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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


CÃO RAIVOSO / Stephen King
CÃO RAIVOSO / Stephen King

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

CÃO RAIVOSO

 

                                   ERA UMA VEZ...

Um terrível monstro que veio para a cidade de Castle Rock, mas, afinal, isso não faz tanto tempo assim. Ele era feroz e já matara uma garçonete chamada Alma Frechette em 1970; uma mulher chamada Pauline Toothaker e uma ginasial chamada Cheryl Moody em 1971; uma garota bonita chamada Carol Dunbarger em 1974; uma professora chamada Etta Ringgold no outono de 1975; e, finalmente, uma outra professora chamada Mary Kate Hendrasen no princípio do inverno desse mesmo ano.

Ele não era um lobisomem, um vampiro, uma assombração, nem tampouco uma criatura selvagem saída de florestas encantadas ou de planícies geladas. Era apenas um policial chamado Frank Dodd, portador de tremendos problemas sexuais e mentais. Foi por uma espécie de passe de mágica que um bom cidadão, chamado John Smith, descobriu o seu nome; mas antes de ser preso Dodd suicidara-se e este seu gesto foi, afinal, a melhor solução para o caso.

Ë claro que muita gente ficou chocada com aquilo, mas a maioria sentia-se aliviada na pequenina cidade porque, afinal, o monstro que tinha causado tantos pesadelos estava morto e então os pesadelos foram todos sepultados junto com o monstro.

Mesmo assim, nesta época esclarecida, quando tantos pais se dão conta dos danos psicológicos que podem causar aos filhos, ainda havia gente em Castle Rock — talvez até mesmo uma avózinha — que obrigava as crianças a se comportarem bem para que Frank Dodd não viesse buscá-las. Claro que logo se seguia um silêncio apavorado, enquanto as crianças olhavam lá para o escuro e imaginavam ver o monstro enfiado em sua capa preta impermeável mesmo Frank Dodd que já estrangulara tanta gente.

         Ele está lá fora, ainda posso ouvir a avozinha falando baixinho, enquanto o vento sopra pela chaminé para vir sujar a panela no fogo. Ele está lá fora. Ele está lá e se vocês não, se comporta¬rem bem, na certa irão ver a cara dele olhando pela janela depois que todo mundo já estiver dormindo. Até mesmo pode ser que vejam o seu sorriso dentro do quarto no meio da noite, com a placa PARE, que ele levantava para ajudar as crianças a atraves-sarem a rua, e, na outra mão, a navalha que usou para se matar... portanto, crianças, pssíu... fiquem bem quietinhas...

         Para a maioria, no entanto, tudo estava mesmo acabado. Na¬turalmente, ainda havia pesadelos, assim como também crianças que perdiam o sono; e também havia a casa, agora vazia, onde Dodd morara, pois sua mãe fora acometida de um mal súbito e morrera pouco depois. A casa ficara então com fama de mal-assombrada e todos fugiam dela. Mas tudo aquilo eram fenômenos passageiros, eram os efeitos secundários de uma cadeia de assassinatos sem sentido.

         Mas o tempo passou. Passaram-se cinco anos.

         O monstro tinha desaparecido,. o monstro estava morto. Frank Dodd já apodrecera em seu caixão.

         Só que o monstro nunca morre. Lobisomens, vampiros, assombrações e outras, criaturas indescritíveis das trevas. O monstro não morre nunca.

Ele voltou a Castle Rock no verão de 1980.

 

        Tad Trenton, de quatro anos de idade, acordou pouco depois da meia-noite, em maio deste ano, porque precisava ir ao banheiro. Saltou da cama, ainda tonto de sono, e encaminhou-se para a porta entreaberta que deixava escapar um feixe de luz e, já no caminho, ia abaixando as calças do pijama. Urinou bastante, puxou a descarga e voltou para a cama, onde puxou as cobertas. E foi ai que viu a criatura no seu closet.

         Estava agachada, a cabeça levantada e um corpo enorme, e seus olhos amarelados brilhavam como poços profundos. Era uma coisa que poderia ser metade homem e metade lobo. Seus olhos rolavam para lhe acompanhar os movimentos, ao mesmo tempo em que se sentava esfregando os testículos no chão, todo arrepiado o resfolegando como um vento de inverno. Seus olhos eram maus e pareciam rir, olhos que prometiam morte horrível e a sinfonia de gritos que ninguém ouvia.Havia alguma coisa ali no closet.

       O menino ouviu o rosnado da criatura. Seu hálito era de coisa podre.

Tad tapou os olhos com a mão, tomou fôlego e soltou um grito.

Ouviu a exclamação surda de seu pai no outro quarto.

Logo a seguir, do mesmo quarto, o grito histérico da mãe:

— O que é que há, Tad?!

Ouviu os passos que corriam. Logo que eles chegaram. Tad abriu um pouco os dedos e viu que a criatura ainda estava lá no closet, rosnando, prometendo coisas horríveis para quando eles che¬gassem e então eles iriam embora e, quando isso acontecesse...

O quarto iluminou-se. Vic e Donna Trenton chegaram até a sua cama e trocaram olhares preocupados quando o viram muito pálido, os olhos arregalados de pavor. Logo a voz zangada de Donna se fez ouvir, dirigindo-se ao marido:

— Eu lhe disse que três cachorros-quentes eram demais, Vic!

E, logo a seguir, seu pai estava sentado na cama, abraçando-o e perguntando sobre o que estava acontecendo.

Tad já não se atrevia mais a olhar para a porta do closet.

O monstro tinha desaparecido. Em vez daquilo que ele julgava ter visto, ali estavam agora duas pilhas de cobertores e outras rou¬pas de inverno que sua mãe ainda não tinha levado para o sótão Estava tudo em cima da cadeira que Tad usava para trepar quando precisava de alguma coisa lá no alto. Ao invés daquela cabeça hor¬rorosa, arrepiada e inclinada para o lado, numa espécie de gesto indagador e predatório, lá estava o seu grande urso de pelúcia em cima da pilha mais alta; e agora aqueles pavorosos olhos amarela¬dos do monstro não eram mais que os olhos de vidro de seu urso, que o fitavam amistosamente.

— O que é que está havendo aqui, Tadder? — perguntou seu pai.

— Vi um monstro ali, papai. Estava bem ali no closet — disse ele, e desatou em pranto convulsivo.

       A mãe sentou-se também ao seu lado, abraçando-o e tudo fa¬zendo para acalmá-lo. Seguiram o ritual de todos os pais. Expli¬caram-lhe que não havia monstros e que tudo não passara de um pesadelo.. A mãe explicou-lhe como as sombras podiam, algumas vezes, se parecer com as coisas que ele via na IV ou nas histórias em quadrinhos e o pai garantiu-lhe que tudo estava bem e que nada havia ali na casa que pudesse fazer-lhe mal. Tad sacudia a cabecinha em concordância, achando que eles estavam certos, em¬bora tivesse a certeza de não ser esse o caso.

O    pai explicou-lhe como as duas pilhas desiguais poderiam ter parecido um animal agachado e como o seu urso de pelúcia pode¬ria tê-lo enganado, auxiliado pela fresta de luz. que vinha do banheiro e que se refletira nos olhos de vidro amarelado, fazendo com que se parecessem com os de um animal de verdade.

       Agora olhe aqui, Tadder. Olhe bem para mim... O menino fez o que lhe era pedido.

       O    pai pegou as duas pilhas de cobertores e levou-as para o fundo do closet. Tad ouvia o macio tinir dos cabides de arame pendurados que falavam a respeito de seu pai na sua linguagem de cabides. Achou aquilo engraçado e sorriu. A mãe percebeu o seu tímido sorriso e sorriu também, já aliviada.

O    pai saiu do closet com o urso, que colocou nos braços do filho.

Ele fez um gesto floreado de prestidigitador, ao mesmo tempo em que pegava a cadeira e colocava-a de encontro à porta, fechan¬do-a bem.

—   E agora, meus senhores, vamos botar esta cadeira bem aqui...

Quando voltou para junto da cama de Tad ele ainda sorria, mas seus olhos estavam mais sérios.

       — Tudo bem, Tad?

—   Tudo bem, papai... — disse ele, mas, afinal, ganhou co¬ragem e acrescentou: — ... mas ele estava lá, papai. Eu vi. Vi mesmo!

Você viu aquilo em seu pensamento, Tad. Mas não foi um monstro aquilo que você viu no closet, Tad. Não um monstro de verdade. Não existem monstros, Tad. Eles só existem nas histórias e no seu pensamento enquanto falava, o pai passava-lhe a mão pela cabeça, carinhosamente.

O    menino olhou bem para o pai e depois para a mãe, para aqueles dois rostos que tanto amava.

—   foi mesmo?

—   Mas claro que é, Tad. Agora quero que você se levante para ir fazer pipi no banheiro, como um homenzinho.

—   Mas eu já fiz, mamãe. Foi por isso que acordei.

É    costume dos pais nunca acreditarem muito no que dizem os filhos.

—   Pois bem, Tad, mas faça-me a vontade e vá lá outra vez, sim?

Ele foi e ela ficou olhando, enquanto o filho deixava cair algumas gotas que a fizeram sorrir.

—   Está vendo como eu estava com a razão?

Ele sacudiu a. cabeça, já resignado, e voltou para cama, onde foi agasalhado e beijado com carinho.

Mas quando seus pais chegaram à porta, o pavor assaltou-o novamente, como se fosse um manto gelado. Como se fosse uma mortalha tresandando a morte. “Oh, por favor! Por favor! Por favor!” E aquilo era tudo que lhe podia ocorrer ao pensamento.

Teve a impressão de que seu pai adivinhara o que sentia, por¬que, ainda com a mão no interruptor, ele voltou-se e repetiu:

—   Não existem monstros, Tad.

—   Claro que não, papai. Claro que eles não existem...

Ele percebeu os olhos do pai que pareciam preocupados e dis¬tantes, como se estivesse procurando convencer-se do que dissera ao filho.

A não ser aquele que vi no meu closet.

A luz do quarto apagou-se.

—   Boa noite, Tad. — A voz de sua mãe chegou até ele, bai¬xinha, e então, mentalmente, alertou-a, gritando. “Cuidado mamãe! Eles comem as mulheres! Em todos os filmes eles sempre pegam as mulheres para levá-las e comê-las! Por favor! Por favor! Por favor...

Eles, porém, já estavam longe.

E ali ficou Tad, com seus quatro anos, deitado em sua cama, com os aparelhos nos dentes. Tinha as cobertas puxadas até o pescoço,. com um dos braços apertando o seu urso contra o peito, e lá estava o pôster de um super-herói na parede; e na outra um esquilo, rindo muito alegre e dizendo, SE A VIDA SÓ LHE DÁ LIMÕES, APROVEITE E FAÇA LIMONADAS. Na outra havia ainda todos os per¬sonagens de Vila Sésamo. O vento continuava a soprar lá fora e ele sabia que não conseguiria mais dormir naquela noite. Aos pou¬cos, porém, a tensão foi-se afrouxando e seu espírito começou a divagar...

E então um novo grito, um grito mais próximo do que o vento lá de fora, despertou-o novamente.

Era a porta do closet que rangia.

Criiiiiíiíííiii. ..

       Era um som tão fino que talvez somente cães e meninos acordados poderiam ouvir. A porta do closet abriu-se lentamente como se fosse uma boca morta abrindo-se na escuridão, pouco a pouco.

       O monstro estava lá naquela escuridão. Estava agachado no mesmo lugar onde estivera antes. Ria para ele com a cabeça in¬clinada exatamente como antes. E seus olhos brilhavam, amarela¬dos e cheios de uma esperteza estúpida. Eu disse a você que eles iriam embora, Tad. É o que sempre fazem, afinal. E é ai então que eu volto. Eu gosto de voltar. Gosto de você, Tad. Acho que agora vou voltar todas as noites e cada vez estarei mais perto de sua cama... um pouco mais perto... até que chegará a noite em que, antes que possa gritar, você ouvirá uma coisa rosnando bem perti¬nho de rua cama, Tad, e essa coisa serei eu, que saltarei e comerei você, que, então, passará a estar dentro de mim.

       Tad tinha os olhos arregalados para a criatura, completamente apavorado e fascinado, como se estivesse drogado. Havia nela algu¬ma coisa que lhe era... quase familiar. Que ele quase conhecia e aquilo era ainda pior: aquela sensação de quase conhecer e saber. E isso porque...

       Porque eu sou louco, Tad. Sempre fui louco. Sempre estive aqui. Meu nome era Frank Dodd. Eu matava as mulheres e era bem possível que também as comesse. Eu tenho estado aqui duran¬te todo esse tempo, vou ficar sempre por aqui e estarei sempre atento. Eu sou o monstro, Tad, sou aquele velho monstro, e vou te pegar agora, Tad. Quero que você me sinta cada vez mais ....... cada vez mais ...

       Talvez aquela coisa ali no closet estivesse lhe falando com sua própria voz sibilante, mas também era possível que fosse o sibilar do vento lá fora. De qualquer forma, porém, aquilo não tinha impor¬tância. Ele ouvia-lhe as palavras petrificado de pavor, como se estivesse drogado, quase desmaiando, mas ainda bem acordado; e continuava a ver aquela cara ali na sombra, uma cara que quase conhecia e que rosnava para ele. Não conseguiria dormir mais na¬quela noite e, aliás, talvez nunca mais conseguisse dormir em sua vida.

         Apesar de tudo, no entanto, entre a batida de meia-noite e meia e uma hora, e talvez porque fosso ainda bem criança, Tad adormeceu novamente, mas foi um sono leve em que via sempre, à espreita, criaturas , peludas e grandalhonas com dentes arreganha¬dos e ameaçadores; mas por fim acabou caindo num sono mais profundo, num sono sem sonhos ou pesadelos.

         O vento continuava em suas longas e intermináveis conversas com as sarjetas. Logo surgiu no céu um pedacinho da lua de prima¬vera muito branca. Em algum lugar, bem longe, em alguma planície adormecida ou em alguma orla de floresta de pinheiros, um cão latiu furiosamente, mas logo se calou.

         Mas ali, naquele closet de Tad, havia alguma coisa com olhos amarelados que continuava vigilante.

 

     — Você tornou a colocar os cobertores lá, Vic?

         Já estavam na manhã seguinte e Donna, de pé diante do fogão, fritava o bacon. Tad estava na outra sala, vendo na TV The New Zoo Revue, enquanto comia seus cereais feitos pela Sharp e que a família recebia de graça.

         — Hummm? — Vic resmungou sem tirar os olhos da página esportiva do jornal. Ele era um egresso de Nova York que até então conseguira resistir à febre do time dos Red Sox. Assim sentia-se satisfeito, de forma um tanto masoquista, com o fato dos Mets estarem bem na frente com uma boa arrancada.

         — Os cobertores, Vic. Os cobertores do closet de Tad. Eles estavam novamente lá, a cadeira também, e a porta continuava entreaberta — Ela trouxe para a mesa o bacon ainda fervendo, envolto num guardanapo de papel para absorver a gordura. — Foi você quem os colocou de volta em cima da cadeira?

           —      Eu não! Aquilo lá cheirava como se fosse uma convenção dc bolas dc naftalina...

           Ao mesmo tempo que falava, ele passava para uma outra pá¬gina do jornal.

           — Engraçado... Então deve ter sido ele quem colocou tudo de volta.

           O      marido, afinal, pôs de lado o jornal.

— Mas que diabo quer você dizer com isso, Donna?

           —      Você lembra o pesadelo que ele teve esta noite...

           — Como é que eu poderia esquecer isso? Eu até pensei que ele estava morrendo. Pensei que fosse uma convulsão ou coisa parecida...

           A mulher sacudiu a cabeça e depois deu de ombros.

           Ele pensou que os cobertores eram uma espécie de...

   —... uma assombração, talvez — ele concluiu, sorrindo.

   — Acho que deve ter sido isso mesmo. E aí você deu-lhe o seu urso e arrumou os cobertores bem no fundo do closet. Pois bem, Vic, estava tudo de volta em cima da cadeira esta manhã, quando entrei no quarto para fazer a cama. Olhei lá para dentro e, então, apenas por um momento.., pensei...

Ela não terminou e soltou unta risadinha.

Ele tornou a pegar no jornal e olhou-a com um ar irônico e amistoso.

—   Agora já sei o que foi que aconteceu. Três cachorros-quentes uma ova!

Mais tarde, depois do marido ter saído para o escritório, Donna perguntou a Tad por que ele tornara a colocar os cobertores em cima da cadeira no closet, já que aquilo lhe metera tanto medo na noite anterior, quando gritara tanto.

       Tad levantou os olhos para ela e o seu rostinho, geralmente alegre e cheio de vida, parecia agora pálido e desconfiado. Até pa¬recia um velho. O livro Guerra nas Estrelas que coloria estava

aberto bem na sua frente. Ele tinha desenhado a cantina intereste¬lar e usara o lápis verde para colorir um dos personagens.

—   Não fui eu, mamãe.

—   Olhe aqui, Tad. Se não foi você, se não foi seu pai nem eu...

—   Foi o monstro, mamãe. O monstro que mora no meu closet¬...... — disse e tornou a voltar sua atenção para o que estava colorindo cuidadosamente.

Ela ficou ali olhando para o filho, muito preocupada e um tanto apavorada. Ele era um menino muito inteligente mas talvez também fosse imaginativo demais. E ela não estava gostando da¬quilo. Teria uma boa conversa com Vic quando ele voltasse à noite. E seria uma conversa bem longa. Bem longa mesmo.

—   Olhe aqui, Tad, lembre-se bem daquilo que seu pai lhe disse. Não existe nenhum monstro. Nem mesmo coisa parecida, ta?

Ele abriu-se num maravilhoso sorriso que a deixou encantada e serviu também para aliviar-lhe os temores. Acariciou-lhe os. cabe¬los e beijou-o.

—   Pode ser que não haja durante o dia, mamãe...

       Ela tencionava falar com Vic sobre aquilo, mas Steve Kemp apareceu enquanto Tad estava na escola maternal e ela simplesmente esqueceu. E Tad tomou a gritar naquela noite, tornou a gritar que o monstro estava ali em seu closet e que era aquele mesmo monstro.

A porta do closet estava entreaberta, os cobertores em cima da cadeira. Dessa vez, porém, Vic levou-os e enfiou-os no closet que havia no terceiro andar.

—   Tranquei-o lá em cima, Tadder.. Agora tudo acabou. Volte para dormir e tenha sonhos agradáveis...

Beijou-o e saiu.

Tad, porém não dormiu logo. Ficou ainda algum tempo acor¬dado, o tempo suficiente para ver a porta do closet abrir-se com um pequeno estalido e ficando ali como uma boca aberta na escuridão. do quarto, uma escuridão onde ele conseguia distinguir algu¬ma coisa pelada, com dentes e garras afiados que o espreitavam, alguma coisa que tresandava a sangue azedo e que lhe prometia um sombrio destino, ao mesmo tempo que lhe falava baixinho como antes.

—   Oi, Tad..

E então a lua espiou pela janela do quarto, como se fosse os olhos apertados e brancos de um morto.

 

A pessoa mais velha que existia em Castle Rock naquela primavera era Evelyn Chalmers, conhecida como Tia Evvie pelos resi¬dentes mais antigos da cidade, com exceção do carteiro George Meara, que lhe trazia a correspondência, consistindo apenas de ca¬tálogos e propaganda do Reader’s Digest e folhetos religiosos da Cruzada do Cristo Eterno. Ele a chamava de “velha cadela tagarela” quando era obrigado a ficar ouvindo os seus monólogos sem fim. Dizia então que a única coisa boa naquela “cadela tagarela” era o fato dela saber prever as condições meteorológicas com grande precisão. Isso era o que ele dizia quando enchia a cara com os velhos companheiros no boteco chamado O Tigre Manso. Aquele era um nome estúpido para um bar, mas como era o único existente na cidade, tudo indicava que nunca seria mudado.

Quase todo mundo concordava com a opinião de George Meara. Na sua qualidade de mais antiga residente de Castle Rock, Tia Evvie vinha sendo a correspondente do Boston Post nos dois últimos anos, depois da morte de Arnold Herbert, com 101 anos de idade o tio senil que qualquer conversa com ele era um desafio intelectual. Era o mesmo que tentar conversar com umaa lata de

conservas. Ele escorregara e caíra no quintal do abrigo para velhos, fraturando a coluna e morrendo exatamente 25 minutos depois de haver mijado nas calças pela última vez.

Tia Evvie estava ainda muito longe de ser tão senil quanto o velho Arnie, já que ainda faltava muito para chegar à idade dele, embora com seus 93 anos fosse já bem velhinha. Adorava gritar impropérios contra o carteiro quando ele, ainda de ressaca, vinha trazer-lhe a correspondência; e, até então, fora esperta o bastante para não perder sua casa, como acontecera antes com o Arnie.

Mas era realmente boa quando se tratava de prever o tempo. O consenso geral da cidade, especialmente entre a gente velha que ainda dava importância a tais coisas, era que ela nunca errava a respeito de três coisas: a semana em que começariam a ceifar o feno no verão; se seria boa ou má a colheita das amoras; e, final¬mente, quais seriam as condições do tempo.

Um dia, no começo daquele mês de junho, ela se arrastou para a caixa do correio que ficava lá perto do portão, apoiando-se com força na bengala que lhe dera o Boston Post, a insígnia de sua po¬sição de correspondente do jornal e que passaria para Vic Marchant quando ela morresse — o que, na opinião de George Meara, seria uma boa coisa. Ia fumando o seu cigarro habitual e gritou uma saudação para o carteiro. A sua condição de surda aparentemente a convencera de que todo mundo também ficara surdo, num belo gesto de solidariedade. Depois continuou gritando para lhe dizer que iriam ter o verão mais quente daqueles últimos 30 anos. Seria quente no começo, no fim e no meio. Ela dizia tudo aquilo aos gritos, na tranqüila e sonolenta manhã, pouco antes do meio-dia.

—   Será que vai ser mesmo, Evvie? — perguntou George.

—   O quê?

—   Eu disse “será que vai ser mesmo?”...

Uma outra coisa que havia com a Tia Evvie era que ela fazia com que os outros também gritassem até quase estourar uma veia.

— Aposto até minha vida como vai ser mesmo, George. — A cinza do cigarro caiu em cima do uniforme de George, que saíra da lavanderia naquela mesma manhã, e ele sacudiu-a resignadamente. A velha debruçou-se na janela de seu carro a fim de ficar em melhor posição para lhe gritar no ouvido. O hálito dela era de comida azeda. — As preás já estão todas no campo. O Tommy Neddeau viu elas lá perto do lago, esfregando-se antes de aparecerem os primeiros passarinhos. Já havia relva por baixo da neve quando ela se derreteu. Relva bem verde!

— Havia mesmo, Evvíe?

Ele apenas falava por falar e sua cabeça já estava estalando com os gritos da velha.

—   O queee...?

—   EU DISSE: “HAVIA MESMO”, TIA EVVIE? — ele falou tão alto que a saliva lhe escorreu pelo canto da boca.

E ela continuava a berrar, muito satisfeita:

—   É o que lhe digo, George. Vi relâmpagos na noite passa¬da. Mau sinal, George! Quando faz calor muito cedo isso é mau sinal! Vai morrer gente de insolação neste verão! Vai ser terrível!

—   Preciso ir andando, Tia Evvie! Tenho uma carta expressa para Stringer Beaulieu — disse o carteiro, aos berros.

A velha achou graça e soltou uma gargalhada, levantando os olhos para o céu. Sacudia-se toda e quase se engasgava de tanto rir, com a cinza do cigarro se espalhando em seu vestido caseiro. Cuspiu fora o toco que lhe restava e que continuou se queimando ali no chão perto do seu sapato muito preto e apertado como se fosse um espartilho, um sapato que durava toda a vida.

—   Então você tem uma carta expressa para o tal francês Beaulieu, hem? Ora essa! Ele não seria capaz de ler nem mesmo o que se escrevesse na lápide de seu túmulo!

E era sempre o mesmo berreiro de ambas as partes. O carteiro tratou logo de engrenar o carro para ir embora.

—   Preciso ir andando, Tia Evvie!

—   Esse tal francês é um verdadeiro toleirão que já nasceu assim! Não creio que Deus jamais tenha feito outro igual a ele!

A gritaria da velha já não encontrava mais ouvinte, pois o car¬teiro partira e ela agora falava para a poeira deixada pelo carro que saíra em disparada.

Ela ficou ali durante mais um minuto, junto à caixa do correio, vendo-o desaparecer na estrada. Não recebera carta alguma, aliás, coisa bem comum nos últimos tempos. A maior parte das pessoas quê conhecia e que lhe escreviam já partira deste mundo. E ela desconfiava que o mesmo lhe aconteceria muito em breve. Sentia-e. inquieta com o verão que estava para chegar. Tinha medo. Fa¬lava das preás e das ratazanas dos campos que saíam de suas tocas antes do tempo, ou dos relâmpagos de verão num céu de primavera, mas não conseguia falar do calor que percebia bem acima da linha do horizonte, agachado como um animal selvagem e peludo, olhos ardentes e vermelhos, assim como também não podia falar de seus sonhos que eram quentes, sequiosos e sem sombras, nem tampouco daquela manhã em que seus olhos haviam enchido de lágrimas, sem qualquer razão aparente, que não lhe traziam tranqüilidade, mas que ardiam nos olhos como se fosse um terrível suor de agosto. Ela sentia o cheiro da loucura num Vento que ainda não chegara.

— George Meara, você é um velho peidorreiro — ela disse, dando à palavra uma sonora conotação do Maine em que as vogais se arrastavam indefinidamente, causando uma entonação cataclis¬mica e ridícula: peidorreeeeiro.

Começou a caminhar de volta para casa, sempre apoiada na bengala do jornal. Ela lhe fora presenteada em cerimônia realizada na Prefeitura, como prêmio por um estúpido feito que nada mais era senão o de ter conseguido ficar muito velha. E ela então pen¬sava que não era de admirar o fato do jornal haver dado com os burros n’água.

Parou, no meio do caminho e ficou olhando para o céu que ainda mantinha a sua pureza primaveril, com o colorido suave de pastel. Sim, sim, mas a velha sentia que alguma coisa estava para chegar, alguma coisa quente. Alguma coisa ruim.

 

Um ano antes daquele verão, quando o velho Jaguar de Vic Trenton tinha aparecido com uns ruídos estranhos na roda traseira. do lado esquerdo, o carteiro lhe recomendara que o levasse à oficina de. Joe Camber, que ficava na periferia da cidade.

Ele lhe dera o conselho num dia em que Vic o esperava junto da caixa do correio:

— O Joe tem uma maneira engraçada de fazer as. coisas. Ele lhe diz quanto vai custar o trabalho; e quando entrega o carro pronto, cobra exatamente o combinado. É uma forma bem engra¬çada para negociar, não é mesmo?

Depois, George tinha ido embora e Vic ficara ali a imaginar se ele falara sério ou se apenas quisera se divertir à sua custa com alguma brincadeira ianque.

Mesmo assim, no entanto, ele telefonou para Camber num dia de julho, um dia bem mais fresco do que seria o do ano seguinte; e então Donna, Tad e ele foram até a oficina, que ficava realmente bem longe. Ele fora obrigado a parar duas vezes para perguntar se estava no caminho certo. Foi depois disso que ele batizou aquele lugar como “os confins onde o diabo perdeu as galochas”, tal a quantidade de lama existente.

Entrou no pátio da oficina com a roda cada vez maia barulhenta. Tad, na época com três anos, estava no colo de Donna, achando muita graça. Um passeio no conversível do pai sempre o alegrava muito. Donna também estava bastante satisfeita.

Um garotinho de uns oito ou nove anos estava ali no pátio, brincando com uma velha bola de beisebol que atirava de encontro a uma parede. Vic presumiu que a oficina devia ser ali.

— Oi! — disse o garoto. — O senhor quer falar com o pa¬pai? Espere aí que vou chamar ele agora mesmo.

Os três saltaram e Vic foi até a traseira do carro, onde se agachou ao lado da roda com defeito e já meio arrependido de ter vindo até ali. Talvez tivesse sido melhor se houvesse arriscado, para ir até Portland. O local não lhe infundia muita confiança. Não havia nem mesmo uma placa com o nome da oficina.

Os seus pensamentos foram interrompidos pela voz de Donna, que o chamava e parecia nervosa. Logo a seguir, ouviu a excla¬mação.

— Meu Deus! Vic...

Ele levantou-se imediatamente e viu um enorme cão que saía do barracão. Durante um momento absurdo, tentou imaginar se aquilo seria mesmo um cão ou se seria alguma espécie estranha de pônei. Foi só quando o bicho chegou cá fora à luz do dia que ele percebeu o seu engano. Tratava-se apenas de um colossal São Ber¬nardo com seus olhos muito tristes.

Impulsivamente, Donna havia pegado Tad no colo e se refu¬giara dentro do carro, mas o menino se debatia em seus braços,

       — Pode sair.

— Eu quero ver o cachorro, mamãe... quero ver o cachorro. ¬Donna olhou nervosa para o marido, que apenas deu de om¬bro, embora não se sentisse muito à vontade. O garotinho logo voltou e afagou a cabeça do animal quando ele se aproximou de Vic, abanando o rabo imenso. Isso fez com que Tad redobrasse os esforços para sair do carro.

O garoto, muito atencioso, dirigiu-se a Donna:

— A senhora não precisa ter medo. O Cujo adora crianças. Pode deixar o menino sair. Ele não lhe fará mal algum. — E para Vic: — Papai já vem. Está lavando as mãos.

— Está bem... Mas nunca vi um cachorro deste tamanho, filho. Tem certeza de que ele não morde?

O garoto reafirmou o que dissera, mas mesmo assim Vic pre¬feriu ir para junto da mulher quando o filho, muito pequenino, ca¬minhou para o cachorro, que tinha a cabeça inclinada e abanava o enorme rabo muito devagar.

— Vic...

— Está tudo bem, Donna....

Intimamente, porém, ele especulava se estaria mesmo. O bicho parecia grande o bastante para engolir seu filho de uma só vez.

Tad parou durante um momento e era fácil ver que hesitava, ainda em dúvida.

—   Cachorrinho...

— O nome dele é Cujo, garotinho — disse o filho de Camber.

Tad repetiu o nome, o cão veio até ele e começou a lamber¬ o rosto, muito alegre e bem disposto, fazendo com que Tad risse e procurasse fugir de suas carícias. Depois, ele olhou para a mão e o pai, rindo-se da mesma forma que reagia quando eles lhe faziam cócegas. Caminhou para eles, mas seus pés se embaraçaram o caiu no chão. O cão logo precipitou-se e então Vic, que tinha o braço em torno da cintura de Donna, sentiu e ouviu quando ela soltou um pequeno grito de susto. Ele ia se precipitar para o filho, mas logo se deteve.

Os dentes de Cujo tinham-se agarrado à camiseta de Homem Aranha de Tad e o cão tentava levantar o menino que, por um momento, parecia um gatinho sendo carregado pela mãe. Mas logo estava de pé novamente.

Tad correu para onde estavam sua mãe e seu pai e parecia radiante.

— Eu gosto do cachorro! Mamãe, papai, eu quero o cachorro!

O filho de Camber olhava tudo aquilo com ar muito divertido e as mãos enfiadas nos bolsos dos jeans.

— Puxa vida! É mesmo um grande cão! — disse Vic, que achava aquilo divertido; mas seu coração ainda estava aos saltos. Durante um momento ele pensara mesmo que o bicho ia engolir a cabeça do filho, como se fosse um pirulito. — um São Bernardo, ......

— Um São... Benado, pai?

Ele voltou correndo para junto do cão, que se sentara na porta do barracão. Parecia uma pequena montanha.

— Cujo! Cuuuujo!

Donna estava novamente tensa ao lado do marido.

— Vic... será que...

Tad, porém, já correra de novo para junto do cão, abraçan¬do-o efusívamente e depois olhando bem para a sua cara. Com o animal ali sentado, batendo com o rabo no chão e a língua muito vermelha pendurada, Tad quase podia olhar dentro de seus olhos, desde que ficasse na ponta dos pés.

— Acho que eles se deram bem, Donna — disse Vic.

Tad estava agora enfiando a sua mãozinha na boca de Cujo, tentando olhar lá para dentro como se fosse o menor dentista deste mundo. Isso fez com que Vic passasse outros maus momentos, mas Tad já vinha correndo de volta para eles.

— O cachorro tem dentes, papai...

— Eu sei, meu filho. Ele tem mesmo uma porção de dentes.

Ele voltou-se para o garoto de Camber, querendo perguntar-lhe como haviam arranjado aquele nome, mas Joe Camber apare¬ceu, ainda enxugando as mãos numa estopa, a fim de poder apertar a mão de Vic sem sujá-las de graxa.

Foi uma boa surpresa para Vic quando constatou que o ho¬mem era bom mesmo em sua profissão. Ouviu cuidadosamente o barulho que havia na roda enquanto davam uma volta com o carro para logo chegarem de novo à oficina.

— E o rolamento da roda que gastou. O senhor deu sorte de não ter parado na rua.

       — E você pode dar um jeito?

— Claro que posso. E posso até mesmo fazer isso agora se não se importar de esperar um pouco. Talvez umas duas horas.

— Acho que posso sim — disse Vic, ao mesmo tempo em que olhava para o filho e para o cão. Tad estava agora segurando a bola de beisebol que antes estivera na mão do filho de Camber. Ele atirava-a o mais longe que podia, o que, aliás, não era tão longe assim. Cujo ia obedientemente busca-la, para colocá-la aos seus pés. A bola estava, sem dúvida alguma, já bem gasta e suja.

— O seu cão está divertindo bem o meu filho...

       — O .Cujo gosta muito de crianças. Por favor, leve seu carro para dentro do barracão, Sr. Trenton.

       O doutor vai atendê-lo agora, pensou Vic divertido e logo atendeu: ao pedido do mecânico. No final das contas, o serviço levou apenas hora e meia e o preço cobrado chegou a espantar Vic, de tão razoável.

       E Tad passou toda aquela tarde sombria correndo pelo quin¬tal e chamando o cachorro pelo nome um sem-número de vezes.

       — Cujo! Cuuuujo... Cujo, venha aqui...

         Pouco antes de saírem, o filho de Camber, que se chamava Brett, enganchou-o no dorso do cachorro e. deu umas voltas no quintal. Quando passaram diante de Vic, o cão levantou os olhos para ele e Vic seria capaz de jurar que o animal estava rindo sa¬tisfeito.

 

Exatamente três dias depois daquela conversa aos berros de George com a Tia Evvie, uma menina da mesma idade de Tad levantou-se da mesa onde estava tomando o sou café da manhã, numa casinha de Iowa City, e disse à mãe que não se sentia bem e que estava com vontade de vomitar.

       A mãe olhou-a sem demonstrar muita surpresa. Dois dias antes, o. irmão mais velho de Marcy tinha voltado da escola antes do. término das aulas porque estava com muita dor de barriga. Brock já estava bom agora, mas passara as últimas 24 horas ati¬rando fora, vigorosamente, por cima e por baixo, tudo que tinha na barriga.

       — Você está mesmo enjoada, minha querida?

       — Estou sim... eu...

       E, sem acabar de falar mas gemendo alto, ela precipitou-se pelas escadas com as mãos apertando a barriga. Sua mãe acompa¬nhou-a e levou-a para o banheiro, ao mesmo tempo em que pensava que seria um verdadeiro milagre se ela também não ficasse doente.

       Ouviu a menina vomitando e, automaticamente, ia pensando nas medidas que precisaria tomar. Muito líquido, repouso na cama, o urinol e alguns livros. Brock poderia levar a TV portátil para o quarto da irmã logo que voltasse da escola.

       Ela olhou para dentro do vaso e todos os seus pensamentos foram logo afastados com o tremendo choque que sentiu. Era como se a casa estivesse desmoronando.

—   Mamãe, mamãe, estou muito enjoada... está doendo muito...

A menina se virava e revirava, virava e revirava e seu rostinho estava todo sujo de sangue. Seu vestidinho azul estava todo sujo. Meu Deus! Jesus, Maria, José!... Quanto sangue!

—   Mamãe... mamãe...

E a meninazinha tomou a soltar uma golfada de sangue. que se espalhava por toda a parte como se fosse uma chuva sinistra. Sua mãe pegou-a no colo e disparou para o telefone da cozinha para chamar o pronto-socorro.

 

Cujo sabia muito bem que já estava velho demais para andar correndo atrás de coelhos.

Ele não estava tão velho assim, nem mesmo na sua qualidade de cachorro. Mas com seus cinco anos ele já não era mais aquele cachorrinho que chegava a correr até mesmo atrás das borboletas através do mato que havia atrás do barracão. Estava com cinco anos, o que, se fosse um ser humano, representava o começo da meia-idade.

Ainda estava no dia 16 de junho, na manhã de um magnífico dia, o a relva ainda se achava coberta de orvalho. O calor que Tia Evvíe previra para George tinha realmente chegado e aquele come¬ço de junho era, de fato, o mais quente que já se vira em anos.. Às duas horas da tarde daquele dia, Cujo deveria estar deitado na poeirenta soleira da porta ou então dentro do barracão, desde que O HOMEM o deixasse entrar, o que acontecia vez por outra quando ele bebia, algo que, naqueles dias, se tornara até bem comum. E o cão ficava ofegante, castigado pelo sol ardente. Mas isso foi mais

E o coelho, que era grande, escuro e gordo, não fazia a menor idéia que Cujo andava por ali, já que ficava bem longe da casa. Além disso, o vento soprava na direção contrária e isso foi um azar para o Mestre Coelho.

Cujo saiu atrás do coelho, mais por brincadeira do que por fome, enquanto ele roia umas ervas tenras que em breve estariam estorricadas pelo sol. Se ele tivesse coberto a metade da distância que o separava do coelho, assim que o viu e fugiu correndo, era muito provável que Cujo desistisse; mas ele estava a apenas uns 15 metros quando o bichinho levantou a cabeça e esticou as ore¬lhas, permanecendo porém imóvel durante uns segundos. Parecia até uma escultura, com os olhos muito esbugalhados. Era uma figu¬ra, cômica. Só então ele disparou.

Cujo saiu correndo atrás dele, latindo furiosamente. O coelho era muito Pequeno em relação a Cujo, mas a possibilidade de uma vitória aumentava a energia e disposição do cachorro. Ele chegou tão perto do coelho que conseguiu tocá-lo com a pata. O coelho porém esquivou-se, o que deu mais força a Cujo. Suas patas che¬gavam a escavar a terra escura, aumentando a distância mas logo recuperando-a, e os passarinhos fugiam com medo de seus latidos. Se fosse possível um cão achar graça em alguma coisa, Cujo estaria achando graça ali, naquele momento. O coelho ziguezagueava em disparada pelo campo, com o cão atrás dele, embora já descon¬fiasse que aquilo era uma parada perdida.

Mesmo assim, ele dava tudo que tinha e já começava a ganhar terreno quando o coelho se enfiou numa toca existente em ligeira elevação do terreno e que estava coberta por capim bem alto. Mas Cujo não hesitou. Agachou-se, encolhendo o seu corpanzil, e ati¬rou-se como se fosse um projétil. E o resultado foi que ficou ali preso na entrada... como se fosse uma rolha na garrafa.

Já decorriam 17 anos desde que Joe Camber possuía a Fazen¬da Seven Oaks, que ficava no fim da Rodovia estadual 3, mas ele não tinha a menor idéia a respeito da existência daquele buraco. Claro que logo o teria descoberto se fosse um lavrador, mas essa não era a sua profissão. Não havia gado estabulado no barracão vermelho e grande, já que ele fizera dele a sua oficina mecânica e de lanternagem. Seu filho Brett estava sempre percorrendo todo o campo, mas nunca se dera conta da existência daquela toca, em¬bora, em certas ocasiões, passasse bem perto dela, arriscando-se até mesmo a torcer um pé no buraco. Nos dias bem claros o buraco poderia ser tomado por uma sombra, mas nos dias sombrios o ca-pim alto cobria-o completamente.

John Mousam, o dono anterior da fazenda, sabia de sua exis¬tência, mas se esquecera de falar no assunto quando vendera a pro¬priedade a Joe, em 1963. Talvez pudesse ter mencionado isso quan¬do Charity, a mulher de Joe, deu à luz o menino Brett, mas já então um câncer o havia levado desta para melhor.

Aliás, até foi bom o fato do Brett não ter descoberto a toca. Não existe nada neste mundo que seja mais interessante do que um buraco para um menino e aquele era a entrada para uma pequena

caverna natural de calcário. A sua maior profundidade deveria ser uns seis metros e seria até bem fácil para um garotinho esperto se enfiar dentro dele, para depois não conseguir mais sair. Era o que já tinha acontecido com pequenos animais no passado. A superfí¬cie escorregadia da pedra tornava fácil deslizar para dentro e muito difícil à escalada para sair. Lá no fundo a caverna estava cheia de animais mortos e esqueletos. Havia gambás, esquilos e até mesmo um gato. O nome desse gato era Limpinho e ele desaparecera dois anos antes. Joe achava que tinha sido atropelado, ou então simplesmente fugira. Mas era ali que ele estava, junto com os ossos de uma preá bem grande que perseguira.

O coelho de Cujo escorregara até o fundo do buraco e ali ficara, apavorado, as orelhas espetadas e o focinho vibrando como se fosse um diapasão, enquanto os furiosos latidos do cão enchiam toda a caverna, seu eco dando a impressão de que havia ali uma matilha inteira.

A caverna pequenina também atraíra para ali alguns morce¬gos. Não eram muitos, devido ao seu tamanho, mas o teto áspero era um lugar bem adequado para eles se pendurarem de cabeça para baixo e dormirem o dia inteiro. E esses morcegos eram mais uma prova da sorte de Brett em não descobrir a caverna, princi¬palmente naquele ano, quando ela se enchera de morcegos porta¬dores do vírus da raiva.

Cujo estava com o peito engastalhado no buraco sem conse¬guir sair, apesar de tentar furiosamente com as patas traseiras. Ele talvez pudesse ter escapado, não fosse sua teimosia em querer pe¬gar aquele coelho. Sabia que o bichinho estava lá dentro encurra¬lado e que seria seu, sem dúvida alguma. A sua visão já não era grande coisa e o corpo imenso não deixava passar luz alguma para a caverna. Ele nem mesmo se dava conta da descida escorregadia que tinha pela frente. Só tinha faro para a umidade, para o excre¬mento dos morcegos, já curtido ou ainda fresco.., mas também farejava o coelho e aquilo era o mais importante para ele. Quente o gostoso. Ali estava o seu jantar.

Os seus latidos despertaram e apavoraram os morcegos. Alguma coisa havia invadido os seus domínios. Voaram em massa para a saída com seus guinchos agudos, mas o sonar que os orien¬tava mostrava que a passagem estava obstruída e que ali havia agora um predador.

Eles ficaram esvoaçando na escuridão e as membranas de suas asas soavam .como se fossem peças de roupas estendidas, talvez fral¬das, que se balançavam em suas cordas. Lá embaixo, o coelhinho estava todo. enrodilhado, na esperança de poder escapar.

Cujo sentia que alguns morcegos passavam bem perto da parte do seu corpo que se projetava para dentro da gruta e então teve modo. Não gostava do cheiro nem do som que sentia e ouvia. Não gostava do estranho calor que parecia emanar deles. Latiu ainda mais alto e procurava abocanhar aqueles bichos que voavam e zu¬niam em torno do sua cabeça. Conseguiu pegar um deles e sentiu como seus ossos eram frágeis, como as mãos de uma criança muito pequenina. O morcego reagiu e mordeu-lhe o focinho, abrindo um corte que parecia ser um ponto de interrogação, mas logo depois çaiu no chão, já morto. O mal, porém, já tinha sido consumado. As mordidas de animais raivosos são muito sérias quando atacam a parte da cabeça, já que a raiva é uma moléstia que ataca o sis¬tema nervoso central. Os cães, mais suscetíveis do que os seres hu¬manos, não podem contar çom a proteção completa da vacina con¬tra o vírus, administrada por todos os veterinários. E Cujo jamais fora vacinado.

Mesmo sem saber disso, mas sabendo apenas que o gosto da¬quele bicho. que matara era simplesmente horroroso, Cujo concluiu que o melhor mesmo seria desistir daquela empreitada, que já não valia o esforço que estava empregando. Com um tremendo safanão, ele conseguiu desembaraçar-se e saiu dali com o pêlo todo sujo de terra e de imundícies. Seu focinho sangrava. Ele sentou-se, levan¬tou a cabeça para o céu e deixou escapar um uivo triste e pro¬longado.

Os morcegos saíram esvoaçando em bando, completamente tontos com a luminosidade daquele dia muito claro de junho, mas logo voltaram para o seu refúgio na caverna. Eram bichos sem cérebro e dentro de dois ou três minutos já tinham esquecido com¬pletamente aquele intruso que latia. Retornaram e logo se pendu¬raram de cabeça para baixo, continuando o sono interrompido. En¬volviam-se em suas asas como mulheres velhas agasalhadas em seus xales.

Cujo saiu dali sempre se sacudindo e esfregando o focinho ferido com as patas. O sangue Já secara, mas a ferida ainda lhe doía muito. Os cães possuem um sentimento de embaraço muito desproporcional à sua inteligência e Cujo sentia-se contrariado com o    que fizera. Não queria voltar para casa. Se fizesse isso, alguém daquela sua trindade. — o HOMEM, A MULHER OU O GAROTO — logo se dariam conta do que acontecera. Era até possível que um deles o insultasse chamando-o de CACHORRO MAU e, naquele mo-mento, era justamente assim que ele se sentia. Era mesmo um CACHORRO MAU.

E então, ao invés de voltar para casa, Cujo caminhou rumo ao ribeirão que separava as duas propriedades, a de Cainber o a de Gary Pervier, o vizinho mais próximo de Joe. Subiu o rio caminhando dentro d’água e bebendo-a com sofreguidão; depois ro¬lou dentro dela, numa tentativa para se limpar e tirar da boca aquele gosto horroroso, numa tentativa para se limpar de forma que não pudesse mais ser chamado de CACHORRO MAU.

Pouco a pouco, começou a sentir-se melhor e saiu do ribeirão; sacudiu-se e a umidade que saía de sou corpo logo formou ali no ar um lindo arco-íris.

O sentimento de ser um CACHORRO MAU ia aos poucos e a dor no focinho também diminuía. Resolveu voltar à casa e ver se o GAROTO andava por ali. Já se acostumara a ver o grande ônibus amarelo da escola que vinha buscar o GAROTO todas as manhãs, para trazê-lo de volta à tarde, mas na última semana o ônibus não aparecera por ali com seus olhos flamejantes e a carga barulhenta das crianças e o GAROTO estava sempre em casa. Geral¬mente ficava lá no barracão fazendo coisas para O HOMEM. Era possível que o ônibus houvesse aparecido naquela manhã, como também era possível o contrário. Ele iria verificar. Já se esquecera daquele buraco feio e do gosto horroroso do morcego. O focinho já quase não doía mais.

       Cujo rompia com facilidade o capim alto daquela parte do campo, espantando passarinhos que fugiam voando, mas ele não lhes dava a menor atenção. Naquele dia não se aventuraria mais a caçadas. O seu pensamento poderia ter esquecido a aventura, mas o mesmo não acontecia com sou corpo. Ele era um São Bernardo cheio de saúde, com cinco anos de idade e pesando uns 100 quilos, mas agora, naquela manhã do dia 16 de junho de 1980, ele estava contaminado pela hidrofobia.

 

Sete dias depois disso e a uns 15 quilômetros de distância da Fazenda Oaks, em Castle Rock, dois homens estavam num restaurante da cidade de Portland, chamado O Submarino Amarelo. A especialidade da casa eram portentosos sanduíches, pizzas e ainda outras iguanas. Nos fundos havia uma espécie de “bagatela”. Em cima do balcão estava uma placa dizendo que todo aquele capaz de comer dois Pesadelos do Submarino Amarelo não pagaria coisa alguma: Por baixo, entre parênteses, havia sido acrescida uma con¬dição essencial: SÓ PAGARÁ SE PE1DAR.

Geralmente, a preferência de Vic era pelas almôndegas que constituíam a especialidade da casa, mas ele desconfiava que, na¬quele dia, só conseguiria uma forte gastralgia.

—   Parece que vamos mesmo perder a parada, você não acha?

O    cara com quem ele falava, e que olhava para um presunto dinamarquês sem o menor entusiasmo, era Roger Breakstone; e quando ele olhava para qualquer comestível sem entusiasmo, era porque algum cataclismo estava para acontecer. Ele pesava uns 130 quilos e sua barriga não dobrava quando se sentava. Em certa oca¬sião, quando ambos tinham estado na cama com um acesso de risi¬nhos abafados, como crianças conspiradoras no recreio, Donna dis¬se a a Vic que achava que Roger levara um tiro na barriga lá no Vietnã.

—   A coisa parece, bem feia para mim, Vic — admitiu Roger.

       — Tão feia mesmo que nem você poderia acreditar, Victor, amigão.

—   E você realmente acha que esta viagem vai adiantar algu¬ma coisa?

—   Pode ser que não adiante mesmo, mas certamente perde¬remos o contrato de publicidade da Sharp se não formos. Talvez até mesmo seja possível se salvar alguma coisa...

Ele abocanhou um pedaço de seu sanduíche.

—   Se fecharmos durante dez dias isso nos trará prejuízo, Roger.

—   E você pensa que já não estamos no prejuízo?

—   Claro que estamos mesmo, mas ainda temos aquele pessoal dos Amigos do Livro, em Kennebunk Beach.

—   A Lisa pode cuidar disso.

—   Não estou ainda plenamente convencido de que ela consiga cuidar sequer de sua vida amorosa, quanto mais do pessoal dos livros. Mas, mesmo supondo que possa, ainda temos a campanha Você Prefere Amoras, que está indo muito bem.., e o Casco Bank & Trust... e você ainda vai ter de se encontrar com o chefão da Associação dos Corretoras Imobiliários do Maine.

       —Sim, sim, mas isso é seu.

—   Uma porra que é, Roger. Fico nervoso só de pensar na¬quelas calças vermelhas e sapatos brancos. Tenho vontade de olhar no armário e ver se encontro uma bandeja para o cara ir servir

sanduíches.  à

— Isso não tem importância. Nenhum deles representa uma décima parte do que ganhamos com a Sharp. E o que mais você quer que eu diga? Você conhece o Sharp e ele vai querer falar com nós dois. Quer ou não que eu lhe reserve uma passagem?

O pensamento daqueles 10 dias, cinco em Boston e cinco em Nova York, fazia Vic suar frio. Ele e Roger tinham trabalhado para a Agência Ellison, de Nova York, durante seis anos. Vic possuía agora uma boa casa em Castle Rock e Roger e sua mulher Althea moravam ali pertinho, em Bridgton, que ficava apenas a uns sete quilômetros de Castle Rock.

Para Vic aquilo tinha sido um caso de nunca mais olhar para. trás. Ele sentia-se como se jamais houvesse vivido plenamente, como se jamais realmente soubesse qual era o. seu destino até a mudança para o Maine com a família. Agora ele alimentava um sentimento mórbido de que Nova York estivera sempre à sua espera, naqueles últimos três anos, para tomar a pegá-lo em suas garras. O avião deslizaria na pista quando chegassem lá e seria logo envolvido na fogueira do seu combustível. Também poderia haver uma batida na Triborough Bridge que deixaria o seu táxi amassado como se fosse uma sanfona toda ensangüentada. Seria certamente vítima de um assaltante, que lhe meteria um revólver na cara e dispararia à queima-roupa. A tubulação de gás ia explodir e ele seria deca¬pitado pela tampa de um bueiro que sairia voando em sua direção. Alguma coisa ia acontecer. A cidade o mataria logo que ele vol¬tasse para ela.

Ele largou o sanduíche, no qual dera apenas uma dentada.

—   Olhe aqui, Roger, você alguma vez já pensou que não se¬ria o fim do mundo se nós perdêssemos mesmo a conta da Sharp?

Roger encheu com cerveja o copo que tinha à sua frente.

— É claro que o mundo continuará a existir, mas será que isso também acontecerá conosco? No que me diz respeito, ainda tenho dezessete anos pela frente numa hipoteca de vinte e tenho as minhas gêmeas que só pensam na Academia de Bridgton. Você também tem a sua hipoteca e também tem o seu garoto, além da¬quele velho       Jaguar, tipo esporte, que vai lhe dar ainda muita apor¬rinhação.

— Eu sei Roger, mas a economia local...

       O   outro foi tomado de súbita indignação e bateu fortemente com o copo na mesa.

       — Eu quero que a economia local se dane, Vic.

       Um grupo do quatro pessoas sentou-se na mesa ao lado. Três deles estavam com camisas de tênis e o outro vestia uma camiseta já bem desbotada e que trazia no peito a legenda DARTH VADER É BICHA. Os quatro logo começaram a aplaudir.

       Roger fez-lhes um sinal do impaciência com a mão e inclinou¬-se ainda mais para Vic.

       — Não vamos permitir que isso aconteça fazendo a campa¬nha Você Prefere Amoras e a dos corretores do Maine; e você sabe disso muito bem. Se perdermos a conta da Sharp, nós vamos direitinho para o fundo sem fazer onda. Por outro lado, se conse¬guirmos parte dela nos próximos dois anos poderemos contar com o. Departamento de Turismo e até mesno, quem sabe, consigamos alguma coisa com a loteria do Es¬tado, se ela, até lá, ainda estiver: de pé. São coisas bem gostosas Vic. Ai então já poderemos dar uma banana para o Sharp o seus nojentos cereais e tudo terá um final feliz. O lobo mau poderá então ir bater em outras portas para conseguir o seu jantar...

       — Mas tudo isso depende da condição de podermos ainda guardar alguma coisa até lá.... e isso me parece bem difícil do acontecer.

       — Ainda assim, acho que vale a pena tentar, amigão.

       Vic ficou em silêncio, olhando para o sanduíche que já estava frio. Aquilo não era justo, mas elo poderia aturar. O que lhe doía mesmo era a absurda loucura daquela situação. Aquilo tudo viera de. repente, sem o menor aviso, como um ciclone surgindo de um céu completamente limpo e trazendo morte e destruição para, em seguida, desaparecer completamente. Ele, Roger e a firma de pu¬blicidade dos dois poderiam estar entre as vítimas, apesar de todos os esforços para evitar a catástrofe; e ele percebia aquilo no rosto redondo do amigo e sócio, que nunca se mostrara tão sério e determinado desde a ocasião em que havia perdido o seu filho Timothy, quando o menino tinha apenas nove dias. Três semanas depois, ele se entregara e rompera em prantos com as mãos no rosto, numa espécie de desespero terrível que deixara Vic realmente aflito. Fora um desastre e ele imaginava que a mesma coisa estava acontecendo ao perceber o pânico incipiente nos olhos de Roger.

De tempos cm tempos, sem que ninguém soubesse de onde vinham, os ciclones assolavam o mundo publicitário. As grandes firmas, como a Agência Ellison, por exemplo, cujo faturamento andava na casa dos milhões, podiam agüentar o rojão, mas isso já não acontecia de forma alguma com a Ad Worx, a firma dos dois. Eles tinham possuído uma cesta com uma quantidade de pequeni¬nos ovos e uma outra onde só havia um ovo grande, que era .a conta da Sharp. E agora só restava saber se haviam perdido ou não o ovo grande, ou se ainda poderiam fritá-lo. A culpa não fora, de forma alguma, de nenhum deles, mas as agências de publicidade são mestras em fabricar adoráveis bodes expiatórios.

Vic o Roger tinham formado uma dupla perfeita e natural desde que trabalhavam juntos na Agência Ellison, seis anos antes. Vic era alto, magro e muito calmo, mas combinava muito bem com o gênio extrovertido de Roger. Davam-se maravilhosamente bem, tanto nas relações pessoais quanto profissionais. O primeiro contrato deles fora um tanto pequeno: uma campanha através de uma revista em favor de deficientes mentais.

Haviam apresentado um anúncio em preto e branco, mostran¬do um garotinho enfiado num imenso aparelho ortopédico, de pé na linha da primeira base de um campo de beisebol da Pequena Liga. Trazia na cabeça, inclinado para o lado, um boné de um clube. de Nova York e a sua expressão nada tinha de triste. Pare¬cia apenas um tanto sonhadora. Vic, aliás, sempre afirmara que conseguira o contrato graças àquela expressão do garotinho que, na realidade, era quase de completa felicidade. A legenda do anún¬cio dizia apenas BILLY BELLAMY NÃO SE ENTREGARÁ NUNCA. Em¬baixo disso estava escrito BILLY É UM DEFICIENTE. E ainda mais abaixo, em letras menores: Ajudem-nos, por favor.

Os donativos para a campanha logo aumentaram e aquilo foi uma coisa boa para todos os interessados. Os dois já estavam em plena ação. Depois, tinham conseguido mas algumas campanhas muito bem-sucedidas. Vic cuidava da concepção e seus detalhes o Roger se encarregava da execução,

       Para a Sony Corporation eles fizeram o retrato do um homem com as pernas cruzadas, numa das pistas centrais de uma rodovia de alta velocidade com 16 pistas, em trajes formais, com um grande rádio Sony no colo e um sorriso beatífico nos lábios. A legenda dizia: FAIXA DA POLÍCIA, OS ROLLING STONES, VIVALDI, MIKE WALLACE, THE KINGSTON TRIO, PAUL HÁRVEY, PATTI SMITH, JERRY FALWELL. E por baixo disso tudo: HELLO-LA!

Para o pessoal da Voit, fabricantes de material para natação, o anúncio mostrava um homem que era a antítese completa dos garotões das praias de Miami. Ele se mostrava de pé, com ar muito arrogante, numa praia ensolarada de algum paraíso tropicaL Era um cara de 50 anos, todo tatuado, barrigudo, com os músculos dos braços e das pernas como se fossem pelancas e uma cicatriz no alto de uma das coxas. Era um aventureiro já bem castigado pelo tem¬po que abraçava um calção de banho Voit e cuja legenda dizia:

OLHE AQUI, MEU CHAPA. SOU MERGULHADOR PROFISSIONAL. FAÇO ISSO PARA GANHAR A VIDA.- NÃO CORRO - ATRÁS DE GAROTAS. Havia muita coisa mais escrita por baixo, coisas que Roger classificava como o blablablá, mas o cartaz mostrava o retrato de um verda¬deiro cavador. Os dois haviam desejado acrescentar EU NÃO ANDO TREPANDO POR AÍ, mas o pessoal da Voit não tinha concordado. Quando se sentavam para beber alguma coisa, Vic sempre achava que fora uma pena a recusa, já que estava certo de maior sucesso nas vendas se houvessem aceitado a sugestão.

E havia também a Sharp.

A Companhia Sharp, de Cleveland, tinha tirado o décimo segundo lugar numa competição nacional de bolos e biscoitos quando o velho Sharp se decidiu a recorrer, bem contra sua vontade, à Ellison de Nova York, depois de haver usado uma agência de sua cidade du¬rante muitos anos. O velho gostava de dizer que a Sharp tinha sido maior do que a Nabisco antes da Segunda Guerra Mundial, mas seu garoto também não se cansava de dizer-lhe que já fazia mais de 30 anos que aquela guerra terminara.

A conta coubera então a Vic Trenton e Roger Breakstone, para um período experimental de seis meses, ao fim do qual a firma saltara do décimo segundo lugar para o nono na venda de bolos, biscoi¬tos e cereais. Um ano mais tarde, quando os dois sócios já se ha¬viam mudado para o Maine, onde abriram sua própria agência, já a Sharp estava em sétimo lugar.

A campanha organizada por eles tinha sido um sucesso. Para os produtos Sharp os dois haviam criado a figura de Sharps Kid, um pavoneado justiceiro do Oeste, cujos revólveres atiravam bis¬coitos ao invés de balas — uma cortesia da equipe de efeitos espe¬ciais. Havia coisas parecidas para todos os outros produtos da companhia, mas em todas elas aparecia sempre o velho justiceiro, de rev6lver em punho e um monte de biscoitos no chão; A legenda dizia: “É isso aí, pessoal. Os bandidos caíram fora. Mas eu fiquei com os biscoitos. Os melhores que existem no Oeste... e talvez até mesmo, em - todo o mundo.” E aquilo era repetido todas as manhãs para milhões de americanos. Sharp Kid aparecia dando uma dentada num biscoito e a sua expressão sugeria que estava sentindo — gastronomicamente falando — o equivalente ao pri¬meiro orgasmo de um garoto. E então vinha o jade-out na TV.

        Para os bolos instantâneos — 16 variedades que iam desde bolo inglês a farelo para queijada — havia o anúncio a que Vic dava o nome de George e Gracie. Consistia num lento fade-in de George e Gracie abandonando um jantar de gala, onde a mesa das iguarias quase não suporta o peso de tantas coisas gostosas. Então começa a aparecer um apartamento pobre, pequenino e mal ilumi¬nado. George está sentado na mesa da cozinha muito simples, co¬berta por uma toalha de xadrez. Aí então chega Gracie, que tira do congelador um dos bolos da Sharp e coloca-o em cima da mesa. Os dois estão em trajes de rigor. Sorriem um para o outro numa demonstração de caloroso amor, de gente que se compreende em todos os sentidos. Surge então a legenda em preto: HÁ MOMENTOS SM QUE AS PESSOAS SÓ QUEREM MESMO UM BOLO SHARP. Em todo o anúncio não se fala uma única palavra. Eles ganharam um prê¬mio com este comercial

         O mesmo aconteceu com o anúncio do Professor dos Cereais Sharp, considerado nos meios publicitários como “o anúncio mais responsável jamais produzido para horário infantil”. Os dois sócios aliás, também o consideravam como o ponto mais alto de suas car-reiras de publicitários... mas agora era o próprio Professor quem tinha voltado para persegui-los.

         Representado por um ator cinqüentão especializado na criação de tipos, o anúncio do Professor dos Cereais Sharp era sóbria e ousadamente adulto em meio a um cipoal de incrementados comer¬ciais para a garotada, anunciando chicletes de bola, brinquedos pro-digiosos, bonecas, figuras mecânicas... e os cereais concorrentes.

           O anúncio abria num fade-in mostrando uma sala de aula deserta, cenário com o qual prontamente se identificavam os teles¬pectadores de PernaLonga, Papa-Léguas e outros desenhos das manhãs de sábado. O Professor usava terno, suéter em V e uma camisa de colarinho aberto. Era uma figura suavemente autoritária tanto na aparência quanto no que dizia. Vic e Roger tinham entre¬vistado uns 40 professores e uma meia dúzia de psiquiatras infantis, descobrindo que aquele era o modelo de pai que agradava às crian¬ças, mas que agora se tornara uma espécie em extinção.

Ele aparecia sentado em sua mesa, sugerindo certa informali¬dade, e sempre falando devagar e gravemente. A idéia que devia transmitir aos jovens telespectadores era a de um autêntico companheiro escondido sob seu tweed esverdeado. Não era uma figura imponente. Não repreendia. Não procurava agradar ou convencer. Falava aos milhões de telespectadores matinais — que assistiam aos desenhos enfiados em suas camisetas e mastigando cereais — como se eles já fossem gente, gente de verdade.

“Bom dia, garotada. Isto é um comercial de cereais. Por favor, peço-lhes que me ouçam com atenção. Conheço muita coisa a res¬peito dc cereais porque sou o Professor dos Cereais Sharp, cereais que vocês todos conhecem muito bem e que são os mais gostosos de todo o país. .

Uma pausa silenciosa e então o Professor dos Cereais Sharp esboçava um sorriso — e quando isso acontecia, a garotada toda sabia que ali estava um verdadeiro companheirão — e dizia:

“Peço-lhes que acreditem em mim, porque sei muito bem o que digo. A mamãe de vocês também sabe e é por isso que eu gostaria que o mesmo acontecesse com vocês .... .“

Nesse ponto entrava em cena um rapaz trazendo uma vasilha com um dos cereais da Sharp, entregando-a ao Professor. Ele comia um pouco. Depois encarava a sua audiência em milhões de lares do país e dizia:

       “Nada, nadinha de errado com isto aqui....”

       O velho Sharp, aliás, não gostava de tal afirmação, já que não podia sequer conceber a idéia de haver qualquer coisa errada com os seus cereais. Os dois sócios, no entanto, tinham conseguido con¬vencê-lo a muito custo, embora sem usar argumentos racionais. Aliás, a produção de anúncios nada tinha de racional. Era freqüente um publicitário fazer alguma coisa que parecesse certa, mas isso não significava que ele compreendesse a razão para isso. Vic e Roger achavam que aquelas últimas, palavras do Professor tinham urna força simples o enorme. Quando o Professor afirmava aquilo, o resultado era uma sensação de conforto e segurança para todo mundo. Implicava a afirmação de que ele jamais aconselharia alguma coisa que fizesse mal. Num mundo em que os pais se divor¬ciavam, em que os garotos mais velhos maltratavam os mais novos sem qualquer motivo racional, em que os times infantis adversários venciam sempre, em que os bons nem sempre saíam ganhando, como acontece na TV, em que os convites para as boas festas do aniversário não apareciam, num mundo, enfim, onde tanta coisa errada acontecia, sempre haveria de bom os produtos gostosos da Sharp, para compensar as coisas ruins.

“Nada, nadinha de errado com isto aqui”...

Com uma pequena ajuda do garoto de Sharp, o conceito do Professor dos Cereais foi finalmente aprovado e passou a saturar as manhãs de sábado na TV, além de figurar também em muitos outros programas em cadeia que cobriam o país. Mais tarde, Ro¬ger diria que o garoto Sharp estava convencido de que a idéia fora sua. Os cereais da companhia passaram a liderar as vendas, que ul¬trapassavam todas as suas outras linhas de produção. O Professor dos Cereais tornou-se uma instituição americana. Aquela sua afir¬mativa final passou a ser usada nos mais variados sentidos. Estava na boca de todo mundo e significava mais ou menos o mesmo que “Fique calmo” e “Não se afobe”.

       Quando os dois resolveram fundar a própria firma, tiveram o máximo cuidado para observar rígorosamente o protocolo e não procurar nenhum dos clientes que tinham na Agência Ellison, da qual se desligaram formal e amistosamente. Os primeiros seis meses em Portland tinham sido de meter medo e todos viviam muito ten¬sos. Tad tinha apenas um ano. Donna sentia muita falta de Nova York e mostrava-se emburrada, petulante ou simplesmente apavo¬rada. A antiga ulcera de Roger, conquistada em suas batalhas nas guerras publicitárias nos mais altos escalões, reapareceu com força redobrada quando o casal perdeu o filho e ele vivia enchendo-se do remédios. Althea ia se mantendo da melhor forma que podia, dados as circunstâncias, na opinião de Vic, mas foi Donna quem chamou a sua atenção para o fato da plácida Althea ter passado um drinque bem fraco antes do jantar para dois e a seguir para três. Os dois casais já haviam passado férias no Maine, juntos o se-parados, mas tanto Víc como Roger nunca chegaram a reparar no número de portas que permaneciam fechadas, para os que se mu¬davam para o Maine e que o pessoal do Estado classificava como “gente de fora”.

Roger dizia sempre, e com razão, que eles teriam naufragado se a Sharp não houvesse resolvido acompanhá-los. Na sede da com¬panhia, em Cleveland, ocorrera uma irônica troca de posições. Agora era o velho que insistia em continuar com eles, enquanto seu garoto, agora com 40 anos, se opunha e achava, com alguma lógica, que seria loucura contratarem a publicidade com uma firma insignificante que distava quase mil quilômetros de distância de Nova York, a cidade que, sem dúvida alguma, era o centro das atividades do país. O fato da nova Ad Worx ser afiliada a uma importante firma analista de mercado de Nova York não valia muita coisa para outras empresas que haviam sido clientes deles em várias campanhas nos últimos anos.

Roger costumava exprimir seu pensamento em palavras bem sensatas.

— Se a fidelidade fosse papel higiênico, meu chapa, teríamos sérias dificuldades para limpar nossos traseiros.

A Sharp, no entanto, resolvera ajudá-los, fornecendo-lhes a margem de que precisavam desesperadamente. O velho Sharp argu¬mentava com seu garoto, fazendo-lhe ver que haviam prosperado com a agência em Nova York durante 40 anos, mas agora, “se aque¬les dois rapazes tiveram coragem bastante para abandonar aquela cidade sem religião, eles estão provando que possuem um grande bom senso”.

E então ficara decidido. O velho falara. O garoto calara-se. E assim, durante os últimos dois anos e meio, Sharp Kid continuara a atirar biscoitos; George e Gracie continuaram a comer os bolos no seu apartamento e o Professor dos Cereais continuava a dizer a mesma coisa. Os comerciais eram produzidos por um pequeno estúdio independente de Boston e a firma analista de mercado de Nova York continuava a trabalhar satisfatoriamente. Três ou quatro vezes por ano um deles voava até Cleveland para conversar com Carroll Sharp e seu garoto — garoto este já começando a ficar gri¬salho nas têmporas. Todos os outros negócios entre eles e a firma ficavam a cargo dos Correios dos Estados Unidos e da velha Bell Telephone Company. O processo poderia ser estranho, era real¬mente complicado, mas funcionava bem.

E fora então que surgira a Red Razberry Zingers.

Já fazia algum tempo que os dois sócios tinham conhecimento de sua existência, embora eles só houvessem aparecido no merca¬do uns dois meses antes, em abril de 1980. A maior parte dos cereais da Sharp tinha pouco açúcar, ou até mesmo nenhum. A com¬panhia fora muito bem-sucedida quando lançara um cereal “natu¬ral”. A Red Razberry Zingers, no entanto, apresentava-se ao mercado com uma linha mais adocicada, destinada aos que preferiam tal sabor e que constava de cereais preparados e situados numa zona intermediária muito próxima das balas e doces.

No final do verão e no princípio do outono de 1979, a Zingers lançara os seus produtos experimentalmente nos mercados de Boise,. Idaho, Scranton, Pensilvânia e em Bridgton, a cidade adotiva da Vic, no Maine, sendo bem acolhida em toda parte. Roger simples-mente dera de ombros e dissera a Vic que as gêmeas nunca provariam aquilo, de forma alguma, embora se mostrasse satisfeito quan¬do a mulher lhe dissera que as crianças tinham insistido em provar os novos cereais logo depois de os verem em exposição no Mer¬cado Gigeure.

— São bem mais açucarados do que os cereais integrais e têm melhor apresentação, vermelhos como sangue.

Vic apenas sacudira a cabeça e observara inocentemente, sem que. a sua opinião pudesse ser considerada como uma profecia.

— A primeira vez que vi uma daquelas caixas, pensei que estava cheia de sangue.

 

—   E então? O que é que você acha, Vic?

Roger repetiu a pergunta quando já estava na metade de seu sanduíche, ao mesmo tempo em que Víc pensava no que estava acontecendo. Ele se convencia cada vez mais que, em Cleveland, o velho Sharp e seu idoso garoto estavam novamente pensando em matar o mensageiro por causa da mensagem.

— Acho que sempre é melhor tentarmos, Vic.

Rogar deu-lhe uma palmada nas costas e disse-lhe que o me¬lhor mesmo era tratar de comer.

       Só que Vic não tinha fome.

       Os dois tinham sido chamados a Cleveland “para uma reunião da emergência” que teria lugar três semanas depois do Quatro de Julho. Grande parte dos representantes regionais da Sharp, bem como alguns executivos, estavam de férias e sempre levaria algum tempo para reunir a todos. Um dos itens da agenda referia-se dire¬tamente Ad Worx, dizendo que se tratava “de uma avaliação da associação” até aquele momento”. Daí Vic presumia que o garoto estava se aproveitando do fracasso da Zingers para, finalmente, se verem livres da concorrência.

Cerca de três semanas depois da Ziugers ter entrado no mer¬cado em âmbito nacional e com grande entusiasmo — se bem que sombriamente — com o caminho aberto pela frase do Professor dos Cereais, a primeira mãe apareceu num hospital com sua fllhinha, quase histérica, que a menina estava com uma hemorra¬gia interna. A garotinha, vítima apenas de um vírus sem importân¬cia, tinha vomitado alguma coisa que a mãe julgara ser sangue em grande quantidade.

“Nada, ,nadinha de errado com isto aqui.. .“

O    caso acontecera em Iowa City e, no dia seguinte, aparece¬ram mais seto casos. Mais um dia e foram 24 ocorrências. Em todos os casos os pais, assustados com os vômitos o diarréias, ti¬nham corrido para os hospitais imaginando que se tratasse dc he¬morragia interna. Depois disso os casos tinham assumido propor¬çôes assustadoras e as centenas logo chegaram a milhares. Em ne¬nhum dos casos aquilo fora provocado pelos cereais, mas isso ge¬ralmente não era levado em conta pelo, crescente furor dos pais

“Nada, nadinha de errado com isto aqui..

Os casos existiam em todo o país, do Atlântico ao Pacífico, e o problema era a anilina usada pela Zingers a fim de justificar a cor vermelha de seu nome (Red Zingers). A anilina em si era completamente inócua, mas ninguém dava atenção a isso. Agora havia alguma coisa errada. O corpo humano se recusava a assimilar a anilina o simplesmente rejeitava-a. A anilina imprópria só tinha sido usada numa remessa de cereais, mas fora o suficiente para causar toda aquela confusão. Um médico disse a Vic que quando fizessem a autópsia de uma criança que morresse depois de comer um prato do cereal vermelho da Zingers, os legistas iriam verificar que seus intestinos estavam tão vermelhos como a luz de um sinal de trânsito. Aquele efeito era apenas temporário, mas ninguém queria sabor desse detalhe.

Roger queria que eles afundassem com todos os seus canhões atirando, no caso do afundarem mesmo. Ele havia proposto uma maratona do conferências com a firma de Boston que produzia os filmes. Também queria ter uma conversa com o próprio Professor de Cereais da Sharp, que se envolvera tanto em seu papel até che¬gar a um ponto de se sentir mental o emocionalmente perturbado com o que estava acontecendo. Depois iria para Nova York, a fim de conversar com o pessoal encarregado das análises de mercados. O mais importante de tudo era o fato do serem obrigados a ficar duas semanas no Ritz-Carlton de Boston e no Plaza do Nova York, duas semanas em que os dois estariam sempre juntos para digerir o que haviam descoberto e usando a cabeça, como faziam nos ve¬lhos tempos. A esperança de Roger quanto ao resultado de tudo aquilo era uma intensa campanha de esclarecimentos que iria dar o que fazer ao velho Sharp e seu garoto. Em lugar de aparecerem em Cleveland com os pescoços já raspados e prontos para a lâmina da guilhotina, eles iriam surgir com planos de batalha destinados a inverter os efeitos do fracasso espetacular da Zingers. Aquela era a teoria. Na prática, porém, os dois sabiam muito bem que as pro¬babilidades eram extremamente reduzidas, dadas as circunstâncias.

Vic, porém, tinha outros problemas. Durante os últimos oito meses, mais ou menos, ele vinha sentindo a distância aumentar em sua vida conjugal. Ele continuava a amar Donna e a idolatrar seu fiilho, mas as coisas iam de mal a. pior e ele sabia que só poderia esperar que piorassem ainda mais. Eram coisas que talvez já come¬çavam a surgir no horizonte.

Aquela viagem Boston—Nova York—Cleveland, coincidindo uma época em que eles geralmente ficavam juntos em casa, fa¬zendo coisas, não era realmente desejável. Quando olhava a mu¬lher agora, via em seu rosto expressões estranhas que ainda esta¬vam à espreita e não tinham vindo à tona.

E havia ainda a dúvida cruel. Era uma coisa que não lhe saía da cabeça o que lhe tirava o sono; e isso se tornava cada voz mais freqüente. Teria ela um amante? Já não dormiam juntos agora. Teria ela chegado a esse ponto? Ele esperava que não, mas, na realidade, em que pensava ele? Fale a verdade, Sr. Trenton, ou então será obrigado a sofrer as conseqüências.

Vic não tinha certeza. Não queria ter certeza. Temia que isto seria o fim do casamento, se fosse verdade mesmo. Ainda estava loucamente apaixonado por ela. Jamais lhe passara pela cabeça a idéia do lhe ser infiel. Estava disposto a perdoar-lhe muita coisa. Só não queria ter chifres em sua própria casa. Não há quem goste de ter chifres. Eles crescem e servem de chacota para as crianças.Ele...

     — O que foi que disse Roger? Não ouvi bem. — disse Vic, despertando de seus devaneio.

— Eu disse exatamente que aquele maldito cereal vermelho era uma porcaria. Foram essas as minhas palavras, Vic.

— São mesmo, Roger. Vamos levantar um brinde a ele.

Roger levantou o copo de cerveja.

— Boa idéia, Vic. Faça isso.

E foi o que Víc fez.

 

Cerca de uma semana depois daquela triste conversa de Vic com Roger no Submarino Amarelo, Gary Pervier estava sentado no seu descuidado gramado no fundo da colina Seven Oaks, na Rodovia n9 3. Tinha na mão um copo de suco de laranja misturado com vodca e aproveitava a sombra de um velho olmo já nas últimas, víti¬ma de uma praga que assolava a região. Sentava-se numa cadeira comprada na Sears, que também estava com os dias contados. A vodca que usava era a Popov porque custava menos que qualquer outra. Comprara um bom estoque da bebida em New Hampshire, onde as bebidas eram sempre mais baratas. A Popov era também a mais barata no Maine, mas seu preço não se comparava com o do outro Estado, cuja fonte de renda eram as coisas boas da vida como, por exemplo, a loteria estadual, que dava gordos prêmios, a bebida mais barata do que em qualquer outro lugar, o mesmo acontecendo com os cigarros e também as atrações turísticas. New Hampshire era mesmo um Estado bacana!

A cadeira fora aos poucos se enterrando no gramado maltra¬tado, o mesmo acontecendo com a casa que se via lá atrás, com sua tinta cinzenta descascando e o telhado decrépito. As janelas estavam desengonçadas e a chaminé inclinava-se como se fosse um bêbado tentando levantar-se. As telhas, feitas de lascas de madeira, e que tinham sido arrancadas na última ventania que passara por ali, ainda estavam penduradas no olmo moribundo. Gary costu-mava dizer que sua casa não era, certamente, o Taj Mahal, mas não ligava merda nenhuma para isso.

Naquele dia de fins de junho, tremendamente quente, Gary estava completamente bêbado, como de hábito. Ele não conhecia Roger, não conhecia Vic como também não conhecia Donna. Para ele não havia diferença alguma entre aqueles visitantes e um monte de bosta; e mesmo que os conhecesse sua opinião seria ainda a mesma. Conhecia a família Camber e o cão Cujo e sabia que mo¬ravam também ali perto da Rodovia n9 3. Ele e o Joe estavam acostumados a beber juntos e, de uma forma um tanto nebulosa, ele chegava a perceber que o velho Joe estava a caminho da condição de alcoólatra, caminho esse que Gary já conhecia muito bem.

Gary costumava dizer para os passarinhos e para as telhas penduradas no olmo que o outro era apenas “uma porcaria, um bê¬bado, para quem ele estava cagando”. Levou o copo à boca e soltou um peido. Matou um inseto. Seu rosto estava banhado pelo sol e pela sombra. Lá por trás da casa havia uma quantidade de carros desmontados que quase desapareciam no meio do capim já bem alto. A hera que crescia num dos lados da casa já pouco faltava para tomar conta dela. Uma das janelas estava aberta e nos dias de sol ela brilhava como se fosse um diamante sujo. Dois anos antes, na fúria de uma bebedeira, ele arrancara uma escrivaninha de uma das salas do sobrado, atirando-a pela janela. Mas já não se lem¬brava mais por que fizera aquilo. Ele mesmo colocara outra vidra¬ça na janela para se prevenir contra o inverno que estava próximo, mas a mesa continuava ali mesmo no lugar em que caíra, com uma de. suas gavetas abertas como se fosse uma língua estirada para fora.

Em 1944, quando ainda tinha 20 anos, ele atacara e tomara sozinho um ninho de metralhadoras na França e depois ainda co¬mandara o que sobrara de sua companhia, levando-os para bem longe, antes de cair desmaiado com seis ferimentos de balas das metralhadoras que tomara dos alemães. Esse feito valeu-lhe uma das mais altas condecorações do país, a Cruz do Mérito. Em 1968, ele procurou seu velho camarada Torgeson, em Castle Falls, para pedir-lhe que transformasse a cruz em um cinzeiro; diante do es¬panto do amigo, ainda acrescentou que o seu verdadeiro desejo era fazer dela um vaso sanitário, se não fosse tão pequena para isso. Queria um vaso onde pudesse dar uma boa cagada. O outro logo espalhou a notícia e isso talvez fosse mesmo o que Gary queria, como também podia ser que não fosse.

Do qualquer forma, aquele seu gesto deixara loucos de admi¬ração todos os hippies do lugar. No verão de 68, a maioria deles estava gozando as férias na Região dos Lagos, em companhia dos pais milionários, antes de voltarem para as suas universidades em setembro, onde, aparentemente, se aprimoravam em Protestos, Pó e Putaria.

Depois de Torgeson haver transformado a cruz em cinzeiro, uma versão do caso chegou ao conhecimento do Call de Castle Rock. Foi um repórter local quem escreveu o artigo e deu ao gesto de Gary o significado de um protesto contra a guerra. E foi aí que os hippies começaram a aparecer na casa da Rodovia n9 3, onde muitos deles tentaram convencê-lo do que ele era mesmo “o tal”. Outros achavam que ele era mesmo da “pesada”, mas ainda havia outros achando que ele não passava de um merda que estava exagerando. ¬

A todos eles Gary mostrava sempre a mesma coisa e isso era uma Winchester -30-.06, que usava a fim de espantá-los de sua propriedade. No que lhe dizia respeito, todos aqueles caras nada mais eram senão um conjunto de cabeludos sujos e piolhentos com tendências comunistas. Disse-lhes claramente que, para ele, tanto fazia se ficassem em Castle Rock ou se resolvessem se mandar para Fryeburg. Depois de algum tempo, eles desistiram e não aparece¬ram mais e isso foi o fim do caso da Cruz do Mérito.

Uma das balas das metralhadoras alemãs tinha-lhe levado o testículo direito e o médico encontrara seus pedaços ainda preso na cueca. O outro escapara em grande parte e ainda lhe prestava serviços de quando em quando, mas ele costumava dizer a Joe que aquilo não lhe fazia diferença alguma. A sua pátria agradecida con¬cedera-lhe a famosa cruz. Tivera alta de um hospital de Paris em fevereiro de 1945 com uma pensão por ser considerado como quase inválido e uma placa de ouro num dos ferimentos das costas. A sua cidade natal, agradecida, organizara uma parada em sua homena¬gem no Quatro de Julho de 1945, quando ele já tinha 21 anos, já podia votar, os cabelos começavam a embranquecer nas têmporas e ele se sentia como se tivesse 700 anos. Os vereadores da cidade agradecida tinham aprovado uma lei que lhe garantia a isenção de todos os impostos sobre a sua propriedade em caráter vitalício. Aquilo fora uma boa, já que sem Isso ele teria perdido a casa 20 anos antes. Substituira a morfina, que não podia mais conseguir, pelas bebidas fortes e então preparou-se para levar a vida como queria o que consistia em se matar lentamente da forma mais agra¬dável que lhe fosse possível.

Agora, em 1980, ele já estava com 56 anos, completamente grisalho e mais zangado do que um touro com o cabo de um ma¬caco de carro enfiado no cu. As únicas criaturas que ainda tolera¬va eram Joe Camber, seu filho Breu e o São Bernardo do menino, o enorme e manso Cujo.

Inclinou a cadeira para trás e quase chegou a cair. Bebeu mais um gole para se equilibrar. O copo em que estava a bebida fora presenteado por um dos restaurantes da cadeia McDonald’s e tinha uma espécie de animal vermelho gravado no vidro, uma coisa chamada Grimace. Gary fazia quase todas as suas refeições no McDonald’s de Castle Rock, onde ainda era possível encontrar hambúrgueres gostosos e baratos. Mas ele simplesmente cagava para o Grimace, para o Prefeito McCheese e para a porra do palhaci¬nho Ronald.

Percebeu um vulto escuro que atravessava o capinzal e logo depois surgiu Cujo, que fazia o seu passeio habitual pelas redon¬dezas. Latiu uma vez ao ver Gary, como se aquilo fosse um cumprimento. Depois chegou-se mais para perto, abanando o rabo.

— Venha cá, Cujo, seu velho.

Gary pôs de lado o copo e começou a procurar, metodica¬mente, os biscoitos de cachorro que sempre trazia nos bolsos. Sem¬pre reservava alguns para Cujo, que era um dos bons cachorros que ainda andavam por ali. Acabou encontrando o que procurava num dos bolsos da camisa e levantou-os no ar.

       —Sente-se, camarada. Sente-se...

Por mais animado ou desanimado que estivesse, a visão daque¬le enorme cão sentado ali ao seu lado, como se fosso um coelho, sempre o animava.

O cão sentou-se e Gary viu logo a ferida feia que ele tinha no focinho. Atirou-lhe um biscoito parecido com um osso e o cão apanhou-o no ar com dificuldade. Deixou cair um deles entre as patas e começou a roer o outro.

Gary fazia-lhe festas na cabeça, falando-lhe com carinho.

— Você é um bom cachorro, Cujo... um bom...

Cujo começou a rosnar. Era um rosnado que lhe vinha bem lá do fundo da garganta e que quase parecia. o reflexo de um som. Ele levantou os olhos para Gary e neles havia alguma coisa fria e especulativa que causou-lhe um arrepio. Encolheu logo o braço ra-pidamente. Um cão daquele tamanho não era coisa que convidasse muito a brincadeiras, a não ser que a pessoa desejasse passar o resto da vida limpando o traseiro com um gancho.

         — O que é que está havendo com você, meu chapa?

Nunca ouvira Cujo rosnar para ele durante todos aqueles anos em que o cão pertencia a Joe. Aliás, para falar a verdade, Gary não acreditava que aquele rosnado fosse para ele, o nem mesmo jamais acreditara que o cão soubesse rosnar.

Cujo abanou o rabo e veio para perto de Gary como se lhe pedisse um afago, como se estivesse envergonhado por haver rosnado.

—~ Ainda bem, rapaz. É assim que eu gosto...

Ao mesmo tempo que falava, ele passava a mão no pêlo do animal. O calor, naquela semana, tinha sido de matar e ainda ia ser pior, de acordo com o que dizia George Meara, repetindo a profecia da Tia Evvie. E ele achava que ia mesmo. Os cães sentiam mais o calor do que as pessoas e ele achava que não existia lei alguma proibindo que um cachorro se mostrasse zangado alguma voz. Aquele rosnado de Cujo, no entanto, fora um rosnado dife-rente. Gary não acreditaria, se aquilo lhe fosse contado por Joe.

Gary apontou para o outro biscoito e disse ao cão para ir buscá-lo.

Cujo fez meia-volta e foi apanhar o biscoito, mas havia agora um fio de saliva escorrendo-lhe da boca. Largou o biscoito e olhou para Gary como se estivesse pedindo desculpas por aquilo. Gary não podia acreditar no que via.

       —O      que é isso, meu chapa? Está desprezando comida? Nun¬ca vi você fazer isso antes!

O    animal tornou a pegar o biscoito e comeu-o.

—   Assim é melhor! Este calorzinho mais forte não vai matar ninguém. Nem mesmo a mim, mas o diabo são as minhas hemorrói¬das... Eu também estou cagando para elas, mesmo que fiquem

grandes como as porras das bolas de golfe. Você sabe como são?

Ao mesmo tempo que falava ele matava um mosquito.

Cujo deitou-se ao lado de sua cadeira quando ele tornou a pegar no copo. Já estava na hora de entrar para refrescar o corpo, como diziam aqueles merdas do clube.

—   Refrescar uma ova...

Ele sacudiu o braço na direção do telhado da casa e uma mistura pegajosa de suco de laranja com vodca escorreu-lhe pelo braço muito queimado e ainda musculoso.

—   Olhe só para aquela porcaria ali, Cujo, meu velho cama¬rada. Está caindo aos pedaços, a porra do telhado. E você quer saber de uma coisa, meu chapa? Eu também estou cagando para isso. A porra da casa pode desmoronar agora mesmo sem que dê um peido pôr causa disso. É o quê lhe digo, meu chapa...

Cujo sacudiu ligeiramente o rabo. Não sabia o que aquele HOMEM estava dizendo, mas os ritmos já eram seus velhos conhe¬cidos e os padrões serviam para aliviar. Já estava muito acostumado com aquela polêmica que se repetia durante toda a semana desde... bem, no que lhe dizia respeito, elas tinham existido toda a vida. Cujo gostava daquele HOMEM que sempre lhe dava o que comer. Só que, ultimamente ,ele já não parecia dar muita impor¬tância à. comida, apesar do HOMEM estar sempre insistindo. E então ele podia ficar ali deitado, como estava agora, ouvindo aquela mesma arenga. De um modo geral, porém, o cão não se sentia muito bem. Ele não rosnara por causa do calor e sim, simples¬mente, porque não se sentia bem. Durante um curto instante, so¬mente num momento, ele até sentira vontade ele morder o HOMEM.

— Está me parecendo que você andou enfiando o focinho nos espinhos. Estava correndo atrás de alguma coisa? Era um esquilo ou um coelho?

Cujo sacudiu ligeiramente o rabo outra vez. Os grilos cantavam nas moitas. Lá atrás da casa as madressilvas atraíam as abe¬lhas sonolentas naquela tarde quente de verão. Tudo na vida do Cujo devia estar certinho, mas, de alguma forma, não era isso que estava acontecendo. Ele, simplesmente, não se sentia nada bem.

—   Estou cagando se caírem os dentes de todos aqueles caipiras da Geórgia. E também de todos esses mascadores de chicletes.

Ele levantou-se, cambaleando, e a cadeira se desmantelou. Quem por acaso apostasse que Gary cagou solenemente para este fato acertaria em cheio. Depois de um gesto como se estivesse se desculpando com o cão, ele voltou para a casa, a fim de preparar outro drinque. A cozinha era uma mixórdia cheia de moscas, sa¬cos de lixo, latas vazias e garrafas no mesmo estado.

Quando voltou lá para fora, com o copo cheio na mão, Cujo já não estava mais ali.

 

No último dia de junho, Donna Trenton voltou do centro da cidade, cujos habitantes chamavam de rua principal — mas ela ainda não se acostumara com aquele maneirismo do Maine. Deixara Tad no seu acampamento de tarde e fizera algumas compras de mantimentos no Mercado Agway. Sentia-se exausta devido ao calor, mas ficou realmente furiosa quando viu a caminhonete Ford do Steve, com suas vistosas pinturas laterais.

Aquela sua fúria estivera latente durante todo o dia. Vic já lhe contara ao café da manhã sobre a viagem que seria obrigado a fazer e quando ela protestara diante da possibilidade de ficar sozinha com Tad durante 10 dias, ou talvez duas semanas, ele lhe expusera claramente a situação. Ela ficara apavorada diante do que ouvira e aquilo era algo que realmente detestava. Não gostava do ficar apavorada. Até aquela manhã ela vinha tratando o caso da Zingers como uma simples piada, aliás uma boa piada, embora aquilo afetasse Vic e Roger. Jamais sonhara que uma coisa tão ab¬surda pudesse ter tão séria.

         Depois disso, Tad fizera “manha” porque não queria ir para o acampamento, alegando ter sido maltratado por um me¬nino mais velho na última sexta-feira. O nome dele era Stanley Dobson. e Tad temia que ele continuasse a persegui-lo. Chorara e se agarrara a ela na hora em que chegaram ao acampamento da Legião Americana onde ele deveria ficar e ela se vira obrigada a livrar-se dele à força, soltando-lhe os dedos, um por um, fazendo com que se sentisse mais como uma nazista do que uma boa mãe carinhosa: you will go to daykemp, ja? Ia, mein Mammal Havia ocasiões em que o filho lhe parecia muito pequenino para a idade, muito vulnerável. Pois não era voz geral que. os filhos únicos deyiam sempre, ser precoces e cheios de recursos? Os dedos dele estavam sujos de chocolate e tinham deixado manchas em sua blusa. Ela chegara a recordar as impressões digitais feitas com sangue dos romances policiais de revistas baratas.

         Para aumentar-lhe ainda mais o mau humor, o seu carro, um Pinto da Ford, começara a mostrar algum sintomas alarmantes quando voltava pra casa. Sacudia-se todo, corno se: estivesse ata¬cado por um sério caso de soluços automobilísticos. Melhorara um pouco logo depois, mas de qualquer maneira, aquilo a deixara alar¬mada, O que acontece uma vez sempre pode se repetir e então...

             ...e então, para pôr mais lenha na fogueira, ali estava Steve.

         — Que merda — resmungou ela e saiu do carro, carregando os sacos com os mantimentos. Era uma mulher de 29 anos, alta, bonita, de cabelos negros e olhos cinzentos. Conseguiu se controlar bem para manter uma aparência de frescor, apesar do calor que fazia, das marcas dos dedos do Tad na blusa e na bermuda que ela sentia coladas nos quadris e nas nádegas.

       Subiu rapidamente os poucos degraus para entrar em casa. E lá estava Steve, sentado na cadeira de Vic na sala de estar, bebendo uma cerveja. Tinha na boca um cigarro — certamente dos dela. A TV estava ligada e os dramas de um seriado médico dominavam o ambiente.

— Afinal chegou a princesa! Pensei que não viria mais...

Ele falava com aquele seu sorriso atrevido que ela já admirara muito pelo seu encanto e pelo seu perigo crescente.

— Quero que saia já daqui, seu filho da puta... — disso ela voz inexpressiva e caminhou para a cozinha. Colocou as sacolas ¬em cima da mesa e começou a arrumar as coisas. Já não se

lembrava mais de outro dia em que tivesse estado tão furiosa, tão indignada que chegava a sentir um nó na barriga. Talvez houvesse sido numa daquelas discussões infindáveis com sua mãe. Uma daquelas horrorosas demonstrações, antes de ir embora para a escola. Quando Steve chegou por trás dela e enlaçou-a pela cintura nua, sua reação foi completamente instintiva. Sem saber ao certo o que estava, fazendo, ela deu-lhe uma tremenda cotovelada na barriga. Sua raiva não diminuiu com o fato óbvio dele ter previsto tal rea¬ção. Steve era jogador de tênis e ela teve a sensação de haver batido com o cotovelo numa parede de pedra forrada á borracha dura.

       Ela voltou-se e deu de cara com o seu rosto barbado e sorri¬dente. Donna. tinha 1,60m e era um pouco mais alta do que Vic qüando estava de sapato alto, mas Steve tinha mais de um 1,80m.

        — Você não me ouviu? Quero que saia já daqui!

       — Ora essa! E por que acha que devo sair? O seu filhinho está lá no campo fazendo cintos com contas coloridas ou então atirando flechas em maçãs e outras coisas mais; o seu maridinho está lá no escritório, às voltas com as secretárias.., e então chegou¬ a hora para a mais linda hausfrau de Castle Rock e o seu poeta vagabundo, jogador de tênis, fazerem com que os sinos do congresso sexual tilintem numa harmonia .......

       —Vi sua caminhonete parada ali na entrada. Por que não colocou lá um enorme cartaz num dos lados, dizendo ESTOU LÁ DBNTRO DANDO UMA TREPADA COM DONNA, ou coisa parecida?    

       —Tenho boas razões para estar aqui, porque dentro do carro está a sua cômoda bem limpinha, tão limpinha como eu desejava que você fosse também, queridinha...

       — Você pode colocá-la na varanda. E enquanto estiver fa¬zendo isso, vou fazer o seu cheque. Depois cuidarei da cômoda.

       — O sorriso dele já se apagara um pouco. Pela primeira vez, desde que chegara, todo o seu encanto superficial tinha desaparecido e ela via o verdadeiro indivíduo que se escondia por baixo

dele. Aquele era um tipo que ela não tolerava, um cara que a deixava espantada ao pensar no que houvera entre os dois. Ela mentira para Vic, enganara-o para trepar com Steve. Desejava ardentemente que aquilo que sentia agora fosse tão simples como uma redescoberta de si mesma depois de um sério ataque de febre. Ou de se redescobrir como companheira de Vic. Mas quando se livrava da casca surgia a verdade nua o simples, mostrando que Steve era uma besta e um canalha, além de ser também poeta, reformador de móveis itinerante, empalhador de cadeiras e um regular jogador de tênis, bem como um bom amante para as tardes ociosas.

—   Vamos falar a sério, Donna.

—   É isso aí. Não há quem possa resistir ao belo e charmoso Steve Kemw. Isso só pode ser uma piada, mas acontece que não é. Então, o que você tem a fazer, meu belo e irresistível Steve, é trazer a cômoda para a varanda, pegar o seu cheque o cair fora.

—   Não fale assim comigo, Donna...

A mão dele alcançou-lhe o seio, que ele apertou. Doeu. Co¬meçava a ter medo, mas também estava furiosa. Só que se lembra¬va agora como sempre sentira medo durante todo o tempo em que durara o caso com Steve, mas aquilo só havia servido para aumen¬tar o prazer da aventura, apesar de seu lado sórdido.

       — Não se meta comigo, Donna. Pode se dar mal — ameaçou ele, sorrindo.

— Eu meter-me com você? Você já estava aqui quando che¬guei! — O fato de estar com medo dele ainda aumentava mais ainda sua raiva. Ele usava uma barba preta muito cerrada, que se unia aos cabelos da cabeça, e ela então lembrou-se de repente que, em¬bora conhecesse bem o seu pênis, já que o tivera em sua mão mui¬tas vezes, ela não lhe conhecia o rosto.

—   O que é que está querendo me dizer? Será que foi apenas uma comichão passageira que já foi bem coçada e então chegou a hora de me dar o fora? Será que foi isso mesmo? Será que não pensa em meus sentimentos? Que simplesmente está cagando para eles?

—   Você está bufando em cima de mim... — ela empurrou-o do caminho para ir colocar o leite no refrigerador.

Steve não esperava por isso. O empurrão pegou-o desprepa¬rado e ele quase caiu, recuando um passo. Estava com a testa fran¬zida e a vermelhidão de seu rosto mostrou que não estava gostando. Donna já vira aquela fisionomia nas quadras de tênis que ficavam atrás da Academia de Bridgton, quando perdia um ponto fácil. Ela já o vira jogar muitas vezes e ainda se lembrava de dois sets em que liquidara com facilidade o seu marido e o deixara quase sem fôlego. E nas poucas ocasiões em que o vira perder, ela se atemorizara com a sua reação e chegara a se arrepender de se haver envolvido com ele. Steve já publicara poemas em mais de duas dezenas de pequenas revistas. Tinha também publicado um livro, Perseguindo o Pôr-do-Sol, editado por uma firma de Baton Rouge chamada A Tipografia Em Cima da Garagem. Formara-se na Universidade de Drew, em Nova Jersey; tinha opinião formada a respeito de arte moderna; a respeito de energia nuclear e dos fil¬mes de Andy Warhol; e quando cometia uma dupla falta no tênis, sua reação era igual à de Tad quando lhe diziam que era hora de ir para a cama.

Ele avançou para ela, agarrou-a pelos ombros e obrigou-a a ficar de frente para ele. O leite caiu de suas mãos e espalhou-se pelo chão da cozinha.

—   Aí está! Veja bem o que fez, seu valentão.

       — Olhe aqui, Donna, não vou servir de joguete em suas mãos. Será que você...

—   Saia já daqui! —~- ela gritou bem junto do rosto dele. Per¬digotos se espalharam por sua testa e faces. — O que quer que eu faça para convencê-lo de que não quero vê-lo por aqui? Saia já daqui e vá ser a dádiva de Deus de alguma outra mulher.

         —Você não passa de uma putinha vagabunda e barata — retrucou ele. Sua voz era sinistra e seu rosto metia medo. Continuava a segurar-lhe o braço.

—   E leve a cômoda com você. Pode jogá-la no lixo!

         Ela conseguiu livrar-se dele e apanhou o pano da cozinha que estava pendurado na torneira da pia. As mãos tremiam-lhe, sentia o estômago revoltado e já começava a lhe aparecer uma dor de cabeça. Achava que em pouco vomitaria ali mesmo.

Ajoelhou-se e começou a limpar o leite derramado.

       — É isso aí. Você está pensando que é uma grande coisa. Pensa talvez que a sua xoxóta é de ouro agora? Você até que gos¬tava. Chegava a gritar pedindo mais...

       — Você está certo quando fala no tempo passado, campeão. Ela falava sem levantar os olhos para ele. O cabelo escorria-lhe pelo rosto e Donna até gostava que fosse assim. Não queria que ele percebesse como estava pálida e abatida. Sentia-se como se alguém a houvesse empurrado para um pesadelo. Achava que se olhasse o seu rosto num espelho, naquela hora, veria uma velha e horrorosa bruxa.

—   Vá embora, Steve. Não vou mais repetir isso.

—   E se ou não for? Você vai chamar a policia? Claro. E o que é que vai dizer quando ela chegar? Vai cumprimentar o poli¬cial dizendo que seu marido é um homem de negócios e que este cara aqui é um tal com quem andava trepando às escondidas e que agora não quer ir mais embora? E então vai pedir-lhes para me levarem daqui? Será isso mesmo que você irá fazer?

Isso só serviu para aumentar o seu pavor. Antes de casar com Vic ela trabalhara como bibliotecária na rede escolar de Westches¬ter e o seu principal pesadelo sempre fora o de dizer às crianças, pela terceira vez, com a voz mais alta que conseguisse, para ficarem bem quietas, por favor. E nesse ponto ela sempre fora obedecida. Mas o que aconteceria se elas não obedecessem? Aquela era a pergunta que a deixava apavorada. Vivia apavorada com o fato daquilo poder acontecer algum dia. Ela tinha medo de gritar e só o fazia quando isso se tornava absolutamente necessário. E isso porque esso era o ponto em que terminava a civilização de forma absoluta. Era o ponto em que o asfalto terminava e então começava a estrada do terra batida. E se não obedecessem ao mau alto tom do voz, então seria preciso berrar. Seria o único recurso.

E era essa mesma espécie de medo que ela sentia agora. A única resposta para a pergunta do homem, naturalmente, seria di¬zer-lhe que ela gritaria se ele se aproximasse dela. Mas gritaria mesmo? Ela então falou, em voz mais baixa.

—   Vá embora... por favor... Está tudo acabado...

—   E se eu resolver que não está? E se eu resolver violentá-la, aqui mesmo no chão, em cima da porcaria deste leito?

Ela olhou-o através dos cabelos que lhe cobriam o rosto em desalinho. Continuava pálida e seus olhos apareciam como se fos¬sem muito grandes devido às olheiras que os cercavam.

—   Se fizer isso, vamos ter uma briga séria. E não hesitarei, se encontrar uma oportunidade para lhe arrancar os bagos e até mesmo os olhos.

Durante um curto instante, antes que seu rosto se fechasse, Donna teve a impressão de que ele não sabia o que fazer. Steve sabia que ela era rápida e que estava em muito boa forma. Ganha¬va dela no tênis, mas precisava fazer força para isso. Claro que seus testículos e olhos não corriam perigo, mas a mulher podia arranhar-lhe muito o rosto. Era uma questão de saber até onde ele. estava disposto a ir. Havia um cheiro pesado e desagradável na cozinha, como se estivessem na selva, e ela percebeu espantada que aquilo era o cheiro de seu medo e da raiva dele. Era o que lhes saía pelos poros.

— Vou levar aquele móvel de volta para a loja, Donna. Diga ao seu maridinho bonito para ir buscá-lo e então terei uma con¬versinha com ele. Falaremos a respeito de se tirar fora as roupas...

Ele saiu, então. Bateu a porta da sala com tanta força que quase quebrou-lhe o vidro. Um momento depois, ela ouviu o motor do carro acelerado com raiva e partindo, com os pneus cantando.

Ela acabou de limpar o leite devagar, levantando-se de quan¬do em quando para ir torcer o pano na pia de aço inoxidável, e ficava olhando o leite que escorria para o esgoto. Todo seu corpo tremia em parte como reação e parte como alívio. Quase não ou¬vira a insinuação velada de Steve ameaçando contar tudo a Vic. Não podia pensar senão na cadeia de acontecimentos que levara àquela cena sórdida.

Acreditava sinceramente que se envolvera naquela aventura quase sem pensar no que fazia. Aquilo era uma espécie de explosão num esgoto que deixava escapar toda a imundície que corria nele.

Era a mesma espécie de esgoto que corria por baixo dos gramados bem cuidados de quase todos os lares do país.

Jamais desejara mudar-se para o Maine e ficara realmente contrariada quando Vic lhe comunicara sua decisão de se mudar, ao invés de apenas passarem as férias lá. Ela fazia uma idéia com¬pletamente errada do Maine, imaginando que ali só havia florestas e terras sem cultivo, além de um terrível inverno com neve até o teto, que isolava completamente as pessoas. Só o pensamento de levarem o filho pequenino para um lugar assim deixava-a comple¬tamente aterrorizada. Imaginava tremendas tempestades de neve poderiam deixar Vic isolado em Portland e ela em Castle Rock.

       Pensava e    falava sempre na possibilidade do filho ficar doente, de queimar-se na lareira e de muitos outros desastres que poderiam acontecer. E talvez uma parte de sua contrariedade fosse o fato de ser obrigada a abandonar a vida tumultuada de Nova York.

       A verdade, porém, era que nada daquilo havia acontecido. O pior de tudo era a sua teimosa convicção do fracasso da Ad Worx, o    que iria obrigá-los a voltar para Nova York com o rabo entre as pernas. Isso, porém, não acontecera, porque os dois sócios tinham dado um duro dos diabos; mas o fato era que, assim mesmo, ela ficava lá com o filho pequeno e sem ter nada que fazer.

Donna podia contar pelos dedos de uma das mãos os verda¬deiros amigos que tivera até então. Amigos íntimos. Tinha certeza de que os amigos que fizesse seriam amigos para toda a vida, houvesse lá o que houvesse. Aliás, ela não fazia amigos com facilida¬de. Era muito exigente. Tinha imaginado que talvez lhe fosse pos¬sível obter um diploma no Maine, já que havia um intercâmbio entre o Maine e Nova York.. Era uma questão apenas de preencher certos formulários. Depois, então, procuraria o Superintendente das Escolas para ter o seu nome na lista dos candidatos para a escola em Castle Rock. Aquilo era uma idéia ridícula que ela logo aban¬donou, depois de fazer alguns cálculos na sua maquinazinha de bolso. O gasto com a gasolina e com as babás para o filho logo en¬goliriam os 28 dólares por dia que poderia ganhar.

Em certo dia do inverno anterior ela chegara à triste conclu¬são de que não passava do uma das típicas donas-de-casa america¬nas, que ali ficava, vendo o granizo bater nas janelas. Ficava simplesmente em casa, dando ao filho os mesmos sanduíches e as sopas Campbell de sempre e participando da vida através de pro¬gramas da TV. Podia também ir visitar a Joanie, que tinha uma menina da mesma idade que Tad, mas nunca se sentia bem ali. Joa¬nie era três anos mais velha do que ela e bem mais gorda, mas não parecia dar muita atenção aos quilos em excesso. Achava que o marido gostava dela assim mesmo. Sentia-se satisfeita vivendo em Castle Rock.

Um pouquinho de cada vez, a sujeira ia se acumulando no esgoto. Já começava a discutir com Vic a respeito de ninharias, sem falar nas coisas mais importantes, que eram mais difíceis de definir e ainda mais difíceis de articular. Falava de prejuízos, temores e do tempo que passava, fazendo-a mais velha. Reclamava da soli¬dão, já que tinha medo dela. Reclamava quando ouvia uma canção no rádio, canção de seus tempos de escola, e então desatava em prantos. Sentia inveja de Vic porque o seu trabalho e a sua vida eram uma luta diária para construir alguma coisa sólida, já que era um cavaleiro andante com as armas da família gravadas em seu escudo, ao passo que ela se limitava a ficar ali cuidando do filho, procurando aturá-lo quando estava de mau humor, ouvindo suas conversas infantis e preparando-lhe a comida. Era como uma vida passada nas trincheiras. A maior parte dela consistia apenas em esperar e ouvir.

E durante todo aquele tempo ela sempre pensava que as coisas iriam melhorar quando Tad crescesse; mas quando descobriu que não seria assim, simplesmente deixou-se tomar pelo pânico. No ano anterior, Tad passara três dias da semana na Escola Maternal Jack & Jill, mas naquele verão isso mudara para cinco tardes por semana no acampamento. Quando ele não estava, a casa parecia-lhe tristemente vazia. Lá estavam todas as portas e janelas abertas, mas sem a presença de Tad. A mesma coisa acontecia com as es¬cadas, onde ele costumava ficar sentado de pijama, olhando os seus livros ilustrados, muito sério, antes de ir tirar o seu cochilo diário.

As portas pareciam bocas, as escadas pareciam gargantas e os aposentos vazios pareciam, armadilhas.

E então ela lavava assoalhos que não precisavam ser lavados e ficava olhando a espuma correr. Pensava então em Steve Kemps, que aparecera no outono passado, em seu carro com placa da Vir¬gínia, e logo se instalara com sua oficina de restauração de móveis. Mantivera com ele um pequeno namoro. Surpreendera-se sentada diante da TV, sem a menor idéia do que estava se passando e pensando como o corpo bronzeado de Steve contrastava com seu traje branco de tênis e da maneira como rebolava quando andava de¬pressa. E então, afinal, ela fizera a tolice. E hoje...

Sentiu um nó no estômago e correu para o banheiro, tapando a boca com as mãos. Seus olhos estavam arregalados e vidrados. Chegou justamente a tempo e quase vomitou as tripas. Olhou para toda aquela porcaria e vomitou novamente, sempre gemendo alto.

Quando sentiu-se melhor, embora as pernas ainda lhe tremes¬sem novamente, ela foi olhar-se no espelho do banheiro. A luz fluorescente fazia com que seu rosto assumisse uma expressão dura e desagradável. Ainda estava muito pálida e com os olhos verme¬lhos. O cabelo colava na sua cabeça como se fosse um estranho capacete. Via ali como iria ficar quando envelhecesse. O mais terrí¬vel, no entanto, era que, naquele instante, se Steve lhe aparecesse, ela achava que cairia em seus braços e que fariam amor, desde que ele a abraçasse e beijasse, garantindo-lhe que não devia ter medo dele, que o tempo era um mito, a morte um sonho e que tudo estava bem.

Ela deixou então escapar um som, um grito soluçante, que, certamente não viera de seu peito. Era o som de uma louca.

Abaixou então a cabeça . desatou em prantos.

 

Charity Camber estava sentada na cama de casal que partilhava com o marido Joe e olhava para uma coisa que tinha na mão. Ela acabara de sair da mesma loja onde Donna fazia suas compras.

Sentia suas mãos, pés e rosto gelados e dormentes, como se hou¬vesse passado muito tempo no automóvel para neve que Joe costu¬mava usar. O dia seguinte seria 19 de julho e o automóvel estava lá na oficina, bem coberto com uma lona.

—   isto não pode ser. Deve ter havido algum engano...

Mas o fato era que não havia nenhum engano. Ela conferira tudo muitas vezes e não notara engano algum.

—   Afinal de contas, isso tem de acontecer com alguém, não é mesmo?

Sim, claro, tinha que acontecer com alguém. Mas por que com ela?

Ali do quarto ela ouvia o marido martelando alguma coisa na oficina, alguma coisa que naquela tarde quente soava como se fos¬sem marteladas em folha fina de metal. Seguiu-se uma pausa e, logo a seguir, ela ouviu ainda a exclamação: “Merda!”

O martelo tornou a bater com força e a pausa foi maior, antes que o marido gritasse.

—   Brett!

Ela sempre se encolhia quando ele gritava daquela maneira para chamar o filho. Brett adorava à pai, mas Charity nunca che¬gara a descobrir o que Joe sentia pelo filho. Aquilo era uma coisa ruim para pensar, mas era assim mesmo que ela se sentia. Uma vez, cerca de dois anos antes, ela tivera um pesadelo e sabia que jamais se esqueceria dele. Sonhara que o marido enfiara um for¬cado no filho, trespassando-o e agüentando-o da mesma forma que as estacas agüentam a lona das tendas. O sacaninha não veio quan¬do eu o chamei gritando bem alto. Ela acordara sobressaltada ao lado do marido, que dormia apenas de calções e com o bucho cheio de cerveja. O luar entrava pela janela, iluminando a cama, e ela descobrira como alguém pode ter medo, como o medo era um monstro de dentes amarelos e que Deus enviara para a Terra com o fim do comer os incautos e os que não prestavam. Joe dera-lhe algumas surras durante o tempo de casados e ela aprendera com aquilo. Claro que ela não era nenhum gênio, mas sua mãe também não criara tolos. Agora ela fazia tudo que o Joe mandava e não discutia. Desconfiava que Brett também fazia o mesmo. De qualquer forma, havia ocasiões em que temia pelo filho.

Foi até a janela ainda a tempo de ver Brett correr para o bar¬racão. Cujo corria atrás dele com ar afogueado e cansado. Ouviu com dificuldade o diálogo entre os dois.

—   Segure isto aqui, Brett...

—   Sim, papai.,.

As marteladas recomeçaram com mais força, num som impio¬doso. Bang, bang, bang. Ela imaginava o filho segurando alguma coisa enquanto o martelo atacava um rolamento emperrado ou algo parecido. Imaginava o marido com o cigarro no canto da boca, com as mangas da camisa arregaçadas, martelando sem parar. E se ele estivesse bêbado... se falhasse na pontaria...

Em sua mente quase podia ouvir o grito lancinante de Brett quando o martelo lhe esmagasse a mão, transformando-a numa pasta do sangue; o então cruzava os braços para espantar a visão.

Olhou outra vez para o que tinha na mão e ficou a imaginar se havia algun~a maneira de usá-lo. O que ela mais desejava mesmo era ir visitar a irmã que morava em Connecticut. Ia fazer seis anos desde que vira Holly pela última vez, no verão de 1974. Lembrava bem a data porque aquele fora um verão bem ruim para ela, a não ser por aquele fim de semana muito agradável. Fora naquele mesmo ano que Brett começara a ter os seus problemas noturnos. Agitava-se na cama, tinha pesadelos e, cada vez com mais freqüência, acessos de sonambulismo. E fora ainda naquele mesmo ano que Joe começara a se entregar completamente à bebida. As más noi¬tes do filho e o seu sonambulismo tinham desaparecido, mas o mesmo já não acontecia com o vício de Joe.

Brett tinha então quatro anos e agora, com 10, nem mesmo se lembrava mais da Tia Holly que se casara naquela ocasião. Tinha um filho com o mesmo nome do pai e uma filha, mas Charity não conheceu a nenhum deles. Não conhecia os sobrinhos, a não ser pelas fotos coloridas que Holly lhe mandava pelo correio.

Ela já ao cansara de pedir a Joe e agora temia insistir. Ele já estava cheio de ouvi-la falar sobre a irmã. Tinha medo de lhe pedir novamente, já que ele poderia espancá-la. Já decorriam 16 meses desde que lhe pedira pela última vez para tirarem umas férias em Connecticut. Joe simplesmente não gostava do viajar. A única coisa que gostava mesmo era Castle Rock. Uma vez por ano, Joe, Gary e outros companheiros iam até o norte, em Moosehead, para caçar veados. Em novembro daquele ano ele quisera levar Brett, mas Charity fizera pé firme e não cedera de maneira alguma, apesar dos resmungos e da cara amarrada do marido e do rosto choroso do filho. Ela jamais permitiria que seu filho fosse com aquela turma e ficasse ausente durante duas semanas, ouvindo as conversas e as piadas sujas daqueles homens que se transformavam em verdadeiros animais, depois de beberem dias seguidos sem parar. E todos eles metidos no mato com espingardas carregadas. Armas carregadas e homens bêbados e então tudo podia acontecer, mais cedo ou mais tarde, apesar de seus chapéus e casacos alaranjados e fluorescentes. Isso jamais aconteceria com o seu Brett.

       O   martelo continuava a bater no metal num ritmo certo. Houve uma parada e ela respirou aliviada. Depois, começou outra vez.

       Charity sabia que, mais cedo ou mais tarde, Brett iria acom¬panhá-los e, então, ele estaria perdido para ela. Ele passaria a fazer parte da turma e, daí em diante, ela nada mais seria senão uma simples criada que mantinha a casa limpa para aqueles ho¬mens. Claro que esse dia chegaria e ela se amofinava por anteci¬pação. Já conseguira muito adiando por mais um ano aquele acon¬tecimento.

       Mas agora, naquele ano? Iria ela conseguir segurá-lo ainda? Brett ficaria com ela naquele mês de novembro? Era provável que isso não acontecesse mas, de qualquer maneira, assim seria melhor. Se ao menos ela pudesse ir com ele a Connecticut antes! Levá-lo até lá para que ele .tivesse oportunidade de ver...

...de ver...

         Ora, ora, o melhor mesmo é desembuchar logo. Será um alívio.

(ver como vivem as pessoas decentes)

         Se ao menos Joe permitisse que os dois fossem sozinhos... mas não adiantava nem mesmo pensar nessa possibilidade. Joe podia ir só, ou com a sua turma, aonde bem entendesse, mas sua mulher não tinha esse direito nem mesmo se o filho fosse em sua compa¬nhia. Isso era uma das regras inflexíveis de seu casamento. Isso, não impedia que ela ficasse ali pensando como seria bom ir sem ele, como seria melhor não tê-lo sentado na cozinha de Holly bebendo cervejas e olhando para Jim de alto a baixo, com ar Insolente. Claro que seria muito melhor para todos, já que evi¬taria o fato dos dois lados ficarem aflitos para se verem livres um do outro.

Ela e Brett.

Somente os dois.

Poderiam ir de ônibus.

E ela pensava naquele último novembro, quando Joe insistira para levar o filho junto com a turma.., para caçar veados.

E se houvesse a possibilidade de um arranjo?

Sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha. Iria ela realmente concordar com o arranjo? Ele poderia levar o filho para as suas caçadas, caso lhe fosse permitido levá-lo a Stratford de ônibus para visitarem a tia...?

Charity possuía o dinheiro necessário. Tinha aquilo agora, mas não era apenas uma questão de dinheiro. Ele logo se apossaria do dinheiro e ela jamais o teria de volta. A não ser que fizesse o seu jogo com muito cuidado. A não ser que soubesse aproveitar bem as cartas que tinha na mão. Teria que aproveitá-las direitinho...

Sua mente começou a funcionar com mais rapidez. As marte¬ladas lá fora tinham cessado. Viu Brett sair do barracão correndo e sentiu-se aliviada. Tinha o pressentimento de que o filho ainda sairia ferido daquele barracão escuro, cujo piso estava sempre co¬berto de serragem por causa do óleo e da graxa.

Havia uma maneira. Não era possível deixar de haver.

Tudo se resumia na sua coragem para arriscar.

Tinha em sua mão um bilhete premiado da Loteria Estadual e ali do pé na janela, revirando-o, ela continuava a pensar.

 

Ao voltar para a sua loja, Steve Kemp sentia-se num furioso estado de êxtase. A loja ficava na periferia da cidade na Rodovia 11. Ele a alugara de um fazendeiro que tinha propriedades em Castle Rock e Bridgton, ali perto.

A loja era dominada por um enorme tanque de ferro corruga¬do, grande o bastante para ferver toda uma congregação de mis¬sionários de uma só vez. Espalhados em torno dele, como se fossem pequenos satélites girando em torno de um planeta maior, os mó¬veis que constituíam o seu trabalho. Havia ali mesas de trabalho, cômodas, aparadores para louças, estantes e mesas comuns. Todo o aposento cheirava a verniz, solvente e óleo de linhaça. Steve tinha uma muda de roupa limpa numa velha sacola de uma companhia de aviação; ele a colocara ali para vesti-la após voltar da trepada que pretendia dar com aquela grã-fina. Logo que chegou, porém, pegou na sacola e atirou-a longe. Ela bateu na parede e caiu em cima de uma cômoda. Ele foi até lá. jogou-a para o lado. Deu-lhe ainda um pontapé, fazendo-a bater no teto antes de cair no chão, ao seu lado, como um pássaro morto. Depois, ele simplesmente ficou ali parado, ofegante, respirando o cheiro forte e contemplando, com um olhar perdido, as três cadeiras que prometera empa¬lhar até o fim da semana. Tinha os polegares enfiados no cinto o os dedos fechados em punho. Estava com o lábio inferior esten¬dido para fora e parecia uma criança zangada após ter sido surpreendida.¬

—   Merdinha barata...

Foi novamente, até onde estava a sacola e fez menção de dar-lhe um outro pontapé, mas arrependeu-se o apanhou-a. Atravessou a sala o entrou na casa de três quartos anexa à loja.. Ali, dentro de casa, o calor ainda era maior. Era um tremendo calor de julho. Era um calor que tomava conta da cabeça. A cozinha estava repleta de pratos sujos e as moscas esvoaçavam em torno de um plástico verde, uma sacola cheia de latas de atum e outras conservas. A sala de estar era dominada por uma enorme TV Zenith, em preto o branco, que ele encontrara numa lixeira em Naples. Um grande gato ma¬lhado, chamado Berníe Carbo, dormia em cima da TV como se estivesse morto.

Era no quarto de dormir que ele escrevia suas coisas. A cama estava ainda desfeita. O lençol tinha manchas endurecidas de es¬perma. Por maior que fosse o número de trepadas que conseguia, o que nas últimas duas semanas fora zero, ele tinha o vício de se masturbar freqüentemente. Achava que aquilo era um sinal de cria¬tividade. Do outro lado da cama ficava a sua mesa de trabalho, sobre a qual havia uma velha Underwood; originais estavam espa¬lhados por toda parte, alguns em caixas, outros envoltos por elás¬ticos num dos cantos do quarto. Ele escrevia bastante, tanto quanto viajava, e a sua principal bagagem eram suas obras, que consistiam principalmente de contos, poemas e uma peça surrealista cujos personagens só falavam um total de nove palavras; havia ainda um romance que abordara erradamente de seis ângulos diferentes. Já fazia cinco anos desde a última vez em que ele vivera em algum lugar o tempo suficiente para ser obrigado a desempacotar sua bagagem.

Em dezembro último, enquanto aparava a barba, ele descobrira ali os primeiros fios de cabelos brancos, tal descoberta deixando-o numa terrível depressão que durou semanas. Nunca mais se aproximara do espelho para cuidar da barba, como se tal ato fosse o causador daqueles fios grisalhos. Estava agora com 38 anos. Recusava-se a alimentar o pensamento de ser velho algum dia e sentia-se surpreendido quando isso lhe acontecia. Ficava aterrori-zado com a idéia de só lhe faltarem 700 dias para ser um quaren¬tão. Sempre realmente acreditara que essa idade era para os outros e jamais se aplicaria a ele.

Aquela puta.... aquela puta... Era o que ele repetia sem cessar.

Já havia abandonado dezenas de mulheres desde sua primeira experiência sexual — com uma bonitinha, mas obscura e sua¬vemente desamparada professora de francês quando estava no giná¬sio — mas só tinha sido abandonado duas ou três vezes. Ele sabia como perceber quando a coisa estava para terminar e então sempre tomava a iniciativa. Era um artifício que servia de proteção da mesma forma como alguém faz valer sua dama de espadas num jogo em que o trunfo é copas. A pessoa devia se cuidar enquanto ainda estava por cima, se não quisesse se foder. Era preciso cuidar¬-se de qualquer maneira. Assim como também ninguém devia se preocupar com a idade. Ele havia percebido que Donna se mos-trava mais fria ultimamente, mas sempre imaginara que ela fosse uma mulher fácil de ser manipulada, pelo menos por algum tempo, por meio de uma combinação de fatores psicológicos e sexuais. Até mesmo pelo medo, se ele desejasse ser rude. E o fato da coisa não haver funcionado como esperava deixava-o furioso como se hou¬vesse sido chicoteado até sangrar.

Despiu-se e tomou um banho de chuveiro. Ao sair sentia-se bem melhor. Tinha atirado a carteira e os trocados em cima da mesa. Vestiu-se novamente, enfiando uns jeans e uma velha camisa de cambraia que estava na sacola. Apanhou os trocados, colocou-os no bolso e ficou ali parado, olhando especulativamente para a sua carteira, da qual alguns cartões comerciais tinham caído — o que, aliás, acontecia sempre, por serem muitos.

Aquela carteira dele estava sempre cheia de coisas. Tinha a mania de colecionar cartões comerciais. Achava que eram bons como marcadores de livros, e também serviam para anotações de endereços e números de telefones. Aceitava todos os que lhe eram dados por corretores de seguros ou lojas, sempre exibindo um largo sorriso.

Quando a coisa entre ele e Donna estava no auge, Steve apanhara um dia um dos cartões comerciais de Vic que vira em cima da TV, enquanto Donna estava no banheiro ou saíra do quarto para alguma coisa. Apanhara o cartão sem que houvesse razão para aquilo e sim apenas para satisfazer sua mania.

Abriu então a carteira e começou a procurar entre os cartões. Havia um da Prudential, de um corretor na Virgínia, outros de cor¬retores de imóveis no Colorado e ainda uma dezena de outros. Che¬gou a pensar que havia perdido o daquele maridinho bonito, mas afinal encontrou-o no meio de umas notas verdes. Tirou-o dali e ficou algum tempo a contemplá-lo. Era um cartão branco e as letras eram todas num estilo especial, em azul, todas as palavras em mi¬núsculas. Era o cartão de um homem de negócios bem-sucedido.. Impressionava sem ser exagerado.

 

roger breakstone ad worx victor trenton

1633 congress street

telex: adworx portland maine 04001 tel (207) 799-8600

 

Ele tirou uma folha de papel comum de uma pilha que era usada no mimeógrafo; abriu um espaço limpo à sua frente. Olhou de relance para a maquina de escrever que ali estava, mas logo desistiu. Não servia porque todas as máquinas possuem sempre alguma coisa que pode identificá-las com facilidade. E então o jul¬gamento era sumário. Claro que aquilo jamais seria um caso de polícia, mas sempre era bom ser cauteloso. O papel era comum e podia ser encontrado em qualquer loja. Nada de máquinas.

Apanhou uma caneta Pibot que estava .na lata de café no canto da mesa e escreveu, em letra de fôrma:

 

                     OI VIC

       VOCÊ TEM UMA MULERZINHA BACANA

       GOSTEI MUITO DA TREPADA QUE TIVEMOS

 

Fez uma pausa enquanto batia nos dentes com a ponta da caneta. Estava começando a se sentir bem outra vez. Estava no auge. Claro que ela era uma mulher bonita e ele achava que sempre havia a possibilidade do marido não dar muita atenção ao que escrevera até ali. As difamações postais saíam baratas, já que o selo custava menos que uma xícara de café, mas ainda faltava alguma coisa. Era preciso acrescentar algo. O que poderia ser?

Seu rosto, de repente, abriu-se num largo sorriso. Era fácil ver agora por que ele nunca tivera dificuldades com mulheres desde aquela professorinha.

E então acrescentou:

 

     O QUE VOCÊ ACHA DAQUELE SINALZINHO

   QUE ELA TEM BEM POR CIMA DOS PELOS PÚBICOS?

   A MIM PARECEU UM PONTO DE INTERROGAÇÃO

   SERÁ QUE VOCÊ TEM ALGUMA DÚVIDA?

 

Aquilo já era o bastante. Sua mãe costumava lhe dizer que uma refeição pode ser tão boa como um banquete. Apanhou um envelope e colocou dentro o bilhete. Depois de pensar um pouco, enfiou lá também o cartão comercial e escreveu o endereço com as mesmas letras que usara para o texto. Escreveu o endereço do es¬critório, já que desejava dar uma chance ao pobre coitado, acrescentando PESSOAL por baixo do endereço.

Encostou a carta no peitoril da janela e recostou-se na cadei¬ra, sentindo-se novamente em plena forma. Tinha certeza de que, naquela noite, conseguiria escrever alguma coisa.

Lá fora parou um carro com placa de outro Estado. Era uma pick-up trazendo um grande armário Hoosier. Alguém tivera sorte e conseguira aquela pechincha em algum leilão de roça.

Saiu ao encontro do motorista. Gostaria bem de ganhar aquele dinheiro com o armário, mas duvidava se teria tempo para cuidar daquilo. Logo que colocasse a carta no correio, o melhor mesmo seria uma mudança de ares. Só que não devia ser uma grande mudança. pelo menos durante algum tempo. Ele achava que devia a si mesmo o prazer de ficar ali naquela região por mais algum tempo, para uma breve visita àquela puta convencida.., numa hora em que seu maridinho não andasse ali por perto. Steve já jogara tênis com ele e sabia que não haveria perigo. O cara era magro, usava óculos muito grossos, era fraco nas cortadas, mas ninguém podia saber quando um maridinho zangado ia perder o controle e cometer algum ato pouco social. Muitos deles até mesmo tinham armas em casa. Ele precisava verificar tudo direitinho antes de se arriscar. Seria simplesmente uma última visita antes de cair fora definitiva¬mente. Talvez se mandasse para o Ohio durante algum tempo. Também poderia ser a Pensilvânia. Ou então Taos, no Novo Mé¬xico. Da mesma forma que os engraçadinhos que gostam de pregar peças nos amigos colocando pólvora em seus cigarros, ele queria ficar por ali a fim de ver a coisa explodir; mas de uma distância prudente, é claro.

O motorista da pick-up e sua mulher estavam olhando para dentro da loja, a fim de ver se ele estava lá. Steve saiu com as mãos nos bolsos e uma atitude negligente, com o rosto aberto num sorriso amplo. A mulher logo retribuiu-lhe o sorriso.

— Oi, pessoal. O que posso fazer por vocês?

Iria colocar a carta no correio logo que se visse livre daquela gente.

 

No fim daquela tarde, logo que o sol se pôs, redondo e vermelho, Vic, a camisa amarrada em torno da cintura, examinava o motor do Ford Pinto da mulher. Donna estava ao seu lado, parecendo jovem e saudável de shorts brancos e uma blusa de xadrez vermelha e sem mangas, e também descalça. Tad, apenas com um calção de banho, corria loucamente com seu triciclo cm torno da casa, cer¬tamente numa imitação das façanhas dos patrulheiros CHIPS da televisão.

— Beba o seu chá gelado, Vic, antes que ele esquente —disse Donna.

A resposta dele foi apenas um grunhido. O copo estava ali, ao lado do motor. Ele bebeu alguns goles e tornou a colocar o copo no mesmo lugar, sem olhar, e o resultado foi que ele caiu, bem nas mãos de Donna.

       — Ei, garota, que boa pegada!

Ela respondeu sorrindo.

— Eu te conheço, Vic. Sei quando está pensando em outra coisa. Veja só. Não derramou nem uma gota.

       Os dois trocaram sorrisos e Vic achou o momento encanta¬dor. Talvez fosse simples imaginação, talvez fosse o desejo daquilo ser verdade, mas o fato era que, ultimamente, tudo parecia ter voltado aos bons tempos. Já não havia mais aquelas palavras agressi¬vas, havia muito menos daqueles silêncios gelados, ou apenas indiferentes, o que ainda era pior. Não sabia qual poderia ser a causa, mas, de qualquer maneira, agradecia o fato das coisas estarem na¬quele pé.

           —      Foi realmente uma bela pegada, garota, mas você ainda tem um grande caminho a percorrer antes de se tornar craque.

             — Eu só quero saber o que há com o meu carro, treinador.

             Ele havia retirado o filtro de ar, que estava ali no chão ao lado. Tad chegara alguns momentos antes e parara ali, fazendo uma curva violenta com o triciclo. Disse:

   — Nunca vi um Frisbee assim, papai.

           Vic inclinou-se e começou a cutucar o carburador com a chave de fenda, sem propósito algum.

         — Deve ser o carburador. Acho que a agulha está colando...

         — E isso é sério? — indagou Donna.

         — Não muito, mas o bastante para deixá-la no meio do caminho se grudar mesmo de verdade. É ela que controla a admis¬são da gasolina no carburador. E então, sem gasolina, o carro não anda. É igual a uma lei do Congresso.

         — Papai, você quer vir me empurrar no balanço?

         — Vou já, Tad. Espere um bocadinho, sim?

         — Oba, oba! Vou esperar lá atrás.

         Tad foi para os fundos da casa, onde Vic construíra um ba¬lanço no verão anterior, ao mesmo tempo que se lubrificava bem com gim tônica, consultando desenhos e trabalhando depois do jan¬tar nos dias úteis e. nos fins de semana, enquanto o locutor do jogo dos Red Sox de Boston gritava no radinho de pilha ao seu lado. Tad, na época com três anos, ficava solenemente sentado nos degraus ¬do porão, segurando o queixo com as mãos, indo buscar coi¬sas, mas geralmente olhando tudo em silêncio. Isso fora no verão anterior, que tinha sido bom e não tão estupidamente quente como o atual Tudo indicava que Donna finalmente concluíra que o Maine, Castle Rock e a Ad Worx eram coisas boas para toda a família.Então surgira aquela mancha mistificadora e ruim, cuja pior parte era aquele sentimento de perseguição, quase psíquico, dizen¬do-lhe que as coisas estavam ainda muito piores do que ele pensava. ¬As coisas na casa começaram a aparecer fora de seus luga¬r., de um modo sutil, como se mãos estranhas houvessem mexido nelas. Chegara a alimentar a idéia louca de que sua mulher andava mudando a roupa de cama mais do que costumava. Seria mesmo uma idéia louca? Encontrava lençóis limpos e então via-se assalta¬do por uma pergunta que nada tinha de agradável. “Quem é que anda dormindo em minha cama?” Acreditava naquilo, embora não tivesse provas concretas.

           Taaad! Leve seu triciclo para a garagem! — gritou Donna.

Ele parou de estalo, fazendo ranger as rodas do borracha.

         — Mas, mamãeee...

— Faça o que mandei, monsieur...

         — Messiê — arremedou-a, rindo. — Mas você não levou o seu, mamãe...

         — Porque seu pai está consertando ele...

         — Eu sei, mamãe. Mas...

         Faça o que sua mãe mandou, Tad. Eu logo estarei lá — disse Vic e pegou no filtro de ar, para colocá-lo no lugar.

         Tad montou no triciclo e saiu gemendo alto, como se fosse uma ambulância em disparada.

         —       Por que está colocando o filtro de novo, Vic? Será que não vai poder dar um jeito no carro?

         — Esse é um serviço que precisa ser muito bem-feito e não tenho as ferramentas apropriadas, Donna. Acho que só poderia piorar a situação.

Ela mostrou-se aborrecida e deu um chute no pneu.

       — Que merda! Essas coisas sempre acontecem depois que ter¬mina o prazo da garantia...

       O carro tinha acabado de ultrapassar os 30.000 quilômetros o ainda faltavam seis prestações para ser quitado.

           — Isso também é como se fosse uma lei do Congresso... Vic repôs o filtro no lugar e apertou a borboleta

           — Acho que terei de ir até a South Paris num carro emprestado, já que você vai viajar. Será que esse carro consegue chegar lá, Vic?

           — Claro que sim, mas não precisa fazer isso. Leve-o para a oficina do Joe. É mais perto e ele trabalha bem. Lembra quando ele me consertou a roda do Jaguar? Arrumou tudo direitinho e só cobrou dez dólares. Puxa vida! Se eu tivesse procurado aquela oficina de Portland eles iam me deixar duro....

—   Aquele tal de Joe me deixou nervosa, Vic. E não foi por estar de cara cheia...

           —      E por que então ele a deixou nervosa?

           — Seu curioso...

Ele achou graça.

           —      Minha querida, quando ando com você preciso estar sem¬pre bem atento... Há muita razão para isso...

           —      Obrigada. A mulher não precisa ficar zangada quando olham muito para ela. Não necessariamente... O que faz a gente nervosa é quando nos despem com os olhos...

         Ele achou que ela fizera uma pausa um tanto estranha en¬quanto seu olhar se perdia no horizonte, contemplando o risco ver¬melho do crepúsculo. Depois, tornou a olhar para ele.

         —       Há homens que nos dão a sensação de que estão pensando num filme chamado O Rapto das Sabinas durante todo o tempo; e que estão vendo ali, na sua frente, a atriz que o estrelou.

         Ele teve uma curiosa e desagradável sensação, achando que ela falava de várias coisas ao mesmo tempo, aquela não era a primeira vez. Não queria, porém, tocar em tal assunto naquela noite, quando justamente acabava de se livrar de um mês de agonia.

         — Filhota, ele é provavelmente inofensivo. Lembre-se que tem mulher e filho...

         —       Eu sei. Deve ser mesmo — ela falou cruzando os braços no peito e aparando os cotovelos com as mãos, um notório gesto de nervosismo de sua parte.

         — Pois bem, Donna, eu mesmo vou levar seu carro lá neste sábado, se você quiser. Está bem? É até provável que ele dê um jeito na hora, sem que se precise deixar o cano lá. Tomarei umas cervejas comi ele e farei festinhas no cão. Você ainda se lembra daquele São Bernardo?

         Ela sorriu, agradecida.

         —       Eu até mesmo me lembro do nome dele. Ele quase jogou o Tad no chão, enquanto o lambia. Você ainda lembra?

         —       Claro que lembro. Tad ficou brincando com ele todo o resto da tarde, chamando-o pelo nome. Cujo... Cujo... Venha aqui, Cujo!

         Os dois acharam muita graça.

           —      Às vezes me sinto uma grande idiota, Vic. Se ao menos conseguisse me adaptar às mudanças padronizadas, eu poderia di¬rigir o Jaguar num caso assim... depois que você for viajar...

           —      O melhor mesmo é você nem pensar nisso. O Jaguar tem lá as suas esquisitices. A gente precisa compreendê-lo...

         Ele fechou çom estrondo o capô do carro.

   — Veja só o que você fez agora, seu bobalhão! O copo de chá ficou lá dentro!

Vic fez uma cara tão desconsolada que ela, soltou uma gos¬tosa gargalhada. Um minuto depois, ele foi até onde ela estava e ficaram os dois às gargalhadas, como dois bêbados abraçados. Tad

veio correndo para ver o que catava acontecendo, os olhos arrega¬lados. Por fim, juntou-se a eles, após se convencer de que tudo estava bem. Foi mais ou menos neste exato momento que Steve colocou sou bilhete no correio, e a menos do três quilômetros de distância.

 

Mais tarde; quando já escurecia, o tempo já bem mais fresco, e começaram a surgir os vaga-lumes riscando o ar lá no fundo do quintal, Víc começou a empurrar o filho no balanço.

—   Mais alto, papai! Mais alto ainda!

       —Se eu empurrar mais alto vai virar de cabeça para o ar...

—   Então passe por baixo!

Vic deu um forte empurrão, fazendo com que o balanço fosse bem alto na direção do céu, onde as estrelas já começavam a apa¬recer naquela noite quente. Tad foi até bem alto. A Tia Evvie mo¬rava ali bem perto e aquele grito de satisfação do Tad foi a última coisa que ouviu. Morreu de um ataque cardíaco, quase sem sofrer, quando estava sentada na cozinha ao lado de uma xícara de café, com um de seus cigarros na mão. Ela caiu para trás e a visão lhe faltou no momento em que ouviu um grito de criança; durante um momento, ela teve a impressão de que era um grito de alegria, mas ao desmaiar, como se alguém a houvesse empurrado por trás, pa¬receu-lhe que a criança gritava de medo. Logo depois estava morta e sua sobrinha Abby só viria a encontrá-la no dia seguinte, junto ao café tão frio quanto ela, o cigarro completamente reduzido a cinzas e a dentadura inferior projetando-se de sua boca enrugada como se fosse uma brecha repleta de dentes.

 

Pouco antes de Tad ir para a cama, ele e o pai sentaram-se no degrau dos fundos, um com o copo de cerveja e o outro com o de leite.

—   Papai...

—   O que é que há, Tad?

—   Eu não queria que você fosse embora na semana que vem...

—   Mas eu vou voltar, meu filho...

—   Eu sei que vai, mas...

Tad estava de cabeça baixa, procurando controlar-se para não chorar, e Vic passou a mão pelo pescoço dele.

—   Mas por que, meu garotão?

—   Mas então quem é que vai gritar com o monstro para es¬pantar ele de meu closet? A mamãe não conhece ele... É só você que conhece...

Agora ele já não conseguia controlar as lágrimas que lhe es¬corriam pelo rostinho.

       — E é só isso, Tad?

As Palavras Para os Monstros surgiram na primavera ante¬rior, quando Tad começara a ser perseguido pelos pesadelos e ter¬rores noturnos. A princípio Vic dera-lhe o nome de Catecismo dos Monstros, mas logo o mudara para algo mais de acordo com a mentalidade infantil. Tad dizia que havia alguma coisa no closet e que, algumas vezes, quando a porta se abria à noite, ele via lá aquela coisa. Era uma coisa com olhos amarelados que queria comê-lo. Donna achava que aquilo talvez fosse o resultado de um livro de Maurice Sendak chamado Onde Estão as Feras. Vic cos¬tumava conversar com Roger sobre aquilo, mas jamais com Donna, levantando a hipótese de Tad ter interpretado mal os comentários sobro os assassinatos em massa ocorridos ali mesmo em Castle Rock, imaginando então, em sua cabecinha de criança, que o assassino se escondia em seu closet como se fosse um fantasma. Ro¬gør achava que tudo era possível em se tratando de garotos.

A própria Donna começara a ficar meio intrigada depois de semanas em que aquilo se repetia e chegara a dizer a Vic, na mesa. do café da manhã, que as coisas no closet do filho davam impressão de haverem sido mexidas; e falara com um certo risi¬nho nervoso. Vic simplesmente lhe dissera que bem poderia ter sido o próprio Tad que o fizera, mas Donna simplesmente respondera que ele não estava compreendendo bem as coisas e que Tad não entrava mais lá. Nunca mais entrara. “Ele anda apavorado, Vic.” Chegara até mesmo a dizer ao marido que tinha a impressão de sentir um cheiro estranho no closet depois dos pesadelos do filho. Era como se um animal tivesse sido enjaulado ali. Vic ficara per¬turbado e fora até o closet para ver se sentia algum cheiro estranho. Ele andava desconfiado de que Tad urinava ali quando tinha suas crises. de sonambulismo. E aquilo poderia ser parte de algum ciclo antigo de sonhos estranhos. Não sentira cheiro algum a não ser o de naftalina para espantar as traças. O closet tinha pouco mais de dois metros de fundo com uma parede acabada de um lado e do outro uma apenas emboçada. Tinha uma certa semelhança com um carro-dormitório dos trens. Não havia nenhum fantasma ali e ele saiu sem ser molestado, apenas sujo com teias de aranhas. E isso tinha sido tudo.

Donna havia sugerido em primeiro lugar aquilo a que cha¬mava de “pensamentos para sonhos agradáveis” e orações para combater os pesadelos do filho. A reação de Tad foi dizer que aquela coisa do closet anulava a primeira idéia, ao passo que a se¬gunda não era válida, já que Deus não acreditava em monstros; nesse caso, as orações não tinham razão de ser. Donna chegara a perder a paciência e isso poderia se dever em parte ao fato dela mesma andar intrigada a respeito daquele closet. Um dia, quando estava lá dentro pendurando umas camisas do filho, a. porta se fe¬chara silenciosamente atrás dela, deixando-a presa no escuro uns 40 segundos antes de conseguir sair. Nessa mesma ocasião, ela sen¬tira ali dentro um cheiro violento e um bafo quente e próximo. Era um cheiro bem parecido com o do suor de Steve depois que os dois se amavam. O resultado final foi que ela disse a Tad, incisivamente, que não existiam ‘monstros’ e que ele devia esquecer todas aquelas tolices; devia dormir abraçado com o seu urso e então tudo estaria terminado.

Vic, no entanto, já via a coisa. de outro modo, porque lem¬brava-se bem daquela porta do closet que parecia uma boca aberta idiotamente na escuridão da noite, um lugar onde aconteciam coi¬sas bem estranhas, ruídos de coisas se esfregando, um lugar onde, por vezes, quando se pendurava ali as roupas, as pessoas tinham a impressão de estar pendurando homens. Lembrava-se vagamente das sombras que as luzes da rua projetavam nas paredes, naquelas horas sem fim após o crepúsculo, e dos estalos que pareciam ser da casa se acomodando para a noite, mas que também poderiam ser de alguma coisa que andasse rondando por ali.

         A suá solução fora o Catecismo dos Monstros ou, de um jeito mais fácil de entender por um garoto de quatro anos, Palavras Para os Monstros. Qualquer das duas expressões nada mais era senão uma primitiva forma de simpatia para manter o Mal a distância. Vic inventara aquilo num dia, na hora do almoço, e a coisa pareceu dar certo, com grande desgosto para Donna, que vira seus esforços falharem ao usar a psicologia recomendada nos livros que ensina¬vam aos pais como educar os filhos e quando falhara também uma rígida disciplina. Vic falava as palavras ao lado da cama do filho, todas as noites, quando ele já estava nu debaixo de um lençol, na escuridão escaldante do quarto.

         —       Você acha que isso vai dar certo mesmo no final das con¬tas, Vic? — A voz de Donna era ao mesmo tempo divertida e irri¬tada. Isso se passara em meados de maio, quando a tensão entre os dois tinha atingido o seu ponto mais alto.

         —       Os especialistas em publicidade não dão importância algu¬ma ao que pode acontecer depois. Eles só pensam num alívio que seja o mais rápido possível. E sou um cara bom na minha espe¬cialidade.

         — É isso, papai. Não há ninguém para dizer as Palavras Para os Monstros. Essa é que é a verdade... — Ao mesmo tempo em que falava, Tad enxugava as lágrimas que lhe escorriam pelo rosto, desanimado e embaraçado.

         —       Há sim, Tad. Escrevi tudo direitinho. É por isso que todas as noites digo sempre as mesmas coisas. Vou mandar imprimir isso e pendurar na parede de seu quarto. E então sua mãe poderá lê-las direitinho quando eu viajar.

         —       Você vai mesmo fazer isso, papai? Vai mesmo?

       —       Claro que vou, Tad. Vou fazer como disse.

         —       Não vai esquecer, heim?

         —       Nada disso, garotão. Vou fazer isso hoje mesmo.

         Tad enlaçou-o com os bracinhos e Vic abraçou-o carinhosa¬m~itc, apertando-o bem.

 

Naquela mesma noite, quando Tad já estava dormindo, Vic entrou com cuidado em seu quarto e pregou na parede uma folha de papel. Ficou bem ao lado do seu pôster preferido, onde ele não po¬dia deixar de ver logo que acordasse. Estava escrito em letras bem grandes e claras.

 

AS PALAVRAS PARA OS MONSTROS

Para Tad

 

Monstros, fiquem bem longe de meu quarto!

Aqui não é o lugar de vocês.

Não há monstros embaixo da cama de Tad!

Não há quem caiba ali embaixo.

Não há monstros escondidos no closet de Tad!

O lugar lá é muito apertadinho.

Não há monstros escondidos no closet de Tad!

Ninguém poderia se agüentar ali.

Não há vampiros, lobisomens ou bichos que mordam.

Vocês nada têm a fazer aqui!

Durante toda a noite nada poderá atacar Tad nem tampouco feri-lo.

Vocês nada têm a fazer aqui.

 

Vic ficou olhando para aquilo durante muito tempo. Iria dizer a Donna, pelo menos duas vezes mais, antes de partir, que não se esquecesse de ler as palavras para o filho todas as noites. Ele queria que ela compreendesse bem a importância que aquilo tinha para Tad.

Quando saíam do quarto ele reparou que a porta do closet não estava bem fechada. Havia ali uma pequenina fresta. Voltou e fechou-a bem.

Em certo momento, muito mais tarde naquela mesma noite, a porta abriu-se novamente. Os relâmpagos de verão cortavam o céu esporadicamente, formando estranhas sombras lá em cima.

Tad, porém, não acordou.

 

Na manhã seguinte, às 7:15, Steve entrou na Rodovia 11 a caminho da Rodovia 302, que ficava a alguns quilômetros de distância. Lá ele dobrou à esquerda para chegar a Portland, já que a sua intenção era ficar na Associação Cristã de Moços durante algum tempo. Levava com ele no carro uma pilha de cartas que batera cm sua máquina e que também estava na parte traseira da caminhonete, junto com as suas outras coisas. Ele levara apenas hora e meia carregando as coisas que tinha em Castle Rock, incluindo também o gato Bernie Carbo, que agora dormia lá atrás.

Os envelopes estavam todos bem endereçados, como se fossem dati¬lografados por um profissional. Os seus muitos anos de trabalho criativo tinham feito dele um ótimo datilógrafo. Tinha, pelo menos, esse mérito. Encostou o carro na mesma caixa do correio onde co¬locara a carta anônima para Vic na noite anterior e enfiou nela todas as que trazia agora. Se a sua intenção fosse sair do Estado, ele não se daria ao trabalho de pagar o aluguel da loja e da casa, mas como ia ficar em Portland, achou mais prudente regularizar suas contas. Não precisava sair fugindo. Tinha pouco mais de 600 dólares escondidos no fundo do porta-luvas da caminhonete.

Além do cheque para pagar o aluguel, ele estava enviando outros com devoluções de sinais recebidos. Acompanhando cada cheque havia uma carta muito atenciosa, explicando e pedindo desculpas. Acontece que sua mãe ficara seriamente doente e então ele se vira obrigado a correr para ela sem terminar os trabalhos enco¬mendados. Eles poderiam ir na loja para apanhar seus móveis e a chave da porta estaria na beirada que havia sobre ela. Ele sabia bem como os americanos mais viris se derretiam todos com aquela coisa de mães doentes e certamente lhe perdoariam o inconvenien¬te. Podia-lhes ainda que tomassem a colocar a chave no mesmo lugar após apanharem o que lhes pertencesse. Muito grato, etc., etc., etc..,. Havia alguns inconvenientes, mas não pressa.

Depois de colocar as cartas na caixa, ele sentiu uma íntima satisfação por haver coberto bem a sua retirada. Saiu rodando na direção de Portland, acompanhando a música que o rádio tocava. Acelerou o carro para aproveitar o tráfego tranqüilo, pois queria chegar em Portland ainda a tempo de arranjar uma quadra para jogar umas partidas. De um modo geral, parecia ser um bom dia para ele. O Sr. Publicitário talvez já houvesse recebido a carta, e mesmo que isso ainda não houvesse acontecido, ele a receberia naquele mesmo dia. Achava tudo muito engraçado e então começou a rir.

 

Naquela mesma hora, enquanto Steve pensava em seu tênis e Vic lembrava-se de que devia telefonar para Joe a respeito do carro de Donna, Charity preparava o café da manhã de seu filho.

Joe tinha ido a Lewiston meia hora antes, a fim de ver se en¬contrava um limpador de pára-brisa para um Camaro 72 em algum ferro-velho da cidade. Aquilo coincidia bem com os planos que Charity elaborara lentamente e com muito cuidado.

       Colocou diante de Brett o prato de ovos mexidos com bacon o depois sentou-se ao lado dele. Brett levantou os olhos do livro que estava lendo e pareceu surpreso. Geralmente, depois de servir o café, Charity ia cuidar dos serviços caseiros. Se alguém falasse muito antes de Charity acabar suas tarefas, arriscava-se a ouvir uma boa bronca.

       — Posso falar com você um instante, Brett?

       A surpresa anterior já era agora um grande espanto para ele. Quando olhou direito para a mãe, percebeu logo algo completa¬mente diferente em seu rosto sempre taciturno. Notou que ela estava nervosa e então fechou o livro e ficou esperando.

       — Claro que pode, mamãe.

       Ela pigarreou, antes de começar.

       — Será que você gostaria de ir a Stratford para uma visita à Tia Hoily, Tio Jim e seus primos?

       O   rosto dele abriu-se num sorriso. Só saíra do Maine duas vezes em toda a vida; e a última fora quando seu pai o levara até Portsmouth para um leilão de carros velhos, onde Joe arrematara um Ford 58.

—   Claro que gostaria, mamãe! Quando é que vamos?

           —Acho que poderíamos ir na segunda-feira, logo depois do fim de semana do Quatro de Julho. Ficaríamos lá uma semana. Que tal?

           —     Oba, oba! Pensei que o papai estava com muito serviço para a próxima semana... Ele com certeza...

—   Eu ainda não falei com ele sobre isso, Brett.

O    rosto de Brett ficou sério e ele apanhou um pedaço de bacon, que ficou mastigando.

           —     Bem... sei que ele prometeu ao Richie Símms que iria tirar o motor dc sua ceifeira. E também o Sr. MiIler, da escola, ficou de trazer o seu Ford e...

           — Eu estava pensando em irmos nós dois sozinhos, no ôni¬bus da Greyhound que sai de Portland.

           Brett ainda estava em dúvida. Lá na porta telada da varanda dos fundos, Cujo subiu devagar os degraus e deixou-se cair no chão sombrio com uma espécie de grunhido. Olhou para o GAROTO e Á MULHER com olhos cansados e vermelhos. Sentia-se agora muito mal. Muito mal mesmo!

—   Pô, mamãe... eu sei...

—   Não fale deste jeito, Brett. - É como se estivesse prague¬jando.

—   Desculpe...

—   Você gostaria mesmo de ir? Se o seu pai permitisse?

—   Claro que gostaria,, mamãe. Você acha que vamos poder ir mesmo?

Ela estava olhando pensativamente lá para fora, através da janela.

—   Pode ser que sim...

—   Stratford é muito longe daqui, mamãe?

— São uns quinhentos quilômetros, mais ou menos.

—   Pô... quer dizer.., puxa.., é longe pra burro! Não é mesmo?

—   Brett...

             Ele tornou a olhá-la bem e percebeu que o rosto da mãe já se mostrava novamente diferente, bem como sua voz. Ela estava ficando nervosa.

—   O que é, mamãe?

           —Você sabe se seu pai está precisando de alguma coisa lá na oficina? Alguma coisa que ele esteja querendo comprar?

Os olhos de Brett brilharam. Já estava começando a com¬preender.

     — Bem.., ele sempre precisa de algumas ferramentas. E o seu capacete de soldador está furado.

     —    Não, não. Estou falando de alguma coisa importante, Brett. Alguma coisa que custe muito dinheiro.

     —    Bem, o que ele está mesmo precisando é de um guincho para suspender os motores. Com um desses ele tiraria fora o motor da ceifeira do Richie sem fazer força. Mas você não vai poder comprar um desses para ele, mamãe. É muito caro.

     Caro. Aquela era a palavra que o Joe usava para as coisas que custavam muito dinheiro. Odiava essa palavra.

     —    Você sabe quanto custa?

           — Bem, aquele que está no catálogo custa mil e setecentos mas o papai acha que poderá comprar um mais barato na loja de máquinas do Sr. Belasco. Acho que poderá conseguir ¬preço de atacado. O Sr. BeLasco tem medo do papai.

           — E você acha que isso está certo, Brett?

A voz dela soava como uma repreensão e atemorizou o ga¬roto. Nunca vira sua mãe agindo daquela forma. Até mesmo o Cujo, lá fora na varanda, levantou as orelhas, espantado.

     — Vamos lá, responda! Você acha que está certo?

   — Não, mamãe.

Charity sabia que ele estava mentindo e isso a entristecia. Não podia compreender como alguém conseguiria meter tanto medo em outra pessoa até o ponto de lhe fazer tais concessões. Percebera a admiração que havia na voz do filho, embora nem ele mesmo se desse conta disso. Ele deseja ser exatamente como o pai. Acha bonito quando o pai amedronta alguém. Oh, meu Deus.

     — Não há nada de bonito nessa maneira de meter medo nos outros, Brett. Tudo que é preciso para isso é uma voz tonitruante e uma disposição mesquinha. E isso não é vantagem. — Ela baixou a voz e esticou o braço para .o filho. — Vamos lá. Tome o seu café. Não vou ficar zangada com você. Acho que é o calor que me faz ficar nervosa.

     Ele obedeceu, agindo com cuidado e sempre olhando para a mãe. Achava que, naquela manhã, havia muitas minas escondidas.

     — E qual seria esse tal preço de atacado? Mil e trezentos? Mil?

           —Não sei, mamãe...

— E o Sr. Belasco mandaria entregar aqui? Afinal, é uma compra de vulto...

             —Huuummm... Acho que mandaria sim. Mas era preciso que tivéssemos todo esse dinheiro...

     Charity levou a mão ao bolso do avental. O bilhete da loteria estava bem ali. Seu número tinha sido premiado pela Loteria Es¬tadual duas semanas antes. Já o conferira muitas vezes, quase sem poder acreditar. Tinha comprado um bilhete por 50 centavos, como fazia todas as semanas desde que a loteria começara, em 1975. E ganhara o prêmio de 5.000 dólares. Ainda não fora receber o prêmio e conservara o bilhete bem guardado todo o tempo.

       — Mas nós temos todo esse dinheiro, Brett.

       O filho olhou-a com espanto, arregalando os olhos.

 

Às 10:15, Vic saíra da Ad Worx para ir tomar o café de costumo no Bentley’s, já que não tolerava aquela beberagem feita pela ser¬vente do escritório. Passara toda a manhã redigindo anúncios para

a Granja Decoster. Não era fácil, já que detestava ovos desde sua meninice, quando a mãe o obrigava a engoli-los quatro vezes por semana. Como nada conseguira de apresentável, iria pedir idéias ao filho, que adorava ovos. Estava pensando nisso quando a garçonete lhe trouxe o café, acompanhado de uns biscoitos.

Claro que não eram os ovos a causa de seu desalento total. A verdadeira causa era a viagem de 12 dias que o manteria ausente, mas Roger convencera-o de que não havia outro jeito. Eles teriam que ir lá para agüentar o rojão.

Vic adorava o alegre Roger como se fosse um irmão. Roger teria apreciado muito se ele o tivesse convidado para tomar aquele café gostoso e para conversarem, mas Vic preferira ficar só. Pre¬cisava pensar. Os dois iriam passar juntos duas semanas inteiras, a começar na segunda-feira, dando um duro dos diabos; e aquilo seria demais até mesmo para duas almas gêmeas.

Pensava novamente no fracasso da Zingers e então deixava-se levar, sabendo muito bem que, algumas vezes, uma revisão calma dos acontecimentos numa situação ruim talvez resultasse em novas idéias e concepções aproveitáveis, algum novo ângulo. Pelo menos era isso que acontecia com ele.

O que ocorrera tinha sido ruim o bastante, expulsando a Zin¬gers do mercado. Ruim o bastante, mas não catastrófica. Nada se comparava com o que acontecera com os cogumelos enlatados. Nada chegara a resultar em mortes, mas mesmo assim os consu¬midores concluíram que até mesmo as grandes empresas tinham lá os teus fracassos de quando em quando. E ele pensava no que ocorrera com as promoções da McDonald’s alguns anos antes, quando oferecera copos como brindes. Fora então constatado que a tinta das ilustrações nos copos continha mais chumbo do que o tolerá¬vel. Os copos tinham sido imediatamente retirados do mercado, sendo a idéia aproveitada por outros, como a Alka Seltzer e uma goma do mascar que Vic adorava.

Os cqpos foram uma coisa ruim para a McDonald’s, mas ninguém chegara a acusar Ronald por tentativa de envenenar as crian¬ças que constituiam sua melhor freguesia. Também ninguém ainda se lembrara de acusar o Professor dos Cereais Sharp, embora hu-moristas desde Bob Hope. a Steve Martin, o usassem em suas piadas. Johnny Carson chegara a dedicar um monólogo inteiro, cheio de subterfúgios e meias-palavras, a respeito do caso Zingers, na abertura de seu programa na TV, intitulado O Show da Noite. É desnecessário dizer como o ator que representava o Professor Sharp ficou furioso com a brincadeira, que considerou de mau gosto.

         Podia até ser muito pior, assim se manifestara Roger depois das coisas se acalmarem, já não havendo mais aqueles longos e re¬petidos telefonemas entre Portland e Cleveland.

         — O que foi que você disse, Roger? — replicava Vic muito sério, sem perder a calma.

         — Isso mesmo. Poderíamos estar trabalhando para a conta Bon Vivant Vichysoise.

         — O senhor quer mais café?

         Vic levantou os olhos para a garçonete e ia recusar, mas pen¬sou melhor.

         — Mais uma meia xícara, por favor.

         Ela serviu-o e se afastou. Vic ficou ali, remexendo a xícara sem beber.

         Houvera um piedoso intervalo antes de muitos médicos apa¬recerem na TV e darem entrevistas a jornais, dizendo que aquela coloração era inócua. Já ocorrera antes algo parecido. A comida servida nos aviões de uma linha comercial aparecera com uma camada alaranjada. Finalmente, descobriu-se que tal coloração provinha do resíduos de pó desprendidos dos salva-vidas com que as aeromoças faziam demonstrações antes da decolagem, os quais eram pintados com anilina da mesma cor. Muitos anos antes, a anilina usada para uma marca de salsichas causara a mesma perturbação intestinal provocada pelos cereais da Zingers.

           Os advogados do velho Sharp haviam entrado com uma ação de danos de muitos milhões de dólares contra os fabricantes da ani¬lina, que ficaria correndo na justiça durante uns três anos, sendo depois liquidada num acordo amigável fora dos tribunais. Isso não vinha ao caso; o fato é que a questão permitira ao público desco¬brir que a culpa — culpa temporária, além de completamente inofensiva — nunca havia sido da Companhia Sharp.

           Contudo, as ações da Sharp haviam sofrido uma queda acen¬tuada na Bolsa — embora logo se recuperassem, alcançando até mesmo uma cotação mais alta do que antes de toda a confusão. Os próprios cereais também acusaram uma sensível baixa nas vendas, mas a situação logo se alterara, após a Zingers ter tirado a más¬cara e exibido sua traiçoeira face escarlate. Alguns produtos da Sharp, inclusive,, estavam vendendo mais do que antes.

           Então, nada mais havia de errado, não é?

           Havia sim. E muito.

E era o Professor quem estava errado. O coitado jamais conseguiria recuperar o prestígio anterior. Após o medo surgiram es¬piadas. Todo mundo ria daquele austero professor.

George Carlin, em seu habitual baixo nível:

— É isso aí, estamos realmente num mundo louco. Num mundo louco paca. — Ele inclina a cabeça para junto do microfo¬ne, como se estivesse pensando e continua. — Os chapinhas do Reagan estão fazendo sua campanha de bosta na TV, não é mesmo?

Os russos fabricam mísseis aos milhares, não é mesmo? E então o Jimmy vai para seus espaços comprados na TV e fala: “Meus pa¬trícios, no dia em que os russos nos ultrapassarem na corrida armamentista toda a garotada do país vai cagar vermelho.” — Risadas na platéia. — Ai o Ronnie telefona para o Jimmy e pergunta: — “Diga-me presidente o que foi que a Amy comeu hoje no café da manhã?”

       As gargalhadas estrugem na platéia. Carlin faz uma pausa.

       E então chega a hora de suja afirmação final, que ele faz falando baixo e de forma insinuate:

       — Nada, nadinha de errado com isto aqui...

       A platéia aplaude com furor, Carlin sacode a cabeça tristemente.

—   Merda vermelha mesmo, gente. Puxa vida, podem chafurdar nela

       Aquele era o verdadeiro problema. Carlin era o problema. Bob Hope era o problema. Johnny Carson era o problema. Steve Martin era o problema. O problema estava em todos os salões de barbeiros do país.

       E então havia uma coisa que era preciso levar em consideração — As ações da Sharp tinham caído nove pontos e só se tinham recuperado da metade. Os acionistas iam estrilar. Cabeças iam rolar.Então era preciso pensar. Que cabeças serão essas? A primeira coisa a apurar era quem teria criado o Professor. O que havia com aqueles mais prováveis candidatos? Ninguém levaria em conta o fato do Professor existir durante mais de quatro anos, antes mesmo do desastre com a Zingers Ninguém queria saber que quando o Professor da Sharp entrara em cena (juntamente com Sharp Kid e o casal George e Gracies) as ações da Sharp estavam muito mais baixas do que agora.Quase quatro pontos mais baixas.

       Ninguém queria saber disso. Só uma coisa iriam querer saber. E isso ocorreria quando fosse anunciado publicamente que a Ad Worx já não tinha mais a conta de publicidade da Sharp. Apenas isso bastaria para as ações subirem um ponto e meio, ou até mesmo dois pontos. E quando a nova campanha começasse, com uma outra agência, os investidores achariam que o fato demonstrava que as antigas dificuldades tinham sido    ultrapassadas, havendo então uma nova alta de um ponto.

       Enquanto mexia o seu café com adoçante, Vic pensava que tudo aquilo, afinal de contas, não passava de teoria. E mesmo que a teoria se transformasse em fato, ele e Roger acreditavam que um

ganho a curto prazo para a Sharp seria bem mais compensador que uma nova campanha organizada às pressas por outra agência, que não conhecia o pessoal da Sharp e nem o mercado de cereais tão bem quanto eles dois.

E foi então que surgiu em sua mente uma nova idéia, um ângulo inteiramente novo. Chegou de repente, quando ele nem mesmo tentava, e de forma inesperada. Ficou com a xícara suspensa no ar enquanto seus olhos se alargavam. Em seu espírito ele via dois homens — que poderiam ser ele e o seu sócio, ou então o velho Sharp e seu garoto já de uma certa idade.Os dois estavam fechando uma sepultura. Suas pás não paravam. Um lampião aceso tremulava na noite ventosa. Caía uma chuvinha. Os coveiros improvisados lançavam olhares furtivos para trás de quando em quando. Aquilo era um enterro noturno, um ato furtivo que se processava na escuridão. Estavam enterrando o velho Professor dos cereais às escondidas e aquilo estava errado.

—   Errado mesmo! — ele resmungava em voz alta.

       Claro que era errado. E isso porque se o enterravam ali em plena noite, o coitado jamais poderia dizer o que queria. Dizer que sentia muito.

Tirou do bolso a esferográfica, apanhou um guardanapo de papel e escreveu:

O    Professor dos Cereais Sharp precisa desculpar-se.

Ficou olhando para o que escrevera e vendo as letras se espalharem enquanto o papel ia absorvendo a tinta.. Depois acrecentou, por baixo:

Um enterro decente

E mais abaixo ainda:

Um enterro à PLENA LUZ DO DIA.

         Ele ainda não sabia o que aquilo poderia significar. Era mais uma metáfora do que uma coisa sensata, mas era assim lhe ocorriam as melhores idéias. E ali havia alguma coisa. Ele tinha certeza de que havia mesmo.

 

Cujo estava deitado no chão da oficina, quase como se estivesse inconsciente. Fazia calor ali, mas lá fora ainda estava pior.... e lá a claridade do dia era muito forte. Nunca tinha sido assim antes.

Aliás, ele jamais notara antes a intensidade da luz, como notava agora. Sentia doer-lhe a cabeça.

Seus músculos também doíam. A claridade forte feria-lhe os olhos. Sentia muito calor. Ainda sentia

dor no focinho, onde fora mordido.

         Doía e comichava.

         O HOMEM TINHA IDO A ALGUM LUGAR. Logo depois que ele saíra, O GAROTO E A MULHER também tinham saído e ele ficara sozinho. O GAROTO colocara o prato cheio de comida para ele, mas comera só um pouco. Sentia-se pior quando comia. Deixou o prato quase cheio.

         Agora estava ouvindo o barulho de um carro que chegava. Ele levantou-se e foi até a porta, já sabendo que se tratava de um es¬tranho. Conhecia bem o barulho da pick up e do carro da família. Ficou na porta olhando lá para fora, ofuscado com a claridade. O caminhão parou na entrada. Saltaram dele dois homens que vieram até os fundos. Um deles abriu a porta traseira. A barulheira que fizeram chegou a doer cm seus ouvidos. Ele ganiu e voltou para seu canto, numa escuridão confortável.

         O caminhão era da revendedora de máquinas de Portland. Três ho¬ras antes Charity e o filho, ainda não refeito do espanto, haviam entrado na loja da Avenida Brighton, onde ela preenchera um cheque de $¬1.241,71 pela compra de um guincho Jõrgen novo, imposto incluídos, a preço de atacado. Antes de entrar na loja para comprar o guincho, ela passara na casa lotérica, a fim de preencher um formulário solicitando o prêmio. Brett não podia entrar lá e ficou esperando na calçada, as mãos nos bolsos.

      O funcionário disse a Charity que ela receberia pelo correio um cheque da Comissão da loteria. Levaria no máximo duas semanas. Já estariam descontados os impostos, cerca de 800 dólares. A importância deduzida fora calculada tomando-se por base os rendimentos de Joe no ano anterior.

Ela não e. importou muito com aquela dedução. Estivera com a respiração suspensa durante todo o tempo que o rapaz levara para conferir o bilhete, já que mal podia acreditar ainda no que acon¬tecera. Ele finalmente sacudira a cabeça e .dera-lhe parabéns pela sorte, chegando até mesmo a chamar o gerente para vir cumpri¬mentá-la. Nada daquilo importava. O que importava agora era que já podia respirar novamente e que o bilhete passara a ser responsa¬bilidade da Comissão da Loteria. Ela receberia o seu cheque pelo correio. Aquelas eram palavras mágicas, místicas e quase incríveis.

Mesmo assim, no entanto, ela sentia qualquer coisa estranha, ao ver o rapaz prender o seu bilhete um tanto amarrotado ao for¬mulário que havia preenchido. Fora ela a escolhida pela Sorte. Pela primeira vez, e talvez a única, a pesada cortina da vida cotidiana abrira-se um pouco para que ela pudesse entrever o mundo brilhante e alegre que existia do outro lado. Era uma mulher muito prática, bem ciente de quanto odiava o marido, ao mesmo tempo que o temia, sabendo que envelheceriam juntos e que ele morreria dei¬xando-lhe somente dívidas e talvez uma coisa que ela nem mesmo queria pensar, bem no fundo de seu coração, mas que realmente, temia — um filho desencaminhado.

Se o seu nome fosse o escolhido no GRANDE SORTEIO que se realizava duas vezes por ano, se houvesse ganho dez vezes mais do que os 5.000 dólares, ela talvez sentisse vontade de abrir um pouco mais aquela cortina, levando junto o filho, a fim de entrar num mundo situado muito além da Rodovia 3, da oficina do marido e de Castle Rock. Talvez até mesmo levasse Brett a Stratford com o objetivo expresso de saber quanto poderia custar um apartamento na cidade.

Mas fora somente uma frestazinha da cortina que se abrira. Fora somente aquilo. Ela vira a Deusa da Sorte durante momento, tão inexplicável e inaravilhoso como um lindo bailadp de fadas embaixo de cogumelos à luz orvalhada da madrugada... Isso tinha acontecido só uma vez e nunca mais se repetira. E foi por isso que ela sentiu um aperto no coração ao ver o seu bilhete desaparecer, embora ele lhe houvesse roubado o sono. Sabia que pas¬saria o resto da vida comprando um bilhete por semana e nunca mais ganharia senão uns dois dólares.

         Isso não tinha importância agora. Ao cavalo dado não se olham os dentes. As pessoas espertas não fazem isso.

Os dois foram à revendedora de máquinas, onde ela pagara com um cheque, passando depois no banco, a fim de transferir dinheiro de sua conta de poupança para a conta corrente dando cobertura ao cheque. Em quinze anos ela e Joe tinham conseguido acu¬mular uns 4.000 dólares na conta conjunta de poupança. Essa im¬portância daria para pagar três quartas partes do que deviam, sem incluir a hipoteca da fazenda. Ela não tinha o direito de excluir a hipoteca, naturalmente mas sempre o fazia. Só pensava naquela maldita hipoteca por ocasião dos pagamentos das prestações. Ela podia agora sacar da poupança, porque isso seria compensado com o depósito do que recebesse depois pelo bilhete. Perderia apenas umas duas semanas de juros.

O dono do guincho prometera entregar o guincho naquela mesma tarde, e realmente cumpriu o prometido.

 

Joe Magruder e Ronnie DuBay descarregaram o guincho com facilidade usando o dispositivo de descarga do caminhão, acionado a ar comprimido.

 

       — Uma compra bem grande para o Joe, hem?

— A mulher dele disse para colocarmos o guincho dentro do barracão, Ronnie segure firme, que isto pesa como o diabo.

Cada um segurou de seu lado e então os dois, gemendo e bu¬fando levaram o guincho para dentro do barracão.

— Vamos colocar essa droga no chão para descansar um pou¬co, Joe não consigo ver bem nesta escuridão.

Largaram a peça no chão. Depois da claridade lá de fora eles mal conseguiam ver onde estavam. Joe via somente a silhueta dos objetos. Via um carro suspenso no macaco, a bancada de .trabalho e uns degraus.

— Esta peça deve... — Ronnie parou no meio do que ia dizer.

     Lá do fundo, onde estava o carro suspenso no macaco, vinha um rosnado baixo e rouco. Ele percebeu que o suor acumulado em se corpo se tornava frio e seus cabelos se arrepiavam.

     — Deus do céu, Ronnie! Você ouviu isso?

   Ronnie já se habituara com a escuridão e via bem onde estava Joe, os olhos esbugalhados de pavor.        

—   Claro que ouvi ....

       Era um som baixo e forte, parecido com o barulho feito por motor de popa em marcha lenta. Ronnie sabia que só um cachor¬ro muito grande rosnaria daquela maneira. E o mais provável mesmo era que houvesse confusão. Ele não vira nenhum cartaz na entrada alertando CUIDADO COM O CACHORRO havia muita gente que não se dava a tal trabalho. Pedia a Deus que aquele ali estivesse acorrentado.

         — Joe? Você já esteve aqui antes?

          — Só uma vez. É um São Bernardo grande como a porra de uma vaca. Só que antes ele não rosnava assim. — Joe engoliu em seco e Ronnie sentiu um aperto na garanta. — Puxa vida! Deus dó céu! Olhe ali, Ronnie...

          A visão do outro já estava quase normal mas, ainda assim, o que ele via ali parecia-lhe quase sobrenatural.Ele sabia sabia que não se deve demonstrar medo diante de um cão agressivo, mas sabia também que os bichos sentiam o cheiro do medo nas       pessoas. Ele não se continha, no entanto, e estava tremendo.Não sabia o que fazer. Aquele cão era um monstro. Estava lá no fundo da loja, por trás do carro suspenso. Claro que era um São Bernardo. Não podia haver dúvida. Bastava ver o seu corpo peludo. E isso era fácil mesmo ali naquela semi-escuridão A largura de seu peito.Estava de cabeça baixa e seus olhos hostis estavam fixos neles.

          Não estava acorrentado.

          — Vá recuando bem devagar, Ronnie. Não corra pelo amor de Deus!

          Foi o que ambos fizeram, mas o cão também caminhava na direção deles. Parecia caminhar com dificuldade. Ronnie tinha a    impressão de que aquilo mais parecia com uma atitude de espreita.

Aquele bicho não era para brincadeiras. Tinha o motor funcionando e estava pronto para arrancar.

Continuava com a cabeça baixa. O rosnado ameaçador não mudava de freqüência.A cada passo que os dois davam para trás, ele dava um para a frente.

       Para Joe o pior momento foi quando chegaram lá fora, em plena claridade. Ficou ofuscado e já não conseguia ver o cão. Se o bicho se precipitasse em cima dele, agora...

       Esticou o braço para trás e viu que o caminhão estava ali ao seu alcance. Não se conteve mais e correu para a cabine.

       Ronnie estava do outro lado e fez a mesma coisa, mas não conseguia abrir a porta do seu lado. Ainda estava ouvindo aquele rosnado muito parecido com o de um motor Evinrude de 80 H.P. Não conseguia abrir a porta e esperava a cada momento que o animal lhe tirasse um pedaço das nádegas. Conseguiu por fim abrir a porta e atirou-se na cabine, arquejando e suando frio.

       Pelo espelho retrovisor do seu lado ele ainda via o cão na porta do barracão, olhando para eles, Joe estava ali ao seu lado, ao volante, rindo satisfeito com a aventura; e então riu também.

         — Afinal é apenas um cão. — disse Ronnie.

         — Sei disso. Só que seu rosnado é pior que a dentada.

         — É isso aí. Então vamos voltar lá dentro, para ajeitar a porcaria daquele guincho.

         —Vá para o inferno, Ronnie.....

         — Vamos os dois juntos, Joe.

         Riram-se e Ronnie deu um cigarro a Joe.

         — Não acha que o melhor mesmo é a gente cair fora daqui?

         — Estou de pleno acordo.

         Joe acelerou e o motor logo virou.

 

   Na metade do caminho de volta, Ronnie afinal abriu a boca, como se pensando em voz alta.

       —Acho que. aquele cachorro vai ficar danado...

       Joe guiava com o braço para fora da janela, mas de repente virou-se para o companheiro.

       — Fiquei apavorado e não me envergonho disso. Até mesmo um cachorrinho me mete medo em situações assim. Não havia mais ninguém ali

Sabe de uma coisa? Eu preferia levar um pontapé no saco.Acho que se alguém não acorrenta um cão que morde então deve aguentar as conseqüências. Aquele bicho.., acho que não pesa menos de

cem quilos.

       — Acho melhor eu telefonar para o Joe, contando-lhe o que aconteceu.Talvez assim evite aporrinhação para ele. O que é que você acha?

       — O que foi que o Joe fez por você ultimamente, Ronnie? —a pergunta foi seguida de um sorriso maldoso.

O outro sacudiu a cabeça, com ar pensativo.

       — A verdade é que ele nunca me chateou como você faz...

— A última esculhambação que recebi foi de sua mulher, Ronnie... e ela foi bem dura.

— Deixa de conversa, seu otário...

Os dois soltaram gostosas gargalhadas. Ninguém telefonou para Joe a respeito do cachorro. Quando chegaram de volta já es¬tava quase na hora de fechar. Levaram 15 minutos registrando a viagem e o patrão saiu do escritório para perguntar se Joe estava lá para receber o guinçho. Roonie disse que estava. Belasco não passava de um bom sacana, mas logo voltou para o escritório, Joe desejou a Ronnie um bom fim de semana e também um Quatro de Julho bem divertido. Ronnie disse que ia tomar um porre até a noite do domingo. Os dois foram marcar o ponto no relógio, antes de saírem.

Nenhum dos dois pensou mais em Cujo, até o dia em que leram nos jornais o que acontecera com ele.

 

Vic passou a maior parte da tarde que antecedia o longo fim de semana discutindo os detalhes da viagem com Roger. Essa questão de detalhes era quase uma paranóia para Roger. Já encarregara. uma agência de fazer as reservas no avião e no hoteL O vôo para Boston saía do aeroporto de Portland às 7:10 da manhã de segunda-feira. Vic prometeu que apanharia o sócio no Jaguar às 5:30. Ele achava que era cedo demais, mas conhecia bem as manias de Roger. Falaram, de um modo geral, a respeito da viagem, evitando sempre entrar em dados específicos. Vic não lhe contou sobro a idéia que tivera enquanto tomava o café e o guardanapo estava bem guar¬dado no bolso do casaco esporte. Roger estaria mais receptivo quando se encontrassem longe de casa.

Ele já resolvera que sairia mais cedo do escritório, mas achou melhor esperar pela correspodência da tarde. Lisa, a secretária, já tinha ido embora, pensando no longo fim de semana. Sabia muito bem que não conseguiria jamais encontrar uma secretária que ficasse esperando o relógio bater as cinco horas, em qualquer circunstância. Isso o deixava convencido que aquilo era mais um sinal da decadência da civilização ocidental. Era bem provável que ela, naquele momento, já estivesse mergulhada no tráfego, a cami¬nho do Old Archard ou Hamptons, enfiada em jeans muito aper¬tados e frente-única sumária. Era uma moça bonita, que acabara de fazer 21 anos. Ele esboçou um sorriso, desejando-lhe mental-mente um bom fim de semana.

Em cima de sua mesa havia apenas uma carta ainda fechada.

Ela apanhou-a com curiosidade e a primeira coisa que lhe chamou a atenção foi a palavra PESSOAL em letras maiúsculas manuscritas, por baixo do endereço. A segunda foi que todo o ende¬reço estava também escrito da mesma forma.

Ficou ali com ela na mão, revirando-a e sentindo-se invadido por insólita inquietação. Bem no fundo do seu espírito, e quase em ser percebida, estava uma vontade premente de rasgá-la e atirá-la na cesta de papéis, reduzida a pedacinhos.

Deixou-se vencer e abriu-a, tirando de dentro uma única folha de papel.

Também era manuscrita em maiúsculas.

A mensagem muito simples, com apenas seis frases, atingiu-o como se fosse um tiro bem abaixo do coração. Não se conteve e deixou-se cair na cadeira. Soltou um gemido como se, de repente, houvesse perdido completamente o fôlego. Sentia-se completamente tonto. Não conseguia compreender aquilo. Se Roger entrasse ali naquela ocasião, certamente julgaria que o amigo era vitima de um ataque cardíaco. E, de certa forma, era aquilo mesmo que estava acontecendo. Estava branco como uma folha de papeL Tinha a boca aborta e os olhos turvos.

Leu novamente o bilhete.

No principio, seus olhos tinham sido atraidos para aquela interrogação:

 

              O QUE VOCÊ ACHA DAQUELE

               SINALZINHO QUE ELA TEM

               BEM POR CIMA DOS PELOS PÚBICOS?

 

Ele sentia-se confuso. Isto deve ser um engano. Ninguém sabe disso Bem... sua mãe... e talvez seu pai. Até mesmo o biquíni esconde aquilo. Aquele biquini tão resumido! Sentia-se atingido pelo ciúme.

Passou a mão pelos cabelos. Ainda sentia no peito aquela do¬lorosa sensação. Parecia-lhe que o coração bombeava ar em lugar de sangue. Sentia medo, dor e confusão. Das três coisas, porém, a mais dominante mesmo era o medo. Um medo terrível.

O bilhete ali estava bem na sua frente, como se gritasse:

 

     GOSTEI MUITO DA TREPADA QUE TIVEMOS

 

Agora era aquela linha que lhe prendia os olhos. Não conse¬guia fugir dela. Ouvia lá fora o ronco de um jato que partia do aeroporto. Subindo e dirigindo-se para lugares desconhecidos. Mas aquelas palavras não lhe fugiam da cabeça. GOSTEI MUITO DA TREPADA QUE TIVEMOS. Aquilo era brutal demais, em toda a sua crueza. Sim, senhor. Sim, senhora. Era realmente verdade. Era como se fosse urna punhalada. GOSTEI MUITO. Era um estranho modo de falar. Era a verdade nua e crua. Nada de enfeites ou .eufemismos.. Era como se fosse uma seringa espirrando-lhe no olho o ácido da bateria do carro.

Fez o possível para pensar coerentememte e

(GOSTEI MUITO)

simplesmente não conseguia,

(DA TREPADA QUE TIVEMOS)

Agora seus olhos estavam fixos na última linha que ele leu inúmeras vezes, como se estivesse tentando enfiar aquilo na sua cabeça. Nada conseguia, porque aquele tremendo sentimento de medo não lhe saia do caminho.

 

     SERÁ QUE VOCÊ TEM ALGUMA DÚVIDA?

 

Mas claro que tinha. Descobriu de repente que tinha uma quantidade enorme de perguntes a fazer. A única coisa que havia, no en¬tanto, era que não queria ouvir as respostas.

Ocorreu-lhe então um outro pensamento. E se o Roger ainda não tivesse ido embora? Era freqüente ele enfiar a cabeça na porta do escritório do sócio quando via luz lá dentro. Havia grande pro¬babilidade de que tal acontecesse naquela noite, em vista da via¬gem que iam empreender. Vic entrou em pânico só de pensar na¬quela possibilidade. E então lembrou-se, de repente, da época em que, ainda garoto, fechava-se no banheiro para se masturbar, sem poder resistir à tentação, mas completamente apavorado com a pos¬sibilidade de alguém aparecer perguntando o que fazia ali fechado durante tento tempo. Se Roger entrasse ali, ele logo notaria haver algo de errado. Ele não queria que isso acontecesse. Levan¬tou-se e foi até a janela para olhar lá embaixo, no estacionamento do prédio, a fim do verificar se a Honda amarela de Roger ainda estava lá. Não estava. Já tinha ido para casa.

Ele recuperou um pouco à calma e ficou prestando atenção. As salas ocupadas por sua agência estavam todas silenciosas. Nem mesmo ouvia os passos do encarregado do prédio andando por ali. Quando chegasse lá embaixo teria de assinar no livro das saídas. Não podia escapar...

Agora, porém, já ouvia um barulho. De imediato não desco¬bria o que poderia ser, mas não demorou muito e logo viu o que era. Era urna espécie de chorinho baixo, como se fosso de um animal ferido. Continuando a olhar lá para baixo, ele via, através da névoa das lágrimas, os carros no estacionamento dobrarem e depois triplicarem de número.

Por que seria que não conseguia ficar furioso? Qual poderia ser a razão para aquele estúpido temor?

E então ocorreu-lhe uma palavra antiquada o absurda. Cornea¬do. Ele fora corneado!

       Os gemidos continuavam. Tentou bloquear a garganta, mas de nada adiantou. Abaixou a cabeça e agarrou a grade que corria por baixo da janela, na altura de sua cintura. Apertou-a com força até os dedos doerem e mais ainda até o metal da grade reclamar com estalidos.

Quanto tempo fazia agora desde que havia chorado pela últi¬ma vez? Chorara na noite em que Tad nascera, mas aquilo fora um pranto de alívio o alegria. Chorara quando da morte de seu pai, depois de três dias de tremenda luta contra um ataque cardíaco, e aquelas lágrimas, derramadas aos 17 anos, tinham sido bem pare¬cidas com as de agora. Mais pareciam sangue e não lágrimas. Só que aos 17 anos era muito mais fácil chorar ou sangrar. Com aquela idade todo mundo sabe que vai encontrar isso muitas vezes ainda em sua vida.

Seus gemidos pararam. Considerou aquilo um fato consumado. Foi então que deixou escapar um lamento, um som trêmulo e ás¬pero que o deixou intrigado. Será que fui eu mesmo? Meu Deus, será que fui eu mesmo quem chorou?

As lágrimas começaram a descer-lhe pelo rosto. Agarrou com mais força a grade da janela e desatou em prantos.

       Quarenta minutos depois, ele ainda estava sentado no Deering Oaks Park. Tinha telefonado para casa dizendo a Donna que chegaria tarde. Ela começou a fazer perguntas, querendo saber por que ia demorar e por que sua voz parecia tão estranha, mas ele apenas disse que estaria em casa antes de anoitecer. Disso-lhe que não esperasse por ele e que desse o jantar a Tad. Depois desligou, sem que ela tivesse tempo de perguntar algo mais.

         E, agora, ali estava ele sentado no parque.

         As lágrimas quase haviam acabado com o medo. Sobrava-lhe apenas uma grande raiva. Aquilo era o nível seguinte na coluna geológica do conhecimento da situação. Só que raiva não era a palavra certa. Ele estava furioso. Estava verdadeiramente possesso. Aquilo era como se houvesse sido mordido por alguma coisa. Uma parte de seu ser dizia-lhe que seria perigoso voltar logo para casa... perigoso para os três.

         Seria muito agradável esconder os destroços aumentando os estragos. A verdade era que seria um prazer dar umas boas bofetadas naquela, mentirosa.

         Estava sentado ao lado do lago onde havia patos. Do outro lado as crianças brincavam. Reparou que eram quatro meninas e havia dois meninos, patinando. Naquele verão, a grande moda eram os patine de rodas. Viu uma moça que empurrava um carrinho onde havia tremoços, amendoins e refrigerantes em latas. O rosto dela era agradável e inocente. Uma das moças que jogavam o Frisbee atirou-lhe um disco, que ela apanhou com perícia e devolveu. Vic ficou pensando que nos anos 60 ela estaria talvez numa comuna, diligentemente. catando insetos em tomatais. Agora, provavelmente, já fazia parte da Administração dos Pequenos Negociantes, onde ocupava uma boa posição.

           Ele e Roger vinham ali as vezes, para um almoço rápido. Isso acontecera no primeiro ano, quando Roger reparara que o lago exalava mau cheiro, embora a sua aparência fosse tão bonita e agra¬dável. E reparou também que a casinha em cima da pedra no meio do lago estava toda branca não por ter sido pintada o sim porque era o depósito dos excrementos dos pássaros. Algumas semanas de¬pois, Vic vira um rato morto, já em decomposição, que flutuava ali no lago, junto com camisas-de-vênus e caixinhas vazias de chicletes. Nunca mais tinham voltado ao local.

           O     disco de Frísbee, muito vermelho, atravessava o ar.

           A imagem que despertara a sua raiva estava sempre voltando. Não conseguia ver-se livre dela. Era de uma crueza igual à da esco¬lha das palavras no bilhete, mas não conseguia evitar aquilo tam¬bém. Ele via aqueles dois trepando no quarto do casal, na sua própria cama! O que via naquele filme mental era igualzinho a um daqueles filmes impróprios exibidos no Cine Estadual, na Congress

Street. Ela gemia e suava; sempre conservando sua beleza. Tinha tensos todos os seus músculos. Tinha aquele mesmo olhar vidrado que ele vira nas suas relações conjugais. Seus olhos eram escuros.. Ele já conhecia a expressão, já conhecia a postura e já conhecia todos os sons. E já pensara que era o único a conhecer tudo aquilo. Coisas que nem mesmo a mãe e o pai dela conheciam.

Depois ficava pensando no membro do homem — sua pica —penetrando-a. Montado nela. E aquela frase entrou no seu espírito de uma forma idiota, sem que ele conseguisse expulsá-la. Via os dois trepando como numa trilha sonora de Gene Autry: Estou de volta na sela, estou num lugar onde amigos são amigos...

           Aquilo deixava-o nervoso. Fazia com que se sentisse ultrajado. Fazia com que se sentisse realmente possesso!

           O disco de Frisbee continuava a voar em cima dele. Ia até muito alto e depois caía. Vic ficava olhando a sua trajetória.

           Claro que já vinha suspeitando. Suspeitar, porém, não era a mesma coisa do que saber ao certo. Agora, ele pelo menos sabia. Poderia até mesmo, escrever um ensaio a respeito de suspeitar e saber ao certo. O que tornava tudo duplamente cruel era o fato do ter chegado a imaginar que suas suspeitas eram infundadas. E mesmo que não soubesse — o que os olhos não vêem, o coração não sente. E não era assim mesmo? Se alguém atravessar uma sala em completa escuridão, onde haja um buraco enorme no meio, e se passar bem pertinho dele sem cair lá dentro, não precisará jamais saber que escapou por pouco. Não precisaria mais ter medo. Pelo menos enquanto as luzes estiverem apagadas.

           Ele escapara. Não caíra no buraco. Tinha sido empurrado. A questão agora resumia-se a saber o que faria. Aquela parte dele que estava cheia de raiva, de mágoa e de orgulho ferido, reclamando¬ em altos brados, não estava absolutamente inclinada a mostrar¬-se adulta a reconhecer que sempre havia deslizes dos dois lados em todos os casamentos. As estatísticas de várias entidades podiam ir todas para o inferno.O caso é que se trata de minha mulher e que ela andou trepando com algum sacana

(lá onde amigos são amigos...)

           Quando eu não estava em casa e quando o Tad estava na escola.

As imagens tornavam a se desenrolar no seu espírito. Via lençóis amarrotados, corpos abraçados, gemidos baixos. Frases feias e termos terríveis amontoavam-se em sua mente como se fossem um bando de tarados observando um acidente: que xoxota cabeluda, deixa eu meter o ferro nela, segura meu pau, isso, mexe bem, se arreganha toda, deixa eu meter dentro de você...

Dentro de minha mulher!, ele pensava, as mãos trançadas, agoniado. Dentro de minha mulher! E ficava repetindo aquilo em pensamento.

Acontecia, no entanto, que a parte ultrajada de sua persona¬lidade reconhecia, bem contra a vontade, que ele não devia voltar para a casa com o intuito do espancar Donna. O que melhor pode¬ria fazer, no entanto, seria apanhar o filho e ir embora com ele. Não precisaria dar explicações. Ela jamais. teria coragem de se opor a ele, aliás, sabia que Donna jamais o faria. Ele e o filho iriam para um motel e depois ele procuraria um advogado. O que tinha a fazer era cortar o cordão umbilical bem direitinho, sem olhar para trás.

Era preciso levar em conta também que, se agisse assim, o filho ficaria apavorado e havia de querer explicações. Tinha so¬mente quatro anos, mas aquilo já era o bastante para saber quan¬do alguma coisa estava terrível e irremediavelmente. errada. era preciso também não esqucer a viagem e Boston, Nova York e Cleveland. Ele agora já não dava a mínima importância a viagem. No que lhe dizia respeito, o velho Sharp e seu garoto podiam ir para o inferno. Mas ele não estava sozinho no negócio. Precisava pensar em seu sócio. Um sócio que tinha mulher e filhos. Até mesmo naquelas condições de completo desespero, Vic reconhecia a sua res¬ponsabilidade e o seu dever de tudo fazer para não perder aquele cliente, já que com isso salvaria também a agência.

E embora não quisesse fazer a pergunta, ela continuava ali:

Qual seria, a verdadeira razão para ele querer tirar o filho e ir embora sem mesmo ouvir Donna em tudo aquilo? Seria porque a sua prevaricação estaria prejudicando a moral do filho? Ele achava que isso não acontecia. O pensamento só lhe ocorrera porque. acha¬va que aquele era o caminho mais certo para magoa-la tanto quan¬to ele se sentia magoado agora. O melhor meio para faze-a sofrer seria por intermédio do filho. Mas estaria ele disposto a magoar o filho transformando-o emocionalmente em um objeto inanimado? Ele também achava que essa não era a sua vontade.

‘Era claro que já nada mais havia. Aquele cara que lhe enviara o bilhete devia estar completamente louco.

Teria ele sido chutado por Donna?

Ele procurava ver tudo aquilo de uma outra forma, mas nada conseguia. Depois de despida da força do impacto chocante, aquela frase, GOSTEI MUITO DA TREPADA, era a clássica demonstração do cara que fora desprezado. Era típico do cara que, vendo a coisa. perdida, resolvia cuspir no prato em que comera. Era uma coisa ilógica, mas causava satisfação. A atmosfera mais tranqüila que notara em casa ultimamente, também confirmava isso. A satisfação e tranqüilidade que Donna irradiava chegava a ser palpável. Ela chutara o cara e ele revidara com a carta anônima ao marido.

E havia ainda a última pergunta. Faria aquilo alguma dife¬rença?

Tirou do bolso o bilhete e ficou com ele na mão, virando-o e revirando-o em todos os sentidos. Olhava para o Frisbee vermelho que cortava o céu, tentando encontrar uma resposta. Que diabo iria ele fazer agora?

 

Deus do céu! O que é isto aqui? — Joe estava de queixo caído e   as palavras escapavam-lhe quase sem qualquer inflexão. Estava de pé na porta, olhando para a mulher. Charity estava arrumando o lugar dele na mesa do jantar. Ela e o filho já haviam jantado. Ele chegara com o caminhão cheio de coisas e ia entrar com ele, no galpão, quando dera de cara com aquilo.

—   É um guincho.

Charity tinha mandado o filho para a casa de seu amiguinho Davy. Não queria que ele estivesse presente se a coisa não desse certo.

—   Foi o Brett que me disse que você estava precisando muito de um guincho, Joe. É um Jórgen...

Joe entrou na oficina. Era um sujeito magro, mas de físico farto, nariz adunco e um andar ágil. Estava com o chapéu de feltrô verde atirado para trás, deixando ver uma calvície incipiente. Tinha uma mancha de graxa na testa. Seu hálito recendia a cerveja. Os olhos azuis eram duros e pequenos. Era um homem que não gos¬tava de surpresas.

—   Estou esperando uma resposta, Charity...

—   Sente¬ se.. O seu jantar vai esfriar.

Ele esticou o braço e agarrou-a com força.

— Estou esperando uma resposta. Que porra você andou fazendo?

— Não use essa linguagem comigo, Joe. Contenha-se!

Ela sentia doer o braço, mas não queria que ele percebesse. Não queria dar-lhe essa satisfação. Ele procedia como um animal e embora ela gostasse de seus modos quando era jovem, aquilo já são acontecia mais. Durante os anos de casamento ela concluiu que poderia ficar por cima algumas vezes, desde que se mostrasse corajosa. Isso não acontecia sempre, mas às vezes dava resultado.

—   Só quero que você me diga, Charity. Que diabo você andou fazendo?

—   Só farei isso depois que você se sentar para jantar. — Ela falava sem perder a calma.

Joe sentou-se e ela foi buscar o prato dele, onde havia um bom filé.

—   E desde quando nós podemos nos dar ao luxo de comer como os Rockefellers? Só quero que me explique bem tudo isso!

Ela trouxe-lhe o café e uma batata assada, já cortada.

—   Você estava precisando de um guincho, não estava?

—   Nunca disse que não precisava. Claro que preciso, mas não tenho dinheiro para me dar a esse luxo.

Ele começou a comer sem tirar os olhos dela. Charity sabia que não ia ser brutalizada agora. Tinha que aproveitar enquanto ele ainda não estava bêbado. Talvez a espancasse quando voltasse do bar, com a cara cheia, arrotando vodca e sentindo-se ferido em seu orgulho de macho.

Ela sentou-se bem na sua frente.

— Tive o meu bilhete sorteado na loteria...

Joe parou de mastigar durante um breve instante, mas logo recomeçou, enchendo a boca com a carne.

— Claro. E então, amanhã, o velho Cujo que ali está vai começar a cagar botões de ouro em quantidade...

Enquanto falava, Joe apontava com o garfo para o cão, que andava de um lado para outro e mostrava-se inquieto. Brett não gostava de levá-lo quando ia visitar seu amigo. Eles criavam coe¬lhos e aquilo deixava Cujo completamente louco.

Ela enfiou a mão no bolso do avental e tirou a cópia do recibo que lhe dera o funcionário da loteria. Entregou-o ao marido.

Ele colocou o papel em cima da mesa e alisou-o bem antes de examiná-lo cuidadosamente, de todos os lados. Os seus olhos estavam fixos na importância do prêmio.

—   Cinco... — Não acabou o que queria dizer e fechou a boca com um estalo.

A mulher observava-o, calada. Ele estava muito sério. Não se deu ao trabalho de fazer a volta na mesa para lhe dar um beijo. Para um cara desconfiado como o marido, pensava ela amargamente, um golpe de sorte assim só podia significar que algo mais ainda estava para vir.

—   Então você ganhou cinco mil dólares...

       — É isso aí... menos os impostos, é claro.

—   Desde quando você anda comprando bilhetes?

—   Compro um todas as semanas. São só 50 centavos... e não me venha com reclamações, Joe, parque isso é muito menos do que você gasta com suas bebidas.

       Os olhos muito azuis dele nem pestanejavam.

—   Cuidado com o que diz, Charity! Cuidado com essa boca, para que ela não fique muito inchada de repente.

Ele atirou-se novamente ao bife e ela sentiu-se aliviada. Cha¬rity provocara o tigre pela primeira vez sem sair mordida. Pelo menos isso ainda não acontecera.

—   E quando é que vamos receber esse dinheiro?

—   Receberemos o cheque dentro de duas semanas, mais ou menos. Tirei dinheiro da poupança para comprar o guincho. Este papelzinho aqui vale tanto quanto ouro, conforme me disse o fun¬cionário da loteria.

—   E então você saiu e comprou o guincho, hem?

—   Perguntei ao Brett para saber o que você precisava mais. É um presente meu.

—   Obrigado. — Ele continuava a comer.

—   Dei um presente a você, Joe, e agora quero que você também me dê um.

Ele continuava a comer ao mesmo tempo que não tirava os olhos dela. Estava calado. Não havia em seus olhos a menor ex¬pressão Comia com o chapéu ainda na cabeça, atirado para trás.

Ela falou-lhe devagar, com muita decisão, sabendo que seria um erro se precipitasse as coisas.

—   Quero ir passar uma semana com minha irmã e todo o seu pessoal. Quero levar o Brett também.

—   Não —, respondeu ele secamente e continuou a comer.

—   Podemos ir de ônibus e ficar na casa deles. Será mais ba¬rato. Ainda vai sobrar muito dinheiro. Um dinheiro que caiu do céu. Custaria a terça parte do preço que paguei pelo guincho. Tal¬vez menos. Já telefonei para a empresa a fim de saber quanto custa a passagem de ida e volta...

—   Não. Preciso de Brett aqui para me ajudar.

Ela cruzou as mãos embaixo da mesa, mal podendo conter a fúria que sentia, mas seu rosto estava; impassível.

—   Você passa bem sem ele na época das aulas...

—   Eu disse não, Charity.

Ela percebia, com uma certeza amarga, que ele se divertia com aquilo. Ele, por sua vez, percebia também o quanto era intenso o desejo da mulher. Como ela planejara tudo direitinho. E então achava tudo aquilo muito divertido. Divertia-se com a sua dor.

Ela levantou-se e foi para a pia, não porque tivesse alguma coisa a fazer ali e sim porque precisava de tempo para controlar-se. Lá em cima, muito longe, a estrela vespertina brilhava. Ela abriu a torneira da pia, já amarelada pelo uso. A água ali era tão fria como o próprio Joe.

Sentindo-se talvez desapontado por uma vitória tão fácil, ele achou que podia insistir.

-~ O menino precisa adquirir responsabilidade. Não lhe fará mal algum ajudar-me neste verão, ao invés de se meter lá na casa de seu amigo Davy dias e noites.

Ela fechou a torneira.

—   Eu mandei ele ir para lá...

—   Você mandou mesmo? E por quê?

Ela voltou para onde ele estava.

—   Porque eu já sabia que isto ia acontecer. Mas eu disse a ele que você já havia concordado, por causa do dinheiro e do guincho.

—   Você devia saber que cometeu um pecado com o menino. Na próxima vez espero que tenha mais cuidado com o que diz, antes de engrenar essa sua língua — ele falou sorrindo e com a boca cheia, ao mesmo tempo que pegava num pedaço de pão.

—   Você até que podia vir também conosco, Joe. É só querer.

—   Claro. Era só dizer ao Richie que ele não terá sua má¬quina pronta para a colheita deste ano. Além disso, não tenho von¬tade nenhuma de visitar aqueles dois. Pelo que tenho visto e ouvido a respeito deles, acho que são uns grã-finos muito bestas. E a única razão que você tem para gostar deles é o seu desejo de ser também a mesma coisa.

Ele ia levantando a voz, aos poucos. Já começava a cuspir comida e ela sentia medo quando o via assim. Achou que seria me¬lhor não insistir. Era como acontecia quase sempre. Iria desistir por enquanto.

—   E você também quer ver seu filho igualzinho a eles. É isso o que eu acho — continuou ele. — Quer que ele se vire contra o pai. Será que estou errado?

—   E, então, por que você nunca o chama pelo seu nome?

—   Cale Logo essa boca, Charity. Veja bem o que lhe digo. — Ele já estava com o rosto muito vermelho, e o seu olhar era duro.

—   Não, Joe. Ainda não chegamos ao fim.

Ele ficou tão assombrado que chegou a deixar cair o garfo.

—   O queee... O que foi que você disse?

Ela caminhou para o marido, dando-se ao luxo de enfren¬ta-lo pela primeira vez depois do casamento, para mostrar-lhe toda a sua raiva. Tudo que sentia, no entanto, estava bem lá dentro dela, queimando como ácido, corroendo-lhe as entranhas. Não se atrevia a gritar porque sabia que isso estragaria tudo. A sua voz continuava baixa e calma.

—   Claro que é a maneira como você considera minha irmã e seu marido. Não poderia ser de outra forma. Olhe para si mesmo! Sentado aí, comendo com as mãos sujas e sem tirar o chapéu da cabeça. Você não quer que ele vá lá para ver como vive gente

       É a mesma coisa que sinto quando não quero que ele saia com você e seus amigos, para ver como se comportam quando estão sozinhos. Foi por isso que não deixei Brett ir com vocês em novembro.

Ela fez uma pausa e Joe ficou ali sentado, com uma fatia de pão na mão e o queixo Sujo com o molho do bife. Ela achava que única razão que o impedia de saltar-lhe em cima era a completa surpresa que o dominara ao ouvi-la falar daquele jeito.

         Eu quero e estou disposta a fazer um trato com você. Já lhe dei o guincho e estou disposta a dar-lhe também o resto do dinheiro. Poucas mulheres fariam isso. Mas já que você se mostra t/ao ingrato, ainda lhe ofereço mais. Se deixar o Brett ir comigo, você pode levá-lo, com os seus amigos, na próxima temporada de caça em Moosehead.

       Ela sentiu-se tão nervosa çomo se acabasse de fazer um trato com o próprio diabo.

       —  Você parece que está querendo levar umas boas lambadas, Charity. — Ele falava como se estivesse lidando com uma crian¬ça surpreendida em alguma coisa errada. — Eu o levarei comigo na caçada se quiser e quando quiser. E você sabe muito bem disso. Ele é meu filho, com todos os diabos! Se eu quiser e quando eu quiser. Está me ouvindo? Está compreendendo? — Ele sorria satis¬feito com a maneira como falava.

Ela encarou-o bem de frente.

—   Não. Não vai ser assim. Não vai mesmo.

Ele levantou-se com tanta violência que a cadeira caiu para trás.

           —Vou dar um basta nisso, Joe — disse Charity. — Ela que¬ria afastar-se dele, mas, se o fizesse, aquilo seria o fim. Um só movimento em falso, um sinal de fraqueza, e ele estaria em cima dela.

           Joe estava começando a tirar o cinto e falou como se sentisse obrigado a fazer aquilo.

—   Vou lhe dar umas lambadas, Charity.

           — Farei tudo para impedir. Irei à escola e direi que ele fugiu. Irei ao xerife e apresentarei queixa, dizendo que ele foi seqüestra¬do. E farei coisa ainda melhor. Farei com que Brett se recuse a ir,

      Ele tirou o cinto e ficou segurando-o pela ponta, a fivela ba¬lançando como um pêndulo.

           —      Ele só irá com você e com sua turma de bêbados, antes. de ter quinze anos, com .a minha permissão. Pode me dar as lam¬badas que quiser, Joe, mas nade mudará isso.

—   Você acha isso mesmo?

—   É exatamente como estou lhe dizendo, Joe.

De um minuto para outro, ela teve a impressão de que Joe não estava mais ali na sala. Ele estava com o olhar perdido, como se refletindo. Ela já o vira assim em outras ocasiões. Alguma coisa havia-lhe ocorrido, de repente, algum novo fato para ser laborio¬semente acrescentado à equação. Ela rezava para que, fosse lá o que fosse, esse fato a favorecesse. Jamais o enfrentara daquela ma¬neira e agora tinha medo.

Ele sorriu inesperadamente.

—   Você é mesmo corajosa, hem? Está cuspindo fogo... Ela não respondeu.

           Ele começou a enfiar o cinto nas calças. Continuava sorrindo, da mesma forma que seus olhos permaneciam distantes.

— Acha que pode mesmo cuspir fogo como aquelas cobras do México, Charity?

Ela continuava calada e desconfiada.

             — Se eu disser que vocês dois podem ir, o que é que vai acon¬tecer? Acha que poderíamos desejar até mesmo a lua?

—   O que está querendo dizer, Joe?

           —      Só quero dizer que está bem. Para os dois.

           Ela atravessou a sala no seu passo ágil e ficou gelada só de pensar que ele poderia ter feito a mesma coisa momentos antes para dar-lhe uma boa surra de cinto. E quem poderia detê-lo naquela hora? Ninguém tinha o direito de se meter em brigas entre marido e mulher. Ela nada poderia ter feito, nada teria dito por causa do Brett e de seu amor-próprio.

Ele colocou a mão no ombro dela e desceu-a até o seio, que apertou.

— Vamos lá, Charity. Estou aceso...

— Mas Brett...

             — Ele só vai voltar às nove. Vamos lá. Eu lhe dei licença para ir... Espero que, pelo menos, me agradeça...

             Uma espécie de absurdo cósmico chegou até seus lábios e pas¬sou entre eles antes que ela conseguisse detê-lo.

—   Tire o chapéu, Joe.

             Ele arremessou-o para o outro lado da cozinha sem o menor cuidado. Continuava a sorrir mostrando os dentes amarelados, sen¬do que os dois de cima eram postiços.

             —    Se tivéssemos o dinheiro aqui agora conosco, poderíamos trepar numa cama cheia de notas verdinhas. Eu vi isso num filme, já faz muito tempo...

             Levou-a para cima, enquanto Charity esperava que ele demonstrasse qualquer tara, mas isso não aconteceu. O sou ato de amor foi o mesmo de sempre. Rápido e brutal, mas sem nenhuma tara. Ele nunca a magoava intencionalmente e, naquela noite, ela atingira o climax, o que não lhe acontecera senão umas 10 vezes desde que se casara. Charity entregou-se ao marido com os olhos fechados sentindo o queixo dele bem em cima da sua cabeça.

           Ela conseguiu abafar o grito que chegara aos seus lábios. Ele teria ficado desconfiado se a visse vibrar. Não sabia bem se Joe estava a par do fato de que a mulher costuma sentir a mesma coisa que o homem quando o ato de amor chega ao fim.

Logo depois, e uma hora antes de Brett voltar para casa, ele saiu sem dizer aonde ia. Ela achava que deveria ter ido para o bar com Gary, onde começaria a beber. Ela ficou deitada na cama imaginando se o que fizera valia mesmo a pena. Teve vontade de chorar, mas conseguiu conter-se. Ela continuou ali deitada e, pou¬co antes de Brett chegar, a lua surgiu em toda a sua glória prateada. A chegada do filho foi anunciada pelos latidos de Cujo e pela ba¬tida forte da porta dos fundos. A lua nem mesmo está ligando, pen¬sou ela, mas aquilo não lhe trouxe o menor conforto.

 

—   O que é que está havendo, Vic?

A voz de Donna era apagada como a de alguem que se sente derrotado. Os dois estavam sentados na sala de estar. Vic só che¬gara em casa quase na hora de Tad ir para a cama e isso fora meia hora antes. Ele dormia no seu quarto lá em cima, com as palavras para espantar os monstros pregadas bem em cima de sua cabeceira. A porta do closet estava bem fechada.

Vic levantou-se e foi até a janela, mas lá fora a escuridão era completa. Ela percebia com tristeza que ele já sabia. Talvez não soubesse de todos os detalhes, mas certamente sabia de uma ma¬neira geral. Durante todo o caminho de volta pra casa ele viera pensando se deveria ou não contar-lhe tudo, se deveria ou não lan¬cetar logo, o tumor para tentar depois viver com o seu pus.., ou se deveria simplesmente esquecer. Rasgara o bilhete depois que saiu do parque e no caminho fora jogando os pedacinhos pela janela do carro. Com isso, a escolha de uma atitude já não estava mais em suas mãos. Via refletido no vidro da janela o rosto pálido de Donna dentro do círculo amarelado da lâmpada.

Voltou-se então para ela sem ter a menor idéia do que lhe iria dizer.

 

Donna também estava pensativa. Ele já sabe.

Não era a primeira vez que lhe ocorria aquele pensamento, porque as últimas três horas tinham sido as mais longas de toda a sua vida.

Tornara conhecimento de tudo na hora em que ele lhe telefonara, avisando que ia chegar tarde. Logo de princípio foi tomada de pânico, um pânico bem parecido com o que sente um passarinho preso na garagem. O pensamento lhe ocorrera em itálico, seguido pelas exclamações parecidas com as usadas nas histórias em quadrinhos.

Ele sabe! Ele sabe! Ele SABE!!! Cuidara do jantar de Tad sem saber bem o que estava fazendo, inteiramente envolvida pelo medo e tentando descobrir o que lhe aconteceria depois, inutilmente. Vou lavar os pratos depois. Vou secá-los e arrumá-los depois. Depois vou ler algumas histórias para o Tad. Depois, então, sairei velejan¬do para o fim do mundo.

Ao pânico seguirá-se o sentimento de culpa. Esse, por sua vez, foi substituído pelo terror. Logo seguiu-se uma espécie de apatia fatalista, depois de alguns circuitos emocionais terem desaparecido. Aquela apatia chegava a ter uma certa dose de alivio. O segredo fora descoberto. Estava pensando se Steve fora o autor da revela¬ção ou se Vic simplesmente chegara a uma conclusão. Tinha quase certeza de que fora mesmo Steve, mas isso já não importava mais nada para ela. Sentia-se aliviada ao ver Tad já na cama e dormindo. Pensava agora na espécie de manhã que haveria para ele. E aquele pensamento trouxe-lhe de volta todo o pânico anterior. Sentia-se enjoada e perdida.

Lá de onde estava, na janela, ele voltou-se para ela.

—   Recebi urna carta hoje. Uma carta anônima...

Não conseguiu terminar. Atravessou novamente a sala, inquie¬to, e ela surpreendeu-se imaginando como ele era um belo homem. Era uma pena estar ficando grisalho tão cedo. Aquilo assentava bem para alguns homens relativamente jovens, mas com Vic parecia mais urna velhice prematura...

...mas por que cargas d’água estava ela pensando em seus Cabelo, ali naquela hora? Havia coisas mais sérias para pensar...

E, então, muito baixinho, ainda sentindo a voz tremer, ela foi despejando tudo que lhe parecia pertinente, cuspindo aquilo como o. fosse algum remédio muito ruim que estava sendo obrigada a engolir.

       — Steye Kemp. Aquele que reformou a sua mesa de traba¬lho. Cinco vezes... Mas nunca foi em nossa cama, Vic. Nunca... Esticou o braço para apanhar um cigarro na mesinha junto do sofá e deixou cair tudo no chão. Apanhou o maço e tirou um cigarro, que acendeu. As mãos lhe tremiam muito. Eles não se encaravam. Donna achava que aquilo era mau. Nós deveríamos estar nos encarando. Ela, porém, não tinha coragem para tomar a iniciativa. Estava com medo e com vergonha. Ele apenas tinha medo.

—   Mas por quê?

—   Será que isso faz diferença?

       — Faz diferença para mim. Faz muita diferença. A não ser que você queira a separação. Se for assim, então acho que não faz mesmo diferença alguma. Estou positivamente, furioso, Donna. Fu¬rioso como o diabo! Estou fazendo possível para que isso... para que essa parte não venha à tona, porque mesmo se nunca mais falarmos com franqueza, temos que fazer isso agora. Você quer mesmo a separação, Donna?

— Olhe para mim, Vic... Olhe-me de frente.

Foi com grande esforço que ele atendeu ao pedido. Era bem possível que ele estivesse mesmo furioso como o diabo, conforme dissera, mas o que Donna via ali na sua frente era um pobre homem apavorado. De repente, como um soco com luvas de boxe em sua boca, ela percebeu como ele estava à beira de um precipício. Os negóciõs da agência iam mau só isso já era coisa séria; mas além disso, como uma abominável sobremesa seguindo um pútrido prato principal, o seu casamento também estava vacilante. Sentia-se invadida por uma onda de caloroso carinho por ele, por aquele mesmo homem que já detestara e que, nas últimas três horas, chegara a temer. Sentiu-se possuída por uma espécie de manifestação divina. Acima de tudo, porém, ela esperava que ele se julgasse mesmo fu¬rioso como o diabo e não.., não da maneira como o seu rosto mostrava o que realmente sentia.

— Não quero a separação, Vic. Eu te amo muito. Creio que descobri isso novamente nestas últimas semanas.

Durante um momento, ele pareceu aliviado. Foi até a janela outra vez e depois voltou para o sofá. Deixou-se cair ali e olhou para ela.

— Mas então por quê?

A manifestação divina desapareceu com o desespero da raiva. Por quê? Aquilo era uma pergunta masculina. Sua origem estava muito longe, perdida em qualquer que fosse o conceito de mascu¬linidade existente num inteligente homem ocidental, vivendo no fim do século XX. Preciso saber a razão, que levou você a lazer isso. Da mesma forma como se a mulher fosse um carro com uma vál¬vula presa, que não deixava o motor funcionar bem, ou então um robô doméstico desregulado, que servia carne no café da manhã e ovos mexidos no jantar. Ocorreu de repente a Donna que a causa da loucura das mulheres não era só uma questão de sexo. Era, mais que isso, aquela louca procura da eficiência por parte dos homens.

—   Não sei se posso explicar isso, Vic. Receio que possa pa¬recer estúpido, mesquinho e trivial...

—   Tente sempre. Será que foi...

Ele pigarreou, pareceu cuspir mentalmente nas mãos — e ali estava novamente, uma demonstração da maldita eficiência — até que finalmente conseguiu dizer o que pensava.

—   ... porque eu já não a satisfazia? Será que foi isso?

—   Não, Vic, não foi isso.

—   Então o que foi, Donna? Pelo amor de Deus, diga-me o que foi!

Muito bem... foi você quem pediu....

— Foi o medo, Vic. Acho que foi principalmente o medo...

—   Medo?

       — Quando Tad saía para a escola, não havia coisa alguma para impedir que eu sentisse medo, Vic. Tad era como... qual é mesmo o nome que lhe dão?...um barulho branco. Aquele baru¬lho que a TV faz quando não está bem sintonizada no canal...

—   Mas a escola dele não era de verdade...

Ele interrompeu-a com tanta pressa que Donna percebeu logo que a raiva ia voltar, que ela estava apenas tentando pôr a culpa em Tad. E, se Vic se zangasse mesmo, logo sairiam palavras entre os dois que não deveriam ser ditas, pelo menos não naquele mo¬mento. Sendo ela a mulher que era, havia coisas que jamais atura¬ria. A situação iria piorando aos poucos. Havia ali agora uma coisa muito frágil que um atirava para o outro, mas que poderia cair no chão com facilidade.

—   E isso era justamente uma parte do problema. Não era urna escola de verdade. Ele ainda ficava comigo a maior parte do tempo, mas quando saía... o contraste era muito grande. Em comparação, o silêncio parecia muito alto. E foi aí que comecei a sentir medo. Ele teria que ir para o maternal no ano seguinte. A metade de, todos os dias, ao invés de somente meio dia três vezes por ano. E no ano seguinte seriam cinco dias inteiros por semana. Mas ainda havia muitas horas ociosas. E eu sentia medo.

A reação dele foi um tanto amarga.

         E então você achou que podia encher essas horas ociosas com algumas trepadinhas, hein?

Aquilo foi como uma bofetada. Ela, porém, continuou teimo¬samente contando tudo da melhor maneira que podia e falando bai¬xinho. Fora ele quem pedira e ela iria contar tudo.

—   Eu não queria fazer parte do comitê da biblioteca, não queria fazer parte do comitê do hospital, não queria fazer parte de nenhum comitê de caridade nem queria fritar bolinhos para vender nas festas. Não queria ver aquelas mesmas caras desanimadas de sempre, ouvir sempre as mesmas fofocas. Não queria aguçar as minhas garras à custa de reputações alheias.

As palavras já agora lhe saíam em torrente e ela mesma não conseguiria parar, mesmo se quisesse.

—   Não queria sair por aí vendendo coisas, não queria dar festinhas e não queria fazer parte do grupinho que só pensa em manter seu peso certo dentro das medidas certas.

Fez uma pequenina pausa para tomar fôlego, avaliando bem o que estava fazendo.

—   Você não sabe o que é o vazio, Vic. Não pense que sabe. Você é homem e os homens sabem como se agarrar. Os homens sabem, mas as mulheres não. Não sabem mesmo. As mulheres espanam. Elas espanam os aposentos vazios ouvindo o vento soprar lá fora algumas vezes. Só que, às vezes, parece que o vento, está dentro da gente, Vic. E aí então a gente coloca um disco no apa¬relho de som, seja lá de quem for, mas, mesmo assim, ainda conti¬nua ouvindo aquele vento. E então começa a pensar. Começa a ter idéias que nada têm de boas, mas que aparecem assim mesmo. Então a gente começa’ a limpar o banheiro e a cozinha, até que um dia a gente vai a uma loja de antiguidades e começa a examinar coisinhas, lembrando-se de que a mamãe também tinha uma vitrine cheia de quinquilharias. E as titias e avós, também tinham.

Ele olhava-a com atenção e a sua expressão de perplexidade era tão sincera que ela se sentiu invadida por uma onda de de¬sespero.

—   Estou me referindo a sentimentos, Vic, e não a fatos.

   —Eu sei... mas por que...

— Mas estou dando-lhe todas as razões, Víc! Estou lhe dizen¬do que cheguei ao ponto de me postar diante do espelho para ver como meu rosto estava diferente e como ninguém mais poderia me tomar por uma mocinha com menos de vinte anos. Ninguém mais iria pedir para ver o meu cartão de identidade quando eu entrasse num bar para pedir um drinque. Comecei a sentir medo simples¬mente por estar crescendo. O Tad já vai para o pré-escolar e isso significa que logo irá também para• a escola primária e depois para o ginásio...

— Quer dizer que arranjou um amante só porque se sentia velha?

Ele agora olhava-a com surpresa e ela adorou-o ainda mais quando percebeu isso, simplesmente porque achava que aquilo fazia parte de tudo . que houvera. Steve achara-a atraente e isso, natu¬ralmente, era muito agradável, sendo também o que tornava interessante o namoro, embora, de forma alguma, fosse a parte mais importante.

Ela segurou-lhe as mãos e falou calorosamente, encarando-o, pensando e sabendo que jamais falaria daquela maneira, com tal sinceridade, com qualquer outro homem.

— E ia mais ainda. É saber que a gente não pode mais es¬perar para ser uma pessoa adulta, nem tampouco esperar se con¬formar com aquilo que tem. É saber que a nossa capacidade para escolher se torna dia a dia menor e mais reduzida. Para qualquer mulher... para mim, pelo menos... isso significa enfrentar um fato brutal. Sou apenas uma esposa e nada mais. Você tem sempre seus negócios. Até mesmo quando está em casa, você vive pensan¬do neles. Também sou mãe e isso é muito bonito, embora esteja sempre diminuindo a cada ano que passa. E isso porque, também a cada ano que passa, o mundo vai se apossando de meu filho, pouco a pouco.

“Homens... eles todos sabem o que são. Possuem a imagem do que realmente são. Nunca chegam a realizar seus ideais e então ficam desolados e liquidados. Talvez seja por isso que tantos mor¬rem cedo e infelizes, embora morram sabendo o que significa ser adulto. Eles sabem se manter aos trinta, quarenta ou cinqüenta. Eles não ouvem aquele vento,, ou então, quando isso acontece, encontram uma lança para combatê-lo. Imaginam, que aquilo seja um moinho de vento ou qualquer outra porcaria que precisa ser derrubada.

B, então, o que a mulher faz.., o que eu fiz... é evitar que isso aconteça. Tinha medo da casa quando Tad não estava aqui.

Um dia eu estava mudando a roupa de cama de seu quarto, quan¬do comecei a pensar nas amigas que tivera no ginásio. Comecei a pensar no que teria acontecido com elas e por onde andariam. Es¬tava meia tonta. A porta do closet de Tad abriu-se, de repente, e eu...gritei e sai dali correndo.Nem mesmo sei por que fiz isso, mas, aliás, acho que sei sim. Durante apenas um segundo pensei que Joan ia sair daquele closet, sem cabeça e coberta de sangue, e então falaria comigo: ‘Morri num desastre de automóvel quando tinha dezenove anos e voltava da lanchonete do Sammy, mas nem estou ligando para isso.’

—   Meu Deus, Donna!

—   Fiquei apavorada. Foi só isso que aconteceu. Ficava apa¬vorada quando começava a examinar quinquilharias, quando pensava em me dedicar à cerâmica, quando pensava em praticar ioga ou coisas parecidas. O único lugar para onde a gente pode correr para se esconder do futuro, é o passado. E foi aí... foi aí que começou nosso namoro.

Ela abaixou a cabeça e, de repente, cobriu o rosto com as mãos. As palavras saiam-lhe abafadas, mas ainda compreensíveis.

—   Aquilo foi divertido. Parecia que eu estava novamente na universidade. Era como se fosse um sonho. Um sonho estúpido. Ele era para mim aquele barulho branco de que já falei. Ele conseguia espantar aquele vento. A parte do namoro era divertida. O sexo, porém, nada tinha de bom. Eu sentia orgasmos, mas não era bom. Não posso explicar a razão, mas talvez fosse porque eu ainda ama¬va você, apesar de tudo. E eu percebia que estava fugindo...

       Ela levantou a cabeça e agora já chorava.

— Ele também está fugindo. Faz disso uma carreira. É um poeta... pelo menos é isso que ele se intitula. Eu não conseguia compreender as coisas que lia para mim. É uma espécie de cigano. Gosta de correr pelas estradas sonhando que ainda está na univer¬sidade, protestando contra a guerra no Vietnã. E talvez tenha sido por isso que me encantei., E agora acho que já lhe contei tudo que tinha para contar. Uma historieta bem feia, mas foi o que aconteceu.

—   Gostaria de dar-lhe uma surra, Donna. Se visse o sangue escorrendo de seu nariz isso me daria grande satisfação.

       Ela sorriu, com um ar muito desanimado.

       Ele se mandou, Vic Eu e o Tad passamos por lá quando saímos para tomar um sorvete antes de você chegar, e vimos o cartaz de ALUGA-SE na janela da loja. Eu já disse a você que ele é uma espécie de cigano vagando pelas estradas.

—   Não havia poesia alguma no bilhete que ele me escreveu.

       Olhou-a de relance e depois tornou a baixar a cabeça. Ela tocou-lhe o rosto e Vic fez uma espécie de careta, recuando um pouco Ela sentiu que aquilo a magoava mais do que poderia acreditar. Sentiu-se novamente invadida por uma onda de medo e culpa, mas já não chorava mais. Achava que, durante muito tempo, já não haveria mais lágrimas. O ferimento e o choque traumático tinham sido grandes demais.

         — Vic, peço que me perdoe. Estou arrependida. Vejo que você está muito magoado e só espero que me .......

—   E quando foi que vocês terminaram?

Ela contou-lhe tudo o que acontecera, mas não falou no medo que sentira ao pensar que Steve iria violentá-la.

—   Então aquele bilhete foi o meio que ele achou para se vingar....

Ela passou a mão na cabeça para tirar os cabelos que lhe es¬condiam o rosto muito pálido e triste. Estava com olheiras.

— Acho que foi isso mesmo.

— Vamos subir. Já é tarde e estamos bem cansados, Donna.

— E você fará amor comigo, Vic?

Ele sacudiu a cabeça lentamente.

— Não esta noite, Donna.

—   Está bem, Vic.

Antes de subirem, ainda no pé da escada, ela virou-se para ele.

— E o que vamos fazer agora, Vic?

Ele apenas sacudiu a cabeça.

— Simplesmente não sei, Donna.

— Será que estarei obrigada a escrever no quadro-negro, qui¬nhentas vezes: “Prometo que nunca mais farei isso”? E também ficarei privada do recreio? Você quer o divórcio? Será que nunca mais tocaremos neste assunto? O que é que você vai resolver, Vic?

Ela não se sentia histérica. Estava apenas exausta, mas a sua voz começava a elevar-se, embora aquilo não lhe agradasse, já que não tivera essa intenção. O pior de tudo era a vergonha. A vergo¬nhá de ser descoberta e de ver como estava o rosto dele agora. Do-testava-o e detestava-se também por se sentir tão envergonhada, já não se considerava responsável pelos fatos que haviam levado a decisão final, uma coisa que, aliás, ainda não acontecera.

— Nós vamos conseguir encontrar uma solução..

Donna, porém, não se enganava e percebia bem que ele não se dirigia a ela. Vic olhava-a como se implorasse.

—E tudo isso... tudo isso só aconteceu com ele, não foi mesmo?

Aquela era uma pergunta imperdoável, uma pergunta que ele não tinha o direito de fazer.

Ela largou-o ali e subiu quase correndo antes que extravasasse sua indignação. Seriam estúpidas recriminações e reclamações que nada resolveriam e que só poderiam piorar tudo. Estragaria toda a sinceridade que os dois haviam usado até então.

Nenhum deles dormiu bem naquela noite. Vic esquecera com¬pletamente de telefonar para Joe, a fim de ver se ele poderia dar um jeito no carro de Donna.

 

Joe, aliás, estava sentado com Gary nas desconjuntadas cadeiras do armar que havia em seu quintal, também bastante maltratado. Ali, sob um céu estrelado, eles bebiam martinis de vodca em copos tra¬zidos do McDonald’s. Os vaga-lumes cruzavam a escuridão e o perfume da madressilva na cerca da casa enchia todo o quintal.

Cujo costumava ficar ali também, correndo atrás dos vaga-lumes, latindo e divertindo-os. Naquela noite, porém, ele estava deitado entre os dois, com o focinho entre as patas. Eles pensavam que ele estivesse dormindo, mas não era isso que acontecia. Ele simplesmente estava ali deitado com os ossos todos doendo e a ca¬beça zunindo. Estava cada vez mais difícil para ele pensar no que iria acontecer em seguida na sua vida simples de cachorro. O ins¬tinto lhe dizia que alguma coisa estava para acontecer. Quando dormia os seus sonhos eram de uma lucidez desagradável e fora do comum. Num desses sonhos ele atacara o GAROTO, abrindo-lhe a garganta e arrancando-lhe as entranhas. Despertara ganindo o tremendo.

Estava sempre com sede agora, mas já começava a se afastar da vasilha com água. Quando bebia, a água arranhava-lhe a gar¬ganta como se fosse palha de aço. O seu contato fazia doer-lhe os dentes, da mesma forma que os olhos. Agora ali estava ele deitado no gramado, sem dar importância aos vaga-lumes e a tudo que o cercava. A voz do HOMEM soava como se fosse um trovão sem importância vindo lá do alto. Nada significava para ele em com¬paração com a inquietação que sentia.

Gary estava espantado.

       —  Boston! Boston! Que diabo você vai fazer em Boston? E por que é que quer me levar junto? Sabe lá se tenho dinheiro para isso? Não tenho nem mesmo para ir até Norge até que saia o meu cheque!

Joe já estava meio bêbado.

         — Uma porra que não tem, Gary. Você está montado na erva!

         É só tirar um pouco do que você tem escondido debaixo do colchão. No meu colchão só existem percevejos. Está cheio deles, mas não ligo a mínima. Estou cagando para eles. Quer mais uma rodada?

Joe estendeu o copo. O outro tinha tudo ali pronto ao lado da cadeira. Preparou tudo com a rapidez e a prática do beberrão contumaz. Entregou o copo cheio ao amigo e repetiu a mesma coisa de antes.

— Boston! Vai querer se divertir um pouco, hem? — Gary era o único cara em Castle Rock, e talvez no mundo, que podia demonstrar certas intimidades com Joe. — Com certeza está pensando em alguma farrinha, bem? Nunca vi você ir niais longe do que Portsmouth...

— Já estive em Boston uma ou duas vezes, Gary. Cuide-se bem, cara, se não quiser que eu mande meu cachorro pegar você.

— Você nem mesmo poderia atiçar este cachorro contra um crioulo com uma navalha em cada mão, Joe. E o que é que sua mulher pensa a respeito dessa viagem?

       Ele esticou o braço e afagou o pêlo de Cujo.

— Ela ainda não sabe que nós vamos. E nem precisa saber.

       — Não diga!

       — Ela também vai visitar a irmã que mora em Connecticut, com o bestalhão do marido. O Brett vai com ela. Vão ficar uma semana. Ela ganhou um prêmio na loteria. Acho que é me¬lhor contar logo isso para você. Até o rádio dá o resultado com os nomes dos ganhadores.

—   Ela ganhou mesmo um prêmio da loteria, Joe?

— Cinco mil dólares, Gary.

O outro soltou um assobio e isso fez Cujo levantar as orelhas.

Joe contou toda a conversa da noite anterior, sem mencionar a briga, para fazer parecer que haviam entrado num mútuo entendimento e que tudo fora idéia sua. O garoto iria com ela passar

lá uma semana e depois iria com ele no outono a Moosehead para a caçada, durante uma semana também.

—  E então você, seu sem-vergonha, vai também a Boston para ajudar a gastar o dinheiro! Você é mesmo de morte, Joe!

Disse isso dando-lhe uma forte palmada nas costas.

— E por que não? Você ainda lembra da última vez que tirei uma folga? Pois eu mesmo não me lembro mais. Tenho pouco serviço para esta semana. Eu tinha planejado passar toda a semana dando um jeito no motor do Richie, que precisa ser esmerilhado mas agora, com aquele guincho, isso não levará nem quatro horas. Vou dizer a ele para me levar a ceifeira amanhã e o serviço estará pronto à tarde. Também tenho um servicinho numa transmissão, mas isso é coisa rápida. É de uma professora da escola primária. Tenho ainda umas coisinhas que podem ser adiadas. Avisarei aos interessados que vou tirar umas férias.

— E o que é que você vai fazer lá na terra dos feijôes*?

— Talvez vá assistir ao jogo dos Doad Sox em Fenway. De¬pois dou um pulinho na Washington Street...

Gary soltou uma sonora gargalhada e deu uma palmada na perna.

— A zona de combate! Barra pesada, eu conheço! Vai assis¬tir àqueles shows nojentos e tentar pegar uma gonorréia.

— Não teria graça nenhuma se fosse .0...

— Bem, acho que poderia dar um jeito se você me adiantasse a grana até eu receber o meu cheque. Assim poderemos ir juntos.

—   Mas é claro que posso fazer isso.

Ele sabia que o amigo era um beberrão contumaz, mas era também um cara que levava as dívidas muito a sério.

O outro parecia perdido em reminiscências.

— Acho que já se passaram bem uns quatro anos que não sei o que é mulher. Deixei perdida lá na França uma grande parte de minha fábrica de esperma. O que sobrou funciona às vezes, mas há outras em que não funciona de forma alguma. Será divertido descobrir se me resta ainda alguma coisa..

     Joe estava agora sentado e sentia um zunido nos ouvidos.

         — É isso aí, meu chapa. Mas não se esqueça que temos também o jogo. Você sabe bem qual foi a última vez que estive em Fenway...

         — Não me lembro mais.

         — Pois foi em mil novecentos e sessenta e oito...

           Ele disse aquilo inclinando-se para a frente e batendo no braço do amigo a cada sílaba, para dar mais ênfase ao que dizia, e com isso ia cuspindo a bebida.

       —  Foi antes do Brett nascer. Aqueles pernas-de-pau jogaram contra o Tigers e perderam de seis a quatro. O Norm Cash marcou um lindo ponto.

       — E quando é que você pensa em partir?

       —  Segunda-feira à tarde, aí por volta das três. A mulher e o garoto vão nessa manhã, acho. Eu vou levar os dois até a rodoviária, em Portland. Aí eles pegam o Greyhound. Assim fico com o resto da manhã e parte da tarde livres para ultimar minhas coisas...

—   E você vai no carro ou no caminhão?

     — No carro, é claro.

             Os olhos de Gary ficaram sonhadores ali naquela escuridão. Logo sentou-se, muito empertigado.

             —Bebidas, jogo e mulheres... Para mim tudo isso é indiferente. Estou mesmo cagando para tudo isso.

—   Mas você quer mesmo ir, Gary?

—   Claro...

           Joe soltou um grito de alegria e os dois deram boas gargalhadas.Nenhum dos dois notou que Cujo levantara a cabeça e agora estava rosnando baixinho.

 

       O   dia seguinte amanheceu cinzento, com em denso nevoeiro, um nevoeiro tão forte que Brett nem mesmo conseguia ver o carvalho que estava ao lado de sua casa a uns 30 metros de distância. O pai e a mãe estavam dormindo, mas ele não tinha mais sono. Ia fazer uma viagem e todo o seu corpo vibrava com a perspectiva. Iria só com a mãe. Ele sabia que seria uma boa viagem já que, bem no fundo de seu consciente, ele se alegrava porque o pai não iria. Teria muito mais liberdade. Não precisaria se preocupar com aquela idéia de masculinidade que. fora alcançada pelo pai, mas que ele não conseguia compreender de forma alguma. Sentia-se feliz, incrivelmente feliz e incrivelmente cheio de vida. Sentia pena daqueles que não podiam .viajar numa linda manhã como aquela, ainda tão enevoada, mas que certamente seria muito quente logo que o sol dissipasse o nevoeiro. Ele queria ir sentado junto à janela do ônibus, para apreciar bem a paisagem durante todo o caminho até Stratford. Ele custara muito para adormecer, pensando na viagem, nas agora já ali estava o dia tão esperado. Eram cinco horas da manhã, mas não havia forças que o pren¬dessem na cama. Explodiria se ficasse lá.

Com muito cuidado para não fazer barulho ele enfiou o jeans e uma camiseta com o nome do Cougars do Castle Rock, meias brancas de atleta e sapatos de tênis. Desceu e preparou um chocolate. Fazia tudo para comer sem barulho, mas tinha a certeza de que quando mastigava o cereal o som era ouvido em toda a casa. Lá em cima ele ouvia os resmungos do pai, que dormia na cama de casal junto com a mulher. As suas molas rangiam. Brett levou um susto. Depois de um momento de dúvida, preparou mais um chocolate lá do lado de fora, na varanda, e fechou a porta com cuidado, sem bater.

Em meio ao denso nevoeiro, os cheiros típicos do verão fica¬vam mais acentuados e o calor já se fazia sentir. Lá ao longe, onde havia um bosque de pinheiros, onde terminavam os pastos, o sol já vinha nascendo. Ainda estava pequeno e prateado como se fosse a lua cheia, mas a umidade já se fazia sentir intensamente. O nevoei¬ro se dissiparia as oito ou nove horas, mas a umidade continuaria da mesma forma.

Agora, porém, tudo que ele via era um mundo misterioso e branco que o enchia de alegria. Sentia o cheiro forte do feno que estaria pronto para ser cortado dentro de uma semana, cheiro de esterco e das rosas de sua mãe. Ele chegava até mesmo a sentir o aroma da trepadeira de Gary, as madressilvas que marcavam o rumo das duas propriedades e que se espalhavam pela cerca.

Deixou do lado a vasilha com o cereal e foi até o galpão. No meio do caminho parou e olhou para trás, onde a casa já havia desaparecido, tragada pelo nevoeiro. Ele estava ali sozinho, tendo por companhia apenas o sol ainda fraco e prateado.

E foi aí que ouviu o rosnado.

Levou um tremendo susto e deu um passo atrás, com todos os músculos, retesados como se fossem cordas do piano. O seu primeiro pensamento foi igual ao de uma criança que de repente chega a um ponto da história onde aparece o lobo mau. Então, ele olhou em torno, apavorado. Não conseguia ver coisa alguma e então Cujo saiu de dentro do nevoeiro.

Brett começou a assobiar baixinho. Aquele era o cachorro que tinha crescido junto com ele, que o puxava pacientemente em sou carrinho no meio de gritos de alegria, quando ele tinha apenas cinco anos, com uns arreios feitos pelo pai na oficina, o cão que o espe¬rava pacientemente junto à caixa do correio até a chegada do ôni¬bus escolar com chuva ou com sol. No entanto, aquele cão que ali estava tinha muito pouco de parecido com o outro. Estava todo sujo e parecia um cão fantasma saindo de dentro da névoa densa. Os olhos grandes e tristes do São Bernardo estavam agora verme¬lhos, estúpidos e baixos. Mais pareciam os olhos de um porco. Seu pêlo estava todo coberto de uma lama esverdeada, como se ele houvesse rolado no gramado distante. Estava com o focinho arranhado e isso deixou Brett apavorado. Tinha a impressão de que o coração iria sair-lhe pela boca.

       Uma espuma grossa e branca escorria entre os dentes do cão.

       Ele chamou-o, baixinho:

       — Cujo... Cujinho...

 

O animal olhou para o GAROTO, mas já não o reconhecia mais. Não mais o seu cheiro, o seu rosto, a cor de suas roupas. Já não distinguia mais cores, pelo menos da forma como são vistas pelo ser humano. O que ele via ali era apenas um monstro de duas pernas. Ele era agora um cão doente e tudo lhe parecia monstruoso.Na sua cabeça ¬que estalava só pensava em matar. Pensava em morder, rasgar, dilacerar. Uma parte dele via uma imagem imprecisa, via-o saltando em cima do GAROTO, derrubando-o, estraçalhando-¬o, bebendo seu sangue ainda quente. Sentia-se levado a praticar tudo aquilo porque seu coração estava moribundo.Foi então que o vulto monstruoso falou e Cujo reconheceu a sua voz. Aquele que que ali estava era o GAROTO, o GAROTO que nunca lhe fizera mal. Houvera uma época em que amara o GAROTO e até mesmo seria capaz de morrer por ele, caso fosse necessário. Ainda havia nele um resto de sentimento, o suficiente para deter o pensamento e o desejo de matá-lo até o momento em que tudo ficasse tão turvo quanto aquele nevoeiro que os cercava agora. Já não pensava mais naquilo, mas sentia-se cada vez mais doente.

       — Cujo... o que é que está havendo com você meu amigo?

O    que ainda restava do cãoo que tinha sido antes de ser mor¬dido pelo morcego recuou e ele desapareceu no nevoeiro. A espu¬ma que lhe saía da boca escorria para o chão. Ele saiu correndo com dificuldade, na esperança de ultrapassar a doença, mas isso de nada lhe serviu, porque ela o acompanhou. Ele gania, sentindo todo o seu corpo doer com a raiva e a vontade de matar. Começou a rolar no gramado ao mesmo tempo que o mordia, os olhos congestionados.

O    mundo parecia-lhe, um mar louco de cheiros. Ele queria persegui-los para destruí-los a todos.

Começou a rosnar novamente. Afinal conseguiu fugir, embre¬nhando-se ainda mais no nevoeiro, que já começava a se dissipar.

Era um canzarrão que pesava pouco menos de 100 quilos.

 

Brett ficou ali na porta da oficina durante mais de 15 minutos após o cão haver desaparecido no nevoeiro, sem saber o que fazer. Sa¬bia que Cujo estava doente. Talvez houvesse comido um morcego envenenado ou coisa parecida. Ele sabia o que era a raiva. Se hou¬vesse encontrado uma marmota, uma raposa ou um porco-espinho com aqueles mesmos sintomas, logo perceberia que o animal estava danado; mas não podia sequer pensar que seu cachorro houvesse contraído aquela moléstia terrível, que afetava o cérebro e os cen¬tros nervosos. Estava mais inclinado a pensar em algum veneno engolido pelo cão.

Precisava avisar ao pai, que então chamaria o veterinário. Era até possível que seu próprio pai soubesse o que fazer, como acon¬tecera dois anos antes, quando arrancara do focinho de Cujo todas as cordas de um porco-espinho, sempre com cuidado para não que-brá-las, já que isso resultaria em inflamação. Claro. Precisava ir falar com o pai. Ele faria alguma coisa. Como já fizera antes no caso do porco-espinho.

Mas e a viagem?

Ele não precisara saber que sua mãe tinha conseguido a via¬gem por meio de um estratagema desesperado, e também devido à sorte, ou talvez a uma combinação das duas coisas. Como acontece com a maioria dos filhos, ele sabia que havia alguma coisa de errado no relacionamento dos pais, percebia mais ou menos as correntes emocionas entre os dois, de um dia para outro, da mesma forma que um guia experimentado conhece todos os contornos da corrente de um rio no interior do país. Fora difícil conseguir, mas embora o pai acabasse cedendo, ele sabia que isso fora um pouco contra a sua vontade. Só teria a certeza absoluta da viagem quando o pai os deixasse na rodoviária e voltasse para casa. Se lhe contasse sobre a doença de Cujo, o velho poderia se aproveitar do pretexto para retirar o seu consentimento e cancelar a viagem.

Ficou parado ali na porta da oficina sem saber o que fazer. Estava, pela primeira vez em sua vida, numa dúvida cruel, sem saber o que fazer. Depois de um instante de dúvida, começou a procurar o cachorro ali no barracão. Começou a chamá-lo baixinho. Seus pais ainda estavam dormindo e ele sabia bem como o som se pro¬pagava quando havia nevoeiro. Não conseguiu encontrá-lo em parte alguma... e isso foi a sua sorte.

 

O despertador acordou Víc quando faltavam 15 minutos para as cinco. Ele levantou-se e travou-o. Depois, ainda tonto de sono, foi para o banheiro maldizendo Roger, que nunca concordava em chegar ao aeroporto 20 minutos antes da chamada, como faziam todos os viajantes sensatos. Mas isso, porém, não acontecia com seu só¬cio. Ele pensava sempre na possibilidade de alguma contingência inesperada como, por exemplo, um pneu furado, uma estrada interrompida e até mesmo um terremoto. Ou até que viajantes espaciais ¬de outro planeta descessem na Rodovia 22. Tomou um banho de chuveiro, barbeou-se, engoliu as vitami¬nas e voltou ao quarto para se vestir. A grande cama de casal esta¬va vazia e ele suspirou baixinho. O fim de semana com Donna não tinha sido dos mais agradáveis.., aliás, ele poderia dizer com sinceridade que ele jamais desejaria um outro igual em toda a sua vida. Os dois haviam mantido as aparências, já que Tad estava ali, mas Vic sentia-se. como se estivesse representando uma comédia. Não lhe agradava ver como se comportavam os músculos do rosto quando sorria.

         Tinham dormido juntos na cama enorme que, naquela ocasião parecia pequena demais para ele. Haviam dormido cada um no seu lado, com uma espécie de terra de ninguém entre os dois. Na sexta e no sábado ele não conseguira dormir, já que, morbida¬mente, percebia todos os movimentos que Donna fazia. Percebia até mesmo o ruído da camisola esfregando-se no corpo da mulher. Ficara pensando se também ela estaria acordada no seu lado, com aquele vazio entre os dois.

       Na noite anterior, domingo, haviam tentado fazer alguma coisa a respeito e as relações sexuais tinham sido moderadamente satisfatórias, embora um tanto indecisas, já que nenhum dos dois havia chorado depois de tudo acabado. Ima¬ginara, um tanto morbidamente, que isso aconteceria com um deles. Não tinha certeza de que aquilo pudesse se chamar “fazer amor”.

Vestiu um terno cinza de verão, quase da mesma cor que es¬tava a luz da manhã lá fora, e apanhou as duas malas. Uma delas era mais pesada que a outra, já que me ali onde se encontrava tudo que dizia respeito aos negócios com a Sharp. Todos os Iayouts estavam com Roger.

Donna estava na cozinha fazendo waffles e o bule do chá estava no fogo, quase no ponto certo. Estava enfiada num roupão velho, azul, que era dele. Via-se em seu rosto que não tinha aproveitado muito o sono e isso poderia ser devido ao seu inconsciente perturbado.

 

— Será que os aviões estão decolando com um nevoeiro as¬sim? — perguntou ela.

—   Isso passa já O sol já vem saindo. Ele apontou para a janela e depois beijou-a de leve no pescoço. — Você não precí¬sava ter levantado assim tão cedo...

Ela abriu a tampa do tostador e tirou um waffle, que colocou no prato com agilidade.

— Não faz mal. Seria tão bom se você não tivesse que fazer esta viagem agora, Vic... depois do que houve ontem à noite...

— Não foi tão ruim assim. Você não acha?

— Mas não foi como antes disse ela, um sorriso amargo, quase escondido, passando ligeiramente por seus lábios, mas logo desaparecendo. Ela bateu novamente a massa e colocou um outro waffle no aparelho. Ouviu-se um chiado quando ela virou água fervendo em cima de duas xícaras, uma gravada Vic e a outra DONNA.

Coma o seu waffle. Tem geléia do morango, se você quiser...

Ele foi buscar a geléia e sentou-se. Passou a geléia no waffle e ficou olhando enquanto ela se entranhava nos quadradinhos igualzinho ao que fazia quando era menino. Gostava daquela mar¬ca de geléias o usou-a em grande quantidade. Tudo parecia estar muito bom, mas Vic não estava com fome.

             — Você vai para a cama com alguém em Boston ou em Nova York? Assim ficaremos   empatatados. — Donna dava-lhe as costas ao mesmo tampo que falava.

           Ele levou um susto. Parecia ter corado. Achou bom que Donna estivesse de costas, porque assim ela não podia ver que ele não gostara da piada. Realmente, pensara em dar uma gorjeta bem maior ao homem da portaria do hotel para depois lhe fazer algu¬mas perguntas. Sabia que era costume de Roger fazer isso.

     — Não vou ter tempo para essas coisas, Donna. Vou andar muito ocupado o tempo todo.

           — Como é mesmo que diz aquele cartaz? Sempre há tempo para tudo..

           — Será que você está querendo me ver zangado, Donna? O que há com você?

          — Nada disso, Vic. Trate de tomar o seu chá. Á máquina precisa ¬de combustível.

           Ela sentou-se diante de seu waffle. Nada de geléia. Apenas uma calda de Vermont e nada mais. Ele olhava-a ao mesmo tempo eu que pensava como os dois se conheciam bem.

—   Qual foi a hora que você marcou com o Roger?

—   Depois de algumas discussões concordamos que seria às seis.

             Ela tornou a sorrir, mas dessa vez foi um sorriso carinhoso.

             — Ele não desiste de sua velha mania de fazer tudo mais cedo do é que é necessário, não é mesmo?

           — Se é! Só estou admirado dele ainda não ter telefonado para saber se já estou de pé.

           O telefone tocou.

           Os dois se olharam por um momento e, logo depois, caíram na risada.Aquele foi um momento precioso. Sem dúvida alguma muito mais precioso do que o ato de amor da noite. Ele admirou os belos olhos da mulher e viu como brilhavam. Eram cinzentos como o nevoeiro lá de fora.

         Atenda depressa para não acordar o Tad Vic... Era Roger mesmo. Vic garantiu-lhe que estava acordado, vestido e com uma bela disposição para a luta. Iria pega¬-lo as seis ficou pensando se contaria ao sócio o “caso” de Donna com Steve. Provavelmente não contaria. Não porque temesse ser ruim o conselho dele. Sabia que não seria. Sabia também que apesar de sua promessa de nada contar a Althea, ele certamente faria isso. E aí ele tinha também a certeza de que Althea não guardaria segredo a respeito de uma fofoca tão boa junto a sua rodinha de bridge. Só de pensar em tudo isso ele sentiu-se nova¬mente muito deprimido. Era como se os dois, Donna e ele, ao invés do resolverem o problema sozinhos, estivessem enterrando seus cor¬pos ao clarão da lua.

—   Sempre o mesmo Roger...

Ele tornou a sentar-se e tentou um sorriso que, já então, não parecia sincero. Já tinha passado o momento da espontaneidade.

—   Você acha que toda a sua bagagem e a do Roger vão caber no seu Jaguar?

—   Claro. Vão ter que caber. A Althea precisa do carro deles e... Puxa vida! Que diabo! Não é que me esqueci do falar com o Joe a respeito de seu Ford, Donna?

—   Você tinha muitas coisas mais importantes em que pensar, Vic. Havia uma certa ironia em sua voz. — Não faz mal. Eu não levo o Tad para o acampamento hoje. Ele está meio resfriado. Será melhor que fique em casa este resto de verão, desde que você concorde: Sempre me meto em encrencas quando fico só.

As lágrimas lhe abafavam a voz e ele estava ali sem saber o que dizer ou fazer. Ficou somente olhando enquanto ela pegava num lenço de papel para enxugar os olhos e assoar o nariz.

Vic sentia-se abalado.

—   Faça como achar melhor, Donna. Telefone para o Joe. Elo está sempre em casa e tenho certeza de que dará um jeito em seu carro em menos de vinte minutos. Até mesmo se tiver que trocar o carburador.

—   Você vai pensar em tudo enquanto estiver fora? Pensar no que vamos fazer? No que vamos resolver sobre nossas vidas?

—   Claro.

—   Muito bem. Eu também pensarei, Vic. Quer mais um waffle?

—   Não, obrigado, Donna.

Aquela conversa já estava se tornando surrealista. Ele sentia ímpetos de sair e ir embora. A viagem agora já lhe parecia neces¬sária e importante. Ficaria longe de toda aquela trapalhada. Haveria uma distância enorme entre ele e toda aquela confusão. Agora só pensava na viagem a via, com antecipação, o poderoso jato pene¬trando no nevoeiro e chegando lá em cima, onde tudo era azul.

—   Posso comer um waffle?

             Os dois assustaram-se e olharam para trás. Tad estava de pé no corredor, enfiado em seu pijama amarelo muito folgado e com o urso de veludo nos braços. Trazia ainda nos ombros o cobertor vermelho. Parecia um indiozinho sonolento.

—   Vou já fazer um para você, meu filho.

Donna ainda estava espantada, porque o filho não era muito de sair da cama cedo.

—   Você acordou com a campainha do telefone, Tad?

Ele sacudiu a cabeça.

—   Acordei cedo porque queria dizer adeus pra você, papai. Será que precisa mesmo ir?

—   Não vou demorar muito, Tad.

             —   Acho que vai sim. Eu fiz uma roda na minha folhinha no dia que você vai voltar. Foi a mamãe quem me ensinou. Eu vou ficar contando os dias e marcando eles direitinho. Mamãe prometeu ler as Palavras Para os Monstros todas as noites.

—   Pois é... Assim será bom, você não acha?

—   E você vai telefonar?

—   Não todas as noites, Tad. Uma sim e uma não...

     — Quero que seja todas as noites, papai... Todas as noites. Sim?

     Ele insistia saltando no colo d eVic, sem largar o urso, apa¬nhando pedacinhos de waffle.

           Vic pensava no tremendo programa que Roger traçara na sex¬ta-feira, antes dele ter recebido o bilhete de Steve.

—   Não posso telefonar todas as noites, Tad...

—   Por que é que você não pode, papai?

             —    Porque o seu Tio Roger é muito duro, Tad. Trate de comer seu wafIe. Largue esse urso. Amanhã o papai vai telefonar de Boston, contando tudo que aconteceu.

     — Você vai me trazer algum brinquedo, papai?

O lugar dele na mesa tinha um plástico com o seu nome.

       — Só trago se você se comportar bem. Vou telefonar amanhã para você ficar sabendo que cheguei inteirinho em Boston.

       — Está bem. t

       Vic olhava-o fascinado, vendo-o derramar um pequeno oceano de calda em seu waffle.

           — Que brinquedo você vai me trazer papai?

   —Vou pensar nisso Tad.

           Ele ficou ali vendo o filho comer e então, de repente, lembrou-se de que era louco por ovos.Gostava de ovos de todas as maneiras possíveis e imagináveis.

— Tad...

— O que é, papai?

— Se você quisesse que alguém lhe desse ovos, o que é que você diria?

— Eu diria que gosto muito de ovos — disse Tad, após al¬guns momentos de hesitação.

Os olhos de Donna e Vic se cruzaram novamente e eles tive¬ram um segundo momento semelhante àquele em que o telefone to¬cara. Mas, dessa vez, o riso dos dois foi apenas telepático.

As despedidas foram apenas formais. O único que chorou foi Tad, devido ao imperfeito conhecimento que tinha de como o tempo era curto.

Quando Vic entrava no carro, Donna tornou a perguntar-lhe se iria pensar bem a respeito de tudo que acontecera.

— Claro que vou, Donna.

Enquanto dirigia para ir buscar Roger em Bridgton, tudo em que ele realmente pensava era naqueles dois momentos de comple¬ta e perfeita comunicação. Dois deles numa só manhã não era coisa de se desprezar. Tudo de que precisavam eram oito ou nove anos juntos, quase uma quarta parte da idade de ambos. Ia pensando como eram ridículos todos os conceitos de comunicação da huma¬nidade e os tremendos esforços necessários para se conseguir algu¬ma coisa. Nos casos de sucesso toda cautela era pouca. Claro que ele iria pensar. Era preciso que tudo voltasse à calma e felicidade anterior, embora alguns dos canais estavam obstruídos com lama e esterco, em quantidade que só Deus poderia avaliar. E uma parte de toda a porcaria ainda estava fervilhante. Havia ainda muitos outros canais que continuavam abertos e em bom estado de fun¬cionamento.

Era preciso pensar bem, com muito cuidado e sem exageros. As coisas, às vezes, pareciam maiores do que eram na realidade.

Ligou o rádio do carro e começou a pensar no pobre Profes¬sor dos Cereais Sharp.

 

Faltavam 10 minutos para as oito quando Joe encostou o carro no terminal da rodoviária, em Portland. O nevoeiro já se havia dissipado e o relógio digital do Casco Bank marcava 23 graus.

Ele dirigia com o chapéu plantado na cabeça e sempre pronto para brigar com qualquer um que o contrariasse. Detestava dirigir na cidade. Quando chegasse a Boston, com Gary, sua intenção era deixar o carro numa garagem até o dia da volta para casa. Pode¬riam usar o metrô, se conseguissem destrinchar as direções, ou então andariam a pé.

Charity estava enfiada nas melhores calças que possuía, de um verde bem discreto, e numa blusa de algodão branco com gola pregueada. Estava com brincos e isso deixara Brett deslumbrado. Só via a mãe usá-los quando ia à igreja.

Ele conseguira falar com ela a sós na hora em que subira para se vestir, após. ter sorvido o café da manhã para o marido. Joe fa¬lara pouco a maior parte do tempo, apenas rosnando respostas monossilábicas para as perguntas que Charity lhe fazia, mas logo pusera um fim a qualquer espécie de conversa, ligando o rádio para ouvir o resultado dos jogos. Ambos sentiam medo, imaginando que o silêncio pudesse, de alguma forma, pressagiar alguma explosão que arruinasse a viagem.

Charity já vestira as calças quando Brett reparou que ela es¬tava com um sutiã creme. Isso também deixou-o espantado. Todas as roupas intimas que vira de sua mãe, até então, eram sempre brancas.

—Mamãe... — O tom de sua voz demonstrava uma certa urgência.

Ela voltou-se para ele, que, por um momento, teve a impressão de que a sua presença ali não agradava à mãe.

— Ele falou alguma coisa com você, Brett?

— Não,... não. Ë o Cujo...

— O Cujo? E o que é que há com ele?

— Ele está doente.

       — O que é que você quer dizer com isso? Doente como?

       Brett contou-lhe tudo que havia acontecido desde que se levantara cedo e de como o cachorro lhe aparecera, de repente, com os olhos muito vermelhos e babando uma espuma branca.

       — Ele também não estava andando direito, mamãe. Até pa¬recia tonto.Sabe como é? Você acha que devo falar com o pai?

Ela agarrou-lhe o braço com violência, com tanta força que chegava a doer-lhe.

—   Não, Brett! Nem pense nisso!

Ele olhou-a, surpreso e apavorado. Ela largou-o e continuou falando, mais calma:

—   Ele apenas meteu medo em você porque saiu de repente do meio do nevoeiro. É bem provável que não seja nada sério, não acha?

O    menino ficou procurando palavras que a fizessem compre¬ender bem a situação, mas nada encontrava. Era até bem possível que não desejasse encontrá-las.

—   Se houver alguma coisa errada, Brett, não deve .ser nada grave. É provável que ele tenha pegado um gambá...

—   Não era cheiro de gambá, mamãe.

—   Ou então qualquer outro bicho que tenha perseguido. Pode até mesmo ter sido um veado... Também pode ter comido algu¬ma coisa que lhe fez mal.

— É mesmo. Pode ser que tenha sido isso.

       — Seu pai logo se aproveitaria de uma coisa assim, Brett.

Posso até mesmo ouvir suas palavras. “Doente, hem? Pois então cuide dele, já que é o seu dono. Tenho mais o que fazer além do perder meu tempo com o que é seu.”

Brett sacudiu a cabeça com ar muito triste. Aquilo era exata¬mente o que pensara na hora do café, quando o rádio berrava de ensurdecer lá na cozinha.

—   Se você deixá-lo para lá, ele logo virá procurar seu pai, que então tomará as providências necessárias. Ele adora aquele ca¬chorro quase tanto como você, embora nunca chegue a confessar isso. Se notar alguma coisa errada no Cujo, ele logo o levará ao veterinário.

—   É sim... acho que ele fará isso...

As palavras da mãe pareciam sensatas, mas ele ainda se sentia inquieto.

Ela abaixou-se e beijou-o no rosto.

—   Pode ficar tranqüilo, meu filho. Já sei o que fazer. Vou telefonar para seu pai hoje à noite. O que é que acha? E quando falar com ele você lhe perguntará, assim como se fosse um pensamento casual, se ele tem dado a comida ao Cujo. Assim você logo terá notícias dele. Não acha que será uma boa solução?

—   É bem boa sim, mamãe.

       Ele sorriu para ela, agradecido, e Charity retribuiu-lhe a gen¬tileza, já aliviada ao ver que o perigo passara. Aquilo, contudo, de uma forma um tanto perversa, só serviu para provocar-lhes uma nova preocupação durante o espaço de tempo, que lhes pareceu in-terminável, até a hora em que Joe encostou o carro para pegar as quatro malas, sem dizer uma palavra, e colocá-las no carro. Dentro de uma delas Charity havia enfiado, sub-repticiamente, seus álbuns de fotografias. E essa nova preocupação era que Cujo repentinamente aparecesse ali, antes de partirem, criando um novo problema para .Joe.

       Isso, porém, não tinha acontecido.

       Joe já estava com a janela dos fundos abaixada e já dera as duas malas mais leves ao filho, enquanto ele se encarregava das mais pesadas.

       — Puxa vida, mulher! Você tem tanta bagagem que até pa¬rece que está fazendo uma viagem para Reno, a fim de conseguir um divórcio, ao invés de um simples passeio até Stratford.

       Charity e Brett sorriram, amedrontados. Aquilo parecia uma tentativa de piada, mas em se tratando de Joe tudo era possível.

         — Isso até que seria bom...

         Ele não achou graça e seu chapéu continuava atirado para trás.

         — E, então, se isso acontecesse, eu teria que ir lá para trazê-la do volta atrelada ao meu guincho novo. Olhe lá, meu rapaz, tome conta de sua mãe!

          Brett apenas sacudiu a cabeça. O pai olhou-o de alto a baixo.

— Tome conta mesmo. Você já está bem crescido. Será que não vai dar um beijo em seu velho?

— Claro que vou, papai.

         Joe deu-lhe um abraço bem apertado e beijou-lhe o rosto com a barba por fazer e cheirando a azedo, recordação da bebedeira da noite anterior.

Brett ficou surpreso e satisfeito ao descobrir como gostava do pai, um sentimento que sempre lhe ocorria quando menos se esperava e que se tornara mais raro nos últimos dois ou três anos. Sua mãe não sabia disso nem jamais acreditaria se alguém lhe contasse. Aquele era um amor que nada tinha a ver com o comportamento diário do pai em relação a ele ou à mãe. Era uma coisa rude e biológica, da qual jamais se livraria, um fenômeno com muitas ilusões da espécie que nos persegue a vida inteira e que pode ser o cheiro de um cigarro, o aspecto de uma gilete refletida num espelho, de calças penduradas numa cadeira e de certos pa¬lavrões.

O pai abraçou-o também e depois virou-se para Charity. Co¬locou um dedo embaixo de seu queixo e levantou-lhe o rosto. Vindo lá dos fundos do pátio de tijolos, eles ouviam o ruído de um motor de caminhão esquentando para arrancar. Pelo ruído era fácil saber que se tratava de um diesel.

 

     — Divirta-se bem...

Os olhos dele encheram.se de lágrimas, logo secas num gesto que dava a impressão de raiva.

—   Está bem.

Logo a seguir, de forma abrupta, o rosto dele voltou a assumir aquela sua expressão apagada o rude. Aquilo desceu com um estalo, como se fosse a viseira de uma armadura dos antigos cavaleiros. Ele voltava a ser novamente a perfeita figura do roceiro rude.

—   Vamos lá, rapaz, trato de colocar essas malas no carro. Estão pesadas como se tivessem chumbo! Que Deus nos ajude!

Joe ficou com eles até que todas as malas fossem despacha¬das, conferindo bem as etiquetas e sem dar a menor atenção ao olhar condescendente e divertido do carregador. Viu quando ele colocou as malas num carrinho e quando ela foram engolidas pelo ônibus. Depois, voltou-se novamente para o filho.

—   Sala dai e venha comigo. — ordenou.

 

Charity ficou olhando os dois afastarem-se e sentou-se nos bancos duros da rodoviária, abriu a boba, tirou de lá um lenço e ficou torcendo-o nervosamente. Joe era bem capaz de tentar convencer o menino a ficar em casa com ele.

Quando chegaram do outro lado na calçada, Joe virou-se para o filho e falou, muito sério.

       — Só quero dar dois conselhos a você, meu filho. É bem provável que não siga nenhum deles. É o que fazem quase todos os rapazes. Mas acho que nenhum pai jamais deixou de dá-los por isso. O primeiro, é que esse cara que você vai conhecer, esse tal de Jim, é uma bosta completa. Uma das razões para eu permitir essa sua viagem é que você já está com dez anos e isso é idade bastante para saber a diferença que há entre uma bosta e uma rosa-chá. Observe-o bem e verá. Ele nada mais faz, a não ser ficar sen¬tado no escritório assinando papéis. A metade dos problemas do mundo se deve a uma espécie de gente. As mãos desses caras estão completamente desligadas de seus cérebros. Ele não passa de um bosta, Brett Observe-o bem para depois me dizer se estou ou não com a razão.

Quando acabou de falar, Brett notou que o rosto do pai estava muito vermelho.

—   Está bom, papai. — A voz de Brett era calma e baixa.

O velho esboçou um sorriso.

       O segundo conselho, Brett, é que você deve zelar pelo seu bolso.

       —Mas eu não tenho nenhum di....

Joe deu-lhe uma nota de cinco, já bem amarrotada.

—Eu sei, eu sei, mas aqui está. Não gaste tudo de uma só vez. O tolo e o dinheiro são coisas que nunca ficam juntas. Logo se separam.

—   Está bem, papai. Obrigado.

—   Até a volta, Brett.

Ele não exigiu um segundo beijo.

—   Adeus, papai.

Brett ficou ali de pé na calçada, vendo o pai entrar no carro e partir. Não tomou a vê-lo vivo.

 

Naquela mesma manhã, às 8:15, Gary saiu de casa cambaleando, com suas cuecas manchadas de urina, e veio dar a sua mijada de costume na cerca de madressilvas. Era com uma certa perversidade que ele esperava o dia em que a sua urina estivesse tão carregada de álcool que chegasse a liquidar a trepadeira. Esse dia, porém, ainda não chegara.

Ele soltou um grito de dor, segurando a cabeça com uma das mãos, enquanto com a outra ia regando a trepadeira que lhe engolira a cerca. Seus olhos estavam muito vermelhos. Sentia-se grandemente aliviado como se fosse uma bomba velha que, ultimamen¬te, vinha bombeando mais ar do que água. Quando acabou de se aliviar, ele sentiu-se tomado de terríveis dores de estômago. Aquilo, ultimamente, vinha-se tornando muito freqüente e quando ele se dobrou, fez com que uma grande flatulência saísse por entre as suas pernas magras, exalando terrível mau cheiro.

Ele virou-se, com a intenção de voltar para casa, quando ou¬viu o primeiro rosnado. Era um som cheio e baixo que vinha lá de longe do ponto onde o seu quintal lateral encontrava o campo de feno.

Ele voltou-se rapidamente para a direção de onde vinha o ros¬nado e já não pensava mais em todos os seus males. Já se passara muito tempo desde a última vez que se lembrara da guerra na França, mas aquilo ali estava agora. Sentiu, de repente, que seu espírito gritava: São os alemães! São os alemães! Esquadrão! Deitar!

Só que não eram os alemães. Quando o capim se abriu, quem surgiu ali foi Cujo.

—   O que é isso, rapaz! Por que é que está rosnando?

De repente, porém, ele parou, estarrecido. Já fazia uns 20 anos desde a última vez em que vira um cão danado, mas ainda se lembrava como era. Ele estava voltando de Machias, onde esti¬vera acampado. Estava montado numa moto Indian que possuíra nos idos de 30. De repente, como se fosse um fantasma, aparecera-lhe um cachorro amarelado que mal podia respirar e com uma espuma branca escorrendo-lhe da boca. Os olhos eram alucinados o seu corpo estava todo sujo. Vinha cambaleando como se algum malvado houvesse aberto sua boca horas antes, para despejar nela uma grande quantidade de uísque barato.

O cara que tomava conta da bomba de gasolina percebeu logo o que havia. Largou a ferramenta que tinha na mão e correu para dentro do escritório, de onde voltou com uma carabina em sua mãos sujas de graxa. Foi até o asfalto, ajoelhou-se e começou a atirar. O primeiro tiro atingiu apenas a perna do animal que logo começou a sangrar. Gary lembrava-se,enquanto estava ali olhan¬do para Cujo, que o cachorro amarelo nem mesmo se movera. Fi¬cara ali olhando vagamente como se não compreendesse o que es¬tava acontecendo. O segundo tiro quase cortou o animal pelo meio. As suas entranhas se espalharam, chegando a sujar a única bomba que havia no posto. Logo depois, três outros caras armados apa¬receram num Dodge. Saltaram todos e foram logo disparando mais uns oito ou novo tiros no animal já morto. Uma hora depois, quan¬do o rapaz da bomba estava acabando de colocar um vidro novo no farol da moto, Gary vira chegar num Studebaker, sem porta do lado direito, a encarregada do departamento de cachorros do mu¬nicípio. Ela enfiou umas luvas de borracha o cortou fora à cabeça do animal, que seria enviada à repartição competente.

Cujo parecia-lhe muito mais bem disposto do que aquele po¬bre cão amarelo de muitos anos atrás, mas todos os outros sinto¬mas eram os mesmos. Ele percebeu logo que o animal ainda não

estava em seu ultimo estágio, mas, por isso mesmo, era mais peri¬goso. Viu logo que era a hora de ir buscar sua espingarda.

Começou a andar de costas.

—   Oi, Cujo. ... fique aí bonitinho .......

O cão parou na beira do gramado com a cabeça baixa, os olhos vermelhos e vidrados, sempre rosnando.

—   Garotinho bom...

 

Para o cachorro, as palavras ditas pelo HOMEM não significavam coisa alguma. Eram apenas sons sem sentido, como se fossem o vento. O que contava era o cheiro que percebia nele. Era quente, ruim e pungente. Era o cheiro do medo. Era de enlouquecer e era insuportável. E ele compreendeu, de repente. Fora o HOMEM que o tor¬nara doente. Avançou para ele e o rosnado que lhe escapava do peito se transformava num tremendo rugido de raiva, cada vez maior.

 

Gary viu quando o cão precipitava-se para ele e então voltou-se e correu. Ele sabia que um simples arranhão ou uma pequena denta¬da significaria a morte. Correu para a varanda e para a segurança da casa. Só que houvera muita bebida, muitos longos dias de inver¬no passados ao lado do fogo e muitas longas noites de verão sen¬tado na cadeira de vime sobre o gramado, e ele ouvia e cão se aproximar cada vez mais até aquela simples fração de segundo em que nada ouvia; e então sabia que ele saltara para pegá-lo.

No momento exato em que ele chegava ao primeiro degrau da escada já bem estragado pelo tempo, 100 quilos de São Bernardo caíram-lhe em cima, como se fosse uma locomotiva, atirando-o ao chão e tirando-lhe o fôlego. O animal procurava mordê-lo no pescoço, enquanto Gary se esforçava para levantar-se, mas o bicho já estava em cima dele, com o pelo da barriga quase sufocando-o e atirando-o novamente ao chão com facilidade. Gary soltou um tremendo grito.

       Cujo mordeu-o no ombro com força, puxando-lhe os tendões como se fossem fios de arame e sem parar de rosnar. O sangue começara ¬a escorrer e Gary sentia-o quente, descendo pelo braço magro. Ele ¬voltou-se e começou a bater no animal com es mãos fechadas, Cujo parou um pouco e Gary conseguiu subir mais três degraus, já de gatinhas     mas o animal voltou à carga.

         Gary agrediu-o a pontapés, mas o cão voltou a atacá-lo pelo outro lado, mordendo e rosnando, enquanto a espuma continuava a escorrer-lhe da boca, fazendo com que Gary sentisse o hálito que cheirava a coisa podre, rançosa e amarela. Com o punho direito, ele conseguiu acertar um soco na mandíbula inferior, num verda¬deiro golpe de sorte. Sentiu o reflexo do impacto no ombro que fora mordido antes.

         O animal recuou mais uma vez.

         Gary olhou para ele, enquanto seu peito magro arquejava. O seu rosto tinha agora a cor de cinzas. A ferida do ombro continua¬va a jorrar sangue, que se espalhava nos degraus.

         —Venha logo, seu animal nojento. Ataque-me outra vez que eu estou cagando para isso.Você está me ouvindo? Eu estou cagando pra você.

Essa última parte foi dita em altos brados, mas o animal recuou mais um pouco.

 

As palavras já não faziam mais sentido, mas Cujo sentia que no cheiro do HOMEM já não havia mais medo. Ele já estava indeciso se continuaria ou não a atacar. Sentia dores terríveis e o mundo era para ele um amontoado de loucura, sentimento e impressão...

 

Gary levantou-se com dificuldade, mal conseguindo manter-se em pé. Subiu de costas os dois últimos degraus e atravessou a varanda, sempre de costas, procurando encontrar a maçaneta da porta. O ombro queimava como se alguém houvesse derramado gasolina por baixo da pele. O seu espírito clamava para ele. Á hidrofobia! Estou hidrófobo! Estou contaminado!

       Já não se importava mais com aquilo. Uma coisa de cada vez. A sua espingarda de caça estava ali no closet. Graças a Deus Cha¬rity e Brett Camber já não estavam mais em casa, lá na colina. Aquilo era obra de Deus.

       Conseguiu, afinal, abrir a porta. Não perdeu o animal de vista até conseguir entrar e fechar a porta telada. Sentiu então um tre¬mendo alívio, mas ainda tinha as pernas bambas. Durante um momento ele percebeu que ia desmaiar, mas reagiu pondo a língua para fora e mordendo-a com força. Aquela não era hora para des¬maios com se fosse uma garota. Poderia desmaiar depois que o cão estivesse morto. Por Deus que ele estivera bem perto do fim. Chegara a pensar que era a sua hora.

Voltou-se e caminhou na direção do closet e foi ai que Cujo se atirou de encontro à tela da porta, arrombando-a, os dentes arre¬ganhados como se estivesse rindo e latindo sem cessar.

Gary tornou a gritar e virou-se bem a tempo de se abraçar com o animal, quando ele saltou, e de levá-lo de volta para fora, balançando-se nas pernas como se estivessem dançando. Afinal não se agüentou e caiu, já que era muito mais leve que o cão. Percebeu vagamente como o seu focinho estava quase quente e seco, com um cheiro nauseante. Tentava levantar os braços com a idéia de meter os dedos nos olhos do cão, mas o animal foi mais rápido o agarrou-o pelo pescoço, rasgando-o de alto a baixo. Gary soltou um berro de agonia e o cão atirou-se novamente sobre ele. O coi¬tado sentia o sangue cobrir-lhe o rosto e ficou apavorado. Deus do céu! É o meu sangue.

Continuava a socar o corpo do animal, sem que isso significasse coisa alguma para os 100 quilos de Cujo. Afinal, deixou cair os braços.

No deplorável estado em que se encontrava, ainda assim sentia ao longe o cheiro das madressilvas.

 

—   O que é que você está vendo lá?

Brett voltou-se ao ouvir a voz da mãe. Durante toda a viagem ele não queria perder nada do que se via lá fora, nem mesmo du¬rante um curto instante. Já fazia quase uma hora que estavam viajando. Já haviam atravessado a Million Dollar Bridge para entra¬rem em South Portland (lá do alto Brett olhava para dois cargueiros muito sujos que estavam na baía), entrando na pista de alta velocidade para o sul e agora já se aproximavam da fronteira do New Hampshire.

       —   Estou vendo tudo, mamãe. E você? O que é que está vendo? Ele respondeu em pensamento que via o reflexo dele no vidro janela, um tanto apagado. Era aquilo que ela estava vendo.

       Em vez disso, falou:

—   Ora essa, Brett Acho que estou vendo o mundo. Vejo o que se desdobra bem aí na nossa frente...

       — Sabe de uma coisa, mamãe? O que eu queria mesmo era continuar neste ônibus até a Califórnia, só para ver todas aquelas coisas que estão nos livros da escola. Nos livros de geografia.

Ela achou graça e passou-lhe a mão pelos cabelos.

— Você iria ficar bem chateado com tanta paisagem, meu filho.

— Nada disso. Não ia mesmo!

Ele provavelmente não ficaria mesmo, ela pensou, e então, de repente, sentiu-se triste e velha. Quando telefonara para a irmã, na manhã de sábado, para saber se podiam ir, Holly tinha-se mostrado encantada e a reação da irmã servira para fazer com que Charity rejuvenescesse. Achava estranho que a satisfação do filho, que quase tocava as raias de uma euforia palpável, fizesse com que ela se sentisse velha. Mesmo assim...

Perguntava a si mesma o que tudo aquilo significaria para o filho, no final das contas. Olhava o seu rosto, que lhe dava a impressão de um fantasma visto no reflexo do vidro e superposto à paisagem como se fosse um truque de fotografia. Ele era um garoto vivo, esperto e inteligente, bem mais inteligente que o pai ou ela mesmo. Queria que entrasse para uma universidade mas sabia que, no momento em que terminasse. o ginásio, logo, logo o obrigaria a matricular-se num curso de mecânica, a fim de poder ajudá-lo na oficina. Dez anos antes ele não poderia fazer isso, já que os orien¬tadores oficiais jamais permitiriam que um rapaz com o potencial de Brett optasse por aquela espécie de curso, mas os tempos agora eram outros e a idéia corrente era que cada qual podia fazer o que bem entendesse. Isso deixava-a apavorada.

Em certa ocasião ela conseguira convencer-se de que o ginásio ainda estava longo, muito longe e que a escola primária era uma simples brincadeira para um rapaz com os dotes do filho. Era no ginásio que se começava a tratar da questão das escolhas irrevogá¬veis. As portas se fechavam com diques imperceptíveis, apenas eram ouvidos nos sonhos dos anos posteriores.

Ela cruzou os braços e sentiu um arrepio, que nem mesmo pretendeu justificar como sendo devido ao ar-condicionado do ôni¬bus num ponto muito alto.

Para Brett, no entanto, o ginásio estava apenas a quatro anos de distância.

Ela tornou a sentir o mesmo arrepio e, de repente, viu-se desejando amargamente que não houvesse tirado o prêmio da loteria e até mesmo que houvesse perdido o bilhete.

Fazia apenas uma hora que estava separada do marido e aquela, na verdade, era a primeira separação para ambos desde a data do casamento, em 1966, até aquele dia. Jamais imaginara que tal perspectiva fosso tão repentina, tão estonteante e tão amarga. Ficava imaginando que aquilo era uma aventura da mulher que escapava com o filho de um castelo triste.., mas ainda não esta¬vam completamente livres. Havia ainda uma pedra no caminho. Presos nas costas de ambos estavam enormes ganchos grandes e enfiados neles havia fortes elásticos invisíveis. Antes que conseguis¬sem ir muito longe, logo seriam puxados de volta ao castelo, onde passariam os próximos 14 anos.

Ela  deixou escapar da garganta uma espécie do pigarro. Disse alguma coisa, mamãe?

—   Não. Foi só um pigarro, Brett.

       Sentiu o arrepio pela terceira vez, só que agora os seus braços estavam gelados. Acabava de lembrar~se de um verso num de seus livros escolares de poesia nas aulas de inglês (nessa ocasião ela desejara entrar para a universidade, mas seu pai ficara furioso com a idéia. —“Então ela estava pensando que eles eram ricos?”. — E a sua mãe , por sua vez, achara graça na sua pretensão, gentil e piedosamente). O verso era de um poema de Dylan Thomas, mas Charity não conseguia lembrar do poema inteiro. Lembrava-se apenas que se tratava dc alguma coisa girando em tomo da perdição do amor.

Aquele verso a deixara perplexa na época, mas agora já acha¬va que estava em condições de compreendê-lo bem. E o que mas poderiam ser aqueles elásticos invisíveis a não ser mesmo o amor? Iria ela agora tentar enganar-se, afirmando que, nem mesmo agora, e de forma alguma, amava o homem com quem se casara? Iria ela afirmar que só continuava com ele por causa de um sentido ¬de dever ou por causa do filho? Mas aquilo chegava a ter uma graça amarga. Ela só o abandonaria se isso resultasse em algum proveito para o filho. Alegaria que ele jamais lhe dera prazer na cama? Que ele jamais demonstrara um curto momento de ternura, nem mesmo nos momentos mais inesperados, como acontecera na rodoviária?

         E no entanto... apesar de tudo...

 

Brett continuava a olhar pela janela, completamente deslum¬brado. Foi sem mesmo voltar o rosto que ele perguntou se ela achava que o Cujo não tinha mesmo nada sério. E a resposta veio com um ar ausente.

—   Mas é claro, Brett. Tenho certeza de que não há nada sério com o Cujo....

Pela primeira vez ela via-se pensando no divórcio de uma forma concreta. O que poderia ela fazer para o sustento seu e do filho? Como se comportariam os dois numa tal situação difícil de ser imaginada? Se os dois não voltassem para casa, seria possível que o marido fosse busca-los? Faria ele aquilo que prometera va¬gamente na rodoviária? Resolveria ele deixa-la lá, usando apenas de todos os meios para recuperar o filho? Meios legais ou não?

Começou a pensar nas várias possibilidades, pesando bem os prós e os contras e pensando, de repente, que a perspectiva não era realmente tão má assim. Talvez fosse doloroso, mas também poderia ser até útil.

O ônibus atravessou a fronteira e entrou em News Hampshire, continuando em direção ao sul.

 

O 727 da Delta levantou vôo e fez a volta passando por cima de Castle Rock e voltando na direção da costa. Vic sempre procurava ver se descobria a sua casa, mas jamais o conseguia. A viagem até

Até o aeroporto de Logan durava apenas 20 minutos.

         Donna estava lá com Tad a uns 5000 metros abaixo. Ele sentiu-se repentinamente deprimido e com uma espécie de palpite de que a coisa não ia dar certo. Era uma loucura os dois pensarem que daria Quando uma casa desmorona, o melhor remédio é construir outra. Não seria possível reconstruir a antiga simplesmente juntando os pedaços.

         A aeromoça apareceu. Os dois estavam na primeira classe, e, segundo a expressão de Roger, “o melhor mesmo era ir gozando aquilo tudo enquanto ainda era possível”. Se iam mesmo fazer parte da condição de necessitados, o melhor era fazê-lo em grande es¬tilo. havia ali apenas uns cinco passageiros, todos eles lendo o jornal, e Roger fazia a mesma coisa.

—   O senhor deseja alguma coisa?

Ela dirigiu-se primeiro a Roger, com aquele sorriso profissio¬nal que parecia deixar entrever a sua grande satisfação com o fato de haver sido obrigada a sair da cama às 5:30 da manhã para

aquele vôo de rotina de Bangor a Portland, a Boston, a Nova York e Atlanta.

Rogar sacudiu a cabeça com ar ausente e ela então voltou-se para Vic, sempre com o mesmo sorriso..

       — E o senhor quer alguma coisa? Uum doce ou suco de laranja?

—   Será que pode me arranjar um screwdriver?

       Rogar abaixou o jornal o olhou para Vic espantado.

A moça, porém, não se alterou. Um pedido de bebida antes das nove da manhã não era nenhuma novidade para ela.

—   Claro que posso, mas o senhor terá que beber bem depressa. Já estamos pertinho de Boston.

—.  Pode ficar tranqüila que beberei.

Ele fez a promessa com uma voz solene e ela continuou o seu caminho, resplendente em seus slacks azuis do uniforme e o eterno sorriso.

   — O que é que há com você, Vic?

— O que quer dizer com Isso, Roger?

       — Sabe muito bem o que quero dizer, Vic. Nunca vi você beber a esta hora da manhã. Aliás, nunca antes das cinco..

—   Eu estou lançando o barco ao mar, Roger.

—   Que barco é esse?

       — O Titanic.

O    outro fechou a cara.

—   Isso é uma piada de mau gosto. Não acha que é mesmo?

Claro que ele também achava que era. Roger merecia alguma coisa melhor naquela manhã, já que ainda se sentia deprimido como se tivesse em cima dele um cobertor fedorento, mas ele não conseguia descobrir coisa melhor. Em vez disso, conseguiu deixar escapar um sorriso amarelo.

—   Escute aqui, Roger. Tive uma idéia a respeito dessa coisa com a Zingers. Vai ser duro convencer o velho e o garoto, mas vale a pena tentarmos. Pode ser que de certo.

Roger ficou mais tranqüilo. Era assim que tudo sempre funcionara com os dois. Vic era o cara que tinha as idéias básicas e Roger cuidava dos detalhes e da forma. Sempre haviam trabalhado em

boa harmonia quando se tratava de transferir uma idéia para os veículos de Comunicação, bem como na sua apresentação.

       —E qual é ela,Vic?

           —     Dê-me um pouquinho do tempo, Roger. Talvez até esta noite. E. aí então vamos apresentá-la...

           —... para ver quem entrega os pontos. Está bem, mas não pode passar desta noite. Na última semana as ações da Sharp subiram¬ mais oito pontos. Já sabia disso?

Ao mesmo tempo que falava, ele abria novamente o jornal na parte financeira.

—   Ótimo!

           Vic tornou a olhar pela janela. Já não havia, mais nevoeiro algum. O dia estava. claro como cristal. As praias de Kennebunk, Ogunquit e York formavam um panorama digno de um

cartão-pos¬tal. O mar era azul cobalto, a areia amarelada e a paisagem do Maine, com suas colinas baixas, seus campos abertos e espessos bos¬ques de pinheiros que se estendiam a perder de vista, era realmente de uma beleza sem iguaL E tudo aquilo. E tudo aquilo só conseguia aumentar ainda mais a sua depressão.

           Se eu achar que vou chorar, é lá na privada que vou fazer isso! Era o que ele pensava na agonia que sentia. Seis frases numa folha de papel barato tinham causado aquilo. O maldito mundo era realmente frágil, tão frágil como aqueles ovos da Páscoa muito co¬loridos por fora, mas vazios por dentro. Na semana anterior ele chegara a pensar em ir embora, levando Tad em sua companhia.Agora só pensava se Donna e Tad ainda estariam em casa quando ele voltasse. Seria possível que Donna simplesmente fosse embora com o filho para a casa de sua mãe, em Poconos?           Claro que era possível. Ela poderia chegar à conclusão que os 10 dias de separação não eram o bastante. Talvez fosse melhor uma separação de seis meses. E agora ela estava com o filho. Di¬ziam que a posse era 90 por cento da lei. Seria assim mesmo?

         Dentro dele havia uma voz rastejante e insinuante que falava. E quem sabe se ela está a par do lugar onde se acha Steve agora? Quem sabe se ela resolveu ir procura-lo? Para fazer uma experiência durante algum tempo? Podem estar querendo renovar o passado... Ele sentia-se inquieto, achando que aquela idéia era uma coisa louca para uma manhã de segunda-feira.

         O pensamento, no entanto, não queria abandoná-lo. Não de¬finitivamente. Desaparecia um pouco, mas não completamente.

         Conseguiu beber todo o drinque antes de chegarem a Logan. O resultado foi uma gastralgia que não o abandonaria durante toda aquela manhã e ele sabia bem que seria mesmo assim. Seria a mesma coisa que o pensamento de Donna e Steve juntos. Ele poderia tomar vidros inteiros de remédios e a gastralgia estaria sempre ali. A depressão, no entanto, melhorou um pouco e então talvez aquilo valesse a pena.

Talvez.

 

Joe ficou olhando para o pedaço do chão da oficina onde estava assentado o grande torno de bancada e parecia muito admirado. Jogou o chapéu para trás e ficou ali olhando um pouco mais para o que via. Depois enfiou os dedos na boca e soltou um assobio penetrante.

—   Cujo! Cujo! Venha já aqui...

Tornou a assobiar e depois agachou-se, com as mãos nos joe¬lhos. Tinha certeza de que o cão atenderia ao seu chamado. Ele nunca ia muito longe. O que é que ele ia fazer agora?

Cujo cagara ali no chão da oficina. Jamais fizera aquilo antes, nem mesmo quando era ainda pequenino. Tinha mijado algumas vezes, como os cachorrinhos sempre fazem, tinha estraçalhado a almofada da cadeira, mas nunca fizera coisa parecida com aquilo que ali estava. Chegou a pensar, por um momento, que poderia ser coisa de qualquer outro cachorro que houvesse entrado ali, mas logo abandonou tal possibilidade. Tanto quanto sabia, Cujo era o maior cão que havia em Castle Rock. Sabia que os cachorros gran¬des também cagavam coisas grandes. Aquilo ali não poderia ter sido feito pôr nenhum outro cachorro, qualquer que fosse a sua raça. Ficou a imaginar a possibilidade do cão haver adivinhado que Charity e Brett iam se ausentar por algum tempo. Se assim fosse, então aquilo ali seria a sua maneira de protestar. Joe já ou¬vira falar em coisas parecidas.

Ele ficara com o animal em pagamento de um trabalho que havia feito em 1975. O freguês tinha sido um cara caolho chamado Ray Crowell, que morava lá para os lados de Fryeburg e que pas¬sava a maior parte de seu tempo trabalhando no mato; mas diziam também que ele entendia muito de cachorros. Sabia como criá-los e como ensiná-los. Poderia levar uma vida bem melhor se preferisse se dedicar àquilo que o pessoal da Nova Inglaterra chamava de “fazenda de cães”. Tinha porém um gênio terrível, que espantava os fregueses.

Ele chegara naquela primavera, dizendo a Joe que precisava de um motor novo para o caminhão.

A resposta de Joe fora apenas um resmungo de assentimento.

—   Preciso do motor, mas não tenho como lhe pagar, Joe.

Estou completamente duro.

Os dois estavam de pé dentro da oficina, mastigando restos de capim. Brett tinha cinco anos e estava brincando por ali, enquanto Charity estendia roupas nos varais.

—   Ora essa, Ray... isso é muito chato. Não costumo traba¬lhar de graça. Isto aqui não é uma organização de caridade.

—   A Beasley acaba de ter uma ninhada. Puros-sangues legí¬timos. Você me dá um jeito com o motor e eu deixo que escolha o que quiser. Que tal? Você ainda sairá lucrando.. Mas não posso fazer nada se não tiver um caminhão para traze-la aqui.

A Beasley a que ele se referia era uma cadela São Bernardo, puro-sangue e muito bonita.

       — Eu não preciso do cachorro, Ray. Especialmente um São Bernardo grande demais, são umas porcarias, verdadeiras máquinas de comer.

Ray olhou pra onde estava Brett, sentado na grama ali perto da mãe.

— Claro que você não precisa de cachorro, Joe, mas aposto que seu filho gostaria de ter um.

       Joe abriu a boca, mas logo tornou a fechá-la. Ele e a mulher nã usavam proteção alguma, mas não haviam tido mais filhos de¬pois do Brett que, aliás, demorara muito a chegar. Algumas vezes, quando olhava para o filho, um vago pensamento se apossava dele como se fosse uma interrogação. Seria possível que o menino se sentisse solitário? Era bem possível que se sentisse mesmo. Talvez o Ray estivesse com a razão. Dentro de pouco tempo seria o aniver¬sário de Brett. Ele poderia então dar-lhe o cachorrinho de presente.

       — Vou pensar nisso. Ray.

       —   Pois então não demore muito, Joe. Eu poderia ir procurar o       Calaham em Conway. Ele é tão bom como você, Joe. Talvez até mesmo melhor...

   — Pode ser que seja mesmo, Ray.

       Joe não se deixava amedrontar com a fama do mau gênio do Ray.

       Mais tarde, naquela mesma semana, Donovan, o gerente de um supermercado , chegou com o seu Thunderbird para que Joe desse uma olhada na transmissão. Era uma coisa sem importância

mas o cara ficou ali em torno do carro como se fosse a mãe aflita de uma criança, enquanto Joe esvaziava o fluido da transmissão para encher com outro novo, dando depois um aperto nos freios.

O carro era realmente uma beleza, modelo 60, em ótimas condições. Enquanto trabalhava no carro, ouvindo Donovan dizer que sua mu¬lher insistia para que o vendesse, uma idéia brilhante atravessou

o     cérebro de Joe.

Enquanto descia o macaco, ele disse a Donovan que estava com vontade de comprar um cachorro para o filho, mas aquilo não interessou muito o outro.

—   Está mesmo?

—  Estou sim. É um São Bernardo. É ainda um filhote, mas vai ser um grande comilão quando crescer. E então acabo de ter uma idéia a respeito de um trato que poderíamos fazer. Se você me fizer um bom desconto para a comida de cães das várias marcas, eu me comprometeria a fazer a conservação de seu carro sem cobrar a mão-de-obra.

O    outro ficara encantado com a combinação e logo se aper¬taram as mãos para fechar o negócio.

Joe telefonou para Ray dizendo que topava a parada e ele logo concordou. E, então, no dia do aniversário do filho, Joe deixara ele e a mãe espantados ao colocar o cachorrinho nos braços de Brett.

O    menino abraçou o pai muitas vezes, cobrindo-o de beijos e não cabendo em si de contente.

       — Obrigado, papai. Obrigado. Obrigado. Obrigado mesmo!

       — Está bem, está bem. Mas você tem de cuidar dele, Brett.

O bicho é seu e não meu. Se ele vier me sujar a oficina, vou pegá-lo e fuzilá-lo lá nos fundos.

     — Pode deixar, papai. Vou cuidar dolo.

E ele, realmente, cumprira muito bem a promessa, mas nas raras ocasiões em que se descuidava, a mãe ou o pai se resignavam e limpavam a sujeira, sem maiores comentários. Joe chegara até mesmo a descobrir que era impossível ignorar o cachorrinho. Ele crescia sem parar e estava se transformando em uma máquina de comer como previra. Ele passou a fazer parte da família. Era realmente um bom cachorro, digno de confiança.

Aprendera rapidamente a não sujar dentro de casa. Nunca fazia aquilo. Mas ali estava Joe agora, com as mãos nos bolsos e de cara amarrada já que o aninial não atendia ao seu chamado. Foi até lá fora e tornou a assobiar. O raio do cachorro deve¬ria estar lá no ribeirão se       refrescando e ele não se zangaria por isso. O calor já estava realmente insuportável. Devia estar a mais 30 graus à sombra. O bicho, porém, não aparecia. Mas quando apa¬recesse Joe iria esfregar o seu nariz naquela porcaria que fizera. Faria aquilo bem contrariado, já que sempre desconfiava da possi¬bilidade do cão ter sujado ali como protesto pela ausência do filho e da mulher, mas ele deveria ser castigado de qualquer maneira.

E então, de repente, o pensamento ocorreu a Joe. Quem iria cuidar da alimentação do Cujo enquanto ele e Gary estivessem em Boston?

Imaginou a possibilidade de encher um velho cocho para por¬cos, que tinha lá nos fundos, com a ração armazenada no porão em grande quantidade. Se chovesse a comida viraria papa, mas se a deixasse na oficina ou dentro de casa, o cão poderia vir sujar ali novamente. Além disso, ele andava sempre esfaimado e logo come¬ria a metade no primeiro dia, a outra metade no dia seguinte e então ficaria morrendo de fome durante o resto do tempo até que eles voltassem..

—   Que merda...

Cujo não aparecia. Sabia que Joe descobriria a porcaria e estava com vergonha. Ele era um animal muito inteligente, na classe dos cachorros, e era bem possível que esse fosse o seu pensamento.

Ele pegou então numa pá e foi limpar a porcaria. Depois, es¬palhou um detergente especial que tinha sempre à mão e lavou bem o chão, com a água da torneira que havia nos fundos da oficina.

Depois disso feito, ele apanhou o caderno onde anotava os serviços e deu uma olhada nele. Já terminara o serviço com a cei¬feira, uma coisa que só lhe fora possível porque dispunha agora do guincho para suspender os motores com grande facilidade. O carro da professora fora coisa fácil. Tinha ainda meia dúzia de serviços, mas todos eles eram de pequena importância.

Saiu da oficina e foi até a casa. Nunca mandara instalar uma extensão do telefone na oficina porque, como dizia à mulher, a companhia cobrava um dinheirão. De lá ele começou a telefonar, avisando a algumas pessoas que iria ficar fora uns dias, em viagem de negócios. Procurou avisar à maioria dos fregueses, pois não que¬ria que tossem procurar outra oficina. E podiam ir para o diabo

para trocara correia do ventilador ou a mangueira do radiador.

Depois de telefonar ele voltou para a oficina. O último serviço que tinha era coisa pouca e sem importância. O dono do carro pro¬metera vir buscá-lo naquela tarde. Ele começou então a trabalhar, notando que a casa ficava bem silenciosa com a ausência da mu-lher e do filho... e de Cujo também. Geralmente, o grande São Bernardo ficava deitado na sombra perto da porta da oficina, vendo Joe trabalhar. Muitas vezes Joe conversava com ele e o ani¬mal levantava a cabeça como se estivesse ouvindo e compreen¬dendo.

Ele pensava, com certa tristeza, que todo mundo desertara, deixando-o ali sozinho. Olhou para o lugar onde Cujo sujara o chão e tornou a sacudir a cabeça, como se não conseguisse acreditar. Tor¬nou a pensar no problema da alimentação do animal durante sua ausência, mas não encontrava solução. Ele telefonaria a Gary mais tarde. Talvez ele encontrasse uma solução. Talvez algum garoto se mostrasse disposto a cuidar do cão durante aqueles poucos dias.

Sacudiu a cabeça e ligou o rádio para a estação de Norway.

Regulou o volume do aparelho para bem alto. Nunca ligava senão na hora em que irradiavam os resultados dos jogos, mas aquilo agora sempre era uma companhia, já que todo mundo tinha ido embora. Começou a trabalhar e não ouviu quando o telefone na casa tocou com insistência.

 

Tad estava em seu quarto no meio da manhã, brincando com seus caminhões. Durante os seus quatro anos de vida, ele já acumulara mais de 30 caminhões. Era uma coleção bem grande, que ia desde o mais barato, de plástico, que seu pai sempre lhe trazia quando ia comprar o Time nas noites de quarta-feira, até o melhor e mais importante, um grande buldozer Tonka amarelo que chegava à al¬tura de seus joelhos. Ele tinha muito cuidado quando brincava com o de plástico, porque eles eram todos fabricados em Formosa e desmanchavam-se com grande facilidade.

Ele tinha também uma coleção de “homens” para colocar nas cabines. Alguns eram tipos de cabeça redonda que ele tirava de uns brinquedos de plástico e outros eram soldados. Havia alguns que ele considerava como os heróis de Guerra nas Estrelas. Havia ali o Luke, o Han Solo e o Greedo. E era este último que sempre ficava encarregado de dirigir o buldôzer. Ele imaginava todo o tipo de brincadeIras para os seus caminhões, sendo que algumas eram cenas de filmes que já vira no drive-in de Norway. Havia ainda outras que eram inventadas por ele.

         No tanto, a brincadeira que ele mais gostava, justamente a que ocupava naquele momento, era uma que não tinha nome. Consistia em tirar de caixa os caminhões e os motoristas, para

ali¬nhá-los um por um em posições paralelas, com os motoristas em seus lugares como se estivessem estacionados numa rua que só ele conhecia. Depois, levava-os todos, um de cada vez, para o outro lado do quarto, bem devagar, para alinhá-los numa fileira em que os pára-choques se tocavam. Havia ocasiões em que repetia aquilo inúmeras vezes, sem chegar a se cansar.

         Vic e Donna sempre se admiravam com aquela brincadeira. Chegavam a ficar confusos quando viam o filho divertir-se com aquela repetição que quase chegava a ser uma espécie de ritual. Tinham-lhe perguntado qual era a graça que ele achava naquilo, mas o vocabulário do menino não era suficiente para ele poder explicar as suas fantasias. Havia uma brincadeira que consistia simplesmente, em atirar os caminhões uns contra os outros, mas a brincadeira sem nome era tranqüila e ordenada. Se o seu vocabulário permitisse ¬ele poderia ter dito aos pais que aquela era

a sua maneira de dizer Oh, a fim de que se abrissem para ele as portas da contemplação e da reflexão.

          Agora, enquanto brincava ali, ele se dava conta de que havia alguma coisa errada.

           Seus olhos dirigiram-se, automaticamente para a porta do closet, mas não era ali que estava o problema. A porta estava bem trancada e depois das Palavras Para os Monstros, ela nunca mais se abrira. Então, o que havia de errado devia ser qualquer outra coisa.

   Ele não sabia exatamente o que poderia ser e não chegava a ter certeza se realmente desejava ou não saber. No entanto, da mesma forma que Brett, ele já começava a entender as tendências dos pais. Já percebia, mais ou menos, para onde as águas corriam. Nos últimos tempos ele chegara a se dar conta de um sentimento que lhe comunicava a existência de sorvedouros ocultos, bancos de areia e talvez até mesmo lugares perigosos escondidos por baixo da superfície. Talvez fossem corredeiras ou uma queda-d’água. Qual¬quer coisa assim.

As coisas não andavam bem com seu pai e sua mãe.

Ele percebia aquilo na maneira como os dois se olhavam.

Via-se aquilo em seus rostos e também por trás deles.Nos pensamentos de ambos. Ele parou com o que esteve fazendo na movimentação dos caminhões e foi até a janela. Sentia dor nos joelhos por ter estado acocorado durante muito tempo. Lá embaixo, no fundo do quintal, sua mãe estendia roupas no varal. Meia hora antes ela tentara telefonar para o mecânico que ia consertar o carro, mas ninguém atendera. Tentara várias vezes e depois desistira, já zangada, batendo com o fone para colocá-lo de volta no lugar. Ele sabia como era raro a mãe ficar zangada com pequeninas coisas como aquela. Tad continuou olhando até ela acabar de pendurar as roupas e de ficar ali olhando para os lençóis ...com os ombros caídos numa atitude de desânimo. Ela foi para baixo da macieira e Tad percebeu, pela sua postura, que sua mão estava chorando. Estava com as pernas abertas, a cabeça baixa e sacudia os ombros, ele olhou-a durante algum tempo e depois voltou para os

brin¬quedos. Sentia um vazio na barriga. Já estava com saudade do pai, muitas saudades mesmo, mas aquilo era bem pior.

         Alinhou novamente seus caminhões muito devagar e fez uma pausa quando ouviu bater a porta telada. Imaginou que ela viria fa¬zer-lhe companhia, mas isso não aconteceu. Ouviu passos atraves¬sando a cozinha e depois o barulho de sua poltrona predileta na sala do estar quando ela se sentou. Não ouviu, porém, o barulho da TV ligada. Durante uns momentos, ele ficou pensando nela sentada lá na sala, sozinha.... mas logo tirou aquilo de seu pensamento.

         Acabou de alinhar os caminhões. Ali estava Greedo, o seu pre¬dileto, sentado na cabinc do buldôzer, com seus olhos pretos, sem vida dirigidos para a porta do closet. Estava com os olhos arregalados como se houvesse visto alguma coisa, alguma coisa tão horrorosa que o deixara apavorado, alguma coisa parecida com um fantasma alguma coisa horrível e que caminhava para eles...

           Tad ficou nervoso e olhou para a porta. Ela continuava bem trancada.

           Ele porém, já se cansara dos brinquedos. Colocou todos eles de volta em suas caixas, batendo as tampas com força para que a mãe percebesse que ele estava ali e que era a hora de

seu programa predileto no Canal 8. Caminhou em direção a porta, mas parou de repente, olhando para as Palavras Para os Monstros, que o deixavam fascinado. Já as conhecia de cor, lia-as por intuição e adorava a caligrafia do pai.

 

Monstros, fiquem bem longe de meu quarto!

Aqui não é lugar de vocês.

Durante toda a noite nada poderá atacar Tad nem tampouco feri-lo.

Vocês nada têm a fazer aqui.

 

Num impulso incontido, ele arrancou o papel da parede com cui¬dado, quase com reverência, dobrou-o direitinho e guardou-o no bolso dos jeans. Depois, sentindo-se já bem melhor do que antes, ele desceu a escada para ver o seu programa preferido na TV.

 

O último freguês viera buscar seu carro quando faltavam 10 minutos para o meio-dia. Pagara em dinheiro vivo, que Joe guarda¬ra em sua carteira, ao mesmo tempo que pensava na necessidade de passar pelo banco para tirar mais algum dinheiro a fim de fazer frente às despesas da viagem. Iria retirar mais uns 500 dólares.

A idéia da viagem fez com que ele se lembrasse do problema da alimentação de Cujo. Entrou no carro e dirigiu-se para a casa de Gary, que ficava no sopé da colina. Chegou lá e estacionou o carro diante da casa.

Reparou logo que havia sangue por ali.

Abaixou-se e tocou-o com os dedos. Ainda não estava com¬pletamente seco. Levantou-se, preocupado, mas ainda não alarma¬do. Talvez o amigo houvesse caído com um copo na mão. Era pro¬vável que estivesse bem alto. Não se sentia ainda realmente preocu¬pado até o momento em que reparou na tela arrombada da porta.

Gary?

Não houve resposta. A primeira idéia que lhe ocorreu foi a de alguém que houvesse aparecido por ali para ajustar velhas contas com o amigo. Também poderia ter sido algum turista que lhes houvesse batido na porta, pedindo informações, e que fora mal rece¬bido por Gary.

Subiu correndo e reparou que o piso da varanda também es¬tava sujo de sangue.

       —   Gary? — chamou de novo. Naquele momento ele sentia saudades de sua espingarda de caça. Se alguém houvesse aparecido por ali para agredir Gary, quebrando-lhe os poucos dentes que lhe restavam, esse agressor já deveria estar longe, porque ali fora só havia o carro dele e o do amigo, um Chrysler 66, e ninguém ia sair andando pela Rodovia 3. A casa de Gary ficava a quatro quilôme¬tros de distância da cidade e a três da Maple Sugar Road, que le¬vava à Rodovia 117.

       Joe já imaginava que o mais provável mesmo era que Gary houvesse cortado a mão ou coisa parecida; e ele só esperava que não fosse a garganta.

Joe empurrou a porta telada, que rangeu alto.

—   Gary...

       Ainda não conseguia resposta. Ele sentia um aperto no cora¬ção que não lhe agradava. Sentia um cheiro adocicado que lhe agra¬dava ainda menos e que ele sabia não ser da trepadeira. A escada para o sobrado ficava à sua esquerda. Bem na sua frente estava a cozinha e a porta da sala que se abria para o corredor à direita.

         Havia alguma coisa no chão do corredor, que ele não via bem por causa da escuridão. Parecia ser uma mesinha derrubada ou coisa parecida... mas, tanto quanto ele sabia, jamais houvera peça alguma de mobília naquele corredor. Gary levava para ali as cadei¬ras de. vime sempre que chovia, mas há duas semanas que isso não acontecia. Além disso, ele vira as cadeiras lá fora, ao lado do Chrysler. Perto da cerca.

         Só que aquele cheiro não era das madressilvas. Era cheiro de sangue. Uma grande quantidade de sangue. E também não era nenhum¬a mesinha que estava caída ali.

         Joe correu para onde estava o vulto e seu coração quase sal¬tava-lhe pela boca. Ajoelhou-se e deixou escapar um grito de ago¬nia. Sentiu, de repente, que ali estava muito quente e que ele já estava sufocando. Saiu correndo com a mão na boca. Alguém tinha...

     Fez um grande esforço para olhar novamente. Gary estava deitado n¬uma verdadeira poça de sangue. De seu próprio sangue. Seus olhos estavam voltados para o teto. Tinha a garganta escancarada. Não estava somente escancarada, Deus do céu! Tudo indicava ¬que fora aberta com uma dentada.

     Desta vez ele não conseguiu mais se conter e parecia que vomitar as tripas. Numa louca reação, voltou seu pensamento para Charity numa indignação infantil. Ela estava realizando a sua viagem, mas ele já não poderia fazer isso, porque algum sacana louco fizera o papel de Jack, o Estripador, com o seu pobre amigo Gary e...

 

           ...era preciso chamar a polícia. O resto não tinha mais impor¬tância. Já não tinha mais importância o fato dos olhos do coitado estarem virados para o teto, bem como aquele cheiro enjoativo de sangue misturado com as madressilvas.

Levantou-se cambaleando e caminhou para a cozinha. Preci¬sava chamar a polícia, chamar o xerife, chamar alguém, enfim...

Parou na porta da cozinha e seus olhos se arregalaram tanto que pareciam querer saltar das órbitas. Na porta da cozinha havia um monte de fezes de cachorro. Ele sabia bem, pela sua aparência e volume, qual o animal que fizera aquilo.

—   Foi o Cujo! Deus do céu, ele está danado!

       Pareceu-lhe ouvir um barulho às suas costas e voltou-se apa¬vorado, os cabelos arrepiados. Não havia nada ali a não ser o po¬bre Gary. Assim mesmo Gary que lhe dissera, noites atrás, que Joe não poderia lançar o Cujo contra um negro agressivo. Gary, com a garganta completamente aberta...

         Não valia a pena arriscar-se. Saiu correndo pelo corredor, escorregando no sangue de Gary e deixando atrás dele a marca do escorregão. Tornou a gemer, mas, quando fechou a porta bem sólida, sentiu-se mais aliviado.

Voltou para a cozinha, desviando-se do corpo, e olhou lá para dentro, pronto a bater a outra porta se o animal estivesse lá. Mais uma vez sentia saudades de sua espingarda de caça.

       A cozinha estava vazia. A única coisa que se movia ali eram os cortinas da janela. Havia um cheiro típico de garrafas de vodca vazias. Era um cheiro azedo... mas bem melhor do que aquele

outro. A luz do sol desenhava padrões no linóleo já bem gasto. O telefone, que já fora branco, estava encardido com a gordura de muitas refeições de um velho solteirão, e também tinha rachaduras das batidas que sofrera ao ser manipulado por um velho bêbado. Estava em seu lugar ao lado da janela.

Joe entrou e trancou bem a porta. Foi até as duas janelas aber¬tas e nada mais viu lá fora a não ser o monte de sucata, uma recor¬dação dos carros anteriores do Gary. Como medida de precaução, fechou também as janelas.

Chegou ao telefone completamente alagado de suor, devido ao calor intolerável que fazia ali na cozinha. A lista estava pendurada ao lado do aparelho. Ela fora furada no ano interior pela máquina elétrica de Joe, a fim de receber o fio de barbante para ser pen¬durada ali. Joe lembrava-se que, naquele dia, ele estava completa¬mente bêbado e gritando que cagava e andava para o mundo.

       Joe apanhou a lista, mas logo largou-a e ela foi bater contra parede. Sentia as mãos muito pesadas e a boca ainda tinha o aze¬do de vômito. Tornou a pegar na lista e abriu-a com um safanão que quase arrancou-lhe a capa. Ele sabia bem quais os números que deveria discar, mas no seu estado de choque nada lhe ocorria.

O ruído de sua respiração arquejante, do coração disparado e do folhear da lista, não permitiu que ele ouvisse um outro muito leve, bem atrás dele, quando Cujo abriu com o focinho a porta que dava para o porão.

Ele havia ido lá para baixo depois de matar Gary, porque a luz da cozinha era muito clara e ofuscante. Ela afetava o seu cérebro em decomposição. A porta do porão estava apenas encosta¬da e ele descera cambaleando para se refugiar naquela escuridão agradável. Adormecera ao lado de coisas velhas que Gary trouxera do exército e o vento encostara a porta, quase chegando a fecha-la, mas não fora suficientemente forte para bater o trinco.

Todos os barulhos feitos por Joe quando gemia, vomitava e andava de um lado para outro, o barulho que fizera para fechar as portas, tudo isso, enfim, acabara acordando o animal que voltava a sentir as suas dores. Voltavam as dores e também aquela mesma fúria assassina. Ele agora estava ali na porta atrás de Joe, com a cabeça baixa, os olhos muito vermelhos e o pêlo todo sujo de porcarias, de sangue e de lama. A espuma continuava a escorrer-lhe da boca e seus dentes estavam sempre arregalados, porque a língua já começava a inchar.

Soe conseguira, afinal, encontrar a seção de Castle Rock na lista e começava a discar com os dedos trêmulos para a repartição competente. Encontrara também o número do xerife. Já estava com o dedo espetado para discar, quando Cujo soltou o primeiro rosnado.

Ele ¬teve a impressão de que todos os seus nervos lhe fugiam do corpo. A lista escapou de sua mão e foi bater de novo na pa¬rede. Voltou-se devagar para o lado de onde vinha o rosnado e viu seu cachorro de pé ali na porta.

Tentou apaziguá-lo com um trato carinhoso, mas mal conse¬guia falar, já que a saliva lhe escorria pelo queixo.

Não conseguiu conter-se e mijou nas calças e o penetrante cheiro de urina só serviu para enfurecer ainda mais o animal. Cujo saltou-lhe em cima, mas Joe conseguiu desviar-se e o animal foi bater dE encontro ao papel da parede, fazendo cair o emboço e formando uma nuvem branca. Joe mal conseguia se sustentar nas pernas bam¬bas. O cão agora já não rosnava, mas os sons que lhe saiam da gar¬ganta eram de aterrorizar qualquer um.

Joe recuou até a porta dos fundos, mas seus pés se embaraça¬ram na cadeira. Ele perdeu o equilíbrio e, antes que conseguisse le¬vantar-se, o animal atirou-se em cima dele como se fosse uma má¬quina de matar, toda suja de sangue, com a espuma voando para trás. O seu cheiro era horroroso.

—   Deus do céu! Deixe-me em paz!

Ao soltar aquele grito Joe lembrava-se de Gary. Cobriu a gar¬ganta com uma das mãos e tentou agarrar o cão com a outra; isso fez com que Cujo recuasse um momento. Tinha os dentes arreganhados numa espécie de riso sinistro e eles pareciam uma fileira amarelada de estacas. Logo depois, porém, ele voltou à carga.

Só que, dessa vez, o seu alvo eram os testículos de Joe.

 

— Oi, garotão! Quer vir fazer as compras comigo? Depois pode¬mos ir no Mario’s para comer alguma coisa...

Tad levantou-se de um salto.

—   Claro que quero, mamãe! Vai ser ótimo!

—   Pois então ande daí...

Donna estava com a sacola nos ombros e vestia jeans com uma camisa azul já um tanto desbotada. Tad achava que ela estava uma beleza. Sentia-se aliviado ao ver que não havia mais vestígios das lágrimas, porque quando ela chorava ele também fazia a mesma coisa. Sabia que ficava parecendo uma criancinha de colo, mas não conseguia evitar.

Tad já estava a meio caminho do carro e ela já estava ao vo¬lante quando ele lembrou-se de que o carro estava com problemas.

       — Mamãe.

       O que é que você quer agora, Tad? Entre logo...

       Ele, porém, ainda estava indeciso.      

       — E se o carro enguiçar com a gente? 

       — Enguiçar...?

       Donna olhava para ele intrigada, mas Tad logo percebeu, na sua atitude de completo desespero, que a mãe esquecera comple¬tamente do problema que havia com o carro. Ele apenas chamara a sua atenção para o fato e aquilo representava uma contrariedade para ela. A culpa seria do carro ou do filho? Ele não sabia, mas o sentimento de culpa em seu íntimo dizia-lhe que a culpa era dele. Logo depois, o rosto dela desanuviou-se. Pagou ao filho com um sorriso que ele conhecia bem e sabia que era seu, que era o sor¬riso especial que ela guardava só para ele. E então sentiu-se bem melhor.

       Nós vamos só até a cidade, Tad. Se o carro enguiçar tere¬mos que. gastar umas duas pratas para voltarmos no único táxi que existe aqui em Castle Rock.

         — Está bem, então. Vamos lá.

         Ele entrou e conseguiu bater a porta. Ela olhava-o com aten¬ção, pronta a correr em seu auxílio em caso de necessidade, e Tad imaginava que ela estava pensando naquele último Natal em que ela batera a porta em cima de seu pé e fora obrigado a andar com ele enfaixado durante quase um mês. Só que, naquela ocasião, ele era ainda pequenino ao passo que agora já estava com quatro anos. Já era um garoto bem crescido. Sabia que era mesmo porque assim lhe dissera seu pai. Sorriu para a mãe, satisfeito, e ela retribuiu-lhe o sorriso.

— Está bem fechada?

         — Está.

         Ela abriu novamente a porta e tornou a batê-la com força. Tad sabia que as mães nunca acreditam nos filhos, a não ser que eles façam alguma coisa errada como no dia em que ele derramou o açúcar na mesa quando tentava apanhar a manteiga de amendoim, ou naquele outro, quando atirara uma pedra que deveria passar por cima da garagem mas que acabou quebrando o vidro da janela.

   — Coloque o cinto, Tad. O carro começa a dar solavancos quando vai enguiçar...

         Ele fez o que a mãe mandava, mas continuava apreensivo. Só esperava que não houvesse nenhum acidente. Alguma coisa parecida com o que ele fazia com seus caminhões. Talvez até mesmo mais sério, e só esperava que sua mãe não chorasse. Ela fingiu que colocava uns óculos de aviador.

   — Tudo pronto?

—  Tudo pronto.

—  A pista está limpa?

   — Pista limpa.

—  Então lá vamos nós, companheiro...

Ela virou a chave e logo depois estavam a caminho da cidade.

Depois de haverem percorrido uns dois quilômetros, sentiram-se aliviados. Até aquele momento, Donna estivera muito tensa e em¬pertigada, o mesmo acontecendo com Tad.. O carro, porém, estava funcionando tão bem que até parecia ter saído da linha de montagem na véspera.

Foram até o supermercado, onde ela comprou 40 dólares de mantimentos, que julgava ser a conta para passarem os 10 dias até a volta de Vic. Tad estava sempre querendo que ela comprasse gu¬lodices. A Sharp sempre lhes enviava uma certa quantidade de ce¬reais, mas o estoque tinha acabado. Apesar de ser obrigada a dar atenção ao que comprava e colocava no carrinho, ela ainda tinha tempo para pensar com certo amargor, enquanto esperava na fila da caixa, como as coisas estavam caras. Tad estava sentado dentro do carrinho das compras, balançando as pernas despreocupadamente. Ela, porém, não se sentia apenas deprimida. Ela estava com medo. Esse pensamento levou-a a pensar na terrível possibilidade, que no seu íntimo mais parecia uma probabilidade, da agência perder o con¬trato da Sharp, o que significava a liquidação da própria agência. O que aconteceria então com o custo da vida, da maneira como as coisas estavam caras?

Ela viu então uma mulher gorda, com um traseiro enorme, enfiada nuns slacks cor de abacate, meter a mão na bolsa e tirar de lá um talão de vales para alimentos que o governo fornecia aos desempregados. Viu também como a moça da caixa olhou para a co¬lega ao lado de um modo bem significativo. Naquele momento Donna sentiu um aperto no coração. Seria possível que ela chegasse àquele ponto? Poderia acontecer também com ela? Não. Claro que não iria acontecer. Teriam que voltar primeiro a Nova York e então...

Ela não estava gostando da rapidez como se encaminhavam os seus pensamentos e então fez um esforço para espantá-los, antes que assumissem o volume de uma avalancha que a soterraria em outra profunda depressão. Na próxima vez ela já não precisaria comprar café e. aquilo significava uma economia de três dólares.

Levou o filho junto com as compras para o carro. Colocou em sacolas na parte de trás do carro, enquanto Tad sentava-se ao lado. Sentia vontade de bater a porta, mas sabia que aquela era uma tarefa que seu filho gostava de fazer, do contrário ficaria triste. Era uma coisa que devia ser feita por meninos já crescidos. Ela quase tivera um ataque quando ele esmagara o pé na porta, em dezem¬bro. Como gritara! Quase desmaiara. Mas, naquela ocasião, Vic es¬tava presente e saíra correndo de casa, enfiado num roupão e des¬calço, sempre competente nas situações de emergência, o que não ocorria com ela. Ele logo verificara se havia alguma fratura e de¬pois

vestira-se para levar Tad ao hospital em Bridgton.

       Com as compras no carro e Tad em seu lugar, Donna sentou¬-se no volante e pôs o carro em movimento. Continuava preocupada com a possibilidade de um enguiço, mas o carro levou-os direiti¬nho até a lanchonete Marío’s, que vendia pizzas deliciosas, com calorias suficientes para o desempenho das mais pesadas tarefas. Con¬seguiu estacionar o carro de forma bem satisfatória, embora não per¬feita, e levou Tad pela mão, sentindo-se melhor do que até então estivera naqueles dia. Era bem possível que o diagnóstico de Vic não tivesse correto e que tudo não passasse de algum entupimento ou, até mesmo, de água na gasolina. O carro estava agora em perfei¬tas condições. Não tinha a mínima vontade de ir até a oficina do Joe. Ficava muito longe e o caminho era cheio de lama. Por isso Vic gracejava achando que era o confim onde o diabo perdera as galochas, por causa da lama. Claro que ele podia fazer gra¬ça com aquilo quando estava de bom humor, já que era homem. Além disso ela tivera medo de Joe quando o vira pela primeira vez.Joe era a quinta-essência do roceiro ianque, que resmungava em vez de falar e que estava sempre de cara amarrada. E, ainda por cima, tinha aquele cachorro... Como era mesmo o nome dele? Era algo que soava como se fosse espanhol. Cujo... .agora se lembrava do pseudônimo que William Wolfe escolhera, embora Donna achava impossível acreditar que Joe dera ao seu São Ber¬nardo o nome de um notório assaltante de bancos e seqüestrador de jovens herdeiras muito ricas. Duvidava que Joe já tivesse ouvido falar no Exército Simbionês da Libertação. O cão, aliás, parecera¬ manso e inofensivo, mas ficara bem nervosa ao ver aquele monstro, da mesma maneira como também ficara nervosa ao vê-lo bater a porta do carro sem. poder interferir.

 

Cujo parecia ter o tamanho suficiente para engolir Tad com apenas duas bocadas.

Ela pediu um sanduíche quente para Tad, que não gostava de pizza — Donna jurava que nisto ele não puxara a ela — e para si uma com pimentões e cebolas, além de uma porção dupla de queijo.

Comeram sentados a uma mesa de onde viam a estrada. Ela ima¬ginava que, depois daquela pizza, o seu hálito poderia derrubar um cavalo, mas não tinha importância agora. Chegara a um ponto em que conseguira alhear-se ao marido e ao cara com quem havia tido relações durante seis semanas, mais ou menos.

Isso só serviu para fazer voltar a depressão, que ela, outra vez, procurava afastar... mas seus braços já estavam cansados de tan¬tos esforços.

Estavam quase chegando em casa, com o rádio do carro ligado, quando a coisa apareceu novamente.

Primeiro foi apenas um ligeiro solavanco, logo seguido de outro bem maior. Ela começou a pisar no acelerador com cuidado, pois já se safara antes fazendo isso.

Tad estava alarmado.

       — O que é que há, mamãe?

—   Não se preocupe, Tad.

Ela, porém também já estava alarmada. O carro já agora sacudia-se todo e sacudia-os também dentro dos cintos de segu¬rança. O motor falhava e roncava. Uma sacola caiu lá atrás, derramando latas e garrafas e ela ouviu um estalo como se fosse do alguma coisa quebrada.

—   Que merda! Agora este maldito carro está mesmo enguiçado!

Sentia-se positivamente furiosa. Dali onde estavam já era possível ver a casa lá ao longe, no alto da colina, ridiculamente perto como se estivesse achando graça naquilo; e ela sabia que o carro jamais chegaria até lá.

Apavorado, não só pelo grito da mãe como também pelos es¬pasmos do carro, Tad começou a chorar, o que só serviu para au¬mentar o desespero e a raiva de Donna, a ponto dela gritar com o filho.

—   Cale essa boca! Deus do céu! Cale a boca, Tad...

Isso fez com que ele chorasse ainda mais, ao mesmo tempo em que sua mão procurava no bolso dos jeans as Palavras Para os Monstros, que ele guardara ali bem dobradinho. O simples fato de tocar no papel fez com que .se sentisse um pouquinho melhor. Não muito. Apenas um pouquinho.

Donna concluiu que á única coisa a fazer seria deixar o carro no acostamento e desligar o motor. Nada mais podia fazer. Com o impulso que levava o carro, ela conseguiu chegar até lá. Pode¬riam ir buscar o caminhão de Tad para levar as compras até em casa e depois então resolveria sobre o que fazer. Talvez....

No momento exato em que o carro ia entrar no acostamento, o motor deu dois estouros e começou a funcionar suavemente, da mesma forma que já ocorrera antes, e logo depois estavam chegan¬do em casa. Encostou o carro, puxou o freio de mão, desligou o motor e debruçou-se no volante. E só então começou a chorar.

— Mamãe...

Tad estava aflito. Tentou pedir-lhe que não chorasse, mas as palavras não lhe saíam. Parecia ter sido repentinamente afetado por uma forte crise de laringite. Olhava para a mãe desejando confor¬tá-la, mas não sabia como fazê-lo. Isto era algo que competia a seu pai e, então, naquele momento, sentiu raiva de Vic por não estar presente. A profundidade dessa emoção deixou-o chocado e apa¬vorado. E, então, de repente, sem que houvesse qualquer razão para o fato, ele viu a porta do closet abrir-se para deixar sair uma escu¬ridão que tresandava a alguma coisa baixa e amarga.

Donna acabou levantando a cabeça e mostrando o rosto afo¬gueado. Tirou um lenço da bolsa e enxugou os olhos.

— Desculpe, meu amor. Eu não estava gritando com você. Estava gritando para isto... para esta porcaria aqui....

Deu um soco no volante e soltou um grito de dor. Levou a mão à boca e soltou uma risadinha. Só que não era risada muito alegre.

             —Acho que ele continua enguiçado, mamãe...

             — Acho que está mesmo, Tad. Muito bem, vamos pegar as compras. De qualquer maneira, estamos bem providos, Cisco.

— Está bem, Pancho. Vou buscar o caminhão.

Donna empilhou as coisas em cima do brinquedo de Tad, após tornar a colocar na sacola as coisas que haviam derramado no ca¬minho. Uma garrafa de catchup estava quebrada. Claro que aquilo não podia deixar de acontecer. O tapete da parte de trás do carro estava todo sujo. Até parecia que alguém havia cometido haraquiri.

Ela poderia limpar, mas a mancha sempre ficaria. Não acreditava nem houvesse alguma coisa para limpá-lo completamente. Nem mes¬mo um xampu de tapetes.

Empurrou o carrinho até a porta lateral da cozinha, ajudada pelo filho. Estava empilhando as compras e pensando se limparia o tapete primeiro quando o telefone tocou. Tad precipitou-se para

ele, pois já sabia muito bem como atender.

—   Sim... Quem fala, por favor?

Manteve o fone no ouvido, com uma cara risonha, e depois estendeu-o para a mãe.

Ela pensou logo que era alguma chateação. Alguém que fica¬ria ali chamando durante duas horas, para no fim não dizer nada.

—   Sabe quem é, Tad?

—   Claro que sei, mamãe. É o papai...

Ela sentiu que o coração lhe batia acelerado e tomou o fone que o filho lhe estendia.

—   Alô... Vic?

—   Oi, Donna.

Aquela era, sem dúvida, a voz dele, mas parecia muito reser¬vada... muito cautelosa. Percebeu que um certo sentimento vinha a se acumular a tudo que havia acontecido.

—   Você está bem, Vic?

—   Claro.

—   Eu pensava que você só telefonaria mais tarde... Ou tal¬vez nem mesmo o fizesse.

—   Bem, fomos direto para a companhia que faz os filmes do Professor dos Cereais, mas, por incrível que pareça, eles não con¬seguiram encontrar os filmes. O Roger está arrancando os cabelos..

—   Eu sei. Ele detesta quando tudo não está certinho, não é mesmo?

—   Você até que está sendo moderada... E, então, enquanto eles estão vasculhando os arquivos, achei que...

Ela ouviu um longo suspiro do outro lado da linha.

Ele ia falando tudo vagamente e então seus sentimentos de de¬pressão, de fracasso; de naufrágio, sentimentos bem desagradáveis embora infantilmente passivos, tomaram-se mais ativos e passaram a ser sentimentos de medo. Vic nunca se mostrava assim tão vago quando falava. Nem mesmo se estivesse sendo distraído por algu¬ma coisa que estivesse acontecendo na sua extremidade da linha. Ela pensou na aparência dele na noite de quinta-feira, quando pa¬recia à beira de uma decisão final.

—   Vic, você está bem, mesmo?

Ela percebia o alarme que havia em sua voz e tinha a certeza de que Vic também percebia; até mesmo Tad levantou os olhos do livro colorido que estava no chão, na sua frente. Seus olhos estavam brilhantes e a testa ligeiramente franzida.

   Claro que estou bem, Donna. Eu ia justamente dizer-lhe que preferi telefonar agora, enquanto eles andam procurando por aí, porque logo mais vamos estar muito atarefados. Acho que não terei tempo... E como vai o Tad?

— Ele está bem, Vic.

Ela sorriu para o filho e depois piscou um olho. Ele retribuiu¬-lhe o sorriso e aquelas rugas da testa já tinham desaparecido. De¬pois, voltou para colorir seus livros. Ele me parece cansado e eu agora não vou sobrecarregá-lo com a porcaria do carro... Não de¬morou muito, porém, e já estava lhe contando tudo como acon¬tecera

Ela sentiu que sua voz ia traí-la numa demonstração de auto¬comiseração e procurou dominar-se. Então, por que diabo lhe con¬tara tudo que havia acontecido? A voz dele dava a entender bem que estava realmente cheio de preocupações e não era hora para aumentá-las ainda mais com os problemas. do carro.

—   É... parece que é mesmo a válvula, Donna.....

A voz dele já estava melhor agora. Já não parecia tão aflito. Talvez fosse porque aquele problema era insignificante em compa¬ração com os que ele tinha pela frente agora.

—   Será que o Joe não poderia dar um jeito ainda hoje? —

— Eu telefonei, mas ninguém respondeu...

— É bem provável que estivesse na oficina. Ele não tem uma extensão do telefone lá. Geralmente é sua mulher ou seu filho que transmitem os recados... Provavelmente saíram.

— Pois é... pode ser que ele tenha saído também.

— Claro, mas duvido muito. Se há um cara que se enraíza em um lugar para toda a vida, esse cara é o Joe, sem dúvida alguma.

— Você acha que eu devia arriscar e ir até lá?

A pergunta era feita com uma voz cheia de dúvidas. Ela pensava¬ naquela longa estrada até chegar lá. O lugar dele era tão longe que nem mesmo tinha um nome. E se a tal válvula fizesse a graci¬nha de enguiçar no meio daquela desolação, ela certamente estaria em maus lençóis.

—   Não, Donna. Acho mesmo melhor você não ir, a não ser que precise muito. Mas é. bem possível não encontrar o Joe lá.

A voz dele era como se estivesse bem deprimido.

—   E então o que é que vou fazer, Vic?

—   Telefone para a Agência Ford. Peça-lhes que venham para rebocar o carro para a oficina...

— Mas...

—   Nada disso. Faça como estou dizendo. Se você quiser di¬rigir até a agência é quase certo que vai ficar no caminho. E se você explicar-lhes bem a situação, é até possível que eles lhe emprestem um carro. Se não for assim, você também poderá alugar um.

—   Alugar, Vic? Mas isso fica muito caro...

—   Eu sei que fica...

Ela tornou a pensar que agia mal ao sobrecarregá-lo com mais aquele problema. Ele talvez chegasse a pensar que ela não tinha ca¬pacidade para coisa alguma.... a não ser que se tratasse de trepar com um restaurador de móveis. Nisso ela era boa mesmo. Os seus olhos se encheram de lágrimas quentes e salgadas, em parte de raiva e em parte de pena de si mesma.

—   Pode deixar que cuidarei disso, Vic...

Ela lutava desesperadamente para manter sua voz normal. Um dos cotovelos apoiava-se na parede e a outra mão tapava-lhe os olhos.

—   Pode deixar, Vic. Não se preocupe...

—   Bem, eu... que merda! Aí vem o Roger. Está com poeira até o pescoço, mas encontrou o que procurava. Chame o Tad para falar comigo...

Ela engoliu todas as perguntas que pretendia fazer. Estaria tu¬do certo? Pensaria ele que tudo se poderia arranjar? Poderiam eles voltar para começar tudo de novo? Tarde demais. Não havia tempo. E ela desperdiçara todo o tempo tagarelando a respeito do carro! Não passava de uma tola. Uma estúpida!

—   Claro, Vic. Ele vai se despedir por nós dois. E... Vic...

—   Sim? O que é?

Agora havia impaciência em sua voz. O tempo era curto para ele.

—   Eu te amo, Vic... — E antes que ele pudesse dizer algu¬ma coisa, ela acrescentou: — aqui está o Tad...

Passou rapidamente o fone para o filho, quase batendo-lhe na cabeça, e foi para a varanda da frente, tropeçando numa almofada que foi parar longe, e vendo tudo através de uma cortina de lágrimas.

       Ficou de pé na varanda, olhando para a estrada, segurando os cotovelos com as mãos e lutando para conseguir controlar-se... controlar-se, controlar-se, com todos os demônios! E como era es¬pantoso sentir-se uma dor quando não existe nada de fisicamente errado.

         Lá de dentro vinha a voz de Tad, contando ao pai que tinham ido no Mario’s, que a mamãe tinha comido a pizza que ela gostava e que o carro funcionara bem até pertinho de casa. Depois, disse ao pai que o amava e por fim o clique do aparelho sendo desliga¬do. O contato fora interrompido.

         Controle.

         Sentiu, finalmente, que já estava controlada. Voltou para a co¬zinha e começou a arrumar as compras nos lugares certos.

 

       Já eram 3:15 quando Chaúty saltou do ônibus, naquela tarde.

       Brett veio logo atrás. Ela agarrava-se espasmodicamente às alças de sua bolsa, quase morrendo de medo com a idéia de não reconhecer a irmã. O rosto que estivera em seu espírito durante todos aqueles anos como se fosse uma fotografia (A Irmã Mais Nova Que se Ca¬sara Bem) tinha misteriosamente - desaparecido de sua lembrança,deixando apenas uma névoa muito vaga no lugar da foto.

           — Você está vendo ela, mamãe?

         Essa foi a primeira pergunta de Brett quando o ônibus deixou-os na parada de Stratford. Em seu rosto não havia medo algum e sim apenas um grande interesse.

— Deixe-me olhar bem em volta, Brett. É provável que este¬jam no salão, do café.

—   Charity?

           Ela voltou-se e ali estava Holly. Logo a foto voltou-lhe à lembrança com grande nitidez, mas havia alguma coisa diferente. Holly usava óculos! Achou aquilo engraçado. Depois, veio a segunda sur¬presa. A irmã estava com rugas no rosto. Não eram muitas, mas assim mesmo logo saltavam à vista. O seu terceiro pensamento não precisamente isso. Era uma imagem clara, verdadeira e desola¬dora como uma foto em tonalidade sépia. Era a Holly que saltara no bebedouro do gado do velho Seltzer, de calcinhas e rabinho-de-¬cavalo que se destacava contra o céu, com o polegar e indicador da mão esquerda apertando o nariz para dar uma nota cômica à foto.

Ainda não usava óculos! Ao pensar nisso, Charity sentiu um aperto no coração.

Ali agora, ao lado de Holly, olhando timidamente para Cha¬nty, estava um menino de uns cinco anos e uma menina que devia andar pelos dois e meio e ambos olhavam também para Brett. Pelo volume das calcinhas da menina era fácil ver que ela ainda usava fraldas. Ao lado dela estava o seu carrinho.

—   Oi! Como vai, Holly?

Chanty falava tão baixinho que era difícil ouvi-la.

As rugas eram pequenas e viradas para cima, da forma como a mãe delas sempre dizia que era certo. Estava com um vestido azul moderadamente caro. O pingente que usava devia ser uma bijuteria de classe ou então uma pequena esmeralda legítima.

Passou-se um momento. Uma espécie de espaço no tempo. E durante ele, Charity sentiu seu coração encher-se de uma alegria tão grande e completa, que ela chegava à conclusão de jamais poder haver alguma dúvida se valera ou não a pena a despesa da via-gem; e isso porque ela sentia-se agora livre, da mesma forma que seu filho. Ali estava a sua irmã e aquelas crianças eram os filhos dela. Eram o seu sangue. Eram reais e não simples fotografias.

Rindo e chorando ao mesmo tempo, as duas mulheres se apro¬ximaram, primeiro devagar, mas logo depois mais depressa, sem he¬sitação. Abraçaram-se enquanto Brett ficava onde estava. A meni¬na, talvez ainda com medo, agarrou-se às saias da mãe, imaginando que ela, sairia por ali voando, junto com a outra.

O menino ficou olhando para Brett e em seguida caminhou em sua direção. Usava jeans e uma camiseta onde, no peito, via-se a inscrição CUIDADO COMIGO.

—   Então você é o meu primo Brett...

       —É isso ai.

—   Eu sou Jimmy Tenho o mesmo nome de meu pai.

       — Já sei.

— Você é do Maine?

Atrás deles estavam Charity e Holly, falando rapidamente ao mesmo tempo e achando muita graça na pressa que tinham de con¬tarem as novidades de cada uma, ali mesmo, naquela estação rodo¬viária, entre Milford e Bridgeport

       — Claro que sou do Maine.

       — E você tem dez anos, não é mesmo?

       — Isso mesmó.

       — Pois eu tenho cinco.

       — Não diga!...

       — É isso aí, meu . chapa. Mas eu posso te vencer... Ao mesmo tempo que falava, ele soltava o seu grito de guerra e atingia a barriga do primo com um soco. O outro curvou-se, sol¬tando um grito de surpresa e as duas mulheres ficaram espantadas.

— Jimmy!

       O grito de Holly mostrava bem o seu horror resignado.

       Brett ergueu-se devagar e reparou que sua mãe o olhava com certa apreensão. Ele apenas sorriu.

— Eu sei disso. Claro que você pode me liquidar sempre que quiser.

       E tudo acabou bem. Brett viu a aprovação no rosto da mãe e estão ficou também satisfeito.

 

Eram 3:30 quando Donna resolveu que deixaria Tad com alguém enquanto ela ia até a oficina de Joe para resolver o problema do carro. Já telefonara várias vezes, sem que ninguém atendesse, mas.

achava que Joe. já estaria de volta quando ela chegasse. Continuava achando que o carro chegaria lá. Vic dissera na semana anterior que Joe, provavelmente, daria um jeito emprestando-lhe algum carro caso o serviço não pudesse ser feito na hora. Esse fora o fator decisivo. ¬Ela achava que não devia levar o filho. Se o carro pi¬fasse no caminho, sempre lhe seria possível conseguir uma carona na estrada. O filho só iria atrapalhar as coisas.

Acontecia porém, que Tad tinha outras idéias.

Logo depois de haver falado com o pai, ele subira para o quar¬to onde se esticara na cama com uma coleção de livros infantis. Quinze minutos depois, já estava dormindo e sonhava. Era um sonho bem ¬comum, mas que tinha uma força estranha e até mesmo apavorante. Ele via no sonho um menino já crescido que atirava no ar uma bola de beisebol e procurava rebatê-la. Errou uma, duas, três e quatro vezes o acertou na quinta, mas o bastão que¬brou-se ao meio e ele ficou com um pedaço na mão. Mas logo abaixou-se ¬para pegar o outro pedaço mais grosso, que ati¬rou no meio do gramado. Depois disso, voltou-se e per-cebeu com surpresa e medo que o outro, do sonho, era ele mesmo já mais velho, com 10 ou 11 anos. Não podia haver dúvida algu¬ma. Era ele mesmo!

     O menino, porém, logo desapareceu e tudo ficou cinzento. No meio da névoa, ele ouvia dois sons. Um era o ranger da corrente de um balanço e o outro era o grasnar de gansos. Junto com o ba¬rulho e com a névoa, ele se deu conta de uma estranha sensação de asfixia. Sentia-se sufocado. E lá do meio da névoa vinha guindo um homem... um homem enfiado numa brilhante capa impermeável, que tinha na mão um pau com uma placa que dizia PARE. Ele riu e seus olhos eram duas moedas brilhantes. O homem levantou o bra¬ço apontando para ele e Tad viu, horrorizado, que ali só havia ossos, da mesma forma que o rosto envolto na capa era apenas uma caveira. Era...

Acordou assustado e alagado em suor, que só em parte era de¬vido ao calor sufocante que fazia. Sentou-se na cama ainda ofegante, com o susto do sonho.

 

Clique...

A porta do closet abria-se lentamente, ao mesmo tempo em que ele percebia alguma coisa lá dentro, durante apenas um momento, porque logo saiu correndo do quarto com toda a velocidade que lhe permitiam as pernas. Ele vira aquilo apenas durante um segundo, mas fora o bastante para ver que não era Frank Dodd, o matador de mulheres, quem estava embrulhado no impermeável brilhante. Não era ele. Era uma coisa diferente. Era uma coisa com olhos vermelhos, como um sangrento pôr-do-sol.

Aquilo era uma coisa que ele não queria contar à mãe. E então, em vez disso, ele concentrou-se em Debbie, a moça que viria ficar com ele enquanto sua mãe levava o carro para a oficina.

Não queria ficar com ela. Debbie não tinha paciência com ele. A primeira coisa que fazia era ligar o toca-discos no máximo vo¬lume. E muitas outras coisinhas mais. Quando viu que sua mãe não levava muito a sério suas queixas, ele sugeriu, ominosamente, que Debbie poderia matá-lo com um. tiro. Quando Donna cometeu o engano de não levá-lo a sério, ele rompeu em prantos e saiu

correndo para a sala. Afinal, quem poderia imaginar a pobre Debbie, de 15 anos e muito míope, dando tiros em alguém? O que ele que¬ria dizer a ela era que Debbie não seria suficientemente forte para manter o monstro preso no closet no caso de sua mão se atrasar e a noite chegar. Ele poderia escapar do closet. Aquilo tanto poderia ser o homem do impermeável como também poderia ser o monstro.

Donna foi atrás dele, já arrependida por haver achado graça e sem poder explicar como fora tão insensível. Afinal, o pai do meni¬no estava ausente e aquilo já era o bastante para deixá-lo triste e nervoso. Ele não queria ficar longe de sua mãe nem mesmo uma hora. E...

       E quem sabe se ele já não percebeu o que se passa entre seu pai e eu? Quem sabe mesmo se já não ouviu alguma coisa...

Não. Ela não acreditava que isso houvesse acontecido. Nem mesmo se atrevia a pensar em tal possibilidade. Aquilo só podia ser devido à mudança que houvera em sua rotina.

A porta que dava para a sala estava fechada. Ela chegou a estender o braço para a maçaneta, hesitou, e então bateu de leve. Não teve resposta. Tornou a bater e quando viu que não havia resposta, abriu a porta e entrou sem fazer barulho. Tad estava deita¬do no sofá, de barriga para baixo, a cabeça escondida sob uma almofada. Aquele era um comportamento que ele reservava para as grandes ocasiões.

—  Tad...

Não houve resposta.

         — Tad, desculpe-me. Eu não devia ter rido...

Ele levantou a almofada para poder encará-la. Tinha o rosto molhado. Por favor, mamãe... Eu quero ir com você... Não quero ficar aqui com a Debbie...

Donna percebia bem até que ponto ele estava levando a sua teatralidade. Aquilo era uma gritante coação. Sabia que era mes¬mo, mas também achava que lhe seria impossível ser durona...

e isso, em parte, porque sentia que suas lágrimas também estavam chegando. Nos últimos tempos tinha sempre a impressão de haver nuvens negras no horizonte.

       Meu amor, você viu bem como o carro estava quando vol¬tamos da cidade. Se ele pifar lá no meio da estrada, seremos obri¬gados a dar uma longa caminhada até uma casa onde haja telefone...

—   E daí? Sou bom nas caminhadas. Gosto de andar.

—   Eu sei, Tad... mas você poderia ficar com medo...

Ele pensou naquela coisa que havia lá no closet e respondeu gritando, com todas as suas forças:

—   Eu não tenho medo de nada!

 

Sua mão procurara automaticamente o bolso onde estava guar¬dado o papel com as Palavras Para os Monstros.

—Não grite assim.Tad. Isso é muito feio. — ela falou já com a voz natural.

—   Não vou ter medo. Quero ir com você...

Ela olhou-o, desalentada. Sabia que o melhor mesmo seria cha¬mar Debbie Gehringer e percebia que estava sendo vergonhosamente manipulada pelo garoto de quatro anos. E, se cedesse, as razões seriam erradas. Sentia-se desesperada. Isso é que nem uma reação em cadeia que não pode ser detida e que está despertando coisas que eu mesmo nem sabia que existiam. Deus do céu! Como eu gostaria de estar no Taiti agora!

Ela chegou a abrir a boca para lhe dizer, com firmeza inaba¬lável, que ia telefonar para Debbie, que poderiam fazer pipocas se ele se comportasse bem, mas que iria para a cama logo depois do

jantar se não se comportasse bem e que não queria mais falar no assunto. Em vez disso, a reação foi outra.    

       —   Muito bem, pode vir comigo. Mas se o carro pifar, teremos que andar até uma casa onde haja telefone para chamar o re¬boque. E se isso tudo acontecer, Tad, não quero ouvir reclamações de forma alguma. Entendido?

—   Entendido. Não vou reclamar nada...

— Ainda não acabei. Não quero ouvir reclamações suas e não darei ouvidos a pedidos para carregá-lo no colo. Não vou fazer isso de forma alguma! Estamos entendidos?

—   Claro. Claro que estamos. Vamos sair já?

Ele tinha saltado do sofá radiante de alegria.

—   Claro que vamos... mas, pensando melhor, você não acha que seria bom comermos alguma coisa antes? E também podemos levar leite na garrafa térmica.

—   Para o caso de sermos obrigados a acampar a noite inteira?

Agora já era fácil ver o receio que havia em seu rosto.

Ela sorriu e abraçou-o.

—   Nada disso, queridinho. Só que ainda não consegui falar com o mecânico no telefone. Seu pai disse que é porque ele não tem uma extensão na oficina. Pode ser que sua mulher tenha saído com o garoto. E então...

—   Mas que tolice a dele! Devia ter um telefone na oficina...

—   Só que você não deve dizer isso a ele, Tad.

       O menino concordou com a cabeça.

—   De qualquer forma, se ele não estiver lá, poderemos comer alguma coisa no carro ou até mesmo do lado de fora, enquanto esparamos por ele.

Tad bateu palmas, radiante.

—   Obal Oba! Ser que posso levar a minha lancheira?

       — Claro que pode...

Donna já entregara os pontos definitivamente. Foi procurar as coisas que o filho mais gostava, algumas das quais ela sim detestava, e arrumou tudo direitinho, sem esquecer as azeitonas o os pepinos. Encheu com leite a garrafa térmica de Tad, encheu só até o meio a que Vic costumava levar quando acampava. Havia alguma coisa que a deixava inquieta ao olhar para tudo aquilo.

Olhou para o telefone o pensou em tentar novamente, mas logo desistiu, achando que não era preciso. Eles iriam lá de qualquer maneira. Depois, ainda uma vez, tentou convencer Tad a desistir, mas lembrou-se do comportamento anterior do filho a tal respeito e desistiu.

O    caso, no entanto, era que ela agora já não se sentia bem. Nada bem, mesmo. Mas não conseguia descobrir o que era. Olhou em tomo da cozinha para ver se havia alguma coisa ali que lhe sugerisse o que poderia ser, mas nada encontrou.

       —Vamos ou não vamos, mamãe?

       A resposta dela positiva foi dada com um ar ausente, ao mesmo ¬tempo em que olhava para o bloco que havia ali na parede, ao lado do refrigerador, onde ela e Vic escreviam as coisas que iam

fazer. Era uma espécie de lembrete. Escreveu: Tad e eu fomos a oficina do Joe com o carro. Voltaremos logo.

—   Está pronto Tad?

—   Prontinho, mamãe... Para quem é que você escreveu aquilo ali?

—   Pode ser que a Joanie apareça por aqui com as framboesas... Ou então a Allison, que estava querendo me mostrar uns produtos de beleza.

—Hummm...

         Donna passou-lhe à mão pelos cabelos e os dois saíram. O ca¬lor atingiu-os como ao fosse um martelo envolto em almofadas. Ela ia pensando se a porcaria do carro iria funcionar ou não.

Mas ele funcionou e o motor logo pegou.

Eram 3:45 da tarde.

 

Seguiram ao longo da Rodovia 117 até a estrada Maple Sugar, que ficava a uns três quilômetros da. cidade, e o carro se comportava maravilhosamente. Se não fosse o seu comportamento anterior quan¬do voltavam para casa, Donna não teria talvez razões para se preocu¬par com ele. O fato, porém, era que devia haver algo de errado com ele. Ela ia a mais de 60 quilômetros, muito empertigada ao vo¬lante, e chegou-se bem para a direita quando viu que um outro car¬ro ia ultrapassá-la. A estrada estava bem movimentada. As férias tinham chegado e havia também os turistas. O carro não possuía. refrigeração e os vidros estavam abaixados.

Um Continental, com chapa de Nova York, rebocando um tre¬mendo trailer com dois pedalinhos em cima, apareceu atrás dela numa curva cega e o motorista meteu a mão na buzina. A mulher dele era gorda e estava com óculos escuros. Quando os carros se emparelharam, ela olhou para Donna com um profundo desprezo estampado no rosto.

Donna gritou-lhe um impropério e ela logo olhou para o ou¬tro lado. Tad olhava nervoso para a mãe e ela acalmou-o com um sorriso.

— Não se preocupe, garotão. Está tudo bem. São uns idiotas lá de Nova York...

A resposta dele foi um resmungo cauteloso.

Olhem só para mim aqui. A grande ianque! Vic ficaria orgulhoso. ¬Ela ria-se de sua tirada. Todo mundo no Maine sabia que as pessoas vindas de outros Estados continuariam a ser estrangeiros ali até o dia em que fossem enterrados. E, assim mesmo, o costume da. terra era deixar isso bem claro nas lápides dos túmulos onde ha¬via inscrições bem positivas. AQUI JAZ HARRY JONES, CASTLE CORNERS, MAINE (Natural de Omaha, Nebrasca).

A maior parte dos turistas seguia na direção da 302, onde entrariam a leste, para Naples, ou para oeste, rumo a Bridgton, Fryeburg Conway, em New Hampshire, para irem esquiar nas montanhas, aproveitar os parques de diversões muito baratos e comer em restaurantes onde não se pagava imposto. Não era para lá que se di¬rigiam Donna e Tad.

Embora da casa deles se avistasse a parte da cidade de Castle Rock que parecia um cartão-postal, a floresta tinha crescido dos dois lados da estrada antes deles estarem a uns oito quilômetros da casa. Havia algumas clareiras onde se via um terreno com uma casa, ou então um trailer, e na medida em que se afastavam as casas já eram do tipo a que o pai dela chamava de “cabana irlandesa”. O sol ainda brilhava, já que faltavam quatro horas para desapare¬cer, mas os espaços desertos faziam com que Donna se sentisse intranqüila. Ali na 117 a coisa ainda não era muito má, mas quan¬do saíssem dela...

O desvio na estrada ostentava uma placa que dizia ESTRADA MAPLE SUGAR, em letras muito apagadas e quase ilegíveis. Estavam todas marcadas com tiros de 22 da garotada, que gostava de brin¬car de bangue-bangue. Era uma estrada de mão dupla coberta com macadame, cheia de buracos e solavancos. Ela corria sinuosa, pas¬sando por duas ou três casas bonitas, por mais duas ou três já não tão bonitas e um velho trailer em tristes condições, instalado em cima de alicerces que se desmoronavam. Em torno dele o mato cres¬cia solto e estava cheio de brinquedos de plástico bem baratos. Uma placa torta pregada numa árvore na entrada dizia GATINHOS DE GRAÇA. Um garotinho barrigudo, que podia ter uns dois anos, estava de pé na entrada com o pequeno pênis de fora. Tinha a boca aberta e um dedo enfiado no nariz, enquanto o outro estava no umbigo. Donna ficou toda arrepiada quando viu aquilo.

Pare com isso, pelo amor de Deus! O que é que há com você?

A floresta se fechava em torno deles novamente. Um velho Ford Fairlane 68, cheio de manchas vermelhas, passou por eles em sentido contrário. Um garoto cabeludo ia preguiçosamente recos¬tado atrás do volante. Estava sem camisa e o carro devia ir a uns 120 por hora. Donna fez uma careta. Era o primeiro carro que cru¬zava com eles. A estrada ia num aclive constante e quando passa¬vam por uma planície ou um jardim tinham ocasião de apreciar o deslumbrante panorama daquela região do Maine no sentido de Fryeburg. O Lago Longo brilhava a distância como se fosse

um pingente de safira de alguma mulher fabulosamente rica. Subiam agora uma pequena colina corroída pela erosão quando o carro começou a falhar. Conforme dizia a propaganda, a estrada era agora cercada por empoeirados bordos bem castigados pelo calor. Donna sentiu um aperto na garganta. Não faça isso comigo! Vamos lá! Seja bonzinho! Vamos! Vamos!

       — Mamãe... será que...

—   Cale a boca, Tad.

As sacudidelas já eram agora bem maiores. Ela sentia-se com¬pletamente frustrada e pisava com força no acelereador... e o motor voltava a funcionar bem.

       — Obal Oba!

Tad gritou tão alto, e tão de repente, que ela chegou a assus¬tar-se

—   Ainda não chegamos lá, meu filho...

Mais adiante, chegaram a uma encruzilhada onde havia uma outra placa que dizia: ESTRADA MUNICIPAL N9 3. Donna enveredou por ela, com ar vitorioso. Tanto quanto se lembrava, a oficina fl¬cava a uns dois quilômetros. Se o carro pifasse definitivamente ali, poderiam seguir até lá a pé com facilidade.

Passaram por uma casa em ruínas, na entrada da qual havia uma caminhonete e um carro branco e grande todo enferrujado. Pelo retrovisor Donna percebeu que a cerca viva de madressilva estava viçosa demais no lado em que o sol lhe batia em cheio. Do lado esquerdo havia agora um campo, logo depois da casa, e o carro começou a subir por uma colina bem íngreme.

No meio do caminho, ele começou outra vez a falhar, sacudin¬do-se todo, com muito mais força do que das outras vezes.

—   Acha que vamos chegar lá, mamãe?

—   Claro que vamos, Tad.

O velocímetro      do carro mostrava que a velocidade estava bai¬xando aos poucos e ela engrenou uma marcha mais lenta, pensan¬do que isto resolveria o problema. Em vez disso, a coisa piorou. O silencioso começou a dar tiros, expelindo uma fumaceira cada vez maior e Tad começou a chorar. A coisa estava piorando, mas Donna já via ao longe a casa de Joe e o barracão vermelho que lhe servia de oficina.

Quando castigara antes o acelerador o resultado fora bom e ela tornou a experimentar. Durante um momento o motor pareceu trabalhar melhor e o velocímetro mostrava uma velocidade um pou¬co mais alta. Mas isso não durou muito e logo ele começou a falhar outra vez. Ela tentou novamente o acelerador, mas nada conseguiu. A luzinha idiota do amperímetro começou a piscar, mostrando que o carro estava já nas ultimas e ia parar a qualquer momento.

Aquilo, porém, já não tinha importância, pois já estavam bem diante da caixa do correio de Joe, e ela podia até ler os dizeres J.C. Whitney & Co. num embrulho para Joe.

       Ela guardou bem aquela informação sem parar o carro, já que agora só pensava em chegar até a oficina, onde então o maldito carro poderia parar de vez. Ele terá que dar um jeito então...

       A entrada ficava um pouco adiante da casa e se fosse um aclive como era a da casa, o carro jamais teria chegado lá. Ali, porém a entrada, logo depois de um ligeiro aclive, formava um de¬clive que ia até a porta da oficina.

       Donna deixou o carro em ponto morto e ele deslizou até a porta entreaberta. Logo que tirou o pé do acelerador para apertar o freio, o motor começou outra vez a sacudir-se, bem mais fraco

do que antes. A luz piscou como se fosse apagar, mas logo voltou a brilhar com toda a intensidade. E foi aí que o motor parou definitivamente.

         Tad olhou para a mãe e ela sorriu, satisfeita.

        — Aqui estamos, companheiro... chegamos finalmente.

         — Chegamos sim, mamãe, mas acho que não há ninguém em casa.

         Ao lado da oficina estava uma pick-up verde. Aquela era a píck-up de Joe, sem dúvida alguma, e não de qualquer outra pessoa que o tivesse levado ali para conserto. Ela lembrava-se bem de tê-la visto na vez anterior em que ali estivera. Lá dentro estava tudo apagado. Ela olhou para o lado esquerdo e viu que a casa também estava às escuras. Lembrou-se então de que na caixa do correio havia um embrulho pendurado.

       O endereço do remetente no embrulho era J.C. Whitney & Co. Ela agora sabia o que era. Seu irmão também havia recebido um daqueles quando era rapaz ainda. Era de uma firma que vendia acessórios para automóveis. Um embrulho para Joe Camber enviado       por J.C. Whitney & Co. era a coisa mais natural deste mundo. Mas seria também natural que ele já houvesse apanhado a

encomenda se estivesse em casa.

         Ela estava desesperada e, de repente, teve raiva do marido. Lembrava-se do que ele lhe dissera. O Joe está sempre em casa. Ele criaria raízes naquela oficina, se isso fosse, possível. Claro que faria isso... a não ser quando preciso dele.

         — Muito bem... O melhor mesmo é entrar para ver.

         — Ela abriu a porta do carro, pronta para saltar.

         —Não consigo desafivelar meu cinto, mamãe.

         — Está bem. Não é preciso ficar aflito por isso. Eu tirarei quando voltar.

Ela saltou e deu a volta pela frente do carro, com a intenção de soltar o filho. Assim ganharia tempo e talvez Joe aparecesse para ver quem era que estava ali; mas isso no caso de ele estar mesmo em casa. Não se mostrava muito disposta a enfiar a cabeça lá sem se anunciar. Aquilo era, provavelmente, uma tolice, mas depois da desagradável cena com Steve em sua cozinha ela passara a com¬preender melhor o que acontecia com mulheres desprotegidas. Aqui¬lo, aliás, era uma sensação que nunca mais tivera desde quando tinha 16 anos e que seus pais lhe haviam dado permissão para sair com rapazes.

Donna ficou logo impressionada com o silêncio que havia ali. Fazia muito calor e aquele silêncio deixava-a nervosa. Claro que havia alguns ruídos, mas apesar do tempo em que já vivia em Cas¬tle Rock, ainda não se acostumara com os ruídos do campo em comparação com os da cidade grande; e eram justamente esses ruídos do campo que ela ouvia ali agora.

Ouvia o canto dos passarinhos e os gritos mais ásperos dos corvos lá no meio da colina que tinham acabado de galgar. Ouvia o suspiro de uma brisa ligeira que sacudia os carvalhos à beira da entrada e que projetavam estranhas sombras bem ali aos seus pés. Só o que não ouvia era o barulho de motores e nem mesmo de algum trator ou colheitadeira. Os ouvidos das pessoas que vivem em cidades grandes e pequenas estão mais acostumados com os rui-dos feitos pelos homens. A percepção delas não chega a captar os ruídos da natureza. E isso é o suficiente para criar apreensões.

Eu devia ouvi-lo se ele estivesse trabalhando na oficina. Os únicos ruídos que ouvia eram o do cascalho da entrada, pisado por ela, e um outro, quase imperceptível, como se fosse um simples sus¬surro. Um pensamento mais ou menos inconsciente fazia com que imaginasse aquilo como sendo o de algum transformador da linha de força que passava na estrada.

Ela estava na frente do carro, pronta a fazer a volta, quando ouviu um novo ruído. Era um rosnado grosso e baixo.

Ela parou e levantou a cabeça, tentando localizar o lugar de onde vinha o rosnado. Não conseguia e aquilo deixou-a apavorada, não por causa do rosnado em si, e sim porque não conseguia per¬ceber de onde ele partia. Não partia de lugar nenhum. Estava em todos os cantos. E foi aí que uma espécie de radar interno, um equipamento que garantia a sobrevivência, passou a funcionar com toda a eficiência e ela percebeu, finalmente, que o rosnado vinha lá de dentro da oficina.

Tad tentava pôr a cabeça de fora da janela, até onde lhe per¬mitia o cinto de segurança, e reclamava, aflito:

—   Mamãe... não consigo tirar fora esta porcaria...

—   Psiu...

(o rosnado)

Ela recuou um pouco, apoiando-se no carro com os nervos tensos como se fossem filamentos, não em pânico ainda, mas num estado de alerta ao mesmo tempo que se lembrava de como o cão não rosnara quando estivera ali antes.

Cujo assomou na porta da oficina. Donna olhou para ele e sentiu o coração parar, junto com um nó na garganta. Era o mesmo cachorro. Era sem dúvida o Cujo...

Deus do céu! Meu Deus!

Os olhos do animal cruzaram com os dela. Estavam vermelhos e lacrimejantes. Ele parecia verter lágrimas viscosas. Todo o seu corpo estava cheio de lama e de...

Sangue. Aquilo era sangue mesmo! Meu Deus! Meu Deus!...

Ela sentia-se paralisada. Nem mesmo podia respirar. Seus pul¬mões já não funcionavam. Ela já ouvira falar de pessoas paralisadas pelo medo, mas jamais poderia imaginar que aquilo aconteceria com tanta intensidade. Não havia contato entre seu cérebro e as pernas. Aquele filamento cinzento e retorcido que lhe corria pela espinha parecia ter sido desligado. Suas mãos eram estúpidos pedaços de carne grudados nos pulsos, completamente insensíveis. Não conse¬guiu reter a urina. Não se deu conta daquilo a não ser por uma longínqua sensação de calor.

       E o animal estava percebendo tudo. Os seus terríveis olhos vermelhos não se desgrudavam dos olhos grandes e azuis de Donna. Aproximou-se devagar, quase languidamente, e já estava quase fora da porta da oficina. Agora já estava em cima do cascalho a menos de 10 metros de distância. Nunca parava de rosnar. Um rosnado surdo e constante que, apesar de ameaçador, quase chegava a aca¬lentar. O focinho estava todo sujo com uma espuma que pingava sem

cessar. Ela não conseguia mover-se. Não conseguia mesmo.

       E foi então que Tad viu o animal, percebeu que ele estava todo sujo de sangue e soltou um grito estridente. Isto fez com que o olhar do cão se fixasse nele e também serviu para libertar sua mãe.

Ela voltou-se cambaleando, como se estivesse embriagada. Bateu de encontro ao pára-lama do carro com tanta força que a dor foi quase intolerável, mas conseguiu correr pela frente do carro. O rosnado do animal transformou-se num estrondoso rugido de raiva e ele precipitou-se em sua direção. Donna escorregou no cas¬calho e só não caiu porque se apoiou no carro, batendo nele com tanta força que chegou a soltar um grito de dor.

A porta do carro estava trancada pôr dentro. Fora ela mesma quem fizera aquilo, num gesto automático, quando saltara do carro. O botão cromado estava tão brilhante que quase a ofuscava com o reflexo do sol. Não vou conseguir abrir a porta para entrar e fechá-la novamente. Cada vez acreditava mais que tinha chegado a sua hora. Não vou ter tempo. Não há jeito...

Ela conseguiu finalmente abrir a porta. Ouvia claramente a sua respiração ofegante. Tad tornou a soltar um grito estridente.

Ela deixou-se cair atrás do volante, percebendo que Cujo vinha em sua perseguição, pronto para saltar-lhe em cima com todos os seus 100 quilos. Donna conseguiu bater a porta do carro, passando por cima do volante ao mesmo tempo em que fazia soar a buzina com o ombro. Tudo fora feito bem a tempo. Menos de um segun¬do depois da porta fechada, veio o surdo impacto como se alguém houvesse atirado um monte de lenha contra o carro. Os rugidos de raiva do animal cessaram de repente. Houve um momento de silên¬cio. Dentro de seu pensamento histérico, ela imaginava que o ani¬mal desmaiara com o choque e então agradeceu a Deus fervoro¬samente.

Logo depois, no entanto, a cara do cachorro apareceu do lado de fora da janela, com o focinho coberto .de espuma, ali bem per¬tinho dela, como se fosse o monstro de um filme de horror que resolvera eletrizar a platéia projetando-se para fora da tela. Ela via bem os seus enormes dentes amarelados e aguçados. E então, novamente, teve aquela horrorosa sensação que o animal a olhava, não como se fosse uma mulher qualquer que houvesse aparecido por ali com o filho, presa em seu carro, e sim, especificamente, para Donna Trenton como se, na realidade, estivesse esperando por ela desde algum tempo.

Cujo começou a latir novamente muito alto, apesar dos vidros de segurança do carro amortecerem o som. E então ocorreu-lhe de repente que se ela não houvesse levantado o vidro, automatica¬mente, ao parar o carro, lembrando-se das recomendações de seu pai (sempre que parar o carro você deve levantar os vidros, puxar o freio de mão, tirar a chave e fechar o carro por fora), era bem possível que estivesse ali com a garganta estraçalhada e com seu sangue sujando todo o carro. E fizera aquilo de forma tão automática que nem mesmo se lembrava de tê-lo feito.

Ela então gritou também.

       A cara horrorosa do animal desaparecera.

Foi aí que se lembrou de Tad olhando para ele, mas isso só serviu para aumentar ainda mais o seu terror. Ele não chegara a desmaiar, mas também não estava plenamente consciente do que acontecia. Estava recostado no banco com um olhar vidrado e o rosto muito branco, ao passo que os lábios estavam azulados nos cantos.

— Tad!

Ela estalou os dedos bem debaixo de seu nariz e ele piscou, assustado. Tad pareceu despertar e a sua voz ainda estava pastosa.

— Mamãe, como foi que o monstro de meu closet conseguiu fugir de lá? Será que estou sonhando? Será que estou dormindo?

Ela levou um susto quando ouviu o que ele lhe dizia.

       — Tudo vai acabar bem, meu filho... É somente...

Percebeu o rabo e o lombo do animal, que contornava o carro o ia para o outro lado, onde estava o filho.

E a janela do lado dele não estava levantada.

Ela dobrou-se por cima do menino e movimentou-se com tanta violência ao tentar levantar o vidro, que chegou a quebrar o dedo. Conseguiu rodar a manivela, ofegante, sentindo o filho debater-se sob sEu corpo. Já estava com o vidro quase em cima quando o cão Investiu contra a janela. Conseguiu enfiar o focinho pela brecha que ainda havia e ficou com ele apertado quando Donna levantou mais o vidro. O carro muito pequeno parecia aumentar ainda mais os seus latidos enfurecidos. Tad gritou novamente e cobriu a ca¬beça com as mãos, tapando também os olhos. Ele tentava esconder o rosto no colo da mãe e com isso ela via reduzida a sua força pata acabar de levantar o vidro.

   — Mamãe! Mamãe! Mamãe! Espante ele daqui! Mande esse monstro embora!

       Ela sentiu alguma coisa quente nas costas das mãos e percebeu horrorizada, que era a baba e o sangue que escorria da boca do animal. Usando toda a força que lhe restava, conseguiu levantar

mais o vidro e Cujo tirou fora a cabeça. Ela ainda viu-o de relance e sua cara, que antes fora de um amistoso e manso São Bernardo, era agora uma louca caricatura de um cão danado. Ele estava com os quatro pés no chão e ela só conseguia ver o seu costado enorme.

Agora a manivela já corria livremente e a janela estava bem fechada. Donna começou então a limpar as mãos, esfregando-as nos jeans e soltando gritos de nojo.

       —Meu Deus! Ave Maria, Mãe de Deus!

Tad voltara ao seu estado de quase inconsciência. Quando ela estalou os dedos na frente de seu rosto, Tad não reagiu de forma alguma.

Deus do céu! Ele vai agora ficar cheio de traumas por causa disto! Meu filhinho querido! Por que não o deixei lá com a Debbie?

Segurou-o pelos ombros e começou a sacudi-lo levemente.

— Será que estou dormindo, mamãe?

Ele soltou um gemido baixo que lhe dilacerou o coração.

— Não, meu filho. Você não está dormindo, mas tudo está bem agora. Está tudo bem, Tad. Aquele bicho não pode entrar aqui. As janelas estão bem fechadas. Ele não pode entrar. Ele não pode nos atacar.

Aquilo pareceu tranqüilizá-lo e seus olhos ficaram mais bri¬lhantes.

— Então vamos voltar para casa, mamãe. Não quero mais ficar aqui...

— Eu sei... eu sei. Nós vamos sair.

Como se fosse um gigantesco projétil, Cujo saltou em cima do capõ do carro e projetou-se contra o pára-brisa, latindo cada vez mais. Tad tornou a gritar com seus olhinhos arregalados e as mãos arranhando-lhe o rosto.

Donna viu-se obrigada a gritar com ele.

— Eu já lhe disse que ele não pode entrar aqui, Tad! Você está me ouvindo? Ele não pode nos pegar aqui dentro!

O animal bateu de encontro ao vidro com um som abafado e recuou, procurando manter-se em cima do capô muito escorregadio o arranhando a pintura. Depois, voltou à carga.

Tad gritou ainda com mais força.

— Eu quero voltar para casa, mamãe...

— Fique bem abraçadinho comigo, meu querido, e não se preocupe...

       Aquilo parecia uma tolice, mas o que mais poderia ela dizer-lhe?

       Ele mergulhou a cabeça em seu seio no momento exato em que Cujo atacava novamente. O vidro já estava todo sujo de sua baba, mas ele não desistia. Continuava a olhar para Donna com aqueles mesmos olhos vidrados e inconscientes. Eram olhos que diziam a vontade que sentia de estraçalhá-la juntamente com o fi¬lho. Vou achar uma maneira de entrar aí nesta lata e então comerei os dois, pareciam dizer. Estarei engolindo pedaços seus e ainda ou¬vindo seus gritos.

—   Danado... Este cão está danado...

Era só o que ela pensava agora.

             Cada vez mais apavorada, ela olhava para o carro de Joe estacionado ali ao lado e ficava imaginando se ele teria sido mordido pelo cão.

            Ela apertou o botão da buzina e o animal recuou, quase per¬doado o equilíbrio novamente.

Donna adorou a reação e gritou-lhe, muito satisfeita.

       — Não está gostando nada disso, não é mesmo? Faz-lhe doer os ouvidos, hem?

Tornou a buzinar com insistência e ele saltou para baixo.

—Mamãe.., por favor, vamos voltar para casa...

           Ela virou a chave da ignição e o arranque rodou, rodou, rodou, mas não pegou... Ela desistiu e desligou a chave novamente.

— Meu querido, nós não podemos sair agora. O carro...

— Eu quero ir embora. Quero ir embora agora mesmo, mamãe!

             Ela sentia a cabeça bater tanto que parecia prestes a estourar, com dores perfeitamente sincronizadas com as batidas do coração.

             —Olhe aqui, Tad. Ouça-me com bastante atenção. O carro não quer funcionar. Está com aquela tal válvula enguiçada. Nós temos que esperar aqui até o motor esfriar. Tenho certeza de que vai funcionar quando esfriar... E então nós vamos voltar para casa.

           Tudo que precisamos fazer é sair daqui da entrada e apontar o carro para baixo no declive. Então, mesmo que ele não funcione, poderemos deslizar até lá embaixo. Se não tiver medo e se eu na pisar no freio, nós poderemos chegar até a Estrada Maple Sugar, com o motor desligado... ou então...

           Lembrou-se da casa que ficava lá embaixo da colina. Aquela que tinha as madressilvas. Lá devia ter alguém. Ela vira os carros.

Alguém!

Começou novamente a tocar a buzina. Três buzinadas curtas e três longas, um sem-número de vezes. Era a única coisa que se lembrava de seus dois anos de escotismo. Eles ouviriam lá embaixo, mesmo que não entendessem o código Morse. Viriam até ali para ver o que estava acontecendo na casa do Joe. Para ver a razão daquela buzinação.

Por onde andaria o animal? Já não o via mais. Aquilo, no entanto, não tinha mais importância. Ele não podia entrar no carro e logo viria alguém para socorre-los ali.

— Tudo vai dar certo, Tad. Você vai ver como vai mesmo...

 

A sede dos estúdios da Image-Eye, a companhia que produzia os filmes para a Ad Worx, ficava num prédio sujo de tijolos aparen¬tes. Os escritórios eram no quarto andar e havia no quinto uma suíte com dois estúdios. A sala de projeção, mal refrigerada e com¬portando apenas umas 16 pessoas em fileiras de bancos, em grupos de quatro, ficava no sexto andar, que era o ultimo.

Naquele começo de tarde de segunda-feira, Vic e Roger esta¬vam sentados na terceira fila da sala de projeções, em mangas de camisa e com os colarinhos abertos. Tinham visto os filmes do Pro¬fessor dos Cereais nos comerciais da Sharp repetidos cinco vezes, todos eles. Eram ao todo 20. Desses 20 havia três da malfadada série da Zingers.

O último rolo, com seis comerciais, terminara meia hora antes, quando o projecionista dera o seu boa-noite e fora para o seu outro emprego no Cinema Orson Welles. Quinze minutos depois, Martin, o presidente da companhia, tinha dado também o seu boa-noite com certo mau humor, acrescentando que sua porta estaria aberta para eles todo o dia seguinte e também na quarta-feira, caso precisassem dele. Evitou falar sobre aquilo que estava no pensa¬mento de todos eles. A porta estaria aberta no caso de eles descobri¬rem alguma coisa que realmente valesse a pena discutir.

         Ele tinha todo o direito de se mostrar de mau humor. Era um veterano do Vietnã que perdera uma perna na ofensiva de Tet. Tinha aberto o estúdio em 1970, com o dinheiro recebido do governo, devido à sua incapacidade física, e com a ajuda da família de sua mulher. Desde então, o estúdio vinha-se mantendo com mi¬galhas da mesa onde se reuniam para seus banquetes os mais importantes estúdios e veículos de comunicação de Boston. Ele acei¬tara a firma de Vic e Roger por causa da semelhança que havia entre as duas organizações naquela luta contra os grandes. E, naturalmente, Boston fora escolhida pela facilidade que oferecia para viagens de contatos com os grandes centros. Sob esse ponto de vista, era até melhor do que Nova York.

Nos últimos 16 meses a companhia de Martin tinha prospera¬do e ele tivera oportunidade de conseguir bons contratos apenas devido ao fato de estar trabalhando para a Sharp. Assim, pela primeira vez, tudo parecia bem sólido para eles. Em maio, quando a campanha dos cereais estava no auge, ele enviara um cartão-postal a Vic e Roger, mostrando um ônibus cheio de turistas de Boston. No outro lado havia quatro garotas bonitas, que se curvavam exi¬bindo os traseiros, todas trajando jeans de alta qualidade. No cartão estava escrito, em estilo de tablóide, a seguinte mensagem: A COM¬PANHIA ASSINOU CONTRATO PARA CRIAR BUNDAS BONITAS PARA OS ÔNIBUS DE BOSTON E VAI GANHAR MUITA GRANA. Muito engraçado naquela ocasião, mas já agora não tinha tanta graça assim. Desde o fracasso da Zingers, dois clientes já haviam rescindido seus con¬tratos com a companhia e um deles era a fábrica de jeans Cannes ¬Look. Se a Ad Worx perdesse o contrato da Sharp, a companhia de Martin perderia mais alguns além da Sharp e isso deixava-o zangado e apavorado.. emoções essas que Vic compreendia muito bem

Já fazia uns cinco minutos que eles estavam ali sentados, fu¬mando em silêncio, quando Roger falou, baixinho:

— Eu tenho vontade de soltar um peido, Vic, quando vejo aquele tipo ali, sentado em sua mesa, olhando-me com a cara amar¬rada e a boca cheia daquele maldito cereal vermelho, como se qui¬sesse repetir as palavras do Professor. Até sinto vontade de vomitar. Sinto-me fisicamente doente. Ainda bem que o operador já foi embora. Se fôssemos passar tudo outra vez, eu me preveniria com uma daquelas sacolas que as companhias de aviação dão aos pas-sageiros para eles vomitarem...

Apagou o cigarro do cinzeiro que estava no braço de sua cadeira. Ele estava mesmo com uma cara que não agradava a Vic. Era uma cara que poderia ter vários nomes, como “choque de batalha”, “fadiga de combate” e outros mais, quando, na realidade, não passava de verdadeiro cagaço. Estava encurralado num beco sem saída. Era como se estivesse numa escuridão, sabendo que ia ser devorado.

Esticou então o braço e pegou outro cigarro.

— Eu estava sempre me dizendo que via alguma coisa... sabe como é... mas nunca podia imaginar que seria tão ruim assim. Mas o efeito cumulativo desses filmes.:. Para mim isso é o mesmo que ouvir o Jimmy Carter garantir que jamais mentiria para o povo.

Tirou uma tragada do cigarro, fez uma careta e apagou-o .no cinzeiro.

—   Não é de admirar o sucesso conseguido por George Carlin e Steve Martin naquela porcaria do programa da TV. Para mim, aquele cara tem um aspecto de fanfarrão que me enche...

A voz dele agora parecia como a de alguém que vai romper em prantos. Mas calou a boca de repente.

Vic falou por fim, com ar bem tranqüilo:

—   Tenho uma idéia...

Roger olhou-o, sem grandes esperanças.

—   Eu sei que você tem. Já me falou exatamente isso no avião. Se tem mesmo uma, então o melhor é falar logo. Vamos ver o que é...

—   Acho que precisamos fazer ainda um outro comercial com o Professor dos Cereais. Acho que precisamos convencer o velho. Nada com o garoto. É só com o velho...

—   E o que é que o velho mestre vai dizer agora, Vic? Qual é o produto que ele vai vender? Veneno para ratos ou suco de laranja?

— Deixe disso, Roger. Ninguém foi envenenado...

— Bem que poderia ter sido. Às vezes, chego a pensar se você realmente sabe o que é publicidade, Vic. É o mesmo que se¬gurar um lobo pelo rabo. É isso mesmo. O diabo é que soltamos o rabo e o bicho agora quer nos comer.

Ele deu uma risadinha sarcástica.

—   Roger...

—   Estamos num país em que é notícia de primeira página quando um freguês do McDonald’s pesa um produto que devia ter o peso anunciado e depois verifica que não tem. Faltava só um pouquinho. Estamos num país em que uma obscura revista da Ca¬lifórnia publica um artigo dizendo que uma batida na traseira de um Ford Pinto pode ocasionar a explosão do tanque de gasolina e então toda a Companhia Ford treme nas bases...

Víc achou graça.

—   Não me venha com essa agora, Roger. A minha mulher tem um desses carros. E já estou cheio de problemas.

       —  Só quero dizer que fazer o Professor aparecer em outro comercial da Sharp pode parêcer um ato de esperteza só comparável com um outro, como, por exemplo, fazermos o Nixon repetir o seu discurso a respeito da situação do país. O Professor ficou seriamente comprometido, Vic. Está completamente liquidado! E o que é que você quer que ele venha dizer na TV, Vic?

       O sócio encarava-o, muito sério.

       —   Ele vai pedir desculpas, Roger.

       Roger olhou-o gravemente e a seguir deu uma gargalhada.

       —  Vai se desculpar, Vic? Vai dizer que sente muito? Mas isso é simplesmente maravilhoso! Então essa era a sua grande idéia?

—   Espere um pouco, Roger. Dê-me uma oportunidade. Você não costuma ser assim ...

             — Não, Vic. Não costumo mesmo. Diga lá o que está que¬rendo. Só que não posso acreditar...

             — Que estou falando sério? Mas estou falando muito sério, Roger. Afinal, você freqüentou as aulas. Diga-me qual é a base de toda campanha publicitária. Qual é o valor da propaganda? Por que gastar tanto dinheiro com ela?

             — A base de toda propaganda, para ser bem-sucedida, é que o povo tenha vontade de acreditar. É quando o povo faz a própria propaganda.

             —    Eu sei... eu sei. É quando o mecânico da Maytag apa¬rece na TV dizendo-se o homem mais solitário do mundo e então as pessoas tendem a acreditar que um cara como aquele existe realmente em algum lugar sem ter o que fazer, a não ser ouvir o rádio ou cair numa farra de quando em quando. E então as pessoas sen¬tem o desejo de acreditar que suas Maytags não enguiçam nunca. Quando Joe DiMaggio aparece fazendo propaganda do café todo mundo quer acreditar no que ele diz. Se...

             — Pois não é exatamente por isso que estamos todos num beco sem saída? Todo mundo queria acreditar no Professor e ele deixou-os na mão. A mesma coisa aconteceu quando queriam acre¬ditar em Nixon e ele...

             — Níxon! Nixon! Nixon! Você está se alienando com essa comparação, Roger. Você já disse isso umas duzentas vezes depois que estamos nesta encrenca, embora seja uma coisa que não vem as caso! Nada tem a ver com nossa situação!

Vic estava espantado com a sua veemência e Roger olhava-o mais atônito.

     — Nixon era um trambiqueiro, sabia que era um trambiquei¬ro, mas sempre negava que o fosse. O Professor da Sharp disse que nada havia de errado com o produto da Zingers, mas ele não sabia se havia ou não.

Vic inclinou-se e espetou o dedo no braço de Roger para cha¬mar-lhe bem a atenção.

—   Ele fez aquilo de boa fé, Roger. Ele precisa aparecer em cena para revelar isso. Ele precisa apresentar-se ao público da na¬ção e dizer que não agiu de má fé. Tudo que houve foi um engano da parte de uma companhia que fabrica as anilinas. O erro não foi da Sharp e ele precisa dizer isso com toda a clareza. E o mais importante ainda é que ele precisa apresentar suas desculpas, di¬zendo o quanto sente pelo engano cometido e também que, em¬bora não houvesse vítimas fatais, ele se desculpa pelo medo que espalhou.

Roger sacudiu a cabeça e depois deu de ombros.

—   Sim, sim. Já vejo onde você quer chegar, Vic. Mas o velho e o garoto não vão querer saber disso. Eles simplesmente querem sepultar o fi...

—   Eu sei! Eu sei! Eu sei, Roger! — Vic falava tão alto que Roger chegou a recuar. Ele pôs-se de pé e começou a andar de um lado para outro na passagem da minúscula sala de projeção. —Claro que querem e estão com a razão. O cara está morto e precisa ser enterrado. O Professor precisa ser enterrado agora que a Zingers já foi também enterrada. O que precisamos fazer agora é evitar que o enterro seja feito às escondidas, à meia-noite. Esse é o ponto exato. O que eles querem é fazer isso à moda da Máfia, ou então de parentes que enterram uma vitima da cólera.

Ele inclinou-se tanto para o sócio que seus narizes chegaram a se tocar.

—   O que temos obrigação de fazer é conseguir um enterro de¬cente em plena luz do dia, para que ele possa mesmo repousar em paz. E o que quero é fazer com que todo o país compareça ao seu enterro...

—   Você está .....

Roger não terminou o que ia dizer e fechou a boca com um estalo. E Vic então percebeu, afinal, que o seu sócio já não tinha mais aquele aspecto de animal acuado. O seu rosto se transformara. Já não se via nele aquela expressão de medo. Parecia até mesmo bem animado. Estava começando a sorrir. Aquele sorriso aliviou-o tanto que ele chegou a esquecer Donna e todos os problemas surgidos depois de haver recebido o bilhete de Steve. A parte profissional tomou conta dele completamente e foi só mais tarde que se deu conta, embora ainda um tanto aturdido, de como se sentia mara¬vilhosamente bem ao verificar que era bom mesmo na sua profis¬são. Já fazia algum tempo que não se sentia tão satisfeito assim.

         — Na realidade, o que queremos mesmo é que o Professor repita tudo que a Sharp vem dizendo desde o malfadado aconteci¬mento, porque sendo dito por ele...

         — O resultado é outro, Vic.

         Roger acendeu mais um cigarro.

         —É isso. Creio que será possível convencer o velho a colo¬car um ponto final na farsa da Zingers. Falando com franqueza...

         —Engolindo o remédio por mais amargo que ele seja. Acho que isso vai funcionar com aquele bode velho. Penitência públi¬ca..... auto-flagelação...

     — E, então, ao invés de cair fora como um cidadão digno que se esparrama num lamaçal, servindo de chacota para todo mundo, ele sai de cena como Douglas McArthur, dizendo que os velhos soldados nunca morrem. Apenas desaparecem. Isso é o que está na superfície da coisa. Por baixo, no entanto, nós procuramos algo mais... um.... um sentimento...

Ele agora já estava cruzando a fronteira e penetrando no ter¬reno de Roger. Desde que conseguisse delinear a forma daquilo que iria dizer, da idéia que lhe ocorrera quando tomava o café o sócio faria a sua parte aproveitando a dica.

E então, Roger começou a falar baixinho.

       — MacArthur... mas é isso mesmo, Vic. Pois então você não acha.? O tom vai ser a. despedida. O adeus. O sentimento será o arrependimento. Precisamos fazer com que o povo sinta como foi o tratamento dado ao Professor, fazendo-lhe ver, ao mesmo tempo que agora já era tarde para arrependimento. E então...

       Ele virou-se para Vic como que espantado.

       — O que é?

   — Então chegou a hora...

— Para quê?

       — Para os comerciais. Isso tem que ser no horário nobre. para os pais e não para as crianças. Certo?

—   Claro.

—   Mas isso, só se conseguirmos fazer a porcaria dos comer¬ciais, Vic.

— Nós vamos fazer, Roger. Vai ser um barato! Eles terão que assistir nem que seja preciso pegá-los à força. Mas precisamos ter alguma coisa de concreto antes de chegarmos a Cleveland...

Vic já sorria, satisfeito.

Ficaram ali sentados mais uma hora, trocando idéias. Já esta¬va bem escuro quando finalmente saíram de volta ao hotel, cansa¬dos e suados.

 

 

 

Nós vamos poder voltar para casa agora, mamãe?

— Nós vamos voltar daqui a pouco, meu amor...

Ela olhou para e chave da ignição e para as outras que esta¬vam no chaveiro, uma da porta de casa, outra da garagem e outra do porta-malas do carro. O chaveiro tinha uma parte de couro onde estava estampado um cogumelo e ela comprara-o numa loja em Bridgton, em abril. Naquela época ainda não sabia o que era o medo, apesar de andar bem desiludida e assustada. Ainda não sen¬tira aquele medo como quando um cão danado estava com a cabeça presa na janela do lado onde seu filho estava, a baba escorrendo-lhe na mão.

Esticou o braço para a chave, mas encolheu-o novamente.

A verdade era que tinha medo de tentar.

Já eram 7:15 e o dia ainda estava bem claro, embora a som¬bra do carro fosse muito comprida, quase chegando até a porta da oficina. Embora Donna não soubesse, Vic e seu sócio estavam na¬quele momento repassando os filmes do Professor, lá em Cambridge. Não entendia como ninguém havia respondido aos seus SOS com a buzina do carro. Se fosse num livro já alguém teria aparecido. Seria a recompensa para a heroína, por ter tido aquela idéia brilhante. Ninguém aparecera, no entanto.

Não podia haver dúvida de que a buzina fora ouvida lá naquela casa em ruínas no sopé da colina. Talvez estivessem todos bêbados lá. Mas também era possível que os donos dos dois carros que ela vira houvessem saído num terceiro carro. Seria bom se pudesse ver a casa lá embaixo, mas a elevação do terreno não lhe permitia isso.

Ela acabara desistindo das buzinadas. Também temia gastar a bateria do carro, que ainda era a original, e continuava a acreditar que o motor pegaria logo que estivesse bem frio. Sempre aconteceu isso antes.

Mas você está com medo de tentar, porque, se ele não pegar...então o que mais poderá fazer?

Ela estava esticando o braço novamente para a chave quando o cão tomou a aparecer, andando com dificuldade. Estivera todo o tempo deitado bem ali na frente do carro, onde ela não.conseguia vê-lo. Ele caminhava lentamente na direção da oficina, a cabeça baixa e o rabo entre as pernas. Cambaleava como um bêbado que chegava ao amargo fim de sua jornada. Sem mesmo olhar para trás, ele entrou na oficina e lá ficou.

Ela encolheu novamente o braço que tentava chegar à chave.

       — Mamãe? Nós não vamos mais embora daqui? — disse Tad.

       — Deixe-me pensar um pouco, meu amor.

Com quatro passadas rápidas ela poderia alcançar a porta dos fundos da casa. Ela fora a campeã de corrida no time do ginásio e ainda estava em boas condições físicas. Lá havia o telefone e então poderia ligar para a polícia, a fim de pôr um fim àquele horror. Por outro lado, se tentasse novamente dar a partida, o mo¬tor poderia não pegar, mas certamente traria o cão de volta. Ela não sabia coisa alguma a respeito de hidrofobia, mas tinha uma vaga idéia de já haver lido que os animais hidrófobos eram tre¬mendamente sensíveis aos ruídos e ficavam ainda mais danados.

— Mamãe...

         — Psiu      ... Tad. Não faça barulho.

Eram somente umas oito passadas correndo.

Valia a pena tentar.

Mesmo se o animal estivesse escondido na oficina, espiando espiando seus movimentos, Donna tinha certeza de que chegaria primeiro à porta dos fundos E lá havia o telefone. E, aliás, um homem como Joe certamente teria alguma arma em casa. Quem sabe até mesmo mais de uma. Seria para ela um grande prazer fuzilar o animal e ver seus miolos espalhados como geléia.

Eram só oito passadas largas...

Poderia sempre tentar.

E se aquela porta estivesse trancada?

Valeria a pena correr o risco?

Sentia o coração aos saltos enquanto avaliava as probabilidades. Seria coisa completamente diferente se estivesse sozinha. Se a porta estivesse fechada ela poderia chegar na frente do animal na ida, mas não na volta para o carro. Ele ganharia a corrida e ga¬nharia também se avançasse para ela, como já havia feito antes. E o que faria seu filho? E se ele presenciasse sua mãe sendo atacada e estraçalhada por um cão danado?

Não. Eles estavam bem seguros ali dentro.

Então por que não tentar novamente o motor?

Esticou o braço para a chave, apesar de uma parte dela achar que seria melhor esperar mais um pouco. Esperar o motor esfriar mais.

Esfriar mais? Como assim? Já fazia mais de três horas que estavam ali...

Ela agarrou resolutamente a chave e virou-a.

O arranque rodou uma vez, duas vezes, três vezes e, então, de repente, pegou com estrondo.

— Graças a Deus! — gritou.

— Mamãe! Mamãe! Nós já vamos? Vamos mesmo?

— Vamos sim, meu filho.

Ela engrenou a marcha à ré e logo o cão apareceu na porta da oficina. Ficou olhando para o carro, enquanto ela lhe gritava impropérios diante do triunfo.

Pisou no acelerador e o carro andou um pouquinho para trás, mas logo parou o motor.

Donna soltou um grito de desespero, enquanto o cão dava mais uns passos à frente e a luz vermelha, do painel se acendia idiota¬mente.

— Não é possível!

Agora, porém, lá estava o bicho em silêncio, parado, com a cabeça baixa, e Donna tinha novamente a impressão de que a vi¬giava. A sua sombra projetava-se nitidamente para trás, como uma figurinha recortada em papel preto.

Ela tornou a ligar a ignição, virando o motor várias vezes sem conseguir fazer com que ele funcionasse. Donna ouvia o som de alguma coisa ofegante e áspera e levou algum tempo até descobrir que era ela própria quem estava fazendo aquilo, pensando de maneira muito vaga que era o cão. Ela continuava com o arranque ligado e rodando, fazendo caretas horríveis, esquecida de Tad e soltando impropérios que nem mesmo sabia como lhe vinham à boca. E o animal continuava lá, sua sombra se projetando como se fosse algum enterro surrealista, mas sempre atento.

       Deitou-se por fim na passagem para a casa, como se soubesse que assim cortava qualquer possibilidade de fuga. Donna odiou-o ainda mais do que naquele momento em que ele enfiara a cabeça na janela.

— Mamãe! Mamãe! Mamãe!

Aquilo vinha de muito longe e não tinha importância. A única coisa que realmente importava agora era aquele carrinho de merda que ali estava, sem querer funcionar. Mas ele ia funcionar. Ela ia obrigá-lo a funcionar, usando para isso somente o poder da von¬tade...

Ela não fazia a menor idéia do tempo verdadeiro que se pas¬sara desde que estavam ali e continuava teimosamente a girar o ar¬ranque. O que, afinal, despertou sua atenção não foi o choro do filho, que já se reduzira a pequenos gemidos, e sim o barulho do motor que funcionava bem cinco segundos e logo parava para tornar a funcionar outros cinco, parando logo em seguida.

Ela estava acabando com a bateria e então resolveu parar.

Donna foi aos poucos recuperando a calma, como alguém que desperta de um desmaio. Lembrava-se de uma crise de gas¬trite que tivera quando estava na universidade e então tudo em tinha no estômago saía-lhe por cima e por baixo, desmaiando por fim num dos banheiros do dormitório. A recuperação fora bem parecida com o que lhe acontecia agora. Sentia-se como se fosse a mesma, mas com um pintor invisível adicionando cor ao mundo, enchendo.o primeiro até as bordas e depois ainda mais até trans¬bordar. As cores gritavam-lhe nos ouvidos. Tudo em torno parecia¬ ser de plástico e falso, como a vitrina de uma grande loja, com cartazes como ‘JÃ CHEGOU A PRIMAVERA ‘ou então ‘PRONTO PARA O PRIMEIRO CHUTE’...

       Tad estava todo encolhido ali ao seu lado, os olhos apertados e chupando o dedo. A outra mão livre apertava o bolso onde tinha dobrado o papel com as Palavras Para os Monstros. Tinha a respiração ¬ofegante.

         — Fique calmo, meu amor...

       A vozdele era pouco mais que um sussurro.

         — Você está bem, mamãe?

         Claro que estou, meu querido. E você também está. Pelo menos estamos em segurança e o carro vai funcionar a qualquer momento.

       — Pensei que você estava zangada comigo...

Ela abraçou-o carinhosamente. Sentia na cabecinha dele o cheiro de suor misturado com xampu Johnson e então lembrou-se do vidro que estava lá no banheiro da casa, na segunda prateleira do armarinho de remédios. Ela bem que gostaria de estar lá tam¬bém, mas o perfume estava ali bem perto, embora muito fraco.

— Não, meu amor! Nunca estive zangada com você. Nunca mesmo...

O    menino abraçou-se com ela.

—   Aquele bicho não pode pegar a gente, não é mesmo, ma¬mãe?

—   Não, meu querido...

—   Não pode mesmo, não é, mamãe? Ele não pode entrar aqui.

       — Não pode não, Tad.

       — Estou com raiva dele, mamãe. Queria que ele morresse.

— Eu também queria, Tad.

Donna olhou pela janela, viu que o sol estava quase desapare¬cendo e sentiu-se assaltada por um pavor supersticioso. Lembrava-se de quando brincava de esconder na sua infância, brincadeira que sempre acabava quando o sol se punha, formando uma espécie de lagoa vermelha e dos gritos que a chamavam para jantar ecoando pelas ruas do bairro onde moravam. Logo depois as portas se fechavam quando chegava a hora de dormir.

O    cão não tirava os olhos dela. Donna sabia agora que ele estava irremediavelmente danado e seus olhos não mostravam a me¬nor expressão.

Não. Você está imaginando coisas. Aquilo é somente um ca¬chorro e um cachorro bem doente. As coisas já estão bastante ruins e você, ainda por cima, começa a ver nos olhos dele coisas que não existem.

Ela procurava convencer-se de que aquela era a realidade. Pouco depois, já imaginava que os olhos do animal eram como aqueles retratos a óleo, em que os olhos do retratado acompanham as pes¬soas para todos os cantos do aposento.

O    animal, no entanto, continuava a olhar para ela e Donna percebia naquele seu olhar alguma coisa que lhe era familiar.

       Ela não acreditava e procurava pensar em outra coisa, mas já era muito tarde.

Você já o viu antes, não é mesmo? Foi naquela manhã depois daquele primeiro pesadelo de Tad. Na manhã em que encontrou os cobertores em cima da cadeira, com o urso em cima. E, então, quando se abria a porta do closet, a única coisa que você via era o urso com os olhos brilhantes e vermelhos, como se fosse alguma coisa prestes a saltar. Era ele. Era o Cujo. Tad estivera com a ra¬zão durante todo o tempo, embora não houvesse monstro algum no closet ... ele estava aqui. Ele estava

(basta)

aqui só esperando

(BASTA! PARE COM ISSO DONNA!)

Ela olhou para o animal, pensando que poderia ouvir seus pen¬samentos. Pensamentos bem simples. Os mesmos padrões simples, repetidos um sem-número de vezes a despeito da ebulição de sua doença e de seu delírio.

Mate A MULHER. Mate o MENINO. Mate A MULHER. Mate...

Pare com isso! Ele já não pensa e também não é nenhuma as¬sombração saída do closet de uma criança. Ê apenas um cão doente e nada mais. Dentro em pouco você já estará pensando que ele é o castigo de Deus porque você cometeu...

Cujo levantou-se, de repente, quase como se ela o houvesse chamado, e entrou na oficina.

(quase como se eu o houvesse chamado)

Ela soltou uma gargalhada quase histérica e Tad levantou a cabeça.

 

       — O que foi, mamãe?

       — Não foi nada, meu amor...

Ela olhou para a goela aberta que era a porta da oficina e de¬pois para a porta da casa. Estaria trancada? Estaria só com o trinco e fácil de abrir por fora? Estaria ou não estaria trancada? Ela via uma moeda saltando no ar para tirar a sorte. Pensou na roleta russa com o tambor da arma só com uma bala. Trancada? Destrancada?

 

O sol já tinha desaparecido e tudo que restava do dia era uma réstia branca no horizonte. Não parecia mais grossa do que a linha que pintavam nas estradas. Em pouco tempo já teria desaparecido. Os grilos cantavam na relva alta do lado direito da entrada, como se estivessem

cricrilando alegremente, sem pensar nas conseqüências. continuava lá dentro da oficina e não sabia se ele estava comendo ou dormindo. Só então lembrou-se que também trouxera provisões esticou-se para apanhar a lancheira de Tad e a sua sacola escura.

A garrafa térmica tinha rolado lá para trás, provavel¬mente na ocasião em que o carro se sacudira todo na subida. Ela precisou esticar-se toda e a blusa lhe escapara da saia, mas, afinal, conseguiu pegá-la com os dedos. Tad estivera meio adormecido, mas agora já despertara completamente. A voz dele mostrava bem o medo que sentia e isso só serviu para aumentar nela o ódio que sentia pelo animal.

—   Mamãe! Mamãe... o que é que .......

— Vou só apanhar a comida e a garrafa térmica, meu filho.

— Está bem.

Ele tomou a acomodar-se no assento, com o dedo novamente na boca.

Ela sacudiu com cuidado a garrafa para ver se estava quebra¬da, mas só ouviu o barulho do leite lá dentro. Aquilo já era alguma coisa...

— Tad? Você quer comer alguma coisa?

       — Eu quero mesmo é dormir, mamãe.

A resposta veio sem ele tirar o dedo da boca e sem abrir os olhos.

—   É preciso alimentar a máquina, companheiro...

Ele nem mesmo sorriu.

— Não estou com fome, mamãe. Estou com sono.

Ela olhou-o aflita, mas achou que o melhor mesmo era não insistir. O sono era a única arma natural de Tad e já passava uns 30 minutos de sua hora normal de ir para á cama. Era claro que, se estivessem em casa, ele tomaria um copo de leite com biscoitos antes de escovar os dentes... depois queria uma história do seu livro predileto e...

Sentiu que lhe chegavam as lágrimas e achou melhor pensar em outra coisa. Abriu a garrafa com as mãos trêmulas e encheu o copo pela metade. Colocou-o na sua frente, em cima do painel, e apanhou um biscoito. Logo depois da primeira dentada, verificou que estava morta de fome. Comeu mais biscoitos e bebeu mais leite. Comeu algumas azeitonas e bebeu o resto do leite. Arrotou baixinho e depois olhou com mais atenção para a porta da oficina.

Agora havia uma sombra mais escura lá na porta. Só que não era uma sombra e sim o cão. Era o Cujo.

Ele está nos vigiando...

Não. Ela não acreditava que estivesse. Tampouco acreditava agora que vira uma aparição de Cujo em cima dos cobertores do closet. Não acreditava.., mas sentia uma parte dela que acreditava. Só que essa parte não estava em seu espírito.

 

Ela levantou os olhos para o retrovisor e olhou para a estrada. Nada via porque já estava muito escuro, mas sabia que ela estava lá como também sabia que ninguém mais passaria por ali. Quando eles tinham vindo ali, da outra vez, no Jaguar de Vic, todos estavam muito alegres. O cão mostrara-se então muito manso e sociá¬vel e Tad brincara bastante com ele. Nessa ocasião, Vic lhe dissera que, até cinco anos antes, o depósito de lixo da cidade ficava no fim da Rodovia 3. Fora então que a estação de tratamento de lixo se instalara e começara a funcionar no outro lado da cidade, e então agora, logo ali adiante da casa de Joe, a rodovia simples¬mente terminava e havia uma grossa corrente atravessada com uma placa pendurada. PROIBIDA A ENTRADA O DEPÓSITO DE LIXO ESTÁ PBCHAD0. Além da casa de Joe não existia mais nada.

Donna imaginava a possibilidade de algum casal aparecer por ali, mas concluiu que nem mesmo um rapaz completamente louco se lembraria de vir namorar no antigo depósito de lixo. Aliás, ninguém ainda havia passado por ali.

       A linha do horizonte já desaparecera, deixando apenas uma luminosidade... mas Donna receava que até mesmo aquilo fosse uma ilusão. Era uma noite sem luar.

       Por incrível que parecesse, ela começou a ficar também com sono. Talvez o sono fosse também a sua única arma. E o que mais poderia ela fazer? Acreditava que o cão ainda estivesse lá, mas a escuridão era tanta que tomava-se impossível verificar se estava mesmo. Era preciso deixar a bateria descansar antes de tentar no¬vamente. Então por que não dormir também?

Aquele embrulho na caixa do correio... Aquele embrulho enviado por J. C. Whitney.

Ela empertigou-se no banco, a testa franzida como se estivesse imaginando alguma coisa. Voltou a cabeça, mas dali onde estava só conseguia ver a caixa do correio. Por que lhe havia ocorrido aquele pensamento? Teria ele algum significado? Ela ainda tinha na mão a vasilha de plástico onde estavam as azeitonas e os pepinos. Ao invés de continuar a comer, ela tampou a vasilha e colocou-a na lancheira de Tad. Não queria começar a pensar no cui-dado que estava tendo com a comida. Sentou-se novamente e virou o dispositivo que abaixava as costas do banco. A sua intenção era pensar mais um pouco naquele embrulho que estava lá na caixa do correio. Tinha a certeza de que ali deveria haver alguma coisa. Logo, porém, seu pensamento voltou-se para outra direção que lhe parecia mais real e então começou a cochilar.

       Joe e a família certamente tinham ido visitar parentes que deviam morar ali perto, a umas duas ou três horas de distância, talvez em Kennebunk; mas também poderia ser Hollis ou Augusta. Seria uma reunião de família.

       Sua mente, já meio entregue ao sono, visualizava uma reunião de umas 50 pessoas ou mais num gramado pequeno e bonito. Havia uma churrasqueira acesa e numa longa mesa sentavam-se umas 40 pessoas, passando pratos cheios de espigas de milho, outros com feijões, ervilhas e várias verduras. Havia pratos cheios de churras¬co já pronto e Donna percebia a reação de seu estômago a todas aquelas iguarias. A mesa era coberta com uma toalha de xadrez bem caseira e presidindo a festa estava uma encantadora senhora de cabelos completamente brancos, enrolados para formar um coque. Já agora completamente imensa no sonho, Donna verificou que ela era sua mãe e isto não lhe causou surpresa alguma.

           Joe estava lá com a mulher e o filho, mas não se tratava do verdadeiro Joe Camber. Ele mais se parecia com Vic enfiado num macacão da Sears bem limpo, ao passo que sua mulher era a pró¬pria Donna em seu vestido de seda verde-claro. O filho deles mos¬trava como Tad seria quando tivesse a sua idade.

— Mamãe...

             O    quadro tremeu outra vez e começou a desaparecer. Ela ten¬tou apegar-se a ele porque era um quadro tranqüilo e encantador. Era o arquétipo da vida em família que ela jamais conhecera. Era o tipo que ela e Vic jamais teriam, com o planejamento de um único filho e uma vida cuidadosamente programada. Com um cres¬cente sentimento de tristeza ela pensava agora por que razão nunca havia encarado a vida sob aquele aspecto até então.

— Mamãe...

           O quadro tremeu mais uma vez e começou a ficar mais escuro. A voz que vinha de fora atravessava a visão da mesma forma que uma agulha atravessava a casca de um ovo. Aquilo já não tinha importância. Joe e sua família iriam aparecer de um momento para o outro, por volta das 10, alegres e entupidos de churrasco e tudo acabaria bem. O Joe com a cara de Vic cuidaria de tudo. Tudo es¬taria bem outra vez. Havia certas coisas que Deus jamais permitia. Tudo seria...

           —Mamãe

Ela despertou completamente e sentou-se cheia de surpresa por se ver ali atrás do volante, em vez. de estar em casa na cama...mas aquilo durou apenas um segundo. Aquela família feliz, reunida em torno de uma mesa com churrasco, já estava desaparecendo. Dentro de mais 15 minutos ela nem mesmo se lembraria do sonho.

— Hem? Hã? O que é, meu filho?

De repente e de forma bem chocante, o telefone começou a tocar lá dentro da casa. O cão levantou-se fazendo com que as som¬bras se movimentassem em formas bem estranhas.

— Mamãe... eu quero ir ao banheiro...

Ao ouvir o telefone, Cujo começou a latir, mas não era um latido e sim um rugido. Saiu disparado em direção à casa. Proje¬tou-se com tanta força contra a porta que ela chegou a estremecer.

Ela ficou apavorada. Não... não...basta...por favor, pare com isso...

— Mamãe... eu preciso...

O animal estava ameaçador e mordia a porta. Ela ouvia a ma¬deira quebrar-se entre seus dentes.

—   Quero fazer pipi.;.

O telefone continuava a tocar. Seis vezes. Oito. Dez e então parou.

Só aí ela percebeu que estivera com a respiração suspensa. Afinal suspirou profundamente.

Cujo continuava lá na porta, com as patas traseiras no chão e as dianteiras no último degrau. Continuava a rosnar baixo, fazendo um barulho que era um verdadeiro pesadelo. Voltou-se por fim e ficou olhando para o carro. De onde estava, Donna via-lhe .a boca e o peito sujos com a espuma. Depois, voltou para a sombra e ela não o distinguia mais. Era impossível dizer para onde tinha ido. Talvez estivesse na oficina. Mas também poderia estar do lado de fora.

Tad puxava-lhe agora a camisa como um desesperado.

—   Mamãe... eu já não agüento mais...

Ela olhou-o, aflita.

 

Brett largou o fone, desanimado.

— Não responde. Ele não deve estar em casa...

Charity sacudiu a cabeça sem mostrar grande surpresa. Gos¬tara bem quando Jim lhe dissera que fosse telefonar do escritório lá embaixo, longe da “sala da família” que era à prova de som.

Havia prateleiras com vários jogos, uma TV com vídeo Panasonic e gravador junto com jogos de vídeo-teipes: Num dos cantos havia uma antiga vitrola Wurlitzer de fichas que ainda funcionava.

Brett estava desconsolado.

—   Deve estar lá na casa do Gary...

—   Claro que deve estar lá, meu filho.

A maneira como falava, no entanto, não queria significar que os dois estavam juntos como bons amigos. Ela notara o olhar vago do marido na ocasião em que concordara com a viagem que permi¬tira a sua presença ali agora na casa da irmã.

Esperava que o filho não tentasse o telefone de Gary também, pois sabia que lá ninguém atenderia. Sabia bem o que aqueles dois deviam estar fazendo. Deviam andar por algum lugar como dois ca¬chorros velhos, uivando para a lua.

—   Você acha que o Cujo está bem, mamãe?

—   Ora essa, Brett. Sei que seu pai não sairia, deixando-o só, se ele não estivesse bem.

E ela dizia aquilo com toda a sinceridade. Joe não o deixaria mesmo.

— Por que não esquecemos isto por esta noite? Você poderá telefonar amanhã cedo. Aliás, já é tempo de você ir para a cama. Teve um dia muito movimentado hoje.

—   Mas não estou cansado, mamãe...

—   Eu sei, mas não é bom abusar muito dos nervos, Brett. Já coloquei lá a sua escova de dentes e a sua tia colocou as toalhas. Você sabe direito onde é o seu quarto?

—   Claro que sei. Você também vai dormir, mamãe?

—   Daqui a pouco. Vou conversar um bocado hoje com a Holly. Temos muitas coisas para pôr em dia...

— Ela parece muito com você, mamãe. Sabia disso? — disse ele com uma certa timidez.

Charity olhou-o com alegre surpresa.

—   Parece mesmo? Você acha que se parece comigo, Brett? Eu creio que pode ser... Pelo menos um pouco...

—   E aquele garotinho... o Jimmy, ele tem uma boa direita mesmo... Puxa vida! — Brett soltou uma gostosa gargalhada ao dizer isso.

—   Ele machucou sua barriga?

—   Nada disso...

Brett olhava em torno, examinando o escritório de Jim. Viu a Underwood em cima da mesa e o arquivo aberto onde estavam pastas em ordem alfabética, muito arrumadinhas. Havia uma expressão cautelosa em seus olhos que Charity não conseguia com¬preender nem avaliar. Ele parecia estar muito longe

— Ora essa; mamãe. Como é que ele poderia me machucar? ~ apenas uma criança. Ë meu primo, não é mesmo?

— Isso mesmo, Brett.

—   E do mesmo sangue...

Ele parecia estar avaliando bem aquilo.

—   E você gosta de seus tios? Do Jim e da Holly?

— Eu gosto dela, mas ainda não sei a respeito dele. Aquela vitrola antiga... Ela é bacana, mas...

O    menino sacudiu a cabeça, num gesto de impaciência.

—   O que é que há com ela, Brett?

— Ele se orgulha tanto com aquilo. Foi a primeira coisa que me mostrou... como se fosse uma criança com um brinquedo. Você não acha que isso é esquisito?

—   Bem.., faz pouco tempo que ele tem o aparelho — disse Charity. — Um temor ainda não concretizado tinha começado a se formar em seu pensamento. O que Joe teria dito ao filho ao chamá-lo à parte lá na rodoviária? — Todo mundo gosta de coisas novas, Brett. A Holly me escreveu na ocasião em que ele comprou aquilo. Era uma coisa que sempre desejara ter desde a sua juven¬tude. As pessoas ....... Você sabe como é, meu querido.., cada pes¬soa gosta de coisas diferentes. Creio que é para fazer ver como estão bem de vida. Ë uma coisa que não se pode explicar, mas ge¬ralmente é sempre alguma coisa que sempre desejaram quando eram pobres.

       —E o Tio Jim era pobre?

—   Não sei, Brett... Só sei que não são pobres agora.

—   Eu só queria dizer que aquilo é uma coisa inútil para ele... Você me compreende? — Ele olhou-a bem de perto. —Ele pagou um bom dinheiro por aquilo, pagou o transporte, pagou a pessoa que veio instalá-lo e vive dizendo que é dele... mas ele... ele não.., eu realmente não entendo.

—   Você quer dizer que ele não fez o aparelho com suas próprias mãos? — Embora o seu medo já fosse maior, ela sabia como se conter e falava com muita delicadeza.

— É isso aí, mamãe! É isso mesmo! Ele comprou, mas, na realidade, nada fez para... mas agora vive contando vantagem, dizendo que se trata de um aparelho muito delicado, muito complicado. O papai num instante botava ele para funcionar.

       Charity pensou ouvir uma porta bater com estrondo, mas não era uma porta da casa e sim de seu pensamento, de seu coração.

— O papai ficaria mexendo com ele até ver que estava fun¬cionando e então o aparelho seria dele...

— Brett, nem todo mundo é bom em trabalhar com as mãos... de fazer coisas funcionarem. —           Ela percebia que sua voz era fraca na sua tentativa de justificar o que dizia.

Brett continuava a olhar com atenção tudo que havia ali no escritório.

— Eu sei como é, mamãe. Mas não vejo razão para o Tio Jim viver contando vantagem só porque tem dinheiro. É isso que não me agrada.

Ela, de repente, ficou furiosa com o filho. Sentia vontade de segurá-lo pelos ombros e sacudi-lo bem, sentia vontade de gritar com ele. Queria que ele ficasse sabendo a verdade. Queria dizer a ele que o dinheiro do tio não caíra do céu. Que era o resultado de trabalho e de força de vontade e que tudo isso mostrava o ca¬ráter das pessoas. Queria dizer-lhe que, enquanto seu pai aperfei¬çoava os seus dotes nos bares com amigos, bebendo uísque e con-tando piadas sujas, Jim fazia seu curso de Direito a duras penas, já que aquele era o único jeito para obter os diplomas indispensáveis para se vencer na vida. Isso não queria dizer que a simples posse de um diploma significava sucesso e dinheiro. Para se conseguir tudo isso era preciso lutar.

— Suba para seu quarto e meta-se na cama, Brett. Aquilo que você pensa a respeito de seu tio não me interessa. É coisa comple¬tamente sua e de mais ninguém. Mas pelo menos, Brett, você deve ser um pouco tolerante com ele. Não o julgue só por uma coisa como esta — ela apontou-lhe a vitrola com o polegar.

—   Está bem, mamãe. Vou fazer isso.

Ela foi com ele até a cozinha, onde Holly fazia chocolate. As crianças tinham ido para a cama.

— Conseguiu falar, Charity?

— Não. Na certa, ele anda aproveitando a folga para dar umas voltas com aquele seu amigo... Vamos tentar amanhã.

— Você quer um chocolate, Brett?

— Quero sim, tia. Obrigado.

Charity ficou ali olhando para o filho e viu quando ele espe¬tou o cotovelo na mesa; mas logo corrigiu-se, sabendo que aquilo era feio. Charity tinha o coração tão cheio de amor, de esperança e de medo que ele parecia querer sair-lhe pela boca.

Ë preciso tempo e perspectiva. Preciso dar-lhe isso. Se pre¬tender forçá-lo, vai perdê-lo para sempre, sem duvida alguma.

Mas quanto tempo tinha ela? Era somente uma semana. De¬pois ele logo estaria outra vez sob a influência de Joe. No momento, porém, em que se sentava ao lado do filho e agradecia à irmã pelo chocolate, ela pensava novamente no divórcio, imaginando quais poderiam ser as possibilidades.

 

No sonho que tivera, Donna vira Vic voltar.

Ele simplesmente caminhara até o carro e abrira a porta do seu lado. Trajava seu melhor temo. O cinza escuro. Sempre que o vestia ela brincava com ele, dizendo-lhe que estava parecido com o Presidente Ford e que a única diferença era a careca. Ele che¬gava com aquele seu sorriso, dirigindo-se a eles. Vamos embora, pessoal. Já está na hora, antes que cheguem os vampiros.

Ela tentava avisá-lo a respeito do cachorro danado, mas as palavras não saíam. E então Cujo saía lá da escuridão, de cabeça baixa e sempre rosnando. Ela tentava gritar alertando-o, querendo dizer-lhe que sua dentada era mortal, mas as palavras não saíam.

No momento exato em que o animal se precipitava para ele, Vic virou-se com o dedo em riste. O pêlo do bicho ficou logo completamente branco. Seus olhos vermelhos e lacrimejantes se fecharam e o focinho caiu-lhe, indo despedaçar-se no cascalho da estrada como se fosse vidro preto. Um momento depois, tudo que estava ali na porta da oficina era uma capa de peles acossada pelo vento.

E o sonho continuava.

Não fique aflita, Donna. Não se preocupe com aquele cão. aquilo não passa de um casaco de peles. O correio já chegou? Deixe para lá o cachorro. Está na hora do correio. E isso é muito importante! Está compreendendo? O correio...

A voz dele começava a sumir num túnel e ficava cada vez baixa e fraca, como se fosse apenas um eco. E então, de repente, aquilo já não era mais um sonho. Era apenas a recordação de um sonho.

 

Ela estava acordada e sentia as lágrimas correrem-lhe pelo rosto. Olhou o relógio e foi com dificuldade que conseguiu ver a hora. Uma e quinze. Olhou para Tad e viu que ele dormia profundamen¬te, sempre com o dedo na boca.

Deixe para lá o cachorro, está na hora do correio. E isso é muito importante...

E então, de repente, ela lembrou-se do embrulho lá na caixa do correio e isto atingiu-a como se fosse uma flecha disparada pelo seu subconsciente, uma idéia que ela não conseguira compreender antes. Isso talvez fosse por ser ela tão grande, tão simples e tão elementar, meu caro Watson. Ontem fora segunda-feira e o cor¬reio viera. Hoje era terça e o correio devia chegar. Aquele embru¬lho remetido por J. C. Whítney era a prova disso.

As lágrimas que apareciam agora já eram lágrimas de alívio e rolavam por cima das outras que ainda não estavam secas. Ela se esforçou para não se mexer muito e acordar Tad, só para lhe dizer que tudo estava bem e que o fim estava próximo. Tudo aca¬baria por volta das duas da tarde quando o correio passasse. Até mesmo era possível que ele passasse às 11, que era a sua hora de entrega em toda a parte na cidade. E então o pesadelo teria che¬gado ao fim.

E o melhor de tudo seria que o carteiro viria mesmo que não houvesse correspondência para o Joe. Era sua obrigação passar por ali e verificar se a bandeira estava hasteada, significando que havia cartas para enviar. Ele teria que vir até ali no fim da Rodovia 3, que era o seu ponto final e onde seria recebido por uma mulher aliviada e histérica.

Olhou para a lancheira de Tad, onde ainda havia alguma coisa para comer e que ela guardara cuidadosamente para o caso de... Agora aquilo já não tinha mais importância, a não ser que o menino acordasse com fome. Comeu o que sobrara dos pepinos porque sabia que Tad não gostava. Agora já imaginava sorrindo que aque¬la seria uma estranha primeira refeição para ele. Chocolate, azeito¬nas e biscoitos.

Ao mesmo tempo que mastigava a comida, ia concluindo que o seu maior pavor tinham sido as coincidências. Era uma série de coincidências bem desencontradas que imitavam uma espécie de destino fatal. E fora aquilo que contribuíra para que o cão tão cheio de más intenções.., tão disposto a fazer dela a sua vítima. A au¬sência de Vic durante 10 dias fora a primeira coincidência. O seu telefonema naquela manhã fora a segunda. Se houvesse telefonado mais tarde, ele não teria conseguido falar e então ficaria tentando. sem saber bem onde os dois poderiam estar. A terceira era o fato da família toda de Joe não ter passado a noite em casa. A mãe, o filho e o pai. Todos ausentes com exceção apenas do cachorro, daquele cachorro que ali estava. Eles tinham...

E só então ela foi assolada por um pensamento tão horrível que nem mesmo deu para engolir o último pedaço de pepino que tinha na boca. Procurava afastar aquela idéia mas nada conseguia. Ela logo voltava. E isso porque era uma idéia lógica, embora pa¬vorosa.

E se eles estivessem todos mortos, ali mesmo na oficina?

Dentro de um instante, aquela idéia a dominou. Tinha a niti¬dez pouco saudável daquelas visões que surgem geralmente durante as madrugadas, quando ainda não estamos completamente acordados. Ela via os três corpos amontoados lá no chão como se fossem brinquedos; via também a serragem em torno deles vermelha de sangue e os olhos vidrados fitos na escuridão do telhado onde as andorinhas tinham seus ninhos. Via-lhes as roupas estraçalhadas e mastigadas...

Mas isso é uma loucura.., isso e...

Talvez o menino tivesse sido o primeiro... O pai e a mãe estariam na cozinha comendo alguma coisa, ou talvez no sobrado.., quando ouviram os gritos e saíram correndo...

(pare com isso, Donna. Pare...)

...mas o menino já estava morto, com a garganta aberta. E, então, enquanto ficam estatelados diante do corpo do filho, o São Bernardo sai das sombras e precipita-se como se fosse uma terrível máquina de destruição, atira-se contra a mulher primeiro enquanto o marido tenta salva-la...

(não, ele teria apanhado a espingarda ou então teria tentado liquidar o animal com alguma ferramenta pesada mas, então, onde é que estava o carro? Havia um carro ali antes da viagem da famí¬lia... A VIAGEM DA FAMILIÁ... você está ouvindo? Eles saí¬ram com o carro e deixaram o caminhão...)

Então por que ninguém aparecera para dar comida ao animal? Era ali que estava a lógica da coisa, uma parte da qual dei¬xava-a apavorada. Por que ninguém viera para dar comida ao ani¬mal? Se iam ficar fora um ou dois dias, certamente combinariam com alguém a respeito da comida do bicho. A pessoa atendia à alimentação do cão e eles então cuidariam de animais que ela ti¬vesse quando também se decidisse a viajar. Poderia ser um gato, peixes ou um papagaio...

E o cão estava sempre voltando para a oficina. Teriam deixado comida para ele ali?

Ela sentia-se aliviada por haver encontrado a resposta.

Eles não tinham ninguém para tomar conta do cachorro e en¬tão tinham deixado uma grande quantidade de comida na oficina. Alguma daquelas rações caninas que se vendem em toda a parte.

Mas aí ela ficou no mesmo beco sem saída em que Joe se en¬contrara antes, na manhã daquele dia tão longo. Um cachorro gran¬de como aquele engoliria tudo de uma vez e depois passaria fome. Claro que seria melhor encontrar alguém que fizesse aquilo enquan¬to eles estavam fora. Por outro lado, era bem possível que hou¬vesse ficado retido em algum lügar. Era possível que realmente tivesse havido a reunião da família e que Joe estivesse curtindo a sua bebedeira. Podia ser isso, podia ser aquilo, podia ser qualquer coisa.

Será que o animal está comendo lá dentro da oficina?

(O que estará ele comendo lá? Será a sua ração ou será gente?)

Ela cuspiu o pepino que ainda tinha na boca e sentiu que ia vomitar tudo que comera. Fez um grande esforço para que tal não acontecesse e conseguiu, porque sabia como fazer quando queria mesmo alguma coisa. Eles tinham deixado comida para o cão e saído no carro. Não era preciso ser nenhum Sherlock Holmes para chegar a uma tal dedução. O resto nada mais era senão um caso sério de presságios sem sentido.

Aquela imagem da morte, no entanto, estava sempre queren¬do se infiltrar novamente. A idéia dominante era daquela serragem ensangüentada, com uma cor já escura.

Pare com isso. Pense no carteiro, se é que precisa mesmo pen¬sar em alguma coisa. Pense no dia de amanhã. Pense que já esca¬pou daqui.

Ouviu um barulhinho lá fora ao lado da porta.

Ela não queria olhar, mas foi incapaz de conter-se. Sua ca¬beça começou a se virar, como se ímpelida por mão invisível. Ouvia estalar os tendões do pescoço. Cujo estava ali olhando para ela.

O rosto do animal se achava bem pertinho do dela, apenas sepa¬rados pelo vidro de segurança da janela do carro. Os olhos verme¬lhos e lacrimejantes estavam .fitos nos dela. O focinho parecia ter sido todo besuntado com espuma de um creme de barbear que ainda não secara.

O animal arreganhava os dentes para ela.

Ela sentiu o grito que lhe subia pela garganta porque percebia, sem sombra de dúvida, que o animal estava pensando nela, estava dizendo-lhe: Eu vou te pegar, fílhota. Eu vou te pegar, meu bem. Po¬de pensar quanto quiser naquele carteiro. Eu também pegarei ele se isso for preciso, da mesma forma que peguei toda a família de Joe. Da mesma forma que vou pegar você e o seu filho. O melhor mes¬mo é ir-se acostumando com a idéia. O melhor mesmo é...

Ó grito pouco faltava para lhe escapar. Era como se fosse uma coisa viva querendo sair e tudo ocorria no mesmo instante. Tad queria se aliviar e então ela descera um pouquinho o vidro e levan¬tara o filho sempre com atenção no cachorro. Ele custara a se de¬cidir e ela já estava com os braços cansados. Houvera ainda o so¬nho e as imagens da morte e agora ali estava aquilo...

O cão olhava-a com os dentes arreganhados. Era como se es¬tivesse fazendo uma careta para ela. Ele se chamava Cujo, mas o nome de sua dentada era morte.

Não podia mais evitar o grito... estava quase louca para dei¬xá-lo escapar.

(Mas ali estava Tad dormindo)

Trancou a garganta contra o grito, da mesma maneira que já a trancara antes, com sucesso, para não vomitar. Foi uma verda¬deira luta. O coração, afinal, recuperou seu batimento normal e ela se deu conta de que vencera a batalha.

Ela sorriu para o animal, fechou a mão e esticou dois dedos na cara dele, do outro lado do vidro que já estava bem embaçado do lado de fora, por causa da respiração do bicho. Então, falando bem baixinho, proferiu um impropério para ele.

Depois de um tempo que pareceu interminável, o animal des¬ceu as patas da frente e voltou para a oficina. E então o seu espírito enveredou novamente por aquela mesma trilha escura.

(o que será que ele está comendo lá dentro?)

Logo depois, porém, ela bateu com força a porta que ainda estava aberta em sua mente.

Claro que não conseguiria mais dormir e ainda faltava muito para o dia raiar. Ela empertigou-se por trás do volante, tremendo e repetindo-se inúmeras vezes que era ridículo, realmente ridículo, achar que aquele animal era uma espécie de assombração nojenta que fugira do closet de Tad, ou ainda que ele estava mais a par da situação do que ela própria.

 

Vic despertou assustado na completa escuridão do quarto e sen¬tindo a garganta completamente seca. O coração batia-lhe descom¬passado e ele sentia-se desorientado, tão desorientado que até che¬gou a pensar que ia cair. Então segurou-se na cama.

Fechou os olhos durante um momento, esforçando-se para se concentrar e para ver as coisas claras.

(você está no)

Abriu os olhos e viu a janela, a cama e a lâmpada de cabeceira.

(Hotel Ritz-Carlton, em Boston)

Sentiu-se mais tranqüilo. Com aqueles pontos de referência tu¬do voltava à realidade, sem contudo explicar como se perdera tão completamente, apesar de apenas por um breve momento. Achava que só poderia ser devido ao fato de estar num lugar estranho. Isso como também o pesadelo.

O pesadelo! Deus do céu! Aquilo fora o máximo! Não con¬seguia recordar-se de nada semelhante desde aqueles pesadelos de quedas que o haviam perseguido na puberdade. Pegou o relógio na mesa-de-cabeceira e aproximou-o bem do rosto para ver as horas. Faltavam 20 minutos para as duas. Roger roncava baixinho na ca¬ma ao lado. Agora, com os olhos acostumados à escuridão, ele o via ali deitado de barriga para cima. Tinha atirado longe o lençol e estava enfiado mim incrível pijama amarelo, cheio de pequeni¬nas bandeiras de universidades.

Vic saltou da cama, entrou no banheiro e fechou a porta. Os cigarros de Roger estavam ali no lavatório e ele tirou um. Estava bem precisado. Sentou-se na privada e começou a fumar, soltando as cinzas no vaso.

Donna diria que aquele fora um pesadelo cheio de ansiedades e só Deus sabia que ele tinha mesmo razão para ser vítima daquilo. Apesar de tudo ele fora para o quarto às dez e meia, sentindo-se melhor agora do que durante toda a semana anterior. Após volta¬rem ao hotel, haviam passado meia hora no bar discutindo a res¬peito da idéia da desculpa. Então, Roger enfiara a mão no bolso, tirando das entranhas de uma alentada carteira que o acompanhava sempre o telefone da residência de Yancey Harrington, o ator que fazia o Professor para os comerciais da Sharp.

— O melhor mesmo é saber se ele topa a parada antes de prosseguirmos com a idéia, Vjc.

Dali mesmo ele telefonara para Westport, onde morava o ator, sem saberem exatamente o que os esperava. Tinha quase a certeza que ele iria resistir um pouco e que precisaria ser amansado. Ele não gostara nada de toda aquela trapalhada da Zingers e achava que tinha sido prejudicado. Sua imagem fora afetada.

O resultado foi uma agradável surpresa para todos. Harrington topou logo a parada sem discutir detalhes. Ele reconhecia as rea¬lidades da situação e sabia que o Professor estava completamente liquidado. Chegara mesmo a dizer que “o pobre coitado está liqui¬dado”. Ele achava, porém, que aquele último comercial poderia fa¬zer com que a companhia se salvasse do atoleiro. Que entrasse no¬vamente nos trilhos, por assim dizer.

— Tudo isso é conversa fiada, Vic. Ele só quer mesmo apa¬recer em cena para a despedida mais uma única vez. Não são muitos os atores de comerciais que têm a mesma sorte. Aposto como se sujeitaria a pagar sua passagem de avião até aqui se nós assim o exigíssemos.

E então Vic fora para a cama, sentindo-se feliz, e adormecera quase instantaneamente. Depois, então,. viera o pesadelo. Ele estava de pé diante da porta do closet de Tad, dizendo-lhe que ali não ha¬via nada. Absolutamente nada. E eu vou mostrar a você de uma vez por todas, Tad. Ao abrir a porta, percebeu logo que todas as rou¬pas e brinquedos do filho tinham desaparecido. Ali dentro do closet existia agora uma floresta de pinheiros e outras árvores velhas. O piso estava coberto de espinhos dos pinheiros e de folhas já bem murchas. Ele abaixara-se para raspar a terra e ver se ainda havia ali o piso de madeira antigo, mas nada encontrara. Seu pé só en¬contrava terra escura e rica, como as terras das florestas.

       Quando entrou no closet, a porta logo se fechou nas suas costas ¬mas isto não o preocupou. Ainda havia luz suficiente para ele ver uma trilha e logo enveredou por ali. Percebeu então, de repente, que estava com uma mochila às costas e um cantil a tiracolo. Ouvia o som misterioso do vento fustigando as árvores e o canto longín¬guo um passarinho. Sete anos antes, muito antes de haver organizado a firma com Roger, tinham ido todos a uma excursão nos Apalaches num período de férias e a, terra lá bem parecia com aque¬la que via agora no sonho. Só uma vez haviam feito aquilo, por¬que das outras vezes sempre preferiam ficar nas praias. Vic, Donna e Ro¬ger tinham ficado encantados, mas Althea detestara a escalada, pois voltara, com uma alergia na pele produzida por um arbusto vene-noso, e que resultara em terríveis coceiras.

A primeira parte do sonho tinha sido até bem agradável. Achava uma verdadeira maravilha, dentro de toda a sua fantasia, o fato do closet estar com tudo aquilo. Chegara então a uma clareira onde vira... Tudo, porém, já estava começando a desaparecer, co¬mo sempre acontece com os sonhos na hora em que a pessoa desperta.

O outro lado da clareira era um muro cinzento a prumo e que devia ter uns 300 metros de altura. A uns seis metros acima do solo havia uma caverna.., não, não era propriamente uma caverna, já que não tinha profundidade suficiente. Era mais parecido com um nicho, uma depressão na pedra com um patamar. Donna e Tad es¬tavam lá dentro, encolhidos e apavorados com uma espécie de monstro que tentava pegá-los de qualquer maneira. Queria devo¬rá-los.

Era uma coisa parecida com a cena do King Kong original, depois que o enorme macaco afugenta os possíveis salvadores de Fay Wray e procura agarrar o único sobrevivente, que se escondera num buraco.

Só que o monstro de seu sonho não era um macaco gigantesco. Era um... Seria um dragão? Não, não era nada parecido com dra¬gão. Não era dragão nem dinossauro, então o que poderia ser? Fosse lá o que fosse, no entanto, o fato era que ele não conseguia pegar Donna e Tad e então simplesmente ficava ali fora, à espreita, como se fosse um gato esperando pacientemente pelo seu rato.

Ele saiu correndo, mas, por mais que corresse, nunca conse¬guia chegar do outro lado da clareira. Ouvia os gritos de Donna pedindo socorro, mas quando lhe gritava de volta, suas palavras nunca passavam de uns três palmos de distância. Fora Tad quem, afinal, o descobrira.

Ouvia o grito desesperado do filho.

Papai! Isso não funciona! As Palavras Para os Monstros não funcionam mais, Papai! Papai! Elas não funcionam mais! Você mentiu para mim, papai! Você mentiu!...

Vic. corria, mas não adiantava nada. E quando olhara para a base do muro, ele vira ali velhos ossos e crânios que pareciam rir, alguns deles já cobertos de musgo.

E foi nesse ponto que acordou.

Afinal de contas, que diabo de monstro era aquele?

Ele, simplesmente, não conseguia lembrar-se. Já então o so¬nho parecia ser uma coisa vista pelo lado errado do telescópio. Jo¬gou o cigarro dentro do vaso e acionou a descarga.

Urinou, apagou a luz e voltou para cama. Na hora em que já estava deitado, ele viu o telefone e foi acossado por um desejo irresistível de telefonar para casa. Seria aquilo irracional? Achava que a expressão ainda era fraca. Eram 2:10 da madrugada. Ele não somente iria acordá-la, como também pregar-lhe um susto dos dia¬bos. Os sonhos nunca deviam ser interpretados literalmente. Todo mundo sabia disso. Quando alguém tinha problemas com o casamento e com os negócios, ao mesmo tempo, não era realmente do admirar se a cabeça não funcionasse bem.

Ainda assim, só para ouvir a voz dela... e saber que tudo está bem em casa.

Deu as costas ao telefone, socou bem o travesseiro e fechou os olhos, resolutamente.

Telefone para ela de manhã, se é que isso faz com que se sinta melhor. Telefone logo depois do café...

Sentiu-se melhor e logo depois já estava dormindo. Dessa ver não houve sonho. Se houve, foram apenas sonhos sem importância que não ficaram marcados no seu consciente. Quando o desperta¬dor tocou na terça-feira ele já se esquecera do pesadelo com aquele monstro da clareira. Nem mesmo se lembrava se havia ou não ido ao banheiro à noite. E então nem mesmo telefonou naquele dia para casa.

 

Charity acordou na terça-feira, às cinco em ponto, e também passou por um período de desorientação. As paredes eram revestidas da papel amarelo em vez de madeira, as cortinas eram estampadas em verde ao invés de chita branca e a cama era de solteiro, em lugar da larga cama de casal já bem batida e que começava a afun¬dar no meio.

Acabou, porém, descobrindo onde estava e sentiu então uma grande satisfação. Iria ter o dia inteiro para conversar com a irmã, para relembrar os velhos tempos, para ficar sabendo o que ela fizera durante todos aqueles anos. Holly dissera-lhe que pretendia ir a Bridgeport para fazer compras.

Ela despertara hora e meia mais cedo do que de costume e foi somente umas duas horas depois que a casa começou a dar sinais de vida. Sabia que ninguém dorme bem numa cama estranha senão depois da terceira noite. Era o que sua mãe costumava dizer, o que não deixava de ser verdade.

Estava ainda deitada e prestando atenção quando o silêncio foi cedendo lugar aos pequenos ruídos e a primeira luz da manhã já se infiltrava por uma fresta das cortinas, era o alvorecer com sua luz muito clara e agradável. Ouviu uma tábua que estalava. Um passarinho já começava a sua atividade diária. Ouviu o barulho do primeiro trem que levava os passageiros diários para Westport, Greenwich e Nova York.

A tábua do assoalho estalou outra vez.

E ainda mais outra.

Aquilo, porém, não era um estalo da casa se acomodando. Eram passos.

Charity sentou-se na cama, agasalhando-se com o lençol e co¬berta até o peito, já que estava com uma camisola vermelha muito leve. Os passos agora já desciam a escada, procurando não fazer barulho. Eram passos leves de alguém descalço ou então só de meias. Era o Brett. Quando se vive muito tempo com alguém, os seus pas¬sos ficam logo conhecidos. Isso era uma dessas coisas misteriosas que simplesmente acontecem com o decorrer dos anos, como a for¬ma de uma folha se inserindo numa pedra.

Ela atirou fora as cobertas, levantou-se e foi até a porta. O quarto dava para o hall da escada e ela só conseguia ver a parte superior da cabeça de Brett, que logo desapareceu.

Charity saiu ao seu encalço.

Quando chegou no topo da escada, ele estava justamente de¬saparecendo lá embaixo, no corredor que acompanhava toda a lar¬gura da casa, desde a porta da entrada até a cozinha. Chegou a abrir a boca para chamá-lo, mas logo desistiu. Sentia-se intimidada na-quela casa adormecida que não era a sua.

Havia alguma coisa na maneira como ele andava.., a postura de seu corpo... mas já se haviam passado anos desde que...

Desceu a escada descalça, sem fazer barulho, e foi encontrá-lo na cozinha. Ele estava somente com as calças do pijama, cujo cordão caía-lhe até as virilhas. Embora ainda não houvessem chegado ao meio do verão, ele estava bem queimado. Era moreno como o pai e queimava-se com facilidade.

EIa ficou de pé áli na porta da cozinha, olhando-o de perfil. A luz bela e clara da manhã batia em seu corpo enquanto ele procu¬rava o que queria no meio de todo o equipamento da cozinha. Seu coração enchia-se de admiração e de medo. Ele é lindo! Ele tem tu¬do que há de belo em todos nós.

Aquele foi um momento que ela jamais esqueceu. Via o filho ali só com as calças do pijama e então, durante um momento, che¬gou a compreender vagamente o mistério de sua meninice que, em breve, estaria ultrapassada. Os seus olhos de mãe adoravam as curvas graciosas de seus músculos, a linha de suas nádegas e as solas de seus pés. Ele lhe dava a impressão de ser... completamente per¬feito.

Ela via tudo aquilo claramente porque ele não estava acorda¬do. Na infância ele tivera episódios de sonambulismo entre os quatro e oito anos. Mais ou menos uma dúzia deles. Ela ficara muito preocupada e procurara o Dr. Gresham, sem que o marido soubes¬se. O seu temor não era o pensamento do filho estar ficando maluco, já que isso era fácil de constatar para qualquer um que convivesse com ele e visse como era inteligente e normal. Só tinha medo de que alguma coisa lhe acontecesse durante uma daquelas crises de sonambulismo, mas o médico tranqüilizara-a a esse respeito. Dissera-¬lhe que todas as coisas estranhas ditas a respeito do sonambulismo deviam-se unicamente, a filmes baratos que não se respaldavam em pesquisas sérias.

       —  Nós conhecemos muito pouco a respeito de sonambulismo, mas sabemos que á maioria dos casos acontece com crianças muito mais do que com adultos. Existe um crescimento, uma espécie de maturidade, na interação entre a mente e o corpo. Muitos dos pesquisado¬res desse assunto acreditam que o sonambulismo pode ser um sintoma de um desequilíbrio entre os dois que, aliás, pode ser temporário e que não é coisa de grande importância.

—   São como as dores do crescimento, doutor?

—   Exatamente. É coisa bem parecida.

A resposta dele veio acompanhada de um sorriso, ao mesmo tempo que desenhava num bloco uma curva, insinuando que o sonambulismo de Brett poderia chegar a um ponto máximo, onde permaneceria durante algum tempo estacionário, para depois ir diminuindo gradativamente até desaparecer por completo.

Ela voltara para casa mais tranqüila com a explicação do mé¬dico e com a sua opinião garantindo-lhe que ele não iria saltar de uma janela ou coisa parecida; mas, ainda assim, não se sentia bem esclarecida. Uma semana mais tarde, levou o filho ao consultório do médico para ser examinado. Ele tinha acabado de fazer seis anos um ou dois meses antes e o médico examinara-o minuciosamente, concluindo que se tratava de um menino perfeitamente normal em todos os sentidos. E tudo indicava que o diagnóstico estava certo. O seu último acesso fora há mais de dois anos.

O último, até este que ela via ali agora.

Ele ia abrindo todos os armários e tomava a fechá-los cuida¬dosamente. Ali estavam todos os utensílios de cozinha de Holly bem arrumadinhos, tudo nos seus lugares certos. Brett tinha os olhos bem abertos embora parecessem vidrados e ela sentiu uma certeza ínti-ma que ele deveria estar vendo tudo aquilo em um outro lugar. E aquilo deixava-a apavorada.

Ela sentia ali aquele mesmo terror de antes, que já quase es¬quecera, como acontece com todos os pais, dos alarmas e das excursões dos filhos em seus primeiros anos. Eram os dentes que nasciam; eram as vacinas que traziam febres altas como uma espécie de atração a mais; a difteria; as otites; as mãos ou pernas que, de repente, começavam a sangrar sem razão alguma. Em que estará ele pensando? Onde estará ele? E por que esta repetição depois de dois anos de completa tranqüilidade? Será devido ao fato de se encon¬trar numa casa estranha? Ele não se mostrara inquieto durante to¬do o dia. Só agora lhe aparecia aquilo.

Ele abriu o último armário e tirou de lá uma vasilha vermelha, que colocou na sua frente. Depois, fingiu que estava pegando mais alguma coisa no ar e que enchia a vasilha. Ela sentiu um calafrio correr-lhe pela espinha ao descobrir o sentido daquilo tudo que ele estava fazendo. Ou fingindo que fazia. Era a sua rotina de todos os dias quando levava a comida para o Cujo.

Ela deu um passo à frente, quase sem querer, mas parou logo. Não acreditava naquelas invencionices de comadres a respeito das coisas ruins que podem acontecer se despertarmos um sonâmbulo. Diziam elas que a alma fugiria do corpo e que isso poderia resul¬tar em loucura, ou até mesmo em morte súbita, mas Charity não recorreria ao médico se acreditasse em tais tolices. Lera um livro emprestado da Biblioteca de Portland, mas nem mesmo precisara dele. Tinha bom senso suficiente para saber que a única coisa que acontece quando se desperta um sonâmbulo é que ele logo acorda em seu estado normal. Nada mais nada menos. Talvez houvesse lá¬grimas ou alguma histeria, mas tudo isso não passaria de simples falta de orientação.

De qualquer modo, ela nunca chegara a despertar o filho du¬rante as crises anteriores e não faria isso agora. O bom senso era uma coisa, mas o seu pavor irracional era outra e ela sentia-se do¬minada pelo medo, sem saber como explicar aquilo. O que poderia haver de tão horrível naquela pantomima do filho dando a co¬mida do cachorro? Aquilo era coisa natural, levando-se em conta a sua preocupação pelo bicho.

Ele estava agachado estendendo a vasilha, o cordão do pijama formando uma linha em ângulo reto em cima do linóleo vermelho e preto da cozinha. O seu rosto era uma pantomima em câmara lenta demonstrando sua tristeza. Ele falou, mas as palavras lhe saíam arrastadas e difíceis de entender, como geralmente acontece com quem fala durante o sono. Não havia inflexão alguma nas palavras, já que tudo se passava em seu íntimo, dentro do casulo do sonho que tinha sido forte o bastante para deflagrar aquela crise de so¬nambulismo depois de tantos anos tranqüilos. Nada havia de ine¬rentemente melodramático nas palavras rápidas e no suspiro do sonâmbulo, mas isso não impediu que Charity levasse a mão ao pescoço, demonstrando grande aflição. Sua pele estava completa¬mente gelada.

       Logo depois do suspiro, ele resmungou:

— O Cujo não está mais com fome. — Levantou-se então, a vasilha de encontro ao peito. — Não está mais... não está mais,...

Permaneceu durante algum tempo encostado aos armários, e sua mãe fez a mesma coisa lá na porta da cozinha. Uma lágrima solitária descera pelo rosto dele. Tornou a colocar a vasilha no armário e caminhou para a porta. Tinha os olhos bem abertos, mas eles passaram indiferentemente pela mãe como se ela não estivesse ali. Parou e olhou para trás.

— Vá procurar ali no mato — ele falou para alguém que es¬tava ali.

Depois çaminhou de novo em direção à porta.

Charity afastou-se para lhe dar passagem, sem tirar a mão da garganta. Brett passou por ela sem fazer barulho, pois estava des¬calço, e caminhou para a escada. Ela ia segui-lo, quando se lembrou da vasilha que ele deixara no lugar, como se fosse o ponto focal de um estranho quadro.

Seus dedos suados estavam escorregadios e a vasilha escapou-lhe das mãos, mas foi logo recuperada como num passe de mágica, não se espatifando ali no chão da cozinha com um barulho que pode¬ria despertar a casa toda. Colocou-a direitinho em seu lugar e fe¬chou a portinha do armário. Ficou ali apenas um momento, ouvin¬do o coração bater-lhe descompassadamente e sentindo-se uma in¬trusa ali naquela cozinha que não era a dela. Depois subiu nova¬mente, para ver o que havia com o filho.

Chegou na porta de seu quarto no momento exato em que ele se metia novamente na cama. Puxou as cobertas e rolou para o la¬do esquerdo, como era o seu costumo na hora de dormir. Embora soubesse que tudo estava terminado, ela ainda ficou ali durante alguns instantes.

Ouviu alguém tossir no corredor e lembrou-se, outra vez, do que não estava em sua casa. Sentiu uma grande saudade de casa. Durante alguns instantes, sentiu como se o seu estômago estivesse cheio de gás da espécie que os dentistas usam para anestesiar os pacientes. Ali, à luz daquela manhã tranqüila, seus pensamentos a respeito de divórcio pareciam imaturos como se fossem pensamen¬tos de criança no que dizia respeito as realidades da vida. Ali onde estava era-lhe mais fácil pensar em coisas dessa natureza. Ali não era a sua casa. Não era o seu lugar.

Por que se apavorara tanto com aquela pantomima da comida do cachorro e daquelas suas rápidas palavras dizendo que o cão não queria mais comer?

Ela voltou ao seu quarto e deitou-se até o sol sair. Na mesa do café, Charity notou que não havia nenhuma diferença no filho. Não falou mais no cachorro e até mesmo parecia ter esquecido o desejo de telefonar para casa, pelo menos por enquanto. Depois do pensar bem no caso, Charity achou que seria melhor dá-lo como definitivamente encerrado.   

 

Fazia muito calor.

Donna abriu mais um pouquinho o vidro da janela até um ponto que lhe parecia seguro; depois, fez o mesmo com a janela do outro lado, curvando-se por cima de Tad. Foi nessa hora que ela percebeu aquela folha de papel amarrotada no colo dele.

—O que é isso, Tad?

Ele levantou a cabeça e ela reparou que estava com olheiras.

— São as Palavras Para os Monstros, mamãe...

—   Posso ver?

Ele apertou o papel durante um momento antes de entregá-lo. Havia na expressão de seu rosto um ar cauteloso de proprietário que chegou a causar-lhe ciúmes. Foi coisa rápida, mas bem forte. Até ali ela vinha conseguindo mantê-lo vivo e incólume, mas era aquela porcaria de Vic que tinha importância para ele. Depois, o sentimento transformou-se em espanto, tristeza e insatisfação ínti¬ma. Em primeiro lugar, fora ela que o metera naquela enrascada. Fizera-lhe à vontade a respeito da moça que ia ficar tomando conta dele em casa.

— Guardei isto no bolso ontem, quando saímos para fazer as compras... Mamãe... você acha que o monstro vai comer a gente?

— Não é um monstro, Tad. É simplesmente um cachorro e ele não vai comer ninguém. Eu já disse a você que quando o car¬teiro passar nós vamos sair daqui.

Ela falava mais irritada do que pretendia.

Eu também já disse a ele que o carro ia funcionar logo, logo... Disse que logo viria alguém... Que o Joe e a família logo estariam de volta...

Mas sabia que nada daquilo tinha importância agora.

— Você quer me dar o papel de volta, mamãe?

Durante um momento, ela chegou a pensar em rasgar aquele papel sujo e amarrotado em pedacinhos, para atirá-los pela janela como confete. Acabou entregando-o ao filho e passando as mãos pelos cabelos, envergonhada e apavorada. Pelo amor de Deus! O que estaria acontecendo com ela? Como poderia alimentar um pensamento tão sádico? Por acaso estaria ela desejando tomar as coisas ainda piores do que já estavam? Seria por causa de Vic? Dela mesma? O que, então, podia ser?

O calor estava insuportável. Estava quente demais para poder pensar. O suor escorria-lhe pelo rosto e ela notava que Tad tam¬bém estava nas mesmas condições. Os cabelos estavam colados à

sua cabeça e pareciam agora de um louro mais escuro do que eram na realidade. Aquilo fez com que pensasse novamente no xampu Johnson que estava no armário do banheiro à espera de alguém que o usasse.

(não se descontrole)

Não. Claro que não. Ela não tinha razão alguma para se des¬controlar agora. Tudo ia ser resolvido em breve. Ou não ia? Claro que ia mesmo!

Ela nem mesmo via o cão em parte alguma. Já fazia uma hora que ele não aparecia. E havia também o carteiro. Já eram quase 10 horas. Ele iria chegar logo, logo. E, então, já não faria diferença quanto à temperatura ali dentro do carro. O que ela sentia era o chamado “efeito de estufa”. Já lera alguma coisa a respeito, onde se explicava que ninguém devia deixar um cão trancado den¬tro do carro durante muito tempo quando o calor fosse forte. Por causa do efeito de estufa. O panfleto que lera dizia que a tempe¬ratura de um carro estacionado em pleno sol poderia chegar acima de 40 graus se as janelas estivessem bem fechadas. Assim sendo, era não só cruel, mas também perigoso, deixar um animal de esti-mação trancado no carro enquanto o dono vai às compras ou ao cinema. Donna achou graça naquilo. O caso agora era completa¬mente diferente. Era o cachorro que os mantinha ali fechados.

Muito bem. Estava na hora do carteiro. Ele iria chegar e tudo estaria resolvido. Já não tinha importância o fato de só lhes res¬tar uma quarta parte do leite que estava na garrafa térmica. Tampouco importava o fato dela haver usado a garrafa térmica de Tad, que era menor, para aliviar a bexiga e que, afinal, transbordara por ser muito pequena. O carro agora tresandava cada vez mais a urina, à medida que o calor aumentava. Ela tampara a garrafa e jogara-a pela janela, ouvindo o barulho quando se quebrara no cascalho da entrada. Depois disso, chorara.

Nada mais importava, no entanto. Claro que era humilhante e impróprio tentar mijar numa garrafa térmica, mas o carteiro ia passar e tudo estaria bem em breve. Naquele momento ele deveria estar carregando o seu pequeno caminhão azul e branco na sede dos correios toda coberta de hera que ficava na Rua Carbine... ou talvez, até mesmo, já houvesse começado a fazer as entregas na sua rota diária, subindo a Rodovia 117 em direção à Estrada Maple Sugar. Em breve tudo estaria acabado. Ela levaria Tad para a casa e os. dois subiriam para se despirem e entrarem no chuveiro juntos; e então ela pegaria àquele vidro de xampu, cuja rolha co¬locaria na beira da banheira, para ensaboar primeiro a cabeça de Tad e depois então a sua.

Tad estava lendo outra vez o papel amarelo e seus lábios se moviam sem articular qualquer som. Não estava realmente lendo, não como estaria dentro de uns dois anos (se é que um dia escapa¬remos desta, conforme seu pensamento traiçoeiro acrescentava com insistência). Estava apenas repetindo o que já decorara desde muito tempo. Era a mesma fórmula usada pelas escolas de motoristas, que preparavam iletrados para exames escritos. Ela sabia de tal particularidade por haver lido em algum lugar ou talvez visto na TV; e aquilo sempre a deixava admirada com a fertilidade da mentali¬dade humana quando se tratava de “quebrar um galho”. E também era de espantar como aquilo vinha a público quando não havia ou¬tro assunto. Era como se fosse a lata de lixo do subconsciente fun-cionando em sentido contrário.

Aquilo trouxe-lhe à lembrança uma coisa que havia acontecido em casa de seus país quando ainda morava com eles. Menos de duas horas antes dos Famosos Coquetéis (era assim que seu pai se referia sempre às recepções de sua mulher, em tom satírico que, automaticamente, exigia maiúsculas — aliás, era tão satírico que fazia Samantha ficar quase histérica) a pia da cozinha, que tinha o dispositivo para liquidificar os restos e enviá-los pelo esgoto, en¬tupira e tudo fora expelido pela pia do bar, e quando sua mãe procurara remediar a situação fazendo funcionar novamente o dis¬positivo, tudo explodira e a sujeira, que mais parecia um mingau, chegara até o teto. Naquela ocasião, Donna devia andar pelos 14 anos, mas lembrava-se de ter ficado enojada e apavorada com a raiva histérica da mãe. Não gostava de ver aquela sua revolta con¬tra pessoas que a amavam e que precisavam dela apenas para sa¬tisfazer sua vaidade diante de um grupo de relacionamentos sem sentido, de supostas amizades fortuitas que apenas vinham para be¬ber e comer o que ela lhes oferecia. Ficara apavorada porque não via lógica na atitude histérica da mãe.., e também por causa da expressão. que percebera no rosto do pai, uma expressão que mos¬trava uma espécie de nojo resignado. Ela acreditara naquela oca¬sião, mas acreditara mesmo, que ia crescer para ser uma mulher, mulher com um mínimo de possibilidade de vir a ser uma mu¬lher bem melhor que sua mãe, que se comportava daquela maneira ante de uma coisa insignificante...

Ela fechou os olhos e tentou esquecer tudo aquilo, inquieta com as nítidas emoções que a recordação podia invocar. Já pensara no efeito da estufa e do acidente no coquetel da mãe. Agora no que mais poderia pensar? Pensar em Como Perdi Minha Virgindade? Pousar nas Seis Melhores Férias? Não. Ela agora só pre¬cisava pensar no carteiro. Naquele maldito carteiro que não aparecia.

—   Mamãe... Quem sabe se o carro vai pegar agora?

—   Meu amor, estou com medo de experimentar porque a bateria pode pifar também...

Ele agora já parecia petulante e cansado.

—   Mas estamos aqui sentados sem fazer nada! Qual a. dife¬rença que faz se a bateria vai pifar ou não? Nós não estamos fa¬zendo nada. Estamos só sentados aqui... Por que não experimenta?

—   Não tente me dar ordens, menino. A não ser que queira levar umas palmadas...

Ele encolheu-se todo, afastando-se dela diante de sua voz agressiva, e ela arrependeu-se amargamente, outra vez. Ele também estava tenso... como poderia culpá-lo? E, além disso, estava também com a razão. E fora justamente isso que a deixara furiosa. Só que ele não podia compreender. A única razão que tinha para não tentar virar o motor mais uma vez era o fato de que o barulho po¬deria trazer o cão de volta e era isso que a deixava apavorada. Não queria que acontecesse de forma alguma.

Com muito pouca vontade tomou a tentar, mas agora o arranque virava muito devagar, quase arrastando-se, e o motor não chegava a pegar. Ela desligou e apertou a buzina. O som foi também fraco, provavelmente não alcançando 50 metros de distância, quanto mais aquela casa que ficava lá embaixo.

— Pronto! E agora? Já está satisfeito? Muito bem.

A sua voz era áspera e cruel.

Tad começou a chorar. Começou da mesma maneira como ela ainda se lembrava, quando era ainda pequenino. A boca tremeu e as lágrimas saltaram antes mesmo que chegassem os primeiros soluços. Ela abraçou-o, pedindo-lhe desculpas e explicando-lhe que não era sua intenção magoá-lo. Ela também estava muito nervosa, mas tudo ia acabar logo, logo. Assim que o carteiro aparecesse. E então ia levá-lo para casa, ia lavar sua cabeça. Mas ao mesmo tempo pensava: Uma possibilidade de vir a ser uma mulher melhor que sua mãe. Claro, garoto. Sou igualzinha a ela. Ela diria exatamente o que eu disse numa situação como esta.

Quando se sentir mal, a melhor coisa a fazer é espalhar a infelici¬dade, participar da riqueza. É isso aí. Tal mãe tal filha. Não é mesmo? E então pode ser que, quando Tad crescer, a opinião dele a meu respeito seja a mesma que sentia quando...

       — Por que é que está tão quente aqui, mamãe?

— É      o efeito de estufa...

Ela respondeu quase sem sentir. Já não agüentava mais e sabia bem disso. Se aquilo, de qualquer forma, era um exame final de maternidade ou de idade adulta, ela seria reprovada. Quanto tempo já fazia que estavam ali encalhados? Talvez umas 15 horas, na má¬ximo. E ela já estava se desintegrando toda.

— Você vai me dar uma Coca quando chegarmos em casa, mamãe?

O    papel amarelo com as Palavras Para os Monstros estava ali em seu colo.

— Você poderá beber o que quiser, Tad.

Ela abraçou-o carinhosamente e sentiu que seu corpo estava rígido. Estava profundamente arrependida por haver gritado com ele. Não devia ter gritado.

Prometia a si mesma que nunca mais faria aquilo. Aliás, o car¬teiro devia estar chegando.

— Eu acho que o mons... que o cachorro vai comer a gente...

Ela ia responder, mas conteve-se. O cão ainda não aparecera.

Não viera com o barulho do arranque e da buzina. Talvez estivesse dormindo. Talvez até já estivesse morto e isso seria uma maravi¬lha. Só desejava que a morte tivesse sido dolorosa. Tornou a olhar para a porta da casa. Estava tão tentadoramente perto! Devia estar trancada. Ela agora tinha a certeza de que estava mesmo. Seria uma loucura tentar chegar até lá. O carteiro não podia demorar. Vic costumava dizer que a gente sempre deve levar as coisas muito á sério. Era o que ela devia fazer agora. Seria melhor imaginar que o animal ainda estava vivo e deitado por ali, talvez dentro da ofi¬cima. Na sombra.

Sentiu a boca cheia d’água quando pensou em sombra.

Já eram quase 11 horas. Uns 45 minutos depois, ela reparou numa coisa que estava lá no meio da grama, um pouco afastado da entrada da casa, do lado direito do cano. Depois de mais 15

minutos de observação, ela verificou que se tratava de um velho bastão de beisebol com fita isolante no punho e quase escondido no meio do capim alto.

Quinze minutos depois, Cujo saiu da oficina cambaleando, os olhos sempre vermelhos e lacrimejantes, piscando estupidamente para o sol.

 

Quando eles chegam para nos levar,

Quando aparecem juntos com o rabecão

Quando vem nos procurar

Com a intenção de levar nossa carcaça...

 

Aquela era a voz de Jerry Garcia, agradável mas já cansada, que vinha ecoando pelo corredor, ampliada e distorcida pelo radiozi¬nho de pilha de alguém e que parecia estar sendo trazida por dentro,de um tubo de aço muito longo. Mais perto ainda havia alguém que gemia. Naquela manhã, quando descera aos banheiros malchei¬rosos para fazer a barba e tomar banho, ele tinha visto um amon¬toado de vômito num dos mictórios e uma grande mancha de san¬gue já coagulado num dos lavatórios.

Jerry Garcia continuava cantando.

—   Deixa pra lá, boneca, mas não diga a ninguém que me conhece...

 

Steve Kemp estava de pé na janela de seu quarto, no quinto andar do edifício da ACM em Portland, olhando para a Spring Street e sentindo-se mal sem saber a causa. Sua cabeça estalava. Não podia esquecer Donna e as várias trepadas que dera com ela. Depois deixara-se ficar por ali, sem saber por quê.

Gostaria bem de estar no Idaho. Já desde algum tempo vinha pensando muito naquele Estado. E então por que não ia para lá de uma vez, ao invés de perder tempo por ali? Ele, simplesmente, não sabia. Não gostava de andar com a cabeça cheia de preocupa¬ções. Se continuasse assim jamais seria capaz de chegar a um. es¬tado de serenidade e era justamente isso o que ele mais precisava. Era necessário para o desenvolvimento do artista. Olhara-se num dos espelhos do banheiro, todo salpicado de pasta de dentes, e che¬gara à conclusão de que estava ficando velho. Realmente velho. Ao voltar para seu quarto dera de cara com uma barata que ziguezagueava pelo corredor. Os presságios não eram nada bons.

Ela não me chutou pelo fato de eu ser velho. Não sou tão ve¬lho assim. Ela me chutou porque já estava cheia de mim. Já se satisfizera e acalmara a comichão que sentia. Fez isso porque não passa de uma puta e porque eu já lhe dei uma boa dose de seu próprio remédio. O que foi que o seu Bonitinho achou daquele meu bilheti¬nho, Donna? Ele engoliu aquilo?

Mas teria ele recebido o bilhete?

Steve apagou o cigarro numa tampa que servia de cinzeiro. Aquela era realmente a pergunta principal. Ou não era? Se aquela fosse respondida, todas as outras estariam também encaixadas direi¬tinho em seus lugares. O domínio odiento que ela exercera sobre ele, ao mandá-lo cair fora antes que ele considerasse o caso termi¬nado, tinha sido uma coisa muito séria. Com.todos os demônios...ele simplesmente fora humilhado por aquela mulher. E aquilo era muito importante para ele.

E então, de repente, descobriu o que devia fazer e o coração bateu-lhe acelerado por antecipação. Enfiou a mão no bolso e sacu¬diu as moedas que estavam ali. Saiu para a rua. Já era mais do meio-dia e, em Castle Rock, o carteiro, tão ansiosamente esperado por Donna, já tinha começado suas entregas na área que cobria a Estrada Maple Sugar e a Rodovia 3.

 

Vic, Roger e Rob Martin passaram toda a manhã de terça-feira nos escritórios da Image-Eye e depois saíram para tomar umas cervejas e comer alguma coisa. Depois de muitas cervejas e sanduíches Vic percebeu, de repente, que já estava mais “alto” de que jamais estivera em sua vida nas horas de expediente. Ele, geral¬mente, bebia apenas um coquetel ou um copo de vinho branco. Já tinha visto muita gente boa de Nova York, colegas seus de publi¬cidade, que se afogavam lentamente naqueles antros escuros nas cer¬canias da Madison Avenue, sempre falando aos amigos a respeito de campanhas que nunca se realizariam, ou então se embebedavam o confidenciavam aos encarregados dos bares a respeito de romanc¬es que jamais escreveriam.

Aquela era uma estranha ocasião. Era metade de comemora¬do pela vitória e metade de uma espécie de velório. Martin ficara entusiasmado com aquela idéia de um último comercial com o Professor dos Cereais Sharp e dizia. que poderia talvez produzir quase dois quilômetros de filme.., sempre imaginando que iria ter a oportunidade. E aquela era a metade do velório. Sem a aprovação do velho e seu querido garoto, aquela idéia brilhante não valia coisa alguma. Estariam todos liquidados.

Nessas circunstâncias, Vic achava justificável a idéia de tomar um porre.

Agora, quando chegava a hora de maior movimento ali no res¬taurante, os três estavam sentados, em mangas de camisa, numa ca¬bine dos fundos, com os restos da comida e as garrafas vazias ali em cima da mesa e o cinzeiro completamente cheio. Vic lembra¬va-se do dia em que ele e Roger estavam no Submarino Amarelo, em Portland, discutindo aquela viagem. Era uma ocasião em que tudo parecia estar errado no negócio deles. Por incrível que possa parecer, ele sentiu-se invadido por uma onda de nostalgia e ficou imaginando o que estariam fazendo Donna e Tad. Preciso não es¬quecer de telefonar para casa esta noite.., se não estiver bêbado.

— E agora o que faremos? Vocês vão ficar por aqui em Bos¬ton vão se mandar para Nova York? Posso conseguir ingressos para vocês assistirem o jogo do Boston contra o Kansas City, se quiserem. Pode ser que isso os anime, um pouco...

Vic olhou para Roger, que deu de ombros.

— Acho que vamos nos mandar para Nova York, Martín. De qualquer forma, agradeço-lhe o oferecimento. Não acredito que ne¬nhum de nós esteja interessado em jogos agora.

— Roger tem razão. Nada mas temos a fazer aqui. Já discutimos muito e acho que todos concordamos com a idéia desse último comercial.

— Ainda temos muitas arestas para aparar, Vic. Ainda não há razão para se mostrar orgulhoso...

— Nós podemos cuidar disso, Rob. Acho que só um dia com o       pessoal do marketing será o suficiente. Você não acha, Vic?

—   Talvez leve dois, Roger. Mesmo assim, não há razão para que não possamos liquidar tudo com mais facilidade do que espe¬rávamos no princípio...

— E então o que vamos fazer?

Vic sorriu levemente.

—   Vamos telefonar para o velho Sharp e marcar uma audiên¬cia. Já estou vendo que vamos acabar indo direto para Cleveland, depois de Nova York. Vai ser a Misteriosa Excursão Mágica.

—   Ver Cleveland e morrer...

As cervejas chegaram. O garçom debruçou-se para Martin e falou-lhe baixinho:

—   O patrão me pediu para lhe dizer que há gente esperando mesas, Sr. Martin...

—   Pois muito bem. Vá dizer ao Sr. Jonhson que esta é a últi¬ma rodada e que ele não precisa ficar se borrando todo. Certo, Rocky?

O    garçom achou graça, sacudiu a cabeça e esvaziou o cinzeiro.

Martin voltou-se então para Víc e Roger.

—   E agora? Como é que ficam as coisas? Vocês são dois ra¬pazes bem espertos e não precisam que um cinegrafista capenga, com a barriga cheia de cerveja, fique tomando conta dos dois.

—   Você então acha que o Sharp não vai querer apresentar desculpas, não é mesmo?

Martin levantou uma garrafa vazia à guisa de saudação.

—   Você é bom mesmo, Vic...

—   Não se trata de pedir desculpa, gente. É apenas uma porcaria de explicação. — A voz de Roger tinha um tom de lamúria.

—   Essa é a maneira como você vê a coisa, Roger. Mas será que ele é da mesma opinião? Pense bem. Já estive com aquele cara algumas vezes. Ele verá as coisas em termos do capitão abandonan¬do o navio naufragado antes das mulheres e crianças, dos heróis do Álamo se rendendo e tudo mais que você possa imaginar nesse sen¬tido. Nada disso, meus amigos. Vou dizer a vocês como as coisas vão se passar. — Levantou o copo numa saudação e bebeu a cer¬veja lentamente.     — A minha opinião é que um relacionamento valioso e de pouca duração vai chegar ao fim muito em breve. O ve¬lho Sharp vai ouvir a proposta de vocês, vai sacudir a cabeça o acompanhá-los até a porta do escritório. Definitivamente. E a pró¬xima agência encarregada de sua propaganda será escolhida pelo filho, o qual dará preferência à que se mostrar mais disposta e to¬lerante a aceitar suas idéias idiotas.

—   Pode ser que seja.., mas também pode ser que ele...

—   Essa coisa de “pode ser” não vale uma titica, Roger. A única diferença entre um homem publicitário e um bom vendedor de panacéias está no fato do primeiro saber como tirar o máximo de proveito do material que tiver em mão.., sem fugir dos man¬damentos da honestidade. E o comercial que vamos apresentar à ele é justamente isso. Se recusar, ele estará desprezando o melhor que temos para oferecer. Ponto final. — Ele esmigalhou o cigarro e quase derrubou a cerveja de Roger, que ainda estava no meio. As suas mãos tremiam. — Levanto o meu brinde a isso, cavalheiros!

Vic e Roger levantaram também seus copos.

Martin pensou durante um momento antes de falar:

—   Só espero que tudo dê certo... apesar de todas as pro¬babilidades em contrário.

—   Amém!

Tomaram a bater os copos e beberam o resto da cerveja. Ao virar o seu, Vic pensava em Donna e Tad outra vez.

 

George Meara, o carteiro, levantou a perna enfiada no uniforme azul dos Correios e soltou um peido. Ele estava sempre fazendo aquilo ultimamente e sentia-se preocupado. Não tinha relação alguma com o que comia. Na noite anterior, ele comera bacalhau com molho e torradas e peidara. Naquela manhã, tinha comido ce¬reais Kellog’s com banana cortada e acontecera a mesma coisa. Na¬quela tarde, numa lanchonete da cidade, ele comera dois cheesebur¬guers com maionese.., e tudo se repetira.

Ele recorrera à Enciclopédia Médica do Lar, uma inestimável obra em 12 volumes, para ver o que ela dizia sobre tais sintomas. A obra fora comprada por sua mulher, um volume de cada vez, com a economia que fazia em suas compras no supermercado em South Paris. Descobrira então no verbete FLATULÊNCIA EXCESSIVA uma coisa que não lhe agradava muito. Era possível que fosse uma pequena úlcera ali incubada, já que podia ser devido a perturbaçõos gástricas. Poderia, até mesmo, ser aquela terrível moléstia que co-meçava com C. Se aquilo continuasse ele se veria obrigado a procu¬rar o velho Dr. Quentin e receberia como resposta que aquela sua peidação se devia ao fato dele estar ficando velho e nada mais.

Ele sentira muito a morte da velha Tia Evvie na primavera anterior. Sentira mais do que, na realidade, teria acreditado que sentiria. E também, naqueles últimos tempos, não lhe vinha agradando muito aquela idéia de que estava envelhecendo. Preferia pen¬sar naquela época maravilhosa em que se aposentaria, quando es¬teria sempre junto de sua Cathy. Não seria mais obrigado a sair da cama às 6:30. Não precisaria mais carregar sacos de correspondência, nem seria obrigado a dar ouvidos ao merda do Fournier, o chefe dos Correios em Castle Rock. Não mais congelaria os colhões no inverno nem enlouqueceria de calor no verão, quando aquela gente maluca queria que ele fosse entregar a correspondên¬cia nos acampamentos e casas de campo. Em vez disso, ele até po¬deria ir a Winnebago, na Nova Inglaterra, aproveitando as excur¬sões organizadas para isso. Poderia cuidar de seu jardim, assim co¬mo poderia se ocupar com toda a sorte de passatempos que lhe viessem à cabeça. Gozaria então de uma tranqüilidade absoluta. Só que a perspectiva de entrar nos 60 anos e passar os 70 soltando peidos não se coadunava muito com aquela maravilhosa visão do que lhe proporcionaria a aposentadoria.

Enveredou pela Rodovia 3 em seu caminhãozinho azul e bran¬co e precisou apertar os olhos para se defender do sol que lhe batia na cara. O verão estava se mostrando, realmente, tão quente como previra a Tia Evvie e talvez, até mesmo, já ultrapassando sua pre¬visão. Ouvia os grilos cantarem no capim alto que beirava a es¬trada e chegou a ter uma breve visão dos Maravilhosos Anos da Aposentadoria, uma cena que poderia ser chamada “O George des¬cansando em sua rede no quintal”.

Fez uma parada na casa dos Millikens, onde deixou uma circu¬lar de propaganda da Zayres e uma conta de luz. Naquele dia ele tinha que entregar todas as contas de luz, mas já imaginava que o pessoal da companhia de eletricidade não sossegaria até que os Mil¬likens pagassem sua conta. Eles faziam parte da escória branca, tal como aquele Gary, que morava no sopé da colina, O comportamento de Gary constituía um verdadeiro escândalo para a comunidade, já que era um ex-combatente que recebera a tão cobiçada condeco¬ração. Joe Camber também não era muito melhor que Gary. Os dois estavam se deteriorando aos poucos.

John Milliken estava do lado de fora no quintal, consertando alguma coisa que se parecia com uma grade de trator. O carteiro acenou-lhe e o outro respondeu com um ligeiro gesto, voltando logo ao que estava fazendo.

Pois agora aqui vai um para você, seu vigarista que vive à custa do governo.

Ele levantou a perna e soltou um dos seus peidos sonoros. Aquilo era um verdadeiro inferno! Precisava ter cuidado quando se encontrava no meio de amigos.

Ele continuou até a casa de Gary, onde deixou outra circular da Zayres e mais uma conta de luz. Empurrou tudo para dentro da caixa. Fez a volta ali mesmo porque não precisava ir até a casa do Joe, pois ele havia avisado nos correios que ia viajar. Fournier, o chefe do serviço, fizera como mandava a rotina e preenchera um cartão GUARDAR CORRESPONDÊNCIA ATÉ OUTRA NOTIFICAÇÃO, que ati¬rou para George.

Fournier dissera a Joe naquela ocasião que sua correspondên¬cia já fora enviada. Deveria ter telefonado mais cedo.

—   Não faz mal — dissera Joe. — Aliás, creio mesmo que vou passar por lá antes de viajar.

Quando colocou na caixa a correspondência de Gary, o car¬teiro reparou que a do dia anterior ainda estava ali. Era um exem¬plar de Popular Mechanix e uma circular pedindo contribuições para

o Fundo Escolar Rural. Agora, ao fazer a volta, ele reparava que o velho Chrysler de Gary estava ali, junto com a caminhonete de Joe.

— Devem ter saído juntos. Dois idiotas soltos por aí...

A conclusão de George era que os dois deviam andar pelas re¬dondezas bebendo e correndo atrás de mulheres na velha pick-up de Joe.

Levantou a perna e soltou mais um.

Não lhe ocorreu pensar que era um tanto estranho o fato de¬les terem saído na pick-up, deixando para trás dois carros bem mais confortáveis. Tampouco reparou no sangue que havia nos degraus da escada nem na porta telada completamente arrombada.

— Dois idiotas soltos por aí. O Joe, pelo menos, ainda se lem¬brou e mandou guardar sua correspondência...

Voltou pelo mesmo caminho que viera e, de quando em quando, ia levantando a perna e bombardeando a paisagem com o seu trombone.

 

Steve foi até a lanchonete para comer e beber alguma coisa. Levou tudo para o carro, onde se sentou para comer ao mesmo tempo que olhava a Brighton Avenue sem vê-la e sem sentir o gosto da comi¬da. Telefonara para o escritório de Vic dando o nome de Adam Swallow quando a secretária perguntara. Disse que era diretor de marketing de uma companhia e que precisava falar com o Sr. Tren¬ton. Estava até com a boca seca. Teriam muita coisa para conver¬ar quando ele atendesse. Coisas mais interessantes do que marketing.

Coisas assim como aquele sinal que a sua mulherzinha tinha em suas partes íntimas. Como sua mulher o mordera em certa ocasião, ao atingir o orgasmo, com tanta força que chegara a sangrar. Queren¬do saber como corriam as coisas para a cadelinha, desde que seu marido ficara sabendo como gostava de variar.

Só que nada saíra como ele esperara, pois a secretária lhe in¬formara que os dois sócios não viriam ao escritório naquela semana e talvez nem mesmo na seguinte.

—   Será que posso ajudá-lo de alguma forma?

Pelo som de sua voz ele via que ela estava mesmo querendo ajudar. Seria para ela uma grande coisa se arranjasse algum cliente novo, enquanto os dois sócios cuidavam de outros negócios em Bos¬ton ou Nova York. Certamente não estariam em algum lugar exótico como Los Angeles. Ali não haveria lugar para uma agenciazi¬nha de merda como a Ad Worx.

Ele agradeceu dizendo que tomaria a telefonar no fim do mês. Desligou antes que ela tivesse tempo de pedir seu telefone, coisa que não existia, já que ele estava telefonando de bem pertinho, de um telefone público.

E então ali estava ele agora, comendo dentro do carro e pen¬sando no que faria a seguir, embora uma voz interior lhe dissesse que “ele sabia muito bem o que deveria fazer”.

Entrou no carro e seguiu na direção de Castle Rock. Quando acabou de comer, já se encontrava em North Windham. Atirou para dentro da caminhonete os plásticos vazios, que foram fazer compa¬nhia aos outros que já se amontoavam lá. Ele não sujava as estra¬das porque achava que aquilo era vergonhoso e poluía o ambiente.

 

Steve chegou à casa de Donna às três e meia daquela tarde escal¬dante. Agindo com um máximo de cautela, passou diante da casa sem diminuir a velocidade e foi estacionar numa esquina distante.

Reparou que a entrada da casa estava vazia e sentiu-se frus¬trado. Não queria confessar a si mesmo, especialmente agora que tudo indicava estar à casa vazia, que a sua intenção era dar-lhe uma amostra daquilo que ela tanto desejara na primavera anterior. Ape¬sar de tudo, ele viera de Westbrook a Castle Rock com uma exci¬tação que já não existia mais.

Ela se fora.

Nada disso. O carro não estava ali, mas uma coisa não provava a outra.

Ele parou e olhou em torno.

O    que temos aqui, senhoras e senhores, é uma tranqüila rua de bairro num dia de verão, com a maior parte das crianças dormin¬do e a maior parte das donas-de-casa grudadas às suas TV, assis¬tindo aos programas preferidos. Todos os maridinhos estão dando o duro, para pagarem um imposto de renda maior e, muito prova¬velmente, um leito no CTI do Centro Médico do Maine. Duas crian¬ças estavam brincando na calçada, enfiadas em trajes de banho e suando copiosamente. Uma velha empurrava com tanto cuidado um carrinho de compras, que parecia que ela e as compras eram de porcelana frágil. Ela passou bem longe das crianças que brincavam na calçada.

Em resumo, muito pouca coisa estava acontecendo. A rua es¬tava adormecida com o calor.

Steve subiu pela entrada com o maior desembaraço, como se a casa fosse sua. Olhou primeiro na garagem de um só carro. Sabia que Donna jamais guardava o carro ali. Tinha medo de entrar com ele porque a porta era muito estreita. Se arranhasse o carro ouviria poucas e boas de seu maridinho.

A garagem estava vazia. O carrinho dela não estava ali. O velho Jaguar do marido também não estava. Ele dissera a Donna que o seu rico maridinho estava na menopausa dos carros esportes. Ela não gostara da piada, mas Steve achava que não havia caso mais óbvio do que aquele.

Foi até os fundos, onde experimentou a porta que não estava trancada. Entrou sem bater depois de olhar em torno, para ter certeza de não estar sendo visto por alguém.

Fechou a porta e viu que a casa estava silenciosa. Mais uma vez sentia o coração aos pulos, parecendo sacudir-lhe as costelas. E tam¬bém,mais uma vez, ele não reconhecia certas coisas. Não precisava reconhecê-las. Eram coisas que estavam ali, de qualquer maneira.

       — Olá! Alguém em casa?

A sua voz era alta, sincera, agradável e interrogativa.

— Olá!...

Agora já estava na metade do corredor.

Era óbvio que não havia ninguém em casa. Ela estava vazia, si¬lenciosa, quente... Uma casa vazia, cheia de móveis, sempre mete medo quando não é a nossa. Há sempre uma sensação de se estar sendo observado...

Em todo o caso, sempre era bom tentar mais uma última vez.

—   Olá! Há alguém em casa?

Deixe aqui uma lembrancinha para ela e caia fora...

Entrou na sala e ficou ali de pé, olhando em tomo. As mangas da camisa estavam arregaçadas e o suor corria-lhe pelos braços. Agora já podia confessar certas coisas. Admitia que desejara matá-la na hora em que ela o chamara de filho da puta e lhe cuspira no rosto. Desejara matá-la quando ela o fizera sentir-se velho, apavorado e incapaz de se manter senhor da situação. A carta já fora alguma coisa, mas não o bastante.

À sua direita havia prateleiras de vidro cheios de quinquilharias. Ele voltou-se e deu um pontapé na última prateleira, que se desinte¬grou toda, espalhando o vidro quebrado pela sala. Havia estatuetas de porcelana representando gatos, pastores e todas as porcarias de uma burguesia feliz. Sentia a testa latejar. Nem mesmo percebia que estava fazendo careta. Caminhou por cima das estatuetas ainda intac¬tas e reduziu-as a pó. Arrancou da parede uma foto de família e, durante um momento, olhou com curiosidade para o rosto sorridente de Vic, que tinha Tad no colo e abraçava Donna pela cintura. Atirou a foto no chão e pisou em cima, para quebrar-lhe o vidro e a mol¬dura.

Olhou em tomo, ofegante, como se houvesse acabado de dar uma corrida. E então, de repente, ele atirou-se contra a sala como se ela fosse uma coisa viva, uma coisa que lhe houvesse feito algum mal e precisava ser punida por isso. Era como se aquela sala fosse a causadora de toda a sua dor. Empurrou a poltrona de Vic e virou o sofá, que ficou se equilibrando durante um momento antes de cair e quebrar a mesinha que estava na sua frente. Atirou fora das estan¬tes todos os livros que ali estavam, murmurando imprecações contra o mau gosto de quem os comprara. Apanhou a peça onde eram guar¬dadas as revistas e jornais e atirou-a no espelho que havia sobre a lareira, que caiu no chão em pedaços, como peças de um quebra-cabeças. Ele agora roncava como um touro enfurecido. Seu rosto magro estava vermelho de fúria.

Foi para a cozinha, passando pela sala de jantar. Ao passar pela mesa que fora um presente dos pais de Donna, estendeu o braço. e levou de roldão tudo que ali estava. Um galheteiro com os vidri¬nhos de temperos, um vaso de vidro que Donna comprara em Bridgton por um dólar e 25 centavos no verão anterior, e o copo de barro para cerveja que Vic recebera de presente ao se formar. Os vidros de sal e de pimenta explodiram como bombas. Ele estava agora num estado de completa excitação sexual. Já nem pensava mais na possibilidade do ser descoberto. Estava no fundo de um buraco escuro.

       Quando chegou à cozinha espalhou as panelas e arrancou a tam¬pa do fogão. O barulho foi tremendo, mas não o suficiente para sa¬tisfazê-lo. Abriu todos os armários da parede e atirou no chão tudo que encontrou. A louça estilhaçava-se como se fosse música. Ele sol¬tava grunhidos de satisfação ao ver os destroços. Havia ali um jogo de cálices com hastes longas, que Donna recebera dE presente aos 12 anos. Ela ouvira falar das “arcas da esperança” e resolvera ter uma também. Iria guardando ali coisas para quando se casasse. Afinal, aqueles cálices foram às únicas coisas colocadas na arca; já que ela logo se desinteressara por aquilo. A grande intenção original fora de ter o suficiente para montar a sua casa ou apartamento quando se casasse. As peças tinham mais da metade do sua idade e ela as con¬siderava como um tesouro.

       A molheira foi junto com o resto, logo acompanhada pelo toca-fitas, que ele chegou a pisotear. A sua ereção estava agora insupor¬tável e o latejar da testa acompanhava o seu ritmo. Descobriu que havia bebidas no armário sob a pia e quebrou todas as garrafas, uma a uma, atirando-as contra a porta do closet com toda a força. No dia seguinte, o seu braço direito estaria sofrendo as conseqüências. A porta do closet estava já toda molhada com as diferentes bebidas que escorriam até o chão. Algumas tinham sido presentes de Natal de Roger e Althea. Os copos eram atirados pela janela e brilhavam ao passar pelo sol da tarde quente.

         Ele seguiu para a lavanderia, onde havia uma grande coleção do material para limpeza, que apanhou e levou para a cozinha, onde foi derramando tudo, como um louco saudando o Ano Novo.

         Tinha acabado de entornar o último vidro quando reparou no bilhete que Donna rabiscara às pressas antes de sair. Tad e eu vamos para a oficina de Joe Camber com o carro. Voltaremos logo.

         Aquilo fez com que ele voltasse de imediato para a realidade da situação. Já fazia meia hora que estava ali, talvez até mais. O tempo corria depressa demais para poder ser avaliado; Quanto tempo já haveria decorrido desde a saída de Donna até sua volta para casa? Para quem seria aquele recado? Para qualquer pessoa que viesse ou para alguém que poderia entrar a qualquer minuto? Era preciso cair mas ainda havia uma coisinha a fazer.

Limpou com a manga da camisa o recado de Donna e escreveu em letra dc fôrma:

 

               DEIXEI UMA COISA PARA VOCÊ

               LÁ EM CIMA BONECA

 

Galgou a escada de dois em dois degraus e foi até o quarto que ficava do lado esquerdo. Agora estava terrivelmente apressado e te¬mendo a chegada de alguém. Tinha quase certeza de que a campainha da porta ia tocar e que alguma amiguinha meteria a cabeça na porta dos fundos, como ele mesmo já fizera, para fazer aquela mesma per¬gunta: “Olá! Há alguém em casa?»

De uma certa maneira perversa, no entanto, aquilo ainda o deixava mais excitado, no meio de toda aquela loucura. Soltou o cinto, abriu a braguilha das calças, que deixou cair até os joelhos.

Estava de cuecas, já que raramente as usava. O seu membro estava rígido no meio dos pêlos púbicos muito louros. Não lhe foi preciso muito tempo no estado de excitação em que se encontrava. Mastur¬bou-se com dois ou três movimentos rápidos e brutais e o orgasmo veio, imediato e selvagem, espalhando o seu sêmen em cima da colcha.

Suspendeu as calças e puxou o zíper com tanta força que quase teve a cabeça do membro decepada por seus dentes dourados — coisa que, realmente daria para rir — e correu para a porta enquanto aper¬tava o cinto. Tinha certeza de que iria encontrar alguém lá fora quan¬do saísse, como se tudo houvesse sido combinado de antemão. Algu¬ma dona-de-casa da vizinhança que notaria o seu rosto vermelho, os olhos esbugalhados e as calças manchadas, logo começando a gritar.

Enquanto se encaminhava para a porta, ia imaginando o que diria. Em retrospecto, tinha a impressão de que o barulho feito lá dentro fora suficiente para despertar um morto. Estava pensando na barulheira. das panelas. Por que fizera aquilo com toda aquela por¬caria lá dentro? Toda a vizinhança devia ter ouvido...

Mas não havia ninguém lá fora. A tranqüilidade da tarde con¬tinuava como se nada houvesse acontecido. Do outro lado da rua um esguicho d’água continuava a girar molhando a grama, comple¬tamente alheio aos acontecimentos. Um garoto passou correndo de patins. Bem lá na frente estava a cerca viva que separava a casa de Vic e a do vizinho. Lá embaixo da colina estava a cidade e Steve podia ver o cruzamento da Rodovia 117 com a High Street, com a prefeitura aninhada entre as duas. Ele ficou ali de pé, procurando recuperar a calma. A respiração regularizava-se paulatinamente. Já estava calmo e seu rosto mostrava-se agradável como sempre. Tudo aquilo acontecera num período de tempo equivalente ao que era pre¬ciso para o sinal de trânsito da esquina completar o seu ciclo de ver¬melho para amarelo, para verde e novamente vermelho.

E se ela chegar neste instante?

O pensamento fez com que voltasse ao estado anterior. Deixara lá em cima o seu cartão de visitas e pouco se importava com o que ela pudesse fazer. Aliás, ela não tinha como fazer coisa alguma a não ser que resolvesse chamar a polícia; e ele não acreditava que o fizes¬ze. Ele teria muitas coisas para contar. A Vida Sexual da Grande e Feliz Dona-de-Casa Americana em seu Habitat Natural. Aquilo fora mesmo uma loucura. O melhor seria fugir para bem longe de Castle Rock. Poderia, talvez, telefonar-lhe mais tarde, só para perguntar se gostara do serviço. Até que seria bem engraçado.

Ele desceu a entrada e foi até onde estava o carro. Ninguém o deteve. Ninguém reparou nele, O garoto dos patins passou por ele com um “Oí” que logo foi retribuído.

Entrou na caminhonete e partiu, tomando a 177 até a 302, que seguiu até o cruzamento com a 95, em Portland. Pagou o pedágio e seguiu em direção ao sul. Já não se sentia muito tranqüilo com tudo que fizera. Ficara louco de raiva ao encontrar a casa vazia. Seria a sua retribuição maior do que a ofensa? Ela não queria mais saber dele. E daí? Ele quase arrebentara a porcaria da casa. Seria isso talvez, uma indicação desagradável sobre o que se passava em sua cabeça?

Ele continuava a pensar em tudo aquilo, uma coisa de cada vez, como geralmente todos fazem, observando um conjunto objetivo de fatos e dando-lhes um banho de vários produtos químicos que, quan¬do tomados em conjunto, formam o mecanismo complexo da per¬cepção humana conhecido como subjetividade. Da mesma forma que uma criança que faz seus deveres a lápis, apaga-os com a borracha para novamente fazê-lo com o lápis, ele deixou de lado tudo o que tinha acontecido para depois reconstruir cuidadosamente seu pensa¬mento, até que os fatos e a percepção dos mesmos se encaixassem de maneira tolerável.Quando chegou à Rodovia 495, ele tomou o caminho para Nova York que se espalhava ali na sua frente até o Idaho, o lugar escolhi¬do pelo Papai Hemingway quando se sentiu velho e mortalmente fe¬rido. Ele sentia ali a satisfação íntima que sempre lhe acontecia quan¬do rompia laços antigos para seguir em frente, aquela sensação má¬gica que Huck definira como “abrir clareiras para o território”. Nes¬sas ocasiões, sentia-se como se houvesse acabado de nascer, sentia inteiramente que dispunha da maior liberdade existente e que era a de se recriar. Ele não conseguiria entender o significado se alguém viesse lhe dizer que, tanto no Maine como no Idaho, ele continuaria sempre a atirar longe a sua raquete, cheio de frustração, todas as vezes que perdesse uma partida; que se recusana a apertar a mão do adversário por cima da rede, como sempre acontecera antes. Só fazia isso quando era o vencedor.

Passou a noite numa cidadezinha chamada Twickenham e dor¬mia muito tranqüilo. Já se convencera de que a depredação na casa de Donna não fora um ato de ciúmes meio louco e sim uma demons¬tração de anarquia revolucionária. Fora uma forra contra os porcos gordos da classe média da espécie dos que facilitavam os senhores fascistas a se conservarem no poder quando, cegamente, pagavam seus impostos e suas contas de telefone. Fora um ato de coragem e de fúria limpa e justificada. Era a maneira como entendia “a força do povo”, idéia essa que tentava incorporar em todos os seus poemas.

Ao cair na cama para dormir, na cama estreita do motel, ele estava pensando no que Donna teria sentido ao voltar para casa com o garoto. E isso fez com que adormecesse com um sorriso nos lábios.

 

As 3:30 daquela terça-feira, Donna já havia desistido da idéia do carteiro.

Continuava ali sentada, um braço em torno de Tad, que se en¬contrava numa meia sonolência de exaustão, com os lábios cruelmen¬te inchados por causa do calor e o rosto muito vermelho. Ainda havia um restinho de leite que ela lhe daria assim que despertasse comple¬tamente. Durante as últimas três horas e meia, quando teria sido a hora do almoço se estivessem em casa, o sol tinha-se mostrado mons¬truosamente impiedoso. Até mesmo com as duas janelas abertas numa quarta parte de tempo, a temperatura dentro do carro devia ter che¬gado a uns 40 graus, ou talvez mais que isso. Era assim que o carro ficava sempre que permanecia exposto ao sol e não havia para onde apelar. Em circunstâncias normais, naturalmente, a gente simples¬mente baixava os vidros até o fim, abria os dutos que traziam o ar de fora e começava a rodar. Começar a rodar. Essas eram palavras bem doces!

Donna passou a língua nos lábios.

Durante curtos períodos ela se atrevera a baixar os vidros até o fim e isso sempre aliviara bastante a situação deixando entrar bem a corrente de ar lá de fora, mas tinha medo de deixar assim o tempo todo. Poderia cochilar... Ela estava apavorada com o calor. Apa-vorada por ela e pelo filho. Pelo que aquilo poderia estar fazendo com ele, mas o medo não era igual ao que sentia pelo cão, sempre babando e fitando-a com seus olhos vermelho e lacrimejantes.

A última vez que baixara as janelas até o fim fora quando Cujo se recolhera à oficina, mas agora ele já ali estava de volta.

Estava sentado à sombra da oficina, a cabeça baixa, sem tirar os olhos do carro. A terra entre as patas dianteiras já se transformara em lama com a sua baba. De quando em quando, ele rosnava e parecia querer abocanhar o ar numa espécie de alucinação.

Quanto tempo levará ainda? Quanto tempo levará até morrer?

Ela era uma mulher racional. Não acreditava em monstros dentro de closets. Só acreditava nas coisas que via e que tocava. Nada havia de sobrenatural naquilo que restava do que fora um São Ber¬nardo e que ali estava agora, na sombra do barracão. Ele nada mais senão um pobre cão doente, porque fora mordido por algum animal portador do hidrofobia. Ele não tinha intenção de pegá-la. Não era o Reverendo Dimmesdale ou coisa parecida. Não era um azar de quatro patas.

Ela já estava completamente decidida a correr até a porta da casa quando o cão tornou a aparecer, saindo lá da sombra da oficina, linha saído de lá cambaleando.

Toda a questão girava em torno de Tad. Ela precisava tirá-lo dali custasse o que custasse. Ele já estava começando a responder de fom¬a incoerente. Só agora percebia os pontos altos da realidade. Os olhos vidrados, que ele virava para ela, quando lhe dizia alguma coisa, eram parecidos com os olhos de um lutador de boxe que acabou de ser socado, socado e socado até perder a noção de coerência, esperando ape¬nas o golpe final que o derrubaria inconsciente sobre a lona. Aquilo deixava-a completamente aterrorizada e fazia despertar nela todos os instintos maternais. tinha que pensar em Tad. Se estivesse ali sozi¬nha, já desde muito teria corrido para aquela porta. Somente o filho a impedira, porque ela o imaginava sozinho dentro do carro depois que o cão a houvesse estraçalhado.

         Mesmo assim, até uns 15 minutos antes, Donna vinha se pre¬parando para a escalada quando o cão surgira ali, saindo da oficina.

       Ela ficou passando o repassando o plano em seu pensamento, como se fosse um filme exibido em casa até que, num setor de sou cérebro, ela imaginava que tudo já havia acontecido. Ela teria que sacudir Tad, batendo-lhe no rosto, se assim fosse necessário, para lhe dizer que não deveria sair do carro tentando acompanhá-la, em circunstância alguma, acontecesse o que acontecesse. E ela correria então até a porta, a fim de experimentar a maçaneta. Se não estivesse tranca¬da, então tudo estaria ótimo; mas estava preparada para o caso contrário. Ela tirara fora a camisa e estava agora só de sutiã, a camisa no colo. Quando saísse correndo, ela já levaria a mão bem embrulhada na camisa. Aquilo era uma proteção bem precária, mas sem¬pre era melhor que nada. Então, quebraria o vidro mais perto da fechadura e enfiaria a mão para abrir a porta da varanda pelo lado de dentro. Se a outra porta também estivesse trancada, ela teria de encontrar alguma solução para o problema.

Mas o cão saíra novamente da oficina e aquilo liquidava com todos os seus planos.

Isso n& tem importdncia. Ele vai voltar para lá. Já fez isso antes. Mar será que vai mesmo? Assim fica fácil, demais, não é mesmo! A família toda saiu, mas alguém se lembrou de avisar aos Cor¬reios, como bons cidadãos. O Vic viajou e, provavelmente, só telefo¬nara amanhã. Telefonará a noite, porque nã estamos em condições para gastar muito com telefonemas. Com certeza telefonará cedo. Quando o telefone não responder ele ficará pensando que saímos para comprar alguma coisa no Mario’s ou então para tomar sorve¬tes. Não telefonará muito tarde porque há de pensar que já estamos dormindo. Deixará para o dia seguinte. Ele é muito delicado. Não gosta de incomodar ninguém. Ë isso aí. Tudo está direitinho. Acho que havia um cachorro na frente do barco naquela história do bar¬queiro Caronte. Era o cachorro do barqueiro. Chamava-se Cujo. Iam todos para o Vale da Morte.

Ela procurava dar ordens ao cão pela telepatia. Volte para a oficina, seu porcaria...

Ele, porém, não obedecia.

Donna passou a. língua nos lábios, já tão inchados como os do filho.

Afastou os cabelos que caíam pela testa dele.

—   Como é que você vai indo, meu amor?

Ele abriu os olhos devagar, um de cada vez. Olhou em torno. Era apenas um garotinho aturdido, calorento e terrivelmente cansado.

—Mãe... Por que não vamos para casa? Está muito calor...

—   Nós vamos sim, Tad.

—   Quando é que vamos, mamãe? Quando é que vamos?

E ele começou a chorar desesperadamente.

Ocorreu-lhe o pensamento de que Tad estava desperdiçando o líquido de seu corpo. E ele ia precisar muito daquilo. Aquele era cer¬tamente um pensamento louco, mas toda a situação era de um ridículo que raiava à loucura. Pensava na morte do menino, vítima da desidratação.

(pare com isso! Ele não está morrendo)

e isso a menos de quatro quilômetros do centro da cidade. Era coisa que não fazia sentido.

Mas a situação era essa mesma e não havia como fugir. E não comece a pensar em coisa diferente, irmã, como se fosse uma guer¬ra em miniatura. E, então, tudo que parecia pequeno antes torna-se enorme agora. O menor sopro que passava pela janela meio aberta era corno se fosse um zéfiro. A distância até aquela porta dos fundos não passava de uns 700 metros através da terra de ninguém. E se alguém quiser acreditar que o cão é o Destino, ou o Fantasma. dos Pecados Passados, ou, até mesmo a reencarnação de Elvis Presley, pois então que acredite. Naquela curiosa situação em miniatura, numa situação de vida ou morte, até mesmo a necessidade de ir ao banheiro se tomava uma verdadeira escaramuça.

Nós vamos nos safar daqui. Não há cão nenhum no mundo que possa fazer isto com meu filho.

—   Quando é que nós vamos, mamãe?

O    rostinho dele estava cor de cera.

— Nós vamos sair logo, Tad. Logo, logo.

Ela tornou a tirar-lhe os cabelos da testa e abraçou-o com força.

Olhou lá para fora, do lado direito do carro, e tornou a reparar naquele velho bastão de beisebol com fita isolante no punho.

Eu bem que gostaria de arrebentar sua cabeça com aquilo ali...

O telefone começou a tocar lá dentro da casa.

Ela virou a cabeça, sentindo uma esperança louca.

— Será que o telefone é para nós, mamãe? Será que estão cha¬mando a gente?

Ela não respondeu. Não sabia para quem seria o chamado. Mas se a sorte agora virasse, e já estava mesmo na hora disso acontecer, então quem telefonava poderia ficar desconfiado de alguma coisa errada na casa de Joe. Talvez alguém se desse ao trabalho de vir verificar.

Cujo levantara a cabeça e inclinara-a de lado, fazendo com que, por um momento, ele ficasse parecido com aquele cachorro da RCA Victor diante do gramofone. Levantou-se cambaleando e seguiu na direção da casa onde o telefone tocava.

       — Acho que o cachorro vai atender ao telefone, mamãe.

Com uma rapidez e agilidade verdadeiramente aterradoras, o cão fez meia-volta e precipitou-se para o carro. Já não cambaleava mais. Até parecia que ele estava fingindo de esperteza. Os olhos vermelhos. brilhavam com intensidade. Atirou.se de encontro ao carro com tanta força que foi repelido e ficou ali espantado, sem compreender.. Donna reparou que havia um amassado no seu lado. O seu pensamento era his¬térico. Ele deve estar morto! Bateu em cheio com a cabeça.., deve ter sofrido uma contusão... Ele deve estar... Deve estar...

O    animal, porém, já se levantava. O seu focinho sangrava. O seu olhar estava novamente vago. La dentro da casa o telefone con¬tinuava a tocar. O cão fez menção de ir embora, mas logo voltou-se ferozmente contra sou próprio corpo como se houvesse sido mordi¬do, e depois atirou-se contra a janela de Donna com outro tremendo impacto. O sangue sujou o vidro que mostrava um leve fio prateado. Tad soltou um grito e tapou o rosto com as mãos com tanta força que chegava a arranhá-lo.

O cão saltou novamente. A baba escorria-lhe pelo focinho cheio de sangue. Ela via seus dentes amarelados como se fossem de marfim velho. Batia no vidro com as unhas. Havia um talho entre os olhos que também sangrava muito. Não tirava os olhos dela. Olhos vidra-dos e amortecidos, mas que ela juraria que tinham uma determina¬da intenção. Alguma intenção maligna.

—   Caia fora daqui! Vá embora.

Ele atirou-se novamente contra a sua janela repetidas vezes. Ela percebia que a sua porta já estava bem amassada para dentro. Cada vez que o animal atirava os seus 100 quilos contra o carro ele se balançava todo nas molas. A cada impacto que ouvia Donna tinha quase a certeza de que o animal se matara, ou que, pelo menos des¬maiara e estava inconsciente. E então ele repetia sempre a mesma coisa, indo até a casa e depois voltando para investir contra o carro. O focinho já parecia uma pasta de sangue e os seus olhos, que já tinham sido tão meigos, brilhavam numa fúria estúpida.

Ela olhou para Tad e viu que ele se encolhera todo numa posição       fetal, com as mãos cruzadas atrás do pescoço. Talvez assim seja melhor. Talvez...

Lá dentro da casa o telefone já não tocava mais. Cujo estava se preparando para um novo ataque, mas parou de repente. Entortou novamente a cabeça, naquele gesto curioso e invocador. Donna dei¬xou de respirar e o silêncio parecia muito grande. O animal sentou-se, levantou o focinho ensangüentado para o céu e soltou um uivo, um uivo tão sinistro e solitário que ela chegou a sentir um arrepio. Já não sentia calor e o carro lhe parecia tão frio como se fosse uma caverna. Naquele instante exato, ela se deu conta de que aquilo ali era alguma coisa mais do que um simples cão. Aquilo não era ape¬nas uma sensação ou um pensamento. Era uma certeza.

O momento, no entanto, logo passou. O cão levantou-se deva¬gar e veio ficar na frente do carro. Ela achava que ele se deitara ali, já que não lhe via mais o rabo. Mesmo assim, ela não se descuidou e ficou mentalmente alerta para o caso dele investir novamente contra o capô do carro, como já fizera antes. Isso, porém, não aconteceu. O silêncio era completo.

Ela pegou Tad no colo e começou a cantar baixinho para ele.

 

Quando Brett finalmente desistiu e saiu da cabine, Charity tomou-o pela mão e levou-o para a lanchonete da Caldor’s. Eles tinham vindo àquela loja para procurar toalhas de mesa e cortinas.

Holly estava acabando o seu sorvete enquanto esperava por eles.

—   Alguma coisa errada, Charity?

— Não, não. O Brett está preocupado com o seu cachorro, não é mesmo, meu filho? — ela explicou, passando a mão pelos cabelos do filho. — Você pode ir andando, se quiser, Holly. Nós logo che¬garemos.

—   Está bem, eu espero lá embaixo — disse Holly, terminando com o sorvete. — Espero que não haja nada com o seu vira-lata,

       Ele esboçou o melhor sorriso que tinha, mas não disse nada. vendo enquanto Holly se afastava, muito elegante em seu vestido cor de vinho e sandálias com sola de cortiça. Charity tinha certeza de que jamais conseguiria imitar a elegância da irmã. Talvez chegasse o dia, mas não seria agora. Holly deixara os dois filhos com uma babá e as duas tinham ido a Bridgeport, onde almoçaram a convite delas pagaram com Dinner’s e depois au duas tinham saído para fazer compras. Brett estivera o tempo todo calado e triste, pensando no cachorro. Charity também não estava muito dis¬posta a compras. Fazia muito calor e ela ainda estava preocupada com o sonambulismo do filho naquela manhã. Afinal, ela lhe dissera para telefonar de uma das cabines ao lado da lanchonete mas o resultado fora justamente aquele que já esperava.

Quando a garçonete veio, Charity pediu café, leite e patisserie dinamarquesa.

— Olhe aqui, Brett. Quando falei com seu pai a respeito desta viagem ele, logo de saída, se opôs terminantemente...

—   Eu sei. Já esperava isso.

— ... mas logo depois mudou de idéia. Mudou de idéia de repente e acho.., acho que ele viu nisso uma boa oportunidade para também tirar as suas férias. Você sabe como é... os homens gostam às vezes de... ficar sozinhos para fazerem das suas...

—   Você quer dizer caçadas?

— É isso mesmo.

(mas também para correr atrás de mulheres, bebidas e só Deus sabe o que mais).

—   E também cinemas?

— Também pode ser, Brett. De qualquer forma, seu pai pode ter tirado uns dias para ir a Boston...

(claro, aquela espécie de filmes pornográficos na Washington Street, também conhecida como Zona de Combate).

A garçonete trouxe-lhes o pedido e Breu logo atirou-se às pa¬tisseries.

— Não creio que ele tenha feito isso, mamãe. Ele estava com muito trabalho. Ele mesmo me disse..

O    menino falava com sinceridade.

— Talvez não fosse tanto trabalho como ele pensava. De qual¬quer forma, é o que eu penso e é por isso que o telefone não aten¬de. Nem ontem nem hoje. Tome o seu leite, Brett. É bom para fortalecer os ossos.

Ela só esperava .que a incredulidade e o cinismo não transpa¬recessem em sua voz. Não queria que o filho percebesse.

Ele bebeu o leite, que lhe deixou um bigode branco, e depois largou o copo.

—   Pode ser que tenha feito isso mesmo. Quem sabe até che¬gou a convencer o velho Gary para ir com ele... Eles são muito amigos.

—   É isso mesmo. Deve ter levado o Gary com ele.

Ela falava como se aquela idéia jamais houvesse passado pela sua cabeça, mas acontecia que, naquela manhã, enquanto Brett brin¬cava no quintal com o filho de Holly, ela telefonara para a casa de Gary e o telefone também não respondera. Charity tinha certeza do que os dois estavam juntos, qualquer que fosse o lugar para onde ti¬nham ido.

—   Você não comeu o doce, Brett.

Ele deu uma dentada para satisfazer a mãe e colocou o resto em cima da mesa.

—   Mamãe, acho que o Cujo está bem doente. Eu vi bem como o coitado estava ontem de manhã. Juro que vi...

—   Brett...

—   Estava sim, mamãe. Você não viu ele. Estava esquisito...

—   Você ficaria mais tranquilo se soubesse ao certo que ele está bem?

Ele apenas sacudiu a cabeça.

—   Pois então vamos telefonar para o Alva Thornton esta noi¬te. Ele mora na Maple Sugar. Vou pedir a ele que dê um pulo lá para ver o que há. Está bem assim? O meu palpite é que seu pai já falou com ele para dar a comida ao seu cachorro todos os dias, enquanto ele estiver fora.

—   Você acha mesmo que ele fez isso?

—   Mas claro que acho, meu filho.

Claro que ele teria encarregado Alva ou alguém como ele. Não era propriamente um amigo de Joe. ele só tinha um amigo, que era o Gary — e sim alguém que lhe fazia um favor em troca de algum outro favor futuro.

A expressão no rosto do menino transformou-se como se fosse por mágica. Mais uma vez as pessoas crescidas sugeriam a coisa certa, tirando um coelho da cartola. Aquela alegria, no entanto, dei¬xou Charity triste durante uns momentos, em vez de animá-la. E se Alva lhe dissesse que não via Joe desde algum tempo? Bem, era algo que teria de enfrentar. Continuava a acreditar, no entanto, que Joe não deixaria o cão completamente desamparado. Aquele não era o seu feitio.

—   Vamos procurar a tia agora?

—   Vamos sim. Deixe-me acabar isto aqui primeiro.

Ela ficou olhando, divertida e espantada, enquanto ele devo¬rava os doces, rebatendo-os com o leite. Logo que acabou, empur¬rou a cadeira para trás e levantou-se.

Charíty pagou e os dois desceram pela escada rolante.

—   Puxa vida, mamãe, esta loja é bem grande mesmo... Esta cidade é bem grande, não é mesmo? — Ele não escondia o seu es¬panto.

—   Em comparação com Nova York, isto aqui é como Castle Rock, Brett.

Enquanto desciam, ele ia olhando em tomo. Do lado direito havia uma quantidade de periquitos barulhentos e irrequietos; do outro lado ficava o departamento de eletrodomésticos, tudo cheio de cromados que brilhavam. Havia uma máquina de lavar com a fren¬te de vidro, para se poder ver lá dentro enquanto ela trabalhava. Quando chegaram embaixo ele levantou a cabeça para a mãe.

—   Vocês duas cresceram juntas?

—   Ainda vou lhe contar um dia.

—   A tia é muito boazinha.

—   Fico muito contente por você gostar dela. Sempre foi a mi¬nha predileta.

—   Como foi que ela ficou tão rica assim?

Charity parou e olhou para ele.

— É assim que você vê a tia e o tio, Brett? Simplesmente co¬mo ricos?

— A casa deles deve ter custado um dinheirão. — Mais uma vez, ela via a influência de Joe sobre o filho, sempre com aquele seu chapéu atirado para o alto da cabeça e aquela cara de esperto, sempre olhando de esguelha. E aquela vitrola também é coisa muito cara. A carteira dela está cheia daqueles cartões de crédito e nós só temos um.

Ela voltou-se e encarou-o com ar zangado.

— Você acha que é bonito andar bisbilhotando as coisas dos óutros? Ela acaba de pagar um bom almoço para nos...

O rosto dele mostrou mágoa e surpresa, mas logo retomou ao normal. Aquele era também o jeitão do Joe.

—   Eu reparei sem maldade, mamãe. Aliás, seria difícil não reparar. Parece que ela faz questão de mostrar.

—   Ela não estava fazendo nada disso, Brett.

Charíty parou outra vez, parecendo chocada. Eles estavam agora na entrada do setor de cortinas.

—   Mas claro que estava mesmo, mãe. Se aquilo fosse um acor¬deom ela até poderia tocar uma música.

Ela agora estava furiosa com o filho e isso, em parte, era porque via que ele estava com a razão.

— Pois eu acho que o que ela queria mesmo era mostrar para você...

— A mim não interessa saber o que você pensa, Brett.

Sentia-se afogueada e as mãos comichavam com a vontade de dar-lhe uns safanões. Alguns momentos antes, lá na lanchonete, ela sentira que o amava.., e que, até mesmo o via como um amigo. Para onde tinham ido todos aqueles bons sentimentos?

—   Eu só queria saber como eles conseguiram toda essa grana...

—   Você não acha que essas suas expressões são um tanto grosseiras?

Ele deu de ombros, já agora num antagonismo ostensivo, e ela desconfiava que o seu intuito era provocá-la. Era uma coisa que já acontecera na lanchonete, mas que também já vinha de muito mais longe. Ele comparava o padrão de vida deles com o de uma outra pessoa. Teria Charity imaginado que Brett aprovaria sem restrições, automaticamente, o padrão de vida dos tios só para fazer-lhe a von¬tade? Um padrão de vida que ela nunca tivera, talvez por falta de sorte, talvez por estupidez de sua parte ou ainda talvez pelas duas coisas? Não teria ele o direito de criticar e analisar?

Claro que ela lhe reconhecia esse direito, mas jamais imagi¬nara que as suas conclusões fossem tão perturbadoras, sofisticadas, precisas e negativas, embora fossem apenas intuitivas.

—   Acho que foi o Jim quem ganhou o dinheiro. Você sabe o que ele faz...

— Claro que sei. Ele é um quebra-galhos.

Dessa vez, porém, ela se recusava ao envolvimento.

— Se você quer ver as coisas dessa forma... Eles se casa¬ram quando Jim ainda estava na universidade, estudando para o ves¬tibular. Na Universidade do Maine, em Portland. Depois, quando entrou para a escola de Direito em Denver, ela trabalhou em vários empregos duros para ajudá-lo. Muita gente faz isso. As mulheres trabalham para que os maridos se formem em alguma pro¬fissão.

Ao mesmo tempo que falava, Charity olhava em torno, pro¬curando a irmã mais moça, e acabou descobrindo-a numa das seções.

—   Então, quando Jim se formou, eles vieram morar aqui des¬te lado. Jim começou logo a trabalhar para um escritório de advo¬cacia em Bridgeport. Um escritório importante. Não ganhava muito nessa ocasião. Moravam num pequeno apartamento de terceiro an¬dar, onde não havia refrigeração no verão e onde a calefação era bem precária no inverno. Ele deu um duro danado e hoje já é sócio da firma. Acho que ganha muito bem, dentro de nossos padrões.

— É bem possível que ela gosto de exibir os seus cartões de crédito, porque ainda se sente pobre por dentro, não é mesmo, mamãe?

Charity ficou muito impressionada com aquela estranha per¬cepção do filho. Já não estava mais zangada e afagou-lhe os ca¬belos

—   Mas você disse agora mesmo que gostava dela.

—   Mas claro que gosto mesmo, mamãe! Olhe. Ali está ela.

—   Eu já vi, Brett.

Foram ao seu encontro. Ela já estava cheia de embrulhos com cortinas e agora ia procurar as toalhas de mesa.

 

O    sol finalmente desaparecera por trás da casa.

Pouco a pouco, o forno que era o interior do carro começou a refrescar. Uma brisa mais ou menos constante começou a soprar e Tad aproveitava-a com o rosto junto da parte aberta da janela. Já se sentia melhor do que durante todo o dia. Por enquanto, pelo menos. Aliás, todo o resto do dia anterior agora já lhes aparecia como um terrível pesadelo. Pesadelo esse de que ele só se recor¬dava em partes. Ocasiões houvera em que ele simplesmente se ausen-tara, em que saíra do carro e fora embora. Lembrava-se disso. Ti¬nha ido montado num cavalo. Cavalgara numa planície cheia de coelhos que brincavam como naquela peça infantil no Teatro da Lanterna Mágica, onde fora com seus pais. Havia um lago lá no fundo da planície onde nadavam uns patos. Eles eram bem mansi¬nhos. Tad brincara com eles. Ali era bem melhor do que o lugar onde estava a mamãe, porque era lá que estava o monstro que fugira de seu closet. Junto dos ratos não havia mons¬tros. Ali era muito bom. Ele gostava do lugar, embora soubesse, de um modo muito vago, que, se ficasse por ali com os patos muito tempo, depois não saberia como voltar para o carro.

Depois, o sol desaparecera por trás da casa. Havia sombras frescas, sombras tão espessas que quase pareciam de veludo. O monstro já desistira de atacá-los. O carteiro não viera, mas agora, pelo menos, ele já podia descansar com um certo conforto. O pior de tudo era a sede que sentia. Nunca em sua vida sentira tanta von¬tade de beber alguma coisa. Era isso que fazia com que aquele lugar dos patos fosse tão agradável. Era um lugar onde havia verde e água.

Donna inclinou-se carinhosamente para o filho.

—   O que foi que você disse, meu amor?

A resposta dele veio numa voz que mais parecia o coaxar de um sapo.

—   Estou com muita sede, mamãe...

Ele lembrava-se como antes não conseguia pronunciar certo, al¬gumas palavras e então os outros meninos do acampamento caçoa¬vam dele. E por isso ele caprichava muito para falar certinho.

—   Eu sei, meu querido. A mamãe também está com muita sede.

— Aposto como deve haver água lá na casa...

— Meu amor, nós não podemos ir lá. Ainda não podemos. O cão mau esta bem aí na frente do carro.

—   Aonde?

Ele ajoelhou-se e ficou admirado como sua cabeça estava leve. Sentia como se fosse uma onda desmanchando-se em câmara lenta. Esticou o braço para se apoiar no painel e teve a impressão de que ele tinha um quilômetro de comprimento. Até mesmo a sua voz es-tava bem fraquinha. Mais parecia um eco.

—   Eu não estou vendo ele, mamãe.

—   Fique sentado, Tad. Você está...

A mãe continuava falando, mas Tad sentiu quando ela o fez sen¬tar-se de novo, embora tudo parecesse muito distante. As palavras vinham-lhe de muito longe, do meio de um nevoeiro cinzento que estava entre os dois. Um nevoeiro parecido com aquele que houvera pela manhã... Talvez fosse na manhã da véspera, ou numa outra manhã qualquer, como a do dia em que o pai fora viajar. Lá na frente, porém, havia um lugar brilhante e ele deixou sua mãe para ir até lá. Era aquele mesmo lugar dos patos. Um lugar com patos e lírios. A voz da mãe estava muito distante agora, quase imperceptível. O rosto dela era lindo, redondo, sempre presente, calmo e até era parecido com a lua que costumava entrar pela janela quando ele se levantava à noite para ir fazer pipí... Mas aquele rosto já es¬tava quase desaparecendo. Misturava-se com o nevoeiro e já agora era parecido com o zumbido das abelhas mansas que não mordiam ninguém. Parecia a água lambendo as margens do lago.

Tad estava brincando com os patos.

 

Donna conseguira tirar um cochilo e já estava bem escuro quando acordou. Já escurecia outra vez e, por incrível que parecesse, eles ainda estavam ali no mesmo lugar. O sol estava no poente, redondo e vermelho, como se fosse uma bola de basquete mergulhada em san-gue. Passou a língua pela boca e a saliva que se tornara empastada já era, mais ou menos, o cuspe natural. Sentia a garganta em fogo. Pensava como deveria ser maravilhoso se estivesse em casa, embaixo da torneira do jardim, com a água escorrendo-lhe pelo rosto como se fosse uma cascata. A imagem era forte o bastante para lhe causar um arrepio e uma intensa dor de cabeça.

Estaria o cão ainda ali na frente do carro?

Ela olhava, mas não conseguia ver. Só tinha a certeza de que não estava lá na frente da oficina.

Apertou a buzina, que só emitiu um som rouco e fraco, e tudo continuou como antes. Ele poderia estar em qualquer lugar por ali. Passou a mão pelo risco na janela e pensou no que poderia acontecer se ele investisse novamente contra o carro. Conseguiria ele quebrá-la? Nunca acreditaria que aquilo pudesse acontecer, mas agora já não tinha tanta certeza assim.

Olhou novamente para a porta que dava para a varanda da casa. Ela parecia agora bem mais longe do que antes. Aquilo levou-a a pensar num conceito que fora discutido na aula de psicologia na uni¬versidade. O professor, um homenzinho antipático com um bigodinho em escova, dissera que aquilo era une idée fixe. Se alguém estiver numa escada rolante que não esteja funcionando logo terá a impres¬são que se torna mais difícil subir a pé. Ela achara aquilo tão diver¬tido que não descansara até encontrar uma escada rolante parada, com um aviso dizendo que não funcionava, e descera por ela. E mais graça achara ainda ao verificar que o professor estava com a razão. As suas pernas não se mostravam dispostas a descer. Aquilo fizera com que pensasse na possibilidade da escada de sua casa se movimentar quando ela estivesse descendo. A idéia, naquela ocasião, fi¬zera com que desse uma boa gargalhada.

Só que agora a coisa não era tão engraçada assim. Aliás, não era engraçada de forma alguma.

Não havia dúvida alguma de que aquela porta estava longe demais.

Este cão está me tornando neurótica.

Ela tornou a rejeitar esse pensamento, logo que ele lhe surgiu, mas acabou desistindo. As coisas já estavam se tomando desespera¬das demais e ela não podia se dar ao luxo de mentir para si própria. Ostensivamente ou não, o fato era que o cão estava fazendo aquilo mesmo com ela, usando, talvez, a sua própria idée fixe de como o mundo deveria ser. Acontecia, porém, que tudo tinha mudado. Tinha chegado ao fim a suave subida pela escada rolante. Ela já não podia mais continuar ali na escada parada junto com o filho, esperando que alguém viesse pô-la em movimento novamente. A verdade era que tanto ela como o filho estavam sendo sitiados por um cão.

Tad estava dormindo. Se o animal estivesse lá na oficina ela poderia fazer a tentativa.

Mas se ele ainda estiver na frente do carro? Ou mesmo embaixo dele?

Ela lembrava-se do que seu pai dizia quando assistia aos jogos de futebol na TV. Ele quase sempre ficava vidrado nessas ocasiões e o resultado era um grande prato de feijão frio sobrando do jantar de sábado. O resultado era que a sala onde estava a TV se tomava irrespirável para a vida humana normal e até mesmo o cachorro se recusava a entrar ali, fazendo uma careta de repulsa.

Ele xingava e descompunha o jogador que fazia um mau lance e aquilo deixava louca a sua mãe — mas naquela época, quando Donna ainda não tinha 20 anos, quase tudo que seu pai dizia era o suficiente para deixar a mãe louca.

Ela agora já via o animal na frente do carro, deitado no cas¬calho, sem estar dormindo e com os olhos atentos para a porta do seu lado. Estava esperando caso ela fosse louca o bastante para sair por ali. Não desanimava.

Ela esfregou as duas mãos no rosto, num gesto nervoso como se estivesse no lavatório. Lá no alto Vênus aparecia agora na semi¬-escuridão azul do céu. O sol finalmente desaparecera, deixando ape¬nas uma réstia de luz amarelada iluminando o campo. Em algum lu¬gar um passarinho cantou, parou e tomou a cantar.

       Donna percebeu que já não estava tão ansiosa para sair ao carro como estivera antes, naquela mesma tarde. Uma parte disso se devia ao fato de haver adormecido e depois, ao acordar, não saber bem onde estava o animal. E uma outra parte era devido ao fato do calor haver diminuído. O calor terrível e o que ele estava fa¬zendo com Tad era a principal razão que a levava a tentar alguma coisa. Agora, ali no carro, ela sentia-se quase confortável e Tad es¬tava dormindo um verdadeiro sono, que nada tinha a ver com o seu estado inquieto de antes. Estava repousando tranqüilo, realmente; pelo menos por enquanto.

Ela temia que tudo aquilo fosse secundário, já que o fato principal era ela ainda permanecer ali, aos poucos chegando a um ponto psicológico de disposição que logo desaparecera. Lembrava-se das lições de mergulho em sua meninice, no Campo Tapawingo, quan¬do chegava aquele instante, o do primeiro mergulho lá da platafor¬ma mais alta, quando ela era obrigada a saltar ou então a afastar-se ignominiosamente, cedendo a vez à garota seguinte. E então, naquele período de aprendizagem, sempre chegava o dia em que era preciso abandonar as estradas vazias do interior para enfrentar a cidade. Sem¬pre chegava o dia. Sempre chegava o dia. O dia para dirigir o carro, o dia para mergulhar e o dia para tentar aquela porta dos fundos.

Cedo ou tarde o animal iria aparecer por ali. Sabia que a situa¬ção era ruim, mas ainda não era desesperadora. O dia certo apare¬cia em ciclos, e isso era uma coisa que ela não havia aprendido nas aulas de psicologia. Era uma coisa que ela sabia instintivamente. Se desistisse apavorada no mergulho da segunda-feira, não havia lei alguma que a proibisse de tentar novamente na terça. Sempre se po¬dia tentar...

Foi com relutância que seu espírito lhe disse que aquele racio¬cínio não era tão válido e que até poderia ser fatal.

Ela já não se sentia tão forte como na noite anterior. Na manhã seguinte, estaria ainda mais fraca e desidratada. E o pior não era isso. Ela permanecera sentada durante muitas horas. Nem sabia bem quantas. Por incrível que parecesse, já fazia 28 horas que ali estava. E se as pernas estivessem dormentes, sem condições de agüentar a corrida? E se conseguisse chegar só até a metade do caminho, para então cair, quase desfalecida, com cãibras nos músculos das pernas?

O seu pensamento prosseguia; implacável. Quando se trata de vida ou morte, a hora certa só surge uma vez.. só uma vez e depois desaparece.

A respiração e os batimentos cardíacos estavam acelerados. O seu corpo sabia, antes mesmo que a mente, que ela iria tentar de qualquer maneira. Enrolou bem a camisa em torno da mão direita, enquanto a esquerda segurava a maçaneta, perfeitamente conscien¬te. Ela não se dera conta de nenhuma decisão consciente. De repen¬te, ela, simplesmente, ia sair. Ia aproveitar enquanto Tad dormia, pois assim ele não sairia correndo atrás dela.

Sua mão estava suada quando levantou a maçaneta, com a res¬piração suspensa e atenta a qualquer mudança na situação.

O passarinho tornou a cantar. E isso foi tudo.

Se ele empenou a porta eu não vou conseguir sair.

Aquilo seria um alívio bem amargo. Ela teria então que desistir para pensar em outras opções. Precisava ver se não esquecera alguma coisa em seus cálculos..., para ficar com mais sede.., mais fraca... e mais lenta na corrida...

Começou a fazer força contra a porta com o ombro esquerdo, cada vez com maior pressão. Sua mão suava dentro da camisa e ela apertava a porta com tanta força que os dedos lhe doíam. Sentia vagamente que as unhas lhe enterravam nas palmas das mãos. Vias mentalmente, repetidas vezes, sua mão quebrando o vidro da porta e os cacos caindo no chão, enquanto seu braço se esticava para al¬cançar a maçaneta.

Não conseguia, porém, abrir a porta do carro. Empurrava com todas as forças, com os tendões do pescoço muito tensos, mas a porta não abria. Ela...

E então, de repente, ela cedeu e abriu-se, com violência, quase atirando-a de quatro lá no chão. Ela agarrou-se à alça, escorregou, mas tornou a segurar-se. E então, nesse momento, uma certeza em seu espírito fez com que ela entrasse em pânico. Era uma certeza fria e desoladora como o diagnóstico de um médico diante de um câncer inoperável. Ela conseguira abrir a porta mas não conseguiria fechá-la. O animal ia saltar lá dentro para matar os dois. Tad provavelmen¬te teria um rápido instante confuso quando acordasse, um último instante de vida em que acreditaria estar sonhando antes que Cujo lhe saltasse à garganta.

Ela estava ofegante e a sua respiração escaldava. Tinha a im¬pressão de estar vendo todas as pedrinhas do cascalho da entrada da casa, mas era difícil pensar. Seus pensamentos estavam muito tumul¬tuados. Cenas do passado surgiam-lhe no presente como um filme de parada militar projetado em acelerado, fazendo com que todos os participantes passassem disparados, como se fugindo após terem co¬metido um grave delito.

Ela via aquela cena do esgoto entupido na pia da cozinha da mãe, fazendo toda a sujeira sair pela torneira do bar.

Via a ocasião em que rolara da varanda dos fundos e torcera o pulso.

Lembrava-se de quando estava ainda no ginásio, às voltas com a álgebra, e percebera, apavorada, que sua saia azul-clara de linho estava manchada de sangue por causa da menstruação que começara inesperadamente; e então não sabia como levantar-se do banco, ao fim da aula, sem que todo mundo percebesse o que estava aconte¬cendo com ela, o que estava acontecendo com Donna Rose.

Via ali na sua frente o primeiro rapaz que ela beijara na bcca.

Dwight Sampson.

Via-se com Tad nos braços quando ele acabava de nascer e logo a enfermeira aparecendo para levá-lo ao berçário. Tivera vontade de protestar. Deixe ele aqui comigo mais um bocadinho. Lembrava-se dessas palavras, lembrava-se que tivera vontade de dizê-las, mas não tinha forças para isso; e, então, ouvira aquele borbulhar da placenta sendo expelida e aí ela pensara que estava peídando e expelindo aquilo que garantia a vida ao seu filho. E com isso desmaiara.

Via seü pai, no dia do casamento dela, chorando e depois to¬mando um porre durante a recepção.

Rostos. Vozes. Salas. Quartos. Cenas. Livros. O terror do mo¬mento e o pensamento que lhe ocorria EU VOU MORRER...

Depóis de um tremendo esforço, conseguiu controlar-se. Segu¬rou a maçaneta com as duas mãos e deu-lhe um forte puxão. A porta bateu e fechou-se, mas a dobradiça danificada pelo choque com o cão rangeu em protesto. Isso causou um sobressalto em Tad, que resmungou alguma coisa mas continuou dormindo.

Donna recostou-se de volta ao banco, tremendo dos pés à cabeça e chorando silenciosamcnte. As lágrimas desciam-lhe pelo rosto e chegavam às orelhas. Jamais em sua vida tivera tanto medo de alguma coisa, nem mesmo quando era ainda pequena e ficava sozinha em seu quarto, imaginando ver aranhas em todos os cantos. Tinha certeza agora de que não poderia fazer a tentativa. Seria uma lou¬cura. Nem mesmo valia a pena pensar mais naquilo. Estava com¬pletamonte liquidada. Estava com os nervos em frangalhos. Seria me-lhor esperar. Esperar uma oportunidade melhor.

Só que ela não se atrevia a fazer com que aquela idée se tornas¬se fixe.

Não ia haver uma oportunidade melhor do que aquela. Não havia o empecilho de Tad nem do animal. Aquilo tinha que ser a verdade. Toda a lógica dizia que era. Todo aquele barulho que fizera abrindo e fechando a porta não resultara na aparição do animal.

Claro que ele logo teria surgido, se estivesse ali na frente do carro. Mesmo se estivesse lá na oficina, teria ouvido o barulho e acorrido. Não havia uma outra oportunidade como aquela. Mesmo que tivesse medo de tentar só por sua causa, ele deveria pensar em Tad e ga¬nhar coragem só por causa dele.

Tudo aquilo parecia muito nobre. No entanto, o que realmente a convenceu foi à visão de se encontrar lá dentro da casa escura com o telefone na mão. Já se via falando com alguém no escritório do xerife, com muita calma, e logo depois desligando. Depois então iria à cozinha para beber um copo d’água.

Abriu novamente a porta, já preparada para ouvir aquele ba¬rulho, mas, mesmo assim, levou um susto quando isso aconteceu.

Soltou uma imprecação mental contra o cão, desejando ardentemen¬te que já estivesse morto por ali e coberto de moscas.

Pôs as pernas para fora do carro, fazendo uma careta ao senti-¬las dormentes e doloridas, mas por fim pisou no cascalho com os seus sapatos de tênis. E então, pouco a pouco, ela foi se recuperan¬do, ali na escuridão da noite.

Ali perto, em algum lugar, um passarinho cantou apenas três notas e depois calou-se.

 

Cujo ouviu a porta se abrir novamente, conforme seu instinto lhe dissera que aconteceria. Quando ela se abrira na primeira vez ele quase saíra da frente do carro onde estivera deitado, quase inconsciente. Quase viera para pegar A MULHER que lhe causara tanta dor na cabeça e no corpo. Estivera a ponto de vir, mas o instinto lhe ordenara que continuasse ali mesmo onde estava. Sabia que A MU¬LIER estava apenas querendo obrigá-lo a sair dali e agora ele via que o instinto estava certo.

         À medida que a moléstia se apossãva dele, penetrando em seu sistema nervoso para destruílo como se fosse o fogo na relva com suas chamas baixas e fumaça cinzenta, continuando a obra de des¬truição de seus padrões de pensamento e reação, ela também servia para aumentar, de uma certa forma, o seu grau de esperteza canina. Ele tinha certeza de que iria pegar o MENINO e A MULHER. Eles eram os causadores da agonia que sentia em seu corpo e da terrível dor na cabeça devida às suas investidas contra o carro.

Já por duas vezes, naquele dia, ele se esquecera dos dois quan¬do saíra da oficina pelo buraco feito por Joe na porta dos fundos da saleta que utilizava como escritório da oficina. Fora até as terras que ficavam nos fundos da propriedade de Joe e nas duas vezes, passara bem perto da toca onde se escondiam os morcegos e onde o capim era alto. Lá havia água e ele sentia uma tremenda sede, mas a simples visão da água tornara-o frenético. Ele sentia vontade de beber a água, de matar a água, dc se banhar nela, de mijar e cagar ali, de destruir e fazer sangrar aquilo tudo, de cobri-la com terra. Em ambas às vezes, aquela terrível confusão de sensações havia causado o seu afastamento, ganindo e tremendo. Culpava a MULHER e O ME¬NINO por tudo aquilo. Ele não os perderia mais de vista. Seria im-possível encontrar um outro cão tão fiel e decidido em seus propósitos. Esperaria até a hora em que fosse possível pegá-los. Se fosse necessário, esperaria até a hora do Juízo Final. Ele ia esperar. Ia ficar bem atento.

A sua maior raiva era contra a MULHER. Não tolerava a ma¬neira como aquela criatura o olhava como se dissesse É isso ai. Fui eu que fiz tudo isso. Fui eu que fiz você ficar doente, eu sou a cau¬sadora de todas estas dores que você está sentindo. Fui eu que pre¬parei toda esta sua agonia e você nunca mais vai ficar livre dela.

Vou matar esta mulher. Vou matá-la, custe o que custar.

Escutou um barulho. Era um barulho abafado, mas que não escapou à acuidade do animal, tremendamente aumentada para per¬ceber todos os barulhos. Ele possuía toda a gama do espectro audi¬tivo. Na sua loucura, chegava a perceber o real e o irreal.

Aquele barulhinho era do cascalho da entrada sendo pisado por alguém.

Cujo ficou ali deitado, esperando por ela. Sentia escorrer-lhe a urina quente e dolorosa, mas não se importava.

Esperava que a MULHER aparecesse. E então ele a mataria.

 

No meio da confusão e dos destroços da residência do casal Trenton.

o     telefone começou a tocar.

Tocou seis, oito e dez vezes.Depois tudo ficou silencioso. Pas¬sou-te algum tempo até a hora em que Billy Freeman, o jornaleiro, atirou contra a porta da frente o exemplar do Call de Castle Rock, para seguir pedalando com o saco de lona às costas e assobiando.

No quarto de Tad a porta do closet estava aberta e um cheiro seco e incrível, como se fosse de um leão selvagem, pairava no ar.

 

Em Boston, a telefonista perguntava a Vic se devia continuar cha¬mando. Ele agradeceu e disse que podia desistir.

Roger descobrira que havia um jogo no canal 38 e então senta¬ra-se diante de um sanduíche e um copo de leite para assistir, ainda de cuecas.

       —De todos os seus hábitos, Roger, a maioria dos quais vai do ofensivo até o repugnante, eu acho que o pior de todos é o de você comer de cuecas...

       — Ora, ora. Ouçam só este cara que, com 32 anos, ainda chama as sungas de cuecas...

Ele  falava como se houvesse alguém no quarto para ouvi-lo.

       — E o que é que há de errado nisso?

       — Nada... só que você me parece muito quadrado...

—   Eu vou te cortar a garganta esta noite, Roger. Você vai acordar atolado em sangue. Você se arrependerá, mas será tarde de¬mais...

Vic pegou o sanduíche quente do outro, dando-lhe uma den¬tada.

—   Isto não é nada higiênico, Vic. Então a Donna não estava em casa? — Ao mesmo tempo que falava, ele sacudia umas migalhas que tinham caído em seu peito cabeludo.

       — Huuummm... Devem ter saído para comer alguma coisa. Bem que eu desejaria estar lá também, em vez de estar aqui em Boston...

Roger sorriu maliciosamente.

—   Ora, ora. Deixe disso. Pense só que amanhã já estaremos be¬bendo coquetéis embaixo do relógio no Biltmore...

—   Quero que o Biltmore e seu relógio se fodam! Todo cara que passar uma semana fora do Maine, a negócios, em Boston ou Nova York, e em pleno verão, não pode deixar de estar completa¬mente louco...

—   É isso aí... Estou contigo, companheiro. É uma merda...

No vídeo, um jogador deu o chute inicial.

—   Este sanduíche está bem gostoso, Roger. — Víc estava sa¬tisfeito e sorria para o amigo.

Roger defendeu-se, mantendo o prato fora do alcance dele.

— Pois então telefone e peça um para você, Vic, seu come¬-resto.

—   Qual é o número?

   — Acho que é meia-oito-um. Está aí no disco...

—  Você não quer também uma cervejinha?

O    outro sacudiu a cabeça.

—   Já bebi demais no almoço. Minha cabeça não está boa e meu estômago não está bom. E amanhã pela manhã estarei de ressaca. Estou descobrindo bem depressa que já não sou mais um garotinho.

Vic telefonou pedindo dois sanduíches e duas garrafas de Tu¬borg. Quando desligou e olhou para o amigo, Roger já estava com os olhos grudados na TV, com o prato equilibrado em cima da bar¬riga e chorando. Logo de saída, Vic pensou que não estava vendo bem e que aquilo devia ser uma ilusão, mas logo percebeu que as lágrimas eram de verdade, e as cores da TV se refletiam nelas, for¬mando prismas.

Durante um momento, ele ficou ali sem saber o que fazer ou o que dizer. Depois, atravessou o quarto e pegou um jornal para fingir que estava lendo e que não reparara. Roger levantou os olhos para ele. Estava completamente nu, inerme e vulnerável, com o mesmo rosto de Tad quando caía do balanço ou escorregava na calçada, arranhando os joelhos. Quando falou, sua voz era rouca.

     O que é que eu vou fazer, Vic?

—   Roger... Do que é que você está falando?

       — Você sabe muito bem, Vic.

Lá na TV a torcida do Penway delirava com um lance do Boston

— Vamos com calma, Roger... Você...

— Tudo vai fracassar, Vic, e nós dois sabemos que vai mes¬mo. Já cheira tão mal como uma caixa de ovos exposta ao sol durante uma semana. O que nós estamos fazendo é uma simples brincadeira. O Rob está do nosso lado. Aquele cara que fugiu do Retiro dos Atores também está do nosso lado. Não há a menor dúvida de que também teremos do nosso lado a firma encarregada da pesquisa de mercado, já que a conta é paga por nós. É maravilhoso. Todo mundo está do nosso lado. Todo mundo, menos aqueles sacanas que de¬cidem.

—   Não há nada decidido, Roger. Ainda não.

—   A Althea ainda não percebeu a importância que isso tem para nós, Vic. Sei que a culpa é minha e que sou um moleirão. Tudo bem. Acontece que ela adora Bridgeton. Adora tudo que existe ali. E as meninas também. Adoram as amigas da escola, adoram o lago no verão.., e não sabem nada do que está acontecendo. Nada mesmo!

— Sei como é Roger. É mesmo de meter medo. Não estou querendo convencê-lo do contrário, Roger.

— E a Donna sabe toda a verdade, Vic?

       — Acho que no principio, ela pensava que tudo não passava de uma brincadeira, mas agora já vê melhor a realidade...

       — Só que ela nunca se apaixonou pelo Maine da mesma forma que nós, não é mesmo?

— Talvez tenha sido assim no princípio. Agora, porém, acho que levantaria as mãos para o céu à simples idéia de levar o Tad de velta a NovaYork...

— E o que é que vou fazer, Vic? Não sou mais criança. Você ainda não está nos trinta e dois, mas eu já vou para os quarenta e um no mês que vem. E então o que é que vou fazer? Terei que andar batendo em portas com o meu currículo na mão? Será que a J. Walter Thompson vai receber-me de braços abertos? “Ora, viva, Roger! O seu antigo lugar está aqui à sua espera! Vai começar com trinta e cinco...” Será isso que vai acontecer, Víc?

Vic sacudiu a cabeça, mas já sentia uma certa irritação contra ele.

— Eu costumava ficar furioso. Muito bem, continuo furioso, mas agora o medo é maior do que a fúria. Maior do que tudo mais. Passo as noites rolando na cama e pensando no que vai acontecer...depois de tudo isso. Só que não posso imaginar o que será. Você olha para mim e, certamente, dirá com seus botões: “Que diabo! O Roger está fazendo as coisas dramáticas demais.” Você...

—   Eu nunca pensei nisso, Roger...

Ele só esperava que a voz não o traisse.

— Não vou dizer que você está mentindo, Vic. Mas já faz muito tempo que trabalhamos juntos e isso faz com que eu conheça bem o seu modo de pensar. Talvez até mesmo melhor do que você possa imaginar. De qualquer maneira, não vou culpá-lo por isso...mas existe uma grande diferença entre trinta e dois anos e quarenta e um... Nesse meio. tempo, a gente vai perdendo a coragem, Vic...

—   Mas olhe aqui, Roger. Eu ainda acredito realmente que nós temos boas oportunidades neste negócio com a Sharp.

— O que eu gostaria mesmo de fazer, Vic, era levar comigo para Cleveland umas vinte caixas com o cereal da Zingers. E então eu pediria a elas que se curvassem, depois de haverem amarrado as latas vazias em nossos rabos, e então eu já teria um lugar para enfiar todo aquele cereal. E você sabe bem onde seria.

Vic deu-lhe uma palmadinha nas costas.

—   Sim, sim, Claro que sei...

       — E você, Vic? O que é que você vai fazer se eles nos chu¬tarem?

Vic já pensara bem no caso. Tinha-o examinado sob todos os ângulos possíveis. Seria justo dizer que ele já havia pensado no pro¬blema até mesmo muito antes de Roger fazer a mesma coisa.

— Se isso acontecer, Roger, vou dar um duro dos demônios, vou trabalhar mais do que até agora trabalhei em toda a minha vida. Trabalharei trinta horas por dia, se for necessário. Irei conseguir ses¬senta pequenos clientes na Nova Inglaterra para compensar a perda da Sharp. E sei que vou conseguir, Roger.

—   Nós nos mataremos a troco de nada. Vic.

—   Pode ser que isso aconteça, mas nós afundaremos com todos os canhões atirando. Certo?

— Eu acho... acho que se a Althea resolvesse trabalhar tam¬bém, poderíamos nos agüentar na casa durante mais um ano. E então seríamos obrigados a vendê-la, porque os juros andam muito altos...

De repente, Víc sentiu que não se conteria mais e deixaria es¬capar toda aquela sujeira de Donna, toda aquela complicação em que ela se metera, só porque queria fingir que ainda não completara 20 anos. Ele sentia raiva de Roger com uma espécie de inveja dos seus 15 anos de um casamento feliz e perfeito com uma moça bonita. Ele se surpreenderia muito se viesse a saber que algum dia passara pela cabeça de Althea um pensamento de infidelidade. Roger não fazia a menor idéia quanto à veracidade do provérbio que diz “uma des¬graça nunca vem sozinha”. -

— Escute aqui, Roger. Vou lhe contar uma coisa. Na quinta-¬feira, recebi uma carta, na entrega da tarde, em que...

Alguém bateu com força na porta.

—   Deve ser do serviço.

Roger apanhou a camisa e limpou o rosto, fazendo desapare¬cer o vestígio das lágrimas, e Vic percebeu, de repente, que não devia nem pensar em contar-lhe o que acontecera. Era bem possível que o outro estivesse com a razão e que a verdadeira e grande diferença estivesse naqueles nove anos entre 32 e 41.

Vic foi até a porta e recebeu o pedido que fizera. Não acabou de dizer o que começara quando ouvira a batida na porta. E Roger também não lhe perguntou. Tinha voltado ao jogo na TV e aos seus problemas pessoais.

Vic sentou-se para comer e não se surpreendeu ao verificar que o apetite se fora. Tinha os olhos pregados no telefone e, ainda mas¬tigando, tentou novamente. Deixou o telefone tocar mais de 10 vezes antes de se decidir a desligar, com a testa ligeiramente franzida. Eram oito e cinco e Tad deitava-se às oito. Era possível que Donna houvesse encontrado alguém ou então que houvesse saído para es¬pairecer ou fazer uma visita. Afinal de contas, não havia uma lei que obrigasse Tad a ir para a cama às oito, principalmente quando ainda estava bem claro nessa hora e quando o calor era tão inten¬so. Lógico que tudo isso era bem provável. Teriam saído para dar uma volta lá fora, até que refrescasse um pouco para tomar o sono mais fácil. Podia ser tudo aquilo.

(também podia ser que ela estivesse com Steve)

       Mas aquilo era uma loucura. Ela dissera que tudo havia termi¬nado e ele acreditava nisso. Donna não mentia.

(e ela também não andava com outros, nâo é mesmo, cara?)

Ele tentou esquecer, mas nada conseguia. O rato estava solto e iria continuar a roê-lo durante muito tempo. O que teria ela feito com o filho, se lhe desse na veneta, de repente, se mandar com Steve? Estariam os três agora em algum motel entre Castle Rock e Balti-more? Não seja idiota, Vic. Eles podem...

O concerto da banda! Era isso! Claro! Tinham saído para ouvir a banda que tocava na praça todas as noites de terça-feira. Às vezes era a banda do ginásio e outras era um grupo de música de câmara ou qualquer outro grupo local. Era lá que eles estavam. Estavam aproveitando a noite mais fresca e ouvindo músicas conhecidas.

(a não ser que ela esteja com Steve)

Ele esvaziou uma garrafa e abriu a outra.

 

Donna ficou de pé do lado de fora durante uns 30 segundos, mexendo com as pernas para desentorpecê-las ali mesmo em cima do cas¬calho. Estava de olho na porta da oficina, sempre imaginando que ele vinha por ali, saindo pela porta ou dos lados, ou até mesmo da parte de trás da pick-up e que, à luz das estrelas, mais parecia um vira-lata deitado e dormindo.

Ela ficou ali de pé sem saber se teria ou não coragem para se arriscar. Sentia o frescor da noite com suas pequenas fragrâncias que lhe traziam recordações de quando era menina e sentia tudo aquilo intensamente, quase como se fosse uma questão de rotina. Aspirava o perfume do feno e das madressilvas na casa que ficava ao sopé da colina.

E ela também ouvia ali alguma coisa. Era música. Pensou pri¬meiro que devia ser o rádio de alguém, mas logo descobriu, espan¬tada, que era a música da banda lá na praça. O que ouvia agora era jazz e até mesmo descobria que tocavam, uma música conhecida. E ela pensava que eram uns 10 quilômetros dali até a praça e ja¬mais teria acreditado que aquilo fosse possível. Aliás, só era possível mesmo porque a noite estava muito calma e parada.

Aquilo fez com que se sentisse cheia de vida.

Seu coração era uma máquina pequernna e poderosa que pul¬sava-lhe no peito. Sentia o sangue correndo-lhe nas veias. Os olhos moviam-se sem esforço e ela sentia-se bem. Sentia os rins pesados, sem que isso chegasse a ser incômodo. E ali estava ela, mais deci¬dida do que nunca. Sentia uma fascinação silenciosa e forte ao pen¬sar que estava arriscando a vida. Era como se fosse um enorme peso que havia chegado ao máximo de seu ângulo de repouso. E então bateu a porta, fechando-a.

Esperou ainda um pouco, aspirando o ar como se fosse um animal. Não havia coisa alguma. A porta da oficina continuava silenciosa e escura. O pára-choque cromado do carro brilhava muito fraco. Ela ouvia ao longe a música do jazz muito fraca e alegre, e curvou-se para experimentar a flexão das pernas, mas tudo estava em ordem. Abaixou-se e apanhou algumas pedrinhas do cascalho, que começou a jógar por cima do capô, num lugar onde não conseguia ver. A primeira pedra caiu bem perto do focinho de Cujo e ele mexeu-se um pouco, com a língua de fora, sempre babando. Parecia estar achando graça. A outra pedra caiu um pouco mais longe, mas a ter¬ceira bateu bem em cima dele, mas nem assim o animal se mexeu. A MULHER continuava a querer tirá-lo dali.

 

Donna continuava de pé, junto ao carro, mas estava preocupada. Ela ouvira a primeira pedra bater no chão e a segunda também, mas a terceira.., era como se não tivesse chegado ao chão. Não fizera barulho algum. O que poderia significar?

E então, do repente, ela mudou de pensamento. Não queria mais correr para a casa enquanto não descobrisse o que estava na frente do carro. Só então iria tentar. Mas.., só para ter a certeza...

Ela deu um passo à frente, dois passos, três passos...

 

Cujo estava pronto e seus olhos brilhavam na escuridão.

 

Já estava a quatro passos de distância da porta do carro. O coração batia acelerado, como se fosse um tambor dentro de seu peito.

 

O animal já via agora a cintura e os quadris da MULHER. Dentro dc um instante ela o veria também. Muito bem. Ele ia esperar esse momento.

 

Cinco passos de distância da porta.

 

Donna virou a cabeça e sentiu que o pescoço lhe estalava como se faeo uma porta velha. Ela parecia estar adivinhando. Tinha uma lenta sensação de segurança. Virou a cabeça procurando o cão. E ali estava ele. Estivera ali todo aquele tempo, agachado, à sua es¬pera, no meio do mato alto.

Seus olhares se cruzaram. Os olhos dela eram azuis e os dele vermelhos e congestionados. Durante um momento, ela passou a ver pelos olhos dele, vendo-a ali, vendo Á MULHER.., estaria ele se vendo também nos olhos dela?

E então ele saltou sobre ela.

Ela não se sentiu paralisada dessa vez. Correu de costas para o carro, tentando encontrar a alça da porta às apalpadelas. Ele ros¬nava, os dentes arreganhados e a baba escorrendo, e caiu no lugar exato onde ela estivera antes, mas escorregou no cascalho, dando-lhe assim mais um segundo precioso.

Ela encontrou finalmente a alça e puxou a porta com força. A porta não abriu. Estava empenada. O cão saltou-lhe em cima.

Aquilo foi como se alguém lhe houvesse atirado uma bola na carne vulnerável e macia de seus seios, sentindo-os comprimidos con¬tra as costelas. A dor era muita, mas logo ela estava segurando o animal pela garganta, com as mãos enfiadas em seu pêlo grosso tentando mantê-lo a distância enquanto ouvia a sua própria respiração ofegante. A luz das estrelas refletia-se nos olhos alucinados do ani¬mal, formando semicírculos. Suas mandíbulas abriam-se e fechavam-se a uma distância mínima de seu rosto e era-lhe possível sentir o hálito fétido do cão. Ele estava nas últimas, mas ainda queria ma¬tar. Por incrível que parecesse, ocorreu-lhe, naquele momento an¬gustiado, a lembrança daquilo que acontecera com o esgoto da pia da cozinha na casa de sua mãe quando a gosma espirrara e sujara o teto.

Sem mesmo saber como, ela conseguiu empurrá-lo para mais longe no momento exato em que ele ainda estava no ar para saltar-lhe em cima. Procurava às apalpadelas o botão da porta que estava ali atrás e acabou encontrando-o. Antes, porém, que pudesse tentar abrir a porta, já o cão investia novamente. Deu-lhe um pontapé e a sola da sandália atingiu-lhe o focinho já bem dilacerado devido às suas, tentativas anteriores contra a porta, bem parecidas com ações camicase. Ele caiu uivando de dor e de raiva.

Donna tentou de novo abrir a porta, sabendo perfeitamente que era a sua última oportunidade, e também a última para Tad. Ela puxava e empurrava a porta com todas as suas forças, ao mesmo tempo que o cão investia novamente, como uma criatura saída do inferno que voltava sem cessar e que continuaria a voltar até que um dos dois estivesse morto. Ela estava no ângulo errado para seu braço; seus músculos pouco adiantavam e a dor que sentia nas costas era tremenda. Devia ter deslocado alguma coisa. A porta abriu finalmente e ela deixou-se cair no banco ao mesmo tempo que o animal tornava a investir. 

Tad acordou. Viu a mãe sendo empurrada para trás e percebeu que, no colo dela, havia uma coisa terrível, peluda, de olhos verme¬lhos, que ele logo reconheceu. Era aquela coisa que estava no seu closet, aquela coisa que lhe havia prometido chegar cada vez mais perto até, finalmente, chegar na cama dele. E era ela que ali estava agora. As Palavras Para os Monstros tinham fracassado e ele agora ia matar a sua mãezínha. Tad começou a gritar e tapou os olhos com as mãos.

A boca aberta do animal já quase chegava a alcançar a parte nua do corpo de Donna na altura da cintura. Ela tentava mantê-lo a distância e nem mesmo ouvia os gritos do filho. Os olhos do cão não se despregavam dela e, por incrível que parecesse, ele abanava o rabo. As suas patas traseiras deslizavam no cascalho e ele não con¬seguia encontrar um ponto de apoio sólido para poder saltar dentro do carro. O cascalho continuava a impedir que o fizesse.

O animal tentava sempre e, então, as mãos dela escorregaram e ele começou a mordê-la. Mordia-lhe a parte nua da barriga, abaixo do sutiã, procurando alcançar-lhe as entranhas...

Donna soltou um grito de dor e de terror, procurando afastá-lo com toda a força que tinha. Estava já novamente sentada e o sangue escorria-lhe pela barriga. Procurava afastar o cão com a mão esquerda enquanto à direita, buscava a alça da porta, que acabou encontrando. E então começou a bater no animal com a porta. Cada vez que isso acontecia ela ouvia um som igual ao que acontecia quan¬do alguém batia num tapete pendurado na corda de estender rou¬pas. E a cada pancada o animal rosnava, soltando uma baforada de seu hálito quente.

Ele recuou um pouco para ganhar impulso para o salto, mas Donna calculou certinho e bateu a porta com toda a força que ainda lhe restava no momento exato em que ele enfiava a cabeça. Ela ouviu um barulho parecido com alguma coisa que se esmigalha e o animal soltou um tremendo ganido de dor. E!a pensava que ele iria recuar com o golpe, mas aconteceu justamente o contrário. O cão avançou e mordeu-a outra vez na coxa, bem acima do joelho, arran¬cando-lho um pedaço de carne. Ela soltou um grito lancinante.

Continuava a bater-lhe na cabeça com a porta e seu gritos ao misturavam com os de Tad, mas o animal não lhe largava a perna, que já parecia uma posta de carne sangrenta. A cabeça do animal também estava toda suja de sangue, um sangue grosso, gosmento e escuro como se fosse o de um inseto, ali à luz fraca das estrelas. Ele. pouco a pouco, ia conseguindo entrar mais, enquanto as forças dela chegavam ao fim.

Ela conseguiu puxar a porta pela última vez, com a cabeça caída para trás e a boca aberta, formando um círculo que tremia, com o rosto lívido que a escuridão não deixava ver claramente. Aque¬la era, realmente, a última vez. Ela não se agüentava mais.

No entanto, de repente, o animal desistiu. Já conseguira o bas¬tante.

Recuou ganindo o saiu cambaleando para, logo em seguida, cair deitado no cascalho, tremendo e com ao pernas procurando atingir fracamente alguma coisa que não existia. Ele começou a coçar a ca¬beça ferida com a pata.

Donna bateu a porta e deixou-se cair no banco, soluçando bai¬xinho.

       — Mamãe... mamãe... mamãe...

— Tad... tudo bem...

—   Mamãe!!!

       — ...tudo bem. .

As mãos se tocavam. As dele eram leves e esvoaçantes como se fossem passarínhos, as dela afagavam-lhe o rosto, procurando tran¬quilizá-lo, mas logo depois tombavam, exaustas.

—   Mamãe... vamos para casa... por favor.., o papai... para casa...

—   Claro, Tad... nós vamos agora mesmo.., juro por Deus... vou levar você para casa.., nós vamos...

As palavras não faziam sentido. Tudo estava bem. Ela sentia-¬se voltando aos poucos, voltando para um mundo cinzento, para aquele nevoeiro que nunca imaginara existir dentro dela. As palavras de Tad pareciam sair de uma câmara acústica. Mas tudo, estava bem. Tudo.,

Não. Não. Nada estava bem.

Ela fora mordida pelo cão...

       ...e era um cão danado.   

 

Holly disse à irmã que deixasse de tolices e que falasse diretamente de sua casa, mas Charity insistia em chamar a telefonista para completar a ligação “a cobrar”. Ela não gostava dc aceitar favores, mesmo se fossem apenas de telefonemas interurbanos depois das seis horas.

A telefonista chamou Informações e logo conseguiu o número de Alva Thornton, em Castle Rock. Poucos minutos depois, a liga¬ção estava feita.

       — Alô! Aqui fala o Aviário Thornton...

—   Oi, Bessie!.

—  Huumm.., Quem é...

—   É a Charity, Bessie. Estou falando de Stratford. Será que o Alva está ai? Ele pode atender?

—   Que pena, Charity! Ele não está. Hoje é o seu dia de bo¬liche. Todo mundo foi para lá. Alguma coisa errada?

Brett estava no sofá, fingindo que lia um livro.

Charity já havia pensado bem no que ia dizer. A situação era um pouco delicada. Da mesma forma que todas as mulheres casadas de Castle Rock, e também, naturalmente, das solteiras, a Bessie ado¬rava uma fofoca, e se ela descobrisse que o Joe tinha ido caçar em algum lugar, sem avisar sua mulher, que havia saido para visitar a irmã, isso seria um ótimo assunto para os mexericos com as vizi¬nhas.

—   Nada de errado, Bessie. Só que o Brett e eu estamos um pouco preocupados com o cachorro...

—   Aquele São Bernardo?

—   Isso mesmo. O Cujo. Nós viemos aqui visitar minha irmã enquanto o Joe foi a Porsmouth a negócios. — Aquilo era uma men¬tira deslavada, mas sempre era mais garantida. Joe realmente costumava ir lá para comprar peças, porque não havia imposto de venda e também para leilões de carro. — Eu só queria saber se ele ¬combinou com alguém para dar a comida ao cachorro..., você sabe como os homens são...

—   Bem..., o Joe esteve aqui ontem..., mas também pode ser que tenha sido anteontem..,

Ela estava em dúvida, mas a verdade era que Joe estivera lá na última quinta-feira. Bessie não era uma mulher muito inteligente. Já a sua tia-avó, a falecida Evvíe, gostava de gritar para quem quisesse ouvir que “a Bessie não passaria em nenhum exame de inteligência, mas ela tem bom. coração”. Levava uma vida bem dura no aviário e seus únicos prazeres eram as fofocas. Também gostava muito de ler li¬vros caseiros, mas não conseguia ir até o fim com os mais sofisticados.

Só se interessava mesmo pelos que falavam de galinhas. Regulava a música nos galinheiros, colhia e escolhia os ovos, mantinha a casa limpa, lavava as roupas e os pratos e vendia os ovos. Cuidava tam¬bém do jardim. E então, durante o inverno, naturalmente, conseguia todas as informações sobre as atividades do clube de esportes de in¬verno do qual eles eram sócios.

Joe estivera lá para levar um pneu de trator que consertara. Ele não cobrara o conserto do pneu porque Alva dava-lhe um desconto de 50 por cento nos ovos que lhe fornecia. Alva também arava o pequeno pedaço de terra do Joe em abril e então ele tinha prazer em fazer o reparo dos pneus. Era assim que se fazia entre o pessoal do campo.

Charity sabia muito bem que o marido estivera lá na quinta-feira para levar o pneu. Sabia também que Bessie sempre misturava os dias. E assim ela ficava sem saber o que dizer. Poderia perguntar se Joe levara o pneu no dia em que estivera lá e, se a resposta fosse afirmativa, ficaria sabendo que ele não tornara a aparecer no aviá¬rio para pedir ao Alva que cuidasse da comida do cachorro. E isso significaria também que Alva não poderia dar notícia alguma a res¬peito do animal.

Ela também poderia deixar de lado tudo aquilo para procurar aliviar a aflição do filho. Assim eles poderiam gozar bem a perma¬nência ali na casa da irmã sem pensar no que poderia estar aconte¬cendo em casa. E também... ela já estava sentindo ciúmes do Cujo, Essa era a verdade. O cachorro estava desviando a atenção do filho com respeito àquela viagem que talvez viesse a ser a mais importan¬te de sua vida. Ela queria que o filho tivesse uma vida diferente, urna vida nova com muitas possibilidades, e, então, quando chegasse a hora, dentro de alguns anos, ele já estaria em condições de saber qual o caminho a tomar e quais os que deveria evitar. Teria melho¬res perspectivas para chegar a uma decisão. Ela talvez andasse er¬rada ao pensar que poderia dirigir a vida dele, mas, pelo menos, po¬deria fazer com que Brett fizesse a escolha certa.

       Seria justo permitir que aquela porcaria de cachorro interfe¬risse em seus planos?

             — Charity... você ainda está aí? Eu estava dizendo que...

—   Sim, sim, Bessie. Eu ouvi. Talvez ele tenha pedido ao Alva nessa ocasião...

—   Pode deixar. Vou perguntar a ele e depois te digo...

—   Está bem. Fico esperando. E muito obrigada por tudo, Bessie.

—   Não há o que agradecer, Charity.

—   Até depois, Bessie.

Ela desligou e só então lembrou-se de que a outra nem mes¬mo pedira o número do telefone de Holly. Aliás, assim era até me¬lhor.

Voltou-se para o filho com o rosto bem composto. Não iria mentir para ele. Jamais mentiria para o filho.

—   A Bessie disse que seu pai esteve lá no domingo à noite e então, certamente, pediu ao Alva que cuidasse do Cujo.

Brett olhava-a de uma forma que a deixava inquieta.

—   Mas você não falou com o Alva, mamãe...

—   Não. Ele tinha saído para o boliche. Mas a Bessie me pro¬meteu que tornaria a falar comigo...

—   Só que ela não tem o número daqui.

Ele agora já falava de uma maneira que era quase uma acusação. Ou seria a sua consciência que pensava assim?

         —       Está bem, Brett. Eu torno a telefonar para ela amanhã. Charity esperava que aquilo encerrasse a conversa, ao mesmo tempo que servisse também como um bálsamo para a sua consciência.

—   O papai levou o pneu do trator na semana passada. Acho que a mulher dele misturou os dias.

—   Não acredito que tenha feito isso, Brett. Ela conhece bem os dias da semana. Aliás, ela nem mesmo me falou a respeito de pneus.

         — Eu sei, mamãe. Mas você também não lhe perguntou. Ela perdeu a paciência.

—   Pois então telefone de novo para ela.

       Charity foi tomada por uma fúria insensata, com aquela mesma sinistra sensação quando ele criticara a quantidade de cartões de crédito da tia. Naquela ocasião, a entonação de sua voz e até naesmo a maneira de falar eram iguais ao de seu pai quando criticava alguém. E teve a sensação de que aquela viagem estava servindo unicamen¬te para lhe mostrar a quem o filho de fato pertencia, dos pés à cabeça.

—   Mamãe...

— Não. Não. Deixe disso. Telefone de novo para ela. O nú¬mero está aí nesse bloco. Diga à telefonista para debitar ao nosso telefone. Não quero que isso venha na conta da Holly. Pergunte a Bessie tudo que você quiser. Eu já fiz o que podia.

Pronto. Ai está. Não se passaram nem cinco minutos desde que jurei não mentir para ele.

Achava graça em tudo aquilo, mas era uma graça triste e amarga.

Naquela tarde, a indignação dela despertava nele outra indig¬nação, mas agora, à noite, ele já estava mais tranqüilo.

— Deixe pra lá, mamãe. Esqueça.

Charity já estava arrependida de sua explosão.

       — Se você quiser, Brett, podemos telefonar para mais alguem e pedir que de um pulo até lá em casa para ver o que há...

— Mas quem poderia ser, màmãe?

— Quem sabe os Millikens? Podíamos telefonar para um deles...

Ele apenas olhou-a.

— Eu sei que não é lá idéia muito boa...

Charity concordou. No fim do último inverno, Joe e John Milliken tinham tido um arranca-rabo por causa da conta apresen¬tada pelo conserto no Chevrolet Bel Air dos irmãos. Desde então, eles andavam um tanto estremecidos. Quase não se falavam. A últi¬ma vez que Charity encontrara Kim Milliken numa reunião, ela ten¬tara uma conversa amistosa com a filha de Freddy, mas a moça não lhe respondera e passara por ela de cabeça erguida, esquecendo-se de que já fora para a cama com a maior parte dos garotos do giná¬sio de Castle Rock.

E, nesse momento, ela verificou como eles viviam isolados lá na sua casa. Aquilo fazia com que ela se sentisse solitária e um tanto fria. Não conseguia pensar em alguém a quem pudesse pedir para dar um pulo até lá, a fim de ver como andavam as coisas e se o Cujo estava bem.

— Deixa pra lá, mamãe. Seria mesmo uma estupidez. Ele deve ter comido alguma coisa que lhe fez mal.

Charity passou-lhe o braço pelos ombros.

—   Olhe aqui, Brett. Sei que você não é estúpido. Vou telefo¬nar para o Alva amanhã cedo e pedir-lhe que dê um pulo lá para ver o que há. Vou telefonar logo que nos levantarmos...

—   Você vai mesmo, mamãe?

       — Claro que vou, meu filho.

—   Isso vai ser o máximo. Desculpe se te chateci muito com isso, mas não posso pensar noutra coisa.

Jim enfiou a cabeça na porta.

—   Já estou com o tabuleiro pronto. Quem é que quer jogar comigo?

—   Eu vou, tio, mas preciso que você me ensine.

—   E você, Charity? Não vem também?

Ela respondeu sorrindo que preferia ir fazer umas pipocas.

Brett acompanhou o tio e ela ficou ali no sofá, olhando para o telefone e pensando no sonambulismo do filho, vendo-o dar de co¬mer a um cão fantasma e usando uma comida imaginária ali na co¬zinha moderna da irmã.

O Cujo não está mais com fome.

Sentiu um arrepio que lhe corria pelo corpo e apertou os braços.

Prometia a si mesma que no dia seguinte iria dar um jeito naquilo. De qualquer maneira. Teria que fazer isso, ou então teria do voltar para fazer o que fosse preciso. Eu lhe prometo, Brett.

 

Vic tentou novamente telefonar para casa quando já eram 10 horas.

Ninguém atendeu. Tentou as 11 e o resultado foi o mesmo, embora deixasse o telefone tocar mais de 20 vezes. As 10 ele já estava co¬meçando a ficar preocupado. As 11 estava verdadeiramente apavo¬rado, sem saber bem por quê.

Roger estava dormindo. Ele discava no escuro e depois desli¬gava. Sentia-se solitário e perdido como uma criança. Não. sabia o que fazer nem o que pensar. Em seu espírito a litania era sempre a

mesma.

Ela foi embora com o Steve... Ela foi embora com o Steve...Ela foi embora com o Steve...

Toda a razão e toda a lôgica eram contra aquilo. Ele repetia para si tudo que os dois haviam dito, repetia inúmeras vezes e ficava prestando atenção, mentalmente, nas palavras e nas nuances do tom com que tinham sido pronunciadas. Ela e Steve tinham rompido. Ela lhe dissera que desse o fora definitivamente. E então aquilo levara o cara a escrever aquele billet doux como vingança. Aquilo não parecia uma paisagem muito rósea para dois apaixonados fugirem...

A isso ele retorquia, mentalmente, que um rompimento não proíbe uma reaproxímação para mais tarde. E aquele pensamento sempre lhe ocorria com grave e imperturbável calma.

Mas então onde ficava o Tad? Ela seria incapaz de levar também o filho. Ou será que não seria mesmo? Pelo que ela lhe dissera, o tal cara parecia ser uma espécie de alucinado e, embora não hou¬visse dito isso, Vic tinha a impressão de que o rompimento fora vio¬lento.

As pessoas apaixonadas fazem coisas bem estranhas.

Aquela parte estranha e ciumenta de sua mentalidade tinha uma resposta pronta para tudo e ali no escuro não lhe parecia impor¬tante o fato da maior parte das respostas ser irracional. Ele, aliás, nunca se dera conta daquela parte de seu ser até aquela noite em Deering Oaks.

Ele estava numa dança lenta, para frente e para trás, entre dois pontos muito aguçados. Num deles estava Steve (TEM ALGUMA DÚVIDA AINDA?); no outro estava uma visão do telefone tocando sem parar na casa vazia de Castle Rock Também poderia ser que tivesse ocorrido um acidente e que ela e Tad estivessem em algum hospital. A casa poderia ter sido assaltada e os dois estavam mortos no quarto. Claro que, no caso de um acidente, sempre haveria al¬guém que seria notificado. Tanto o escritório como Donna sabiam qual o hotel onde ele estava, junto com Roger. Ali no escuro, nó entanto, aquele pensamento, que deveria ser um conforto, levava-o, cada vez mais, para a hipótese de um crime.

Assalto e morte era o que lhe segredava o pensamento, ali naquele quarto escuro. Depois ele escorregava lentamente na direção do outro ponto e recomeçava a mesma litania. Foi embora com o Steve...

Entre aqueles dois pontos sua mente encontrava uma explicação bem mais razoável, mas era uma explicação que o deixava indignado. Ela poderia ter resolvido ir passar a noite na casa de alguma amiga e simplesmente se esquecera de lhe avisar. Naquela hora já era muito tarde para começar a telefonar para outras pessoas, que também ficariam alarmadas. Lembrou-se também que poderia telefonar para o xerife, pedindo-lhe que investigasse, mas isso também lhe parecia um exagero.

O seu espírito mostrava-se contrário, mas, ao mesmo tempo, aprovava sem restrições.

Ela e Tad estão mortos, com facas enfiadas nos corpos. Os jor¬nais publicam coisas assim todos os dias. Aliás, tinha acontecido ali mesmo em Cartle Rock, antes de se haverem mudado para lá. Fora aquele policial louco. O Frank Dodd.

Ela foi embora com o Steve, sua mente insistia.

Tentou novamente à meia-noite e como não conseguia res¬posta teve certeza de que havia algo de errado. Steve. Ladrões. Assassinos, alguma coisa séria. Alguma coisa tinha acontecido em sua casa.

Largou o telefone e acendeu a luz da cabeceira.

—   Roger, Roger, acorde...

—   Hunnm...

O outro cobriu os olhos com o braço. Estava com aquele pija¬ma com as flâmulas de universidades.

—   Roger... Roger...

Elo abriu os olhos, piscou e olhou para o despertador.

—   O que é que há, Vic? Estamos no meio da noite...

—   Roger...

Ele queria falar, mas sentia um aperto na garganta.

—   Roger, já passa da meia-noite e Donna não está em casa.

Estou com medo...

O    outro sentou-se e apanhou o despertador para olhar bem de perto. Queria verificar o que Vic dissera. Já passava de meia-noite.

—   Ora essa, Vic. Com certeza ela ficou chateada de ficar so¬zinha em casa. A Althea também costuma fazer isso. Pega as meninas e se manda para a casa de Sally quando eu viajo. Ela diz que fica nervosa ouvindo o vento fustigar o lago.

—   Ela me telefonaria, nesse caso...

Agora, com a luz acesa e com Roger ali falando, aquela idéia da fuga com Steve parecia-lhe absurda. Não podia imaginar como acalentá-la tanto. A lógica que fosse para o inferno. Ela lhe dissera que estava tudo acabado e ele acreditava na mulher. Es¬tava tudo acabado mesmo. Ali, naquele instante, ele acreditava píamente nela.

—   Telefonaria?

Rogar ainda não estava com as idéias bem claras.

— Ela sabe que telefono quase todas as noites quando estou viajando. Ela telefonaria para o hotel, deixando um recado e dizen¬do para onde ia... Não é assim que a Althea faz com vocé?

— Claro. É assim mesmo que ela faz.

—   Ela sempre telefona e deixa recado para que você não fique preocupado como eu estou agora...

—   Claro. Mas a Donna pode ter simplesmente esquecido.

Mas os olhos do amigo também demonstravam preocupação

—   Claro. Claro.., mas... por outro lado, também pode ter acontecido alguma cosa.

—   Ela anda com a sua carteira de identidade, não anda? Se houvesse um acidente com ela e Tad, e que o diabo seja surdo, a policia teria telefonado para sua casa e para o escritório, e o serviço de atendimento teria...

—   Não estou pensando em acidentes, Roger. Estou pensando em... — As palavras saiam-lhe com dificuldade e sua voz tremia.

—   ... estava pensando nos dois sozinhos em casa e... que merda, nem sei mais. A verdade é que estou apavorado.

—   Telefone, para o escritório do xerife.

—   Já pensei nisso, mas.,..

—   Não tem nada de mas nem de menos, Vic. Assim você não vai afligir a Donna, porque ela não está lá. Mas que diabo, rapaz, você ficará mais tranqüilo. Não pense só nas sirenes tocando e nos piscas-piscas girando nos carros da polida. É só pedir para rnan¬darem alguém lá pera ver se tudo está normal. Mas que diabo deve haver uns mil lugares onde ela possa estar. Vai ver que está se di¬vertindo bem em alguma festinha.

—   A Donna não gosta de festinhas, Roger...

—   Também pode ser que esteja num joguinho com amigas e perdeu a noção do tempo. E então o Tad deve estar dormindo num quarto qualquer.

Vic lembrava-se bem de Donna ter-lhe dito que não gostava de andar com “amiguinhas”. Ela chegara a dizer que não queria ser como qualquer daquelas mulheres que sempre via nas festas de carídade. Ele, porém, não queria contar nada a Roger, porque havia uma certa ligação entre Steve e aquele assunto.

— É sim,.. Pode ser que seja alguma coisa parecida...

—   Você tem uma chave da porta escondida lá na casa?

—   Tem uma ,escondida num gancho na varanda da frente

—   Pois então diga à polícia. Elos podem mandar alguém lá para ver... A não ser que você tenha lá escondido maconha ou coisa parecida. Alguma coisa que não deve ser vista por eles.

—   Nada disso, ...

—   Pois então faça o que eu digo. Talvez até ela telefone para cá enquanto os tiras estiverem lá olhando a casa... e aí você terá feito um papel de tolo. Mas há ocasiões em que isso até que é bom. Será que compreende o que quero dizer?

—   Claro que compreendo — disse Vic, rindo um pouco. —Compreendo sim.

Ele tornou a pegar o telefone e ligou primeiro para casa, após hesitar um pouco. Ninguém atendia. O pouco do conforto das pa¬lavras do amigo logo se evaporou. Pediu “Informações” do Maine e anotou o número do escritório do xerife de Castle Rock. Já era meia-noite e quinze de quarta-feira.

 

Donna estava sentada no carro, com a mão em cima do volante. Tad adormecera novamente, mas não era um sono repousante. Estava irriquieto e chegava a falar coisas incompreensíveis. Ela temia que ele estivesse revivendo em seus sonhos o que acontecera antes.

Ela apalpou-o e Tad se encolheu, resmungandp. Seus olhos pis¬caram, mas logo ficaram quietos novamente. Parecia ter febre e isso, certamente, devia ser o resultado da tensão e do pavor. Ela mesma sentia-se febril e as dores eram muitas. A barriga doía-lhe, mas os ferimentos eram superfíciais, não passando de simples arranhões. Ela tivera sorte. Os ferimentos da perna eram mais sérios, mais profün¬dos e mais feios. Sua mente insistia em chamar aquilo de mordidas, como se gostasse do horror que aquilo significava. Tinha sangrado muito antes da coagulação e ela não tentara enfaixar apesar de ter no porta-luvas do carro uma caixinha para primeiros socorros.. Ela imaginara, vagamente, que o fluxo do sangue limparia o ferimento. Não sabia bem se aquilo era verdade ou se era apenas uma crendice popular. Havia tanta coisa que ela não sabia. Um monte de coisas realmente. Continuava a chamar aquilo de “mordida”, como se fosse uma honra.

Quando o sangue afinal estancou, o banco do carro e as suas pernas estavam sujos de sangue. Ela precisou de três rolos de ata¬dura para cobrir bem o ferimento. Aliás, eram os últimos três existentes no estojo. Ao se dar conta disso, ocorreu-lhe que precisava de um novo estojo, mas tal pensamento pareceu-lhe tão ridículo que ela foi assaltada por um acesso de riso histérico.

Naquela luz muito fraca. a carne logo acima do joelho parecia um pedaço arado de uma terra escura. Sentia um doloroso latejar contínuo desde que fora mordida. Engolira em seco duas aspirinas que achara no estojo, mas que de nada lhe serviram. A cabeça tam¬bém lhe doía muito. Tinha a sensação de estar sendo espremida por fios de arame que se apertavam cada vez mais.

Se mexesse com a perna a dor se transformava e, ao invés de latejar, passava a ser uma espécie de punhalada. Não tinha a menor idéia se ainda poderia andar,mas sabia que a corrida até a porta da casa estava fora de cogitação. Aquilo, porém, já não tinha impor-tância. O cão estava lá sentado no cascalho, entre o carro e a casa. Sua cabeça estava baixa, mas os olhos continuavam fitos no carro. Continuavam fitos nela.

Donna tinha a impressão de que ele não ia fazer mais nada, pelo menos naquela noite. Era possível que, no dia seguinte, o sol o obri¬gasse a ir para dentro da oficina, se o calor continuasse forte como até então.

— Ele quer me pegar... — murmurava baixinho, com os lá¬bios crestados, e era a pura verdade. Era verdade mesmo, de alguma forma. Por motivos que haviam sido decretados pelo destino, ou pelo próprio instinto incompreensível do cão, ele queria pegá-la.

Ela tivera certeza de que o animal estava morrendo quando ele se deixara cair no cascalho. Não havia coisa viva que conseguisse suportar as pancadas que lhe dera com a porta, e nem mesmo o seu pêlo espesso conseguiria amortecer os choques. Uma de suas orelhas estava pendurada por um fino cordão de carne.

Pouco a pouco, no entanto, ele conseguira se recuperar e andar. Ela mal podia crer no que via.., recusava-se a acreditar no que via. Ficara completamente descontrolada e chegara a gritar.

       —  Não... você devia estar morto! Deite-se. Deite-se para morrrer. Deite-se já, seu cachorro de merda.

Tad já acordara e segurava a cabeça.

       —  Não, mamãe. Estou com a cabeça doendo... está doendo muito.

 

Depois disso, a situação. continuara inalterável. O tempo con¬continuava a se arrastar. Ela levara seu relógio ao ouvido várias vezes para verificar se ainda funcionava, já que tinha a impressão de estar vendo os ponteiros sempre no mesmo lugar.

Já passavam 20 minutos da meia-noite.

O    que é que nós sabemos a respeito de hidrofobia, afinal7

Muito pouca coisa. Alguns vagos fragmentos esparsos, prova¬velmentc todos em suplementos domínicais. Um panfleto que ape¬nas folheara despreocupadamente em Nova York, na época em que levara a gata da família a Dinah, ao veterinário, porque estava ruim da barriga. E ela fora então vacinada contra a raiva.

A raiva é uma moléstia que afeta o centro do sistema nervoso. Aos poucos, vai causando sua destruição. Mas como? Ela nada sabia a respeito. E era bem provável que os médicos também não soubes¬sem. Se não fosse assim, a moléstia não seria considerada tão perigosa. Ela procurava se iludir. “Aliás, nem mesmo sei se ele está da¬nado mesmo. O único cão danado que vi em minha vida foi aquele que o Gregory Peck matou a tiros no filme To Kill a Mockingbird. Só que, naturalmente, aquele não estava danado. Estava apenas fingin-do e devia ser algum vira-lata todo besuntado com espuma de cre¬mo de barba.”

Ela voltou a pensar naquilo. Sempre seria melhor fazer uma analise pessimista, como Vic costumava dizer, pelo menos naquele momento. Além disso, era claro que o animal estava danado mesmo. O que mais poderia haver para que ele se comportasse daquela ma-neira? Ele estava danado mesmo.

E ela a mordera. Mordera bem. E então o que ia acontecer agora?

Ela sabia que os seres humanos podiam contrair a raiva e sabia também que era uma morte horrorosa. Talvez fosse, até mesmo, a pior de todas. Existia uma vacina preventiva. O tratamento era feito com uma série de injeções muito dolorosas, até mesmo tão dolorosas quanto o sofrimento do animal. Mas...

Ela parecia lembrar-se de ter ouvido ou lido em algum lugar de pessoas que haviam conseguido sobreviver em adiantados casos de hidrofobia. De casos que só tinham sido diagnosticados quando os sintomas já estavam aparecendo. Um deles era um menino que ficara completamente bom. Um outro fora um pesquisador cujo cérebro fl¬cara inutilizado para sempre. Aquilo fora um completo desastre para as instituições oficiais.

As probabilidades de cura diminuíam com o tempo que a pessoa mordida passava sem tratamento. Ela passou a mão pela testa e viu que estava alagada em suores frios.

Mas qual era esse tempo? Horas, dias, semanas? Talvez um mês?. Ela simplesmente não sabia.

E então, de repente, teve a impressão de que o carro estava encolhendo. Já estava do tamanho de uma Honda, mas logo depois era do tamanho de um daqueles carrinhos de três rodas que eram dados aos mutilados de guerra na Inglaterra. Passou logo para o tamanho de um side-car e a seguir de um caixão fúnebre. Um caixão duplo para ela e Tad. Eles prcçisavain sair dali. Precisavam sair...

Antes que se desse conta, sua mão já procurava a alça da porta do. carro. Sentia o coração disparar e o latejar que sentia na cabeça acelerar. Por favor. Tudo já está bem ruim sem o pensamento da claustrofobia... Por favor... Por favor...Por favor...

Já estava novamente com sede. Uma sede terrível.

Olhou lá para fora e viu o animal sempre olhando atento para ela. A rachadura na janela fazia com que seu corpo parecesse cor¬tado ao meio.

— Por favor! Por favor! Socorro! Precisamos de ajuda!

 

Roscoe Fisher estava escondido na beira da estrada quando recebeu o chamado. Ele estava, ostensívamente, à espera de alguém em excesso de velocidade, mas na realidade estava cochilando, à meia noite e 30 daquela quarta-feira, ali na Rodovia 117, onde não havia tráfego algum. Ele dispunha de um pequeno despertador na cabeça que estava regulado para despertá-lo por volta de uma hora, quando todo o pessoal saia do Drive-in. Nessa hora, então, tudo era pos¬sível.

—   Unidade três, responda. Unidade três... Câmbio...

Roscoe acordou imediatamente, mas entornou o café frio que estava num copo de plástico entre suas pernas.

       — Essa agora! Mas que merda!

—   Unidade três., está dormindo? Unidade três, responda... câmbio...

Ele apanhou o microfone e apertou o botão.

—   Estou aqui...

Bem que gostaria de ter acrescentado alguma coisa mais. Gos¬taria de dizer que esperava haver uma boa razão para o chamado que lhe derramara o café nas calças, mas nunca era possível sabor quem estava na central, nem tampouco se havia ou não escutas de amadores na faixa da polícia... até mesmo naquela hora adian¬tada da noite.

—   Dê uma chegada no número 83 de Larch Street. Residência do casal Trenton. Veja o que há por lá. Câmbio...

—   E o que é exatamente que devo ver? Câmbio...

—   O dono da casa está em Boston e o telefone da casa não responde. Ele acha que deve haver alguém em casa... Câmbio.

Roscoe estava indignado. É uma maravilha! Isto vai me custar quatro pratas para mandar limpar as calças. E se eu fizer parar alguém com excesso de velocidade, o cara vai pensar que mijei nas calças com a alegria que senti por pegar um contraventor.

—   São dez e quatro... Câmbio...

—   Eu aqui tenho meia-noite e trinta e quatro da madruga¬da... A chave da casa está escondida num gancho da varanda, uni¬dade três. O dono da casa quer que a gente dê uma olhada já, por dentro e por fora da casa. Câmbio.

—   Certo, base. Estou indo. Câmbio e desligo.

—   Desligo.

Roscoe acendeu as luzes do carro e saiu pela rua principal da cidade completamente deserta. Passou pela praça e pelo coreto onde a música costumava tocar e cujo telhado era verde e cônico. Ele subiu a colina e dobrou à direita, na rua onde morava Vic. A casa era a segunda depois da esquina. Imaginou que, nos dias claros, seria possível ver a cidade lá embaixo. Encostou o carro no meio-fio e saltou, fechando a porta sem fazer barulho. A rua estava escura e todo mundo dormia.

Roscoe parou por um momento. Descolou a calça molhada das pernas, fazendo uma careta, e depois subiu pela entrada de carros. Não havia nada ali nem na pequena garagem. Lá dentro só havia um triciclo igual ao que dera ao seu filho.

Fechou a porta da garagem e deu a volta para chegar à porta da varanda. Viu lá junto à porta o exemplar do CaII daquela sema¬na. Apanhou-o e verificou a porta. Não estava trancada. Entrou na varanda, sentindo-se um intruso, e atirou o jornal no balanço que ali havia. Apertou o botão da campainha. Escutou a música da si¬neta lá dentro, mas não apareceu ninguém. Tocou mais duas vezes, dando tempo para que a senhora se levantasse e viesse abrir, mas ninguém apareceu.

Depois de ver que ninguém atendia, experimentou a fechadura. Estava trancada.

Imaginou logo que, como o marido estava viajando, ela prova¬velmente fora para a casa de alguma amiga. Mas também achava bem estranho o fato dela não ter avisado ao marido.

Encontrou a chave onde lhe disseram que estava. Era um lugar arranjado por Vic logo que viera morar ali. Roscoe abriu então a porta da frente. Se houvesse tentado a da cozinha, como fizera Steve, ele teria entrado por lá. Da mesma forma que a maior parte das pessoas da cidade, Donna era um tanto descuidada em matéria de portas bem fechadas.

O policial entrou com sua lanterna, mas preferiu não usá-la. Achava que aquilo faria com que se parecesse ainda mais com um intruso, um ladrão com as calças molhadas de café. Procurou o interruptor e acabou encontrando um espelho com dois. O de cima, acen-dia a luz da varanda e o de baixo era a luz da sala. Ele apagou logo a da varanda.

Olhou em torno durante algum tempo, como se não conseguisse acreditar no que estava vendo. Chegou mesmo a pensar que estava com a vista ruim, mas logo viu que esse não era o caso. Sentiu o co¬ração bater mais forte.

Sabia que não devia tocar em coisa alguma. Tudo devia ficar como estava. Já não se lembrava mais de que estava com as calças molhadas e também já não se julgava mais como um intruso. Estava apavorado e nervoso.

Já via que alguma coisa acontecera ali, sem dúvida alguma. Aquela sala estava de pernas para o ar. O chão estava cheio de cacos de vidro das peças quebradas, os móveis virados e os livros espalha¬dos por todos os cantos. O espelho grande em cima da lareira tam¬bém estava quebrado. Ele pensou que aquilo significava sete anos de azar para alguém. E então, de repente, viu-se pensando em Frank Dodd, aquele policial tão amável, mas que também era um psicopa¬ta, e que matara mulheres e crianças. Ficou todo arrepiado. Aquilo ali não era o lugar certo para se pensar em Frank Dodd.

Foi até a cozinha, passando pela sala de jantar, onde tudo fora varrido da mesa, e caminhou com cuidado para não pisar em nada. A cozinha ainda estáva em pior estado e ele sentiu-se novamente arre¬piado. Um louco varrido passara por ali. Havia potes e panelas por todos os cantos, assim como também um pó branco que parecia sabão.

Escrito no bloco para recados, em letras de fôrma bem gra»~’

dos, havia um recado.

 

     DEIXEI UMA COISA PARA VOCÊ LÁ EM CIMA, BONECA

 

E aí, de repente, Roscoe não sentiu a menor vontade de subir para ver o que havia lá em cima. Não queria ir lá de forma alguma. Ele ajudara na limpeza de trés das sujeiras deixadas por Frank Dodd, inclusive o corpo de Mary Kate, que o tarado estuprara e assassinara no coreto lá da praça. Não queria ser obrigado a fazer coisa seme¬lhante outra vez. A mulher bem que poderia estar lá morta a tiros, a facadas ou estrangulada. Ele já vira muita trapalhada nas estradas e, de um certo modo, até mesmo já se acostumara com aquilo. Dois anos antes, ele, o xerife e Billy tinham tirado um cara de dentro de uma máquina agrícola todo cortado em pedacinhos e aquilo era coisa para se contar aos netos. Nunca mais vira outro homicídio de¬pois daquele de Mary Kate e não queria que isso lhe acontecesse agora.

Ele não sabia direito se deveria sentir-se aliviado ou cheio de nojo com o que encontrou no quarto da casa, em cima da colcha.

Voltou para o carro e chamou a base.

 

Quando o telefone tocou, Vic e Roger estavam sentados diante da TV, sem conversarem. Assistiam ao filme Frankenstein, o original, sem lhe dar atenção. Era uma e vinte da madrugada.

Vic correu para atender ao primeiro toque.

—   Alô... Donna? Vocé...

— É o Sr. Trenton?

—   Sim. Sou eu mesmo.

— Aqui fala o xerife de Castle Rock, Sr. Trenton. Acho que tenho más notícias para o senhor... Eu sinto...

—   Eles estão mortos?

Vic sentiu-se, de repente, completamente irreal em duas dimensões, sem mais realidade do que o rosto de um figurante no fundo de um velho filme como aquele que estava ali na TV. A pergunta foi feita num tom perfeitamente convencional, como se fosse uma con¬versa normal. Pelo canto do olho, ele via a sombra de Roger que se levantava, mas aquilo não tinha ímportãncia. Nada mais tinha. No espaço de alguns segundos, desde que atendera ao telefone, ele ti¬vera a oportunidade de ver toda a sua vida em retrospecto e con¬cidira que tudo nela fora um cenário de fachadas falsas.

—   Sr. Trenton, o nosso policial Fisher foi enviado à...

—   Deixe desses rodeios de merda e responda à minha pergun¬ta, xerife. Eles estão mortos?

Ele virou-se para Roger, cujo rosto estava cinzento e ansioso pela resposta. Por trás dele, na TV, um moinho de mentira rodava, tendo por fundo um céu de mentira.

—   Roger... me dá um cigarro...

—   Sr. Trenton? Alô, Sr. Trenton?

—   Estou ouvindo. Quero saber se estão mortos...

—   Até agora, Sr. Trenton, não temos a menor idéia sobre o que possa ter acontecido à sua mulher e seu filho...

Vic respirou, aliviado. O mundo recuperava um pouco de seu colorido. Ele começou a tremer com o cigarro na boca, ainda sem acender.

—   Mas o que é que está acontecendo? O que é que o senhor sabe, afinal? O senhor é o xerife, não é mesmo? O Xerife Banner¬man?

—   Isso mesmo. O xerife do Castle Rock. Se o senhor me ouvir durantc um minuto, vou lhe contar tudo que sabemos até aqui.

—   Está bem, está bem. Pode falar.

Vic já estava com medo vendo as coisas acontecendo tio depressa.

— Mandei o policial até sua casa, no endereço que o senhor me deu. Era meia-noite e trinta e quatro minutos. Ele verificou que não havia nenhum carro na entrada nem na garagem. Tocou a cam¬painha e, como não aparecia ninguém, ele entrou, abrindo a porta com a chave que estava onde o senhor dissera. Viu logo que havia sido cometido um completo vandalismo em sua casa. A mobília estava virada, as garrafas do bar estavam quebradas pelo chão, o piso da cozinha estava coberto de sabão em pó e tudo mais ali estava quebrado...

— Meu Deus! Foi o Steve...

Ele disse aquilo baixinho, pensando no bilhete que recebera.

Lembrava-se de sua pergunta “VOCÊ AINDA DUVIDA?” Ele se lembra¬va de como ficara preocupado, pensando no estado mental do remetente. Era a sua vingança feroz por haver sido desprezado. O que mais teria ele feito? O que mais fizera depois de haver passado pela sua casa como um tufão devastador?

       — Sr. Trenton?

—   Continuo ouvindo...

O    outro pigarreou, como se não soubesse a melhor maneira de prosseguir.

—   O policial foi ao andar de cima, mas ali não havia sinais de vandalismo. Ele só encontrou vestígios de... de... de um fluido es¬branquiçado que parecia esperma em cima da colcha do quarto do casal. A cama tinha a aparência de não haver sido usada...

A última parte da informação parecia uma nota cômica para ocasião.

—   Mas onde é que está minha mulher? O senhor tem alguma idéia quanto ao lugar onde ela possa estar?

Ele agora já estava berrando.

—   Tenha calma, Vic — disse Roger, colocando a mão no om¬bro do amigo. Ele, aliás, podia aconselhar calma, já que sua mulher devia estar na cama dormindo tranqililamente. Suas filhas estavam com ela. Vic afastou-lhe a mão com um safanão.

—   Sr. Trenton, tudo que posso lhe dizer agora é que o pes¬soal da policia estadual já tem seus detetives cuidando do caso, junto com os meus policiais. O seu quarto e o quarto de seu filho estão praticamente intactos.

—   Com exceção apenas daquela porcaria em minha cama, não é mesmo?

Ele falou aquilo de uma forma tão desabrida que Roger chegou a se encolher como se houvesse sido atingido. Chegou a ficar de boca aberta.

 

A voz do xerife parecia embaraçada.

—   É como eu disse, Sr. Trenton. Mas o que eu queria dizer mesmo é que não encontramos sinais de violência em parte alguma, isto é, violência contra pessoa ou pessoas. Tudo indica que foi simples vandalismo.

—   Mas então onde é que estão minha mulher e meu filho, xerife?

A sua indignação violenta já começava a se transtormar em es¬panto. Sentia as lágrimas chegarem, tal como uma criança desamparada.¬

—   Até agora não fazemos a menor idéia, Sr. Trenton. Não te¬mos pista alguma.

Steve... Meu Deus! Será que o Steve está com eles?

Durante um momento, ele lembrou-se do sonho da véspera. Vira Donna e Tad escondidos numa caverna e sendo ameaçados por um animal terrível. Depois, tudo sumira.

—   Será que o senhor tem alguma idéia sobre quem possa ter sido?

—   Vou já para o aeroporto e estarei aí amanhã às cinco horas.

O    xerife procurava demonstrar um máximo dc paciência e to¬lerância.

—   Está bem, Sr. Trenton. Mas se o desaparecimento de sua mulher e seu filho tem alguma coisa a ver com o vandalismo pra¬ticado em sua casa, o tempo poderá ser coisa muito preciosa para nós. Se o senhor tem a menor idéia de quem possa ter feito isso, de quem possa ter alguma queixa contra o senhor ou sua mulher, seja ela real ou imaginária...

— Kemp — ele falou muito baixinho, a voz quase estrangula¬da. Já não conseguia mais reter as lágrímas. Já as sentia correndo pelo rosto. Foi o Kemp. Foi Steve Kemp quem fez isso. Tenho certeza absoluta de que foi ele. Deus do céu! O que terá ele feito com minha mulher e meu filho? Será que estão em seu poder?

—   E quem é esse Kemp?

Agora a voz do xerife já não se mostrava embaraçada. Ela era incisiva e autoritária.

Vic ficou com o fone na mão direita, enquanto tapava os olhos com a esquerda, como se quisesse se desligar de Roger, da TV e daquele quarto de hotel. Ele encontrava-se agora numa completa escuridão, sozinho e somente com o som trêmulo de sua voz e as lágrimas quentes em seu rosto.

—   Steve Kemp... Stevc Kemp. Ele tinha uma loja aí na cídade, mas já se mandou. Ele e minha mulher... Donna... eles... eles tiveram um caso. Durou pouco e ela chutou-o. Fiquei sabendo porque ele me enviou um bilhete... um bilhete bem sujo... Acho que queria se vingar. Não se conformava por haver levado um chute. Isso agora me parece uma versão ampliada do bilhete...

Ele esfregou os olhos com violência, com isso formando uma galáxia de estrelas candentes e vermelhas.

—   Acho que ele não gostou de não ter conseguido romper nos¬so casamento. Também pode ser que ele... que ele esteja maluco. Donna sempre me contava como ele ficava louco quando perdia uma partida de tênis. Não apertava a mão do vencedor. Tudo é uma questão... — Sentiu que a voz lhe faltava e viu-se obrigado a pigar¬rear para poder continuar. Sentia um aperto no peito. Um aperto que ia e vinha. — ... uma questão de saber até onde ele irá. Eles podem estar em poder desse louco, xerife. Pelo que sei dele, é um cara capaz de tudo.., tudo mesmo.

Houve um silêncio do outro lado, mas não foi, propriamente isso. Vic ouvia o ruído de um lápis escrevendo. Roger tornou a co¬locar a mão no ombro do amigo que, dessa vez, deixou-a ficar. Sentia-se grato com o calor daquela amizade. Estava sentindo muito frio.

—   Sr. Trenton, o tal bilhete que ele lhe mandou ainda está em seu poder?

—   Não. Rasguei-o. Desculpe-me, mas... em vista das circunstâncias...

—   O bilhete, por acaso, estava escrito todo em letra de fôrma?

—   Isso mesmo. Estava sim.

—   O meu policial também encontrou um bilhete assim no bloco de recados da cozinha... O bilhete diz: “Deixei uma coisa para você lá em cima, boneca.”

Vic soltou um gemido. A única leve esperança de poder ter sido alguma outra pessoa desvanecia-se por completo. Só podia ser mes¬mo ele. O recado deixado na cozinha se enquadrava direitinho na¬quilo que ele escrevera no bilhete.

—   O recado parece indicar que sua mulher não estava lá quan¬do ele arrasou a casa.

Assim mesmo, chocado como estava, Vic percebia uma nota falsa na voz do xerife.

—   Ela poderia ter entrado quando ele ainda estava lá e o se¬nhor também é da mesma opinião, xerife. Poderia ter voltado das compras ou da oficina, onde tinha ido para consertar o carro...

—   E que espécie de carro tem esse cara? O senhor sabe qual é?

—   Não é propriamente um carro. É uma caminhonete de en¬trega.

—   Sabe a cor?

—   Não. Não sei.

—   Sr. Trenton, eu lhe aconselharia que viesse já de Boston. Mas também lhe aconselho que, se alugar um carro, tenha muita calma. Sua mulher e seu filho podem regressar sem que seja preciso

o     senhor se deixar matar num desastre na estrada.

—   Compreendo, xerife. Obrigado.

Ele não iria dirigir carro algum, devagar ou não. Ele queria se esconder. Melhor ainda, ele queria viver novamente aqueles últimos seis dias.

—   Mais uma coisa ainda, Sr. Trenton. Na sua viagem para cá procure fazer uma lista mental dos amigos e conhecidos que sua mulher tem nesta área. Ainda é perfeitamente possível que ela tenha resolvido passar a noite em casa de alguém...

—   Claro. Claro...

—   A coisa mas importante, e que não devemos esquecer, é que ainda não encontramos vestígios de violências pessoais.

       — O senhor me disse que toda a parte de baixo da casa está destroçada, mas não acha que tenha havido violência... Para mim isso é mais do que simples violência.

—   Sim, sim. Eu sei...

O    xerife não se sentia muito confortável.

—   Eu estarei aí, xerife.

—   Vic... eu sinto muito — disse Roger.

Vic não tinha coragem de encarar o amigo. Sou corno. Tenho chifres, conforme dizem. Agora Roger já sabe que sou corno.

—   Está tudo bem, Roger...

Ele começou logo a se vestir.

—   Você tinha todas essas preocupações e mesmo assim não desistiu desta viagem...

—   Não adiantaria nada se estivesse em casa, Roger. Já tinha acontecido. Eu... eu só descobri na quinta-feira. E então pensei que uma viagem... a distância... me daria tempo para pensar... me daria mais perspectiva. Nem mesmo sei quanta coisa estúpida não me passou pela cabeça. E agora tenho mais esta...

—   Mas você não teve culpa.

—   No ponto em que estamos, não sei mais se tenho culpa ou não. Estou preocupado com o que possa ter acontecido a Donna e estou alucinado a respeito de Tad. Agora só penso em estar de volta lá. E eu bem que gostaria de pegar o sacana do Steve. Eu...

A voz dele tinha ido num crescendo mas, de repente, parou. Deixou cair os ombros e, pôr um momento, pareceu exausto, velho e quase totalmente inútil. Depois, foi até onde estava a mala no chão o começou a procurar roupas limpas.

       —   Por favor. Roger. Telefone para a Avis, no aeroporto e diga-lhes que me mandem um carro, sim? Minha carteira está ali na mesa-de-cabeceira. Eles vão querer o meu número do American Bxpress.

—   Vou pedir um para nós dois. Vou voltar com você, Vic.

—   Nada disso...

— Mas...

     — Por favor, Roger. Não discuta.

     Ele enfiou uma camisa azul e já havia abotoado até a metade quando reparou que não estava certo. Desabotoou e recomeçou. Já estava agora em plena atividade e assim era bem melhor, mas aquela sensação de irrealidade ainda persistia. Não podia deixar de pensar em cenários de cinema, onde aquilo que parece mármore italiano não passa de papel Contact, onde os aposentos todos terminam onde as câmeras não alcançam e onde há sempre alguém lá atrás dirigindo tudo. Seqüência 41: Vic convence Roger a continuar dando duro, take um. Ele era ator e aquilo era um filme louco e abstrato. Só que era indiscutivelmente melhor quando o corpo estava em movimento.

       — Mas olho aqui, Vic...

       —  Roger, não tem nem olhe aqui nem olhe lá. Isto que está acontecendo nada tem a ver com a situação entre a Sharp e a Ad Worx. Vim para cá quando já sabia do que houvera entre Donna e Steve em parte porque queria manter as aparências. Acho que ne¬nhum cara gosta de anunciar aos quatro ventos quando sua mulher andou prevaricando. Vim principalmente porque sei que há muita gente dependendo de nós para continuar comendo e que não se im~portem se minha mulher anda ou não na cama com um outro cara...

       —   Vá com calma, Vic. Não adianta você ficar se martirizando assim. Pare com isso.

       —   Mas não consigo fazer isso. Não consigo mesmo...

       —   Mas eu também não posso seguir para Nova York como se nada houvesse acontecido, Vic.

       —   Tanto quanto sabemos até agora, Roger, nada aconteceu. A policia não se cansa de me dizer isso. Você pode ir, sim. Pode levar a frente as negociações. Talvez tudo isso acabe como tendo sido apenas uma tempestade em copo d’água mas.., sempre é preciso tentar, Roger. fl tudo o que podemos fazer. E, além disso não há nada para você fazer lá no Maine. Vai ficar lá zanzando...

—   Meu Deus... acho que está errado. Acho que está errado mesmo...

—   Nada disso. Vou telefonar para você no Biltmore logo que souber alguma coisa. — Ao mesmo tempo que falava, ele ia aca¬bando de se vestir e de calçar os sapatos. — Agora vá telefonar para a Avis, por favor. Eu pego um táxi lá embaixo para me levar ao aeroporto. Olhe, aqui está o meu número da American Express...

Entregou-lhe o papel com o número, enquanto o outro ficava ali em silêncio, vendo-o enfiar-se na capa e caminhar para a porta.

—   Vic...

Ele voltou-se, meio desajeitado mas com muita força. Os dois se abraçaram e Vic encostou o rosto no ombro do amigo.

—   Vou pedir a Deus para que tudo dê certo, Vic.

A voz dele estava rouca.

—   Claro que vai dar, Roger...

Vic saiu, por fim.

 

O elevador desceu, mas ele tinha a impressão de que ele nem mesmo se. movia, apesar do ruído característico. Isto é apenas um efeito de som. Quando chegou embaixo no salão ele saiu ao mesmo tempo que dois caras embriagados entravam. Extras, pensou ele.

Falou com o porteiro, que devia ser também um extra, e depois de uns cinco minutos, um táxi encostava junto ao toldo azul do hotel.

Q motorista era preto e não estava a fim de conversa. Tinha o rádio ligado para uma estação FM de soul music. A canção foi à mesma durante todo o trajeto até o aeroporto pelas ruas quase desertas. Vic ia pensando que aquilo tudo não passava de um filme que estava rodando. Houve um intervalo em que foi, dado o boletim meteorológico. Ontem foi um dia quente, dizia o boletim, mas vocês ainda não viram nada, irmãos e irmãs. Hoje vai ser o dia mais quente que tivemos até agora. Vai bater todos os recordes. A temperatura vai passar dos 40 e nem mesmo na costa ela será mais branda. Uma massa quente viera do sul e estacionara em cima da Nova Inglaterra, onde era mantida por faixas de alta pressão E o rádio terminava dizendo: “E, então, se a gasolina der, o melhor mesmo é se mandar para a praia. Não vai ser nada bom para quem vai ficar na cidade”.

Aquela previsão significava pouco, ou mesmo nada, para Vic, isso certamente deixaria Donna desesperada, ainda mais do que já estava, se soubesse o que ia acontecer.

 

Da mesma forma que acontecera na véspera, Charity acordou de madrugada. Ficou prestando atenção durante alguns momentos, sem mesmo saber o que estava querendo ouvir. Logo depois lembrou-se. O assoalho que estalava. Passos. Ela prestava atenção para ver se o filho ia ter outro acesso de sonambulismo.

A casa toda, no entanto, estava silenciosa.

Ela levantou-se e foi até a porta para olhar o corredor. Não havia ninguém ali. Depois de um momento de hesitação, foi até o quarto de Brett, a fim de ver se ele estava ali. Viu somente um pouco dos seus cabelos que não estavam cobertos pelo lençol. Se ele hou¬vesse tido outro acesso, isso teria sido mais cedo, antes dela acordar. Agora ele ali estava, dormindo profundamente.

Ela voltou para seu quarto e ficou sentada na cama, olhando para o risco de luz que começava a surgir no horizonte. Sabia que tinha tomado uma decisão. Tinha chegado a ela de alguma forma, Sccretamcnte, durante a noite, enquanto dormia. Agora, à luz, fria do dia que despontava, ela estava em condições de analisar o que decidira, sabendo bem o que isso lhe custaria.

Lembrou-se então que nunca falara a respeito com a irmã, embora sempre pensasse em

fazê-lo. Ainda pretendia ter uma conversa com ela, se não houvesse acontecido aquele caso dos cartões de cré¬dito. E depois também, à noite, Holly não se cansara de contar-lhe quanto havia custado tudo aquilo que tinha. O Buick de quatro portas, a TV Sony a cores, o assoalho especial do haII. Ela agia como se todas aquelas coisas ainda tivessem coladas etiquetas com os preços.

Charity, mesmo assim, gostava muito da irmã. Ela era liberal, tinha um grande coração, era impulsiva e afetuosa, cheia de calor humano. O seu padrão de vida, no entanto, obrigava-a a se desligar das verdades desagradáveis quanto à maneira como as duas haviam sido criadas na área rural do Maine, uma região muito pobre, ver¬dades essas que haviam obrigado Charity ao casamento com Joe, ao passo que a sorte levara Holly a conhecer e a escapar para sempre à pobreza que havia em casa. Essa, aliás, fora bem parecida com a de Charity ao ter o seu bilhete premiado.

Tinha medo de contar à irmã como lutara com Joe durante anos para conseguir a permissão de viajar para visitá-la; e como afinal o conseguira, usando meios muito parecidos com chantagem, mas que, mesmo assim, chegara a um ponto em que ele ameaçara castigá-la com o. cinto — sentia medo ao imaginar que a reação de Holly fosse de indignação e horror, ao invés de coisa mais racional e de ajuda. Qual poderia ser, no entanto, a razão para a indignação e o horror? Talvez porque, bem no mais recôndito de sua alma, onde o Buick, a TV a cores, o assoalho especial e todos os outros requintes não conseguiam causar um impacto definitivo, Holly reco¬nhecesse que ela escapara à mesma sorte da irmã, a um casamento e uma vida parecida, por uma margem bem pequena.

Não lhe contara nada porque a irmã se havia acomodado na boa vida da classe média abastada da mesma forma que um soldado precavido em sua trincheira. Não contara porque a indignação hor¬rorizada não iria resolver o seu problema. Não contara porque nin¬guém gosta de se exibir como aleijão num show marginal, vivendo durante dias, meses e anos, com um homem desagradável, soturno e até mesmo apavorante em algumas ocasiões. A razão nunca fora a vergonha. Havia ocasiões em que sempre era melhor manter as aparências. Poderia ser, até mesmo, um ato de bondade.

       A principal razão, no entanto, era que tudo aquilo eram problemas seus. Assim como era um problema seu tudo que viesse a acontecer com Brett... Naqueles últimos dois dias ela chegara, cada vez mais, à conclusão que tudo dependeria mais dele próprio do que dela e de Joe.

Não haveria divórcio. Ela continuaria a sua guerrilha contra o marido para salvar a alma do filho, fosse qual fosse o resultado final. Na sua preocupação quanto ao fato de Brett querer imitar o pai, ela talvez. esquecesse, ou nem mesmo lhe ocorresse, o fato de que sempre chega o dia em que os filhos julgam os pais. Chega o dia em que eles se encontrarão no banco dos réus para serem julgados pelos filhos. Brett já notara a ostentação de Holly naque¬le caso dos cartões de crédito. Então, sua esperança era de que ele também algum dia notaria que o pai comia com o chapéu na. cabe¬ça, além de muitas outras coisas.

A manhã já estava mais clara. Ela enfiou-se no roupão que estava ali no cabide atrás da porta. Tinha vontade de cair no chu¬veiro, mas só faria isso quando notasse que mais alguém já estava acordado. Eles ali eram estranhós. Até mesmo o rosto de Holly parecia-lhe estranho agora, um rosto que se parecia muito pouco com as fotos do álbum da família que trouxera em sua bagagem. Até mesmo a própria irmã olhara aquelas fotos com um certo ar de espanto.

Eles iriam voltar para Castle Rock, para aquela casa no fim da Rodovia 3, para junto de Joe. A vida continuaria como antes. Seria bem melhor assim.

Ela lembrou-se que devia falar com Alva antes das sete, quando ele ainda estivesse na mesa. do café.

 

Passava um pouco das seis da manhã, com o dia prometendo ser muito claro, quando Tad teve a sua convulsão.

Tinha acordado por volta das 5:15 e parecia ter dormido bem. Chamou pela mãe que cochilava e queixou-se dizendo que tinha fome e sede. Como se ele houvesse apertado algum botão bem dentro dela, Donna se deu conta de que também estava com fome. A sede que vinha sentindo era constante, mas não se lembrava de ter sentido fome até então, desde a manhã da véspera. Agora, no en¬tanto, sentia-se positivamente faminta.

Engambelou o filho da melhor maneira que pôde, dizendo-lhe coisas vazias que já não tinham mais significação alguma. Dizia-lhe que logo ia aparecer alguém que levaria o cão embora e que viria socorrê-los.

O que havia de real, no entanto, era o fato de só pensar em comida.

Pensava no café da manhã, por exemplo, com dois ovos fritos na manteiga, não muito passados, por favor. Rabanadas. Copos grandes com suco de laranja muito gelado... Bacon canadense. Biscoitos feitos em casa. Cereais com creme e com geléia em cima. Seu pai sempre inventava uns apelidos para as coisas e aquilo era uma das demonstrações cômicas sem razão de ser que deixavam sua mãe indignada.

Sentia a barriga roncar e Tad achava graça naquilo. As suas risadas, no entanto, deixavam-na feliz por serem inesperadas. Era a mesma coisa que encontrar uma rosa nascendo num monte de lixo. Ela sorriu também, embora, com isso, lhe doessem os lábios rachados.

— Você ouviu, hem?

— Acho que você também está com fome, mamãe.

— Bem... eu não recusaria nada que me dessem agora...

Tad soltou um gemido e isso fez com que os dois rissem. Lá fora o cão levantara as orelhas. Rosnou quando ouviu as risadas. Durante um momento ele fez menção de levantar-se, talvez para investir novamente contra o carro, mas logo se acomodou nova¬mente com a cabeça baixa.

Donna sentiu em seu espírito um ânimo sem razão de ser que geralmente acompanhava o despontar do dia. Não havia dúvida dc que tudo ia acabar e que o pior já tinha passado. Até ali a sorte sempre lhes fora adversa, mas havia de chegar o momento em que isso mudaria.

Tad parecia bem melhor agora. Quase de volta ao seu estado natural. Estava muito pálido, abatido e terrivelmente exausto, ape¬sar de haver dormido relativamente bem. Parecia ser o mesmo Tad de sempre. Eles se abraçaram e ela já não sentia tanto aquela dor na barriga, embora os ferimentos estivessem inflamados. A perna estava pior, mas ainda lhe era possível movê-la, embora isso doesse muito, fazendo sangrar a ferida, iria ficar com uma cicatriz.

Os dois conversaram então durante uns 40 minutos, mais ou menos. Donna procurava uma forma para mantê-lo alerta e tam¬bém para passar o tempo. Sugeriu que brincassem aquele jogo das Vinte Perguntas com que ele logo concordou, muito alegre. Nunca chegara .a conseguir jogar todo o tempo que desejava, porque os pais se recusavam a participar. Estavam já na quarta partida quan¬do a convulsão começou.

Donna já acertara umas cinco perguntas relacionadas com colegas de acampamento de Tad.

— Ele tem cabelos ruivos, Tad?

— Não. Ele... ele.., ele...

E então, de repente, ele começou a sentir falta de ar, com acessos que a deixavam apavorada, com a garganta apertada, seu¬tindo um gosto azedo de cobre.

— Tad? Tad?

Ele continuava sem fôlego e agarrava a garganta, deixando-a toda arranhada. Tinha os olhos arregalados e virados para cima, só deixando ver o branco.

—Tad?

Ela agarrou-o e sacudiu-o todo Via o seu pomo-de-adão subir e descer rapidamente, como se fosse um urso mecânico na ponta de uma vara. Começou a se debater e, em seguida, levou as mãos garganta como se quisesse rasgá-la, e começou a emitir sons abafa-dos que mais pareciam vir de um animal.

Durante um momento, Donna esqueceu-se completamente do lugar onde estava. Agarrou-se à alça da porta e sacudiu-a até abri-la, como se, simplesmente, estivesse no supermercado ou no esta¬cíonamento, onde sempre encontraria ajuda.

Nesse mesmo instante, o animal pôs-se de pé. Atirou-se contra o carro antes que a porta estivesse toda aberta, o que, provavel¬mente, salvou-a de sua feroz investida. Ele bateu de encontro à porta, foi atirado para trás, mas logo voltou à carga, rosnando ameaçador. O cascalho saltava para todos os lados.

Ela soltou um grito e bateu a porta com força. O cão chocou¬-se novamente com o lado do carro, que ficou ainda mais amassado. Recuou e logo atirou-se contra a janela e então aquela pequena rachadura transformou-se numa espécie de estrela. Ele tornou a investir e o vidro de segurança começou a curvar-se para dentro, mas ainda inteiro embora já bem frágil. O mundo lá de fora pas¬sou a ser uma mancha leitosa.

Se ele atacar mais uma vez...

Em lugar disso o animal desistiu, como se esperasse para ver o que ela ia fazer.

Ela voltou-se para o filho.

Todo o corpo de Tad sacudia-se em convulsões, como se to¬mado por um ataque de epilepsia. Tinha as costas em arco. As nádegas levantavam-se e abaixavam-se em movimentos sucessivos. Seu rosto começava a ficar azulado e as veias das têmporas esta¬vam estufadas. Quando mocinha, ela fora apaixonada por balas e doces e por isso sabia bem o que estava acontecendo ali. Claro que ele não havia engolido a língua. Aquilo era coisa que só podia acontecer em romances baratos de mistério. Ele estava apenas en¬sgasgado com a língua, que lhe impedia a respiração. Iria morrer sufocado ali diante de seus olhos. Ela agarrou-lhe o queixo com a mão esquerda e com a direita abriu-lhe a boca à força. O pânico tornava-a brutal e ela ouvia estalarem-lhe os tendões do queixo.. Com as pontas dos dedos ela conseguiu alcançar-lhe a ponta da língua, que já estava bem lá no fundo, bem perto do lugar onde cresceriam os seus dentes do siso, se isso viesse a acontecer um dia. Tentou segurá-la, mas não conseguia, já que estava molhada a escorregadia como se fosse uma pequena enguia. Tentou segurá¬-la entre o indicador e o polegar sem se dar conta da pulsação acelerada de seu coração. Eu acho que vou perdê-lo. Oh, Deus meu! Acho que vou perder meu filho.

Os dentes se fecharam de repente, fazendo com que os dedos dela sangrassem, como também sangravam os lábios de Tad, muito rachados e intumescidos. Ela nem mesmo sentia a dor. Os pés dele começaram a se debater loucamente contra o tapete do carro. Ela continuava a procurar inesperadamente a ponta da língua do filho, conseguiu pegá-la, mas logo deixou-a escapar.

(é o cão o culpado, é o maldito cão, esse cão do inferno MAS EU VOU TE MATAR. JURO POR DEUS QUE VOU TE MATAR!)

Os dentes de Tad morderam novamente os seus dedos, mas, finalmente, ela conseguira pegar a sua língua e agora não a larga¬va mais. Enterrara-lhe as unhas na língua macia e esponjosa e puxara-a como quem puxa uma cortina da janela. Ao mesmo tempo, ela colocava a outra mão por baixo de seu queixo, forçando-lhe a cabeça para trás a fim de permitir um máximo de entrada de ar. Tad começou novamente a arquejar com um som rascante, pare¬cido com o de um velho com enfisema. Depois, começou a tossir.

Ela dava-lhe palmadas no rosto, já que não sabia o que mais poderia fazer naquele caso.

Ele arquejou novamente com estrondo e logo sua respiração recomeçou rapidamente, ofegante. Ela também estava ofegante. Sen¬tia-se completamente tonta. Torcera a perna ferida e agora sentia o sangue escorrer.

       — Tad? Tad! Você está me ouvindo?

Ele apenas sacudiu a cabeça muito de leve, sempre com os olhos fechados.

— Fique calmo. O mais calmo que puder, Tad. Quero que descanse.

— Quero ir para casa, mamãe. Mamãe.., o monstro...

— Psiu... Não fale, Tad. Fique quietinho. Não pense em monstros.

O papel com As Palavras Para os Monstros estava caído ali no tapete. Ela apanhou-o e entregou-o ao filho. O menino agar¬rou-o freneticamente.

— Agora trate de respirar bem devagar e regularmente, Tad. Faça isso, para podermos voltar para nossa casa. Respire direitinho, meu amor.

Ela olhou lá para fora e novamente reparou no bastão de bei¬sebol no meio do capim, do lado direito da entrada de carros.

—   Fique calminho, meu querido. Veja se pode fazer isso.

Ele apenas sacudiu de leve a cabeça, sem mesmo abrir os olhos.

— Vai demorar só mais um pouco, meu amor. Eu prometo. Eu prometo...

 

mais11 fora, o dia estava cada vez mais claro. Já estava também quente. A temperatura dentro do carro já começava a aumentar.

 

Eram 5:30 quando Vic chegou em casa. Na mesma hora em que Donna lutava para salvar o filho puxando-lhe a língua, ele andava pela sala, procurando arrumar as coisas com um ar sonhador, enquanto o xerife, um detetive da polícia estadual e um outro da secretária de justiça estavam sentados no sofá, bebendo café solúvel.

— Eu já lhes disse antes tudo que sei. Se ela não está com as pessoas para quem já telefonamos, não vejo com quem mais possa estar... — Vic estava tom uma vassoura e uma pá na mão e trou¬xera os sacos plásticos de lixo que pegara no closet da cozinha. Apanhou tudo que estava quebrado ali no chão e atirou dentro do saco. — ... a não ser que esteja com o Steve.

Seguiu-se um silêncio incômodo. Ele não se lembrava de oca¬sião alguma em toda a sua vida em que se tivesse sentido tão cansado como agora, mas sabia que não conseguiria dormir a não ser que lhe dessem uma injeção. Não estava pensando bem. Dez minutos depois de haver chegado, o telefone tocara e ele se preci¬pitara como um animal, sem dar atenção ao policial que afirmava ser o telefonema para ele. Mas não era. Era Roger que queria notícias.

Claro que havia notícias, mas todas elas eram alucinante¬mente inconclusivas. Havia impressões digitais por toda à parte e o pessoal especializado que viera de Augusta, tirara uma boa quan¬tidades delas. Também tinham estado na casa em que Steve mora¬ra para fazer a mesma coisa. Aquilo iria mostrar de forma definiti¬va se fora ou não ele o autor do vandalismo. Para Vic aquilo era uma redundância, já que não alimentava a menor dúvida a respeito.

O detetive da polícia estadual tinha feito uma verificação a res¬peito da caminhonete. Era um Ford 1971 com licença do Maine 64Z644. A cor era cinza-claro, mas conseguiram informações do dono da casa, dizendo que os lados do carro estavam pintados com paisagens do deserto. Tinham tirado o coitado da cama às quatro da madrugada. Na parte de trás, colados no pára-choque havia letreiros que diziam VAMOS RACHAR LENHA E NÂO O ÁTOMO; RO¬NALD REAGAN MATOU J. R. Cara engraçadinho o tal Steve Kemp, mas aquelas paisagens da caminhonete iam tornar tudo mais fácil.

A não ser que ele abandonasse o carro, o cara estaria preso antes do dia amanhecer. O alerta geral fora transmitido para todos os estados da Nova Inglaterra e, além disso, as agências do FBI de Portland e de Boston já haviam sido notificadas a respeito de um possível seqüestro. Agora estavam procurando o nome de Steve Kemp nos arquivos de Washngton. Iriam encontrar lá os seus protestos sobre a guerra do Vietnã em 1968 e 1971.

— Há somente uma coisa em tudo isso que eu não compreen¬do bem. — O detetive estava com seu bloco de notas no joelho mas já anotara tudo que Vic dissera. Ele estava apenas rabiscando coisas. — Se é que posso ser franco, há uma coisa que me intriga muito.

— Diga logo o que é...

Vic tinha apanhado a foto da família e, depois de olhá-la, tinha-a virado para fazer cair no chão os pedacinhos de vidro que ainda restavam.

— É o carro. Onde é que está o carro de sua mulher, Sr. Trenton?

Ao se cumprimentarem antes, ele dissera a Vic que seu nome era Masen, Masen com um “e”. Ele levantou-se e foi até a janela, batendo com o bloco na perna. O carro esporte de Vic estava ali na entrada, ao lado do carro do xerife. Ele apanhara-o no esta¬cionamento do aeroporto em Portland e deixara lá o carro da Avia que o trouxera de Boston.

— E o que é que o carro dela tem a ver com tudo isso, Masen?

O    outro deu de ombros.

—   Pode ser nada. Pode ser alguma coisa. Pode ser tudo. Pro¬vavelmente nada, mas isso não me agrada. Então o tal Kemp che¬ga aqui, agarra a sua mulher e seu filho. Certo? Mas por quê? Ele é louco e isso já é uma boa razão. Não sabe perder. Talvez até mesmo seja a sua idéia conturbada dc uma boa piada...

Aquilo tudo eram coisas que Víc já pensara um sem-número de vezes.

— E então o que é que ele faz? Ele pega os dois e leva-os em sua caminhonete toda pintada. E então o cara anda por aí rodando, mas também pode estar escondido em algum lugar. Certo?

— Bem... pode ser que...

Vic se esforçava muito para pensar.

— É assim também que eu penso. Tenho medo que...

Masen voltou-se na janela e encarou-o.

— Mas então onde é que está o carro?

— Bem... pode ser que...

       — Sim, Sr. Trenton, pode ser que ele tenha algum compa¬nheiro que saiu com o carro e isso, provavelmente, significaria um seqüestro para extorquir dinheiro. Se ele levou-os sozinho, então isso foi provavelmente devido a uma loucura momentânea. Mas se foi um seqüestro para exigir resgate, qual poderia ser a razão para levar o carro? Seria para se transferir para ele no meio do cami¬nho? Isso seria ridículo. O carro está tão visado quanto a caminhonete, embora seja um pouco mais difícil de ser reconhecido. E então eu torno a fazer a mesma pergunta. Se ele não tem um cúm¬plice, se estava só, então onde é que está o carro? Quem foi que saiu com ele?

O detetive da polícia estadual deu o seu palpite.

— Ele pode ter voltado para apanhá-lo. Deixou o menino e a mulher presos em algum lugar e voltou para buscar o carro ...

— Isso seria um problema para ele se não houver um cúm¬plice, mas é bem possível que o fizesse. Ele poderia deixá-los presos em algum lugar para poder voltar aqui e apanhar o carro, pegando uma carona na estrada. Mas qual poderia ser a razão para tudo isso?

O    Xerife Bannerman apresentou a sua hipótese, falando pela primeira vez:

— O carro poderia ter sido dirigido pela Sra. Trenton.

Masen voltou-se para ele, com as sobrancelhas arqueadas e um ar de espanto.

— Se levasse o menino com ele... Desculpe-me, Sr. Trenton, mas ele poderia ter levado o menino amarrado, ameaçando-o com um revólver, e isso obrigaria sua esposa a segui-lo. Teria então ameaçado fazer alguma maldade com o menino, caso ela fizesse alguma tentativa no caminho, tal como apagar as luzes ou fazer uma volta repentina.

       Vic sacudiu a cabeça e estava çompletamente tonto com todas aquelas alternativas.

       Masen parecia irritado com o xerife, talvez por não lhe haver ocorrido àquela possibilidade.

— Mas torno a repetir a pergunta: qual seria o seu propósito?

O xerife sacudiu a cabeça, levantando os ombros. Vic também não conseguia encontrar uma resposta plausível.

Masen acendeu um Pall Mall e olhou em torno, procurando um cinzeiro.

       Vic tornou a sentir-se como se fosse um ator, alguma pessoa diferente, recitando falas que haviam sido escritas por outra pessoa.

— Desculpe-me. — disso Vic. — O cara quebrou os dois cin¬zeiros que tínhamos aqui. Vou buscar um na cozinha.

O detetive foi com ele e apanhou o cinzeiro.

—   Vamos um pouco lá fora, por favor. O dia vai ser terrível. Eu, aliás, gosto de dias quentes em julho, contanto que eles se mantenham civilizados.

Vic concordou, com ar ausente.

Na saida, ele deu uma olhada no termômetro-barômetro que havia do lado de fora na porta. Fora um presente do Donna no último Natal. A temperatura já estava em 26 graus e o barômetro marcava tempo BOM.

— Vamos conversar mais um pouco, Sr. Trenton. Sinto-mo fascinado. Temos aqui uma mulher com seu filho, cujo marido está viajando a negócios. Ela precisa do carro para a sua atividade coti¬diana. À distância daqui até o centro é quase um quilômetro e a volta é um aclive pronunciado. Então, se admitirmos que o cara pegou sua mulher aqui, o carro ainda estaria na garagem. Então vamos pensar em outra probabilidade. O cara vem aqui, destrói sua casa, mas continua furioso. Ele encontra sua mulher e seu filho na cidade e agarra-os. Então o carro ainda estaria em algum lugar na cidade, no lugar onde ele os encontrou. Pode ser no centro ou no estacionamento do supermercado.

—   Mas alguém notaria isso no meio da noite, não achat

       — Provavelmente... O senhor acha que ela poderia tê-lo deixado em algum outro lugar?

Foi só nesse momento que ele se lembrou daquele defeito no motor.