Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


CAMINHOS CRUZADOS / Erico Verissimo
CAMINHOS CRUZADOS / Erico Verissimo

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

CAMINHOS CRUZADOS

 

Foi em 1934 que ocorreu a Erico Verissimo a idéia de lançar-se a um segundo romance, cujo plano mostrou com certa timidez a Dyonélio Machado, que então trabalhava em sua novela Os Ratos. Incentivado pelo amigo, em três ou quatro meses entregava os originais de Caminhos Cruzados à sua editora.

O sucesso de crítica foi encorajante, embora o de venda no primeiro ano fosse pouco mais do que medíocre. Contudo, o romance tornara-se assunto freqüente das rodas literárias, sendo discutido com certo calor, e a Fundação Graça Aranha veio a conceder-lhe em 1935 seu prêmio literário anual.

Caminhos Cruzados era um livro de protesto, com pronunciada tendência à caricatura. Fugia ao rebuscado, aos requintes de psicologia e descritividade. Era direto, apoiado na pura ação, exagerando, em tom de sátira mordente, os traços de nossa sociedade burguesa que mereciam uma denúncia inequívoca. Imediatamente surgiram manifestações de críticos e leitores de escassa percepção, acusando o autor de subverter valores tradicionais do povo brasileiro, defendendo pontos de vista comunistas.

Nas pegadas dessas primeiras reações foi se formando um outro preconceito, este no plano da mera discussão literária: o de que Verissimo teria se valido do Contraponto de Huxley, livro que traduzira para a Globo ainda em 1933, para os efeitos magistrais de construção dos Caminhos Cruzados, os quais lhe tinham granjeado a admiração e o louvor da grande crítica brasileira. Tratava-se, evidentemente, de certa má fé, pois o livro de Verissimo nada tinha em comum com o de Huxley no plano do universo fictício, e é hoje ponto indiscutível que fundo e forma são indissociáveis.

Caminhos Cruzados tem mantido com firmeza a boa posição que conquistou junto à crítica esclarecida. Embora com o aparecimento de Olhai os Lírios do Campo chegasse a se pensar que essa posição pudesse ficar abalada, o romance continuou e continua merecendo a preferência dos estudiosos, que o colocam entre as melhores e mais bem realizadas obras do autor.

 

 

       Madrugada — a cerração empresta à Travessa das Acácias um mistério de cidade submersa. A ruazinha de subúrbio se desfigura. A luz dos combustores, que a névoa embaça, sugere vagos monstros submarinos. As árvores que debruam as calçadas são como blocos compactos de algas. Todas as formas parecem diluídas.

       Cinco horas da manhã.

       Que peixe estranho é aquele que lá vem?

       A carroça do padeiro passa estrondando, fazendo tremer a quietude da cidade afundada; mas um instante depois o seu vulto e o seu ruído se dissolvem de novo na cerração.

       O silêncio torna a cair sobre o fundo do mar.

       Agora nas fachadas escuras começam a brotar olhos quadrados e luminosos. D. Veva acendeu o lampião e vai acordar o marido que tem de tomar o primeiro bonde. No mercadinho de frutas, Said Maluf abre a porta dos fundos para apanhar a garrafa do leite. Na casa do alfaiate espanhol chora o filho mais moço. Na meia-água vizinha, o Cap. Mota toma chimarrão na varanda, em mangas de camisa (está fazendo frio, mas não se deve quebrar um hábito de vinte anos). Fiorello já abriu a sapataria e, enquanto ferve a água para o café, o italiano bate sola, bate sola, bate sola; na litogravura da folhinha, na parede, Mussolini em cima do seu cavalo, berra marcialmente: “Camicie nere!”

       Um trem apita. Um galo canta.

       Quase invisível dentro da névoa, um gato cinzento passeia sobre o telhado da casa da viúva Mendonça. Debaixo desse telhado fica o quarto do Prof. Clarimundo. A umidade desenha figuras indecifráveis nas paredes caiadas. Em cima da mesa de pinho — de mistura com os restos da merenda da noite — vê-se um papel cheio dos rabiscos com que o professor tentou inutilmente meter na cabeça do sapateiro Fiorello noções da Relatividade de Einstein. Um despertador niquelado está dizendo tique-taque, tique-taque com a voz dura e regular. A cabeça descansando no travesseiro de fronha grosseira, o Prof. Clarimundo Roxo dorme de ventre para o ar, ronca e bufa, procurando uma sincronia impossível com o tique-taque do relógio. A cada bufido, voam-lhe as falripas do bigode.

       Um rato mete a cabeça para fora dum buraco do rodapé. Espia, fica parado por alguns segundos e depois deita a correr, sobe pela perna da cadeira, chega ao assento de palhinha, detém-se um segundo e em seguida continua a subir pela guarda, salta para cima da mesa e avança sobre os restos da merenda. Queijo e pão. O seu rabinho fino se confunde com os riscos do papel.

       Os roncos do professor e o tique-taque do relógio prosseguem no seu concerto. Estrala uma viga no teto. Lá fora mia o gato madrugador. O professor se remexe, a cama guincha, o rato se assusta e foge para o buraco.

       Dentro destas quatro paredes, deste pequeno mundo tridimensional cabe agora o mundo infinitamente mais vasto dentro do qual o Prof. Clarimundo anda perdido.

       Uma extensão verde e plana como a dos campos da fronteira onde ele passou a primeira infância. Clarimundo corre, aflito, porque um touro vermelho o persegue, bufando. As suas pernas pesam como chumbo. Ele quer gritar, pedir socorro, mas a voz lhe falta. O touro se aproxima, Clarimundo já sente na nuca o seu bafo quente e úmido. Por fim consegue arrancar da garganta algumas palavras: “Acudam! Ataquem o touro! Socorro!” Mas as palavras lhe saem da boca em símbolos matemáticos. Passam perto tropeiros a cavalo. Olham e parecem não enxergar... Clarimundo continua a gritar, mas ninguém o entende. O touro o alcança e, cheio de pavor, Clarimundo sente no sexo (estranho, pois o touro vinha por trás) uma dor dilacerante. As aspas pontudas lhe rasgam as carnes, o sangue começa a escorrer e Clarimundo sente um desfalecimento mortal e inexplicavelmente cheio de gozo. De súbito a paisagem se transforma. Agora ele está nas montanhas nevadas da Suíça, passeando com Einstein, de braços dados, numa grande intimidade. Tenta em vão explicar ao sábio a Teoria da Relatividade. Fala, gesticula, risca sinais complicados na neve, grita, ameaça até, mas Einstein sacode a cabeça negativamente. Ao mesmo tempo Einstein não é mais Einstein mas sim o sapateiro Fiorello...

       A paisagem branca se estende a perder de vista. Lá no horizonte longínquo, uma casa. Clarimundo sabe que dentro dela encontrará luz, calor, aconchego e pão. Está com fome, com frio e sozinho, pois todos os homens do mundo o abandonaram na solidão branca. E ele caminha, caminha... Mas à medida que avança a casa vai recuando.

       Agora não é mais a paisagem suíça. Clarimundo anda flutuando no éter, viajando pelo infinito.

       (No outro mundo, no de quatro paredes, o despertador continua a tiquetaquear. O rato tenta uma nova incursão. O armário range. O rato recua.)

       Clarimundo continua a vagar pelo espaço sem limites.

       (O despertador começa a tilintar.)

       Que ruído será este, tão longínquo e misterioso? Deve ser a tão falada música das esferas...

       Clarimundo se deixa ir ao sabor das ondas, porque agora ele bóia à superfície do Pacífico. A música cresce de intensidade, mas à medida que aumenta vai perdendo a melodia até ganhar a evidência dum sinal de alarma.

       O professor aos poucos abre os olhos. Por um instante, emergindo das profundezas do sonho, fica pairando numa região de lusco-fusco, entre os dois mundos.

       O relógio continua a tilintar.

       Cinco segundos. O milagre acontece: o infinito é devorado pelo finito: o mundo ilimitado do sonho desaparece dentro do mundinho de quatro paredes que o despertador enche com sua voz metálica.

       Clarimundo desperta. Lança um olhar torvo para o relógio. Cinco e meia. Com alguma relutância joga as pernas para fora da cama, com o camisolão de dormir sungado até as coxas. O contato do chão frio na sola dos pés é um novo chamado à realidade. Clarimundo se ergue, coçando a cabeça, olha em torno, estremunhado, como quem não sabe ainda onde se acha. Ainda estonteado, acende a luz e faz calar o despertador.

       Vai ao lavatório de ferro, emborca o jarro sobre a bacia e a água fria apaga o último vestígio do outro mundo. Clarimundo coordena idéias: sábado, Francês para a filha do Cel. Pedrosa, Matemática e Latim no curso noturno e... — com as mãos suspensas, úmidas, pingando, aproxima-se para o horário que está colado à parede — ... Português para o filho do Desembargador Floriano. Bom.

       Veste-se. Alisa a franja eriçada: o pente se emaranha e verga na maçaroca dos cabelos. O espelho de moldurinha dourada reflete uma cara amassada, de barba azulando, olhos mansos de criança, o tufo agressivo do bigode negrejando abaixo do nariz curto.

       Clarimundo ajusta os óculos e, religiosamente, como tem feito todas as manhãs de sua vida, vai ao calendário arrancar a folhinha.

       Sorri. Sorri porque sabe que o Tempo realmente não é o que a viúva Mendonça ou o sapateiro Fiorello pensam...

       Existirá mesmo o Tempo? Como foi que disse Laplace? “Le temps est pour nous (Clarimundo pronuncia mentalmente as palavras, com um refinamento inocentemente pedante) 1’impression que laisse dans Ia mémoire une suite d’événements dont nous sommes certains que 1’existence a été successive.” Vinte e dois séculos antes, Aristóteles tinha afirmado quase a mesma coisa. Engraçado... (Clarimundo olha da folhinha para o relógio.) A gente vive escravizada ao Tempo. Ele, por exemplo... Vivia assombrado pelo relógio e pelo horário. Se chega dois minutos atrasado para uma aula, entra, os olhos no chão e um sentimento de culpa que o perturba e humilha. No entanto, pensando bem, que é o Tempo? Homero só admitia duas divisões do Tempo: a manhã e a tarde. Assim mesmo escreveu a Ilíada. E ele, Clarimundo, o homem do relógio, o escravo fiel das horas, que fez nos seus quarenta e oito anos de vida? Preparou espíritos, estudou e compreendeu Einstein, escreveu artigos para jornais, notas sobre Filosofia, Matemática, Física e Astronomia recreativa... E, por falar em Astronomia recreativa, estão ali na gaveta da mesa as notas para o seu futuro livro, para sua obra. Clarimundo pensa nela com carinho. Vai ser um trabalho grande e sólido em que há de pôr todo o seu talento, toda a sua cultura. Será como que a coroa dourada de sua vida de solteirão solitário. Nesse livro de fundo científico, fazendo uma concessão magnânima à fauna representada pela viúva Mendonça e pelo sapateiro Fiorello, ele respingará aqui e ali algumas gotinhas de fantasia.

      Pensando nisto o professor sorri com a condescendência dum gigante truculento que resolve uma vez na vida ser amável para com as crianças.

       Mas enfim os ponteiros se movem, os minutos passam e a gente não pode ficar uma hora inteira assim a revirar entre os dedos a folhinha e a pensar na vida...

       Clarimundo acende o fogareiro Primus e põe sobre ele a chaleira dágua.

       Esfregando as mãos numa antecipação feliz, como um homem prestes a saborear o seu prato predileto, senta-se à mesa e abre um livro. Como de costume: quarenta minutos rigorosos de leitura.

 

       ÜBER DIE SPEZIELLE UND DIE ALLGEMEINE RELATIVITÄTS-THEORIE GEMEINVERSTÄNDLICH, VON A. EINSTEIN.

 

       O espírito do professor monta na vassoura mágica e vai fazer uma excursão pelo país das maravilhas.

       Outra vez os dois mundos: o infinito dentro do finito.

       No mundo menor o fogareiro, com o seu chiar grosso e contínuo, canta um dueto com o relógio.

    

                         Sete da manhã.

       Honorato Madeira acorda e lembra-se: a mulher lhe pediu que a chamasse cedo.

       — Gina! — exclama ele com voz amarga e sonolenta. Volta-se para a mulher que dorme a seu lado, sacode-a de leve. — Gina!

       Torna a sacudi-la, agora com mais força.

       Virgínia abre os olhos. Primeiro vê o teto... Pisca, enruga a testa e a seguir volta a cabeça para a direita. Esfumada, indistinta como que mergulhada num aquário — aparece-lhe no campo da visão a cara redonda do marido. Por alguns instantes Virgínia é ainda a menina de vinte anos que andava correndo e cantando nos sonhos da noite. Pouco a pouco, porém, se vai integrando na realidade irremediável. Tem quarenta anos e é casada com este homem de cara gordalhufa e flácida, olhos empapuçados, calva lustrosa e ar bovino. Está ele a sorrir-lhe com a mesma ternura dorminhoca de todas as manhãs. Seus cabelos ralos se espalham esvoaçantes sobre o crânio polido e rosado, e vem dele um cheiro todo particular: uma mistura de Jicky (perfume a que Honorato se mantém fiel há mais de vinte anos) com sarro de charuto.

       O pijama de listras roxas se dobra em rugas múltiplas em cima do corpo roliço. Honorato Madeira solta um bocejo cantado e feliz de quem tem a vida em ordem.

       Virgínia fica a contemplá-lo com uma fixidez absurda que tem origem neste desejo esquisito que ela sente de olhar longamente para o marido, só para poder aborrecê-lo mais e mais ainda.

       Honorato levantou-se. É baixote, pesado, ventrudo.

       Virgínia cruza as mãos sob a nuca e fica olhando para o forro, calada. O sono faz a gente esquecer... Às vezes nos traz sonhos agradáveis. Dormindo ela esquece que tem um filho de vinte e dois anos e um marido obeso; torna a sentir a leveza juvenil dos velhos tempos. Quando acorda, é para se ver no mesmo quarto de paredes cinzentas: o espelho triangular do penteador, o guarda-roupa lustroso de imbuia, o teto de estuque... E ao lado dela, na cama, aquele corpanzil quente, aquele homem que ronca, que tem confiança nela, no mundo e na vida...

       Do banheiro vem a voz dele:

       — Não te esqueças, Gigina. Tens hora marcada no instituto...

       A voz tem uma consistência de pomada. Virgínia resmunga um eu sei de má vontade e levanta-se bocejando.

       — A manhã está tão bonita...

       Honorato diz estas palavras com tanta ternura que parece um poeta enamorado das paisagens luminosas. No entanto vive preocupado com o feijão, com o arroz, com o milho... Por que não vende alfafa? Havia de ficar-lhe tão bem...

       — O Noelzinho já está de pé?

       A voz dele se faz ainda mais terna.

       — Ó Honorato, deixa dessas bobagens... Noelzinho... Como se ele fosse um bebê...

       O marido formula um tímido protesto:

       — Ora, Gigina...

       Tomada por uma sensação de sonolento tédio, Virgínia senta-se na banqueta do penteador. Do banheiro vem o ruído quase musical do gargarejo de Honorato. Até nisso ele é sempre igual todas as manhãs. O gargarejo é um gorjeio que dura sempre o mesmo tempo e tem sempre o mesmo tom.

       Passam-se os minutos.

       Honorato está agora atando a gravata, na frente do espelho.

       — Vamos ou não vamos hoje ao baile do Metrópole?

       — Claro que vamos, homem.

       Ele solta um grunhido lamentoso. A idéia de que hoje à noite tem de botar colarinho duro lhe é insuportável. A mulher bem podia desistir da festa. Tão bom ficar em casa... A gente volta cansado do serviço e só tem vontade de se atirar na cama e pegar no sono.

       Pelo espelho Virgínia vê o marido que luta com a gravata, fungando e gemendo, muito vermelho.

       Afasta os olhos da imagem dele, com desgosto.

       Noel está sentado à mesa do café.

       O sol inunda a varanda. O vento agita os estores das janelas.

       O céu está claro como naquelas manhãs da infância. Ele olha para fora e recorda...

       A negra Angélica tomava conta da casa, de seu corpo e de sua alma. Tinha mais autoridade que a mãe ou o pai. Era uma preta velha de voz de paina, olhos de peixe morto, e dentes amarelados.

       De manhã dava-lhe café com pão e geléia, penteava-lhe os cabelos crespos, limpava-lhe as orelhas e levava-o até a terceira esquina. (Manhãs de sol como esta, cheiro de sereno no vento, nuvens fantásticas no céu...) Na esquina estava Fernanda, toda limpinha, avental branco, mochila de livros às costas, perfilada e sorridente, à sua espera.

       Tia Angélica chegava com ele pela mão, parava e dizia:

       — Pronto, agora vão direitinho. Cuidado com os automóveis.

       E os dois seguiam de mãos dadas, ele tímido e encolhido, Fernanda a puxá-lo pela mão, decidida, caminhava na frente, em passadas largas.

  1. Eufrásia Rojão, a professora, era uma senhora de voz masculinamente grossa, óculos escuros, gestos decididos. Quando ela gania: “Atenção!”, Noel estremecia, apavorado. Fernanda, sentada a seu lado no mesmo banco, encorajava-o com sorrisos.

       Na hora dos exercícios de Aritmética, Noel suava frio. Os números lhe davam tonturas. Fernanda, porém, ajudava-o a vencê-los.

       Quando a aula terminava, saíam juntos outra vez. Fernanda pulava e cantava, mas ele caminhava taciturno, de olho caído. Os outros rapazes lhe davam empurrões e gritavam: “Mariquinhas! Ai, mamãe!” Miavam e assobiavam, porque Noel nunca brincava com eles, ficava metido no meio das meninas, enquanto os colegas jogavam futebol ou bandeira.

       Muitas vezes Fernanda tinha de intervir para livrá-lo duma surra certa. E com que energia agressiva ela fazia isso!

       O relógio da varanda dá uma badalada.

       Noel sobressalta-se. A visão do passado se esvai. A criada entra com o café. Pára na frente dele e começa a despejar o leite do bule na xícara. Noel fica olhando distraidamente para a chinoca. Os seios dela, fortes e pontudos, arfam ao compasso da respiração. Noel desvia os olhos deles com uma vaga sensação de repugnância, porque os seios da criada, as suas ancas carnudas, os seus braços nus são para ele símbolo de coisas fascinantes e ao mesmo tempo repulsivas, indecentes, animais. Era melhor que Querubina (até o nome, santo Deus, que intolerável) fosse lisa como uma tábua. Teria uma presença menos indecorosa, não estaria assim a lembrar duma maneira tão pungente a sua qualidade de fêmea...

       As fêmeas pertencem a um mundo com que Noel não está familiarizado. A negra Angélica como que o educou dentro do reino da fantasia, com mimos, doces e contos de fadas. Aquela/madrinha preta, ao mesmo tempo bondosa e tirânica, era um muro que se erguia entre ele e a vida.

       Tia Angé era a senhora da casa. À hora de dormir contava-lhe histórias... O Gato de Botas, Joãozinho e Ritinha perdidos na floresta encantada, a princesa que dormiu cem anos...

       Noel cresceu com uma visão deformada da vida. Jamais conheceu a liberdade de correr descalço pelas ruas, ao sol. Davam-lhe livros com gravuras coloridas, bonecos, soldadinhos de chumbo: e as paredes do quarto dos brinquedos limitavam o seu mundo.

       Virgínia um dia falou em pôr o filho num internato. Tia Angélica cresceu para ela numa fúria:

       — Está louca? Quer judiar do menino? Não senhora! Não vai. Havia de ter graça...

       Noel não foi. Mas no dia em que completou quinze anos vieram dizer-lhe que tia Angélica tinha amanhecido morta. A preta velha estava estatelada, em cima de sua cama de ferro, de braços abertos, com os olhos escancarados fitos no teto, como se ali estivesse enxergando uma visão pavorosa.

       Noel sentiu um abalo tremendo. Não. Tia Angélica não podia morrer... Era uma espécie de fada, um gênio da floresta encantada, não podia acabar assim daquele jeito, como uma criatura vulgar...

       Quando levaram o corpo da negra para o cemitério, o muro, que separava Noel da vida, caiu. Ficou, porém, a sombra dele, e Noel continuou na ilusão de que ainda era prisioneiro.

       Ao entrar para a academia, um ano mais tarde, sentiu-se desambientado e sofreu. A vida não era, como ele esperava, um prolongamento daqueles contos de fadas em que o lobo mau no fim era sempre castigado, ao passo que a menina do capuz vermelho continuava a viver feliz por muitos anos em companhia de sua avó.

       Noel encontrou a vida povoada de lobos maus.

       Refugiou-se no seu quarto e nos seus pensamentos. Dentro das quatro paredes do primeiro — quadros, livros e uma eletrola com discos escolhidos — sentia-se num clima que de algum modo se assemelhava ao do reino das fadas.

       Quando saía do quarto, era como um peixe fora dágua.

       Aos dezessete anos os primeiros amigos lhe trouxeram a curiosidade sexual, que acabou gerando nele um desejo forte de mistura com uma dose não pequena de medo. Noel passou a desejar e ao mesmo tempo a temer as mulheres.

       Sua primeira experiência sexual (um camarada levou-o quase de arrasto à casa duma prostituta) foi uma decepção.

       Noel supervalorizara o ato do amor e no entanto Obtivera dele apenas dor e uma espécie de náusea. Os homens cercavam aquilo dum grande mistério, duma atmosfera quase dramática; os livros fantasiavam; os moralistas ameaçavam... Tudo isso lhe excitara a imaginação, mas o primeiro contato sexual para ele fora uma coisa repugnante, viscosa, violenta — e a dor, o susto e o constrangimento lhe haviam matado o prazer.

       A mulher sorrira da inexperiência do rapaz. Noel saiu apavorado dos braços dela, enfurnou-se no quarto e daí por diante (já que o apetite sexual era inevitável) passou a imaginar e a desejar um amor sem penetrações dolorosas, suave, seco, superficial, em resumo: uma união espiritual entre elfos e fadas.

       Um dia, depois de reler os contos dos Irmãos Grimm, escreveu a lápis na branca página de guarda do volume:

       “O que há de mais encantador no mundo da fantasia é estar ele livre das complicações do sexo. Só por isso é que pode oferecer a seus habitantes felicidade e alegria pura.

       Os gnomos, por exemplo. Joãozinho e Ritinha se perderam no mato e encontraram aquela colônia miniatural de gnomos. Tudo nela era harmonioso e belo. Os homenzinhos trabalhavam em paz, carregavam grandes frutas em seus carros minúsculos, quebravam nozes, dançavam ou dormiam à sombra dos cogumelos...

       Eram felizes por duas razões principais: entre eles não havia nem lojas nem mulheres.

       A ausência do comércio e do amor era a principal força daquele mundo.

       Se os gnomos tivessem sexo, como ficaria complicada e feia a história da Branca de Neve! Os anões encontraram em sua casa a linda e inesperada visitante, deram-lhe de comer, cantaram e dançaram para ela... Simplesmente. Se fossem homens de verdade haviam de se espedaçar para ver quem ficava com Branca de Neve. Felizmente eram gnomos e o resultado de tudo foi um conto limpo.

       Se entre os homens da vida real fosse possível florescer histórias como esta, eles não decorreriam tão freqüentemente ao mundo da fantasia.”

       Os anos passaram. Os homens de verdade envelheciam ao passo que as criaturas dos contos de tia Angélica permaneciam frescas e jovens.

       Noel sentia um vazio em sua vida. Em casa os dias se arrastavam monótonos. O pai fazia com relação a ele tímidas tentativas de carinho que morriam a um olhar frio da mulher. Às vezes Noel se atrasava na rua de propósito à hora das refeições, pois estas eram momentos de pouca ou nenhuma cordialidade. Honorato lia o jornal, enquanto as criadas traziam os pratos. Virgínia arreliava sem razão com o pessoal da casa. Os diálogos eram raros, difíceis, entrecortados.

       — Hoje falei com o Leitão Leiria...

       — Sim?

       Este sim de Virgínia era a maior, a mais magnânima das concessões. O silêncio caía de novo. Honorato aproximava a cara gorda do prato de sopa de onde subia um fino vapor. Noel não podia deixar de pensar: a cara inexpressiva dum Buda por trás duma nuvem de incenso.. . Sempre as imagens literárias! Por que não podia ele ser um bom animal, um homem simples e são que acha prazer na carne de gado e na carne das mulheres, na comida e no amor? Por que este medo da vida, esta distância dos homens, este apego aos livros, ao irreal, ao imaginado?

       Virgínia explodia em censuras sem fim. Não tinha vestidos... (Noel, Honorato, as criadas — todos sabiam que seu guarda-roupa estava cheio de vestidos novos e caros.) Faltava-lhe uma geladeira maior, um aspirador de pó, um rádio... Os criados eram desatenciosos e lerdos. E Honorato, um água-morna, um desmoralizado que não se fazia respeitar. E por falar em desmoralizado, quando era que o nosso mariquinhas, o Noelzinho do papai, ia começar a trabalhar? Para que tinha um diploma de bacharel em Direito? Para que, se vivia de mesadas?

       Noel comia em silêncio, quase sempre enfastiado. Finda a refeição ganhava a rua. Ao meio-dia e a tarde ia esperar Fernanda à saída da casa em que a moça trabalhava. A amizade da companheira de infância era a coisa melhor que ele tinha.

       Agora, nesta manhã de maio, Noel recorda o passado, mergulha nos próprios pensamentos, esquecendo os seios abundantes de Querubina, os seus braços gordos, a sua presença incômoda, e tudo mais que o cerca nesta sala hostil sem calor de lar.

       — Seu Noel!

       Ele ergue os olhos. De testa franzida Querubina repete a pergunta:

       — Pouco café ou muito café? Credo! Já perguntei três vezes.

       — Pouco.

       Noel serve-se de açúcar, distraído. Honorato entra e senta-se à mesa.

       — Bom dia, meu filho.

       — Bom dia.

       — Dormiste bem?

       (Esta voz quase cariciosa, este tom de interesse paternal só é possível na ausência de Virgínia.)

       — Muito bem.

       O olho triste do rapaz fita a cara corada e feliz.

       De novo a voz branda e líquida:

       — Querubina, o meu café. A criada serve-o.

       Virgínia desce também. Quando ela chega, a solidão aumenta. Faz-se um silêncio demorado. Ela é a primeira a falar:

      — Noel, me disseram ontem na casa das Assunção que tu andas de agarramentos com a Fernanda...

       A face lisa e clara do rapaz se tinge de vermelho. Seus olhos castanhos ganham uma tonalidade quente.

       — Mamãe!

       Esta palavra, pronunciada com uma veemência tímida, é o protesto máximo que ele ousa formular. Virgínia sorri com malícia.

       — Eu quero só ver se isso dá em casamento...

       — Tu não compreendes...

       — Ah! — Virgínia solta uma risada rascante, seca, desafinada. — Tu não compreendes — repete ela, parodiando a voz do filho. — Não. Não compreendo. O único inteligente da casa és tu... Só tu sabes as coisas...

       Honorato descerra os lábios polpudos para proferir uma palavrinha de protesto. Mas a expressão do rosto da mulher o desencoraja.

       — Eu quero só ver — continua ela — como é que vais casar...

       Noel desvia os olhos dos olhos da mãe. Uma ruga de contrariedade lhe vinca a testa. A expressão de seu rosto é dolorosa, mas Virgínia continua a falar, irônica, com uma raiva fininha, sentindo um prazer miúdo e perverso em alfinetar... Porque é assim que ela se vinga. Nela a necessidade de agredir os outros é uma força irresistível. Tem agora diante de si os seus guardas, os homens que lhe tiraram os movimentos, que consciente ou inconscientemente lhe tolhem a liberdade. Por causa do marido ela não tem a liberdade de gozar da companhia de outros homens mais brilhantes, mais moços e mais agradáveis. Por causa do filho é forçada a uma atitude insuportável de mãe de família, de senhora respeitável. São limitações que ela não pode tolerar. Se põe mais rouge nas faces, mais bâton nos lábios, lá estão os olhos do rapaz fixos nela, numa censura contida, lá está a cara desconsolada do marido que, não dizendo nada, diz tudo. Os seus desejos de boa companhia, festas, ruídos e elogios são recebidos com desagrado por aqueles dois homens. E o pior é que esse desagrado não se exprime em palavras: ela o sente nos olhares, nas atitudes e no bojo mesmo do silêncio que se fecha sobre os três, quando estão juntos.

       — Onde é que o doutor vai arranjar dinheiro pro casamento?

       Noel, que só tomou um gole de café, levanta-se devagar e, sem olhar para a mãe, retira-se da sala.

       Virgínia fica sorrindo.

       Com a boca cheia de pão, as bochechas trêmulas, Honorato reúne toda a coragem que lhe resta, para dizer:

       — Ora, Virgínia!

 

       A luz da manhã alaga o quarto de dormir do apartamento n.° 140, no 10.° andar do Edifício Colombo.

       Sobem da rua ruídos surdos e gritos destacados — vozes das criaturas de aço e das criaturas de carne.

       Os minutos passam. Os ruídos aumentam. O sol bate em cheio no rosto de Salustiano Rosa, uma máscara morena de traços nítidos: pálpebras lustrosas caídas, sobrancelhas grossas e eriçadas, nariz reto a destacar-se decisivo, do rosto onde a, barba começa a aparecer em pontinhos azulados. A boca entreaberta mostra dentes claros e regulares, que faíscam.

       Salustiano desperta, mal abrindo os olhos e sentindo a quentura do sol. Está com os braços estendidos em cruz e aos poucos vai tendo consciência do contato de um corpo estranho, mole e arfante, sob o dorso de sua mão esquerda. Volta a cabeça e olha. A seu lado urna rapariga loura dorme mansamente. Sua mão está aninhada entre os seios dela. Durante alguns segundos Salustiano procura compreender aquilo, chamando as recordações da noite. E, numa síntese mágica, a história lhe vem à mente...

       A noite que ameaçava terminar sem uma aventura... Os efeitos do uísque. A lua, a rua deserta, o vulto do guarda, na esquina... A rapariga loura que passava sozinha... Psst! Os olhos verdes que se fixaram nele, o sorriso animador... Depois, as palavras sem sentido e os gestos que diziam mais que as palavras. O elevador subindo — 1.°, 2.°, 3.° andar... A rapariga sorrindo em silêncio... A parada brusca no 10.° andar. O corredor, com uma lâmpada acesa lá no fundo, o tapete abafando os passos, a pressão tépida das mãos dela... O n.° 140 pintado na porta em algarismos brancos. Dentro do quarto, a quietude e o luar. Pouco depois as roupas — as dele e as dela — uma a uma caíram misturadas sobre a poltrona. Por fim aquela rapariga de pernas esbeltas, deitada na cama, imóvel, à sua espera...

       Agora a mulher também está de olhos abertos, caçando lembranças.

       Salustiano senta-se na cama e olha tranqüilo para a companheira da noite. Uma mecha de cabelos lhe cai sobre a testa. Os olhos de ambos se encontram. A rapariga sorri. Salustiano faz o mesmo. Ergue-se. O pijama de seda (“Como foi que eu tive a lembrança de vestir o pijama?”) dança-lhe frouxo e amarfanhado no corpo musculoso.

       Salustiano dá alguns passos no quarto, sem propósito certo. O sorriso da rapariga se alarga.

       Que homem engraçado! — pensa ela.

       De braços cruzados Salustiano examina a companheira da noite.

       Só agora é que vê direito a cara da mulher com quem dormiu. É uma moça de narizinho redondo, olhos dum verde esquisito, seios pontudos, cabelos louros. Bem bonita! O sol da manhã podia ter-lhe revelado a carantonha intumescida e pintada duma megera. Salu verifica com alegria que a sua boa estrela ainda continua a brilhar.

       A desconhecida contempla-o ainda a sorrir. Contra a luz desenha-se a silhueta firme do rapaz dentro do pijama num raio-x tão nítido que ela pode ver até os fios de cabelo que dão àquelas pernas a aparência dum bicho peludo.

       — Como é o teu nome, meu bem?

       A rapariga tem um leve sobressalto ao ouvir o som daquela voz metálica e autoritária.

       — Cacilda.

       Por alguns segundos Salustiano fica olhando para a coxa branca e bem torneada que emerge da colcha amarela, coberta duma penugem que o sol doura.

       Procura espantar um desejo traiçoeiro que vem negaceando, de longe, procurando tomar-lhe conta do corpo e da vontade. Olha o relógio, que está sobre a mesinha-de-cabeceira. Nove horas. Os inquilinos do 10.° andar têm os seus princípios e os seus escrúpulos... Cacilda precisa sair sem ser vista.

       — Pois é, minha nega — diz ele com delicadeza — agora vai dando o forinha, sim?

       Ela faz um gesto de aquiescência, atira as pernas para fora da cama, coça a cabeça e pergunta, entre dois bocejos:

       — E o teu nome, como é?

       — Salustiano... Se tiver preguiça de dizer todo o nome, diga só Salu. É a mesma coisa.

       Cacilda começa a enfiar as meias.

       Salu debruça-se à janela. Lá embaixo na rua movimenta-se um exército de bichos minúsculos. Correm os bondes de capota parda; chatos e rastejantes, parecem escaravelhos. Uma confusão de cores e formas móveis, um entrebalançamento de fios de aço e de sons. Vermelhos e pardos, os telhados se estendem ao sol. Coruscam vidraças. Flutua no ar uma névoa azulada.

       Longe se estende o casario raso dos Navegantes, com as suas chaminés a darem a impressão de troncos desgalhados duma floresta depois do incêndio.

       Salu respira, contente. Enfim, mais um dia começa. Só a idéia de estar vivo, são e íntegro lhe causa uma alegria intensa. A vida é boa e a gente nunca deve voltar-lhe o rosto. É preciso aceitar todas as coisas. Tudo o que Deus fez é bom. (Ele aceita Deus por comodismo: pensar demais faz mal e rouba um tempo precioso que pode ser aproveitado numa atividade mais útil.) Tudo o que o corpo reclama é legítimo. O sol brilha: vamos gozar o sol. As mulheres passam: vamos amar as mulheres!

       Salu entra no quarto de banho, despe-se, salta para baixo do chuveiro e põe a água a jorrar. O leque líquido lhe envolve o corpo. Salu canta nem ele mesmo sabe quê. Uma melodia exótica, toda feita de fragmentos de várias canções, entrecortada de gritos e assobios.

       Do outro compartimento, vem a voz da rapariga:

       — Quero entrar... Como vai ser?

       — Pois entra, menina — responde Salu. E continua a cantar.

       Cacilda entra. Contra o verde dos ladrilhos do banheiro destaca-se o vulto moreno-claro do rapaz, que está completamente nu... Cacilda fica parada, a sorrir sem malícia. A primeira imagem que lhe vem à mente é a de um cartaz que viu recentemente: — Tarzan, o Filho das Selvas. Mas a figura do cartaz de cinema tinha uma tanga, ao passo que Salu...

       — Nunca viste um homem pelado?

       Ela solta uma risada e aproxima-se do espelho da pia.

       — Sai, bobo!

       Agora Salu está à janela, metido no seu roupão felpudo. Neste momento Cacilda sai do Edifício Colombo. Ele reconhece o vestido vermelho e o chapéu preto de feltro. Uma figura pequenina que caminha sobre a calçada clara de mosaicos, na qual se projeta sua sombra. A mancha vermelha move-se. Outras manchas se agitam. Cacilda se perde no tumulto da rua.

       Cacilda de quê? Quantos anos tem? De onde veio? Para onde irá?

       Lá vai a rapariguinha loura que subiu sem protestar ao quarto do rapaz desconhecido, meteu-se na cama dele, deu-lhe alguns momentos de prazer e no dia seguinte ergueu-se sem pedir explicações, vestiu-se e saiu na ponta dos pés para não chamar a atenção dos outros inquilinos do 10.° andar. Não contou histórias sentimentais nem olhou para a cédula que o homem lhe meteu com alguma discrição na bolsa.

       A manhã é clara. Bondes, autos e gentes passam. Garotos gritam nomes de jornais. A cidade vive o seu novo dia.

       Mas a Cacilda do vestido vermelho lá vai caminhando com aquelas pernas que Salu viu nuas ali na cama; vai sacudindo os braços que o apertaram, e olhando as coisas e as pessoas com os olhos que viram há pouco o corpo nu do seu amante de uma noite.

       Talvez ele não torne a vê-la nunca mais. É por coisa como essa que ele acha a vida absurda e bela.

       Está tudo certo — conclui.

       Em paz com o mundo, veste-se e sai.

       Na rua há largas zonas de sombra e de luz. Anda no ar, de mistura com a luz enfumaçada, um cheiro ativo de café torrado.

       Salu caminha a olhar os transeuntes e de repente se lembra do tempo em que era ginasiano... O pai vinha visitá-lo duas vezes por ano. Morava no interior e era um homem alegre e despreocupado. Saíam muitas vezes a passear. O velho mostrava os passantes e dizia:

       — Olhe, meu filho, os homens são como formigas...

       Torcia contente o bigode fino, lustroso de cosmético. Orgulhava-se de ter a sua filosofia da vida. Era um mão-aberta e achava que primeiro vinha o prazer, depois o trabalho. A mulher era rica, ele não tinha razão para se preocupar com o futuro.

       Salu olhava para o pai com admiração e escutava...

       São como formigas — repetia ele. — Caminham, caminham e caminham. Sempre preocupados com o trabalho, os burros! Os formigueiros (e o velho fazia um gesto que abrangia a cidade) sobem para as nuvens...

       Expunha a sua teoria. Cada homem era urna formiga que levava nas costas um peso morto, um peso esmagador, mas absurdo, de cuidados. Uns pensavam nas contas que tinham a pagar. Aquele sujeito amarelo e encurvado decerto tinha uma promissória vencida em vésperas de ser protestada. O homem de óculos escuros e bengala de castão de prata ia pensando talvez na filha trintona que não achava marido. Quase todos os passantes levavam uma carga invisível de cuidados. E os que não tinham cuidados, mas eram imaginosos, inventavam incômodos fantásticos, só para se autoflagelarem porque não tinham a coragem de aceitar a vida pura e simplesmente como ela é...

       — Os homens são formigas! — repetia o velho. — Formigas que levam às costas fardos cem vezes maiores que elas. Devemos ser mas é cigarras, meu filho!

       Salu revê mentalmente o pai, sorri para o fantasma...

       O sol bate em cheio num cartaz vermelho em que um mandarim de roupa amarela recomenda em letras brancas que todo o mundo tome “Chá Pequim”. Os olhos de Salu pousam no cartaz. E ele imediatamente pensa em Chinita.

       — Sou tua!

       As palavras dela lhe soam agora na mente com surpreendente nitidez. A voz musical, o ceceio esquisitamente excitante. . . Na penumbra do cinema as mãos deles se encontraram aquela noite. Mickey Mouse fazia proezas na tela branca. Ao lado de Chinita, o vulto escuro da mãe, os vastos seios arfando. Mais adiante, o pai cochilava, a cabeça caída, a papada derramada sobre o colarinho duro. Um trinado da flauta de Mickey Mouse acordou-o. Os dedos de Salu viajavam de leve pelo braço de Chinita. Os olhos dela fulguravam na sombra.

       O sol brilha mais forte. As formigas passam carregando os seus fardos.

       Devemos ser mas é cigarras, meu filho!

       Salu começa a assobiar um samba.

 

       O relógio grande da varanda (custou três contos, tem um pêndulo dourado, enorme) bate onze horas.

       Chinita pensa em Salu. A água de duas torneiras escorre para dentro da banheira de ladrilho amarelo e preto. Chinita tira o roupão e fica toda nua, namorando-se na frente do espelho.

       Se ele me visse assim?

       Chinita apalpa os braços (quantas vezes os dedos dele apertaram estas carnes!), pousa as mãos dobradas em concha sobre ambos os seios (que sensação esquisita e boa, que cócega invade o corpo e põe o coração a bater com mais força quando os dedos dele lhe tocam de leve nos bicos dos seios, mesmo por cima do vestido...).

       De lá debaixo, do hall (Chinita faz questão de pronunciar hól, com h aspirado, bem como lhe ensinou o Prof. Clarimundo) vêm rumores confusos. Devem ser os decoradores. Vozes. Batidas de martelos.

       Chinita toma a temperatura da água com a ponta dos dedos. Tépida. Fecha a torneira da água fria e deixa a outra aberta mais alguns instantes.

       Entra na banheira e a água se fecha sobre ela, num abraço morno. Chinita cerra os olhos. Um calor adormentador convida-a ao abandono, à sonolência. Chinita pensa em Salu. É tépido assim o corpo dele quando ambos dançam, colados um ao outro. Hoje à noite vão se encontrar de novo no chá-dançante do Metrópole. Chinita sorri a este pensamento. Um pensamento malicioso lhe ocorre: a única utilidade de D. Dodó Leitão Leiria é a de inventar festas de caridade onde a gente pode dançar e conversar com o namorado. . .

       Chinita ensaboa as pernas, as coxas e o ventre, numa carícia demorada. E agora, dentro deste banheiro espaçoso de ladrilhos coloridos — um armário a um canto com perfumes, sais de banho, cremes e água-de-colônia — ela pensa no quartinho de tábua da sua casa de Jacarecanga, um cubículo estreito e cheio de frinchas. No inverno era um pavor; o vento entrava uivando, frio e cortante como uma navalha. O banheiro de folha com pintura descascada tinha pés cambaios, rangia quando a gente saltava para dentro dele, vazava água por um buraco que ninguém nunca conseguiu descobrir. Sabonete de mil e quinhentos. (Papai prometia melhoramentos, mas a loja ia mal, havia até promissórias protestadas.) Às vezes o ralo do chuveiro se desprendia caindo na cabeça do banhista...

       Chinita sorri. Mergulha todo o corpo na água e fica só com a cabeça para fora. Nadam na superfície espumas brancas coroadas de bolhas irisadas. A água agora vai tomando uma cor leitosa, palidamente azulada.

       Isto parece um sonho comparado com aquela vida... O colégio da Prof.a Ana Augusta. Os bilhetinhos de amor do farmacêutico. As meninas do seu Boeira, coletor estadual. De noite, o cinema do seu Mirandolino, o Britinho da Barbearia Fígaro soprando na flauta, o filho do delegado batendo no piano. Foi naquele cinema sombrio e feio que ela começou a amar os artistas de Hollywood...

       Tinha dez anos quando Valentino morreu. Mesmo assim pôde sentir a perda irreparável. Chorou muito e o pai teve de dar-lhe uma boneca nova para a consolar. Depois os anos passaram, ela cresceu, o cinema progrediu, ganhou voz. Mas em Jacarecanga, continuava mudo. (“Não sou besta de comprar um aparelho falante” — dizia o Mirandolino — “essa geringonça não vai longe...”) E assim o barbeiro e o filho do delegado continuaram a arranhar na flauta e no piano valsas impossíveis.

       Chinita teve muitos namorados, recebeu muitos bilhetinhos perfumados com flores secas. Uma vez, como os pais se opusessem ao seu namoro com um forasteiro, que toda gente apontava como vigarista, Chinita pensou em fugir. (Não que o amasse de verdade. O que a tentava na causa era o que ela tinha de cinematográfica. Adorava as situações românticas. Elas faziam que a vidinha sem graça de Jacarecanga se parecesse, pelo menos um tiquinho assim, com a das figuras de Hollywood.) Mas o Cap. Moreira, delegado de polícia, não ia nunca ao cinema e não compreendia os romances. Recebeu uma denúncia, obteve provas e trancafiou o galã de Chinita no xadrez.

       Chinita passou vários dias vestida de escuro, olhos pisados (bem como Pola Negri numa fita trágica), pensando no bem-amado. Mas os cartazes do Cinema Ideal saíram pára a rua anunciando uma “superprodução” de Ramon Novarro. Chinita criou alma nova e esqueceu o seu drama. Foi ao cinema e naquela mesma noite arranjou outro namorado.

       A vida em Jacarecanga rolava, sempre igual. Chinita vivia com o pensamento em Hollywood. Imaginava-se Greta Garbo, Joan Crawford, ou Constance Bennet. Imitava gestos e penteados. (Nos bailes do Recreio todos riam dela. Pura inveja!)

       O ambiente familiar não a encorajava. As paredes da casa, cheias de retratos de avós, gente antiga, mulheres de penteados monumentais, homens de barba... Guardanapinhos de croché. Mamãe gorducha, fazendo tricô, falando em fazer economias, suspirando e queixando-se da vida. Papai, de barba crescida, comentando a alta dos gêneros, a política, as partidinhas de pôquer...

       Chinita sonhava com outro ambiente mais moderno, mais fino, mais limpo: alta-roda, homens de casaca, mulheres com vestidos decotados, perfumes, jóias...

       Agora ela faz uma excursão ao passado, só porque se lembrou do banheiro pobre da sua terra natal...

       Brrr! Chinita agita os braços, segura as bordas da banheira, tosse, ergue a cabeça... Brr! A água quase lhe desceu goela abaixo.

       O relógio começa a bater. Que horas serão?

       Chinita sai da banheira, enrola-se numa toalha felpuda, que lhe provoca arrepios e torna a pensar em Salu.

       No hall os decoradores trabalham, terminando as pinturas da parede. O Cel. Pedrosa insiste em pedir enfeites dourados, muitos enfeites dourados. A mulher, D. Maria Luísa, suspira tristonha, pensando nas despesas. Mas o marido está com a mania de grandeza na cabeça: quer por força ter a melhor vivenda dos Moinhos de Vento.

       O ar está cheio dum cheiro penetrante de tinta a óleo. Os móveis novos (também com dourados, estilo Luís XV) acham-se cobertos por uma lona. Um mulato gordo encera o soalho.

       Sentado numa poltrona fofa, o Cel. Zé Maria Pedrosa lê o jornal da manhã. Política nacional. Um ministro que pede demissão. Rumores de revolução. Entrevistas, discursos, um manifesto.

       Zé Maria baixa o jornal.

       — Seu Willy!

       O homem ruivo, cuja cara branca e inexpressiva parece um desenho de linhas simples que o desenhista se esqueceu de encher, volta-se no alto da escada.

       — Pronto, coronel.

       — Mas o senhor acha mesmo que terminam o serviço depois d’amanhã?

       — Och! Como não, coronel!

       — Percisamos inaugurar a casa na terça-feira sem falta.

       O coronel pensa nos convites. A redação é de Chinita, mas quem escolheu o papel e as letras foi ele: um papel grosso, chamalotado, letras douradas, um buquê de flores coloridas a um canto:

“A família José Maria Pedrosa tem a subida honra de convidar V. Ex.a e Ex.ma família para o baile com que inaugurará o seu palacete...”

       Zé Maria sorri. O alemão se volta de novo para a parede e continua a pintar com todo o capricho um arabesco. Foi uma luta para conseguir que o coronel desistisse da idéia de ver cavalos, bois e anjos pintados nas paredes da casa. Por fim, cercado por Chinita, que queria parecer moderna pelo pintor, que apresentava razões técnicas, e pela mulher, que achava que quanto menos figuras houvesse “menas despesas haveriam” — desamparado e só, Zé Maria capitulou... Desistia dos cavalos, mas que lhe deixassem então os dourados, ao menos os dourados...

       A criada vem dizer que o almoço está na mesa. É uma rapariga nova, vestida de preto, avental branco e touquinha na cabeça. Zé Maria sorri porque lhe vem à lembrança um quadro do passado: a negra Teresa, de cara inchada e pretusca, surgindo do fundo da cozinha para dizer com maus modos:

       — “O almoço’tá na mesa, não embrome porqu’esfria!”

       Zé Maria pensa em Nanette e nas beijocas boas que vai lhe dar hoje de tarde, se Deus quiser.

       — Seu Willy, não é servido?

       A cara sem cor parodia uma expressão amável.

       — Muito obrigado, bom proveito!

       O sol escorre para dentro da sala de refeições. Em cima da mesa faíscam, sobre a toalha branca, os cristais, as pratas, as louças. Os móveis são de jacarandá. Berra a pintura futurista das paredes. O soalho encerado é um espelho. A terrina de sopa fumega. Tudo fulge, menos a cara de D. Maria Luísa.

       Sentada no seu lugar na frente do marido, ela tem os olhos baixos, os lábios apertados, o ar doloroso. Parece uma ré diante do juiz.

       — Mas que é que você tem, Maria Luísa?

       Zé Maria sabe o que é... Em vinte e oito anos de casados aprendeu a conhecer a mulher. Pergunta por perguntar.. .

       — Não tenho nada. Eu nunca tenho nada.

       A criada serve a sopa. Zé Maria desdobra o guardanapo e ata-o em torno do pescoço. Faz-se silêncio.

       Zé Maria, para melhorar o ambiente, faz humorismo:

       — Pra que flor na mesa?

       Olha para o vaso bojudo onde as zínias amarelas se misturam com as rosas.

       — Eu não como flor!

       É o seu grande achado, a sua proeza máxima como humorista. Goza com a própria piada: soltando uma risadinha seca e prolongada.

  1. Maria Luísa permanece de cara fechada. Novo silêncio. Agora só se ouve o tantã dos trabalhadores, que estão a bater martelo no andar superior, e os sons quase musicais que Zé Maria produz ao sorver as Colheres de sopa.

       — Onde é que está Chinita?— indagou ele.

       — Recém levantou.

       A voz de D. Maria Luísa é dolorida, arrastada — voz de quem tem prazer em se julgar mártir, voz de quem tem a preocupação de sempre representar na vida o papel de vítima.

       — E o Manuel? — torna a perguntar o pai.

       — Não dormiu em casa. (A voz é tão dolorosa que parece anunciar: “O Manuel amanheceu morto”.) Nunca dorme...

       Zé Maria está arrependido de ter feito a pergunta. Agora nem tem coragem de fazer comentários.

       — Veja só...

       É a única coisa que encontra para dizer.

       Mas D. Maria Luísa não está satisfeita. Ainda não esgotou o tema desgraça. É preciso descobrir nele mais motivos de tristeza.

       — O Manuel anda magro...

       Zé Maria sorve a última colherada de sopa.

       — Está sem cor... — prossegue a mulher. Seguindo um velho hábito, Zé Maria afasta de si o prato vazio.

       — Não quer estudar...

       Zé Maria ensaia uma desculpa:

       — Ora Maria Luísa, quando a gente é rapaz...

       Mas nos olhos da mulher ele lê uma censura que não acha expressão verbal. A voz dolorida ganha intensidade.

       — Severina, traga os outros pratos.

       Mesmo dando ordens de caráter doméstico a sua voz é uma lamúria.

       Pausa.

       Zé Maria sente um alívio, julgando que as lamentações findaram.

       Os martelos continuam a bater, em golpes rítmicos que despertam ecos pela casa toda. E ao compasso das marteladas, a voz cansada (que o coronel há quase trinta anos ouve, todos os dias, todos os momentos, queixando-se sempre, sempre, sempre) a voz machucada vai dizendo:

       — Agora tudo mudou. Eu já não tenho mais marido nem filhos...

       Mas é melhor calar. Faz-se um silêncio pesado, um silêncio cheio de censuras recalcadas, um silêncio dentro do qual paira um enorme mal-estar.

       Chegam novos pratos. A feijoada e o assado criam um ambiente de paraíso para o coronel. Ele esquece tudo e é com uma alegria quase infantil que trincha a carne tostada e suculenta.

       Mas D. Maria Luísa se sentiria supinamente infeliz se não tivesse motivos para ser infeliz. Por isso rumina todo o seu ressentimento, recorda, compara, imagina...

 

       Em Jacarecanga a vida da família Pedrosa era quase patriarcal. Moravam numa casa modesta de porta e quatro janelas. Tinham um jardim com flores, um quintal com laranjeiras e pessegueiros: na horta, D. Maria Luísa cuidava com carinho das couves e dos repolhos. (Quando a peste bateu nos pessegueiros ela achou um motivo admirável para se sentir desgraçada.) Os vizinhos — o Zenóbio Pinto, escrivão, e a mulher, dum lado; o Carvalho da Farmácia, viúvo com duas filhas solteironas, do outro — eram gente boa e serviçal. Quando se apertava pela falta de açúcar ou de batatas, D. Maria Luísa ia até a cerca, gritava: Vizinha! e tudo se arranjava com facilidade.

       Zé Maria trabalhava de dia, voltava às oito, lavava os pés e depois jantava em mangas de camisa. De noite Chinita ia ao cinema com as filhas do coletor. Manuel ia jogar bilhar no café.

       O serão começava. Zé Maria ficava na cadeira preguiçosa, lendo os jornais. Às vezes aparecia seu Carvalho e jogava-se escova ou sete-belo. D. Maria Luísa fazia trabalhos de tricô: uma gravata para o Manuel, uma manta para o marido, uma blusa para a Chinita, um casaquinho para o bebê da D. Almira...

       Mas o fim do mês era uma tortura: cada conta que aparecia doía como uma punhalada. A cada pagamento D. Maria Luísa tinha a impressão de que lhe arrancavam do corpo uma nesga de carne.

       Sofria. Zé Maria queixava-se de que os negócios iam mal. Às vezes as horas de refeições eram pontilhadas de suspiros. Os meninos, esses conversavam, indiferentes. Ah! como a mocidade de hoje é diferente da do meu tempo!

       Chinita queria ser artista de cinema. Manuel tinha vontade de conhecer a capital. Zé Maria afogava as suas preocupações no pratarrão de feijoada.

       E a vida ia passando. Todos unidos. Graças a Deus eram só quatro! — pensava D. Maria Luísa. Seria pior se houvesse oito bocas para alimentar... Mesmo assim a preocupação de economia era permanente. Chegava a pensar numa situação ideal em que as pessoas não precisassem de comer nem de vestir. Assim todo o dinheiro iria para um cofre, ficava ali aumentando dia a dia. E seria um gosto olhar para ele todas as manhãs.

       Zé Maria passava o dia atrás do balcão. Dois quilos de açúcar! Três metros de morim! Um pacote de alfinetes! E o fantasma dos papagaios de banco avisando o vencimento das duplicatas.

       Às vezes o Madruga passava pela loja. Era um sujeito alto, magro, desdentado, calva enorme, olho malvado, voz dura. Andava sempre de palito na boca. Vivia a discutir com Zé Maria. No fundo, bons e velhos amigos. Mas era uma camaradagem que precisava ser alimentada com rusgas. Dentro de um ambiente de paz perfeita não floresceria... Zé Maria e Quirino Madruga discordavam sempre. Em política, em religião, em assuntos cotidianos, em tudo. As apostas se repetiam em torno das coisas mais triviais.

       — Amanhã chove.

       — Não chove.

      — Chove, não vê o céu?

       — Céu não regula.

       — Quer apostar como chove?

       — Topo! Vinte mil-réis.

       — Feito! Vintão.

       Se chovia Zé Maria fazia um hê-hê-hê gostoso, passava o dia alegre (“Quero só ver a cara do Madruga”) e no fim perdoava ao outro o pagamento da aposta.

       Só uma coisa lhe doía na alma. Madruga não perdia ocasião de lhe dizer:

       — Deus quando fez o porco foi pensando no chiqueiro. Você, Zé Maria, nasceu pra viver em mangas de camisa atrás dum balcão, vendendo bacalhau e manteiga... Não posso imaginar você de casaca, bebendo champanha. Cavalo pode morar em palácio? Claro que não.

       E ria a sua risada áspera.

       Mas um dia Zé Maria sonhou que a casa do coletor tinha prendido fogo e que o Madruga havia morrido queimado. Levantou-se, impressionado. Estava-se em véspera de Natal, a Loteria do Estado anunciava uma extração de dois mil contos. Zé Maria foi olhar a casa do coletor. Tinha o número 1063. Tomou uma resolução heróica. Uma vez na vida e outra na morte não fazia mal arriscar... Desgraça pouca é bobagem. Juntou a féria de três dias e foi à Agência de Loteria do Bianchi.

       — O 1063 não tem... — disse o italiano.

       Zé Maria ficou amolado.

       — Encomende. Pago telegrama, pago tudo.

     Estava nervoso. O Bianchi telegrafou. A resposta veio. O 1063 já estava vendido, mas o 3601 estava livre. Servia?

       — Servia! Mande buscar urgente.

       Em casa ninguém sabia de nada. O 3601 veio. Zé Maria andava preocupado. Algumas firmas ameaçavam protestar duplicatas vencidas e não pagas. O negócio estava meio parado.

       Um dia Zé Maria não agüentou aquela coisa esquisita que se lhe avolumava no peito, aquela angústia, aquele peso. Contou tudo à mulher. Tinha comprado um bilhete!

       — Um bilhete inteiro? Inteiro?

  1. Maria Luísa levou as mãos à cabeça. Zé Maria estava aniquilado.

       — Quanto custou?

       — Trezentos...

  1. Maria Luísa enxergava, via com nitidez os trezentos mil-réis diante dos olhos. Sentiu uma tontura. Foi para o quarto e chorou toda a tarde.

       Na véspera de Natal ao anoitecer estralaram foguetes lá para as bandas da praça.

       Zé Maria apareceu à porta da loja.

       — É na agência do Bianchi — disse uma voz.

       Assomavam cabeças às janelas. Corria gente para a rua. Contra o céu claro faiscavam os foguetes que explodiam, e as pequenas nuvens de fumaça ficavam no ar por alguns instantes...

     O coração de Zé Maria começou a bater com mais força. Enfiou o chapéu na cabeça e saiu.

       — Deve ser a bruta! — gritou-lhe alguém.

       Zé Maria caminhava como um ébrio, os olhos turvos, a cabeça tão tonta que nem podia pensar. A uma esquina encontrou o Madruga.

       — Onde vais com tanta pressa, homem?

       Zé Maria afastou-o com a mão.

       — Me deixa.

       Madruga ficou rindo, o palito tremeu-lhe nos lábios.

       — Pensas que tiraste a sorte grande, animal?

       Na frente da agência do italiano Bianchi havia gente amontoada, procurando ler o número escrito no quadro-negro. Bianchi, rindo com toda a cara vermelha e enrugada, emergiu da maçaroca humana e correu para Zé Maria, de braços abertos:

       — Felizardo! Felizardo! A bruta!

       Zé Maria negava-se a compreender, a acreditar. Era demais. Aquilo não lhe podia acontecer. Ah! Não podia.

       — Mas é a bruta. Dois mil contos! Eu mandei na loja lhe avisar!

       Diante dos olhos do coronel tudo dançava: o italiano, as árvores, as pessoas... Os foguetes continuavam a subir para o céu e estouravam lá em cima, provocando ecos atrás da igreja. Agora em torno de Zé Maria havia muitas pessoas, conhecidas umas, desconhecidas outras. Ele tinha vontade de gritar. Sons confusos lhe chegavam aos ouvidos: — Parabéns! Felizardo! Qual foi o número? Nasceu empelicado! Sim senhor!

       Depois que se livrou dos abraços da primeira hora, examinando com os próprios olhos s telegrama que trouxera o resultado da extração; depois que bebeu um copo dágua fria é que Zé Maria começou a se habituar à realidade maravilhosa. Quando serenou, o seu primeiro pensamento foi para o amigo: “Eu só quero é ver a cara do Madruga.” E viu. Madruga chegou, fingindo indiferença.

       — Ouvi dizer que tiraste a sorte grande.

       O sorriso largo de Zé Maria era uma confirmação. Madruga segurou o palito, fleumático, fez uma careta de dúvida e disse:

     — Não sei se te felicito... Bem diz o ditado que a fortuna é cega. Deus às vezes dá osso pra cachorro sem dente. Dentro de dois anos não tens mais um miserável níquel. Por falar nisto, me empresta vinte mil-réis.

       Zé Maria tirou do bolso uma cédula de cinqüenta.

       — Leva cinqüenta! Estou louco da vida.

       Quando souberam a notícia, Chinita e Manuel soltaram urros de prazer. O rapaz quebrou uma compoteira de vidro amarelo. Tinha raiva daquela coisa. Havia muito que refreava uma vontade insuportável de quebrar aquele objeto que lhe irritava os nervos. Agora que estavam ricos tudo se podia fazer.

  1. Maria Luísa, ao saber do grande acontecimento, teve um desmaio. Chamaram o Carvalho da Farmácia, que veio com o vidrinho de amoníaco e com uma delicadeza e uma solicitude desusadas. Depois que voltou a si, lembrando-se dos dois mil contos, D. Maria Luísa começou a chorar baixinho. Zé Maria veio para a cabeceira da cama.

       — Mas que é isso, Maria Luísa? Não vê que nós estamos ricos? Agora tudo vai ser bom, a gente tem tudo o que quer...

       Mas a mulher continuava a choramingar. Já estava pensando, com uma dor enorme, no muito que tinham de gastar dali para o futuro. Todo aquele dinheiro seria um pesadelo. Os ladrões, os pedinchões, os vendedores ambulantes. Depois, os bancos não estavam livres de quebrar. Teriam de mudar de casa, e fazer casa nova custava dinheiro, mobiliar casa custava dinheiro. Agora os meninos iam pensar que estavam milionários e desandariam a gastar, a gastar, a gastar...

       Todo o mundo então passou a cumprimentar sorrindo a família do Cel. Zé Maria. Nos primeiros dias choviam pedidos de dinheiro. O coronel estava sempre inclinado a dar, a ceder... Mas a mulher intervinha:

       — O Zé Maria não é pai de ninguém, está ouvindo? Toca pra fora, seu explorador!

       Quando se tratava de defender o seu rico dinheiro, ela tinha assomos insuspeitados de energia. Era capaz de brigar, de dar bordoada, de enfrentar todos os perigos. Mas vencida a dificuldade, caía de novo na melancolia e levava a ruminar tristezas, a pensar em possíveis desastres, a esforçar-se por descobrir motivos de infelicidade.

       Um dia o coronel resolveu mudar de terra e de vida.

       — Isto aqui é bom pra o Madruga que gosta de vegetar. (Não sabia bem a significação de vegetar, mas tinha a certeza de que não era boa coisa.) Vamos pra Porto Alegre. O Manuel precisa seguir uma carreira, a Chinita precisa casar bem. E nós, minha velha, também temos direito de gozar um pouquinho. Só burro é que passa a vida inteira puxando carroça.

       Chinita e Manuel exultaram. Para ela, Porto Alegre significava uma vida nova: sociedade fina, automóveis, passeios, cinemas, bailes, ruas muito movimentadas, luxo e gozo. Manuel sonhava com farras homéricas.

       Quando o coronel anunciou que ia embora, houve protesto na cidade. Foram comissões à casa dele. “Fique. Nós queremos que o coronel seja presidente do Recreio Jacarecanguense. Desista da viagem, Jacarecanga precisa de homens como o senhor. Ora, não vá, coronel, não vá que nós somos capazes de fazê-lo prefeito.” Prefeito? Aqui o coronel titubeou. Mas a promessa era muito vaga, e a casa da família e a loja estavam vendidas...

       No dia da despedida, a plataforma da estação se encheu de gente. Banda de música. O promotor público fez um discurso em que lamentava a perda dum dos filhos mais ilustres de Jacarecanga. (O coronel sentiu um estremecimento.) D. Maria Luísa chorava copiosamente. Quanto iam gastar na nova vida? Que sorte lhes estaria reservada?

       A locomotiva apitou. O trem começou a se movimentar. Na plataforma deram vivas ao Cel. Pedrosa e Exma. família. Lenços abanavam. O Carvalho da Farmácia enxugou uma lágrima sincera. As filhas do coletor também choravam. Por cima das cabeças agitadas erguia-se o estandarte vermelho e verde do Recreio. A estação foi ficando para trás, cada vez mais minguada. A velocidade do trem aumentava. Ruas de Jacarecanga, subúrbios, casinholas com crianças nuas à porta... Quando vislumbrou, rapidamente, lá no fim da rua, a fachada branca da casa em que tinham morado, D. Maria Luísa desandou a chorar abandonadamente, como quem volta do enterro de uma criatura amada. Chinita fazia projetos mirabolantes. O coronel pitava um charuto caro. Manuel estava no vagão vizinho, onde já tinha arranjado uma namorada. O trem entrou no campo. Jacarecanga dentro de alguns minutos era apenas uma mancha claro-escura perdida entre o verde de duas coxilhas.

 

       Agora, nesta varanda coruscante, cada objeto é para D. Maria Luísa a evidência duma despesa: uma alfinetada desagradável.

       Zé Maria come com alegria, ruidoso, como nos velhos tempos. Os mesmos olhinhos miúdos, a mesma cara tostada, de maçãs salientes, o mesmo cabelo preto e duro de bugre. Mas no fundo ele mudou. — D. Maria Luísa tem dolorosamente consciência disso — no fundo ele é outro. De resto, tudo está diferente, o filho, a filha, a vida...

       — Não comes, Maria Luísa?

       Zé Maria ergue os olhos, garfo suspenso (um pedaço de charque gordo espetado na ponta, embebido em caldo de feijão), um interesse súbito e muito forçado a mostrar-se-lhe na cara larga.

       — Estou sem apetite...

       No alto da escada aparece Chinita vestida de branco, vaporosa, cabelos úmidos e muito lambidos, franja colada à testa. Fica imóvel por alguns instantes: sua silhueta se recorta contra o violeta profundo da parede. Olha para baixo languidamente. (Greta Garbo.) A boca grande se parte num sorriso. (Joan Crawford.)

       — Bom dia, papai, bom dia, mamãe.

       É um cumprimento desusado. Mas Chinita ama ouvir o som da própria voz. Pronuncia as palavras destacando bem as sílabas.

       Lá embaixo, papai e mamãe erguem os olhos. Chinita põe as mãos na cintura.

       — Não vens comer, menina?

       A voz de D. Maria Luísa, chorosa e arrastada, chega aos ouvidos de Chinita. Ela tem a impressão de que, passando por uma esquina, ouviu um mendigo dizer, lamuriente: Uma esmola pr’um pobre cego!

       Chinita bem pode descer a escada com naturalidade e ir para a mesa. Mas ela quer gozar inteirinho o prazer de morar numa casa rica como esta, numa vivenda “de cinema”. Vai descendo devagar. (Na sua cabeça soa uma melodia lindíssima ao ritmo da qual ela se move...) Passa a mão pelo corrimão polido. O trilho de desenho confuso e multicor lhe abafa os passos. Chinita respira forte: o cheiro da comida se mistura ao das flores. A cabeça de papai se destaca contra o vitral iluminado — uma ceia de Cristo em tamanho natural. (Cinco contos e oitocentos.)

       Chinita senta-se à mesa.

       Zé Maria se anima.

       — Então? E a festança, hein? — pergunta.

       — Se Deus quiser, papai.

       — Vou fazer correr champanha como água.

       A cara do coronel reluz de gozo. D. Maria Luísa suspira.

      — Que é que tu achas, mamãe, fazemos sanduíches, croquetes e... que mais?

  1. Maria Luísa ergue os olhos de mártir:

       — Não sei... — geme ela — eu não mando nada aqui, não sou ninguém nesta casa.

       — Ora, mãe, não seja boba!

       Chinita e o pai discutem pormenores. O coronel quer que haja muita comida. Manda-se matar um, dois ou três porcos e uma dúzia de galinhas. Nada de misérias. Todo o mundo deve voltar para casa com a pança cheia.

       O coronel quer que tudo esteja muito claro.

       — Vamos botar luz em todo o quintal...

       Chinita se escandaliza:

       — Quintal? Oh! papai, diga parque... é mais bonito e no fim de contas é verdade.

       — Pois é... parque. Mandei botar muitos bicos grandes. Vai ficar claro que nem circo de cavalinhos.

       E ao pronunciar esta última palavra, Zé Maria sente uma saudade vaga e suave de um espetáculo de burlantins. Lembra-se do último a que assistiu, uma companhia muito boa, com palhaços muito engraçados, um. malabarista japonês, a moça do arame (pernas grossas), aquele cheiro de jaula, o leão magro e, o fim, a pantomima. Uma nuvenzinha leve e breve de tristeza passa pelo rosto dele.

       — O Leitão Leiria vem com a família...

       — Claro! — diz Chinita.

       — O Moreira com a mulher...

       — Prometi ir buscar a Vera no meu carro...

       A palavra carro vale por uma punhalada no coração de D. Maria Luísa. Carro: automóvel: a baratinha bege de Chinita: trinta contos de réis. Para que esse desperdício? Têm um Auburn grande, chega bem para todos, já é até demais. E a gasolina? É o empregado para cuidar do carro? E os consertos?

       A criada entra com a sobremesa.

       Zé Maria palita os dentes, feliz. Chinita estuda no espelho uma pose cinematográfica. Disseram-lhe uma vez que ela era parecida com Ana May Wong. No outro dia ela começou a usar franja.

       — Severina, guarde um prato pro seu Manuel.

       — Sim senhora.

       Chinita se levanta, vai ao hall e põe o rádio a funcionar. Fraca e remota a princípio, mas definindo-se aos poucos, a melodia de um fox invade a sala. Chinita começa a dançar.

       Willy, de cima da escada, olha para ela com o rabo dos olhos. Da varanda vem a voz de D. Maria Luísa:

       — Chinita, olha que faz mal a gente fazer exercício depois da comida.

       — Ora, mamãe! Bobagens!

       E agita-se ao ritmo do fox, os seios lhe tremem como gelatina, os braços como que riscam desordenadamente o ar, os pés ágeis se movem sobre o parquê. O coronel, da porta, lhe sorri, o guardanapo ainda amarrado ao pescoço. Chinita salta — oh boy! reboleia as nádegas, cada vez mais tomada pelo frenesi da dança. Faz de conta que o pintor e papai são uma platéia, faz de conta que ela é Ruby Keeler. Faz de conta...

       Sentada ainda à mesa, Maria Luísa pensa num dia de Jacarecanga: Zé Maria jogando paciência e pitando um crioulo, ela fazendo croché, Manuel no bilhar, Chinita passeando na frente da casa com as filhas do coletor.

       Zé Maria contempla a filha que dança, depois olha em torno e pensa, com a alma banhada de felicidade: “Eu só queria era ver a cara do Madruga!”

 

       O mesmo sol que faz faiscar o grande vitral do refeitório do Cel. Zé Maria Pedrosa entra pela janela do quarto de Fernanda, na Travessa das Acácias.

       Fernanda descansa. Mais alguns minutos e chegará a hora de sair de novo para o trabalho.

       Recostada na cama ela vê, do outro lado da travessa, o quarto do Prof. Clarimundo. Quando ele aparecer ali na janela, de palito na boca, a vizinhança toda pode ter a certeza de que faltam dez minutos para uma hora, tão pontual como o melhor, relógio do mundo. Chova ou brilhe o sol, domingo ou dia útil — sempre à mesma hora o professor vai ruminar à sua janela, lá no alto da casa da viúva Mendonça.

       Num torpor bom, Fernanda deixa-se estar deitada, agora com os olhos voltados para o teto. Se ela pudesse ficar assim neste abandono, sempre e sempre, deixando a vida correr como um rio...

       Duma casa da vizinhança chegam aos seus ouvidos rumores de vozes, tinidos de copos e batidas de talheres em pratos. Um automóvel passa na rua.

       Fernanda pensa... A vida podia ter sido bem diferente para ela. Se o pai não tivesse morrido daquela maneira desastrosa... ou se, morrendo, deixasse a família amparada: um seguro, uma pensão... Se ela tivesse conseguido ser nomeada professora...

       Fernanda lança um olhar para o diploma que está pendurado na parede, num quadro (idéia da mãe, porque ela não liga a essas coisas...) Sorri. De que lhe serve aquilo? Anos e anos de estudo e de sonhos. Sustos: nas vésperas dos exames, vigílias ansiosas, olhos cansados, palidez. Pedagogia, Álgebra, Psicologia, Física... quanta coisa mais! Para quê? Para acabar taquigrafando as cartas idiotas de Leitão Leiria “Acusamos recebido o seu estimado favor de 23 último...” E faturas, duplicatas, guias...

       Fernanda pensa no escritório. Na frente de sua mesa, o lugar de Branquinha, a datilógrafa, — magricela, grandes óculos escuros, pele amarelenta, cabelos crespos. Tem sempre em cima da mesa um vaso com flores e não cansa de repetir com a voz cantada: “Tenho loucura por flores!”

       Por trás de Branquinha, uma paisagem opressiva emoldurada pela janela: telhados, telhados e mais telhados; paredes cinzentas, chaminés, roupas secando e longe, como que esmagada entre duas paredes duras, uma nesguinha de céu.

       Fernanda afugenta as imagens desagradáveis.

       O sol bate-lhe no rosto numa carícia morna e preguiçosa. É bom ficar assim, sempre assim, poder esquecer que existe a necessidade de trabalhar, ganhar dinheiro para pagar o aluguel da casa, o armazém, o padeiro, a farmácia...

       Cerra os olhos. Contra a luz, suas pálpebras são campo de púrpura, com móveis manchas verdes e arroxeadas.

       Agora um silêncio modorrento a narcotiza.

       — Não durma, menina.

       Sobressalto. Fernanda abre os olhos. Enquadrado pela porta, o vulto da mãe, toda de preto, D. Eudóxia é um fantasma doméstico. No fundo de suas órbitas ossudas, luzem os olhinhos miúdos. A boca tem uma crispação dolorosa.

       — Não vou dormir, mamãe.

       O fantasma faz um gesto desalentado.

     — Quem é pobre precisa se cuidar. A gente se distrai, dorme, chega tarde no emprego, o patrão reclama... Quando a gente menos espera está no olho da rua.

  1. Eudóxia fala com uma voz tão queixosa e sentida, que dá a impressão perfeita de que a desgraça já aconteceu.

       Fernanda olha para a mãe com um sentimento de má vontade que não consegue dominar. D. Eudóxia pôs-se a andar pelo quarto, toda encolhida:

       — Que frio!

       — Não diga, mamãe. Está até quente...

       O fantasma se encolhe a um canto.

       — É... — Um é tremido e choroso. Os olhos se velam. — A gente está ficando caduca. Mas não há de ser nada. Quando eu morrer vocês vão descansar.

       Fernanda acha melhor ficar calada.

  1. Eudóxia continua imóvel, pensando, tentando descobrir algum sinal de desgraça. É com uma facilidade pasmosa que ela cria uma atmosfera de desastre em torno dos assuntos mais trivialmente cotidianos.

       Na véspera do último exame de Fernanda, passou a noite a caminhar por toda a casa, arrastando as chinelas e murmurando para si mesma:

       — Vai sair reprovada, vai sair reprovada. Desgraça só acontece pra gente pobre, só pra gente pobre. Vai sair reprovada, dinheiro posto fora, tempo perdido.

       Na sala de jantar, debaixo da lâmpada de luz alaranjada, as mãos segurando a cabeça, os cotovelos fincados na mesa, Fernanda estudava os pontos para exame. Era uma noite tépida e serena. Crianças cantavam e faziam roda no meio da rua. Pares de namorados caminhavam sob as acácias. Brilhava uma luzinha na janela do Prof. Clarimundo.

  1. Eudóxia continuava a caminhar e a murmurar, agourenta:

       — Vai sair reprovada, vai sair reprovada.

       Fernanda continuava a estudar, com os olhos doloridos, morta de sono e fadiga. De vez em quando, com o rabo dos olhos, via passar pela porta o fantasma doméstico.

       Agora, neste princípio de tarde, D. Eudóxia está ali no canto, de braços cruzados, calada, remexendo na memória, procurando encontrar alguma recordação triste, buscando um cadáver de desgraça para ressuscitar.

       A atmosfera de paz que reina na casa lhe é quase insuportável. A calma da hora, Fernanda empregada, com um ordenado garantido no fim do mês, Pedrinho também já encaminhado na vida, caixeiro de uma loja de ferragens, estudando à noite na A.C.M. — tudo assim tranqüilo, em ordem, quase feliz...

       Quando não encontra alimento fácil para seu pessimismo, D. Eudóxia sente-se como que roubada, e a sensação de estar sendo vítima duma grande injustiça de certo modo lhe oferece um motivo para se julgar infeliz. — O que não deixa de ser uma compensação.

       Aproxima-se da janela e começa a falar a meia voz, um pouco para Fernanda e um pouco para si mesma...

       Sua voz é lisa, sem cor nem brilho.

      — Não sei... Para uns a vida é tão fácil... Olha a viúva Mendonça. Tem todas as peças alugadas, é sozinha, não tem filhos, não se incomoda...

       Olhos semicerrados, Fernanda sorri. É preciso opor à mãe uma resistência severa, retrucar-lhe com palavras enérgicas de repreensão ou então resistir assim passivamente, sorrir em silêncio, com ar indiferente, desligado...

       O cantochão continua:

       — O seu Fiorello sapateiro também não tem com que se incomodar... Bate sola, vai beber vinho na venda, nos domingos joga bocha. Mas a gente...

       Fernanda esquece a presença da mãe. O seu pensamento voa. Uma frase lhe ecoa na memória: “No fundo, Fernanda, bem no fundo, todos nós vivemos irremediavelmente solitários. Não há compreensão possível... entre as criaturas...”

       Estas palavras vêm acompanhadas duma imagem: um rosto fino, dois olhos grandes de criança febril, lábios delgados, testa larga constantemente cortada de rugas de concentração. Noel...

       Fernanda sorri. A memória viaja mais longe. É um dia de abril. À porta, mamãe recomenda:

       — Cuidado com os automóveis e os bondes. Vá direitinho, não dê conversa pra ninguém.

       A menina Fernanda lá vai sob o sol, com a mochila de livros às costas. O mesmo caminho de todas as manhãs. A vitrina da “Confeitaria Alemã”, com doces coloridos, cucas e potes de geléia. No jardim da casa grande de torreão pontudo, o anjo gorducho de cimento segura o pescoço dum cisne, de cujo bico voltado para o céu esguicha água... Todos os dias quando vai para o colégio, a menina Fernanda fica um instantinho olhando o repuxo. Quase sempre o cachorrão preto da casa grande corre até o muro, do jardim, ladrando, mete o focinho por entre as grades e ali fica resfolgando, com a língua rosada para fora.

       Fernanda segue. Passa pela casa de seu Honorato. Noel já está ao portão, junto da negra velha. (Por que será que a gente nunca vê a mãe dele?) Noel é pálido, louro e não gosta de brincar com os outros meninos. Fernanda toma-lhe a mão.

       — Vamos?

       Noel faz que sim sacudindo a cabeça. E vão...

       Ela tem a impressão de levar pela mão um bebê que ainda está aprendendo a caminhar. No entanto Noel tem dez anos como ela. Mas é tão triste, tão fraco, tão sozinho, que ela se sente contente por poder guiá-lo assim, como se fosse uma irmãzinha mais velha.

       — Fernanda!

       Um quase grito de alarma. Ela sobe instantaneamente à tona de seu devaneio. Turbou-se a superfície do lago calmo. A visão do passado sumiu-se.

       — Fernanda, minha filha, depressa! Já deve ser tarde, o vizinho já saiu pro emprego.

       — Que susto a senhora me deu, mamãe! Pensei que fosse alguma coisa muito séria.

       Contra o quadrado luminoso da janela, recorta-se o busto de D. Eudóxia. Seus cabelos grisalhos estão debruados de ouro.

       — Minha filha, quem é pobre não pode se descuidar.

       Fernanda pensa em se abandonar de novo às recordações. Mas lá no alto da casa da viúva Mendonça, no outro lado da rua, aparece o Prof. Clarimundo.

       Uma imagem vem instantaneamente ao espírito de Fernanda: um relógio marcando meio-dia e cinqüenta.

       Num salto, ela se põe de pé e vai acordar o irmão que dorme no quarto contíguo.

 

       Da sua janela, ponto culminante da Travessa das Acácias, o Prof. Clarimundo viaja o olhar pela paisagem. No pátio de D. Veva um cachorro magro fuça na lata do lixo. Mais no fundo, um pomar com bergamoteiras e laranjeiras pontilhadas de frutos dum amarelo de gemada. Quintais e telhados, fachadas cinzentas com a boca aberta das janelas. Na frente da sapataria do Fiorello, dois homens conversam em voz alta. A fileira das acácias se estende rua afora. As sombras são dum violeta profundo. O céu está levemente enfumaçado e a luz do sol é de um amarelo oleoso e fluido. Vem de outras ruas a trovoada dos bondes atenuada pela distância. Grasnar de buzinas. Num trecho do Guaíba que se avista longe, entre duas paredes caiadas, passa um veleiro.

       Para Clarimundo tudo é novidade. Esta hora é uma espécie de parêntese que ele abre em sua vida interior, para contemplar o mundo chamado real. E ele verifica, com divertida surpresa, que continuam a existir os cães e as latas de lixo, apesar de Einstein. O sol brilha e os veleiros passam sobre as águas, não obstante Aristóteles.

       Fiorello e seus amigos não conhecem os segredos dá Matemática, mas apesar disso vivem com uma plenitude animal que deixa o professor um tanto perturbado. Seus olhos contemplam a paisagem com a alegria meio inibida duma criança que, vendo-se de repente solta num bazar de brinquedos maravilhosos, recusa-se no primeiro momento a acreditar no testemunho de seus próprios olhos.

       Clarimundo debruça-se à janela... Então tudo isto existia antes, enquanto ele passava as horas às voltas com números e teorias e cogitações, tudo isto tinha realidade? (Este pensamento é de todas as tardes à mesma hora: mas a surpresa é sempre nova.) E depois, quando ele voltar para os livros, para as aulas, para dentro de si mesmo, a vida ali fora continuará assim, sem o menor hiato, sem o menor colapso?

       No pátio da casa do Cap. Mota o pretinho, filho da cozinheira, arremessa com o seu bodoque uma pedrada contra o pombal de D. Veva. As pombas saem em pânico numa revoada cinzenta, e vão pousar, disciplinadas, no telhado da casa vizinha. Aparece numa janela o carão gordo de D. Veva:

       — Negrinho desgraçado! Vou fazer queixa pra o teu patrão, infeliz.

       A papada de D. Veva treme de indignação. No meio do pátio o moleque arreganha os dentes muito alvos e começa uma dança de boneco desengonçado, numa provocação.

       Um galo canta num quintal. Roupas brancas se balouçam ao vento, pendentes de cordas.

       Clarimundo ali está como um deus onipresente que tudo vê e ouve. A impressão que lhe causam aquelas cenas domésticas o levam a pensar no seu livro.

       A sua obra... Agora ele já não enxerga mais a paisagem. O mundo objetivo se esvaeceu misteriosamente. Os olhos do professor estão fitos na fachada amarela da casa fronteira, mas o que ele vê agora são as suas próprias teorias e idéias. Imagina o livro já impresso... Sorri, exterior e interiormente. O leitor (a palavra leitor corresponde, na mente de Clarimundo, à imagem dum homem debruçado sobre um livro aberto: e esse homem — extraordinário! — é sempre o sapateiro Fiorello) — o leitor vai se ver diante dum assunto inédito, diferente, original. Tomemos por exemplo uma estrela remotíssima; digamos... Sírio. Coloquemos lá um ser dotado da faculdade do raciocínio e senhor de um telescópio possante com o auxílio do qual possa enxergar a Terra... Como seria a visão do mundo e da vida surpreendida do ângulo desse observador privilegiado? Igual à dos habitantes da Terra? Igual à da viúva Mendonça ou mesmo à de Paul Valéry? Clarimundo antegoza as coisas novas que há de dizer na sua obra. Porque naturalmente o seu Homem de Sírio há de fazer revelações assombrosas. Ele mesmo agora não sabe com clareza que revelações possam ser... tem apenas uma vaga idéia... Adivinha-se assim como às vezes, em dias de tempestade a gente entrevê o sol a brilhar além das nuvens carregadas. Que orgia embriagadora para o espírito! Que grandes paisagens desconhecidas e raras! Clarimundo sorri, admirado da própria audácia... Mas um Ford antigo passa pela rua, estertorosamente, produzindo um ruído desconjuntado de ferros velhos. Clarimundo acorda para o mundo real, com a impressão de que caiu de Sírio... Vertigem.

       Lá vai a máquina odiosa aos solavancos, e gemendo, rolando por cima do calçamento irregular, dobra a esquina, com um guincho de buzina e se some. Clarimundo aceita Einstein, conhece Mecânica, louva o Progresso em teoria, mas aborrece-o na prática e tem um grande horror às máquinas. E as máquinas lhe são tanto mais horrorosas, quanto maiores forem os perigos que elas oferecem à vida do Prof. Clarimundo Roxo e dos outros humanos. Admira a Aeronáutica em teoria, mas jamais entra num avião. Detesta o bonde mas utiliza-se dele com uma cautelosa relutância. E apesar de já estar quase convencido das vantagens do rádio, ainda não se decidiu a comprar um receptor.

       Agora que despertou e as paisagens espirituais se fanaram, Clarimundo não tem outro remédio no momento senão tomar conhecimento das coisas que estão sob os seus olhos. E como a realidade lhe é incômoda, ele se vinga da realidade, depreciando-a. A vida é chata e igual. Não tem as harmonias, o encanto e as surpresas da Matemática. Aquela casa ali da frente, por exemplo, é uma prova inapagável da chatice da vida. A fachada? Invariavelmente amarela, invariavelmente nua, irremediavelmente feia. As criaturas que habitam a casa? Sempre as mesmas. A moça bonita, a velha de preto, o menino estabanado. (Clarimundo não vai além destes característicos gerais, jamais desce a detalhes.) A vida ali é sempre igual. Todos os dias exatamente a esta hora, a moça que está recostada na cama se levanta, vai para a frente do espelho, ajeita o chapéu na cabeça, beija a mãe e sai. O rapaz sai também, mas sem beijar a mãe. Depois a velha fica caminhando dum lado para outro, e por fim senta-se na cadeira de balanço e, ali fica parada, de braços cruzados... Assim todos os dias, todos os dias, todos os dias...

       Na outra casa mais adiante um homem bota um disco no gramofone — quase sempre a mesma música — fica sentado a ler um jornal, os filhos andam à roda dele, a mulher tira os pratos da mesa, o padeiro vem trazer o pão, o disco gira e a música continua. Depois o homem se levanta, os filhos algazarreiam, a música cessa. A mulher beija o marido e o marido sai acendendo um cigarro.

       Já lhe disseram o nome daquela gente toda. Clarimundo não se lembra muito bem. Ele é Pereira, ou Moreira... ou Batista, uma coisa assim. Funcionários dos Correios.

       Chega até os ouvidos do professor um som metálico, cheio, prolongado, plangente. É o relógio da casa que fica por baixo de seu quarto. Bateu uma hora.

       Clarimundo inclina a cabeça. Da janela que fica imediatamente por baixo da sua, emerge uma mão pálida que pende abandonada e sem sangue, como a mão dum morto.

 

       É a mão direita de João Benévolo. A esquerda segura uma brochura amarelada. João Benévolo lê e esquece.

“O curto intervalo foi suficiente para que D’Artagnan visse que partido devia tomar. Foi um desses acontecimentos que decidem a vida de um homem; era a escolha entre o Rei e o Cardeal, — feita essa escolha, devia-se persistir nela. Lutar era desobedecer à lei, era arriscar a cabeça, era fazer-se, de um golpe só, inimigo de um ministro mais poderoso que o próprio rei. Tudo isto o mancebo compreendeu e ainda assim, digamos em seu louvor, não hesitou um segundo. Voltando-se para Athos e seus companheiros :

— Cavalheiros — disse ele — queiram permitir que eu vos corrija as palavras. Vós dissestes que não passáveis de três, mas me parece que somos quatro.”

       Opera-se a transposição mágica. João Benévolo salta da vida real e se projeta no domínio da ficção. Já não está mais em Porto Alegre, num sábado de maio, na Travessa das Acácias. Agora ele se encontra em plena Paris de 1626. O seu corpo fica aqui na salinha acanhada e pobre — pequenino, anguloso, fraco, ombros encolhidos, pele amarela — e o seu eu sonhador, o seu ideal, livre das contingências humanas, vai se encarnar em D’Artagnan.

       João Benévolo se sente ágil, flexível e rijo como um florete. Desapareceu dele aquela sensação deprimente de ser fraco, de tudo temer e nada ousar.

       Agora ele está vivendo uma grande aventura. A seu lado se ergue o monastério dos Carmes Deschaux, rodeado de extensões nuas de terras. Por cima — o céu brumoso de Paris, céu de romance, céu de mistério. É aqui que os homens de honra se encontram para ajustar diferenças ou duelos. É aqui que as espadas se chocam, tinem e rebrilham à luz do sol ou da lua...

       — Mas vós sois um dos nossos — diz Porthos.

       — É verdade — replica D’Artagnan — não tenho uniforme, mas tenho o espírito. Meu coração é o de um mosqueteiro; eu o sinto, monsieur, e é isto que me impele.

       Jussac, o homem do Cardeal, recomenda a D’Artagnan — ou, antes, a João Benévolo — que procure salvar a pele. João Benévolo repele a insinuação insultuosa.

       — Decididamente sois um bravo — disse Athos, apertando a mão do mancebo.

       Depois os nove combatentes se precipitam uns contra os outros numa fúria metódica. Athos atraca-se com Cahucac, um favorito do Cardeal. Porthos enfrenta Bicaret e Aramis se vê à frente de dois adversários. João Benévolo terça armas com o próprio Jussac.

       No pátio do capitão o moleque insidioso atirou outra pedra contra o pombal de D. Veva e as pombas voam de novo assustadas; D. Veva aparece para protestar, mas apesar de ouvir-lhe remotamente a voz estrídula, João Benévolo não volta à realidade, continua em Paris, metido na pele heróica de D’Artagnan, lutando pelos mosqueteiros do Rei contra os guardas do Cardeal.

       O seu coração bate, não de medo — oh não! — bate de contentamento. Chega a sentir o ímpeto dos golpes que apara, vê, a três passos em sua frente, a face congestionada de Jussac... Dumas não se deu ao trabalho de descrever o beleguim do Cardeal, mas João Benévolo imagina-o com a cara antipática do homem do armazém que vem todos os dias cobrar a conta atrasada. Por isto a fúria de D’Artagnan redobra, seus golpes agora são mais ousados e violentos... João Benévolo sente o bafejo da glória. Tudo isto é uma aventura extraordinária. Apara este, Jussac! Cortei-te a cara, bodegueiro do diabo!

       Pan! Pan! João Benévolo sente um golpe no ombro. E a visão se esfarela no ar.

       — Janjoca!

       Ele ergue os olhos e dá com a face reluzente da mulher. Brilha-lhe nos olhos cinzentos uma censura recalcada.

     — Hein?

       A voz de Tina é lamurienta e desagradavelmente musical:

       — O relógio já bateu uma. Tu não vais falar com o Dr. Pina por causa do emprego?

       Emprego... Esta palavra traz a João Benévolo a recordação da sua tragediazinha. Desempregado. Seis meses de inatividade. As economias acabadas. A mulher costura para fora mas o pouco que ganha não dá nem para o aluguel. Os credores batem à porta. O leiteiro é bruto e diz desaforos. O homem do armazém se dá o luxo de cultivar a ironia e murmura coisinhas... Tina põe nele os seus olhos de convalescente e seu silêncio é agora a mais dolorosa e violenta das censuras.

       — Já vou sair...   — diz ele sem vontade. — Só mais cinco minutinhos...

       É uma criança a pedir à mãe: “Me deixa brincar mais um pouco, só um pouquinho, sim?”

       Onde estás, D’Artagnan, onde estás heróico mancebo? Agora João Benévolo perdeu o seu mundo encantado, sabe que não passa dum pobre-diabo sem dinheiro e sem emprego, pai dum guri magro e chorão, achacado e tristonho.

       As letras do livro se baralham diante de seus olhos. Nada mais do que elas dizem tem sentido. As palavras perderam a força mágica, já não sugerem mais nada. Paris é um vocábulo de cinco letras: pode ser uma marca de cigarro, o nome dum tango ou mesmo duma cidade muito grande, muito bonita e muito remota. Mas não evoca mais aquela Paris de verdade onde havia condes e barões, castelos e tavernas, masmorras e salões, duelos e correrias, mistério e romance.

       João Benévolo fecha o livro devagarinho e levanta-se.

       A máquina de costura de Laurentina começa a guinchar. E ela pedala, encurvada sobre a costura.

       João Benévolo arrisca uma gentileza:

       — Tina. faz mal trabalhar depois da bóia...

       Estas palavras se apagam no ar mas ficam ecoando na mente de João Benévolo, estranhas, inadequadas, despropositadas, como se alguém de repente no meio de um velório convidasse: “Minha gente, vamos dançar?” E ele compreende com tristeza que no seu ambiente familiar, tão modificado pelos últimos meses de provações, não há lugar nem mesmo para uma gentileza.

       João Benévolo vai para o quarto de dormir. Pela fresta da janela semicerrada entra uma fita de sol que risca a coberta da cama e vai morrer do outro lado, no soalho gasto e cheio de negras manchas de queimaduras. Na penumbra os objetos familiares ganham um certo mistério. A imaginação de João Benévolo põe-se a trabalhar. E ele pensa na terceira pessoa:

“E o bravo mancebo penetrou na masmorra. Duma pequena janela gradeada que se abria no alto da parede de pedra, vinha um fio fino de luz que incidia sobre o chão em que se vislumbrava um vulto...”

       — Janjoca!

       — Que é, Tina? — responde a voz macia do homem abalado pelo soco da realidade, do homem que não é nem João Benévolo nem o mancebo heróico do romance, mas sim uma mistura muito estranha das duas personagens.

       — Não faças barulho, o Napoleão está dormindo.

       Ao som da palavra Napoleão trava-se uma luta rapidíssima na mente de João Benévolo. Quem vencerá? A imaginação ou a realidade? Napoleão pode sugerir o que justamente Laurentina quis dizer: o filho que dorme no quarto. Mas pode também lembrar o Outro, o da História que levava seus exércitos à vitória, o Napoleão que João Benévolo ama também como ao filho... A luta dura uma fração de segundo. Vence a realidade. Os olhos de João Benévolo caem sobre o vulto que se agita na cama.

       João Benévolo vai até o lavatório, despeja com cuidado água na bacia e lava as mãos. Volta para a sala de jantar na ponta dos pés, sem conseguir dar à voz um tom de interesse, pergunta:

       — Que é que o Poleãozinho tem?

       — Está indisposto. Vomitou. Tens que passar na farmácia. A comadre me disse o nome dum remédio...

       Um momento de medroso silêncio...

       — E o dinheiro?

       Os braços de Laurentina caem ao longo do corpo, num abandono. Cessa o ruído da máquina. Dinheiro... Pronunciado foi o nome tabu. Marido e mulher se entreolham em silêncio. A palavra encantada abriu um abismo intransponível entre ambos. É a palavra que nestes últimos meses vem corroendo, destruindo o restinho de afeição que ainda existe entre eles. Dinheiro... O fim do mês se aproxima, restam alguns mil-réis. João Benévolo tem promessas de emprego, mas apenas promessas... A dona da casa já olha para eles com raiva, uma raiva que ela tenta dissimular com sorrisos mas que se percebe no jeito de falar, de olhar, de agir.

       Silenciosa, Laurentina se ergue e vai até a cômoda, abre a gaveta, tira uma moeda de dois mil-réis e entrega-a ao marido como se lhe estivesse a dar um ano de vida. João Benévolo mete a moeda no bolso.

       Os olhos de Laurentina ganham um súbito brilho, seu rosto se inflama e ela grita:

       — Mas Janjoca, tu não te mexes! Tu não fazes força! Vai pra rua! Fala! Pede! Que é que vai ser de nós assim sem dinheiro?

       João Benévolo sente um desfalecimento. Encolhe-se todo como um aluno tímido diante da professora irritada.

       E para dominar esta emoção esquisita que experimenta — medo, vergonha, mal-estar e uma pontinha de raiva — começa a assobiar baixinho um trecho do Carnaval de Veneza.

       Laurentina aos poucos se acalma. Volta para a máquina de coser e começa a enfiar a linha na agulha. Enquanto faz isto, vai falando, mais mansa:

       — Se tu quisesses, se tu fizesses empenho, arranjavas qualquer coisa, nem que fosse um emprego de cinqüenta mil-réis por mês...

       O tom de voz é tranqüilo mas persistem nele vestígios de censura.

       João Benévolo continua a assobiar — agora mentalmente — o Carnaval de Veneza.

       Da rua vem um ruído macio e ao mesmo tempo pesado. Soa uma buzina de automóvel. De automóvel fino...

       Altera-se a expressão fisionômica de Laurentina, João Benévolo pára de assobiar e ambos se aproximam da janela.

       Duas portas além da casa de Fernanda está parado junto da calçada um enorme Chrysler Imperial grená. Muito polido e rebrilhante de metais e espelhos, ali contra a fachada cinzenta da casa, escurecida de umidade, e com falhas no reboco, — o automóvel parece um objeto caído do céu. João Benévolo não pode deixar de pensar:

“E a carruagem de ouro e prata da Condessa de Montmorency parou na rua suburbana diante da humilde mansão em que habitava o pintor pobre.”

       Ah! Os romances de Gaboriau, Escrich, Ponson du Terrail! Uma saudade muito tênue turba por um instante a mente e os olhos de João Benévolo. A voz de Laurentina:

       — É o auto da D. Dodó.

       — Da mulher do Leitão Leiria? Mas que será que anda fazendo por estas bandas?

       O chofer de uniforme azul com botões dourados desce de seu lugar, tira o chapéu e abre a porta. Um vulto salta para a calçada. É uma senhora gorda, vestida de seda azul com enfeites de renda bege; na cabeça, um chapéu que lembra uma grande rosca preta e lustrosa. Os seios bastos se projetam para a frente, como uma marquise a sobressair duma rotunda.

       — É ela mesma! — confirma Laurentina.

       — Imaginem... — diz João Benévolo. E, mal pronuncia a palavra, fica a perguntar a si mesmo a troco de que a pronunciou, pois ela não tem sentido, não quer dizer nada.

       — Essa vaca gorda! — resmunga Laurentina.

       — Quem, Tina?

       — Essa D. Dodó...

       Neste momento D. Dodó é para Laurentina, antes de mais nada, a esposa do comerciante Teotônio Leitão Leiria, proprietário do Bazar Continental, onde João Benévolo trabalhava... E antes que a florida massa de carne desapareça por completo, tragada pela porta que se abre na fachada triste, João Benévolo lembra-se daquela tarde de pesadelo quando Leitão Leiria, com a sua voz de vaselina, mole e escorregadia, branca e insinuante, lhe disse, com o ar de quem dá boa notícia:

       — Somos forçados a despedi-lo, Sr. João Benévolo, porque estamos fazendo economias. Os tempos andam difíceis, o senhor compreende, vende-se menos, os impostos são altos, de sorte que muito a contragosto nos vemos obrigados a medidas drásticas como esta. Acredite que isto me aborrece muito, me pesa no coração, mas...

       Leitão Leiria pronunciou a palavra drásticas com visível satisfação. Ao declarar que aquilo lhe pesava no coração, botou a mão espalmada no peito.

       — Essa vaca! Aquele porco! — continua Laurentina a resmungar. — Não têm dinheiro pra pagar um empregado mas têm pra comprar um bruto automóvel daquele tamanho...

       João Benévolo mira o carro com olho triste. O que sente não é raiva. O Sebastião, que também está desempregado, tenta impingir-lhe idéias comunistas. Diz que o dinheiro está mal distribuído no mundo: uns têm demais, outros têm de menos; uns tomam banho em champanha, outros morrem de fome. Mas o sentimento que os ricos despertam em João Benévolo é de admiração e de inveja. Uma inveja passiva de quem sabe que nunca, por mais que faça e pense e grite, poderá atingir aquelas culminâncias de felicidade e conforto. João Benévolo admira os ricos como a criaturas dum mundo remoto completamente fora de seu alcance e aceita-os quase como os povos antigos aceitavam seus reis — por direito divino. Diante do Chrysler Imperial do homem que o deixou sem emprego, ele apenas consegue ficar nesta atitude calada e triste da criança pobre que achata o nariz contra o vidro da vitrina onde se expõem brinquedos caros. E só atina com dizer isto:

       — Por que será que a D. Dodó entrou na casa do Maximiliano?

      — Ora... fingimentos. O Maximiliano está tísico, a mulher em situação pior que a nossa, os filhos andam atirados... D. Dodó quer se exibir pros jornais darem o retrato dela amanhã. Entra aí, dá dez mil-réis, fala em Deus, e vai embora. De que serve? Eu conheço bem essas caridades!

       Lá do outro lado da rua os filhos de Maximiliano cercam o carro. São crianças magras, encardidas e lívidas. Aproximam-se do Chrysler cheios dum deslumbramento tímido: a carroçaria brilhante reflete aqueles rostinhos maltratados e sujos. O chofer mete a cabeça para fora e grita:

       — Cuidado, não botem a mão no carro.

       Os guris recuam e ficam olhando de longe, meio bisonhos.

       — Vaca gorda! — murmura Laurentina.

       Para esquecer tudo — a sua vida, o automóvel de luxo, o vizinho tuberculoso e a mulher — João Benévolo começa a assobiar.

       Carnaval de Veneza.

 

  1. Dodó Leitão Leiria entra na casa do doente.

       O soalho range a seus pés. O corredor tem um bafio de porão. Uma mulher mal vestida, de rosto esverdinhado e olhos sem cor lhe abre a porta.

  1. Dodó sorri com doçura.

       — Boa tarde. Dá licença?

       Faz a pergunta com uma voz fininha e musical, doce e levemente trêmula. As bichas de brilhantes lhe faíscam nas orelhas, seus seios arfam e o broche de safira que os enfeita sobe e desce, ao compasso da respiração.

       — Pois não...

       A mulher examina, numa constrangida surpresa, esta criatura faiscante que exala perfumes finos, e seus olhos parecem perguntar: “Então é verdade que existe gente assim?”

       A presença de D. Dodó responde com ênfase: “Existe: convença-se.”

       Mme Leitão Leiria entra.

       — Não repare, é casa de pobre... — desculpa-se a mulher lívida.

  1. Dodó comove-se. A marquise arfa em ritmo mais acelerado. As bolsas de pele flácida, debaixo dos olhos miúdos, estremecem. E para tranqüilizar a outra mulher, para garantir-lhe que ser pobre não é vergonha, ela lhe diz com evangélica suavidade:

     — Jesus Cristo era pobre. Os pobres, Ele disse, serão os primeiros a entrar no Céu.

       — A senhora quer sentar?

  1. Dodó faz com a mão um sinal: não, obrigada.

       Sala sombria. Uma mesa de pau, três cadeiras, um armário de madeira sebosa, uma folhinha mostrando uma data remotíssima, remendos de lata nos lugares onde a pertinácia dos ratos abriu buracos. Anda no ar um cheiro indefinível. D. Dodó procura identificá-lo: não consegue: só sabe que é mau.

       A mulher magra continua imóvel, esperando.

  1. Dodó espalma a mão sobre o peito, entorta a cabeça e diz em surdina:

       — Eu soube que o seu marido está muito doente e que a senhora se encontra em dificuldades...

       — É.

       O rosto da dona da casa continua parado e inexpressivo. Com a mesma máscara poderia ter dito: “É mentira.”

       — Pois é... Vim oferecer os meus fracos préstimos...

       Na frente da dama de caridade a mulher do doente: alta, magra, imóvel e silenciosa. D. Dodó começa a ficar impressionada com esta cara pétrea, que não se altera, que não chora nem sorri. O silêncio se prolonga. Um gato espia na porta e sai de mansinho pelo corredor.

       — Trouxe-lhe alguma coisa...

       — Sim senhora...

       — Tem filhos, não é?

       — Tenho...

       — Quantos?

       — Dois.

       — Homens?

       A outra responde com um aceno de cabeça. D. Dodó abre o mais aliciante dos sorrisos.

       — Bom, se a senhora não faz objeção...

       Abre a bolsa e tira dela uma nota de vinte mil-réis. Um pensamento lhe assalta a mente: se os repórteres dos jornais entrassem de repente com fotógrafos...

  1. Dodó não gosta de ferir suscetibilidades: entregar o dinheiro na mão da outra, não fica bem. A criatura pode se ofender... Aproxima-se da mesa e com toda a delicadeza depõe sobre ela a cédula em que está estampada a imagem dum político que já tomou chá no seu palacete.

       Que linda cena para um instantâneo! Tão bonita na sua simplicidade comovente...

“A caridosa dama no momento em que modestamente depunha sobre a mesa a nota de vinte mil-réis que iria mitigar por alguns momentos o sofrimento daquele casal desprotegido da sorte.”

       Monsenhor Gross havia de gostar tanto, lendo o jornal na manhã seguinte... Que pena os repórteres não saberem... Mas não! Sai, Satanás! A verdadeira caridade deve ser feita às escondidas, com modéstia. “Que a tua mão esquerda não saiba o que a direita faz.”

       A mulher do doente continua parada. Aquilo não significa nada para ela. Ela sabe que quando esta senhora perfumada for embora no seu automóvel de luxo, a vida da casa há de continuar como sempre: sujeira, miséria e doença. Ela há de ouvir todas as horas, todos os dias a tosse rouca do marido, há de sentir no ar um cheiro enjoado de remédio, há de ver os filhos atirados por aí, como porquinhos de quintal pobre. Os vinte mil-réis da senhora caridosa serão consumidos em poucos dias na farmácia. É o mesmo que nada. Por tudo isso não chega a ficar contente, nem mesmo consegue sentir gratidão.

       Os segundos passam e D. Dodó precisa completar a sua obra. Sente que a sua missão de caridade não ficará completa se ela não vir o doente, nem que seja para lhe dizer duas palavrinhas de conforto.

       — Posso ver o seu marido?

       O rosto de pedra não registra a menor comoção. A mão ossuda faz um sinal na direção duma porta.

       — Ali...

       Sombrio, malcheirante e abafado, o quarto do doente produz calafrios em D. Dodó. De repente — tarde demais — D. Dodó se lembra de que lhe disseram que se trata dum caso irremediável de tuberculose. Pela fresta da única janela entra uma faixa de sol em que pairam rútilas partículas de poeira. D. Dodó tem a impressão de que são os próprios micróbios da tuberculose que bóiam no ar.

       O doente está deitado numa cama de ferro, a um canto do quarto. Seu rosto descarnado quase desaparece, de tão pálido contra a fronha branca. Só a barba crescida, os olhos negros e o cabelo basto dão individualidade àquela cabeça.

       — Boa tarde — cicia D. Dodó.

       Da cama parte um fio de voz rouca, esfarelada:

       — Boa tarde.

       A mulher faz às vezes de intérprete e explica o caso segundo a própria lei da casa, que é uma lei diferente da que rege o mundo da rica visitante.

       — Veio ver a gente, Maximiliano, e trouxe um dinheiro.

       O marido lança para a dama um olhar de compreensão. Um cheiro nauseante anda no ar e D. Dodó com a impressão de estar se envenenando lentamente imagina-se uma verdadeira mártir. Resigna-se, pois assim há de fazer jus ao Reino do Céu.

       Quisera aproximar-se da cama, passar a mão maternal pela cabeça do doente. Mas tem medo. S. Francisco botava o dedo nas feridas dos leprosos. Mas é que ele era um santo, fazia milagres, e ela é simplesmente Doralice Leitão Leiria, um ser humano como qualquer outro. Por isto fica onde está, cheia de pena e amor, mas ao mesmo tempo terrivelmente amedrontada.

       — O senhor há de sarar...

       O homem sorri. (O primeiro sorriso que D. Dodó vê nesta casa.) Sorri porque sabe que aquilo é uma mentira.

       — Tenha fé em Deus...

       O homem continua a sorrir. Teve fé em Deus, orou, foi à igreja, fez promessas, acendeu velas. Tudo inútil.

       — O senhor está sendo purificado pelo sofrimento...

       Purificado? Esta palavra cessou de ter significação para ele. O que lhe importa agora é viver, recobrar as forças, ocupar o lugar antigo que tinha na vida, trabalhar e tomar conta da casa.

  1. Dodó considera sua missão terminada.

       — Até a vista. Vou providenciar para o senhor ser removido para um hospital. Lá vai ter ar, luz e boas enfermeiras, e não há de lhe faltar nada. Até a vista. Deus o proteja.

       Mão no peito, olhos tristes, o pensamento em Santa Teresinha, D. Dodó sai do quarto do doente. Na outra sala já se respira melhor. A cédula de vinte mil-réis continua em cima da mesa.

       — A senhora sabe o meu nome?

       A mulher do doente faz que não com a cabeça.

       — Sou a Dodó Leitão Leiria.

       Decepção. O nome não produz o efeito esperado.

       — Nunca ouviu falar?

       — Não senhora.

  1. Dodó força um sorriso.

       — Pois admira, minha filha, o meu nome aparece sempre nos jornais.

       — A gente aqui não lê jornal.

       — Sou presidenta da Sociedade das Damas Piedosas.

       Não se move um músculo naquele rosto de múmia. D. Dodó suspira, resignada.

      — Depois mandarei uma pessoa aqui tratar da remoção do doente. Bem, minha filha, adeus! Não repare eu não lhe apertar a mão. Fique com Nosso Senhor e Santa Teresinha.

       — Passe bem.

       As tábuas do corredor tornam a gemer sob o peso da senhora do comerciante Leitão Leiria. Encostada na folha da porta, a mulher do doente acompanha a outra com o seu olhar gelado.

       O chofer espera, ao lado do Chrysler. D. Dodó entra. Os dois filhos do tuberculoso presenciam a cena, os olhos compridos. D. Dodó tira da bolsa alguns níqueis e joga-os para os garotos num gesto suave de quem desfolha pétalas de rosa. Aparvalhadas, no primeiro momento as crianças não compreendem. A indecisão, porém, dura apenas alguns segundos. No momento seguinte estão ambos acocorados, catando os níqueis, ferozes, trocando arranhões e sopapos. D. Dodó sorri afogada de felicidade.

       — Vamos embora, Jacinto.

       O motor começa a trabalhar: um tamborilar macio e surdo. O carro arranca. D. Dodó respira. Sente engulho — Deus me perdoe — ao pensar no quarto do tuberculoso. Agora aqui dentro do automóvel ela está de volta ao seu mundo. O perfume Nuit de Noël prevalece sobre a lembrança nauseante da atmosfera empestada. Atira para trás a cabeça cansada, recostando-a contra o espaldar estofado. Sente a alma limpa, o coração leve.

       — Jacinto, ligue o rádio.

       O chofer obedece. A princípio o alto-falante produz um tiroteio breve cortado de assobios. Depois uma onda de música invade a morna atmosfera do carro. Uma valsa. D. Dodó lembra-se de que tem de tomar várias providências para o chá-dançante que as Damas Piedosas vão realizar esta noite no Metrópole, em benefício do Asilo Santa Teresinha.

       — Jacinto, direito para casa.

       A valsa continua, envolvente. Parece a música dos anjos. D. Dodó cerra os olhos e imagina que Santa Teresinha agora lá no céu sorri para ela.

 

       Virgínia tem ímpetos de jogar o frasco de perfume na cabeça de Noca, quando a rapariguinha lhe vem anunciar com voz fanhosa:

       — O chã tã pranto...

       Fica parada ali na porta, a cara idiota, a cabeça minúscula de passarinho no alto do pescoço descarnado e comprido: uma pêra na ponta de uma vara. E aquele esgar canino, aquela máscara de palhaço cretino, aqueles olhinhos espantados... Não: a gente tem vontade de jogar urna coisa na cabeça dela... Virgínia fuzila para a criada um olhar colérico.

       Outra vez a voz fanhosa:

       — Estã pranto o chã, D. Virgínia.

       Ê demais. Nem uma santa agüenta.

       — Já ouvi! — berra. — Já ouvi! Não sou surda.

       O sorriso canino persiste, deixando visíveis os dentes amarelados, pontiagudos e minúsculos. E é bem um olhar de cão surrado — um olhar de simpatia e fidelidade medrosa que a rapariga lança para a patroa quando esta passa por ela.

      A patroa surra na gente, mas a patroa é boa, dá dinheiro, dá vestido bonito. D. Virgínia grita com a gente — mas depois dá risada pra gente.

       E o olhar amoroso segue o vulto quente e perfumado da mulher de roupão azul que desce a escada porque “o chã tã pranto”.

       Solidão na sala de jantar, uma solidão tão grande que para Virgínia ela chega a se transformar numa sensação de frio. As mesmas coisas, as mesmas paredes, os mesmos cheiros. Todos estes móveis, estes objetos estão ligados a duas figuras familiares: Honorato e Noel, o marido e o filho — tudo isto para Virgínia faz parte dum conjunto aborrecível e quase odioso.

       Senta-se à mesa. O serviço de chá, cerâmica em vermelho e negro, destacando-se sobre a toalha de linho... O açucareiro bojudo e polido, evocando a figura do dono da casa... O açúcar pálido como o filho... Tudo como sempre.

       Despeja na taça o chá e o leite. De uma das portas Noca espia a patroa com olhos apaixonados.

       Virgínia põe açúcar na xícara, pensando em Alcides. Curioso: a imagem do rapaz sempre lhe vem à mente na mesma postura, com a mesma expressão: sorrindo, os dentes muito brancos contrastando com o rosto requeimado, um cigarro fumegando entre os dedos, os olhos brilhando por trás dá fumaça... Foi assim que ela o viu pela primeira vez. A princípio ficou irritada com a insistência daquele olhar, depois achou graça e por fim...

      De súbito Virgínia dá com os olhos de Noca, ali na porta, espiando, traiçoeiros, de tocaia, fixos. Tem um sobressalto desagradável. É como se a rapariga tivesse estado a ler-lhe os pensamentos mais íntimos.

       — Toca pra cozinha, sua ordinária!

      Noca se encolhe: os olhos brilham, mas a expressão do rosto é a mesma: o ricto canino, o ar apalermado. E assim transida, com as mãos entrelaçadas a apertar o ventre, Noca vai recuando, recuando devagarzinho e, para disfarçar esta mistura de medo e amor, e ao mesmo tempo, a formular desajeitadamente uma desculpa, começa a rir um riso gutural e sincopado em u. E desaparece.

       Virgínia toma um gole de chá. E por alguns instantes fica ainda como que sob o sortilégio daqueles olhos de animal.

       Noca, Honorato, Noel, Querubina, as outras criadas — olhos, olhos, olhos que vivem cravados nela, espiando, fiscalizando, procurando adivinhar-lhe os segredos. Para onde quer que se volte encontra um par de olhos acesos. É como se fosse uma prisioneira. Por que não falam? Por que não dizem com palavras o que os olhos dão a entender? Por quê?

       Aperta o botão da campainha, irritada.

       A criada aparece:

       — Senhora?

       — Querubina, vá ver se o Noel quer chá.

       A criada se retira, e Virgínia fica olhando para aquelas ancas curvas, aquelas pernas bem torneadas, aquela cintura fina...

       — Indecente... — murmura.

       A mocidade de Querubina, a boniteza sadia de Querubina, as coxas de Querubina, o busto de Querubina são um permanente insulto a seus olhos. E o maior insulto de todos, o maior absurdo, a maior monstruosidade de Querubina é a sua virgindade.

       Virgínia sente um prazer esquisito em atribuir-lhe amantes. Vive há vários meses na esperança de um dia descobrir o marido no quarto da criada. Sabe que, no dia em que apanhar os dois de cochichos num canto, há de dar um escândalo bem grande e barulhento, há de dizer todos os palavrões que vive recalcando. E esta certeza torna a expectativa ainda mais sensacional se um di...

       Virgínia está a terminar seu chá quando Querubina reaparece:

       — Seu Noel não quer nada.

       Os olhos de Virgínia se animam:

       — Por que foi que demorou tanto no quarto dele? Bastava perguntar se o rapaz queria chá...

       — Ué... eu...

       — Eu sei. Ficou se oferecendo...

       O mais enervante é que Querubina não reage. Fica assim indiferente, nem embaraçada nem cínica, ouvindo simplesmente sem se ofender, com ar de quem está falando com um louco: concordando para não irritar...

       — Tire a mesa, sua indecente.

       Silenciosa, a rapariga começa a retirar as xícaras da mesa. Inclina-se para apanhar o bule e Virgínia vislumbra o rego entre os seios dela, fundo e sombrio como um vale entre dois montes rígidos. Sim, rígidos, pois ali estão dois seios de vinte anos. Uma raiva vai crescendo, enovelada, no peito de Virgínia.

       — Sua vagabunda, você devia estar mas era no beco, ouviu? No beco!

       Querubina sai em silêncio, carregando a bandeja.

       Agora volta ao pensamento de Virgínia a imagem fascinante; a cara morena, os dentes brancos, o cigarro fumegando, os olhos brilhantes por trás da fumaça...

       O relógio bate cinco badaladas. E depois que os sons de sino morrem, Virgínia tem uma consciência ainda mais aguda do silêncio que a envolve.

       Solidão.

       Mesmo que aqui junto dela estivessem o marido e o filho, ela continuaria só, irremediavelmente só.

       Silêncio.

       Virgínia fica parada, esperando... Mas esperando quê?

       De repente sente-se tomada duma angústia opressiva: um calor no peito, uma vontade de gritar, uma impressão de abafamento, de fim de mundo.

       Onde foi que já sentiu uma coisa assim?

       Num sonho? Virgínia procura lembrar-se. Foi no tempo de colégio. Uma tarde, no internato, esmagada pelos muros altos, pelo silêncio e pela saudade do ar livre, começou a sentir aquela sensação esquisita... E fugiu, fugiu porque se não fugisse morria asfixiada depois da mais lenta e medonha das agonias.

       Virgínia corre para o telefone, faz o disco girar quatro vezes e leva o fone ao ouvido.

       — Alô. É a casa de Mme Menezes? Chame-a ao aparelho... — Pausa. Virgínia espera, impaciente. — Ah! És tu, querida? Bem... Nada... Telefonei porque estou sozinha e queria ouvir voz de gente. Fico quase maluca. Não imaginas... Olha, vais hoje ao baile do Metrópole? Pois nos encontraremos lá. Estou aflita por ver festa, barulho, movimento. Hein? Não ouço... Ah! Pois sim...

       O diálogo dura dez minutos. Depois Virgínia sobe para o quarto. Ao passar pelo escritório, cuja porta está aberta, desvia o rosto com repugnância, pois o vento lhe traz lá de dentro um cheiro familiar, enjoativo, — o cheiro do marido.

       Só, no silêncio morno e amigo do quarto, Noel lê o diário de Katherine Mansfield. O retângulo da janela aberta emoldura uma paisagem simples: ao longe um céu azul, liso e desbotado.

       Noel afunda mais na poltrona com a impressão de que Katherine Mansfield lhe fala de mansinho ao ouvido. É uma voz familiar, macia e cariciosa, voz de irmã mais velha. (Quando Querubina abriu a porta e perguntou “O senhor não vai descer para o chá?” — ele ficou a olhar para ela com os olhos espantados de quem vê assombração, testa franzida, fazendo um esforço doloroso para compreender. Que bicho estranho era aquele que estava ao pé da porta e que tinha falado? A que língua esquisita pertenciam aquelas palavras? “O senhor não vai descer para o chá?” Finalmente conseguiu traduzir as palavras da intrusa e o mais que logrou fazer foi um aceno negativo de cabeça.) Mas Katherine Mansfield lhe fala agora na linguagem das personagens dos contos da sua infância. Noel entende e sorri interiormente. Katie lhe conta do irmão que morreu na guerra. Uns meses antes estiveram juntos, passearam pelo jardim, à hora do crepúsculo. Duma pereira esbelta caiu uma pêra arredondada.

       — Ouviste, Katie?

       Era um ruído familiar que espertava neles recordações, ecos longínquos. As mãos de ambos percorreram a relva verde e úmida. O rapaz apanhou a fruta e inconscientemente, como em outros tempos, limpou-a com o lenço. Recordações do velho home de Montreal. Eram ambos crianças e brincavam no pomar. Levavam cestos para apanhar frutas. As peras lhes caíam em cima das cabeças, rolavam para o chão. As formigas corriam. Eram peras de uma cor viva, amarelo-canário, miudinhas. Katherine se apoiou no ombro do irmão. A noite desceu: o luar ficou um pouco mais profundo. As sombras sobre a relva eram longas e estranhas.

       Ela tremia.

       — Sentes frio?

       — Muito, muito frio.

       Depois que a guerra lhe matou o irmão, Katie escreveu no diário:

“Por que não recorro ao suicídio? Porque sinto que tenho um dever a cumprir com relação ao tempo tão bonito em que nós dois estávamos vivos. Quero falar desse passado; ele queria, que eu lhe falasse. Combinamos tudo no meu quartinho alto de Londres.”

       Noel fecha o livro. Cerra os olhos e sente no quarto a presença mansa e sedativa de Katherine. Ela está ali na outra poltrona de veludo cor de vinho, a cabecinha desamparada de pássaro ferido atirada para trás, os olhos fechados, muito pálida. Está cansada, doente, vive a viajar de Londres para a costa da França, em busca de paz e sol. Um dia, numa casa de retiro, em Fontainebleau, encontra num quartinho tranqüilo uma visitante inesperada — a morte.

       Katie! Katie! Noel tem a impressão de que ouve, ouve-a realmente pronunciar as palavras com que terminou o seu diário: Everything is all right. A voz de Katie é doce, remota e no entanto misteriosamente clara.

       Um cachorro ladra no quintal vizinho e Noel acorda para o mundo real. Ergue-se devagarinho, põe o livro em cima da mesa e vai debruçar-se à janela.

       O jardineiro está podando as roseiras. Os canteiros que formam figuras geométricas se recortam, verdes, contra o ocre avermelhado do chão. Lá debaixo o homem tira o chapéu de palha e, erguendo os olhos, cumprimenta:

       — Boa tarde!

       É um caboclo de barbicha rala e cara pregueada de rugas e Noel responde com um aceno de cabeça. Noca vai até o fundo do quintal levar comida para os coelhos brancos do viveiro. (Um capricho recente de Virgínia.) A rapariga caminha desengonçada, atirando para a frente como uma angolista a sua cabeça disforme. Noel desvia os olhos: Noca lhe causa um desgosto irreprimível. E ele se revolta contra esse desgosto, porque no fundo quisera ser gentil e compassivo para com a pobre criatura. Isso, porém, é superior a suas forças. Quando Noca aparece à hora das refeições, é quase certo que lhe estraga o apetite e faz que ele afaste o prato com uma expressão de náusea.

       Noel estende o olhar para a paisagem. Lá embaixo se vêem os telhados da Floresta. Mais além, contra um fundo arroxeado de montanhas, um trecho do Guaíba com lentejoulas de sol. E quintais, pedaços de rua, sombras lilases, manchas douradas de luz, faiscações.

       Agora o jardineiro abre a manga dágua e começa a regar os canteiros. O jorro claro se irisa ao sol. Noca volta do viveiro. As sombras vão crescendo e avançando no quintal.

       Noel olha ainda a paisagem por um instante. Depois, volta para dentro do quarto.

       O silêncio continua. Todos estes objetos aqui são como gênios bons: fazem tudo por manter a ilusão de que dentro destas quatro paredes cabe inteiro o mundo da fantasia.

       Noel vai até o seu gramofone, escolhe um disco, põe-no no prato, fá-lo girar, ajusta o diafragma e senta-se de novo na poltrona.

       De dentro da caixa de madeira a música salta num jorro luminoso, a melodia se retraça no ar num arabesco ágil. Parece que a atmosfera fica mais clara. A luz do sol desaparece, devorada pela luz maior.

       Debussy.

       O disco gira. Noel escuta deixando o pensamento correr ao ritmo da música. Tudo fica esquecido, o jardim, o jardineiro, a rapariga feia que foi levar migalhas aos coelhos, os telhados da Floresta, o rio, as montanhas, o céu, tudo, até mesmo Katie.

       Agora estamos em pleno reino das fadas. Noel se perde em Wonderland. A infância ressurge. As flores e os bichos falam. Tudo encontra expressão. Os balões sobem e atingem a Lua. As fadas velam o sono das crianças. Branca de Neve é encontrada pelos anões. O Pequeno Polegar achou a sua bota de sete léguas e segue numa viagem impossível. O Chapelinho Vermelho encontra o lobo na floresta...

      O disco continua a girar e o sonho se prolonga. Madrinha Angélica surge com a sua cara preta, lustrosa e feliz, contando histórias. Noel agora tem sete anos e escuta.

       “Era uma vez um rei muito rico que tinha uma filha muito bonita.”

       Lá fora a noite adormece todas as coisas. O luar é frio, as sombras são mais negras que madrinha Angélica.

       — Dindinha Angé, conta a história do Pinitim.

       O carão gordo reluz, os dentes brancos parecem luas contra o céu da noite, e a voz rouca e funda da dindinha negra conta:

       — Pois diz que era uma veiz um menino muito ladino que se chamava Pinitim. Pinitim na noite de S. João se escondeu dentro dum balão muito grande e quando soltaram ele, Pinitim foi junto, subiu e foi parar na Lua. Lá na Lua tudo era feito de açúcar. Moravam lá uns homens meio bichos meio gentes que falavam uma língua que Pinitim não entendia. Quando viram Pinitim cercaram ele, começaram a dançar e fazer troça do pobre do menino. Vai então Pinitim começou a chorar. Tava com fome e não sabia dizer na língua daquela gente: “Quero comê.” Pinitim não sabia das coisas porque na Lua tudo era trocado, tudo era diferente. Então Pinitim foi emagrecendo, emagrecendo, minguou dum jeito que veio um bicho e comeu ele. (Os olhos do menino Noel estão arregalados de susto.) Mas Pinitim se acordou e viu que tudo tinha sido um sonho.

       Dindinha preta solta uma risada.

       Um acorde mais forte apaga a visão. Noel fica atento à música. Por trás da melodia há um chiado permanente que lembra o coaxar longínquo de sapos. É um ruído que Debussy não escreveu mas que está ali no disco, como parte da música.

       A melodia continua, Os sapos insistem no seu coral dissonante.

       Lá fora a tarde vai envelhecendo, a luz aos poucos se amacia, um vento brando começa a soprar. Sons moles no quintal: o chape-chape da água da manga contra os canteiros de relva.

       Noel remergulha em seus pensamentos. Vê mentalmente a cabeça estranha de Debussy, que começa a se balouçar dum lado para outro ao compasso da música.

       Noel vai caindo aos poucos num estado de modorra vizinho do sono. A melodia é um rio transparente que corre ao sol numa preguiça adormentadora.

       O jardineiro lá fora solta um berro. Noel desperta.

       E de novo solta o pensamento. Era possível que Debussy tivesse uma voz áspera como a do jardineiro. Possível também que à tarde fosse regar as suas flores. E que tivesse dívidas a pagar. E dissesse palavras feias. E fizesse gestos violentos. Bem possível também que, como o jardineiro, não gostasse de tomar banho. Mas o Debussy verdadeiro ficou aqui nesta melodia que o disco prendeu. Tudo o que era humano e mortal, que era resíduo, foi eliminado (menos o coral dos sapos) para ficar só a melodia de desenho puro, música de anjos, música de fadas...

       E graças à vitrola — pensa Noel — eu a posso ouvir com o mínimo possível de interferência humana. Se estivesse no teatro, ouvindo uma grande orquestra executar esta mesma música, teria de ficar na presença de criaturas que tossem, pigarreiam, amassam papéis de balas, cheiram bem ou mal; teria de ver os músicos que suam e bufam e ficam vermelhos, um maestro que agita a cabeleira e faz gestos grotescos... No entanto este móvel de nogueira me dá a melodia quase pura. Um milagre do gênio de Edison combinado com o esforço de outros pequenos inventores anônimos, mais o talento comercial dos homens que fundaram a Victor Talking Machine Co., mais o maestro Stokowsky e as muitas dezenas de músicos que formam a Orquestra Sinfônica de Filadélfia, e ainda principalmente o sonho de Debussy, e o esforço de uma centena de operários anônimos, inclusive as abelhas que fornecem cera para os discos... Para ele tudo isto é um conto de fadas, uma obra de magia.

       A melodia vai morrendo. Bem como madrinha Angélica no fim do serão, falando atrapalhado porque está começando a cochilar. A última nota se dissolve no ar e fica agora só o coro longínquo dos sapos, insistente, igual, imperturbável. Parece madrinha Angélica a roncar, com a cabeça caída para o peito, enquanto Noel, de olhos arregalados, está ainda sob a influência do sortilégio da história.

       Dindinha Angélica morreu, sua voz desapareceu do mundo, ninguém a gravou em disco. (Só no fundo, bem no fundo da memória de Noel, ela se repete num sonido muito vago, muito incolor, muito frágil que o tempo um dia apagará.) Mas a melodia de Debussy está presa na chapa negra... Basta erguer o diafragma e recomeçar.

       Noel caminha para a vitrola.

       E Debussy reconta em sua língua as histórias da dindinha preta.

 

       Teotônio Leitão Leiria dá um chupão mais forte no charuto e solta para o ar uma fumarada espessa. Como é bom o aroma de charuto, tão sugestivo de conforto e prosperidade. . .

       Os ruídos lá da loja (hoje é sábado, dia de grande movimento) chegam abafados até o escritório. O terno de couro (da Rússia, legítimo), um sofá e duas poltronas acham-se a um canto do compartimento e são bojudos e tesos como o seu florido dono, que agora fuma e medita, com uma idéia fixa na cabeça. Tapete fofo no chão. Às vezes Teotônio Leitão Leiria caminha dum lado para outro só para sentir que seus pés afundam, como se ele caminhasse num campo de neve. (Até já pensou na comparação mais de uma vez. A princípio rejeitou-a como absurda. Era preciso que a neve fosse verde como o tapete. Mas enfim, com um pouco de audácia, a imagem não ficava mal.)

       As paredes do escritório estão cobertas de telas, paisagens firmadas por pintores nacionais renomados. É uma volúpia ver o cartão da gente cravado no canto duma tela cara, numa exposição de pintura.

       A espiral de fumaça sobe e se espraia no teto.

       Teotônio Leitão Leiria está inquieto. Consulta o relógio a cada passo, tão nervoso que é com dificuldade que acerta o bolso do colete quando procura meter nele o ômega de ouro.

       Na outra sala as datilógrafas trabalham, as máquinas de escrever tamborilam num ra-ta-ta sincopado de metralhadora.

       Teotônio pensa (é estranho, absurdo, um homem de negócios, um businessman pensar estas coisas) na última novela que leu. Edgar Wallace. Os gangsters de Chicago, tiroteios de metralhadoras, crimes monstruosos, o diabo...

       Por sinal a leitura lhe valeu uma repreensão da Dodó:

       — Teotônio, com efeito! Lendo essas coisas meu filho...

       Ele ficara vermelho.

       — Ora, Dodó isto distrai tanto...

       Com que ar maternal ela segurara com uma das mãos o livro e com a outra o queixo do seu Teotônio!

       — Mas meu bem, tu compreendes... Se alguém te visse com esse livro, que é que ia dizer?

       — Eu até nem sei por que peguei essa droga...

       E então, com a mão no peito, muito compenetrada, ela abrira a porta da biblioteca e apontara para as prateleiras grandes, cheias de livros encadernados em couro, com títulos dourados nos lombos: Divina Comédia, Poemas de S. Francisco de Assis; e obras sobre sociologia, publicidade, eficiência comercial, romances recomendados pela Igreja... Dodó ficou apontando para as prateleiras como S. Miguel Arcanjo com a sua espada de fogo. Ele ficara encalistrado, muito encalistrado mesmo. E então, para provar que estava sinceramente arrependido, jogara para o cesto de papéis velhos a brochura de capa amarela. (Mas no fim de contas, o mocinho morria peneirado pela metralhadora ou acabava ficando com a chinesa?) Dodó caminhara para ele e beijara-lhe a testa, num agradecimento eloqüentemente mudo.

       Caminhando agora dum lado para outro, Teotônio Leitão Leiria simplesmente não compreende como é que um homem, só por causa do barulho das máquinas de escrever, fica a recordar coisas passadas, tolas, sem a menor importância...

       Vai até a janela e olha para baixo. A rua fervilha no vaivém dos transeuntes: um mar encapelado de cabeças multicores. Uma onda quente de sons sobe para as nuvens. O sol já se escondeu por trás dos edifícios mais altos. Seis horas. Teotônio tira do bolso interno do paletó (que coincidência, bem de cima do coração) a carteira, e de dentro da carteira um papelucho amarfanhado com um endereço escrito a lápis. Como um colegial que lê às escondidas o primeiro bilhete da namorada, olha, nervoso, para o papelucho procurando gravar o endereço na memória. Travessa das Acácias, 143. Repete baixinho o nome da rua e o número da casa. Depois rasga o papel em pedaços miúdos e joga-os no cesto.

       Uma dúvida terrível o assalta. Será uma casa discreta? A Travessa ele conhece, sabe onde fica, já passou até por lá. .. Mas se aparecerem caras conhecidas às janelas?

       Teotônio imagina desculpas.

       — Boa tarde, Sr. Leitão Leiria, então, aqui pela nossa zona?

       Ele fará o seu sorriso mais indiferente e com um gesto vago responderá:

       — Flanando um pouco. Estou pensando em comprar uma casa aqui na sua rua...

       Teotônio senta-se à mesa, pega da caneta e começa a rabiscar nervosamente no papel. Escreve nomes à toa — precípuo, flósculo (palavra bonita que ele não conhecia e aprendeu ontem, folheando por acaso o Cândido de Figueiredo) — e ao mesmo tempo fica a refletir.

       Bom. A Dodó aparece, vem no Chrysler, diz duas palavras, segue para casa e manda o carro de volta. Ah! Mas ele não vai entrar na Travessa com o Imperial. O carro pode chamar a atenção. Seria o mesmo que ser levado num andor, com trombetas e fanfarras, como o Radamés no segundo ato da Aida. Não. Numa esquina, ele disfarça. — Jacinto, vá dar umas voltas, quero fazer um pouco de exercício. Me espere daqui a três quartos de hora ali na pracinha... — E entra na Travessa a pé. 143. Será no primeiro andar?

       Teotônio se ergue, desinquieto. Pensa em Dodó e na sua cara de anjo bom e sente-se miserável, pecador, indigno. (Não muito, muito...) Mas que é que vai fazer? A culpa não é sua. Enfim, Dodó está com cinqüenta anos, não é nenhuma menina... Um homem, mesmo aos cinqüenta e dois, está no cerne, é diferente. Deus, na sua infinita sabedoria...

       A porta se abre. D. Branca aparece, num relampejar de óculos. Sobressalto.

       — D. Branca, já lhe disse, nunca entre sem bater.

       Branquinha baixa os olhos, desconcertada.

       — Desculpe. A sua senhora está lá embaixo na loja.

       Teotônio faz um gesto de perdão.

       — Está bem. Obrigado. Já vou.

       Os óculos tornam a fuzilar e Branca, com o seu triste vestido marrom, desaparece por trás da porta que se fecha.

       Deus há de compreender — reflete Leitão Leiria. — Ele que fez o homem, que o conhece como um bom mecânico conhece o mais íntimo parafuso da máquina que construiu (Teotônio sorri interiormente diante da comparação bonita, nascida espontaneamente) — Deus há de saber que a carne é fraca. Enfim, um homem de negócios, um businessman, como dizem os americanos, precisa de distrações, de derivativos. Não é só trabalhar como um burro, que isso não dá certo. E, ademais, quando ele entra no prédio n.° 143 (será o primeiro ou o segundo andar?) há de deixar a alma na porta. Quem vai prevaricar é a carcaça mortal. A alma de Teotônio Leitão Leiria pertence à sua Dodó e a Deus. Para a vida e para a morte.

       Pensando em Santa Maria Egipcíaca, Teotônio mira-se no espelho do porta-chapéus, conserta o plastron e sai.

       As máquinas ainda metralham. Leitão Leiria olha de viés para as pernas de Fernanda e um pensamento mau (quem é que pode governar os pensamentos?) lhe cruza a mente: Se essa menina quisesse, eu arranjava um apartamento discreto, uma baratinha Chevrolet... Mas o Anjo da Guarda particular de Teotônio comparece com a esponja da purificação e apaga-lhe da mente a idéia suja.

       Na galeria, Teotônio detém-se e baixa o olhar para o salão grande da loja. Longas, longas prateleiras de vidro, mostradores faiscantes com frascos coloridos — Guerlain, Coty, Myrurgia, Lubin, Caron — sedas, roupas feitas, gravatas, colarinhos. O pavimento é de ladrilho colorido. Burburinho, mulheres de vestidos de muitas cores, confusão de vozes. Os caixeiros passam apressados dum lado para outro. Um pretinho vestido de groom (idéia de D. Dodó) passa sobraçando caixas brancas e compridas. A registradora da caixa tilinta, a gaveta salta. Chegam até os ouvidos de Teotônio farrapos de diálogos:

       — ...não temos mais... — ...muito caro...

       — ...bondade de examinar...

       — ...vinte mil-réis...

      — ... seda para...

       — ... estrangeiro legítimo...

       — ...que lindo!

       Teotônio esfrega as mãos, chupa forte o charuto. Onde estará a Dodó? Seus olhos procuram no meio do formigamento. Lá embaixo uma mão enluvada se ergue para ele. Ah! Dodó! Teotônio desce, rapidamente, as escadas.

       — Minha querida.

       Beija-lhe a testa.

       — O meu filho está muito cansadinho?...

       Teotônio suspira. Um inferno! Faturas, agentes de publicidade cacete, comissões, consultas, conselhos, pedidos. E o seu jeito é de quem quer dar a entender: “Quem tem importância na vida está sujeito a todos estes incômodos.”

       — Pobrezinho...

       As bolsinhas de carne sob os olhos de D. Dodó tremem, de pura pena.

       — E se nós fôssemos para casa agora?

       Teotônio recusa veementemente, diz que não com a cabeça, com os olhos, com as mãos. E de súbito percebe que foi enfático demais na recusa:

       — Não é por nada, Dodó. Acontece apenas que eu não gosto de quebrar o horário. Tu sabes como eu sou nestes assuntos. O meu método é americano, ali no rigor.

       — Está bem — concorda ela, orgulhosa do marido. Aqui está um homem. Não é como muitos. Este tem fibra e há de vencer, se Deus e Santa Teresinha quiserem. — Depois então eu te mando o automóvel.

       — Sim, meu bem.

       — Não te esqueças da nossa festa hoje no Metrópole.

       — Que festa?

  1. Dodó fica desolada. Será possível que ele não se lembre?

       — A festa das Damas Piedosas, filho.

       — Ah! É verdade. Que cabeça, a minha!

       — Então às sete sem falta em casa, hein?

       — Inadiavelmente.

       Beijam-se. Dodó se some no meio dos fregueses. A registradora tilinta. Teotônio olha: 250$000. Um pequeno choque. Quem teria feito uma compra tão grande? Seus olhos dão com uma figura conhecida: O Cel. Zé Maria Pedrosa. Teotônio aproxima-se dele:

       — Oooooh! Bons olhos o vejam, coronel!

       O coronel sorri, estendendo a mão; as maçãs do rosto tostado saltam, os olhinhos mongólicos se entrecerram.

       — Como le vai?

       — Então, fazendo compras?

       — É verdade.

       — Como está a família?

       — Tudo bem, graças a Deus.

       — Naturalmente vão à festa hoje...

       O sorriso de Teotônio é de quem não admite uma negativa. Não, por força que o coronel tem de ir à festa. Como é que uma família tão representativa pode faltar a uma festa de caridade? Teotônio pensa em Dodó que confia no resultado financeiro de seu chá de caridade.

       Zé Maria coça o queixo, faz uma careta:

       — Pois é... A velha não vai, não gosta de festa. Mas a menina está acesa. Não fala noutra coisa...

       — A mocidade, coronel! O nosso tempo é que já passou.

       — É verdade... Semos carta fora do baralho...

       O “semos” não agrada muito a Teotônio, que esperava elogio, ou pelo menos a exclusão da sua pessoa do número dos velhos. Mas, cortês, acrescenta:

       — O senhor ainda está conservadão. Quantos?

       — Cinqüenta e cinco na cacunda... Raça de caboclo.

       Um silêncio. Zé Maria passeia o olhar em torno. Teotônio procura assunto mas só atina com murmurar:

       — Sim senhor.

       E o coronel:

       — Senhor sim.

       E, depois de uma pausa, olhando o relógio (só por hábito, porque nem fica sabendo que horas são) diz:

       — Bueno, vou andando...

       — Muito bem. Havemos de nos encontrar hoje à noite...

       — Não tem dúvida.

       Apertam-se as mãos. O coronel sai no seu andar pesado e tardo de paquiderme.

       Seguindo-o com os olhos, Teotônio tem a certeza, como nunca, da sua imensa superioridade, da sua condição privilegiada de homem de espírito e talento.

       Encolhido e apreensivo, Teotônio Leitão Leiria entra na Travessa das Acácias. Sua mente é uma tela de cinema em que três imagens — a de Dodó, a de Monsenhor Gross e a da menina de olhos verdes — se sucedem em close-ups assustadores. Tumulto de sentimentos. Impressão de culpa e pecado, perspectiva de gozo, alvoroço, temor, remorso antecipado... Teotônio caminha, rente à parede. Felizmente os combustores ainda não se acenderam. Dentro do crepúsculo cinzento que caiu sobre a rua suburbana, as árvores oferecem ainda uma sombra mais funda e protetora. Teotônio olha os números das casas, sem parar. As faces lhe ardem. Tem vontade de levantar a gola do casaco, como um criminoso que não quer ser reconhecido. Mas não: isso seria chamar mais a atenção das pessoas... Há gente às janelas. Teotônio prossegue teso, sem olhar para os lados.

       Dodó, Dodó, Dodó, como eu me sinto sujo, Dodó, como sou porco! Monsenhor Gross, haverá perdão para o meu pecado?

       Mas no cineminha do cérebro a figura da pequena de olhos verdes apaga as outras duas imagens. Teotônio imagina o quarto. Deve ser como todos: uma cama de casal, janela dando para o pátio, lavatório de ferro com sabonete barato. A um canto a menina se despe em silêncio, ergue o vestido, a saia sobe, as coxas aparecem, brancas, macias... Mas a imagem de Dodó vai se definindo sobre a tela como um espectro, ficando mais forte, mais nítida, e lá está ela agora tirando o vestido, mostrando as coxas gordas e flácidas, as coxas enormes que tremem como gelatina, levemente cinzentas... um cinzento de decomposição e velhice.

       Dodó! Dodó! Tu não me compreendes, um businessman precisa de derivativos. Tu me perdoarás, Cristo perdoou e Madalena era mais pecadora que eu porque, enfim, ela era mulher. 75. Santo Deus, quando é que chega o 143? Terei errado a rua? Dodó! Esta é a última, te juro, meu anjo!

       Na frente dum muro longo — PROVEM OS BISCOITOS AIMORÉ — brinca um grupo de crianças, gritando e cantando. Teotônio passa pelo meio do bando, ergue a mão para acariciar a cabeça dum dos pequenos. Mas não, Teotônio, não! A tua alma ficou ali na esquina, na entrada da rua. Quem caminha aqui é a matéria, a carne vil que tem necessidades sujas, Não macules a cabecinha inocente! Pensa estas coisas, mas sem nenhuma convicção. Seu espírito continua dolorosamente dividido.

       Teotônio procura torturar-se chamando-se de nomes feios. Adúltero, horizontal (recordações das leituras de Rui Barbosa), prevaricador, iníquo, alma inquinada (Euclides da Cunha), ofelhinha tresmalhata (Monsenhor Gross)... E julga-se menos culpado e menos miserável por se julgar assim miserável e culpado.

       Um automóvel passa. As duas portas dum armazém de molhados projetam na calçada longas faixas de luz. Lá dentro, atrás dum balcão, um sujeito de cara vermelha e lustrosa faz embrulhos. Sentado sobre um barril, um preto mal vestido empina um copo de cachaça. Uma menina magra de pés descalços sai do armazém, carregada de pacotes.

       Leitão Leiria pensa num artigo: Menores Desamparados. Monsenhor Gross vai gostar. A incursão à Travessa das Acácias não ficará perdida. Deus escreve direito por linhas tortas. Ele vai chamar a atenção do juiz de menores para fatos abusivos quais sejam (Teotônio compõe mentalmente o artigo) o de pobres rapariguitas raquíticas e cloróticas que, sem instrução e sem higiene, são empregadas por pais inconscientes no serviço diuturno da rua com o perigo de se prostituírem...

       Mas a palavra “prostituírem” invoca magicamente a imagem da menina de olhos verdes. Outra vez as coxas macias. Um gozo raro, morno e proibido. Apertar um corpo moço, penetrar um corpo moço. Cheiros diferentes, voz diferente, cara diferente, tudo diferente...

       Teotônio olha para as portas: 139... Caminha mais alguns passos: 143. É aqui. Ergue os olhos. Uma casa de dois andares. Duas janelas iluminadas. Teotônio hesita, imóvel.

       Parece que a vida em torno parou. Em todo o universo agora só uma coisa pulsa e vive: seu coração que bate como um louco — medo mesclado com contentamento, dúvida e alvoroço...

       Num relâmpago duas imagens visitam-lhe a mente:

       Dodó e Monsenhor Gross. Mas se apagam logo. E Teotônio resolve fazer frente à fatalidade. Entra, sobe a escada, que é velha e range. Junto da primeira porta bate. Abrem. Uma mulher magra e alta surge, olhos interrogadores, ar de quem não conhece e está surpreendida. Teotônio sente o sangue subir-lhe ao rosto.

       — A viúva Mendonça?

       De quem é, donde saiu esta voz fraca, desbotada que mais parece um cochicho? Teotônio Leitão Leiria não reconhece a voz do orador que encheu o Teatro S. Pedro naquela noite cívica. Oh! Esta comoção...

       — O senhor bate na outra porta...

       — Perdão, minha senhora...

       A cara da mulher continua impassível. Teotônio volta-se, todo perturbado, sentindo aqueles olhos pálidos e assustados ainda cravados nele.

       Olha em torno: lá está a outra porta. Mais cinco passos. Bate. A porta se abre. Aparece uma velha baixa e roliça, de cabelos grisalhos, xale xadrez às costas, cara risonha. Está de luto. As dúvidas de Teotônio se dissipam. Deve ser a viúva.

       — Às suas ordens, cavalheiro...

       É uma voz áspera como se a criatura tivesse areão na garganta, mas uma voz que se esforça por se fazer doce. Os olhinhos miúdos brilham.

       — É a viúva Mendonça?

       — Sou, sim senhor.

       — Pois o Sr. Tito...

       O sorriso da velha gorda se alarga.

       — Ah! O senhor! Ele me falou... Venha por aqui, doutor...

       Caminha, remexendo num molho de chaves que traz à cintura. Leitão Leiria a segue, de chapéu na mão, sob o peso de uma terrível sensação de ridículo. A mulherzinha vai falando:

       — Pois a gente fica satisfeita, não é? Quando gentes direitas querem-me dar a honra...

       Teotônio aguarda em silêncio. O corredor está escuro. Lá no fundo, uma janelinha.

       — Não repare. O bico de luz queimou. Amanhã vou botar outro, não é?

       A velha pára diante duma porta e começa a procurar a fechadura, às apalpadelas.

       — O senhor não terá um fósforo? Não enxergo.

       Teotônio tira o isqueiro do bolso, levanta-lhe a tampa, tenta, mas em vão, acendê-lo. Nova tentativa: outro fracasso. A velha escarafuncha na porta. Por fim, Teotônio consegue provocar a chama que fica a brilhar-lhe na mão trêmula. A viúva introduz a chave na fechadura.

       — Pronto!

       Teotônio sente que as orelhas estão em fogo.

       — Entre, não é?

       Leitão Leiria entra. A viúva acende a lâmpada elétrica. Mas ele preferia mil vezes que a escuridão continuasse para esconder o seu rubor e a sua confusão. Dodó! Dodó! Como eu sou indecente! Como sou ridículo!

       Esfregando as mãos, a mulherzinha sorri.

       — Ela ainda não veio, doutor, mas não demora, não é? O Tito marcou às seis e meia. Falta cinco. Pode ficar à vontade. A casa é sua.

       Teotônio olha em torno. Quarto pequeno, de paredes caiadas com um único quadro: uma mulher nua a dormir na praia, os seios bicudos voltados para as nuvens. Uma cama esmaltada de branco, cobertas brancas, uma janela fechada, um lavatório de ferro, duas cadeiras, uma mesa com revistas velhas.

       Teotônio está aniquilado. Tenta recompor-se, assumir ares patronais, mas aquela velha ali, senhora do seu segredo e da sua fraqueza, o desarmam por completo.

       — Muitas pessoas da primeira sociedade — a voz de areão continua — procuram a minha casa, sabem que é quieta, não tem perigo...

       A velha diz nomes de fregueses ilustres. Parece um herói a discriminar suas condecorações. Teotônio senta-se teso na beira da cama, a qual lhe sugere imagens animadoras. Agora a premonição do gozo começa a dominar o sentimento do medo e da culpa. A viúva Mendonça continua a falar. Doutores, comerciantes, senhores da melhor — todos procuram esta casa... Teotônio torna a pensar em Dodó e de novo sente medo. Ergue-se (agora já é de novo o businessman que se concedeu um feriado inocente) e diz, circunspecto:

       — Conto com a sua discrição...

       A mulher o interrompe.

       — Já lhe disse que não tenha medo, doutor...

       — Porque a senhora compreende... eu...

       — Não se amofine, doutor, aqui nunca acontece nada.

       — Um homem da minha responsabilidade, da minha importância social...

       — Já lhe disse. Pode sossegar o pito.

       — Seria um desastre... eu nem sei... um...

       Teotônio põe-se a andar dum lado para outro, impaciente num tumulto de sentimentos desencontrados. A imagem de Dodó lhe vem à mente, mas ele a exorciza, porque este lugar “é por demais infecto”. Só o pensar naquele anjo aqui dentro é uma profanação.

       Rumor de passos no corredor. A viúva se cala. Teotônio escuta... A porta se abre devagarinho. E a voz áspera:

       — Eu não lhe disse que ela era boazinha?

       É ela — pensa Teotônio. E uma sensação nova, formigante e dominadora, toma conta dele. Não ouve as palavras que a viúva lhe diz, nem a vê sair e fechar a porta. Agora só tem olhos e pensamentos para a rapariga vestida de vermelho que está diante dele. Ela diz um boa noite indiferente, tira o chapéu e o depõe com a bolsa em cima da mesa.

       Teotônio não sabe como começar, não acha que dizer. Ela folheia uma revista com ar distraído.

       — Como é o teu nome?

       — Cacilda.

       Teotônio sorri.

       — Bonito nome.

       Cacilda agora está voltada para ele, esperando. Teotônio começa a sentir-se mais à vontade.

       — Então, não dá um beijinho pro seu amigo?

       Ela sorri, aproxima-se e oferece o rosto. Teotônio agarra-lhe desajeitadamente a cabeça e chupa-lhe os lábios. Gosto de pó de arroz, úmido e morno. O contato destes seios, destas coxas dão a Teotônio a impressão de que ele está no ar, como um balão...

       — Vamos depressinha, meu bem. Está anoitecendo e não tenho tempo a perder. Vá tirando a roupinha.

       Sua voz esta levemente trêmula. À rapariga começa a despir-se. Teotônio volta-se para a parede, tira o casaco, depois senta-se na cama e tira as botinas. De quando em quando lança um olhar cúpido para Cacilda.

       A moça puxa a saia para a cabeça. Tudo isto lhe é absolutamente indiferente. É o segundo homem a quem se entrega hoje. À noite terá outros, como sempre.

       — Eu tenho uma sobrinha chamada Cacilda...

       Teotônio diz isto porque sente que o silêncio começa a deixá-lo gelado.

       Cacilda sorri. Ele lhe contempla as pernas esbeltas. Dobra as calças com todo o cuidado e vai colocá-las sobre a guarda da cadeira. Um pensamento horrendo o assalta. E se da janela pulasse um homem com uma Kodak e o fotografasse nesta atitude? Oh! Teotônio tem a impressão de que seu coração pára por uma fração de segundos.

       Quando se volta, Cacilda está já estendida na cama. Trêmulo e confuso, Leitão Leiria aproxima-se na ponta dos pés, como quem caminha no quarto dum doente, e deita-se ao lado dela.

       O calor do corpo moço, as carnes rijas, o cheiro de vida... Como podem dizer que isto é pecado?

       Ao ver interpor-se, entre os seus olhos e o teto, a cara congestionada e lustrosa de Leitão Leiria, Cacilda pensa no rapagão moreno e bonito que ela teve a seu lado a noite passada, no 10.° andar do Edifício Colombo.

 

       O jantar na casa de João Benévolo é fúnebre.

       O relógio bate as horas — uma, duas, três, sete badaladas fanhosas, tristes, longas — e quando a sétima batida fica ecoando na varanda silenciosa e mal-alumiada, Laurentina começa a chorar.

       — Não faça assim, Tina, por que é que está chorando?   — João Benévolo põe ternura na voz. Aquele choro lhe dói. É uma acusação, uma queixa.

       — Ora, eu sou assim... — responde ela.

       E fica de olhos inchados e úmidos a olhar para o relógio velho. Quando ele bate, lento, e o som de sino fica dançando no ar como um choro, como a voz duma pessoa que está se queixando, Tina pensa na vida, na morte, no passado e acaba chorando, chorando desatada-mente.

       Tudo aqui é triste — pensa ela — a luz do lampião (cortaram a elétrica por falta de pagamento), o soalho velho e sujo, as paredes desbotadas, os móveis encardidos, a cara do Janjoca, tudo é triste e dá vontade de chorar.

       João Benévolo pensa no dia perdido. O seu amigo “doutor”, muito delicado, repetiu as promessas de sempre: o senhor espere, tenha paciência que eu lhe arranjo um emprego — e foi estendendo a mão como quem diz: dê o fora!

     Na rua, as crianças da vizinhança gritam e correm. Dum gramofone fanhoso sai uma voz a cantar uma modinha sentimental.

       Sentados, um de cada lado da mesa, marido e mulher se entreolham.

       — Se o Poleãozinho não sara — balbucia ela — temos de chamar um doutor.

       João Benévolo diz sim com a cabeça, e leva à boca uma colherada de sopa. Faz uma careta involuntária: água morna sem gosto, sem tempero. Olha com olho triste para os pratos sobre a toalha grosseira: arroz pastoso, feijão aguado e carne magra.

       Silêncio.

       — Tomara que o veranico de maio dure — conversa João Benévolo. — Quando vier o frio, vou me ver mal...

       — Para uns tanto, para outros nada.

       Os olhos de Laurentina se voltam para o alto. O marido compreende. Lá em cima mora o Prof. Clarimundo. Sozinho, econômico, não gasta, não precisa gastar. E ganha bem. Ao passo que ele...

       O gramofone pára. No meio do silêncio vem de longe, de outras ruas, o ruído dos bondes. De quando em quando guincha uma buzina de automóvel. Na brisa da noite nova, vem um cheiro de folhas secas queimadas.

       — Hoje apareceu um senhor aqui na porta — conta Laurentina. — Bem vestido, todo cheiroso, flor no peito. . .

       — Flor no peito me lembra o Leitão Leiria...

       — Aquele ordinário...

       Os olhos de Tina brilham por um instante. Raiva surda, uma raiva angustiosa porque não conhece a imagem do homem odiado. Se acaso ela conhecesse Leitão Leiria, haveria de odiá-lo mais?

       — Mas que era que esse senhor queria?

       — Ora...

       Tina faz uma cara de nojo, acentuam-se as duas rugas que lhe fecham a boca num parêntese de aborrecimento e cansaço.

       — Um freguês da viúva?

       — Acho... Perguntou por ela. Estava todo atrapalhado.

       João Benévolo faz um gesto de contrariedade.

       — Isto é uma indecência, Tina. Felizmente não temos filha. Se a polícia soubesse...

       — Por que não nos mudamos? — zomba a mulher.

       Mudarem-se... eles? Havia de ter graça. Para onde levar os tarecos? Pelo menos por ora, enquanto ele não arranja emprego, não podem sair daqui. Paciência.

       — Se o professor soubesse, acho que ele ia embora, — comenta João Benévolo.

       Tina sacode a cabeça. Qual! O professor vive no mundo da lua.

       O gramofone recomeça. Um tango argentino que fez furor em 1920. Do quarto contíguo vem uma vozinha fina:

       — Mamãe!

       Tina se ergue. João Benévolo afasta o prato, levanta-se e vai buscar o chapéu.

       — Vou sair.

       — Aonde vais?

       — Por aí...

       Laurentina encolhe os ombros. Agora nada mais importa. Tudo está bem. Se ele der para beber, para andar com mulheres, para freqüentar pensões de gente à-toa, que é que ela vai fazer? Nada mais tem importância.

       — Não voltes tarde que fico com medo.

       É o mais que pede. João Benévolo sacode a cabeça afirmativamente e sai.

       No corredor escuro dá com um vulto de contorno familiar.

       — Boa noite.

       A voz asmática do Ponciano. João Benévolo sente o mal-estar de sempre, um calafrio desagradável: como se houvesse passado a mão pelo dorso duma cobra.

       Ponciano... Uma criatura que lhe causa náusea.

       — Vais sair?

       — Pois é.

       Silêncio. Na sombra a figura odiosa se define. Ali estão os olhinhos frios, o rosto furado de bexigas, o nariz achatado de boxeador, o dente de ouro brilhante. João Benévolo pigarreia.

       — Bom...

       A voz asmática:

       — A Tina está?

       — Está. O Napoleão anda meio encrencado da barriga ...

       — Bueno, até já.

       — Até já.

       João Benévolo desce a escada. No último degrau pára. Não, é um desaforo! Estas visitas insistentes, esta intimidade... Como se fosse um parente, uma pessoa do mesmo sangue. Não. É preciso acabar. A casa já é suspeita. Tina, no fim de contas, é mulher, não das mais bonitas, mas ainda serve. Podem falar. Depois, o desaforo maior é a importunação. O dono da casa sai e o outro homem fica conversando com sua mulher. É direito? Claro que não.

       João Benévolo começa a caminhar, ruminando a velha raiva. Aquilo já dura uma boa dúzia de meses. Quase todas as noites, a visita indesejável. Ponciano fica num canto, os olhinhos com um brilho de gelo, a respiração difícil. Tina costura e ele, João Benévolo, lê. O relógio bate horas, oito, nove, dez... O tempo passa. O olho de Ponciano sempre chocando Laurentina... João Benévolo olhando para os dois com o rabo dos olhos, com uma raiva impotente a ferver-lhe no peito. Vontade de gritar. “Isto também é demais, seu Ponciano, que é que o senhor quer? Explique-se ou ponha-se na rua!” Mas Ponciano é um homem de físico forte e tem dinheiro. Ninguém está livre dum aperto. Sempre é bom ter um amigo a quem recorrer. Amigo. Toda esta vergonha por causa da miséria, da falta de emprego...

       João Benévolo dobra a primeira esquina e sobe rumo da parte alta da cidade. A fila de combustores se estende como um colar de luas. Lá no alto, o Edifício Imperial se recorta contra o céu da noite: em cima dele o grande letreiro luminoso brilha — num apaga e acende vermelho e azul — diz: FIQUE RICO. LOTERIA FEDERAL.

       João Benévolo caminha e vai aos poucos esquecendo Ponciano, a mulher, o seu drama. O letreiro colorido evocou-lhe um conto das Mil e Uma Noites. Agora ele caminha por uma rua de Bagdá. O perfil das mesquitas se desenha contra o céu oriental. Ele é Aladim, que achou a lâmpada maravilhosa. Sim. Fique rico. Basta esfregar a lâmpada, o gênio aparece. Eu quero um palácio, eu quero um reino, eu quero muito ouro, escravos e odaliscas.

       João Benévolo agora é feliz. E como não tem outro meio para exprimir o seu contentamento, põe-se a assobiar com bravura o Carnaval de Veneza.

 

       Fernanda traz para a sala de jantar a bandeja com a cafeteira, os sanduíches de pão e carne fria e o prato de mingau para a mãe.

       Pedrinho está desinquieto.

       — Apura com isso, mana, estou com uma fome do tamanho dum bonde.

       Fernanda sorri por trás da fumaça que sai do bule:

       — Já vai, rapaizinho!

       Dizer rapazinho não tem graça. Rapaizinho é mais terno, mais familiar, mais de acordo com a gramática sentimental da casa.

  1. Eudóxia suspira.

       — Cuidado, Fernanda, esse bule cai e te queima toda...

       Fernanda arruma os pratos, e depois despeja café em duas xícaras. Senta-se também à mesa e o jantar começa. Pedrinho conta histórias da loja, de boca cheia, animado:

       — Hoje chegou lá um cara gozado que queria comprar Elixir de Nogueira. Isto aqui não é farmácia, digo. O homem ficou com cara de besta... Mas que sanduíche gostoso, mana! Então, moço, me ensine onde é que fica uma farmácia. — Pedrinho solta uma risada engasgada. — Mandei ele na Casa Sloper. Que cara gozado! Me passa o açúcar!

       Fernanda empurra o açucareiro na direção do rapaz.

       — E a senhora não come o seu mingau, mãe?

       — Não estou me sentindo bem. Acho que piorei da asma.

       — Já tomou o remédio?

       — Pra quê? É melhor que eu morra.

       — Vamos, que história é essa? Coma logo esse mingau e deixe de fitinha.

       Fernanda toma da colher e leva um bocado de mingau à boca da mãe. Mas D. Eudóxia aperta os lábios, desvia o rosto, com a obstinação duma criança mimada.

       — Pois está bem! — exclama Fernanda, fingindo zanga. — Não coma, não me interessa, pode morrer.

       Diz isto e começa a tomar o seu café. Só ela sabe o quanto lhe custa portar-se assim, a abafar a cada instante seus ímpetos de ternura. Se em vez de reagir com energia contra o pessimismo da mãe e a vadiagem do irmão ela se condoesse de ambos, enchendo-os de mimos — tudo naquela casa iria águas abaixo.

       — Então, Pedrinho como vai o curso?

       — Ah!

       Pedrinho faz uma careta como se lhe tivessem falado em óleo de rícino.

       — Que troço pau é a tal de Matemática. Cruzes! Sai um pó.

       — Mas é preciso, rapaizinho, no fim vais acabar gostando.

  1. Eudóxia intervém:

       — Eu já disse que o Pedrinho vai ser como o pai. Não quer aprender nada, não quer ser homem de bem. Um dia me trazem ele pra casa com uma bala no peito, como o Fidêncio...

       Fernanda volta bruscamente para a mãe uma enérgica máscara de repreensão:

       — Mamãe! Não diga mais isso! A senhora bem sabe que papai não era assim.

       — Está bem, não falo, não tenho direito de falar, não posso dizer nada, não sou ninguém nesta casa...

       — Então, Pedrinho, qual é a matéria que gostas mais?

       — Ah! Eu é a História. Depois o professor, o seu Dias, é um bamba. Aquele cabra da Matemática... — e Pedrinho aponta com o dedo para a janela do professor, lá no outro lado da rua — aquele cara é chato...

       — Não diga assim. O Prof. Clarimundo é um homem decente e muito instruído.

       Pedrinho toma um gole de café, pega outro sanduíche.

       — Não digo que não seja decente. Mas é chato. Fala pra dentro. Ninguém entende ele. Às vezes se distrai. Anteontem apareceu sem gravata. Depois se esqueceu da lição e começou a falar em Astronomia, num tal Nistai.

       — Einstein — corrige Fernanda.

       — Sei lá... Bota mais café aqui que é melhor.

       Fernanda despeja mais café na xícara do irmão. D. Eudóxia começa a comer com certa relutância, devagarinho, com o ar de quem diz: “Não adianta... Ninguém faz caso de mim. Estou morrendo e ninguém se importa...”

       Batem à porta.

       — Entre!

       Entra um menino. Terá quando muito sete anos, é magro, amarelo e está descalço e sujo. Fica perto da porta parado, olhando.

       — Que é que queres, Bidinho? — pergunta Fernanda.

       — A mamãe mandou dizê se a senhora não tem uma vela pr’emprestá pr’ela.

       Monótona e lisa, a voz é um fio fino.

       — Espere um pouquinho.

       Fernanda vai até seu quarto e volta de lá com uma vela.

       — Tome. Como vai o papai?

     — Melhor.

       — Bom. Vá direitinho.

       Bidinho se vai. D. Eudóxia suspira. Os olhos de Fernanda por um momento ficam velados de tristeza.

       — Credo! — diz Pedrinho. — Quase nem conheci o filho do seu Maximiliano!

       As palavras caem no silêncio.

  1. Eudóxia faz a sua profecia de morte:

       — Qualquer dia fica órfão de pai, o coitadinho. Seu Maximiliano não dura uma semana...

       — Que agouro, mãe!

       — Eu sei, meu filho, sua mãe sabe, já viveu muito, já viu muito velório.

     Um pensamento desagradável passa pela cabeça de Fernanda. Com que prazer sua mãe assiste aos velórios! Como gosta de ver defuntos, falar em morte, imaginar desastres...

       — Bem! Não se fala mais em morte e doença hoje! Então, Pedrinho, gostas de Francês?

       O rapaz empurra a xícara vazia, com uma careta de aborrecimento.

       — Ora, mana. Não vamos falar em estudos, sim?

       Ela sorri.

       O gramofone da vizinhança toca uma música alegre. Fernanda pensa em Noel.

 

       Teotônío Leitão Leiria entra em casa e encontra a filha no hall. Vera está sentada numa poltrona, a ler uma brochura. As luzes do lustre estão apagadas. Junto da poltrona uma lâmpada de quebra-luz verde (para sintonizar com o verde das paredes e do gobelim) cria uma área luminosa dentro da qual se desenha a cabeça de Vera: cabelo à la homme, boca grande, olhos graúdos, um nariz levemente arrebitado. Teotônio contempla a filha com afeição. Aqui tudo é diferente. Respira-se um ambiente familiar, puro e insuspeito. A madeira dos móveis, os tapetes, os gobelins despedem um cheiro característico, cheiro de lar confortável, cheiro doméstico, cheiro tranqüilizador. Teotônio pendura o chapéu no cabide e entra. Vera ergue os olhos:

       — Olá! — Tem uma voz de contralto. — Vieste tarde, Mamãe está aflita.

       — Aquele maldito escritório...

       Vera sorri e torna a baixar os olhos para o livro.

       No living-room Teotônio encontra a mulher.

       — Meu filho, eu já estava em alas!

       Dodó precipita-se para o marido e beija-lhe a testa.

       Examina-o atentamente, com a cabeça inclinada para um lado. Coitadinho! Muito trabalho? Oh! Precisas mudar de vida, cuidar desse coraçãozinho!

       Teotônio Leiria sorri com melancolia e se despreza mais uma vez. Como é que um homem casado com uma criatura como esta, meiga e santa, tem a coragem de freqüentar casas de tolerância? Como é, seu Teotônio?

       O living-room está fartamente iluminado: móveis polidos, almofadas fofas, espelhos, cristais, vasos com flores. Oh! É preciso este deslumbramento, esta paz doméstica para apagar a impressão daquela rua pobre, daquele quarto sórdido. Mas nos olhos de Leitão Leiria brilha, muito tênue, a saudade do corpo de Cacilda. Enfim ninguém é piloto de seus pensamentos. Ai! As contingências humanas...

       — Dodó, minha querida, eu quero um banho.

       Sim, um banho. Com o banho desaparecerá o último vestígio do pecado. A alma permaneceu pura, não participou do ato iníquo. Agora é preciso limpar o corpo.

       — Mas, meu filho, anda ligeirinho, sim? O jantar está pronto...

       — Não demoro.

       — Temos de andar depressa porque às oito preciso estar no Metrópole, tu compreendes, tudo está nas minhas mãos, se eu não dirijo, não sai nada certo...

       Teotônio compreende. Fiscalizar as tendas, ver se não falta nada, telefonar para o diretor da orquestra, pedindo que os músicos apareçam na hora, dar instruções aos garçons...

       — Ah Dodó! Se não fosse você...

       Teotônio rompe a elogiar a esposa. É uma maneira de se redimir um pouco do pecado que cometeu.

       — Se houvesse duas Dodós nas Damas Piedosas, teríamos mais hospitais e asilos...

       — Não diga isso, meu filho...

       Dodó sorri com modéstia.

       Teotônio olha para o espelho redondo que está por trás dela, na parede: o busto gordo, a cabeça grisalha, o cachaço nédio se refletem na superfície polida: os brincos de brilhantes soltam faíscas iridescentes.

       Silêncio. Marido e mulher se contemplam.. Teotônio agora está reintegrado na velha personalidade: tem diante de si a sua Dodó de todos os dias, segura da sua fidelidade, amiga, bondosa e sempre preocupada com os seus pobrezinhos. Dodó contempla o seu Tônio, que é escravo da família e do trabalho, e que agora quer um banhozinho para tirar o cansaço.

       — Bem, meu filho, vai tomar o teu banho. ..

       — Até já.

       — Deus te acompanhe.

       Vera se ergue e vai para o quarto.

       Sem acender a luz estende-se na cama, apertando as coxas e o peito contra a coberta de seda. Pela janela entra um vento morno, trazendo os ruídos da rua.

       Vera se revolve... como é boa a moleza das cobertas. Parece carne, dá um adormecimento no corpo, um arrepio estranho. ..

       Uma sombra azul inunda o quarto. O penteador se ergue a um canto, com o seu espelho oblongo. O tapete tem arabescos caprichosos.

       Vera antevê sua noite. A festa no Metrópole vai ser insípida como todas as outras. O Dr. Armênio, com seus óculos de aro de tartaruga, dentes muito brancos, carão moreno e lustroso, sorriso de anjo, virá com a sua velha chapa: “A senhorinha Vera parece uma silhueta do Vogue. Lembro-me de que uma vez no Bois de Boulogne...” (O Dr. Albuquerque foi uma vez à Europa.) O jazz tocará os foxes dos últimos filmes e tangos argentinos da idade da pedra lascada. As mesmas caras: num canto a D. Palmira Melo, de vestido preto, falando com D. Anunciata Bellini em cochichos, por trás do leque. As Mendes, as Assunção, a Ritinha Barbosa, com o seu eterno vestido cor de champanha... E aquela turma cretina do Macedo.

       “Nunca amou, senhorita Vera?” — De novo a voz do Dr. Albuquerque, pegajosa e doce. “No seu coraçãozinho de Miss Século xx não haverá lugar para um sentimento de...”

       Vera se ergue de súbito, como para apagar a visão aborrecível. Positivamente: vai ser um enjôo... Melhor não ir, ficar em casa ou meter-se num cinema.

       Batem à porta.

       — Quem é?

       — Sou eu, minha filha. Posso entrar?

       — Pode.

  1. Dodó entra.

       — Verinha...

       — Que é?

       Vera volta o rosto para a mãe. Ela está ali de pé, muito ofegante, mão direita espalmada sobre o peito. Traz na esquerda um livro.

       — Quer me fazer um favor?

       — Conforme...

       Deitada de costas, mãos entrelaçadas atrás da cabeça, Vera tem os olhos voltados para o teto.

       — Diga se quer...

       — Conforme, eu já disse.

       A voz de D. Dodó é trêmula, suave, relutante.

       — Quer atender um pedido de sua mãezinha?

       — Ai-ai-ai...

       — Minha filha, você sabe que eu só desejo o seu bem...

       Vera continua calada.

       — Há coisas que são impróprias para toda a gente, principalmente para uma moça solteira de vinte e quatro anos...

       — Já sei, é o livro... Impróprio para menores... Pois é, agora eu vou ler as histórias da Carochinha...

       Uma ruga de contrariedade vinca a testa de D. Dodó.

       — Minha filha, não leia mais isto...

       E ergueu o livro no ar, na ponta dos dedos, como se estivesse segurando uma proveta onde se agitasse uma colônia de micróbios.

       Reconhecendo o volume que esteve a ler há pouco no hall, Vera sorri.

       A Questão Sexual, de Forel.

 

       A aula está inquieta, num zunzum de colmeia assanhada. O ar fresco da noite entra pelas janelas. As carteiras rangem. Numa das extremidades da sala, um rapaz cochila com a cabeça encostada à parede. Bem na frente, na primeira fila de bancos, as posturas são as mais diversas. Um moço de óculos e buço cerrado escuta atento, de boca aberta. Um sargento do exército limpa as unhas com o canivete. Uma rapariga de boina azul boceja olhando para a estrelinha que brilha longe, no recorte do céu que a janela enquadra. Um homem de cabelos grisalhos escuta, de sobrancelhas alçadas, com uma atenção forçada e o ar vagamente imbecil de quem não compreende. De vários pontos brotam cochichos, resmungos, estalidos, cicios, bocejos abafados. A luz que escorre das lâmpadas nuas é amarela e cansada.

       O Prof. Clarimundo disserta...

       Sentado à mesa, em cima do estrado, as mãos enlaçadas entre as coxas, o busto curvado, o livro aberto sob os olhos, ele enumera as vantagens do estudo do Latim.

       — Pode-se saber Português sem saber Latim?

       Ele mesmo dá a resposta. Não. Sacode a cabeça: a franja eriçada se agita: os óculos reluzem.

       — Pode-se estudar gramática histórica sem um bom conhecimento da língua latina?

       Também não. Novo aceno de franja, novo fuzilar de óculos.

       Um aluno abre a boca num bocejo sonoro. O professor estica o pescoço, procurando o mal-educado.

       — Quem foi que bocejou? — pergunta.

       Movimento de cabeças. As abelhas se assanham: os zumbidos da colmeia crescem em ondas. Por fim, o silêncio.

       — Não gosto nada disso!

       Clarimundo diz estas palavras sem convicção. O protesto fica lançado. É preciso manter a moral. Mas o que importa agora é o Latim.

       — Dizem os maus estudantes que Latim é língua difícil... — Clarimundo pronuncia caprichosamente o s do plural. — Mas os senhores vão ver que no fim de contas a matéria é duma facilidade absoluta. — Clarimundo fala pausadamente, destacando as sílabas. — Conheço muito (Clarimundo faz questão de dizer muito e não muinto) latinista de fama que não observa a quantidade...

       Segura as bordas da mesa, empertiga o corpo.

       — Ora, a quantidade deve ser observada. — Ergue a mão direita, com a ponta do indicador a tocar a ponta do polegar, formando um círculo. A quantidade de uma vogai ou de uma sílaba é o tempo ocupado na sua pronúncia. — E marca a cadência das palavras que pronuncia com um oscilar da mão. — Conhecem-se dois graus...   (reparem os senhores que eu não digo absolutamente conhece-se mas sim conhecem-se porque o sujeito graus é plural e portanto leva o verbo para o plural). Mas, como eu ia dizendo, conhecem-se dois graus de quantidade. A quantidade longa e a quantidade breve. Pois ora muito bem!

       Esfrega as mãos. O sargento suspira. O aluno que cochilava acorda de repente e fica olhando em torno com os olhos piscos e o ar estúpido.

       — Nas sílabas a quantidade é medida do princípio da vogai ou do ditongo para o fim da sílaba...

       Ergue-se e caminha até o quadro-negro.

       — Pois ora muito bem!

       Pega do giz e risca as palavras via e nihil,

       — Atenção, senhores. Uma vo-gal di-an-te de ou-tra vogai ou de um h é bre-ve. Não esqueçam! — E repete as palavras que escreveu. — Via... nihil Olhem que isto é muito importante, senhores! Poucos compreendem a importância da quantidade. A quantidade é uma das coisas mais sutis da língua latina. A observância da quantidade revela a finura do latinista...

       Os seus olhos de anjo passeiam por cima das cabeças inquietas. Não lhe parece que a classe tenha compreendido a gravidade do assunto. Estes moços de hoje não levam a sério as coisas respeitáveis do saber.

       — Os senhores compreendem a importância da quantidade? Olhem que eu insisto porque conheço muito doutor que se tem na conta de bom latinista, que não observa a quantidade.

       Põe o giz no rebordo do quadro-negro e limpa as mãos com o lenço.

       — Pois ora muito bem. Vamos ver... o senhor... (aponta para o estudante de óculos e buço cerrado). Que vem a ser a quantidade?

       O rapaz coça a cabeça, embaraçado, e seus olhos fitam o quadro-negro, vazios, inexpressivos, parados.

       Vinte segundos de silêncio. O professor espera. Os olhos mortos continuam olhando...

       Clarimundo torna a sentar-se à mesa. Os seus óculos refletem a lâmpada elétrica que pende do teto. Sua franja treme de indignação.

       — Sim, senhor! Não sabe uma coisa que acabo de explicar. Pois todos sairão reprovados se não observarem a quantidade. As bancas são muito severas e a quantidade é uma coisa importantíssima!

       Animado, põe-se a falar sobre a importância da quantidade. Esporeado pelas suas próprias palavras, embriagado pelos próprios argumentos, Clarimundo parece não querer mais parar o discurso. O que importa nesta hora é a quantidade.

       A aluna de boina azul entregou a sua virgindade ao namorado que agora recusa casar com ela. O sargento do exército sonha com os galões de tenente e sofre porque não pode compreender as equações de primeiro grau nem decorar as fórmulas da Química. O senhor de cabelos grisalhos suporta em silêncio a vergonha de ter de freqüentar aos quarenta anos um curso de preparatórios porque precisa dum diploma e precisa do diploma porque lhe é imprescindível ter uma profissão liberal a fim de ganhar dinheiro para sustentar a família numerosa. Aquele rapaz pálido, que olha medroso para o professor, trabalha dez horas por dia e ganha um ordenado miserável. Seu companheiro de carteira pensa ansioso na namorada que o espera à janela para a prosa de todas as noites. Num dos cantos da sala agita-se inquieto um rapazola louro que não sabe como há de pagar a pensão no fim do mês, pois não encontrou ainda emprego e não quer interromper os estudos.

       Mas neste instante só uma coisa importa: a quantidade. Todas as outras necessidades empalidecem, recuam para segundo plano. Lá fora a cidade vive, os bondes e os autos rolam, os homens caminham e lutam, os dramas acontecem, há angústias escondidas, gritos de dor e de contentamento, os poetas fazem versos à lua, os vagabundos passeiam pelos jardins, por onde vagam homens sem trabalho e sem rumo, nascem gênios e imbecis, mas o que importa agora para o Prof. Clarimundo é a quantidade. E ele se exalta, acalora e fala para lhe denunciar a gravidade. Argumenta com uma energia que não revela nas coisas práticas da vida. Há meses que pensa em pedir um aumento de ordenado ao diretor do curso, mas lhe faltam coragem e entusiasmo. Há duas semanas que anda precisando dum par de ligas novo: mas ainda não teve ânimo para entrar numa loja e enfrentar os caixeiros. Há vários dias que anda pensando em queixar-se no restaurante da comida que lhe mandam, mas falta-lhe oportunidade, energia, determinação.

       Mas a quantidade é uma coisa diferente. O professor sente-se capaz de lutar por ela, de cometer excessos, de matar até, se for preciso.

       — Pois ora muito bem! Já que ninguém sa...

       O tinir duma campainha lhe corta a palavra. A hora do Latim passou. Fiel ao horário, o Prof. Clarimundo cala-se. Pronunciar uma palavra mais da lição seria ilegal. O professor não gosta de infringir as leis.

       A colmeia de novo se assanha. Conversas explodem, livres. Os rapazes se levantam.

       Um aluno se aproxima de Clarimundo, com ar misterioso.

       — Professor...

       — Que é que há?

       — Desculpe, o senhor se esqueceu da gravata...

       Clarimundo leva a mão ao colarinho e sente um desfalecimento. Realmente: esqueceu a gravata. Uma onda de sangue lhe tinge o rosto. E ele tem a impressão de que de repente se encontra nu, completamente nu, numa praça pública cheia de gente.

 

       Um ritmo que nasceu na África, gemeu nos porões dos navios negreiros, e se repetiu depois — saudade misturada com a tristeza do cativeiro — sob os céus da América, nas plantações, sendo mais tarde estilizado por músicos de uma outra raça sofredora e sem pátria — agora está arrastando os pares que dançam no salão do Metrópole.

       O jazz toca um blue. O mulato do saxofone solta gemidos dolorosos. O negro do banjo marca a cadência sincopada. O rapaz magro do clarinete ergue para o alto o instrumento rebrilhante e solta guinchos histéricos. O da pancadaria agita os braços, rufa no tambor, sacode guizos, bate nos pratos e no bombo, parece um polvo a dar trabalho a todos os tentáculos.

       No espaço que existe entre as duas fileiras de colunas brancas ondula e fervilha um mar escuro de cabeças com manchas coloridas. As grandes luzes claras estão apagadas. A sala se acha mergulhada numa penumbra. Um zunzum permanente anda no ar de mistura com um coquetel feito dos perfumes mais diversos a se avolumarem numa onda cálida.

  1. Dodó passeia os olhos pela sala e por um instante fica na postura de um triunfador. De algum modo ela é a dona da festa. Esta animação, esta afluência de povo (Povo? Qual! Famílias de nossa melhor sociedade), o êxito da venda de ingressos, o arranjo artístico das mesas de chá, a boa qualidade da orquestra, a atenção dos garçons de calças pretas e dinner-jacket — tudo foi obra dela. Santa Teresinha deve estar contente lá no céu. Por isso D. Dodó está radiante de alegria aqui na terra.

     De vez em quando explodem gargalhadas pelas mesas onde grupos conversam animadamente.

       Chinita sente contra os seios, contra o ventre, contra as coxas, por cima da seda verde-jade do vestido, a pressão rija e quente do corpo de Salu. Ele a enlaça com força, espalma a mão enorme nas costas dela e, cabeças levemente encostadas, se vão ambos a deslizar à cadência do blue. O saxofone barítono conta uma história amargurada. O negro do banjo de repente acorda do marasmo para dedilhar, numa fúria súbita, as cordas do instrumento.

       A respiração de Salu, morna e regular, bafeja a orelha de Chinita, pondo-lhe um arrepio no corpo.

       Os pares colidem, se confundem, o mar continua a se agitar em ondas compassadas.

       — Chinita, estou com uma vontade maluca de te dar um beijo...

       A voz de Salu é profunda como o canto do saxofone. Mas não conta uma história triste. Ele falou assim baixinho naquele dia no jardim dos Monteiro, no banco debaixo da paineira. Chinita pensa no primeiro beijo. Ele se mostrou brusco e decidido como Clark Gable. Não pediu, não fez rodeios. Era noite mas não havia lua. O vento farfalhava nas árvores. Ela estava um pouco trêmula, como quem espera um grande acontecimento. Os lábios dele tinham uma aspereza úmida. Não foi um beijo, foi uma mordida. Lá de dentro veio uma voz: Chiniiita! E ela saiu a correr...

       Chinita agora sorri. (Nunca mais há de esquecer aquela noite.) A orquestra se cala e fica só o piano cantando a tristeza africana. Salu continua:

       — Olha, Chinita, o beijo é a coisa mais inocente do mundo. Apenas uma união de lábios... Que mal tem? No entanto os moralistas inventaram que é feio. Se a sociedade fosse realmente civilizada...

       De súbito um frenesi toma conta do jazz: todos os instrumentos começam a berrar — violinos, saxofones, o trombone, o clarim, o clarinete, o banjo e a pancadaria — e os uivos de desespero dos negros abafam as palavras de Salu.

       Bem bom — pensa ele — já estava me saindo asneira...

       De resto, com Chinita não se tem vontade de conversar. A presença dela convida ao amor, aos contatos. É uma provincianazinha tola, ignorante e besta. Mas bonita, apetitosa, fresca, provocante. Salu sente por ela um desejo quase feroz, Quando a vê julga-se obrigado a apertá-la, a mordê-la, a fazer-lhe carícias animais. Já compreendeu, porém, que Chinita, não recebendo de todo mal as suas expansões violentas, gostaria que ele também lhe falasse de coisas doces, do luar, de bangalô entre árvores, de poesia e casamento.

       Chinita afasta a cabeça, atirando-se para trás. (Pensa imediatamente em Norma Shearer.) Olha Salu bem nos olhos,

       — Nos encontramos amanhã no Imperial? — pergunta.

       — Talvez...

       A cara de Chinita escurece.

       — Por que talvez?

       — Se a tua mamãe e o teu papai vão... não contes comigo.

       — Ora! Mas por quê?

       A idéia da presença da mãe de Chinita enche Salu dum desgosto antecipado. Ele pensa na cara séria da “velha” que parece estar dizendo: “Então, seu Salu, quando é que o senhor se explica?”

       Chinita procura compor no rosto a mais impressionante expressão de zanga. Mas Salu aperta-a com violência contra o peito, encosta mais forte o rosto no rosto dela e numa surdina cariciosa e ao mesmo tempo contundente vai dizendo:

       — Eu quero você sozinha, só você, só, só, só...

       A música cessa com um gemido de agonia em que o saxofone fica chorando numa trêmula fermata. Estalam palmas.

       Leitão Leiria, sentado a uma mesa, chupa seu charuto e exclama:

      — Que indignidade!

       Acabam de contar-lhe uma manobra política do partido oposicionista. Os seus olhos chispam de indignação.

       Do outro lado da mesa, o Dr. Armênio, advogado e pretendente à mão da filha de Leitão Leiria, sorri um sorriso meloso de aprovação sem palavras. A seu lado, Honorato Madeira, quase morto de sono, pensa na sua casa e na sua cama. Consulta o relógio — dez horas.

       Tão cedo... Que caceteação!

       O Dr. Armênio afaga esta noite uma bela esperança. É possível que hoje Vera decida aceitá-lo. As suas indiretas, os seus madrigais velados hão de fazê-la compreender... Armênio apalpa o coração com um sentimento feliz de tranqüilidade. Ali no bolso de dentro do casaco está a sua caderneta de capa de couro onde ele anotou assuntos para palestra, frases completas durante a semana, citações de livros lidos. Daqui a pouco vai reler, recordar, para utilizar os apontamentos na palestra. Vera é tão instruída, tão linda, tão perpicaz. (Armênio não consegue nunca dizer perspicaz.)

       — O nosso partido está forte — garante Leitão Leiria, muito teso e importante na sua cadeira. Consciente de sua estatura física (é mais baixo que a mulher) procura compensá-la mantendo-se permanentemente empertigado. — O nosso partido se eleva como um Pão de Açúcar inabalável por cima desta tormenta desencadeada... de... de.. .

       Debate-se numa ânsia feroz em busca do termo apropriado. O Dr. Armênio sorri, compreendendo. A sua benevolência para com o provável futuro sogro é tão grande, que ele o socorre com um aceno de cabeça e um olhar de compreensão. Sim, não precisa procurar o termo porque ele sabe muito bem o que o seu ilustre e digno amigo quer dizer.

       Como a palavra precisa não lhe ocorre, Leitão Leiria dá um chupão violento no charuto e volta ao estribilho:

       — Que indignidade! Que indecência!

       Honorato Madeira faz um esforço épico para não fechar os olhos, para não se entregar ao sono. Mas será que a Gigina não quer ir embora ainda? Diabo! A sorte é que amanhã é domingo. . .

       — O nosso partido representa a estabilidade. A oposição é a ambição desenfreada.

       A fumaça do charuto sobe num espiral. O jazz rompe a tocar um samba carioca.

       Armênio pensa no verso que anotou:

“Ses yeux froids, où l’émail serti de bleu de Prusse, Ont l’éclat insolent et dur du diamant.”

       Verlaine. Que grande poeta! E como os versos se adaptam ao caso... Armênio pensa nos olhos de Vera. Têm o brilho insolente e duro do diamante...

       Os pares rodopiam à música reboleante do samba. O pistão faz um floreio agudíssimo e Honorato Madeira desperta.

       — Porque precisamos opor um dique a essa onda sangrenta do comunismo...

       Leitão Leiria alimenta a secreta esperança de ser eleito deputado pelo partido da situação, ajudado pelo clero.

       Os músicos tocam freneticamente, o suor a escorrer-lhes pelo rosto. (Um senhor magro de colarinho duro e alto comenta com um vizinho: “Que inverno esquisito este, nosso amigo, parece o forte de janeiro...”) O espírito moleque e despreocupado da gente da Favela se encarna por alguns minutos nos corpos dos bailarinos. O samba é repinicado, molengo, sinuoso, sensual, gaiato. Num dado momento abranda-se a fúria dos músicos e um mulatinho risonho, de cabelo frisado e lambuzado de brilhantina, avança pernóstico para a ponta do estrado e começa a cantar:

       O samba desceu do morro,

       prendeu fogo na cidade,

       ôi!

       O mar agora fervilha, numa crispação desordenada, como que animado por um sopro de fogo.

       A voz do mulato é safada. A cara do mulato está pálida de pó de arroz. O cantor olha com olhos quentes para as meninas que passam dançando. Ele agora é rei, domina o salão, o mensageiro que é da malandragem, portador dum convite ao prazer e à despreocupação. Não vale a pena a gente se amofinar. Deus é brasileiro. E no fim a gente morre mesmo. Toca pra gandaia, meu povo! o americano e o inglês estão mesmo pra nos emprestar dinheiro...

       E sorrindo com malícia, o mulato faz um floreio com que nunca nenhum Caruso jamais sonhou. A orquestra entra forte, o cantor volta para o fundo, as ondas continuam a subir e a descer.

       Num dos ângulos da sala o Cel. Pedrosa se defende heroicamente contra uma investida de moças. Elas falam todas ao mesmo tempo, envolvem Zé Maria como uma farândola de demônios.

       — Seja bonzinho!

       — Oh! compre, coronel!

       — ...para o asilo!

       — Só cinqüenta!

       E cada uma delas levanta no ar, na ponta dos dedos, uma flor. O coronel ri — hê! hê! hê! — quem havera de dizer que o Zé Maria que vendia bacalhau atrás do balcão... Ora, vejam só... Eu só queria ver era a cara do Madruga.

       — Compre, coronel.

       O coro de vozes esganiçadas, misturado com os berros da orquestra, ensurdece o homem que o bilhete 3601 projetou violentamente para dentro dum mundo encantado com o qual ele nem ousava sonhar.

       — Bueno, vou satisfazer todas...

       Os olhinhos miúdos do coronel brilham de alegria. Tira a carteira. As moças se aproximam ainda mais.

       — Primeiro eu!

       — Compre a minha!

       — Esta é a mais bonita!

       E com a mesma naturalidade com que, um ano atrás, ele dava tijolinhos de goiabada aos filhos dos fregueses, Zé Maria agora distribui cédulas de cinqüenta mil-réis entre as meninas de caridade. Em troca, elas lhe prendem flores na lapela com alfinetes. As maçãs do rosto tostado crescem num sorriso feliz.

       Chinita e Salu sentam-se a uma mesa.

       — Que é que você vai tomar? Guaraná?

       — Coquetel,

       Um garçon se acerca deles.

       — Dois Martinis — pede Salu.

       Contra o branco da larga coluna, Chinita vê recortar-se o busto do namorado. Como a roupa escura lhe dá uma aparência distinta! E esses olhos que penetram, essa maneira autoritária e decidida de olhar, esse ar de quem sabe que pode fazer tudo, conseguir tudo...

       Chinita contempla-o com amor. Enfim este é o ambiente com que ela vivia a sonhar em Jacarecanga. Uma vida de cinema. Festas com gente bem vestida, perfumes, jazz com pretos que tocam saxofone, coquetéis, rapazes atrevidos, automóveis, clubes, piscinas... Chinita não pode gozar de tudo isto simplesmente. Não sabe aceitar a realidade como um fato consumado e natural. É preciso comparar, imaginar... Quando em Jacarecanga dançava com os caixeirinhos do comércio no Recreio, ela entrecerrava os olhos e se imaginava num centro maior, num baile mais fino; em vez das paredes sem graça do clube, via espelhos que refletiam caras novas, diferentes e bonitas; em vez do Lucinho da Loja Central, quem estava dançando com ela era um moço elegante e educado da capital, que falava em livros, em viagens e usava perfumes caros. Agora aqui no salão do Metrópole, para melhor gozar da festa, Chinita precisa imaginar que está em Hollywood. Não é difícil... Basta olhar para Salu, para os garçons de dinner-jacket (o Cel. Pedrosa quando os viu deu uma risada — hê! hê! — e perguntou se os coletinhos dos garçons eram de morim), para o jazz, (o garçon traz os Martinis) para os coquetéis...

       Chinita toma um gole. Gostar propriamente dessa bebida ela não gosta. Mas coquetel é algo de tão chique, lembra tantos filmes...

       — Que tal? — pergunta Salu.

       — O. K.! — responde ela, contente por se ter lembrado de dizer oquêi, como nas fitas americanas.

       — E a farra na segunda-feira? — Salu lança a pergunta e encosta a cabeça na coluna. Uma pergunta ociosa, por pura falta de assunto, pois aqui em público não é possível beijar e apertar a namorada.

       — A farra lá de casa? Sai sempre na segunda e eu conto contigo...

      — Se você prometer ser boazinha comigo, eu vou.

       — Talvez...

       Chinita aproveita a oportunidade para retribuir o talvez...

       — Com promessas vagas não conte comigo.

       — E que é que queres dizer com “ser boazinha”?

       Salu agora se inclina para a frente, como quem vai fazer uma confidência. O seu rosto se fixa numa expressão decidida. As sobrancelhas grossas se cerram de maneira a ficarem quase unidas. Com um sorriso de canto de lábios, ele sugere:

       — Um passeio pelo parque, só nós dois. Tenho uma coisa muito importante pra te dizer...

       Chinita sente-se embalada ao som desta voz. Tudo isto é tão bom, tão parecido com o cinema...

       Os olhos de Salu brilham de desejo.

 

       Batem à porta.

       Contrariado, o Prof. Clarimundo levanta-se para atender ao chamado.

       — Quem é?

       Uma voz familiar:

       — Sou eu. Vim trazer o leite.

       Abre a porta.

       A viúva Mendonça, rechonchuda e sorridente, tem na mão uma bandeja com um copo de leite e um pedaço de bolo.

       — Ora... Não precisava ter esse incômodo...

       — Incômodo nenhum, professor.

       Ele toma da bandeja e fica parado, indeciso. Enquadrado pela porta, o vulto da viúva quase se dissolve na escuridão do fundo.

       — Bem... — faz ela.

       — Pois eu lhe fico muito grato.

       Silêncio. Embaraço. A viúva quer entrar num assunto:

       — Pois o senhor não há de ver?

       Os olhos do professor exprimem surpresa. Que quererá esta mulher, bom Deus?

       A viúva torna a falar:

       — A gente sempre tem uma coisa na vida pra se incomodar...

       O mote foi dado. Agora, naturalmente, o professor pergunta: Que foi que aconteceu? E então ela desembucha a história toda.

       Mas o silêncio continua. O professor espera, com a bandeja na mão. O copo treme, o leite transborda.

       — Pois professor, o senhor acredita que essa gente aí debaixo ainda não me pagaram?

       O professor apenas acredita em que a concordância de gente com pagaram é um atentado terrível à integridade física e moral da gramática. O resto não interessa...

       A viúva Mendonça está agora disposta a contar tudo:

       — A gente do João Benévolo... Três meses atrasados no aluguel. Ele, o água-morna, está desempregado. Ela costura mas não tira nada. Nem dá pra comer. Às vezes fico com pena e dou alguma coisa. Não! — A viúva se inflama de entusiasmo indignado. — Mas isto não pode durar! Preciso botar eles pra rua. Sou pobre, vivo do meu trabalho honesto e não posso ser assim explorada...

       O leite escorre pelas bordas do copo, empapando o bolo. Os olhos do professor estão fixos na cara da interlocutora, mas realmente estão vendo num quadro-negro imaginário o desenvolvimento de um teorema.

       Agora a voz da dona da casa é um sussurro confidencial:

       — Vem todas as noites visitar ela um sujeito alto mal-encarado. Dizem que foi namorado dela. Isso não está me cheirando bem. Ele está arrumado na vida, diz que dá dinheiro a juros. Aí tem dente de coelho. Eu sei que o João Benévolo não gosta da coisa... O sujeito vem todas as noites. O senhor imagina, professor, ainda por cima esse negócio...

       Clarimundo volta à realidade. Seus olhos, porém, continuam vazios. Ele não sabe nem quer saber quem é João Benévolo. Essas coisas triviais da vida não têm para ele existência real. O que importa é cumprir o horário, dar as lições honestamente, compreender Einstein e levar para diante aquele projeto grandioso de escrever o livro em que o habitante culto de Sírio vai descrever a Terra e a vida vistas do seu ângulo. O mais.. .

       — Não acha que tenho razão?

       O professor faz um sinal afirmativo. A viúva Mendonça pede desculpas por ter incomodado o seu hóspede. Se todos fossem como ele, homem quieto, sério, bom pagador...

       — Então boa noite, professor.

       — Boa noite. E obrigado.

       A mulher se vai. Clarimundo fecha a porta e atira-se, esquecendo o leite e o bolo, sobre Einstein.

      

       No Metrópole apagaram-se de novo as luzes fortes e volta a reinar o crepúsculo azul.

       A uma distância respeitável, com os dedos a tocar mal e mal as costas ossudas de Vera, Armênio luta com uma valsa lenta. Seus movimentos são tardos e difíceis. Custa-lhes seguir o ritmo da música. Suas figuras são pobres ou, antes, é uma única que se repetiria a infinito se a música não parasse. Mas a música pára. Felizmente.

       — Obrigada — diz Vera.

       E sorri um sorriso longínquo. Seus olhos ficam a procurar Chinita com avidez.

       Ses yeux froids, ou l’émail serti... (ou sorti — Armênio fica indeciso) de bleu de Prusse (ou Prousse). Armênio por causa das dúvidas não cita. Sorti ou serti? Prusse ou Prousse? Preciso tomar fosfatos.

       Contempla com uma admiração respeitosa o rosto de Vera. Ela não é propriamente, bonita. É esquisita, tem uma coisa diferente das outras. Cabeça miúda, corpo de rapaz, esbelta, gestos masculinos. Exquise. (Armênio gosta de pensar em francês.) Étrange. Fausse-maigre. Tem qualquer coisa de gata. Quelque chose de chatte. Sua voz é algo que lembra um choque de objetos de madeira. Voz de pau — será que se pode dizer assim? E é de boa família, gente de dinheiro, o pai promete fazer carreira na política. Armênio pode pensar à vontade, porque Vera está ausente... Étrange! Unique!

       Enfim os olhos de Vera encontram Chinita. O vestido verde-jade é inconfundível. Diabo! Ela está de novo com aquele insuportável Salu. Saberá que ele é um perdido, um aventureiro perigoso? Oh! Vera não compreende como ela mesma se possa interessar desta maneira tão exagerada e veemente por aquela “bobinha, oca e ignorante”.

       Num relâmpago Armênio traça mentalmente um plano de ataque:

       — Continua com o mesmo desprezo pelas reuniões sociais?

       — Continuo.

       A resposta vem rápida, quase impensada.

       — Decerto é porque não achou ainda o príncipe encantado dos seus olhos... (Le prince charmant... ou enchanté?)

       Os olhos de Vera parecem uma paisagem polar. E o seu desdém é ainda mais gelado.

       — Príncipe encantado? O senhor, Dr. Armênio, ainda é do tempo em que as moças acreditavam nessas bobagens?

       Armênio tem a impressão de que um vento vindo da Groenlândia lhe devasta o corpo e a alma. Insistez! Allez, mon ami! Attaquez!

       — Deixe lá... — diz ele com sua voz untuosa, — A senhorita tem escrúpulos de confessar as próprias fraquezas. A troco de que há de ser diferente das outras!

       O sorriso polar continua nos lábios dela. Armênio encontra uma brecha para entrar num assunto interessante, para cuja discussão está preparado.

       — Além do mais, o espírito das mulheres continua a ser o mesmo que era ao tempo das castelãs da Idade Média. Porque...

       Por delicadeza Vera volta os olhos para o interlocutor, embora não o veja realmente nem lhe escute as palavras. Está com o pensamento em Chinita. Se aquela diabinha compreendesse... Se soubesse que ao lhe dar a sua amizade ela lhe está dando um presente régio... Porque no fim de contas ela é uma criatura que tem miolos, ao passo que Chinita...

       — Claro que não! — continua o Dr. Armênio. — Como dizia Michelet, a mulher...

       Se ao menos — continua Vera a refletir — se ao menos ela conseguisse desviar Chinita daquele homem... Talvez um dia a outra venha a compreender... Antes eram tão mais chegadas... Viam-se mais seguido, Chinita passava as tardes naquele quarto violeta.

       — Não acha, senhorita? — continua Armênio. — Não acha? — repete, numa insistência polida.

       — Acho! — chicoteia Vera.

       O Dr. Armênio sorri, vitorioso. Enfin, vainqueur.

       — Eu sabia que no fim ia concordar comigo!

       Mas a sua alegria se dissipa imediatamente, porque o jazz repete a valsa difícil.

 

       O relógio bate onze horas. Laurentina a custo contém as lágrimas. Não fica bonito chorar na frente da visita.

       Sentado na sua cadeira, muito teso, Ponciano não desvia o olhar do rosto de Laurentina. Nos seus olhos brilha uma sensualidade fria, sem paixão, calculada. Todas as noites ele vem. Sabe que João Benévolo não gosta. Compreende que Laurentina não o encoraja. Mas vem. Ficam conversando, às vezes na presença do outro. Mas quase sempre João Benévolo sai. Laurentina costura. Às nove horas Napoleãozinho vai dormir. O silêncio cai sobre a rua. O assunto escasseia. Os diálogos morrem logo. Mas ele fica. Lembra-se do que se passou há dez anos. Ele era mais moço. Ela — mais moça e mais bonita. Órfã, morava em companhia de duas tias pobres que queriam a todo custo casá-la para se verem livres daquele peso morto. Ponciano era o candidato das titias. Laurentina o aceitava passivamente, sem repulsa mas sem amor. Serões monótonos. As tias se revezavam na guarda do par. Ficavam na sala de visitas fazendo croché e cochilando. Laurentina era a imagem viva do desânimo. Ponciano não sabia explicar que era que aquela moça tinha que o atraía tanto. Vontade de tê-la para si. (Era um homem sem poesia, sem ilusões, jamais cantara ao violão, nunca fizera versos.) Laurentina era desenxabida, chorava por qualquer motivo. Mesmo assim ele a desejava. A sala do noivado tinha mobílias antigas, cadeiras e um sofá com carretilhas nos pés, guardanapos de croché, um gato cinzento, retratos de gente antiga. Um dia apareceu João Benévolo. Escrevia coisinhas românticas em jornalecos. Laurentina se apaixonou por ele. De verdade. As tias não viam futuro no novo candidato, mas Laurentina dizia amá-lo. Todas as noites, quando recebia a visita do candidato oficial, derramava lágrimas. O desejo de Ponciano não diminuiu mas ele achou melhor retirar-se. Desapareceu. João Benévolo e Laurentina casaram-se. Passaram-se dez anos...

       Agora, sentado aqui nesta casa silenciosa, na frente duma Laurentina que não é mais a moça do passado mas que continua para ele a ser objeto de cobiça (uma cobiça que dormiu durante os nove anos de separação) — Ponciano se esforça por achar assunto.

       — O João, então, não achou nada ainda...

       Laurentina suspira.

       — Nada.

       — É o diabo.

       — É um horror.

       Outra vez o silêncio. E assim vai passando o tempo.

       Laurentina não sabe direito o que sente diante deste homem. Já compreendeu o que ele pretende, mas não tem coragem para reagir.

       Ele torna a falar.

       — Como vão de dinheiro?

       — Mal.

       — É o diabo.

       Novo suspiro. Ponciano continua:

       — Bom, não sou rico, mas posso ajudar...

       Laurentina fez um gesto de protesto:

       — Não se incomode, seu Ponciano, ora, havia de ter graça.

       — Faço questã...

       Ponciano se ergue e põe em cima da mesa uma nota de vinte mil-réis e torna a sentar-se.

       — Bote esse dinheiro no bolso — pede Laurentina. — Decerto o Janjoca arranja emprego hoje e no fim do mês já tem dinheiro — acrescenta, sem nenhuma convicção.

       — Não. Faço questã.

       Fita na mulher seus olhinhos frios.

       Outra vez o peso do silêncio acentuando o tique-taque do relógio. Os pensamentos correm na cabeça de Ponciano. Ele despe Laurentina. O corpo dela não deve ser tão rijo nem tão bem-feito como era há dez anos... Mas ela ainda é Laurentina. E há de ceder um dia. Pode levar tempo, não importa, mas há de ceder. Ele não esperou dez anos? Pode esperar mais dez dias, dez semanas, dez meses. É como uma cobra procurando hipnotizar o pinto. Parada, de longe... A cobra não se perturba. Sabe que o bicho há de vir vindo de mansinho para o seu papo, é questão apenas de tempo.

       Ruído de passos no corredor. Ponciano olha para o relógio. — Onze e quinze. Vou andando.

       Laurentina não diz nada.

       O homem se ergue e pega o chapéu. A porta se abre e João Benévolo entra. Fica contrariado por encontrar ainda Ponciano. Tem ímpetos de dizer-lhe um nome feio, de dar-lhe um sopapo. Mas Ponciano é grande e musculoso. A raiva ferve dentro do peito de João Benévolo mas sai logo pela boca transformada num assobio. Carnaval de Veneza.

       Ponciano explica:

       — Não repare, eu já ia saindo.

       Despede-se e vai embora. Seus passos se perdem longe, no silêncio da rua.

       — Então?   — Laurentina ergue os olhos para o marido numa interrogação ansiosa.

       — Nada.

       O dinheiro em cima da mesa...

       — Donde veio aquele dinheiro?

       Com o beiço esticado, Laurentina faz um sinal na direção da rua.

       — Que será que ele quer? Quais serão as tenções desse sujeito? — pergunta João Benévolo.

       Tina encolhe os ombros. Uma onda de energia embriaga Janjoca.

       — Não pegues nessa porcaria.

       — Eu não quis. Ele fez questão...

       — Pois não se pega. Amanhã se devolve. Era só o que faltava!

       Os seus olhos ficam por muito tempo fitos na nota. Ali está o dinheiro para o remédio de Napoleãozinho e para umas cinco refeições... Mas isto é um desaforo, um acinte...

       Vão deitar-se em silêncio.

 

       Perto de Virgínia uma senhora idosa assesta a luneta com uma importância fidalga para os pares que passam dançando.

       — Que é que a senhora acha desse namoro da Chinita com aquele moço grande? — pergunta ela, mostrando o par com os olhos.

     Virgínia é positiva:

       — Acho que dá em droga...

       A camaradagem é recente. Nasceu porque a senhora da luneta puxou conversa. É uma criatura de voz desagradável e seca.

       — Essa gente do Cel. Pedrosa entrou assim de repente na sociedade, não acha?

       Fala com cuidado, como quem apalpa o terreno.

       — A senhora quer saber uma coisa? — Virgínia encara firmemente a interlocutora. — Eles têm dinheiro e está tudo acabado. Ninguém pergunta mais nada.

       — Engraçado... — A outra entorta a cabeça e sorri um largo sorriso que revela as gengivas intumescidas e pálidas. — O fato é que eles estão entrando...

       — Comigo não.

       A ressalva de Virgínia é dura e ríspida.

       — Sim, acredito, mas com os outros. Vão inaugurar na segunda-feira o palacete deles nos Moinhos de Vento.

       — Somos quase vizinhos...

       — Dizem que custou seiscentas contos...

       — Dizem.

       — ...e que tem piscina, campo de tênis, parque muito grande. A casa, então, é uma verdadeira beleza.

       A senhora da luneta fala com ênfase, como se estivesse descrevendo o palácio dum marajá.

       Mas Virgínia não a escuta mais. Porque seus olhos deram com um fantasma: sorrindo, de dentes brancos num contraste com o moreno tostado do rosto. Alcides... Está de preto (que idéia essa de vir de smoking a uma festa em que todos os homens estão em traje de passeio?) e tem um cravo branco na lapela. Encosta-se a uma coluna e fica olhando com um ar divertido a massa humana que se move, coleante, como um grande molusco, ao compasso da música.

       O cantor do jazz agora está sentimental. Com voz arrastada chora:

       Barrio prateado por la luna...

     O tango argentino continua, o bandônion geme, os namorados que dançam ficam de olhos compridos, o violinista baixa a cabeça com amor e quase chega a beijar o instrumento. O momento é grave. O pistão, o trombone e a pancadaria estão num silêncio religioso.

       “Ele já me terá visto?” — pergunta Virgínia a si mesma. E sente que o coração bate com força, como há muito não batia. Isto é um absurdo, simplesmente não pode ser verdade, é ridículo, inconcebível, no entanto o prazer é tão estranho, tão requintado, e principalmente tão inesperado...

       A senhora da luneta torna a falar:

       — ...e banheiro com ladrilhos coloridos... vinte contos... móveis de jacarandá, candelabros. ..

       Os olhos de Alcides encontram os de Virgínia. Ele sorri e inclina a cabeça num cumprimento polido, faz uma pequena curvatura. Sorrindo, parece ainda mais moço, pouco mais velho que Noel. Virgínia pensa no filho. Oh! Isto é um absurdo... Ela devia negar-se a acreditar. Mas Alcides a contempla com a insistência de sempre. E seus olhos dizem, pedem tanta coisa. ..

       — ...uma Ceia de Cristo de tamanho natural.

       A música pára. Alcides sorri ainda.

 

       Da sua meia porta Cacilda olha o beco.

       Na esquina o vulto do guarda-civil. Na calçada fronteira, janelas com luz vermelha, mulheres às portas das casas. Passam homens: sós ou aos grupos. Uma francesa muito pintada convida:

       — Viens!

       Quando um entra, o vulto da mulher desaparece da janela, que se fecha. Pouco depois o homem sai. Passam-se alguns minutos, a luz vermelha torna a brilhar, a francesa reaparece e os convites se repetem:

       — Viens, bonitinho.

       Cacilda está cansada. Ela não chama... Se quiserem entrar, que entrem. Acha feio chamar. Só francesa e china de soldado é que convidam. Ela não.

       Num café da esquina berra um rádio, Carlos Gardel canta um tango. Perto da janela de Cacilda uma mulata gorda acompanha a melodia, cantarolando.

       No meio da rua dois homens discutem, aos gritos. Aparece um guarda e os acalma. O silêncio volta. A janela da francesa torna a fechar-se.

       — A Liana não tem vergonha — diz a mulata gorda.

       Na outra calçada estala uma risada debochada. Cacilda encolhe os ombros. Que importa? Já ganhou o dia. De manhã no apartamento do Edifício Colombo. Ao anoitecer, no rendez-vous da Travessa das Acácias. Vem-lhe à mente a cara congestionada do homenzinho. . .

       Um guarda apita longe. Gardel se cala. Um cachorro começa a latir. A janela de Liana torna a abrir-se. A francesa reaparece.

       Cacilda encolhe os ombros. Que me importa?

      

       O dia amanhece quente e luminoso.

       Clarimundo abre a janela para a manhã, e tem a impressão de que o mundo acaba de nascer. Cantam os sinos duma igreja próxima. As pombas do quintal fronteiro estão agitadas, batem asas, voejam, pousam arrulhando nos telhados da vizinhança. Cada vidraça é um espelho a reverberar claridade do sol. Roupas coloridas imóveis pendem de cordas, no pátio da casa do Cap. Mota. Mais ao fundo, uma fila de bananeiras em cujas folhas escorre uma luz verde e oleosa. O rio se confunde com o céu no mesmo azul rútilo, e só a pincelada lilás dos cerros é que diz onde termina um e o outro começa.

       Clarimundo olha para a casa fronteira. Lá está a velha de preto, às voltas com as coisas para o café. A mesa está posta: a toalha de xadrez vermelho, o bule azul. Agora chega a moça bonita. Mais adiante, na outra casa, o homem do gramofone lê um jornal: a máquina odiosa está a um canto, com o seu fone de campânula, calada: mas daqui a pouco na certa começa a berrar. Por enquanto só berram os filhos do homem, e como berram! O professor deixa a janela, num protesto.

       Batem à porta. É o rapaz do restaurante que vem trazer o café. Entra.

       — Bom dia.

       — Bom dia.

       Põe a bandeja em cima da mesa e volta-se para sair. O professor dirige o olhar para ele:

       — Ó moço!

       O garçon pára.

       — Como é o seu nome?

       O rapaz fica surpreendido. Já o disse mais de mil vezes. Chama-se Valério. O professor sempre esquece. Que homem cabuloso!

       — Seu Valério, o senhor está com muita pressa?

       O rapaz sorri, um pouco contrafeito. É gorjeta, na certa, — pensa.

       — Pressa mesmo não tenho... Por quê?

       Clarimundo esfrega as mãos e examina o outro com curiosidade científica.

       — Sente-se ali.

       Mostra uma cadeira. Depois de hesitar por alguns segundos, o moço do restaurante obedece.

       O professor vai até a janela, olha para fora mas nada vê do mundo objetivo. Coça o queixo e volta-se.

       — Quantos anos o senhor tem?

       — Dezanove.

       — Dezenove — corrige o professor. — Deze...ze. Muito bem.

       Muito duro na cadeira, visivelmente embaraçado, Valério espera. Que homem chato!

       — Já esteve na escola? — torna a perguntar o professor.

       — Já, sim senhor.

       — Pois ora muito bem.

       Clarimundo aponta para a bandeja.

       — Se o senhor segurar esta bandeja, largando-a logo depois, que é que acontece?

       — Ué... ela cai.

       — Muito bem. Mas por que é que cai?

       Hesitação.

       — Ora... cai porque eu larguei...

       — Mas não há outra razão?

       O embaraço de Valério aumenta. (Que sujeito pau, nem parece um professor de barba na cara. Já se viu?) Um colorido tênue já lhe vai aparecendo nas faces.

       — Não sei... eu... o...

       Clarimundo solta a pergunta como uma pedrada:

       — É a gravidade? O senhor nunca ouviu falar na lei da gravidade?

       O professor sorri. Um pensamento mau atravessa o espírito do rapaz. “O professor estará querendo me empulhar?”

       — Gravidade?

       Como um eco ele repete a palavra.

       Clarimundo suspira desalentado.

       — Está bem, seu Desidério, muito obrigado, pode ir.

       Com o ar dum ladrão relapso que o delegado solta por compaixão, depois duma reprimenda violenta, Valério sai, envergonhado e cheio de embaraço.

       Clarimundo simplesmente não pode compreender como as pessoas ignoram as coisas simples como seja o fenômeno que preside a queda dos corpos. Que esperança haverá para o seu livro num mundo de ignorantes e cegos? A gravidade, uma coisa corriqueira! Se fosse numa aula, esse Desidério... Tibério ou coisa que o valha levava na prova um zero bem redondo de tinta encarnada.

       O professor torna a acercar-se da janela. O vizinho está fazendo o gramofone funcionar. Aquele diabo (pensa Clarimundo) utiliza um dos inventos do nosso século mas é bem possível que nunca tenha ouvido falar na gravidade...

       Pela janela da casa fronteira vê o quadro de todas as manhãs. A mesa pequena com a velha, a filha e o filho ao redor. As mesmas caras, os mesmos objetos, decerto as mesmas palavras. Todos sabem que os corpos caem mas ninguém nunca ouviu falar na gravidade! Toda a gente anda de automóvel, escuta rádio, olha para o céu, vê os aviões, no entanto continua a ignorar a existência duma lei fundamental da Física.

       Clarimundo se volta para dentro do quarto. Pendente da parede, enquadrado por uma moldura barata, lá está o retrato de Einstein — página arrancada a uma revista. O professor contempla-o com admiração. E a expressão de seu rosto é de quem está intercedendo diante do mestre para que ele perdoe “aos que não sabem o que fazem”.

       Em cima da mesa, o café esfria, esquecido.

 

       Às oito horas a criada vem trazer o chocolate para os patrões que estão ainda deitados. Dodó já se levantou, lavou-se, escovou os dentes e pintou-se, tornando a voltar para a cama. Sempre faz assim. Não quer que o seu Teotônio a veja amarfanhada e desfigurada pelo sono. E agora está aqui, na sua camisa de seda lilás, com os ombros cobertos por uma mañanita cor-de-rosa feita pelas velhinhas do asilo.

       Teotônio acorda com relutância, recebe o sorriso da mulher, levanta-se, veste o seu quimono (comprou-o depois que leu uma entrevista em que certo magnata norte-americano aparecia, segundo dizia o repórter, “metido num confortável quimono de seda azul”). Vai até o banheiro, faz a sua ligeira toilette matinal e volta para a cama. É um velho costume do casal: tomar café sempre juntos. Nos domingos e dias santos, na cama; nos outros dias, à mesa da copa. Não tinham prometido perante o padre, no dia do casamento, que um seria a sombra do outro?

       Dodó passa a taça fumegante para o marido. Ele agradece com um sorriso. Ela toma da sua e começam ambos a sorver o chocolate com lenta delícia. Os biscoitinhos estão saborosos — elogia Teotônio. A mulher diz o nome da confeitaria donde vieram.

       O sol escorre por entre as cortinas cor de oliva. Por cima da cabeceira da cama, Santa Teresinha, dentro duma moldura dourada, mostra, com o seu sorriso angélico, sua cruz e suas flores, numa litogravura envernizada.

       Junto com o chocolate a criada trouxe os jornais da manhã.

       — Já procuraste a notícia da nossa festa?

       Dodó sacode a cabeça. Não procurou mas vai procurar. E enquanto o marido fica rapando com a colher o fundo da taça, (— Estás bem como um menino guloso, Tônio! Imagina só se alguma pessoa de fora te visse!) Dodó abre o jornal e passa os olhos pelas notas sociais.

       Lá está a notícia! Uma coluna compacta.

       “Revestiu-se dum brilho invulgar.”

       Ela sorri. Não é exagero: um brilho invulgar. Não nos fariam nenhum favor em dizer isso. A notícia se espicha, os termos de praxe. Coisas sabidas: a qualidade do jazz, a afluência do “que a nossa sociedade tem de mais fino e representativo”. Mas os olhos de Dodó procuram, procuram uma coisa que ela própria tem vergonha de confessar a si mesma... Mas procuram assim mesmo. A vaidade é um pecado. E enquanto os seus olhos passeiam pela notícia, ela procura não procurar, procura não desejar encontrar, tenta passar a outros tópicos... É uma luta entre o Anjo da Guarda e Satanás. O Anjo da Guarda murmura: “Dodó, uma cristã verdadeira não deve ter vaidades mundanas. Passa adiante, olha a lista de nascimentos, de óbitos, de viajantes, os programas de cinema, mas não procures, não procures mais...” Satanás porém, salta com sua carantonha horrível e diz: “Procura, procura, porque isso é bom, a gente sente uma coisa agradável dentro do peito, parece que incha, fica mais contente. Procura, Dodó, que mal há nisso, que pecado?” Mas o Anjo não abandona a sua protegida. E vai vencer. Porque Dodó baixa os olhos depressa para ler outra notícia. Mas é tarde... Ela já viu. Sem querer; não tem culpa. Ali está o nome dela...

“o nome da Exma. Sra. D. Dodó Leitão Leiria, um dos mais finos vultos do nosso set, verdadeira figura de romana, a mãe dos pobrezinhos, uma personalidade a cuja inteligência, esforço, dedicação e qualidades de coração devemos a criação da maioria dos nossos hospitais e asilos...”

       A comoção lhe sobe em forma de maçã até a garganta. Seus olhos se turvam.

       Enquanto isso, Teotônio Leitão Leiria, silencioso, de braços cruzados, olha para o forro e rumina um velho ressentimento.

       — Tônio, meu filho, olha...

       A voz de Dodó está trêmula. O seu segundo queixo também treme. Passa o jornal para o marido, mostrando com o dedo a passagem comovente.

       — Vê como eles são bondosos...

       Teotônio lê.

       — Dodó, eles não fazem mais que dizer a verdade.

       Elogiando assim, Teotônio de alguma maneira está pedindo desculpas, está se reabilitando da aventura amorosa da noite anterior.

       Aparece no canto do olho direito de D. Dodó uma lágrima fulgurante, que espia, indecisa, envergonhada e de repente perdendo todo o acanhamento rola, decidida, face abaixo, indo morrer no canto da boca.

  1. Dodó domina a comoção e continua a ler as notas sociais. Um baile do Filosofia para a próxima quinzena. Um garden-party no Excursionista. Acha-se em festa o lar do Dr.... Aniversário...

       Teotônio levanta-se e começa a passear dum lado para outro no quarto, com as mãos metidas fortemente nos bolsos do quimono (bem como Mr. W. L. W. Simpson, o magnata, quando caminhava de cima para baixo no seu apartamento, dizendo para o repórter: “Sou manifestante contrário à N. R. A., porque a economia dirigida...”)

  1. Dodó estranha.

       — Que é que tens, meu filho?

       — Nada, é que estou pensando...

       A mulher é toda interesse e carinho.

       — Não podes dizer?

       Teotônio continua a caminhar, muito perfilado, olhando de quando em quando com o rabo dos olhos para o espelho do penteador.

       — Estás sentindo alguma dor? — insiste D. Dodó, já aflita.

       Não. Teotônio não quer dizer. São assuntos íntimos... idéias... Leva a mão à cabeça, como quem diz: É uma coisa horrível ter idéias, elas borbulham, fervem, quase nos arrebentam o cérebro! D. Dodó está desolada, imaginando desastres. Mas de repente Leitão Leiria estaca na frente da mulher e desabafa:

       — Minha querida, eu vou te ser franco... — Pausa. Olha de viés para o espelho. — Ando preocupado...

       — O estômago outra vez?

       — Não... Antes fosse. É um caso de consciência.

       — De consciência?

       Silêncio. Um silêncio de catástrofe, de fim de mundo. Depois, com voz teatral, Teotônio prossegue:

       — Já reparaste no plano do Cel. Pedrosa?

       — Cel. Pedrosa?

       O ar de Dodó é de quem nunca ouviu pronunciar este nome.

       — Sim, do Zé Maria Pedrosa, o pai da Chinita.

       — Mas que plano?

       — A coisa não está bem definida, clara, não é qualquer um que enxerga. É uma manobra velada, mas um olho experimentado e lúcido descobre logo...

       O auto-elogio é claro. Pausa.

       — Diga duma vez, meu filho.

       Teotônio dá mais uma volta pelo quarto, pára na frente do espelho, ajusta o cinto do quimono, passa a mão pelo rosto e volta-se para a mulher. Agora o seu tom de voz é mais natural:

       — Pois o Cel. Pedrosa anda adulando o Arcebispo. A escada para a ascensão é Monsenhor Gross!

  1. Dodó estremece ao ouvir o nome do amigo da casa.

       — Eu percebi o jogo. Convites para almoço, auxílio para as obras da Catedral... Ontem no Metrópole o Madeira me garantiu que Monsenhor Gross já almoçou na casa dos Pedrosas...

  1. Dodó está chocada. Isto equivale a um roubo, uma violação.

       Teotônio continua a despejar.

       — A coisa é clara... O Pedrosa está se impondo para conseguir posição na política. Dinheiro não é... Ele tem que chegue. Religião sincera também não... e eu depois te digo por quê. Então que é? Interesse político na certa. Eu não me engano Dodó, tenho olho clínico, enxergo longe...

       Dodó sacode a cabeça.

       — O que me contaram ontem me deixou de boca aberta...

       Pausa dramática.

       — O Armênio me disse que o Pedrosa, no dia em que completar vinte e cinco anos de casado, vai dar vinte e cinco contos de réis para as obras da Catedral...

       Ao dizer isto, Teotônio bate violentamente com a palma da mão na coxa. E senta-se, como que compelido pelo peso da própria confissão. Ali estava o grande golpe. O mais que ele, Leitão Leiria, dera para as obras da Catedral haviam sido dez contos, pagáveis em prestações semestrais. Mas vinte e cinco contos duma sentada, era sufocante, era de rachar! No terreno das idéias, no domínio da inteligência, aquele caboclo boçal que era Zé Maria Pedrosa não podia terçar armas com ele. Mas em matéria de dinheiro era forçoso reconhecer que o homem levava vantagem. Nisso residia principalmente o ressentimento de Teotônio.

  1. Dodó, ajudada pelo Anjo, controla os seus sentimentos e diz com espírito cristão:

       — Ora, Teotônio, todos são filhos de Deus. A troco de que o Cel. Pedrosa não pode ser amigo de Monsenhor Gross e ter posição na política? Em todo o caso os vinte e cinco contos dele vão ajudar muito a construção da nossa rica Catedral...

       Leitão Leiria se ergue. A sua voz é um sussurro confidencial quando ele desfere o tiro de misericórdia:

       — Mas acontece que Zé Maria Pedrosa não é digno dessa amizade, não merece entrar no nosso meio...

       Aproxima-se da mulher e remata:

       — Ele tem uma amante.

       Uma amante! Não é preciso dizer mais nada. Para D. Dodó foi dita a última palavra. Agora tudo cessa diante desta monstruosidade. Uma amante!

       Teotônio explica. Ele sabe, tem a certeza, viu. Ela abriu uma conta na loja. Chama-se Paulette, ou Nanette... Francesa, loura, mora num apartamento... Contaram-lhe detalhes. (Oh! Ele ouviu com repugnância, não gosta dessas indiscrições, não tem nada com a vida dos outros.) Dizem que ela faz o diabo com o coronel. Houve quem visse (Dodó, desculpa este detalhe escabroso, mas é só para veres a indignidade...) a tal Paulette ou Nanette montada em cima do coronel, como se ele fosse um cavalo...

      A criada bate à porta. Pode entrar! A rapariga vem buscar a bandeja com as xícaras vazias. Marido e mulher ficam a se entreolhar em silêncio. Passa-se um minuto. Depois que a criada sai, quem fala primeiro é D. Dodó:

       — Meu filho, amanhã é a festa deles. Bodas de prata. Mandaram convite. Não achas que devemos ir, por delicadeza?

       O que move D. Dodó não é propriamente um sentimento de delicadeza. É que ela tem uma curiosidade enorme de conhecer o palacete que se vai inaugurar. Contam tanta coisa... Parque, piscina, pinturas suntuosas, mobílias à Luís XV...

       Teotônio está pensativo.

       — Será direito? Depois do que sabemos...

       Seria bonito — pensa ele — romper duma vez, descobrir as baterias (Teotônio tem predileção pelas imagens guerreiras), travar combate em campo aberto. Mas Zé Maria é freguês que gasta em média dois contos por mês na loja: oitocentos com a família e um conto e duzentos com a amante.

       Toma uma resolução.

       — Vamos, como se nada tivesse acontecido. Enfim, a família não tem culpa das indecências do pai.

       Olha para o espelho e sorri para si mesmo, numa auto-aprovação muda.

 

       Na casa do tuberculoso a mulher de rosto de pedra abre a janela que dá para o quintal. O sol entra alegre. Maximiliano sorri. Ver o sol é o prazer de todas as manhãs. A luz salta para dentro, inunda tudo. Depois como que vai recuando quando entardece. A sombra vem vindo, descendo pela parede; de tardezinha a luz tem a forma da janela, depois vai minguando até sumir-se. É uma distração olhar aquilo. Não pode levantar-se. Não acha gosto em ler: as letras do jornal cansam os olhos. Assim ele se distrai olhando o sol. Quando não há sol, nem esse brinquedo ele tem... Os filhos correm, a mãe não deixa que eles entrem no quarto. Maximiliano só lhes ouve o barulho, riso ou choro, na varanda. A vida rola... Os vizinhos mandam coisas: doces, leite, pão... Vem às vezes um médico que o examina com precaução, tocando-o com a ponta dos dedos, de longe, medroso. E a cara do outro não encoraja.

       Maximiliano espera. Os dias são longos. Quando trabalhava na loja, achava que o relógio andava devagar. Que dizer da marcha das horas depois que ele adoeceu? Os ruídos da rua chegam até aqui: buzinas, músicas, vozes. Os raros visitantes ficam à porta. Ele compreende... Medo do contágio. Ele sabe, não tem raiva, não se queixa. O que tem é pena da mulher e dos filhos. O melhor mesmo é que a morte venha logo.

       A mulher não tem serventia, não sabe fazer nada: moça criada com luxo, apesar de pobre. No princípio tudo correu bem, viviam relativamente bem com seu ordenado modesto. Um dia, aquela dor no peito, aquela fraqueza, falta de apetite, tosse. Havia um caso de tuberculose na família. Mas ele não fez caso. Continuou trabalhando forte. Duma feita apanhou chuva. Daí por diante foi piorando. Deixou de ir à loja cinco dias seguidos. Nas outras semanas teve outras falhas. O patrão disse que não era “pai de cascudo” e mandou-o procurar outro emprego. Foi. Não encontrou. A doença progredia. O médico ficou com pena, aconselhou mudança de ar, pelo menos mudança de casa. Mas com que dinheiro? Só rindo, mesmo... Depois... ele não se lembra de mais nada. Tudo começou a piorar com mais rapidez: contas, dificuldades, desconforto. Perdeu a noção do tempo, caiu na cama e não se ergueu mais.

       A mulher não se queixa. Quase não fala. Um irmão dela ajuda às vezes com algum dinheiro, quando pode... As economias acabaram. O diabo é que a morte está tardando. Se ele fosse embora cedo, daria menos trabalho, menos despesas, não haveria tanto perigo para os de casa.

       Maximiliano compreende tudo isso. E tem coragem. É quase com alegria que recebe este sol novo.

       A mulher diz que a manhã está bonita. Mas diz sem entusiasmo. A cara dela fica mais pálida, mais amarela (um amarelo esverdinhado) contra a luz.

       — Como vão os meninos?

       Pergunta pelos filhos como se eles morassem noutra cidade.

       — Vão bem.

       — O Pidoca melhorou do pé?

       — Botei creolina. Tá melhor.

       — Cuidado com o Bidinho, está magrinho, não deixes ele andar de pé no chão, pode apanhar umidade.

       Ela faz um sinal com a cabeça e pensa nos sapatos do Bidinho, que já têm dois buracões na sola. Sai e volta pouco depois com o leite quente.

       Maximiliano estende a mão para apanhar a caneca e fica espantado da magreza do seu pulso, da transparência de seus dedos ossudos.

       E lembra-se de que um dia, num baile, derrubou com um soco um mulato atrevido que lhe queria roubar o par. Bons tempos! Ele tinha orgulho do seu cabelo crespo e dos seus músculos. Remava num clube de regatas. Chegou a ganhar um campeonato.

       Agora mal tem força para segurar a caneca de leite...

 

       Na casa de João Benévolo hoje amanhece mais tarde.

       Para que pular da cama cedo? Há muito que se aboliu o café da manhã, por economia. Quanto mais cedo a gente se levanta, mais fome sente.

       João Benévolo e a mulher estão deitados de olhos abertos. Ela olha para o teto, pensando na sua desgraça. Ele está em Paris e é D’Artagnan. Laurentina rumina suas misérias: as figuras dos credores desfilam uma a uma em sua mente. A viúva Mendonça, pequenina, fazendo caretas. O italiano do armazém, de cara grande e vermelha. O leiteiro magro e pálido de dentes podres. O homem das frutas, de bigodões compridos, sobrancelhas cerradas.

       D’Artagnan corre pelas ruas de Paris. Que homem! ninguém tem coragem de rir dele. Se algum burguesão gordo, da porta de sua loja ousar contemplá-lo com desprezo — ai! — D’Artagnan lhe dará o castigo merecido. Todos os credores foram mortos. O mundo real foi abolido. Agora é Paris, a coragem, a força, a aventura. Correrias pelos becos, lutas com os guardas do Cardeal, duelos...

       O estômago de João Benévolo solta um ronco. Ê um protesto que quer dizer: “Estou com fome”. João Benévolo volta à realidade. O sonho se apaga. Ele agora sente a presença da mulher a seu lado, o filho na cama menor, junto da parede.

       Seu rosto fica ainda mais lívido dentro da luz forte que entra pela fresta da janela.

       Que horas serão? — pergunta Janjoca a si mesmo.

       Como se tivesse ouvido a pergunta interior, o relógio lá da varanda responde com sua voz estertorosa e longa, dando nove gemidos.

       Laurentina não pode conter as lágrimas. O relógio batendo assim no silêncio da casa... como há muitos anos na varanda grande das titias, ela ainda solteira, o gato cinzento, o retrato de vovó na parede da sala de visitas... Laurentina afunda a cabeça no travesseiro e começa a soluçar.

       — Que é isso, Tina?

       É o mais que João Benévolo pode dizer. E diz simplesmente como quem dá uma satisfação, como quem quer demonstrar um interesse que não sente. A sua Tina é dum outro mundo, dum mundo em que ele é apenas visitante. João Benévolo agora mora em Paris. Quando leu As Mil e Uma Noites, foi Aladim e morou em Bagdá. Já viajou num veleiro e foi Simbad. Só é João Benévolo às vezes, quando as solicitações do mundo real são duma insistência irresistível. No tempo da loja, trabalhava as suas oito horas com um sacrifício enorme. Animava-o a esperança dos serões quietos em casa quando se podia atufar novelas adentro. E era metendo-se na pele dos heróis de romance que ele se vingava das impertinências dos fregueses do Bazar Continental, das perseguições do gerente e da magreza do ordenado.

       Uma vez — João Benévolo nunca mais há de esquecer — a loja estava cheia. Sábado. Entrava e saía gente, a casa parecia um formigueiro. De repente entrou uma mulher vestida de vermelho berrante. Ele (paixão pelas cores vivas) ficou assanhado. Sua imaginação começou a trabalhar. Ela era bonita, morena, parecia uma princesa de Istambul. João Benévolo sentiu uma coisa esquisita e ficou pensando... Se ela viesse, pedisse uma coisa, olhasse bem para ele e dissesse:

       — Mas eu já vos vi. Onde foi?

       (João Benévolo não admite no mundo do romance outro tratamento que não seja o de vós.)

       — Eu também vos conheço. Não sois a Princesa Miriam?

       Os olhos dela se acenderiam. Sim, era a Princesa Miriam. E ele, quem era?

       — Sou o Príncipe Bey.

       Andava disfarçado, numa aventura tremenda. Conversariam. Combinariam um encontro à noite, num jardim, ao luar.

       Mas de repente uma voz estrugiu bem junto do ouvido dele. Vermelho, indignado, gesticulando, o gerente cresceu para cima do Príncipe Bey:

       — Seu Benévolo, então isso é jeito de tratar as freguesas! Seu... seu...

       Tremeu, tremeu e não disse mais nada. João Benévolo compreendeu o palavrão que ficou atravessado na garganta do gerente. A mulher de vermelho havia desaparecido.

       Laurentina ainda está a soluçar. João Benévolo não encontra palavras de consolo. Para ele tudo está irremediavelmente perdido. Sem emprego, sem dinheiro, sem esperança... Sem esperança? Secretamente, ele ainda espera um milagre, desses que acontecem nos romances.

       Por exemplo:

       Ele vai por uma rua, as mãos nos bolsos, assobiando triste, quando de repente o auto do prefeito surge numa esquina. Um bandido de emboscada levanta o braço na ponta do qual brilha um revólver. Ele compreende tudo num relance. Salta, agarra a mão do bandido, tira-lhe o revólver, subjuga-o... O automóvel grande pára, o prefeito desce e diz:

       — Salvaste-me a vida, patrício. Como te chamas?

       Abraços. Junta-se povo. Felicitações. Vivas. No dia seguinte aparece um homem solene:

       — Tenho a honra de comunicar que V. Excia. está nomeado para um cargo muito importante...

       Napoleãozinho solta um gemido que vem apagar a imagem do cavalheiro solene que trouxe a notícia do emprego salvador.

       O rosto de Laurentina, molhado de lágrimas, se volta para o filho:

       — Está doendo alguma coisa, meu filhinho?

       Napoleão fala tremido por entre soluços:

       — Tá... tá... doendo aqui...

       Põe a mão sobre o estômago.

       Laurentina levanta-se, beija o filho, puxa a coberta até o pescoço dele e se volta para o marido.

       — Janjoca, vai na farmácia.

       — Pra quê?

       — Traz elixir paringórico.

       — E o dinheiro?

       De repente, quase ao mesmo tempo, os dois se lembram... Em cima da mesa da varanda deve estar ainda a nota de vinte mil-réis que Ponciano deixou.

       João Benévolo lava o rosto (o espelho lhe mostra uma cara com barba de três dias), veste-se e sai do quarto.

       Na varanda pára junto da mesa. A cédula é bem nova. Vinte mil-réis. O elixir paregórico deve custar um mil-réis no máximo. Sobram dezenove. Dezenove... Dez mil-réis para pagar a conta do leite para que o leiteiro continue fornecendo e o Napoleãozinho não fique sem leite. Sobram ainda nove. Dois para o almoço, dois para o jantar... Os cinco para comer amanhã... Depois...

       João Benévolo faz um gesto de indiferença, como se tivesse formulado seus pensamentos em palavras.

       Mas a imagem de Ponciano lhe aparece na mente: odioso, olhinhos miúdos e brilhantes, fala asmática, palito na boca, nariz picado de bexigas, calmo, duma calma que deixa a gente louco de raiva. E depois, a troco de que ele continua fazendo as suas visitas? Que será que pensa de Laurentina?

       Não. Ele não deve nem encostar a mão neste dinheiro... Não é direito. Se ele tocar na nota é porque concorda com a situação que o outro quer criar. É como se estivesse vendendo a própria mulher. Não. (Em imaginação João Benévolo pega Ponciano pela gola do casaco, dá-lhe dois bofetões e joga-o no olho da rua. Para ele não ser maroto!) Mas, tocar no dinheiro? Nunca,

       Vem do quarto a voz da mulher:

       — Vai duma vez, o Napoleãozinho está gemendo.

       João Benévolo se empertiga. É preciso ter coragem. Não deve deixar que a miséria lhe enfraqueça o moral. Toma a resolução de daqui por diante ser duro, inflexível.

       — Não pego neste dinheiro. Não, não e não!

       Mas a voz que diz estas palavras não parece a de quem está resolvido a ser inflexível. É macia e sem vontade.

       Laurentina aparece à porta.

       — Mas Janjoca, tu vais deixar o nosso filho ficar sofrendo?

       Tina sempre fecha os olhos quando fala.

       — Não é direito, não fica bem...

       — Mas a gente devolve quando puder.

       — Não.

       Laurentina começa a chorar de novo. E as lágrimas que ela derrama vão derretendo aos poucos a falsa dureza de João Benévolo. Ele faz uma última ressalva:

       — Por mim eu nunca que encostava o dedo neste dinheiro. Que diabo! A gente é pobre mas tem a sua vergonha.

       Vinte mil-réis. A conta do leiteiro. Comida para um dia e meio.

     João Benévolo espera que ela diga mais alguma coisa, que reforce o pedido, para que ele depois ponha o dinheiro no bolso com a consciência mais leve.

       Laurentina, porém, permanece imóvel e calada.

       — Se o Ponciano vier hoje, — diz ele com voz sem cor — eu devolvo os dezenove mil-réis e digo que vou pagar o que falta quando encontrar emprego.

       Com a ponta dos dedos bota a cédula no bolso, soltando um suspiro. E sai a assobiar o Carnaval de Veneza. De tristeza, de vergonha.

 

       Virginia Madeira tira da gaveta do penteador, com o cuidado de quem lida com um escrínio de jóias preciosas, uma caixinha de lata verde em que se lê em letras douradas: Pérolas Juventus. No lado de dentro da tampa os fabricantes fazem promessas tão tentadoras como a que Mefistófeles fez a Fausto. Os olhos de Virgínia passam depressa por cima de vários períodos de letras miudinhas em que ressaltam as palavras hormônios, secreções das glândulas endócrinas para se deterem interessados e fixos neste trecho:

“Quem tomar as Pérolas Juventus de acordo com a bula, verá no fim do primeiro mês que sua pele ganha uma frescura nova, as rugas começam a desaparecer, os seios endurecem...”

       Um ronco mais forte de Honorato faz Virgínia sobressaltar-se. Ela se volta para a cama. De barriga para o ar, roncando como um porco, o marido dorme. O ventre bojudo sobe e desce ao compasso da respiração. A combinação é curiosa: o acolchoado amarelo, o pijama listrado azul e branco, a cara gorducha, lustrosa e vermelha de Honorato, o travesseiro muito branco, o escuro polido da madeira da cama, e atrás, contra a parede, o panneau de seda negra, com desenhos azuis.

       Em obediência à bula, Virgínia toma uma pérola. Senta-se na frente do espelho e se encontra de repente diante da sua verdadeira personalidade: Virgínia Matos Madeira, de quarenta e cinco anos, um resto muito pálido de beleza no rosto, princípios de rugas e de duplo-queixo, alguns fios de cabelos brancos a aparecerem malvados, iludindo a vigilância das tinturas. Não é a Virgínia que ela sente ser sempre que está longe dos espelhos. Porque no fundo ela permanece a mesma rapariga de vinte anos que chamava a atenção nos bailes, “que vendia caro os seus olhares”, que rejeitava namorados, sendo o orgulho da sua mãe e da sua rua. Os anos passaram, Noel nasceu, cresceu, formou-se, Honorato engordou, ganhou dinheiro e perdeu o cabelo, a família mudou três vezes de casa... Durante duas casas durou o reinado despótico da preta Angélica. Virgínia tinha horror às responsabilidades de mãe de família. Foi por isso que não se opôs a que a velha tomasse conta de tudo. Era uma preta enérgica e autoritária, neta de escravos do avô de Honorato. Nos primeiros meses do casamento, preocupada com festas, vestidos e relações, Virgínia esqueceu a casa. Tia Angélica firmou então o seu governo. Desde madrugada andava de pé dum lado para outro, dando ordens para a criadagem. Era ela quem determinava tudo, quem cuidava da conta do armazém, das roupas do casal, do jardim. Quando Noel nasceu, tia Angélica tomou também conta dele. Não se fazia nada sem consultar a rainha preta.

       — Tia Angélica, que é que você acha, compramos ou não compramos uma chácara na Tristeza?

       A voz da negra vinha lá do fundo da garganta, esfarelada e áspera:

       — Compra nada. Não precisa.

       E não se comprava. Noel cresceu. Tia Angélica lhe contava histórias de fadas, dava-lhe mimos, prendia-o em casa.

       — Tia Angélica, deixe esse menino ir brincar na rua senão ele se cria um maricas! — observava Virgínia.

       Mas Angélica investia para ela, agressiva como uma galinha que defende os seus pintinhos.

       — Não deixo! O lugar dele é dentro de casa! Noel não vai se misturar com os moleques.

       Quando Virgínia cansou da vida de festas e relações (canseiras que duravam apenas alguns meses, findos os quais recrudescia a paixão pelas festas, pelas relações novas e pelas novidades) voltou-se para a vida do lar. Quis tomar conta de tudo, mas era tarde. Tia Angélica estava firme no poder, defendeu-se com ferocidade. Houve cenas, Honorato ficava-se nos cantos, aniquilado, sem coragem de tomar partido, sem ânimo para dizer uma palavra. Angélica, porém, foi inflexível.

       Virgínia chorou nos primeiros dias. Julgou-se a mulher mais infeliz do mundo. Chegou a aborrecer o filho, só porque Noel ficava do lado da preta velha. Não era ela quem lhe contava histórias, quem lhe dava banho, quem lhe comprava doces, quem o ninava enquanto a mãe, toda bonita e perfumada, andava pelos bailes e teatros? Mas no fim de algumas semanas Virgínia se acomodou à situação. Por fim, esqueceu-a. Nas vésperas de Noel entrar para a Academia (tinha feito preparatórios brilhantes) tia Angélica morreu. Foi como se de repente desaparecesse um rei que os súditos julgassem insubstituível. Noel chorou sentidamente. Honorato derramou algumas lágrimas que não foram muitas nem muito sentidas. Sentir demais a morte da preta velha que o criara — pensou ele — seria de algum modo desfeitear a mulher que recebera legalmente diante do altar, a mulher, com quem no fim de contas tinha de viver o resto da vida.

       Ao saber da morte de Angélica, Virgínia lamentou a perda da criada mas bem no fundo, duma maneira quase inconsciente, festejou o desaparecimento da rival. Não teve coragem de tomar conta da casa. O número de criados foi então duplicado. Noel entrou para a Academia. Os anos passaram. Honorato teve febre tifóide, ficou muito mal, emagreceu, sarou, tornou a engordar ainda mais do que antes. Noel se formou. Durante todos esses anos fizeram-se novas amizades, o casal foi duas vezes ao Rio de Janeiro, comprou um Ford que mais tarde foi trocado por um Packard e agora Virgínia está na frente do espelho, embaraçada e tonta, porque não pode compreender o mistério... A imagem que o vidro lhe mostra diz que se passaram muitos anos, que ela não é mais jovem, que seus seios estão caídos, que sua pele é flácida, os cabelos quase grisalhos... Mas se ela fecha os olhos, é como se conseguisse abolir todo o passado, fazer retroceder o tempo, pois interiormente continua a ser a mesma de antigamente. Nem chegou a ficar adulta. O mesmo gosto pelas festas, pelos vestidos, pela vida em sociedade, pelas novas relações. É como se não tivesse acontecido nada, como se o tempo houvesse parado bem naquele dia em que, vestida de branco, ela marchou, pelo braço de Honorato, rumo do altar, na Igreja das Dores... Vinte e quatro anos! Era como se fosse apenas vinte e quatro dias. Houve períodos de sua vida que foram como que um vácuo, sem cor, sem sabor, sem sentidos. Em outros houve tempestades, apreensões... mas ela viveu de verdade. O caso do Cap. Brutus, por exemplo (Virgínia recorda). Encontrou-o na casa dos Marques Pinto, numa festa de aniversário. Foram apresentados. Ele era alto, envergava um uniforme bem talhado, falava com uma voz poderosa, soltava as palavras como tiros de canhão (“voz de cavalo” — classificara ela). Dançaram. Virgínia estava levemente escandalizada. Não era hábito uma senhora casada dançar com um homem solteiro. O capitão era atrevido no olhar e no falar. Fez-lhe elogios. Tinha um jeito carioca de pronunciar as palavras, chiava nos ss. Contava coisas diferentes. Era, em suma, uma novidade. Conversaram muito. Ao voltar para casa, Virgínia levou a impressão de ter vivido um sonho impossível. Mas Honorato ia a seu lado no automóvel, cabeça caída para trás, morto de sono, resmungando que tinha de acordar cedo no outro dia para ir ao escritório. Mas ela não lhe dava atenção. Escutava mentalmente a voz do capitão, os ss chiados, recordava o perfume dele, os galanteios. Nos outros dias Brutus começou a passar pela frente da casa. Tinha um modo elegante de fazer continência quando ela aparecia à janela. Ficou o hábito. Todas as tardes às cinco... Ele descia do bonde e vinha postar-se à esquina. Virgínia entreabria a janela. Em casa ninguém percebeu. Ninguém? Só tia Angélica. Viu e compreendeu tudo, o demônio da negra! Um dia falou, sem rodeios.

       — Acabe com isso. Se o Norato souber, morre de desgosto.

       A cara da negra, lustrosa e intumescida, a boca desdentada, os olhos de esclerótica amarela, a íris diluída... E aquela voz odiosa, áspera e antipática.

       — Acabe, senão eu conto tudo.

       Mas Virgínia se encontrou várias vezes com o capitão de voz de cavalo. Ele já atacava de frente, diretamente. Um dia propôs um encontro. Deu o endereço duma casa discreta. Amanhã às cinco... Separaram-se. Quando se viu a sós, ela teve a primeira hesitação. Tinha avistado Noel, que voltava do colégio. À vista do filho, pensou em mil coisas... tia Angélica a observava com o rabo dos olhos. Parecia uma bruxa que lia o pensamento dos outros. Ficou por ali, espiando, caminhando sem propósito claro, dum lado para outro. O ponteiro do relógio se aproximava da hora marcada. Virgínia relutava. A voz de cavalo, o ar insolente... mas fascinante. Os olhos da tia Angélica. Noel... A lembrança do marido. Foi com alívio que ouviu o relógio bater cinco badaladas. Tia Angélica não afrouxou a vigilância. Veio a noite, veio um outro dia. Duas semanas depois o Cap. Brutus foi transferido. Rolaram os dias. Vem o esquecimento. Mais festas, mais relações...

       Não. Tudo o que passou parece lenda. Nada daquilo aconteceu. Só a memória é que ainda vê. Mas vê fracamente quadros que ninguém pode mais fotografar. No fundo, ela ainda é a noiva, a mocinha...

       Entretanto, abrindo os olhos, Virgínia enxerga a outra, a que mostra no rosto a passagem dos anos e dos fatos.

       E é essa outra — a de quarenta e cinco anos — que agora relembra, desejando, aquele rapaz moreno de dentes brancos, aquele menino insinuante que veio despertar desejos que jaziam adormecidos na camada mais profunda do seu ser. Foi a outra que ontem, no Metrópole, ficou a olhar longamente a cara morena de olhos maliciosos.

       Honorato dorme tranqüilo. As batatas, o feijão, o açúcar, o câmbio, as faturas, as duplicatas, a safra, o dever, o haver — tudo agora está esquecido. Honorato Madeira flutua num país magnífico de calma e serenidade como um anjo, como um elfo. Quando ele acorda, o corpo se lhe imporá ao espírito como um fardo. Voltará a memória dos cereais, dos papéis do escritório, a sensação de gordura e peso, o desejo de ganhar dinheiro e comer bem. Por enquanto Honorato Madeira é puro espírito, sonha que é uma pomba que de repente, inexplicavelmente se transforma num avião que aos poucos vai virando numa coisa verde, verde e mole, que ondula, como uma bandeira ou uma cortina — a cortina do seu quarto...

       Acorda.

 

  1. Maria Luísa, mulher de Zé Maria Pedrosa, não se habituou ainda ao palacete. Parece que está em casa estranha.

       Senta-se na beira das cadeiras, tem medo de abrir as gavetas, caminha na ponta dos pés, não tem jeito de dar ordens aos criados... Há peças no casarão em que nunca entrou: elas lhe dão uma espécie de medo... São tão grandes, para tão pouca gente... E a idéia de que tudo isso foi um desperdício a acompanha por toda a parte, como uma obsessão angustiante. O mais horrível ainda são os dourados da mobília Luís XV. Ela tem a impressão de que aquilo é ouro legítimo, maciço. A sala toda é um pesadelo. Os espelhos que há pelas paredes, numa profusão desconcertante, a assustam. Os jarrões, que se erguem nos quatro cantos, com pinturas delicadas são como punhaladas. Podem quebrar, de tão delicados... Uma porta que bata com mais força, um descuido, um pontapé, um soco... Para que tudo isto? E o banheiro? Ladrilhos coloridos, pias verdes, torneiras niqueladas, bugigangas que a gente nem sabe para que são. Só o relógio custou uma fortuna. No entanto — pensa D. Maria Luísa com dor de coração — não anda melhor nem mais certo do que o velho relógio que batia, humilde, na sua salinha de jantar da casa de Jacarecanga. Quando se lembra de sua terra, D. Maria Luísa tem vontade de chorar. Já lá vão dois anos! No princípio, foram os hotéis. Ela preferia sempre comer no quarto, (Chinita gostava do salão geral, exibida e assanhada!) tinha vergonha das pessoas que olhavam o jeito como a gente come. Depois, em hotel de cidade, há um talher para cada coisa, nunca se sabe como usá-lo. Os criados eram atenciosos mas não faziam nada sem gorjeta. Para ela, cada gorjeta que se dava era um talho que ela recebia na sua carne de mártir. Onde se ia parar com tanta despesa? Zé Maria falava nos “dois mil pacotes” da loteria, batia no bolso, prosa. Manuel e Chinita andavam soltos pelos cinemas e cafés. Ela preferia ficar no quarto do hotel. Todo o mundo procurava Zé Maria. “Coronel, compre um auto!” “Coronel, compre uma casa!” “Coronel, compre um rádio.” E a cada oferecimento D. Maria Luísa sentia um calafrio, como se o marido já tivesse feito a compra, irremediavelmente. Depois veio a idéia infeliz de fazer este casarão. Setecentos contos! Que desperdício! Um parque que dava para invernar gado. Um casarão que servia para quartel. E este luxo sem serventia, esta criadagem enorme, esta loucura...

  1. Maria Luísa caminha pela casa, como uma visão.

       Sobe ao quarto da filha. Bate. Lá de dentro vem a voz dela.

       — Come in!

       Entra.

       — Que foi que disseste?

       Chinita explica:

       — Come in, como no cinema.

  1. Maria Luísa sacode a cabeça, desolada.

       Chinita está na cama, lendo uma revista de cinematografia. Seu quarto é todo bege, desde os móveis até a pintura das paredes. Ela ainda está por baixo das cobertas, metida no seu pijama de seda preta com debruns vermelhos.

       — Não vais à missa? — pergunta a mãe.

       — À das onze.

  1. Maria Luísa olha em torno, procurando um pretexto para ser infeliz, um motivo para censura, uma razão para zanga. Tudo está em ordem. O vestido verde que a filha usou no baile da noite anterior acha-se em cima da cadeira. Os sapatos, ao pé da cama, junto com os chinelos debruados de arminho. Os frascos de creme e perfume do penteador estão numa relativa ordem. Que milagre — pensa D. Maria Luísa. E sente-se muito triste e contrariada por não encontrar à vista motivo para tristeza e contrariedade.

       — Dormiste bem? — pergunta, numa tentativa derradeira para achar uma irregularidade. Porque se Chinita diz que dormiu mal, estará aí a deixa para ela maldizer os bailes que terminam tarde, a vida desregrada dos filhos, a sociedade, o mundo, tudo!

       Mas Chinita, bocejando por pura faceirice, respondeu tranqüilamente:

       — Dormi como um anjo.

  1. Maria Luísa suspira.

       — Por que não levantas? Já passa das dez.

       Chinita recosta a cabeça na guarda da cama.

       — Não, quero que mandes trazer o café aqui...

  1. Maria Luísa sacode a cabeça. Em Jacarecanga, Chinita não dizia tu — dizia senhora. Não tomava café na cama às dez: pulava às oito e ia tomar café com todos na mesa da varanda.

       — Minha filha, não te acostumes mal, por que não vais tomar café lá embaixo com todos?

       Chinita insiste. Quer porque quer. Pode ser feio, pode ser mau costume, mas é como ela tem visto no cinema. As criadas de manhã trazem o breakfast no quarto, as estrelas lêem revistas, dizem good morning. Tão bom, tão bom poder fazer o mesmo!

  1. Maria Luísa sai, resmungando. Pode apertar a campainha e chamar a criada. Mas não. Não quer. Prefere convencer-se de que a casa não é sua, de que ela é uma estranha debaixo deste teto, de que é uma mártir, um estorvo...

       Vai pessoalmente à cozinha e, sem dar ouvidos aos protestos solícitos e delicados da camareira, ela mesma faz o café e trá-lo numa bandeja, com torradas, até o quarto da filha.

       — Mamãe! Mas a senhora! Ora!

       Chinita se surpreende. A sua surpresa é metade natural, metade cinematográfica.

       Em silêncio D. Maria Luísa põe a bandeja sobre a mesa-de-cabeceira da filha e retira-se, sem dizer palavra.

       Passando pela porta do quarto do filho, bate. Não respondem. Torna a bater. Nenhuma resposta. Abre a porta devagarinho. O quarto está escuro. Ela entra. A princípio as coisas estão sumidas na escuridão. Mas aos poucos os olhos de D. Maria Luísa se vão afazendo à escuridade e da sombra geral emergem contornos: o quadrado da janela, o guarda-roupa com porta de espelho, a cama. Ela se aproxima da janela e abre o postigo. O filho está deitado, vestido e calçado. O sol lhe bate no rosto. D. Maria Luísa contempla-o com amor. Como ele está pálido e magro! Era tão corado, tão alegre... Agora tudo mudou. Às vezes Manuel não dorme em casa, como ontem. Quando vem, é de madrugada.

  1. Maria Luísa se acerca da cama. João Manuel dorme sono profundo. Parece mais velho, os lábios descoloridos e tão pálidos como o rosto. Os ossos das zigomas parece quererem furar a pele. D. Maria Luísa sente um aperto no coração.

       Decerto o rapaz esteve no cabaré. Deve ter uma amante como todos os rapazes ricos de sua idade. Champanha, danças, badernas.

       Quanto teria gasto a noite passada? Sem poder resistir à tentação, D. Maria Luísa apalpa o bolso do casaco do filho, procurando a carteira. Manuel remexe-se, mudando de lado e resmungando.

       Na ponta dos pés ela sai do quarto.

       O tapete do corredor abafa-lhe o ruído dos passos. Ela se lembra de que o soalho de sua casa de Jacarecanga rangia quando a gente caminhava nele. Rangia, mas lá tudo era melhor. Ninguém dormia até tarde, Manuel se recolhia cedo. Chinita não usava vestidos tão decotados nem andava tão solta. Tudo era diferente. Mais união. De noite Zé Maria jogava gamão com o vizinho, e ela fazia tricô; Chinita ia passear na praça com as filhas do coletor. Tão bom...

  1. Maria Luísa suspira. Não há de ser nada — pensa — um dia eu morro e tudo se acaba. Eles têm a despesa do enterro mas ficam livres de mim para sempre.

       Entra no quarto.

       Zé Maria Pedrosa dorme na cama à Luís XV. É um corpo estranho que não pertence a este conjunto. Aquela cara tostada de caboclo rude, no meio da seda e dos ouropéis...

  1. Maria Luísa sacode a cabeça.

       — Que despropósito.

 

       O almoço terminou. E como o gosto de feijão lhe persiste na boca, o Prof. Clarimundo toma um gole dágua e faz um gargarejo prolongado. Vai até a janela, com a cabeça erguida, a água a borbulhar-lhe na boca e assim fica por alguns segundos. Depois, distraído, esguicha a água para a rua. Lá embaixo um homem que passa dá um salto brusco, escapa por um triz de receber o jorro na cabeça, olha para cima, indignado, e diz um palavrão. O professor vê, ouve, e, atarantado, esboça com a mão um desajeitado gesto de desculpa. O homem continua a caminhar. O professor pensa no seu observador de Sírio. Entre ele e os habitantes da Terra haverá a mesma incompreensão, mas separada por uma distância incomparavelmente maior. Se o homem de Sírio cuspisse água para a Terra, os habitantes do nosso planeta naturalmente se voltariam para o alto e diriam nomes feios... O professor está contente com a comparação. Fica a pensar no livro. Qualquer dia vai começar. Naturalmente escreverá um prefácio. É preciso explicar... Entrar assim de repente no assunto pode chocar o leitor.

       Debruça-se à janela. A velha de preto, a moça bonita e o rapaz barulhento estão ao redor da mesa. Mais adiante, o homem do gramofone, mais a mulher e os filhos, acabam de almoçar. Na janela da casa próxima, um guri de cara amarela e triste olha para a rua, com o nariz apertado contra a vidraça encardida. Calma nos quintais. O pombal de D. Veva está silencioso. Céu sem nuvens. Sol intenso.

       Para que se não me confira a pecha de fantasista descabelado... — ou melhor: Para que se não diga que sou um desvairado engendrador de ficções.

       Clarimundo sorri interiormente, satisfeito.

       Bom início para um prefácio.

 

  1. Eudóxia toma a sua canja. Fernanda e Pedrinho comem carne assada com feijão e arroz. Hoje veio macarrão nas marmitas e, como Fernanda trouxe dum restaurante uma galinha assada, o almoço tem ares de banquete.

       — Olha — avisa Fernanda — hoje vou a Ipanema.

       Pedrinho dá de ombros:

       — Por mim...

  1. Eudóxia ergue os olhos de mártir.

       — Ele vai?

       A voz de Fernanda é resoluta e firme:

       — Vai.

       Ele é Noel. Combinaram um encontro. Não se vêem há uma semana, devem ter muita coisa a se dizerem. Livros lidos durante a semana, impressões... E depois — pensa Fernanda — Noel precisa de quem o anime. É tão desamparado, tão sem vida, tão sem energia...

  1. Eudóxia diz num suspiro tudo quanto calou em palavras. Fernanda não teme atacar o assunto cara a cara.

       — Que é que tens, mamãe? Diz logo. Nada de segredos.

       Seus olhos se focam no rosto da mãe. D. Eudóxia olha para o prato.

       Pedrinho luta com uma fita de macarrão e diz, meio engasgado:

       — Deixa essa caduca...

       — Vamos, mamãe. Despeje logo...

  1. Eudóxia hesita. Mas o seu ressentimento por fim acha expressão.

       — Podem falar, minha filha, tu compreendes...

       Sim, ela compreende. Podem falar, podem maliciar. Encontros com o rapaz numa praia. Camaradagem com uma pessoa do outro sexo. Ela compreende...

       — Mas quem é que pode falar?

  1. Eudóxia deixa cair a colher de sopa.

       — O povo, a sociedade.

       Fernanda ri com gosto.

       — A sociedade? A bela sociedade que freqüentamos? Mas que coisa ridícula, mamãe, que coisa ridícula! A senhora ainda não se convenceu de que somos pobres e que não temos sociedade?

       Pedrinho está demasiadamente entretido no macarrão para prestar atenção “àquelas besteiras”.

       — Mas minha filha, os vizinhos. ..

       — Não me mates... Olha que eu posso ter uma congestão...

       Na realidade, Fernanda não acha muita graça na história. Mas é preciso fingir esta alegria, esta despreocupação, Elas são uma armadura, a defesa que tem oposto sempre ao fatalismo da mãe.

       — Se ao menos vocês fossem noivos...

       Fernanda trincha a carne, ausente. A mãe continua a lengalenga.

       — Estas visitas que ele te faz... Não sei, não acho direito... Conversas na escada, no corredor escuro...

       — Ele não vai me comer...

       E Fernanda tem a certeza inabalável de que Noel não é capaz de comer ninguém.

       — Ele está aproveitando, está te desfrutando...

       Fernanda sorri.

       — Moça rica, quando cai na boca do povo não perde nada. Continua indo a baile e no fim acha casamento. — Suspira, toma uma colherada de canja. — Mas moça pobre (sua voz aqui ganha a consistência pastosa da canja) quando é falada, fica o mesmo que mulher à-toa...

       Fernanda adota outra tática. Descobre que a melhor arma para se defender da mãe é o silêncio.

       “Mulher à-toa.” Pedrinho ouviu isto e agora não pode mais governar os pensamentos. Baixa a cabeça para o prato. Lembra-se de Cacilda. Pela primeira vez depois que ele está à mesa, a imagem dela lhe assalta a mente. A recordação daquela noite lhe vem, nítida, e parece que ele sente, ouve e vê... Foi há três meses. Nunca tinha estado com mulher nenhuma. Todas as suas tentativas para acalmar os primeiros pruridos sexuais tinham sido solitárias. Mas era preciso conhecer o amor de verdade. No entanto, tinha medo. Contavam coisas horríveis: doenças, deformações, mulheres que judiam com os rapazes inexperientes... Ele só tinha dezesseis anos. Não podia ir atrás do que diziam certos companheiros que tentavam tirar-lhe o temor:

       — Vamos, bobo, é fácil...

       — Tenho medo — expressava ele.

       Os outros o tranqüilizavam:

       — Eu sei de uma que te ensina. É tão bonita... Muito boazinha.

       Resolveu ir. Fez economias. Juntou dinheiro (a mana sempre lhe dava dois mil-réis todos os sábados). Foi. Passou pelo beco encolhido de medo. O amigo — o Clóvis

       — mostrou a casa. É aqui. Entraram. Apareceu uma mulher: bonita, de olhos verdes, parecia uma moça direita, dessas que a gente vê nas casas de família. Seu acanhamento aumentara.

       — Este é o rapaz que eu falei — explicou Clóvis.

       — Como vai? — A moça estendeu-lhe a mão que Pedrinho apertou. — Vamos entrar?

       Clóvis foi embora.

       Entraram para o quarto. Meia-luz avermelhada, uma cama de casal, um guarda-roupa pequeno, figuras na parede, na maioria artistas de cinema. Sobre a cama, uma almofada colorida, com um boneco em cima — um chinês fumando cachimbo. (Este detalhe nunca, nunca ele vai esquecer...)

       — Como é o teu nome?

       — Pedro. E o da senhora?

       — Cacilda.

       A mulher fechou a porta e começou a despir-se. Ele fez o mesmo, todo trêmulo. E quando ela se deitou na cama de costas e o chamou com os braços, ele estava sacudido dum tremor estranho, com vontade de chorar. Tudo parecia um sonho. Era bom, mas assustador. E a cara dela não era debochada como ele imaginara. Um ar simpático, dois olhos verdes muito limpos, um sorriso calmo. ...

       — Que é isso, Pedrinho? Em que é que estás pensando?

       Pedrinho como que desperta, e vê que Fernanda está a mirá-lo, maliciosa, com um olhar que parece ver tudo, ler os pensamentos alheios.

       — Nada!

  1. Eudóxia afasta o prato. Fernanda vai buscar a sobremesa.

       O pensamento de Pedrinho torna a voar...

       Quando ele saiu da casa de Cacilda levava o corpo leve. Parecia que tinha descoberto um mundo. Ia como que no ar, voando. Agora podia olhar os companheiros sem constrangimento. Era homem.

       Os dias passaram mas ele não esqueceu Cacilda. Voltou à casa dela na semana seguinte. Teve de esperar, porque ela estava com outro. Ficou rodando pela vizinhança. Quando viu o homem sair, entrou.

       — Não se lembra de mim?

       Tremeu ao fazer a pergunta.

       — Ah! Aquele que o Clóvis trouxe?

       Pedrinho sacudiu a cabeça.

       — Bonita noite.

       — Muito bonita.

       — Mas é capaz de chover amanhã.

       — Achas?

       — Está quente.

       — É.

       Silêncio. O assunto não vinha. Cacilda sorria. Pedrinho compreendeu que estava apaixonado. Era esquisito, uma bobagem, mas estava apaixonado, irremediavelmente.

       Cacilda pediu:

       — Vai embora, sim, nego?

       Ele relutou. Queria ficar.

       — Vai. Estou esperando um amigo.

       — Um amigo?

       O coração de Pedrinho desfaleceu.

       — Um amigo. Marquei hora. Ele pode desconfiar e eu não quero encrencas...

       — Olha a sobremesa!

       Pedrinho tem um sobressalto. Fernanda lhe passa o prato de compota de pêssego.

       Uma voz grita do quintal:

       — Não sabem como amanheceu o seu Maximiliano?

       Fernanda volta a cabeça, ergue-se, vai até a janela.

       É D. Veva que, por cima da cerca, faz a pergunta de todos os dias.

       — Não sei, não senhora.

  1. Eudóxia deixa a mesa, contente por encontrar uma pessoa de sua idade, “do seu tempo”, com quem possa conversar.

       — Bom dia, vizinha. Eu acho que ele não dura.

  1. Veva faz uma careta.

       — Um mês no máximo...

       — Dois dias — diz D. Eudóxia.

       Fernanda leva os pratos para a cozinha.

       Pedrinho vai para o quarto. Abre a gaveta da mesinha-de-cabeceira, tira de dentro dela uma caixa de charutos e abre-a. Aparecem várias moedas douradas de mil-réis. Ele conta: quatro. Bom. Faltam dois. Amanhã o Clóvis lhe vai pagar dois mil-réis que lhe pediu emprestados a semana passada. Ficam seis. Com seis mil-réis ele comprará para Cacilda um colar muito bonito — azul, vermelho e amarelo — que viu numa vitrina da Sloper.

       Ergue os olhos, pensativo. Pela janela avista lá do outro lado da rua, no alto da casa da viúva Mendonça, o Prof. Clarimundo.

 

       Teotônio Leitão Leiria desce de seu Chrysler no portão do Country Club. Está de boné cinzento, suéter bege com malhas marrom, knickerbockers havana e meias escocesas negras. Traz às costas a sua aljava com os tacos. É um perfeito jogador de golfe. Não falta nada, tem tudo, até o espírito anglo-saxônico. — (Ele pensa com satisfação que, com sua cara vermelha, pode passar por inglês ou norte-americano.)

       A turma de costume o espera. Mr. Wood, enorme como um arranha-céu, pele tostada pelo sol, dentes muito brancos. Mr. Parker, um inglês de bigodes grisalhos, bochechas flácidas e olhos azuis. O Dr. Castro Neto, franzino e delicado, que espera ganhar cores ao sol do Country.

       Sentam-se todos à sombra dum pára-sol de larga umbela, no terraço do pavilhão. Mr. Wood pede um uísque com soda. Mr. Parker, idem. O Dr. Castro Neto quer um guaraná (fígado). Leitão Leiria, como bom businessman, convencido agora de sua personalidade anglo-saxônica, também adere ao uísque.

       O sol brilha sobre os campos. Mr. Wood faz humor. Mr. Parker ri a sua risada natural. O Dr. Castro Neto sorri timidamente. Leitão Leiria exclama:

       — Wonderful! Wonderful! Wonderful!

       Combinam uma partida. Os cadies tomam conta das aljavas.

       Mr. Wood ergue o braço num movimento harmonioso e desfere um golpe na bolinha branca. A bola zune, corta o ar claro e vai cair longe.

       — Fine! — aplaude Leitão Leiria.

       Os dentes de Mr. Wood contrastam com o rosto tostado de sol. O Dr. Castro Neto erra o primeiro golpe, arranca um punhado de grama com o terceiro e no quarto joga a bola quase rasteira a pequena distância. Chega a vez de Leitão Leiria, que abre as pernas, encosta o taco na bola, ergue-o depois (com fleuma britânica —- fantasia ele) e desfere o golpe. A bola voa como um projétil.

       — Good!— faz Mr. Wood.

       Saem a caminhar. Os campos se estendem, dobrados a perder de vista. O céu é dum azul igual e fulgurante.

       Leitão Leiria vai assobiando uma ária alegre.

       Lá no alto, no pavilhão, outros jogadores se preparam para uma partida.

       Enquanto caminha, Teotônio se vê, ao mesmo tempo, no meio dos amigos, como se fosse um observador estranho ao grupo. Ao lado dos dois americanos parece um homem da mesma raça, no físico e nas atitudes. As roupas, as maneiras, o jogo. Para reforçar a convicção ele comenta.

       — A fine day!

       Mr. Wood arreganha os dentes.

       — Very fine!

      — Glorious! — acrescenta Mr. Parker, num grunhido. O Dr. Castro Neto limita-se a sorrir.

       Uma perdiz de repente sai voando ruidosamente dum tufo de macegas, como um minúsculo avião.

       Leitão Leiria estende o dedo, explicativo. Quer dizer o nome do bicho em inglês. Remexe na memória por alguns segundos, mas o nome lhe foge. Não tem remédio senão dizer:

       — Perdiz!

       Mr. Wood sacode a cabeça:

       — Yes. Perdiz.

       O Dr. Castro Neto sorri, Mr. Parker rosna qualquer coisa.

       Os cadies correm.

       Onde estarão as bolas?

 

       Ipanema.

       O rio está tranqüilo e o horizonte é dum verde tênue e aguado que se vai diluindo num azul desbotado. As montanhas ao longe são uma pincelada fraca de violeta. A superfície da água está toda crivada de estrelinhas de prata e ouro. Longe aparece o casario de Pedras Brancas, na encosta dum morro. Mais perto o Morro do Sabiá avança sobre o rio. O céu é tão azul, tão puro, e luminoso, que Noel simplesmente não acredita que seja um céu de verdade.

       Ele diz a Fernanda.

       — Parece um céu de sonho, de contos de fadas.

       Fernanda sorri.

       — E no entanto é um céu de verdade...

       Calam-se. Uma rapariga loura de maiô vermelho passa por eles a correr descalça; os pés a afundarem na areia. Suas carnes são rijas, suas pernas esbeltas, seus cabelos parecem uma labareda dourada e estão soltos.

       — E depois — continua Noel — essa Fräulein de vermelho...

       Fernanda olha para o companheiro. “Bem como nos outros tempos” — pensa ela. Lembra-se das manhãs em que ia buscar Noel para o levar à escola, pela mão. O sol lhe batia nos cabelos castanhos, dando-lhes um reflexo de bronze. E ele ainda hoje é o mesmo menino que se deslumbra diante de tudo mas que ao mesmo tempo se encolhe, assustado, na frente do menor obstáculo, da menor dificuldade.

       — Se a vida fosse sempre assim — continua Noel — eu seria um adaptado. Dias bonitos, paisagens bonitas, esta distância entre a gente e as outras criaturas. Não precisar estabelecer relações desagradáveis, não precisar lutar pelo pão de cada dia...

     — No entanto tu não lutas pelo teu pão...

       Noel volta para a amiga um rosto em que há uma ruga de contrariedade. Ela acaba de tocar num ponto sensível. E só o que ele encontra agora para dizer é isto:

       — Tu sabes...

       Sim, ela sabe. Sabe mas há de fazer o possível para conseguir que ele mude, vença o terror de menino mimado e entre na vida, resoluto, de olhos abertos e cabeça erguida.

       — O teu mal — diz Fernanda maciamente — é julgar que só há beleza nos livros e nos teus contos de fadas. Se tu soubesses como a vida tem coisas interessantes... É um poema, um romance, se quiseres. E também uma aventura...

       Fernanda pensa na sua luta de cada dia. Luta com Leitão Leiria no escritório. Luta com o fatalismo da mãe. Luta consigo mesma.

       — Esta nossa camaradagem mesmo parece um sonho — diz Noel.

       — Por que um sonho?

       — Porque está durando, porque ainda não se atravessou nada entre nós, porque...

       Noel não acha palavras para continuar. Fernanda sacode a cabeça afirmativamente, compreendendo... E mentalmente completa a frase: Porque ele ainda não procurou beijá-la, não procurou levá-la para uma casa de rendez-vous. Porque puderam conversar sempre serenamente conservando o sexo a uma distância conveniente.

      Longe, no rio, passa um veleiro.

       Um silêncio. Noel caminha de chapéu na mão, os olhos estão voltados para as montanhas. De repente ele se vê de novo numa manhã da infância, a caminho da escola. A pequena Fernanda, de vestido curto e olhos vivos, vai na frente, puxando-o pela mão. O sol brilha contra as fachadas, os muros, o céu.

       — Tu te lembras? — pergunta ele.

       Sim, ela se lembra.

       — Íamos de mãos dadas... — diz Fernanda, como se pensasse em voz alta.

       — Tu na frente...

     — Assim...

       Pega na mão de Noel e continua a caminhar. Ao contato desta mão, quente e macia, Noel tem um agradável estremecimento.

       Fernanda vai rindo e acelerando o passo. Ele se deixa levar. De repente um pensamento o assalta. E se ele... e se ele... casasse com Fernanda? Isto deve ser amor. Prazer de estar com ela. Esta sensação de paz e segurança que a companhia dela lhe dá... Se ele fizesse uma tentativa para mudar de vida? Sim, poderia ser bem sucedido. Havia de entrar num mundo novo, junto com ela, lutando os dois, lado a lado...

       Olha para a companheira.

       Fernanda vai de cabeça erguida, e seu perfil tem algo de impetuoso. O moreno do rosto fica mais lindo ao sol. Os seios se lhe projetam para a frente, rijos, assim de súbito Noel tem a consciência (de certo modo dolorosa) de que a deseja. Um desejo recalcado à força de argumentos de ordem abstrata. Um desejo que nunca achou expressão em palavras nem em atos. Um desejo que ele sempre repeliu — é absurdo! — como incestuoso. Quando vê Fernanda, tem vontade de se lhe entregar, como um órfão, deixar-se acariciar, abrir-se em confidências... Mas agora, ao sol, vestida de branco, rindo e quase a correr, Fernanda não convida a sentimentos fraternais...

       Noel procura afugentar o desejo, mas ao mesmo tempo não deixa de enxergar o absurdo de sua tentativa. Por que não desejá-la fisicamente? Por quê? Acaso ele não é um homem e Fernanda uma mulher? Não existe entre ambos o menor grau de parentesco. Teoricamente Noel justifica o desejo. Mas na prática, tudo mudaria...

       No entanto Fernanda poderia salvá-lo. Talvez lhe desse força para lutar. As suas experiências sexuais foram dolorosamente decepcionantes, tão decepcionantes e dolorosas que ele se havia encolhido e fugido ao convívio das mulheres. Fernanda podia ser a salvação. Em tudo. Por tudo.

       — Olha lá em cima! — exclama ela.

       Um avião do exército faz evoluções, vira cambalhotas, cai em folha morta, descendo a pouca distância do rio para depois subir como uma frecha.

       — Vamos sentar?

       Sentam-se, face a face.

       Como ele é frágil — pensa Fernanda — e que ar abandonado! Sente desejo de acariciá-lo como a um filho, como a um irmão. Ele é tão diferente dos outros...

       — Ontem estive lendo a Mansfield — diz Noel. — O diário...

       Fernanda sorri. Já estava custando virem os livros. Noel não passa dez minutos sem falar em literatura. Por quê? O dia está tão claro, a paisagem tão encantadora... Ela lê também, ama os livros, mas não se deixa escravizar por eles. Primeiro a vida. E se os livros oferecem interesse, ainda é por causa da vida.

       Olhando para o rio, Noel prossegue:

       — Que sensibilidade... A gente tem a impressão de que Katherine não era deste mundo. Uma fada... Um anjo... Qualquer coisa de aéreo... Uma nova encarnação de Ariel...

       Fernanda nunca leu a Mansfield. Noel conta. E contando se entusiasma. É como o menino deslumbrado a narrar o mais belo sonho da noite. Ela escuta.

       — Quando fico a pensar em certas coisas chego a ter medo do mistério da vida e das criaturas... Em 1923, quando eu estava ainda no ginásio lendo As Mil e Uma Noites nas horas de folga, Katherine Mansfield morria num retiro na França... Pensa bem nisso, Fernanda, é de assustar...

       O rosto de Noel tem uma expressão de ânsia. Fernanda não vê nenhum motivo de susto. Ele continua:

       — Dez anos depois é que Katherine passou a existir para mim... Uma revelação tão boa, tão harmoniosa, que me deixou aniquilado. Agora ela existe para mim, existe mesmo, está viva... E a idéia de que o seu corpo hoje está debaixo da terra em decomposição... me é quase insuportável.

       Pausa. A menina loura de maiô vermelho sai de dentro dágua, rebrilhante como um peixe, e deita a correr pela areia.

       — Pode ser uma tolice — continua ele — mas tudo isso me comove...

       Fernanda sacode a cabeça, com o sorriso do mais velho que perdoa a travessura da criança.

       — No entanto não tens olhos nem piedade para as desgraças atuais, para as que estão perto de ti no tempo e no espaço...

       — Como?

       — Pensa bem, faz um esforço. Perto da minha casa mora um tuberculoso que está morre-não-morre. Tem dois filhos. A casa é imunda. Fatalmente os pequenos vão pegar a doença. A mulher parece que já está contaminada.

       Noel sacode a cabeça. É uma história nova. Nova e horrível. Ele reluta em tomar conhecimento dela. A realidade não é maravilhosa como a poesia, mas também não tem o melodramático das desgraças dos romances. A vida é simplesmente chata e sem cor. Simplesmente.

       Fernanda continua:

       — Na frente da minha casa mora um homem que tem mulher e filho e está sem emprego. Trabalhava na mesma loja onde trabalho. E eu sei por que o coitado foi despedido... Porque precisavam dar o lugar dele para o protegido dum político influente. O patrão não hesitou...

       Noel não pode duvidar do que Fernanda lhe diz. Ela viu, sabe...

       — Mas de que serve a minha piedade? Poderá ela melhorar a sorte dessa gente?

       Fernanda é rápida na resposta, pois já pensou muitas noites no assunto.

       — A tua piedade, não. Mas poderás fazer alguma coisa para que um dia tudo isto melhore...

       — Não sei como...

       — Eu sei...

       Tudo o que Fernanda cala, Noel compreende. Mas nada se dizem. Ficam simplesmente olhando o rio. Um vento morno arrepia a água. Uma nuvem gigantesca, debruada de luz, se ergue, cor de fumo, contra o horizonte claro. Um cutter de vela triangular passa a poucos metros da praia, levando um homem e duas mulheres de maiôs coloridos. A sombra branca da vela se projeta nágua, toda cortada pelas ondulações.

       — E o romance? — pergunta Fernanda.

       — Como sempre. Parado.

       Noel tem um velho projeto: escrever um romance.

       — Por quê? Por que não trabalhas?

       Por mais que se esforce — e na verdade ele não se esforça muito — Noel não encontra nenhum tema, fora da autobiografia. A sua infância, os contos da tia Angélica, o paraíso tranqüilo que a velha preta lhe tornava possível graças à sua vigilância de Anjo da Guarda, a mãe remota, os serões familiares, a cara feia mas querida da negra velha... O colégio, nenhuma relação com o outros rapazes, a vida do menino mimado que veste roupas limpas, que vai à escola penteadinho e cheirando a água-de-colônia... Quando os colegas o ameaçavam, era ainda tia Angélica que vinha salvá-lo. “Saem, diabos! Deixem o menino quieto!” E brandia a mão enorme, como uma clava, afastando os agressores. Depois, a morte da negra, o cadáver, o velório, o sentimento duma perda irreparável. A morte da mãe não lhe teria sido pior. Mais tarde, a Academia, o primeiro contato com a vida, e a grande decepção. A vida não era, como ele esperava, um prolongamento dos contos de fadas. Nas histórias de tia Angélica sempre o príncipe acabava casando com a princesa e o gigante mau morria. Mas na vida os gigantes maus andavam soltos, vitoriosos, e não havia princesas nem fadas.

       Noel tem às vezes a impressão de que através da autobiografia ele talvez se possa libertar de seus fantasmas. Mas todas as tentativas que tem feito redundaram em malogro.

       O que vai para o papel é uma história sem força, sem carne, sem sangue, é como que um conto de fadas de outro conto de fadas, uma mentira de outra mentira.

       Fernanda sorri e olha para o amigo.

       — Eu te ofereço um assunto, e esse assunto será o teu primeiro passo na direção da vida...

       — Qual é?

       — Toma o caso de João Benévolo. Tem mulher e filho e está desempregado. Eis uma história bem humana. Podes conseguir com ela efeitos admiráveis.

       Noel faz uma careta de desgosto: a mesma careta que fazia em menino quando tia Angélica lhe queria botar goela abaixo, à custa de promessas falsas, um remédio ruim.

     — Mas isso é horrível... Não me sinto com capacidade para tirar efeitos artísticos dessa história.

       Fernanda responde rápida:

       — Tira efeitos humanos. É mais legítimo, mais honesto.

       Para Noel a história do homem que perdeu o emprego só tem uma face: a da chatice descolorida e baça do cotidiano. Criaturas sem imaginação, banhos aos sábados, ambientes de janelas fechadas, cheiros desagradáveis, conversas tolas, um sofrimento que não é desesperado nem suave, mas simplesmente aborrecível. Que esperança poderá haver para um romance baseado em tal história?

       — Por exemplo — insiste Fernanda — um dia falta a comida...   Podes começar a história nesse ponto. O herói olha para a mulher e pergunta: O que é que vamos comer?

       Comer... A palavra causa uma espécie de náusea a Noel. Comer... Ele preferia um romance de belas abstrações luminosas, de seres transparentes que não têm sangue nas veias, mas luz, de paisagens eternamente luminosas como a presente, de criaturas que não têm necessidades humanas...

       — Não me sinto com forças para escrever esse romance... — confessa Noel.

       Fernanda dá de ombros.

       — Está bem. Não posso te obrigar... Vamos caminhar um pouco mais? — Levantam-se.

       A grande nuvem que se erguia sobre as montanhas se dissipou. O avião amarelo torna a passar a uns duzentos metros do solo.

       Há automóveis à beira do rio. Crianças correm e gritam. Um homem gordo, de óculos que brilham muito, assesta a sua Kodak para um grupo de moças.

       A Fräulein de maiô vermelho acena com o braço para uma amiga:

       — He, Trude! Komm’her! Wir wollen schwimmen!

       Dentro duma baratinha Dodge um rádio atira no ar os sons que neste mesmo instante os músicos da Banda Municipal produzem no auditório Araújo Viana. Verdi. O pistão faz floreios.

       — Como vão os discos?

       Noel sorri, seu rosto como que se enche duma claridade maior. Agora ela entra francamente nos seus domínios, não é mais a Fernanda preocupada com as desgraças do próximo, a Fernanda das coisas práticas.

       — Muito bem. Descobri uma coisa notável. Ibéria, de Debussy. Leva a gente para o sétimo céu. Maravilhoso.

       Música para gente rica e desocupada — pensa Fernanda.

       Mas nada diz. Está resolvida a não amargurar o domingo de Noel.

       — Sugestiva? — pergunta.

       — Muito. Foi a viagem mais bela que fiz pela Espanha.

       Noel lembra-se de que a revelação foi tão grande, a beleza tanta que ele teve de fazer um esforço tremendo para não chorar. Continua a falar com animação. Positivamente: agora está no seu mundo.

       E enquanto ele fala, Fernanda pensa na sua rua cinzenta, em Maximiliano, e seu quarto pobre, nos filhos de Maximiliano, em João Benévolo e sua gente...

       Todos os músicos da Banda Municipal se manifestam num final grandioso. Parece que o alto-falante do rádio da baratinha vai arrebentar.

       Mas Noel está ouvindo mentalmente Debussy. Fernanda não ouve nem Noel, nem Verdi, nem Debussy: está vendo com os olhos interiores um dia indiscutível em que o esforço dos homens de boa vontade, sem violência nem fanatismo, possa igualar as diferenças sociais.

       O cutter passa sereno sobre as águas, como um enorme cisne. Os maiôs coloridos se agitam. O rio reverbera a luz do sol.

 

       O suor que lhe escorre da testa em bagas grossas entra-lhe pelos olhos, cegando-o. Mas Salu se bate como um leão. Porque sente a necessidade permanente de vencer. Vencer em tudo, de qualquer forma. Não obstante o clarão do sol e a névoa que o suor lhe põe nos olhos, ele salta dum lado para outro, procurando devolver para o outro lado da rede a bola branca que o adversário (para ele apenas um vulto branco indeciso que corre dum lado para outro) arremessa para o seu campo com firmeza e violência.

       Os espectadores aplaudem. As cabeças acompanham a trajetória da bola: voltam-se para a direita e para a esquerda, rápidas; quando um dos jogadores erra o golpe, as cabeças param, os rostos exprimem desgosto ou contentamento. Depois o duelo recomeça. Ninguém fala. Só se ouve o baque quase musical, abafado e macio, da pelota que bate nas tripas de carneiro retesadas das raquetas.

       Salu joga com espetaculosidade. Salta na ponta dos pés em movimentos quase teatrais. Aproxima-se da rede procurando rebater a bola no ar, faz reviravoltas que parecem passos de ballet. Tem uma mecha de cabelo caída sobre os olhos. (Não faz mal — pensa ele — assim impressiona mais...) Tem a respiração ofegante. O adversário é forte e calmo, não faz jogadas para agradar a assistência: tem-se a impressão de que mal move o braço para desferir os golpes.

       De vez em quando uma voz se destaca do meio dos espectadores silenciosos. É um oh que escapa contra a vontade da pessoa que o emite, um oh desafinado que se evapora na enorme claridade da tarde.

     Salu é ator e ao mesmo tempo espectador. Joga e se vê jogando. E por isso se admira. Está soberbo hoje: facilidade de movimento, resistência, elegância nas rebatidas, violência no tiro... E a certeza de que outros o observam (principalmente as mulheres) lhe dá uma coragem invencível, uma vontade ferrenha de representar mais, de fazer mais cenas, para que cresça não só a admiração dos outros como também a sua própria.

       Vera e Chinita, em roupas de banho, envoltas em roupões, se dirigem para a piscina. O Dr. Armênio, submisso e festivo como um cachorrinho à procura do dono, segue a filha de Leitão Leiria. Também está metido num maiô preto que lhe deixa a descoberto as coxas e as pernas dum moreno flácido, lisas, lustrosas e sem cabelo como as pernas dum bebê.

       — Que linda tarde de verão! Nem parece que estamos em maio! Outono maravilhoso!

       Armênio pronuncia as palavras com delícia. E na sua mente elas ecoam em francês: Automne merveilleux!

       Vera, em resposta, limita-se a sorrir com o canto dos lábios. Que homenzinho engraçado! — pensa Chinita.

       No alpendre do clube há muita gente com roupas leves de verão em torno de mesas. Os garçons passam bandeados, erguendo mãos que seguram bandejas. Dum alto-falante escorre uma valsa de Strauss.

       Ao som da melodia, Armênio pensa em voz alta:

       — Esta música deliciosa é um convite à patinação.

       Invitation au patinage...

       E lembra-se imediatamente de que viu num filme alemão uma grande pista em Viena com várias centenas de pares, a deslizarem enlaçados ao som da valsa tocada por uma banda de música, no centro do redondel.

       Ninguém na piscina. A água está calma, transparente e riscada de sol.

       Vera e Chinita tiram os roupões.

       Merveille! — pensa Armênio — Salut, Aphrodite! Je suis enchanté, vraiment enchanté!

       O que o deixa enchanté são os dois pares de coxas que se revelam à claridade do dia, e que na rua e nos bailes se escondem por baixo dos vestidos de seda e que há pouco estavam tapados pelos roupões. Armênio sempre imaginou que fossem pernas lindas... Mas assim — fichtre! — com estas linhas, esta tonalidade... Ele sempre se orgulhou do método que rege todas as coisas de sua vida, até a função sexual. Je domine la bête qui habite en moi — costuma ele dizer aos amigos, no seu francês trôpego. Tudo nele obedece a um horário rigoroso. Chá com torradas pela manhã, um almoço sem farináceos ao meio-dia. (Il faut se soucier du corps.) Um lanche leve à noite, duchas frias pela manhã, todos os dias. Aos sábados, uma viagem a Citera (voyage à Cythére), escapadinhas inocentes: uma pensão discreta e fina, com luzes veladas, almofadas e perfumes, poupées pelos cantos, ambiente artistique. Mas só aos sábados. Durante os dias úteis o sexo é forçado (Ia volonté oblige) a ficar dormindo bem quietinho para que esteja desperto e ativo apenas o advogado e o gentleman, o homem que trabalha, que ganha l’argent e o cavalheiro que cultiva o seu jardim social. É um jardim onde há flores raras que necessitam de cuidado. As flores são as relações e Armênio as cultiva em fazendo visitas, enviando cartões e corbelhas por ocasião dos aniversários, ou dando pêsames, “sentidas condolências”... Mas todo o jardineiro tem uma flor predileta, uma flor que ele rega com mais carinho. Para Armênio a flor eleita é Vera. E agora, um pouco perturbado, ele está como um regador solícito, com o bico voltado para sua fleur exquise, despejando sobre ela um chuveiro de palavras amáveis:

       — Tenho a impressão de estar na Grécia... A sua companhia amável... Mlle Vera...

       Mas Vera e Chinita estão discutindo a água. Estará fria? Estará morna?

       Vera não pode esconder sua contrariedade. Pensava poder ficar a sós com Chinita. Têm tanto que conversar... E Chinita anda precisando de conselhos. Telefonou-lhe de manhã, marcando o encontro aqui no América, na esperança de que não seriam perturbadas... Como teria este idiota do Armênio descoberto que ela vinha? Aqui está ele com o seu corpo de bebê, os seus óculos enormes, o seu francês coxo e aborrecível, a sua voz endefluxada. E insistindo sempre nos galanteios, apesar de tudo. (Vera olha-o da cabeça aos pés.) Que homem ridículo! Tem uns braços de matrona romana, gordos e fofos. E ainda por cima depila as coxas e pernas, como uma corista... Horroroso!

       Os olhos de Chinita estão voltados para a pelouse de tênis. Aquele vulto que corre como um demônio, aquele vulto... Não há dúvida, é Salu...

       O alto-falante silencia. O vento traz do alpendre o rumor das conversas.

       Vera bate com o cotovelo em Chinita.

       — Que é isso? Viste algum fantasma?

       — Vera — pergunta Chinita, apontando com um dedo na direção do jogador — aquele não é o Salu?

       Vera entrecerra os olhos. Armênio assesta os óculos na direção apontada.

       — Parece... — faz ela com indiferença.

       Il me semble... — pensa Armênio. E depois, em voz alta:

       — Juste! C’est Salu. — Mas corrige-se, rápido. — Desculpem! Escapou-me o francês sem querer... Parece que é Salu mesmo.

       — Vamos cair nágua! — convida Vera.

       — Tu primeiro! — pede Chinita.

       — Está bem.

       Vera caminha para a prancha que se eleva a dois metros da água, ergue os braços, ficando na ponta dos pés...

       Armênio olha... Aquele corpo de rapaz, o maiô verde, os braços e as coxas com uma penugem dourada, o sol... Exquise! Formidable! E bem no instante em que Vera arma o salto, Armênio sente que, não obstante toda a sua volonté, todo o seu método, o sexo acorda num protesto violento, apesar de não ser sábado, apesar de ele ser um cavalheiro, apesar de seu jardim social...

       Como um dardo, o corpo de Vera descreve uma curva no ar e mergulha nágua, com um chape macio.

     — Bravo! — exclama Armênio, batendo palmas. — Bravo!

       No fundo claro da piscina, Vera parece um peixe verde e rosa.

       — Parece uma iara — diz Armênio para Chinita.

       — Ou um sapo! — sugere esta, no momento em que Vera, ainda debaixo dágua, faz uma flexão de pernas para subir à superfície.

       A cabeça da filha de D. Dodó emerge, cheia de gotas iridescentes.

       O alto-falante projeta sobre a tarde a música de um jazz de negros: um fox histérico e sacudido.

       — Vamos, Chinita! — convida Vera.

       Chinita olha para Armênio:

       — Então, doutor, vamos nadar?

       Armênio sente um leve mal-estar, pois não sabe nadar, nunca teve ocasião de aprender. Mete uma roupa de banho e entra na piscina porque isto faz parte de suas funções de jardineiro. Mas quanto a nadar...

       — Nadar propriamente, não nado... — explica ele, embaraçado.

       — Venham! — torna a gritar Vera.

       — Venham! — ecoa na mente de Armênio. Plural. Agora é um convite de Vera. Impossível recusar. Noblesse oblige...

       Com todo o cuidado, Armênio se ajoelha à beira da piscina e estica a perna esquerda, tomando a temperatura da água com o pé; vai afundando o pé, a perna, a coxa e depois, segurando-se nas bordas da piscina, deixa afundar mais da metade do corpo. (Estar na mesma água em que Vera está, ser acariciado pelas mesmas ondinhas que acariciam a epiderme de Vera... É uma comunhão, quase uma união... ) Armênio larga as bordas da piscina e afunda ainda mais. (Beber a água em que Vera se banha — eis o requinte dos requintes amorosos... Mas será que alguém mais hoje andou tomando banho aqui? Duvida. Oh! Le doute éternel!)

       Salu está com o rosto banhado de suor. Lustrosa e batida de sol, a sua pele parece mais morena. A bola zune dum lado para outro: as cabeças dos torcedores acompanham a bola.

       O adversário, do outro lado do campo, continua a jogar com calma. Corta a pelouse em diagonal com um pelotaço forte que passa rente à rede... Salu salta, num esforço supremo, estende o braço que tem na extremidade a raqueta, solta um gemido... mas erra o golpe. Game! O outro ganhou a partida.

       Salu atira a raqueta longe num gesto teatral. Ouvem-se risadas. Mas Salu em seguida se arrepende do gesto e vai apertar a mão do adversário. Os grupos se dispersam.

       Salu caminha para o vestiário. Uma bobagem: um jogo amistoso, coisa sem importância. Mas o fato de haver outras pessoas assistindo à partida consistia para ele uma obrigação tremenda de vencer. A derrota é amarga. Ele não sabe perder.

       Mas o amargo da derrota é instantaneamente esquecido, porque Salu de repente avista Chinita na piscina.

       — Alô! Chinita! — grita ele, levantando a raqueta no ar.

       Chinita se volta, põe-se na ponta dos pés, ergue as duas mãos e responde:

       — Alô! Vamos cair nágua!

       É uma declaração e um convite.

       Num segundo, Salu forma o plano:

       — Volto já! Vou trocar de roupa!

       E corre para o vestiário. Mete-se debaixo do chuveiro e pede ao ecônomo a sua roupa de banho.

       Quando chega à piscina, Chinita está no alto da prancha, preparando-se para o salto. Podia fazer como Vera: erguer os braços, ficar na ponta dos pés e projetar-se. Movimentos simples: poucos segundos. Mas para ela isso não é bastante.

       Para gozar a piscina, o salto, a tarde, o Esportivo América ela precisa imaginar que isto não é Porto Alegre, precisa convencer-se de que está em Hollywood e é Joan Crawford, ou Carole Lombard... Olha em torno. Lá em cima, céu azul e iluminado. Na frente os dois pavilhões do clube, com o seu alpendre cheio de vestidos coloridos, mesas, vozes e músicas. As quatro pelouses de tênis, de terra batida de tijolo. O jardim com a estátua do homem nu atirando um disco: os canteiros de relva lustrosa. Para além dos muros, os telhados, os quintais e, lá mais longe, a cidade, a ponta da Cadeia, a chaminé duma usina mandando para as nuvens um penacho grosso e escuro de fumaça (como o cigarrão do vovô Eleutério — pensa ela), as torres da Igreja das Dores... Depois, o rio chamejando a mancha verde-escura das ilhas, lanchas, catraias... Chinita passeia os olhos pela paisagem. Ela é Joan Crawford. Uma festa na vivenda dum mister rico. Clark Gable foi botar a sua roupa de banho. A história é simples... Ela é uma herdeira rica que veio do far west. Ele, um rapaz da cidade. Um gangster? Sim, um gangster, para ficar mais sensacional. Mas um gangster que tem bom coração e no fim acaba se regenerando e casando com ela. Mas um dia a família da heroína, cujo pai é assassinado pelo gangster... Credo! Assassinado, não, pode ser agouro até... Melhor mudar o enredo. Era uma vez...

       Os olhos de Chinita caem em Salu. Então, para que ele a admire, para que tenha dela uma impressão melhor, Chinita ergue os braços, levanta os olhos para o céu...

       Salu estaca, e fica olhando para a rapariga. Contra o fundo azul do céu se recorta a figura dela, como num cartaz, desses que anunciam sabonetes, roupas de banho, ou praias de veraneio da Califórnia ou da Côte d’Azur. Para Salu agora Chinita apareceu sob um novo aspecto. O maiô preto e justo não dá motivo a suposições, asas à fantasia, porque não esconde quase nada, nem dissimula as formas. Os cabelos de Chinita estão escondidos pela touca de borracha vermelha, presa à cabeça por duas tiras amarradas por baixo do queixo. Os seios avançam num relevo atrevido. Onde o maiô termina, começam as coxas — morenas, lisas, rijas, roliças, longas; depois, as pernas bem torneadas e os pés pequenos. Salu sente vontade de se transformar em água para aparar aquele corpo no ímpeto do salto.

       Chinita olha para a piscina e no segundo mesmo em que se atira para baixo feito um torpedo cuja ponta é formada pelas mãos unidas e entrelaçadas — ela pensa nos banhos que tomava nas férias, no arroio da chácara do tio Terêncio, saltando de camisola para dentro dágua, no meio da gritaria dos primos... (Mergulha na água fresca, suas mãos tocam o cimento do fundo da piscina.) O fundo do arroio da chácara era pedregoso, os lambaris passavam roçando pelas pernas da gente, as plantas se enroscavam nos pés e eram como cobras, davam um arrepio no corpo... Como cobras...

       E Chinita sente que uma coisa agora se lhe enrosca nas coxas enquanto ela luta para subir à superfície. E a coisa ainda continua a apertar-lhe as carnes quando ela bota a cabeça para o sol e dá com a cara reluzente e risonha de Salu...

       — Mergulhei junto contigo...

       — Tira a mão da minha perna — cochicha ela. — Olha que os outros podem ver...

       — Que tem isso?

       — Salu! Aqui na frente de todos fica feio.

       O Dr. Armênio joga bola com Vera.

       — Queres dizer — insiste Salu — que se os outros não vêem não faz mal...

       Chinita sorri.

       — Sem-vergonha...

       — Vamos lá para a ponta da piscina?

       Saem nadando como dois peixes rumo da outra extremidade. A bola salta de Vera para Armênio. Vera trata o pretendente como a uma criança que devemos distrair com brinquedos inocentes para que ela não nos importune com pedidos inconvenientes. E a bola de gomos coloridos anda no ar, alegre, dum lado para outro. E Armênio, que interpreta o brinquedo como uma capitulação, sente-se leve, alegre, colorido e contente como uma bola de borracha.

       Mas de repente Vera olha para o outro lado da piscina e vê Chinita e Salu em mergulhos suspeitos. No fundo dágua os namorados se enroscam, formando um bicho de quatro pernas e quatro braços.

       — Que indecência! — exclama interiormente.

       E joga a bola com raiva para longe.

       Que pena! — pensa o Dr. Armênio. — Estava tão bom...

       Vera salta fora da piscina, como se temesse ficar contaminada pela água em que Salu mergulha. Como um cachorrinho fiel, outra vez sem dono, Armênio sai atrás da bem-amada.

       — Chinita, vamos embora que está ficando tarde!

       A cabeça de Chinita emerge:

       — Ora! Eu fico mais um pouquinho.

       A outra metade do monstro subaquático envolve-lhe a cintura com os tentáculos e puxa-a para baixo dágua, afogando-lhe a última sílaba da última palavra.

       Salu sente ainda um restinho do travo amargo da derrota. De alguma maneira precisa vencer hoje.

 

       No terceiro andar do Edifício Colombo, no apartamento número 9, vê-se pregada à porta uma pequena placa esmaltada com estes dizeres:

 

                                       MLLE NANETTE THIBAULT.

                                       MANICURE.

 

       O subtítulo manicure é para tranqüilizar o Mascarenhas encarregado do edifício. Uma “mademoazela” sem profissão que mora em apartamento não pode ser boa coisa... As famílias podiam reclamar. O homem relutou em alugar o apartamento para a mulher loura e pintada. Ela gostou dos alojamentos. Custavam 600$000 por mês? Pois ela pagava 700$000, contanto que lhe dessem o contrato. A casa era nova, confortável, os elevadores funcionavam bem, o ponto era central, o apartamento tinha o número de peças que lhe convinha... Mas Mascarenhas hesitava. O Cel. Zé Maria Pedrosa interveio conciliador.

       — A madama é séria — garantiu ele.

       E para tranqüilizar o Mascarenhas, acrescentou, num prodígio de cinismo:

       — Conheci a família dela.

       Na cidade do interior de onde Zé Maria viera, “conhecer a família” era o melhor dos documentos, a mais legítima das garantias. Mas o Mascarenhas estava duro:

       — Eu sei, coronel. Mas é que temos famílias que podem reclamar. Eu sei que a madama é boa... Se ao menos ela tivesse uma profissão...

       O coronel foi perdendo a paciência (tinha heróis farroupilhas no sangue) e, para não fazer uma violência, resolveu botar tudo em pratos limpos. Chamou o Mascarenhas para um canto e disse claramente:

       — Não gosto de falsidade. Essa madama é minha amásia. Mas lhe garanto que é acomodada. Aceite ela, homem. Eu pago oitocentos e respondo pelo que acontecer.

       Seu Mascarenhas, comovido pela franqueza, amoleceu um pouco. Mas ainda opôs obstáculos... A falta de profissão era o diabo...

       A francesa teve uma idéia. Sugeriu uma placa em que, por baixo de seu nome, viesse a palavra: manicure. Era uma profissão, ninguém podia dizer o contrário. O Mascarenhas achou a idéia muito boa e fechou o negócio. Manicure era a palavra mágica que haveria de apagar todos os pruridos de moralidade dos habitantes do edifício.

       Por trás dessa porta em que branquela a placa de letrinhas negras fica um pequeno hall, com um cabide de espelho: no cabide, o chapéu do Cel. Pedrosa. Depois do hall vem a sala de estar: um divã, duas poltronas, um abajur verde, enorme, um tapete, almofadas, quadros pelas paredes, cortinas nas janelas, e um angorá enrodilhado em cima duma almofada de cetim vermelho.

       No quarto contíguo Nanette, o corpo nu coberto por um quimono de seda negra com ramilhetes de prata, fuma um Camel. O Cel. Pedrosa, sem casaco, deitado na cama de barriga para o ar, pita seu crioulo. Com os olhinhos cerrados contempla, através da cortina azul de fumaça que se desprende do seu cigarro de palha, a cara de Nanette: a cabeleira basta e loura, como uma juba; olhos negros muito saltados, pálpebras sombreadas de azul; uma boca pintada, vermelhíssima, bâton procurando ajudar a natureza.

       — Êta potranca linda!

       É o madrigal máximo que pode sair do cérebro do Cel. Pedrosa. Ele não pode esquecer os anos que viveu no campo, antes de estabelecer-se com loja em Jacarecanga. Os seus antepassados eram gente campeira, “indiada buenacha”.

       Potranca linda é um elogio. Bonita como um ca’alo puro-sangue! — outro cumprimento.

       Nanette entende vagamente o significado destas palavras. Mas de uma coisa ela tem certeza: é de que este homem rude que fuma cigarros malcheirantes, que tem maneiras toscas, a tirou duma pensão barata, deu-lhe bons vestidos, dinheiro e por fim este apartamento confortável. Não se deve ser sentimental — pensa ela. — C’est de la bêtise! Mas ele é bom: não exige muito. Às vezes se contenta com o título de amante da “mademozela” Nanette Thibault. (E o trocadilho impossível que o coronel, com o seu humorismo ingênuo, faz de “Thibault” e “tambor”? Oh! Ela tem de agüentar os trocadilhos, como os cigarros de palha, por amor do conforto, por amor de seu bem-estar.)

       Olhando agora para o teto, o coronel pensa mais uma vez na grande coisa que é ter dinheiro. Lembra-se da vida antiga. Larga o toco de cigarro no cinzeiro e pensa: Eu só queria era ver a cara do Madruga. O Madruga, magro e asmático, palito na boca, contrariador, implicante...

       — Bueno (olha o relógio) são seis horas, preciso ir indo, meu bem.

       Levanta-se.

       — Eh bien!

       — Que foi que você disse?

       Ela sorri mas não responde. Devagarinho, com passos pesados, Zé Maria Pedrosa caminha para o banheiro.

       Nanette abre a janela, vai ao penteador, toma dum pulverizador e sai por todos os cantos do quarto a borrifar perfume, para apagar o cheiro que o cigarro crioulo do coronel deixou no ar.

 

       Na casa de João Benévolo o silêncio esmaga as três pessoas que estão sentadas na sala maior.

       Tina remenda as meias do marido. (Napoleão dorme no quarto.) Ponciano está sentado no lugar de sempre, duro na cadeira, o olhinho brilhando frio, palito no canto da boca, respiração cadenciada. Na parede caiada onde uma mancha de umidade corre desde o teto até o rodapé, sinuosa como um rio cortando todo um mapa — o relógio velho, asmático como Ponciano, diz o seu tique-taque ritmado.

       A tíbia luz do lampião forma uma zona alaranjada dentro da qual se acham Ponciano e Laurentina. João Benévolo fica dentro da zona mais sombria, como uma fera na tocaia. Sente no bolso o peso do dinheiro, do maldito dinheiro do outro. Já faz mais de meia hora que Ponciano está ali e ele ainda não disse nada, não fez o que devia...

       João Benévolo pensa numa frase: “Seu Ponciano, aqui está o seu dinheiro, tome, não precisamos da esmola de ninguém!” Pá! Atira o dinheiro para cima da mesa. Mas... o dinheiro não está intato. Um vidro de elixir paregórico para o Napoleão. Dois mil-réis de comida ao meio-dia; dois agora de noite... Como vai ser? João Benévolo comprime dentro do bolso das calças a nota de dez mil-réis e as cinco moedas de um mil-réis. Melhor dizer: “Seu Ponciano, tome quinze mil-réis. O Napoleão está doente: precisamos de gastar cinco. Depois eu lhe pago o resto.”

       Ponciano contempla Laurentina. Mais magra, mais acabada, mas sempre com aquele jeitinho que me agrada... Não sei, não sei, há tanta mulher no mundo, que diabo! Eu podia... Mas esta, é engraçado... sempre foi assim... desde o primeiro dia... Mas ela vem... Ora se vem! Paciência, Ponciano. Paciência.

       Sorri. Laurentina ergue os olhos:

       — Do que é que o senhor está rindo?

       — Nada. Eu estava só pensando...

       E se ela perguntar em quê? Mas não pergunta.

       João Benévolo acha que agora é o momento para falar no dinheiro. Começa assim: “Por falar em dinheiro...” Mas o diabo é que ninguém falou em dinheiro. Continua calado.

       Vozes na rua. Barulho na escada.

       — É o professor que vai pra escola — diz Tina.

       — Ué escola? Hoje é domingo.

       — Ah! É mesmo.

       As palavras são engolidas pelo silêncio. O relógio solta oito gemidos. E Ponciano ali, olho frio, contemplando Tina, que está de cabeça baixa a chorar por causa da tristeza do relógio que bateu lamentoso, como na casa das titias solteironas: o gato cinzento, as mobílias de rodinhas, os retratos. . .

       João Benévolo olha para fora e começa a assobiar. E sua raiva foge para a rua com o assobio, transformada num trecho do Carnaval de Veneza. O assobio se mistura no ar com a valsa do gramofone do vizinho e sobem juntos para o céu. Para a lua? Para as estrelas?

       Lua, estrelas... A imaginação de João Benévolo começa a trabalhar. Tina e Ponciano ficam no mundo esquecido. João Benévolo vai explorar a lua, dentro dum foguete fantástico. Na lua não há credores, nem miséria, nem Poncianos.

 

       Cacilda acaricia a cabeça de Pedrinho.

       — Não seja bobo, nego, vá embora. Você é muito criança. Quantos anos tem?

       — Dezesseis.

       — Nos cueiros ainda.

       — Mas sou homem.

       Os olhos do rapaz brilham.

       — Eu sei, mas é muito novinho. Não seja bobo. Ele é ciumento. Não quero bagunça no meu quarto.

       — E tu gostas dele, não é?

       Pedrinho sofre.

       — Não gosto, nada. É que ele vive me amolando pra eu ir viver com ele. Não quero. Não me agrada. Prefiro ficar aqui. É o meu chão. Estou acostumada.

       — Tu és diferente...

       — Diferente?

       — Não és como as outras. Eu sei. Se eu fosse mais velho, se tivesse dinheiro...

       — Se você fosse mais velho não havia de se importar comigo...

       — Me importava sim...

       — Não seja bobo, Pedrinho...

       Que aborrecimento! — pensa Cacilda. Ela precisa ganhar a vida e este guri aqui atrapalhando. Que idéia boba de paixão foi esta? Uma criança! Ela podia chamar um guarda, ou um homem... Mas não quer. Tem pena dele. Deve ter irmãs. Deve ser de boa família. Pode se perder como um que ela conheceu, um menino que acabou roubando do patrão e se matando com um tiro no peito.

       — Tu não gostas dele, então?

       — Já disse que não gosto.

       — Bom, então eu vou embora. Posso voltar amanhã?

       — Todos os dias, se quiser. Só não quero é que demore,

       — Está bem.

       Beija Cacilda. Ela se deixa beijar.

       — Adeus, nego.

       Pedrinho põe o chapéu e sai. O beco sombrio. Vultos que passam. A lua. Os combustores distanciados. Clarões de portas.

       Ele se vai... Na esquina volta a cabeça para trás. Lá está Cacilda na janela. Bonita, cara boa, não é burra, não é debochada. Metida neste beco... E o diabo é que ele vive pensando nela. Dia e noite. Na loja trabalha mal, lembrando-se dos olhos verdes, da boca miúda, da voz mansa.

       Pedrinho caminha. Luzes do Parque da Redenção. Bondes que passam. Uma visão mais larga do céu. As estrelas. Vontade de chorar.

      

       Segunda-feira.

       Vida nova — pensa João Benévolo, procurando iludir-se. E sai para a rua iludido. A manhã é toda um clarão azul e dourado. As pessoas que passam projetam uma sombra violeta na calçada. João Benévolo sai assobiando e procura pisar nas sombras. É uma brincadeira divertida, que lembra o tempo de criança em que ele e os guris da Padaria Trípoli ficavam na calçada apostando quem pisava mais tempo e mais vezes na sombra dos que passavam...

       Agora por causa das sombras João Benévolo pensa na infância e por causa da infância esquece as sombras.

       Eram cinco: os três filhos do dono da padaria e mais o mulato empregado dum oficial do exército. Organizaram uma quadrilha como no Mistério de Nova York. João Benévolo era o detetive. O mulato fazia o papel de chinês, os três italianinhos eram perigosos ladrões. Quando chovia, o bando se juntava no porão da padaria. João Benévolo levava os seus folhetins e lia em voz alta para os amigos. Lia e explicava. A chuva lá fora parecia uma cortina de fios de aço. O porão era mal-iluminado. Um toco de vela alumiava tremulamente as páginas do livro. Uma vez (que chuva inesquecível! os guris estavam deitados no chão, com os cotovelos fincados na terra e as mãos segurando a cabeça), João Benévolo leu as Vinte Mil Léguas Submarinas, e imediatamente eles transformaram o porão no Nautilus. Os homens, os carros e as carroças que passavam na rua sob a chuva eram tubarões, espadartes, baleias e polvos. Quando chegou a hora de escolher quem ia ser o Capitão Nemo, houve briga. Todos queriam encarnar o herói. Como não pudessem chegar a um acordo, separaram-se de relações estremecidas. João Benévolo passou três dias (que eternidade!) sem falar com os italianinhos da padaria. Mas uma tarde descobriu entre os livros velhos do pai um volume sem capa: O Homem Invisível. Esqueceu tudo e saiu a gritar para os vizinhos. “Pepino! Nino! Garibaldi! Venham cá, venham ver o que eu descobri!” Leu-lhes trechos do novo livro. E, lendo inventava coisas suas, colaborava com o autor, fantasiava, aumentava...

       João Benévolo pára a uma esquina.

       Para onde vou? O destino de sempre. Andar à toa, procurar os conhecidos, olhar os “precisa-se” dos jornais, sentar-se nos bancos da praça...

       Vai lhe pesando no bolso (como chumbo na consciência) o troco do Ponciano. Quinze mil-réis. Quinze mil-réis. Quinze mil-réis. As moedas tilintam, João Benévolo ouve o tinido alegre, que lhe impede de ignorar a existência do dinheiro.

       Não há de ser nada. Um dia ele encontra emprego, pega uma nota de cinqüenta e atocha-a na boca de Ponciano. Tome, seu sem-vergonha, não preciso de esmolas! E não me apareça mais lá em casa, está ouvindo?

       E só em pensar no que vai fazer ou, melhor, no que poderia fazer, caso uma série de circunstâncias ainda não realizadas o permitisse, — João Benévolo se sente desagravado e forte, como se já tivesse feito. Outra vez imagina-se herói. E continua a andar — que importa o rumo? — de peito inflado, cabeça erguida, um herói!

       Foi com heroísmo que casou com Laurentina. Sempre que ia para a loja, no tempo de solteiro, via aquela moça à janela. Gostava da cara, cumprimentava a desconhecida. Achava-a triste. Contavam-lhe que era órfã e que as tias queriam ver-se livres dela, fazendo-a casar com um homem que a moça odiava. A situação excitou a fantasia de João Benévolo. Era uma aventura. Mais do que isso: era uma aventura que estava a seu alcance, da qual ele podia ser o herói. E se conseguisse fazer que a moça se apaixonasse por ele? Se a libertasse do odioso pretendente protegido pelas titias? Começou a namorá-la e em breve já lhe mandava livros:

       Do admirador que a vê todas as manhãs reclinada à janela.

       Flores:

       Tributo da minha admiração sincera.

       Bilhetes:

   Se soubesse como preciso duma alma irmã para trilhar comigo o caminho da vida...

       Laurentina se deixou ninar pela canção romântica que João Benévolo lhe cantava. O outro pretendente, Ponciano, era um homem prático, seco e sem imaginação. A paixão veio e envolveu tanto o herói como a heroína. Aproximaram-se. As titias protestaram, alegando que Ponciano era o melhor partido, tinha mais dinheiro e uma situação econômica mais definida. Para João Benévolo foi um prazer enfrentar as velhas. Não há herói sem perigo, nem aventureiro sem aventura. Lutou e venceu. Ponciano fez uma retirada digna e ele entrou. Quando abriu os olhos, estava irremediavelmente comprometido. Casou.

       As moedas tornam a tilintar. Mas João Benévolo está tão longe que nem chega a ouvir-lhes o sonido de guizo.

       Pára diante da vitrina duma livraria. Livros com capas de todos os tamanhos e cores. Romances, contos, crônicas... E, bem no fundo, um título familiar: A Ilha do Tesouro que lhe evoca recordações agradáveis. Ele leu esse livro há quinze anos, no tempo de colégio. Tem uma vaga idéia da história: um homem de perna de pau, piratas, um tesouro escondido, um navio, uma taverna, e um menino que se vê envolvido numa doida aventura.

       Se eu tivesse dinheiro... O preço está numa etiqueta ao pé do livro em algarismos graúdos: 6$000.

       João Benévolo mete a mão no bolso. Ali estão os quinze mil-réis do troco... Mas não é direito. O dinheiro não lhe pertence. Além disso, há coisas mais úteis a comprar.

       Na capa do livro aparece o homem de perna de pau com um papagaio empoleirado no ombro. No fundo — o mar, o brigue dos piratas... João Benévolo se imagina com o livro nas mãos, sentado na sala, enquanto Tina costura.

       Mas não. Não é direito. Lança um último olhar para o livro e sai caminhando. Dá dois passos, estaca, faz meia volta... Um homem precisa de distrações. Que diabo! Todos temos direito a um pouquinho de prazer. Os ricos têm teatros, automóveis e rádios. Os pobres contentam-se com livros...

       É justo. E depois, quando se empregar, há de pagar os vinte mil-réis de Ponciano. “Tome, Ponciano, muito obrigado pelo empréstimo.”

       Entra na livraria, assobiando. Carnaval de Veneza.

 

       Para o Prof. Clarimundo, tomar o bonde é uma coisa desagradável. Desagradável por duas razões. Primeiro porque é perigosa; depois, porque implica no convívio por alguns minutos com gente desconhecida, com povo, com humanidade. As relações novas sempre o atemorizam. Nada há como as amizades velhas. Velhas e poucas. Na escola já está habituado aos alunos antigos, que lhe conhecem o método, o gênio, e a maneira de ser. Quando surge um estudante novo, Clarimundo é tomado dum certo mal-estar: uma nova fera para domesticar.

       Nos bondes o professor sofre. Se acontece uma mulher sentar-se a seu lado, ele fica perturbado e passa o resto da viagem assombrado pelo fantasma perfumado e colorido que lhe roça o cotovelo.

       Além do mais, tomar o bonde é perigoso. Estamos esperando o veículo elétrico muito sossegado e de repente passa um automóvel maluco e nos joga longe. A cabeça bate contra o poste — bumba! Fratura na base do crânio. Era uma vez uma vida! O progresso mecânico é horrível, pois significa bondes, automóveis, gramofones, rádios, máquinas, máquinas e mais máquinas! A admiração de Clarimundo pela ciência que tornou possível todas essas engenhocas fica limitada aos domínios da teoria.

       Um rádio não é admirável porque nos faz ouvir música mas sim porque é um milagre da ciência.

       Clarimundo espera o bonde. O monstro amarelo pára. O professor entra e senta-se num banco. Oito passageiros. O elétrico põe-se em marcha. Desfilam as casas da Independência: fachadas claras e escuras, postes, vitrinas, pessoas, árvores. Depois, os Moinhos de Vento. Passam-se alguns minutos. O professor aperta no botão da campainha, o bonde diminui a marcha e finalmente pára, ele desce. Como todas as vezes, fica por um instante desorientado. A casa da esquina, porém, — iniludível, com o seu torreão quase gótico e os ciprestes esguios no jardim — é um ótimo ponto de referência.

       Clarimundo entra na ruazinha arborizada. A sombra das árvores é tênue sobre as calçadas. Folhas secas juncam o chão. O ar está parado, e o céu claro.

       Clarimundo não pensa em mais nada senão em achar a casa: todos os sentidos estão alerta à procura do portão verde. Lá está ele. A placa é uma garantia: Cel. José Maria Pedrosa.

       Entra com o mesmo temor de sempre: Terá cachorro? Já lhe disseram que não tem. Ele sabe que não tem... Mas a sensação de receio se repete a cada visita. Clarimundo caminha pela alameda de palmeiras. Lá no fundo está a casa. Um jardineiro preto segura a mangueira e despeja um jorro dágua contra os canteiros de relva. Que parque enorme! Pinheiros, palmeiras, árvores japonesas, pequeninas e podadas, plátanos (quase desgalhados), arbustos desconhecidos, verdes de todos os tons, claro, escuro, brilhante, fosco, amarelado, azulado, acinzentado... A estradinha de areão que leva para casa range sob a sola dos sapatos de Clarimundo, que rebrilha.

       Caminha cauteloso como um invasor. Sobe os três degraus que levam ao alpendre. Aperta o botão da campainha. Uma criada abre a porta:

       — Faça o favor de entrar.

       Clarimundo entra, fica no hall grande, de parquê xadrez, creme e negro. A escada que sobe para o primeiro andar começa ali. Brilham metais e madeiras polidas. Um lustre complicado, com grandes pingentes de vidrilho, pende do teto.

       — Faça o favor de entrar pra sala — diz a criada, tomando do chapéu do recém-chegado.

       O professor entra. A sala, com seus móveis à Luís XV, aumenta-lhe a sensação de desconforto. Clarimundo pensa nos seus sapatões grosseiros de sola espessa. A sua roupa surrada de casimira cinzenta, encolhida e amassada, é uma nota dissonante no salão de douraduras, jarrões em que se vêem pintados marquesas e marqueses de cabeleira empoada.

       — Faça o favor de sentar que eu já vou chamar D. Chinita — diz a criada.

       Clarimundo senta-se na ponta da cadeira, constrangido.

       Passam-se alguns minutos. Chinita entra, metida num pijama preto de seda. À vista da moça com calças de homem, Clarimundo fica todo perturbado e cora.

       — Bom dia — gagueja, erguendo-se.

       — Ah! Como está o senhor, professor?

       — Muito bem, agradecido.

       — Que é que tínhamos hoje?

       — Português.

       — Que pena!

       O semblante de Chinita exprime consternação. (Só o semblante. Ela está olhando para o professor e lembrando de John Barrymore em Topaze, aquele professor de óculos, bigode e pêra. Mas este é um pobre diabo enfezado de bigodão de piaçaba, franjinha ouriçada...).

       — O senhor me desculpe, mas hoje não posso ter aula.

       E explica: estão todos muito ocupados: ela principalmente. Preparativos para a festa da noite. Não sei se o senhor sabe, hoje papai e mamãe vão dar uma baita festa, (Baita vale um soco no espírito do professor de Português.) Inauguração do palacete. O professor não sabia? Engraçado... Todos os jornais falam. Chinita exagera: muito trabalho, muita coisa a arrumar, enfeites, comidas, o senhor compreende... Vai enumerando.

       E sempre assim — pensa Clarimundo. Quando não há festa é a menina que está dormindo ou que acorda com dor de cabeça. Já faz sessenta dias que tomou o professor e só deu uma única lição. No fim do mês mandaram um envelope com o dinheiro. Ele ficou ofendido...

       — Senhorita Mariana...   (Clarimundo acha uma confiança muito grande dizer Chinita, apelido tão familiar.) O seu pai me mandou o ordenado do primeiro mês... Mas a senhorita compreende, eu não posso aceitar pois não dei mais que a primeira lição.

       — Ora, professor! Nem diga! A culpada fui eu...

       — Mas é que não dei as lições, portanto não fiz jus ao pagamento...

       — E este trabalho de vir até aqui? Não, senhor, não se fala mais nisso. Mas hoje o senhor vai me desculpar, sim?

       Clarimundo não sabe que dizer. Resmunga coisas ininteligíveis e se encaminha para a porta. A criada no hall lhe entrega o chapéu. O professor conserva os olhos desviados de Chinita. À porta, estende uma mão frouxa para a despedida.

      — Até outra vez! E me desculpe, sim professor?

       — “Desculpe-me” — corrige Clarimundo. — O imperativo exige pronome enclítico.   Desculpe-me. Dê-me. Faça-me.

       Diz isto sem olhar para a interlocutora.

       Uma mulher com calças de homem! Caminhando pela alameda de palmeiras que conduz ao portão, Clarimundo vai verberando mentalmente os costumes do mundo moderno.

 

       — Meu filho, coma essa carne assada que está muito boa...

       Honorato volta-se para Noel e seu olhar é um convite. Virgínia grita para a criada:

       — Querubina, ande com o arroz! Que lesma!...

       Os três estão ao redor da mesa circular coberta por uma toalha de linho muito branca. Louça inglesa cor-de-rosa, talheres de prata, flores num vaso bojudo de cristal, copos de bacará azul. Os pratos fumegam, perfumados. A luz do meio-dia alaga a sala.

       — Coma a carne, meu filho!

       Diante da comida, Honorato se enternece, enche-se de sentimentos paternais, lembrando-se de todo o tempo que ficou esquecido do filho, preocupado com os negócios. Ê seus sentimentos assim despertos transbordam no pedido insistente:

       — Coma a carne, Noel...

       É como quem diz: Eu te estimo, eu te amo, apesar de tudo; sou teu pai, interesso-me por ti. Quisera beijar-te, acariciar-te como uma mãe, como a tua mãe não faz... Mas, é o diabo, sou homem, fica feio. Por isso me encolho. Hoje estou alegre: quero demonstrar o meu interesse por ti. Só acho esta maneira, dizer-te que a carne está boa, pedir-te que a comas.

       — O nenêzinho não está com apetite... — zomba Virgínia.

       Noel brinca com a colher em cujo côncavo ele vê o seu próprio rosto, deformado e oblongo, como se tivesse sido pintado por El Greco.

       Querubina entra, trazendo a travessa do arroz. Noca espia na porta, como um cachorrinho assustado. Honorato amarra o guardanapo ao redor do pescoço e começa a trinchar a carne corada.

       Virgínia volta-se para o filho:

       — Que é que você quer?

       Sua voz é dura: parece um instrumento de metal a bater contra um pau.

       Noel olha para os pratos, indeciso, enfastiado.

       Pausa breve. Honorato come animadamente. Virgínia olha para o filho e depois de um instante, irrompe:

       — Então é melhor você mesmo se servir.

       E como cada qual fica entregue a si mesmo, rompe-se o único elo que os unia. Agora entre os três abrem-se abismos.

       Honorato mira os pratos com olho alegre. Com muita ternura e carinho, amontoa a comida com a faca, em quadradinhos simétricos em cima do garfo, e depois leva o garfo à boca e começa a mastigar com bravura. De quando em quando bebe um gole de vinho tinto e estrala de leve a língua. Que bom! Mentalmente faz um elogio à cozinheira: “Esta Maruca é uma cozinheira de mão-cheia. Pena é a cachaça!” Às vezes, como uma mosca importuna que voeja e lhe pousa no nariz para em seguida ir embora, tornando a voltar alguns instantes depois, — visitam-lhe a mente pensamentos referentes ao negócio.

       Virgínia come calmamente, sem grande apetite. O silêncio a sufoca. Ela quisera ter uma companhia alegre para o almoço, mais gente, mais conversas, principalmente gente nova, diferente. Os quadros familiares lhe causam engulho: o marido, com o guardanapo amarrado no pescoço como uma criança de babador e bochechas lustrosas, os olhos empapuçados e aquela verruga odiosa na face esquerda, perto do nariz. Comendo como um porco: sem uma palavra, sem um imprevisto, sem um gesto superior. Do outro lado, o filho, pálido, de olhos tristes, desligado, ausente. Muita razão tinha a Mimi ao dizer-lhe: “Não tens vocação para mãe.” Ela quisera ser mais terna, menos ríspida. Se houvesse entre ela e o filho uma aproximação, por menor que fosse, tudo mudaria. Mas agora é tarde. Ele está crescido... e ela — esquecida da sua maternidade. A culpa foi da preta Angélica. Tomou conta de tudo naquela casa, até do filho, incutindo em Noel o ódio à mãe. “Olha, ela é malvada, não quer bem o nenê, só a tia preta é que quer.” E conservou sempre a criança num mundo à parte. Agora não há mais remédio...

       Noel vê o reflexo da janela no cálice de cristal. No lago minúsculo de vinho, o sol põe respingos dourados. Respingos de sol na superfície da água... Ipanema... Fernanda...

       Vestida de branco ela vai na frente, puxando-o pela mão. Ele sente a lembrança daquele contato quente. E se ela estivesse ali, do outro lado da mesa, sorrindo?

       Noel imagina Fernanda sentada diante dele. As duas pessoas que aqui estão desaparecem, como se nunca tivessem existido. A própria sala se transforma. Fica menor e mais simples, mais simples e mais clara. Fernanda está vestida de azul, os cabelos lisos e lustrosos puxados para trás, seus olhos profundos é que dão o calor bom de conforto e confiança que anda no ar. O casal terminou de almoçar. Conversaram muito, fizeram planos. A vida agora é diferente. Daqui a pouco o relógio vai bater uma badalada: ele se erguerá, beijará a mulher e sairá para o trabalho. Agora não teme mais a vida: olha as criaturas de frente e luta. Quando a coragem lhe falha, Fernanda o anima. Sua presença é sedativa e boa... De noite lêem juntos sentados no divã coberto de chitão. Uma janela se abre para o luar e os perfumes da noite e do jardim. E o gramofone conta pela voz dos violinos histórias parecidas com as de tia Angélica.

       Uma voz estranha de súbito dissipa o paraíso de Noel:

       — Eu estive pensando...

       Honorato cala-se por um instante para engolir uma garfada de alimento. Depois continua:

       — Estive pensando, meu filho, que se tu quisesses...

       Noel espera. Virgínia olha de um para outro. Honorato engole e prossegue:

       — ...se tu quisesses trabalhar comigo, eu te faria meu sócio.

       Ah! Virgínia solta uma risadinha aspirada de cínico de teatro de aldeia. Noel sem compreender bem a proposta do pai lança-lhe um olhar vazio. Honorato explica:

       — Tu já descobriste — (Trincha mais um pedaço de carne) — ...que não tens vocação para a advocacia...   — (Tira com a faca um grão de arroz que lhe caiu sobre a manga do casaco) — Precisas arranjar... uma ocupação... Ora, um dia, quando eu faltar, tu ficas tomando conta do negócio... — (Uma garfada de comida) — Que achas?

       Noel brinca outra vez com a colher, embaraçado. O rapaz de cabeça oblonga, no côncavo de prata, tem no rosto uma grotesca expressão de dúvida.

       Virgínia intervém:

       — Pra que é que um homem estuda dez anos? Pra que é que tira um diploma? Pra ser bodegueiro como o pai, que nunca aprendeu nada além das quatro operações?

     — Ora, Gigina! — exclama Honorato, quase engasgado. Mas o seu protesto é convencional: no fundo as alfinetadas da mulher não o ferem. Ele está habituado...

       — Vais botar o teu diploma no escritório, junto com os sacos de feijão e arroz? — pergunta Virgínia com sarcasmo.

       — Ora Gigina!

       Honorato cruza os talheres e empurra o prato.

       — Eu estou falando sério, quero arrumar a vida do menino.

       — Oh! o pai exemplar! Muito bem! Querubina? — Virgínia se volta para a criada com o rosto resplendente. — Telefona pro jornal e diz que eu tenho uma notícia muito boa pra eles: Pai que se interessa pelo filho. Uma cena comovente.

       Desata a rir.

       Ela precisa achá-los ridículos e aborrecíveis. Precisa achar uma justificativa para os seus sentimentos para com Alcides.

       Levanta-se e vai até o quarto tomar uma pérola Juventus.

       Honorato come a sobremesa. Noel olha ainda para a cabeça oblonga no côncavo da colher. Mas o que ele vê está em sua memória: a face trigueira de Fernanda, animada por um sorriso de confiança na vida.

       — Papai, eu acho que vou aceitar a sua proposta.

       Mal termina de pronunciar estas palavras, admira-se da própria audácia. Parece que outro falou por ele. Honorato sorri.

       — Pois é. Ficas no escritório. Serviço muito bom. Correspondência, tal e coisa... Vais gostar. — Bate no ombro do filho. — Muito bem. Depois conversaremos.

       Noel já está de novo na companhia de Fernanda, numa sala tocada pelo luar. Lá fora os grilos cantam. Como é morna e macia a mão dela e que gosto estranho têm os seus lábios...

       A emoção é tão forte que Noel se levanta brusco e vai até a janela.

 

       — Não leias depois do almoço que faz mal, — aconselha Laurentina ao marido, que está com a cabeça enterrada num livro.

       João Benévolo mal e mal ergue os olhos.

       — Almoço?

       A sua pergunta exprime admiração, pois comeram tão pouco... O restaurante mandou um pingo de comida por dois mil-réis.

       João Benévolo torna a focar a atenção no livro. Laurentina vai atender o filho que chora no quarto. O gramofone do vizinho insiste na mesma valsa de todos os dias. Ouve-se o estalar das asas das pombas de D. Veva.

       Napoleãozinho chora de dor no estômago, choro manso, fraco, tremido. As lágrimas lhe correm pelo rosto magro. Laurentina dá ao filho um pouco dágua com gotas de elixir paregórico.

       O relógio bate uma hora e o som fica ecoando pela casa. Como que despertada pelo ruído, Tina acorda para odiar o marido. Odiar com um ódio calmo, frio, feito de exasperação, e de recriminações recalcadas. O gemido do relógio de ordinário lhe dá vontade de chorar. No entanto agora, ao ouvi-lo, tem ímpetos é de ir até a sala arrancar o livro da mão de Janjoca e mandá-lo para a rua arranjar emprego a todo o custo. A apatia do marido a exaspera. Ele não quer, não tem vontade. No fundo prefere ficar ali lendo os seus romances, por pura preguiça. O dinheiro acabou. Restam os últimos nove mil-réis do empréstimo de Ponciano. Dentro de dois dias não haverá em casa nem mais um tostão. O leiteiro aparece com a conta, dia sim dia não. A viúva Mendonça desce todos os dias para cobrar o aluguel e já anda falando em despejo... Ela não tem mais um vestido que preste, o Napoleão não tem mais calçado para ir ao colégio. Se ela tivesse coragem, saía para a rua a procurar alguma coisa... No entanto, a todas essas, João Benévolo está na varanda, calmo, lendo, como se tudo corresse bem. Não sente a miséria. Às vezes até assobia. Ou ri. Hoje de manhã, botou seis mil-réis fora num livro... Seis mil-réis; comida para dois dias! E agora está lendo o livro tranqüilamente, como se não estivesse há seis meses sem emprego, como se a família vivesse na fartura...

       João Benévolo encontra-se no albergue “Almirante Benbow” disfarçado de bucaneiro. Pela janela se avista a baía. O mar é verde; as montanhas, azuis: (A paisagem na mente de João Benévolo é um desenho simplista colorido por uma criança). O capitão anda caminhando pelos arrecifes, de luneta na mão, esperando o misterioso marinheiro da perna de pau. É como a história ainda não se esboçou com nitidez, como ainda não se revelou o herói, João Benévolo se introduz nela como uma personagem clandestina que olha as pessoas e as coisas, preparado para, dum momento para outro, meter-se na pele do mocinho. E enquanto o perna de pau não aparece, João Benévolo (ou antes, o misterioso bucaneiro) come toicinho com ovos (não é pequena a fome que ele sente realmente) e bebe rum. Bate-lhe na cara o vento que vem do mar, e ele sente cheiro de maresia e gosto de rum, embora em toda a sua vida nunca tenha visto o mar nem provado rum.

       Os minutos se escoam, marcados pelo tique-taque do relógio velho. Os sons da valsinha que o gramofone do vizinho toca penetram mansamente no mundo dos bucaneiros e piratas, misturando-se com o bramido das ondas que se quebram contra os penhascos.

   — Só tenho uma coisa a lhe dizer — replicou o doutor — é que se você continuar a beber dessa maneira muito breve o mundo estará livre dum patife!

   A cólera do velho bandido foi terrível. Ergueu-se dum salto, de navalha em punho...

       — Janjoca, faz alguma coisa.

       A voz de Laurentina puxa João Benévolo dos domínios da aventura para projetá-lo na triste realidade. Contrariado por ser interrompido num momento tão crítico, ele levanta os olhos com uma raiva surda.

       Tina ali está na sua frente, de braços caídos como a. estátua mesma do desânimo, imagem do aborrecimento. Suas pálpebras permanecem caídas enquanto ela vai pronunciando as palavras uma a uma, arrastadamente:

       — Que é que vai ser de nós? Faz alguma coisa...

       João Benévolo fecha o livro e começa a assobiar o Carnaval de Veneza. O retrato de Napoleãozinho Bonaparte está impassível na parede: o Imperador olha o campo de batalha, embriagado de glória; não sente fome, nem sede, não tem mulher e filho para sustentar, não precisa mudar roupa. Que felizardo, esse Napoleão Bonaparte!

       Laurentina continua:

       — Por que não vais falar com o teu ex-patrão?

       — Não adianta...

       A voz lamentosa insiste:

       — Conta pra ele como a gente vive...

       — Não tenho jeito...

       — Pode ser que ele te dê algum lugarzinho... Ou uma recomendação...

       João Benévolo quisera sumir-se, transformar-se numa mosca e sair voando pela janela. Quisera ser uma mesa, uma cadeira, um armário, um rato, — pelo menos agora, enquanto a voz enjoativa realeja esta canção lamurienta de miséria.

       — Vai, João Benévolo, amanhã o dinheiro acaba... Queres que a gente viva à custa do seu Ponciano?

       João Benévolo estremece ao ouvir o nome do outro.

       — Isso não!

       Mas a explosão é fraca. Depois da chama, gelo. Mal a última sílaba do nome de Ponciano se esvai no ar, João Benévolo esquece o ressentimento, o rival, a miséria. Neste momento ele só tem uma necessidade imperiosa: livrar-se da mulher.

       — Está bem... — concorda fracamente.

       Laurentina torna a fechar os olhos:

       — Mas vai mesmo... Vai, pede, pode ser que ele arranje.

       — Pois sim.

       — Mas vai agora!

       João Benévolo olha para o relógio:

       — Uma e dez. Ainda é cedo. Ele só chega às três no escritório...

       Laurentina suspira e torna ao quarto de dormir onde o Poleãozinho está lendo um número atrasado do “Tico-Tico”.

       Muito preocupado com a sorte do doutor, João Benévolo volta à novela.

   O doutor nem pestanejou. Os olhos de ambos se cruzaram em desafio, mas o capitão logo baixou os seus e guardou a navalha; rosnando como um cão batido, voltou a sentar-se.

       João Benévolo suspira, aliviado.

       Ao menos no livro as coisas correm como a gente deseja.

 

       Enrolada no xale (apesar do calor da hora) D. Eudóxia está sentada na sua velha cadeira de balanço que, ao oscilar para a frente e para trás, produz um ruído surdo.

       Fernanda termina de lavar os pratos do almoço. Pedrinho, deitado na sua cama, lê uma velha brochura.

       Fernanda pensa com desprazer no serviço que vai ter esta tarde no escritório: cartas pedindo o resgate de títulos, comunicações a bancos, memorandos a fregueses do interior... A chapa de sempre. Depois, as enormes minutas de Leitão Leiria, cheias de adjetivos complicados, pretensiosas e ocas. E quando ele a manda datilografar os seus artigos políticos para o jornal? Santo Deus!

       A água escorre da torneira para a pia e, enquanto esfrega o último prato, Fernanda imagina como seria se ela conseguisse uma nomeação de professora. Uma escola num subúrbio, o convívio com as crianças, o quadro-negro, os mapas, as carinhas de todos os feitios, morenas, brancas, pálidas, coradas, gordas, magras, marotas, tristonhas, insolentes, assustadas. .. E o prazer de ensinar, sentar-se na classe com o aluno, e como irmã mais velha, ir lhe dizendo coisas, como quem conta uma história, sem carrancas, sem gritos, com amor, muito amor... Como ela adora as crianças e como seria bom lidar com elas...

       Começa a enxugar o prato, perdida nos seus pensamentos. E quando imagina de novo as caras dos alunos, surpreende-se a descobrir no meio delas o Noel do passado, o Noel que ela levava para a escola pela mão. Mas o Noel menino que ela vê agora tem muito, muito do Noel homem com quem ela esteve ontem em Ipanema.

       A voz de D. Eudóxia vem da varanda:

       — Não gastes muita água. O dono da casa já reclamou.

       Sem responder, Fernanda depõe o prato em cima da mesa e começa a enxugar as mãos.

       Agora a aula se sumiu e só lhe ficou Noel no pensamento. E por mais que ela queira esconder, por mais que se queira iludir, a verdade se lhe revela mais uma vez.

       E essa realidade que ela se tem esforçado sempre por não reconhecer, o sentimento que tem procurado abafar com escusas mentirosas agora vem à superfície, nesta hora morna e calada de repouso.

       Não é possível iludir-se mais. Ela ama Noel. (Mesmo mentalmente a palavra amor tem um som equívoco, quase ridículo. Se inventassem outra para substituir o termo tão batido?) Seria bom que ambos pudessem seguir num prolongamento daqueles dias da infância, como dois bons amigos, sempre juntos... Afinal, por que ela não há de ter direito também a um pouco de felicidade como todo o mundo?

       — Fernanda! — Outra vez a voz da mãe. — Ainda não terminaste esse serviço?

       E o baque surdo e ritmado da cadeira de balanço.

       — Já está pronto! Já está pronto, dona Rabugenta!

       Volta aos seus pensamentos. Não, é absurdo. As linhas paralelas jamais se encontram. (Lembranças da escola de D. Eufrásia Rojão que dizia com sua voz metálica: “Linhas paralelas são linhas retas eqüidistantes que por mais que se prolonguem nunca se encontram.”) Ela e Noel pertencem a mundos diferentes. Os pais dele se oporiam ao casamento. Ele mesmo não teria coragem para tanto... Tão desamparado, tão sem vontade... E, além do mais, quem garante que ele a ame? Não. É melhor pensar nas cartas da firma. Acusamos o recebimento do seu estimado favor...

       Fernanda desce as mangas do vestido e vai apanhar o seu livro, para aproveitar os minutos que lhe restam.

       Pedrinho largou a novela. Não pôde ler nem duas linhas: sempre a imagem de Cacilda a persegui-lo a todo instante. Não consegue esquecer a rapariga. Pensa nela a todas as horas. Engana-se nas contas, erra nos talões, o gerente da loja já reclamou. Mas é inútil... A idéia de que Cacilda vive num beco imundo, na janela, oferecendo-se a todos os homens que passam, lhe é insuportável. No entanto Cacilda é uma boa moça. Por que será que nunca conta nada do seu passado? Parece tão conformada, tão feliz... Outras contam histórias... “Eu era noiva, meu noivo me fez mal, meu pai me botou para fora de casa e eu caí na vida.” Mas Cacilda não. É um mistério. Nunca se queixa... Ah! Se ele fosse mais velho, tivesse um bom emprego, tirava Cacilda do beco, levava-a para uma casinha limpa e quieta, onde os dois vivessem felizes.

       Pedrinho olha para o teto, onde uma aranha cinzenta procura atrair uma mosca. A cena é divertida. Mas dentro de poucos segundos Pedrinho esquece mosca e aranha para pensar de novo em Cacilda. Tem a impressão de que está vendo aqueles olhos verdes, sentindo o contato daquela pele, o bafo quente daquela boca, ouvindo a voz macia dizer: “Olá, nego!”

       Remexe-se na cama.

       Mas é uma loucura. Os amigos já descobriram a paixão e fazem troça dele. E se mamãe descobrir? E se Fernanda desconfiar?

       Pedrinho se levanta.

       Mas enfim Cacilda é ser humano como os outros. Ele tem visto muita mulher casada inferior a ela. Que diabo! Paixão é coisa que pode acontecer a qualquer um...

       Abre a gaveta da mesinha de cabeceira. Sacode a caixa de charuto. Aqui está o dinheiro com que vai comprar um colar Sloper para ela. Mais dois mil-réis, e ficarão completos os seis...

       Na janela do alto da casa fronteira aparece um vulto: o professor.

       A voz de D. Eudóxia:

       — Pedrinho! Fernanda! Está na hora de vocês saírem para o emprego. O professor já apareceu na janela.

       Pedrinho veste o casaco com preguiça. Fernanda larga do livro e vai empoar o rosto.

       O ruído surdo e ritmado da cadeira de balanço continua.

 

       O professor olha a rua.

       Na porta da sua sapataria, Fiorello descasca uma laranja. Um cachorro magro e pelado senta-se-lhe aos pés e ergue o focinho para o italiano, pedinchão. Um automóvel passa. Uma criança de dois anos, muito crespa, corre até a sarjeta, com as calças caídas e a cara lambuzada de caldo de feijão, e fica sentada à beira da calçada, muito quieta e atenta, como se estivesse assistindo a um espetáculo interessante. Na frente do seu mercadinho, o árabe Said Maluf conversa animadamente com um ambulante. De sua janela, o Cap. Mota grita para o vizinho:

       — Lindo veranico de maio!

       E do outro lado vem a resposta:

       — É verdade! Que Deus o conserve!

       Clarimundo olha para a casa fronteira. A velha de preto está na cadeira de balanço, que oscila como um berço. A moça bonita e o rapaz barulhento estão descendo a escada, saem para a calçada e se vão, rua afora. O gramofone do outro vizinho hoje felizmente não está tocando. Mas lá está ele beijando os filhos... decerto vai sair também. ‘(Clarimundo tem vaga idéia de que os outros homens também precisam trabalhar, têm os seus empregos, com horário fixo, etc... )

  1. Veva aparece à janela e sacode para fora um tapete que desprende uma nuvem de poeira que a luz incendeia. No quintal um cachorro atropela as galinhas.

       Clarimundo palita os dentes com metódica pachorra. Hoje precisa insistir com os rapazes a respeito da pronúncia de to have. Em sua maioria, não pronunciam o h aspirado. Ora, isto é um defeito horrível. Não convém escrever a pronúncia figurada, pois quando os rapazes forem grafar os vocábulos ingleses correm o risco de escrever a pronúncia figurada — o que é outro desastre mui grave. Porque o ensaio das línguas hoje em dia...

       Clarimundo perde-se em divagações.

       Uma criança começa a chorar nas vizinhanças de sua janela. Um trem apita, longe. Uma nuvem muito grande esconde o sol, lançando sobre a Travessa das Acácias sua tênue sombra.

       Clarimundo pensa no homem de Sírio.

       — Vai ser uma obra muito interessante! — garante a si mesmo.

       E sorri.

 

       O telefone do hall tilinta. Vera toma o receptor.

       — Alô! Quem fala?

       E a voz, do outro lado do fio:

       — Aqui é a Chinita! É a Vera?

       O rosto de Vera se ilumina:

       — Querida! Como vais?

       Imagina a cara viva da outra: os olhos negros, a franja lustrosa de chinesa, o nariz petulante, os lábios polpudos.

       — Vou bem. Olha, Vera, tu podias vir até aqui?

       — Agora?

       — Agora. Estamos arrumando a casa pra de noite. Eu queria que tu nos ajudasses... nos desses idéias. Estamos pregando os quadros... Bá! Que trabalho! Quando chegar a hora da festa acho que estou morta... Podes vir?

       Vera pensa um instante.

       — Está bem. Vou em seguida.

       — Vou te esperar. Adeusinho.

       — Adeusinho. Toma!

       Vera estrala um beijo sonoro no fone. Chinita responde com uma risada. A filha de D. Dodó entra correndo no quarto.

       Grita para baixo:

       — Rita, mande o Jacinto tirar o auto. — E para a mãe, que está no living: — Mamãe, vou até a casa da Chinita.

  1. Dodó ergue os olhos do livro que está lendo (A Vida de Santa Teresinha) e pergunta:

       — Vais demorar?

       Mas Vera já está fechada no quarto. D. Dodó baixa os olhos. Passam-se cinco minutos. Ouve-se o ruído do motor do Chrysler, na frente da casa. Vera desce a escada, apressada:

       — Adeus!

       — Manda logo o automóvel, minha filha, que eu tenho muitas obrigações para hoje.

  1. Dodó ouve a batida da porta da rua e pouco depois o ronco do motor do carro, que arranca.

       Fecha o livro por um instante e fica a pensar nos compromissos do dia. Visitar dois dos seus pobrezinhos naquela rua de Navegantes. Falar com a secretária da Sociedade das Damas Piedosas a respeito das notícias para a próxima quermesse. Passar pela casa das Monteiro para avisar que a distribuição de cobertores no Asilo ficou transferida para domingo que vem. Ir à casa da senhora do Dr. Martins combinar o dia da quermesse. Passar pela loja, dar um beijo no Teotônio (detalhes indispensáveis) e levar mais um vidro de Nuit de Noel. Ah! E também comprar umas fitinhas para botar nas camisas de dormir de Vera. (Essa menina não cuida da roupa dela! Nunca vi tamanho indiferentismo. Ai!)

       Com um suspiro, D. Dodó torna a abrir o livro.

   Podia em tais circunstâncias alimentar esperança de ser admitida de pronto no Carmelo? Para fazer-me crescer em virtude num momento, fazia-se mister um milagrezinho, e este milagre tão desejado fê-lo Deus no dia inolvidável, 25 de dezembro de 1886. Nessa festa do Natal, nessa noite abençoada, Jesus, meigo Infante recém-nascido, de uma hora para outra mudou as trevas da minha alma em catadupas de luz. Fazendo-se fraco e...

  1. Dodó esquece o livro e pensa no seu milagre. Foi há dez anos. Teotônio tinha caído de cama com uma pneumonia dupla. Três médicos à cabeceira: dois o desenganavam, só um tinha um restinho de esperança. Um dia ela foi ajoelhar-se aos pés da imagem de Santa Teresinha e pediu: Se ele sarar, eu prometo ficar mais religiosa do que sou e só cuidar da Santa Madre Igreja e da caridade. Amém. No dia seguinte Teotônio melhorou. A febre baixou, os médicos criaram alma nova. Explicavam: “O organismo reagiu.” Mas secretamente ela sabia que não tinha sido o organismo e sim a vontade de Deus Nosso Senhor e a mediação de Santa Teresinha. Passaram-se os dias e Teotônio foi melhorando sempre. Veio a convalescença. E quando ele ficou em condições de andar, ela o levou à Igreja e contou-lhe o milagre. (Dodó ainda se recorda das lágrimas que brotaram nos olhos do marido.) E nos anos que se seguiram ambos se dedicaram de corpo e alma à Igreja e à Pobreza. Ela, com o auxílio moral e material do marido, organizou festas de beneficência, deu dinheiro para hospitais, asilos, creches...

       Sempre que pensa no seu milagre, D. Dodó sente um amolecimento interior e tem vontade de chorar. Depois, o silêncio da casa e da hora, e a impressão funda que lhe causa esta vida de Santa Teresinha, tão bonita e tão santa...

       Reclina-se na cadeira e, seguindo um conselho que sempre lhe dá Monsenhor Gross, procura pelo pensamento aproximar-se de Santa Teresinha. Com os olhos do espírito vê a noviça de quinze anos, o Carmelo, as vigílias, as orações, a...

       A campainha da porta corta-lhe a meditação. D. Dodó tem um sobressalto. A criada vai ver quem é. Rumor de vozes.

       — O senhor faça o favor de passar...

  1. Dodó escuta, curiosa. A esta hora... quem será?

       A criada aparece:

       — Um homem do jornal. Quer falar com a senhora. Mandei entrar pra sala.

  1. Dodó se levanta; azafamada, põe o livro em cima da mesa, compõe a fisionomia, fabrica um sorriso e entra na sala.

       O homem, que está sentado, ergue-se. Uma cabeça pontuda e calva, nariz vermelho, óculos, roupa surrada, sorriso desfalcado de dentes.

       — D. Dodó, desculpe o incômodo que lhe dou...

       — Seu Marcondes, que prazer!

       Durante a sua longa gestão à frente de sociedades beneficentes, D. Dodó tem tido inúmeras ocasiões de tratar com seu Marcondes. É da Gazeta. Muito serviçal, faz notícias elogiosas. E depois, é um crente, toma comunhão, vai à missa diariamente, um verdadeiro católico!

       Apertam-se as mãos com cordialidade.

       — Sente-se, por favor.

       Marcondes obedece.

       — A que devo esta honra?... — começa D. Dodó.

       Marcondes tosse, entorta a cabeça e solta a voz viscosa :

       — Não vê que nós, jornalistas, somos muito indiscretos... — Sorriso. Olhinhos brilhantes. — E sabemos que uma certa pessoa muito querida dos pobrezinhos e da nossa alta sociedade está fazendo anos depois de amanhã.

  1. Dodó procura fazer a cara mais surpreendida deste mundo. De que se trata? Palavra que não compreende... Não tem a menor idéia. Marcondes sorri.

       — Então não sabe? Ora não diga, D. Dodó. Quem é a figura mais querida dos pobrezinhos? Quem é uma das damas mais distintas da nossa sociedade que faz anos depois de amanhã?

       — Mas... mas... o...

       Marcondes sacode a cabeça oblonga; a sua calva reluz.

       — Pois então eu digo. É a muito virtuosa esposa do nosso digníssimo amigo e colaborador Sr. Teotônio Leitão Leiria.

       E solta uma risadinha guinchada, contente consigo mesmo.

       — Oh! Esse seu Marcondes sempre com as suas gracinhas...

  1. Dodó sorri com modéstia. Curto silêncio. Outra vez a voz viscosa:

       — Pois, D. Dodó, a Gazeta quer entrevistá-la para a edição de quarta-feira. Já temos o seu clichê. Quer dar-nos a honra?

       — Seu Marcondes, mas eu fico muito acanhada...

  1. Dodó declara-se a mais insignificante das criaturas que Deus botou no mundo, indigna de desatar as sandálias dos mais humildes... Mas não, senhora! A quem devemos os nossos asilos, as nossas festas de caridade mais bonitas?... Não senhora!

       Por fim:

       — Para facilitar — diz Marcondes — eu trago um questionário.

       Tira do bolso um papel.

       — Para quando quer as respostas?

       — Se possível, para amanhã à noitinha, o mais tardar. Pode ser? — D. Dodó sacode a cabeça: sim, com a graça do Altíssimo. — Bom!

       Conversam mais alguns minutos. Por fim, o repórter, “não querendo importunar mais”, levanta-se, com cumprimentos e mesuras. D. Dodó acompanha-o até a porta.

       Despedida, protestos de admiração e amizade. E Marcondes se vai, de chapéu-carteira à cabeça, caminhando com os pés espalhados como Charlie Chaplin, o guarda-chuva pendente do braço.

  1. Dodó fica com o seu questionário e a sua formigante sensação de felicidade.

 

       Barulho e movimento no palacete de Zé Maria Pedrosa. No parque, os eletricistas atarraxam as lâmpadas grandes de mil velas e os longos colares de pequenas lâmpadas coloridas. Dentro da casa as marteladas ecoam por todas as peças. Gritos.

       Vera e. Chinita estão empenhadas em escolher lugares para os quadros. São telas que o coronel comprou nas últimas exposições: paisagens e nus.

       Chinita, no alto de uma escada, olha para Vera:

       — Acho que este. quadro fica melhor no hall.

       — Aqui na varanda já te disse que também fica bem.

       Sentado na poltrona, com o jornal em cima dos joelhos, Zé Maria assiste à discussão e resolve ser o mediador.

       — Deixe ver essa figura — pede.

       Chinita mostra-lhe a tela. É uma paisagem: telhados e, por cima dos telhados, um céu distante de outono; no primeiro plano, roupas coloridas a secar, pendentes duma corda.

       Zé Maria examina a paisagem, carrancudo. Depois decide:

       — Acho que esse troço ficava muito bom se não tivesse essas roupas secando nas cordas. Onde é que se viu roupa secando na sala de jantar? Eu sou um homem rude mas compreendo as coisas.

       Vera explode numa gargalhada. Chinita se torce de riso.

       — Ora, papai — diz. — Se a coisa é assim, onde é que vamos botar os nus?

       O coronel não se perturba:

       — Os pelados? — pergunta. — Pois botem eles no quarto de banho!

       Solta a sua risada gutural em hê. Continua a ler o jornal.

   “Com a presença do que a nossa sociedade possui de mais representativo, inaugura-se hoje o luxuoso e confortável palacete que o Cel. José Maria Pedrosa, capitalista residente nesta cidade, mandou construir para a sua Exma. família nos Moinhos de Vento.”

      Zé Maria goza. A notícia é um estimulante, ele se ergue, lépido, e vai gritar na cozinha:

       — Quantos croquetes fizeram? quinhentos? Mas é muito pouco. Mandem buscar mais duzentos na confeitaria.

       Faz novas recomendações sobre o champanha. “Quero da estranjera” — especifica.

       Duas mulheres de vestido arregaçado lustram o parquê.

       Um homem sem casaco passa carregando às costas uma barra de gelo. O pintor alemão dá o último retoque na pintura da parede do hall. E vem vitorioso, para o coronel:

       — Eu não lhe disse? Terminei ou não terminei?

       — Terminou — concorda Zé Maria. — Mas eu só sinto vocês não terem pintado as vacas como eu pedi. Ficava bonito, assim dourado...

       Uma criada vem dizer que o chá está pronto. Chinita convida:

       — Vera, vamos nos preparar pra o chá?

       — Vamos.

       Sobem. No quarto, Chinita senta-se na cama, corada do esforço que acaba de fazer. A sua pele morena é um contraste com o pijama escuro. Os seus seios rijos sobem e descem como que querendo furar a seda. Vera senta-se também na cama e contempla a amiga longamente, pensando coisas... Chinita não sabe a força que possui, com estes olhos, este corpo... Pena é que não tenha compostura: muito intempestiva, meio selvagem, demasiadamente preocupada com artistas de cinema. Diz asneira com facilidade, faz criancices. No entanto é tão atraente, tão apetitosa, tão...

       — Estou sem coragem... — murmura Chinita.

       Mas Vera nem a escuta. Está a olhar para a outra com paixão, a olhar fixamente para os lábios dela, tentando espantar, afugentar um desejo que aos poucos se vai avolumando. Mas o desejo é uma onda que lhe sobe no peito, com uma força inexplicável. Estes lábios...

       De repente Vera segura com ambas as mãos a cabeça de Chinita e começa a beijar-lhe a boca com fúria. Perdendo o equilíbrio ambas tombam sobre a cama. Vera continua a beijar a amiga incessantemente, numa violência desesperada. Chinita sacode os braços, quase num abandono, surpreendida e ao mesmo tempo deliciada. Primeiro ri e pronuncia palavras que Vera lhe corta com beijos:

       — Lou...quinha! Cre...do!

       E depois se abandona toda às carícias da amiga, fecha os olhos e imagina que Vera é Salu.

       Batem na porta. As amigas se separam, rápidas.

      — Quem é? — pergunta Chinita.

       Uma voz do outro lado:

       — O chá está esfriando.

       — Já vamos.

       Agora Vera só tem vontade de bater em Chinita, esbofeteá-la. Olha-se no espelho do penteador: está corada e com a cabeleira revolta. Lavam e empoam o rosto em silêncio, penteiam-se e descem para a sala de refeições.

  1. Maria Luísa está sentada na sua cadeira, imóvel. Não toma parte nos preparativos. Não diz uma palavra. Lavra assim o seu protesto mudo contra o desperdício, contra a loucura. Para que festa? Para gastar. Para que tanta comida, tanta bebida? Só para botar dinheiro fora.

       Não. Ela lava as mãos, como Pilatos: Amanhã, quando todos estiverem na miséria, não podem lançar a culpa para cima dela.

       — Mamãe, venha para o chá!

       — Não quero.

       Não tomar chá também é uma forma de protesto.

       Chinita, Vera e o coronel sentam-se à mesa. Chá com torradas e presunto.

       No corredor do primeiro andar passa um vulto de pijama. É Manuel, que acaba de acordar. Está pálido, amarfanhado, barba a azular-lhe as faces. Vai com a toalha debaixo do braço na direção do quarto de banho.

       Por toda a casa vibra ainda a sinfonia dos martelos.

       No parque os eletricistas experimentam as lâmpadas novas. Mas a luz do sol anula todas as luzes menores.

 

       Fechado no quarto, Noel pega da pena e começa a lutar com a folha de papel em branco. Está resolvido a começar o seu romance. No fim de contas, quem tem razão é Fernanda. É preciso dar um passo na direção da vida, dos homens.

       Mas que poderá sair do tema do homem desempregado? Como começar?

       As vidraças dá Floresta chamejam. Nos quintais há sombras verdes e azuis. O rio reflete furiosamente a luz do sol. Olhando da superfície do rio para a superfície do papel também inundado de sol, Noel tem a mesma impressão de impassibilidade rebrilhante.

       Um nome para o herói. Flávio? Não serve. Muito romântico. Deve ser um homem simples, para dar ao leitor a impressão de verdade. Pedro? Ou José? José Pedro. O nome está escolhido.

       Para começar, José Pedro está debruçado à sua janela, olhando para as crianças que brincam na rua. A roda infantil lhe traz à mente uma recordação da meninice.

       Noel começa a escrever com a impressão de que Fernanda está presente em espírito, a dar-lhe sugestões, a incitá-lo.

       Escreve a primeira frase:

   José Pedro debruça-se à sua janela e olha para a rua. Debaixo dum plátano, na calçada, um grupo de crianças brinca de roda.

       Noel relê o que escreveu. Parece ouvir a voz de Fernanda a seu lado: Vamos! Adiante!

      

       Atravessando o salão grande do Bazar Continental para subir ao escritório do patrão, João Benévolo vai encolhido, procurando esconder-se no meio dos fregueses, temendo ser reconhecido pelos antigos colegas. Antigamente vinha trabalhar com roupas baratas mas discretas, limpas e bem passadas. Agora a sua fatiota cinzenta está amassada e com nódoas de sebo.

       João Benévolo sabe o caminho. Lembra-se do dia em que o chamaram ao escritório para lhe dizerem que estava despedido. Sobe os degraus em silêncio. Um cartão colado à porta: Entre sem bater. Chapéu na mão, coração batendo com força, João Benévolo entra. Na primeira sala, as duas mulheres. Ao ver Fernanda, João Benévolo se tranqüiliza. É a sua vizinha, uma conhecida: provavelmente uma aliada. Sorri.

       — Olá, João Benévolo? Como vai a sua gente?

       — Todos bons. E a senhora? A sua mãe?

       — Muito bem, obrigada.

       Silêncio. Fernanda pergunta:

      — Veio procurar o homem?

       — Vim.

       — As coisas vão correndo mal, hein?

       João Benévolo tem vergonha de confessar a verdade. Mente:

       — Nem tanto. Tínhamos umas economias. Em todo o caso quando a gente está trabalhando, sempre é melhor, não é? — Fernanda sacode a cabeça. — Por isso vim falar com o seu Leitão Leiria.

       — Espere aqui que eu vou ver...

       Fernanda entra no escritório do patrão. João Benévolo olha em torno. A moça de óculos escreve por trás do seu vaso de flores.

       — Desculpe, D. Branquinha, eu não tinha visto a senhora. — Branquinha ergue os olhos e diz com indiferença:

       — Bom dia!

       Fernanda torna a aparecer:

       — Pode entrar.

       No seu embaraço, João Benévolo nem se lembra de agradecer a mediação de Fernanda. Entra no escritório de Leitão Leiria com o chapéu e o coração na mão.

       As poltronas de couro, as telas na parede, o tapete verde onde os pés afundam sem ruído — tudo isto concorre para aumentar o constrangimento de João Benévolo. Sentado à sua escrivaninha, Leitão Leiria fuma um charuto, muito teso na cadeira.

       — Às suas ordens.

       — Não vê que... — gagueja o recém-chegado — eu sou aquele que trabalhava na loja, na seção de armarinho...

       Os olhos de Leitão Leiria estão fitos nele.

       — Ah! Muito bem. Como vai o senhor? Queira sentar-se!

       Aponta para uma poltrona. Estas amabilidades surpreendem João Benévolo.

       — Fuma charuto?

       — Não, obrigado. Não fumo.

       Leitão Leiria atira uma baforada de fumo para o teto, reclina-se para trás na cadeira e pergunta:

       — Em que lhe posso ser útil?

       O seu rosto demonstra interesse. João Benévolo está encantado.

       — É que eu não arranjei emprego até agora. Se o senhor soubesse de alguma coisa... Algum amigo... Alguma outra casa que precisasse... Se não for possível, não faz mal, não quero que se incomode por minha causa... Mas acontece que estamos mal...

       Leitão Leiria fica pensativo por alguns segundos. Pega da carteira e diz:

       — Eu poderia auxiliá-lo com algum dinheiro...

       João Benévolo ergue-se num salto para imediatamente surpreender-se da impetuosidade de seu gesto.

       — Não — diz — muito obrigado. Não é dinheiro. Eu queria um emprego...

       Leitão Leiria repõe a carteira no bolso. Ergue-se e começa a passear dum lado para outro.

       — Tenho uma idéia — diz ele, parando na frente do interlocutor. — Vou dar-lhe um cartão recomendando-o ao meu amigo Mendes Mota, da Fábrica Brasileira de Mosaicos. Espere.

       Senta-se à mesa e começa a escrever num de seus cartões de visita:

       “Meu caro amigo. Tenho o prazer de apresentar-lhe o Sr....”

       — Como é o, seu nome? Ah!

       “o Sr. João Benévolo, cidadão de bons costumes, trabalhador, empregado exemplar, que deseja obter uma colocação na firma de que V. S.ª é muito digno sócio. Faço questão cerrada de que V. S.a atenda ao meu recomendado nas suas justas pretensões.

       De V. S.a, etc, etc.”

       A assinatura numa letra miúda e clara. Mata-borrão. Envelope.

       João Benévolo guarda o cartão no bolso e se desfaz em agradecimentos, arrependido de tudo quanto pensou de mal a respeito de Leitão Leiria. No final de contas, o homem é muito melhor do que parecia. Não quer um charuto? Em que lhe posso ser útil? Como a gente se engana com as pessoas!

       Fazendo uma reverência profunda, sai do escritório tão atarantado que se esquece de dizer adeus às moças.

       Leitão Leiria ergue o receptor do telefone, pede um número e depois diz um nome.

       — És tu, Mendes? Aqui é o Leitão Leiria. Vou bem. Olha, mandei aí um sujeito com um cartão. Quero te avisar... Foi um desaperto, compreendes? Pediu emprego. Ia ficar me amolando a tarde toda, tive de tomar uma providência drástica. Podes rasgar o cartão. O homem não me interessa. — Pausa. — Não! Absolutamente. Os amigos são para as ocasiões. Tu sabes, nesta nossa vida de comércio acontecem destas... Obrigado. Quando quiseres fazer o mesmo comigo... Bom. Adeus! E desculpa o incômodo, sim?

       Torna a pendurar o receptor. Arruma a gravata e dá um chupão forte no charuto.

 

      Quando o relógio bate cinco horas (há certas horas que têm uma significação especial na vida da gente) Virgínia dá os últimos retoques no rosto — rouge e pó de arroz nas faces, creiom nas sobrancelhas, bâton nos lábios, — e vai para a janela.

       Ele já está lá na esquina, como de costume a esta hora, e seus olhos estão voltados para ela. Cumprimenta-a com discrição, tirando o chapéu num gesto recatado, com uma pequena curvatura. Ela inclina a cabeça. E, tendo entre ambos a largura duma rua, duma calçada e dum jardim de cinco metros, ficam a se olhar, como um par de jovens namorados.

       Como no tempo em que eu era moça — pensa Virgínia.

       Um bonde passa. Ela recua um pouco e fica protegida por uma das folhas da janela. Pode vir algum conhecido no bonde... E quando o elétrico passa, num clarão amarelo e numa trovoada, ela volta a debruçar-se à janela. Alcides passeia na calçada, dum lado para outro.

       Ao menor ruído que se produz na casa, Virgínia se volta, sobressaltada.

       Bem como antigamente — pensa ela — bem como no tempo de moça.

       O sol aos poucos desce no horizonte. As sombras crescem. E se avoluma no peito de Virgínia um quente, alvoroçado desejo de amor.

 

       A baratinha corre pela faixa de cimento que margeia o rio, rumo da Tristeza. Contra o clarão purpúreo e dourado do horizonte se recorta a silhueta negra das montanhas e das ilhas. Redondo e vermelho-bronzeado, o sol vai descendo. O rio capta as cores do céu. Segurando o volante, cabelos ao vento, Salu diminui a marcha do carro e contempla a paisagem. A cidade envolta por uma névoa azulada é uma ponta que avança Guaíba adentro, uma massa violeta de recorte caprichoso, com faiscações e manchas claras. Uma chaminé solta fumaça para o céu. Os trapiches de pernas longas se refletem tremulamente na água do rio, que é negra e lustrosa junto das margens.

       Do lado esquerdo da estrada aparecem chalés e bangalôs, quintas e pomares, barrancos sangrentos vertendo água, cerca com mourões de granito, árvores isoladas. Às vezes um cachorro salta de dentro dum jardim e sai a perseguir o automóvel, latindo furiosamente.

       Na ponta dum trapiche um rapazola em mangas de camisa pesca com caniço. À porta dum clube de regatas dois remadores conversam; camisetas verdes, maiôs justos, braços, coxas e pernas à mostra.

       Salu vai num adormecimento... A marcha do carro é macia. A tarde, morna. Chega-lhe às narinas um cheiro fresco de mato. Cartazes anunciam terrenos em praias novas: Guaíba, Espírito Santo, Belém Novo, Ipanema... Na encosta dum morro, em meio da massa verde-escura do arvoredo, berra o telhado coralino duma casa nova. A faixa de cimento corre na frente do automóvel, torcendo-se como uma enorme jibóia cinzenta. Um automóvel bege cruza pela baratinha de Salu em sentido contrário, veloz. O horizonte está cada vez mais afogueado. A ponta do sol começa já a desaparecer na linha do horizonte, Longe, a cidade parece uma pintura de biombo chinês.

       Salu não pode afugentar da mente a imagem de Chinita. É uma doença que ele agora tem no corpo, uma obsessão. Está todo impregnado de Chinita. Esta tarde cariciosa, com os seus perfumes tépidos, o seu colorido forte, a sua névoa, e o seu sol de brasa — só pode avivar-lhe o desejo. Salu pensa na namorada. Num cartaz a figura duma jovem de maiô recomenda uma praia próxima. Salu recorda as cenas da piscina, os contatos deliciosos debaixo dágua, as palavras cochichadas, as insinuações...

       Mal se ouve o ruído do motor. Acelera a marcha do carro, e lança um novo olhar para a paisagem. O trenzinho da Tristeza passa apitando. A noite desce de mansinho.

 

       A lua brilha sobre a Travessa das Acácias.

       Pela calçada passam raparigas de braços dados, sob as janelas iluminadas. Na loja Ao Trovão da Zona um negro bêbedo arranca duma cordeona acordes sem sentido. O Capitão Mota está sentado com a mulher à frente da casa. D. Veva, à sua janela, queixa-se para o vizinho do moleque do bodoque.

       — Pois aquele negro sem-vergonha não deixa o meu pombal em paz.

       A luz dos combustores é fraca e amarelenta. Por cima dos telhados estende-se o céu claro, todo borrifado de estrelas. E na travessa tranqüila a janela que está mais perto do céu é a do Prof. Clarimundo.

       Antes de ir para a aula, o professor recebe a visita habitual do sapateiro Fiorello.

       — É como lhe digo, seu Fiorello, no fundo isso é uma questão de boa vontade.

       Fiorello faz um gesto teatral.

       — Mas o povo era indisciplinado...

       — O povo sempre foi indisciplinado... Panem et circenses... é o que querem.

       Fiorello dá de ombros. Panem et circenses? Ele não entende francês.

       — Mussolini endireitou a Itália. O senhor veja...

       Mas Clarimundo está firme no seu ponto de vista:

       — Não acredite, seu Fiorello. Isso são coisas de jornal.

       — Ma...ma...

       Fiorello está tão excitado que não encontra palavras. O professor é um homem muito instruído, tale e cosa, mas neste ponto não tem razão.

       Clarimundo continua a sacudir a cabeça.

       A metade dessas histórias que os jornais contam são mentiras. Mentiras para chamar a atenção do público.

       — Meu primo Salvatore que mora em Nápoles me escreveu dizendo...

       — O seu primo nem podia dizer outra coisa. A censura não permitiria.

       — Mas que censura!

       Fiorello treme, vermelho, dá pequenos pulinhos, junta as mãos como quem vai orar e sacode-as, sempre juntas, diante do rosto do professor, repetindo a pergunta:

       — Mas que censura! Mas que censura!

       Clarimundo faz um gesto apaziguador.

       — Está bem. Não se exalte. Vamos dizer que alguma coisa do que se conta de Mussolini seja verdade.. .

       — Giá...

       Mais calmo, Fiorello torna a sentar-se.

       — Tudo isso está errado, seu Fiorello. E sabe quem é que vai aclarar a história? É o meu homem de Sírio.

       — O sírio?

       Clarimundo sorri, com benevolência.

       — Não, homem. Não. Eu explico. Estou escrevendo um livro. . .

       — O senhor mesmo?...

       — Sim, eu. Trata-se dum homem que lá de Sírio... O senhor sabe o que é Sírio? É uma das estrelas mais brilhantes do firmamento. Pois, como eu dizia, trata-se dum homem que lá de Sírio, por meio dum telescópio mágico, olha a terra e descobre a verdade das coisas.

       — Veja só...

       — Essas histórias todas de Mussolini, de crise econômica, de comunismo, tudo isso vai aparecer sob um aspecto novo.

     — Giá...

       — O meu homem de Sírio fará revelações sensacionais...

       — O senhor já botou tudo no livro?

       — Ainda não. Qualquer dia destes começo a escrever o prefácio da obra...

       Prefácio. Fiorello não entende mas sacode a cabeça, numa aquiescência.

       Clarimundo aproxima-se da janela, com um ar satisfeito e sereno fica contemplando o céu, como se fosse proprietário de todas as estrelas, de Sírio e das outras.

 

       O salão de festas do palacete do Cel. Pedrosa fervilha de convidados. As vozes se entrecruzam, emaranham e confundem dentro do dia artificial criado pelas lâmpadas invisíveis. A orquestra toca no hall estridente, abafando as badaladas do grande relógio que neste momento bate dez horas.

       Pelos cantos do salão vêem-se grupos. Há uma fileira de cadeiras em que se perfilam senhoras idosas que conversam e observam. (Zé Maria foi pródigo nos convites.) No meio do salão alguns pares dançam.

       Um criado passa com uma grande bandeja em que as taças de champanha semelham uma pequena floresta de árvores de cristal com copas de ouro.

       Na varanda — as grandes mesas de frios e doces. Cinco enormes perus recheados e crivados de palitos com fatias de limão erguem para o teto as pernas mutiladas. Os croquetes sobem em pirâmides morenas em doze pratos vermelhos de cerâmica. (O coronel pensou num churrasco ao ar livre. “Que horror!” — disse Chinita. — “Desista da idéia, papai. Que coisa anti-social! Olha que não estamos na estância...”.) Os sanduíches formam altas montanhas de neve pintalgadas do vermelho desbotado dos presuntos. Numa enorme travessa de prata a maionese (idéia luminosa do Cel. Zé Maria) parodia a bandeira do Rio Grande: o amarelo do molho de ovo, o vermelho da beterraba e o verde das folhas de alface e das talhadas de pepino.

       Ao lado da mesa dos perus, corre paralelamente a dos doces, que é toda ela uma confusão de cores. Os quindins são estrelas de ouro. as gelatinas (vermelhas, brancas, cor-de-rosa e âmbar) têm a forma de peixes, leões, polvos, flores. Há um grande bolo que é um arranha-céu em miniatura. Dum chafariz de chocolate jorra a água amarela dos fios de ovos. Vêem-se mais algumas dúzias de pratos com doces secos, uns famosos, outros anônimos.

       Quando a música cessa aumenta o zunzum das conversas.

       O coronel olha o salão com olhos contentes. Apesar do colarinho engomado que lhe comprime as carnes do pescoço, apesar da camisa de peito duro, apesar do calor forte que está fazendo (“Vai chover...” — disse uma voz no meio da multidão), apesar dos sapatos de verniz que lhe apertam os calos, ele se sente feliz.

       “Se o Madruga visse tudo isto!” Seus pensamentos se voltam para Jacarecanga. Valia a pena mandar buscar o patife, pagar-lhe passagem de ida e volta, dar-lhe hospedagem... Só para ele ver, só para ele se ralar de inveja...

       Zé Maria não cansa de olhar para os convidados. Um sorriso para cada um. Muitos são gente que ele nunca viu, mas gente distinta, está se vendo, gente que traja bem, que sabe pisar, falar, dançar. Sim senhor! Quem havera de dizer!

       A música duma marchinha invade o ar luminoso. Os pares saem dançando.

       O Dr. Armênio aproxima-se do dono da casa.

       — Olá, doutor, como le vai? — pergunta Zé Maria, estendendo o braço.

       — Muito bem, agradecido. — Apertam-se as mãos. — Uma festa linda! — acrescenta Armênio.

       E na sua mente a frase ecoa em francês: Quelle jolie soirée!

       Ficam contemplando os pares. Os vestidos das mulheres são móveis manchas coloridas. Há decotes fundos, braços nus onde faíscam jóias.

       Ar perfumado, quente, entorpecedor. A música forte. Armênio tem de gritar para se fazer ouvido.

       — Que grande é o seu salão, coronel! — Sente-se na obrigação de elogiar. Dever de cortesia. Está agora regando uma flor (pobre flor, rude flor) do seu jardim social.

       O coronel sorri, lisonjeado, e retruca:

       — É um potrêro!

       Armênio não confia no testemunho de seus ouvidos.

       — Como diz?

       — Digo que é um potrêro! — repete Zé Maria, rindo em ê.

       Armênio sente-se picado pela espinho desta flor silvestre.

       Que diferença das flores de estufa! Sorri amarelo, pede licença, e sai a procurar Vera. Pensou nela por contraste. Seus olhos viajam pelo salão, fazendo pequenas escalas rapidíssimas pelos rostos femininos. Meu Deus, ela não teria vindo ainda? Mon Dieu! Ela virá? Tomara que venha. É possível que esta noite seja definitiva.

       Sentada na sua poltrona, num canto do salão, D. Maria Luísa olha a festa como uma estranha. Não. Esta casa não é sua, nunca foi, nunca será. Ela pertence à pobreza: apesar dos dois mil contos da loteria, nunca deixou de pertencer à pobreza. O seu meio, o seu chão é a casa humilde de Jacarecanga: lingüiça frita, leite com farinha de beiju na sobremesa, rosquinhas de polvilho com café, guisadinho com quibebe, cinema aos domingos, calma, conversas com os vizinhos por cima da cerca, paz... Esta luz, estes brilhos, este barulho, esta gente — tudo apavora. A música é uma profanação: o mesmo que tocar sambas no cemitério. Não. Ela ainda continua pobre. Amanhã, quando o dinheiro acabar e a miséria negra chegar, ela não quer sentir remorso, não quer que a culpem do desperdício e das extravagâncias. Por isso fica aqui sentada, como uma convidada indesejável, respondendo com monossílabos às perguntas, retribuindo com um sorriso de canto de boca aos elogios que fazem à casa ou à festa.

  1. Maria Luísa olha em torno e mentalmente vai calculando os gastos. Sempre foi fraca nas quatro operações. Mesmo com lápis na mão, ela erra. Mas há um sexto sentido por meio do qual agora ela consegue descobrir precisamente o quanto se gastou, o quanto se vai ainda gastar...

       Chinita e Salu dançam, muito agarrados. Uma festa na casa de Joan Crawford — pensa ela. Salu sente contra a palma da mão a maciez arrepiante do vestido de veludo de Chinita; o seu polegar toca na própria carne das costas da rapariga, bem no ângulo formado pelo profundo decote do vestido.

       Que perfume é este que a envolve como uma aura? Ele não o pode identificar. Um aroma tropical, quente, que provoca na gente um desejo mole, meio sonolento e abandonado.

       A orquestra toca um tango argentino. O bandônion marca o compasso arrastado. Salu e Chinita deslizam. Sob seus pés, o parquê é liso e rebrilhante como uma pista de gelo, E eles fazem figuras sinuosas, face, peito, ventre e coxas colados. O dedo polegar de Salu comprime fortemente a carne das costas de Chinita.

       — Vais ficar com a minha impressão digital... — diz ele de mansinho ao ouvido dela.

       Chinita sorri mas sem entender. Digital, digital, digital... Deve ser alguma coisa de dedo, porque ao dizer estas palavras ele apertou o polegar com mais força.

       — Tu te lembras daquele verso de Guilherme de Almeida? — continua ele. — Entre nós não há espaço nem para um beijo...

       Chinita sorri. Agora ela se sente à vontade porque conhece o poema. Levanta o rosto para o namorado e diz:

       — Não haverá mesmo?

       — Aqui na sala, talvez não... Mas quando é que vamos dar uma volta no parque?

       — Mais tarde... Tem paciência.

       O passeio no parque é uma obsessão do espírito de Salu. Ele formou um plano doido... Nem é bem plano... Um pressentimento, um desejo... Sei lá! Qualquer coisa há de acontecer no parque, seja como for. Hoje ou nunca. Salu não mede conseqüências nem quer pensar nelas Só continua a existir para ele a necessidade clamorosa de amar Chinita, de possuir Chinita, integralmente, de extorquir com violência ou persuasão todo, todo o gozo que porventura exista em potência neste corpo, todo, todinho, de maneira a não deixar se possível nem um restinho para os que vierem depois... O parque... Foi a idéia que o acompanhou durante as últimas horas do dia. O parque, a sombra das árvores, o parque...

       O último gemido do bandônion marca o fim do tango. Os pares se descolam. Ao afrouxar a pressão do abraço, Salu tem a impressão de que se separa duma parte de seu próprio corpo. E essa impressão corresponde a uma dor — dor física, de dilaceramento.

       Os homens batem palmas. As conversas se animam.

       — Então? — cicia Salu. — Passam dez das dez... Quando queres sair?

       Chinita pensa um segundo.

       — Às onze me espera na área do lado. Agora me dá licença que vou atender os convidados...

       Com um sorriso, despede-se, faz meia volta e sai na direção do hall. Salu acompanha-a com o olhar e fica a imaginar a carne que há por baixo daquele vestido de veludo negro, continuação do campo moreno que aparece numa amostra provocante do V do decote.

       Exatamente no momento em que os Leitão Leiria chegam, a orquestra rompe a tocar uma marcha. D. Dodó faiscante e perfumada, cumprimenta os conhecidos. Vera, muito empertigada e esguia no seu vestido de lamê prateado, parece uma figura do Vogue — como diz Armênio. Leitão Leiria sai do vestiário, arrumando a gravata e alisando depois com as palmas das mãos os cabelos ralos por cima da calva rosada e polida.

       Zé Maria vem ao encontro dos recém-chegados.

       — Boa noite! Boa noite! Pensei que não queriam vir à festa porque era em casa de pobre!

       Solta uma risada.

       Os Leitão Leiria respondem ao cumprimento. Casa de pobre? Oh! mesmo que fosse. Todos os homens são iguais. O que se olha não é o dinheiro mas sim a qualidade das criaturas. Que patife! — pensa Leitão Leiria com uma raivazinha fina mal contida. D. Dodó olha para o grande lustre do hall e lamenta que tanto dinheiro tenha sido empregado em coisas tão inúteis. Se em vez de comprar estas bugigangas pretensiosas o coronel desse o dinheiro às Damas Piedosas, ao asilo, à igreja... Mas imediatamente lhe vem à mente o que Teotônio lhe disse: Zé Maria vai fazer um donativo de 25:000$0000 às obras da Catedral. Mas longe de gerar simpatia pelo doador, a lembrança cria na piedosa senhora uma espécie de ressentimento que é quase inveja.

       — Façam o favor de passar! Façam o favor.

       Zé Maria vai abrindo caminho. Chinita vem ao encontro da amiga. Vera estende os braços. Beijam-se.

       — Vem botar pó... não queres? — convida Chinita.

       Sobem a escada.

       — Onde andará a Maria Luísa! Diabo — exclama Zé Maria, olhando para os lados.

       — Não se incomode por minha causa — diz D. Dodó com ar evangélico.

       Leitão Leiria analisa as pinturas. Que indignidade! Desenhos em cores berrantes, douraduras. Está se vendo por todos os lados o gosto do novo-rico. Os pensamentos lhe fervem na cabeça.

       — Bebe um champanhazinho, patrício?

       O dono da casa sorri, gentil.

       — Aceito.

       Uma frase esplêndida para um artigo irônico a respeito dos novos-ricos canta no cérebro de Leitão Leiria: Por todos os cantos berliques e berloques, ouropéis e franjaduras, coruscações de ouro falso, mistura estonteante de estilos, falta de gosto e delírio de ostentação. O coronel grita para um criado que vai passando: “Êpa moço! Me traga duas taças de champanha.” — O artigo continua: E ele quer a todo custo introduzir-se na sociedade, fazer-se querido. Não tendo valor próprio...

       — Não quer sentar um pouquinho?...

       Leitão Leiria faz um aceno afirmativo de cabeça. Sentam-se. Zé Maria procura assunto. O outro prossegue na composição do artigo.

       Não tendo valor próprio, veste-se do brilho ilusório dos enfeites que se compram e procura agradar com presentes pródigos, festas e banquetes.

       — Gosta da casa?

       — Admirável — diz Leitão Leiria com gravidade. — Verdadeiramente admirável.

       Como que movido por uma mola, Zé Maria ergue-se num salto:

       — Que cabeça, a minha! Vou le mostrar a casa. Vamos ver primeiro lá em riba...

       Dirigem-se para a escada.

       A música cessa. Palmas. O criado chega com as taças de champanha.

       — Nós ia se esquecendo da beberrança — diz Zé Maria. Volta-se e estende a mão para a bandeja.

 

       Maximiliano estende a mão ossuda para apanhar o copo de leite que a mulher lhe dá.

       — Tome todo. O doutor mandou.

       O quarto do tuberculoso está abafado. Anda no ar um cheiro pestilencial. O médico recomendou que deixasse a janela aberta, mas a mulher do doente não abre, supersticiosa. Dizem que, à noite, a morte entra pelas janelas abertas. Além disso foi uma corrente de ar que deixou o marido assim.

       Maximiliano toma o leite. Um acesso de tosse o sacode e uma mancha de sangue vermelho e vivo tinge o leite.

       A mulher olha, com cara impassível. Na porta, os dois filhos espiam. Que é que ela vai fazer? O doutor disse que não tem jeito. É questão de mais um dia menos um dia. Agora, o remédio é esperar. A morte chega, ele pára de tossir, pára de sofrer. O velório, o enterro e depois todos descansam. Pode ser que aconteça alguma coisa de bom. Mesmo que não aconteça não faz mal. Sem ele ali na cama. sofrendo e vendo miséria, vai ser melhor. Ela tem tempo de trabalhar, procurar uma ocupação, mandar os guris para a escola.

       Maximiliano está agora com a cabeça atirada para trás, cansado do esforço. Sua respiração é estertorosa e difícil. A luz da vela alumia apenas uma parte do quarto. Ao redor da zona de luz, a sombra. Na sombra os ratos correm e conspiram. Faz calor. A rua hoje está alegre. O gramofone do vizinho continua a tocar. A mesma valsa.

       Os olhos de Maximiliano se voltam para a porta. Ele diz alguma coisa, baixinho. A mulher se inclina para ouvir. A voz dele é um sopro:

       — Eles deviam estar dormindo...

       Ela sai para ir levar os filhos para a cama.

       Maximiliano compreende que o fim não tarda. E espera.

 

       Os convidados cercam as mesas de doces e de frios, comem, falam, bebem, riem. Uma senhora gorda diz que tem raiva de quindins. Um rapazola de óculos confessa que adora o manjar-branco. Um senhor calvo mente que nunca comeu fios de ovos.

       Há uma rapariga bochechuda que parece ter jurado demolir a pirâmide de croquetes. Outros preferem fazer alpinismo nas montanhas dos sanduíches. Os criados passam com garrafas de champanha envoltas em guardanapos, e vão enchendo as taças.

       Vera mastiga miudinho um sanduíche. Armênio olha para-a flor mais fina e dileta do seu jardim social e pede licença para se servir dum pepininho.

       — Veja a evolução dos costumes sociais, senhorita Vera.

     Vera continua a mastigar, muito distante do sanduíche e do admirador. O seu pensamento voa para o salão. Chinita deve estar com aquele odioso Salu, confundidos os dois num abraço apertado, como no fundo da piscina. A idiota não compreende que está sendo arrastada, que fatalmente terá de se arrepender um dia...

       Armênio continua a falar sobre a evolução dos costumes sociais:

       — Antigamente era feio misturar bailes com comidas. Uma taça de champanha no máximo. Hoje, não... Fazem-se jantares-dançantes e é com a maior displicência que o cavalheiro e a dama deixam o salão para ir comer sanduíches e croquetes com a mão. A senhorita gosta deste costume? Gosta?

       A pergunta insistente desperta Vera, que volta ao mundo dos frios e de Armênio:

       — Gosto, mas prefiro os de patê.

       — Não. Eu estou falando é dos costumes sociais modernos...

       — Ah!

       A orquestra toca um samba. Froide — pensa Armênio — absolument froide. Comme une statue de marbre... E mastiga o seu pepininho, desconsoladamente.

 

       Noel e Fernanda conversam sentados nos degraus da escada. O corredor está sombrio. Lá dentro, D. Eudóxia, enrolada no seu xale, balança a sua cadeira. Enxerga-se pelo vão da porta um pedaço da rua e, lá do outro lado, a porta da casa da viúva Mendonça. De quando em quando passa alguém na calçada.

       — Que é que achas? — pergunta Noel.

       Os olhos de Fernanda brilham foscamente na sombra.

       — Acho que vai bem. Agora é ter força de vontade e continuar. Quantas páginas escreveste?

       — Vinte. Foi um esforço danado. A todo o momento eu estava caindo em narrações autobiográficas, contando coisas da minha infância. De repente comecei a sentir que perdia o contato com a realidade e que eu já estava enveredando para o domínio das fadas. O meu herói já não tinha consciência da sua miséria...

       Fernanda sorri e pensa: “Quando a gente nunca sentiu a miséria, nem sequer a pode imaginar...”

       Noel continua:

       — Sentia-se feliz porque lhe davam paz para sonhar. A miséria de sua casa era uma miséria dourada. Ele esquecia a mulher, os filhos e a falta de emprego e começava a recordar a infância com os seus mistérios e os seus contos de fada...

       Pausa. Noel fala sem olhar para Fernanda. Lá de dentro vem o baque da cadeira de balanço e, de quando em quando, um pigarro de D. Eudóxia.

       — E o mais alarmante — prossegue Noel — é que o meu homem se negava a reconhecer a sua condição de desempregado, relutava em ver a sua necessidade. Até a fome para ele era uma ilusão...

       — Provavelmente escreveste depois dum almoço bem farto...

       A voz é de Fernanda — pensa Noel, olhando para a porta — mas estas palavras não são parecidas com ela. Tão amargas, tão irônicas, tão áridas... Noel volta para a amiga o rosto doloroso.

       — Desculpa — diz Fernanda — eu não quis te magoar...

       A fisionomia dela está serena. Noel contempla-a demoradamente. A penumbra dá-lhe mais coragem de encarar a companheira.

       O silêncio envolve-os como uma carícia inquietadora. Sim, o silêncio, porque o bam-bam cadenciado da cadeira já se integrou no silêncio geral.

       O romance fica esquecido. Noel sente que agora em todo o seu ser só existe lugar para um desejo — um desejo sem nome ainda, mas delicioso, envolvente, inquietantemente misterioso.

       — Fernanda... — diz ele. E não reconhece o som da própria voz. — Hoje papai me ofereceu um lugar no escritório, talvez mesmo sociedade...

       Pausa. Outra vez o silêncio. E depois a voz calma de Fernanda:

       — E então?

       Noel passa desamparadamente a mão pela cabeça, e vai dizendo, como se falasse para si mesmo:

       — Custa, mas estou resolvido... Disse que aceitava...   Quem sabe? Talvez me adapte. Talvez vença e consiga ficar humano. Tu te lembras daquela história do Pinitim que tia Angélica me contava? Pinitim subiu para a lua num balão de S. João e se viu no meio dos selenitas... Não entendia a língua deles, tinha fome e não sabia pedir comida, tinha sede e não sabia pedir água. Ninguém entendia a fala de Pinitim. Pinitim foi ficando magro, com saudade do seu mundo...

       — E então?

       — Eu sou como Pinitim... Não entendo a língua do mundo dos homens. Os homens não entendem a língua do meu mundo. Não é horrível?

       Noel sente no braço a pressão dos dedos de Fernanda.

       — Mas Noel, o mundo de Pinitim existia ele voltou e de novo foi feliz. O teu mundo é uma ilusão. Não há volta possível. O teu país maravilhoso acabou com a infância e com tia Angélica. No dia em que te convenceres disto tu te adaptarás...

       — Mas é que eu procuro convencer-me e não consigo...

       — Outra ilusão: não procuras. Alimentas a tua mentira com outra mentira, com livros, música, coisas que te distanciam do mundo de verdade. É preciso que te convenças de que tia Angélica te contava histórias de mentira...

       — Mas eram histórias bonitas...

       — A vida é uma história bonita. Uma aventura, eu já te disse, em que a gente nunca sabe o que vai acontecer depois. Não é sensacional? A incerteza do amanhã, as diferenças de temperamento, os choques, os conflitos, o amor e até mesmo o ódio... Não é magnífico?

       Noel se lembra do entusiasmo de Fernanda no tempo em que, no colégio, ela defendia as suas idéias.

       Agora ela fala com a mesma convicção, a mesma firmeza, o mesmo calor. Fernanda continua:

       — Talvez seja melhor escreveres a história da tua infância. Mas escreve e analisa, disseca, decompõe e verás que tudo era mentira. Era um mundo de papel estanho e fogos de artifício. Talvez escrevendo consigas matar a mentira.

      — Talvez...

       — Aceita a proposta do teu pai. Será um passo na direção da vida e dos outros homens, do mundo de verdade. Pinitim precisa convencer-se de que na lua só há montanhas geladas.

       Noel lança o derradeiro argumento:

       — Mas para quê? Para quê?

       Fernanda não se dá por vencida:

       — Ora, olhando o mundo com os olhos humanos, estarás em condições de descobrir a beleza de certas paisagens que eu te quero mostrar.

       — Tu?

       — Eu. Levando-te pela mão como nos outros tempos... Então?

       — Seria lindo!

       Agora Noel sente na mão a morna pressão dos dedos da amiga.

 

       Salu e Chinita caminham pelo parque de mãos dadas. Por cima das árvores se estendem os colares de lâmpadas coloridas. O céu está claro e estrelado, o ar parado e quente.

       Pelos caminhos que cortam o parque em diversas direções passam pares de namorados, conversando baixo. Lá de dentro, escapando-se pelas janelas iluminadas, vêm a música da orquestra e o rumor das conversas.

       Salu e Chinita seguem em silêncio.

       — Linda noite — diz ele.

       — Um pouco quente.

       — Vai chover.

       O silêncio cai de novo. Que diabo! — pensa ele. — Estou me comportando como um colegial. Esta bichinha me deixa tonto.

      Continuam a andar, entram por uma alameda de pinheiros europeus cuja folhagem em forma de cone desce quase até o chão. As sombras das árvores sobre a relva dos canteiros são dum verde veludoso e escuro.

       — Queres sentar? — perguntou Chinita:

     — Não. Vamos pra mais longe. Quero te dizer uma coisa...

       A voz dele é estrangulada. Chinita percebe a expressão do rosto do namorado e fica presa dum temor agradável. Salu sente o pulsar de suas têmporas.

       — Queres ver a vista lá do fundo?

     Ele faz que sim com a cabeça. Seguem, contornam a casa e chegam ao fim do jardim que termina num gradil sobre um barranco. Lá embaixo brilham as luzes da cidade, que sobem para o céu noturno numa poeira de ouro. O rio é uma chapa de aço. Piscam luzes na silhueta negra das ilhas. No centro da cidade, dominando o casario, pisca um letreiro luminoso azul e vermelho. As torres da Igreja das Dores silhuetam-se contra o céu.

       Salu e Chinita ficam olhando sem ver. Ela treme toda na antecipação de algo muito grande que ela pressente vai acontecer. E a sensação é tão estranha que ela diz, quase sem pensar:

       — Que frio!

       E se encolhe toda, muito embora sabendo que a noite está abafada e faz calor.

       Salu aproxima-se dela por trás, passa os braços por baixo dos braços dela e, Segurando-lhe os seios no côncavo das mãos, puxa o corpo da moça contra o seu. Chinita se retorce toda, num desfalecimento, e deixa cair a cabeça para trás. Os lábios de ambos se procuram e se mordem. Ela se vai voltando aos poucos. Abraçam-se com violência, frente a frente. Os olhos de Salu procuram, rápidos... Entre o muro e o contraforte da piscina, num ângulo morto, há um canteiro de relva e o nicho formado pela folhagem dum pinheiro. Num segundo, Salu decide...

      Como se dançassem, colados um ao outro, os dois deslizam tremulamente para o canteiro. Salu conduz a rapariga, manso. Mas quando pisam na relva, a suavidade se transforma em fúria.

       Salu tomba Chinita, que deixa escapar um grito sem vontade:

       — Não!

       Mas ele continua. Ela sente contra as costas nuas a aspereza fresca da relva. Vai dizer novamente não, mas os lábios de Salu lhe esmagam na boca a negação fraca. Chinita se entrega. Por uma falha na folhagem do arvoredo ela vê duma maneira quase inconsciente uma nesga do céu onde brilha uma estrelinha.

       De braços inertes, Chinita está num abandono absoluto. A cabeça de Salu cresce diante de seus olhos e, interpondo-se entre eles e o pedaço de céu, esconde a estrelinha cintilante.

       Ás três horas da madrugada saem os últimos convidados.

       Apagam-se as grandes luzes do parque. Agora só se ouve o rumor dos criados que fecham portas e janelas.

       — Que festão! — exclama Zé Maria descalçando os sapatos e desabotoando o colarinho.

       Sentada na sua poltrona, D. Maria Luísa mantém-se ainda em silêncio, olhando para o salão iluminado e vazio como quem avalia os estragos dum terremoto. Mais de cinco contos de réis postos fora. Talvez oito. Talvez mesmo dez. Para que, Santo Deus, para quê?

       Zé Maria espreguiça-se e boceja:

       — Onde está a Chinita?

       Maria Luísa encolhe os ombros. Sei lá!

       — E o maroto do Manuel? Por que não ficou pra festa?

       A voz de D. Maria Luísa parece que está anunciando uma catástrofe:

       — Decerto foi ver as mulheres à-toa. É a vida dele. Parece que não mora aqui. Quando amanhece, ele volta, para dormir até as quatro...

       Passam-se os minutos. Os criados apagam as luzes e se retiram.

       — Vamos embora? — convida Zé Maria. E sobe para o quarto descalço, com os sapatos na mão.

  1. Maria Luísa fica no escuro. Assim é melhor. Ela não vê os vestígios do desperdício, não enxerga os espelhos, os lustres, as douraduras, os jarrões...

       Jacarecanga. Zé Maria está jogando escova com o vizinho. Manuel foi para o bilhar com os amigos. Chinita passeia na frente da casa e anda de namoro com o juiz distrital, bom moço, inteligente e muito sério. O pé de madressilva do muro está florido, seu aroma enche a casa toda, misturando-se com o cheiro de açúcar queimado que vem da cozinha. Paz. Paz. Paz.

  1. Maria Luísa baixa a cabeça e desata a chorar baixinho.

       A chuva lá fora começa a cair violenta, em pingos grossos.

 

       — Que dia brabo! — exclama Fiorello para Clarimundo, que passa sob o aguaceiro, de guarda-chuva aberto.

       O professor faz alto.

       — Neste século, seu Fiorello, até o tempo anda maluco. Ontem, céu limpo. Hoje, esta chuva...

       — Não quer entrar?

       — Não, obrigado. São quase oito. Tenho de ir para o colégio. Até logo.

       — Até logo, professore.

       Clarimundo retoma a marcha. A chuva cai forte desenhando nas pedras da calçada uma esquisita flora de respingos. Uma criança sai correndo do vão duma porta, com um barquinho de papel na mão, agacha-se na sarjeta, larga o barco na correnteza e volta para casa correndo. Encolhido mas indiferente à chuva, Clarimundo continua a caminhar.

       O que convém frisar é o absurdo do infinito pessoal na nossa língua. Pois ora muito bem! O francês tem infinito pessoal? Não. O inglês tem? Também não. No entanto o infinito pessoal existe, é preciso acatá-lo, empregá-lo com correção. Pois ora muito bem!

       Clarimundo vai compondo mentalmente a sua lição.

       No rio encapelado da sarjeta navegam cascas de laranja, gravetos, folhas secas, pedaços de papel...

       Como seu guarda-chuva está furado, o professor sente no rosto os respingos frios. Não tem, entretanto, consciência do que está acontecendo. Está de guarda-chuva, logo é impossível que a chuva lhe esteja batendo no rosto.

       Com o seu passo miúdo ele caminha sempre. Na esquina, pára junto do poste e fica à espera do bonde.

       Os trilhos se espicham rua afora, a água escorre-lhes pelos sulcos. Um bonde se aproxima. Clarimundo dá dois passos e ergue a mão esquerda. Com um ranger de freios o elétrico estaca.

       Durante alguns minutos Clarimundo luta para fechar o guarda-chuva mas a mola não obedece. Desesperado, rosto em fogo, o professor sobe para a plataforma, ficando com a copa do guarda-chuva para fora. O bonde põe-se em movimento. Clarimundo, que tem ambas as mãos ocupadas com o maldito guarda-chuva, perde o equilíbrio e vai de encontro ao motorneiro, que o ampara.

       — Desculpe — diz o homem de Sírio, embaraçado. — Esta coisa emperrou.

       E, segurando o balaústre com uma das mãos, faz movimentos incríveis com a outra, procurando fechar o guarda-chuva.

       Depois de alguns segundos de luta, consegue fazer funcionar a mola. Suspira, sorri para o motorneiro um acanhado sorriso de quem se desculpa e vai sentar-se num banco. Vermelho, ofegante do esforço, coração batendo, como se acabasse de ser vítima dum desastre.

       Vejam só o que me aconteceu... — pensa ele. E fica ruminando o incidente. — Que estupidez!

       O bonde corre. A chuva continua a cair. As caras dos passageiros são cinzentas e flácidas. Cheiro de roupas e de couro molhados. O condutor aproxima-se para cobrar a passagem. Pára na frente de Clarimundo, que ainda pensa no “desastre”. Ora essa é muito boa! Que estupidez!

       — A passagem, moço!

       Clarimundo procura o dinheiro atarantado. Bolsos do colete: vazios. Bolsos do casaco, de dentro e de fora: vazios. O constrangimento de Clarimundo aumenta. Senhor! Quando um homem sai de casa com o pé esquerdo... O condutor espera, com relativa paciência. Clarimundo se apalpa, revira os bolsos, sorri amarelo... E por fim, com uma sensação de alívio, encontra no fundo do bolso das calças uma moeda de mil-réis. Recebe o troco e fica todo encolhido no seu banco, sem ousar olhar para os lados, com a certeza dolorosa de que toda a gente no bonde viu o seu ridículo, o seu embaraço.

       Ao desembarcar sai tão estonteado, que se esquece de abrir o guarda-chuva. À porta do colégio esfrega os pés no capacho e olha o relógio. Atrasado cinco minutos. O contínuo, um mulato de dentes de ouro, cumprimenta:

       — Bom dia!

       Clarimundo tira o sobretudo, as galochas e o chapéu. O mulato se aproxima para ajudá-lo.

       — Aconteceram-me dois desastres no bonde... — começa a explicar o professor.

       E conta sua odisséia.

 

       O frio e a umidade se vão aos poucos infiltrando na casa e no corpo de João Benévolo e de sua gente. Começam a pingar goteiras no teto da varanda. Laurentina distribui pelo chão bacias de folha e caçarolas para aparar a água.

       Encolhido de frio, João Benévolo se acocora em cima duma cadeira.

       — Que casa horrível! — diz. E acrescenta, já de antemão convencido de que nunca há de fazer o que vai dizer: — Vou reclamar pra viúva. É um abuso.

       Laurentina limita-se a olhar para o marido com o rabo dos olhos. E o seu olhar diz tudo. Reclamar? Tem graça. A gente está devendo três meses de aluguel...

       O concerto das goteiras começa. Bem no centro da sala de jantar a água cai em pingos grossos sobre a bacia de folha, produzindo um som agudo, metálico e irregular: o solo. Outras goteiras menores, caindo regularmente contra o fundo das panelas, produzem um som cavo de acompanhamento.

       Poleãozinho sentado na cama e especado entre travesseiros, desenha bonecos com um toco de lápis num pedaço de papel de embrulho. Um círculo com dois pingos e um traço dentro, um risco vertical espetando o círculo, mais dois riscos — um homem. O homem é Tom Mix. Falta o cavalo. Cavalo é mais difícil de desenhar. A língua de fora, Napoleão risca o que para ele é a imagem de um cavalo. Pronto! Tom Mix vai montar no seu pingo e dar tiros nos bandidos que roubaram a mocinha.

       A chuva bate contra a vidraça. Uma luz cinzenta, pegajosa e fria, invade o quarto. Sentada na cama, remendando uma camisa de dormir, Laurentina bate queixo.

       Novas goteiras rompem. Já não há mais bacias nem panelas para aparar a água. Laurentina se deixa ficar onde está, desalentada. O soalho da varanda vai ficando aos poucos alagado. A música dos pingos continua, cada vez mais forte.

       João Benévolo se enfurna no quarto, fugindo à inundação. Faz de conta que está na China. Um aventureiro inglês... O Rio Amarelo cresce, inundando as margens. O aventureiro sobe para o seu iate, (João Benévolo sobe para cima da cama.) Capitão, faça andar as máquinas. Todos a postos! E o iate começa a trepidar, a âncora sobe, a hélice gira. O barco aventureiro se vai... Pelo rio passam juncos com velas cor de bronze. Chineses de chapéus cônicos remam com longos remos. Nas margens erguem-se pagodes. A bela princesa que o explorador inglês vai libertar chama-se Jade.

       Napoleão desenha uma casa com a chaminé a fumegar. Um coqueiro do lado. Tom Mix chega, bate na porta... (As figuras continuam imóveis, mas na imaginação de Poleãozinho elas ganham movimento, voz, vida) Pan-pan-pan! Quem é lá? Aqui é Tom Mix! Abra essa porta senão eu meto bala!

       Laurentina espeta a agulha na ponta dum dedo. Perdeu o dedal. Seus olhos estão anuviados. “Estarei precisando de óculos? Era só o que faltava...” Suspira baixinho, e vai fazendo a agulha varar a fazenda, distraidamente enquanto o seu pensamento voa...

       No tempo em que morava com as tias, era como uma princesa. Não trabalhava, vivia à janela, ia ao cinema, tinha roupas. E era tão boba que se queixava, julgando-se uma pobre mártir... Agora o que ela tem é frio, medo, um marido sem coragem nem energia, um filho doente, uma casa onde chove como na rua, dívidas e esta vontade de nunca ter nascido...

       Lá fora a chuva continua a chiar. As goteiras tamborilam na varanda. A parede do quarto é um grande mapa branco com ilhas e continentes escuros de umidade. De onde será que vem este ventinho fino de gelo?

       — Estará aberta alguma janela, Janjoca?

       João Benévolo alça para a mulher uns olhos sem vida e responde:

       — Xangai.

       Tina fita o marido com uma expressão de estranheza no rosto.

       — Estás maluco?

       João Benévolo desperta para o mundo real.

       — Que foi que perguntaste?

       — Perguntei se tinha alguma janela aberta...

       — Ah! Não tem.

       Laurentina baixa os olhos para a costura. O relógio estertora nove badaladas e por um instante a música das goteiras fica abafada. Tina começa a chorar baixinho.

       Se ela tivesse casado com o Ponciano teria sido melhor. Ele não fazia versos, não dizia coisas bonitas, mas tinha dinheiro, era organizado, não havia de sujeitá-la a esta situação de miséria e vergonha.

       — Papai, o Tom Mix tem dois revólve?

       — Tem, meu filho.

       — De quantos tiro?

       — De seis cada um.

       — Por que é que não é de vinte?

       — Porque não é.

       Napoleão volta para o mundo de Tom Mix. João Benévolo ancora o seu iate em Xangai. Onde estás, Jade de minha alma?

       Laurentina pensa no dinheiro que Ponciano lhes emprestou. Hoje se vão os últimos cinco mil-réis. E amanhã, que será deles?

 

       À frente do espelho Leitão Leiria dá o último toque na gravata-borboleta. Acordou azedo. Deu com o dia chuvoso e escuro e ficou mais azedo ainda. Um gosto amargo na boca e uma dor no fígado fazem-no pensar no champanha do Cel. Pedrosa.

       “Nós ia se esquecendo da beberrança!”

       Não lhe saem dos ouvidos as palavras do outro. Que indignidade! E é um homem malfalante, vulgar e boçal como este que pretende entrar na sociedade, fazer-se querido do Arcebispo, candidatar-se, talvez, a um cargo público. Que indignidade!

       Leitão Leiria levanta o pulverizador de perfume à altura do peito, aperta na pêra e recebe no rosto a poeira líquida e perfumada.

       O bico dourado do pulverizador lembra-lhe os ouropéis da mobília do palacete do coronel. Leitão Leiria exclama mentalmente adjetivos depreciativos. Esnobe! Novo-rico! Espalhafatoso! Tartufo! E procura com esta balbúrdia esconder o ciúme e o despeito que desde a noite anterior o estão roendo. Porque lhe fez mal ver que o outro tinha um palacete caro e confortável, mobílias deslumbrantes, um parque imenso com árvores européias, repuxo, piscina. Fez-lhe mal ver que o “guasca” oferecia à sociedade uma festa animada e concorrida. E, acima de tudo, lhe é doloroso saber que Pedrosa auxiliou com vinte e cinco contos de réis — que indignidade! — as obras da Catedral. Adulão! Hipócrita!

       Leitão Leiria passa a escova pelos cabelos e por fim volta para o quarto.

  1. Dodó acha-se ainda deitada, com as cobertas puxadas até o queixo.

       Seu rosto redondo e gordo contrasta, amarelo, com a brancura das fronhas. Sua cabeça está envolta numa touca de seda circundada por uma fitinha cor-de-rosa. Seus olhinhos, espremidos ainda de sono, miram com simpatia o marido.

       — Estou atrasado! — diz Teotônío, inclinando-se sobre a cama para beijar a mulher na testa.

       — Meu filhinho, não te esqueças da recomendada de Monsenhor Gross.

       Leitão Leiria faz um gesto de enfado.

       — É verdade! Que buraco!

       Imediatamente arrepende-se do plebeísmo.

       — Perdão, Dodó!

       Os olhos da esposa mostram compreensão e tolerância. Essas coisas escapam. Ninguém está livre...

       Leitão Leiria fica pensativo.

       — Tenho de arranjar um jeito...

       Monsenhor Gross pede com empenho um lugar no escritório para uma recomendada sua. Diz que é moça muito culta, muito séria, datilógrafa hábil, com conhecimentos de inglês e correspondência comercial.

       — Faze o possível, sim? Ela é filha de Maria.

       — Filha de quem?

       — De Maria.

       — Ah! Mas o diabo é que lá no escritório...

       — Faze o possível. Foi Monsenhor que pediu... Com tanto empenho, com tanto interesse...

       — Vou fazer o possível...

       Trocam-se sorrisos de despedida.

       Leitão Leiria desce para o andar térreo, enfia o chapéu e o impermeável, sai, recebe um respingo de chuva e penetra no interior morno e perfumado do Chrysler.

  1. Dodó levanta-se pensando no questionário da Gazeta.

 

       Salu acorda com sede. Levanta-se de corpo dolorido, cabeça zonza e vai beber um copo dágua. Olha para o relógio, que está sobre a mesa-de-cabeceira: dez horas.

       Espreguiça-se, abre a boca para um bocejo cantado e vai deitar-se de novo. Fica estendido na cama, de costas, com as mãos cruzadas atrás da cabeça. Recorda-se vagamente dum sonho: imagens esfumadas, coisas sem contornos definidos, sombras confusas. Mas a recordação de Chinita agora domina todas as outras. E ele recorda, rumina o seu gozo. Tudo foi fácil, bem como ele esperava. Nada de palavras: ação. E como o rosto dela se contorceu na surpresa da dor aguda, como o seu corpo moreno se dobrou num movimento de onda, e com que prazer violento e ao mesmo tempo terno e comovido ele a penetrou! Naquele instante tudo em torno se esvaeceu, recuou para um último plano remoto. Os sons do jazz que vinham do palacete, o cheiro da relva, os ruídos dos bondes e das buzinas lá embaixo, na Floresta. Ele só tinha sentidos para a presença daquela carne quente que palpitava, daqueles olhos que brilhavam na sombra, daqueles lábios momos e úmidos que ele mordia, daqueles lábios abandonados a dizerem palavras que ele mal e mal ouvia. E, envolvendo tudo, aquele perfume de Chipre que emanava dela e lhe chegava à consciência como a fragrância mesma daquele gozo intenso e ansiado.

       Pouquíssimos minutos. Depois a sensação de torpor e frescura que dá o desejo satisfeito. De novo ele sentiu sob as mãos o contato desagradável do veludo do vestido e compreendeu nitidamente o ridículo de sua posição. Levantou-se, compondo-se, Chinita se erguia devagar. E ele só tinha um desejo: fugir dali o mais depressa possível. Mas ela choramingava, terna. Ele se inclinou para ouvir melhor.

     — Que é que estás dizendo?

       A voz dela era como de uma criança mimosa:

       — Tu gostas mesmo de mim?

       Abraçaram-se.

       — Está claro que gosto, meu bem.

       Os olhos dela brilhavam na sombra verde. A música do jazz chegava mais forte até eles, de mistura com vozes humanas.

       — E agora?

       Salu encolheu os ombros. Que resposta podia dar? Agora... amanhã se vê. Depois conversariam.

       — Vamos embora. Pode vir gente.

       — Vai tu na frente — pediu ela.

       — Está bem. Adeus.

       Beijaram-se. E ele se foi, meio trêmulo, com um calor no rosto, pisando a relva dos canteiros, rumo do palacete.

       Recordando, Salu torna a desejar Chinita. Levanta-se de novo e vai até a janela. A chuva cai. As chaminés das fábricas dos Navegantes atiram uma fumaça parda contra as nuvens cinzentas.

       Que estará ela fazendo a estas horas?

       Entra para o quarto de banho, despe-se, abre o chuveiro e mete-se debaixo dele.

       Dez minutos depois está vestido, fumando e caminhando no quarto dum lado para outro. Vêm-lhe agora ao espírito as primeiras dúvidas.

       E se a pequena conta tudo aos velhos? Não, não pode contar, impossível. E se ela vem com choros falar-lhe em casamento? Isto sim é que é possível. Mas uma moça rica não precisa casar...

       Batem à porta.

       — Quem é?”

       — O café.

       — Pode entrar.

       A camareira entra com a bandeja do café. É uma chinoca baixa, vestida de preto, de avental e touca branca. Entra, cumprimenta e depõe a bandeja sobre a mesa.

       — Já bati mais cedo, o senhor decerto estava dormindo.

       — Está bem. Pode ir.

       Salu fica olhando a criada. É uma mulher de pernas curtas e tortas, pés enormes. Que diferença!

       De novo pensa em Chinita. A criada sai e fecha a porta. Salu despeja café na xícara e toma um gole.

       No bule niquelado vê refletido o seu rosto: uma figura grotesca, de cara oblonga e chata, numa caricatura ridícula e desagradável. Se ele fosse assim disforme, com estas mãos desproporcionais, este aspecto de microcéfa-lo... Não teria possuído Chinita ontem, nenhuma mulher havia de querê-lo. Se fosse assim deformado, que significação podia ter para ele a vida? Que seria o mundo sem essa sensação esquisita de ser admirado, invejado, cobiçado?

       As recordações se lhe atropelam na mente. Salu relembra o colégio. Os colegas o respeitavam porque ele era forte. As meninas o admiravam porque ele era bonito. Quando o grupo de amadores levava os seus dramas, sempre o escolhiam para galã. Com que entusiasmo representava! O Pereirinha se vestia de mulher e caía em seus braços: “Meu querido Eduíno, sou toda tua!” E a castelã se abandonava ao bravo cavaleiro andante, largando sobre ele todo o peso do corpo. Salu falava num cochicho com o canto dos lábios: “Não seja besta, não larga o corpo assim que tu rasgas a minha armadura.” A armadura era de papelão... E no final, quando Edvino, resistindo à tentação, fugia para a montanha e, renunciando à vida, internava-se num monastério, a platéia rompia em aplausos, o pano caía e o padre-prefeito vinha felicitá-lo: “Muito bem Salustiano, admirráfel!’ Ganhava merenda especial, tinha licença de sair no domingo seguinte. E recebia bilhetinhos clandestinos das meninas do arrabalde:

   “Mando-lhe esta violeta, veja o que quer dizer no livro dos significados das flores. Sua admiradora

   Pearl White Brasileira.”

       E em casa nas férias, todos achavam: “É a pérola da família.” — E na cidade do interior o mocinho estudante que vinha de férias era disputado...

       Ainda a contemplar a cara feia que o espelho mentiroso do bule lhe mostra, Salu lembra-se da sua primeira aventura de verdade. Ela se chamava Manuela e era filha dum coronel do exército. Tinha vinte e oito anos e ia casar com um guarda-livros de trinta e sete. Salu tinha dezoito. Amaram-se, encontravam-se às escondidas. O coronel fazia gosto no casamento com o guarda-livros. Os pais de Salu se opunham ao namoro. Mas o romance floresceu. Era na primavera e uma tarde Salu possuiu Manuela debaixo de pessegueiros floridos. Fugiu alarmado. A moça passou um mês fechada em casa. Ao cabo de quinze dias, Salu verificou que sua paixão era apenas um desejo de aventura. O que ele amava era o amor e não Manuela. Veio fevereiro e ele voltou para o colégio e para as outras mulheres. Manuela não teve outro remédio senão ir para o guarda-livros. E casou-se de véu e grinalda.

       Tinha um bonito corpo e lindos olhos — pensa agora Salu, sorrindo. E vê com a memória Manuela deitada de costas contra a terra roxa pintalgada de flores rosadas. Mas de repente a terra não é mais terra, é a relva verde e Manuela se transforma em Chinita. Um desejo quente começa a apossar-se do corpo de Salu. Ele se levanta brusco, aproxima-se do telefone e faz o disco girar quatro vezes.

       — Alô? — Pausa. — Alô? — Casa do Cel. Pedrosa? Faça o obséquio de chamar a Chinita ao aparelho... Não, é um amiguinho. Ela sabe. Obrigado. — Pausa. Salu esmaga a ponta do cigarro no cinzeiro, estranhando a própria ansiedade, este desejo absurdo de ouvir a voz de Chinita, esta vontade latejante de vê-la de novo, tocá-la, beijá-la... Com o receptor ao ouvido, Salu percebe ruídos secos de passos ecoando numa grande sala. Deve ser ela. Alô?

 

       Com as mãos enfurnadas nos bolsos do roupão de flanela, Noel encosta a testa na vidraça fria e olha para fora. A chuva cai sobre o seu jardim e sobre os telhados da Floresta. No fundo do pátio os coelhinhos brancos estão muito juntos, encolhidos dentro de sua casinhola. O vento sacode as árvores.

       Noel sente um grande amolecimento interior, como se sua própria alma estivesse sendo batida pela chuva.

       Tudo cinzento, tudo sombrio. Ainda há pouco, quando pegou da pena para escrever, a pena era fria, o papel era frio. As idéias lhe fugiam, esquivas. A sua personagem negava-se a viver. Inveterava-se na sua atitude parada: olhando da janela as crianças que brincavam de ciranda na rua. Sempre à janela, como uma estátua, como uma coisa de pedra, sem calor, sem alma, sem vida.

       Tentou a leitura. Neste dia gris de duas dimensões, nem os livros têm sentido. As palavras não querem dizer nada. Parece que tudo se imobiliza num silêncio polar. Procurou um romance tropical. Encontrou nele um sol de gelo, uma vegetação de cinza e criaturas que diziam palavras brancas de sentido. Abriu cinco livros para fechá-los logo em seguida. Botou um disco no gramofone. A música lhe deu um pouco de calor, mas um calor tímido que se fundia no ar, devorado pela luz neutra desta manhã de chuva. Por fim ficou sentado, de olhos fechados, caçando recordações.

       A casa velha da Rua da Olaria, o colégio, tia Angélica e as suas histórias. Uma noite de verão. Lua cheia, dessas que brotam de dentro das florestas encantadas. A casa em silêncio. Ele via um livro com figuras. Tia Angélica cochilava a um canto. Pela janela Noel olhou o céu onde de repente uma estrela caiu, riscando de fogo o fundo azul.

       — Tia Angélica! — gritou ele, apontando para fora. — Eu vi uma estrela caindo.

       Então tia Angélica contou a história do fim do mundo. Deus disse que os homens eram muito maus e que então Ele ia mandar uma chuva de estrelas para acabar com o mundo. Derrubou sobre a terra todas as estrelas do céu. Foi uma coisa tremenda: casas e gentes esmagadas, homens, mulheres e crianças gritando de medo e dor, muitos ficaram loucos.

       Encolhido de susto, Noel arriscou uma observação:

       — Como é que o mundo nasceu de novo?

       Tia Angélica não explicava. O céu noturno continuava impassível.

       Mas nem as recordações da infância satisfizeram Noel. E ele está agora aqui com o rosto colado à vidraça, a olhar para a chuva.

       Pensa em Fernanda. A estas horas decerto ela está trabalhando, escrevendo cartas enfadonhas, aturando as cretinices do patrão. Ela, uma mulher! Noel se recorda do que Fernanda lhe disse um dia: Não imaginas como é bom, depois dum dia aborrecido de trabalho, a gente voltar para casa e se entregar inteiramente aos livros. Eles assim têm um sabor diferente, maior, mais profundo.

       Noel volta para a sua cadeira, senta-se e fica olhando a sala quieta. Os livros de lombadas coloridas se enfileiram nas prateleiras. Nas paredes — os retratos de Debussy, de Beethoven, de Verlaine, de Ibsen. A vitrola de nogueira, o rádio. Livros, retratos de homens mortos, discos — Noel está cansado de fantasmas. O que sente é a necessidade de uma presença humana, dum ser de carne, osso e sangue, que tenha um coração, respire, fale, sinta, ame.

       Um ser que o desperte, arrancando-o desta prisão e transformando-o de bicho de concha em pássaro livre para os grandes vôos. Um ser que, levando-o pela mão... Pela mão, como Fernanda nas manhãs que iam para o colégio...

       E no silêncio do seu gabinete, Noel decide que é preciso dar um novo rumo à sua vida. Um homem não pode viver eternamente só. Precisa libertar-se do mundo dos fantasmas e entrar definitivamente no mundo dos vivos. O tempo passa e é urgente fazer alguma coisa positiva. Escrever um livro talvez. Conseguir uma posição na sociedade. A troco de que ele há de ser diferente dos outros? A troco de que deve considerar vergonhosos os desejos da carne? Tudo o que se sente é legítimo. No fim de contas ele tem dentro de si grandes coisas em potência, uma energia adormecida. E, bem analisado, seu caso não lhe parece de uma dificuldade invencível. Aceitar o oferecimento do pai, fazer um esforço de concentração, matar o mundo de mentiras de tia Angélica, dedicar-se ao trabalho. E depois... depois...

       Noel caminha agora dum lado para outro. É preciso sair desta prisão, voar para o ar livre.

       Fica durante vários minutos a girar em torno destes pensamentos.

       Mas tem inteligência bastante para compreender que tudo isto, bem no fundo, se resume numa coisa simples: ele está irremediavelmente apaixonado por Fernanda.

       A chuva continua a cair.

     60

       Com o fone ao ouvido, Chinita fala em surdina:

       — Sim... Eu vou. No Woltmann? Às cinco? Está bem. Adeus!

       Larga o fone e sobe para o quarto. Fecha a porta, atira-se sobre o divã e fica ali deitada em silêncio.

       Tudo tão confuso... Ela nem sabe que pensar. De noite teve sonhos horríveis. O pai morto, ela de luto, a mãe degolada, no meio dum campo sem-fim, e por toda a parte o rosto de Salu, que ao mesmo tempo não era Salu, mas sim o dum namorado antigo de Jacarecanga... De manhã, ao despertar, sentiu o corpo dolorido, como se tivesse tomado uma sova antes de deitar. Sensação de febre, e o amargor da decepção. O que ela julgava fosse uma coisa misteriosamente boa lhe tinha ferido os nervos com uma dor brutal. Pelo que lia em novelas proibidas para moças, pelo que insinuavam as amigas sabidas, ela como que já conhecia todos os segredos do amor. No entanto, secretamente, numa camada muito profunda do seu ser, esperava algo de melhor, de mais gostoso e menos violento.

       Ainda agora Chinita parece sentir nas costas a aspereza da relva. E ver a cara de Salu na sombra. E estremece de novo à pressão ardente daquelas mãos, daqueles lábios.

       Quando voltou para dentro de casa, estava tão perturbada, que parecia ia entrar toda nua no salão iluminado e cheio de olhos curiosos.

       Chinita vê sua imagem no espelho do penteador, e contempla-se com amor e uma certa autocomiseração. Joan Crawford depois do encontro com Clark Gable no parque...

       Mas num momento a provinciana que há dentro dela desperta e toma o lugar da menina que se traveste de estrela de Hollywood. E então todas as coisas lhe aparecem com a sua realidade indisfarçável. Ela perdeu a virgindade. Não é mais moça, como se diz lá fora, mas uma mulher à-toa como aquelas muito pintadas e espalhafatosas que moram nos casebres do Barro-Vermelho. Uma pessoa pode lhe atirar na cara aquele palavrão de quatro letras...

       Chinita franze a testa a um pensamento alarmante.. E se ficar grávida? À medida que os segundos se escoam a sua inquietude vai crescendo. Não é impossível... Ela conhece casos. Uma prima que morava na estância... Um belo dia apareceu grávida... Escândalo. O pai quis dar um tiro nela. Tinha desonrado o nome da família. Choro na casa toda. A moça em segredo confessou a Chinita que tinha estado com o rapaz só uma vez. Só uma vez.

       Agora Salu lhe telefonou marcando-lhe um encontro e ela não teve coragem de recusar. Apesar da decepção apesar da dor, apesar da vergonha...

       É estranho — reflete Chinita, sem compreender — ela sente que agora gosta mais de Salu. Gosta dum modo mais profundo, mais sincero. Vontade de estar com ele, de passar a mão pelos seus cabelos. Vontade de viver com ele, sempre e sempre, ouvindo aquela voz metálica, vendo aquela cara morena. Sempre, sempre...

       As lágrimas brotam nos olhos de Chinita.

       De tristeza? De contentamento? De felicidade? De remorso?

       Dentro do espelho Joan Crawford também chora.

 

       Na porta da sala branqueja a placa:

  1. ARMÊNIO ALBUQUERQUE — ADVOGADO

       Sentado à mesa de trabalho, Armênio escreve a sua crônica para o Pathé Baby, semanário de vida social.

       “Na linda tarde outonal, o Poeta visita o seu jardim social.”

       Afasta-se do papel e olha o período com carinho. O poeta é ele. Armênio sempre se julgou poeta. Um soneto aos vinte anos, depois, poemas soltos em revistas mundanas, nas páginas literárias dos jornais, sem prejuízo dos arrazoados, requerimentos, petições. Porque o homem moderno mistura poesia com batatas; é poeta e ao mesmo tempo pedreiro; romancista e representante comercial. Ele se gaba de seu grande dinamismo que lhe permite ser com sucesso e a um tempo advogado de dois sindicatos, cronista social duma revista, correspondente de dois jornais do Rio e leão da moda.

       Armênio ergue os olhos e fica pensando. Depois a sua caneta de novo corre sobre o papel.

“A rua é uma vitrina de brinquedos bonitos. Vemos Mlle Nilda Bragança, com o seu ar de dama antiga, Mlle Zaida Almeida qual fino bibelô de Saxe, com o seu lorgnon impertinente assestado para a fileira de jovens elegantes que estão parados às vitrinas, assistindo The Big Parade.”

       Armênio continua a citar. A senhorita Fulana com o seu vestido de tal cor e o seu jeito assim. A senhorita Beltrana com seus olhos de amêndoas e a sua boca de rubi. E o desfile das flores continua. O Poeta olha para tudo, deslumbrado.

       “O cronista, que é amante do belo sexo...”

       Armênio, escrupuloso, arrisca a palavra amante. Vai dar que falar. Alguém pode maliciar. Melhor substituir por admirador.

   “...admirador do belo sexo, olha para o espetáculo maravilhoso de graça e donaire e exclama: Mon Dieu! je vous remercie pour ce magnifique spectacle!”

       Mas agora o Poeta vê no meio da multidão uma figura que apaga todas as outras.

   “Surge de repente, como uma aparição do céu, uma silhueta que parece saída das páginas do Vogue. Ê Mlle Vera Leitão Leiria, esguia...”

       Leiria... esguia. Não fica bem. Melhor escrever:

   “esbelta, vestida de verde, com ‘Ses yeux bleu de Prusse...’ — como disse Verlaine. O cronista sente fugir-lhe a terra aos pés e tem ímpetos de ajoelhar-se quando ela passa, fria, hietática, com o seu ar de sacerdotisa antiga.”

       Armênio larga a caneta e relê a crônica. Esplêndida! Os rapazes do clube vão comentar. O número de Pathé Baby correrá entre as moças, de mão em mão. No dia seguinte elas lhe hão de sorrir agradecidas. Sim, porque todas sabem que Maurice des Jardins é ele. E Vera? Não se comoverá?

       De repente Armênio se lembra de que D. Dodó está fazendo anos amanhã. Naturalmente haverá recepção na casa dos Leitão Leiria. Uma bela oportunidade para ele. Vai fazer uma tentativa. Quem sabe?

       Vera é bela e educada. Sua família tem nome. A loja do velho prospera. (Armênio, como homem moderno, não despreza o dote. Não digo que um homem se case só por dinheiro. Mas quando pode unir o útil ao agradável, está claro que é melhor...) Haverá mais seguro partido para ele, para um bacharel, para um homem de futuro? Claro que não. Com o apoio de D. Dodó, que é um trunfo social, com o valor semi-oficial de Leitão Leiria, homem influente na política, provável futuro deputado — ele irá à Fama.

       Por ora Armênio contenta-se com ir até a janela.

       A chuva insiste.

      

       As três portas da loja de ferragens de Brito, Moura & Cia. se abrem para a rua reluzente de umidade. Passam vultos. Com intervalos longos cruzam bondes, barulhentos. Os caixeiros estão recostados ao balcão. De quando em quando pinga um freguês. As luzes acesas. Junto da registradora, a caixa — uma moça loura e nariguda — cochila.

       Pedrinho olha o relógio de parede: onze e meia.

       Como o tempo anda devagar nos dias de semana! Como corre aos domingos! Mana Fernanda também deve estar se aborrecendo no escritório. Mamãe decerto está na cadeira de balanço, encolhida debaixo do xale. E Cacilda?

       Uma ternura mole como a chuva, mas quente como um sol, lhe invade o corpo. Pedrinho fica olhando para a porta mas não enxerga a porta nem a rua. Esta na casa de Cacilda, deitado com ela na mesma cama, acariciando os cabelos dela. Parece que está vendo de verdade aqueles olhos verdes, aquele sorriso bondoso, aqueles seios miudinhos empinados, rijos, que ele já beijou quase chorando. Que bom se ela não fosse mulher da vida...

       Se em vez de se conhecerem no beco eles se tivessem encontrado num baile de gente direita, tudo seria diferente... Noivavam, casavam, tinham filhos...

       Por mais que faça, Pedrinho não pode afastar o pensamento de Cacilda.

       Antigamente gostava de andar pelos cinemas e pelos salões de bilhar com os outros rapazes. Agora só deseja que o dia passe, a noite chegue e a aula acabe para ele poder ir ver Cacilda. Por que é que ela não gosta de mim? Pedrinho sente que ela o trata bem por pena, só por compaixão, porque ele é um menino... Tudo hoje está mudado. Em casa já notaram o jeito dele. Qualquer dia lhe descobrem o segredo. Três vezes faltou à aula só para ir ver Cacilda mais cedo. E sempre tem de esperar porque ela está com outros homens. É horrível.

       — Seu Pedrinho!

      A voz do gerente da loja. Pedrinho se sobressalta.

       — Senhor!

       — Que é que estava fazendo?

       — Pensando.

       — Pensando morreu um certo animalzinho...

       O rapaz sorri tristemente. O gerente continua:

       — Aproveite a folga e passe um espanador nas caixas de talheres, nas prateleiras. Vamos! Faça alguma coisa.

       — Sim senhor.

       Pedrinho pega o espanador. Amanhã vai comprar o colar bonito que viu na Sloper. Cacilda há de ficar alegre com o presente.

       Entra um freguês. Tira o chapéu e o sacode no ar.

       — Que tempo brabo! Nossa Senhora!

 

       Cacilda olha, primeiro para as suas cartas, depois para a companheira, e diz:

       — Quem joga é tu.

       A mulher gorda de olhos pintados atira uma carta para cima da mesa. Cacilda sorri e atira outra.

       A sala está sombria. Um sofá de palhinha e duas cadeiras, almofadas com bordados berrantes, um calendário na parede, retratos de artistas, abajur vermelho pendente do teto.

       Ouve-se o tamborilar da chuva sobre um telhado de zinco. Uma goteira pinga dentro de um pote de barro. Vem do quarto próximo uma voz rachada e áspera:

       Esta noche me emborracho, bien!

       Me mamo bien mamao...

     Anda no ar um cheiro enjoativo de extrato barato.

       — A Rosa está alegre — diz Cacilda.

       A mulher gorda sorri.

       — O teu guri vem hoje?

       Cacilda encolhe os ombros:

       — Sei lá!

       — Que negócio é esse de andar tirando crianças dos cueiros?

       Cacilda não responde. Continuam a jogar, carta sobre carta. A mulher gorda ganha a partida.

       — Me deves dois pilas.

       — Ahan.

       Cacilda põe-se de pé.

       — Não queres jogar outra?

       — Não.

       Vai para o quarto, olha para fora. Do outro lado do beco, a francesa está à janela por trás do vidro, atenta.

       — A Liana está caçando... — diz Cacilda.

       Da sala vem a voz da outra:

       — Com este tempo é pescando...

       Cacilda acende um cigarro. Sábado feliz aquele! Nunca em sua vida teve uma sorte tamanha. De manhã, cinqüenta mil-réis do rapaz moreno do Edifício Colombo. De noitezinha cem do velhote no rendez-vous da Rua das Acácias. Mas tudo se foi. Dívidas, aluguel, armazém, um par de sapatos, bâton, pó de arroz. Falta pagar a modista. Se viesse outro sábado como aquele... Mas qual! Sorte é para quem tem. Dia bom só acontece uma vez na vida. Para ela só aparecem estupores como aquele bobo do Pedrinho, guri recém-saído do berço. Fica ali sentado com um ar de idiota, dizendo bobagens, trazendo livrinhos, barras de chocolate.

       Cacilda solta uma baforada de fumaça.

       Mas ele é tão criança... Coitado, não tem culpa. São coisas da vida. Enfim... Não vale a pena tratar mal os outros. Ela não tem jeito. E depois não custa. A gente sempre se lembra do irmão...

       A voz rachada torna a cantar o tango argentino. A chuva continua a cair sobre o telhado de zinco. A goteira pinga no pote.

 

       No living-room da casa dos Leitão Leiria, enrodilhada num canto do sofá, Vera lê uma novela suspeita às escondidas da mãe, para despistar, cobre a capa do livro uma sobrecapa de papel pardo.

  1. Dodó, inclinada sobre a sua escrivaninha, responde à enquete da Gazeta.

       Em cima da mesa, um vaso bojudo com zínias. Sobre o parapeito da lareira, um relógio quadrado com ponteiros e algarismos de prata. Pequenos quadros pelas paredes, almofadas por toda a sala, tapetes.

       A Gazeta pergunta: Qual é o traço característico de seu caráter? D. Dodó hesita. A bondade? A caridade? O amor ao próximo? A humildade?... Soa bem. Fica tão delicado, tão modesto. Monsenhor Gross vai gostar. Bom. Melhor botar três traços — caridade, bondade e humildade — depois o Teotônio vai escolher.

       Que pensa da vida? Meu Deus! Aqui está uma pergunta difícil. Dodó levanta os olhos na direção de Vera:

       — O que pensas da vida?

       — A vida é uma droga! — diz Vera, e termina a frase mentalmente. Chove, os homens são uma espécie aborrecida, as mulheres são atraentes mas idiotas. Armênio é um pobre de espírito, os novelistas não têm imaginação, Chinita está cretinamente caída por Salu, não lhe deu a mínima atenção na festa de ontem, os calos doem por causa do tempo. Sim: a vida é uma droga.

       — Minha filha, não diga isso. A vida é boa, vale a pena viver para praticar a caridade e servir os pobrezinhos.

       Pronto! Aqui está uma resposta magnífica. Nasceu naturalmente, portanto maior é o seu valor. D. Dodó escreve-a, contente.

      Onde quisera ter nascido e em que tempo?

       O assunto é delicado. D. Dodó morde a ponta da caneta, pensativa. A idéia lhe vem... com a ajuda do Anjo da Guarda.

       — Eu quisera ter nascido na Galiléia, no tempo em que Jesus Cristo andava pela terra.

       Que pensa da missão da mulher no mundo moderno?

       A resposta brota logo. Como é bom a gente ter um Anjo inteligente!

       — A missão da mulher é no lar. Educar os filhos, dirigir a casa, adorar o Senhor e o esposo legítimo.

       Qual o momento mais emocionante de sua vida?

       — Foi quando me tornei religiosa.

       Dodó reconta a história da doença do marido, da promessa e da conversão.

       Quais os seus autores prediletos?

       — S. Francisco de Assis, José de Alencar, Júlio Diniz e todos os autores católicos.

       E os músicos?

       — Verdi, D’Annunzio e o nosso glorioso Carlos Gomes.

       As outras perguntas se seguem. Que pensa da educação moderna? Que pensa da moda? Que pensa do cinema? (“O cinema — responde D. Dodó — está corrompendo os nossos costumes patriarcais.” A frase é do marido ou de Monsenhor Gross, ela não se lembra bem...)

       Vem por fim a derradeira pergunta:

       Está satisfeita com a sociedade em que vive?

       O Anjo da Guarda é inflexível ao lhe impor a resposta:

       — Não. Há muito vício e maldade entre nós. Só seremos felizes no dia em que todos abraçarem a Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana e compreenderem os ensinamentos de Jesus, que disse: “Amai-vos uns aos outros.” Com o dinheiro que hoje se gasta em bebidas e outros vícios poderíamos construir muitos asilos e hospitais para os desprotegidos da sorte.

  1. Dodó termina o questionário. Suspira, aliviada. Foi um esforço regular. Que tudo seja pelo amor de Deus!

       Vera fecha o livro e mete-se no quarto. Vontade de ver Chinita, sentir o perfume de Chinita, ouvir a voz de Chinita, apalpar o corpo de Chinita, morder os lábios de Chinita.

       Senhor! Quando é que vai parar esta chuva? Quando? Quando? Quando?

 

       O caso do Cel. Zé Maria Pedrosa é uma espinha que Leitão Leiria tem atravessada na garganta. Agora no silêncio do seu escritório as recordações voltam e com elas as reflexões amargas. Que indignidade!

       Leitão Leiria atira o corpo para trás, a cadeira giratória inclina-se com um ranger de molas. E, com os polegares nas cavas do colete, charuto aceso no canto da boca, ele fica de testa franzida, compondo um artigo que nunca há de escrever. Assim, desabafa. As frases lhe ocorrem, rápidas. As palavras vão tomando direitinho os seus lugares, como soldados acostumados à rígida disciplina militar:

   A sociedade moderna apresenta surpresas espantosas. Exemplifiquemos. Antigamente prevalecia nela a tradição das famílias. Já não era questão propriamente de sangue azul. Era a nobreza da educação, da honra, da tradição e do cavalheirismo. A nata da nossa sociedade era composta de famílias cuja árvore genealógica... cuja árvore genealógica... podia ser traçada desde a raiz até os ramículos mais insignificantes sem a menor falha, sem a menor mancha, sem a menor dúvida.

       Leitão Leiria dá um chupão forte no charuto, contente consigo mesmo. Continua o processo mental de composição:

       Ora, pois, meus senhores!

       (Agora já não é mais artigo e sim um discurso.)

   Que vemos nos nossos dias? Vemos a hierarquia do dinheiro, a aristocracia do vil metal. Vencem os que têm dinheiro no banco. São considerados beneméritos, entram na sociedade e a sociedade não lhes pede credenciais, não lhes vasculha a vida, não lhes devassa o passado!

       Leitão Leiria ouve mentalmente uma voz: Apoiado!

   Índios boçais que mais parecem ter sido agarrados a maneador surgem e se impõem à nossa mais fina sociedade à custa de suborno, com o prestígio duma fortuna adquirida de maneira inferior: a loteria! Cortejam os pró-homens da política.

       (E Leitão Leiria modestamente se inclui no número dos pró-homens.)

   Adulam os prelados, cuja boa-fé procuram ilaquear despudoradamente!

       O entusiasmo que lhe ferve no peito é tão grande que Teotônio se levanta e começa a caminhar em cima do seu tapete verde, de lá para cá. Sim. Zé Maria se vai impondo aos poucos. Vinte e cinco contos de réis para as obras da Catedral Metropolitana. Amanhã será conselheiro municipal. Mais tarde, deputado. Quem sabe? Não. Os homens como ele, Leitão Leiria, que têm um nome a zelar, uma filha a defender, devem arvorar-se em paladinos da causa do saneamento moral da sociedade. Ficar inerte é um crime. Agir! Mas de que forma? Escrever pela imprensa: descobrir as baterias, terçar armas em campo aberto? Claro que não, seria improfícuo. Melhor é lançar mão dos recursos da estratégia moderna. Guerra subterrânea, gases asfixiantes, submarinos, aviões, bombardear das nuvens. Sim, porque ele precisa pairar alto para que os respingos da lama não o atinjam.

       Monsenhor Gross precisa saber, a qualquer preço, seja como for. Uma carta... Anônima, naturalmente, porque ele não pode expor-se. Assiná-la seria imprudência. Podiam pensar que a inveja o movia... sim, uma carta.

       Quando o fim é bom, todos os meios são justificáveis. De antemão Leitão Leiria se absolve do pecadilho.

       Senta-se à mesa, toma dum papel sem timbre, da caneta e começa a escrever com letra de imprensa:

   Ilustre prelado: Vejo-me na obrigação de lhe dizer que esse Sr. José Maria Pedrosa que parece um cidadão decente e procura imiscuir-se nos meios católicos da nossa urbs é um homem sem moral que se dá o luxo depravado de ter uma amante. Sou um servo fiel da Igreja, por isto me julgo na obrigação moral de fazer esta denúncia. E para provar que a minha delação é bem fundada, digo-lhe o nome da Messalina teúda e manteúda pelo referido cidadão e o número da casa em que ambos escondem a sua ligação vergonhosa.

       Mas de repente Leitão Leiria — tomado duma estranha sensação de culpa que lhe afogueia o rosto — rasga o papel em muitos pedaços miúdos e joga-o dentro da cesta.

       Levanta-se e continua a caminhar dum lado para outro. Não, mas aquele bugre boçal precisa levar a sua dose! A coisa não pode ficar assim. E se ele escrevesse um bilhete denunciando-o à mulher? Havia de amargar-lhe pelo menos algumas horas...

       Mas de novo Leitão Leiria repele a idéia.

       De súbito lembra-se do pedido de Monsenhor Gross. Arranjar um emprego para uma protegida. Que fazer? Só há uma saída. Despedir Fernanda. Mas não se pode mandar embora uma criatura assim sem mais nem menos... Se ela desse motivo... Leitão Leiria pensa. Não pode botar D. Branquinha no olho da rua: é recomendada dum político. Na loja não há vagas, e mesmo a protegida de Monsenhor é datilógrafa... Sim, o lugar ideal para ela seria o de Fernanda. E então? Admiti-la sem despedir a outra? Impossível. As vendas diminuem, os tempos andam maus. Não atender ao pedido de Monsenhor? Também inadmissível.

       Pára na frente do espelho, alisa o cabelo, ajeita a gravata e resolve: Fernanda tem de ser despedida. Custa, é duro, mas não há outra saída. Que diabo! Um homem não é dono do seu nariz, senhor de sua própria casa? Então? A gente deve botar de lado sentimentalismos tolos, quando estão em jogo interesses mais vitais. A amizade de Monsenhor Gross lhe é preciosa. E, depois, ele tratará de arranjar outro emprego para Fernanda. Sim, não há dúvida. Fernanda vai ser despedida. Mas é uma coisa desagradável... (Leitão Leiria discute mentalmente com Leitão Leiria.) É duro mas não há outro jeito... Mas e o sindicato? Se houver protesto? Qual! Fernanda nem se lembra... Como descalçar a bota? Com energia, com franqueza. Mas acontece que a pobre moça... Qual pobre! Já me disseram que ela tem idéias vermelhas, lê livros comunistas. Se é assim... É, sim senhor, seja duro... Mas... Qual! Toque para a frente. O fim justifica os meios...

       Leitão Leiria toca a campainha.

       Fernanda aparece.

       — D. Fernanda...

       Ela se aproxima do chefe. Alguns segundos de espera.

       Leitão Leiria pigarreia, finge que está procurando na gaveta um papel. A moça continua na sua frente, imóvel, esperando. Os olhos brilham no rosto moreno. Que olhar decidido, que ar confiante...

       — A senhora está satisfeita com o seu emprego?

       — Se estou satisfeita? Claro que estou.

       — Mas, quero dizer... não preferia ganhar mais?

       Será que ele me vai aumentar o ordenado? — pensa ela.

       — Bem, naturalmente seria muito melhor...

       Leitão Leiria invoca o seu Anjo da Guarda, mas o anjo não responde. Silêncio. Fernanda olha para o patrão e espera.

       — Acontece que... que infelizmente a casa...

       Pausa. Ela o incita:

     — Sim?

       Os modos dele são estranhos. Que haverá por trás de suas palavras? Leitão Leiria brinca com a medalha da corrente do relógio.

       — Acontece que nós não podemos lhe aumentar o ordenado...

       Fernanda sacode levemente os ombros.

     — Paciência...

       — Nem agora nem mais tarde.

       — Não compreendo...

       Nervoso, Leitão Leiria joga o charuto na cesta de papéis usados. Onde a sua energia? Onde a sua habilidade oratória? Onde a sua autoridade patronal?

       De repente, sem transição, ele lança no rosto dela estas palavras desesperadas:

       — Me disseram que a senhora é comunista!

       Respira forte, começa a sacudir a perna, num frenesi. Fernanda mantém a serenidade:

       — Não é verdade.

       — A senhora nega?

       — Nego.

       O Anjo da Guarda, porém, está presente e Leitão Leiria se enche de coragem.

       — Pessoa fidedigna me afirmou que a viu com livros vermelhos.

       — É mentira.

       Impassível, o rosto de Fernanda.

       — Senhorita Fernanda, não diga mentira, é uma desconsideração.

       Sem argumentos, Teotônio se refugia na indignação. Ela disse mentira. Ele foi, portanto, desconsiderado. Agora o caso é outro. Agravante para a ré.

       — Repito que é mentira.

       — Apresente então as provas...

       — Apresente primeiro provas da acusação que me faz.

       — Basta-me a palavra da pessoa que a denunciou...

       — Pois para mim não basta. Nem a sua.

       Leitão Leiria se empertiga:

       — A senhora está me ofendendo. Não gosto de cometer violências. Sempre fui inimigo das soluções drásticas. No entanto tenho ligações com o catolicismo... Sou um homem de idéias, de responsabilidade... Não me seria conveniente que soubessem que tenho empregados com idéias... com idéias...

       — Já sei... — atalha Fernanda. — Não é preciso gastar palavras. Está procurando me despedir, não é mesmo?

       — Sou forçado, em vista de tod...

       Fernanda estende a mão como quem diz: Pare.

       — Está bem. Quando quer que eu saia? Hoje?

       Leitão Leiria agora é todo magnanimidade.

       — Seria absurdo! Dou-lhe quinze dias de prazo e um mês de ordenado. Durante este tempo pode procurar outra colocação. Se quer que eu...

       — Não se incomode que eu mesma cuidarei da minha vida.

       — Quero que compreenda...

       — É só o que desejava?

       — Por enquanto...

       — Pois passe muito bem. Fernanda faz meia volta e se retira.

       Leitão Leiria fica esfregando as mãos e gabando a sua tática. Guerra moderna: cercar o inimigo, solapar-lhe as trincheiras e por fim: carga de baioneta.

       Vai ao telefone, pede ao centro da loja ligação para a sua casa. Alguns segundos depois a voz de Dodó viaja pelo fio.

       — Meu amor, és tu? Comunico-te que a recomendada de Monsenhor Gross já está colocada.

       Dois beijos estralados que partem simultaneamente de cada extremidade do fio pingam o ponto final ao rápido diálogo telefônico.

 

       Virginia não acha paradeiro em casa. A solidão a sufoca. Saudade do sol, saudade de vozes humanas. Tem a impressão de estar num presídio. Caminha do quarto para a sala de jantar, desta para o hall, do hall para o escritório do marido, do escritório para o living. Abre livros e revistas para tornar a fechá-los logo depois com impaciência. Senta-se, ergue-se de novo. Liga o rádio para verificar em seguida que a estação local ainda não começou a irradiar.

       Que fazer? Não há remédio senão ficar deitada, parada, pensando. Estende-se no divã. Vem da cozinha um cheiro adocicado de carne assada. Estes cheiros domésticos a mareiam. O cheiro do marido, o cheiro das criadas, o cheiro da cozinha, o cheiro especial de cada peça da casa... Tudo sempre igual, repetido, sem surpresa. Eternamente a rotina familiar, o horário invariável, os mesmos assuntos e probleminhas...

       E chove por cima de toda esta chatice. Chove sem a menor trégua.

       Na varanda Querubina põe a mesa para o almoço. Noca passa por uma porta carregando pratos, com o seu caminhar de angolista. Virgínia tem vontade de atirar-lhe um chinelo na cabeça. Um bando de fêmeas inúteis e indecentes, ganhando um ordenado mensal para não fazer nada, para andar se esfregando no chofer, no guarda-civil, no homem do gelo...

       Um rumor. Virgínia volta a cabeça. Noel acaba de entrar. Mãe e filho entreolham-se em silêncio. Virgínia desvia o olhar. Noel fica junto duma prateleira de livros, a ler os títulos.

       Na presença do filho, Virgínia lembra-se de Alcides. São da mesma altura, e têm o mesmo porte. Por um instante ela vislumbra o seu próprio ridículo. Mais tarde ou mais cedo aquilo tem que acabar. Um capricho? Talvez? Mas por enquanto é uma obsessão. Depois, tudo conspira contra ela: as pessoas da casa, o tempo, a chatice da vida, a imbecilidade espessa do marido, a frieza do filho — tudo. Ela fica sem defesa. Se ao menos tivesse uma ocupação... Uma vez chegou a sugerir a Honorato que fossem viajar. Buenos Aires, Montevidéu, ou Rio... Mas ele vem sempre com a desculpa dos negócios e ela continua dentro desta prisão enervante, com o relógio a dizer em surdina que o tempo passa, com os espelhos a gritarem que ela envelhece. As criadas a miram com surdo ódio. Só os olhos de Noca é que a seguem com uma paixão servil e irritante de cão abjetamente fiel. Noel lhe foge sempre. Honorato a contempla com aquele ar tranqüilo de dono seguro de sua posse. A seu redor, nenhuma simpatia, nenhuma compreensão. Entre ela e todas as outras pessoas da casa, léguas e léguas de separação. Como fugir ao assédio do outro? Ê o único que a olha com ternura humana, o único que se interessa por ela. De resto, para que tantos escrúpulos? A vida passa, a velhice se aproxima. Por que não fazer uma escapada, já que viveu vinte e cinco anos acorrentada ao comerciante Honorato Madeira? Por quê?

       Mas a presença de Noel lhe cria uma inibição. Olhando para o filho, ela sente o absurdo de seu amor por Alcides. Noel apanha finalmente um livro e sai em silêncio.

       Longe dele, Virgínia sente-se mais à vontade.

       É preciso decidir: ata ou desata. Assim como está a coisa simplesmente não pode continuar.

       Mas outra dúvida lhe vem... Se o marido descobre? Enfim ela não pode ter com Alcides ilusões dum amor duradouro. Para ele tudo deve ser um capricho passageiro, uma extravagância... Honorato, de qualquer modo, é a garantia duma vida confortável: boa casa e bons vestidos, uma posição na sociedade, um lar.

       Mas que lar! Acaso isto merece o nome de lar? (Outra vez a revolta.) Uma casa assombrada, isso sim. Fantasmas por todos os cantos. O fantasma do marido, do filho, e o fantasma de tia Angélica, o mais pavoroso de todos, porque ainda assombra a alma de Noel.

       A porta da rua se abre.

       É Honorato que chega. Irritada, Virgínia sobe e vai fechar-se no quarto. Imagina a cara do marido: gorducha, imbecil, feliz. Como sempre ele dirá: Trabalhei como um burro! E estralará o seu chocho beijo matrimonial.

       No vestíbulo, Honorato Madeira tira as galochas, o impermeável e sai a gritar pela casa:

       — Gigina! Ó Gigina!

 

      Na sala de jantar do palacete do Cel. Pedrosa a ceia de Cristo do vitral hoje está apagada e sem fulgor.

       Servido o almoço. Os pratos fumegam, o coronel come com entusiasmo, na sua frente D. Maria Luísa, de cabeça baixa, olha o prato vazio.

     A criada entra para avisar:

       — D. Chinita diz que não quer almoçar.

       A cara de Zé Maria é toda um espanto:

       — Ué? Que será que ela tem?

       A mulher dá de ombros. A criada se retira.

       — E o Manuel? — torna a perguntar o coronel.

       — Não dormiu em casa. Ainda não veio.

       — Que barbaridade! Esse menino ainda acaba ficando tísico.

       E sorri, com uma pontinha de orgulho, pensando nas farras do rapaz.

       — O pai não se importa... — diz Maria Luísa, como se falasse do marido para uma terceira pessoa invisível. — O pai acha até bonito.

       — Ora. São coisas da mocidade. De repente ele cansa e senta o juízo...

       — Sentava...

       — Eu vou falar com ele.

       — Ias...

       Vendo que é inútil insistir, o coronel se refugia no churrasco com farofa.

       Maria Luísa resmunga baixinho suas queixas, como se continuasse a falar com a terceira pessoa invisível.

       — Eu não gosto de falar pra ele. Não tenho direito. A casa não é minha. O pai não tem energia, o chefe hão tem juízo, que é que se pode esperar dos filhos? — Suspira. — Eu quero só ver onde vai parar tudo isto. A filha dele se desfruta com os rapazes, o filho vive na casa de mulheres à-toa. Mas não falo porque não sou ninguém.

       O relógio de três contos de réis canta doze badaladas, que ecoam com alguma solenidade pelo casarão.

 

       Fernanda faz o prato do irmão. Pedrinho está pensativo, D. Eudóxia come o seu mingau em silêncio.

       — A vizinha me contou — resmunga ela — que o seu Maximiliano está morre-não-morre.

       — Também este tempo... — diz Fernanda.

       — Os ricos não sentem. Têm tudo — insiste a velha. — Por que será que Deus não soube dividir direito?

       — Deve estar tudo certo, minha mãe — retruca Fernanda sem nenhuma convicção.

       — Qual!

       — Coma, Pedrinho, que é que você tem? Está sentindo alguma coisa?

       — Nada, mana, estou bem.

       Se Cacilda — pensa ele — pudesse estar sentada ali no lugar vago da mesa... Se ela fosse uma moça de família. Era tão bom...

       — Que gente triste, santo Deus! Criem ânimo! Um pouco mais de alegria! — anima-os Fernanda.

  1. Eudóxia levanta os olhos de cachorro escorraçado:

       — Para vocês, moços, fica muito bem dizer isso...

       Fernanda sorri. Mas sorri nos lábios. Dentro, uma coisa lhe dói. Uma angústia. Não pode esquecer o que aconteceu. A princípio teve ímpetos de ir embora do escritório imediatamente, sem esperar o prazo, sem aceitar a gratificação. Mas depois pensou na mãe, no irmão, nos compromissos, e ficou. Agora tem de procurar trabalho em silêncio, esconder tudo da mãe e do irmão. Se a mãe soubesse, desandaria a chorar, agourando desastres tremendos, fome, miséria, morte. Fernanda está resolvida a guardar segredo a todo o custo. Por isso sorri.

       O silêncio se prolonga. Pedrinho come, pensativo, D. Eudóxia empurra o prato vazio. Estará farejando alguma desgraça? Tem os olhos na porta.

       — Se o seu Maximiliano morrer eu tenho de ir ao velório.

       Espanto de Fernanda:

       — Mas a troco de que veio essa idéia?

       — Ué! A gente precisa estar preparada.

       — Mas ele não morreu.

     — Garanto que morre hoje.

       — Pode ser que não morra!

       Outra vez o silêncio. Fernanda bate com a colher na mesa.

       — Vamos, Pedrinho, acorda! Parece que andas apaixonado!

       Pedrinho sorri sem vontade. Ouve-se agora nitidamente o barulho da chuva, que cai com mais força. O gramofone do vizinho começa a tocar a valsinha de todos os dias.

 

       Os Leitão Leiria conversam.

       — Que dizes? — pergunta D. Dodó ao marido.

       — Muito bem, minha querida. Tiveste apenas um pequeno engano. D’Annunzio não é músico.

       — Não é músico? Ora! Eu pensava...

       — D’Annunzio é poeta e prosador.

       — Que pena! E o resto?

       — O resto está admirável.

       — E ali naquela pergunta do traço característico do meu caráter... qual daquelas respostas tu achas que eu devo dar?