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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


CADFAEL 3 / Um Corpo a Mais
CADFAEL 3 / Um Corpo a Mais

 

 

                                                                                                                                                

  

 

 

 

 

 

O Irmão Cadfael estava a trabalhar na pequena horta que ficava ao lado do viveiro de peixes do abade quando o rapaz foi trazido à sua presença pela primeira vez. Estava uma quente tarde de Agosto, e se ele pudesse usufruir do número de ajudantes que lhe era devido, àquela hora estariam todos a ressonar à sombra, em vez de ele ser obrigado a suportar, transpirando, a torreira do sol; no entanto, um dos seus assistentes habituais, que ainda não terminara o noviciado, chegara à conclusão de que mais valia deixar a vida monástica e fora juntar-se ao irmão mais velho, que se batia pelo rei Stephen na guerra civil que se desenrolava pela posse da coroa de Inglaterra; outro assustara-se com a aproximação do exército real porque a família pertencia á facção da imperatriz Maud e a mansão que possuíam em Cheshire parecia ser um lugar bastante mais seguro que Shrewsbury sitiada. Todo o trabalho recaíra, portanto, sobre os ombros de Cadfael, que, não obstante, suportara já sóis bastante mais quentes do que aquele e estava obstinadamente resolvido a não permitir que o seu domínio se deteriorasse, independentemente de o mundo em redor se transformar ou não num caos.

 

 

 

 

No princípio daquele Verão, corria o ano de 1138, a guerra fratricida, até ali um pouco desconexa, completara já dois anos de existência, mas nunca antes estivera tão próxima de Shrewsbury. Agora a sua ameaça pairava sobre o castelo e a cidade como a sombra da morte. Apesar disso, a mente do Irmão Cadfael mantinha-se firmemente concentrada na vida e no crescimento, não na destruição e na morte, perfeitamente alheia ao facto de uma outra forma de matar, o simples assassínio, furtivo e injustificado até mesmo nos tempos anárquicos que se viviam, estar prestes a perturbar a calma do modo de vida por que optara.

Em circunstâncias normais, Agosto não teria sido dos meses mais atarefados em termos de jardinagem, mas havia trabalho que bastasse para manter um homem devidamente ocupado, e a única ajuda que lhe tinham podido pôr à disposição fora a do Irmão Athanasius, que era surdo e meio senil e em quem não se poderia confiar, pois não sabia distinguir uma planta alimentícia de uma erva daninha, de modo que a oferta fora firmememte declinada. Mais valia trabalhar sozinho. Havia que preparar um canteiro para plantar as últimas couves para reprodução, deitar á terra, já preparada, as sementes frescas dos produtos hortículas que suportavam bem o Inverno, assim como apanhar as ervilhas e reunir o restolho que ficara da última colheita, preparando-o para forragem e estrume. No barracão de madeira onde fizera um herbário de que muito se orgulhava tinha meia dezena de preparados em curso dentro de recipientes de vidro e almofarizes dispostos em prateleiras, todos eles requerendo a sua atenção pelo menos uma vez por dia, isto para não falar da vinha, que naquela altura crescia a esmo, e da produção de todos os produtos medicinais para o Inverno.

Apesar de todos os contratempos, ele não era homem para permitir que qualquer parcela do seu reino fugisse ao seu controlo, por muito esbanjadores que, no exterior dos muros da abadia, os primos reais Stephen e Maud fossem na sua disputa pelo trono de Inglaterra. Se interrompesse por momentos a aplicação de adubo no canteiro destinado às couves e erguesse a cabeça teria avistado os preguiçosos penachos de fumo que pairavam sobre os telhados da abadia, do castelo e da cidade á distância, sentindo o odor emanado dos resíduos acres dos fogos da véspera. Já ia para um mês que aquelas sombras e aquele odor pestilento pairavam sobre Shrewsbury como uma mortalha, enquanto o rei Stephen fazia movimentar os seus combatentes e esbravejava no acampamento militar que montara por detrás do Castelo Foregate, na única via de acesso a pé enxuto para a cidade, até poder apossar-se das pontes, e William FitzAlan mantinha-se dentro da fortaleza, dela não arredando pé e mantendo as suas provisões, cada vez mais escassas, cuidadosamente racionadas, deixando as lides beligerantes ao seu incorrigível tio, Arnulf de Hesdin, que nunca soubera moderar a bravura com a discrição. O povo da cidade mantinha a cabeça baixa, trancava as suas portas, mantinha o comércio fechado ou, se podia, debandava para ocidente, em direcção ao País de Gales, ao encontro de velhos e amigáveis inimigos que temiam menos do que Stephen. Os Gauleses tinham toda a conveniência em que os Ingleses se receassem uns aos outros se é que Maud e Stephen podiam ser considerados ingleses! e deixassem o País de Gales em paz, mas não negavam uma ajuda àqueles que demandavam aquelas terras em busca de protecção, desde que a guerra prosseguisse longe daquelas paragens.

Cadfael endireitou as costas e limpou o suor da cabeça rapada, que, de tão queimada, adquirira o tom de uma avelã pronta a colher; nesse momento avistou o Irmão Oswald, o esmoler, que se aproximava apressadamente pelo caminho em direcção a ele, de sotaina a dançar ao vento e empurrando á sua frente, seguro pelo ombro, um rapaz com cerca de 16 anos, trajando uma camisa castanha muito suja e os calções curtos de verão que os aldeões da região usavam, as pernas nuas mas os pés decentemente calçados com alpargatas de couro e todo o ar de quem se lavara e arranjara cuidadosamente para uma ocasião especial. O rapaz caminhava obedientemente e mantinha os olhos baixos com docilidade.

”Mais uma família que se dispunha a colocar os seus filhos fora do alcance de qualquer das facções”, pensou Cadfael, ”o que não lhes podia ser censurado.”

Irmão Cadfael, penso que tem falta de um ajudante. Pois tem aqui um jovem que diz não recear o trabalho duro. Foi trazido ao porteiro por uma boa mulher da cidade, que pediu que o recebêssemos e o ensinássemos de modo a tornar-se um servo leigo. Disse que o sobrinho é de Hencot e que os pais morreram. Traz um dote que lhe dará para um ano. O prior Robert deu licença para o aceitarmos e há espaço para o acomodar no dormitório dos rapazes. Frequentará as aulas dos noviços, mas não receberá os votos, a não ser que ele mesmo o deseje. Que diz, fica com ele?

Cadfael examinou o rapaz com interesse, mas disse que sim sem hesitar, bastante satisfeito por poder dispor da ajuda de alguém jovem, robusto e dócil. O moço era de compleição franzina, mas parecia vigoroso e de pés firmes, movendo-se com agilidade. Ergueu os olhos fatigados sob os caracóis castanhos cortados curtos e emaranhados e viu-se que estes, azul-escuros e sombreados por longas pestanas, eram muito sagazes e brilhantes. O seu comportamento primava pela modéstia e pelo decoro sem, contudo, parecer intimidado.

Tenho muito gosto em ficar contigo disse Cadfael se te dispusesses a executar estas tarefas ao ar livre e na minha companhia. Como te chamas, rapaz?

Godric, senhor disse o jovem em voz baixa e rouca, despertando em Cadfael um agrado tão grande quanto aquele que ele próprio estava a ter.

Óptimo, Godric. Vamos dar-nos muito bem. E antes de mais nada, se estiveres de acordo, dás uma volta aos jardins comigo para veres o trabalho que há para fazer e te habituares a este ambiente. Atrevo-me a dizer que vais achar isto aqui um pouco estranho, mas, de longe, bastante mais seguro que a cidade acolá, motivo mais que certo que levou a tua boa tia a trazer-te até cá.

Os olhos azuis e brilhantes faiscaram por um momento, tornando a velar-se de imediato.

Voltaremos a encontrar-nos quando fores às vésperas com o Irmão Cadfael informou-o o esmoler. O Irmão Paul, responsável pelos noviços, irá mostrar-te onde dormes e dizer-te quais os deveres que te cabem depois do jantar. Presta atenção ao que o Irmão Cadfael te disser e obedece-lhe em tudo.

Sim, senhor disse o rapaz virtuosamente.

Sob a entoação submissa parecia querer irromper um pequeno, embora vago, acesso de riso. Os olhos azuis ficaram a ver o Irmão Oswald afastar-se apressadamente até desaparecer, depois do que se viraram para olhar Cadfael com atenção. No rosto oval e recatado, a boca larga de recorte bem delineado parecia inclinada ao riso fácil, embora não tivesse dificuldade em adoptar rapidamente uma gravidade sombria. Até mesmo para os indivíduos de coração ligeiro, os tempos que corriam eram tenebrosos.

Anda ver o tipo de trabalho em que te vais ocupar disse Cadfael alegremente, pousando a enxada e levando o seu novo ajudante a dar uma volta pelo jardim murado, onde lhe mostrou os vegetais, as ervas que inebriavam o ar da tarde com a sua fragrância, o viveiro de peixes e as plantações de ervilhas que se estendiam quase até ao ribeiro. O primeiro campo já fora segado e a colheita jazia ao sol, devidamente arrumada, e até mesmo o que tinha sido semeado em último lugar estava pronto para ser colhido.

Temos de apanhar o que falta entre hoje e amanhã. Com este calor depressa se estragará. E estas hastes secas têm de ser removidas. Poderás começar por aí. Não as puxes para fora, limita-te a pegar na foice e a cortá-las rente ao chão, que as raízes são um bom alimento para o solo.

Falava de modo despreocupado e satisfeito, tentando desfazer qualquer resíduo de arrependimento ou estranheza que pudesse haver ainda devido àquela mudança abrupta.

Que idade tens, Godric?

Dezassete respondeu-lhe a voz rouca a seu lado.

”Ainda não os devia ter”, pensou Cadfael. ”Era melhor deixá-lo tentar cavar mais tarde, pois o solo que naquele momento estava a amanhar não era nada fácil.”

Posso fazer trabalhos difíceis disse o rapaz, quase como se tivesse adivinhado os pensamentos de Cadfael e se ressentisse com os mesmos. Não sei grande coisa, mas posso fazer o que me mandar.

Pois então, muito bem, podes começar pelo ervilhal. Junta as hastes secas aqui para o lado a fim de servirem de forragem para o estábulo. E as raízes voltam para a terra.

Como os homens disse Godric inesperadamente.

Sim, como os homens.

Muitos iriam voltar para a terra prematuramente devido á guerra fratricida que se estava a desenrolar. Viu o rapaz virar a cabeça, quase involuntariamente, e estender o olhar pelos campos e telhados da abadia até ás maltratadas torres do castelo que se erguiam por entre a cortina de fumo.

Tens parentes ali, meu filho? perguntou Cadfael suavemente.

Não! exclamou o rapaz demasiado apressadamente. Mas não consigo afastar o pensamento das pessoas que ali estão. Na cidade dizem que não deve durar muito, que deve cair amanhã. E não há dúvida de que eles é que estão com a razão! Antes de o rei Henry morrer, fez os seus barões reconhecerem a imperatriz Maud como a sua herdeira e todos eles lhe juraram fidelidade. Ela era a sua única filha, portanto ela

é que devia ser a rainha. No entanto, quando o primo, o conde Stephen, se apoderou do trono e se fez coroar, muitos deles esqueceram a palavra dada. Isso não pode estar certo. Assim como não pode estar errado permanecer fiel à imperatriz. Que desculpa terão dado para trocarem de lugar? Como podem justificar a pretensão do conde Stephen?

Justificar pode não ser a palavra mais exacta, mas muitos serão aqueles que, de entre os nobres, afirmarão que um homem pode desempenhar melhor o papel de governante que uma mulher. E nenhum estava mais próximo do trono que Stephen. Ele é neto do rei William, tal como Maud.

Mas não é filho do último rei. E de qualquer modo é-o pelo lado da mãe, que era mulher como Maud; portanto, onde está a diferença?

A voz jovem tinha emergido do tom baixo e reservado para se revelar em toda a sua clareza e veemência.

Mas a verdadeira diferença está no facto de o conde Stephen ter corrido para aqui e ter-se apossado daquilo que queria, enquanto a imperatriz estava longe, na Normandia, alheia a semelhante malvadez. E agora que metade dos barões resolveram renovar os seus votos e declararem-se do lado dela, acaba por ser tarde de mais, e que outra coisa daí poderá resultar senão derramamento de sangue e mortes? Começou em Shrewsburry, mas não ficará por aqui.

Criança disse Cadfael suavemente, não estarás a entrar em extremos?

O rapaz, que pegara na foice e a balançava com mão capaz, testando a sua perícia, virou-se e olhou para ele com os olhos subitamente muito abertos e incautos.

Pois bem, estou disse.

Se achas que deves tomar partido, fá-lo. Mas quando estiveres entre os outros, mantém a boca calada. Aqui estamos em plena batalha, tanto como se vivêssemos na cidade, e os nossos portões mantêm-se abertos para ambas as facções. Encontram-se cá muitos géneros de homens, e em tempos difíceis alguns podem tentar comprar favores transmitindo boatos. Outros podem até mesmo recolher esses boatos para ganharem a vida. Não há nada como manteres os teus pensamentos para ti mesmo.

O rapaz afastou-se ligeiramente e baixou a cabeça. Possivelmente sentia-se reprovado. Ou talvez não!

Pagarei a tua confiança com a minha confiança disse Cadfael. O meu estado não me permite tomar partido por um ou outro monarca, mas penso que há muito a dizer sobre a manutenção da palavra e a vassalagem de um homem. E agora vejamos como te portas no trabalho duro que vais ter de fazer. Quando terminar a plantação de couves que estava a fazer, venho dar-te uma ajuda.

Ficou a ver o rapaz meter mãos à obra, o que este fez com extremo vigor. A túnica estava-lhe grande de mais e o pano fazia-lhe um grande chumaço na cintura; se calhar herdara-a já gasta de algum parente mais velho e de maiores proporções. ”Meu amigo”, pensou Cadfael, ”com este calor não conseguirás manter esse ritmo durante muito tempo, e depois é que vamos ver!”

Quando, um pouco mais tarde, voltou á sussurrante plantação de ervilhas onde se encontrava o seu ajudante, verificou que este estava vermelho como um tomate, transpirava abundantemente e arquejava de forma audível a cada golpe de foice, mas não abrandara os seus esforços. Cadfael arrastou uma braçada de hastes cortadas para o fundo do terreno e disse com sinceridade:

Não há necessidade de transformares esse trabalho numa penitência, rapaz. Despe a camisa e fica á vontade.

E ele próprio fez escorregar a parte de cima do hábito, já arregaçado até aos joelhos, pelos ombros fortes e queimados, de modo que ficasse a pender-lhe da cintura.

O efeito foi complexo, mas de modo algum decisivo. O rapaz suspendeu os golpes por momentos e disse:

Estou muito bem assim!

Fê-lo com admirável compostura, mas vários tons acima das suas anteriores manifestações orais roufenhas e juvenis, prosseguindo resolutamente o seu trabalho, ao mesmo tempo que uma inconfundível onda rósea lhe subia pelo pescoço esguio até chegar á curva das maçãs do rosto. Teria aquilo o significado que parecia ter? Talvez ele tivesse mentido acerca da sua idade, a sua voz poderia estar ainda irregular e instável. E talvez se desse o caso de não trazer camisola interior por baixo da camisa e tivesse vergonha de mostrar essa falta a uma pessoa acabada de conhecer. Ora, não faltariam ocasiões para outros testes. Mas o melhor era não deixar o esclarecimento daquela dúvida para muito mais tarde. Se aquilo de que Cadfael suspeitava fosse verdade, a questão necessitaria de uma análise profunda.

Lá está aquela garça a roubar novamente o nosso viveiro de peixes! gritou de súbito, apontando para o ribeiro Meole, onde, confiante, a ave chapinhava, movimentando as enormes asas. Atira-lhe uma pedra, estás mais perto que eu!

A garça não representava nenhuma ameaça, mas se as suspeitas de Cadfael se confirmassem, também não corria qualquer perigo.

Godric olhou a ave por momentos, depois apanhou uma pedra de tamanho razoável e, ganhando coragem, ergueu-a. O seu braço tomou balanço e projectou a pedra através do ribeiro. Esta foi cair perto da margem fazendo erguer um jacto de água, que sem dúvida fez a garça levantar imediatamente voo, mas ficou bastante longe do local onde esta estivera.

”Ora esta!”, pensou Cadfael para com os seus botões, sentando-se para melhor se entregar aos seus pensamentos.

No acampamento que sitiava o Castelo Foregate, estendendo-se por todo o terreno que acompanhava o rio Severn, o rei Stephen impacientava-se, encolerizava-se e banqueteava-se, celebrando os poucos salopianos leais a ele, melhor dizendo! que tinham vindo oferecer-lhe apoio, e planeava a vingança que iria desencadear contra os muitos ingratos que o tinham abandonado.

Era um homem enorme, barulhento, bem-parecido e simplório, de tez clara, semblante deveras agradável e que naquele momento da sua vida se encontrava perfeitamente desnorteado pela controvérsia levantada entre a boa natureza que lhe era inerente e a punjente sensação de injúria que o assaltava. Tinha fama de ser de compreensão lenta, mas quando o tio Henry falecera, não deixando outro herdeiro para além de uma filha, que, ainda por cima, tinha a desvantagem de ser casada com um angevino e de se encontrar muito longe dali, em França, por muito submissos que os vassalos de seu pai fossem à vontade por este manifestada no sentido de a aceitarem como sua rainha, Stephen, pela primeira vez na sua vida, movimentara-se com admirável rapidez e precisão, surpreendendo de tal modo os seus potenciais súbditos que os levara a aceitarem-no antes mesmo de terem tempo para considerarem os seus próprios interesses, muito menos de recordarem votos relutantes. Então por que motivo um golpe tão bem sucedido se tornara abruptamente falhado? Ele nunca o conseguiria compreender. Por que razão metade dos seus súbditos mais influentes, aparentemente reduzidos á imobilidade durante algum tempo, tinham agora decidido revoltar-se? Um assomo de consciência? Desagrado em relação ao rei que lhes era agora imposto? Terror supersticioso em relação ao rei Henry e à influência que este pudesse ter sobre os desígnios de Deus?

Obrigado a encarar seriamente a oposição e a pegar em armas para lhe fazer frente, Stephen adoptara uma política que lhe era peculiar, atacando duramente onde era necessário, mas deixando uma porta esperançosamente aberta para os que, arrependendo-se, se lhe voltassem a reunir. E qual fora o resultado? Poupara-os, e estes, depois de se aproveitarem dessa vantagem, tinham passado a desprezá-lo. Permitira que a submissão se fizesse sem penalidades, enquanto se dirigia para norte combatendo as hostes rebeldes, e os nobres locais afastaram-se dele com desprezo. Bem, o ataque que estava a planear lançar na madrugada do dia seguinte devia decidir o destino da guarnição de Shrewsbury e definir as coisas de uma vez por todas. Se aqueles senhores do interior não acedessem ao seu convite, vindo juntar-se a ele em paz e com lealdade, seriam obrigados a correr apressadamente como ratos se quisessem salvar a própria vida. Quanto a Arnulf de Hesdin... depressa se veria obrigado a engolir amargamente as obscenidades e os desafios que lhe lançara do cimo dos torreões de Shrewsbury.

A tarde ia no fim e o rei conferenciava, na tenda que montara no meio dos prados, com Gilbert Prestcote, seu ajudante-de-campo e deputado

pelo condado de Salop. E com Willem Ten Heyt, capitão dos seus mercenários flamengos. Precisamente nessa altura estavam o Irmão Cadfael e o jovem Godric a lavar as mãos e a ajeitar as roupas a fim de irem assistir às vésperas. O facto de os nobres locais não terem trazido as suas próprias companhias de soldados para apoiar o rei levara este a procurar grande parte desse apoio nos Flamengos, que, em consequência disso, se tornaram muito odiados, tanto por serem estranhos como por se mostrarem profissionais totalmente desprovidos de escrúpulos, que tão depressa incendiavam uma aldeia como se embebedavam, não se inibindo de fazer ambas as coisas ao mesmo tempo. Ten Heyt era um homem corpulento e de bela aparência, com cabelo ruivo-alourado e longos bigodes, ainda nos 30 anos, mas já veterano nas lides da guerra. Prestcote era um cavaleiro calmo e lacónico que já passara dos 50, muito experimentado e valoroso em batalhas, cauteloso nas opiniões e que, apesar de não ser dado a extremos, estava naquele momento a argumentar severamente.

Vossa Majestade tentou a generosidade, mas esse gesto foi vergonhosamente aproveitado em vosso desfavor. É tempo de desencadear o terror.

Em primeiro lugar disse Stephen secamente tomar o castelo e a cidade.

Isso já Vossa Majestade pode considerar como feito. Os arranjos de que dispusemos para amanhã trar-vos-ão Shrewsbury. Depois, se sobreviverem ao assalto, Vossa Majestade poderá fazer o que muito bem entender de FitzAlan, Adeney e Hesdin, e os burgueses também não vos darão trabalho de maior, mas até mesmo em relação a eles faríeis bem em considerá-los como um exemplo.

O rei contentar-se-ia perfeitamente em se vingar nos três nobres que tinham conduzido a resistência no castelo. William FitzAlan devia o seu cargo de xerife do condado de Salop. a Stephen, mas isso não o impedira de se declarar contra aquele e defender a fortaleza para a rival deste. Fulke Adeney, o mais importante de todos os nobres vassalos de FitzAlan, fora conivente com a traição e apoiara o seu senhor sem reservas. Hesdin condenara-se a si mesmo vezes sem conta devido ás suas observações arrogantes. Quanto aos restantes, não passavam de peões, utilizáveis por motivos de estratégia, mas desprovidos de importância.

Chegou-me aos ouvidos um boato que corre na cidade disse Prestcote, segundo o qual FitzAlan enviou a mulher e os filhos para longe antes de lhe fecharmos a saída situada a norte da cidade. Mas Adney também tem uma filha. Consta que esta continua lá dentro. Eles conseguiram fazer sair as mulheres a tempo.

Prestcote era, ele próprio, um homem do condado e conhecia a nobreza local, pelo menos de nome e reputação.

A filha de Adeney está prometida desde criança ao filho de Robert Beringar, de Maesbury, por Oswestry. Eles tinham terras vizinhas para esses lados. Faço referência a esse pormenor porque é esse o homem que lhe pede agora audiência. Chama-se Hugh Beringar, de Mesbury. Façai dele o uso que vos aprouver, Majestade, mas até hoje eu juraria que se tratava de um homem fiel a FitzAlan, vosso inimigo, portanto. Deixai-o vir á vossa presença e julgai-o vós mesmo. Se ele virou a casaca, tanto melhor, dispõe de homens suficientes debaixo do seu comando para nos ser útil, mas não convém facilitar-lhe excessivamente o acesso.

O oficial da guarda entrara no pavilhão e continuava á espera que o convidassem a falar. Adam Courcelle era um dos tenentes-chefes de Prestcote e o seu braço direito, um soldado experimentado que rondava os 30 anos de idade.

Vossa Majestade tem outro visitante disse, quando o rei lhe reconheceu a presença. É uma dama. Deseja vê-la em primeiro lugar? Não dispõe de alojamento aqui e como a hora já vai adiantada... Diz chamar-se Aline Siward, afirmando que o pai, que acabou há bem pouco de enterrar, foi sempre fiel a Vossa Majestade.

O tempo escasseia retorquiu o rei. Deixai-os entrar aos dois, e a dama que tome a palavra em primeiro lugar.

Courcelle conduziu-a pela mão até á presença real, tratando-a com toda a deferência e admiração, e não havia dúvida de que esta merecia bem a atenção de qualquer homem. Esbelta e tímida, não passara seguramente dos 18 anos, e a austeridade do seu luto, o manto e o capuz branco de onde se escapavam algumas madeixas de cabelo louro que emolduravam o rosto serviam apenas para lhe dar um aspecto ainda mais jovem e comovedor. Possuía a arrogância e a acanhada dignidade de uma criança. Ao fazer a reverência diante do rei, mirou-o com os enormes olhos de íris escura muito abertos, numa expressão admirada perante a sua aparência.

Minha senhora disse Stephen, estendendo-lhe a mão, lamento verdadeiramente a perda que acabais de sofrer e da qual tomei conhecimento neste preciso momento. Se a minha protecção pode, de algum modo, servir-vos, peço-vos que mo deis a saber.

Vossa Majestade é muito gentil respondeu a jovem com voz suave e amedrontada. Hoje sou órfã e sou o único membro que resta da minha família para vos manifestar submissão e prestar a vassalagem que vos é devida. Faço aquilo que meu pai teria desejado poder fazer pessoalmente, não fora a sua doença e morte, razões que também me impediram de vir mais cedo. Até Vossa Majestade chegar a Shrewsbury não tivemos oportunidade de vos ofertar as chaves dos dois castelos que possuímos. Faço-o agora!

A criada, uma mulher jovem de aspecto tranquilo e uns bons dez anos mais velha do que a sua ama, seguira-a até ao interior da tenda, mantendo-se a um canto. Ao escutar aquelas palavras aproximou-se para entregar as chaves a Aline, que, por sua vez, as depositou formalmente nas mãos do rei.

Podemos colocar ao serviço de Vossa Majestade cinco cavaleiros e mais de quarenta soldados armados, mas neste momento deixei-os a abastecerem-se em casa porque penso que, assim, poderão ser-vos mais úteis.

Referiu as suas propriedades e os seus castelãos. Era como ouvir uma criança a recitar uma lição de cor, embora a dignidade e a gravidade de que dava mostras fossem as de um general em campo.

Há ainda uma outra coisa de que devo falar-vos francamente e para minha grande mágoa. Tenho um irmão, que devia estar aqui a desempenhar este dever no meu lugar. A voz tremeu-lhe ligeiramente, mas recobrou corajosamente a compostura logo a seguir. Quando Vossa Majestade tomou a coroa, meu irmão Giles assumiu o partido da imperatriz Maud. Depois de um diferendo aberto com meu pai, Giles saiu de casa para se juntar àqueles que estavam ao lado dela. Desconheço o seu paradeiro neste momento, embora tenha ouvido rumores de que seguiu para França ao seu encontro. Não posso deixar Vossa Majestade na ignorância de uma dissensão que me penaliza tanto quanto o deve fazer a vós. Espero que este problema não constitua impedimento para utilizardes o que vos ofereço a vosso bel-prazer, tal como meu pai teria desejado e eu mesma quero.

A jovem soltou um profundo suspiro, como se tivesse acabado de se libertar de um grande peso. O rei estava encantado. Pegando-lhe na mão, fê-la aproximar-se dele e depositou-lhe um beijo cordial numa das faces. A julgar pela expressão do rosto de Courcelle, este invejava claramente aquela oportunidade.

Deus me guarde, criança disse o rei, de contribuir com mais alguma parcela que seja para as vossas mágoas ou de não fazer o que me for possível para as amenizar. Aceito a vossa vassalagem de todo o coração, para mim tão grata como a de qualquer conde ou barão, assim como vos agradeço todos os desgostos sofridos para me ajudardes. E agora mostrai-me o que posso fazer para vos servir, já que não é possível arranjar-vos alojamento condigno neste acampamento e tenho conhecimento de que não providenciastes vós mesma essa medida. Não tarda a anoitecer.

Tinha pensado disse timidamente em passar a noite na casa de hóspedes da abadia, caso seja possível arranjar um barco no qual possamos fazer a travessia do rio.

Claro que podeis dispor de uma escolta para vos acompanhar através do rio e também pediremos ao prior da abadia que ponha ao vosso serviço uma das suas casas de hóspedes, onde podereis dispor de privacidade como de protecção até ser possível dispensarmo-vos uma escolta para vos acompanhar até casa.

Olhando em volta em busca de um mensageiro que pudesse utilizar imediatamente, não pôde deixar de notar a ansiedade mal reprimida de Adam Courcelle. O jovem, de cabelos castanhos brilhantes e olhos da mesma cor ardente, sabia que o seu rei não deixaria de lhe dar aquele prazer.

Adam, não se importa de acompanhar esta donzela e tomar todas as providências para que fique instalada em segurança?

Com todo o gosto. Majestade disse Courcelle fervorosamente, oferecendo uma mão calorosa à jovem dama.

Hugh Beringar observou a rapariga quando esta passou por ele, a mão submissa segura pela enorme manápula bronzeada de Courcelle, os olhos baixos, o rosto suave e gentil rodeado pelo capuz nobre desproporcionadamente grande, aparentando naquele momento uma expressão fatigada e triste, cumprida que fora, e com fidelidade, a missão que ali a trouxera. Ele não perdera palavra no exterior da tenda. Ela parecia agora capaz de se desfazer em lágrimas a qualquer momento, fazendo lembrar uma menininha após uma provação formal, uma criança-noiva devidamente ataviada para fazer jus às suas riquezas ou alta linhagem e logo a seguir enviada para a dependência das crianças depois de efectuada a transacção. O oficial do rei caminhava delicadamente a seu lado, como um conquistador conquistado, caso que não era de espantar.

Vinde, o rei espera-vos disse a voz gutural de Willem Ten Heyt ao seu ouvido. Virando-se, meteu a cabeça pela entrada da tenda. A obscuridade que, comparativamente, reinava no interior desta velou a presença majestosa do rei.

Aqui me tendes, meu soberano disse Hugh Beringar, fazendo uma vénia. Hugh Beringar, de Maesbury, ao vosso serviço, Majestade, com tudo o que possuo. Os meus combatentes não são muitos, mas metade são arqueiros e muito experientes. E todos eles vos pertencem.

O vosso nome, Master Beringar, é nosso conhecido disse o rei secamente. A vossa casa também. Que esta se devote à nossa causa é que nos causa estranheza. De acordo com o que tenho ouvido contar de vós, tendes sido, até há bem pouco, associado de FitzAlan e de Adeney, os traidores. E até mesmo esta mudança de partido nos parece ter chegado tarde de mais. Já se passaram quatro semanas desde que estou nestas paragens sem que tenha ouvido falar de vós.

Majestade disse Beringar sem se apressar em arranjar desculpas ou aparentar algum incómodo pela frieza da recepção, fui ensinado desde criança a encarar os homens, a quem vós, compreensivelmente, chamais de traidores, como meus pares e amigos, qualidades em que nunca lhes encontrei defeito. Vossa Majestade é um homem demasiado justo para não admitir que uma pessoa como eu, que ainda não jurou fidelidade a ninguém, possa necessitar de pensar muito bem antes de fazer a sua opção, se a mesma tiver de ser tomada de uma vez por todas. Que a filha do rei Henry tem alguma justeza na sua pretensão, está certamente fora de qualquer dúvida, e não me compete a mim chamar traidor a um homem que escolheu essa causa, embora o censure por quebrar o juramento feito a Vossa Majestade. No que me diz respeito, só há poucos meses vim para as minhas terras, e até este momento ainda não prometi lealdade a ninguém. Precisei de algum tempo para escolher o lado que serviria. Aqui me tendes. Aqueles que se juntam a vós sem uma reflexão profunda correm o risco de se afastar com igual ligeireza.

E isso não irá acontecer convosco? inquiriu o rei com cepticismo.

Analisava aquele jovem audacioso e dotado, possivelmente, de grande fluência, com atenção crítica. Tratava-se de um indivíduo de corpulência mediana, mas de movimentos equilibrados e seguros; era provável que compensasse em velocidade e agilidade o que lhe faltava em volume e poder de alcance. Teria talvez dois ou três anos para além dos 20 e possuía feições finas e atentas e uma fisionomia severa e ardilosa. Homem impenetrável, já que não era possível ver o que se passava por detrás dos olhos profundos. O discurso sem rodeios que utilizava podia ser honesto, mas também não era de todo impossível que fosse calculado. Parecia suficientemente arguto para se ter dado conta, depois de analisar o seu soberano, que talvez este apreciasse uma atitude ousada.

Podeis crer que não, disse firmemente. Mas para isso não precisareis da minha palavra. Bastarão as provas que vos der daqui em diante. Vossa Majestade pode pôr-me á experiência.

A vossa força não vos acompanhou?

Trago apenas três homens comigo. Teria sido uma insensatez deixar um bom castelo sem guarda e também não vos prestaria bom serviço ao pedir-vos que alimentásseis mais cinquenta homens sem providenciar as devidas provisões para o número de homens a mais. Vossa Majestade tem apenas de me dizer o que deseja de mim, que a sua vontade será cumprida.

Não sejamos tão céleres disse Stephen. Outros poderão necessitar igualmente de tempo e reflexão antes de vos aceitarem, jovem. Ainda há pouco tempo éreis muito amigo e da confiança de FitzAlan.

Efectivamente. Continuo a não ter nada contra ele, apenas tomámos caminhos diferentes.

E pelo que me constou, sois o prometido da filha de Adeney.

Tenho dificuldade em responder a essa vossa observação; realmente sou-o! Ou era! Os acontecimentos alteraram muitos dos planos previamente traçados, tanto para os outros como para mim. Neste momento não faço a menor ideia onde a rapariga se encontra ou, sequer, se o combinado ainda se mantém.

Dizem que todas as mulheres abandonaram já o castelo observou o rei, mirando-o atentamente. É possível que a família de FitzAlan já se encontre bem longe daqui. Mas consta que a filha de Adeney está escondida na cidade. Não me seria desagradável observou com um ligeiro ênfase ter uma dama de tão precioso valor à minha guarda para o caso de os meus planos terem de ser alterados. Pertencíeis ao partido do seu pai, pelo que deveis conhecer os locais prováveis do seu esconderijo. Quando a via estiver desimpedida, vós, de entre todos, sereis a pessoa mais indicada para a descobrir.

O jovem devolveu-lhe o olhar, mantendo uma expressão inescrutável no rosto. Apenas os argutos olhos negros assinalaram compreensão, mas nada mais, nem aquiescência, discordância ou qualquer reconhecimento de que percebera que lhe estavam a dar uma tarefa de cujo resultado dependia a sua aceitação e a obtenção de boas graças. A sua voz era branda e desprovida de malícia quando respondeu: Essa é a minha intenção, Vossa Majestade. Foi também com essa ideia que vim de Maesbury.

Bem disse Stephen, agradado mas vigilante, então podeis ficar a aguardar a queda da cidade, mas de momento não temos nenhuma tarefa imediata para vos dar. Em tendo necessidade dos vossos préstimos, aonde poderei mandar chamar-vos?

A casa de hóspedes da abadia replicou Beringar, se ali houver lugar para mim.

O jovem Godric assistiu às vésperas entre os alunos e os noviços bastante afastado, entre o pessoal menor da casa e perto dos leigos que, vivendo ali perto, fora das muralhas da abadia, nas margens do rio, podiam acorrer a esta, em busca de refúgio. ”Parecia”, segundo pensou o Irmão Cadfael ao virar a cabeça para olhar para o jovem, ”muito franzino e desempenado, mas o seu rosto, aberto e algo impudente quando tinham estado no herbário, adoptara um ar profundamente solene ali na igreja.” A noite despontava, a primeira noite que ele passava naquela abadia. Ora, as suas tarefas estavam a correr de forma mais satisfatória do que poderia esperar e a provação com que ele próprio estava a braços não lhe iria trazer problemas se as coisas corressem bem e, para todos os efeitos, não naquela noite. O Irmão Paul, mestre dos noviços, tinha vários jovens com que se ocupar e ficara aliviado por se livrar de um.

Após a janta, Cadfael solicitara a presença do seu protegido, depois de, satisfeito, ter observado que Godric comia com apetite. Via-se que o moço estava fervorosamente disposto a rechaçar quaisquer receios e desfalecimentos que pudessem possuí-lo e tivera o bom senso de se fortificar com os recursos da carne para as batalhas do espírito. E o que era ainda mais reconfortante, quando Cadfael lhe pousara a mão no ombro ao saírem do refeitório, olhara para este com uma expressão de alívio e reconhecimento.

Anda, não temos nada para fazer até ás completas, e lá fora nos

 

Nota: Completas Última parte do ofício divino, que se diz depois das vésperas. (N da T)

 

jardins está fresco. Não há necessidade de ficarmos aqui dentro, a não ser que o prefiras.

O jovem Godric não o preferia, mostrando-se satisfeito por poder escapar para a tarde de Verão. Dirigiram-se preguiçosamente para o viveiro de peixes e o herbário, e o rapaz começou a saltitar ao lado de Cadfael, assobiando alegremente, até, de repente, se interromper.

Ele disse que o mestre dos noviços devia querer falar comigo depois da janta. Será realmente conveniente eu acompanhar-vos assim como estou?

Não tenhas receio, criança, está tudo autorizado e abençoado. Falei com o Irmão Paul, que concordou comigo. Tu és o meu ajudante e eu responsabilizo-me por ti.

Tinham entrado no jardim rodeado de muros, sentindo-se mergulhar e submergir no meio de todas aquelas fragrâncias que o sol ajudara a libertar, alecrim, tomilho, erva-doce, anetos, salvas, lavanda, todo um mundo de secretas doçuras. O calor do Sol ainda pairava no ar, inebriante de odores até mesmo ao fresco da noite que se aproximava. Sobre as suas cabeças as andorinhas revolteavam, piando agudamente, extasiadas.

Tinham chegado ao barracão de madeira, de cujas tábuas oleadas irradiava uma sensação de calidez. Cadfael abriu a porta.

É aqui que passas a dormir, Godric.

Havia uma bancada de pés baixos e ar limpo e arranjado num dos cantos da dependência. O rapaz ficou a olhar e estremeceu sob a mão de Cadfael.

Tenho todas estas plantas medicinais aqui a fermentar e algumas delas necessitam de ser remexidas regularmente, umas quantas até logo pela manhãzinha, caso contrário perdem-se. Mostro-te tudo o que tens a fazer e verás que o trabalho não é nada pesado. E tens aqui a tua cama e também um tabique que podes abrir para entrar ar fresco.

O rapaz parara de tremer e os olhos escuros, muito abertos e avaliadores, fixaram-se implacavelmente em Cadfael. Neles parecia ler-se uma sombra de sorriso, mas também uma certa aura de dignidade ofendida. Cadfael virou-se para a porta e mostrou a pesada barra que a trancava por dentro, a qual, depois de colocada, não permitia a abertura da mesma pelo lado de fora.

Aqui dentro podes fechar-te do mundo e de mim até te sentires preparado para te juntares a nós.

O rapaz de nome Godric, que de rapaz não tinha nada, olhava naquele momento para Cadfael numa acusação directa, meio ofendido, meio radiante, mas totalmente aliviado.

Como é que descobristes? perguntou ela, erguendo o queixo de forma beligerante.

Como é que te irias desenvencilhar no dormitório? respondeu o Irmão Cadfael em voz suave.

Ter-me-ia arranjado. Os rapazes não são lá muito espertos. Não teria tido dificuldade em enganá-los. Debaixo de uma barreira como esta disse, agarrando numa mão-cheia de tecido da túnica todos os corpos são iguais, e além disso os homens são cegos e estúpidos.

Riu-se ao reparar no ar plácido e complacente de Cadfael, e de repente toda ela se mostrou mulher, uma mulher espantosamente bonita no júbilo do alívio que sentia.

Oh, vós não! Mas como é que descobristes? Esforcei-me tanto que me julguei capaz de passar em todos os testes. Onde é que errei?

Fizeste tudo muito bem disse Cadfael calmamente. Mas, minha filha, andei por esse mundo durante quarenta anos, e sempre de um lado para o outro, antes de tomar o hábito e me enfiar neste recanto tranquilo e verdejante. Onde é que erraste? Não leves a mal o que te vou dizer, considera-o apenas como o conselho leal de um aliado. Quando começaste a argumentar com toda a veemência, deixaste a tua voz elevar-se. Nessa altura não se ouviu uma única falha nela que disfarçasse a alteração. Isso pode ser aprendido, mostrar-te-ei assim que tivermos um pouco de tempo livre. E quando te disse que estivesses à vontade, tirando a camisa (ah, nunca cores, criança, foi nessa altura que deixei de ter dúvidas!), claro que me deixaste perfeitamente surpreendido. Finalmente, quando te mandei atirar uma pedra através do ribeiro, fizeste-o à maneira das raparigas, com o braço baixo, projectando-a de forma a descrever um arco arredondado. Onde é que alguma vez viste um rapaz atirar pedras desse modo? Nunca deixes ninguém apanhar-te em semelhante erro, pelo menos até teres aprendido a fazê-lo como deve ser. Ficavas imediatamente desmascarada.

Em seguida calou-se e ficou a olhá-la pacientemente, pois a jovem sentara-se na cama, de rosto entre as mãos, começando primeiro a chorar, depois a rir e, finalmente, a fazer as duas coisas ao mesmo tempo; resolveu não interferir, pois via que estava completamente fora de si e mais valia deixá-la desabafar. Agora acreditava que ela tinha 17 anos, uma mulher em flor e de boas qualidades também.

Sentindo-se mais calma, limpou os olhos com as costas da mão e ergueu-os vivamente, esboçando um sorriso que fazia lembrar a luz do Sol coada através do arco-íris.

Falou a sério? inquiriu. É responsável por mim? Disse-lhe qual era a minha posição em relação à contenda que se está a travar.

Querida filha disse Cadfael pacientemente, que outra coisa poderia eu fazer contigo senão servir-te o melhor que puder e ver se chegas a salvo aonde quer que devas estar?

E nem sequer sabeis quem eu sou! disse ela, maravilhada. Não estareis a confiar demasiado em mim?

Que diferença poderia fazer o facto de eu conhecer o teu nome, criança? Para mim não passas de uma jovem aqui chegada ao desamparo e que deve ser restituída ao seio da sua própria gente. Não será isso suficiente? Não precisarei de saber mais do que aquilo que me quiseres contar.

Penso que desejo contar-vos tudo disse a rapariga com simplicidade, erguendo para ele os olhos cândidos como o céu. Meu pai ou está neste momento no castelo de Shrewsbury, com a morte a pairar sobre a sua cabeça, ou fora deste, correndo para salvar a vida juntamente com William FitzAlan, em direcção ás terras que a imperatriz possui na Normandia, com uma matilha de cães raivosos prestes a seguir no seu encalço a qualquer momento. Sou um fardo para todos aqueles que neste momento se tornarem meus amigos, e é provável que me dêem caça para fazerem de mim refém assim que notarem a minha ausência. Até para vós. Irmão Cadfael, posso ser perigosa. Sou a filha do principal aliado e amigo de FitzAlan. Chamo-me Godith Adeney.

Lame Osbern, que nascera com ambas as pernas aleijadas mas andava sempre a correr de um lado para o outro, a uma velocidade inacreditável, sobre as mãos protegidas por socos de madeira, arrastando os joelhos enrugados atrás dele num pequeno carrinho de rodas, era o mais humilde dos vivandeiros do rei. Em tempos normais costumava ter as suas mercadorias expostas perto dos portões do castelo, mas abandonara a tempo o local, agora tão perigoso, transferindo a sua devotação esperançosa para o fundo do acampamento que sitiava o castelo, tão próximo quanto lhe era permitido da guarda principal, por onde os grandes entravam e saíam. O rei era notoriamente generoso, excepto em relação aos seus inimigos de armas, e as sobras que apanhava eram boas. Os oficiais militares em comando andavam talvez demasiado preocupados para se deterem a reparar num mendigo ou a darem-lhe esmola, mas alguns daqueles que ali acorriam em busca de favores, tendo-se decidido para que lado a fortuna estava a tender, não hesitavam em ser generosos para com os pobres, na esperança de assim conseguirem os favores divinos, e até mesmo os arqueiros vulgares e os flamengos, quando estavam de folga e bem-dispostos, atiravam alguns cobres a Osbern ou davam-lhe os restos das refeições.

Osbern tinha o seu pequeno trólei guardado num abrigo que arranjara no meio de um aglomerado de árvores ainda não totalmente desenvolvidas, perto do posto da guarda, de onde se podia aproximar para comer um pedaço de pão ou tomar um gole e até mesmo para gozar de um pouco do calor da fogueira do acampamento que ficava acesa durante a noite. Apesar do calor que se faz sentir nos dias de Agosto, as noites podem ser bastante frescas, sobretudo quando se tem apenas alguns farrapos a cobrir o corpo, pelo que a fogueira era duplamente bem-vinda. Eles alimentavam-na parcialmente à custa de turfa, fazendo assim com que o fulgor não fosse tão intenso, mas deixavam-na suficientemente

 

Nota: Vivandeiro Pessoa que negoceia víveres em feiras, arraiais ou acampamentos militares. (N. da T.)

 

viva para poderem escrutinar todos aqueles que se aproximassem a horas tardias.

Era quase meia-noite quando Osbern, emergindo de um sono irrequieto e apurando os ouvidos para tentar descortinar a razão disso, se apercebeu de um restolhar entre os arbustos, à esquerda, dos lados do Castelo Foregate, mas bastante afastado da estrada aberta. Alguém se aproximava, vindo da cidade sem dúvida, não pelos portões principais, mas a coberto de um desvio que corria perto da margem do rio. Osbern conhecia a cidade como a palma calejada das suas mãos. Ou se tratava de um batedor que voltava do seu giro de reconhecimento mas então por que manter aquelas precauções já tão perto do acampamento? ou de alguém que se esgueirara para fora da cidade ou do castelo pela única saída que existia na muralha daquele lado, a abertura da água que ia dar ao rio.

Um vulto negro, mais visível na noite sem luar pelo movimento do que pela matéria, escapuliu-se do meio dos arbustos e, agachado e silencioso, correu para o posto da guarda. Perante o grito de alerta e o pedido de senha da sentinela, estacou imediatamente, mantendo-se imóvel mas impaciente, e Osbern pôde divisar os contornos de um corpo esbelto e flexível, cuidadosamente envolto numa capa preta de modo a mostrar apenas uma ligeira faixa do rosto empalidecido. A voz que respondeu à interpelação era jovem, aguda, atormentadamente temerosa e desesperadamente urgente.

Imploro uma audiência. Não estou armado! Leve-me à presença do seu oficial. Tenho algo a dizer para benefício do rei...

Gritaram-lhe que entrasse e apalparam-no rudemente para se certificarem de que não transportava armas; o que entre eles foi dito não chegou aos ouvidos de Osbern, mas este concluiu que a vontade lhe fora feita. Conduziram-no até ao interior do acampamento, onde desapareceu de vista.

Osbern não conseguiu voltar a conciliar o sono, sentindo o frio da madrugada introduzir-se por entre os farrapos que lhe cobriam o corpo. ”Um manto como aquele”, pensou, tiritando, ”era o que eu mais precisava que o bom Deus me mandasse!” E no entanto o possuidor de agasalho tão estupendo parecera estar a tremer e a voz insegura traíra não só o medo que sentia, mas também uma esperança ávida. Incidente curioso, sem dúvida, mas sem qualquer proveito para um pobre mendigo. Pelo menos foi o que lhe pareceu até ver o mesmo vulto emergir da área sombreada do acampamento e deter-se novamente no portão. A sua passada era agora mais ligeira e longa, a sua atitude menos furtiva e temerosa. Levava não se sabe que insígnia das autoridades que foi o suficiente para lhe permitir que saísse do mesmo modo como tinha entrado, desarmado e incólume. Osbern ouviu algumas palavras soltas.

Tenho de voltar, não devo levantar suspeitas... Levo as minhas ordens!

Ah, era agora bem possível que a alegria de alguma graça concedida predispusesse aquele personagem á esmola. Osbern precipitou-se em frente, sobre as suas rodas, seguindo no encalço do homem e estendendo-lhe a mão assim que o alcançou.

Em nome de Deus, senhor! Se ele foi bondoso para convosco, sede-o também para com este miserável!

Vislumbrou parte de um rosto agora mais despreocupado, ouviu longos suspiros de alívio e esperança. A luz bruxuleante da fogueira permitiu-lhe ver um fecho em metal trabalhado que prendia a capa junto ao pescoço do personagem. De entre as dobras do agasalho saiu uma mão, que deixou cair uma moeda na palma da que se estendia para ele.

Diz algumas orações por mim amanhã disse o indivíduo num sussurro quase inaudível, afastando-se com a mesma rapidez com que chegara e desaparecendo entre as árvores antes de Osbern ter tempo para o abençoar pela dádiva.

Antes de a madrugada nascer, Osbern foi arrancado ao seu sono inquieto e correu apressadamente a abrigar-se entre os arbustos a fim de sair do caminho dos homens em movimento. A luz ainda mal despontara, mas já o acampamento real se agitava, tão calmamente e numa ordem de tal modo experimentada que ele sentiu, mais do que ouviu, o reunir das tropas, a formação das fileiras, a verificação das armas. O ar da manhã parecia estremecer com a movimentação dos regimentos, ainda que mal se ouvisse um som. Entre as duas curvas do rio Severn, estendendo-se pela faixa de terra que formava a única via de acesso por terra firme à cidade, o murmúrio contínuo da actividade aumentava de intensidade, temeroso mas cheio de júbilo, acompanhando o agrupar do exército do rei Stephen e a formação das suas divisões para o assalto final ao castelo de Shrewsbury.

 

Muito antes do meio-dia estava tudo terminado, os portões queimados com mato apanhado nas redondezas e em seguida deitado abaixo, as muralhas limpas uma a uma, o último arqueiro hostil, caçado e expulso dos paredões e das torres, o fumo pairando, pesado e espesso, sobre a fortaleza e a cidade como um manto. Nas ruas não se viam sinais de seres humanos ou até mesmo de animais. Ao primeiro assalto, todos os homens tinham corrido a refugiar-se com as mulheres, os filhos e os animais atrás das portas aferrolhadas e barradas, escutando, encolhidos, o retumbar, o estrepitar e o vociferar da batalha. Não durou mais que uns momentos. A guarnição que defendia o castelo tinha atingido o limite da exaustão, os mantimentos encontravam-se muito reduzidos e o número de soldados tinha diminuído devido aos que, aproveitando qualquer oportunidade de fuga, desertavam. Ninguém tinha dúvidas de que o ataque seguinte tomaria a cidade. Os mercadores de Shrewsbury aguardavam, inquietos, a pilhagem inevitável, soltando suspiros de alívio quando a suspensão da mesma foi ordenada peremptoriamente pelo rei em pessoa, não porque este quisesse privar os flamengos da recompensa que lhes era devida, mas sim porque os queria o mais perto possível de si. Até mesmo os reis são vulneráveis e aquela fora uma cidade inimiga que ainda não estava pacificada. Além do mais, acima de tudo urgia dar destino à guarnição do castelo, em particular a FitzAlan, Adeney e Arnulf de Hesdin.

Stephen atravessou arrogantemente o pátio, onde o fumo, o sangue e o aço se misturavam, e entrou no hall, despachando Courcelle, Ten Heyt e os seus homens com ordens expressas para isolarem os líderes do castelo e os trazerem à sua presença. Quanto a Prestcote, manteve-o a seu lado; as chaves encontravam-se nas mãos do novo tenente e havia que começar a pensar nas provisões a tomar para a guarnição real.

No fim de contas observou Prestcote criteriosamente a tomada deste castelo ficou num preço razoavelmente baixo a Vossa Majestade. Em perdas, sem dúvida que não foi o caso. Em dinheiro, a demora ficou cara mas a fortaleza está intacta. Algumas reparações nas muralhas, portões novos... tendes aqui um baluarte que nunca mais precisareis de perder e que compensa o tempo que levámos a tomá-lo.

Veremos disse Stephen sombriamente, pensando em Arnulf de Hesdin a berrar-lhe os seus insultos arrogantes do cimo das torres. Como se ele próprio estivesse a desafiar a morte!

Courcelle voltou a aproximar-se, o elmo fora da cabeça e o cabelo castanhodourado a brilhar. Um oficial prometedor, alerta, imensamente forte no combate corpo a corpo, um belo comandante para os seus homens: Stephen aprovava-o.

Bem, Adam. Foram perseguidos até ao fim? Não me digas que FitzAlan está escondido nalgum celeiro como um servo cobarde...

Não, Majestade, de forma alguma! disse Courcelle com relutância. Percorremos a fortaleza de fio a pavio e garanto-vos que não deixámos nada por revistar. Mas FitzAlan não se encontra aqui! Dai-nos tempo que haveremos de descobrir-vos o dia, a hora e a rota que eles tomaram, os seus planos...

Que eles tomaram? exclamou Stephen exaltado, ao aperceber-se de que se lhe referiam no plural

Adeney fugiu com ele. Não restam dúvidas de que os perdemos. Lamento trazer a Vossa Majestade semelhantes novas, mas a verdade é a verdade.

E justiça lhe fosse prestada, ele tivera a coragem de trazer aquelas verdades.

Temos Hesdin em nosso poder acrescentou. Ferido mas sem importância, apenas uns quantos arranhões. Pu-lo a ferros como medida de precaução, mas penso que já não é o mesmo homem que fazia valer a sua vontade aqui dentro enquanto Vossa Majestade ficava lá fora.

Tragam-no á minha presença! ordenou o rei, enraivecido por ter descoberto que dois dos seus principais inimigos se tinham escapado por entre os seus dedos.

Arnulf de Hesdin aproximou-se, coxeando pronunciadamente e arrastando correntes presas aos pulsos e aos tornozelos; era um homem corpulento e rubicundo com cerca de 60 anos, sujo de poeira, fumo e sangue. Dois dos flamengos obrigaram-no a ajoelhar-se diante do rei. O seu rosto arvorava uma expressão sofredora e temerosa, a que não faltava, ainda assim, um ar de desafio.

Quê, estais amansado? exultou o rei. Onde está agora a vossa insolência? Vós, que tanta coisa tínheis a dizer aqui há um dia ou dois, estais hoje tão calado? Ou perdestes a língua?

Majestade disse Hesdin, proferindo palavras que, sem dúvida, lhe eram odiosas, a vitória sorriu-vos e eu estou à vossa mercê, a vossos pés, mas combati-vos lealmente e por isso devo agora ser tratado com honra. Sou um nobre de Inglaterra e de França. Estais a precisar de dinheiro e eu valho um resgate de conde, que posso pagar.

É demasiado tarde para me falardes de lealdade, vós que tantas coisas tínheis a dizer-me quando existiam muralhas entre nós. Nessa altura jurei tomar a vossa vida e é o que vou fazer. Um resgate de conde não a pode recuperar. Quereis saber o meu preço? Onde está FitzAlan? E Adeney? Dizei-me de imediato onde poderei deitar a mão a esses dois, e é melhor rezardes para que o consiga, que depois pode ser (pode ser!) que considere deixar-vos conservar a vossa miserável vida.

Hesdin erguera a cabeça e olhava o rei nos olhos.

Acho o vosso preço demasiado elevado disse. A única coisa que vos digo relativamente aos meus companheiros é que eles só fugiram quando viram que estava tudo perdido. E, vivo ou morto, nada mais do que isto obtereis de mim. Ide vós mesmo desencadear a vossa nobre vingança.

Veremos! exclamou o rei, irado. Veremos se não conseguimos obter mais nada de vós! Adam, leva-o daqui, entrega-o a Ten Heyt e vê o que se pode fazer com ele. Hesdin, tendes até ás duas da tarde para me dizerdes tudo o que sabeis em relação á fuga, caso contrário penduro-vos nas ameias pelo pescoço. Tirem-no daqui!

Arrastaram-no, ainda de joelhos. Stephen sentou-se, furibundo, fazendo estalar os nós dos dedos.

Prestcote, pensas que há alguma verdade naquilo que ele disse? Que eles só fugiram quando a batalha já estava perdida? Então é provável que ainda estejam na cidade. Como teriam eles conseguido passar? Não o poderiam ter feito pelo Foregate, pois para isso teriam de atravessar as nossas fileiras. E as primeiras companhias a entrar fizeram-no rapidamente pelas duas pontes. Eles devem estar escondidos algures nesta cidade. Encontrem-nos!

Eles não teriam podido atingir as pontes disse Prestcote sem hesitação. Só há uma saída, que é pela abertura da água do rio. Duvido que tivessem podido nadar naquela zona do Severn sem serem vistos e tenho a certeza de que não dispunham de nenhum barco. O mais provável é que ainda estejam escondidos na cidade.

Revistem-na! Descubram-nos! Não há pilhagem até eu lhes deitar a mão. Procurem-nos por todo o lado, mas encontrem-nos!

Enquanto Ten Heyt e os seus flamengos reuniam os prisioneiros e colocavam a nova guarnição sob as ordens de Prestcote, Courcelle e outros, acompanhados das respectivas companhias, corriam apressadamente à cidade, confirmavam a segurança das duas pontes e davam início a uma busca a todas as casas e lojas que existissem no interior das muralhas. O rei, assegurada que estava a sua conquista, voltara ao acampamento com a sua guarda pessoal, onde ficara a aguardar notícia dos dois fugitivos. Já passava das duas da tarde quando Courcelle se apresentou.

Majestade disse, abruptamente, não há palavra que melhor defina as novas que vos trago do que a do fracasso. Revistámos todas as ruas, todos os sacerdotes e comerciantes da cidade foram interrogados, não houve canto que escapasse ás nossas buscas. A cidade não é assim tão grande e só por milagre posso compreender que eles tenham conseguido sair destas muralhas sem serem vistos. Mas não os encontrámos, nem FitzAlan nem Adeney, tão-pouco vestígios ou alguém que os tivesse visto. Para o caso de terem atravessado o rio a nado, indo desembocar por detrás da Abadia Foregate, mandei uma patrulha investigar rapidamente aquela zona, mas duvido que tenhamos notícias deles. E Hesdin obstina-se em não falar. Não lhe conseguimos arrancar uma palavra sequer e Ten Heyt fez os possíveis, pouco lhe faltando para matar o homem. Não obteremos uma palavra dele. Sabe qual é a penalidade. As ameaças não servirão de nada.

Ele terá aquilo que lhe prometemos disse Stephen sombriamente. E o resto dos homens? Quantos restaram da guarnição que guardava o castelo?

Não contando com Hesdin, noventa e três soldados. Courcelle viu uma sombra passar pelo rosto agradável do rei; apesar

de amargamente furioso e frustrado, era no entanto pouco provável que este mantivesse o seu rancor por muito mais tempo. Há semanas que lhe diziam que perdoar demasiado depressa era nele um defeito.

Majestade, qualquer gesto de clemência seria, neste momento, tomado por fraqueza disse Courcelle enfaticamente.

Enforquem-nos! disse Stephen, lançando abruptamente a sentença, antes de se deixar vencer por alguma dúvida.

- Todos?

Todos! E imediatamente. Ponham-nos a todos fora deste mundo antes do dia de amanhã.

Passaram a tarefa macabra para as mãos dos flamengos. Os mercenários estavam ali para aquilo e a tarefa manteve-os ocupados o dia todo, afastando-os das casas da cidade, as quais, caso contrário, teriam sido despojadas de tudo quanto tivesse valor. O interlúdio, apesar de horrível, deu ás guildas, aos beleguins e aos bailios tempo para organizarem rapidamente uma delegação destinada a transmitir a sua lealdade ao rei, a qual obteve, quando muito, um sinal de graça austero e céptico. Talvez este não acreditasse na sua súbita devoção, embora pudesse apreciar a sua urgência.

Prestcote desdobrou a sua guarnição e instalou-a ordeiramente no castelo, enquanto Ten Heyt e as suas companhias davam rapidamente fim a todos os membros sobreviventes da velha guarnição. Arnulf de Hesdin foi o primeiro a morrer. O segundo foi um jovem escudeiro que desempenhara um pequeno papel de comando debaixo das suas ordens. Estava de tal modo apavorado com a aproximação da morte que não parava de gritar e protestar que lhe tinham prometido a vida. Os flamengos que o seguravam não tinham grandes conhecimentos de inglês, pelo que estavam altamente divertidos com as súplicas que o nó corrediço depressa calou.

Adam Courcelle confessava a si mesmo a sua satisfação por ter podido afastar-se da matança, pois acompanhara os seus batedores até ás zonas mais recônditas da cidade e, para lá da pontes, até aos subúrbios. Mas não encontrou traço de William FitzAlan ou Fulke Adeney.

Entre o alarme que soou logo pela manhã e a chacina ininterrupta que se estendeu pela noite, pairou sobre a Abadia de São Pedro e São Paulo um silêncio gélido de horror. Os rumores circulavam como abelhas num enxame, ninguém sabia ao certo o que se estava a passar, mas todos tinham a certeza de que era algo de terrível.

Os irmãos prosseguiam obstinadamente os actos que diziam respeito ao regime de vida escolhido, serviço após serviço, capítulo 4 e missa e horas de trabalho, porque a vida só podia ser conservada recusando a sua ruptura pela guerra, a catástrofe ou a morte. Aline Siward veio assistir ao capítulo que se seguiu á misssa, acompanhada de Constance, sua criada, mostrando-se empalidecida, ansiosa e heroicamente composta; Hugh Seringar também participou no ofício, pois observara a jovem a passar em frente da casa que lhe fora atribuída no Foregate e que ficava próxima do principal moinho da abadia. Durante o serviço, prestou bastante mais atenção ao perturbado perfil menineiro que divisava sob o véu branco do traje de luto que ás palavras do celebrante.

 

Nota 1: Guilda Corporação de artesãos, mercadores, artistas, etc., comum na Idade Média.

2 Beleguins Empregados inferiores da justiça.

3 Bailios Nome dado em diversos países a magistrados com várias atribuições e hierarquias. (N. da T.)

 

As suas pequenas mãos encontravam-se devotamente unidas, os lábios resolutos e vulneráveis moviam-se em silêncio, rezando piedosamente por todos aqueles que estavam a morrer e a ser feridos naquele momento. Constance, a jovem serva, observava-a de perto, zelosamente, como uma presença protectora, mas não podia afastar a guerra da sua ama.

Beringar seguiu-a à distância até vê-la entrar na casa. Não fazia tenções de, por enquanto, se aproximar dela ou falar-lhe. Quando a jovem desapareceu, deixou os lacaios para trás e saiu do Foregate, seguindo até ao fim da ponte. A ponte levadiça continuava levantada, selando a cidade, mas o clamor e os sons agudos da batalha começavam já a diminuir á sua direita, onde o castelo se erguia por entre o seu halo fumacento, do outro lado do rio. Teria ainda de esperar mais um pouco antes de poder levar a cabo a prometida busca da noiva que lhe estava prometida. Se tivesse interpretado correctamente os sinais, já não faltava muito para que a ponte fosse baixada e o acesso aberto. Entretanto foi tomar calmamente a refeição do meio-dia. Não havia pressa.

Os boatos acorriam á casa de hóspedes como a todos os restantes sítios. Aqueles que tinham negócios de honestidade irrepreensível noutros locais faziam as malas e preparavam-se para partir. O consenso que vigorava era o de que o castelo fora certamente tomado e que o custo seria muito elevado. Mais valia passar a respeitar a pretensão do rei Stephen, pois ele já tomara o poder e a imperatriz Maud encontrava-se longe, na Normandia, e por muito legítima que fosse a sua causa, era pouco provável que proporcionasse aos seus súbditos uma protecção adequada. Também constava que FitzAlan e Adeney tinham, igualmente, no último momento, conseguido escapar da ratoeira, fugindo para longe. Por esse facto muitos deram graças aos céus, embora em silêncio.

Quando Beringar voltou a sair, a ponte já fora baixada, a via desimpedida e as sentinelas do rei Stephen tomavam conta da passagem. Foram rigorosos na análise das suas credenciais, mas deixaram-no passar respeitosamente depois de verem de quem se tratava. Stephen devia ter-lhes dado ordens nesse sentido. Atravessando a entrada, penetrou no portão aberto da muralha, onde estava a guarda. A rua elevou-se acentuadamente; a cidade, na ilha, estava situada num ponto elevado. Beringar conhecia-a bem, assim como também sabia para onde se dirigia. No cimo da colina, a fileira dos estábulos e das casas dos magarefes elevava-se, silenciosa e deserta.

A loja de Edric Flesher era a mais agradável de todas, mas encontrava-se fechada e não se viam sinais de vida, à semelhança das restantes. Quase não aparecia nenhuma cabeça a espreitar, e até mesmo as que raramente o faziam olhavam rápida e temerosamente para fora, retirando-se logo a seguir para trás das portas trancadas. Via-se pelo aspecto da rua que ainda não tinha havido pilhagem. Beringar bateu á porta fechada, e ao ouvir ruídos furtivos no interior da casa elevou a voz:

Abram, é Hugh Beringar! Edric, Petronilla, deixem-me entrar, estou sozinho!

Não teria ficado surpreeendido se a porta continuasse fechada como uma tumba e aqueles que se encontravam do outro lado permanecessem em silêncio, não os culpando por isso; mas, em vez disso, a porta escancarou-se e Petronilla apareceu, radiosa, abrindo-lhe os braços colher rechonchuda, suculenta e gentil, a coisa mais saudável que, até ali, lhe fora dado ver na cidade sitiada. Trazia o cabelo grisalho muito bem arranjado debaixo da touca branca, e os olhos brilhantes, acinzentados e inteligentes de sempre davam-lhe as boas-vindas.

Mister Hugh, que bom é ver aqui um rosto conhecido e de confiança, neste momento!

Beringar ficou instantaneamente certo de que ela não confiava totalmente nele.

Entrai e sede bem-vindo! Edric, está aqui Hugh, Hugh Beringar! O marido acorreu prontamente ao seu chamado, enorme, rubicundo e hábil, um mestre na profissão que exercia naquela cidade e também um dos membros do conselho.

Puxaram-no para dentro de casa e fecharam firmemente a porta, pormenor de que ele se apercebeu e aprovou. Beringar disse, sem mais preâmbulos, aquilo que era de esperar de um apaixonado:

Onde está Godith? Venho á procura dela, para a proteger. Onde é que ela se escondeu?

Pareciam demasiado atentos em ver se os postigos estavam bem fechados e se ouviam passos hostis no exterior para darem atenção imediata ao que ele dizia. E excessivamente rápidos a fazerem as suas próprias perguntas para responderem às que ele lhes fazia.

Estais a ser perseguido? perguntou Edric ansiosamente. Precisais de algum lugar para vos ocultardes?

Fazíeis parte da guarnição? perguntou Petronilla, apalpando-o preocupadamente em busca de ferimentos.

Como se ela tivesse sido sua ama, em vez de o ser de Godith, e o tivesse acompanhado desde tenra idade e não apenas duas ou três vezes após o compromisso de casamento feito ainda nos tempos da infância! Havia ali solicitude a mais! E uma nítida e rápida tentativa de ganharem tempo, que lhes permitiria considerarem até que ponto deveriam confiar nele.

Eles já passaram revista a este local disse Edric. Duvido que voltem novamente. Deixaram tudo de pernas para o ar atrás do deputado e de Lord Fulke. Se precisais de um abrigo, sois bem-vindo. Estão-vos no encalço?

Naquele momento tinha a certeza de que eles já tinham conhecimento de que ele nunca estivera dentro do castelo nem de algum modo compremetido com a facção de FitzAlan. Esta velha serva, assim como o marido, tinham gozado da confiança de Adeney e sabiam bem quem se mantivera ao lado dele e quem o abandonara.

Não, não se trata disso, não corro perigo nem sofro de privações. Vim apenas à procura de Godith. Disseram-me que o pai já não teve tempo de a mandar para fora com a família de FitzAlan. Onde é que poderei encontrá-la?

Será que alguém vos mandou aqui em busca dela? perguntou Edric.

Não, não, ninguém... Mas em que outro lugar a teria ele guardado? Em quem confiaria tanto como na sua ama? Claro que vim ter convosco em primeiro lugar! Não me digam que ela não está junto de vós!

Ela esteve aqui disse Petronilla. Tivemo-la connosco até há uma semana atrás. Mas partiu, Hugh, chegaste demasiado tarde. Ele mandou dois cavaleiros levá-la daqui para fora e nem a nós foi dito para onde ia. Mas estou em crer que a levaram a tempo para fora da cidade e que neste momento se encontra bem longe e a salvo, Deus seja louvado!

Não havia que pôr em dúvida o fervor daquele louvor e a certeza de que lutaria e morreria para preservar a sua menina. E mentiria, se necessário fosse!

Mas, por amor de Deus, amigos, não podeis ao menos ajudar-me a ir até junto dela? Estou-lhe prometido em casamento. Se o pai morreu, agora o responsável por ela sou eu e, tanto quanto sei, foi o que aconteceu...

Aquilo proporcionou-lhe a prova final, ainda que, de qualquer forma, nada mais se tivesse passado que uma rápida troca de olhares entre os dois, antes de exclamarem um ”Deus não o permitiria” em uníssono. Sabiam muito bem, pela busca frenética desencadeada havia pouco, que FitzAlan e Adeney não tinham sido mortos nem aprisionados. Ainda não podiam ter a certeza de que eles se encontravam longe e a salvo, mas apostavam as suas vidas e a sua lealdade nisso. Portanto outra coisa não restava que reconhecer que nada mais conseguiria obter deles que o pudesse elucidar a ele, o renegado. Pelo menos não através daquele processo.

Eu é que lamento, jovem disse Edric Flesher com ar desolado, não vos poder oferecer melhores notícias, mas assim é. Comprazei-vos com a ideia de que, pelo menos, nenhum inimigo lhe deitou as mãos, e rezemos para que nunca o cheguem a fazer.

”O que”, pensou Beringar extravagantemente, ”bem podia ser tomado como um acto de confiança na sua pessoa”.

Então devo partir e tentar descobri-la por outra via disse Beringar tristemente. Não vos faço correr perigo por mais tempo. Abri, Petronilla, e vede se a rua está deserta para eu poder sair.

Ela assim fez, de bom grado, informando-o depois de que estava tão vazia como a palma da mão de um pedinte. Beringar apertou a mão a Edric e inclinou-se para depositar um beijo na face da mulher, sentindo-se compensado e vingado pelo vivido rubor de culpa que viu subir ao rosto desta.

Rezai por ela disse, pedindo-lhe uma coisa que sabia não lhe irem negar, e esgueirou-se pela porta entreaberta, ouvindo-a fechar firmemente nas suas costas. Não demasiado audivelmente, visto que se pressupunha que devia passar despercebido, mas o suficiente para entenderem que se afastava, dirigiu-se a passadas largas até à esquina da rua. Aí chegado, deu meia volta e retrocedeu silenciosamente na ponta dos pés, indo colar o ouvido ao postigo.

À caça da noiva! dizia Petronilla zombeteiramente. Sim, e bom preço dava ele, fazendo dela um chamariz para forçar o regresso do pai, senão mesmo de FitzAlan! Ele agora tem de cair nas boas graças de Stephen e a minha menina é a melhor arma que poderia possuir.

Talvez estejas a ser demasiado dura para com ele respondeu Edric calmamente. Quem é que pode saber se o desejo que ele tem de ver a rapariga a salvo não é verdadeiro? Mas concordo contigo, não devemos arriscar-nos. Ele que proceda à sua caçada.

Graças a Deus disse ela impetuosamente ele não pode saber que escondi o meu cordeirinho no único sítio onde homem algum se lembraria de a procurar! E soltou uma gargalhada ao proferir a palavra ”homem”. Quando, mais tarde, toda esta turbulência tiver passado, teremos tempo para a tirar de lá. Agora só desejo que seu pai se encontre a quilómetros daqui e a cavalgar a toda a brida. E que aqueles dois jovens em Frankwell tenham uma boa fuga para ocidente esta noite com o tesouro do alcaide. Oxalá cheguem sãos e salvos à Normandia e possam ser úteis à imperatriz, abençoada seja!

Cala-te, amor! repreendeu-a Edric. Nunca se sabe quem pode estar á escuta por detrás de portas fechadas...

Tinham-se dirigido para uma das divisões do interior; atrás deles, uma porta fechou-se. Hugh Seringar abandonou o seu posto de escuta e afastou-se sub-repticiamente, descendo a longa e recurva colina em direcção ao portão da cidade e à ponte, assobiando suavemente, cheio de satisfação, ao longo do caminho.

Obtivera ainda mais que aquilo com que contara. Então não é que eles estavam a planear fazer sair clandestinamente o tesouro de FitzAlan, assim como a pessoa deste, naquela precisa noite, para ocidente, em direcção ao País de Gales! E tinham tido a precaução de, entretanto, guardá-lo fora das muralhas da cidade, algures nos subúrbios de Frankwell, apesar da desesperada situação que viviam! Nada de portões para passar, nada de pontes para atravessar. Quanto a Godith já tinha uma ideia do local onde deveria procurá-la. Com a rapariga e o dinheiro, reflectiu, um homem poderia comprar os favores de homens bastante menos corruptos que o rei Stephen!

Godith encontrava-se no herbário, obstinadamente ocupada a remexer, diluir e misturar os produtos de acordo com as instruções que lhe tinham sido dadas. Faltava uma hora para as vésperas e sentia o coração apertado de angústia e incerteza, não sabendo se devia ceder à esperança se ao desespero. Sujara o rosto ao limpar as lágrimas com as mãos ainda sujas do jardim e os olhos mostravam-se rodeados de olheiras profundas provocadas pelo desgosto e pela tensão. Os seus esforços furiosos não conseguiram conter mais duas lágrimas, que, por ter ambas as mãos ocupadas, foram cair sobre um líquido que estava a fermentar e não convinha aguar. Godith praguejou, soltando uma imprecação que, fazia muito tempo, aprendera nas cavalariças numa altura em que os falcoeiros tinham passado tormentos com um principiante descuidado e impudente que fora seu amigo chegado.

Mais vale dizer uma oração para acompanhá-las observou o Irmão Cadfael nas costas de Godith, num tom de voz gentil e despreocupado. É provável que venha a transformar-se na mais bela tisana para os olhos que alguma vez preparei. Não há dúvida de que Deus estava a observar.

Ela virara o rosto sujo, obstinado e suplicante para ele, em silêncio, sentindo a coragem voltar-lhe apenas com o tom da sua voz.

Estive na portaria, no moinho e na ponte continuou. As novas que nos chegam da cidade são terríveis, e neste momento preparamo-nos para ir rezar pelas almas daqueles que estão a deixar este mundo. Mas todos nós havemos de o abandonar um dia, seja de que maneira for, e esse não é o mal maior. E correm algumas novas que não são assim tão más. Daquilo que consegui ouvir deste lado do Severn e na própria ponte (tenho lá um arqueiro que faz parte da guarda e andou comigo na Terra Santa), o teu pai, assim como FitzAlan, não estão mortos nem foram feridos ou aprisionados, e todas as buscas feitas na cidade não lograram levá-los a encontrarem-nos. Conseguiram escapar, Godric, meu rapaz. Duvido que Stephen, apesar da caça que lhes está a mover, consiga deitar-lhes a mão. E agora podes ir tratar daquela vinha que tens estado a regar, praticando assim a tua jovem masculinidade até podermos tirar-te daqui em segurança e enviarmos-te para junto do teu pai.

Durante um pequeno momento, as lágrimas que ela verteu faziam lembrar o degelo da Primavera, mas logo a seguir toda ela cintilou como o sol que se faz sentir também nessa estação. Havia tanta coisa para lamentar e tanta coisa para celebrar que ela não sabia por onde começar, ensaiando ambas em conjunto, como Abril. Mas a sua idade era Abril e a esperançosa luz do Sol sobrepôs-se a tudo o mais.

Irmão Cadfael disse Godith, passado todo o caudal de emoção, gostaria que o meu pai vos tivesse conhecido. E no entanto não sois do partido dele, pois não?

Querida criança disse Cadfael serenamente, o meu monarca não é Stephen nem Maud, e durante toda a minha vida combati apenas por um único rei. Mas sei dar valor á devoção e á fidelidade, e duvido que o objecto sobre quem estas qualidades caem tenha importância. O que fazemos e somos é que interessa. A tua lealdade é tão sagrada quanto a minha. Agora vai lavar a cara e banhar os olhos, ainda podes dormir meia hora antes de as vésperas começarem mas não, és demasiado jovem para teres esse dom!

Ela não possuía o dom que é apanágio dos muitos anos, mas estava possuída pela exaustão que deriva da tensão juvenil, e esse facto fê-la adormecer sobre a cama de madeira em poucos segundos, drogada pela volúpia do alívio; Cadfael acordou-a a tempo de atravessarem o claustro em direcção ao recinto onde se realizavam as vésperas. Ela caminhava discretamente a seu lado, a massa dos caracóis curtos a cair-lhe sobre as sobrancelhas de modo a esconder-lhe os olhos ainda avermelhados.

Levados pela piedade, pelo choque e pelo terror, todos os habitantes da casa de hóspedes convergiram para a igreja, entre eles Hugh Beringar; não, talvez, uma vítima do medo, mas incentivado pela atracção que Aline Siward lhe despertava. Esta aproximara-se, vinda da casa que lhe fora atribuída ao lado do moinho, caminhando apressadamente de olhos baixos e coração pesado. Seringar tinha, não obstante, um olho arguto para tudo o mais que pudesse aparecer de interesse em seu redor. Viu duas figuras estranhamente contrastantes que saíam dos jardins, o corpulento, sólido e poderoso monge de meia idade, bronzeado pelas horas passadas ao ar livre e o andar bamboleante dos homens do mar, a mão protectoramente pousada no ombro de um rapaz vestido com uma túnica nitidamente herdada de um parente mais velho e de maior físico, as pernas descobertas, a extrema juventude a espreitar, fugidia, sob o tufo de cabelos castanhos. Seringar olhava, pensativo; sorriu, mas tão para dentro que o gesto mal se notou na boca larga e móvel.

Godith esforçou-se por controlar tanto o rosto como o passo, não mostrando qualquer sinal de reconhecimento. Chegada à igreja, afastou-se para se ir juntar aos companheiros, trocando mesmo algumas cotoveladas e sorrisos com estes. ”Se ele está a olhar, deixá-lo matutar, ter dúvidas, mudar de ideias. Já não o via há mais de cinco anos.” Fossem quais fossem as explicações que tecesse, não podia ter a certeza. Tão-pouco estava a mirar aquele lado da igreja, reparou; tinha os olhos pousados na dama desconhecida que andava a maior parte do tempo vestida de luto. Godith começou a respirar com maior facilidade, e até se permitiu examinar o seu prometido quase tão atentamente como este observava Aline Siward. Da última vez em que se tinham visto, ele era um rapazola de 18 anos, todo cotovelos e joelhos, que ainda mal controlava o seu corpo. Agora possuía a graça segura e desdenhosa do gato e uns modos frios e reservados. Um indivíduo apresentável, não podia deixar de reconhecer com ar crítico, mas desprovido já de qualquer interesse para ela ou de direitos sobre o compromisso assumido. As circunstâncias alteram o destino. Ficou aliviada ao ver que ele não voltava a olhar na direcção dela.

Ainda assim decidiu contar o sucedido ao Irmão Cadfael quando ficaram a sós no jardim, após o jantar, terminada a sua lição da noite com os rapazes. Cadfael considerou a questão muito grave.

Então aquele é que é o tipo com quem ias casar! Veio para aqui directamente do acampamento do rei, e não restam dúvidas de que se juntou á facção real, embora, segundo o Irmão Dennis, que é quem recolhe todos os mexericos que circulam aqui entre os seus hóspedes, ele ainda esteja à experiência e tenha de provar as suas intenções antes de conseguir uma posição de comando.

Coçando pensativamente o nariz grosso e bronzeado, ponderou:

Pareceu-te que te reconhecia? Ou olhou mesmo para ti com insistência, como se lhe fizesses lembrar alguém?

A princípio tive a impressão de que me observava demasiado atentamente, como se tivesse dúvidas. Mas depois não voltou a olhar para mim ou a mostrar qualquer interesse. Não, penso que foi impressão minha. Ele não me conhece. Mudei muito em cinco anos, e com este disfarce... Daqui a um ano disse Godith estupefacta e quase alarmada diante da ideia estaríamos casados!

Não me agrada nada! disse o Irmão Cadfael, sorumbático. Vamos ter de te manter bem afastada da vista dele. Se chegar a ser bem sucedido com o rei, é possível que nos deixe daqui a uma semana ou coisa parecida. Até lá, mantém-te longe da casa de hóspedes, dos estábulos, da portaria ou de qualquer outro lugar onde ele possa estar. Nunca o deixes pôr os olhos em ti se o puderes evitar.

Eu sei! disse Godith, abalada e taciturna. Se ele me descobre é bem capaz de me levar para provar as suas boas intenções ao rei. Tenho a certeza! Mesmo que meu pai já fosse no alto mar, não hesitaria em voltar e render-se se me soubesse em perigo. E aí morreria, como aconteceu com todas aquelas pobres almas que estão ali...

Não conseguiu virar a cabeça e olhar para as ameias do castelo, hediondamente ornamentadas. Eles ainda continuavam a morrer, embora ela não o soubesse; os trabalhos prolongar-se-iam até noite alta.

Fugirei dele como da peste disse a jovem fervorosamente, e Deus queira que ele parta em breve.

O abade Heribert era um homem idoso, cansado e amante da paz, cujas desilusões em relação às horrendas tendências dos tempos que corriam, combinadas com o vigor e a ambição de Robert, seu prior, o tinham predisposto a retirar-se do mundo, mergulhando ainda mais profundamente nas consolações específicas do espírito. Além do mais sabia não estar nas boas graças do rei, á semelhança de todos aqueles que tinham sido mais lentos em se reunir a este, prestando-lhe apoio incondicional. Mas confrontado com um dever que não podia ignorar, por muito monstruoso que fosse, o abade ainda logrou reunir coragem suficiente para enfrentar o inevitável. Havia noventa e quatro mortos, ou em vias disso, cujos corpos seriam tratados como os de animais, e todos eles tinham uma alma e o direito a um enterro condigno, independentemente dos crimes e erros que pudessem ter cometido. Os Beneditinos da abadia eram os protectores naturais desses direitos, e Heribert não tencionava permitir que os vencidos do rei Stephen fossem atirados a monte para dentro de um buraco qualquer. Ainda assim, sentia-se apavorado perante o horror da tarefa, e tentou encontrar á sua volta alguém mais experimentado naquelas duras lides que o pudesse ajudar. E a pessoa mais óbvia era o Irmão Cadfael, que atravessara o mundo na primeira Cruzada, e em seguida passara dez anos no mar, como capitão, a correr as costas da Terra Santa, onde a guerra era um estado permanente.

Depois das completas, o abade Heribert mandou chamar o Irmão Cadfael ao seu parlatório privativo.

Irmão, tenho de ir (agora, esta noite) pedir ao rei Stephen permissão para dar enterro cristão a todos os prisioneiros que acabaram de ser executados. Se ele o consentir, amanhã devemos ir buscar os seus pobres corpos e prepará-los condignamente para a sepultura. Alguns poderão ser reclamados pelas respectivas famílias, mas os restantes deverão ser enterrados honrosamente com os ritos que lhes são devidos. Irmão, vós mesmo fostes um soldado. Importar-vos-íeis (se eu persuadisse o rei) de tomar conta desse trabalho?

Não de bom grado, mas de todo o coração, apesar de tudo disse o Irmão Cadfael. Sim, padre, fá-lo-ei.

 

Fá-lo-ei disse Godith, se essa é a melhor maneira de vos poder ser útiL Sim, irei ás lições da manhã e da tarde, comerei o meu jantar sem olhar ou falar com ninguém e depois manter-me-ei afastada, fechando-me aqui dentro entre as poções. Sim, porei também a tranca na porta, se necessário for, e aguardarei até ouvir a vossa voz antes de a voltar a abrir. Claro que farei tudo de acordo com as vossas instruções. Mas acima de tudo gostaria de vos acompanhar. Aquela gente era do meu pai, era a minha gente, desejaria participar minimamente nos últimos serviços que lhes vão ser prestados.

Mesmo que não oferecesse perigo aventurares-te até lá disse o Irmão Cadfael firmemente, o que não acontece, não te deixaria ir. O horror do que o homem faz ao seu semelhante talvez lançasse uma sombra entre ti e a certeza do que a justiça e a bondade de Deus podem fazer por ele na sua vida futura. É preciso chegar a meio da vida para se alcançar o ponto onde a eternidade é sempre visível e a crua injustiça dos maus momentos vai diminuindo até desaparecer. Chegarás lá quando for tempo disso. Não, ficas aqui e manténs-te longe do caminho de Hugh Beringar.

Ele até se lembrara de recrutar o jovem para o seu grupo de trabalho, composto por auxiliares vigorosos e cheios de boa vontade, com o intuito de se certificar de que ele passava o dia longe dos locais onde Godith pudesse estar. Quer com a intenção de ganharem méritos para as próprias almas, quer levados por uma secreta simpatia partidária para com a causa dos homens executados, ou ainda na intenção de procurarem ansiosamente amigos e parentes, três dos viajantes hospedados na casa de hóspedes ofereceram-se voluntariamente para ajudar. Mediante tal exemplo, teria sido possível levar outros, até mesmo Beringar, a sentirem-se na obrigação de fazer o mesmo. Mas parecia que o jovem tinha já saído a cavalo, provavelmente esperançado em poder prestar algum serviço ao rei; o recém-chegado que busca um cargo não se pode dar ao luxo de que se esqueçam do seu rosto. Também na tarde anterior saíra a cavalo, depois das vésperas, conforme disseram os irmãos da cavalariça. Os seus três homens tinham ficado, passeando-se ociosamente de um lado para o outro, depois de escovarem, alimentarem e exercitarem os respectivos cavalos, mas não vendo razão para se envolverem em qualquer outra actividade certamente desagradável e, possivelmente, não aprovada pelo rei. Cadfael não os censurava. Conseguira reunir um grupo de vinte pessoas, entre irmãos, irmãos leigos e os três benevolentes viajantes, quando se puseram a caminho, atravessando a ponte e as ruas da cidade que iam dar ao castelo.

O mais provável é que o rei Stephen tivesse até ficado satisfeito por poder dispor de um serviço oferecido voluntariamente, serviço esse que, caso assim não fosse, teria sido obrigado a impor. Alguém tinha de enterrar os mortos, ou a nova guarnição seria a primeira a sofrer, e não há melhor local do que uma fortaleza fechada e uma cidade rodeada de espessas muralhas para fazer desencadear e disseminar assustadoramente qualquer doença. Ainda assim, talvez o rei nunca viesse a perdoar ao abade Heribert a recriminação que estava implícita naquele acto e a lembrança do seu dever cristão. O velho Heribert voltara já com a necessária autorização: o grupo liderado por Cadfael passou pelos portões sem problemas, e o próprio Cadfael foi levado à presença de Prestcote.

Vossa Senhoria deve ter recebido ordens em relação a nós disse-lhe o Irmão Cadfael em tom brusco. Estamos aqui para nos encarregarmos dos mortos, e eu solicito um espaço limpo e adequado onde estes possam ser colocados condignamente até os enterrarmos. Talvez tenhamos também de tirar água do poço, faltando-nos para tanto pedir permissão. Quanto aos panos, trouxemo-los connosco.

A sala interior foi desocupada disse Prestcote com indiferença. Têm ali espaço, assim como também podem dispor das pranchas que lá estão, se delas precisarem.

O rei também acedeu em deixar que os infelizes que viviam nesta cidade e tinham família ou vizinhos aqui possam ser reclamados e levados para ser enterrados particularmente. Não vos importais de espalhar essa informação pela cidade depois de tudo ficar preparado? E dar-lhes livre passagem para que entrem e saiam?

Se há por aí alguém suficientemente corajoso para vir até aqui disse Prestcote secamente, pode levar o parente sem ser molestado. Quanto mais depressa toda esta carne putrefacta for removida, melhor para mim.

Muito bem! Então que foi que fizestes com eles?

É que, antes de o Sol raiar naquela madrugada, as ameias do castelo tinham sido despidas dos súbitos adornos macabros que lhes tinham sido impostos. Os flamengos deviam ter trabalhado metade da noite para fazerem desaparecer os indícios, o que certamente não foi ideia deles, mas de Prestcote. Concordara com aquelas mortes, não sendo obrigado, no entanto, a comprazer-se com as mesmas, e além disso era um velho soldado de hábitos austeros e ordeiros, que gostava de uma guarnição limpa.

Cortámos as cordas depois de vermos que estavam bem mortos e deixámo-los cair sobre o parapeito e depois para a vala verdejante que fica ao fundo da muralha. Saiam pelo lado que está virado para o Foregate e encontrá-los-ão entre as torres e a estrada.

Cadfael inspeccionou a pequena sala que lhe fora oferecida, constatando que, pelo menos, era limpa e sossegada e iria ter lugar para todos. Conduziu o seu grupo para fora do castelo até ao fosso profundo e seco escavado debaixo das torres. Capim alto e vicejante e arbustos de pequeno porte escondiam parcialmente aquilo que, à primeira vista, parecia ser um campo de batalha. Os cadáveres jaziam numa pilha junto á muralha, vários espalhados a esmo com os braços e as pernas abertos, fazendo lembrar bonecos desarticulados. Cadfael e os seus ajudantes prenderam as vestes á cintura e lançaram mãos ao trabalho, actuando aos pares sem proferirem palavra, desenredando o emaranhado confuso de corpos, levando primeiro os mais acessíveis, separando em seguida aqueles a quem a queda das ameias fizera juntar em abraços inertes. O Sol ia alto e a superfície de pedra das paredes fazia incidir o calor sobre eles. Os três viajantes piedosos despiram as túnicas. No interior do fosso profundo o ar tornava-se pesado e sufocante, e todos transpiravam, mostrando dificuldade em respirar, mas ainda assim ninguém esmoreceu.

Estejam muito atentos avisou Cadfael para o caso de algum pobre desgraçado ainda respirar. Eles estavam muito apressados, podem ter largado algum antes do tempo. E aqui o solo é tão fofo que poderia dar-se o caso de sobreviverem à queda.

Mas os flamengos, apesar de toda a sua pressa, tinham sido eficientes. Não escapara um único homem a todo aquele massacre.

Tinham deitado mãos ao trabalho cedo, mas já era quase meio-dia quando acabaram de colocar o último morto na sala, dando então início ao trabalho de lavar e compor o melhor possível os cadáveres, endireitando membros quebrados, fechando pálpebras, até mesmo desembaraçando e pondo em ordem algumas cabeleiras, para além de colocarem faixas a prender mandíbulas escancaradas, de modo que os desafortunados parentes ou a esposa que os amara em vida não deparassem com semelhante horror. Antes de ir ter com Prestcote a fim de solicitar a proclamação combinada, Cadfael passou em revista a fiada dos filhos por cuja salvação da alma zelava, certificando-se de que estes se encontravam minimamente apresentáveis. Aproveitou a ocasião para os contar. Chegado ao fim, franziu os sobrolhos, deteve-se pensativamente e, em seguida, voltou para trás e repetiu a contagem. Feito isso, começou a observar, atentamente e um a um, todos aqueles de que ele não tratara pessoalmente, afastando os panos que cobriam as escoriações mais chocantes. Terminado o exame ao último homem, ergueu-se, sombrio, e afastou-se para ir em busca de Prestcote, sem dizer palavra a nenhum dos presentes.

Quantos homens perguntou Cadfael dissestes ter despachado a mando do rei?

Noventa e quatro respondeu Prestcote, admirado e impaciente.

Ou não os contastes disse Cadfael ou errastes a soma. Estão ali noventa e cinco.

Noventa e quatro ou noventa e cinco exclamou Prestcote exasperado, mais um, menos um, que importa? Foram todos traidores e condenados, e agora achais que devo arrancar os cabelos só porque o número não coincide?

Vós talvez não observou Cadfael com simplicidade, mas Deus exige uma contagem correcta. Tínheis ordens para executar noventa e quatro, incluindo Arnulf de Hesdin. Justificada ou não, essa foi, pelo menos, a ordem que vos deram e á qual estáveis obrigado, portanto a coisa foi registada e compreendida. Se houver que fazer algum julgamento a esse acto, esse virá mais tarde e noutro tribunal. Mas o nonagésimo quinto não foi referido, nenhum rei autorizou a sua remoção deste mundo, nenhum castelão ordenou a sua morte, nunca foi acusado ou condenado por rebelião, traição ou qualquer outro crime, e o homem que o destruiu é culpado de assassínio.

Santo Deus! explodiu Prestcote violentamente. Um oficial enganou-se num número no meio do fragor da batalha e vós fazeis disso um bicho-de-sete-cabeças! Ele foi omitido na contagem, mas foi levado em braços e enforcado como os outros. Participou na rebelião como os outros, foi executado como os outros e pronto! Por amor de Deus, homem, que quereis vós que eu faça?

Para começar disse Cadfael sem mais preâmbulos seria bom virdes comigo para o examinardes. É que ele não é como os outros. Não foi enforcado como os outros, não tinha as mãos amarradas como os outros não tem qualquer semelhança com os outros, apesar de alguém ter tido a certeza de que nós veríamos e pensaríamos como vós, omitindo-o da contagem. Escutai o que vos digo, meu senhor Prestcote, há um homem assassinado entre os que foram executados, uma folha escondida na vossa floresta. E se lamentais que os meus olhos o tenham encontrado, pensais por acaso que Deus não o tinha já descoberto? E partindo do princípio de que podeis silenciar-me, pensais que Deus ficará calado?

Naquele momento já Prestcote suspendera as suas passadas, olhando fixamente para Cadfael.

Pareceis muito determinado disse, abalado. De que outro modo poderia estar ali um homem morto? Tendes a certeza do que afirmais?

Não tenho a menor dúvida. Vinde e vede! Ele encontra-se ali porque algum homicida o colocou entre os outros numa tentativa de o fazer passar despercebido, não despertando a curiosidade para, assim, não dar origem a perguntas.

Para isso teria de saber que os outros iriam para ali.

A maior parte das pessoas que vivem nesta cidade e toda a guarnição tiveram conhecimento desse facto ao cair da noite. A coisa foi feita à noite. Vinde e vede!

E Prestcote acompanhou-o, mostrando-se nitidamente consternado e preocupado. Mas também o culpado se sentiria assim, e quem estaria em melhor posição para saber tudo o que um culpado necessitaria de saber para se proteger a si mesmo? No entanto ajoelhou-se ao lado de Cadfael junto do corpo que diferia dos restantes, ali, ao fundo da sala, entre paredes altas, no meio dos primeiros odores que a morte lançava insidiosamente no ar.

Tratava-se de um homem ainda jovem. Não tinha armadura, embora, naturalmente, se assim fosse, esta lhe tivesse sido tirada por ser feita de materiais valiosos. Mas as roupas que envergava mostravam que não devia ter usado cota de malha ou vestuário de couro. Eram ligeiras, em tons escuros, calçara botas, o tipo de vestimenta que um homem usaria para uma viagem em tempo de Verão para cavalgar com conforto, para ficar suficientemente aquecido à noite e dispô-la de modo a passar o dia razoavelmente fresco. Parecia não ter mais de 25 anos, o cabelo era castanho-avermelhado e o rosto, em que o congestionamento provocado pelo estrangulamento fora parcialmente amenizado pelos dedos experientes de Cadfael, era arredondado e vulgar. Os olhoas salientes tinham sido cobertos, embora com dificuldade, pelas pálpebras.

Ele morreu estrangulado disse Prestcote, aliviado ao ver os indícios desse facto.

Assim foi, mas não com uma corda. E também não tinha as mãos amarradas, como os outros. Vede!

Cadfael afastou as pregas do capuz do jovem pescoço arredondado e mostrou a linha fina e cruel que parecia separar a cabeça do corpo.

Vedes a finura da corda que lhe tirou a vida? Nenhum homem poderia

ficar pendurado por uma corda desta espessura. Passa-lhe mesmo na base do pescoço e é fina como uma linha de pesca. Pode muito bem ter sido uma linha de pesca. Vedes as arestas deste sulco na carne, descoloridas e lustrosas? A corda que o matou estava encerada, de modo a cortar rápida e profundamente. E vedes este buraco aqui atrás? Ergueu suavemente a cabeça sem vida e, pousando-a no braço, mostrou no sítio da junção da espinal medula com os ossos do pescoço um orifício único, profundo e macerado, com uma pequena mancha de sangue mesmo ao centro. É a marca de uma das extremidades de uma pequena estaca de madeira, uma espécie de manípulo preparado para ser torcido quando a corda é colocada em redor do pescoço da vítima. Os estranguladores utilizam cordas enceradas com hastes manobráveis nas duas pontas: são assassinos pela calada, aves de rapina. Basta um pouco de força de mão e pulso e não há processo mais eficaz de mandarem os inimigos para fora deste mundo. E vedes, meu senhor, como o sítio onde a corda mordeu se encontra lacerado e coberto de sangue seco? Agora reparai em ambas as mãos, olhai para as unhas, negras nas pontas com o próprio sangue. Ele agarrou-se desesperadamente à corda com que estava a ser estrangulado. Tinha as mãos livres. É costume vosso, enforcarem homens cujas mãos não estejam amarradas?

-Não.

Prestcote estava tão fascinado com os detalhes que não pôde deixar de reconhecer que a resposta lhe escapara involuntariamente. Teria sido fútil negá-la. Olhou o Irmão Cadfael por sobre o corpo do homem e passou-lhe pelo rosto uma sombra de hostilidade.

Não se ganha nada declarou deliberadamente em tornar pública uma história tão aberrante. Enterrai os vossos mortos e ficai por aí. Esquecei o resto!

Não considerastes disse Cadfael suavemente que até agora ainda não apareceu ninguém que pusesse um nome ou um distintivo no rapaz. Tanto poderá ser um mensageiro do rei como um seu inimigo. Melhor será tratá-lo como deve ser e vós manterdes a vossa paz tanto para com Deus como para com os homens. Além disso acrescentou, com uma inocência de claustro, se iludísseis a verdade, poderíeis levantar suspeitas sobre a vossa própria integridade. No vosso lugar, transmitiria este facto com toda a fidelidade e enviaria imediatamente uma proclamação aos cidadãos, pois está tudo pronto. Então, se aparecer alguém a reclamar este jovem, podeis sossegar a vossa alma. Caso contrário, não restarão dúvidas de que fizestes tudo o que vos foi possível para endireitar o que estava torto. E o vosso dever termina aí.

Prestcote mirou-o sombriamente durante alguns momentos e em seguida levantou-se abruptamente.

Espalharei a palavra disse, saindo da sala.

A notícia foi disseminada pela cidade e a abadia recebeu uma informação directa sobre o caso, ao mesmo tempo que a casa de hóspedes.

Hugh Beringar, que nesse momento voltava a

cavalo do acampamento do rei, situado a leste, depois de passar o rio a vau, ouviu a proclamação que estava a ser lida à entrada da abadia, vendo entre aqueles que a escutavam ansiosamente a esbelta figura de Aline Siward, que sairá de sua casa para ouvir as notícias. Era a primeira vez que a via de cabeça descoberta. O cabelo dela era do mais puro dourado que alguma vez lhe fora dado contemplar e caíam-lhe algumas madeixas onduladas de ambos os lados do rosto oval, emoldurando-lho. As longas pestanas que lhe sombreavam os olhos eram algumas tonalidades mais escuras, de cor de bronze. Ela ouvia atentamente, mordendo os lábios, mergulhada em grande incerteza, as pequenas mãos apertadas uma de encontro à outra. Parecia hesitante, vergada sob o peso dos acontecimentos, e tinha um aspecto muito jovem.

Beringar desmontou apenas a uns passos dela, como se tivesse escolhido aquele lugar ao acaso para se deter e escutar até ao fim o que o prior estava a dizer.

...e Sua Majestade o Rei dá autorização plena a todos aqueles que desejarem ir ao castelo reclamar algum parente que possa estar entre os executados, a fim de o enterrarem em local escolhido e a seu cargo. O rei deseja, de igual modo, já que entre eles se encontra um, em particular, cuja identidade não é conhecida, que todos aqueles que ali se dirigirem o vejam e, caso possam, o identifiquem. Ninguém tem de recear qualquer penalidade ou desfavor.

Nem todos ficaram muito descansados com aquela garantia, mas ela não teve dúvidas. O que a perturbava não era o receio de quaisquer consequências para ela mesma, mas sim a sensação desesperada de que não podia deixar de fazer aquela dolorosa peregrinação, ainda que, sinceramente, tivesse um pavor imenso dos horrores que se lhe pudessem deparar. Beringar recordou-se de que ela tinha um irmão que desafiara o pai e fugira para se juntar aos adeptos da imperatriz; e apesar de correrem rumores de que alcançara França, não tinha provas de que os mesmos fossem verdadeiros. Naquele momento debatia-se entre a convicção de que, onde quer que existissem guarnições da facção do irmão que caíssem vítimas daquela guerra civil, ela teria de ir certificar-se pessoalmente de que ele não se encontrava entre os seus membros. Possuía o mais inocente e eloquente dos rostos, onde todos os seus pensamentos eram visíveis.

Minha senhora disse Beringar em voz suave e respeitosa, se de alguma forma vos puder ser útil, imploro-vos que mo deis a saber.

Ela virara-se para olhar para ele e sorrira, pois vira-o na igreja e sabia tratar-se de um hóspede como ela; a tensão transformara Shrewsbury numa cidade onde as pessoas se comportavam entre si ou como vizinhos leais ou como potenciais informadores, mas ela sentia-se incapaz de adoptar a segunda atitude. Não obstante, ele considerou que era melhor apresentar as suas credenciais.

Estais certamente lembrada de que fui apresentar os meus préstimos

ao rei na mesma altura que vós. Chamo-me Hugh Seringar, de Maesbury. Dar-me-ia grande prazer poder servir-vos. E pareceu-me que as notícias que acabámos de ouvir vos foram causa de perplexidade e preocupação. Se houver algum recado que possa fazer por vós, dar-me-eis grande prazer.

Recordo-me de vós disse Aline e agradeço a simpatia do vosso oferecimento, mas trata-se de algo que só a mim compete. Ninguém mais aqui conheceria o rosto de meu irmão. Para dizer a verdade, hesitava... Mas sei que outras mulheres da cidade irão ali com a certeza de encontrarem os seus filhos. Se elas o podem fazer, também eu o farei.

Mas não tendes grandes motivos disse Beringar para imaginardes vosso irmão entre aqueles infelizes.

Assim é, mas o certo é que não sei onde ele se encontra e tenho conhecimento de que abraçou a causa da imperatriz. Seria melhor ter a certeza, não achais? De todas as vezes que não o encontrar morto, restar-me-á a esperança de o voltar a ver vivo.

Era-vos muito querido esse vosso irmão? perguntou Beringar gentilmente.

Ela hesitou antes de responder, analisando gravemente a questão.

Não, nunca o conheci como uma irmã deve conhecer um irmão. Giles devotou-se sempre aos seus amigos e à sua vontade, e também era cinco anos mais velho que eu. Quando atingi os 12, 13 anos, ele já se afastara de casa, voltando apenas para discutir com meu pai. Mas é o único irmão que tenho e não o desprezo pela posição que tomou. E eles dizem que está lá um desconhecido.

Não deve ser Giles disse ele com firmeza.

Mas, e se for? Precisará então de que lhe seja dado o seu nome, e sua irmã não poderá deixar de fazer o que deve. Ela estava decidida. Devo ir.

Penso que não o devíeis fazer. Mas estou certo de que não ireis sozinha observou ele, pensando, pesaroso, que ela lhe responderia que dispunha da companhia da criada. No entanto, ouviu-a dizer imediatamente:

Nunca levaria Constance para semelhante espectáculo! Ela não tem lá nenhum parente, portanto, por que haveria de sofrer como eu?

Então, se me dais permissão, acompanhar-vos-ei.

Ele não sabia se ela era capaz de artifícios; naquele momento não mostrava certamente nenhum. O rosto ansioso brilhava-lhe de alegria, olhava para ele com o mais ingénuo espanto, esperança e gratidão. Mas ainda hesitava.

A vossa atitude é, sem dúvida, gentil, mas não vo-la posso permitir. Por que teríeis de vos submeter a uma situação tão dolorosa apenas por causa de um dever que é só meu?

Oh, deixai-vos disso! exclamou ele indulgentemente, seguro de si e dela. Não terei um momento de paz se recusardes a minha companhia e fordes só. Mas se me disserdes que a minha insistência apenas servirá para aumentar a vossa tristeza, então calar-me-ei e obedecer-vos-ei. Em nenhuma outra condição.

Ela não conseguiu resistir. Os lábios tremeram-lhe.

Não, isso não corresponderia á verdade. Não sou muito corajosa! disse tristemente. Ficar-vos-ei verdadeiramente agradecida.

Conseguira o que desejava; tiraria o maior proveito que lhe fosse possível. Para quê ir a cavalo se o caminhar através da cidade poderia durar muito mais tempo e proporcionar-lhe uma melhor oportunidade para ficar a conhecê-la? Hugh Seringar mandou o cavalo para os estábulos e pôs-se a caminho, ao lado de Aline, da ponte que conduzia a Shrewsbury.

O Irmão Cadfael montava guarda aos seus mortos num dos cantos da sala interior, ao lado da arcada por onde todo o cidadão que entrasse à procura de filho ou parente devia passar, podendo então ser interrogado. Mas tudo o que até ali conseguira obter limitara-se a silenciosos sinais de cabeça negativos e a olhares meio piedosos, meio aliviados. Ninguém conhecia o jovem. E como poderia ele esperar grande preocupação da parte dos pobres entes que ali acorriam á procura de algum rosto conhecido, mal tendo olhos para o resto?

Prestcote fizera valer a sua palavra, não se tomava registo daqueles que chegavam, assim como não lhes eram levantados quaisquer obstáculos ou feitas perguntas. Ele queria o seu castelo livre, o mais depressa possível, daquela recordação fúnebre. A guarda, sob a orientação de Adam Courcelle, tinha ordens para não levantar problemas e até mesmo para ajudar, se isso contribuísse para os hóspedes indesejados saírem do recinto até ao cair da noite.

Cadfael convencera todos os homens da guarda a darem uma olhada ao seu desconhecido, mas nenhum deles foi capaz de o identificar. Courcelle examinara o corpo longa e sombriamente, abanando depois a cabeça em sinal negativo.

Tanto quanto sei, nunca o vi antes. Que poderia um jovem e vulgar escudeiro como este ter feito para levar alguém a odiá-lo a ponto de o matar?

Há homens que podem matar sem sentirem ódio disse Cadfael tristemente. Os salteadores e os ladrões de estrada atiram-se às vítimas que o acaso põe no seu caminho sem qualquer sentimento de agrado ou desagrado.

Mas que poderia um indivíduo tão jovem possuir de tão valioso que valesse a pena matá-lo?

Amigo disse Cadfael, no mundo há quem não hesite em matar apenas pelas poucas moedas que um mendigo consegue reunir durante o dia. Quando vêem reis acabar com a vida de mais de noventa de uma vez só, unicamente porque teciam armas pela facção oposta, será de admitir que os velhacos aproveitem esse exemplo para se justificarem? Ou, pelo menos, para se permitirem essa liberdade?

Viu o rosto de Courcelle ficar congestionado e uma centelha de raiva passar-lhe pelos olhos, mas este não protestou.

Oh, eu sei que tivestes as vossas ordens, não vos restando outra possibilidade que a de as cumprirdes. Fui soldado nos meus velhos tempos e sujeito à mesma disciplina, tendo feito coisas de que agora preferia não me lembrar. Essa uma das razões que me levou a aceitar, por fim, outra disciplina.

Duvido disse Courcelle secamente que alguma vez chegue a esse ponto.

Também eu nessa altura não o acreditava. Mas cá estou, e não voltaria atrás por nada deste mundo. Enfim, todos nós fazemos das nossas vidas o melhor que entendemos.

”E o pior”, pensou ao observar as longas fileiras de formas imóveis que jaziam no pavimento da sala, ”é que também o fazemos com as vidas de outros homens, se o poder está nas nossas mãos.”

Naquela altura já se notavam alguns espaços abertos nas fileiras silenciosas. Cerca de uma dezena fora já reclamada por familiares e esposas. Não tardava muito ver-se-iam pequenos carros de mão lastimosamente empurrados ladeira acima em direcção ao portão e irmãos e vizinhos a acomodarem neles os corpos flácidos que transportariam dali para fora. Os cidadãos continuavam a acorrer timidamente à arcada, mulheres de cabeças cobertas por xailes e os rostos meio ocultos, velhos arrastando-se resignadamente em busca dos filhos. Não era de surpreender que Courcelle, cujos deveres nunca tinham tido nada a ver com aquele tipo de guarda, parecesse quase tão infeliz quanto os pranteadores.

Olhava fixa e sombriamente para o chão, imerso em pensamentos tenebrosos, quando Aline apareceu junto da arcada, a mão apoiada no braço protector de Hugh Beringar. Tinha o rosto empalidecido e tenso, os olhos muito abertos e os lábios apertados, ao mesmo tempo que os dedos se apertavam fortemente na manga do seu acompanhante, como o náufrago se agarra à bóia de salvação; no entanto mantinha a cabeça erguida, movendo-se com passo cadenciado e firme. Beringar harmonizava atentamente a sua passada com a dela, não fazendo qualquer esforço para lhe desviar os olhos do triste espectáculo que tinha lugar na sala, limitando-se a lançar apenas alguns olhares breves mas muito atentos ao seu semblante pálido. ”Teria certamente sido um erro táctico”, pensou Cadfael, criticamente, ”esboçar alguma tentativa ardorosamente protectora do género da que pressupõe posse; apesar de jovem, ingénua e inexperiente, ela é, não obstante, uma orgulhosa aristocrata de sangue antigo, que não devia ser encarada levianamente, uma vez que esse mesmo sangue estava em causa. Se viera ali para tratar de assuntos de família, à semelhança daqueles pobres e míseros cidadãos, não ficaria agradecida a nenhum homem que tentasse livrá-la daquele fardo. Mostrar-se-ia, isso sim, profundamente grata pela sua atenciosa e reservada presença.”

Courcelle ergueu os olhos, quase como se tivesse sentido uma corrente de apreensão passar pela sala, vendo, nesse momento, o par emergir na área iluminada, onde a luz cruel do sol não poupava nenhum pormenor. Na cabeça erguida, o cabelo dourado brilhou como uma fogueira de tojo.

Santo Deus! exclamou em voz baixa, precipitando-se para eles com a intenção de os interceptar á entrada.

Aline!, senhora, não devíeis estar aqui! Este local é tão desolado espectáculo não são para vós! Espanto-me disse, furioso, dirigindo-se a Seringar que a tragais aqui para ver todo este horror.

Não foi ele quem me trouxe disse Aline rapidamente. Fui eu que insisti em vir. Como não me podia impedir de o fazer, dignou-se gentilmente a acompanhar-me.

Então, querida senhora, foi uma loucura terdes imposto semelhante punição a vós mesma disse Courcelle impetuosamente. Que poderá trazer-vos a um lugar destes? Não há com certeza aqui ninguém que vos pertença.

Peço a Deus que tenhais razão observou Aline.

Os seus olhos, enormes no rosto empalidecido, pousaram, temerosamente fascinados, sobre as fileiras de vultos cobertos que jaziam a seus pés, e a primeira sensação de horror e repulsa mudou visível e gradualmente para uma de aterrorizada comiseração humana.

Mas eu tenho de saber! Tal como todos os outros! Só tenho uma maneira de me certificar, e é tão mau para mim como para qualquer pessoa. Sabeis que tenho um irmão, estáveis lá quando o disse ao rei...

Mas ele não pode estar aqui. Afirmastes que partira para a Normandia.

Disse que era o que constava, mas como posso estar certa? Pode ter partido para França, pode ter-se reunido a alguma companhia da imperatriz que se encontrasse mais próxima de casa, como posso saber? Devo ver por mim mesma se ele escolheu Shrewsbury ou não.

Mas é claro que os membros desta guarnição eram conhecidos. É pouco provável que o vosso nome fizesse parte da mesma.

A proclamação do alcaide disse Beringar em tom brando, pronunciando-se pela primeira vez naquele encontro fez menção ao facto de se encontrar aqui um indivíduo, pelo menos, que não era conhecido. Um que não fazia parte do grupo.

Deveis permitir-me que veja por mim mesma disse Aline, gentil mas firmemente. De que outro modo poderei eu ter paz?

Courcelle não tinha o direito de a impedir, por muito que tal o contrariasse e enfurecesse. Ao menos o cadáver em questão estava ali mesmo ao pé e podia proporcionar-lhe de imediato a certeza de que os seus receios eram infundados.

Ele encontra-se aqui disse, orientando-a para o canto onde o Irmão Cadfael continuava.

Ao olhá-lo, surpreendeu-se ao ver o fulgor pálido de um sorriso, de um sorriso genuíno, que depressa desapareceu.

Tenho ideia de que vos conheço. Vi-vos na abadia. Sois o Irmão Cadfael, o botânico.

Esse é o meu nome disse Cadfael, embora não faça ideia do motivo por que o conheceis.

Perguntei-o ao porteiro admitiu Aline, enrubescendo. Vi-vos nas vésperas e nas completas, e perdoai-me, irmão, se fui indiscreta, mas tendes um ar como se tivésseis vivido muitas aventuras antes de vos encerrardes no claustro. Ele disse que estivésteis nas Cruzadas, com Godofredo de Bulhão, no cerco de Jerusalém! Tenho ouvido falar tanto desse acontecimento... Oh!

Desviara o olhar do rosto de Cadfael, meio envergonhada com o próprio ardor, pousando-o na jovem face sem vida que estava a seus pés. Durante algum tempo não conseguiu desviar os olhos, num silêncio controlado. Parte do congestionamento desaparecera já, permitindo que as feições não apresentassem um aspecto repulsivo; o desconhecido jazia, juvenil e quase agradável.

O serviço que prestais a todos estes homens disse Aline em voz baixa é altamente cristão. É esse o tal com que não contáveis? Aquele que apareceu a mais nos vossos números?

Esse mesmo.

Cadfael inclinou-se e abaixou o pano de modo a mostrar a vestimenta de boa qualidade mas simples e a ausência de qualquer pormenor de aparência bélica no jovem.

Mas com excepção do punhal acrescentou, que todo o homem deve levar consigo quando viaja, ele encontrava-se desarmado.

Aline ergueu vivamente os olhos. Por cima do seu ombro, Beringar olhava com ar preocupado e atento o rosto arredondado que devia ter sido prazenteiro e jovial em vida.

Dizíeis inquiriu que ele não participou no combate que se travou aqui? Que não foi capturado juntamente com a guarnição?

Assim parece. É vosso conhecido?

Não disse, olhando para baixo com pura compaixão impessoal Tão jovem! Que desperdício! Desejaria poder dizer-vos o seu nome, mas nunca o vi antes.

Master Beringar?

Não. Para mim, é um estranho.

Beringar continuava a olhar para o cadáver com ar sombrio. Eram mais ou menos da mesma idade, com certeza não haveria entre os dois uma diferença de mais de um ano. Todo o homem que enterra o seu semelhante é como se visse o seu próprio enterro.

Courcelle, curvando-se solicitamente, pousou a mão no braço da rapariga e disse em tom persuasivo:

Agora vinde, cumpristes a vossa missão, deveis deixar este lugar triste imediatamente, ele não é próprio para vós. Como podeis ver, os vossos receios revelaram-se infundados, o vosso irmão não se encontra entre os presentes.

Não disse Aline não é ele, mas bem pode estar aqui. Como posso ter a certeza sem ver os outros? Notava-se-lhe um tom de urgência na voz, embora não muito ostensivo. Aventurei-me até aqui, que mal me poderá ainda fazer qualquer dos restantes?

Olhou em redor, suplicante.

Irmão Cadfael, agora o responsável sois vós. Sabeis que preciso de ficar descansada. Vindes comigo? acrescentou.

De boa vontade disse Cadfael, abstendo-se de proferir mais palavras, já que estas não iriam dissuadi-la, facto que louvou. Os dois jovens seguiam lado a lado, nenhum deles disposto a dar ao outro a dianteira. Aline examinou cada um dos rostos expostos, torturada mas resoluta.

Ele tinha 24 anos, não se parecia muito comigo, o cabelo era mais escuro... Oh, estão aqui muitos que não são mais velhos do que ele!

Tinham já levado a cabo mais de metade da dolorosa travessia quando, de súbito, agarrou freneticamente no braço de Cadfael e estacou no sítio onde se encontrava. Não gritara, limitara-se a soltar um pequeno gemido, cuja palavra apenas Cadfael, que estava mais próximo, entendeu.

Giles! gemeu, agora mais fortemente, empalidecendo de tal forma que ficou quase translúcida, olhando fixamente para um rosto outrora arrogante, voluntarioso e belo. Deixou-se cair sobre os joelhos, inclinando-se para examinar de perto as feições inertes. Nesse instante um grito dilacerante saiu-lhe do peito, o único que viria a soltar pelo irmão, e mesmo esse bastante grave e reservado. Em seguida atirou-se sobre o peito deste, rodeando o corpo com os braços. A massa de caracóis dos seus cabelos soltou-se, derramando ouro sobre ambos.

O Irmão Cadfael, suficientemente experiente para saber que ela ficaria melhor sozinha até parecer necessitar de conforto para o seu desgosto e não o retraimento que o decoro lhe impunha, teria aguardado calmamente, mas foi apressadamente afastado para o lado por Adam Courcelle, que caiu de joelhos ao lado de Aline, segurando-a pelos braços e erguendo-a para a encostar ao seu ombro. O choque da descoberta parecia tê-lo afectado tão profundamente quanto a Aline, o seu rosto mostrava-se pesaroso e assombrado, a voz gaguejava-lhe assustada.

Senhora!, Aline, Santo Deus, este é verdadeiramente o vosso irmão? Se eu tivesse sabido... se eu tivesse sabido, tê-lo-ia salvo para vós... Fosse a que custo fosse, tê-lo-ia libertado... Deus me perdoe!

Ela ergueu o rosto sem lágrimas por entre a cortina dourada do seu cabelo e olhou para ele admirada e compungida, ao vê-lo tremer.

Oh, calai-vos! Como poderíeis vós ser culpado pelo acontecido? Não vos era possível saber. Fizésteis apenas aquilo que vos foi ordenado. E como poderíeis ter salvo um e deixar os restantes morrer?

Então não vos restam dúvidas de que é mesmo o vosso irmão?

Sim disse ela, olhando para o jovem morto com uma expressão agora liberta até mesmo do choque e do desgosto. É Giles.

Finalmente conhecedora do fim trágico do irmão, só lhe restava, na ausência do pai ou de outros irmãos, tomar as providências necessárias. Apoiou-se, imóvel, ao braço de Courcelle, olhando muito séria para o rosto inerte. Cadfael, que observava a cena um pouco afastado, ficou satisfeito por ter conseguido devolver um pouco da forma anterior ás feições outrora belas, mas às quais a morte imprimira um esgar de terror. Ao menos poupara-a à imagem da desintegração humana, tão dura de ver.

Soltando um profundo suspiro, Aline fez menção de se levantar, e Hugh Beringar, que dera mostras até ali de uma admirável e sensata capacidade de contenção, estendeu a mão para ela do outro lado, ajudando-a a erguer-se. Ela estava agora senhora de si, talvez como nunca lhe acontecera anteriormente, pois nunca passara semelhante provação nos dias da sua vida. Cumpriria a sua obrigação.

Irmão Cadfael, agradeço-vos tudo o que fizestes não só por Giles e por mim, como também por todos estes. Agora, se o permitis, tomarei conta do enterro de meu irmão, como é meu dever.

A seu lado, ansioso e ainda profundamente abalado, Courcelle perguntou:

Para onde quereis que ele seja levado? Os meus homens transportá-lo-ão para vós e ficarão às vossas ordens o tempo que for preciso. Gostaria de vos atender pessoalmente, mas não devo abandonar o meu posto.

Sois muito gentil disse ela, agora já totalmente recomposta. A família de minha mãe possui uma tumba na igreja de St. Alkmund, aqui na cidade. O padre Elias conhece-me. Ficarei grata se os vossos homens o puderem levar até lá, mas depois não necessitarei de os manter longe dos seus deveres por mais tempo. Providenciarei tudo o resto.

Assumira uma expressão atenta e prática, tinha trabalho a fazer, toda uma série de pormenores a ter em consideração, a necessidade de apressar os preparativos devido ao calor do Verão, a provisão de todos os materiais próprios para uma descida condigna ao túmulo. Tomou as suas disposições com autoridade.

Master Beringar, fostes muito delicado, o que vos agradeço, mas agora devo ficar por aqui a fim de preparar os ritos da família. Não há necessidade de entristecer o resto do vosso dia. Ficarei em perfeita segurança.

Vim convosco disse Hugh Beringar e não voltarei sem a vossa companhia.

Era a melhor maneira de, naquele momento, lhe falar, sem discussões nem qualquer demonstração exterior de simpatia. Ela limitou-se a aceitar a sua decisão e dispôs-se a cumprir o seu dever. Dois dos guardas trouxeram uma estreita liteira onde colocaram o corpo de Giles Siward, e ela mesma endireitou e compôs a cabeça oscilante.

Nesse momento Courcelle, observando o cadáver com mágoa, disse abruptamente:

 

Aline levou com ela a túnica e os calções que o irmão usara, assim como a capa que o cobrira, roupa que ela própria escovou e dobrou cuidadosamente. A camisa nunca mais ninguém a usaria, seria por ela queimada e esquecida; mas aqueles fortes agasalhos feitos de bom material não deviam ser desperdiçados num mundo onde tantos andavam seminus e enregelados. Pegando numa pequena trouxa de roupa impecavelmente dobrada, dirigiu-se à portaria da casa; vendo o pátio completamente deserto, atravessou os viveiros e os jardins em busca do Irmão Cadfael.

Não o encontrou. O escavar de uma sepultura suficientemente larga para albergar sessenta e seis vítimas, assim como o trabalho repetitivo de as depositar no interior da mesma, leva mais tempo que a abertura de uma tumba de pedra para arranjar espaço para mais um membro da família. Os irmãos trabalharam duramente até depois das duas da tarde, apesar da ajuda de todos os presentes.

Mas apesar de Cadfael não se encontrar ali, o seu ajudante cortava diligentemente os capítulos secos pelo calor, arrancando folhas e hastes de segurelha em florescência para pôr a secar em feixes. Todo o beiral do telhado da cabana estava enfeitado por ervas em secagem. O diligente rapaz trabalhava de pés descalços, sujo de poeira, e tinha uma mancha verde numa das faces. Ao ouvir o som de passos a aproximarem-se, olhou em volta e saiu apressadamente de entre as suas plantas, arrastando consigo uma vasta onda de fragrâncias, que, aderindo a ele, se desprendiam das dobras da túnica suja com a doçura miraculosa que é habitual emanar de alguns santos, que, se não fora esse pormenor, pareceriam deveras pouco impressionantes. O gesto apressado da mão a afastar uma madeixa de cabelos serviu apenas para sujar a outra face e parte da testa.

Estava á procura disse Aline, quase em tom de desculpa do Irmão Cadfael. Deveis ser o rapaz chamado Godric, que trabalha para ele.

Sim, minha senhora disse Godith em voz rouca. O Irmão Cadfael ainda está ocupado, os trabalhos continuam.

Ela quisera ir assistir, mas ele não a deixara; quanto menos vezes a vissem à luz do dia, melhor.

Oh! exclamou Aline embaraçada. Claro, devia ter pensado nisso. Então posso deixar-vos um recado para ele? Trata-se apenas... trouxe estas roupas, que pertenciam a meu irmão. Ele já não necessita delas e ainda estão boas, alguém poderá ficar satisfeito por recebê-las.

 

Nota: Capítulos Inflorescências formadas por pequenas flores sem pedúnculo, inseridas lado a lado em vastos receptáculos, acima dos quais as brácteas estão reunidas num invólucro. (N da T)

 

- Direis ao Irmão Cadfael para as dar a quem precisar delas, está bem? Fica à consideração dele.

Godith esfregara as mãos sujas nas pregas da túnica antes de as estender para pegar na trouxa. De repente deteve-se, imóvel, olhando a outra jovem e segurando na roupa do morto, tão estupefacta e abalada que se esqueceu por momentos de manter a voz num tom baixo.

Já não precisa... Tínheis um irmão ali, no castelo? Oh, lamento muito! Lamento muito!

Aline olhou para as suas mãos, vazias e algo perdidas agora que até mesmo aquele pequeno dever estava cumprido.

Sim, um entre muitos outros disse. Ele fez a sua escolha. Fui ensinada a encará-la como errada, mas ao menos foi-lhe fiel até ao fim. Meu pai poderia ter ficado furioso com ele, mas não teria motivos para se sentir envergonhado.

Como vos lamento!

Godith aconchegou as roupas de encontro ao peito, não encontrando palavras que melhor exprimissem a sua pena.

Entregarei a vossa mensagem ao Irmão Cadfael assim que este regressar. E sei que ele gostaria que eu vos agradecesse esta vossa grande caridade até ele poder fazê-lo pessoalmente.

E dai-lhe também esta bolsa. É para mandar rezar missas por todos eles. Mas especialmente uma missa pelo que não deveria estar ali, aquele que ninguém conhece.

Godith ficou confusa e admirada.

Havia ali alguém nessas condições? Alguém que não pertencia ao grupo? Não sabia!

Vira Cadfael apenas durante alguns minutos quando este voltara a casa, já tarde, muito fatigado, não tendo por isso tempo de lhe contar nada. A única coisa de que tinha conhecimento era de que tinham trazido os mortos que ninguém reclamara para a abadia, a fim de serem enterrados; a misteriosa referência a um que não tinha lugar na tragédia comum era novidade para ela.

Foi o que me disse. Existem noventa e cinco homens onde só deveriam estar noventa e quatro, e um parece não ter tomado parte na batalha. O Irmão Cadfael estava a pedir a todos os que chegavam para o olharem para ver se o conheciam, mas penso que ainda ninguém soube dar o seu nome.

E onde está ele agora? perguntou Godith, surpreendida.

Não sei. Penso que o devem ter trazido para a abadia. Não me parece que o Irmão Cadfael permita que o metam debaixo da terra juntamente com todos os outros sem que se saiba qual o seu nome e por que razão se encontrava ali. Deveis conhecer a sua maneira de proceder melhor do que eu. Trabalhais com ele há muito tempo?

Não, há bem pouco disse Godith, mas começo a saber como ele é.

Principiava a sentir-se pouco à vontade, assim inocentemente examinada, de tão perto, por aqueles olhos de íris límpida. Uma mulher poderia ser mais perigosa para o seu segredo que um homem. Lançou um olhar para trás, em direcção às ervas com que estivera a trabalhar.

Sim disse Aline, percebendo a alusão, não devo manter-vos afastado do vosso trabalho.

Godith ficou a observá-la enquanto Aline se retirava, quase lamentando não ter prolongado aquele encontro com uma rapariga num santuário só de homens. Foi à cabana pôr as roupas em cima da cama e voltou ao trabalho, aguardando, vagamente inquieta, que Cadfael regressasse; quando este voltou a aparecer, não se libertara ainda do peso da fadiga e das preocupações.

Mandaram-me ir ao acampamento do rei. Parece que o alcaide achou melhor dar-lhe a conhecer o tipo de inquérito inesperado que eu iniciei, e ele deseja que eu lhe fale pessoalmente do assunto. Mas esqueci-me acrescentou, passando a mão calejada pelas maçãs do rosto rígidas pela exaustão de que ainda não tive tempo para falar contigo e que não sabes nada do que se tem passado...

Ah, mas sei disse Godith. Aline Siward veio aqui à vossa procura. Trouxe-vos isto, para dardes como esmola a quem melhor entenderdes. Pertenciam a seu irmão. Foi o que ela me disse. E este dinheiro é para missas; sugeriu uma missa especial pelo tal homem que apareceu a mais. Agora dizei-me, de que mistério se trata?

Foi agradável poder sentar-se por momentos e deixar as coisas correr. Assim fez, descontraindo-se junto dela e falando-lhe então do que se passava. Depois de o ouvir atentamente, perguntou-lhe logo a seguir:

E onde está ele agora, esse desconhecido que nunca ninguém viu?

Na igreja, num esquife colocado defronte do altar. Quero que todos aqueles que vierem aos serviços passem por ele, na esperança de que alguém o reconheça, dizendo-nos o seu nome. Não podemos mantê-lo para além do dia de amanhã disse, mal-humorado, a estação está demasiado quente. Mas se tivermos de o enterrar incógnito, tenciono fazê-lo num local onde possa voltar a tirá-lo sem dificuldade, guardar as suas roupas e mandar fazer um esboço do seu rosto, até descobrirmos quem é o pobre moço.

E acreditais verdadeiramente perguntou ela atónita que ele foi assassinado? E em seguida atirado para o meio das vítimas do rei para que esse crime ficasse para sempre oculto?

Criança, já te disse! Ele foi apanhado por trás com uma corda de estrangulador previamente preparada para o efeito. E isso foi feito na mesma noite em que os outros morreram e foram atirados para o valado. Que melhor oportunidade poderia um assassino ter? Entre tantos, quem iria contar, separar e fazer perguntas? Ele fora morto na mesma altura que os outros. Haveria poucas possibilidades de notarem alguma diferença.

Mas não foi! exclamou Godith, animada de um desejo de vingança.

Porque vós aparecestes. Quem mais se preocuparia em ser tão meticuloso entre noventa e cinco cadáveres? Quem mais se teria erguido em defesa dos direitos de um homem não condenado, assassinado sem sombra de legalidade? Oh, Irmão Cadfael, tornastes-me tão irreconciliável com esta situação como vós mesmo. E ainda nem sequer vi o homem de que falamos. O rei que espere um pouco mais. Deixai-me ir até lá e ver! Ou vinde comigo, se achais melhor, mas permiti-me ir vê-lo. Cadfael, depois de considerar um pouco a questão, levantou-se, gemendo ligeiramente com o esforço. Os seus tempos de juventude já lá iam, e tinha tido um dia e uma noite muito rudes.

Então vem daí, seja feita a tua vontade, quem sou eu para te afastar de um local onde convido os outros a entrar? Nesta altura deve lá haver sossego, mas não te afastes do meu lado. Oh, querida filha, também não me posso esquecer de que tenho de te mandar para longe deste sítio o mais depressa possível.

Tendes assim tanta vontade de vos livrardes de mim? exclamou Godith, ofendida. E precisamente quando estava a aprender a distinguir a salva da manjerona! Que seria de vós sem a minha ajuda?

Ora, treinaria algum noviço que esperasse conservar mais do que apenas algumas semanas. E por falar em ervas acrescentou Cadfael, tirando um pequeno saco de couro de dentro do hábito e sacudindo-o, fazendo cair um galho de cerca de quinze centímetros, seco pelo sol, uma haste fina, toda ela da mesma largura, intervalada por pares de folhas largas, com minúsculas bolas castanhas presas na base dos respectivos pedúnculos, sabes o que é isto?

Os muitos conhecimentos adquiridos nos últimos dias fizeram-na examinar o talo com curiosidade.

Não. Não cultivamos disso aqui. Eu conhecê-lo-ia se o tivesse visto crescer.

É potentilha. Também lhe chamam amor-de-hortelão. Uma curiosa trepadora, que emite pequenas gavinhas que lhe permitem agarrar-se com maior rapidez, até mesmo a minúsculas sementes como as que vês aqui. E se reparares bem, observarás que está quebrado aqui a meio.

Godith fez que sim, sentindo aumentar ainda mais a curiosidade. Havia ali algo mais do que era aparente; aquele insignificante galho acastanhado encontrava-se, de facto, fendido a meio por uma fina fractura.

Que é isso? Onde é que o encontrastes?

Tirei-o do sulco escavado na garganta do pobre moço disse ele suavemente, de modo a não chocá-la, e foi quebrado neste sítio pela corda que o estrangulou. É da colheita do ano passado, não da nova. Isto cresce abundantemente nesta estação, disseminando-se por todo o lado, e este germinou em forragem, palha ou erva cortada o Outono passado e posteriormente posta a secar. Nunca devemos menosprezar as ervas; elas são soberanas na cura de ferimentos recentes que unguentos dos mais variados não conseguem tratar. Todas as coisas têm, na natureza, o seu uso devido, somente a sua má aplicação as torna prejudiciais.

Voltou a guardar cuidadosamente a pequena haste seca no mesmo sítio, pousando em seguida um braço em redor dos ombros de Godith.

Então vem daí, vamos os dois ver o moço.

A tarde ia a meio, era tempo de trabalho para os irmãos e de recreio para os rapazes noviços, uma vez terminadas as suas tarefas. Chegaram à igreja sem encontrarem outra gente pelo caminho que não fossem uns quantos adolescentes que jogavam. Penetraram na suave penumbra que reinava no interior.

O jovem misterioso da vala do castelo jazia austeramente envolto numa mortalha, em cima do esquife que fora colocado ao fundo da nave da igreja, perto do altar-mor, de cabeça e rosto descobertos. Sobre ele incidia uma luz difusa mas límpida; não eram necessários mais que alguns minutos para uma pessoa se habituar à luminosidade suave que naquela tarde soalheira reinava no interior da casa de Deus, mostrando claramente o morto. Godith parou junto deste, olhando-o em silêncio. Estavam sozinhos; podiam falar em voz baixa. Mas quando Cadfael perguntou suavemente: ”Conhece-lo”, já tinha a certeza da resposta. A seu lado ouviu-se um suave sussurro:

-Sim.

-Vem!

Conduziu-a para fora da igreja tão calmamente como tinham entrado. Sob a luz do Sol, ouviu-a respirar profunda e longamente. Não fez qualquer comentário até se encontrarem ambos na segurança do herbário mergulhado na cálida doçura do Verão, sentados à sombra da cabana.

Bem, quem é ele, o jovem que nos perturba aos dois?

O seu nome disse Godith em voz muito baixa e mal podendo acreditar no que acabara de ver é Nicholas Faintree. Conheço-o desde os 12 anos. Era escudeiro de FitzAlan, de uma das suas mansões do Norte, e o mensageiro que este utilizava nos últimos anos. Não era muito conhecido em Shrewsbury, não. Se foi atraído aqui a uma emboscada e depois assassinado, devia encontrar-se ao serviço do seu senhor. Mas os assuntos de FitzAlan nestes lados estavam quase terminados. Apoiou a cabeça nas mãos e reflectiu profundamente. Há gente em Shrewsbury que poderia ter-vos indicado o seu nome, sabeis, se tivesse tido razões para vir até aqui à procura de homens seus. Conheço alguns que poderão ser capazes de vos falar do que ele estava aqui a fazer naquele dia e naquela noite. Tendes a certeza de que não lhes advirá nenhum mal por isso?

Nunca, pela parte que me toca disse Cadfael.

Há a minha ama, aquela mulher que me trouxe até aqui dizendo que eu era seu sobrinho. Petronilla serviu a minha família durante toda a sua vida adulta, até casar, já tarde, demasiado tarde para ter filhos, com um bom amigo da casa de FitzAlan e da nossa, Edric Flesher, o açougueiro-chefe da cidade. Ambos participaram em todos os planos na altura em que FitzAlan se declarou a favor da imperatriz Maud. Se fordes ter com eles, mandado da minha parte disse Godith, confiante, eles contar-vos-ão tudo o que sabem. Conheceis a loja? É a que tem, na fileira de casas dos carniceiros, a tabuleta com a cabeça do javali. Cadfael coçou pensativamente o nariz.

Se pedir a mula do abade emprestada posso lá chegar mais depressa e também poupar as minhas pernas. Não farei o rei esperar mais e á volta pararei nessa casa. Dá-me algo teu que lhes mostre que confias em mim, para que possam fazer o mesmo sem receio.

Petronilla sabe ler e conhece a minha caligrafia. Escrever-lhe-ei uma linha se me puderdes arranjar uma folha de pergaminho. Um pequeno pedaço servirá.

Animava-a um entusiasmo e uma determinação iguais aos dele.

Nicholas era uma pessoa alegre, nunca fez mal a minguém, que eu saiba, e era incapaz de se zangar. Ria-se imenso... Mas se disserdes ao rei que ele estava ligado à facção oposta, ele não se preocupará em perseguir o assassino, pois não? Dir-vos-á que se tratou de uma justiça do destino e convidar-vos-á a retirar.

Direi ao rei observou Cadfael que estamos a braços com um homem que foi assassinado, conhecemos o método e a altura em que o acto foi cometido, mas não o local e a razão. Também lhe direi que sabemos o seu nome. A modéstia deste não terá nenhum significado para Stephen. Não lhe poderei dizer nada mais a partir daí, pois nada mais sei. E mesmo que o rei não se quisesse incomodar com o assunto, incitando-me a que deixasse as coisas como estão, eu não o faria. Pelos meus esforços, pelos de Deus ou pelos dos dois juntos, Nicholas Faintree terá justiça antes de eu considerar a questão arrumada.

Obtido o empréstimo da mula pessoal do abade, o Irmão Cadfael levou consigo os óptimos agasalhos que Aline lhe confiara. Estava na sua maneira de ser levar a cabo imediatamente as tarefas que porventura lhe fossem parar ás mãos, em vez de as deixar para outra ocasião, e havia mendigos suficientes no caminho que conduzia à cidade. Os calções deu-os a um homem muito idoso de olhos completamente tapados por cataratas espessas, que estava sentado á sombra do portão da cidade com um bordão ao lado e a mão estendida a quem passava. Parecia ter o tamanho necessário e os que vestia estavam de tal modo cheios de remendos e puídos que pouco mais tempo durariam. A bela túnica castanha foi para uma débil criatura que não devia ter mais de 20 anos e mendigava junto do cruzamento. Um pobre atrasado mental de lábio pendente e um tremor de paralisia, preso pela mão a uma velhinha que dele cuidava zelosamente. As bênçãos estridentes desta seguiram Cadfael até ao portão do castelo. Quando chegou ao posto da guarda do acampamento do rei e viu o pequeno trólei de madeira de Lame Osbern encostado ao tronco de uma árvore próxima e reparou nas suas pernas inúteis e definhadas e nas suas mãos cobertas de calos e de músculos superdesenvolvidos à força de arrastarem todo aquele peso morto, ainda levava o manto consigo. Os socos de madeira encontravam-se a seu lado, na relva. Ao ver um monge de hábito aproximar-se montado numa bela mula, Osbern agarrou nestes e precipitou-se na direcção de Cadfael. Era fantástica a velocidade com que ele se movia, percorrendo pequenas distâncias e fazendo intervalos curtos para descansar! Mas uma criatura com tanta dificuldade de locomoção e com metade do seu corpo inerte devia passar frio até nas noites mais amenas, já para não falar das de Inverno.

Bom irmão adulou Osbern, gastai uma esmola com um pobre aleijado, que Deus recompensar-vos-á!

Assim farei, amigo disse Cadfael, e melhor do que uma pequena moeda, como poderás ver. Deverás dizer uma oração pela gentil senhora que vos manda isto pela minha mão.

E tirando o manto de cima da sela, à sua frente, deixou cair nas mãos deformadas do espantado Osbern o manto de Giles Siward.

Fizestes bem em participar com verdade aquilo que descobristes disse o rei agradado. Não é de admirar que o meu castelão não tenha feito a mesma descoberta, pois não tinha mãos a medir com o trabalho. Dizeis que esse homem foi apanhado por trás com uma corda de estrangula dor? Isso é moda entre os salteadores de estrada. E ainda por cima esconder a sua vítima entre os inimigos que mandei executar, a fim de encobrir o crime, isso não posso eu tolerar! Como se atreveu ele a fazer de mim e dos meus oficiais seus cúmplices! Tomo esse gresto como uma afronta à coroa e só por isso desejaria o criminoso apanhado e sujeito a julgamento. E o nome do jovem, dissestes Faintree?

Nicholas Faintree. Foi-me dito por um dos que foi vê-lo à igreja, onde tem estado em exposição. Vem de uma família do Norte do país. Mas é tudo quanto sei dele.

É possível reflectiu o rei esperançadamente que ele tivesse vindo a Shreswbury para procurar trabalho entre nós. São vários os jovens do Norte que têm acorrido a juntar-se a nós aqui.

É possível concordou Cadfael gravemente; é que tudo é possível e há homens que viram a casaca.

Assim como pode ter sido apanhado por algum ladrão de floresta que se quis apoderar do que ele trazia. Acontece! Desejaria poder dizer que as nossas estradas são seguras, mas nesta anarquia em que agora vivemos Deus sabe bem que não o posso afirmar. Bem, podeis prosseguir as vossas investigações, se é esse o vosso desejo, solicitando posteriormente os serviços do meu alcaide para que se julgue o assassino se este for encontrado. Ele conhece a minha vontade. Não gosto que me tenham utilizado como escudo de um crime tão malévolo.

Além de se tratar de uma verdade incontestável, ali é que estava, para o rei, o verdadeiro cerne da questão, e era bem possível que a sua atitude não tivesse mudado, na opinião de Cadfael, mesmo que soubesse que Faintree era escudeiro e mensageiro de FitzAlan e se provasse, coisa que até ali não tinha acontecido, que se encontrava a serviço da rebelião do seu senhor quando morrera. Tudo indicava que as mortes iriam abundar nos próximos tempos do reinado de Stephen, e ele não estaria disposto a perder o sono por causa das mesmas, mas ter um criminoso furtivo procurando rastejar em busca de refúgio na sua sombra, isso seria por ele tomado como um insulto mortal à sua própria pessoa e punido de acordo. Energia e letargia, generosidade e malevolência, acção sagaz e passividade incompreensível, estas as qualidades e defeitos que nunca deixariam de alternar e surpreender no rei Stephen. Mas algures dentro daquele homem alto, atraente e simplório existia, oculta, uma parcela de nobreza.

Aceito e prezo o apoio de Vossa Majestade disse o Irmão Cadfael com sinceridade e farei tudo o que estiver ao meu alcance para que se faça justiça. Um homem não se pode deitar a dormir e abandonar o dever que Deus depositou nas suas mãos. Deste jovem conheço apenas o nome e a aparência, que é franca e inocente, sei que não é acusado de nenhum crime, que homem algum se queixou de maus tratos da sua parte e que foi morto injustamente. Considero o acontecido tão desagradável para Vossa Alteza como alguma vez o poderá ser para mim. Se estiver nas minhas mãos corrigir esta situação não deixarei de o fazer.

Chegado à casa da tabuleta com a cabeça de javali, foi recebido com o civismo deferente que qualquer cidadão demonstraria perante um monge da abadia. Petronilla, rotunda, satisfeita e grisalha, convidou-o a entrar, e teria providenciado todas as pequenas atenções que afastam as suspeitas das pessoas se ele não lhe tivesse, de imediato, entregue a velha e muito usada folha de pergaminho onde Godith, um tanto cautelosa e laboriosamente, inscrevera a sua confiança no portador, assim como o seu nome. Petronilla observou-a atentamente, corando de prazer, olhando em seguida para aquele monge idoso, corpulento e saudavelmente bronzeado através de uma cortina de lágrimas.

Então o cordeirinho, a minha menina, está bem? E vós tomais conta para que nada lhe aconteça de mal! Ela di-lo aqui, conheço estes rabiscos, aprendi a escrever com ela. Tive aquela querida a meu cuidado quase desde o momento em que nasceu, e foi a única, uma pena que não tenha tido irmãos e irmãs. Foi por isso que eu quis fazer sempre tudo por ela, até as letras, estar constantemente a seu lado para o que precisasse. Sentai-vos, irmão, sentai-vos e falai-me dela, se está bem, se precisa de alguma coisa que lhe possa enviar por vós. Irmão, como é que poderemos mandá-la para longe em segurança? Poderá ela ficar convosco mais algumas semanas?

Quando Cadfael conseguiu introduzir duas palavras no fluxo verbal da boa mulher, sossegou-a, dizendo que a sua menina estava óptima e que ele velaria para que assim continuasse. Até ali ainda não lhe ocorrera aperceber-se do jeito que a jovem tinha para conquistar os corações sem o premeditar. Na altura em que Edric Flesher regressou de uma cautelosa volta pela cidade para ver como as coisas estavam, Cadfael já tinha criado lugar seguro nas boas graças de Petronilla e passara por esta a ser considerado como um amigo em quem se podia confiar.

Edric acomodou o sólido corpanzil numa cadeira larga e disse, depois de soltar um ruidoso suspiro de alívio:

Amanhã abro a loja. Temos sorte! Podeis crer que ele já está arrependido da vingança que levou a cabo por aqueles que não conseguiu apanhar. Mandou suspender todos os actos de pilhagem e está a zelar para que isso aconteça. Se ao menos a sua pretensão fosse justa e tivesse mais genica, penso que seria por ele. Mas passar por herói sem o ser não é coisa que fique bem num homem.

Puxando as longas pernas para junto de si, olhou para a mulher, fixando em seguida Cadfael longamente.

Ela diz que tendes a confiança da menina, e para mim isso é quanto basta. Dizei qual é a precisão, que se pudermos satisfazê-la, é vossa.

Quanto à rapariga disse Cadfael rapidamente, mantê-la-ei a salvo o tempo que for necessário, e assim que aparecer a oportunidade certa, levá-la-ei para longe, para onde possa estar em sossego. Quanto à minha precisão, sim, aí podeis ajudar-me. Temos na igreja da abadia, para ser amanhã enterrado, um jovem que provavelmente conheceis. Foi assassinado na noite seguinte à tomada do castelo, naquela em que os prisioneiros foram enforcados e atirados para a vala. Mas roubaram-lhe a vida noutro lado e depois lançaram-no para o meio dos outros, numa tentativa para que fosse enterrado sem levantar problemas. Posso dizer-vos como e quando morreu. Só não posso dizer-vos aonde, porquê e quem perpetrou o acto. Mas Godith diz que se chamava Nicholas Faintree e era escudeiro de FitzAlan.

Proferidas estas palavras, aguardou, analisando o seu silêncio. Havia certamente coisas do conhecimento deles, assim como era certo que aquela morte ainda não lhes chegara aos ouvidos, apanhando-os desprevenidos e caindo sobre eles como um golpe mortal.

Devo dizer-vos mais uma coisa disse. Tenciono trazer a verdade à luz do dia e vê-lo vingado. E mais, tenho a palavra do rei em como posso perseguir o assassino. O feito agrada-lhe tanto quanto a mim.

Passado um longo momento, Edric inquiriu:

Foi apenas um que apareceu morto assim desse modo? Não eram dois?

Deveriam ter sido? Não bastou um?

Eram dois disse Eric asperamente. A missão estava a ser cumprida por dois. Como é que se soube desta morte? Pareceis ser o único a ter conhecimento dela.

O Irmão Cadfael recostou-se e, sem se apressar, contou-lhes tudo o que acontecera. Se tivesse de faltar às vésperas, paciência. Dava valor e respeitava os seus deveres, mas se estes colidissem entre si, sabia por onde optar. Godith não abandonaria o seu retiro seguro sem ele, pelo menos até ás aulas do fim da tarde.

Agora disse será melhor dizerem-me o que souberem. Tenho Godith para proteger e Faintree para vingar, e é minha intenção fazer ambas as coisas o melhor que puder.

Os dois trocaram olhares de entendimento entre si. O relato da história coube ao homem.

Uma semana antes de o castelo cair, já a família de FitzAlan estava em porto seguro e feitos todos os planos para esconder a rapariga na vossa abadia. FitzAlan também se lembrou de tomar algumas providências para o caso de vir a morrer. Sabíeis que só fugiu no momento exacto em que eles deitaram abaixo os portões? Escapuliu-se-lhes mesmo nas barbas, atravessando o rio a nado juntamente com Adeney, afastando-se em seguida. Deus seja louvado! Mas na véspera do fim preparara as coisas para a eventualidade de ficar pelo caminho. Todo o seu tesouro ficara aqui à nossa guarda, ele queria que o fizéssemos chegar ás mãos da imperatriz no caso de ser morto. Nesse dia removemo-lo para uma plantação que tenho em Frankwell, de modo a não haver nenhuma ponte para atravessar se tivéssemos de o levar daqui sem perda de tempo. E combinámos um sinal. Se alguém da parte dele trouxesse certo símbolo (era uma coisa sem importância, um desenho, que, no entanto, só nós conhecíamos), indicávamos-lhe onde o tesouro estava, dávamos-lhe cavalo e tudo de quanto necessitasse, depois do que a pessoa pegaria nos valores e pôr-se-ia ao fresco a coberto da noite.

E foi assim que as coisas se passaram? inquiriu Cadfael.

Na manhã da queda da cidade, os acontecimentos precipitaram-se de tal forma que já não tivemos tempo para cumprir tudo o que estava combinado. Vieram dois. Mandámo-los esperar pela noite do outro lado da ponte. Que poderiam ter feito à luz do dia?

Dizei-me mais coisas. A que horas esses dois vieram ter convosco nessa manhã, que disseram, de que modo receberam essas ordens? Quantos saberiam do que estava combinado. Quantos teriam conhecimento do modo como o tesouro iria ser levado? Quando foi que os vistes vivos pela última vez?

Chegaram só pela madrugada. Nessa altura já se ouviam estrondos, a batalha havia começado. Traziam com eles a folha de pergaminho com a cabeça de um santo desenhada a tinta, tal como ficara combinado. Disseram-me que tinha havido um conselho na noite anterior, que FitzAlan lhes ordenara que partissem no dia seguinte e que, acontecesse o que acontecesse e quer ele morresse ou não, deviam fazer chegar o tesouro a salvo às mãos da imperatriz a fim de que ela o utilizasse na defesa dos seus direitos.

Quer dizer então que todos aqueles que assistiram ao conselho sabiam que esses dois se poriam a caminho na noite seguinte, assim que estivesse suficientemente escuro. Também conheciam o caminho a tomar? E onde o tesouro estava escondido?

Não, a única coisa de que tinham conhecimento era que o tesouro se encontrava oculto em Frankwell. Apenas FitzAlan e eu sabíamos em que local. Os dois escudeiros tinham de vir ter comigo.

Então quem se armasse de vis desígnios sobre o tesouro não poderia, mesmo que soubesse da altura da sua remoção, adiantar-se e tirá-lo para si; apenas podia ficar à espera na estrada. Se todos esses oficiais próximos de FitzAlan sabiam que ele devia ser levado para ocidente, de Frankwell para o País de Gales, não tiveram dúvidas através de que estrada o seria. Nos primeiros quilómetros o caminho é apenas um desvio às curvas do rio.

Pensais que algum dos que sabiam do caso pretendeu apropriarse do ouro para si, recorrendo ao assassínio? exclamou Edric. Um dos próprios homens de FitzAlan? Não posso acreditar numa coisa dessas! E não restam dúvidas de que todos, ou a maior parte, ficou até ao fim e morreu. Dois homens que percorressem a floresta de noite podiam bem cair nas mãos dos bandidos que nela se acoitam...

A poucos quilómetros das muralhas da cidade? Não vos esqueçais, quem quer que tenha morto este moço, fê-lo suficientemente perto do castelo de Shrewsbury para ter tempo e meios de sobra para transportar o cadáver e atirá-lo para junto dos outros que se encontravam na vala muito antes de a noite chegar ao fim, perfeitamente conhecedor de que os outros ali jazeriam. Bom, portanto eles chegaram, mostraram-vos as credenciais, falaram-vos do plano que tinha sido feito na véspera à noite, acontecesse o que acontecesse. Mas o certo é que as coisas se precipitaram. Que se passou em seguida? Acompanhaste-los até Frankwell?

Assim fiz. Tenho ali uma plantação e um celeiro onde eles e os seus cavalos ficaram escondidos até escurecer. Os valores encontravam-se em dois alforges (colocar semelhante peso num único cavalo teria sido excessivo), que tinham sido guardados num poço seco que lá tenho. Depois de me certificar de que ficavam bem ocultos, deixei-os por volta das nove da manhã.

E a que horas se aventuraram a partir?

Só depois de estar bem escuro. Estais então bem certo de que Faintree foi assassinado pouco depois de se porem a caminho?

Não resta a menor dúvida de que assim foi. Tivesse ele sido morto alguns quilómetros mais longe, o seu corpo teria levado sumiço de alguma outra maneira. Foi tudo planeado, e bem engenhosamente. Mas não o suficiente. Conhecíeis bem Faintree, pelo menos Godith assim mo deu a entender. Quem era o outro? Também era vosso conhecido?

Pesada e lentamente, Edric disse:

Não! Tive a impressão de que Nicholas o conhecia razoavelmente, tratavam-se como velhos camaradas, mas Nicholas era muito receptivo á criação de novas amizades. Nunca vira aquele moço antes. Era de uma outra mansão que FitzAlan tem no Norte, Disse chamar-se Torold Blund.

Tinham-lhe contado tudo o que sabiam, e algo mais do que fora dito em palavras. A expressão sombria de Edric falava por ele. O jovem que conheciam e em quem tinham confiado estava morto, aquele que não conheciam desaparecera, e com ele os valores de FitzAlan, pratas, moedas e jóias destinadas aos cofres da imperatriz. O suficiente para tentar qualquer homem. Não restavam dúvidas de que o assassino estivera de posse de todos os dados de que necessitava para se apoderar do tesouro; e quem poderia conhecer o plano tão bem quanto o próprio segundo mensageiro? Outro teria armado uma emboscada no caminho. Torold Blund nem sequer precisara de esperar por isso. Tinham ficado ambos o dia todo escondidos no celeiro de Edric. Era bem possível que Nicholas Faintree só de lá tivesse saído depois de morto, preso ao dorso do seu cavalo para a curta viagem até junto da vala do castelo, antes de as suas montadas seguirem caminho para ocidente, rumo ao País de Gales, com o seu único cavaleiro.

Nesse dia aconteceu mais uma coisa disse Petronilla, quando Cadfael se levantou, preparando-se para sair. Cerca das duas da tarde, já os homens do rei tinham tomado as duas pontes e baixado a ponte levadiça, ele veio (Hugh Beringar, o jovem que está prometido à minha menina há anos), fazendo-se muito preocupado com ela e querendo saber onde a poderia encontrar. Dizer-lhe? Não, por quem me toma? Informei-o de que ela fora levada daqui para fora uma boa semana antes de a cidade cair e que, embora não soubéssemos onde se encontrava, tinham-nos assegurado que já ia bastante longe das terras de Stephen. Fizemos bem em pensar que ele viera ter connosco a mando de Stephen, pois nunca o teriam deixado entrar na cidade tão cedo. Ele esteve no acampamento do rei antes de vir em busca da minha Godith, e não é por amor que a procura. Ela vale uma belíssima comissão, pois poderá servir de isca ao pai, se não ao próprio FitzAlan. Não deveis permitir que o meu cordeirinho seja visto por ele, que agora também está a viver na abadia!

E ele esteve aqui nessa mesma tarde? insistiu Cadfael preocupado. Sim, sim, terei todo o cuidado em mantê-la afastada dele, já me apercebi desse perigo. Mas terá havido, quando ele cá veio, alguma referência à missão de Faintree? Alguma coisa que lhe tenha chegado aos ouvidos? Ele é muito sagaz e manhoso! Não, não, perdoai-me, sei que nunca deixaríeis escapar uma palavra que fosse. Ah, bem, os meus agradecimentos pela vossa ajuda. Far-vos-ei chegar conhecimento dos meus progressos.

Já ia porta fora quando Petronilla disse, desolada:

E ele que parecia tão bom rapaz, esse Torold Blund! Como é possível adivinhar o que se encontra por detrás de um rosto vulgar e decente?

Torold Blund! exclamou Godith, pronunciando o nome lentamente, sílaba a sílaba. É um nome saxão. Há-os aos montes nas terras do Norte, sangue bom e antigo. Mas esse não conheço. Penso que nunca o vi. E Nicholas dava mostras de se relacionar bem com ele? Nicholas era simples, mas não estúpido, e tão grande familiaridade dá a entender que já se conheciam de há muito. E no entanto...

Sim disse Cadfael. Já sei! E no entanto!... Querida filha, estou demasiado exausto para continuar a raciocinar. Vou às completas e depois sigo direitinho para a cama, e tu deves fazer o mesmo. E amanhã...

Amanhã disse ela, erguendo-se ao toque da mão de Cadfael nós enterraremos Nicholas. Nós! Ele era, de certo modo, meu amigo, portanto quero estar presente.

E estarás, meu anjo disse Cadfael, bocejando e conduzindo-a pelo braço até à capela a fim de celebrarem, com gratidão, mágoa e esperança o terminar do dia.

 

Nicholas Faintree foi enterrado, com todas as honras, sob uma laje colocada no transepto da igreja da abadia, um privilégio excepcional. Ele era apenas um, depois de tantos, e esse facto foi motivo de regozijo, para além de haver lugar no interior, em vez de no exterior, e de o trabalho necessário ser menos árduo. O abade Heribert andava cada vez mais desiludido e deprimido com as questões daquele mundo e acolheu bem o hóspede solitário, que não era um símbolo de guerra civil, mas sim a vítima de uma maldade e de uma ferocidade pessoais. Em tempo devido e contra todas as probabilidades, talvez Nicholas acabasse por se transformar num santo. Fora misteriosa e barbaramente assassinado, jovem, nitidamente puro de coração e vida, inocente de toda a perfídia, enfim, da matéria de que os santos são feitos.

Aline encontrava-se presente aos serviços fúnebres e levara com ela, intencionalmente ou não, Hugh Seringar. O jovem fez com que Cadfael se sentisse progressivamente incomodado. Era certo que não esboçava gestos hostis ou mostrava desenvolver grandes diligências na busca da noiva sua prometida, se é que, na verdade, andava à procura dela. Mas havia algo de intrépido na própria descontracção e impudência da sua atitude, na ligeira e sardónica curva dos lábios, na limpidez inocente dos olhos negros de cada vez que encontravam os de Cadfael. ”Não há

 

Nota: Transepto Galeria transversal de uma igreja que separa o coro da grande nave, formando com esta os braços da cruz. (N. da T.)

 

dúvida”, pensava este, ”ficarei muito mais satisfeito quando afastar a rapariga daqui, mas entretanto tenho de a manter longe de todos os locais onde ele possa estar.”

Os principais pomares e hortas da abadia não se encontravam dentro do recinto desta, mas sim do outro lado da estrada principal, espraiando-se ao longo das margens ricas do rio por uma área a que chamavam Gaye; mesmo ao fundo desses férteis terrenos havia uma plantação de milho, situada a um nível ligeiramente superior. Estendia-se quase em frente do castelo e não muito longe do acampamento do rei, tendo por isso sofrido alguns danos no decorrer do cerco; embora o que restava já estivesse pronto a ser colhido há quase uma semana, fora demasiado perigoso tentar fazê-lo. Agora que os ânimos se tinham aplacado, todos se empenhavam em salvar uma colheita que não podiam desperdiçar e todas as mãos disponíveis foram postas nesse serviço durante um dia. O segundo moinho do abade ficava ao fundo do campo, e os mesmos perigos tinham-no votado ao abandono durante a estação, precisamente quando começava a ser preciso, além de que sofrera danos que o manteriam fora de uso até poderem ser reparados.

Tu vais com os segadores disse Cadfael a Godith. Não fico nada sossegado, mas de qualquer forma prefiro ter-te fora do enclave, nem que seja só por um dia.

Sem a vossa companhia? observou Godith, surpreendida.

Devo permanecer aqui e ver como as coisas andam. Se algo te ameaçar, irei ter contigo tão rápido quanto as pernas mo permitirem. Mas estarás bem, ninguém vai ter tempo de olhar muito para ti até aquele milho estar guardado nos celeiros. Mas mantém-te perto do Irmão Athanasius, que não vê dois palmos em frente do nariz e não sabe distinguir um veado de uma corça. E toma cuidado com a forma como manejas a foice, não me voltes manca de um pé!

Ela acabou por partir, satisfeita, no meio do grupo dos segadores, aceitando de bom grado a mudança de cenário. Não tinha medo. ”Não lhe teria ficado mal um bocadinho de medo”, censurou-lhe Cadfael em pensamento, ”mas então, ela tinha ali um velho tonto que tomaria conta de todos os medos por ela, do mesmo modo que tivera um dia uma velha ama, protectora que nem uma galinha com o seu pintainho.” Depois de ficar a vê-los saírem pela portaria e seguirem pela estrada fora em direcção ao Gaye, voltou, com um suspiro de alívio, ás suas tarefas nos jardins interiores. Ainda não estava há muito tempo de joelhos, tratando das plantas, quando ouviu atrás de si uma voz fria e suave, quase tão tranquila quanto os passos que não ouvira aproximarem-se sobre a relva, dizer:

É então aqui que passais as vossas horas mais pacatas. Muito mais agradável do que enterrar mortos.

O Irmão Cadfael terminou o último canto da plantação de hortelã antes de se virar a fim de reconhecer a presença de Hugh Seringar.

Uma alternativa muito mais agradável, dizeis bem. Esperemos que não volte a haver tal tipo de colheita aqui em Shrewsbury.

E lá acabastes por encontrar um nome para o vosso desconhecido. Qual era? Ninguém na cidade parecia conhecê-lo.

Todas as perguntas têm as suas respostas disse o Irmão Cadfael sentenciosamente quando se espera o tempo necessário.

E todas as buscas chegam a bom termo? Mas claro disse Beringar, sorrindo, não referistes a quantidade de tempo que é suficiente. Se um homem encontrou aos 80 aquilo que procurava aos 20, poderá dar mostras de ingratidão.

Ele pode bem ter deixado de o desejar muito antes disso observou o Irmão Cadfael secamente, o que é, em si, uma resposta a qualquer desejo. Quereis alguma coisa do herbário que eu vos possa fornecer ou sentis apenas curiosidade em relação a estes meus trabalhos simples?

Não disse Beringar, acentuando o sorriso, não poderia deixar de reconhecer que não vim aqui com a intenção de estudar nenhuma dessas simplicidades.

Arrancou uma haste de hortelã, esmagou-a entre os dedos e em seguida levou-a primeiro ao nariz e depois á boca, onde belos dentes brancos se fecharam sobre o seu sabor.

E que poderia uma pessoa como eu vir procurar neste local? Posso já ter causado alguns males nos meus tempos, mas não estou disposto a penar por eles. Contaram-me, Irmão Cadfael, que seguíeis uma bela carreira antes de virdes encerrar-vos no claustro. Não achais a vida aqui insuportavelmente enfadonha depois de tais batalhas, não dispondo agora de inimigos para combater?

Nos dias que correm não acho a minha vida absolutamente nada enfadonha disse Cadfael, arrancando ervas daninhas do meio do tomilho. E quanto a inimigos, o diabo fá-los entrar em todo o lado, quer seja no claustro, na igreja ou no herbário.

Beringar atirou a cabeça para trás soltando sonoras gargalhadas, que fizeram o curto cabelo escuro dançar-lhe na testa.

Em vão se vem em busca de travessuras para junto de vós! Mas ele dificilmente se atreveria a acometer com os seus cornos contra um velho cruzado! Entendi!

Mas ao mesmo tempo, embora mal parecesse virar a cabeça ou prestar grande atenção ao que se passava em seu redor, os seus olhos negros não perdiam nada e os seus ouvidos mantinham-se atentos enquanto ria e gesticulava. Naquela altura já ele sabia que o bem-falante e bem-parecido rapaz que Aline lhe mencionara inocentemente não iria aparecer, e mais, que o Irmão Cadfael não se importava de que ele metesse o nariz em todos os cantos do jardim, cheirasse todas as ervas secas e espreitasse para dentro de todas as poções que estavam na cabana, pois elas nada lhe diriam. A cama de madeira não tinha qualquer cobertor, vendo-se sobre ela apenas um grande almofariz e um singelo cântaro de vinho. Não se viam traços de Godith em lado nenhum. O rapaz era simplesmente um rapaz como os outros, e ficava com certeza no dormitório junto dos restantes.

Bem, deixo-vos entregue aos vossos trabalhos de limpeza disse Beringar, e não deixeis que as vossas meditações sejam prejudicadas pela minha tagarelice. Ou tendes alguma tarefa para me dar?

O rei não tem nenhuma? inquiriu Cadfael solicitamente. O remoque foi acolhido com uma pronta gargalhada.

Ainda não, ainda não, mas está para breve. Ele não se pode dar ao luxo de desperdiçar indefinidamente talentos como os meus. Embora, para dizer a verdade, me tenha já dado uma tarefa em relação à qual não me parece que esteja a fazer grandes progressos.

Apanhou outro ramo de hortelã, que depois esmagou e mordeu com prazer.

Irmão Cadfael, vós pareceis-me ser o homem mais prático de todos os que aqui se encontram. Suponho que se viesse a precisar da vossa ajuda, com certeza não ma recusaríeis sem alguma reflexão, não é verdade?

O Irmão Cadfael endireitou-se, com um ligeiro estalar dos músculos das costas, para lhe lançar um longo olhar pensativo.

Espero disse cautelosamente nunca vir a fazer nada sem a devida reflexão prévia, mesmo que por vezes essa reflexão tenha de se apressar para acompanhar a acção.

Era o que eu pensava disse Beringar, num tom de voz adocicado e sorrindo. Considerá-lo-ei como uma promessa.

E fazendo uma pequena vénia graciosa, afastou-se em passo despreocupado em direcção ao pátio.

Os segadores voltaram a tempo das vésperas, vermelhos por causa do sol, fatigados, com as vestes manchadas de suor, mas tendo deixado o milho cortado e pronto a ser transportado. Depois do jantar, Godith escapuliu-se apressadamente do refeitório, indo puxar Cadfael pela manga.

Irmão Cadfael, tendes de vir! É algo importantíssimo!

Ele sentiu-lhe o tremor da agitação da mão e a serena intensidade da sua voz sussurrada.

Ainda há tempo antes das completas vinde ao campo comigo.

Que é? perguntou ele, com voz igualmente suave, pois arriscavam-se a ser ouvidos pelo menos por uma dúzia de pessoas se o fizessem mais alto, e além disso ela não era mulher para se inquietar à toa.

Que foi que te aconteceu? Que deixaste lá em baixo que é assim tão urgente?

Um homem! Um homem ferido! Esteve no rio, foi perseguido até junto dele e veio depois corrente abaixo. Não me atrevi a fazer-lhe perguntas, mas tenho a certeza que precisa de ajuda. E está esfomeado! Já lá está há uma noite e um dia...

Como é que o descobriste? Estavas sozinha? Mais ninguém sabe?

Mais ninguém.

Ela agarrou-se à manga do hábito de Cadfael com mais força, e o sussurro enrouqueceu de timidez.

Foi um dia muito comprido... Afastei-me, tive de ir para bem longe, para o meio dos arbustos que ficam perto do moinho. Ninguém viu...

Claro, filha! Compreendo!

Ainda bem que a rapaziada estivera demasiado ocupada com o trabalho para reparar em semelhantes melindres. E o Irmão Athanasius nunca teria dado pelo ribombar de um trovão mesmo que este rebentasse ao seu lado.

Ele encontrava-se entre os arbustos? E ainda lá está?

Sim. Dei-lhe o pão e a carne que levava comigo e disse-lhe que voltaria mais tarde, quando pudesse. As roupas secaram-lhe sobre o corpo, tem sangue numa das mangas... Mas penso que ficará bem se vós tratardes dele. Podemos escondê-lo no moinho, ninguém vai lá, por enquanto.

Ela pensara em todos os pormenores e já o puxava em direcção à cabana do herbário, não directamente para a portaria. Remédios, ligaduras, alimentos, necessitariam de tudo isso.

Que idade perguntou Cadfael, agora mais à vontade, pois encontravam-se longe de quem os pudesse ouvir tem esse teu ferido?

É um rapaz disse ela suavemente. Não deve ser mais velho do que eu. E já anda perseguido! Ele pensa que eu também sou um rapaz, evidentemente. Dei-lhe a água que levava na garrafa e ele chamou-me Ganymede...

”Ora esta”, pensou Cadfael, adiantando-se apressadamente a Godith em direcção à cabana, ”parece que temos aqui um jovem de certa educação!”

Então, Ganymede disse, colocando-lhe nos braços um rolo de ligaduras, um cobertor e um pote de unguento, segura aqui nestas coisas enquanto encho esta pequena garrafinha e reúno algumas vitualhas. Espera só mais uns minutos que nos vamos já embora. E no caminho podes contar-me tudo sobre esse jovem que descobriste, pois uma vez atravessada a estrada já ninguém nos pode ouvir.

Assim foi: durante o percurso ela pôde realmente extravasar, para seu alívio, impetuosamente, o que não teria ousado dizer tão livremente à luz do dia. Ainda não escurecera, mas reinava uma fina penumbra, através da qual se viam um ao outro, embora sem tonalidades.

Ali os arbustos são espessos. Ouvi-o agitar-se e gemer e fui ver. Parece um jovem de família, um escudeiro ao serviço de algum senhor. Sim, ele falou comigo, mas... mas não me disse nada, era como estar a dirigir-me a uma criança teimosa. Tão fraco, com sangue num ombro e num braço, a dizer pequenos gracejos... Mas confiou o suficiente em mim para saber que não o trairia.

Correu apressadamente ao lado de Cadfael através do restolho alto, para o meio do qual o rebanho da abadia viria pastar, fertilizando o campo com os seus dejectos.

Dei-lhe o que tinha e disse-lhe para se manter quieto, que traria ajuda assim que começasse a anoitecer.

Agora que já estamos perto, mostra-me o caminho. Ele a ti, conhecer-te-á.

Ainda o Sol não se pusera e já as estrelas brilhavam no firmamento, compondo uma linda luminosidade de Agosto que ainda lhes iluminaria o caminho por uma hora ou mais, uma vez os seus olhos acostumados, mantendo-os, simultaneamente, ocultos de outros olhos. Godith libertou-se da mão com que Cadfael prendera a sua, como faria a uma criança para a ajudar a atravessar o restolho, e adiantou-se em direcção a um aglomerado de arbustos baixos. À esquerda de ambos, o rio corria, escuro e tranquilo, e o silêncio que reinava era interrompido apenas pelo palpitar suave da sua corrente, vendo-se um brilho prateado aparecer ocasionalmente no meio de pequenos redemoinhos.

Sossegai! Sou eu, Ganymede! E um amigo de ambos!

A figura escura que jazia no meio da penumbra estremeceu e, erguendo a cabeça, mostrou um rosto oval pálido, sombreado por uma cabeleira emaranhada quase com a mesma tonalidade. O estranho apoiou um braço no solo coberto de erva, fazendo menção de se erguer. ”Não há ossos partidos”, pensou Cadfael com satisfação. A respiração entrecortada indicava rigidez e dor, mas nada de mortal. Uma voz jovem disse, em surdina:

Meu bom rapaz! Amigos, eis uma coisa de que seguramente necessito...

Cadfael ajoelhou-se ao lado dele, oferecendo-lhe um ombro para se encostar.

Em primeiro lugar, antes de te moveres, diz-me onde está o ferimento. Não há nada desconjuntado nem quebrado à primeira vista.

Percorrendo cuidadosamente o corpo e os membros do rapaz com as mãos, soltou um resmungo, cautelosamente satisfeito.

São apenas ferimentos ligeiros murmurou o rapaz com esforço, respirando penosamente a cada toque mais doloroso.

Perdi sangue suficiente para me trair, mas ao atirar-me para o rio... meio afogado... eles devem estar totalmente convencidos de que...

Descontraiu-se, soltando um suspiro profundo, ao aperceber-se de que estava a ser tratado por mãos experientes.

Comida e vinho não tardam a trazer-te o sangue de volta. Podes levantar-te e andar?

Sim disse o rapaz sombriamente, tentando, debalde, pôr-se de pé.

Não, deixa estar, não há necessidade de te esforçares dessa maneira. Agarra-te com força a mim, quando eu me virar. Agora coloca os braços em redor do meu pescoço...

Ele era comprido, mas leve. Cadfael inclinou-se para a frente, passou os braços por baixo de coxas magras e musculosas e, tomando balanço, içou o jovem para as suas costas poderosas. As roupas deste ainda conservavam o odor pantanoso das águas do rio.

Sou um peso demasiado grande protestou o jovem fracamente. Podia ter ido a pé...

Fazes aquilo que te mandam e sem discutir. Godric, vai à frente e certifica-te de que não há ninguém à vista.

O caminho até à sombra do moinho foi curto. O seu vulto recortava-se, escuro, no céu bruxuleante, a grande roda hidráulica mostrando espaços aqui e ali que faziam lembrar falhas entre dentes. Godith empurrou a porta, que estava apenas encostada, e entrou à frente, tentando guiar-se no meio da obscuridade. Pequenas fendas nas tábuas que cobriam o chão, à esquerda, deixavam ver reflexos fugidios da água do rio, que corria, célere, mais abaixo. Apesar de a estação se fazer sentir quente e seca e de o rio Severn estar a ter o nível de águas mais baixo dos últimos anos, o caudal fluía rápido e poderoso.

Deve haver muito saco seco empilhado algures ao pé da parede, do lado da terra disse Cadfael, ofegante, nas costas dela. Vai tacteando até os encontrares.

Havia também, sob os seus pés, uma camada poeirenta e sussurrante de debulho da última colheita, cujo pó lhes fez comichão no nariz. Godith tacteou até ao canto, onde dispôs vários sacos de modo a fazer um colchão espesso e confortável, com dois dobrados a servirem de almofada.

Agora segura nesta tua garça de pernas compridas pelos sovacos e ajuda-me a deitá-la com cuidado... Isso mesmo, é uma cama tão boa como a que eu tenho no dormitório. Agora fecha a porta que eu quero acender uma luz para lhe dar uma olhada.

Trouxera um bom coto de vela, e uma mão cheia de restolho seco espalhada em cima de uma mó de moinho forneceu um material facilmente inflamável para a chama que lhe ateou. Depois de ter a vela bem acesa, providenciou um candelabro entre o restolho tremeluzente, entornando um pouco de cera derretida onde ancorou a vela depois de solidificar, apagando em seguida o fogo, não fosse este espalhar-se.

Agora vejamos o que temos aqui.

O jovem estendeu-se manifestamente grato, soltando um suspiro profundo, abandonando-se humildemente nas mãos de quem se propusera cuidar dele. No rosto sujo e fatigado, olhos irreprimivelmente vivazes e de uma cor clara, brilhante mas impossível de identificar naquele momento, miravam-nos. Tinha uma boca grande e generosa onde o ricto da exaustão não apagava o sorriso esforçado, e o cabelo emaranhado e manchado do rio devia ser louro como as espigas de milho quando estava limpo.

Um deles dilacerou-vos o ombro, ao que vejo disse Cadfael, desapertando apressada e laboriosamente a túnica escura pegada à camisa com sangue seco. Agora a camisa. Vais precisar de roupas novas, meu amigo, antes de saíres desta hospedaria.

Vou ter dificuldade em pagar-vos o que vos ficar a dever disse o rapaz, esboçando um sorriso corajoso, que depressa interrompeu com um arquejo agudo na altura em que a manga foi dolorosamente despegada da ferida.

Os nossos preços são baixos. Para comprares uma hospitalidade como esta que te oferecemos basta-te uma história verdadeira. Godric, meu rapaz, preciso de água, e a do rio é melhor que nenhuma. Vê se arranjas alguma coisa onde a possas transportar.

Ela encontrou um belo caco de bilha entre os detritos que se encontravam debaixo da roda, recipiente ali deixado por alguém que depois de se servir o quebrara. Depois de o esfregar vigorosamente com a ponta da túnica, afastou-se obedientemente em busca de água. A da corrente devia ser mais fresca que a que estava na calha, e para a ir buscar teve de demorar-se um pouco. Cadfael aproveitou a oportunidade para desapertar o cinto ao rapaz e tirar-lhe os sapatos e os calções, atirando-lhe depois um cobertor para cobrir a nudez. Tinha um corte longo mas não profundo na coxa direita, ”provavelmente provocado por uma espada”, pensou Cadfael, e viam-se-lhe vários tipos de escoriações na pele clara, e o que era mais estranho, um pequeno sulco na base do pescoço, do lado esquerdo, e um outro, curiosamente idêntico, na parte de fora do pulso direito. Praticamente cicatrizadas, estas duas linhas escuras tinham um dia ou dois a mais que as feridas.

Não restam dúvidas observou o Irmão Cadfael de que tens levado uma vida interessante ultimamente.

E muita sorte em mantê-la murmurou o rapaz, semiadormecido com todo aquele conforto.

Quem é que te perseguia?

Os homens do rei, quem mais poderia ser?

Ainda continuarão?

Sem dúvida. Mas daqui a alguns dias alivio-vos deste fardo...

Isso agora não interessa. Vira-te um pouco para mim, assim! Vamos colocar uma ligadura nesta coxa, a ferida está suficientemente limpa e já começou a fechar. Vai doer.

E doeu mesmo. O jovem contraiu-se e arquejou ligeiramente, mas não se queixou. Cadfael ligara já a ferida quando Godith voltou com o recipiente com água. Por falta de asa, utilizara ambas as mãos para o segurar.

Vejamos agora este ombro. Foi por aqui que perdeste a maior parte do sangue. Esta ferida foi feita por uma flecha!

Tratava-se de um corte oblíquo, que atravessava a parte de fora do braço esquerdo, logo abaixo do ombro, ia quase até ao osso e fazia que uma feia borda tivesse ficado pendente. Cadfael começou a embeber as crostas de sangue, removendo-as, e em seguida uniu firmemente as arestas da ferida, colocando sobre estas um bocado de pano embebido num dos seus preparados à base de ervas.

Isto ajudará a ferida a sarar mais depressa disse, enrolando cuidadosamente a ligadura em volta do braço. Já está. Agora deves comer, mas não em demasia, estás demasiado fatigado para fazer bom uso disso. Tens aqui carne, queijo e pão, e guarda alguma coisa para de manhã, pois és capaz de acordar esfomeado.

Se tiver sobejado alguma água disse o jovem com ar suplicante e humilde, gostava de lavar as mãos e o rosto. Estou sujíssimo!

Godith ajoelhou-se a seu lado, humedeceu um pedaço de pano no recipiente da água, mas em vez de o colocar na mão do jovem, fez antes o trabalho por ele, compenetrada e meticulosamente, afastando-lhe o cabelo emaranhado da testa, que era alta e cândida, detendo-se mesmo a desfazer-lhe alguns dos nós com dedos solícitos. Após o primeiro momento de surpresa, o jovem manteve-se imóvel e submisso sob os cuidados obsequiosos, mas os seus olhos, agora limpos das manchas de sujidade, observavam-lhe o rosto enquanto ela se inclinava para ele, tornando-se progressivamente maiores com uma expressão de respeitosa curiosidade. E tudo isto se passava sem que ela proferisse, praticamente, uma palavra.

O jovem estava demasiado exausto para comer o que quer que fosse, e depressa começou a esmorecer. Durante momentos ficou a olhar para os seus salvadores silenciosamente pensativo, não tardando a cabecear de sono. Mas ainda disse, com a língua entaramelada:

É minha obrigação dizer-vos o meu nome, depois de tudo o que fizestes por mim...

Amanhã disse Cadfael firmemente. Estás pronto para dormir um bom sono e creio que, neste local, não deixarás de o fazer. Agora bebe isto: ajuda as feridas a fecharem sem infecções e ameniza o coração.

Tratava-se de um medicamento estimulante, da sua própria lavra. Depois voltou a guardar o frasco vazio no hábito.

E ficas aqui com uma pequena garrafa de vinho para te fazer companhia se acordares. Virei ter contigo logo de manhãzinha.

Viremos! exclamou Godith, em voz baixa mas firme.

Espera, mais uma coisa! recordou-se Cadfael no último instante. Não tens nenhuma arma contigo, e penso que devias usar espada.

Tive de a largar murmurou o rapaz, sonolento no rio. Tinha demasiado peso para me manter a flutuar, e eles disparavam sobre mim. Já estava na água quando recebi este ferimento... Senti-me afundar, espero que eles tenham acreditado que fiquei lá no fundo... Deus sabe quão perto estive de isso me acontecer!

Sim, bem, amanhã nos contas o resto. E depois também teremos de te arranjar uma espada. Agora, boa noite!

Mal tinham tido tempo de apagar ”a vela já ele se deixara adormecer profundamente. Caminharam por entre o restolho sussurrante durante alguns minutos sem proferirem palavra. Por cima deles, o firmamento formava uma abóbada de um azul-escuro fulgurante que ia aclarando em direcção à linha do horizonte até adquirir uma tonalidade verde-mar. Godith perguntou abruptamente:

Irmão Cadfael, quem foi Ganymede?

Um belo jovem que trabalhava para Jove como serviçal encarregado de lhe servir vinho e era por ele muito amado.

Oh! exclamou Godith, não sabendo muito bem se devia sentir-se deliciada se furiosa pelo facto de aquele sucesso ter ficado a deverse, totalmente, ao seu aspecto de rapazinho.

Mas alguns dizem que também é o nome dado a Hebe acrescentou Cadfael.

Oh! E quem é Hebe?

A serviçal que servia vinho a Jove e muito amada por este, mas uma bela mulher.

Ah! exclamou Godith, inescrutável. E ao atravessarem a estrada em direcção á abadia, observou, em tom sério:

Deveis saber de quem se trata, não?

Jove? É, de entre todos os deuses pagãos, aquele que mais se parece com um deus...

Ele! disse ela severamente, parando e sacudindo o braço de Cadfael, de tal modo falava com seriedade. Tem um nome saxónico, cabelo saxónico e estava fugindo dos homens do rei... Ele é Torold Blund, aquele que acompanhou Nicholas para salvarem o tesouro de FitzAlan e o entregarem à imperatriz. É claro que não tem nada a ver com a morte do pobre Nicholas. Não acredito que tenha alguma vez feito uma acção vergonhosa em toda a sua vida!

Aí está disse o Irmão Cadfael uma coisa que não me atrevo a dizer de nenhum homem, muito menos de mim mesmo. Mas afianço -vos, rapariga, que acções vergonhosas é que este jovem nunca fez de certeza. Podeis dormir descansada!

Não tinha nada de extraordinário o Irmão Cadfael, jardineiro e droguista devotado, levantar-se muito antes da prima e ter já uma hora de trabalho antes de se juntar aos irmãos para o primeiro serviço; assim, ninguém estranhou que naquela especifica manhã ele se tivesse vestido e saído nem ninguém chegou alguma vez a saber que também acordara o seu ajudante, tal como lhe prometera. Saíram os dois levando mais medicamentos e alimentos, assim como uma túnica e uns calções que o Irmão Cadfael já retirara das ofertas de caridade que chegavam para o esmoler. Godith trouxera com ela a camisa suja de sangue do jovem, que era de bom linho e não devia ser desperdiçada, tendo-a lavado antes de se deitar, remendando-a depois, ao levantar, no sítio

 

Nota: Prima A primeira hora do ofício divino (6 horas da manhã). (N. da T.)

 

onde a flecha rompera o tecido. Fizera uma bela noite quente de Agosto, e a camisa, estendida cuidadosamente em cima de uns arbustos do jardim, depressa secara.

O paciente de ambos encontrava-se sentado na cama de sacos, mastigando pão com apetite, e parecia ter total confiança neles, pois não esboçara qualquer movimento para procurar esconder-se quando a porta principiara a abrir-se. Colocara a túnica suja e rasgada em redor dos ombros, mas o resto do corpo estava nu sob o cobertor, que delineava delicadamente o peito liso e macio e os flancos estreitos. Tanto o corpo como os olhos mostravam ainda equimoses azuladas, mas não restavam dúvidas de que aquela longa noite de repouso lhe fora extremamente revigorante.

Agora disse Cadfael com satisfação podes falar tanto quanto te apetecer, meu amigo, enquanto mudo o penso desta tua ferida. A perna ficará bem até podermos dispor de mais um pouco de tempo, mas este ombro não é muito de confiar. Godric, ajuda-o do outro lado até eu lhe tirar o que cá está, pois pode muito bem estar pegado. Seguras-lhe no braço enquanto desenrolo a ligadura. Agora, senhor... acrescentou, chamam-me Irmão Cadfael, sou do País de Gales e já andei por esse mundo, como deves ter adivinhado. E este meu rapaz é Godric, como ouviste, e trouxe-me até ti. Ou confias nos dois ou em nenhum.

Confio em ambos disse o rapaz.

Naquela manhã, talvez devido ao reflexo da aurora, mostrava mais cor nas faces, e os olhos, mais verdes que castanhos, brilhavam.

Devo-lhes mais do que a confiança pode pagar, mas mostrai-me o que posso fazer por vós, que não hesitarei. Chamo-me Torold Blund, venho de uma aldeia próxima de Oswestry e sou um homem de FitzAlan da cabeça aos pés.

Nesse instante a ligadura prendeu-se, e Godith sentiu-o encolher-se, apressando-se então a retirá-la através de delicados toques, até desprendê-la completamente.

Se isso vos coloca em perigo disse Torold, reprimindo a dor, penso que é melhor pôr-me a caminho. Por nada deste mundo vos faria arriscar a vida por minha causa.

Vais-te embora quando para tal te derem permissão disse Godith, arrancando, para castigo, o resto da ligadura, embora de forma bastante circunspecta, e mantendo o pedaço de pano embebido no unguento no lugar. O que não será hoje.

Cala-te, deixa-o falar, o tempo escasseia disse Cadfael. Vamos a isto, rapaz. Não é nosso mister vender os homens de Maud a Stephen, nem os de Stephen a Maud. Como é que vieste ter a este local?

Torold respirou fundo e explicou o que se passara.

Vim até este castelo juntamente com Nicholas Faintree, que também era um homem de FitzAlan e pertencia à mansão vizinha à de meu pai, e tínhamo-nos reunido à guarnição uma semana antes de esta cair. Na tarde que antecedeu o ataque, houve um conselho (nós não assistimos, fazíamos parte do pessoal menor) onde foi resolvido, por desconhecerem que o assalto final seria desencadeado nesse mesmo dia, que o tesouro de FitzAlan seria retirado dali no dia seguinte. Nicholas e eu fomos designados para essa tarefa porque éramos novos em Shrewsbury, ninguém nos conhecia e poderíamos conseguir passar mais facilmente despercebidos que outros mais velhos do que nós, que corriam o risco de ser reconhecidos e abatidos assim que os vissem. Os bens (graças a Deus não eram demasiado volumosos, pouca prata, jóias na maior parte) encontravam-se escondidos num local desconhecido de todos com excepção do nosso senhor e da pessoa que, a seu mando, os tinha guardado. Assim que nos fosse dada palavra de ordem nesse sentido, teríamos de pegar nos cavalos e ir ter com ele, retirá-los de onde nos mostraria e pormo-nos a caminho para o País de Gales a coberto da noite. FitzAlan tinha um acordo com Owain Gwynedd, não que este seja por qualquer dos partidos, ele é, sim, pelo País de Gales, mas uma guerra civil aqui faz-lhe jeito e ele e FitzAlan são amigos. Ainda a madrugada vinha longe, eles atacaram, ficando logo bem claro que não poderíamos aguentar. Fomos portanto imediatamente mandados embora para cumprirmos a nossa missão. Era uma loja na cidade... agitou-se, pouco à vontade, não querendo dar nenhuma pista.

Eu sei disse Cadfael, limpando a ferida do ombro da exsudação da noite e besuntando uma nova compressa. Era a loja de Edric Flesher, foi o próprio que me contou a parte que lhe cabia na combinação. Foram levados até ao celeiro que ele tem em Frankwell e o tesouro foi-vos entregue. Depois deviam esperar até ao cair da noite para partirem. Continua!

O jovem, observando friamente a colocação da ligadura nos seus próprios ferimentos, prosseguiu obedientemente:

Assim que ficou escuro, pusemo-nos a caminho nos nossos cavalos. Atravessámos um pequeno descampado para chegarmos às árvores. A meio do percurso, que é feito através de um bosque que se estende pela orla dos campos, ali perto, há só a cabana de um pastor, íamos precisamente nesse sítio quando o cavalo de Nick começou a coxear. Desmontei para ver, pois parecia muito mal, e verifiquei então que tinha sido apanhado por um estrepe, que cortara até ao osso.

Estrepes? admirou-se o Irmão Cadfael. Num caminho de floresta como esse, longe de qualquer campo de batalha?

Estrepes afiançou Torold. Não o afirmo apenas pelo ferimento que deixou, aquilo estava enfiado na pata do cavalo, eu próprio o arranquei. Mas a pobre besta estava muito mal, podia andar, mas não para muito longe e apenas sem carga. Conheço uma quinta que fica ali perto e isso levou-me a pensar na possibilidade de conseguir arranjar um cavalo fresco para trocar pelo de Nick, uma troca desigual, mas que

 

Nota: Estrepe, estaca aguçada que se crava no solo para dificultar a passagem das tropas inimigas. (N. da T.)

 

outra coisa poderíamos fazer? Nem sequer o descarregámos, mas Nick desmontou para aliviar o pobre animal do seu peso e disse que ficava ali na cabana à minha espera. Eu lá fui, consegui arranjar nova montada na quinta (fica a ocidente, para a direita do local onde nos encontrávamos, o nome do dono é Ulf, um meu parente afastado, do lado materno) e voltei para o sítio onde deixara Nick, com a sua metade já colocada no novo cavalo.

”Aproximei-me da cabana prosseguiu, ficando hirto com a lembrança à espera de o ver ali fora à minha espera, pronto a montar, mas não foi o que aconteceu. Aquilo fez-me sentir preocupado, sem saber porquê. Não corria uma brisa; qualquer homem à escuta me teria ouvido chegar, e isso pôs-me de sobreaviso. Ele continuava a não aparecer nem a gritar-me qualquer palavra. De modo que não me aproximei demasiado. Desmontei e fui com os cavalos pela rédea até mais perto. Depois amarrei os dois juntos para poder afastar-me com eles o mais depressa possível se fosse caso disso. Era só desfazer um nó, e com um único puxão. E em seguida dirigi-me para a cabana.

Já estava escuro? perguntou Cadfael, enrolando a ligadura.

Completamente escuro, mas conseguia ver alguma coisa porque já tinha os olhos habituados. Lá dentro estava negro como breu. A porta fora deixada meia aberta contra a parede. Entrei, de ouvido à escuta, não me chegando um único murmúrio. Mas, a meio da cabana, cai por cima dele. Sobre Nick! Se isso não me tivesse acontecido, talvez não estivesse agora aqui a contar-vos tudo isto disse Torold sombriamente, lançando um súbito olhar preocupado à sua Ganymede, tão nitidamente mais jovem que ele e tão desvelada nos seus cuidados. Não são coisas agradáveis de ouvir.

Os seus olhos lançaram um apelo veemente a Cadfael, por cima do ombro de Godith.

Será melhor continuares livremente disse-lhe Cadfael com simpatia. Ele é mais experiente nestas lides do que podes pensar e beber-nos-ia o sangue se ousássemos afastá-lo. Nada do que se tem passado ultimamente em Shrewsbury é agradável de ouvir, mas pode ser que ainda se possa salvar algo. Conta-nos a tua parte, que nós te contaremos a nossa.

Godith, toda olhos, ouvidos e mãos prestimosas, manteve-se sabiamente calada.

Ele estava morto disse Torold duramente. Cai sobre ele, boca sobre boca e não lhe senti qualquer respiração. Ao tropeçar, agarrara-me instintivamente ao seu corpo, que me deu a sensação de não passar de um saco cheio de trapos. Foi nessa altura que ouvi uma agitação no restolho seco, nas minhas costas, e comecei a virar-me, pois não soprava vento que pudesse agitá-lo e sentia-me assustado...

Gesto avisado! disse Cadfael, colocando um pedaço de pano limpo com uma boa camada do seu unguento de ervas sobre o ferimento húmido. Não fizeste senão bem. O teu amigo deixou de ter problemas,

compareceu diante de Deus, sem dúvida. Enterrámo-lo ontem no interior da abadia. Tem uma tumba de príncipe. E tu, pelo que me parece, escapaste por pouco quando o assassino apareceu de detrás da porta.

Assim o penso também disse o rapaz, arquejando ligeiramente ao toque da compressa de Cadfael. Era aí que ele devia ter estado. Foi o barulho das palhas que me pôs de sobreaviso, quando ele se mexeu. Não sei por que acontece, mas o certo é que todo o homem tem tendência para levantar o braço direito para se resguardar de algum golpe dirigido à sua garganta, e foi o que eu fiz. A corda dele enrolou-se-me no pulso e no pescoço. Eu não era nem especialmente esperto nem um herói, limitei-me a agarrar aterrorizado no chicote e a arrancar-lho das mãos. Fiz que tombasse em cima de mim, no meio da escuridão. Não me espantaria acrescentou na defensiva que não acreditassem no que vos conto.

Passaram-se coisas que confirmam o teu relato. Não te preocupes tanto com estes teus amigos. Portanto, travou-se uma luta corpo a corpo. Como conseguiste escapar-lhe?

Mais por sorte que por valor disse Torold pesarosamente. Rolámos sobre a palha, lutando e tentando apanhar a garganta um do outro, fazendo tudo pelo tacto, nada pela vista, e nenhum de nós teve tempo para arranjar melhor posição ou para respirar não sei durante quanto tempo, que, no fim de contas, não deve ter ultrapassado uns quantos minutos. O que pôs fim à contenda foi o que deve ter sido uma velha manjedoura que estava encostada à parede, a cair aos pedaços. Bati com a cabeça numa das tábuas, que se deve ter desprendido, caindo sobre a palha. Agarrei nela com as duas mãos e bati-lhe, atirando-o ao chão. Duvido que lhe tenha feito algum mal duradouro, mas fi-lo ficar sem sentidos tempo suficiente para fugir, coisa que fiz imediatamente. Desamarrei os dois cavalos e corri desenfreadamente para ocidente como uma lebre perseguida. Ainda havia trabalho a fazer e só restava eu para o realizar, caso contrário teria ficado para tentar apurar o que acontecera a Nick. Ou talvez não reconheceu Torold, franzindo a testa, sincero. Nem sei bem se naquele instante pensava na missão que me fora incumbida por FitzAlan, embora não faça outra coisa desde então. Fugi para salvar a vida. Tinha receio de que ele tivesse outros emboscados que corressem a ajudá-lo. A única coisa que queria era afastar-me dali tão rapidamente quanto as minhas pernas o permitissem.

Não há necessidade de fazer disso uma penitência disse Cadfael suavemente, prendendo a ligadura. O bom senso é algo com que se deve ficar contente, não envergonhado. Mas, meu amigo, levaste dois dias inteiros, pelas tuas contas, para chegares mais ou menos ao mesmo local de onde tinhas partido. Isso leva-me a deduzir que o rei possui numerosos aliados entre esta região e o País de Gales, pelo menos nas estradas.

Não têm conta! Ainda consegui adiantar-me bastante pela estrada do Norte, mas acabei por deparar com uma patrulha num sítio onde não havia passagem. Eles mandavam parar tudo o que se movia, portanto que sorte poderia eu ter com dois cavalos e uma carga de valores? Tive de me embrenhar pelos bosques e nessa altura já começara a amanhecer e nada mais me restava do que manter-me escondido até voltar a anoitecer e tentar a estrada do Sul. Não tive melhor sorte por aí, pois eles tinham colocado companhias a passar a pente fino toda a região. Pensei que talvez pudesse furar mantendo-me afastado das estradas e seguindo perto da margem do rio, mas foi mais uma noite perdida. Passei todo o dia de terça-feira escondido num matagal da colina, e ao voltar a fazer mais uma tentativa nessa noite, eles descobriram-me, eram uns quatro ou cinco, e tive de fugir pela única via desimpedida, para baixo, em direcção ao rio. Tinham-me encurralado, não podia escapar da ratoeira. Tirei os alforges aos dois cavalos, soltei-os, lançando-os num galope desenfreado, na esperança de que eles furassem o cerco e desviassem a atenção da minha pessoa, mas um dos tipos estava demasiado próximo, apercebeu-se do truque e, contrariando o meu plano, dirigiu-se para mim. Foi ele que me abriu este corte na coxa, e os outros acorreram imediatamente ao seu grito. Só havia uma coisa a fazer. Atirei-me à água com alforges e tudo. Sou bom nadador, mas com todo aquele peso, era muito difícil manter-me a flutuar e deixar que a corrente me levasse dali. Foi nessa altura que começaram a disparar. Embora estivesse escuro, eles não tinham dificuldade em ver devido à longa permanência naquelas condições e a superfície da água é sempre mais luminosa, sobretudo quando há um vulto a mover-se nela. Então fui ferido no ombro e tive o bom senso de mergulhar e lá ficar em baixo tanto tempo quanto me foi possível suster a respiração. O Severn é rápido, até mesmo no Verão, de modo que a água depressa me arrastou para longe. Eles ainda me seguiram ao longo das margens durante um bocado, atirando mais uma ou duas flechas, mas aí creio que devem ter ficado convencidos de que eu estava arrumado. Lá me arrastei para um banco de areia assim que me pareceu não haver perigo, continuando ainda dentro de água durante mais um bocado. Sabia que a ponte estava guardada, não me atrevia a ir para terra até estar bem afastado desta. Nessa altura já tinha passado bastante tempo. Lembro-me de rastejar para o meio dos arbustos, mas de pouco mais, excepto de ter recobrado suficientemente consciência para ter medo sequer de me mexer quando a vossa gente veio colher o milho. Foi então que Godric me encontrou. E a verdade é esta terminou firmemente, olhando Cadfael directamente nos olhos, sem pestanejar.

Mas não toda a verdade disse Cadfael placidamente. Godric não encontrou nenhuns alforges junto de ti.

Observou o jovem rosto que estava junto dele, o seu ar tranquilo, os lábios firmemente fechados, e sorriu.

Não tenhas receio, não te vamos interrogar. És o único zelador do tesouro de FitzAlan, e o que fizeste com ele, e como (Deus sabe como conseguiste fazer alguma coisa de sensato nas condições em que te encontravas) é assunto teu. Não tens ar de mensageiro que falhou a sua missão, não posso deixar de reconhecer. E para teu sossego, tenho a dizer-te que na cidade todos afirmam que FitzAlan e Adeney não foram apanhados, mas romperam o cerco e escaparam. Agora vamos ter de te deixar aqui sozinho até à tarde, também nós temos deveres a cumprir. Mas um de nós, ou os dois, estará cá para ver como vão os teus progressos. E deixamos-te aqui comida, bebida e roupas, que espero te sirvam razoavelmente. Mas convém ficares deitado durante o dia de hoje, ainda não recobraste o suficiente.

Godith colocou a camisa lavada e remendada em cima das restantes peças de roupa que estavam ao lado, dobradas, e ia a dirigir-se para a porta atrás de Cadfael quando a expressão do rosto de Torold a fez deter-se, meio atrapalhada, meio triunfante. Ele tinha os olhos muito abertos de espanto e olhava para a camisa impecavelmente limpa, onde o longo rasgão fora sabiamente cosido. Saudou a maravilha com um suave assobio de admiração.

Virgem Maria! Quem fez aquilo? Então vocês têm uma costureira hábil dentro das paredes da abadia? Ou rezaram por um milagre?

Aquilo? Aquilo é obra de Godric disse Cadfael, não de forma completamente inocente, saindo para o sol da manhã e deixando Godith corar violentamente.

No claustro aprendemos outras habilidades para além do mero segar do trigo e da preparação de medicamentos estimulantes disse esta com soberba, saindo rapidamente atrás de Cadfael.

Mas no caminho de volta ia muito séria, rememorando a história contada por Torold e reflectindo quão facilmente ele estivera perto da morte antes de ela o conhecer; não apenas por uma vez, á corda do estrangulador, mas no rio, ou dos ferimentos, entre os arbustos. Ela tinha a impressão de que a Divina Providência estava a tomar conta dele, providenciando-a a ela como seu instrumento. Subsistiam, contudo, algumas dúvidas.

Irmão Cadfael, acreditais nele?

Sim, acredito. Sobre aquilo de que não pôde contar a verdade, também não mentiu. Porquê, tens ainda alguma outra ideia?

Só que antes de o ver disse-vos recear que o companheiro que seguia com Nicholas Faintree fosse muito provavelmente a pessoa que podia ser mais tentada a matá-lo. Como teria sido simples! Mas ontem dissestes, sem sombra de dúvida, que ele não o fizera. Tendes a certeza absoluta? Como é que sabeis?

Nada mais simples, querida jovem! A marca da corda do estrangulador está no seu pescoço e no seu pulso. Não entendeste o significado daquelas pequenas cicatrizes? Ele fora marcado para seguir o amigo na morte. Não, não tens de ter medo nesse aspecto, o que ele nos disse é verdade. Mas deve haver coisas que ele não nos pode relatar, coisas que temos de descobrir, para bem de Nicholas Faintree. Godith, esta tarde, depois de tratares das loções e dos vinhos, podes deixar o jardim e vir fazer-lhe companhia, se tal te agradar. Eu virei assim que puder. Tenho de ir a Frankwell ver umas coisas.

 

Da ponte que ficava a oeste de Frankwell, nos subúrbios das muralhas do castelo e do outro lado do rio, a estrada estendia-se para ocidente, começando a subir ligeiramente e deixando para trás os jardins que delimitavam o povoado. A princípio limitando-se a ser uma simples estrada subindo a colina que se erguia alta sobre o Severn, dividia-se logo a seguir em dois ramais, de entre os quais o que se situava mais a sul voltava a subdividir-se, desta vez em três vias, que se espraiavam em direcção ao País de Gales. Mas Cadfael tomou a estrada que Nicholas Faintree e Torold tinham percorrido na noite que se seguira à queda do castelo, a que das três se inclinava para norte.

Ainda pensara em ir ver Edric Flesher à cidade e dar-lhe notícias de que pelo menos um dos dois jovens mensageiros sobrevivera e preservara a sua carga, mas depois chegara à conclusão de que era melhor não o fazer. Como Torold ainda não se encontrava, de modo algum, livre de perigo, até poder pôr-se longe dali quanto menos gente soubesse do seu paradeiro melhor e menos provável se tornava o perigo de alguma informação dele se escapar em lugar errado, onde os seus inimigos a pudessem ouvir. Haveria tempo, mais tarde, de partilharem as boas novas com Edric e Petronilla.

A estrada penetrava no espesso bosquedo de que Torold falara, estreitando até se transformar num trilho arrelvado ladeado de árvores, mas mantendo-se próxima da orla, onde campos cultivados se viam por entre os troncos. E ali, um pouco retirada e embrenhada no bosque, estava a cabana, baixa e toscamente construída em madeira. Teria sido extremamente simples transportar um cadáver no dorso de um cavalo desde aquele local até ao valado do castelo. O rio, como em toda aquela região, corria em linhas intrincadamente sinuosas, e teria sido necessário atravessá-lo para chegar ao local onde o cadáver fora abandonado, mas havia um sítio oposto ao castelo daquele lado onde uma ilhota central permitia atravessar a corrente até mesmo a pé na estação seca, uma vez o castelo em si tomado. A distância era curta, a noite fora suficientemente longa. Depois, algures ali à direita, ficavam as terras de Ulf, onde Torold trocara os cavalos. Cadfael virou nessa direcção e, a menos de um quilómetro da trilha, deparou com a herdade.

Ulf encontrava-se muito atarefado a recolher do campo, terminada a colheita do seu milho, as espigas que por ali tinham ficado, e a princípio não se mostrou muito disposto a dar conversa a um monge desconhecido, mas a menção do nome de Torold e a nítida insinuação de que ali se encontrava alguém em quem este confiara desprendeu-lhe a língua.

Sim, ele trouxe-me um cavalo ferido e eu deixei-o levar o melhor que aí tinha em troca. Apesar disso, quem ficou a ganhar fui eu, porque o animal que me deixou vinha dos estábulos de FitzAlan. Ainda coxeia, mas está a sarar. Quer vê-lo? O seu belo equipamento está bem escondido, pois se o vissem ainda pensavam que era roubado, ou pior.

Ainda que sem os seus nobres arreios, via-se que o cavalo, um belo ruão, de pernas longas, era animal demasiado requintado para um camponês, e estava indubitavelmente coxo de uma das patas da frente. Ulf mostrou-lhe a ferida.

Torold disse-me que isso foi feito por um estrepe murmurou Cadfael. Que lugar mais estranho para encontrar semelhante objecto!

Sim, foi sem dúvida um estrepe, porque tenho alguns em meu poder, que lá fui tirar do meio da erva no dia seguinte. Os meus animais costumam utilizar aquele caminho, e não quero que aconteça o mesmo a algum. Alguém andou a espalhá-los numa boa dezena de metros, precisamente onde a via é mais estreita. Para fazer parar as pessoas ao pé da cabana, para que outra coisa haveria de ser?

Alguém que conhecia antecipadamente aquilo que eles estavam a fazer e a estrada que tomariam e teve bastante tempo para armar a sua ratoeira e aguardar, emboscado, que eles caíssem nela.

Sabe-se lá como, mas a coisa deve ter chegado aos ouvidos do rei opinou Ulf sombriamente, que mandou alguns dos seus homens apropriarem-se secretamente do que quer que eles carregavam. Ele anda desesperado por dinheiro, tão desesperado como o outro lado.

”No entanto”, pensou Cadfael, quando se dirigia para a cabana no meio do bosque, ”tudo me leva a crer que não se tratou de nenhum grupo enviado pelo rei, mas sim de um empreendimento levado a cabo por um homem só e para seu ganho exclusivo.” Se se tratasse, efectivamente, de um emissário do rei, este não teria vindo sozinho, traria um companheiro com ele. Se tudo corresse de acordo com o plano, não era para os cofres do rei Stephen que os proventos se destinavam.

Resumindo, portanto, estava provado que ali estivera uma terceira pessoa naquela noite. Já não tinham conta as vezes em que a inocência de Torold ficava confirmada. Os estrepes eram reais; uma série deles tinha sido disposta de forma a garantir o estropiamento de um ou mais cavalos, e até ali o estratagema fora bem sucedido, talvez ainda melhor do que era esperado, pois fizera os dois companheiros separarem-se, fornecendo assim ao assassino as condições ideais para tratar primeiro de um e depois fazer uma espera ao outro.

 

Nota: Ruão, diz-se do cavalo de pêlo branco com manchas escuras e redondas. (N. da T.)

 

Cadfael não entrou imediatamente na cabana; as cercanias interessavam-no de igual modo. Algures ali, ainda bastante afastado da cabana, Torold dera atenção ao pressentimento que o assaltava e deixara os cavalos preparados, perto da estrada, para uma partida rápida se necessário fosse. E algures, também ali, provavelmente mais retirado e a coberto da vegetação, o terceiro homem tivera igualmente um cavalo à sua espera. Ainda devia ser possível encontrar os seus traços. Não chovera desde aquela noite, tão-pouco era provável que muitos homens tivessem demandado aqueles bosques desde então. Os habitantes de Shrewsbury continuavam a manter-se ao abrigo dos seus telhados, excepto quando se viam forçados a sair, e as patrulhas do rei corriam tudo quanto era sítio.

Precisou de algum tempo, mas acabou por encontrar os dois locais. O cavalo solitário fora deixado à vontade a pastar, e pelas marcas dos cascos que deixara sobre um bocado de terreno mais macio, uma cova de lama seca, onde normalmente ficava retida água quando chovia, formava ali uma suave camada de sedimento mais fino, via-se que eram grandes e estavam impecavelmente ferrados. O local onde os outros dois tinham aguardado juntos ficava mais para ocidente da cabana, e bem escondido. Um ramo mais baixo mostrava a zona descascada onde as rédeas tinham sido presas nitidamente à pressa, e viam-se dois claros conjuntos de marcas de cascos onde a erva estava mais rala.

Cadfael entrou na cabana. Tinha uma bela luz do dia do seu lado, e com a porta escancarada mesmo no interior, a visibilidade era óptima. O assassino esperara ali pela sua vítima, devia ter deixado traços.

Os restos da forragem de Inverno segada ao longo da orla dos bosques tinham ali sido deixados até à chegada do Outono inicialmente empilhados contra a parede das traseiras da construção e estavam agora transformados num mar turbulento de erva que se espalhava pelo chão de terra batida, como se ali dentro tudo tivesse sido devastado por um temporal. A decrépita manjedoura, cuja tábua solta Torold apanhara, lá estava, esquecida contra uma das paredes. A erva seca misturara-se profusamente com pequenas ervas, também já secas mas ainda fragrantes, e via-se grande quantidade de potentilha espalhada por ali. Aquilo fê-lo recordar-se não só da pequena haste profundamente inserida na garganta de Nick Faintree pela corda que o matara, como também na feia ferida do ombro de Torold. Precisava daquela erva para preparar um unguento especial para os pensos, teria de a procurar ao longo da orla dos campos, devia abundar por ali. Deus, na sua infinita justiça, servira-se da haste seca da colheita do ano anterior para chamar a atenção do assassínio de um dos dois amigos e, com a daquele ano, providenciaria o tratamento e a cura dos ferimentos do outro.

Entretanto, a cabana continha poucos vestígios, com excepção do evidente caos provocado pela luta corpo a corpo desencadeada no seu interior. Mas viam-se alguns fios de um tecido de lã azul-escuro agarrados às toscas tábuas de madeira, por detrás da porta. Alguém estivera, sem dúvida, ali enroscado, escondido, mantendo a porta muito próxima do seu corpo. Também encontrou um pedaço de trevo seco com um pequeno pingo de sangue. Mas foi em vão que Cadfael vasculhou e procurou, entre a palha sussurrante, a arma do estrangulador. Ou o assassino a voltara a encontrar e a levara consigo, ou ela jazia profundamente enterrada nalgum canto que não ali. Cadfael voltou às arrecuas, de mãos e joelhos no chão, desde a manjedoura à entrada, e estava prestes a desistir, aliviando os joelhos, quando uma das mãos que suportava o peso do corpo se espalmou contra algo duro e comprido, retraindo-se imediatamente ao contacto inesperado. Havia um objecto meio enterrado no chão de terra, por baixo da fina camada de forragem, algo que bem poderia ser outro estrepe, ali colocado com a finalidade de ser encontrado por monges bisbilhoteiros para seu penar e injúria. Pondo-se de cócoras, afastou cuidadosamente a palha seca até poder agarrar no objecto oculto e retirá-lo do seu esconderijo. Saiu facilmente, enchendo-lhe a palma da mão, duro, embutido, frio. Ergueu-o diante da luz do Sol que entrava pela porta aberta nas suas costas e ele brilhou em tons de dourado, um sol em miniatura.

O Irmão Cadfael ergueu-se e saiu para o meio da luz forte da tarde, a fim de ver do que se tratava. Era uma pedra preciosa enorme, de lapidação tosca, do tamanho de uma maçã silvestre, um topázio amarelo-carregado, preso por uma garra de águia em prata dourada. A garra estava completa, finamente modelada, mas quebrada na base do pé, acima da pedra que segurava. Era a extremidade de alguma excelente armação em prata, talvez a ponta de um alfinete de peito, não, era demasiado grande para isso. O cabo de alguma adaga? Se assim fosse, sê-lo-ia de uma adaga nobre, não de uma vulgar faca de trabalho. Por baixo daquele entalhe, teria estado a parte arredondada para colocar a mão e no rebordo que antecede a lâmina, a condizerem com a gema mestra, alguns topázios mais pequenos. Assim quebrada, jazia na sua mão, um vulto dourado, sombrio e facetado.

Um homem agarrara-a violentamente nos seus estertores de morte, outros dois tinham rolado e travado um combate mortal; qualquer dos três, com o impulso da mão e o peso do corpo convulsivo, poderia ter enfiado a extremidade do objecto na superfície endurecida do solo, partindo o cabo no seu ponto mais frágil sem nunca se dar conta da perda.

O Irmão Cadfael guardou-a cuidadosamente na dobra da cintura e foi à procura da sua potentilha. Na orla das árvores, entre a espessa vegetação rasteira banhada pelo sol, encontrou grandes extensões dela. Encheu o seu saco e partiu rumo à abadia, com dezenas de pequenas sementes em forma de gancho agarradas às dobras do hábito.

Assim que todos os irmãos começaram a dispersar para os seus trabalhos da tarde, Godith afastou-se sorrateiramente, dirigindo-se com precaução para uns desvios que, ao fundo do Gaye, iam dar ao moinho. Levava com ela algumas ameixas maduras tiradas do pomar, metade de um pão fresco e mais uma garrafinha do vinho de Cadfael. O paciente desenvolvera rapidamente um saudável apetite, e ela tirava prazer do prazer que ele desfrutava dos alimentos e da bebida, como se o facto de ter sido ela a encontrá-lo em má situação lhe conferisse alguma propriedade sobre ele.

Ele encontrava-se sentado na sua cama de sacos completamente vestido, as costas descansando de encontro às cálidas tábuas de madeira da parede, as longas pernas confortavelmente estendidas diante de si e os tornozelos cruzados. A túnica e os calções serviam-lhe razoavelmente, estando a primeira talvez um tudo nada curta nas mangas. Parecia extraordinariamente vivaz, embora o rosto apresentasse ainda algumas zonas pisadas e os movimentos fossem cuidadosos devido ao latejar e ás dores que ainda sentia nos ferimentos. Ela não ficou satisfeita por ver o quanto ele se esforçava para enfiar a túnica e não hesitou em lho dizer.

Devias ter mantido o ombro imóvel, ainda não havia necessidade de o forçares para dentro de uma manga. Se não lhe deres repouso, nunca mais curará.

Estou muito bem respondeu-lhe ele abstractamente. E é melhor que comece a habituar-me a qualquer desconforto que tenha de suportar, já que tenho de partir não tarda muito. Ousaria mesmo dizer que depressa estará tudo sarado.

Tinha os pensamentos longe dali, completamente imerso noutras questões.

Godric, não tive tempo para perguntar esta manhã, mas o teu Irmão Cadfael disse que Nick está enterrado, e na abadia. Isso é verdade? Não se tratava tanto de duvidar da palavra do frade, mas, sobretudo de falar do quão maravilhado se sentia perante o inesperado do acontecimento. Como é que conseguiram encontrá-lo?

Isso foi obra do próprio Irmão Cadfael disse Godith. Sentou-se ao lado de Torold e contou-lhe o que se passara.

Havia um cadáver a mais dos que foram referidos, e o Irmão Cadfael não descansou até descobrir qual era o que se diferenciava dos outros, e desde então nunca mais deixou ninguém em paz. O rei tem conhecimento de que se cometeu um assassínio e ordenou que o autor do mesmo fosse punido. Se alguém pode fazer justiça pelo teu amigo, podes crer que esse alguém é o Irmão Cadfael.

Portanto não fiz grande dano a quem quer que lá estivesse na cabana, apenas lhe contrariei as intenções durante uma questão de minutos. Tive medo do que ele lhe pudesse ter feito depois. Era homem para se livrar do cadáver antes de a manhã chegar.

Mas não suficientemente esperto para enganar o Irmão Cadfael. Todas as almas são importantes a nível individual. Agora, ao menos, Nicholas recebeu todos os ritos da igreja com o seu nome verdadeiro e repousa num túmulo nobre.

Fico satisfeito em saber disse Torold que não foi deixado a apodrecer desonradamente ou enterrado incógnito juntamente com os outros, embora entre estes se encontrassem camaradas meus que também não mereciam semelhante destino. Se eles me deitarem a mão, ainda pode ser que venha a sofrer o mesmo fim. No entanto o rei Stephen aprova a caçada ao criminoso que fez o trabalho por ele! Que mundo louco este!

Godith também era da mesma opinião; mas apesar de tudo havia uma diferença, uma espécie de lógica no facto de o rei ter aceitado a responsabilidade dos noventa e quatro cujas mortes decretara, mas rejeitando totalmente a culpa em relação ao nonagésimo quinto, morto traiçoeiramente e sem a sua aprovação.

Ele condenou a forma como ele foi morto e ressentiu-se com o facto de terem feito dele cúmplice desse acto. E ninguém vai capturar-vos disse ela firmemente, retirando as ameixas de dentro da camisa e colocando-as entre ambos, em cima do cobertor. Aqui tens uma coisa de sabor mais doce que o pão. Prova!

Ah! ficaram, amigavelmente sentados um ao lado do outro, a saborear os frutos e a atirar os caroços por uma frincha no soalho que dava para o rio que corria em baixo.

Ainda tenho uma tarefa para cumprir disse Torold finalmente, em tom reservado, e agora tenho de a levar a cabo sozinho. Só Deus sabe, Godric, o que teria sido de mim sem ti e o Irmão Cadfael, e quão triste ficarei por ter de partir em breve e deixar-te, com poucas probabilidades de voltar a ver-te. Nunca esquecerei o que fizeram por mim. Mas terei de seguir caminho assim que estiver melhor e me puder mexer. Ficarás mais tranquilo depois de eu me ir embora, deixarás de correr tanto perigo.

Quem é que não corre perigo? Aonde? exclamou Godith, dando uma mordidela noutra ameixa dourada e madura. Não existem lugares seguros.

De qualquer modo, os graus de perigo variam. E eu tenho trabalho a fazer, que não devo deixar para mais tarde.

Virando-se para ele, Godith lançou-lhe um olhar longo e atónito. Nunca até ali se confrontara com a ideia de que Torold teria de partir. Ele era algo que ela só descobrira havia pouco, e agora, a não ser que ela não o tivesse compreendido bem, estava a ameaçá-la de que ia afastar-se, saindo das suas mãos e da sua vida. Bem, ela tinha um aliado no Irmão Cadfael. Munindo-se da autoridade do seu mestre, exclamou severamente:

Se estás a pensar em ir-te embora antes de ficares completamente curado, podes tirar daí o sentido. Permanecerás aqui até te darem permissão para partires, o que não acontecerá hoje ou amanhã, disso podes ter a certeza!

Torold ficou a olhar para ela estupefacto e deliciadamente divertido. Inclinando a cabeça para trás e encostando-se á madeira tosca da parede, riu a bandeiras despregadas.

Fazes-me lembrar a minha mãe, quando uma vez dei uma grande queda na quintana. Mas por muito afecto que vos tenha, assim como o tinha por ela, isso não me impede de seguir o meu próprio caminho. Já me sinto suficientemente recuperado, Godric, e estou debaixo de ordens que vieram antes das tuas. Devo ir. No meu lugar, já estarias longe, voluntarioso como pareces ser.

Não estaria nada disse ela furiosa. Tenho mais juízo. Que utilidade poderias ter saindo daqui sem sequer possuíres uma arma ou um cavalo? Então não te lembras de nos contares que soltaste os teus cavalos para desviares a atenção daqueles que te perseguiam? Até onde conseguirias chegar? E até que ponto poderia FitzAlan agradecer-te semelhante loucura? Não que precisemos de ir tão longe acrescentou ela arrogantemente, basta lembrarmo-nos de que nem sequer conseguiste vir a pé do rio até aqui. Terias de ser carregado às costas pelo Irmão Cadfael, tal como te aconteceu da primeira vez.

Oh, achas então que sim, Godric, meu pequeno primo? Os olhos de Torold brilhavam, travessos. De momento esquecera todas as graves responsabilidades que lhe pesavam sobre os ombros, divertido e exacerbado pela impudência daquele garoto atrevido, que não hesitava em ameaçá-lo de humilhação e insucesso. Pareço-te assim tão fraco?

Como um gato esfomeado ripostou-lhe ela, enfiando mais um caroço de ameixa entre as tábuas com um ruído malévolo. Qualquer rapazito de 10 anos podia deitar-te abaixo!

Pensas então que assim é?

Torold rolou para o lado e prendeu-a com os braços.

Eu lhe mostrarei, Master Godric, se tenho forças ou não!

Ele ria-se perfeitamente deliciado, sentindo os músculos retesarem-se e exultarem de novo ante a inesperada e doce peleja que travava com um amigo a quem, para bem de todos, fazia falta uma boa lição. Estendeu o braço ferido para agarrar o rapaz pelos sovacos. O arrogante diabinho mal tivera tempo de soltar uma exclamação abafada ao ser atirado de costas.

Uma mão minha é quanto basta para te arrumar, meu caro rapazinho! gritou Torold, diminuindo o peso do seu corpo sobre o dela e apoiando firmemente a palma da mão esquerda sobre o peito da túnica larga para demonstrar o que dizia.

Retirou-a imediatamente, estupefacto e dando-se conta da verdade, ao mesmo tempo que Godith recuperava suficientemente fôlego para lhe dirigir uma imprecação e agredi-lo com a mão direita, proporcionando-lhe um salutar soco na orelha. Separaram-se no meio de um silêncio profundo e cheio de significado, sentando-se no meio dos sacos dispersos, um metro ou mais afastados um do outro.

O silêncio e a imobilidade ainda duraram um bom bocado. Foi necessário

 

Nota: Quintana, manequim onde os cavaleiros se exercitavam com a lança. (N. da T.)

 

que decorresse um minuto inteiro antes de inclinarem as cabeças cautelosamente, olhando-se de lado. O perfil dela, ainda mal refeito da fúria, começava a dar mostras de uma simpatia culpada, mostrando-se delicado, inteligente e inteiramente feminino. Ele devia ter estado muito fraco e doente, na verdade, ou teria certamente dado pela realidade. A suave rouquidão na voz dela não passava de um truque encantador, de um artifício necessário. Torold coçou pensativamente a orelha latejante e finalmente perguntou, com toda a cautela:

Por que não mo disseste? Nunca foi minha intenção ofender-te. Como podia adivinhar?

Não havia necessidade de saberes ripostou-lhe Godith bruscamente, ainda sentida se tivesses tido o senso de fazeres o que te mandavam Ou a cortesia de tratares os teus amigos gentilmente.

Mas tu desafiaste-me! Santo Deus protestou Torold, foi apenas uma brincadeira, como a que teria tido com um irmão meu, e foste tu que a pediste. De súbito, perguntou: O Irmão Cadfael sabe?

Claro que sabe! Ele, ao menos, não tem dificuldade em distinguir um veado de uma corça.

Um segundo momento de silêncio, este mais longo e cheio de ressentimento, curiosidade e cautela, voltou a instalar-se entre os dois, ao mesmo tempo que continuavam a analisar-se um ao outro por entre olhares de viés, ela espreitando furtivamente a manga que cobria o ferimento dele, receando que nela aparecesse alguma mancha de sangue, ele examinando novamente as curvas delicadas do rosto dela, a saliência dos lábios e o franzir das sobrancelhas que lhe indicavam estar ainda ofendida.

Duas vozes inquiriram a medo e cautelosamente, perfeitamente uníssonas e com uma certa má vontade.

Magoei-te?

Começaram a rir ao mesmo tempo, repentinamente conscientes do absurdo da situação. A ilusão de estranheza desapareceu completamente; caíram nos braços um do outro a rir, sem nada que complicasse a sua relação, excepto a gentileza um pouco exagerada com que se tocavam.

Mas não devias ter usado o braço dessa maneira reprovou ela enquanto se desenlaçavam e se sentavam. Podias tê-lo aberto de novo.

Oh, não, não há problema. Quanto a ti, por nada deste mundo te vexaria.

E perguntou, de forma simples, convencido do seu direito á resposta:

Quem és tu? Como te meteste nisto?

Ela voltou a cabeça e olhou-o longa e seriamente; nunca mais ela hesitaria em confiar nele.

Ficou tarde de mais disse ela, para me mandarem embora de Shrewsbury antes de a cidade cair. Foi uma decisão desesperada tornar-me criada da abadia mas eu tinha a certeza que o conseguia. E consegui-o com toda a gente excepto o Irmão Cadfael. Também acreditaste, não foi? Sou uma fugitiva do teu grupo, Torold, já somos dois. Sou Godith Adeney.

A sério? Ele curvou-se sobre ela e olhou-a com surpresa e satisfação. És a filha de Fulke Adeney? Deus seja louvado! Estávamos ansiosos por que chegasses. Especialmente Nick, que já te conhecia... Eu nunca te tinha visto até hoje, mas também...

Curvou a cabeça loura e beijou levemente a pequena mão não muito limpa que tinha acabado de apanhar a última ameixa.

Lady Godith, este vosso servo está às vossas ordens! Que esplêndido! Se tivesse sabido, não me teria limitado a contar-te apenas metade da história.

Conta-ma agora pediu Godith, partindo generosamente a ameixa ao meio e mandando o caroço a girar para o Severn. Meteu uma das metades na boca dele, conseguindo, finalmente, fazê-lo calar-se. E depois acrescentou conto-te a minha. Juntamos as duas e veremos o que de útil podemos retirar delas.

No seu regresso, o Irmão Cadfael não se dirigiu imediatamente para o moinho, mas deteve-se a ver se estava tudo em ordem na sua cabana de trabalho, deitando a sua potentilha num almofariz e com ele preparando uma suave pasta esverdeada. Em seguida foi-se juntar aos dois jovens que Deus colocara no seu caminho, tendo o cuidado de ir dar a volta até chegar à sombra do moinho pelo lado oposto, mantendo-se atento a qualquer observador. O tempo já escasseava, dali a uma hora ele e Godith teriam de estar de volta para as vésperas.

Já conheciam ambos a sua passada; quando entrou, encontrou-os sentados lado a lado, de costas apoiadas à parede, observando a entrada e armados de sorrisos arrebatados e expectantes. Tinham ambos um ar sereno e reservado, como se habitassem um mundo imune aos contactos ou às preocupações comuns, mas estando generosamente acessíveis aos mesmos. Bastou-lhe olhar para eles para saber que tinham deixado de ter segredos um para o outro; arvoravam-se um ar tão temerário e cândido de homem e mulher juntos que nem teria sido necessário perguntar-lhes o que quer que fosse. Embora ambos ansiassem por contar-lho!

Irmão Cadfael... principiou Godith em tom reservado e radiante.

Primeiro vamos ao essencial interrompeu Cadfael com brusquidão. Ajuda-o a tirar a túnica e a camisa e começa a desenrolar a ligadura até a sentires presa; porque ainda há-de estar, meu amigo, ainda não te livraste desta. Depois espera que eu ajudo-te a tirá-la até ao fim.

Não se mostraram nem desconcertados nem punidos. A rapariga pôs imediatamente mãos à obra, ajudando Torold a afastar a túnica da ferida, a desapertar as fitas da sua camisa de modo a fazê-la escorregar pelos ombros, pondo a descoberto a ligadura, que principiou a desenrolar. O rapaz inclinava-se para um e outro lado a fim de ajudar, não tirando nunca os olhos do rosto de Godith, ao mesmo tempo que esta quase só desviava os seus do semblante absorto para se concentrar nas suas necessidades.

”Bem, bem”, pensou Cadfael filosoficamente. ”Tudo indica que Hugh Beringar terá pouco proveito em encontrar a sua noiva prometida, se é que anda verdadeiramente à procura dela.”

Bem, jovem disse em voz alta, és um prestígio para mim e para ti próprio, com essa tua carne que cicatriza como eu nunca vi. Contrariando todas as expectativas, esse pedaço que alguém tentou arrancar-te ficará contigo por toda a vida e o braço até te servirá para, daqui a um mês ou coisa assim, fazeres vénias. Mas essa cicatriz nunca mais te abandonará. Agora mantém-te firme, isto pode arder, embora te afiance que é a melhor pomada que poderias ter para ferimentos frescos. Os músculos dilacerados doem ao unir-se, mas unem bem.

Não dói disse Torold com ar sonhador. Irmão Cadfael...

Guarda o que tens para dizer para quando tiveres a ferida tratada. Depois podem os dois pôr o coração a nu.

Assim fizeram, depois de Torold ter sido ajudado a enfiar novamente a camisa e de lhe colocarem nos ombros a túnica. Cada um deles pegou na meada um do outro, como se participassem numa cerimónia formal. Até as suas vozes tinham começado a parecer-se, dando a impressão de que combinavam tons sem o perceberem. Ainda não tinham a menor ideia de que estavam apaixonados. Os inocentes acreditavam estar envolvidos numa camaradagem partidária, parcela que era a que menor importância tinha no meio do sentimento que os avassalava.

Portanto disse a Torold tudo sobre mim finalizou Godith, e ele contou-me a única coisa que ainda não nos tinha confiado. E agora quer que vós também a conheçais.

Tenho o tesouro de FitzAlan escondido em sítio seguro disse, muito simplesmente. Tinha-o dividido em dois alforges, que também consegui manter a flutuar corrente abaixo, embora tivesse sido obrigado a desfazer-me da espada, do cinturão e da adaga para aliviar o peso. Deixei-os debaixo do primeiro arco da ponte de pedra. Sabeis onde fica tão bem quanto eu. Junto da base do primeiro pilar costumava haver um bote ancorado, e a corrente de amarração ainda lá está, presa a um anel cravado na pedra. Um homem pode agarrar-se a essa corrente para retomar fôlego, precisamente aquilo que eu fiz. Prendi então os alforges á corrente e deixei-os ficar debaixo de água, longe da vista de quantos por ali passassem. Depois afastei-me, deixando-me arrastar corrente abaixo, mais morto do que vivo, até ir parar ao lugar onde Godith me encontrou.

Não demonstrava qualquer dificuldade em chamá-la Godith; o nome dela tinha, na boca dele, um som jubilante.

E lá ficou todo aquele ouro a balançar no meio das águas do Severn, onde ainda espero e acredito que esteja, até eu o ir buscar e poder levá-lo a quem pertence de direito. Graças a Deus ele está vivo para tirar proveito dele.

Um último desfalecimento fê-lo estremecer súbita e reverentemente.

Não houve notícia de que tenha sido encontrado, pois não? perguntou ansiosamente. Tê-lo-íamos sabido, não é verdade?

Claro, não tenhas dúvidas sobre isso! Não, ninguém ainda pescou semelhante peixe. Por que haveria alguém de o ir procurar aquele local? Mas retirá-lo de lá, sem que, mais uma vez, ninguém dê por tal, isso é que talvez não seja tão fácil. Temos de pôr as nossas cabeças a trabalhar a fim de tentarmos encontrar uma solução disse Cadfael, e enquanto vocês estiveram os dois a jurar a vossa aliança, deixai-me que vos conte o que andei a fazer.

Foi o mais breve possível.

Todos os indícios coincidiram com as informações que nos deste. Os traços dos teus cavalos estão lá, assim como os do teu inimigo. Este ia sozinho. Devia tratar-se de um ladrão preocupado com o seu enriquecimento pessoal, não de um súbdito zeloso a tentar encher os cofres do rei. Semeou-te propositadamente uma boa série de estrepes pelo caminho; o teu parente recolheu alguns no dia seguinte, para bem do seu próprio gado. Os indícios da tua luta no interior da cabana são suficientemente elucidativos. E semienterrado no chão encontrei isto.

E tirou do interior do hábito a gema amarelo-escura toscamente facetada e presa na garra quebrada de prata dourada. Torold pegou no objecto e examinou-o com curiosidade, mas, aparentemente, sem o reconhecer.

Deve ter-se quebrado do punho de alguma arma, não vos parece?

Não de uma tua, portanto?

Minha? exclamou Torold, rindo-se. Onde iria um pobre escudeiro como eu arranjar uma arma tão bela como esta o deve ter sido? Não, a que eu tinha não passava de uma simples espada velha que herdei de um avô, com um punhal de lâmina grossa a condizer. Se a minha fosse leve como esta, faria tudo para a conservar. Não, isto não pertenceu a nenhuma arma minha.

Nem de Faintree?

Torold abanou a cabeça com ar decidido.

Se ele tivesse alguma como essa, eu teria sabido. Nick e eu éramos da mesma condição e a nossa amizade já ia para três anos ou mais.

Olhou então para o rosto do Irmão Cadfael com ar concentrado.

Estou agora a lembrar-me de um pormenor que talvez tenha, no fim de contas, significado. Quando saí disparado da cabana, deixando o outro indivíduo semi-inconsciente, tropecei em algo que se encontrava sob a forragem onde tínhamos estado a lutar, uma coisa pequena e dura que quase me deitou ao chão. Seria isto? Sim, devia pertencer a ele! Quebrou-se com certeza de encontro ao chão quando rolámos.

Sim, deve ser do homem quase de certeza, e é a única coisa que temos e que nos pode conduzir até ele observou Cadfael, voltando a guardar a gema na bolsa que trazia ao peito. Nenhum homem deitaria fora uma arma tão bela só porque uma das gemas que a ornamentavam se desprendeu. Quem quer que a possuísse ainda a tem em seu poder, na intenção de a mandar reparar assim que puder. Se conseguirmos encontrar a arma, teremos encontrado o assassino.

Desejaria disse Torold com firmeza ser eu a fazê-lo! Ficaria muito satisfeito em poder vingar Nick, ele era um grande amigo que eu tinha. Mas não me resta outra alternativa senão obedecer às ordens que tenho e levar os bens de FitzAlan intactos para França. E acrescentou, olhando para Cadfael com firmeza também fazer-me acompanhar da filha de Fulke Adeney, a cujo pai a entregarei sã e salva. Se a confiardes a mim.

E nos ajudardes acrescentou Godith, com uma confiança imensa.

Confiá-la a ti, talvez o faça disse Cadfael suavemente. E ajudar-vos a ambos, sem dúvida, o melhor que puder. Uma questão muito simples! Tudo o que tenho de conseguir, e reparai, ela tem a desfaçatez de mo pedir a mim!, é só fazer dois bons cavalos aparecerem do nada diante de vocês, numa altura em que até os pobres sendeiros valem ouro, ir-vos buscar o tesouro oculto e pôr-vos ao largo da cidade, a caminho do País de Gales. Coisa muito simples! Há coisas mais duras feitas diariamente pelos santos...

De repente tornou-se hirto e estendeu uma mão, avisando-os que não falassem. Escutando atentamente, chegou-lhe aos ouvidos, pela segunda vez, o som discreto de pés que se moviam cautelosamente na beira do restolho sussurrante, perto da porta aberta.

Que é? perguntou Godith num murmúrio inaudível, os olhos imensamente dilatados de alarme.

Nada! disse Cadfael de modo igualmente discreto. São os meus ouvidos a pregarem-me partidas. E acrescentou em voz alta: Bom, temos de voltar os dois para as vésperas. Anda! Não devemos chegar atrasados.

Torold aceitou as ordens que Cadfael lhe ditava em silêncio e deixou-os partir sem proferir palavra. Se alguém tinha estado efectivamente à escuta... Mas ele nada ouvira e parecia-lhe que nem mesmo Cadfael tinha muito bem a certeza disso. Para quê alarmar Godith? O Irmão Cadfael era o melhor protector que esta tinha ali, e uma vez no interior das paredes da abadia, ela voltaria novamente a estar em santuário. Quanto a Torold, este tomava conta de si mesmo, embora tivesse ficado mais descansado se dispusesse de uma espada.

O Irmão Cadfael enfiou uma das mãos na cintura enorme do seu hábito e tirou dela um longo punhal protegido por uma bainha de couro muito gasta. Silenciosamente, colocou-o nas mãos de Torold. O jovem aceitou-o, maravilhado, olhando-o com a mesma reverência com que encararia um pequeno milagre, de tal modo fora imediata a resposta ao seu pensamento. Agarrando nele pelo punho, desembainhou-o e ergueu-o diante do rosto, e ainda estava a examiná-lo em êxtase quando eles saíram para a noite, fechando a porta nas suas costas. Cadfael levou com ele a imagem daquele olhar ao penetrar no ar fresco e nos tons amarelo-alaranjados do ocaso. Era aquela a expressão enlevada que também ele tivera um dia, ao contemplar a mesma lâmina. Quando se juntara às Cruzadas, fazia muito tempo, os seus votos tinham sido feitos com aquela arma, e o punhal acompanhara-o a Jerusalém e com ele percorrera os mares do Leste durante dez anos. Mesmo quando desistira da sua espada juntamente com as coisas do mundo e abandonara todas as honrarias e haveres, guardara aquele punhal. Chegara finalmente o momento de se separar dele, dispensando-o a alguém a quem muita falta fazia e que não o utilizaria de forma ignominiosa.

Ao darem a volta ao milheiral, atravessando a estrada, Cadfael olhou cuidadosamente em redor. O seu ouvido era sensível como o de uma criatura selvagem e só nos últimos momentos da conversa ouvira sussurros, o farfalhar das ervas no exterior; não podia ter a certeza de que esse ruido tivesse sido provocado por pés humanos ou por algum animal pequeno a esgueirar-se para dentro do restolho. Apesar de tudo, teria de pensar no que poderia acontecer se eles tivessem realmente sido espiados. É certo que, na pior das hipóteses, somente as últimas frases poderiam ter sido escutadas, embora fossem suficientemente reveladoras. Teria o tesouro sido mencionado? Sim, ele próprio dissera que só faltava arranjar dois cavalos, recuperar o tesouro e mandá-los a salvo para o País de Gales. Teriam falado na altura e no local onde o tesouro estava oculto? Não, isso tinha sido muito antes. Mas o espião, se é que o houvera, poderia muito bem ter ficado a saber que um fugitivo perseguido da facção de FitzAlan se encontrava ali escondido e, o que era pior, que a filha de Adeney estava a viver na abadia.

Aquilo estava a ser demasiado quente para ser confortável. O melhor era afastá-los assim que o rapaz pudesse montar. Mas se aquele fim de tarde e aquela noite não trouxessem consequências desagradáveis, pensaria que andara a preocupar-se sem razão. Não havia ninguém à vista por ali, com excepção de um rapaz a pescar sozinho, absorto e distante na margem do rio.

Que aconteceu? perguntou Godith, humilde e atenta, a seu lado. Sei que houve alguma coisa que vos pôs pouco à vontade.

Nada com que tenhas de te preocupar observou Cadfael. Foi engano meu. Está tudo bem.

Nesse momento apercebeu-se, pelo canto do olho, de um movimento súbito, mais abaixo, para os lados do rio, por detrás do maciço de arbustos onde Godith encontrara Torold. Detrás do fraco esconderijo saiu um corpo, que se endireitou e ficou de pé, espreguiçando-se indolentemente, e em seguida se pôs a caminho do atalho por onde eles seguiam. Hugh Beringar, de passada sabiamente calculada para parecer acidental e no entanto alcançando-os perfeitamente a tempo, encarou-os com um rosto plácido e amigável, reconhecendo Cadfael com agrado e encarando o ajudante deste com benevolência.

Um princípio de noite magnífico, Irmão! Ides às vésperas? Eu também. Podemos ir juntos?

Com muito gosto respondeu-lhe Cadfael com cordialidade. Deu uma pancadinha no ombro de Godith e entregou-lhe o pequeno saco onde levava as suas ervas e ligaduras.

Vai à frente, Godric, rápido, e guarda estas até eu poder tratá-las, e depois vai para as vésperas com o resto dos rapazes. Assim poupas-me as pernas e ainda tens tempo para dar uma mexidela àquela loção que deixei a fermentar. Vai, criança, corre!

Godith agarrou no saco e deitou a correr, tomando o cuidado de o fazer à maneira de um rapaz atlético, passando uma mão pelo restolho alto e assobiando pelo caminho, satisfeita por poder pôr-se a salvo dos olhares daquele jovem. Os seus próprios olhos e mente encontravam-se repletos de um outro jovem.

Rapaz obediente aquele que tendes afirmou Hugh Seringar com benevolência, observando a marcha dela.

Um bom menino disse Cadfael placidamente, acompanhando-lhe a passada através do campo esmorecido em tons de creme.

Ficou de servir um ano connosco; no entanto, depois, duvido que tome os votos. Mas ficará a saber as letras e as contas, e também bastante sobre ervas e medicamentos, o que lhe virá a ser muito útil. Hoje não tendes que fazer, meu senhor?

Não se trata bem de não ter que fazer disse Hugh Seringar com igual serenidade, mas sim de necessitar da vossa perícia e conhecimentos. Procurei-vos primeiro no jardim; não vos encontrando ali, pensei que talvez tivésseis que fazer hoje aqui nos jardins principais e no pomar. Sentei-me a apreciar a luz do entardecer, aqui, à beira-rio. Sabia que iríeis ás vésperas, mas não tinha conhecimento de que possuíeis campos ao vosso cuidado para estes lados. O milho já foi todo recolhido?

Todo o que tínhamos por aqui. Não tarda que os carneiros venham pastar o restolho. Que desejáveis de mim, meu senhor? Se vos puder servir no âmbito da minha condição, podeis crer que o farei.

Irmão Cadfael, ontem de manhã perguntei-vos se estaríeis disposto a considerar algum pedido que vos pudesse vir a fazer, e vós dissestes-me que era vosso hábito considerar profundamente todas as vossas acções. E eu acredito-o. Aquilo que eu pensava não passar de uma ameaça fictícia transformou-se agora numa verdadeira. Tenho razões para crer que o rei Stephen já está a fazer planos para se deslocar e para arranjar os mantimentos e as montadas de que necessita para tal. O cerco de Shrewsbury foi-lhe muito oneroso e ele tem neste momento mais bocas para alimentar e mais homens para transportar. Ainda não é do conhecimento geral, pois se assim fosse muitos pensariam em se escapar, como é o meu caso reconheceu Seringar jovialmente, mas ele está prestes a emitir ordens no sentido de todas as casas da cidade serem revistadas e tenciona cobrar a dízima de toda a forragem e provisões armazenadas para uso do exército. E todos (reparai que vos digo todos) os bons cavalos que forem encontrados, independentemente de quem os possua, que não estejam ainda a serviço da tropa ou da guarnição. As cavalariças da abadia não ficarão isentas. Aquilo não agradou absolutamente nada a Cadfael. Vinha demasiado a propósito da sua própria necessidade de cavalos e era um indício extremamente agoirento de que Hugh Seringar, que possuía aquela informação antes de a mesma chegar aos cidadãos em geral, também poderia estar igualmente bem informado sobre o que se passava noutros sectores. Nada do que aquele jovem fizesse ou dissesse equivaleria alguma vez ao que aparentava, mas fosse qual fosse o jogo em que se empenhava, este desenvolver-se-ia sempre na defesa dos seus próprios interesses. Podiam ambos jogar os seus próprios jogos, e, quem sabe, daí beneficiariam também os dois. Deixá-lo primeiro dizer o que pretendia, mesmo que o que ele tinha a falar tivesse sido meticulosamente analisado de todos os ângulos e submetido a todos os testes conhecidos.

Vão ser más novas para o irmão prior observou Cadfael brandamente.

Também não são nada boas para mim disse Beringar sombriamente. Acontece que tenho quatro cavalos precisamente nas cavalariças da abadia, e embora possa reclamá-los para mim e para os meus homens, já que o rei me tem ao seu serviço, não posso ter a certeza de poder fazer valer esse direito com segurança. Poderá ser concedido, mas também poderá não ser. E para ser franco convosco, não tenciono permitir que os meus dois melhores cavalos sejam recrutados para o exército do rei. Quero-os fora daqui nalgum sítio retirado, onde possam escapar á pilhagem dos homens de Prestcote até todo este alvoroço passar.

Só dois? inquiriu Cadfael inocentemente. Por que não todos?

Ora, não falais com certeza a sério. Poderia eu estar aqui sem dispor de um cavalo sequer? Se não me encontrassem nenhum, começariam a procurá-los a todos, e depois poucas probabilidades me restavam de alcançar as boas graças do rei. Mas eles que levem os dois que não são tão bons, que não perguntarão pelos outros. Dois, posso dispensar. Irmão Cadfael, não foi preciso passar muitos dias neste local para saber que sois homem para levar a cabo qualquer iniciativa, por muito difícil e arriscada que seja.

A sua voz era alegre, gentil, até mesmo sincera, e parecia não encobrir segundos propósitos.

O abade superior é para vós que se vira quando tem de fazer face a um problema cuja resolução está para além dos seus poderes. Eu recorro a vós para me ajudardes num caso prático. Conheceis toda a região. Haverá algum local seguro onde os meus cavalos possam ficar durante alguns dias até esta recolha estar terminada?

Cadfael nunca contara com proposta tão improvável, mas ela chegava como um maná caído do céu. Tão-pouco hesitou demasiado em dela tirar vantagem para os seus próprios fins. Mesmo que não estivessem vidas dependentes do arranjo desses dois cavalos, ele tinha perfeita consciência de que Beringar o estava a utilizar sem escrúpulos, pelo que ele não tinha de ter escrúpulos em fazer o mesmo em troca. O problema ultrapassava mesmo esses limites, pois Cadfael suspeitava nitidamente de que, naquele momento, Beringar sabia perfeitamente o que se passava na sua mente, e não se preocupava com as suposições que ele pudesse fazer sobre o que ocorria na sua. ”Cada um de nós”, pensou, ”está a jogar uma cartada com o outro, e também tem uma visão razoável dos métodos, se não dos motivos, de cada um. Irá ser uma luta leal.” E no entanto era bem possível que aquele ser cortês pudesse ser o assassino de Nicholas Faintree. Iria travar-se um duelo desigual, sem tréguas solicitadas ou oferecidas. Entretanto, havia que tirar proveito do que pudessem ser, ou não, circunstâncias acidentais.

Sim disse Cadfael, conheço um sítio com essas características.

Beringar nem sequer se deu ao cuidado de indagar aonde ou de questionar o julgamento de Cadfael quanto ao facto de o mesmo ser suficientemente afastado e secreto para poder ser considerado seguro.

Mostrai-me o caminho esta noite pediu imediatamente, sorrindo perante a expressão de Cadfael. É esta noite ou nunca, a ordem será tornada pública amanhã. Se achardes que podeis voltar comigo a pé antes de amanhecer, acompanhai-me a cavalo. Antes vós que outro qualquer!

Cadfael considerou formas e meios; não havia necessidade de pensar na resposta a dar.

Então o melhor é levardes os vossos cavalos para St. Giles, depois das vésperas. Irei reunir-me a vós mal terminem as completas; nessa altura já estará a ficar escuro. Não me convinha verem-me a sair a cavalo na vossa companhia, mas vós podeis bem exercitar os vossos cavalos ao fim da tarde, como melhor vos aprouver.

Óptimo! exclamou Beringar com satisfação. Onde fica o local? É necessário atravessar o rio nalgum ponto?

Não, nem sequer o ribeiro. Trata-se de uma velha granja que a abadia costumava manter em Long Forest, para lá de Pulley. Desde que os tempos começaram a mostrar-se tão pouco propícios, deixámos de lá guardar carneiros e gado, embora ainda lá tenham ficado dois irmãos leigos. Ninguém irá ali procurar cavalos, sabem que o sítio está praticamente votado ao abandono. E os irmãos leigos dirão o que eu lhes pedir.

E St. Giles fica a caminho?

Tratava-se de uma capela da abadia, situada na extremidade oriental do Foregate.

Exacto. Iremos para sul em direcção a Sutton e depois viraremos para oeste e penetraremos na floresta. Terá de caminhar quatro ou cinco quilómetros de volta pelo caminho mais curto. Sem cavalos, podemos poupar mais ou menos quilómetro e meio.

Penso que as pernas me aguentarão nessa distância disse Beringar afectadamente. Então vemo-nos em St. Giles, depois das completas.

E sem proferir qualquer outra palavra ou pergunta, deixou Cadfael e afastou-se rapidamente, adiantando a passada; é que Aline Siward acabara de emergir da entrada de sua casa e virara para a portaria, a caminho da igreja. Mal tinha tido tempo de andar meia dúzia de metros, já Beringar estava a seu lado; ela ergueu a cabeça e um sorriso confiante surgiu no seu rosto. Era uma criatura completamente desprovida de malícia, sem, contudo, abrir mão de um orgulho adequado ou de um senso arguto, e abria-se como uma flor à vista daquele jovem falso como uma serpente, para além de tudo o mais que de bom ou mau pudesse ser dito dele. ”Aquilo”, pensou Cadfael, vendo-os caminharem diante dele conversando animadamente, ”deveria abonar alguma coisa a favor dele? Ou não passava de uma prova de um excesso de confiança infantil da parte dela?” Já não era a primeira vez que jovens donzelas sem mácula se deixavam cativar por vilões de coração pérfido, até mesmo assassinos; e não era a primeira vez que vilões de coração pérfido e assassinos se devotavam profundamente a jovens donzelas sem mácula, contrariando a sua própria natureza com tão perversa ternura.

Cadfael sentiu-se consolado, e essa sensação ainda mais se lhe acentuou ao ver Godith na igreja, cutucando e segredando entre os rapazes. Dirigiu-lhe um rápido olhar interrogativo, ao qual ela respondeu com um aceno de cabeça e um sorriso tranquilizador. Aquela paz de espírito não tinha grandes fundamentos, mas fazia bem, apesar de tudo.

Achava Aline admirável, mas Godith era, apesar de tudo, a menina dos seus olhos. Fazia-lhe lembrar Ariana, a moça grega da barca, as saias a caírem-lhe em pregas até aos joelhos, o cabelo curto transformado numa nuvem de caracóis, inclinada sobre o seu longo remo a chamar por ele através da água... Ah, bem! O jovem Torold ainda nem sequer chegara á idade que ele tinha nessa altura. Aquelas coisas eram para os novos. Entretanto, naquela noite, depois das completas, em St. Giles!

 

A cavalgada que os levou através de Sutton até Long Forest, numa extensa floresta, densa e primitiva nos seus setecentos e sessenta acres, exceptuando a zona mais alta coberta de urze, foi como que uma súbita visita de retorno a aspectos relacionados com o seu passado, incursões nocturnas e emboscadas perigosíssimas, outrora de tal modo familiares que quase chegavam a ser enfadonhas, mas naquele momento, naquela penumbra, passados que eram tantos anos, tão excitantes que quase o faziam desejar voltar àquele tempo. O cavalo, debaixo dele, era soberbo e fogoso e de elevado pedigree. Não montava um animal com aquelas características já ia para vinte anos, e o deleite e a tentação que sentia lembraram-lhe a sua condição de mortal e falível. Até mesmo o jovem cavaleiro que seguia a seu lado, aceitando as suas indicações sem hesitação, lhe trazia à memória dias passados, em que, juntamente com os seus exaltados companheiros de aventuras, enfrentava todos os trabalhos e privações que pudessem levantar-se no seu caminho, encarando-os sempre com prazer.

Hugh Beringar, uma vez afastados das estradas normais e embrenhados por entre as árvores e as sombras da noite, parecia não ter nada que o preocupasse no mundo, tão-pouco receio de qualquer traição da parte do homem que cavalgava a seu lado. Chegou mesmo a tagarelar para passar o tempo, curioso em relação aos tempos que Cadfael vivera fora do claustro e aos países que este conhecera tão bem como conhecia aquela floresta.

Quer dizer então que apesar de todos esses anos passados no mundo, de todas as coisas nele vistas, nunca pensastes em casar? E sendo metade do mundo composto por mulheres, como dizem?

O tom de voz ligeiro, convenientemente ocioso e denotando uma ligeira troça, mostrava-se, não obstante, genuinamente inquisitivo e requeria uma resposta.

Pensei uma vez em me casar disse Cadfael com sinceridade antes de me juntar às Cruzadas, e ela era sem dúvida uma bela mulher, embora, para dizer a verdade, a tenha esquecido no Oriente, do mesmo modo que ela me esqueceu no Ocidente. Estive demasiado tempo ausente, ela desistiu de esperar e casou com outro homem, o que não lhe censuro.

Voltastes a vê-la mais alguma vez? perguntou Hugh.

Não, nunca mais. Agora já tem netos, oxalá sejam bons para ela. Richildis era uma óptima mulher.

Mas o Oriente também era feito de homens e mulheres, e vós éreis um jovem cruzado. Não posso deixar de me sentir curioso observou Beringar sonhadoramente.

Então ficai com a vossa curiosidade. Também eu me sinto curioso convosco disse Cadfael brandamente. Conheceis algum ser humano que não tenha os seus segredos?

Por entre as árvores via-se um ténue raio de luz. Os irmãos leigos ficavam a pé até tarde, suspeitava Cadfael, jogando aos dados. Por que não? O tédio, naquele local, devia ser extremo. A sua chegada vinha trazer àqueles bons irmãos um pouco de diversão indiscutivelmente bem-vinda.

Depressa ficou provado que se mantinham vivos e alerta ao mais pequeno som de uma aproximação inesperada quando ambos apareceram á entrada, atentos e preparados para enfrentar o que se lhes deparasse. O Irmão Anselm, enorme e musculoso como um carvalho, nos seus 55 anos, balançava um longo varapau numa das mãos. O Irmão Louis, de ascendência francesa mas nascido em Inglaterra, era pequeno, rijo e ágil, e naquela solidão não se afastava nunca de uma adaga em cujo manejo era exímio. Vinham ambos prontos a enfrentar o que desse e viesse, plácidos de rosto mas de olhos atentos; ao avistarem o Irmão Cadfael, contudo, sorriram imediatamente.

Que se passa, velho companheiro? É um prazer ver uma cara conhecida, mas não esperávamos dar convosco a meio da noite. Ficais connosco até amanhã? Que novas nos trazeis?

Observaram Beringar com interesse reservado, mas este deixou tudo a cargo de Cadfael, já que ali a autoridade da abadia fazia-se respeitar mais que a do rei.

As novas que vos trago encontram-se aqui disse Cadfael, indicando os cavalos. Este meu senhor pede-vos que abrigueis as suas duas montadas durante alguns dias e as guardeis longe de olhos estranhos.

Não havia necessidade de esconder o motivo daquelas duas boas almas, que não teriam hesitado em simpatizar incondicionalmente com o possuidor de semelhantes cavalos e que, além do mais, tentava conservá-los a todo o custo.

Eles andam a arranjar cavalos de carga para o exército, e não é essa a vida que convém a estes dois, que deverão ser reservados para melhor uso.

O Irmão Anselm passou um olhar apreciativo pela montada de Beringar, acariciando com mão afectuosa o pescoço arqueado.

Já há muito tempo que a nossa cavalariça não albergava uma beleza como esta! Tem servido apenas para receber a mula em que o prior Robert se transporta quando nos visita, coisa que tem vindo a tornar-se cada vez mais rara ultimamente. Para dizer a verdade, esperamos em breve ser chamados de volta à abadia; este local é demasiado isolado e desvantajoso para ser mantido durante muito mais tempo. Sim, teremos muito gosto em dar guarida aos vossos cavalos, meu bom moço. E ainda com maior prazer, meu senhor, se acederdes a que os monte de vez em quando para lhes dar exercício.

Penso que ele é capaz de vos transportar até mesmo a vós sem esforço reconheceu Beringar gentilmente. Mas não os mostreis a mais ninguém senão a mim e ao Irmão Cadfael.

Isso está perfeitamente compreendido. Aqui ninguém lhes porá a vista em cima.

Muito satisfeitos com a interrupção introduzida na sua existência fastidiosa e com a generosidade manifestada por Beringar em relação aos seus serviços, conduziram os cavalos aos estábulos desertos.

Embora os tivéssemos recolhido pelo prazer que nos proporcionam, esclareceu o Irmão Louis com sinceridade. Fui uma vez, moço de cavalariça do conde Bobert de Gloucester, adoro a beleza e o porte de um bom cavalo.

Cadfael e Hugh Beringar voltaram para casa a pé.

Estaremos a uma hora de caminho, pouco mais disse Cadfael, pelo percurso por onde vos irei levar. Em determinados locais a erva é demasiado alta para os cavalos, mas eu conheço bem uns atalhos que vão dar ao Foregate. Teremos de atravessar o ribeiro bem ao cimo da corrente que passa pelo moinho e podemos depois entrar nos terrenos da abadia pelo lado do jardim sem que ninguém dê por nós, se estais disposto a passá-lo a vau.

Estou em crer observou Beringar pensativo, mas perfeitamente sereno que estais a fazer um jogo comigo. Tendes por intenção que me perca nos bosques ou que me afogue na corrente de água que acciona a roda da azenha?

Duvido que conseguisse ser bem sucedido em qualquer das tentativas. Não, vereis que será apenas um amigável passeio em conjunto. E que terá valido a pena, assim espero.

E curiosamente, apesar de cada um deles saber que estava a ser utilizado pelo outro, aquela jornada nocturna foi realmente um prazer para ambos, para o monge, mais velho e desprovido de ambições pessoais, e para o jovem, cujas ambições eram ilimitadas e audaciosas. Provavelmente Beringar estava a trabalhar no puzzle que constituía o facto de Cadfael se ter mostrado tão pronto a servir os seus interesses, e este encontrava-se, sem dúvida, igualmente atarefado em tentar descortinar o motivo pelo qual Beringar resolvera convidá-lo a conspirar com ele daquele modo; não importava, isso até servia para tornar a prova mais interessante. Não era portanto fácil prever qual dos dois iria ganhar e tirar maior proveito da contenda.

E assim, embora Cadfael fosse atarracado e corpulento e Beringar alto, esbelto e de pé ligeiro, os dois seguiam a passo rápido pelo estreito e elevado atalho da floresta. Este seguia as passadas de Cadfael atentamente, e a escuridão, ligeiramente atenuada pela luz das estrelas que espreitavam por entre os ramos das árvores, não parecia causar-lhes qualquer incómodo. E iam conversando em tom ligeiro e despreocupado.

O rei tenciona seguir para baixo novamente, em direcção ao condado de Gloucester, em maior força, depois de reunir mais homens e cavalos. Faltam já poucos dias para partir.

E vós ides com ele?

Já que ele parecia inclinado à conversa, por que não encorajá-lo? Claro que tudo o que dissesse não deixaria de ser calculado, mas mais tarde ou mais cedo acabaria por cometer algum erro.

Isso está dependente do rei. Então não é que o homem não tem confiança em mim, Irmão Cadfael! Apesar de tudo preferia que me deixassem assumir aqui perto o comando das minhas terras. Fiz-me tão assíduo quanto o ousei: ver constantemente o mesmo rosto pode ter o pior dos efeitos, não o ver nunca nas proximidades seria fatal. Uma bela questão de bom senso.

Sinto, disse Cadfael que um homem deve ter confiança considerável no vosso bom senso. Já estamos perto do ribeiro, estais a ouvi-lo?

Apesar de o curso se mostrar menos caudaloso e de o leito estar mais estreito, havia pedras através das quais era possível passar sem molhar mais do que os pés, e Beringar, depois de avaliar por momentos a distância e o solo, atravessou a corrente num passo delicadamente saltitante, que serviu para justificar a opinião anteriormente formada por Cadfael.

Achais então que é assim? observou o jovem, reatando a conversa depois de ambos se encontrarem do outro lado e prosseguirem caminho. Tendes uma alta opinião do meu julgamento? No que se refere a riscos e vantagens apenas? Ou, por exemplo, em relação aos homens? E às mulheres?

Não posso duvidar do julgamento que fazeis dos homens disse Cadfael secamente, já que fizestes confiança na minha pessoa. Mas ainda que duvidasse, era muito pouco provável que o confessasse.

E em relação às mulheres?

Caminhavam agora mais livremente através do campo aberto.

Penso que estas farão melhor em se manterem alertadas relativamente a vós. E que outros mexericos mais circulam na corte do rei, para além da próxima campanha? Não há notícias recentes de FitzAlan ou Adeney terem sido vistos?

Nenhumas, nem isso é já provável que venha a acontecer disse Beringar sem hesitações. Eles tiveram sorte e eu não o lamento. Não se sabe onde estão agora, mas onde quer que seja, é-o por certo a caminho de França.

Não havia razão para não acreditar no que ele dizia; independentemente dos objectivos a que se propusesse, as suas disposições estavam a ser tomadas através de verdades, não de mentiras. As novas eram, para sossego de Godith, ainda boas, e cada dia que passava melhores, à medida que a distância que separava o pai desta vingança de Stephen era cada vez maior. E agora havia dois excelentes cavalos bem posicionados numa estrada de fuga para Godith e Torold, sob os cuidados de dois valorosos irmãos, que só os entregariam a quem fosse a mando de Cadfael. O primeiro passo estava dado. Em seguida havia que recuperar os alforges do rio e pô-los no devido caminho. A tarefa não primava pela simplicidade de execução, mas também não era impossível.

Agora já percebo onde estamos disse Beringar, cerca de vinte minutos mais tarde.

Tinham cortado caminho através do quilómetro e meio de terra que era circundado pelas curvas do ribeiro e encontravam-se, mais uma vez, numa das margens deste; do outro lado, os campos de trigo já segados mostravam-se branqueados sob a luz das estrelas, e para além da suave subida dos mesmos ficavam os jardins e a enorme área abrangida pelos edifícios da abadia.

Tendes faro para o campo, mesmo às escuras. Ide à frente, confio em que também sabereis encontrar um lugar por onde possamos passar a pé.

Cadfael necessitou apenas de erguer o hábito e prendê-lo à cintura, nada mais lhe restando depois molhar do que as sandálias. Meteu-se pela água dentro no ponto oposto ao telhado baixo da cabana de Godith, que acabara precisamente de surgir por cima das árvores, dos arbustos e do muro que rodeavam o herbário. Beringar foi atrás dele através da água, com botas e tudo. Esta chegava-lhe aos joelhos, mas não havia dúvidas de que ele pouco se ralava com o facto. E Cadfael reparou na forma como se movia, suave e cadenciadamente, mal se ouvindo um galho quebrar sob as suas passadas. Possuía todos os dons de intuição das criaturas selvagens, tão alerta de noite como de dia. Ao chegar a terras da abadia, deu-se instintivamente ao cuidado de rodear o amontoado de hastes de ervilhal, evitando fazer algum barulho entre as raízes secas que brevemente seriam enterradas.

Um conspirador natural disse Cadfael, pensando em voz alta; e que ele fosse capaz de o fazer era prova de um forte, ainda que hostil, elo entre eles.

Beringar virou para ele uma face subitamente iluminada por um sorriso selvagem.

Um conhece o outro disse.

Tinham-se habituado a trocar sussurros inaudíveis, que, no entanto, entendiam perfeitamente.

Esqueci-me de vos contar um rumor que anda a circular por aí acrescentou. Há dias andaram a perseguir um indivíduo perto do rio, á noite, que diziam ser um dos escudeiros de FitzAlan. Afirmam que um dos arqueiros o apanhou por detrás do ombro esquerdo e que a flecha talvez lhe tenha atravessado o coração. Estivesse como estivesse, foi arrastado rio abaixo e o seu corpo pode vir a aparecer para os lados de Atcham. Mas no dia seguinte, eles apanharam um cavalo sem dono, um bom cavalo de sela, que de certeza lhe pertencia.

Que me contais? exclamou Cadfael, adequadamente surpreendido. Aqui podeis falar à vontade, não há ninguém que tenha o costume de se vir meter no meu herbário-jardim durante a noite, e além disso estão habituados a que me levante às horas mais esquisitas para tratar dos remédios que aqui preparo.

Então não é o vosso ajudante quem trata disso? inquiriu Hugh Beringar com ar inocente.

Um rapaz que dormisse fora do dormitório disse Cadfael depressa teria motivos para se sentir um infeliz. Aqui tomamos melhor conta das nossas crianças do que pareceis pensar.

Fico contente em ouvi-lo. Não há grande problema em que velhos soldados experientes transformados em monges se arrisquem aos frios da noite, mas as coisinhas jovens devem ser protegidas. A sua voz era doce e suave como o mel. Estava a falar-vos de algo estranho que aconteceu com cavalos... Alguns dias mais tarde, se me quereis acreditar, encontraram outro cavalo à solta, a pastar nas terras a norte da cidade, ainda de sela posta. Eles pensam que havia um único guarda-costas mandado do castelo, quando o assalto se declarou, para tirar a filha de Adeney de onde quer que ela estivesse escondida e escoltá-la sã e salva para fora do anel que cercava Shrewsbury. Estão convencidos de que a tentativa falhou continuou suavemente quando o cavaleiro dela tomou o caminho do rio para a salvar. Portanto ela ainda se encontra desaparecida e oculta algures por aqui perto. E não tarda que venham à procura dela, Irmão Cadfael, procurá-la-ão agora mais aturadamente que nunca.

Tinham acabado de chegar à entrada dos jardins interiores. Hugh Beringar sussurrou um boa-noite quase inaudível e afastou-se como uma sombra em direcção á casa de hóspedes.

Antes de dormir o resto da noite, o Irmão Cadfael permaneceu acordado o tempo suficiente para fazer algumas sérias reflexões. E quanto mais pensava no assunto, mais convencido ficava de que, na verdade, alguém se aproximara do moinho até ficar suficientemente perto e em silêncio para ouvir as últimas frases que tinham sido pronunciadas no seu interior e de que esse alguém fora, sem sombra de dúvida, Hugh Beringar. Ele provara o quão suavemente podia deslocar-se, o quão instintivamente adaptava os seus movimentos às circunstâncias, provocara mesmo uma expedição em conjunto, em que cada um ficava dependente da discrição do outro, fazendo-lhe uma série de confidências secretas, sabiamente calculadas para despertarem desconfiança e alarme e, possivelmente, precipitarem alguma acção impensada embora Cadfael não tivesse intenção de lhe proporcionar esta última satisfação. Não acreditava que o ouvinte tivesse estado muito tempo à escuta. Mas a última coisa que Cadfael, ele próprio, dissera não deixava grandes dúvidas de que tencionava arranjar dois cavalos, ir buscar o tesouro oculto e fazer com que Torold se pusesse a caminho com ”ela”. Se Beringar tivesse chegado a ouvi-los ainda um pequeno momento antes, também lhe teria chegado aos ouvidos o nome da jovem; mas mesmo que tal não tivesse acontecido, não lhe seria difícil desconfiar. Então que jogo estaria ele a querer fazer com os seus dois melhores cavalos, com os fugitivos que podia denunciar a qualquer momento, o que até ali não fizera, e com o próprio Irmão Cadfael? Tinha á sua disposição um prémio muito mais importante e valioso do que a mera captura de um jovem e a exploração de uma rapariga contra quem não nutria nenhum rancor especial. Um homem como Beringar talvez preferisse arriscar tudo e tudo jogar, Torold, Godith e tesouro, de uma cartada só. Apenas por si, como já fizera anteriormente, embora sem sucesso? Ou para ganho e favor do rei? Era, sem dúvida, um jovem de infinitas possibilidades.

Cadfael pensou nele longamente antes de adormecer e, pelo menos, uma coisa ficou clara. Se Beringar já sabia que Cadfael tinha hipóteses de recuperar o tesouro, não mais deixaria, a partir dali, de o trazer debaixo da sua vigilância, pois necessitava dele para o conduzir ao local. Pouco antes de o sono chegar, uma ténue luminosidade começou a despontar, ténue mas prometedora, no horizonte. Quando o sino tocou para o acordar, juntamente com os seus companheiros, para a prima, parecera não ter passado mais de um momento.

Hoje disse Cadfael a Godith quando chegaram ao jardim, depois de terminado o pequeno-almoço dás os passos habituais, vais à missa antes do capítulo, e em seguida á instrução. Depois do jantar deverás trabalhar um pouco no jardim e cuidar dos remédios, mas logo a seguir podes ir para o velho moinho discretamente, não te esqueças, até às vésperas. És capaz de mudar o penso de Torold sem mim? Hoje posso não estar disponível.

Claro que sou capaz respondeu ela alegremente. Já vos vi fazê-lo e além disso agora conheço as ervas. Mas... se alguém, se era ele que estava ontem a espiar-nos, que faço se hoje aparecer?

Cadfael falara-lhe rapidamente na expedição da noite anterior, e as implicações desse acontecimento tinham-na deixado imediatamente animada e alerta.

Ele não o fará disse Cadfael sem hesitação. Se tudo correr bem, onde quer que eu esteja, ele também estará. Por isso te quero afastada de mim, onde poderás respirar mais livremente. E se as coisas correrem de acordo com as minhas previsões, há uma coisa que quero que tu e Torold me façam esta noite, lá para mais tarde. Quando formos às vésperas te direi se sim, se não. Se for sim, precisarei apenas de te dizer essa palavra, aqui ficam as instruções sobre o que tens a fazer...

Ela ouviu-o até ao fim, mantendo um silêncio ansioso e fazendo depois um sinal de total concordância.

Sim, vi o bote encostado à parede do moinho. Sim, conheço o aglomerado de arbustos que ficam no começo do jardim, perto da extremidade da ponte... Sim, claro que o podemos fazer, Torold e eu, juntos!

Aguardem o tempo suficiente para terem a certeza preveniu Cadfael. E agora corre para a missa paroquial e para as tuas lições, tenta fazer-te o mais parecida que puderes com os outros rapazes e não tenhas medo. Se houver algum motivo para se ter medo, tenciono que ele me chegue aos ouvidos em primeiro lugar, e depois irei ter imediatamente contigo.

Parte das previsões feitas por Cadfael depressa provaram estar correctas. Nesse domingo fez que todas as suas tarefas se centralizassem no recinto da abadia, assistiu a todos os serviços, andou de um lado para o outro a tratar de tarefas que o levaram várias vezes à portaria, à casa de hóspedes, às acomodações do abade, à enfermaria, aos jardins; e onde quer que se dirigisse, algures longe da sua vista, invisível mas presente, encontrava-se sempre Hugh Beringar. Nunca antes aquele jovem fora tão constante na igreja, de serviço até mesmo quando Aline não se encontrava entre os fiéis. ”Agora vejamos”, pensou Cadfael maliciosamente, ”até onde é que poderei afastá-lo da companhia desta jovem, ficando o campo livre ao outro pretendente.” Porque Aline viria certamente à missa depois do capítulo, e a sua última incursão à portaria mostrara-lhe Adam Courcelle, vestido a rigor, aproximando-se da porta da pequena casa onde ela e a sua criada estavam alojadas.

Não era habitual Cadfael faltar à missa, mas daquela vez inventara uma tarefa que lhe proporcionaria uma desculpa convincente. A sua perícia com os remédios era conhecida na cidade, e as pessoas recorriam frequentemente à sua ajuda e conselho. O abade Heribert encarava estes pedidos com indulgência e dava licença para que o seu herbanário se ausentasse sempre que era necessário. Havia uma criança que vivia no Foregate, para os lados de St. Giles, a qual de vez em quando recorria aos seus serviços por causa de uma doença de pele de que padecia, e embora esta estivesse em franca regressão e não houvesse grande necessidade de lhe fazer uma visita naquele dia, ninguém teve autoridade para contradizer Cadfael quando este afirmou que era necessário ir lá.

Ao sair do portão encontrou Aline Siward e Adam Courcelle, que vinham a chegar, ela ligeiramente corada, certamente não desagradada com a sua escolta mas talvez um pouco embaraçada, o oficial do rei devotamente atento e igualmente enrubescido, no seu caso indiscutivelmente de prazer. Se Aline estava à espera de ser acompanhada por Beringar, como se tornara já habitual, ficara sem dúvida surpreendida. Se estava aliviada ou desapontada, não era possível dizer. Beringar não se encontrava à vista.

Prova positiva, considerou Cadfael satisfeito, seguindo para a sua visita médica com serenidade e sem pressa. Beringar era a discrição em pessoa na sua vigilância, só se permitiu ser visto por Cadfael quando este, no regresso à abadia, o encontrou a montar despreocupadamente um dos cavalos que lhe restava, a fim de lhe dar algum exercício, ao mesmo tempo que assobiava alegremente.

Saudou jovialmente Cadfael, como se o encontro não pudesse ter sido mais inesperado ou mais agradável.

Irmão Cadfael, fora de portas numa manhã de domingo? Muito sério, Cadfael ensaiou o que tinha preparado, e ficou satisfeito ao verificar os resultados satisfatórios que obteve.

A variedade dos vossos talentos é admirável observou Beringar, pestanejando. Espero que tenhais tido um sono despreocupado depois da longa noite de trabalho de ontem...

A minha mente permaneceu superactiva durante algum tempo disse Cadfael, mas dormi razoavelmente. E ao que vejo, ainda tendes cavalo para montar.

Ah isso! O erro foi meu, devia ter-me lembrado de que mesmo que a ordem tivesse sido divulgada num domingo, eles não a concretizariam até o dia santo chegar ao fim. Amanhã ides ter oportunidade de ver por vós próprio.

Não havia dúvida de que ele estava a dizer a verdade e tinha a certeza do que afirmava.

Tudo indica que a caçada vai ser muito meticulosa disse, e Cadfael não teve dúvidas de que não se estava a referir nem aos cavalos nem às provisões. O rei Stephen está um pouco preocupado com as relações com a igreja e seus prelados. Devia ter-me apercebido de que ele respeitaria o dia de descanso. Que seja, isso dá-nos mais um dia de crédito e graça. Esta noite podemos ficar descansadamente em casa, á vista de todos os homens como os inocentes. Não é assim, Irmão Cadfael?

Soltando uma gargalhada, deu uma palmadinha amigável no ombro deste e, batendo com os calcanhares na barriga da montada, seguiu a trote em direcção a St. Giles.

Apesar disso, quando Cadfael saiu do refeitório depois do jantar, Beringar estava à porta da casa de hóspedes, que ficava mesmo em frente, aparentemente distraído mas bem ciente de tudo o que se passava dentro do seu raio de visão. Cadfael dirigiu-se inofensivamente para o claustro, onde se sentou ao sol, dormitando regaladamente até ter a certeza de que Godith já estava longe e livre de vigilâncias. Mesmo depois de acordar, manteve-se ainda durante um bocado por ali, como medida de segurança e para considerar as implicações de tudo o que se estava a passar.

Não restavam dúvidas de que todos os seus movimentos estavam a ser observados de muito perto, e por Beringar em pessoa. Este não delegava esse trabalho em nenhum dos seus homens ou em quaisquer olhos contratados com esse objectivo, preferindo fazê-lo ele mesmo e, muito provavelmente, tirando prazer do facto. Se estava disposto a ceder o seu lugar junto de Aline a Adam Courcelle nem que fosse apenas por uma hora, então é porque atribuía a maior das importâncias à sua opção. ”Eu sou o meio”, pensou Cadfael, ”através do qual ele se propõe atingir os seus fins, ou seja, o tesouro de FitzAlan. E a sua vigilância vai ser implacável. Muito bem! Não há forma de lhe escapar. A única coisa a fazer é tirar partido dela.

”Antes de mais nada, não convém cansar a testemunha ou alertá-la demasiado cedo de que existem actividades planeadas. Ele não tem feito outra coisa senão calcular, pois então que continue.”

De modo que se dirigiu calmamente para o seu herbário, onde trabalhou conscienciosamente em todos os preparados que tinha a fermentar e começados há pouco, levando ali toda a tarde até serem horas de ir à igreja para as vésperas. Não se preocupava com o lugar em que Beringar se pudesse ter enfiado para o espiar, esperava, isso sim, que a vigília tivesse sido fastidiosa em extremo para um homem tão inconstante e activo.

Courcelle não só tinha ficado a oportunidade era demasiado inesperada e agradável para ser desperdiçada como fora aos serviços religiosos da tarde, levando pelo braço uma Aline acanhada e pensativa. Ao ver o Irmão Cadfael, que voltava naquele momento dos jardins, deteve-se e saudou-o afectuosamente.

É um prazer vê-lo em melhores circunstâncias do que nas da última vez em que nos encontrámos. Irmão. Espero que não vos surjam mais deveres do mesmo género. Ao menos a vossa presença e a de Aline trouxeram alguma benevolência àquilo que, se assim não fosse, se teria limitado a ser uma coisa infinitamente horrenda. Desejaria conhecer algum processo de amenizar a mente de Sua Majestade no que diz respeito à vossa casa, ele continua a alimentar um certo ressentimento por lhe ter parecido que o vosso abade superior não mostrou nenhuma pressa em se lhe apresentar.

Um erro que muitos outros também cometeram observou Cadfael filosoficamente. Não restam dúvidas de que teremos de suportar o desconforto que daí advirá.

Assim o penso também. Mas até agora Sua Majestade não tem em mente conceder à abadia privilégios superiores aos dos outros cidadãos. Se por acaso me vir forçado a fazer cumprir, mesmo dentro dos vossos muros, ordens que preferia ver suspensas à entrada dos vossos portões, espero que compreendam que o faço relutantemente e sem ter qualquer hipótese de proceder em contrário.

”Ele está a pedir perdão antecipadamente”, pensou Cadfael, esclarecido quanto á invasão do dia seguinte. ”Portanto, é tudo verdade, tal como eu supunha, e como lhe passaram todo o trabalho desagradável para as mãos, está a tornar desde já claro que o mesmo lhe desagrada e que o evitaria se pudesse. É capaz de até estar a exagerar um tudo nada a sua repugnância para melhor impressionar a dama.”

Se isso tiver de acontecer disse ele benevolentemente, estou certo de que todos os homens da minha ordem compreenderão que não fazeis mais que obedecer ao que vos é mandado, tal como qualquer soldado em serviço. Não tendes a recear ódios em relação á vossa pessoa.

É precisamente o que tenho asseverado a Adam muitas vezes disse Aline calorosamente, enrubescendo profundamente ao reparar que o tratara pelo primeiro nome. Talvez fosse a primeira vez. Mas ele não é fácil de convencer. Não, Adam, é verdade, tomas sobre as tuas costas responsabilidades que não te são devidas, como se tivesses morto Giles com as tuas próprias mãos, o que sabes ser falso. Como poderia eu culpar até os flamengos? Também eles cumpriam ordens. Em tempos conturbados como aqueles em que vivemos, ninguém pode fazer mais que escolher o seu próprio caminho de acordo com a sua consciência e suportar as consequências da sua opção, sejam elas quais forem.

Em dias alguns, bons ou maus observou Cadfael sentenciosamente, pode o homem fazer mais ou melhor do que isso. Aproveito a oportunidade, senhora, para vos dar conta do uso que dei .às dádivas que me confiastes. Todas elas foram devidamente empregues, tendo beneficiado três pobres almas necessitadas. Como não vos posso referir os seus nomes, por não os ter inquirido, peço-vos que digais uma oração pelos três infortunados, que, sem dúvida, o fazem também por vós.

”E ela assim faria”, reflectiu ele, ficando a vê-la entrar na igreja pelo braço de Courcelle. Naquela estação crítica da sua vida, desolada pela perda do único irmão e do pai, os últimos parentes que lhe restavam, senhora de um património que acabara de colocar de sua vontade ao serviço do rei, ele julgava-a perigosamente hesitante entre o claustro e o mundo, e apesar de ele ter escolhido o primeiro na sua maturidade, desejava-lhe de todo o coração o mundo, se possível um mundo mais atractivo do que aquele que agora a rodeava, onde pudesse empregar e preencher a sua juventude.

Quando ia tomar o seu lugar entre os irmãos, encontrou Godith, que também se dirigia para o seu canto. Ante a muda pergunta que lhe brilhava nos olhos, ele respondeu suavemente:

Sim! Faz como te disse.

Portanto, agora o que importava era certificar-se de que, durante o resto da tarde, conduzia Beringar para lugares bastante afastados daquele onde Godith operava. Os actos de Cadfael deveriam ser bem notados, os de Godith teriam de se manter invisíveis e insuspeitados. E isso não poderia ser alcançado desempenhando fielmente a rotina da tarde. A janta era sempre uma refeição breve, Beringar tomaria providências para estar nalgum sítio onde pudesse ver o refeitório quando dele saíssem. Reuniões na casa do capítulo, a leitura formal da vida dos santos, eram tarefas próprias do dia a que Cadfael faltara noutras ocasiões, o que voltou a fazer naquele dia, conduzindo o seu acompanhante invisível á enfermaria, onde visitou rapidamente o Irmão Reginald, um idoso que sofria das articulações e dava as boas-vindas a toda a companhia que pudesse aparecer, e em seguida dirigiu-se até á porta dos próprios jardins do abade, que ficavam longe do herbário e ainda mais longe da portaria. Naquela altura já Godith terminara a sua instrução da tarde com os noviços e poderia aparecer em qualquer dos pontos situados entre a cabana, o herbário e os portões, portanto era essencial fazer com que Beringar continuasse a concentrar a sua atenção em Cadfael, mesmo que este não fizesse nada de mais excitante do que colher as flores murchas dos roseirais e craveiros do abade. Naquela altura já só ocasionalmente é que Cadfael confirmava que a vigilância aos seus movimentos continuava, e com exemplar paciência. Durante o dia as coisas pareciam decorrer com casualidade, dificilmente se devendo esperar qualquer acção, mas acontece que Cadfael era um oponente manhoso e poderia decidir actuar precisamente quando menos se esperava que ele o fizesse. Mas era depois de a noite cair que as coisas deveriam começar a acontecer.

Nos fins de tarde agradáveis era costume, depois de terminadas as completas, os irmãos fazerem um breve interlúdio de lazer pelo claustro e pelos jardins antes de recolherem ao leito. Nessa altura já estava quase completamente escuro e Cadfael sentia-se satisfeito por saber que Godith já se encontrava longe, onde devia, tendo Torold a seu lado. Mas pensou que se tornava mais aconselhável demorar um pouco mais e seguir para o dormitório com os outros irmãos. Por essa razão, quer ele voltasse a sair pelas escadas da noite que davam para a igreja, ou pela escadaria exterior, quem estivesse de vigia do lado do grande hall que dava para a álea dos hóspedes podia distinguir as suas feições sem problemas.

Escolheu as escadas da noite e a porta aberta da igreja que dava para norte e esgueirou-se, dando a volta ao fundo da capela de Nossa Senhora, que ficava virada para oriente, e à casa do capítulo, de modo a atravessar o pátio em direcção aos jardins. Não havia necessidade de olhar em volta ou de escutar a sua sombra para saber que ele estava ali, movendo-se despreocupadamente, bem afastado, mas mantendo-o constantemente debaixo de vista. A noite estava razoavelmente escura, mas depressa os olhos se habituariam, e ele sabia quão seguramente Beringar podia mover-se no meio da escuridão. Este esperaria que o viajante nocturno atravessasse o ribeiro a vau, tal como tinham feito ao regressarem juntos na noite anterior. Alguém empenhado numa missão secreta não passaria pelo portão guardado, fosse qual fosse a sua autoridade.

Depois de atravessar o ribeiro, Cadfael fez uma pausa para se certificar de que tinha Beringar no seu encalço. As interrupções no ritmo da água eram muito ténues, mas ele deu-se conta delas e ficou satisfeito. Agora havia que seguir o curso do ribeiro daquele lado até este fazer a sua junção com o rio. Aí havia uma pequena ponte para pedestres, e desta até à de pedra que dava para Shrewsbury era apenas um passo. Passada a estrada e a encosta que davam para os jardins principais da abadia, chegara já à sombra da primeira arcada da ponte, de onde podia observar os ténues lampejos de luz que emanavam dos redemoinhos que a água fazia no sítio onde anteriormente estivera ancorado um bote do moinho. Naquele canto, debaixo do pilar de pedra, os arbustos mostravam-se muito densos, fazendo daquele pedaço de terreno inclinado um local tão bizarro que ninguém imaginaria o que podia esconder. Salgueiros de altura média inclinavam-se para a água, varrendo a superfície desta com as suas folhas, e as ervas bravias, que tão densamente se amontoavam debaixo dos seus ramos, facilmente acomodariam meia dúzia de testemunhas.

O bote lá estava, a flutuar, amarrado a um dos ramos pendentes, embora fosse do género leve, que podia ser transportado para terra com facilidade. Daquela vez havia bons motivos para que o tivessem deixado ficar ali e não levado para terra, onde secaria, virado sobre a erva. No interior dele devia estar, Cadfael assim o esperava, um fardo sólido seguramente amarrado dentro de um ou dois sacos do moinho. Não lhe conviria ter sido visto a carregar o que quer que fosse. Esperava até que não restassem dúvidas de que chegara ali de mãos a abanar.

Entrou no bote e desamarrou a corda que o mantinha seguro ao ramo. O saco lá estava, convenientemente pesado, como teve a precaução de verificar. Quando deu o primeiro impulso ao barco com o auxílio do longo remo, orientando-o para o meio da torrente e fazendo-o passar pelo primeiro arco, apercebeu-se de um ligeiro movimento numa sombra mais densa que entretanto se formara na parte de cima dos arbustos, um pouco acima do terreno inclinado.

A coisa decorrera com notável facilidade. Por muito boa vista que Hugh Seringar tivesse, não lhe teria sido possível distinguir tudo o que se passara debaixo daquela ponte, pormenor por pormenor. E por muito sensível que fossem os seus ouvidos, não lhes poderia ter chegado mais que um som sugerindo o raspar de uma corrente com um peso considerável na ponta de encontro à pedra, o barulho de um fardo pesado a sair de dentro da água e, logo a seguir, o ruído da mesma corrente de ferro a ser novamente largada; precisamente o que se passara, excepto que as mãos de Cadfael haviam desacelarado e disfarçado essa descida, de modo a não dar a perceber o facto de que o mesmo peso ainda continuava preso à sua extremidade e que somente o fardo escondido no barco fora rapidamente atirado ao Severn para providenciar o barulho da água na saliência da pedra. A parte seguinte seria mais arriscada, pois não tinha meios para saber se lera correctamente na mente de Seringar.

O Irmão Cadfael estava a arriscar a sua própria vida e a de outros através do julgamento que fazia dos homens.

Até ali, contudo, tudo correra lindamente. Remou esforçadamente, conduzindo o bote ligeiro para terra, e apercebeu-se de que, mais acima, uma sombra se movia rapidamente, retirando-se para terreno mais elevado e, como calculou, tomando lugar perto da estrada, pronta a seguir atrás dele fosse qual fosse o caminho que tomasse. No entanto Cadfael teria apostado, e muito bem, em como ele já calculara qual era o destino seguinte. Voltou a amarrar o bote, rapidamente mas com segurança; a pressa fazia, naquela noite, parte do seu disfarce, do mesmo modo que o secretismo. Quando voltou a trepar cautelosamente até ao caminho que corria mais acima, deixou que a sua figura se recortasse, imóvel, durante um momento, no céu da noite, aguardando ostensivamente até ter a certeza de poder prosseguir sem ser notado. O observador dificilmente deixaria de notar que ele tinha agora consigo o que parecia ser a forma, de contornos toscos, de um saco que transportava pendurado ao ombro.

Caminhou rápida e calmamente, voltando pelo caminho por onde viera, seguindo a corrente do ribeiro que partia do rio depois de o ter passado a vau e embrenhando-se seguidamente pelos campos e bosques que percorrera na companhia de Beringar na noite anterior. Misericordiosamente, o fardo que levava às costas não fora carregado com a totalidade do peso que era suposto representar, embora Torold ou Godith tivessem achado por bem atribuir-lhe um volume e um peso convincentes. Mais do que suficiente, reflectiu Cadfael, pesaroso, para um monge, que já caminhava para a velhice, transportar durante seis quilómetros ou mais. As suas noites vinham a ser implacavelmente encurtadas. Assim que aqueles jovens estivessem longe e em relativa segurança passaria as matinas e os laudes a dormir, assim como, possivelmente, a manhã a seguir à prima, preparando-se para depois fazer as penitências que fossem necessárias à sua redenção.

Agora era tudo uma questão de conjecturas. Teria Beringar tomado como certo o local para onde ele se dirigia agora e regressado demasiado cedo com algum resíduo de suspeita, deitando tudo a perder? Não! Ele não podia ter a certeza de nada que dissesse respeito a Cadfael, não até ele estar bem certo, depois de uma observação pessoal, do local onde aquele fardo ficava guardado em segurança e de ver que Cadfael voltava indiscutivelmente para a abadia sem ele. Mas será que se lembraria de o interceptar no caminho? Não, por que faria isso? Fazê-lo seria carregar ele mesmo com aquele peso, enquanto agora tinha um velho tonto a levá-lo por ele precisamente para o sítio onde tinha os seus cavalos escondidos, prontos a transportá-lo facilmente para qualquer lado.

Cadfael via agora tudo muito claro, pelo lado pior. Se Beringar matara Nicholas Faintree na tentativa de se apossar do tesouro para si, então, agora, o seu objectivo não seria apenas o de levar a cabo o que falhara da outra vez, mas também algo mais para além disso, uma possibilidade que lhe fora revelada somente depois dessa mesma tentativa. Ao deixar que o Irmão Cadfael lhe escondesse os dois cavalos e o tesouro num local vantajoso, assegurara o primeiro fim em vista; mas em adição, se ficava à espera de que Cadfael levasse os fugitivos secretamente para esse mesmo local, como era sua nítida intenção, nessa altura Beringar poderia remover a única testemunha do seu primeiro assassínio e capturar a sua antiga prometida para esta servir como penhor de seu pai. Que trunfo enorme para colocar à disposição do rei Stephen! O posto que ele próprio desejava estaria assegurado, o seu crime para sempre ignorado.

Isso, evidente, no que dizia respeito à pior das hipóteses. Mas o leque de possibilidades era vasto. É que Beringar podia estar totalmente inocente da morte de Faintree, mas muito empenhado no rasto dos valores de FitzAlan, agora que determinara o paradeiro destes. E um monge já velhote podia não fazer parte dos seus planos para enriquecer ou, se preferisse servir os seus interesses de outra maneira, dos seus

 

Nota: Laudes, segunda parte das horas canónicas. (N. da T.)

 

meios para cair nas boas graças do rei. Em qualquer dos casos, Cadfael não sobreviveria muito tempo àquele fardo incómodo que transportava aos ombros, estes já a latejarem dolorosamente, para a granja onde os cavalos estavam abrigados. ”Bem”, pensou Cadfael, mais animado do que esmorecido, ”veremos!”

Assim que chegou aos bosques que se espraiavam a seguir à curva do ribeiro, parou e deixou cair o fardo com um sonoro murmúrio de alívio, sentando-se sobre ele, ostensivamente para descansar, mas, na verdade, para ouvir os ténues sons de outro homem que se detinha numa atitude tensa, não descontraída. Eram quase imperceptíveis, mas não o suficiente para que não os captasse, o que o deixou satisfeito. O jovem encontrava-se ali, em óptima forma, sereno, um aventureiro nato. Imaginou o rosto mergulhado na sombra, divertido, saturnino, pronto a soltar uma boa gargalhada. Naquele momento já se sentia razoavelmente seguro da evolução que os acontecimentos iriam tomar até ao fim da noite. Com um pouco de sorte melhor, com a bênção de Deus!, emendou estaria de volta a tempo de assistir ás matinas.

Quando chegou á granja não se viam luzes, mas o barulho dos seus passos foi quanto bastou para que o Irmão Louis saísse do edifício com uma pequena tocha acesa numa das mãos e o seu punhal na outra, tão perigosamente acordado como o estaria ao meio-dia, e ainda mais alerta.

Deus te abençoe, Irmão disse Cadfael, tirando o peso dos ombros com alívio. Teria de ter uma conversinha com o jovem Torold da próxima vez que se encontrassem! Alguém ou algo que não os seus ombros que carregassem o fardo da próxima vez. Deixa-me entrar e fecha a porta.

Com todo o gosto! exclamou o Irmão Louis, conduzindo-o até ao interior e fazendo o que lhe fora pedido.

No caminho, não se escoara ainda um quarto de hora, o Irmão Cadfael manteve os ouvidos bem atentos, mas não se apercebeu de ninguém que o seguisse ou acompanhasse, portanto de nada que o pudesse ameaçar. Hugh Beringar vira-o entrar na granja, ficara provavelmente no seu esconderijo à espera de o ver sair sem o seu fardo e em seguida desaparecera na noite com que se identificava, voltando rápida e alegremente para a abadia. Cadfael abandonou todas as precauções e fez o mesmo. Estava certo, agora, do terreno que pisava. Quando o sino tocasse para as matinas, estaria pronto a sair do dormitório juntamente com os seus companheiros, descendo devotamente as escadas da noite a fim de assistir aos serviços religiosos da igreja.

 

Ainda a aurora não tinha raiado na manhã daquela segunda-feira de Agosto quando os oficiais do rei começaram a organizar pequenos grupos para fechar todas as estradas que conduziam para fora de Shrewsbury, ao mesmo tempo que, dentro das muralhas da cidade, outros se preparavam para percorrer metodicamente as ruas, revistando todas as casas. Pairava no ar algo mais do que a requisição de cavalos e provisões, embora fosse coisa certamente feita ao mesmo tempo e de forma rigorosa.

Tudo indica que a rapariga está escondida algures por aqui perto insistira Prestcote ao apresentar-se ao rei depois dos inquéritos intensivos levados a cabo na área. Sabe-se que o único cavalo que encontrámos à solta pertencia às cavalariças de FitzAlan e que o jovem perseguido até ao Severn tinha com certeza um companheiro que ainda não foi encontrado em parte alguma. Deixada sozinha, não pode ter ido longe. Todos os vossos conselheiros são de opinião de que Vossa Majestade não se pode dar ao luxo de permitir que a possibilidade da sua captura se perca. Adeney voltaria certamente para a resgatar, não tem mais nenhuma filha. É até possível que FitzAlan se visse forçado a regressar, em vez de enfrentar a vergonha de a deixar morrer.

Morrer? repetiu o rei, arrepiando-se agoirentamente. Parece-vos então que eu era capaz de tirar a vida à rapariga? Quem é que falou na sua morte?

Vendo a questão do lado de cá disse Prestcote secamente poderia parecer um absurdo falar em semelhante coisa, mas para o pai ansioso que aguarda melhores notícias talvez isso não fosse de todo impossível de prever. Claro que não faríeis mal algum à rapariga. Nem sequer tendes necessidade de molestar seu pai se chegardes a deitar-lhe a mão, ou mesmo a FitzAlan. Mas Vossa Majestade deve considerar que tudo deve ser feito para obstar a que os serviços de ambos cheguem à imperatriz. Já não se trata de uma questão de vingança por Shrewsbury mas, muito simplesmente, de uma medida sensata para conservardes as vossas próprias forças e enfraquecerdes as do inimigo.

O que dizeis não deixa de ser verdade admitiu Stephen, sem grande entusiasmo. Todo o seu furor inicial se diluíra já no carácter bonacheirão do seu temperamento, para não dizer na sua preguiça. Nem sequer estou muito certo de querer fazer tal uso da rapariga.

Lembrava-se de ter ordenado ao jovem Hugh Beringar que descobrisse o paradeiro da noiva sua prometida se queria passar a gozar dos favores reais, e este, embora tivesse vindo apresentar-se-lhe respeitosamente desde então, apesar de um tudo nada esporadicamente, ainda não dera mostras de qualquer sinal de zelo na sua busca. ”Possivelmente”, pensou o rei, ”leu melhor na minha mente do que eu próprio o fiz na altura.”

Ela não precisa de ser molestada, e Vossa Majestade não teria de se envolver em alguma possível contenda com algumas forças ligadas à bandeira do pai, se não mesmo á do seu senhor. Se puderdes cortar pela raiz todas as possibilidades de o inimigo se reorganizar para a guerra, tereis salvo a vossa real pessoa de grandes trabalhos e poupareis muitas vidas entre os vossos homens. Não podeis negligenciar semelhante oportunidade.

Era um bom conselho e o rei não o ignorava. As armas estão onde as encontramos, e Adeney, uma vez a salvo depois de capturado, bem poderia ficar a consumir-se de impaciência num aprisionamento que não lhe fosse excessivamente pesado.

Muito bem! disse. Procedei à vossa busca e fazei-a bem rigorosa.

Os preparativos foram, sem dúvida, rigorosos. Adam Courcelle desceu á Abadia Foregate comandando pessoalmente uma companhia de flamengos. E enquanto Willem Ten Heyt ia à frente e montava um posto de guarda em St. Giles, interrogando todos os passantes e revistando quantas viaturas tentavam sair da cidade, e o seu tenente colocava sentinelas ao longo de todos os caminhos e possíveis locais de travessia existentes no rio, Courcelle tomava posse, com civilidade mas bruscamente, do portão da entrada da abadia e mandava-o fechar a todas as tentativas de entrada ou saída. Faltavam nessa altura cerca de vinte minutos para a prima e já o dia nascera completamente. Houvera muito pouco ruído, mas o prior Robert apercebera-se, do dormitório, de uma movimentação que não era habitual e de um alvoroço na portaria, pois a janela do seu quarto deitava para o lado desta. Isso levou-o a sair apressadamente a fim de ver o que se estava a passar. Courcelle fez-lhe uma reverência que não enganava ninguém e solicitou respeitosamente privilégios que todos sabiam poder tomar pela força; contudo, o véu da cortesia logrou aplacar a indignação do prior.

Senhor, fui ordenado por Sua Majestade, o rei Stephen, para requerer da vossa casa entrada livre e ordeira em todos os recintos, uma

dízima sobre os vossos mantimentos para o necessário aprovisionamento de Sua Majestade e todos os cavalos prestáveis que ainda não estejam a uso das pessoas que fazem parte da comissão do rei. Também trago ordens para interrogar todos os que aqui se encontram sobre uma rapariga de nome Godith, filha de Fulke Adeney, traidor de Sua Majestade, que se pensa estar ainda escondida aqui em Shrewsbury.

O prior Robert ergueu os sobrolhos delgados, onde os fios prateados abundavam, e lançou-lhe um olhar por cima do longo e aristocrático nariz.

Com certeza não esperais encontrar tal pessoa no interior da nossa casa, pois não? Asseguro-vos que a mesma não se encontra na casa de hóspedes, único local onde poderia estar.

Trata-se apenas de uma formalidade, garanto-vos disse Courcelle, mas tenho as minhas ordens e não está na minha mão tratar uma residência mais favoravelmente do que outra.

Naquela altura já ali estavam irmãos leigos de ouvido atento e em silêncio, e um ou dois rapazes-pupilos, de olhos sonolentos e assustados. O mestre dos noviços veio reunir as ovelhas tresmalhadas do seu rebanho para as levar de volta ao alojamento, mas em vez disso ficou também ele próprio a ouvir.

O facto deverá ser imediatamente relatado ao abade disse o prior com admirável compostura, encaminhando-se de imediato para as dependências do abade Heribert. Nas suas costas, os flamengos fechavam os portões e montavam guarda, antes de fazerem incidir as suas atenções nos celeiros e nas cavalariças.

O Irmão Cadfael, que já por duas noites tirava várias horas ao descanso, dormiu profundamente durante as primeiras manifestações de invasão, acordando apenas quando o sino tocou para a prima, demasiado tarde já para fazer outra coisa que não fosse vestir-se à pressa e descer com os outros irmãos para a igreja. Só quando lhe chegaram aos ouvidos os sussurros que passavam de homem em homem e viu os portões fechados, os flamengos que dali não arredavam pé e os rapazes intimidados e de olhos muito abertos e ouviu o barulho da azáfama e dos cascos dos animais no pátio da cavalariça, é que se deu conta de que, daquela vez, os acontecimentos tinham-no ultrapassado, arrancando-lhe a iniciativa das mãos. É que não conseguia ver em lado algum sinais de Godith, nem sequer entre os assustados e ansiosos jovens que estavam reunidos na igreja. Assim que a prima terminou e ele pôde ausentar-se, apressou-se em direcção à cabana e ao herbário. A porta tinha o trinco aberto e estava escancarada, o conjunto das ervas a secar, os almofarizes e os frascos continuavam impecavelmente ordenados, os cobertores tinham sido arrumados, depois de retirados da cama de madeira, e sobre esta via-se um cesto de lavanda acabada de apanhar e um ou dois frascos inocentemente dispostos a seu lado. De Godith não se vislumbravam sinais nem na cabana nem nos jardins ou nas plantações de ervilhas que se estendiam ao longo do ribeiro e onde, num dos lados, o grande amontoado de hastes secas e avermelhadas como cera jazia, á espera de ser levado dali para se ir juntar à forragem armazenada nos celeiros. Tão-pouco se viam vestígios de qualquer volume protegido por um saco e provavelmente ainda húmido da água do rio infiltrada, que era quase certo ter passado a noite debaixo daquele alvo pilar, ou o pequeno bote que deveria estar virado para baixo e cuidadosamente coberto. O barco, o tesouro de FitzAlan e Godith tinham-se, muito simplesmente, desvanecido no ar.

Godith acordara um pouco antes da prima, desassossegada e ciente da pesada responsabilidade que agora recaía sobre os seus ombros, e saíra da cabana, descobrindo então, não sem alarme, o que se estava a passar na portaria. Embora tivesse sido feito com rapidez e calma, algo pairava no ar e nas vozes dos irmãos, naquele momento desprovidas da decorosa calma monástica que lhes era habitual, que a perturbou. Estava prestes a sair de detrás dos jardins murados quando viu os flamengos a desmontar e a fechar os portões, ao mesmo tempo que Courcelle se adiantava em direcção ao prior. Franziu as sobrancelhas ao chegarlhe o som do próprio nome assim tão friamente mencionado. Se eles se propunham levar a cabo uma busca meticulosa, até mesmo ali, era mais que certo que a encontrariam. Interrogada juntamente com os outros rapazes, tendo tantos olhos inimigos pousados sobre ela, não poderia com certeza manter a representação. E se eles a descobrissem, poderiam ampliar as buscas e descobrir o que ela tinha a seu cargo. Além disso, havia o Irmão Cadfael para proteger, e Torold. Este regressara fielmente ao seu moinho depois de a acompanhar até casa com o tesouro. A noite passada ela quase desejara que ele tivesse ficado na sua companhia, mas agora estava satisfeita por ela ter toda a extensão do Gaye entre si e aquele alarme matutino, bosques não muito longe das suas costas e sentidos agudos que rapidamente se aperceberiam dos indícios, proporcionando-lhe o devido aviso para desaparecer.

A noite anterior fora como um sonho feliz e aventuroso, por alguma razão inexplicavelmente doce, as respirações de ambos suspensas, em abrigo seguro, até Cadfael estar bem afastado da ponte. Em seguida tinham desprendido o pequeno bote, retirado de dentro dele os alforges gotejantes, enfiando-os depois em sacos secos para deles fazerem, finalmente, outro fardo semelhante àquele que Cadfael levaria consigo; as suas mãos tinham estado juntas manuseando a corrente, mantendo-a afastada da pedra de modo a não produzir qualquer som, logo a seguir remando um pouco corrente acima em direcção ao ribeiro e rodeando as plantações de ervilhas. A seguir também tinham escondido o barco, a conselho de Cadfael, pois necessitariam dele na noite seguinte, se tudo corresse bem. A aventura da noite anterior fora o sonho, aquela manhã era o despertar, e ela precisava do barco agora, naquele momento.

Não havia esperança de poder chegar junto do Irmão Cadfael para receber indicações, o que estava na sua posse tinha de ser imediatamente afastado dali, e isso não podia, certamente, ser feito através dos portões. Não havia ninguém para lhe dizer o que devia fazer, tinha de arcar sozinha com toda a responsabilidade. Felizmente os flamengos não tencionavam passar revista aos jardins antes de saquearem cavalariças, celeiros e armazéns; ainda lhe sobrava algum tempo.

Regressou rapidamente á cabana, dobrou os cobertores e escondeu-os debaixo do banco, atrás de uma fila de potes e almofarizes, arrumou a cama, atribuindo-lhe a aparência enganadora de simples bancada para outros tantos objectos do mesmo género, e deixou a porta bem escancarada à inocente luz do dia. Depois esgueirou-se até ao amontoado de hastes e retirou o bote do seu esconderijo, assim como o fardo que estava junto deste. Deus permitira que o suave declive do campo estivesse tão escorregadio com as hastes segadas e que o barco fosse tão leve que o puxou para baixo com facilidade, em direcção ao ribeiro. Deixou-o ancorado na margem e voltou para arrastar o tesouro consigo, içando-o depois para dentro dele. Nunca, até à noite anterior, ela estivera em barcos daquele tipo, mas Torold ensinara-lhe a manejar os remos, e a corrente contínua do ribeiro ajudou-a.

Já sabia o que tinha a fazer. Se seguisse ribeiro abaixo em direcção ao Severn, não tinha qualquer hipótese de passar despercebida; numa busca daquela envergadura não deixariam de colocar observadores na estrada principal, na ponte e, provavelmente, ao longo das margens do rio. Mas a curta distância do local de onde se fizera á água havia um canal largo que se estendia para a direita, em direcção ao moinho mais importante da abadia, onde a roda puxava a água para o tanque e para o viveiro de peixes, fazendo-a depois sair para a corrente principal do ribeiro, de onde seguiria para o rio. Mesmo a seguir ao moinho ficavam enfileiradas as três casas de hóspedes da abadia, rodeadas de pequenos jardins que iam dar á água, e três outras, de utilização idêntica, que protegiam o tanque da vista de quem se encontrasse do lado oposto. A que ficava logo a seguir ao moinho era a que fora atribuída para o uso de Aline Siward. É certo que Courcelle afirmava ir passar tudo a pente fino em busca da sua fugitiva; mas se havia local naquele recinto conventual que não receberia mais de uma visita formal da sua parte, esse local seria, sem dúvida, a casa onde Aline estava a viver.

”Que importância tem que estejamos em lados opostos”, pensava Godith, manejando os remos com falta de prática, mas grande determinação, indo desembocar em águas mais vastas e fáceis de navegar, ”ela não me parece pessoa capaz de me atirar às feras, não, com um rosto daqueles! E será que pertencemos mesmo a facções contrárias? Ela coloca tudo o que possui ao serviço do rei, e este enforca-lhe o irmão! Meu pai arrisca a vida e as terras pela imperatriz, e eu não acredito que ela se preocupe com o que lhe possa acontecer a ele ou aos que são como ele, desde que consiga levar os seus interesses avante. Tenho a certeza de que o irmão de Aline era mais importante para ela do que o rei Stephen alguma vez o poderá ser, e também sei que tenho muito mais cuidados pelo meu pai e por Torold do que pela imperatriz Maud. Só gostava que o filho do velho rei não tivesse morrido afogado naquele navio, para que não se tivessem desencadeado discussões sobre quem devia ascender ao trono e tanto Stephen como Maud pudessem ter ficado nas respectivas mansões, deixando-nos em paz!”

O moinho surgiu á sua direita, mas naquele dia a mó estava imóvel e a água do canal caia livremente no açude que se abria mais atrás, de onde lentas contracorrentes fluíam, voltando ao ribeiro. Naquela zona a margem era íngreme, tendo uns dois metros de altura, de modo a nivelar-se o mais possível com o terreno onde ficavam os jardins; mas ela estava convencida de que se conseguisse içar o fardo até terra firme também era capaz de puxar o barco, tirando-o da água. Reparou na raiz nua e saliente de um salgueiro que crescia à beira da corrente e apressou-se a amarrar nela a corda do bote, antes de se atrever a tentar puxar o seu tesouro até acima, onde principiava a erva. Era demasiado pesado para as suas forças mas conseguiu rolá-lo para cima do banco do remador, passando-o depois dali para os seus braços. Logrou alcançar o começo do relvado da margem sem inclinar excessivamente o barco. O peso estabilizou e Godith descansou os braços, ladeando-o gratamente e sentindo pela primeira vez que lhe rolavam lágrimas pelas faces.

”Porquê?”, interrogou-se revoltada. ”Por que é que estou com todos estes trabalhos por causa deste fardo absurdo quando tudo o que me preocupa é Torold e meu pai? E o Irmão Cadfael! Não estaria a corresponder aos seus desejos se atirasse o fardo para o açude e o deixasse ali ficar. Passei por toda a espécie de dificuldades para chegar a este ponto e agora não me resta outra solução senão a de prosseguir a tarefa. E Torold está muito empenhado em levar até ao fim a missão de que o incumbiram. Isto não é apenas ouro. Não é este fardo o que importa!”

Passou uma mão suja e impaciente pelas faces e pelos olhos e resolveu-se a subir para terra, o que se mostrou ser complicado, pois o barco tendia a afastar-se da margem de cada vez que tentava tomar impulso com os pés; mas quando, finalmente, logrou encontrar-se em segurança, suando em vez de chorar, não foi capaz de levantar o barco até ela com receio de o danificar nas raízes salientes. Teria de o puxar dali. Deitou-se de barriga no chão e encurtou a amarra, certificando-se de que o nó ficava bem feito. Em seguida arrastou o detestado fardo até à casa, a cuja porta bateu.

Foi Constance quem veio abrir. Ainda não eram oito da manhã, reparou Godith, e Aline tinha o hábito de ir à missa das dez, portanto ainda nem sequer devia estar levantada. Mas, segundo parecia, a inquietude geral que se fazia sentir na abadia também já chegara àquele local retirado, pois Aline estava a pé e vestida, surgindo imediatamente atrás da criada.

Que se passa. Constance? perguntou, mas ao ver Godith, toda suja, desgrenhada e ofegante, inclinada sobre um enorme saco cheio não sabia de quê, que entretanto depositara no chão, aproximou-se inocentemente preocupada. Godric! Que aconteceu? Foi o Irmão Cadfael que vos enviou? Há algum problema?

Conheceis o rapaz, senhora? inquiriu Constance, surpreendida.

Sim, já tínhamos falado, é o ajudante do Irmão Cadfael.

Mirou rápida e compreensivamente Godith dos pés à cabeça, reparou nos sulcos que as lágrimas lhe tinham aberto por entre a sujidade e na respiração entrecortada e afastou rapidamente a criada. Sabia reconhecer o desespero quando o presenciava, mesmo que este não fosse voluntariamente assumido.

Vinde para dentro, entrai! Vá, deixai-me ajudar-vos com esse vosso fardo, seja ele o que for. Agora fecha a porta, Constance!

Encontravam-se a salvo dentro da casa, rodeavam-nas paredes de madeira, o sol da manhã entrava, quente e brilhante, por uma janela que se abria para leste.

Ficaram a olhar uma para a outra. Aline, toda ela muito feminina no seu vestido azul, o cabelo dourado caindo-lhe solto e envolvendo-a como uma nuvem, Godith, queimada pelo sol, amarrotada e indevidamente trajada com uma túnica excessivamente larga e uns calções enormes, o cabelo cortado curto muito desgrenhado e o rosto manchado por uma amálgama de terra, erva e suor.

Venho pedir-vos abrigo limitou-se a dizer Godith. Os soldados do rei andam atrás de mim. Valho muito para eles, se me encontrarem. Não me chamo Godric. Sou Godith Adeney, filha de Fulke Adeney.

Aline, estupefacta e comovida, reparou então melhor na face suavemente modelada em oval e nos membros esbeltos que a roupa encardida cobria parcialmente. Voltou a observar o rosto desafiador e determinado e o seu olhar brilhou.

É melhor virdes para aqui disse sem hesitação, lançando um olhar para a janela aberta, para o meu quarto de dormir, que fica longe da estrada. Ninguém vos virá incomodar e podemos falar à vontade. Sim, trazei os vossos pertences, ajudar-vos-ei a transportá-los.

O tesouro de FitzAlan foi então levado, pela mão das duas mulheres, para o quarto dos fundos, onde nem mesmo Courcelle, e certamente nenhum outro, ousaria entrar. Aline fechou suavemente a porta. Godith sentou-se num banco que se encontrava ao lado da cama e sentiu que as forças começavam a faltar-lhe no seu extremo cansaço. Inclinou a cabeça de encontro à parede e ergueu os olhos para Aline.

Dais-vos conta, senhora, de que sou tida como inimiga do rei? Não é minha intenção enganar-vos no que quer que seja. Podeis pensar ser vosso dever entregar-me.

Sois muito honesta disse Aline e não me sinto enganada em coisa alguma. Nem mesmo sei se o rei ficaria a pensar muito bem da minha pessoa se vos entregasse, mas o certo é que Deus não o ficaria e a minha consciência também não. Podeis descansar em sossego nestes aposentos. Constance e eu velaremos para que ninguém vos venha incomodar.

O Irmão Cadfael conseguiu manter um rosto tranquilo durante toda a prima, a primeira missa conventual e um capítulo consideravelmente abreviado, ao mesmo tempo que, fazendo estalar os nós dos dedos, se martirizava mentalmente pela inexplicável complacência que o deixara dormir enquanto os poderes contrários desencadeavam uma marcha contra ele. Os portões tinham sido completamente fechados, não havia hipótese de sair ou entrar por eles. Ele não podia passar e certamente não fora aquele o caminho que Godith tomara. Não avistara soldados do outro lado do ribeiro, embora fosse quase certo que estivessem a vigiar as margens do rio. Se Godith tivesse ido de barco, para onde se dirigiria ela com o mesmo? Não corrente acima, onde o ribeiro se espraiava em campo aberto durante uma boa extensão, passando depois por um leito demasiado irregular e pedregoso para acomodar semelhante transporte. Esperava a todo o momento o grito de alerta que assinalaria a sua captura, mas cada minuto que passava sem que isso sucedesse fazia-o ficar mais descontraído. Ela não era nenhuma tola e tudo indicava que se afastara, só o céu sabia para onde, com o tesouro que eles tentavam conservar para depois enviar rapidamente para o destino que lhe competia.

Na capela, o abade Heribert procedeu a uma curta, enfastiada e desiludida intervenção, onde explicou os motivos da ocupação que se abatera sobre eles, instruindo os irmãos no sentido de obedecerem com dignidade e coragem a todas as ordens que lhes fossem dadas pelos oficiais do rei e de cumprirem as suas tarefas diárias com a fidelidade que lhes fosse permitida. Ser privado dos bens deste mundo só poderia ser encarado como um acto de disciplina bem-vindo para aqueles que tivessem aspirado a algo superior a esse mesmo mundo. O Irmão Cadfael podia, pelo menos, esperar alguma complacência no que se referia aos próprios produtos particulares que cultivava; era pouco provável que o rei solicitasse uma parcela das suas ervas e remédios, embora pudesse aceitar com agrado um ou dois barris de vinho. Finalmente o abade deu-lhes permissão para que se retirassem, com a recomendação de que fossem dedicar-se calmamente ás suas tarefas até chegar a missa das onze.

O Irmão Cadfael regressou aos jardins e tentou distrair-se executando pequenos trabalhos com que deparava, com a mente completamente ausente do que estava a fazer. Godith podia ter passado em segurança o ribeiro a vau em plena luz do dia e tomado o rumo da faixa de bosque mais próxima, mas o que não podia ter feito era carregar o pesado fardo do tesouro com ela, era demasiado para as suas forças. Preferiria antes fazer desaparecer quaisquer sinais de actividades irregulares naquele local, levando com ela tanto o tesouro como o bote. Tinha a certeza de que não passara do ponto de confluência com o rio, ou já teria sido capturada. Cada momento que passava sem más novas providenciava-lhe um pouco mais de confiança. Mas onde quer que ela se encontrasse necessitava de ajuda.

E também havia Torold, do outro lado dos campos segados, no moinho parado. Teria ele compreendido a tempo o significado daquela movimentação e fugido para os bosques? Cadfael esperava fervorosamente que sim. Entretanto nada mais podia fazer do que esperar e manter-se firme. Mas se aquela busca terminasse antes do fim do dia e ele pudesse recolher os seus dois fugitivos depois do anoitecer pô-los-ia naquela mesma noite a caminho do Ocidente. Aquela até talvez fosse a oportunidade mais favorável, os arredores já passados a pente fino, os investigadores fatigados e satisfeitos por poderem abandonar a sua vigilância, a comunidade totalmente absorvida nas suas preocupações e na verificação dos bens confiscados pelo exército, os irmãos devotamente ocupados a darem graças a Deus por aquela provação ter já chegado ao fim.

Cadfael dirigiu-se ao pátio principal na altura em que a missa ia começar. Viam-se carroças do exército a serem carregadas com sacos de cereais retirados dos celeiros, os flamengos movimentavam-se com grande azáfama no interior das cavalariças. Hóspedes desconcertados, ali apanhados a meio das suas viajens com cavalos de boa qualidade, saíram para ali em grande agitação para discutirem e implorarem pelos seus animais, o que não lhes servia de nada, com excepção dos casos em que os donos pudessem provar que os mesmos se encontravam já ao serviço do rei. Somente os velhos sendeiros eram poupados. Uma das carroças da abadia também foi tomada, juntamente com a sua parelha, e em seguida carregada com o trigo da casa.

Cadfael reparou que algo de estranho se estava a passar à entrada. As enormes portas encontravam-se encerradas e com guarda montada às mesmas, mas alguém tivera a calma temeridade de bater à portinhola a pedir entrada. Como podia tratar-se de algum dos deles, um mensageiro do posto da guarda de St. Giles ou do acampamento real, abriram a dita. Na pequena abertura apareceu a figura reservada de Aline Siward, de missal na mão, o cabelo dourado decentemente coberto pelo capuz do manto branco que costumava usar de manhã.

Tenho permissão disse docemente para ir à igreja.

E vendo que os guardas a quem se dirigia não entendiam inglês, repetiu as palavras em francês, de modo igualmente amigável. Não se mostravam dispostos a deixá-la entrar e estavam quase a fechar a portinhola quando um dos oficiais que observava a cena de longe se apressou naquela direcção.

Tenho permissão repetiu Aline pacientemente de Adam Courcelle para vir à missa. Chamo-me Aline Siward. Se tendes dúvidas, ide perguntar-lhe.

Parecia que ela tinha mesmo aquele privilégio assegurado, pois, após algumas palavras apressadas, as portas foram abertas a fim de a deixarem passar. Aline caminhou por entre o tumulto que se desenrolava no pátio como se nada de extraordinário estivesse a decorrer, dirigiu-se para o claustro e, em seguida, para a porta sul da igreja. Mas aí chegada abrandou o passo, pois apercebera-se de que o Irmão Cadfael abria caminho por entre os soldados grosseiros e os viajantes pesarosos, de modo a chegar junto dela, o que sucedeu já à entrada da igreja. Aline dirigiu-lhe um tranquilo cumprimento público, mas assim que puderam aproximar-se um pouco mais um do outro de modo a ninguém os ouvir disse em voz baixa e reservada:

Sossegai, Godric encontra-se a salvo na minha casa.

Deus seja louvado e vós também! suspirou Cadfael de forma igualmente suave. Depois de escurecer irei buscá-la. E apesar de Aline ter utilizado o nome ”Godric”, ele percebeu pelo seu breve e discreto sorriso que a palavra ”buscá-la” não a tinha surpreeendido.

O barco? inquiriu ele num sussurro.

Ao fundo do meu jardim, preparado.

Ela entrou na igreja e Cadfael, com o coração subitamente leve como a lanugem do cardo, seguiu caminho a fim de tomar, decorosamente, o seu lugar no meio da fila dos irmãos.

Ao fundo do bosque que dava para a parte leste do castelo de Shrewsbury, Torold estava sentado entre os galhos de uma árvore, comendo os restos de pão que trouxera com ele e algumas maçãs ainda verdes roubadas de uma árvore dos limites da propriedade da abadia. Ao estender a vista para ocidente, por cima do rio, podia ver não só o grande vulto formado pelas muralhas e os torreões do castelo como também, um pouco mais à direita, mal se divisando por entre a ramagem das árvores, as tendas do acampamento real. Pelo número de pessoas que se movimentavam junto da abadia e da cidade, o campo em si devia encontrar-se quase vazio naquele momento.

O corpo de Torold estava a reagir bastante bem à crise súbita que o acometera, para sua satisfação e também, não podia deixar de o admitir, sua surpresa. Já a sua mente sofria um pouco mais. Ainda não caminhara até muito longe nem se esforçara especialmente, com excepção da subida àquela árvore confortável e de folhagem densa, mas sentia-se deliciado com a reacção que estava a obter dos seus músculos magoados, da cicatriz do ferimento da coxa, que mal o incomodava, e da ferida bem mais grave do ombro, que, no entanto, nem lhe anulara nem diminuíra o uso do braço. Mas o que lhe interessava realmente era Godith, o irmãozinho tão subitamente transformado num ser metade amiga íntima, metade algo mais que isso. Tinha confiança no Irmão Cadfael, evidentemente, mas era impossível que um par de ombros votados ao claustro, por muito largos e protectores que fossem, aguentassem com toda a responsabilidade que Godith representava. Torold impacientava-se e morria de angústia, no entanto, continuava a comer as maçãs roubadas. Ia precisar de todas as forças que pudesse arranjar.

Havia uma patrulha a percorrer metodicamente a margem do Severn, entre o sítio onde ele se encontrava e o rio, e ele não se atrevia a mover-se até esta ter passado e desaparecido em direcção à abadia e à ponte. E até que ponto dos arrabaldes da cidade ele teria de ir, rompendo o cordão montado pelo rei, era algo que ainda não sabia dizer.

Acordara com os inconfundíveis sons que lhe chegavam da ponte, transportados pela água, suficientemente insistentes no seu ritmo para lhe interromperem o sono. Eram muitos, muitos homens, montados e a pé, marcando a sua presença e a sua passagem sobre a ponte recurva que atravessava a água de margem a margem, com a combinação de tudo aquilo enviando ecos rio abaixo, através das suas águas. A madeira de que o moinho fora construído, os canais de água que o alimentavam, transportaram-lhe para os ouvidos o conhecimento do que se estava a passar. Levantara-se rapidamente e vestira-se a mando do instinto, reunindo tudo o que pudesse trair a sua presença no local, antes de se aventurar a sair para ver. Vira as companhias a espalharem-se depois da ponte e não ficara à espera de mais nada, pois não tinha dúvidas de que aquela operação ia ser tremendamente meticulosa. Apagara todos os traços da sua permanência no moinho, atirando para o rio tudo o que não podia transportar consigo, e em seguida esgueirara-se pelo fundo dos terrenos da abadia, afastando-se da patrulha que avançava pela margem do rio, e correra para a orla dos bosques que ficavam do lado oposto ao castelo.

Ele não sabia para quem ou porquê aquela grandiosa caçada fora organizada, mas não tinha dúvidas de quem tinha possibilidades de ser apanhado nela e o seu único objectivo naquele momento era o de encontrar Godith, estivesse ela onde estivesse, e colocar-se, caso lhe fosse possível, entre esta e o perigo. O melhor seria ainda levá-la para longe, para terras da Normandia, onde estaria a salvo.

Ao longo da margem do rio, a patrulha dispersou para bater a área coberta de arbustos onde, pela primeira vez, Godith o vira. Tinham já revistado o moinho abandonado, mas graças a Deus não haviam encontrado ali quaisquer vestígios. Agora que estavam quase fora do seu campo de visão, sentiu-se suficientemente seguro para saltar com cautela da sua árvore e penetrar ainda mais profundamente na cintura do bosque. Tinha de se manter bem afastado da ponte, de St. Giles e da estrada real que ia dar a Londres, toda ela cheia de lojas e casas de habitação. Seria melhor continuar para leste e atravessar a estrada um pouco depois de St. Giles ou aguardar e voltar pelo moinho por onde viera depois de todo o tumulto terminar? O problema residia no facto de ele não conseguir decidir-se pelo que devia fazer e de as suas preocupações em relação a Godith seram algo que ele não queria prolongar. O mais certo era ter de ir para além de St. Giles, antes de se atrever a atravessar a estrada, e embora o ribeiro, depois disso, não constituísse obstáculo, a aproximação do local oposto aos jardins da abadia continuaria a ser perigosa. Poderia arranjar um esconderijo próximo, de onde ficasse à espreita, e dirigir-se sorrateiramente até ao sítio onde as hastes de ervilhas se acumulavam, assim que aparecesse uma oportunidade, e daí, se tudo permanecesse calmo, para o herbário, onde ele nunca estivera, e para a cama onde Godith dormira as últimas sete noites em santuário. Sim, o mais indicado era seguir em frente e fazer esse círculo. Retroceder significava defrontar a extremidade da ponte, onde os soldados permaneceriam até ao cair da noite, e nunca se sabe se durante a própria noite.

O plano revelou-se profundamente entediante para quem, como ele, ansiava por acção imediata. A súbita acometida trouxera todos os habitantes para fora de suas casas num desassossego assustado e indignado, e Torold teve de ter muito cuidado para não ser notado em semelhantes condições, pois era um jovem que não conhecia ninguém e encontrava-se num local onde todos os vizinhos constituíam uma grande família e onde qualquer estranho seria imediatamente denunciado com alarme. Várias vezes se viu obrigado a esconder-se apressadamente e assim permanecer até o perigo ter passado. Aqueles que viviam perto da estrada e tinham sofrido os efeitos da primeira onda de choque tinham tendência para se afastar e procurar refúgio em qualquer local deserto que ficasse ali próximo. Aqueles que viviam da criação de gado e do cultivo da terra, já mais afastados da estrada, ouviram o fragor e gravitavam suficientemente perto do local onde os acontecimentos decorriam para satisfazer a sua curiosidade. Apanhado entre estas duas correntes, Torold passou um dia miserável a atormentar-se e a esconder-se; mas isso levou-o finalmente para bem longe do brutal e rigoroso posto de guarda comandado por Willem Ten Heyt, o qual já tinha, nesse momento, tomado posse de uma enorme quantidade de bens confiscados a viajantes agitados e de uma dúzia de belos cavalos. As casas da cidade terminavam ali, local onde principiavam os campos e as aldeias. O tráfego na estrada, oitocentos metros para além do posto, era diminuto e fácil de evitar. Torold atravessou-a, finalmente, atirando-se depois para o chão, uma vez mais, a fim de se abrigar atrás de um aglomerado de arbustos situado acima do ribeiro, analisando o que o rodeava.

A partir dali, o ribeiro corria a par com um outro curso de água, este transportado pelo canal do moinho, que, algures ao cimo da corrente, conduzia a alguma espécie de reservatório. A superfície prateada de ambos era visível a seus olhos, sob um Sol que começava já a declinar para ocidente. Deviam ser quase horas de as vésperas principiarem. Por certo o rei Stephen terminara já a sua investida contra a abadia, pois ainda tinha toda Shrewsbury para saquear.

Naquele ponto o vale era estreito e inclinado e ninguém fizera ali construções, tendo a erva sido destinada ao pastoreio. Torold desceu pelo declive, transpondo facilmente o canal de um salto, e em seguida atravessou o ribeiro de pedra em pedra. Começou a avançar paralelamente à corrente, saltando de abrigo em abrigo, até que, por altura das vésperas, já tinha alcançado os prados lisos que se estendiam antes do começo das fartas plantações de ervilhas do Irmão Cadfael. No solo era demasiado exposto, teve de retroceder um pouco, afastando-se do ribeiro, a fim de encontrar um matagal de onde, abrigado, pudesse observar o caminho mais adiante. Dali via os telhados dos edifícios do convento, a assomarem por cima dos muros do jardim, e a torre mais elevada da igreja, assim como o telhado desta, mas nada do que se passava no interior do recinto. O panorama que se apresentava parecia razoavelmente tranquilo, a vertente clara despida da sua colheita, o amontoado de hastes onde ele e Godith tinham escondido o barco e o tesouro.

Ainda não tinham passado dezanove horas, mais adiante a parede rústica que circundava o jardim, e a cobertura inclinada de um celeiro. Ele teria de esperar ainda um pouco até a noite começar a aproximar-se, caso contrário arriscava-se a ter de, à primeira oportunidade, correr o mais que pudesse através do ribeiro e em seguida até ao monte de palha que ficava do outro lado. E por ali passava, de vez em quando, gente que ia à sua vida, um pastor que apressava o seu rebanho de volta a casa, vindo das pastagens, uma mulher que regressava dos bosques com cogumelos, duas crianças conduzindo gansos. Ele poderia perfeitamente ter passado por todos eles em passo tranquilo, cumprimentando-os, sem que isso o pusesse em perigo. O que não podia era ser visto a fazer qualquer travessia a vau apressada em direcção aos jardins da abadia. Isso seria o bastante para chamar a atenção sobre si, provocando o alarme, e ecoando à distância, por detrás dos jardins, ainda se ouviam sons de uma actividade desusada, gritos e ordens e o rangido de carroças e arreios. Além do mais, via-se um homem montado a cavalo, ao longe, do seu lado do ribeiro, ainda um pouco afastado mas aproximando-se gradualmente, patrulhando aquela faixa do prado como se tivesse ali sido colocado para guardar a única saída não murada do enclave. Como era, possivelmente, o que ele estava a fazer, embora parecesse executar a missão sem grande rigor, deixando o seu cavalo a deambular por entre a verdura à vontade. Um homem apenas, mas um era quanto bastava. Teria apenas de gritar ou assobiar estridentemente com o auxílio dos dedos, que depressa teria ali uma dúzia fervilhante de flamengos.

Torold atirou-se para o chão, no meio dos arbustos, e ficou a vê-lo aproximar-se. O cavalo era enorme, ossudo, poderoso mas deselegante, em tons que mediavam entre o creme e o cinzento-escuro, e o seu cavaleiro era um jovem de cabelo negro e tez morena, dotado de um rosto comprido, seguro e com uma postura arrogantemente displicente na sela. Foi precisamente aquele seu cavalgar fácil e elegante, assim como o colorido do cavalo, que chamaram a atenção de Torold. Aquele era o mesmo animal que ele vira à frente da patrulha que seguia ao longo da margem do rio, de madrugada, e aquele o mesmo homem que, sem dúvida, descera da sua montada, entrando em primeiro lugar no moinho onde estivera abrigado até há pouco. Acompanhavam-no meia dúzia de homens a pé e passado um bocado todos saíram, afastando-se. Torold tinha a certeza da sua identificação; tivera boas razões para observar atentamente o que se estava a passar, receando que, apesar de todas as precauções que tinha tomado, eles fossem capazes de encontrar algum pormenor que despertasse as suas suspeitas. Era o mesmo cavalo e o mesmo homem. Virara-se entretanto e seguia corrente acima, aparentemente negligente e distraído, mas não enganava Torold. Não havia nada que escapasse àquele homem enquanto ia cavalgando, àqueles olhos vivazes, argutos e temíveis, que tão enganadoramente lançavam olhares lânguidos em seu redor.

Mas agora estava de costas e mais ninguém parecia movimentar-se naqueles prados banhados pela tarde. Se se afastasse o suficiente, Torold talvez tentasse fazer a travessia para o outro lado. Mesmo que, na sua pressa, não visse bem o caminho e se molhasse na corrente, não corria o risco de se afogar naquele trecho e a noite estaria quente. Tinha de sair dali e descobrir o caminho que levava ao local onde Godith dormia e ver o que lhe tinha acontecido.

O oficial do rei continuou em frente, esquecido, até chegar ao limite do terreno plano, sem nunca virar a cabeça. E nenhuma outra criatura estava à vista. Torold levantou-se e correu desesperadamente pelo prado aberto até ao ribeiro, metendo pés á água ao acaso e deixando-se levar pelo instinto, indo sair no meio dos campos claros e acabados de segar que se estendiam do outro lado. Fazendo lembrar uma toupeira a enfiar-se pela terra dentro, assim ele se esforçou por desaparecer o mais possível entre os amontoados de caules secos. O dia fora de tal modo atribulado que o facto de não encontrar o barco e o fardo não constituiu surpresa, nem teve tempo sequer para considerar se se tratava de um mau ou bom presságio. Ajeitou-se o melhor possível entre as hastes revoltas, que recordavam uma fenda de cor creme tecida pela luz e pelo calor do Sol, e deixou-se ficar ali deitado, tremendo, o rosto virado de modo a poder espreitar por entre o emaranhado para o local onde o inimigo fazia seguir a montada a passo, serenamente.

Mas o inimigo também se virara, orientando o cavalo desta vez no sentido contrário, como se tivera um pressentimento. Permaneceu imóvel durante alguns minutos, tão à vontade como anteriormente e, no entanto, mais alerta; depois iniciou o caminho de regresso, tão suavemente como subira a corrente.

Torold susteve a respiração e viu-o aproximar-se. Não parecia apressado, conduzindo antes o seu animal de forma descuidada e inocente, como se nada mais tivesse que fazer para além daquele deambular de um lado para o outro. Mas quando chegou ao local oposto às plantações de ervilhas, deteve-se, olhando longa e atentamente para o outro lado do ribeiro, acabando por fixar o olhar no amontoado de hastes revoltas. Torold teve a impressão de ver surgir um sorriso furtivo no rosto moreno; pareceu-lhe mesmo que a mão que segurava nas rédeas se erguia ligeiramente, executando um movimento que bem poderia ser considerado uma saudação. Embora isso não passasse de um perfeito disparate, fora essa a impressão que tivera! É que naquele momento o cavaleiro começara a mover-se corrente abaixo, observando o fluxo da água junto do moinho e a confluência desta com a do rio, mais adiante. Nem um só olhar voltou a lançar para trás.

Torold deixou-se ficar sob aquela cobertura desprovida de peso, descansou a cabeça fatigada nos braços, ajeitou as ancas sobre a camada maleável de hastes e adormeceu de pura exaustão. Ao acordar, a noite já começara a tombar e reinava a mais absoluta tranquilidade. Deixou-se ficar na mesma posição, de ouvido atento e, em seguida, rastejou para fora do seu esconderijo para subir furtivamente até ao cimo da vertente que dava para os jardins da abadia, movendo-se depois por entre a miríade de fragrâncias que o calor do Sol arrancara das ervas cultivadas por Cadfael, fazendo-as ficar a pairar no ar. Depressa deu com a cabana, cuja porta se encontrava hospitaleiramente aberta à luz das estrelas. Quase a medo, espreitou para a penumbra cálida e silenciosa que reinava no seu interior.

Deus seja louvado! exclamou o Irmão Cadfael, levantando-se do banco para o ajudar a entrar rapidamente. Calculei que viesses para cá, tenho vindo para aqui esperar por ti mais ou menos de meia em meia hora, e eis-te finalmente chegado. Senta-te aqui e descansa um pouco, não deves ter passado por poucas!

Em voz urgente e baixa, Torold perguntou pela única coisa que lhe interessava:

Onde está Godith?

 

Godith, se ele tivesse possibilidade de o saber, estava naquele momento a ver a sua própria imagem no espelho de Aline, que Constance mantinha bem afastado dela de modo a captar a sua imagem total. Lavada, penteada, envergando um dos vestidos de Aline, feito de brocado castanho e bordado a ouro, e tendo colocada uma estreita fita dourada a rodear-lhe os caracóis, virava-se de um lado e de outro para se admirar, deliciada por voltar a ser mulher, e o seu rosto deixara de ser o de um garoto maltrapilho para se transformar no de uma jovem e austera dama da nobreza ciente das suas qualidades. A luz suave das velas apenas servia para a tornar ainda mais misteriosa e estranha aos seus próprios olhos.

Quem me dera que ele pudesse ver-me assim disse, anelante, esquecendo que até ali não fizera a ninguém referência acerca de qualquer jovem na sua vida senão ao Irmão Cadfael e que naquele momento não podia revelar, nem mesmo a Aline, nada que dissesse respeito à pessoa de Torold, assim como à missão que se encontrava por detrás do seu nome. No que dizia respeito a ela, contara já quase tudo, mas fizera-o em reconhecimento de uma dívida.

Existe então um ele? inquiriu Aline, cintilando de curiosidade e simpatia. E ele irá escoltar-vos? Aonde quer que preciseis de ir? Não, não devo perguntar-vos nada, não seria justo. Mas por que não podeis usar o vestido para ele ver? Uma vez longe, tanto podeis viajar assumindo a vossa própria identidade como nas roupas de um rapaz.

Duvido que assim possa ser disse Godith sombriamente. Não da forma como teremos de viajar.

Então levai-o convosco. Podeis guardá-lo naquele grande fardo de que vos fazeis acompanhar. Tenho muitos e, se não levais mais nenhum, ireis precisar dele quando alcançardes um sítio seguro.

Oh, se soubésseis como me tentais! Sois gentil! Mas não poderia aceitá-lo. Teremos peso bastante para carregar durante os primeiros quilómetros. Mas agradeço-vos igualmente, nunca o esquecerei.

Experimentara todos os vestidos, por puro prazer, ajudada por Constance, e em todos eles se imaginara enfrentando Torold, sem aviso, analisando-lhe o rosto estupefacto e respeitoso. E isso fez com que, apesar de não saber do paradeiro dele ou do que fazia, passasse uma tarde tranquila e desprovida de dúvidas. Certamente ele ainda havia de a ver em todo o seu esplendor, se não naqueles, noutros vestidos igualmente belos, com jóias, com o seu cabelo de novo comprido, entrançado e preso no cimo da cabeça por uma tiara dourada como aquela. Nesse momento recordou-se de quando tinham estado sentados um ao lado do outro como dois bons companheiros, comendo ameixas e fazendo pontaria com os caroços às pedras do Severn através das frinchas das tábuas, e soltou uma gargalhada. De que serviria dar-se ares com Torold? Ia tirar a tiara da cabeça quando lhes chegou aos ouvidos um súbito mas circunspecto bater na porta da frente e, por um momento, quedaram-se imóveis, olhando umas para as outras.

Terão resolvido revistar também esta casa? murmurou Godith chocada. Irá a minha presença colocar-vos em perigo?

Não! Adam assegurou-me que não seria incomodada, quando eles chegaram, esta manhã.

Aline levantou-se resolutamente.

Ficais aqui com Constance e trancam a porta. Eu vou. Será já o Irmão Cadfael a buscar-vos?

Não, de certeza que não, eles ainda estão de vigia a tudo.

Haviam batido com a maior das deferências, mas, ainda assim, Godith permanecera sentada por detrás da porta trancada, ouvindo com grande atenção as vozes que lhe chegavam do outro lado. Aline trouxera o seu visitante para dentro da sala. A voz que alternava com a dela pertencia a um homem jovem, que adoptara um tom baixo e ardentemente cortês.

Adam Courcelle! indicou Constance, falando só com os lábios e esboçando um sorriso conhecedor. Está tão profundamente apaixonado que não consegue manter-se afastado um dia que seja!

E ela? Aline? sussurrou Godith com curiosidade.

Quem sabe? Ela não, ainda não!

Godith ouvira aquela mesma voz, naquela manhã, dirigir-se ao porteiro e aos criados leigos de serviço ao portão num tom muito diferente. Mas semelhantes deveres não proporcionavam certamente prazer a quem os executava e podiam tornar até mesmo um homem decente mal-humorado e tirânico. Talvez fosse aquela a verdadeira faceta da pessoa que tão devota, atenciosa e ternamente inquiria do bem-estar de Aline.

Espero que todo este tumulto não vos tenha incomodado excessivamente dizia. Agora já podeis ficar descansada que não haverá mais desassossego.

Não me incomodou absolutamente nada assegurou-lhe Aline com serenidade. Não tenho queixas a apresentar, vós fostes verdadeiramente atencioso para comigo. Mas lamento aqueles que foram privados dos seus bens. Estará o mesmo a passar-se na cidade?

Está murmurou pesarosamente. E amanhã prosseguirá, mas a abadia pode ficar descansada. Por aqui, está terminado.

E não a encontraram? A rapariga que tinham ordens para procurar?

Não, ainda não a descobrimos.

Que diríeis perguntou Aline deliberadamente se vos revelasse que estou satisfeita com isso?

Diria que não esperaria outra coisa de vós e que muito vos prezava por tal.

- Sei que não sois capaz de desejar perigo, dor ou cativeiro para nenhuma criatura, muito menos a uma jovem desprovida de qualquer culpa. Aprendi a conhecer-vos, Aline.

O silêncio que se seguiu estava cheio de significado, e pouco depois ele prosseguia:

Aline a sua voz começou num tom de tal maneira baixo que as palavras se tornaram indistintas. Godith não queria escutar, o tom era demasiado íntimo e premente. Mas passados instantes ouviu Aline dizer, gentilmente:

Não me podeis pedir que seja muito receptiva esta noite, o dia foi demasiado agitado para muitos. Não consigo deixar de me sentir tão fatigada quanto eles devem estar. E como vós! Deixai-me usufruir de uma boa noite de sono, viremos a ter melhores oportunidades para falarmos destas questões.

Certo exclamou ele, voltando a adoptar uma pose militar, como se aquela fosse a vontade do destino. Perdoai-me, escolhi uma altura pouco oportuna. A maior parte dos meus homens já se encontra fora do portão neste momento e eu deixo-vos entregue ao vosso repouso. Ainda ouvireis o marchar e o rolar das viaturas durante cerca de um quarto de hora, mas depois voltará a haver silêncio.

As vozes foram deixando de se fazer ouvir, em direcção à porta de saída. Godith percebeu que esta era aberta e, depois de uma troca de palavras inaudíveis, novamente fechada. Chegou-lhe aos ouvidos o som da tranca a ser colocada e, passados momentos, Aline batia à porta do quarto de dormir.

Já podeis abrir em segurança, ele foi-se embora.

Aline ficou uns instantes á entrada da porta do quarto, corada e de sobrancelhas franzidas, mostrando mais uma atitude de perplexidade reservada que de desagrado.

Parece disse, sorrindo de uma forma que teria feito Adam Courcelle saltar de júbilo se a visse que ao abrigar-vos não cometi nenhum acto do desagrado dele. Penso até que se sente aliviado por não DOS ter encontrado. Estão todos a ir-se embora. Acabou. Agora só nos resta esperar pelo Irmão Cadfael e pela escuridão da noite.

Na cabana do herbário, o Irmão Cadfael alimentou, acalmou e medicou o seu paciente. Torold, uma vez obtido um esclarecimento satisfatório à sua primeira pergunta, deitou-se submissamente na cama de Godith e permitiu que o seu ombro fosse novamente ligado e que o ferimento da coxa, já cicatrizado, levasse, apesar de tudo, uma nova camada de unguento e outro penso.

É que se tiverem de cavalgar esta noite para o País de Gales disse Cadfael, não queremos quaisquer danos ou atrasos, poderias abrir novamente essa ferida.

Esta noite? exclamou Torold ansiosamente. É então esta noite? Ela e eu juntos?

Assim é, tem de ser, e já não é sem tempo. Não me parece que possa suportar uma coisa destas muito mais disse Cadfael, embora aparentemente encarasse a questão quase com complacência. Não que já esteja farto de vocês, compreendes, mas ainda assim só ficarei aliviado depois de vos ver aos dois bem longe, rumo à terra de Owain Gwynedd, e mais, dar-vos-ei uma lembrança minha para o primeiro habitante do País de Gales que encontrarem. Apesar de já irem devidamente recomendados a Owain e de este ser pessoa para manter a sua palavra.

Assim que nos pusermos a caminho prometeu Torold com toda a sinceridade tomarei conta de Godith.

E ela fará o mesmo contigo. Providenciarei para que leve um pote com a pomada que tenho estado a pôr-te e algumas coisas mais de que possa vir a necessitar.

E foi ela capaz de levar o barco com todo aquele peso! murmurou Torold pensativamente. Quantas raparigas teriam conseguido manter a cabeça no lugar e proceder tão ajuizadamente? E essa outra rapariga que lhe deu abrigo! E vos trouxe notícias dela, e tão sabiamente! Digo-vos uma coisa, Irmão Cadfael, não há dúvida de que aqui em Salop. existem óptimas mulheres.

Permaneceu silencioso durante momentos, cada vez mais pensativo.

Agora como é que vamos tirá-la de lá? Eles devem ter deixado guarda montada. De qualquer modo não estou a ver muito bem de que maneira poderão encarar a minha ida à portaria, onde está uma pessoa que nem sequer me viu entrar por ali. E o barco está do outro lado, não aqui.

Cala-te durante uns momentos disse Cadfael, acabando de colocar a sua ligadura com perfeição enquanto penso. E que me dizes do próprio dia que passaste? Parece-me a mim que não correu mal de todo, pois conseguiste chegar até aqui. E deves ter deixado todos os vestígios bem apagados, pois não se ouviu dizer nada sobre o velho moinho. Escapaste-lhes a tempo, ao que vejo.

Torold contou-lhe tudo o que vivera ao longo daquele longo, perigoso e no entanto implacavelmente entediante dia, em que não fizera outra coisa que não fosse andar e parar, correr e esconder-se, esperar e apressar-se.

Vi a companhia que revistou as margens do rio e o moinho, seis homens armados e a pé e um oficial a cavalo. Mas certifiquei-me de que não deixava lá sinal algum da minha presença. O oficial entrou em primeiro lugar, sozinho, e depois mandou os homens seguirem-no. Voltei a ver o mesmo tipo recordou, subitamente alerta, a coincidência esta tarde, quando atravessei o ribeiro a vau para me ir esconder rapidamente entre as hastes secas. Andava a cavalo de um lado para o outro, ao longo da margem, sozinho, entre o rio e o moinho. Reconheci-o pela maneira como se sentava na sela e pela montada. Acabara precisamente de atravessar para o outro lado nas suas costas quando ele se virou e começou novamente a caminhar para baixo, detendo-se durante um bocado mesmo em frente do sítio onde eu estava e ficando ali a olhar. Quase poderia ter jurado que ele me tinha visto. Parecia ter os olhos fixos em mim. E sorria! Tive a certeza de ter sido descoberto. Mas nessa altura ele continuou em frente. Afinal de contas, não devia ter-me visto.

Cadfael guardou os seus remédios com ar profundamente pensativo. Perguntou suavemente:

E conheceste-o pelo seu cavalo? Que tinha de especial?

O tamanho e a cor. Era um animal enorme, muito magro, de passada larga, que nada tinha de belo, mas denotava ser muito resistente, e tinha a barriga de cor creme e o dorso e as patas completamente negras.

Cadfael coçou o nariz grosso e queimado pelo sol e em seguida o crânio rapado, que estava ainda mais bronzeado.

E o homem?

Era um jovem, pouco mais velho que eu. Moreno e dotado de uma constituição delgada. A única coisa que lhe consegui ver esta manhã foram as roupas que usava e a maneira de montar, muito à vontade para um animal que me pareceu difícil de domar. Mas esta noite distingui-lhe o rosto. Tem os ossos um pouco salientes e olhos e sobrancelhas pretos. Assobia para si mesmo disse Torold, admirado por se ter recordado daquele pormenor. Muito suavemente!

Assim era. Cadfael também se lembrava disso. Sabia igualmente de que cavalo se tratava, era o que fora deixado nas cavalariças da abadia, enquanto os dois melhores e menos vistosos eram levados para sítio recatado. Dois, dissera o seu dono, era capaz de sacrificar, mas não os quatro, muito menos os melhores de entre eles. Contudo a recolha dos animais fora feita, e ele continuava a montar um dos que tinham ficado, e o outro também fora deixado, sem dúvida, à sua disposição. Portanto, mentira. A sua posição em relação ao rei estava já assegurada, ele até estivera de serviço na busca levada a cabo naquele dia. Um serviço muito especial? E se assim fosse, quem o escolhera?

E pensas que ele te viu atravessar?

Olhei para ele depois de estar bem escondido e nessa altura ele virou-se para o meu lado. Pensei que me tinha visto mover pelo canto do olho.

”Aquele”, pensou Cadfael, ”tem olhos em redor de toda a cabeça e só deixa escapar o que não lhe interessa.” Mas limitou-se a dizer:

E ele parou do outro lado do sítio onde estavas, ficou a olhar durante um bocado e depois afastou-se?

Pareceu-me inclusivamente que levantou uma das mãos das rédeas para me dirigir um cumprimento reconheceu Torold, sorrindo perante a sua própria credulidade. Nessa altura duvido que estivesse a ter visões, de tal modo estava louco por chegar até junto de Godith. Mas nesse preciso momento ele virou-se e seguiu em frente, com o mesmo à-vontade. Portanto, não me deve mesmo ter visto.

Cadfael ponderou as implicações de tudo aquilo com curiosidade e admiração. Ao mesmo tempo que a noite substituía o lusco-fusco, ia-se fazendo luz no seu espírito. A escuridão não era ainda total, apenas se verificara o afastamento do Sol simultaneamente com o arrebol da tarde, deixando somente uma pálida luminosidade esverdeada ao longo do horizonte, para ocidente; ainda não tinha as ideias muito claras, no entanto, os primeiros contornos começavam já a definir-se.

Não deve, pois não? perguntou Torold, receoso de ter atraído o perigo até muito perto de Godith.

Não tenhas receio disse Cadfael em tom confiante. Está tudo bem, filho, não te inquietes, já vi o que tenho a fazer. E agora são horas de ir às completas. Podes trancar a porta depois de eu sair e ficar a dormir uma ou duas horas na cama de Godith, pois, quando a madrugada romper, vais precisar de todas as tuas energias. Voltarei assim que o serviço terminar.

Em vez disso gastou alguns minutos a percorrer as cavalariças, não ficando surpreendido ao verificar que nem o malhado nem o enorme cavalo castanho estavam nos respectivos lugares. Uma inocente visita ao hall dos hóspedes, depois das completas, confirmou que Hugh Beringar não se encontrava nos alojamentos destinados aos nobres, e que tão-pouco os três soldados ao seu serviço se viam nos que eram ocupados pela plebe. O porteiro recordava-se de ter visto os três homens sair pouco antes de Beringar regressar dos lados da cabana, depois de cumpridas as tarefas de que fora incumbido, na altura em que as vésperas terminavam, e o próprio Beringar seguira-os cerca de uma hora mais tarde e, aparentemente, sem pressas.

”É então assim que as coisas se passam”, pensou Cadfael. ”Ele está apostado em que a coisa vai ser esta noite e dispõe-se a dar tudo por tudo. Pois bem, já que é tão temerário e tão perspicaz na leitura dos meus pensamentos, vejamos se também eu não o sou a perscrutar os dele e a munir-me de igual ousadia.

”As coisas encontravam-se, portanto, neste pé: Beringar sabia desde o princípio que os seus serviços tinham sido aceites pelo rei e que os seus cavalos não corriam o risco de ser confiscados, daí que os tivesse querido afastar por qualquer outro motivo da sua lavra. E levou-me a fazer papel de conspirador! Porquê? Não teria tido dificuldade em encontrar ele mesmo um refúgio, se realmente dele necessitasse. Não, ele pretendia que eu soubesse onde os cavalos estavam, disponíveis e convidativos. Sabia que eu tinha duas pessoas para enviar para fora da cidade e para longe do alcance do rei e que encararia aquela oferta como uma dádiva do céu. Ofereceu-me a isca dos cavalos de modo que eu transferisse o tesouro para o mesmo local, pronto a ser removido. E, finalmente, não teria de perseguir os seus fugitivos, bastava-lhe aguardar que eu os levasse até à granja quando pudesse, ficando assim com tudo reunido no mesmo local, pronto a ser recolhido.

”Do que se depreende, consequentemente, que esta noite o teremos à nossa espera, desta vez acompanhado pelos seus homens.”

Havia ainda pormenores intrigantes. Se Beringar tinha realmente fechado os olhos, naquela tarde, diante do esconderijo de Torold, com que propósito o fizera? Era certo que ele não sabia onde Godith se encontrava e talvez tivesse preferido deixar um pássaro voar, mas assegurar o outro. Mas agora que Cadfael reflectia sobre tudo que se passara, não era de todo descabida a possibilidade de Beringar ter vindo a fazer de conta que não percebia o disfarce de rapaz adoptado por Godith e tivesse mesmo uma ideia muito precisa do local onde a sua noiva desaparecida se poderia encontrar. Nesse caso, sabendo que Godric era Godith e que um dos homens de FitzAlan estava escondido no velho moinho, assim que tivesse a certeza de que Cadfael lhe recuperara o tesouro, bastar-lhe-ia atirar-se em força e tomar posse dos três prémios ao mesmo tempo, entregando-os em seguida a um presumivelmente deliciado e agradecido rei. Não o tendo feito e preferindo optar por aquele processo furtivo, é porque as coisas deviam ser um pouco diferentes. Assim, por exemplo, poderia tencionar manter Godith e Torold seguros para os entregar e receber a devida recompensa, mas despachar o ouro não de volta a Shrewsbury, mas através dos seus próprios homens ou pessoalmente para a mansão, onde o colocaria nos seus cofres. Em qualquer dos casos os cavalos seriam removidos não apenas para enganar um simples monge velho, mas para transferirem o tesouro, directamente e no mais completo segredo, para Maesbury, sem terem de passar sequer perto de Shrewsbury.

Isso, evidentemente, partindo do princípio de que Beringar não era o assassino de Nicholas Faintree. Se o era, o plano diferia num aspecto importante. Ele faria os possíveis para que Godith voltasse, a fim de servir de isca ao pai, mas Torold Blund seria apanhado, não vivo, mas morto. Morto e, consequentemente, silenciado. Um segundo assassínio para enterrar o primeiro.

”Qualquer das duas alternativas não era agradável”, pensou Cadfael, que, surpreendentemente, não se sentia perturbado pelo facto. ”Excepto, claro, se todos os indícios tivessem um significado completamente diferente. Pois que fosse. Ou eu não me chame Cadfael! Além disso nunca se sabe quando é que voltarei a ter a oportunidade de me defrontar com um jovem dotado de semelhante sagacidade!”

Mais tranquilo e preparado para outra noite movimentada, regressou ao herbário. Torold estava acordado e vigilante, destrancando imediatamente a porta assim que se certificou de quem estava do outro lado.

Já está na hora? Podemos ir até àquela casa a pé?

Não descansava enquanto não pudesse vê-la, tocar-lhe, certificar-se de que nada de mal lhe sucedera.

Há sempre maneira. Mas ainda não está suficientemente escuro nem as coisas sossegaram totalmente, de modo que senta-te e descansa enquanto podes, pois vais ter de tomar conta da tua parte no peso durante o caminho, até chegarmos aos cavalos. Eu tenho de acompanhar os irmãos ao dormitório e depois deitar-me. Oh, não tenhas receio, voltarei. Uma vez nas celas que nos cabem, sair não é problema de maior. A minha fica ao pé da escadaria da noite e o prior, que dorme que nem uma pedra, está no extremo oposto. E esqueces que a igreja tem a porta do pároco, a qual dá para o Foregate? É a única porta que não se encontra dentro dos muros. Dali à casa de Lady Siward é apenas uma curta caminhada, e mesmo que seja preciso passar pela portaria, pensas que àquelas horas da noite o porteiro se dá conta de todos os retardatários?

Quer dizer que a tal jovem que dá pelo nome de Aline podia ter ido para a missa passando pela tal porta, como o resto dos leigos atrasados apercebeu-se Torold, admirado.

Pois podia, mas se assim fizesse não teria tido oportunidade de falar comigo e, além disso, de se utilizar da situação de privilégio de que goza junto de Courcelle e fazê-la constar junto dos flamengos, atitude muito sábia. Oh, tu tens sem dúvida uma bela rapariga, Torold, e só espero que a mereças, mas esta Aline está a ver até onde é que os seus poderes podem chegar, para saber quanto vale, e podes crer que ainda é capaz de vir a fazer alguma façanha como a nossa Godith.

Torold sorriu na cálida penumbra que reinava no interior da cabana, certo, apesar da grande ansiedade que o dominava, de que nunca poderia haver senão uma Godric-Godith

Dissestes que era muito pouco provável que o porteiro prestasse grande atenção aos cidadãos que recolhessem tarde recordou, mas ele pode muito bem reparar num hábito beneditino que por ali passe.

E quem é que disse que ia passar por lá algum hábito beneditino a horas tardias? Tu, meu jovem, é que irás buscar Godith. A porta do pároco nunca está fechada e, realmente, tendo a portaria tão perto, raramente precisa disso. Eu deixo-te sair por lá quando chegar a altura. Vais até á última casinha, a que fica ao pé do moinho, e trazes Godith e o barco desde o açude até ao ribeiro, que eu estarei lá à vossa espera.

A terceira casa a contar do nosso lado sussurrou Torold, cujos olhos brilhavam até mesmo na escuridão. Não me enganarei. Vou eu mesmo!

O calor da sua gratidão e do seu prazer encheu a cabana, fazendo acentuar fortemente as fragrâncias que emanavam das ervas, porque seria ele, e mais ninguém, quem iria buscar Godith, um acto mais ousado e maravilhoso do que qualquer fuga de noivos para casarem.

E vós estareis perto da abadia quando descermos o ribeiro? inquiriu.

Exacto, e dali não sairei sem vocês! E agora descansa mais ou menos uma hora e tranca a porta para o caso de adormeceres profundamente. Venho buscar-te quando tudo estiver tranquilo.

Os planos do Irmão Cadfael correram optimamente. Depois de um dia tão duro, foi com prazer que todos os homens fecharam as janelas, apagaram as luzes, se barricaram para a noite e foram dormir. Torold já estava acordado à espera antes de Cadfael regressar para o levar com ele. Atravessaram os jardins, o pequeno pátio que ficava entre o corredor dos hóspedes e as dependências do abade, até chegarem ao claustro, e dali seguiram para a porta sul da igreja. De tal modo se conduziam em silêncio e tranquilamente que não pareciam pertencer nem à noite nem ao dia, apenas àquele retirado mundo entre serviços religiosos. Não trocaram palavra até chegarem à igreja, mantendo-se ombro com ombro sob a grande torre; em seguida empurraram a porta de ocidente. Cadfael abriu-a e escutou. Perscrutando cuidadosamente a escuridão, podia ver os portões da abadia, fechados mas com o postigo corajosamente aberto. Eram poucas as estrelas que brilhavam na noite.

Está tudo calmo. Vai agora! Estarei no ribeiro.

O jovem esgueirou-se pela pequena abertura da porta e afastou-se agilmente em direcção à estrada, como se voltasse dos lados da feira dos cavalos. Cadfael correu cuidadosamente a porta, centímetro a centímetro. Sem se apressar, voltou pelo mesmo caminho, atravessando, sob a luz das estrelas solitárias, o jardim até chegar aos campos, seguindo depois para a direita, ao longo da margem do ribeiro, detendo-se quando não podia seguir mais adiante. Em seguida sentou-se na erva que cobria o solo, junto do curso de água, e aguardou. A noite de Agosto estava quente e tranquila, e a brisa que soprava não fazia mais do que mover esporadicamente os arbustos e a copa das árvores, cobrindo com ténues sons aqueles que pudessem ser feitos, ainda mais tenuamente, por homens experientes e cautelosos. Não que ele contasse ser seguido naquela noite. Não havia necessidade disso! Aquele que o poderia ter feito já se encontrava a postos no último ponto da jornada, à espera deles.

Constance abriu a porta da casa e ficou assustada e incapaz de proferir palavra ante a aparição daquele jovem e laico personagem, em vez do monge de que estivera à espera. Mas Godith encontrava-se ali, nas suas costas, atenta e ardendo de impaciência. Ao ver Torold, passou rapidamente à frente dela e, soltando um pequeno, indistinto e quase inaudível grito precipitou-se nos braços e de encontro ao coração do jovem. Voltara a ser Godric; contudo, para ele, nunca seria outra pessoa que não Godith, a quem nunca vira no seu aspecto real. Abraçou-o, riu, chorou, acarinhou-o, insultou-o, ameaçou-o, tudo de um fôlego só, e em seguida apalpou-lhe ternamente o ombro convalescente, pediu explicações e cancelou-as de imediato, erguendo para ele, por fim, um rosto aliviado, subitamente silencioso, aguardando um beijo. Atordoado mas compreensivo, Torold beijou-a.

Deveis ser Torold disse Aline, um pouco mais atrás, tão serenamente que devia saber já bastante mais acerca da sua relação do que ele próprio, naquele momento. Fecha a porta, Constance, está tudo bem.

Observou-o com os olhos recém-abertos para as qualidades dos jovens que certas experiências vividas recentemente lhe tinham proporcionado, e aquilo que viu agradou-lhe.

Sabia que o Irmão Cadfael viria buscá-la. Godith queria ir-se embora do mesmo modo como chegara esta manhã, mas eu não o permiti. Ele disse que viria. Só não sabia é que vos mandaria a vós. Mas o seu mensageiro é muito bem-vindo.

Ela falou-vos de mim? quis saber Torold, enrubescendo ligeiramente perante a ideia.

Apenas aquilo que tive necessidade de saber. Ela é muito discreta e eu também disse Aline com ar recatado.

Também ela estava ruborizada e brilhava-lhe um fulgor no olhar, mas isso devia-se sobretudo á excitação e ao prazer que retirava da trama por si engendrada, embora um tudo nada grata por a sua participação terminar ali.

Se o Irmão Cadfael está à espera, não devemos perder tempo disse. - Quanto mais longe já estiverem ao amanhecer, melhor. Aqui está o fardo que Godith trouxe. Esperem um pouco que eu vou certificar-me de que está tudo em ordem lá em baixo, no jardim.

Saiu sorrateiramente, desaparecendo no meio da suave escuridão que reinava, detendo-se junto ao açude, de ouvido à escuta. Estava certa de que eles não tinham deixado guardas para trás, por que haveriam de o fazer se tudo fora revistado e o que havia para levar fora retirado? No entanto, poderia estar ainda alguém acordado nas casas que ficavam ao lado. Mas não se via uma única luz acesa e ela pensou que até mesmo as janelas deviam ter sido cerradas, apesar da calidez da noite, por as pessoas recearem que algum flamengo se lembrasse de voltar atrás e aviar-se pessoalmente com o que pudesse arranjar, a coberto do saque oficial levado a cabo durante o dia. Naquele local até mesmo as folhas dos salgueiros permaneciam imóveis, abrigadas da brisa ligeira que agitava as ervas ao longo das margens do rio.

Vinde! sussurrou, entreabrindo a porta. Está tudo calmo. Sigam atrás de mim, a ladeira é acentuada.

Lembrara-se até de trocar, nessa tarde, o vestido claro que envergava por um outro mais escuro, de modo a poder confundir-se com as sombras. Torold pôs o saco contendo o tesouro de FitzAlan ao ombro e afastou firmemente Godith, que se aproximara para partilhar o peso. Surpreendentemente, esta não levantou objecções e, timidamente, caminhou à frente dele com rapidez e em silêncio, até ao local onde o bote ficara preso pela curta amarra, semioculto pela ramagem pendente dos salgueiros. Aline deitou-se de barriga na margem de modo a poder chegar ao barco, puxá-lo e mantê-lo seguro, pois havia uma cova de mais de meio metro entre eles e a água. Era notável ver com que rapidez e boa disposição aquela jovem de família, até ali enclausurada e sujeita às mais variadas regras e limitações, estava a aprender a ser senhora das suas próprias decisões e a tirar partido das suas energias pessoais.

Godith enfiou-se no bote e estendeu ambos os braços para, em seguida, ajeitar o fardo entre os dois assentos. A embarcação fora feita para transportar duas pessoas no máximo, e a sua amurada quase rasou a linha da água quando Torold entrou, mas boiava e parecia forte, conduzindo-os certamente até onde precisassem de ir, como já fizera anteriormente.

Godith inclinou-se para abraçar Aline, que ainda estava de joelhos na extremidade arrelvada da margem. Era já muito tarde para trocarem agradecimentos mas Torold beijou a pequena e bem cuidada mão que ela lhe estendia, desprendendo em seguida a ponta da corda, que puxou em seguida para dentro do barco. Este deslizou suavemente, afastando-se da margem, de regresso ao ribeiro a partir do qual aquele açude fora construído. O impulso do canal adutor do moinho imprimiu um pouco mais de velocidade à embarcação e Torold retirou os remos da água, deixando que a corrente silenciosa os levasse para fora da levada. Quando Godith olhou para trás, já só foi capaz de vislumbrar os contornos do salgueiro e a casa mergulhada na escuridão que ficava mais recuada. Quando Torold, com a ajuda dos remos, fez o barco aproximar-se dos terrenos da abadia, o Irmão Cadfael saiu do meio das ervas altas que cobriam as margens.

Muito bem disse em voz baixa. Não houve problema? Não apareceu ninguém?

Correu tudo optimamente. Agora sois o guia.

Cadfael balançou pensativamente o barco com uma das mãos.

Vai pôr Godith e o fardo na margem do outro lado e depois vem buscar-me. Já agora escuso de me molhar.

Quando já se encontravam todos a são e salvo do lado de lá do ribeiro, Cadfael puxou o barco para fora da água e Godith apressou-se a ir ajudar a escondê-lo no meio do amontoado de arbustos mais próximo. Uma vez cumprida esta tarefa, pararam um pouco para recuperar o fôlego e rever o plano. A noite rodeava-os, tranquila e deserta, e cinco minutos bem gastos ali, como Cadfael disse, poderiam poupar-lhes muito trabalho mais tarde.

Podemos falar, mas em voz baixa. E como outros olhos não verão, assim espero, este fardo até estarem bem longe daqui, em terras do Ocidente, penso que seria vantajoso abri-lo e dividirmos novamente o peso. Será muito mais fácil levar os alforges pendurados ao ombro do que este fardo único.

Eu posso levar um par disse Godith, ansiosa por ajudar.

Pois podes, talvez durante um bocado não muito longo observou Cadfael, indulgente.

Estava muito atarefado a desembaraçar os dois alforges que tinham sido enfiados no saco. As alças foram trabalhadas de modo a magoarem o menos possível os ombros e os pesos ficaram divididos tendo em conta sobretudo os cavalos que os iriam transportar.

Tinha pensado em encurtar um bocado do caminho utilizando o rio durante a primeira parte do percurso disse, mas o facto de sermos três e de dispormos apenas desta casca de noz não nos dá essa possibilidade. E também não estamos muito longe do local para onde nos dirigimos. Uns cinco quilómetros, mais ou menos.

Colocou um par de alforges aos ombros, ajeitando-os o melhor possível, e Torold fez o mesmo ao outro.

Nunca na vida me aconteceu carregar bens de tão elevado valor observou Cadfael ao começarem a andar, e agora nem sequer vou ter oportunidade de ver do que se trata.

Para mim é um pouco pior disse Torold, atrás dele. Custaram a vida a Nick e eu sem hipóteses de o vingar.

Concentra-te antes na tua própria vida e nas responsabilidades que te cabem disse Cadfael. Ele será vingado. O melhor que tens a fazer é olhares para o futuro e deixares Nick por minha conta.

Os caminhos por onde conduziu aquela pequena caravana diferiam um pouco daqueles que utilizara na companhia de Seringar. Em vez de atravessarem o ribeiro e cortarem directamente para a granja, que ficava para lá de Pulley, viraram um pouco mais para oeste de modo que antes de chegarem á granja pelo lado sul passassem primeiro a um bom quilómetro e meio da mesma, para oeste, mais perto do País de Gales e a coberto de uma floresta mais densa.

E se nos seguirem? perguntou Godith.

Não seremos seguidos.

Mostrava-se tão seguro que ela aceitou a afirmação com alegria, nada mais desejando saber. Se o Irmão Cadfael o dizia é porque era assim mesmo que as coisas se iriam passar. Insistira em carregar o fardo de Torold durante cerca de oitocentos metros, mas este tinha voltado a tirar-lho ao primeiro sinal de respiração mais acelerada ou dificuldade no andar.

Por cima das suas cabeças entrevia-se o céu entretecido pela ramagem das árvores. Desembocaram cautelosamente no começo de um largo atalho para cavaleiros que atravessava a floresta. Nas suas costas ficara o caminho percorrido, agora um pouco mais alargado pela sua passagem.

Prestem bem atenção disse Cadfael, detendo-os em sítio abrigado, pois vão ter de encontrar o caminho de volta a este local sem a minha ajuda. Têm aqui uma óptima estrada que foi construída pelos romanos. Este lado, à vossa esquerda, vai levar-vos até à ponte do Severn, em Atcham. Para oeste, à vossa direita, conduzir-vos-á direitinhos como uma flecha para Pool e para o País de Gales; se encontrarem algum obstáculo, poderão seguir um pouco mais para sul na direcção da zona mais baixa da água, em Montgomery. A partir daí poderão cavalgar com relativa rapidez, embora em determinados pontos o terreno seja mais inclinado, até chegarem à zona mais baixa do ribeiro. Portanto prestem bem atenção ao caminho.

Ali a via era nitidamente mais praticável, os cavalos podiam caminhar sem grande dificuldade. Quando alcançaram a zona mais baixa do ribeiro, de que Cadfael lhes falara, verificaram que era larga e difícil de transpor.

É aqui disse Cadfael que deixamos os nossos fardos. Seria fácil confundirem uma árvore no meio de tantas outras, agora uma árvore que está mesmo ao lado do único ponto de passagem que este caminho tem pelo ribeiro é impossível de perder.

Deixá-los? admirou-se Torold. Por que razão não seguimos directamente para o local onde estão os cavalos? Vós mesmos dissestes que esta noite ninguém nos seguiria.

Seguir, não. Mas a noite é propícia ás ciladas. Não, não percam mais tempo, confiem em mim e sigam as minhas instruções.

E pousando a sua parcela do fardo, olhou em volta, perscrutando a escuridão a que, naquela altura, os seus olhos já se tinham habituado, tentando encontrar o esconderijo mais eficaz e seguro. À sua direita, mesmo junto do local da passagem, havia um pequeno matagal; no meio deste, uma velha árvore cheia de nós, já meio seca, as ramadas mais baixas ocultas entre os arbustos. Cadfael pendurou os seus alforges nesses ramos e Torold, sem proferir palavra, imitou-o, afastando-se em seguida ligeiramente a fim de se certificar de que apenas aqueles que tinham conhecimento do facto davam pelo que estava ali escondido. A folhagem farta cobria tudo.

Bom menino! disse Cadfael satisfeito. Vejamos, a partir daqui rodamos um pouco para leste e a via em que nos encontramos irá juntar-se á que já utilizei anteriormente e é mais directa. É que temos de nos aproximar da granja pelo lado direito. Nunca passaria pela cabeça de nenhum curioso supor que iríamos dar uma volta tão grande.

Libertos do seu fardo, Godith e Torold foram atrás dele de mãos dadas, confiantes como duas crianças. Agora que estavam cada vez mais próximos de uma verdadeira possibilidade de fuga, não tinham nada a dizer um ao outro, bastando-lhes estar assim juntos e acreditar que tudo iria correr bem.

O caminho que seguiam ia dar à via directa que ficava apenas a alguns minutos da pequena clareira onde se erguia a paliçada que rodeava a granja. As árvores ficaram para trás e o firmamento surgiu em toda a sua imensidão. Algures no interior da casa havia uma pequena luz acesa, facto que se depreendia do diminuto clarão que se entrevia por entre as estacas. Em seu redor, a noite continuava silenciosa e plácida.

O Irmão Anselm abriu-lhes a porta tão prontamente que por certo algum viajante molestado vindo de Shrewsbury devia ter feito constar, até mesmo ali, as perturbações ocorridas naquele dia, alertando-os para a possibilidade de alguém em fuga de piores penalidades bem poder ir bater-lhes à porta. Deixou-os entrar aliviado e apressadamente, observando com curiosidade os dois jovens que seguiam Cadfael, ao mesmo tempo que fechava o portão.

Bem me queria parecer! Tive um pressentimento. Senti que devia ser esta noite. As coisas não correram nada bem para os vossos lados, segundo nos contaram.

Bastante mal admitiu Cadfael, suspirando. E desejo todos os meus amigos fora daquilo. Sobretudo estes dois. Crianças, estes bons irmãos são de confiança e guardaram-vos duas boas montadas. Anselm, esta aqui é a filha de Adeney e este, um escudeiro de FitzAlan. Onde está Louis?

A selar os animais disse o Irmão Anselm, coisa que correu a fazer assim que vos viu chegar. Durante todo o dia nos lembrámos de que certamente teríeis de apressar os acontecimentos. Pus comida de parte para o caso de virem. Aqui está o bornal. É muito duro cavalgarem tanto tempo sem terem nada com que aconchegar o estômago. E também vai uma garrafa de vinho.

Óptimo! E estas coisas que trouxe disse Cadfael, esvaziando a sua própria bolsa, são remédios. Godith sabe como utilizá-los.

Godith e Torold ouviam tudo, maravilhados. O jovem disse, gaguejando de tal modo se sentia grato:

Vou ajudar a selar os cavalos.

Largou a mão de Godith e atravessou o pequeno pátio deserto em direcção às cavalariças. Aquela floresta desbravada, mas insubmissa, nos tempos conturbados que corriam, depressa voltaria a recuperar a sua uniformidade, aqueles edifícios de madeira, sempre modestos, acabariam por desaparecer sob o crescimento luxuriante de Verões sucessivos. Long Forest engoliria tudo aquilo, sem deixar traço, no espaço de três ou quatro anos.

Irmão Anselm disse Godith, olhando respeitosamente o gigante de alto a baixo, agradeço-vos de todo o coração, em nome dos dois, o que estais a fazer por nós, embora pense que foi sobretudo aqui pelo Irmão Cadfael. Ele tem sido o meu mestre de há oito dias para cá e compreendo. Isto e muito mais farei eu por ele, se alguma vez for caso disso. Garanto-vos que nem Torold nem eu esqueceremos jamais ou diminuiremos o valor do que todos estais a fazer por nós.

Deus te abençoe, filha disse o Irmão Anselm, encantado e simultaneamente divertido, falas como um livro sagrado. Que outra coisa poderia um homem decente fazer ao ver uma donzela em perigo senão todas as coisas possíveis para a salvar? E providenciar o mesmo ao seu jovem companheiro?

Nesse momento o Irmão Louis saiu dos estábulos, aproximando-se deles com o ruão que Beringar cavalgara no dia em que fora ali levar as suas duas montadas. Torold vinha mais atrás, segurando as rédeas do negro. A luz fraca não escondia o facto de se encontrarem repousados e cheios de energia, prontos para a acção, e de terem sido excelentemente tratados e alimentados.

Falta a bagagem disse o Irmão Anselm expressivamente, que temos tido bem guardada. Por mim tê-la-ia dividido ao meio para distribuir melhor o peso pelos animais, mas pensei que não tinha o direito de a abrir, de modo que ficou tudo junto, tal como o irmão a deixou. Colocá-la-ei no animal que levar o cavaleiro mais leve, se concordarem.

Afastaram-se os dois a fim de irem buscar o saco que Cadfael lhes trouxera algumas noites atrás. Tudo indicava que havia coisas que não lhes haviam sido ditas, assim como outras que eram do desconhecimento de Torold e Godith, os quais, não obstante, tudo tinham aceite apesar de não compreenderem. Anselm trouxe o fardo de dentro de casa, às costas, e deixou-o cair ao lado dos cavalos selados.

Trouxe umas correias de couro para o prender á sela.

Tinham, realmente, considerado aquele aspecto, e estavam precisamente a começar a prender o fardo quando, por detrás deles, a lâmina de uma espada cortou as cordas entrançadas que pendiam a cancela à paliçada e uma voz clara e segura ordenou firmemente:

Fiquem onde estão! Que ninguém se mova! Virem-se todos, devagar, e mantenham as mãos bem à vista. Para bem da dama!

Com a sensação de que estavam a viver um sonho, obedeceram à ordem, os olhos dilatados de espanto e receio. A cancela da paliçada estava escancarada, pendendo para um dos lados. À entrada via-se Hugh Beringar, de espada na mão; e atrás dele, ladeando-o de arcos retesados e prontos a disparar, estavam os seus dois homens; e ambos apontavam para Godith. A luz era fraca, mas uniforme. Aqueles que ali estavam, habituados à mesma, não teriam dificuldade em acertar no alvo.

Admirável! exclamou Beringar aprovadoramente. Compreendestes perfeitamente os meus desejos. Agora ficai onde estais e não permiti que nenhum homem se mova enquanto, atrás de nós, o meu terceiro ajudante fecha os portões.

 

Todos tinham reagido de acordo com a sua própria natureza. O Irmão Anselm olhou cautelosamente em volta à procura do seu cacete, mas este estava fora de alcance; o Irmão Louis colocou as duas mãos á vista, como lhe tinham ordenado, mas manteve a direita muito próxima da abertura do seu hábito, onde tinha a sua adaga escondida; Godith, a princípio estupefacta, mas logo a seguir assombrada e mal querendo acreditar no que estava a acontecer, sentiu-se imediatamente invadir por uma raiva imensa que somente a palidez do rosto e o brilho coruscante do olhar traía; o Irmão Cadfael, numa atitude que parecia ser de resignado choque, sentara-se no fardo de modo que as saias do seu hábito o escondessem dos olhos dos inimigos, se é que estes não tinham já dado por ele; Torold, resistindo ao instinto de agarrar no punho da lâmina que Cadfael lhe dera e ele metera à cintura, tinha ambas as mãos ao lado do corpo, olhando para Beringar numa atitude de desafio, não hesitando em dar dois longos e ousados passos para se colocar exactamente entre Godith e os dois arqueiros. O Irmão Cadfael observou a iniciativa com admiração, sorrindo com admiração. Provavelmente o jovem não se dera conta de que teria havido tempo de sobra para as duas flechas atingirem o seu alvo antes de ele se interpor, caso tivesse sido essa a intenção.

Um gesto muito comovente admitiu Beringar generosamente, mas pouco eficaz. Duvido que isso faça que a senhora fique mais satisfeita com a situação. E como somos todos pessoas sensatas, não há necessidade de nos fazermos a actos heróicos descabidos. Se querem saber, aqui o Matthew era capaz de enfiar uma flecha em vocês os dois a esta distância, o que não beneficiaria ninguém, incluindo a minha pessoa. O melhor é aceitarem o facto de que eu sou quem dá as ordens e comanda as operações neste momento.

E assim era. Embora os seus homens se tivessem abstido de intervir quando poderiam ter tomado demasiado à letra a sua ordem de não permitir qualquer movimento, não era menos verdade que nenhum dos atacados tinha a mais pequena hipótese de perpetrar algum acto bem sucedido e capaz de alterar a situação. Separavam-nos metros de distância, e nenhum punhal conseguia ser mais veloz que uma flecha. Torold estendeu um braço para trás a fim de aproximar Godith de si, mas esta não se conformou. Afastou-se bruscamente para se libertar e, escapando á mão que a teria detido, aproximou-se desafiadoramente de Hugh Beringar.

E que comandais em relação a mim? quis saber. Se o que quereis sou eu, muito bem, aqui estou, que desejais que faça? Penso que ainda tenho terras que me pertencem e valem alguma coisa, não será? É vossa intenção fazerdes valer os vossos direitos sobre mim e casarmos? Mesmo que meu pai tenha sido despojado de todas as suas terras, o rei deve permitir-me conservar as minhas e dá-las, juntamente com a minha pessoa, a um dos seus novos capitães! Valho assim tanto para vós? Ou trata-se apenas de quererdes comprar os favores de Stephen, oferecendo-me como isca para atrair homens mais valorosos para debaixo do seu poder?

Não se trata de nada disso disse Beringar placidamente. Observava com decidido agrado os ombros empertigados, o rosto alterado de desprezo. Admito, minha querida, que nunca até aqui me senti tão tentado a desposar-vos: melhorastes muito desde os tempos em que não passáveis daquela rapariguinha gorducha que tenho na memória. Mas a julgar pela expressão do vosso rosto, mais depressa casaríeis com o demónio em pessoa, e além disso tenho outros planos, assim como, suponho, vós também tendes. Não, desde que todos os que aqui se encontram ajam como pessoas sensatas, não há que brigar. E se necessário é dizer para vosso próprio sossego, Godith, não faço tenções de largar os cães na peugada do vosso companheiro. Por que haveria eu de fazer mal a um oponente honesto? Especialmente agora que tenho a certeza de que ele goza de uma situação privilegiada a vossos olhos.

Ele estava a divertir-se à custa dela, mas Godith apercebia-se do facto, precavendo-se. Nem sequer eram risadas maliciosas, embora ela as tivesse considerado uma ofensa. Era uma atitude triunfante, mas também ligeira, divertida, quase amistosa. Retrocedeu um passo; lançou mesmo um olhar implorante ao Irmão Cadfael, mas este continuava sentado e aparentemente apático, de olhos no chão. Voltou a olhar mais atentamente para Hugh Beringar, cujos olhos negros se fixavam nela com uma admiração desprovida de paixão.

Acredito disse lentamente e algo hesitante que estais a falar a sério.

Podeis pôr-me à prova! Viestes aqui na mira de encontrardes cavalos para a vossa viagem. Eles aqui estão! Podeis montar e partir assim que vos aprouver, vós e o jovem escudeiro. Ninguém vos seguirá. Nenhuma outra pessoa tem conhecimento da vossa presença neste local, com excepção de mim e dos meus homens. Mas partireis mais depressa e mais seguramente se aliviardes o vosso carregamento de tudo o que não sejam as coisas indispensáveis à manutenção da vida disse Beringer docemente. Aquele fardo sobre o qual o Irmão Cadfael está sentado tão negligentemente, como se pensasse ter encontrado uma bela pedra para o fazer, esse ficará comigo, como uma recordação vossa, minha doce Godith, depois de partirdes.

Ao ouvir o que Beringar acabara de dizer, Godith controlou-se o suficiente para não olhar para o Irmão Cadfael. Já tinha trabalho que bastasse em manter o controlo do seu próprio rosto, em não trair a compreensão súbita do que se estava a passar, o triunfo, a vontade de rir, sabendo que Torold, alguns passos atrás dela, também estava a ter o mesmo problema, igualmente deslumbrado e esclarecido. Então fora por isso que tinham deixado os alforges na árvore que ficava no local onde o caminho cruzava o ribeiro, quilómetro e meio para oeste, quilómetro e meio na via que os levaria para o País de Gales. Daquele prémio que ali tinham não se importavam eles de desistir com os corações repletos de júbilo, mas nem um indício dessa alegria devia ser visível, pondo em perigo o seu sucesso. E agora competia-lhe a ela completar o golpe, oportunidade que lhe era dada pelo Irmão Cadfael. Era o mais importante teste que alguma vez enfrentara, assim como seria vital para a auto-estima que passaria a nutrir por si própria. É que aquele homem que tinha ali na frente era muito mais do que a princípio considerara, e de súbito parecia que ceder-lhe era quase um gesto generoso de retribuição àquele que ele tivera em relação a ela, libertando-a para que usufruísse da felicidade junto de outro homem e numa outra causa, apenas guardando para si uma pequena quantidade de ouro em paga dos seus trabalhos. Por dois belos cavalos e permissão de partir para o Pais de Gales! E também uma espécie de bênção, secular mas válida.

Quereis então dizer observou Godith, não interrogando, limitando-se apenas a fazer uma constatação que podemos partir!

E rapidamente, se me permitis o conselho. A noite não vai longa, mas passa depressa. E tendes muito caminho para percorrer.

Considerei-vos erradamente observou ela, magnanimamente. Nunca cheguei a conhecer-vos. Tínheis o direito de reclamar este prémio. Espero que não vos seja difícil compreender que também nós tínhamos o direito de lutar por ele. Numa vitória honesta e numa derrota honesta não deve haver lugar para rancor. De acordo?

De acordo! disse ele, perfeitamente deliciado. Sois uma atracção para o meu próprio coração e penso que é melhor o vosso jovem escudeiro levar-vos daqui antes que eu mude de ideias. Desde que deixeis a bagagem...

Não vos resta fazer mais nada, é vossa disse o Irmão Cadfael, levantando-se, relutante, do assento a que montara guarda. A vossa vitória foi justamente conquistada, que mais posso dizer?

Beringar observou calmamente o vulto do saco que ficara à vista. Conhecia muito bem o tamanho do fardo que Cadfael carregara desde o Severn e não o inquietava qualquer dúvida.

Então partam, e em boa velocidade! Ainda vos restam algumas horas de escuridão.

E pela primeira vez olhou para Torold, demorando algum tempo a estudá-lo, pois este contivera-se, deixando Godith tomar conta da situação em circunstâncias que ele não podia esperar compreender, com um admirável autodomínio.

Perdoai, não sei o vosso nome disse.

Chamo-me Torold Blund e sou escudeiro de FitzAlan. Lamento não nos termos conhecido anteriormente. Mas não tenho pena de que não tenhamos terçado armas um com o outro, pois receio bem que teria encontrado quem me fizesse frente.

Mas o certo é que se sentia radiante com o facto de o ter levado à certa, não o preocupando muito o maior poder de alcance de Torold ou a sua estatura mais elevada.

Tomai bem conta do vosso tesouro, Torold, que eu farei o mesmo com o meu.

Reservada e imóvel, observando-o com olhos nos quais a dúvida ainda não se dissipara totalmente, Godith disse:

Beijai-me e desejai-me sorte! Tanta como a que quero para vós mesmo!

De todo o coração! exclamou Beringar, agarrando-lhe no rosto com ambas as mãos e beijando-a ruidosamente.

O beijo durou um pouco mais do que teria sido necessário, talvez para provocar Torold, mas este observava a cena sem se mostrar preocupado. Os dois eram como irmão e irmã a despedirem-se terna mas inocentemente.

E agora montai e deitai-vos ao caminho em boa velocidade. Godith dirigiu-se primeiro ao Irmão Cadfael e pediu-lhe também um beijo, com um tremor na voz e no rosto que ninguém mais viu ou ouviu e que poderia significar uma ameaça de lágrimas ou uma quase incontrolável vontade de rir, ou ainda ambas as coisas ao mesmo tempo. Os agradecimentos que dirigiu a este e aos irmãos leigos foram necessariamente breves, mas igualmente caracterizados pela mesma mistura desordenada de emoções. Ela tinha de sair dali imediatamente, caso contrário ainda acabaria por se trair a si mesma. Torold aproximou-se para ajudá-la a montar, mas o Irmão Anselm adiantou-se e ergueu-a no ar sem esforço, colocando-a sobre a sela. Os estribos estavam um pouco compridos de mais para Godith e ele apressou-se a encurtá-los para seu melhor conforto. Nesse momento Godith viu-o olhar para ela furtivamente e dirigir-lhe um sorriso rápido, e nesse momento apercebeu-se de que também ele tinha percebido o que se passara e partilhava da sua secreta vontade de rir. Se ele e o seu companheiro tivessem partilhado do conhecimento daquela conjura desde o princípio, talvez não tivessem desempenhado o papel que lhes coubera tão convincentemente; mas eram muito rápidos a entender o que vinha nas entrelinhas.

Torold montou o ruão de Beringar e da sua cela olhou para o grupo de pessoas reunido no interior da paliçada. Os arqueiros tinham guardados os respectivos arcos e permaneciam junto de Beringar, observando o que se passava com ar interessado e vagamente divertido, enquanto o terceiro homem abria completamente o portão para deixar passar os viajantes.

Irmão Cadfael, fico-vos profundamente em dívida. Não o esquecerei.

Se por acaso há alguma dívida disse Cadfael serenamente, podes pagá-la a Godith. E vê se tens maneiras com ela até a entregares sã e salva ao pai acrescentou severamente, Ela está ao teu cuidado como uma relíquia, livra-te de lhe faltares ao respeito.

O sorriso de Torold brilhou-lhe por momentos no rosto, para depois desaparecer; e no momento seguinte já só estava ele, com Godith atrás de si, fazendo trotar as montadas a passo vivo pelo portão para desembocarem na luminosidade da clareira, e dali partindo para os espaços sombrios entre as árvores. Não tiveram de andar muito para chegar ao caminho mais largo e dali ao ponto de confluência do ribeiro, onde os alforges os esperavam. Cadfael ficou a ouvir o som suave dos cascos dos cavalos sobre a erva e o sussurro ocasional das ramagens, até todos os sons se fundirem no silêncio da noite. Ao sair da imobilidade atenta em que estivera mergulhado, reparou que todos os restantes presentes tinham estado á escuta de modo igualmente concentrado. Olharam uns para os outros e, por momentos, nada encontraram para dizer.

Se ela chega ao pai virgem observou então Beringar, nunca mais voltarei a confiar no homem ou na mulher.

Pois eu acredito disse Cadfael secamente que ela chegará ao pai como esposa, e muito decente, também. Há muitos padres entre este local e a Normandia. Ela terá mais trabalho a persuadir Torold de que tem o direito de a tomar sem a aprovação paterna, mas não lhe faltarão meios próprios para o convencer.

Conhecei-la melhor que eu disse Beringar. Nunca cheguei a contactar minimamente com ela! Uma pena acrescentou pensativamente.

Contudo, creio que a reconhecestes da primeira vez que a vistes comigo no grande pátio.

Oh, de vista, sim. Mas nessa altura não tive bem a certeza, facto que aconteceu alguns dias mais tarde. Ela não está assim tão mudada nas feições, ficou foi um pouco mais espigada vestida à rapaz. Reparou no olhar de Cadfael e sorriu. Sim, sim, vim à procura dela, mas não para a entregar fosse a que homem fosse que a viesse a utilizar. Não que a quisesse para mim, mas ela era, como já referistes, uma relíquia que me estava confiada. Devia-o à aliança que outros fizeram por nós para a ver em segurança.

Confio disse Cadfael que tenhais agido de acordo com esses princípios.

Eu também. E nada de ressentimentos em nenhum dos lados, pois não?

Nenhuns. E nada de vinganças. O jogo terminou.

De repente deu-se conta de que parecia apropriadamente subjugado e cheio de resignação, mas o que ele sentia era apenas o agradável cansaço que o alívio proporciona.

Então quereis voltar a cavalo comigo para a abadia e fazer-me companhia no caminho? Tenho duas montadas aqui. Estes meus moços merecem um bom sono, e se os vossos irmãos não se importarem de lhes dar alimento e guarida para a noite, poderão voltar amanhã sem pressas. Para amenizar a sua recepção deixo as duas garrafas de vinho que trago nos alforges e um pastelão de carne. Receava termos de suportar uma espera longa, embora tivesse a certeza de que viríeis.

Tive um pressentimento disse o Irmão Louis, esfregando as mãos de satisfação de que, apesar de tão súbito alarme, nada de mau soprava no vento esta noite. E por duas garrafas de vinho e um pastelão de carne é com todo o gosto que vos oferecemos cama e um jogo de mesa, se vos apetecer. É muito raro termos companhia por estes lados.

Um dos arqueiros aproximou-se com os dois cavalos que restavam a Beringar, o malhado magro de pernas altas e o outro mais robusto, de pernas curtas e cor castanha; placidamente, irmãos leigos e soldados descarregaram em minutos a comida e a bebida e, obedecendo às instruções de Beringar, amarraram o volumoso fardo à garupa do malhado, prendendo-o fortemente com as correias de couro que o Irmão Anselm providenciara com outro fim muito diferente em vista.

Não que tivesse algum problema em deixá-lo seguir convosco no outro cavalo assegurou Beringar a Cadfael, mas este grande bruto nem dará pelo peso. E o seu cavaleiro precisa de ter uma mão dura porque ele é teimoso e eu já estou habituado a ele. Para dizer a verdade, gosto até muito dele. Não hesitei em me separar dos outros dois, que valiam muito mais a pena conservar, mas este demónio liga muito bem comigo e não me desfaria dele por nada deste mundo.

Não poderia ter expressado melhor o que Cadfael estava a pensar dele. ”Este demónio liga muito bem comigo e não me desfaria dele por nada deste mundo!” Ele executara pessoalmente a sua operação de espionagem, cedeu generosamente dois cavalos valiosos para pagar a dívida que tinha para com a noiva, que nunca quisera verdadeiramente, e dera-se a todo o género de truques tortuosos para conseguir colocar a rapariga a salvo e fora do seu caminho, deitando em seguida a mão ao tesouro, o que era jogo leal, enquanto ela não o seria. ”Ora esta, estamos sempre a aprender com os homens nossos irmãos!”

Cavalgaram juntos, os dois sozinhos, pela mesma estrada que já tinham percorrido anteriormente, e ainda mais amigavelmente do que nessa altura. Voltavam sem pressas pelo caminho do melhor acesso para os cavalos, do mesmo modo displicente como se tinham aproximado da granja da primeira vez. A noite estava quente, tranquila e suave, desafiando os tempos duros e violentos que se viviam com a sua calma garantia de estabilidade permanente.

Receio bem disse Beringar compungido que tenhais perdido as matinas e os laudes, e a culpa é minha. Se não tivesse atrasado tudo, já estaríeis de volta á meia-noite. Teremos os dois de partilhar as penitências necessárias para redimir a falta.

Vós e eu observou Cadfael com ar crítico partilhamos já uma penitência. Bem, não poderia desejar companhia mais estimulante. Podemos anular a minha falta cavalgando à vontade. Não é todos os dias que um homem consegue fazer semelhante estirada nocturna, e com tanta segurança e tranquilidade.

Durante algum tempo seguiram em silêncio, entregues aos seus próprios pensamentos, mas algures os fios destes devem ter-se entrelaçado porque, passado um bocado, Beringar disse firmemente:

Ireis sentir a falta dela.

A afirmação foi feita com brusquidão, mas genuína simpatia. Afinal de contas, já há alguns dias que ele vinha observando as coisas.

É como se tivesse perdido uma das fibras do meu coração afirmou o Irmão Cadfael desassombradamente. Mas outros virão preencher o lugar. Ela era uma boa rapariga e um bom rapaz, se me perdoais a expressão. Rápida a aprender e uma trabalhadora árdua. Espero que também dê uma boa esposa. Aquele jovem é um óptimo companheiro para ela. Reparastes como ele protegia um dos ombros? Um dos arqueiros do rei fez os possíveis por lho arrancar, mas com os cuidados de Godith em breve ficará restabelecido.

E após um momento de reflexão, perguntou com cândida curiosidade:

Que teríeis feito se algum de nós não tivesse acatado as vossas ordens e tentasse lutar para conservar o tesouro?

Hugh Beringar soltou uma saborosa gargalhada.

Creio que teria feito figura de parvo, porque, evidentemente, os meus homens tinham ordens para não disparar. Mas o arco e a flecha são óptimos persuasores e, no fim de contas, um tipo malvado como eu poderia perfeitamente estar a falar a sério. Porquê, éreis de opinião que eu nunca faria mal á rapariga?

Cadfael ficou indeciso em responder com toda a verdade, mas preferiu contemporizar.

Se alguma vez isso me tivesse passado pela cabeça, depressa veria que estava errado. Eles poderiam tê-la morto muito antes de Torold se interpor. Não, depressa vi que era um erro estar a temer uma coisa dessas.

E não vos surpreende que eu tenha sabido do que viestes esconder na granja e buscar esta noite?

Nada que seja da vossa lavra me surpreende já, disse Cadfael. Cheguei à conclusão de que me seguistes na noite em que o trouxe do rio. Assim como também recorrestes à minha ajuda para esconderdes os cavalos com um duplo propósito: encorajar-me a transferir o tesouro do local onde estava escondido e possibilitar a fuga daqueles dois jovens, enquanto o ouro permanecia aqui. A mão direita a contrariar a mão esquerda, não há dúvida de que esta imagem vos assenta bem. Por que razão estáveis tão certo de que seria esta noite?

Se eu estivesse no vosso lugar tê-los-ia afastado daqui o mais depressa possível, e esta era a ocasião mais propícia, pois a busca fora concretizada e falhara. Só se fôsseis um louco é que deixaríeis de aproveitar uma ocasião como esta. E como tive, de há muito, oportunidade de ver, de louco não tendes nada, Irmão Cadfael.

Temos muita coisa em comum concordou Cadfael gravemente. Mas assim que vos ficou a certeza de que esse fardo que carregais já se encontrava na granja, por que não, muito simplesmente, irdes buscá-lo para que ficasse de imediato na vossa posse? Isso não vos impediria de deixar as crianças partirem, tal como aconteceu agora.

E ficar a dormir na minha cama enquanto eles se iam embora? E nunca esclarecer as coisas com Godith, deixando-a partir para França na crença de que sou seu inimigo e capaz de tais barbaridades? Não, não tenho estômago para isso. O meu orgulho não mo permitiria. Queria um desenlace feliz, sem escolhos. E também tenho a minha curiosidade. Estava com vontade de conhecer o jovem de quem ela se enamorara. O tesouro estava em segurança até à altura em que decidísseis mandá-los embora; para quê, então, incomodar-me com ele? E deste modo as coisas correram de forma muito mais satisfatória.

Isso concordou Cadfael enfaticamente não oferece qualquer dúvida.

Encontravam-se já á saída da floresta, na estrada aberta que seguia para Sutton, prestes a virar para norte em direcção a St. Giles, partilhando de uma atmosfera amigável que não parecia surpreender nenhum dos dois.

Desta vez disse Beringar entraremos pelo portão ao mesmo tempo, como ordeiros membros da casa, mesmo que a hora seja um pouco fora do comum. E se não tiverdes objecções a fazer, poderemos ir directamente para a vossa cabana do jardim e ficarmos lá o resto da noite para vermos o que está aqui dentro. Dar-me-á gosto ver o meio ambiente em que Godith viveu enquanto esteve sob os vossos cuidados e os conhecimentos que adquiriu. Onde é que já irão?

A meio caminho para Pool ou para lá dessa zona. Têm boa estrada durante a maior parte do caminho. Sim, vinde e vede vós mesmo. Andastes a perguntar por ela na cidade, não foi? Em casa de Edric Flesher. Petronilla ficou com a pior das opiniões sobre os motivos que vos moviam.

É verdade concordou Beringar, rindo. Nunca ninguém seria suficientemente bom para a sua menina, e a mim odiou-me logo desde o princípio. Ah, enfim, agora podereis fazê-la sossegar.

Tinham chegado à silenciosa Abadia Foregate e conduziam os cavalos por entre as casas ás escuras, o ruído dos cascos ferrados a soar estranhamente na noite tranquila. Alguns dos habitantes mais inquietos entreabriram ligeiramente as persianas das janelas para espreitar quem passava, mas a aparência de ambos era tão descontraída e pacífica que ninguém os suporia munidos de intentos ofensivos. Os preocupados cidadãos puderam então voltar para as suas camas. À sua esquerda assomava, por cima dos muros fechados, a torre da enorme igreja, e a estreita abertura do postigo destacava-se no meio dos enormes portões. O irmão leigo ali de serviço ficou um pouco surpreendido ao ser acordado àquela hora para deixar entrar dois cavaleiros, mas depressa sossegou ao reconhecer ambos, certo de que somente uma missão honrosa os poderia ter mantido fora até tão tarde, o que não era de admirar em tempos tão conturbados. Não se sentia curioso e estava de tal modo ensonado que não se deteve a vê-los dirigirem-se para as cavalariças, onde, antes de mais nada, cuidaram dos cavalos como donos cuidadosos que eram, antes de tomarem o caminho da cabana do jardim com o seu fardo.

Ao verificar-lhe o peso, Beringar fez uma careta.

E transportastes vós uma coisa destas às costas durante todo aquele percurso? inquiriu, erguendo os sobrolhos.

Assim foi disse Cadfael, não faltando com isso à vontade, e vós mesmo o testemunhastes.

Então não posso deixar de considerar que se tratou de um nobre esforço. Não estais por acaso interessado em carregá-lo novamente nos passos que faltam, pois não?

Longe de mim tal ideia respondeu Cadfael. Isso agora está ao vosso cuidado.

Já o receava!

Mas o certo é que se sentia muito bem disposto, o que não era para menos, já que conseguira concretizar os seus planos, justificara-se aos olhos de Godith e ganhara o prémio cobiçado; e como tinha mais força no corpo do que a esbelteza do mesmo deixava adivinhar, levantou o fardo e carregou-o às costas durante o pequeno percurso que os levou ao herbário sem aparentar qualquer esforço.

Devo ter por aqui uma pederneira e algum material inflamável disse Cadfael, entrando à frente. Aguardai até eu acender uma luz, o recinto está cheio de objectos que se quebram.

Encontrou a sua caixa e, pegando fogo à ponta de um pedaço de pano velho, acendeu o pavio que boiava no interior de um pequeno recipiente cheio de óleo. A chama pegou e fixou-se, erguendo-se em toda a sua altura, ao mesmo tempo que espalhava uma suave luminosidade sobre todas as formas estranhas constituídas pelos almofarizes, garrafas e feixes de ervas em secagem que perfumavam o ar.

Sois um alquimista observou Beringar impressionado e com prazer. Nunca se sabe se não sereis até um feiticeiro.

Pousou o fardo no meio do chão e olhou em redor com interesse.

Era aqui que ela passava as noites? perguntou observando a cama ainda desfeita pelo sono inquieto e convulsivo de Torold algumas horas antes. Preparastes tudo isto para ela? Possivelmente descobristes a sua condição logo no primeiro dia.

Realmente foi o que aconteceu. Não foi assim muito difícil. Quereis provar do meu vinho? É feito de pêras, quando a colheita é boa.

Com todo o gosto! E beber a um melhor sucesso da vossa parte, para a próxima, contra todos os adversários, excepto Hugh Beringar.

Entretanto ajoelhara-se ao lado do fardo, desatando a corda que prendia o seu prémio. De dentro do primeiro saco saiu um segundo e deste, um terceiro. Não se podia dizer que parecesse muito ansioso ou mostrasse qualquer espírito de cobiça especial, apenas se notava nele uma certa curiosidade excitada. Do interior do terceiro saco saiu um embrulho de roupa escura, que, uma vez desenrolado sobre o chão de terra, mostrou, não deixando margem para dúvidas, duas mangas. Do emaranhado de roupas escuras sobressaía uma camisa branca, a qual, depois de aberta, mostrou três enormes calhaus lisos, um cinturão de couro enrolado e um pequeno punhal enfiado no respectivo resguardo de couro. Por fim, do meio de todo aquele amontoado, desprendeu-se algo pequeno e reluzente, que, lançando centelhas de luz amarelada, se foi deter aos pés de Beringar, brilhando, teimosamente, com reflexos de ouro e prata.

E foi tudo.

Ainda de joelhos, Beringar não se cansava de olhar, numa atitude de muda incompreensão, os sobrolhos de tal modo erguidos que quase tocavam o fim da testa, os olhos escuros imensamente abertos de estupefacção, incapaz de compreender o que se lhe deparava. Inclinando-se para a frente, separou todos aqueles objectos misteriosos, pegou neles, observou-os pasmado e sopesou as pedras. As sobrancelhas moveram-se rapidamente, regressando ao nível normal, os olhos brilhando com a compreensão súbita do sucedido; lançou um olhar coruscante a Cadfael e, em seguida, começou a rir, com um riso aberto e genuíno que o sacudiu violentamente na posição em que se encontrava, fazendo os feixes de ervas tremer e balançar por cima da sua cabeça. Era um som benigno, franco, exuberante, que fez com que Cadfael, apesar das circunstâncias, também o acompanhasse nas gargalhadas.

E eu cheio de comiseração por vós gaguejou Beringar, limpando as lágrimas que lhe corriam pelo rosto com as costas de uma das mãos, como um miúdo pequeno durante todo este tempo, e vós com esta guardada para me oferecer! Que tolo fui em pensar que poderia enganar-vos.

Tomai, bebei isto apressou-se Cadfael a dizer-lhe, oferecendo-lhe a caneca que acabara de encher. A um melhor sucesso da vossa parte, para a próxima, contra todos os adversários, excepto Cadfael!

Beringar aceitou e bebeu com sofreguidão.

Bem mereceis o que conseguistes. Fostes o último a rir, mas, pelo menos, ainda me deixastes rir durante algum tempo, e nunca mais me divertirei tanto. Qual foi o vosso plano? Como o levastes à prática? Juro que nunca vos perdi de vista um segundo que fosse. Vi-vos retirar da água o que aquele jovem lá tinha colocado, ouvi-vos levantar o fardo e a água escorrer deste para a pedra.

Fiz exactamente isso, mas voltei a deixá-lo afundar-se sem ruído.

Este aqui já eu tinha preparado no barco. O outro foi levantado por Godith e pelo seu escudeiro depois de nos afastarmos.

E têm-no com eles neste momento? inquiriu Seringar, momentaneamente sério.

Na verdade. Já se encontram, assim espero, no Pais de Gales, onde passarão a gozar da protecção de Owain Gwynedd.

Portanto nunca tivestes dúvidas de que eu vos andava a seguir e a vigiar, não é assim?

Sabia que não deixaríeis de o fazer se quisésseis encontrar o vosso tesouro. Nenhuma outra pessoa poderia conduzir-vos até ele. Quando não se pode fugir à vigilância disse o Irmão Cadfael ajuizadamente, há que saber utilizá-la.

Não restam dúvidas de que foi isso o que fizestes. O meu tesouro! repetiu Beringar, olhando novamente para todos aqueles objectos e desatando em seguida a rir. Bem, agora já compreendo melhor a atitude de Godith. Tanto numa vitória como numa derrota bem merecidas não deve haver lugar para rancores! E assim será!

Voltou a olhar, um pouco mais recomposto, para o que estava espalhado diante de si sobre o chão de terra e, depois de reflectir durante alguns instantes, ergueu os olhos para Cadfael, observando-o com atenção.

As pedras e os sacos, tudo o que pudesse servir para o vosso fim disse lentamente, isso eu posso compreender. Mas para quê estes objectos? Que têm eles a ver comigo?

Nenhum deles vos é familiar, eu sei. Felizmente para vós e para mim, eles não têm nada a ver convosco. Isto disse Cadfael, inclinando-se para pegar e sacudir a camisa, os calções e a túnica são as roupas que Nicholas Faintree usava na noite em que foi estrangulado na cabana que fica no bosque próximo de Frankwell, para depois ser atirado para o meio dos homens executados que se encontravam na vala do castelo, numa tentativa de encobrir a façanha.

O vosso homem que apareceu a mais entre os cadáveres murmurou Beringar.

Esse mesmo. Torold Blund vinha com ele, mas separaram-se, e depois verificou-se este acontecimento. O assassino também esperou por ele, mas falhou. Torold fugiu com a sua carga.

Essa parte já eu sei observou Beringar. Foram as últimas palavras que trocastes entre vós naquela tarde, no moinho.

Mirou longamente as pobres relíquias, a túnica castanho-escura e os calções de pano grosso, as melhores que um jovem escudeiro pode ter. Ergueu os olhos para Cadfael e daquela vez estava sério.

Compreendo. Reunistes todos estes artigos com a intenção de mos fazerdes saltar à cara quando menos esperasse, quando estivesse á espera de encontrar algo muito diferente. Para que eu os visse e me denunciasse sob o peso da minha própria culpa. Se isso aconteceu na noite seguinte à cidade cair, recordo-me de que tinha saído sozinho. Tinha estado na cidade nessa mesma tarde, e para nada vos ocultar, sim, consegui recolher mais informações do que aquelas que Petronilla me quis conceder. Tive conhecimento de que esse acontecimento estava para dar-se em breve e que havia duas pessoas em Frankwell à espera que escurecesse para poderem pôr-se a caminho. Embora aquilo que andasse à procura fosse uma pista que me levasse a Godith, o que também encontrei. Sim, vejo bem que poderia ser suspeito. Mas pareço-vos homem capaz de matar de forma tão insana só para me apoderar de uma bagatela como a que aquelas crianças levam para o País de Gales?

Bagatela? repetiu Cadfael, branda e pensativamente.

Oh, agradável de possuir e útil, sem dúvida. Mas quando se tem o necessário para a satisfação das necessidades, tudo o mais são bagatelas. Será que podeis comê-las, usá-las, cavalgá-las, proteger-vos da chuva e do frio com elas, lê-las, tocar música com elas, fazer amor com elas?

Podem comprar-se os favores dos reis com elas sugeriu Cadfael, mas muito placidamente.

Eu já gozo dos favores do rei. Ele é muito influenciado por todos aqueles que o aconselham, mas apesar disso sabe reconhecer um homem quando o encontra. E exige serviços excessivamente duros quando se sente furioso e vingativo, mas despreza aqueles que o rodeiam cheios de subserviência e nunca lhe deixam tempo para planear melhor os seus projectos de vingança. Estive com ele durante parte dessa mesma tarde, e ele aceitou que eu tomasse conta dos meus próprios castelos e terrenos por ele e reunisse meios e homens à minha maneira, o que me satisfez totalmente. Sim, não há dúvida de que teria gostado, já que se me oferecia essa possibilidade, de ter conseguido obter o tesouro de FitzAlan para ele, mas perdê-lo não é coisa assim tão importante, sobretudo porque o foi num combate leal. Portanto respondei-me, Cadfael, pareço-vos um homem que estrangularia um seu semelhante à traição por dinheiro?

Não! Verificaram-se circunstâncias que o tornaram possível, mas de há muito que pus de parte essa ideia. Não sois homem para isso. Tendes a vossa pessoa num conceito demasiado elevado para colocardes um bocado de ouro acima da vossa auto-estima. Não me restava a menor dúvida, antes mesmo de vos submeter esta noite ao teste disse Cadfael, de que desejáveis Godith afastada do perigo que tem corrido e que estáveis a colocar à minha disposição os meios para concretizar a sua fuga. Tentardes, ao mesmo tempo, apoderar-vos do ouro era suficientemente justo. Não, não sois o homem de quem ando à procura. Pouca coisa há, reconheceu pensativamente que não reconheça poderdes fazer, mas matardes por cobiça é dos tais actos que nunca esperaria de vós, agora que vos conheço melhor. Bem, então não me podeis ajudar. Não há nada aqui que vos diga alguma coisa.

Que me diga alguma coisa, não, isso não.

Beringar pegou no topázio amarelo seguro na sua garra de prata quebrada e virou-o pensativamente nas mãos. Levantou-se, aproximando o objecto da luz para o observar melhor.

Nunca o vi antes. Mas ainda assim tenho uma vaga sensação de familiaridade quando olho para ele. Vendo bem, sou capaz de o conhecer. Fiquei de guarda ao local onde Aline preparou o corpo do irmão para o enterro. Ela reuniu todas as coisas deste e levou-as, penso, para que vós as désseis como esmola, com excepção da camisa, que estava manchada de sangue. Falou de algo que faltava, mas que devia estar ali, uma adaga que pertencera á família e cuja posse cabia sempre ao filho mais velho quando este atingia a idade adulta. A forma como ma descreveu leva-me a crer que esta pode bem ser a grande pedra preciosa que adornava o punho da arma.

Erguendo os olhos de cenho franzido, acrescentou:

Onde foi que a encontrastes? Não me digais que foi junto do vosso morto!

Não, com ele não. Mas presa ao chão de terra, no sítio onde Torold rolou, lutando com o assassino. E não pertence a nenhuma adaga deste. Só poderia fazer parte de uma outra.

Quereis dizer perguntou Beringar agastado que foi o irmão de Aline quem assassinou Faintree? Terá ela de suportar esse desgosto também?

Desta vez estais a esquecer-vos do vosso sentido do tempo disse o Irmão Cadfael. sossegando-o. Giles Siward já estava morto várias horas antes de Nicholas Faintree ser assassinado. Não, não o receeis, não há culpa alguma a recair sobre Aline. Pelo contrário, quem matou Nicholas Faintree já roubara antes o corpo de Giles e fora emboscar-se, tendo na sua posse a adaga de que desprezivelmente se apropriara.

Beringar sentou-se abruptamente na cama de Godith, apertando a cabeça fortemente entre as mãos.

Por amor de Deus, dai-me mais vinho, já não consigo pensar. Depois de a caneca voltar a ser cheia, bebeu sequiosamente, pegou

no topázio e deixou-se ficar sentado, sopesando-o com a mão.

Quer dizer que temos um indício sobre o homem que procurais. Não restam dúvidas de que esteve presente, pelo menos durante parte do tempo, no horrível trabalho levado a cabo no castelo, pois foi ali, se estivermos certos, que se apossou da bela peça de armamento á qual este objecto pertence. Mas saiu antes de a tarefa estar terminada, pois, segundo parece, nessa noite montou uma emboscada em Frankwell. Como é que ele tomou conhecimento dos planos? Teria algum daqueles pobres condenados tentado comprar a sua vida traíndo-os? O vosso homem encontrava-se presente quando a matança começou, mas saiu bem antes de esta terminar. Prestcote esteve lá, de certeza, Ten Heyt e os seus flamengos também dali não arredaram pé, pois tinham o trabalho por sua conta, Courcelle, pelo que ouvi dizer, afastou-se assim que pôde e foi encarregar-se de tarefas mais limpas como as de passar uma busca à cidade á procura de FitzAlan, o que não lhe censuro.

Nem todos os flamengos salientou Cadfael falam inglês.

Mas alguns conhecem a língua. E entre aqueles noventa e quatro também alguns falavam certamente francês. Qualquer dos flamengos poderia ter tirado a adaga. Era uma peça valiosa e não faria qualquer falta ao morto. Digo-vos uma coisa, sinto tanto quanto vós que esta morte não pode ficar impune. Que vos parece, será de eu mostrar este objecto a Aline, já não poderá trazer-lhe mais dor ou vergonha, e certificar-me da sua proveniência?

Parece-me disse Cadfael que o deveis fazer. E se quiserdes, voltaremos a encontrar-nos aqui depois do capítulo. Daqui a pouco as penitências a pagar serão tantas que terei de ficar uma semana afastado do convívio dos homens.

Mas depois viu-se que não era assim que as coisas se passavam. Se a sua ausência não fora absolutamente nada notada nas matinas e nos laudes, fora nitidamente esquecida antes do capítulo, e ninguém, nem mesmo o prior Robert, chegou a dar pela sua falta ou a exigir-lhe penitência pelo facto. É que depois da excitação e turbulência vividas no dia anterior, outra e mais esperançosa alteração se divisava. O rei Stephen, juntamente com o seu novo recrutamento de soldados, os recém-apreendidos cavalos e as provisões confiscadas, estava prestes a deslocar-se para sul, em direcção a Worcester, a fim de tentar invadir o baluarte ocidental do conde Robert de Gloucester, meio-irmão da imperatriz Maud e seu leal defensor. A vanguarda do seu exército deveria pôr-se em marcha no dia seguinte, e o rei em pessoa, assim como a sua guarda pessoal, ia naquele mesmo dia ao castelo de Shrewsbury, onde passaria duas noites, inspeccionando as suas defesas ali colocadas, antes de seguir a vanguarda. Sentia-se satisfeito com os resultados da sua recolha e dispunha-se a esquecer quaisquer escolhos remanescentes, pois convidara para a sua mesa, no castelo, naquela noite de terça-feira, o abade Heribert e o prior Robert e, na precipitação dos preparativos, todos os pecados menores foram esquecidos.

Cadfael voltou, grato, ao seu local de trabalho e deitou-se a dormir na cama de Godith até Hugh Beringar chegar a acordá-lo. Este trazia o topázio na mão e o seu rosto mostrava um ar grave e fatigado, mas sereno.

É dela. Pegou nele com prazer, tendo a certeza de que lhe pertencia. Calcula que dificilmente haverá outro igual. Agora vou para o castelo, o séquito do rei já está a dirigir-se para lá e Ten Heyt e os seus flamengos acompanhá-lo-ão. Tenciono encontrar o homem, seja ele quem for, que furtou aquela adaga depois de Giles morrer. Aí saberemos não estar muito longe do vosso assassino. Cadfael, não poderíeis conseguir que o abade Heribert vos levasse com ele ao castelo esta noite? Ele deve ter de levar um acompanhante, e por que não vós? Ele tem a vossa pessoa em elevado conceito e estou certo de que, se lho pedirdes, saltará de regozijo. Assim, se eu tiver algo a dizer-vos, estareis por perto. O Irmão Cadfael bocejou, resmungou e manteve, contra vontade, os olhos abertos postos no jovem rosto moreno que se inclinava para ele, um rosto de linhas vincadas que se mostrava naquele momento determinado e ameaçador, um rosto de quem está pronto para a caçada. Não havia dúvida de que ganhara um aliado formidável.

Que sobre vós recaia uma pequena e branda maldição por me terdes acordado resmungou Cadfael, mas irei.

Trata-se da vossa própria causa recordou-lhe Seringar, sorrindo.

Trata-se da minha causa. E agora, por amor de Deus, parti e deixai-me dormir até à hora do jantar, já me custastes horas suficientes de vida, sua peste!

Hugh Beringar riu-se, embora daquela vez fosse um riso preocupado, desenhou levemente uma cruz na enorme testa bronzeada do Irmão Cadfael e deixou-o gozar do seu repouso.

 

A ceia do rei exigia um servidor para cada prato. Não foi problema sugerir ao abade Heribert que o irmão que estivera ligado à questão do enterro colectivo e até falara com o rei relativamente ao cadáver encontrado a mais entre os executados devia encontrar-se presente para ser interrogado sobre o problema, se disso houvesse necessidade. O prior Robert levou consigo o seu constante bajulador e sombra, o Irmão Jerome, que certamente se mostraria infatigável com os lava-dedos, os guardanapos e os jarros do começo ao fim, bastante mais assíduo que Cadfael, cuja mente deveria estar ocupada com outros pensamentos. Eram velhos inimigos, se é que se podia dizer que Cadfael mantivesse inimizades. Este simplesmente abominava tonsuras palidamente doentias.

A cidade acedera em adoptar um ar festivo, não tanto em honra do rei como pela celebração do facto de este estar prestes a partir, mas o efeito era praticamente o mesmo. Edric Flesher saíra da sua loja e descera a rua principal para ver os convidados, e Cadfael lançou-lhe uma piscadela de olho rápida, indicando-lhe que tinham coisas de que falar mais tarde, coisas tão satisfatórias que bem poderiam ficar adiadas. Em resposta recebeu um sorriso rasgado e o aceno de uma mão carnuda, que lhe deram a saber que a mensagem fora entendida. Petronilla choraria a partida do seu cordeiro, mas regozijar-se-ia ao saber que este se encontrava a salvo e devidamente escoltado. ”Tenho de ir falar com eles brevemente”, pensou, ”assim que este último dever estiver cumprido.”

Do lado de dentro dos portões da cidade, Cadfael vira o velho cego sentado, quase orgulhosamente, com os calções de óptimo tecido que tinham pertencido a Giles Siward, de mão estendida à caridade num gesto cheio de dignidade. Ao cimo do cruzamento avistara a velhinha de mão dada com o seu neto atrasado mental de lábio pendente e com a bela túnica que lhe assentava perfeitamente, cuja textura macia lhe provocava um ar de contentamento extasiado. ”Oh, Aline, devíeis vós mesma ter levado a cabo estas obras de caridade e verdes o que elas proporcionaram para além do conforto físico!”

Os mendigos que seguiam o acampamento do rei tinham tomado novas posições no passadiço que se estendia ao longo da estrada que conduzia aos portões do castelo, esperançados e expectantes, pois o bispo Robert, de Salisbury, administrador judiciário do rei, chegara para se reunir ao seu senhor, trazendo consigo um séquito de ricos e importantes clérigos.

Junto dos portões encontrava-se o pequeno trólei de Lame Osbern, em cima do qual este se instalara confortavelmente para mendigar sem ter de se deslocar. Os socos de madeira gastos que usava para apoiar os joelhos deformados pelos calos jaziam arrumados a seu lado, sobre a capa negra cuidadosamente dobrada, de que só precisaria a partir do princípio da noite. As dobras estavam tão impecavelmente feitas que o fecho de bronze se via orgulhosamente ao de cima, destacado sobre o fundo preto, o dragão da eternidade com cauda na boca.

Cadfael saiu de junto dos restantes elementos do séquito que, entretanto, atravessaram os portões, e deteve-se para falar com o aleijado.

Então como tendes passado desde o dia em que vos vi no posto da guarda do rei? Estais mais bem situado aqui.

Recordo-me de vós disse Osbern, dirigindo-lhe uns olhos notavelmente límpidos e inocentes para um rosto tão deformado quanto o corpo. Sois o Irmão que me trouxe a capa.

E ela tem-vos servido bem?

Tem, e não me esqueci de rezar pela senhora que ma ofertou, tal como me pedistes. Mas, Irmão, há uma coisa que me traz muito preocupado. Com certeza que o homem a quem ela pertencia está morto. É ou não é assim?

É verdade disse Cadfael, mas isso não vos deve incomodar. A dama que vo-la enviou era sua irmã, e podeis crer quando vos digo que a sua dádiva abençoa o manto que vos foi dado. Usai-o e retirai dele conforto.

Estava prestes a afastar-se quando uma mão se apressou a agarrar-lhe na saia do hábito. Era Osbern, que insistiu, implorante:

Mas, Irmão, tremo de pavor só de pensar que possa ter tido alguma culpa no que aconteceu ao dono desta capa. Vi-o vestido com ela, gozando de tanta saúde como...

Vós viste-lo? repetiu Cadfael, quase sem fala, mas o mendigo apressou-se a continuar. Foi de noite, estava frio, e eu pensei para comigo que era bom que Deus me mandasse uma capa para me poder aquecer! Irmão, os pensamentos também são orações! E mal se tinham passado três dias quando Deus me enviou esta mesma capa. Vós mesmo ma deixastes cair nos meus braços! Como posso estar descansado? Nessa noite o jovem deu-me uma esmola e pediu-me que dissesse uma oração por ele na manhã que se aproximava, e eu assim fiz. Mas se a minha primeira oração fez com que a segunda não tivesse efeito? E se eu fiz que aquele homem fosse para a sepultura para eu poder ter uma capa para usar?

Cadfael ficou a olhar para o mendigo, sentindo-se perplexo e não sabendo o que dizer, ao mesmo tempo que um arrepio lhe corria pela espinha. O homem estava em seu perfeito juízo, sabia muito bem o que dizia e o mal que o atormentava era real e profundo, devendo ser esse o aspecto que devia ser tomado, antes de mais nada, em consideração, independentemente de tudo o mais que se lhe seguisse.

Afastai todos esses pensamentos da vossa mente, amigo disse Cadfael firmemente, porque só o demónio os pode ter enviado. Se Deus vos deu uma coisa que desejáveis, foi para salvar uma parcela de bem de um grande mal em relação ao qual não tendes culpa absolutamente nenhuma. Por certo que as orações que rezastes pelo seu anterior dono até mesmo agora lhe devem estar a ser muito úteis para a salvação da alma. Este jovem era um dos elementos que fazia parte da guarnição que FitzAlan aqui tinha, executada depois de o castelo ser tomado pelo rei. Nada receeis, a sua morte não vos pesa nas costas e nenhum sacrifício vosso poderia tê-lo salvo.

Osbern ergueu o rosto, agora mais aliviado, mas ainda assim abanou a cabeça, custando-lhe a acreditar no que ouvia.

Um homem de FitzAlan? Mas como poderia isso ser se o vi entrar e sair do acampamento do rei?

Viste-lo? Tendes a certeza? Como é que sabeis que se trata da mesma capa?

Ora, pelo fecho da gola. Vi-o claramente à luz da fogueira quando ele me deu a esmola.

Então não poderia estar enganado, certamente não existiam dois desenhos exactamente iguais, e o próprio Cadfael vira o outro par na fivela do cinturão de Giles Siward.

E quando foi que o vistes? perguntou suavemente. Contai-me como isso aconteceu.

Foi pouco antes do assalto, por volta da meia-noite. Nessa altura costumava ficar ao pé do posto da guarda para aproveitar o calor da fogueira quando o vi aproximar-se, não abertamente mas como uma sombra, vindo do meio dos arbustos. Parou quando lhe perguntaram quem era e pediu para o levarem ao oficial de serviço, pois tinha algo a dizer-lhe, para benefício do rei. Mantinha o rosto escondido, mas era jovem.

E estava cheio de medo! Mas quem é que não estava? Levaram-no para dentro e mais tarde vi-o voltar e eles deixarem-no sair. Disse que tinha ordens para regressar, pois não devia levantar suspeitas. Isso foi tudo o que ouvi. Vinha mais bem disposto, não tão receoso, de modo que aproveitei para lhe pedir uma esmola, coisa a que acedeu, solicitandome em troca uma oração. ”Diz uma oração por mim quando for manhã”, pediu ele, eu assim fiz, e vós dizeis-me agora que morreu! De uma coisa tenho eu a certeza: quando saiu de ao pé de mim não estava à espera de morrer.

Não, disse Cadfael, sentindo uma piedade imensa por todos os homens assustados e fracos daquele mundo, certamente que não, e as vossas orações são benéficas para a sua alma. Nunca lhe desejastes mal, Deus ouve o coração. Quem nunca lho desejou, nunca lho fez.

Deixou Osbern mais tranquilo e confortado, mas seguiu o seu caminho em direcção ao castelo, carregando agora nos ombros o fardo de angústia e depressão que assoberbara o aleijado. Então sempre era verdade que para aliviar os problemas dos outros aumentávamos os nossos. E que problemas. Lembrando-se a tempo de que havia uma pergunta que devia ter sido feita, a mais importante de todas, voltou atrás.

Sabes, amigo, quem era o oficial de serviço naquela noite? Osbern abanou negativamente a cabeça.

Não cheguei a vê-lo, não saiu da tenda. Não, Irmão, a isso não posso responder.

Não vos incomodo mais disse Cadfael. Agora já confessastes livremente o que vos preocupava e sabeis que a capa chegou até vós como uma bênção, não como uma maldição. Tirai proveito dela, bem o mereceis.

Abade disse Cadfael dirigindo-se a Heribert assim que chegou ao pátio, se não tendes necessidade da minha pessoa até irmos para a mesa, peço-vos que me dispenseis, pois tenho trabalho a fazer que diz respeito a Nicholas Faintree.

De qualquer modo, o facto de o rei Stephen receber os seus vassalos no pátio interior e o pátio exterior, de maiores dimensões, se encontrar repleto de clérigos, bispos, a pequena nobreza da região e até um ou outro conde, fazia que não houvesse espaço para meros acompanhantes, cujos deveres teriam início quando a festa começasse. O abade encontrara um amigo no bispo de Salisbury, e não se fez rogado a dispensar Cadfael para as tarefas que este muito bem entendesse. Assim, o Irmão Cadfael foi à procura de Hugh Beringar com a história de Osbern a pesar-lhe no espírito e a resposta à última pergunta ainda por saber, embora muitos dos tristes mistérios começassem já a fazer sentido. Não fora um prisioneiro já com a corda em redor do pescoço quem perdera a dignidade e traíra os planos secretos que FitzAlan tinha para o seu tesouro. Não, essa traição tivera lugar no dia anterior, quando o resultado da batalha estava ainda por decidir, e o acto fora previamente pensado para poupar uma vida que, no entanto, não lograra salvar. Ele viera pela calada e pedira para ser levado ao oficial da guarda, pois tinha algo a dizer para benefício do rei! E ao sair dissera ao soldado que tinha ordens para regressar a fim de não despertar suspeitas, mas nessa altura já estava mais animado. Pobre desgraçado, por pouco tempo mais!

Por que meios ou sob que pretexto lograra sair do castelo talvez com a desculpa de ir fazer um reconhecimento sobre a posição do inimigo, fora certamente em obediência ás instruções deste que voltara e mantivera toda a desconfiança afastada. Regressara apenas para defrontar a morte a que pensara ter escapado.

Hugh Beringar saiu e permaneceu durante alguns momentos no cimo da escadaria perscrutando em volta á procura de determinada pessoa entre a multidão, que se movia incessantemente. Aqui e ali viam-se os escuros hábitos beneditinos, contrastando fortemente com as vestimentas de honra dos membros da nobreza, mas Cadfael era mais baixo que muitos daqueles que o rodeavam, e Beringar viu o homem de que andava à procura antes mesmo de este o ver. Começou a abrir caminho até junto dele, e os olhos negros que varriam o pátio por detrás das sobrancelhas carregadas detiveram-se em Cadfael, brilhando. Beringar desceu para o agarrar pelo braço e afastaram-se para um recanto mais tranquilo.

Vinde daí, vamos para perto da sentinela, onde não estará ninguém para além dela. Como podemos nós falar aqui?

E depois de conseguirem subir à muralha, descobriu um canto de onde ninguém poderia aproximar-se sem ser visto por eles, olhando Cadfael gravemente.

Vè-se no vosso rosto que tendes novas para me dar. Dizei, mas rapidamente, para que depois vos possa contar as minhas disse.

Cadfael relatou a história com a brevidade com que a mesma lhe tinha sido transmitida, sendo compreendido com igual rapidez. Beringar tinha as costas apoiadas no intervalo das ameias como quem procura suporte para se defender de um ataque poderoso. No rosto lia-se-lhe uma grande mágoa.

O irmão dela! Não restam dúvidas de que foi mesmo assim que as coisas se passaram. Ele saiu de noite do castelo, ás escondidas, o rosto oculto, falou com o oficial do rei e voltou pelo mesmo caminho. Para que não levantasse suspeitas! Oh, sinto-me doente! exclamou Beringar com ar desesperado. E tudo para nada! A sua traição foi vítima de uma outra ainda pior. Vós ainda não sabeis, Irmão Cadfael, ainda não tendes conhecimento de tudo! Mas de entre todas as pessoas tinha de ser o irmão dela!

Quanto a isso nada se pode fazer disse Cadfael, foi mesmo ele. Aterrorizado diante da perspectiva de perder a vida arrependendo-se de uma aliança erradamente escolhida, correu até junto dos sitiantes a fim de comprar a sua vida. Em troca de quê? De algo que traria vantagem ao rei! Nessa mesma tarde eles tinham estado reunidos a planear a remoção do ouro de FitzAlan. Foi assim que alguém teve conhecimento, devidamente antecipado, do que Faintree e Torold transportavam e do caminho que tomariam. Alguém que nunca transmitiu esse conhecimento, assim penso, ao rei ou a quem quer que fosse, mas preferiu actuar pessoalmente para seu próprio benefício. Por que outra razão teria tudo terminado como terminou? O jovem, como diz Osbern, regressou a mando do oficial com quem falou, mostrando-se bastante aliviado e menos temeroso.

Tinham-lhe prometido a vida disse Beringar amargamente, e provavelmente os favores do rei e um posto para si. Não é de admirar, pois, que tenha voltado ao castelo em tão alegre estado de espírito. Mas a verdadeira intenção era mandá-lo de volta para ser preso e executado juntamente com os outros, a fim de que não ficasse vivo para contar a história. Agora escutai, Cadfael, o que eu ouvi de um dos flamengos que esteve presente no dia da matança colectiva. Contou-me que depois de Arnulf de Hesdin ser enforcado, Ten Heyt indicou aos carrascos um jovem que deveria morrer a seguir, afirmando que a ordem tinha vindo de cima. E assim foi feito. Estranharam que o referido jovem tivesse sido arrastado para a morte aparentando grande incredulidade, como se pensasse, a princípio e sem qualquer dúvida, que estavam a fazer uma encenação para o tirarem das fileiras sem despertar suspeitas. Ao deparar com a negra realidade, pôs-se a gritar que estavam enganados, que ele não devia morrer, que lhe tinham prometido a vida, que deviam ir perguntar...

Deviam ir perguntar murmurou Cadfael a Adam Courcelle.

Não, não me referiram qualquer nome... o meu homem não ouviu nenhum. Que vos leva a pensar nesse nome em particular? Ele só lá esteve uma vez, segundo o relato daquele soldado, a fim de dar uma vista de olhos aos cadáveres que estavam desprendidos, mas ainda era cedo e poucos tinham já sido executados. Depois voltou a sair para a cidade, onde tinha serviço, e ninguém mais voltou a vê-lo. Impressionável, pensaram.

E a adaga? Giles usava-a quando o enforcaram?

Tinha-a realmente com ele, pois um dos meus homens estava de olho nela, mas quando a foi buscar já tinha desaparecido.

Mesmo para alguém com tão grande prémio em vista disse Cadfael tristemente, um pequeno ganho extra ocasional não era de perder.

Durante um longo momento olharam um para o outro em silêncio.

Mas por que razão estais tão certo de que foi Courcelle? perguntou Beringar.

Lembro-me do horror que mostrou disse Cadfael quando Aline veio procurar o seu morto e ele soube o que tinha feito. ”Se eu tivesse sabido”, disse, ”se eu tivesse sabido tê-lo-ia salvo para vós! Fosse a que preço fosse! Deus me perdoe!”, disse, e isso significava lá no fundo: Aline, perdoai-me! Ele estava a ser totalmente sincero, embora eu não chame a isso arrependimento. E devolveu, se bem vos recordais, a capa. Penso, na verdade, que também teria entregue a adaga, se a tanto se atrevesse. Mas não o fez, já que ela estava quebrada e incompleta. Gostaria de saber ponderou Cadfael, gostaria de saber o que fez ele depois com ela... Um homem capaz de a arrancar a um morto dificilmente se separaria dela, mesmo por amor a uma jovem, não se atrevendo, no entanto, a deixá-la pôr-lhe os olhos em cima, e ele anda determinado a fazer-lhe a corte. Tê-la-ia mantido escondida? Ou ter-se-á desfeito dela?

Se estais certo disse Beringar, ainda duvidoso, precisamos dela, é a nossa prova. Não obstante, Cadfael, por amor de Deus, qual deverá ser agora a nossa actuação? Ele sabe bem que não me é possível defender uma pessoa que comprou a sua própria salvação através de semelhante método, enquanto os companheiros estavam nas últimas. Mas nem vós nem eu podemos pôr esta questão completamente a nu e assim dar um desgosto tão grande a tão inocente e honrada donzela. Já é bastante que sofra o desgosto da morte do irmão. Deixemo-la ao menos continuar a pensar que ele foi vítima da posição tomada, honrando-a até ao fim e por ela dando a vida e não que morreu covardemente, gritando a dizer que lhe tinham prometido o perdão em troca de traição tão baixa. Ela não o deve saber, nem agora nem nunca.

O Irmão Cadfael não podia deixar de concordar.

Mas se o acusarmos e o caso for a julgamento, com certeza tudo virá a público. Isso não podemos nós permitir, e aí é que está a nossa fraqueza.

E a nossa força disse Beringar com firmeza, porque nem ele o pode permitir. Ele quer subir no conceito do rei, pretende honrarias, mas também deseja Aline. Pensáveis que eu não o sabia já? Como poderia ele encará-la se alguma coisa chegasse aos ouvidos dela? Não, ele estará pelo menos tão ansioso quanto nós para manter esta história perpetuamente oculta. Proporcionai-lhe a mais pequena oportunidade de se livrar do problema que ele não deixará de a aproveitar com unhas e dentes.

Compreendo e simpatizo com a vossa preocupação observou o Irmão Cadfael suavemente. Mas também deveis reconhecer a que me move. Tenho nas minhas mãos uma outra responsabilidade. Deve ser feita justiça em relação a Nicholas Faintree.

Confiai em mim e ficai preparado para me apoiardes na iniciativa que porventura vier a tomar esta noite na mesa do rei disse Hugh Beringar. Ele terá justiça, e vingança também, mas deixai que as coisas corram do modo que se me deparar como o mais conveniente.

Cadfael foi cumprir o dever que lhe cabia junto da cadeira onde o abade se encontrava sentado, com o espírito repleto de dúvidas e preocupação, pois não fazia a menor ideia do que Beringar pretendia fazer, não estando também muito convencido de que sem a adaga pudessem tecer alguma acusação contra Courcelle. O flamengo não o vira tirá-la, as palavras que ele instintivamente soltara diante de Aline relativamente à morte do irmão desta, em manifesta dor, não podiam ser consideradas como prova. E contudo ele vira vingança e morte no rosto de Hugh Beringar, tanto por Aline como por Nicholas Faintree. O que mais lhe importava no mundo, naquele momento, era não permitir que ela jamais viesse a saber de que modo seu irmão desgraçara o seu sangue e o seu nome, e para isso Beringar não teria escrúpulos em sacrificar não só a vida de Adam Courcelle como também a sua própria. ”E sabe-se lá como”, pensou Cadfael sombriamente, ”tornei-me muito afeiçoado àquele jovem e não gostaria que nada de mal lhe acontecesse.” Seria preferível entregar o caso nas mãos da justiça, mesmo que tivéssemos de ter muito cuidado em apresentar as provas que possuímos, evitando qualquer referência a Torold Blund e a Godith Adeney. Mas para isso, é imprescindível que obtenhamos uma prova irrefutável de que a adaga de Giles Siward passou para as mãos de Adam Courcelle, e de preferência a adaga em si. Caso contrário, ele limitar-se-á a mentir indefinidamente, negando todas as acusações, afirmando que nunca viu o topázio ou a adaga a que ele pertence e que nada tem a declarar; e devido à posição que alcançou junto do rei, não será incriminado.

Não se encontravam damas presentes essa noite, tratava-se, estritamente, de um acontecimento político e militar, mas o grande hall fora adornado com tapeçarias e ornatos de pano cedidos para a ocasião e brilhava sob a luz das tochas. O rei estava de bom humor, as provisões da guarnição encontravam-se asseguradas e os incumbidos de roubar para abastecer os suprimentos reais tinham cumprido bem a sua missão. Do seu lugar, por detrás do abade Heribert, que se sentara na mesa do rei, Cadfael vigiava todo o hall, calculando que deviam estar presentes cerca de quinhentos convidados. Procurou Beringar e viu-o numa das mesas de baixo, muito bem posto, conversando jovial e animadamente, como se não o preocupassem assuntos mais sombrios. Dominava perfeitamente a expressão do seu rosto; mesmo quando olhava de relance para Courcelle, nada se lhe notava que atraísse as atenções, certamente nada que alertasse para qualquer propósito grave.

Courcelle encontrava-se na mesa principal, apesar de esta estar totalmente preenchida pelos dignatários eclesiásticos de visita. Corpulento, vividamente colorido e bem-parecido, com sucesso nas armas e de boas relações com o rei, que estranho não era que este homem tivesse sentido necessidade de se dedicar secretamente à pilhagem e através de meios tão degradantes! E no entanto seria aquilo assim tão estranho no meio do caos criado pela guerra civil, em que todos viviam mergulhados? Onde os favores do rei podiam ser anulados pelo próprio rei a seu bel-prazer, onde barões mudavam de partido de acordo com as suas conveniências, onde mesmo condes tinham voltado para assegurar as suas próprias prerrogativas, em vez de se preocuparem em apoiar uma causa que corria o risco de ruir sob os seus pés, deixando-os prisioneiros e arruinados! Courcelle era apenas um sinal dos tempos; dali a alguns anos existiriam duplicados dele nos quatro cantos do reino.

”Não gosto da maneira como vejo a Inglaterra progredir”, pensou Cadfael, sentindo-se dominar por um mau presságio, ”e acima de tudo não me agrada nada o que está prestes a acontecer, pois tão certo como Deus nos ver, Hugh Beringar está disposto a imiscuir-se num terreno traiçoeiro sem dispor de armas convenientes.”

Passou toda a refeição preocupado, mal prestando atenção às necessidades do abade Heribert, que também nunca bebia vinho e comia muito frugalmente. Cadfael servia-o, punha-lhe água no copo, apresentava-lhe a taça para a lavagem dos dedos e o guardanapo, aguardando o desenrolar dos acontecimentos com enorme resignação.

Depois de os pratos serem levantados, os músicos começaram a tocar e apenas o vinho ficou na mesa, enquanto os servidores recorriam, por sua vez, ao que ficara nas cozinhas, onde os cozinheiros e ajudantes já se tinham aviado, encontrando-se espalhados pelos cantos a comer. Cadfael agarrou numa fatia de pão, colocando sobre esta pedaços de carne soltos, e levou-a até ao portão onde estava Lame Osbern. Fazia acompanhar o petisco de uma medida de vinho. Por que não haveriam os pobres de tirar proveito, ao menos uma vez, de algo que corria á custa do rei, mesmo que esse custo, passando pelas várias hierarquias, acabasse por chegar até aos próprios pobres? Era muito frequente estes pagarem, mas raramente partilhavam desse proveito.

Voltava Cadfael ao hall quando os seus olhos foram atraídos para um rapazito de cerca de 12 anos que estava sentado do lado de dentro dos portões, debaixo de um archote, cuja luz o alumiava. Comodamente encostado á muralha, cortava a sua carne aos pedacinhos com a ajuda de uma pequena lâmina de punhal. Cadfael vira-o já antes na cozinha a arranjar peixe com a mesma lâmina, mas a parte de cima estava oculta, e também não a teria visto naquele momento se o rapaz não a tivesse pousado no chão, a seu lado, enquanto comia.

Cadfael deteve-se e ficou a olhar, imóvel. Não se tratava de nenhuma faca de cozinha, mas sim de uma adaga finamente cinzelada, cujo punho era formado por um fino cabo de prata, arredondado para se adaptar ao formato da mão, mostrando delicadas linhas de trabalho de filigrana; em redor da base, onde a lâmina principiava, uma fiada reluzente de pequenas gemas. O punho terminava num entrançado de prata que estava quebrado na ponta. Era difícil acreditar, mas impossível de ignorar. Talvez os pensamentos fossem orações.

Dirigiu-se ao rapazinho suave e calmamente; os indecifráveis caminhos da justiça não devem ser postos em alarme.

Filho, onde arranjaste uma faca tão linda?

O rapaz ergueu os olhos, sereno, e sorriu. Depois de acabar de engolir aquilo que lhe enchia as bochechas, disse, alegremente:

Encontrei-a, não a roubei.

Deus me livre, moço, nem isso me passou pela cabeça. Onde a encontraste? E também tens a bainha?

Esta estava ao lado dele, na sombra, e ele mostrou-a orgulhosamente.

Pesquei-as do rio. Tive de mergulhar, mas encontrei-as. São realmente minhas, padre, o dono não as quis, deitou-as fora. Deve ter sido por isto estar partido. Mas é a melhor faca para arranjar peixe que alguma vez tive.

Então ele tinha-a deitado fora! Contudo, não apenas porque o cabo cravejado estava partido.

Viste-o deitá-la ao rio? Onde foi que aconteceu, e quando?

Estava a pescar junto ao castelo quando vi um homem aproximar-se da margem do rio, vindo do lado da conduta de água, e atirá-la, voltando em seguida pelo mesmo caminho. Depois de ele partir, mergulhei onde a tinha visto cair e encontrei-a. Foi ao fim da tarde, na noite em que os corpos foram todos transportados para a abadia. Há uma semana, faz amanhã. Foi esse o primeiro dia em que foi seguro voltar a pescar aqui.

Sim, tudo encaixava perfeitamente. Nessa mesma tarde, Aline levara Giles para St. Alkmund e deixara Courcelle abalado e enraivecido, com arrependimentos vãos e de posse de algo que poderia voltar Aline contra ele até ao fim da sua vida se alguma vez esta lhe pusesse os olhos em cima. E fizera a única e óbvia coisa que lhe restava, que era atirar o objecto ao rio, não lhe passando pela cabeça que o anjo da justiça, na pessoa do jovem pescador, o redimiria, para que este lhe fosse apresentado quando mais seguro pensasse estar.

Sabes de que homem se trata? Como era ele? De que idade?

É que ainda subsistiam pequenas dúvidas; tudo o que ele tinha para servir de suporte à sua convicção era a recordação do rosto horrorizado de Courcelle e da sua voz alterada, mostrando, suplicante, a sua devoção junto do corpo do Giles Siward. O jovem encolheu os ombros, indiferente, incapaz de descrever aquilo que ele próprio vira claramente e retinha na memória.

Era só um homem. Não o conhecia. Não era velho como vós, padre, mas já um bocado.

Mas para ele qualquer pessoa que pertencesse á geração de seu pai era considerada velha, apesar de este dever ter pouco mais de 30 anos.

Conseguirias reconhecê-lo se o voltasses a ver? Poderias apontá-lo se se encontrasse no meio de outras pessoas?

Claro! exclamou o rapaz quase ofendido. Tinha uns olhos jovens, brilhantes e muito observadores, se bem que a sua fala não fosse muito fluente. Claro que reconheceria novamente o seu homem.

Enfia a tua faca na bainha, filho, e vem comigo disse-lhe Cadfael decididamente. Oh, nada receies, ninguém te roubará esse tesouro. Se mais tarde tiveres de abdicar dele, serás generosamente recompensado.

Só preciso é que voltes a repetir o que me disseste, e garanto-te que não ficarás a perder.

Ao entrar no hall com o rapazinho ao lado, este agora um pouco apreensivo, mas ainda mais excitado, viu que tinham chegado tarde de mais. A música parara, Hugh Seringar estava de pé e dirigia-se para o estrado onde a mesa do rei fora montada, detendo-se em frente deste.

Majestade, antes de partirdes para Worcester há uma questão sobre a qual rogo a vossa atenção e subsequente procedimento. Exijo que se faça justiça em relação a um dos membros da vossa companhia, que abusou da posição de confiança que detém junto de vós. Roubou um morto, para vergonha da nobreza a que pertence e cometeu assassínio para vergonha da humanidade de que faz parte. Faço questão em manter esta acusação, provando-a com o meu corpo. Aqui fica o desafio!

Apesar das próprias dúvidas que o tinham assolado, demonstrara que a intuição de Cadfael estivera correcta a ponto de apostar a sua vida na resolução daquele caso. Inclinando-se para a frente, fez rolar algo pequeno e reluzente sobre a mesa, algo que foi embater suavemente contra a taça do rei. A sala mergulhara subitamente num silêncio profundo. Em redor da mesa real, todas as cabeças se viraram para acompanhar o objecto brilhante que ficara a balançar irregularmente sobre o tampo; depois ficaram a olhar fixamente para o jovem que o lançara. O rei pegou no topázio e virou-o entre as mãos enormes, a princípio com uma expressão de incompreensão no rosto, logo a seguir atento e preocupado. Também ele olhou longamente para Hugh Beringar. Cadfael, abrindo caminho por entre as mesas situadas mais abaixo, conduziu o rapazinho estupefacto à sua frente e não desviou os olhos de Adam Courcelle, que, sentado ao fundo da mesa real, se mostrava tenso e cauteloso. Dominando a expressão do rosto, não parecia mais espantado ou mais curioso que qualquer dos que o rodeavam; somente a crispação da mão que segurava a taça traía a sua consternação. Ou seria até mesmo isso calculado para complementar uma opinião já formada? Cadfael já não estava muito certo do seu próprio julgamento, facto que o perturbava e enfurecia.

Não há dúvida de que me fazeis deparar com um acontecimento inesperado disse por fim o rei, olhando sombriamente para Beringar depois de observar o objecto que tinha na mão.

Lamento profundamente estragar a ceia de Vossa Majestade, mas nunca poderia protelar aquilo que não pode ser protelado. A justiça de Vossa Majestade é um direito que assiste a todo o homem honesto.

Tereis de me dar muito mais explicações. Que objecto é este?

É a parte de cima do punho de uma adaga. A adaga a que pertence é agora propriedade de Lady Aline Siward, que lealmente colocou todos os recursos da sua casa ao serviço de Vossa Majestade. Encontrava-se anteriormente na posse de seu irmão Giles, que fazia parte dos membros da guarnição que defendia este castelo contra vós e por esse acto pagaram. Afirmo que foi retirada do seu cadáver, uma acção não rara entre a soldadesca vulgar, mas indigna de cavaleiros ou nobres. Essa é a primeira ofensa. A segunda é assassínio, aquele assassínio de que Vossa Majestade tomou conhecimento através do Irmão Cadfael, da casa beneditina aqui de Shrewsbury, após a contagem dos mortos. Vossa Majestade e aqueles que executaram as vossas ordens foram utilizados como escudo por aquele que estrangulou um homem pelas costas, como estareis bem lembrado.

Recordo-me perfeitamente disse o rei com ar sombrio. Debatia-se entre o desagrado que lhe causava ter de se esforçar por ouvir e julgar, quando a sua indolência natural desejara apenas uma festa descontraída e desprovida de preocupações, e uma curiosidade cada vez maior em relação ao que se encontrava por detrás de tudo aquilo.

Que tem esta pedra preciosa a ver com essa morte?

Majestade, o Irmão Cadfael, também aqui presente, não hesitará em testemunhar como encontrou o local onde o referido assassínio foi cometido e ali deparou com essa pedra, quebrada durante a luta e meio enterrada no chão. Ele jurará, tal como eu, que o homem que roubou a adaga é o mesmo que matou Nicholas Faintree e que ele deixou atrás de si, sem o saber, esta prova da sua culpabilidade.

Cadfael conseguira já acercar-se bastante, mas encontravam-se todos tão atentos à cena que se desenrolava mais acima que ninguém deu pela sua aproximação. Courcelle recostara-se na cadeira, descontraído e escutando com enorme interesse, mas que quereria essa atitude dizer? Sem dúvida apercebera-se já totalmente do significado do que se estava a passar; não valia a pena argumentar contra a afirmação de que quem quer que tivesse roubado a adaga também matara o homem, já que ninguém podia relacioná-la com ele. A dita encontrava-se no fundo do Severn, para sempre perdida. A teoria poderia alcançar permissão para ser mantida, o crime condenado e deplorado, desde que ninguém pudesse apresentar um nome e provas que sustentassem a acusação. Ou, por outro lado, aquilo poderia representar, o que era muito mais simples, a acusação de um homem inocente!

Nessa conformidade continuou Hugh Beringar implacavelmente, repito as acusações que aqui formulei diante de Vossa Majestade. Acuso um dos que se encontra aqui presente neste hall, de roubo e assassínio e ofereço-me para o comprovar com o meu corpo, para defender a minha afirmação em combate contra Adam Courcelle.

Ditas estas palavras virou-se para a extremidade da mesa a fim de encarar o homem que acusava, o qual se pusera imediatamente de pé, mal querendo acreditar no que ouvia, tremendamente abalado, como nem de outro modo poderia estar. O choque transformou-se rapidamente em incredulidade, raiva e escárnio. Era exactamente assim que um homem inocente deveria parecer quando de súbito confrontado com uma acusação tão malévola quanto hilariante.

Vossa Majestade pode crer que isto ou é uma brincadeira ou uma malvadez! A que propósito está o meu nome imiscuído em semelhante invectiva? Pode ser verdade que tenham roubado a adaga a um morto e até mesmo pode acontecer que esse mesmo ladrão tenha assassinado um homem, deixando esquecida esta prova da sua culpa. Mas a razão pela qual o meu nome aparece envolvido em toda essa história é coisa que deixo para Hugh Beringar explicar, se não se tratar apenas de uma mentira de um homem invejoso. Quando é que alguma vez pus os olhos nessa pressuposta adaga? Quando é que ela esteve na minha posse? Onde se encontra agora? Alguém me viu alguma vez usar semelhante arma? Meu senhor, peço-vos que mandeis revistar os artefactos de soldado que tenho comigo e se esse objecto for encontrado nos meus alojamentos e entre as minhas coisas, dai-mo a saber!

Esperai! disse o rei imperiosamente, olhando de um rosto para o outro com o cenho franzido. Esta questão deve, sem dúvida, ser examinada, e se estas acusações forem infundadas, não deixarão de ser punidas. É no que Adam afirma que está o cerne da questão. É verdade que o monge se encontra presente? E ele confirma o achado deste ornamento quebrado no local onde teve lugar esse assassínio? E que ele pertence àquela mesma adaga?

Tenho o Irmão Cadfael comigo aqui, esta noite disse o abade Heribert, olhando em redor à procura dele, mas não conseguindo encontrá-lo.

Estou aqui, abade disse Cadfael aos pés da plataforma, avançando de modo que o vissem, rodeando os ombros do rapazito com um braço, este agora completamente fascinado, todo ele olhos e ouvidos.

Ouvistes o que Beringar disse? inquiriu o rei Stephen. Encontrastes esta gema no local onde o homem foi morto?

Sim, Majestade. Meio enterrada no chão, onde não restavam dúvidas de que tinha havido luta, onde dois corpos rolaram.

E que prova temos de que venha de uma adaga que pertenceu ao irmão de Lady Siward? Embora reconheça que se trata de uma peça facilmente identificável, uma vez conhecida.

A palavra da própria Lady Aline. Foi-lhe mostrada e ela reconheceu-a.

Esse testemunho é quanto basta disse o rei para nos provar que o ladrão pode muito bem de igual modo ser o assassino. Mas o que não consigo perceber de forma alguma é por que razão tanto vós como Beringar estais em crer que esse homem é Adam! Não existe um fio sequer que estabeleça a ligação entre ele, a adaga e o feito. Por essa ordem de ideias poderíeis escolher qualquer um de nós, até mesmo o bispo Robert, de Salisbury, ou qualquer dos escudeiros que ali se encontram em baixo. Ou apontardes com a ponta do vosso punhal, de olhos fechados, para uma lista com os nossos nomes. Onde está a lógica?

Estou satisfeito por ver disse Courcelle, muito vermelho e forçando uma gargalhada tensa que Vossa Majestade não se coíbe de acentuar o cerne da questão. Não me falta boa vontade para concordar com este bom irmão no sentido em que se deve condenar um roubo malévolo e um homicídio furtivo, mas, Beringar, pensai bem antes de relacionardes esses factos comigo ou com qualquer outro homem honesto. Segui o fio da meada que parte dessa gema, não hesiteis, se é que conduz a algum lado, mas até poderdes estabelecer ligação entre ela e as minhas mãos, cuidai em não me desafiardes para um combate mortal, que bem poderei aceitar para vossa grande consternação, meu jovem.

O meu desafio jaz agora em cima da mesa ripostou Hugh Beringar com calma implacável. Só tendes de o vir buscar. Não o retirarei.

Senhor meu rei disse Cadfael, erguendo a voz de modo a esta se sobrepor aos sussurros e murmúrios dos presentes, que corriam como ventos antagónicos em redor da mesa real, não se trata, neste caso, de não haver testemunhas que relacionem a adaga com uma pessoa. E para provar definitivamente que esta gema faz parte da adaga, aqui está a arma em causa. Peço a Vossa Majestade que junte as duas partes com as próprias mãos.

Ergueu a adaga, e Beringar, chegando-se à beira da plataforma, pegou nela, de olhar fixo como um homem num sonho, e entregou-a, num silêncio estupefacto, ao rei. Os olhos do rapaz seguiram-na com ansiedade possessiva; os de Courcelle, cheios de horror e descrença, como se uma vítima que ele tivesse afogado se erguesse das profundezas das águas para o acusar. Stephen examinou com ar apreciativo o trabalho e, desembainhando a lâmina com curiosidade, encaixou o topázio preso na sua garra de prata na extremidade quebrada do punho.

Não há dúvida de que isto pertence aqui. Todos viram? Baixando os olhos para o sítio onde Cadfael se encontrava, acrescentou: Portanto, onde é que a encontrastes?

Fala, filho disse Cadfael encorajadoramente, e conta ao rei o mesmo que me disseste a mim.

O rapaz estava ruborizado e os olhos brilhavam-lhe com uma excitação que se sobrepusera já aos seus receios. Empertigou-se e contou a sua história com voz estridente de tão importante se sentir, mas utilizando novamente as palavras simples que dirigira a Cadfael, e não houve homem algum naquela sala que duvidasse de que falava verdade.

... e eu estava ao pé de uns arbustos, à beira da água, e ele não me viu. Mas eu via-o muito bem. E assim que ele se foi embora, mergulhei no sítio onde tinha caído e encontrei-a. Eu vivo ao pé do rio, nasci lá mesmo. A minha mãe diz que já sabia nadar antes mesmo de andar. Fiquei com a faca para mim pensando que isso não tinha mal nenhum, pois ele já não a queria. E a faca é mesmo essa aí, meu senhor. Posso levá-la de volta comigo quando tudo acabar?

Durante um momento o rei abstraiu-se da gravidade da causa que naquele momento tinha em mãos, sorrindo para o ruborizado e ansioso rapazito com todo o bom humor e encanto que era da sua natureza dispensar, se não se tivesse lançado numa ambiciosa e ávida disputa por um trono, aprendendo os maus ensinamentos que sempre acompanham semelhantes acções.

Quer dizer que o peixe que comemos esta noite foi arranjado com uma faca adornada de pedrarias, não é verdade, meu rapaz? E que belo peixe não era! Também foste tu que o apanhaste, para além de lhe dares o tratamento?

Envergonhado, o rapazito respondeu que tinha ajudado.

Bem, cumpriste o teu dever muito capazmente. E agora diz-me, conhecias o homem que deitou fora esta faca?

Não, meu senhor, não sei o nome dele. Mas sou capaz de o conhecer se o vir.

E estás por acaso a vê-lo? Aqui neste hall, connosco?

Sim, meu senhor disse a criança sem hesitações, apontando um dedo para Adam Courcelle. Foi aquele homem.

Todos os olhos se voltaram para Courcelle, os do rei mais dura e pensativamente do que todos os outros, e fez-se um silêncio que não durou mais que uma inspiração profunda, mas pareceu abalar as fundações do hall e parar todos os corações que batiam no interior deste. Então Courcelle disse, com uma calma laboriosamente conseguida e uma fúria que não desejava disfarçar:

Majestade, asseguro-vos que isto é totalmente falso. Nunca estive na posse dessa adaga, portanto nunca a poderia atirar para o rio. Nego que alguma vez tenha possuído esse objecto ou mesmo que lhe tenha posto, até agora, os olhos em cima.

Estais a dizer inquiriu o rei secamente que a criança mente? Sob a instigação de quem? Não de Seringar. A mim pareceu-me que ele foi tomado tão de surpresa pelo aparecimento desta testemunha quanto eu próprio, ou vós. Devo então pensar que a ordem dos Beneditinos andou à procura do rapazito para engendrar semelhante história? E com que propósito?

O que eu quero dizer, Majestade, é que tudo isto não passa de um estúpido erro. O rapaz pode ter visto o que diz ter visto, apanhado a adaga como afirma ter apanhado, mas está enganado quando afirma que me viu-a mim. Eu não sou esse homem. Nego todas as acusações que me foram feitas.

E eu mantenho-as disse Hugh Beringar. E solicito que o nosso duelo seja autorizado.

O rei esmagou um punho sobre a mesa, fazendo dançar as tábuas e balançar as taças, entornando parte do vinho que continham.

Este assunto deve ser esclarecido, não o podemos deixar passar em claro.

Virando-se de novo para o rapazinho e refreando a sua exasperação, perguntou mais suavemente:

Pensa e volta a olhar com todo o cuidado, dizendo-me se tens a certeza de que é este o homem que viste. Se tens alguma dúvida, podes falar. Não é pecado nenhum uma pessoa enganar-se. Podes muito bem ter visto um outro homem com a mesma estatura e o mesmo aspecto. Mas se tens a certeza, também o podes dizer, e sem medo.

Tenho a certeza disse o rapaz tremendo, mas sem vacilar. Sei o que vi.

O rei recostou-se nas costas do seu enorme cadeirão, pousando os punhos fechados sobre os braços de madeira, e ponderou durante alguns momentos. Olhava para Hugh Beringar com grande desagrado.

Tudo indica que me colocaste uma mó de moinho ao pescoço, quando aquilo de que precisava era de estar livre para partir rapidamente. Não posso ignorar o que aqui foi dito, devo aprofundar a questão. Ou este caso irá enfileirar atrás dos morosos processos que são apresentados ao tribunal de justiça. Mas não, nem por vós nem por ninguém eu adiaria mais um dia que fosse o dia que está marcado para a partida! Tenho os meus planos traçados, não me posso permitir alterá-los.

Não haverá necessidade de atrasar a vossa partida disse Beringar se Vossa Majestade condescender em fazer justiça através de um combate. Acusei Adam Courcelle de assassínio; volto a repeti-lo. Se ele aceitar, estou pronto a encontrar-me com ele sem qualquer cerimónia ou preparação. Amanhã mesmo Vossa Majestade poderá ver o desfecho deste caso e marchar no dia seguinte, liberto deste fardo.

Durante esta troca de palavras, Cadfael não tirara os olhos do rosto de Courcelle, apercebendo-se agoirentamente dos sinais de um retorno gradual de confiança. A ligeira camada de suor que lhe tinha brotado no lábio superior e na testa já secara, o olhar de desespero fora substituído por um de frio cálculo; esboçara até um ligeiro sorriso. Já que se encontrava encurralado e só tinha dois caminhos a seguir, um que pressupunha uma longa investigação e perguntas sem fim, outro que se limitava a um simples duelo, começava a ver nesta última alternativa a sua própria salvação. Cadfael não tinha dificuldade em seguir o seu olhar avaliador, minucioso, com que ele estudou Hugh Beringar da cabeça aos pés, compreendendo os pensamentos que se desenrolavam por detrás daqueles olhos. Hugh era um homem mais jovem, menos pesado, meia cabeça mais baixo que ele, de menor poder de alcance, sem experiência, superconfiante uma vítima fáciL Não deveria ser grande problema acabar com ele; e feito isso Courcelle deixava de ter que recear. O julgamento celestial não se teria pronunciado, ninguém, a partir dali, se atreveria a apontar um dedo que fosse para ele e Aline continuaria ao seu alcance, inocente das artimanhas por ele tecidas contra seu irmão e efectivamente separada de um rival demasiado insinuante, sem que qualquer culpa ficasse atribuída a Courcelle, assim tido como injustamente acusado. Oh, não, a situação não era assim tão má como parecia. As coisas iriam correr muito bem.

Aproximando-se da mesa, pegou no topázio e fê-lo rolar com ar de desprezo em direcção a Beringar, para que este o agarrasse e o guardasse.

Deixai que assim seja. Majestade. Aceito o desafio para amanhã, sem formalidades ou necessidade de prática. Vossa Majestade marchará no dia seguinte. ”E eu convosco”, leu-se no seu semblante confiante.

Pois que seja! exclamou o rei de mau humor. Já que estão os dois apostados em me privarem de um bom homem, penso que não me resta outra alternativa senão ficar com aquele que de entre ambos for o melhor. Então amanhã, às nove horas, depois da missa. Não aqui dentro das muralhas, mas sim lá fora, em céu aberto, no prado que se estende a seguir aos portões da cidade, entre a estrada e o rio, onde penso que estarão melhor. Prestcote, vós e Willem ficam encarregues de pôr tudo em ordem. E não arriscaremos cavalos na contenda acrescentou, levado pelo seu sentido prático. A pé e com espada!

Hugh Seringar manifestou a sua anuência com uma vénia. Courcelle disse:

Estou de acordo!

E sorriu, pensando em como era maior o seu poder de alcance e em como tinha mais força no seu pulso em lides de espada.

À l’outrance. exclamou o rei, dando uma pancada enérgica na mesa. Em seguida levantou-se e deu por terminada uma noite de festa mal sucedida.

 

De regresso pelas ruas da cidade, escuras mas não completamente silenciosas, algo inquietas e agitadas como se ratos corressem numa casa deserta, Hugh Beringar, que montava o seu cavalo malhado, seguia ao lado do Irmão Cadfael, fazendo a sua montada seguir a passo durante alguns minutos, ignorando a proximidade do Irmão Jerome e os seus ouvidos atentos, como se este não existisse. Mais á frente, o abade Heribert e o prior Robert conversavam em voz baixa e preocupada, sentindo-se em cuidados pela vida que se ia perder, mas sabendo que não podiam intervir. Dois jovens inimigos tinham declarado guerra um ao outro. Uma vez que ambos os intervenientes tinham aceitado a querela, não havia forma de voltar atrás; aquele que perdesse seria julgado pelo céu. Se sobrevivesse, esperava-o a espada, o patíbulo.

Podeis chamar-me louco quantas vezes quiserdes disse Beringar afavelmente, se isso vos conforta.

A sua voz continuava a manter a mesma entoação despreocupada e irónica, mas Cadfael não se deixava enganar.

Não é por mim, quem sou eu disse para censurar ou lamentar, até mesmo para lamentar o que fizestes?

 

Nota: Em francês no original: ”Até ao fim!” (N. da T.)

 

Como monge? perguntou Seringar numa voz suave, na qual ouvidos mais atentos adivinhariam uma sombra de sorriso.

Como homem! Diabos vos levem!

Irmão Cadfael disse Seringar com sinceridade, adoro-vos. Sabeis muito bem que, no meu lugar, teríeis feito a mesma coisa.

Isso é que não teria! Não baseado na mera suposição do que um velho louco que mal conheço faria! E se me tivesse enganado?

Ah, mas não vos enganastes! Ele é o homem. Um duplo assassino, pois entregou o pobre irmão de Aline à morte do mesmo modo vil, que estrangulou Faintree. Não deveis esquecer: nem uma palavra que seja disto deverá chegar a Aline até tudo estar terminado, de uma maneira ou de outra.

Não lhe contarei nada, a não ser que ela seja a primeira a falar. Pensais que a esta hora as notícias não se espalharam já aos quatro ventos?

Creio que sim, mas rezo para que ela já esteja a dormir há bastante tempo e não saiba de nada até chegar à missa, que é às dez. Nessa altura, quem sabe, talvez tenhamos a resposta para tudo.

E vós, disse o Irmão Cadfael azedamente, porque a dor que sentia devia ter algum escape ides agora passar a noite de joelhos de vigília, acabando com as forças que vos restam antes de seguirdes para o campo de batalha?

Não sou tão tolo quanto isso disse Hugh reprovadoramente, apontando a seguir um dedo para o amigo. Tende vergonha, Cadfael! Vós, um monge, e não tendes fé nos desígnios de Deus? Irei para a cama e dormirei que nem uma pedra para me levantar amanhã fresco para o julgamento. E agora suponho que ides insistir para serdes o meu representante e defensor diante dos céus, não é verdade?

Não, resmungou Cadfael, irei dormir e só me levantarei quando o sino tocar a acordar-me. Será que tenho menos fé do que um pagão descarado como vós?

Isso é que é falar, Irmão Cadfael! Ainda assim condescendeu Seringar podeis segredar uma palavra ou duas a Deus em meu favor nas matinas e nos laudes, se me quiserdes fazer essa gentileza. Se Ele não ligar às vossas orações, de pouco nos servirá gastar os ossos dos joelhos.

E inclinou-se do enorme cavalo para pousar a mão, durante um breve instante, na larga tonsura de Cadfael, como que abençoando-o; em seguida esporeou a montada e trotou mais depressa, passando pelo abade, a quem fez uma respeitosa reverência, para em seguida desaparecer na curva descendente do Wyle.

Logo a seguir à prima, o Irmão Cadfael apresentou-se ao abade. Este não parecia grandemente surpreendido em vê-lo e em ouvir o pedido que este tinha para apresentar.

Meu abade, encontro-me do lado do jovem Hugh Seringar nesta causa. A prova que trouxe luz á evidência em que se baseia a acusação deste foi conseguida por mim. E mesmo que ele tenha decidido resolver a causa pelas suas próprias mãos, recusando-me qualquer participação perigosa nela, não estou absolvido. Peço-vos que me deixeis ir acompanhá-lo na provação o melhor que puder. Quer lhe possa ser de alguma utilidade ou não, devo estar presente. Não posso neste momento virar as costas a um amigo que falou por mim.

Também eu tenho pensado muito nesse assunto admitiu o abade, suspirando. Apesar do que o rei disse, só posso orar para que esse julgamento não termine com a morte de alguém.

”Eu”, pensou Cadfael sombriamente, ”nem me atrevo a rezar por isso, já que o grande objectivo dessa contenda é fazer calar uma boca para sempre.”

Dizei-me murmurou Heribert, é verdade que o homem de nome Courcelle matou aquele pobre rapaz que enterrámos na igreja?

Padre, já não restam dúvidas. Só ele tinha a adaga, só ele poderia ter perdido a parte quebrada que lhe faltava. Há aqui uma nítida luta entre o bem e o mal.

Então ide disse o abade. Estais dispensado de todos os deveres até esta questão estar terminada.

É que era sabido que aquele género de duelos podia durar o dia inteiro, até nenhum dos oponentes ser capaz de ver convenientemente, manter-se de pé ou manejar a arma e, finalmente, um outro cair e não conseguir voltar a levantar-se, ficando muito simplesmente a esvair-se em sangue no local até morrer. E se as armas se quebrassem, deviam continuar a lutar utilizando as mãos, os dentes e os pés, até um dos dois ceder e implorar misericórdia; contudo, eram poucos os que o faziam, porque isso significava uma derrota, que assim determinava o julgamento divino e, posteriormente, o patíbulo, para uma morte ainda mais vergonhosa. ”Uma questão muito triste esta”, pensou Cadfael, arregaçando o hábito e passando pesadamente a portaria, ”que não merecia ser reverenciada com o veredicto de Deus.” Naquele caso, havia, no entanto, uma certa conveniência em fazê-lo, e a Divina Providência poderia pronunciar-se. ”Se”, pensou, ”tenho tanta fé como ele...” Terá dormido descansado? E o mais estranho é que não tinha dificuldade em acreditar nesse facto. Já ele próprio tivera um sono agitado e febril.

Levara consigo, deixando-a depois guardada na sua cela, a adaga de Giles Siward, agora completa com o seu topázio, depois de prometer ao ansioso e jovem pescador ou a sua devolução ou uma compensação justa pela perda, mas ainda não era altura de falar com Aline na questão. Havia que aguardar o resultado do que ia ter lugar naquele dia. Se tudo corresse bem, o próprio Hugh Beringar a entregaria a Aline. Se não... semelhante possibilidade não lhe passava sequer pela cabeça.

”O problema é que”, pensou, sentindo-se tremendamente infeliz, ”andei o suficiente por esse mundo fora para saber que os desígnios que Deus tem sobre nós, por infalivelmente certos que estejam, nem sempre assumem a forma que esperamos e desejamos. E dou-me conta de um enorme potencial de rebelião neste velho coração, se Deus, seja com que propósito especial for, optar por levar Hugh Beringar para fora deste mundo, deixando cá Adam Courcelle.”

Para lá dos portões de Shrewsbury que deitavam para norte, o Castelo Foregate abrigava um pequeno casario constituído por habitações e lojas, mas este terminava abruptamente, dando lugar a prados, que se estendiam de ambos os lados da estrada. O rio, correndo ao fundo desses mesmos prados, formava duas curvas serpenteantes, no meio das quais ficava precisamente o prado que os deputados do rei tinham escolhido para delimitar uma ampla área quadrada de terreno, desprovida de arbustos ou árvores, com a ajuda de fileiras de flamengos, que mantinham as lanças cruzadas de modo a não permitir a aproximação de algum espectador mais afoito, que, no seu entusiasmo, poderia passar os limites e atrapalhar a liberdade de movimentos de qualquer dos dois lutadores. No local onde o solo subia ligeiramente fora colocado, fora do quadrado, um cadeirão para o rei, e o espaço em redor deste foi mantido livre para os membros da nobreza. Nos outros três lados, contudo, viam-se já bastantes pessoas. A palavra do que ia ter lugar correra já por toda a Shrewsbury como vento por entre folhas. O facto mais estranho que se notava era a calmaria. Todos os presentes falavam, sem dúvida, mas utilizando tons tão baixos que o conjunto de todas aquelas vozes não soava mais alto que o laborioso zumbido de uma colmeia de abelhas ao sol.

A luz obliqua da manhã lançava longas mas delicadas sombras sobre a erva; no cimo, o céu mostrava-se ligeiramente coberto por uma neblina. Cadfael demorou-se algum tempo na faixa de terreno que os guardas mantinham livre para a procissão que se aproximava, vinda do castelo: um esplendor de aço e o lustro de cores alegres irrompendo subitamente sob a arcada sombria dos portões. O rei Stephen, louro, bemparecido, resignara-se com o facto de que aquela peleja lhe ia roubar um dos seus oficiais, mas nem por isso se mostrava mais satisfeito ou disposto a permitir concessões que prolongassem o desfecho da contenda. A julgar pelo seu rosto, não haveria pausas para descansar, tão-pouco alguma limitação imposta a possíveis selvajarias. Queria aquilo acabado! Todos os cavaleiros, barões e clérigos que o acompanharam até junto do cadeirão presidencial comportavam-se com a maior das discrições, prontos a apoiarem-no totalmente.

Depois de o séquito real estar instalado, apareceram os dois adversários. Não traziam escudos, reparou Cadfael, nem malhas; unicamente a protecção do couro. Sim, o rei queria um final rápido, não um daqueles combates intermináveis que se estendiam até nenhum dos opositores ser capaz sequer de erguer uma mão. Na manhã do dia seguinte o exército principal iria reunir-se à vanguarda, independentemente daquele que, de entre os dois, ali ficasse morto, e Stephen ainda tinha alguns pormenores para tratar antes de se pôr em marcha. Beringar, o acusador, aproximou-se em primeiro lugar, indo ajoelhar-se diante do rei, fazendo-lhe uma reverência rápida, depois da qual se ergueu vitoriosamente, virando-se em seguida para a ala entre as fileiras para o deixar entrar na arena. Nesse momento avistou Cadfael, que se colocara um pouco à parte. No rosto tenso, grave e cheio de maturidade, os olhos negros não deixaram de brilhar, sorridentes, ao pousarem nele.

Eu sabia disse Hugh que não me deixaríeis ficar mal.

Vede vós respondeu Cadfael se não me deixais ficar mal a mim!

Não há que recear respondeu Hugh. Tenho a minha consciência completamente limpa.

A voz soava-lhe serena e compenetrada.

Nunca poderia estar mais preparado do que estou neste momento acrescentou. E o vosso braço lá estará para apoiar o meu.

”Em todos os golpes”, não pôde deixar de pensar Cadfael, duvidando de que todos aqueles anos tranquilos que tinham passado desde que fizera os votos tivessem operado grande transformação no espírito outrora turbulento, insubordinado e incorrigivelmente arrebatado que fora o seu. Sentia o sangue correr-lhe em turbilhão nas veias, como se fosse ele, um dos participantes na refrega.

Courcelle, depois de cumprida a saudação ao rei, seguiu o seu acusador para a arena. Tomaram posição em cantos opostos. Prestcote entre os dois, olhando para o rei á espera de que este desse o sinal. Um arauto proclamava bem alto a acusação, o nome do desafiador e a refutação apresentada pelo instigado. A multidão agitou-se, fazendo que se levantasse um som que fazia lembrar um longo e profundo suspiro, que encheu todo o campo em redor. Cadfael podia ver claramente o rosto de Hugh, no qual não se vislumbrava já qualquer indício de sorriso, mostrando-se, pelo contrário, gélido, atento e firme, os olhos fixos no seu oponente.

Observando a cena, o rei levantou a mão. O bastão caiu e Prestcote afastou-se até à extremidade do quadrado, ao mesmo tempo que os adversários avançavam um para o outro.

À primeira vista, o contraste era marcante. Courcelle era mais corpulento, mais velho, tinha a seu favor uma maior altura, um poder de alcance superior e um peso correspondente, para além de a sua capacidade e experiência serem de todos sobejamente conhecidas. O seu tom fogoso e a sua corpulência faziam que Seringar não parecesse mais do que um rapazote magro e frágil, e embora a ligeireza inerente a essas características lhe pudesse proporcionar velocidade e agilidade, passados poucos segundos tornou-se evidente que Courcelle era também muito rápido e destro nos seus movimentos. Ao primeiro choque de metal contra metal, Cadfael sentiu o seu próprio braço e pulso retesarem-se e devolverem o golpe, rodando para o lado sob o impulso do mesmo movimento tal como Beringar fez, escapando assim ao perigo; a reviravolta fê-lo ficar virado para os portões do castelo.

Do interior da entrada escura precipitava-se uma jovem, esvoaçante como uma andorinha, toda em tons de preto e branco na sua ligeireza, seguida de uma nuvem ondulante de cabelo dourado. Corria veloz e determinadamente, de saias apanhadas na mão quase até aos joelhos; bem afastada dela, na retaguarda, quase sem fôlego mas apressando-se o mais que podia, vinha outra jovem. Constance gastava as poucas energias que lhe restavam a chamar pela sua ama, implorando-lhe que parasse, que voltasse para trás, que não se aproximasse, mas Aline não emitia um som, limitava-se a correr em direcção ao local onde dois galantes admiradores seus, tinham voltado a precipitar-se um contra o outro, numa tentativa determinada de se matarem. Não olhou nem para a direita nem para a esquerda, apenas tentou ver por cima das cabeças da multidão. Cadfael apressou-se ao seu encontro e Aline, ao reconhecê-lo, soltou um gemido e correu para os seus braços.

Irmão Cadfael, que se passa? Que foi que ele fez? E vós sabíeis e não mo dissestes! Se Constance não tivesse ido á cidade comprar farinha, eu nunca teria ficado a saber...

Não devíeis estar aqui disse Cadfael, mantendo-a, tremendo e arquejando, de encontro ao coração. Que podeis fazer? Prometi-lhe nada vos dizer, ele assim o deseja. Não vos é salutar assistir a estas coisas.

Mas ficarei aqui! exclamou ela, num arrobo de paixão. Pensais que era capaz de me ir calmamente embora, deixando-o nestas circunstâncias? Dizei-me apenas implorou, é verdade o que dizem, que ele acusou Adam do assassínio daquele jovem? E que a adaga de Giles foi a prova desse acto?

É verdade disse Cadfael.

Ela estava a olhar fixamente por sobre o seu ombro para a arena, onde as espadas se entrechocavam, silvando ao fender o ar, voltando novamente a embater uma na outra. Os seus olhos cor de ametista estavam imensamente abertos e desvairados.

E a acusação também é verdadeira?

Também o é.

Oh, Deus! disse, não conseguindo desviar os olhos, fascinada. E ele é tão frágil... como poderá suportar um combate destes? O outro tem quase o dobro... e atreveu-se a resolver as coisas através deste processo! Oh, Irmão Cadfael, como pudestes deixá-lo!

”Ao menos agora”, pensou Cadfael, curiosamente aliviado, ”sei qual dos dois é o ele, no coração dela sem que seja necessário pronunciar nomes. Só agora me apercebi disso; possivelmente também com ela sucedeu o mesmo.”

Se alguma vez fordes capaz disse-lhe de impedir Hugh Beringar de fazer o que quer que se lhe tenha instalado na cabeça, então vinde ter comigo e explicai-me como o conseguistes. Embora duvide de que o processo alguma vez funcione comigo! Ele fez a sua opção, minha jovem, e lá tem as suas razões. Boas razões. E vós e eu devemos conformar-nos, tal como ele.

Mas nós somos três disse Aline com veemência. Se ficarmos do lado dele, temos de lhe dar força. Posso rezar e ficar a ver, é sem dúvida o que vou fazer. Levai-me até mais perto, vinde comigo! Tenho de ver!

Já ela se precipitava por entre as pessoas em direcção às lanças quando Cadfael a segurou pelo braço.

Penso disse que é melhor que ele não vos veja. Não agora! Aline murmurou algo que se assemelhava a uma pequena e amarga gargalhada.

Ele agora não me verá disse, a não ser que eu me meta entre as espadas, coisa que me prestaria a fazer se me deixassem. Não! Retrocedera imediatamente, sustendo um soluço. Não, não lhe farei uma coisa destas. Sei que não devo. Só me resta ver e aguardar em silêncio.

”O destino das mulheres num mundo de homens que se degladiam”, pensou amargamente, ”mas apesar de tudo essa facção não é tão passiva quanto parece.” Conduziu-a então a um sítio ligeiramente mais elevado de onde podia observar a luta sem a perturbar. Lá ficou, o cabelo dourado solto a brilhar sob a luz do Sol, totalmente concentrada em Hugh Beringar, que nesse momento já tinha sangue na ponta da espada, embora este fosse proveniente de um simples corte numa das maçãs do rosto de Courcelle. Ele próprio também apresentava um ferimento no braço esquerdo.

Ele está ferido murmurou ela lugubremente, tapando a boca com o pequeno punho para abafar um grito e mordendo os nós dos dedos numa tentativa de assegurar o silêncio que prometera.

Não é nada disse Cadfael com firmeza. E ele é mais rápido. Vede só aquela forma de aparar golpes! Lá frágil pode ele parecer, mas aquele pulso é forte como o aço. Consegue dar todos os lances que deseja. E tem a verdade a pesar do lado dele.

Amo-o disse Aline num sussurro suave e profundo, soltando a mão magoada por momentos. Só agora é que o soube, mas amo-o!

Também eu, minha jovem disse Cadfael, também eu!

Tinham já decorrido duas horas em plena arena, sem um único intervalo para respirar, o Sol quente ia alto, ambos sofriam, mas também

ambos prosseguiam com cautela inexorável, poupando as energias; naquele momento, quando os seus olhos se aproximaram sobre as espadas, entrecruzadas, não se lia neles nenhum rancor pessoal, apenas o objectivo inflexível, de um lado, de provar a verdade; do outro, de não o permitir, e de cada um dos lados através do único meio que restava, a morte. Naquela altura já estavam cientes, se é que tal ainda não acontecera, de que apesar de todas as óbvias vantagens de um dos lados, os dois estavam muito bem um para o outro naquele combate, revelando-se iguais na perícia, quase iguais em velocidade, o peso da verdade a manter a balança equilibrada entre ambos. Sangravam os dois de ferimentos menores. Aqui e ali, sobre a erva, viam-se pequenas manchas de sangue.

Era quase meio-dia quando Beringar, fazendo maior pressão, obrigou o seu oponente a retroceder com uma estocada súbita, vendo que este escorregara na erva manchada de sangue e ressequida pelo Verão quente e seco. Courcelle, aparando o golpe, sentiu-se cair e levantou o braço para suster o golpe seguinte de Hugh, que quase lhe arrancou a espada da mão, fazendo que a lâmina saltasse do punho desta, que Courcelle ficou a brandir, impotente, no ar, apoiado num cotovelo. O aço foi cair bastante longe, onde ficou, inutilizado.

Beringar recuou imediatamente, permitindo que o antagonista se levantasse incólume. Descansou a ponta da sua espada no chão e olhou para Prestcote, que, por sua vez, se virara para o rei em busca de orientação.

Continuem a lutar! disse o rei sem mais preâmbulos. O seu desagrado não fora ainda amenizado.

Beringar manteve a espada na mesma posição e ficou à espera, limpando o suor que lhe cobria a fronte e o lábio superior. Courcelle ergueu-se com lentidão, olhou para o cabo imprestável que tinha na mão e lançou-o fora raivosamente. Beringar desviou os olhos dele e fixou-os no rei, de cenho franzido, recuando dois ou três passos enquanto este considerava. O rei não fez qualquer outro gesto para além de lhes indicar rigidamente que prosseguissem. Beringar deu três passos rápidos em direcção ao cordão do quadrado, atirou a espada fora por entre uma das aberturas de baixo e dirigiu lentamente a mão para a adaga que trazia ao peito.

Courcelle levou algum tempo a compreender, mas depois sentiu a sua confiança renovada quando se apercebeu da dádiva que lhe faziam.

Ora esta! disse o rei Stephen em voz baixa. Quem sabe se, no fim de contas, não me terei enganado quanto ao melhor homem?

Não dispondo agora de outra arma que não fossem as respectivas adagas, eram obrigados a lutar corpo a corpo. A capacidade de alcance também é importante mesmo no manejo de adagas, e o punhal que Courcelle tirou de dentro da camisa, junto ao quadril, era mais longo do que o brinquedo decorativo que Hugh Beringar tinha na mão. O rei Stephen sentiu-se invadir por um novo interesse, que o fez esquecer momentaneamente a natural irritação que experimentara por ver-se forçado àquele duelo.

Ele é louco! gemeu Aline de encontro ao ombro de Cadfael, nele procurando apoio, os lábios abertos mostrando os dentes e as narinas trémulas, tal como qualquer dos seus antepassados lutadores. Ele tinha permissão para o matar à vontade. Oh, ele é completamente louco. E eu amo-o!

A temível dança prosseguiu e o Sol, agora no seu zénite, encurtara a sombra dos dois oponentes até estes avançarem, recuarem e saltarem para o lado, projectando com os corpos uma pequena sombra circular, ao mesmo tempo que o calor lhes dardejava contínua e impiedosamente nas cabeças; por dentro da vestimenta de couro, o suor escorria-lhes com abundância. Beringar estava agora na defensiva pelo facto de dispor de uma arma mais curta e leve; Courcelle pressionava arduamente, ciente da sua vantagem. Somente a rapidez de mão e olhos o salvou de repetidos golpes cortantes que bem o poderiam ter morto, e a sua velocidade e agilidade puderam ainda fazê-lo saltar para trás e pôr-se fora do alcance de cada assalto. Mas estava a cansar-se rapidamente; o seu raciocínio era menos preciso e confiante, os seus movimentos menos alerta e seguros. E Courcelle, quer tivesse tomado um segundo fôlego ou simplesmente reunido todas as energias que lhe restavam naquele esforço desesperado para finalizar a peleja a seu contento, parecia ter recobrado a sua anterior força e fogosidade. O sangue escorria da mão direita de Hugh, encharcando-lhe o cabo da adaga e tornando-lho escorregadio. Ao canto do olho, distraindo-o e perturbando-lhe a concentração, flutuava um pedaço de pano esfarrapado de uma das mangas do braço esquerdo de Courcelle. Tentara vários ataques violentos e fizera, por sua vez, correr sangue ao adversário, mas o comprimento da lâmina que este empunhava assim como o do seu braço jogavam desfavoravelmente em seu favor. Sem esmorecer, estava resolvido a poupar as suas energias, recuando constantemente se necessário, até que os ataques frenéticos de Courcelle, como não podia deixar de ser, começassem a enfraquecer.

Oh, Deus! murmurou Aline quase inaudivelmente. Ele foi demasiado generoso, desperdiçou a sua vida... O homem está a brincar com ele!

Nenhum homem disse Cadfael com firmeza brinca com Hugh Beringar impunemente. Ele continua a ser o mais fresco dos dois. Está a fazer o outro gastar todas as suas energias, já não poderá aguentar-se durante muito mais tempo.

Passo a passo, Hugh cedia terreno, mas apenas o suficiente, em cada ataque, para iludir a lâmina do adversário, e Courcelle, também passo a passo, numa série de arremetidas veementes, perseguia-o, fazendo-o recuar. Parecia querer encurralá-lo num dos cantos do quadrado, de onde não poderia continuar a fugir, mas, no último instante, ou o raciocínio do atacante falhou ou a agilidade de Hugh fê-lo escapar da armadilha, pois a perseguição recomeçou, seguindo a fila seguinte de lanceiros, com Beringar incapaz de furar novamente para o centro da arena e Courcelle não conseguindo romper a defesa ou impedir aquela progressão vagarosa e difícil que parecia querer terminar no canto seguinte.

Os flamengos mantinham-se firmes como rochas, deixando que a batalha evoluísse penosamente ao longo das suas fileiras imóveis como uma maré lenta. Até que, a meio caminho da ponta seguinte do quadrado, Courcelle recuou um longo e rápido passo em vez de continuar em frente, atirando com o punhal para o meio da erva, deteve-se e, soltando um grito rouco de triunfo, lançou-se por uma das aberturas entre as lanças e voltou a levantar-se, desta vez brandindo a espada que Hugh Beringar tinha deitado fora, num gesto de misericórdia para com ele, mais de uma hora atrás.

Hugh nem sequer se apercebera de que se tinham aproximado exactamente daquele lugar, muito menos que fora deliberadamente conduzido até ele com aquela finalidade. Algures na multidão ouviu um grito de mulher. Courcelle estava naquele momento a levantar-se, de espada na mão; nos olhos, sob a enorme testa perlada de suor, um brilho de quase loucura e exaltação. Mas ainda não tinha recuperado totalmente o equilíbrio quando Hugh se lançou sobre ele com um salto felino. Um segundo depois teria sido demasiado tarde. Quando a espada de Courcelle já ia no ar, Hugh atirou-se com todo o peso do corpo contra o peito do adversário, fazendo que a mão que empunhava a adaga ficasse presa entre os corpos de ambos, ao mesmo tempo que, utilizando a mão esquerda, detinha o avanço da espada ameaçadora, agarrando no pulso que a empunhava. Durante um momento mantiveram-se naquela posição, arquejantes e extenuados, para depois caírem juntos, pesadamente, sobre a erva, rolando e debatendo-se num abraço mortal aos pés dos guardas indiferentes.

Aline cerrou fortemente os dentes de modo a impedir um segundo grito e tapou os olhos, para logo a seguir os destapar resolutamente.

Não, quero ver, devo..., tenho de aguentar! Ele não se envergonhará de mim! Oh, Cadfael..., oh, Cadfael... Que está a acontecer? Não consigo ver...

Courcelle brandiu a espada, mas não teve tempo de desferir o golpe. Esperai, um deles está a levantar-se...

Ambos tinham caído juntos, mas apenas um se levantou, ficando de pé, entontecido e surpreso. É que debaixo dele, o inimigo imobilizara-se e os seus braços tinham tombado, sem vida, sobre a erva; ali jazia agora, os olhos abertos para o clarão do Sol, enquanto uma poça de sangue começava a formar-se lentamente debaixo do corpo, escorrendo sobre a erva.

Hugh Beringar desviou os olhos do sangue para a adaga que ainda tinha na mão direita e abanou a cabeça confundido, pois sentia-se muito cansado e fraco agora que a contenda sofrera aquele fim inexplicável e não se via um gota de sangue fresco na lâmina da sua arma, assim como a espada continuava ainda presa na mão direita de Courcelle, inocente da morte deste. E no entanto ele estava morto; a vida escorria-lhe rapidamente para a erva espessa. Que espécie de milagre ominoso seria então aquele que semeara a morte sem que nenhuma das armas interviesse?

Hugh inclinou-se e, agarrando no corpo inerte pelo ombro esquerdo, levantou-o, virando-o a fim de ver de onde provinha o sangue; ali, profundamente enterrado, depois de ter atravessado o gibão de couro, estava o próprio punhal do morto, aquele que este atirara para o lado para depois agarrar na espada. Pelo aspecto via-se que o punho se alojara, virado para baixo, no meio da erva espessa, ficando encostado a um dos pés solidamente implantados de um flamengo. O ataque furioso de Hugh atirara inadvertidamente com Courcelle para cima da própria arma, e ao rolarem e debaterem-se por cima da mesma, a lâmina acabara por se alojar no corpo deste.

”Afinal de contas não fui eu que o matei”, pensou Beringar. ”Foi morto pela sua própria astúcia.” Mas sentia-se demasiado exausto para perceber se se sentia satisfeito ou penalizado com o sucedido. Cadfael, ao menos, ficaria contente; Nicholas Faintree fora vingado, tinha-lhe sido feita plena justiça. O seu assassino fora acusado publicamente e publicamente a acusação fora julgada pela Divina Providência. E o seu assassino estava morto; não voltaria a fazer mal a mais ninguém.

Beringar baixou-se e pegou na espada, que desprendeu facilmente da mão do criminoso. Virou-se lentamente e, depois de a agarrar em saudação ao rei, caminhou, agora mancando ligeiramente e perdendo algum sangue dos ferimentos ligeiros que sofrera numa das mãos e num dos braços, saindo do quadrado de lanceiros, que se abriu silenciosamente para o deixar passar.

Mal tinha dado dois ou três passos pelo gramado em direcção à cadeira onde se encontrava o rei, quando Aline se precipitou nos seus braços, apertando-se de encontro a ele com um fervor de tal modo possessivo que o acordou de novo para a vida. O cabelo dourado dela espalhou-se pelos ombros e pelo peito do seu amado. Erguendo para ele um rosto arrebatado, exultante e fatigado, uma imagem do próprio rosto dele, chamou-o pelo nome:

Hugh... Hugh... murmurou, tacteando suavemente as escoriações que se viam na face dele, na mão e no pulso. Por que não me disseste? Porquê? Porquê? Oh, fizeste-me morrer tantas vezes... Beija-me!

Ele assim fez, enquanto ela se rendia nos seus braços, apaixonada e indiscutivelmente sua. Não parava de o acariciar, de o tactear, de passar as mãos por ele.

Acalma-te, amor disse ele, reconfortado e sentindo-se reviver, ou então continua a ralhar comigo, pois se agora me diriges ternuras sou um homem perdido. Não me posso permitir desfalecer ainda, o rei está à espera. Mas se és a dama do meu coração, permite-me que me apoie no teu braço e não te afastes do meu lado como uma boa esposa, ou ainda caio aos pés do rei.

Eu sou a dama do teu coração? quis saber Aline, desejando, como todas as mulheres, garantias diante de testemunhas.

Certamente! Demasiado tarde para mudar as coisas, minha adorada!

Quando se apresentou diante do rei ela ia a seu lado, sustendo-o firmemente pelo braço.

Majestade disse Hugh Seringar, reunindo, não se sabe de que parte recôndita do seu ser, as últimas forças que lhe restavam, creio ter provado a justeza do meu caso contra um assassino e obter a vossa graça e aprovação.

O vosso adversário disse Stephen provou o vosso caso sem deixar margem a dúvidas.

Observou-os pensativamente, desarmado e divertido diante da aparição inesperada do casal de apaixonados.

Mas acrescentou, aquilo que provastes pode também proporcionar-vos proveito. Roubastes-me, meu jovem, um eficiente deputado por este condado, independentemente do que ele possa ter sido e do seu combate mal sucedido. Posso muito bem fazer uso de represálias para vos obrigar a preencherdes a vaga por vós criada. Sem prejuízo dos vossos castelos e direitos sobre os homens que mantendes na nossa guarnição. Que dizeis?

Peço permissão a Vossa Majestade disse Beringar muito sério para me aconselhar primeiro com a minha noiva.

Tudo o que agradar ao meu senhor disse Aline com ar igualmente grave ser-me-á igualmente agradável.

”Ora esta”, pensou o Irmão Cadfael, observando a cena com interesse, ”duvido que alguma vez tenha havido uma promessa de casamento assumida mais publicamente. Fariam melhor em convidar já toda a Shrewsbury para o casamento.”

Cadfael dirigiu-se ao hall dos hóspedes depois das completas, levando consigo não só um pote do seu unguento de potentilha para as numerosas escoriações de Hugh Beringar como também a adaga de Giles Siward, com a sua ponta de topázio cuidadosamente restaurada.

O Irmão Oswald é muito hábil a trabalhar a prata; aqui está um presente dele e meu para a vossa dama. Dai-lho vós mesmo. Mas solicitai-lhe (sei que não o recusará) que compense generosamente o rapazinho que a pescou das águas do rio. Tereis de lhe dar a conhecer essa parte. Quanto ao resto que diz respeito à ligação do irmão com o caso, sim, há que fazer silêncio, agora e sempre. Para ela, ele foi apenas um dos muitos que escolheu o lado errado e morreu por ele.

Beringar pegou na adaga restaurada e examinou-a longa e sombriamente.

Contudo, isto não é justo disse lentamente. Nós os dois obrigámos a vir à superfície a verdade sobre os pecados de um homem, mas escondemos os que diziam respeito a um outro.

Naquela noite, apesar de todos os êxitos alcançados, ele mostrava-se muito grave e até um pouco triste, o que não se ficava a dever apenas ao facto de as escoriações sofridas terem começado a doer bastante e de todos os músculos usados até à exaustão lhe latejarem dolorosamente a cada movimento. A repercussão do seu triunfo levara-o a analisar honestamente a possibilidade de

falha, o destino a que escapara.

Terá sido ele o único culpado? ponderou. Se não tivesse recebido aquela visita e a tentação não lhe surgisse diante dos olhos, talvez nunca viesse a atolar-se até ao pescoço em tão grande infâmia.

Temos de encarar apenas aquilo que se nos apresenta disse Cadfael. Deixai todos os demais considerandos para olhos capazes de analisarem melhor o problema. Tomai o que legal e honrosamente conquistastes e estimai-o, disso tirando usufruto. Tendes esse direito. Aqui vos tendes deputado-mor de Salop, gozando das boas graças do rei, noivo da mais bela rapariga que alguém poderia desejar, à qual entregastes o vosso coração logo no primeiro instante em que a vistes. Podeis ter a certeza de que tal não me escapou! E se amanhã vos doer cada osso do corpo (e podeis estar certo de que isso irá acontecer), que é uma pequena dor disciplinadora para um jovem de tão alto gabarito como vós?

Onde estarão aqueles dois neste momento? murmurou Hugh com um suspiro.

Perto da costa do País de Gales, á espera de um barco que os transporte para terras de França. Não terão problemas.

Claro que Cadfael não tomava partido entre Stephen e Maud. Mas aqueles jovens, apesar de dois deles pertencerem á facção de Maud e os outros dois à de Stephen, estavam certamente ligados a um futuro e a uma Inglaterra liberta das mazelas da guerra civil, terminada que seria a presente anarquia.

Quanto à justiça murmurou o Irmão Cadfael pensativamente, não é mais que metade da história.

Quando naquela noite fosse ás completas, diria uma oração pelo repouso de Nicholas Faintree, um jovem puro de mente e vida, naquele momento certamente já mitigado e em descanso. Mas também oraria pela alma de Adam Courcelle, morto na sua culpa; é que cada morte prematura, cada homem ceifado no auge da sua vida e do seu vigor sem tempo para arrependimento e reparação, é um cadáver a mais.

Nunca precisareis acrescentou Cadfael de olhar por cima do ombro ou sentir algum remorso. Cumpristes com honra a tarefa que sobre vós recaiu. Deus é que dispõe as coisas. Do mais alto ao mais baixo extremo de tudo o que diz respeito ao homem, onde quer que a justiça e a recompensa o alcancem, também a graça divina o fará.

 

 

                                                                                                    Ellis Peters

 

 

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