente.

Perigo. Ele a segurou pelos joelhos e a empurrou para o lado da cama, para longe de sua boca, e pior, da sua ereção latejante.

— Luzes. — ela disse, e uma luz dourada se derramou da lâmpada do teto.

Ele sentou e deu uma olhada em si mesmo. Estava completamente curado e vestido com uma calça enorme de moletom. Calça de homem.

De quem era a calça?

Ele estreitou os olhos para Evie e seu peito apertou. Ela vestia uma regata rosa e uma cueca boxer.

A cueca pertencia ao dono da calça? Um… namorado?

Por alguma razão, Blue de repente sentiu vontade de esmurrar uma parede.

Reação estranha. Uma que não entendia completamente.

Ela dobrou as pernas longas, delgadas e provocativamente brancas para sentar daquele modo em que só uma mulher conseguia sentar. O cabelo do negro mais intenso estava revolto emoldurando um rosto que ele costumava dizer a si mesmo que não era realmente belo, como primeiramente havia assumido. Mas não poderia dizer mais o mesmo.

Talvez, depois da primeira interação que tiveram, ele jamais se deixaria ver além de sua péssima atitude; mas agora, naquele momento, aquela camada espinhosa tinha sido removida e ele podia vê-la, vê-la de verdade.

Olhos enormes de um castanho aveludado o atraíam e se recusavam a libertá-lo. Uma pele linda de porcelana corada no tom mais erótico de rosa. Lábios vermelhos em formato de coração e enganadoramente inchados como que de beijos, praticamente implorando por mais.

Ele teve que cerrar os punhos para se impedir de tocá-la.

Excitação ele conseguia entender. Mas uma atração tão direta assim? Com ela?

Sério, Blue? Sério?

A mera ideia o deixava pálido.

Michael era mais que um chefe. Até mais que um mentor. Blue considerava o homem um padrasto. Michael o encontrou quando estava na pior, recolheu-o, dando-lhe amigos, um propósito. Uma razão para continuar. E ele nunca esqueceu o aviso de Michael para que não mexesse com Evie.

Que pai ia querer que sua filha ficasse com um homem como Blue? Não um dos bons, e Michael era melhor que a maioria.

Doía ser considerado completamente indigno, mas assim eram as coisas. Do modo que sempre seriam. Ele entendia.

Blue não destruiria seu relacionamento com o homem só porque seu corpo traiçoeiro queria passar um bom tempo dentro da Peste Negra.

Mais que isso, Blue não tinha começado a gostar dela de uma hora pra outra.

E mais ainda, ele estava noivo e Evie não era um trabalho.

— Atualização. — ele exigiu.

Ela o olhou de boca aberta.

— Sério? Depois de tudo que fiz pra você, não pode começar com um “obrigado”? Ao invés disso, tem que latir uma ordem de uma palavra só como se eu fosse um cachorrinho robô que só se supõe que obedeça?

Ela nunca conseguia deixar as coisas fluírem? Precisava transformar tudo na droga de um desafio?

— Obrigado. — ele disse entredentes.

— Não vou dizer “de nada”. — ela devolveu. E, bem estranhamente, isso amenizou sua irritação.

Apesar de tudo, ela às vezes o divertia. A espoletinha era tão imprevisível quanto uma tempestade.

Ela cruzou os braços.

— Eu também gostaria de uma atualização, sabe.

— Eu te contarei tudo. — ele disse com um assentimento. — Mas primeiro eu. Por favor. — Ele precisava saber.

Os olhos dela se estreitaram com suspeita quando disse.

— Tenho a impressão que você diz “primeiro eu” para uma porção de garotas. E nesse caso, duvido que saiba de alguma coisa, afinal. Mas, tudo bem. Não tive notícias do meu pai, mas sei que um homem foi encontrado no local da explosão e levado ao hospital mais próximo. Esse mesmo homem logo foi removido sem que nenhum civil soubesse como, por que ou para onde.

— Acha que esse homem é Michael?

— Sim. Também acho que ele está em uma instalação médica de propriedade do governo.

— Sei qual é. — interferiu Blue. — Se ele foi levado para lá, não teria ficado muito tempo porque não saberia em quem confiar. No momento em que estivesse estável encontraria um modo de escapar.

Ela apertou a ponte do nariz, uma onda de desespero emanando dela.

— Eu não me deixei preocupar com ele — muito — porque sei que ele é forte, astuto e inacreditavelmente determinado, mas não é do estilo dele me deixar no escuro.

É. Isso não era coisa boa.

— Ouviu algo a respeito de Solo e John?

— Não. Sinto muito.

Ela soava sincera.

Ele assentiu para deixá-la saber que a tinha ouvido. Depois ele contou tudo que lembrava sobre a explosão. Enquanto falava ela virou o rosto, como se não pudesse suportar que ele visse qualquer que fosse a emoção que aparecia ali. Ele não contou que podia sentir sua tristeza.

Ela pensava no pai sentindo dor?

— Então, como está a segurança por aqui? — perguntou mudando de assunto em um ato de misericórdia.

Ela respirou fundo, e quando voltou a encontrar seu olhar, ele achou que viu uma pequena quantidade de gratidão.

— É incrível. Claro. Ainda não foi encurralado, foi? A propósito, não tem de quê.

Não responda. Você só vai encorajá-la.

— O que usa?

Ela endireitou os ombros com orgulho.

— Um sistema de minha própria criação.

Então… ela era uma assassina habilidosa e também uma técnica em segurança? Por que isso era tão sexy?

— Ratel, você evidentemente não é tão boa quanto pensa. Consegui entrar pela sua janela sem problema nenhum.

— “Ratel”? Acabou de me chamar de ratel? — Ela balançou o punho na direção dele. — Faça isso de novo e corto essa sua língua para usar de pingente no meu colar. E já consertei a falha que te permitiu entrada.

— Então havia uma falha. Significando… o quê? Diga comigo. Você não é tão boa quanto pensa que é.

O olhar dela lançava dardos.

— Qualquer um que constasse na folha de pagamento de Michael era assinalado no sistema como admissível, só no caso de alguém alguma vez precisar entrar para se esconder quando eu não estivesse.

Um inquestionável ato de bondade. Não queria pensar nela como alguém do tipo atencioso, mas de qualquer modo pensou e respondeu de acordo, expressão e voz mais suaves.

— Essa é uma desculpa excelente para um sistema medíocre. — ele provocou.

Ela chiou como se ele a tivesse esfaqueado.

— Como ousa chegar tão baixo a ponto de insultar meu software! Retire o que disse.

Uau. Ela realmente parecia capaz de matar um agora mesmo. Percebeu que tinha acabado de encontrar a linha que ela estabeleceu. A que ele nunca deveria atravessar. Ou coisas ruins aconteceriam.

— Tudo bem. Retiro o que disse.

Um momento se passou antes que ela se controlasse.

— Pode viver.

— Obrigado. — Ele falava sério. — Agora, se importaria se eu desse uma olhada em volta para checar as coisas?

Embora sua expressão continuasse neutra, ele sentiu um tinir de raiva irradiar dela.

— Faça o que quiser. Mas espero café da manhã e um relatório completo sobre o quanto está impressionado assim que terminar.

— Posso fazer o café. Acho que devo a você.

— Você acha?

— E um relatório… por que não? Só espero que possa lidar com uma crítica honesta — já que certamente sabe como dispensá-las.

Suas bochechas ficaram vermelhas, e mais uma vez teve que suportar uma latejante ereção.

Tenho que parar de reagir a ela. Especialmente por uma porcaria idiota dessas.

Ele rolou da cama — e que diabos. Era difícil sair do seu lado. Primeiro andou pela casa inteira, inspecionando câmeras e grampos bem como qualquer indicação de que um convidado não desejado tivesse entrado sem que se notasse. Tudo estava bem. E, ok, tudo bem, ele tinha que dar crédito a Evie. Seu sistema era altamente foda.

Bem como sua casa. Havia quatro quartos e um escritório. Ela preferia cores mais atrevidas, mobília antiga e acabamentos modernos. Tinha fotos do seu pai, da sua irmã Claire e da irmã adotada, Éden, pelas paredes. Blue sempre considerou Éden uma das mulheres mais lindas do mundo, mas na mesma hora diria que Evie era a mais sexy das duas. De longe. Algo acerca da fragilidade de sua estrutura óssea, o humor que iluminava aqueles olhos escuros e misteriosos. A curva travessa do seu sorriso.

Uma curva travessa que nunca se mostrou mais aparente do que nas fotos dela e de Claire…

A garota morreu três anos atrás, certo? É, era o que achava. Três anos. Pouco tempo depois, Evie deixou a agência para trabalhar no hospital.

Ele sempre se perguntou por que.

Michael manteve os detalhes sobre a morte de Claire abafados, então Blue não fazia ideia do que tinha acontecido. E ele não gostava de não saber, percebeu.

Franzindo a testa, afastou-se das fotos e entrou na sala de jogos. Havia uma mesa de bilhar, um painel com uma televisão enorme e um sofá de canto imenso. A porta de vidro fumê na parte de trás levava a uma estufa gigante.

Garota sortuda.

Pelo que Blue entendia, a terra foi quase destruída durante a guerra entre humanos e alienígenas. A flora foi comprometida, animais quase dizimados completamente e reservatórios enormes de água ou secaram ou se transformaram em lama. Agora todas essas coisas eram comodidades das mais caras.

Michael pagou pela estufa, mimando sua preciosa princesa só um pouquinho mais ou foi Evie?

Como uma das cirurgiãs mais habilidosas da Nova Chicago, ela tinha um ótimo caixa. Não que tivesse acompanhado a sua carreira ou algo do tipo. Ele só separou alguns artigos a respeito. Caso Michael quisesse lê-los. Nada demais.

— Agente Dallas Gutierrez solicitando uma entrevista. — uma voz computadorizada falou por um sistema de comunicação interno.

Blue deixou a sala de jogos e se dirigiu ao quarto. Evie, em processo de prender a extensão do seu belíssimo cabelo em um rabo de cavalo alto, encontrou-o no corredor. Ela colocou uma camisa de manga longa e um jeans colado.

Olá, ereção.

Ele baixou o olhar para a jiboia. Continue com isso e corto você. Nem farei um funeral. Porque ninguém… viria.

Um dia eu teria que amadurecer.

— O que está havendo?

— O agente está na porta. — Evie disse, um rosa enchendo as suas bochechas.

Ela tinha dado uma olhada no seu pacote? Ficou com vontade de uma entrega especial?

Idiota.

— Alguma ideia de quem ele é ou do que quer? — ela perguntou.

O tom dela estava ofegante?

— Quem ele é? Sim. O que quer? Não.

— Venha então. — Ela o levou de volta a sala de jogos e ligou a TV. — Exibe e grava das câmeras da sala de estar.

— Como...

— Não você. — ela murmurou, como se ele fosse desprovido de algumas células cerebrais.

Não. O tom dela não estava ofegante.

Uma enorme tela holográfica apareceu diante do painel, o ar cristalizando para revelar uma imagem da sala de estar que ele havia acabado de revistar.

— A propósito, estou pronto para entregar meu relatório. — ele disse. — Legal.

Ela revirou os olhos.

— Uma palavra para descrever a absoluta magnificência da minha casa? Você geralmente é mais eloquente. Mas eu não deveria ficar surpresa, suponho. Frases difíceis para homem das cavernas. — ela disse batendo no peito como um gorila. — Só… fique aqui. Escute e assista. E quem sabe? Talvez aprenda alguma coisa.

A bruxinha sempre tinha que dar a última palavra, não tinha? Bem, não desta vez.

— Talvez queira dar uma respirada antes de encarar o agente, Srta. Black. Quanto mais tempo passa comigo, mais seus mamilos endurecem. Estou começando a achar que não me odeia tanto quanto sempre alegou.

 

TENTANDO NÃO tremer — Estúpidos mamilos e estúpido Blue por perceber! — Evie abriu a porta da frente, revelando um homem alto e bonito com cabelo escuro e olhos assustadores, tão claros que quase não tinham cor.

Ele não era Arcadian, mas estalava uma versão abafada do poder de Blue.

— Senhorita Black? — perguntou o agente.

Ela assentiu.

— A própria.

Os cantos da boca dele se curvaram um pouquinho.

— Eu sou o Agente Dallas Gutierrez e sou do IRA.

Investigação e Remoção Alienígena.

— Interessante, mas irrelevante. Eu sou humana e, portanto, não caio sob a jurisdição de vocês.

— Bem, isso depende de certas circunstancias, não depende?

Ela o olhou com firmeza, recusando-se a recuar.

— Não diga.

Longe de intimidado, ele disse.

— Estou aqui para fazer algumas perguntas.

— Sobre?

— O seu pai.

Com o coração repentinamente acelerado ela se afastou, permitindo que o agente entrasse.

— Da próxima vez vá direto ao ponto.

Depois de fechar e trancar a porta, ela o levou até a sala de estar. E era esquisito saber que Blue estava lá em cima observando todos os seus movimentos, escutando cada palavra que dizia. Estranho e excitante. Quase que… sexualmente excitante.

Hormônios estúpidos. Agora que eles acordaram, estavam determinados a ganhar sua atenção.

Deixe termos o Blue, só uma vezinha, eles gritavam, e vamos embora de novo. Juro.

Mentirosos!

Eu antes me entregaria a um Agamen. Os homens tinham chifres venenosos e farpas na ponta do pênis. Ouviu histórias de mulheres humanas morrendo segundos depois de um orgasmo.

— Eu ofereceria uma bebida, mas não quero que fique além do necessário, então vamos logo com isso, sim?

— Vamos. — disse Dallas ao sentar no sofá.

— Você mencionou o meu pai.

— Sim. É engraçado, mas por mais que ele seja rico e bem-sucedido, pouco se sabe sobre ele.

Ok, não um ótimo começo. Onde ele estava indo com isso? O mundo conhecia Michael como um comerciante de armas que tentava se legalizar.

Ela sentou na cadeira à frente dele.

— Ele é um empresário dono da metade de Nova Chicago, bem como de alguns outros estados. — A típica resposta da garota mimada. — Quem se importa com o resto?

Nada de curvar os lábios dessa vez, só um olhar frio e severo estranhamente similar ao que ela recebeu de Blue há poucos minutos. Não tinha certeza do que ele queria dizer. Bem, ela tinha alguma ideia — nada de bom.

— Quando foi a última vez que falou com ele? — perguntou Dallas.

— No dia antes da casa dele ir pelos ares. Por quê?

Com o tom tão frio quanto o olhar, ele disse.

— Que tal eu fazer as perguntas, tudo bem?

Que tal… não.

— Já conheceu Gregory Star?

Ela pensou por um minuto, relembrando da primeira noite de Blue ali quando ele mencionou uma bomba e um Star.

Ele poderia estar se referindo a uma pessoa?

— Sim. — ela disse. — Eu o conheci. Já o vi várias vezes. — Então só para ser do contra, ela acrescentou. — Por quê?

Ele ignorou sua pergunta. Claro.

— Onde o conheceu?

— Eventos sociais. Não lembro quando ou onde. Nossas conversas foram limitadas ao “olá”, “como vai?”, “o que tem feito?” de praxe. Oh, tirando a vez que eu o mandei escovar os dentes porque ele estava com bafo de café. E agora vou parar de falar, Sr. Gutierrez, até...

— Agente Gutierrez.

— O que for. Não falarei mais até que me explique por que quer saber sobre o meu pai, porque o IRA liga para o Sr. Star, e se o Sr. Star poderia ou não ter desempenhado um papel naquela explosão.

 

Perguntas inteligentes, pensou Blue. Talvez ele não devesse ter enchido tanto o saco dela ao longo dos anos.

Por que o IRA, ao invés do departamento de polícia local, estava interrogando Evie sobre a explosão? Algum tipo de evidência extraterrestre deve ter sido encontrada na cena. Algo que implicasse Gregory Star, o homem que Blue, Solo e John deveriam investigar pelo desaparecimento de dezessete pessoas — duas delas eram agentes do IRA e uma senadora.

Foi Star que infiltrou a bomba?

Star era um homem de cinquenta e três anos que se fez bilionário. Ele cresceu pobre em uma parte da cidade conhecida como Esquina das Putas. A especulação era enorme sobre o que ele havia feito para sobreviver. A predominante: venda de órgãos no mercado negro. Se isso era verdade, ele teria que abrir as suas vítimas enquanto ainda estivessem vivas. Isso que é pesado.

Com os anos, o homem ganhou a atenção dos maiores líderes mundiais. Desenvolveu um gosto por mulheres bonitas e uma fraqueza para jogos de azar. Trocava de amantes tão facilmente quanto Blue trocava de cueca. Ele mexia com drogas recreacionais — cheirando e vendendo — e não saía de casa sem seus seguranças armados.

Que razão teria para ferir Michael? Como poderia saber sobre o verdadeiro trabalho de Michael?

Não poderia saber. Certo? Então… e se a explosão não tivesse nada a ver com o caso? E se o culpado — Star ou alguém como ele — esperasse simplesmente se livrar de um rival nos negócios?

Fazia sentido. Mas isso não bastava para Blue. Porque, por mais sentido que fizesse, essa lógica falhava ao explicar as coincidências. E Blue não acreditava em coincidências.

Quando Evie levou o frustrado agente até a porta — acho que o homem nunca deu de cara com alguém como a Peste Negra antes —, Blue voltou ao escritório dela e se logou em seu computador. Prioridade número um: encontrar seus amigos. Eles tinham que estar vivos ou ele… ele… ele socou o teclado, rachando o periférico, e fez uma careta.

Inspira. Expira.

Eles estavam vivos.

Evie apareceu atrás dele. Não precisava vê-la para saber que estava ali. Ele a sentia. O seu calor. O seu cheiro. Todos os músculos no seu corpo ficaram tensos.

— Bom trabalho, pudding pop[3]. — ele disse, tentando manter as coisas mais leves. — Ele não tirou nada de você, mas você tirou algumas coisas dele.

— Eu sei. E não me chamde de “pudding pop” senão vou esvaziar seu escroto e fazer com que goste disso.

Ele escondeu uma risada com uma tosse. A espoletinha tinha esses momentos completamente hilários.

Embora não fosse mais tão animada quanto era quatro anos atrás. Ela não usava mais as mãos para enfatizar cada palavra. Perguntava-se o que tinha mudado. Porque francamente? Ele tinha gostado dos gestos com as mãos e meio que sentia falta deles.

— Se vou gostar, então vou continuar a te colocar apelidos. Como “pinkie pie[4]”.

Ela balançou um punho para ele. Ok, então aquele era um gesto com a mão que ela não tinha perdido. Um hábito?

Esperava que sim. Um dia poderia agarrar aquele punho fechado, puxá-la para o colo, e...

Nada.

Não faria nada.

— O que está fazendo aqui, afinal? — ela perguntou.

— Procurando pistas.

— Oh, bem, estou um passo à sua frente. Como sempre. — Ela abriu uma gaveta secreta que ele não tinha visto e lhe passou um leitor digital. — Cheque os artigos baixados mais recentes.

Foi o que fez. Aparentemente, um corpo foi encontrado no local da explosão, um queimado a ponto de não poder ser reconhecido.

Os exames foram feitos, e embora a identidade fosse desconhecida, ficou claro que os ossos pertenciam a um homem caucasiano com uma coluna quebrada — que não era Michael Black. Tinha que ser o meu Fry Guy[5].

Michael Black estava desaparecido. Assumia-se que fora sequestrado.

Dois dias atrás, sua antiga assistente foi encontrada morta em sua casa. Overdose.

Blue conhecia a mulher. Três meses atrás, com quarenta e um anos, ela deixou de trabalhar para Michael para se tornar mãe em tempo integral. Se tivesse problemas com drogas, ele nunca mais transaria.

Blue inalou uma onda de mel e amêndoas e quase partiu o e-reader no meio. Claro que transaria novamente.

Só não com Evie Black

Certo. Certo?

A assistente anterior de Michael deve ter sido assassinada, a morte aparentemente acidental. Mas por que matá-la?

Talvez ela tivesse ido ver Michael, avistou o assassino e foi eliminada por precaução. Ou talvez tivesse ajudado o assassino em troca de dinheiro? Afinal, mães em tempo integral ganhavam menos do que escravos.

E se tivesse auxiliado o assassino, teria que ser eliminada depois já que era testemunha.

A sua ajuda explicaria como o assassino conseguiu infiltrar a bomba dentro da casa de Michael.

Ele se voltou para o computador e digitou “Corbin Blue”. Precisava de mais informações.

— Oh, você vai gostar disso. — disse Evie, o braço esticado por cima do seu ombro. Ela pressionou a ponta do dedo na tela holográfica, selecionando um site de fofocas. — Esse é um dos meus favoritos. Coisas fascinantes. Realmente desenterra as aventuras passadas e atuais do Romeu mais famoso do mundo. Mas quem diria que a imprensa podia mesmo noticiar a verdade?

Não posso esganá-la. Não mais divertido por ela, Blue leu a notícia do site.

Quem escreveu listou todas as mulheres que se achava que Blue pegou ao longo dos anos, e alegava que ele havia entrado em pânico com seu casamento iminente, por isso foi se esconder em Bangcoc, testando toda a população feminina.

Pagan tinha que estar espumando pela boca de preocupação. Não por causa das mulheres, mas por causa de sua ausência. Em todas as suas viagens com o time e em todas as suas missões fora do país, ele sempre se manteve em contato com ela.

— Só… cale a boca, Evie. — Ele passou a mão pelo texto até a tela se apagar. — Nem mais uma palavra.

— Palavra.

Ele revirou os olhos.

— Muito maduro.

— Obrigada.

Ele atirou uma pasta nela.

— Está menstruado ou coisa parecida? — ela disse, seu tom brusco. — Primeiro parecia prestes a rir, e agora parece pronto para cometer um assassinato. Suas mudanças de humor estão um pouquinho fora do controle, hein?

Não era ele com a porra de um transtorno emocional!

— Não há nada de errado em dormir com várias pessoas. — ele disse com os dentes cerrados. Só que nunca quis fazer isso, sempre desejou a monogamia. Sabia o quanto ela era preciosa.

— Há algo totalmente errado quando você tem uma parceira.

— Sei disso. Não falava de traição.

— Além disso — ela continuou —, ninguém gosta de um vadio.

— Na verdade todo mundo gosta.

— É. Pelos cinco minutos inteiros que têm da sua atenção.

— Juro a você que dou às minhas mulheres mais do que cinco minutos do meu tempo.

Ela abriu a boca para comentar e ele decidiu que já tinha ouvido o bastante.

— Ao invés de ficar obcecada com a minha vida sexual, princesa — ele disse —, por que não arruma uma pra você?

Ela recuou um passo.

— Primeiro, não sou obcecada com sua vida sexual. Segundo, quem disse que não tenho uma?

— Você tem? — Ele voltou a ficar todo tenso enquanto esperava pela sua resposta.

Ela nunca chegou a oferecer uma, e ele só podia imaginar o que isso queria dizer. Que ela não tinha um homem e estava com vergonha ou que ela tinha um — como a calça de moletom e a cueca boxer sugeriam — e queria manter a relação longe dos assuntos da agência… mantê-la a salvo.

O pensamento perturbou Blue e isso não tinha nada a ver com o fato de que a desejasse para si. Ele dormia em sua cama. Simplesmente não gostava da ideia de dividir os mesmos lençóis com algum idiota qualquer que acabaria com a cara rachada da próxima vez que colocasse as mãos imundas em Evie Black!

Quer brigar com o cara agora? Sério?

Forçou-se a voltar ao trabalho e procurar por artigos sobre Solomon Judah e John Sem Sobrenome. Não havia nenhuma menção sobre qualquer um deles. Mas também, nenhum nunca levou uma vida pública.

Quando Solo não estava trabalhando, passava o tempo em uma fazenda jeca de fim de mundo sem qualquer espécie de conveniência moderna (tremor). E John… bem, Blue não sabia ao certo o que John fazia quando estava de folga.

O guerreiro tinha segredos, e Blue e Solo nunca pressionaram.

Tenho que encontrá-los.

Quando a vida de um amigo estava em jogo, precisava questionar tudo e todos. Não podia deixar nada passar. Cada pedacinho de informação precisava ser checado.

Blue escorou as costas na cadeira e correu uma mão pelo cabelo, girando para encarar Evie. A bela e irritante Evie.

— John e Solo estão por aí. Eles precisam de mim.

A expressão dela suavizou, e ela assentiu.

— Acredite em mim, sei como você se sente. Meu pai também está por aí.

Ele foi atingido com a vontade das mais insanas de puxá-la para o colo e abraçá-la forte. De oferecer conforto… e receber.

— Não vou descansar até que os três estejam a salvo. Dou-lhe a minha palavra.

— Ótimo. — ela disse. — Porque também não vou descansar. Estou oficialmente no caso.

Oh, e agora?

— Contraproposta. Você volta para o hospital e deixa o garotão aqui fazendo o trabalho pesado sozinho. Eu a informo ao menos uma vez por dia. Nunca terá que se perguntar o que está acontecendo.

Ela sacudiu a cabeça, o rabo de cavalo dançando.

— Minha contra-contraproposta. Vá se foder.

— Já me fodi. Na verdade não é tão ruim como se pensa.

Ela estreitou os olhos.

— Porco.

— Falsa moralista.

— Um nome que adotarei com orgulho. Mas pare um momento pra pensar direito. Como filha de Michael, sou o seu superior. O que vale é o que eu disser.

Por favor.

— Me dê uma ordem. Vamos ver o que acontece.

Parecendo pronta para cuspir pregos, ela disse.

— Eu vou ajudar, Blue. Entendeu?

— Não. Você não é mais uma agente. Só vai me atrapalhar. — E possivelmente acabar matando um dos dois ou ambos.

Raiva faiscou naqueles olhos de chocolate.

— Notícias de última hora. Ou você trabalha comigo ou contra. É um jeito ou o outro. Eu vou investigar. Mas antes que decida, talvez queira lembrar o que aconteceu com as pessoas que ficaram no meu caminho nos meus dias de agente.

Elas acabaram no hospital, ou doentes, ou com os ossos quebrados.

— Coincidência.

Uau. Que jeito de defender o que nem você acredita, Blue.

O sorriso dela foi frio e certo.

Primeiro passo da minha missão solo. Provar que está errado. Espero que goste da diarreia violenta que vai sofrer.

Tudo bem. Por que devia se importar se ela viesse a se machucar?

Michael, é por isso. Certo. Nada a ver com a progressiva… atração que Blue estava sentindo por ela. Pronto. Ele admitiu. Não era só tesão. Não era algo que pudesse deixar de lado e esquecer com facilidade. O maior de todos os horrores, alguma parte dele achava a mulher mal-humorada atraente. E sexy. E sensual. E estimulante.

Discutir com ela o deixava excitado.

Quem estava tentando enganar? Você está excitado desde a hora que acordou.

Talvez fosse o aspecto proibido do relacionamento deles. É. Tinha que ser isso. Ele não podia tê-la, então é claro que a desejava. Como o açúcar que amava, mas não podia comer porque fodia com seus batimentos cardíacos.

— E quanto ao seu trabalho de verdade? — ele perguntou, tentando mais uma vez se livrar dela.

Ela sorriu novamente, mas desta vez de um jeito convencido.

— Meu pai é o dono do St. Anthony. Comprou só por minha causa, na verdade. Então posso tirar quantos dias de folga eu quiser.

— Minha avaliação de você como empregada? — Ele mostrou o polegar virado pra baixo.

— Estou arrasada por dentro. Sério.

Será que ele alguma vez ganharia um daqueles desentendimentos?

— Me dê um dia para digerir as coisas e formar um plano. Além disso, preciso ir em casa, verificar minha casa, ter certeza que ninguém a invadiu nem levou alguma coisa e recolher alguns objetos. Amanhã saberei se devo continuar morto ou voltar miraculosamente à vida, e iremos juntos ao local da explosão. É o único lugar que sei por onde começar.

Ela pensou por um momento, então assentiu outra vez.

— Certo. Ok. Mas saiba de uma coisa. Se estiver mentindo para mim tentando se livrar de mim, vou atrás de você e farei com que deseje ter morrido queimado.

Se alguém poderia fazer isso, ele pensou, esse alguém seria ela.

Ótimo. Mais uma coisa para se gostar nela. Vá em frente.

Ele precisava voltar a odiá-la. Como agora. Do contrário, resistir a ela seria mais difícil do que já era, e ele não precisava de dificuldades no momento.

Precisava de respostas.

 

AS JANELAS DO CARRO DE EVIE eram tão escuras que Blue não precisou se esconder atrás durante a ida até sua casa. Ele sentou na frente, admirado que o mundo tinha continuado sem ele. Era manhã, então pessoas passavam pelas calçadas apressadas para chegarem ao trabalho. Filas formavam-se na frente de cafeterias. Um time de batedores de carteiras varria a multidão, levando dinheiro e joias.

Pelos primeiros dez minutos, nem Blue nem Evie disseram uma palavra, e ele ficou feliz por isso. Tinham discutido até chegarem à garagem.

— Preste atenção se estivermos sendo seguidos. — ele tinha dito. — Antes e depois que me deixar lá.

— Dã. Eu sei o que estou fazendo, bluebonnet[6].

— E se certifique de fazer uma varredura visual em toda sua propriedade assim que voltar, só para o caso de alguém...

— Cara! Eu sei.

Agora estava ocupado demais guerreando contra o próprio corpo para discutir com ela. Seu cheiro de mel e amêndoas saturava todo o veículo. Ele continuava imaginando levá-la para o banco de trás e se colocar em cima dela. Deslizando as mãos debaixo de sua camisa… depois do seu jeans. Tocar cada pedacinho dela. Beijar e provar de cada pedacinho dela.

Soltou um palavrão. Precisava comprar uma nova loção corporal para ela. Talvez uma chamada Merda de Cachorro ou Tênis Velho. Ou Suor de Vestiário Masculino.

Aos quinze minutos, Evie rompeu o silêncio.

— Ei, Sir Sexo Ambulante. Estamos quase chegando.

Graças a Deus. Uma fuga.

— Note que eu não te ameaço quando você me dá nomes ridículos.

— Brilhante. Vou te dar uma medalha.

Ele fechou a cara. Um dia vou ganhar.

— Mas a diferença é — ela acrescentou — que os nomes que te dou tem base na realidade.

— Bem, então, por que eu não te chamo logo de Megera Intolerante a partir de agora? Isso é o mais perto da realidade que consegui chegar.

Nenhuma resposta da parte dela.

Finalmente. Vitória.

Mas a sensação foi meio que superficial.

Ele deu a ela a sua senha do portão.

— Estacione na garagem e feche a porta, bundinha linda. — ele disse numa tentativa de suavizar as coisas. Qualquer vizinho xereta… ou paparazzi escondido… ou os malvados do momento… assumiriam simplesmente que ela foi procurá-lo ou até mesmo o pai, o dono dos Invaders.

Ela obedeceu sem protestar — e sem fazer outro comentário ferino. Um verdadeiro milagre.

O problema era que ele na realidade se sentiu… desapontado.

— Amanhã. — ele disse, saindo do veículo.

— Amanhã. — ela confirmou.

Aquilo era antecipação em seu tom?

— A propósito. — ela chamou. — Esse último nome que me chamou? Eu gostei. Porque você está certo. Ele combina comigo. Mas acho que prefiro o MI[7].

E esse round também vai para o Ratel.

Ele esperou até que ela saísse da garagem — por que parecia que estava perdendo um apêndice? — antes de ir para o quintal, permanecendo nas sombras enquanto procurava rastros. Não encontrou nenhum. Sua frequência cardíaca aumentou e seus músculos ficaram tensos quando destrancou a porta dos fundos e girou a maçaneta.

As dobradiças rangeram, mas nada explodiu.

Ainda assim não relaxou. Inspecionou o interior da casa atrás de qualquer sinal de sabotagem. Sempre gostou do lugar. Era três vezes maior do que a casa de Evie — pare de ficar obcecado com ela, idiota — e decorado em cores marrons escuras como os olhos de Evie, brancos cremosos como a sua pele, e vermelhos profundos como os seus lábios, e se não tirasse logo aquela garota da cabeça começaria a arrancar os tijolos das paredes.

Ao menos não havia nada fora do comum; a casa estava exatamente como ele a havia deixado.

Ele tomou um banho de enzima quente, a fumaça o limpando mais completamente do que a água, e estudou seu reflexo no espelho de corpo inteiro. Sua pele tinha voltado a se formar, mas agora ele não tinha mais nenhuma de suas tatuagens. Gostava daquelas tatuagens. Mais importante, as mulheres gostavam das tatuagens. Por alguma razão, elas gostavam de contorná-las com as línguas.

Coisas a fazer: Tatuagens novas.

Do que Evie gostaria? Ele se perguntou e em seguida soltou um palavrão. O que importava o que ela gostava?

Não era como se alguma vez fosse fazer um strip para ela. Nem deixar que ela passasse a língua nele.

É. Queria mesmo que ela passasse.

Já chega!

Depois de vestir uma calça e camisa preta, sentou-se à mesa do escritório para assistir as câmeras de segurança.

Pagan foi até ali umas mil vezes e até havia atirado uma pedra na janela (inquebrável) durante a última visita, mas o alarme o assustara. Ninguém mais chegou perto da propriedade.

Então, mais uma vez, a pessoa responsável pela explosão ou achava que estava morto ou de fato nunca teve nada contra ele.

Ele pensou. Enquanto estava deitado todo quebrado e sangrando nos escombros da casa de Michael, escutou partes de uma conversa. Não tinha reconhecido a voz dos envolvidos.

— com esse?

— consiga um preço decente.

Ele vai conseguir um preço decente. Onde, contudo? No mercado negro? Vendendo como escravo sexual?

— esse?

— queime-o.

Termine de queimá-lo. Aquilo era com Blue, sem sombra de dúvidas. Com toda certeza achariam que ele estava morto.

— o último?

— ficar com ele.

Vou ficar com ele. Ou talvez: Vamos ficar com ele. Ou até: Eles vão ficar com ele.

Isso queria dizer que um dos amigos de Blue foi vendido e o outro levado para alguém.

Solo era anormalmente alto e tinha os tipos de músculos que se ganhava apenas nos campos de batalhas mais sangrentos. Quando ele ficava com raiva, sua pele avermelhava e seus ossos se avolumavam. Ele se tornava um dos monstros dos contos de fadas mais sinistros.

John era Rakan, como se uma obra de arte inestimável fascinante tivesse acabado de ganhar vida. E verdade seja dita, era o único homem naquele mundo e em qualquer outro capaz de deixar Blue feio em comparação. Muito ego?

Oh, sim. Obrigado. Blue tinha certeza que seu ego era tão lindo quanto o resto dele.

Seja como for. O culpado deve ter esperado domar o pavoroso Solo, talvez usá-lo como segurança. Ele definitivamente consideraria John o possível escravo sexual.

John, que odiava ser tocado.

Rakans eram tão raros que eram os mais caros.

Blue fechou os olhos ao pensar nos horrores que os seus amigos poderiam estar passando naquele momento. Ele precisava encontrar o par. Logo. Depois precisava punir o homem responsável.

O que sabia por certo?

O IRA achava que Star estava envolvido. Mas estava?

Não havia muitos homens com conexões ou astúcia suficientes para burlar a segurança que Solo havia instalado na casa de Michael. Não havia muitos homens ricos o bastante para pagar para que alguém instalasse uma bomba na casa de um comandante de alto-escalão também, sem temerem as consequências. Blue ainda achava que aquele “alguém” tinha que ter usado outra pessoa — alguém como a ex-assistente de Michael, porque esse era o único modo para que um plano daqueles tivesse funcionado.

Star preenchia todos os elementos. Mas também, o mesmo valia para outros. Só que apenas Star se tornou um alvo para potencial eliminação.

O que o IRA tinha exatamente contra o homem?

Só havia uma forma de descobrir. Blue invadiu o sistema de informações do IRA atrás de dados sobre Star, a explosão, Michael, a morte da assistente, qualquer leilão recente no mercado negro de um homem Rakan, bem como uma descrição que combinasse com a de Solo. Para sua fúria, descobriu um montão de nadas. O Agente Gutierrez sequer havia registrado sua visita a Evie.

Aquilo era suspeito.

Qual era a melhor maneira de lidar com isso?

Se Blue voltasse dos mortos para confrontá-lo, pintaria um alvo em suas costas e cederia uma vantagem bem clara. Muito embora… o responsável pela bomba poderia nem saber que Blue estava envolvido. Michael provavelmente foi o alvo principal, talvez até o único alvo. Depois quando aqueles dois homens entraram em cena — provavelmente para garantir que Michael estava de fato morto —, Blue já estava irreconhecível.

Mas ele poderia pôr todas as suas esperanças, bem, em uma esperança?

Não. Então, por enquanto, Blue continuaria morto. Não haveria confronto com o agente do IRA. Evie, contudo…

É. Ter uma parceira podia na verdade se provar útil.

Uma última tarefa antes de trabalhar em um disfarce. Ele depositou um milhão de dólares na conta da instituição de caridade que ele secretamente liderava, Safe Haven para Extraterrestres, usando um dos seus codinomes. SHOW[8] era um lugar onde crianças de rua poderiam ir para encontrar abrigo e comida pelo tempo que quisessem. O dinheiro deveria durar até que ele voltasse ao mundo dos vivos e pudesse continuar com a sua assistência semanal.

Blue entrou em seu quarto, e revirou o seu estoque secreto de suprimentos de emergência. Tinta de cabelo feita especialmente para a sua raça. Lentes de contato coloridas. Um chip para modificação da voz. Piercings faciais. Uma faca de serras que provocaria uma cicatriz temporária em um Arcadian.

Por que usar maquiagem que poderia sair com água? Blue preferia autenticidade. Ele também se lembrou de Evie dizendo que precisava de uma cicatriz.

Nunca teve uma e nunca imaginou que uma mulher fosse desejar uma — ou que ele fosse querer agradá-la.

Amanhã ele testaria a sua nova aparência com ela — a única pessoa em quem confiava no momento. Se ela não conseguisse reconhecê-lo, saberia que estava no ponto.

Isso na verdade poderia se provar bem divertido.

 

Na manhã seguinte Evie deu seu plantão normal no hospital. Depois ela falou com o chefe do pessoal sobre umas férias sem final determinado. Como esperado, não houve discussão. Seus colegas de trabalho achariam que ela estava tirando uma vantagem terrível do seu status, como Blue havia dito, e ela teria que concordar.

Estava mesmo. Mas aquilo era a vida ou morte do único homem que já amou, e não se sentiria culpada a respeito.

Em casa, ela foi direto para a cozinha, jogou a bolsa no balcão e se serviu de uma mais que merecida taça de vinho. Quando Blue chegaria?

Era melhor que chegasse. Se ele a tivesse enganado apenas para se livrar dela…

Ela bebeu o copo inteiro, mal sentindo o gosto de figo e ameixa e verteu outro. O ar ainda estava carregado por uma força elétrica, ela percebeu, da presença dele ontem, os pelos finos da sua nuca se arrepiaram — um calor em forma líquida escorrendo dentro dela.

Quando essa droga ia acabar? Estava cansada, muito cansada, da leva de sensações que ele provocava, quer estivesse ali ou não. A tensão na parte baixa da barriga. O calor em suas veias. A ânsia… oh, Cristo, a ânsia.

— Sempre bebe que nem um vagabundo de rua quando chega do trabalho? — A voz grossa e profunda fez com que todos os nervos em seu corpo ganhassem vida. A reação era familiar, embora a voz não. Não realmente.

Em um movimento próximo à velocidade da luz, ela tirou a pyre-gun da bolsa, virou e apontou. Um segundo depois a arma foi arrancada de sua mão, só para flutuar no ar longe do seu alcance. Mas nunca se voltou para ela. Ou o cara era um criminoso chinfrim ou não queria machucá-la.

Ele passou pela sua segurança. Não era nada chinfrim.

O Sr. Sabe-se Lá Quem saiu das sombras e ela enrijeceu.

Ele era alto — da altura de Blue. Musculoso — do mesmo tamanho de Blue. Ele até tinha o cheiro de Blue, champanhe e morangos recém-colhidos. Estranho para um homem, mas não menos viciante. E ainda assim, tinha o cabelo preto e curto espetado, e olhos da mesma cor. Um delineador cercava suas pálpebras, alterando o formato das mesmas. Uma cicatriz irregular corria da linha do seu cabelo ao queixo. As suas duas sobrancelhas tinham piercings, bem como o seu lábio.

Podia ser ele. Mas também podia não ser.

— Me deixe ver suas mãos. — ela exigiu.

Por um momento, ele não apresentou reação. Estava ocupado demais a olhando como se de fato a visse, não como se ela fosse invisível. Blue sempre a olhava como se não a visse. O olhar daquele homem era intenso. Firme. Quase… magnético. Ela nem conseguia piscar.

Finalmente, ele levantou os braços, palmas para cima.

Ela conhecia aquelas mãos. Havia limpado e feito curativos em uma, depois observado a outra crescer — tinha gostado das duas em seu corpo, tocando seus seios.

Tinha rezado secretamente para que descessem mais.

Apoiando-se no balcão, relaxando, ela disse.

— Então. Manteve a palavra, pássaro azul. Estou impressionada.

Ele piscou em surpresa.

— Você me reconhece. Como? — Enquanto ele falava, a pyre-gun flutuou de volta à sua bolsa.

A sua afronta a divertiu.

— Alô. Agente treinada. Eu noto detalhes que o homem comum deixa passar.

— Não, é mais que isso. — Ele estudou as mãos com prazer. — Não sabia com certeza até olhar para elas. Mas se lembrou. — Ele levantou o olhar pousando-o nela, esquentando-a com um fogo negro. — Porque gostou quando elas a tocaram. Uma mulher nunca esquece do prazer.

Ela se endireitou como se puxada por uma corda.

— Não seja ridículo. Eu esqueço o tempo todo. — Quê? — Quero dizer, nunca senti prazer algum com você.

Onde estava a sua sinceridade brutal agora, garota?

Correção muda: A não ser quando ele se esfregava em mim.

Tentando outra vez.

— Talvez você tenha sardas bem características.

Isso não era uma mentira. Ela disse “talvez”.

— Não tenho. — Ele a observou por um bom tempo, quaisquer que fossem os pensamentos que dançavam pela sua mente ocultos dela. Sua expressão não entregava nada. Não, isso não era verdade. Suas feições tinham se suavizado, mas bem de leve.

Se ele tentasse provar sua teoria, ela poderia não ter forças para resistir.

Engoliu em seco.

— O que acha da minha cicatriz? — ele perguntou, esfregando a pele mais alta.

Ela lhe dava um ar selvagem, como se ele não conseguisse decidir se cortava você em pedacinhos ou lhe dava a foda mais louca de sua vida — e só o tempo revelaria a resposta. Ele era o bad boy que toda mulher queria provar, mas que só as mais corajosas ousavam encarar.

Preciso voltar ao controle.

— Nada a dizer? Você me decepciona, princesa. — Ele andou em sua direção, colocou as mãos — aquelas mãos enormes, fortes — no balcão, prendendo-a, enchendo-a de excitação. — Ou talvez seu silêncio fale por você.

Alerta vermelho!

— O que diabos acha que está fazendo, bolas azuis? — ela exigiu, odiando o quanto estava ofegante.

O olhar dele desceu para os seus lábios — e lá ficou.

— O que gostaria que eu fizesse, princesa?

Me beije. Com vontade.

Não!

— Gostaria que se afastasse. Agora. — ela disse. Infelizmente sua voz ainda estava rouca e cheia de desejo.

— Alguém esqueceu das próprias regras, eu acho. Do mesmo jeito que ela alega ter esquecido do prazer.

Ele encostou nariz com nariz, o contato inocente e do mesmo modo dos mais eróticos.

— Tem certeza que é isso que quer?

Não, ela não tinha certeza. Ele a afetava de um jeito que ninguém nunca afetou. Ele fazia com que todas as suas partes mais travessas tinissem, e ela gostava disso. Seus seios ficavam mais pesados, prontos para as suas mãos… para a sua boca. Seus mamilos endureciam e latejavam. Seus joelhos ameaçavam ceder sob o seu leve peso, uma reação que garantia que ela caísse bem em cima da força dos braços dele. E provavelmente de costas, recebendo um belo amasso. Ou mais…

Sim, por favor.

Ela não transava há três anos, desde a morte de Claire. E antes disso, seu último encontro sexual aconteceu aos dezessete. Na época, ela se entregava a muitos, desesperada por atenção e aprovação masculina.

A maldição daqueles malditos problemas com a figura paterna.

Mas ela não era mais uma garotinha sedenta de atenção e nunca mais seria a aventura de outro cara.

— Você pode ser um traidor, Professor Come e Corre, mas eu não. — Ela o empurrou, e embora ele pudesse ter resistido e continuado no lugar, recuou. Uma carranca arruinava a beleza máscula do seu novo rosto. Uma carranca… e talvez um pouco de mágoa.

Eu sou uma megera intolerável.

— Olhe. Desculpe se exagerei. — ela murmurou. — Vamos esquecer os últimos cinco minutos. — Ela pôs a mão na bolsa e pegou os papeis que tinha colocado lá dentro. — Aqui. Essa é a sua conta pela estadia em Chez[9] Black.        

Ela esperava que ele comentasse o seu pedido de desculpas. Ele não comentou. Agiu como se nem tivesse ouvido, e ela não estava certa do que pensar.

Enquanto ele lia as suas anotações, ela se colocou ao seu lado para garantir que não tivesse esquecido nada.

Sistema de segurança, peças e reparos: $8000.

Janela nova: $2000.

Lençóis novos: $1000.

Água: $10.000.

Tempo e angústia mental: $3.000.000.

Não. Não faltou nada.

Ele a olhou com uma estranha mistura de irritação e divertimento.

— Aceita orgasmos? Porque esse é o meu método preferido de pagamento.

Ela apertou os lábios, sabia que tinha a aparência de quem acabou de chupar um limão, mas não se importou.

— Tenho certeza que sim. E não. Não aceito orgasmos. — Mas gostaria de aceitar. — Sorte sua que posso oferecer a você um plano de pagamento fora de série. Significando que você tem um mês para me pagar ou quebro suas duas rótulas. Agora, vamos vasculhar o local da explosão ou o quê?

 

EVIE SE DESCULPOU COM ELE, e ela gostou de ter as suas mãos no seu corpo doce e macio. Blue estava com problemas tentando ignorar esses dois fatos.

Ele se deu um tapa mental na cara. Primeiro, ela se desculpou por ser maldosa. Não pelo que tinha dito.

Porque ela achava que era verdade. Achava que ele gostava de foder tudo que andasse de saia. Ou que respirasse.

Pode culpá-la? Você vem agindo como um Dr. Feliz com uma injeção de vitamina no pau aos olhos de todos.

Verdade. Lá no fundo, ele sabia que merecia o seu rancor. Tinha feito coisas terríveis com as suas mulheres.

Coisas das quais poderia ter se negado.

E quanto a ela gostar de suas mãos nela? Ele não faria nada a respeito disso.

Ele vivia sua vida seguindo uma simples regra: Nunca saia galinhando por aí a não ser que tenha a ver com o trabalho.

Depois de romper com Noelle, tinha acrescentado uma segunda: Sempre deixe a namorada sabendo que existirão outras.

Ele tinha se prendido a essas regras. Até Evie.

Não que eles tinham feito alguma coisa. Mas a intenção estava lá, e era ruim do mesmo jeito. Ele era tão culpado quanto.

Michael o mataria.

Se você encontrá-lo.

Encontraria. E logo.

Blue esperou na sala de estar enquanto Evie tirava a sua roupa roxa de cirurgiã. Ela tinha alguma ideia do quanto ficava adorável nela? Provavelmente não. A garota parecia completamente desligada sobre a sua aparência. Mas também, ela nem precisava se preocupar. Era naturalmente linda.

Sério. Como é que ele conseguiu convencer a si mesmo que ela não era linda?

Cinco minutos depois ela estava à sua frente, desta vez usando uma camiseta que tinha escrito “Querida Matemática, Não Sou Seu Terapeuta. Resolva Seus Próprios Problemas.” Um jeans colado e de cintura baixa envolvia sua parte de baixo. Tênis velhos cobriam seus pés. Seu cabelo agora estava amarrado em um rabo de cavalo alto, o rosto sem nenhuma maquiagem. Ela parecia jovem e cheia de frescor — ainda tão linda pra caralho que seu peito doía.

Com a mandíbula apertada, ele se forçou a tirar os olhos dela.

— Coloquei minhas coisas em um dos seus quartos de hóspedes.

O que ficava mais perto do quarto dela, mas e daí? Detalhes não tinham importância agora.

— Já que estou supostamente morto, não posso ficar em casa. Preciso ficar aqui.

— Tudo bem. — Nenhuma mudança em seu comportamento. — Está pronto para ir?

Ele assentiu, assombrado com a facilidade de sua aceitação.

— Temos que usar um dos seus carros. — Ele tinha alguns veículos que o público não tinha visto, mas para o que estavam prestes a fazer, precisavam de um dela. Ninguém acharia estranho que a filha de Michael Black e o seu amigo “grunge” vasculhassem as ruínas de sua casa.

Ela não ofereceu protesto quando a empurrou até a garagem.

— Sei que é viciado em carros esportes, mas acho que devíamos ir com o sedan. — ela disse.

— Claro. — O sedan tinha dois trunfos: se misturaria aos outros carros na estrada e as janelas eram de vidro fumê. Com Evie, nunca sabia o que faria nem como reagiria a algo. Privacidade era o melhor.

Ela o deixou dirigir, mas quando saiu para a rua ela gritou um insistente “Pare!”

Ele parou com a mão na arma, e ela saiu do carro. Um garotinho brincando no jardim da casa do seu vizinho a avistou e veio correndo.

O sol era um bastardinho bem forte, estendendo seus dedos abrasadores para acariciarem Evie, dando à sua pele clara o mesmo brilho perolado que o deixou embasbacado da primeira vez que eles se viram.

Está com os olhos fixos nela. Não seja esse tipo de cara. Desvie o olhar!

— Dra. Evie!

— Ei, Drew. — ela disse, dando um abraço no moleque. — Cuidou daquele probleminha que discutimos?

Blue recolocou a arma no coldre à sua cintura.

— Claro que sim. Esperei por você hoje mais cedo, mas mamãe me disse que eu precisava entrar e comer e aí limpei o prato tão rápido que ela disse que ficou tonta, e aí voltei correndo porque queria te dizer que dei uma surra e tanto em Bobby. Acho que quebrei o nariz dele. Sangrou.

— Oh, isso é ótimo. Estou tão orgulhosa de você!

Batendo palmas para violência no pátio da escola? Interessante. E meio que sexy.

Você acha tudo nela sexy.

Nem tudo. Quando aquela língua de víbora o chamava de promíscuo, ele tinha vontade de cortá-la.

Os olhos de Drew passaram pela porta aberta do passageiro, avistando Blue e se arregalaram.

Blue ficou tenso. Ele acabou mesmo de perder seu disfarce para um pré-adolescente?

— Você vai me matar? — o garoto perguntou.

O menino definitivamente não sabia quem ele era. Haveria falatório.

Espere. Ele tinha uma aparência tão assustadora assim?

Sorrindo, Evie disse.

— Nada. Não tem nada com o que se preocupar, esguicho. O Sr. Brothario é um amante, não um lutador.

Blue a olhou com raiva.

Drew estirou o dedo para ele antes de correr para dentro de casa, provavelmente para se esconder.

— Ah, que doçura. — disse Evie, voltando a sentar no carro. — Acho que ele estava tentando te dar um aviso para que não soltasse essa sua fúria medonha para cima da doce e inocente pessoa aqui.

— Se o coitado do menino pensa que você é uma doçura, tenho medo de como é a vida que ele tem em casa.

— Ha-ha. Você é hilário.

— Obrigado.

Como Drew, ela lhe mostrou o dedo.

Sorrindo, Blue programou o carro para se dirigir até a casa de Michael, escorou as costas no assento e tentou relaxar enquanto os sensores dirigiam por ele. O problema era que o cheiro de mel e amêndoas de Evie também saturava aquele carro. Seu membro — que não havia encolhido ainda desde o incidente do balcão — latejava, e a vibração do seu poder aumentava o volume das pulsações, gritando por alívio.

Não aqui, não agora.

Mas se não tivesse cuidado, acabaria levitando o veículo e tudo que o rodeasse.

Precisava de uma distração.

— Encorajando a justiça das penitenciárias no pátio pré-escolar, pãozinho de mel?

Ela o olhou com raiva, e isso melhorou o seu humor.

— Encorajando o final do reinado de terror de um garoto que molesta os outros.

Ah.

— Eu aprovo.

Sorrindo de um jeito convencido para ele, ela disse.

— Percebe que acabou de se deixar à mercê de um péssimo insulto, certo?

Ele se encostou na porta e a encarou. Ela não vacilou sob a intensidade do seu olhar e não desviou os olhos. Ela o encontrou de frente, completamente inabalável. Ele tinha que admirar sua coragem.

Tinha?

Inferno, já admirava. Nunca conheceu uma mulher como ela. Tanto latia quanto mordia.

— Vamos dar uma trégua. — ele disse. No momento que as palavras se registraram, percebeu que gostava delas. Ele e Evie nunca estiveram em termos sociáveis, e estava curioso para saber como isso seria.

— Achei que já tínhamos dado. — Ela esfregou os braços arrepiados. Frio? — Quero dizer, nós não nos matamos.

Bom argumento. Ele tentou outra vez. Quando desligou o ar-condicionado com o próprio poder, disse.

— Vamos ser amigos. — Ele nunca teve uma amiga mulher antes, nunca achou que fosse querer uma; mas aquela tinha salvado a sua vida, e não importava como se sentia a respeito dela, ele meio que lhe devia. — Afinal, você é a única pessoa em que posso confiar no momento e está determinada a trabalhar comigo, então vamos passar um bom tempo juntos.

Ela estava bem corada, bem do jeito que ele gostava, e seus olhos escuros estavam luminosos enquanto vasculhavam as suas feições. Seus lábios eram tão macios, tão vermelhos, e já estavam entreabertos; experimentou uma vontade repentina de se inclinar, sentir o seu cheiro de perto e prová-la, e que diabos estava fazendo? Pare.

— Não somos boa coisa um para o outro. — ela disse.

— Porque deixamos os nossos problemas pessoais se intrometerem. Todos temos uma bagagem, princesa. Vamos largar a nossa e seguir em frente.

— O que essa amizade envolveria? — ela perguntou.

— Pra começar, precisamos sempre dizer a verdade.

— Eu já faço isso. Está dizendo que não faz?

Deus me salve.

— E também você precisará me dar cobertura e não me esfaquear pelas costas.

Ela não se ofendeu, surpreendendo-o. Então assentiu, surpreendendo-o ainda mais.

— Poderia tentar essa última condição, eu acho. Mas não vou prometer nada. — ela se apressou em dizer.

Ele revirou os olhos.

— Só faça o melhor que puder.

Uma pausa enquanto ela mexia com a alça da bolsa.

— Então, acha mesmo que vamos achar alguma coisa na casa de Michael? Tenho certeza que a agência já mandou uma equipe para passar um pente nos escombros.

— Eles não me têm na equipe. — disse simplesmente.

— E você é o melhor?

— Indiscutivelmente.

Agora foi ela quem revirou os olhos.

— Acabei de me lembrar de um certo agente dizendo que arrogância acaba matando pessoas.

No momento em que as palavras deixaram a sua boca, todo o seu divertimento morreu. A sua expressão se entristeceu e seus ombros se curvaram. Grandes ondas de arrependimento e tristeza emanaram dela, quebrando em cima dele.

Que diabos?

Ele pensou na primeira vez que se encontraram e como a desejou mesmo na época. Como ficou abalado com a sua atitude. Como quando a fumaça do seu orgulho ferido passou, ele ficou impressionado com ela. Ela pegou uma missão de três homens e a simplificou de modo absurdo completamente sozinha.

— Eu estava errado. — admitiu. — Sua arrogância era merecida.

— Não. Não, não era.

Algo em seu tom…

Ele franziu o cenho. Não conseguia pensar em nenhuma missão que ela tivesse estragado.

— Por que saiu da agência?

— Não quero falar disso.

— Evie...

— Falo sério, Blue. Esqueça esse assunto.

Ele queria pressionar. Seu pesar e tristeza estavam intensificando. Mas ela era do tipo que resistia, e como já provou várias vezes, ele nem sempre ganhava com ela.

Desafios eram mais que uma droga.

— Comportamento suspeito detectado. — uma voz computadorizada anunciou de repente.

Ele ficou impressionado apenas por um momento.

— Seu sistema de segurança? — perguntou.

— Sim. — Evie se virou para espiar pela janela de trás. — Modificado para gravar e decifrar o comportamento de motoristas próximos.

Extraordinário. E seriamente sexy.

Em alerta, ele verificou os espelhos e encontrou o culpado. A três carros atrás deles havia um sedã com janelas tão escuras quanto as do carro deles. Evie mexeu em alguns botões e uma pequena tela apareceu no console na frente de Blue.

— Claramente estamos sendo seguidos. — ela disse.

Com outra mexida nos botões, a câmera que estava instalada na traseira do carro focou no sedã. Uma imagem apareceu na tela do console.

— Pode me dar a marca e o modelo do carro? — ele perguntou.

Não foi Evie quem respondeu. A voz computadorizada deu os detalhes que queria, acrescentando.

— O veículo foi modificado para permitir a direção manual. Há rifles automáticos instalados tanto do lado direito quanto esquerdo.

Tenho que comprar um desses.

— Pode ver além dos vidros escuros e me dizer quantos corpos há dentro?

— Checando… — o computador respondeu. Vários segundos tensos se passaram. — Indicadores de temperatura corporal sugerem quatro homens adultos.

Ele gostou daquela probabilidade.

 

— NÓS PODEMOS ESTAR LIDANDO com os homens que explodiram a casa do meu pai. — disse Evie. — Talvez estejam aqui para terminar o que começaram com você.

— Talvez. — respondeu Blue. — Mas estou presumivelmente morto, e este não é o meu carro. Você é um alvo mais provável.

Ela sacudiu a cabeça, tão perto dele que seu rabo de cavalo roçou no seu braço.

— Seu corpo nunca foi encontrado. Você não está presumivelmente morto.

— Ninguém me viu voltar para casa. Ninguém me viu ir à sua também.

— Ninguém pelo que sabemos.

Ela tinha uma resposta pra tudo.

— Tenho certeza, Evie. — ele disse, seu tom nivelado. — Eu teria pressentido se estivesse sendo seguido. Nunca fico sem essa percepção.

— Vou ignorar a dupla negativa e concordar com você. — Ela soltou o ar com força. — Digamos que sou o alvo. Qual é o motivo? Por que agora?

Por que, de fato?

— Porque o agente do IRA veio visitá-la e agora você se tornou uma pedra no sapato? Porque Michael está desaparecido e o cara do mal quer usá-la como isca? Devo continuar?

— Não. — ela resmungou. — Esses dois motivos já deram conta.

Bem, o que é que se sabe? Ele ganhou outra discussão. E desta vez a vitória foi muito, muito doce.

— Os ocupantes são humanos? — ele perguntou ao computador. — Ou extraterrestres?

— Incerto.

Que pena.

— Alguma central de polícia de Nova Chicago nessa estrada?

— Verificando… Sim. A unidade de patrulha mais próxima fica a dezesseis quilômetros ao norte.

Ele sabia a área a se evitar então.

— Como aciono os escudos? — ele perguntou a Evie. — Assumindo que você os tenha.

— Como se eu fosse ter algum carro sem escudos. E o método é meio que complicado, então preste bastante atenção. — Ela limpou a garganta, e então disse. — Ative os escudos. Agora.

A armadura foi acionada, envolvendo o carro para protegê-lo de fogo inimigo.

Ele sacudiu a cabeça em irritação — e ok, um pouco de divertimento.

— Programe o sistema de operação para aceitar meus comandos de voz.

Tudo que ela disse foi:

— Aceitar Blue. Acesso completo.

— Ative o painel de direção manual. Agora. — ele disse. No momento em que teve o volante em mãos, trocou de faixa com cuidado de manter a mesma velocidade — por ora.

O sedã continuou onde estava, bancando o inocente.

Só com um pensamento, Blue poderia forçar os carros à sua volta a se colocarem no caminho do veículo, mas isso colocaria inocentes em perigo, talvez até causasse algumas mortes. Ele tinha alguns escrúpulos.

— Tudo bem se eu colocar alguns arranhões e amassos no seu carro? — ele perguntou a Evie.

— Arranque a carcaça dele. Eu não ligo. Só esmague esses bastardos miseráveis numa parede. Gostaria de bater um papinho com eles.

Resposta perfeita e extremamente sexy, sua empolgação deixando seu sotaque mais proeminente.

Sentiu vontade de beijá-la.

Nunca vai poder beijá-la.

— Fala de uma conversa? — Quando se tratava do Ratel, era melhor ter certeza.

— Foi o que eu disse.

Bem, tudo bem, então.

— Vamos lá. — Ele puxou o carro para a direita e meteu o pé no acelerador, saindo da rodovia. O sedã desistiu de toda a fachada de inocência e os seguiu. Os pneus cantavam enquanto os sensores dos carros ao redor deles eram acionados, sistemas automatizados fazendo desvios bem fechados para evitar uma colisão.

Evie remexeu na bolsa, retirando a pyre-gun modificada que ela brandiu mais cedo.

— Me dê o ângulo que preciso que incapacito o carro. — ela disse, ajustando o cristal interno para sua maior capacidade.

Acho que estou excitado — de novo.

— Quero entrar em uma área menos populosa primeiro. — Uma interseção apareceu à frente, o farol vermelho. Havia três faixas. Duas congestionadas. Uma estava aberta, mas era só para pegar o retorno à direita.

Pop! Pop! Pop!

— Tiros disparados. — o computador declarou calmamente.

— Droga. — Evie soltou. — Obviamente a nossa sombra não se importa em machucar outras pessoas.

— Eles vão receber o que merecem. — Blue aumentou a velocidade, permanecendo na via do retorno, mesmo que não fosse pegá-lo. Ele passou pelo cruzamento, puxando o volante para um lado, depois para o outro, parando o tráfego e dirigindo os carros para longe do perigo. — Dou minha palavra.

Ao invés de continuar nas vias alternativas, Blue voltou à rodovia.

— Estão prestes a atirar novamente. — disse Evie.

Pop! Pop! Pop!

— Escudos podem suportar apenas mais duas rodadas antes da falha. — anunciou o computador.

Ótimo. Blue girou o turbo compressor e disparou em uma velocidade enorme, atravessando o tráfego, procurando o local perfeito para...

Ali.

Uma ponte. Muito pouco tráfego à frente, apenas o carro que os seguia atrás.

— Lá vem. — alertou Evie.

— Quase lá.

Pop! Pop! Pop!

— Prepare-se, tortinha de amora. — ele disse, pressionando o botão para abaixar a janela do passageiro. Um vento violento explodiu dentro do carro. — Não tente atingir os homens, só estourar os pneus.

— Dã. Esse não é o meu primeiro rodeio, caubói.

Realmente esperava que ela atirasse bem.

— Terá menos de um segundo para... — começou o computador.

— Eu sei! — rosnou Evie. — Cale a boca.

Pop! Pop! Pop!

No momento que Blue atravessou o início da ponte, ele deu um giro com o carro. De repente, Evie estava de frente para o outro veículo. Ela mirou e deu um único tiro. Um laser de um amarelo forte explodiu, atingindo o pneu frontal esquerdo do veículo ao mesmo tempo em que outra bala atingiu a sua porta.

O escudo tinha sido danificado além de qualquer conserto e a bala atravessou o metal do console diretamente à sua frente.

Tão perto de atingi-la, Blue pensou, tremendo com uma raiva repentina.

— Consegui! — ela disse, feliz.

Ele endireitou o carro e diminuiu a velocidade, observando pelo retrovisor quando a borracha derreteu e o sedã começou a girar sozinho antes de virar e capotar várias vezes, o teto esmagando na estrada e em seguida os pneus, e assim sucessivamente, até parar finalmente de barriga pra baixo.

Fumaça vinha pelo ar quando ele parou. Pegando a arma, ele pulou para fora do carro e correu até o local do acidente. Estava a meio caminho quando um sopro brutal de vento derretido o empurrou para trás, levantando-o como se ele não pesasse mais que uma pena. Uma explosão ensurdecedora ralou seus ouvidos, fazendo-os tinirem. Ele caiu com uma pancada forte, uma maçaneta de porta caindo do céu e se quebrando ao seu lado.

Já vi essa merda antes.

Quando se levantou, ele observou as chamas engolirem o que restava do veículo.

Aquela tinha sido uma explosão intencional. Muito provavelmente, quem quer que mandou os homens para sequestrar — matar? — Evie, não queria ninguém capturado e interrogado. Plantar uma bomba de autodestruição teria sido fácil.

A fúria de Blue explodiu com a mesma violência e lutou para controlá-la enquanto marchava até o carro de Evie.

Ela estava de pé ao lado da porta do passageiro, a mão apoiada na janela aberta. Seu cabelo tinha se soltado do rabo de cavalo e emoldurava seu rosto sujo de fuligem em ondas emaranhadas.

— Bem, que merda. — ela disse.

Sem comentários ferinos. Sem recriminações dirigidas a ele.

Ele parou. Simplesmente parou e tentou recuperar o fôlego. Ela estava ali, linda e viva, ilesa, esse conhecimento batalhando com o desejo que tentava negar tão valentemente. Ele a queria. Mais do que isso, precisava dela. No fundo, o seu poder Arcadian puxava uma frágil coleira. Ele andava tenso demais ultimamente. Muito agitado, muito faminto, muito enraivecido e com zero alívio.

Tudo isso ampliava a sua ira.

— Estou tão puto agora. — rosnou.

— Hmm, dá pra notar. — ela disse, não parecendo preocupada. — Seus olhos estão brilhando.

Brilhando pelas lentes de contato? Isso era ruim. Muito, muito ruim. Logo uma onda de pura energia deixaria o seu corpo, fritando tudo ao seu redor. A não ser que… Não. Não, não faria isso.

— Precisa sair daqui, Evie. Entre no carro e vá embora. Eu a encontro nos escombros.

— Até parece! — A garota tonta se aproximou dele. — O que está havendo com você?

— Evie!

— Se somos amigos, vai me contar. — ela insistiu. — Talvez possa ajudar.

Golpe baixo, usando a amizade que ele insistiu em forjar.

— Eu tenho mais habilidades Arcadians do que qualquer um conhece. Sou mais poderoso do que pensam. — Ele nunca contou a ninguém a amplitude completa da sua formidável pessoa, nem mesmo para Michael. Humanos temiam o que não entendia e não queria que seus amigos tivessem medo dele. — Às vezes esse poder cresce e exige um escape.

Ela pensou por um momento.

— Tipo como o pior surto do mundo com resultados mortais?

Ele quase se engasgou com a própria língua. Ela não tinha medo dele e claramente nunca teria.

— Sim.

— Que tipo de escape? — ela perguntou.

— Uma luta física. — Ele fez uma pausa, observando sua expressão pela mais sutil mudança. — Sexo.

Nenhum espanto. Apenas interesse.

O interesse quase o matou.

— Nesse caso… — ela disse. Ela o esmurrou uma, duas, três vezes. — Melhor?

Cada um dos socos virou sua cabeça. Sangue escorreu pela sua boca, e alguns cortes se registraram.

Divertimento extinguiu as chamas mais fortes da fúria — mas não a sua fome sexual. Ele cuspiu o sangue, seu desejo por ela ainda pior.

— Corrigindo. Eu é quem preciso bater.

— Oh. Bem, que pena. Vou passar essa.

— Isso nunca seria referido a você.

— Mas a outra opção…

É. A outra. Sexo. Ele notou que ela não se afastou dele, mas permaneceu exatamente onde estava.

O olhar preso aos seus lábios, e ela começou a ofegar.

Pensando em beijá-lo?

Talvez. Sua adrenalina deve ter subido aos céus. Ele sabia que a sua subiu.

Ele se aproximou mais, incapaz de resistir.

Ela fez o mesmo.

E então estava em cima dela, passando os braços em sua volta e puxando-a para o corpo firme. A língua adentrou sua boca, exigindo uma resposta. Ela deu, retribuindo o beijo com uma paixão que ele nunca encontrou antes, como se ela tivesse passado fome a vida inteira e ele fosse a sua primeira refeição.

Desejo o queimava de dentro para fora, atiçando um fogo em seu sangue, dirigindo-o para o carro. Ele a levantou no porta-malas e forçou suas pernas a se abrirem e aninharem seu quadril. Com as mãos na parte mais baixa de suas costas ele a puxou contra o corpo e a conduziu esfregando forte e rápido contra sua ereção.

Puta merda!

Ela gemeu, e esse foi o som mais delicioso.

O prazer dela… era quase demais… Seus seios esfregavam no seu peito, e ele podia sentir as pontas rijas dos seus mamilos. Enquanto isso, ele continuava a alimentá-la com um beijo safado que imitava exatamente o que ele queria fazer com o resto dela. Forte, quase que castigando. Exigente. Tomando.

Não conseguia se fartar dela. O mel do seu gosto era uma droga. Mais do que viciante.

Necessária para continuar vivo.

Poder verteu dos seus poros, e suspeitava que Evie podia senti-lo, porque pequenos gemidos continuavam vindo do fundo de sua garganta e seus dedos continuavam esfregando a pele exposta dos seus braços de cima para baixo… até suas mãos se emaranharem em seu cabelo, as unhas perfurando seu couro cabeludo; ela angulou a cabeça bem do jeito que queria. Ele gostou. Gostou que exigisse e tomasse com a mesma efervescência que ele usava.

Ela sugou o piercing do seu lábio inferior e um grunhido baixo ressoou dele.

Mais. Precisava de mais. Precisava de tudo. Precisava dela nua e com as pernas abertas. Precisava esfregar seus mamilos com os dentes. Precisava devorá-la entre as pernas, depois estocar dentro dela fundo, tão fundo que ela ainda pudesse senti-lo dias depois. Precisava ouvir seus gritos quando chegasse ao orgasmo.

Sim. Ele tocou a bainha de sua camisa, pronto para rasgar a peça.

Uma sirene soou ao fundo e Evie enrijeceu.

— Espere. Pare. — Ela respirou fundo e o empurrou. Não o olhou nos olhos. — Isso é errado.

Errado? Não. Ele...

Não estava beijando a mulher que era sua noiva.

Sim. Aquilo era errado.

Uma onda de desprezo o atravessou e com um passo atrás — física e emocionalmente —, ele aumentou a distância entre eles.

Evie se endireitou e fez o mesmo, depois enxugou a boca com as costas da mão como se não pudesse suportar lidar com o seu gosto por nem mais um segundo.

— Isso não deveria ter acontecido.

— Eu sei. — Não estava apaixonado por Pagan, verdade, mas lhe deu um anel. Ele tinha regras. Regras que devia ter seguido. Estava com vergonha.

Tinha acabado de trair Michael da pior maneira possível. Michael que fez tanto por ele no correr dos anos, mas que só tinha pedido uma única coisa em troca. Que não mexesse com a sua filha.

Eu sou a escória.

Correção. Sou pior que a escória.

Blue havia desrespeitado o homem, e pelo quê? Prazer momentâneo.

Frase perfeita. Prazer momentâneo. Isso era tudo que Evie poderia ser.

Ela não era como Pagan. Nunca aceitaria o fato dele precisar estar com outras, não importava a razão de suas ações. Ela o mataria e talvez até a mulher da vez, totalmente indisposta a conceder que o que ele fazia era um mal necessário do trabalho.

Ele...

Gostava daquilo, percebeu, um pouco atordoado. Queria que uma mulher lutasse por ele. Que o desejasse, e somente ele. Que ansiasse a sua devoção infalível e que insistisse na existência dela.

Quem é você?

— Foi o momento. — disse Evie, a voz vazia. — A onda de sobreviver à perseguição e a explosão.

Foi?

— Eu sei. — ele repetiu, sua voz tão vazia quanto.

Ele não sabia.

Esteve atraído por aquela garota desde o início. Talvez ela também estivesse atraída por ele desde a mesma época. Talvez para ela isso só tivesse acontecido recentemente. Mas o fato permanecia. Eles estavam na do outro, não importava o quanto aquilo era errado.

Teriam que ter cuidado.

— Está bem agora? — ela perguntou.

Estava? As rédeas no seu poder foram reforçadas, mas sua mente estava em desordem. Nunca mais provar daquele mel? Nunca mais sentir aqueles seios do tamanho de xícaras esmagados contra o peito? Nunca mais se esfregar entre suas pernas?

Nunca penetrá-la com os dedos?

Impossível.

— Ficarei bem. — ele disse com os dentes cerrados. — Vamos antes que a polícia chegue.

Eles voltaram ao carro, sentaram-se dentro.

Enquanto reprogramava o GPS ele disse.

— Assim que voltar dos mortos, direi a Pagan que acabou. — Ele tinha acabado de traí-la para valer. Sim, ele disse a ela que haveria outras mulheres, mas aquilo era diferente.

Aquilo foi por sua própria vontade.

Ele era mesmo um galinha.

Não havia como endireitar o que fez. Nenhuma maneira de recuperar sua honra, mas poderia fazer uma coisa honrada. Poderia libertar Pagan, permitir que ela encontrasse outra pessoa. Alguém que a merecesse.

— Espero que não esteja fazendo isso por minha causa. — disse Evie olhando pela janela, escondendo a expressão. — Aquele foi o nosso primeiro e último beijo. Nunca vai acontecer de novo.

Ele tinha acabado de pensar a mesma coisa — e mesmo assim, ainda irritava ouvi-la dizer.

— Não se preocupe, pétala de rosa. Me envolver com você é a última coisa que quero fazer.

 

ESTOU SERIAMENTE ferrada.

Antes, Evie só tinha sido capaz de especular sobre as proezas sexuais de Blue. Dizia a si mesma que todas as mulheres que se aglomeravam em cima dele eram idiotas, e que suas habilidades eram completamente superestimadas.

Agora sabia que não era o caso.

As habilidades dele eram seriamente subestimadas. Ele não só a tinha beijado. Fodeu sua boca por completo. E o tempo inteiro, ondas do seu poder se derramaram sobre ela, esquentando-a, fazendo com que sentisse como se mil mãos estivessem concentradas nas suas partes mais travessas.

Nunca ficou tão presa a um momento, nem tão perdida em sensações.

O quanto esteve perto de deixar que ele a possuísse em público, ao ar livre, para qualquer um ver. Como esteve perto de ser usada — e descartada.

Não vou ser outra conquista. Não vou!

A partir de agora, seria mais cuidadosa perto dele. Embora… talvez não tivesse que ser.

Me envolver com você é a última coisa que quero fazer, ele tinha dito, e mesmo que tivesse concordado com o sentimento, as palavras ainda conseguiram perfurá-la.

Como sou patética, pensou. Não consigo nem que o homem mais promíscuo do mundo me queira a não ser que esteja desesperado para extravasar um pouco de poder.

Tanto faz. Não importava. Nada importava a não ser Michael, John e Solo. Ela não esqueceria outra vez. E se esquecesse, poderia muito bem ir logo se candidatar a uma lobotomia.

        

Enquanto Evie instalava um perímetro externo em volta das ruínas do que uma vez foi a casa de Michael, criando uma paredes invisíveis que manteriam tudo e todos do lado de fora, incluindo olhos xeretas, Blue tirava pedaços de madeira tostados do caminho usando o seu poder, tirando os maiores pedaços de escombros antes de chegar à seção onde Fry Guy tentou cozinhá-lo para o jantar.

Queria que pudesse usar a sua habilidade favorita. Ou melhor, queria que pudesse usar uma versão mais leve de sua habilidade favorita. Blue poderia se colocar em uma localidade, qualquer localidade, e forçar que os acontecimentos dos últimos dez minutos se repetissem. Podia assistir tudo que ocorreu, como um filme que se desenrolava em uma tela de televisão, quer ele tivesse testemunhado os fatos ou não. Mas a explosão ocorreu há mais de uma semana, num passado muito distante para a sua capacidade.

Mas havia outro talento que poderia usar ali. Um que sempre considerou inútil. Um brilho azul-celeste começou a vazar dos poros de sua mão, e ele correu a palma por pedaços de madeira queimada, metal e papel, o material se desintegrando para revelar o que quer que estivesse escondido por baixo.

O brilho conseguia limpar qualquer coisa — menos os seus pensamentos sujos. Seu desejo por Evie não diminuiu no silêncio do caminho até ali. Só cresceu.

Estava mais estarrecido com essa ciência a cada segundo que passava. Também estava extremamente irritado.

Como ele foi de total antipatia por ela a essa… aparente obsessão?

— Truque legal. — ela disse, colocando-se ao seu lado.

Ele se preparou para o seu cheiro de mel e amêndoas, dizendo.

— Apenas um de muitos.

Ela colocou uma mão na altura do coração.

— Tão humilde.

— Acho que recordo da sua aversão a mentiras. Ou isso mudou?

Ignorando a pergunta, ela disse.

— O que, exatamente, acha que vamos encontrar?

— Não tenho certeza ainda.

— Ah. Essa é uma missão “saberemos-quando-encontrá-lo”.

— Sim. Agora cale o bico e ajude.

— Sim, senhor.

A resposta foi inesperada — onde estava sua raiva? — e ele mal conteve a risada. Nunca haveria um momento tedioso com aquela garota, isso com certeza.

Ela trabalhou ao seu lado por dez… vinte minutos sem dizer uma palavra, mas a ciência que o seu corpo tinha dela nunca se dissipou. Havia algo na graça dos seus movimentos que atraía continuamente o seu olhar.

Por que ela tinha que ser filha de Michael?

— Diga logo o que está na sua mente. — ela rosnou finalmente, seu bom humor indo embora. — Não gosto do jeito que está me olhando.

Notou, não foi?

— E como estou olhando para você?

— Como se quisesse me comer.

Eu quero. Quero tanto. De café da manhã, almoço e jantar. E depois de sobremesa.

— Por que não faz um favor a nós dois e deixa de achar que está no centro de todas as coisas, bolinho de nata? — A melhor defesa era um bom ataque e tudo mais.

— Bolinho de nata? Esse é o pior de todos! — Ela jogou um pedaço de madeira em sua cabeça.

Ele parou o pedaço no ar usando uma fração mínima de poder, deixando o mesmo flutuar por um momento antes de atirá-lo de lado. Claro, ela usou a sua distração contra ele e atirou outro. Esse o atingiu no peito, quase comprimindo os seus pulmões.

— Faça isso de novo. — ele rosnou. — Desafio você.

— Desafio aceito. — Ela jogou outro.

Como da primeira vez, ele o parou e jogou de lado.

— Estou avisando, Evie.

— Ah, é? O que vai fazer comigo, hein?

Ela estava ofegando, percebeu, bem como ele. Estavam se olhando do mesmo modo que fizeram depois da explosão, procurando um escape para a raiva que sentiam… e para a tensão sexual que tinham um pelo outro. Só que desta vez nada aconteceu para provocar tal reação. Se eles se beijassem, só teriam a si mesmos para culpar.

Ele quase não se importou. Sua boca se enchia d’água por ela. As mãos doíam por ela.

— Esqueça. — As suas bochechas enrubesceram quando se afastou dele pisando o chão com força desnecessária. Ele achou tê-la ouvido murmurar a palavra lobotomia. — Estamos aqui por um motivo. Vamos nos concentrar.

Que exasperante Evie Black ter se tornado a voz da razão do relacionamento dos dois.

— Milagre dos milagres, você está certa. — Ele voltou a atenção para a pilha de cinzas, e seu olhar se prendeu a um pequeno isqueiro. O metal havia derretido, mas depois de uma rápida limpeza o logotipo único se tornou visível. Uma loira nua montava um homem que era metade príncipe encantado metade unicórnio negro.

O logotipo representava o Lucky Horn. Uma boate de strip que ele pode ou não ter visitado… inúmeras vezes.

Era o isqueiro de Michael? Ou poderia ser do Fry Guy?

— Já viu isso antes? — ele perguntou, estendendo o objeto para a inspeção de Evie.

Ela o olhou e sacudiu a cabeça.

— Não. E até onde eu saiba, Michael nunca foi ao Lucky Horn.

Como ela reconheceu o logotipo?

— Como se ele fosse te contar. — interpôs Blue.

— Como se não fosse. Ele não pensa em mim como filha e sim como agente. Bem, como médica agora.

Fios de uma dor interna profunda o acariciaram frios e abrasivos. Eles vinham dela, percebeu.

Quando ele ia parar de se admirar com aquilo?

— Do que está falando? Claro que pensa em você como filha. Ele sempre a mimou em excesso, deixando que se livrasse depois de fazer o tipo de merda pela qual ele teria matado outros agentes. — E isso sempre incomodou Blue, embora ele não conseguisse sentir nenhum tipo de indignação naquele momento.

A expressão dela ficou pensativa quando analisou suas palavras. Alguns segundos depois ela disse.

— Por que ele me deixou em Westminster com minha mãe, então? Por que me visitava raramente?

Ela achava que… o quê? Que Michael nunca a tinha amado de verdade? Ai.

Mas ela não poderia estar mais errada. A dor estava dando outro tom a todas as suas lembranças.

Ele tinha experiência com isso. Não conseguia se lembrar dos seus pais biológicos, só dos seus cinco irmãos mais velhos, três meninos e duas meninas. Eles viveram nas ruas, seus irmãos roubavam todo tipo de comida e roupas, e suas irmãs… ele não queria pensar no que eles faziam. Mas depois todos ficaram doentes, morrendo um atrás do outro, até que, aos quatro anos, Blue ficou sozinho. Para sobreviver comia o que achava em latas de lixo.

Um sem-teto gentil o notou e tentou tomar conta dele por um tempo. Mas não demorou para que o rosto bonito de Blue chamasse a atenção do tipo errado de gente. O sem-teto foi esfaqueado e morto, e Blue atirado dentro de um carro.

Foi quando o seu poder apareceu pela primeira vez e se ativou.

Desesperado, assustado, ele de algum modo fez com que o carro levitasse e colidisse com um prédio. E quando os sobreviventes tentaram levá-lo, ele os levitou e atirou contra o prédio. Sozinho mais uma vez, escondeu-se nas sombras.

Michael o encontrou dois dias depois.

Depois de alimentá-lo, limpá-lo e vesti-lo, Michael garantiu que Blue fosse levado para um bom lar. Um com muitas crianças, para que tivesse irmãos e irmãs novamente.

No começo, os pais o incluíram nas refeições familiares. Ele protestou, querendo ficar sozinho com o seu pesar, e eles finalmente pararam de chamar, permitindo que continuasse em seu quarto. Foi quando Blue decidiu que eles não gostavam dele de verdade, e que ficaram felizes em se livrarem dele.

Depois disso, toda interação que tinham era tensa.

Olhando para trás, sem a dor da perda, podia ver que o casal só estava tentando ajudar, fazendo o possível para que ele se curasse por dentro.

— Por que não pergunta a Michael por que ele fez o que fez da próxima vez que o vir? — disse Blue, usando seu tom mais gentil. — A resposta pode te surpreender.

Os olhos escuros o analisaram, como se procurassem respostas que ele não podia dar. Ela deu um sorriso curto e doce.

— Vou fazer isso. Obrigada.

— De nada. — Ele voltou a trabalhar antes que fizesse algo estúpido, tipo puxá-la para os braços. — Precisamos saber de tudo que pudermos sobre o Lucky Horn. Se o isqueiro for do Fry Guy ao invés de Michael, podemos chegar a uma identificação.

— Estou assumindo que Fry Guy é o homem que tentou pôr fogo em você.

— Sim. Se o identificarmos, podemos descobrir quem são os seus amigos. Amigos que podem saber onde Michael, John e Solo estão.

Ela exalou com apreensão.

— Tenho o pressentimento que isso inclui uma viagenzinha até o estabelecimento.

Blue assentiu, surpreso com a quantidade de apreensão que crescia dentro dele. Em primeiro lugar, ele não tinha vontade nenhuma de ser acariciado por strippers. Ele só queria mesmo...

Nada.

— Vamos. — disparou.

 

Cinco horas depois, Evie invadiu o Lucky Horn, tomando conta de uma mesa bem na lateral do palco.

Blue era o novo stripper da boate.

Eles descobriram que o lugar estava contratando, e ele insistiu que ela se candidatasse a uma das vagas.

— Foda-se. — ela tinha dito. — Você quer alguém lá dentro. Portanto, você é o responsável. Eu não rebolo a bunda para Sr. Ninguém. Além do mais, um de nós precisa colher informações dos fregueses, e quanto mais gente vir o seu rosto, mais é provável que o reconheçam. E vamos ser honestos, lá em cima do palco, ninguém vai olhar acima da sua cintura.

Ele só bufou e expeliu fumaça pelo nariz por alguns minutos.

— Alguém ou está tentando sequestrá-la ou matá-la. O que significa que precisa de um disfarce. Que disfarce melhor do que o de uma stripper?

Boa tentativa.

— Me dê uma hora e eu te mostro um disfarce melhor.

E foi o que ela fez!

No momento, o seu cabelo estava tão loiro que era quase branco e com mechas rosas. Seus olhos estavam bem azuis e o seu peito enorme inflado por um sutiã com enchimento de silicone.

Blue tinha lhe dado uma olhada e sacudido a cabeça, desaprovando. Desaprovação que ela não entendia. Ninguém a reconheceria e ela agora combinava com o tipo preferido de mulher dele.

Mas acima da desaprovação, ele não exibiu nada que indicasse excitação. E a ausência disso, bem, desapontou-a.

Lo. Bo. To. Mia.

Mesmo com sua cicatriz e piercings, Blue foi contratado logo de cara. Ninguém tinha um corpo como o dele.

Talhado do granito. Ninguém conseguia se mover como ele. Toda ação sua era um tipo de chamado sensual para o acasalamento.

Agora, esperando que ela aparentasse admirada com os arredores, ela vasculhou a boate. Paredes escuras, carpete escuro. Iluminação fraca, com exceção do palco. Dos dois lados do mesmo, mulheres se penduravam em cordas, seus corpos nus brilhando enquanto elas se reviravam em diferentes posições sexuais. No centro, chovia glitter do teto, colando-se à pele exposta da morena quase nua que fazia piruetas e que atualmente provocava a plateia enquanto removia o fio dental.

Um dos fregueses enfiou uma nota na sua caixa — e não, caixa não era um eufemismo. Homens não podiam tocar os dotes dos funcionários até que pagassem, metendo dinheiro em uma caixa de fato à beira do palco. As notas desativaram a cerca elétrica e permitiram que a garota se aproximasse do freguês e colocasse uma bota de salto alto em seu ombro, dando-lhe uma vista perfeita do que seu dinheiro comprou.

Uma garçonete com os seios de fora chegou e perguntou o que Evie iria beber.

— Cerveja em garrafa. Não abra a tampa.

Não havia razão para pensar que alguém tentaria envenená-la, mas ela não se arriscaria.

A morena terminou seu espetáculo e uma voz rouca falou ao microfone.

— E agora, senhoras e senhores, estamos orgulhosos em apresentar a mais nova adição à família Lucky Horn. Uma salva de palmas para o bruto e duro… Jack Hammer[10]!         

Chegou a hora! Incapaz de conter a sua empolgação, Evie bateu as mãos e se balançou na cadeira. Às vezes ser agente tinha suas vantagens.

A cortina aos fundos do palco se abriu e de lá saiu Blue, usando nada além de uma carranca e uma cueca de couro.

Nossa. Ela perdeu o fôlego. Esperava se divertir com aquela situação, mas ficou inexplicavelmente excitada. Ele era músculo por cima de músculo. Sua pele era clara, como a de todos os Arcadians, e ainda assim, havia um semitom dourado e brilhoso, como se ele tomasse banho com pó de anjos. Ele parecia selvagem.

Perigoso.

E ok, além de irritado.

A garçonete chegou com a cerveja e Evie acenou.

— Está tapando a vista.

Como sempre, poder irradiava dele. Mais alguém sentia?

Ele ficou imóvel como uma estátua quando a música começou. Alguém vaiou. Outra pessoa atirou uma batatinha frita nele.

Ele vai acabar com o disfarce.

— Vamos ver o que sabe fazer, Sr. Hammer! — Evie pôs os dedos na boca e assobiou. — Isso, baby. Isso! Mostre a mamãe aqui o que o bom Deus te deu!

De algum modo ele a encontrou no escuro e a olhou com raiva. Depois de um segundo para outro, o tom do olhar fulminante mudou. De raiva para antecipação.

O-ow. O que tinha acabado de acontecer?

Ele andou na sua direção e suas mãos começaram a suar. Na beira do palco, ele tirou uma nota de dinheiro do cós da cueca — se alguma piranha nos bastidores colocou aquela nota ali, eu vou… fazer nada — e a meteu na caixa do sexo, fechando a tampa.

Ele saltou do palco. A plateia assistia, impressionada.

Claro que ele não iria até ela.

Ele veio.

Inclinando-se para ela, ele apoiou as mãos nos braços da cadeira.

— Que tal uma dancinha no colo, ameixinha doce?

Puta merda. Arrepios correram pela sua espinha.

— Seus mamilos acabaram de endurecer para mim. Tomarei isso como um sim.

Não tinha como ele ver aquilo. O seu sutiã era grosso demais.

— Eu consigo. — ele disse, como se lesse os seus pensamentos. — Eu consigo sentir a sua reação.

Ela arregalou os olhos e sua resposta morreu quando as mãos dele circularam a sua cintura. Ele a levantou até a tampa da mesa, para melhor alinhar os seus corpos. Ele a forçou a abrir as pernas e o encontro de suas coxas para aninhar a sua...

Oh, misericórdia. Sua enorme ereção.

Então ele dançou. Lentamente e num ritmo firme, esfregando-se no seu ponto mágico. Ricocheteando o seu desejo a um nível de tremer a terra. Um lugar onde as chamas devoravam. Ela não conseguiu conter as mãos. Elas varreram o seu peito, passaram pela cicatriz em seu rosto, emaranharam-se em seu cabelo.

Se os fregueses gritaram de aprovação ou vaiaram, ela não soube. Estava totalmente focada no homem à sua frente, mais que ciente de todo movimento que fazia. Do seu poder, acariciando-a com a perícia de mil mãos.

Do cheiro dele em seu nariz, champanhe e morangos. Do seu olhar cravado no dela — talvez vendo a sua alma. Da sua ereção pressionando o lugar onde mais precisava dele, depois recuando, pressionando de novo, e — oh, continue, por favor. Um gemido lhe escapou. O prazer… muito forte… mas não suficiente.

Me dê mais. Me dê tudo. Éden estava certa. O dia havia chegado. Evie queria que um cara a pegasse forte e de jeito.

Pressiona, recua. Pressiona, recua. Calor em forma líquida se concentrou entre as suas pernas, a costura do seu jeans só deixando tudo pior.

Sua cabeça flutuava com a força da sua excitação. Uma pressão perigosa se formava dentro dela, enrolando-se em espiral, preparando-se. Se ele continuasse, ia fazer com que gozasse. Bem ali. Na frente de todo mundo.

Consternada com a ideia, ela enfiou as unhas em seu peito nu. Sentiu o calor de sua pele, e deu outro gemido.

— Não. — ela sussurrou, em pânico. — Por favor.      

Só com isso, ele parou.

Ele estava ofegando, os lábios esticados e presos aos seus dentes perfeitos.

Ele se virou e voltou ao palco, desaparecendo rapidamente atrás da cortina.

Isso é ser mais cuidadosa ao ficar perto dele? Gritou o seu bom senso. Sério? Pare de ameaçar fazer aquela lobotomia e faça logo de uma vez!

Evie arrancou a tampa da cerveja e bebeu o seu conteúdo. Depois pediu outra e também a bebeu de vez.

Assim que o seu corpo tinha acalmado, ela fingiu que estava meio embriagada e andou um pouco vacilante até uma mesa com uns homens mais velhos que pareciam frequentadores assíduos, bem familiares com os modos do lugar. Durante a hora seguinte eles deram em cima dela e a provocaram devido a dancinha nós-jurávamos-que-vocês-estavam-transando que Jack Hammer tinha feito para ela. Tentando não corar como uma estúpida colegial, ela pagou várias danças no colo para eles — não de Blue, porque ele ainda estava nos bastidores, provavelmente vasculhando os escritórios e amaldiçoando a existência de Evie — e eles finalmente pararam de dar em cima dela, e ao invés disso começaram a tratá-la como um deles. Foi aí que ela pagou uma rodada para todos que estavam na boate.

Eventualmente, todos os fregueses apareceram para agradecê-la e acabaram ficando para uma conversa. Ela descobriu bem mais do que esperava.

O Sr. Gregory Star e a sua comitiva visitavam a boate pelo menos duas vezes ao mês, e sempre iam para os fundos do clube falar com Timothy Mercer, que tinha trabalhado no Lucky Horn durante três anos. Duas semanas atrás, Timothy simplesmente desapareceu. Ninguém o viu nem ouviu falar dele desde então, nem tinham ideia do que podia ter lhe acontecido.

Star aparecia no caso mais uma vez. Sem dúvida, o homem estava envolvido no desaparecimento do seu pai. Bem como era certo que Timothy era o homem que ateou fogo em Blue.

Ávida por verificar aquelas novidades para obter evidências mais concretas, Evie pediu licença sob o pretexto de ter que urinar e andou aos tropeços, como se sua visão já estivesse alterada pela bebida, na direção da entrada dos fundos. No momento que dobrou a esquina ficando fora das vistas de todos, ela tirou um shielder de dentro da bolsa e o jogou atrás de si, o pequeno aparelho criando uma parede invisível ao cair no chão. Até que o desativasse, apenas ela e Blue seriam capazes de ultrapassá-lo, já que eles eram os únicos com um desmodulador em seus telefones, um aplicativo criado para cortar o sinal do shielder.

Ela foi andando até o guarda armado ao fim do corredor.

Franzindo o cenho, ele agarrou o cabo da arma.

— Eu sugiro que volte por aonde veio, senhora. Não é permitido ninguém nesta seção do estabelecimento.

Senhora? Ela realmente parecia uma senhora?

Senhoras tinham ao menos dezesseis gatos-robô, usavam vestidos havaianos, e nunca tiravam os bobs do cabelo.

Ele queria morrer?

Ela parou na frente dele, uma onda familiar de excitação a atingindo. Nem ouse se acostumar a esse tipo de trabalho. Era só um showzinho. Assim que seu pai e os meninos fossem encontrados, assim que Star fosse eliminado, ela voltaria à sua vida normal e confortável.

Mas, sinceramente, a última vez que experimentou uma coisa tão empolgante assim, estava em sua última missão, e Claire havia...

Ela suprimiu aqueles pensamentos.

— Não é aqui o banheiro? — ela perguntou, garantindo uma pronúncia confusa.

— Volte. Por aonde veio. Agora. Não vai gostar do que acontece se não voltar.

— Ok, ok, não precisa ser tão grosso. — ela resmungou — então esmagou a sua virilha com o joelho.

Com um berro estrangulado ele se curvou, lutando para respirar, enquanto ela alinhava o corpo para bater com o cotovelo na sua cabeça. Seu corpo ficou mole quando o seu tecido cerebral foi rapidamente comprimido, e ele desmoronou no carpete, completamente apagado.

— Foi mal, tio, mas você escolheu o lado errado. E me chamou de senhora!

Ela espiou pela abertura da porta. Dançarinos pouco vestidos sentavam à frente de uma fileira de espelhos, checando cabelo e maquiagem. Ninguém prestou a mínima atenção na porta quando ela entrou da área restrita a funcionários.

À sua direita havia uma porta fechada com no nome Timothy Mercer ao centro. Brilhante. Evie se adiantou e virou a maçaneta. Estava trancada. Depois de uma olhada rápida atrás de si — tudo ainda estava bem — ela tirou as ferramentas necessárias da bolsa e se pôs a trabalhar.

— Ei, o que está fazendo? — disparou uma mulher atrás dela. — Você não devia estar aqui.

Evie colou um sorriso largo no rosto antes de se virar e encarar a morena que fez a abertura do show de Blue.

— Oi. Eu sou Chlamydia Jones, a nova stripper. Me contrataram tem só umas horas. — Animadinha demais, Black. Manere um pouco. — Me disseram para falar com o senhor Mercer.

Os olhos verdes se estreitaram com suspeita.

— O Sr. Mercer não está aqui.

— Droga. Que merda. — Eu tentei fazer do jeito certo. Evie tinha colocado três anéis, só caso viesse a precisar. No centro de cada um, debaixo da pedra, havia uma agulha que ela carregou com veneno de sua própria criação; certa época eles foram a marca registrada de suas missões. Ela ativou o anel com Wrath, sua toxina mais usada, e segurou a mão da garota. — Você pode por favor...

— Ai. — Morena disse, pouco antes de tirar a mão da sua para colocá-la sobre o estômago.

— Você está bem? — Evie perguntou, fingindo preocupação.

A garota sacudiu a cabeça. Quando a sua pele ficou um tom putrefato de verde, ela correu o mais rápido que pôde até o receptáculo mais próximo, onde vomitou todo o conteúdo do seu estômago… e talvez até o próprio estômago.

Atrás de Evie a porta se abriu, e uma mão firme segurou o seu braço, puxando-a para trás. No momento que estava dentro do escritório, a porta se fechou, trancando-a lá. Com Blue.

Ela reconheceu a vibração do seu poder.

Lentamente, ela se virou. Ele usava jeans e camiseta, tudo que aludia ao Sr. Hammer erradicado, e contudo, assim que os seus olhos se encontraram, houve um momento onde o tempo parou e tudo o que ela lembrava era da sensação da ereção dele esfregando no meio de suas pernas e da necessidade aguda e desesperada do seu corpo.

Só conseguia pensar em uma coisa: Mais.

— Pare de me olhar e me diga o que está fazendo aqui. — ele exigiu.

O-k. Então ele não sentia o mesmo. Ruborizando, ela disse.

— Eu vim dar a minha avaliação. Depois de um começo questionável, você...

— Nunca mais vamos falar disso outra vez. Ouviu o que eu disse?

Não posso rir.

— Considere isso material de chantagem. — Ela contou a ele o que descobriu.

— Confirmação de que Star está envolvido. — Ele assentiu. — Teremos que examinar a casa dele. Entre outras coisas.

Papo de missão. Ótimo. A melhor maneira de voltar aos eixos.

— Encontrou algo aqui?

— Ainda não. — Ele foi até a mesa e mexeu no teclado do computador. — Estou passando as informações da segurança do clube das últimas três semanas para o flash drive e deletando as atividades de hoje.

Graças a Deus. Repetir a estreia de Jack Hammer — e a sua reação a ela — teria sido bem humilhante.

— Pronto. Feito. — ele disse, removendo o flash drive.

— Então estamos prontos para sair do clube?

— Sim. Se conseguir que eu saia sem que ninguém me agarre, admitirei que você é o melhor agente.

Ela bufou — depois xingou internamente. O homem tinha que ser tão inteligente e agradável?

— Combinado.

 

EVIE CONTINUAVA SURPREENDENDO-O.

Na boate, ela lidou com os fregueses e empregados com a mesma habilidade. Inferno, até tinha lidado bem com Blue.

Ele se perdeu no prazer de se esfregar nela, esquecendo do objetivo deles, da plateia que tinham, até ela lembrá-lo.

Ela tinha implorado de um jeito tão lindo.

Implorar. Completamente fora do padrão dela. Isso o assustara o suficiente para que recuperasse a lucidez.

Mental e fisicamente, parecia não conseguir controlar as reações que tinha sobre ela.

Não posso me preocupar com isso agora.

Eles precisavam se livrar do carro dela. Quem quer que tivesse ordenado a perseguição mais cedo — tentativa de assassinato? — ainda estava lá fora e Evie agora não era… mais Evie. Ela era a Srta. Loira de Peitões, e ele odiava isso.

Quando não estava se esfregando nela, é claro, preferia muito mais seu voluptuoso cabelo escuro e suas curvas mais discretas.

Concentre-se. Voltar à casa dela teria sido estúpido, entregando as suas identidades, não importava a aparência que tinham agora, então não protestou quando ela roubou um caminhão e o levou até um local secreto que ela jurava que ninguém conhecia.

E por que protestaria? Ver Evie roubar um carro era como assistir a uma cena com uma atriz pornô fantasiada de mecânica de dentro do estúdio. Ele ainda estava duro.

Você está duro há dois dias.

— Você deixou a agência. Por que mantém um local secreto? — ele perguntou enquanto checava o lugar. Era pequeno, mas virtualmente indetectável, escondido sob um bairro classe média onde todas as casas acima eram da mesma cor e formato. Só havia uma entrada, e ficava escondida em uma alcova escura próxima à torre de enzima do distrito, há um quilômetro e meio de distância.

Evie tinha reforçado as paredes com metal alienígena que conseguiria suportar um ataque nuclear, e instalou centenas de monitores, todos observando os arredores de diferentes ângulos. A única mobília era uma cama, uma cadeira e uma mesa cheia de papeis, computador e peças e equipamentos mecânicos que ele não reconhecia.

— Gosto de estar preparada. — ela disse dando de ombros.

Ele era igual. Colecionava esconderijos do mesmo modo que outros homens colecionavam locais para encontros sexuais, garantindo que tivesse algum lugar para ir em todos os cantos do mundo. Talvez um dia fizesse um tour com Evie e a deixasse mais que impressionada.

Ele enrijeceu. Fazer um tour com ela? Impressioná-la?

Sério? Nem Michael, John ou Solo tinham ciência da metade dos seus lugares, e queria dividir a informação com ela?

Fechando a cara, Blue sentou à mesa e ligou o computador. Abrir o conteúdo do pen drive demoraria um tempo.

— Vou fazer um sanduíche. — disse Evie, pressionando alguns botões em um pequeno controle remoto preto. À sua frente uma seção da parede se abriu, revelando uma geladeira bem abastecida. — Quer um?

Ele mascarou o seu desconcerto com um abafado.

— Seria ótimo, obrigado.

— Brilhante. Deixarei o pão e a pasta de amendoim aqui para que você possa fazer um.

Agora sim, aquela era a Evie que ele conhecia e… que gostava. Ele esfregou dois dedos na boca para esconder um sorriso.

— Você sempre foi essa megera, ursinha?

Ela balançou o punho em sua direção.

— Pare de me chamar desses nomes ridículos. E sim, acho que sempre fui. Mas também precisei ser. — Ela tirou uma faca de uma gaveta escondida. — Do contrário, a minha mãe teria acabado comigo.

Ela nunca ofereceu informação de maneira voluntária sobre o seu passado, e ele se viu se inclinando para perto dela, tão ávido para ouvir mais a respeito quanto ficava quando tinha que matar alguém.

— Me fale dela.

Enquanto ela fazia dois sanduíches, disse.

— Ela podia ter sido um general do exército. Tudo tinha que ser de um certo jeito. Do jeito dela. E depois precisava encontrar os seus padrões exatos. Querendo dizer que nada nunca estava bom o bastante.

A pequena Evie vivendo sob um regime militar. Ele franziu o cenho, não gostando da imagem. Será que ela podia agir como a criança que era e brincar?

— Não tenho certeza do que Michael viu nela, pra ser sincera.

Adorável o modo que ela acrescentou sotaque na palavra viu.

— Ela parece com você?

— Sim. Na verdade já disseram que sou a cópia viva dela.

Bem, ali estava. Michael não conseguiu se conter.

— Nenhuma época boa?

— Não até Claire chegar.

Felicidade o rodeou, seguida por pesar. As duas emoções vinham dela. Claramente a morte de Claire a destruiu, e ela ainda estava lidando com a dor.

Partindo o meu coração.

— Qual é a sua lembrança favorita dela?

Ela pensou por um momento, depois sorriu.

— Claire me fazia assistir comedias românticas, tragédias românticas, tudo que fosse romântico. — Evie disse, e o seu sorriso morreu. — Eu costumava provocá-la sobre os horrores das emoções mais profundas, que eu chamava de emoções papo furado, e ela costumava dizer que eu não enganava ninguém, que já tinha aquele papo furado no sangue, e depois nós ríamos dos nomes que eu dava a certas coisas.

Blue de repente desejou nunca ter permitido que a sua antipatia por Evie o tivesse afastado dela quatro anos atrás. Teria sido engraçado ver Claire e ela juntas. O dragão que cuspia fogo e a princesa tímida, de algum modo encontraram uma maneira de coexistirem felizes.

— Eu também tive irmãos. — ele admitiu. — Eu só tinha quatro anos quando eles morreram, mas sempre terão um lugar em meu coração. — Ele lembrou como, antes que seus irmãos e irmãs morressem, cada um deles depositou a mão em seu peito. Um calor espalhou pelo seu corpo inteiro em cada uma das vezes.

Não tinha entendido na época, mas Cade, Caell, Cameron, Caymile, e Candice tinham legado seus poderes a ele. Eles eram a razão dele ter sobrevivido às doenças que eles não suportaram. Eram a razão dele ser tão forte quanto era.

E nunca teve a oportunidade de agradecê-los.

Por um momento, Evie ficou parada e calada. Depois se aproximou, e com a expressão cuidadosamente neutra, passou um sanduíche a ele.

— Tome. — Ela sentou na beira da mesa, sem se importar ao derrubar as coisas no chão.

Comeram em silêncio, e ele agradecia por isso. Quanto mais ela falava, mais ele gostava dela.

E ele não devia gostar dela enquanto ela estivesse por perto… afetando-o. Coisas ruins aconteciam. Prova: ele já estava tenso e morrendo de desejo. Pronto pra transar. Um sexo bruto e animal. Sexo safado. Do tipo que nenhum dos dois seria capaz de esquecer.

O que ela preferia? Ser tocada com gentileza? Ou com firmeza?

Gostava de ser lambida? Ou mordida? Ou os dois?

Como se sentia em relação ao sexo oral? Ele queria a boca dela em seu membro, o cabelo escuro espalhado pelas suas coxas.

O poder começou a se contorcer dentro dele, e tanto a cadeira quanto a mesa bambolearam antes de serem levantadas no ar. Os olhos dela — aqueles olhos ricos e escuros — se arregalaram. Ela tinha retirado as lentes de contato, e ele quis gritar de gratidão.

— Blue?

Ele não ligava que o seu cabelo atualmente estivesse loiro e não como a preferia. Ainda podia agarras as mechas entre os dedos. Podia guiá-la no ritmo que queria que ela criasse.

Depois disso ele arrancaria a sua roupa e devolveria o favor.

Ele apoiou as mãos em suas coxas. Mãos enormes. Coxas delicadas. Ela sorveu o ar… mas não o empurrou.

— Me empurre. — ele disse. O calor da sua pele era tão intenso que ele pôde sentir a ardência pela calça jeans.

— Blue, eu...

Um zumbido abafado a interrompeu.

Franzindo a testa, ela tirou o celular da bolsa estilo carteiro ainda por cima do ombro e leu a tela do aparelho.

Choque emanou dela, envolvendo-o e apertando como um laço.

— O que foi? — Seu desejo esfriou num instante. A cadeira e a mesa desceram ao chão.

Os olhos dela encontraram os seus.

— Acho… acho que o meu pai acabou de me enviar uma mensagem.

 

Essa era a extensão da mensagem codificada, e ainda assim o choque passou e Evie soube. Seu pai era o responsável.

Raio de sol era o apelido que ele tinha para ela. E ela realmente sabia onde. A cerca de um quilômetro e meio do Lago Michigan. Michael tinha planejado para algo assim — um deles ser perseguido, em necessidade de um local seguro para se esconder — e tinha dito aonde ir se alguma vez a contatasse.

Ela e Blue deixaram o refúgio e roubaram outro carro. Eles digiram até a doca, enrolando um pouco para garantir que não estavam sendo seguidos. Depois, juntando alguns fios, as “peças sobressalentes” que seu pai havia guardado em vários esconderijos se juntaram como ímãs e metal para criar um pequeno barco.

Depois de vestirem trajes protetores, ela e Blue subiram na embarcação. Aquilo seria divertido. Não. A bactéria no lago sofria mutações constantes. Com o sangue Arcadian de Blue, ele provavelmente era resistente. Mas mesmo que suas vacinas estivessem em dia, ela poderia adoecer.

Finalmente eles estavam ganhando velocidade.

— Não crie muita expectativa. — Blue tinha que gritar para ser ouvido acima do ruído do motor. — Isso pode ser uma armadilha.

— Não é. — ela gritou. Mechas chicoteavam suas bochechas e enchiam sua boca enquanto ela tentava agarrá-las bravamente e segurá-las na altura da nuca.          Ele a olhou com severidade. E não era justo. O sol estava em processo de se pôr, fornecendo um majestoso pano de fundo rosa e roxo, tornando-o mais lindo do que nunca.

— Espero que esteja certa.

Ela respirou e imediatamente tossiu. O ar estava espesso com cheiros de decomposição e mofo.

Acalmando-se, ela percebeu que Blue a observava com preocupação. Teve que desviar o rosto.

Quando seu desejo por ele passaria?

Eles quase tinham se beijado. Outra vez. Sabia que aquilo estava a ponto de acontecer e não planejou parar o ato. Na realidade tinha planejado encorajá-lo.

Qual era o problema com ela?

Talvez… devesse logo ceder, pensou agora. Depois que ele rompesse com Pagan. A pobre coitada. Não importava o que Blue dizia, Evie desempenhou um papel no fim do seu relacionamento com a garota, e se sentia terrível por isso. Terrível, cheia de culpa e vergonha.

Preciso pedir perdão a ela. Mas isso não faria diferença, faria? Se outra pessoa beijasse o homem de Evie, “essa pessoa” morreria. Sem perguntar. Sem aceitar nenhuma desculpa.

Você não tem um homem seu. Nunca teve um homem só seu.

Um dia teria. E quando esse dia viesse, ela não o dividiria com ninguém.

Então… o que deveria fazer a respeito de Blue?

Primeiro, teria que livrar seu corpo desse desejo por ele. Até fazer isso, não se interessaria por mais ninguém — e agora que os seus hormônios tinham acordado, ela queria ficar com alguém, percebeu.

Queria ter um relacionamento de verdade. Com um médico do hospital, talvez.

Segundo, ela tinha que...

Volte para o primeiro.

Oi. O único modo de livrar seu corpo daquele desejo era dar o que ele queria. Blue. Depois que tivesse se saciado, poderia seguir com os seus planos para o futuro. Ninguém sairia prejudicado.

— Aproximando de uma doca. — disse Blue, tirando-a dos seus pensamentos.

Ela levantou os binóculos de visão noturna e examinou a área. Não havia outros barcos atracados à prancha pequena e flutuante de madeira. Nenhum corpo escondido por trás das árvores venenosas e das plantas que sobreviviam à atmosfera seca e ácida. A cerca de quarenta e cinco metros além havia uma cabana aparentemente dilapidada com nenhuma luz acesa para indicar que alguém vivia ali.

— Tudo limpo. — ela disse.

Confiando nela, Blue parou e atou o barco à doca. Quando ela tentou sair, ele a impediu com uma mão forte em seu braço. Depois exerceu pressão, insistindo para que se mantivesse abaixada.

— Agora não é hora de me agarrar. — ela disse, odiando o quanto soava ofegante. Especialmente por não ser a primeira vez.

Ele a olhou com raiva.

— Sexo nem sempre está na minha mente, sabia?

— Tem razão, eu...

— Pelo menos, não costumava estar. — ele murmurou, sua raiva descendo pelo ralo. — Agora, fique abaixada e não sairá ferida. — Encerrando a conversa, ele se endireitou e fechou os olhos, forçando-se a inspirar… e expirar… até que o seu zumbido baixo de poder se tornou um berro.

Ela fez uma careta ante a violência daquilo, e seus receptores de dor de fato vibraram. O que estava acontecendo? Como ele estava...

Um anel brilhante azul foi disparado do redor de sua cintura, ampliando-se ao se mover, logo varrendo toda a extensão de terra. Mas tão breve como começou, parou. Tudo ficou imóvel, calado.

Ele uma vez dissera que possuía incontáveis habilidades. Ela não levou o que disse no sentido literal, mas provavelmente deveria.

— O que fez? — ela perguntou.

Ele sorriu.

— Se alguém estava se escondendo por perto, agora está paralisado e continuará assim pelas próximas horas.

— E quanto a Michael? Se ele estiver naquela casa...

— Ele pode ter sido atingido sim, e se for o caso, ficará paralisado. É um pequeno preço a pagar pela nossa proteção. — ele disse, ajudando-a a se levantar. — Ele entenderá e concordará que eu tomei a decisão certa. Eventualmente.

Ok.

— Posso viver com isso.

O sorriso dele voltou, aumentou… deixou-a encantada. Mas quando ela baixou os olhos para a sua boca — aquela boca carnuda e vermelha que qualquer mulher provavelmente mataria para ter pelo corpo inteiro — o divertimento dele morreu de uma morte bem rápida.

Ele angulou o corpo na direção do dela até os seus peitos estarem quase se roçando a cada respiração que davam… respiração que de repente vinha bem veloz.

A tensão chiava entre eles, quente e faminta.

Não ali. Não agora.

Mas logo.

— Você é um ótimo brinquedinho para se ter por perto, sabia? — ela disse só com o mais leve tremor.

Ele segurou a sua mão, recusando-se a soltá-la.

— Escolha de palavras interessante. Brinquedo? Pensa em brincar comigo, coisinha linda?

Argh! Nomes idiotas. Não havia como responder à sua pergunta — e salvar o seu orgulho — sem mentir.

Mas ela disse a ele que nunca mentiria, e falou sério. Sem contar as poucas vezes que de fato chegou a mentir para ele.

— Já chega. — Ela se soltou e o empurrou com o ombro. Ao sair na doca, as palmas dele tocaram o seu traseiro e deram-lhe um leve empurrão. Ela lutou contra um sorriso quando se virou. — Quer perder a mão, Sr. Hammer?

— Por favor. Como se fosse mesmo fazer alguma coisa. Nós dois sabemos que você gosta do que eu faço com as mãos.

Ele se colocou ao seu lado, alto e forte e tudo que ela ansiava por devorar.

Outra vez ela teve que se esquivar, porque mais uma vez não tinha resposta.

Eles tiraram os trajes, depois mantiveram o mesmo passo ao se dirigirem até a porta da cabana. Blue levava uma pyre-gun. Algo estava esquisito — ela não sentia a vibração do seu poder, percebeu.

— O que acontece depois que você gasta muita energia? — ela perguntou em voz baixa.

— Tenho que recarregar.

— Então fica sem as suas habilidades Arcadians?                

— Por algumas horas, sim.

— Vou ter que cuidar de você, então. — Ela remexeu na bolsa presa ao corpo e removeu um batom.

— E vai fazer isso retocando a maquiagem? — ele perguntou. — Uau. Nunca me senti mais seguro.

Ela virou o batom até ele se transformar em um cortador de arame.

— Que tal eu retocar a sua maquiagem com isso, hein?

— O que mais tem aí? — ele perguntou, tentando agarrar a bolsa.

Ela afastou a sua mão aos tapas dizendo.

— Reze para nunca descobrir. — Um painel de identificação estava escondido atrás de um pedaço de madeira podre. Ela retirou a tampa e mexeu no complicado interior. — Só uma pessoa entrou na cabana nos últimos três dias. Ninguém mais nas semanas antes disso.

— E sabe disso como?

— Leio as informações armazenadas. E agora estou programando o sistema para que aceite.

— Se esse lugar é de Michael, você já não deveria estar aceita?

— Como se ele fosse facilitar as coisas assim. — A porta da frente se abriu com um clique e um sopro.

— Pareceu fácil. — murmurou Blue.

— Para mim, sim. Para você? Não muito.

— Está tentando dizer que é mais inteligente do que eu?

— Tentando? Ha.

— Bem, sou mais forte, então que se ferre. — De repente ele era todo profissional, adentrando a habitação.

Evie seguiu de perto, observando enquanto ele mapeava e mirava a arma, mapeava e mirava a arma.

— Fique aqui. — ele comandou, desaparecendo em um canto.

— Talvez vá querer voltar. — ela chamou. — Tem umas...

— Ai!

— Armadilhas. — ela terminou com uma careta.

Ele voltou com raiva para a sala de espera, uma ruga juntando a cicatriz que cortava o seu lábio. Uma cicatriz que estava mais fina do que estava horas atrás. Ela não era maquiagem? Ele tinha mesmo se cortado?

Por alguma razão a ideia dele sangrando e com dor a incomodava. Preciso beijar o dodói para fazer a dor passar.

Ele levantou a perna, revelando a antiga garra de metal que agora perfurava o seu tornozelo.

— O que nós somos? Bárbaros? É assim que fazemos as coisas agora?

— Aparentemente. Vamos descer que eu faço uns pontos em você. — ela disse, fazendo o melhor para esconder o seu divertimento. Dava trabalho, sim — mas qual é, aquela merda era engraçada.

Ela deve ter falhado em sua missão porque ele disse.

— Isso é uma piada para você, risadinha?

— Bem, sim. Só um idiota cai no velho truque do “Pise aqui”.

— Calada. Não preciso de ponto nenhum. Já estou curando. — Ele removeu a garra e andou até ela — ou, melhor, veio mancando.

Rindo, ela se agachou e realinhou os fios de outra caixa de identificação. Uma fenda aberta no concreto, larga o suficiente para permitir a passagem de um corpo, e revelou uma escada.

Quando ela levantou os olhos, percebeu que Blue tinha parado a meio caminho para fitá-la com uma expressão perplexa.

— O que foi? — ela perguntou.

— Você riu.

— Eu sei.

— Quero dizer, você riu de verdade.

— Uh, sim, eu sei. — O que ele queria dizer? — Então, perguntou outra vez: — O que foi?

— Nada. — ele murmurou, finalmente olhando para outro lugar.

Não era nada, mas ela não ia pressionar. Desceu a escada, seguindo uma trilha de luz dourada. Na base ela viu carpetes de veludo e sofás macios que levavam a uma cozinha dos sonhos de um chef. Em volta da geladeira de aço inoxidável havia um escritório com uma parede inteira de telas de computador.

— Evangeline Black. Já estava na hora de você aparecer. — disse uma voz.

O coração de Evie acelerou de alegria quando correu que nem uma desvairada na direção do seu pai, que claramente não esteve no caminho do poder de Blue. Ele estava de pé na porta do único quarto. Tinha múltiplos machucados e seus ombros estavam curvados de fadiga, mas estava vivo e bem, e isso era tudo que importava.

Ao invés de abraçá-lo como queria, e potencialmente machucá-lo ainda mais, ela agarrou sua mão e a pressionou no peito. Lágrimas quentes escorreram pelas suas bochechas.

— Estou com tanta raiva de você agora que poderia enfiar uma vara de pescar na sua garganta e pescar os seus órgãos um por um. Com exceção dos seus intestinos. Isso seria nojento.

Ele lhe deu um sorriso amargo.

— Também amo você, raio de sol.

Ele disse aquelas mesmas palavras tantas vezes antes, mas ela nunca acreditou realmente nele. Desta vez não olhava para ele por trás de um véu de mágoas. Estava aliviada demais em vê-lo. Ela de fato viu a afeição em seus olhos.

Eu fui tão idiota em duvidar dele.

— Por onde andou? — exigiu saber. — Por que ficou escondido por tanto tempo? Sabe onde John e Solo estão? — Um músculo se contraía na mandíbula dele, um sinal de irritação que sabia que não era direcionada a ela, mas às circunstâncias em que se encontravam.          

— Uma pergunta de cada vez. — Ele olhou Blue. — Filho.

Embora os seus lábios tivessem se afinado, Blue assentiu em saudação. Qual era o problema daquele lábio?

— Quero um relatório completo de como vocês dois foram parar juntos. — disse Michael.

— Claro, claro. — ela disse antes que o agente pudesse responder.

Michael a levou para o sofá e sentou, incitando-a a sentar no lugar ao seu lado.      

— Suspeitava que havia um traidor em meu meio, e estava certo. Fiquei longe, deixando o mundo pensar que estava morto porque não queria que você fosse usada para me atingir. Mas, claro, uma tentativa foi feita.

— A perseguição desta tarde. — disse Blue, reivindicando a cadeira do lado contrário a eles.

Evie evitou olhá-lo. No momento ela não tinha certeza se poderia velar sua expressão. Estava muito exposta, muito vencida. E não queria que seu pai soubesse que ela havia… amolecido com relação ao agente. Ele surtaria.

Mulheres se apaixonavam por Corbin Blue todos os dias, ele uma vez disse depois dela ter reclamado do tratamento que Blue lhe despendia por uma hora. Diga-me que você é inteligente demais para ser uma delas.

Dã. Claro que sou. Mas tenho que confessar, estou meio surpresa com esse aviso. Você adora o homem.

Adoro. Ele é como um filho para mim, e eu o amo, com defeitos e tudo. Só não quero esses defeitos perto da minha filha.

— Sim. — Michael disse agora. — Falando nisso, venho monitorando as atualizações do IRA, e eles já interrogaram testemunhas e assistiram a câmeras, então sabem que você está envolvida, raio de sol. Você logo será contatada e interrogada.

Outra rodada com o Agente Gutierrez, ela pensou com um suspiro.

— Sobre Solo e John. — Michael disse a Blue. — Eu procurei e procurei, mas não achei nada. Sinto muito. Achei que tinha uma pista forte com relação a Solo, e fui até a sua casa, mas havia uma mulher alegando ser sua esposa...

— Esposa? — explodiu Blue.

Michael tirou um telefone do bolso e o atirou.

— Eu tenho fotos.

Vários minutos se passaram enquanto Blue estudava as imagens. Quando terminou, ele passou o telefone para Evie. Ela lhe deu um sorriso de agradecimento antes de dar uma olhada nas fotos. Nelas, uma loira de aparência doce arrancava ervas daninhas de um jardim… alimentava cavalos… porcos… bodes. Ela parecia inofensiva, contudo aparências nunca significavam nada.

A mulher que tinha cortado e fatiado Claire era...

Corte essa merda agora.

— Seu nome é Vika — disse Michael — e ela me disse que Solo sobreviveu à explosão, que foi vendido ao circo do seu pai e que depois retornou ao seu planeta de origem, sem meios de voltar.

Verdade? Ou uma ótima história para cobrir seu assassinato?

Blue massageou a nuca.

Então, Solo foi o vendido?

O cenho de Michael franziu em confusão.

— O que quer dizer?

— Ouvi uma conversa entre dois homens no local da explosão. Eles planejavam vender um de nós, e assumi que seria John. Planejavam ficar com outro, e assumi que seria Solo. Eles também planejavam queimar um de nós. E já que um cara me banhou com acelerante, obviamente sou o Sr. Frito e Bem Passado. Então, se Solo foi vendido ao circo, quer dizer que…

— Eles ficaram com John e não venderam. — disse Evie. Como um escravo sexual? O mesmo destino que provavelmente teria que aguentar de qualquer forma. Oh, John. Não perca a esperança. Vamos atrás de você. — Mas onde?

Blue agarrou os braços da cadeira em uma óbvia tentativa de controlar a sua crescente raiva.

— Eu o encontrarei. Encontrarei os dois.

— Iremos à fazenda de Solo — ela sugeriu — e conversaremos com a garota. Talvez ela saiba mais do que disse a Michael, talvez não. Sempre fui boa em interrogatórios. — Se boa era a nova palavra para medíocre. Por alguma razão, as pessoas não lhe respondiam bem. Não importava quanta força usasse.

— Eu me arriscarei com ela.

Ele descansou os cotovelos nos joelhos e abaixou a cabeça. Ela sabia que ele estava profundamente ferido, bem no fundo, e sabia que esperava descobrir que John e Solo estavam bem. Ela queria colocar os braços em volta dele e garantir que tudo ficaria bem.

O desejo a confundiu. Ansiar pelos beijos ela entendia. Oferecer conforto? Nem tanto.

— Eu apostaria a minha vida no fato de que Vika não está envolvida. — disse Michael.

— Apostaria a de John? — perguntou Evie.

Um aceno confiante.

— Confie em mim, isso é tudo proeza de Gregory Star.

Blue enrijeceu.

— Não há margem para erro nisso. Não te parece estranho que haja tanta evidência apontando para ele, e mesmo assim sempre tenha sido extremamente cuidadoso em esconder seus rastros no passado? — Pausou para considerar, como se os pensamentos só estivessem aparecendo agora. — Isso pode ser uma armação ou algo para desviar o nosso alvo. Nós...

— Nada de armação ou desvio. Eu o vi lá na casa. — Michael disse. — Acordei e vi vocês três no chão imóveis. Lutei para sair debaixo dos entulhos e fui na direção de vocês. Então ouvi vozes e não tive certeza se elas eram de amigos ou inimigos. Me escondi debaixo do entulho, pretendendo descobrir e atacar se necessário — ainda tinha uma arma comigo — e consegui ver Star e outro homem, mas desmaiei antes que pudesse fazer algo a respeito.

Um brilho de determinação e ódio escureceu os olhos de Blue.

— Ok, então.

Alvo já definido e na mira agora.

— Ele ficou atrevido, eu acho. — disse Michael. — Fez merda. Acontece.

Sim, acontecia.

— Qual foi o seu motivo? — perguntou Blue.

— Isso — respondeu Michael — eu não tenho certeza.

— Por que não pegamos o Sr. Star, torturamos até descobrirmos e depois o matamos? — sugeriu Evie.

— Pegá-lo será um problema. — disse Michael. — Ele é muito bem guardado. E se falharmos e ele retaliar… Não. Teremos mais sorte agindo com discrição.

Ela podia agir com discrição.

— Ele tem dois filhos. Tyson e Tiffany. Podíamos sequestrar um ou ambos e oferecer uma troca. — Isso era discrição, certo?

Michael sacudiu a cabeça.

— Já fiz negócios com ele. Não é do tipo que cede a exigências, mesmo para salvar a vida dos filhos. É do tipo que mataria John só para provar que é firme.

Blue levantou a cabeça, sua determinação destemida.

— Está vigiando-o?

— Infelizmente não. — disse Michael com um suspiro. — É por isso que precisa ir a público, Blue. Tenho um plano.

— Espere. — disse Evie.

Michael levantou uma mão para que ela silenciasse.

— Não acho que Star saiba que você trabalha para mim, Blue. — ele continuou. — Eliminei vários dos seus seguranças nos últimos dias e seu nome nunca foi mencionado. Se eu estiver errado, e ele souber, você vai descobrir bem rápido.

Significando que ele seria a isca.

— Tem certeza que esse é o curso de ação mais prudente?

— Sim. — disse Blue. — E para mim tudo bem.

— Bem, eu não concordo. — ela respondeu.

Ele encolheu os ombros largos.

— Vou segui-lo de todo modo.

— Michael. — ela disse.

— O perigo faz parte do negócio. — disse o seu pai. Apoiando seu garoto. Como sempre. Olhando para Blue, ele acrescentou. — Assim que o mundo souber que você está na cidade, arranje um encontro acidental com a filha. Star não sai mais em público. Ele fica em sua mansão, sempre cercado de homens armados, tanto humanos quanto extraterrestres. Tiffany pode ser seu ingresso para ficar cara a cara com o querido Papai.

Blue assentiu.

— Considere feito.

— Antes de seguirmos por esse caminho — disse Evie, incerta do por que seu corpo estava tão tenso. — devíamos invadir essa propriedade rural e dar uma olhada, plantar alguns grampos. Podemos entrar e sair sem que ninguém perceba. Invadir não é o mesmo que tentar tirar um corpo de lá.

Seu pai encontrou o seu olhar e assentiu.

— Tudo bem. Invadam o lugar. Peguem Star se tiverem sinal verde. Mas não se atrevam a serem pegos. Depois, se Star não estiver sob custódia, vocês seguirão com o meu plano.

Uma concessão. Ela aceitou com gratidão.

— E quanto a você?

— Ainda não posso ir a público. Não estou forte o suficiente para me defender de um ataque forte.

— Nós podemos proteger...

— Não. — disse, interrompendo-a. — Tenho outra coisa em mente. Quero que você assuma as Indústrias Black, raio de sol. Desse modo poderá arrumar um amistoso de pré-temporada entre os Invaders e os Strikers em homenagem à minha preciosa memória. E dessa forma terá uma razão legítima para contatar Tyson Star para alugar a cobertura do Star Light Hotel na celebração de vitória.

— Não estou certo quanto a isso. — falou Blue. — Já cobrirei os filhos de Star com Tiffany.

O espírito competitivo que ela uma vez odiou deu uma espiada por entre as sombras, e Evie sorriu para ele.

— Dois é melhor do que um.

— Não. — Blue voltou a dizer, dessa vez com mais força.

— Si-im. — ela respondeu cantando.

Michael olhou de um para o outro e franziu a testa.

— É a vez de vocês agora. Como se juntaram?

Juntar. Pobre escolha de palavra. Suas bochechas pegaram fogo.

Blue não deixou nada passar.

— Depois da explosão, Evie era a única pessoa em quem eu podia confiar. — ele disse, seu tom tão vazio quanto sua expressão. — Entrei na casa dela e ela tratou dos meus ferimentos. Foi simples assim.

Sorrindo, Michael estendeu o braço para despentear o seu cabelo do mesmo modo que ela sempre quis que ele fizesse quando era criança.

— Obrigado por cuidar do meu garoto.

Seu garoto.

E lá estava o ciúme que ela costumava sentir, um companheiro à competição; ela suprimiu ambos. Michael amava os seus “garotos” sim, mas isso não eliminava o seu amor por Evie.

Um dia ela teria coragem de perguntar por que ele a deixou na Inglaterra.

Contudo… se ele a tivesse tirado de Claire, ela o teria odiado. Então talvez ele tivesse lhe feito um favor.

— Agora, o que vamos fazer para cuidar da minha garota? — disse Michael. — A perseguição de carro me deixou assustado.

— Eu já precisei ficar na casa dela. — disse Blue. — Nós planejávamos manter o segredo de qualquer jeito, então a minha volta à vida e ida atrás de Tiffany não mudarão nada. Ninguém saberá que estou lá, e ao mesmo tempo serei capaz de protegê-la. Só há ganho.

Evie sacudiu a cabeça.

— Concordei com você lá quando estava morto para o mundo, mas agora não. As pessoas vão ficar de olho em você. Entrar e sair de lá sem que ninguém perceba será difícil. Vão te pegar no flagra. Então, não. Você vai sair de lá. Eu não serei a responsável pelo seu mais novo término de relacionamento.

Tarde demais. Ah, é!

Sou uma pessoa horrível.

Ela nem podia usar uma desculpa do tipo “eu-vou-deixá-lo-em-paz-a-partir-de-agora”. Ela tinha decidido dormir com ele.

E essa era outra razão por que brincar de casinha com ele não era mais uma opção.

— Então não tentaremos fazer da minha presença lá um segredo.

— Eu não serei a garota com a qual você põe chifres em Tiffany. — ela rebateu.

— Ela tem razão. — disse Michael, seu tom tão firme quanto o dela.

Blue levantou o queixo.

— Não ligo para o que o mundo pensa. Terminarei com Pagan assim que vier a público. — Ele fixou os olhos em Evie. — Mas se você quer que todos pensem que Tiffany é a razão do rompimento, ao invés da minha mudança para a sua casa e que estou com você pelas costas dela, isso pode ser providenciado.

— Não. Não quero isso. — Que filha da mãe ela seria deixando outra mulher ser responsabilizada por suas ações? Além do mais, ela não queria nem que ele chegasse perto de Tiffany. Nem mesmo na mente dos outros.

Argh. Já estava agindo como uma namorada que vivia com o namorado.

O olhar dele nunca se desviou dela.

— Vou passar as noites na sua casa de um jeito ou de outro, princesa. Escolha a segunda opção e vou garantir que se arrependa da escolha. — Ele voltou a atenção para Michael. — Dormirei em um quarto de hóspedes. No momento sou a única pessoa em quem pode confiar a segurança dela.

Michael passou uma mão pelas feições cansadas.

— Agora ele é quem está certo, raio de sol.

O quê?

— Antes que proteste — seu pai acrescentou, e estava claro que ele estava se desgastando rápido, as pálpebras caindo, os ombros curvando —, não proteste. Se alguma coisa acontecesse com você…

Ela apertou sua mão, a preocupação dele levando embora sua objeção.

— Tudo bem. Blue pode ficar na minha casa, mas primeiro preciso que me diga que sabe que sou muito capaz de cuidar de mim mesma.

O sorriso dele era triste.

— Eu sei. Eu sempre soube. Mas uma coisa que você não aprendeu foi que ter reforços não dói.

 

BLUE DESCANSOU POR ALGUMAS horas, mas acordou cedo para tomar banho e tirar a tinta do cabelo. Jogou as lentes de contato fora e removeu todos os piercings, feliz por voltar a ser o Bad Boy Chique.

Ele ainda tinha uma linha de cicatriz, mas ela sumiria em um ou dois dias.

Se Evie pedisse, faria uma nova.

Ele se vestiu com calça e camisa preta. Sobras de Michael. Blue não esperava passar a noite ali, então não trouxe nenhuma muda de roupa. Dirigiu-se à cozinha.

Evie já estava lá.

Estava escorada no balcão, bebendo uma xícara de café fumegante. A visão dela o deteve.

Ela tinha cílios tão compridos. E aquelas manchinhas no nariz eram sardas?

Como nunca as tinha notado antes?

Ela enrugou os lábios para soprar o café, tanto o de cima quanto o de baixo vermelhos e deliciosamente inchados, como se ela os tivesse mordiscado durante a noite.

Ela também tinha encontrado os produtos necessários para retornar o cabelo ao seu normal esplendor escuro, as madeixas onduladas soltas. Livrou-se do sutiã de silicone, seus seios outra vez daquele formato perfeito de xícara.

Pervertido! Pare de olhá-la como se quisesse comê-la.

Hmmm… eu quero comê-la.

Xingando, mordeu a língua até sentir o gosto de sangue. Odiava desafios, decidiu. Por querer Evie, desesperadamente, e a sua ascendência ser o único desafio que jamais poderia vencer.

Se ela fosse filha de qualquer um que não fosse Michael, Blue a carregaria para a cama. Ali. Agora. Mas era filha dele, então não podia.

Tenho que transar logo. Seu copo não conseguia mais suportar tanta frustração sem que provocasse mais uma elevação ampla de poder.

E mesmo assim, a ideia de estar com qualquer outra o deixava se sentindo… vazio.

Ninguém mais teria um gosto tão bom. Ou uma pele tão macia e quente. Ninguém mais daria o que ela dava tão gostoso, nem exigiria tanto em troca. Ninguém mais o deixaria satisfeito.

— Michael ainda está dormindo. — ela disse, rompendo o silêncio.

Perfeito. Blue não teria como esconder de jeito algum a festa que se armava em sua calça.

— Dei uma checada nele. Os sinais vitais estão estáveis.

— Estará ótimo antes que se dê conta. — Confiscou a xícara dela e bebeu antes que ela pudesse protestar. — Escute, vou me armar e sair. Quero examinar a casa de Star antes de entrar nela.

— Antes de entrar? Acho que quer dizer, antes de nós entrarmos.

Até parece. Mas ele tinha que ter cuidado ali. Com Evie não poderia usar o bom e velho: É muito perigoso, bolinho de açúcar, então deixe o papai grandão e malvado aqui salvar o dia. Ela esvaziaria o seu fígado e o encheria de pedras.

— Sinceramente, docinho? — ele disse. — Não importa o quanto você seja habilidosa, só irá me atrapalhar. Para entrar e sair sem ser detectado, terei que me mover a uma velocidade que você nunca será capaz de alcançar.

Ela estreitou os lábios ao olhá-lo. Ele segurou o seu olhar sem desviar — e, de alguma maneira, sem sorrir. Deveria estar com medo ao invés de sorridente. Se alguém poderia matá-lo e enterrar a evidência, esse alguém seria aquela mulher. Mas também, ele só estava começando a perceber o quanto gostava da espoleta forte e violenta e de sua mente diabólica.

— Preciso de você aqui — ele acrescentou — no computador, me dando suporte. — Literalmente. Ele teria uma câmera de visão noturna acoplada à parte de trás da gola de sua camisa, com transmissão ao vivo. — É um trabalho que John e Solo fizeram várias vezes no passado, não algo planejado com a intenção de manter a mulherzinha frágil a salvo. Eu juro.

Os olhos dela se estreitaram com suspeita.

— Está mentindo.

— Não mentimos um para o outro, bonequinha. Lembra?

A luta a deixou, e ela assentiu.

— Tudo bem. Mas é melhor voltar sem nenhum machucado, ou vou cortar a sua parte favorita do corpo, colocar um nome horrível nela e vender a quem pagar mais caro.

Outra vez ele quis sorrir. Com aquelas palavras, percebeu que Evie Black não somente o desejava com a mesma efervescência que ele — também gostava dele tanto quanto ele gostava dela. Algo que havia notado: ela só ameaçava as pessoas que gostava.

Estou frito com essa mulher, não estou?

 

Quando o sol se pôs no horizonte, sombras começaram a crescer. Blue foi capaz de localizar dez pequenas câmeras no perímetro da propriedade de Star, uma residência imensa cercada por um portão de ferro, seguranças armados, e uma floresta de falsas árvores verdes.

— Acabei o exterior. — ele sussurrou. Estava a mais ou menos vinte e sete metros da mansão, escondido por um enorme tronco. Sem mencionar o fato de sua roupa ter minúsculos microchips costurados em sua expansão, fazendo com que o tecido se adaptasse aos arredores toda vez que se movia.

— Desativei os sensores de laser. — Evie disse pelo comunicador em seu ouvido. — Evite a parte central do portão e tudo deve dar certo.

— “Deve”?

— Vamos descobrir juntos.

Engraçadinha.

— Estou prestes a entrar.

— Sua traseira está limpa.

— Tudo bem. Estou entrando. — Por proteção, ele tinha uma pyre-gun, um casaco de imagem e algumas facas.

Para a vigilância, tinha uma tira de microgrampos — vinte e cinco adesivos para aplicar pela casa.

— A menos que veja algo, preciso que fique calada a partir de agora.

A voz sensual dela era uma distração que ele não podia se permitir.

— Entendido.

Inspira… segura… segura… quando exalou, lançou-se pra frente, pra fora da sombra e sob a incidência da luz fraca do sol, movendo-se a um passo tão veloz que os seguranças só poderiam registrar um leve borrão.

Escalou o portão. Ao depositar um grampo nos muros norte, leste, sul e oeste, procurou a melhor entrada para a casa. Ninguém atirou nele. Ninguém gritou um alerta.

— Vejo algo. Três mulheres risonhas de lingerie acabaram de dobrar um canto atrás de você. — Evie disse, sua voz uma carícia aos seus ouvidos. — Por favor, diga que não parou acidentalmente em um harém… opa. Me calando agora.

Não posso rir. Um guarda saiu de uma porta lateral. Ali. Ele entrou por ela sem ser percebido quando a porta de metal começava a se fechar, e se viu em uma… sala de descanso. Oito homens. Todos armados. Alguns jogavam cartas, alguns vigiavam monitores que exibiam imagens da propriedade. Ele não podia diminuir o passo; denunciaria sua presença.

Tinha que continuar correndo, mesmo que não conhecesse o mapa da casa.

Quando chegou a um corredor com apenas um guarda, agarrou a oportunidade. Finalmente diminuindo o passo… parando, Blue colocou uma mão em cima do nariz e boca do homem, e espremeu sua carótida, obstruindo as duas vias aéreas. Não demorou muito para o cara cair nos seus braços, um peso morto. Ele arrastou o homem até um armário próximo.

— Enquanto temos um tempinho, vamos voltar ao assunto lingerie. — ele sussurrou para Evie. — Você usa alguma? — Trabalhando o mais rápido possível, desligou os chips de suas vestes e segurou o casaco de imagem — uma faixa pequena e preta com uma câmera no centro — no topo da cabeça do guarda e escaneou todo o seu corpo, até os pés.

— Na verdade, prefiro não usar. — ela admitiu.

Ele gemeu. Como conseguiria ficar com as mãos longe dela agora?

Michael, simples assim.

Mas Michael entenderia se ele fraquejasse. Claro que sim.

Assim que a identidade do segurança foi registrada, Blue atou a faixa em volta do próprio pescoço, e o holograma do guarda foi projetado, frente e costas, ocultando a sua identidade.

— Aqui vamos nós. Rádio cortado mais uma vez.

Blue entrou no corredor e caminhou como se estivesse patrulhando. Abriu todas as portas, e sem parar instalou os grampos em… uma sala de estar… um quarto… outro quarto…

Desceu a escada, virou um canto. Pessoas conversavam na cozinha, preparando o jantar. Ele ancorou outro grampo.

Em um mundo perfeito, encontraria John trancado em algum aposento. Ou ali embaixo, em uma cela. E Solo explodiria a entrada para ajudá-lo. Juntos eles libertariam John.

Em um mundo menos que perfeito, Blue encontraria algo que indicasse a localização deles.

Em um mundo do tipo fossa cheia de merda, não encontraria nada.

Ele estava em uma fossa com merda até as bordas.

Tinha tanta esperança. Frustração atiçava o seu poder e esse poder expandiu dentro dele até sua pele ficar esticada, pronta para se rasgar.

Controle-se. Mais um aposento para grampear. O mais importante.

Blue procurou até encontrar o escritório de Star. As portas estavam fechadas e trancadas, e apostaria que Star estava lá dentro trabalhando. Poderia entrar e tentar usar a compulsão de sua voz, forçando Star a tirá-lo dali em segurança e a dizer tudo o que queria saber. Mas havia duas falhas nesse plano. Primeira, guardas viriam para cima dele com armas e ele não conseguiria conter todos de uma vez sem se esvair. E se ele se esvaísse, não poderia tirar Star dali — nem salvar John e Solo se ambos estivessem por perto. Segunda, metade da população era imune à compulsão. Star poderia ser um dos imunes.

— Há dois homens se aproximando e rápido. — anunciou Evie.

Ótimo.

— Marco. — chamou uma voz grave.

Blue depositou o ultimo grampo na porta do escritório. De modo algum poderia entrar lá sem estragar o seu disfarce. Ele se virou. Como prometido, dois homens vinham até ele, com os cenhos franzidos.

— Marco. O que está fazendo aqui embaixo?

— Acho que Marco é você. — Evie avisou.

É. Provavelmente. Mas Blue não poderia dizer nada aos caras, ele não possuía a voz de Marco. Isso queria dizer que ele teria que prosseguir com o plano B.

Liberou um pequeno anel de poder. Não o bastante para torná-lo completamente inútil depois, mas o bastante para enfraquecê-lo ao incapacitar os guardas. Os dois grunhiram e convulsionaram antes de caírem no chão.

Ele considerou que as consequências valiam o prêmio.

— Legal. — disse Evie. — Mas é melhor sair daí antes que eles descubram e acionem um alarme.

Blue começou a correr em velocidade máxima — que não era tão alta quanto antes — chegando do lado de fora. Correu pelo gramado… nenhum alarme… escalou o portão de ferro… nenhum alarme…

Pulou no carro que o aguardava e correu pela rua, olhando constantemente pelo espelho retrovisor para ver se estava sendo seguido.

— Quanto tempo até que volte para a casa de barcos? — perguntou Evie.

Ele pensou ouvir as palavras que ela não disse: Quanto tempo até estar seguro?

— Já com saudades de mim, princesa? Que lindo.

— Blue! Estou falando sério.

Que coisa mais adorável aquele biquinho na voz dela.

Cara. Você está ferrado.

E só piorava.

— Chegarei de manhã. — disse, mais severamente do que pretendia.

— De manhã? Diga que está de brincadeira. — O bico foi substituído por um rosnado. — Eu não tenho intenção alguma de tirar a noite de folga. Preciso fazer uma visita à central do IRA para discutir a perseguição a carro e sondar o Agente Gutierrez atrás de informação.

As palavras sondar o Agente Gutierrez o tocaram no sentido errado, e ele agarrou o volante com tanta força que o metal se rachou.

— Michael tem outro barco?

— Sim, mas se eu pegá-lo, ele vai ficar preso.

— Duvido seriamente disso. Ele é um homem de ter plano B, C e D. Pegue o barco.

Ela suspirou.

— Tem razão.

— Não tenho sempre?

— Ha, ha.

— Então me escute. Hoje eu preciso voltar dos mortos. Vou para a sua casa assim que fizer isso.

Uma inspiração audível.

— Então… vai acabar as coisas com Pagan?

— Sim. Estará feito até a meia-noite.

Completo silêncio.

Cara, ele queria poder ler Evie melhor, mas quando ela queria, era uma mestra em disfarçar as reações. E sem ela por perto, não podia sentir suas emoções.

Engraçado, mas a habilidade empática que ele tanto desprezava era agora a sua habilidade mais querida e utilizada.

— Só para que fique sabendo — acrescentou — não vou dormir com ela. — Não devia nenhuma satisfação à Evie; não estavam namorando e não fizeram promessas — e, droga, não podiam ficar juntos.

Contudo, nada disso o impediu.

— Eu não perguntei, perguntei? — Não havia emoção em seu tom. — Além do mais, dormir com ela antes e/ou depois de partir o coração dela seria uma atitude de um completo filho da mãe.

Ele apertou a mandíbula.

— Olhe só, até você, eu sempre contei a ela que ia fazer algo com outra pessoa. Não o motivo, só que aconteceria. Ela nunca se importou, e isso é parte da razão de eu ficar com ela. Se não fosse pelo trabalho, teria sido fiel. Eu queria ser fiel.

Mais uma vez silêncio.

Ele queria que ela o visse, o verdadeiro ele, percebeu. E queria que dissesse que fazia uma ideia melhor a seu respeito. Mesmo que ele às vezes não fizesse de si mesmo.

— Sabe como é seduzir alguém pelo qual não sente atração? — ele perguntou entre os dentes. — Ou pior, alguém que você despreza? Sabe como é ouvir os seus gritos de prazer e desejar que estivesse ouvindo gritos de dor? Sabe como algo assim pode deixar uma pessoa se sentindo um lixo? Sabe?

— Não. — ela sussurrou.

— Sabe como é transar com alguém que você sabe que vai ter que matar? Ou saber o quanto suas ações vão ferir alguém que você se importa?

— Blue...

— Ligaria se eu dormisse com ela? — disparou. Não queria que o visse agora. Uma parte dele só queria sangue.

Outra inalação pungente. Então, bem suavemente, ela disse.

— Sim. Eu ligaria. Só… tente terminar até as onze, sim? Vou esperar por você.

Esperar por você.

O que isso queria dizer?

Ele sabia o significado que queria que tivesse. Porque por mais que quisesse sangue, ele ainda a queria. Se ela deixasse, ele a teria e lidaria com as consequências.

— Vou correr. — ele disse.

O aparelho em seu ouvido desligou, ficando só a estática.

 

Blue ligou para Pagan no caminho e disse que passaria em sua casa por volta das dez para bater um papo, como Evie diria, depois desligou assim que ela começou a disparar uma série de perguntas.

Não era uma atitude de um galinha: ele não destruiria os sonhos e aspirações dela pelo telefone.

Além disso, não havia nada que pudesse dizer que a fizesse se sentir melhor a respeito do que estava prestes a acontecer.

Parou no esconderijo secreto de Evie para pegar o laptop e o pen drive com o material do Lucky Horn, depois foi para casa para pegar o seu SUV favorito e deixar seus vizinhos sabendo que ele tinha voltado à cena.

Finalmente, chegou a hora da verdade.

Checou o perímetro da casa de Pagan atrás de algum equipamento de vigilância — não encontrou nenhum — e seguiu até a porta. Ela abriu antes que tivesse a chance de bater, e um punho firme de culpa o socou. Ela usava um vestido justo vermelho que abraçava suas volumosas curvas, e seu cabelo loiro emoldurava perfeitamente o seu rosto produzido. Ela tinha se embonecado toda para ele.

Ela era bonita e farta e tudo mais que ele uma vez achou que queria — mas nada do que queria na realidade. Parecia que tinha um certo gosto por uma garota magra, de cabelo escuro e olhos de corça e só ela lhe serviria.

Desculpa, Michael.

Vou esperar por você, Evie dissera.

Nua, devia ter dito a ela.

Pagan indicou que entrasse, e passou por ela enquanto esta dizia.

— Por onde andou? Por que não ligou? Com quem estava? Tenho o direito de saber!

Virou para encará-la, odiando-se mais do que nunca. Acabe logo com isso. Com um tom gentil, disse.

— Sinto muito, Pagan, mas não está mais funcionando para mim.

Registrou o choque um momento antes que uma risada nervosa a deixasse.

— Sei que estou agindo como uma bruxa agora. Fiquei preocupada com você, isso é tudo. Mas está aqui agora, então posso relaxar. Vamos tomar um drinque e discutir outras coisas.

Bruxa? Evie teria lhe dado um tiro na cara e o chamado de vadio. E por mais que desprezasse quando usava essa palavra, ele meio que preferia esse tipo de reação àquela. Aceitação.

Pagan pegou uma de suas mãos e o puxou. Ele plantou os pés e segurou a outra mão dela, mantendo-a onde estava.

— Você está fazendo perguntas que tem o direito de fazer. — ele disse. — E se eu fosse um bom homem, responderia. Mas não sou e peço desculpas quanto a isso também. Você merece coisa melhor do que lhe dou e merece coisa melhor do que o que está ganhando nesse relacionamento.

Empalidecendo, ela o soltou para retorcer a seda do vestido.

— O que está tentando dizer?

— Estou dizendo… que acabou entre nós. Sinto muito. — ele repetiu.

— Está falando sério? — ela ofegou.

— Estou.

— Mas… mas… tem outra pessoa?

Ele lhe deu a dura verdade.

— Sim. — Ele devia ao menos isso.   

Ela se jogou em cima dele e segurou sua camiseta, agarrando-se.

— Quem é ela?

— Isso importa?

— Me diga. Diga agora. Há mais do que uma?

— Pagan. Não faça isso consigo mesma.

Um momento passou, e tudo o que ela fez foi respirar pesadamente.

— Está certo. Não me importo com quem ela é. — A mão dela tremia quando colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha, o olhar sem se desviar do seu.

— Fique com ela ou com elas, até se fartar. Eu não ligo. Depois volte para mim.

Ele tirou os dedos dela de sua camiseta e os beijou. Com a maior dose de ternura que era capaz, disse.

— Não, Pagan. Isso aqui entre nós é um adeus.

— Mas… mas… — Lágrimas encheram seus olhos e desceram pelas bochechas. — Blue. Não faça isso. Por favor.

Talvez devesse ter feito com ela o que fez com Noelle Tremain e lhe dado uma razão para romper as coisas com ele. Dessa forma poderia deixá-la com o coração intacto.

Não, pensou em seguida. A culpa do que tinha feito a Noelle ainda o assombrava. Esse era o melhor modo. O modo honesto.

O modo certo.

Às vezes a verdade podia acabar com uma pessoa arrancando pedaço por pedaço, mas ao menos os pedaços poderiam ser remendados e o todo ficaria mais forte do que antes. Com mentiras, os pedaços pegavam fogo antes de atingirem o chão, e não havia nada que restasse para se poder remendar.

— Sinto muito, mas não vou mudar de ideia com relação a isso. E, Pagan? Você deveria ficar feliz. Vai ficar bem melhor sem mim. Você quer uma família. Eu não.

— Mas não preciso ter uma família. — ela se apressou em dizer. — Além do mais, nem quero uma de verdade. Não sem você.

— Não diga isso. Não mude os desejos do seu coração por minha causa ou por qualquer homem.

Ela insistiu.

— Tire um tempo para pensar nisso. Esta tarde e você estava fora, então provavelmente está cansado agora. Sim. Você está cansado, isso é tudo. Durma um pouco e nós conversaremos novamente.

— Não. — disse, sacudindo a cabeça. — Não vou mudar de ideia.

— Sim. Você vai. Tem que mudar.

Ele tentou outra vez.

— Você é uma mulher bonita e apaixonante, e algum dia um homem vai aparecer e colocá-la em primeiro lugar. Mas esse homem não sou eu.

— Eu não preciso estar em primeiro lugar. Só quero ficar com você. Por favor, Blue. Eu te amo. Eu te amo tanto.

Nunca havia considerado o fato de que ela pudesse amá-lo de verdade. Não teria ficado com ela esse tempo todo se achasse que fosse possível.

— Você vai me superar. — disse baixo. — Um dia até pode querer me agradecer por isso.

Então ele saiu da casa, sentindo-se o maior filho da mãe, porque o rompimento estava feito — e tudo o que queria era ir atrás de Evie.

 

BLUE QUEBROU RECORDES DE VELOCIDADE para chegar até a casa de Evie, escondeu o carro, e rapidamente conseguiu chegar à varanda dos fundos, fora da visão dos vizinhos. Depois bateu na porta com força suficiente para entortar toda a estrutura.

Pela primeira vez desde que se conheceram estava solteiro.

Um minuto se passou. Dois. Ela não abriu a porta.

Ele bateu mais forte, deixando um amasso na porta. Se ela não estivesse ali…

Se tivesse mudado de ideia…

Ele podia ter desarmado seu sistema de segurança — outra vez — mas não queria revelar sua vantagem nem aumentar a conta que ainda não tinha quitado. Ela não tinha percebido ainda que não importava o que fizesse, nunca seria capaz de impedir a sua entrada. Seu poder podia fritar os fios em meros segundos.

Finalmente ela abriu a porta. Seu coração acelerou em um ritmo incontrolável. Ao contrário de Pagan, ela não tinha se vestido para agradá-lo. Estava com uma regata e um short que lhe caíam muito bem, seu corpo magro em perfeita exibição. O cabelo estava solto. Seus olhos ilegíveis, mas tudo bem quanto a isso, porque conseguia sentir as emoções pulsando dela.

Um desejo incandescente e intenso.

O dele, sempre presente, explodiu na superfície.

— Desculpe pelo que disse mais cedo. — ela murmurou. — Pelo que disse durante todos esses anos. Pelo que te chamei. Estava errada e fui cruel. Fui uma megera intolerante, igual ao que me chamou. E sei que essas palavras não são boas o bastante. Sei que lhe devo muito mais, e entenderei se não puder me perdoar.

Algo se apertou em seu peito. Ela o via como era. Naquele momento ele percebeu que nunca tinha parado de desejar que isso acontecesse.

— Princesa, eu fiz coisas ruins. Entendo por que disse o que disse. Sim, posso perdoar você.

Alívio banhou sua expressão.

— Obrigada.

Ele assentiu.

Ela mordiscou o lábio inferior.

— Você fez o que disse, então. — ela falou. — Terminou as coisas com Pagan. — Não era uma pergunta.

Ele respondeu de qualquer forma.

— Sim.

— Bom. — Ela colocou os braços em volta do seu pescoço um segundo depois, os lábios esmagados contra os seus, a língua penetrando sua boca, exigindo uma resposta. Ele a tirou do chão, as mãos firmes em seu traseiro para colá-la contra o corpo. Agora que a tinha, não deixaria que fosse embora.

Gentil. Vai quebrá-la ao meio.     

Ele entrou mais na — cozinha, ele notou — e fechou a porta com um chute, depois foi até a parede mais próxima e a esmagou nela. Foda-se gentileza. O beijo tornou-se algo vivo e selvagem, tão terreno e físico que não conseguiu conter os pequenos rugidos que subiam pela sua garganta, sua boca pressionando com mais força, insistindo em ganhar mais dela. Tudo. Tudo.

— Alguma ideia… do quanto o seu gosto… é bom? — ele perguntou entre chupões e mordiscadas.

Sua risada foi faminta e cheia de más intenções.

As mãos se emaranharam no cabelo dela, naquele cabelo tão sedoso e macio e puxou as madeixas do jeito que sempre quis. Ele angulou sua cabeça para ter um melhor acesso, precisando de mais, desesperado por mais. Era como um homem morto de fome em um bufê, servindo-se, servindo-se de mais, pegando tudo o que conseguia, fazendo com sua boca o que queria fazer com o corpo. Possuindo. Marcando.

— Está molhadinha para mim, baby?

— Ensopada. — Ela arrancou a camiseta enquanto jogava o quadril para frente e para trás, esfregando o centro em sua ereção, criando o tipo mais delicioso de fricção.

Ele removeu a regata com um único puxão. Os mamilos apontavam por trás do fino tecido do sutiã e friccionavam o seu peito. Estava tão desesperado por ela, tão duro. E seu poder tentava se livrar das rédeas.

Ao seu lado, várias panelas e potes flutuavam pelo ar.

— Vou brincar com você por horas. — ele disse com a voz rouca. Queria meter a língua em seus mamilos enquanto metia os dedos dentro dela, levando-a à beira do abismo uma, duas vezes. Queria descer a boca e devorá-la, e levá-la ao ápice uma terceira vez. Depois… finalmente depois… queria se levantar e meter-se no lugar que lhe cabia.

— Não se importe com isso. — ela disse, mordendo o lábio inferior dele. — Faça logo de uma vez.

As palavras o assustaram, e ele franziu o cenho. Sem preliminares?

— Por que a pressa? Tem que ir a algum lugar?

Ela lambeu sua mandíbula, depois desceu mais para chupar o pescoço.

— Eu só quero… passar… da linha de chegada.

Linha de chegada? Uma rapidinha? Para que os dois gozassem e o desejo passasse? Para que pudessem se afastar e esquecerem o que aconteceu?

Ela não queria desejá-lo, queria?

Talvez tivesse se enganado. Talvez ela não o visse de verdade nem gostasse dele, nem mesmo de leve.

Porque apesar do seu pedido de desculpas, ela definitivamente não o respeitava.

Raiva se misturou ao tesão.

Sem sexo, então. Ao menos não agora.

Nunca — filha de Michael!

É, mas isso estava começando a ter cada vez menos importância. No momento, era a sua atitude que ele não podia engolir. Mas tinha que obter algo dela. De outra forma teria uma explosão de poder.

Claro. É só por isso.

Ele a subiu mais na parede, colocou o sutiã de lado com o queixo, e sugou um lindo mamilo rosa. Um gemido entrecortado a deixou. Ele enfiou a mão dento do seu short, espalmou o seu calor, tremendo quando ela gritou de alívio e prazer.

— Isso! — A parte de trás de sua cabeça bateu na parede. — Eu vou… oh, já estou tão perto…

Tão linda. Tão minha.

— Coloque a mão em mim. — ele ordenou.

Ela abriu as pálpebras e olhos drogados de paixão o fitaram.

— O quê? Não. Você vai gozar.

Aquele era o objetivo.

— Coloque.

— Mas...

— Coloque ou tiro os meus dedos do meio das suas pernas. Hoje vamos ficar felizes com uma punheta. Mas isso é o máximo que faremos.

— Por quê?

— Porque estou falando. Se tiver algum problema com isso, podemos parar agora mesmo.

O seu olhar esfumaçou de raiva quando fez como ele mandou. Ela nunca saberia como estava agradecido pela sua concordância — ou o quão perto esteve de implorar. Ela passou pela cintura da calça e agarrou o seu comprimento, e inferno. Com aquele único toque, ela quase acabou com ele.

— Você é tão grande. — ela exalou. — Tem certeza que não quer colocar isso em mim? — Ela mordiscou o lóbulo. — Acho que eu gozaria com a primeira estocada.

Está me matando.

— Lamba primeiro. — ele mandou.

Ela lambeu sua orelha.

— Aí não.

Compreendendo, ela fez bico por um momento, depois retirou a mão. Ele engoliu um grunhido quando ela lambeu a palma. Depois, com a pele molhada, o agarrou outra vez. A umidade morna fornecia um bom deslizamento.

— Isso não basta. — disse. Ele pegou a mão dela, forçou-a dentro da sua calcinha, entre as suas pernas, e deixou que a rica umidade revestisse sua pele. Depois ele fez com que voltasse a envolver seu membro.

— Mais forte — ele disse — e te dou um dedo.

Ela apertou, bombeando lentamente a mão para cima e para baixo. Suas bochechas estavam coradas de prazer. Aquilo não era o que ela queria, mas ela não seria capaz de evitar apreciar o que estava acontecendo, ele notou com orgulho.

E quando a pressão aumentou, ele sorveu o ar bruscamente, fazendo como prometeu e deslizando um dedo dentro dela. E, oh, ele quase desejou não ter feito isso. Ela era apertada, quente e ensopada, bem como tinha prometido. Ele tinha que entrar nela logo.

— Mais rápido, baby. — ele instruiu — E você ganha outro.

A velocidade dela aumentou o bastante para arrancar um gemido rouco dele. Então ele lhe deu um segundo dedo, estirando-a. Quanto tempo fazia que ela não transava? Tão apertada como estava, seu palpite seria de anos. A ideia o encheu com um sentimento inebriante de posse e decidiu recompensá-la, trabalhando com o polegar em movimentos circulares em seu ápice.

— Blue!

— Você é tão gostosa. Quando eu finalmente entrar em você, vou meter tão forte, tomar tanto, que vai jurar que está morrendo. Depois vai me implorar para meter ainda mais forte, para que eu tome ainda mais.

A conversa safada fez com que ela gozasse. Seu grito irregular ecoou enquanto as paredes internas o apertavam várias e várias vezes, agarrando-o forte e espremendo por cada gota de prazer que poderia arrancar dele.

Saber que ela gozou enviou uma lança incandescente pelo seu membro, e ele explodiu em um ímpeto, bombeando em sua mão até o último dos tremores passar.

Ele precisou de vários minutos para descer das alturas, e quando fez ouviu a mesa de café da manhã dela cair no chão, seguida pelos potes e panelas. Removeu a mão de dentro dela — talvez a coisa mais difícil que já fez na vida.

Não. Espere. Não provar a umidade em seus dedos foi a coisa mais difícil. Mas se fizesse isso, se cedesse ao desejo, entraria nela em seguida. Não seria capaz de se conter.

Abaixou e agarrou a camiseta, depois usou o tecido para limpar a mão dela.

— Um dia, muito em breve — ele disse —, depois que tivermos um tempinho para pensar, nós vamos conversar.

Ela o olhou com desconfiança.

— E qual será o tópico da nossa conversa?

— Expectativas.

 

Um companheiro de habitação.

Um companheiro de habitação do sexo masculino, sexy e solteiro.

Um companheiro de habitação do sexo masculino, sexy e solteiro que tinha acabado de lhe dar um orgasmo de fazer a terra tremer.

Os pensamentos giravam na mente de Evie, insustáveis. Havia atacado Blue no momento que soube que estava solteiro. Ele mostrou o mesmo desespero para ficar com ela… mas dela ele não quis sexo. Só uma punheta.

Não tinha certeza sobre o que pensar daquilo. Ou do fato dele querer conversar sobre expectativas.

Que tipo de expectativas? As dele? As suas?

Sabia quais eram as dele — sem compromisso. Ele poderia sair com outras mulheres e ela não poderia reclamar.

Mas quais eram as suas?

Não queria pensar. Achou que talvez pudesse chegar a chorar se o fizesse.

Aparentemente, por enquanto, eles só deviam fingir que não tinham colocado as mãos dentro das calças um do outro.

— Temos trabalho a fazer. — ele disse momentos depois de soltar a bomba da conversa. — Vá se vestir com algo que a cubra do pescoço aos pés depois me encontre no escritório. Quero assistir ao vídeo da boate e escutar o áudio da casa de Star. Depois disso, podemos bolar a melhor forma do meu caminho cruzar com o de Tiffany.

Tiffany.

Argh. Ele tinha que conquistar a garota. Talvez fazer até mais.

Evie queria matá-la.

Viu? É por isso que você não pode se envolver com alguém como Blue.

— Discordo só em um detalhe do seu plano de trabalho. — ela havia respondido, tentando agir com calma. — Vamos assistir e ouvir o áudio na sala de estar, não no escritório.

Agora, vestida com um pijama de flanela ela conectou o laptop na TV de tela holográfica gigante, permitindo que ambos vissem os vídeos de segurança da Lucky Horn do conforto do sofá. Blue já estava deitado lá, maravilhoso e sem camisa, usando só uma calça folgada.

Ele podia mostrar pele. Que injusto.

Ela queria se deitar quando sentou ao seu lado. Felizmente tinha uma tigela enorme de pipoca apertada na barriga, impedindo que fizesse papel de idiota.

Forçou-se a se concentrar. Na tela, Timothy Mercer, o homem que tentou queimar Blue vivo, passeava pelo Lucky Horn apertando as mãos de alguns fregueses, olhando para as garotas quando passavam por ele e até batendo na bunda de algumas.

— Porco. — ela disse, atirando uma mão cheia de pipoca na tela.

— Bom saber que não sou o único. — murmurou Blue.

Ela enrijeceu ao ler entre as linhas. Ele alegou tê-la perdoado, mas claramente ainda não tinha esquecido.

— Você não é um porco. Agi errado te chamando assim e peço desculpas.

Sem resposta.

Ótimo. De volta ao vídeo, antes que se tornasse uma pidona carente. Por favor, me diga que você me perdoou de verdade. Por favor, não fique com raiva de mim. Por favor, goste de mim.

Depois de horas e horas assistindo o Sr. Mercer repetir a mesma rotina, ela começou a se sentir como se estivesse andando em um carrossel.

Finalmente Blue deu pausa, a imagem congelando. Ele passou uma mão pelo rosto.

— Somos amigos, certo?

Sim. Não. Talvez. Depois do que aconteceu na cozinha…

— Certo.

— Posso dizer algo sem levar uma lição sobre as minhas tendências de galinha?

Ele tinha dormido com Pagan afinal, e era por isso que não quis chegar aos finalmentes com Evie.

— O que você fez?

Ele estreitou os olhos.

— Não é o que eu fiz, é como me sinto.

Oh.

Sua culpa se tornou o elefante branco na sala. Ela tinha que parar de pensar o pior sobre ele. Ele não era ruim. Na realidade, era excepcional. E o principal, ela não tinha direito algum de julgar. Era simplesmente mais fácil reconhecer os defeitos dele e ignorar os próprios.

— Hoje foi difícil. — ele disse.

Uma dor cortou o seu peito.

— Comigo?

Ele jogou uma almofada nela.

— Não, sabichona. Machuquei muito a Pagan.

Finalmente ela entendeu. O rompimento. Ela soltou o ar preso que não tinha percebido conter.

— Você está se sentindo mal.

— Sim.

— Mesmo que tenha feito a coisa certa?

O seu olhar era desolado.

— Sim. Mesmo assim. Ela chorou.

Um galinha compulsivo não se importaria. Ele era muito mais do que Evie tinha considerado, não era?

— Você a ama? — ela perguntou, ficando tensa.

— Não.

— Então você a magoou um pouco para evitar uma mágoa maior depois. Às vezes você precisa ser cruel para ser piedoso, Sr. Blue. Acho que te disse algo parecido com isso quando nos conhecemos.

Eles prenderam os olhos, nenhum dos dois disposto a desviá-los. O ar ficou pesado de tensão sexual, sempre aquela tensão, e ondas do poder dele roçaram pela sua pele. Por quê? Por que aquilo estava acontecendo?

Ela já havia gozado naquela noite. Não devia já estar se preparando para um segundo orgasmo.

Blue pulou em pé e se afastou dela, em direção à saída.

— Estou cansado. Vou para a cama. Bolaremos um plano de ação pela manhã. — Com isso, virou e saiu correndo da sala.

 

O SOL DA MANHÃ INUNDOU o quarto, derramou por cima da cama… em Evie, que estava toda esparramada, ocupando o colchão inteiro. E uma vez ela o acusou de ser um ladrão de coberta, Blue pensou com um sorriso amargo.

Ele a olhou, seu corpo inteiro zumbindo com energia — e desejo.

Não passava.

Cercada por rendas brancas penduradas às colunas da cama, e pelo azul pálido do edredom, ela agora era a Branca de Neve depois que havia comido a maçã. Ou talvez a Bela Adormecida esperando pelo príncipe… e por um beijo. Tive minhas mãos no seu cabelo. O rosto colado ao seu.

Quase despi completamente aquela pele branca e macia…

Apertou os punhos para se impedir de tocá-la.

Ontem à noite pouco depois de deixá-la na sala, quase mandou tudo para o inferno e pulou em cima dela. O calor do seu desejo praticamente carbonizava sua alma. Mas primeiro queria que ela o quisesse com a mesma ferocidade que a queria. Porque se a possuísse, ele decepcionaria um homem muito bom; um homem que ele amava. Poderia até perder o emprego.

Isso era muita coisa para se lidar para se ter só um affair casual.

Na verdade até demais. E ele não faria isso, decidiu.

As coisas com Evie teriam que ser platônicas a partir de agora.

Para o bem de todos.

Blue a sacudiu com gentileza.

— Preciso que acorde, amora. — Incapaz de dormir, ele passou a noite inteira ouvindo o áudio dos grampos da casa de Star. Finalmente, poucos minutos atrás, ouviu algo de valor.

Ela piscou os olhos, suas íris de um castanho rico e escuro com estrias douradas. Nunca tinha notado o dourado antes.

Gostou muito do dourado.

Ótimo começo, Platão.

— Blue? — Ela empurrou o seu braço e resmungou. — Que diabos você está fazendo no meu quarto? E acabou de me chamar de “amora”? Porque estou completamente preparada para castrá-lo com uma colher cega.

Ele sorriu.

— Levante e se vista. Temos uma pista e sei que quer vir junto.

— Uma pista? Que pista?

— Os seguranças de Star têm informações a respeito de alguém que bate com a descrição de Solo. Aparentemente ele foi avistado em um depósito abandonado em No Man’s Land[11], e planejam juntar as tropas e atacarem com tudo na calada da noite, já que não têm coragem de enfrentá-lo a luz do dia. Isso quer que dizer que podemos acabar com eles lá mesmo.

Piscando, ela se sentou de um salto. Mechas escuras caíram pelos seus ombros e braços, e ele teve que se forçar para se afastar dela antes que fizesse algo estúpido.

Ele foi até a sua cômoda e remexeu nas gavetas, atirando uma camiseta rosa em sua direção, seguida por um par de meias, um sutiã rosa como top e com renda — ótimo — e uma calcinha rosa. Também de renda. Ótimo mesmo.

Seu estômago apertou quando a ânsia por ela intensificou.

Você respeita Michael. Quer continuar no emprego que tem.

Quantas vezes teria que se lembrar?

Ela pegou cada peça.

— Sei que não gosta de usar nada por baixo às vezes, mas hoje vai ser uma boa garota e usar a roupa de baixo apropriada. — Ele nunca seria capaz de se concentrar do contrário.

— Tudo bem.   

Ele andou até seu closet e escolheu uma calça jeans.

— Em quanto tempo está pronta para sair?

— Cinco minutos. E isso não é um código feminino para uma hora. — Ela foi até o banheiro, fechando a porta atrás dela. Um segundo depois ouviu o ruído do motor do chuveiro de enzima.

Ele precisava de algo para fazer com as mãos ou ia arrombar a porta, tirar a roupa e se juntar a ela naquele banho estúpido. Na cozinha fez uma garrafa de café e encheu uma caneca de viagem para ela.

Sr. Doméstico. Esse sou eu. Não conseguia lembrar de fazer algo do tipo para mais ninguém.

O ranger de madeira atraiu sua atenção. Ele se virou, observando quando Evie desceu a escada; droga, estava de novo tão linda que seu peito começou a doer. Ela prendeu o cabelo em um rabo de cavalo e suas bochechas estavam coradas do calor da ducha. Usava as roupas que ele escolheu e parecia jovem, inocente e...

Não para ele. Nunca para ele.

MICHAEL. TRABALHO.

Agarrou o balcão da cozinha com dedos tensos.

— O que foi? — ela perguntou, ajustando a alça da bolsa do ombro ao quadril.

— Nada. — ele grasnou. Para se distrair, usou poder para passar a alça pela cabeça dela, permitindo que ele pegasse a bolsa.

— Ei!

Ele remexeu os conteúdos.

— Uma lanterna, pó compacto, colírio, cola-tudo, soco inglês, lenços umedecidos, quatro anéis, uma mini arma flare gun e um apito. — Enquanto falava, segurava cada item. — Algumas dessas coisas eu nem reconheço.

— Me dê. — ela disse, puxando a bolsa das suas mãos e devolvendo-a ao seu lugar de direito.

— Por que uma lanterna?

— Por que não?

Justo. Ele empurrou a caneca de viagem na direção dela.

Ela arqueou a sobrancelha, surpresa.

— Fez isso para mim?

Ele voltou a agarrar o balcão, o granito rachando e assentiu.

— Bem. — O cenho franzido dela não tinha nada a ver com raiva e tudo a ver com confusão. — Obrigada. Eu acho.

— Não é uma pessoa matinal, luz do sol?

Um vislumbre de pesar em seus olhos.

— Há pessoas que dirão que não sou pessoa de hora alguma.

— Bem, essas pessoas simplesmente não a conhecem.

O queixo dela caiu e ela o olhou deslumbrada.

Nossa. Ele tinha acabado de se deslumbrar também. Hora de ir embora.

— Está pronta?

— Preciso de mais um minuto para enviar à Michael tudo que conseguimos da casa de Star e do Lucky Horn. — ela disse. — Sei que planeja ficar na casa de barcos por mais um ou dois dias, e ele não tem nada além de tempo de sobra nas mãos. Ele pode nos dizer se conseguir encontrar outra coisa útil.

Quando ela terminou, Blue a guiou até a garagem.

— Vamos levar o meu SUV. — ela disse. — Não está no meu nome, então é o meu veículo caso-tudo-dê-errado. Algo necessário para qualquer agente da nossa geração.

— Perfeito.

Durante o caminho, permaneceu alerta para qualquer carro que pudesse estar seguindo os dois e até desviou do percurso várias vezes, voltou e andou em círculos. Ninguém tentou nada nefasto.

Se isso mudasse, os sensores do carro saberiam e o alertariam. Mais que isso, as janelas eram reforçadas com escudos e a carcaça de metal era impenetrável. Podia relaxar. Nem que fosse por pouco tempo.

— Como foi a conversa ontem com o Agente Gutierrez? — ele perguntou.

— Não teve conversa. Ele não estava lá. E ao invés de ter que lidar com outra pessoa, fui embora.

— Boa jogada.

— É. — Ela retorceu a calça jeans na altura dos joelhos. — Ei, Blue?

— Sim.

— Por que não me disse que foi você que fundou a SHOW?

Enrijeceu. Não gostava que ela soubesse. Não queria mudar a opinião que tinha dele daquela forma.

— Como descobriu?

— Você entrou no site pelo meu computador e o histórico foi enviado para o meu telefone.

— E? Não sou mencionado no site.

— Talvez eu tenha investigado um pouco.

Ele forçou o corpo a relaxar.

— Isso não é da sua conta, Evie.

— Eu sei. — Uma pausa de suspense antes dela sussurrar. — Sou Anita Huginkis, uma doadora antiga.

Ele ficou surpreso. Ficou impressionado. Seu coração se aqueceu. Seu mau humor de repente foi embora.

— Eu sabia que era um nome falso, mas chequei a Srta. Huginkis e o passado dela parecia legítimo.

— Sim, sou muito boa. — Presunçosa, Evie balançou o cabelo.

Sorrindo, ele admitiu.

— Eu sou Justin Sider.

Ela bufou.

— “Just inside her”[12]? Que ótimo. Alguns anos atrás, eu era Sherwood Lovett.

— Holden Mylode.

— Nealanne Licket.

— Iva Woody.[13]

Ela explodiu em risos e ele se maravilhou outra vez com sua beleza. Olhos brilhantes. Bochechas coradas. Ela era a epítome do esplendor enchendo todos os lugares sombrios dentro dele de luz.

Preciso fazê-la sorrir todos dias pelo resto da sua vida.

Pelo resto da sua vida? Não seja ridículo.

Quando ela se aquietou a tensão ficou tão pungente que duvidava que uma faca não conseguiria cortar o ar. Estava excitado a ponto do desespero.

— Já esteve em No Man’s Land? — ele perguntou, mudando de assunto.

— Não. Você?

— Sim. — Ali, o ar era ríspido devido as chuvas de ácido contínuas e ardia na pele e nas narinas. Humanos tinham se mudado para a cidade, fora das terras do interior décadas atrás, então várias raças alienígenas se mudaram para as áreas abandonadas e as assumiram. — Eu teria achado que você já tinha trabalhado por aqui com Éden. Vocês são bem próximas e Michael sempre a manda para os piores serviços… Posso perguntar uma coisa pessoal?

Depois de uma leve pausa, ela disse.

— Claro. Mas não quer dizer que vá responder.

Lá vai.

— O que aconteceu com Claire?

Tristeza e remorso encheram o veículo.

— Blue…

— Ainda não está preparada para falar a respeito?

— Não sei se alguma vez estarei. — ela admitiu.

O vento começou a golpear o carro, até atirando pedaços de cascalhos no capô. Poeira engrossou o ar lá fora quando a estrada pavimentada deu lugar a uma de terra.

Incerto do por que estava tão determinado a fazer com que ela se abrisse para ele especialmente agora que havia decidido manter as coisas na área da amizade, mas não disposto a recuar, disse.

— Por que sua mãe e Michael se separaram?

— Ela trabalhava para ele.

Ele quase engoliu a própria língua.

— Michael namorou uma subordinada?

— Sim, e foi o maior escândalo na época. Ela engravidou e ele se recusou a casar com ela. Acho que lá no fundo ela queria puni-lo por isso. Então fez as malas e voltou para a casa da família dela, em Westminster.

— E quanto ao pai de Claire?

— Eu tinha um ano quando ela casou com ele e Claire veio dois anos depois. Ele ficou conosco até pouco depois do meu aniversário de seis anos. Fiquei desolada quando nos abandonou. Era um bom homem, doce com Claire e comigo, e a nossa única fonte verdadeira de mimos.

— Ele nunca mais apareceu depois disso?

— Não.

Então não era um bom homem, Blue pensou ameaçadoramente. Ele tinha abandonado as suas filhas. Era um bastardo.

Blue tinha feito muitas coisas ruins em sua vida, mas arrancar o coração de uma criança nunca foi uma delas. E agora odiava o fato de já ter pensado em Evie como uma garotinha excessivamente mimada. Ela não foi. Nem um pouco. Tinha enfrentado a rejeição várias e várias vezes e construído uma parede em torno de si. Provavelmente a única maneira que havia encontrado de sobreviver.

— E quanto a você? — ela perguntou. — E seus pais?

— Eu não me lembro dos meus pais biológicos. Fui adotado aos quatro anos.

— Os seus pais adotivos eram bons com você?

Ele nunca falou daquilo com ninguém, nem mesmo com Solo ou John. Mesmo assim, viu-se dizendo.

— Eles tentaram ser.

— Tentaram?

— Eu não deixava que fossem. — Contou a ela sobre seus irmãos e irmãs, como eles tinham salvado sua vida. — Eu estava tão dilacerado com a perda deles que expeli todos que quiseram se aproximar. Quando meus novos pais tentavam me abraçar eu fazia um escândalo. Quando me chamavam para comer na mesa com eles, eu dava as costas e me calava.

— Você era uma criança emocionalmente traumatizada. Tenho certeza que eles entendiam e que não guardaram rancor.

— Provavelmente tem razão, mas não posso perguntar a eles porque estão mortos.

Ela estendeu a mão apertando a sua.

— Sinto muito.

Ele exalou de alívio quando uma cidade apareceu no horizonte.

— Estamos perto do depósito. — Ele não tinha certeza de como responder àquele lado bondoso e generoso dela.

Com pelos manchados e movimentos felinos, os Bree Lians pareciam animais presos em pernas humanas.

Os Cortaz eram bem mais delicados na aparência, com pele brilhante e luzes fortes saindo dos poros.

Todos pararam o que estavam fazendo — compras, vendas de comidas em carrinhos de supermercado, conversas e risos — para observar quando o carro passou. Blue segurou o cabo de uma pyre-gun, preparado, só pra garantir. Mas ninguém os perseguiu quando dobraram uma esquina, depois outra e mais outra, deixando o centro da cidade e entrando na área deserta.

Finalmente o veículo parou na entrada de uma edificação de metal que parecia ter sido castigada por ventos e estações e parecia curvada em vários ângulos estranhos.

Em qualquer outra época ele teria estacionado bem longe dela, mas queria o carro o mais próximo possível da localização.

— Chegamos.

— Acha que os homens de Star estão por perto?

— Não. Eles foram bem inflexíveis sobre não virem para esta área até anoitecer porque têm medo de enfrentar os extraterrestres que vivem aqui, bem como o próprio Solo — se é ele mesmo que está aqui. Mas ainda vamos agir como se tivessem cercado o lugar.

— Vai dinamitar o seu poder?

— Não. Muitos inocentes. Vamos fazer isso do jeito antigo. Com armas. — Ele checou o cristal da sua pyre. — Tome. Coloque isso. — Passou para ela uma máscara de couro com plástico claro e maleável nos orifícios dos olhos.

Depois que ela colocou a coisa na cabeça, ele tirou seu cabelo com gentileza dos encaixes das orelhas. Ela ficou completamente imóvel como se antecipando o seu próximo movimento e sua boca secou.

Não ousaria fazer mais. Deixou os braços caírem.

Ele atirou um par de luvas para ela.

— Essas também.

Ela puxou o material para calçá-las e retirou a pyre que levava na bolsa.

— Não precisa de uma máscara? — ela perguntou, programando a arma no máximo.

Precisava, mas só tinha sido capaz de encontrar uma.

— Vou ficar bem.

Ele prendeu a respiração e saiu do veículo em sincronia com Evie. Correram para dentro do prédio, e no curto tempo que isso levou, o rosto de Blue levou uma enxurrada de milhares de grãos de areia.

Quando ele fechou a porta do depósito bloqueando o vento, Evie mirou a arma para o espaço atrás dele.

— Livre. — ela disse.

Ele removeu a máscara para ela e a colocou de lado para a viagem de volta ao carro.

— O ar fresco está sendo lançado na ventilação por uma fonte externa. — Ele se perguntava quem era o dono do prédio. Porque embora toda a estrutura parecesse pronta para desmoronar, aquilo era aço reforçado nas paredes. O lugar provavelmente era forte o bastante para aguentar qualquer tipo de tempestade, natural ou artificial.

— Blue, seu filho da mãe! — ela explodiu de repente.

Ele piscou em surpresa.

— O que foi?

— Você mentiu! — Ela remexeu na bolsa, recolheu um maço de lenços umedecidos e limpou a curva debaixo do seu olho.

Ele deixou, capturado no prazer de ferver o sangue e retorcer as vísceras do seu toque.

— Não menti. Eu disse que ficaria bem, e estou bem. Já estou curando. — murmurou irritadamente.

— Bem, ainda estou com raiva.

— Quer arrancar meus rins e pisar neles como se estivesse fazendo vinho?

— Pra começar.

Lutando para não sorrir ele a levou por um labirinto de corredores e salas vazios. Como esperado, nenhum dos homens de Star estavam ali. Contudo, na última sala, cruzaram com um homem com um capuz na cabeça amarrado a uma cadeira.

Ao lado dele havia uma mesa cheia de armas ensanguentadas e seringas.

Não era Solo. Pequeno demais.

Decepção o golpeou.

— Quem é você? — Evie exigiu, dando um pequeno chute na cadeira do homem.

O corpo dele deu um salto em surpresa.

— Evangeline Black?

O olhar chocado dela pousou em Blue.

— Agente Gutierrez?

De jeito nenhum.

Blue se aproximou e arrancou o capuz vermelho de sangue para revelar um homem igualmente vermelho de sangue.

Olhos azuis inchados da cor do oceano não levaram nem um segundo para se ajustarem às luzes e focarem em Blue, depois Evie, depois de volta a Blue.

— Me soltem. Agora.

— É, acho que não. — disse Evie. — Não até que responda algumas coisas.

— Me soltem — ele insistiu — ou eu os machucarei de maneiras que nem conseguem imaginar.

Fúria cresceu ao redor de Blue com a mesma agitação de uma corda lançada, puxando-o para dentro de um poço de malevolência.

— Não ameace a garota. Faça isso de novo e não vou me incomodar com ameaças. Vou partir logo para a faca.

Olhando para o agente, Evie se abaixou e disse em um suspiro ensaiado.

— Meu parceiro é muito bom com uma faca.

Dallas a ignorou. Focado em Blue, sorriu de um jeito bem maligno; havia sangue em seus dentes.

— Ora, ora. Se não é o astro do futebol que já namorou a mulher do meu parceiro, Noelle Tremain. Engraçado vê-lo aqui.

— É. Realmente hilário. Agora, quem o amarrou e torturou?

O sorriso de Dallas se alargou. Com uma voz sedosa o agente disse.

— Vocês vão me soltar. Querem me soltar.

Levou um momento para entender, e quando isso aconteceu, a surpresa ficou ali, esperando.

O homem era humano, e ainda assim tinha acabado de tentar — e de conseguir — usar a compulsão da voz, uma habilidade Arcadian.

Blue jogou os braços para impedir que Evie se movesse, esperando que ela tentasse obedecer ao homem.

Ela não o fez. Rosnou com um ultraje repentino, obviamente imune.

— Realmente achou que seria prudente tentar nos forçar a fazer algo que não queremos? Vamos ver como reajo a isso. — Ela esmagou o punho na mandíbula dele e a cadeira se inclinou para o lado.

Essa é a minha garota.

Não, não é minha.

— Falei sério. — disse Dallas, desta vez soando confuso e desesperado. — Vocês querem me soltar.

Ela bateu nele uma segunda vez. Com mais força.

— Se ainda não está com um dano cerebral está prestes a ter um. Tem certeza que quer continuar seguindo esse caminho?

— Deixe eu tentar uma coisa. — Blue decidiu ir logo ao que interessa e pressionou a bota entre as pernas de Dallas. — Como consegue usar a compulsão de voz?

Apertando os dentes contra a dor, Dallas disse.

— Seu amigo me fez a mesma pergunta. A propósito, usou os mesmos métodos. Me pergunte se eles funcionaram. Não que eu também vá responder a isso.

— Amigo?

— Como se não soubesse.

— Quero um nome.

Dallas cuspiu sangue nele.

Foda-se. Blue não se importou com a plateia. Aquilo era importante demais. Ele concentrou o poder em suas mãos e as duas se acenderam como foguetes. Então moveu-as no ar à sua frente, um tipo de tela se formando. Cores apareceram.

Uma cena tomou forma no centro. Uma cena de dez minutos atrás.

Blue viu quando Solo — vivo e bem — pressionou a bota entre as pernas de Dallas.

— O que sabe sobre Gregory Star?

— Entendo que você seja um cara grandão, malvado e tudo mais, mas precisa mesmo manter o capuz? — o agente disse da tela. — Eu já sei quem você é. Nós nos conhecemos no circo, lembra? E não tente negar. Reconheço a sua voz.

— Que diabos está acontecendo? — O Dallas do presente quis saber.

Blue o ignorou.

Solo pressionou o pé com mais força e o Dallas da tela chiou.

— Você é amigo de Kitten, uma das minhas companheiras de jaula, e essa é a única razão para ainda estar vivo. Mas estou procurando o meu amigo, John Sem Sobrenome, e não me importo em mutilar alguém para conseguir informações. Mutilar de maneiras que me tonarão um monstro e você um homem com vontade de morrer. Então, você tem...

A tela se apagou.

Blue quase não conseguiu conter a alegria. Solo estava vivo e bem.

— Esqueça o que acabou de acontecer. — disse Dallas. — Pela sua cara, posso dizer que não estava ciente de que seu chapa Solo invadiu a minha casa, me apagou, me trouxe para cá, me amarrou, surrou e fez todos os tipos de perguntas que me recusei a responder.

Ele não conseguiu responder. Solo estava vivo e bem.

Solo estava vivo, bem e em Nova Chicago.

Solo estava vivo, bem e em Nova Chicago tentando encontrar John.

Alívio o bombardeou quase o derrubando de joelhos.

Não conseguia ficar quieto. Virou-se para Evie e a puxou para os braços. O corpo pequeno dela tremeu contra o seu, mas ela não hesitou em colocar os braços em volta dele, abraçando-o com força. Enterrou o rosto na curva do pescoço dela, sorvendo o cheiro de mel e amêndoas que parecia infundido naquela pele.

Talvez fosse um maricas porque lágrimas queimaram os seus olhos. Não se importava.

Um momento para se expor a todos os olhos — tudo bem.

Mais do que isso? Não!

Teve que se forçar a soltá-la para voltar ao interrogatório.

— Se sabe algo sobre John Sem Sobrenome, Agente Gutierrez, sugiro que me diga. Do contrário, vou estripá-lo sentado nessa cadeira e não sentirei um pingo de remorso. Diferente de Solo, não irei embora nem o deixarei aqui para que alguém o encontre.

Aquele também não era o modus operandi normal de Solo. Então… o agente era um presente? O guerreiro sabia que Blue viria?

Se sim, por que não ficar para encontrá-lo?

Os cantos da boca de Dallas se ergueram em uma paródia de sorriso.

— Eu convido formalmente você, Solo, e até a Senhorita Black para irem se foder.

Evie bufou.

— Tem que dar crédito a ele. Ele é bem divertido, não é?

Frustração devorava Blue.

— Você andou investigando Gregory Star, ainda assim não registrou o que descobriu em nenhum banco de dados. Por quê?

— Por que não advinha? — Dallas disse, recusando-se a ceder.

— Tudo bem. — respondeu, pegando um bisturi da mesa e testando o seu peso na mão. — Você não gosta de Gregory Star por alguma razão — talvez por causa dessa garota Kittern que Solo mencionou — e planeja castigá-lo de acordo com a velha escola. Não quer que ele vá a julgamento. Você o quer morto. Como estou indo até agora?

Dallas empalideceu e tentou disfarçar a reação com um bocejo.

— Estou entediado.

— Devo interrogar Kitten? — Blue perguntou.

Uma porção de xingamentos o deteve.

— Deixe Kitten fora disso. Ela foi terrivelmente abusada naquele circo e ainda não se recuperou.

Foi Blue quem bocejou desta vez.

O agente percebeu que não estava indo a lugar algum e tentou uma via diferente.

— Noelle sabe que você é Black Ops, Blue? Espere. Black Ops. Blue. Black e Blue. E você também é Black. — ele disse para Evie. — Que fofinho. Enfim, vou jantar com Noelle e com o seu homem hoje. Vou garantir que saibam que você mandou um “oi”.

Blue tinha acompanhado a vida de Noelle ao passar dos anos e sabia que ela tinha entrado para o IRA. Sabia que havia se casado. Sabia que estava grávida do seu primeiro “anjinho”. Ele estava feliz por ela e esperava que não quisesse matá-lo quando descobrisse a verdade a seu respeito.

Ele não tentaria evitar que Dallas dividisse a informação com ela. Afinal, queria que soubesse. Ela merecia a verdade.

— Tudo bem, já chega disso. Posso fazê-lo falar sem ter que matá-lo ou mesmo machucá-lo. — Evie disse, remexendo na bolsa. — Odeio fazer isso, porque os efeitos colaterais são bem severos, mas tempos de desespero pedem medidas desesperadas, sabe como é. A-ha! — Sorrindo, ela retirou o pó compacto.

— Vai me maquiar? — perguntou Dallas. — Me deixar mais bonito? Não, por favor, não. Isso não. Qualquer coisa menos isso.

— Ao menos use a arma de fogo nele. — disse Blue.

— Vai gostar mais disso, juro. É um soro da verdade que eu… alterei.

Dallas franziu o cenho.

— Esquecemos de te contar que sou ótima com poções e venenos? — ela perguntou de maneira sedosa.

O agente ficou um pouco desconfortável, remexendo-se na cadeira.

— Soros da verdade não funcionam em mim. Solo tentou antes de chegarem e não teve sucesso.

— Bem, Solo não usou esse soro, usou?

Dallas engoliu em seco.

— De que tipo de efeitos colaterais severos estamos falando?

— Oh, você sabe. O de sempre. Crescimento de seios em homens. Perda de cabelo total. Encolhimento do pênis.

Blue achou que ela estava brincando e abafou uma risada.

— O quê? — Dallas berrou.

Evie se abaixou, franziu os lábios e soprou o pó branco no rosto dele.

O agente tossiu e tossiu até seus olhos ficarem vidrados e relaxar na cadeira.

— Então, Agente Gutierrez — Evie disse com um belo sorriso — por que não nos diz o que sabe sobre Solo e Gregory Star?

 

DALLAS CONTOU TUDO A ELES.

— Solo foi enjaulado no circo com a minha amiga Kitten — ela é do IRA, você sabe, e agora está traumatizada. Acho ela uma gata. É provavelmente por isso que tenho tantas fantasias com ela. Umas bem safadas também, mas minha favorita é uma em que estamos tomando banho juntos, porque ela derruba...

— O que aconteceu com Solo depois do circo? — disparou Blue. — Quem o vendeu?

O agente assentiu, totalmente ávido para agradar agora.

— Gregory Star o vendeu. Então depois que queimamos o circo, Solo desapareceu com Vika, a filha do dono do circo. Uma loirinha muito lindinha com quem tive algumas fantasias. Sabe, gosto de prostrá-la em cima de uma...

— Sabe onde Solo está agora? — Evie perguntou, seu tom seco.

— Não. Não o vi outra vez até ele aparecer na minha casa. Ele me atacou com aqueles punhos furiosos dele e quando não respondi às suas perguntas, foi embora e disse que me deixaria para o proprietário do prédio. Que é Gregory Star, caso não saibam. Eu andei seguindo alguns dos seus homens. Queria seguir o Sr. Star, mas ele se enfiou na mansão, não sai nem ao menos para trabalhar. Os empregados é quem vão até ele.

— Por que seguiu os homens de Star? — Blue exigiu saber.

— Foi Star quem vendeu Kitten e Solo ao circo. E acho que foi ele quem explodiu a casa do Sr. Black, porque vejam, essa mulher, a que trabalhava para ele, me procurou pouco antes de morrer dizendo que foi ele e que agora ele viria atrás dela.

Aquela mulher. A assistente.

Como ela saberia sobre Star, a menos que tivesse ajudado a implantar a bomba como Blue suspeitava?

Quando o serviço estava feito ou ela sentiu remorso com uma necessidade de consertar as coisas, ou medo com uma necessidade de salvar o próprio pescoço.

Ok. Continuando.

— Como consegue usar a compulsão de voz?

— Oh, isso. — disse Dallas. — O rei dos Arcadians me deu sangue para salvar a minha vida, e agora nós somos, tipo, totalmente ligados. Fiquei feliz dele ter feito isso… até ficar irado. Entenda, ele é casado com a atual chefe do IRA, Mia Snow, e ela costumava ser a minha parceira. Ela queria que eu vivesse e não morresse, e não entendeu que eu basicamente me tornei escravo do cara e que ele saberia sempre que eu fantasiasse com ela.

Evie revirou os olhos.

— Tem alguém com quem você não fantasie?

— Provavelmente não. Eu namorei com Pagan muito tempo antes de Blue — sabia disso? — e já experimentei com três… com quatro… era só as pessoas presentes concordarem. E talvez pudéssemos comer bolo de carne, purê de batatas e feijão em seguida. Estou meio com fome. E sujo. Um banho cairia bem. E talvez uma cueca nova. Espere. Na verdade não estou usando roupa íntima no momento.

Blue soltou o agente.

— Discrição é sua amiga, Agente Gutierrez. Não me importo que fale a Noelle sobre mim, mas prefiro que não conte a outras pessoas. Eu teria que matá-las. Também prefiro que fique longe de Gregory Star. Acho que ele está com John e passarei por cima de qualquer um que se interpor no meu caminho.

— Se eu ganhasse um dólar para cada ameaça de morte que recebo, seria mais rico que a Senhorita Gostosona Black. — Dallas disse, esfregando os pulsos.

O que Evie tinha colocado naquele soro?

— Ir para casa é por sua conta. Mas sugiro que seja rápido, porque os homens de Star planejam vir para cá esta noite.

Dallas continuou na cadeira e tentou capturar uma partícula de poeira.

Foda-se. Blue passou um braço em volta dos ombros de Evie e a levou para fora da sala.

— Próximo na lista. O encontro com Tiffany.

Ela enrijeceu.

Por que uma reação tão reveladora?

Ela pensava que ele dormiria com a garota?

Ele apertou os dentes. Não posso me irritar dessa vez. Quer dizer, por que ela não pensaria isso? Você não disse a ela que seria fiel.

Mas por que ele diria algo assim? Eles não tinham nem um relacionamento! E tinha decidido não começar um.

— Quanto a isso. — ela disse. — Tiff é uma garota rica e cresceu cercada por homens poderosos. Se você for atrás dela do jeito de sempre, só será mais um de tantos, facilmente esquecido.

Ele parou na porta para pegar a máscara.

— Está dizendo que não vou ter sucesso?

— Não fui clara? Achei que tivesse sido. Sim. Você vai falhar. É por isso que preciso aparecer primeiro e prepará-la.

Prepará-la?

— Você deve estar brincando, princesa. — Ele tentou colocar a máscara em seu rosto, mas ela sacudiu a cabeça.

— Desta vez você usa.

Uma pontada aguda esfolou seu peito. Ela estava… cuidando dele. Colocando a sua segurança acima da dela.

— Não. — Ele ancorou o material no lugar e outra vez afastou o seu cabelo. — Voltando ao Projeto Tiffany Bang Bang. A Madame Puritana vai mesmo ajudar o Galinha a marcar mais uma?

Com os olhos estreitos, ela bateu em sua bochecha.

— Primeiro, você não vai marcar nada. O trabalho não exige isso.

Não exigia agora, ele pensou. Mas depois…

Não. Não pensaria nisso.

— Segundo, sua gratidão é um sinal de humildade.

— Bem, eu sou um cara assustadoramente humilde.           

Pouco antes deles deixarem o prédio ele achou que ouviu Dallas dizer.

— É muito tarde para um autógrafo?

 

Evie caminhou pelo movimentado comércio de lojas com as mãos nos bolsos, um salto no passo. O sol brilhava quente, fazendo-a suar, mas não ligava. Ao olhá-la, duvidava que sua própria mãe a reconheceria. Seu cabelo escuro estava escondido debaixo de uma peruca ruiva curtinha, as madeixas retorcidas e contidas debaixo de um chapéu redondo. Óculos escuros de aviador acima dos olhos. Sua roupa manchada e esfarrapada foi comprada em um brechó.

Encontrar Tiffany Star foi mais fácil do que esperava, considerando os esforços que o seu pai fazia para se proteger. Mas também, Tiffany era uma designer promissora, com um site que exibia sua atual linha de roupas. Um trabalhinho de invasão aqui e acolá, e bum. Evie teve acesso ao e-mail de Tiffany e descobriu que a garota tinha um encontro com o dono de uma daquelas lojas.

Há apenas cinco minutos Evie observou Tiffany lutar para encontrar uma vaga no estacionamento. Uma onda de empolgação a atingiu. Empolgação que rapidamente suprimiu. Então quando a garota passou por ela na cafeteria sem nunca olhar em sua direção, Evie se virou e a seguiu.

Agora elas dobravam uma esquina. Evie só tinha que esperar por...

Ali. Blue.

No fim da mais nova calçada, uma multidão de gente o cercava, todos disputando sua atenção.

Tiffany andou mais apressada, chegando mais perto dele…

Evie se colocou em movimento, empurrando as pessoas do caminho. Quando ela chegou ao lado de Tiffany, agarrou a pasta da garota quando a mesma gritou.

— Espere! Pare! Isso é meu! — ela correu para uma das lojas.

Enquanto corria, desfez-se um pouco do seu disfarce — o boné de beisebol, a peruca ruiva — e tirou a camisa de flanela, revelando um paletó profissional. Quando passou pela porta dos fundos da loja, parecia completamente outra pessoa.

Andou a um passo calmo e entrou em uma loja vazia na esquina, já tendo arrombado a porta dela anteriormente. As janelas eram fumês, não permitindo que alguém visse o interior quando esvaziou os conteúdos da pasta no chão, procurando por algo que pudesse indicar a localização de John.

Desenhos, desenhos e mais desenhos, mas nada importante. Era de se esperar. Quando Evie arrumou os papeis da pasta, Blue entrou pela porta. Como sempre, sua pele ficou arrepiada e seu baixo ventre estremeceu.

Ela alguma vez se acostumaria com o poder dele… ou com seu encanto?

— Alguma coisa? — ele perguntou.

— Não. — Ela jogou a pasta para ele com mais força do que o necessário. Embora sua mira não tivesse sido boa, ele se inclinou de lado e capturou o objeto sem dificuldade. — Agora vá ser o herói e diga a ela o quanto acabou comigo só para salvar o dia. Ela vai pular em cima de você.

Ele parou e ficou tenso.

— Não vou deixar as coisas irem tão longe assim. — Ele ficou lá por mais vários segundos, só a encarando como se houvesse mais alguma coisa que quisesse dizer. Então foi embora e ela sentiu o desejo mais estranho de chamá-lo de volta.

Ou pior, de dizer obrigada.

 

Blue deu a Tiffany o seu sorriso mais charmoso e ela corou. Ele quase suspirou. Nunca conheceu um passarinho mais tímido, então não tinha certeza de como lidar com ela.

Com um metro e setenta e cinco, era mais alta do que uma mulher comum. Tinha o cabelo loiro e liso que gostava de usar para se esconder e belos olhos verdes que mantinha quase sempre baixos. Ele não sabia o motivo para que lhe faltasse confiança.

A não ser que se envergonhasse pelo seu passado? Ele sabia que ela tinha sido bem louca na adolescência e mais do que uma usuária de drogas recreacionais.

Mas parecia que tinha reconstruído sua vida. Hoje usava um vestido de verão amarelo que gritava boa linhagem, estilo e sofisticação. Não havia marcas de seringa em seus braços e um bronzeado forte fazia sua pele brilhar.

Depois que devolveu sua pasta, ela ficou estática e grata e ofereceu pagar um café pra ele assim que terminasse seu encontro de negócios. Ele bancou o pretendente interessado e concordou felizmente em esperar.

Agora, uma hora depois, estavam no pequeno café ao ar livre, bebendo da marca Joe e conversando — bem, ele estava conversando, ela escutava. Nos últimos quinze minutos, contou treze telefones com câmeras apontados na direção deles e nunca ficou mais empolgado com a necessidade obsessiva do público de saber sobre a sua vida amorosa.

Star saberia do encontro. Talvez decidisse se encontrar com o homem que recuperou a pasta de sua filhinha.

— Então. — ele disse.

— Então.

Embaraçoso. Uau. Aquela provavelmente era sua primeira bola fora. E Evie estava em casa escutando tudo.

A ilegível Evie. Ele a desejava mais do que já desejou qualquer outra mulher, e sabia como ela se sentia com aquela parte do trabalho. Isso devia estar prejudicando seu jogo.

Por John. Isso é por John.

— Me encontrei com seu pai algumas vezes. — ele disse. — Ele é fã dos Invaders e costumava ir às nossas festas de comemoração. — Você mesma foi a algumas.

— Oh. — Ela baixou o olhar. Remexeu na tampa do copo do café.

— Muito simpático.

— S-sim.

Interessante. Era medo o que ele detectava?

— O que ele anda fazendo hoje em dia? Não o vi mais.

— Trabalhando. Como sempre.

Silêncio desconfortável.

Foda-se isso.

— Tiffany. — disse Blue, cobrindo a voz com uma dose pequena de compulsão. Testando as águas… — Belisque o meu braço.

Os olhos dela ficaram vidrados e ela estendeu o braço, beliscando-o como havia ordenado. Ele quase deu um grito de alívio. Ela não era imune.

Usando mais compulsão, disse.

— Vou te fazer uma série de perguntas, Tiffany, e você vai responder honestamente. Entendeu?

— Sim.

Ótimo.

— Já viu o seu pai com um Rakan?

— Não.

— Escutou algo sobre seu pai e um Rakan?

— Sim.

— Você... Sim? — Sua avidez cresceu. Ele se inclinou para a frente, dizendo apressadamente. — Me conte tudo que ouviu.

Em completa monotonia, ela disse.

— Serei castigada por falar disso.

Ele aumentou a quantidade de compulsão.

— Me conte tudo que ouviu sobre o Rakan, Tiffany. Agora.

— Em três semanas, devo criar uma linha de roupas com sua pele.

Criar, não estrear. Uma linha de roupas. Com a… pele de John.

Compreensão o atingiu, e atingiu com força. John não estava sendo usado como um escravo sexual como Blue temia primeiramente. A pele dourada do homem seria arrancada de seu corpo e dada a Tiffany. Então, depois que sua pele se regenerasse, seria arrancada outra vez… e outra vez.

Ele seria uma eterna mina de ouro. Literalmente.

Se Star uma vez vendeu órgãos no mercado negro como os rumores alegavam, ele teria os contatos certos… e era monstro o suficiente para fazer isso.

Fúria se debateu em ondas nas veias de Blue antes de se derramar, preenchendo-o até a borda, consumindo-o.

Atrás dele cadeiras e mesas caíram. Vidro quebrou. Pessoas gritaram e correram para se proteger. John não se curava tão rápido quanto Blue, e provavelmente ainda estava machucado pela explosão, sua pele sem serventia — por isso a espera das três semanas. Ainda havia tempo de salvá-lo.

— Algo mais? — ele exigiu saber.

— Um pequeno pedaço da pele já foi removido para testes. Fitas foram feitas. Essas fitas serão vendidas em um leilão esta noite.

Uma parte de John já foi retirada.

Blue mal conseguiu conter um rugido.

— Onde será o leilão?

Ela soltou os detalhes.

Ninguém — Ninguém! — possuiria um pedaço de John. Blue se certificaria disso.

— Sabe onde seu pai está mantendo o Rakan?

— Não.

Não. Então ela não tinha mais utilidade para ele. Por enquanto. Antes que destruísse mais alguma coisa, Blue se levantou.

— Vou te mandar um convite para uma festa pós-jogo e você vai aceitá-lo e fazer o que for necessário para estar presente. Diga sim.

— Sim.

— Boa garota.

Blue se abaixou, dizendo.

— Esquecerá as perguntas sobre o Rakan, Tiffany, mas lembre-se do convite e de que o aceitou. Também falará com seu pai a meu respeito. Dirá a ele que está interessada em mim, romanticamente falando, e que gostaria que ele me conhecesse.

— Sim. — ela disse, espontaneamente. — Se ele se recusar...

— Peça outra vez. — Blue confiscou o celular dela e armazenou seu número. — Me ligue quando seu pai quiser me encontrar. — Ele jogou o aparelho em cima da mesa e foi embora — antes de ceder à vontade de matá-la.

 

Blue dirigiu até a casa de Evie, com cuidado para não ser visto, seu temperamento escalando com gravidade. Quando a encontrou no escritório, todo músculo do seu corpo estava grudado aos ossos. Olhar para ela não ajudava. A raiva se transformou em uma perigosa luxúria.

Estava sentada à mesa, ondas escuras caídas em cascata pelas costas. Dentes brancos perfeitos mordiscavam sugestivamente a ponta de uma caneta. Uma regata vermelha exibia braços com contornos musculares pequenos, mas definitivamente fortes.

Ela estava em forma. Ele lembrava o quanto era bom tê-la pressionada contra o corpo.

Força se derramou dele, a cadeira e a mesa se levantaram vários centímetros do chão. Ofegando, ela se virou para encará-lo. Quando viu sua posição firme de batalha, os olhos dela se cobriram… de desejo?

— Blue. — ela disse, sua voz rouca com, sim, desejo. Ela ficou de pé com a graça de um gato e se aproximou lentamente dele. O ondular do seu quadril o paralisou. — Sei que está furioso e frustrado, mas não pode ir ao leilão assim. Então descarregue suas emoções em mim. Posso aguentar o que for.      

Um convite.

Um que ele não poderia recusar.

Esqueça Michael e o trabalho. Ele tinha que possuir aquela mulher.

Ele a agarrou pela cintura e a girou, esmagando-a de frente à parede. Segurou suas mãos acima da sua cabeça e separou-lhe as pernas com os pés, a necessidade de dominá-la sobrepondo tudo mais.

— Isso. — ela chiou.

Com a mão livre, ele tirou seu top, mas não se incomodou em retirar a calça jeans nem a lingerie.

Simplesmente rasgou suas costuras. O sutiã se abriu liberando os seios. A calça caiu do quadril.

Nada de sexo, uma parte do seu cérebro gritava. Ainda não. Não assim.

Pensamento racional.

Ele ouviu e aceitou — mais ou menos.

Precisando de contato pele com pele, ele a soltou para descartar a camisa e moldou o peito em suas costas; o calor de sua pele o levando na direção do melhor tipo de distração existente. Quando ela esfregou a bundinha firme nele, abaixou sua calça daquela curva e sua ereção pulsante encontrou seu caminho entre a fenda. Ele chiou devido ao prazer. Ela apertou o traseiro nele e, oh, inferno. Ele mordeu o músculo do seu pescoço. Tenho que pôr a boca nela. O gemido de êxtase dela encheu o pequeno espaço fechado.

Moveu as mãos para os seus seios, apalpando e massageando, fazendo com que seus mamilos endurecessem e se transformassem em pequenas pontas perfeitas. Pontas que ele apertou.

— Blue!

Ele beijou e lambeu a mordida que provocou em seu pescoço, ainda se esfregando… esfregando-se em seu traseiro, incapaz de evitar. Era tão bom. Deslizou os dedos pela sua barriga… para dentro de sua calcinha, e brincou por um momento com o pequeno tufo de pelos antes de descer mais.

Ele quase estourou.

— Tão quente e molhada, baby.

— Sempre assim para você.

Me mata.

— Não devia ter me dito. Agora posso não ser mais capaz de sair de cima de você. — Ele circulou… circulou… onde precisava mais dele e ela tremeu, seguindo seus movimentos com o quadril.

— Faça. — Uma ordem que ela esperava ser obedecida. — Por favor.

Sempre implorava de um jeito tão lindo. Ele pressionou a palma da mão nela e enfiou o dedo bem fundo.

— Isso! — Ela grunhiu, a cabeça caindo em seu ombro. — Mais.

Quando ele a alimentou com um segundo dedo, ela colocou os braços para trás e o envolveu, as unhas se enterrando em seu traseiro. Ela o incentivou a se mover com mais força e mais rápido, até que ele praticamente tentasse fazê-la atravessar pela parede.

— Me beija. — Ela virou a cabeça e ele angulou a sua, as bocas se encontrando em um emaranhado ardente de línguas e necessidade, posse e dominação.

Havia agressão no beijo. Dele. Dela. Ele amou. Era uma declaração de posse. Uma marca a fogo. Da parte dos dois. Ele nunca se sentiu tão… desejado, tão necessário, e isso era algo inebriante. Sabia que precisaria sentir isso várias e várias vezes.

Precisaria daquele mel em sua boca descendo pela sua garganta, intoxicando-o. Ninguém mais nunca teve um gosto tão doce nem rico como o vinho. Era como se ela tivesse sido feita para ele, e somente ele. Uma doce pecinha do quebra-cabeça para a sua vida… para sua cama.

Ela gozou com uma investida forte de um terceiro dedo, apertando-o, e não demorou muito para que se juntasse a ela, esvaziando seu corpo da fúria e da frustração, e enchendo-o com uma satisfação sem fim.

E de medo.

Ele a queria demais, e a ânsia não ia embora. Nem diminuía. Estava se apaixonando por ela.

Se apaixonando mesmo.

 

BLUE E EVIE ESTAVAM AGACHADOS na parte de cima do velho celeiro onde o leilão pelas fitas feitas com a pele de John aconteceria. Estavam ali há quase uma hora, quietos, calados, esperando, escondidos pelas vigas grossas de madeira e pelo feno mofado.

Conteve as lembranças do resultado do encontro explosivo que tiveram… até a segunda hora, quando elas bateram à porta da sua mente exigindo entrada.

Um silêncio desconfortável enquanto se vestiam.

Evie incapaz de olhá-lo nos olhos.

Um murmurado “Bem, isso foi legal, obrigada” dela antes que saísse do escritório, deixando-o só com os seus pensamentos. Ela não o tinha reivindicado no fim das contas.

Não importava. Ele a reivindicou.

Daquela vez anterior, tinha sentido horror por ter traído Michael e culpa. Dessa vez sentiu determinação.

Queria mais. E, portanto, mais era o que teria. Não conseguia resistir a ela. Lutar contra a atração não tinha feito bem algum.

Agora ele iria atrás dela. Ele a ganharia.

Finalmente as portas dos fundos do celeiro rangeram, sinalizando que foram abertas. Um humano baixinho e magro com cabelo ralo, uma tatuagem do grande tubarão branco aparecendo pela gola de sua camisa e uma barriguinha saliente entrou com dois homens armados de cada lado. Um tinha um rifle. O outro uma pyre gun. Ambos eram humanos.

Atrás deles, outro homem carregava uma pequena caixa laqueada com o símbolo chinês da vingança estampando as laterais. Não havia sinal de Gregory, Tyson, ou Tiffany, mas Blue não ligou. Aquilo estava mesmo acontecendo.

— Vão enlouquecer com isso. — Tubarão dizia. Ele passou o braço pelos itens espalhados na mesa mais próxima, derrubando tudo no chão.

Outro homem depositou a caixa na superfície. Ele era um Agamen, com chifres brancos enormes saindo de seu crânio. Torres de marfim genuínas. Seriamente, uma colônia de fadas poderia viver dentro daquelas coisas.

Inferno, talvez vivessem.

— Vou lembrá-los que essas daqui são a maior sensação. — disse o Chifrudo.

Tubarão assentiu e esfregou as mãos.

— Considere lembrado. Agora me mostre o que vou vender.

Chifrudo mexeu na trava da caixa. A tampa foi aberta.

Blue viu três tiras douradas depositadas dentro e quase vomitou. A dor que John deve ter sofrido… deve estar sofrendo. Teve que engolir um rugido de fúria, teve que conter seu poder com toda força.

— Lindas, não são? — Chifrudo disse com um sorriso torto.

— Está brincando? São maravilhosas. — exclamou Tubarão. — Quando a garota Star terminar seus desenhos… as pessoas vão ficar loucas.

Do outro lado das vigas de madeira, Blue encontrou o olhar de Evie. Determinação irradiava dela.

— Eles vão morrer. — ele mexeu a boca sem emitir som. — De um jeito bem ruim.

Agarrando duas adagas, ele caiu do teto e aterrissou em pé. Evie fez o mesmo, e juntos atacaram. Os homens notaram e pegaram suas armas — mas já estavam muito atrasados.

Blue atirou as duas adagas, uma encontrando um lar no olho direito de Tubarão, a outra no esquerdo. Urrando de dor, o cara caiu de joelhos. Enquanto isso, Evie esfaqueou de maneira selvagem um dos humanos na garganta, sua pele rasgada e o sangue jorrando.

Chifrudo tentou correr até a porta, mas Blue o capturou com uma linha de poder — uma corda invisível — e o arrastou de volta, retorcendo-se e gritando. Quando Blue o alcançou, pretendendo cortar seus chifres e ficar com eles de lembrança, o homem deu um salto brusco em um esforço de golpeá-lo com as pontas venenosas.

Três golpes rápidos e consecutivos esvaziaram todos os três pulmões do Agamen. Aulas de anatomia alienígena às vezes eram bem úteis. O homem caiu pra frente, permitindo que Blue quebrasse seu pescoço com uma torcida cruel.

O último alvo conseguiu pôr as mãos em uma pyre gun e disparar na direção de Evie. Ela desviou, o laser passando bem acima do seu ombro. Blue cruzou a distância em um piscar de olhos, agarrando o braço do humano, retorcendo, quebrando o osso e virando a arma. Ele meteu o cano da mesma na boca do homem e apertou o gatilho.

Luzes amarelas saíram de todos os orifícios que o humano possuía, e o sangue rapidamente seguiu. Ele desmoronou no chão.

Acha que pode matar a minha mulher? Blue cuspiu no corpo.

Sua mulher? Sério?

Tanto faz. Ele se virou, desesperado para lutar com mais alguém, mas a batalha estava terminada. Andou até a mesa e Evie foi junto. Eles olharam as tiras douradas brilhantes enroscadas tão belamente contra o veludo.

— Sinto muito. — ela sussurrou.

Assentiu para que soubesse que a ouviu.

— Nós o encontraremos.

Sim, encontrariam. Nunca parariam de procurar, nunca desistiriam. Não se importava com o que tinham que fazer nem com quem tinham que matar.

— Vamos levar a caixa para Michael. — ele disse.

 

Os dias seguintes foram bem atribulados. Evie deu uma coletiva de imprensa para anunciar que estava assumindo o controle das Indústrias Black e que haveria um amistoso entre os Invaders e os Strikers no final da semana. Ela ligou para Tyson Star e marcou uma visita ao Star Ligh Hotel, mas não foi ele quem lhe mostrou o lugar. Seu assistente pessoal foi quem fez as honras.

Ela quase deu um chilique.

Tiffany também ainda não havia ligado marcando o encontro de Blue com o seu pai.

Mas pelo menos ninguém tinha tentado matá-lo. Nem Evie. Era seguro assumir que o disfarce dele era sólido, ele não era um alvo e quem quer que tenha ordenado a perseguição ao carro tinha mudado — seja homem ou mulher — de ideia.

Mesmo assim Evie estava um pouco aflita. Ela e Blue ainda não tiveram aquela conversa sobre expectativas e não tinham ficado outra vez. Ele cansou dela?

Não. Impossível. Da última vez ele pegou fogo totalmente por ela. Chamas tão ardentes daquele jeito não podiam se extinguir assim.

Sério? Sééério? Já viu algo em chamas? Elas se extinguem o tempo todo, idiota.

Podia ouvi-lo vagando pela cozinha e estremeceu. Ele entrou sorrateiramente na casa algumas horas atrás.

Ele fazia isso todas as noites, na verdade, ficando secretamente no quarto de hóspedes, bem como tinha prometido a Michael.

Eu perdi o encanto?

Não, pensou outra vez. Ela não era uma mulher de parar o trânsito como as mulheres com as quais ele estava acostumado, e tinha a cor de cabelo errada… e o tamanho de seios errado… Ei. Franziu o cenho. O que foi que ele viu nela?

Ela não sabia. Mas não era como se tivesse despencado da árvore das feias e batido em todos os galhos na descida, muito obrigada.

Blue tinha se sentido atraído por ela e essa atração foi forte o bastante para ele esquecer que nem gostava dela.

Talvez… o estresse estivesse afetando-a? Ele trabalhava constantemente e raramente dormia.

Para ser sincera, ela tinha problemas em acompanhá-lo.

— Jantar. — chamou Blue.

Ele tinha se oferecido para cozinhar e ela não protestou. O seu gênio da culinária estava limitado a pôr a sopa para ferver e descongelar jantares que o seu pai às vezes mandava.

— Já vou descer. — Ela tinha deixado ele sozinho a cerca de meia hora; a visão dele preparando uma refeição, agindo todo domesticado, quase a deixou em um estado de choque eufórico.

Tradução: ela sentiu vontade de pular em cima dele.

O telefone vibrou em seu bolso quando entrou na cozinha. Ela checou a tela, viu o nome de Michael e sorriu.

— Ei, você.

— Ei, raio de sol. — respondeu. Ele ligava uma vez ao dia para ela, para saber como estavam as coisas.

— Como está se sentindo?

— Melhor.

Ele não ofereceu mais nada, então ela disse.

— Aconteceu alguma coisa?

— Não. Só estava pensando se o amistoso está em ordem.

Uma mentira. Sabia que estava. Ele assistia aos noticiários.

— Em dois dias, como planejado. Finalizei todos os detalhes para a festa pós-jogo também. — Uma festa onde Blue provavelmente teria que seduzir Tiffany Star a ponto de fazê-la tirar a calcinha. Nada mais tinha funcionado.

Ele sempre faria qualquer coisa necessária para conseguir o que precisava de um alvo, então talvez o romance abortado dos dois tenha sido o melhor. Evie não tinha mudado de ideia. Nunca acharia certo que seu homem fodesse outras mulheres, não importava o motivo.

— Ótimo. — Michael disse. — Isso é ótimo.

Blue estava de pé atrás do balcão e, sem mover um músculo, usou seu poder para deslizar um prato de espaguete pela superfície.

— Obrigada. — ela disse sem deixar a voz sair. E teve que se forçar a desviar os olhos dele antes que começasse a babar. O homem não podia usar uma camisa de vez em quando?

Eu tive aquele peitoral pressionado no meu, mas não o toquei nem provei. Péssimo, Evie!

Esse seria um arrependimento para o resto da vida.

— Queria perguntar… como andam as coisas com Blue? — Havia algo de estranho no tom do seu pai.

— Bem. — ela disse, grata dele não poder ver a cor em suas bochechas. — Por quê?

— Vocês dois estão…

Ela conteve um grunhido.

— Brigando? Não.

— Não foi isso que quis dizer.

— Que péssimo então, porque essa é a única pergunta que estou disposta a responder.

— Perdão, raio de sol, mas isso é importante. Eu amo esse homem de verdade, mas ele não é o certo pra você.

— Acha que não sei disso? E afinal, de onde saiu esse assunto? — ela perguntou.

— Fico me lembrando do jeito que você olhava para ele.

Como ela olhava para ele?

Porcaria. Blue tinha notado?

Blue saiu atrás do balcão colocando-se na frente dela, claramente preocupado. Perguntou sem emitir som.

— Algo errado?

— Meu pai está se metendo em algo que não é da conta dele. — ela disse alto o bastante para que os dois escutassem.

Blue endireitou os ombros de supetão e empalideceu, confundindo-a. Ele tinha adivinhado o que ela quis dizer? Estava ofendido — magoado pela falta de confiança de seu pai?

A ideia de Blue magoado… deixava-a transtornada.

Michael suspirou.

— Tudo bem. Vou esquecer isso. Eu só… me importo com você, quero o melhor pra você.

— Então por que só me visitou sete vezes quando estava no exterior? — A pergunta a deixou antes que pudesse impedi-la, a carência em seu tom a constrangendo.

Ele suspirou mais uma vez.

— Sua mãe… tem certeza que quer ouvir isso?

Mamãe tinha interferido?

— Sim.

— Ela ameaçou esconder você de mim e era uma ótima agente, a ponto de eu saber que poderia fazer isso. Aceitei todas as migalhas que me permitiu ter e agi por conta própria no momento que você ficou maior de idade.

— Oh.

“Oh?” Isso é tudo que tem a dizer? Toda a sua perspectiva tinha acabado de ser modificada. Anos de tristeza por motivo nenhum.

— Pai. — ela disse com a voz falha.

— Não, tudo bem. Tudo certo. Sei por que estava me mantendo distante e não podia culpá-la. Várias vezes achei que deveria ter arriscado tudo e tirado você dela.

Ela piscou contra as lágrimas.

— Só saber que você queria fazer isso… obrigada. — ela disse.

— Sim, bem. — Ele limpou a garganta como se também estivesse tendo um probleminha com as lágrimas. — Eu a treinei para ser uma agente para que assim tivesse mais tempo com você. E ultrapassou de longe todas as minhas expectativas. Deveria voltar a trabalhar para mim.

— Não. — Ela não tinha mudado de ideia. Quando aquilo acabasse voltaria à sua antiga vida, onde as vidas de estranhos ficavam em suas mãos — não as vidas de entes queridos.

— Teimosa. — ele murmurou. — Olhe, andei assistindo ao vídeo e escutando o áudio que me mandaram. Encontrei um trecho com Star no Lucky Horn no dia anterior a explosão, mas não há áudio, então só posso supor que foi quando a explosão foi planejada. Depois, no áudio ao vivo da mansão dele, ouvi algo bem interessante.

— O quê?

— Enviarei os detalhes via mensagem. Amanhã de manhã você e Blue têm uma nova missão.

A ligação foi interrompida.

Ela abaixou o telefone, pegou o prato e sentou à mesa onde Blue a esperava. Ele ainda não havia tocado na comida. Tinha esperado por ela como um verdadeiro cavalheiro. Teria achado que estava calmo, se não fosse pelos filamentos de poder que agora caíam em cima dela.

Eles ficavam mais fortes quando estava irritado… ou excitado. No momento estavam bem fortes.

Então ele estava o que?

Estremecendo, ela pegou o garfo. Ele pegou o dele e ela momentaneamente ficou cega pelos seus dedos compridos e rudes. Eles já estiveram dentro de mim.

— Me fale sobre Claire. — ele disse, a voz uniforme completamente desprovida de emoção.

Modo matador instantâneo!

Por que queria saber? Por que pressionava o assunto mais uma vez?

— Não. — ela disse.

Ele a fitou sem se abater.

— Já falou disso com alguém?

— Não. — E não falaria. Não conseguiria falar.

O assentimento dele foi brusco.

Silenciosamente comeram por alguns minutos. Ele era um ótimo cozinheiro e isso meio que era uma droga, porque significava que era bom em tudo que fazia. Que não tinha defeitos.

Logo a tensão a invadiu, seu poder a acariciando, revirando-a tanto que um calor líquido começou a se juntar entre suas pernas. Sua voz estava rouca quando disse.

— Alguma vez vamos conversar sobre o que aconteceu na minha sala de espera… e no meu escritório?

— Sim. Mas agora não.

O que? Por que?

— Quando?

— Em breve. Eu espero.

Não era bom o suficiente. Ela abaixou o grafo e o olhou com raiva.

— Por que esperar?

Seu olhar a varreu e esquentou, a cor de lavanda escurecendo e se transformando em um belo tom de ameixa.

— Está carente, princesa?

Sim!

Não posso mentir para ele. Então, ao invés de responder, ela se colocou de pé.                     

— Se não me quer mais, diga logo. Já sou adulta e não preciso que pisem em ovos comigo.

Ele continuou calado.

Era de se esperar. Ela deu a volta para passar por ele com toda intenção de dar o fora. Mas ele a agarrou pela cintura e a puxou para cima do colo. Para aquelas coxas grossas e musculosas. Mas não a deixou ali. Ele empurrou os pratos e a colocou na mesa.

— Eu quero você. Sempre quero você. — Ele abriu sua calça e puxou-a junto com a calcinha, deixando-a nua da cintura para baixo. — Agora, abra as pernas.

Ela obedeceu, mas não rápido o suficiente para o gosto dele. Ele apoiou as palmas em seus joelhos, a pele tão quente que o contato queimava, queimava de um jeito tão bom, e abriu as suas pernas o máximo que lhe permitiram. Expondo-a. Deixando-a vulnerável aos seus olhos.

Ele simplesmente ficou sentado ali, olhando para ela. Calor em seus olhos brilhantes. A expressão tensa. Uma corrente tornou o ar mais espesso e ela achou difícil respirar. Ela estremecia quase que violentamente. Esperar era uma bela agonia… e depois só agonia.

— Por favor. — Implorando a ele novamente? Sim. Se era o que lhe custava.

— Oh, eu te darei uma coisa.

— Me dará tudo?

— Você é tão linda aqui. — ele disse, ignorando sua pergunta. — Acho que é hora da sobremesa.

E então se jogou nela, sua boca justo onde a queria. Quente e insistente, atiçando mais o seu desejo com cada movimento de sua língua habilidosa. Ele lambia de cima abaixo, de um lado ao outro, e tudo o que ela conseguia fazer era girar o quadril e buscar mais daquilo.

Ela emaranhou os dedos em seu cabelo.

— Blue! — E então estava deitada com os pés descansando nos braços da cadeira dele, e ele estendendo os braços, as mãos envolvendo seus seios enquanto a comia e comia e comia.

O prazer a deixou fora de controle, forte, insistente, exigente, crescente e crescente. Ela não ia demorar. Tinha desejado ele demais e há muito tempo.

Um grito foi arrancado dela quando gozou.

Blue a puxou para que se sentasse e se levantou. Ele puxou o botão e o zíper da calça. Seu membro, tão grande e grosso esticava o tecido. A cabeça brilhava, provando o quanto a queria.

— Sabe como o seu gosto é bom, baby? Nunca provei nada igual. Mas agora preciso que você me chupe.

— Sim. — Ela caiu de joelhos sem hesitação alguma, e o colocou dentro da boca. Ele gemeu o seu nome, um apelo, um xingamento, depois gemeu de novo e o que quer que disse não fez sentido. Era tão grande que machucava sua mandíbula, mas ela não ligava. Moveu-se com ele na boca, repetidamente, até ele movimentar o quadril em um vai e vem no mesmo ritmo da sua boca. Mais rápido… mais rápido… ela pressionava a língua no membro dele cada vez que subia, e quando alcançava a ponta dava uma chupadinha… fez isso várias vezes… e era tão bom, fantástico de tão bom.

— Estou para… Baby, quero que engula. Cada gota.

Então queriam a mesma coisa.

Ela deu outra chupada, uma mais forte e pronto, isso acabou com ele. Ele gozou, urrando de satisfação.

Depois de tomar tudo o que ele tinha para dar, ela se levantou com as pernas bambas — só para perceber que ela e Blue flutuavam no ar.

— Err... me faça um favor e nos desça devagar. — ela disse mesmo enquanto ficava tensa, esperando cair no chão com força.

Ele colocou o membro para dentro da calça e franziu o cenho. Em seguida eles estavam descendo até o chão, aterrissando.

Ela subiu a calça e abriu a boca para dizer… O quê? Isso não pode acontecer outra vez? Ou: Por que ainda não transou comigo?

Seu telefone apitou, salvando-a de ter que decidir.

Mensagem de Michael. A nova missão.

— Vamos interceptar um dos empregados de Star amanhã de manhã.

Blue assentiu. Depois sem dizer uma palavra saiu da cozinha.

— Estou ficando cansada de ver você fugindo. — ela disse.

Ele não ofereceu resposta.

O que queria dela? O que eram um para o outro?

O que aconteceria entre eles em seguida?

Apesar de tudo, ela quase não conseguia conter a ânsia de descobrir.

 

Ele não transaria com Evie até que ela confiasse nele o bastante para conversar sobre Claire. Quanto mais tinha dela, mais queria ter — e menos ela oferecia. Ela mantinha tudo fechado a sete chaves e era hora dele abrir as portas.

A julgar pela conversa da qual só ouviu parte dela no telefone, suspeitava que Michael sabia que tinha alguma coisa acontecendo.

Blue planejava criar coragem e contar tudo ao homem… logo que soubesse o que esse “tudo” era.

O que exatamente ele queria da garota?

O que ela lhe daria?

No momento, não muito.

Será que decepcionar Michael por isso valeria a pena? Blue deveria mudar de ideia em procurá-la outra vez e dar o fora antes que algo mais se somasse a esse “tudo”?

Seu olhar vagou para Evie que estava sentada ao seu lado em outro sedã de placa fria. Ela o distraía, obcecava, enraivecia, frustrava… encantava. Com ela descobriu um tipo raro de êxtase.

Uma vez chegou a considerá-la um prazer momentâneo. Mas ela não era isso. Era mais que isso. Então voltou a se fazer essa pergunta: Será que decepcionar Michael por conta disso valeria a pena, sem levar em consideração o pouco que Evie queria ter com ele?

Sim.

Então não, ele não mudaria de ideia.

Pense com cuidado. Seu jogo era amanhã e a festa no dia seguinte. O que queria dizer que em dois dias estaria dando em cima de Tiffany Star. A ideia o deixava frio por dentro, até mesmo enojado, mas nunca esteve mais determinado a resolver um caso como aquele.

Seu estômago deu uns mil nós. Em particular, poderia compelir a Srta. Tiffany a fazer e pensar como ele bem quisesse. Sexo poderia ser descartado do menu. Mas em público, teria que entrar no papel de pretendente enamorado. Não havia como evitar isso.

Como Evie reagiria, por exemplo, a um beijo? Terminaria as coisas com ele ali mesmo?

O sexo oral no jantar seria nada mais do que uma agradável lembrança?

Teve vontade de gritar.

Falaria com ela antes da festa e faria com que entendesse. E falaria com Michael quando as coisas se acalmassem. Ele não era um covarde. Lidaria com tudo que fosse atirado em seu caminho.

Concentre-se.

Ele e Evie pararam o carro no final de uma rua cheia de casas esperando pelo alvo. Suas janelas eram escuras. Ninguém conseguia ver o interior, mas eles conseguiam ver tudo do lado de fora. Blue estava ansioso para que a ação começasse. Aparentemente um empregado de Star estava para vir passar uma mensagem para um humano chamado Tyrese Cooper, o dono da casa que estavam vigiando.

— Por que Solo não veio atrás de você? — Evie perguntou, provavelmente para preencher o silêncio. Ele notou que ela sempre abria a boca depois de alguns minutos como se não conseguisse suportar ser deixada a sós com os próprios pensamentos. — Tipo, ele sabe que você está vivo. O mundo inteiro sabe.

Blue havia passado um bom tempo remoendo aquela pergunta.

— Duas possíveis razões. Ele acredita que pode atrair uma atenção muito pouco bem-vinda para nós ou que nós podemos atrair esse tipo de atenção para ele.

— É, ok. Isso faz sentido. Eu só queria que ele tivesse mandado ao menos uma mensagem, sabe? Uma mensagem é o mínimo que você merece.

Ela usou as mãos para acentuar o sentido das palavras.

Igual a como fazia quando a conheceu.

Ele queria sorrir. Era como se ela tivesse perdido aquela parte de si mesma, mas agora tivesse encontrado.

Mas o que a trouxe de volta? Blue?

Eu quero ser o motivo.

— Ele... Carro! — disse Evie, repentinamente ávida. — Esse deve ser o nosso cara.

Ele olhou para o SUV parando na porta da casa de Cooper. Depois de estacionar, um Arcadian emergiu do veículo.

Oh, sim. Aquele era o homem de Star.

— Fique aqui. Não sabemos que habilidades sobrenaturais ele possui.

Milagre dos milagres, ela não argumentou. Ele saiu sob a luz e o calor do dia. Só no caso de alguém estar esperando no SUV, Blue envolveu uma nuvem de poder em volta do carro, garantindo que as portas permanecessem trancadas. Também envolveu o Arcadian com seu poder, tentando pará-lo onde estava, mas o homem se libertou facilmente usando seus próprios poderes e se virou procurando pelo culpado.

Os seus olhares se prenderam. Lavanda contra lavanda.

A princípio, o homem pareceu embasbacado. Ele estava vendo a lenda do futebol, Corbin Blue. Depois as engrenagens em seu cérebro começaram a rodar e ficou claro que ele percebeu que uma lenda do futebol não estaria ali claramente armado e preparado para guerra.

O homem disparou do gramado para a rua. Supervelocidade. Blue usou a sua própria seguindo, chegando perto. Dobrou uma esquina. Passou por cima de um carro parado. Evitando várias árvores de mentira.

Eles estavam dando a volta na quadra, Blue percebeu. Voltando para a casa de Cooper. O cara planejava pular no carro, bem provavelmente, e pegar uma arma ou o telefone para pedir reforços — porque não havia como o SUV se mover mais rápido que Blue.

A casa de Cooper apareceu no campo de visão.

Mais perto… Blue liberou uma nuvem de poder para derrubar o homem, mas ele se desviou dela. Tenho que ganhar mais velocidade...

Uma pá apareceu do nada esmagando o peito do homem. Ele saiu rolando para trás e caiu na rua, o ar deixando os seus pulmões abruptamente.

Evie derrubou a pá e pegou uma pyre-gun, apontando o cano para o Arcadian tonto.

— Certo, garotos. Acabou a brincadeirinha.

Que mulher linda e cheia de iniciativa. Blue nunca ficou tão feliz em vê-la.

— Onde conseguiu a pá, neném?

Sorrindo com orgulho — ignorando as suas escolhas de apelido para variar — ela disse.

— Tenho todo tipo de coisas divertidas no porta-malas de todos os meus carros. Reze para que nunca venha a descobri-las.

Sempre preparada. Ela conseguia ficar ainda mais sexy?

Blue colocou o seu prêmio em cima do ombro e se dirigiu até o SUV. Não tinha ninguém dentro.

Eles se aproximaram da casa de Cooper e não se incomodaram em tocar a campainha, simplesmente a invadiram. Um humano assustado estava sentado em uma cadeira na sala de estar com uma garrafa de uísque na mão. Estava bêbado demais para ligar para os invasores.

— Parado. — Evie disse a ele ao entrar.

Ele ficou onde estava. E acenou.

Blue jogou o Arcadian de cara no carpete escuro e gasto. Tapou a boca do Arcadian com um tapa e depois passou uma faca na parte de trás dos seus joelhos, silenciando-o e amarrando-o ao mesmo tempo.

Quando o grito abafado parou, Blue o virou e se levantou, olhando para o seu oponente. A luz forte das lâmpadas revelou um extraterrestre de tamanho normal. Significando que era maior que um humano, mas bem menor do que Blue. Cabelo branco e olhos cor de lavanda tipicamente Arcadian. Pele envelhecida devido a agressividade do sol terráqueo. Extensivamente armado. Blue removeu cada uma das armas.

— Vou fazer umas perguntas e você vai responder se não quiser sofrer. — disse Blue, a seriedade em seu tom fazendo o cara estremecer. — Primeiramente: Por que te mandaram a essa casa para ver o Sr. Cooper?

— Mensagem. — gemeu o Arcadian.

Ótimo. Não demoraria muito.

— Conte.

— Não posso.

Ou talvez demorasse. Blue levantou a faca.

— Não posso dizer... Tenho que mostrar! — disse o cara às pressas.

— Então me mostre. Só não faça movimentos bruscos para não perder um membro.

Lágrimas grossas escorriam pelas bochechas do homem quando lentamente pôs a mão no bolso e retirou um pequeno CID. Um cartão de identificação.

Blue o pegou e pressionou o botão no centro. Centímetros acima do cartão, o ar se encheu de pequenas luzes azuis e o símbolo chinês da vingança se formou. O mesmo símbolo que estava pintado na caixa com as tiras de pele de John, bem como nas paredes das casas das dezessete pessoas que Star era suspeito de sequestrar.

Quando Blue viu o símbolo pela primeira vez nas fotos das cenas dos crimes, assumiu que fosse ou um erro — muitas pessoas acabavam tatuando o símbolo da constipação ao invés de um, digamos, que significasse coragem — ou que fosse apenas um modo deliberado de desviar o curso da investigação. O que Star teria contra todas aquelas pessoas? Pessoas com as quais ele não tinha ligação alguma.

— Por que deveria entregar isso ao Sr. Cooper? — Evie exigiu saber, seguindo a linha de Blue.

— Eu... eu não sei. — disse o extraterrestre. — Não me disseram.

— Já teve que entregar esse tipo de mensagem antes? — perguntou Blue.

— Sim.

— Para quem?

O homem entregou uma lista de nomes, todos daqueles na lista de sequestrados e vários que não estavam nela.

Interessante. Blue teria que checar os outros e descobrir se os indivíduos tinham desaparecido e a polícia simplesmente não havia sido notificada ou se outra coisa tinha acontecido a eles… ou se nada de nefasto tinha ocorrido.

— Sr. Cooper. — disse Evie, seu tom agora gentil. Ela se agachou na frente do proprietário da casa. — Pode nos dizer o que está acontecendo? Por que Gregory Star iria querer se vingar do senhor? 

Foi aí que o humano começou a soluçar. Soluços fortes, enormes, com lágrimas, catarro e baba. Ele falou, mas suas palavras eram incoerentes.

Eles não teriam respostas dele nem tão breve.

Evie encontrou o olhar de Blue.

— Vamos levá-lo para Michael e depois passamos no estádio para o seu treino pré-jogo ou sei lá o quê que vocês atletas fazem. Assim que o Sr. Cooper ficar sóbrio, ele pode ser interrogado.

Blue assentiu, depois voltou a atenção para o Arcadian.

— O Sr. Star tem um Rakan escondido em algum lugar da casa?

— N-não.

— Está mentindo para mim?

— Não! Não vi Rakan algum, juro.

— Ouviu falar de um?

— Não!

Ok, então. Blue confiscou a pyre-gun de Evie e apertou o gatilho. Uma luz branca forte entrou no peito do homem, atravessando seu coração em segundos. Ele estava morto antes de ter tempo para entrar em pânico ou gritar.

Blue tinha sido identificado como um agente. Talvez Star já soubesse e não se importasse. Não havia razões para se arriscar e todas para fazer justo o contrário — John poderia ser usado contra ele.

— Leve o Sr. Cooper para o seu pai. — ele disse para Evie. — Eu cuidarei do Arcadian.

— E quanto ao seu treino?

— Chegarei a tempo, não se preocupe. — E depois: — Vai ao jogo amanhã? — ele perguntou, incapaz de se conter.

Ela fechou a distância, pegou a arma e o olhou.

— Quer que eu vá?

Ele não precisava pensar na resposta.

— Sim. — Gostava da ideia dos olhos dela nele enquanto ele arrebentava geral em campo.

A expressão naqueles olhos escuros suavizou.

— Então estarei lá.

 

Evie sentou-se no camarote do proprietário do Estádio Black. Ela convidou Tyson Star para agradecer por alugar o terraço do Hotel Star Light para ela na noite seguinte, mas ele recusou. Quanto demoraria para encontrar o sujeito? Vira-lata reservado!

Para colocar a cereja no topo do sundae — infestado de e.coli[14], ela odiava futebol. Até agora, Blue tinha sofrido oito grandes batidas de corpo. Ele tinha que ter uma concussão entre dez mil outros ferimentos. Os Strikers estavam claramente determinados a ensacar e etiquetá-lo como um animal sarnento.

Havia um ponto-alto, porém. Blue passou a bola pelo primeiro quarter e marcou touchdown. Ela aplaudiu tão alto que quase quebrou a janela blindada à sua frente.

E okay, tudo bem, certo. Esse não foi o único ponto-alto. Blue era sensual como o inferno em seu uniforme preto e ouro e Evie estava além de excitada.

Como se isso fosse algo novo.

Era apenas que Evie nunca encontrara um homem de quem gostasse e duvidava que fosse encontrar novamente. Ele não era só bonito por fora, um anjo caído na pele de extraterrestre. Ou algo saído de um conto de fadas. Como uma mistura de príncipe e vilão. Ele era bonito por dentro. Blue a tratou com respeito, mesmo quando ela não fez o mesmo por ele. Ele a protegia. Divertia.

Evie o desejava. Nu. Em sua cama. Não apenas para o jogo de mãos ou oral, mas diretamente para o sexo. Duro. Rápido. Áspero. E então, quando a primeira onda frenética de necessidade fosse finalmente saciada, ela o desejava lento e suave.

Por que ele não dava isto a ela?

E por que Evie queria isto dele e somente ele? Por que não podia deixá-lo ir e escolher outra pessoa? Amanhã ele poderia ter que fazer coisas com Tiffany em público... e em particular.

Não. Não. Não desta vez. Blue odiava essa parte do seu trabalho. Odiava levar as coisas tão longe.

Este tipo de merda parou agora.

Ela o queria e ele a queria. Então, ela o teria — não Tiffany. Ele podia conseguir respostas da garota de outra forma.

Evie conversaria com ele. Ele concordaria ou não. De uma forma ou de outra, ela teria uma resposta firme e poderia decidir seu próximo movimento.

Uma sedução de uma só vez... ou mais.

Porque, no fim do dia, ela confiava nele. E, uau, que diferença algumas semanas fizeram. Eles foram do ódio e desgosto para... o que quer que isso fosse.

— Eu sei! — Uma voz feminina proclamou.

— Só não é certo. — Outra disse.

As vozes roubaram sua atenção. Atrás dela, um bando de esposas e namoradas dos jogadores conversavam e corriam uma gama de emoções. Cada mulher era alta, magra e magnífica, vestidas em trajes minúsculos feitos para atrair e seduzir homens famosos por suas conquistas femininas. De alguma forma, todas as garotas eram as "melhores amigas eternamente".

Oi. Por Evie ter se formado tão cedo, as únicas amigas que tinha eram Claire e Eden, e como família tinham que gostar dela. Nunca fizera uma amiga por si mesma. Além de Blue. Mas ele não tinha peitos, então não contava. A mecânica do vínculo entre mulheres a confundia totalmente.

Pelo menos ela tinha a melhor poltrona do camarote, a única diretamente à frente da janela. O resto das mulheres estava apertada atrás dela em filas de seis.

— A situação inteira é apenas tão não-legal. Mas conversei com Pagan ontem à noite e ela me disse que eles estão apenas dando um tempo. — uma das meninas disse em um sussurro...

— Bem, ela mentiu. O vizinho dela foi entrevistado esta manhã. — outra respondeu, usando o mesmo tom de sussurro alto. — E o sujeito disse aos repórteres que ouviu Blue dizer a Pagan que eles tinham terminado pra sempre.

— Tão brutal!

Evie lembrou o quão terrível Blue se sentiu quando tudo acabou. Nenhum modo de que ele tivesse sido brutal.

— Boa viagem, eu digo. Nunca gostei dela.

— Eu também não. Fale sobre desprezível. Aquela menina faria qualquer coisa por um pênis. Supostamente, um dia depois de Blue largá-la, foi vista com três sujeitos diferentes no Clube Joy Monta.

— Posso acreditar nisto. Peguei seus olhos despindo meu homem uma vez. Como se ele estivesse desesperado suficiente por gente como ela.

Não houve nenhuma resposta, e todo momento de silêncio fez o ar se espessar com tensão.

Uh-oh. Apostava que seu homem tinha enganado a Senhorita Cary em algum momento.

— O que? — A menina exigiu.

— Uh, nada. Nada.

— Bem, acho que Pagan teve todo direito de buscar conforto de outros homens muito depressa. Quantas vezes Blue a enganou? Incontáveis.

As penas se Evie se eriçaram. Estas mulheres... elas não conheciam Blue. Não conheciam seus pensamentos, sentimentos esperanças e sonhos. Não conheciam a situação ou o que aconteceu nos bastidores. E ainda agiam como juiz e júri, como se nunca tivessem cometido um erro.

Uma vez fui igualmente culpada. Mas não mais.

Além disso, as amantes iam para Blue com os olhos escancarados. Elas sabiam no que estavam se metendo. Ele dizia a elas. Assim como vai me dizer.

A conversa caiu em outro assunto, poupando-a de ter que meter a mão na cara da vadia. Depois de um momento, até o mais novo tópico se defasar em silêncio. As garotas voltaram sua atenção para o jogo. Infelizmente o indulto não durou muito tempo.

— Então, Evangeline. É bom ver você aqui.

Girou para encontrar o olhar da única ruiva e ofereceu um sorriso forçado. Apesar do tom da menina era amigável, existia um cintilar especulativo em seus olhos castanhos. Isto era uma caça à fofoca, sem dúvida.

— Obrigada. — Qual era o nome da ruiva? As namoradas iam e vinham tão frequentemente, Evie nunca se dava ao trabalho de aprender.

O cintilar especulativo se aprofundou.

— Eu me sinto tão mal que tantos jogadores queiram rescindir seus contratos agora que Michael se foi. Entretanto, estou certa que não tem nada a ver com você pessoalmente. Eu não me preocuparia.

Que doce pequeno elogio falso. Comportamento agressivo-passivo em seu melhor. Melhor combater isso diretamente.

— Qualquer um querendo rescindir seu contrato só tem que pedir. Ele será cortado e substituído dentro de um único dia. E realmente,é por isso que estou aqui. Agora que assumi o comando das Indústrias Black, quero dar uma inspecionada nos meninos. — Então, só para ser antagônica, adicionou. — Pode ser divertido reestruturar e usar novos jogadores, nunca se sabe.

A ruiva corou e não disse mais nada.

Tempo de intervalo.

— Agora, se me dá licença... — Evie se pôs de pé e caminhou pelo ambiente espaçoso, passando pelo longo bar em forma de L cercado por múltiplos tamboretes acolchoados. No canto distante, escondido por painéis de madeira escura das paredes, estava a entrada para um banheiro privativo. Ela andou para dentro, trancando a porta e — embora disse não fazer isto — aumentou o volume do microfone escondido no camarote, as conversas múltiplas sendo filtradas dentro do banheiro enquanto Evie lavava o rosto. Concentrou-se em uma.

—... devia aceitar apostas sobre a próxima conquista de Blue. — A ruiva estava dizendo.

Uma risada maliciosa soou.

— Quem quer que seja, será loira e empinada.

Ótimo. Como se Evie realmente precisasse da lembrança sobre a preferência de Blue — tudo o que ela não era!

— Então, o que pensa sobre Evangeline? Eu nunca fui fã dela. Ela é tão pouco...

Certo. Chega disso. Ela cortou a alimentação.

Apoiando as mãos na pia se debruçou, sua testa contra o espelho. Eu perdi a cabeça, não?

Blue podia estar no Time do Quarto Olímpico.

Evie tinha experiência. Muita experiência. Mais do que gostava de admitir. Tanta que sentia vergonha, frequentemente tentando se esconder atrás de uma máscara de decoro. Eu posso ser honesta com todo mundo, menos comigo mesma. Mas toda essa experiência veio antes da idade de dezoito, quando desesperadamente ansiava atenção. Qualquer atenção que pudesse conseguir. Evie conheceu meninos, não homens. Como deveria seduzir alguém como Blue?

Uh, você não teve problemas até agora.

Verdade. Três encontros com ele, três orgasmos de abalar a Terra. Mas o que precisaria para Blue ir até o fim com ela?

Suspirando, Evie deixou o confinamento do banheiro e se acomodou em sua cadeira. Nenhuma das mulheres falou com ela. Sábio.

Ambos os times se apressaram para dentro do campo para o próximo tempo. Cada membro dos Invaders e cada membro dos Strikers eram um extraterrestre de algum tipo. Arcadians com cabelos-brancos como Blue, grandes e corpulentos Ell Rolies, magros e coloridos Mecs, felinos Terrans e os da raça Lians, vikings tipo Targons.

Cada espécie vinha com habilidades diferentes, que tornavam o jogo mil vezes mais perigoso... e excitante. Existia apenas uma regra. Não usar velocidade superior. Caso contrário, os espectadores e os juízes não seriam capazes de acompanhar o que estava acontecendo.

Evie observou os jogadores explodirem em ação, a bola zumbindo pelo ar, alguns homens mergulhando atrás dela, alguns lançando outros a meio caminho pelo campo. Depois de um enfrentamento particularmente desagradável, o Arcadian conhecido como “o Mack” empurrou Blue, suas mãos explodindo em uma bola de luz. Blue se elevou recuando. Um gigante Ell Rollie bateu passando pelos homens que formavam um círculo de proteção ao redor de Blue atacando-o. Uma vez mais Blue se levantou recuando... e ainda assim conseguiu manter um agarre sólido na bola.

Ele rolou para seus pés e se lançou em movimento, batendo em Ell Rollie e quase dividindo o homem em dois.

A multidão ficou selvagem amando seu uso de força bruta.

Enquanto o macho se retorcia de dor, Blue abriu um sorriso arrogante enquanto erguia a bola e encerrava o jogo.

O terceiro quarter foi concluído sem touchdowns.

No meio do quarto quarter, o outro time finalmente conseguiu marcar, e ela podia dizer que Blue foi regiamente censurado. Então o... qualquer que fosse sua posição, lançou a bola para Blue e Blue lançou a bola para... Não, Blue driblou e correu... e correu...e correu... até o Mack alcançá-lo. Em vez de fugir, Blue o agarrou pelo pescoço, torceu e lançou o corpo flácido para o lado. O Mack não estava morto, mas estaria com dor por dias seguidos.

Metade do estádio saltou de pé e bateu palmas enquanto ele corria... através do... Sim! Ele apenas cruzaria a linha final.

Os Invaders marcaram seu segundo touchdown!

Os persistentes companheiros de Blue se amontoaram em cima dele. Atrás de Evie, as mulheres gritaram e dançaram.

O jogo continuou com mais dois tempos, mas o time adversário não pôde atravessar a linha defensiva dos Invaders. Quando o apito final soou, os Invaders ainda estavam na frente.

A vitória pertencia a Blue.

Caos absoluto reinou em campo. Quando o outro time andou lentamente para longe amuado, os Invaders, treinadores e os fãs próximos à atividade correram em conjunto, aplaudindo e abraçando.

Blue permaneceu no meio da tempestade, de alguma forma separado daquilo. Ele passou uma mão pelo cabelo pálido colado ao couro cabeludo para cima da cabeça. Os riscos pretos pintados embaixo dos seus olhos estavam manchados. Sangue riscava seu queixo.

Sensibilidade ofuscante a prendeu em um gancho apertado. Ele nunca pareceu mais duro.

Ele é meu.

Por enquanto, pelo menos.

Ele olhou na janela onde ela esperava e sorriu lentamente.

Para ela?

Com o coração batendo forte, Evie caminhou pra fora do camarote. Ela juntou-se a um grupo de repórteres já congregados do lado de fora do vestiário e debruçou-se contra a parede para esperar. Alguns repórteres ávidos perguntaram o que ela achou do jogo, mas suas respostas deviam tê-los chateado porque ela logo foi esquecida. Uma hora se passou antes de Blue finalmente surgir molhado e limpo, vestindo uma camiseta preta e jeans.

Evie se endireitou enquanto gravadores eram empurrados em seu rosto e perguntas eram lançadas para ele. Blue ignorou todo mundo, seu olhar esquadrinhando a multidão. Quando a achou, um sorriso de alta potência apareceu inesperadamente no rosto dele. O coração de Evie saltou uma batida e seu sangue aqueceu.

Blue marchou adiante e qualquer um estúpido o suficiente para ficar em seu caminho foi ceifado. Então estava em pé na frente dela, sua força arranhando-a fazendo-a tremer.

— Como a nova proprietária dos Invaders, o que você achou? — Ele perguntou.

Ela deu a ele uma resposta mais colorida.

— Um pouco mansa, sim. Esperei rios de sangue saindo por algum órgão ocasional.

Ele latiu uma risada.

— Vejo você amanhã à noite em Star Light, Sr. Blue. — Ela partiu enquanto os repórteres tiravam fotos e lançavam mais perguntas nele, mas esperou por ele no pátio do estacionamento privado que os jogadores e seus familiares usavam.

Ele chegou um pouco mais tarde. Nenhum dos outros chegara ainda, o que a levou a acreditar que seu homem se apressou para chegar até ela.

O pensamento a esquentou.

Enquanto caminhavam lado a lado, ele bateu nela com o ombro.

— O que você realmente achou?

— Você devia ter quebrado todos os ossos do corpo do Mack, não só seu pescoço esquelético.

Seu sorriso inclinado para um lado era muito adorável para pôr palavras.

Uma mulher loira com uma trilha de lágrimas em suas bochechas saiu atrás de um pilar. Blue parou abruptamente.

— Pagan. — disse surpreso.

Culpa instantânea.

— Se não posso ter você, ninguém pode. — A garota apontou uma .44 e disparou dois tiros na direção de Evie, que teve tempo para processar o que estava acontecendo.

O corpo de Blue sacudiu uma vez, duas vezes antes de uma inundação vermelha brotar, encharcando sua camisa. Pareceu como se duas válvulas estourassem dentro dele.

Vermelho. Sangue.

Não Blue. Qualquer um, menos Blue.

Pagan correu pra fora. Evie quis persegui-la, loucamente, mas queria mais ver Blue. A preocupação percorreu-a enquanto cavava sua bolsa, procurando pelo kit de primeiros socorros que decidiu levar apenas esta manhã, pensando que Blue poderia ter alguns cortes e contusões depois do jogo.

Ele apertou os punhos nas feridas, em seguida levantou os dedos encharcados de sangue para a luz. A fúria banhou sua expressão.

— Eu vou ficar bem. Vá buscá-la. Traga-a de volta. Principalmente viva.

— Blue, você está...

— Evie.

Maravilha. Ela jogou-lhe o kit e se lançou em movimento, seguindo o caminho que a humana tomou. Enquanto corria, ela espalmou sua Pyre, constantemente esquadrinhando... lá! A loira fechou a porta lateral do motorista de uma BMW azul marinho. E já tinha claramente programado sua rota de fuga no GPS, porque o veículo se arremessou em movimento.

Acho que não.

Evie apontou. Disparou.

Um fluxo de luz dourada atingiu o pneu traseiro e o veículo diminuiu a velocidade e parou. Esse era o problema com sistemas pré-programados. Uma coisinha dava errado e todo o veículo desligava.

Evie fechou a distância e puxou a porta. Trancada. Ela apontou a arma de fogo na janela e disse:

— Abra e saia por conta própria ou abrirei e vou arrastar sua carcaça sangrando.

Olhos azuis arregalados e lacrimejantes olharam para Evie por um longo tempo. A arma de Pagan descansava no banco do passageiro, mas ela não se estendeu para ela. Suas vazias e trêmulas mãos empurraram a porta pra fora do caminho.

Lentamente. Evie ordenou.

Pagan se endireitou a passo de tartaruga, segurando o lado da porta para permanecer de pé enquanto seus joelhos batiam juntos.

Evie uma vez se sentira mal por esta mulher. E certo, uma parte dela ainda sentia. Mas atirar em Blue? Inferno, não. Isso não era permitido.

— N-não me machuque. — Pagan gaguejou. — Por favor. Eu estou... grávida. Do bebê de Blue. Por favor, só deixe-me ir.

Grávida? Dificilmente. Blue era mais esperto que isto.

— Não seja essa garota. Agora se afaste do carro e fique de joelhos.

Com lágrimas caindo de verdade, Pagan obedeceu. Evie se moveu para trás dela, cavou um par de algemas a laser de sua bolsa e firmou-as ao redor dos seus pulsos. Quando Evie apertou o centro, as algemas acenderam, presas à pele de Pagan. Se tentasse se libertar perderia as mãos.

Evie a ajudou a ficar de pé. Um pequeno empurrão entre os ombros a propulsou para frente.

Blue não se moveu. Ele removeu a camisa e amarrou bandagens nos ferimentos, mas o algodão já estava encharcado de sangue. A raiva de Evie acelerou.

— De joelhos. — ela comandou, forçando Pagan para o chão. Então colocou o cano da arma de fogo atrás da cabeça da garota. — Eu não tentaria qualquer outra coisa, sim. Já estou procurando por uma desculpa pra matar você.

Um soluço borbulhou da garota.

— Eu sinto muito. Sinto tanto, Blue. Não quis matar você, eu só... Sinto tanto. Eu quis que você sofresse do modo que estou sofrendo.

— Eu sei. — ele disse, e seu tom gentil surpreendeu Evie. — Mas você podia passar o resto de sua vida na prisão por isto, Pagan.

Sua cabeça curvou. Seu corpo estremeceu.

— Diga a ele o que você me disse. — Evie estalou.

— Eu não estou... — a garota disse, seus ombros se curvando. — Eu menti.

— Sobre? — Blue perguntou.

Evie encontrou seu olhar.

— Gravidez.

Seus lábios apertaram em uma linha fina e firme.

— Sinto muito. — Pagan disse novamente.

Ele suspirou.

— Vou deixar você ir.

— O que? — A menina ofegou.

— Sim. — Evie disse, confusa. Clemência em um agente endurecido? — O que?

— Vá pra casa. Arrume ajuda. Não me aborde novamente. Não aborde Evie. Se fizer, considerarei você uma ameaça e consequentemente agirei.

— Sim, sim. — Uma série de acenos com a cabeça rápidos. — Certo. Eu prometo.

Ele olhou para Evie, sua expressão de duro granito.

— Solte-a.

Apesar de querer discutir, Evie removeu as algemas. Pagan trouxe seus pulsos para o tórax e esfregou a pele sensibilizada.

— Obrigada, Blue. — Ela continuou dizendo. — Sinto muito pelo que fiz, realmente sinto.

— Vá. — ele disse.

Ela não teve que ser informada duas vezes. Pagan imediatamente correu para fora.

— Bem, isso foi estúpido. — Evie disse, desapontada, aliviada e mil outras emoções contraditórias. — Ela tentará novamente.

— Não. Está fora de seu normal. E além disto, foi merecido.

Olá, autorrecriminação.

— Blue...

— Não. — ele disse. — Não diga isto.

— Eu vou dizer. O que aconteceu não foi merecido.

Ele deu seu sorrisinho.

— Vamos para casa e tire estas malditas balas de mim.

— Certo. Mas esta conversa não está terminada.

 

Evie não ficou surpresa que Blue permanecesse consciente durante o percurso. Não existia nenhum homem mais forte. Mas estava preocupada pela quantidade de sangue que ele estava perdendo, e o modo como estava olhando fixamente para frente, sua respiração agitada, seus batimentos cardíacos muito fortes e rápidos todas as vezes que ela verificou.

— Distraia-me. — ele disse.

— Como?

— Converse comigo. Conte sobre sua vida.

Não havia forma de que ela pudesse recusar.

— Bem... fui aprovada a sair da escola e frequentar a universidade com treze anos. Eu me formei em engenharia química, meu primeiro amor, mas Michael garantiu que eu tivesse aulas particulares em tecnologia de armas e segurança.

Ele fez uma carranca.

— Você era muito jovem.

— Sim. Acredite, eu sei. As crianças nunca me deixaram esquecer. Não tive amigos, mas muitas provocações.

— Não é à toa que você é tão cautelosa.

— Cautelosa? Eu?

Ele bufou.

— Você sabe que é.

Talvez. Certo, definitivamente. Deixar as pessoas entrarem era duro. Importar-se com alguém que não fosse você mesma a tornava vulnerável. Deixava você aberta a todos os tipos de dor. E se perdesse alguém que amasse? Nunca mais seria a mesma.

Entretanto, sem dor, sem ganho. Certo?

Ugh. Clichê estúpido. Mas, certo, ela conseguiu a essência. Permitir que as pessoas entrassem também vinha com grandes recompensas. Você teria alguém com quem contar. Alguém para proteger suas costas. Alguém pra te levantar quando você caísse.

— Como se tornou uma médica? — Ele perguntou.

— A medicina já era minha especialidade. Quando trabalhei com pessoas nos testes de drogas, percebi que gostava dos frutos de um contato cara a cara, tornando os indivíduos melhores. Troquei meu enfoque, e farmacologia se tornou um passatempo. — A NOW, Nova Ordem Mundial, permitiu que os alunos mergulhassem em seu campo escolhido sem precisar retomar os temas dominados no segundo grau. — Porém, optei não fazer residência e em vez disso vim para os Novos Estados para ficar com Michael. Ele me treinou por dois anos antes de me mandar naquela primeira missão fatal.

— Soube que você era jovem quando começou a trabalhar com ele, mas, uau. Apenas vinte.

— Que idade você tinha em sua primeira missão?

— Missão, doze. Matança, quatorze.

Caramba!

— Agora isto é um início sangrento.

— Sim, mas treinei com Michael desde os cinco anos. Ele me achou nas ruas e me colocou com minha família humana. Ele me juntou com John e Solo. Me deu um propósito.

Não é de se espantar que Blue amasse tanto seu pai.

Não é de se espantar que seu pai o amasse tanto.

Estavam juntos há muito tempo. Contavam um com o outro há muito tempo.

— Eu tinha ciúmes de você, sabe. Durante nosso primeiro encontro.

Ele sacudiu a cabeça, como se tivesse ouvido mal.

— Ciúmes de mim? Por quê?

— Pelos dois anos inteiros que passei com Michael, ele falou sobre você e sua magnificência. “Blue é tão bom nisto. Blue é tão bom naquilo.” Que era um privilégio trabalhar com você, blá, blá, blá. Foi muito desagradável. Esperei minha vida inteira para ser como ele, só para ver sua devoção ser dirigida a outra pessoa.

Ele deu um pequeno sorriso, triste.

— Isso explica muito.

— Sim. Mas não era culpa sua e sinto muito pelo modo como tratei você.

— Você continua dizendo.

— Porque é verdade. Eu sinto.

— Se eu posso superar, você também pode. Pare de se desculpar.

— Você deixou então? — Ela suavemente continuou. — Superou?

Ele estendeu a mão para alisar uma mecha de cabelo para trás de sua orelha, fazendo careta pela mancha de sangue que deixou para trás, e soltou seu braço.

— Eu realmente acho que superei.

Achar era muito melhor que não.

— Mas ainda que não tivesse superado — ele adicionou —, você não precisaria se desculpar novamente. Você me disse, quis dizer com todo seu coração. Se isto não é bom o suficiente para mim, o problema é comigo e você estaria em melhor situação descarregando no meu traseiro.

— Eu...

— Não descarregue no meu traseiro. — ele se apressou a dizer e ela sorriu. — A única coisa que vou fazer você implorar, é por prazer.

Eles alcançaram a casa antes que pudesse interrogá-lo mais. Sua bela casa de tijolos vermelhos tinha três conjuntos de janelasas em todos os andares, todas iluminadas por luzes noturnas estrategicamente colocadas. Na lateral da casa, ela foi descendo, descendo rampa abaixo para a garagem no porão.

Evie estacionou e se apressou para o lado de Blue para oferecer seu corpo como apoio. Ele recusou, unindo seus dedos e levando-a para dentro. He-Man, ela pensou com um calafrio. Tanta força.

Ele a levou direto para o último andar, para o apartamento que ela transformou em um paraíso feminino. Havia sofás e cadeiras fofas feitas de couro e cortinas de verdade de veludo, mais espelhos dourados e móveis de cerejeira. Seu favorito? A enorme cama com colunas de mármore, envolta em tecidos azul-gelo.

— Sente-se. — Evie mandou. No banheiro, ela agarrou sua maleta médica debaixo da pia.

Ele estava no mesmo lugar que ela o deixou. Em pé.

— Eu disse a você para sentar.

— De jeito nenhum. Assim que eu sangrar em seus lençóis, você vai colar em mim uma fatura de milhares de dólares.

Verdade.

— Você pode pagar.

— Não se eu continuar sangrando dinheiro em Chez Black.

Seus braços a acariciaram quando ela passou por ele e Evie ofegou quando dardos de raio branco dispararam por ela. Corando, colocou a maleta no móvel de cabeceira e revirou o conteúdo, removendo tudo o que precisaria. Extrator de bala, desinfetante, duas seringas de regenerador celular, bandagens e lenços umedecidos. Tudo embalado e esterilizado.

— Fico surpreso que você não tinha estes materiais em sua bolsa. — ele disse. — Falando nisso, adicionou qualquer coisa nova?

— Aqui. — Ela ergueu a correia acima de sua cabeça e deu a bolsa inteira para ele. — Dê uma olhada.

Quando Evie estendeu uma lona plástica sobre a cama, certificando-se de cobrir toda a distância até o chão, Blue disse:

— Uma pedra da lua, um olho de vidro, uma lâmina retrátil, uma chave de boca e óculos 3-D. — Ele sorriu para ela. — Você tem que me dizer. Por que um olho de vidro?

— Achei que você poderia perder um de verdade durante o jogo e não quis olhar fixamente para um buraco vazio. Agora, deite-se.

Ele riu e silvou enquanto se esticava no colchão.

— Aqui. — ela disse. — Deixe-me injetar em você...

— Não. Nenhuma droga. Quero ficar acordado e manter a cabeça clara.

— Você vai sofrer.

— Não tenho medo da dor, princesa.

Ela limpou as mãos e removeu as bandagens que ele aplicara. Existiam dois ferimentos, ambos do tamanho de uma moeda de vinte e cinco centavos e ainda vazando sangue.

— Estudei um pouco da anatomia Arcadiana desde a última vez que estivemos nesta situação. Você vai achar que sou uma médica melhor desde o último round.

— Você era ótima antes.

Um elogio? Ferido, Blue era doce. Teria que se lembrar disto.

— Pronto? — Evie perguntou, colocando as taças do extrator acima de ambos os ferimentos.

— Faça.

Pressionando um botão, as taças aderiram ao seu tórax, a máquina mapeou o melhor curso para saída e a sucção lentamente puxou as balas do seu corpo. Ele amaldiçoou apenas oito vezes.

— Não está melhor. — ele rangeu. — Você definitivamente não está melhor.

Não sorria.

— Precisa de outra distração? — Ela perguntou. — Porque com o que vem a seguir se sentirá mil vezes pior.

— Sim. Distraia-me.

Ela atirou sua primeira pergunta.

— Você está realmente atraído por mim?

Ele piscou para ela.

— Você está brincando comigo?

— Mortalmente séria.

— Realmente tem que perguntar?

— Sim. Não estou nem perto de ser seu tipo.

Ele correu a língua por cima dos dentes.

— Então sua pergunta real é se estou ou não usando você para algo. Muito obrigado.

— Não podia estar mais errado. A pergunta não teve nada a ver com suas razões e tudo sobre minhas próprias inseguranças. Não existem muitos homens interessados em fazer parte da minha vida, não por muito tempo de qualquer maneira, ainda assim aqui está você e eu simplesmente não entendo o que tenho para te oferecer.

As linhas tênues ao redor de seus olhos suavizaram.

— Estou verdadeiramente atraído por você, Evie Black. E é uma atração forte. A mais forte que já experimentei. Embora tentei lutar contra isto — e essa declaração não tem nada a ver com qualquer outra coisa.

A mais forte que ele já tinha experimentado e com ela? Observou Evie, derretendo-se em uma poça de gosma.

— Então por quê?

— Porque mais? Seu pai. De acordo com ele, você está fora dos limites.

Então... Ele não quis chatear Michael. Era por isso que não foi até o fim com ela?

— Bem, ele nunca vai saber o que acontece entre nós.

— Ele vai. Eu vou dizer.

O que?

— Blue...

— Não vou esconder isto, Evie.

Ele tinha a porra de uma consciência. Ótimo.

— Então diremos a ele depois que acharmos John. Não que exista muito a dizer. — ela murmurou.

— Você está reclamando?

— Bem, sim. Isso não foi claro? Pensei que tivesse sido clara.

Novamente seus lábios se curvaram nos cantos.

— Quanto tempo se passou desde que você fez sexo?

— Por quê? — Ele podia ver que ela estava sem prática?

— Vamos chamar isto curiosidade e deixar como está.

Calor floresceu em seu tórax.

— Na última vez, eu tinha vinte e três anos. — ela admitiu.

— E você tem o que? Vinte e seis agora? — Ele quase engasgou com a língua. — Por quê? Como pôde passar três anos sem sexo?

— Eu era uma pequena criança selvagem, certo, dormindo com qualquer sujeito mais velho da universidade que prestasse atenção a mim. Fui muito usada e comecei a me sentir suja. Aos dezessete decidi esperar por uma relação significativa. Que nunca aconteceu, então dos dezessete até os vinte e três fiquei bem em estar sozinha. Então depois de Claire, eu estava olhando para mim mesma por punição, suponho, e acabei na cama de um estranho, repugnada comigo mesma. Depois disto, meu corpo meio que desligou.

Ele não disse nada.

Ela mordiscou o lábio inferior.

— Você pensa menos de mim agora? — Ela perguntou suavemente. Se ele pensar, eu mereço. Farei o que for preciso para ganhar de volta seu respeito.

Ele podia ter brincado com ela do jeito que ela sempre o provocava. Podia ter chamado-a de vagabunda, prostituta ou pior. Mas não fez nenhuma dessas coisas.

— Não penso menos de você. Penso mais. Você se levantou de uma situação que menosprezava. Isso requer força pra caralho.

Ele era um homem melhor do que ela dera crédito.

Suas pálpebras caíram para meio-abertas e Blue sorriu.

— Seu corpo não está desligado agora, está, princesa?

Completamente fora de sua personalidade, ela se debruçou e beijou sua testa.

— Você estava certo, sabe. Estava tão obcecada com sua vida sexual porque eu quis que você fosse parte da minha. Sinto muito se te julguei. Eu não tinha nenhum direito. Acho que fiz isto porque estava miserável com meu próprio passado e miséria adora companhia.

Uma emoção mudou em seus olhos, mas Evie não estava certa do que era.

— Eu disse a você para parar de se desculpar.

— Não. — ela acrescentou, ignorando suas últimas palavras. — Não está desligado agora.

Voltar ao trabalho. Antes que desabasse. Ela inseriu a metade superior de uma das seringas no ferimento mais próximo ao seu coração e injetou o conteúdo. Quando ele soltou uma série de palavrões, ela fez o mesmo com o outro ferimento.

— Alguém já chamou você de Dr. Hodad? — Ele rosnou.

— Não. E o que quer dizer, afinal?

— Mãos da morte e destruição.

— Há! Gosto do nome. Pode continuar a se referir a mim como Dr. Hodad. — Ela limpou seu tórax, então suas mãos. — Você perdeu muito sangue.

— Esta não é a primeira vez e não será a última.

— Você poderia precisar de uma transfu...

— Não. — ele disse com uma sacudida da cabeça. — Arcadians não compartilham sangue, e sangue humano não ajudaria.

— Por que não compartilham sangue dentro de sua própria espécie?

— Cria um laço inquebrável. Lembra de Dallas? Ele disse que o rei Arcadian o alimentou com sangue para curá-lo. Agora o agente é forçado a fazer qualquer coisa que Kyrin en Arr disser a ele.

Ai. Como Blue, Evie preferia morrer a se tornar um escravo.

— Feche seus olhos e durma um pouco. — Evie disse. Plantou outro beijo suave e doce em sua sobrancelha. — Posso dizer que está mais fraco do que aparenta porque não posso sentir seu poder.

Ele se estendeu e agarrou sua mão.

— Não vá.

Ela puxou suavemente o lóbulo de sua orelha.

— Eu não vou. Estarei aqui quando você acordar. Porque, sabichão? Não existe nenhum outro lugar que eu prefira estar.

 

Blue acordou de repente.

Seu corpo queimava com desejo e não estava certo do por quê. A princípio. Então percebeu que estava na cama com Evie. As costas dela pressionavam seu tórax nu, a mão estava sob a camisa dela, os dedos abertos sobre sua barriga. O traseiro estava aconchegado contra sua pulsante ereção.

Ele se lembrou de como chegaram aqui. Pagan atirou nele e Evie o medicou.

Lembrou que ela confessou não ter feito sexo em três anos. Como beijou sua sobrancelha em uma demonstração de conforto. Duas vezes.

Agora, ele pensou, Foda-se tentando ganhar sua confiança. Foda-se tudo. Eu estou tomando o que é meu.

Blue esfregou a parte de trás de seu pescoço e deslizou a mão para seu peito, segurando os perfeitos montinhos, amassando-os — e silvando quando seu mamilo endureceu para ele.

— Evie. Acorde para mim, baby.

Um gemido sussurrado escapou dela e arqueou as costas para se estirar, apertando com mais força seu pênis. O prazer... Blue gemeu. Suplicando por mais.

— Evie. Agora.

Ela endureceu. Em seguida rolou de costas e olhou pra ele, seus olhos castanho-aveludados límpidos tornando-se mais alertas — e finalmente aquecendo.

— Blue. — Não uma pergunta. Uma exigência.

Uma que ele atendeu.

— Nós faremos isto. — ele disse.

E esse foi o primeiro e único aviso que ele ofereceria. Blue agarrou sua camisa pelo colarinho e rasgou até embaixo o material. Seu sutiã recebeu o mesmo tratamento.

Ela não articulou nenhum protesto. Até o ajudou a descartar o tecido arruinado.

Blue praticamente mergulhou nela, batendo a boca contra a dela, empurrando a língua fundo, tomando, tomando tudo. Ela o encontrou com um impulso próprio, seu gosto delicioso mandando-o a um frenesi enlouquecido. Entretanto, Evie sempre teve aquele efeito nele.

Tinha que ter tudo dela. Finalmente.

Blue sugou seu lábio inferior, agarrando-se a ele o maior tempo possível enquanto se afastava, então baixou a cabeça para chupar e beliscar seus mamilos, sacudindo a língua de um lado a outro e até mesmo mordiscando. As unhas dela cravaram no couro cabeludo dele, como se para segurá-lo onde estava.

Oh, baby, nada pode me afastar.

Seus joelhos esfregaram seus quadris, como se ela não pudesse decidir o que fazer com as pernas. Então Evie plantou os pés no colchão e se arqueou para cima, apertando seu núcleo contra sua ereção. O aumento de prazer foi quase demais e ainda não estava nem perto de ser suficiente. A sensação de urgência se aprofundou.

Desprezando suas roupas, mas não querendo tirar as mãos de seus peitos, ele usou seu poder para remover o próprio jeans e a cueca, então as dela, empurrando os artigos para longe com apenas um pensamento, lançando-os para o lado. O ar frio o excitou, lavando-o e sensibilizando cada polegada de Blue, ficando ainda mais erótico quando pele aquecida encontrou pele aquecida... Quando seu pênis encontrou fogo líquido.

Ele quase perdeu o pouco controle que lhe restava.

Evie gemeu.

— Blue. Agora.

— Logo. — Desta vez, ele aprenderia tudo sobre ela. Faria tudo. Tocaria.

Pôs a mão em concha entre suas pernas e ronronou sua aprovação.

— Tão molhada, baby. — Amou quão despertada ela se tornou — E tão depressa.

Blue a provocou com um dedo e quando Evie estava montando-o, tentando mover-se para baixo, ele a alimentou com outro dedo. O tempo todo sua cabeça golpeava de um lado a outro. Seus olhos estavam fechados, seus lábios vermelhos úmidos e separados. Blue sabia que estava tão perdida na sensação quanto ele quando a trouxe para perto da borda... então recuou... trouxe-a para perto novamente... recuou.

— Blue!

— Desesperada? — Ele estava. Suor pingava de sua testa. Nunca foi amarrado por esta tensão. Mas valia a pena para ouvi-la choramingar, gemer e implorar. Para vê-la se debater.

— Pronta!

— Não ainda. — Inseriu um terceiro dedo estirando-a, desta vez preparando-a para o que viria e Evie ofegou uma palavra ininteligível. Suas unhas acharam o caminho para suas costas e arranharam, tirando sangue.

Blue usaria os ferimentos com orgulho.

— Doeu? — Ele perguntou.

— Um pouco. Mas, ohhh. Eu preciso disto.

Um apelo bonito da indomável Evie Black.

— Você vai me dar tudo.

— O que você quiser.

— Tudo. Você pediu isto uma vez. Agora estou exigindo. — Incapaz de se conter mais, deslizou seus dedos pra fora de Evie. Ambos gemeram com a perda. Ele limpou o molhado nos lábios dela e quando se inclinou para lambê-los, beijou-a profundamente, e com segurança enganchou os joelhos de Evie sob seus braços e posicionou seu pênis na entrada.

— Sim! Por favor!

Blue queria empurrar duro e rápido. Empurrou uma polegada. Então duas.

Tão apertada. Apertada pra caralho.

Ele ganhou outra polegada.

Então outra, e outra.

Arquejando, ela se acalmou...

— Certo?

— É uma sensação tão boa. Você é tão grande.

Vai me matar.

— Vou fazer você se sentir ainda melhor. — Ele estendeu a mão entre seus corpos, achou seu pequeno feixe de nervos, pressionando e esfregando até que seus quadris começaram a balançar.

— Sim! — Ela chorou. — Oh, sim.

Blue empurrou o resto do caminho tão duro e rápido quanto queria e Evie gozou imediatamente, arqueando as costas e gritando seu nome.

Ele nunca sentiu nada tão arrebatador quanto suas paredes internas apertando-o. Tão perfeito.

— Diga-me que pode tomar um passeio duro, baby.

— Sim. Por favor, sim!

Nunca ficarei cansado de ouvi-la dizer essa palavra. Ele agarrou a cabeceira da cama, retirou-se quase que completamente dela e então bateu com tanta força que a cama inteira se sacudiu. Um quadro colidiu com o chão. E talvez seu poder Arcadian tenha feito a mobília levitar, porque uma luminária caiu do criado mudo e se espatifou.

Ele pagaria pelo prejuízo. Alegremente.

Blue manteve o ritmo. Dentro, fora. Dentro, fora. A pressão deve ter crescido dentro dela porque Evie tentou agarrá-lo, pedindo-lhe para dar a ela mais duro, mais rápido. Ele não podia ter parado ou diminuído a velocidade nem pra salvar a própria vida. Nunca esteve tão subjugado, tão dominado. Então assumiu o comando onde só prazer importava.

Aqui. Agora. Esta mulher. Minha.

Seu ritmo ficou brutal e devastador. Primoroso. Evie o agarrou pelo cabelo e o arrastou pra baixo para outro beijo. No momento que suas línguas se encontraram ela gozou novamente, e quando suas paredes internas o apertaram pela segunda vez, Blue se juntou à ela, gozando igualmente duro. Ele rugiu dando uma última estocada, alimentando aquele último pedaço de sua liberação até que finalmente desmoronou em cima de Evie, totalmente exausto.

Blue não estava certo de quanto tempo se passou antes que percebesse que não tinha se movido, que podia estar sufocando-a com seu peso. Recolhendo-a, ele rolou para o lado. O suor formava uma camada escorregadia sobre seus corpos e nenhum deles conseguia recuperar o fôlego.

A coisa era que ele apenas queria mais.

 

Evie cambaleou. O sexo nunca foi tão bom para ela. Sexo provavelmente nunca foi tão bom para ninguém e quase desejou não ter experimentado isso. Quase. Como poderia deixar Blue ir agora?

Pela primeira vez em anos, não sentiu nenhuma sensação de insatisfação. Só paz. Como se todos os pedaços de sua vida finalmente se alinhassem corretamente.

Mas isso não podia ser certo. Em última instância, não importava quão maravilhoso Blue fosse como pessoa, ele era ruim para ela. Eles nunca iriam querer as mesmas coisas.

Tenho que pôr um pouco de espaço entre nós.

— Eu me sinto tola por trazer isto agora, considerando minha profissão e meu passado, mas com toda a excitação eu honestamente não pensei nisso. Embora isso não seja realmente uma desculpa, é? Eu devia estar totalmente envergonhada. — E até apavorada.

Mas não estava apavorada.

Seus olhos brilharam alegremente, como se ele estivesse lutando contra uma risada.

— Eu acho que isto é o mais próximo que alguma vez vi você divagar, sopro de açúcar.

— Bem, o que estava tentando dizer... — ela continuou, tomando a dianteira. — É que não uso nenhum controle da natalidade.

— Sem problema. Não posso engravidar você.

Jamais?

— Primeiro, sem problema? Sério? Segundo, e quanto a doenças?

— Para o primeiro, sim. Foi isso o que eu disse. Sem problema. Acho que devíamos resumir. É sexy. Segundo, não tenho nenhuma doença Arcadian e mesmo que tivesse, não poderia passá-la assim pra você. Além disso, sou imune às doenças humanas.

— Bem, apenas para sua paz de espírito, não tenho nada. Eu verifiquei.

Ele beijou a ponta do seu nariz.

— Obrigado por me dizer.

Ela se ergueu, sentando, empurrando o cabelo úmido do rosto.

— Então...

Ele arqueou uma sobrancelha.

— Esta é a parte onde você tenta me expulsar de sua cama? Desculpe, bolinho-quente, porque isto não vai acontecer. Nós vamos nos aconchegar.

Espere. O que? Perscrutando-o por baixo, ela disse firmemente:

— Nós não vamos nos aconchegar.

Seu lábio inferior esticou no mais adorável beicinho.

Ele estava brincando com ela?

Ele tinha que estar provocando-a.

Estúpido, homem adorável!

— Então agora que você me usou... — ele disse — vai me abandonar?

Argh! Sentimento de culpa.

— Eu realmente não tenho desejo de aconch. Com ninguém. Nunca.

Ele soltou uma gargalhada.

— Você acabou de dizer “aconch”?

As bochechas de Evie inflamaram quando se deu conta que sim, ela disse.

— O que? Eu estava tentando uma coisa de abreviação.

— Você fez bem. — Sorrindo, ele disse. — Você já tentou se “aconch”?

Seus olhos se estreitaram para pequenas fendas.

— Não.

Houve um abrandamento ao redor de seus olhos e boca, como se acabasse de ver um gatinho precisando de ajuda em uma árvore. Ele envolveu a mão na parte de trás de seu pescoço e massageou.

— Vamos tentar isto, então. Você e eu. Podemos gostar.

Ela fechou os olhos em êxtase, mesmo enquanto amaldiçoava internamente. Este era o charmoso sedutor pelo qual milhares tinham caído com certeza.

— “Nós”?

— Eu também nunca fiz isto antes e quero ver como é.

Ela seria a primeira? Cacete! Como resistiria agora?

— Está falando sério? Nunca?

— Nunca. Eu tomava o que queria e ia embora... ou forçava as mulheres a irem.

— E elas aceitavam? — Ela perguntou incrédula.

— Claro. Elas até tentaram voltar para segundas e terceiras vezes.

— Claro. — ela zombou. — Mas... por que agora? Por que eu?

Ele deu de ombros, imperturbável.

— Você cheira muito bem, é uma sensação boa e vou querer você novamente muito, muito em breve. Poderia também ter você por perto e me salvar dos problemas em ter que caçá-la.

Evie devia resistir. Essa escapada sexual quase a matou. Sem contar o que um segundo round faria. E se realmente apreciasse toda a coisa do aconchegar? Ela começaria a desejar isto — e quando Blue partisse Evie não poderia mais pagar por seus desejos.

Quem sabe, talvez você seja sortuda e odeie isso.

Verdade.

Seu silêncio deve tê-lo provocado, porque Blue disse:

— Não me obrigue a ser um Neandertal e bater em sua cabeça para conseguir o que quero.

Ela revirou os olhos.

— Certo, certo. Tudo bem. Nós teremos um pouco de aconchego. — Ela se deitou sobre seu peito e ele a envolveu em seus braços. Seu coração batia contra a orelha dela, rápido e forte, agradando-a extremamente.

Ela não odiaria isto, não é?

— Nós podemos fazer isto por uma hora, e talvez, se você tiver sorte, vou tocar em você. — ela disse. — Mas depois vamos separar nossos caminhos, certo?

Ele passou os dedos pelos cabelos dela.

— Não. Não está certo. Eu preciso de pelo menos seis horas. E definitivamente haverá toque. Não há talvez quanto a isto.

Eles estavam negociando isto? De verdade?

— Duas horas. — ela disse. — E não vou espancar você até a morte.

— Oito. E você vai acariciar.

Inferno sangrento.

— Não é assim que você negocia, Blue.

— Erro meu. Dez horas.

Só para ser contrária, ela torceu seu mamilo.

— Ai! — Ele forçou seus dedos a soltarem-no e beijou suas juntas. — Só por isso, não vou dizer a você como te classifiquei.

Ela se ergueu e encontrou seu olhar.

— Você não classifica suas mulheres. — Uma pausa. — Classificação?

— Não normalmente. Mas desta vez, abri uma exceção.

— Acho que não sabe quão perto está de ter a espinha arrancada pela boca. — ela disse, acenando com o punho na frente do seu rosto.

Ele tentou mordê-la.

— Eu já disse como você fica sexy quando me ameaça com lesão corporal?

— Não. Porque isso seria ridículo.

— Não é, e é verdade. — Com expressão séria, ele disse. — Agora, de volta à sua classificação. Eu decidi dizer a você, apesar da torcida de mamilo.

Evie sacudiu a cabeça, cabelo escuro dançando ao redor dela.

— Não quero saber. — Afinal, ela se perdera no prazer de sua boca e suas mãos, e então seu corpo. Ele teve que fazer todo o trabalho.

— Muito ruim. Baby, não existe nenhuma dúvida, nem hesitação em minha mente de que você é e para sempre será... A número um. Sério. Isto — ele disse, acenando com mão para indicar suas curvas esbeltas — devia ser proibido.

Evie tentou manter uma expressão neutra — encorajá-lo era errado —, mas não pôde segurar um sorriso.

— Dois elogios em um dia. Você deve estar ficando mole.

— Claro que estou. Acabei de gozar litros.

Seus olhos se arregalaram. Não acredito que ele disse isso.

Ele deu outro aceno, desta vez imperioso.

— Vá em frente. Ria. Você sabe que quer.

Ela bateu a mão na boca, mas era muito tarde. O riso escapou.

Seu olhar encontrou o dela com uma mistura de prazer e espanto, seus traços suavizando.

— Nunca vou me cansar de vê-la brilhar assim.

Fique séria! Sua mente gritou. E, apenas assim, sua diversão foi drenada.

Ele franziu a testa, como se sua mudança de humor o perturbasse.

— No que está pensando?

— O que vai acontecer amanhã? Com Tiffany?

— Não quer me ver fazer um movimento em cima dela?

— Não. — ela respondeu honestamente. E merda. Muito sério novamente.

Agora ele sorriu contente.

— Não se preocupe. Não vou. Você tem minha palavra. Vou flertar com ela, tornar acreditável quando ela sair comigo, mas não vai mais longe que isso. Quando conseguir ficar sozinha com ela, usarei compulsão para fazê-la dormir.

— Certo. — ela disse com um aceno com a cabeça.

— Espere. Não vai me fazer prometer? Ou assinar um contrato de sangue?

— Não. Acredito em você. Não preciso de mais garantias que a sua palavra.

Algo brilhante floresceu em seus olhos quando ele beijou sua testa.

— Eu não sei o que dizer. Evie... Obrigado.

Sem duvida ela devia estar dizendo aquelas palavras a ele.

— Você está com fome? — Ele perguntou, mudando de assunto com uma velocidade que a deixou hesitante. — Estou morto de fome. Então por que não faço algo para a gente comer? Depois podemos tomar banho e cronometrar mais algumas horas na cama antes de dormirmos. — Sua voz estava rouca de desejo quando ele acrescentou: — Então, pela manhã, despertarei você do melhor modo possível. Prometo.

Espere. Ele esperava passar a noite em seu quarto? A noite inteira?

— Fique aqui. Volto logo. — Nu, ele caminhou até corredor deixando-a sozinha com uma sensação crescente de pânico. Por fim tinha chegado.

 

ELE NÃO USOU camisinha. Para ser sincero, Blue nem tinha pensado em usar. De algum modo devia confiar em Evie mais do que já confiou em qualquer outra mulher. Sabia que ela nunca faria alegações de uma falsa gravidez como Pagan. Como incontáveis já fizeram. Ela era completamente honesta.

E agora que sabia que ela não reclamou da ausência da proteção porque tinha estado tão perdida no momento quanto ele, só a desejava ainda mais.

Estava rindo enquanto carregava uma bandeja de sanduíches até o quarto, quase ávido a ponto de mandar o mundo ir se ferrar só para vê-la deitada com o cabelo escuro espalhado pelos travesseiros, a pele branca corada pelo prazer que tinha acabado de lhe dar, os lábios vermelhos e inchados dos seus beijos.

Nunca foi um cara possessivo. Hoje isso tinha mudado. Evie Black pertencia a ele e não deixaria que escapasse. Já estava viciado no seu gosto — no mel que era o cheiro dela. Mas agora conhecia sua quentura, sua suavidade interna e os sons que fazia quando seu tesão aumentava. Conhecia a sensação de suas unhas na pele e o corpo se movendo com o dele, cercando-o, conhecia o sorriso que dava no final, a rouquidão de sua voz.

Ela era um tesouro. Meu tesouro.

Sim, ele traiu Michael.

Sim, sentia-se culpado. Mas faria com que seu chefe entendesse.

E quanto a amanhã? A festa pós-jogo? Tiffany?

Evie entendia. Confiava nele sem precisar perguntar nada, e esse conhecimento o chocava. Não acreditava que algum dia foi tão feliz assim.   

Não estragaria isso. Pra variar, Blue tinha traçado uma linha da qual não passaria.

— Evangeline. — ele disse, sorrindo ao entrar no quarto.

Ela não estava na cama.

Colocou a bandeja na penteadeira e caminhou até o banheiro. Mas também não estava lá. Franzindo o cenho, checou toda a suíte. Não havia sinal dela e as suas roupas foram recolhidas do chão.

— Evie. — ele chamou.

Não houve resposta.

Ele correu pela casa inteira checando cada canto, cada sombra, mas ela não estava escondida em lugar algum.

Fechando a cara, ele entrou no escritório e observou as imagens de segurança usando os códigos que ela lhe deu. Em poucos minutos estava bufando de raiva. A bruxinha saiu pela janela do quarto e desceu pela lateral da casa. Como se ele fosse uma transa da qual ela se arrependia.

A fúria despencou como uma tempestade de fogo e gelo. Seus movimentos eram bruscos quando prendeu armas por todo o corpo e se vestiu. Ela tinha uma vantagem de dez minutos. Ele a teria de volta na cama em cinco. Se tivesse que dar umas palmadas na bunda dela, soltar o verbo ou seduzi-la, não tinha certeza. Talvez precisasse das três alternativas.

Por que fazer isso com ele?

Ela não era o tipo que fugia dos próprios problemas.

Ou, inferno, o que ele sabia? Talvez ela fosse. Ela ainda não tinha falado a respeito de Claire.

Do lado de fora a lua estava cheia e alta, o céu um ébano sem fim enfeitado de diamantes, o ar gelado. As ruas estavam desertas, o bairro inteiro dormia. Evie foi em direção norte, então foi pra lá que ele se dirigiu, seguindo o rastro que ficou do seu perfume.

Ela tinha deixado pegadas no chão e eram mais fundas do que o normal. Ela foi correndo, os sapatos socando a terra. Estava tão ávida assim para escapar dele?

Outra vez enfurecido, dobrou uma esquina bem a tempo de ver Evie desaparecer dentro de um mercado vinte e quatro horas — e pegar um Bree Lian se esquivando atrás dela, movendo-se cada vez mais rápido, chegando perto dos seus calcanhares. Blue se lançou em supervelocidade, várias jardas por minuto, chegando bem atrás do cara.

Ele tapou os lábios peludos com a mão — e esfaqueou e esfaqueou. Baço. Fígado. O rugido assustado e dolorido do Bree Lian foi abafado quando ele caiu de joelhos. Blue o arrastou para o beco escuro ao lado do prédio e meteu o joelho na cara do cara, fazendo-o cair de costas. Antes que ele pudesse entender o que estava acontecendo, Blue desembainhou uma pyre-gun e a apontou para ele.

— Por que está atrás da garota? — exigiu saber. — Trabalha para quem?

Tocando a parte esfaqueada, o extraterrestre apertou os lábios com força.

Blue o levantou com uma onda de poder e o manteve suspenso no ar. Com outra onda abriu os braços e as pernas do Bree Lian com a intenção de fazê-lo se sentir como se seus membros estivessem para ser arrancados a qualquer segundo. Porque era o que aconteceria.

— Não vou perguntar outra vez.

O Bree Lian olhou para Blue com resignação. Tinha acabado de perceber que ia morrer. Era só uma questão de por quanta dor passaria antes disso.

— Tyson Star.

Tyson? Não Gregory, o pai?

— Por quê?

— Eu não sei. Nunca me dizem o motivo, só o que fazer.

— E o que deveria fazer?

— Pegar a Senhorita Black e levá-la até o Sr. Star.

Ela seria espancada? Assassinada?

O pânico se juntou à fúria.

— Uma última pergunta. Você viu um Rakan com os Stars ou ouviu falar da venda da pele de algum?

— Não. Os Stars são a família mais cheia de segredos que já vi. Eles designam serviços diferentes para homens diferentes, assim ninguém fica sabendo de tudo o que está acontecendo.

Cheios de segredos e inteligentes.

— Mereceu a morte que terá. Farei com que seja rápida. — Guardou a arma com a intenção de matar o cara com as próprias mãos quando um ruído fez com que seus ouvidos vibrassem. Ele girou, uma corrente de luz clara e azul celeste disparando e o atingindo no peito. Todos os músculos do seu corpo se petrificaram, embora sua mente permanecesse em completa função. Ouviu o Bree Lian despencar no chão, não mais mantido no ar pelo seu poder.

Sua fúria encontrou um novo alvo: ele mesmo. Deveria ter suspeitado que os Stars mandassem mais de um.

Um segundo extraterrestre saiu das sombras. Um Cortaz Blue que viu de vigia na mansão de Star. O homem era alguns centímetros mais baixo que Blue com cabelo escuro, olhos verdes e pele que parecia ter sido afundada em um pote de mel.

— Não tenho certeza de como pegou meu parceiro, Sr. Blue, e na verdade não ligo.

Blue deixou o pior de suas emoções brilhar em seus olhos.

O homem não ficou impressionado.

— Eu só te dei um choque parcial, então você ficará novinho em folha em poucas horas. Enquanto isso, vou entrar na loja e encontrar a sua garota. Ela é sua, não é? Uma revelação bem surpreendente, tenho que dizer. Você vai me ver me divertir um pouco com ela antes que a leve até o Sr. Star.

— Humm. Não acho que é assim que essa noite vai terminar. — A voz de Evie ecoou pelo beco quando uma corrente de luz da mesma cor azul surgiu e atingiu o Cortaz.

Como Blue, ele congelou onde estava.

Depois ela atirou no Bree Lain, imoilizando-o também só pro caso dele decidir lutar.

Blue nunca ficou tão aliviado em ver uma mulher que queria estrangular.

Evie, sua bela e irreverente Evie, derrubou o Cortaz ao passar por ele, depois parou na frente de Blue.

— Você tem sorte de eu estar do seu lado. — Ela remexeu na bolsa — aquela gloriosa e mágica bolsa — e retirou um anel com uma pedra oval enorme no centro. — Isso vai cortar os efeitos do paralisador.

Antes que ela pudesse aplicar a dosagem nele, seus braços foram agarrados, virados e presos às suas costas. O anel caiu no chão imundo.

— Que bom que eu vim de garantia. — uma voz alegre disse atrás dela.

Ainda incapaz de se mover, Blue olhou com raiva para o Arcadian alto e musculoso que girou Evie e a esmagou na parede de tijolos. Era como assistir a um filme de terror em câmera lenta. Todo detalhe estava em tecnicolor. Da surpresa no rosto dela à poeira que saiu da parede.

Um ofego indignado a deixou.

Uma ira total e absoluta foi detonada dentro de Blue. Ele concentrou todo o poder que tinha em seu interior, deixando que se concentrasse lá, construindo camada por camada.

— Eu vou te dar uma chance de me soltar. — ela disse entredentes. — E depois as coisas vão ficar bem feias.

— Acho que já estão feias. — O Arcadian apalpou o corpo dela, procurando armas.

— É? Espere até ver isso. — Ela atirou a parte de trás do crânio no nariz dele.

Berrando de dor, o Arcadian a soltou e tropeçou para trás. Ela se virou e o golpeou na garganta. Quando ele arfou, ela o chutou entre as pernas. Ele caiu de cara no chão, uma poça contorcida de agonia.         

Blue soltou o domínio que tinha em seu poder e ele explodiu pelo seu corpo, vida voltando aos seus músculos permitindo que ele andasse uns passos. Agarrou Evie pelo braço e a colocou atrás de si… depois atacou o Arcadian.

Ele socou, socou e socou.

— Não a machuque. Nunca. — Socou, socou e socou. Sangue jorrou. Dentes voaram e rolaram pelo chão.

Em pouco tempo, não restava mais nada do rosto do cara.

— É, acho que agora ele está morto. — disse Evie. — Pode parar e talvez nós possamos voltar correndo pra casa.

Blue deu um salto ao som da voz dela. Ele estava ofegando e sabia que tinha uma aparência assustadora. Mesmo assim se endireitou e a colocou nos braços precisando estar perto dela, nem que fosse para acalmar a ira bestial que o devorava por dentro.

Ela não ofereceu resistência. Até chegou mais perto.

— Perdão, baby. Sinto tanto ter deixado que ele chegasse perto de você. Ele nunca mais vai te machucar.

— Ei, não foi culpa sua. Estava tão ávida para chegar em você que esqueci de procurar por um terceiro ajudante. — Com muita gentileza, ela começou a acarinhar o seu peito. — E você o matou de um jeito, Blue. Vê-lo em ação foi um verdadeiro prazer. Minha avaliação será primorosa. Ele nunca mais vai machucar ninguém. Prometo.

Se algo tivesse acontecido com ela…

Ele não tinha certeza do que teria feito. No momento estava tendo problemas amadurecendo suas emoções. Pânico. Medo. Alívio. Raiva.

Um bom tempo se passou antes dele se sentir suficientemente calmo para falar outra vez.

— Você tem muito o que explicar, mocinha! — rosnou, afastando-a e ao mesmo tempo mantendo as mãos em seus ombros. Cara. Talvez você devesse ter esperado um pouco mais. — Por que diabos saiu de casa?

Ela se afastou com um passo para trás e um ronco de irritação atravessou o seu peito.

— Quer mesmo fazer isso aqui e agora? Parte da nossa plateia ainda está viva.

Ele se virou e atirou nos rostos do Cortaz e do Bree Lian. Raios de luz amarelos. Não azuis celestes. Morte ao invés de paralização.

— Não está mais.

— Blue! — ela gritou, e bateu o pé no chão. — Podíamos tê-los interrogado.

— Já consegui todas as respostas que precisava deles. Então. Vou perguntar outra vez. Por que escapou pela porra da janela, Evie?

Ela atirou as mãos para cima em um gesto do tipo “o que fiz pra merecer isso”.

— Bem?

— Por várias razões. — ela disse, levantando o queixo.

— Diga uma.

— Eu vi os caras no meu quintal.

— E não me chamou? — ele gritou.

— Não queria perder o rastro deles, e francamente, precisava de um tempinho longe de você. Tempo pra pensar.

Dentro dele a fúria esfriou tornando-se bem mais perigosa.

— É verdade? Bem, então fique com todo o tempo que precisar, princesa. — E foi embora, sem nem sequer olhar para trás.

 

Evie sabia que tinha estragado as coisas.

Blue estava no quarto de hóspedes e ela em seu quarto. Eles eram como boxeadores, cada um do seu respectivo lado. A luz do sol seria o sinal do começo da luta e só um deles seria declarado vencedor.

Não posso esperar tanto assim.

Ela tinha que consertar as coisas. Já sentia falta das provocações. Da… amizade que tinham.

Eram mesmo amigos, não eram?

Usando uma regata e um short, marchou pelo corredor até o quarto dele. Pela primeira vez ele não estava trabalhando. As luzes estavam apagadas e ela não conseguia ver nada, mas conseguia sentir a vibração do seu poder.

— Está acordado? — perguntou em voz alta.

— Agora estou. — ele resmungou.

— Ótimo. Você prometeu que ficaríamos de conchinha e agora ousa não cumprir com a promessa? Não seja esse tipo de cara. — Ela subiu na cama e se meteu debaixo das cobertas. Um calor corporal divinal a envolveu e ela estremeceu. Seu tesão crescendo rapidamente.

Embora estivesse colada à ele, ele não a puxou para mais perto.

— Você não é a única que precisa de um tempo separado, Evie.

Ai.

— Não estou acostumada com esse lance de relacionamento, ok? Nunca nem tive um namorado. Tive caras que tiraram vantagem de uma garota novinha desesperada pela aprovação dos outros, caras que me usaram por uma noite e deram o fora — e, sim, ok, isso sempre fez eu me sentir um lixo, e sou péssima por fazer o mesmo com você e peço perdão. Estava errada. E sei que me disse para não me desculpar mais, mas isso realmente merece repetição. Também estava errada em julgar você e de te chamar pelos mesmos nomes que me chamei por anos. Claro que em outro gênero. Você é um cara fantástico, Blue, e isso está me deixando sem saber o que fazer.

A princípio ele não exibiu reação. Depois, com um suspiro, enfiou um braço debaixo da sua nuca e a rolou para o lado. Ela quase chorou de alívio.

— Você não é uma galinha nem uma piranha. — ele disse. — E não quero te ouvir falando isso nunca mais.

A veemência dele a fez tremer. A quem estava enganando? Tudo nele a fazia tremer.

— Quero ficar com você enquanto estivermos trabalhando nesse caso. — ela admitiu. — Com você e com mais ninguém. Não só uma ou duas vezes, mas todos os dias, todas as noites. Quero que sejamos exclusivos.

Uma pausa.

Uma pausa que a apavorou.

Rejeição? Essa doeria mais que a outra. Mas era uma lutadora e não desistiria facilmente. Não desta vez.

— Precisa de espaço para pensar. Entendo. Enquanto isso pode me perguntar qualquer coisa. — ela disse. — Responderei sem rodeios. Posso até começar com as perguntas. Se acho que esse relacionamento vai ser fácil? Não. Se acho que vai valer a pena? Sim.

Sem mais hesitar, ele disse.

— O que aconteceu com Claire?

Ela enrijeceu. Claro que ele chegaria ali. Mas ela disse que contaria e era isso que faria.

— Três anos atrás Michael me designou um trabalho, disse para recolher alguns agentes para ajudar com o levantamento de informações antes de eu eliminar uma pessoa. — Quanto mais falava, mais fácil ficava para as palavras saírem. — Mas eu não quis selecionar outros agentes. Quis fazer o trabalho sozinha. Estava tão certa que conseguiria, e assim poderia ficar com toda a glória.

Ele não disse nada, mas seus braços apertaram em volta dela.

— Lembra da Assassina da Luz da Noite?

— Sim.

— Era ela. Eu cheguei a duas suspeitas, recolhi mais informações sobre ambas e decidi qual das duas era. Estava certa — e errada. Eliminei a pessoa e enquanto estava ocupada me parabenizando por um trabalho bem feito, a outra mulher estava me investigando. As duas eram parceiras. Eliminei sua melhor amiga, então ela esperou pelo momento perfeito para agir e eliminar a minha.

Blue beijou sua têmpora.

— Não precisa me contar o resto.

Sim, mas o resto dos detalhes saíram dela de todo modo, impossíveis de serem parados.

— Cheguei em casa e encontrei Claire aos pedaços. Sangue por todo lugar. E na tela da televisão passava uma parte do assassinato. Nessa parte Claire gritava. Ela gritava tanto e até implorava para que eu a salvasse. Até a mulher cortar sua garganta. Aí ela se calou e eu quis tanto que os gritos recomeçassem, porque isso queria dizer que ainda estava viva. Minha garotinha doce e tão bondosa viva.

— Oh, baby, sinto muito.

O seu queixo tremia e lágrimas escorriam pelas suas bochechas.

— Depois disso eu disse a Michael que não queria mais ligação com a agência e falei sério.

— Então não vai voltar à folha de pagamento assim que John for encontrado?

— Não. Vou voltar ao hospital.

— Gosta de lá?

— Sim.

— Mas não ama?

— Eu… não sei mais.

— Acho que você ama ser uma agente. Você é boa demais nisso.

— Obrigada. — Mas… — Eu não vou mais arriscar levar um criminoso a alguém inocente.

— Agora você é mais sábia. Sabe como evitar...

— Não.

Ele suspirou.

— Ok, baby. Ok. Vamos voltar um pouco, então. Você disse que quer ficar comigo enquanto estivermos trabalhando no caso. O que acontece depois?

— Depois você volta pra sua casa e pra sua vida.

— E isso quer dizer que não poderemos mais nos ver?

Ela juntou as sobrancelhas em uma confusão genuína.

— Não quer?

— Não. — ele disse. — Não para mim. — Ele nunca tinha soado mais determinado.

— Eu sei que esse não é o acordo com Tiffany, mas um dia a sedução de um alvo será a única opção aberta pra você. E não vou derrubar o martelo do julgamento nem nada parecido. Sei bem o tipo de caso que te dão e estou declarando o que posso e o que não posso aceitar de um namorado meu.

No começo ele não esboçou reação. Depois a apertou com mais firmeza, quase machucando, e ela se perguntou sobre os tipos de pensamentos que passavam na sua cabeça.

— Então… liguei para Michael — ele disse, mudando de assunto — e disse a ele para ficar na cola de Tyson Star se for possível.

Decepção a atingiu. Ela queria que ele assegurasse certas coisas, percebeu.

— Boa ideia. É estranho o cara me querer. Quero dizer, ele nem quis me encontrar quando fui conhecer o Star Light. Era o esquema perfeito para me matar.

— Não queria o seu desaparecimento associado com os negócios dele, eu acho.

— Tudo bem, você tem razão nessa parte, mas por que ele me quer?

— Posso pensar em duas razões. Ou para agradar o pai e ajudar o tipo a atingir Michael usando você de isca ou ele assumiu o império, já que papai está escondido no campo, e como filha de Michael você agora é um ponto fraco.

Blue sempre parecia focar nos melhores motivos, algo que Evie sempre lutou para conseguir fazer. Ela era ótima com invenções, mas horrível em entender o raciocínio das outras pessoas.

— Bem, vou mandar um convite em pessoa a Tyson para a festa da vitória. É melhor ele aparecer.

— Tenho o pressentimento que ele irá já que não há modo da irmã não ir — e esse é o motivo de eu querer que você não vá. Não devia facilitar o acesso de Tyson a você.

— E isso com certeza vai levar um não gigante. Além do mais, a festa é no hotel dele, e se você estiver certo e ele não quiser envolver os negócios não vai tentar nada contra mim enquanto estiver lá. É o local mais seguro que pode existir.

— Tinha o pressentimento de que diria isso. — ele resmungou. — Precisamos dormir um pouco... depois que transarmos. O papai aqui quer um pouquinho de amor. Mas vai ser rapidinho, porque amanhã tenho um dia e tanto pela frente.

— Quanta gentileza sua. — De repente se sentindo tímida, ela disse. — Depois vamos dormir de conchinha?

— Tente escapar. Desafio você.

 

— Intruso. Intruso.

Blue deu um pulo da cama instantaneamente alerta. Evie fez o mesmo, as cobertas caindo em sua cintura. A luz do sol passava pelas cortinas iluminando a sua beleza. Sua regata estava dobrada debaixo dos seios, revelando a barriga chapada. Ela piscava rapidamente tentando se focar.

Ele estava tendo o sonho mais erótico, as mãos por todo o corpo dela, a boca percorrendo o mesmo caminho logo em seguida quando de repente...

— Intruso. Intruso.

Isso.

— Tem alguém tentando entrar. — ela ofegou. Ficou de pé em um pulo e correu pelo quarto antes que ele pudesse impedi-la.

Praguejando, pegou a pyre-gun que tinha enfiado debaixo do travesseiro. Vestiu uma samba-canção que não fazia nada para esconder a enorme ereção matinal que teria gostado de apresentar à Evie.

Esse “intruso” ia pagar. Caro.

Ele foi até o saguão de entrada. A luz do sol estava mais forte ali, passando por janelas não cobertas, enchendo o espaço confinado. Nenhum sinal de Evie.

Vou dar umas palmadas tão fortes naquela garota. Ela o deixou para trás como se ele fosse uma donzela em apuros.

Depois ela saiu correndo do quarto ainda de regata e short. Sua expressão era tão “Por que está aqui parado?”.

— Estão na cozinha. — ela sussurrou.

— “Mais de um”?

— São dois.

— Como sabe?

— Chequei os vídeos do quarto.

Blue seguiu para a escadaria descendo sem fazer barulho. Evie ficou ao seu lado. Ele queria trancá-la em um quarto, mantê-la longe do perigo, mas não poderia chegar a isso. Ela era uma ótima agente — muito boa.

Ontem a noite ela o resgatou.

E depois, no escuro do seu quarto, quase partiu seu coração com o pesar que sentia por Claire. A cada dia ele caía mais sob seu feitiço.

Quando chegaram ao último degrau, ele acenou para que ela fosse pela direita, desse a volta e entrasse na cozinha pela entrada do quintal.

Ela assentiu e partiu.

Ele passou por um canto procurando com os olhos e ouvidos atentos. A voz de uma mulher se registrou.

— Por favor, desligue essa coisa. Está irritando o bebê.

Bebê?

— Estou tentando querida, juro que estou, mas nunca me deparei com um sistema de segurança parecido com esse.

A voz de um homem.

Uma voz que ele reconhecia. Solo. Solo estava ali.

Agora correndo, Blue invadiu a cozinha. Solo estava de costas para ele enquanto tentava mexer na caixa de segurança ao lado da entrada pelo quintal. O homem imediatamente endireitou as costas puxando uma loira baixinha atrás de si com uma mão e mirando uma arma em Blue com a outra. Assim que reconheceu Blue ele abaixou a arma.

— Está vivo. — disse Blue. Ele sabia que Solo estava vivo — claro que sabia — e até sabia que o homem estava na mesma área, mas isso era o equivalente de um homem faminto se deparando com um banquete — de comidas cruas. Precisava ver o amigo com os próprios olhos.

— Estou vivo. — Solo concordou.

— Cara. — Blue se adiantou sorrindo de orelha a orelha.

A porta de trás se abriu e Evie voou pela cozinha, pyre-gun apontada e preparada. Solo reagiu do mesmo modo de antes protegendo a loira e levantando uma arma.

— Solo? — perguntou Evie, abaixando os braços. — Minha nossa, homem. Sabe o quanto esteve perto de perder a cabeça?

— Tão perto quanto você esteve de perder a sua? — O homem não abaixou a arma.

Não admitindo aquilo, Blue usou seu poder para arrancar a arma que Solo empunhava em estilo kung fu deixando que ela flutuasse fora de alcance.

Solo franziu para ele.

— Eu não ia atirar nela. Só queria deixar uma coisa bem clara.

— Ninguém vai perder a cabeça hoje. — disparou Blue, pegando a arma e a jogando em cima do balcão. — Muito menos Evie.

— Muito menos Evie? — Solo o fitava como se tivesse acabado de nascer chifres e rabo nele.

A loirinha colocou as mãos no quadril.

— Se vocês vão brigar, vamos deixar a briga interessante. Tirem as roupas enquanto vou buscar o óleo.

Evie jogou sua arma ao lado da de Solo.

— Da próxima vez vá até a porta da frente e aperte a campainha, seu maldito... argh! — Olhando com raiva, apontou para Blue. — Se ele quebrou alguma coisa vai para a sua conta. E vou cobrar o dobro!

Conhecendo Evie melhor agora, Blue a enxergava com outros olhos. Ela não estava com raiva por Solo ter possivelmente danificado sua casa. Estava com medo do que poderia ter acontecido — algo de ruim a ela, a Blue, até algo de ruim que ela poderia ter feito a Solo e sua mulher — e estava tentando expurgar o excesso de emoção da única forma que conhecia. Usando seu temperamento forte.

Queria tanto abraçá-la que a vontade o fazia estremecer. E teria feito isso sem ligar para o público que tinham se achasse que ela deixaria. No momento poderia era arrancar seus olhos com as unhas e usá-los de geleia na torrada.

— Eu pago tudo, seja qual for o preço. — ele disse e Solo o olhou de boca aberta.

— Ótimo, porque me deve outra porta! E uma das boas. Nada que seja produzido em massa. — Ela foi até o painel de segurança que Solo estava danificando e digitou um código, depois religou alguns fios. O alarme finalmente desligou. — Isso acabou de te custar mais mil pratas.

— Por que tanto? — perguntou Solo. — Esse sistema é todo fodido.

— Fodido? Você disse fodido? — Bombas explodiram nos olhos de Evie. Ela agarrou a arma e estava prestes a apontá-la para o peito de Solo — e provavelmente atirar cheia de felicidade.

O Sr. Judah tinha acabado de ultrapassar o limite.

— Ele não desligava. — Solo disse com os dentes cerrados.

— Por uma razão, seu idiota. — ela disparou.

Blue tomou a arma dela.

— Não tire onda com o sistema de segurança dela. — ele disse ao seu amigo. — É o melhor que algum dia vai chegar a ver. — Para Evie ele disse com gentileza. — Me ouviu, princesa? O melhor. E você sabe que não minto.

Gradualmente ela se acalmou.

— Você está certo. O melhor. Não posso culpar um leigo por não reconhecer uma genialidade quando se depara com ela.

Não posso sorrir. Solo estava longe de ser um leigo.             

Blue deu um abraço e um tapa nas costas do desnorteado Solo. Seu amigo também lhe deu um tapa e quase o enterrou no chão. O cara não tinha noção da própria força.

Sem a questão da agressão “mate ou morra”, Blue deu uma olhada no guerreiro. O mesmo cabelo preto desgrenhado que ele gostava de cortar com uma faca, os mesmos olhos de um azul elétrico — mas agora não estavam mais cobertos por uma dor interna e constante. Eles estavam quase… suaves. Definitivamente felizes.

— Por onde andou, meu amigo? Por que não veio me ver antes? — Blue deu uma olhada geral na loira com olhos da cor de ameixa. — E quem é a gata?

Sorrindo, Solo puxou a pequena mulher para mais perto.

— Blue, gostaria que conhecesse Vika. Vika, esse é Blue, meu parceiro.

Vika acenou para ele.

— É tão fantástico finalmente te conhecer. Ouvi tantas coisas maravilhosas. — Ela era o oposto de Solo em todas as maneiras. Mignon, minúscula, suave e bonita. E o temperamento parecia mais doce do que açúcar.

— A tirana de cabelo escuro é Evie. — Blue disse, indicando-a. — Ela é minha... — O quê? Ele ponderou a melhor palavra para usar — amiga. — Não importava, ainda era verdade. Embora quisesse mais. Mais do que tiveram na noite passada. Sexo e confissões. Dormir agarradinhos. Acordar de manhã com ela ao lado. E poderia ter isso. Ela tinha lhe oferecido.

Mas tinha oferecido algo com um prazo de validade.

Ele deveria ficar de boa com isso.

Mas não estava.

— Agora que as apresentações já terminaram, por que não vai vestir uma roupa, Blue? — Solo disse e Vika deu uma risadinha. — Depois conversaremos.

— Pra mim tudo bem você ficar assim. — disse a garota.

Ele abaixou o olhar para o próprio corpo. Pensar em Evie fez com que ficasse duro outra vez. Isso não era maravilhoso?

Encontrou o olhar de Evie e percebeu que ela agora tentava não rir.

A humilhação valia a pena.

— Não sei por que acha isso engraçado, bengalinha de açúcar. Você está no mesmo barco dos quase nus.

Ela lhe deu uma saudação dupla com os dedos médios antes de sair, dizendo por cima do ombro.

— Pelo menos a minha boia salva-vidas não subiu para que todo mundo visse.

 

DEPOIS DE SE VESTIR COM UMA camiseta e uma calça jeans, Evie ligou para Michael para avisá-lo do que estava acontecendo. Ele não podia esperar para ver Solo e acabou aparecendo. Vê-lo puxar o agente nos braços a encheu de felicidade, ao invés do ciúme costumeiro.

Ela estava tão feliz na verdade que acabou fazendo o seu Milk-shake de frutas favorito e ofereceu um copo dele a todos.

Blue passou os dedos por cima dos dela quando reclamou sua porção e formigamentos de calor e poder quase arrancaram um gemido dela. Estava com fome dele. Mais do que com fome. Faminta. Transaram uma terceira vez durante a noite e ela tinha desejado uma quarta pela manhã.

Esperar, agora que sabia exatamente como a preenchia, era… difícil.

Solo fitou o próprio copo como se ela pudesse estar tentando envenená-lo, mas Vika pulou para lhe dar um abraço.

— Obrigada.

— Oh, é, vamos mesmo fazer isso? — Evie disse, desconfortável. — Mesmo que sejamos estranhas?

O abraço só fez aumentar.

— Nós seremos melhores amigas. Tenho certeza disso.

— Ok. É claro. Se é isso que quer. Mas tenho que avisá-la, você pode mudar de ideia depois que me conhecer.

— Ela não vai. — disse Blue.

Ele tinha confiança no charme de Evie ou só estava determinado a forçar uma amizade, caso fosse necessário?

Vika a levou até o sofá. Assim que se sentaram ela colocou a mão de Evie na curva em sua barriga.

— Eu não deveria estar assim tão grande, mas Solo me diz que a raça dele tem uma gestação acelerada. Consegue sentir o meu doce menininho?

— Não. — Um bebê, ela pensou. Uma família. Algo que nunca tinha desejado para si. Isso tinha mudado?

Pensou por um minuto e deu de ombros. Talvez. Não com Blue, contudo. Ela dissera que ele não era o tipo de cara “para sempre”, que um caso apareceria e ele teria que fazer o que fazia de melhor e ele não havia negado. Mas talvez depois, um dia no futuro, ela poderia começar uma família com um médico do hospital.

É. Ok. A ideia não a repelia exatamente.

Com exceção de que… era Blue que sua mente conjurava quando pensava em deitar na cama ao lado de um homem com a mão dele em cima da sua barriga esticada e meio-Arcadianos pequeninos com cabelos brancos e olhos cor de lavanda correndo pela casa.

Concentrando-se ela aplicou um pouco mais de pressão. Mas… nada.

— Não. — ela disse outra vez desapontada. — Acho que ele se escondeu no momento em que ouviu a minha voz.

— Está dando um cochilo, anjinho? — Vika perguntou à própria barriga. — Mamãe ama você, ah sim, ela ama.

Evie olhou em volta da sala perguntando-se o que os caras achavam da conversinha com voz de bebê da garota. Michael e Solo estavam concentrados na própria conversa, embora Solo, que estava sentado do outro lado de Vika, tivesse o braço em volta dela para massagear sua nuca.

Blue estava encarando Evie com uma expressão estranha no rosto.

— O que? — ela moveu a boca sem emitir som.

Ele sacudiu a cabeça recusando-se a responder.

Homem confuso.

O movimento captou a atenção de Michael.

— O que foi, filho?

Sem perder um segundo, Blue disse.

— Solo, creio que você tenha algumas respostas a me dar.

— Certo. — O extraterrestre não parou de acariciar a esposa. — Quando conseguir chegar a Nova Chicago sabia que Michael estava vivo, mas bancando o morto. Ele fez uma visita à Vika antes de eu conseguir encontrar meu caminho de volta à Terra. O que eu não sabia era da sua localização, Blue. Queria que você estivesse vivo mas… — Ele limpou a garganta. — Aquele agente do IRA, Dallas Gutierrez, tinha uma amiga presa no circo comigo. Eu sabia que ele estava investigando Star e sabia que Star esteve no local da explosão. Comecei a seguir Dallas esperando que fizesse uma prisão e assim eu pudesse agir. Então o vi aqui na casa de Evie, eu a vi dirigir até sua casa e comecei a suspeitar que vocês dois estivessem trabalhando juntos. Então você veio a público, Blue, e soube que tinha razão. Então decidi deixar as coisas se desenvolverem porque eu atrairia a atenção do IRA e eles viriam com tudo. Não quis colocar você no radar deles.

— Ele cuidou disso sozinho quando esmagou os ovos de Dallas com a bota. — disse Evie. — Então o IRA não está mais atrás de você, Solo?

— Não. Ontem a noite Dallas me seguiu e me passou toda a informação que ele conseguiu juntar acerca de Star. Aparentemente, o plano de Star é montar um grande desfile para a linha mais nova de roupas da filha. Eles a chamam de Golden Sunrise.

Dourada. Como John.

— Quando? — Blue exigiu saber, sua fúria evidente em cada músculo tenso.

— Duas semanas.

As suas bochechas perderam a cor.

— Eles já fizeram então. Já arrancaram a pele dele.

Sério, Solo disse.

— Sim. Acho que ela está confeccionando as roupas agora.

Oh, John, não. De acordo com Tiffany, em duas semanas seria o dia em que removeriam a sua pele. Não o desfile de fato. Os Stars adiantaram a agenda.

O poder de Blue de repente eletrificou o ar e a mobília deixou o chão e flutuou. Vika ofegou, aproximando-se mais do marido.

— Blue. — Solo e Michael disseram em uníssono, ambos usando tons suaves e calmantes.

— Acalme-se. — acrescentou Michael.

Palavras não adiantariam. Na última vez ela tinha usado o corpo, e tanto ela quanto Blue deixaram o encontro satisfeitos — e com vida. Com expectadores, essa não era exatamente uma opção. Então Evie pulou do chão, fechou a distância e bateu nele. Com força.

Solo ordenou que ela se afastasse.

Michael estendeu a mão para impedi-la de voltar a bater.

— Não é assim que se lida com ele, raio de sol.

Ela cruzou os braços.

— Tem algo a me dizer, mirtilo?

Ele a olhou com raiva e esfregou a mandíbula — e, o que é que vocês sabem afinal, a mobília voltou ao lugar.

— Por que fez isso?

— Não haja como se não soubesse. Agora faça um favor a si mesmo e se concentre. — ela disse, sendo cruel pelo bem maior. Desta vez de verdade. — Sei que está com raiva, mas tenha um ataque de nervos na hora certa. Seus amigos precisam que você se controle.

A princípio ele não reagiu. Depois assentiu com brusquidão e disse.

— Sem problema.

Antes que ela pudesse se conter, um sorriso enorme cobriu o seu rosto.

— Ótimo. Isso é tipo, supimpa total.

Blue chegou a rir em voz alta.

— O que é tão engraçado? — perguntou Michael. — E por que está falando assim?

— Nada. — os dois disseram ao mesmo tempo.

— É porque... porque... — ela acrescentou.

Ela se virou antes que se passasse (ainda mais) por idiota e reclamou seu lugar no sofá. Vika a observava admirada. Michael e Solo com suspeita.

Seu coração martelava no peito. Michael ficaria mais irritado do que tinha pensado, ela percebeu. E culparia Blue.

Droga. Ela seria a vadia presa entre uma pedra velha e um lugar bem sexy hardcore, não seria? E um dia Blue a odiaria por isso — e teria todo o direito!

Deveria ter resistido a ele.

Mas agora que os danos estavam feitos… não havia razão para não aproveitar todo o prazer à sua frente.

— Voltando. — Ela pigarreou. — Sabemos que Tiffany trabalha em casa. Também sabemos que a casa tem guardas posicionados na porta vinte e cinco horas, oito dias por semana. Assumimos que isso é porque Star está determinado a proteger sua filha, mas e se os homens estão lá para proteger o couro?

— Posso me infiltrar. — disse Blue. — Roubar a peça.

— Pode não haver necessidade. — respondeu Evie. — Se ela for à festa pode compelir um convite à casa. Você queria sair com ela de todo jeito. E dessa forma ela fará com que os guardas esperem do lado de fora, bem como desligará qualquer alarme que tiver dando a você espaço e a noite inteira para procurar desimpedido.

Blue coçou a mandíbula o olhar preso ao dela. Esperando que ela rejeitasse a ideia dele sozinho com a garota? Evie não havia mentido. Ela confiava nele. Sua honra não era prontamente aparente à primeira vista, mas ela existia.

— Tudo bem. — ele finalmente disse. — Mas se ela não for, entro depois da festa.

Onde estava a confiança inicial dele de que Tiffany não perderia um encontro com ele?

— De acordo. — E enquanto isso Evie iria atrás de Tony Star com tudo o que tinha — charme, drogas, o que fosse necessário — e tentaria obter seu próprio convite. Se ele estivesse mantendo John refém, sofreria e imploraria para morrer antes que ela finalmente acabasse com ele.

Quando isso tudo acabasse, todos os Stars estariam mortos.

Sem misericórdia.

— Lembra-se de Tyrese Cooper? — perguntou Michael, mudando de assunto. — Finalmente o internei em uma clínica de reabilitação. Ele é casado, mas tinha uma amante. A amante engravidou e ele serviu a esposa com os papeis do divórcio. Algumas semanas depois a amante desapareceu. Então, alguns dias atrás, fotos foram enviadas para o Sr. Cooper. Nelas a amante estava na cama com homens diferentes. Vários homens diferentes. Para olhos leigos provavelmente pareceria estar se divertindo, mas havia sinais de que estava drogada e amarrada.

Possivelmente sequestro. Depois… castigo? Para ela? Ou para o Sr. Cooper? Ou, inferno, para os dois?

— Isso é inescrupuloso. — disse Vika, com o queixo tremendo.

O símbolo da vingança… A mulher do Sr. Cooper tinha providenciado para que a amante fosse ferida e o marido ser a testemunha? Ela era a única com motivo. Mas se fosse o caso, ela devia ter pagado Star para cuidar da vingança por ela. Essa era a única razão que Evie conseguia pensar para o envolvimento do homem.      

Era possível que Star tivesse sido pago para cuidar de cada vítima. Até mesmo de Michael.

— O que sabe sobre a esposa? — perguntou Blue.

— Apenas que quero que um de vocês tenha uma conversa com ela quando terminarmos aqui.

— Eu falarei com ela. — disse Solo. — O medo faz as pessoas falarem e mulheres tem uma tendência a sentirem medo de mim.

— Acho que é seguro dizer que Star está no ramo de execução de vingança. — Michael bateu os dedos no braço da cadeira. — Considerando que estávamos procurando por dezessete vítimas antes da explosão, agora estamos lidando com dezessete cúmplices. Alguém que as vítimas conhecia deve ter contatado o Sr. Star e pagado para que fizesse o trabalho sujo.

— Estava pensando a mesma coisa. — Evie disse. Mentes brilhantes e tudo mais.

Dando tapinhas nas suas costas outra vez? Argh.

— Todos os dezessete conseguiram manter o acordo em segredo. — Solo assinalou. — Ninguém andou se gabando. Sabem o quanto isso é raro?

Sim, ela resmungou mentalmente. Mas um pouco de vaidade não era uma coisa assim tão terrível — quando era merecida.

— Provavelmente por terror. — respondeu Blue. — Eles viram o que Star pode fazer e não querem que o mesmo destino os acometa.

Evie pulou na conversa, dizendo.

— Além disso, eles não iam querer se implicar em um crime.

Blue sorriu para ela.

Ela sorriu de volta.

Michael sorveu o ar e eles afastaram os olhos um do outro.

— Então, quem queria você morto? — Blue perguntou ao pai dela. — Quem pagaria uma nota preta para que você morresse?

Michael não precisou pensar.

— Sabemos que Monica Gains, minha ex-assistente trabalhou com Star, e só posso supor que tenha sido por ela ter me dito que um dos filhos dela era meu. Insisti em um teste de DNA. Quando ela se recusou lhe dei a opção de pedir demissão ou de ser despedida. Ela se demitiu.

— Espere. Com quantas pessoas você dormiu? — Evie perguntou. — Não, não responda isso. Não quero vomitar o meu Milk-shake. Se ela se demitiu, não tinha mais acesso à sua casa. Como instalou a bomba?

— Ela era um rosto familiar e cometi o erro de não contar a ninguém sobre as suas mentiras. Minha nova assistente teria deixado que ela entrasse sem pensar duas vezes.

Tudo estava começando a se encaixar. Uma mulher procurando por dinheiro rápido que certa vez teve acesso aos arquivos que Michael mantinha sobre os criminosos que perseguia. Uma mulher que saberia exatamente como tentar um homem como Gregory Star. Uma mulher procurando ferir o homem que a tinha rejeitado.

— Bem. — Evie disse. — O que faremos agora? Vamos tentar obter informação com finesse dos garotos Star como planejado?

— Sim. Mas levaremos isso ao nível seguinte. Injetaremos rastreadores de isótopo nos dois. — disse Blue. — Desse modo saberemos aonde vão e quando. Talvez eles nos levem direto a John.

Ok. Essa realmente era uma jogada genial. Estou envergonhada por não ter pensado nisso.

— Por que não fizemos isso mais cedo? — A resposta a atingiu em um instante. Não era um procedimento regular e era altamente ilegal.

Mas eles não estavam jogando conforme as regras, estavam?

— Esqueçam. — ela murmurou.

Assim que entrasse na corrente sanguínea, o isótopo enviaria um sinal rastreável pelos seis meses seguintes. Tudo o que era preciso era um computador e o código correto.

Michael queria injetar em Evie quando ela veio trabalhar para ele, mas ela se recusou. Criminosos poderiam invadir o rastreamento e encontrá-la a qualquer hora. Não, obrigada.

— Vai me levar algumas horas para conseguir as doses. — disse Michael.

— A festa começa em algumas horas. — Evie o relembrou. — Dá para fazer melhor?

— Não se apressa quando o assunto é rastreadores de qualidade, princesa. Além disso, não me importo de chegar atrasado, está de acordo com a última moda. — disse Blue, seu olhar mais uma vez preso a ela fazendo-a se arrepiar. — Afinal a festa não vai começar de fato até que eu chegue. Eu sou a bela do baile.

Acho que isso faz de mim o príncipe encantado.

        

EVIE ESTAVA NA entrada da cobertura do Star Light Hotel recepcionando os convidados que chegavam para a festa. Atrás dela a lua estava alta e dourada, um milhão de estrelas brilhando em um oceano de veludo negro. Não havia vento, a temperatura amena e perfeita.

A mãe natureza não queria arruinar a grande noite de Blue, ela supôs.

Também atrás dela, atrás de uma meia parede de espelhos, havia um oásis de verão. Uma enorme piscina no formato do número oito consumia metade do espaço. Palmeiras tentavam alcançar o céu. Uma mesa de bufê repleta com raras delicatesses atraíam a maior parte da multidão.

Evie usava um vestido de verão prateado reluzente com um traje de banho negro por baixo. Saltos de doze centímetros estilo prostituta a levavam de “talvez eu dê um mergulho” até “já estou ensopada”. A maioria dos convidados já tinha chegado. O time, os familiares e amigos. Os detentores dos ingressos da temporada.

Blue não estava ali. Ele estava com os rastreadores?

Tyson e Tiffany também não tinham chegado.

O elevador soou a campainha sinalizando a chegada de outro convidado. Ela prendeu o fôlego esperançosa. As portas se abriram e ela suspirou de decepção. E de temor.

— Evie Black. — Dallas Gutierrez se aproximou e lançou seu sorriso sedutor. — Você está incrível.

— Eu sei. Mas obrigada. — Ele vestia um terno perfeito sob medida no tradicional preto e branco, o cabelo escuro penteado para trás, os olhos azuis brilhantes. — Um penetra tão cedo. Não é de se admirar que não tenha sido informado do vestuário apropriado.

— Como se as moças pudessem aguentar me ver de calção de banho. — Inclinando-se para frente como se dividisse um segredo, ele disse. — Você notou? Não apareceram seios.

Ela tentou não sorrir. E falhou.

— A propósito, de nada.

— Pelo quê? — ela perguntou levantando uma sobrancelha.

— Pela minha presença.

Ela revirou os olhos.

— Não deixe que ele a engane. Ele não é um penetra, é um dos meus acompanhantes. — Uma mulher elegante apareceu atrás dele. Ela tinha o cabelo da cor de mel e um rosto bonito geralmente só visto em revistas. Usava um vestido vermelho curto que exibia uma barriga arredondada pela gravidez.

— Noelle Treiman. — Evie a reconheceu.

— A própria.

Blue passou um ano da sua vida com aquela mulher belíssima e elegante. Mas nunca revelou quem realmente era para ela, e Evie de repente se perguntou por que.

— Parabéns pelo casamento recente.

— Obrigada. Achei mesmo que era hora de dar um passo à frente.

Estava querendo dizer que o seu marido era melhor que Blue?

Evie fechou a cara.

— Quem é o sortudo?

— Eu. — respondeu uma voz rouca. Um homem de cabelo escuro, olhos verdes e as feições árduas de alguém que conhecia o caminho no meio de um campo de batalha passou um braço enluvado pela cintura de Noelle.

Por que luvas?

— Hector Dean, esta é Evangeline Black. — Para Evie, ela disse. — Dallas me disse que temos um inimigo disfarçado de amigo em comum.

Evie olhou com raiva para Dallas. Sim, ele teve permissão para contar todos os podres de Blue, mas não deveria ter exagerado.

— Opa. Calma Srta. Black e mantenha as mãos bem longe da sua bolsa mágica. Não quero saber se tem outro pó compacto disfarçado aí dentro. Blue queria que ela soubesse. — ele disse, levantando as mãos.

— Se isso é verdade — interferiu Noelle — por que me disse que Blue ia matá-lo por ter contado e que eu precisava protegê-lo?

Dallas levantou os braços.

— Porque isso também é verdade. Hector, controle sua mulher antes que ela acabe me matando.

— Não acho que farei isso. — disse Hector.

Noelle sorriu para ele.

— Seja como for. — Ela pegou a mão de Evie e apertou. — Se alguma vez quiser comparar as anotações estarei disponível.

O trio passou por ela sem mais uma palavra. Boa coisa também. Outra campainha soou e do elevador saiu Blue. Como sempre, o fôlego de Evie ficou preso na garganta. Ele parecia pronto para se comer — e fazia tempo demais desde que tinha feito uma prova alimentando seu vício.

Ele usava uma simples camisa branca que abraçava seus bíceps enormes e o peito definido, e um calção de banho que poderia passar por um short de golfe. Casual e pronto para o jogo, mas também pronto para o trabalho.

Seu olhar a varreu e se aqueceu. Então seu poder seguiu a mesma trilha, e era como se suas mãos a acariciassem, fazendo com que seus mamilos endurecessem e sua barriga ondulasse.

Naquela noite, depois que ele voltasse da casa de Tiffany e ela da de Tyson — dedos cruzados — invadiria seu quarto. Se ele não invadisse o dela.

— Evangeline, uau… — Outra olhada de corpo inteiro, seus olhos se demorando em todos os lugares que gostava de tocar. Ele pegou sua mão e a beijou, e ela só conseguiu ofegar com a sensação pesada de prazer que a invadiu. — Você está mara.

Não posso rir.

— Obrigada. — ela disse com um aceno formal. — Se não soubesse que está abreviando a palavra “maravilhosa ” poderia pensar que está me comparando a qualquer outra coisa.

— Mara e inteligente. — Ele abaixou a voz. — As coisas que quero fazer com você…

Não posso cair nos braços dele.

— Ah, é?

Ele assentiu — e depois pegou a sua bolsa e remexeu seu conteúdo.

— Um rolo de dinheiro chinês. Um punhado de amarras de plástico. Sachês de molho da Taco Bell. Um bracelete da irmandade Immortals After Dark. Seis alfinetes de dama. Uma mini-Tazer. E agora uma caneta. — Ele segurou a caneta de aparência simples à luz e apertou a ponta.

Não era uma caneta, ela percebeu. Uma agulha ao invés da bola esferográfica emergiu. Dentro da caneta estava o rastreador de isótopo.

— Perfeita para a minha coleção. — ela disse.

Olhos cor de lavanda se estreitaram com determinação surpreendendo-a.

— Achei que gostaria. — Ele pegou sua mão do mesmo jeito que fez na primeira vez em que se conheceram e a beijou. — Perdoe-me, mas…

Uma picada forte em sua palma.

Ela franziu o cenho e puxou a mão. Uma pequena gota de sangue se acumulou no seu dedo indicador — uma picada de agulha?

A expressão dele era severa e intratável.             

Ela abaixou a vista, viu o anel do NOFL Super Bowl brilhando em sua mão. Ele nunca o usou antes.

— O que fez? — ela exigiu baixinho.

— O que precisava para mantê-la a salvo. De nada.

— Blue...

A campainha do elevador soou, poupando-a de ter que formar uma resposta — seria uma ameaça de morte sem dúvida. Porque se tivesse que adivinhar diria que ele havia acabado de usar o rastreador de isótopo nela.

Ele lhe passou sua bolsa, a expressão ausente de qualquer emoção. Eeee, do elevador saíram...

Tyson e Tiffany Star.

Cara de negócios no lugar.

Evie cobriu a raiva crescente com uma máscara imparcial.

Blue deu um sorriso de megawatt para Tiffany e Evie se admirou dele já ter sido capaz de enganar alguém com seus talentos de atuação. Não parecia inebriado, mas sim determinado.

— Estava perguntando a Srta. Black se você já havia chegado. — ele disse à garota. — E aqui está você, como um desejo se tornando realidade.

Tyson enrijeceu, mas Tiffany ofereceu um sorriso tímido em troca.

Evie não sentiu nada de ciúmes. E bem estranhamente, até sua raiva passou. Blue estava fazendo o melhor para encontrar o amigo e ele sabia o quanto uma distraçãozinha podia estragar as coisas. Preocupar-se com a sua mulher — uma mulher que estava sendo perseguida pelo inimigo — tinha que ser a maior distração possível.

Então agora você é a mulher dele?

Bem, sim. Por enquanto.

— Você é tudo que minha irmã tem falado, Sr. Blue. — disse Tyson, zero de emoção em seu tom. Contudo, seus olhos entregavam. Chamas ardiam nas profundezas de um azul marinho.

Tiffany deu uma olhada nervosa para ele.

Evie se perguntou se o cara alguma vez se tornou violento com ela.

Se fosse o caso, bem, poderia dar um chute nele por isso quando eles o pegassem. E eles o pegariam de alguma maneira. Como Blue, ela trouxe uma farmácia inteira em seus anéis. Um tinha o soro da verdade, outro um sedativo, outro um afrodisíaco e um continha uma dose enorme de um bom sossega leão. Ela usaria todos se fosse necessário.

— Por favor. Apenas Blue. — Ele tomou a mão de Tiffany. — Eu pensei muito em você desde aquele dia na cafeteria, perguntei a mim mesmo se estava bem e se alguma vez a veria de novo.

A garota corou, e sinceramente, foi meio que… doce.

Quase sinto pena dela. Quase.

— Pedi umas mil vezes ao meu pai para que conhecesse você. — disse Tiffany. — Não tenho permissão pra sair com ninguém que ele não conheça. Mas se recusou. Sinto muito.

— Encontraremos um jeito. Sem problema.

A frase foi uma carícia para os ouvidos de Evie.

Tyson passou a língua pelos dentes lembrando-a do seu trabalho.

— Sei que isso vem um pouco atrasado, mas seja bem-vindo. — ela disse para ele. — Sou Evangeline Black, a anfitriã desta noite.

O herdeiro Star se adiantou e acenou em cumprimento.

— Tyson Star.

— Ah. O ilustre proprietário deste incrível paraíso. — Ela indicou a piscina com a mão. — Estava esperando pela chance de falar com você.

— E eu com você. — Ele pegou a sua mão e depositou um beijo.

Ela fingiu estar encantada. Era um homem bonito, alto como a irmã e com o corpo em boa forma. Não usava roupas casuais. Como Dallas, estava de terno. Ele não era do tipo que relaxava, nisso ela apostaria.

Posso ajudar com essa parte.

— O seu pessoal fez um trabalho maravilhoso. — ela disse.

— Nós só contratamos os melhores.

Como você é especial.

— Bem, isso certamente se vê.

Blue e Tiffany passaram pela parede espelhada, sussurrando um para o outro, obviamente flertando e, para qualquer observador, aparentemente perdidos um no outro. Tyson observava, os ombros ficando mais rijos a cada passo que o casal dava. Um guerreiro se preparando para a batalha.

Evie sorriu para ele esperando distraí-lo.

— Parece que você precisa de uma acompanhante, Sr. Star. Venha que vou te apresentar ao resto do time.

 

         Blue estava tendo problemas para se concentrar. Conversas e risos corriam noite adentro. De vez em quando alguém pulava na piscina e água morna batia em todos por perto, arrancando gritos de susto.

Um desses gritos veio de Evie. Ela usou a água como desculpa para levar Tyson à extremidade da cobertura, um local isolado que tinha as luzes da cidade. Os dois ficaram lá por duas horas conversando. O olhar de Tyson de vez em quando voltava à Tiffany. A certo ponto ele até tentou se afastar de Evie, mas ela de algum modo o convenceu a continuar ao seu lado.

Blue nunca tinha visto uma mulher com a qual estava dormindo flertando com outro homem. Mas também, Evie podia muito bem já estar farta dele. Ela suspeitava que ele havia injetado nela o rastreador.

Que pena, princesa. Nós estamos juntos e assim vamos ficar.

Quantas mulheres ele tinha observado ao passar dos anos que ficavam se perguntando a respeito de seus afetos? Quantas mulheres deixou destroçadas, furiosas e frustradas?

Muitas. Já estava cansado de viver daquele jeito.

Olá. Meu nome é Blue e sou um bad boy reformado.

Não podia culpar o ciúme pelo seu presente humor. Sabia que os jogos de flertes daquela noite não passavam disso. Sabia que Evie não sentia nada a não ser desprezo por Star e que ela não chegaria a fazer nada sexual. Sabia que fazia aquilo por John. Por Blue. E sabia que ela podia se proteger.

Ele culpava os seus anseios. Ele e Evie não poderiam ter um relacionamento aberto. Tinham que esconder a afeição que sentiam um pelo outro. Blue não poderia ficar ao lado dela e olhar para os flashes das câmeras. Blue não podia colocar o braço em volta dela nem beijá-la à luz da lua.

Também não podia deixar a festa com Tiffany até que Evie convencesse Tyson a levá-la para outro lugar. Qualquer lugar. Do contrário, o irmãozão mais velho com certeza tentaria impedir que Blue saísse com a irmãzinha, e isso desviaria desnecessariamente o plano.

Pelo menos Blue não precisava entreter Tiffany enquanto esperava. Algumas das amigas dela foram convidadas e elas a levaram para fofocar a respeito dele — se tivesse que adivinhar do que falavam. Ele reclamou uma cadeira em uma mesa vazia para observá-la… e certo, sim, para ficar de olho em Evie. Ele dividia a atenção entre as duas.

Tyson passou as costas dos dedos pelo braço de Evie.

Blue enrijeceu. Quando John estiver a salvo arrancarei esses dedos com uma faca de mesa.

— Sozinho? — uma mulher disse. — Que peninha.

Reconheceu a voz e fechou os olhos, rezando para ter paciência.

Noelle Treiman sentou na cadeira ao lado da dele. A luz das tochas a banhou iluminando um belo rosto que uma vez quis tanto amar.

Em saudação, acenou para ela.

— Você parece bem.

— Não seja modesto. Pareço magnífica. — Ela sorriu friamente e acenou para alguém do outro lado. — Vai me parabenizar pelo casamento e gravidez ou vai continuar a olhar para a dona do seu time de cara fechada?

Ela tinha notado. Droga. Outros também podiam ter notado.

— Parabéns. — ele disse, encarando-a completamente. — Fico feliz por você.

— Fica? Sério?

Aquilo já tinha mais do que passado da hora, não tinha?

— Sim, fico de verdade. Peço perdão pelo modo como a tratei, Noelle. Nunca foi minha intenção te magoar.

A frieza permaneceu.

— Bem, você magoou. Foi um péssimo namorado. Tipo, eu podia ter enfiado uma faca nas suas tripas e nenhuma mulher do mundo teria me condenado pelo crime. Você sempre estava tentando me mudar e no fim até tentou me proibir de ver Ava.

Ava. A melhor amiga dela. As duas eram praticamente coladas.

— Onde ela está hoje?

— Fora da cidade caçando com o seu marido vampiro.

— É verdade. Ouvi falar que ela pôs uma coleira em um vampiro feroz capaz de fazer o tempo parar.

Evie riu, o som deslumbrante atraindo a atenção de Blue. Ela estava conversando com Tyson indicando os elevadores, mas ele fazia que não com a cabeça.

Só um idiota recusaria aquela beldade de cabelo preto.

Houve um leve endurecimento nos ombros dela, mas se recuperou rapidamente e estendeu a mão para brincar com as pontas do cabelo do homem. Qualquer ressentimento que Blue pudesse ter sentido com a ação evaporou quando o seu anel de esmeralda brilhou sob a luz da lua.

Essa é a minha garota.

Não demoraria muito agora.

— Blue. — Noelle disparou.

Noelle. Certo. Ele se forçou a olhá-la.

— Olhe, você era um trabalho designado para me apresentar às pessoas certas. Eu gostava das suas travessuras, gostava mesmo, mas você estava me gerando problemas. Sinto muito se tentei mudá-la, sinto de verdade. Você é maravilhosa exatamente como é. Sempre mereceu coisa melhor e eu sabia disso, e foi por isso que a incitei a romper comigo dizendo para não voltar a ver Ava. Meu chefe não podia me forçar a namorar uma mulher que não queria nada comigo.

Ela o surpreendeu com um sorriso. Uma pequena surpresa, de curta duração, mas inegável.

— Sei que eu era um trabalho, Blue. Agora. Dallas me contou o que descobriu sobre você e tudo se encaixou. Tem sorte de eu não ter descoberto naquela noite ou teria acordado com as bolas enfiadas na boca. Também tem sorte por eu saber como extrair promessas do meu querido marido. Ele teria feito coisa muito, muito pior com você. Ele é bem primitivo, sabe?

— Se ele quiser resolver algo comigo vai ter que entrar na fila.

Esfregando as mãos pela barriga estufada, ela disse.

— Quando o assunto é mulheres em sua vida, aprendeu alguma lição?

— Gosto de pensar que sim. — Ele observou Evie entrelaçar os dedos com Tyson e levá-lo até os elevadores. Desta vez ele não ofereceu resistência.

Quando eles desapareceram por trás da parede de espelhos, Blue se levantou.

— Foi um prazer conversar com você, Noele, e se alguma vez existir alguma coisa que eu possa fazer pra te ajudar, por favor me diga. Mas no momento preciso ir. — Ele não esperou pela resposta dela e se dirigiu diretamente à Tiffany.

 

BLUE COMPELIU TIFFANY a ir até o seu carro, depois a sentar calada durante os quinze minutos que levaram para chegar até a casa dela. Sequer protestou quando ele enfiou uma agulha em sua coxa com o isótopo, mesmo que ele pudesse ter usado de mais força do que o necessário. Odeio essa garota.

Mais uma tarefa da lista cumprida.

Estacionou no meio-fio estudando a fila de casas. Todas eram enormes, bem cuidadas e de pedras amarronzadas semiligadas. A de Tiffany era fácil de se distinguir porque havia dois seguranças armados na porta.

— Você vai dizer a eles que quer que eu entre, que vou passar a noite e que eles não devem nos interromper.

— Sim. — ela disse, os olhos vidrados e a voz monótona.

Não tinha outro jeito. Ele saiu do carro, deu a volta e abriu a porta. Daquele ângulo a lua não estava tão brilhante e as estrelas não estavam tão cintilantes. Melhor ainda, as calçadas estavam vazias.

Colocou um braço em volta dos ombros dela e caminhou com ela até a porta. Os seguranças o observavam com cautela.

— Quero que ele entre. — disse Tiffany. — Ele passará a noite e vocês não devem nos interromper.

Se notaram a falta de inflexão na voz dela não comentaram nada.

Ela entrou e Blue se moveu atrás dela fechando e trancando a porta.

Ele a levou até a sala de estar, só no caso dos guardas estarem escutando atrás da porta.

— Você tem algum empregado?

— Não. Estamos sozinhos.

— E quanto ao seu irmão e pai? Eles aparecerão para uma visita?

— Não.

Que pena.

— Tiffany, você está cansada. Você vai dormir agora e quando acordar acreditará que transamos e que foi incrível. — Dessa forma, se precisasse vê-la outra vez, ela teria mais chance de concordar.

— Cansada. — ela disse, bocejando em seguida. — Dormir. Sexo. — Os olhos dela se fecharam e os joelhos cederam, mas Blue a capturou antes que caísse no chão. Ele encontrou a suíte principal no andar superior, um espaço enorme e bagunçado com roupas jogadas por todo o chão projetado de madeira.

Ele a colocou na cama, tirou sua roupa e bagunçou os lençóis para apoiar qualquer fantasia sexual que a mente dela criasse.

Enquanto vasculhava a casa inteira, plantou grampos em cada um dos aposentos. Ele olhou as poucas fotos que ela possuía. As dela com o pai e o irmão. A julgar pelo sorriso do Star pai para a filha, ele a adorava — informação que talvez pudesse ser usada contra ele.

Michael não achava que Star fosse do tipo que cedia a exigências, mas podia valer a pena tentar.

A casa não parecia ter passagens secretas. O que tinha mesmo eram pilhas e pilhas de roupas, rolos de diferentes tecidos e dispositivo após dispositivo digital lotado de desenhos digitais.

         Ele deu uma olhada em alguns desenhos, procurando por qualquer coisa que tivesse a ver com a linha Golden Sunrise — e encontrou muita coisa. Lutou para se controlar enquanto lia as anotações que ela fez nas margens.

Guardar os cortes descartados dos ombros e usá-los como bainha decorativa na saia.

Ajustar o couro aqui para acentuar a linha da cintura.

É possível fundir o Rakan com seda para dar uma sensação mais suave?

De repente a porta da frente se abriu. Múltiplos pares de pés foram ouvidos.

Blue soltou o dispositivo e procurou pela sua pyre-gun. Três seguranças apareceram pelo canto, justo quando ele mirou. Podia ter atirado no do meio e eliminado os outros dois em uma fração de segundo depois, mas havia mais guardas vindo atrás do trio original. Poderia liberar o anel de energia, chocando todos da vizinhança, mas daí ficaria esgotado.

Por que arriscar se podia sair dessa no papo?

Quando os três primeiros apontaram pyre-guns para ele, levantou as mãos em pura inocência.

— O Sr. Star gostaria de ter uma conversinha com você. — disse o do meio. — A condição em que encontrarmos a garota será a mesma na qual você vai deixar a residência.

Bem, bem. Que bom que ele tinha optado não usar a terapia grupal de choque.

— Mas que surpresa. — ele disse com um sorriso ausente de humor. — Eu também gostaria de falar com o Sr. Star.

Passos ecoaram da escada. Depois um homem falou.

— Ela está bem. Só está dormindo.

Blue permitiu que os homens o levassem da casa até um SUV escuro. Esperava que Tiffany fosse deixada em casa sozinha; com a mão de lado, rapidamente passou uma mensagem para Solo dizendo que fosse lá pegá-la… mas que tivesse cuidado. Mesmo assim, Blue duvidava que as coisas seriam tão fáceis. Muito provavelmente Star a moveria para uma locação secreta mantida sob uma vigilância maior.

Um homem deslizou no assento da frente quando dois se puseram de cada lado de Blue no traseiro com as armas apontadas para ele.

— Está com medo? — perguntou o da frente. — Devia ficar.

— Estou com fome. Tiffany é uma gatinha selvagem e isso abriu meu apetite. Tem algum lanchinho?

O da frente o olhou com raiva.

O cara à sua esquerda o olhava com reverência.

— Você, sei lá, autografaria a minha camisa ou outra coisa, Sr. Blue? Sou um grande fã desde...

Um olhar do da frente o calou.

— Nós permitimos que você ficasse com suas armas por ordem do Senhor Star. Mas isso também quer dizer que temos o direito de nos defender se você provocar. — Ele acariciou o cabo da arma. — Por favor, provoque.

Blue sorriu.

— Talvez outra hora.

         O resto do caminho se passou em silêncio. Quando o carro parou na frente da casa de Star viu que a área inteira estava iluminada por gigantes postes de luz. Dois outros guardas estavam esperando e abriram a porta para Blue emergir do carro. Ele o fez sem hesitar. John estava em algum lugar lá dentro e Blue passou despercebido na última vez em que esteve ali?

Vasculhou o saguão de entrada com os olhos memorizando cada detalhe, coisas que poderia ter ignorado em sua pressa. O chão era de mármore com veias douradas. As paredes eram brancas e manchadas de dourado. No teto, o candelabro parecia com videiras de uma hera dourada com milhares de minúsculas safiras e rubis desabrochando de folhas de esmeraldas.

             Claramente Star tinha uma obsessão com ouro.

Calma. Tranquilo.

Um Gregory Star de cenho franzido abriu um par de portas duplas que levava ao seu escritório. Era um pouco mais alto que Tyson, com cabelo grisalho, um corpo magro e as feições de um homem que tinha visto o pior que o mundo tinha a oferecer — e que causou muito desse pior.

— Bem-vindo, Sr. Blue. Bem-vindo. — Acenou para que Blue se aproximasse. — Entre. Vamos conversar em particular. — Depois voltou as costas para Blue, como se não tivesse medo algum do que ele pudesse fazer.

Blue o seguiu sem tocar em qualquer uma de suas armas. Algo realmente de se admirar. Mas o bem-estar de John vinha antes da fúria e da vingança.

O escritório era bem parecido com o de Michael. Cadeiras de couro escuro, uma mesa enorme, tapetes felpudos e fotos em holograma dos filhos em exibição nas paredes.

Star sentou atrás da mesa e Blue em uma cadeira à sua frente.

— Não gosto que tenha ido atrás da minha filha. — disse Star, as mãos em formato de pirâmide na frente do rosto. — Ela é inocente em tudo isso e não merece ser magoada.

Blue fez um som de reprovação com a língua.

— Ora, nós dois sabemos que ela está longe de ser inocente, e francamente, eu me sinto insultado que esteja tentando me convencer do contrário.

— Então não iremos fingir ignorarmos a situação. — disse Star, assentindo com a cabeça. — Eu aprovo.

— Fico muito feliz. — Blue respondeu com ironia.

Um sorriso passageiro, ausente de humor.

— Levei um tempo para descobrir que você era mais do que uma estrela do futebol e por isso me sinto profundamente envergonhado. Geralmente não sou tão lento. Mas agora pelo menos sei que você faz parte do time Black Ops do governo.

— O que me entregou?

— Meu filho mandou homens atrás da Srta. Black esperando forçar uma reaparição do pai dela. Esses homens apareceram mortos. E você, Sr. Blue, foi visto entrando na surdina na casa dela pouco tempo depois. Então me perguntei, por que um playboy como você manteria um relacionamento desses em segredo? Você não se intimidaria com a ideia da imprensa marrom. Não liga para o que as pessoas pensam de você. Então tive que supor que não estava lá atrás de sexo, mas sim por proteção. Como estou indo até o momento?

— Na verdade, muito bem. — A sua reputação finalmente teria serventia. Star não tinha ideia que Blue e Evie estavam envolvidos romanticamente ou que Evie era uma agente.

— Então, é claro, houve o fato de você vir atrás da minha filha e de grampos serem encontrados em minha casa. Sim. Nós os encontramos e destruímos. E não pense em tentar outra vez. Há algumas horas acrescentei um vibrador audível no interior das minhas paredes. Não conheço todos os aspectos técnicos, só que ele mistura todos os sinais de rádio.

— Obrigado pelo aviso.

Star assentiu como se estivesse falando sério.

— Depois teve o fato da minha filha ficar obcecada com você. E quando vocês se encontrarem ela agir como um robô. — Meus homens me ligaram preocupados. Você a submeteu a algum tipo de influência, suponho?

Blue deu de ombros.

— Sabe, vocês extraterrestres podem ter suas habilidades sobrenaturais, mas nós humanos temos nossos meios. Há drogas que podemos tomar para nos deixar imunes à compulsão Arcadiana, embora os efeitos colaterais sejam terríveis. Nunca achei que valia a pena o trabalho. Até agora. Também o vi jogar. Vi as coisas que já fez em campo, o poder que utilizava com habilidade. Tomei precauções contra isso também. Eu te desafio a tentar gastar sua energia.

Ele teve o cuidado de manter a expressão neutra. Suas armas foram arrancadas uma por uma.

— Aplausos para vocês fazendo o que podem para se proteger. Mas há outras formas de atingi-lo.

Uma chama de irritação nos olhos de Star. Uma que trazia um quê de crueldade. Ali estava o garoto das ruas. O garoto suspeito de vender órgãos no mercado negro. O garoto com a habilidade de tirar a carne dos ossos.

— Está com raiva de mim, Sr. Blue, quando não há motivo pra ficar.

— Não há motivo? Está de sacanagem com a minha cara? Você explodiu meu chefe e os meus amigos mais próximos. E ah, sim. Eu também.

— Você e os seus amigos foram simplesmente um efeito colateral. A assistente anterior de Michael Black, Monica Gains, me procurou. Ela disse que o Sr. Black era um agente do governo e que estava investigando dezessete desaparecimentos ligados ao meu nome. Fiquei surpreso, admito. Considerava o Sr. Black um excelente rival nos negócios, mas nada mais do que isso. Ela disse que podíamos nos ajudar mutuamente.

Michael estava certo.

— Eu raramente pergunto às pessoas que se associam comigo os motivos, mas no caso dela, já que eu estaria atacando a Nova Ordem Mundial, fiz uma exceção. Parece que ela ficou terrivelmente endividada e seu precioso Michael não levantou um dedo para ajudá-la. Ao invés disso, piorou tudo tirando sua única fonte de renda. E depois de tantos anos de serviço e dedicação. Vergonhoso.

No trabalho dele confiança significava tudo, e Monica a havia quebrado.

— Então, quando veio a detonação, meus amigos e eu só estávamos no lugar errado e na hora errada.

— Exatamente.

— Mas de qualquer forma você decidiu tirar proveito da situação. Vendeu um e levou o Rakan.

Star meramente piscou, curioso.

— O que o faz pensar que o seu amigo sobreviveu à explosão?

Tanto esforço para não fingir.

— Vi os desenhos. Sei para que vocês o estão usando e não descansarei até que volte são e salvo para casa.

Star o olhou por um longo tempo, calado, impassível.

— Se estivesse preocupado com o seu envolvimento, Sr. Blue, já estaria morto agora. Mas nada que eu te disse pode ser provado, nem algo que já não tenha descoberto por conta própria. Tomei todas as medidas possíveis para proteger o meu investimento, bem como a mim mesmo.

— Você não é infalível.

— Concordo em discordar. Porque, sabe Sr. Black, se eu morrer seu amigo morre. Sou o único que sabe onde ele está. Sem mim ele perecerá de fome.

Blue mordeu a lateral da língua até sentir o gosto de sangue.

— Tente usar meus filhos pra fazer uma troca e encontrará partes do seu amigo vendidas em leilão. Um braço aqui, uma perna acolá.

— Estaria condenando os seus filhos à morte.

— E eu choraria a morte deles, desprezaria você e faria tudo em meu poder para conseguir me vingar, mas não estaria atrás das grades e isso é o que mais importa.

Como Blue deveria lidar com um homem com um coração tão frio quanto aquele?

— Falando dos meus filhos, Tyson me ligou pouco antes de você chegar. Ele vive no Star Light Hotel e levou a Srta. Black para sua suíte. Ele a pegou xeretando e isso o fez pensar qual seria o envolvimento dela em tudo isso. Ele está determinado a castigá-la — Star levantou uma pyre-gun — e você levará a culpa.

 

EVIE COMETEU VÁRIOS ERROS ESTÚPIDOS. Usou o afrodisíaco em Tyson e ele havia respondido — só não do jeito que esperava. A luxúria tinha se transformado em agressão e ele ameaçou apagar Blue, sua necessidade de proteger a irmã do playboy superando e muito a necessidade de satisfação sexual.

Ela chegou a pensar que o cara podia bater em Tiffany, mas agora sabia que não era o caso. Ele venerava a garota.

Então, para controlar a agressão, Evie usara uma pequena dose de sedativo.

Devia ter usado mais, mas não queria que Tyson (1) desmaiasse na cobertura antes que conseguisse convencê-lo a levá-la ao seu quarto ou (2) adormecesse no momento que chegasse ao dito quarto, arruinando qualquer tipo de interrogatório.

Dois guardas tomaram sua bolsa antes de permitirem que ela passasse pela porta do quarto e foi incapaz de pensar em uma desculpa para retirar a “caneta”. Depois Tyson dormiu quando eles entraram e ela devia ter percebido que não era um sono profundo que com uma dose tão pequena quanto a que tomou ele acordaria bem depressa. Ao invés disso, usou o tempo disponível para vasculhar suas coisas. Ele acordou, percebeu que foi drogado e a encontrou em seu escritório. Não havia como sair daquela situação precária.

Com as mãos ao alto ela deu a volta na mesa.

Ele apontava uma pyre-gun para ela.

— Essa foi por pouco. — Ele indicou a pilha de papeis que ela havia acabado de deixar cair. — Encontrou algo interessante?

Na verdade, sim. Confirmação de um vício em drogas do qual ele não havia se livrado (instrumentos) e confirmação de que a linha de roupas Golden Sunrise estrearia em duas semanas (convites).

— Finalmente, nada a dizer. — Ele estreitou os olhos para ela. — Você é uma bela mulher, Srta. Black, e o tempo que passamos na cobertura me fez questionar a minha decisão de usá-la para atrair seu pai. Mas você provou que é igualzinha ao velho e isso quer dizer que precisa ser eliminada.

Ela sorriu e se aproximou um pouquinho mais dele.

— Ser comparada a Michael Black é um elogio. Mas você é igualzinho a Gregory Star e isso não é.

As narinas dele dilataram.

— É sim.

Por favor. Não era e os dois sabiam disso.

Um pouco mais perto…

— O que você tem contra Michael, afinal?

— Ele ia tentar trancafiar o meu pai... ou matá-lo. As Indústrias Star teriam sofrido a perda. Minha herança teria sofrido. Minha irmã e eu aguentamos muita coisa para perdermos tudo agora.

Só mais um pouquinho…

— Bem — Evie disse, sem querer sentindo pena dele pelo que quer que tenha aguentado nas mãos de Gregory Star —, vamos ver o que posso fazer. — Ela atirou a perna no ar e bateu na mão com a arma. Instintivamente, ele apertou o gatilho, mas o movimento perdeu a mira nela e a luz clara de laser atravessou a parede.

Ele ficou surpreso, despreparado, e Evie conseguiu golpeá-lo no nariz com a palma da mão, colocar-se ao seu lado e dar uma cotovelada em sua nuca. Ele caiu de joelhos chiando de dor.

Ela pegou a arma que ele ainda segurava com a intenção de tirá-la de sua mão — só para ouvir um clique bem familiar. Ela congelou.

— Muito bem, garotinha. — A voz ríspida vinha da porta. — Sem movimentos bruscos.

Ela olhou por cima do ombro, viu um dos guardas que estava a postos na porta de entrada apontando a arma na altura do seu coração e mais dois outros homens atrás dele.

Tyson a empurrou e conseguiu se levantar. Os seus olhos a fitavam com fúria e sangue escorria do seu nariz.

— Amarrem-na. — disse com a voz fanha.

A pyre-gun permanecia mirando nela quando os outros dois guardas se aproximaram. Seus braços foram amarrados às costas com algemas a laser. Espinhos de medo se encravaram em seu peito e seu sangue ficou frio.

— Os convidados já foram? — Tyson perguntou.

— Sim, senhor.

— Então vamos levá-la para a cobertura.

         Eles iam atirá-la lá de cima, não iam?

         Evie lutou contra os homens quando foi levada da suíte na direção de um elevador privativo.

— Vá em frente. Grite. — Tyson disse. — Ninguém vai te ouvir.

O grupo entrou no elevador e as portas se fecharam, selando-os dentro. Ela calculou mentalmente a probabilidade de uma fuga com sucesso. Se derrubasse o cara da direita com uma cabeçada e vedasse as vias áreas do da esquerda com um chute rápido, isso deixaria o outro cara e Tyson. Ela levaria um tiro antes de conseguir chegar em qualquer um dos dois.

A coisa era que isso não era pior do que a esperava na cobertura. Daí, foi o que ela fez. Cabeçada. Cara gemeu. Chute rápido. Cara caiu.

Só que não foi baleada. Levou uma coronhada com a pistola na lateral da cabeça. Uma dor aguda se derramou dentro dela e estrelas brilharam em sua linha de visão.

Os dois caras que ela golpeou se levantaram com raiva no rosto e quando as portas se abriram eles a puxaram com brusquidão. Qualquer esperança de que um convidado tenha se demorado no local evaporou. A área inteira estava deserta. Copos vazios e pratos com restos espalhados pelo chão. Boias flutuavam na superfície da piscina.

Tyson a encarou, a vontade de matar brilhando em seus olhos gélidos.

— O que vai acontecer é o seguinte, Srta. Black. Não tenho gosto para apreciar a morte então vou deixá-la. Esses gentis cavalheiros vão amarrá-la a uma cadeira e atirá-la na piscina. Você se afogará e tenho certeza que será extremamente doloroso. Depois, quando estiver morta, eles removerão a cadeira e as algemas e a atirarão de volta à água. Amanhã de manhã quando os funcionários vierem limpar, você será encontrada morta. Corbin Blue estará na mesma cadeira que tiramos de você com o cérebro espalhado pelo chão. Um trágico assassinato seguido de suicídio que o mundo jamais esquecerá.

Não entre em pânico.

— Um leve problema com o seu plano. Mais de cem pessoas o viram sair comigo.

— E foi isso que fez o Sr. Blue se enfurecer. É por isso que ele me esmurrou, drogou e a levou do meu quarto.

— Mas ele foi embora com a sua irmã.

— Apenas para me deixar com ciúmes. Mas como Tiffany vai dizer depois, ele falou da raiva que estava de você, a ira aumentando e aumentando até chegar ao ponto de abandoná-la com toda a intenção de te encontrar.

Continue tentando.

— Quer mesmo o meu assassinato ligado ao seu nome?

— Não, mas será um pequeno preço a pagar para me livrar de você.

Nossa!

— Nunca conseguirá capturar Blue.

O sorriso dele exibia todas as faces da maldade.

— Já foi feito. — Ele assentiu para os homens antes de se virar e ir embora.

Enquanto ela saltava e chutava, foi arrastada para uma cadeira. Embora tivesse conseguido alguns golpes decentes, os homens eventualmente foram capazes de forçá-la a sentar. E quando as algemas foram presas às costas da cadeira, ela teve que parar todo o movimento. Continuar a lutar lhe custaria as duas mãos.

Quer suas mãos ou a sua vida?

Em poucos minutos ela poderia não ter mais nenhuma das três.

A cadeira foi levantada e carregada até a água. O medo retornou, fazendo-a tremer.

— Quanto ele paga a vocês? — ela se apressou. — Porque eu triplico o valor.

— Às vezes não é o dinheiro que interessa. — um deles respondeu. — Às vezes só o que interessa é a diversão.

Ela foi derrubada na piscina de cara.

A cadeira era de metal e pesada, e afundou rápido. A água quimicamente tratada ardendo em seus olhos, enchendo seus ouvidos. O medo aumentou e o pânico ameaçou tomar conta. Calma. Fique calma. Pense!

Ela chutou as pernas até virar a cadeira numa posição em pé. Sabia que os homens ainda estavam lá em cima observando, porque podia ver as sombras pela superfície da água e pelas madeixas escuras que flutuavam em frente ao seu rosto.

Não pode deixar que eles a impeçam. Ela angulou o corpo pra frente para poder se levantar, depois andou na direção da escada, a cadeira como uma casca de tartaruga. Se conseguisse chegar aos degraus poderia sair da piscina e respirar.

Eles simplesmente a jogariam de volta.

Sim, mas ela teria mais tempo, dando a Blue uma chance de encontrá-la. Sabia que ele encontraria. Sabia que não foi capturado. Ele era forte demais, inteligente demais. Determinado demais.

Mas muito rápido seus pulmões começaram a queimar, queimar tanto que aquela queimação se espalhou para o centro do seu peito, em seguida para sua garganta e nariz. A escuridão desceu como uma cortina sobre seus olhos. Onde estavam os degraus? Não conseguia ver a porra dos degraus!

Desesperada, Evie chutou e puxou os braços para que pudesse soltar as mãos. E daí? Respirar. Preciso respirar. Por favor. Por favor. Isso não podia ser o fim. Sua última lembrança não podia ser de derrota sabendo que Blue seria culpado pela sua morte de um jeito ou de outro.

De repente, a água que pressionava Evie desapareceu e ela sorvia o ar desesperadamente, os pulmões praticamente chorando de gratidão. A cadeira caiu para trás esmagando suas mãos contra o concreto seco.

Ela conseguiu chegar até os degraus? Subiu sem nem perceber?

Gradualmente, a escuridão foi desaparecendo e cores começaram a ganhar forma. Franziu o cenho. Percebeu que não tinha de fato saído da piscina. Ainda estava no fundo — a água flutuando acima dela. Como uma nuvem.

Estranhos sons abafados atraíram sua atenção. Ela virou a cabeça e viu Blue na outra extremidade da piscina, os braços erguidos para o alto como se segurasse a água onde estava.

Ela sacudiu a cabeça para desalojar o que tinha dentro dos ouvidos.

— ... agora! Evangeline. — ele gritou. — Saia. Saia daí agora.

Sim. Ela lutou para se colocar de pé. Suas pernas tremiam mais violentamente a cada centímetro que ganhava. Chegou até os degraus. No momento que subiu todos a água caiu na piscina como uma onda se quebrando, água batendo em todas as direções.

Blue correu para o seu lado e desativou as algemas.

— Guardas? — ela ofegou, trazendo os braços para o peito e esfregando os pulsos machucados e doloridos.

— Mortos.

— Tyson?

— Não sei. — Blue a puxou para os braços, abraçando-a forte. Ela não tinha energia para fazer nada mais do que se apoiar nele e aceitar seu conforto. — Eu não o vi, mas da próxima vez que ver vou arrancar suas tripas.

O tremor em suas pernas migrou para sua mandíbula fazendo os dentes baterem.

— Ainda não. Star castigará… John. — Ele nunca se perdoaria se Star machucasse seu amigo como resultado de suas ações. — Como você… me… encontrou?

— Isótopo.

— Sabia.

— Não fique com raiva. Isso salvou sua vida.

— Não, você salvou. Só… me… leve… para casa.

— Ok, baby. Ok. Vou levá-la para casa.

        

No carro, Blue ligou o aquecedor no máximo e mirou todas as saídas de ar na direção de Evie. E então começou a ferver de raiva. Fúria era uma entidade viva dentro dele. Fúria dirigida aos Stars. A si mesmo. Inferno, até mesmo a Evie.

Ela quase morreu.

Ficava se lembrando de como incapacitou Gregory Star com um anel de energia antes que pudesse disparar um tiro, permitindo que Blue escapasse da casa. Como usou sua supervelocidade para chegar ao hotel, depois atravessá-lo gritando o nome de Evie. O rastreador tinha garantido que ela estava no prédio, mas não o lugar específico. Checou a suíte de Tyson e encontrou evidência de luta. Voou até a cobertura como última opção, sem achar realmente que o homem a tivesse levado de volta à festa, mas sem saber onde mais procurar.

Então viu os homens olhando para a piscina e rindo. Viu Evie no fundo, lutando pela vida. Ele usou o que restava do seu poder para rasgar os homens em milhares de pedacinhos ao mesmo tempo em que erguia a água da piscina.

Apesar de estar tão esgotado quase não teve força interior para tanto.

— Nunca mais quero encontrá-la daquele jeito. — disse.

Os tremores dela começaram a diminuir.

— Confie em mim. Um repeteco não está na minha programação.

Ele ficou muitíssimo perto de perdê-la. Simplesmente não conseguia superar esse fato.

A deusa de mau temperamento e enérgica tinha se tornado a parte favorita do seu dia. Ficava mais feliz quando ela estava por perto. Era desafiado. Satisfeito. Duro que nem ferro, extremamente cheio de prazer. Precisava mais dela. Mais tempo. Mais sexo. Mais discussões. Mais surpresas. Mais tudo. E ainda não teve nem o começo.

E os Stars tentaram tirá-la dele.

Eles tinham que morrer.

Finalmente alcançaram um dos seus esconderijos mais luxuosos e estacionaram na garagem.

— Como está? — perguntou a ajudando a entrar na sala.

— Melhor. Já mais forte.