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CADFAEL 14 / O Tributo da Rosa
CADFAEL 14 / O Tributo da Rosa

 

 

                                                                                                                                                

  

 

 

 

 

 

Devido ao frio prolongado, que permaneceu até muito depois do início de Abril e mal tinha abrandado ao chegar o mês de Maio, nessa Primavera de 1142 tudo vinha atrasado e com relutância. Os pássaros não se afastavam dos telhados, onde encontravam locais mais quentes para se abrigar. As abelhas, que dormiram até tarde, haviam esgotado as suas provisões e tinham de ser alimentadas, mas também as flores onde elas haveriam de ir buscar o pólen ainda não tinham rebentado. Nos jardins não valia a pena plantar as sementes, para apodrecerem ou serem comidas, num solo demasiado frio para gerar a vida.

Os homens, atacados pelo mesmo frio petrificante, pareciam ter caído em estado de hibernação. As facções sustinham a respiração. O rei Stephen, passada a primeira exaltação ao ser libertado do cativeiro e depois da viagem que na Páscoa fizera para norte, para reunir os restos dispersos da sua influência, tinha caído doente no sul, tão doente que o boato da sua morte se tinha espalhado pela Inglaterra, e a sua prima e rival, a imperatriz Maud, havia transferido previdentemente o seu quartel-general para Oxford, onde se instalara para aguardar pacientemente e em vão que ele transformasse o boato numa realidade, o que ele se recusava obstinadamente a fazer.

 

 

 

 

 

 

Ainda tinha contas a ajustar com a dama, e a sua constituição era capaz de resistir mesmo a coisas piores que aquela febre virulenta. Pelo final de Maio, recuperava com virilidade a boa saúde. Nos primeiros dias de Junho, o longo período de frio intenso terminou. O vento cortante transformou-se numa brisa temperada, o sol brilhou sobre a terra como se uma mão quente a acariciasse, as sementes ganharam vida no chão e lançaram lâminas verdes, e sobre jardins e prados jorrou em dourado e púrpura uma espuma de flores, ainda mais exuberantes devido a tão longa repressão. As sementeiras tardias começaram numa pressa jubilosa. E o rei Stephen, como um gigante que se libertasse de um feitiço que o tolhia, saiu da sua convalescença para se dedicar a uma vigorosa actividade. Caiu sobre o porto de Wareham, o mais oriental dos que ainda estavam à disposição dos seus inimigos e conquistou a cidade e o castelo quase sem um arranhão.

- E dirige-se de novo para norte, para Cirencester - comunicou Hugh Beringar, exultante com as notícias - para conquistar os redutos da imperatriz um a um, assim ele consiga manter esta tempestade de energia.

Era o único calcanhar-de-aquiles nas capacidades militares do rei: se não obtivesse resultados imediatos não era capaz de se manter em acção durante muito tempo, abandonava um cerco passados três dias e ia começar outro noutro local, desperdiçando sem proveito a energia dedicada a ambos.

- Tavez isto ainda acabe bem!

O irmão Cadfael, concentrado nas suas preocupações, mais limitadas, continuava a observar a horta do lado de fora do muro do jardim das ervas medicinais, tacteando com o pé o solo que se havia tornado mais escuro e mais macio depois de uma suave chuvada matinal.

- Segundo as regras - disse, pensativo -, as cenouras já deviam cá estar há mais de um mês, e os primeiros rabanetes vão ficar fibrosos e encarquilhados como couro velho, mas talvez a partir de agora se consiga alguma coisa mais sumarenta. Felizmente, as flores das árvores de fruto não abriram antes que as abelhas começassem a acordar, mas mesmo assim este ano a colheita vai ser fraca. Está tudo com quatro semanas de atraso, mas as estações normalmente conseguem recuperar. Wareham? Que estava a dizer acerca de Wareham?

- Ora, que Stephen conquistou tudo: a cidade, o castelo e o porto. E por isso Robert de Gloucester, que faz apenas dez dias saiu por aquela porta, agora tem-na fechada na cara. Eu não lhe disse? A notícia chegou há três dias. Parece que em Abril a imperatriz se encontrou com o irmão em Devizes, e combinaram os dois que já era muito boa altura de o marido da dama começar a prestar um pouco de atenção aos assuntos dela e vir em pessoa ajudá-la a deitar as mãos à coroa de Stephen. Mandaram enviados à Normandia para se encontrarem com Geoffrey, mas ele mandou dizer que tinha muito boa vontade, sem dúvida, mas que os homens que lhe haviam sido enviados lhe eram desconhecidos, quer de nome quer de reputação, e não se sentiria tranquilo a menos que tratasse com o próprio conde de Gloucester. “Se Robert não vier”, disse Geoffrey, “não vale a pena mandar outro qualquer.”

Cadfael desviou por momentos a atenção das colheitas vagarosas:

- E Robert deixou-se persuadir? - perguntou, espantado.

- Com muita relutância. Receava deixar a irmã entregue à lealdade de alguns que depois da carnificina de Westminter se revelaram mais que prontos a abandoná-la, e duvido que tivesse grandes esperanças de conseguir fosse o que fosse do conde de Anjou. Mas sim, deixou-se persuadir. E fez-se ao mar em Ware-ham, com menor dificuldade que a que terá para voltar a entrar nesse mesmo porto, agora que se encontra na posse do rei. Uma acção rápida, excelente. Se ao menos ele agora não o deixar perder!

- Dissemos uma missa de acção de graças pela sua recuperação - disse Cadfael, absorto, arrancando um cardo esgalgado do meio da hortelã. - Não sei por que é que estas ervas crescem três vezes mais depressa que as plantas de que cuidamos com tanto carinho! Há três dias nem sequer aqui estava. Se as couves crescessem desta maneira, amanhã já eu estava a transplantá-las.

- Estou certo de que as vossas orações irão fortalecer a resolução de Stephen - disse Hugh, embora a sua convicção não fosse absoluta.-Ainda não lhe deram um ajudante para o jardim? Já não era sem tempo, nesta estação há aqui trabalho para mais que um.

- Foi o que pedi insistentemente esta manhã no capítulo. Sabe-se lá o que me vão oferecer. O prior Robert tem um ou dois, entre os mais jovens, que gostaria muito de passar das mãos dele para as minhas. Felizmente, aqueles que ele menos aprova tendem a ser os que têm mais espírito e personalidade que os restantes, e não menos. Pode ser que eu tenha sorte com o meu aprendiz.

Endireitou as costas e ficou a olhar por cima dos canteiros recentemente revolvidos e dos campos de ervilheiras que desciam em declive até à ribeira de Meole, recordando mentalmente, com indulgência, os seus ajudantes mais recentes ali no herbário. O irmão John, alto, bem-disposto, atraente, que tinha entrado para o claustro por engano, e voltado a sair em Gales, não sem a conivência de amigos, para trocar o papel de irmão pelo de marido e pai; o irmão Mark, que ao entrar ali era um um rapaz de dezasseis anos, maltratado e pouco desenvolvido para a idade, tímido e calado, e se tinha desenvolvido, adquirindo uma maturidade de espírito serena e lúcida que o levara inevitavelmente para o sacerdócio. Cadfael ainda sentia a falta do irmão Mark, ligado agora à capela pessoal do Bispo de Lichfield, e já diácono. Depois de Mark, o irmão Oswin, jovial, confiante e desajeitado de mãos, que agora estava a prestar o seu ano de serviço na leprosaria de São Giles, nos arredores da cidade. Cadfael pensou: “E a seguir? Enfiem uma dúzia de jovens nos mesmos hábitos negros ruços, rapem-lhes as cabeças, façam-nos seguir o mesmo horário dia após dia, ano após ano, e mesmo assim todos serão irremediavelmente diferentes, cada um deles único. Graças a Deus!”

- Seja o que for que lhe mandem - disse Hugh, caminhando a seu lado ao longo do largo carreiro verde que rodeava os lagos dos peixes -, quando se for embora irá transformado. Por que haveriam de desperdiçar consigo um santo inocente como Rhun? Esse já está feito, veio ao mundo feito. Há-de receber os rudes, os impenitentes, os inconstantes, para os pôr na devida forma. Não que alguma vez saiam com a forma que se esperava-acrescentou, lançando ao amigo um sorriso rápido e um olhar de esguelha, por cima do ombro.

- Rhun tomou a seu cargo a custódia do altar de Stª Winifred - disse Cadfael.-Tem um interesse de proprietário pela senhora. Faz ele próprio as velas, e perfuma-lhas com essências que me pede. Não, Rhun encontrará os seus próprios deveres, e ninguém lhe impedirá o caminho. Ele e ela tratarão disso.

Atravessaram a pequena ponte sobre o canal que alimentava os lagos e a azenha e saíram para o roseiral. As roseiras podadas ainda tinham poucos rebentos, mas os primeiros botões começavam por fim a dilatar-se e os cálices verdes a abrir para deixar ver um pouco de branco ou de vermelho.

- Agora vão abrir depressa - disse Cadfael, satisfeito. – Só precisam de calor. Eu já estava a pensar se este ano a viúva Perle receberia a sua renda a tempo, mas se estas estão a recuperar o tempo perdido, as rosas brancas dela também devem estar. Um triste ano, se não houvesse rosas no dia 22 de Junho!

-A viúva Perle? Ah, sim, a rapariga Vestier! - disse Hugh. - Já me lembro! Então, é no dia da ascenção de Stª Winifred, não é? Quantos anos se passaram desde que ela fez a dádiva?

- Será a quarta vez que lhe pagamos a renda anual. Uma rosa branca da roseira do seu antigo jardim, que deverá ser-lhe entregue no dia da ascenção de Stª Winifred...

- Suposta ascenção - disse Hugh, sorrindo. - E você devia corar quando fala disso.

- E coro, mas com a minha tez, quem é que vai reparar?

E de facto a sua pele era de um tom castanho-rosado, acentuado por longos anos de vida ao ar livre, tanto no Oriente como no Ocidente, já tão entranhado que agora os Invernos apenas a tornavam um pouco mais baça e os Verões renovavam regularmente o brilho.

- Os pedidos dela foram modestos - observou Hugh, pensativo, no momento em que chegavam à segunda ponte de madeira, que permitia a passagem sobre o canal construído para servir o salão de recepções. - A maior parte dos bem estabelecidos mercadores da nossa cidade atribuem às propriedades um valor bem mais elevado do que uma rosa.

- Já tinha perdido aquilo a que dava mais valor - disse Cadfael -, o marido e o filho, ambos em vinte dias. Ele morreu, e ela sofreu um aborto. Não suportava continuar a viver sozinha na casa onde haviam sido felizes juntos. Mas foi por lhe dar valor que quis entregá-la a Deus, em vez de a juntar ao resto de um património que, mesmo sem a casa, é suficientemente grande para a sustentar com largueza, assim como a toda a sua família e aos seus trabalhadores. A casa paga a iluminação e os paramentos do altar de Nossa Senhora durante o ano inteiro. Foi a decisão dela. Mas manteve um elo: uma rosa por ano. Edred Perle era um homem muito atraente - disse Cadfael, abanando suavemente a cabeça perante a vulnerabilidade da beleza. - Vi-o consumido até aos ossos por uma febre escaldante, e o meu saber não era suficiente para o refrescar. Um homem não esquece uma coisa assim.

- Já viu muitos nesse estado - disse Hugh com bom senso -, aqui e nos campos da Síria. Há muito tempo.

- Pois vi! Pois vi! Alguma vez me ouviu dizer que esqueci um deles que fosse? Mas um homem jovem e belo, definhar antes da sua hora, antes ainda de atingir o apogeu, e a sua mulher ficar sem sequer ter um filho que lho recordasse... Há-de concordar que é um caso bem triste.

- Ela é nova - disse Hugh, com um pragmatismo indiferente e o espírito concentrado noutros assuntos. - Devia voltar a casar.

- É o que pensam muitos dos patriarcas mercadores da nossa cidade - concordou Cadfael com um sorriso forçado -, sendo a senhora tão rica como é, e única proprietária do negócio de tecidos Vestier. Mas depois do que perdeu, duvido que olhe para um velho grisalho e sovina como Godfrey Fuller, que já enterrou duas mulheres e obteve proveito com ambas, e está de olho numa terceira fortuna com a próxima. Ou para um jovem elegante em busca de vida fácil!

- Como, por exemplo? - incitou Hugh, divertido.

- Dois ou três que eu poderia nomear. Um deles é o rapaz do William Hynde, se os meus bisbilhoteiros me contam a verdade. E aquele moço que é capataz dos tecelões dela é um homem muito bem-parecido, e imagina que pode ter hipóteses. Até o vizinho, o correeiro, anda à procura de mulher, segundo me dizem, e acha que ela pode servir muito bem.

Hugh soltou uma gargalhada afectuosa e deu-lhe uma forte palmada nos ombros. Nesse momento foram dar ao pátio grande, com a sua azáfama silenciosa e ordenada de antes da missa.

- Quantos olhos e ouvidos tem em cada rua de Shrewsbury? Quem me dera que os meus informadores soubessem metade do que se passa. É uma pena que a sua influência não chegue à Normandia. Nesse caso talvez eu fizesse uma vaga ideia do que Robert e Geoffrey andam por lá a tramar. Embora, na minha opinião - disse, tornando-se de novo grave ao regressar ao assunto que o preocupava - Geoffrey esteja muito mais interessado em tomar posse da Normandia que em perder tempo em Inglaterra. De acordo com todos os relatos está lá a conquistar terreno rapidamente, e não é provável que se retire agora. É muito mais provável ele induzir Robert a auxiliá-lo do que oferecer grande ajuda a Robert.

- É bem verdade que mostra muito pouco interesse pela mulher - concordou Cadfael secamente - ou pelas suas ambições. Bom, veremos se Robert consegue influenciá-lo. Vem à missa esta manhã, Hugh?

- Não, parto amanhã para Maesbury e fico lá uma semana ou duas. Já deviam ter começado a tosquia, mas adiaram algum tempo por causa do frio. Agora devem estar a trabalhar arduamente. Vou deixar lá Aline e Giles durante o Verão. Mas eu ando para trás e para diante, para o caso de ser necessário.

- Um Verão sem Aline e sem o meu sobrinho - disse Cadfael em tom de reprovação -, isso não é situação para me lançar em cima assim, sem preâmbulo. Não tem vergonha?

- Nem por sombras! Um dos motivos que me trouxe cá foi pedir-lhe que venha cear connosco esta noite, antes de partirmos, amanhã cedinho. O abade Radulfus já deu a sua autorização e a sua bênção. Vá, reze por bom tempo e uma viagem fácil para nós - disse Hugh com cordialidade, dando ao amigo um vigoroso empurrão em direcção ao canto do claustro e à porta sul da igreja.

Fosse por puro acaso, ou como símbolo daquela estranha compulsão que faz a substância seguir de perto a recordação, entre o reduzido número de devotos que nesse dia ocupavam a parte paroquial da igreja para assistir à missa monástica contava-se a viúva Perle. Havia sempre uns poucos laicos ajoelhados ali, do outro lado do altar da paróquia, alguns que tinham perdido a sua missa da paróquia por diversos motivos, outros que eram velhos e sós e preenchiam o seu tempo solitário com uma grande devoção, outros ainda que tinham pedidos especiais a fazer e procuravam uma oportunidade extra de fazer um apelo à graça. Havia até alguns, como era o caso da viúva Perle, que tinham outros assuntos a tratar em Foregate e se sentiam gratos por um intervalo, um refúgio de reflexão e tranquilidade.

Do seu lugar no coro, o irmão Cadfael conseguia ver apenas o contorno suave da sua cabeça, do ombro e do braço, do outro lado do vulto do altar da paróquia. Era estranho que uma mulher tão serena e discreta pudesse, no entanto, ser instantaneamente reconhecida mesmo naquela visão de relance e parcial. Talvez isso se devesse à forma como colocava os seus ombros direitos e esguios, ou à grande massa do seu cabelo castanho, que lhe fazia peso sobre a cabeça inclinada com tanta reverência sobre as mãos postas, que o altar lhe ocultava. Não tinha mais de vinte e cinco anos, e desfrutara durante apenas três anos um casamento feliz, mas prosseguia a sua vida vazia e solitária sem espalhafato nem lamentações, cuidava escrupulosamente de um negócio que não lhe proporcionava nenhum prazer pessoal e encarava a perspectiva de uma solidão perpétua com calma compostura e um surpreendente manancial de energia prática. Na felicidade ou na infelicidade, viver é uma obrigação que deve cumprir-se meticulosamente.

Pelo menos é uma bênção, pensou Cadfael, que ela não se encontre totalmente só, pois tem a irmã da mãe para lhe cuidar da casa onde agora vive, por cima da oficina, e o primo, que é um capataz e um gerente consciencioso, para lhe tirar o peso do negócio de cima dos ombros. E uma rosa todos os anos, a renda da casa e do jardim de Foregate, onde o seu homem morrera. O único gesto de paixão, de dor e de perda que alguma vez tivera, dar de livre vontade o seu bem mais valioso, a casa onde tinha sido feliz, e pedir em troca uma lembrança, nada mais.

Não era uma mulher bonita, Judith Perle, nascida Judith Vestier, única herdeira do maior negócio de tecidos da cidade. Mas possuía uma dignidade física que atraía todos os olhares, mesmo entre a multidão do mercado; a sua altura era superior à altura comum para uma mulher, era esguia e direita, e o seu porte e andar eram de uma graça notável. Os grandes caracóis do seu cabelo brilhante, castanho-claro, da cor da madeira de carvalho antiga, coroavam um rosto pálido que se ia estreitando, desde a testa larga e alta até ao queixo pontiagudo, passando por umas maçãs do rosto fortes, umas faces cavadas e uma boca móvel e eloquente, demasiado grande para ser bela, mas de uma forma elegante. Os seus olhos eram de um cinzento profundo, muito límpidos e grandes, e não confidenciavam nem escondiam nada. Quatro anos antes, Cadfael estivera olhos nos olhos com ela, por sobre o leito de morte do marido, mas ela não baixara as pálpebras nem desviara o olhar, olhando sem vacilar a felicidade da sua vida a escorregar-lhe irremediavelmente por entre os dedos. Duas semanas depois tinha sofrido o aborto, perdera até mesmo o filho. Edred nada lhe deixara.

“Hugh tem razão”, pensou Cadfael, esforçando-se por se concentrar de novo na liturgia. “É nova, devia voltar a casar.”

A luz de Junho, agora que se aproximavam as horas do meio do dia e o brilho do Sol era radioso, incidia em longos raios dourados sobre o conjunto do coro e sobre as fileiras de irmãos e de seguidores, do lado oposto, aqui dourando metade de um rosto e lançando a outra metade numa sombra exagerada, ali fazendo que olhos ofuscados, num rosto embranquecido, pestanejassem para afastar a luminosidade. Mais acima, a abóbada recebia os reflexos difusos num clarão suave e sem brilho, fazendo salientar as folhas curvas dos relevos da pedra. Só ali, no zénite, a música e a luz pareciam conjugar-se. O Verão entrava por fim na igreja, hesitante depois da prolongada hibernação.

Segundo parecia, o espírito do irmão Cadfael não era o único que divagava quando devia estar concentrado. O irmão Anselmo, o chantre, absorto no seu canto, levantava um rosto extasiado para o Sol, fechando os olhos, já que conhecia todas as notas sem estudo nem esforço de pensamento. Mas a seu lado o irmão Eluric, conservador do altar de Stª Maria na Capela da Senhora, participava apenas de forma ausente, com a cabeça voltada para o lado, olhando em direcção do altar da paróquia e do suave murmúrio de respostas do outro lado deste.

O irmão Eluric era um filho do claustro, ainda há pouco tempo um irmão efectivo e a quem tinha sido confiada aquela incumbência determinada devido ao seu merecimento indubitável, temperado pela reserva que era sentida em admitir aqueles que haviam sido destinados quando crianças à vida monástica a um serviço pleno, pelo menos antes de terem já alguns anos de maturidade. Uma reserva pouco razoável, sempre fora essa a opinião de Cadfael, uma vez que as crianças ofertadas à igreja eram vistas como os inocentes perfeitos, equiparados aos anjos, ao passo que os conversi, aqueles que vinham de livre vontade e na maturidade para a vida monástica eram os santos lutadores, os que tinham suportado e dominado as suas imperfeições. Assim os havia classificado Stº Anselmo, e ordenara que nunca tentassem censurar-se reciprocamente, que nunca sentissem inveja uns dos outros.

Mas mesmo assim os conversi eram preferidos para os cargos de responsabilidade, talvez porque tinham experiência dos enganos, das complexidades e das tentações do mundo à sua volta. Mas cuidar de um altar, da sua iluminação, dos seus paramentos, das orações especiais que lhe pertencem, tudo isto podia muito bem estar a cargo de um inocente.

O irmão Eluric já tinha mais de vinte anos. Era o mais erudito e o mais devoto dos da sua idade, um jovem alto, bem constituído, com cabelo e olhos negros. Estava no claustro desde os três anos de idade e não sabia nada do mundo exterior. Não conhecendo o pecado, este atormentava-o ainda mais, como um monstro desconhecido; era assíduo na confissão, analisando ao pormenor as suas falhas infinitesimais com a penitência implacável própria dos pecados mortais. Era curioso que um jovem tão exageradamente consciencioso prestasse tão pouca atenção ao serviço sagrado. Tinha o queixo encostado ao ombro, os lábios imóveis, esquecidas as palavras do salmo. Na realidade, estava a olhar precisamente para onde Cadfael estivera a olhar apenas momentos antes. Mas do lugar do irmão Eluric era possível vê-la melhor, reflectiu Cadfael, o rosto desviado, as mãos unidas, as pregas de linho sobre o peito.

A contemplação parecia não lhe dar alegria, apenas uma ansiedade rígida, trémula. Estava tenso como um arco esticado. Quando caiu em si e afastou o olhar, foi com um sacão que o fez tremer da cabeça aos pés.

“Bem, bem!”, disse Cadfael para consigo, esclarecido. “E daqui a oito dias tem de ir entregar-lhe a renda da rosa. Deviam ter atribuído essa tarefa a um velho pecador empedernido como eu, capaz de olhar e apreciar, e de regressar sem perturbar nem se deixar perturbar, e não a este rapaz vulnerável que decerto nunca noutra ocasião esteve sozinho com uma mulher numa sala desde que a mãe consentiu que lho tirassem dos braços. E é uma pena que tenha consentido!

“E a pobre rapariga, a própria imagem capaz de o atormentar da forma mais dolorosa, grave, triste, com um passado digno de piedade, porém calma e composta, como a própria Virgem Bendita. E ele vem ter com ela, trazendo uma rosa branca... talvez as suas mãos se toquem quando lha entrega. E recordo agora que Anselmo diz que ele é um pouco poeta. Bem, que loucuras cometemos sem má intenção!”

Agora era demasiado tarde para dedicar o espírito à sua ocupação própria, a oração e o louvor. Contentou-se em esperar que, quando os irmãos saíssem do coro depois do serviço, a senhora tivesse partido.

Graças à misericórdia divina, tinha mesmo partido.

Mas parece que não tinha ido mais longe do que a oficina de Cadfael, no jardim, onde ele a encontrou à sua espera, paciente, junto da porta aberta, quando chegou para decantar a loção que tinha deixado a arrefecer antes da missa. Tinha a fronte serena e a voz suave, e tudo nela era prático e sensato. O fogo que queimava Eluric era-lhe desconhecido. A convite de Cadfael seguiu-o e entrou para debaixo dos ramos de ervas aromáticas que oscilavam suavemente, sussurrando, pendurados nas vigas do tecto.

- Uma vez fez-me um unguento, irmão Cadfael, não sei se se lembra. Para uma borbulhagem nas mãos. Uma das minhas cardadoras enche-se de pequenas pústulas quando mexe nas lãs novas. Mas isso não sucede em todas as estações... o que também é estranho. Este ano voltou a ter o mesmo problema.

- Eu lembro-me - disse Cadfael. - Foi há três anos. Sim, sei a receita. Posso fazer um pouco de unguento fresco em minutos, se tiver tempo para esperar.

Parecia que tinha. Sentou-se no banco de madeira que estava encostado à parede de troncos e juntou as saias, aproximando-as dos pés, muito direita e quieta no canto da cabana, enquanto Cadfael ia buscar o almofariz e o pilão e a pequena balança com os seus pesos de latão.

- E como tem passado agora? - perguntou, ocupado com a banha e os óleos aromáticos. - Lá na cidade?

- Bastante bem - disse ela com compostura. - O negócio dá-me muito que fazer, e a tosquia foi melhor do que eu esperava. Não posso queixar-me. Não é estranho - prosseguiu, com mais animação na voz - que a lã faça à Branwen esta borbulhagem, quando se usa a gordura da lã para tratar as doenças de pele de tanta gente?

- Esses casos contraditórios acontecem - disse ele. - Há plantas que, se determinadas pessoas lhes tocam, têm problemas. Ninguém sabe o motivo. Aprendemos observando. Lembro-me que teve bons resultados com o bálsamo.

-Oh, sim, as mãos dela sararam muito depressa. Mas acho que talvez seja melhor não a deixar continuar a cardar e ensiná-la a tecer. Depois de a lã ter sido lavada, tingida e fiada, talvez seja mais seguro ela mexer-lhe. É uma rapariga capaz, depressa vai aprender.

Cadfael, que trabalhava com as costas voltadas para ela, tinha a ideia de que ela falava para preencher o silêncio enquanto pensava, e pensava em qualquer coisa muito distante daquilo que estava a dizer. Não ficou muito surpreendido quando ela disse de súbito, e numa voz muito diferente, abrupta e resoluta:

- Irmão Cadfael, estou a pensar em tomar o véu. Estou a pensar nisso muito a sério! O mundo não é tão desejável que eu hesite em o deixar, nem a minha situação é tão esperançosa que eu ouse pensar que virão tempos melhores. O negócio pode passar muito bem sem mim; o primo Miles dirige-o de forma muito lucrativa e dá-lhe mais valor do que eu. Oh, eu cumpro bem as minhas obrigações, tal como sempre me ensinaram, mas ele era capaz de fazer tudo igualmente bem sem mim. Por que haveria eu de hesitar?

Cadfael voltou o rosto para ela, equilibrando o almofariz na palma da mão.

- Já disse isso à sua tia e ao seu primo?

- Já falei no assunto.

- E que dizem eles?

- Nada. Deixam que seja eu a decidir. Miles não faz comentários nem dá conselhos, põe o assunto de lado. Acho que não me leva a sério. A minha tia... conhece um pouco a minha tia? É viúva como eu e continua sempre a lamentá-lo, mesmo passados tantos anos. Fala da paz do claustro e da libertação dos cuidados do mundo. Mas diz sempre o mesmo, embora eu saiba que, para dizer a verdade, ela está satisfeita com a sua vida confortável. Eu vivo, irmão Cadfael, faço o meu trabalho, mas não estou satisfeita. Se entrasse para o claustro, isso seria uma coisa segura e estável.

- E errada - disse Cadfael, com firmeza. - Errada, pelo menos para si.

- Como poderia ser assim tão errado?-contestou ela. O capuz tinha-lhe deslizado da cabeça e a comprida trança de cabelo castanho-claro, iluminado de prata como o carvalho com veios, brilhava suavemente na luz amortecida.

-Ninguém deve escolher a vida do claustro como uma segunda opção, e era isso que estaria a fazer. É uma vida que só deve ser abraçada com um desejo genuíno. Não é suficiente desejar fugir ao mundo exterior, deve sentir um fogo pelo mundo lá de dentro.

-Foi assim consigo?-perguntou ela, e de súbito sorriu e o seu rosto austero por momentos iluminou-se, caloroso.

Ele pensou na pergunta em silêncio, durante um breve momento de prudência.

- Eu vim tarde, e talvez por isso o meu fogo ardesse com um pouco menos de brilho - disse por fim, com sinceridade -, mas a sua luz era suficiente para me mostrar o caminho que eu queria seguir. Eu corria em direcção a, e não para fugir de alguma coisa.

Ela olhou-o bem a direito com osseus olhos francos e indómitos e disse com uma ponderação abrupta e agreste:

-Nunca pensou, irmão Cadfael, que uma mulher pode ter mais razão para fugir do que o senhor alguma vez teve? Mais perigos dos quais fugir, e menos alternativas à fuga?

- Isso é verdade - admitiu Cadfael, mexendo vigorosamente a mistura. - Mas, pelo que sei, a sua posição permite-lhe defender-se muito melhor do que muitas, e, além disso, possui mais coragem que boa parte dos homens. É senhora de si mesma, os seus parentes dependem de si, e não a senhora deles. Não há um suserano que reclame o direito de dispor do seu futuro, ninguém pode forçá-la a um novo casamento... sim, eu ouvi dizer que muitos ficariam bem satisfeitos se o pudessem fazer, mas não têm poder sobre si. Não tem pai vivo nem nenhum parente mais velho que a influencie. Por muito que os homens a importunem ou os negócios a cansem, sabe que está mais do que à altura da situação. E quanto ao que perdeu - disse, depois de um momento de hesitação, sem saber se devia aproximar-se tanto-está perdido apenas para este mundo. Esperar não é fácil, mas acredite que não é mais difícil entre as preocupações e as distracções do mundo que na solidão e no silêncio do claustro. Já vi homens cometer esse erro, por uma causa tão razoável quanto a sua, e sofrer ainda mais com a dupla privação. Não corra esse risco. Nunca, a menos que esteja certa do que deseja, e o deseje com todo o seu coração e toda a sua alma.

Era o máximo que se atrevia a dizer, o máximo, talvez mesmo mais que o que tinha o direito de dizer. Ela escutou-o sem desviar os olhos. Cadfael não deixou nunca de sentir pesar sobre si o seu olhar límpido enquanto coava o unguento para dentro do frasco e prendia a tampa para garantir um transporte seguro.

-A irmão Magdalen, do convento beneditino do Vau de Godric -disse ele -, vem a Shrewsbury dentro de dois dias para levar a sobrinha do irmão Edmundo, que quer juntar-se à irmandade. Quanto aos motivos da rapariga, nada sei, mas, se a irmã Magdalen a aceita como noviça, deve ser por convicção, e, além disso, a menina vai ser vigiada e não irá além do noviciado se Magdalen não ficar convencida da sua vocação. Quer falar com ela acerca disto? Acho que já a conhece um pouco.

- Conheço. -A voz de Judith era suave, porém o seu tom tinha uma pontinha de divertimento. - Os motivos dela quando entrou no Vau de Godric, segundo creio, dificilmente seriam aqueles que o senhor exige.

Era algo que ele não podia negar. A irmã Magdalen tinha sido, durante muitos anos, a amante fiel de um certo nobre, e aquando da morte deste tinha olhado em redor, com resolução, em busca de outro campo no qual empregar os seus indiscutíveis talentos. Não havia qualquer dúvida de que a opção pelo claustro fora feita com frieza e pragmatismo. O que a redimia era o vigor e a lealdade que havia devotado desde o dia da sua entrada e que indubitavelmente manteria até ao dia da sua morte.

- Em nenhum aspecto que eu conheça se pode dizer que a irmã Magdalen é outra coisa que não única. Tem razão. Quando ela entrou para o claustro, perseguia, não uma vocação, mas uma carreira, e é uma carreira que ela está a fazer, uma carreira notável. A madre Mariana agora está velha e acamada; o peso do convento cai todo sobre os ombros de Magdalen, e não conheço ombros mais adequados para o suportarem. E creio que ela não lhe diria, como eu, que existe apenas uma boa razão para tomar o véu, o verdadeiro anseio pela vida do espírito. Mais uma razão pela qual a senhora pode e deve escutar os seus conselhos e ponderá-los cuidadosamente, antes de dar um passo tão sério. E não esqueça que é jovem, enquanto ela já se despediu do seu apogeu.

-E eu sepultei o meu - disse Judith com firmeza, e com o tom de voz de uma pessoa que diz apenas a verdade, sem autocomiseração.

- Bem, se for necessário recorrer às segundas opções - disse Cadfael -, tanto podem encontrar-se fora do claustro como dentro. Dirigir o negócio que os seus antepassados construíram, dar emprego a tanta gente, já é em si uma justificação para a vida, à falta de melhor.

- Não é uma coisa que exij a assim tanto de mim-disse ela com indiferença. - Ah, bem, eu apenas disse que estava a pensar em deixar o mundo. Ainda nada foi feito. De qualquer modo, vou gostar de falar com a irmã Magdalen, pois dou valor ao seu espírito e sei bem que não devo deixar de ter em consideração o que ela possa dizer. Quando ela vier, mande-me avisar, e eu pedir-lhe-ei que venha a minha casa, ou irei ter com ela onde ela estiver alojada.

Levantou-se para tomar das mãos dele o frasco de unguento. De pé, tinha mais dois dedos de altura do que ele, mas era magra e de ossos estreitos. Os caracóis do seu cabelo teriam parecido excessivamente pesados se o porte da sua cabeça não fosse tão nobre.

- As suas rosas estão a encher-se de botões - disse ela, quando saíram da oficina para o caminho de saibro. - Por muito tarde que surjam, acabam sempre por florir com a mesma abundância.

Poderia ter sido uma metáfora para a qualidade de uma vida, pensou ele, como a tinham estado a discutir. Mas não o disse. Mais valia deixá-la entregue à sabedoria perspicaz e penetrante da irmã Magdalen.

- E as suas? - disse ele. -Vai haver muitas flores entre as quais escolher quando chegar a festa de Stª Winifred. Deverá ter a melhor e a mais fresca para o seu pagamento.

Pelo rosto dela passou o mais fugaz dos sorrisos, e de novo ficou grave, olhando o caminho.

- Sim - disse apenas, embora parecesse que devia haver algo mais para dizer. Seria possível que tivesse reparado e se sentisse perturbada pela mesma perturbação que afligia Eluric. Por três vezes ele lhe havia levado a rosa, uma questão de... quanto tempo... na sua presença? Dois minutos por ano? Talvez três? Mas os olhos de Judith Perle não eram toldados pela sombra de nenhum homem, de nenhum homem vivo. Podia, no entanto, ter tomado de certa forma consciência, não da entrada física de um jovem na sua casa e na sua presença, mas da proximidade da dor.

- Vou lá agora - disse ela, arrancando-se à sua inquietação. - Perdi a fivela do meu cinto bom e gostava de mandar fazer uma nova, a condizer com as rosetas que decoram o couro e a ponta. Esmalte embutido em bronze. Foi uma prenda de Edred. O latoeiro Niall deve conseguir copiar o desenho. É um óptimo artesão. Ainda bem que a abadia tem um inquilino tão bom para a casa.

- Um homem correcto, sossegado - concordou Cadfael -, e tem o jardim bem tratado. Encontrará a sua roseira em muito boa forma.

A estas palavras ela não respondeu, limitou-se a agradecer-lhe com simplicidade os seus serviços no momento em que entravam juntos no pátio grande, onde se separaram, ela para continuar em direcção a Foregate, para a casa grande a seguir à forja da abadia, onde havia passado os poucos anos da sua vida de casada, ele para o lavatório para lavar as mãos antes do jantar. Mas voltou-se no canto do claustro para a ver e ficou a olhá-la até que ela passou sob o arco da casa do portão e desapareceu da sua vista. Tinha uma forma de andar que poderia vir a ser muito apropriado numa abadessa, mas ele achava que ficava igualmente bem à competente herdeira do principal fabricante de tecidos da cidade. Seguiu para o refeitório convencido de que estava certo ao tentar dissuadi-la da vida monástica. Se agora ela a considerava um refúgio, talvez chegasse uma altura em que haveria de parecer-lhe uma prisão, e uma prisão que não seria menos restritiva por ter entrado nela de livre vontade.

 

A casa de Foregate ficava já muito adiante, a caminho do triângulo relvado que era o terreno da feira dos cavalos, no local onde a estrada principal contornava o canto do muro da abadia. Um muro baixo, do outro lado da estrada, fechava o pátio onde Niall, o latoeiro, tinha a sua loja e oficina, e a seguir erguia-se a casa grande e bem construída, com o seu enorme jardim e uma pequena pastagem do outro lado. Niall vendia bem uma variedade de coisas, desde broches, botões, pequenos pesos e alfinetes a tachos, jarros e pratos de metal, e pagava à abadia uma renda adequada pelas instalações. Já tinha mesmo trabalhado ocasionalmente, com outros do seu ofício, na fundição de sinos, mas era uma encomenda muito rara e exigia que viajasse até ao local, o que era preferível a transportar os pesados sinos depois de feitos. Quando Judith entrou e se aproximou do balcão, o artesão trabalhava num canto da loja. Com o punção e o maço, batia na beira de um prato feito de uma folha de metal para fazer a sua decoração de folhas gravadas. A luz, entrando obliquamente pela janela sem portadas situada por cima da bancada de trabalho, incidia com suavidade sobre o rosto e a figura dela, e Niall, voltando-se para ver quem entrara, ficou por um instante a contemplá-la com as ferramentas a balouçar-lhe nas mãos, antes de as pousar e de se aproximar para a atender.

- Às suas ordens, senhora! Em que posso ser-lhe útil? Conheciam-se mal, apenas como artesão e cliente, e, no entanto, o facto de ele agora trabalhar na casa que ela dera à abadia fez que se estudassem mutuamente com uma intensidade particular. Ela tinha ido à sua loja talvez umas cinco vezes nos anos passados desde que ele a alugara; ele tinha-lhe fornecido alfinetes, pontas para os cordões dos corpetes, pequenos utensílios para a cozinha e a matriz para o selo dos Vestier. Conhecia a história dela, a dádiva da casa tornara-a pública. Ela pouco sabia dele, para além do facto de ter vindo para a sua antiga propriedade como inquilino da abadia, e ainda que o homem e o seu trabalho eram tidos em boa conta na cidade e em Foregate.

Judith colocou o cinto danificado em cima do longo balcão. Era uma tira de couro fino e macio, muito bem trabalhado e ornamentado com uma série de pequenas rosetas de bronze em redor dos buracos para prender a fivela; a sua extremidade era protegida por uma folha de bronze. As incrustações de esmalte brilhante dentro dos contornos elevados eram nítidas e frescas, mas a costura da outra extremidade tinha-se rompido e a fivela desaparecera.

- Perdi-a na cidade, não sei onde - disse ela. - Foi depois de escurecer e com a capa não reparei que o cinto tinha escorregado e caído. Quando voltei atrás para o procurar encontrei apenas o cinto, não consegui encontrar a fivela. Estava tudo enlameado e a valeta cheia de água do degelo. A culpa foi minha, sabia que a costura começava a ficar gasta, devia tê-la reforçado.

- Um trabalho delicado - disse o artesão interessado, passando os dedos pela placa da extremidade. - Certamente não foi comprado cá?

- Foi, sim, mas na feira da abadia, a um mercador flamengo. Dantes usava-o muito, mas pu-lo de lado no Inverno, quando perdi a fivela. Pode fazer-me uma nova, a condizer com as cores e os padrões? Era alongada... assim! - desenhou-a sobre o balcão com a ponta do dedo. - Mas não precisa de ser assim, pode fazê-la oval, ou como achar que fica melhor.

Tinham as cabeças juntas por cima do balcão. Ela levantou os olhos para o rosto dele, levemente sobressaltada com a sua proximidade, mas ele estava concentrado nos pormenores do trabalho do bronze e da incrustação e não se apercebia do penetrante escrutínio. Um homem correcto e sossegado, considerara-o Cadfael, e vindo de Cadfael nada havia de pejorativo nessa descrição. Os homens correctos e sossegados eram a espinha dorsal de qualquer comunidade, mais dignos de respeito e de apreciação do que aqueles que traziam ao mundo maior agitação e mais barulho. Niall, o latoeiro, poderia servir de modelo para um retrato de todos esses homens. Era de altura média e de meia-idade, até mesmo o seu colorido castanho era médio e a sua voz era atraentemente grave. A idade dele, pensou Judith, deve andar pelos quarenta. Quando ele se endireitou, ficaram virtualmente olhos nos olhos, e os movimentos das suas mãos grandes e competentes eram suaves, firmes e hábeis.

Tudo nele se ajustava à imagem da alma comum e honrada, quase impossível de distinguir do seu próximo, e, contudo, a soma das partes era inequivocamente ele próprio, e não outro homem qualquer. Tinha umas sobrancelhas castanhas e espessas num rosto de ossos largos, e olhos afastados de um castanho-avelã profundo e ensolarado. Na espessa cabeleira castanha havia alguns cabelos grisalhos e o queixo barbeado era um pouco saliente, conferindo-lhe uma aparência sólida e pacífica.

- Tem pressa de levar o cinto? - perguntou ele. - Gostaria de fazer um bom trabalho, se pudesse demorar dois ou três dias.

- Não há pressa - disse ela prontamente. - Já o negligenciei durante tanto tempo, que mais uma)semana não faz muita diferença.

- Então quer que lho entregue na cidade? Sei onde é, e poupava-lhe a caminhada. - Fez a oferta com delicadeza, mas hesitante, como se ela pudesse ser interpretada como uma presunção em vez de simples cortesia.

Judith percorreu a loja com um olhar rápido e viu indícios suficientes para concluir que ele tinha muito trabalho entre mãos, mais que o suficiente para o manter ocupado ao longo de todo o dia de trabalho.

- Mas parece-me que o seu tempo está bem preenchido. Se tiver um rapaz, talvez... Mas eu também posso muito bem vir buscá-lo.

- - Trabalho só - disse Niall. - Mas de boa vontade lho levaria ao fim da tarde, quando a luz começar a enfraquecer. Não há mais nada que me tome o tempo, não me custa trabalhar todo o dia.

- Vive aqui sozinho? - perguntou ela, vendo confirmadas as suposições que fizera a seu respeito. - Não tem mulher? Nem família?

- Perdi a minha mulher há cinco anos. Estou acostumado a estar só, não é difícil cuidar das minhas poucas necessidades. Mas tenho uma menina. A mãe morreu ao dá-la à luz. - Viu a súbita tensão do rosto dela, o ténue clarão nos seus olhos quando ergueu a cabeça e olhou em volta, quase esperando ver vestígios da presença de uma criança. - Oh, não aqui! Seria muito difícil cuidar de um bebé recém-nascido, e tenho a minha irmã. Vive em Pulley, que não fica a uma grande distância; é casada com o intendente de Mortimer, lá no domínio, e tem dois rapazes e uma rapariga que não são muito mais velhos. A minha pequenita vive lá com eles, onde tem outras crianças para brincar e os cuidados de uma mulher. Todos os domingos vou até lá a pé para a ver, e às vezes também vou ao fim da tarde, mas ela está melhor com a Cicely, o John e os miúdos que aqui sozinha comigo, pelo menos enquanto for ainda tão novinha.

Judith inspirou profunda e longamente o ar. Podia ser viúvo, e nesse aspecto a sua perda tão amarga quanto a dela, mas tinha-lhe ficado uma lembrança preciosa, ao passo que ela era estéril.

- O senhor não sabe - disse ela com brusquidão - como o invejo. Perdi o meu filho. - Não pretendera dizer tanto, mas as palavras saíram-lhe naturalmente, sem cerimónia, e naturalmente sem cerimónia ele as recebeu.

-Contaram-me o seu infortúnio, senhora. Nessa altura lamentei-a terrivelmente, tendo passado pelo mesmo pouco tempo antes. Mas pelo menos a pequenita foi-me poupada. Agradeço a Deus por isso. Quando um homem sofre uma ferida tão grande, encontra também forma de dar valor a uma misericórdia destas.

- Sim - disse ela, e voltou-se vivamente. - Bem... espero que a sua filha tenha muita saúde-disse, recompondo-se-e que seja sempre uma alegria para si. Venho buscar o cinto daqui a três dias, se achar que é tempo suficiente. Não precisa de ir levar-mo.

Chegara à porta da loja antes que ele pudesse falar, e nessa altura parecia não haver nada de importância a dizer. Mas ficou a vê-la atravessar o pátio e voltar em direcção a Foregate, e só regressou ao trabalho que tinha sobre a bancada quando ela desapareceu da sua vista.

Era o fim da tarde, mas naquela estação do ano ainda faltava uma hora para as Vésperas. O irmão Eluric, conservador do altar de Stª Maria, saiu deslizando quase furtivamente do seu trabalho no escritório, atravessou o pátio grande até aos aposentos do abade, dentro do seu pequeno jardim rodeado por uma sebe, e pediu uma audiência. A sua atitude era tão tensa e rígida que o irmão Vitalis, capelão e secretário do abade Radulfus, ergueu as sobrancelhas numa interrogação e hesitou antes de o anunciar. Mas Radulfus era inflexível: todos os filhos da casa aflitos ou a precisar de um conselho tinham de ter acesso imediato. Vitalis encolheu os ombros e entrou para pedir autorização, que foi prontamente concedida.

Na sala apainelada, a brilhante luz do Sol adoçava-se numa penumbra suave. Eluric parou logo após entrar a porta e ficou a ouvi-la fechar-se suavemente nas suas costas. Radulfus estava sentado à secretária junto da janela aberta, com a pena na mão, e durante um instante não levantou os olhos da escrita. O seu perfil recortava-se contra a luz, escuro e tranquilo, com uma orla dourada a contornar a testa alta e a face magra. Eluric sentiu-se invadido por um temor respeitoso, porém experimentou uma atracção grata por tanta compostura e segurança, tão longe do seu alcance.

Radulfus colocou um ponto final na sua frase bem escrita e pousou a pena no tabuleiro de bronze que tinha diante de si.

- Sim, meu filho? Aqui estou. Escuto-te - disse, erguendo os olhos. - Se precisas de mim, fala livremente.

- Meu pai - disse Eluric, com a garganta contraída e seca e numa voz tão fraca que mal se ouvia através da sala. - Estou numa grande aflição. Mal sei como contar, nem até que ponto isto pode ser visto como uma vergonha e uma culpa minha, embora Deus saiba quanto eu lutei e fui constante nas minhas orações para me livrar do mal. Sou ao mesmo tempo suplicante e penitente, e contudo não pequei, e com a vossa graça e compreensão posso ainda ser salvo do pecado.

Radulfus olhou-o melhor e viu a tensão que tornava rígido o corpo do jovem e o fazia vibrar como uma corda de arco esticada. Um rapaz demasiado intenso, sempre atormentado pelo remorso devido a culpas muitas vezes imaginárias, ou tão veniais que aumentá-las para pecados era só por si uma falta, por ser uma distorção da verdade.

- Meu filho-disse o abade com tolerância -, por tudo quanto sei de ti, és demasiado pronto em te culpares, classificando de grandes pecados coisas sem importância que um homem sensato nem acharia dignas de menção. Cuidado com o orgulho invertido! A moderação em todas as coisas não é o caminho mais espectacular para a perfeição, mas é o mais seguro e o mais modesto. Agora fala claramente, e vejamos o que podemos os dois fazer para pôr cobro à tua aflição. - E acrescentou com energia: -Aproxima-te mais! Quero ver-te bem e ouvir-te explicar tudo com coerência.

Eluric aproximou-se silenciosamente, uniu as mãos diante de si numa convulsão nervosa que lhe tornou perceptivelmente brancos os nós dos dedos e humedeceu os lábios secos.

- Meu pai, dentro de oito dias será o dia da ascenção de Stª Winifred, e deverá ser paga a renda da rosa pela propriedade de Foregate... à Srª Perle, que doou a casa de acordo com esses termos, registados em carta...

- Sim - disse Radulfus -, eu sei. E então?

- Pai, vim implorar que me liberte desse dever. Por três vezes lhe levei a rosa, de acordo com a carta, e a cada ano se torna mais difícil. Não me mande lá outra vez! Liberte-me do peso deste fardo, antes que eu me afunde! É mais do que eu consigo suportar. - Tremia violentmente e sentia dificuldade em continuar a falar, de tal forma que as palavras lhe saíam em explosões dolorosas, como gotas de sangue saindo de uma ferida.-Meu pai, só vê-la e ouvi-la é um tormento para mim, estar na mesma sala com ela é uma agonia de morte. Eu rezei, fiz vigílias, implorei a Deus e aos santos que me livrassem do pecado, mas nem as minhas orações nem as minhas austeridades me mantiveram afastado deste amor não desejado.

Radulfus permaneceu em silêncio durante algum tempo depois que foi proferida a última palavra, e o seu rosto não se tinha alterado, para além de um avivar da sua atenção, um brilho firme nos olhos fundos.

- O amor em si - disse por fim, com ponderação - não é pecado, não pode ser pecado, embora possa conduzir ao pecado. Alguma vez foi pronunciada entre ti e essa mulher uma palavra acerca desta afeição desmesurada, alguma vez teve lugar um acto ou um olhar que pudesse manchar os teus votos ou a pureza dela?

- Não! Não, meu pai, nunca! Nunca uma só palavra, fosse qual fosse, além de uma saudação e uma despedida corteses, e uma bênção, como é devido a uma benfeitora como ela. Nada de mal foi dito ou feito, o meu coração é o único transgressor. Ela nada sabe do meu tormento, nunca me dedicou nem dedicará um pensamento a não ser como mensageiro desta casa. Deus não permita que ela alguma vez venha a saber, pois está totalmente inocente. É para bem dela, tanto como meu, que peço para ser dispensado de voltar a vê-la, pois o meu grande sofrimento pode bem perturbá-la e afligi-la, mesmo não o entendendo. A última coisa que desejo é que ela sofra.

Radulfus levantou-se bruscamente da cadeira e Eluric, esgotado pelo esforço da confissão e convencido da sua culpa, deixou-se cair de joelhos e baixou a cabeça, apoiando-a entre as mãos. Esperava a condenação. Mas o abade limitou-se a afastar-se, indo para junto da janela, onde ficou por momentos a olhar lá para fora, vendo a tarde ensolarada e as suas roseiras, que rebentavam numa profusão de botões.

“Acabaram-se as crianças ofertadas aos mosteiros”, reflectia lugubremente o abade, e dava graças a Deus por isso. “Não mais se tirarão aqueles bebés dos seus berços, impedindo-os de ver e ouvir as mulheres, roubando ao seu mundo metade da criação. Como se pode esperar que, no fim, acabem por lidar de forma conveniente com seres para eles tão estranhos e assustadores como dragões? Mais cedo ou mais tarde, é forçoso que uma mulher cruze o seu caminho, terrível como um exército com estandartes, e essas desgraçadas crianças sem armas nem armadura para enfrentar o seu ataque! Não é justo para as mulheres, e não é justo para estes rapazes, mandá-los para a maturidade sem preparação, homens feitos, sem defesa contra os primeiros arrepios da carne. Ao defendê-los dos perigos, privámo-los dos meios de se defenderem. Bem, agora acabou-se! Doravante, aqueles que entrarem aqui terão atingido a maturidade, entrarão de livre vontade e carregarão os seus próprios fardos. Mas o fardo deste cai sobre mim.”

Voltou-se de novo para a sala. Eluric estava ajoelhado, abatido, com as mãos jovens e macias dolorosamente abertas para cobrir o rosto, e lágrimas escorrendo lentamente por entre os seus dedos.

- Levanta os olhos! - disse Radulfus com firmeza. E quando o rosto jovem e torturado se voltou para ele acrescentou: - Agora responde-me com verdade, e não tenhas medo. Nunca disseste uma palavra de amor a esta senhora?

- Não, pai!

- Nem nunca ela te ofereceu a ti nenhuma palavra, nem nenhum olhar capaz de inflamar ou de atrair o amor?

- Não, pai, nunca, nunca! Ela é completamente imaculada. Eu não sou nada para ela. - E acrescentou, com lágrimas de desespero: -Eu é que, para minha vergonha, a manchei de algum modo, pelo meu amor, embora ela não saiba nada dele.

- Deveras? De que forma a tua infeliz afeição conspurcou a senhora? Diz-me, alguma vez te permitiste fantasiar que a tocavas? Ou que a beijavas? Ou que a possuías?

- Não! - exclamou Eluric, com um grande grito de sofrimento e de temor. - Deus não permita tal coisa! Como poderia eu profaná-la assim? Eu venero-a, para mim é como uma santa. Quando aparo o pavio das velas providenciadas pela sua bondade, vejo o rosto dela como um fulgor. Não sou mais do que um seu peregrino. Ah, mas sofro... - disse, e curvou-se, agarrando-se às saias das vestes do abade.

- Silêncio! - disse o abade em tom peremptório, pousando a mão na cabeça curvada. - Usas termos exagerados para uma coisa que é completamente humana e natural. O excesso é digno de reprovação, e nesse campo estás de facto em falta. Mas é manifesto que quanto ao caso desta tentação infeliz não procedeste mal, procedeste até muito bem. Nem deves temer qualquer censura à senhora, cuja virtude fazes bem em enaltecer. Não a prejudicaste. Sei-te uma pessoa infalivelmente verdadeira, desde que vejas e entendas a verdade. Pois a verdade não é uma questão simples, meu filho, e o espírito do homem é vacilante e imperfeito na sabedoria. Culpo-me a mim mesmo por ter-te submetido a esta provação. Devia ter previsto a sua severidade para um homem tão jovem e inexperiente como tu. Agora levanta-te! Conseguiste o que vieste pedir. A partir de agora, estás dispensado desse dever.

Segurou Eluric pelos pulsos e puxou-o com firmeza, obrigando-o a pôr-se de pé, pois ele encontrava-se tão esgotado e trémulo de fraqueza que parecia duvidoso que tivesse conseguido levantar-se sem auxílio. O rapaz começou a balbuciar agradecimentos hesitantes.

Agora a sua língua tinha dificuldade em pronunciar até palavras vulgares. A calma da exaustão e do alívio regressou gradualmente ao seu rosto. Mas, mesmo na sua libertação, encontrou algo com que se preocupar.

- Meu pai... a carta... Perderá a validade se a rosa não for entregue e a renda paga.

- A rosa será entregue - disse Radulfus em tom decidido. - A renda será paga. É uma obrigação que retiro aqui e agora dos teus ombros. Cuida do teu altar e não penses mais em como ou por quem será assumido esse dever a partir de hoje.

- Pai, que mais devo fazer para limpar a minha alma? - arriscou Eluric, vibrando com os últimos tremores de culpa, que iam desaparecendo.

-A penitência pode bem ser-te salutar-admitiu o abade, um tanto cansado. - Mas, cuidado, não tenhas pretensões exageradas, nem mesmo quanto à punição. Estás longe de ser um santo, como todos nós, mas também não és um pecador notável; nem alguma vez o serás, meu filho.

- Deus não o permita! - sussurrou Eluric, aterrado.

- Deus não permite, de facto - disse Radulfus seeamente -, que demos mais importância do que a devida, nem às nossas virtudes nem às nossas imperfeições. E não terás mais que aquilo que te é devido, nem de louvor nem de recriminações. Para sossego da tua alma, vai fazer a tua confissão como eu ordenei, com moderação, mas diz ao teu confessor que já falaste comigo e tens o meu apoio e a minha bênção, e que eu te libertei desse dever que era demasiado pesado para ti. Depois cumpre a penitência que ele te der, e cuidado, não peças nem esperes mais.

O irmão Eluric deixou a presença dele com as pernas trémulas, vazio de qualquer sentimento, e receando que esse vazio não fosse durar. Não era prazer, mas pelo menos não era dor. Tinha sido tratado com bondade, ele que tinha vindo a esta entrevista considerando o sucesso e a libertação do tormento da proximidade da mulher como o fim dos seus problemas, mas agora aquele vazio dentro dele era como a casa varrida da Bíblia, pronta a ser habitada, ansiando por que a enchessem, e tão disposta a receber demónios como anjos.

Fez o que lhe tinham dito. Até ao fim do noviciado o seu confessor havia sido sempre o irmão Jerome, os ouvidos e a sombra do prior Robert, e de Jerome podia contar com toda a punição que a sua alma demasiado ansiosa desejava. Mas agora era para o sub-prior, Richard, que tinha de se voltar, e Richard era conhecido por se mostrar condescendente e consolador para os seus penitentes, devido tanto à preguiça como à bondade. Eluric fez o possível por obedecer à ordem do abade, por não se poupar mas não se acusar daquilo que não havia cometido, nem mesmo no mais recôndito do seu espírito. Quando terminou, atribuída a penitência e dada a absolvição, continuou ajoelhado, com os olhos fechados e a testa dolorosamente franzida.

- Há mais alguma coisa? - perguntou Richard.

- Não, pai... Nada mais há para dizer além daquilo que foi dito. Apenas receio... - O torpor começava a desaparecer, nas suas entranhas surgira uma pequena dor; a casa vazia não permaneceria desabitada por muito tempo. - Farei tudo o que puder para afastar até a recordação desta afeição ilícita, mas não tenho a certeza... não tenho a certeza! E se eu falhar? Temo o meu próprio coração...

- Meu filho, sempre que esse coração te falhar, deves recorrer à fonte de toda a força e compaixão e orar por auxílio, e a graça não te abandonará. Serves o altar de Nossa Senhora, que é a pureza perfeita. Para onde melhor te voltares para obter a graça?

Para onde, realmente! Mas a graça não é um rio no qual um homem pode mergulhar a selha sempre que quer, mas uma fonte que jorra quando lhe apraz, e quando lhe apraz permanece seca e imóvel. Eluric cumpriu a sua penitência diante do altar que havia pouco arranjara, ajoelhado sobre as lajes frias do chão, a sua voz num murmúrio, meio sufocada de paixão. Quando terminou permaneceu ajoelhado e todos os nervos e músculos do seu corpo imploravam a plenitude e a paz. Certamente devia sentir-se feliz, pois estava perdoado, liberto do peso do pecado mortal, poupado a ter de voltar a ver o rosto de Judith Perle, ou de ouvir a sua voz, ou de respirar a ténue doçura que emanava das suas roupas quando ela se movia. Livre desse tormento e dessa tentação, julgara que os seus problemas chegavam ao fim. Agora sabia que não era assim.

Retorceu dolorosamente as mãos e lançou-se numa fúria de orações silenciosas à Virgem, de quem era o servo fiel, e que agora podia e devia estar do seu lado. Mas quando abriu os olhos e os levantou para o suave clarão dourado das velas, viu diante de si o rosto radioso da mulher, uma luminosidade insistente e entontecedora.

Não se tinha libertado de nada, tinha apenas afastado com a dor insuportável a felicidade transcendente, e agora tudo o que lhe restava era a estéril honra da sua virgindade, aquela cruel necessidade de cumprir os seus votos a todo o custo. Era um homem de palavra, cumpriria a sua palavra.

Mas nunca mais a veria.

Cadfael regressou da cidade a tempo das Completas, depois de um jantar com boa comida e boa bebida, e satisfeito com a noite bem passada, embora lamentasse não voltar a ver Aline e o seu afilhado Giles durante três ou quatro meses. Sem dúvida, Hugh voltaria a trazê-los para a casa da cidade para passar o Inverno, mas nessa altura o rapaz estaria irreconhecível de tão crescido, e perto do terceiro aniversário. Bem, era melhor que passassem os meses quentes lá no Norte, em Maesbury, no refúgio saudável do modesto senhorio de Hugh, e não nas ruas congestionadas de Shréwsbury, onde a doença tinha acesso mais fácil e um poder exagerado. Não devia aborrecer-se com a sua partida, por muito que fosse sentir-lhes a falta.

Atravessou a ponte sob um crepúsculo quente, que caía cedo, condizendo com a sua melancolia suave e agradável. Passou o lugar onde as árvores e os arbustos bordejavam o caminho que descia para a margem luxuriante do rio, para Gaye, os jardins principais da abadia, e o brilho prateado e imóvel da lagoa da azenha, à sua direita, e entrou pela casa do portão. O porteiro estava sentado à entrada da sua casa, tomando com agrado o fresco da noite, mas não deixava de estar atento aos seus deveres e ao recado que lhe tinham dado.

- Então já cá está! - disse tranquilamente quando Cadfael entrou pelo portão pequeno, que estava aberto. - Outra vez a vadiar! Quem me dera ter um afilhado na cidade.

- Eu tinha licença - disse Cadfael em tom complacente.

- Sei de outras vezes em que não seria capaz de dizer isso com um ar tão satisfeito! Mas sim, eu sei que esta noite tinha licença, e que volta a boas horas para o ofício. Mas esta noite tanto faz, o pai abade quer que vá ao gabinete dele. Assim que ele regressar, foi o que ele disse.

- Ai disse? - ecoou Cadfael, erguendo as sobrancelhas.-Mas que se passa, a estas horas? Aconteceu alguma coisa fora do vulgar?

- Que eu saiba, não, não houve agitação nenhuma por cá, está tudo tão calmo como a noite. Apenas esse chamamento. O irmão Anselmo também foi chamado - acrescentou placidamente. - Nada foi dito acerca da razão. Mais vale ir lá ver.

Foi também essa a opinião de Cadfael, que percorreu com passo rápido o pátio grande em direcção aos aposentos do abade. O irmão Anselmo, o chantre, já lá estava, sentado num banco de madeira entalhada, encostado à parede apainelada, e segundo parecia não tinha sucedido nada de natureza demasiado perturbadora, pois o abade e o seu seguidor tinham cada um uma taça de vinho, e uma terceira foi oferecida a Cadfael assim que este se apresentou, em resposta ao chamamento do abade. Anselmo chegou-se para o lado, para dar lugar ao amigo. O chantre, que também era quem dirigia biblioteca, tinha menos dez anos que Cadfael e era um homem vago e desligado do mundo, a não ser no que dizia respeito aos seus entusiasmos pessoais, mas era suficientemente atento e subtil para tudo o que se referia a livros, música ou aos instrumentos com os quais se faz a música, principalmente o mais perfeito, a voz humana. Os olhos azuis que espreitavam sob as espessas sobrancelhas castanhas e a cabeleira castanha e hirsuta podiam ser míopes, mas pouco do que se passava lhes escapava, e tinham uma piscadela tolerante para as falíveis criaturas humanas e as suas imperfeições, principalmente no caso dos mais jovens.

- Mandei-vos chamar - disse Radulfus, quando a porta se fechou com firmeza, e não havia uma quarta pessoa a ouvi-los - porque surgiu um assunto que eu preferia não levantar no capítulo amanhã. Vai decerto ser do conhecimento de mais uma pessoa, mas através do confessionário, o que garante o segredo. Mas, para além disso, quero que fique entre nós três. Ambos tiveram grande experiência do mundo e das suas armadilhas antes de entrar para o claustro, vão entender os meus motivos. Por sorte, os dois foram também as testemunhas da abadia para a carta que nos concedeu a casa da viúva Perle, em Foregate. Pedi a Anselmo que me trouxesse uma cópia da carta do livro dos registos.

- Tenho-a aqui - disse o irmão Anselmo, abrindo um pouco o pergaminho que tinha sobre os joelhos.

- Óptimo! Vamos! Ora o assunto é o seguinte: Esta tarde, o irmão Eluric, que como conservador do altar da capela da Senhora, que beneficia da dádiva, parecia a pessoa mais natural para pagar todos os anos a renda estipulada, veio ter comigo para me pedir que o dispensasse dessa obrigação. Por motivos que eu devia ter previsto, pois não se pode negar que a Srª Perle é uma mulher atraente e o irmão Eluric é inexperiente, jovem e vulnerável. Ele diz, e estou certo de que é verdade, que nada de mal, nem uma palavra, nem um olhar, se passou entre eles, nem nunca ele albergou um único pensamento libidinoso relativamente a ela. Mas quer que eu o liberte de qualquer encontro posterior, pois sofre e é tentado.

Era uma descrição cuidadosamente moderada, pensou Cad-fael, do mal que afligia o irmão Eluric, mas felizmente parecia que o desastre havia sido evitado a tempo. O pedido do rapaz tinha sido satisfeito, isso era evidente.

- E acedeu ao desejo dele - disse Anselmo, mais como uma afirmação que como uma pergunta.

- Acedi. Compete-nos ensinar os jovens a lidarem com as tentações do mundo e da carne, mas decerto não é nosso dever sujeitá-los a essas tentações. Censuro-me por não ter prestado atenção suficiente ao combinado, nem previsto as consequências. Eluric comportou-se de forma emotiva, mas creio totalmente nele quando diz que não pecou, nem mesmo em pensamento. Libertei-o, portanto, da sua tarefa. E não desejo que os outros irmãos conheçam nada da sua provação. Na melhor das hipóteses, não vai ser fácil para ele, ao menos que seja secreto, ou limitado a nós. Ele nem precisa de saber que eu vos contei.

- Não saberá - disse Cadfael com firmeza.

-E assim-disse Radulfus -, tendo salvo uma criança falível das chamas, é ainda maior a minha resolução de não sujeitar outro, igualmente mal preparado, ao mesmo perigo. Não posso nomear outro rapaz da idade de Eluric para levar a rosa. E se nomeio um mais velho, como um de vós dois, Cadfael ou Anselmo, toda a gente entenderá demasiado bem o significado da mudança, e o problema do irmão Eluric vai ser tema de falatório e de escândalo. Oh, bem sei que não há regra de silêncio que impeça as novidades de alastrarem como ervas daninhas. Não, isto tem de ser visto como uma mudança de actuação devido a boas razões canónicas. E foi por isso que pedi a carta. Conheço o seu sentido, mas não recordo o texto exacto. Vamos ver quais são as possibilidades. Importa-se de lê-la em voz alta, Anselmo?

Anselmo desenrolou o pergaminho e leu, na voz suave que na liturgia se regozijava em arrebatar quem o ouvia:

- “Que seja do conhecimento de todos, no presente e no futuro, que eu, Judith, filha de Richard Vestier e viúva de Edred Perle, na plena posse de minha saúde e do meu espírito, dou e outorgo, e pela presente carta confirmo a Deus e ao altar de Santa Maria, na igreja dos monges de Shrewsbury, a minha casa em Foregate, entre a forja da abadia e a habitação de Thomas, o ferrador, juntamente com o jardim e o campo que lhe pertencem, por uma renda anual, durante a minha vida, de uma rosa branca da roseira que cresce junto do muro do lado norte, que me será entregue a mim, Judith, no dia da ascenção de Stª Winifred. Presenciado pelas seguintes testemunhas: pela abadia, irmão Anselmo, chantre, e irmão Cadfael; pela cidade, John Ruddock, Nicholas de Meole e Henry Wyle.”

- Óptimo! - disse o abade com um profundo suspiro de satisfação, quando Anselmo pousou o pergaminho no colo. - Portanto, não há qualquer menção de quem tem de entregar a renda, apenas que tem de ser paga no dia marcado e na mão da doadora. Assim podemos dispensar o irmão Eluric sem infringir os termos, e podemos, com igual liberdade, nomear outra pessoa para levar a rosa. Não há nenhuma restrição, qualquer homem pode ser nomeado para agir pela abadia quanto a esse assunto.

- Isso é certo - concordou Anselmo, com animação. - Mas se a sua intenção é excluir todos os jovens, meu pai, com receio de os submeter à tentação, e todos os que são mais velhos, como nós, com receio de expor Eluric a uma suspeita, no mínimo, de fraqueza, ou pior, de conduta imprópria, devemos procurar um servidor leigo? Um dos intendentes, talvez?

- Isso seria perfeitamente permissível - disse Radulfus em tom de voz prático -, mas talvez perca um pouco da relevância.

Não desejaria apoucar a gratidão que sentimos, e devemos sentir, pela generosa dádiva da senhora, nem o respeito com que olhamos o gesto que foi escolher aquela renda. Significa muito para ela, deverá e terá de ser tratada por nós com igual gravidade. Agradecia as vossas ideias sobre o assunto.

- A rosa - disse Cadfael, devagar e em tom de reflexão-vem do jardim e de determinada roseira de que a viúva tanto gostava durante os anos do seu casamento, e da qual cuidava em companhia do marido. A casa tem agora um inquilino, um viúvo decente e um bom artesão, que tem cuidado da roseira, a tem podado e alimentado desde que foi para lá viver. Por que não pedir-lhe que vá ele entregar a rosa? Sem desvios, por intermédio de um terceiro, mas directamente da roseira à senhora? Esta casa é senhoria dele, e é beneficiário dela, e a sua bênção vai com a rosa sem que seja dita mais uma palavra.

Ele próprio não sabia bem o que o levara a fazer aquela sugestão. Talvez o vinho do serão, agora nele reaquecido pelo vinho do abade, tivesse reavivado consigo a recordação da família unida e feliz que deixara na cidade, onde o carinho matrimonial, tão sagrado a seu modo como quaisquer votos monásticos, testemunhava aos céus um desígnio benéfico para a humanidade. Fosse o que fosse que o levara a falar, sem dúvida lidavam naquele caso com um confronto de significado especial entre um homem e uma mulher, conforme Eluric demonstrara demasiado bem, e mais valia que o paladino enviado para a liça fosse um homem maduro, que já conhecesse as mulheres, o amor, o casamento e a perda.

-É uma boa ideia - disse Anselmo, depois de a analisar desapaixonadamente. - Se tem de ser um leigo, quem melhor que o inquilino? Ele também beneficia da dádiva, a casa é excelente para ele, pois o sítio onde antes vivia era demasiado distante da cidade e demasiado apertado.

- E acham que ele estaria disposto? - perguntou o abade.

- Só nos resta perguntar. Ele já trabalhou para a senhora - disse Cadfael. - Conhecem-se. E quanto melhores os seus contactos com as pessoas da cidade, melhor para o seu negócio. Creio que não terá objecções.

- Nesse caso - decidiu o abade com satisfação -, amanhã enviarei Vitalis a apresentar-lhe o assunto. E o nosso problema, por pequeno que seja, será resolvido a contento.

 

O irmão Vitalis tinha vivido durante tanto tempo entre documentos, registos e questões legais, que nada o surpreendia, e nada que não estivesse escrito em pergaminho lhe despertava a curiosidade. Desempenhava meticulosamente e sem qualquer interesse pessoal as incumbências que lhe eram destinadas. Transmitiu a Niall, o latoeiro, a mensagem do abade, palavra por palavra, esperando e recebendo imediata concordância, levou de volta a resposta satisfatória e prontamente esqueceu o rosto do inquilino. Não esquecia uma só palavra de um pergaminho que lhe tivesse passado pelas mãos, essas eram imutáveis, até mesmo os anos apenas as desvaneciam um pouco, mas os rostos dos leigos que talvez nunca voltasse a ver, e que não recordava alguma vez ter visto antes, esses desapareciam do seu espírito mais completamente do que as palavras apagadas de um pergaminho para dar lugar a um novo texto.

- O latoeiro diz que sim, de muito boa vontade - comunicou ao abade Radulfus no regresso -, e promete uma entrega fiel.

Nem sequer tinha perguntado a si mesmo por que é que esse dever tinha sido transferido de um irmão para um agente secular. De toda a maneira era mais apropriado, uma vez que a doadora era uma mulher.

- Muito bem - disse o abade, satisfeito, e com igual prontidão afastou a questão do espírito, dando-a por concluída.

Quando ficou só, Niall permaneceu alguns minutos de pé, a olhar na direcção por onde partira o seu visitante, esquecendo sobre a bancada o prato quase terminado com a sua bordadura cinzelada e a seu lado, ociosos, o punção e o malho. Apenas lhe faltava fazer uma pequena parte da orla, e depois ficaria com as mãos livres para as dedicar ao cinto de couro macio que, enrolado numa prateleira, aguardava a sua atenção. Teria de fazer um pequeno molde, formar com o metal fundido o corpo da fivela e depois cinzelar o padrão requintado e misturar os esmaltes brilhantes para preencher as incisões. Desde que ela o trouxera, por três vezes o havia desenrolado e passado, numa carícia, por entre os dedos, demorando-se na precisão delicada das rosetas de bronze. Para ela faria uma coisa bela, por muito pequena e insignificante que fosse, e mesmo que ela nunca o considerasse mais que um ornamento, uma coisa útil, pelo menos usá-lo-ia, ele cingiria aquele corpo tão esguio, demasiado esguio, e a fivela repousaria junto daquele ventre que apenas uma vez concebera e abortara, deixando-lhe uma dor tão persistente a amarga.

Naquela noite não, mas na seguinte, quando a luz começasse a enfraquecer, tornando impossível o trabalho de precisão, fecharia a casa e começaria a sua caminhada, atravessando Brace Meole em direcção à aldeola de Pulley, um feudo de menor importância dos Mortimer, onde John Sturdy, o marido da sua irmã, tratava da propriedade, como intendente, e os turbulentos filhos de Cicely faziam companhia à sua filhita; gostavam muito dela e corriam com ela, livres, entre as galinhas e os leitões. A sua perda não tinha sido completa, como a de Judith Perle. Uma filha era um grande consolo. Tinha pena de quem não tinha filhos, e principalmente de quem trouxera dentro de si um filho até metade da longa e árdua viagem para este mundo, apenas para acabar por o perder, e demasiado tarde para voltar a conceber. O filho de Judith partira apressado atrás do pai. A mulher ficara para fazer o seu caminho, lentamente e só.

Não tinha ilusões acerca dela. Pouco sabia dele, não desejava mais do que isso e não pensava absolutamente nada nele. Oferecia a sua cortesia decorosa a todos os homens, o seu interesse a nenhum. Era um facto que ele reconhecia sem lamentos nem interrogações. Mas o destino, e o pai abade, e sem dúvida certos escrúpulos monásticos acerca do contacto com as mulheres, haviam decretado que um dia por ano, pelo menos, ele a veria, iria a sua casa, ficaria na sua presença para lhe pagar o que lhe era devido, trocar com ela umas palavras corteses, ver claramente o seu rosto e até ser claramente visto por ela, ainda que por um momento.

Largou o trabalho e saiu pela porta da casa, para o jardim. No meio da relva, rodeadas pelo muro alto, havia árvores de fruto, um canteiro de legumes, e a um dos lados um canteiro de flores, estreito e desordenado, demasiado cheio mas juncado de cores brilhantes. A roseira crescia encostada ao muro do lado norte; tinha a altura de um homem e agarrava-se às pedras com uma dúzia de braços alongados. Tinha-a podado apenas sete semanas antes, mas todas os anos o seu crescimento era rápido e vigoroso. Era velha; tantas vezes haviam cortado do seu pé a madeira velha que tinha na base uma protuberância espessa e nodosa, e um caule rugoso que quase merecia ser chamado um tronco. Salpicavam-na uma abundância de botões brancos de neve, meio abertos. As flores nunca eram muito grandes, mas de um branco dos mais puros e muito perfumadas. Quando viesse o dia da ascenção de Stª Winifred não deixaria de haver muitas, no seu melhor, por onde escolher.

Judith receberia a melhor que ele encontrasse no arbusto. E ainda antes desse dia voltaria a vê-la, quando ela viesse buscar o cinto. Niall regressou ao trabalho com boa vontade, dando forma à nova fivela, em espírito, enquanto completava a decoração do prato para a cozinha do preboste.

A propriedade da família Vestier ocupava um local proeminente, no topo da rua a que chamavam Maerdol e que descia o monte em direcção à ponte ocidental. Uma casa de ângulos rectos, com uma larga frente de oficinas voltada para a rua, e a longa fila de salões e câmaras prolongando-se nas suas traseiras, com um pátio espaçoso e estábulos. O edifício alongado era muito espaçoso: abrigava, além dos aposentos destinados à família, amplos armazéns numa cave boa e seca, e proporcionava espaço para todas as raparigas que cardavam e penteavam a lã acabada de tingir e para os teares horizontais, cada um com a sua própria armação. No salão cabiam à vontade meia dúzia de fiadeiras ao mesmo tempo; outras trabalhavam nas suas casas, assim como cinco outros tecelões da cidade. Os Vestier eram os maiores e os mais conhecidos fabricantes de tecidos de Shrewsbury.

Apenas o tingimento da lã em bruto e a pisoagem do pano eram deixados a cargo das mãos experientes de Godfrey Fuller, que tinha as suas oficinas de tingimento e de pisoagem e o terreno para secagem logo ali, a jusante do rio, sob a muralha do castelo.

Naquela altura do ano já tinham sido compradas e escolhidas as primeiras lãs em bruto, provenientes da tosquia, que tinham sido enviadas para tingir, e naquele mesmo dia tinham sido entregues, de acordo com o combinado, por Godfrey em pessoa. E não parecia ter pressa de voltar para a sua vida, embora fosse tido na conta de um homem para quem o tempo é dinheiro, e o dinheiro muito importante. O poder também. Agradava-lhe ser um dos mais ricos membros de guilda da cidade, e andava sempre em busca de uma maneira de alargar o seu domínio e a sua influência.

Diziam as más-línguas que ele estava de olho na fortuna, quase comparável à sua, da viúva Perle, e que nunca perdia uma oportunidade de exortar as vantagens de reunir as duas através do casamento. Judith tinha suspirado ao ver que ele não se ia embora, mas ofereceu atenciosamente comida e bebida e escutou pacientemente as suas obstinadas tentativas de persuasão, que pelo menos tinham a decência de evitar qualquer semelhança com um namoro apaixonado. As suas palavras eram de bom senso, não de galanteio, e tudo o que disse era verdade. Os negócios de ambos, se reunidos e bem dirigidos como agora o estavam a ser, transformar-se-iam numa potência do condado, quanto mais da cidade. Em termos de riqueza, ela ficaria a ganhar tanto quanto ele. Nem ele daria um marido demasiado repelente, pois, embora com cinquenta anos feitos, ainda era um homem de figura apresentável, alto, vigoroso, que caminhava a grandes passadas e tinha uma cabeleira espessa, cinzenta como o aço, coroando umas feições bem marcadas; e se dava valor ao dinheiro também dava valor às aparências e aos requintes e trataria de garantir, quanto mais não fosse pelo seu próprio prestígio, que a sua mulher andasse tão belamente arranjada como qualquer outra do condado.

- Bem, bem! - disse ele, reconhecendo a recusa e aceitando-a sem ressentimento -, eu sei esperar a minha hora, senhora, e não sou homem para desistir antes da vitória, e também não sou homem para mudar de ideias. Há-de acabar por ver a razão do que eu disse, e eu não receio enfrentar qualquer desses jovens impudentes que só têm para oferecer uma cara bonita. A minha já tem muito uso mas apostava nela contra a deles, fosse como fosse. Sei que é uma rapariga com demasiado bom senso para escolher um moço só porque fica janota em cima de um cavalo, ou pela sua beleza rosada e loura. E pense bem naquilo que nós dois poderíamos conseguir, se tivéssemos o negócio inteiro nas nossas mãos, desde o lombo das ovelhas ao pano sobre o balcão e à roupa nas costas do cliente.

- Já pensei nisso - disse ela com simplicidade -, mas a verdade, mestre Fuller, é que não é minha intenção voltar a casar.

- As intenções podem mudar - disse Godfrey com firmeza, e levantou-se para se despedir. Levou aos lábios a mão que ela, resignada, lhe estendeu.

- As suas também? - disse ela, com um leve sorriso.

- Eu não vou mudar de ideias. Se a senhora mudar, cá estarei, à espera. - E com estas palavras deixou-a, com tanto vigor como tinha vindo. Sem dúvida, a sua persistência e a sua paciência pareciam não ter fim, mas um homem de cinquenta anos não pode esperar demasiado. Muito em breve poderia ter de fazer algo de decisivo quanto a Godfrey Fuller, e contra aquela grande segurança era difícil ver o que poderia fazer para além do que sempre fizera: defender-se e ser tão constante na recusa como ele no pedido. Tinha sido ensinada a cuidar bem do seu negócio e dos seus trabalhadores, não menos que ele, e dificilmente poderia entregar o tingimento e a pisoagem a outro mestre.

A tia Agatha Collier, que estava sentada a costurar, um pouco afastada, cortou o fio com os dentes e disse na voz doce e indulgente que por vezes usava para com a sobrinha que a mantinha com conforto:

- Nunca te livrarás dele sendo demasiado cortês. Ele acha que é um encorajamento.

- Ele tem o direito de dizer o que pensa - disse Judith com indiferença - e sabe muito bem o que eu penso. Posso recusar tantas vezes quantas ele pedir.

- Oh, minha querida alma, confio que podes. Não é homem para ti. E aqueles jovens de que ele falou também não. Bem sabes que não há segundo no mundo para quem conheceu a felicidade com o primeiro. Será de longe melhor percorrer todo o caminho sozinha! Ainda choro o meu homem, depois de tantos anos. Depois dele nunca pude olhar para outro.

Assim falara, suspirando, abanando a cabeça e limpando uma lágrima fácil, um milhar de vezes desde que viera para tomar conta da despensa e da roupa, trazendo consigo o filho para ajudar a dirigir o negócio.

- Se não fosse pelo meu rapaz, que na altura era demasiado novo para tomar conta de si, teria tomado o véu no mesmo ano em que o Will morreu. No claustro uma mulher não é importunada por caçadores de fortunas. Lá haveria paz de espírito.

Tinha-se lançado no seu tema favorito, e por vezes parecia esquecer que estava a falar com outra pessoa que não ela própria.

Na juventude havia sido uma mulher bonita, e tinha ainda uma frescura agradável, rosada e redonda, de algum modo negada pela vivacidade perspicaz dos seus olhos azuis e pelo sorriso tenso que muitas vezes lhe visitava a boca quando esta deveria estar descontraída e em repouso, como se dentro dela pensamentos astutos usassem como disfarce a sua aparência exterior suave. Judith não se lembrava da mãe, e muitas vezes pensava se teriam existido muitas semelhanças entre as duas irmãs. Mas aqueles dois, mãe e filho, eram os únicos parentes que tinha, e aceitara-os sem hesitação. Miles valia mais do que o seu sustento, pois revelara-se um excelente administrador durante o longo declínio da saúde de Edred, quando Judith não podia pensar senão no marido e no filho que havia de vir. Quando regressara à oficina, ela não tinha tido coragem de voltar a tomar as rédeas nas suas mãos. Embora fizesse a sua parte e vigiasse tudo, como era sua obrigação, permitiu que ele continuasse como mestre fabricante de pano. Uma casa tão influente estaria melhor dirigida por um homem.

- Mas, pronto - suspirou Agatha, dobrando a costura no colo espaçoso e deixando cair uma lágrima sobre a bainha -, eu tinha a minha função a desempenhar no mundo, para mim não haveria essa calma e esse silêncio. Mas tu, minha pobre querida, não tens uma criança que se agarre a ti, e agora nada te prenderia ao mundo, se te aprouvesse deixá-lo. Uma vez falaste disso. Oh, pensa bem, não faças nada precipitado. Mas se assim fosse, não terias nada que te impedisse.

Não, nada! E por vezes parecia a Judith que o mundo era uma desolação, um tédio, e que mal valia a pena continuar nele. E dentro de um ou dois dias, talvez mesmo amanhã, a irmã Magdalen chegaria do Vau de Godríc, do convento da floresta da abadia de Polesworth, para levar consigo como postulante a sobrinha do irmão Edmundo. Tanto podia levar duas aspirantes a noviça como uma.

Judith estava na sala de fiação com as mulheres quando a irmã Magdalen chegou, no dia seguinte, ao princípio da tarde. Como herdeira do negócio do fabrico de pano, por falta de um irmão, ela tinha aprendido todas as técnicas envolvidas, desde a cardação ao tear e ao corte final das roupas, embora agora se sentisse muito destreinada no uso da roca. O molho de lã cardada que tinha diante de si era de um vermelho-ferrugem. Até as matérias-primas para tingir eram sasonais e a colheita de pastel-dos-tintureiros para os azuis do ano anterior geralmente já tinha acabado em Abril ou em Maio, para ser seguida por aquelas variações de vermelhos, castanhos e amarelos que Godfrey Fuller produzia a partir de líquenes e de granza. Ele sabia do seu ofício. A quantidade de pano que acabava por receber para a pisoagem tinha cores nítidas e resistentes, e obtinha bons preços.

Foi Miles quem veio à sua procura:

-Tens uma visita-disse, estendendo a mão por sobre o ombro de Judith para apalpar com os dedos um fio de lã saída da roca, com uma aprovação cautelosa. - Está cá uma freira do Vau de Godric. Está sentada na câmara pequena, à tua espera. Diz que na abadia lhe disseram que gostarias de falar com ela. Não continuas com aquela ideia de abandonar o mundo, pois não? Julgava que esse disparate já tivesse terminado.

- De facto, disse ao irmão Cadfael que queria falar com ela - disse Judith, fazendo parar a roda.-Nada mais que isso. Ela veio cá para levar uma nova noviça... a filha da irmã do enfermeiro.

- Então vê lá, não sejas tão tola que lhe ofereças mais uma. Apesar de seres capaz de fazer tolices, que eu bem o sei-disse com ligeireza enquanto lhe dava uma palmada afectuosa no ombro -, como dar, a troco de uma folha de roseira, a melhor propriedade de Foregate. Tencionas fazer ainda melhor, dando-te a ti própria?

Tinha mais dois anos que a prima e era dado a representar o papel de mais velho, cheio de conselhos sábios, embora com uma ligeireza que atenuava a imagem. Era um jovem de constituição muito proporcionada e compacta, forte e ágil, e tão competente a montar, a lutar e a atirar ao alvo junto do rio como a dirigir um negócio de fabrico de pano. Possuía os olhos azuis e cheios de vivacidade da mãe e o seu cabelo castanho-claro, mas nada da sua complacência confusa. Tudo o que na mãe era, ou parecia, vago e superficial tornava-se no filho manifesto e decidido. Judith tinha bons motivos para estar satisfeita com ele, e para confiar no seu sólido bom senso em tudo o que dizia respeito aos negócios.

- Posso fazer de mim o que mais me aprouver - disse ela, levantando-se e pousando o fuso em segurança, junto do seu cone de fio cor de ferrugem -, assim eu soubesse o que mais me apraz! Mas, para dizer a verdade, estou completamente no escuro. Apenas disse que gostaria de falar com ela. E é verdade. Gosto da irmã Magdalen.

-Também eu-concordou Miles, com entusiasmo.-Mas não te entregaria a ela de boa vontade. Sem ti esta casa desmoronava-se.

- Que disparate! - disse Judith, vivamente. - Sabes muito bem que a casa passava tão bem sem mim como comigo. Quem suporta o telhado és tu, não sou eu.

Se ele refutou esta afirmação, ela não esperou para o ouvir. Lançou-lhe um súbito sorriso tranquilizador e tocou-lhe com a mão na manga, quando passava por ele para ir ter com a sua visita. Miles possuía uma honestidade implacável, sabia que o que ela tinha dito não era mais do que a verdade; era capaz de dirigir tudo sem ela. A lembrança brusca magoou-a. Era de facto dispensável, uma mulher sem um objectivo neste mundo, bem podia pensar se não seria mais útil fora do mundo. Ao tentar convencê-la a desistir da ideia, Miles tinha voltado a abrir o vazio do seu coração, fazendo que os seus pensamentos se voltassem de novo para o claustro.

A irmã Magdalen estava sentada num banco almofadado, junto da janela sem portadas da pequena câmara privada de Judith, corpulenta, digna e plácida no seu hábito negro. Agatha tinha-lhe trazido fruta e vinho e depois deixara-a só, pois ela inspirava-lhe um certo temor. Judith sentou-se ao lado da visitante.

- Cadfael contou-me o que a aflige - disse a freira com simplicidade, e o que lhe confiou. Deus não permita que eu a influencie de uma forma ou de outra, pois no final a decisão é só sua, e ninguém a pode tomar por si. Estou a ter em conta quão dolorosas foram as suas perdas.

- Invejo-a - disse Judith, baixando os olhos para as mãos entrelaçadas. - É bondosa, e tenho a certeza de que é inteligente e forte. Acho que agora não sou nada disso e é tentador apoiar-me numa pessoa que o seja. Oh, eu vivo, eu trabalho, não abandonei a casa, nem a família, nem os meus deveres. Mas tudo correria igualmente bem sem mim. O meu primo acabou de mo demonstrar, ao tentar negá-lo. Seria um refúgio muito bem-vindo, ter uma vocação noutro local.

- Uma vocação que não tem - disse a irmã Magdalen, perspicaz -, caso contrário, não teria dito isso. - O seu súbito sorriso era como um raio de calor, e a covinha que surgiu na sua face cintilou e desapareceu. - Não. O irmão Cadfael disse o mesmo. Disse que a vida } religiosa não devia ser abraçada como uma segunda hipótese, apenas como a melhor... que não podia ser um esconderijo, mas uma paixão.

- Teria dificuldade em aplicar esse princípio a mim mesma - disse a irmã Magdalen sem rodeios. - Mas também eu não recomendo às outras o que eu própria faço. Para dizer a verdade, eu não sirvo de exemplo para nenhuma mulher. Escolhi o que quis, e ainda me restam alguns anos de vida para o pagar. E se a dívida não estiver saldada nessa altura, pagarei o saldo depois, e sem me queixar. Mas a senhora não incorreu nessa dívida, e não creio que deva fazê-lo. O preço é alto. A minha opinião é que é melhor para si esperar e gastar os seus recursos noutra coisa.

- Eu não sei de nada - disse Judith, desanimada, após um longo momento de reflexão - que considere agora valer a pena comprar neste mundo. Mas a senhora e o irmão Cadfael têm razão. Se eu tomasse o véu, estaria a esconder-me atrás de uma mentira.

O que eu desejo do claustro é a tranquilidade, e o muro que mantém o mundo do lado de fora.

- Nesse caso, não esqueça - disse a freira em tom enfático - que as nossas portas não se fecham para uma mulher que necessite, e que a tranquilidade não está reservada às que fizeram votos. Pode chegar o momento em que necessite verdadeiramente de um local onde esteja afastada, de tempo para pensar e para descansar, tempo até para recuperar a coragem perdida, embora eu ache que coragem não lhe falta. Tinha dito que não ia dar-lhe conselhos, e afinal estou a dá-los. Aguarde, aceite as coisas como se apresentam. Mas se alguma vez precisar de um local para se esconder, por pouco tempo ou por muito tempo, venha ao Vau de Godric e traga consigo todas as suas inquietações, e encontrará um refúgio por tanto tempo quanto precisar, sem fazer votos, nunca, a não ser que os queira fazer de todo o coração. E eu manterei o mundo do outro lado da porta até que a senhora se sinta em condições de avançar de novo.

Nessa noite, depois da ceia, na pequena casa do domínio de Pulley, na orla de vegetação arbustiva da Floresta Longa, Niall abriu a porta exterior do salão construído de troncos do cunhado e olhou para fora, para o crepúsculo que começava a adensar-se em noite. Tinha diante de si uma caminhada de três quilómetros, para regressar à sua casa de Foregate, mas com bom tempo era uma caminhada familiar e agradável; estava habituado a fazê-la duas ou três vezes por semana depois do trabalho, regressando a casa ao princípio da noite, para na manhã seguinte, cedo, estar de pé e a trabalhar. Mas naquela noite viu com certa surpresa que caía uma chuva constante, tão silenciosa, caindo a direito, que dentro de casa não se tinham apercebido dela.

- Passa cá a noite - disse-lhe a irmã, junto do ombro dele. - Não tens necessidade de ficar todo encharcado, e isto não vai durar até amanhã.

- Não me importo - disse Niall simplesmente. - Não me faz mal.

- Com tanto para andar? Tem juízo - aconselhou Cicely com bonomia - e fica aqui, que ficas seco. Temos espaço que chegue e sabes que és bem-vindo. Amanhã podes levantar-te a tempo e ires embora, não há perigo de dormirmos de mais, com o dia a despontar tão cedo.

- Fecha a porta à chuva - insitiu John da mesa, e vem beber mais um trago. Mais vale molhares-te por dentro que por fora. Poucas vezes temos a oportunidade de conversar só os três, depois de as crianças estarem na cama a dormir.

Com quatro crianças em casa, todas vivas como esquilos, isso era bem verdade; as pessoas crescidas andavam sempre às ordens dos pequenos para todo o tipo de serviços, consertar brinquedos, participar nos jogos, contar histórias, cantar rimas. Os dois rapazes e a rapariga de Cicely iam dos dez anos de idade aos seis, e a menina de Niall era a mais nova, a queridinha de todos. Agora estavam os quatro enroscados como uma ninhada de cachorrinhos sobre os seus colchões de palha, no pequeno sótão, dormindo profundamente, e na sala, em redor da mesa suportada por um cavalete, os mais velhos podiam falar à vontade sem os incomodar.

Tinha sido um bom dia para Niall. Tinha fundido, decorado e polido a nova fivela para o cinto de Judith, e não estava descontente com o seu trabalho. Talvez no dia seguinte ela o viesse buscar, e se ele visse prazer nos seus olhos quando o recebesse, sentir-se-ia bem recompensado. Entretanto, por que não instalar-se ali confortavel-mente para passar a noite e levantar-se ao nascer do dia para um mundo acabado de lavar e um agradável passeio no meio da verdura, até casa?

Dormiu bem e foi acordado à primeira luz pelo habitual êxtase dos pássaros ao despertar, ao mesmo tempo suave e estridente. Cicely estava acordada e atarefada e tinha preparado para ele cerveja fraca e pão. Era mais jovem que ele, bonita e simpática, feliz com o marido e com um jeito natural para as crianças. Não admirava que a criança sem mãe se desse tão bem ali. Sturdy não aceitava nada pelo sustento dela. Que era mais um passarinho, dizia ele, num ninho cheio? E de facto ali nada faltava à família, graças ao trabalho de manter próspero e em boas condições o pequeno domínio de Mortimer, os campos desbravados produtivos, a floresta bem tratada, a pequena mata protegida contra os veados por meio de uma vala. Um bom lugar para as crianças. Porém, era sempre com esforço que partia para a cidade, deixando-a para trás, e visitava-a muitas vezes, com receio de que ela começasse a esquecer que era dele, e não a mais nova da ninhada dos Sturdy, vivendo ali desde o nascimento, com o pai e com a mãe.

Niall partiu nos primeiros momentos da manhã húmida e doce. Parecia que a chuva terminara havia horas, pois, embora a relva reluzisse, o solo descoberto tinha absorvido a água e começava a secar. Os primeiros raios alongados e baixos do Sol nascente atravessaram como lanças as árvores, traçando no chão padrões em luz e sombra. A primeira paixão da canção dos pássaros suavizava-se gradualmente, perdia a sua beligerância, tornava-se atarefada, doce e serena. Ali também os ninhos estavam cheios de pássaros jovens, e era preciso trabalhar arduamente o dia inteiro para os alimentar a todos.

A primeira milha passava no meio das árvores da floresta, e o terreno ia-se descobrindo gradualmente, dando lugar ao mato e aos arbustos, salpicado por pequenos bosques. Depois chegou à aldeia de Brace Meole, e a partir daí era um caminho muito percorrido, que se alargava à medida que se ia aproximando da cidade, transformando-se numa estrada para carros que atravessava a ribeira de Meole sobre uma pequena ponte e que o levou até Foregate, entre a ponte de pedra que dava para a cidade e a azenha com o seu lago, nos limites do enclave da abadia. Tinha partido cedo e caminhara com passos rápidos, e Foregate ainda mal tinha acordado; apenas alguns camponeses e alguns trabalhadores já andavam na sua vida e deram-lhe os bons-dias quando passou. Os monges ainda não tinham descido para a Prima, e quando Niall passou não se ouvia um ruído na igreja, mas do dormitório vinha o som ténue da campainha que tocava. A estrada já havia secado depois da chuva, mas a terra dos jardins mostrava-se escura e rica, prometendo um crescimento grato.

Chegou ao portão do muro da sua casa, entrou para o pátio, abriu a porta da oficina e preparou-se para o dia de trabalho. O cinto de Judith estava enrolado sobre uma prateleira. Conteve a mão, impedindo-a de o tirar para baixo para voltar a acariciá-lo, pois não tinha direitos sobre ela, e nunca teria. Mas naquele mesmo dia pelo menos poderia voltar a vê-la e a ouvir a sua voz, e dentro de cinco dias isso sem dúvida sucederia, e na casa dela. Talvez as suas mãos se tocassem sobre o caule da rosa. Havia de escolher bem, com cuidado, para não lhe oferecer espinhos, a ela que, na sua breve vida, já tinha sido ferida por tantos e tão afiados espinhos.

Esse pensamento fez que saísse para o jardim, que ficava atrás do pátio e para onde se entrava por uma porta da casa e por uma cancela no muro do pátio. Depois do frio que a noite deixara dentro de casa, a luz brilhante do sol acariciou-o junto da porta, um agasalho tépido que cintilava, húmido, através dos ramos das árvores de fruto e sobre o canteiro coberto de verdura. Deu um passo para fora da soleira e deteve-se, paralisado e estarrecido.

Encostada ao muro do lado norte, a roseira de rosas brancas pendia para o lado, com os braços espinhosos arrancados à pedra, a base nodosa fendida por um corte profundo que lhe decepara um terço da massa e dos rebentos, que tombavam sobre a relva. Por baixo dela, a terra do canteiro estava revolvida como se aí tivesse havido uma luta de cães, e ao lado do campo de batalha, imóvel, viu um amontoado de cor negra-acastanhada, meio afundado na relva. Niall não tinha dado mais de três passos apressados em direcção ao destroço quando, sobressaindo do amontoado, viu o brilho pálido de um tornozelo descoberto, um braço esticado, envergando uma manga negra larga, uma mão cravada convulsivamente na terra, e o círculo pálido de uma tonsura, surpreendentemente branco no meio de todo o negrume. Um monge de Shrewsbury, jovem e franzino, quase mais o hábito do que o corpo dentro dele, e, em nome de Deus, que estava ele ali a fazer, morto ou moribundo, sob a árvore ferida?

Niall aproximou-se e ajoelhou-se a seu lado, de início demasiado atemorizado para o tocar. Depois viu a faca, caída junto da mão estendida, coberta com uma camada de sangue que começava a secar. No solo, sob o corpo, infiltrava-se uma humidade espessa e escura, que não era chuva. O antebraço que a manga deixava descoberto era liso e claro. Tratava-se apenas de um rapaz. Porfim, Niall estendeu a mão para o tocar: a carne estava fria mas ainda não arrefecera completamente. Mesmo assim reconheceu a morte. Com um receio cuidadoso, passou uma mão sob a cabeça e voltou para a luz da manhã o rosto jovem e manchado de terra do irmão Eluric.

 

O irmão Jerome, que contava cabeças e controlava o comportamento de todos os irmãos, jovens e velhos, e quer pertencessem ou não à sua jurisdição, tinha dado conta do silêncio dentro de uma das celas do dormitório quando todos os outros se levantavam, como era sua obrigação, para assistir à Prima, e decidiu espreitar lá para dentro; neste caso estava um pouco surpreendido, pois geralmente o irmão Eluric podia ser classificado como um modelo de virtudes. Mas até os virtuosos podem de vez em quando cair em falta, e a oportunidade de censurar o irmão tão exemplar era uma coisa rara, que não podia de modo nenhum ser desperdiçada. Desta vez o zelo do irmão Jerome foi em vão, e as pias palavras de censura morreram sem ser ditas, pois a cela estava vazia, a cama imaculadamente arranjada, o breviário aberto sobre a secretária estreita. O irmão Eluric tinha-se certamente levantado antes dos seus irmãos, e devia já estar de joelhos, algures na igreja, absorvido na oração. Jerome sentiu-se enganado, e ralhou com mais acidez ainda do que a habitual a quem mostrava olhos ensonados ou descia as escadas a bocejar. Irritava-se do mesmo modo com os que o excediam em devoção e com os que não estavam à sua altura. De uma maneira ou de outra, Eluric pagaria por este revés.

Quando já estavam todos nos seus lugares do coro e o irmão Anselmo atacava a liturgia - como podia um homem com mais de cinquenta anos, que falava com uma voz humana cheia, mais profunda do que a maioria, cantar à sua vontade naquele registo mais alto, como os mais perfeitos rapazes chantres? E como se atrevia! - Jerome começou mais uma vez a contar cabeças e sentiu-se mais feliz ao ver-se justificado, pois faltava uma, e era a do irmão Eluric. O modelo de perfeição caído, que tinha conseguido as boas graças dignas e influentes do prior Robert, para inveja e inquietação de Jerome! Ele que cuidasse dos seus louros! O prior nunca se rebaixaria a contar ou a procurar deserções, mas quando lhe fosse chamada a atenção para elas haveria de escutar.

A Prima terminou, e os irmãos começaram a subir em fila as escadas para acabarem de se arranjar e para se prepararem para o pequeno-almoço. Jerome deixou-se ficar para trás, colocando-se ao lado do prior Robert para lhe segredar, em tom de confidência e justa desaprovação:

- Meu pai, esta manhã houve um que faltou. O irmão Eluric não estava presente na igreja. Nem está na sua cela. Deixou tudo em ordem na cela, e eu pensei que decerto tinha vindo antes de nós para a igreja. Agora não imagino onde possa estar, nem o que andará a fazer, para descurar assim os seus deveres.

Por sua vez, o prior Robert parou e franziu as sobrancelhas.

- Que estranho! E logo ele! Já procurou na capela da Senhora? Se ele se levantou muito cedo para cuidar do altar e ficou muito tempo a rezar pode ter adormecido. Isso pode acontecer aos melhores.

Mas o irmão Eluric não estava na capela da Senhora. O prior Robert apressou-se a deter o abade que atravessava o pátio grande em direcção ao seu alojamento.

- Meu pai abade, estamos um tanto preocupados com o irmão Eluric.

O nome provocou uma atenção imediata e profunda. O abade Radulfus voltou-se com um semblante imóvel e circunspecto.

- O irmão Eluric? Porquê? Que se passa com ele?

- Não assistiu à Prima e não o encontramos em lado nenhum. Pelo menos não está em nenhum dos sítios onde deveria estar a esta hora. Não é coisa dele, ausentar-se do ofício - disse o prior, com imparcialidade.

-Pois não. É uma alma devota. - O abade falou quase em tom ausente, pois o seu espírito regressara à privacidade da sua sala, diante do demasiado frágil devoto, quando este lhe confessava o seu amor ilícito, a que resistira com tanta coragem. Esta lembrança parecia demasiado apropriada. E se a confissão, absolvição e a libertação da tentação não tivessem sido suficientes? Radulfus, que não era um homem hesitante, ainda hesitava quanto ao modo de agir naquela ocasião, quando foram interrompidos pela aproximação do porteiro que vinha numa corrida da casa do portão, com as saias e as mangas a esvoaçar.

- Meu pai abade, está um homem ao portão, o latoeiro que alugou a antiga casa da viúva Perle, e diz que tem más notícias, que não podem esperar. Pede para falar consigo... não quis dar-me o recado...

- Eu vou - disse Radulfus imediatamente. E ao prior, que se preparava para o seguir: - Robert, mande alguém procurar mais longe, nos jardins, no pátio da granja... Se não o encontrar, venha ter comigo.

Afastou-se a passos largos em direcção ao portão e a autoridade da sua voz e a veemência da sua partida impediram que alguém o seguisse. Aquela trama tinha demasiados fios interligados - a dama da rosa, a casa da rosa, o inquilino que aceitara de boa vontade a tarefa que Eluric receava, e agora Eluric que não era encontrado lá dentro, e más notícias que vinham lá de fora. A trama começava a formar um padrão, e as suas cores eram sombrias.

Niall aguardava junto da casa do porteiro. O choque tornara o seu rosto largo e de ossos fortes muito imóvel e pálido, sob o bronzeado do Verão.

- Queria falar comigo-disse Radulfus em voz baixa, avaliando-o com um olhar firme. - Aqui estou. Qual é a notícia que me traz?

- Senhor - disse Niall -, achei melhor dizer-lhe primeiro só a si, para que depois tomasse a decisão que lhe parecesse mais apropriada. Ontem passei a noite em casa da minha irmã por causa da chuva. Esta manhã, quando regressei, fui ao jardim. Meu senhor, a roseira da Srª Perle foi partida com um machado, e caído debaixo dela, morto, está um dos vossos irmãos.

Após um silêncio breve e profundo, o irmão Radulfus disse:

- Se o conhece, diga-me o nome dele.

- Conheço-o, sim. Veio estes três últimos anos ao jardim cortar a rosa para a Srª Perle. É o irmão Eluric, o guardião do altar de Stª Maria.

Desta vez o silêncio foi mais prolongado e mais profundo. Então o abade perguntou com simplicidade:

- Quanto tempo passou desde que deu com ele?

-Mais ou menos a duração da Prima, meu senhor, pois quando passei pela igreja a caminho de casa estava quase na hora. Vim imediatamente, mas o porteiro não o quis incomodar durante o ofício.

- E deixou tudo como encontrou? Não tocou em nada?

- Levantei a cabeça para lhe ver o rosto. Mais nada. Está na posição em que o encontrei.

- Óptimo! - disse Radulfus, e estremeceu ao usar aquela palavra, ainda que para um acto correcto, quando tudo o resto corria tragicamente mal. - Então espere só um instante, que eu mando chamar mais alguns e depois vamos consigo a esse jardim.

Os que levou consigo, ainda sem dizer nada aos outros, nem mesmo ao prior, foram o irmão Anselmo e o irmão Cadfael, testemunhas pela abadia da carta redigida com Judith Perle. Só a eles tinha sido comunicado o problema do irmão Eluric e partilhavam a triste informação que poderia ter relevância para o caso. O confessor do jovem era obrigado ao silêncio pelo seu cargo, e em qualquer dos casos o subprior Richard não era o homem que Radulfus teria escolhido como sábio conselheiro para assuntos tão sinistros.

Em silêncio, os quatro rodearam o cadáver do irmão Eluric, observando o trágico amontoado de pregas negras, a mão estendida, a árvore decepada e a faca ensanguentada. Niall tinha-se afastado alguns passos para os deixar sós, mas estava atento, pronto a responder a qualquer pergunta.

- Pobre criança atormentada - disse Radulfus em voz lúgubre. - Receio não ter agido como devia, a sua doença era pior do que eu julgava. Implorou-me que o libertasse da sua tarefa, mas decerto não lhe agradou que ela fosse entregue a outro, e tentou destruir a roseira. E também a si próprio.

Cadfael permanecia em silêncio, e o seu olhar percorria, pensativo, o chão revolto. Tinham todos evitado aproximar-se demasiado e nada havia sido alterado desde que Niall se havia ajoelhado para voltar para a luz o rosto pálido.

- É desta forma que interpretam o caso? - perguntou Anselmo. - Devemos condená-lo como suicida? Por muito que nos apiedemos?

- Que outra coisa pode ser? Decerto aquele amor involuntário tinha-o devorado de tal forma que ele não podia suportar que outro tomasse o seu lugar j unto da mulher. Por que outro motivo haveria ele de sair na calada da noite para vir a este jardim, por que outro motivo haveria de decepar as raízes da árvore? E a partir desse ponto seria apenas um passo, no seu desespero, e pecaminosa tentação de se destruir a si próprio, juntamente com as rosas. Que poderia fixar na memória dela a imagem dele de forma mais terrível e permanente que uma morte assim? Pois conhecem, vocês dois conhecem, a intensidade do seu desespero. E ali, ao lado da mão, está a faca.

Não era um punhal, era uma faca de boa qualidade, de cabo longo, estreita e afiada, uma faca que qualquer homem prático poderia trazer consigo para uma dúzia de propósitos dentro da lei, desde trinchar a carne à mesa a afugentar salteadores numa viagem, ou um ou outro javali na floresta.

- Ao lado - disse Cadfael brevemente -, e não na mão. Voltaram os olhos para ele, cautelosamente, com esperança, mesmo.

-Estão a ver como ele tem a mão cravada no solo - prosseguiu lentamente - e esta não tem sangue, embora a faca esteja ensanguentada até ao punho. Toquem na mão dele... acho que verificarão que já começa a tornar-se rígida na posição em que se encontra, agarrando a terra. Ele nunca segurou aquela faca. E se tivesse, não teria a bainha no cinto? Nenhum homem com juízo traria consigo uma faca destas sem a guardar na bainha.

- Mas um homem que tivesse perdido o juízo talvez trouxesse - disse Radulfus, com mágoa. - Precisaria dela para o que fez à roseira, não é verdade?

- O que fizeram à roseira - disse Cadfael com firmeza - não foi com aquela faca. Não podia ter sido! Um homem teria de estar a serrar durante meia hora ou mais, mesmo com uma faca afiada, para cortar um pé tão grosso. Isto foi feito com uma arma mais pesada, feita para este tipo de trabalho, um croque ou um machado pequeno. Além disso, estão a ver como o corte começa mais alto, onde um único golpe, no máximo dois, teria decepado o pé, mas desvia-se para baixo, para a parte mais grossa e nodosa, onde durante anos tem sido cortada madeira morta, deixando aquela incrustação lenhosa.

-Receio-disse Anselmo em tom estranho-que dificilmente o irmão Eluric fosse um especialista no uso de uma ferramenta dessas.

- E não houve segundo golpe - disse Cadfael, sem se deixar desviar. - Se tivesse havido, o arbusto teria sido completamente cortado. E o primeiro golpe, acho eu, o único golpe... mesmo esse foi desviado. Alguém interrompeu o acto. Alguém agarrou o braço que brandia o machado, e fez que a lâmina descesse para a parte espessa do tronco. Acho... acho... que o machado ficou lá preso, e que o homem que o segurava não teve tempo de deitar as duas mãos ao cabo para o tirar. Por que outro motivo haveria de puxar da faca?

- Está a dizer - disse Radulfus, num esforço de concentração - que durante a noite estiveram aqui dois homens, e não um? Um que tentou destruir, e outro que tentou impedi-lo?

- Sim, é isso que eu vejo aqui.

- E que o que tentou proteger a árvore, que agarrou o braço do atacante e fez que a arma se cravasse... e que no lugar dela foi abatido com a faca...

- É o irmão Eluric. Sim. De que outra forma poderia ter sucedido? Sem dúvida veio aqui em segredo, durante a noite, por sua livre vontade, mas não para destruir, antes para um último adeus àquele seu sonho louco, para olhar uma última vez as rosas, e depois nunca mais. Mas chegou mesmo a tempo de encontrar aqui outro homem, um homem que tinha outras ideias, e por outros motivos, um homem que viera destruir a roseira. Eluric seria capaz de permitir uma coisa dessas? Com certeza que saltou para defender a árvore, agarrou o braço que brandia o machado, desviou a lâmina para baixo, cravando-a no nó. Se houve uma luta, como o solo indica, não creio que tenha durado muito. Eluric não estava armado. O outro, se na altura não podia servir-se do machado, trazia uma faca. E usou-a.

Seguiu-se um longo silêncio, durante o qual todos fixaram nele os olhos, enquanto reflectiam lentamente nas implicações do que ele dizia. E gradualmente uma convicção descontraiu os seus rostos, que mostraram mesmo alívio e gratidão. Pois se Eluric não era um suicida, se tinha ido ao encontro do seu fim de boa fé, suportando o seu fardo e tentando evitar um acto perverso, então o seu local de repouso no cemitério estava garantido e a sua passagem pela morte, por muito que a sua conta contivesse pequenos pecados a necessitar de purificação, seria tão segura como o regresso do filho pródigo a casa de seu pai.

-Se não fosse como eu disse-salientou Cadfael -, o machado ainda estaria no jardim. Não está. E decerto não foi aqui o nosso irmão quem o levou. E também não foi ele quem o trouxe, empenho nisso a minha palavra.

- Mas se é assim - disse Anselmo, reflectindo -, o outro não ficou para terminar o seu trabalho.

- Não, arrancou o machado e fugiu o mais depressa que pôde, para longe do local onde se tinha transformado num assassino. Uma coisa que me atrevo a dizer que não era sua intenção, feita num momento de alarme e de terror, quando este pobre rapaz, na sua indignação, o atacou. Eluric, morto, fá-lo-ia fugir com muito mais terror do que se estivesse vivo.

- Mesmo assim - disse o abade Radulfus com veemência -, é assassínio.

- Pois é.

- Então, tenho de mandar avisar o castelo. E às autoridades seculares que compete perseguir os assassinos. - É pena - disse ele - que Hugh Beringar tenha ido para norte, vamos ter de aguardar o seu regresso, embora sem dúvida Alan Herbard o mande chamar imediatamente e lhe comunique o que sucedeu. Há mais alguma coisa que tenhamos de fazer aqui, antes de levarmos para casa o irmão Eluric?

-Podemos pelo menos observar o que houver cá para ser visto, meu pai. Uma coisa posso dizer-lhe, o senhor mesmo a vê, o que aqui aconteceu foi depois de a chuva parar. O chão estava macio quando eles se encontraram neste sítio, veja como o deixaram marcado. E as costas e o ombro do hábito do rapaz estão secos. Agora podemos transportá-lo? Temos testemunhas em número suficiente do modo como ele foi encontrado.

Curvaram-se com reverência e levantaram o corpo que, embora estivesse a tornar-se mais hirto ainda não estava totalmente rígido, e deitaram-no de costas sobre a relva. Desde a garganta até aos pés a humidade da terra escurecera a parte da frente do hábito, e do lado esquerdo do peito a grande mancha escura de sangue tornava o tecido mais pesado. O seu rosto, se tivera a marca da súbita ira, do temor e da dor, agora perdera essa tensão e descontraíra-se na "suavidade da juventude e da inocência. Apenas os olhos, semiabertos, retinham a ansiedade perplexa de uma alma perturbada. Radulfus curvou-se para lhe fechar os olhos com gentileza e limpar a lama das faces pálidas.

-Assim tira-me um peso do coração, Cadfael. Certamente tem razão, ele não atentou contra a própria vida, esta foi-lhe arrancada cruel e injustamente, e tem de haver um preço a apagar. Mas quanto a esta criança, está a salvo. Quem me dera ter sabido lidar melhor com ele, talvez ainda estivesse vivo.

Juntou as mãos tão macias e cruzou-as sobre o peito ensanguentado.

- Eu durmo demasiado bem - disse Cadfael num tom de voz forçado -, não cheguei a ouvir a chuva parar. Alguém reparou quando ela acabou?

Niall tinha-se aproximado um pouco, esperando pacientemente para o caso de precisarem de mais alguma coisa dele.

- Perto da meia-noite tinha acabado - disse -, porque antes de nos irmos deitar, em Pulley, a minha irmã abriu a porta e olhou lá para fora, e disse que o céu estava limpo e que a noite ia ser boa. Mas era demasiado tarde para me pôr a caminho.-E acrescentou, dando a sua própria interpretação ao modo como todos se voltaram para olhar para ele, depois de terem esquecido a sua presença durante tanto tempo: - A minha irmã, o marido dela e os filhos dir-lhe-ão que eu passei lá a noite e saí ao nascer do dia. No entanto, talvez se possa dizer que uma família se une sempre. Mas posso dizer-vos os nomes de duas ou três pessoas a quem dei os bons-dias esta manhã, quando regressava através de Foregate. Confirmarão o que eu disse.

O abade lançou-lhe um olhar sobressaltado e preocupado, e compreendeu.

- Essas verificações competem aos homens do xerife - disse.

- Mas eu não tenho dúvidas de que disse a pura verdade. E diz que a chuva já tinha acabado à meia-noite?

- Pois tinha, meu senhor. A distância é só de três milhas, aqui não pode ter havido uma grande diferença.

-Ajusta-se bem-disse Cadfael, ajoelhando-sejunto do corpo. Ele morreu certamente há umas seis ou sete horas. E como veio depois de a chuva ter parado, quando o chão estava húmido e macio ao pisar, eles têm de ter deixado rastos. Aqui espezinharam o chão, nada se vê bem, mas fosse por onde fosse, ambos entraram aqui durante a noite, e um deles voltou a sair.

Levantou-se e limpou as palmas das mãos húmidas uma na outra.

- Não saiam de onde estão, e olhem em volta. Podemos ter pisado alguma coisa de valor, mas pelo menos todos menos um usamos sandálias, e Eluric também. Mestre latoeiro, como entrou aqui esta manhã, quando o encontrou?

- Pela porta da casa - disse Niall, indicando-a com a cabeça.

- E quando o irmão Eluric vinha buscar a rosa, todos os anos, como é que entrava?

- Pela cancela do pátio da frente, como nós entrámos agora. E sempre muito discreto e modesto.

- Então, na noite passada, vindo sem más intenções, embora tão em segredo, decerto terá vindo como sempre vinha. Deixem-me ver - disse Cadfael, caminhando cautelosamente ao longo da relva até à cancela - se vieram por esse caminho pés sem sandálias.

O caminho de terra, que a água da chuva transformara em lama, e que depois havia secado e apresentava uma superfície lisa e macia, tinha registado todas as pegadas que eles haviam feito ao entrar e mostrava-as claramente, três pares de solas lisas, aqui e ali sobrepostas. Ou haveria quatro pares? Com aquelas sandálias comuns o tamanho não tinha grande significado, mas Cadfael julgou detectar, entre todas aquelas pegadas que entravam e nenhuma que saía, uma impressa mais profundamente que as outras, por ter sido feita quando o chão estava mais húmido do que naquele momento, e por sorte não tinha sido pisada e deformada pela invasão matinal. Havia também a marca de uma sola de sapato, grande e vigorosa, tão recente como as das sandálias, que Niall afirmou ser sua, o que demonstrou ajustando-lhe o pé.

-Fosse quem fosse o segundo-disse Cadfael -, imagino que não tenha vindo pelo caminho da frente, como uma pessoa inocente. Nem terá saído por ele, deixando para trás um homem morto. Vamos procurar noutro sítio.

No lado leste, o jardim era cercado pelo muro da casa que pertencia a Thomas, o ferrador, a oeste pela oficina e habitação de Niall; por ali não havia saída. Mas nas traseiras, do outro lado do muro do lado norte, havia um campo cercado para onde se entrava muito facilmente vindo dos campos, e não havia nenhuma construção com vista para ele. A poucos passos da roseira mutilada, junto do muro, crescia uma vinha muito ramificada e velha e pouco produtiva. Parte do seu tronco retorcido tinha sido arrancado à parede, e quando Niall se aproximou mais viu que num local onde o tronco se voltava de lado, proporcionando apoio, um pé se tinha de facto aproveitado dele, subindo com a pressa do pânico.

- Aqui! Ele trepou por aqui. Lá fora, no cercado, o chão é mais alto, mas para sair precisava de um apoio a meio.

Aproximaram-se para ver melhor. A bota do homem tinha raspado a casca, deixando terra nas marcas. E em baixo, na terra exposta do canteiro, o outro pé, o esquerdo, imprimira uma pegada profunda e perfeita quando ele se lançava para cima, pois tivera de atingir uma altura elevada. Um pé calçando uma bota, com um tacão saliente que tinha feito uma cova profunda, mas menos profunda na orla exterior traseira, onde quem a usava desgastava a bota. Pela forma, o calçado era bem feito, mas também muito usado. Via-se um fio de terra que atravessava a marca da sola até meio, em diagonal, partindo de um ponto abaixo do dedo grande, tornando-se cada vez mais estreito até desaparecer; havia sido produzido por uma fenda no couro. Do lado oposto ao tacão gasto, o dedo grande também tinha deixado uma marca um pouco mais superficial. Fosse quem fosse o homem, apoiava o pé esquerdo a partir do lado esquerdo do calcanhar até ao lado direito do dedo grande. O impulso para sair do chão tinha provocado uma marca profunda, mas o pé deixara o solo sem se mover, e a terra húmida, ao secar gradualmente, tinha preservado o molde perfeito.

- Um pouco de cera quente - disse Cadfael, meio para si próprio e olhando com concentração -, um pouco de cera quente e uma mão firme, e apanhamo-lo pelo calcanhar!

De tal modo concentravam a atenção naquele ponto, o último vestígio que restava do assassino do irmão Eluric, que nenhum deles ouviu os passos ligeiros que se aproximavam da porta aberta da casa, vindos do interior, nem captou pelo canto do olho o leve fulgor do sol ao incidir sobre o movimento e a cor, quando Judith assomou à entrada. Tinha encontrado a oficina vazia e durante alguns minutos aguardara o aparecimento de Niall. Mas como a porta que dava para a parte destinada à habitação estava totalmente aberta, como ele a deixara, e na sala lá dentro se via o reflexo verde e dourado dos ramos em movimento, e já que conhecia tão bem a casa, aventurou-se a atravessá-la para ir ter com ele ao jardim, onde achou que o encontraria.

- Peço perdão - dizia Judith, ao atravessar a entrada -, mas as portas estavam abertas. Eu chamei...

Interrompeu-se naquele ponto, sobressaltada e confusa ao ver que todo o grupo se voltava e a olhava com consternação. Três hábitos negros beneditinos reunidos em redor da velha vinha estéril, e um deles o próprio senhor abade. Que poderiam estar ali a fazer?

- Oh, desculpem - começou, hesitante. - Eu não sabia... Niall saltou, quebrando a sua imobilidade chocada, e veio a correr interpor-se entre ela e o que poderia ver quando desviasse os olhos do abade. Estendeu um braço num gesto protector para a fazer regressar para dentro de casa.

- Venha cá para dentro, senhora, aqui não há nada com que deva preocupar-se. Já tenho o cinto pronto. Vem cedo, não a esperava...

Não tinha jeito para produzir uma torrente de palavras tranquilizadoras. Ela resistiu, e por cima do ombro dele varreu o espaço limitado do jardim com os olhos dilatados e vítreos, e encontrou o corpo imóvel, estendido, remoto e indiferente na relva. Viu a oval pálida do rosto, a cruz pálida formada pelas mãos sobre o peito negro do hábito, o tronco cortado da roseira e os seus ramos pendentes, arrancados à parede. Por enquanto, nem reconhecia o jovem morto nem fazia ideia do que poderia ter-se passado. Mas compreendia demasiado bem que, fosse o que fosse que tivesse sucedido naquele lugar, entre aqueles muros que haviam sido seus, acabava por pesar-lhe sobre os ombros, como se ela tivesse posto em movimento uma terrível sucessão de eventos que lhe era impossível parar, como se começasse a adensar-se em seu redor uma culpa crescente, rindo-se da sua pureza de intenções e da corrupção das consequências.

Não proferiu nem um som, não se retraiu nem cedeu aos pedidos desajeitados e preocupados de Niall:

- Venha, venha para dentro e sente-se sossegada, deixe isto com o senhor abade. Venha! -Rodeava-a com um braço, mais para a convencer do que para a apoiar, pois ela estava muito imóvel e direita, sem um estremecimento no corpo. Ela pousou as mãos nos ombros dele, resistindo à sua persuasão com uma determinação resignada.

- Não, deixe-me ficar. Isto tem a ver comigo. Eu sei que tem. Nessa altura já todos a rodeavam, ansiosos. O abade aceitou o inevitável.

- Senhora-disse -, o que aqui sucede vai afligi-la muito, isso não podemos negar. Não esconderei nada. Esta casafoi dádiva sua, e tem direito à verdade. Mas não deve deixar-se afectar mais do que o normal para qualquer mulher piedosa que sente compaixão por uma vida jovem, ceifada prematuramente. Em nada isto provém de si, e nada do que terá de ser feito lhe compete como dever. Vá lá para dentro e ser-lhe-á comunicado tudo o que nós sabemos, tudo o que é importante. Prometo-lho.

Ela hesitou, ainda com o olhar pousado sobre o jovem morto.

- Meu pai, não quero tornar mais difícil o que sem dúvida já é muito duro para si - disse lentamente -, mas deixe-me vê-lo. Devo-lhe isso.

Radulfus olhou-a nos olhos e afastou-se. Niall retirou o braço que a rodeava quase furtivamente, não fosse ela ter súbita consciência do seu toque no instante em que o afastava. Ela atravessou a relva com passo firme e uniforme e ficou a olhar o irmão Eluric. Morto, ele parecia ainda mais jovem e mais vulnerável que em vida, apesar da calma imobilidade. Judith estendeu a mão, passando por cima dele, para a roseira pendente e ferida, colheu um dos botões meio abertos e introduziu-o cuidadosamente nas mãos cruzadas.

- Por todos os que me trouxe - disse. Levantou a cabeça e acrescentou, dirigindo-se a todos os presentes: - Sim, é ele. Sabia que devia ser ele.

- O irmão Eluric - disse o abade.

- Nunca soube o nome dele. Não é estranho? - Olhou-os a todos, rosto a rosto, com as sobrancelhas franzidas. - Nunca lhe perguntei, e ele nunca me disse. Tão poucas as palavras que tivemos para dizer um ao outro, e agora já é tarde. Por último fixou os olhos, durante mais tempo e com o primeiro regresso da emoção da dor à medida que o torpor ia passando, sobre o irmão Cadfael, que entre todos era quem ela conhecia melhor. - Como pôde acontecer uma coisa destas? - perguntou.

- Venha agora para dentro - disse Cadfael - e sabê-lo-á.

 

O abade e o irmão Anselmo partiram de regresso à abadia, a fim de enviar homens com uma liteira para transportarem para casa o irmão Eluric e um mensageiro aojovem delegado de Hugh, no castelo, para o avisar de que tinha um assassínio entre mãos. Muito em breve se espalharia por Foregate a notícia da morte misteriosa de um dos irmãos, e muitos e estranhos boatos seriam levados pelas brisas do Verão a todos os cantos da cidade. Certamente o abade tornaria pública uma versão truncada da tragédia de Eluric, para silenciar as histórias mais extravagantes. Não mentiria, mas omitiria judiciosamente o que ficaria para sempre secreto, entre ele próprio, os dois irmãos testemunhas e o morto. Cadfael era capaz de adivinhar o seu conteúdo. Após uma reflexão mais ponderada, tinha sido decidido que era mais apropriado que a renda da rosa fosse paga directamente pelo inquilino, em vez de o ser pelo conservador do altar de Stª Maria, e portanto o irmão Eluric havia sido dispensado do dever que anteriormente cumprira. O facto de ter ido em segredo ao jardim poderia ser disparatado, mas não digno de censura. Sem dúvida pretendera simplesmente certificar-se de que a roseira estava bem cuidada e com flores, e ao encontrar um malfeitor precisamente a destruí-la, tentara naturalmente evitar esse acto, sendo abatido pelo atacante. Uma morte honrosa, uma sepultura digna. Que necessidade havia de mencionar o conflito e o sofrimento por detrás dela?

Mas entretanto ali estava ele, Cadfael, confrontado por uma mulher que, inegavelmente, tinha o direito de saber tudo. Em caso nenhum seria fácil mentir àquela mulher, nem sequer falar com evasivas. Não aceitaria nada menos que a verdade.

Como o sol agora chegava ao canteiro sob o muro do lado norte e antes do meio-dia as beiras da pegada profunda poderiam tornar-se secas, e talvez desfazer-se, Cadfael tinha pedido logo uns cotos de vela a Niall, fundira-os num dos pequenos cadinhos do latoeiro e preenchera cuidadosamente o molde da pegada. Com jeito e paciência, a forma solidificada saiu intacta. Para preservar a nitidez teria de ser guardada num local fresco, mas por uma questão de precaução tinha também arranjado um resto de couro fino, no qual traçara cuidadosamente o contorno da marca, assinalando a forma como o tacão e o dedo estavam gastos e a fenda em diagonal que atravessava a sola. Mais cedo ou mais tarde, as botas vão parar às mãos do sapateiro, são demasiado valiosas para serem deitadas fora enquanto não estão completamente gastas e não podem voltar a ser consertadas. Muitas vezes são transmitidas ao longo de três gerações até serem finalmente deitadas fora. E assim, reflectiu Cadfael, um dia aquela bota precisaria dos cuidados do preboste Corviser ou de outro do mesmo ofício. Não se podia prever quando, mas a justiça tem de aprender a esperar, sem esquecer.

Naquele momento, Judith aguardava-o, sentada na sala de Niall, arrumada, austera e sem enfeites. Era a sala de um homem que vive só, arranjada e limpa, mas sem nenhum dos pequenos adornos que uma mulher teria acrescentado. As portas continuavam abertas, havia duas janelas sem portadas, o verde da folhagem e o dourado do sol entravam, vibrantes, e enchiam a sala de luz. Ela não receava a luz, sentava-se num local onde esta a iluminava, dançando por causa da brisa que se tornava mais intensa. Quando Cadfael regressou, vindo do jardim, ela estava só.

- O latoeiro tem um cliente - disse ela, com o mais pálido dos sorrisos. - Pedi-lhe que fosse. Um homem tem de cuidar dos seus negócios.

- Uma mulher também - disse o irmão Cadfael, e pousou cuidadosamente a forma moldada de cera sobre o chão de pedra, onde a corrente de ar incidiria sobre ela como a luz do sol sobre Judith.

- Sim, é o que farei. Não precisa de recear por mim, eu tenho respeito pela vida. Tanto mais agora - disse ela com gravidade - que voltei a ver a morte de perto. Conte-me o que sucedeu! Disse que contaria.

Ele sentou-se ao seu lado no banco sem almofadas e contou-lhe na íntegra tudo o que havia sucedido nessa manhã: a defecção de Eluric, a chegada de Niall com a sua história de ter descoberto o corpo caído e a roseira partida, até mesmo a primeira suspeita sinistra de danos deliberados e de morte auto-infligida, antes que indício após indício apontassem noutra direcção. Ouviu-o com atenção constante, com os espantosos olhos cinzentos atemorizadoramente abertos e inteligentes.

- Mas mesmo assim - disse ela -, não compreendo. Fala como se não fosse digno de nota nem importante o facto de ele deixar o enclave de noite, como deixou. Mas sabe que é completa-mente inaudito um irmão jovem atrever-se a isso. E então ele, que eu julgava tão dócil e cumpridor, incapaz de desobedecer às regras. Por que é que ele fez isso? Que poderá ter-se tornado tão importante para ele ir visitar a roseira? Secretamente, ilicitamente, durante a noite? Que significava a roseira para ele, para o levar a desviar-se tanto do caminho correcto?

Era indubitável que ela fazia a pergunta com toda a honestidade. Nunca se tinha considerado capaz de perturbar a paz de qualquer homem. E tencionava obter resposta, e a única que lhe podia ser dada era a verdade. O abade poderia ter hesitado quanto a este ponto. Cadfael não hesitou.

- Para ele, significava a lembrança da senhora - disse com simplicidade. - Não foi devido a uma mudança de regras que ele deixou de ser o portador da rosa. Ele tinha implorado que o libertassem de uma tarefa que se tornara um tormento, e o seu pedido fora concedido. Já não conseguia suportar a dor de se encontrar na sua presença e tão distante como se estivesse na Lua, de a ver, de estar tão perto que a poderia tocar, e proibido de amar. Mas quando o libertaram, parece que também não conseguiu suportar a ausência. De certo modo estava a despedir-se de si. Teria acabado por ultrapassar tudo - disse Cadfael num tom de mágoa resignada - se tivesse vivido. Mas seria uma doença prolongada e desoladora.

Mesmo assim, os olhos dela não haviam vacilado nem o seu rosto se alterara, à excepção do sangue que lhe fugira das faces, deixando-a pálida e translúcida como gelo.

- Oh, meu Deus!-disse num murmúrio. - E eu nunca soube! Nunca houve uma palavra, nunca houve um olhar... e eu sou tão mais velha que ele... e não sou nenhuma beleza! Era como mandar-me um dos meninos do coro da escola. Nunca houve um pensamento incorrecto... como poderia haver?

- Ele vivia no claustro quase desde o berço - disse Cadfael suavemente. - Nunca se relacionou com uma mulher desde que deixou a mãe. Não possuía defesas contra um rosto doce, uma voz suave e movimentos graciosos. A senhora não consegue ver-se através dos olhos dele, senão sentir-se-ia fascinada.

Após um momento de silêncio, ela disse:

- Contudo, senti que ele não era feliz. Nada mais do que isso. E quantos neste mundo podem gabar-se de ser felizes? - E voltando a levantar os olhos para o rosto de Cadfael perguntou: - Quantos sabem disto? É necessário que seja dito?

- Mais ninguém além do senhor abade, do irmão Richard, que era confessor dele, do irmão Anselmo e de mim. E agora a senhora. E nenhuma destas pessoas pode ou alguma vez pensará em culpá-la. Como poderíamos?

- Mas eu posso - disse Judith.

-Se for justa, não. Não deve responsabilizar-se por mais do que a sua parte. Foi esse o erro de Eluric.

Uma voz de homem elevou-se de súbito dentro da oficina, jovem e agitada, e ouviu-se a voz de Niall que respondia, numa tentativa apressada de o tranquilizar. Miles irrompeu pela porta aberta, iluminado por detrás pela luz do sol que o transformava numa silhueta de contornos bem definidos e que, ao atravessar o seu cabelo castanho-claro despenteado o fazia parecer louro. Estava corado e ofegante, mas soltou um enorme suspiro de alívio ao ver Judith sentada, serena e sem lágrimas, numa convivência calma.

- Santo Deus, que foi que aconteceu aqui? Em Foregate só se ouvem histórias de assassínio e maldade! Irmão, é verdade? A minha prima... eu sabia que ela vinha cá esta manhã. Graças a Deus, querida pequena, que te encontro a salvo e em boa companhia. Não te aconteceu nada? Vim a correr assim que soube o que se dizia, para te levar para casa.

A sua chegada tempestuosa dispersara, como o vento de Março, a pesada solenidade que enchia a sala, e o seu vigor fizera que regressasse um pouco de cor ao rosto gelado de Judith. Ela levantou-se para ir ao seu encontro, e deixou que ele lhe desse um abraço impulsivo e lhe beijasse a face fria.

- Não me aconteceu nada de mal, não precisas de te preocupar por minha causa. O irmão Cadfael teve a gentileza de me fazer companhia. Já cá estava quando eu cheguei, e o senhor abade também. Nunca estive ameaçada nem corri perigo.

- Mas houve, de facto, uma morte? - Continuando a rodeá-la de forma protectora com os braços, desviou o olhar para o rosto de Cadfael, franzindo a testa numa expressão de ansiedade: - Ou a história é falsa? Diziam... que um irmão da abadia tinha sido levado daqui, com o rosto coberto...

- Infelizmente é bem verdade - disse Cadfael, e levantou-se, um tanto fatigado. - O irmão Eluric, conservador do altar de Stª Maria, foi aqui encontrado hoje de manhã, morto à punhalada.

- Aqui? O quê, dentro de casa? Parecia incrédulo, o que era natural. Por que haveria um irmão da abadia de invadir a casa de um artesão?

- No jardim. Debaixo da roseira - disse Cadfael concisamente. - E a roseira estava destruída com machadadas. A sua prima contar-lhe-á. Mais vale que ouça a verdade que os boatos que nenhum de nós poderá evitar totalmente. Mas a senhora deve ser imediatamente levada para casa, para que descanse. Precisa de descansar.

Retirou da soleira de pedra o molde de cera, sobre o qual os olhos do jovem se pousaram com curiosidade e guardou-o cuidadosamente no seu saco de linho para evitar manipulá-lo.

- Tem toda a razão! - disse Miles, lembrando-se do seu dever e corando como um rapazinho.-E muito obrigado, irmão, pela sua gentileza.

Cadfael entrou atrás deles na oficina. Niall estava junto da bancada, mas levantou-se para ir ao seu encontro quando eles se despediram; um homem modesto, que tivera a delicadeza de evitar presenciar o que deveria ser privado entre consolador e consolada. Judith olhou-o com gravidade, e de súbito recuperou dentro de si, de alguma reserva profunda de inocência intocada, um sorriso pálido mas encantador.

- Mestre Niall, lamento ter-lhe causado tanto incómodo e preocupação, e agradeço-lhe a sua bondade. E tenho uma coisa a recolher, e uma dívida a pagar... esqueceu-se?

-Não-disse Niall -, mas levar-lho-ia quando a ocasião fosse mais apropriada. -Voltou-se para a prateleira e dela tirou o cinto enrolado, que lhe entregou. Ela pagou-lhe o que ele lhe pediu, com a simplicidade com que ele pediu, e depois ficou a olhar longamente a prenda do marido falecido, agora reparada, e pela primeira vez os seus olhos se humedeceram com um brilho nacarado, apesar de não cair nenhuma lágrima.

-Agora é uma ocasião até muito apropriada - disse, levantando os olhos para o rosto de Niall - para que um objecto pequeno e precioso me proprocione um prazer puro.

Foi o único prazer que teve nesse dia, e mesmo esse trazia consigo laivos de uma dor lancinante. Os cuidados exagerados de Agatha, agitada e faladora, oprimiam-na tanto como a preocupação contida mas demasiado atenta de Miles. O rosto morto do irmão Eluric não a largava. Como podia não ter sentido a sua angústia? Uma, duas, três vezes o recebera e se despedira dele, sem nenhuma apreensão mais profunda que um leve pressentimento do seu desconforto, que poderia dever-se apenas à timidez, e uma convicção de que aquele jovem não era muito feliz, o que atribuíra à falta de uma verdadeira vocação numa pessoa enclausurada desde a infância. Estivera de tal modo afundada no seu próprio sofrimento que fora insensível para com o dele. Nem mesmo na morte ele a censurava. Não era preciso. Ela censurava-se a si própria.

Poderia pelo menos ter procurado distrair-se ocupando as mãos, mas não se sentia capaz de enfrentar os murmúrios temerosos e os silêncios pesados das raparigas da sala de fiação. Decidiu em vez disso sentar-se na loja, onde, se os curiosos viessem olhar e comentar, pelo menos seria natural que viesse apenas um de cada vez, e pelo menos alguns talvez viessem honestamente comprar pano, e não tivessem ainda ouvido a notícia que percorria os becos de Shrewsbury como a lanugem do cardo soprada pelo vento se espalhava por toda a parte com a mesma facilidade.

Mas até isso era difícil de suportar. Teria ficado satisfeita com o cair da noite, depois de colocadas as portadas, mas aquele último cliente, que viera buscar uma quantidade de pano para a mãe, resolveu ficar mais algum tempo e exprimir o seu pesar à senhora em privado, ou pelo menos com a privacidade que conseguia entre as incursões cacarejantes de Agatha, que não era capaz de deixar a sobrinha sozinha durante muitos minutos seguidos. Mas esses breves intervalos, Vivian Hynde sabia aproveitá-los o melhor possível.

Era o único filho do velho William Hynde, que tinha os maiores rebanhos de carneiros dos planaltos centrais ocidentais do condado, e que durante anos vendera regularmente as lãs de qualidade inferior da sua tosquia aos Vestier, enquanto as melhores eram reservadas para os intermediários, que, a fim de as enviar para o Norte de França e para as cidades produtoras de lanifícios da Flandres, as vinham recolher a jusante do rio, a seguir às oficinas de Godfrey Fuller, onde ele tinha o seu armazém e o seu molhe. A sociedade entre as duas famílias existia há duas gerações, e tornava possível o contacto mesmo para aquele jovem rebento que, segundo se dizia, andava de candeias às avessas com o pai e muito dificilmente viria a ser um terceiro negociante de lãs bem sucedido, uma vez que o seu talento mais desenvolvido era o de gastar o dinheiro que o pai fizera. E de tal forma que constava que o velho tinha tomado uma posição dura e se recusava a pagar mais dívidas do seu filho e herdeiro ou a ceder-lhe mais fundos para esbanjar com os dados, as raparigas e a sua vida tumultuosa. William já o tinha tirado de apuros muitas vezes, mas agora, sem o seu apoio, as fontes habituais de Vivian não estariam tão dispostos a emprestar-lhe dinheiro ou a alargar-lhe o crédito. E os amigos fáceis largam um ídolo e patrono que já não tem dinheiro para gastar.

Mas a brilhante crista de Vivian ainda não mostrava sinais de queda quando este veio, com o seu encanto e a sua elegância consideráveis, para consolar uma viúva consternada. Era um jovem deveras atraente, alto e atlético, com o cabelo louro, cor de milho, com uns belos caracóis e uns olhos castanhos vibrantes, que à plena luz mostravam surpreeendentes cintilações douradas. As suas roupas e os seus adornos eram invariavelmente elegantes, e sabia bem como era agradável aos olhos da maioria das mulheres. E se ainda não tinha conseguido nenhuns progressos com a viúva Perle, também mais ninguém tinha, e ainda havia esperança.

Teve a sensatez de a abordar delicadamente naquela ocasião, com uma declaração de compreensão e preocupação que evitava à justa aprofundar demasiado. Sendo excelente a caminhar sobre o gelo fino, possuindo afinal a sensibilidade necessária para se reconhecer um homem de superfícies e não de profundidades, tinha também o descaramento para brincar e zombar um pouco dela na esperança de fazer surgir um sorriso.

-E agora se se fecha aqui a chorar em privado por uma pessoa que mal conheceu, aquela sua tia vai fazer que fique ainda mais melancólica. Já quase a convenceu a ir para um convento. E isso - acrescentou Vivian, num tom enfático e suplicante - é uma coisa que não deve de modo nenhum fazer.

- Muitas outras o fizeram - disse ela - sem um motivo melhor. Por que não eu?

- Porque - disse ele, de olhos cintilantes e aproximando-se mais para baixar a voz, não fosse Agatha escolher aquele momento para voltar a entrar sob um pretexto qualquer-porque a senhora é jovem e bela, e não tem um verdadeiro desejo de se sepultar num convento. Sabe que é verdade! E porque sou um seu dedicado adorador, como muito bem sabe, e se desaparecer da minha vida eu morro.

Ela tomou as palavras dele como um exagero bem intencionado, ainda que pouco apropriado, e sentiu-se mesmo um pouco tocada ao ver como ele de súbito reteve a respiração e o seu olhar revelou aflição ao aperceber-se do que tinha dito, e como a poderia atingir, principalmente naquele dia. Ele pegou-lhe na mão, loquaz e melífluo na sua consternação.

- Oh, perdoe-me, perdoe-me! Que tolo sou, nunca quis dizer... Não é uma censura, nenhuma censura a pode atingir. Deixe-me entrar mais na sua vida, e convencê-la-ei. Case comigo, e eu afastarei de si todas as inquietações e todas as dúvidas...

Mais tarde ela começou a pensar se aquilo não teria sido tudo calculado, pois ele era um jovem subtil e persuasivo; mas naquele momento estava desarmada e duvidava de si mesma, e não foi capaz de atribuir desonestidade ou calculismo a outra pessoa. Muitas vezes a tinha Vivian assediado com as suas atenções, mas sempre sem causar qualquer impressão. Agora o que via nele era um rapaz que nem mais um ano tinha que o irmão Eluric, um rapaz que poderia, apesar de tanta lisonja e exagero, estar a sofrer algo parecido com o que o irmão Eluric havia sofrido. Tinha falhado de forma lamentável ao não ser capaz de oferecer qualquer auxílio ao primeiro, e por isso mesmo tinha de tratar o outro com prudência. Por isso tolerou-o, e foi-lhe dando respostas firmes mas suaves, durante mais tempo do que teria feito noutra ocasião qualquer.

-É disparate falar assim-disse ela.-Conhecemo-nos desde a infância. Sou mais velha, e viúva, não sou, de forma nenhuma, mulher para si, e não tenciono voltar a casar seja com quem for. Tem de aceitar esta resposta. Não perca mais tempo comigo.

- Agora está atormentada - disse ele com veemência - por causa daquele monge que morreu, embora Deus saiba que a senhora não tem culpa nenhuma. Mas não vai continuar assim, daqui a um mês verá as coisas de forma diferente. E esta carta que a incomoda pode ser modificada. Pode e deve livrar-se do negócio, e com ele do descrédito. Vê agora que foi uma loucura.

- Sim - concordou ela com resignação -, foi de facto uma loucura atribuir um preço, ainda que nominal, a uma dádiva. Nunca deveria tê-lo feito. Só me trouxe sofrimento. Mas é verdade, pode ser anulado.

Judith achou que ele estava a sentir-se encorajado com aquela conversa prolongada, e não era decerto isso que ela pretendia. Por isso levantou-se, justificando-se com o cansaço, muito real, para se livrar das suas atenções incessantes o mais delicadamente possível. Vivian partiu, relutante mas sempre donairoso, ficando durante um longo momento a olhá-la da porta, insinuante, antes de dar meia volta e sair, esbelto, de pernas compridas e elegante, descendo a rua a que chamavam Maerdol em direcção à ponte.

Mas mesmo depois de ele ter partido a noite estava cheia de ecos da manhã, recordações de tragédia, censuras de loucura, enquanto Agatha não deixava em paz o passado - Vês agora como foi um disparate fazer aquele acordo digno de uma balada romântica, como se fosses uma rapariguinha inexperiente. Uma rosa, francamente! Nunca devias ter dado de forma tão impetuosa metade do teu património. Como poderias saber quando é que tu ou os teus podiam vir a ter grande necessidade dele? E agora vê o resultado! Uma morte, e tudo por causa daquela carta disparatada.

- Não precisa de se incomodar mais - disse Judith, fatigada. - Estou de facto arrependida. Não é demasiado tarde para remediar o que fiz. Agora deixe-me. Não pode dizer-me nada que eu não tenha já dito a mim mesma.

Foi deitar-se cedo, e Branwen, a rapariga que tinha sido dispensada da cardação que lhe provocava borbulhagem e posta a trabalhar na casa durante algum tempo, veio para a servir, dobrou e guardou na arca o vestido que a patroa despiu e tapou com os cortinados a janela sem portadas. Branwen gostava de Judith, mas não teve pena de ser dispensada mais cedo naquela ocasião, pois o criado de Vivian, que ficara para trás para transportar a peça de pano para a Srª Hynde, estava confortavelmente instalado na cozinha, a jogar aos dados com Bertred, o capataz dos tecelões, e eram ambos homens bem-parecidos, capazes de apreciar uma rapariga bonita. Branwen não se incomodava nada de ser o osso desejável entre dois cães atraentes. Por vezes sentira que Bertred tinha ideias acima da sua posição social, e lançava olhares cobiçosos à patroa; envaidecia-se do seu corpo vigoroso e desempenado, do rosto jovem e agradável e da língua de prata a condizer. Mas isso nunca haveria de dar nada! E quando ele visse do outro lado da mesa o Gunnar, do mestre Hynde, completamente fascinado, talvez apreciasse melhor a carne mais acessível.

- Agora vai - dise Judith, soltando sobre os ombros o grande feixe do seu cabelo. - Esta noite não vou precisar de ti. Mas acorda-me de manhã bem cedo - acrescentou, com súbita resolução -, porque vou à abadia. Não vou deixar este assunto à espera mais uma hora do que o necessário. Amanhã vou ter com o abade para mandar redigir uma carta nova. Acabaram-se as rosas! A dádiva que fiz contra um pagamento tão disparatado passará agora a ser incondicional.

Branwen sentia-se orgulhosa da sua promoção para o serviço pessoal de Judith e imaginava-se mais próxima da confiança da patroa do que realmente estava. E com dois jovens na cozinha já interessados nela e preparados para a admirarem, não é surpreendente que se tenha gabado de ter sido a primeira pessoa a quem Judith confiou os seus planos para o dia seguinte. Infelizmente, passado pouco tempo Gunnar lembrou-se de que tinha de levar para casa o pano da Srª Hynde, e que poderia acabar por se dar mal se demorasse demasiado. Ainda ficava com as atenções de Bertred, que ao fim e ao cabo era o seu preferido, mas o seu sentido de propriedade por uma mulher da casa, que se vira assim espicaçado, pareceu enfraquecer de forma desanimadora assim que o rival saiu. Afinal, a noite acabou por não ser satisfatória. Branwen foi para a cama mal disposta, entre a desilusão e o ressentimento, e irritada com os homens.

O jovem Alan Herbard, o delegado de Hugh, embora cumpridor e determinado, recusava-se a enfrentar sem auxílio um caso de assassínio, e tinha mandado um mensageiro pôr-se a caminho assim que a notícia lhe chegou aos ouvidos. Pelo meio-dia do dia seguinte, que era o dia 8 de Junho, sem dúvida Hugh estaria de regresso a Shrewsbury, não a sua casa, onde apenas uma criada velha permanecia durante a ausência da família, mas ao castelo, onde a guarnição, o sargento e todos se encontravam à sua disposição. Entretanto, Cadfael pegou na sua pegada de cera e, com a bênção do abade, foi à cidade mostrar o molde e o desenho a Geoffrey Corviser, o preboste, e ao seu filho Philip, os mais conhecidos sapateiros e trabalhadores de couro da cidade.

- Pois mais cedo ou mais tarde todas as botas vêm parar às mãos do sapateiro - disse ele com simplicidade - embora ainda possa faltar um ano ou mais. Pelo menos não há mal nenhum em ficarem com uma cópia destes testemunhos que aqui vêem, e procurarem uma bota semelhante entre todas as que consertarem.

Philip pegou na cera com delicadeza e acenou com a cabeça, apreciando a forma como esta demonstrava o modo de andar do dono.

- Não a conheço, mas será fácil de ver se ela acabar por vir cá parar. E vou mostrar isto ao sapateiro do outro lado da ponte, em Frankwell. Entre nós, quem sabe, talvez acabemos por apanhar o homem. Mas há muito homem que remenda as próprias botas - disse o artesão, com mostras de desdém profissonal.

No caminho de regresso, passando por cima da ponte, Cadfael admitiu para si mesmo que as hipóteses não eram muitas, mas não podiam ser desprezadas. Que outra pista possuíam? Muito pouca coisa, a não ser a pergunta, inevitável e não respondida: Quem poderia querer destruir a roseira? E por que razão imaginável? Uma pergunta que já todos tinham formulado, sem resultados, e que seria colocada de novo quando Hugh chegasse.

Em vez de voltar junto da casa do portão para entrar, Cadfael seguiu em frente e percorreu Foregate até ao fim, pela estrada poeirenta, passando pela padaria e pela forja e trocando, à medida que passava, saudações junto das portas e por cima das sebes; entrou no portão do pátio de Niall, que atravessou até à cancela que dava entrada para o jardim. Este estava bem aferrolhado do lado de dentro. Cadfael entrou então para a loja, onde Niall trabalhava com um pequeno cadinho de cerâmica e um minúsculo molde de argila para fabricar um broche.

- Vim saber se teve mais visitas durante a noite - disse Cadfael -, mas já vi que pelo menos trancou uma das entradas. É pena que nunca nenhum muro seja suficientemente alto para manter do lado de fora um homem decidido a entrar. Mas fechar um só buraco já é alguma coisa. E a roseira? Vai sobreviver?

-Venha ver. Uma das partes pode morrer, mas são apenas dois ou três ramos. Pode fazer que a árvore fique desequilibrada, mas só durante um ano, mais ou menos, e a poda e o crescimento vão repor o equilíbrio.

No meio do verde, da luz do sol e da mistura de cores do jardim, a roseira estendia os braços com firmeza de encontro ao muro do lado norte; os ramos pendentes tinham sido presos ao muro com tiras de pano. Niall tinha enrolado uma porção de lona resistente em redor do caule danificado, para voltar a juntar a madeira cortada, e cobrira-o com uma espessa camada de cera e gordura.

-Isto foi feito com amor-disse Cadfael, em tom de aprovação, mas, sensato, não disse se era amor pelo arbusto ou pela mulher. As folhas da parte quase separada tinham murchado, e umas quantas caído, mas a maior parte da árvore permanecia verde e brilhante e cheia de botões meio abertos.

- Fez um bom trabalho. Ser-me-ia útil no enclave, se alguma vez se fartasse do bronze e do mundo.

Aquele homem sossegado e decente não abriu a boca para responder. O que quer que sentisse pela mulher ou pela roseira só a si próprio dizia respeito. Cadfael respeitou isso e, observando os olhos grandes, afastados, honestos mas reticentes, despediu-se e partiu para regressar aos seus deveres, sentindo-se um pouco censurado e curiosamente entusiasmado. Pelo menos um homem, naquele triste caso, não tirava os olhos do seu caminho e não se deixaria desviar com facilidade. E ele com toda a certeza não procurava lucros. Algures, no meio de tudo aquilo, havia cobiça mais do que suficiente, e muito pouco amor.

Já era quase meio-dia, e o Sol estava alto e quente, um autêntico dia de Junho. Stª Winifred devia estar a trabalhar para convencer os céus a honrá-la no festival da sua ascenção. Como tantas vezes sucedia numa estação tardia, o Verão quase irrompera pelo meio da Primavera morosa: flores que se demoravam, tremendo de frio e relutantes em abrir, de súbito rebentaram numa pressa febril, irrompendo dos botões de um dia para o outro num apogeu flamejante. As colheitas, mais lentas a correr riscos, talvez ainda estivessem um mês atrasadas, mas seriam abundantes e limpas, dado que metade dos seus inimigos hereditários tinham morrido de frio em Abril e em Maio.

À entrada do seu pavilhão na casa do portão, o irmão porteiro conversava, entusiasmado, com um jovem agitado. Cadfael, sempre vulnerável à curiosidade, o seu pecado dominante, deteve-se, hesitou e voltou-se, reconhecendo Miles Coliar, aquele jovem organizado, prático e composto, bastante menos composto que o habitual, com o cabelo despenteado e eriçado, os brilhantes olhos azuis dilatados sob umas sobrancelhas acobreadas franzidas de ansiedade. Miles voltou a cabeça ao ouvir novos passos que se aproximavam e reconheceu, através de uma bruma de preocupação, um irmão que ainda no dia anterior tinha visto amigavelmente sentado ao lado da prima. Deu meia volta, impaciente.

-Irmão, lembro-me de si... Ontem proporcionou algum conforto e auxílio a Judith. Não a viu hoje? Ela não voltou a falar consigo?

- Não - disse Cadfael, admirado. - Porquê? Que se passa agora? Ontem foi para casa consigo. Espero que não tenha surgido mais nenhum problema?

- Não, que eu saiba, não. Sei que foi deitar-se cedo, e esperei que dormisse bem. Mas agora... - lançou em redor um olhar vago e perturbado: - Dizem-me em casa que ela partiu para vir cá. Mas...

-Não esteve aqui-disse o porteiro em tom categórico. - Não deixei o meu posto, saberia se ela tivesse entrado pelo portão. Conheço a senhora da altura em que ela cá veio fazer a dádiva da casa. Hoje não lhe pus os olhos em cima. Mas aqui o mestre Coliar diz que ela saiu de casa muito cedo...

- Muito cedo, mesmo - confirmou Miles, veemente. - Antes de eu ter acordado.

- E com a intenção de vir aqui para tratar de um assunto qualquer com o senhor abade - concluiu o porteiro.

-Foi o que a criada dela me disse-afirmou Miles, transpirando. - Judith disse-lho ontem à noite, quando a rapariga a serviu na hora de deitar. Eu só soube esta manhã. Mas parece que ela não esteve cá. Não chegou a vir até aqui. E não voltou para casa. É meio-dia, e ela não voltou para casa! Receio que lhe tenha acontecido algum mal.

 

Nessa tarde estavam cinco pessoas reunidas em urgente conclave na sala do abade: o próprio Radulfus, os irmãos Anselmo e Cadfael, testemunhas da carta que de algum modo havia precipitado aqueles terríveis acontecimentos, Miles Coliar, inquieto e febril de ansiedade, e Hugh Beringar, que viera para sul a cavalo, a toda a pressa, com o assassínio de Eluric no espírito, para ficar a saber à chegada que uma segunda crise se tinha seguido de perto à primeira. Já tinha mandatado Alan Herbard para enviar homens que revolvessem a cidade e Foregate em busca de qualquer indício ou notícia da senhora desaparecida, com ordens para mandar dizer se por acaso ela tivesse regressado a casa. Afinal podia haver motivos legítimos para a sua ausência, alguma coisa imprevista que a tivesse feito desviar do seu caminho. Mas a cada minuto que passava isso começava a parecer cada vez menos provável. Branwen contou a sua história, chorosa, e depois disso não restaram dúvidas de que Judith partira realmente de casa para visitar a abadia. Nem de que nunca lá tinha chegado.

- A rapariga só esta manhã me contou o que a minha prima tinha dito - disse Miles, retorcendo as mãos de frustração. - Se eu soubesse, podia ter-lhe feito companhia. É uma caminhada tão curta, da cidade até aqui! E o guarda do portão da cidade disse-lhe bom dia a viu-a começar a atravessar a ponte, mas depois disso esteve ocupado e não a viu afastar-se. E a partir desse momento não há nem um sinal dela.

- E ela disse que a sua incumbência era renunciar à renda da rosa - disse Hugh, reflectindo - e libertar de todas as condições a dádiva à abadia?

- Foi o que contou a criada dela. Foi o que Judith lhe disse. Ela estava muito perturbada - disse Miles - com a morte do jovem irmão. Sem dúvida convenceu-se de que foi o seu capricho a causa do assassínio.

- Ainda falta explicar - disse o abade Radulfus - por que haveria de ser assim. De facto, parece que o irmão Eluric interrompeu o ataque à roseira e por causa disso foi morto. Talvez apenas devido ao pânico, mas foi morto. O que eu não entendo é por que haveria alguém de querer destruir a roseira. Não fora esse acto inexplicável, não teria havido a interrupção, nem a morte. Quem podia querer derrubar o arbusto à machadada? Que motivo poderia existir?

- Ah, meu pai, existia, sim! - Miles voltou-se para ele, com uma veemência febril. - Há quem não tenha ficado muito contente quando a minha prima se desfez de uma propriedade tão valiosa, que vale metade de tudo o que ela possui. Se a roseira fosse derrubada e no dia da ascenção de Stª Winifred todas as rosas estivessem mortas a renda não poderia ser paga, e os termos da carta não seriam cumpridos. O negócio podia ser repudiado.

- Podia - salientou Hugh, vivamente -, mas não seria. O assunto continuava nas mãos da senhora, ela podia renunciar à renda se fosse essa a sua vontade. E estão a ver que era a sua vontade.

- Podia renunciar à renda - ecoou Miles em tom significativo -, se aqui estivesse para o fazer. Mas não está. Faltam quatro dias para a data do pagamento, e ela desapareceu. Tempo ganho, tempo ganho! A pessoa que não conseguiu destruir a roseira agora sequestrou a minha prima. Ela não está cá para doar ou para negar. O que ele não conseguiu de uma forma, tenta agora de outra.

Seguiu-se um breve silêncio de concentração, e depois o abade disse, concisamente:

- Acredita realmente nisso? Fala como quem acredita.

- Acredito, senhor abade. Não vejo outra possibilidade. Ontem, ela comunicou a sua intenção de tornar incondicional a sua dádiva. Hoje, isso foi impedido. Não havia tempo a perder.

- E, no entanto, nem o senhor sabia o que ela tencionava fazer - disse Hugh. - Só hoje o soube. Mais alguém sabia?

- A criada dela admite que repetiu na cozinha o que tinha ouvido. Quem sabe quantos o ouviram nessa altura, ou ficaram a saber por quem ouviu? Estas coisas saem pelos buracos das fechaduras e pelas frestas das portadas. Além disso, Judith pode ter dito onde ia a alguma pessoa conhecida que tivesse encontrado na ponte ou em Foregate. Por muito leviana e impensada que fosse a provisão registada na carta, o seu não cumprimento tornaria o negócio nulo e sem validade. O senhor sabe que é verdade, meu pai.

- Pois sei - reconheceu Radulfus, e por fim chegou à pergunta inevitável:

- Mas, então, quem poderia ter a ganhar com a quebra do acordo, e por que meios?

-Meu pai, a minha prima é jovem, e viúva, e é um bom partido, melhor ainda se a dádiva que vos fez pudesse ser anulada. Na cidade há um bando de pretendentes que a perseguem, e isto já há mais de um ano, e cada um deles preferiria casar com a fortuna dela por inteiro do que apenas com metade. Eu dirijo-lhe o negócio, sinto-me muito contente com o que tenho, e com a mulher com quem vou casar antes do fim do ano... um bom casamento. Mas, mesmo que não fôssemos primos em primeiro grau, o meu único interesse em Judith seria o natural num parente e artesão leal. Mas não posso deixar de saber que ela está a ser importunada por uma praga de pretendentes. Não é que ela encoraje qualquer deles, e não lhes dá motivos de esperança, mas eles não desistem. Acham que, depois de mais de três anos de viuvez, a sua determinação deve certamente estar a enfraquecer, e acabará por ceder e aceitar um segundo marido. Talvez um deles esteja a perder a paciência.

- Citar nomes-disse Hugh suavemente-pode por vezes ser perigoso, mas chamar a um homem pretendente não é necessariamente chamar-lhe também sequestrador ou assassino. E acho que já foi tão longe, mestre Coliar, que aqui entre os presentes mais vale que vá até ao fim.

Miles humedeceu os lábios e limpou com a manga a testa perlada de suor.

- Os negócios procuram casar com os negócios, senhor xerife. Há na cidade pelo menos dois membros de guilda que se sentiriam bem satisfeitos se conseguissem deitar as mãos ao negócio de Judith, e ambos trabalham connosco e sabem bem o que ela vale. Há Godfrey Fuller, que tinge todas as nossas lãs e no fim trata da pisoagem do pano, e também adoraria fazer-se dono da fiação e da tecelagem, para juntar tudo numa cesta bem lucrativa. E depois há o velho William Hynde, esse ainda tem mulher, mas pode deitar as mãos aos bens dos Vestier seguindo um caminho diferente, pois tem como filho um jovem janota que a vem cortejar dia após dia, e que tem acesso porque se conhecem desde crianças. O pai é capaz de estar disposto a servir-se dele como isco para mulher, embora tenha apertado bem os cordões da bolsa e se recuse a continuar a pagar as dívidas do rapaz. E o filho... se conseguisse conquistá-la creio que tinha a vida ganha, mas não havia de andar às ordens do pai, seria mais natural que se lhe risse na cara. E isto não é tudo, pois o nosso vizinho, o correeiro, está na idade de sentir a falta de uma mulher, e à sua moda vagarosa decidiu que ela era adequada. E sucede que o nosso melhor tecelão é um excelente artesão e um homem bem-parecido, e imagina-se ainda mais bonito do que é, e ultimamente tem andado a fazer-lhe olhos de carneiro mal morto, embora eu duvide que ela tenha dado por isso. Não seria a primeira vez que um assalariado chamou a atenção da ama e se deu muito bem com isso.

- É difícil imaginar os nossos dignos membros de guilda a recorrer ao assassínio ou ao sequestro - objectou o abade, pouco disposto a aceitar tão prontamente uma sugestão tão escandalosa.

- Mas o assassínio - salientou Hugh, atento, parece ter sido feito em alarme e em terror, e provavelmente não foi intencional. Mas, depois de se ter comprometido tanto, por que havia um homem de se deter diante de um segundo crime?

- Mesmo assim, parece-me uma coisa arriscada, pois por tudo quanto sei acerca da senhora ela não cederia com facilidade à persuasão. Cativa ou livre, resistiu até aqui a todas as adulações, não é agora que vai mudar. Eu compreendo - disse Radulfus, em tom pesaroso - a força que a reputação pode ganhar num caso destes, como uma mulher pode achar melhor ceder e casar do que sujeitar-se ao escândalo da suspeita e à má vontade entre famílias que se seguiria. Mas, quanto a mim, esta senhora poderia muito bem sobreviver até a esse tipo de pressão. E então o raptor não teria ganhado nada.

Miles inspirou profundamente e passou a mão pelos caracóis claros, deixando-os todos despenteados.

- Meu pai, o que diz é verdade, Judith possui um espírito forte e não se deixará dominar com facilidade. Mas, meu pai, pode ser pior! O casamento conseguido através da violação não é uma novidade. Depois de estar em poder de um homem, num local oculto e sem possibilidades de fuga, se a lisonja e a persuasão não fizerem efeito, resta a força. É uma coisa que se sabe ter sucedido várias vezes. Aqui o meu Sr. Beringar poderá testemunhar que se passa na nobreza, e eu sei que se passa na plebe. Até um negociante da cidade pode acabar por servir-se desse recurso. E sei que a minha prima, se a sua virtude se perdesse, poderia achar melhor optar pelo casamento para remediar a sua triste situação. Por muito deplorável que esse remédio fosse.

- Verdadeiramente deplorável! - concordou Radulfus com repulsa. - É uma coisa que não pode acontecer. Hugh, esta casa encontra-se profundamente envolvida neste caso, trazida pela carta e pela dádiva, e todo o auxílio que pudermos prestar na recuperação desta infeliz dama está ao seu dispor: homens, fundos, tudo o que for preciso... nem tem de pedir, leve! E quanto às nossas orações, essas não faltarão. Ainda há uma frágil possibilidade de nada de mal lhe ter sucedido, e pode ser que ainda regresse a casa de sua livre vontade e se admire com tanta agitação e alarme. Mas de momento temos de contar com o pior e procurá-la como a uma alma em perigo.

- Nesse caso, será melhor começarmos - disse Hugh, e levantou-se para se despedir. Miles pôs-se de pé com um salto nervoso, impetuoso e ansioso, e teria sido o primeiro a sair a porta se Cadfael não tivesse aberto a boca pela primeira vez durante aquela conferência.

- Constou-me, mestre Coliar, na realidade foi a própria Srª Perle quem mo disse, que por vezes ela tem pensado em deixar o mundo e tomar o véu. Creio que a irmã Magdalen falou com ela acerca da sua vocação há alguns dias. Sabia disso?

-Sei que a irmã a veio visitar-disse Miles, com os olhos azuis dilatados -, não me disseram do que falaram, e eu não perguntei. Era um assunto que só dizia respeito a Judith. Algumas vezes falou nisso, mas ultimamente menos.

- O senhor encorajou esse passo? - perguntou Cadfael.

- Nunca interferi, de um modo ou de outro. A decisão seria apenas dela. Não a aconselharia a que o fizesse - disse Miles energicamente -, mas também não me atravessaria no seu caminho se fosse isso o que ela queria. Pelo menos - disse, com súbita amargura -, teria sido um final bom e tranquilo. Agora só Deus sabe como se sentirá receosa e desesperada.

- Ali vai um primo muito atencioso e dedicado - disse Hugh, quando atravessava, ao lado de Cadfael, o pátio grande. Miles saía com passos largos pelo portão, com os cabelos em alvoroço, e dirigia-se para a cidade e para a casa e a loja da Travessa de Maer-dol, onde àquela hora poderiam já ter notícias. Uma débil eventualidade, mas mesmo assim possível.

-Tem bons motivos para o ser-disse Cadfael com bom senso. - Se não fosse a Srª Perle e o negócio dos Vestier ele e a mãe não se encontrariam numa situação tão confortável. Tem tudo a perder se ela ceder perante a força e concordar em casar. Deve muito à prima, e por tudo quanto me têm dito tem-lhe retribuído muito bem, com a sua gratidão e uma boa administração. É muito trabalhador e eficiente e o negócio prospera. Pode muito bem estar louco de ansiedade por ela. Será que ouço uma certa mordacidade na sua voz, meu rapaz? Ele inspira-lhe dúvidas?

- Não, nenhuma. Não faz mais ideia que qualquer de nós onde a rapariga se encontra agora, isso é bem claro. Um homem pode dissimular muito bem, até certo ponto, mas nunca conheci um homem capaz de suar de propósito. Não, Miles está a dizer a verdade. Agora vai para a cidade virar tudo de pernas para o ar para a procurar. E eu tenho de fazer o mesmo.

- O caminho que ela tinha de percorrer era curto - disse Cadfael, preocupando-se com o pequeno detalhe que deixava tão pouco espaço para duvidar de que Judith tinha desaparecido, que lhe tinha de facto sucedido algo de sinistro. - O guarda da porta da cidade falou com ela, tinha apenas de atravessar a ponte e de percorrer esta pequena parte de Foregate até ao nosso portão. Um rio a atravessar, um curto caminho em terreno aberto, e nesses breves minutos desapareceu.

- O rio - disse Hugh com sinceridade - é uma coisa em que eu tenho pensado. Não o nego.

-Duvido que tenha de ser. Amenos que por autêntica má sorte. Nenhum homem vai tornar-se rico ou fazer prosperar o seu negócio casando com uma mulher morta. Apenas o seu herdeiro teria a ganhar e o seu herdeiro... o rapaz é o seu parente mais próximo, não é? Esse está louco de preocupação com o que poderá ter-lhe acontecido, como todos nós vimos. Nada há de falsidade no estado em que ele se encontra. Não, se algum pretendente optou por uma atitude drástica, deve tê-la escondido em algum lugar, sem lhe ter feito mal. Não precisamos de pôr luto pela senhora, por enquanto: há-de estar tão bem guardada como o ouro de um avarento.

O espírito de Cadfael permaneceu ocupado pelo problema até às Vésperas, e depois delas. Entre a ponte e a casa do portão da abadia só havia três caminhos que saíam de Foregate: dois deles voltavam para a direita, um de cada lado da lagoa da azenha, para servir as seis casas pequenas que ali havia, e o outro descia pelo lado esquerdo até à extensa zona ribeirinha de Gaye, onde se situavam os principais terrenos de cultura da abadia. Ao longo da estrada principal havia pouca vegetação: ali, qualquer acto de violência seria arriscado, e os caminhos que serviam as casas da abadia sofriam, do ponto de vista de um conspirador, da desvantagem de darem sobre eles as janelas das seis casas, e no pino do Verão não haveria portadas fechadas. A velhota que vivia numa das cabanas era surda como uma pedra, e não teria ouvido nem mesmo os gritos mais altos, mas em geral as pessoas idosas têm o sono leve e irregular, e, além disso, como já não conseguem ser tão activas como antes, têm mais que o seu quinhão de curiosidade para compensar o tédio dos seus dias. Só um homem muito ousado ou desesperado tentaria um acto de violência debaixo das suas janelas.

Daquele lado sul de Foregate não havia árvores perto da estrada, apenas uns arbustos baixos marginando a lagoa e uma vegetação rasteira que cobria o declive, até ao rio. Apenas no lado norte havia árvores bem desenvolvidas, no local onde o caminho descia, serpenteando, até Gaye, em direcção a uma mata a curta distância da casa do portão da abadia, onde tinham início as casas de Foregate.

Se uma mulher pudesse ser atraída para ali, mesmo na orla da sombra, tão cedo e com poucas pessoas fora de casa, não seria assim tão difícil aproveitar um momento em que a estrada estivesse vazia para a arrastar mais para o interior da mata, ou fazê-la descer para o meio dos arbustos, com uma capa a rodear-lhe a cabeça e os braços. Mas nesse caso, a pessoa em questão, homem ou mulher, teria de ser alguém que ela conhecesse, alguém que pudesse ter um motivo plausível para a deter a conversar por uns minutos ao lado da estrada. O que estava de acordo com a sugestão de Miles, pois até mesmo um pretendente não desejado, que era também um vizinho da cidade, seria tratado nos encontros normais do dia-a-dia com tolerância e cortesia. A vida num burgo cercado por muralhas e cheio de gente não podia ser conduzida de outra forma.

Claro que poderiam existir outros motivos para afastar a rapariga do lar e da família, embora tivessem forçosamente algo a ver com a questão da carta e da roseira, pois decerto aquilo não podia ser um incidente isolado, sem qualquer ligação com o desaparecimento dela. Talvez existissem! Mas por muito que esforçasse o cérebro, Cadfael não conseguia imaginar nenhum outro motivo. E uma viúva rica, da classe mercantil, numa cidade onde todos se conheciam uns aos outros, era inevitavelmente cercada por pretendentes com vontade de fazer fortuna. A sua única defesa segura era aquela que Judith havia considerado, refugiar-se num convento. Ou então, evidentemente, casar com aquele, de entre os concorrentes, que mais lhe agradasse, ou menos lhe repugnasse. E até àquele momento ela nunca tinha considerado essa hipótese. Era muito possível que um dos que se consideravam com maiores possibilidades de agradar tivesse arriscado tudo por uma oportunidade de amansar o coração da dama com uns dias de corte secreta. E ao mantê-la escondida até ao dia 22 de Junho acabaria com o acordo com tanta certeza como se destruísse a roseira e todas as suas flores. Por muitas rosas que tivessem sobrevivido, se Judith não fosse encontrada a tempo, nenhuma poderia ser-lhe entregue em mão no dia estipulado para o pagamento da renda. E assim, desde que o seu captor acabasse por lograr os seus intentos, obrigando-a a casar com ele, os negócios de Judith passariam então para as suas mãos e ele poderia recusar a renovação e impedi-la de renovar o acordo anulado. E teria ganho tudo, não apenas metade. Sim, de qualquer forma que Cadfael encarasse o assunto, esta ideia apresentada por Miles, que tinha tudo a perder, parecia cada vez mais convincente.

Foi para a sua cela sempre a pensar em Judith. Achava que zelar pelo bem-estar dela competia, e muito, à abadia. Era algo que não podia ser deixado apenas ao braço secular. “Amanhã”, pensou, deitado acordado no dormitório escuro, ao som da música grave e regular do ressonar do irmão Richard, “vou percorrer aquela extensão da estrada e ver o que lá poderei encontrar. Quem sabe se não ficou lá qualquer coisa, mais reveladora que uma marca de um tacão gasto.”

Não pediu nenhuma autorização especial, pois não tinha o abade já concedido a Hugh todos os homens, cavalos e material de que ele precisasse? Não foi necessário mais que um pequeno salto mental para assentar no seu espírito que, se Hugh não pedira especificamente o seu auxílio, tê-lo-ia feito se tivesse conhecimento do rumo que tomavam os pensamentos do amigo. Continuava a ter facilidade em executar tais pequenos exercícios de agilidade moral sempre que a necessidade os justificava.

Partiu depois do capítulo, atravessando um Foregate transformado pelos raios alongados e oblíquos do Sol que se elevava num padrão de zonas de luz brilhante e sombras escuras. Nas zonas de sombra, a relva ainda tinha orvalho e as folhas cintilavam ao ser agitadas sem parar por uma brisa suave e silenciosa. Voltou as costas a Foregate, onde a animação era grande, com todas as portas das casas e das lojas escancaradas para o Verão e uma constante movimentação das donas de casa, dos garotos, dos cães, dos carreteiros e dos vendedores ambulantes que passavam ou se reuniam em grupos, conversando. Naquele Verão tardio mas maravilhoso a vida abandonava os limites das paredes e dos telhados e saía para o sol. A sombra cortante da torre da igreja caía sobre a sua fachada ocidental e atravessava o portal, mas ao longo dos limites do enclave era estreita e aninhava-se ao longo da base do muro.

Cadfael seguiu lentamente o seu caminho, trocando saudações com as pessoas conhecidas que ia encontrando, mas não se deixando desviar ou atrasar. Judith não podia ter chegado à primeira parte da estrada e os passos que reconstituía por ela eram os de um intento piedoso que nunca dera frutos. À sua esquerda, o alto muro de pedra seguia ao longo do pátio grande da enfermaria e da escola, e depois fazia um ângulo recto e junto dele seguia o primeiro caminho, que passava por três pequenas casas e depois levava à azenha, do lado de cá da lagoa. Depois via-se a grande extensão de água, orlada por uma sebe de arbustos baixos. Não podia nem queria acreditar que Judith Perle desaparecera naquela água, nem na ondulação do rio. Quem a levara, se é que alguém a havia levado, queria-a viva, precisava dela viva e ilesa, pronta para ser conquistada. Hugh não podia fazer outra coisa senão lançar a rede bem larga e ter em conta todas as possibilidades. Cadfael preferia seguir uma ideia de cada vez. Naquela altura, Hugh já teria sem dúvida requisitado o auxílio de Madog de Dead Boat para investigar as piores possibilidades, as de morte pela água, enquanto os sargentos do rei percorriam as ruas, os becos e as casas de Shrewsbury em busca de uma senhora, viva e aprisionada. Madog conhecia todas as ondas do Severn, todas as partidas sasonais que este era capaz de pregar, todos os meandros e todos os baixios onde as coisas arrastadas pelas correntes podiam voltar à superfície. Se o rio a tinha levado, Madog encontrá-la-ia. Mas Cadfael não queria acreditar nessa possibilidade.

E se Hugh também não conseguisse encontrá-la dentro dos muros de Shrewsbury? Nesse caso teriam de procurar mais além. Não é simples transportar uma dama relutante para muito longe, e à luz do dia. Talvez fosse mesmo impossível, a não ser com um carro. Um cavaleiro transportando um fardo assim embrulhado precisaria de um cavalo suficientemente robusto para suportar o peso a mais e, pior, tornar-se-ia sem dúvida notado. Decerto alguém recordaria tê-lo visto, ou talvez o interrogasse logo ali, sendo a curiosidade humana o que é. Não, ela não poderia de modo nenhum estar muito longe.

Cadfael passou a lagoa e chegou ao segundo caminho, do outro lado, que servia outras três casas. A seguir, depois dos seus pequenos jardins, havia um campo aberto, e no fim deste, descrevendo uma curva apertada para a esquerda, uma estrada estreita seguia para sul ao longo da margem do rio. Seguindo esse caminho, um raptor poderia refugiar-se uma ou duas milhas no interior da floresta, mas, por outro lado, ali, na margem do rio, não havia vegetação que oferecesse abrigo, e qualquer ataque perpetrado naquele local seria visto das muralhas da cidade, do outro lado da água.

Mas do lado direito de Foregate, quando as casas terminavam, começava uma mata densa, e depois dela o caminho íngreme mergulhava em direcção à margem do Severn, entre arbustos e árvores, permitindo o acesso à planície longa e verdejante de Gaye. Mais além, ela ainda estaria sobre a ponte desabrigada, e sem dúvida intocável. Seria ali, se em algum ponto daquele breve percurso, que um predador teria espaço para atacar e fugir com a sua presa. Era preciso impedi-la de chegar à abadia e de fazer o que pretendia. Não haveria uma segunda oportunidade. E a casa da rosa era uma propriedade que valia bem a pena reclamar.

A cada momento a coisa parecia mais credível. Improvável, talvez, para um comerciante vulgar, tão respeitador da lei como os seus vizinhos e respeitado por todos; mas um homem que, ao tentar um expediente relativamente inofensivo, matou inadvertidamente outro homem já não é um homem vulgar.

Cadfael atravessou Foregate e entrou na mata, pousando os pés com cuidado, para evitar acrescentar marcas às que já existiam em demasia. Os diabretes de Foregate brincavam ali, assistidos pelo bando de cães barulhentos que os acompanhavam para toda a parte e seguidos pelos diabretes menores, chorosos, porque eram demasiado pequenos para ser levados a sério e admitidos nas suas brincadeiras, e tinham as pernas demasiado curtas para conseguir acompanhá-los. Nas clareiras mais recatadas, os amantes encontravam-se no escuro, e as ervas pisadas mostravam o local dos seus ninhos. Não havia grande esperança de encontrar ali qualquer coisa útil.

Voltou para a estrada e percorreu os poucos passos até ao caminho que descia para Gaye. Diante dele estendia-se a ponte de pedra, e do outro lado a alta muralha da cidade e a torre do portão. A luz do Sol banhava a estrada e as muralhas, embranquecendo a pedra e conferindo-lhe uma palidez cremosa. O Severn, um pouco mais cheio do que era habitual no Verão, cintilava e agitava-se com uma aparência enganadora de placidez e langor, mas Cadfael sabia como o seu curso macio era rápido e como eram impetuosas as correntes que se precipitavam sob a superfície azul que reflectia o céu. Em crianças, a maioria dos rapazes da terra haviam aprendido a nadar quase assim que tinham aprendido a andar, e o Severn tinha zonas que podiam ser tão suaves e seguras como a sua máscara sorridente; mas ali, onde serpenteava em redor da cidade, deixando apenas um acesso por terra, a estreita faixa encimada pelo castelo, as águas eram perigosas. Judith saberia nadar? Para uma rapariga não era fácil despir-se e andar às cabriolas pelas margens cobertas de erva, entrando e saindo da água como faziam os rapazes, e para elas devia ser um talento mais raro.

Judith tinha passado no extremo da ponte do lado da cidade, desimpedida e só; o guarda tinha-a visto começar a atravessar. Era difícil acreditar que qualquer homem se atrevesse a molestá-la ali, na travessia a descoberto, onde lhe bastaria um único grito para que o guarda a ouvisse e lançasse o alarme. Portanto, tinha chegado ao local onde agora se encontrava Cadfael. E em seguida? De acordo com os relatórios de que dispunham no momento, não voltara a ser vista.

Cadfael iniciou a descida até Gaye. Aquele caminho era percorrido com regularidade, não tinha erva e os arbustos que o ladeavam afastavam-se gradualmente da sua margem, cedendo lugar ao terreno plano e cultivado. Do lado do rio cresciam em abundância, cobrindo a encosta até à água, e também sob o primeiro arco da ponte, onde outrora havia estado ancorado um barco-azenha, para aproveitar a força da corrente. Junto da água, um carreiro conduzia para jusante, e ao lado deste estendiam-se os terrenos da abadia, muito bem ordenados ao longo da planície fértil, e onde se viam três ou quatro irmãos que transplantavam couves. Mais adiante havia os pomares, com macieiras, pereiras e ameixieiras, cerejeiras e duas grandes nogueiras, e os arbustos baixos de pequenas groselhas amargas que só agora começavam a ganhar cor. No fim da extensão plana havia mais uma azenha em desuso, e o último terreno da abadia era um campo de milho. A seguir, faixas de árvores desciam até se debruçar sobre a água, e os remoinhos comiam a margem sob as suas raízes.

Do outro lado do rio largo elevava-se o monte de Shrewsbury numa grande extensão de verde, e a muralha da cidade assentava-lhe como uma coroa. Dois ou três portões pequenos permitiam atravessar a muralha para aceder aos jardins e à relva lá de baixo. Em caso de ataque, facilmente seriam barricados, e de uma fortaleza tão elevada avistava-se bem os arredores e era fácil ficar a saber se alguém se aproximasse com essas intenções. A faixa vulnerável que não era protegida pela água era preenchida pelo castelo, que completava o círculo das muralhas. Um lugar forte, além de muito belo, e no entanto o rei Stephen tinha-o assaltado e conquistado, quatro anos antes, e desde então tinha-o mantido, através dos seus xerifes.

“Mas toda esta extensão dos nossos terrenos”, reflectiu Cadfael, olhando pensativo aquele verde tão fértil, “é vista de centenas de casas do interior das muralhas. Quantos momentos poderá haver durante o dia em que não esteja uma pessoa a espreitar de uma janela, ou então a pescar junto do rio, ou a estender a roupa, ou as crianças a brincar e a tomar banho? Não tantas pessoas, talvez, por ser tão cedo, mas sem dúvida algumas. E nunca uma palavra acerca de uma luta ou de uma fuga, ou de alguma coisa pesada e com forma humana a ser transportada. Não, por aqui não. Aqui as nossas terras são abertas e inocentes. A única parte escondida é aqui, junto da ponte ou sob ela, onde as árvores e os arbustos proporcionam abrigo.

Atravessou os arbustos até ao arco, e o orvalho que restava escureceu-lhe as sandálias e a saia do hábito, mas agora já era escasso, sobrevivendo apenas aqui, na sombra verde e profunda. Por baixo do arco de pedra a água não tinha baixado mais de meio metro, deixando uma orla de erva e plantas aquáticas que iam secando. Se não fosse o orvalho, um homem podia passar sem molhar os sapatos. Nem mesmo o nível de água do Inverno ou do degelo da Primavera se aproximava mais do que um metro e oitenta do topo do arco. A vegetação era rica e luxuriante, alimentada pela terra fértil e húmida.

Alguém tinha ali estado antes dele, a erva tinha sido afastada pela passagem de pelo menos uma pessoa, provavelmente mais. Isso nada tinha de invulgar, os rapazes andam por toda a parte nas suas brincadeiras, e nas suas maldades, também. O que ali havia de menos comum era o sulco profundo deixado na terra húmida descoberta pela recente baixa do nível da água e que se prolongava pela erva, mais acima. Tinham arrastado ali um barco, e não há muito tempo. No extremo da ponte que dava para a cidade havia sempre barcos na praia ou ancorados, prontos a ser usados pelos respectivos donos. Mas raramente naquele local.

Cadfael acocorou-se para ver o chão mais de perto. A relva tinha absorvido quaisquer marcas deixadas por pés, excepto na orla inferior de terreno, e nesse sítio não havia dúvida de que pelo menos um homem tinha pisado a terra húmida, mas a lama tinha escorregado sob os seus pés, apagando qualquer forma que ele pudesse ter deixado. Um homem ou dois, pois a lama escorregadia via-se de ambos os lados do sulco feito pela embarcação.

Se não estivesse sentado sobre os calcanhares não teria visto o objecto estranho, pois ali, sob o arco, não chegava um raio de sol que o revelasse. Mas ali estava, enfiado na lama revolvida, um fio metálico que parecia um pedaço de palha de um vermelho-dourado, não mais comprido que a última falange do seu polegar. Retirou-o da lama e colocou-o na palma da mão, uma minúscula cabeça de seta, um pouco deformado por ter sido pisado. Curvou-se para o lavar na água da beira do rio, e levou-o consigo até à luz do sol.

A então viu o que era, a ponta de bronze que terminava um cinto de couro, um trabalho delicado, decorado com incisões do punção e do malho depois de preso ao cinto, e que sem dúvida não teria sido arrancado do seu lugar sem considerável violência e luta.

Cadfael regressou sobre os seus passos, foi até ao caminho que levava à estrada e voltou para trás, atravessando Foregate no seu passo mais rápido.

 

- É dela - disse Niall, levantando os olhos do pedaço de bronze com uma expressão fixa e assustadora. - Sei que é, embora não tenha sido feito por mim. Faz parte daquele cinto que ela veio buscar na manhã em que o irmão Eluric apareceu aqui, morto. Fiz uma fivela nova a condizer com este desenho, este e o das rosetas que rodeiam os buracos. Reconheceria isto em qualquer lado. É dela. Onde o encontrou?

- Debaixo do primeiro arco da ponte, onde tinha estado um barco em terra, escondido.

- Para a levar! E isto... pisado e enfiado na lama, diz o senhor. Veja, quando o puseram no seu lugar foi cravado com o martelo no couro, ao mesmo tempo que fizeram o desenho: não se soltaria com facilidade, mesmo passados anos, e com o couro mais macio e fino por causa do uso, e talvez um pouco gorduroso por ser manuseado. Alguém tratou o cinto com brutalidade, para arrancar isto.

- E à senhora também - concordou Cadfael, em tom sombrio. - Eu não podia ter a certeza, pois mal vi o cinto nesse dia, quando ela lhe pegou. Mas o senhor não ia enganar-se. Agora sei Pelo menos é um passo no caminho certo. E um barco... um barco seria o meio mais simples de a levar. Assim nenhum vizinho passaria perto para querer saber o que era aquela carga tão pesada, e na margem ninguém se admiraria de ver passar a embarcação, pois são bastante comuns no Severn. O cinto de onde isto veio pode muito bem ter sido arrancado para a amarrar.

- Tratá-la desta maneira! - Niall limpou as mãos grandes e competentes ao trapo de lã que tinha sobre a bancada e, com determinação, começou a desatar e a pôr de lado o avental de couro.

- E agora que se há-de fazer? Diga-me a melhor forma de ajudar... onde começar a procurá-la. Fecho a minha loja...

- Não - disse Cadfael -, não faça nada, continue apenas a vigiar a roseira, pois tenho a estranha ideia de que a vida de uma está firmemente ligada à vida da outra. Que poderia o senhor fazer noutro sítio que Hugh Beringar não possa? Ele tem homens suficientes e, confie em mim, hão-de estar a trabalhar afincada-mente, ele tratará disso. Fique aqui e seja paciente, que tudo o que eu descobrir o senhor saberá. O seu trabalho é o bronze e não os barcos, já fez a sua parte.

-E o senhor, que vai fazer agora?-perguntou Niall, hesitante e franzindo as sobrancelhas, pouco disposto a ficar com a parte passiva.

- Eu vou ao encontro de Hugh Beringar o mais depressa que puder, e depois de Madog, que sabe tudo o que há a saber acerca de barcos, desde os botes que possui às barcaças de carga que levam as lãs da tosquia. Madog é capaz de identificar o tipo de barco a partir da marca que deixou na lama. Não saia daqui e fique o mais tranquilo que puder. Com a ajuda de Deus, havemos de a encontrar.

Voltou-se na porta para o olhar mais uma vez, impressionado pelo silêncio pesado atrás de si. Aquele homem de poucas palavras permanecia imóvel, olhando fixamente algum lugar invisível onde se encontrava Judith Perle, encerrada e só, prisioneira da ganância e da brutalidade. Até as suas boas acções conspiravam contra ela, até a sua generosidade se tornava tóxica, para lhe envenenar a vida. O rosto controlado e taciturno tinha naquele momento toda a eloquência necessária. E se aquelas mãos grandes e hábeis, tão minuciosas no trabalho com os cadinhos e os moldes minúsculos, pudessem agarrar o pescoço de quem raptou Judith Pearle, pensou Cadfael enquanto se apressava a regressar à cidade, duvido que a justiça do rei tivesse necessidade de um carrasco, ou que o julgamente custasse muito dinheiro ao condado.

O guarda do portão da cidade mandou um rapaz a toda a velocidade ao castelo para procurar Hugh assim que Cadfael chegou e lhe comunicou, um tanto ofegante, que era necessária a presença do xerife na margem do rio. Contudo, levou um certo tempo a encontrá-lo e Cadfael aproveitou a espera para ir em busca de Madog de Dead Boat. Sabia onde encontrá-lo, desde que ele não estivesse já na água, a tratar de qualquer assunto curioso relacionado com o seu variado trabalho. Tinha uma cabana abrigada do vento junto da ponte que, a ocidente, abria caminho para a sua terra natal, o País de Gales; aí fabricava botes, ou barcos de madeira quando necessário, pescava na estação própria, transportava passageiros e carga a troco de um pagamento, tudo o que tivesse a ver com o transporte fluvial. Como passava um pouco do meio-dia, Madog gozava um breve descanso e uma refeição solitária quando Cadfael chegou à ponte. Era um galês baixo, musculoso, cabeludo e já de certa idade, sem amigos íntimos nem família e sem necessidade de os ter, pois bastava-se a si próprio, e isto desde a infância. Contudo, recebia as pessoas amigas de braços abertos. Não precisava de ninguém, mas se os outros precisassem dele estava à sua disposição. Quando ouviu que o chamavam levantou-se e aproximou-se.

Hugh tinha chegado ao portão antes deles. Atravessaram a ponte juntos e desceram até à beira da água, à sombra escura e fresca do arco.

- Aqui, na lama - disse Cadfael -, encontrei isto, decerto arrancado numa luta. Veio de um cinto que pertence à Srª Pearle, pois ainda há poucos dias Niall, o latoeiro, fez uma fivela nova a condizer com os enfeites do cinto, e foi este o padrão que ele teve de copiar. Isto não deixa qualquer dúvida, ele conhece o seu trabalho. E aqui alguém tinha um barco preparado.

- Muito naturalmente, roubado - disse Madog judiciosamente, olhando a marca profunda no solo. - Para uma coisa destas, por que haveria uma pessoa de usar o próprio barco? E se alguém reparasse e achasse estranho o sítio onde foi visto e o que estava lá dentro, nada apontaria para essa pessoa. E foi ontem, de manhã cedo? Será que algum dos pescadores ou dos homens do rio da cidade deu por falta de um barco? Conheço dezenas de barcos que poderiam ter deixado esta marca. E, quando já não precisasse da embarcação, bastar-lhe-ia pô-la à deriva para ir dar onde calhasse.

- Isso só poderia ser para jusante - disse Hugh, levantando os olhos da pequena ponta de seta em bronze que tinha na palma da mão.

- Pois é! Só a jusante do sítio onde deixou de precisar dele. E mesmo isso deve, certamente, ser a jusante do sítio onde estamos, se ele partiu daqui com tal carga. Muito mais fácil e seguro que subir contra a corrente. Pode ter sido de manhã cedo, com poucas pessoas fora de casa, mas na altura em que um remador, ou mesmo dois, acabassem de levar o barco a rodear as muralhas da cidade, contra a corrente, que era o que precisariam de fazer para ficarem em segurança, já deveria haver muita gente na margem e na água. Mesmo depois de se livrarem da cidade teriam de enfrentar Frankwell: uma boa hora a remar até estarem a salvo das atenções e da curiosidade. Se descessem a corrente, depois de passarem esta parte da muralha e de saírem de sob o castelo, poderiam respirar à vontade, estariam entre campos e bosques, longe da cidade.

- Isso faz sentido- disse Hugh. - Não digo que seja impossível terem subido a corrente, mas primeiro vamos verificar a hipótese mais provável. Sabe Deus que esquadrinhámos todos os becos do interior das muralhas, e revistámos todas as casas, e ainda há homens a trabalhar afincadamente para terminar. Nem uma alma admite ter visto ou ouvido alguma coisa relacionada com ela desde que falou com o guarda do portão e começou a atravessar a ponte. E se voltou à cidade, ou foi levada, não foi pelo portão. O porteiro não deu passagem a nenhum carro nem a nenhuma carga que pudesse escondê-la, jura ele... Mesmo assim, há umas quantas cancelas, embora a maioria dê para jardins privados, que não seria fácil atravessar para chegar à rua sem chamar a atenção dos habitantes da casa. Começo a crer que ela não pode estar no interior das muralhas, mas coloquei homens em todas as cancelas que dão acesso a uma rua e decretei uma ordem sob a justiça do rei, a entrada em todas as casas. As pessoas não podem resistir nem queixar-se daquilo que é igual para todos.

- E ninguém resistiu? - perguntou Cadfael. - Nem uma só vez?

- Refilam, mas mesmo assim sem ser em voz alta. Não, ninguém colocou qualquer objecção, nem empatou ou tentou deixar de abrir qualquer coisa. E todo o dia de ontem, até ao crepúsculo, tive o primo dela colado aos calcanhares, a esquadrinhar aqui e ali como um sabujo lançado sobre uma pista confusa. Pôs dois ou três dos seus tecelões a ajudar na busca. O capataz (chamam-lhe Bertred, um rapaz novo e bem constituído, todo fanfarrão) hoje voltou a andar o dia todo connosco, com o nariz no chão. Agora anda com um grupo de homens meus, a percorrer Foregate do castelo, a revistar os pátios e os jardins dos subúrbios até chegarem de novo ao rio. Na casa estão todos a roer as unhas, loucos por a encontrar. E não admira, pois é dela que depende a subsistência de todos eles: umas vinte famílias, ou mais. E nem um cabelo dela se encontrou, nunca uma sombra de suspeita contra quem quer que fosse, até agora.

- Como se saiu com Godfrey Fuller? - perguntou Cadfael, recordando os boatos acerca dos pretendentes de Judith.

Hugh soltou uma gargalhada curta.

-Também não me esqueci! E, para dizer a verdade, parece-me quase tão preocupado como o primo dela. Não esteve com meias medidas, entregou-me todas as chaves e pediu-me que fizesse o que me aprouvesse. E eu fiz.

- Também as chaves das oficinas de tinturaria e dos barracões de pisoagem?

- Todas, embora eu não precisasse de nenhuma, pois os homens dele estavam a trabalhar, e todos os recantos à vista, inocentes como a luz do dia. Acho até que me teria cedido alguns homens para participar nas buscas, mas gosta demasiado do dinheiro para permitir que o trabalho se atrase.

- E William Hynde?

- O velho negociante de lãs? Passou a noite com os pastores e os rebanhos, foi o que disseram na casa dele, e só chegou hoje de manhã. Só nessa altura soube que a rapariga tinha desaparecido. Alan esteve lá ontem, e a mulher de Hynde não se fez rogada, deixou-o procurar onde lhe apeteceu, mas hoje eu voltei lá e falei com o homem. Antes da noite regressa para os montes. Parece que tem lá uns cordeiros com a podridão das patas, e ele e o criado vieram só buscar a loção para os tratar. E está mais preocupado com eles que com a Srª Perle, embora tenha dito que lamentava ouvir tal notícia acerca dela. Agora já estou convencido de que ela não está no interior da cidade. Por isso - disse Hugh, com vigor -, mais vale procurarmos noutro lado. Para jusante, estamos de acordo. Madog, volte connosco para o portão da cidade e arranje-nos um barco, e veremos o que se pode encontrar descendo a corrente.

No meio do rio, navegando com a corrente, e só com um jeito dos remos de Madog de vez em quando para manter a rota, viam passar diante dos seus olhos toda a extensão da parte leste de Shrews-bury, uma encosta íngreme e verde sob a muralha, aqui e ali um aglomerado de arbustos baixos na beira da água, aqui e ali um salgueiro pendente, mas na sua maior parte uma grande extensão de erva de Verão que criava semente, e depois a pedra cinzenta da alta muralha. Acima desta mal se via uma fileira de telhados, apenas o topo de torre de Santa Maria, e uma visão mais distante do topo de São Alkmund. Passaram por três cancelas abertas na muralha até chegarem à desembocadura do canal de Santa Maria, que permitia acesso, ao rio a partir do castelo e da cidade, quando necessário, e em certos locais os donos das casas do interior tinham alargado os seus jardins ao exterior, ou aproveitado o terreno, onde era suficientemente plano, para os seus armazéns de madeira ou de outros materiais relacionados com os seus ofícios. Mas ali o declive dificultava o cultivo, a não ser em locais favorecidos, e os melhores jardins do exterior das muralhas ficavam a sudoeste, dentro das grandes curvas do rio serpenteante.

Passaram pela estreita calha murada do canal, e a seguir havia outra encosta íngreme relvada, naquele local mais coberta de arbustos, antes do ponto onde a muralha da cidade se aproximava do rio, ladeando uma faixa de relvado limpa onde os jovens tinham o hábito de instalar os alvos para praticar o tiro com o arco nos dias de festa e de feira. No fim deste terreno havia uma última cancela, quase debaixo da primeira torre do castelo, e a seguir o chão era mais plano, com uma extensão de campo aberto entre a água e a estrada que saía pelos portões do castelo. Aqui, tal como no lado do País de Gales, a cidade tinha-se derramado para além da muralha e numa curta faixa as casinhas, muito juntas, ladeavam a estrada, encolhidas sob a sombra do grande vulto das torres de pedra e das muralhas que encimavam o único acesso seco de Shrewsbury.

Os prados abertos estendiam-se, tornando-se cada vez mais largos e formando uma extensão ondulada de campos e bosques tranquila e serena. As únicas coisas que ainda faziam lembrar a cidade estavam ali, junto do rio: as oficinas, as cubas de pisoagem e o terreno de secagem do pano de Godfrey Fuller, e, um pouco mais adiante, o imponente armazém onde as melhores lãs de William Hynde, embaladas e prontas, aguardavam que a barcaça do intermediário as viesse recolher, e o molhe estreito e robusto onde ela atracaria, ao lado da estrada.

Aqui e ali, homens atarefados ocupavam-se da oficina de pisoagem, e, esticadas na armação para secar, viam-se duas peças de pano vermelho-ferrugem-brilhante. Era a estação dos vermelhos, dos castanhos e dos amarelos. Cadfael olhou ao longo da muralha do castelo para a última cancela que dava acesso à cidade, e recordou que a casa de Fuller não ficava muito longe do recinto do castelo. E a de William Hynde também, embora um pouco mais distante, perto da cruz alta. Aquele portão era conveniente para ambos. Durante a noite Fuller tinha sempre ali um guarda, que vivia nas oficinas.

- Pouco provável conseguir esconder aqui uma prisioneira - disse Hugh num tom de voz resignado. - De dia seria impossível, com tanta gente atarefada por aqui, e à noite o homem que aqui dorme é pago para vigiar também a propriedade de Hynde, e ainda por cima tem um mastim. Não me lembro de haver mais do que prados e campos a seguir, mas avancemos um pouco mais.

As margens verdes iam passando de ambos os lados, às vezes invadidas por árvores que as sombreavam, mas não havia nenhum bosque frondoso, nenhuma construção, nem sequer uma cabana ao longo de meia milha ou mais. Estavam prestes a desistir da busca e a voltar para trás, e Cadfael preparava-se para arregaçar as mangas e pegar num dos remos, para ajudar Madog a subir a corrente, quando Madog parou, apontando.

- Que é que eu tinha dito? Não é preciso ir mais adiante, aquilo marca o fim da busca.

Junto da margem esquerda, havia um local onde uma corrente curva tinha escavado o chão sob as raízes de um pequeno pilriteiro, fazendo que este se inclinasse sobre a água; os seus ramos tinham apanhado na armadilha um peixe especial. Ali estava o barco, inclinado, com a proa presa entre dois ramos espinhosos, os remos no seu lugar, balouçando suavemente.

- Conheço este - disse Madog, levando-os até junto dele e segurando o barco para não se afastarem. - Pertence a Arnald, o pescador; deixa-o preso debaixo de Wyle, no extremo da ponte do lado da cidade. O vosso homem só teve de o fazer atravessar com os remos e de o esconder. Arnald deve estar furioso, a correr Shrewsbury e a bater em todos os rapazes de que desconfiar. O melhor é fazer-lhe o favor de lho devolver, antes que arranque uma orelha ou duas. Já uma vez lho levaram, mas pelo menos dessa devolveram-lho. Pronto, meu senhor, já está. Está satisfeito?

- Muito pouco satisfeito - disse Hugh, com mágoa -, mas entendo o que quer dizer. Concordámos que seria descer a corrente! Bem, algures, entre a ponte e este local, segundo parece, a Srª Perle foi posta em terra e bem guardada. Demasiado bem! Pois ainda não faço ideia de onde possa estar.

Com o auxílio da corda que servia para atracar o barco, e que pendia deste, desfiada para dar a ideia de que se tinha rompido sozinha, rebocaram o barco roubado e dedicaram o seu esforço à dura subida da corrente. Cadfael tomara um dos remos e, firmemente instalado no seu lugar, tentava igualar a habilidade experiente de Madog. Mas quando chegaram à zona da oficina de pisoagem ouviram chamar, e dois dos oficiais de Hugh aproximaram-se da margem, cansados e cobertos de pó, com três ou quatro voluntários da cidade a certa distância, em atitude respeitosa. Cadfael observou que entre eles se encontrava aquele tecelão todo fanfarrão, como Hugh dissera, que pisava o chão relvado com a confiança de um homem que gosta de si mesmo, e não parecendo nada abatido por acabar de mãos vazias a sua busca voluntária. Cadfael já o tinha visto uma vez ou outra acompanhando Miles Coliar, embora pouco conhecesse dele além da sua aparência. Que era notavelmente apresentável, com boas cores e uma constituição saudável e perfeita, com o género de rosto franco que pode ser apenas o que parece, ou então adaptado de forma a esconder a existência de uma secção interior oculta, firmemente fechada. Os olhos, aparentemente sinceros, tinham uma leve sagacidade e o sorriso era um pouco fácil de mais. E por que haveria de sorrir se, no fim do segundo dia de busca, ainda não tinham encontrado Judith Perle?

-Meu senhor-disse o sargento mais velho, estendendo a mão para manter o barco quieto e em terra -, vimos em todos os tufos de relva entre estas duas partes do rio, em ambas as margens, e não havia nada, nem uma alma que admita saber seja o que for.

- Não me saí melhor - disse Hugh, em tom resignado -, excepto o ter encontrado este barco, que deve ter servido para a levar. Estava preso nos ramos de um pilriteiro, a alguma distância daqui, para jusante, mas é de junto da ponte. Não é preciso procurar mais adiante, a menos que a pobre mulher tenha sido transportada várias vezes, o que é pouco provável.

- Procurámos em todas as casas e em todos os jardins ao longo da estrada. Vimos que o senhor descia o rio, por isso voltámos a ver este sítio, mas isto não esconde nada. O mestre Fuller deu-nos toda a liberdade na sua propriedade.

Hugh olhou em redor, um olhar prolongado, inquisitivo e pouco esperançoso.

- Não, aqui seria pouco provável alguém fazer algo sem ser visto, pelo menos durante o dia, e foi ao princípio do dia que ela desapareceu. Alguém procurou ali, no armazém do mestre Hynde?

- Ontem, meu senhor. A mulher deu-nos logo a chave. Eu próprio lá estive, e o Sr. Herbard também. Lá dentro só havia os fardos de lã, que enchiam quase tudo, do chão ao tecto. Este ano a tosquia foi boa, segundo parece.

-Melhor que a minha-disse Hugh.-Mas eu não tenho mais de trezentas ovelhas, o que para ele é pouca coisa. Bem, estiveram todo o dia nisto, o melhor é descansar e ir para casa. - Pôs o pé sobre o banco, com leveza, e saiu para terra. O barco balançou suavemente. - Aqui não podemos fazer mais nada. É melhor eu voltar para o castelo, para ver se por acaso alguém teve mais sorte. Eu entro aqui pela porta leste, Madog, mas se quiser podemos ceder-lhe dois remadores, que o ajudarão a subir a corrente com os dois barcos. A alguns dos rapazes que têm andado na busca connosco dava jeito uma viagem de regresso à ponte. - Percorreu com o olhar o grupo que, respeitosamente afastado, observava e escutava. - É melhor que caminhar, rapazes, depois de tanto que andaram hoje. Quem é o primeiro?

Dois dos homens avançaram, ávidos, separaram os barcos e sentaram-se aos remos. Impeliram os barcos com suavidade, diante de Madog, estabelecendo um ritmo resultante da experiência. E era muito possível, pensou Cadfael ao reparar como Bertred, o tecelão, não tinha feito qualquer menção de oferecer os seus braços robustos, que a caminhada para casa, a partir do portão do castelo próximo, pouco mais longa fosse que a do portão da ponte, depois de desembarcarem, e por isso ele não tivesse visto qualquer vantagem em se oferecer. Era mesmo possível que ele não fosse um grande remador. Mas isso não justificava aquele sorrizinho malicioso e a expressão de radiosa satisfação no seu rosto jovem e atraente quando se afastava discretamente, atrás dos companheiros. E certamente não justificava a última visão que Cadfael teve dele, ao olhar por sobre o ombro a meio da corrente. Pois Bertred tinha-se atrasado em relação a Hugh e aos seus auxiliares quando estes partiram com passo rápido em direcção à estrada e ao portão leste da cidade, tinha parado um instante para os olhar enquanto enfrentavam a subida, e em seguida dera meia volta e, decidido mas sem pressa, caminhara em direcção ao grupo de árvores mais próximo, como se aí tivesse coisas importantes a fazer.

Bertred só chegou a casa para jantar ao cair da noite; uma casa cheia de aflição, onde as pessoas tinham perdido a rotina, arrastando-se pelo dia fora e esquecendo o trabalho, as horas das refeições e todos os factores que serviam para distinguir as horas da forma organizada do costume. Miles, angustiado, ia da oficina à rua umas doze vezes por hora, e corria a pedir notícias a todos os soldados da guarnição que passavam, mas não havia nenhuma. Em dois dias tinha-se tornado tão tenso e irritável que até a mãe, por uma vez reduzida a um relativo silêncio, tinha tendência para lhe sair do caminho. Na sala de fiação, as raparigas sussurravam e faziam perguntas mais do que trabalhavam, e juntavam-se com os tecelões para bisbilhotar assim que ele voltava as costas.

- Quem havia de dizer que ele gostava tanto da prima! - exclamava Branwen, espantada com o seu rosto tenso e ansioso. - Claro que um homem se importa com a família, mas... até parece que perdeu a noiva, e não a prima, tal é o desgosto.

- Estaria um pouco menos preocupado com a sua Isabel - disse um dos tecelões, um céptico. - Ela vai dar-lhe um dote razoável, e ele está satisfeito com o negócio, mas se esta fugisse do anzol há mais peixes no mar. A Srª Judith é o sustento dele, o futuro, tudo. Além disso, tanto quanto tenho visto, os dois dão-se bem. Tem todos os motivos para se preocupar.

E preocupava-se, numa ansiedade frenética, roendo as unhas e franzindo as sobrancelhas, e assim continuou durante todo o dia; à noite, quando se viram obrigados a interromper a busca, caiu num desânimo mudo e resignado, aguardando que a manhã permitisse o recomeço. Mas naquele segundo crepúsculo parecia que já todos os recantos da cidade haviam sido revolvidos e todas as casas, jardins e pastagens dos subúrbios pelo menos visitadas, e onde haveriam de procurar a seguir?

- Não pode estar longe - insistiu a Dama Agatha com tenacidade. - Com certeza que vão encontrá-la.

-Longe ou perto - disse Miles, desesperado -, está demasiado bem escondida. E decerto nas mãos de um vilão. E se ela é forçada a ceder e a aceitá-lo? Então que vai ser de nós dois, se ela deixa entrar um amo cá para casa?

-Ela não faria isso, está demasiado decidida contra o casamento. Não, isso ela nunca fará. Ora, se um homem a maltratar, de longe o mais provável, quando se libertar dele (e há-de libertar-se!) é que faça aquilo em que já vem pensando há tanto tempo, e que entre para um convento. E já só faltam dois dias para o dia da renda! - fez notar Agatha. - E depois, que se há-de fazer, se esse dia passar e ela continuar perdida?

- Nesse caso o negócio ficou anulado, e haverá tempo para pensar de novo, e pensar melhor, mas isso só ela pode fazer. Até ela ser encontrada não há nada a fazer, não há nenhum conforto. Amanhã volto a sair para procurar eu próprio - declarou Miles, abanando a cabeça, exasperado com o fracasso do xerife do rei e dos seus homens.

- Mas onde? Onde resta um sítio onde eles ainda não tenham procurado?

Uma pergunta deveras difícil, e que não tinha resposta. E naquela casa desanimada e expectante entrou Bertred de mansinho, ao crepúsculo, discretamente calado e solene no que dizia respeito ao contínuo fracasso da tentativa de encontrar qualquer rasto da patroa, e no entanto com um ar tão hipócrita e com os olhos tão brilhantes que Miles o tratou com brusquidão, sem nada do seu bom feitio habitual, ficando a segui-lo com um olhar carrancudo, quando, sensato, Bertred, se retirou para a cozinha. Nas noites quentes de Verão era mais agradável estar fora de casa do que naquela sala sombria e cheia com o fumo e o calor do fogo, mesmo quando este tinha sido coberto de turfa para passar a noite ou apagado com o ancinho até de manhã, e as restantes pessoas da casa tinham ido aos seus diversos afazeres. Apenas Alison, a mãe de Bertred, que era quem cozinhava para a família e para os trabalhadores, ali aguardava, não muito pacientemente, o filho, com uma panela ainda quente sobre o fogão vazio.

-Onde estiveste tu todo este tempo?-quis saber, voltando-se com a colher na mão quando ele entrou a porta em passos vivos e ruidosos e se dirigiu para o seu lugar na mesa comprida. Ao passar por ela, deu-lhe um beijo ligeiro e acariciou-lhe ao de leve a face. Era uma mulher de figura confortável e cheia, ainda com vestígios gastos da beleza que havia transmitido ao filho.

- Isso é tudo muito bonito - disse, pondo a tigela de madeira diante dele, com estrondo -, depois de me fazeres ficar aqui à espera até tão tarde. E não deves ter feito grande coisa durante o dia, senão já estarias a contar-me como a trouxeste para casa, emproado como um pavão. Há homens que vieram já há duas horas, ou mais. Onde estiveste escondido desde essa altura?

Na cozinha escura o seu leve sorriso de satisfação quase não se via, mas o seu tom de voz transmitia o mesmo entusiasmo cuidadosamente disfarçado. Segurou no braço da mãe e fê-la sentar-se no banco a seu lado.

- Não se preocupe em saber onde estive, e deixe comigo as razões! Tive de esperar por uma coisa, e valeu a pena. Mãe... - inclinou-se para ela e baixou a voz num murmúrio confidencial - ... gostaria de ser nesta casa mais que uma criada? Uma senhora, uma viúva respeitada! Aguarde um pouco, que eu tenciono fazer a minha fortuna, e a sua também. Que me diz a isto?

- Sempre tiveste grandes ideias - disse ela, que não ficou muito impressionada, mas gostava demasiado dele para fazer troça. - E como tencionas conseguir isso?

- Ainda não vou dizer nada, só quando puder dizer que a coisa está feita. Nenhum daqueles sabujos que andaram todo o dia à caça sabem o que eu sei. E não digo mais do que isto, e nem uma palavra a mais ninguém além da senhora. E... Mãe, esta noite tenho de sair outra vez, quando estiver completamente escuro. Não se preocupe, eu sei o que faço; espere, que vai ficar contente. Mas esta noite não pode dizer uma palavra que seja a ninguém.

Duvidosa, afastou-o de si para melhor ver o seu rosto sorridente e trocista.

- Que andas tu a preparar? Sou tão capaz de ficar calada como outra qualquer, quando é preciso. Mas não vás meter-te em sarilhos. Se sabes alguma coisa, por que é que não disseste nada?

- Para perder os louvores? Não, deixe tudo comigo, Mãe, eu sei o que estou a fazer. Amanhã verá, mas esta noite nem uma palavra. Prometa-me!

- O teu pai também era assim - disse ela, descontraindo-se em sorrisos -, sempre cheio de grandes planos. Bem, se eu tiver de passar a noite acordada só por pura curiosidade, seja. Alguma vez eu me atravessaria no teu caminho? Não digo nem uma palavra, prometo.-E imediatamente acrescentou, com um breve acesso de inquietação e pressentimento: - Mas toma cuidado! Pode haver outras pessoas, além de ti, a tratar de assuntos arriscados durante a noite.

Bertred riu-se e abraçou-a impulsivamente com os braços compridos. Depois saiu a assobiar para o pátio sombrio.

Dormia na oficina dos teares, onde não tinha companheiros que pudessem acordar e ouvi-lo levantar-se e vestir-se, mais de uma hora depois da meia-noite. Nem teve qualquer problema em sair furtivamente do pátio, servindo-se da passagem estreita que dava para a rua, sem sequer correr o risco de ser visto por qualquer outra pessoa da casa. Tinha escolhido cuidadosamente a altura. Não podia ser demasiado cedo, porque ainda poderia haver pessoas acordadas. Não podia ser demasiado tarde, porque a Lua ter-se-ia levantado, e a escuridão era mais adequada aos seus propósitos. E a escuridão era de facto grande nas ruas estreitas, entre as casas e as lojas, enquanto ele percorria o aglomerado de ruas entre a Travessa de Maerdol e o castelo. O portão da cidade, ali no lado leste, fazia parte das defesas do castelo e durante a noite haveria de estar fechado e guardado. Durante aqueles últimos anos Shrewsbury tinha estado bastante segura contra qualquer ameaça vinda do leste, apenas um ou outro breve ataque galês vindo de ocidente perturbara a paz do condado, mas Hugh Beringar mantinha sem falta a rotina de vigilância. Mas a cancela que ficava mais a leste e dava acesso ao rio, sob as próprias torres da fortaleza, podia ser usada livremente. Apenas em tempo de perigo se fechavam e trancavam todas as cancelas e se colocavam sentinelas nas muralhas. Cavaleiros, carros, carroças do mercado, todos tinham de esperar que os portões se abrissem ao nascer do Sol, mas um homem sozinho poderia passar a qualquer hora.

Bertred conhecia tão bem o caminho de noite como de dia, e conseguia andar tão silenciosamente como um gato. Passou através da cancela para a encosta coberta de relva e de arbustos que descia para o rio, fechando atrás de si a porta de madeira. Lá em baixo, o curso do Severn produzia reflexos e cintilações, apenas visíveis como tremores na escuridão. O céu estava um pouco encoberto e não mostrava estrelas, e era um pouco menos escuro que os volumes sólidos dos muros, da terra e das árvores, apenas o suficiente para revelar os seus contornos a negro mais profundo. Quando a Lua se erguesse, passado mais de uma hora, talvez o céu clareasse. Tinha tempo para ficar parado por um instante a pensar no que tinha de fazer. Havia pouco vento, mas mais valia tê-lo em conta: não seria bom aproximar-se do mastim do guarda das oficinas de pisoagem com o vento por detrás. Molhou um dedo para ver. A brisa, fraca e regular, soprava de sudoeste, de montante. Teria de contornar o castelo, praticamente até às orlas dos terrenos cultivados ao longo da estrada, e descer a favor do vento num círculo prudente para chegar às traseiras do armazém das lãs.

Durante a tarde tinha-o observado bem. E os outros também, o xerife, os seus sargentos e os cidadãos que o ajudavam na busca. Mas, ao contrário de Bertred, não tinha entrado e saído duas ou três vezes desse armazém, ao ir buscar as lãs para a Srª Perle. Nem tinham estado presentes na cozinha da Srª Perle na noite anterior ao seu desaparecimento, para ouvir Branwen declarar a intenção da patroa de ir de manhã cedo à abadia para fazer uma nova carta, tornando incondicional a sua dádiva da propriedade. Por isso não tinham visto, como Bertred, o criado de Hynde, Gunnar, acabar de beber a cerveja e guardar os dados no bolso pouco depois, e partir um tanto apressado, embora antes tivesse parecido confortavel-mente instalado para passar o serão. Portanto, para além de Bertred, havia mais alguém que sabia dessa intenção, e sem dúvida tinha ido embora tão prontamente para a revelar a ainda mais alguém. E qual deles era essa outra pessoa, o velho ou o novo, não importava. O que era estranho era que Bertred tivesse levado tanto tempo a compreender as possibilidades. Nessa tarde não precisara de nada mais, além da visão do postigo da antiga casa do conto, fechado e trancado com toda a segurança pelo lado de fora, e provavelmente também seguro por dentro, para ficar esclarecido. Se nessa altura esperara pacientemente até ao crepúsculo, oculto pelas árvores, para ver quem saía furtivamente pela cancela da muralha da cidade, e para onde se dirigia com o cesto de verga, tinha sido apenas uma precaução final, para tornar ainda mais certa a certeza.

Num bolso interior do casaco, pesando-lhe contra o corpo, trazia um longo formão e um martelo, embora fosse necessário evitar o barulho, se possível. A barra exterior do postigo tinha apenas de ser puxada para trás e retirada do apoio, mas desconfiava que a portada estava também pregada com pregos. Um ano antes alguém tinha roubado um fardo de lã, entrando por aquele postigo, e como a pequena casa do conto já não era utilizada, o velho Hynde tinha mandado selar a janela para evitar outra tentativa. Era mais uma coisa que o xerife não sabia.

Bertred saiu sem ruído para o prado atrás do armazém, com a brisa suave a soprar-lhe no rosto. Nessa altura, as formas das coisas viam-se com nitidez, negras contra negro desbotado. O vulto do edifício encontrava-se entre ele e as oficinas de Godfrey Fuller, e o ténue reluzir do rio um pouco mais distante, do seu lado esquerdo. E acima dele, ao dobro da sua altura, o quadrado do postigo fechado a custo perceptível na sua visão nocturna.

A escalada não apresentava problemas, tinha-se certificado disso. O edifício era velho e como a parede traseira era recuada, por causa da encosta, ao longo dos anos a base da parede de tábuas verticais tinha sofrido danos devido à humidade e tinha apodrecido; o velho Hynde, que nunca gostara de fazer grandes despesas, tinha-a reforçado com troncos cortados presos na horizontal por cima da grande trave que servia de peitoril, proporcionando apoios para os pés a uma altura que lhe permitia atingir o peitoril tosco do postigo, que tinha uma largura suficiente para lhe proporcionar um apoio seguro, com o ouvido encostado à portada.

Içou-se com cuidado, colocou a mão com firmeza na tranca que fechava o postigo e uma perna ao longo do peitoril, inspirou e reteve cautelosamente a respiração, apercebendo-se da primeira coisa estranha e inesperada. As portadas ajustavam-se bem, mas não perfeitamente. Abaixo do centro via-se um fio de luz, do comprimento de uma mão, no local onde se reuniam as duas partes, demasiado fina para permitir ver o que se passava lá dentro, um mero traço de ouro-pálido. Talvez não fosse assim tão estranho, afinal. Talvez tivessem tido a bondade de lhe deixar uma vela ou um candeeiro na sua prisão. Sem dúvida valeria a pena fazer-lhe o mais possível a vontade, em coisas inofensivas, enquanto tentavam vencer-lhe a resistência. Só seria preciso tentar a força se tudo o resto fracassasse. Mas dois dias sem nada conseguir começava a parecer-se muito com um fracasso.

O formão que trazia dentro do casaco comprimia-lhe dolorosamente as costelas. Meteu cautelosamente a mão no bolso e tirou para fora as ferramentas, colocando-as ao seu lado sobre o parapeito, de modo a poder aproximar-se mais da tira de luz e encostar o ouvido à fenda.

O seu súbito sobressalto por pouco não o fazia cair do poleiro. Pois uma voz firme e clara, muito perto da parte de dentro das portadas, disse:

- Não, não conseguirá modificar-me. Já o devia saber. Eu sou um problema que terá de resolver. Trouxe-me para cá, agora tire-me daqui da melhor forma que puder.

A voz que respondeu era mais distante, talvez do outro lado da sala, numa fuga sem esperança, e as palavras não chegaram até ele com clareza, mas o tom era de lamento desesperado ou de súplica abjecta, e quem falava era um homem, embora tão irreconhecível que Bertred não podia estar certo de que fosse velho ou novo, amo ou servidor.

O seu plano já tinha fracassado. Na melhor das hipóteses, tinha de esperar, e, se tivesse de esperar demasiado tempo, a Lua nasceria, e os riscos seriam mais que duplicados. O lugar estava certo, o seu raciocínio tinha sido confirmado, a mulher estava lá. Mas o momento não tinha sido bem escolhido, pois o carcereiro estava com ela.

 

- Trouxe-me para cá - dissera ela -, agora tire-me daqui da melhor forma que puder.

Na sala estreita e vazia que fora outrora a casa do conto de Hynde, a pequena chama da lamparina mal os deixava ver-se um ao outro. Ele tinha-se afastado dela precipitadamente e estava de pé, no canto mais distante, de costas voltadas, a cabeça baixa e enfiada no braço que apoiava à parede, enquanto com o outro punho batia, inútil e dolorosamente, na parede de madeira.

- Como posso tirá-la daqui? Como? Agora não há saída!

- Podia abrir a porta - disse ela com simplicidade - e deixar-me sair. Nada mais fácil.

- Para si! - protestou ele furiosamente, e rodou para lhe lançar um olhar ameaçador, com todo o veneno de que a sua natureza era capaz. O que não dava muito mais que mera autoco-miseração. Não era um homem venenoso, apenas vaidoso e tolo. Fatigava-a, mas não a assustava. - Estaria tudo muito bem para si! E eu estaria acabado, condenado... lançado para uma prisão, para aí apodrecer. Quando saísse, a senhora denunciar-me-ia para se vingar.

- Devia ter pensado nisso - disse ela - antes de ter-me raptado, com o patife do seu criado. Trouxe-me para este buraco sórdido, trancou-me atrás dos seus fardos de lã, sem conforto, sem decência, sujeita aos maus tratos do seu criado e aos seus pedidos insolentes, e espera gratidão? Ou mesmo piedade? Por que não haveria de o denunciar? O melhor que tem a fazer é pensar, pensar muito e depressa. Acabará por ter de libertar-me ou matar-me, e quanto mais demorar, pior será a sua situação. A minha - disse com amargura -já é suficientemente má. Que será feito agora do meu bom nome? Em que condição voltarei para junto da minha família?

Vivian voltou para junto dela num ímpeto, lançando-se de joelhos ao lado do banco tosco onde ela tinha descansado conforme podia, e onde agora estava sentada, muito direita e pálida, com as mãos apertadas uma na outra sobre o colo, as saias muito juntas, como se quisesse evitar não só o contacto dele como o próprio pó e a desolação da sua prisão. Na sala não havia mais nada além de uma secretária partida onde outrora o escrivão calculara os seus números, um jarro de pedra com o bico lascado e a um canto um monte de lixo e de pó. A lamparina estava ao lado dela, na ponta do banco, e agora a luz incidia em cheio sobre o cabelo despenteado e o rosto aflito de Vivian. Agarrou-se-lhe às mãos num gesto de súplica, mas ela retirou-lhas com tanta brusquidão que ele se sentou sobre os calcanhares com um soluço de desespero.

- Eu nunca quis que acontecesse tanto mal, juro! Julguei que me tinha estima, julguei que bastava tê-la só para mim durante algum tempo, e que acordaríamos tudo entre nós... Oh, meu Deus, quem me dera não ter começado! Mas de verdade, de verdade, eu julgava que podia amar-me...

-Não! Nunca!-Já o tinha dito muitas vezes naqueles últimos dois dias, e sempre com a mesma frieza irrevogável. Ele devia ter reconhecido, desde a primeira vez que ela pronunciara estas palavras, que a sua causa não tinha esperança. Mas ele nem sequer se tinha enganado a si mesmo, convencendo-se de que a amava. O que ambicionava era a segurança e conforto que ela podia proporcionar-lhe, o pagamento das dívidas e a perspectiva de uma vida fácil. Talvez mesmo o prazer de fazer uma careta de desprezo ao seu económico pai... económico pelo menos aos olhos de Vivian, uma vez que tinha acabado por se cansar de pagar para safar o seu herdeiro das dívidas e dos sarilhos. Oh, sem dúvida o jovem achara agradável só por si a perspectiva de casar com ela, mas não era esse o motivo pelo qual escolhera essa determinada manhã para o seu pedido. Para quê deixar escapar entre os dedos metade de uma fortuna, quando com um gesto de ousadia podia tê-la toda?

- Como explicam o meu desaparecimento? - perguntou ela.

Já dizem o pior de mim? Têm-me procurado, sequer? Julgam que estou morta?

Um leve esgar de desafio e de despeito passou pelo rosto de Vivian.

- Se a têm procurado? Viraram toda a cidade do avesso para a encontrar, o xerife e todos os homens dele, o seu primo e metade dos seus trabalhadores. Não há casa que não tenham visitado, não há celeiro que não tenham rebuscado. Ontem estiveram aqui, quase ao cair da noite. Alan Herbard, com três homens da guarnição. Abrimos-lhes as portas e mostrámos os fardos de lã, e eles foram-se embora, satisfeitos. Por que é que não gritou nessa altura, se queria ser salva de mim?

- Estiveram aqui? - Judith contraiu-se, gelada, perante aquele jorro de malícia. Mas era o último, ele já tinha feito o pior que podia e não foi capaz de continuar por muito tempo. - Nem os ouvi! - disse ela, com uma amargura resignada.

- Pois não - disse ele, agora com simplicidade, esgotada toda a resistência. - Contentaram-se com facilidade. Esta sala está quase esquecida, e os fardos todos abafam o som. Não fizeram perguntas. Esta tarde voltaram cá, mas não pediram as chaves. Tinham encontrado o barco... Não, não os podia ouvir. Teria gritado, se os ouvisse?

Era uma pergunta sem significado, e ela não lhe deu resposta, mas pensou um pouco nela. Teria desejado que a ouvissem gritar, pedindo socorro, e retirado daquela desagradável prisão, sem estar preparada, suja e coberta de pó, comprometida, lamentável? Não seria melhor ficar calada, e libertar-se sozinha da situação? Pois a verdade é que, depois da confusão, da indignação e do alarme que de início experimentara, nunca receara Vivian, nem se encontrara de forma alguma em perigo de lhe ceder, e agora agradar-lhe-ia tanto como a ele uma solução que ocultasse tudo o que havia sucedido, e lhe deixasse a sua dignidade e integridade, independentes de qualquer outra alma. Ele acabaria por ter de a libertar. Ela era a mais forte dos dois.

Vivian arriscou estender a mão para lhe agarrar uma prega da saia. O rosto que levantou para ela, visto claramente, assim próximo e iluminado pela chama amarela do pavio, era estranhamente jovem e vulnerável, como o de um rapazinho culpado apelando à atenuação de alguma falta terrível e que ainda não se resignou ao castigo. A testa, que havia encostado à parede, estava manchada de pó, e com as costas da mão, ao limpar as lágrimas, ou o suor, ou ambos, tinha feito uma longa mancha negra na face. No cabelo louro, brilhante e emaranhado havia um fio de teia de aranha. Os grandes olhos castanhos, dilatados devido à tensão, lançavam cintilações douradas no clarão da lamparina, e não largavam o rosto dela, num apelo desesperado.

-Judith, Judith, faça-me justiça! Eu podia tê-la tratado pior... podia tê-la tomado à força...

Ela abanou a cabeça, com desprezo.

- Não, não podia. Não tem audácia para isso. É demasiado cauteloso... ou talvez demasiado decente... talvez mesmo as duas coisas! E não teria tido nenhuma vantagem nisso - disse ela cruamente, e voltou-se para fugir à juventude desesperada e desolada do rosto dele, com os seus ecos pungentes do rosto do irmão Eluric, que agonizara em silêncio, sem esperança nem apelo. - E agora aqui estamos os dois, e sabe tão bem como eu que isto tem de ter um fim. Não tem outra coisa a fazer senão deixar-me ir embora.

- E vai destruir-me! - disse ele num sussurro, afundando a cabeça dourada nas mãos.

- Não lhe desejo mal - disse ela, em tom fatigado -, mas foi o senhor quem provocou tudo isto, e não eu.

- Eu sei, eu reconheço, sabe Deus como eu desejo poder voltar atrás! Oh, Judith, ajude-me, ajude-me!

Tinha chegado àquele ponto, ao desolado reconhecimento de que tinha perdido, de que era agora prisioneiro dela, e não ela dele, até que dependia dela para o salvar da armadilha que ele próprio havia colocado. Deitou a cabeça no colo dela e estremeceu como se tivesse frio, e ela estava tão cansada e tão desorientada que levantara uma mão resignada para lha pousar sobre a cabeça, para o acalmar, quando um súbito ruído de alguma coisa que se quebrava, seguido de um escorregar, do lado de fora das portadas atrás das costas dela, fez que ambos se sobressaltassem e ficassem paralizados, em pânico. Não era um som forte, apenas como se um peso não muito pesado escorregasse, acabando com um baque abafado na relva. Vivian levantou-se de um pulo, estremecendo.

- Santo Deus, que foi isto?

Retiveram a respiração, tensos, num silêncio tão súbito como o som, e igualmente breve. Depois, mais distante e vindo da direcção das oficinas de pisoagem, na margem do rio, veio o latir de alarme, ruidoso e selvagem, do mastim acorrentado; e passados uns instantes este transformou-se bruscamente nos tons mais profundos e intencionais da perseguição, quando o cão foi solto da corrente.

Bertred tinha confiado demasiado na madeira velha e não cuidada, deixada por demasiado tempo a sofrer os efeitos do clima. O parapeito onde ele se tinha empoleirado tinha sido preso naquela posição com pregos compridos, mas na parte mais exposta as chuvas tinham feito enferrujar os pregos, e a madeira tinha apodrecido em redor. Quando mudou de posição para fazer passar uma cãibra incómoda e colar mais avidamente o ouvido à fenda, a madeira rachou-se e partiu-se, o parapeito oscilou para baixo sob o corpo dele, raspando nas tábuas da parede, e projectou-o para o chão, escorregando e agitando os braços para tentar agarrar-se. Não foi uma queda muito alta nem um som muito forte, mas suficientemente forte para chegar às oficinas de pisoagem, naquela noite profunda.

Assim que chegou ao chão pôs-se de pé e ficou por momentos encostado à parede, para recuperar o fôlego e dar firmeza às pernas, depois do choque da queda. No instante seguinte ouviu o mastim começar a ladrar.

O instinto de Bertred foi correr pela encosta acima em direcção às casas ao longo da estrada, e partiu nessa direcção, alarmado, apenas para parar no momento seguinte, ao aperceber-se, com desespero, de que o cão era muito mais rápido do que ele poderia ser e o alcançaria antes de poder pôr-se a salvo. O rio estava mais perto. Mais valia tentar lá chegar, e atravessá-lo a nado até ao bosque do outro extremo de Gaye. Na água teria vantagem sobre o cão, e sem dúvida o guarda o chamaria, em vez de o deixar continuar a perseguição.

Voltou-se e começou a correr em grandes saltos de lebre, descendo a encosta pelo meio dos tufos de relva, a toda a velocidade, em direcção à margem do rio. Mas agora tanto o cão como o homem vinham atrás dele, acordados de madrugada para uma caça ao ladrão, quando todas as pessoas honestas deviam estar na cama, e só os malfeitores podiam andar cá fora. Tinham entendido demasiado bem o som da queda; sabiam que alguém tinha estado a trepar a parede do armazém, e certamente com más intenções. Ao mesmo tempo que as suas pernas e os seus pulmões se esforçavam para atingir a velocidade do terror, uma parte independente do cérebro de Bertred conseguiu ter tempo para sentir curiosidade em saber como é que o jovem Hynde conseguia andar para cá e para lá durante a noite sem originar o mesmo alarme. Mas claro que o mastim o conhecia, era uma das pessoas que ele guardava, um aliado na protecção daquela propriedade, e não um inimigo e uma ameaça.

A fuga e a perseguição, por estranho que pareça, produzem pouco ruído na noite, pouca perturbação na escuridão, e no entanto ele sentia, mais do que via, que o homem e o cão convergiam para a sua trajectória e ouvia o ímpeto do movimento e a respiração decidida cada vez mais próxima do seu flanco direito. O guarda atacou-o com um varapau e deu-lhe uma pancada de raspão na cabeça que o deixou meio atordoado e fez que se desequilibrasse e caísse para a frente, descendo aos trambolhões até à orla do rio. Mas agora tinha passado o homem, podia deixá-lo para trás; era o cão, muito perto dos calcanhares, que o aterrorizava, dando-lhe a força suficiente para o último grande salto que o fez deixar o rebordo de relva sobre a água.

A margem era mais alta do que ele tinha pensado, e a água um pouco mais baixa, expondo camadas de rocha. Em vez de as passar e ir parar à água funda caiu com estrondo entre as pedras inclinadas, embora o seu braço estendido fizesse levantar espuma dos baixios que as separavam. A cabeça, que já vibrava devido à pancada do guarda, bateu com força contra a aresta afiada de uma pedra. Ficou atordoado, no local onde tinha caído, meio escondido pelos arbustos pendentes, totalmente envolto em escuridão. O mastim, que não gostava da água, andava de um lado para o outro ao longo do rebordo coberto de relva e gania, mas não avançava.

O guarda, que ficara muito para trás, ofegante, ouviu o ruído, captou um ténue tremor na palidez inquieta da superfície do rio e parou muito antes de chegar à margem para assobiar pelo cão. O aspirante a ladrão já devia ir a meio do rio, não valia a pena preocuparem-se mais. Estava razoavelmente certo de que o bandido não tinha conseguido entrar fosse onde fosse, ou o cão teria dado o alarme mais cedo. Mesmo assim deu a volta ao armazém e às oficinas da tinturaria, para se certificar de que estava tudo em ordem. O parapeito pendia verticalmente, sob as portadas mergulhadas na escuridão, assim como as tábuas às quais ele se encostava, mas o guarda não reparou. De manhã faria uma inspecção completa, mas parecia que não tinham feito mal nenhum. Voltou para a sua cabana, satisfeito, com o cão junto dos calcanhares.

Vivian ficou rígido, à escuta, até que o ladrar do cão se tornou mais distante e por fim terminou. Abandonou a sua imobilidade, quase dolorosamente.

- Andava alguém a rondar! Alguém desconfia... ou sabe! - Limpou o suor da testa com uma mão suja, tornando ainda maiores as manchas que já tinha. - Oh, meu Deus, que hei-de fazer? Não posso libertá-la, e não posso mantê-la aqui por mais tempo, nem por mais um dia. E se alguém desconfia...

Judith continuou sentada, em silêncio, sempre a observá-lo. A sua beleza, assim sujo e desiludido, comoveu-a contra vontade, como ele nunca teria conseguido comovê-la quando se mostrava mais decorativo e entusiasmado, o mais belo galo da estrumeira. Receoso de levar por diante o seu plano demasiado ousado, incapaz de recuar, desejando num desespero nunca o ter iniciado, parecia uma mosca presa numa teia de aranha, que cada vez se enreda mais inextricavelmente.

- Judith... - estava de joelhos, mais uma vez a seus pés, agarrado às suas mãos, implorando, lisonjeando, mas apaixonadamente, como uma criança, sem pensar no seu encanto e despido da sua vaidade. -Judith, ajude-me! Ajude-me a sair desta situação! Se existe um caminho, ajude-me a encontrá-lo. Se eles a descobrem aqui, estou arruinado, desgraçado... Se a deixo partir, vai destruir-me na mesma..

- Cale-se! - disse ela, cansada. - Não lhe desejo mal, não quero vingança, apenas livrar-me de si nas melhores condições possíveis.

Como é que isso me ajuda? Acha que eles vão permitir que volte a aparecer sem fazer perguntas? Ainda que não diga nada, como é que isso me ajuda? Não lhe darão descanso enquanto não lhes contar tudo, e então estou perdido. Oh, se eu soubesse para que lado me virar!

-Não me convinha menos do que a si - disse Judith-sermos capazes de abafar serenamente este escândalo, mas seria preciso um milagre para justificar estes dois dias perdidos. E tenho de me proteger, se for possível. Você terá de cuidar de si próprio, mas preferia que também não sofresse nada, se pudesse ser. E agora? Que o aflige?

Ele tinha dado um salto, rápido a alarmar-se, e estava contraído e à escuta com os ouvidos bem abertos.

- Há alguém lá fora - disse num sussurro. - Outra vez... não ouviu? Está alguém a espiar... Escute!

Ela ficou em silêncio, embora não estivesse convencida. Ele já estava tão tenso e assustado que seria capaz de fazer aparecer inimigos do nada. Durante um longo momento de silêncio não ouviu nem um som; até mesmo o leve suspiro da brisa nas portadas tinha cessado.

- Não há ninguém; foi a sua imaginação. Nada! - agarrou de súbito nas mãos dele, numa afirmação de domínio, quando até ali se tinha limitado a suportar o contacto dele sem reagir. - Escute-me! Talvez haja uma possibilidade! Quando a irmã Magdalen me visitou, ofereceu-me um local de abrigo no Vau de Godric, junto dela, se eu alguma vez chegasse ao fim das minhas forças e precisasse de refúgio e de uma pausa para respirar. E Deus sabe como tenho precisado de uma coisa e de outra, e ainda preciso. Se me levar lá durante a noite, em segredo, então poderei regressar mais tarde e dizer onde estive, e porquê, e que todo este reboliço e o facto de andarem à minha procura nunca chegou aos nossos ouvidos. Como espero que possa ser verdade. Direi que fugi por uns tempos à minha vida, para conseguir coragem para a enfrentar de novo, com mais ânimo... E espero em Deus que isso possa também ser verdade. Não direi o seu nome nem revelarei o que me fez.

Ele olhava-a com os olhos muito abertos, hesitando em ter esperança mas incapaz de resistir, entusiasmando-seapenas para voltar a duvidar da possibilidade de salvação.

- Vão insistir muito consigo, vão perguntar por que é que não disse nada, por que é que se foi embora e pregou um susto a toda a gente. E o barco... eles sabem do barco, têm de saber...

- Quando perguntarem - disse ela com simplicidade -, eu respondo, ou recuso-me a responder. Por muito que se preocupe, terá de deixar tudo comigo. Estou a oferecer-lhe um modo de escapar. Ou aceita ou não.

- Não me atrevo a ir consigo todo o caminho - disse ele, estremecendo. - Se alguém me visse ia saber-se tudo, por muito cuidado que a senhora tivesse.

- Não precisa de me acompanhar todo o caminho. Pode deixar-me percorrer sozinha a última parte, eu não tenho medo. Ninguém precisa de vê-lo.

A cada palavra a esperança crescia nele.

- Hoje o meu pai voltou para junto dos rebanhos, vai lá ficar duas noites, ou mais, com os pastores, e ainda há um cavalo bom no estábulo, suficientemente robusto para levar duas pessoas, se a senhora quiser montar atrás de mim. Eu podia trazê-lo da cidade antes de os portões se fecharem. É melhor não atravessarmos juntos a cidade, partirmos daqui. Há um vau um pouco mais a jusante, podemos dirigir-nos para sul do outro lado e entrar na estrada em Beistan. Ao crepúsculo... se partirmos amanhã ao crepúsculo... Oh, Judith, eu fiz-lhe tanto mal, e consegue perdoar-me assim? Eu não mereço!

Aquilo era uma novidade para Vivian Hynde, pensou ela com ironia, achar que tinha pouco mérito, ou que havia alguma coisa a que não tinha direito. Talvez aquele susto salutar, provocado por ele próprio, ainda o tornasse uma pessoa melhor. Não era um grande patife, apenas um rapaz fraco e egoísta. Mas não respondeu à pergunta dele. Havia pelo menos uma coisa que ela achava difícil perdoar-lhe, e era o facto de a ter exposto aos maus tratos de Gunnar, que se mostrara manifestamente encantado com o contacto do corpo dela e a força que a mantivera indefesa. Não tinha medo de Vivian, mas de Gunnar, se voltasse a encontrá-lo sem Vivian, talvez tivesse muito medo.

- Faço isto tanto por mim como por si - disse ela. - Dei a minha palavra e vou cumpri-la. Amanhã ao crepúsculo. De acordo, é demasiado tarde para partirmos esta noite.

Ele tinha voltado a cair na dúvida e no medo, recordando os ruídos lá fora, e o ladrar do mastim.

- Mas e se alguém suspeita deste lugar? E se voltam amanhã e pedem as chaves? Judith, venha agora comigo para a nossa casa, não fica longe da cancela, a esta hora ninguém nos verá. A minha mãe vai ajudar-nos e esconder-nos, e ficar-lhe-á grata por me poupar. E o meu pai está nos montes, nunca saberá. E lá pode descansar, dormir numa cama, terá água para se lavar e tudo aquilo de que precisar para se sentir confortável...

- A sua mãe sabe o que fez? - perguntou ela, horrorizada.

- Não, não, nada! Mas, por mim, vai ajudar-nos. -Já estava junto da porta estreita que tinha estado escondida atrás dos fardos de lã, dava a volta à chave, arrastava-a atrás de si, febril na sua pressa de sair dali para se encontrar na segurança da sua casa.

-Vou mandar cá o Gunnar para pôr tudo inocente. Se cá vêm, têm de encontrar o local vazio e deserto.

Ela soprou o pavio da lamparina e foi com ele, desceu recuando a escada do sótão e atravessou a porta de baixo, saindo para a noite. A Lua erguia-se naquele momento e banhava a encosta numa luz verde-pálida. O ar que vinha bater-lhe no rosto era doce e fresco depois do cheiro a pó e a bolor e do fumo da lamparina naquele espaço fechado. A caminhada não era longa até às sombras das torres do castelo e à cancela da muralha.

Uma sombra mais escura rodeou o plano iluminado pela luz do luar que ia aumentando, percorreu o caminho mais curto entre as traseiras do armazém e o abrigo das árvores e, rápida e silenciosa, descreveu uma curva até à margem do rio. A saliência de onde Bertred tinha saltado para fugir ao mastim ainda estava envolta em sombras. Ele continuava estendido onde tinha caído, ainda inconsciente, embora começasse a mover-se e a gemer e respirasse com o esforço de uma pessoa que desperta para a consciência da dor. A sombra mais escura que caiu sobre o seu corpo no preciso momento em que a orla do luar atingia o rio não penetrou no seu espírito atordoado nem perturbou os seus olhos fechados. Uma mão agarrou-o pelos cabelos e alguém lhe voltou rosto para o ver bem. Vivia, respirava: um penso e umas horas para recuperar e seria capaz de se explicar e de confessar tudo o que sabia.

A sombra que se debruçava sobre ele endireitou-se e ficou por momentos de pé, olhando-o sem emoção. Depois enfiou um pé calçado com uma bota no flanco de Bertred, levantou-o até à beira das rochas onde estava deitado e lançou-o para a água mais profunda, onde a corrente era rápida, com remoinhos, e transportou o corpo até à margem oposta.

O dia 20 de Junho amanheceu com uma série de aguaceiros cintilantes, para perto do meio-dia se instalar como um dia bom e quente. Nos pomares de Gaye havia muito trabalho a fazer, mas devido à chuva da manhã foi preciso esperar pelo calor do meio-dia para os começar. As cerejas doces estavam prontas para ser colhidas, mas era preciso apanhá-las secas, e havia também os primeiros morangos para colher, e era igualmente desejável deixar que o sol secasse a humidade da manhã. No terreno descoberto e ensolarado das hortas a terra secava mais cedo, e antes do meio-dia já os irmãos de serviço andavam atarefados a semear as alfaces para sucessão e a sachar e a arrancar as ervas; mas só depois do almoço o grupo do pomar começou a trabalhar no extremo mais remoto dos terrenos da abadia.

O irmão Cadfael não tinha grande necessidade de sair com eles, mas também não havia nada que pedisse a sua atenção urgente no herbário, e a crescente inquietação provocada pelos três dias em que haviam em vão procurado Judith Perle não permitia que descansasse ou se dedicasse a qualquer tarefa rotineira. Não tinha tido mais notícias de Hugh, e nada para dizer a Niall quando este veio, ansioso, perguntar. A questão estava completamente parada, e até as horas do dia retinham a respiração, tornando o tempo infinito.

Para pelo menos o preencher com algum movimento físico, Cadfael saiu para os pomares com os outros. Como tantas vezes sucedia numa estação tardia, a Natureza tinha decidido compensar as semanas que o frio da Primavera tinha feito perder e conseguira produzir, quase na altura habitual, tanto os morangos como as primeiras das pequenas groselhas rijas dos arbustos espinhosos. Mas o espírito de Cadfael não estava concentrado na apanha dos frutos. Os pomares ficavam mesmo em frente do terreno plano onde os jovens arqueiros atiravam aos alvos nos dias de feira, sob a muralha da cidade e ao abrigo das torres do castelo. Logo a seguir, passada a primeira faixa de árvores, poderia ver do outro lado da água a oficina de pisoagem, e, logo a jusante, o molhe de William Hynde.

Cadfael trabalhou durante algum tempo, tão distraído que sofreu mais que o seu quinhão habitual de arranhões. Mas passado um bocado endireitou as costas, chupou do dedo o mais recente de muitos espinhos e, caminhando ao longo do rio, dirigiu-se para a faixa de árvores. Através dos ramos inclinados podia ver a muralha da cidade que se desenrolava acima dele, do outro lado da água, assim como a íngreme encosta verde que esta coroava. Depois o primeiro bastião saliente do castelo, e sob este a zona mais estreita do prado. Cadfael continuou a andar, atravessou as árvores e emergiu num espaçoso relvado junto da margem, salpicado de arbustos baixos e tendo aqui e ali uns tufos de juncos nos locais onde os baixios tinham uma corrente suave e a corrente rápida se precipitava para o meio do rio. Agora estava do lado oposto ao terreno onde os panos secavam, e onde os homens de Godfrey Fuller trabalhavam junto de uma peça de pano castanho, posta a secar, muito esticada, na armação.

Chegou a um ponto mesmo em frente dos arbustos onde tinha sido encontrado abandonado o barco roubado. Mais além, junto da margem, um rapazinho apascentava cabras. Ensolarada e tranquila, a paisagem do Severn estendia-se sonolenta na luz da tarde, negando a existência do assassínio, da maldade e do sequestro num mundo tão belo.

Cadfael tinha avançado apenas uma centena de passos e preparava-se para voltar atrás quando chegou a uma curva onde a margem oposta estava erodida e a água lá em baixo era funda, enquanto do lado dele terminava num baixio arenoso, em pequenas ondas suaves e inocentes. Um daqueles lugares que Madog conhecia bem, onde o que tivesse caído ao rio mais acima poderia voltar a ir parar a terra.

E algo tinha de facto ido lá parar durante a noite anterior. Quase submersa, repousando sobre a areia mas mal passando a superfície, uma massa de cor mais escura coberta pelo brilho prateado da água e alojada no dourado-baço da areia. Foi o pequeno objecto pálido e lânguido, que balançava levemente ao sabor da corrente mas não era um peixe, que chamou a atenção de Cadfael. Uma mão de homem, no fim de uma manga escura que flutuava o suficiente para a fazer oscilar. Uma cabeça de homem, de cabelo castanho, cuja parte de trás apenas quebrava a superfície, com os caracóis estendendo-se e ondulando com a água e movendo-se como seres vivos ensonados.

Cadfael desceu a margem à pressa, escorregando, e entrou na água baixa para agarrar com as duas mãos as roupas ensopadas, debaixo dos braços pendentes, e arrastar o corpo para terra. Não havia qualquer dúvida de que estava morto, talvez já há várias horas. Ficou estendido na areia, de rosto para baixo, mesmo junto do rio, com água a escorrer de todas as pregas da roupa e das madeixas revoltas do cabelo. Um homem novo, muito bem constituído e elegante. Era demasiado tarde para fazer por ele algo mais do que levá-lo para casa e proporcionar-lhe uma sepultura decente. Seria preciso mais de um homem para o transportar pela margem acima e pelo caminho ao longo de Gaye, e o melhor que Cadfael tinha a fazer era conseguir ajuda o mais depressa possível.

A constituição, as calças e o casaco comuns, de cor castanho-escura, poderiam pertencer a uma centena de jovens de Shrewsbury, pois eram as roupas que normalmente se usavam para o trabalho, e Cadfael não foi capaz de reconhecer imediatamente o cadáver. Baixou-se para voltar a segurá-lo cuidadosamente por debaixo dos braços flácidos e voltou o morto, deitando-o de costas e revelando à luz indiferente do sol o rosto sujo e pálido, mas ainda atraente, de Bertred, o capataz dos tecelões de Judith Perle.

 

Vieram a correr quando ele chamou, agitados e consternados, embora um homem afogado, trazido pelo Severn, não fosse assim tão invulgar, e aqueles jovens irmãos não sabiam mais do que isso. Sem dúvida chegavam aos ouvidos dos mais velhos murmúrios das crises do mundo exterior, mas em geral os noviços viviam na inocência. Cadfael escolheu os mais fortes e que menos se perturbariam com a visão da morte e mandou os outros regressar ao trabalho. Com as enxadas, os cintos de corda e os escapulários improvisaram uma liteira e levaram-na pelo carreiro da margem do rio até ao local onde se encontrava o morto. Num silêncio reverente, levantaram o fardo encharcado e regressaram com ele, numa procissão gotejante, através da faixa de árvores e ao longo da planície luxuriante de Gaye, até ao caminho que subia para Foregate.

-E melhor levarmo-lo para a abadia-disse Cadfael, parando um momento para reflectir. - E o meio mais rápido de o tirarmos decentemente das vistas públicas e de lá podemos mandar chamar o amo ou a família.-Havia outros motivos para esta decisão, mas não achou conveniente mencioná-los naquela altura. O morto era da casa de Judith Perle, e o que lhe havia sucedido decerto não podia deixar de ter alguma ligação com as outras desgraças que pareciam perseguir a casa e a herdeira do negócio dos Vestier. E nesse caso o abade Radulfus tinha um interesse directo e o direito de ser informado, e, mais ainda, Hugh Beringar também. Não só tinha o direito como a necessidade. Duas mortes e um desaparecimento, tudo em redor da mesma senhora e das suas transacções com a abadia, exigiam uma grande atenção. Até os homens jovens e fortes, gozando da melhor das saúdes, podiam afogar-se. Mas Cadfael já tinha visto a ferida na têmpora direita do morto, lavada de todo o sangue pela água do rio.

- Corre na frente, meu rapaz - disse ao irmão Rhun, o mais jovem dos noviços -, e comunica ao nosso pai prior o hóspede que trazemos.

O rapaz curvou a cabeça loura num breve gesto de respeito com o qual recebia qualquer ordem dos mais velhos e num instante se afastava, obediente e impetuoso. Pedir a Rhun que corresse era um gesto de bondade, mais que uma imposição, pois não havia nada que mais o encantasse que servir-se da rapidez e da elegância que possuía havia apenas um ano, depois de ter vindo ao festival de Stª Winifred como um aleijado cheio de dores. O seu noviciado de um ano estava quase terminado e em breve seria adimitido como um irmão a título pleno. Nenhum poder de persuasão poderia induzi-lo a abandonar o serviço da santa que o curara. O que para Cadfael era ainda o grave fardo e grilhão da obediência, Rhun encarava como um privilégio, com a mesma alegria com que aceitava a luz do Sol a aquecer-lhe o rosto.

Cadfael voltou-se, deixando de observar a cabeça brilhante e os pés que, velozes, subiam o caminho, e cobriu o rosto do morto com a ponta de um escapulário. A água ia pingando através do pano ensopado enquanto transportavam Bertred pela estrada acima, e ao longo de Foregate, até ao portão da abadia. Inevitavelmente havia pessoas na rua que pararam para ficar a olhar a procissão enlutada e darem cotoveladas uns aos outros, trocando palavras sussurradas. Era sempre um mistério de onde jorravam os miúdos de Foregate, assim que havia alguma coisa invulgar para ver, e como se multiplicavam a cada passo, e como os cães, seus inseparáveis companheiros de brincadeira, também paravam e iam andando a seu lado com a mesma expressão de viva curiosidade. Em breve as ruas seriam percorridas por suposições contraditórias, mas ainda ninguém seria capaz de dar um nome ao homem afogado. O curto espaço de tempo até que a sua identidade fosse do conhecimento comum poderia ser de utilidade para Hugh Berin-gar e misericordioso para a mãe do morto. Mais uma viúva, recordou Cadfael quando entravam o portão, deixando lá fora um círculo de espectadores, a uma distância decorosa.

O prior Robert apressou-se a vir ao encontro da procissão, com o irmão Jerome a correr atrás dos calcanhares. O irmão Edmundo, vindo da enfermaria, e o irmão Denis, do salão, convergiram ao mesmo tempo sobre os carregadores e sobre a padiola. Meia dúzia de outros irmãos que nesse momento atravessavam o pátio grande entregues aos seus diversos afazeres ficaram para trás para olhar e para se aproximarem a pouco e pouco, a fim de ver e ouvir melhor.

- Mandei o irmão Rhun comunicar ao senhor abade - disse Robert, baixando a alta cabeça de prata sobre o corpo imóvel que repousava na liteira improvisada. - Isto é péssimo. Onde encontraram o homem? Foi na nossa propriedade que o trouxeram para terra?

- Não, um pouco mais adiante - disse Cadfael. - Tinha ido dar à areia. Morto há algumas horas, ao que me parece. Não podíamos fazer nada por ele.

- Então seria necessário trazê-lo para cá? Se é uma pessoa conhecida e tem família na cidade ou em Foregate, eles tratarão das cerimónias fúnebres.

- Se não necessário, considerei aconselhável trazê-lo para cá. Creio que o senhor abade será da mesma opinião. Há razões para isso. O xerife pode estar interessado no assunto.

- Deveras? E por que haveria de ser assim, se o homem se afogou? Sem dúvida um acidente que não é aqui coisa nunca vista. -Estendeu uma mão enfadada para afastar o escapulário do rosto lívido e azulado que em vida brilhara com tanta saúde orgulhosa. Mas aquelas feições não tinham significado para ele. Se alguma vez vira o homem, teria sido apenas por acaso, ao passar pelo portão. A casa da Travessa de Maerdol ficava na paróquia de São Chad; nem a religião nem o negócio proporcionariam a Bertred um contacto frequente com Foregate. - Conhece este homem?

- Conheço de vista, sim, embora pouco mais. Mas é um dos tecelões da Srª Perle, e vive na casa dela.

Até o prior Robert, que se mantinha acima dessas incómodas preocupações mundanas que por vezes se infiltravam no bem organizado enclave da abadia, trazendo consigo a rotura, abriu muito os olhos ao ouvir isto. Não podia evitar saber que coisas sinistras haviam sucedido em ligação com aquela casa, nem resistir à convicção de que qualquer nova desgraça com idêntica ligação deve fazer parte do mesmo padrão deplorável. É um facto que as coincidências acontecem, mas raramente se acumulam à dúzia em redor de uma só morada e de um só nome.

- Bem! - disse, expirando prolongadamente o ar, com uma indiferença cautelosa. - Sim, é sem dúvida necessário que o senhor abade saiba disto. - E acrescentou com o devido alívio: - Aí vem ele.

O abade Radulfus tinha saído do seu jardim e aproximava-se em passos enérgicos, acompanhado por Rhun. Nada disse até ter afastado a cobertura da cabeça e dos ombros de Bertred e o ter examinado longamente, num silêncio lúgubre e pensativo. Depois voltou a tapar o rosto sem vida e voltou-se para Cadfael.

- O irmão Rhun contou-me onde o encontraram, e como, mas não sabe quem o homem é. E o irmão, sabe quem ele é?

- Sei, sim. Chama-se Bertred, é o capataz dos tecelões da Srª Perle. Vi-o ontem com os homens da xerife, a ajudar nas buscas pela senhora.

- Que ainda não foi encontrada - disse Radulfus.

- Não. É o terceiro dia de buscas, mas não foi encontrada.

- E o empregado dela apareceu morto. - Não era necessário chamar-lhe a atenção para as implicações, que eram já óbvias. - Está convencido de que ele se afogou?

- Preciso de reflectir, meu pai. Acho que se afogou, mas também sofreu uma pancada na cabeça. Gostaria de examinar melhor o corpo.

- E o xerife também, suponho - disse o abade com vivacidade. - Vou já mandar chamá-lo, e por agora o corpo fica aqui. Sabe se ele sabia nadar?

- Não sei, meu pai, mas são poucos os rapazes daqui que não sabem. A sua família ou o amo poderão dizer-nos.

- Sim, também temos de mandar chamá-los. Mas talvez mais tarde, depois de Hugh o ter visto e de vocês dois terem tirado as conclusões que puderem acerca do assunto - E, voltando-se para os que transportavam a liteira, que entretanto a haviam pousado e aguardavam em silêncio, um pouco afastados, disse:-Levem-no para a capela mortuária. É melhor despirem-no a arranjarem-no decentemente. Acendam-lhe umas velas. Seja como for e pelo que for que morreu, é nosso irmão mortal. Vou mandar um criado à procura de Hugh Beringar. Espere comigo, Cadfael, até que ele chegue. Quero saber tudo o que descobriu acerca da pobre rapariga que desapareceu.

Na capela mortuária tinham deitado o corpo despido de Bertred sobre a placa de pedra e tinham-no coberto com um pano de linho. A seu lado estavam as roupas molhadas, meio dobradas, juntamente com as botas que lhe tinham tirado dos pés. Como ali a luz era fraca, tinham também acendido velas em castiçais altos, que podiam ser colocados onde dessem melhor luz. Estavam todos juntos em volta da laje, o abade Radulfus, o irmão Cadfael e Hugh Beringar. Foi o abade quem puxou para baixo o pano e destapou o morto, que estava deitado com as mãos devidamente cruzadas sobre o peito, estendido muito direito e digno. Alguém tinha, reverentemente, fechado os olhos, que Cadfael recordava meio abertos, como os de uma pessoa que acorda demasiado tarde para alguma vez acabar de despertar.

Um corpo jovem e belo, talvez ligeiramente musculado de mais para ser perfeito. Não muito mais de vinte anos, decerto, e abençoado com feições regulares e proporcionadas, talvez também com um pouco de carne a mais ou de osso a menos. Os galeses estão habituados a ver nos rostos dos seus vizinhos a forte solidez e permanência do osso, e são sensíveis à sua falta quando o vêem reduzido e demasiado coberto noutros. Mesmo assim, um jovem muito atraente. A cara, o rosto e os ombros, e os braços desde o cotovelo às pontas dos dedos das mãos estavam bronzeados pelo sol e pelo vento, embora agora a sua cor estivesse mortiça e triste.

- Não tem nem uma marca - disse Hugh, examinando-o da cabeça aos pés -, à excepção da pancada na testa. E essa não pode ter-lhe feito nada pior que uma dor de cabeça.

Junto do cabelo a pele estava de facto rasgada, mas não parecia mais que um golpe de raspão. Cadfael pegou na cabeça, com a sua espessa cabeleira castanha colada à testa larga, e apalpou o crânio com dedos atentos.

- Tem aqui outra pancada, do lado esquerdo... aqui, sob o cabelo, por cima da orelha. Algo com uma aresta comprida e afiada... por cima desta cabeleira tão espesso fez uma ferida superficial. Pode tê-lo feito perder a consciência durante algum tempo, talvez, mas não o matou. Não, afogou-se, sem dúvida.

- Que estaria ele a fazer? - perguntou o abade, pensativo. - Naquele sítio da margem, durante a noite? Ali não há nada, não há um caminho que leve a outro sítio qualquer, nenhuma casa para ser visitada. É difícil ver o que poderia um homem ter de fazer ali, na escuridão.

- Aquilo que tinha estado a fazer todo o dia - disse Hugh - era procurar a ama. Ele estava ao serviço da Srª Perle, era da casa dela, ofereceu-se para ajudar, e tanto quanto sei ajudou, com diligência e empenho. E se estivesse ainda decidido a prosseguir a busca?

- Durante a noite? E ali? Não há lá nada além de um prado descoberto e de uma mata pequena - disse Radulfus -, não há nem uma cabana numa certa extensão, depois dos nossos limites, nada onde pudessem esconder uma mulher roubada. Ainda que tivesse sido encontrado na margem oposta, o que seria mais credível, pelo menos dá acesso à cidade e às casas de Foregate do castelo. Mas mesmo assim... durante a noite, e uma noite que foi escura até tarde...

- E mesmo assim, como é que ele recebeu duas pancadas na cabeça e foi parar ao rio? Um homem pode aproximar-se demasiado de uma margem alta e colocar mal um pé, na escuridão - disse Hugh, abanando a cabeça -, mas duvido que isso sucedesse a um rapaz de Shrewsbury. Conhecem o rio. Temos de descobrir se ele era nadador, mas a maioria aprende cedo a nadar. Cadfael, sabemos onde ele foi parar a terra. Será possível que tenha entrado na água do outro lado? Se tentou atravessar a nado, meio atordoado depois de ter recebido aqueles ferimentos, poderia ter sido arrastado para o local onde o encontrou?

- Isso é uma coisa que devemos perguntar a Madog. Ele há-de saber. Não há dúvida de que as correntes nalguns locais são muito fortes e adversas, seria possível.-Alisou o cabelo molhado, quase distraído, sobre a testa do morto e cobriu-lhe o rosto com o pano. - Não pode dizer-nos mais nada. Resta-nos avisar a família. Pelo menos poderão dizer-nos quando o viram pela última vez, e se admitiu ter alguns planos para a noite.

- Mandei chamar Miles Coliar, mas ainda não lhe disse nada sobre o motivo. Mais vale que seja ele a contar à mãe, será mais fácil para ela receber a notícia na sua própria casa... pois disseram-me que ela vive lá, trabalha na cozinha. E Coliar vai ter de mandar levar o corpo para casa para fazer os preparativos para o funeral, se o senhor não vir necessidade de o manter cá por mais tempo.

- Nenhuma - disse Cadfael, voltando-se da laje com um suspiro. - Façam ambos como entenderem! Eu já acabei.

Mas sendo o último a sair da capela, parou junto da porta e lançou um longo olhar à forma imóvel e branca, sobre a laje de pedra. Mais um jovem morto prematuramente, o triste desperdício de uma vida.

- Pobre rapaz! - disse Cadfael, fechando suavemente a porta atrás de si.

Miles Coliar veio da cidade a toda a pressa e sozinho, sem saber da razão de ter sido convocado, mas certamente consciente de que devia haver um motivo grave, e pela sua expressão especulando, com ansiedade e receio, qual poderia ser. Aguardavam-no na ante-sala da casa do portão. Miles fez a vénia ao abade e ao xerife e levantou o rosto de expressão preocupada para olhar rapidamente de um rosto para o outro, interrogando a sua solenidade.

- Meu senhor, há alguma notícia? A minha prima...? Soube alguma coisa dela, para me chamar aqui?-Tornou-se ainda mais pálido e o seu rosto contraiu-se numa máscara de temor, interpretando mal, ao que parecia, o seu aspecto mudo e sombrio. - Oh, meu Deus, não! Não, não, ela não pode estar... Não a encontraram...? -A sua voz falhou na palavra “morta”, mas os seus lábios deram-lhe forma.

- Não, não! - apressou-se a dizer Hugh.-Isso, não! Não, não há nenhuma novidade, nenhuma notícia dela, não é preciso pensar o pior. Isto é outro assunto, embora grave. A busca da sua prima prossegue, e assim será até que a encontremos.

- Graças a Deus! - disse Miles com uma voz que mal se ouvia; respirou fundo e os traços tensos do seu rosto descontraíram-se. - Perdoem se sou lento a pensar, a falar e a entender, e demasiado apressado a temer extremos. Nestes últimos dias quase não dormi nem descansei.

- Lamento aumentar os seus problemas-disse Hugh -, mas tem de ser. De momento não é a Srª Perle que nos preocupa. Hoje deu por falta de algum homem nos seus teares?

Miles ficou a olhá-lo fixamente e coçou a activa cabeça castanha, imediatamente aliviado e intrigado.

- Hoje nenhum dos tecelões trabalha, desde ontem de manhã que os teares estão abandonados, temos estado todos ou quase todos fora a tomar parte na busca. Mantive as mulheres a fiar, não lhes compete andar por aí com os sargentos e os homens da guarnição. Por que pergunta, meu senhor?

- Então viu alguma vez o seu empregado Bertred desde ontem à noite? Vive em sua casa, segundo me disseram.

- Pois vive - confirmou Miles, franzindo as sobrancelhas. - Não, hoje não o vi, com os teares parados não tinha razão para o ter visto. Ele come na cozinha. Suponho que voltou a sair para participar na busca, embora Deus saiba que batemos a todas as portas e vasculhámos todos os pátios da cidade e não houve homem nem mulher que ficasse por alertar para estar atento a qualquer sinal e à escuta de qualquer palavra que possa conduzir-nos até ela. Mas que podemos fazer senão voltar a procurar em todos os lados? Agora andam por todas as estradas, a fazer perguntas em todas as aldeolas uma milha em redor, como muito bem sabe, meu senhor. Bertred há-de estar a vasculhar o campo com eles, sem dúvida. Tem sido incansável a procurá-la, reconheço-lhe isso.

-E a mãe... não está ansiosa por causa dele? Não lhe disse nada de coisas que ele podia ter na ideia? Ela não lhe falou sobre ele?

-Não!-Mais uma vez Miles olhou, desorientado, de um rosto para outro. - Dificilmente encontrará na nossa casa uma alma que não esteja ansiosa, e nota-se, mas não reparei que ela estivesse pior que os restantes. Porquê? Que foi, meu senhor? Sabe alguma coisa acerca de Bertred que eu não saiba? Não que é culpado! Impossível! Tem gasto as solas a correr a cidade em busca da minha prima... um homem decente... Não pode tê-lo apanhado a fazer alguma patifaria...?

Era uma suposição razoável, quando o xerife começava a fazer perguntas tão cerradas acerca de qualquer homem. Hugh pôs termo àquela agitação defensiva, mas sem se apressar demasiado.

- Não sei de nenhum mal feito pelo seu empregado, não. Ele é a vítima, não o causador. Tenho más notícias para si, mestre Coliar. - O que tinha para dizer já estava implícito no seu tom de voz, mas colocou-o em palavras suficientemente lúgubres e claras.

- Há uma hora, os irmãos que trabalhavam no Gaye tiraram Bertred do rio e trouxeram-no para aqui, morto. Afogado.

No silêncio profundo que se seguiu Miles ficou imóvel, até que por fim se moveu e humedeceu os lábios.

- Onde está ele?

- Aqui na capela mortuária, deitado com toda a decência - disse o abade. - O senhor xerife vai levá-lo lá.

Na capela sombria, Miles ficou a olhar o rosto familiar, agora tão estranhamente desconhecido, e abanou a cabeça repetida e vigorosamente como se pudesse afastar, se não o facto da morte, o choque provocado pela brusquidão desta. Tinha recuperado a sua calma realista e a aceitação. Um dos seus tecelões tinha morrido, a tarefa de o tirar dali e de o levar à sepultura com o ritual apropriado cabia a Miles, como seu amo. Faria o que lhe competia.

-Como é possível?-disse.-Ontem à noite chegou tarde para comer, mas isso não tinha nada de estranho, tinha andado todo o dia fora com os seus homens, meu senhor. Pouco depois foi para a cama. Disse-me boa noite, deve ter sido perto da hora das Completas. A casa já estava em silêncio, mas alguns de nós ainda estávamos levantados. Não voltei a vê-lo.

- Então não sabe se ele voltou a sair durante a noite? Miles levantou o olhar com vivacidade, e o azul dos seus olhos muito abertos cintilou.

- Parece que deve ter saído. Mas, em nome de Deus, porquê? Estava cansado depois de um dia tão longo. Não conheço nenhum motivo que o levasse a voltar a mexer antes da manhã. Diz que só passou uma hora desde que o tirou do Severn...

- Fui eu quem o tirou do Severn - disse Cadfael, sem dar nas vistas, num recanto escuro da capela. Mas ele já lá estava havia várias horas. Na minha opinião, desde as primeiras horas do dia. Não é fácil dizer quanto tempo.

- E, vejam, tem uma ferida na testa! - A testa larga e baixa já estava seca, só o cabelo permanecia húmido. A pele tinha encolhido, deixando aberta a ferida húmida. - Tem a certeza, irmão, de que ele se afogou?

-Tenho, sim. Como apanhou aquela pancada não se sabe, mas sem dúvida a tinha antes de entrar na água. Não pode dizer-nos nada que nos possa ajudar, então?

- Quem me dera poder - disse Miles com um tom de voz sincero. - Não reparei em nenhuma mudança nele, não me disse nada que possa lançar alguma luz. Isto é uma coisa incompreensível para mim. Não consigo encontrar uma explicação. - Lançou um olhar duvidoso a Hugh por cima do cadáver. - Posso levá-lo para casa? Primeiro tenho de falar com a mãe, mas ela há-de querê-lo em casa.

- Naturalmente - disse Hugh, resignado. - Sim, pode vir buscá-lo quando quiser. Precisa que o auxilie quanto aos meios?

- Não, meu senhor, trataremos de tudo. Vou trazer um carro de mão e uma cobertura decente. E agradeço-lhe, e a esta casa, por terem cuidado dele tão bem.

Voltou cerca de uma hora mais tarde, com expressão tensa devido à provação de dar a má notícia a uma viúva agora sem filhos. Dois dos seus trabalhadores dos teares seguiam-no com um carro de mão simples, de lados altos, usado para transportar materiais; esperaram no pátio, mudos e sombrios, que o irmão Cadfael saísse para os conduzir à capela mortuária. Entre eles transportaram o corpo de Bertred para a luz do fim da tarde e estenderam-no no carro sobre uma manta aberta, cobrindo-o muito bem, de forma a não poder ser visto. Ainda estavam a acabar quando Miles se voltou para Cadfael e perguntou com simplicidade:

- E as roupas? A mãe deve receber juntamente com ele tudo o que lhe pertencia. Não é um grande conforto para uma mulher, mas há-de querê-las. E vai precisar do dinheiro que conseguir com elas, a pobre alma, embora eu trate de zelar por ela, e Judith também... quando aparecer. Se... - Parecia que o seu espírito voltava a mergulhar nas piores expectativas e as rejeitava violentamente.

- Tinha-me esquecido - confessou Cadfael, que nunca tinha tocado nas roupas que tinham sido despidas do corpo de Bertred. - Espere, eu trago-lhas.

A pequena trouxa de roupas posta de lado na capela tinha sido dobrada o melhor que a pressa e o facto de se encontrarem encharcadas permitia, e tinham escorrido aos poucos no sítio onde se encontravam. As pregas do casaco, da camisa e das calças de tecido caseiro começavam a secar. Cadfael pegou no monte de roupas com um braço e com a outra mão pegou nas botas, que estavam ao lado. Levou tudo para o pátio, onde Miles ajeitava a manta sobre os pés de Bertred. O jovem voltou-se para vir ao seu encontro e pegar nas coisas, e quando estas trocavam de mãos, no momento em que Miles se debruçava para arrumar as roupas debaixo da manta o carro inclinou-se e as botas, mal equilibradas na extremidade, caíram para o pavimento empedrado.

Cadfael baixou-se para as apanhar e voltar a colocar no seu lugar. Era a primeira vez que as olhava verdadeiramente, e ali no pátio a luz era clara e brilhante. Ficou parado a meio do movimento, com uma bota em cada mão, e voltou lentamente a esquerda para olhar para a sola. Durante tanto tempo que quando levantou os olhos encontrou Miles, igualmente imobilizado de espanto, olhando-o de boca aberta, com a cabeça de lado como um cão intrigado com um cheiro perdido.

- Acho - disse Cadfael deliberadamente - que o melhor é despedir-me do senhor abade e ir para a cidade consigo. Preciso de voltar a falar com o senhor xerife.

A caminhada entre o castelo e a casa da Travessa de Maerdol era curta e o rapaz que foi mandado a toda pressa em busca de Hugh trouxe-o dentro de um quarto de hora, praguejando moderadamente por ter sido desviado quando se preparava para executar uma acção planeada, mas reconciliado pela viva curiosidade, pois Cadfael não o teria voltado a chamar tão cedo sem um bom motivo.

No vestíbulo a Dama Agatha, acompanhada por uma chorosa Branwen, lamentava com volubilidade a cascata de desgraças que caíra sobra a casa dos Vestier. Na cozinha, Alison chorava com amarga razão a perda do filho, enquanto as fiadeiras todas formavam um coro para o seu canto lúgubre. Mas na sala dos teares, onde o corpo de Bertred tinha sido decorosamente estendido sobre uma mesa comprida para aguardar a visita de Martin Bellecote, o mestre carpinteiro de Wyle, o silêncio chegava a ser opressivo, embora houvesse três pessoas que conversavam em voz baixa e com poucas palavras.

- Não existe sombra de dúvida - disse Cadfael, segurando a bota com a sola voltada para a luz de um pequeno candeeiro que uma das raparigas tinha posto no extremo da mesa. A luz no exterior ainda era pouco menos brilhante que a da tarde, mas metade do pavilhão tinha as portadas postas por os teares se encontraram inactivos. - É esta a bota que deixou a marca que recolhi na terra debaixo da videira de Niall, e o homem que a usava é o homem que tentou abater a roseira, o mesmo que matou o irmão Eluric. Eu é que fiz o molde, sei que não estou enganado. Mas aqui está o próprio molde, trouxe-o comigo. Verão que se ajusta perfeitamente.

- Basta-me a sua palavra - disse Hugh. Mas, como uma pessoa que tem a obrigação de verificar por si própria todas as provas, pegou na bota e no molde de cera e levou-os para a porta, para os comparar. - Não há de facto qualquer dúvida. -Ajustavam-se os dois como um selo e a sua matriz. Ali estava a passada oblíqua que tinha gasto a parte exterior do salto e o interior da biqueira, e a fenda que quase atravessava meia sola na planta do pé. - Parece - disse Hugh - que o Severn nos poupou os custos de um julgamento, e a ele um destino pior que o afogamento.

Miles permanecera de pé, um pouco afastado, olhando de um rosto para o outro com o mesmo espanto desorientado com que tinha cismado sobre o corpo de Bertred na capela mortuária.

- Não compreendo - disse, por fim, com ar duvidoso. - Estão a dizer que foi Bertred quem entrou no jardim do latoeiro para estragar a roseira de Judith? E matou... - O mesmo abanar de cabeça vigoroso, violento até, tentando afastar a crença indesejável, como um touro que tenta afastar um cão que o agarrou pelo nariz macio. E com o mesmo sucesso reduzido, pois lentamente a convicção começou a penetrar-lhe no espírito, a julgar pelo afrouxar das linhas do rosto que acabou por revelar uma calma resignada e um brilho de interesse. Um rosto muito eloquente, o de Miles; Cadfael era capaz de seguir todas as alterações.

- Por que haveria ele de fazer uma coisa dessas? – disse lentamente, mas mais como se a sua inteligência começasse já a dar as respostas.

- O mais natural é que nunca tencionasse matar-disse Hugh com sensatez. - Mas quanto a abater a roseira, foi o senhor quem nos deu uma boa razão para um homem o fazer.

- Mas em que é que Bertred ficava a ganhar? Só impediria a renda de ser paga. Que é que isso podia interessar-lhe? Não tinha quaisquer direitos. - Mas nesse ponto Miles parou para reflectir de novo. - Não sei... parece uma hipótese rebuscada. Sei que ele imaginava poder ter uma possibilidade com ela. Por vezes era vaidoso, tinha-se em muito boa conta. Talvez até acreditasse poder conseguir os favores dela, são coisas que já têm sucedido. Bem... não se pode negar, se tinha essas ideias tão grandiosas, a casa de Foregate era uma boa metade dos bens dela, valia a pena um homem tentar recuperá-la.

- Todos os pretendentes dela podem ter feito esse raciocínio - disse Hugh -, e não apenas Bertred. Ele dormia aqui?

- Dormia.

- E, portanto, podia entrar e sair sempre que quisesse, de noite e de dia, sem incomodar mais ninguém.

- Bem, lá isso podia. Parece que foi o que fez, na noite passada, pois nenhum de nós ouviu sequer um ruído.

- Mas admitindo que agora temos a prova que o relaciona com a morte do irmão Eluric - disse Hugh, franzindo as sobrancelhas -, ainda andamos às voltas no que diz respeito ao desaparecimento da Srª Perle. Não há nada que o ligue a isso, e ainda temos de encontrar um segundo malfeitor. Bertred tem estado entre os nossos auxiliares mais assíduos na busca. Não creio que ele tivesse despendido tanta energia se tivesse qualquer conhecimento do lugar onde ela estava, por muito desejável que fosse uma exibição de zelo.

- Meu senhor - disse Miles, lentamente -, nunca teria acreditado que Bertred tivesse uma actuação tão desonesta, mas agora que me fez ver até onde vai a sua culpa não posso evitar ir mais longe. É estranho, a própria mãe tem estado a contar-nos a todos, desde que o trouxemos para casa, o que ele lhe disse a noite passada. Pode perguntar-lhe, meu senhhor, ela sem dúvida repetirá o que nos disse. Preferia não ser eu a transmiti-lo, nem arriscar-me a ser suspeito de adulterar o sentido. Se tem algum significado, que seja ela a contar, e não eu.

A viúva, com o rosto inchado pelas lágrimas e rodeada pelas que tentavam confortá-la, continuava ainda a emitir jorros de palavras entre os acessos de choro, e não viu inconveniente em continuar o seu canto fúnebre para o xerife ouvir, quando este mandou que se retirassem durante algum tempo as suas companheiras para ficar a sós com a mulher enlutada.

- Sempre foi um bom filho para mim, um bom empregado para a ama, e merecedor, e ela tinha-o em boa conta. Mas tinha grandes ideias, tal e qual o pai, e onde é que elas o levaram? “Gostavas”, diz-me ele ontem à noite, “gostavas de ser mais do que uma criada nesta casa: uma senhora, para estar no salão e não na cozinha? Espera só um dia ou dois”, diz ele, “e verás, tenciono fazer a tua fortuna e a minha. Não há ninguém”, diz ele, “que saiba o que eu sei.” “Se sabes alguma coisa”, disse eu, “porque não contaste?” Mas ele contava? “Para perder os louvores?”, diz ele. “Não, deixa tudo comigo.”

-E ele disse alguma coisa sobre o que tencionava fazer durante a noite? - perguntou Hugh, quando ela parou para respirar, aproveitando a primeira brecha entre as suas efusões para fazer discretamente a pergunta.

- Disse que tinha de voltar a sair quando estivesse completa-mente escuro, mas não quis dizer-me onde ia, nem porquê, nem o que andava a fazer. “Espera até amanhã”, diz ele, “e esta noite nem uma palavra a ninguém.” Mas que importa isso agora? Quer fale quer fique calada, de nada lhe serve já. “Não vás meter-te em sarilhos”, disse eu. “Pode haver mais alguém a tratar de assuntos arriscados durante a noite.”

A torrente de palavras não estava de modo nenhum esgotada, mas o tema estava a tornar-se repetitivo, pois já tinha contado tudo o que sabia. Deixaram-na entregue aos cuidados das mulheres e à amargura da dor, que ia diminuindo à medida que dava lugar à exaustão. A casa dos Vestier, garantira-lhe Miles com seriedade antes de sair, não permitiria que nenhum dos seus velhos criados carecesse de meios para levar uma vida decente. Alison não corria perigo.

 

- Venha comigo - disse Hugh, começando a subir o monte em direcção à cruz alta e voltando as costas com certo alívio àquela casa cheia de sofrimento. - Como tem honestamente licença para estar fora, mais vale acompanhar-me no que ia fazer quando me desviou. Quase tinha saído o portão da cidade quando chegou o seu mensageiro e Will veio a correr atrás de mim para me dizer que precisavam de mim na casa dos Vestier.

Mandei-o adiante com dois homens, agora já lá está a tratar do assunto, mas prefiro ir eu próprio.

- Para onde vamos? - perguntou Cadfael, acompanhando sem grande vontade o amigo na subida da rua íngreme.

- Falar com o guarda do Fuller. É o único lugar fora das muralhas da cidade onde haveria uma testemunha acordada mesmo durante a noite, e um cão de guarda para o alertar se alguém viesse rondar por perto. Se o sujeito por um acaso entrou na água deste lado do rio as oficinas e o armazém ficam apenas um pouco mais acima do local onde o encontraram. O empregado de Fuller estava a tomar conta de ambos os lugares. Pode ter ouvido alguma coisa. E enquanto vamos, diga-me o que pensa disto tudo: os assuntos nocturnos de Bertred e a fortuna que ele ia fazer.

- Por saber o que mais ninguém sabia... hum! A propósito, reparei que ele ficava para trás ontem à tarde, quando os seus homens vieram embora do molhe. Deixou-vos avançar bastante a todos e depois voltou furtivamente para o arvoredo. E veio cear tarde, disse à mãe que ela devia ser senhora dentro de casa em vez de cozinheira e voltou a sair de noite para tratar de cumprir a sua palavra. E, segundo Miles, ele não só gostava da ama, como se sentia suficientemente seguro para achar que não havia motivo para não conseguir fazer que ela gostasse dele.

- E como convencê-la? - perguntou Hugh, com um sorriso irónico. - Pelo rapto e pela força? Ou por um salvamento galante?

- Ou as duas coisas - disse Cadfael.

-Agora está mesmo a interessar-me! Quem esconde consegue encontrar! Se por um acaso a senhora estiver onde ele a pôs, mas não sabe quem a pôs lá (pois um Bertred tem tanta facilidade em arranjar uns patifes que façam o trabalho por ele como um homem mais rico, é apenas uma questão de graus de ambição!) então quem melhor poderá vir salvá-la? Ainda que a gratidão não chegasse ao ponto de fazer que casasse com ele, certamente não ficaria a perder.

- Isto é uma forma de explicar o caso - reconheceu Cadfael. - E, para a apoiar, a criada Branwen deixou escapar na cozinha as intenções da ama, segundo me disseram. E Bertred comia na cozinha, e provavelmente estava lá para a ouvir. A cozinha sabia do assunto, o salão não soube nada até ao dia seguinte, depois de ela ter desaparecido. Mas há outras possibilidades. Pode mais alguém tê-la levado, e Bertred ter descoberto onde ela estava. E não disse nem uma palavra a si ou aos seus homens, e guardou o salvamente para si próprio. Parece uma patifaria mais simples e menor para uma pessoa certamente com pouca subtileza para fazer planos tortuosos.

- Está a esquecer-se - salientou Hugh com ar sombrio - de que, segundo todos os indícios, ele já tinha cometido um assassínio; quer tivesse ou não intenção prévia não deixa de ser um assassínio. Depois disso pode ter-se visto forçado a fazer planos muito para além do seu alcance habitual, para ocultar o rasto e garantir pelo menos parte dos ganhos desejados.

- Não me esqueço de nada - disse Cadfael com firmeza. - Dei-lhe um ponto a favor da sua história. Eis um ponto contra: se ele a tivesse escondido algures, com a segurança suficiente para confundir os nossos esforços para a encontrar, por que não seria para ele simples e seguro efectuar o salvamento sem um senão? E o homem está morto! É muito mais provável que lhe tenha sucedido uma desgraça, apesar de todo o planeamento, se se atravessou nos planos de outro homem qualquer.

- Mais uma vez é verdade! Embora, tanto quanto sabemos, a sua morte possa ser apenas um infortúnio. É verdade, pode ser de uma forma ou de outra. Se ele é o raptor, assim como o assassino, então não temos um segundo patife para descobrir, mas infelizmente ainda não temos a senhora, e o único homem que poderia levar-nos até ela está morto. Se o raptor e o assassino são duas pessoas diferentes, então ainda teremos de descobrir o raptor e a cativa. E como parece que o objectivo mais provável para a terem levado é convencê-la a casar, podemos esperar e crer que ela está viva, e que no fim o sequestrador terá de a libertar. Embora admita que preferia adiantar-me e arrancá-la eu próprio ao seu domínio.

Já tinham passado o cume, junto da cruz alta, e agora desciam a encosta, passavam a rampa que levava à entrada principal do castelo e continuavam a descer ao longo das altas muralhas, até que a muralha da cidade à sua esquerda e o castelo à sua direita se reuniam numa torre baixa, sob a qual passava a estrada. Depois de passada a entrada, a estrada abria-se diante deles, orlada até curta distância por pequenas casas e jardins. Hugh voltou à direita na parte de fora do fosso profundo, que não tinha água, antes de terem início as casas, e começou a descer em direcção ao rio, com Cadfael a segui-lo, com mais calma.

O terreno onde Godfrey Fuller secava as peças de pano estava vazio, a peça já seca tinha sido desprendida e enrolada para ser terminada. A maior parte dos homens já tinham acabado o trabalho do dia, e os poucos que restavam tinham-se deixado ficar para observar e escutar a chegada dos homens do xerife, antes de se dirigirem para a cidade, para as suas casas. À beira do terreno, entre as oficinas de tinturaria e o armazém das lãs, estava reunido um grupo compacto de homens: o próprio Godfrey Fuller, que tinha trocado a sua elegância por robustas roupas de trabalho, pois não tinha nenhuma vergonha de sujar as mãos ao lado dos trabalhadores e orgulhava-se de ser capaz de fazer tudo o que lhes pedia, possivelmente tão bem ou melhor do que eles; o guarda, um homem atarracado e corpulento, de uns cinquenta anos, com o mastim pela trela; o sargento mais velho de Hugh, Will Warden, grande e com uma barba espessa; e dois homens da guarnição, atentos, a poucos metros de distância. Ao ver Hugh descer a grandes passadas a encosta do prado, Warden deixou o colóquio para ir ao seu encontro.

- Meu senhor, aqui o guarda diz que durante a noite houve um alarme, o cão ladrou.

O guarda contou livremente o que havia a dizer, com a consciência do dever cumprido:

- Meu senhor, esta noite, muito depois da meia-noite, andou por aqui um ladrão, às escondidas, e subiu ao postigo nas traseiras do armazém do mestre Hynde. Na altura eu não sabia que ele tinha ido tão longe, mas aqui o cão deu sinal, e lá fomos os dois, e ouvimo-lo correr em direcção ao rio. Queria sair-lhe ao caminho, mas ele passou por mim demasiado depressa, só consegui atirar-lhe uma paulada quando ele passou por mim a correr. Acertei-lhe, mas muito pouco lhe deve ter feito, pela velocidade com que correu para a margem do rio. Ouvi o barulho do mergulho e chamei o cão, e fomos ver se ele tinha entrado no armazém. Mas não havia nenhum sinal, pelo menos que se visse de noite, e eu calculei que ele já devia ir bem longe e achei que não valia a pena fazer mais reboliço por causa dele. Só agora soube que um morto tinha ido parar à margem do outro lado. Nunca foi minha intenção.

-Não foi obra sua-disse Hugh. - A pancada que lhe deu não causou grandes estragos. Afogou-se quando tentou atravessar o rio a nado.

- Mas há mais, meu senhor! Quando esta manhã fui revistar o armazém à luz do dia, veja o que encontrei caído na relva, debaixo do postigo. Acabei de os dar aqui ao seu sargento - Will Warden tinha-os nas mãos e mostrava-os num silêncio cheio de significado, um longo escopro e um pequeno martelo de unha. - E a trave que forma o peitoril foi arrancada aos pregos que a seguravam numa das extremidades e está pendurada. Acho que ele estava lá em cima a tentar arrombar a portada para chegar às lãs. Há um ano, quando a lã da tosquia lá estava, entraram ladrões e roubaram dois fardos. O velho William Hynde quase perdeu a cabeça de raiva. Venha ver, meu senhor.

Cadfael seguiu-os, pensativo e com movimentos lentos, quando eles rodearam o armazém até ao declive das traseiras. O postigo fechado com portadas ainda estava trancado com segurança, embora a grossa trave sob ele pendesse na vertical, encostada às tábuas da parede, podre e macia na zona lascada onde os pregos se tinham soltado.

- Cedeu sob o peso dele - disse o guarda, espreitando para cima.-O que o cão ouviu foi a queda. E as ferramentas caíram com ele, e não teve tempo de as apanhar: se demorasse um instante tínhamo-lo apanhado. Mas isto prova bem que ele tentava arrombar para roubar. E o melhor - disse o guarda, abanando a cabeça perante a tolice daqueles que são demasiado espertos - é que se tivesse entrado pelo postigo não teria chegado às lãs.

- Não? - disse Hugh com vivacidade, voltando para ele um olhar espantado. - Porquê? Que o teria impedido?

- Há mais uma porta trancada entre ele e aquilo que vinha buscar. Não, é natural que o meu senhor não soubesse disso, por que haveria de saber? O escrivão de William Hynde trabalhava na salinha lá de cima, servia de casa do conto até ao dia em que os ladrões lá entraram por aqui, pelas traseiras. Por essa altura o mercador de lãs vinha cá comprá-las para negociar no estrangeiro e o velho Hynde achou melhor convidá-lo para a sua casa da cidade e recebê-lo com todas as honras. E como os negócios passaram a ser todos lá tratados a antiga casa do conto caiu em desuso. Mandou fechar e trancar a porta, para proporcionar mais uma barreira contra os ladrões. Se este patife tivesse entrado não lhe teria servido de nada.

Hugh reflectia, de olhar fixo, mordendo o lábio em ar de dúvida.

- Este patife, meu amigo, também estava no negócio da lã, e conhecia bem este lugar. Vinha cá buscar as lãs para os Vestier, e entrou e saiu mais de uma vez. Como é possível que não soubesse da casa do conto trancada? E o meu ajudante pediu que lhe abrissem a porta há dois dias e viu que o piso superior estava cheio de fardos quase até à escada. Se há lá uma porta, está escondida atrás da lã.

-Pois é, meu senhor. Por que não? Duvido que uma alma tenha atravessado aquela porta desde que foi fechada. Não há lá nada.

Não há nada agora, pensava Cadfael. Mas haveria lá algo (alguém!) ainda ontem? Parecia que Bertred assim pensara, embora talvez ele pudesse estar enganado. Devia saber da existência da sala abandonada, podia muito bem ter pensado que valia a pena arriscar, mesmo sem um motivo especial. Se assim foi, saiu-lhe caro. Todos os sonhos de melhorar a sua fortuna com um salvamento galante, de explorar até ao limite a gratidão de uma mulher e de se promover passo a passo com solicitude insinuante, todos destruídos, arrastados pelas correntes do Severn. Saberia realmente alguma coisa que mais nenhuma das pessoas que participavam na busca sabiam, ou falava daquela sala escondida apenas como uma possibilidade?

- Will - disse Hugh -, mande um homem a casa de Hynde e peça-lhe, ou ao filho, que venha até cá e traga as chaves. Todas as chaves! É tempo de eu próprio lá ir ver também. Já devia ter ido.

Mas não foi William Hynde nem o filho Vivian quem atravessou o campo com o sargento após uma espera de dez ou quinze minutos. Foi um criado, vestido de tecido caseiro e couro, um homem de uns trinta anos, alto, musculoso e de rosto audacioso, com uma barba aparada que delineava uma boca larga com toda a elegância janota de um fidalgote normando, embora a sua constituição fosse de saxão e tivesse cabelo louro-arruivado. Fez a Hugh uma mesura descuidada e endireitou-se para enfrentar o seu olhar, com uns olhos pálidos como o gelo, apenas com uma cintilação do azul nórdico.

- Meu senhor, a minha ama manda estas, e os meus serviços. - Trazia na mão as chaves, enfiadas num grande anel, uma boa molhada delas. O seu tom de voz era alto, com uma inflexão descarada, embora os seus modos fossem bastante delicados. - O meu amo está fora, está em Forton com os rebanhos desde ontem, e hoje o jovem amo foi lá ter com ele para o ajudar, mas volta amanhã se precisarem dele. Apraz-vos dispor de mim? Estou aqui para vos servir.

- Já o vi na cidade - disse Hugh, examinando-o com um interesse desprendido. Com que então está ao serviço de Hynde? Como é que se chama?

- Gunnar, meu senhor.

- E ele confia-lhe as chaves. Bem, Gunnar, abra-nos estas portas. Quero ver o que está lá dentro. - E acrescentou, quando o homem se voltava, pronto a obedecer: - Quando é que esperam a barca, se o mestre Hynde tem tempo para ir em pessoa para junto dos rebanhos?

- Antes do fim do mês, meu senhor, mas o mercador manda avisar de Worcester. Levam a lã da tosquia pela água até Bristol e depois por terra para Southampton para a embarcarem, assim a viagem não é tão longa. Dizem que é uma passagem difícil, por sudoeste. - Enquanto falava ocupava-se em abrir os dois grandes cadeados da tranca das portas do armazém e em as puxar para trás de modo a deixar a luz incidir sobre um soalho um pouco mais elevado, muito bem varrido, onde tinham sido armazenadas as lãs de menor qualidade. Agora aquele piso estava vazio. No canto à esquerda da porta uma escada de madeira subia para o piso superior através de um alçapão aberto.

- Está bem informado sobre os negócios do mestre Hynde, Gunnar - disse Hugh com brandura, entrando a porta.

- Ele confia em mim. Uma vez fiz a viagem para Bristol na barca, quando tinham falta de pessoal porque um dos homens estava ferido. O senhor quer subir? Quer que eu vá à frente?

Muito seguro e eloquente, aquele Gunnar, reflectiu Cadfael, a própria imagem do criado de uma casa comercial, homem inteligente e em quem se deposita toda a confiança, capaz de se adaptar às viagens e de aprender com todas as experiências. Pela sua estatura, porte e colorido, revelava a sua ascendência nórdica. Naquele condado os dinamarqueses não tinham chegado mais a sul do que Brigge, mas ao retirarem tinham deixado para trás alguma descendência. Cadfael seguiu-os sem se apressar quando subiram a escada para passar ao piso superior. Ali a luz era fraca, reflectida a partir das grandes portas lá de baixo, mas a suficiente para revelar os fardos empilhados a todo o comprimento do armazém.

- Dava-nos jeito mais luz - disse Hugh.

- Espere, meu senhor, eu abro - E Gunnar, sem mais delongas, agarrou um dos fardos, que estava no centro, e puxou-o para o lado, e depois fez o mesmo a vários outros, até deixar descobertas as tábuas de madeira de uma porta estreita. Exibiu o anel das chaves com uma cascata de som, escolheu uma delas e enfiou-a na fechadura. Havia ainda duas trancas de ferro cruzadas sobre a porta, que rangeram, ferrugentas, quando ele as retirou dos suportes. A chave estalou ao rodar. -Já há algum tempo que ninguém se serve disto - disse Gunnar em tom jovial. - Não faz mal nenhum deixarmos entrar um bocado de ar.

A porta abria para dentro. Escancarou-a e dirigiu-se imediatamente para o postigo fechado com portadas, e com um vigoroso estrondo de ferrolhos e traves libertou as portadas e abriu-as para deixar entrar os raios oblíquos do Sol.

- Cuidado com o pó, meu senhor - avisou, prestável, e deixou-se ficar para trás para deixar que examinassem toda a pequena sala. A brisa, que se tornava mais forte, entrou fazendo estremecer teias de aranha pendentes da madeira grosseira do postigo.

Um espaço pequeno e despido, um banco velho encostado a uma parede, uma quantidade de fragmentos de pergaminho abandonados, juntamente com trapos, pedaços de lã e de madeira, e empurrado para um canto um amontoado de lixo irreconhecível, um jarro grande com o bico partido, uma velha secretária toda torta, e por cima de tudo a fuligem e o pó do abandono, de um lugar que não é utilizado há dois anos, e há um ano se encontra selado e esquecido.

- Uma vez um ladrão entrou cá - disse Gunnar com ligeireza. -Teriam muito trabalho para conseguir entrar uma segunda vez. Mas tenho de deixar tudo bem fechado antes de sair, o meu amo dava cabo de mim se eu me esquecesse de correr todos os ferrolhos e de rodar todas as chaves.

- Ainda ontem à noite um ladrão tentou entrar - disse Hugh em tom indiferente. - Não lhe contaram?

Gunnar voltara para ele um rosto completamente atónito.

- Um ladrão? A noite passada? Não me chegou nem uma palavra acerca disso, nem à minha ama. Quem disse isso?

- Pergunte ao guarda, lá em baixo; ele dir-lhe-á. Foi um tal Bertred, um tecelão que trabalha para a Srª Perle. Dê uma vista de olhos ao peitoril do lado de fora do postigo, Gunnar, verá que abateu com o peso dele. O cão perseguiu-o até ao rio - disse Hugh de repente, olhando em redor com ar absorto mas bem atento à expressão do rosto de Gunnar. - Afogou-se.

O silêncio que se seguiu foi breve mas profundo. Gunnar ficou mudo, de olhar fixo, e toda a sua segurança ligeira dera lugar a uma gravidade petrificada.

-Não soube de nada?-espantou-se Hugh, com os olhos postos no chão coberto de pó; as únicas marcas visíveis entre a porta e o postigo eram as deixadas pela vigorosa passagem de Gunnar.

- Não, meu senhor... nada - A voz alta e confiante havia-se tornado tensa, séria e baixa. - Conheço o homem. Por que haveria ele de querer roubar lãs? Está muito bem na vida... Morreu?

- Morreu, sim, Gunnar. Afogou-se.

- Cristo tenha a sua alma! - disse Gunnar, lentamente e em voz baixa, mais para si mesmo que para os outros. - Conhecia-o. Joguei aos dados com ele. Deus sabe que nem eu nem ninguém que eu conheça tinha a Bertred qualquer rancor, nem lhe desejava mal.

Seguiu-se outro silêncio. Era como se Gunnar os tivesse deixado e se tivesse retirado para outro local. Os olhos azul-gelo pareciam opacos, como se os tivesse coberto com uma portada ou voltasse o olhar para dentro e não para fora. Passados momentos moveu-se e perguntou em voz uniforme:

- Já não quer mais nada daqui, meu senhor? Posso voltar a fechá-las?

- Sim - disse Hugh com igual brevidade. - Já acabei.

No regresso à cidade, passando o portão do castelo, caminharam ambos em silêncio e pensativos até que Hugh disse de súbito:

- Se ela chegou a estar naquele buraco cheio de pó, alguém fez um excelente trabalho a limpar todos os vestígios.

- Bertred achou que ela estava lá - disse Cadfael -, embora Bertred possa ter-se enganado. Sem dúvida foi lá para tentar libertá-la, mas podia estar apenas a fazer uma suposição, e uma suposição errada. Sabia da sala e sabia que ela não era do conhecimento comum, e, portanto, com cuidado, poderia ser utilizada para tal fim. E sabia que o jovem Hynde dava um raptor muito plausível, sendo assim vaidoso, persistente e com necessidade urgente de dinheiro para manter a sua vida fácil. Mas seria mais que uma suposição? Terá realmente descoberto alguma coisa que a tornasse uma certeza?

- E o pó! - disse Hugh. - Nem uma marca de pé para além das de Gunnar, pelo menos que eu visse. E o rapaz, o filho, esse tal Vivian... é verdade que esta manhã partiu da cidade a cavalo, isso já eu sabia, Will tinha-mo comunicado. Então agora só lá está a mãe. E ela iria mentir? Não é natural que ele lhe fosse contar se tivesse uma mulher escondida. Se levou a rapariga para outro lado depois do alarme durante a noite, não é natural que fosse para junto da mãe. Mas mesmo assim vou fazer mais uma visita à casa. O que me parece é que Bertred estava a tentar a sua sorte... mas o pobre diabo não teve sorte! Não teve sorte com as rosas, não teve sorte com o salvamento. Não teve sorte em nenhum dos seus planos.

Mais um longo silêncio enquanto subia a encosta não muito íngreme, já dentro do portão, e se aproximavam da rampa para a entrada do castelo.

- E ele não sabia! - disse Hugh. - Não sabia mesmo!

- Ele? E não sabia o quê?

- O Gunnar. Até essa altura tive as minhas dúvidas acerca dele. Tão confiante, tão seguro, ligeiro como o ar, até ter sido mencionada a morte de um homem. Isso tenho a certeza que para ele foi uma novidade. Não havia nenhum fingimento. Que lhe parece, Cadfael?

- Parece-me que temos ali um homem capaz de mentir e de tornar a mentir, sempre que a ocasião o torne necessário. Mas que naquela altura não estava a mentir. Até a voz lhe mudou, tanto como a cara. Não, ele não sabia. Estava profundamente abalado. Pode ter participado em alguma patifaria, mas, seja ela qual for, não tinha considerado a possibilidade de uma morte. Quanto mais a morte de Bertred! - Tinham chegado à rampa, onde pararam. - Tenho de regressar - disse Cadfael, levantando os olhos para o céu que perdia o brilho e se suavizava com a aproximação do crepúsculo. - Que mais podemos fazer esta noite? E que fará amanhã?

- Amanhã - disse Hugh, em tom decidido -, mando trazer até junto de mim Vivian Hynde, assim que ele aparecer no portão da cidade, para ver o que se pode tirar dele acerca da antiga casa do conto do pai. Por tudo o que tenho ouvido dele, deve ser mais fácil de assustar do que o empregado dele parece ser. E se estiver tão inocente como a neve pura, um susto também não lhe há-de fazer mal, pelo que sei dele.

- E tornará público - perguntou Cadfael - que pelo menos o assassino do irmão Eluric já é conhecido? E que morreu?

- Não, ainda não. Talvez nem o faça, para deixar que a pobre mulher tenha pelo menos a paz que conseguir até ao funeral do filho. Para que serve divulgar a culpa quando nunca poderá haver um julgamento? - Hugh, de testa franzida e lamentando um pouco o facto, recordava que Miles tinha presenciado aquela manifestação na oficina dos teares. - Se bem conheço os ouvidos penetrantes e as línguas compridas de Shrewsbury, de manhã o assunto pode ser já tema de muitas conversas sem que eu diga uma palavra.-Talvez não, talvez Coliar fique calado por causa da mãe do rapaz. Mas, seja como for, não terão nenhuma declaração oficial onde fincar os dentes até encontrarmos Judith Perle. E vamos encontrá-la, temos de encontrá-la. Eles que falem e especulem. Pode ser que alguém se assuste e cometa o erro que eu aguardo.

- O senhor abade terá de saber tudo o que eu sei - disse Cadfael.

- E saberá, mas isso é outro assunto. Ele tem esse direito e o senhor tem esse dever. Por isso é melhor voltar para junto dele - disse Hugh, com um suspiro. - E eu o melhor que tenho a fazer é entrar para ver se algum dos meus homens que andaram a vasculhar a região conseguiu melhores resultados do que eu.

E com esta nota impecavelmente conscienciosa, mas não muito esperançosa, separaram-se.

Cadfael entrou pela casa do portão demasiado tarde para as Vésperas. Os irmãos estavam no coro e o ofício quase terminara. Numa curta tarde muita coisa havia sucedido.

- Tem aqui uma pessoa à sua espera - disse o porteiro, espreitando da sua casa quando Cadfael entrou pela cancela. - Mestre Niall, o latoeiro. Venha aqui ter com ele, temos estado a passar o serão juntos, mas ele quer pôr-se a caminho assim que puder.

Niall tinha ouvido o suficiente para saber da sua chegada e saiu da casa do portão com um saco de linho grosseiro debaixo do braço. Bastou-lhe olhar o rosto de Cadfael para saber que ele não tinha nada a dizer, mas mesmo assim perguntou:

- Não há notícias dela?

- Nenhuma novidade. Não, lamento ter de dizê-lo. Venho agora mesmo de junto do próprio xerife, mas nada.

- Esperei - disse Niall -, não fosse o senhor trazer alguma notícia. O mínimo sinal seria bem-vindo. E eu não posso fazer nada! Bem, nesse caso tenho de pôr-me a caminho.

- Para onde vai esta noite?

- Para casa da minha irmã e do homem dela, em Pulley, para ver a minha menina. Tenho de entregar um conjunto de ornamentos para os arreios de um dos cavalos de Mortimer, embora isso pudesse ter esperado mais uns dias. Mas a criança vai estar à minha espera. É a noite em que eu costumo lá ir, senão não sairia daqui. Mas não passo lá a noite. Regresso no escuro. Pelo menos para estar aqui, junto das rosas, se não posso fazer mais nada por ela.

- Já fez mais que o resto de nós - disse Cadfael, pesaroso -, pois manteve a roseira com vida. E ela ainda há-de voltar para receber das suas mãos a melhor das rosas, depois de amanhã.

-Devo interpretar isso como uma promessa?-disse Niall com um sorriso forçado.

- Não, como uma oração. O melhor que posso fazer. Com uma caminhada de três milhas ou mais até Pulley, e mais outro tanto de regresso - disse Cadfael -, o senhor terá tempo para uma litania completa. E não esqueça que vai ter um festival dentro de dois dias! Stª Winifred estará a ouvi-lo. Quem melhor que ela? Ela própria manteve à distância um pretendente não desejado e conservou a sua virtude, não há-de abandonar uma irmã.

-Bem, é melhor ir-me embora. Que Deus esteja consigo, irmão.

Niall pôs ao ombro o seu saco de rosetas de bronze ornamentais e argolas para os arreios do cavalo de Mortimer e afastou-se ao longo de Foregate em direcção ao caminho que, partindo da ponte, levava para sudoeste. Uma figura sólida, direita, que atravessava vigorosamente o ar nacarado do fim do dia, que ia arrefecendo para o crepúsculo. Cadfael ficou a olhar na sua direcção até que ele voltou a esquina junto da lagoa da azenha e deixou de ser visto.

Não era homem para grandes gestos ou muitas palavras, Niall, o latoeiro, mas Cadfael sentiu a dolorosa consciência da frustração que nos corrói por dentro quando não podemos fazer nada acerca da única coisa do mundo que tem importância para nós.

 

Niall iniciou a sua caminhada de regresso entre Pulley e Shrewsbury pouco antes da meia-noite. Cecily queria que ele ficasse e tinha argumentado, com bastante razão, que se ele regressasse não ia alterar nada e afirmando sem rodeios o que Cadfael se abstivera de declarar, que enquanto a mulher continuasse escondida em segurança era pouco provável que se verificasse mais algum ataque à roseira, pois tal ataque não seria necessário. Ninguém podia entregar uma rosa nas mãos de uma mulher desaparecida. Se alguém planeava destruir o acordo para recuperar a casa de Foregate, o que segundo parecia era agora a opinião geral, esse objectivo já tinha sido atingido sem que essa pessoa precisasse de correr mais riscos.

Niall tinha contado muito pouco à irmã acerca do assunto, e absolutamente nada acerca dos seus sentimentos profundos, mas ela parecia saber por instinto. Aquilo que se dizia em Shrewsbury chegava até ali suavizado pela distância, transformado numa espécie de conto popular, quase sem nada a ver com a vida real. Ali a realidade era o domínio, os campos, o reduzido número de trabalhadores, a mata cercada por uma vala de onde as crianças afastavam as cabras que pastavam, os bois dos arados e a floresta em redor. As duas pequenitas, que escutavam com os olhos muito abertos as conversas dos adultos, devem ter pensado que Judith Perle era uma daquelas senhoras encantadas das histórias infantis, enfeitiçadas por um bruxedo. Os dois rapazes de Cecily, com as suas fartas cabeleiras e os seus olhos muito castanhos, habilidosos para tudo o que tinha a ver com os bosques, até ali não tinham pousado mais de duas ou três vezes o olhar sobre as torres distantes do castelo de Shrewsbury. Três milhas não é uma distância assim tão grande, mas é demasiado quando não é necessário percorrê-la. John ia à cidade umas duas vezes por ano para fazer compras e no restante a pequena propriedade bastava-se a si mesma. Por vezes Niall era levado a pensar que em breve deveria levar a filha consigo para a cidade, com receio de a perder para sempre. Para um lar feliz, uma vida simples e tranquila em boa companhia, é verdade, mas a sua perda seria irreparável.

Muito antes dessa hora ela já estava a dormir, no ninho que partilhava com os outros três no sótão; ele próprio lá a havia deitado, já meio adormecida. Era loura, com um brilho dourado no cabeio, como a mãe tinha, e uma pele branca como a nata, que com o tempo soalheiro ganhava o mesmo brilho dourado. Os filhos de Cecily tinham cabelo escuro-arruivado, como o pai, corpos esguios e ágeis e olhos negros. Ela era arredondada, aveludada e macia. Vivia ali com os primos quase desde o seu nascimento, seria difícil levá-la.

- O caminho para casa vai ser escuro - disse John, olhando lá para fora da entrada. Na noite de Verão o cheiro da floresta era pungente e forte, pesando na escuridão sem vento. -A Lua só vai nascer daqui a umas horas.

- Não me importo. Já tenho a obrigação de saber bem o caminho.

-Acompanho-te pelo carreiro - disse Cecily-até te meteres à estrada. Está agradável e ainda quente, e eu não tenho sono.

Caminhou a seu lado em silêncio até ao portão da paliçada de John e atravessou com ele a clareira coberta de relva até à orla das árvores, e aí pararam.

- Um destes dias - disse ela, como se tivesse ouvido os pensamentos dele -, vais levar a pequenita. E acho muito bem, embora nos custe. Felizmente não estamos assim tão longe e podemos pedir-ta emprestada de tempos a tempos. Não deves esperar muito, Niall. Eu tive-a como uma dádiva, e foi bom, mas ela é tua, tua e de Avota, afinal, e é melhor que cresça sabendo e aceitando isso de bom grado.

- Ainda é muito nova - disse Niall, na defensiva -, tenho medo de a deixar confusa se o fizer cedo de mais.

- É muito nova, mas é esperta. Começa a perguntar por que é que a deixas sempre e a pensar como é que passas, sozinho, e quem cozinha para ti e te lava a roupa. Acho que seria bom que a levasses para uma visita, para lhe mostrares um pouco como vives e o que fazes. Ela tem fome de saber, vais ver que absorve tudo com avidez. E por muito que goste de brincar com os meus filhos, nunca gosta de te partilhar com eles. Vais ver que tens ali uma mulher autêntica-disse Cecily com convicção.-Mas, apesar de tudo, se calhar o melhor que podes fazer agora por ela é dar-lhe outra mãe. Uma mãe só dela, sem crianças rivais ao lado. Porque, meu querido, ela é suficientemente inteligente para saber que eu não sou mãe dela, por muito que a ame.

Niall disse-lhe boa noite sem comentar as suas palavras e afastou-se a passos rápidos, metendo-se entre as árvores. Ela conhecia-o bem e não esperava mais do que isto, por isso regressou a casa quando deixou de o ver, sabendo que ele tinha escutado e que o havia tocado. Tinha chegado o momento de ele pensar no assunto. A vida da filha de um artesão respeitado da cidade, com bens a herdar e competências sociais a aprender, deve necessariamente ser diferente da da filha de um intendente do campo; as suas perspectivas de casamento devem ser procuradas no seio de um grupo diferente de pessoas, a sua educação deve ter em vista um lar diferente, com outra rotina de tarefas. Mais esperta que o normal naquela idade, a criança poderia começar a pensar que um pai que a deixa ficar separada de si durante demasiado tempo na realidade não a quer, apenas a visita por obrigação. E no entanto era muito nova, demasiado nova para ser levada para uma casa onde não havia uma mulher que cuidasse dela. Se ao menos pudesse haver verdadeira esperança naquela viúva de quem ele nada tinha a dizer! Ou, já agora, em qualquer outra mulher decente com um coração caloroso e uma cabeça fria, e paciência para os dois!

Niall percorreu o estreito caminho entre as árvores, na noite verde-escura, cheia de folhas e inebriante de aromas, com a voz da irmã ainda a soar-lhe aos ouvidos. Os bosques ali eram densos e bem desenvolvidos, o chão tão sombrio que era pouca a cobertura vegetal, mas os ramos entrelaçados, acima da sua cabeça, ocultavam o céu. Por vezes o caminho percorria certa extensão em terreno alto, mais descoberto, e onde as árvores eram mais espaçadas surgiam clareiras de charneca, pois toda aquela zona ficava na orla norte da Floresta Longa, no local onde os homens a haviam invadido com os seus pequenos desbravamentos, com o corte de madeira, legal e ilegal, e com as varas de porcos alimentando-se das bolotas e dos frutos das faias. Mas mesmo ali as povoações eram muito poucas. Não veria mais de um par de herdades pequenas e precárias até chegar à aldeola de Brace Meole, quase a meio caminho de casa.

Ao pensar nisto parou para reconsiderar, pois talvez fosse um pouco mais rápido desviar-se para leste, em vez de prosseguir pelo carreiro da floresta, e enveredar por um caminho que conhecia e que ia dar à estrada bastante antes da aldeia, se é que aquele caminho através da floresta poderia ser chamado uma estrada. Todas as variações daquela viagem lhe eram familiares. O caminho em que estava a pensar cruzava-se com aquele em que ele seguia na diagonal, fazendo uma curva para sudoeste, e no local onde os caminhos se juntavam havia uma pequena clareira, o único espaço aberto numa faixa mais densa de bosque. Ali fez uma pausa, ainda sem se decidir, e ficou a saborear a paz impressionante da noite. Nesse preciso momento, a calma foi misteriosamente interrompida por pequenos ruídos persistentes. Naquele silêncio sem vento, qualquer som, por muito suave que fosse, sobressaltava os ouvidos. Niall afastou-se instintivamente do terreno aberto e abrigou-se entre as árvores, onde ficou com a cabeça erguida e os ouvidos bem abertos para decifrar os sinais.

Há sempre seres nocturnos a tratar da sua vida na escuridão, mas os pequenos ruídos que produzem são sempre furtivos e rentes ao chão, e param quando se sente na noite o cheiro do homem, visto que todos os homens são inimigos. Estes sons prosseguiam, uniformes embora suaves, e iam-se aproximando gradualmente. O impacte indistinto, sólido mas abafado, de cascos sobre a erva espessa, aproximando-se em passo rápido vindo da direcção da estrada, e o leve murmúrio e o sibilar dos galhos maleáveis ao roçar por um objecto que passa. A vegetação do Verão estava no máximo do seu crescimento, as árvores tinham lançado novos e tenros rebentos cujas pontas macias invadiam os caminhos.

Que fazia um cavaleiro, vindo àquela hora por aquele caminho, e pelo ritmo e pelos sons tão carregado? Niall ficou onde estava, bem escondido entre as árvores mas espreitando para a clareira, onde por contraste a luz era suficiente para se distinguir as formas e diversos graus de cinzento e negro. Não havia lua e um véu de nuvens, ténue e muito no alto, separava as estrelas da terra; era uma boa noite para empreendimentos obscuros. E embora os homens sem lei raramente se aventurassem a dez milhas de Shrewsbury, e o pior que se poderia encontrar seria apenas um caçador furtivo, havia sempre a possibilidade de coisa pior. E desde quando é que os caçadores furtivos faziam a sua vida a cavalo?

Entre as escuras paredes das árvores do caminho do lado direito surgiu uma vaga palidez. A folhagem nova sussurrava de encontro ao lombo do cavalo e ao braço do cavaleiro. Um cavalo branco, ou então ruço rodado pálido ou não muito claro, pois a sua pele trouxe para a clareira o seu próprio fulgor. De início parecia que a forma do homem que o montava era atarracada e monstruosamente larga, até que uma irregularidade do terreno provocou uma oscilação que revelou que a montada transportava, não uma, mas duas pessoas. Um homem à frente e uma mulher atrás. Um vulto sombrio, indistinto, transformou-se com nitidez em dois, embora ainda sem identidade, quando cavalo e cavaleiros passaram, cruzaram o caminho e prosseguiram a sua prudente viagem para sudoeste. Viu-se o ondular da saia comprida, havia mesmo pontos de palidez, misteriosos na escuridão em movimento, uma mão agarrada junto do cinto do cavaleiro, um rosto oval levantado para o céu, liberto do capuz que tinha caído para trás sobre os ombros da mulher.

Não se via nada com maior clareza do que isto, e no entanto ele reconheceu-a. Talvez fosse a posição da cabeça, com a grande cabeleira que se movia contra um céu quase tão escuro como ela, ou o porte erecto e o equilíbrio do seu corpo, ou uma corda demasiado tensa dentro de si mesmo que só podia vibrar com a proximidade dela. Aquela, entre todas as mulheres, não podia passar por ele, mesmo no escuro e sem dar pela sua presença, sem que ele o soubesse.

E que fazia ali Judith Perle a meio da noite, três dias depois de ter desaparecido do local que lhe competia, montada à garupa de um cavaleiro que se dirigia para sudoeste, e sem ser coagida, indo de livre vontade?

Ficou durante tanto tempo imóvel e em silêncio que os pequenos seres da noite pareceram perder o receio que ele lhes inspirava, ou esquecido que ele ali estava. Do outro lado da clareira, onde continuava o caminho por onde tinha vindo, algo se moveu apressadamente com um sussurro, passando de um maciço de mato para outro e correndo para ocidente, para a segurança e para o silêncio. Niall saiu da sua imobilidade gelada e voltou-se para seguir o som das pancadas abafadas dos cascos ao longo do caminho coberto de relva, até morrerem no silêncio.

Não conseguia acreditar nem entender o que tinha visto. Não era, não podia ser o que parecia. Onde ela ia, quem era o seu companheiro, quais eram as intenções dela, isto eram mistérios, mas eram mistérios dela, e a fé que Niall depositava nela era tão forte, tão incondicional, que nenhum estranho empreendimento nocturno a podia abalar. A única certeza é que a tinha encontrado pela graça de Deus, e agora não podia voltar a perdê-la, e isso bastava-lhe. Se Judith não precisasse dele, assim seria, e nunca a incomodaria. Mas iria segui-la, tinha de a seguir, para se certificar de que nenhum mal lhe sucedia até que aquele interlúdio na escuridão estivesse terminado, e ela liberta e devolvida à luz. Dentro dele havia uma convicção insustentavelmente forte: se agora a perdesse estaria perdida para sempre.

Saiu do abrigo das árvores e atravessou para o caminho que eles haviam seguido. Não corria o perigo de os perder; ao atravessar a floresta que se seguia, cada vez mais espessa, um cavalo não poderia sair do caminho, principalmente de noite, e naquela escuridão não poderia seguir mais do que a passo. Um homem a pé podia ir mais depressa do que eles, se conhecesse o bosque tão bem como Niall. Mas bastava-lhe recuperar os sons que o guiavam, e se possível aproximar-se o suficiente para estar junto dela num instante se surgisse alguma ameaça. Aquele terreno não lhe era tão familiar como os diversos caminhos para Pulley, uma vez que essa aldeola ficara para trás, do lado esquerdo, mas a região era semelhante e ele era capaz de seguir o seu caminho entre as árvores, ao lado do carreiro, a uma velocidade maior que a do cavaleiro. Em breve recuperou as ténues pancadas regulares dos cascos e o leve tilintar do freio quando o cavalo agitava a cabeça, talvez ao ouvir algum movimento nocturno no mato, do outro lado do caminho. Por duas vezes captou esse breve e súbito toque de sino, como uma chamada para o serviço, tranquilizando-o: estava perto, e em caso de necessidade poderia aproximar-se rapidamente.

Dirigiam-se sempre para sudoeste, internando-se cada vez mais profundamente na Floresta Longa, e rareavam os locais onde o terreno era mais descoberto e surgiam zonas com charneca e rochedos. Sem dúvida teriam andado já mais de uma milha mas os cavaleiros não abrandavam, sempre no mesmo passo cauteloso. O céu velado tinha-se tornado um pouco mais escuro, com uma espessa cobertura de nuvens. Levantando os olhos, Niall mal conseguia distinguir as formas dos ramos superiores, recortados contra o céu. Seguia com as mãos estendidas para tocar as árvores e encontrar o seu caminho por entre estas, mas mantendo-se a uma distância que lhe permitia ouvir o avanço uniforme do cavalo. Uma vez percebeu que se tinha posto a par dele e sentiu, mais do que viu, um movimento no caminho, à sua direita. Parou para deixar que a vaga mancha pálida voltasse adiantar-se, e então retomou a paciente perseguição com maior cautela.

Já não fazia ideia de quanto tempo durara aquela peregrinação nocturna pela floresta, mas achava que devia ser quase uma hora, e se os cavaleiros tinham vindo da cidade deviam ter partido ainda uma hora antes. Para onde se dirigiam não fazia ideia. Não conhecia nada naquela parte da floresta, a não ser talvez um terreno solitário acabado de desbravar. Deviam estar muito perto da nascente da ribeira de Meole, e subiam a corrente. Da esquerda, de uma zona mais elevada, desciam dois ou três minúsculos afluentes, que atravessavam o caminho; nenhum deles constituía uma barreira, pois todos podiam ser passados sem molhar os pés, pelo menos no Verão. Os fios de água que serpenteavam produziam mais um pequeno som, um silvo sonolento por entre as pedras. Teriam andado umas três milhas, calculava Niall, desde que os tinha começado a seguir.

Para a direita, não muito longe, as árvores sussurraram e depois calaram-se. O ritmo dos passos do cavalo interrompeu-se; ouviu-se o som das ferraduras que raspavam num chão mais duro, com a rocha à superfície, e depois regressavam lentamente à relva, para por fim pararem. Niall aproximou-se cautelosamente, apalpando o caminho de árvore para árvore e afastando sem fazer barulho os ramos que lhe impediam a passagem. Pelo leve abrandar da escuridão parecia que o caminho para onde ele se dirigia alargara de modo que o céu, ainda que encoberto, pelo menos podia espreitar. Foi então que, através do arrendado das folhas, viu a palidez baça do corpo do cavalo, que estava imóvel. Pela primeira vez ouviu uma voz, uma voz de homem, num murmúrio sibilante que se propagava com nitidez através do silêncio.

- Eu devia levá-la até ao portão.

O cavaleiro já tinha saído da sela. Sob a abóbada da floresta, onde a escuridão se tornava relativa, viu-se um movimento sobre o chão, uma forma mais negra passando diante da palidez do cavalo como pequenas nuvens em frente da Lua.

- Não - disse a voz de Judith, fria e clara. - Isso não fazia parte do acordo. Eu não quero.

Pelo movimento do cavalo e pelo sussurro produzido pelo movimento Niall soube quando o homem a tirava da sela, embora a sua voz, sem convicção, continuasse a protestar:

- Não posso deixá-la ir sozinha.

- Não é longe - disse ela. - Eu não tenho medo.

E ele aceitava a recusa, pois mais uma vez o cavalo pisou a relva e um dos estribos tiniu. O cavaleiro voltava a montar. Disse mais umas palavras, que se perderam quando o cavalo deu a volta, não para regressar por onde tinham vindo mas para a esquerda, subindo para a estrada pelo caminho mais curto, que atravessava os montes agrestes. Agora estava preocupado com a rapidez, não com a discrição. Mas após uns passos apressados deteve-se e voltou-se para oferecer mais uma vez o que ela tinha recusado, sabendo que ela recusaria de novo.

- Detesto deixá-la assim...

- Agora já sei o caminho - disse ela com simplicidade. -Vá, volte para casa antes que surja a luz.

E ele deu meia volta, sacudiu as rédeas e avançou por uma subida que parecia proporcionar melhor velocidade e uma superfície mais aberta e suave, pois passado pouco tempo o som das ferraduras que se afastavam tornou-se um trote cauteloso; a sua preocupação era deixar para trás a boa velocidade aquela missão misteriosa. Judith continuava onde ele a tinha pousado, invisível na orla das árvores, mas Niall saberia quando ela se movesse.

Aproximou-se ainda mais, pronto a seguir qualquer movimento dela. Ela sabia o caminho, não era longe e ela não tinha medo. Mas segui-la-ia até que chegasse ao abrigo que escolhera, fosse ele onde fosse.

Só depois de o cavaleiro ter desaparecido, de se ter silenciado o último som abafado é que Niall a ouviu começar a caminhar para a direita, saindo do comparativo crepúsculo do caminho largo para regressar ao negrume luxuriante da floresta espessa, fazendo estalar um ramo sob os pés. Atravessou o caminho e seguiu-a. Um carreiro estreito mas muito pisado descia pela encosta em direcção a um afluente maior da ribeira de Meole, pois ele captou o leve murmúrio distante da água, vindo lá de baixo.

Não tinha avançado mais de vinte passos, e ela ia talvez uns vinte passos adiante. De súbito, no meio do mato espesso do lado direito, os arbustos agitaram-se violentamente e Judith soltou um grito: um curto grito de terror. Niall saltou para a frente e correu sem qualquer prudência em direcção ao grito e sentiu, mais do que ouviu ou viu, que diante de si a noite se contorcia na turbulência de uma luta quase silenciosa. Os seus braços abertos agarraram dois corpos e, às cegas, esforçou-se desajeitadamente por os separar. O longo cabelo de Judith, que se soltara da sua trança, roçou-lhe pelo rosto, e ele segurou-a pela cintura para a pôr atrás de si, longe do perigo. Sentiu o oscilar de um braço comprido que tentava rodeá-lo para a atingir, e por um instante, graças a um estranho capricho da luz, a lâmina de uma faca brilhou com uma cintilação azul.

Niall agarrou o braço que descia e puxou-o violentamente para o lado, prendeu com o joelho o joelho do atacante com instinto de lutador, fazendo que ambos se estatelassem no chão. Rebolaram e lutaram, um deles para libertar o braço que segurava a faca, o outro para afastar de si a lâmina ou apoderar-se dela. Debatiam-se e ofegavam, com os rostos quase colados. As suas respirações misturavam-se, mas continuavam invisíveis um para o outro. O atacante era forte, musculoso e decidido, e servia-se de uma quantidade de truques traiçoeiros, utilizando liberalmente a cabeça, os dentes e os joelhos, mas não conseguia libertar-se nem voltar a levantar-se. Niall agarrava-o pelo pulso direito, e com o outro braço apertado em redor do corpo do homem prendia-lhe de tal forma a parte superior do braço que o adversário apenas conseguia atirar-lhe furiosamente as unhas ao pescoço e ao rosto, deixando-o a escorrer sangue. Gemendo com o esforço levantou o corpo e fez que ambos rolassem e fossem bater violentamente num tronco, com a intenção de deixar Niall meio atordoado para o obrigar a largar a faca; mas foi demasiado bem sucedido e o seu próprio braço, já enfraquecido devido à pressão que Niall lhe exercia sobre o pulso, bateu com força na madeira sólida e estremeceu desde o cotovelo aos dedos. A mão abriu-se, a faca voou para longe e perdeu-se no meio da relva.

Niall caiu sobre os joelhos, entontecido, para ouvir o inimigo ofegar e gemer, procurando a arma na relva e entre as folhas apodrecidas, praguejando entre dentes por não conseguir encontrá-la. E ao primeiro impulso de Niall para voltar a agarrá-lo pôs-se de pé com dificuldade e começou a correr, quebrando os arbustos, para regressar por onde tinha vindo. O som dos ramos que se agitavam violentamente e das folhas que sussurravam marcaram a sua passagem através do bosque espesso, até que o último som se desvaneceu na distância. Tinha desaparecido.

Niall pôs-se de pé, aos tropeções, abanando a cabeça que zumbia, e procurou uma árvore à qual se apoiar. Já não sabia bem para onde estava voltado, ou onde encontrar Judith, até que uma voz calma disse, em tom de espanto, mas devagar e com compostura:

- Estou aqui!

Ele viu a palidez, a custo perceptível, de uma mão que o chamava e se fechava sobre a que ele estendia em resposta. O seu toque era frio mas firme. Quer o tivesse reconhecido ou não, dele não tinha medo.

- Está ferido? - disse ela. Aproximaram-se muito suavemente, mais devido a um respeito mútuo, resultante do espanto, do que por prudência, e o calor dos seus corpos reuniu-se e misturou-se.

- E senhora? Ele atingiu-a antes de eu chegar junto dele. Feriu-a?

- Rasgou-me a manga - disse ela, apalpando o ombro esquerdo. - Um arranhão, talvez... nada mais. Não estou ferida, posso ir-me embora. Mas o senhor...

Pousou as mãos sobre o peito dele, apalpou-o ansiosamente desde os ombros aos antebraços, e encontrou sangue.

- Ele fez-lhe um corte... aqui no braço esquerdo...

- Não é nada - disse Niall -, livrámo-nos dele com pouco custo.

- Ele queria matar - disse Judith em tom grave. - Não sabia que podia haver salteadores a rondar tão perto da cidade. As pessoas que viajam durante a noite podem ser chacinadas pelas roupas que vestem, quanto mais pelo dinheiro que poderão trazer. - Só então ela começou a tremer com o abalo atrasado do choque, e ele envolveu-a nos braços para expulsar o frio que a invadira. Foi então que o reconheceu. A voz dele tinha-lhe despertado uma vaga sensação, e ao tocá-lo teve acerteza.

- Mestre latoeiro? Como veio aqui parar? E foi uma sorte para mim! Mas como?

- Isso agora não tem importância - disse Niall. - Primeiro deixe-me levá-la aonde ia. Aqui na floresta, com escumalha desta na zona, ainda pode correr riscos. E pode apanhar frio só por causa da maldade e da violência que experimentou. Tem de andar muito?

- Não é longe - disse ela. - É descer ali até ao ribeiro, mal chega a meia milha. E isso torna ainda mais estranho o facto de andarem por aqui salteadores à vontade. Vou para junto das freiras beneditinas do Vau de Godric.

Ele não perguntou mais nada. Os seus planos só a ela diziam respeito, ele tinha apenas de se certificar de que nada a impedia de os concretizar. Continuou a rodeá-la com o braço quando começaram a descer o caminho até que a dado momento este se tornou mais largo, deixando entrar uma luz fraca, que parecia uma nebelina. Invisível atrás das árvores, a Lua erguia-se por fim. Algures diante deles via-se o reluzir fugidio da água em movimento, em clarões misteriosos que mudavam de lugar e desapareciam. Na margem onde eles se encontravam emergiam do ar brumoso os contornos negros e cortantes de telhados e de uma vedação, com uma pequena torre sineira, a única linha vertical.

- É aqui? - perguntou Niall. Tinha ouvido falar no mosteiro, mas nunca antes tinha pensado na sua localização, nem estado perto dele.

- É.

- Levo-a até ao portão e fico consigo até que entre.

- Não, tem de entrar comigo. Não pode voltar para trás agora, sozinho. Amanhã, à luz do dia, estaremos seguros.

- Aqui não há lugar para mim - disse ele em tom duvidoso.

-A irmã Magdalen vai arranjar lugar.-E acrescentou, numa repentina súplica emocionada: - Não me deixe agora!

Desceram e aproximaram-se juntos da vedação alta de troncos que cercava o mosteiro e os seus jardins. Embora a Lua ainda estivesse escondida dos seus olhos pelos montes cobertos de floresta, a luz que reflectia aumentava a cada momento; as construções, as árvores, os arbustos, a curva da ribeira e as faixas almofadadas de relva ao longo das suas margens, tudo emergia lentamente da negra obscuridade para assumir subtis variações de cinzento, que passaria a prateado assim que a Lua subisse no céu. Niall hesitou junto do portão fechado com a mão sobre a corda do sino, de tal forma lhe parecia uma violação romper o silêncio. Quando se decidiu a puxar a corda o estrondo ecoou por sobre a água e voltou reflectido pelas árvores da margem oposta. Mas pouco esperaram até que a porteira viesse, a resmungar e a bocejar, para abrir a grade e espreitá-los.

- Quem é? Foram surpreendidos pela noite?-Viu um homem e uma mulher que não conhecia, perdidos de noite na floresta, e tomou-os pelo que pareciam, viajantes respeitáveis que se tinham perdido e dado consigo num ermo solitário onde qualquer abrigo era mais do que bem-vindo.

- Querem alojamento para passar a noite?

- Chamo-me Judith Perle - disse Judith. - A irmã Magdalen conhece-me e uma vez ofereceu-me refúgio quando precisasse. Agora preciso, irmã. E comigo está o meu bom amigo que se ergueu entre mim e o perigo e me trouxe aqui em segurança. Peço abrigo durante a noite para ele também.

- Vou chamar a irmã Magdalen - disse a porteira, previdente. E assim fez, deixando a grade aberta. Dentro de muito poucos minutos regressaram as duas juntas, e os olhos brilhantes e astutos da irmã Magdalen espreitaram pelo postigo com um interesse bem desperto, alerta mesmo àquela hora da noite.

- Pode abrir - disse em tom jovial. - Esta senhora é uma amiga, e um amigo de uma amiga também é bem-vindo.

Na sala minúscula, sem alarido e sem perguntas, a irmã Magdalen fez em primeiro lugar o mais urgente: aqueceu vinho forte para afastar o derradeiro frio deixado neles pelo choque e pelo susto, arregaçou a manga de Niall, lavou e colocou uma ligadura na longa ferida do seu antebraço, pôs unguento no arranhão do ombro de Judith e reparou com movimentos rápidos o rasgão do corpete e da manga dela.

- É apenas um remendo - disse ela. - Nunca fui habilidosa com a agulha. Mas há-de servir até regressar a casa.

Pegou na taça com água suja e levou-a, deixando-os pela primeira vez a sós à luz da vela, olhando-se com seriedade e espanto.

- E não me perguntou nada - disse Judith devagar. - Nem onde estive nos últimos dias, nem como vim a cavalo de noite, até aqui, acompanhada por um homem. Nem como desapareci, nem como recuperei a liberdade. Devo-lhe tanto, e nem sequer lhe agradeci. Mas agradeço, e do fundo do coração! Se não fosse o senhor estaria morta na floresta. Ele queria mesmo matar-me!

- Eu sei bem - disse Niall em voz firme - que nunca nos teria deixado três dias preocupados e aflitos de livre vontade. E sei que se agora decide poupar o homem que a colocou em tal situação, o faz com boas intenções, e pela bondade do seu coração. Preciso de saber mais alguma coisa?

- Também quero o assunto esquecido para meu bem - disse ela com mágoa. - Que tenho a ganhar com a sua denúncia? E tenho muito a perder. Não é um grande patife, apenas presumido, vaidoso e tolo. Não me tratou com violência, nem me fez nenhum mal permanente. Mais vale esquecer tudo. Não o reconheceu? - perguntou ela, olhando-o com seriedade com os seus penetrantes olhos cinzentos, com leves olheiras devido ao cansaço.

-Era ele que vinha consigo a cavalo? Não, não vi quem era. Mas mesmo que tivesse visto acataria o seu desejo. Desde que não fosse ele - acrescentou Niall em voz cortante - que tivesse voltado atrás, a pé, para assegurar o seu silêncio. Porque, sim, esse queria mesmo matá-la!

- Não, não era ele. Foi-se embora, nós ouvimo-lo. Além disso não o faria. Sabia que eu cumpriria a minha palavra quanto ao que combinámos. Não, o outro era algum miserável que vive do que apanha na estrada. E precisamos de avisar Hugh Beringar-disse ela-quando regressarmos. Este lugar é muito solitário. Mais vale que ele saiba que andam por aqui homens sem lei.

Tinha soltado sobre os ombros a grande cabeleira ondulada, pronta para o sono de que tanto precisava. As pálpebras grandes e translúcidas pesavam-lhe sobre os olhos cinzentos. O brilho da luz da vela ao incidir sobre a sua palidez fatigada fazia-a parecer uma mulher feita de madre-pérola. Ele olhou-a e o coração doeu-lhe.

- Como é que o senhor estava ali quando eu precisava tanto de si? - perguntou ela, admirada. - Bastou-me soltar um grito, e apareceu. Foi como a graça de Deus, uma mercê imediata.

- Regressava de Pulley - disse Niall, abalado e por um momento com dificuldade em falar devido à súbita intensidade doce da voz dela - e vi... vi, ouvi, não: senti no sangue... quando a senhora passou. Nunca pensei incomodá-la, apenas certificar-me de que chegava em segurança aonde quer que pretendesse ir.

- Reconheceu-me? - perguntou ela, admirada.

- Sim. Sim, reconhecia-a.

- Mas não o homem?

- Não, o homem não.

- Creio - disse ela, como uma resolução que de súbito a reanimava-que o senhor pode saber, mais do que todas as outras pessoas, que deve saber. Creio que quero contar-lhe tudo, a si e à irmã Magdalen... mesmo o que o mundo não deve saber, mesmo o que prometi ocultar.

- Por isso está a ver - disse ela com singeleza, chegando ao fim da sua história, que levara apenas uns minutos a contar - como me sirvo de si desavergonhadamente, irmã, vindo aqui. Estive desaparecida e fui procurada por toda a parte durante três dias, e amanhã tenho de regressar para enfrentar todos os que se esforçaram e sofreram por mim, e dizer-lhes que estive aqui consigo, que fugi aos meus problemas porque me pesavam demasiado, que vim aqui abrigar-me sem uma palavra a ninguém, neste retiro onde uma vez me ofereceu refúgio do mundo. Bem, não será uma mentira completa, pois estou aqui, ainda que apenas pelo que resta desta noite. Mas sinto vergonha de me servir de si desta forma. E, contudo, amanhã tenho de regressar-mas era já hoje, pensou ela numa confusão de cansaço e de alívio. - Não posso deixá-los mais tempo do que o necessário na dúvida e ansiosos, agora que sou livre para regressar. Caso contrário, sabe Deus que ficaria cá, e com que alegria!

- Não vejo necessidade de se preocupar com escrúpulos -disse a irmã Magdalen com sensatez.-Se desta forma se poupa a si e aojovem idiota a quem perdoou, e cala a boca aos linguareiros, acho que é uma solução tão boa como outra qualquer. E a necessidade de tranquilidade e de conselho é algo que pode declarar sem corar, pois não é mentira nenhuma. E, já agora, pode voltar quando quiser, e ficar tanto tempo quanto quiser, como já lhe disse. Mas tem razão, é justo tranquilizá-los e pôr fim à busca. Mais tarde, quando tiver descansado, regressa para os enfrentar a todos, e dizer que veio ter comigo quando o mundo e a estupidez dos homens (excluindo os presentes, claro!) a levaram ao desespero. Mas voltar a pé, devagarinho, é que não vai. Acha que eu deixava uma mulher sair tão mal servida de um retiro junto de mim? Levará a mula da madre Mariana (pobre alma, agora está acamada, não voltará a montar) e eu acompanho-a, para dar cor e corpo a tudo. Aproveito para desempenhar uma missão junto do senhor abade.

- E se perguntam quanto tempo aqui estive? - perguntou Judith.

-Comigo a seu lado? Não perguntam. Ou, se perguntarem, não respondemos. As perguntas são tão flexíveis como as varas de salgueiro-disse a irmã Magdalen, levantando-se com autoridade para os conduzir às camas que lhes tinham preparado -, é fácil passar por elas e afastá-las para o lado, sem que ninguém sofra.

 

Os irmãos estavam nesse mesmo momento a sair da igreja depois da missa, e o Sol subia muito alto num céu azul-pálido, quando a pequena cavalgada da irmã Magdalen chegou ao portão da abadia. Estava-se na véspera da ascenção de Stª Winifred e nem mesmo por causa de mortes violentas, de desaparecimentos e de calamidades se pode permitir que a devida rotina da igreja caia no caos. Naquele ano não sairia a procissão solene de São Giles, na orla da cidade, para trazer mais uma vez as relíquias ao seu local de repouso no altar de Winifred, mas haveria missas de celebração e um dia de acesso ao relicário para os peregrinos que tinham pedidos especiais a fazer pela intervenção da santa. Este ano não eram assim tantos, mas mesmo assim a sala dos visitantes estava bem cheia e o irmão Denis andava ocupado com as provisões para os recém-chegados, e o irmão Anselmo com a nova música que tinha preparado em honra da santa. Os noviços e as crianças mal se apercebiam das preocupações mortais que haviam abalado a cidade e o Foregate nos últimos dias. Os irmãos mais novos, até mesmo os que eram mais próximos do irmão Eluric e haviam sentido profundamente a sua morte, quase o esqueciam agora, com a alegre perspectiva de um festival que lhes proporcionava mais pratos às refeições e privilégios adicionais.

Mas não era esse o caso do irmão Cadfael. Por muito que tentasse concentrar firmemente o espírito no ofício divino, este dispersava-se a cada momento para se preocupar com o problema de onde poderia estar agora escondida Judith Perle, e se, depois de tantos acontecimentos sinistros, a morte de Bertred poderia de facto ser o acidente fortuito e cruel que parecia ou se também ela tinha em si a mancha do assassínio. Mas se assim era, qual o motivo do assassínio, e quem o seu autor? Parecia não haver dúvidas de que o próprio Bertred era o assassino do irmão Eluric, mas os indícios faziam pensar que, longe de ser o raptor da sua ama, andara a investigar esse crime por sua própria conta, e tencionara libertá-la e depois explorar até aos limites o favor em que incorreria. Sem dúvida, o guarda dizia a verdade tanto quanto a conhecia. Bertred caíra do postigo, despertando o mastim, e fora perseguido até à margem do rio, com uma paulada na cabeça para apressar a fuga. Sim, mas só uma, e o corpo retirado do rio do outro lado mostrava um segundo ferimento, mais grave, embora nenhum dos dois por si só pudesse ter sido fatal. E se alguém o tivesse ajudado a entrar para a água com essa segunda pancada, depois de o guarda ter chamado o cão?

Se isso era uma possibilidade, quem poderia ter sido essa pessoa senão o raptor, alarmado com a interferência de Bertred e tentanto encobrir o seu próprio crime?

E Vivian Hynde estava fora, em Forton, a ajudar o pai com os rebanhos, não estava? Bem, talvez! Não por muito tempo! Se não cavalgasse direito aos braços do guarda da cidade antes do meio-dia Hugh mandaria uma guarda armada ir buscá-lo.

Cadfael tinha chegado àquele ponto preciso quando saíam para a luz do sol da manhã, e viu a irmã Magdalen a entrar pelo portão montando a sua velha mula parda que avançava com o seu habitual passo vagaroso e obstinado. Montava com a mesma competência sem pressas com que fazia tudo, sem alarido nem fingimento, e olhava em redor com os seus olhos brilhantes e observadores. Junto do estribo caminhava o moleiro do vau, o seu aliado de confiança em todas as coisas. À irmã Magdalen nunca haveria de faltar um homem que fizesse o que ela queria.

Mas atrás vinha outra mula, um animal mais alto, e branco, e quando atravessou o arco da casa do portão viram que também era montada por uma mulher, e que não envergava o hábito das beneditinas, mas um vestido verde-escuro, com uma estola a cobrir o cabelo. Uma mulher alta e esguia, direita e graciosa em cima da sela, o seu porte e a atitude da cabeça de uma dignidade notável e, de súbito, espantosamente familiar.

Cadfael parou tão abruptamente que o irmão que o seguia chocou com ele e tropeçou. À cabeça do grupo, o abade também havia parado de repente, e ficara a olhar com surpresa.

Ela tinha regressado, de livre vontade, quando queria. Livre, com compostura, muito pouco mudada, para os confundir a todos. Judith Perle puxou as rédeas da mula e parou-a ao lado da da irmã Magdalen. Estava mais pálida do que o irmão Cadfael se recordava. A sua pele era clara por natureza e translúcida como uma pérola, mas agora tinha uma brancura um tanto baça, e as pálpebras estavam um pouco inchadas e pesadas devido à falta de sono, brancas e azuladas como a neve. Mas também havia nela uma serenidade calma, embora sem alegria. Tinha o domínio de si própria, devolveu o olhar dos olhos atónitos e curiosos que a devoravam sem baixar os seus.

John Miller foi tirá-la da sela, e ela pôs-lhe as mãos sobre os ombros e pousou os pés sobre o chão empedrado do pátio grande com uma leveza que não conseguia ocultar por completo o seu cansaço. O abade Radulfus tinha conseguido recuperar a respiração e avançou ao encontro dela quando ela se lhe dirigiu e dobrou o joelho, curvando-se para beijar a mão que ele lhe estendia.

- Minha filha - disse Radulfus, comovido e contente -, como me alegra vê-la de regresso, intacta e de saúde. Temos estado muito preocupados consigo.

- Eu soube, meu pai - disse ela em voz baixa -, e censuro-me por isso. Sabe Deus que nunca desejei que alguém se afligisse por mim, e lamento ter causado tanto trabalho e despesa ao senhor, ao senhor xerife e a tantos homens bons. Procurarei compensar todos o melhor que puder.

- Oh, filha, os esforços feitos de boa vontade não exigem pagamento. Se regressou em segurança e de saúde, nada mais interessa. Mas como foi isto? Onde esteve todo este tempo?

- Meu pai - disse ela, retendo a respiração num momento de hesitação -, nada de mal me sucedeu, como vê. Eu é que fugi de um fardo que se tinha tornado demasiado pesado para que o suportasse sozinha. Terá de me perdoar o facto de eu não ter dito uma palavra a ninguém, mas a minha necessidade, o meu impulso, era súbito e urgente. Precisava de um local de tranquilidade e paz, de tempo para pensar, tudo o que a irmã Magdalen me tinha prometido se eu alguma vez precisasse de me isolar do mundo por pouco tempo, até que o meu coração conseguisse voltar a suportá-lo. Fugi para junto dela, e ela não me faltou.

- E chegou agora do Vau de Godric - disse Radulfus, com espanto. - Durante todo o tempo em que a julgávamos perdida, estava lá, tranquila e em segurança? Bem, eu agradeço a Deus! E lá ao Vau não chegou qualquer notícia da agitação em que nós andávamos?

- Nem uma palavra, pai abade - disse a irmã Magdalen prontamente. Tinha desmontado e aproximava-se sem pressa, alisando a saia do hábito para lhe tirar as rugas causadas pela cavalgada com as mãos cheias e bonitas, que já mostravam a idade. - Ali vivemos fora do mundo, e é raro sentirmos a sua falta. As notícias levam tempo a chegar. Desde a última vez que aqui estive nem uma alma vinda de Shrewsbury lá foi até à noite passada, quando apareceu um homem de Shrewsbury. Por isso trouxe Judith para casa, para acabar com as dúvidas e descansar todos os espíritos.

- Tal como o dela, espero eu - disse o abade, estudando atentamente o rosto pálido mas calmo -, está agora descansado, depois das pressões que a levaram a esconder-se. Três dias não é muito tempo para trazer a cura de um coração.

Ela olhou-o no rosto sem desviar os grandes olhos cinzentos e esboçou um sorriso muito ténue.

- Agradeço-lhe, pai, e agradeço a Deus: recuperei a minha coragem.

- Não duvido - disse o abade calorosamente - de que não poderia ter-se entregado em melhores mãos, e também eu agradeço a Deus que todos os nossos receios por si tenham sido afastados de forma tão satisfatória.

No silêncio breve e profundo a longa fila de irmãos que tinham sido obrigados a parar atrás do abade mudavam de posição e esticavam-se para ver bem a mulher que tinha sido procurada como perdida, chegando a falar-se dela em murmúrios com um leve sabor a escândalo, e agora regressava imaculada na pura companhia da subabadessa de um mosteiro beneditino, silenciando de forma eficaz os comentários, se não a especulação, e confrontando o mundo com uma compostura e uma dignidade inatacáveis. Até o prior Robert tinha perdido o aprumo a ponto de ficar parado a olhar, em vez de fazer gestos autoritários aos irmãos para que fossem desempenhar as suas diversas tarefas.

- Não querem que aqui lhes cuidem dos animais - convidou o abade - para que as senhoras descansem e tomem qualquer coisa? E eu mandarei imediatamente alguém ao castelo para dizer ao senhor xerife que a senhora está de novo entre nós, sã e salva. Pois é necessário que fale com ele o mais depressa possível e lhe explique a sua ausência como ma explicou a mim.

- É essa a minha intenção, meu pai - disse Judith -, mas tenho de ir para casa. A minha tia, o meu primo e todos os meus empregados devem ainda estar ansiosos por minha causa, tenho de me mostrar a eles imediatamente para pôr termo à sua inquietação. Vou já mandar recado ao castelo, a Hugh Beringar, e ele pode vir ter comigo ou mandar chamar-me assim que quiser. Mas não podíamos passar e entrar na cidade sem primeiro vir informá-lo.

- Foi muito atenciosa, e eu agradeço. Mas, irmã, confio que ficará connosco enquanto cá está?

-Hoje-disse a irmã Magdalen -, acho que devo acompanhar Judith até que esteja de novo junto da família, em segurança, e servir-lhe de advogada junto do xerife, no caso de ela precisar. A autoridade pode ser menos indulgente que o senhor em relação ao trabalho e ao tempo perdido. Pelo menos passarei a noite com ela. Mas amanhã espero ter uma conversa consigo. Trouxe comigo o frontal do altar, qua a madre Mariana tem estado a fazer desde que caiu à cama. As suas mãos não perderam nada da sua habilidade, acho que o senhor vai gostar. Mas está muito bem embalado no rolo da minha sela, prefiro não me atrasar a desfazê-lo. Se me emprestar o irmão Cadfael para nos acompanhar até à cidade, acho que talvez Hugh Beringar fique satisfeito por com ele ter uma conferência quando nos encontrarmos, e depois o irmão podia trazer-lhe o pano do altar.

O abade Radulfus já a conhecia suficientemente bem para saber que todos os pedidos que fazia tinham um motivo. Olhou em redor em busca de Cadfael, que já estava a sair das fileiras dos irmãos.

- Sim, vá com a nossa irmã. Tem autorização durante tanto tempo quanto for preciso.

- Com a sua aprovação, meu pai-disse Cadfael prontamente -, e se a irmã Magdalen concordar, eu podia ir directamente ao castelo e levar a mensagem a Hugh Beringar depois de termos levado a Srª Perle a casa. Ainda há-de ter homens a percorrer a região, quanto mais depressa os puder chamar, melhor.

- Sim, concordo! Vá, então! - Foi à frente até ao local onde os aguardavam as mulas, com John Miller, sólido e passivo, ao lado. Os irmãos, que já podiam abandonar a fila e sair do pórtico, seguiram obedientemente os seus caminhos, não sem lançar vários olhares por sobre o ombro para ver as duas mulheres montar e partir. Entretanto, Radulfus puxava Cadfael de lado e dizia em voz baixa:

- Se as notícias levam tanto tempo a chegar ao Vau de Godric, pode ser que ela ainda não saiba tudo o que aqui aconteceu, e nem tudo será agradável de ouvir. Aquele empregado dela que morreu, pior, que é culpado...

-Tinha pensado nisso-disse Cadfael, também em voz baixa. - Ela vai saber ainda antes de chegar a casa.

Assim que se encontraram em terreno aberto junto da ponte, avançando ao passo obstinado das mulas que se recusam a ser apressadas, Cadfael colocou-se ao lado de Judith e disse brandamente:

- Esteve ausente durante três dias. Terei de lhe relatar, antes que enfrente outros, tudo o que sucedeu durante esses três dias?

- Não é preciso-disse ela com simplicidade. -Já me fizeram um relato.

- Talvez não de tudo, pois nem tudo é conhecido pelas pessoas em geral. Houve mais uma morte. Ontem à tarde encontrámos um cadáver arrastado para a nossa margem do rio, para lá do fim de Gaye. Um homem afogado... um dos seus tecelões, ojovemBertred. Digo-lhe agora - disse com doçura ao ouvir como ela inspirava súbita e dolorosamente o ar - porque em casa vai encontrá-lo no caixão, pronto para o funeral. Não podia deixá-la entrar em casa e deparar-se com uma coisa destas sem estar prevenida.

- Bertred afogado? - disse ela num murmúrio chocado. - Mas como pode ter acontecido uma coisa destas? Ele nada como uma enguia. Como pôde ter-se afogado?

- Tinha apanhado uma pancada na cabeça, mas isso só pode ter-lhe posto a cabeça a andar à roda por um bocado. E, não se sabe como, apanhou outra pancada antes de entrar na água. Seja o que for que lhe sucedeu, foi durante a noite. O guarda de Fuller tinha uma história para contar - disse Cadfael com cuidadosa ponderação, e passou a reproduzi-la, quase palavra por palavra, tanto quando se lembrava. Ela continuou sentada sobre a mula num silêncio gelado enquanto a história durou e ele quase a sentiu paralisar-se quando relacionou a hora da noite, o local e sem dúvida também a sala acanhada, suja e meio esquecida atrás dos fardos de lã. Seria difícil cumprir o silêncio e a palavra dada. Perdera-se um segundo jovem, destruído pelo contacto de alguma falha fatal que nela existia, e dificilmente salvaria um terceiro, agora que tanto se haviam aproximado da verdade.

Tinham chegado ao portão e entraram, passando sob o arco. Na íngreme subida do Wyle as mulas caminhavam ainda mais devagar e ninguém tentava apressá-las.

- Há mais - disse Cadfael. - Lembra-se da manhã em que encontrámos o irmão Eluric, e o molde que fiz da pegada da bota. As botas que tirámos do corpo de Bertred quando o levámos, já morto, para a abadia... a bota do pé esquerdo... condiz com o molde.

- Não! - disse ela, angustiada e incrédula. - Não é possível! Tem de haver um erro terrível.

- Não há nenhum erro. Não há erro possível. Condizem completamente.

- Mas porquê? Porquê? Que motivo poderia ter Bertred para tentar derrubar a minha roseira? Por que razão atacaria o jovem irmão? - E numa voz perdida e distante, quase para si própria, disse: - E ele não me contou nada!

Cadfael nada disse, mas ela soube que ele tinha ouvido. Após um silêncio Judith disse:

- O senhor vai ouvir. Vai saber. Será melhor apressarmo-nos. Tenho de falar com Hugh Beringar. - Sacudiu as rédeas e apressou o passo para percorrer a Rua Principal. Nas portas das lojas começavam a surgir cabeças, excitadas ao reconhecê-la, os vizinhos acotovelavam-se e quando ela se encontrava mais próximo de casa dirigiam-lhe saudações, mas ela mal reparou. Em breve se espalharia a notícia de que Judith Perle regressara a casa, a cavalo, e em respeitável e religiosa companhia, depois de tanto se ter falado de que fora raptada por qualquer patife com o intuito de a violar para a forçar a casar.

A irmã Magdalen mantinha-se muito chegada a ela, para que ninguém duvidasse de que viajavam juntas. Durante a viagem desde a abadia não dissera nada, embora tivesse bons ouvidos e uma inteligência viva e sem dúvida escutara a maior parte do que fora dito. O moleiro, talvez propositadamente, deixara que fossem muito à frente dele. A sua única preocupação era que, fosse qual fosse a intenção da irmã Magdalen, esta seria boa e sensata, e ele não podia consentir que nada nem ninguém a impedisse. Curiosidade tinha muito pouca. O que ele precisava de saber para lhe ser útil a irmã Magdalen dir-lho-ia. Há tanto tempo que ele era o seu competente auxiliar que havia coisas que conseguiam comunicar entre eles e compreender sem palavras. Tinham chegado à Travessa de Maerdol e pararam diante da casa dos Vestier. Cadfael ajudou Judith a desmontar, pois a passagem através da fachada para o pátio, embora larga, era demasiado baixa para que alguém entrasse montado. Mal ela tinha pousado os pés no chão, o correeiro da loja ao lado veio espreitar com os olhos arregalados de espanto e voltou para trás com igual prontidão para dar a notícia a um cliente que tinha lá dentro. Cadfael segurou a rédea da mula branca e seguiu Judith através da passagem sombria até ao pátio. Vindo da direita, da oficina, chegou até eles o ruído das pancadas rítmicas dos teares, e do átrio vinha o som fraco de vozes abafadas. As mulheres que fiavam falavam em voz fraca e desanimada e naquela casa enlutada não se cantava.

Branwen ia a atravessar o pátio em direcção à porta do átrio e voltou-se ao ouvir o som nítido das pequenas ferraduras sobre a terra batida da passagem. Soltou um grito penetrante e agudo, fez menção de correr para a ama, com o rosto brilhande de espanto e de de alegria, e depois mudou de ideias e correu para a casa, gritando pela Dama Agatha, por Miles, por toda a gente da casa, que viessem depressa ver quem ali estava. E logo apareceu Miles, saindo precipitadamente do átrio, de olhos arregalados, acalorado como uma candeia acesa, correndo de braços abertos para a prima.

- Judith... Judith, és mesmo tu! Oh, minha querida, onde estiveste todo este tempo? Onde estiveste? Quando andávamos todos numa roda-viva e numa aflição, a procurar-te em todas as valas e em todos os becos? Sabe Deus que comecei a julgar que nunca mais voltaria a ver-te. Onde estiveste? Que te aconteceu? Antes que ele tivesse terminado as exclamações chegou a mãe, cheia de palavras ternas e chorosas e de agradecimentos piedosos a Deus por ver a sobrinha de regresso a casa, viva e de boa saúde. Judith submeteu-se a tudo pacientemente, e foi poupada a ter de responder até eles terem esgotado as perguntas; nessa altura já as fiadeiras tinham saído para o pátio e os tecelões tinham deixado os teares, e uma dúzia de vozes ao mesmo tempo produziam um tumulto onde não seria ouvida mesmo que tivesse falado. Na casa enlutada soprou um vento de alegria que não se abafou mesmo quando a mãe de Bertred saiu para a olhar juntamente com os restantes.

- Lamento - disse Judith quando a tempestade se acalmou por momentos - que tenham estado preocupados comigo, não era essa a minha intenção. Mas agora estão a ver que não me aconteceu nenhum mal, não precisam de se preoupar mais. Não voltarei a desaparecer. Estive no Vau de Godric com a irmã Magdalen, que teve a bondade de regressar comigo. Tia Agatha, faz-me o favor de preparar uma cama para a minha convidada? A irmã Magdalen vai passar a noite aqui.

Agatha olhou para a sobrinha, depois para a freira, e de novo para a sobrinha com um sorriso doce nos lábios e um brilho astuto e esperançoso nos olhos azuis. A rapariga regressara do mosteiro acompanhada da sua protectora. Sem dúvida voltara ao antigo anseio pela paz da renúncia, por que outro motivo haveria de fugir para um convento beneditino?

- Claro, de todo o coração!-disse Agatha com fervor.-Irmã, é calorosamente bem-vinda. Venha para dentro de casa, por favor, que eu vou trazer-lhe vinho e bolos de aveia, pois deve estar cansada e com fome depois da viagem. Tanto a casa como nós estamos às suas ordens, estamos todos em dívida para consigo. - E foi à frente, a indicar o caminho com a graça consciente de uma castelã. Cadfael, que observava um pouco à parte, pensou que em três dias ela já se tinha habituado a considerar-se a dona da casa; o hábito não pode fazer-se desaparecer de um instante para o outro.

Judith preparou-se para as seguir, mas Miles, com ar grave, colocou-lhe a mão sobre o braço para a deter por um momento.

- Judith - disse-lhe ao ouvido, com solicitude ansiosa -, fizeste alguma promessa? A freira? Não deixaste que ela te persuadisse a tomar o véu?

- Opões-te assim tanto à vida do claustro para mim? - perguntou ela, estudando-lhe o rosto com indulgência.

- Não, se é isso que tu queres, mas... Por que correste para ela, a menos que...? Não te prometeste a ela, pois não?

- Não - disse Judith -, não fiz nenhuma promessa.

- Mas foste ter com ela... bem! - disse ele, afastando a sua própria solenidade.-Tu é que tens de fazer o que verdadeiramente queres. Vamos, entremos!-E afastou-se dela e chamou um dos tecelões para que se encarregasse do moleiro e das mulas, para que fossem todos bem tratados, e enxotou as fiadeiras para que regressassem ao trabalho, mas com bom humor. - Irmão, venha connosco, é muitíssimo bem-vindo. Então na abadia já sabem? Que Judith regressou a casa?

- Sim - disse Cadfael -Já sabem. Eu vim para levar comigo uma prenda que a irmã Magdalen trouxe para a capela de Nossa Senhora. E tenho um recado da Srª Perle para o castelo.

Miles deu um estalo com os dedos, recuperando de súbito a gravidade.

-Meu Deus, claro! Agora o xerife já pode dar por finda a busca. Mas... Judith, tinha-me esquecido! Deve haver coisas que ainda não sabes. Está cá Martin Bellecote, com o rapaz a ajudá-lo. Não entres na câmara pequena, estão a meter Bertred num caixão. Afogou-se no Severn, há duas noites. Desejaria não ter de estragar o dia com notícias tão más.

- Já me tinham contado - disse Judith em voz uniforme. - O irmão Cadfael não quis que eu regressasse sem estar preparada. Um acidente, segundo me disseram.

Na escassez das suas palavras e na inexpressividade do seu tom de voz havia algo que fez que Cadfael parasse e a olhasse atentamente. Ela partilhava a sua preocupação. Achava quase impossível aceitar que um facto relacionado com a sua pessoa e os seus assuntos durante aqueles dias de Junho fosse um mero acidente.

- Vou agora procurar Hugh Beringar - disse Cadfael. E deixou-os no limiar para regressar à rua.

Sentaram-se juntos na câmara privativa de Judith, em grave conferência, Hugh, a irmã Magdalen, Judith e Cadfael, terminadas as saudações, numa formalidade um pouco constrangida. Miles andava por ali, com pouca vontade de se separar da prima que havia recuperado, olhando respeitosamente Hugh, meio à espera de ser mandado embora, mas com uma mão sobre o ombro de Judith num gesto protector, como se ela precisasse de ser defendida. Contudo, foi Judith quem o mandou sair. Fê-lo com súbita ternura familiar, levantando os olhos para o seu rosto com um ténue sorriso afectuoso:

- Não, Miles, deixa-nos. Mais tarde teremos tempo para conversar tanto quanto quiseres, e saberás tudo o que sentires necessidade de perguntar, mas agora prefiro não ter nada que me distraia. O tempo do senhor xerife é precioso, e devo-lhe a minha atenção completa, depois do grande transtorno que lhe causei.

Mesmo assim ele hesitou, de sobrancelhas franzidas, mas depois apertou com ternura a mão dela.

- Não desapareças outra vez!-disse, e saiu da sala em passos ligeiros, fechando firmemente a porta atrás de si.

-A primeira coisa que tenho para lhe contar, e a mais urgente - disse então Judith, olhando Hugh no rosto - não queria que ele nem a minha tia ouvissem. Já passaram por muita inquietação por minha causa, não há necessidade de saberem que corri perigo de vida. Meu senhor, há salteadores na floresta, a menos de uma milha do Vau de Godric. Assaltam os viajantes de noite. Eu fui atacada. Pelo menos um homem, não posso garantir mais nada, embora seja comum caçarem aos pares, segundo creio. Tinha uma faca. Fiquei só com um arranhão no braço, mas a intenção dele era matar. O próximo viajante pode não ter tanta sorte. Isto era a primeira coisa que eu tinha de lhe dizer.

Hugh estudava-a com rosto impassível mas olhos sérios. Miles atravessou o átrio a assobiar em direcção à oficina.

- E isso foi a caminho do Vau de Godric? - disse Hugh.

- Foi.

- Ia sozinha? De noite, na floresta? Era manhã cedo quando saiu de Shrewsbury... a caminho da abadia. - Voltou-se para a irmã Magdalen: - A senhora sabia disto?

- Soube-o por Judith - disse Magdalen com serenidade.-De outra forma, não, não houve sinal da existência de bandidos tão próximo de nós. Se algum dos homens da floresta soubesse de tal coisa eu teria sido informada. Mas se pergunta se acredito na história, sim, acredito. Fui eu quem lhe tratou o braço, assim como tratei o homem que veio em seu auxílio e afugentou o bandido. Sei que o que Judith lhe contou é verdade.

- E o quarto dia desde o seu desaparecimento - disse Hugh, voltanto de novo o olhar inocente dos seus olhos negros para Judith. - Terá sido sensato demorar tanto até me avisar de que havia tão perto homens sem lei? E as próprias irmãs assim expostas ao perigo? Um dos vizinhos trabalhadores da floresta da irmã Magdalen podia ter trazido uma mensagem. E então teríamos sabido que a senhora estava a salvo, e não precisaríamos de temer por si. Eu poderia ter mandado imediatamente homens limpar a floresta.

Judith hesitou apenas por um momento, e mesmo assim mais para organizar as ideias do que para pensar em ocultar os factos. Parte da tranquilidade segura da irmã Magdalen tinha entrado nela. Disse devagar, escolhendo bem as palavras:

-Meu senhor, a minha história para o mundo é que fugi de uma carga de problemas para me refugiar junto da irmã Magdalen, que passei todo este tempo com ela, e ninguém tem nada a ver com a minha ida ou com o meu regresso. Mas para si a minha história, se o senhor respeitar esta condição, pode ser muito diferente. Há coisas verdadeiras que não lhe contarei, e perguntas às quais não responderei, mas tudo o que lhe contar, todas as respostas que lhe der, serão verdadeiras.

- Considero a proposta justa - disse a irmã Magdalen em tom de aprovação-e se fosse a si, Hugh, aceitava. Ajustiça é uma coisa muito boa, mas não quando prejudica mais a vítima que o malfeitor. A rapariga sai bem da situação, e assim devem ficar as coisas.

- E em que noite - disse Hugh, ainda sem se comprometer - a atacaram na floresta?

- Na noite passada. Devia passar da meia-noite, talvez uma hora.

- Uma boa hora - disse Magdalen, prestável. - Tínhamos acabado de regressar à cama depois das Laudas.

- Muito bem! Vou mandar uma patrulha esquadrinhar a floresta uma milha em redor. Mas nunca se soube de ninguém que causasse problemas naquela região, para além dos rapazes de Powys, e quando eles se movimentam nós somos normalmente avisados a tempo. Deve ser algum solitário, um servo maltratado que resolveu levar uma vida selvagem. Agora - disse Hugh, e de súbito sorriu a Judith - conte-me o que achar bem, desde o momento em que foi arrastada para dentro de um barco junto de Gaye até à noite passada, quando chegou ao Vau. E quanto ao que farei com essa informação, terá de confiar em mim.

- Confio em si - disse ela, lançando-lhe um olhar prolongado e firme. - Acredito que me vai poupar e que não me forçará a romper a minha palavra. Sim, fui arrastada, sim, estive prisioneira até há duas noites, e fui importunada para consentir em casar. Não lhe direi onde, nem por quem.

- Quer que eu lhe diga? - propôs Hugh.

- Não, disse ela, num protesto vivo. - Se o senhor sabe, pelo menos deixe-me ter a certeza de que não foi por mim, nem por palavras nem por um olhar. Passados dois dias ele estava arrependido do que tinha feito, amargamente, desesperadamente; não via saída, não via maneira de fugir ao castigo, e não lhe tinha servido de nada, nunca serviria e ele sabia-o. Desejava de todo o coração ver-se livre de mim, mas se me libertasse receava que eu o denunciasse, e se eu fosse encontrada também estaria arruinado. No fim - disse ela com simplicidade -, tive pena dele. Não me tinha feito sofrer qualquer violência, a não ser quando fui capturada, tinha tentado convencer-me, era demasiado temeroso, e a sua índole era demasiado boa para me tomar à força. Estava sem saída, e pediu-me ajuda. Além disso - concluiu vigorosamente -, eu também queria que o assunto acabasse sem um escândalo. Queria isso muito mais que vingar-me dele. Por fim já não queria vingança nenhuma, estava vingada. Eu é que o dominava, conseguia obrigá-lo a fazer o que eu ordenasse. Fui eu quem fez o plano. Ele levar-me-ia durante a noite ao Vau de Godric, ou próximo, pois tinha medo de ser visto ou reconhecido, e dali eu regressaria a casa como se tivesse lá estado todo esse tempo. Era demasiado tarde para partir nessa mesma noite, mas na noite seguinte, a noite passada, partimos juntos a cavalo. Ele pôs-me no chão apenas a meia milha do Vau. E foi depois disso, depois de ele ter partido, que fui atacada.

-Não conseguiu ver o aspecto do homem? Não havia nele nada que reconhecesse, ou pudesse vir a reconhecer, pela vista ou pelo tacto, pelo odor, fosse pelo que fosse?

-Ali na floresta, antes de a Lua surgir, está escuro como breu. E acabou tudo muito depressa. Ainda não lhe contei quem veio em meu auxílio. A irmã Magdalen sabe, ele regressou connosco esta manhã, deixámo-lo na sua casa de Foregate. Nial, o latoeiro, que vive na casa que outrora foi minha. Como tudo aquilo que sou, e sei, e sinto, e todos os que se aproximam de mim - disse com súbita emoção -, tudo gira em redor daquela casa e daquelas rosas. Quem me dera nunca a ter deixado, podia tê-la dado à abadia e mesmo assim ser sua inquilina. Foi um erro abandonar o local onde existia o amor.

“Onde existe o amor”, pensou Cadfael, escutanto a voz controlada tão bruscamente vibrante e intensa e observando o rosto pálido e fatigado iluminar-se como uma candeia acesa. E era Niall quem estava junto dela num momento de vida ou de morte!

A chama brilhou um pouco e acalmou-se, mas não se apagou.

-Agora já lhe contei-disse ela. - Que vai fazer? Prometi que não pediria nenhuma acusação contra... contra ele, o homem que me raptou. Não lhe levo a mal. Se o senhor o prender e o acusar, não servirei de testemunha contra ele.

- Quer que lhe diga - perguntou Hugh brandamente - onde ele está agora? Está no castelo, numa cela. Entrou a cavalo pelo portão leste menos de meia hora antes de Cadfael me ir procurar, e nós enfiámo-lo na prisão antes que ele soubesse o que se estava a passar. Ainda não foi interrogado nem acusado de nada, e ninguém na cidade sabe que o temos lá. Posso libertá-lo, ou deixá-lo ali a apodrecer até o tribunal se reunir. Posso compreender que a senhora deseje enterrar o assunto, respeito a sua intenção de cumprir a palavra dada. Mas ainda há a questão de Bertred.

Bertred andava lá por fora na noite em que fizeram os vossos planos...

- Cadfael contou-me - disse ela, direita e mais uma vez atenta.

- Na noite da morte dele, que pode, ou não, ser um mero acidente. Andava a rondar com o intuito de forçar a entrada e... roubar, digamos? E é possível que a sua morte no rio tenha sido auxiliada.

Judith abanou a cabeça, resoluta.

- Não pelo homem que o senhor diz que tem preso. Eu sei, pois estava com ele.-Mordeu os lábios e reflectiu por instantes. Quase nada havia por dizer além do nome que não pronunciaria. - Estávamos ambos lá dentro, ouvimo-lo cair, embora na altura não soubéssemos o que se passava. Tínhamos ouvido leves ruídos lá fora, ou pensávamos que tínhamos. Depois voltámos a ouvir, ou pelo menos ele. Mas nessa altura ele já estava tão assustado que cada sussurro o fazia tremer da cabeça aos pés. Mas não me deixou. Fosse o que fosse que sucedeu a Bertred, ele não teve nada a ver com isso.

- Isso já basta como prova - concordou Hugh, convencido. - Muito bem, será como quer. Ninguém precisa de saber mais do que aquilo que a senhora quiser contar. Mas, por Deus, ele há-de saber o verme que é, antes de eu o correr a pontapé da prisão e de o mandar para casa com as orelhas a arder. Isso a senhora não me vai negar, ele ainda pode dar-se por feliz por se safar tão facilmente.

- Ele é uma pessoa de pouco valor - disse Judith com indiferença -, quer para o bem, quer para o mal. Não passa de um rapaz tolo. Mas não é um grande patife, e é suficientemente jovem para se emendar. Mas há ainda Bertred. Diz-me o irmão Cadfael que foi ele quem matou o jovem monge. Eu não percebo nada, nem isso nem por que haveria o próprio Bertred de morrer. Niall contou-me, a noite passada, o que se passou aqui na cidade depois de eu ter desaparecido. Mas não me falou de Bertred.

- Duvido que ele soubesse - disse Cadfael. - Só o encontrámos de tarde, e embora a notícia se espalhasse pela cidade, naturalmente, depois de o termos trazido para cá, duvido que tivesse chegado à extremidade de Foregate onde vive Niall, e decerto eu não lhe falei do assunto. Como apareceu ele ali, junto do Vau de Godric, quando a senhora precisava dele?

- Viu-nos passar - disse Judith - antes de entrarmos na floresta. Nessa altura vinha de regresso a casa, mas reconheceu-me, e seguiu-nos. O que foi muito bom para mim! Mas Niall sempre foi bom para mim, nas poucas vezes que nos encontrámos ou nos tocámos.

Hugh levantou-se para partir.

- Bem, mandarei Alan ir com uma patrulha à floresta para passar uma revista completa. Se temos por lá um ninho de homens selvagens, expulsá-los-emos. Minha senhora, nada será tornado público do que aqui foi dito. O assunto está encerrado, tal como é seu desejo. E graças a Deus que não terminou de forma pior. Agora confio que a deixem em paz.

- Só que não estou segura quanto a Bertred - disse Judith bruscamente. - Nem quanto à sua culpa nem quanto à sua morte. Tão bom nadador, nascido e criado junto da água. Por que haveria a sua habilidade de o deixar mal, logo naquela noite?

Hugh tinha partido, de regresso ao castelo, para mandar parar os homens que participavam na busca assim que regressassem para comunicar os resultados e, ou para tratar lealmente o desgraçado Vivian Hynde ou, mais provavelmente, para o deixar a suar e a afligir-se durante uma noite ou mais numa cela fria. Cadfael pegou no frontal do altar, cuidadosamente enrolado, que a irmã Magdalen tinha retirado do rolo da cela, e partiu de regresso à abadia. Mas primeiro espreitou na pequena sala nua onde o corpo de Bertred, dentro do caixão, repousava sobre os cavaletes e o mestre carpinteiro e o filho ajustavam a tampa e diziam uma oração pelo jovem perdido. A irmã Magdalen acompanhou-o até à rua e aí parou, ainda silenciosa e de testa franzida, reflectindo intensamente.

- Está tudo bem? - disse Cadfael, ao vê-la tão taciturna.

- Não, nada bem. Muito mal! -Abanou a cabeça, duvidosa. - Não consigo entender este padrão. O que sucedeu a Judith está bastante claro, mas não consigo perceber o resto. Ouviu o que ela disse acerca da morte de Bertred? As mesmas dúvidas que sinto acerca do que quase poderia ter sido a morte dela, se não fosse o latoeiro. Haverá alguma coisa nesta meada que tenha sucedido por puro acaso? Duvido!

Ele ainda reflectia quando começou a subir a encosta em direcção à Rua Principal, e quando se aproximou da esquina, por qualquer motivo abrandou o passo e voltou-se para olhar para trás, e ela ainda estava de pé na embocadura da passagem, de olhos fixos nele, com as mãos fortes cruzadas sobre o cinto. Nada por puro acaso, não, decerto que não; até mesmo os acontecimentos que pareciam arbitrários traziam um eco de falsidade. Parecia antes que se dera uma sequência de factos, cada um seguindo o anterior e provocados por motivos e interesses até ali inatingidos, de forma que o assunto acabara por descrever um círculo, conduzindo as almas impotentes nele envolvidas para onde nunca teriam tencionado ir. Mais rápido e resoluto do que a havia deixado, Cadfael regressou para junto da irmã Magdalen.

- De facto fiquei a pensar - disse ela sem revelar surpresa - no que se passaria no seu espírito. Poucas vezes o tenho visto assistir a uma conferência como esta falando tão pouco e com uma expressão tão carrancuda. Em que pensou agora?

- Há uma coisa que gostaria que me fizesse, já que vai ficar nesta casa - disse Cadfael. - Com o funeral do jovem e o regresso de Judith, não deverá ser muito difícil tirar à sucapa dois objectos e mandar-mos à abadia. Mande-mos pelo rapaz do Martin, Edwy, se eles ainda cá estiverem, mas nem uma palavra a mais ninguém. É um empréstimo, não um roubo. Sabe Deus que não vou ficar com eles muito tempo, de uma forma ou de outra.

- Está a despertar o meu interesse - disse Magdalen. - Que dois objectos são esses?

- Dois sapatos do pé esquerdo - disse Cadfael.

 

Agora que o seu espírito ligava por meio de uma cadeia de um sentido odioso os detalhes que até aí pareciam não o ter, não conseguia dedicar o pensamento a mais nada. Durante as Vésperas lutou por concentrar-se no ofício, mas a lamentável sequência de desgraças relacionadas com a renda da rosa marchava inexoravelmente através do seu espírito, dispondo-se gradualmente segundo uma ordem lógica. Primeiro Judith, ainda vazia e infeliz depois de três anos solitários, pensando e por vezes falando em recolher-se a um convento e aborrecida por uma quantidade de pretendentes velhos e novos, que tinham andado todo o tempo de olho na sua pessoa e na sua fortuna e que tentavam seduzi-la e convencê-la sem resultado, e agora começavam a desesperar, receando que ela concretizasse a sua intenção e se tornasse uma religiosa. Depois o ataque à roseira, para recuperar pelo menos a possibilidade de voltar a ganhar a casa, e a consequente morte do irmão Eluric, provavelmente, quase certamente mesmo, não planeada e cometida por pânico. Depois disso, por muito amargamente que o lamentasse, um homem pelo menos já tinha um assassínio contra si e seria mais provável que mais tarde não se detivesse perante nada. Mas depois, para confundir e complicar, deu-se o rapto de Judith, outra medida devida ao pânico, para a impedir de tornar incondicional a sua dádiva e tentar persuadi-la a casar, ainda que com ameaças. Ainda que o seu nome não tivesse sido citado, sabia-se quem era o autor dessa enormidade. E a morte nocturna de Bertred poderia ter a sua lógica, se tivesse sido provocada por esse homem, mas era evidente que não o fora. Judith garantira-o, e provavelmente a mãe de Vivian Hynde poderia fazer o mesmo, já que parecia claro que, uma vez estabelecido o acordo entre a cativa e o raptor, Judith tinha sido transferida para o maior conforto de uma casa que já tinha sido visitada durante a busca, e a sala escondida do armazém engenhosamente liberta de todos os vestígios da sua presença. Até aí tudo bem! Mas de noite havia alguém, lá fora, que escutava, primeiro Bertred e depois provavelmente outra pessoa, a não ser que Vivian tivesse chegado a um tal estado que até mesmo o movimento de uma aranha ou de um rato sobre o telhado o alarmasse. Era muito possível que o plano tivesse sido escutado, e o cavalo com a sua carga dupla podia ter sido seguido por outra pessoa além de Niall, o latoeiro. E isso fecharia o desastroso círculo, com maior certeza ainda se aquele que o iniciara era o que tentara dar-lhe um fim.

Pois basta considerar, reflectiu Cadfael, enquanto o seu espírito deveria dedicar-se a assuntos mais tranquilos e intemporais, como Vivian Hynde dá um excelente bode expiatório para quem atacou Judith na floresta. O homem que a tinha raptado, que tinha, em vão, tentado forçá-la a casar, que depois a havia acompanhado a cavalo de noite, na floresta, e talvez não confiasse que ela cumprisse a sua promessa de não o trair, teria preferido desmontar depois de a ter posto no chão e voltar para trás apressadamente para lhe acabar com a vida. Era verdade que Judith o tinha defendido, que ela estava certa de que ele não tinha voltado para trás, que em vez disso fora a toda a pressa para casa, ou para Forton, para junto dos rebanhos do pai. Mas e se a tentativa tivesse sido bem sucedida, e Judith tivesse ficado morta na floresta, e não houvesse uma testemunha que lhe fizesse justiça?

Um bode expiatório para um assassínio, fornecido antecipadamente, prosseguiu Cadfael. E se tivesse havido outro para o primeiro assassínio, não fornecido antecipadamente, mas arranjado depois, já que a morte não fora premeditada. Um bode expiatório que surgira de súbito, indefeso e vulnerável, e já amarrado para a execução, trazendo consigo num instante a inspiração da sua utilidade e a certeza da sua morte? Ainda não o acaso, mas a consequência irónica do que se passara antes.

E toda aquela complicação de lógica e de culpa dependia de dois sapatos do pé esquerdo que ele ainda não tinha visto. “Quanto mais velhos, melhor”, dissera ele, quando Magdalen, inteligente e imune à surpresa, o interrogara sobre os pormenores. “Quero-os bastante usados.” Poucas pessoas possuem vários pares de sapatos, só os ricos, mas uma das pessoas em que ele pensava já não precisava de nenhum dos seus bens, e o outro sem dúvida teria mais de um par. “Não os novos”, dissera Cadfael com firmeza, “pois decerto tem uns novos. Dificilmente dará por falta dos mais velhos.”

As Vésperas haviam terminado, e Cadfael reservou algum tempo para ir à sua oficina e ao jardim das ervas medicinais antes dojantar, não fosse o rapaz lá estar à sua espera. O filho do mestre carpinteiro conhecia bem o lugar, pois era um velho conhecido, e sem dúvida o procuraria ali. Mas lá dentro estava tudo fresco, silencioso e solitário. Apenas um pote com vinho borbulhava com satisfação sobre a bancada, com um ritmo lento e ensonado, e os ramos secos sussurravam suavemente lá em cima ao longo do beiral do lado de fora e das vigas do tecto do lado de dentro. O braseiro estava apagado e frio. Aqueles dias eram os mais longos do ano, a luz lá fora ainda tinha perdido pouco do seu brilho da tarde, mas passada mais uma hora suavizar-se-ia com os raios horizontais do ocaso e o clarão esverdeado do crepúsculo.

Ainda nada. Fechou a porta sobre o seu pequeno reino interior e regressou ao refeitório para jantar e suportar sem um comentário ou uma queixa a untuosa censura do irmão Jerome por se ter atrasado um instante. Na realidade nem reparou, embora tivesse dado por instinto as apropriadas respostas apaziguadoras. A casa da Travessa de Maerdol devia estar demasiado agitada para que a irmã Magdalen conseguisse levar a cabo a sua incursão de forma tão fácil e rápida quanto havia esperado. Paciência! Tudo aquilo que ela empreendia completava com sucesso.

Fugiu às Colações, mas assistiu, cumpridor, às Completas, e sempre nem um sinal. Voltou a retirar-se para a sua oficina, sempre uma desculpa conveniente para não estar onde, de acordo com o horário, deveria estar, mesmo tão tarde. Mas já estava completamente escuro, e os irmãos no dormitório, nas suas celas, quando Edwin Bellecote chegou, apressado e cheio de pedidos de desculpas.

-O meu pai mandou-me fazer um recado a Frankwell, e eu não tinha autorização para lhe contar o que tinha de fazer para o senhor, irmão Cadfael, por isso achei melhor calar a boca a ir. Levei mais tempo do que pensava, e tive de fingir que me tinha esquecido das ferramentas para poder regressar à casa tão tarde. Mas a irmã estava à minha espera. Aquela é esperta! E tinha o que o senhor pediu. - Tirou de sob o casaco uma trouxa embrulhada em serapilheira e sentou-se confortavelmente no banco junto da parede, sem esperar convite e certo de ser bem acolhido. - Para que quer o senhor dois sapatos desirmanados?

Cadfael conhecia-o bem, desde que o rapaz, agora já com dezoito, era um fedelho de catorze anos, alto para a idade, esguio e arrojado, com uma forte cabeleira castanha e olhos claros, cor de avelã, que perdiam muito pouco do que sucedia à sua volta. Naquele momento aproveitava-os bem, enquanto Cadfael desenrolava a serapilheira e fazia cair os sapatos para o chão de terra.

- Para estudar devidamente dois pés desirmanados - disse ele, e ficou a olhá-los por momentos sem lhes tocar. - Qual deles é de Bertred?

- Este. Este fui eu buscá-lo onde estavam guardados os seus poucos haveres, mas ela teve de esperar por uma oportunidade de apanhar o outro, senão eu teria vindo aqui ainda antes de ter sido mandado a Frankwell.

- Não faz mal - disse Cadfael, ausente, e pegou no sapato e voltou-o com a sola para cima. Muito usado, com a parte de cima de uma só peça gasta e fina no sítio do dedo e remendada, a sola de uma só espessura reforçada no calcanhar com uma camada triangular de couro grosso. Era do tipo comum, que não tem fecho e apenas se enfia no pé. O fio de couro da costura da parte de fora do peito do pé já quase estava totalmente gasto. Mas depois de prováveis anos de uso a sola estava direita e uniforme desde o calcanhar às pontas dos dedos. Não havia pressão de nenhum dos lados, nem no calcanhar, nem obliquamente, na ponta.

- Eu devia saber - disse Cadfael. - Não me lembro de ter visto o homem a andar mais de meia dúzia de vezes, mas devia saber. Direito como um fuso! Duvido que alguma vez na vida tenha gasto uma sola de lado ou moído um calcanhar.

O outro sapato era mais uma bota baixa, também com a parte de cima feita de uma só peça e cozida de forma semelhante na parte de fora, um pouco bicuda, com uma camada mais grossa de couro no calcanhar e uma tira de couro que rodeava o tornozelo e se prendia com uma fivela de bronze. A parte traseira exterior do calcanhar estava gasta numa secção profunda e na parte interior da biqueira via-se o mesmo desgaste. A luz da pequena lamparina de Cadfael, incidindo sobre a sola de perto mas obliquamente acentuava o contraste entre a luz e as sombras. Nesta havia apenas o ténue início de uma fenda que começava por baixo do dedo grande, mas estava no mesmo lugar da fenda da bota que tinha sido tirada do pé do cadáver de Bertred, e isso bastava.

- Que é que isto prova? - perguntou Edwy, com a cabeça de cabelos brilhantes curvada sobre o sapato, cheio de curiosidade.

- Prova que eu sou um tolo - disse Cadfael com ar pesaroso -, embora por vezes eu próprio já tenha desconfiado disso. Prova que o homem que esta semana usa determinado sapato pode não ser o que o usou na semana passada. Agora não fales, deixa-me pensar!

Ainda não tinha decidido se precisava de agir imediatamente, mas recordando tudo o que tinha sido dito nessa tarde concluiu que a acção poderia ser guardada para a manhã seguinte. Que poderia ser mais tranquilizador do que a simples suposição de Judith de que o ataque de que fora alvo se devera apenas aos perigos de viajar por uma floresta, não fora mais do que um assalto oportunista a uma mulher perdida na noite, a uma mulher qualquer, apenas pelas roupas que vestia, se se verificasse que não trazia consigo mais nada de valor? Não, não era preciso dar o alarme e acordar Hugh antes da manhã, o assassino tinha todos os motivos para se supor em segurança.

- Meu filho - disse Cadfael com um suspiro -, estou a ficar velho, sinto a falta da minha cama. E mais vale que vás para a tua, senão a tua mãe vai censurar-me por te levar por maus caminhos.

Depois de o rapaz ter partido, ainda sem satisfazer a curiosidade, Cadfael permaneceu sentado, imóvel e em silêncio, admitindo por fim a ideia contra a qual o seu próprio espírito havia resistido. Pois o assassino, agora tão convencido da sua habilidade, sentindo-se invulnerável, não desistiria. Tendo chegado até ali, não ia voltar para trás. Bem, tinha pouco tempo. Só lhe restava aquela noite, embora não o soubesse, e não quereria nem poderia tentar nada contra Judith agora que se encontrava em casa, na companhia temível da irmã Magdalen. Preferiria aguardar a sua oportunidade, sem saber que amanhã seria o fim.

Cadfael endireitou-se bruscamente, fazendo tremeluzir a chama da candeia. Não, contra Judith, não! Mas se estava tão seguro de si próprio, então ainda tinha aquela noite para tentar conservar a casa de Foregate, pois no dia seguinte a renda da rosa seria paga e durante mais um ano o título da abadia seria inatacável. Se Judith não estava vulnerável, a roseira ainda estava.

Disse a si próprio que estava a ser um tolo supersticioso, que ninguém, nem mesmo um criminoso embalado e exaltado pelo sucesso voltaria a arriscar-se tão cedo, mas no momento em que completava este pensamento já ia a meio do jardim, dirigindo-se a passo apressado para o pátio grande e para a casa do portão. Ali, em terreno familiar, a escuridão não era um entrave, e naquela noite o céu estava limpo, e havia estrelas, embora minúsculas como cabeças de alfinete no negrume da meia-noite. Foregate estava em silêncio e nada se movia a não ser um ou outro gato que vagueava pelos becos. Mas lá adiante, junto da esquina do muro da abadia, no terreno da feira dos cavalos, via-se no céu um clarão, pequeno mas vibrante, por detrás dos telhados das casas, que ao acender e apagar lhes iluminava os contornos ou os mergulhava de novo na escuridão. Cadfael começou a correr. Então ouviu, distante e abafado, o tumulto de várias vozes num sobressalto meio incrédulo, e de súbito o clarão dilatou-se num grande jorro de chamas que invadiram o céu com o crepitar da madeira e dos espinhos. A confusão de vozes tornou-se um bramido de gritos de homens e de mulheres, e o ladrar de todos os cães de Foregate ecoou de muro em muro ao longo da estrada.

Portas abriam-se, homens corriam para a rua, enfiando as calças e os casacos e avançando aos tropeções para o fogo. Voavam perguntas ao acaso, e ninguém lhes respondia porque ninguém sabia ainda as respostas. Cadfael chegou com os restantes ao portão do pátio de Niall, que já estava aberto. No jardim brilhava e estremecia o clarão vermelho como as papoulas e por sobre o muro elevava-se a coluna de fogo, lançando para cima um turbilhão de ar ardente com pedaços de cinza que atingia o dobro da altura de um homem alto antes de se desvanecer na escuridão. Graças a Deus, pensou Cadfael ao ver a verticalidade da subida, não há vento, não chegará nem à casa nem à propriedade do ferreiro, do outro lado. E pela fúria e pelo ruído pode ser que arda tudo depressa. Mas já sabia o que ia ver quando entrasse pela cancela.

No meio do muro das traseiras a roseira era uma grande bola de fogo que rugia como uma fornalha e crepitava com o som de ossos a partirem-se quando os espinhos estalavam e se retorciam com o calor. O fogo atingira a velha e retorcida videira, mas além dela só tinha o muro de pedra para consumir. As árvores de fruto estavam bastante longe e não corriam risco de se perder, embora os ramos mais próximos pudessem ser chamuscados. Mas da roseira nada restaria, a não ser os ramos enegrecidos e as cinzas brancas. Recortadas no brilho das chamas, tão forte que cegava, viam-se umas figuras impotentes que se moviam em círculos e se encolhiam sem conseguir aproximar-se. A água lançada de uma distância segura explodia em vapor e desaparecia com um assobio inquieto, mas de nada servia. Tinham desistido de tentar lutar contra o fogo e ficaram afastados, com os baldes a oscilar mas mãos, a ver o velho tronco nodoso, tão produtivo durante tantos anos, retorcer-se, fender-se e gemer na sua agonia de morte.

Niall tinha-se afastado para o muro do outro lado e ficou a olhar com o rosto sujo e desanimado e as sobrancelhas franzidas. Cadfael colocou-se a seu lado, e a cabeça morena voltou-se ao dar conta da sua chegada. Niall cumprimentou-o com um breve aceno de cabeça para indicar reconhecimento e voltou-se, continuando a observar.

-Como é que ele acendeu esta fornalha?-perguntou Cadfael. - Não foi com uma simples pederneira e um fuzil e uma mecha, isso é certo, estando o senhor dentro de casa. Levaria um bom quarto de hora a passar da primeira chama fraca.

- Veio pelo mesmo caminho - disse Niall, sem tirar os olhos desolados da torre de fumo e de cinzas que se elevavam, rodopiando, no céu. - Pelo cercado lá de trás, onde o chão é mais alto. Desta vez nem entrou no jardim. Deve ter deitado azeite por cima do muro... encharcou a roseira e a videira em azeite. E depois atirou um archote. Bem aceso... e ele fugiu no escuro. E não podemos fazer nada, nada!

Ninguém podia fazer nada a não ser afastar-se do calor e observar, enquanto muito gradualmente a primeira fúria começava a enfraquecer e os ramos enegrecidos a pender do muro e a tombar no coração chamejante do fogo, fazendo subir nuvens de finas cinzas que faziam lembrar bandos de mosquitos. Nada a não ser agradecer o facto de o muro ser de pedra sólida, que não propagaria o fogo em direcção a nenhuma das habitações.

- Ela tinha-lhe carinho - disse Niall, com amargura.

- Pois tinha. Mas pelo menos não perdeu a vida - disse Cadfael-e redescobriu o seu valor. E sabe a quem, depois de Deus, deve essa graça.

Niall não fez qualquer comentário, mas continuou com expressão sombria a observar o fogo que se acalmava e formava uma camada rubra e as cinzas que flutuavam por sobre o jardim não sendo já arrastadas para cima pela corrente de ar. Os vizinhos, certificando-se de que o pior já tinha passado, começaram gradualmente a afastar-se, de regresso às suas camas. Niall soltou um suspiro profundo e sacudiu o torpor em que estivera mergulhado.

-Estava a pensar - disse lentamente-trazer hoje para casa a minha pequenita. Na outra noite estivemos a falar disso, que seria melhor eu tê-la comigo, agora que já não é um bebé. Mas agora não sei! Com um louco como este a rondar a casa, ela está mais segura onde está.

- Sim - disse Cadfael, animando-se -, sim, faça isso, traga-a para casa! Não tenha medo. Depois do dia de amanhã, Niall, este louco não voltará a importuná-lo. Prometo-lhe!

O dia da ascenção de Stª Winifred amanheceu bonito e cheio de sol, com uma brisa fresca que se levantou apenas quando surgiu a luz e que dispersou o cheiro a queimado por sobre os telhados de Foregate tão inevitavelmente como o primeiro trabalhador a atravessar a ponte trouxe para a cidade a notícia do fogo. Esta chegou à loja dos Vestier assim que retiraram as portadas e entrou o primeiro cliente. Miles entrou de rompante na sala com o rosto cheio de consternação, como alguém que traz más notícias e não sabe bem como transmiti-las com delicadeza.

-Judith, parece que ainda não nos vimos livres da má sorte que anda ligada à tua roseira. Aconteceu mais uma coisa estranha, acabei de saber. Não precisas de te perturbar muito, desta vez ninguém morreu ou se magoou, não é tão terrivelmente grave. Mas sei que mesmo assim vais ficar triste.

Um preâmbulo tão longo e lamentoso não era o melhor para a acalmar, apesar do tom de voz tranquilizador. Judith levantou-se do banco junto da janela, onde estava sentada ao lado da irmã Magdalen.

- Que foi agora? Que faltava ainda acontecer?

- Durante a noite houve um fogo... Alguém pegou fogo à roseira. Ficou queimada, folha por folha, ardeu até ao tronco, pelo que dizem. Não pode ter sobrado um rebento nem um raminho, quanto mais uma flor para te pagar a renda.

- A casa - perguntou ela, horrorizada. - Incendiou-se? Houve estragos? Não sucedeu nada a Niall? Foi só a roseira?

- Não, o fogo não atingiu mais nada, não te preocupes pelo latoeiro, nem pela casa, estão ambos a salvo. Se alguém se tivesse ferido tinham-me dito. Não, tem calma, acabou!-Segurou-a pelos ombros, muito suave e fraternalmente, sorrindo para o rosto dela. -Já acabou, e ninguém saiu prejudicado. Só a malfadada roseira é que desapareceu, e por mim acho que é o melhor, tendo em conta o mal que ela causou. Foi um negócio bem esquisito, o que tu fizeste, ainda bem que te vês livre dele.

- Não precisava de ter feito mal a ninguém - disse ela, desolada, e voltou a sentar-se devagar, extraindo-se delicadamente das mãos dele. - A casa era minha, tinha o direito de a dar. Tinha sido feliz nela. Queria dá-la a Deus, queria-a abençoada.

- Agora é outra vez tua, podes dá-la ou ficar com ela. Porque este ano não vais receber nenhuma rosa como renda, minha querida. Podes recuperar a casa por falta de pagamento. Podes dá-la como dote se chegares ao ponto de entrar para as beneditinas. - Olhou de lado para a irmã Magdalen com os seus olhos azuis-claros, sorridente. - Ou podias voltar a viver nela, se te apetecesse... ou deixar que Isabel e eu fôssemos viver nela depois de casarmos. Seja qual for a tua decisão, o antigo negócio já não é válido. Se fosse a ti não me apressaria a fazer outro, depois de tudo o que sucedeu como consequência.

- Eu não retiro aquilo que dou - disse ela -, principalmente o que dou a Deus.

Miles tinha deixado a porta do solar aberta atrás de si; ela ouvia o murmúrio das vozes das mulheres no outro extremo da grande sala, de súbito interrompido por outras vozes vindas da porta do átrio, primeiro a de um homem, cortês e baixa, depois a da tia, com a doce entoação social. Naquele dia talvez houvesse um certo número de visitas, por causa do funeral de Bertred. A meio da manhã seria levado para o cemitério de São Chad.

-Deixa lá-disse Judith, voltando-se para a janela.-Por que havemos de estar agora a falar nisto? Se o arbusto ardeu... - Aquilo fazia lembrar a Bíblia, o arbsuto ardente da revelação. Mas esse não se consumia.

- Judith, minha querida - disse Agatha, surgindo à porta -, está aqui o senhor xerife que veio outra vez visitar-te, e o irmão Cadfael veio com ele.

Entraram silenciosos, sem nada de sinistro a não ser o facto de serem seguidos por dois sargentos da guarnição, que também entraram na sala e permaneceram afastados, um de cada lado da porta. Judith tinha-se voltado para saudar os visitantes, prevendo notícias já conhecidas.

- Senhor xerife, eu e os meus assuntos ainda a causar problemas! O meu primo já me contou o que sucedeu durante a noite. Espero de todo o coração que isto possa ser a última ondulação deste remoinho. Lamento ter-vos causado tais trabalhos, tudo termina agora.

- É essa a minha intenção - disse Hugh, fazendo uma breve reverência formal a Magdalen, que estava sentada com dignidade e compostura junto da janela, uma mulher admiravelmente silenciosa quando a ocasião o exigia. - O assunto que aqui me traz esta manhã tem essencialmente a ver com o mestre Coliar. Uma pergunta muito simples, se nos puder ajudar. - Voltou-se para Miles com o mais amável e convidativo dos semblantes e perguntou, num ataque rápido e suave, sem qualquer aviso: - As botas que encontrámos em Bertred, quando foi retirado do rio... quando é que o senhor lhas deu?

Miles foi rápido de espírito, mas não o suficiente. Tinha retido por momentos a respiração, e antes que a pudesse soltar a mãe tinha falado com a habitual loquacidade pronta e o seu orgulho em todos os pormenores que dissessem respeito ao filho:

- Foi no dia em que o pobre rapaz da abadia foi encontrado morto. Lembras-te, Miles, foste buscar Judith para a trazeres para casa, assim que soubeste. Ela tinha ido buscar o cinto...

Nessa altura ele tinha recuperado o domínio, mas nunca era fácil deter Agatha depois de lançada.

- Está enganada, mãe - disse ele, e chegou a rir-se com o tom ligeiro de um filho indulgente habituado a tolerar uma mãe meio tonta. - Foi há semanas, quando vi que os sapatos dele estavam tão gastos que as solas já tinham buracos. Já lhe tenho dado sapatos velhos - disse, voltando-se para enfrentar com ousadia o olhar directo de Hugh. - Os sapatos são coisas caras.

- Não, meu querido - insistiu Agatha com inflexível certeza -, lembro-me muito bem; depois de um dia assim como poderia esquecer? Foi nessa mesma noite, comentaste que Bertred andava quase descalço, e que não ficava nada bem a uma família deixar que ele andasse de um lado para o outro, ao nosso serviço, tão mal calçado...

Tinha falado precipitadamente, como sempre, mal prestando atenção a qualquer outra pessoa, mas gradualmente foi-se apercebendo da atitude do filho, que estava rígido como gelo e com o rosto quase tão branco como o branco-azulado, de uma frialdade ardente, dos seus olhos; uns olhos que se fixavam nela sem amor, sem ternura, com a fria e feroz queimadura da morte. A sua voz amável e tola fraquejou, desfez-se em sons inarticulados e silenciou-se. Se não tinha feito nada para o ajudar, tinha revelado a sua própria inocência cega e egoísta.

- Talvez, afinal - gaguejou, com os lábios a tremer, procurando palavras mais capazes de agradar e de apagar aquela expressão do rosto do filho. -Agora já não sei bem... posso estar enganada...

Era demasiado tarde para remediar o que tinha feito. Dos seus olhos brotaram lágrimas que a cegavam àquele olhar cor de água-marinha, cheio de ódio, que Miles fixava nela. Judith libertou-se da sua imobilidade chocada e correu para o lado da tia, rodeando-lhe com um braço os ombros trémulos.

- Senhor xerife, isto tem muita importância? Que quer dizer? Não percebo nada. Por favor, seja claro! - E de facto fora tudo tão rápido que ela não tinha seguido o que fora dito, nem apreendido o seu significado, mas mal tinha falado surgiu a compreensão, cortante como uma punhalada. Empalideceu e tornou-se rígida, olhando de Miles, paralisado no seu silêncio amargo e inútil, para o irmão Cadfael, de pé e afastado; depois do irmão Cadfael para a irmã Magdalen; e desta para Hugh. Os seus lábios moveram-se, proferindo em silêncio: - Não! Não! Não... - Mas não o disse em voz alta.

Estavam na casa dela, e ela tinha ali autoridade. Enfrentou Hugh, sem sorrir mas calma:

-Acho, senhor xerife, que a minha tia não precisa de se afligir, isto é um assunto que pode ser discutido e resolvido calmamente entre nós. Tia, é melhor ir ajudar a pobre Alison na cozinha. Ela tem tudo entre mãos, e este dia é para ela um dia muito infeliz, não devia deixá-la cuidar de tudo sozinha. Mais tarde dir-lhe-ei tudo o que precisar de saber - prometeu, e se as suas palavras traziam o gelo de um mau presságio, Agatha não o sentiu. Saiu docilmente da sala pelo braço de Judith, meio tranquilizada, meio receosa, e pouco depois Judith voltou e fechou a porta atrás de si.

- Agora podemos falar livremente. Sei demasiado bem do que se trata. Sei que duas pessoas podem pensar em acontecimentos verificados apenas uma semana antes e recordá-los de forma diferente. E sei, pois o irmão Cadfael disse-mo, que as botas que Bertred usava quando se afogou fizeram a marca deixada pelo assassino do irmão Eluric no solo sob a videira, quando ele voltou a trepar o muro. Por isso tem importância, tem uma terrível importância, Miles, quem usava as botas naquela noite, tu ou Bertred.

Miles tinha começado a suar abundantemente, traído pelo próprio corpo. Sobre a testa gelada e branca como a cera formaram-se grandes gotas que aí ficaram, estremecendo.

- Já disse, dei-as a Bertred há muito tempo...

-Não há tempo suficiente - disse o irmão Cadfael - para que ele imprimisse nelas a sua própria marca. Revelam a sua forma de andar, não a dele. Há-de recordar, e muito bem, o molde que eu fiz em cera. Viu-o quando foi a casa do latoeiro buscar a Srª Perle. Nessa altura adivinhou o que era e qual o seu significado. E nessa mesma noite, a sua mãe é testemunha, passou essas botas a Bertred. Que não tinha nada a ver com o assunto, e que não era natural que fosse posto em causa, nem ele nem os seus haveres.

- Não! - gritou Miles, abanando violentamente acabeça. As pesadas gotas caíram da sua testa. - Não foi nessa altura! Não! Foi muito antes! Não foi nessa noite!

- A sua mãe desmente-o - disse Hugh com gentileza. -Amãe dele fará o mesmo. Mais vale confessar tudo, isso pesará a seu favor quando for julgado. Pois vai ser julgado, Miles! Pelo assassínio do irmão Eluric...

Então Miles foi-se abaixo, encolhendo-se e agarrando a cabeça com as mãos como se quisesse escondê-la e ao mesmo tempo mantê-la unida.

- Não! - protestou em voz rouca por entre os dedos rígidos. - Assassínio não... não... Ele atirou-se a mim como um louco, nunca lhe quis fazer mal, apenas escapar...

E estava feito, tão simples, com tão pouco custo, no fim. Depois daquela confissão não tinha defesa; tudo o que tinha para dizer já podia sair livremente, na esperança de atenuação. Tinha-se deixado apanhar por uma situação e um carácter que não conseguia manter. E tudo por ambição e ganância!

-... talvez também pelo assassínio de Bertred... - prosseguiu Hugh, implacável, mas com o mesmo tom desapaixonado.

Desta vez não soltou nenhuma exclamação. Tinha retido a respiração: o gélido assombro fizera-o cair em si, pois nunca previra aquilo.

- ... e em terceiro lugar pela tentativa de assassinar a sua prima na floresta, junto do Vau de Godric. Muitas suposições se fizeram, Miles Coliar, e com razão em vista do sucedido, acerca dos muitos pretendentes que importunavam a Srª Perle, e os motivos destes para desejar o casamento, e com a propriedade toda, e não apenas metade. Mas no que toca ao assassínio, só havia uma pessoa que tinha algo a ganhar com isso, e essa pessoa era o senhor, o parente mais próximo.

Judith afastou-se do primo, trôpega, e lentamente voltou a sentar-se ao lado da irmã Magdalen, rodeando o próprio corpo com os braços como se sentisse frio, mas sem produzir um som, nem de repulsa nem de medo ou de ira. O seu rosto estava contraído e imóvel, os músculos esticados e tensos sob as maçãs do rosto brancas, e o olhar fixo dos olhos cinzentos como que voltado para dentro. Assim permaneceu sentada, silenciosa e afastada, enquanto Miles, de pé, impotente, deixava oscilar as mãos que haviam deixado de cobrir um rosto agora apagado e frouxo e repetindo vezes sem conta, com um esforço tenaz:

- Assassínio não! Assassínio não! Ele atirou-se a mim como um louco... nunca foi minha intenção matar. E Bertred afogou-se; afogou-se! Não fui eu. Assassínio não...

Mas não disse uma palavra acerca de Judith e permaneceu até ao fim sem voltar o rosto para ela, numa espécie de horror, até que Hugh se moveu e se sacudiu, numa repulsa espantada, e com um movimento da mão chamou os dois sargentos que estavamjunto da porta.

- Levem-no daqui!

 

Depois de ele ter saído e de terem deixado de se ouvir os passos que se afastavam Judith moveu-se, soltou um suspiro profundo e disse mais para si própria:

- Isto é que eu nunca imaginei.-E para a sala em geral, com uma força que ia ressurgindo: - É verdade?

- Quanto a Bertred - disse Cadfael com honestidade -, não posso ter a certeza e nunca teremos a certeza absoluta a não ser que ele próprio o diga, como acho possível que faça. Quanto a Eluric, sim, é verdade. Ouviu o que disse a sua tia: assim que ele se apercebeu da prova que tinha deixado contra si mesmo livrou-se das botas que a haviam deixado. Simplesmente para se livrar delas, creio que nessa altura não tinha qualquer intenção de atirar a culpa para cima de Bertred. Creio que tinha acabado por acreditar que a senhora iria mesmo tomar o véu, deixando a loja e o negócio nas mãos dele, e portanto parecia valer a pena tentar anular o direito da abadia à casa de Foregate e ficar com tudo.

- Ele nunca insistiu comigo para que fizesse votos - disse ela, admirada -, até se opunha. Mas acabava por falar no assunto de vez em quando, para eu não me esquecer.

-Mas aquela noite fez dele um assassino, uma coisa que nunca fora sua intenção. Estou certo de que isso é verdade. Mas estava feito, e não podia voltar atrás. O que ele teria feito se tivesse sabido a tempo da sua intenção de ir ter com o abade para tornar a dádiva absoluta, isso é impossível de saber; mas ele só teve conhecimento quando já era demasiado tarde e foi outra pessoa quem agiu para a impedir. Não há dúvida de que o desespero dele era bem autêntico, estava louco por a recuperar, com medo que cedesse e entregasse a sua pessoa e os seus bens ao raptor e que ele ficasse na penúria, com novo patrão e sem esperança de obter o poder e a riqueza pelos quais tinha matado.

- E Bertred? - perguntou ela. - Como é que Bertred entra nisto tudo?

- Acompanhou os meus homens na busca para a encontrar - disse Hugh -, pelo que parece encontrou-a, ou teve uma ideia judiciosa do lugar onde poderia estar escondida, e não disse nem uma palavra, nem a mim nem a ninguém; partiu durante a noite para a libertar sozinho e receber os devidos louvores. Mas caiu, e acordou o cão... a senhora deve ter ouvido. No dia seguinte foi pescado do Severn, na outra margem. O que aconteceu até lá, e o modo preciso como foi ao encontro da morte, ainda não passa tudo de uma conjectura. Mas há-de recordar que ouviu, ou pensou ter ouvido, sons de mais alguém que andava lá por fora durante a noite, depois de Bertred ter partido. Quando estavam a planear ir a cavalo para o Vau de Godric na noite seguinte.

- E o senhor acha que devia ser Miles? - pronunciou o nome do primo com uma estranha entoação de pesar. Nunca sonhara que o homem que era o seu braço direito pudesse atacá-la com intenções mortíferas.

- Assim tudo faz sentido - disse Cadfael com tristeza. - Quem mais tinha tal oportunidade de reparar em alguma satisfação suspeita da parte de Bertred, quem mais poderia tão facilmente observá-lo e segui-lo quando ele saiu discretamente durante a noite? E se nessa altura o seu primo se aproximasse sem se fazer notar, depois de Bertred ter fugido, e tivesse ouvido os vossos planos, veja como tudo se conjugava para que ele agisse! Na floresta, bem longe da cidade, depois de o outro homem a ter deixado, como seria fácil deixá-la morta e roubada, e primeiro a culpa cairia sobre bandidos, e se isso alguma vez fosse posto em causa, sobre o homem que a tinha mantido prisioneira e trazido até ali, àquela floresta isolada, para garantir que a senhora nunca o trairia. Eu não creio - disse Cadfael, numa reflexão cuidadosa - que a ideia de assassínio lhe tivesse ocorrido antes desse momento, quando a oportunidade surgiu e lhe deve ter parecido a solução perfeita. Melhor do que convencê-la a ir para um convento. Pois ele seria o seu herdeiro. Tudo iria parar-lhe às mãos. E se nessa altura, com essa intenção já a ocupar-lhe o espírito, desse com Bertred, já meio atordoado devido a uma pancada, e lhe surgisse mais uma terrível inspiração: pois Bertred vivo talvez interferisse nos seus planos, ao passo que morto nada poderia contar, e Bertred morto seria encontrado calçando as botas do assassino de Eluric. Desta forma arranjava um bode expiatório até para esse crime.

- Mas trata-se de uma conjectura - disse Judith, agarrando-se à incredulidade. - Não há nada, nada que o prove.

- Há - disse Cadfael em voz pesada -, infelizmente há. Pois sucedeu que quando o seu primo veio à abadia com um carro para levar o corpo de Bertred para casa verificou que quem havia despido as roupas encharcadas do cadáver não tinha prestado atenção às botas, e eu também não, nem sequer pensei nelas quando trouxe a trouxa de roupa para o carro. Miles teve de inclinar o carro para fazer cair as botas aos meus pés, e só assim eu olhei para elas e percebi o que estava a ver. Ele não queria de modo nenhum que aquela prova infalível fosse ignorada.

- Não foi uma acção assim tão inteligente - disse ela em tom de dúvida -, pois Alison poderia ter-vos dito que o filho tinha recebido as botas de Miles. - Pois podia, se lhe perguntássemos. Mas não esqueça que se tratava da descoberta de um assassino morto: não haveria julgamento, nem mistério, não valeria a pena fazer perguntas nem perseguir um homem morto, quanto mais uma desgraçada mulher que tinha acabado de perder o filho. Ainda que eu não tivesse dúvidas - disse Hugh - e seja como for há sempre uma ponta de dúvida, não teria recusado ao cadáver um funeral tranquilo nem a sujeitaria a um sofrimento ainda maior. Mesmo assim foi um risco, ele poderia ter-se visto obrigado a negar a verdade. Mas nem o conspirador mais astuto pode pensar em tudo. E ele - acrescentou Hugh - era novo nestas patifarias.

- Deve ter vivido num tormento - disse Judith com assombro - toda a noite, desde que eu lhe fugi, sabendo que eu haveria de regressar e sem saber quanto eu poderia contar. E depois eu tornei bem claro que não fazia ideia de quem me tinha atacado, e ele sentiu-se seguro... Que estranho!-disse ela, preocupando-se com coisas que já não se podiam remediar. - Quando ele saiu não o achei mau, nem rancoroso, nem consciente da sua culpa! Apenas confuso! Como se tivesse dado consigo num sítio onde nunca pensara ou tencionara ir, nalgum lugar que nem sequer reconhecia e sem saber como tinha chegado até lá.

-De certo modo-disse Cadfael em tom sóbrio-acho que isso é verdade. Era como um homem que dá o primeiro passo que o faz escorregar para dentro de um pântano e depois já não consegue recuar, e a cada passo se afunda mais. Desde o ataque à roseira até à tentativa contra a sua vida, ele foi para onde era levado. Não é de admirar que o local onde chegou lhe fosse completamente estranho, e o rosto que o aguardava do outro lado do espelho fosse um rosto que ele nunca tinha visto, o de um terrível desconhecido.

Tinham-se ido todos embora. Hugh Beringar regressara ao castelo para confrontar e interrogar o prisioneiro naquele momento, enquanto persistia o choque da descoberta de si mesmo e a fria astúcia do interesse pessoal ainda não o tinha invadido para voltar a selar um espírito e uma consciência por momentos abertos à verdade; a irmã Magdalen e o irmão Cadfael de regresso à abadia, ela para jantar com Radulfus depois de se ter assegurado de que aquela casa não necessitava da sua presença durante umas horas, ele para regressar às suas obrigações dentro do enclave, agora que nada mais faltava fazer nem dizer e que era necessário deixar o silêncio e o tempo seguir o seu curso, já que clamores e pressas nada ajudariam. Não tinha ficado ninguém, até o corpo do pobre Bertred tinha ido para a sua sepultura no cemitério de São Chad. A casa estava mais vazia que nunca, meio despovoada pela morte e pela culpa e o fardo que caía sobre os ombros de Judith tornara-se mais pesado, com duas viúvas sem filhos de quem tinha de cuidar. E assim faria. Tinha prometido à tia que lhe contaria tudo o que precisava de saber e cumprira a promessa. Terminados os primeiros lamentos desenfreados veio a calma da exaustão. Até as fiadeiras tinham abandonado a casa por aquele dia. Os teares estavam parados. Não havia vozes.

Judith fechou-se sozinha no solar e sentou-se a meditar sobre a destruição, mas parecia-lhe antes contemplar um vazio, como um terreno desimpedido para dar lugar a algo de novo. Agora não havia ninguém em quem pudesse apoiar-se no que dizia respeito ao negócio, estava tudo de novo nas suas mãos e tinha de o tomar a seu cargo. Precisaria de mais um capataz para os tecelões, um em quem pudesse confiar, e um escrivão para fazer a contabilidade, que fosse capaz de ocupar o lugar de Miles. Nunca tinha fugido às responsabilidades, mas também nunca tinha feito delas um martírio. Também não o faria agora.

Quase tinha esquecido que dia era. A renda da rosa não seria paga, não poderia ser paga, isso era certo. A roseira tinha ardido até ao chão, nunca mais produziria as rosas brancas, pequenas e perfumadas, que lhe traziam de novo ao espírito os anos de casada. Agora isso já não tinha importância. Estava livre e a salvo e dona daquilo que dava e daquilo que guardava para si; podia ir ter com o abade Radulfus e mandar redigir e testemunhar uma nova carta na qual dava a casa e o terreno livre de quaisquer condições. Decerto agora toda a ganância e todo o calculismo que a haviam rodeado já se tinham esgotado, mas poria fim ao assunto de uma vez por todas. O que permanecia depois das rosas era uma saudade amarga e doce dos curtos anos de felicidade, dos quais uma rosa por ano havia sido uma recordação e um penhor. Agora não voltaria a haver rosas, nunca mais.

A meio da tarde, Branwen enfiou timidamente a cabeça pela porta para dizer que estava uma visita à espera no átrio. Judith disse com indiferença que mandasse entrar.

Niall entrou hesitante, com uma rosa numa das mãos e uma criança pela outra, e ficou por um momento junto da porta para se orientar numa sala onde nunca havia entrado. Pela janela aberta entrava uma larga faixa de brilhante luz do sol, que atravessava a sala no meio deles, deixando na sombra Judith de um dos lados e os visitantes do outro. Judith tinha-se levantado, atónita com a vinda dele, e ficou parada de boca entreaberta e olhos dilatados, de súbito com o coração mais ligeiro, como se uma brisa fresca, vinda de um jardim, tivesse soprado num sítio escuro e melancólico, enchendo-o de Verão e da santidade do dia festivo de uma santa. Ali, sem ter sido chamado, sem aviso, estava o único ser que nunca lhe tinha pedido nada, nem esperado nada dela, nem feito exigências ou procurado vantagens; era completamente livre de ganância ou de vaidade, e ela devia-lhe mais do que apenas a vida. Trazia-lhe uma rosa, a última do velho caule, um pequeno milagre.

- Niall - disse ela num suspiro lento e hesitante, e foi a primeira vez que o chamou pelo nome.

- Trouxe a sua renda - disse ele com simplicidade, e, dando uns passos na sua direcção, estendeu-lhe a rosa, meio aberta, fresca e branca, sem uma mancha.

- Disseram-me - disse ela, espantada - que não restou nada, tudo ardeu. Como é isto possível? - E por sua vez levantou-se para ir ao encontro dele, quase com prudência, como se ao ser tocada a rosa pudesse desfazer-se em cinzas.

Niall tinha soltado muito delicadamente a mão da criança, e esta ficara para trás, tímida.

- Apanhei-a ontem para mim, quando chegámos a casa.

As duas mãos estendidas juntaram-se na faixa de luz, e as pétalas abertas adquiriram o brilho rosado da madre-pérola. Os dedos tocaram-se e fecharam-se sobre o caule e este era macio, sem espinhos.

- Não lhe aconteceu nada? - disse ela. - A ferida está com bom aspecto?

- Não passa de um arranhão - disse Niall. - Receio que a senhora tenha sofrido mais.

- Já acabou. Hei-de ficar bem.

Mas Judith sentiu que lhe parecia tremendamente solitária e abandonada. Olhavam-se fixamente nos olhos, com uma intensidade difícil de sustentar e mais difícil ainda de quebrar. A rapariguinha deu um ou dois passos e de novo hesitou em aventurar-se mais perto.

- É a sua filha? - disse Judith.

- É, sim. - Voltou-se para lhe estender a mão. - Não tinha com quem a deixar.

- Ainda bem. Por que haveria de a deixar ficar quando veio ver-me? Ninguém podia ser mais bem-vindo.

A criança foi ter com o pai num súbito impulso de confiança, vendo que aquela mulher desconhecida, mas de voz doce, lhe sorria. Com cinco anos e alta para a idade, tinha um rosto oval, solene e de uma brancura cremosa com o brilho dado pelo sol; entrou para a faixa de luz e iluminou-se como a chama de uma vela, pois o cabelo que se encaracolava nas têmporas e lhe caía sobre os ombros possuía a autêntica cor do ouro escuro, e longas pestanas douradas orlavam-lhe os olhos azuis-escuros. Dobrou brevemente o joelho em jeito de reverência, sem afastar do rosto de Judith aqueles olhos nem a sua enorme curiosidade. E num instante decidiu-se, sorriu e estendeu inequivocamente a face para o beijo aceitável de uma pessoa mais velha aceite.

Era como se tivesse enfiado a mãozinha no peito de Judith e apertado o coração que há tantos anos morria de fome daquele fruto. Judith inclinou-se para a frente para a beijar com as lágrimas a brotar-lhe dos olhos. Aboca da criança era macia, fresca e doce. Ao atravessar a cidade transportara a rosa e ainda tinha o seu perfume. Não tinha nada a dizer, ainda, estava demasiado ocupada a observar e a avaliar a sala e a mulher. Mais tarde falaria, e bastante, quando ambas deixassem de ser desconhecidas.

- Foi o padre Adam quem lhe deu o nome - disse Niall, baixando os olhos para ela com um sorriso grave. - Um nome invulgar... chama-se Rosalba.

- Invejo-o! - disse Judith, como já dissera noutra ocasião. Voltara a instalar-se um leve constrangimento, era difícil encontrar qualquer coisa para dizer. Tão poucas palavras haviam sido ali gastas, com tanta parcimónia. Ele voltou a pegar na mão da filha e recuou, saindo da barra de luz em direcção à porta e deixando Judith com a rosa branca, ainda iluminada pelo sol, sobre o peito.

A outra rosa branca deu um passinho saltitante para trás, disposta a partir, mas olhou por sobre o ombro, para um sorriso de despedida.

- Bem, querida, vamos indo para casa. Já fizemos o que tínhamos a fazer.

E iam-se embora, os dois, e não haveria mais rosas para trazer, nem mais rendas para pagar no dia da ascenção de Stª Winifred. E se partissem assim talvez nunca mais houvesse um momento como aquele, talvez nunca mais se reunissem na mesma sala aqueles três.

Ele tinha chegado à porta, quando ela disse de súbito:

- Niall...

Ele voltou-se, de súbito radiante, para a ver ainda toda iluminada pelo sol, com o rosto tão branco e aberto como a rosa.

- Niall, não vá! - Por fim encontrara palavras, as palavras certas, e a tempo. Disse-lhe o que lhe dissera na noite profunda, diante do portão do Vau de Godric:

- Não me deixe agora!

 

 

                                                                                                    Ellis Peters

 

 

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