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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


CARÍCIAS DE FOGO / Anne Mather
CARÍCIAS DE FOGO / Anne Mather

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

Chegara a vez de Olívia se vingar da mulher que roubara seu marido! Mais do que aceitar o trabalho de escrever a biografia da famosa atriz Diane Haran, Olívia estava disposta a ter o marido de volta... Mas o impensável aconteceu! Joe Castellano, amante de Diane, com seu charme avassalador e seus beijos ardentes, estragou os planos de Olívia. Quer dizer... o estrago não foi tão grande assim!

 

 

 

 

— Diane Haran!

Olívia ficou atordoada. Jamais se­quer passara por sua cabeça receber a oferta de um trabalho como aquele. Ser convidada a escrever a biografia de Diane Haran era surpreendente. Diane Haran: deusa das telas de cinema, modelo, superstar... a mulher que, cinco anos antes, roubara o marido de Olívia.

— Sim, Diane Haran — Kay Goldsmith repetiu com im­paciência. — Já ouviu falar dela, não? Bem, é claro que já. Todos a conhecem. Ela é famosa no mundo inteiro. O que me surpreendeu foi o fato de ela ter ouvido falar de você.

Olívia respirou fundo.

— O que ela ouviu a meu respeito? — perguntou em tom casual.

— Foi idéia dela oferecer a oportunidade de escrever a biografia dela a você, em primeiro lugar. Pelo que sei, ela leu o seu livro sobre Eileen Cusack e ficou impressionada com o seu trabalho,

— Verdade?

Olívia sabia que seu tom fora cínico, mas não pôde evitar. A teoria de que Diane Haran poderia ter decidido escolhê-la para escrever sua biografia por ter lido a interpretação que Olívia dera à trágica existência da poetisa irlandesa era ab­surda. Eileen Cusack fora uma heroína, no sentido mais amplo da palavra, que soube equilibrar-se entre as necessidades de sua família e uma doença degenerativa. E, ainda, escrevera alguns dos versos líricos mais bonitos da história. Morrera poucas semanas após a publicação de sua biografia e Olívia jamais esqueceria a coragem daquela mulher, ou sua meiguice. Diane Haran não era corajosa, nem meiga. Era egoísta, manipuladora e gananciosa. Conhecera Richard Haig em uma festa organizada pela agência na qual ele trabalhava. Na oca­sião, a carreira de Diane estava apenas começando e a agência, reconhecendo-lhe o potencial de sucesso, decidira homenageá-la, na esperança de representá-la. Mesmo sabendo que Richard era casado, pois Olívia fora à festa com o marido, Diane não hesitara em seduzi-lo e acabar com seu casamento.

— Liv?

O tom curioso de Kay trouxe Olívia de volta ao presente. Ela se deu conta de que estivera fitando o vazio. A idéia de Diane Haran em tê-la a seu dispor, para escrever sua biografia, era ridícula e estava na hora de explicar isso a Kay.

— Não posso aceitar — declarou.

— Não pode? — Kay repetiu, arregalando os olhos e levantando-se de um pulo. Sua baixa estatura e formas roliças acen­tuavam a altura e elegância de Olívia. — Tem idéia do que está sendo oferecido a você? Honorários fantásticos, participação nos direitos autorais e a chance de passar alguns meses ao sol.

Olívia virou-se para a companheira.

— Sol?

— Isso mesmo. Ela quer que você vá para a Califórnia e passe algum tempo com ela. Está terminando um filme e teve a garantia do agente dela de que só começará a trabalhar no próximo em setembro.

Olívia sentiu a boca seca.

— Agente? — repetiu com voz fraca.

— Sim, Phoebe Isaacs, da agência Isaacs e Stone. Talvez você nunca tenha ouvido falar deles, mas são conhecidos e respeitados nos meios artísticos.

— Está dizendo que foi essa tal de Phoebe Isaacs quem entrou em contato com você?

— Exatamente — Kay confirmou e, percebendo que a resistência de Olívia começava a enfraquecer, decidiu pres­sioná-la: — Mas não se engane, pois foi Diane Haran em pessoa quem escolheu esta agência, por saber que você é uma de minhas clientes.

— Mesmo assim, não posso.

A mente de Olívia girava em disparada, Até onde sabia, Richard era o agente de Diane. Afinal, fora essa a isca que ela usara para fisgá-lo, cinco anos antes. Embora, com sua beleza inigualável, nem precisaria ter se preocupado com mais nada.

— Por que não?

Kay estava visivelmente irritada e Olívia não poderia culpá-la. Tal oferta era muito mais generosa do que qualquer outra que ela recebera na vida. Mas, tendo se associado a Kay apenas três anos antes, a mais velha não conhecia a história de seu divórcio. Tratava-se de um assunto que Olí­via já não discutia com ninguém. E, quando Richard a dei­xara, ela ainda trabalhava para a revista feminina na qual começara sua carreira, logo após a faculdade.

—Simplesmente, não posso — insistiu e sentou-se. — Você não compreende... Eu... conheci Diane Haran há alguns anos. E não gostei dela.

Kay revirou os olhos.

— Não precisa gostar dela! — exclamou, retomando sua cadeira. — E é óbvio que Diane não se lembra de você. Ou, se lembra, e se sabia dos seus sentimentos negativos, não guardou nenhum rancor. Ela quer que você escreva a história de como ela fez sucesso, apesar de suas origens. Não está pedindo um compromisso eterno, mas apenas al­gumas semanas do seu precioso tempo.

Olívia baixou os olhos para o chão. Voar para a Califórnia, a fim de passar semanas na companhia de Diane Haran, soava como uma maldição. Não era verdade que ela não gostava da atriz. Olívia a odiava e desprezava. Culpava-a inteiramente pelo fim de seu casamento. Ela e Richard eram felizes, juntos. Todos diziam que formavam o par perfeito. Haviam se conhecido na faculdade e, quando ele a pedira em casamento, Olívia sentira-se no paraíso.

Mal pudera acreditar em sua sorte e fora alvo da inveja de todas as suas amigas. Richard Haig era, sem dúvida, o aluno mais bonito da faculdade, e se apaixonara por ela. Olívia tinha certeza absoluta de que seriam felizes para sempre.

— Não posso aceitar — repetiu mais uma vez, consciente de que Kay a observava, intrigada. — Sinto-me lisonjeada, mas esse trabalho simplesmente não é para mim.

— Ainda não me deu um motivo decente para isso — Kay retrucou. — Droga, Liv! Esse é o tipo da chance que só surge uma vez na vida! Não posso permitir que a desperdice.

— Está bem — Olívia falou, após um breve momento de hesitação. — Creio que lhe devo uma explicação. Não posso trabalhar para Diane Haran porque conheço o homem com quem ela é casada e...

— Richard Haig? — Kay interrompeu-a. — Ora, você não precisa se preocupar com isso. Pelo que sei, o casamento deles está por um fio.

Olívia engoliu em seco.

— Por um fio?

— Foi o que me disseram. Parece que eles têm enfrentado problemas, nos últimos tempos. Correm boatos de que ele bebe, mas tenho um palpite de que ela está interessada em outro.

— Não acredito!

— Por que não? Tem de admitir que esse casamento durou bem mais que os outros dois. Quem foi mesmo o primeiro? Ah, sim, Gordon Rogers. Diane ficou casada com ele apenas dois ou três meses.

— Eu... pensei que ela houvesse se casado uma única vez... antes — Olívia murmurou, atordoada, mas Kay pa­receu não notar seu estado de choque.

— Não. Lembra-se de Christian de Hanna, o ator? Quan­do descobriu que ele era viciado em drogas, Diane expulsou-o de sua casa.

Olívia sentiu-se prestes a desmaiar.

— Mas, então... Com quem ela está saindo, agora? — indagou, tentando fazer seu interesse parecer casual.

Kay exibiu um sorriso maroto.

— Bem que eu gostaria de saber. Essa pergunta vale um milhão de dólares. Mas, seja quem for, pode ter certeza de que tem algo que seu amigo não tem.

— Meu amigo?

— Richard Haig — Kay esclareceu, irritada. — O atual marido da nossa benfeitora. Acredite, se você quiser ficar com ele, não terá de enfrentar nenhum obstáculo.

Olívia fitou-a, boquiaberta. Seria tão transparente? Teria, sem querer, exposto seus sentimentos para Kay, com ta­manha clareza?

— Não quero nada com ele — murmurou, sem convicção. A verdade era que o queria. E muito. Sempre quisera.

— Bem, a decisão é sua — Kay declarou de súbito, de­cidindo que já falara demais. — Se fosse você, eu pensaria muito antes de dar uma palavra final. Acho que ainda não se deu conta do impacto que esse livro pode causar, não só no público leitor, mas também em sua carreira. E imagine quantas ofertas não vai receber, depois disso!

Olívia voltou a baixar os olhos. Não podia aceitar, por mais atraente que Kay fizesse a proposta parecer. Não poderia tra­balhar com Diane Haran, sem saber o que ela fizera com Ri­chard. E, se Richard precisasse de Olívia, sabia onde encontrá-la. Procurar por ele seria a atitude mais insensata de sua vida.

Mas... E se Richard estivesse se sentindo humilhado pelo que acontecera? Se estivesse arrependido por tê-la deixado, mas sentisse vergonha das próprias atitudes? Richard pos­suía orgulho, e o divórcio fora amargo. Ele fizera o possível para fazer com que Olívia parecesse responsável por tudo, deixando-a magoada e amargurada.

O que era mais um motivo para recusar aquela oferta. Não poderia expor-se ao mesmo tipo de abuso emocional que sofrerá uma vez. Além do mais, não estaria trabalhando para Richard, mas para Diane. Não tinha qualquer garantia de que sequer chegaria a vê-lo. Por mais tentadora que lhe parecesse a idéia de uma reconciliação, Olívia sabia que estava pensando com o coração, não com a cabeça.

Dando-se conta de que Kay esperava que ela dissesse alguma coisa, Olívia fez a primeira pergunta que lhe veio à mente:

— Por que Califórnia? Ela não vive mais na Inglaterra?

— Fui informada de que Diane possui casas, tanto na Inglaterra quanto nos Estados Unidos, além de uma villa, no sul da França. Mas, como a maioria dos filmes são feitos na América, ela deve achar mais conveniente morar lá.

Olívia ficou boquiaberta. Era difícil imaginar como seria a vida de uma pessoa tão rica. A própria Diane, certamente estranhara, ao menos no início. Um apartamento popular no subúrbio de Londres fora a sua residência, durante os primeiros quinze anos de sua vida.

— Vai precisar pesquisar alguns detalhes — Kay conti­nuou, como se Olívia houvesse concordado em aceitar o tra­balho. — A família dela mudou-se de Bermondsey, claro, graças à generosidade de Diane. Mesmo assim, imagino que ainda existam pessoas lá, que se lembram de quando ela era criança: colegas de escola, vizinhos e por aí afora.

— Sei perfeitamente como pesquisar a história de vida de um cliente — Olívia lembrou-a, desejando que Kay de­sistisse de convencê-la.

Na verdade, seu maior desejo era que Diane jamais hou­vesse mencionado o seu nome, jamais houvesse despertado a vontade adormecida de ver Richard novamente.

Kay endireitou-se na cadeira, estudando Olívia com interesse.

— Quer dizer que vai aceitar? — perguntou.

— Eu... não tenho o menor desejo de trabalhar com Diane Haran — Olívia insistiu, consciente de que esta não era uma resposta definitiva.

Olívia voltou para o seu apartamento no final da tarde. Situado no último andar de uma antiga mansão vitoriana, aquele era seu lar e seu refúgio, o lugar para onde ela se mudara, logo após do divórcio. Com Richard, vivera em uma agradável casa, em Chiswick, mas seria impossível manter uma despesa tão alta, vivendo sozinha. Assim, ela alugara o apartamento frio e úmido, no bairro de Kensington, e o transformara em um lugar agradável e aconchegante, ao longo daqueles anos.

Henry foi recebê-la na porta e esfregou-se em suas pernas, a fim de mostrar que sentira sua falta. Olívia, porém, não se deixou enganar. Ele estava com fome e só queria lembrá-la de que já era hora do jantar. Pela primeira vez, desde que deixara o escritório de Kay, Olívia sorriu.

— Tudo bem. Não me esqueci de você — falou, sacudindo as duas sacolas que trouxera do supermercado. — Que tal salmão e camarões? — Henry ronronou em sinal de apro­vação. — Eu sabia! Você é mesmo muito interesseiro.

O perfume exalado pelas plantas que ela cultivava com carinho tornava a cozinha muito agradável. Os narcisos, no parapeito da janela, ofereciam uma grande profusão de co­res. Embora o céu estivesse nublado e os ventos de março soprassem fortes, lá dentro o clima era ameno.

Depois de alimentar Henry, Olívia encheu uma chaleira de água e acendeu o fogo. Comeria mais tarde, mas achou que merecia uma boa xícara de chá. Enquanto guardava as compras, tentou não pensar em Diane Haran e na oferta que ela fizera. Não queria estragar a atmosfera de sua casa com pensamentos sobre a amante de seu ex-marido.

Levando o chá consigo, foi para o escritório. Com as pa­redes cobertas de prateleiras repletas de livros, tanto para leitura de lazer, como de referência, além de um computador e uma impressora, o lugar oferecia conforto. A mesa encon­trava-se repleta de papéis em desordem.

Olívia sentou-se na poltrona confortável e olhou para os pa­péis, resignada. Planejara colocar em dia a sua correspondência, mas antes precisava organizar as anotações e páginas arran­cadas do manuscrito de seu último livro. Fora para isso que visitara Kay, naquela tarde. Queria saber a opinião dela sobre a biografia de Suzanne Howard, que dera a volta ao mundo em um barco, sozinha, aos setenta e três anos de idade.

O entusiasmo de Kay pelo manuscrito acabara sendo apa­gado pela conversa sobre Diane Haran. Mesmo assim, Olívia gostara de saber que seu trabalho continuava mantendo a qualidade. Quando seu primeiro livro, a biografia de Catherine Parr, a única das seis esposas de Henrique VIII que sobrevivera a ele, fizera sucesso, ela temera não con­seguir se manter na lista dos mais vendidos, como acontecia com muitos escritores relâmpago. Porém, a biografia de Eileen Cusack tornara-se um best-seller e Olívia sentira-se encorajada a procurar a família Howard.

Perguntou-se se Richard sabia o que ela estava fazendo. Quando ele a abandonara, Olívia trabalhava para a revista Milady, sem perspectivas de melhora em sua carreira. Tal­vez, se Richard não houvesse ido embora, ela não tivesse reunido coragem para escrever um livro, pois ele sempre zombara da coluna de fofocas que ela era paga para escrever.

Tais pensamentos trouxeram de volta o assunto que ela evitara, desde que saíra do escritório de Kay. Seria capaz de escrever a história de Diane Haran, ou ao menos a parte da história que seria permitida para conhecimento público?

O toque do telefone foi uma interrupção bem-vinda aos pensamentos de Olívia. Afastando os cabelos castanho-claros do rosto, ela atendeu:

— Alô?

— Liv, até que enfim! — era o pai dela. — Tentei falar com você a tarde toda. Você está bem? Algum problema com o novo livro?

— Não — Olívia respondeu com um suspiro. — Kay gos­tou muito do manuscrito. — Tentou se mostrar animada. O pai e a madrasta haviam lhe dado um grande apoio, durante o processo do divórcio, e ficariam muito perturbados se soubessem o que ela estava pensando em fazer. — Eu... estava no supermercado. Acabei de chegar.

— Ah... — Matthew Pyatt pareceu aliviado. — Bem, sua mãe e eu gostaríamos de convidá-la para jantar. — Ele sempre se referia à esposa como sendo mãe de Olívia. Afinal, ela assumira tal papel quando Olívia tinha cinco anos de idade. — Queremos discutir um assunto com você e, como não a vemos há duas semanas, aproveitaríamos para matar a saudade. O que acha?

— Ah, papai, não podemos deixar para outro dia? Depois da tarde que tivera, Olívia só queria descongelar uma das pizzas que comprara e saboreá-la com um bom vinho. Precisava de tempo para pensar, antes que Kay vol­tasse a procurá-la. Além disso, não estava certa de que conseguiria esconder a ansiedade dos pais.

— Algo está errado — o pai declarou, com sua perspi­cácia habitual. — O que é? O que aconteceu? E melhor você me contar.

— Não aconteceu nada — ela mentiu. — Estou cansada. Só isso. Tive uma semana estressante, pois tinha de ter­minar o livro...

— Por que está estressada? Algum homem a está im­portunando? Vivo lendo nos jornais sobre mulheres que mo­ram sozinhas, sendo aterrorizadas em suas próprias casas. Nunca me senti tranqüilo com a segurança do seu edifício. Qualquer um pode entrar.

— Não é verdade, papai. Você sabe que os visitantes têm de usar o interfone.

— Sim, mas quando a porta se abre um assaltante pode entrar junto do visitante. Quando eu instalava sistemas de aquecimento, ficava sabendo de muitos assaltos assim.

Olívia sorriu.

— Ora, papai, está exagerando!

— Não, não estou. E não adianta mudar de assunto. Ainda não respondeu à minha pergunta.

— Ah, está bem — ela desistiu. — Jantarei com vocês. Só preciso de tempo para tomar um banho e trocar de roupa. Oito horas está bem para vocês?

Os Pyatt viviam em Chiswick, próximo à estação. Olívia sentiu um aperto no peito ao sair do trem, em Grove Park. Durante os quatro anos em que permanecera casada com Richard, era naquela mesma estação que ela descia todos os dias, quando voltava do trabalho para casa. Felizmente, seu pai morava no lado oposto, em uma casa espaçosa.

Alice Pyatt abriu a porta e abraçou-a.

— Liv, querida, como vai? Seu pai acabou de descer até a adega, para escolher uma garrafa de vinho. Vai ficar zan­gado por não estar aqui, para recebê-la. Passou a última meia hora à sua espera.

— Estou atrasada? — Olívia perguntou, tirando o casaco e aproximando-se da lareira. — Ah, com é gostoso! Sinto falta de uma lareira em meu apartamento.

Alice conduziu a enteada até sala de estar.

— Não está atrasada — garantiu. — Seu pai é que está ansioso. Gostaria de beber um licor, ou um gim-tônica?

— Vou precisar? — Olívia sentou-se na poltrona mais próxima à lareira. — Você está muito bem. Está usando uma nova cor de batom?

— Estou, mas devo avisá-la que não vai conseguir escapar ao interrogatório de seu pai — Alice falou com um sorriso. — E sou obrigada a reconhecer que você parece um tanto tensa. Algo está errado, não está? Seu pai raramente se engana.

Olívia suspirou.

— Não há nada errado — falou e sacudiu a cabeça quando Alice ofereceu-lhe o licor que estava servindo para si. — Não estou tensa, estou apenas um pouco... indecisa.

Alice deu de ombros e bebericou o licor. Estudando a madrasta, Olívia reconheceu que ela não aparentava os cin­qüenta e cinco anos que tinha, com seus cabelos loiros, iguais ao que haviam sido, quando Olívia era criança, e corpo de curvas generosas. Dez anos mais jovem que o marido, pa­recia ter vinte anos menos.

— Eu diria que seu pai teve motivos para se preocupar — Alice admitiu.

— Recebi uma nova oferta de trabalho — Olívia disse, decidindo que seria mais fácil discutir a questão com a ma­drasta, primeiro. — O problema é que não sei que quero acei­tá-la, pois teria de viver nos Estados Unidos, por alguns meses.

— Nos Estados Unidos!

Alice pareceu impressionada com a idéia, mas antes que tivesse tempo de comentar, Matthew Pyatt entrou na sala, repetindo:

— Estados Unidos. Não está pensando em viver em Nova York, está? — perguntou a Olívia, depois de beijá-la na testa.

— Claro que não — ela tentou soar calma e casual. — Recebi uma oferta para trabalhar por alguns meses em Los Angeles. Ainda não sei se vou aceitar.

— É isso o que a está preocupando, não é? Devo dizer que não me agrada a idéia de você viver lá. Uma jovem, sozinha, morando em um lugar como aquele...

— Não sou criança, papai. Viver em Los Angeles não é o problema.

— Ah, está preocupada conosco! — O pai interrompeu-a, passando um braço em torno dos ombros da esposa. — Bem, na verdade, era justamente sobre isso que queríamos con­versar com você. Sabe que Alice tem uma irmã na Nova Zelândia, não sabe? Muito bem. Ela nos convidou para pas­sar alguns meses lá. Estávamos preocupados por deixar você sozinha, mas se também não vai estar aqui...

— Compreendo — Olívia murmurou, sentindo a boca seca.

— Você se importa, Liv? — Alice perguntou, ansiosa. Bem, eles teriam de ser tranqüilizados a respeito, embora

Olívia sentisse uma pontada de apreensão. Era como se todas as circunstâncias estivessem conspirando contra ela.

— É claro que não me importo — mentiu.

— Que bom! — Alice sorriu, aliviada. — Faz quase dez anos que não vejo Bárbara. Essa é uma vantagem da apo­sentadoria. Matt não terá de se preocupar com trabalho, enquanto estivermos lá.

— De quem será a próxima biografia que você vai escre­ver?— o pai perguntou, quando Alice foi até a cozinha, para dar os toques finais no jantar.

— Diane Haran — Olívia respondeu sem preâmbulos, sabendo que de nada adiantaria tentar esconder a verdade do pai. — Mas ainda não decidi se vou aceitar a proposta.

— Ao ver o rubor tomar conta das faces de Matt, protestou:

— Não me olhe assim papai. Trata-se de uma oportunidade maravilhosa. E... ela e Richard estão se separando.

— Você só pode estar brincando! — ele se levantou, furioso. Na opinião de Matthew, Richard Haig merecia uma surra,

pelo que fizera à sua filhinha. Fora somente porque Olívia implorara para que ele não interferisse, que Matt havia controlado os impulsos.

— Por quê? — ela perguntou, bancando o advogado do diabo. — Segundo Kay, nunca mais receberei uma proposta tão lucrativa.

— Você sabe muito bem por que não pode aceitar — o pai vociferou. — E é por isso que está tão preocupada, não é? Estranhei o fato de termos ficado tanto tempo sem vê-la, mas agora entendo...

— Não foi por isso, papai — Olívia interrompeu-o, indignada. — Com toda honestidade, só tomei conhecimento da oferta hoje. Nós não nos vimos nos últimos dias porque eu estava fazendo a última revisão do livro sobre Suzanne Howard.

— Mesmo assim...

— Como já disse, ainda não me decidi — ela repetiu com voz controlada.

Matthew voltou a sentar-se.

— Mas está pensando em aceitar. Do contrário, nem teria me contado.

— Estou pensando no que fazer — ela falou, com since­ridade. — Prometo informá-lo, quando tomar uma decisão. Provavelmente, isso acontecerá antes de sua partida para a Nova Zelândia.

O pai franziu o cenho.

— Já não sei se quero ir para a Nova Zelândia, agora que sei que você poderá encontrar aquele suíno de novo. Liv, deve haver outro trabalho bom para você. Não vê que aquela mulher só quer usar você como um ombro conve­niente, quando ela der o fora em Richard?

A idéia já ocorrera a Olívia, mas ela não tinha a menor intenção de admitir isso.

— Vamos esquecer o assunto, por enquanto — pediu. — Você será o primeiro a saber da minha decisão.

— E quanto a Henry? — Alice perguntou, depois de o marido ter relatado o que a filha lhe contara.

Era típico de Alice tentar aplacar o humor de Matt.

— Minha vizinha vai cuidar dele — Olívia respondeu, animada. — Se eu for, é claro — acrescentou com um sorriso nervoso. — Mas você tem razão. Não posso me esquecer do segundo homem mais importante em minha vida.

— E quem é o primeiro? — o pai inquiriu, de cenho franzido.

— Ora, é você, papai — ela respondeu, lançando um olhar de cumplicidade para a madrasta.

 

Apesar da decisão que tomara, Olívia repas­sou na mente todos os argumentos por que não deveria ter aceito o trabalho, enquanto voava de Londres para Los Angeles.

Seu pai não ficara nada satisfeito. Não fosse pelo fato de já estar com a viagem para Auckland marcada, ele cer­tamente teria feio o possível para persuadi-la a mudar de idéia. Como sempre, Alice assumira o papel de mediadora, evitando maiores conflitos.

De um ponto de vista bastante objetivo, a idéia de passar algum tempo na Califórnia era mesmo tentadora. Olívia já estivera em Nova York, mas nunca visitara a costa Oeste dos Estados Unidos.

A possibilidade de encontrar Richard novamente provo­cava-lhe sentimentos confusos. Não poderia negar que es­tava apreensiva, mas também se sentia curiosa. Queria sa­ber o que estava acontecendo na vida dele, se os rumores sobre ele e Diane tinham fundamento. Acima de tudo, queria saber se ainda o amava, se sua decisão de aceitar aquele trabalho fora mesmo tão prática quanto ela fizera parecer.

O mês que se passara desde Olívia ter informado Kay sobre sua decisão fora dedicado à pesquisa sobre a história da vida de Diane. E Olívia se surpreendera ao descobrir que antigos amigos e vizinhos ainda tinham um alto conceito da atriz. Ao contrário da imagem que Olívia formara, de uma mulher egoís­ta e mimada, Diane era descrita como generosa, dona de um grande coração, sempre disposta a ajudar as pessoas, de todas as maneiras. Segundo as pessoas com quem Olívia conver­sara, o sucesso jamais subira à cabeça de Diane.

E tratava-se de uma história fascinante. Sendo a mais velha de sete irmãos, filhos de vários pais diferentes, tivera uma infância de pobreza e sofrimento. A mãe, tida como trabalhadora e ignorante, tinha pouco tempo para os filhos, e encarregava Diane de cuidar dos irmãos.

De beleza rara, Diane fora iniciada sexualmente ainda mui­to jovem. E, por ironia, fora justamente por causa da atração de um homem mais velho pela garota de quinze anos que ela ficara famosa. Rico e influente, ele a levara para jantar em um restaurante de classe, onde um fotógrafo de moda a vira e decidira que aquele seria "o rosto dos anos oitenta".

Olívia sabia que ainda tinha muito o que descobrir, pois o período entre tal fato e o verdadeiro estrelado não poderia ter sido tão fácil. Ainda assim, viu-se forçada a admitir que começava a ver Diane sob um novo ângulo.

O que era positivo para o seu trabalho. Uma biografia tinha de ser escrita com objetividade e era muito bom que ela houvesse mudado de opinião. O motivo pelo qual a atriz a escolhera continuava sendo um mistério.

Ao avistar as luzes de Los Angeles sob o avião, Olívia decidiu que, uma vez que estava chegando, só lhe restava parar de se preocupar com Richard e se concentrar no trabalho.

Quando o avião taxiava na pista, Olívia consultou o re­lógio. Era estranho pensar que deixara Londres na hora do almoço e, agora, eram ainda três e quarenta e cinco. O milagre dos fusos horários certamente lhe traria algumas dificuldades, nos primeiros dias.

Os passageiros foram transferidos para um túnel, e le­vados até o setor de Imigração. De lá, Olívia foi postar-se diante da esteira rolante, à espera de sua bagagem.

Reconheceu alguns rostos famosos e ficou surpresa pelo fato de ninguém lhes dar muita atenção. A presença de guarda-costas, porém, indicava que tais figuras não passa­vam exatamente despercebidas.

Depois de examinar seu cartão de embarque e se certificar de que as etiquetas da bagagem continuavam coladas a ele,

Olívia ergueu os olhos e deparou com um homem que a observava. As roupas caras e o relógio Rolex que ele usava deveriam tê-la deixado tranqüila, mas só serviram para fazê-la consciente de quanto era vulnerável, sozinha, em um lugar totalmente desconhecido.

A secretária de Diane enviara-lhe um fax, prometendo ir apanhá-la no aeroporto. Ora, se isso não acontecesse, Olívia poderia tomar um táxi. Afinal, tinha o endereço de Diane e não era uma criança.

Ao menos, no que dizia respeito à altura, Olívia pensou com ironia. Sabia que muitos homens pensariam duas vezes antes de tentar alguma coisa com ela. Embora fosse magra, Olívia tinha músculos firmes, pois gostava de nadar e andar de bicicleta regularmente. Portanto, não tinha nada a temer.

A menos, claro, que o homem que a estivera observando pretendesse atacá-la. Olívia sentiu-se aliviada ao perceber que ele parecia ter perdido o interesse e, agora, observava a esteira rolante. Então, aproveitou a oportunidade para examiná-lo.

Era alto e forte, embora seus músculos não lembrassem em nada os heróis que Hollywood exportava para o mundo. Os traços másculos chegavam a ser rudes, o que o tornava ainda mais atraente. Olívia calculou que ele tinha uns trinta e cinco anos.

Perguntou-se quem seria ele. Com certeza, não era ator de cinema, embora estivesse acompanhado por outro ho­mem, que poderia ser um guarda-costas. Dando-se conta de que sua curiosidade começava a se tornar excessiva, Olí­via lembrou-se de que ele não estava interessado nela e que, provavelmente, jamais voltaria a pôr os olhos nele.

As malas começaram a aparecer. O acompanhante do ho­mem que Olívia estivera estudando apanhou duas delas e, então, os dois encaminharam-se para a saída. Foi então que ela se deu conta de que os dois haviam viajado no mesmo vôo que ela, mas na primeira classe. Uma pena, pensou. Ora, que diferença isso faria? Deveria parar de especular sobre a vida de estranhos e prestar atenção à sua bagagem.

— Srta. Pyatt?

A voz desconhecida era extremamente familiar, despertando na mente imagens de um corpo moreno e musculoso, envolto por lençóis de cetim. Olívia descobriu-se em risco de realizar suas fantasias ali mesmo. Culpando o homem que despertara sua imaginação, virou-se e descobriu que ele não fora embora, mas estava parado bem junto dela.

— Eu... — A boca seca dificultou-lhe a fala. — Sim... Sou Olívia Pyatt. Diane Haran pediu que viesse me apanhar?

Ele sorriu.

— Não exatamente, mas Diane me contou que você es­taria viajando nesse vôo.

Ora, ele conhecia Diane...

— Também veio de Londres? — perguntou.

— Sim — ele respondeu e apontou para o amigo, que o esperava, pacientemente. — B.J. e eu fazemos essa viagem regularmente. O que não recomendo a ninguém.

— Por causa da diferença de fuso horário? — ela conti­nuou a conversa, mas, ao perceber que sua mala daria mais uma volta, falou apressada: — Com licença, preciso apanhar a minha bagagem.

—- Deixe-me apanhá-la para você.

Ele se adiantou um passo, apanhou a mala e depositou-a no chão, aos pés de Olívia. Vestindo calça jeans e um paletó de algodão, ele se movia com maior facilidade do que ela, em seu terninho de veludo. Que, aliás, já começava a fazê-la transpirar, embora isso pudesse ser mero resultado da pre­sente situação. Olívia não estava acostumada a ser abordada por homens desconhecidos.

— É só isso? — ele perguntou e, percebendo o olhar con­fuso dela, explicou: — Sua bagagem.

Olívia ergueu os olhos e, pela primeira vez, deu-se conta de que ele tinha olhos cor de mel, como os de um gato. Também se deu conta de que estava se comportando como uma colegial. Ora, o homem só estava tentando ser gentil!

— Não, não. Tenho mais uma valise. Acho que é sempre assim: uma das malas aparece e temos de esperar pela outra. Não se prenda por mim. Seu amigo dever estar fi­cando impaciente.

— B.J.? — Ele olhou para o amigo e sorriu. — Duvido. É muito mais fresco aqui dentro.

Olívia queria perguntar por que ele estava ali, à espera da mala dela, mas não teve coragem.

— Acha que a secretária da srta. Haran está me espe­rando lá fora? Ela disse que viria me apanhar.

— Bonnie?

— Sim, sra. Lovelace.

— Provavelmente está esperando no saguão de desem­barque. Eu lhe mostrarei quem é quando a virmos.

— Ao que parece, é amigo da srta. Haran — Olívia falou, hesitante.

— Ora, como pude ser tão grosseiro! Desculpe-me por não ter me apresentado. Sou Joe Castellano. Pode-se dizer que fiz um investimento na carreira de Diane.

Estendeu a mão para Olívia, que não teve escolha, senão apertá-la, mesmo sabendo que sua própria mão apresenta­va-se úmida, fosse de suor ou de nervosismo.

— Muito prazer, sr. Castellano.

Seria ele um visitante assíduo, na casa de Diane, em Beverly Hills? Não seria má idéia vê-lo de novo, em breve.

Mal teve tempo de retirar a mão da dele, quando viu a valise se aproximando-se. Adiantou-se para apanhá-la, mas quase caiu, pois havia muita gente em torno da esteira.

— Deixe comigo — ele falou com um toque de impaciência. — Podemos ir, agora?

— Sim, podemos.

Joe chamou um carregador e Olívia acompanhou-o. Sentiu-se aliviada por passarem pela alfândega sem incidentes. Ocorreu-lhe que ele poderia ser um traficante de drogas, que a estivesse usando como cobertura. Então, decidiu que sua imaginação já estava indo longe demais. O fato de ele ter sobrenome italiano , não queria dizer que tinha ligações com a máfia.

No saguão de desembarque, uma barreira separava os passageiros que chegavam das pessoas que os esperavam. Imediatamente, Olívia avistou uma placa com seu nome, nas mãos de uma mulher.

— Aquela deve ser a sra. Lovelace — falou, apontando para uma mulher agitada, de cabelos tingidos de loiro e maquiagem impecável.

Embora aparentasse mais de quarenta anos, usava uma saia curtíssima, que nem na adolescência Olívia pensara em vestir.

— Sim, aquela é Bonnie, mas não a chame de sra. Lovelace. Ela prefere continuar sendo senhorita. — Ele sorriu, fazendo o ar fugir dos pulmões de Olívia. — Vai conviver com sensi­bilidades muito delicadas, aqui. Não se esqueça disso.

A mulher os vira, mas aparentemente não a reconhecera. E, aparentemente, tirara conclusões erradas. Ora, era lisonjeiro pensar que a srta. Lovelace imaginasse que Olívia viajara na companhia daquele homem, mas já era tempo de voltar à realidade.

— Olá, Joe — Bonnie Lovelace cumprimentou-o, como se fossem velhos amigos. Então, lançou um olhar descon­fiado para Olívia. — Diane disse que você viria nesse vôo. Ela sentiu sua falta. Fez boa viagem?

— O de sempre — ele respondeu e estendeu uma nota para o carregador. — Estas senhoritas vão lhe mostrar onde descarregar as malas.

Bonnie voltou a encarar Olívia, boquiaberta.

— Você é a srta. Pyatt?

— Quem mais poderia ser? — Joe comentou com um sorriso irônico. — Achei que faria minha boa ação do dia se a entre­gasse, sã e salva, em suas mãos. — Então, virou-se para Olívia.

— Até logo. Tenho certeza de que nos veremos novamente. Enquanto o observava afastar-se, na companhia do ho­mem a quem chamara de B.J., Olívia foi invadida por uma onda de decepção. Ora, ele não omitira o fato de ser amigo de Diane. Por que ela se sentia assim?

— Srta. Pyatt — Bonnie falou —, desculpe-me, mas não imaginei encontrá-la na companhia de Joe... do sr. Castel­lano. — Fez um sinal para que o carregador as seguisse.

— Viajaram juntos? Como ele descobriu quem você era?

— Ele me ajudou com a bagagem. Deve ter lido meu nome nas etiquetas.

Olívia descobriu-se relutante em contar os detalhes sobre como haviam se conhecido.

Bonnie lançou-lhe um olhar especulativo, antes de atra­vessar a porta de vidro da saída.

— Deixei Manuel no carro... Ah, lá está ele!— Acenou para o homem ao volante de um Limusine. — É tão difícil encontrar uma vaga para estacionar. Tem o mesmo proble­ma, na Inglaterra?

— Às vezes — Olívia respondeu, distraída por um con­versível preto, dirigido por Joe Castellano, que ergueu a mão e acenou para ela. — Na verdade, não tenho carro. Não é necessário, em Londres. Quando quero percorrer dis­tâncias maiores, uso a minha Harley-Davidson.

Bonnie dirigiu-lhe um olhar incrédulo.

— Você tem uma motocicleta? Bem, imagino que não seja difícil dirigi-la, com a sua altura.

Olívia ignorou o comentário, uma vez que já estava acos­tumada a ouvi-lo, e entrou no carro, assim que Manuel abriu a porta.

O couro macio dos bancos, o ar-condicionado e o leve perfume no interior do veículo eram reconfortantes. Olívia mal poderia esperar até poder contar a Alice. Ao contrário de seu pai, a madrasta logo vira as vantagens que aquele trabalho oferecia. Certamente, seria uma experiência da qual Olívia não se esqueceria tão cedo.

O que a fez lembrar de que não pensara nem uma vez em Richard, na última meia hora. Desde o momento em que Joe Castellano lhe dirigira a palavra pela primeira vez, ela se esquecera completamente de que, em breve, veria Richard. Estremeceu ao perguntar-se qual seria a reação dele.

Bonnie entrou no carro, interrompendo-lhe os pensamentos. O que era bom. Afinal, fora Diane quem a chamara. Se Richard tivesse alguma queixa, que fizesse à sua atual esposa.

Respirou fundo e olhou pela janela. Era a primeira vez, desde que aceitara aquela proposta, que se sentia realmente otimista com relação aos resultados de seu trabalho. Embora fosse uma grande tolice pensar assim, estava convencida de que ter conhecido Joe Castellano a fizera sentir mais auto-confiante. Richard não era o único homem no mundo, afinal.

— Este lugar está ficando cada dia pior —• Bonnie comentou com um suspiro exagerado. — Vou acabar tendo um ataque cardíaco, se tiver de vir a este aeroporto com freqüência.

— Sinto muito — Olívia murmurou, sentindo-se culpada, — Obrigada por ter vindo me buscar. Eu poderia ter tomado um táxi e...

— Diane jamais permitiria uma coisa dessas! Fez boa viagem? Que filme exibiram durante o vôo? Ultimamente, só vejo filmes decentes quando viajo.

— Bem, eu não... — Olívia começou a responder, mas foi interrompida novamente.

— Deve achar estranho eu dizer isso. Viver em Los Angeles sem assistir aos maiores sucessos de bilheteria é impensável. A verdade é que passo o tempo todo assistindo à televisão.

— Também gosto de televisão — Olívia contou.

Bem, passara a gostar depois do divórcio, pois não era capaz de voltar aos programas de solteira, àquela altura.

— Porque, trabalhar para Diane toma a maior parte do meu dia e, quando chego em casa, estou exausta — Bonnie continuou, como se Olívia não houvesse falado. — Você tam­bém vai acabar se acostumando. Juro que, às vezes, acho Diane generosa demais.

Olívia assentiu, mas repetiu o erro de expressar suas opiniões. Viu que Manuel a observava pelo espelho retro­visor, com um sorriso divertido. Quando ele ofereceu uma piscadela, ela teve de se esforçar para não rir. Era óbvio que estava acostumado à srta. Lovelace.

Talvez devesse chamá-la de sra. Lovelace. Assim, certamente conseguiria chamar-lhe a atenção. Porém, decidiu manter-se calada, pois a última coisa de que precisava eram inimigos, em Los Angeles. Enquanto não soubesse exatamente que atitude Diane teria com ela, seria melhor manter a discrição.

Enquanto apreciava as ruas de Los Angeles pela janela, Olívia sonhava com um banho e roupas limpas. Gostaria de estar apresentável, para conhecer sua anfitriã. Pergun­tou-se onde ficaria hospedada. Kay informara apenas que a secretária da srta. Haran tomaria as providências. Talvez Olívia ficasse na casa de Diane. Segundo Kay, tratava-se de uma mansão "de cinema".

Aproveitou a vista da janela do carro para distrair-se dos pensamentos obsessivos sobre a anfitriã e o ex-marido.

Passaram por bairros famosos, como Marina del Rey e Santa Mônica. Bonnie apontou para as letras gigantes de "HOLLY­WOOD", que pairavam acima do que fora, um dia, a capital mundial do cinema. Hoje em dia, segundo a secretária, parte do brilho havia se apagado, mas ainda restava uma comuni­dade lucrativa no mercado cinematográfico, complementado pelas bem-sucedidas estrelas das novelas da televisão.

Beverly Hills situava-se a oeste de Hollywood, mas para surpresa de Olívia, a limusine deixou a avenida antes que ela adentrasse o bairro famoso. Minutos depois, entravam no Beverly Plaza Hotel.

Quando um porteiro uniformizado abriu a porta para Olí­via, Bonnie declarou:

— Seja bem-vinda à América. Creio que vai ficar bem instalada aqui.

"Aqui" referia-se a uma suíte de cobertura, no décimo segundo andar do hotel. Enquanto Manuel entregava a ba­gagem a um carregador, Bonnie cuidava do registro de Olí­via na recepção. Em seguida, a secretária aproximou-se e entregou-lhe um cartão, em lugar da chave. Para Olívia, era novidade saber que os hotéis, agora, utilizavam cartões magnéticos, cujos códigos eram alterados, cada vez que um hóspede deixava o hotel. Além de mais seguros, eram mais fáceis de carregar.

A suíte era, sem dúvida, a mais luxuosa que Olívia já vira, decorada em tons de verde e azul, bem claros, com uma vista fantástica. Bonnie aproximou-se da janela.

— Aquele é o Beverly Wiltshire — apontou o hotel, consi­derado um ponto turístico na cidade. — E ali está Rodeo Drive.

Olívia sabia que deveria mostrar-se impressionada, mas estava se sentindo profundamente decepcionada. Por mais relutante que se sentisse quanto a encontrar Diane e, talvez, Richard, havia se preparado para tal momento. Agora, sabia que teria de se preparar novamente.

— Você gostou, não? — Bonnie perguntou, preocupada. — Veja. Ali é o quarto. E aquele é o banheiro, com sauna e hidromassagem.

— Muito bom.

Olívia tentou parecer entusiasmada, mas não era fácil. Lamentou não ter insistido para cuidar ela mesma de suas acomodações, pois se sentiria muito mais à vontade em um hotel pequeno e tranqüilo.

— O hotel pode lhe fornecer um computador — Bonnie acrescentou. — Diante não sabia exatamente o que você vai precisar, por isso deixou tudo por minha conta. Estarei em contato constante com você. Assim, providenciarei tudo o que pedir. Diane achou que você trabalharia tranqüila, aqui.

E ficaria longe do marido dela.

Enquanto Bonnie encarregava-se de dar a gorjeta ao car­regador, Olívia estudou a suíte com olhar cínico. Teria Richard abandonado a vida feliz que tinha com ela por aquilo? Pelo estilo de vida milionário? Um preço um tanto alto pelas acusações que ele fizera, de que ela não podia lhe dar os filhos que ele tanto queria ter. Ironicamente, Richard e Dia­ne não tinham filhos. O que, evidentemente, poderia ter sido uma decisão dela.

— Precisa de ajuda para desfazer as malas?

O carregador se fora e Bonnie não escondia a irritação. Certamente, esperava uma reação muito mais animada de Olívia, diante da suíte espetacular. Olívia perguntou-se se a secretária sabia que Richard já fora seu marido. Prova­velmente, não, pensou.

— Não, obrigada — respondeu à pergunta, tirando o pa­letó. — Você foi muito gentil.

— Muito bem. Sugiro que descanse um pouco e, então, peça o jantar ao serviço de quarto. Terá tempo de sobra para conhecer o hotel, quando seu corpo estiver acostumado ao novo fuso horário.

Olívia assentiu. Era verdade. Sentia-se ligeiramente ator­doada e aérea. Talvez Diane tivesse razão. Seria bom ter um refúgio onde se recolher. Assim que se acostumasse ao ambiente luxuoso, claro. No momento, estava cansada de­mais para importar-se com qualquer coisa.

 

Olívia decidiu deixar as malas para o dia se­guinte. Assim que Bonnie saiu, tomou um banho e pediu uma salada para jantar. Acabou adormecendo antes de terminar o prato.

Quando acordou, ainda estava escuro, lá fora. Seu relógio dizia que já era hora do almoço, mas o despertador sobre mesa-de-cabeceira indicava quatro horas da manhã. Teria de esperar, no mínimo, três horas pelo café da manhã. Quan­to tempo seu corpo levaria para se habituar à diferença de oito horas em sua rotina?

Como sentisse fome, apanhou os pãezinhos que não havia comido no jantar e comeu-os com manteiga. Tendo acalmado o estômago, voltou a dormir.

Voltou a despertar ao amanhecer. Aproximou-se da ja­nela, incrédula. Estava mesmo na Califórnia! Vinte e quatro horas antes, estava em sua casa!

Ao telefone, pedindo o café da manhã, descobriu que o serviço de quarto atendia vinte e quatro horas, o que sig­nificava que ela poderia ter pedido um lanche, de madru­gada. Porém, era muito mais agradável comer cereais, mo­rangos e ovos mexidos, sentada à mesa junto da janela, sentindo o sol banhar-lhe a pele. Sentia-se mais disposta e mais otimista do que na véspera.

Desfizera as malas enquanto esperava pelo café da ma­nhã. Por isso, às oito horas já havia tomado outro banho e colocado um vestido verde, curto, de algodão. Usou uma echarpe para prender os cabelos.

Admirando o próprio reflexo no espelho, perguntou-se se o vestido era curto demais, o decote, ousado demais, os ca­belos, chamativos demais. Então, decidiu que estava ficando neurótica e achou melhor ficar exatamente como estava, pois precisaria de toda a munição disponível para a entre­vista que enfrentaria.

Imaginando que ninguém procuraria por ela antes das nove horas, decidiu fazer uma excursão pelo hotel. Não só distrairia a atenção, como também descobria tudo o que o hotel tinha a oferecer. Afinal, passaria bastante tempo ali.

Para sua surpresa, o andar térreo encontrava-se apinhado. Como ela pudera notar, durante sua visita a Nova York, os americanos costumavam fazer reuniões de negócios no café da manhã. E não faltavam homens e mulheres, vestindo trajes formais e carregando maletas, pelo saguão do hotel.

Lembrou-se de Joe Castellano e perguntou-se se ele cos­tumava tomar o café da manhã naquele hotel. Ora, seria muita tolice imaginar que ele fosse até lá, procurá-la.

Quando avistou a piscina, decidiu sair para investigar o ambiente. O hotel parecia ter sido construído em torno do jardim tropical, em cujo centro estendia-se a piscina, cris­talina e convidativa. Embora o lugar lembrasse os anos vinte, oferecia todos os confortos do final do século.

Era bom saber que poderia nadar, sempre que sentisse vontade, especialmente no calor do meio do dia. Sorriu con­sigo mesma, refletindo que corria o risco de gostar demais de seu exílio temporário. Não poderia esquecer-se do motivo pelo qual estava ali.

O que não fora difícil, na noite anterior. Então, a estra­nheza dos arredores, o fato de que não conhecera Diane e a notícia de que não se hospedaria na mansão da atriz haviam deixado Olívia deprimida. A única coisa boa que acontecera fora conhecer Joe Castellano. Mesmo assim, ela se considerava inteligente demais para contar com a pos­sibilidade de voltar a encontrá-lo.

Porém, ele fora gentil e, por isso, impedira que ela fizesse alguma tolice, como tentar telefonar para Richard, ou chorar até dormir. Agora, Olívia sentia-se disposta a trabalhar.

Afinal, fora esse o motivo que a levara até lá. Pouco im­portava se veria Richard ou não.

Dando a volta na piscina, Olívia admitiu que aquilo não era verdade. Queria ver Richard, mas só para saber se ele estava bem. Conheciam-se havia muito tempo e era natural que ela se preocupasse com o bem-estar dele.

Embora ele não houvesse hesitado em magoá-la, Olívia era muito diferente de Richard e respeitava os sentimentos das pessoas. Só teria de lembrar-se de que já fora ferida uma vez, e não poderia permitir que isso acontecesse de novo.

Ao voltar para a suíte, a luz vermelha do telefone piscava, indicando que havia recados para ela. Ligou para a recepção e foi informada de que deveria estar no saguão, às dez horas, quando um carro iria apanhá-la. Olívia calculou que Bonnie Lovelace iria buscá-la.

Às cinco para as dez, encontrava-se no saguão. Decidira ficar com o vestido verde, mas trançara os cabelos e colocara brincos, a fim de parecer mais sofisticada e menos informal.

— Liv?

Estava observando um garotinho que dava muito trabalho a um garçom, quando sentiu um leve toque no ombro. O sotaque britânico não deixou dúvidas quanto a quem se aproximara.

— Richard!

— Olá, Liv.

Antes que ela tivesse tempo de reagir, Richard depositou um longo beijo em seus lábios, parecendo convencido de que era aquilo o que ela queria. Foi com alguma surpresa que Olívia descobriu que teria preferido um cumprimento menos íntimo.

— Senti tanto a sua falta, Liv — ele murmurou, com olhos cheios de lágrimas.

Olívia permaneceu em silêncio, examinando-o da cabeça aos pés. Richard mudara. Seus olhos apresentavam-se aver­melhados, mas não só pelo efeito das lágrimas, provocadas pela emoção de revê-la. Também estava mais gordo. A bar­riga parecia querer saltar por sobre o cinto de couro. Os cabelos haviam sido descoloridos e exibiam aspecto artificial. Vestindo bermuda e camisa pólo, ele pouco se parecia com a imagem que ela havia guardado na memória.

Você está linda! -—ele continuou, estudando-a de cima a baixo, com olhar faminto. — Vamos. O carro está à nossa espera. Diane vai ficar chocada quando puser os olhos em você!

— Duvido.

Olívia acompanhou-o com relutância. Exceto pelos quilos que perdera, depois do divórcio, e pelos cabelos mais curtos, mudara pouco ao longo daqueles anos. E, se comparada com Diane Haran... ou seria Diane Haig?... não passava de uma mulher comum, sem maiores atrativos.

E ninguém sabia disso melhor do que Richard.

Lá fora, a limusine que levara Olívia do aeroporto para o hotel encontrava-se estacionada, com Manuel ao volante. Ela sentiu uma onda de alívio por ver o motorista, pois temera que Richard houvesse ido buscá-la sozinho. Apesar dos boatos sobre o casamento falido, parecia que Diane não quisera arriscar-se. Ou, talvez, o odor de álcool no hálito de Richard, àquela hora da manhã, explicasse o cuidado da atriz em não entregar-lhe o carro.

Ao entrar no carro, Olívia tratou de se manter bem afas­tada dele.

— Não confia em mim, Liv? — Richard protestou, com ar magoado, ao mesmo tempo que tentava segurar a mão dela. — Você não costumava olhar para mim desse jeito. Meu Deus, o que fiz de nossas vidas?

Embaraçada, Olívia olhou para Manuel, que mantinha os olhos fixos adiante, mas obviamente ouvia as palavras de Richard. O ex-marido não só parecia coberto de autopiedade, mas também dava a impressão de que ela partilhava seus sentimentos.

O que não era verdade.

Bem, não totalmente. Para ser honesta consigo mesma, Olívia teria de admitir que não desejava vê-lo mal. Afinal, tratava-se de um ser humano, alguém que já fizera parte de sua vida. Porém, não lhe ocorrera que ele realmente quisesse vê-la de novo.

— Como vai você? — Richard perguntou, parecendo ter decidido guardar um pouco mais seus sentimentos para si.

— Bem — ela respondeu com entusiasmo calculado. — A diferença de fusos está me causando alguns problemas. Acordei às quatro horas da manhã. Pode acreditar? Ainda bem que consegui dormir de novo.

Richard reclinou-se no banco, apoiando um braço no encosto.

— Cada pessoa reage de uma maneira diferente — disse.

— Não costumo ter esse tipo de problema, mas costumo viajar muito.

— Com Diane?

— Agora, não. No passado, viajava com ela, assim como acreditava que ela queria â minha companhia. Agora, passo a maior parte do tempo em casa.

— Bem, você vive em um lugar muito bonito — Olívia comentou, olhando pela janela. — Estamos em Beverly Hills?

— Está em Beverly Hills, desde que deixou o hotel — ele respondeu com indiferença. — Toda esta região é conhecida como cidade de Beverly Hills. Que piada! Na verdade, é sim­plesmente a região oeste de Los Angeles, mas gente como minha esposa acredita que isto é o paraíso na terra.

— Bem, creio que...

— É verdade. Estou lhe dizendo. Diane adora o estilo de vida da costa Oeste. Acho que não comeu nem um pedacinho de carne, nos últimos quatro anos! Só come frutas, cereais e passa o dia fazendo terapia, exercícios, massagem. Você não imagina como estou farto de tudo isso, Liv. É por isso que estou tão feliz por vê-la aqui.

— Richard...

— Não é real, Liv. As pessoas que vivem aqui não vivem no mundo real. — Lançou um olhar de desprezo para as mansões de muros altos. — Fortaleza América! Sabe dizer o que há de tão excitante, aqui?

Sem saber o que dizer, Olívia ficou calada. Quando Richard havia se tornado tão cínico? Sentiu uma pontada de tristeza.

— Bem, imagino que deva parabenizá-la pelo seu sucesso — ele continuou, ainda em tom amargo. — Minha Liv, es­critora! Quem diria! Eu disse que seu talento estava sendo desperdiçado, naquela revista de fofocas.

A verdade era que ele nunca dissera isso. Muito pelo contrário, mas Olívia decidiu não argumentar, pois não queria chegar na casa de Diane, ao lado de um Richard arra­sado. Mais um pouco, e ele estaria chorando em seu ombro.

Desejou que ele recuperasse a compostura e parasse de tratá-la como cúmplice. Com um suspiro, perguntou-se o que vira naquele homem. Seria possível que ele sempre culpasse os outros pelo que dava errado em sua vida?

Lembrou-se de que, quando haviam tentado ter filhos, sem sucesso, Richard a culpara. Os dois haviam feito exames e, aparentemente, não havia nada de errado com eles. Ainda assim, ele a culpara.

— Eu disse a verdade, Liv — Richard murmurou. — Nunca vai saber quanta falta senti de você. Deixá-la foi o maior erro que cometi em minha vida.

— Nesse caso, não deveria ter me abandonado! — Olívia retrucou, irritada.

Era óbvio que Manuel ouvia tudo o que estavam dizendo. Richard não tinha o direito de envolvê-la em seus problemas conjugais.

— Sei que magoei você, Liv, mas espero que possa me perdoar. O amor que partilhávamos... Não acredito que te­nha morrido.

— Você o matou, Richard — ela declarou, esquivando-se às tentativas dele em tocá-la, sentando-se no banco de frente para ele. — Falta muito para chegarmos? — perguntou, olhando em volta.

— Não.

Richard pareceu contrariado, mas ao menos parou de perturbá-la. Olívia suspirou, mal acreditando que aquilo es­tava mesmo acontecendo.

Poucos minutos depois, a limusine atravessou altos por­tões de ferro, seguindo por uma alameda arborizada. Olívia sentiu um aperto no peito, à medida que se aproximavam da casa de dois andares, ainda maior e mais impressionante do que ela imaginara.

— Bem-vinda à Villa Mariposa — Richard falou com iro­nia.— Está preparada para encontrar a sua patroa?

— Ela não é minha patroa!

— Sei que não é, mas é melhor não permitir que ela se esqueça disso. — Puxou-a pelo braço, forçando-a a sair do carro. — Vá em frente, Liv. Eu sabia que não é tão indi­ferente a mim, quanto tenta fazer parecer.

Olívia desvencilhou-se assim que foi possível, notando que, mais uma vez, Manuel os observava com olhar curioso. E quem poderia culpá-lo?

A porta da frente se abriu e uma empregada, vestindo uniforme azul e avental branco, recebeu Olívia com um sor­riso gentil.

— A srta. Haran está à sua espera, na piscina, srta. Pyatt — informou, fazendo um sinal para que Olívia a seguisse.

— Obrigada.

Atravessou salões espaçosos, todos iluminados pelo sol e repletos de plantas e flores. Quando se aproximava da imen­sa porta de vidra, avistou a piscina de água cristalina.

E viu Diane.

A mulher que Olívia jamais imaginara encontrar nova­mente estava acomodada em uma espreguiçadeira, prote­gida do sol por um grande guarda-sol amarelo. Embora cer­tamente soubesse que Olívia havia chegado, não olhou na direção dela. Sua atenção concentrava-se em uma criança, que brincava à beira da piscina, ao lado dela.

Olívia sentiu o coração disparar. Se a criança era filha de Diane, aquele fora um segredo muito bem guardado, pois a imprensa nada publicara a respeito. Seria filha de Richard, também? Ela não pôde evitar uma pontada de in­veja, pois sempre desejara ter um filho.

Ao ouvir passos se aproximando, Diane murmurou algo para a criança e levantou-se com movimentos ágeis e gra­ciosos. Usando um maio exótico, estava tão linda quanto fora, cinco anos antes. E, claro, não aparentava os trinta e cinco anos que tinha.

— Olá — Diane cumprimentou-a, sem o menor sinal de formalidade.

— Olá — Olívia respondeu com dificuldade, só então dan­do-se conta de quanto se sentia tensa.

— Fico contente que tenha concordado em vir, srta. Pyatt... ou devo chamá-la de Olívia? Provavelmente, não vai acreditar, mas gostaria que nos tornássemos amigas.

Olívia sentiu as faces arderem e odiou-se por isso. Ora, era Diane quem deveria estar constrangida! Por outro lado, a atriz estava habituada a entrevistas difíceis e sabia en­frentá-las com naturalidade.

— Não creio que isso seja possível, srta. Haran — de­clarou, rígida.

— Bem... veremos — Diane replicou com um sorriso enig­mático; — Vamos sentar e conversar um pouco. Ah, por favor, pode me chamar de Diane. Srta. Haran é formal demais.

Olívia respirou fundo. O que realmente queria era voltar para o hotel. Quando se preparara para aquele encontro, não contara com a informalidade de Diane. Agora, pergun­tava-se o que havia esperado da esposa de Richard.

No entanto, por mais irreal que a situação pudesse pa­recer, fora até ali para realizar um trabalho. A menos que estivesse disposta a ser processada por quebra de contrato, teria de acatar as vontades de Diane. Assim, sentou-se à sombra, abriu a bolsa e retirou de dentro dela o gravador e seu bloco de anotações.

Enquanto isso, Diane voltara a se aproximar da criança. Era um garotinho, de pele cor de oliva e cabelos escuros, cujo sorriso denunciava a ausência de vários dentinhos.

— Vá encontrar sua mãe — Diane instruiu-o, depois de envolver-lhe os ombros em uma toalha felpuda. Então, virou-se para Olívia e explicou: — Antônio é o filho temporão de Manuel e Maria.

Olívia assentiu e voltou a verificar se o gravador tinha pilhas novas. Foi um alívio saber que o menino era filho da empregada e do motorista.

— Gostaria de beber alguma coisa?

Diane sentou-se, estudando-a com olhar curioso. Olívia per­guntou-se o que ela estaria pensando. Seria mais fácil para a atriz, do que para ela, enfrentar o encontro embaraçoso?

— Bem, eu...

—Vamos tomar um café — a outra decidiu e, levantando-se de novo, apertou um botão na parede. — Acho que devemos nos conhecer melhor, antes de começarmos a trabalhar.

Olívia acomodou o gravador sobre as coxas e cruzou as mãos.

— Quer dizer que vai me contar por que decidiu pedir que eu escrevesse a sua biografia? — perguntou a queima-roupa, surpresa pela própria audácia.

Diane deu de ombros.

— Você sabe por que a escolhi. Eu disse à sua agente que gosto do seu trabalho.

— Conhece o meu trabalho?

-— Em parte. Li a biografia de Eileen Cusack. Nunca tinha ouvido falar dela, antes, mas depois de ter lido o seu livro, passei a admirá-la.

— Você leu o livro? — Olívia insistiu, incrédula.

— Li. A sra. Goldsmith não lhe disse? Diane mostrou-se confusa.

— Sim, ela disse — Olívia respondeu, voltando a corar. — Mas, às vezes, as pessoas... dizem o que pensam que queremos ouvir.

—- Está se referindo a mim?

— Não importa. Fico contente em saber que leu meu livro. Eileen foi uma mulher de fibra.

— Sem dúvida — Diane concordou, pensativa, mas Maria apareceu, solícita. — Café e suco de laranja, por favor, Maria.

A empregada assentiu com um sorriso e afastou-se. Olívia começou a transpirar, pois o calor era excessivo. Cercada por ciprestes, a piscina fora privada da brisa fresca.

— Talvez você esteja pensando que a convidei para vir aqui por causa de Ricky — Diane falou, após um instante. — Não é verdade, embora ele esteja muito feliz pela sua presença.

— Está?

— Ora, você sabe que sim. Não subestime a minha in­teligência, fingindo que ele não disse nada. Provavelmente, ele também contou que estamos enfrentando alguns pro­blemas. Conheço meu marido.

— Não tenho nada a ver com isso — Olívia afirmou, pensando que um dos famosos terremotos que assolam a região poderia engoli-la, naquele momento.

— Se é o que você diz... — Diane deixou claro que não insistiria no assunto. Ao menos, por enquanto. Reclinou-se na espreguiçadeira e disse: — Conte-me como se tornou escritora.

— Bem, sempre escrevi... — Olívia começou, mas foi in­terrompida por uma comoção no salão envidraçado.

Outro visitante acabara de chegar. Era um homem e pa­recia estar fazendo brincadeira com Maria, que ria muito. Quando Olívia e Diane viraram-se, ele já se aproximava.

Antes mesmo que Diane se levantasse de um pulo e cor­resse para atirar-se nos braços dele, Olívia reconheceu-o, desolada. Aparentemente, Joe Castellano era um amigo muito mais próximo de Diane do que ela havia imaginado.

 

Olívia desviou o olhar do casal abraçado e ten­tou concentrar-se no bloco de anotações. Pen­sou nas perguntas que deveria fazer a Diane. Não queria detalhes históricos, mas sim suas opiniões sobre questões como o aumento da criminalidade e a proliferação das drogas.

Porém, depois de ter escrito as palavras "armas" e "he­roína", não conseguiu pensar em mais nada. Sua mente fixara-se na imagem de Diane e Joe Castellano abraçados.

De repente, lembrou-se de algo que Kay dissera: corriam boatos de que Diane estava interessada por outro homem. Ah, não! Seria Joe Castellano amante de Diane Haran? Quan­do ele se apresentara como amigo de Diane, Olívia acreditara.

O calor ameaçou sufocá-la. Gostaria de não estar ali, ou de que Joe Castellano houvesse escolhido outro momento para anunciar o seu retorno. Depois das fantasias malucas que tivera com ele, não se sentia disposta a vê-lo de novo. Ao menos, não tão cedo.

Ouviu vozes e percebeu que os dois se aproximavam. Entrou em pânico, sem saber o que fazer.

— Joe me contou que vocês já se conheceram — Diane falou, com um sorriso largo, sem demonstrar hostilidade.

E por que deveria? Olívia conhecia as próprias imperfei­ções e sabia que jamais poderia competir com a outra.

— Ah, sim — conseguiu murmurar, antes de erguer os olhos para encarar Joe. — Como vai, sr. Castellano? E um prazer revê-lo.

Ele sorriu.

— Vejo que conseguiu.

— O. quê? Ah, sim... A sra. ... srta. Lovelace foi muito gentil.

— Bonnie? — ele inquiriu com uma risada e sentou-se. — Se ela a ouvir chamá-la assim, vai ter um ataque.

Diane postou-se ao lado dele e pousou a mão possessiva sobre os ombros largos.

— Pare de perturbar a srta. Pyatt — disse. — Vai tomar café conosco?

— Prefiro algo mais refrescante.

— Cerveja?

— Cedo demais para cerveja.

Olívia perguntou-se se o comentário seria uma alusão a Richard. E, também, gostaria de saber se Joe sabia de seu relacionamento com Richard. Teria Diane contado a ele que pedira à ex-esposa de seu marido para escrever sua biografia?

— Acha que vai gostar daqui? — ele perguntou, voltando a encarar Olívia.

— É diferente — ela respondeu, evasiva. — Vive em Los Angeles, sr. Castellano?

— Ele tem uma casa em Malibu, mas mora em San Fran­cisco — Diane respondeu por ele. Então, como se estivesse impaciente pela interrupção, voltou a atrair a atenção de Joe novamente: — Vai ficar alguns dias, desta vez? Tenho muito o que discutir com você, antes de partir para a costa Leste.

Joe deu de ombros.

— Pensei que fosse estar muito ocupada, aqui — replicou, olhando para Olívia. — Não vai usar todo o seu tempo na biografia que decidiu publicar?

— Sempre tenho tempo para você — Diane respondeu com voz sensual. — Vai passar esta noite na casa da praia?

— Tenho algumas reuniões de negócios, amanhã, e no início da semana. Portanto, acho mais fácil ficar por aqui, mas estou pensando em passar o fim de semana na praia. Por quê? Você e Richard gostariam de tomar alguns drin­ques comigo, no sábado à noite?

— Bem, eu... — Diane pareceu hesitante, mas depois de olhar para Olívia, tomou uma decisão: — Por que não? Desde que a srta. Pyatt possa ir conosco. Tenho certeza de que ela vai adorar o pôr-do-sol no Pacífico. Pedirei a Ricky que mostre a ela os pontos turísticos. O que acha?

— Tenho certeza de que o sr. Castellano não planejava me convidar... — Olívia começou, aflita.

Tinha a sensação de que havia algo no ar, algo de que ela não ia gostar. O que Diane estava tentando fazer, afinal? Usá-la para livrar-se de Richard?

— O sr. Castellano terá grande prazer em recebê-la — ele a interrompeu com um sorriso — mas, por favor, cha­me-me de Joe. Ninguém faz cerimônia, por aqui.

— Bem...

— Joe tem razão — Diane falou depressa, aparentemente decidida a ser generosa, desde que conseguisse o que queria.

— E uma ótima idéia, Olívia. A casa de Joe é maravilhosa. Se levar um traje de banho, poderemos nadar à noite.

Olívia sabia que estava sendo manipulada e não gostava nada disso. Por outro lado, não estava surpresa, uma vez que desconfiara dos motivos de Diane, antes mesmo de dei­xar a Inglaterra.

— Confie em mim, Olívia. Vai se divertir.

Joe Castellano, ao menos, parecia ter percebido a ambi­valência dela. Olívia perguntou-se se ele sabia o que Diane estava fazendo. Ora, era claro que sabia! Por que mais ele fora visitá-la, no dia seguinte à sua chegada?

— Eu... planejei passear por Los Angeles, no fim de se­mana — falou, determinada a não aceitar o cargo de babá de Richard.

Diane lançou-lhe um olhar impaciente.

— Terá tempo de sobra para fazer turismo! — exclamou.

— Não acredito que esteja recusando o convite. Pensei que agarraria com unhas e dentes a chance de...

— De passar algum tempo na companhia de meu ex-ma­rido? — Olívia inquiriu, decidindo que Diane não era a única que poderia dizer o que bem entendesse. Ouviu o ruído baixo emitido por Joe Castellano, mas não hesitou. —Sinto muito, srta. Haran, mas não foi para isso que vim a Los Angeles.

— Eu ia dizer que pensei que agarraria com unhas e dentes a chance de conversar com pessoas que me conhecem — Diane retrucou. — Por acaso achou que seríamos os únicos con­vidados de Joe? Nós... ele tem muitos amigos. Você gostaria de conversar com o irmão dele, que é ator, como eu. As faces de Olívia ardiam.

— Bem, eu sinto muito, mas não costumo misturar tra­balho com prazer. Além disso, é evidente que o sr. Castellano quer conversar com você. Talvez seja melhor eu voltar em outra hora...

— Ah, pelo amor de... — Diane começou, irritada, mas foi interrompida por Joe, que se pôs de pé.

— Calma — ele disse, sem se dirigir a nenhuma das duas em particular. — Tenho um compromisso e já estou de saída.

— Não vá — Diane implorou, também se levantando e agarrando-lhe o braço. — Maria vai nos trazer café e suco de laranja. Fique mais um pouco.

— Para ser acusado de ter impedido... a srta. Pyatt de fazer o seu trabalho? De jeito nenhum. Telefonarei mais tarde. Dê lembranças minhas a Ricky.

— Mas, Joe...

Diane soou desesperada, mas ele já se afastava. Com um aceno para as duas, desapareceu dentro da casa. Pouco de­pois, elas ouviram o motor de um carro sendo ligado.

Um silêncio constrangedor abateu-se sobre as duas mulheres. Diane voltou a sentar-se e Olívia desejou possuir um carro à sua disposição, para também ir embora, imediatamente.

— Sente-se, por favor.

Foi uma ordem, mas Olívia permaneceu imóvel. — Ainda quer o livro? — perguntou, esperando que Diane dissesse que não.

— Se ainda quero? É claro que quero! Foi para isso que trouxe você aqui. Se prefere arruinar qualquer possibilidade de ter uma vida social, enquanto estiver por aqui, o problema é seu.

Ao ouvir passos, Olívia sentou-se.

— Café e suco de laranja — Maria anunciou com um sorriso, depositando a bandeja ao lado da patroa. — Quer que eu sirva?

—Não, obrigada — Diane murmurou, dispensando a em­pregada com um gesto quase rude. Maria afastou-se, confusa.

— Prefere café ou suco? — Diane perguntou.

— Suco — Olívia respondeu sem hesitar, os olhos fixos nos cubos de gelo dentro da jarra.

Diane encheu um copo e estendeu-o para ela.

— Está precisando se refrescar um pouco — disse, em tom dúbio.

— Está muito quente, aqui fora — Olívia declarou, de­terminada a mostrar a Diane que não se deixaria intimidar. — Se soubesse que trabalharíamos ao ar livre, teria vindo preparada.

Diane serviu-se de café, sem açúcar e sem creme.

— Gostaria de trabalhar dentro de casa? — perguntou em tom crítico. — Você é como Ricky, acostumada a climas mais frios.

Embora tivesse vontade de dizer que não era como Richard, Olívia manteve-se calada, pois além de não querer voltar a falar sobre ele, suspeitava que aquela fora uma isca que Diane usara.

— Conte-me como conheceu Joe, no aeroporto — Diane mudou de assunto. — Ele deve ter reconhecido você pela foto na capa do livro sobre Eileen Cusack.

Olívia assentiu. Não poderia dizer a Diane que ficara olhando para ele, como uma colegial.

— Ele é um gato, não é? — a atriz continuou. —Deve ter ficado curiosa de saber quem ele era. Aposto que foi ele quem se aproximou. Você não parece ser do tipo que toma iniciativas.

— Tem razão. Sou diferente de você. Não dou em cima de todo homem que vejo. O sr. Castellano foi muito gentil. Percebeu que eu era estrangeira e me ajudou.

— Acredite ou não, também não "dou em cima de todo homem que vejo". Tudo bem. Sei que ainda não me perdoou pelo que aconteceu entre você e Ricky, mas não foi minha culpa. Quando um não quer, dois não brigam, como dizem. Detesto lhe contar, mas foi ele quem tomou a iniciativa.

— Não acredito em você!

— Bem, você é quem sabe. Já não importa. Todos nós tivemos tempo bastante para refletirmos sobre nossos erros.

Olívia respirou fundo. Não permitiria que Diane a ma­nipulasse. A verdade era que, àquela altura, era difícil acre­ditar que, antes de deixar a Inglaterra, sentira-se ansiosa para ver Richard e, de certa forma, animada com a notícia de que o casamento deles não ia bem.

— Não estou interessada no seu relacionamento com seu marido. Podemos continuar nossa entrevista? Eu gostaria de confirmar alguns detalhes preliminares, hoje. Então, podere­mos nos concentrar na forma que você deseja para a biografia.

Diane sorriu.

— Não acredito em você.

— Não acredita em quê?

— Que não se importa comigo e com Richard, que veio apenas pelo trabalho. Você não é tão fria, Olívia. Sei disso.

Olívia respirou fundo, buscando controle.

— Você não sabe nada a meu respeito — declarou com firmeza. — Cinco anos se passaram, desde o nosso último contato. Eu mudei, você mudou, todos nós estamos cinco anos mais velhos. Não sou mais uma reporterzinha sem futuro, srta. Haran. Tenho uma carreira independente, agora.

: Sei disso, também, e respeito o seu sucesso. É por isso que está aqui. Mas não finja que não sente mais nada por Ricky. Não sou presunçosa a ponto de acreditar que foi o meu convite que a trouxe aqui.

— Mas foi.

O que não era verdade, mas Diane não precisaria saber. Assim como continuaria ignorando o fato de que, agora, Olívia sentia-se atraída por outro homem.

— Está mentindo — a outra persistiu, embora não de­monstrasse qualquer animosidade. — Talvez este não seja o melhor momento para essa discussão. Amanhã é sexta-feira. Sugiro tirarmos o fim de semana de folga, para co­locarmos as idéias em ordem. Voltaremos a nos encontrar na segunda-feira.

— Quer que eu vá embora?

— Acho uma boa idéia. Você, não? Preciso ir ao estúdio, hoje à tarde e acredito que você gostaria de descansar um pouco. Eu deveria ter imaginado que seria difícil trabalhar, antes de você se habituar à diferença de fuso horário.

Manuel levou Olívia de volta para o hotel, e ela ficou satisfeita ao descobrir que Richard não a acompanharia. Precisava de algum tempo para ordenar as idéias, antes de enfrentar o ex-marido novamente. Perguntou-se se ele sabia o que a esposa pensava. Para Olívia, era óbvio que os motivos de Diane não eram tão diretos quanto ela tentava fazer parecer.

Sentia-se cansada, quando entrou na suíte. Embora ainda fosse meio-dia, seu relógio biológico indicava que já era noite. Diane lhe fizera um favor, dando-lhe o fim de semana de folga, mas Olívia sabia que a outra não estava interessada em seu bem-estar.

A imagem de Joe Castellano invadiu-lhe a mente, enquanto ela se sentava na beirada da cama. Seria ele só um amigo de Diane? Ou seria seu amante? Era uma grande ironia as duas se sentirem atraídas pelo mesmo homem... outra vez.

Deitou-se e relaxou, cansada demais para continuar ten­tando desvendar enigmas. Ao ouvir o toque do telefone, sen­tiu-se desorientada. O que estava fazendo na cama, vestida, quando o dia ainda estava claro, lá fora? Olhou para o relógio e constatou que já passava de quatro e meia da tarde. Dor­mira por quase cinco horas!

Só então deu-se conta de onde estava e o que se passava em sua vida. E, também, descobriu-se faminta. Esfregando os olhos, atendeu o telefone:

— Alô?

— Liv! Até que enfim! Já estava ficando preocupado. A recepcionista garantiu que você estava no quarto, mas estou tentando falar com você há horas!

— Horas? Richard, eu...

— Bem, acho que meia hora — ele se corrigiu depressa. — Se você não tivesse atendido, desta vez, eu iria até o hotel. Fiquei preocupado, Liv. Por que foi embora, sem ao menos se despedir?

— Diane não explicou por que vim embora? — Olívia perguntou, irritada. — Foi ela quem sugeriu que eu apro­veitasse o fim de semana para descansar e me familiarizar com a cidade. Voltaremos a nos encontrar na segunda-feira.

— Foi o que ela me disse, mas eu não sabia se deveria acreditar. Conheço muito bem a esposa que tenho.

— Richard...

— Já sei. Não é problema seu. Será que posso, ao menos, me preocupar com você?

— Desculpe — Olívia murmurou, refletindo que deixara a Inglaterra convencida de que ainda amava Richard e que não era totalmente culpa dele o fato de ela ter mudado de idéia. — Eu estava dormindo — explicou. — Ainda não me adaptei aos horários diferentes.

— Mas... você está bem? Diane disse alguma coisa que magoou você?

— Não.

— Bom... Quando descobri que você tinha ido embora de maneira tão repentina, ocorreu-me que ela poderia ter dito algo... ruim.

Ou algo incriminador, Olívia pensou. Lembrou-se do que Diane contara, sobre ter sido Richard o verdadeiro respon­sável pelo divórcio, não ela.

Ora, estava começando a ficar paranóica! Richard tele­fonara pela razão alegada: preocupara-se com o fato de ela ter ido embora, sem se despedir.

— Diane foi muito simpática — mentiu, não só por achar que ele não deveria saber do que realmente se passara entre as duas, mas também porque sentia uma satisfação perversa por levá-lo a acreditar que as duas estavam se entendendo muito bem.

— Foi? — ele indagou, desconfiado. — Cuidado! Não deixe aquela fachada maravilhosa enganá-la. Diane é uma atriz, em todos os sentidos. Simplesmente, não sabe o que é sinceridade.

— Richard...

— Está bem. Desculpe por envolvê-la em meus problemas pessoais. Na verdade, telefonei para convidá-la para jantar. Gostaria muito de conversar com você.

Olívia suspirou, desanimada.

— Não esta noite, Richard. Quero me deitar cedo.

— Amanhã, então. Só nós dois. Diane vai passar o fim de semana na praia. Teremos a casa só para nós.

Olívia não saberia dizer o que era pior. Imaginar que Diane passaria o fim de semana com Joe Castellano, ou saber que Richard estava disposto a recebê-la na casa da esposa.

— Não acredito que esteja propondo uma coisa dessas! — declarou, indignada. — O fato de eu freqüentar a casa a trabalho, não quer dizer que isso me agrade.

— Mas você disse...

— Que Diane foi simpática? Sim, foi, mas não tenho a menor intenção de me tornar amiga dela, Richard. Nosso relacionamento é exclusivamente profissional.

— Compreendo. Acho que fui insensível ao convidá-la para vir aqui. Acontece quê é muito difícil conseguir reser­vas, de última hora. Que tal jantarmos no hotel?

— Está se referindo ao restaurante do hotel?

Por nada no mundo Olívia convidaria o ex-marido a en­trar em sua suíte.

— Tem sugestão melhor? — ele retrucou, em tom insinuante.

— Não — ela respondeu em tom quase rude. — Talvez seja melhor você me telefonar amanhã, para combinarmos os detalhes.

Ou não!

— Não será necessário — Richard falou depressa, como se percebesse a hesitação de Olívia. — Encontrarei você no bar, às sete horas, amanhã. Se você não puder comparecer, telefone.

 

Na manhã seguinte, Olívia deu-se conta de que não tinha o número do telefone de Richard. Nem pensara em pedir isso a Diane, pois não vira necessidade. Se precisasse entrar em contato com a atriz, poderia fazê-lo através de sua agente. Porém, não estava disposta a revelar o que estava se passando a ninguém. Além disso, mais cedo ou mais tarde, teria de conversar com Richard.

Bem, tinha o dia inteiro livre e sentia-se bem mais ani­mada do que na véspera. Assim, escolheu um conjunto de bermuda e colete, que lhe emprestava um ar elegante, porém informal, e prendeu os cabelos na nuca.

Percebendo o olhar de admiração do garçom que a recebeu no restaurante, concluiu que acertara na decisão da roupa.

— Mesa para um? — ele perguntou com sotaque espanhol.

— Receio que sim — Olívia respondeu, um pouco sem jeito.

— Sem problemas, senhorita.

O garçom a conduziu a uma mesa próxima à janela e, apesar da naturalidade com que tratou o fato de ela estar sozinha, Olívia logo percebeu que atraía vários olhares curio­sos. Escondeu-se atrás do cardápio enorme e, depois de ter feito o pedido, lançou mão do jornal que havia sobre a mesa.

No entanto, quando as panquecas de amora chegaram, ela quase se esqueceu de que era observada, pois o sabor do prato tomou-lhe toda a atenção.

Olívia saboreava a segunda xícara de café quando alguém se aproximou de sua mesa. Erguendo os olhos, ela deparou com uma mulher alta, negra, que pesava mais de cem quilos e tingia os cabelos com henna. Estava vestida com elegância e sobriedade.

— Srta. Pyatt? Sou Phoebe Isaacs. Posso me sentar? Sem esperar pela resposta, a mulher tomou a cadeira diante de Olívia.

— Como me reconheceu? — Olívia perguntou, intrigada.

— Eu planejava perguntar ao garçom, mas não foi ne­cessário, pois aquele cavalheiro me mostrou quem você era.

— Que cavalheiro? — Seguindo a direção em que Phoebe apontou, ela avistou o perfil inconfundível. — Está se re­ferindo ao sr. Castellano?

— Sim, Joe Castellano. Soube que vocês já se conhecem. Ele costuma fazer reuniões de negócios, no café da manhã, quando está na cidade.

Olívia mal podia acreditar que estava sentada a poucos metros de distância do homem que vinha ocupando a maior parte de seus pensamentos.

— Muito prazer — disse, forçando-se a não olhar para Joe. — Você é agente da srta. Haran, não? Foi ela quem lhe pediu que viesse falar comigo?— perguntou, conside­rando a possibilidade de Diane estar pensando em cancelar o contrato.

— Não! — Phoebe sorriu e pediu ao garçom que trouxesse mais café. — Eu só queria conhecê-la pessoalmente. Sou sua fã, srta. Pyatt.

— Ora, muito obrigada. Foi você quem entrou em contato com a minha agente, Kay Goldsmith, não foi?

— Sim, fui eu. Fiquei contente por você ter concordado em vir — Phoebe continuou, servindo-se do bule de café fresco que o garçom depositara sobre a mesa. — Não havia a menor possibilidade de Diane viajar para Londres, agora. Com os ensaios e testes para o próximo filme, entrevistas e aparições públicas, a agenda dela está quase totalmente tomada. Além disso, aposto que a idéia de passar algumas semanas ao sol foi tentadora.

— Sim, claro — Olívia respondeu, tentando parecer en­tusiasmada. — Foi muita gentileza da srta. Haran convidar-me. Eu poderia ter feito a maior parte da minha pesquisa na Inglaterra.

— Ora, nada como obter informações diretamente da fonte. E Diane é uma pessoa muito generosa. Você já deve saber disso. Pelo que entendi, passou as últimas semanas entrevis­tando pessoas que a conheceram, antes de se tornar famosa. Certamente, não encontrou ninguém disposto a falar mal dela.

— E verdade.

Olívia não sabia o que dizer. Ao que parecia, Phoebe não sabia que ela fora casada com Richard. Perguntou-se se Joe Castellano sabia, antes mesmo de ela ter feito a revelação. Ora, ele parecia ser o tipo de homem que fazia questão de saber tudo sobre a mulher que amava. Se é que amava Diane.

Espiou pelo canto do olho e constatou que ele estava concentrado na discussão que tinha com os três homens que se sentavam à mesa dele.

Forçou-se a desviar o olhar, dizendo a si mesma que Joe não tinha qualquer interesse nela. Se a vira no restaurante, fora porque, estando sozinha, sentada a uma mesa de posição privilegiada, ela atraíra a atenção dos demais fregueses.

— O que planejou fazer hoje? — Phoebe perguntou. — Diane achou que, talvez, você queira fazer compras. Vai encontrar tudo o que quiser, em Rodeo Drive.

Olívia respirou fundo. Talvez Diane houvesse descoberto que Richard entrara em contato com ela e, por isso, mandara Phoebe até o hotel, para saber com certeza de cada passo da escritora.

— Não fiz nenhum plano, mas pensei em tomar um banho de sol, na piscina do hotel.

— Bem, você deve fazer o que tem vontade, mas terei prazer em acompanhá-la, caso mude de idéia.

— Obrigada.

— É a primeira vez que vem aos Estados Unidos?

— Não. Estive em Nova York, há dois anos, quando meu livro Silent Song foi publicado.

— Um livro belíssimo — Phoebe elogiou. — Diane e eu ficamos emocionadas pela sensibilidade com que você abor­dou uma história tão triste. Imagino que a família Cusack tenha ficado muito satisfeita com a maneira como foi con­tada a história da mãe deles.

Como não estivesse acostumada a ser tão elogiada, Olívia não pôde esconder o embaraço.

— Trata-se de uma história emocionante — murmurou.

— Você é modesta demais — Phoebe retrucou. — Sei o que estou dizendo. Em meu trabalho, leio romances, bio­grafias, scripts. Não faz idéia do lixo que é publicado. São histórias horríveis, não inspiradoras como as suas.

— Bem, eu...

— É verdade. Fazem filmes sobre qualquer coisa, hoje em dia, desde que vejam a possibilidade de ganhar alguns milhões de dólares.

Olívia sacudiu a cabeça.

— Não sei nada sobre a indústria cinematográfica. Sou apenas uma escritora...

— Apenas uma escritora! — Phoebe protestou. — Não se subestime, garota. Você é uma ótima escritora, excelente biógrafa e um bom ser humano. Tenho certeza de que Diane não a teria escolhido, se fosse diferente.

Estaria a agente dizendo a verdade? Olívia tinha suas dúvidas, mas não teve tempo de refletir a respeito, pois percebeu que alguém havia se aproximado da mesa. E não precisou erguer os olhos para saber quem era.

— Olá, Joe! — Phoebe cumprimentou-o com falso entu­siasmo. — Pensei que estivesse muito ocupado com seus negócios. Diane me disse que era por isso que você não poderia tomar o café da manhã com ela.

— Diane costuma contar tudo a você, Phoebe? — ele indagou, sem esconder a contrariedade.

Olívia sabia que Joe a observava, mas não teve coragem de encará-lo. O que era ridículo, uma vez que ela deveria estar feliz por saber que Richard e Diane estavam em vias de se separar justamente por causa de Joe.

— Quase tudo — Phoebe respondeu. — Sei, por exemplo, que ela ficou decepcionada, uma vez que você acabou de chegar de viagem. Mas tenho certeza de que aproveitarão o fim de semana para colocar a conversa em dia.

— É bom saber que você já programou o meu fim de semana — ele falou, mostrando-se ainda mais contrariado.

O que surpreendeu Olívia foi o fato de Phoebe não dar mostras de perceber a reação dele aos seus comentários. Ou, então, decidira ignorá-lo, para poder continuar na defesa de Diane.

— Ora, é para isso que servem os agentes! Meu trabalho é garantir que Diane esteja feliz. Não vai questionar isso, vai?

— Nem quero — Joe declarou, antes de dirigir-se a Olívia: — Pelo que entendi, vai ter o fim de semana de folga, srta. Pyatt.

— É verdade — ela respondeu, erguendo finalmente os olhos, por saber que pareceria estranho continuar de cabeça baixa. — A srta. Isaacs ofereceu-se para me acompanhar nas compras, em Rodeo Drive.

— E mesmo? Bem, você não poderia ter companhia melhor

— ele comentou com ironia. — Depois de cuidar de seus clien­tes, a coisa que Phoebe mais gosta de fazer é comprar. Foi muita gentileza de Diane garantir que você não fique... soli­tária. Este lugar pode ser estranho e assustador.

Mais uma vez, Olívia teve a impressão de que as palavras ditas não correspondiam às intenções de quem as pronun­ciava. O que começava a parecer prática comum entre as pessoas dali.

— Tenho certeza de que vou gostar daqui — falou, res­sentida por sentir que a estavam tratando como se fosse uma criança.

— É claro que vai — Phoebe garantiu. — Diane e eu cuidaremos disso. Não se preocupe com Olívia, Joe. Faremos com que só coisas boas aconteçam a ela.

— Sem dúvida — Joe concordou com um sorriso amável, apesar do cinismo que continuava a brilhar em seus olhos.

— Bem, divirtam-se!

Com um aceno de cabeça para as duas, virou-se e afastou-se.

Olívia cometeu o erro de respirar fundo e arrependeu-se imediatamente, pois Phoebe percebeu sua reação de alívio.

— Ele a deixa nervosa? — a agente inquiriu. — É um pedaço de homem, não acha?

— Ah, eu...

— Não tenha medo de admitir. Até eu fico perturbada na presença de Joe. Acho que é por isso que Diane é louca por ele. Você deve ter percebido que ela e Ricky não estão se entendendo muito bem.

— Não percebi nada -— Olívia mentiu.

— Mas é verdade. E é uma pena. Ricky é um bom sujeito. Só não tem o que é preciso para segurar Diane.

— Pode ser que eles resolvam suas diferenças — Olívia sugeriu, esforçando-se para não seguir Joe com o olhar. — Ela certamente o amava, quando se casou com ele.

Apesar de seus esforços, Phoebe percebeu a direção de seu olhar e fitou-a com expressão zombeteira.

— Sim, mas isso foi há muito tempo. Seja sincera. Você também não trocaria Ricky por Joe, se estivesse no lugar de Diane?

Olívia corou e fixou os olhos na mesa.

— Eu realmente não saberia dizer — negou, antes de chamar o garçom. — Por favor, ponha o café da srta. Isaacs na minha conta.

— Não vejo por que Diane não deva pagar pelo meu café, também — Phoebe protestou. Então, abriu a bolsa e retirou um cartão, que estendeu a Olívia. — Aqui estão os meus telefones, de casa e do escritório. Se precisar de qualquer coisa, não hesite em ligar.

— Obrigada.

Olívia sentiu-se aliviada. Por um momento, acreditara que Phoebe poderia ter sido encarregada de acompanhá-la o tempo todo. Porém, assim que Joe fora embora, a agente mudara de atitude e parecera perder o interesse pelo que Olívia pretendia fazer.

— Tenha um bom dia — Phoebe desejou-lhe, ao levan­tar-se. — Se decidir sair do hotel, chame um táxi.

Olívia esperou alguns minutos, para então deixar o res­taurante. A idéia de nadar perdera seus atrativos e ela sabia que seu dia fora estragado pela noção de que, enquanto estivesse ali, não seria dona de si mesma.

No entanto, não havia nada que pudesse fazer para mu­dar isso, exceto arrumar as malas e voltar para Londres.

O que estava fora de questão. Além do mais, seria tolice per­mitir que as palavras de Phoebe a perturbassem. Muito antes de deixar a Inglaterra, Olívia já fazia idéia do que a esperava.

Sentindo a tensão se dissipar, seguiu pelo corredor pontilhado de lojas. Embora o comércio só abrisse mais tarde, as vitrines eram uma verdadeira atração.

— Encontrará variedade maior, em Rodeo Drive — mur­murou uma voz que começava a se tornar familiar aos ou­vidos dela. — Onde está Phoebe?

— Ela foi embora — Olívia respondeu, virando-se para fitá-lo. — Pensei que também havia partido, sr. Castellano. Entendi que o senhor tinha reuniões de negócios, à sua espera.

— Uma reunião. Caso não tenha percebido, já terminou. Você me viu deixar o hotel, ou foi Phoebe quem lhe disse isso?

Olívia não gostou do tom de insinuação de Joe.

— Se está pensando...

— O quê, srta. Pyatt? — ele a provocou. — Termine o que ia dizer.

— Não importa — ela murmurou, dando-se conta de que estivera prestes a cometer uma indiscrição. — Se me der licença, vou para o meu quarto. Preciso trabalhar.

— Hoje? — Joe mostrou-se incrédulo.

— Sim, hoje.

— E, como disse ontem, não mistura trabalho e prazer — ele lembrou com um sorriso. — Portanto, de nada adian­taria convidá-la para sair.

— Convidar-me para sair? Por que faria isso?

— O que você acha? — Ele deu de ombros. — Talvez você desperte o meu interesse.

— Se eu aceitasse o convite, o senhor sairia correndo — Olívia declarou, irritada por achar que Joe Castellano estava zombando dela.

— Bem, como gosto muito de me exercitar, corro todas as manhãs.

— Estou acostumada a viver em um mundo onde as pes­soas dizem aquilo que pensam.

— Estou dizendo o que penso — ele protestou. — Você me intriga. Nunca conheci uma mulher como você.

— Não está falando sério.

— Por que não acredita em mim? Não podemos deixar o passado para trás e começar de novo?

— Começar o quê? — Olívia inquiriu, irritada. — Isto não passa de um jogo para você, não é? Costuma flertar com toda mulher que atravessa o seu caminho? Se é assim, agora entendo por que Diane mandou a agente ficar de olho em você.

— E por que você diria isso, se não acreditasse que estou interessado em você.

— Eu não... — Olívia gaguejou, profundamente embara­çada. — Preciso ir para meu quarto.

— Se insiste... — Joe decidiu aceitar a decisão dela, mas quando Olívia já entrava no elevador, ele chamou: — Ei, Olívia! Não acredite em tudo o que ouve.

 

Olívia não conseguiu parar de pensar em Joe Castellano pelo resto do dia. Ao mesmo tem­po que esquadrinhava o hotel à procura dele, sentia-se de­sapontada por não encontrá-lo. Embora soubesse que tal atitude era patética, jamais em sua vida gostara tanto de conversar com um homem, mesmo considerando a última e desagradável conversa que haviam tido. Porém, não po­deria permitir que ele interferisse em seu trabalho, uma vez que Joe estava envolvido com a mulher cuja biografia Olívia deveria escrever.

Decidiu passar o dia no hotel e, depois de algumas horas à beira da piscina, examinara vitrines, passeara de um lado para outro, incomodada por não ter o que fazer. Poderia tra­balhar, mas sua mente recusava-se a se concentrar. Quando a noite finalmente chegou, foi um alívio ter de se arrumar para jantar com Richard. Ao menos, teria com o que se ocupar.

Escolheu uma saia de crepe, com estampas em azul e verde, e uma blusa discreta, cor de jade. Depois de prender os cabelos em uma trança, ficou satisfeita com o que viu no espelho.

Sabia que jamais poderia competir com a beleza de Diane, mas perguntou-se, assim mesmo, se Joe aprovaria a sua aparência. Mais uma vez, especulou sobre o motivo que o levara a esperar por ela, pela manhã. O que ele teria a ganhar com aquele jogo? Talvez simplesmente gostasse do perigo.

O telefone tocou, provocando um sobressalto em Olívia.

— Alô?

— Liv!

— Richard — ela murmurou, decepcionada, pois acalen­tara a esperança absurda de que fosse Joe.

— Quem mais poderia ser? Posso subir?

— Não. Já vou descer.

Richard não escondeu a decepção, quando falou:

— Não demore.

— Está bem.

Olívia desligou, perguntando-se se fora boa idéia aceitar o convite de Richard. Talvez estivesse fazendo exatamente o jogo que Diane esperava.

Consultou o relógio e constatou que ainda faltavam quin­ze minutos para as sete. O que explicava o fato de ela não estar à espera de Richard, no bar. Ocorreu-lhe que ele pla­nejara tudo, na esperança de que ela o convidasse a subir.

Bem, de nada adiantaria fazê-lo esperar. Apanhou a bolsa e deixou o quarto, sem conseguir livrar-se da sensação in­cômoda de que estava cometendo um grande erro.

—- Liv! — Richard exclamou, ao vê-la sair do elevador. Então, adiantou-se para Olívia que, já preparada para o cumprimento efusivo do ex-marido, virou o rosto para re­ceber nada mais que um beijo casto. —Você está linda! Como pude ser idiota a ponto de deixá-la?

Olívia forçou um sorriso e, desvencilhando-se das mãos que pareciam coladas a seus ombros, perguntou:

— Aquele é o bar?

Richard assentiu e conduziu-a através do saguão.

— Ainda não acredito que você está aqui — disse, apon­tando para uma mesa mal iluminada, a um canto. Olívia, porém, sentou-se rapidamente em um dos bancos do balcão. — Vinho branco, certo? Como pode ver, ainda me lembro do que você costumava beber.

Seria possível que ela fosse tão previsível? Bem, ela teria de ser honesta e admitir que bebia a mesma coisa havia mais de dez anos.

— Prefiro um gim-tônica — mentiu e recebeu um olhar curioso do ex-marido.

— Aqui estamos nós, de novo — Richard declarou, depois de pedir uma dose dupla de Jack Daniels. — É como se nunca tivéssemos nos separado.

— Não é bem assim — Olívia protestou.

— Está bem. — Ele bebeu um longo gole do uísque. — Sei que muitas águas rolaram, desde os bons tempos, e que nós dois tivemos tempo de sobra para nos arrependermos de nossos erros. Por outro lado, estamos aqui, o que é real­mente importante, pois mostra que algo sobreviveu à nossa separação. Talvez não seja possível esquecer o passado, mas podemos perdoar...

— Richard...

— Já sei o que vai dizer. — Ele fez uma pausa, a fim de esvaziar o copo e estendê-lo ao garçom — Acredite, Liv. Aprendi a lição.

— Richard, eu...

— Está fazendo aquilo de novo.

— O que estou fazendo? — ela perguntou, confusa.

— Está me julgando, antes de ouvir o que tenho a dizer. — Bebeu um longo gole do copo que o garçom acabara de colocar sobre a mesa. — Está com medo de confiar em mim. Acabamos de nos reencontrar e, naturalmente, você está um pouco nervosa. Juro que estou falando sério, Liv.

Olívia decidiu não dizer nada. Enquanto bebericava o seu gim-tônica, admitiu que o único sentimento que ainda tinha por Richard era piedade.

Percebeu que ele a fitava, à espera de ouvir alguma coisa.

— Costuma vir aqui com freqüência? — ela perguntou, certa de que se tratava de um assunto bastante seguro a discutir. — Devo admitir que achei o hotel muito bonito.

Richard fez uma careta, antes de beber outro gole.

— E razoável — comentou com indiferença. — Falta... caráter a este lugar, mas quase tudo é assim, por aqui. Sinto saudade dos telhados inclinados e das lareiras!

Olívia revirou os olhos.

— Ora, Richard, você se recusou a passar um fim de semana nas montanhas, porque o chalé poderia ter vaza­mentos no telhado!

— Está vendo? Você também se lembra! Isso aconteceu no nosso primeiro aniversário de casamento, não? No dia seguinte, você queria assistir a Romeu e Julieta. Eu pre­feria Cats.

— Sim. Creio que já éramos incompatíveis, no início.

— Não...

— Sim — ela o interrompeu com firmeza: — Eu sim­plesmente não queria enxergar a verdade. Richard, jamais me esquecerei daqueles anos, mas não os quero de volta.

A expressão de Richard tornou-se sombria.

— Eu deveria ter imaginado que você me puniria. Não basta que eu me atire a seus pés. Você vai continuar me castigando.

— Não seja tolo! — Olívia começava a ficar impaciente. — Sinto muito se seu casamento com Diane não deu certo, mas não foi minha culpa.

— Eu disse que foi? — Acabando com a segunda dose de uísque, Richard voltou a chamar o garçom. Então, voltou a dirigir-se a Olívia: — Reservei mesa no restaurante, para oito horas.

— Oito?

Olívia calculou mentalmente quantas doses mais ele beberia, até as oito horas. A última coisa que queria era en­volver-se em alguma cena desagradável, no hotel.

— Sim, oito — ele confirmou, recebendo o terceiro copo das mãos do garçom e apontando para o gim-tônica de Olívia. — Você não está bebendo. Tem certeza de que não prefere vinho?

— Não, eu... Por que não passeamos um pouco? Passei o dia todo dentro do hotel e gostaria de me exercitar.

A verdade era que Olívia começava a desconfiar que Ri­chard já bebera um bocado, antes de ir ao seu encontro.

— Está brincando! Não se pode andar pelas ruas, à noite. Ou melhor, as pessoas daqui não andam, exceto em Rodeo Drive. Não estamos em Westwood Village.

Olívia lembrou-se de ter lido aquele nome no cartão de Phoebe.

— Não é lá que mora a srta. Isaacs?

— Acho que sim — Richard respondeu e, então, franziu o cenho. — Como sabe?

— Ela tomou café comigo, esta manhã.

— Quer dizer que, para mim, você não tinha tempo. Para Phoebe...

— Richard, isso foi ontem à noite.

— Ora, como ela sabia quem você é?

— Minha fotografia foi publicada na capa de todos os meus livros — Olívia explicou, mas decidiu não se acovardar.

— E, também, o sr. Castellano estava no restaurante.

— Conhece Joe Castellano? — Richard inquiriu, estrei­tando os olhos.

— Eu o conheci ontem, na casa de Diane. Pelo que en­tendi, ele tem investimentos na carreira dela.

— Investimentos! Claro.

O tom de Richard era amargo e Olívia arrependeu-se de ter mencionado o outro homem.

— Continuo com vontade de caminhar um pouco — falou.

— Que tal passearmos pelo hotel? Richard ignorou-lhe a pergunta.

— Conhece bem esse sujeito? Ele também tomou café com você?

— Não.

— Vou lhe dizer uma coisa. Di não vai gostar nada disso. Aliás, se ela sabia que Castellano estaria aqui, foi por isso que mandou Isaacs vigiá-lo.

— Ele não estava comigo. Simplesmente mostrou à srta. Isaacs quem eu era. — Olívia sentiu-se perturbada pelo fato de o ex-marido ter levantado a suspeita que ela mesma tivera. — Bem, vamos caminhar, ou não? Não quero passar mais uma hora sentada neste bar.

— Está bem — ele finalmente cedeu. — Vamos olhar as vitrines. Enquanto isso, você poderá me contar o que pensa do machão!

Olívia respirou fundo, dizendo a si mesma que não con­versaria sobre Joe. Por outro lado, não poderia culpar Ri­chard por ser tão maldoso, ao falar do outro. Afinal, não deveria ser fácil competir com um homem que era tudo o que ele jamais seria.

— Castellano está dormindo com Diane — Richard anunciou, enquanto Olívia admirava a vitrine de uma joalheria.

— O relacionamento deles não é meramente profissional.

— Isso não é da minha conta — ela declarou entre os dentes.

— Veja que anel lindo! Meu Deus, custa cinqüenta mil dólares!

— Isso não é nada. Diane gasta mais com Lorenzo MacNamara, seu personal trainer.

— Se vai falar de Diane a noite inteira...

— Não vou, mas você não pode me culpar por ficar amar­gurado, às vezes. É tão bom ter alguém... solidário, para conversar. Bem, prometo não falar de Diane, ou de Castel­lano. Está bem?

Olívia forçou um sorriso.

— Está bem — disse, desejando poder afastar o casal de seus pensamentos com a mesma facilidade.

No entanto, passou o resto da noite desejando que Richard lhe contasse exatamente que tipo de relacionamento eles tinham. Estaria Joe disposto a se casar com Diane, quando ela ficasse livre? Era muito difícil imaginá-lo manipulado... por quem quer que fosse.

No domingo, Olívia trabalhou no computador fornecido pelo hotel. Além de registrar suas impressões iniciais de Los Angeles, acrescentou anotações que fizera ainda antes de deixar a Inglaterra.

Comprou algumas revistas na banca do hotel e passou a tarde procurando por fotografias de Diane. Acreditou que seria interessante ler a opinião de outra pessoa sobre a protagonista de seu livro, mas não encontrou nada digno de nota. Exceto por uma edição da Forbes, cuja capa exibia o brilhante mag­nata, Joseph Castellano. Embora sentisse desprezo por si mes­ma, Olívia comprou-a e leu o artigo inteiro.

O que lhe fornecera muito mais informação do que Ri­chard lhe dera durante o jantar de sexta-feira. Ele acabara quebrando a promessa e falando da esposa. Deixara claro que não gostava de Castellano, o que era compreensível, mas nem todas as suas palavras haviam sido verdadeiras.

Como, por exemplo, a afirmação de que Joe e Diane ti­nham um caso. A revista não fazia qualquer menção ao envolvimento, mas citava diversas vezes Anna Fellini, sócia de Joe em uma vinícola, em Napa Valley.

E Olívia descobrira muito mais sobre os negócios e in­vestimentos dele, inclusive uma cadeia de hotéis de luxo, da qual o Beverly Plaza fazia parte. Ficou perturbada com a revelação.

Por outro lado, sentiu-se grata por não ter lido o artigo antes. Jamais teria tido coragem de dizer o que dissera a ele, na manhã de sexta-feira, se soubesse exatamente quem era aquele homem.

Felizmente, o fim de semana passara depressa para Olí­via. Na manhã de sábado passeara em um imenso shopping center. No domingo, visitara Rodeo Drive. Fizera as refeições na suíte, exceto pelo café da manhã, que saboreara no res­taurante. Como seria de se esperar, sentira falta de Henry e de sua motocicleta.

Na maior parte do tempo, porém, estivera ocupada de­mais para sentir saudade de casa. O problema era que não se sentia nem um pouco ansiosa pelo dia seguinte. Tendo se tornado parte dos problemas de Richard e Diane, contra a sua vontade, não poderia simplesmente ignorá-los. E o fato de não tirar da cabeça o causador de todos aqueles problemas não ajudava em nada.

Era uma grande ironia, pensou. Fora para Los Angeles, pronta para tirar proveito da situação de Richard e Diane. Agora, poucos dias depois, sabia que a imagem que formara de Richard em sua mente nunca fora real...

Bem, continuava a não gostar de Diane, mas já era capaz de admirá-la. Talvez Kay tivesse razão. Aquele trabalho poderia ser muito importante para a sua carreira.

 

Olívia descobriu que seu receio de enfrentar Diane, na manhã de segunda-feira, era in­fundado. Bonnie telefonou, informando-a de que Manuel a apanharia no hotel, às nove e meia. Quando Olívia chegou à mansão, Diane a esperava em uma das tantas salas de estar, todas repletas de plantas e flores.

Diane vestia um conjunto azul-marinho muito sóbrio, pa­recendo disposta a tratar a entrevista com seriedade. Porém, era evidente que seus pensamentos encontravam-se longe dali.

— Por favor, sente-se — convidou. — Teve um bom fim de semana?

— Sim, obrigada. Fiz algumas compras — Olívia respon­deu, surpresa com a mudança de atitude de Diane, que se mostrava mais formal e distante, apesar de gentil.

Gostaria de perguntar sobre o fim de semana da atriz, mas estava certa de que não gostaria de ouvir a resposta.

— Bem, se está pronta, podemos começar a trabalhar. Isto é, se ainda está interessada em escrever a minha historia.

— Sim, continuo interessada — Olívia respondeu, embora soubesse que a atitude mais sensata seria desistir.

Ainda assim, as duas semanas seguintes foram muito produtivas. Diane tratou as visitas de Olívia com respeito e profissionalismo, só pedindo a Bonnie que cancelasse o compromisso em situações excepcionais. E, também, foi fran­ca em seus relatos, mesmo os mais desagradáveis, como o abuso que sofrerá do padrasto.

Contou, sem emoção, que os pais haviam morrido. Não haviam se casado e Diane mal conhecera o marinheiro es­candinavo a quem nunca chamara de pai. A mãe morrera recentemente. Trabalhadora, não se cuidara quando jovem, pois dera prioridade aos filhos. Embora sua vida melhorasse, depois que Diane começasse a fazer sucesso, só descobrira que tinha câncer quando era tarde demais para tratá-lo.

Os irmãos e irmãs viviam espalhados pelo mundo, mas se mantinham em contato. Diane lamentava o fato de não ter filhos, mas alegou que a carreira vinha em primeiro lugar e que acreditava ainda ter muito tempo para realizar o sonho da maternidade.

Olívia pensou em perguntar se Richard tivera interfe­rência nessa decisão, lembrando-se das acusações cruéis que ele lhe fizera. Porém, decidiu não se aprofundar na questão. Afinal, não estava ali para questionar o estilo de vida de Diane. Certamente, a atriz considerava Joe Castellano um candidato muito mais adequado a ser pai de seu filho. Em­bora Olívia não houvesse voltado a vê-lo, tinha certeza de que ele e Diane continuavam se vendo com freqüência.

Esquivou-se a discutir esse relacionamento, também, pois algo lhe dizia que as informações que receberia lhe tirariam o sono.

Para sua satisfação, não vira Richard, que, segundo Dia­ne, estava em Las Vegas, participando de um torneio de golfe. A atriz insinuou que o marido passava mais tempo no bar, do que no campo, mas Olívia simplesmente não fez nenhum comentário.

Como suas entrevistas ocorressem sempre pela manhã, Olívia aproveitou suas tardes, juntando-se a grupos de ex­cursão. Conheceu a Disneylândia, os estúdios Universal e praias espetaculares. Descobriu que trabalhar no computa­dor à noite era muito mais tranqüilo.

Familiarizada com a atmosfera do hotel, passara a fazer todas as refeições no restaurante, cuja comida era deliciosa. Todos os dias, Olívia dizia a si mesma que era uma pessoa feliz por não ter de se preocupar com o peso.

Uma noite, enquanto saboreava uma pizza de cobertura generosa, notou uma mulher anoréxica que lhe lançara olhares invejosos, enquanto comia uma salada de alface. Mais uma vez, Olívia pensou em como deveria horrível ter de contar calorias o tempo todo. Então, perguntou-se se era esse o segredo da eterna elegância de Diane.

Não teve tempo de pensar na resposta, pois quase deixou caírem os talheres ao erguer os olhos e avistar Joe Castel­lano sentado, sozinho, a uma mesa de canto. Concentrado na leitura do que pareciam ser documentos, ele mal prestava atenção ao que comia.

Aparentemente, Joe não a vira. Se vira, preferira igno­rá-la. E quem poderia culpá-lo? Afinal, Olívia fora rude, em seu último encontro.

Infelizmente, não conhecia outra maneira de agir com relação a um homem como ele, que certamente se divertia à custa de mulheres como ela.

Olívia baixou os olhos para o prato, pensativa. Como Dia­ne reagiria, se soubesse que Joe estava se encontrando com outra mulher? Ao que parecia, ela não se importava com Anna Fellini, que era apenas uma sócia nos negócios. Se Diane descobrisse uma verdadeira rival, haveria alguma chance de reconciliação entre ela e Richard?

Embora não devesse nenhum favor ao ex-marido, Olívia bem que gostaria de ajudá-lo e, ao mesmo tempo, fazer com que ele parasse de persegui-la. Os sentimentos de Joe pouco importavam. Um homem capaz de se relacionar com uma mulher casada não merecia consideração.

Voltou a observá-lo. Ele continuava lendo e parecia, de­finitivamente, sozinho. Percebendo o olhar fixo da mulher na mesa ao lado, Olívia sorriu, sem jeito, enquanto se per­guntava se teria coragem de falar com Joe.

Começou a desanimar, lembrando-se de que competir com Diane seria loucura. Então, concluiu que jamais saberia quais eram as suas chances se não tentasse. Por outro lado, refletiu, tal envolvimento poderia colocar em risco a sua carreira.

Ora, não pretendia casar-se com Joe Castellano! E po­deria salvar o casamento de Richard. Melhor ainda, conse­guiria vingar-se de Diane.

Sacudiu a cabeça diante da confusão que seus próprios motivos haviam criado. Simplesmente não sabia exatamente o que queria.

Bem, uma coisa era certa. Não queria continuar comendo a pizza, que já esfriara. Baixou os olhos para suas roupas, lamentando não ter escolhido um traje que a tornasse mais parecida a uma femme-fatale. Então, respirou fundo e, quan­do ia se levantar, a mulher da mesa ao lado perguntou:

— Não conheço você? Elizabeth Jennings, não é? Ah, adorei seu desempenho em Cats Crusadel

— Sinto muito, mas não sou Elizabeth Jennings — Olívia replicou, surpresa por alguém confundi-la com uma atriz de televisão.

— Tem certeza? E muito parecida com ela e também tem sotaque inglês.

— Bem, eu sinto muito — Olívia repetiu, consciente de que a cena começava a chamar a atenção dos demais fre­gueses. — Fico lisonjeada, mas não sou atriz.

Empurrou a cadeira e pôs-se de pé, justamente quando Joe fazia o mesmo, do outro lado do restaurante. E, naquele momento, seus olhares se encontraram. Ele pareceu perce­ber que a mulher não se convencera da verdade e, sem demora, aproximou-se.

— Olívia! — chamou-a em voz alta, fazendo com que a mulher franzisse o cenho, desconfiada.

— Você não é mesmo Elizabeth Jennings! — ela excla­mou. — Mas deve ser atriz, pois tenho certeza de que já vi você, antes.

— Deve ter visto a fotografia dela na capa de um de seus livros — Joe esclareceu com um sorriso afável.

— Claro! É escritora! Ah, poderia me dar um autógrafo? Sou uma leitora ávida. Devo ter lido um de seus livros.

Joe conteve um sorriso divertido, enquanto a mulher ti­rava da bolsa um bloco e uma caneta. Trocando com ele um olhar de cumplicidade, Olívia decidiu que a intervenção da mulher não fora de todo má.

Uma vez satisfeita, a mulher voltou à mesa.

—-Sinto muito — Joe murmurou, quando saíam do res­taurante. — Procuramos evitar que nossos hóspedes sofram com caçadores de autógrafos. Mas sou obrigado a admitir que seu rosto me é muito familiar — acrescentou com um sorriso maroto.

— Pois acho que ela não conseguiria me distinguir de Adão! Duvido que tenha lido, ou melhor, visto algum de meus livros.

— Não se subestime. Ninguém poderia confundi-la com Adão, vestindo essa roupa.

— Ora, obrigada. Foi um elogio muito simpático.

— E verdadeiro. Bronzeada como está, parece uma pessoa famosa. O que realmente conta é a aparência.

Como soubesse que não teria a mesma oportunidade duas vezes, Olívia limpou a garganta e partiu para o ataque:

— Se estiver disponível, eu gostaria de lhe oferecer um drinque... para compensar meu comportamento, no nosso último encontro.

— Quer me pagar um drinque? — Joe inquiriu, incrédulo.

— O que acabou de acontecer não foi culpa sua,

— Sei disso. Na verdade, quero a sua companhia. Não gosto de entrar em um bar sozinha.

Joe estudou-a por um momento.

— Está falando sério?

— Claro. Terá a oportunidade de me contar tudo sobre essa tal de Elizabeth Jennings — Olívia justificou com uma risada. — Ser confundida com ela é um elogio, ou não?

— Está bem — ele concordou, sem comentar a mudança da atitude dela. — Minha condição é que eu pague pelo seu drinque.

— Por que não? — Olívia aceitou, atordoada pelo sucesso inesperado.

Por um momento, temeu encontrar Richard no bar, mas logo tranqüilizou-se. Não estava fazendo nada errado e, mes­mo que estivesse, não devia satisfações a ninguém.

— Onde prefere sentar? — Joe perguntou.

— Ali:— ela apontou para uma mesa quase escondida, a um canto.

— Boa noite, sr. Castellano — o garçom cumprimentou-o.

— O que vão beber?

— Um martíni, por favor — Olívia respondeu.

— E água para mim. — Diante do olhar surpreso de Olívia, Joe explicou: — Ainda tenho trabalho a fazer, hoje.

— Trabalho? Não acha um pouco tarde para usar uma desculpa como essa? — Ela apoiou os cotovelos na mesa e passou a língua pelos lábios. — Se não queria tomar um drinque comigo, deveria ter falado. Joe estreitou os olhos.

— Se não me engano, concordamos em beber juntos, desde que eu lhe contasse tudo sobre a sra. Torrance. Catherine Torrance e a detetive particular mais sexy de Cat's Crusader.

Olívia corou.

— Quer dizer que Catherine Torrance é a estrela de Cats Crusade?

— Sim, a personagem de Elizabeth Jennings.

— Você já assistiu?

— Algumas vezes. Não é ruim.

— Acha que pareço com Elizabeth Jennings?

— Talvez. Preciso conhecer você melhor para decidir.

— Estava me referindo à aparência — Olívia explicou, embaraçada.

Naquele momento, o garçom chegou com as bebidas. Olí­via bebeu um gole generoso de seu martíni e quase engasgou. Muito sedutora, pensou. Acreditava mesmo que seria capaz de fazer Joe acreditar que era experiente com os homens?

— Como você e Diane estão se saindo? — ele perguntou.

— Muito bem — Olívia respondeu, certa de que ele sabia de tudo o que se passava na vida de Diane. Como não qui­sesse falar da outra, mudou de assunto: — Não vi você pelo hotel, nas duas últimas semanas.

— Desde aquela manhã, quando você me acusou de flertar com toda mulher que cruza o meu caminho — ele lembrou com um sorriso maroto. — Voltei a San Francisco, assim que minhas reuniões terminaram.

— Ah, sim, é lá que você vive...

— Quando posso. Passo a maior parte do tempo viajando a negócios. Estou aprendendo a delegar responsabilidades, se quero algum tempo para mim mesmo.

— E o que você quer?

— Não é o que todos nós queremos?

Olívia percebeu, pelo tom de voz de Joe, que ele sabia muito bem aonde ela queria chegar, mas a bebida dava-lhe uma coragem que ela, normalmente, não possuía.

— Depende — murmurou. — Nem todos nós sabemos o que queremos.

— Você sabe?

Em vez de pensar na resposta, Olívia distraiu-se com pensamentos sobre que reação ele teria, se ela o tocasse. Ou, então, o que ela mesma faria se Joe pousasse a mão na dela. Até onde estava preparada a ir?

— Acho que não sabe — ele murmurou baixinho, per­correndo o braço de Olívia com a ponta de um dedo. — Vou pedir mais água. Quer mais um martíni?

— Ah... sim, obrigada — ela aceitou, não porque quisesse beber mais, mas porque precisava de mais tempo.

Se perdesse aquela oportunidade, não sabia quando vol­taria a vê-lo.

—Diane contou que você e Ricky ainda eram casados, quando ela o conheceu — Joe comentou, depois que o garçom os serviu.

— Sim, éramos. Você conhece Diane há muito tempo?

— Uns dois anos. Sabe há quanto tempo Ricky bebe?

— Não. Ele não bebia, quando éramos casados. Por que não pergunta a Diane? Ela deve saber.

Joe fitou-a por um longo momento.

— Estou inclinado a pensar que você não gosta de Diane

— comentou, por fim.

— Não gosto, nem desgosto — Olívia declarou, antes mes­mo de dar-se conta de que estava dizendo a verdade. — Devo admitir que tive dúvidas quanto a aceitar ou não o trabalho. Não me arrependo, pois está dando tudo certo.

— E quanto a Ricky?

— Richard acredita que eu ainda o amo. Acha que foi por isso que vim.

— E não foi?

— Não! Não amo ninguém, no momento.

— Não há um homem, à sua espera, em Londres? É difícil acreditar nisso.

— Não há homem algum — Olívia insistiu, sem hesitar.

— Gostaria que houvesse, mas todo homem por quem me interesso está envolvido com outra mulher. — Voltou a pas­sar a língua pelos lábios. — Como você, por exemplo. Acho que me enganei a seu respeito. E uma boa pessoa.

Joe estudou-a com expressão indecifrável.

— Amanhã, vai se arrepender por ter dito isso — adver­tiu-a, pousando a mão sobre a dela. — E não sou uma boa pessoa, Olívia. Na verdade, sou desprezível. Por exemplo, estou tentado a provar que você não está falando sério. Olívia endireitou-se na cadeira.

— Gomo pode saber? — inquiriu, indignada. — E como poderia provar? Não sou uma menina inocente. Já fui casada.

— Com Ricky — Joe completou, em tom de zombaria.

— Richard é homem, não é?

— Sim. Conhece bem os homens?

— Não muito — ela confessou.

— E aprendeu com Ricky?

— Sim. Será que não pode demonstrar um pouco de res­peito por Richard?

— Quem disse que não o respeito?

— Não seja cínico.

— Para ser sincero, não o conheço o suficiente para jul­gá-lo, mas ele não é nada simpático, quando estou por perto.

— Acha que pode culpá-lo por isso? — Olívia assumiu de uma vez por todas a defesa do ex-marido.

A expressão de Joe tornou-se dura e ele retirou a mão de cima da dela.

— Pelo que vejo, você não o culpa por nada. Tem certeza de que não continua apaixonada por ele?

— Absoluta. Sinto pena dele. Só isso.

— Piedade! O crepúsculo de todo relacionamento — ele falou em tom sombrio, mas acabou sorrindo. — Espero que nunca sinta pena de mim.

— Como poderia?

O sorriso tornou-se irônico.

— Por quê? Acha que sou incapaz de sofrer?

—- Acho que não se importa nem um pouco com o que penso.

— Tem certeza?

— Não, mas gostaria de descobrir — Olívia arriscou, chocada com a própria audácia. — Se você se importasse com o que penso, não estaríamos aqui, sentados, discutindo o assunto.

Joe manteve-se impassível.

— O que estaríamos fazendo?

— Vou lhe mostrar — ela respondeu, inclinando-se e co­lando os lábios aos dele.

 

Joe afastou-se de maneira pouco lisonjeira. E Olívia não poderia culpá-lo. Afinal, sendo dono do hotel, tinha razões de sobra para não querer ser surpreendido em uma cena embaraçosa. Como ela pudera ter sido tão idiota? Provavelmente acabara de destruir qual­quer possibilidade de ser amiga dele. E... amante!

— Desculpe-me — murmurou e, aflita, tentou levantar-se. Mas foi impedida pela mão firme que pousou sobre seu joelho.

— Fique onde está. A culpa foi minha. Eu não deveria tê-la provocado. A verdade é que não esperava que você me levasse a sério.

— Você estava certo — Olívia admitiu, sabendo que de nada adiantaria mentir. — Não sei nada sobre os homens.

— Eu não diria isso — Joe argumentou em tom gentil.

— Não? Você é educado demais.

— Não sou educado! — Joe explodiu, retirando a mão do joelho dela. — Pelo amor de Deus, Olívia, pare de seu culpar! Foi apenas um beijo. Talvez eu não esteja acostu­mado a ser abordado por mulheres bonitas.

Mulheres bonitas?

Olívia teve vontade de rir. Não era bonita. Aquela fora apenas a maneira que ele encontrara de sair de uma si­tuação difícil.

— Por favor — disse, fitando-o nos olhos —, não me trate como tola.

— Pare com isso — ele rosnou. — Vamos sair daqui. Olívia não teve escolha, uma vez que Joe segurou-lhe o braço com firmeza, praticamente arrastando-a para fora do bar.

— Obrigada pelo drinque — ela agradeceu, no saguão. — Boa noite.

— Espere!

Olívia virou-se para ele, tentando parecer impassível.

— O que é?

— O que vai fazer amanhã?

— Vou trabalhar.

— O dia todo?

— Por quê?

Percebendo que estavam atraindo atenção de funcionários e hóspedes do hotel, Joe baixou a voz, parecendo lutar para conter a fúria.

— Você só trabalhar pela manhã, não é? — Diante do aceno afirmativo de Olívia, continuou: — Então, permita-me compensar o fiasco desta noite levando-a à praia. O que acha?

Naquele momento, Olívia achava muito difícil respirar.

— Eu... não sei o que dizer...

— Não diga nada. Esteja aqui, junto aos elevadores, às duas horas.

— Está bem — ela concordou com voz fraca.

Uma vez no elevador, Olívia perguntou-se por que acei­tara o convite. Não encontrou a resposta, mas sabia que talvez se arrependesse amargamente.

Quando Manuel foi apanhá-la, na manhã seguinte, Richard estava com ele.

Olívia não via o ex-marido havia mais de duas semanas. Passara a gostar do trajeto entre o hotel e a mansão de Diane. Manuel não falava muito, mas era simpático e amigável. En­contrar Richard no banco traseiro da limusine não foi agra­dável e ela não foi capaz de disfarçar seus sentimentos.

— Surpresa, não? — Richard comentou, percebendo a reação dela. — Idiota que sou, acreditei que você ficaria contente em me ver.

Olívia suspirou.

— E claro que estou contente. Fez boa viagem?

— Ora, você notou!

— Notou o quê?

— Que eu estive fora — Richard respondeu e, virando-se para Manuel, ordenou em tom rude: — Ponha esta lata velha em movimento!

Olívia fechou os olhos e, quando voltou a abri-los, trocou um olhar embaraçado com Manuel, pelo retrovisor.

— Eu sabia que você estava em Las Vegas — falou. — A srta. Haran mencionou o torneio de golfe.

— Srta. Haran! — Richard repetiu em tom zombeteiro. — O nome dela é Diane.

Como Olívia permanecesse calada, ele foi adiante:

— Bem, pelo que sei, você continua trabalhando na bio­grafia. Estou surpreso que ainda não tenham se atirado, uma no pescoço da outra.

— Por sua causa?

— Por que não? — ele retrucou, irritado. — Não estou convencido de que você veio até Los Angeles só por causa de um livro. Tinha algo mais em mente.

— Pense o que quiser, Richard — Olívia declarou, resig­nada, virando-se para a janela.

— Ah, Liv — Richard começou, em tom de súplica. — Sei que você me despreza por ter criado esta situação, mas tenha um pouco de piedade. Preciso do seu apoio.

— Não desprezo você — ela declarou, perguntando-se se estava mesmo dizendo a verdade. — Gostaria que conti­nuássemos amigos.

— Amigos! — ele voltou a erguer a voz. — Como Diane e Joe Castellano?

Olívia hesitou.

— Não sei o que se passa entre Diane e o sr. Cas­tellano, mas...

— Pois eu bem que gostaria que fôssemos amigos, como eles são! Assim, estaríamos juntos, sempre que tivéssemos uma oportunidade.

— Richard, não acredito...

— Que Castellano e minha esposa estão tendo um caso? Ora, Liv, eu tenho provas.

— Provas? — ela repetiu em um fio de voz.

— Isso mesmo. Provas. E Diane sabe disso.

— Bem, eu...

— Faz diferença?

— O quê? — Olívia inquiriu confusa, sem saber a que ele se referia.

— Faz diferença para nós dois, você e eu? — Richard to­mou-lhe uma das mãos e levou-a aos lábios. — Amo você, Liv.

7 Não diga isso! — Olívia protestou, retirando a mão depressa. — Richard, por favor, não existe "nós dois".

— Não posso aceitar isso. Você só precisa de mais tempo.

— Tempo para quê?

— Para me perdoar. Sei que é isso o que você quer. Olívia reprimiu um gemido de frustração e viu, pelo canto do olho, que já entravam na propriedade de Diane.

— Já o perdoei, Richard, mas isso não significa que quero você de volta. Sinto muito.

— Vai sentir muito mais.

Com essas palavras, Richard abriu a porta da limusine, antes mesmo que estivesse parada. Saiu do carro e entrou na casa, quase derrubando Maria, que abria a porta.

— O sr. Haig é um hombre bravo — Manuel comentou, com um sorriso maroto, ao ajudar Olívia a sair da limusine.

— Sinto muito que tenha sido envolvido em tudo isso, Manuel.

— Ora, não se preocupe. Já estou acostumado. — Ao ver a esposa se aproximando, ele perguntou: —Você está bem, Maria?

— Sim, claro.

— Até mais tarde, senhorita — Manuel despediu-se de Olívia.

— Até mais tarde, Manuel.

Olívia sorriu para Maria, mas sua mente já se ocupava com a tarde que a esperava. Algo lhe dizia que não deveria se envolver ainda mais na vida de Diane.

Como sempre, a atriz a esperava na sala de estar. Na­quela manhã, vestia apenas um quimono de seda azul, pa­recendo ter acabado de sair do banho. Ao ver Olívia, Diane atirou no chão o script que estivera lendo. Sua expressão deixava claro que seu humor não era dos melhores.

— Está atrasada — foram suas primeiras palavras. — Imagino que Richard estava lhe contando sobre a viagem. Devo dizer que fiquei surpresa, quando ele voou para Las Vegas, poucos dias depois de você ter chegado.

Olívia manteve-se impassível, mas não sem esforço. — O que Richard faz não é da minha conta, srta. Haran. — Desculpe se a fiz esperar. O trânsito está um tanto congestionado.

— Mas Ricky foi com Manuel, apanhar você no hotel, não foi?

— Sim, ele foi — Olívia respondeu, reticente, desejosa de mudar logo de assunto. — Podemos começar? Tenho al­gumas perguntas sobre o que discutimos ontem.

Diane observou-a com olhar crítico.

— Você é tão eficiente, Olívia. Nunca permite que nada a perturbe. Seja um marido infiel, um trabalho indesejado, ou o fato de estar vivendo aqui, praticamente à minha dis­posição. Como consegue isso? Eu gostaria muito de saber.

— É a minha carreira — Olívia declarou, determinada a não morder a isca.

— E se considera melhor do que eu, não é? — Diane continuou. — Só porque teve uma educação melhor. Acredita que mulheres como eu só sabem vender seus corpos, para sobreviverem.

— Não é verdade.

De fato, Olívia passara a admirar Diane, embora duvi­dasse que um dia pudesse gostar dela. Agora, que conhecia a história da vida da atriz, considerava o sucesso da loira quase um milagre.

— Mas me despreza — Diane afirmou.

— Não.

— E o que Ricky diz.

— Ele está errado — Olívia insistiu com firmeza. — Srta. Haran, não creio que esteja disposta a trabalhar, hoje. Pre­fere que eu volte para o hotel?

— Está sugerindo trabalharmos à tarde?

Olívia perguntou-se o que Diane faria se ela concordasse em trabalhar à tarde. Talvez fosse melhor assim, uma vez que, naquele jogo, havia muito mais do que sua auto-estima em risco.

— Eu... Eu poderia... — começou, mas Diane interrompeu-a:

— Não. É possível que Joe apareça por aqui, hoje à tarde, e não quero que você esteja aqui, caso isso aconteça. Deveria ter vindo ontem, à noite, mas deve ter ficado sabendo que Richard estava em casa. Quero perguntar a ele sobre a mulher com quem ele tem se encontrado, pelas minhas costas.

Olívia sentiu-se empalidecer. Mantendo a cabeça baixa, sen­tou-se no sofá, certa de que alguém a vira com Joe, na véspera.

— Vagabunda! — Diane sibilou.

No mesmo instante, Olívia ergueu a cabeça, determinada a enfrentar a outra. Porém, Diane não olhava para ela. Estava folheando uma revista, com gestos rudes e apres­sados. Olívia logo reconheceu a edição da Forbes que ela havia comprado, dias antes.

— O que ele viu nesta mulher? — Diane inquiriu, furiosa, estendendo a revista para Olívia. — Já a viu? Anna Fellini, a mulher com quem a mãe de Joe acha que ele tem de se casar.

Olívia examinou a fotografia com novo interesse, dan­do-se conta de que Diane já tinha uma rival... muito mais à altura dela.

— E então?

Diane esperava que ela fizesse algum comentário.

— Bem... Ela é muito elegante — falou, sem saber ao certo o que deveria dizer.

— Elegante! — Diane repetiu com desprezo, mas logo pareceu reconsiderar: — Bem, sou obrigada a admitir que é uma mulher sofisticada, mas ela não é sexy, não desperta o interesse de todo homem que conhece.

— Tem razão — Olívia concordou, usando mais uma vez de toda a sua honestidade.

Anna Fellini tinha uma beleza clássica, com cabelos es­curos e lisos e um nariz romano de provocar inveja.

— Quero saber se ela veio com ele para Los Angeles — Diane resmungou. — Ele me disse que voltaria de San Fran­cisco ontem, à tarde. Você deve achar que sou louca, por pensar que ele poderia preferir um tipo como ela a mim.

De novo, Olívia não sabia o que dizer.

— Talvez ele tenha estado ocupado — sugeriu. Então, tentou mudar de assunto: — Encontrou as fotografias dos seus tempos de adolescente, que prometeu me mostrar?

Diane atirou a revista no chão.

— Não. Eu me esqueci completamente. Pergunte a Ricky. Ele deve saber onde estão. E, também, daria a ele uma chance de ser útil, para variar. Vou tomar outro banho e me vestir, para o caso de Castellano aparecer.

Olívia nem sequer tentou encontrar Richard, depois que Dia­ne subiu para seu quarto. Além de não querer pedir nada ao ex-marido, ela já tinha muito com o que se preocupar. Espe­cialmente, seu encontro com Joe, mais tarde. Sentiu-se trêmula só de imaginar que ele poderia aparecer ali, de repente.

Definitivamente, não sabia participar de intrigas. O que acontecera na noite anterior fora, na maior parte, conse­qüência da bebida, à qual ela não estava acostumada. Agora, tudo parecia um sonho distante.

Ora, não precisava meter-se em aventuras arriscadas. Seria muito mais fácil terminar aquele livro em casa. Ao mesmo tempo, nunca em sua vida sentira-se tão viva. Embora sou­besse que estava desafiando a sorte, precisava arriscar.

Quarenta e cinco minutos depois, Diane desceu, acom­panhada por Bonnie.

— Decidi que vocês duas podem trabalhar juntas, hoje — declarou, antes de acrescentar em tom de conspiração:

— Vou tentar encontrar companhia para o almoço, no Spago's. Diga a Ricky que não precisa esperar por mim.

— Pode deixar — Bonnie garantiu, com a lealdade de um pastor alemão.

Antes mesmo de começar a trabalhar com a secretária de Diane, Olívia já estava irritada. Se fosse honesta, admitiria que sentira uma pontada de inveja da atriz, que podia fazer o que bem quisesse, sem dar satisfações a ninguém. Ora, disse a si mesma, deveria ter percebido que o dia não seria dos melhores, quando vira Richard na limusine.

 

Quando Olívia chegou no hotel, o relógio mar­cava uma e meia da tarde, exausta e frustrada. Embora Bonnie houvesse falado ininterruptamente por duas horas, a manhã fora uma grande perda de tempo.

Atendendo ao pedido de Diane, para que mostrasse as fo­tografias de sua adolescência a Olívia, a secretária fizera ques­tão de exibir todas as fotos que a atriz possuía. E, pior, ficara ao lado de Olívia o tempo todo, explicando uma por uma.

Alegando estar com dor de cabeça, Olívia recusou o con­vite de Bonnie para almoçar com ela, pois mal podia esperar para ser ver livre da voz anasalada da outra.

A suíte estava fresca e perfumada. Um lindo vaso de rosas enfeitava uma das mesas da saleta. Olívia apanhou o cartão, curiosa.

"Para uma rosa inglesa."

Seu coração acelerou as batidas, no momento em que ela constatou que a caligrafia não era de Richard. Só havia uma outra pessoa que poderia ter lhe enviado flores. Com um sobressalto, ela consultou o relógio. Quinze para as duas!

Pensando melhor, decidiu que as rosas eram apenas uma compensação. Era evidente que, àquela altura, Joe estaria almoçando com Diane.

Olívia apanhou uma lata de refrigerante da geladeira e abriu-a. Tinha certeza de que ele não apareceria. Portanto, não havia motivo para se preocupar.

Mas... E se ele fosse?

Impossível resistir! Correu para o quarto. Tomou uma du­cha rápida, vestiu roupas limpas e passou batom. Disse a si mesma que, mesmo que Joe não aparecesse, ela precisaria estar apresentável para almoçar no restaurante do hotel.

Às duas horas e um minuto, Olívia estava no saguão. Joe não estava lá.

Por mais que houvesse repetido para si mesma que ele não iria, havia alimentado a frágil esperança de que Joe não fal­taria ao compromisso. Lembrando-se da determinação de Dia­ne, ao sair de casa, lindíssima, foi tomada pela decepção.

Dez minutos depois, decidiu que estava perdendo seu tem­po. O melhor a fazer seria esquecer Joe Castellano e almoçar sozinha.

— Srta. Pyatt? — uma voz masculina, porém desconhe­cida, chamou-a.

Olívia virou-se e deparou com um rosto vagamente familiar.

— Sim — respondeu, hesitante.

— Desculpe o meu atraso — ele disse. — Sou Benedict Jeremiah Freemantle, secretário pessoal do sr. Castellano.

B.J.

Imediatamente, ela se lembrou de tê-lo visto no aeroporto, com Joe.

— O sr. Castellano teve de voar para San Francisco, esta manhã — ele continuou —, mas já estará de volta, quando chegarmos à casa. Ele pediu desculpas por não poder vir buscá-la pessoalmente. Devo levá-la até ele.

— Que casa? — Olívia inquiriu, como se despertasse de um sono profundo.

— Devo levá-la à casa de praia do sr. Castellano, em Malibu.

— Ah...

Olívia não esperava por isso. Imaginara passar o dia na praia, não na casa de praia. Pensou em dizer que mudara de idéia, mas depois do que acontecera na noite anterior, estava convencida de que não tinha nada a temer.

B.J. conduziu-a até um carro esporte, estacionado diante do hotel. Percebendo olhares curiosos, Olívia admitiu que o automóvel chamava atenção, mas o motorista, também. B.J. tinha trinta e poucos anos, porte atlético, cabelos loiros, e era, definitivamente, atraente. Um californiano típico.

— Está gostando de Los Angeles? — ele perguntou, assim que tomaram a estrada.

— Muito. É a minha primeira visita à costa Oeste e já fiz várias excursões... quando não estava trabalhando, claro.

Ele sorriu.

— Claro. Conheceu alguém interessante, aqui?

— Está se referindo a pessoas famosas, ou... simples­mente, alguém?

— Uma descrição exclui a outra? — B.J. indagou em tom estranho, mas riu em seguida. — Estou brincando.

Olívia concluiu que ele se parecia com o patrão, em al­gumas coisas. Como, por exemplo, na arte de não deixar claro se dizia o que realmente pensava.

Felizmente, a paisagem ajudou-a a distrair-se dos pen­samentos sobre Joe.

— Já surfou? — B.J. perguntou, quando passavam por uma praia, cujas ondas vinham repletas de pranchas.

— Não. Na verdade, não sei nadar muito bem. Imagino que você saiba. O sr. Castellano surfa?

— Só na Internet — ele respondeu com uma risada. — Ele está sempre ocupado demais para se divertir. Exceto em oca­siões especiais — acrescentou, lançando um olhar significativo para Olívia. — Terá de ensinar a ele como relaxar.

Ela corou até a raiz dos cabelos.

— Não creio que eu possa ensinar qualquer coisa ao sr. Castellano — defendeu-se da insinuação. — Aliás, não o conheço muito bem, mas você deve saber disso, pois estava presente, quando nos vimos pela primeira vez.

— Sim, eu estava lá — B.J. confirmou em tom estranho. Então, depois de estudá-la por um longo momento, mur­murou: — Eu diria que você não conhece o sr. Castellano nem um pouco.

Olívia ainda tentava compreender o que ele quisera dizer com aquele comentário, quando o carro atravessou os por­tões de uma propriedade espetacular. Ao se dar conta das proporções da casa, ela conteve um sorriso, pois ocorreu-lhe que não precisaria preocupar-se com o fato de estarem so­zinhos. Certamente, era preciso um exército de empregados para cuidar de um lugar como aquele.

Apesar de todas as suas incertezas, Olívia ficou encantada com a casa. Imensa, com vista para a praia particular, era a mais linda que ela já vira.

B.J. avistou o carro preto, conversível, e disse:

— Fique tranqüila. Ele já voltou.

Sentindo o coração disparar e os joelhos tremerem, Olívia perguntou-se se jamais voltaria a se sentir tranqüila. Foi então que uma outra preocupação surgiu. Diane saíra de casa, dizendo que iria à procura de Joe. Nada a impediria de ir à casa dele.

— Vamos — B.J. indicou a porta da frente.

Joe não apareceu para recebê-los. Seria esse um bom, ou mau sinal?

Assim que entrou, Olívia ficou ainda mais impressionada com o piso de mármore, a profusão de janelas e os quadros modernos. O conjunto proporcionava um efeito relaxante e acolhedor.

— Ele deve estar no escritório — B.J. falou, dispensando a empregada que foi recebê-los e encarregando-se de con­duzir Olívia pelos corredores.

Ela ouviu a voz de Joe, antes de vê-lo, e sentiu um aperto no peito por saber que não estariam sozinhos. Então, repetiu para si mesma que estava ali por Richard, mas as palavras não soaram convincentes.

Assim que parou na porta do escritório, foi invadida por profundo alívio. Sentado atrás da grande mesa de carvalho, ele falava ao telefone. A camisa social, cujo colarinho en­contrava-se aberto, e a gravata atirada a um canto indica­vam que ele chegara pouco antes.

Ao ver B.J. e Olívia, Joe levantou-se imediatamente.

— Sim, sim — disse, ao telefone. — Sinto muito por isso. Não. Não creio que seja possível. Quem sabe um outro dia.

Era evidente que desejava encerrar a conversa e, quando B.J. fez um sinal, indicando que os dois iriam para outra sala, Joe sacudiu a cabeça.

— Claro — continuou. — Eu também. Conversaremos depois. — Desligou o telefone com ar aliviado. — Desculpem. Nem tive tempo de trocar de roupa.

— Bem, vou voltar para Los Angeles — B.J. anunciou com um sorriso.

— Obrigado — Joe agradeceu.

Olívia sentiu-se apreensiva, pois imaginara que B.J. pas­saria a tarde ali, também. O silêncio que se seguiu à partida do secretário levou-a a pensar que, talvez, Joe houvesse desejado que ela não fosse até lá.

— Importa-se se eu tomar um banho? — ele perguntou.

— Claro que não.

A perspectiva de contar com alguns minutos de solidão era bem-vinda, pois Olívia precisava colocar em ordem as idéias, bem como os sentimentos.

Joe estudou-a por um momento.

— Espero que tenha gostado daqui — falou. — Como você recusou o meu convite, no outro dia, fui atrevido ao pedir que B.J. a trouxesse.

— E lindo — Olívia declarou, decidindo enfrentar a si­tuação como a mulher adulta que era. — Posso sair um pouco? Gostaria de conhecer o lugar.

— Vou lhe mostrar o caminho. Se quiser nadar, há uma piscina que, infelizmente, é pouco usada.

— Bem, por enquanto, só quero dar uma olhada — ela murmurou, sentindo um arrepio pela proximidade dele. — Quem sabe mais tarde, possamos nadar juntos. Não gosto de nadar sozinha.

— Não? — Joe inquiriu, como se soubesse perfeitamente quais eram as intenções de Olívia. Mais estranho ainda era o fato de ele permitir que ela fosse adiante. — Bem, deci­diremos mais tarde. Quer conhecer a casa, primeiro?

— A casa? Pensei que você fosse tomar banho.

— E vou. Não estou sugerindo que se junte a mim. Só achei que você poderia conhecer os outros aposentos.

— Ah, sim... Claro — ela gaguejou, embora exibisse um sorriso que, ao menos, deveria insinuar autoconfiança.

Joe estudou-a por um longo momento, antes de virar-se, dizendo:

— Venha.

Seguiram pelo corredor até chegarem a uma grande sala, cuja decoração acompanhava a primeira. O chão de mármore era coberto, em alguns pontos, por tapetes escuros. As pa­redes eram pontilhadas de quadros magníficos. As portas se abriam para um solário octagonal, de frente para a baía.

— Gosta? — Joe perguntou, apoiando um ombro no batente da porta e parecendo disposto a adiar o banho indefinidamente.

— É incrível — ela elogiou em um impulso. — Não sei exatamente o que eu esperava encontrar, mas sei que não era nada parecido com isto.

— Gosto daqui — ele declarou com simplicidade. — Per­tencia a uma velha atriz, mas isso foi há muito tempo. Ela morreu, mas dizem que adorava este lugar. Quando a pro­priedade foi colocada à venda, fiz uma oferta.

— Irrecusável, eu aposto — Olívia falou sem pensar. Ele sorriu.

— Pode-se dizer que sim. Acha que estou errado? Quando se quer uma coisa, deve-se lutar por ela.

Olívia aproximou-se das janelas imensas.

— É essa a sua filosofia de vida, sr. Castellano? Se quer alguma coisa, faz tudo para consegui-la, mesmo que isso possa ferir alguém?

— A proprietária já havia morrido...

— Eu sei.

— Mas não está se referindo a Lilly Thurman, está, Olí­via? — O tom de Joe tornou-se menos gentil. — Se está falando de si mesma, o jogo é muito diferente.

 

Não sei do que você está falando! — Olívia protestou, indignada.

— Se é o que você diz... — Joe mostrou-se cético. — Por que veio?

— Por que me convidou?

— Boa pergunta. Talvez eu estivesse curioso de saber até onde você pretende chegar.

— E, talvez, eu tenha vindo pelo mesmo motivo — ela replicou com falsa tranqüilidade, disposta a impedir que ele notasse como a desconsertava. — Quer que eu vá embora?

— Não — Joe respondeu em tom rude, mas pelo modo como seu olhar passeou pelo corpo de Olívia ela concluiu que não era a única a enfrentar dificuldades no controle das emo­ções. — Bem, acho que vou mesmo tomar aquele banho.

— Sé está precisando... — ela murmurou.

Joe, que já dera alguns passos na direção do corredor, virou-se com a rapidez de um raio.

— O que quis dizer com isso? — inquiriu.

— Nada. A menos que você queira que meu comentário tenha outro significado.

Mais uma vez, Olívia surpreendia-se com a própria au­dácia. A percepção de que era capaz de deixá-lo tenso era incrivelmente excitante/Perdendo de vez a inibição, passou a língua pelos lábios bem devagar.

— Não faça isso!

— Não fiz nada — ela retrucou em tom inocente.

— Ainda não, mas esse papel não combina com você, Olívia.

Olívia ignorou o insulto deliberado, pois supôs que Joe fizera tal comentário apenas para enfrentar uma situação que começava a fugir ao controle dele.

— Não? — indagou. — O que combina comigo, sr. Castellano? Ficar calada? Fazer o que me ordenam? Permitir que os outros pisem em mim?

— Ninguém está pisando em você! Ao menos, eu não estou.

— Tem certeza? Ora, sr. Castellano, admita que sente pena de mim.

— Não sinto pena de você — ele declarou entre os dentes. — De mim mesmo, talvez. Por que está agindo assim, Olívia? Não está realmente interessada em mim.

— Não estou?

Mal acabara de falar, Olívia pôs em questão a sensatez daquele jogo. Com passadas largas, Joe aproximou-se, até que seus corpos quase se tocassem.

— Pare com isso! — ele ordenou, furioso. — Já foi longe demais. Não sei o que você pretende, mas estou certo de que se esqueceu de que não sou nenhum jovenzinho inex­periente, assim como você não faz o gênero femme-fatale.

Olívia fez um esforço enorme para se manter impassível. Nunca em sua vida alguém a fizera sentir-se tão pequena. Porém, nada faria com que ela demonstrasse seu medo.

— Costuma atacar tudo o que não pode controlar? — enfrentou-o, sem recuar um passo sequer. — Estou come­çando a desconfiar que tem medo de mostrar seus senti­mentos. Ou, talvez, tenha medo deles!

— Você não sabe o que está dizendo!

O tom de Joe era quase selvagem. O que provocou em Olívia uma agradável sensação de poder. Embora não fizesse idéia do motivo pelo qual ele a convidara para passar a tarde em Malibu, sabia que conseguira confundi-lo.

— Talvez eu saiba — arriscou.

Com uma exclamação furiosa, Joe segurou-a pelos om­bros. Olívia estava certa de que seria sacudida, ou afastada com certa dose de violência. No entanto, ele a puxou para si, em uma demonstração primitiva de dominação sexual.

— Acredite — ele sibilou —, esta não é uma boa idéia.

Olívia acreditou e, descobrindo-se prisioneira daqueles braços, ao mesmo tempo sensuais e assustadores, decidiu que realmente fora longe demais.

— Está bem. Acredito em você — murmurou, mas quando ergueu os olhos para fitá-lo, a fúria na expressão de Joe cedera lugar à mais pura frustração.

— Você não deveria ter começado esse jogo, Olívia.

As mãos dele subiram até o pescoço de Olívia. Por um momento, ela teve o medo irracional de que Joe fosse es­trangulá-la. Segundos depois, os lábios dele pousavam sobre os dela, suaves e ternos a princípio, tornando-se exigentes em seguida.

Olívia não resistiu. Mesmo que quisesse, não teria con­seguido. O beijo de Joe era embriagante e ela sentiu o corpo anestesiar parte por parte, para então despertar para o prazer sensual que os braços fortes que a envolviam lhe proporcionavam.

Joe deslizou uma das mãos,'para desabotoar a camisa de Olívia. Com rapidez e eficiência, afastou á barreira criada pela blusa e o sutiã, libertando-lhe os seios arredondados. Ao sentir a mão quente cobrir um mamilo já sensível demais, Olívia arqueou o corpo, pressionando-o contra o dele.

Com esse movimento, descobriu que Joe não estava menos excitado que ela e, apesar de se sentir atordoada de prazer, ainda conseguiu pensar que, àquela altura, não teria precisado de provas concretas para saber o efeito que despertava nele.

Então, deu-se conta de que desejava livrar-se das roupas, dele e dela, pois tudo o que queria era sentir a pele de Joe na sua.

Quando ele se afastou de súbito, Olívia não estava pre­parada para a separação, e quase perdeu o equilíbrio. As mesmas mãos que a acariciavam segundos antes, fecharam-lhe a blusa com violência. Só então ela se deu conta de que a blusa fora puxada para fora da bermuda, e que, agora, seu ventre encontrava-se exposto.

Endireitou as costas e afastou as mãos dele depressa, encarregando-se dos próprios botões. Apesar do ato aparen­temente corajoso, descobriu-se incapaz de fitá-lo nos olhos.

O silêncio que se seguiu parecia carregar uma tonelada de recriminações. De início, nenhum dos dois falou, pois estavam ocupados demais com a tarefa árdua de controlar as emoções.

— Desculpe-me, eu... — Olívia começou a falar, mas Joe ergueu a mão, forçando-a a calar-se.

— Não diga nada. — Respirou fundo. — Vou tomar banho.

Com isso, Joe virou-se e deixou o solário. Olívia ouviu seus passos atravessarem a sala e percorrer parte de um dos corredores. Então, deixou-se cair, sem a menor elegân­cia, em uma das espreguiçadeiras.

O que fizera?

A medida que as possíveis conseqüências de seu compor­tamento tornavam-se claras em sua mente, ela abaixou a cabeça e passou a mão pelos cabelos. Percebeu que a presilha de couro que os prendia havia se soltado e, sentindo as mechas rebeldes entre os dedos, calculou que sua aparência fosse das piores. Com os cabelos desgrenhados, a blusa para fora da bermuda e nenhum batom, não seria capaz de en­ganar ninguém quanto ao que se passara no solário.

— A senhorita está bem? Posso lhe servir alguma coisa? Sentindo-se mais humilhada do que jamais fora em sua vida.

Olívia ergueu os olhos e deparou com a emprega que fora receber a ela e B.J., pouco antes, parada na porta da sala.

— Eu... — Teve de conter o impulso de pedir à mulher que chamasse um táxi, para que ela pudesse ir embora, antes que Joe saísse do banho. — Gostaria de uma xícara de chá, por favor.    

— Chá? — a empregada repetiu, como se esse item nem sequer constasse em sua lista de expectativas.

— Sim, claro.

— Prefere com leite ou limão?

— Leite.

Aliviada ao ver a outra desaparecer novamente, Olívia levantou-se e olhou em volta. Felizmente, a praia era particular, pois ela não havia escolhido um bom lugar para levar a cabo o seu plano ridículo de sedução. O solário envidraçado proporcionava um show a qualquer pessoa inte­ressada no que pudesse acontecer ali dentro.

Ora, como podia ser tão tola? Depois da maneira como ele reagira na noite anterior, quando ela tentara beijá-lo, deveria ter imaginado que seu plano jamais daria certo.

Ainda assim, ele lhe mandara rosas...

As rosas!

Olívia fechou os olhos. Ficara tão desconsertada com a própria reação ao ver Joe, que se esquecera de agradecer pelas flores. O que ainda não compreendia era por que ele as enviara, uma vez que não estava interessado nela.

Bem, era possível que ele encarasse tal gesto como mera formalidade e que houvesse pedido ao secretário que se en­carregasse disso. Inclusive, do cartão.

Definitivamente, Olívia não sabia o que pensar. Para um homem que já tinha duas mulheres em sua vida, ele não parecia nada fiel a nenhuma delas. Estava tendo um caso com Diane, enquanto a mãe esperava que ele se casasse com Anna Fellini. E, embora Olívia não fosse ingênua a ponto de acreditar que Joe estivera prestes a sucumbir ao seu charme, em alguns momentos tivera a nítida impressão de que o perturbava.

Sacudiu a cabeça, pensando que precisava encontrar um banheiro imediatamente. Tinha de se recompor, antes que Joe voltasse. Ora, deveria ter pedido à empregada que lhe indicasse o caminho. Agora, era tarde.

Apanhou a bolsa e entrou na sala. Vendo-se diante de dois corredores pontilhados de portas, escolheu um deles ao acaso e seguiu adiante, espiando cada porta aberta pela qual passava.

Descobriu que a casa era ainda maior do que parecera, antes. Perdeu a conta de quantas pequenas salas de estar, todas impecavelmente decoradas, havia ali. E todas elas, além da imensa sala de jantar, tinham portas de vidro que. se abriam para a piscina, coberta por um teto retrátil.

Quando chegou ao fim. do corredor, sem encontrar sinal de um banheiro, Olívia já entrava em pânico. Decidiu voltar e espiar cada uma das salas de estar, à procura de, ao menos, um espelho.

Na primeira tentativa, não encontrou espelho, mas avis­tou uma porta que se abria para um quarto. Animada, en­caminhou-se para lá. Parou na porta do quarto, impressio­nada mais uma vez com a decoração.

De repente, deu-se contas das roupas espalhadas sobre a cama enorme e, pior, do barulho de um chuveiro, perto dali. Virou-se e deparou com o que só poderia ser a porta de um banheiro privativo e só então percebeu que entrara justamente no quarto de Joe.

Ficou paralisada pelo pânico. Se Joe a encontrasse ali, pensaria que ela fora à procura dele e, com certeza, não acreditaria que fora o acaso que a levara até lá.

Tentando acalmar-se, decidiu que não havia razão para que ele a encontrasse ali, Tudo o que tinha de fazer era voltar pelo mesmo corredor, até a sala. Poderia até mesmo investigar as outras salas de estar que vira, pois poderiam ser partes de suítes, também.

Já se virava para sair, quando notou o porta-retrato sobre a mesa-de-cabeceira. De onde estava, podia ver que a foto­grafia era de uma mulher, mas não era possível enxergar-lhe as feições. Apesar de tudo, a curiosidade venceu o pânico e Olívia adiantou-se alguns passos e apanhou a foto.

Ao contrário do que esperava, a fotografia não era de Diane, nem de Anna Fellini. Tratava-se de uma mulher bem mais velha e com os mesmos traços de Joe. Só poderia ser a mãe dele.

— Ah, a senhorita está aí.

Mais uma vez, a voz inesperada da empregada apanhou Olívia de surpresa. Sobressaltada, ela deixou cair o porta-retrato.

Desesperada, Olívia apanhou-o, ao mesmo tempo que fa­zia sinais para a mulher sair, tentando fazê-la entender que ela mesma já estava de saída.

A empregada desapareceu imediatamente, ao mesmo tempo que o barulho do chuveiro cessava. E Olívia viu-se diante de seu anfitrião que, com uma toalha em torno da cintura, água escorrendo pelo corpo, saíra do banheiro para verificar o que provocara o ruído estranho em seu quarto.

Depois de estudar Olívia por um momento, com expressão nada amigável, Joe inquiriu:

— Que diabos está acontecendo aqui, Olívia?

 

O que aconteceu ontem, à tarde? Você desapareceu.

Diane fez a pergunta, depois de servir uma xícara de café a Olívia. O que não era habitual.

Olívia perguntou-se se seria mera coincidência e rezou para que seu rubor não a delatasse.

Sentiu o coração acelerar ao se lembrar dos acontecimen­tos da tarde anterior. Agora, tudo parecia um sonho, como se ela não houvesse realmente visitado a casa de Joe, em Malibu. Infelizmente, a verdade era que quase morrera ao ser apanhada, bisbilhotando, no quarto dele.

— Eu estava procurando por um banheiro — dissera, sabendo que ele não acreditaria. — Então, vi a foto e...

— E quis saber de quem era — ele completara, irritado.

— Sim, eu... Bem, desculpe-me por bisbilhotar... É sua mãe, não? Vocês são muito parecidos.

— Não sei se ela receberia esse comentário como elogio — Joe declarara com ironia.

Sem saber o que dizer, Olívia voltara a se lembrar das flores.

— Ainda não o agradeci pelas rosas.

— Que rosas?

Era evidente que ele não sabia de rosa alguma.

— Eu quis dizer... o hotel... — ela havia tentado corrigir a gafe. — Bem... Desculpe-me pela invasão — acrescentara, saindo do quarto. — Até mais tarde.

Felizmente, Joe não insistira no assunto e Olívia sentiu-se tola por ter imaginado que ele lhe mandaria flores. Só poderia ter sido Richard, claro. Talvez a bebida houvesse ope­rado mudanças da caligrafia de seu ex-marido.

O problema era que, sempre que Joe estava por perto, Olívia não conseguia raciocinar com clareza. Mesmo agora, sentada na sala de estar de Diane, ela ainda sentia arrepios ao lembrar-se do corpo másculo, envolto pela toalha felpuda.

Jamais sentira aquele tipo de atração por homem algum. Nem mesmo Richard. Era uma pena que Joe não sentisse o mesmo. O fato de ele haver se envolvido com ela, por uns poucos instantes, fora mero resultado da tentação que qual­quer mulher representaria, caso se atirasse nos braços dele. Como Olívia fizera.

Acabara encontrando um banheiro, sem ajuda da empre­gada. Ao sair do quarto de Joe, entrara na porta seguinte, que se abria pára uma suíte muito parecida. Conseguira se recompor, ao menos no que dizia respeito à aparência, e voltar ao solário com tempo para se preparar para a volta de Joe. Esperava que ele anunciasse que havia chamado um táxi, para levá-la de volta a Los Angeles.

O que Joe não fizera, embora ao surpreendê-la devorando uma bandeja de biscoitos que a empregada servira junto com o chá, ele com certeza tivera vontade. Porém, ele es­perara que ela terminasse de comer, para convidá-la a um passeio pela praia.

Decidindo não explicar que não havia almoçado, pois isso daria a idéia de que estivera muito ansiosa para chegar lá, Olívia respondera:

— Excelente idéia. Podemos ir — acrescentara, bebendo o último gole do chá.

— Tem certeza? — Joe indagara com um toque de humor.

— Absoluta.

— Então, vamos.

Ainda embaraçada pela cena na suíte dele, Olívia apro­veitara o fato de passarem pela piscina, para sair da casa, para conversar sobre um assunto seguro.

— Este lugar é mesmo lindo! — elogiara com entusiasmo. — Nem parece uma casa de praia. Se fosse minha, eu mo­raria aqui.

— Gosto daqui — Joe concordara com um sorriso —, mas também gosto de minha casa, em San Francisco. Lá é mais fresco.

Embora ele a tratasse com cortesia, Olívia não se enganara. Joe estava apenas sendo educado. Na verdade, gostaria de mandá-la embora. Portanto, ela teria de ser cuidadosa e não cometer nem mais um erro, enquanto estivesse ali.

Haviam caminhado pela praia, conversando amenidades. Quando Olívia apontara para a doca diante da casa, Joe explicara que possuía um barco, ancorado na Marina del Rey. Apesar de haver prometido a si mesma não se deixar envolver pelo charme dele novamente, Olívia descobrira-se falando abertamente sobre o seu trabalho. Bem, tratava-se de mais um assunto seguro. Ou assim ela pensava.

— Por que decidiu escrever a história de Diane? — Joe perguntara. — Eu jamais imaginaria que ela aceitaria tal proposta. Afinal, você é a ex-esposa do atual marido dela. O que poderia resultar em desastre.

— Por quê? — Olívia não compreendera o que ele tentara dizer. — A verdade é que Diane me convidou a escrever o livro.

— Está brincando!

— Não. Admito que, no início, fiquei surpresa, mas acabou dando certo.

— Ainda assim, ela não poderia saber quais eram as suas verdadeiras intenções, ao aceitar o convite. Como Diane saberia se você não tinha mudado de idéia?

— Com relação a quê? — Olívia sentira-se mais e mais confusa.

Joe mostrara-se ligeiramente irritado, como se ela esti­vesse mentindo.

— Você mesma me contou que Ricky acredita que você ainda o ama. Poderia querer reconquistar o seu marido. Bem, imagino que Diane tenha dado maior importância à sua reputação como escritora do que ao risco de arruinar o casamento dela.

— Espere um instante — Olívia protestara, indignada. — Diane não tem qualquer motivo para temer a minha presença. O que quer que ela tenha dito a você, Richard não significa nada para mim.

— Está sendo sincera?

— É claro!

— Mas não é verdade que não está mais vivendo com o homem por quem abandonou Ricky?

— O homem... — Ora, aquilo já era demais. — Não aban­donei Richard por homem algum!

Joe empalideceu e arriscou:

— Por uma mulher, então? Olívia fitou-o de olhos arregalados.

— Está insinuando que...

— Você disse que não havia nenhum homem à sua espera, em Londres — ele tentou explicar-se.

— E, por isso, você concluiu... Não há nenhum homem, mas também não há mulher alguma. Não abandonei Ri­chard por ninguém. Foi ele quem me deixou!

— Mas Diane... Pensei que...

— O que você pensou? —- Olívia tremia de raiva. — Sinto muito se o desapontei, mas não tive culpa de nada. A menos que o fato de eu não poder ter filhos seja motivo legal para um divórcio.

Foi a vez de Joe arregalar os olhos.

— Mas, então... O que...

— Ora, pergunte a Diane — ela resmungou, retomando o rumo da casa.

Seus olhos estavam cheios de lágrimas. Não era de ad­mirar que Diane não fizera nenhuma objeção à sua estada em Los Angeles. Ela cuidara de contar a todos uma versão mais adequada aos interesses dela.

Joe não demorou a alcançá-la e bloquear-lhe a passagem.

— Sinto muito — murmurou. — Esse assunto deve ser muito doloroso para você. Eu não sabia que Ricky havia pedido o divórcio.

— Está tudo bem — Olívia mentiu.

— Sei que não está tudo bem. Talvez tenha sido culpa minha. Posso ter compreendido errado. Se Diane a convidou...

— Ela convidou.

— Nesse caso, devo-lhe um pedido de desculpas.

— Tudo bem. Nada disso é doloroso, agora. Admito que já foi, um dia, mas não agora.

Joe franziu q cenho.

— Quer dizer que não guarda nenhum sentimento por ele?

— Não! — Procurando um motivo para desviar os olhos dos dele, por temer cair de novo na própria armadilha, Olívia consultou o relógio. — Meu Deus! Já é tarde. Preciso voltar ao hotel.

Joe não fez objeção e ela rezou para que ele não decidisse levá-la, em vez de chamar um táxi. Precisava desesperadamente ficar sozinha.

Avistou a Harley Davidson, quando se aproximava da entrada da casa.

— É uma Sportster, não é? — falou, sem esconder o entusiasmo.

— É fã das Harleys? — Joe perguntou, surpreso.

— Sou proprietária de uma velha 750.

— Não acredito! — A tensão dissipava-se rapidamente. — Este modelo é dos mais modernos, mas tenho uma velha Ironheads, em San Francisco.

— Ironhead! Ah, a minha é uma Panhead. Pobrezinha! Joe riu.

— Ora, as velhas Glides, como são chamadas por aqui, são modelos impressionantes. Faz tempo que comprou a sua? Quando começou a se interessar por motocicletas?

— Por Harleys — Olívia corrigiu-o com um sorriso ma­roto. — Sempre gostei, mas comprei a minha quando recebi os direitos autorais do meu primeiro livro.

— Quer dar uma volta? — ele convidou, parecendo haver se esquecido dos contratempos anteriores.

— Ah, não... — Olívia hesitou.

— Se está com medo de pilotar, monte na garupa — Joe insistiu, montando ele mesmo e ligando o motor potente.

Embora soubesse que não deveria, Olívia obedeceu. Com os braços firmemente presos à cintura dele, saboreou a sen­sação do vento nos cabelos, enquanto voavam pela praia, a uma velocidade que ela jamais havia experimentado.

A certa altura, Joe parou e virou-se para ela.

— Sua vez.

Olívia não recusou a oferta, mas quando se aproximavam da entrada da casa, devolveu o comando da máquina a Joe. Ele conduziu a motocicleta até o pátio e estacionou-a. Quando Olívia se preparava para saltar, ele pousou a mão em seu joelho.

— Espere. — Virou-se, a fim de fitá-la nos olhos. — Queria que você soubesse que lamento o que aconteceu antes...

— Não tem importância.

— Tem, sim. A culpa foi toda minha.

Sentindo a perna tremer sob os dedos de Joe, Olívia ten­tou distraí-lo:

— Acho que tenho passado muito tempo sentada. Estou completamente fora de forma.

Mas Joe deslizou a mão pela coxa dela, provocando-lhe uma onda de calor.

— E eu acho que você está mentindo — murmurou baixinho.

— Preciso ir embora — ela insistiu, desesperada por saber que se encontrava a um passo de cometer mais uma grande loucura.

— Eu sei — Joe resmungou, contrariado. — Mas quero que saiba que gostei muito de tê-la aqui. Espero que queira me ver de novo...

Olívia forçou-se a voltar à realidade. Joe não falara a sério. Fora apenas gentil. Provavelmente, temera que ela contasse tudo a Diane.

Ora, jamais faria isso! Seria uma grande tolice. Além do mais, por mais infantil que fosse, queria guardar a lem­brança daquela tarde só para si.

Bem, Diane esperava por uma resposta e Olívia passara tempo demais fitando o vazio.

— Ontem, à tarde? — repetiu, fingindo não lembrar. — Por quê? Tentou falar comigo? Fui fazer compras.

— Verdade? Tentei falar com você, pois Joe estava ocu­pado demais para me ver e eu queria conversar com você sobre o livro.

O tom de Diane provocou arrepios em Olívia. Ao mesmo tempo, ela não poderia saber onde Olívia passara a tarde. Ora, mas por que Diane decidira servir-lhe café e interro­gá-la? A atriz nunca havia demonstrado o menor interesse pelo que ela fazia!

— É mesmo?

— Sim. — Diane inclinou-se no sofá e fitou-a com olhar penetrante. — Creio que vai concordar que já cobrimos a maior parte dos detalhes pessoais. Ocorreu-me que, talvez, você não queira discutir a atração de seu marido por mim. Assim como meus dois outros casamentos. Tenho certeza de que Phoebe poderá lhe fornecer qualquer informação que lhe falte. E, claro, imagino que queira visitar os estúdios. Ela cuidará disso, também.

Olívia respirou fundo.

— Compreendo... Está dizendo que não quer mais se en­contrar comigo, com regularidade.

— Exatamente. É muito... monótono. Tenho outras coisas para fazer, pessoas para conversar, compromissos a cum­prir. Passar a manhã inteira fechada com você é desgastante. Estou negligenciando meus amigos e... Joe tem se queixado, pois nunca estou livre para vê-lo.

Olívia sentiu um calafrio. O último comentário soara proposital.

— Sinto muito se considera monótono falar sobre si mes­ma — declarou, arrependendo-se em seguida por haver de­monstrado seus sentimentos.

— Eu não disse isso — Diane retrucou. —: Eu disse que encontrar você todas as manhãs é monótono. Ora, não sei o que Ricky vê em você!

Olívia levantou-se.

— Nesse caso...

— Por favor, me desculpe — Diane interrompeu-a. — Sei que minha atitude foi imperdoável, mas Ricky tem me deixado tão nervosa, que nem sei mais o que estou dizendo.

— Nós duas sabemos que foi um erro eu ter vindo aqui

— Olívia declarou, impassível. — Sinto muito se Richard está tornando a sua vida difícil, mas...

— Não! Por favor. Sente-se, Olívia. Deixe-me explicar.

— Não há nada para explicar...

— Há, sim. — Embora Diane falasse em tom gentil, era evidente que estava se esforçando para manter o controle.

— A verdade é que eu não sabia que a sua presença deixaria Ricky tão... perturbado.

— Srta. Haran...

— Deixe-me terminar. Eu disse a Ricky que não diria nada, que fingiria ter sido minha a idéia de convidá-la. Mas você é inteligente demais para se deixar enganar por meias verdades. Especialmente, sabendo o que ele sente por você.

Olívia suspirou.

— Não creio que...

— Ouça o que tenho a dizer, por favor — Diane falou em tom de súplica. — Conversei com Phoebe e ela concorda comigo. Você poderá conseguir tudo de que precisa através dela. Também poderá continuar no hotel, ao menos até o final da semana. Então, poderá enviar o rascunho do ma­nuscrito, quando estiver completo. Enviarei por fax qualquer alteração que julgue necessária.

— Mas, eu pensei...

Diane ergueu uma sobrancelha, aparentemente decidin­do, finalmente, ouvir o que Olívia tinha a dizer.

— O que você pensou, Olívia?

— Nada — Olívia negou com firmeza, determinada a não confessar que sonhara em escrever o rascunho em Los Angeles. — Ainda quer que eu escreva a sua biografia?

— Sim.

— Muito bem. Farei como deseja.

— Bom. Muito bom. — Após uma pausa, Diane acres­centou: — Direi a Ricky que você vai embora.

— Por favor, não diga nada a ele — Olívia implorou. Não queria mais rosas sendo entregues no hotel. — Será melhor assim, não acha.

— Se é o que você quer — Diane pareceu concordar, mas seus olhos exibiam um brilho feroz. — Agora, sugiro que termine o seu café e, então, revisaremos nossas últimas conversas, para suprir os detalhes que ainda não discutimos.

 

Olívia suspirou e deixou-se afundar na ba­nheira. Como aquela seria a sua última noi­te em Los Angeles, decidira desfrutar da luxúria que não teria em Londres.

Infelizmente, não poderia se demorar tanto quanto de­sejava, pois pretendia descer para jantar no restaurante. Estava atrasada porque Max Audrey, produtor de Diane, a fizera esperar uma eternidade, no estúdio. Assim como a maioria das pessoas que ela entrevistara nos últimos dias, ele considerava seu trabalho mais importante que o dela. Como não era rica, Olívia era descartável. Naquele mundo, somente o dinheiro importava.

Apesar de tudo, descobrira muito mais sobre Diane. Phoebe conseguira entrevistas com diretores, maquiadores, câmeras e técnicos, que haviam contado a Olívia diversas his­tórias sobre a colega. No entanto, ela poderia apostar que teria dito qualquer coisa, a fim de garantir seus empregos.

Fora uma semana estafante, especialmente pelo fato de Phoebe acompanhá-la o tempo todo. A agente alegara que, assim, Olívia teria maior facilidade em conseguir o que que­ria. Porém, era evidente que Diane a encarregara de ga­rantir que Olívia não fizesse nada além de trabalho.

Como se fosse necessário!

Fazia quase uma semana que Olívia passara a tarde com Joe, em Malibu, e sentia-se desapontada por ele não ter feito nenhum contato. Nem no hotel ele aparecera. Prova­velmente voltara para San Francisco e nem sequer pensara nela de novo.

O telefone tocou, interrompendo-lhe os pensamentos amargos. Como todo bom hotel, aquele contava com apare­lhos telefônicos instalados em todos os aposentos, inclusive no banheiro. Com certeza, era Diane. Ela sempre ligava àquela hora, dando uma desculpa qualquer, mas certificando-se de que Olívia estava em seu quarto... sozinha.

— Alô?

— Liv?

Ela sentiu os ombros vergarem.

— Como vai, Richard?

— Liv, preciso vê-la. Diane contou que você está de partida e precisamos conversar, antes que você vá. Sei que é tarde e que, provavelmente, você está cansada, mas não posso deixá-la partir sem que compreenda os meus sentimentos.

— Não, Richard.

— O que está querendo dizer?

— Que não quero vê-lo. Sinto muito. Tenho certeza de que você e Diane podem resolver os seus problemas, se estiverem dispostos a isso. — Olívia fez uma pausa. — Já pensaram em ter um filho? Se me lembro bem, essa foi uma das razões pelas quais você me pediu o divórcio.

— Eu deveria esperar que você tocasse nesse assunto! Sabe muito bem que não posso ter filhos.

— Eu não sabia — ela respondeu, sentindo a boca seca. — Obrigada por ter me contado. Antes tarde do que nunca.

Richard proferiu um palavrão, antes de inquirir:

— Vai me dizer que não suspeitava que a deficiência era minha?

— Não. Como poderia? Você jurou que o resultado dos exames foi normal.

— Jurei uma porção de coisas — ele resmungou em tom amargo. — Mesmo assim, não acredito que você não tenha ido ao laboratório, depois que parti.

— Para que perder meu tempo? A ficha médica de uma pessoa é confidencial. Além do mais, eu não tinha motivos para imaginar que você estava mentindo.

— Não. — Richard, agora, soava infeliz. — Acho que fui mesmo um idiota. E por isso que preciso que me perdoe. Você não faz idéia do que a sua compreensão significa para mim.

— Muito bem, Richard. Perdôo você. Agora... preciso des­ligar. Estou muito ocupada.

— Trabalhando, ainda? — ele perguntou com ironia. — Ora, que profissional eficiente! Ora, desculpe. Estou cha­teado por não poder vê-la. Tentarei falar com você, antes que vá embora.

Olívia desligou, decidida a não permitir que o ex-marido se aproximasse dela de novo. O telefone voltou a tocar, antes mesmo que ela completasse o pensamento.

— Alô! — atendeu, irritada.

— Olívia? — Era Joe Castellano! — Você já jantou? Olívia quase se afogou na banheira.

— Joe... Que surpresa!

— Espero que seja uma surpresa boa — ele falou, evi­dentemente contrariado pelo tom estranho da voz dela.— Não quero incomodá-la, mas gostaria de vê-la. Se ainda não jantou, poderíamos comer juntos.

— Ainda não jantei — foi tudo o que ela conseguiu dizer.

— Bom. Isso quer dizer que quer jantar comigo? Ou foi apenas uma resposta direta à minha pergunta?

— Não, eu... Ora, você está entendendo tudo errado. Ri­chard acabou de ligar e, quando o telefone tocou, pensei que era ele de novo. Pensei que... que fosse jantar com Diane.

— Pensou errado. Bem, se você combinou alguma coisa com Richard, esqueça. Eu deveria ter ligado antes, mas acabei de chegar de San Francisco.

— Não vou me encontrar com Richard — Olívia falou, apressada. — E adoraria jantar com você. Se me der alguns minutos, estarei pronta.

— Posso subir?

— Subir? — ela repetiu em um fio de voz.

— Que tal me oferecer um drinque, antes do jantar? Se preferir que eu espere...

— Não. Pode subir. Deixarei a porta destrancada. Mesmo sabendo que aquela não era uma boa idéia, Olívia

embrulhou-se na toalha e correu destrancar a porta. Então, voltou para a banheira. Disse a si mesma que, se houvesse dito a Joe que estava no banho, ele pensaria que ela estava inventando uma desculpa e aquela poderia ser a sua última chance de dizer adeus.

Poucos minutos depois, ouviu a porta se abrir e voltar a fechar.

— Olívia? — Joe chamou da sala.

— Estou aqui — ela respondeu em tom casual. Apanhou o sabonete e retomou seu banho, mas teve um sobressalto ao ouvi-lo dizer:

— Oi!

Não era possível! Joe estava parado na porta do banheiro, com um sorriso irresistível nos lábios. Sem saber o que dizer, Olívia permaneceu calada. Seu primeiro impulso foi afundar sob a espuma, mas não quis arruinar a oportunidade de de­leitar os olhos com a visão daquele homem delicioso.

Ficou chocada com as idéias que lhe cruzavam a mente, mas era humana e fazia muito tempo que não partilhava sua cama com um homem. Assim, continuou ensaboando o braço, como se ter um homem assistindo ao seu banho fosse uma ocorrência corriqueira. Só se deu conta de que sua atitude era provocante, quando ouviu Joe inspirar profundamente.

— Precisa de ajuda? — ele ofereceu com voz aveludada.

— Acho que não — Olívia respondeu, hesitante. — Se quiser se servir de um drinque, estarei com você dentro de poucos minutos.

Joe aproximou-se da banheira.

— Não quero beber. Há espaço para mim, aí?

— Não!

— Por que não? — Ele agachou ao lado dela. — O ar­quiteto garantiu que essas banheiras têm espaço suficiente para uma festa.

— Pois ele mentiu — Olívia declarou. — Além do mais, pensei que não estivesse interessado em mim.

— O que a fez pensar isso?

— Ora, você deveria saber.

— Acontece que não sei. — Joe enfiou a mão na água e borrifou os ombros de Olívia. — A verdade é que pensei que você queria isso.

Olívia engoliu em seco. A proximidade de Joe começava a suplantar sua determinação de afastá-lo. E, embora seus motivos não tivessem nada a ver com Richard, a tentação tornava-se maior a cada momento. Por outro lado, ela não podia ir adiante.

— O que você realmente quer? — perguntou.

— Pensei que fosse óbvio.

— Não para mim — ela mentiu.

—- Muito bem. Vou deixar bem claro. Joe tirou o paletó e jogou no chão. Então, fez o mesmo com a gravata e começou a desabotoar a camisa.

— Sr. Castellano...

— Por favor, não me chame assim, Olívia. Não estamos no século dezenove e não costumo fazer amor com mulheres que me chamam de senhor.

— Nesse caso, talvez eu devesse chamá-lo de sr. Castel­lano o tempo todo.

— Talvez você tenha razão — ele concordou, deixando-a desconsertada. E continuou tirando a camisa e a calça. — No seu caso, estou disposto a abrir uma exceção.

Olívia arregalou os olhos.

— Joe... Não pode fazer isso!

— Quer que eu fique com isto? —: ele perguntou, apon­tando para a cueca de seda.

Sem encontrar voz para responder, Olívia nem teve tempo de se mover, antes que ele entrasse na banheira e sentasse de frente para ela.

Percebendo que ela o encarava com olhar fixo, boquia­berta, Joe acomodou-se confortavelmente e disse:

— Não me diga que nunca fez isso antes.

— Nunca — Olívia balbuciou.

E, quando pensava que jamais vivera situação mais cons­trangedora, Joe piorou ainda mais as coisas, mudando de posição, de maneira que os pés de Olívia ficassem entre suas pernas abertas.

— O que pensa que está fazendo?

Ela quase não conseguiu terminar a pergunta, pois ele envolveu-lhe os tornozelos com as mãos.

— Achei que você gostaria de uma massagem. Sou muito bom nisso — acrescentou, deslizando os dedos pelas pernas dela. — Gosta?

Sentindo uma onda de calor invadir-lhe o corpo, Olívia só conseguiu balançar a cabeça em resposta.

— Eu lhe disse que era bom nisso. Chegue mais perto. Vou massagear as suas coxas.

Olívia fechou os olhos. Se Joe continuasse com aquela massagem, ela acabaria se afogando na banheira. Quando voltou a abrir os olhos, ele chegara ainda mais perto. Poucos centímetros separavam seus corpos e, em um momento de loucura, ela desejou ardentemente que ele não estivesse usando a cueca de seda.

— Você é a mulher mais sexy que já conheci — Joe murmurou com voz rouca, carregada de emoção.

Atordoada, Olívia lembrou-se vagamente de que nunca antes fora considerada sexy.

— Não está falando sério — murmurou, com alguma di­ficuldade em pronunciar as palavras, especialmente quando ele começou a depositar beijos suaves em seu pescoço.

— Não sou Richard — Joe replicou, sem interromper os beijos. — Não costumo dizer o que não penso.

Olívia estremeceu.

— Não quero falar de Richard.

— Nem eu, mas quero ter certeza de que você sabe que não sou Richard.

— Não creio que eu possa me esquecer disso.

Naquele momento, Joe deslizou as mãos, até cobrir com elas os seios de Olívia. E ela jamais seria capaz de explicar onde encontrara coragem para deslizar as delas para dentro da cueca dele.

Em um movimento brusco, Joe colocou-se de pé e, em poucos segundos, tirou a cueca e voltou a sentar-se.

— Venha cá — ordenou, no comando mais sensual e pro­vocante que Olívia já ouvira.

Incapaz de qualquer outra coisa, ela obedeceu, e sentiu-se prestes a explodir de desejo, quando seus corpos se tocaram com intimidade, sem nenhuma barreira a separá-los.

Colaram os lábios em um beijo apaixonado, enquanto as, mãos de ambos exploravam cada centímetro dos cor­pos, um do outro.

Olívia teve um pequeno sobressalto no momento em que Joe puxou-a para si e, erguendo-a apenas um pouco, pene­trou-a. Embora não fosse uma mulher experiente, ela não teve dúvidas de que aquele era um homem de proporções mais que viris.

— Estou machucando você? — ele perguntou com voz ainda mais rouca que antes.

— Não. Você é... perfeito — ela garantiu. — Está bom para você?

— Muito, mas não sei quanto tempo conseguirei me con­trolar. Acho que se você se mexer...

— Assim? — ela indagou em tom provocante, ao mesmo tempo que movia os quadris em círculos.

— Olívia, eu lhe disse...

Ela o fez calar com um beijo ousado, tornando os movi­mentos de seu corpo ainda mais intensos.

Tudo não durou mais que alguns poucos instantes. Com um gemido quase animal, Joe atingiu o clímax, apertando-a contra si e murmurando elogios deliciosos ao seu ouvido. E, para sua surpresa, Olívia explodiu em êxtase, em seguida, sentindo-se unida a ele em todos os planos de sua existência.

 

Fizeram amor pela segunda vez, em meio aos lençóis macios, depois de Joe carregar Olívia nos braços, até a cama.

— Você é linda — ele murmurou, satisfeito, rolando para o lado e aconchegando-a em seus braços. — Richard só podia estar louco, quando a deixou.

— Já disse que não quero falar de Richard — ela protestou.

— Está bem, mas podemos conversar mais tarde? Estou exausto.

Joe já fechara os olhos e, segundos depois, dormia profundamente.

Ligeiramente desapontada, Olívia saiu da cama. Depois de cobrir o corpo nu de Joe, vestiu o robe e foi para a sala. Sentia-se confusa. Não sabia o que fazer. Tentou conven­cer-se de que a sensação de vazio que a invadira era resul­tado da fome. Porém, suspeitava de que o verdadeiro motivo era muito mais complicado.

O que deveria fazer? O que Joe esperava que ela fizesse? Ele não mencionara a partida iminente dela, mas isso não significava que ele não soubesse de nada. Se era mesmo tão íntimo de Diane, quando Richard dizia, ela certamente o informara sobre a mudança de planos.

Ao pensar em Diane, Olívia estremeceu. Esquecera-se com­pletamente da rival, nas últimas horas. Ora, se finalmente realizara a sua vingança, por que continuava a se sentir traída?

A resposta era simples, embora dolorosa. Por mais que tentasse, já não seria possível negar que estava perdidamente apaixonada por Joe. E, pior, ele nem sequer dissera que gostava dela, ou que gostaria de vê-la de novo.

Voltou a estremecer. Deveria ter contado a ele que estava de partida. Espiou pela porta do quarto e certificou-se de que ele continuava adormecido. Gostaria de acordá-lo e per­guntar-lhe quais eram, exatamente, as intenções dele. Po­rém, a idéia do que ele poderia, eventualmente, responder, refreou os seus impulsos.

Voltou a sentir o vazio intenso e decidiu que precisava comer alguma coisa. Pensou em chamar o serviço de quarto, mas desistiu, pois teria de pedir jantar para dois e a última coisa que queria era deixar provas de que havia partilhado sua suíte com outra pessoa.

Como Joe reagiria se acordasse e não a encontrasse? Um bilhete resolveria o problema, mas poderia ser muita presun­ção da parte de Olívia. Depois do que acabara de acontecer, era possível que Joe não quisesse mais jantar com ela.

A situação havia mudado, mas ela não sabia se para melhor, ou pior. Richard garantira ter provas do envolvi­mento de Joe com Diane. Se fosse verdade, por que ele se envolvera com Olívia? Bem, se ele sabia que ela iria embora no dia seguinte, por que não ter uma noite de prazer, sem conseqüências?

Sentindo-se à beira do desespero, Olívia voltou para o ba­nheiro e tomou outro banho. Então, vestiu-se e deixou a suíte.

O restaurante estava lotado, mas ela conseguiu uma mesa de canto. Embora pedisse seu prato favorito, não conseguiu comer. Quando pensava em voltar à suíte, alguém se apro­ximou da mesa. Olívia ergueu os olhos e deparou com uma mulher, de rosto vagamente familiar.

— Olá, srta. Pyatt. Lembra-se de mim?

Olívia a reconheceu quando viu que ela carregava um exemplar da biografia de Eileen Cusack.

— Ah, sim — disse. — Foi você quem me confundiu com Elizabeth Jennings.

— Meu nome é Sherie Madsen. Recebeu as rosas? Olívia empertigou-se na cadeira.

— Foi você quem as enviou?

— Bem, na verdade, foi meu marido. Depois da paciência que você teve conosco, ele achou que era o mínimo que poderíamos fazer.

— Ora, obrigada — Olívia agradeceu, surpresa pela so­lução inesperada do mistério das rosas. — Eram. lindas. Muito obrigada.

— Foi um prazer — declarou o marido de Sherie, que também se aproximara.

Apesar de estar vivendo a pior noite de sua vida, Olívia sentiu-se lisonjeada.

— Bem, nós não queremos incomodá-la — Sherie falou —, mas poderia autografar o livro? Ainda não li, mas pretendo começar assim que voltarmos para casa, em Wisconsin.

— Claro — Olívia concordou com um sorriso. Aceitou a caneta que o marido de Sherie lhe estendeu, escreveu uma dedicatória e assinou. — Espero que goste.

O acontecimento inesperado animou-a e, quando ela vol­tou para a suíte, sentia-se ligeiramente mais otimista. Fe­chou a porta com cuidado, mas quando entrou no quarto, descobriu que Joe se fora.

Quando o avião levantou vôo, às seis horas da tarde, Olívia foi invadida por uma sensação de alívio. Estava a caminho de casa e, quanto antes retomasse sua vida normal, mais fácil seria tirar Joe Castellano da cabeça.

Bem, não seria assim tão fácil, pensou. Deixara Londres relutante e voltaria com o mesmo sentimento. Somente as razões eram diferentes, pois Olívia havia trocado um rela­cionamento infeliz por outro.

Porém, apesar de sua relutância em deixar Los Angeles, estava feliz por saber que tudo terminara, de uma vez por todas. Fazer amor, ou melhor, sexo, com Joe, fora excitante, mas o que viera depois... Como ele podia levar uma mulher para a cama e, então, ir embora, sem sequer dizer adeus?

Quando descobrira que ele não estava na suíte, Olívia descera para procurá-lo, mas não vira nem sinal do dono do hotel. Pensara em pedir informações à recepção, mas temeu a reação que ele poderia ter. Então, ligara para a companhia telefônica e pedira o número do telefone da casa, em Malibu. Como deveria ter esperado, tratava-se de um número confidencial, que não constava da lista.

Sem saber o que fazer, decidira pedir um sanduíche e tentar dormir, mas tivera uma noite péssima. Às seis horas da manhã, estava de pé, junto à janela, perguntando-se por que Joe fora embora.

Quando o telefone tocou, às oito horas, Olívia atendeu ansiosa, certa de que era ela. Porém, era Bonnie, lembrando-a de que deveria apresentar-se no aeroporto às quatro da tarde. Disse também que Diane havia lhe desejado boa viagem.

— Ela queria convidá-la para o almoço, mas teve de viajar — a secretária informou. — Foi para Malibu, com o sr. Castellano. Pediu que eu me despedisse em nome dela.

Naquele momento, o mundo de Olívia desabara. Joe saíra de sua cama e fora, diretamente, para a de Diane! Seriam todos os homens tão patifes? Ou era ela quem só atraía aquele tipo?

O resto do dia demorara a passar e Olívia não conseguira esperar até quatro horas. Chegara ao aeroporto uma hora antes do horário estipulado e passou o resto do tempo na sala de embarque.

Mesmo então, depois de tudo o que acontecera, ainda mantinha acesa a chama da esperança. Tinha certeza de que Joe sabia em que vôo ela viajaria e permaneceu atenta às chamadas feitas pelos alto-falantes. Em vão.

Estava acabado, pensou, a bordo do avião. Chegara ali com más intenções, querendo ferir Diane. No final, fora ela quem saíra ferida e, talvez, merecesse a dor que sentia agora.

Assim que o aviso para apertar os cintos se apagou, al­guém se aproximou de Olívia.

— Esta poltrona está ocupada?

Ela ergueu os olhos e ficou horrorizada ao deparar com a expressão satisfeita de Richard.

— O que está fazendo aqui? — inquiriu. Richard sentou-se.

— O que você acha? Comissária, um uísque, por favor.

— Richard, diga-me o que está fazendo, a bordo deste avião!

Olívia mal podia controlar o tom de voz.

— Onde está a sua esposa?

— Ora, você sabe onde ela está. Bonnie lhe contou. Eu estava lá, quando ela telefonou para você. Bonnie também me forneceu o número do vôo em que você ia viajar. Então, decidi lhe fazer companhia.

— Fazer companhia? — ela repetiu, incrédula.

A última coisa que desejava era a companhia de Richard!

— Ora, também tenho parentes na Inglaterra — ele ar­gumentou, indignado. — Faz quase um ano que não visito meu pai.

Olívia lançou-lhe um olhar cético. Mesmo quando viviam em Londres, Richard raramente visitava o pai, ou qualquer outro membro da família.

— Mas devo admitir — ele continuou, depois de beber um longo gole do uísque que a aeromoça lhe serviu — que aproveitei a chance para ver você de novo. Não conseguimos conversar antes, com Manuel ouvindo tudo o que dizíamos. E, naquela noite, no bar, você não me deu chance de falar.

— Richard — Olívia murmurou, impaciente —, não temos mais nada a dizer. O que houve entre nós acabou há muito tempo. Você está casado com Diane e acho que deveria dar uma segunda chance ao seu casamento.

— Segunda chance! Liv, já lhe disse que não há mais nada entre Diane e eu. Desde que Joe Castellano entrou em cena, ela é capaz de fazer qualquer coisa para agradá-lo. Sei que ele investiu muito dinheiro nos filmes dela, mas não é por isso que ela o persegue.

Embora não quisesse ouvir nada daquilo. Olívia sabia que era preciso.

— Você disse que eles têm um caso. Como sabe? Li em uma revista que ele está saindo com outra.

— Anna Fellini — Richard declarou, demonstrando conhe­cer todos os detalhes. — E a mulher que a mãe dele gostaria de ter como nora. Giovanni Castellano, pai de Joe, era sócio de Paolo Fellini. Giovanni morreu, mas se Joe casasse com Anna, o pai dela passaria o controle dos negócios para ele.

— Compreendo — Olívia murmurou.

— Mas isso não vai acontecer. Por mais que goste de dinheiro, Castellano parece gostar mais de Diane.

— E você tem provas? — ela inquiriu em um fio de voz.

— É claro. Tenho uma fotografia dos dois juntos, nus, em uma cama de motel, em San Diego. Diane sabe o preço dessa foto. Se quiser o divórcio, terá de me deixar muito feliz.

Olívia fitou-o, incrédula.

— Você não faria isso!

— Não? Foram, eles que erraram, ao se encontrar em um motel barato — Richard argumentou com uma risada desagradável. — Ouvi Diane combinando os detalhes, ao telefone. Foi assim que consegui a fotografia. Aliás, em Los Angeles pode-se conseguir qualquer coisa, desde que se te­nha dinheiro. Ela pensou que eu havia saído, mas eu estava ouvindo pela extensão, no... em outro quarto.

Olívia perguntou-se o que ele estivera prestes a dizer, antes de mudar de idéia. Outro quarto? Ou o quarto de outra pessoa? Ela sabia que Bonnie tinha uma suíte só para ela, na casa de Diane. E também notara que Richard usava com freqüência expressões comuns no linguajar da secretária.

Mas a possível infidelidade de Richard pouco importava. O que provocou um aperto no peito de Olívia foi o que ele contara sobre Joe e Diane. E por que um motel em San Diego, se Joe tinha uma casa, em Malibu?

— Está chocada, não está? Não se preocupe. Se houver escândalo, as repercussões não vão me atingir.

— Já disse a ele? — Olívia perguntou, em um impulso. —r O que está fazendo é chantagem, Richard.

— Eu sei — ele confirmou com indiferença —, mas Diane não vai permitir que isso se espalhe. A foto mostra com clareza o rosto dela, mas não o dele.

— Está dizendo que o homem da foto pode não ser Joe Castellano?

— E ele! Usou o próprio nome, na recepção do motel... o idiota! Sr. e sra. Castellano!

— Ora, alguém pode ter usado o nome dele.

— É nisso que você gostaria de acreditar, não é? — ele falou, em tom de acusação. — Pensa que não sei que está interessada nele?

— O que disse?

— Não se faça de boba comigo, Liv. Vi vocês dois, em Malibu, felizes como dois pombinhos, sobre aquela motocicleta.

Olívia estava horrorizada.

— Mas, como...

— Eu estava no saguão do hotel quando aquele cão de guarda foi buscar você. Eu sabia que você devia ter um bom motivo para ter me tratado tão mal, naquela manhã. Por isso, fiquei vigiando o hotel e... bingo!

Olívia sentiu a respiração falhar.

— Não acredito que você tenha sido capaz...

— Uma pessoa desesperada é capaz de qualquer coisa. Além disso, Diane ficou muito interessada em saber onde você havia passado a tarde.

— Contou a Diane?

— Claro. Por que acha que ela mudou de idéia quanto à sua permanência em Los Angeles? Se existe uma coisa que ela não suporta é competição.

— Meu Deus, Richard, por que contou a ela? — Olívia mal podia acreditar em tudo o que ouvira.

— Porque eu sabia que não conseguiria me aproximar de você, em Los Angeles. E Castellano era uma complicação que eu não queria enfrentar.

— Ainda não acredito que tenha feito isso, Richard. Pôs em risco o seu casamento e a minha carreira porque não é capaz de aceitar a verdade. Já lhe disse: não amo você. Pouco me importa se nunca mais voltar a vê-lo. Você não tinha o direito de interferir em minha vida.

Richard exibiu um sorriso repulsivo.

— Está dizendo isso porque está furiosa com Diane. Quan­do tiver pensado melhor, verá que tenho razão. Nós nasce­mos um para o outro, Liv. Eu estava cego e não percebi isso. E, assim que Diane cumprir com o que me prometeu...

— Richard, ouça o que vou dizer. Depois que aterrissar­mos em Londres, nunca mais quero pôr os olhos em você.

Lamento que seu casamento com Diane não tenha dado certo, mas não é problema meu. Agora, acho melhor você voltar para a sua poltrona. Richard franziu o cenho.

— Não está falando sério.

— Estou, sim.

— Está perdendo o seu tempo, se pensa que Castellano virá atrás de você — Richard declarou, de súbito. — Eu disse a ele que nós dois havíamos nos reconciliado e que eu a acompanharia de volta a Londres.

— Quando? — Olívia inquiriu, sentindo que o mundo desabava sobre ela. — Quando conversou com Joe sobre o nosso relacionamento?

— Ontem, à noite. A propósito, onde você estava? Quando telefonei para a sua suíte pela segunda vez, foi don-juan quem atendeu ao telefone.

 

Joe morava no condado de Marin, ao norte de San Francisco, onde as casas eram luxuosas, com vista para a baía e, mais além, as montanhas verdejantes.

O motorista do táxi que Olívia apanhou falava sem parar sobre a beleza da cidade, afirmando que jamais viveria em outro lugar.

Provavelmente, era por isso que Joe vivia lá. Além do fato de a vinícola situar-se em Napa Valley, perto dali. Porém, ela não queria pensar na vinícola, pois também teria de pensar em Anna Fellini. Não se sentia preparada para isso. Por ora, bastava saber que Joe não estava com Diane e que a viagem dela para Malibu não tivera qualquer relação com ele.

O que não justificava sua ida impulsiva para San Francisco. Afinal, não tinha a menor garantia de que Joe queria vê-la.

No entanto, depois de ouvir do próprio Richard o que ele fizera, Olívia decidira que não poderia ficar de braços cru­zados. Tinha de. tomar uma atitude.

No aeroporto, conseguira, finalmente, livrar-se de Ri­chard de uma vez por todas, embora sua vontade fosse matá-lo com as próprias mãos. Repreendera a si mesma por não ter percebido que havia algo muito estranho no desapare­cimento de Joe de sua suíte.

Uma vez instalada no aconchego de seu apartamento, com Henry por companhia, concluíra que ninguém que ela conhecia lhe daria o telefone de Joe. De repente, lembrara-se de B.J. Certamente, o número dele não era confidencial. E Olívia jamais se esqueceria de um nome como Benedict Jeremiah Freemantle.

Daí por diante, as coisas haviam acontecido sem maiores dificuldades. A companhia telefônica de Los Angeles lhe fornecera prontamente o número de B.J. Olívia telefonara para ele em seguida e, como ninguém atendesse, deixara um recado na secretária eletrônica.

B.J. retornara a ligação dois dias depois, explicando que estivera viajando. Depois de relutar em dar informações sobre o patrão, o secretário parecera comovido com o de­sespero de Olívia. Contara que Joe voltara a San Francisco, na mesma noite em que estivera com ela.

A mesma noite em que ele falara com Richard, Olívia deu-se conta, desolada.

Sem saber exatamente como, conseguira convencer B.J. a lhe dar o endereço de Joe em San Francisco, para que ela pudesse enviar uma carta. Porém, ele havia se recusado a dar o número do telefone do patrão.

E fora ao desligar o telefone que Olívia fora tomada pela loucura de reservar uma passagem no vôo seguinte para San Francisco. Agora, lá estava ela.

— Tem certeza de que é este o lugar que está procurando? — o motorista do táxi perguntou.

Olívia adivinhou que, vestindo sua camisa creme e a saia marrom, sem meias, ela não parecia alguém que ficaria à vontade em nenhuma daquelas mansões.

— Sim, tenho certeza — respondeu com voz tensa. Seus nervos estavam à flor da pele. Era mesmo maluca por

ir até lá, por causa de um relacionamento de uma única noite.

— Bem, chegamos — o motorista anunciou, estacionando diante de um imenso portão.

Olívia pôde ver o telhado de uma casa imponente e im­pressionante. Respirando fundo, pagou ao motorista e saiu do carro.

— Quer que eu espere aqui, para o caso de não haver ninguém em casa? — ele ofereceu.

— Não, obrigada — ela recusou, embora não fizesse idéia de como entraria na propriedade, uma vez que não havia campainha, ou interfone à vista.

— Está bem.

Com certa relutância, o motorista pôs o táxi em movi­mento e se afastou.

O som de uma buzina quase matou Olívia de susto. En­quanto ela examinava o portão, perguntando~se como se fazer anunciar, um automóvel luxuoso havia parado bem atrás dela, com o pisca-pisca ligado, indicando que o moto­rista pretendia entrar naquela mesma propriedade. Olívia estava exatamente no caminho. Quem estaria dirigindo o carro? Seria Joe?

Não. Era uma mulher. Porém, assim que viu o rosto da mais velha, Olívia soube quem era. A semelhança da sra. Castellano com o filho era incrível.

— Posso ajudá-la? — a mulher perguntou, pela janela aberta.

— Eu... Bem... O... O sr. Castellano está? Sr. Joe Cas­tellano? Eu gostaria de vê-lo.

— Joseph?

Olívia corou. Ora, era evidente que a mãe não o chamaria de Joe.

— Sim, sim, Joseph — confirmou. — Poderia dizer a ele que estou aqui?

A sra. Castellano franziu o cenho.

— Poderia dizer que quem está aqui? — inquiriu, exa­minando Olívia da cabeça aos pés.

— Olívia... Olívia Pyatt. Conheci seu filho quando tra­balhava em...

— Você é Olívia?

A mulher a fitava, incrédula, agora. Certamente, não ima­ginava que aquele era o tipo de mulher pelo qual o filho pudesse se sentir atraído.

— Sim. Ele está? Eu realmente gostaria de falar com ele.

— Gostaria? Bem... Entre no carro. Vou levá-la até a casa.

— Vai? — Olívia indagou, arregalando os olhos.

— E o que você quer, não é?

— Sim... é. Obrigada. Muito obrigada — Olívia agradeceu, entrando no automóvel.

— Não me agradeça. Espero que não vá contar mais mentiras ao meu filho. Ele pode ser o chefe da família, mas, para mim, continua sendo meu filhinho.

— Mentiras? — Olívia repetiu, confusa. — Não contei nenhuma mentira a ele.

— Não? Interessante... Não foi o que me pareceu.

— O que exatamente Joe lhe contou, sra. Castellano?

— Não creio que seja da sua conta... Bem, para ser honesta, ele não me contou nada, mas conheço meu filho muito bem.

Olívia» sacudiu a cabeça, desanimada.

— Sinto muito, mas talvez não tenha sido eu quem o deixou perturbado. Imagino que saiba... — hesitou — ...da amizade dele com Diane Haran.

— A atriz? — a sra. Castellano falou com ar de desprezo. — Ela gosta de pensar que Joseph está interessado nela, mas receio que vai ter de se contentar com Mark.

— Mark?

— Meu filho mais novo. É claro que não aprovo o rela­cionamento dele com uma mulher casada. Especialmente porque acredito que ela está só usando Mark para tentar chegar a Joseph.

Só então Olívia lembrou-se de que, em sua primeira visita à casa de Diane, ela mencionara o irmão de Joe, que também era ator. Tentou absorver tudo o que ouvia. Seria verdade que Diane tinha um caso com o irmão de Joe, e não com ele?

— Em Los Angeles, as pessoas fazem qualquer coisa por dinheiro — a sra. Castellano continuou. — Estão sempre em busca de financiamento para seus filmes.

Olívia não sabia o que dizer.

— Mas Joe, quero dizer, Joseph está aqui, não está?

— Sim, ele está. Imagino que você não esteja disposta a me contar por que veio até aqui.

— Preciso vê-lo — Olívia replicou, constrangida. Então, lembrou-se de um outro detalhe. — Poderia me dizer como sabia o meu nome?

Os lábios da mais velha se curvaram.

— Não sou vidente, srta. Pyatt. Joseph me falou sobre você, embora não na ultima semana. Não me peça para lhe dizer em que contexto ele mencionou o seu nome. Assim como você, prefiro guardar meus sentimentos para mim mesma. — Percebendo o interesse de Olívia pela casa explicou: — Meu marido a comprou em mil novecentos e vinte e dois, de um próspero navegante.

— A senhora vive aqui? — Olívia perguntou, ao sair do carro.

— Depois da morte de Giovanni, passei a morar na cidade. Fico preocupada por Joseph viver aqui, sozinho. — Antes de abrir a porta de entrada, a sra. Castellano falou: — Joseph deve estar na biblioteca. Não vou pedir a Victor que anuncie você, a menos que deseje o contrário.

A casa não lembrava em nada a de Malibu. A construção antiga fora decorada em estilo clássico. Olívia estudava o hall de entrada, quando um homem de idade apareceu.

— Bom dia, madame — ele cumprimentou a mãe de Joe com um sorriso largo. — Quer que eu avise seu filho de que a senhora chegou?

— Não será necessário, Victor. Joseph não está à minha espera, mas quero lhe fazer uma surpresa. Esta é a srta. Pyatt, amiga de Joseph. Ele está na biblioteca, ou no escritório?

— Creio que está na biblioteca, sra. Castellano — Victor respondeu, antes de dirigir seu sorriso a Olívia. — Seja bem-vinda, srta. Pyatt. Posso lhe servir algo? Uma xícara de café, ou...

— Vou aceitar um café, Victor — a mãe de Joe inter­rompeu-o. — Acho que a srta. Pyatt gostaria de ver Joseph imediatamente. Não é mesmo, querida? — indagou, lançan­do um olhar de cumplicidade para Olívia.

— Sim — ela respondeu, embora houvesse preferido sen­tar-se na sala e tomar uma xícara de café com a sra. Cas­tellano, pois foi assaltada pela dúvida quanto à sensatez daquela visita.

— Gostaria que eu... — Victor começou, apenas para ser interrompido novamente.

— Eu mesma indicarei o caminho da biblioteca à srta. Pyatt. Por favor, sirva o meu café na sala.

— Sim, madame.

Victor desapareceu por uma porta e a sra. Castellano virou-se para Olívia.

— Espero que não traia a minha confiança em você — de­clarou. — Suba a escada e entre na primeira porta, à direita.

Olívia assentiu e seguiu a indicação da mais velha. Porém, quando se viu diante da porta da biblioteca, hesitou. Sabendo que, se demorasse muito ali, certamente seria surpreendida por alguém, o que só pioraria as cosias, respirou fundo e bateu.

— Entre!

O tom de voz de Joe não era nada convidativo, mas ela abriu a porta assim mesmo, pois sabia que se. não o fizesse, acabaria perdendo a coragem. Não viu sinal de Joe, mas ele logo voltou a falar, em tom impaciente:

— Ouvi seu carro chegando, mamãe. Já disse que você não precisa vir aqui todos os dias. Não quero companhia. Ficarei bem, se me der algum tempo.

Olívia ficou confusa. Onde estava Joe? Foi então que a poltrona próxima à janela girou e ela se viu frente a frente com ele.

A expressão de Joe era pouco amigável. Era evidente que ele havia esperado ver a mãe. Não disse nada, nem se levantou. Ficou ali, sentado, fitando-a, como se olhasse para um fantasma.

— Olá, Joe — Olívia balbuciou. — Deve estar surpreso em me ver.

— Pode apostar — ele replicou em tom rude. — Onde está Ricky? Ele sabe que você está aqui?

— Não! Pelo que sei, ele ainda está na Inglaterra. O que ele faz não me diz respeito.

— Não minta. — Joe levantou-se. — O que aconteceu? As coisas não funcionaram como você esperava? Ou foi ele quem se arrependeu de abrir mão de toda aquela mordomia?

— Não sei do que você está falando — Olívia insistiu. — Gomo já disse, não tenho nada a ver com Richard.

— Então, por que ele a acompanhou de volta a Londres? Você nem tentou negar que ele está lá.

— Não tenho por que negar nada, mas eu não sabia que ele ia pegar o mesmo avião.

— Verdade? — Joe inquiriu, cético.

— Sim, é verdade. Mal acreditei quando o vi a bordo, mas deveria ter imaginado que Diane contaria a ele qual seria o meu vôo.

— Diane?

— Sim... Calculo que ela tenha contado a você, também.

— Diane não me disse nada — Joe declarou, irritado. — Não falo com ela há dias.

— Mas...

— Continue — ele ordenou.

— Eu soube que, na noite anterior à minha partida — Olívia corou ao mencionar aquela noite —, Diane foi com você para Malibu.

— Estávamos juntos, na noite anterior à sua partida. Como eu poderia estar em dois lugares, ao mesmo tempo?

— Bonnie disse que Diane ficaria com você, em Malibu — Olívia insistiu.

— Foi isso mesmo o que ela disse? Que Diane e eu es­távamos juntos? Ora, Olívia, invente uma história melhor!

— Estou dizendo a verdade, eu juro! Ela disse que Diane estaria com o sr. Castellano. O que eu deveria pensar?

— Foi por isso que convidou Ricky para voltar à Ingla­terra com você? Achou que Diane estava comigo e, então, decidiu vingar-se?

— Não! Ora, isso é ridículo! Se não está disposto a acre­ditar em mim, é melhor eu ir embora.

Com um nó na garganta, Olívia virou-se para sair, mas antes que alcançasse a porta, Joe ordenou:

— Espere. — Então, aproximou-se e parou diante dela.

— Diga-me por que veio aqui. Preciso saber.

— Por que eu deveria dizer mais alguma coisa, sabendo que você não vai acreditar?

— Talvez eu acredite — Joe admitiu com ar atormentado.

— Eu queria saber se o que aconteceu entre nós significou alguma coisa para você — Olívia confessou. — Richard...

— hesitou ao usar o nome do ex-marido — ...ele disse que havia falado com você depois... depois que desci para o res­taurante. O que ele lhe falou não é verdade. Não tenho o menor desejo de voltar a viver com ele.

Joe estreitou os olhos.

— Mas você me disse que havia conversado com Richard

— lembrou, impaciente. — Naquela noite, quando telefonei, você admitiu que havia falado com ele, pouco antes.

— E foi o que aconteceu, mas eu disse a ele que não queria vê-lo. Como eu poderia imaginar que, mais tarde, Richard diria exatamente o contrário?

— Mas você saiu da suíte...

— Sim, porque você estava dormindo e eu queria comer alguma coisa. Ora, você deveria saber o que estava acon­tecendo. Eu estava assustada por ter percebido que havia me apaixonado por você. Tentei me convencer de que, se comesse alguma coisa, deixaria de sentir aquele vazio hor­rível, dentro de mim.

— Está falando sério?

Pela primeira vez, a expressão de Joe suavizou e ele estendeu uma das mãos para tocar Olívia na face.

— Eu não teria voado milhares de quilômetros se não estivesse falando sério — Olívia declarou com honestidade. — Sinto muito, Joe, mas eu tinha de lhe contar o que sinto.

A mão de Joe tornou-se terna no rosto dela.

— E o que você sente?

— Gosto de você — ela murmurou, abaixando a cabeça.

— Gosta de mim? — Joe repetiu, segurando-lhe o queixo com suavidade, mas forçando-a a fitá-lo nos olhos. — Gostar tem algo a ver com... amor? Preciso saber.

Olívia suspirou.

— Você sabe que sim. Sei que não sou como Diane, mas sou o que sou.

— Ainda bem... —- Joe sussurrou com expressão aliviada, ao mesmo tempo que a puxava para si. — Acho que fui eu o culpado por deixar você pensar que Diane significava algo para mim. Gosto dela, é verdade, mas Diane tem um caso com meu irmão, não comigo.

— Está dizendo que você e Diane nunca tiveram qualquer tipo de envolvimento? — Olívia perguntou, com voz trêmula.

Joe beijou-lhe os lábios.

— Exatamente — respondeu. — Mark nos apresentou e creio que ela viu em mim uma possibilidade mais lucrativa.

Olívia sacudiu a cabeça.

— Está se subestimando — falou, passando os braços em torno da cintura dele. — Ah, Joe, está mesmo contente em me ver? Não está apenas sendo gentil porque vim até aqui?

Joe apertou-a contra si.

— Está louca? Eu não conhecia o significado da palavra amor, até conhecer você. Mas fiquei furioso, esta é a verdade.

— Por causa do que Richard lhe falou?

— Em parte. Quando acordei e me vi sozinho no quarto, não entendi o que estava acontecendo. Logo em seguida, Ricky telefonou. Então, desci para o saguão e vi você au­tografando um livro. Concluí que estava mais interessada na sua carreira do que em mim.

— Joe...

— Eu sei, eu sei. — Ele se sentou, acomodando-a no colo. — Foi uma atitude infantil, mas não pude evitar. Estava tão enciumado que teria acreditado em qualquer coisa.

Olívia segurou o rosto dele entre as mãos.

— Estava com ciúme? — indagou, incrédula.

— E como! Só conseguia pensar em desaparecer, mas não poderia ir para Malibu, porque havia emprestado a casa para Mark. Então, peguei o primeiro avião para San Francisco.

Olívia abraçou-o, enquanto Joe deslizava a mão por den­tro de sua blusa, até encontrar o fecho do sutiã e abri-lo.

— Amo você — murmurou. — Sei que é ironia, mas não fosse por Richard, eu não estaria aqui.

— Por que não? — Joe inquiriu, desconfiado.

-— Porque imaginei que você não queria mais me ver. Quan­do peguei o avião para Londres, não tinha a menor intenção de voltar para cá, mas então Richard me falou sobre o tele­fonema que ele tinha dado e que falara com você!

— Nesse caso, acho que devo agradecê-lo, mesmo que desejasse matá-lo, até poucos minutos atrás. — Fez Olívia virar-se, até ficar de frente para ele, como haviam ficado na banheira. — Ah, você não imagina como é bom!

— Acho que imagino, sim — ela o corrigiu, ofegante. — Isto significa que você quer que eu fique? — perguntou, deslizando a mão entre seus corpos e acariciando-o com intimidade.

— Tente escapar e verá o que acontece! — ele replicou com voz rouca.

Então, beijando-a com ardor, começou a desabotoar a calça.

— Joe! Sua mãe está lá embaixo!

— Não creio que ela tenha intenção de nos perturbar. Ela sabe como eu estava sofrendo, desde que voltei de Los Angeles.

— Por minha causa?

— Sim, por sua causa — Joe confirmou, afastando a cal­cinha de Olívia. — Nossa! Parece que faz tanto tempo que estivemos juntos!

— Para mim também. Joe... sua mãe disse que você falou de mim.

— E verdade. Depois daquela tarde que passamos juntos, tive certeza de que a queria. Mas, como Diane estava con­vencida de que você ainda amava Ricky, suspeitei de que você só quisesse me usar, para deixá-lo enciumado.

— Usar você... — ela começou, mas parou para inspirar profundamente, ao sentir que Joe a penetrava. — Ah, Joe, estou tão feliz por ter decidido voltar.

— Eu também...

E pouco falaram depois, pois a linguagem de seus corpos era mais completa e muito, muito mais satisfatória.

 

A biografia de Diane Haran foi publicada no ano seguinte e foi aclamada pela crítica. Para surpresa de Olívia, Diane não cancelou o contrato, mesmo depois de saber que Olívia e Joe estavam juntos. Tendo conhecido Mark, Olívia, concluiu que a atriz decidira contentar-se com a versão mais jovem de Joe.

Especialmente depois de sua separação de Richard, que nunca publicou a tal fotografia, o que levava a pensar que Diane pagara o preço exigido por ele.

Olívia escreveu a maior parte do livro, quando voltou da lua-de-mel. Seus pais interromperam a viagem à Austrália, para assistir ao casamento e aceitaram de bom grado o convite da sra. Castellano para ficarem hospedados na casa dela por algum tempo.

Uma tarde, quando Olívia e a sogra cuidavam dos pre­parativos para o casamento, a sra. Castellano declarara:

— Achei boa idéia vocês terem marcado a data para tão breve. Assim, ninguém vai perceber o seu estado.

— Que estado? — Olívia indagara, confusa. Ao dar-se conta do que a outra insinuara, caíra na risada. — Ora, a senhora deve estar brincando!

— Vamos lá, Livy — a mãe de Joe tomara-lhe a mão com um sorriso satisfeito. — Eu pretendia fingir que não havia notado, mas estou muito entusiasmada com a idéia de ser avó. Joseph já sabe?

Olívia não sabia o que dizer. Não lhe ocorrera que poderia estar grávida. A verdade era que, durante anos, acreditara ser estéril, de maneira que havia, simplesmente, se habi­tuado à idéia.

— Ninguém sabe. Aliás, nem eu sabia, até a senhora dizer. Acha que estou mesmo esperando um filho?

— Eu estava desconfiada, mas quando a vi empalidecer diante das ostras, no jantar de ontem, tive certeza.

— Eu não havia me dado conta — Olívia confessou, sor­rindo. — Meu Deus! Eu disse a Joe que não podia ter filhos. O que ele vai pensar?

— Se conheço meu filho, vai ficar muito feliz. Realmente, quando Olívia contou a Joe, ele ficou maravilhado.

— Mas você disse que...

— Esqueça — ela o interrompeu. — Essa foi mais uma das mentiras de Richard. — Então, mudou de as­sunto: — Acha que devemos contar aos meus pais, antes do casamento?

Quando o manuscrito foi enviado a Diane, ela fez poucos comentários. Disse ter gostado do livro e desejou a Olívia sorte para conseguir uma editora que o publicasse.

Olívia mostrou-o ao seu próprio editor, que entrou em contato com Kay Goldsmith, imediatamente, para acertar os detalhes da publicação, que ocorreu seis meses depois do nascimento da filha de Olívia e Joe.

— Duas produções em um ano — Joe murmurou, en­quanto observava, fascinando, Olívia amamentar Virgínia. — Posso pedir que, no ano que vem, você dedique mais tempo ao seu marido. Adoro minha filha, mas gostaria muito de poder ficar a sós com minha esposa mais vezes.

 

 

                                                                  Anne Mather

 

 

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