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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


CANIBAIS / Michael Crichton
CANIBAIS / Michael Crichton

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

CANIBAIS

 

O manuscrito Ibn Fadlan representa o primeiro relato conhecido de uma testemunha ocular da vida e sociedade dos Viquingues. É um documento extraordinário, que descreve em pormenores intensos acontecimentos que ocorreram há mais de mil anos. É óbvio que o manuscrito não sobreviveu intacto ao longo desse extenso período de tempo. Tem uma história peculiar, não é menos notável do que o próprio texto.

Proveniência do manuscrito

Em Junho de 921 d. C., o califa de Bagdade enviou um membro da sua corte, AhmaIbn Fadlan, como embaixador para o rei dos Búlgaros. Ibn Fadlan esteve ausente em viagem durante três anos e nunca conseguiu cumprir a sua missão, pois no caminho encontrou um grupo de homens do Norte e teve muitas aventuras entre eles.

Quando, por fim, regressou a Bagdade, Ibn Fadlan registou as suas experiências sob a forma de um relatório oficial para a corte. Esse manuscrito original já desapareceu há muito tempo, e para o reconstituir temos de nos basear em fragmentos parciais preservados em fontes mais recentes.

O mais conhecido de todos é um léxico geográfico árabe escrito por Yakut ibn-Abdallah algures no século treze. Yakut inclui uma dúzia de trechos literais do relato de Ibn Fadlan, que já tinha na altura trezentos anos. Temos de presumir que Yakut trabalhou a partir de uma cópia do original. No entanto, estes poucos parágrafos foram mais tarde traduzidos e retraduzidos vezes sem conta por estudiosos.

Foi descoberto outro fragmento na Rússia, em 1817, e foi publicado em alemão pela Academia de São Petersburgo em 1823. Este material inclui determinados trechos anteriormente publicados por J. L. Rasmussen em 1814. Rasmussen trabalhou a partir de um manuscrito que encontrou em Copenhaga, posteriormente perdido, e de origem duvidosa. Nessa época existiram igualmente traduções suecas, francesas e inglesas, mas são todas notoriamente incorrectas e, aparentemente, não incluem nenhum material novo.

Em 1878, foram descobertos dois manuscritos novos na colecção particular de antiguidades de Sir John Emerson, o embaixador britânico em Constantinopla. Aparentemente, Sir John era um daqueles coleccionadores ávidos cujo zelo pela aquisição excedia o interesse pelo artigo adquirido. Os manuscritos foram encontrados após a sua morte; ninguém sabe onde é que os obteve, nem quando.

Um é uma geografia em árabe escrita por AhmaTusi, datada com segurança de 1047 d. C. Cronologicamente, isto torna o manuscrito Tusi mais próximo do que qualquer outro do original de Ibn Fadlan, que tinha sido presumivelmente escrito cerca de 924-926 d. C. Porém, os estudiosos consideram que o manuscrito Tusi é a menos fiável de todas as fontes; o texto está cheio de erros óbvios e inconsistências internas, e embora contenha muitas citações de um “Ibn Fadlan” que visitou o país do Norte, muitos especialistas hesitam em aceitar este material.

O segundo manuscrito é o de Amin Razi, e foi datado aproximadamente de 1585-1595 d. C. Está escrito em latim e segundo o seu autor é traduzido directamente do texto árabe de Ibn Fadlan. O manuscrito Razi contém algum material sobre os turcos Oguz, e diversos trechos relativos a batalhas com os monstros do nevoeiro, não encontradas noutras fontes.

Em 1934, o texto final em latim medieval foi encontrado no mosteiro de Xymos, perto de Tessalónica, no noroeste da Grécia. O manuscrito Xymos contém mais comentários acerca das relações de Fadlan com o Califa, e acerca das suas experiências com as criaturas do país do Norte. Tanto o autor como a data do manuscrito Xymos são incertos.

A tarefa de comparar estas muitas versões e traduções, que se estendem por mais de mil anos, e aparecem em árabe, latim, alemão, francês, dinamarquês, sueco e inglês, é um empreendimento de proporções formidáveis. Apenas uma pessoa de grande erudição e energia poderia tentá-lo, e em 1951 uma pessoa fê-lo. Per Fraus-Dolus, professor emeritus de Literatura Comparada na Universidade de Oslo, Noruega, compilou todas as fontes conhecidas e iniciou a tarefa árdua de tradução que o ocupou até à sua morte, em 1957. Partes da sua nova tradução foram publicadas em The Proceedings of the National Museum of Oslo: 1959-1960, mas não suscitaram muito interesse entre os académicos, talvez por o jornal ter uma circulação limitada.

A tradução de Fraus-Dolus era absolutamente literal; na sua própria introdução ao material, Fraus-Dolus referiu que “faz parte da natureza das línguas que uma tradução bonita não é exacta, e uma tradução exacta encontra a sua própria beleza sem ajuda”.

Ao preparar esta versão completa e anotada da tradução Fraus-Dolus, fiz poucas alterações. Omiti algumas partes repetitivas; estas estão indicadas no texto. Alterei a estrutura de parágrafos, iniciando cada orador directamente citado com um parágrafo novo, de acordo com a convenção moderna. Omiti as marcas diacríticas nos nomes árabes. Por fim, alterei ocasionalmente a sintaxe original, transpondo normalmente orações subordinadas para que o significado seja apreendido com mais rapidez.

Os viquingues

O retrato que Ibn Fadlan faz dos Viquingues difere profundamente da opinião tradicional dos Europeus em relação a este povo. As primeiras descrições europeias dos Viquingues foram registadas pelo clero; na época, eles eram os únicos observadores que sabiam escrever, e viam os homens do Norte pagãos com um horror muito especial. Segue-se um trecho tipicamente hiperbólico, citado por D. M. Wilson, de um escritor irlandês do século doze:

Numa palavra, embora houvesse cem cabeças de aço duro num pescoço, e cem línguas de bronze em cada cabeça, aguçadas, prontas, frias, que nunca enferrujavam, e cem vozes gárrulas, altas, incessantes de cada língua, não podiam relatar ou narrar, enumerar ou contar, o que todos os Irlandeses sofreram em comum, tanto homens como mulheres, laicos e clero, velhos e jovens, nobres e ignóbeis, as privações e injúrias e opressão, em cada casa, daquele povo corajoso, colérico e puramente pagão.

Estudiosos modernos reconhecem que relatos tão aterradores de ataques viquingues são bastante exagerados. Todavia, os escritores europeus ainda têm tendência para considerar os Escandinavos como bárbaros sanguinários, irrelevantes para a corrente principal da cultura e das ideias ocidentais. Isto foi feito muitas vezes à custa de uma certa lógica. Por exemplo, DaviTalbot Rice escreve:

Desde o século oito até ao século onze, o papel dos Viquingues foi talvez mais influente do que o de outro grupo étnico individual na Europa Ocidental... Os Viquingues eram, por conseguinte, grandes viajantes e executaram façanhas de navegação extraordinárias; as suas cidades eram grandes centros de comércio; a arte deles era original, criativa e influente; tinham uma boa literatura e uma cultura refinada. Era verdadeiramente uma civilização? Penso que é preciso admitir que não foi... O toque de humanismo, que é o contraste da civilização, estava ausente.

Esta mesma atitude está reflectida na opinião de Lorde Clark:

Quando consideramos as sagas islandesas, que se encontram entre os grandes livros do mundo, temos de admitir que os homens do Norte produziram uma cultura. Mas teria sido civilização?... Civilização significa algo mais do que energia e vontade e poder criativo: algo que os primeiros homens do Norte não tinham, mas que, mesmo no tempo deles, estava a começar a reaparecer na Europa Ocidental. Como poderei defini-lo? Bem, muito resumidamente, como um sentido de permanência. Os forasteiros e invasores mantinham-se em constante estado de fluxo. Não sentiam a necessidade de ficar ansiosamente à espera do próximo Março ou da próxima viagem ou da próxima batalha. E, por essa razão, não lhes ocorreu construir casas de pedra ou escrever livros.

Quanto mais atentamente se lêem estes pontos de vista, mais ilógicos parecem. De facto , podemos perguntar-nos por que razão académicos europeus altamente educados e inteligentes concedem aos viquingues tão pouca importância. E porquê a preocupação com a questão semântica de saber se os viquingues tinham uma “civilização”? A situação é unicamente explicável se se reconhecer uma predisposição europeia diferente dos pontos de vista da Pré-história europeia.

Qualquer criança ocidental aprende que o Próximo Oriente é o “berço da civilização”, e que a primeira civilização surgiu no Egipto e na Mesopotâmia, alimentada pelos cursos do Tigre e do Eufrates. Dali, a civilização estendeu-se para Creta e Grécia e depois para Roma, e acabou por chegar aos bárbaros do norte da Europa.

O que esses bárbaros faziam enquanto aguardavam a chegada da civilização não é conhecido; nem essa questão foi muitas vezes levantada. A importância está no processo de disseminação, que o falecido Gordon Childe resumiu como: “a irradiação da barbárie europeia pela civilização oriental”. Muitos académicos apoiam esta visão, tal como o fizeram outros académicos romanos e gregos antes deles. Geoffrey Bibby diz: “A história da Europa do Norte e Ocidental é vista do Ocidente e do Sul, com todos os preconceitos de homens que se consideravam civilizados a observar homens que consideravam bárbaros”.

A partir deste ponto de vista, os Escandinavos são obviamente os mais afastados da fonte de civilização, e, logicamente, os últimos a adquiri-la; e, portanto, são devidamente considerados os últimos dos bárbaros, um espinho incomodativo ao lado das outras regiões europeias que tentavam absorver a sabedoria e civilização do Oriente.

O problema é que esta visão tradicional da pré-história europeia foi grandemente destruída nos últimos quinze anos. O desenvolvimento de técnicas precisas de datação por carbono transformou a antiga cronologia numa grande confusão, que apoiou as ideias antigas de difusão. Parece agora incontestável que os Europeus estavam a erigir enormes monumentos funerários megalíticos antes de os Egípcios construírem as pirâmides; o Stonehenge é mais antigo que a civilização da Grécia Micénica; a metalurgia na Europa pode muito bem preceder o desenvolvimento do trabalho artesanal dos metais na Grécia e em Tróia.

O significado destas descobertas ainda não foi analisado, mas agora é certamente impossível ver os eura cronologia numa grande confusão, que apoiou as ideias antigas de difusão. Parece agora incontestável que os Europeus estavam a erigir enormes monumentos funerários megalíticos antes de os Egípcios construírem as pirâmides; o Stonehenge é mais antigo que a civilização da Grécia Micénica; a metalurgia na Europa pode muito bem preceder o desenvolvimento do trabalho artesanal dos metais na Grécia e em Tróia.

O significado destas descobertas ainda não foi analisado, mas agora é certamente impossível ver os eura cronologia numa grande confusão, que apoiou as ideias antigas de difusão. Parece agora incontestável que os Europeus estavam a erigir enormes monumentos funerários megalíticos antes de os Egípcios construírem as pirâmides; o Stonehenge é mais antigo que pó unificado. O que os Europeus conheciam eram grupos espalhados e individuais de marinheiros que eram oriundos de uma vasta área geográfica, a Escandinávia é maior que Portugal, Espanha e França juntos e que navegavam dos seus Estados feudais individuais com o objectivo de comércio ou pirataria, ou ambos; os Viquingues não faziam grande distinção entre estes. Mas essa é uma tendência partilhada por muitos marinheiros desde os gregos até aos isabelinos.

De facto, para um povo que não tinha civilização, que “não sentia a necessidade de olhar... para além da próxima batalha”, os Viquingues demonstram um comportamento notavelmente persistente e intencional. Como prova do comércio muito espalhado, as moedas árabes aparecem na Escandinávia numa época tão remota como 692 d. C. Durante os quatrocentos anos seguintes, os mercadores-piratas viquingues expandiram-se para ocidente até à Terra Nova, e para sul até à Sicília e à Grécia (onde deixaram gravações nos leões de Delos), e para oriente até às montanhas Urais da Rússia, onde os seus mercadores se juntavam a caravanas que vinham da rota da seda para a China. Os Viquingues não eram construtores de impérios, e é popular dizer que a influência deles nesta vasta área não era permanente. Porém, era suficientemente permanente para terem dado nomes a muitas localidades em Inglaterra, enquanto à Rússia deram o próprio nome da nação, da tribo Rus do Norte. Em relação à influência mais subtil do seu vigor pagão, da energia inesgotável, e do sistema de valores, o manuscrito de Ibn Fadlan mostra-nos como muitas atitudes tipicamente do Norte foram mantidas até aos dias de hoje. Na verdade, há algo notavelmente familiar na sensibilidade moderna acerca do modo de vida viquingues, e algo profundamente atraente.

Sobre o autor

Deve dizer-se uma palavra acerca de Ibn Fadlan, o homem que nos fala com uma voz tão característica apesar da passagem de mais de mil anos e do filtro de copistas e tradutores de uma dúzia de tradições linguísticas e culturais.

A nível pessoal, não sabemos quase nada acerca dele. Aparentemente, era educado e, tendo em linha de conta as suas explorações, não podia ter sido muito idoso. Ele declara explicitamente que era conhecido do Califa, pessoa que não admirava especialmente. (Nisto não estava sozinho, pois o califa al-Muqtadir foi deposto duas vezes e por fim assassinado por um dos seus próprios oficiais.)

Da sua sociedade, sabemos mais. No século dez, Bagdade, a Cidade da Paz, era a cidade mais civilizada da terra. Mais de um milhão de habitantes viviam no interior das suas famosas muralhas circulares. Bagdade era o centro de agitação intelectual e comercial, num ambiente de graça, elegância e esplendor extraordinários. Havia jardins perfumados, árvores frescas e frondosas, e as riquezas acumuladas de um vasto império.

Os árabes de Bagdade eram muçulmanos e ferozmente dedicados a essa religião. Mas estavam igualmente expostos a povos que olhavam, agiam e acreditavam de uma forma diferente da deles. Na verdade, os Árabes eram o povo menos rústico do mundo naquela época, e isto tornou-os observadores soberbos das culturas estrangeiras.

O próprio Ibn Fadlan é claramente um homem inteligente e observador. Interessa-se pelos pormenores do dia-a-dia da vida e pelas crenças do povo que conhece. Grande parte do que testemunhou pareceu-lhe ordinário, obsceno e bárbaro, mas perde pouco tempo com a indignação; depois de expressar a sua desaprovação, volta imediatamente às suas observações perspicazes. E relata o que vê com uma condescendência notavelmente pequena.

A sua forma de relatar pode parecer excêntrica às sensibilidades ocidentais; ele não conta uma história como nós estamos acostumados a ouvir. Temos tendência para esquecer que o nosso próprio sentido de drama tem origem numa tradição oral a actuação ao vivo de um bardo perante uma audiência que muitas vezes deve ter estado inquieta e impaciente, ou então sonolenta após uma refeição pesada. As nossas histórias mais antigas, a Ilíada, Beowulf, a Canção de Rolando, destinavam-se todas a ser cantadas por trovadores cuja função principal e primeira obrigação era divertir as pessoas.

Mas Ibn Fadlan era um escritor, e o seu objectivo principal não era o divertimento. Nem tão pouco a glorificação de algum patrono que o ouvia, nem o reforço dos mitos da sociedade em que vivia. Pelo contrário, ele era um embaixador a apresentar um relatório; o seu tom é o de um auditor de impostos, não de um bardo; de um antropólogo, não de um dramaturgo. Na verdade, ele despreza muitas vezes os elementos mais excitantes da sua narrativa para não os deixar interferir com o relato claro e objectivo.

Por vezes, esta frieza é tão irritante que não conseguimos perceber até que ponto ele é um espectador extraordinário. Durante centenas de anos depois de Ibn Fadlan, foi tradição entre os viajantes escrever crónicas extremamente especulativas e fantasistas de maravilhas estrangeiras animais que falavam, homens com penas que voavam, encontros com monstros e unicórnios. Mais recentemente, há duzentos anos, europeus sóbrios enchiam os seus diários de disparates acerca de babuínos africanos que faziam guerras contra os agricultores, etc.

Ibn Fadlan nunca especula. Todas as palavras são verdades, e sempre que relata com base em coisas que ouviu dizer, é cauteloso a ponto de o afirmar. É igualmente cuidadoso a especificar quando é testemunha ocular: é por isso que usa a frase “vi com os meus próprios olhos” vezes sem conta.

No fim, é esta qualidade de veracidade absoluta que torna a sua história tão aterradora. Pois o seu encontro com os monstros do nevoeiro, os “comedores dos mortos”, é contada com a mesma atenção ao pormenor, o mesmo cepticismo cuidadoso que marca as outras partes do manuscrito.

Em todo o caso, o leitor poderá julgar por si próprio.

Piratas dos mortos

O MANUSCRITO DE IBN FADLAN,

QUE RELATA AS SUAS EXPERIÊNCIAS

COM os HOMENS DO NORTE EM 922 D. C.

A PARTIDA DA CIDADE DA PAZ

Louvado seja Deus, o Misericordioso, o Compassivo, o Senhor dos Dois Mundos, e graça divina e paz para o Príncipe dos Profetas, nosso Senhor e Mestre Maomé, a quem Deus abençoa e preserva com paz duradoura e contínua e graças divinas até ao Dia da Fé!

Este é o livro de Ahmaibn-Fadlan, ibn-al-Abbas, ibn Rasid, ibn-Hammad, um cliente de Muhammaibn-Sulayman, o embaixador de al-Muqtadir para o rei de Saqaliba, no qual relata o que viu na terra dos Turcos, dos Hazars, dos Saqaliba, dos Baskirs, dos Rus, e dos Homens do Norte, as histórias dos seus reis e a forma como agem em muitos assuntos da vida deles.

Acarta do Yiltawar, rei dos Saqaliba, chegou ao comandante dos crentes, al-Muqtadir. Nela, ele pedia-lhe que enviasse alguém que pudesse instruí-lo em religião e elucidá-lo acerca das leis do Islão; que construísse para si uma mesquita e lhe erigisse um púlpito de onde pudesse ser levada a cabo a missão de converter o seu povo em todos os distritos do seu reino; e também para o aconselhar na construção de fortificações e obras de defesa. E pediu encarecidamente ao Califa para fazer estas coisas. O intermediário neste assunto foi Dadir al-Hurami.

O comandante dos crentes, al-Muqtadir, como muitos sabem, não era um califa forte e justo, mas dado a prazeres e aos discursos elogiosos dos seus oficiais, que o enganavam e zombavam fortemente atrás das costas dele. Eu não pertencia a esta companhia, nem gostava especialmente do Califa, pela razão que se segue.

Na Cidade da Paz vivia um mercador idoso de nome ibn-Qarin, rico em todas as coisas mas sem um coração generoso e o amor dos homens. Guardava com igual zelo o seu ouro e a sua jovem esposa, que ninguém vira jamais mas todos diziam ser bela para além de tudo o que se podia imaginar. Num certo dia, o Califa mandou-me entregar uma mensagem a ibn-Qarin, e eu apresentei-me em casa do mercador e consegui entrar com a minha carta e selo. Até hoje, não sei qual era o conteúdo da carta, mas não interessa.

O mercador não estava em casa, pois saíra para tratar de um negócio; eu expliquei ao criado da porta que tinha de esperar o regresso dele, pois o Califa tinha-me dado ordens para entregar a mensagem nas mãos dele com as minhas próprias mãos. Assim, o criado que abriu a porta deixou-me entrar na casa, mas o processo demorou algum tempo, pois a porta da casa tinha muitas fechaduras, cadeados, trancas e correntes, como é vulgar em casa de avarentos. Por fim, fui admitido e esperei o dia inteiro, com fome e com sede, mas nenhum dos criados do mercador sovina me ofereceu de beber.

No calor da tarde, quando tudo à minha volta na casa estava imóvel e os criados dormiam, também eu me senti entorpecido. Depois diante de mim,

Vi uma aparição de branco, uma mulher jovem e bela, que pensei ser a própria esposa que nenhum homem jamais vira. Ela não falou, mas por meio de gestos levou-me para outro aposento, e ali trancou a porta. Desfrutei dela ali mesmo, e para isso ela não precisou de qualquer encorajamento, pois o marido era velho e sem dúvida negligente. Assim se passou a tarde rapidamente, até ouvirmos o senhor da casa regressar. Imediatamente a mulher se levantou e partiu, sem jamais ter proferido uma única palavra na minha presença, e eu fiquei a compor o meu vestuário com alguma pressa.

Teria sido apanhado pela certa não fossem todas aquelas fechaduras e correntes que impediram a entrada do avarento na sua própria casa. Mesmo assim, o mercador ibn-Qarin encontrou-me na sala adjacente, e olhou-me com suspeição, perguntando-me porque estava ali e não no pátio, onde era próprio um mensageiro esperar. Repliquei que estava esfomeado e fraco, e tinha procurado comida e sombra. Foi uma mentira fraca e ele não acreditou; queixou-se ao califa, e eu sei que no íntimo ele se divertiu mas foi forçado a fazer uma expressão severa em público. Por isso, quando o governante dos Saqaliba pediu uma missão ao califa, este mesmo rancoroso ibn-Qarin insistiu para que eu fosse enviado, e assim aconteceu.

Na nossa companhia estava o embaixador do rei de Saqaliba, que se chamava Abdallah ibn-Bastu al-Hazari, um homem maçador e fanfarrão que falava de mais. Havia também Takin al-Turki, Bars al-Saqlabi, os dois guias na viagem, e eu, também. Levámos presentes para o governador, para a esposa dele, para os filhos e os generais. Também trouxemos certas drogas, que foram entregues aos cuidados de Sausan al-Rasi. Era este o nosso grupo.

E partimos na quinta-feira, dia 11 de Safar do ano 309 [21 de Junho de 921], da Cidade da Paz [Bagdade]. Parámos um dia em Nahrawan, e dali seguimos rapidamente até chegarmos a al-Daskara, onde parámos durante três dias. Depois viajámos em frente sem quaisquer desvios até chegarmos a Hulwan. Ali permanecemos dois dias. Dali fomos para Qirmisin, onde ficámos durante dois dias. Depois continuámos e viajámos até chegarmos a Hamadan, onde estivemos três dias. Em seguida avançámos para Sawa, onde permanecemos dois dias. Daí viemos para Ray, onde estivemos onze dias à espera de Ahmaibn-Ali, o irmão de al-Rasi, porque ele estava em Huwar al-Ray. Depois fomos para Huwar al-Ray e ficámos lá durante três dias.

Este trecho dá o tom das descrições de viagem de Ibn Fadlan. Cerca de um quarto de todo o manuscrito está escrito desta forma, limitando-se a enumerar os nomes de locais e o número de dias passados em cada um deles. A maior parte deste material foi retirado.

Aparentemente, o grupo de Ibn Fadlan está a viajar para norte, e por fim são forçados a parar para passar o Inverno.

A nossa estada em Gurganiya foi prolongada; ficámos lá alguns dias do mês de Ragab [Novembro] e durante todo o Saban, Ramadão e Sawwal. A nossa longa estada foi imposta pelo frio e pela sua severidade. Na verdade, contaram-me que dois homens levaram camelos para as florestas para apanhar lenha. Porém, esqueceram-se de levar pederneira e mecha com eles, e portanto passaram a noite sem uma fogueira. Quando se levantaram, na manhã seguinte, descobriram que os camelos tinham congelado devido ao frio.

Na verdade, vi o mercado e as ruas de Gurganiya completamente desertos por causa do frio. Podia-se passear pelas ruas sem encontrar ninguém. Uma vez, saí da minha casa de banho, entrei em casa e olhei para a barba, que era um monte de gelo. Tive de o derreter à frente do lume. Vivi noite e dia numa casa que se situava no interior de outra casa, na qual estava montada uma tenda de feltro turca, e eu próprio estava embrulhado em muitas roupas e cobertores de pêlo. Mas, apesar de tudo isto, muitas vezes, durante a noite, as minhas faces colavam-se à almofada.

Neste ponto extremo de frio, vi que por vezes a terra forma grandes fendas, e uma árvore grande e antiga pode partir-se em duas metades por causa disso.

Aproximadamente a meio do Sawwal do ano 309 [Fevereiro de 922], o tempo começou a mudar, o rio derreteu, e nós efectuámos todos os preparativos necessários para a viagem. Comprámos camelos turcos e barcos de pele feitos de couros de camelo, para estarmos preparados para os rios que teríamos de atravessar na terra dos Turcos.

Armazenámos uma grande quantidade de pão, milho-miúdo e carne salgada para três meses. Os conhecimentos que adquirimos na cidade ensinaram-nos a armazenar vestuário, todo aquele de que necessitávamos. Descreveram as privações que nos esperavam em termos terríveis, e nós pensámos que eles estavam a exagerar a história, e no entanto, quando passámos por elas, foram muito maiores do que eles nos tinham dito.

Cada um de nós vestiu uma jaqueta, por cima dela um casaco, por cima dele um tulup, por cima dele uma burka, e um gorro de feltro para fora do qual apenas podiam espreitar dois olhos. Também tínhamos um simples par de ceroulas com calças por cima, e sapatos de casa, e por cima deles outro par de botas. Quando um de nós subiu para um camelo, não conseguiu mexer-se por causa das roupas.

O doutor de leis e o professor e os pagens que viajaram connosco de Bagdade deixaram-nos naquele momento, com receio de entrarem neste novo país, por isso eu, o embaixador, o cunhado deste e dois pagens, Takin e Bars, prosseguimos1.

A caravana estava pronta para partir. Tomámos ao nosso serviço um guia entre os habitantes da cidade, cujo nome era Qlawus. Depois, confiando no Todo-Poderoso e exaltado Deus, partimos na Segunda-Feira, a terceira de Dulqada do ano 309 [3 de Março de 922] da cidade de Gurganiya.

Nesse mesmo dia, parámos no burgo chamado Zamgan: isto é, a porta para os Turcos. Na manhã seguinte, cedo, seguimos para Git. Ali caiu tanta neve que os camelos afundaram-se nela até aos joelhos; fomos, por isso, forçados a parar durante dois dias.

Depois dirigimo-nos rapidamente para a terra dos Turcos sem encontrar vivalma na estepe árida e plana. Cavalgámos durante dez dias no meio de tempestades de neves geladas e ininterruptas, em comparação com as quais o frio em Chwarezm parecia um dia de Verão, de tal forma que esquecemos

 

1 Ao longo do manuscrito, Ibn Fadlan é impreciso acerca do tamanho e composição do seu grupo. Se este descuido aparente reflecte a presunção de que o leitor conhece a composição da caravana, ou se é consequência de trechos perdidos do texto, não poderemos saber ao certo. As convenções sociais podem igualmente ser um factor, pois Ibn Fadlan nunca declara que o seu grupo é maior que alguns indivíduos, quando na realidade provavelmente era composto por cem pessoas ou mais, e o dobro de cavalos e camelos. Mas Ibn Fadlan não conta literalmente escravos, criados e membros menos importantes da caravana.

 

todos os nossos desconfortos anteriores e estivemos prestes a desistir.

Um dia, quando estávamos sob o tempo mais frio e inóspito que se pode imaginar, Takin, o pagem, cavalgava a meu lado, e juntamente com ele um dos turcos, que estava a conversar com ele em turco. Takin riu-se e disse para mim:

Este turco diz: “Que quer o nosso Deus de nós? Está a matar-nos com frio. Se soubéssemos o que quer, deixá-lo-íamos tê-lo”.

E depois eu disse:

Diz-lhe que Ele apenas deseja que vocês digam, “Não existe nenhum Deus a não ser Alá”.

O turco riu-se e respondeu:

Se eu soubesse, diria.

Depois chegámos a uma floresta onde havia uma grande quantidade de madeira seca e parámos. A caravana acendeu fogueiras, aquecemo-nos, despimos as roupas, e espalhámo-las para secar.

Aparentemente, o grupo de Ibn Fadlan estava a entrar numa região mais quente, porque ele não volta a fazer nenhuma referência ao frio extremo.

Seguimos novamente e cavalgámos todos os dias desde a meia-noite até à altura da oração da tarde andando mais depressa a partir do meio-dia e depois parávamos. Depois de andarmos quinze noites desta forma, chegámos a uma grande montanha que tinha muitos rochedos imponentes. Há nascentes que brotam dos rochedos e a água fica em pequenos lagos. Deste local, atravessámos até chegarmos a uma tribo turca, a que chamam os Oguz.

 

’”OS COSTUMES DOS TURCOS OGUZ

Os Oguz são nómadas e têm casas de feltro. Ficam durante algum tempo num sítio e depois partem para outro. As suas casas estão colocadas aqui e ali, de acordo com o costume nómada. Embora tenham uma existência dura, são como jumentos tresmalhados. Não têm quaisquer laços religiosos com Deus. Nunca rezam, mas ao invés disso chamam Senhores aos seus chefes. Quando um deles pede conselho ao chefe acerca de qualquer coisa, diz, “Ó Senhor, que farei em relação a este ou àquele assunto?”.

Os seus empreendimentos são efectuados com base em conselhos deliberados unicamente entre eles. Ouvi-os dizerem: “Não existe Deus nenhum a não ser Alá, e Maomé é o profeta de Alá”, mas falam assim para se aproximar de quaisquer muçulmanos, e não porque acreditem.

O governante dos turcos Oguz chama-se Yabgu. E o nome do governador, e qualquer pessoa que governe esta tribo tem esse nome. O seu subordinado chama-se sempre Kudarkin e, por conseguinte, cada subordinado de um chefe chama-se Kudarkin.

Os Oguz não se lavam depois de defecar ou urinar, nem se banham depois de ejacular, nem noutras ocasiões. São absolutamente adversos à água, especialmente no Inverno. Nenhum mercador ou outros maometanos podem praticar a ablução na presença deles excepto à noite, quando os Turcos não vêem, pois ficam zangados e dizem: “Este homem deseja lançar-nos um feitiço, pois está a imergir-se em água”, e obrigam-no a pagar uma multa.

Nenhum dos maometanos pode entrar em território turco até um dos Oguz aceder a ser seu anfitrião, com quem fica e para quem traz peças de vestuário da terra do Islão, e para a mulher dele alguma pimenta, milho-miúdo, passas de uvas e nozes. Quando o muçulmano vem para casa do seu anfitrião, este monta uma tenda para ele e traz-lhe ovelhas, para que o muçulmano possa matá-las pessoalmente com uma faca. Os Turcos nunca matam com faca; dão pancadas na cabeça da ovelha até o animal estar morto.

As mulheres Oguz nunca se cobrem na presença dos seus homens nem de outros. E também não cobrem nenhuma das partes físicas na presença de qualquer pessoa. Um dia, ficámos com um turco e estávamos sentados na sua tenda. A esposa do homem estava presente. Enquanto conversávamos, a mulher descobriu as suas partes pudendas e coçou-as, e nós assistimos a tudo. Cobrimos os nossos rostos e dissemos: “Imploro o perdão de Deus”. Ao ouvir isto o marido dela riu e disse para o intérprete: “Diga-lhes que nós nos descobrimos na vossa presença para vós verdes e ficardes envergonhados, mas isso não significa que as nossas mulheres sejam alcançáveis. É melhor serem assim, do que, mesmo cobrindo-as, serem alcançáveis”.

O adultério é desconhecido entre eles. Quando descobrem um adúltero, partem-no em dois. Isto acontece da seguinte forma: juntam os ramos de duas árvores, amarram o adúltero aos ramos, e depois soltam as duas árvores e o homem que se encontra amarrado a elas é partido em dois.

Os Turcos consideram que o costume da pederastia é um pecado terrível. Um dia, um mercador veio ficar com o clã dos Kudarkin. Este mercador permaneceu com o seu anfitrião durante algum tempo para comprar ovelhas. Ora, o anfitrião tinha um filho imberbe, e o hóspede tentou insistentemente desviá-lo do bom caminho até conseguir que o rapaz lhe fizesse a vontade. Entretanto, o anfitrião turco entrou e apanhou-os em flagrante delito.

Os turcos queriam matar o mercador e também o filho por esta ofensa. Mas, depois de muito implorar, o mercador foi autorizado a pagar para salvar a vida. Indemnizou o anfitrião em quatrocentas ovelhas pelo que tinha feito ao filho dele, e depois o mercador partiu apressadamente da terra dos Turcos.

Todos os Turcos cortam a barba com excepção dos bigodes.

Os seus costumes de casamento são os seguintes: um deles pede a mão de um membro feminino de outra família, mediante um determinado preço de casamento. O preço do casamento consiste muitas vezes em camelos, animais de carga, e outras coisas. Ninguém pode tomar uma esposa enquanto não cumprir a obrigação que foi acordada com os homens da família. Se, porém, a cumpriu, depois chega sem qualquer aviso, entra no aposento onde ela se encontra, toma-a na presença do pai, mãe e irmãos, e eles não impedem que isso aconteça.

Se um homem morre e deixa mulher e filhos, então o mais velho dos seus filhos toma-a como esposa, se ela não for sua mãe.

Se um dos turcos adoece e tem escravos, eles cuidam dele e ninguém da sua família se aproxima. É montada uma tenda para o doente longe das casas e ele não parte até morrer ou ficar bom. Se, todavia, é um escravo ou um homem pobre, deixam-no no deserto e seguem o seu caminho.

Quando um dos homens importantes morre, cavam para ele uma grande sepultura com a forma de uma casa e vão até ele, vestem-no com um qurtaq com o seu cinto e arco, e colocam uma taça de madeira com uma bebida alcoólica na sua mão. Pegam em todos os seus bens e colocam-nos nesta casa. Depois também o instalam nela. Em seguida constróem outra casa por cima e fazem uma espécie de cúpula com lama.

Depois matam os cavalos do falecido. Matam cem ou duzentos, tantos quantos ele possui, no local da sepultura. Seguidamente, comem a carne até à cabeça, aos cascos, ao couro e à cauda, pois penduram estas partes em postes de madeira e dizem: “Estas são as montadas nas quais ele vai cavalgar para o Paraíso”.

Se ele foi um herói e chacinou inimigos, esculpem estátuas em madeira em número idêntico ao que ele matou, colocam-nas sobre a sepultura dele, e dizem: “Estes são os seus pagens, que vão servi-lo no Paraíso”.

Por vezes atrasam a matança dos cavalos por um dia ou dois, e depois um homem idoso entre os anciãos incita-os, dizendo:

Vi o homem morto durante o sono e ele disse-me: “Aqui estou para que me vejas. Os meus companheiros ultrapassaram-me e os meus pés estavam demasiado fracos para os seguir. Não posso alcançá-los, por isso fiquei só”.

Neste caso, o povo mata as montadas do falecido e pendura-as sobre a sepultura dele. Ao fim de um ou dois dias, o mesmo ancião vem até eles e diz:

Vi o homem morto num sonho e ele disse: “Informa a minha família de que recuperei do meu estado”.

Desta maneira o ancião preserva os costumes dos Oguz, pois de outra forma poderia haver um desejo de os vivos reterem os cavalos dos mortos1.

Finalmente, começámos a percorrer o reino turco. Uma manhã, um dos turcos veio ao nosso encontro. Tinha uma figura horrível, aparência suja, modos desprezíveis, e natureza vil. Disse:

Parem! toda a caravana se deteve em obediência à sua ordem. Depois, ele disse: Nenhum de vós pode prosseguir.

Nós dissemos-lhe:

Somos amigos do Kudarkin. Ele começou a rir e disse:

Quem é Kudarkin? Eu defeco na barba dele. Nenhum homem entre nós soube o que fazer ao ouvir estas palavras, mas depois o turco disse:

Bekenisto é, “pão” na língua de Chwarezm. Eu dei-lhe algumas broas de pão. Ele pegou nelas e disse: Podem seguir. Tenho piedade de vós.

 

1 Farzan, um admirador incondicional de Ibn Fadlan, acredita que este parágrafo revela “a sensibilidade de um antropólogo moderno, registando não só os costumes de um povo, mas os mecanismos que agem para forçar esses costumes. O significado económico de matar os cavalos de um nómada é o equivalente aproximado dos impostos de sucessão dos nossos dias; isto é, tem tendência a atrasar a acumulação de riqueza herdada numa família. Embora exigido pela religião, não podia ter sido uma prática popular, não mais do que é actualmente. Ibn Fadlan demonstra muito astutamente a forma como é imposta aos relutantes”.

 

Chegámos ao distrito do comandante do exército cujo nome era Etrek ibn-al-Qatagan. Ele montou tendas turcas para nós e mandou-nos permanecer no interior delas. Tinha um grande acampamento, criados e grandes aposentos. Trouxe-nos ovelhas para que pudéssemos matá-las, e colocou cavalos à nossa disposição para montarmos. Os turcos falam nele como o seu melhor cavaleiro, e na verdade, um dia, quando ele fez uma corrida connosco no seu cavalo e quando um ganso voou por cima de nós, eu vi-o pegar no arco e depois, levando o cavalo para debaixo da ave, atingiu o ganso, que caiu morto.

Eu presenteei-o com um fato de Merv, um par de botas de couro vermelho, um casaco de brocado, e cinco casacos de seda. Ele aceitou tudo isto com bonitas palavras de agradecimento. Tirou o casaco de brocado que tinha vestido para colocar as vestes de honra que eu acabara de lhe ofertar. Depois vi que o qurtaq que ele tinha por baixo estava quase a desfazer-se e nojento, mas é costume deles que ninguém tirará a peça de vestuário que usa junto ao corpo até ela se desintegrar. Na verdade, ele também cortara toda a barba, e até mesmo o bigode, por isso parecia um eunuco. E no entanto, como pude constatar, era o melhor cavaleiro deles.

Eu acreditei piamente que aqueles belos presentes conquistariam a amizade dele em relação a nós, mas isso não aconteceria. Ele era um homem traiçoeiro.

Um dia mandou chamar os líderes para junto de si; isto é, Tarhan, Yanal e Glyz. Tarhan era o mais influente de todos; era aleijado e cego e tinha uma mão mutilada. Depois disse-lhes:

Estes são os mensageiros do rei dos Árabes para o chefe dos Búlgaros, e eu penso que não devo deixá-los passar sem me aconselhar convosco.

Depois Tarhan falou:

Isto é uma coisa que nunca vimos. Nunca o embaixador do Sultão viajou pelo nosso país desde que nós e os nossos antepassados estamos aqui. Eu tenho a impressão de que o Sultão está a enganar-nos. Estes homens foram realmente mandados por ele para os Hazars, para os instigarem contra nós. O melhor é darmos cabo destes embaixadores e ficarmos com tudo o que possuem.

Outro conselheiro disse:

Não, é preferível ficarmos com o que eles têm e deixarmo-los nus para que possam regressar assim para o local de onde vieram.

E outro disse:

Não, temos cativos com o rei dos Hazars, por isso devíamos enviar estes homens para os resgatar.

Continuaram a discutir estes assuntos entre eles durante sete dias, enquanto nós estávamos numa situação semelhante à morte, até concordarem em desimpedir a estrada e deixar-nos passar. Demos a Tarhan como veste de honra dois cafetãs de Merv e também pimenta, milho-miúdo, e algumas fatias de pão.

E seguimos viagem até chegarmos ao rio Bagindi. Ali tirámos os nossos barcos de pele que tinham sido feitos de couros de camelo, abrimo-los, e carregámos as mercadorias dos camelos turcos. Quando cada barco ficou cheio, um grupo de cinco, seis ou quatro homens sentou-se neles. Pegaram em ramos de vidoeiro nas mãos e utilizaram-nos como remos e remaram enquanto a água levava o barco pela correnteza e o fazia girar. Por fim, atravessámos. Em relação aos cavalos e camelos, estes nadaram até à outra margem.

Quando se atravessa um rio, é absolutamente necessário que em primeiro lugar um grupo de guerreiros com armas seja transportado para a outra margem antes de qualquer um dos membros da caravana, para ser estabelecida uma vanguarda de forma a evitar um ataque dos Baskirs enquanto o corpo principal está a atravessar o rio.

Assim atravessámos o rio Bagindi, e depois o rio chamado Gam, da mesma forma. Depois o Odil, depois o Adrn, depois o Wars, depois o Athi, depois o Wbna. Todos eles são grandes rios.

Seguidamente, chegámos aos Pegenegs. Estes tinham acampado junto a um lago calmo como o mar. São um povo castanho-escuro, poderoso, e os homens cortam as barbas. São pobres em comparação com os Oguz, pois vi homens entre os Oguz que possuíam 10 000 cavalos e 100 000 ovelhas. Mas os Pegenegs são pobres, e permanecemos apenas um dia com eles.

Depois continuámos a nossa viagem e abeirámo-nos do rio Gayih. Este é o maior, mais largo e mais rápido que vimos. Na verdade, eu vi como um barco de pele se virou nele, e como aqueles que iam nele se afogaram. Muitos do grupo pereceram e diversos camelos e cavalos afogaram-se. Atravessámos este rio com dificuldade. Depois continuámos durante mais alguns dias e atravessámos o rio Gaha, depois o rio Azhn, depois o Bagag, depois o Smur, depois o Knal, depois o Suh, e depois o rio Kiglu. Finalmente, chegámos à terra dos Baskirs.

O manuscrito de Yakut contém uma pequena descrição da estada de Ibn Fadlan entre os Baskirs; muitos estudiosos questionam a autenticidade destes trechos. As descrições propriamente ditas são invulgarmente vagas e aborrecidas, e consistem principalmente em listas dos chefes e nobres encontrados. O próprio Ibn Fadlan sugere que os Baskirs não merecem atenção, uma declaração incaracterística deste viajante extremamente curioso.

Por fim, deixámos a terra dos Baskirs, e atravessámos o rio Germsan, o rio Urn, o rio Urm, depois o rio Wtig, o rio Nbasnh, depois o rio Gawsin. Entre os rios que mencionamos, a distância é uma viagem de dois, três ou quatro dias em cada caso.

Depois chegámos à terra dos Búlgaros, que começa na margem do rio Volga.

 

PRIMEIRO CONTACTO COM OS HOMENS DO NORTE

Vi com os meus próprios olhos como os homens do Norte1 tinham chegado com as suas mercadorias, e montado acampamento ao longo do Volga. Nunca vi um povo tão gigante: são altos como palmeiras, e de compleição corada e ruiva. Não usam camisola nem cafetãs, mas entre os homens usam um vestuário de tecido tosco, que é preso de um lado, para uma mão permanecer livre.

Todos os homens do Norte trazem um machado, um punhal e uma espada, e nunca são vistos sem estas armas. As espadas deles são largas, com linhas onduladas, e de manufactura franca. Desde a ponta das unhas até ao pescoço, cada homem desta raça está tatuado com imagens de árvores, seres vivos e outras coisas.

 

1 Na verdade, a palavra de Ibn Fadlan para eles aqui era “Rus”, o nome de uma tribo específica de homens do Norte. No texto, por vezes chama os Escandinavos pelos nomes das suas tribos específicas, e por vezes chama-lhes “Varangianos” como termo genérico. Os historiadores reservam agora o termo varangiano para os mercenários escandinavos empregues pelo Império Bizantino. Para evitar confusão, é utilizado o termo homens do Norte

 

As mulheres transportam, presa ao peito, uma pequena caixa de ferro, cobre, prata ou ouro, de acordo com a riqueza e os recursos dos maridos. Presa à caixa usam um anel, e sobre ele um punhal, todos junto ao peito. Ao pescoço usam correntes de ouro e prata.

São a raça mais suja que Deus jamais criou. Não se limpam depois de irem à retrete, nem se lavam depois de uma conspurcação nocturna, como se fossem animais selvagens.

Vêm do seu próprio país, ancoram os navios no Volga, que é um grande rio, e constróem grandes casas de madeira nas suas margens. Em cada uma dessas casas vivem dez ou vinte pessoas, mais ou menos. Cada homem tem um sofá, onde se senta com as raparigas bonitas que tem para vender. Pode muito bem apetecer-lhe desfrutar de uma delas enquanto um amigo vê. Por vezes, estão diversos entretidos desta forma no mesmo momento, cada um à vista dos outros.

Ocasionalmente, um mercador recorre a uma casa para adquirir uma rapariga, e encontra o dono a abraçá-la e este não a deixa até ter feito o que queria; e isto não é considerado nada de especial.

Todas as manhãs entra uma escrava com uma vasilha com água e coloca-a diante do senhor. Ele lava o rosto e as mãos, e depois o cabelo, penteando-o sobre a vasilha. Logo a seguir assoa o nariz, e cospe para o recipiente, e sem deixar lixo atrás, atira tudo para dentro desta água. Depois de terminar, a rapariga leva a vasilha para o homem que se encontra ao lado dele, que faz o mesmo. E assim continua a transportar o recipiente de um para outro, até todos aqueles que se encontram na casa terem assoado o nariz e cuspido para a vasilha, e lavado o rosto e o cabelo.

Este é o comportamento natural entre os homens do Norte, como eu vi com os meus próprios olhos. No entanto, na altura da nossa chegada junto deles, havia algum descontentamento entre o povo gigante, cuja natureza era a seguinte:

O seu chefe principal, um homem de nome Wyglif, tinha adoecido, e fora colocado numa tenda para enfermos a alguma distância do acampamento, com pão e água. Ninguém se aproximou ou falou com ele, nem o visitou o tempo todo. Nenhum escravo o alimentou, pois os homens do Norte acreditam que um homem tem de recuperar de qualquer doença de acordo com a própria força. Muitos entre eles acreditavam que Wyglif nunca voltaria ajuntar-se a eles no acampamento, e ao invés disso morreria.

Então, um deles, um jovem nobre chamado Buliwyf, foi escolhido para ser o novo líder, mas não seria aceite enquanto o chefe doente vivesse. Era esta a causa da inquietação na altura da nossa chegada. Todavia, também não havia sinal de desgosto ou choro entre o povo acampado no Volga.

Os homens do Norte dão grande importância ao dever do anfitrião. Recebem cada visitante calorosamente e com hospitalidade, muita comida e roupas, e os condes e nobres competem pela honra da melhor hospitalidade. O grupo da nossa caravana foi trazido diante de Buliwyf e foi-nos oferecida uma grande festa. E o próprio Buliwyf presidiu a essa festa, e vi que era um homem alto, e forte, com pele e cabelo e barba de um branco puro. Tinha o porte de um líder.

Reconhecendo a honra da festa, o nosso grupo comeu abundantemente, embora a comida fosse vil e o estilo da festa incluísse muitos lançamentos de comida e bebida, e grandes gargalhadas e divertimento. Era comum no meio deste banquete rude um conde divertir-se com uma rapariga escrava à vista dos companheiros.

Ao ver isto, eu virei-me e disse:

Imploro perdão a Deus e os homens do Norte riram-se muito com o meu desconcerto. Um deles traduziu para mim que eles acreditam que Deus encara favoravelmente aqueles prazeres abertos. Ele disse-me:

Vós, árabes, sois como mulheres velhas, tremeis ao ver vida.

Eu disse em resposta:

Eu sou convidado entre vós, e Alá conduzir-me-á para a rectidão.

Isto foi motivo para mais gargalhadas, mas eu não sei por que é que eles acharam engraçado.

O costume dos homens do Norte reverencia a vida de guerra. Na verdade, estes homens enormes lutam continuamente; nunca estão em paz, nem entre eles nem entre tribos diferentes dentro da própria raça. Entoam cânticos sobre as suas guerras e bravura, e acreditam que a morte de um guerreiro é a maior honra que lhe pode acontecer.

No banquete de Buliwyf, um membro da raça dele entoou um cântico de bravura e batalha que foi muito apreciado, embora pouco escutado. A bebida forte dos homens do Norte depressa os torna iguais a animais e jumentos tresmalhados; no meio da canção houve ejaculação e também combate mortal por causa de uma discussão inflamada de dois guerreiros. O bardo não interrompeu a canção durante todos estes acontecimentos; na verdade, eu vi sangue espirrar para o rosto dele, e ele limpou-o sem uma pausa na cantoria.

Isto impressionou-me muito.

Ora aconteceu que este Buliwyf, que estava embriagado como os outros, ordenou que eu cantasse uma canção para eles. Foi extremamente insistente. Como eu não queria irá-lo, recitei do Corão, com o tradutor a repetir as minhas palavras na língua do Norte. Não fui recebido melhor que o menestrel deles, e depois pedi perdão a Alá pelo tratamento das Suas palavras sagradas, e também pela tradução1, que senti ser irreflectida, pois na verdade o tradutor também estava embriagado.

Tínhamos estado duas noites entre os homens do Norte, e, na manhã em que planeávamos partir, foi-nos dito pelo tradutor que o chefe Wyglif tinha falecido. Eu fui testemunha do que aconteceu depois.

Primeiro, deitaram-no na sua sepultura, sobre a qual foi erigido um telhado, pelo espaço de dez dias, até terem completado o corte e costura das suas vestes. Também juntaram

 

1 Os Árabes nunca gostaram de traduzir o Corão. Os primeiros xeques sustentavam que o livro sagrado não podia ser traduzido, uma injunção aparentemente baseada em considerações religiosas. Mas todas as pessoas que tentaram uma tradução concordam pelas razões mais seculares: o árabe é por natureza uma linguagem sucinta, e o Corão é composto sob a forma de poesia e, portanto, ainda mais concentrado. As dificuldades de conferir um significado literal para nem falar na graça e elegância do árabe original levaram os tradutores a prefaciar os seus trabalhos com desculpas prolongadas e abjectas.

Ao mesmo tempo, o Islão é uma forma de pensamento activa, expansiva, e o século dez foi um dos seus períodos mais altos de disseminação. Esta expansão necessitava, inevitavelmente, de traduções para uso dos novos convertidos, e foram feitas traduções, mas nunca foram bem recebidas do ponto de vista dos Árabes.

Isto era surpreendente para um observador árabe, proveniente de um clima mais quente. A prática muçulmana pedia um enterro rápido, muitas vezes no mesmo dia da morte, após uma curta cerimónia de lavagem ritual e orações.

 

os pertences dele, e dividiram-nos em três partes. A primeira dessas partes é para a família dele; a segunda é usada para as vestes que fazem para o falecido; e com a terceira compram bebida forte, para o dia em que uma rapariga se resigna à morte, e é queimada com o seu senhor.

Abandonam-se ao uso do vinho de uma forma louca, e bebem dia e noite, como eu já disse. Não é raro um homem morrer com um copo na mão.

A família de Wyglif perguntou a todas as raparigas e pagens dele:

Qual de vós morrerá com ele? Depois uma delas respondeu:

Eu.

A partir do instante em que proferiu aquela palavra, deixou de ser livre; mesmo que quisesse recuar, não lhe seria permitido.

A rapariga que assim falou foi depois entregue a duas outras raparigas, que deviam vigiá-la, acompanhá-la onde quer que ela fosse, e até, ocasionalmente, lavar-lhe os pés. O povo ocupou-se do homem morto cortaram as roupas para ele, e prepararam tudo o mais que era necessário. Durante todo este período, a rapariga entregou-se à bebida e às cantorias, e estava divertida e alegre.

Durante este tempo, Buliwyf, o nobre que seria rei ou chefe a seguir, encontrou um rival cujo nome era Thorkel. A ele não o conhecia, mas era horrível e desagradável, um homem escuro no meio da sua raça ruiva e clara. Conspirou para ser ele o chefe. Eu soube tudo isto pelo tradutor, pois não houve qualquer sinal exterior nos preparativos do funeral de que alguma coisa não estava de acordo com o costume.

Buliwyf não comandou as preparações pessoalmente, pois não era da família de Wyglif, e é regra que a família prepare o funeral. Buliwyf juntou-se à alegria e celebração geral, e não assumiu a conduta de rei, a não ser durante os banquetes da noite, quando se sentou no banco alto que estava reservado ao rei.

Esta era a forma de se sentar: quando um homem do Norte é verdadeiramente rei, senta-se à cabeceira da mesa numa grande cadeira de pedra com braços também de pedra. Assim era a cadeira de Wyglif, mas Buliwyf não se sentou nela como um rei normal se sentaria. Ao invés disso sentou-se num braço, posição de onde caía quando bebia de mais ou se se ria com grande excesso. O costume ditava que ele não poderia sentar-se na cadeira enquanto Wyglif não fosse sepultado.

Neste momento, Thorkel conspirava e conferenciava com outros condes. Fiquei a saber que suspeitavam de que eu era feiticeiro ou bruxo, o que me perturbou muito. O tradutor, que não acreditava nessas patranhas, disse-me que Thorkel dissera que eu tinha causado a morte a Wyglif, e fizera com que Buliwyf fosse o próximo chefe; no entanto, na verdade, eu não tive qualquer papel nisso.

Passados alguns dias, procurei partir com o meu grupo de ibn-Bastu e Takin e Bars, porém os homens do Norte não nos autorizaram a ir embora, dizendo que tínhamos de ficar para o funeral, e ameaçando-nos com os punhais, que trazem sempre com eles. E assim ficámos.

Quando chegou o dia em que Wyglif e a rapariga seriam entregues às chamas, o navio dele foi puxado para terra nas margens do rio. Quatro blocos quadrados de vidoeiro e outras madeiras tinham sido posicionados em volta dele; e também grandes figuras de madeira com a aparência de seres humanos.

Entretanto, o povo começou a andar de um lado para o outro, a proferir palavras que eu não compreeendia. A língua dos homens do Norte é horrível ao ouvido e difícil de entender.

Nesse intervalo de tempo, o chefe morto estava a uma certa distância, na sua sepultura, de onde ainda não o tinham retirado. A seguir trouxeram uma cadeira de braços, colocaram-na no navio, e cobriram-na com tecido grego de ouro, e almofadas do mesmo material. Depois chegou uma velha com a pele muito enrugada, a quem chamam o anjo da morte, e ela espalhou os artigos pessoais na cadeira. Foi ela que dirigiu a costura das vestes, e a colocação de todo o material. Era ela, igualmente que iria matar a rapariga. Vi a velha com os meus próprios olhos. Era escura, atarracada, e tinha um semblante abatido.

Quando foram à sepultura, tiraram o telhado e retiraram o homem morto. Depois vi que ele tinha ficado bastante escuro, devido ao frio que se fazia sentir naquele país. Perto do cadáver, na sepultura, tinham colocado bebida forte, frutos e um alaúde; e tiraram então essas coisas. A não ser a cor, o homem morto Wyglif não tinha mudado.

Vi então Buliwyf e Thorkel lado a lado, numa grande ostentação de amizade durante a cerimónia do enterro, e no entanto era aparente que não havia verdade nos seus comportamentos.

O falecido rei Wyglif tinha agora vestidas ceroulas, calças justas, botas e um cafetã de tecido de ouro, e na cabeça tinham-Ihe colocado um boné feito de tecido de ouro, debruado a zibelina. Depois foi levado para uma tenda no navio; sentaram-no numa cadeira de braços acolchoada, apoiaram-no em almofadas, e trouxeram bebida forte, frutos e basílico, que colocaram ao seu lado.

Depois trouxeram um cão, que cortaram em dois, e atiraram-no para dentro do navio. Colocaram todas as armas dele a seu lado, e levaram dois cavalos que perseguiram até estarem a pingar suor, e depois Buliwyf matou um com a sua espada e Thorkel matou o segundo, e cortaram-nos em pedaços com as espadas e atiraram os pedaços para o navio. Buliwyf matou o seu cavalo com menos destreza, o que pareceu ter alguma importância para aqueles que observavam, mas eu não sabia qual era o significado.

Dois bois foram então trazidos, cortados em pedaços, e atirados para dentro do navio. Por fim, trouxeram um galo e uma galinha, mataram-nos, e também os atiraram lá para dentro.

Entretanto, a rapariga que se oferecera para morrer andava de um lado para o outro, e entrava numa tenda a seguir à outra das que eles tinham montado ali. O ocupante de cada tenda deitava-se com ela, dizendo: “Diz ao teu senhor que eu fiz isto unicamente por amor a ele”.

Agora a tarde estava quase a chegar ao fim. A rapariga foi conduzida para um objecto que tinham construído e que parecia a soleira de uma porta. Ela colocou os pés nas mãos estendidas dos homens, que a ergueram acima da estrutura. Ela proferiu algo na língua deles, e depois eles baixaram-na. Depois levantaram-na de novo, e ela fez o mesmo que antes. Uma vez mais a pousaram no chão, e depois içaram-na uma terceira vez. Em seguida entregaram-lhe uma galinha, cuja cabeça ela cortou e atirou fora.

Eu perguntei ao intérprete o que é que ela tinha feito. Ele replicou:

Da primeira vez ela disse: “Olhai, vejo aqui o meu pai e a minha mãe”; da segunda vez: “Olhai, agora vejo todos os meus parentes falecidos sentados”; da terceira vez: “Olhai, ali está o meu senhor, que está sentado no Paraíso. O Paraíso é tão belo, tão verde. Com ele estão os seus homens e rapazes. Ele chama-me, por isso levem-me para ele”.

Depois, eles levaram-na para o navio. Aqui ela tirou as duas pulseiras e deu-as à velha a quem chamavam o anjo da morte, e que ia matá-la. Também tirou os enfeites dos tornozelos e entregou-os às duas criadas que a serviam, que eram filhas do anjo da morte. E içaram-na para o navio, mas ainda não a deixaram entrar na tenda.

Então subiram homens com escudos e bordões, e entregaram-lhe uma taça de bebida forte. Ela aceitou-a, cantou sobre ela, e esvaziou-a. O intérprete contou-me que ela dissera: “Com isto, separo-me de todos aqueles que me são queridos”. Depois, foi-lhe dada outra taça, que ela também segurou, e deu início a uma longa cantilena. A velha admoestou-a para que bebesse o líquido sem demora, e entrasse na tenda onde se encontrava o seu senhor.

Nesta altura, pareceu-me que a rapariga tinha ficado aturdida1. Agiu como se fosse entrar na tenda, mas de repente a bruxa velha agarrou-a pela cabeça e arrastou-a para o interior. Neste momento, os homens começaram a bater nos escudos com os bastões, para camuflar o barulho dos gritos

 

1 Ou possivelmente “enlouquecida”. Nos manuscritos em latim lê-se cerritus, mas o árabe de Yakut diz “aturdida”, “desorientada”.

 

dela, que poderiam aterrorizar as outras raparigas e dissuadidas de, no futuro, se oferecerem para morrer com os seus senhores.

Seis homens seguiram-na para o interior da tenda, e cada um deles teve relações carnais com ela. Depois deitaram-na ao lado do seu senhor, enquanto dois dos homens lhe seguravam nos pés, e outros dois nas mãos. A velha conhecida por anjo da morte amarrou-lhe então uma corda ao pescoço, e entregou as pontas a dois dos homens para que a puxassem. Depois, com uma adaga de lâmina larga, golpeou-a entre as costelas, e enterrou a lâmina, enquanto os dois homens a estrangularam com a corda até ela morrer.

O parente mais próximo do falecido Wyglif aproximou-se então, pegou num pedaço de madeira a arder, recuou, nu, na direcção do navio e pôs-lhe fogo sem nunca olhar para ele. A pira funerária incendiou-se rapidamente, e o navio, a tenda, o homem e a rapariga, e tudo o resto ardeu numa tempestade abrasadora de fogo.

A meu lado, um dos homens do Norte fez um comentário para o intérprete. Eu perguntei ao intérprete o que tinha sido dito, e recebi esta resposta.

Vocês, árabes disse ele têm de ser umas pessoas muito estúpidas. Pegam no vosso homem mais amado e reverenciado e enterram-no no chão para ser devorado por criaturas rastejantes e vermes. Nós, por outro lado, queimamo-lo num piscar de olhos, para que instantaneamente, sem um momento de demora, ele entre no Paraíso.

E na verdade, antes de se passar uma hora, navio, madeira, e rapariga, juntamente com o homem, tinham-se transformado em cinza.

 

O RESULTADO DO FUNERAL DOS HOMENS DO NORTE

Estes escandinavos não vêem causa para desgosto na morte de qualquer homem. Um homem pobre ou um escravo é-lhes completamente indiferente, e nem sequer um chefe provoca tristeza ou lágrimas. Na mesma tarde do funeral do chefe chamado Wyglif, houve uma grande festa nos salões do acampamento dos homens do Norte.

Porém, percebi que nem tudo estava bem entre estes bárbaros. Pedi conselho ao meu intérprete. Ele respondeu bruscamente:

O plano de Thorkel é vê-lo morrer, e depois banir Buliwyf. Thorkel conseguiu o apoio de alguns condes, mas há discussão em todas as casas e todos bairros.

Muito angustiado, eu disse:

Eu não tenho nada a ver com este assunto. Como deverei agir?

O intérprete disse que eu devia fugir, se pudesse, mas que se fosse apanhado isso seria a prova da minha culpa e seria tratado como um ladrão. Um ladrão é tratado da seguinte forma: os homens do Norte levam-no para junto de uma grande árvore, amarram uma corda forte à volta dele, enforcam-no e deixam-no ficar pendurado até ele apodrecer e se desfazer pela acção do vento e da chuva.

Recordando-me também de que tinha escapado por pouco da morte às mãos de ibn-al-Qatagan, resolvi agir como agira antes; isto é, permanecer entre os homens do Norte até me ser concedida autorização para prosseguir a minha viagem.

Perguntei ao intérprete se seria sensato levar presentes a Buliwyf, e também a Thorkel, para favorecer a minha partida. Ele disse que eu não poderia levar presentes aos dois, e que ainda estava por decidir quem seria o novo chefe. Disse-me ainda que a situação se clarificaria dentro de um dia e uma noite, e não depois disso.

Pois é verdade que entre estes homens do Norte não há uma forma estabelecida para escolher um chefe novo quando o velho líder morre. A força de braços conta muito, mas também as alianças dos guerreiros e dos condes e nobres. Em alguns casos não há um sucessor claro para o governo, e esta era uma dessas eventualidades. O meu intérprete disse que eu devia esperar pela minha hora, e também rezar. E assim fiz.

Depois houve uma grande tempestade nas margens do rio Volga, uma tempestade que persistiu durante dois dias, com chuva forte e ventos ciclónicos, e depois desta tempestade ficou um nevoeiro frio no chão. Era espesso e branco, e um homem não conseguia ver doze passos à sua frente.

Ora, estes mesmos homens do Norte guerreiros, que devido à sua enormidade e força de braços e disposição cruel não têm nada a recear em todo o mundo, receiam, no entanto, a neblina ou nevoeiro que vem com as tempestades.

Os homens da sua raça têm de se esforçar bastante para esconder o medo, até mesmo uns dos outros; os guerreiros riem-se e brincam muito, e fazem uma exibição exagerada de emoção despreocupada. Assim provam o contrário; e na verdade a tentativa de disfarçar é infantil, de tal forma eles fingem manifestamente não ver a verdade, e no entanto, no fundo, cada um e todos eles, em todo o acampamento, está a fazer orações e sacrifícios de galinhas e galos, e se se pergunta a um homem o motivo do sacrifício, ele dirá: “Eu faço este sacrifício para segurança da minha família distante”; ou dirá “Faço um sacrifício pelo sucesso do meu comércio”; ou dará muitos outros motivos, e depois acrescentará: “E também para o nevoeiro desaparecer”.

Ora, eu achei estranho um povo tão forte e guerreiro ter tanto medo de uma coisa a ponto de fingir não ter medo absolutamente nenhum; e de todos os motivos sensatos para o medo, a neblina ou nevoeiro pareciam, de acordo com a minha forma de pensar, extremamente inexplicáveis.

Eu disse para o meu intérprete que um homem podia recear o vento, ou tempestades avassaladoras de areia, ou cheias, ou tremores de terra, ou trovões e raios no céu, pois todas estas coisas podem ferir um homem, ou matá-lo, ou arruinar a sua habitação. No entanto, disse que a neblina, ou nevoeiro, não continha qualquer ameaça ou mal; na verdade, era a menos significativa de todas as formas de elementos em mudança.

O intérprete respondeu-me que me faltavam as crenças de um marinheiro. Disse que muitos marinheiros árabes concordavam com os homens do Norte na questão da insegurança1 no meio do nevoeiro; é por isso, também, que todos os marinheiros

 

1 De modo interessante, tanto no árabe como no latim, literalmente “doença”.

 

ficam ansiosos na presença de qualquer neblina ou nevoeiro, porque essa condição aumenta o perigo de viajar sobre as águas.

Eu disse que aquilo era sensato, mas que quando o nevoeiro se encontrava sobre a terra e não na água não compreendia o motivo para sentir qualquer medo. A isto, o intérprete replicou:

O nevoeiro é sempre receado, de onde quer que venha. E disse que não fazia diferença, em terra ou água, segundo o ponto de vista dos homens do Norte.

E depois disse-me que, na verdade, os homens do Norte não tinham muito receio do nevoeiro. O intérprete também me disse que, como homem, não receava o nevoeiro. Disse que era apenas um estado menor, de poucas consequências. Disse:

É uma pequena dor no interior da articulação de um membro, que pode vir com nevoeiro, mas não mais importante do que isso.

Com isto vi que o meu intérprete, como os outros, negava todas as formas de preocupação em relação ao nevoeiro, e fingia indiferença.

Ora aconteceu que o nevoeiro não levantou, embora tivesse descido e se tivesse tornado mais fluido na última parte do dia; o sol apareceu num círculo no céu, mas era tão fraco que podíamos olhar directamente para a sua luz.

Nesse mesmo dia chegou um barco com homens do Norte, e trazia um nobre da sua raça. Era um homem jovem com barba rala, e viajava apenas com um pequeno grupo de pagens e escravos, e não havia mulheres no meio deles. Por isso achei que não era um mercador, pois nesta região os homens do Norte vendem principalmente mulheres.

Este mesmo visitante trouxe o barco para a praia, e permaneceu nele até ao cair da noite, e nenhum homem se aproximou dele, nem o cumprimentou, embora ele fosse um estranho e estivesse à vista de todos. O meu intérprete disse:

Ele é parente de Buliwyf, e será recebido no banquete nocturno.

Eu perguntei:

Por que motivo fica no navio?

Por causa do nevoeiro respondeu o intérprete. Segundo o costume ele tem de estar à vista de todos durante várias horas, para que todos possam vê-lo e saber que não é um inimigo que vem do nevoeiro.

Isto foi-me dito pelo intérprete com grande hesitação.

No banquete da noite, vi o homem jovem entrar no salão. Aqui foi calorosamente cumprimentado e com grandes manifestações de surpresa; e muito especialmente por Buliwyf, que agiu como se o jovem tivesse acabado de chegar, e não estivesse dentro do navio há diversas horas. Após os vários cumprimentos, o jovem fez um discurso inflamado, que Buliwyf escutou com um interesse invulgar: não bebeu nem se divertiu com as raparigas escravas, e ao invés disso ouviu em silêncio o jovem, que falou numa voz alta e embargada. Quando acabou de contar a sua história, o jovem parecia estar à beira das lágrimas, e foi-lhe dado um copo de bebida.

Eu perguntei ao meu intérprete o que tinha sido dito. Aqui está a resposta:

Ele é Wulfgar, e é o filho de Rothgar, um grande rei do Norte. É parente de Buliwyf e pede a ajuda e o apoio dele numa missão de herói. Wulfgar diz que o país distante sofre um terror pavoroso e sem nome, e que todos os povos são impotentes para se opor, e pede a Buliwyf que se apresse a regressar ao país distante e salve o seu povo e o reino de seu pai, Rothgar. Inquiri ao intérprete qual era a natureza deste terror. Ele disse-me:

Não tem um nome que eu possa dizer1. O intérprete parecia muito perturbado com as palavras de Wulfgar, e assim estavam igualmente muitos dos outros homens do Norte. Eu vi no rosto de Buliwyf uma expressão sombria e carrancuda. Pedi ao intérprete que me desse pormenores da ameaça.

O intérprete disse-me:

O nome não pode ser dito, pois é proibido dizê-lo, não vá a elocução do nome invocar os demónios.

Enquanto falava, constatei que ele estava receoso só de pensar nestes assuntos, e a sua palidez era marcada, e por isso dei por findo o interrogatório.

Sentado no alto trono de pedra, Buliwyf estava em silêncio. Na verdade, os condes e vassalos reunidos e todos os escravos e criados estavam também em silêncio. Nenhum homem no salão falou. O mensageiro Wulfgar permaneceu diante do grupo com a cabeça inclinada. Eu nunca tinha visto os alegres e turbulentos homens do Norte tão subjugados.

 

1 Os perigos de tradução são demonstrados nesta frase. No original árabe de Yakut lê-se significa literalmente “Não há um nome que eu possa dizer”. O manuscrito Xymos emprega o verbo latino dare, com o significado “Não posso dar-lhe um nome”, implicando que o intérprete não conhece a palavra correcta numa língua sem ser a do Norte. O manuscrito Razi, que também contém os discursos do intérprete de uma forma mais pormenorizada, usa a palavra edere, com o significado “Não há um nome que eu possa tornar conhecido [a si]”. Esta é a tradução mais correcta. O homem do Norte tem literalmente medo de dizer a palavra, não vá ela invocar demónios. Em latim, edere tem o significado de “dar à luz”, assim como o seu significado literal, “lançar”. Parágrafos posteriores confirmam este sentido.

 

Depois entrou no salão a velha enrugada a quem chamavam o anjo da morte, e ela sentou-se ao lado de Buliwyf. De um saco de couro retirou alguns ossos não sei se eram humanos ou de animais e atirou-os para o chão, a falar em voz baixa, e passou a mão por eles.

Os ossos foram apanhados, e atirados de novo, e o processo foi repetido com mais encantamentos. Então o encantamento foi feito mais uma vez, e por fim ela falou para Buliwyf.

Perguntei ao intérprete o significado do seu discurso, mas ele não me prestou atenção.

Depois Buliwyf levantou-se e ergueu a sua taça de bebida forte, e pediu a atenção dos condes e guerreiros reunidos, e fez um discurso de um tamanho assinalável. Um por um, diversos guerreiros levantaram-se dos seus lugares para olharem para ele. Nem todos se levantaram; eu contei onze, e Buliwyf pronunciou-se satisfeito com isto.

Vi então que Thorkel parecia muito satisfeito com o que se estava a passar e que assumiu um porte muito mais real, enquanto Buliwyf não lhe prestava atenção, nem demonstrava sentir qualquer ódio por ele, nem sequer nenhum interesse, embora apenas alguns minutos antes fossem inimigos declarados.

Depois o anjo da morte, aquela mesma velha, apontou para mim e proferiu alguma coisa, e depois abandonou o salão. E foi só então que, por fim, o meu intérprete falou, e disse:

Buliwyf é chamado pelos deuses para deixar este lugar e rapidamente, deixando atrás de si todos os seus cuidados e preocupações, para ser um herói e repelir a ameaça que paira sobre o Norte. É o que tem de fazer, e tem igualmente de levar onze guerreiros com ele. E também tem de te levar a ti.

Eu disse que estava numa missão para os Búlgaros, e devia seguir as instruções do meu Califa, sem mais demora.

O anjo da morte falou disse o meu intérprete. O grupo de Buliwyf tem de ter treze homens, e deles um não pode ser do Norte, e por isso serás tu o décimo terceiro.

Eu protestei que não era um guerreiro. Na verdade, vali-me de todas as desculpas e rogos que achei que poderiam exercer algum efeito sobre este grupo de seres. Exigi que o intérprete transmitisse as minhas palavras a Buliwyf, e no entanto ele virou-se e abandonou o salão, dizendo estas últimas palavras:

Prepara-te como achares melhor. Partirão ao nascer do dia.

 

A VIAGEM PARA O PAIS LONGÍNQUO

Desta forma fui impedido de continuar as minhas viagens para o reino de Yiltawar, rei dos Saqaliba, e fui, por conseguinte, incapaz de corresponder à confiança em mim depositada por al-Muqtadir, Comandante dos crentes e Califa da Cidade da Paz. Dei todas as instruções possíveis a Dadir al-Hurami, e também ao embaixador, Abdallah ibn-Bastu al-Hazari, e também aos pagens Takin e Bars. Depois afastei-me deles, e nunca soube como correu a viagem dos meus companheiros daí em diante.

Quanto a mim, cheguei à conclusão de que a minha situação não era diferente da de um homem morto. Estava a bordo de um daqueles navios dos homens do Norte, e a subir o rio Volga, em direcção ao norte, com doze homens da raça deles por companhia. Os nomes dos homens que me acompanhavam eram os seguintes:

Buliwyf, o chefe; o seu tenente ou capitão, Ecthgow; os seus condes e nobres, Higlak, Skeld, Weath, Roneth, Halga; os seus guerreiros e bravos lutadores, Helfdane, Edgtho, Rethel, Haltaf e Herger1. E também eu estava no meio deles, incapaz

 

1 Wulfgar ficou para trás Jensen declara que os homens do Norte retinham normalmente um mensageiro como refém, e e por isso que “os

 

de falar a sua língua ou de compreender os seus costumes, pois o meu intérprete não nos tinha acompanhado. Foi apenas fruto do acaso e da graça de Alá que um dos guerreiros que fazia parte do grupo, Herger, fosse um homem de inteligência e soubesse um pouco da língua latina. Assim, por intermédio de Herger, pude compreender o que significavam os acontecimentos que se seguiram. Herger era um jovem guerreiro, e muito alegre; parecia achar tudo divertido, especialmente a minha própria apreensão no momento da partida.

Estes homens do Norte são, segundo eles próprios, os melhores marinheiros do mundo, e eu vi muito amor pelos oceanos e pelas águas nos domínios deles. Do navio parece-me imprescindível dizer o seguinte: tinha o comprimento de vinte e cinco passos, e a largura de oito e um pouco mais do que isso, e era de construção excelente, de madeira de carvalho. A sua cor era o preto em todo o lado. Estava equipado com uma vela quadrada de tecido e debruada com cordas de pele de foca1. O timoneiro encontrava-se sobre uma pequena plataforma perto da popa e manobrava um leme preso à parte lateral do navio, ao estilo romano. O navio possuía bancos para remos, mas os remos nunca foram utilizados; em vez disso, avançámos apenas com a ajuda da vela. No topo do navio mensageiros adequados eram os filhos de reis, ou membros da alta nobreza, ou outras pessoas que tivessem algum valor para a sua própria comunidade, tornando-se assim apropriados para reféns”. Olaf Jorgensen alega que Wulfgar ficou para trás porque tinha medo de voltar.

 

1 Alguns autores antigos pensavam, aparentemente, que isto significava que a vela estava debruada com corda; existem desenhos do século dezoito que mostram as velas viquingues com debruns de corda. Não há provas de que seja este o caso, Ibn Fadlan queria dizer que as velas estavam debruadas no sentido náutico; isto é, com o ângulo ideal para apanhar o vento, através da utilização de cordas de pele de foca como adriças.

 

Existia uma escultura em madeira com a forma de um feroz monstro marinho, igual aos que se vêem em alguns navios de homens do Norte; havia também uma cauda na popa. Na água, este navio era estável e bastante agradável para viajar, e a confiança dos guerreiros elevou o meu espírito.

Perto do timoneiro havia uma cama de peles feita sobre uma rede de cordas, com uma cobertura de pele. Era a cama de Buliwyf; os outros guerreiros dormiam na coberta, aqui e ali, embrulhados em peles, e eu fiz o mesmo.

Viajámos pelo rio durante três dias, e passámos por muitas colónias pequenas à beira da água. Não parámos em nenhuma. Depois chegámos a um grande acampamento numa curva do rio Volga. Aqui havia muitas centenas de pessoas, e uma cidade de bom tamanho, e no centro da cidade uma cidadela, ou fortaleza, com paredes de barro e todas de dimensões impressionantes. Perguntei a Hergerque lugar era aquele.

Herger respondeu-me:

Esta é a cidade de Bulgar, do reino de Saqaliba. Aquela é a cidadela de Yiltawar, rei de Saqaliba.

Eu repliquei:

Foi para este mesmo rei que eu fui enviado como emissário do meu Califa.

E com muitas súplicas pedi para ser deixado na margem para cumprir a missão que me tinha sido confiada pelo meu Califa; também exigi, e mostrei-me furioso, até ao ponto que me atrevi.

Na verdade, os homens do Norte não me prestaram atenção. Herger não deu ouvidos aos meus pedidos e exigências, e por fim riu-se de mim, e concentrou-se no curso do navio. E assim o navio dos homens do Norte passou pela cidade de Bulgar, tão perto da margem que eu ouvi os gritos dos mercadores e o balido das ovelhas, e no entanto estava impotente e não podia fazer nada, a não ser ver o local com os meus próprios olhos. Ao fim de uma hora até mesmo isto me foi recusado, pois a cidade de Bulgar situa-se na curva do rio, como eu já descrevi, e depressa desapareceu do nosso campo de visão. Assim entrei e saí da Bulgária.

O leitor poderá ficar agora irremediavelmente confundido em relação à geografia. A Bulgária moderna é um dos Estados dos Balcãs; faz fronteira com a Grécia, a Jugoslávia, a Roménia e a Turquia. Mas, entre os séculos nove e quinze, houve outra Bulgária, nas margens do Volga, sensivelmente a mil quilómetros para oriente da Moscovo moderna, e era para ali que Ibn Fadlan se dirigia. A Bulgária do Volga era um reino livre de alguma importância, e a sua cidade capital, Bulgar, era famosa e rica quando os Mongóis a ocuparam em 1237 d. C. Acredita-se geralmente que a Bulgária do Volga e a Bulgária dos Balcãs foram povoadas por grupos aparentados de imigrantes que saíram da região em volta do mar Negro durante o período 400-600 d. C., mas sabe-se pouco em concreto. A velha cidade de Bulgar situa-se na região da Kazan moderna.

Depois passaram-se mais oito dias no navio, ainda a viajar no rio Volga, e a terra era mais montanhosa no vale do rio. Chegámos então a outra bifurcação do rio, que é chamada pelos homens do Norte rio Oker, e aqui seguimos pelo ramal mais à esquerda e por aí seguimos durante dez dias. O ar estava gelado e o vento era forte, e havia muita neve no chão. Também existem muitas florestas enormes nesta região, a que os homens do Norte chamam Vada.

Depois chegámos a um acampamento de um povo do Norte que era Massborg. Não era bem uma cidade, mas um acampamento com algumas casas de madeira, grandes, ao estilo do Norte; e esta cidade vive da venda de alimentos aos mercadores que utilizam esta rota. Em Massborg deixámos o nosso navio, e viajámos por terra a cavalo durante dezoito dias. Percorremos uma região montanhosa difícil, e extremamente fria, e eu estava muito esgotado pelos rigores da viagem. Este povo do Norte nunca viaja de noite. Nem navega com frequência à noite, e prefere atracar o navio todas as noites e esperar pela luz da manhã antes de prosseguir viagem.

O que se passou então foi o seguinte: durante as nossas viagens, o período da noite tornou-se tão curto que não era possível cozinhar uma caçarola de carne durante o tempo que durava a escuridão. Na verdade, parecia que logo que eu me deitava para dormir era acordado pelos homens do Norte, que diziam: “Vem, é dia, temos de continuar a viagem”. E o sono também não era retemperador nestas regiões frias.

Herger explicou-me igualmente que neste país do Norte o dia é comprido no Verão, e a noite é longa no Inverno, e raramente são iguais. Depois disse-me que eu devia estar atento ao céu nocturno para ver se via a cortina que por vezes o cobre; e uma noite vi luzes pálidas a tremeluzir no céu, verdes e amarelas e por vezes azuis, que pendiam como uma cortina no ar. Fiquei profundamente surpreendido com a visão desta cortina do céu mas os homens do Norte não a consideram um fenómeno estranho.

Viajámos então cinco dias a descer as montanhas, para uma região de florestas. As florestas das terras do Norte são frias e densas, com árvores gigantescas. É uma terra húmida e gelada, em alguns locais tão verde que os olhos doem devido à intensidade da cor; porém, noutros locais, é preta e sombria e ameaçadora.

Viajámos depois mais sete dias, através de florestas, e apanhámos muita chuva. É muitas vezes característico desta chuva cair com tanta intensidade que é opressiva; em diversas alturas pensei que poderia afogar-me, de tal maneira o próprio ar se encontrava cheio de água. Noutras ocasiões, quando o vento soprava com a chuva, era como uma tempestade de areia, a picar a carne e a queimar os olhos, e a cegar.

Como era oriundo de uma região desértica, Ibn Fadlan ficaria naturalmente impressionado com o verde luxuriante das folhas e com a chuva abundante.

Estes homens do Norte não receavam assaltantes nas florestas, e fosse pela grande força que tinham ou pela ausência de bandidos, na verdade não vimos ninguém nas florestas. O país do Norte tem poucas pessoas, de qualquer espécie, ou pelo menos foi o que me pareceu durante a nossa estada naquela região. Viajámos frequentemente sete dias, ou dez, sem avistar qualquer aglomerado de habitações, ou sequer uma quinta, ou casa.

A forma como viajávamos era a seguinte: de manhã levantávamo-nos, e sem nos lavarmos montávamos nos nossos cavalos e cavalgávamos até ao meio do dia. Depois, um ou outro dos guerreiros caçava algum animal pequeno ou um pássaro. Se estivesse a chover, esta comida seria consumida sem ser cozinhada. Choveu durante muitos dias, e no começo eu decidi não comer a carne crua, que também não era dabah (morta segundo o ritual), mas algum tempo depois também eu comi, dizendo em voz baixa “em nome de Deus”, e confiando que Deus compreenderia a minha situação difícil. Se não estivesse a chover, era acesa uma pequena fogueira com uma pequena brasa que era transportada com o grupo, e a comida cozinhada. Também comíamos bagas e ervas, cujos nomes não conheço. Em seguida, viajávamos durante a última parte de cada dia, que era considerável, até à chegada da noite, quando descansávamos novamente, e comíamos.

À noite era frequente chover, e nós procurávamos abrigo por baixo de grandes árvores, e mesmo assim levantávamo-nos encharcados, e as nossas peles de dormir igualmente encharcadas. Os homens do Norte não se queixam por causa disto, pois são sempre alegres; apenas eu me queixava, e fortemente. Eles não me prestavam atenção nenhuma.

Por fim, eu disse para Herger:

A chuva é fria.

Ao ouvir isto ele riu-se.

Como pode a chuva ser fria? disse ele. Estás frio e estás infeliz. A chuva não é fria nem infeliz.

Eu percebi que ele acreditava neste disparate, e que na verdade me achava louco por pensar de uma forma diferente da dele, e no entanto eu pensava.

Ora aconteceu que uma noite, enquanto estávamos a comer, eu disse sobre a minha comida, “em nome de Deus”, e Buliwyf inquiriu a Herger sobre o que é que eu tinha dito. Eu disse a Herger que acreditava que a comida devia ser consagrada, e por isso fazia-o em conformidade com as minhas crenças. Buliwyf disse-me:

É assim que procedem os Árabes? Herger era o tradutor.

Eu dei a seguinte resposta:

Não, pois na verdade aquele que mata a comida é que tem de fazer a consagração. Eu digo as palavras para não ser esquecido1.

Os homens do Norte acharam que isto era um motivo para se rirem. E riram às gargalhadas. Depois, Buliwyf disse-me:

Sabes desenhar sons?

Eu não percebi o que ele queria dizer, e perguntei a Herger, e seguiu-se um pequeno falatório, e por fim compreendi que ele estava a referir-se a escrever. Os homens do Norte chamam à fala dos Árabes ruído ou som. Eu respondi a Buliwyf que sabia escrever, e que também lia.

Ele disse que eu devia escrever para ele no chão. À luz da fogueira nocturna, peguei num pau e escrevi “Louvado seja Deus”. Todos os homens do Norte olharam para as letras. Foi-me ordenado que dissesse o que tinha escrito, e assim fiz. Buliwyf olhou então para a escrita durante muito tempo, com a cabeça afundada no peito.

 

1 Este é um sentimento tipicamente muçulmano. Ao contrário do Cristianismo, uma religião à qual se assemelha em muitas formas, o Islão não realça um conceito de pecado original com base na queda do homem. Pecado, para um muçulmano, é o esquecimento do cumprimento dos rituais diários determinados pela religião. Como corolário, é uma ofensa muito mais séria esquecer completamente o ritual do que recordá-lo e no entanto não o executar, quer por circunstâncias atenuantes quer por inadequação pessoal. Assim, Ibn Fadlan está a dizer, com efeito, que não se esqueceu da conduta própria muito embora não esteja a agir de acordo com ela; isto é melhor que nada.

 

Hergerperguntou-me:

Que Deus é que adoras?

Eu respondi que adorava o Deus cujo nome era Alá. Herger disse:

Um Deus não pode ser suficiente.

Viajámos então mais um dia, e passámos outra noite, e depois outro dia. E na noite seguinte Buliwyf pegou num pau grande e desenhou na terra o que eu tinha desenhado anteriormente, e mandou-me ler.

Eu proferi as palavras em voz alta: “Deus seja Louvado”. Ao ouvir isto, Buliwyf ficou satisfeito, e eu vi que ele me tinha feito um teste, decorando os símbolos que eu tinha desenhado, para mos mostrar novamente.

Ora Ecthgow, o tenente ou capitão de Buliwyf, e um guerreiro menos alegre que os outros, um homem sério, falou-me por intermédio do intérprete, Herger, que me disse:

Ecthgow deseja saber se consegues desenhar o som do nome dele.

Eu disse que podia, e peguei no pau, e comecei a desenhar no pó. Ecthgow levantou-se imediatamente de um salto, atirou o pau para longe e pisou o que eu tinha escrito. Proferiu palavras iradas.

Herger disse-me:

Echtgow não deseja que escrevas o nome dele em altura nenhuma, e tens de prometer isso.

Eu fiquei perplexo, e vi que Ecthgow estava zangado comigo ao extremo. E os outros também olhavam para mim com preocupação e fúria. Eu prometi a Herger que não escreveria o nome de Ecthgow, nem o de qualquer outro. E com isto eles ficaram aliviados.

Depois disto, a minha escrita nunca mais foi discutida, mas Buliwyf deu certas instruções, e sempre que chovia eu era sempre levado para a árvore maior, e davam-me mais comida do que antes.

Nem sempre dormíamos nas florestas, nem cavalgávamos sempre pelas florestas. Na orla de algumas florestas, Buliwyf e os seus guerreiros atiravam-se para a frente e cavalgavam a galope pelo meio das árvores densas, sem um cuidado ou um pensamento de medo. E outras vezes, noutras florestas, ele parava e fazia uma pausa, e os guerreiros desmontavam e acendiam uma fogueira e faziam uma oferenda de comida ou alguns pães duros, ou de um lenço de pano, antes de prosseguirem. E depois cavalgavam ao longo da orla da floresta, sem se internarem nela em momento algum.

Perguntei a Herger por que agiam assim. Ele disse que algumas florestas eram seguras e outras não, mas não me deu mais explicações. Eu perguntei-lhe:

Por que é que não é seguro nas florestas que assim são julgadas?

Ele deu a seguinte resposta:

Há coisas que nenhum homem pode conquistar, e nenhuma espada pode matar, e nenhum fogo pode queimar, e essas coisas estão nas florestas.

Eu disse:

Como é que se sabe que isto acontece?

Ao ouvir isto, ele soltou uma gargalhada e respondeu:

Vocês, Árabes, desejam sempre ter razões para tudo. Os vossos corações são um grande saco a abarrotar de razões.

Eu disse:

E vocês não se importam com as razões?

Não vos trazem vantagem nenhuma. Nós dizemos: Um homem deve ser moderadamente sábio, mas não de mais, para que não saiba o seu destino antecipadamente. O homem cuja mente é mais livre de cuidados não conhece o seu destino antecipadamente.

E eu compreendi que deveria contentar-me com a resposta dele. Pois era verdade que, numa ocasião ou outra, eu fazia um tipo qualquer de investigação, e Herger respondia, e se eu não compreendesse a resposta dele fazia mais perguntas, e ele dava-me mais respostas. Porém, quando lhe fazia perguntas acerca de determinados assuntos, ele respondia de uma forma sucinta, como se o que eu quisesse saber não fosse importante. E depois não conseguia obter mais nada dele, a não ser um abanar de cabeça.

E continuámos. Na verdade, posso dizer que, algumas das florestas no país do Norte selvagem provocam realmente uma sensação de medo, para a qual não tenho explicação. À noite, sentados à volta da fogueira, os homens do Norte contavam histórias de dragões e animais selvagens, e também dos seus antepassados que tinham chacinado estas criaturas. Dizem que esses dragões eram a fonte do meu medo. Mas contaram as histórias sem revelarem o menor sinal de medo, e de tais feras não vi o menor vestígio com os meus próprios olhos.

Uma noite ouvi um estrondo que tomei por um trovão, mas eles disseram que era o rugido de um dragão na floresta. Não sei qual é a verdade, e relato apenas o que me foi dito.

O país do Norte é frio e húmido e o sol raramente se vê, pois o céu mantém-se cinzento e com nuvens densas o dia inteiro. O povo desta região é pálido como linho, e têm o cabelo muito louro. Depois de tantos dias de viagem, não vi absolutamente nenhuma pessoa escura, e na verdade fui admirado pelos habitantes desta região devido à minha pele e cabelo escuros. Muitas vezes um agricultor ou a sua esposa ou filha davam um passo em frente para me tocar com um movimento carinhoso; Herger ria-se e dizia que eles estavam a tentar tirar a cor, por pensarem que tinha sido pintada na minha pele. São pessoas ignorantes, sem nenhum conhecimento da vastidão do mundo. Muitas vezes tiveram medo de mim, e não se aproximavam muito. Num lugar, cujo nome não sei, uma criança gritou de terror e correu para se agarrar à mãe quando me viu.

Ao verem isto, os guerreiros de Buliwyf riram-se muito divertidos. Mas então observei a seguinte coisa: com o passar dos dias, os guerreiros de Buliwyf deixaram de rir, e mergulharam num mau humor, que aumentava a cada dia que passava. Herger disse-me que estavam a pensar em bebida, de que já estavam privados há muitos dias.

Em todas as casas, quintas ou habitações, Buliwyf e os seus guerreiros pediam bebida, mas nestes lugares pobres muitas vezes não havia bebidas alcoólicas, e eles ficavam tristemente desapontados, até por fim não haver o menor vestígio de alegria entre eles.

Por fim chegámos a uma aldeia, e ali os guerreiros encontraram bebida, e todos os homens do Norte ficaram imediatamente embriagados, e beberam de uma forma selvagem, sem se importarem que a bebida lhes escorresse pelo queixo e pelas roupas, tal era a pressa que tinham. Na verdade, um dos elementos do grupo, o solene guerreiro Ecthgow, ficou tão demente com o álcool que ficou embriagado enquanto ainda estava montado no cavalo, e caiu ao tentar desmontar. Ora, o cavalo escoiceou-o na cabeça, e receei pela sua segurança, mas Ecthgow riu-se e deu um pontapé no animal.

Permanecemos nesta aldeia durante dois dias. Fiquei muito surpreendido, pois previamente os guerreiros tinham revelado grande pressa e objectivo na viagem, e no entanto agora tudo tinha sido abandonado por causa da bebida e de um torpor estupidificante. Depois, no terceiro dia, Buliwyf decretou que tínhamos de prosseguir, e os guerreiros avançaram, eu entre eles, e a perda de dois dias não foi considerada nada estranha.

Quantos dias mais viajámos não sei ao certo. Sei que mudámos cinco vezes de cavalos, que trocámos por montadas frescas, pagando-as nas aldeias com ouro e com as pequenas conchas verdes que os homens do Norte apreciam muito mais do que quaisquer outros objectos no mundo. E por fim chegámos a uma aldeia chamada Lenneborg, situada junto ao mar. O mar estava cinzento, e da mesma forma o céu, e o ar estava frio e cortante. Aqui apanhámos outro barco.

Este navio era em aparência semelhante ao anterior, mas maior. Era chamado pelos homens do Norte Hosbokun, que significa “cabra do mar”, porque o navio salta as ondas como uma cabra salta nos montes. E também porque o navio era rápido, pois no seio deste povo a cabra é o animal que representa a rapidez.

Eu tive medo de ir para este mar, pois a água era revolta e muito fria; a mão de um homem mergulhada naquele mar perdia todas as sensações num instante, pois a água era terrivelmente fria. E no entanto os homens do Norte eram alegres, e brincaram e beberam durante uma noite nesta aldeia marítima de Lenneborg e divertiram-se com muitas das mulheres e das raparigas escravas. Este, disseram-me, é o costume dos homens do Norte antes de uma viagem por mar, pois nenhum homem sabe se sobreviverá à viagem, e assim parte com excessiva festança.

Em todos os lugares fomos recebidos com grande hospitalidade, pois isso é considerado uma virtude por esses povos. O agricultor mais pobre colocaria tudo o que tinha diante de nós, e isto sem receio de que nós o matássemos ou roubássemos, mas apenas por bondade e simpatia. Os homens do Norte, fiquei a saber, não aprovam ladrões nem assassinos da sua própria raça, e tratam esses homens com dureza. Têm estas crenças apesar de ser verdade que estão sempre embriagados e que discutem como animais irracionais, e se matam uns aos outros em inflamados duelos. Todavia, não consideram isto homicídio, e qualquer homem que cometa um homicídio é morto.

Da mesma forma, tratam os seus escravos com muita bondade, o que foi uma surpresa para mim.1 Se um escravo adoece, ou morre devido a um acidente, não é considerada uma grande perda; e as mulheres que são escravas têm de estar preparadas a todo o momento para as atenções de qualquer homem, em público ou em privado, de dia ou de noite. Não há afeição pelos escravos, e no entanto também não é exercida qualquer brutalidade sobre eles, e são sempre alimentados e vestidos pelos seus senhores.

Para além do mais, fiquei a saber o seguinte: que qualquer homem pode usar uma escrava, mas a esposa do agricultor

 

1 Outros relatos de testemunhas oculares discordam da descrição que Ibn Fadlan faz do tratamento de escravos e adultério, e por isso algumas autoridades questionam a sua credibilidade como observador social. De facto, provavelmente haveria uma variação local substancial, de tribo para tribo, no tratamento dos escravos e das esposas infiéis.

 

mais pobre é respeitada pelos chefes e pelos condes dos homens do Norte, pois respeitam as esposas uns dos outros. Forçar a atenção de uma mulher livre que não nasceu escrava é um crime, e foi-me dito que um homem seria enforcado por isso, embora eu nunca tivesse visto tal coisa.

Diz-se que a castidade entre as mulheres é uma grande virtude, mas raramente a vi ser praticada, pois o adultério não é considerado um grande problema, e se a esposa de qualquer homem, rico ou pobre, é saudável, não se considera que o adultério seja um grande pecado. Essas pessoas são muito livres nesses assuntos, e os homens do Norte dizem que as mulheres são traiçoeiras e que não se pode confiar nelas; parecem resignados com isto, e falam no assunto com o espírito alegre que é tão característico deles.

Perguntei a Herger se era casado, e ele disse que tinha uma esposa. Inquiri com toda a discrição se ela era casta, e ele riu-se abertamente e disse-me:

Eu navego nos mares, e posso nunca mais regressar, ou posso estar ausente durante vários anos. A minha mulher não está morta.

Com isto percebi que ela lhe era infiel, e que ele não se importava.

Os homens do Norte não consideram nenhum bebé um bastardo se a mãe for uma esposa. Os filhos de escravas por vezes são escravos, outras vezes livres; a forma como isto é decidido, não sei.

Em algumas regiões, os escravos são marcados com um corte na orelha. Noutras regiões, os escravos usam uma tira de ferro ao pescoço para mostrar o lugar que ocupam. Noutras regiões, os escravos não têm quaisquer marcas, pois é esse o costume local.

A pederastia não é conhecida entre os homens do Norte, embora saibam que outros povos a praticam; eles próprios afirmam não ter o menor interesse no assunto, e, uma vez que não ocorre no seio deles, não têm castigo para esse crime.

Tudo isto e mais fiquei a saber através das minhas conversas com Hergere por testemunhar as viagens do nosso grupo. Para além disso, vi que em cada local onde descansávamos as pessoas inquiriam a Buliwyf que busca tinha ele encetado, e quando eram informados da sua natureza que eu ainda não compreendia ele e os seus guerreiros, eu entre eles, eram tratados com o maior respeito, recebendo as orações e os sacrifícios e as ofertas de boa sorte dos habitantes.

No mar, como já disse, os homens do Norte ficam felizes e jubilosos, embora o oceano seja revolto e proibitivo para a minha maneira de pensar, e também para o meu estômago, que se sentia muito delicado e agitado. Na verdade, eu purguei-me, e depois perguntei a Herger por que é que os companheiros dele estavam tão felizes.

Herger respondeu:

É porque em breve estaremos na terra de Buliwyf, o lugar conhecido por Yatlam, onde vivem o pai e a mãe e todos os familiares dele, e ele não os vê há muitos e longos anos.

A isto eu disse:

Não vamos para a terra de Wulfgar? Herger replicou:

Sim, mas é apropriado que Buliwyf preste homenagem ao seu pai e também à sua mãe.

Eu vi pelos rostos deles que todos os outros condes, nobres e guerreiros estavam tão felizes como o próprio Buliwyf. Perguntei a Herger por que é que isto acontecia.

Buliwyf é o nosso chefe, e estamos felizes por isso, e pelo poder que ele terá em breve.

Perguntei qual era este poder de que falava.

O poder de Runding respondeu-me Herger.

Que poder é esse? perguntei eu, e ele deu-me a seguinte resposta:

O poder dos antigos, o poder dos gigantes.

Os homens do Norte acreditam que em eras passadas o mundo era povoado por uma raça de homens gigantes, que desapareceu há muito. Os homens do Norte não se consideram descendentes desses gigantes, mas receberam alguns dos poderes dessa raça extinta, de formas que não compreendo bem. Estes pagãos também acreditam em muitos deuses, que são também eles gigantes, e que também têm poder. Mas os gigantes de que Herger falou eram homens gigantes, e não deuses, ou pelo menos foi isso que me pareceu.

Nessa noite encalhámos numa margem rochosa, formada por pedras do tamanho do punho de um homem, e ali Buliwyf acampou com os seus homens, e durante grande parte da noite beberam e cantaram em volta da fogueira. Herger juntou-se à celebração e não teve paciência para me explicar o significado das canções, e por isso não sei o que cantaram, mas estavam felizes. De manhã chegariam ao lar de Buliwyf, a terra chamada Yatlam.

Partimos antes da primeira luz da madrugada, e estava tanto frio que os meus ossos doíam, e o meu corpo estava dorido por causa da praia rochosa, e internámo-nos novamente no mar enfurecido e no vento forte. Navegámos ao longo de toda a manhã, e durante este período a excitação dos homens aumentou mais, até ficarem como crianças ou mulheres. Era um espanto para mim ver estes guerreiros enormes e fortes a soltar risadas e gargalhadas como o harém do Califa, e porém não viam nada menos másculo neste comportamento.

Havia um ponto de terra, um promontório alto e rochoso de pedra cinzenta acima do mar cinzento, e para além deste ponto, disse-me Herger, estaria a cidade de Yatlam. Estiquei-me para ver esta terra fantástica de Buliwyf quando o navio dos homens do Norte rodeou o rochedo. Os guerreiros riram-se e aplaudiram mais alto, e eu percebi que diziam muitas piadas ordinárias e faziam muitos planos para se divertirem com mulheres quando chegassem a terra.

E depois sentiu-se o cheiro de fumo no mar, e vimos fumo, e todos os homens ficaram em silêncio. Quando demos a volta ao promontório, vi com os meus próprios olhos que a cidade que existia ali estava envolvida em chamas, que soltavam um fumo preto. Não havia sinal de vida.

Buliwyf e os seus guerreiros foram para terra e percorreram a cidade de Yatlam. Havia cadáveres de homens e mulheres e crianças, alguns consumidos pelas chamas, outros trespassados por espadas uma multidão de corpos. Buliwyf e os guerreiros não falaram, e no entanto nem aqui havia desgosto, nem choro ou tristeza. Nunca vi uma raça que aceite a morte como os homens do Norte fazem. Eu próprio fiquei muitas vezes agoniado com aquilo que via, e isso nunca aconteceu com eles.

Por fim, eu disse para Herger:

Quem fez isto?

Herger apontou para o interior, para as florestas e para as colinas afastadas do oceano cinzento. Havia nevoeiros sobre as florestas. Ele apontou e não falou. Eu perguntei-lhe:

São os nevoeiros?

Ele disse-me:

Não perguntes mais. Saberás mais cedo do que pensas. Ora aconteceu o seguinte: Buliwyf entrou numa casa em ruínas, ainda a fumegar, e regressou para junto de nós trazendo uma espada. Esta espada era muito grande e pesada, e tão quente devido ao fogo que ele transportava com um pano enrolado à volta da pega. Na verdade, constatei que era a espada maior que jamais vira. Era tão comprida como o meu próprio corpo e a lâmina era achatada e tão larga como as palmas das mãos de dois homens colocadas lado a lado. Era tão grande e pesada que até Buliwyf gemeu ao transportá-la. Eu perguntei a Hergero que era a espada, e ele disse:

É Runding.

E depois Buliwyf ordenou a todo o seu grupo que fossem para o barco, e fizemo-nos novamente ao mar. Nenhum dos guerreiros voltou a olhar para a cidade ardida de Yatlam; apenas eu o fiz, e vi a ruína fumegante, e os nevoeiros nas colinas para lá dela.

 

O ACAMPAMENTO EM TRELBURG

Pelo espaço de dois dias navegámos por uma costa calma entre muitas ilhas que são chamadas a terra de Dans, e chegámos por fim a uma região de pântanos com um cruzamento de rios estreitos que desaguam no mar. Esses rios não têm nome, mas chamam a cada um “wyk”, e os povos dos rios estreitos são chamados “wykings”, que significa para os homens do Norte guerreiros que navegam com os seus navios pelos rios e atacam aldeamentos dessa forma1.

Ora, nesta região pantanosa parámos num lugar a que chamavam Trelburg, e que me maravilhou. Aqui não existe uma cidade, mas um acampamento militar, e o povo que aqui habita é um povo de guerreiros, e há poucas mulheres e crianças entre eles. As defesas deste acampamento de Trelburg são construídas com uma técnica muito cuidada e sofisticada, ao estilo romano.

Trelburg situa-se no ponto de junção de dois wyks, que correm depois para o mar. A parte principal da cidade está

 

1 Há alguma divergência entre os estudiosos modernos acerca da origem do termo “Viquingue”-, mas a maioria concorda com Ibn Fadlan, segundo o qual deriva de “vik”, que significa enseada ou no estreito.

 

rodeada por uma parede redonda de barro, tão alta como cinco homens de pé, uns em cima dos outros. Para além deste anel de barro estende-se uma vedação de madeira, para conferir uma maior protecção. Do lado de fora do anel de barro existe um fosso cheio de água, cuja profundidade desconheço.

Estes trabalhos de barro são feitos com uma grande perícia, e têm uma simetria e qualidade que rivalizam com tudo o que conhecemos. E há mais isto: no lado interior da cidade, um segundo semicírculo de parede alta, e um segundo fosso para além dele.

A cidade propriamente dita situa-se dentro do anel interior, que é quebrado por quatro entradas, de frente para os quatro cantos da terra. Cada entrada é fechada por fortes portas de carvalho com pesadas dobradiças de ferro, e muitos guardas. Muitos guardas patrulham também as muralhas, e vigiam dia e noite.

Dentro da cidade existem dezasseis casas de madeira, todas iguais: são casas compridas, pois assim lhes chamam os homens do Norte, com paredes tão curvadas que se assemelham a barcos virados com as extremidades cortadas a direito à frente e atrás. Em comprimento têm trinta passos, e são mais largas na parte do meio do que nos dois extremos. Estão dispostas da seguinte forma: quatro casas compridas colocadas com precisão, para formarem um quadrado. Quatro quadrados são dispostos de forma a perfazer dezasseis casas ao todo1.

 

1 A precisão da descrição de Ibn Fadlan é confirmada por provas arqueológicas precisas. Em 1948, o aquartelamento militar de Trelleborg, na Zelândia ocidental na Dinamarca, foi escavado. O aquartelamento corresponde exactamente à descrição de Ibn Fadlan em tamanho, natureza e estrutura.

 

Cada casa comprida tem apenas uma entrada, e nenhuma casa tem a entrada à vista de outra. Inquiri por que era assim, e Hergerdisse-me então:

Se o acampamento for atacado, os homens têm de correr para o defender, e as portas estão posicionadas de maneira a que os homens possam correr sem choques nem confusão, e, pelo contrário, cada homem pode seguir livremente para a tarefa da defesa.

E é por isso que dentro do quadrado uma casa tem uma porta virada para norte, a casa seguinte tem uma porta voltada para este, a outra casa uma porta direccionada para sul, e a casa seguinte uma porta virada para oeste; e assim acontece em cada um dos quatro quadrados.

E também reparei então que, embora os homens do Norte sejam gigantescos, estas soleiras eram tão baixas que até mesmo eu tive de me curvar ao meio para entrar numa das casas. Interroguei Herger, que disse:

Se formos atacados, um único guerrreiro pode permanecer no interior da casa, e com a sua espada decepar as cabeças de todos os que entram. Aporta é baixa para as cabeças estarem curvadas para serem cortadas.

Na verdade, vi que a cidade de Trelburg tinha sido construída em todos os aspectos para a guerra e para a defesa. Aqui não se efectua nenhum comércio, como já disse. No interior das casas compridas, existem três secções ou quartos, cada um com uma porta. O quarto do centro é o maior, e também tem um poço para o lixo.

Vi então que o povo de Trelburg não era como os homens do Norte ao longo do Volga. Estes eram um povo asseado para a raça deles. Lavavam-se no rio, e aliviavam os seus desperdícios fora de portas, e eram de todas as formas muito superiores ao que eu já conhecera. Porém, não eram verdadeiramente asseados, a não ser por comparação.

A sociedade de Trelburg é composta principalmente por homens, e as mulheres são todas escravas. Não há esposas entre estas mulheres, e todas as mulheres são tomadas livremente quando os homens desejam. O povo de Trelburg vive de peixe, e de algum pão; não praticam agricultura nem cultivo, embora as terras pantanosas que rodeiam a cidade contenham áreas propícias para o crescimento. Perguntei a Herger por que é que não havia agricultura, e ele disse-me:

Estes homens são guerreiros. Não cultivam o solo. Buliwyf e o seu grupo foram graciosamente recebidos pelos chefes de Trelburg, que são vários, mas o mais importante de todos é aquele a quem chamam Sagard. Sagaré um homem forte e feroz, quase tão grande como o próprio Buliwyf.

Durante o banquete nocturno, Sagarperguntou a Buliwyf qual era a sua missão e os motivos das suas viagens, e Buliwyf relatou a súplica de Wulfgar. Herger traduziu tudo para mim, embora na verdade eu tivesse passado tempo suficiente entre estes pagãos para aprender uma ou outra palavra da língua que falam. Aqui está o significado da conversa de Sagare Buliwyf.

Sagarfalou assim:

É sensato Wulfgar efectuar o trabalho de um mensageiro, embora seja o filho do rei Rothgar, pois os diversos filhos de Rothgar atacaram-se uns aos outros.

Buliwyf disse que não estava a par disso, ou palavras que tinham esse significado. Mas eu percebi que ele não estava muito surpreendido. No entanto, é verdade que Buliwyf raramente se surpreendia com alguma coisa. Era esse o seu papel como chefe dos guerreiros e seu herói.

Sagarfalou de novo:

Na verdade, Rothgar tinha cinco filhos, e três estão mortos às mãos de um deles, Wiglif, um homem habilidoso1, cujo conspirador neste caso é o arauto do velho rei. Apenas Wulfgar se mantém fiel, e partiu.

Buliwyf disse para Sagarque estava satisfeito por saber estas notícias, e que não se esqueceria do que fora dito, e a conversa terminou aqui. Nunca Buliwyf ou qualquer dos seus guerreiros revelou surpresa com as palavras de Sagard, e por isso depreendi que era vulgar os filhos de um rei livrarem-se uns dos outros para ficarem com o trono.

Também é verdade que, de tempos a tempos, um filho pode assassinar o seu pai, o rei, para ficar com o trono, e isto também não é considerado uma coisa surpreendente, pois os homens do Norte consideram que é a mesma coisa que uma rixa de bêbedos entre guerreiros. Os homens do Norte têm um provérbio que é o seguinte: “Olha para as tuas costas”, e acreditam que um homem tem de estar sempre preparado para se defender, até mesmo um pai contra o próprio filho.

Quando chegou a hora da nossa partida, perguntei a Herger por que é que havia outra fortificação do lado da terra de Trelburg e no entanto não existia fortificação adicional semelhante do

 

1 Literalmente, “um homem ambidextro”. Como ficará claro mais tarde, os homens do Norte eram ambidextros a lutar, e trocar as armas de uma mão para a outra era considerado um truque admirável. Assim, um homem ambidextro é habilidoso. Um significado semelhante foi em tempos associado à palavra “astuto”, que agora significa matreiro e evasivo, mas anteriormente tinha um significado mais positivo de “engenhoso, cheio de expedientes”.

 

lado do mar. Estes homens do Norte são marinheiros que atacam do mar, e no entanto Herger disse:

É a terra que é perigosa. Eu perguntei-lhe:

Por que é a terra perigosa? E ele replicou:

Por causa dos nevoeiros.

Antes da partida de Trelburg, os guerreiros ali reunidos bateram com os bordões nos escudos, fazendo um grande barulho para o nosso navio, que levantava âncora. Isto, disseram-me, era para chamar a atenção de Odin, um dos muitos deuses que adoravam, para que Odin visse com boa vontade a viagem de Buliwyf e dos seus doze homens.

Também aprendi o seguinte: que o número treze é importante para os homens do Norte, porque a lua cresce e morre treze vezes na passagem de um ano, pelas contas deles. Por este motivo, todas as contas importantes têm de incluir o número treze. E Herger disse-me que o número de casas em Trelburg era de treze e mais três, e não dezasseis, como eu declarei.

Para além do mais, fiquei a saber que estes homens do Norte têm alguma noção de que o ano não engloba com exactidão treze passagens da luz, e assim o número treze não está estável e fixo nas suas mentes. A décima terceira passagem é chamada mágica e estranha, e Herger diz:

É por isso que foste escolhido para seres o décimo terceiro homem, porque és estrangeiro.

Na verdade, estes homens do Norte são supersticiosos, e não recorrem a sentido ou razão ou lei. Aos meus olhos, assemelhavam-se a crianças ferozes, e no entanto estava no seio deles, e por isso mantive a boca calada. Em breve fiquei satisfeito com a minha discrição, pois seguiram-se estes acontecimentos:

Estávamos a navegar há algum tempo depois de partirmos de Trelburg quando reparei que nunca antes os habitantes de uma cidade tinham efectuado uma cerimónia de partida com o batimento de escudos para chamar Odin. Comentei o assunto com Herger.

É verdade respondeu ele. Há uma razão especial para terem chamado Odin, pois encontramo-nos agora no mar de monstros.

Isto pareceu-me a prova da sua superstição. Perguntei se algum guerreiro alguma vez vira estes monstros.

Na verdade, já todos nós vimos disse Herger. Se não, como é que os conheceríamos? Pelo tom da voz dele, percebi que me considerava um idiota por ser tão descrente.

Passou mais algum tempo, e depois ouviu-se um grito, e todos os guerreiros de Buliwyf apontaram para o mar, a observar, a gritar uns para os outros. Perguntei a Herger o que é que tinha acontecido.

Estamos entre monstros agora disse ele, a apontar. Ora, nesta região o oceano é extremamente turbulento. O vento sopra com uma força terrível, e torna as ondas do mar brancas com espuma, cospe água para o rosto de um marinheiro, e leva-o a ver coisas que não existem. Observei o mar durante muitos minutos e não consegui avistar este monstro marinho, e não tinha qualquer motivo para acreditar no que eles diziam.

Depois, um deles gritou para Odin, um grito de oração, a repetir o nome muitas vezes em súplica, e depois eu também vi o monstro marinho com os meus próprios olhos. Tinha o formato de uma cobra gigante que nunca erguia a cabeça acima da superfície, e no entanto vi o seu corpo enrolar-se e contorcer-se, e era muito comprido, e mais largo do que o barco dos homens do Norte, e de cor preta. O monstro marinho atirou água para o mar, como uma fonte, e depois mergulhou, erguendo uma cauda que estava dividida em dois, como a língua bifurcada de uma cobra. Porém era enorme, e cada secção da cauda era mais larga do que a mais frondosa copa de uma palmeira.

Vi então outro monstro, e outro, e outro depois disso; pareciam ser quatro e talvez seis ou sete. Cada um comportava-se como os seus companheiros, deslizando sinuosamente pela água, a cuspir uma fonte, e a erguer uma cauda gigante cortada em duas. Ao verem aquilo, os homens do Norte gritaram para Odin a pedir-lhe auxílio, e não poucos entre eles caíram de joelhos na coberta, a tremer.

Na verdade, vi com os meus próprios olhos os monstros marinhos à nossa volta no oceano, e depois, passado algum tempo, desapareceram e não voltámos a vê-los. Os guerreiros de Buliwyf retomaram os seus esforços de navegação, e nenhum homem falou sobre os monstros, mas muito tempo depois eu ainda estava apavorado, e Herger disse-me que o meu rosto estava branco como o rosto de uma pessoa do Norte, e riu-se.

Que diz Alá a isto? perguntou-me, e eu não tive resposta para a sua pergunta1.

 

1 Este relato do que é obviamente um avistamento de baleias é debatido por muitos estudiosos. No manuscrito de Razi aparece como está aqui, mas na tradução de Sjõgren é muito mais resumido, e nele os homens do Norte.

 

A noite, atracámos e fizemos uma fogueira, e eu perguntei a Herger se os monstros marinhos alguma vez tinham atacado um navio no mar, e, se tinham, qual era a maneira de o fazerem, pois eu não tinha visto as cabeças de nenhum desses monstros.

Herger respondeu chamando Ecthgow, um dos nobres e tenente de Buliwyf. Ecthgow era um guerreiro solene que não era alegre a não ser quando estava embriagado. Herger disse que ele tinha estado num navio que fora atacado. Ecthgow disse-me isto: que os monstros marinhos são maiores do que qualquer outra coisa à face da terra, e maiores do que qualquer navio no mar, e quando atacam nadam debaixo do navio e erguem-no no ar, e atiram-no ao ar como um pedaço de madeira, e esmagam-no com a língua bifurcada. Ecthgow disse que havia trinta homens no seu navio, e apenas ele e dois outros tinham sobrevivido, pela graça dos deuses. Ecthgow falou de maneira normal, que nele era muito séria, e eu acreditei que ele estava a dizer-me a verdade.

Ecthgow disse-me que os homens do Norte sabem que os monstros atacam navios porque desejam acasalar com o navio, tomando-o por um da sua espécie. Por este motivo, os homens do Norte não constróem os seus navios muito largos.

Herger disse-me que Ecthgow é um grande guerreiro famoso em batalha, e que é confiável em todas as coisas.

Durante os dois dias que se seguiram, navegámos entre as ilhas do país Dan, e depois, no terceiro dia, atravessámos uma são mostrados a pregar uma partida sofisticada ao árabe. Os homens do Norte conheciam as baleias e distinguiam-nas de monstros marinhos, de acordo com Sjõgren. Outros estudiosos, incluindo Hassan, duvidam de que Ibn Fadlan pudesse não ter conhecimento da existência de baleias, como parece acontecer aqui.

Passagem de água aberta. Aqui tive receio de ver mais monstros marinhos, mas nada disso aconteceu, e por fim chegámos ao território chamado Venden. Essas terras de Venden são montanhosas e sinistras, e os homens de Buliwyf, no seu barco, aproximaram-se com alguma trepidação e a morte de uma galinha, que foi atirada da proa para o oceano da seguinte forma: a cabeça foi atirada da proa do navio, e o corpo da galinha foi atirado da popa, perto do timoneiro.

Não atracámos directamente nesta nova terra de Venden, mas navegámos ao longo da costa, chegando por fim ao reino de Rothgar. A primeira vez que o vi foi assim. No cimo de um rochedo alto, com uma vista abrangedora do mar cinzento e revoltoso, via-se um enorme edifício de madeira, forte e imponente. Eu disse para Herger que era uma visão magnífica, mas Herger e todo o seu grupo, liderados por Buliwyf, estavam a resmungar e a abanar as cabeças. Perguntei a Herger por que estavam assim. Ele disse:

Rothgar é chamado Rothgar-o-Frívolo, e o seu grande edifício é a marca de um homem frívolo.

Eu disse:

Por que falas assim? Por causa do seu tamanho e esplendor? Pois, na verdade, à medida que nos aproximávamos, vi que o edifício estava ricamente ornamentado com esculturas e entalhes de prata, que brilhavam à distância.

Não disse Herger. Eu disse que Rothgar é frívolo por causa da forma como posicionou o seu aquartelamento. Ele desafia os deuses a derrubá-lo, e acha-se mais do que um homem, e por isso é castigado.

Eu nunca tinha visto um edifício público mais imponente, e disse para Herger:

Este edifício não pode ser atacado; como pode Rothgar ser derrubado?

Herger riu-se de mim, e disse o seguinte:

Vocês, árabes, são estúpidos para além de todas as medidas, e não sabem nada acerca das coisas do mundo. Rothgar merece a infelicidade que caiu sobre ele, e somos apenas nós que o salvaremos, e talvez nem assim seja salvo.

Estas palavras intrigaram-me ainda mais. Olhei para Ecthgow, o tenente de Buliwyf, e vi que ele permanecia no navio e tinha uma expressão corajosa no rosto, e no entanto os seus joelhos tremiam, e não era unicamente a intensidade do vento que os fazia tremer assim. Ele estava com medo; estavam todos com medo; e eu não sabia porquê.

 

O REINO DE ROTHGAR NA TERRA DE VENDEN

O navio estava atracado à hora da oração da tarde, e eu supliquei o perdão a Alá por não fazer a súplica. Porém, não tinha podido fazê-la na presença dos homens do Norte, que achavam que as minhas orações eram uma maldição sobre eles, e ameaçavam matar-me se eu rezasse diante deles.

Cada guerreiro no barco vestiu as vestes da batalha, que eram as seguintes: primeiro, botas e calças justas de lã tosca, e sobre isto um casaco de pele pesada, que lhes chegava aos joelhos. Por cima, colocaram casacos de cota de malha, que todos tinham excepto eu. Depois, cada um dos homens pegou na sua espada e prendeu-a no cinto; cada homem colocou um elmo de metal ou couro na cabeça1; nisto todos os homens eram iguais excepto Buliwyf, pois apenas ele tinha a espada na mão, e ela era tão grande.

Os guerreiros ergueram os olhos para o grande edifício de Rothgar, e maravilharam-se com o telhado cintilante e com o trabalho exímio, e concordaram que não havia nenhum igual

 

1 Representações populares dos Escandinavos mostram-nos sempre a usar elmos com chifres. Isto é um anacronismo; na altura da visita de Ibn Fadlan, esses elmos não eram usados há mais de cem anos, desde o princípio da Idade do Bronze.

 

no mundo, com as suas empenas majestosas e as suas esculturas elaboradas. Porém, não havia respeito no seu discurso.

Por fim, saímos do navio, e percorremos uma estrada pavimentada em pedra que levava ao grande edifício. O som das espadas a bater no chão e o tilintar da cota de malha provocaram um ruído assinalável. Depois de termos percorrido uma curta distância, vimos, na parte central da estrada, a cabeça decepada de um boi, espetada num pau. Este animal tinha sido morto há pouco tempo.

Todos os homens do Norte suspiraram e exibiram expressões tristes ao verem este portento, embora, para mim, aquilo não tivesse qualquer significado. Naquela altura eu já estava adaptado ao costume que eles têm de matar um animal selvagem ao mais pequeno sinal de nervosismo ou provocação. Todavia, esta cabeça de boi tinha um significado especial.

Buliwyf desviou o olhar, olhou para os campos das terras de Rothgar, e viu ali uma casa de campo isolada, da espécie que é comum nas terras de Rothgar. As paredes desta casa eram de madeira, e estavam seladas com uma pasta de lama e palha, que tinha de ser reposta depois de chuvas frequentes. O telhado é de colmo e também de madeira. Dentro das casas existe unicamente um chão de terra batida e uma lareira, e estrume de animais, pois as pessoas do campo dormem com os seus animais dentro de casa por causa do calor emitido pelos corpos deles, e depois queimam o estrume nas fogueiras.

Buliwyf ordenou que nos dirigíssemos para esta casa de campo, por isso começámos a atravessar os campos, que estavam verdejantes mas encharcados de humidade ao nível dos pés. O grupo parou uma ou duas vezes para examinar o chão antes de prosseguir, mas nunca viu nada que tivesse importância para si. Eu próprio não vi nada.

No entanto, Buliwyf mandou novamente parar o grupo, e apontou para a terra escura. Na verdade, eu vi com os meus próprios olhos a pegada de um pé nu de facto, de muitos pés. Eram chatos e mais feios do que qualquer outra coisa conhecida da criação. Em cada dedo, via-se uma marca escavada de uma unha curvada, ou garra; portanto, o formato parecia humano, e ao mesmo tempo não humano. Vi isto com os meus próprios olhos, e mal pude acreditar no que eles testemunhavam.

Buliwyf e os seus guerreiros abanaram as cabeças ao verem aquilo, e ouvi-os repetir uma palavra vezes sem conta: “wendol” ou “wendlon”, ou outra palavra parecida. Eu ainda não conhecia o significado do nome, e tive o pressentimento de que seria melhor não perguntar nada a Herger naquele momento, pois ele estava tão apreensivo como todos os outros. Avançámos para a casa de campo, e, ocasionalmente, víamos mais destas pegadas com garras na terra. Buliwyf e os seus guerreiros caminharam lentamente, mas não era por precaução; nenhum homem sacou da sua arma; era mais como se fosse alguma espécie de pavor que não entendiam e no entanto sentiam dentro de si.

Finalmente, chegámos à habitação da quinta e entrámos nela. Na casa de campo eu vi, com os meus próprios olhos, este cenário: havia um homem, de pouca idade e físico gracioso, cujo corpo tinha sido rasgado membro a membro. O tronco encontrava-se aqui, um braço ali, uma perna acolá. O sangue espalhava-se em poças espessas pelo chão, e nas paredes, no telhado, em cada superfície, em tal profusão que a casa parecia ter sido pintada com sangue vermelho. Também havia uma mulher, de forma semelhante despojada de todos os membros. E também uma criança do sexo masculino, um bebé de dois anos ou menos, cuja cabeça tinha sido arrancada dos ombros, deixando o corpo como um cepo a sangrar.

Tudo isto vi com os meus próprios olhos, e foi a coisa mais horrenda que jamais testemunhei. Purguei-me e fiquei fraco durante uma hora, purgando-me no entanto mais uma vez.

Nunca conseguirei compreender os modos dos homens do Norte, pois embora eu não pudesse deixar de ficar doente, eles mantiveram-se calmos e frios ao verem este horror; observaram tudo o que estava diante deles de uma forma serena; discutiram as marcas de garras nos membros, e a forma de rasgar a carne. Foi prestada muita atenção ao facto de faltarem todas as cabeças; e também realçaram o aspecto mais demoníaco de todos, que até mesmo agora recordo com agitação.

O corpo da criança do sexo masculino tinha sido mastigado por uns dentes satânicos na carne mole da parte de dentro da coxa. E também tinha sido mastigado na zona do ombro. Este mesmo horror vi com os meus próprios olhos.

Os guerreiros de Buliwyf estavam com uma disposição sombria e carrancuda quando saímos da casa da quinta. Continuaram a prestar muita atenção à terra mole perto da casa, reparando que não havia marcas de cascos de cavalos; isto era uma questão importante para eles. Eu não compreendi porquê. Mas também não estava muito atento, pois ainda me sentia fraco de coração e doente de corpo.

Quando atravessámos os campos, Ecthgow fez uma descoberta da seguinte natureza: era um pedaço pequeno de pedra, mais pequeno do que um punho de criança, e estava polido e trabalhado de uma forma tosca. Todos os guerreiros se amontoaram à volta dele para examinarem o objecto, e eu no meio deles.

Vi que representava o tronco de uma mulher grávida. Não havia cabeça, nem braços, nem pernas; apenas o tronco com uma barriga extremamente inchada e, acima dela, dois seios inchados em forma de pêndulo1. Eu achei esta criação muitíssimo rude e feia, mas nada mais. Todavia, os homens do Norte ficaram subitamente perturbados e pálidos e trémulos; as mãos deles tremeram ao tocar na pedra, e por fim Buliwyf atirou-a para o chão e esmagou-a com o cabo da sua espada, até ela não passar de fragmentos de pedra espalhados. E mesmo então muitos dos guerreiros ficaram doentes, e purgaram-se no chão. E o horror generalizado era muito grande, para minha mistificação.

Partiram então para o grande edifício do rei Rothgar. Nenhum homem falou durante a nossa viagem, que durou praticamente uma hora; todos os homens do Norte pareciam mergulhados em pensamentos amargos e preocupantes, e não obstante isso já não evidenciavam o menor sinal de medo.

Finalmente, um arauto a cavalo veio ao nosso encontro e barrou-nos o caminho. Reparou nas armas que transportávamos e no porte do grupo e de Buliwyf, e gritou um aviso.

Herger disse-me:

Ele implora que lhe digamos os nossos nomes, e depressa.

Buliwyf deu uma resposta ao arauto, e pelo seu tom percebi que Buliwyf não estava com disposição para trocas de amabilidades. Herger disse-me:

 

1 O figurino descrito corresponde de uma forma muito aproximada a diversas esculturas descobertas por arqueólogos em França e na Áustria.

 

Buliwyf diz-lhe que somos súbditos do rei Higlac, do reino de Yatlam, e que estamos numa missão para o rei Rothgar, e que queremos falar com ele. E Hergeracrescentou: Buliwyf diz que Rothgar é um rei muito valoroso mas o tom de Hergertransmitiu um sentido oposto.

Este arauto disse-nos para continuarmos para o grande edifício e para aguardarmos no exterior enquanto ele informava o rei da nossa chegada. Assim fizemos, embora Buliwyf e o seu grupo não tivessem ficado satisfeitos com este tratamento; houve resmungos e murmúrios, pois os homens do Norte são por princípio hospitaleiros e não lhes parecia elegante serem mantidos na rua. Todavia esperaram, e também tiraram as espadas e as lanças, mas não a armadura, e deixaram as armas do lado de fora das portas do edifício.

Ora, o edifício estava rodeado em todos os lados por diversas habitações ao estilo dos povos do Norte. Estas casas eram compridas, com lados curvos, como em Trelburg; mas diferiam na disposição, pois aqui não havia quadrados. Nem se viam fortificações ou muros de barro. Em vez disso, do grande edifício e das casas compridas à volta dele o chão descia para uma longa planície lisa e verde, onde se viam aqui e ali uma casa de quinta, e depois, para além delas, as colinas e a orla de uma floresta.

Perguntei a Hergerque casas compridas eram estas, e ele disse-me:

Algumas pertencem ao rei, e outras são para a família real, e outras para os seus nobres, e também para os criados e membros menos importantes da corte.

Disse igualmente que era um lugar difícil, embora eu não tivesse compreendido o que queria dizer com aquelas palavras.

Depois fomos autorizados a entrar no grande edifício do rei Rothgar, que na verdade digo que deve ser considerado uma das maravilhas de todo o mundo, tanto mais por existir no rude país do Norte. Este edifício é chamado, entre os povos de Rothgar, pelo nome de Hurot, pois os homens do Norte dão nomes de pessoas às coisas da sua vida, aos edifícios e barcos e especialmente às armas. Ora eu digo: este Hurot, o grande edifício de Rothgar, era tão grande como o palácio principal do Califa, e estava ricamente embutido com prata e mesmo algum ouro, que é extremamente raro no Norte. Em todos os lados viam-se desenhos e ornamentos do maior esplendor e riqueza de arte. Era verdadeiramente um monumento ao poder e majestade do rei Rothgar.

Este rei Rothgar estava sentado na extremidade mais afastada do edifício Hurot, um espaço tão vasto que se encontrava tão longe que quase não conseguíamos discerni-lo. Sentado atrás do seu ombro direito encontrava-se o mesmo arauto que nos tinha barrado o caminho. O arauto fez um discurso, que Herger me disse que fora o seguinte:

Aqui, ó Rei, está um bando de guerreiros do reino de Yatlam. Acabaram de chegar do mar, e o líder deles é um homem de nome Buliwyf. Eles pedem permissão para vos falar na missão deles, ó Rei. Não lhes vedeis a entrada; têm o porte de condes, e, pelo porte, o chefe deles é um guerreiro valoroso. Saudai-os como condes, ó Rei Rothgar.

Assim foi pedida a nossa aproximação ao rei Rothgar.

O rei Rothgar parecia um homem perto da morte. Não era jovem, tinha o cabelo branco, a pele muito pálida, e o rosto marcado pelo desgosto e pelo medo. Olhou-nos com suspeição, a franzir os olhos, ou talvez estivesse quase cego, não sei. Por fim, deu início a um discurso, que Herger diz ter sido o seguinte:

Já ouvi falar neste homem, pois mandei-o chamar para uma missão de herói. Ele é Buliwyf, e conheci-o quando era criança, quando viajei pelas águas para o reino de Yatlam. Ele é filho de Higlac, que foi o meu bondoso anfitrião, e agora este filho vem até mim na minha hora de necessidade e desgosto.

Rothgar ordenou então que os guerreiros fossem trazidos para o grande salão, e foram trazidos presentes, e feitas celebrações.

Buliwyf falou então, e proferiu um longo discurso que Herger não me traduziu, uma vez que falar enquanto Buliwyf discursava teria sido considerado um grande desrespeito. No entanto, o significado foi o seguinte: que Buliwyf tinha ouvido falar nos problemas de Rothgar, que lamentava esses problemas, e que o reino do seu próprio pai tinha sido destruído por esses mesmos problemas, e que ele tinha vindo para salvar o reino de Rothgar dos malefícios que os tinham assediado.

No entanto, não sei que é que os homens do Norte chamavam a esses demónios, nem o que pensavam deles, embora eu tivesse visto o trabalho manual das bestas que rasgavam homens em pedaços.

O rei Rothgar falou de novo, com alguma pressa. Pela sua forma de falar percebi que desejava proferir algumas palavras antes de todos os seus guerreiros e condes chegarem. Disse o seguinte (de acordo com Herger):

Ó Buliwyf, conheci o teu pai quando eu próprio era um homem jovem, e ocupava há pouco o meu trono. Agora sou velho e doente do coração. A minha cabeça tomba. Os meus olhos choram de vergonha ao reconhecer a minha fraqueza. Como vês, o meu reino é um sítio quase estéril. As minhas terras estão a transformar-se num lugar selvagem. O que os espíritos malignos talharam para o meu reino não posso dizer. Muitas vezes, à noite, os meus guerreiros, corajosos devido à bebida, juram derrota ros espíritos malignos. E depois, quando a luz fraca da madrugada trepa dos campos enevoados, vemos corpos ensanguentados por todo o lado. É este o desgosto da minha vida, e não falarei mais sobre ele.

Um banco foi então trazido e uma refeição foi colocada diante de nós, e eu inquiri a Herger sobre o significado dos “espíritos malignos” de que o rei falara. Herger ficou zangado, e disse que eu nunca mais deveria fazer aquela pergunta.

Nessa noite houve uma grande celebração, e o rei Rothgar e a sua rainha Weilew, com um vestido de onde pendiam pedras preciosas e ouro, presidiram sobre os nobres e guerreiros e condes do reino de Rothgar. Estes nobres formavam um grupo miserável; eram homens velhos e bebiam de mais e muitos estavam aleijados ou feridos. Nos olhos de todos eles estampava-se o estado vazio do medo, e também havia vazio na sua alegria.

Havia igualmente o filho chamado Wiglif, de quem já falei anteriormente, o filho de Rothgar que assassinara três dos seus irmãos. Este homem era jovem e elegante, e tinha uma barba loura e olhos que nunca se detinham em nada, e se moviam constantemente de um lado para o outro; e também nunca fixava o olhar de outra pessoa. Herger viu-o e disse:

Ele é uma raposa.

Com isto queria dizer que ele era uma pessoa escorregadia e inconstante, com uma personalidade falsa, pois o povo do Norte acredita que a raposa é um animal que pode assumir qualquer forma que lhe agrade.

Ora, na parte intermédia das festividades, Rothgar enviou o seu arauto às portas de Hurot, e o arauto informou que o nevoeiro não cairia nessa noite. Houve muita felicidade e celebração depois deste anúncio de que a noite estaria clara; ficaram todos satisfeitos com excepção de Wiglif.

A determinada altura, o filho Wiglif levantou-se e disse:

Bebo em honra dos nossos convidados, e especialmente de Buliwyf, um guerreiro corajoso e verdadeiro que veio ajudarnos na nossa luta... embora esta possa revelar-se um obstáculo demasiado grande para ele ultrapassar.

Herger sussurrou-me estas palavras, e eu percebi que era um louvor e um insulto numa só frase.

Todos os olhos se voltaram para Buliwyf à espera da reacção deste. Buliwyf ergueu-se e olhou para Wiglif, e depois disse:

Não tenho medo de nada, nem sequer do reles espírito maligno que se esgueira à noite para assassinar homens durante o sono.

Eu achei que isto se referia ao “wendol”, mas Wiglif empalideceu e apertou a cadeira onde estava sentado.

Falas de mim? disse Wiglif, e a sua voz tremia. Buliwyf deu a seguinte resposta:

Não, mas não tenho mais medo de ti do que dos monstros do nevoeiro.

O jovem Wiglif persistiu, embora Rothgar, o rei, o tivesse mandado sentar. Wiglif disse para todos os nobres reunidos:

Este Buliwyf, chegado de costas estrangeiras, tem aparentemente um grande orgulho e uma grande força. Porém, eu arranjei uma forma de testar a sua coragem, pois o orgulho pode enganar os olhos de qualquer homem.

Vi então a seguinte coisa acontecer: um guerreiro forte, sentado a uma mesa perto da porta, atrás de Buliwyf, levantou-se rapidamente, empunhou uma lança, e atacou Buliwyf pelas costas. Tudo isto aconteceu em menos tempo do que um homem leva a sugar a respiração1. Todavia, também Buliwyf se virou, empunhou uma lança, e com ela atingiu o guerreiro em cheio no peito, ergueu-o com o cabo da lança muito acima da cabeça e atirou-o contra uma parede. Assim ficou este guerreiro espetado na lança, com os pés a baloiçar acima do chão, a pontapear; a ponta da lança estava enterrada na parede do edifício de Hurot. O guerreiro morreu sem um único som.

Seguiu-se então uma grande comoção, e Buliwyf virou-se para encarar Wiglif, e disse:

Assim despacharei qualquer ameaça e depois, de imediato, Herger falou, numa voz muito alta, e fez muitos gestos na direcção da minha pessoa. Eu fiquei muito confuso com estes acontecimentos, e na verdade os meus olhos estavam pregados neste guerreiro morto, espetado na parede.

Depois Herger voltou-se para mim, e disse em latim:

Vais entoar um cântico para a corte do rei Rothgar. Todos desejam que o faças.

Eu perguntei-lhe:

Que devo cantar? Não conheço nenhuma canção. Ele deu a seguinte resposta:

Cantarás alguma coisa que entretenha o coração. E acrescentou:

 

1Ducere spiritu: literalmente, “inalar”.

 

Não fales no teu Deus único. Ninguém está interessado nesse disparate.

Na verdade, eu não sabia o que cantar, pois não sou um menestrel. Passou algum tempo enquanto todos olhavam para mim, e fez-se silêncio no salão. Depois, Herger disse-me:

Canta uma canção de reis e coragem em batalha.

Eu disse que não conhecia nenhuma canção assim, mas que poderia contar-lhes uma fábula, que no meu país era considerada engraçada e divertida. A isto ele disse que eu tinha feito uma escolha sensata. Depois contei-lhes ao rei Rothgar, à sua rainha Weilew, ao seu filho Wiglif, e a todos os condes e guerreiros reunidos a história dos chinelos de Abu Kassim, que todos conhecem. Falei em tom leve, e sorri o tempo todo, e ao princípio os homens do Norte estavam satisfeitos, e riram e bateram nas barrigas.

Mas depois aconteceu uma coisa estranha. Enquanto eu continuava a minha narrativa, os homens do Norte pararam de rir, e foram ficando sombrios aos poucos, cada vez mais, e quando terminei a história não houve gargalhadas, apenas um silêncio terrível.

Herger disse-me:

Não podias saber, mas essa história não é para rir, e agora tenho de remediar as coisas e depois fez um discurso que eu tomei por uma piada às minhas custas, e toda a gente se riu, e por fim a celebração recomeçou.

A história dos chinelos de Abu Kassim é antiga na cultura árabe, e era bem conhecida de Ibn Fadlan e dos seus concidadãos de Bagdade.

A história existe em muitas versões, e pode ser contada rapidamente ou em pormenor, dependendo do entusiasmo do contador. Em resumo, Abu Kassim é um mercador rico e avarento que deseja esconder o facto da sua riqueza, para fazer melhores negócios. Para transmitir uma aparência de pobreza, usa um par de chinelos especialmente velhos e gastos, na esperança de que as pessoas sejam enganadas, o que não acontece. Pelo contrário, as pessoas à volta dele pensam que ele é tolo e ridículo.

Um dia, Abu Kassim faz um negócio de vidros extremamente lucrativo, e decide comemorar, não da maneira tradicional de convidar os amigos para um banquete, mas oferecendo a si mesmo o pequeno luxo egoísta de uma visita aos banhos públicos. Deixa as vestes e os sapatos na antecâmara, e um amigo censura-o pelos sapatos velhos e inapropriados. Abu Kassim replica que ainda servem, e entra no banho com o amigo. Mais tarde, um juiz poderoso também vem para os banhos, e despe-se, deixando para trás um elegante par de chinelos. Entretanto, Abu Kassim sai dos banhos e não consegue encontrar os seus chinelos velhos; no lugar deles encontra um par de sapatos bonitos e novos, e, presumindo que se trata de um presente do amigo calça-os e vai-se embora.

Quando o juiz sai, os seus chinelos desapareceram, e apenas consegue encontrar um par de chinelos miseráveis e gastos, que toda a gente sabe que pertencem a Abu Kassim. O juiz fica furioso; criados são mandados procurar os chinelos desaparecidos; e em breve são encontrados nos pés do ladrão, que é levado a tribunal, à presença do magistrado, e condenado a pagar uma grande multa.

Abu Kassim amaldiçoa a sua má sorte, e quando chega a casa atira os aziagos chinelos pela janela, e eles caem no lamacento rio Tigre. Alguns dias depois, um grupo de pescadores puxa a rede, e encontra, juntamente com algum peixe, os chinelos de Abu Kassim; as tachas dos chinelos rasgaram-lhes as redes. Enraivecidos, atiram os chinelos enlameados por uma janela aberta. Acontece que a janela é a de Abu Kassim; os chinelos caem sobre os vidros acabados de comprar e esmagam-nos todos.

Abu Kassim está destroçado, e lamenta-se como só um avarento mesquinho sabe lamentar-se. Jura que os malditos chinelos não voltarão a fazer-lhe mal e, para ter a certeza de que isso não acontecerá, vai para o jardim com uma pá e enterra-os. Ora acontece que o vizinho do lado de Abu Kassim vê este a cavar, tarefa inferior, adequada apenas para um criado. O vizinho presume que, se o senhor da casa está a desempenhar esta tarefa pessoalmente, deve ser para enterrar um tesouro. Assim, o vizinho vai ter com o califa e informa-o sobre Abu Kassim, pois, segundo as leis da terra, qualquer tesouro encontrado no chão é propriedade do califa.

Abu Kassim é chamado diante do califa, e, quando afirma que enterrou unicamente um par de chinelos velhos, a corte solta fortes gargalhadas devido à tentativa óbvia do mercador para esconder o seu propósito verdadeiro e ilegal. O califa está zangado por ser tomado por parvo a ponto de acreditar nesta mentira disparatada, e aumenta a magnitude da multa de acordo com o tamanho da ofensa. Abu Kassim fica siderado quando a sentença é decretada, e no entanto é obrigado a pagar.

Abu Kassim está agora determinado a livrar-se dos chinelos de uma vez por todas. Para ter a certeza de que não terá mais problemas, faz uma peregrinação para longe da cidade e atira os chinelos para um lago distante, e fica a vê-los afundarem-se com satisfação. Mas o lago alimenta o fornecimento de água da cidade, e os chinelos acabam por entupir os canos; os guardas mandados para desentupir a estrutura encontram os chinelos e reconhecem-nos, pois toda a gente conhece os chinelos deste avarento notório. Abu Kassim é levado de novo à presença do califa, sob a acusação de sujar a água da cidade, e a multa é muito maior do que antes. Os chinelos são-lhe devolvidos.

Agora Abu Kassim decide queimar os chinelos, mas eles ainda estão molhados, por isso ele deixa-os numa varanda para secarem. Um cão vê-os e brinca com eles; um dos chinelos cai-lhe da boca e precipita-se para a rua, onde atinge uma mulher que ia a passar. A mulher está grávida, e a força do golpe provoca-lhe um aborto. O marido corre para o tribunal a pedir uma indemnização avultada, que lhe é concedida, e Abu Kassim, agora um homem falido e empobrecido, é obrigado a pagar.

A moral árabe, astutamente literal, declara que esta história ilustra os males que podem cair sobre um homem que não muda de chinelos com alguma frequência. Mas não há dúvida de que o sentido oculto da história, a ideia de um homem que não pode livrar-se de um fardo, foi o que perturbou os homens do Norte.

Ora, a noite passou-se com mais comemorações, e todos os guerreiros de Buliwyf se divertiram de uma forma despreocupada. Eu vi o filho Wiglif a observar Buliwyf antes de sair do salão, mas Buliwyf não lhe prestou atenção, preferindo as atenções de raparigas escravas e de mulheres nascidas livres. Algum tempo depois, adormeci.

De manhã, acordei com os sons de martelos e, aventurando-me a sair do grande edifício Hurot, encontrei todas as pessoas do reino de Rothgar a trabalhar nas defesas. Estas estavam a ser dispostas de uma forma preliminar: cavalos trouxeram grandes quantidades de postes de vedação, que os guerreiros aguçaram até ficarem com bicos pontiagudos; o próprio Buliwyf orientava a colocação dos trabalhos de defesa, marcando rabiscos no chão com a ponta da espada. Para isto não usou a sua grande espada Runding, mas uma outra espada; não sei se haveria um motivo para isto.

Na parte intermédia do dia, a mulher que era chamada anjo da morte1 veio e atirou ossos para o chão, e fez encantamentos sobre eles, e anunciou que o nevoeiro viria nessa noite. Ao ouvir isto, Buliwyf ordenou que todos os trabalhos cessassem, e que fosse preparado um grande banquete. Todas as pessoas concordaram e pararam os seus esforços. Eu perguntei a Herger por que é que iria haver um banquete, mas ele respondeu-me que eu fazia perguntas de mais. Também era verdade que eu tinha escolhido um momento mau para o interrogatório, pois ele estava a posicionar-se diante de uma escrava loura que lhe sorria calorosamente.

 

1 Esta mulher não é o mesmo “anjo da morte” que estava com os homens do Norte nas margens do Volga. Aparentemente, cada tribo tinha uma mulher idosa que exercia funções xamanistas e a quem chamavam “o anjo da morte”. É, por conseguinte, um termo genérico.

 

Ora, na última parte do dia, Buliwyf reuniu todos os seus guerreiros e disse-lhes:

Preparem-se para a batalha.

E eles concordaram, e desejaram sorte uns aos outros, enquanto à nossa volta o banquete estava a ser ultimado.

O banquete nocturno foi muito parecido com o anterior, embora estivessem menos nobres e condes de Rothgar. Na verdade, soube que muitos nobres não iriam, com receio do que poderia acontecer no edifício Hurot nessa noite, pois este local parecia ser o centro de interesse do espírito maligno na região; ele cobiçava o edifício Hurot, ou alguma coisa semelhante não podia ter a certeza do significado.

Este banquete não foi agradável para mim, pois estava apreensivo em relação aos acontecimentos que iriam seguir-se. Porém, aconteceu o seguinte: um dos nobres mais idosos falava um pouco de latim, e também alguns dos dialectos ibéricos, pois tinha viajado para a região do Califado de Córdova quando era jovem, e eu comecei a conversar com ele. Nesta circunstância, fingi um conhecimento que não tinha, como verão.

Ele falou-me assim:

Então sois o estrangeiro que será o número treze? E eu confirmei que assim era. Deveis ser extremamente corajoso disse o homem idoso , e saúdo-vos pela vossa bravura. A isto dei uma resposta evasiva e delicada, com o sentido de que era um cobarde em comparação com os outros do grupo de Buliwyf; o que, de facto, era mais do que verdade.

Não importa disse o homem de idade, que estava embriagado, pois tinha bebido a bebida alcoólica da região, uma substância vil a que chamam mead, e que é muito forte, mesmo assim, sois um homem corajoso por defrontar os wendol.

Pressenti, então, que, por fim, talvez ficasse a conhecer alguns assuntos importantes. Repeti a este homem idoso um ditado dos homens do Norte, que Herger me tinha dito uma vez. Eu disse:

Os animais morrem, os amigos morrem, e eu morrerei, mas há uma coisa que nunca morre, é a reputação que deixamos para trás quando morremos.

O homem idoso riu-se ruidosamente ao ouvir isto; tinha ficado satisfeito por eu conhecer um provérbio dos homens do Norte. Ele disse:

Assim é, mas os wendol também têm uma reputação. E eu repliquei, com a mais profunda indiferença:

De verdade? Não a conheço.

Ao ouvir isto, o homem de idade disse que eu era um estrangeiro, e que não se importaria de me esclarecer, e disse-me o seguinte: o nome de “wendol”, ou “windon”, é um nome muito antigo, tão antigo como qualquer um dos povos do país do Norte, e significa “o nevoeiro preto”. Para os homens do Norte, isto significa que traz, a coberto da noite, espíritos malignos pretos que assassinam e matam e comem a carne de seres humanos1. Os espíritos malignos são peludos e

 

1 Os Escandinavos ficavam aparentemente mais impressionados com o carácter furtivo e com a depravação das criaturas do que com o seu canibalismo. Jensen sugere que o canibalismo podia ser odioso para os homens do Norte porque tornava mais difícil a entrada em Valhalla; não há provas que consubstanciem esta opinião.

Todavia, para Ibn Fadlan, com a sua enorme erudição, a noção de canibalismo pode ter implicado algumas dificuldades na vida depois da morte. O Comedor dos Mortos é uma criatura muito conhecida da mitologia grega, um animal aterrador com a cabeça de um crocodilo.

 

repugnantes ao toque e ao cheiro; são ferozes e astutos; não falam a língua de nenhum homem e no entanto conversam entre eles; vêm com o nevoeiro nocturno, e desaparecem durante o dia para onde, nenhum homem sabe pois não se atreve a segui-los.

O homem idoso disse-me o seguinte:

Podeis saber quais as regiões em que habitam os espíritos malignos do nevoeiro preto de muitas maneiras. De tempos a tempos, guerreiros a cavalo podem caçar um veado macho com cães, perseguindo o animal por colinas e pequenos vales durante muitos quilómetros de floresta e campo aberto. E depois o veado chega a um pequeno lago pantanoso ou a um pântano escuro, e aqui pára, preferindo ser cortado em bocados pelos cães de caça do que ter de penetrar naquela região pavorosa. É assim que sabemos quais são as regiões onde habitam os wendol, e sabemos que nem sequer os animais entram ali.

leão, e a parte traseira de um hipopótamo. Este Comedor dos Mortos devora os perversos depois do Julgamento a que são submetidos.

Vale a pena recordar que, durante a maior parte da história do homem, o canibalismo ritual, sob uma ou outra forma, não era raro nem surpreendente. O homem de Pequim e o homem de Neandertal eram ambos, aparentemente, canibais; também o foram, em diversas épocas, os Citas, os Chineses, os Irlandeses, os Peruvianos, os Mayoruna, os Jagas, os Egípcios, os aborígenes australianos, os Maoris, os Gregos, os Hurons, os Iroqueses, os Pawnees e os Ashanti.

Durante o tempo em que Ibn Fadlan esteve na Escandinávia, outros mercadores árabes estavam na China, onde registaram que a carne humana que era chamada “carneiro de duas pernas” era vendida abertamente e legalmente nos mercados.

Martinson sugere que os homens do Norte consideravam o canibalismo wendol repelente porque acreditavam que a carne dos guerreiros era dada a comer às mulheres, particularmente à mãe dos wendol. Também não há provas que corroborem esta opinião, mas tornaria seguramente a morte de um homem do Norte mais vergonhosa.

Eu expressei um espanto exagerado com esta história, para arrancar mais palavras do homem idoso. Então Hergeravistou-me, e olhou-me ameaçadoramente, mas não lhe prestei atenção.

O homem de idade continuou da seguinte forma:

Há muito tempo, o nevoeiro negro era receado por todos os homens do Norte de todas as regiões. Desde o meu pai e o pai dele e o pai dele antes, nenhum homem do Norte viu o nevoeiro preto, e alguns dos guerreiros mais jovens consideravam-nos tolos por recordarmos as histórias antigas de horror e depredações. No entanto, os chefes dos homens do Norte em todos os reinos, até mesmo na Noruega, estiveram sempre preparados para o regresso do nevoeiro preto. Todas as nossas cidades e fortalezas estão protegidas e defendidas por terra. Desde a época do pai do pai do meu pai, os nossos povos agiram assim, e nunca vimos o nevoeiro negro. E agora regressou.

Perguntei por que é que o nevoeiro negro tinha regressado, e ele baixou a voz para me dar esta resposta:

O nevoeiro negro voltou por causa da vaidade e fraqueza de Rothgar, que ofendeu os deuses com o seu esplendor fútil e tentou os espíritos malignos com o local que escolheu para erigir o seu grande edifício, que não tem protecção do lado de terra. Rothgar é velho e sabe que não será recordado por batalhas vencidas, e por isso construiu este edifício esplêndido, que é falado em todo o mundo, e satisfaz a sua vaidade. Rothgar age como um deus, mas é um homem, e os deuses mandaram o nevoeiro negro para o derrubar e lhe mostrar o que é a humildade.

Eu disse a este homem de idade que talvez Rothgar estivesse ressentido no reino. Ele replicou:

Nenhum homem é tão bom que esteja livre de todo o mal, nem tão mau que não valha nada. Rothgar é um rei justo e o seu povo prosperou durante toda a sua vida. A sabedoria e riqueza do seu governo estão aqui, no edifício Hurot, e são esplêndidas. O seu único defeito é o seguinte, esqueceu-se da defesa, pois nós temos um ditado que diz: “Um homem nunca deve dar um passo para longe das suas armas”. Rothgar não tem armas; não tem dentes e é fraco; e o nevoeiro negro espalha-se livremente pela terra.

Eu desejava saber mais, mas o velhote estava cansado, e afastou-se de mim, e pouco depois estava a dormir. Na verdade, a comida e bebida da hospitalidade de Rothgar eram abundantes, e a maior parte dos condes e nobres estavam entorpecidos.

Da mesa de Rothgar direi o seguinte: que cada homem tinha um guardanapo e um prato, e colher e faca; que a refeição era composta por carne de porco e de cabra cozida, e algum peixe, também, pois os homens do Norte apreciam muito mais a carne cozida do que assada. E havia igualmente couves e cebolas em abundância, e maçãs e avelãs. Uma carne suculenta e adocicada, que eu nunca tinha provado, foi-me dada; era, segundo me foi dito, alce, ou rena.

A horrível bebida malcheirosa a que chamam meaé feita com mel, depois de fermentado. É a coisa mais malcheirosa, mais negra e mais vil jamais criada por seres humanos, e no entanto é potente para além de todo o conhecimento; algumas bebidas, e o mundo gira. Mas eu não bebi, louvado seja Alá.

Ora, reparei que Buliwyf e todo o seu grupo não beberam naquela noite, ou beberam apenas um pouco, e Rothgar não considerou isto um insulto, compreendendo que era o curso

natural das coisas. Nessa noite não havia vento; as velas e chamas das lareiras do edifício Hurot não tremeluziam, e no entanto estava húmido e muito frio. Eu vi com os meus próprios olhos que fora de portas o nevoeiro descia das montanhas, bloqueando a luz prateada da lua, amortalhando tudo em escuridão.

À medida que a noite avançava, o rei Rothgar e a sua rainha retiraram-se para dormir, e as portas maciças do edifício Hurot foram trancadas e barradas com traves, e os nobres e condes que ali se encontravam caíram num estupor embriagado e ressonavam sonoramente.

Depois Buliwyf e os seus homens, ainda com as armaduras colocadas, andaram pelo aposento a apagar as velas e a preparar as lareiras, para que o lume ardesse lento e fraco. Perguntei a Herger o significado disto, e ele disse-me para rezar pela minha vida, e para fingir que dormia. Foi-me entregue uma arma, uma espada curta, que não me serviu de grande consolo; não sou guerreiro e estou plenamente consciente desse facto.

Na verdade, todos os homens fingiam dormir, Buliwyf e os seus homens juntaram-se aos corpos amontoados dos condes do rei Rothgar, que estavam verdadeiramente a ressonar. Quanto tempo esperámos não sei, pois creio que eu próprio dormi um pouco. Depois fui acordado de repente, com uma vivacidade aguda e nada natural; não fiquei ensonado, mas instantaneamente tenso e alerta, ainda deitado num cobertor de pele de urso no chão do grande salão. Era noite escura; as velas no salão ardiam com uma chama fraca, e uma brisa suave sussurrava pelo salão e abanava as chamas amarelas.

E depois ouvi um rugido baixo, como o grunhir de um porco, trazido até mim pela brisa, e senti um odor putrefacto como o cheiro de uma carcaça depois de um mês de decomposição, e tive um grande medo. Este rugido, pois não posso chamar-lhe mais nada, este som de descontentamento, resmungo, tornou-se progressivamente mais alto e mais excitado. Vinha do lado de fora das portas, de um lado do edifício. Depois ouvi-o no outro lado, e depois noutro, e noutro. Na verdade, o edifício estava cercado.

Sentei-me apoiado num cotovelo, com o coração a bater desordenadamente, e olhei em volta do salão. Nenhum homem entre os guerreiros adormecidos se mexeu, e no entanto ali estava Herger, deitado com os olhos muito abertos. E também vi Buliwyf, a respirar pesadamente, mas com os olhos completamente abertos. Depreendi então que todos os guerreiros de Buliwyf estavam à espera de lutar com os wendol, cujos sons enchiam agora o ar.

Por Alá, não existe medo maior do que o de um homem quando não conhece a causa desse medo. Quanto tempo permaneci sobre a pele de urso, a ouvir o rugido dos wendol e a cheirar os seus odores repugnantes! Quanto tempo esperei não sei por quê, o começo de uma batalha mais feroz na expectativa do que podia ser a luta! Lembrei-me disto: que os homens do Norte têm um ditado de louvor que gravam nas pedras tumulares de guerreiros nobres, e que é o seguinte: “Ele não fugiu da batalha”. Nenhum elemento do grupo de Buliwyf fugiu naquela noite, embora os sons e o mau cheiro os cercassem por todos os lados, agora mais alto, depois mais fraco, agora numa direcção, depois noutra. Não obstante, eles esperaram.

Depois chegou o momento mais aterrador. Todos os sons cessaram. Fez-se um silêncio profundo, quebrado unicamente pelo ressonar dos homens e pelos estalidos baixos da fogueira. Nem mesmo então qualquer dos guerreiros de Buliwyf se mexeu.

E depois ouviu-se um estrondo muito grande nas portas robustas de Hurot, e essas portas abriram-se repentinamente, e um fluxo de ar com um cheiro forte e desagradável apagou todas as luzes, e o nevoeiro negro entrou no salão. Não contei quantos eram: na verdade, pareciam milhares de sombras pretas a rugir, e no entanto podiam não passar de mais de cinco ou seis, enormes sombras pretas dificilmente parecidas com homens, e no entanto também com aspecto de homens. O ar cheirou a sangue e morte; eu estava gelado para além de todas as medidas, e tremia. Não obstante, nenhum guerreiro se mexeu ainda.

Depois, com um grito aterrador capaz de acordar os mortos, Buliwyf levantou-se de um salto, e nos braços girou a espada gigante Runding, que silvava como uma chama a chiar enquanto cortava o ar. E os seus guerreiros levantaram-se de um salto com ele, e juntaram-se todos na batalha. Os gritos dos homens misturavam-se com os grunhidos de porcos e os odores do nevoeiro preto, e havia terror e confusão e grande destruição e laceração do edifício Hurot.

Eu próprio não tinha estômago para a batalha, e no entanto fui atacado por um destes monstros do nevoeiro, que se aproximou de mim, e eu vi olhos vermelhos, brilhantes na verdade, vi olhos que brilhavam como fogo, e cheirei o odor nauseabundo, e fui levantado no ar e atirado pelo salão como uma criança atira um seixo. Bati na parede e caí no chão, e fiquei fortemente aturdido durante o período que se seguiu, por isso tudo à minha volta era mais confusão do que verdade.

Recordo-me, muito claramente, do toque destes monstros em mim, especialmente do aspecto peludo dos corpos, pois estes monstros do nevoeiro têm cabelo tão comprido como um cão peludo, e igualmente espesso, em todas as partes dos seus corpos. E lembro-me do cheiro fétido do hálito do monstro que me atirou ao ar.

Não sei durante quanto tempo a batalha continuou, mas depois terminou repentinamente. E então o nevoeiro preto desapareceu, evaporou-se, a rugir e a pingar e a cheirar mal, deixando para trás destruição e morte que não pudemos confirmar até termos acendido velas novas.

Eis o resultado da batalha. Do grupo de Buliwyf, morreram três, Roneth e Halga, ambos condes, e Edgtho, um guerreiro. O primeiro tinha o peito aberto. O segundo tinha a coluna partida. O terceiro tinha a cabeça arrancada da forma que eu já tinha testemunhado. Todos esses guerreiros estavam mortos.

Feridos estavam dois outros, Haltaf e Rethel. Haltaf tinha perdido uma orelha, e Rethel dois dedos da mão direita. Os dois homens não estavam mortalmente feridos, e não se queixaram, pois é costume dos homens do Norte suportarem os ferimentos de batalha alegremente, e louvarem acima de tudo o facto de ainda estarem vivos.

Quanto a Buliwyf e Herger e a todos os outros, estavam ensopados em sangue, como se tivessem tomado banho nele. Agora direi aquilo em que muitos não acreditarão, e no entanto foi assim: o nosso grupo não tinha morto um único dos monstros do nevoeiro. Cada um tinha escapado, alguns talvez mortalmente feridos, e não obstante tinham escapado.

Herger proferiu as seguintes palavras:

Vi dois deles levarem um terceiro, que estava morto. Talvez assim fosse, pois em geral todos concordaram com

ele. Fiquei a saber que os monstros do nevoeiro nunca deixam nenhum da sua espécie na companhia de homens, e preferem correr grandes perigos para o resgatar do alcance humano. E também recorrem a medidas extremas para ficar com a cabeça da vítima, e não conseguimos encontrar a cabeça de Edgtho em lado algum; os monstros tinham-na levado consigo.

Depois Buliwyf falou, e Herger disse-me as palavras dele da seguinte maneira:

Olhem, fiquei com um trofeu da luta sangrenta desta noite. Vejam, aqui está um braço de um dos espíritos malignos.

E, para confirmar as suas palavras, Buliwyf ergueu o braço de um dos monstros do nevoeiro, decepado à altura do ombro pela grande espada Runding. Todos os guerreiros se amontoaram para o examinar. Eu vi-o desta forma: parecia ser pequeno, com uma mão de um tamanho anormalmente grande. Mas o antebraço e o braço não eram proporcionalmente grandes, embora os músculos fossem poderosos. Todas as partes do braço estavam cobertas de pêlos compridos, emaranhados, com excepção da palma da mão. Finalmente, só me resta dizer que o braço cheirava mal como toda a besta, com o cheiro fétido do nevoeiro preto.

Todos os guerreiros aplaudiram então Buliwyf, e a sua espada Runding. O braço do espírito maligno foi pendurado nas vigas do grande edifício de Hurot, e foi admirado por todo o povo do reino de Rothgar. Assim terminou a primeira batalha com os wendol.

 

OS ACONTECIMENTOS QUE SE SEGUIRAM À PRIMEIRA BATALHA

Na verdade, o povo do país do Norte nunca age como seres humanos de razão e bom senso. Depois do ataque dos monstros do nevoeiro, e de terem sido rechaçados por Buliwyf e pelo seu grupo, comigo entre eles, os homens do reino de Rothgar não fizeram nada.

Não houve celebração, nem banquete, nem júbilo ou demonstração de felicidade. De uma ponta à outra do reino, as pessoas vieram observar o braço do espírito maligno, que estava pendurado no grande salão, e reagiram a isto com muito espanto e surpresa. Mas o próprio Rothgar, o ancião quase cego, não expressou o menor prazer, e não presenteou Buliwyf e o seu grupo com qualquer oferenda, não planeou nenhum banquete, não lhe deu escravos, nem prata, nem vestes preciosas, nem qualquer outro sinal de honra.

Avesso a qualquer expressão de prazer, o rei Rothgar assumiu uma expressão muito carrancuda e solene, e pareceu mais medroso do que antes. Eu próprio, embora não o dissesse em voz alta, suspeitava de que Rothgar preferia a sua condição anterior, antes de o nevoeiro preto ter sido derrotado.

Os modos de Buliwyf também não tinham mudado. Não pediu quaisquer cerimónias, nenhum banquete, nem bebida ou comida. Os nobres que tinham morrido corajosamente foram rapidamente colocados em buracos com um telhado de madeira a cobri-los, e ali ficaram durante os dez dias decretados. Houve celeridade neste assunto.

Porém, foi apenas aquando da exposição dos guerreiros mortos que Buliwyf e os seus camaradas mostraram felicidade, ou se permitiram alguns sorrisos. Depois de passar todo este tempo entre os homens do Norte, aprendi que sorriem com a morte em batalha, pois é um prazer em nome da pessoa morta, e não dos vivos. Ficam contentes quando algum homem morre uma morte de guerreiro. O oposto também é considerado verdadeiro por eles; revelam pesar quando um homem morre durante o sono, ou numa cama. Dizem desse homem: “Morreu como uma vaca na palha”. Não é um insulto, mas é um motivo para lamentar a morte.

Os homens do Norte acreditam que a forma como um homem morre determina a sua condição na vida depois da morte e, acima de tudo, dão valor à morte de um guerreiro no campo de batalha. Uma “morte na palha” é vergonhosa.

Eles dizem que qualquer homem que morra durante o sono é estrangulado pela maran, ou fêmea da noite. Esta criatura é uma mulher, que torna essa morte vergonhosa, pois morrer às mãos de uma mulher é degradante acima de todas as coisas.

Também dizem que morrer sem as armas é degradante, e um homem do Norte guerreiro dorme sempre com as suas armas para que, se uma maran vier durante a noite, ele tenha as armas à mão. Raramente um guerreiro morre de uma doença qualquer, ou do enfraquecimento provocado pela idade. Ouvi falar de um rei, de nome Ane, que viveu até uma idade tal que ficou como se fosse uma criança, sem dentes e a alimentar-se com a comida dos bebés, e passava os dias inteiros na cama a beber leite por um chifre. Mas isto foi-me contado como sendo uma coisa muito invulgar no país do Norte. Com os meus próprios olhos vi muito poucos homens ficarem velhos a ponto de a barba estar não apenas branca mas a cair do queixo e do rosto.

Diversas das suas mulheres vivem até uma idade muito avançada, especialmente as velhas enrugadas a que eles chamam o anjo da morte; diz-se que estas mulheres idosas têm poderes mágicos para curar ferimentos, para lançar encantamentos, banir as influências maléficas e prever o futuro dos acontecimentos.

As mulheres do povo do Norte não lutam entre si e vi-as intercederem muitas vezes numa briga ou duelo sério entre dois homens, para extinguir a raiva desenfreada. Fazem isto especialmente se os guerreiros estão entorpecidos e lentos devido à bebida. E muitas vezes é isso mesmo que acontece.

Ora, os homens do Norte, que bebem muitas bebidas alcoólicas, e a todas as horas do dia e da noite, não beberam nada no dia que se seguiu à batalha. Raramente o povo de Rothgar lhes ofereceu um copo, e quando isso aconteceu, o copo foi recusado. Achei isto muito intrigante, e por fim abordei o assunto com Herger.

Herger encolheu os ombros no gesto que os homens do Norte usam para mostrar despreocupação ou indiferença.

Todos têm medo disse ele.

Perguntei por que é que ainda havia motivo para terem medo. Ele disse-me o seguinte:

É porque sabem que o nevoeiro negro vai regressar. Tenho de admitir que fiquei inchado, com a arrogância de um lutador, embora no fundo tivesse consciência de que não merecia essa postura. Mesmo assim, senti satisfação pela minha sobrevivência, e o povo de Rothgar tratava-me como um membro do grupo de valorosos guerreiros. Eu disse arrojadamente:

Quem se preocupa com isso? Se voltarem novamente, derrotá-los-emos uma segunda vez.

Na verdade, eu estava a ser vaidoso como um galo novo, e agora fico agastado ao pensar na minha afectação. Herger respondeu:

O reino de Rothgar não tem guerreiros lutadores nem condes; já morreram todos há muito, e apenas nós temos de defender o reino. Ontem éramos treze. Hoje somos dez, e desses dez dois estão feridos e não podem lutar com toda a pujança. O nevoeiro negro está zangado, e fará uma vingança terrível.

Eu disse para Herger, que tinha sofrido alguns ferimentos sem importância durante a luta mas nada tão grave como as marcas de garras no meu próprio rosto, que eu ostentava com orgulho , que não receava nada do que os demónios pudessem fazer.

Ele respondeu bruscamente que eu era um árabe e que não comprendia nada dos costumes do país do Norte, e disse-me que a vingança do nevoeiro preto seria terrível e profunda. Disse:

Regressarão como Korgon.

Eu não conhecia o significado da palavra.

Que é Korgon? Ele disse-me:

O dragão vaga-lume, que cai repentinamente sobre o inimigo, vindo do ar.

Tudo isto me parecia fantasioso, mas já tinha visto os monstros marinhos tal como eles tinham dito que esses animais selvagens viviam verdadeiramente, e vi também o semblante tenso e cansado de Herger, e percebi que ele acreditava no dragão vaga-lume. Eu disse:

Quando é que Korgon virá? Ele disse-me:

Talvez esta noite.

Na verdade, mesmo enquanto falava, vi que Buliwyf, embora não tivesse dormido absolutamente nada durante a noite e tivesse os olhos vermelhos e pesados devido à fadiga, estava a orientar de novo a construção de defesas em volta do edifício Hurot. Todo o povo do reino trabalhava, as crianças e as mulheres e os velhos, e também os escravos, sob a direcção de Buliwyf e do seu tenente Ecthgow.

Eis o que fizeram: no perímetro de Hurot e dos edifícios adjacentes, que eram as habitações do rei Rothgar e de alguns dos seus nobres, e as cabanas toscas dos escravos dessas famílias, e de um ou outro dos agricultores que viviam mais perto do mar a toda a volta desta área erigiram uma espécie de vedação de lanças cruzadas e postes com as pontas aguçadas. Esta vedação não era mais alta do que os ombros de um homem, e, embora as pontas fossem afiadas e ameaçadoras, eu não conseguia perceber o valor da sua defesa, pois os homens podiam escalá-la facilmente.

Falei nisto a Herger, que me chamou estúpido árabe. Herger estava de muito mau humor.

Foi então construída mais uma defesa, a um passo e meio daquela. Este fosso era extremamente peculiar. Não era fundo, não mais do que os joelhos de um homem, e muitas vezes menos. Estava escavado de uma forma irregular, de modo que em alguns lugares era raso, e noutros mais profundo, com pequenos poços. E em alguns sítios foram enterradas pequenas lanças na terra, com as pontas voltadas para cima.

Não compreendi melhor o significado deste fosso desprezível do que tinha compreendido a vedação, mas não fiz qualquer pergunta a Herger, pois já sabia que ele estava de mau humor. Ao invés disso, ajudei no trabalho o melhor que pude, parando apenas para me servir de uma mulher escrava à moda dos homens do Norte, pois na excitação da batalha da noite e dos preparativos do dia sentia-me extremamente enérgico.

Ora, durante a minha viagem com Buliwyf e os seus guerreiros pelo Volga, Herger tinha-me dito que não se podia confiar em mulheres desconhecidas, especialmente se eram atraentes ou sedutoras. Herger disse-me que nas florestas e nos lugares selvagens do país do Norte vivem mulheres a quem chamam mulheres dos bosques. Estas mulheres dos bosques seduzem os homens com a sua beleza e palavras doces, e no entanto, quando um homem se aproxima delas, descobre que são ocas na parte de trás, e que não passam de aparições. Depois, as mulheres dos bosques lançam um feitiço sobre o homem seduzido e ele torna-se seu prisioneiro.

Ora, Herger tinha-me avisado disso, e na verdade é um facto que me aproximei desta mulher escrava com receio porque não a conhecia. E toquei-lhe nas costas com a mão, e ela riu-se: sabia o motivo do toque; era para garantir a mim mesmo que ela não era um espírito do bosque. Naquele momento senti-me um tolo, e amaldiçoei-me por dar crédito a uma superstição pagã. Descobri, porém, que se todos à nossa volta acreditam numa coisa em concreto, nós rapidamente nos sentimos tentados a partilhar dessa crença, e foi o que aconteceu comigo.

As mulheres do povo do Norte são pálidas como os homens, e igualmente altas em estatura; a maior parte delas olhava por cima da minha cabeça. As mulheres têm olhos azuis e usam o cabelo muito comprido, mas é um cabelo fino que se emaranha com facilidade. Por isso, elas enrolam-no no pescoço e sobre a cabeça; para ajudar criaram para si mesmas todos os tipos de fivelas e ganchos de prata ornamentada ou madeira. Isto constitui o principal adorno delas. A esposa de um homem rico usa correntes ao pescoço em ouro e prata, como já disse; as mulheres também apreciam pulseiras de prata, com a forma de dragões e cobras, e usam-nas no braço entre o cotovelo e o ombro. Os desenhos do povo do Norte são intricados e entrelaçados, como se quisessem retratar o entrançado de ramos de árvores ou serpentes; estes desenhos são extremamente belos1.

Os homens do Norte consideram-se grandes juizes da beleza feminina. Mas, na verdade, todas as mulheres deles pareciam aos meus olhos pálidas, e os seus corpos eram muito angulosos e ossudos; os seus rostos também são ossudos e as maçãs do rosto muito salientes. Os homens do Norte dão valor a estas

qualidades e elogiam-nas, embora uma mulher assim não atraísse um único olhar na Cidade da Paz e não fosse considerada melhor do que um cão semi-esfomeado com as costelas

 

1 Um árabe sentir-se-ia especialmente inclinado a pensar assim, pois a arte religiosa islâmica tende a ser não representativa, e em qualidade semelhante a grande parte da arte escandinava, que muitas vezes parece favorecer o desenho puro. Porém, os homens do Norte não tinham qualquer inj unção contra a representação de deuses, e muitas vezes faziam-no.

 

salientes. Os homens do Norte têm costelas que sobressaem dessa forma.

Não sei por que é que as mulheres são tão magras, pois comem vigorosamente, e tanto como os homens, e no entanto não ganham carne nos corpos.

As mulheres também não mostram deferência, nem nenhum comportamento sério; nunca estão tapadas com véus, e aliviam-se em lugares públicos, sempre que têm vontade. De forma semelhante, fazem avanços arrojados a qualquer homem que lhes agrade, como se elas próprias fossem homens; e os guerreiros nunca as censuram por isto. Isso acontece mesmo que a mulher seja escrava, pois, como já disse, os homens do Norte são muito bondosos e condescendentes com os seus escravos, especialmente com as escravas.

Com a progressão do dia, vi claramente que as defesas de Buliwyf não ficariam terminadas ao cair da noite, nem a vedação de postes nem o fosso baixo. Buliwyf também percebeu o mesmo, e falou com o rei Rothgar, que convocou a velha enrugada. Esta velha enrugada, que era mirrada e tinha barba como um homem, matou um carneiro e espalhou as entranhas1 no chão. Depois entoou uma variedade de cânticos, que demoraram muito tempo, com muitas súplicas para o céu.

 

1 literalmente, “veias”. A frase árabe deu origem a alguns erros eruditos; E. D. Graham escreveu, por exemplo, que “os Viquingues previam o futuro por meio de um ritual de cortar as veias de animais e espalhá-las no chão”. Isto é quase de certeza errado; a frase árabe para limpar um animal é “cortar as veias”, e Ibn Fadlan estava aqui a referir-se à prática muito enraizada da adivinhação através da observação das entranhas. Os linguistas, que lidam constantemente com estas frases vernaculares, apreciam as discrepâncias de significado; um exemplo favorito de Halsteaé o aviso inglês “Olhem!”, que normalmente significa que uma pessoa deve fazer precisamente o oposto e procurar um esconderijo.

 

Continuei sem perguntar a Herger o que representava aquilo, devido ao seu mau humor. Ao invés disso, observei os outros guerreiros de Buliwyf, que olhavam para o mar. O oceano estava cinzento e bravo, o céu cinzento como chumbo, mas uma brisa forte soprava em direcção à terra. Isto satisfez os guerreiros, e eu adivinhei o motivo: é que uma brisa do oceano em direcção da terra impediria o nevoeiro de descer das colinas. Isto era verdade.

Ao cair da noite, a construção das defesas foi interrompida, e, para minha perplexidade, Rothgar ofereceu outro banquete de proporções faustosas; e nesta noite, enquanto eu observava, Buliwyf, e Herger, e todos os outros guerreiros beberam muito meae comportaram-se como se não tivessem quaisquer preocupações terrenas, e divertiram-se com as mulheres escravas, e depois mergulharam todos num sono entorpecido e pesado.

E então também percebi uma coisa: que cada um dos guerreiros de Buliwyf tinha escolhido entre as mulheres escravas uma que lhes agradava em especial, embora não excluíssem outras. Empolgado, Herger disse-me da mulher que tinha escolhido:

Ela morrerá comigo, se necessário for.

Ao ouvir isto compreendi o significado da escolha: cada um dos guerreiros de Buliwyf tinha escolhido uma mulher que morreria por ele na pira funerária, e tratavam esta mulher com mais cortesia e atenção do que as outras; pois eram visitantes neste país, e não tinham escravas suas que pudessem ser obrigadas por parentesco a cumprir a sua obrigação.

Ora, no período inicial do tempo que vivi entre os Venden, as mulheres do Norte não se aproximavam de mim, devido ao tom escuro da minha pele e do meu cabelo, mas havia muitos sussurros e olhares na minha direcção, e risinhos de umas para as outras. Vi que, de vez em quando, estas mulheres descobertas faziam no entanto um véu com as mãos, e especialmente quando estavam a rir. Depois, perguntei a Herger:

Por que fazem elas esta coisa? pois não desejava comportar-me de uma forma que fosse contrária ao costume do Norte.

Hergerdeu-me a seguinte resposta:

As mulheres acreditam que os Árabes são como garanhões, pois ouviram esse rumor.

Isto não constituiu surpresa para mim, pela seguinte razão: em todas as terras por onde viajei, e também no interior das muralhas redondas da Cidade da Paz, na verdade em todas as localizações onde os homens se reúnem e formam uma sociedade para si mesmos, aprendi que estas coisas são verdades. Primeiro, que os povos de uma terra especial acreditam que os seus costumes são próprios e adequados e melhores do que quaisquer outros. Segundo, que qualquer estranho, um homem ou também uma mulher, é considerado inferior em todas as formas, excepto na questão da virilidade. Assim, os Turcos acreditam que os Persas são amantes dotados; os Persas encaram com respeito os povos de pele negra; e estes, por sua vez, outros, respectivamente; e assim continua, por vezes por motivos ligados à proporção dos órgãos genitais, outras por motivos ligados à resistência no acto, por vezes por motivos ligados a habilidades ou posturas especiais.

Não posso dizer se os homens do Norte acreditam verdadeiramente no que Hergerfalou, mas na verdade descobri que estavam muito surpreendidos comigo devido à minha cirurgia1, cuja prática é desconhecida no seio deles, pois são pagãos sujos. Na forma de marcar entrevistas, estas mulheres são ruidosas e enérgicas, e têm um tal odor que eu fui forçado a suster a respiração durante a duração; também são dadas a arquear as costas, e a torcerem-se, a arranhar e a morder, de tal forma que um homem pode ser atirado da sua montada, como os homens do Norte dizem. Quanto a mim, achei tudo aquilo mais doloroso do que prazenteiro.

Os homens do Norte dizem do acto, “Batalhei com uma mulher ou outra”, e exibem orgulhosamente as marcas azuladas e os arranhões aos camaradas, como se fossem verdadeiros ferimentos de guerra. Todavia, que eu pudesse ver, os homens nunca magoaram qualquer mulher.

Ora esta noite, enquanto todos os guerreiros de Buliwyf dormiam, eu estava demasiado assustado para beber ou rir; receava o regresso dos wendol. No entanto, eles não regressaram, e eu acabei por adormecer finalmente, mas tive um sono inquieto.

No dia seguinte não houve vento, e todas as pessoas do reino de Rothgar trabalharam com dedicação e medo; por todo o lado se falava no Korgon, e da certeza de que atacaria durante a noite. As marcas de garras no meu rosto doíam-me agora, pois ardiam enquanto saravam, e custava-me sempre que mexia a boca para comer ou falar. Também é verdade que a minha febre de guerreiro me abandonara. Tinha medo uma vez mais, e trabalhei em silêncio juntamente com as mulheres e os velhos.

Circuncisão.

Aproximadamente na altura intermédia do dia, fui visitado pelo nobre velho e sem dentes com quem tinha falado no salão do banquete. Este nobre procurou-me, e disse-me o seguinte em latim:

Terei de vos falar.

Conduziu-me alguns passos para longe dos trabalhadores nas defesas.

Examinou então ostensivamente os meus ferimentos, que na verdade não eram sérios, e enquanto observava estes golpes disse-me:

Tenho um aviso para o vosso grupo. Há inquietação no coração de Rothgar. Proferiu estas palavras em latim.

Qual é a causa? disse eu.

É o arauto, e também o filho Wiglif, que está junto ao ouvido do rei disse o velho nobre. E também o amigo de Wiglif. Wiglif diz a Rothgar que Buliwyf e o seu grupo planeiam matar o rei e governar o reino.

Isso não é verdade disse eu, embora não soubesse ao certo. Para ser honesto, tinha pensado neste assunto algumas vezes; Buliwyf era jovem e viril, e Rothgar velho e fraco e, embora seja verdade que os processos dos homens do Norte sejam estranhos, é igualmente verdade que todos os homens são iguais.

O arauto e Wiglif têm inveja de Buliwyf disse-me o velho nobre. Envenenam o ar ao ouvido do rei. Tudo isto vos digo para que possais dizer aos outros que tenham cuidado, pois é um assunto adequado para um basilisco.

E depois declarou que os meus ferimentos eram superficiais, e afastou-se.

Em seguida o nobre voltou uma vez mais. Disse:

O amigo de Wiglif é Ragnar e afastou-se uma segunda vez, e não voltou a olhar para mim.

Com grande consternação, cavei e trabalhei nas defesas até me encontrar perto de Herger. A disposição de Herger continuava sombria como acontecera no dia anterior. Saudou-me

com estas palavras:

Não quero ouvir as perguntas de um tolo.

Eu disse-lhe que não tinha perguntas, e relatei-lhe o que o velho nobre me dissera; também lhe disse que era um assunto adequado para um basilisco1. Ao ouvir o meu discurso, Herger franziu o sobrolho e proferiu pragas e bateu com os pés no chão, e disse-me que o acompanhasse até Buliwyf.

Buliwyf estava a orientar o trabalho no fosso do outro lado do acampamento; Herger puxou-o para o lado, e falou rapidamente na língua do Norte, com gestos na direcção da minha pessoa. Buliwyf franziu o sobrolho, e rogou pragas e bateu com os pés tantas vezes como Herger, e depois fez uma pergunta. Herger disse-me:

 

1 Ibn Fadlan não descreve o basilisco, presumindo, aparentemente, que os leitores estão familiarizados com a criatura mitológica que aparece nas primeiras crenças de quase todas as culturas ocidentais. O basilisco é geralmente uma variedade de galo com cauda de serpente e oito pernas, e por vezes tem escamas ao invés de penas. O que é sempre verdade acerca do basilisco é que o seu olhar é mortal, como o olhar de um górgone; e o veneno do basilisco é especialmente letal. Segundo alguns relatos, uma pessoa que esfaqueia um basilisco verá o veneno subir pela espada e passar-lhe para a mão. O homem será então obrigado a cortar a própria mão para salvar o corpo.

É provavelmente esta sensação de perigo do basilisco que leva a que este seja mencionado aqui. O velho nobre está a dizer a Ibn Fadlan que um confronto directo com os focos de perturbação não resolverá o problema. Um aspecto interessante é que uma forma de destruir um basilisco é deixá-lo ver a sua imagem reflectida num espelho; ele morrerá então, vítima do seu próprio olhar.

 

Buliwyf pergunta quern é o amigo de Wiglif? O velho disse-te quem é o amigo de Wiglií?

Eu respondi que tinha dito, e que o amigo tinha o nome de Ragnar. Depois de ouvirem esta informação, Herger e Buliwyf falaram mais um com o outro, e discutiram brevemente, e depois Buliwyf afastou-se e deixou-me com Herger.

Está decidido disse Herger.

Que é que está decidido? inquiri eu.

Mantém os dentes juntos disse Herger, que é uma expressão do Norte que significa não falar.

Assim retornei aos meus trabalhos, sem compreender mais do que no começo de tudo. Uma vez mais pensei que estes homens do Norte eram os homens mais peculiares e contraditórios que existiam à face da terra, pois em nenhum assunto se comportam como se espera que os seres humanos sensatos se comportem. Porém, trabalhei na disparatada vedação deles, e no fosso baixo; e observei, e esperei.

Na altura da oração da tarde, observei que Herger tinha ocupado uma posição de trabalho perto de um jovem robusto e gigante. Herger e este jovem labutaram lado a lado no fosso durante algum tempo, e na minha maneira de ver parecia que Herger estava a dar-se ao trabalho de atirar poeira para o rosto do jovem, que era, na verdade, uma cabeça mais alto do que Herger, e também mais jovem.

O jovem protestou, e Herger pediu desculpa; mas pouco depois estava novamente a atirar-lhe poeira. Uma vez mais Herger pediu desculpa; agora o jovem estava zangado e tinha o rosto vermelho. Não se passou muito tempo antes de Herger estar outra vez a atirar pó, e o jovem falou atabalhoadamente e cuspiu e via-se que estava zangado ao extremo. Gritou para Herger, que mais tarde me relatou as palavras da conversa deles, embora na altura o significado fosse suficientemente evidente.

O jovem falou:

Cavas como um cão.

À laia de resposta, Hergerdisse:

Chamas-me cão?

A isto, o jovem disse:

Não, eu disse que tu cavas como um cão, a lançar1 terra descuidadamente, como um animal.

 

1 em árabe, e nos textos latinos, verbera. Ambas as palavras significam “castigar” ou “chicotear” e não “lançar”, como este trecho é habitualmente traduzido. Presume-se, normalmente, que Ibn Fadlan usou a metáfora de “chicotear” com pó para realçar a ferocidade do insulto, que em qualquer dos casos é suficientemente claro. Todavia, ele pode ter, consciente ou inconscientemente, transmitido uma atitude distintamente escandinava em relação aos insultos

Outro repórter árabe, al-Tartushi, visitou a cidade de Hedeby no ano de 950 C., e disse o seguinte acerca dos Escandinavos: “São extremamente peculiares em relação ao castigo Têm apenas três penalizações para as infracções. A primeira, e a mais temida, é o banimento da tribo. A segunda é ser vendido para a escravatura e a terceira é a morte. As mulheres que fazem mal são vendidas como escravas. Os homens preferem sempre a morte. Os açoitamentos são desconhecidos dos homens do Norte”.

Este ponto de vista não é totalmente partilhado por Adam de Bremen, um historiador eclesiástico alemão, que escreveu em 1075: “Se se descobre que as mulheres não são castas, são vendidas imediatamente, mas se os homens são considerados culpados de traição ou de qualquer outro crime, preferem ser decapitados a serem chicoteados. Eles não conhecem nenhuma forma de punição a não ser o machado ou a escravatura”.

O historiador Sjógren dá grande importância à declaração de Adam segundo a qual os homens preferiam ser decapitados a serem chicoteados. Isto pareceria sugerir que o chicoteamento era conhecido entre os homens do Norte; e afirma igualmente que, muito provavelmente, era um castigo para escravos. “Os escravos são propriedade, e é economicamente insensato matá-los por ofensas menores; seguramente, o chicoteamento era uma forma aceite de castigo para um escravo.

 

Hergerfalou:

Estás então a chamar-me animal?

O jovem replicou:

Estás a deturpar as minhas palavras. Herger disse então:

Na verdade, pois as tuas palavras são retorcidas e tímidas como as de uma velha fraca.

Esta velha ver-te-á provar a morte disse o jovem, e empunhou a espada. Depois Herger empunhou igualmente a sua, pois o jovem era o mesmo Ragnar, o amigo de Wiglif, e assim eu vi manifestada a intenção de Buliwyf naquele assunto.

Estes homens do Norte são muito sensíveis e susceptíveis em relação à honra. Entre eles, os duelos ocorrem com tanta frequência como a micção, e uma batalha até à morte é como se considerassem o chicoteamento um castigo degradante, pois estava reservado aos escravos”. Sjõgren também afirma que “tudo o que sabemos acerca da vida Viquingue aponta para uma sociedade fundada na ideia de vergonha, não culpa, como o pólo comportamental negativo. Os Viquingues nunca se sentiam culpados em relação a nada, mas defendiam ferozmente a sua honra, e evitavam um acto vergonhoso a qualquer preço. Submeterem-se passivamente ao chicote devia ter sido considerado vergonhoso ao extremo, e muito pior do que a própria morte”.

Estas especulações levam-nos de volta ao manuscrito de Ibn Fadlan, e à sua escolha das palavras “lançar terra”. Uma vez que o árabe é tão fastidioso, uma pessoa podia perguntar-se se as palavras dele reflectem uma atitude islâmica. Em relação a isto, deveríamos recordar-nos de que, embora o mundo de Ibn Fadlan estivesse claramente dividido em coisas e actos limpos e sujos, o próprio solo não estava necessariamente sujo. Pelo contrário, tayammum, ablução com terra ou areia, é efectuada sempre que a ablução com água não é possível. Assim, Ibn Fadlan não tinha uma aversão especial à ablução com terra numa pessoa; teria ficado muito mais perturbado se lhe fosse pedido que bebesse de uma taça de ouro, que era estritamente proibido considerada uma coisa vulgar. Pode ocorrer no local do insulto, ou, se for conduzida formalmente, os combatentes encontram-se na bifurcação de três estradas. Foi assim que Ragnar desafiou Herger para lutar com ele.

Ora é este o costume dos homens do Norte: à hora marcada, os amigos e parentes dos lutadores reúnem-se no local da batalha e estendem uma pele no chão. Fixam-na com quatro postes de loureiro. A batalha tem de ser travada em cima da pele, e cada homem tem de manter um pé, ou ambos, na pele durante todo o tempo; desta forma mantêm-se junto um do outro. Cada um dos dois combatentes chega com uma espada e três escudos. Se os três escudos de um homem se partem, ele tem de continuar a lutar sem protecção, e a batalha continua até à morte.

Foram essas as regras entoadas pela velha enrugada, o anjo da morte, em cima da pele esticada, com todo povo de Buliwyf e todo o povo do reino de Rothgar reunidos à volta dela. Eu próprio também estava lá, não tão perto da frente, e maravilhei-me por estas pessoas se esquecerem da ameaça do Korgon que os tinha aterrorizado tanto há tão pouco tempo; ninguém se interessava por mais nada a não ser pelo duelo.

O duelo entre Ragnar e Herger desenrolou-se da seguinte maneira. Herger desferiu o primeiro golpe, pois tinha sido desafiado, e a sua espada abateu-se poderosamente sobre o escudo de Ragnar. Eu próprio receei por Herger, pois este jovem era tão maior e mais forte do que ele, e de facto o primeiro golpe de Ragnar atingiu violentamente o escudo de Herger, arrancando-o pela pega, e Herger pediu o segundo escudo.

Depois a batalha foi travada, e de uma forma feroz. Olhei uma vez para Buliwyf, cujo rosto estava totalmente inexpressivo; e para Wiglif e o arauto, do lado oposto, que olhavam frequentemente para Buliwyf enquanto a batalha decorria.

O segundo escudo de Herger foi também partido, e ele pediu o terceiro e último escudo. Herger estava muito cansado, e tinha o rosto húmido e vermelho do esforço; o jovem Ragnar parecia à vontade enquanto lutava, sem fazer grande esforço.

Depois o terceiro escudo foi quebrado, e a luta de Herger tornou-se extremamente desesperada, ou assim pareceu durante um momento fugaz. Herger parou com os dois pés firmemente assentes no chão, inclinado e a respirar com dificuldade, e profundamente esgotado. Ragnar escolheu esse momento para cair sobre ele. E então Herger deu um passo para o lado como o golpe súbito das asas de um pássaro, e o jovem Ragnar mergulhou a sua espada no ar. Depois, Herger passou a espada de uma mão para a outra, pois estes homens do Norte conseguem lutar tão bem com uma mão como com a outra, e com igual força. E Herger virou-se rapidamente e cortou a cabeça de Ragnar por detrás dele com um único golpe da espada.

Na verdade, vi o sangue espirrar do pescoço de Ragnar e a cabeça voou pelo ar para o meio da multidão, e eu vi com os meus próprios olhos que a cabeça caiu no chão antes de o corpo também cair no chão. Herger deu depois um passo para o lado, e apercebi-me então de que a batalha tinha sido uma fraude, pois Herger já não arfava nem transpirava, e não evidenciava o menor sinal de fadiga, e o seu peito não arfava, e segurava a espada sem esforço, e tudo indicava que poderia matar uma dúzia de homens como aquele. E ele olhou para Wiglif e disse:

Honra o teu amigo.

Quis com isto dizer que ele deveria cuidar do enterro.

Herger disse-me que tinha fingido para que Wiglif percebesse que os homens de Buliwyf não eram meramente guerreiros fortes e corajosos, mas também espertos.

Isto provocar-lhe-á mais medo disse Herger , e ele não se atreverá a falar contra nós.

Duvidei que o plano dele surtisse este efeito, mas é verdade que os homens do Norte louvam mais a fraude do que o Herger mais fraudulento, na verdade mais do que o mais mentiroso dos mercadores do Bahrain, para quem a fraude é uma forma de arte. A esperteza em batalha e em coisas viris é considerada uma virtude maior do que a pura força na guerra.

Porém, Herger não estava feliz, e eu percebi que Buliwyf também não estava feliz. À medida que a noite se aproximava, o nevoeiro começou a formar-se nas altas colinas do interior. Achei que estavam a pensar no falecido Ragnar, que era jovem e forte e corajoso, e que seria útil na batalha que se aproximava. Herger disse-me apenas o seguinte:

Um homem morto não é útil a ninguém.

 

O ATAQUE DO DRAGÃO VAGA-LUME KORGON

Ora, com o cair da escuridão, o nevoeiro desceu das colinas, enrolando-se como dedos em volta das árvores, penetrando nos campos verdes na direcção do edifício de Hurot e dos guerreiros expectantes de Buliwyf. Aqui, o trabalho não abrandou; de uma fonte fresca, foi desviada água para encher o fosso baixo, e depois compreendi o objectivo do plano, pois a água escondia as lanças e os buracos mais fundos, e desta forma o fosso era traiçoeiro para qualquer invasor.

Para além disso, as mulheres de Rothgar transportaram vasilhas de pele de cabra com água do poço, e molharam a vedação, e as habitações, e todas as superfícies do edifício de Hurot com água. Os guerreiros de Buliwyf também se encharcaram nas armaduras com água da fonte. A noite estava húmida e fria e, pensando que se tratava de um ritual pagão, implorei que me poupassem, mas não obtive qualquer êxito: Herger ensopou-me dos pés à cabeça como os outros. Fiquei a pingar e a tremer; na verdade, soltei gritos muito altos com o choque da água fria, e exigi saber qual a razão por que me encharcavam daquela maneira.

O dragão vaga-lume respira fogo disse-me Herger.

Depois ofereceu-me uma taça de meapara reduzir o frio, e eu bebi esta taça sem uma única pausa, e soube-me bem.

Agora a noite estava completamente negra, e os guerreiros de Buliwyf aguardaram a chegada do dragão Korgon. Todos os olhos estavam voltados para as colinas, agora perdidas no nevoeiro nocturno. Buliwyf percorria pessoalmente as fortificações, transportando a sua grande espada Runding, a proferir em voz baixa palavras de encorajamento aos seus guerreiros. Esperaram todos calmamente, com excepção de um, o tenente Ecthgow. Este Ecthgow é um mestre do machado de mão; tinha erigido um poste robusto de madeira a alguma distância de si, e praticou o lançamento do machado de mão vezes sem conta. Na verdade, tinham-lhe sido dados muitos machados de mão; contei cinco ou seis presos ao seu cinto largo, e outros nas mãos, e espalhados no chão à volta dele.

De forma semelhante estava Hergera esticar e a testar o seu arco e flecha, e também Skeld, pois estes eram os mais habilidosos em pontaria de todos os guerreiros do Norte. As setas dos homens do Norte têm pontas de ferro e são construídas de forma excelente, com hastes direitas como uma linha recta. Em cada aldeia ou acampamento têm um homem que é muitas vezes aleijado ou coxo, e é conhecido como almsmann; ele molda as setas, e também os arcos, para os guerreiros da região, e por estas almas é pago em ouro ou conchas ou, como eu próprio vi, com comida e carne1.

 

1 Este trecho é, aparentemente, a fonte do comentário feito em 1869 pelo estudioso reverendo Noel Herleigh de que “entre os viquingues bárbaros, a moralidade era tão perversamente invertida que o seu ser J ido de almas eram os pagamentos efectuados aos fabricantes de armas*. A garantia vitoriana de Harleigh excedeu o seu conhecimento linguístico.

 

Os arcos dos homens do Norte têm praticamente o tamanho dos seus próprios corpos, e são feitos de vidoeiro. A forma de disparar é a seguinte: a haste da seta é encostada ao ouvido, não ao olho, e depois é disparada; e a força é tal que a haste pode trespassar o corpo de um homem, e não alojar-se nele; a haste pode também penetrar num pedaço de madeira com a grossura do punho de um homem. Na verdade, vi essa força de uma seta com os meus próprios olhos, e eu próprio tentei empunhar um dos arcos deles, mas não fui bem sucedido pois era demasiado grande e resistente para mim.

Estes homens do Norte são habilidosos em todas as formas de guerra e morte com as diversas armas que privilegiam. Falam nas linhas de combate, que não têm sentido de disposição de soldados; pois para eles tudo se resume ao combate de um homem com outro, que é o seu inimigo. As duas linhas de luta diferem em relação à arma. Para a espada larga, que é sempre girada num arco e nunca usada para apunhalar, dizem: “A espada procura a linha da respiração”, que para eles significa o pescoço, e, portanto, a separação da cabeça do corpo. Para a lança, a seta, o machado de mão, o punhal e as outras ferramentas de apunhalamento, dizem: “Estas armas procuram a linha da gordura1. Com estas palavras referem-se

A palavra do Norte aim significa olmo, a madeira resiliente com a qual os Escandinavos faziam arcos e flechas. É apenas por acaso que esta palavra também tem um significado inglês. (Pensa-se normalmente que a palavra inglesa “almas”, que significa donativos de caridade, deriva da palavra grega ele os, ter piedade.)

 

1 Linea adeps: literalmente, “linha de gordura”. Embora a sabedoria anatómica do trecho nunca tenha sido questionada por soldados nos mil anos que se seguiram pois a linha média do corpo é onde todos os nervos e vasos mais vitais se concentram a derivação precisa deste termo tem à parte central do corpo, desde a cabeça até à virilha; um ferimento nesta linha central significa para eles a morte certa do oponente. Também acreditam que é mais eficaz atingir a barriga devido à sua suavidade do que atingir o peito ou a região da cabeça.

Na verdade, Buliwyf e todo o seu grupo mantiveram uma vigília atenta naquela noite, e eu entre eles. Senti muita fadiga nesta atenção, e em breve estava tão cansado como se tivesse travado uma batalha, e no entanto não tinha ocorrido nenhuma. Os homens do Norte não estavam cansados, e mantinham-se totalmente a postos. É verdade que são as pessoas mais vigiliantes à face da terra, sempre preparados para qualquer batalha ou perigo; e não consideram esta postura absolutamente nada cansativa, pois para eles é normal desde o nascimento. São prudentes e atentos em todas as alturas.

sido misteriosa. A este respeito, é interessante reparar que uma das sagas islandesas menciona um guerreiro ferido em 1030 que arranca uma seta do peito e vê pedaços de carne agarrados à ponta; diz então que ainda tem gordura em volta do coração. A maior parte dos eruditos concorda que é um comentário irónico de um guerreiro que sabe que foi ferido mortalmente, e isto faz sentido anatómico.

Em 1874, o historiador americano Robert Miller referiu-se a este trecho de Ibn Fadlan quando ele disse, “Embora fossem guerreiros ferozes, os Viquingues tinham um conhecimento pobre da fisionomia. Os seus homens recebiam instruções para atingir a linha intermédia vertical do corpo do oponente, mas ao fazerem isto, claro, falhavam o coração, pois este está posicionado na parte esquerda do peito”.

O conhecimento deficiente deve ser atribuído a Miller, e não aos Viquingues. Durante as últimas várias centenas de anos, os homens ocidentais comuns acreditaram que o coração estava localizado do lado esquerdo do peito; os Americanos colocam a mão sobre o coração quando juram fidelidade à bandeira; têm uma forte tradição de soldados a serem salvos da morte por uma Bíblia transportada no bolso do peito que para a bala fatal, etc. De facto, o coração é uma estrutura da linha intermédia que se estende até diversos graus do lado esquerdo do peito; mas um ferimento no meio do peito perfura sempre o coração.

 

Algum tempo depois adormeci, e Herger acordou-me da seguinte forma, e bruscamente: senti um grande estampido e um sopro de ar perto da minha cabeça, e quando abri os olhos vi uma seta a abanar na madeira à distância de um cabelo do meu nariz. Esta seta tinha sido disparada por Herger, e ele e todos os outros riram a bandeiras despregadas do meu pavor. Para mim, disse:

Se dormires, vais perder a batalha.

Em resposta, eu disse que, de acordo com a minha maneira de pensar, não seria uma grande perda.

Herger foi então buscar a sua seta e, ao constatar que eu tinha ficado ofendido com a partida de mau gosto, sentou-se a meu lado e conversou de uma forma amigável. Nesta noite, Herger estava com uma disposição muito alegre e divertida. Partilhou comigo uma taça de mead, e falou o seguinte:

Skelestá enfeitiçado. E riu-se.

Skelnão estava muito longe, e Herger falou em voz alta, por isso reconheci que Skelestava a ouvir-nos; porém, Herger estava a falar em latim, que Skelnão compreendia; por isso talvez houvesse outro motivo qualquer que eu não percebi. Naquele momento, Skelestava a afiar as pontas das suas setas e aguardava a batalha. Para Herger eu disse:

Como é que ele está enfeitiçado? Herger respondeu-me:

Se não está enfeitiçado, pode estar a tornar-se árabe, pois lava as roupas interiores e também o corpo todos os dias. Não observaste isto pessoalmente?

Respondi que não. A rir muito, Herger disse:

Skelfaz isto para aquela tal mulher livre, por quem se encantou. Por ela lava-se todos os dias, e comporta-se como um tolo delicado e tímido. Não observaste isto?

Respondi de novo que não. Ao ouvir isto, Herger falou:

Que vês então? e riu muito com a sua piada, que eu não compreendi, nem sequer fingi compreender, pois não estava com disposição para gargalhadas. Herger disse então:

Vocês, Árabes, são demasiado rígidos. Resmungam sempre. Aos vossos olhos nada é merecedor de uma gargalhada.

Eu declarei então que ele tinha dito uma coisa errada. Ele desafiou-me para contar uma história divertida, e eu relatei-lhe o sermão do famoso pregador. Os leitores conhecem-no bem. Um pregador famoso está no púlpito da mesquita, e a toda a volta homens e mulheres juntaram-se para escutar as suas nobres palavras. Um homem, Hamid, veste um vestido e um véu e senta-se no meio das mulheres. O famoso pregador diz: “De acordo com o Islão, é desejável que uma pessoa não deixe os pêlos púbicos ficarem muito compridos”. Uma pessoa pergunta: “Que comprimento é que é comprido de mais, ó pregador?” Todos conhecem esta história; na verdade, é uma anedota ordinária. O pregador replica: “Não devem ser mais compridos do que cevada”. Então Hamipede à mulher que está ao seu lado: “Irmã, por favor verifica e diz-me se os meus pêlos púbicos são mais compridos do que uma cevada”. A mulher põe a mão debaixo das saias de Hamipara apalpar os pêlos púbicos, e a mão toca no órgão dele. Surpreendida, ela solta um grito. O pregador ouve isto e fica muito satisfeito. Para a audiência, diz: “Deviam todos aprender a arte de escutar um sermão, como esta senhora, pois é visível como lhe tocou o coração”. E a mulher, ainda chocada, dá a seguinte resposta: “Não tocou o meu coração, ó pregador; tocou a minha mão”.

Herger escutou todas as minhas palavras com um semblante inexpressivo. Nunca se riu nem sequer sorriu. Quando terminei, ele disse:

O que é um pregador?

Ao ouvir isto eu disse que ele era um homem do Norte estúpido que não sabia nada da vastidão do mundo. E ao ouvir isto ele riu-se, embora não se tivesse rido com a história.

Naquele momento Skelsoltou um grito, e todos os guerreiros de Buliwyf, e eu próprio entre eles, nos virámos para olhar para as colinas, por detrás do manto de nevoeiro. Eis o que vi: muito alto no ar, um ponto de luz brilhante e ardente, como uma estrela em chamas, e a grande distância. Todos os guerreiros o viram, e houve murmúrios e exclamações entre eles.

Pouco depois apareceu um segundo ponto de luz, e ainda outro, e mais outro. Contei mais de uma dúzia e depois desisti de contar. Estes pontos de fogo incandescentes apareceram numa linha, que ondulava como uma cobra, ou, na verdade, como o corpo ondulante de um dragão.

Está pronto agora disse-me Herger, e também o ditado dos homens do Norte: Sorte na batalha. Eu repeti-lhe este desejo com as mesmas palavras, e ele afastou-se.

Os pontos de fogo brilhantes ainda se encontravam à distância, e no entanto estavam a aproximar-se. Ouvi então um som que tomei por um trovão. Era um ribombar profundo e distante que aumentava no ar nublado, como acontece com todos os sons no nevoeiro. Pois no fundo é verdade que no nevoeiro o sussurro de um homem pode ser ouvido a cem passos de distância, tão nítido como se ele estivesse a sussurrar ao nosso ouvido.

Ora observei, e escutei, e todos os guerreiros de Buliwyf apertaram as armas e observaram e escutaram também, e o dragão vaga-lume Korgon aproximou-se sobre nós em trovão e chama. Cada ponto incandescente tornou-se maior, e de um vermelho sinistro, a tremeluzir e a lamber; o corpo do dragão era comprido e tremeluzente, uma visão de aspecto terrivelmente feroz, e no entanto não tive receio, pois determinei então que eram cavalos com archotes, e provou-se que era verdade.

Então, em breve, do nevoeiro emergiram cavaleiros, sombras pretas com archotes erguidos, corcéis pretos a silvar e a carregar, e a batalha começou. Imediatamente o ar nocturno se encheu de berros aterradores e gritos de agonia, pois a primeira carga de cavaleiros tinha alcançado a trincheira, e muitas montadas tropeçaram e caíram, cuspindo os cavaleiros, e os archotes apagaram-se na água. Outros cavalos tentaram saltar a vedação, e ficaram impalados nas estacas afiadas. Uma secção da vedação incendiou-se. Os guerreiros correram em todas as direcções.

Vi então um dos cavaleiros a cavalgar pela secção em chamas da vedação, e consegui ver este wendol claramente pela primeira vez, e na verdade vi isto: num corcel preto cavalgava uma figura humana vestida de preto, mas a sua cabeça era a cabeça de um urso. Fiquei estarrecido durante algum tempo, com o pavor mais terrível, e receei morrer apenas de medo, pois nunca tinha testemunhado uma visão tão atormentadora; todavia, no mesmo momento o machado de mão de Ecthgow enterrou-se profundamente nas costas do cavaleiro, que tombou e caiu, e a cabeça do urso rolou do corpo dele, e eu vi que por baixo ele tinha a cabeça de um homem.

Rápido como um relâmpago, Ecthgow saltou sobre a criatura caída, apunhalou-a profundamente no peito, virou o cadáver, arrancou-lhe o machado das costas, e correu para se juntar à batalha. Eu também me juntei à luta, e fui derrubado pelo golpe de uma lança a meus pés. Muitos cavaleiros encontravam-se agora no interior da vedação, com os archotes a arder; alguns tinham as cabeças de ursos e outros não; fizeram um círculo e tentaram incendiar as habitações e o edifício de Hurot. Para evitar que isso acontecesse, Buliwyf e os seus homens bateram-se valorosamente.

Levantei-me no momento em que um dos monstros do nevoeiro carregou sobre mim com a sua montada. Na verdade, eu fiz o seguinte: firmei bem os pés no chão e levantei a minha lança, e pensei que o impacto me despedaçaria. No entanto, a lança trespassou o corpo do cavaleiro, e ele soltou um grito arrepiante, mas não caiu da sua montada, e continuou a cavalgar. Eu caí, com uma dor lancinante no estômago, mas não fiquei verdadeiramente ferido, a não ser momentaneamente.

Durante o tempo em que esta batalha durou, Herger e Skellançaram muitas setas, e o ar encheu-se dos seus assobios, e atingiram muitos alvos. Vi a seta de Skelatravessar o pescoço de um cavaleiro, e alojar-se ali; e vi também Skele Herger perfurarem ambos um cavaleiro no peito, e tão rapidamente lançaram e voltaram a carregar que este mesmo guerreiro em breve tinha quatro setas enterradas no corpo, e o seu grito foi bastante assustador enquanto cavalgava.

Todavia, fiquei a saber que este feito foi considerado uma luta fraca por Herger e Skeld, pois os homens do Norte acreditam que não há nada sagrado nos animais; portanto, para eles a utilização apropriada de setas é no abate de cavalos, para desmontar o cavaleiro. Dizem disto: “Um homem fora do seu cavalo é meio homem, e duas vezes mais susceptível de ser morto”. E assim procedem sem hesitações1.

Então vi também o seguinte: um cavaleiro enfíou-se na cerca, inclinou-se muito no cavalo preto a galope, e pegou no corpo do monstro que Ecthgow tinha retalhado, colocou-o sobre o pescoço do cavalo, e afastou-se a galope, pois como eu já disse estes monstros do nevoeiro não deixam mortos para serem encontrados à luz da manhã.

A batalha foi travada durante um período de tempo considerável à luz do fogo incandescente que perfurava o nevoeiro. Vi Herger num combate mortal com um dos demónios; eu empunhei outra lança e espetei-a com força nas costas da criatura. Herger, a pingar sangue, ergueu um braço em sinal de agradecimento e voltou a mergulhar na luta. Naquele instante senti um grande orgulho.

Tentei então empunhar a minha lança, e enquanto estava a fazê-lo fui atingido de lado por um cavaleiro que ia a passar, e na verdade lembro-me pouco desse momento. Vi que uma das habitações dos nobres de Rothgar estava a ser devorada por chamas enormes, e que o edifício encharcado de Hurot continuava intocado, e fiquei feliz como se eu próprio fosse um homem do Norte, e foram esses os meus últimos pensamentos.

1 Segundo a lei divina, os Muçulmanos acreditam que “o Mensageiro de Deus proibiu a crueldade para com os animais”. Isto estende-se a pormenores tão mundanos como o mandamento de descarregar animais de carga rapidamente, para que não estejam desnecessariamente carregados Para além do mais, os Árabes tiveram sempre um grande prazer em criar e treinar cavalos. Os Escandinavos não nutriam qualquer sentimento especial em relação aos animais; quase todos os observadores árabes comentaram a falta de afeição pelos cavalos.

Na madrugada, fui despertado por alguma forma de banho na pele do meu rosto, e o toque suave agradou-me. Mas depressa reparei que recebia as ministrações de um cão que me lambia, e senti-me muito como o tolo embriagado, e fiquei mortificado, como pode imaginar-se1.

Vi então que estava deitado no fosso, onde a água estava tão vermelha como o próprio sangue; ergui-me e caminhei pelo complexo coberto de fumo, por todas as formas de morte e destruição. Vi que a terra estava ensopada de sangue, como se tivesse chovido, com muitas poças. Vi os corpos de nobres chacinados, e mulheres e crianças mortas da mesma forma.

 

1 A maior parte dos primeiros tradutores do manuscrito de Ibn Fadlan eram cristãos sem conhecimento da cultura árabe, e a interpretação que fizeram deste trecho reflecte essa ignorância. Numa tradução muito livre, o italiano Lacalla (1847) diz: “De manhã acordei do meu estupor embriagado como um cão vulgar, e senti vergonha do meu estado”. E Skovmand, no seu comentário de 1919, concluiu bruscamente que “uma pessoa não pode dar crédito às histórias de Ibn Fadlan, pois estava embriagado durante as batalhas, e admite-o”. Mais caridosamente, Du Chatellier, um viquingófilo assumido, disse em 1908: “O árabe adquiriu rapidamente o êxtase da batalha que é a própria essência do espírito heróico nórdico”.

Tenho de agradecer a MassuFarzan, o estudioso sufi, por explicar a alusão que Ibn Fadlan está a fazer aqui. Na verdade, está a comparar-se a um personagem de uma piada árabe muito antiga:

Um homem embriagado cai numa poça do seu próprio vomitado à beira da estrada. Um cão aproxima-se e começa a lamber-lhe o rosto. O bêbedo presume que uma pessoa bondosa está a limpar-lhe o rosto, e diz, agradecido, “Que Alá faça os teus filhos agradecidos”. Depois, o cão alça a pata e urina no bêbedo, que responde, “E que Deus te abençoe, irmão, por teres trazido água quente para me lavar o rosto”.

Em árabe, a piada tem a crítica usual à embriaguez, e o aviso subtil de que as bebidas alcoólicas são khmer, ou lixo, tal como a urina.

Provavelmente, Ibn Fadlan esperava que os seus leitores pensassem, não que ele estivesse sempre bêbedo, mas antes que tinha tido a sorte de o cão não ter urinado nele, pois anteriormente tinha escapado à morte na batalha: por outras palavras, é uma referência a ter escapado de novo por um triz.

 

Vi também três ou quatro corpos que estavam carbonizados e calcinados pelo fogo. Todos estes corpos jaziam por todo o lado no chão e eu fui obrigado a manter os olhos baixos para não os pisar, de tal forma estavam amontoados.

Em relação aos trabalhos de defesa, a maior parte da vedação de postes tinha sido consumida pelo fogo. Noutras secções, cavalos jaziam impalados e frios. Aqui e ali viam-se archotes. Não vi nenhum dos guerreiros de Buliwyf.

Não se ouviam gritos nem lamentações no reino de Rothgar, pois o povo do Norte não lamenta nenhum morto, e, muito pelo contrário, havia uma calmaria invulgar no ar. Ouvi um galo cantar, e um cão ladrar, mas nenhumas vozes humanas à luz do dia.

Depois entrei no grande edifício de Hurot, e ali encontrei dois corpos deitados em cima dos juncos, com os elmos sobre o peito. Um deles era Skeld, um conde de Buliwyf; o outro era Helfdane, anteriormente ferido e agora frio e pálido. Estavam ambos mortos. Também vi Rethel, o mais jovem de todos os guerreiros, que estava sentado muito direito num canto e era assistido por escravas. Rethel já tinha sido ferido, mas tinha uma ferida nova no estômago, e via-se muito sangue; seguramente doía-lhe muito, e no entanto ele mostrava unicamente alegria, e sorria e troçava das escravas beliscando-lhes os seios e as nádegas, e muitas vezes elas ralhavam com ele por as distrair enquanto elas tentavam fechar-lhe os ferimentos.

Eis a forma de tratar os ferimentos, segundo a natureza deles. Se um guerreiro é ferido na extremidade, quer num braço quer numa perna, uma ligadura é amarrada na ponta, e panos fervidos em água são colocados sobre o ferimento para o cobrir. Também me foi dito que teias de aranha ou pedaços de lã de carneiro podem ser colocados no ferimento para espessar o sangue e parar a hemorragia; nunca observei isto.

Se um guerreiro for ferido na cabeça ou no pescoço, o ferimento é lavado e examinado pelas escravas. Se a pele estiver rasgada mas os ossos brancos inteiros, então dizem dessa ferida: “Não tem importância”. Mas se os ossos estão estalados ou partidos de alguma forma, nesse caso dizem: “A vida dele esvai-se, e em breve escapará”.

Se um guerreiro for ferido no peito, apalpam-lhe as mãos e os pés, e se estiverem quentes dizem desse ferimento “Não tem importância”. Porém, se esse guerreiro tosse ou vomita sangue, dizem “Ele fala com sangue”, e consideram que se encontra num estado muito grave. Um homem pode morrer das doenças que falam sangue, ou talvez não, como ditar o seu destino.

Se um guerreiro for ferido no abdómen, dão-lhe uma sopa de cebolas e ervas; depois as mulheres cheiram-lhe os ferimentos, e se cheirarem a cebolas, dizem “Tem a doença da sopa”, e sabem que morrerá.

Eu vi com os meus próprios olhos as mulheres prepararem uma sopa de cebola para Rethel, que bebeu alguma quantidade; e as mulheres escravas cheiraram o ferimento dele, e sentiram o odor da cebola. Ao saber isto, Rethel riu-se e disse uma graça, e pediu mead, que lhe foi trazido, e não revelou o mais pequeno sinal de preocupação.

Ora Buliwyf, o chefe, e todos os seus guerreiros conferenciavam noutro local do grande edifício. Juntei-me ao grupo deles, mas ninguém me saudou. Herger, cuja vida eu tinha salvo, não me prestou atenção nenhuma, pois os guerreiros estavam concentrados numa conversa importante. Eu já aprendera um pouco da língua do Norte, mas não o bastante para seguir as palavras que eles proferiam rapidamente e em voz baixa, por isso dirigi-me para outro sítio e bebi um pouco de mead, e senti as dores do meu corpo. Depois, uma mulher escrava veio banhar as minhas feridas. Estas consistiam num golpe na barriga da perna e outro no peito. Eu não tinha sentido estes ferimentos até ao momento em que ela me ofereceu os seus préstimos.

Os homens do Norte lavam os ferimentos com água do oceano, pois acreditam que esta água possui mais poderes curativos do que a água das nascentes. O banho com água do mar não é agradável para a ferida. Na verdade, eu resmunguei com isto, e Rethel riu-se e falou para uma escrava:

Ele ainda é um árabe.

E eu senti-me envergonhado.

Os homens do Norte também lavam os ferimentos com urina de vaca aquecida. Quando isto me foi oferecido, eu recusei.

Os homens do Norte pensam que a urina de vaca é uma substância admirável, e armazenam-na em contentores de madeira. Têm o hábito de a ferver até ficar densa e com um cheiro repelente, e depois empregam este líquido vil para lavar, especialmente as toscas vestes brancas1.

Também me foi dito que, numa altura ou outra, o povo do Norte pode estar envolvido numa prolongada viagem marítima e não ter à mão suprimentos de água potável, e, quando isso acontece, cada homem bebe a sua própria urina, e desta forma

 

1 A urina é uma fonte de amónia, um excelente produto de limpeza.

 

conseguem sobreviver até chegarem a terra. Isto foi-me dito, mas nunca assisti a semelhante coisa, pela graça de Alá.

Herger aproximou-se então de mim, pois a conferência dos guerreiros tinha chegado ao fim. As mulheres escravas que estavam a tratar-me tinham feito as minhas feridas arder muito intensamente; no entanto, eu estava determinado a manter a postura de grande alegria de um homem do Norte. Disse para Herger:

Que coisa sem importância faremos a seguir? Hergerolhou para os meus ferimentos, e disse-me:

Podes montar a cavalo sem grande dificuldade.

Inquiri para onde iria, e para falar verdade perdi imediatamente a alegria, pois estava extremamente fatigado, e não me sentia com vontade para nada a não ser descansar. Herger disse:

Esta noite, o dragão vaga-lume vai atacar outra vez. Mas nós estamos agora demasiado fracos, e o nosso número é reduzido. As nossas defesas estão queimadas e destruídas. O dragão vaga-lume vai matar-nos a todos.

Proferiu estas palavras calmamente. Eu vi isto, e disse para Herger:

Para onde cavalgaremos então?

Eu tinha em mente que, devido às pesadas baixas, Buliwyf e o seu grupo poderia estar a abandonar o reino de Rothgar. E eu não me opunha a isso.

Hergerdisse-me:

Um lobo que fica na sua toca nunca consegue carne, nem um homem adormecido a vitória.

Este é um provérbio dos homens do Norte, e ao ouvi-lo percebi um plano diferente: que íamos atacar a cavalo os monstros do nevoeiro onde eles se encontravam, nas montanhas ou nas colinas. Sem grande entusiasmo, perguntei a Herger quando seria, e Herger disse-me que seria na parte do meio do dia.

Vi então também que uma criança entrou no salão, e que trazia nas mãos um objecto de pedra. O objecto foi examinado por Herger, e era outra das esculturas de pedra sem cabeça que representava uma mulher grávida, inchada e horrenda. Herger gritou uma praga, e largou a pedra das mãos trémulas. Chamou a escrava, que pegou na pedra e a atirou para o fogo, onde o calor das chamas a fez rachar e desfazer-se em fragmentos. Esses fragmentos foram depois atirados para o mar, ou pelo menos foi o que Herger me disse.

Perguntei qual era o significado da pedra esculpida, e ele disse-me:

É a imagem da mãe dos comedores dos mortos, é ela que preside a eles, e que os orienta a comer.

Vi então que Buliwyf, que permanecia no centro do grande salão, estava a olhar para o braço de um dos espíritos malignos, que ainda se encontrava pendurado nas traves. Depois baixou o olhar para os dois corpos dos seus companheiros assassinados, e para o moribundo Rethel, e os seus ombros caíram, e o queixo afundou-se no peito. E depois passou por eles e saiu para o exterior, e eu vi-o colocar a armadura, e empunhar a espada, e preparar-se de novo para a batalha.

 

O DESERTO DE TERROR

Buliwyf pediu sete cavalos robustos, e ao nascer do dia saímos do grande edifício de Rothgar e dirigimo-nos para a planície extensa, e daí para as colinas mais adiante. Connosco seguiam também quatro cães de caça do mais puro branco, animais esplêndidos que eu devia considerar mais próximos dos lobos do que dos cães, tão feroz era o seu comportamento. Isto constituía a totalidade das nossas forças atacantes, e eu acreditava que era um gesto fraco contra um oponente tão formidável, e no entanto os homens do Norte depositam grande fé na surpresa de um ataque inesperado. Igualmente, consideram que cada homem equivale a três ou quatro de quaisquer outros.

Eu não estava disposto a embarcar noutra aventura de guerra, e fiquei muito surpreendido por os homens do Norte não reflectirem numa coisa dessas, pois esses pensamentos deviam-se inteiramente à fraqueza do meu corpo. Herger disse disto:

É sempre assim, agora e em Valhalla que é a ideia que eles têm do céu. Neste céu, que é para eles um grande edifício, os guerreiros lutam desde o nascer até ao pôr do Sol; depois, os que morreram renascem, e todos partilham um banquete à noite, com comida e bebida sem fím; e depois, durante o dia, lutam novamente; e os que morrem renascem, e há um grande banquete; e é esta a natureza do céu deles ao longo de toda a eternidade1. Por isso, nunca acham estranho lutar durante o dia enquanto se encontram na terra.

A direcção do nosso percurso foi determinada pelo trilho de sangue que os cavaleiros tinham deixado ao retirar-se durante a noite. Os cães de caça indicavam o caminho, correndo ao longo deste trilho de pingos de sangue. Parámos apenas uma vez na planície descampada, para apanhar uma arma perdida pelos demónios em fuga. Eis a natureza da arma: era um machado de mão com um cabo de madeira, e uma lâmina de pedra aguçada amarrada ao cabo com tiras de couro. A ponta deste machado era extremamente afiada, e a lâmina tinha sido concebida com perícia, como se esta pedra fosse uma pedra preciosa para ser lapidada ao gosto da vaidade de uma senhora rica. Tal era o refinamento do trabalho do artífice, e a arma era formidável pela agudeza da sua lâmina. Nunca antes tinha visto um objecto como aquele à face da terra. Herger disse-me que os wendol faziam todas as suas ferramentas e armas com esta pedra, ou pelo menos é isso que os homens do Norte crêem.

E seguimos em frente a boa velocidade, conduzidos pelos cães a ladrar, e o ladrar deles animou-me. Por fim, chegámos às colinas. Cavalgámos para as colinas sem hesitação nem cerimónia, cada um dos guerreiros de Buliwyf concentrado no

1 Alguns peritos em mitologia afirmam que os Escandinavos não deram origem a esta ideia de batalha eterna, e que é um conceito celta. Seja qual for a verdade, é perfeitamente razoável que os companheiros de Ibn Fadlan tivessem adoptado o conceito, pois nesta altura os Escandinavos tinham estado em contacto com os Celtas durante mais de cento e cinquenta anos seu objectivo, um grupo silencioso e soturno de homens. Deixavam transparecer os sinais de medo no rosto, e no entanto nenhum homem parou ou vacilou, e continuaram todos em frente.

Agora estava frio nas colinas, nas florestas de árvores verde-escuras, e um vento gelado infiltrava-se nas nossas vestes, e vimos a respiração sibilante das montadas, e vapores brancos da respiração dos cães que corriam à nossa frente, e mesmo assim continuámos o nosso caminho. Depois de viajarmos durante algum tempo, até ao meio do dia, chegámos a uma paisagem nova. Aqui havia um pequeno lago de água salobra, ou terreno pantanoso, ou charneca uma terra desolada, muito semelhante a um deserto, e no entanto não era arenosa nem seca, mas húmida e ensopada, e sobre esta terra pairavam pequenos farrapos de nevoeiro. Os homens do Norte chamam a este local o deserto do terror1.

Vi então com os meus próprios olhos que este nevoeiro jazia sobre a terra em pequenas bolsas ou aglomerados, como nuvens minúsculas sentadas sobre a terra. Numa área, há claridade; depois, noutro lugar, há pequenos nevoeiros que pairam perto do chão, erguendo-se à altura dos joelhos de um cavalo, e nesse local perdíamos os cães de vista, pois ficavam

 

1 literalmente “deserto do terror”. Num estudo de 1927, J. G. Tomlinson realçou que precisamente a mesma frase aparece na Võlsunga Saga, e portanto concluiu que representava um termo genérico para terras tabu. Tomlinson estava aparentemente alheado do facto de que a Võlsunga Saga não diz nada do género; a tradução do século dezanove de William Morris contém de facto a frase “Existe um deserto de terror na parte mais recôndita do mundo”, mas esta frase foi inventada por Morrison, e aparece num dos muitos trechos em que ele disserta acerca da saga germânica original.

 

envoltos nestes nevoeiros. Depois, um momento mais tarde, o nevoeiro levantava, e encontrávamo-nos de novo noutro espaço aberto. Assim era a paisagem da charneca.

Considerei esta paisagem assombrosa, mas os homens do Norte não a consideraram nada especial; disseram que a terra nesta região tem muitas poças pantanosas e nascentes de água a ferver, que se erguem de fendas no chão; nestes lugares, aglomera-se um pequeno nevoeiro, que ali permanece todo o dia e toda a noite. Chamam a isto o lugar dos lagos de vapor.

A terra é difícil para os cavalos, e avançámos com lentidão. Os cães também se aventuravam mais devagar, e reparei que ladravam com menos vigor. Em breve o nosso grupo tinha mudado completamente: de um galope, com cães irrequietos à nossa frente, para um passo lento, com cães silenciosos nada dispostos a indicar o caminho, e, pelo contrário, a recuar até se colocarem debaixo das patas dos cavalos, provocando assim alguma dificuldade ocasional. Continuava muito frio, na verdade mais frio do que antes, e, aqui e ali, vi um pequeno amontoado de neve no chão, embora estivéssemos, segundo os meus cálculos, durante o período do Verão.

A passo lento, prosseguimos durante uma distância apreciável, e eu tinha perguntado a mim mesmo se nos teríamos perdido, e nunca mais encontraríamos o caminho de volta por esta charneca. E então, num determinado local, os cães pararam. Não havia diferença no terreno, nem nenhuma marca ou objecto no chão; e no entanto os cães detiveram-se como se tivessem chegado a alguma vedação ou obstrução palpável. O nosso grupo deteve-se neste local, e olhámos nesta direcção e na outra. Não havia vento, e não se ouviam quaisquer sons; não se ouviam os sons de pássaros nem de qualquer animal vivo, mas apenas silêncio.

Buliwyf disse:

Aqui começa a terra dos wendol e os guerreiros deram pancadinhas nos pescoços das montadas para as confortar, pois estes cavalos estavam inquietos e nervosos nesta região. E assim estavam também os cavaleiros. Buliwyf mantinha os lábios cerrados; as mãos de Ecthgow tremiam enquanto ele segurava as rédeas do cavalo; Herger tinha ficado bastante pálido, e os olhos dele olhavam rapidamente de um lado para o outro; e os outros também vigiavam o caminho.

Os homens do Norte dizem:

O medo tem uma boca branca e vi agora que era verdade, pois estavam todos pálidos à volta dos lábios e da boca. Nenhum homem falou acerca do seu medo.

Deixámos então os cães para trás, e seguimos em frente, para um local onde havia mais neve, que era fina e estalava ao ser pisada, e internámo-nos nos nevoeiros mais densos. Nenhum homem falou, a não ser para os cavalos. A cada passo estes animais tinham relutância em avançar; os guerreiros eram obrigados a instigá-los ccom palavras doces e pontapés fortes. Pouco depois, vimos formas de sombras no nevoeiro à nossa frente, e aproximámo-nos com cautela. Vi então o seguinte com os meus próprios olhos: em cada lado do caminho, montados em postes altos, viam-se os crânios de animais enormes, com as mandíbulas abertas numa postura de ataque. Continuámos, e vi que eram os crânios de ursos gigantes, que os wendol adoram. Herger disse-me que os crânios de urso protegem as fronteiras da terra dos wendol.

Avistámos depois outro obstáculo, cinzento e distante e grande. Aqui havia um rochedo gigante, tão alto como a garupa de um cavalo, e estava esculpido com o formato de uma mulher grávida, com a barriga e os seios inchados, e sem cabeça nem braços nem pernas. Este rochedo estava salpicado com o sangue de alguns sacrifícios; na verdade, tinha veios de sangue, e era uma visão grotesca.

Nenhum homem comentou o que tinha observado. Cavalgámos rapidamente. Os guerreiros desembainharam as espadas e empunharam-nas com prontidão. E notei então uma qualidade dos homens do Norte: que anteriormente mostravam medo, mas depois de entrarem na terra dos wendol, perto da fonte do medo, as apreensões que sentiam desapareceram. Assim parecem fazer todas as coisas de trás para a frente, e de uma forma perplexa, pois na verdade agora pareciam descontraídos. Eram apenas os cavalos que estavam cada vez mais difíceis de controlar.

Eu sentia agora o fedor de carcaças a apodrecer que já tinha cheirado antes no grande edifício de Rothgar; e quando este cheiro chegou de novo às minhas narinas, o meu coração afundou-se. Herger cavalgava ao meu lado e disse em voz suave:

Como te sentes?

Sem ser capaz de esconder a minha emoção, disse-lhe:

Tenho medo.

Herger replicou:

Isso é porque pensas no que está para vir, e imaginas coisas assustadoras que fariam parar o sangue de qualquer homem. Não penses no que está para vir, e sente-te feliz ao pensar que nenhum homem vive eternamente.

Eu vi a verdade das palavras dele.

Na minha sociedade respondi temos um ditado que diz: “Agradece a Alá, pois na sua sabedoria ele põe a morte no fím da vida, e não no princípio”.

Herger sorriu ao ouvir as minhas palavras, e soltou uma breve gargalhada.

Com medo, até mesmo os árabes falam verdade disse ele, e depois seguiu para a frente para relatar as minhas palavras a Buliwyf, que também riu. Os guerreiros de Buliwyf ficaram gratos com uma piada naquela altura.

Subimos então uma colina e, ao chegarmos ao cume, parámos e olhámos para baixo, para o acampamento dos wendol. Eis como ele se estendia diante de nós, como eu vi com os meus próprios olhos: havia um vale, e no vale um círculo de cabanas toscas de lama e palha, de construção deficiente que parecia feita por uma criança; e no centro do círculo uma grande fogueira, agora a arder em fogo lento. Todavia, não se viam cavalos, nem animais, nenhum movimento, nem sinal de vida de qualquer espécie; e vimos isto através das diferentes densidades do nevoeiro.

Buliwyf desmontou da sua montada, e os guerreiros imitaram-no, e eu também. Na verdade, o meu coração batia acelerado e eu estava com falta de ar enquanto olhava para o acampamento selvagem dos demónios. Falámos em sussurros.

Por que é que não há actividade? inquiri eu.

Os wendol são criaturas da noite, como os mochos ou os morcegos replicou Herger, e dormem durante as horas do dia. Por isso estão a dormir agora, e vamos descer para junto deles, e cair sobre eles, e assassiná-los enquanto dormem.

Somos tão poucos disse eu, pois podia ver que havia muitas cabanas.

Somos os suficientes - disse Herger, e depois deu-me um trago de mead, que bebi agradecido, louvando Alá por essa bebida não ser proibida, nem sequer desaprovada1. Na verdade, estava a descobrir que a minha língua recebia com agrado esta mesma substância que em tempos considerara vil; é que as coisas estranhas deixam de ser estranhas devido à repetição. De forma semelhante, já não notava o fedor hediondo dos wendol, pois já o sentia há bastante tempo e deixara de me aperceber do odor.

O povo do Norte é muito peculiar na questão do cheiro. Não são limpos, como já disse; e comem todos os tipos de comida e bebida perversa; e no entanto é verdade que valorizam o nariz acima de todas as partes do corpo. Em batalha, a perda de uma orelha não é um grande problema; a perda de um dedo da mão ou do pé ou de uma mão é um problema um pouco maior; e ostentam essas cicatrizes e ferimentos com indiferença. Mas a perda de um nariz é considerada como a própria morte, nem que seja unicamente a perda de um pedaço da ponta, que outros povos considerariam um ferimento sem a menor gravidade.

O quebrar dos ossos do nariz, numa batalha ou devido a pancadas, não tem importância; muitos deles têm narizes tortos por essa razão. Não conheço o motivo para este medo de cortar o nariz2.

 

1A injunção islâmica contra o álcool é literalmente uma injunção contra o fruto fermentado da uva; isto é, o vinho. Bebidas fermentadas de mel são especificamente permitidas aos muçulmanos.

2 A explicação psiquiátrica habitual para estes medos de perda de partes do corpo é que elas representam ansiedade de castração.

 

Fortalecidos, os guerreiros de Buliwyf, e eu entre eles, deixámos os nossos cavalos nas colinas, mas esses animais não podiam ficar sozinhos, pois estavam extremamente assustados. Um dos elementos do nosso grupo iria ficar com eles, e eu tinha a esperança de ser seleccionado para esta tarefa; no entanto, o escolhido foi Haltaf, que já estava ferido e era de pouca utilidade. Assim, descemos prudentemente a colina entre os arbustos enfezados e moribundos pela encosta até ao acampamento dos wendol. Movemo-nos sub-repticiamente, e não foi soltado nenhum alarme, e dentro de pouco tempo estávamos no próprio coração da aldeia dos demónios.

Buliwyf nunca falou, mas deu todas as direcções e ordens com as mãos. E por ele compreendi que devíamos ir em grupos de dois guerreiros, cada par numa direcção diferente. Herger e eu tínhamos de atacar a mais próxima das cabanas de lama, e os outros iam atacar outras. Esperámos todos até os grupos estarem posicionados do lado de fora das cabanas, e depois, com um grito, Buliwyf ergueu a sua grande espada Runding e liderou o ataque.

Eu corri com Herger para uma das cabanas, com o sangue a latejar na cabeça, e a espada leve como uma pluma nas mãos. Na verdade, estava preparado para a maior batalha da minha vida. Não vi nada no interior; a cabana estava deserta e

1937, Deformations of Body Image in Primitive Societies, Engelhardt observa que muitas culturas são explícitas acerca desta crença. Por exemplo, os Nanamani do Brasil castigam os ofensores sexuais cortando-lhes a orelha esquerda; pensa-se que isto reduz a potência sexual. Outras sociedades conferem importância à perda de dedos das mãos, dos pés, ou, no caso dos homens do Norte, do nariz. É uma superstição vulgar em muitas sociedades que o tamanho do nariz de um homem reflecte o tamanho do seu pénis.

Também vazia, com excepção de toscas camas de palha, de aparência tão atabalhoada que se assemelhavam mais a ninhos de algum animal.

Corremos para o exterior, e atacámos a cabana seguinte. Também esta encontrava-se vazia. Na verdade, todas as cabanas estavam vazias, e os guerreiros de Buliwyf ficaram profundamente vexados e olharam uns para os outros com uma expressão de surpresa e de terror.

Depois Ecthgow chamou-nos, e reunimo-nos numa dessas cabanas, maior que qualquer uma das outras. E depois de entrar vi que estava deserta como todas as outras estavam desertas, mas o interior não estava vazio. Ao invés disso, o chão da cabana estava repleto de ossos frágeis, que estalavam por baixo dos nossos pés como ossos de pássaros, delicados e frágeis. Fiquei extremamente surpreendido com isto, e inclineime para verificar a natureza destes ossos. Com um choque, vi a linha curva de uma órbita aqui, e alguns dentes ali. Na verdade, estávamos em cima de uma carpete de ossos de rostos humanos, e para mais provas desta verdade perturbadora, empilhados contra uma parede da cabana, viam-se as partes de cima de crânios humanos, amontoados de forma invertida como tantas taças de barro, mas resplandecentemente brancos. Fiquei agoniado, e saí da cabana para me purgar. Herger disse-me que os wendol comem os miolos das vítimas, como uma pessoa humana pode comer ovos ou queijo.

É este o costume deles; por muito vil que seja contemplar uma coisa destas, no entanto é a verdade.

Então, outro dos guerreiros chamou-nos, e entrámos noutra cabana. Aqui, vi o seguinte: a cabana estava vazia, com excepção de uma grande cadeira que se assemelhava a um trono, esculpido a partir de um único pedaço enorme de madeira. Esta cadeira tinha umas costas altas em forma de leque, esculpidas com a forma de cobras e demónios. Aos pés desta cadeira viam-se ossos de crânios espalhados, e sobre os braços da cadeira, onde o proprietário podia descansar as mãos, havia sangue e os restos de uma substância esbranquiçada e semelhante a queijo, que era matéria de cérebro humano. Neste aposento o cheiro era nauseabundo.

Colocadas em volta desta cadeira viam-se pequenas esculturas de pedra de mulheres grávidas, como as que eu já descrevi anteriormente; estas esculturas formavam um círculo ou perímetro em volta da cadeira.

Herger disse:

É aqui que ela governa e a sua voz soou baixa e com temor.

Eu não consegui entender o que ele quis dizer, e fiquei enjoado de coração e estômago. Esvaziei o estômago no solo. Herger e Buliwyf e os outros também ficaram perturbados, embora nenhum homem se tivesse purgado, e em vez disso pegaram em brasas incandescentes da fogueira e incendiaram as cabanas. Elas arderam lentamente, pois estavam húmidas.

Depois subimos a colina, montámos nos cavalos, abandonámos a região dos wendol, e partimos do deserto do terror. E todos os guerreiros de Buliwyf estavam agora tristes de aspecto, pois os wendol tinham-nos suplantado em astúcia e esperteza, abandonando o covil em antecipação do ataque, e não considerariam a destruição das habitações uma grande perda.

 

O CONSELHO DO ANÃO

Regressámos como tínhamos vindo, mas cavalgámos com maior velocidade pois os cavalos estavam agora ansiosos, e acabámos por descer as colinas e vimos a planície plana e, à distância, à beira do oceano, o acampamento e o grande edifício de Rothgar.

Então Buliwyf desviou-se e levou-nos noutra direcção, para as altas escarpas varridas pelos ventos do oceano. Eu cavalguei ao lado de Herger e inquiri o motivo desta atitude, e ele disse que íamos procurar os anões da região.

Com isto fiquei muito surpreendido, pois os homens do Norte não têm anões entre eles; nunca são vistos nas ruas, nem se sentam nos banquetes de reis, nem se encontra nenhum a contar dinheiro ou a manter registos, nem qualquer uma das coisas que os anões costumam fazer1. Nenhum homem do Norte tinha jamais mencionado anões na minha presença, e eu tinha presumido que um povo tão gigante nunca produziria anões.

1 No Mediterrâneo, desde os tempos egípcios, os anões eram considerados especialmente inteligentes e confiáveis, e as tarefas de contabilidade e manuseamento de dinheiro estavam-lhes reservadas.

De aproximadamente noventa esqueletos que podem ser atribuídos com confiança ao período viquingue na Escandinávia, a altura média parece ser de cerca de 170 centímetros.

Chegámos então a uma região de cavernas, ocas e varridas pelo vento, e Buliwyf desmontou do seu cavalo, e todos os seus guerreiros fizeram o mesmo, e prosseguiram a pé. Eu ouvi um som sibilante, e na verdade vi baforadas de fumo a sair de algumas destas muitas cavernas. Entrámos numa caverna e ali encontrámos anões.

A aparência deles era a seguinte: do tamanho normal dos anões, mas distinguidos por cabeças de grandes dimensões, e com feições que pareciam excessivamente idosas. Havia anões machos e fêmeas, e todos tinham a aparência de serem muito idosos. Os machos tinham barba e um ar solene; as mulheres também tinham alguns pêlos no rosto, por isso tinham um aspecto masculino. Cada anão tinha uma veste de pele ou zibelina; cada um deles tinha igualmente um cinto fino de couro decorado com pedaços de ouro martelado.

Os anões saudaram delicadamente a nossa chegada, sem qualquer sinal de medo. Herger disse que estas criaturas têm poderes mágicos e não precisam de recear qualquer homem na terra; todavia, têm receio de cavalos, e por este motivo tínhamos deixado as nossas montadas para trás. Herger disse também que os poderes de um anão residem neste cinto fino, e que um anão fará qualquer coisa para recuperar o seu cinto se ele se perder.

Herger também disse o seguinte: que a aparência de grande idade entre os anões era uma coisa verdadeira, e que um anão vivia para além da vida de qualquer homem normal. Também me disse que estes anões são viris desde muito jovens; que já em bebés têm pêlos nas virilhas, e membros de um tamanho invulgar. De facto, é desta forma que os pais tomam conhecimento de que o seu bebé é um anão, e uma criatura de magia, que tem de ser levada para as colinas para viver com os outros da sua espécie. Feito isto, os pais dão graças aos deuses e sacrificam um animal qualquer, pois dar à luz um anão é considerado um sinal de muito boa sorte.

É esta a crença do povo do Norte, como Hergerfalou, e eu não sei a verdade da questão, e relato unicamente o que me foi dito.

Vi então o silvo e vapor que saía de grandes caldeirões, dentro dos quais tinham sido mergulhadas lâminas de aço martelado para temperar o metal, pois os anões fazem armas que são extremamente apreciadas pelos homens do Norte. De facto, eu vi os guerreiros de Buliwyf a olhar ansiosamente nas cavernas, como qualquer mulher numa loja de um bazar a vender sedas preciosas.

Buliwyf fez perguntas a estas criaturas, e foi levado para a mais elevada das cavernas, onde se sentava um único anão, mais velho do que todos os outros, com uma barba e cabelo do mais puro branco, e uma face vincada e enrugada. Este anão chamava-se “tengol”, que significa juiz do bem e do mal, e também um adivinho.

Este tengol tinha de ter os poderes mágicos que todos diziam que tinha, pois ele cumprimentou imediatamente Buliwyf chamando-o pelo nome, e convidou-o a sentar-se com ele. Buliwyf sentou-se, e nós reunimo-nos a alguma distância, de pé.

Buliwyf não presenteou o tengol com presentes; os homens do Norte não prestam homenagem a este pequeno povo: acreditam que os favores de um anão têm de ser dados livremente, e que é errado encorajá-los com presentes. Então Buliwyf sentou-se, e o tengol olhou para ele, e depois fechou os olhos e começou a falar, a baloiçar-se para trás e para a frente quando se sentou. O tengol falou em voz alta como uma criança, e Hergerdisse-me que o significado era o seguinte:

Ó Buliwyf, és um grande guerreiro, mas encontraste o teu igual nos monstros do nevoeiro, os comedores dos mortos. Será uma luta até à morte, e precisarás de toda a tua força e sabedoria para ultrapassar o desafio.

E continuou desta forma durante bastante tempo, a baloiçar-se para trás e para a frente. O significado era que Buliwyf enfrentava um adversário difícil, que eu já conhecia bastante bem, e também o próprio Buliwyf. No entanto, Buliwyf foi paciente.

Também notei que Buliwyf não se ofendeu quando o anão se ria dele, o que aconteceu com frequência. O anão falou:

Vieste até mim porque atacaste os monstros no pântano de água salobra, e não conseguiste nada. Vens então ter comigo para conselho e admoestação, como um filho ao seu pai, dizendo o que farei agora, pois todos os meus planos saíram gorados.

O tengol riu durante muito tempo depois deste discurso. Em seguida, o rosto idoso ficou solene.

Ó Buliwyf disse ele, vejo o futuro, mas não posso dizer-te mais do que tu já sabes. Tu e todos os teus valentes guerreiros reuniram a vossa habilidade e coragem para perpetrar um ataque aos monstros no deserto do terror. Com isto equivocaste-te, pois não foi um verdadeiro empreendimento de herói.

Ouvi estas palavras com espanto, pois a mim tinha-me parecido um acto bastante heróico.

Não, não, nobre Buliwyf disse o tengol. Partiste para uma missão falsa, e no fundo do teu coração de herói sabias que não valia a pena. Da mesma forma que a tua batalha contra o dragão korgon foi inútil, e te custou a vida de muitos e bons guerreiros. Qual o objectivo de todos os teus planos?

Buliwyf continuou sem responder. Sentou-se com o anão e esperou.

O grande desafio de um herói disse o anão está no coração e não no adversário. Que importaria se tivesses encontrado os wendol no covil deles e tivesses morto muitos deles enquanto dormiam? Podias matar muitos, e mesmo assim isso não terminaria a luta, da mesma forma que cortar os dedos não mata o homem. Para matares o homem, tens de lhe furar a cabeça ou o coração, e o mesmo sucede com os wendol. Sabes tudo isto, e não precisas do meu conselho para o saber.

E assim o anão, a baloiçar-se para trás e para a frente, castigou Buliwyf. E Buliwyf aceitou as suas censuras, pois não respondeu, e limitou-se a baixar a cabeça.

Fizeste o trabalho de um simples homem continuou o tengol, e não o de um verdadeiro herói. Um herói faz o que nenhum homem se atreve a fazer. Para matar os wendol, tens de lhes atingir a cabeça e o coração: tens de vencer a própria mãe deles, nas cavernas do trovão.

Eu não entendi o significado daquelas palavras.

Tu tens conhecimento disto, pois tem sido sempre verdade, ao longo de todas as eras do homem. Os teus valentes guerreiros morrerão um por um? Ou atingirão a mãe nas cavernas? Aqui não há profecia, apenas a escolha entre um homem ou um herói.

Buliwyf deu então uma resposta, mas em voz baixa, e que se perdeu no uivar do vento que fustigava a entrada da caverna. Fossem quais fossem as palavras, o anão continuou a falar:

Essa é a resposta do herói, Buliwyf, e não esperaria outra de ti. Por isso te ajudarei na tua perseguição.

Depois, diversos seres da sua espécie avançaram para a luz, vindos dos recessos escuros da caverna. E traziam muitos objectos.

Aqui disse o tengol estão tiras de corda, feitas com a pele de focas apanhadas aquando do primeiro derretimento do gelo. Estas cordas ajudar-vos-ão a alcançar a entrada do oceano para as cavernas do trovão.

Agradeço-te disse Bulywif.

E aqui também disse o tengol tens sete punhais, forjados com vapor e magia, para ti e para os teus guerreiros. Grandes espadas não terão qualquer utilidade nas cavernas do trovão. Usem estas novas armas com coragem, e conseguirão tudo o que desejam.

Buliwyf pegou nos punhais, e agradeceu ao anão. Levantou-se.

Quando faremos este ataque? perguntou.

Ontem é melhor do que hoje replicou o tengol, e amanhã é melhor do que no dia que se segue a esse. Por isso apressem-se, e cumpram as vossas intenções com um coração firme e um braço forte.

E que se segue se conseguirmos? perguntou Buliwyf.

Então os wendol ficarão mortalmente feridos, e o castigo abater-se-á uma última vez na morte deles, e depois desta última agonia a terra terá paz e luz do sol durante toda a eternidade. E o teu nome será cantado gloriosamente em todas as casas das terras do Norte, para sempre.

Os feitos dos homens mortos são assim cantados disse Buliwyf.

Isso é verdade disse o anão, e riu-se novamente, a risadinha de uma criança ou de uma rapariguinha. E também os feitos dos heróis que vivem, mas nunca são cantados os feitos dos homens vulgares. Tu sabes tudo isto.

Buliwyf partiu então da caverna, e deu a cada um de nós um punhal feito pelos anões, e nós descemos dos desfiladeiros rochosos e fustigados pelo vento, e regressámos ao reino e ao grande edifício de Rothgar quando a noite começava a cair.

Todas estas coisas aconteceram, e eu testemunhei-as com os meus próprios olhos.

 

OS ACONTECIMENTOS DA NOITE QUE ANTECEDEU O ATAQUE

Naquela noite não houve nevoeiro; a neblina desceu das colinas mas permaneceu no meio das árvores, e não se infiltrou na planície. No grande edifício de Rothgar, foi feito um faustoso banquete, e Buliwyf e todos os seus guerreiros participaram na grande celebração. Dois grandes carneiros1 com chifres foram mortos e consumidos; cada homem bebeu vastas quantidades de mead; o próprio Buliwyf manteve relações com meia dúzia de raparigas escravas, e talvez mais; mas, apesar deste divertimento, nem ele nem os seus guerreiros estavam verdadeiramente alegres. De tempos a tempos, vi-os olhar de relance para as cordas de pele de foca e para os punhais dos anões, que tinham sido colocados de parte, num canto.

Eu juntei-me então à alegria geral, pois sentia-me um deles, já que passara muito tempo na companhia de todos, ou pelo menos assim me parecia. De facto, naquela noite senti que era como se tivesse nascido um homem do Norte.

 

1 Dahlmann (1924) escreve que “para ocasiões cerimoniais o carneiro não castrado era comido para aumentar a potência, pois o animal macho com chifres era considerado superior à fêmea”. Na verdade, durante este período tanto os carneiros não castrados como as ovelhas tinham chifres.

 

Herger, muito embriagado, falou-me livremente sobre a mãe dos wendol. Disse o seguinte:

A mãe dos wendol é muito velha e vive nas cavernas do trovão. Essas cavernas do trovão situam-se nos rochedos dos penhascos, não muito longe daqui. As cavernas têm duas aberturas, uma por terra e outra por mar. Mas a entrada por terra é guardada pelos wendol, que protegem a velha mãe; é por isso que não podemos atacar pelo lado de terra, já que dessa forma seríamos todos mortos. Portanto, atacaremos por mar.

Eu perguntei-lhe:

Qual é a natureza desta mãe dos wendol?

Hergerdisse que nenhum homem do Norte conhecia essa coisa, mas que se dizia entre eles que ela era velha, mais velha do que a velha enrugada a quem chamam anjo da morte; e também que tinha um aspecto aterrorizador e também que usava cobras sobre a cabeça, como uma grinalda; e também, para além de tudo isso, que era forte para lá de todas as coisas. E, por fim, disse-me que os wendol se lhe dirigem em todos os assuntos da vida1. Seguidamente, Hergervirou-se para o outro lado e adormeceu.

1 Joseph Cantrell observa que “existe uma corrente na mitologia germânica e dos países do Norte que defende que as mulheres têm poderes especiais, qualidades de magia, e que devem ser receadas pelos homens, que devem desconfiar delas. Os deuses principais são todos homens, mas as Valquírias, que significa literalmente ’escolhedoras dos assassinados’, são mulheres que transportam guerreiros mortos para o Paraíso. Acreditava-se que existiam três Valquírias, como havia três Norns, ou Destinos, que se encontravam presentes aquando do nascimento de cada homem, e determinavam o resultado da sua vida. As Norns chamavam-se Urth, o passado; Verthandi, o presente; e Skuld, o futuro. As Norns ’tecem’ o destino de um homem, e a tecelagem era um trabalho destinado às mulheres.

Ora, aconteceu o seguinte: nas profundezas da noite, quando as celebrações estavam a chegar ao fim e os guerreiros estavam a começar a adormecer, Buliwyf avistou-me. Sentou-se a meu lado e bebeu meade uma taça em forma de chifre. Eu vi que ele não estava embriagado, e ele falou lentamente na língua do Norte, para eu conseguir compreender o que ele me queria dizer.

Disse-me primeiro:

Compreendeste as palavras do anão tengol?

Eu repliquei que sim, com a ajuda de Herger, que ressonava agora perto de nós. Buliwyf disse-me:

Então sabes que vou morrer. Falou assim, com os olhos claros e o olhar firme. Eu não consegui dar-lhe nenhuma resposta, mas por fim disse-lhe, ao estilo do Norte: Não acredites em nenhuma profecia até ela dar fruto1.

Representações populares são mostradas como jovens donzelas. Wyrd, uma divindade anglo-saxónica que governava o destino, também era uma deusa. Presumivelmente, a associação de mulheres com destino de homem era uma permuta de conceitos anteriores de mulheres como símbolos de fertilidade; as deusas da fertilidade controlavam o crescimento e florescimento das culturas e das coisas vivas na terra”.

Cantrell também refere que “na prática, sabemos que a divinação, o lançamento de feitiços, e outras funções xamanistas estavam reservadas a mulheres mais velhas na sociedade do Norte. Para além do mais, as ideias populares de mulheres continham um pesado elemento de suspeição. De acordo com os Havamal, ’Ninguém deveria confiar nas palavras de uma rapariga ou de uma mulher casada, pois os seus corações foram formados numa roda a girar e elas são inconstantes por natureza’”.

Bendixon diz: “Entre os primeiros escandinavos havia uma espécie de divisão de poder em função do sexo. Os homens governavam os assuntos físicos; as mulheres, os assuntos psicológicos”.

 

1 Esta é uma paráfrase de um sentimento entre os homens do Norte, expressa plenamente como: “Não louves o dia antes de a noite chegar; uma mulher antes de estar cremada; uma espada antes de ser experimentada;

Buliwyf disse:

Viste muito da nossa forma de vida. Diz-me apenas a verdade. Desenhas sons? Eu respondi que sim. Então fica atento à nossa segurança, e não sejas excessivamente corajoso. Agora vestes-te e falas como um homem do Norte, e não como um homem estrangeiro. Certifica-te de que vives.

Eu pousei a mão no ombro dele, como vira os seus companheiros guerreiros fazerem para o cumprimentar. Então ele sorriu:

Não receio coisa alguma disse , nem preciso de consolo. Digo-te que cuides da tua segurança, para teu próprio bem. Agora é mais sensato dormirmos.

Falando assim, afastou-se de mim, e concentrou-se na rapariga escrava, que satisfez a menos de doze passos do local onde eu me encontrava, e eu virei-me a ouvir os gemidos e risos desta mulher. E por fim acabei por adormecer.

uma donzela antes de estar casada; gelo antes de ter sido atravessado; cerveja antes de ter sido bebida”. Este ponto de vista prudente, realista, e de certa forma cínico da natureza humana e do mundo era uma coisa que os Escandinavos e os Árabes partilhavam. E, tal como os Escandinavos, os Árabes expressam-no muitas vezes em termos mundanos ou satíricos. Há uma história sufi acerca de um homem que perguntou a um sábio- “Supõe que estou a viajar no campo e tenho de fazer abluções no regato Para que direcção me volto enquanto efectuo o ritual?” A isto, o sábio replica: “Na direcção das tuas vestes, para que não sejam roubadas”.

 

AS CAVERNAS DO TROVÃO

Antes de os primeiros raios rosados da alvorada iluminarem o céu, Buliwyf e os seus guerreiros, e eu próprio entre eles, partimos a cavalo do reino de Rothgar e seguimos a margem rochosa acima do mar. Neste dia eu não me sentia em forma, pois doía-me a cabeça; o meu estômago também estava debilitado por causa da celebração da noite anterior. Seguramente, todos os guerreiros de Buliwyf estavam nas mesmas condições, e porém nenhum homem deu mostras destes desconfortos. Cavalgámos velozmente, à beira dos penhascos que em toda a costa são altos e proibitivos, e muito íngremes; como se fossem uma folha de pedra cinzenta caem para o mar cheio de espuma e turbulento muito abaixo. Em alguns locais ao longo deste litoral existem praias rochosas, mas muitas vezes a terra e o mar encontram-se directamente, e as ondas esmagam-se como trovões nas rochas; e eram estas as circunstâncias na maior parte dos sítios.

Vi Herger, que transportava sobre o seu cavalo as cordas de pele de foca dos anões, e aproximei-me para cavalgar ao lado dele. Inquiri sobre o nosso objectivo neste dia. Na verdade, não me importava grandemente, pois a minha cabeça doía atrozmente e o meu estômago ardia.

Herger disse-me:

Esta manhã, atacamos a mãe dos wendol nas cavernas do trovão. Faremos isto atacando pelo mar, como te disse ontem.

Enquanto seguia o meu caminho, olhei do meu cavalo para o mar, que se esmagava contra os penhascos rochosos.

Atacamos de barco? perguntei a Herger.

Não disse Herger, e bateu com a mão nas cordas de pele de foca.

Depois compreendi que o que ele queria dizer-me era que iríamos descer pelos desfiladeiros com as cordas, e de alguma forma entrar nas cavernas. Fiquei extremamente assustado com esta perspectiva, já que nunca gostei de estar exposto em locais elevados; evitava até os edifícios altos na Cidade da Paz. E foi o que lhe disse.

Herger disse-me:

Sê agradecido, pois tens sorte.

Perguntei qual era a origem da minha boa sorte. À laia de resposta, Herger disse:

Se tens receio de lugares altos, então neste dia vais ultrapassar esse medo; e assim terás enfrentado um grande desafio; e por isso serás considerado um herói.

Eu retorqui-lhe:

Eu não quero ser um herói.

Ao ouvir isto ele riu-se e disse que eu expressava essa opinião apenas porque era um árabe. Depois disse também que tinha uma cabeça dura, que é como os homens do Norte se referem à ressaca de uma noite de bebida. Isto era verdade, como já contei.

Também é verdadeiro que eu estava muito preocupado com a perspectiva de descer um rochedo. Na verdade, sentia o seguinte: que preferia efectuar alguma acção à face da terra, quer tivesse de me deitar com uma mulher durante a menstruação, beber de uma taça de ouro, comer o excremento de um porco, arrancar os meus próprios olhos, ou até morrer todas estas coisas teriam sido preferíveis a descer aquele maldito rochedo. E também estava de mau humor. A Herger, disse:

Tu e Buliwyf e todo o vosso grupo podem ser heróis se vos aprouver, mas eu não tomo parte neste assunto, e não farei parte do vosso número.

Ao ouvir este discurso, Herger soltou uma gargalhada. Depois chamou Buliwyf e falou-lhe rapidamente; Buliwyf respondeu-lhe por cima do ombro. Depois, Herger falou para mim:

Buliwyf diz que farás o que nós fizermos.

Na verdade, mergulhei então num grande desespero, e disse para Herger:

Não posso fazer isto. Se me forçarem, morrerei seguramente.

Herger disse:

Como é que morrerás? Eu disse-lhe:

Não conseguirei manter-me agarrado às cordas.

Esta resposta fez Herger rir a bandeiras despregadas uma vez mais, e ele repetiu as minhas palavras a todos os homens do Norte, e todos se riram com o que eu tinha dito. Depois, Buliwyf proferiu algumas palavras.

Herger disse-me:

Buliwyf diz que só não vais conseguir manter-te agarrado às cordas se as soltares, e apenas um tolo faria tal coisa. Buliwyf diz que és um árabe, mas não és tolo.

Ora, eis um aspecto verdadeiro da natureza dos homens: desta forma Buliwyf disse que eu podia descer pelas cordas; e com o discurso dele eu acreditei tanto como ele, e o meu coração alegrou-se um pouco mais. Herger percebeu isto, e proferiu a seguintes palavras:

Cada pessoa tem um medo que é especial para si. Um homem receia um espaço reduzido e outro homem receia morrer afogado; cada um ri-se do outro e chama-lhe estúpido. Portanto, o medo é apenas uma preferência, que deve ser considerada como a preferência por uma mulher ou outra, ou por carneiro ao invés de porco, ou couve em vez de cebola. Nós dizemos, medo é medo.

Eu não estava com disposição para as filosofias dele; e foi isso mesmo que lhe disse, pois na verdade estava a ficar mais perto da fúria do que do medo. Herger riu-se então de mim e falou as seguintes palavras:

Louvai Alá, pois ele coloca a morte no fim da vida, e não no princípio.

Bruscamente, eu respondi-lhe que não via vantagem em precipitar o fim.

Na verdade, nenhum homem vê replicou-me Herger, e depois disse: Olha para Buliwyf. Vê como se senta direito. Vê como cavalga em frente, embora saiba que vai morrer dentro de pouco tempo.

Eu respondi:

Eu não sei se ele vai morrer.

Sim disse Herger, mas Buliwyf sabe. Depois, Herger não me disse mais nada, e prosseguimos durante um período de tempo considerável, até o sol estar alto e brilhante no céu. Depois, por fim, Buliwyf deu o sinal para pararmos, e todos os cavaleiros desmontaram, e prepararam-se para entrar nas cavernas do trovão.

Ora, eu sabia bem que estes homens do Norte são profundamente corajosos, mas quando olhei para o precipício do penhasco abaixo de nós, o meu coração revirou-se dentro do peito, e achei que devia estar a purgar-me a qualquer instante. Na verdade, o rochedo era absolutamente perpendicular, e não tinha o menor apoio para mãos ou pés, e a descida prolongava-se por uma distância de talvez quatrocentos passos. Na verdade, as ondas que se esmagavam encontravam-se tão abaixo de nós que pareciam ondas em miniatura, minúsculas como o quadro mais delicado de um artista. Todavia, eu sabia que eram grandes como quaisquer ondas na terra, uma vez que descêssemos para aquele nível.

Para mim, a perspectiva de ter de descer estes rochedos era loucura para além da loucura de um cão com raiva. Mas os homens do Norte procederam de uma forma natural. Buliwyf orientou a colocação de fortes estacas de madeira na terra; as cordas de pele de foca foram amarradas à volta destas estacas, e as pontas compridas baloiçavam nas bordas dos rochedos.

Na verdade, as cordas não eram suficientemente compridas para uma descida tão grande, e por conseguinte tiveram de ser içadas novamente, e duas cordas foram amarradas uma à outra para fazerem uma única que chegasse às ondas, no fundo.

A seu tempo, tínhamos duas cordas que chegavam ao fundo do precipício. Depois Buliwyf falou para os seus homens:

Primeiro, vou eu, para que quando chegar ao fundo todos saibam que as cordas são resistentes e a descida pode ser efectuada. Espero-vos no fundo, na saliência estreita que vêem lá em baixo.

Eu olhei para a saliência estreita que ele apontava. Chamar-lhe estreita é o equivalente a chamar delicado a um camelo. Na verdade, era a tira mais fina de uma rocha lisa que se pode imaginar, continuamente varrida e fustigada pela maré.

Quando tivermos chegado todos ao fundo disse Buliwyf, podemos atacar a mãe dos wendol nas cavernas do trovão. Assim falou, numa voz tão normal como aquela com que comandaria um escravo na preparação de um guisado vulgar ou qualquer outra tarefa doméstica. E, sem mais palavra, passou a borda da escarpa.

Ora, eis a forma de descer, que eu achei notável, mas os homens do Norte não a consideram nada de especial. Hergerdisse-me que eles usam este método para apanhar ovos de aves marinhas em determinadas épocas do ano, quando as aves marinhas constróem os ninhos à face da escarpa. É feito da seguinte forma: uma linga é colocada à cintura do homem que efectua a descida, e todos os companheiros fazem força para o descer pelo rochedo. Entretanto, este mesmo homem amarra-se, para se apoiar, na segunda corda, que baloiça na face do penhasco. Para além do mais, o homem que está a efectuar a descida leva um pedaço resistente de madeira de carvalho, amarrado numa ponta com uma tira de couro, ou pano, à volta do pulso; usa este utensílio como aguilhão para se lançar para um lado e para o outro à medida que desce pela superfície rochosa1.

 

1 Nas ilhas Faeroe, na Dinamarca, ainda se pratica um método semelhante de escalada de rochedos para apanhar ovos de pássaros, uma fonte importante de alimentação para os habitantes das ilhas.

 

Enquanto Buliwyf descia, tornando-se cada vez mais pequeno aos meus olhos, vi que ele manobrava a linga, a corda e o pau com muita agilidade; mas não me enganei a ponto de pensar que era uma coisa trivial, pois vi que era difícil e que requeria muita prática.

Por fim, chegou em segurança ao fundo e parou na saliência estreita com as ondas a baterem contra ele. Na verdade, estava tão pequeno que nós mal conseguíamos vê-lo a acenar a mão, num sinal de que estava em segurança. A linga foi então içada; e com ela também o pau de carvalho. Herger voltou-se para mim, e disse:

Tu irás a seguir.

Eu disse que não me estava a sentir bem. Disse também que desejava ver outro homem descer, para poder estudar melhor a forma de descida.

Herger disse:

É mais difícil a cada descida, porque há menos homens aqui em cima para ajudar na descida. O último homem tem de descer sem a linga, e será Ecthgow, pois os braços dele são como ferro. É um sinal da nossa consideração deixarmos-te ser o segundo homem a descer. Vai agora.

Vi nos olhos dele que não havia esperança de mais demora, por isso fui amarrado à linga, e apertei o pau forte nas mãos que estavam escorregadias devido à transpiração; e todo o meu corpo estava da mesma forma escorregadio devido ao suor; e tremi ao vento enquanto passava a borda do rochedo, e pela última vez vi os cinco homens do Norte a segurar a corda, e depois desapareceram da minha vista. E fiz a minha descida.

Tinha pensado fazer muitas orações a Alá, e também registar no olho da minha mente, na memória da minha alma, as muitas experiências que um homem tem de sofrer enquanto baloiça em cordas num penhasco rochoso tão fustigado pelo vento. Depois de estar fora do campo de visão dos meus amigos do Norte, esqueci todas as minhas intenções, e murmurei “Alá seja louvado”, vezes sem conta, como uma pessoa estúpida, ou uma pessoa tão velha que o seu cérebro já não funciona, ou uma criança, ou um tolo.

Na verdade, recordo pouco de tudo o que aconteceu. Apenas o seguinte: que o vento atira uma pessoa de um lado para o outro na rocha a uma velocidade tal que o olhar não consegue focar a superfície, que não passa de uma mancha cinzenta; e que muitas vezes bati no rochedo, magoando os ossos, rasgando a pele; e uma vez bati com a cabeça e vi pontos brancos e brilhantes como estrelas diante dos meus olhos, e julguei que iria desmaiar, mas não desmaiei. E a seu tempo, que na verdade pareceu toda a duração da minha vida, e mais, cheguei ao fundo, e Buliwyf bateu-me no ombro e disse que eu tinha feito um bom trabalho.

A linga foi então içada; e as ondas abateram-se sobre mim e sobre Buliwyf que se encontrava a meu lado. Lutei então para manter o equilíbrio naquela saliência escorregadia, e isto ocupou tanto a minha atenção que não vi os outros descerem a escarpa. O meu único desejo era o seguinte: evitar ser atirado para o mar. Na verdade, vi com os meus próprios olhos que as ondas eram mais altas do que três homens de pé uns sobre os outros, e quando cada onda rebentava, eu ficava momentaneamente inanimado num redemoinho de água gelada e de força rodopiante. Muitas vezes fui erguido do chão por estas ondas; todo o meu corpo estava encharcado, e eu tremia tanto que os meus dentes batiam como um cavalo a galopar. Não conseguia proferir palavras devido aos estalidos dos meus dentes.

Depois, Buliwyf falou:

Desceremos para a água e nadaremos para a caverna. Eu irei em primeiro lugar. Transportem o vosso punhal nos dentes, para que os braços estejam livres para lutar contra as correntes.

Estas palavras de nova loucura atingiram-me numa altura em que já não conseguia suportar mais nada. Aos meus olhos, o plano de Buliwyf era loucura para lá de todas as loucuras. Vi as ondas esmagarem-se, invadirem os rochedos escarpados; vi as ondas afastarem-se novamente com o sacão da força de um gigante, apenas para recuperarem a força e esmagarem-se de novo mais à frente. Na verdade, observei e acreditei que homem algum poderia nadar naquelas águas, e se o fizesse ficaria desfeito em pedaços num instante.

Mas não esbocei qualquer protesto, pois já tinha passado a fase de qualquer compreensão. Para a minha forma de pensar, estava tão perto da morte que não importava se me aproximasse ainda mais. Assim, peguei no meu punhal, que entalei no cinto, pois os meus dentes batiam com força de mais para o segurar na boca. Os outros homens do Norte não denotaram qualquer sinal de frieza ou fadiga, e, pelo contrário, receberam cada onda como um novo fortalecimento; e também sorriam com a antecipação feliz da batalha que se aproximava, e por esta última os detestei.

Buliwyf observou o movimento das ondas, para escolher o momento propício, e depois saltou para o oceano. Eu hesitei, e alguém acreditei sempre que fora Hergerempurrou-me. Mergulhei profundamente no mar revolto e de uma frieza entorpecedora; na verdade, fui enrolado de cabeça para baixo e também de lado; não conseguia ver nada a não ser água verde. Depois, avistei Buliwyf a bater os pés nas profundezas do mar; e segui atrás dele, e ele nadou para uma espécie de passagem nas rochas. Em todas as coisas, fiz como ele fez. E fiz da seguinte maneira:

Num momento, a corrente perseguia-o, a tentar arrastá-lo para o vasto oceano, e a mim também. Em todos esses momentos, Buliwyf agarrava-se a uma rocha com as mãos para impedir que a corrente o arrastasse; e eu fazia o mesmo. Segurava-me poderosamente às rochas, com os pulmões a arder. Depois, num instante, a corrente corria na direcção oposta, e eu era atirado para a frente a uma velocidade assustadora, a bater em rochas e saliências. E depois a corrente mudava de novo, e puxava para trás como fizera previamente; e eu era obrigado a seguir o exemplo de Buliwyf e a agarrar-me às rochas. E a mais pura das verdades que os meus pulmões queimavam como se estivessem em brasa, e no fundo do meu coração eu sabia que não poderia continuar muito mais tempo neste mar gelado. Depois, a corrente avançou para a frente, e eu fui atirado de cabeça, a bater aqui e ali, e depois, de súbito, estava fora da água e a respirar ar.

Na verdade, isto ocorreu com tanta rapidez que fiquei de tal forma surpreendido que nem pensei em sentir alívio, que era um sentimento apropriado; nem sequer pensei em louvar Alá pela minha boa sorte ao sobreviver. Engoli ar, e a toda a minha volta os guerreiros de Buliwyf ergueram as cabeças acima da superfície e engoliram ar com a mesma sofreguidão que eu.

Eis o que vi: encontrávamo-nos numa espécie de poça ou lago, no interior de uma caverna, com uma cúpula rochosa lisa e uma entrada pelo lado do mar que tínhamos acabado de atravessar. Directamente à nossa frente havia um espaço rochoso liso. Vi três ou quatro figuras escuras agachadas à volta de uma fogueira; essas criaturas cantavam com vozes altas. Compreendi então por que é que esta caverna se chamava a caverna do trovão, pois a cada rebentação das ondas o som na caverna reverberava com tal intensidade que os ouvidos doíam e o próprio ar parecia tremer e fazer pressão.

Neste lugar, nesta caverna, Buliwyf e os seus guerreiros efectuaram o ataque, e eu juntei-me a eles, e com os nossos pequenos punhais matámos os quatro demónios que se encontravam na caverna. Vi-os claramente pela primeira vez, à luz tremeluzente da fogueira, cujas chamas subiam loucamente a cada batimento das ondas atroadoras. O aspecto desses demónios era o seguinte: pareciam ser humanóides em todos os aspectos, mas não como qualquer homem à face da terra. Eram criaturas baixas, e largas e atarracadas, e peludas em todas as partes do corpo a não ser nas palmas das mãos, nas solas dos pés, e nos rostos. Os seus rostos eram muito largos, com a boca e os maxilares largos e proeminentes, e tinham um aspecto horrível; também as suas cabeças eram maiores do que as cabeças dos homens comuns. Tinham os olhos profundamente mergulhados na cabeça; as sobrancelhas eram largas, e não por causa da profusão de pêlos, mas devido aos ossos; também os dentes eram grandes e afiados, embora seja verdade que os dentes de muitos estavam quebrados e lisos.

Noutros aspectos das características corporais e em relação aos órgãos sexuais e aos diversos orifícios, eram igualmente como os homens1. Uma das criaturas levou muito tempo a morrer, e com a língua formou alguns sons, que tiveram para o meu ouvido as qualidades de um discurso; mas não posso saber se assim era, e reafirmo a minha falta de convicção.

Buliwyf inspeccionou então estas quatro criaturas mortas, com o seu pêlo espesso; depois ouvimos um cântico fantasmagórico e que ecoava, um som que subia e descia em sintonia com a rebentação atroadora da corrente, e este som provinha das profundezas da caverna. Buliwyf levou-nos para as suas profundezas.

Ali encontrámos três das criaturas, prostradas no chão, com as faces encostadas na terra e as mãos erguidas em súplica a uma velha criatura escondida nas sombras. Estes suplicantes estavam a cantar, e não se aperceberam da nossa chegada. Mas a criatura viu-nos, e gritou hediondamente quando nos aproximámos. Calculei que esta criatura fosse a mãe dos wendol, mas se era fêmea não vi qualquer sinal disso, pois era velha ao ponto de não ter sexo.

Buliwyf caiu sozinho sobre os suplicantes e matou-os todos, enquanto a criatura-mãe se internou mais nas sombras e gritou de uma forma terrível. Eu não conseguia vê-la bem, mas isto é uma grande verdade: que ela estava rodeada por serpentes, que se enroscavam aos seus pés, e nas suas mãos, e à volta do seu pescoço. Estas serpentes silvavam e abanavam as línguas; e como estavam todas à sua volta, no corpo dela e também o chão, nenhum dos guerreiros de Buliwyf se atreveu a aproximar-se.

 

1 Esta descrição das características físicas dos wendol suscitou um debate previsível. Ver Apêndice.

 

Depois Buliwyf atacou-a, e ela soltou um grito aterrador quando ele mergulhou o punhal profundamente no peito dela, pois estava desprovido de cobras. Apunhalou muitas vezes a mãe dos wendol com o seu punhal. Nunca esta mulher sucumbiu, e manteve-se sempre de pé, embora o sangue jorrasse dela como de uma fonte, dos diversos ferimentos que Buliwyf infligiu nela. E durante todo esse tempo ela gritou com um som extremamente assustador.

Depois, por fim, desabou, e caiu morta, e Buliwyf virou-se para olhar para os seus guerreiros. Vimos então que esta mulher, a mãe dos comedores dos mortos, o tinha ferido. Tinha um alfinete de prata, como um gancho de cabelo, enterrado no estômago; este mesmo alfinete tremia a cada batimento do seu coração. Buliwyf arrancou-o e saiu uma golfada de sangue. No entanto, não caiu de joelhos mortalmente ferido, mas permaneceu de pé e deu ordem para sairmos da caverna.

Assim fizemos, pela segunda entrada, a do lado de terra; esta entrada tinha estado guardada, mas todos os guardas wendol tinham fugido ao ouvir os gritos da mãe moribunda. Partimos sem problemas. Buliwyf levou-nos para fora das cavernas, e de volta para os nossos cavalos, e depois sucumbiu no chão.

Ecthgow, com uma expressão de tristeza no rosto muito invulgar entre os homens do Norte, organizou a feitura de uma maca1 e carregámo-la com Buliwyf de volta pelos campos para o reino de Rothgar. E durante todo esse tempo Buliwyf esteve de bom humor, e feliz; muitas das coisas que disse eu não compreendi, mas uma vez ouvi-o dizer: “Rothgar não ficará feliz ao ver-nos, pois terá de organizar outro banquete, e nesta altura é já um anfitrião bastamte esgotado”. Os guerreiros riram-se ao ouvir estas e outras palavras de Buliwyf. Eu vi que o riso deles era genuíno.

Chegámos então ao reino de Rothgar, onde fomos recebidos com muitos aplausos e felicidade, e sem tristeza, embora Buliwyf estivesse gravemente ferido e a sua carne se tivesse tornado cinzenta, e o corpo tremesse, e os olhos estivessem incendiados pelo brilho de uma alma doente e febril. Estes indícios conhecia-os eu muito bem, e também os conheciam o povo do Norte.

Uma taça de caldo de cebola foi trazida para ele, e ele recusou-a, dizendo:

Tenho a doença da sopa; não se preocupem por minha causa.

Depois pediu uma celebração, e insistiu em presidir a ela, sentando-se encostado num sofá de pedra ao lado do rei Rothgar, e bebeu meae estava feliz. Eu encontrava-me perto dele quando ele disse para o rei Rothgar, no meio das festividades:

Não tenho escravas.

Todas as minhas escravas são tuas escravas disse Rothgar.

Depois Buliwyf disse:

Não tenho cavalos.

Todos os meus cavalos são teus respondeu Rothgar. Não penses mais nesses assuntos.

E Buliwyf, com os ferimentos ligados, estava feliz, e sorriu, e a cor regressou às suas faces naquela noite, e na verdade pareceu ficar mais forte a cada minuto que passava. E, embora eu não tivesse julgado que fosse possível, tomou uma rapariga escrava, e depois disse-me, à laia de piada:

Um homem morto já não tem utilidade nenhuma.

E depois Buliwyf mergulhou num sono, e a sua cor tornou-se mais pálida e a respiração mais superficial; receei que nunca mais voltasse a acordar deste sono em que mergulhara. Ele talvez tivesse pensado o mesmo, pois enquanto dormia tinha a espada fortemente apertada na mão.

 

AS AGONIAS DA MORTE DOS WENDOL

Então também eu adormeci. Herger acordou-me com as seguintes palavras:

Tens de vir depressa.

Ouvi então o som de um trovão distante. Olhei para a janela de bexiga1 e ainda não era madrugada, mas peguei na minha espada; na verdade, tinha adormecido com a armadura, sem me dar ao trabalho de a retirar. Depois, saí rapidamente para o exterior. Era a hora que antecedia a alvorada, e o ar estava enevoado e denso, e inundado pelo trovão de cascos à distância.

Herger disse-me:

Os wendol vêm. Sabem das feridas mortais de Bulíwyf, e procuram uma vingança final da morte da mãe deles.

Cada um dos guerreiros de Buliwyf, e eu entre eles, ocupou um lugar no perímetro das fortificações que tínhamos construído para nos defendermos dos wendol. Essas defesas eram fracas, mas não tínhamos mais nenhumas. Espreitámos para os nevoeiros para avistar os cavaleiros que galopavam na nossa direcção. Eu esperava grande medo, mas não o senti, pois tinha visto o aspecto dos wendol e sabia que eram criaturas, se não

 

1 Fenestra porcas: literalmente, “janela de porco”. Os homens do Norte usavam membranas esticadas ao invés de vidro para taparjanelas estreitas; essas membranas eram translúcidas. Não se conseguia ver com grande nitidez através delas, mas a luz entrava nas casas.

 

homens, então bastante parecidos com homens, como os macacos são também parecidos com os homens; mas sabia que eram mortais, e que podiam morrer.

Por isso não tive medo, e apenas senti a expectativa da batalha final. Neste sentimento estava sozinho, pois vi que os guerreiros de Buliwyf exibiam muito medo; e isto apesar dos esforços que faziam para o esconder. Na verdade, como tínhamos morto a mãe dos wendol, que era a sua líder, também nós tínhamos perdido Buliwyf, que era o nosso próprio líder, e não havia alegria enquanto esperávamos e ouvíamos o ruído atroador que se aproximava.

E depois ouvi uma comoção atrás de mim, e ao virar-me vi o seguinte: Buliwyf, pálido como o próprio nevoeiro, vestido de branco e com os ferimentos ligados, estava de pé sobre a terra do reino de Rothgar. E nos seus ombros sentavam-se dois corvos pretos, um de cada lado; e, ao verem isto, os homens do Norte gritaram a sua chegada, e ergueram as armas no ar e soltaram o grito de batalha1.

 

1 Esta parte do manuscrito foi elaborada a partir do manuscrito de Razi, cujo interesse principal eram as técnicas militares. Se Ibn Fadlan sabia ou não, ou registou, a importância do reaparecimento de Buliwyf, é desconhecido. Certamente, Razi não o incluiu, embora a importância seja bastante óbvia. Na mitologia dos países do Norte, Odin é popularmente representado como transportando um corvo em cada ombro. Estes pássaros trazem-lhe todas as notícias do mundo. Odin era a divindade principal do panteão do Norte e era considerado o Pai Universal. Mandava especialmente em assuntos de guerra; acreditava-se que, de tempos a tempos, ele aparecia no meio dos homens, embora raramente sob a sua forma de deus, preferindo assumir a aparência de um simples viajante. Dizia-se que um inimigo fugiria apavorado simplesmente com a sua presença.

É interessante existir uma história acerca de Odin na qual ele é morto e ressuscita ao fim de nove dias; a maior parte dos especialistas acredita que esta ideia antecede qualquer influência cristã. Em qualquer caso, o ressuscitado Odin continuava a ser mortal, e acreditava-se que um dia ele morreria finalmente.

 

Ora Buliwyf nunca falou, nem olhou para um lado nem para o outro; nem mostrou qualquer sinal de reconhecimento de qualquer homem; mas caminhou em frente com passos calculados, para lá da linha das fortificações, e ali aguardou a investida dos wendol. Os corvos voaram, e ele agarrou na espada Runding e preparou-se para o ataque.

Não há palavras que possam descrever o ataque final aos wendol na alvorada do nevoeiro. Nenhuma palavra transmitirá todo o sangue que foi derramado, os gritos que encheram o ar pesado, quantos cavalos e cavaleiros morreram em agonia hedionda. Vi Ecthgow com os meus próprios olhos, com os seus braços de ferro: na verdade, a sua cabeça foi arrancada pela espada de um wendol e a cabeça rebolou pelo chão como um brinquedo, com a língua ainda pendente na boca. Também vi Weath ser atingido com uma espada no peito; e assim ficou pregado ao chão, e ali estrebuchou como um peixe tirado do mar. Vi uma menina ser pisada pelos cascos de um cavalo e o seu corpo ficar esmagado e o sangue sair-lhe pelo ouvido. Vi igualmente uma mulher, uma escrava do rei Rothgar: o seu filho tinha sido cortado em dois enquanto ela fugia de um cavaleiro que a perseguia. Vi muitas crianças mortas da mesma forma. Vi cavalos estacarem e mergulharem, os cavaleiros desmontados, e caídos junto de homens e mulheres velhos, que assassinavam as criaturas quando elas caíam de costas, atordoadas. Também vi Wiglif, o filho de Rothgar, fugir da refrega e esconder-se numa segurança cobarde. Quanto ao arauto, não o vi durante todo o dia.

Eu próprio matei três dos wendol, e fui atingido com uma lança no ombro, que me provocou uma dor como um mergulho no fogo; o meu sangue ferveu em todo o braço e também dentro do meu peito; pensei que iria sucumbir, e no entanto continuei a lutar.

O sol irrompeu então pelo meio do nevoeiro, e a alvorada estendeu-se plenamente diante de nós, e o nevoeiro desapareceu, e os cavaleiros desapareceram. À luz profusa do dia, vi corpos por todo o lado, incluindo muitos corpos dos wendol, pois eles não tinham recolhido os mortos. Este foi verdadeiramente o sinal do seu fim, pois estavam desnorteados e não poderiam voltar a atacar Rothgar, e todo o povo do reino de Rothgar se apercebeu do que isso significava a rejubilou.

Herger lavou o meu ferimento, e foi exaltado, até transportarem o corpo de Buliwyf para o grande edifício de Rothgar. Buliwyf estava morto: tinha o corpo retalhado pelas lâminas de uma dúzia de adversários; o seu rosto e corpo estavam ensopados no seu próprio sangue, ainda morno. Herger viu aquela imagem e desfez-se em lágrimas, e escondeu o rosto de mim, mas não havia necessidade, pois eu próprio senti que as lágrimas toldavam a minha visão.

Buliwyf foi estendido diante do rei Rothgar, que tinha o dever de fazer um discurso. Mas o velhote não conseguiu fazê-lo. Disse unicamente o seguinte:

Aqui está um guerreiro e um herói digno dos deuses. Sepultem-no como um grande rei.

E depois abandonou o edifício. Estou convicto de que estava envergonhado, porque não tinha participado na batalha. E também o seu filho Wiglif tinha fugido como um cobarde, e muitos tinham visto isto, e tinham-lhe chamado um acto de mulher; também isto devia ter humilhado o pai. Ou poderia haver algum motivo que não conheço. Na verdade, ele era um homem muito velho.

Ora aconteceu que, em voz baixa, Wiglif falou para o arauto:

Este Buliwyf prestou-nos um grande serviço, que foi ainda maior por ter morrido ao efectuá-lo.

Foram estas as suas palavras depois de o pai, o rei, ter saído do edifício.

Herger ouviu estas palavras, e eu também, e eu fui o primeiro a desembainhar a minha espada. Herger disse-me:

Não lutes com este homem, pois ele é uma raposa, e tu tens ferimentos.

Eu disse-lhe:

Quem se importa com isso? e desafiei o filho Wiglif, e naquele mesmo local. Wiglif empunhou a espada. Herger desferiu-me então um forte pontapé ou outro golpe qualquer por detrás, e como eu não estava preparado para isto caí estatelado; depois, Herger começou a lutar com o filho Wiglif. O arauto também empunhou as armas, e moveu-se sorrateiramente, numa tentativa de se posicionar por detrás de Herger e apunhalá-lo pelas costas. Este arauto matei-o eu próprio mergulhando a minha espada profundamente na barriga dele, e o arauto gritou no instante da empalação. O filho Wiglif ouviu isto, e embora tivesse lutado ferozmente antes, agora mostrou muito mais medo na contenda com Herger.

Depois sucedeu que o rei Rothgar soube o que estava a acontecer; veio uma vez mais para o grande edifício e implorou que cessassem as hostilidades. Mas os seus esforços não tiveram qualquer resultado. Herger estava firme no seu propósito. Na verdade, vi-o escarranchado sobre o corpo de Wiglif e girar a espada para Wiglif. Herger atingiu Wiglif, que caiu sobre a mesa de Rothgar, e agarrou a taça do rei para a levar aos lábios. Mas a verdade é que morreu sem beber, e assim terminou o caso.

Agora do grupo de Buliwyf, em tempos em número de treze, apenas restavam quatro. Comigo entre eles, colocámos Buliwyf por debaixo de um telhado de madeira, e deixámos o seu corpo com uma taça de meanas mãos. Depois, Herger disse para as pessoas reunidas:

Quem morrerá com este homem nobre?

E uma mulher, uma escrava do rei Rothgar, disse que morreria com Buliwyf. Os preparativos habituais dos homens do Norte foram então efectuados.

Embora Ibn Fadlan não especifique nenhuma passagem de tempo, provavelmente ter-se-ão passado diversos dias antes da cerimónia fúnebre.

Um navio foi então preparado na margem por baixo do edifício de Rothgar, e tesouros de ouro e prata foram colocados dentro dele, e também as carcaças de dois cavalos. E foi erigida uma tenda, e Buliwyf, agora rígido na morte, foi colocado no seu interior. O seu corpo tinha a cor negra da morte neste clima frio. Depois, a rapariga escrava foi levada a cada um dos guerreiros de Buliwyf, e também a mim, e eu tive uma relação carnal com ela, e ela disse-me:

O meu senhor agradece-te.

A sua expressão e modos eram extremamente alegres, de uma variedade que revela o excesso da alegria geral que estas pessoas mostram. Enquanto ela voltava a envergar as suas vestes, vestes essas que incluíam muitos ornamentos esplêndidos de ouro e prata, eu disse-lhe que ela estava feliz.

Não conseguia deixar de pensar que ela era uma bonita donzela, e jovem, e no entanto ia morrer em breve, e estava consciente disso, assim como eu. Ela disse-me:

Estou feliz, porque em breve verei o meu senhor.

Ela ainda não tinha bebido nenhum mead, e falou a verdade que sentia no coração. A expressão dela resplandecia como a de uma criança feliz, ou de certas mulheres quando estão à espera de criança; esta era a natureza das coisas.

Por isso, então, eu disse-lhe o seguinte:

Diz ao teu senhor, quando o vires, que eu vivi para escrever. Não sei se compreendeu estas palavras. Disse-lhe: Era o desejo do teu senhor.

Então dir-lhe-ei respondeu ela, e seguiu muito alegremente para o guerreiro seguinte de Buliwyf. Não sei se compreendeu o que eu quis dizer, pois a única forma que estes povos do Norte conhecem de escrita é a escultura de madeira ou pedra, que só fazem muito raramente. Para além do mais, o meu discurso na língua do Norte não era claro. Porém, ela estava feliz e prosseguiu.

Ao fim da tarde, quando o sol estava a fazer a sua descida para o mar, o navio de Buliwyf foi preparado na praia, e a donzela foi levada para dentro da tenda do navio, e a velha enrugada a quem chamam o anjo da morte espetou-lhe o punhal entre as costelas, e eu e Herger segurámos a corda que a estrangulou, e sentámo-nos ao lado de Buliwyf, e depois partimos.

Durante todo este dia eu não tinha ingerido comida nem bebida, pois sabia que tinha de participar nestes rituais, e não desejava sofrer o embaraço de me purgar. Mas não senti repulsa em nenhuma das tarefas daquele dia, nem fiquei fraco, nem com a cabeça leve. E orgulhei-me secretamente por isso. Também é verdade que no momento da morte a donzela sorriu, e esta expressão manteve-se depois, e ela ficou ao lado do seu senhor com este mesmo sorriso no rosto pálido. O rosto de Buliwyf estava preto e tinha os olhos fechados, mas a sua expressão era calma. E foi assim que vi estas duas pessoas do Norte pela última vez.

O navio de Buliwyf foi então incendiado, e empurrado para o mar, e os homens do Norte permaneceram na margem rochosa e fizeram muitas invocações aos seus deuses. Com os meus próprios olhos, vi o navio ser levado pelas correntes como uma pira em chamas, e depois perdemo-lo de vista, e a escuridão da noite desceu sobre as terras do Norte.

 

O REGRESSO DO PAÍS DO NORTE

Passei então mais algumas semanas na companhia dos guerreiros e nobres do reino de Rothgar. Foi um tempo prazenteiro, pois as pessoas eram graciosas e hospitaleiras, e muito cuidadosas com os meus ferimentos, que sararam bem, graças a Alá. Mas pouco depois aconteceu que desejei regressar à minha terra natal. Dei conhecimento ao rei Rothgar de que era emissário do califa de Bagdade, e que tinha de cumprir a missão que me tinha sido confiada, ou incorreria na sua fúria.

Nada disto importou a Rothgar, que disse que eu era um nobre guerreiro, que desejava que eu permanecesse nas terras dele, para viver a vida de um guerreiro tão honrado. Disse que eu seria seu amigo para todo o sempre, e que teria tudo o que desejasse, desde que ele tivesse meios para me dar o que eu quisesse. Porém, teve relutância em deixar-me partir, e arranjou todas as espécies de desculpas e atrasos. Rothgar disse que eu tinha de cuidar dos meus ferimentos, embora esses ferimentos estivessem completamente curados; disse também que eu tinha de recuperar a força, embora a minha força estivesse evidentemente restabelecida. Por fim, disse que eu tinha de esperar pelo aprovisionamento de um navio, que ainda não tinha sido iniciado; e quando inquiri, depois do período de tempo em que o navio poderia demorar a ser aprovisionado, o rei deu-me uma resposta vaga, como se o assunto não fosse muito importante para ele. E quando eu fazia pressão para partir, ele virava-se, zangado, e perguntava se eu estava insatisfeito com a sua hospitalidade; a isto fui obrigado a responder, louvando a sua bondade com toda a variedade de expressões de contentamento. Pouco depois, comecei a pensar que o velho rei era menos tolo do que eu pensara anteriormente.

Dirigi-me então a Herger, falei-lhe na minha missão e disse-lhe:

Este rei não é tão tolo como eu pensava. Em resposta, Herger disse:

Estás enganado, pois ele é um tolo, e não age com sensatez. E Herger disse que trataria da minha partida com o rei.

E eis como tudo se passou. Herger pediu uma audiência particular ao rei Rothgar, e disse ao rei que ele era um governante importante e sábio cujo povo o amava e respeitava, devido à forma como cuidava dos assuntos do reino e do bem-estar do seu povo. Esta lisonja suavizou o ancião. Herger disse-lhe então que, dos cinco filhos do rei, apenas um sobrevivera, e era Wulfgar, que tinha ido procurar Buliwyf como mensageiro, e que agora estava muito longe. Herger disse que Wulfgar devia ser chamado a casa, e que um grupo com este objectivo seria organizado, pois não existia mais nenhum herdeiro a não ser Wulfgar.

Estas coisas disse ele ao rei. Também acredito que falou algumas palavras em privado com a rainha Weilew, que exercia muita influência sobre o marido.

Depois, num banquete nocturno, Rothgar ordenou o aprovisionamento de um navio e uma tripulação, para uma viagem com o objectivo de trazer Wulfgar de volta para o seu reino. Eu pedi para ser incluído na tripulação, e isto o velho rei não pôde negar-me. A preparação do navio levou o tempo de vários dias. Durante este espaço de tempo, passei longos períodos com Herger. Herger tinha decidido permanecer ali.

Um dia encontrávamo-nos nas escarpas, a olhar para o barco que se encontrava na praia, quando estava já preparado para a viagem e abastecido de provisões. Herger disse-me:

Vão iniciar uma longa viagem. Oraremos para que cheguem em segurança.

Perguntei a quem oraria ele, ao que ele respondeu:

AOdin, e Frey, e Thor, e Wyrd, e aos diversos outros deuses que poderão influenciar a vossa viagem segura. São estes os nomes dos deuses dos homens do Norte. Repliquei:

Acredito num Deus, que é Alá, o Todo-Misericordioso e Compassivo.

Eu sei isso disse Herger. Talvez nas tuas terras um deus seja suficiente, mas não aqui; aqui existem muitos deuses e cada um tem a sua importância, por isso rezaremos por todos vós a eles. Agradeci-lhe então, pois as orações de um não crente são boas pois são sinceras, e não duvidei da sinceridade de Herger.

Ora, Herger sabia há muito que eu tinha uma crença diferente da dele, mas à medida que a altura da minha partida se aproximava ele fez-me muitas perguntas acerca das minhas crenças, e em momentos invulgares, numa tentativa de me apanhar desprevenido e saber a verdade. Eu recebi as suas muitas perguntas como uma espécie de teste, da mesma forma que Buliwyf testara uma vez os meus conhecimentos de escrita. Respondi-lhe sempre da mesma forma, aumentando assim a sua perplexidade.

Um dia ele disse-me, sem qualquer indício de que já me tinha perguntado anteriormente:

Qual é a natureza do teu deus Alá? Eu respondi-lhe:

Alá é um único Deus, que governa todas as coisas, vê todas as coisas, sabe todas as coisas, e dispõe todas as coisas.

Já tinha proferido estas palavras antes. Algum tempo depois, Herger disse-me:

Nunca te enfureces com Alá?

Eu disse:

Enfureço-me, mas Ele perdoa tudo e é misericordioso. Herger declarou:

Quando lhe convém?

Eu disse que assim era, e Herger reflectiu sobre a minha resposta. Por fim, disse isto, com um aceno de cabeça:

O risco é grande de mais. Um homem não pode depositar demasiada fé numa única coisa, nem uma mulher, nem um cavalo, nem uma arma, nem numa só coisa.

No entanto, eu deposito retorqui eu.

Tu é que sabes replicou Herger, mas há muitas coisas que um homem não sabe. E o que um homem não sabe, é do domínio dos deuses.

Deste modo vi que ele nunca seria convertido às minhas crenças, nem eu às dele, e assim nos separámos. Na verdade, foi uma partida triste, e eu tive pena de me separar de Herger e dos restantes guerreiros. Herger sentiu o mesmo que eu.

Apertei-lhe o ombro, e ele o meu, e depois entrei no navio preto, que me levou para a terra dos dinamarqueses. Enquanto este navio, com a sua hábil tripulação, se afastava das margens do Venden, contemplei os telhados brilhantes do grande edifício de Hurot, e, quando me virei, o oceano cinzento e vasto à nossa frente. Ora aconteceu

O manuscrito termina abruptamente neste ponto, o fim de uma página transcrita, com as palavras finais concisas “nunc fit”, e embora existam claramente mais partes do manuscrito, não foram descobertos mais trechos. Este é, obviamente, o acontecimento histórico mais puro, mas cada tradutor comentou a estranha adequação deste final abrupto, que sugere o começo de uma nova aventura, de um novo acontecimento estranho, que por razões profundamente arbitrárias dos últimos mil anos nos será negado.

 

OS MONSTROS DO NEVOEIRO

Como William Howells referiu, é um acontecimento bastante raro que leva qualquer animal vivo a morrer de tal forma que será preservado como fóssil nos séculos seguintes. Isto é especialmente verdade em relação a um animal pequeno, frágil, que vive na terra como o homem, e o registo fóssil dos primeiros homens é notavelmente escasso.

Diagramas de compêndios da “árvore do homem” sugerem uma certeza de conhecimento que é enganadora; a árvore é podada e revista a cada poucos anos. Um dos ramos mais controversos e problemáticos dessa árvore é um que é normalmente rotulado “Homem de Neandertal”.

Foi-lhe atribuído o nome a partir do vale na Alemanha onde os primeiros vestígios do seu género foram descobertos em 1856, três anos antes da publicação da Origem das Espécies, de Darwin. O mundo vitoriano ficou descontente com os restos de esqueletos, e realçou os aspectos imperfeitos e animais do homem de Neandertal; até agora a própria palavra é, na imaginação popular, sinónimo de tudo o que é imperfeito e animalesco na natureza humana.

Foi com uma espécie de alívio que os primeiros estudiosos decidiram que o homem de Neandertal tinha “desaparecido” há aproximadamente 35 000 anos, para ser substituído pelo homem Cro-Magnon, cujos vestígios de esqueletos revelavam, presumivelmente, tanta delicadeza, sensibilidade e inteligência como o crânio do Neandertal revelava uma imperfeição monstruosa. A presunção geral era que o homem Cro-Magnon, superior, moderno, tinha exterminado o de Neandertal.

Ora, a verdade da questão é que temos muito poucos bons exemplos do homem de Neandertal no nosso material de esqueletos de mais de oitenta fragmentos conhecidos, apenas cerca de uma dúzia estão suficientemente completos, ou datados com uma exactidão bastante minuciosa para permitir um estudo sério. Não podemos dizer realmente com certeza até que ponto estava espalhado, ou o que lhe aconteceu. E novos exames efectuados recentemente aos vestígios dos esqueletos refutou a crença vitoriana nesta aparência monstruosa e semi-humana.

No seu estudo de 1957, Straus e Cave escreveram: “Se ele pudesse ser reencarnado e colocado num metropolitano em Nova Iorque... desde que tivesse tomado banho, feito a barba, e estivesse vestido com roupas modernas... é duvidoso se atrairia mais atenção do que qualquer um dos outros cidadãos”.

Outro antropólogo expôs a questão de uma forma mais simples: “Poder-se-ia pensar que tinha um aspecto duro, mas ninguém se oporia a que a irmã se casasse com ele”.

A partir daqui, é apenas um pequeno passo para o que os antropólogos já acreditam: o homem de Neandertal, enquanto variante anatómica do homem moderno, nunca desapareceu completamente, e continua connosco.

Uma reinterpretação dos vestígios culturais associada ao homem de Neandertal também sustenta um ponto de vista benigno do fulano. Antropólogos do passado ficaram profundamente impressionados com a beleza e profusão de pinturas rupestres que apareceram, primeiro, com a chegada do homem Cro-Magnon; tanto quanto qualquer evidência de esqueletos, estas pinturas tenderam a reforçar a noção de uma maravilhosa sensibilidade nova que substituiu o requinte da “ignorância animalesca”.

Mas o homem de Neandertal foi notável por pleno direito. A sua cultura, chamada Musteriana de novo devido a um local, Lê Moustier em França é caracterizada pelo trabalho da pedra de uma forma muito sofisticada, muito superior a qualquer nível cultural anterior. E é agora reconhecido que o homem de Neandertal também possuía ferramentas de osso.

O mais impressionante de tudo é que o homem de Neandertal foi o primeiro dos nossos antepassados a queimar os seus mortos ritualmente. E, Lê Moustier, um rapaz adolescente foi colocado numa vala, na posição de deitado; foram colocadas junto dele várias ferramentas de pederneira, um machado de pedra e carne assada. Se estes materiais eram para utilização do falecido numa vida depois da morte é incontestado pela maior parte dos antropólogos.

Existe outra prova de sentimento religioso: na Suíça existe um santuário na caverna do urso, uma criatura adorada, respeitada, e também comida. E na Caverna Shanidar, no Iraque, foi enterrado um Neandertal com flores na sepultura.

Tudo isto aponta para uma atitude em relação à vida e à morte, uma visão autoconsciente do mundo, que jaz no âmago do que acreditamos que distingue o homem do resto do mundo animal. Devido às provas existentes, temos de concluir que esta atitude foi em primeiro lugar ostentada pelo homem de Neandertal.

A reavaliação geral do homem de Neandertal coincide com a redescoberta do contacto de Ibn Fadlan com os “monstros do nevoeiro”; a descrição que ele faz destas criaturas é sugestiva da anatomia neandertal, e levanta a questão sobre se a forma neandertal desapareceu, de facto, da terra há milhares de anos, ou se esses primeiros homens persistiram em épocas históricas.

Argumentos baseados em analogias seguem os dois caminhos. Há exemplos históricos de um punhado de gente com cultura tecnicamente superior dizimar uma sociedade mais primitiva numa questão de anos; é, em traços largos, a história do contacto europeu com o Novo Mundo. Mas há igualmente exemplos de sociedades primitivas que existem em regiões isoladas, desconhecidas dos povos mais avançados e civilizados que não se encontram muito longe. Uma tribo com essas características foi descoberta recentemente nas Filipinas.

O debate académico sobre as criaturas de Ibn Fadlan pode ser muito bem resumido com o ponto de vista de Geoffrey Wrightwood, da Universidade de Oxford, e por E. D. Goodrich, da Universidade de Filadélfia. Wrightwoodiz (1971): “O relato de Ibn Fadlan proporciona-nos uma descrição útil dos homens de Neandertal, que coincidem com o registo fóssil e com as nossas suposições acerca do nível cultural destes primeiros homens. Devíamos aceitá-la imediatamente, se não tivéssemos já decidido que esses homens desapareceram sem deixar vestígios aproximadamente 30 000-40 000 anos antes. Deveríamos recordar-nos de que apenas acreditamos neste desaparecimento porque não encontrámos fósseis com uma data posterior, e a ausência de tais fósseis não significa que eles não existam de facto.

“Objectivamente, não existe um motivo a priori para negar que um grupo de homens de Neandertal poderia ter sobrevivido até muito tarde numa região isolada da Escandinávia. Em todo o caso, esta presunção adequa-se melhor à descrição do texto árabe”.

Goodrich, um paleontólogo muito conhecido pelo seu cepticismo, opta pelo ponto de vista contrastante (1972): “A precisão geral do relato de Ibn Fadlan pode tentar-nos a não dar importância a certos excessos neste manuscrito. Estes excessos são vários, e têm origem em pré-condicionamentos culturais, ou no desejo que um contador de histórias tem de impressionar. Ele chama aos Viquingues gigantes, quando é certo que não o eram; realça os aspectos sujos e ébrios dos seus anfitriões, que observadores menos exigentes não consideraram dignos de reparo. No seu relato dos denominados ’wendol’, dá grande importância à grande quantidade de pêlos e aparência rude quando, de facto, eles talvez não fossem tão peludos, nem tão rudes. Podiam ter sido simplesmente uma tribo de Homo sapiens, que viviam isolados e sem o nível de conhecimentos culturais manifestado pelos Escandinavos.

“Há uma prova interna, no corpo do manuscrito de Ibn Fadlan, que sustenta a noção de que os “wendol” são na verdade Homo sapiens. Os figurinos da mulher grávida descritos pelo árabe são altamente sugestivos das esculturas e figurinos pré-históricos que podem ser encontrados nos locais de indústria aurignacenses em França e nos achados gravetenses em Willendorf, Áustria, Nível 9. Tanto os níveis culturais aurignacenses como gravetenses estão associados ao homem essencialmente moderno, e não ao Homem de Neandertal.

“Nunca podemos esquecer que, para os observadores não experimentados, as diferenças culturais são frequentemente interpretadas como diferenças físicas, e uma pessoa não precisa de ser especialmente ingénua para cometer este erro. Assim, já na década de 1880 era possível os europeus cultos questionarem-se abertamente se os Negros nas sociedades primitivas africanas podiam ser considerados seres humanos, ou se representavam um acasalamento bizarro de homens e símios. Nem deveríamos fechar os olhos ao grau em que as sociedades com níveis profundamente diferentes de conhecimento cultural podem existir lado a lado; tais contrastes surgem hoje, por exemplo, na Austrália, onde a Idade da Pedra e a Idade do Jacto podem ser encontradas em grande proximidade. Assim, para interpretar as descrições de Ibn Fadlan, não precisamos de postular um fragmento de Neandertal, a menos que estejamos caprichosamente inclinados a fazê-lo”.

No fim, os argumentos tropeçam numa limitação bem conhecida do próprio método científico. O físico GerharRobbins observa que “estritamente falando, nenhuma hipótese ou teoria podem jamais ser provadas. Podem apenas ser contestadas. Quando dizemos que acreditamos numa teoria, o que queremos realmente dizer é que somos incapazes de mostrar que a teoria está errada não que somos capazes de mostrar, para além de qualquer dúvida, que a teoria está correcta.

“Uma teoria científica pode prevalecer durante anos, até séculos, e pode acumular centenas de pedaços de provas corroborantes para a sustentar. Todavia, uma teoria é sempre vulnerável, e um único achado incompatível é o bastante para derrubar a hipótese, e formar uma nova teoria. Nunca se pode saber quando surgirá essa prova incompatível. Talvez aconteça amanhã, talvez nunca. Mas a história da ciência está recheada de ruínas de poderosos edifícios derrubados por um acidente, ou por uma trivialidade”.

Era isto que Geoffrey Wrightwooqueria significar quando disse, no Sétimo Simpósio Internacional sobre Paleontologia Humana em Genebra, em 1972: “Só preciso de um crânio, ou do fragmento de um crânio, ou de um pouco de maxilar. De facto, a única coisa de que necessito é de um dente em bom estado, e o debate está concluído”.

Até essa prova de esqueleto ser encontrada, a especulação continuará, e cada pessoa poderá adoptar qualquer posição que satisfaça uma sensação interior da justeza das coisas.

 

                                                                                            Michael Crichton  

 

                      

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