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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


CASA NOBRE Volume I / James Clavell
CASA NOBRE Volume I / James Clavell

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

CASA NOBRE

Volume I

Primeira Parte

 

Naturalmente isto é um romance. É povoado de pessoas e companhias imaginárias, e não se pretende fazer nenhuma referência a qualquer pessoa ou companhia que tenha sido, ou seja, parte de Hong Kong ou da Ásia.

Gostaria também de pedir desculpas de pronto a todos os yan de Hong Kong — todas as pessoas de Hong Kong — por modificar sua bela cidade, por isolar incidentes do contexto, por inventar pessoas e lugares, ruas, companhias e incidentes que, confiamos, podem parecer ter existido, mas nunca existiram, pois esta é, verdadeiramente, uma história...

Gostaria de oferecer esta obra como tributo a Sua Majestade britânica, Elizabeth II, ao povo da colônia de sua coroa de Hong Kong — e perdição a seus inimigos.

 

 

                   8 de junho de 1960

                  23h45m

O nome dele era Ian Dunross, e, guiando o seu velho MG esporte sob a chuva torrencial, dobrou com cuidado a esquina, entrando na Dirk's Street, que marginava o Edifício Struan, na orla marítima de Hong Kong. A noite era escura e lúgubre. Por toda a colônia — aqui na ilha de Hong Kong, do outro lado do porto, em Kowloon, e nos Novos Territórios que faziam parte do continente chinês — as ruas estavam quase totalmente desertas, tudo e todos enclausurados e protegidos, à espera do tufão Mary. O sinal de alerta de tempestade número 9 fora içado ao alvorecer, e rajadas de vento de cento e cinqüenta a cento e oitenta e cinco quilômetros por hora já saíam de dentro da tormenta, que se estendia a mil e seiscentos quilômetros para o sul, lançando a chuva horizontalmente contra os telhados e os morros, onde dezenas de milhares de favelados se encolhiam, indefesos, nos seus barracos improvisados.

Dunross diminuiu a velocidade, sem enxergar direito, pois os limpadores de pára-brisa não davam conta da quantidade de chuva, com o vento sacudindo a capota e as laterais de lona. E então o pára-brisa desanuviou-se momentaneamente. No final da Dirk's Street, bem em frente, ficava a Connaught Road e a praia, depois os molhes e a imensidão atarracada do Terminal da Balsa Dourada. Mais além, no porto vasto e bem-protegido, meio milhar de navios estavam firmemente amarrados.

Mais adiante, na praia, viu uma barraca comercial abandonada ser violentamente arrancada do chão por uma rajada, e arremessada contra um carro estacionado, destruindo-o. Depois, carro e barraca saíram rolando e sumiram. Seus pulsos eram muito fortes, e ele controlou o volante, lutando contra os redemoinhos que faziam o carro tremer violentamente. O veículo era antigo, mas bem-conservado, o motor estava "envenenado" e os freios, em perfeito estado. Esperou, o coração batendo gostosamente, curtindo a tempestade, depois subiu na calçada e estacionou o carro bem encostadinho ao prédio, e saltou.

Era um homem louro, de olhos azuis, de quarenta e poucos anos, esbelto e elegante, e usava uma capa impermeável e um boné velho. A chuva ensopou-o enquanto atravessava rapidamente a rua lateral e depois dobrava a esquina, dirigindo-se às pressas para a entrada principal do prédio de vinte e dois andares. Acima da imensa porta de entrada via-se o timbre Struan — o Leão Vermelho da Escócia entrelaçado com o Dragão Verde da China. Aprumando-se, subiu os largos degraus e entrou.

— Boa noite, Sr. Dunross — disse o zelador chinês.

— O tai-pan mandou me chamar?

— Sim, senhor.

O homem apertou o botão do elevador para ele. Quando o elevador parou, Dunross cruzou o pequeno corredor, bateu à porta e entrou na sala de estar da cobertura.

— Boa noite, tai-pan — disse, com fria formalidade. Alastair Struan apoiava-se contra a bela lareira. Era um escocês grandalhão, rosado, bem-conservado, com uma ligeira barriga e cabelos brancos, na casa dos sessenta, e há onze anos era quem mandava na Struan.

— Uma bebida?

Fez um gesto na direção do Dom Pérignon no balde de prata.

— Obrigado.

Dunross nunca estivera antes nos aposentos particulares do tai-pan. A sala era espaçosa e bem-mobiliada, com móveis laqueados chineses e belos tapetes, quadros antigos dos seus primeiros veleiros e vapores ornando as paredes. As imensas janelas que normalmente ofereciam uma vista de toda a Hong Kong, no porto, e de Kowloon, do outro lado do porto, agora estavam escuras e manchadas de chuva.

Dunross serviu-se.

— Saúde — falou, formalmente.

Alastair Struan meneou a cabeça e, com a mesma frieza, ergueu também o copo.

— Chegou cedo.

— Cinco minutos mais cedo é chegar na hora, tai-pan. Não foi isso o que o pai tanto me ensinou? Não é importante que nos encontremos à meia-noite?

— É. Faz parte do nosso costume. O costume de Dirk. — Dunross bebericava o seu champanha, esperando em silêncio. O relógio de navio antigo tiquetaqueava ruidosamente.

Sua excitação aumentava, pois não sabia o que esperar. Encimando a lareira havia o quadro de uma jovem noiva. Era Tess Struan, que se casara com Culum, segundo tai-pan e filho do fundador da Struan, Dirk Struan, quando ela estava com dezesseis anos.

Dunross fitava a tela. Uma rajada de vento e chuva fustigou os janelões.

— Que noite horrorosa — comentou.

O homem mais velho simplesmente olhou para ele, odiando-o. O silêncio aumentava. Então, o velho relógio soou as oito badaladas que marcavam a meia-noite.

Bateram à porta.

— Entre — falou Alastair Struan, aliviado, satisfeito porque agora podiam começar.

A porta foi aberta por Lim Chu, o servo pessoal do tai-pan. Afastou-se para o lado para deixar passar Phillip Chen, o representante nativo da Struan, depois fechou a porta atrás dele.

— Ah, Phillip, bem na hora, como sempre — falou Alastair Struan, tentando parecer jovial. — Champanha?

— Obrigado, tai-pan, aceito, obrigado. Boa noite, Ian Struan Dunross. — Phillip Chen cumprimentou o homem mais moço com formalidade incomum, no seu inglês típico da classe alta. Era eurasiano, tinha sessenta e muitos anos, magro, mais para chinês do que para europeu, um homem muito bonito, de cabelos grisalhos e maçãs do rosto altas, pele clara e olhos chineses muito escuros.

— Noite horrível, não?

— É mesmo, Tio Chen — replicou Dunross, usando a forma polida chinesa para dirigir-se a Phillip, de quem gostava e a quem respeitava tanto quanto desprezava o primo, Alastair.

— Dizem que este tufão vai ser um filho da mãe. — Alastair Struan servia o champanha em taças finas. Entregou uma taça primeiro a Phillip Chen, depois a Dunross. — Saúde!

Todos beberam. Uma rajada de chuva sacudiu as janelas.

— Que bom que não estou no mar hoje — comentou Alastair Struan, pensativo. — Com que então, Phillip, cá está você de novo.

— Sim, tai-pan. Sinto-me honrado. Sim, muito honrado.

Pressentiu a violência entre os dois homens, mas ignorou-a. "A violência é de praxe", pensou, "sempre que um tai-pan da Casa Nobre entrega o poder."

Alastair Struan tomou outro gole, saboreando o champanha. Finalmente, falou:

— Ian, é costume nosso que haja uma testemunha na troca do tai-pan. Ela é sempre, e unicamente, o representante nativo atual da firma. Phillip, com esta são quantas vezes?

— Fui testemunha quatro vezes, tai-pan.

— Phillip conheceu quase todos nós. Sabe demasiados segredos nossos. Hem, amigo velho? — Phillip Chen apenas sorriu. — Confie nele, Ian. Seus conselhos são sábios. Pode confiar nele.

"Até onde um tai-pan pode confiar em alguém?", pensou Dunross, sombriamente.

— Sim, senhor.

Alastair Struan deixou de lado a taça.

— Primeiro: Ian Struan Dunross, pergunto-lhe formalmente se quer ser tai-pan da Struan.

— Sim, senhor.

— Jura por Deus que todas estas atas serão mantidas em segredo por você, e divulgadas exclusivamente ao seu sucessor?

— Sim, senhor.

— Jure formalmente.

— Juro por Deus que estas atas serão secretas e nunca divulgadas a ninguém, exceto ao meu sucessor.

— Tome. — O tai-pan entregou-lhe um pergaminho, amarelecido pelo tempo. — Leia em voz alta.

Dunross segurou o papel. A letra era irregular, mas perfeitamente legível. Olhou para a data — 30 de agosto de 1841 — e ficou ainda mais excitado.

— Esta é a letra de Dirk Struan?

— É. Quase tudo foi escrito por ele, mas o filho, Culum Struan, acrescentou uma parte. Claro que temos fotocópias, para o caso de se danificar. Leia!

— "Meu legado comprometerá todo tai-pan que me suceder, e ele o lerá em voz alta e jurará por Deus, diante de testemunhas, da maneira estabelecida por mim, Dirk Struan, fundador da Struan e Companhia, aceitá-lo e mantê-lo para sempre em segredo, antes de assumir ele próprio o meu cargo. Faço esta exigência para assegurar continuidade e prevendo as dificuldades que, nos anos seguintes, envolverão meus sucessores, por causa do sangue que derramei devido às minhas dívidas de honra, e por causa das excentricidades dos caminhos da China, à qual estamos unidos, e que são, sem dúvida, únicos na terra. Este é o meu legado:

" 'Primeiro: Haverá apenas um tai-pan de cada vez, e ele terá autoridade total, absoluta sobre a companhia, poder para empregar ou despedir todos os outros, autoridade sobre todos os nossos comandantes e nossos navios e companhias, estejam onde estiverem. O tai-pan está sempre só, e esta é a alegria e a mágoa da posição. Sua privacidade deve ser preservada por todos, e suas costas protegidas por todos. O que ordenar deverá ser obedecido, e nenhum comitê, grupo ou círculo interno que possa diminuir esse poder absoluto jamais será formado ou permitido na companhia.

" 'Segundo: Quando o tai-pan estiver no tombadilho de qualquer dos nossos navios, terá precedência sobre o comandante do mesmo, e suas ordens de batalha ou de navegação serão lei. Todos os comandantes lhe jurarão obediência, diante de Deus, antes de serem admitidos aos nossos navios.

" 'Terceiro: O tai-pan escolherá sozinho o seu sucessor, que será selecionado entre os seis homens componentes de uma assembléia interna. Desses homens, um será o representante nativo da firma, que pertencerá, perpetuamente, à Casa de Chen. Os outros cinco serão homens dignos de ser o tai-pan, bons e fiéis, com um mínimo de cinco anos de serviços prestados à companhia como mercadores da China, e sadios de espírito. Deverão ser cristãos e pertencer ao clã Struan por nascimento ou casamento — a minha linhagem e a linhagem do meu irmão Robb não terão precedência, salvo por firmeza e pelas qualidades acima, além de todas as outras. Essa assembléia interna poderá servir de assessoria ao tai-pan, se ele assim o desejar, mas que fique bem claro novamente: o voto do tai-pan terá o peso de sete contra um, para cada membro.

" 'Quarto: Se o tai-pan perder-se no mar, morrer em batalha, ou ficar desaparecido durante seis meses lunares, antes de ter escolhido o seu sucessor, então a assembléia interna elegerá um dos seus membros para sucedê-lo, cada membro tendo direito a um voto, com exceção do voto do representante nativo, que valerá por quatro. O tai-pan então prestará o mesmo juramento que os antecessores, diante da assembléia — aqueles que tiverem votado contra a sua eleição em cédula aberta serão expulsos imediatamente, e para sempre, da companhia, sem remuneração.

" 'Quinto: A eleição para a assembléia interna, ou a demissão da referida assembléia, realizar-se-á exclusivamente ao bel-prazer do tai-pan, que, na época da sua aposentadoria, que ocorrerá quando bem lhe aprouver, não levará mais do que dez partes de cada cem de todos os valores para si mesmo, exceto que todos os nossos navios serão sempre excluídos de qualquer inventário... nossos navios, seus comandantes e tripulações são o nosso sangue vital e a nossa garantia para o futuro.

" 'Sexto: Cada tai-pan deverá aprovar a eleição do representante nativo da companhia. Este deverá declarar, por escrito, antes da sua eleição, que sabe que poderá ser demitido do cargo a qualquer momento, sem necessidade de explicações, e que se afastará se este for o desejo do tai-pan.

" 'Último: O tai-pan dará posse ao seu sucessor, que terá escolhido sozinho, na presença do representante nativo, usando as palavras escritas por minha mão na Bíblia da família, aqui em Hong Kong, neste trigésimo dia de agosto, do ano de Nosso Senhor de 1841.'"

Dunross soltou a respiração.

— Está assinado por Dirk Struan e testemunhado por... não consigo ler os caracteres chineses, senhor, são arcaicos.

Alastair lançou um olhar a Phillip Chen, que disse:

— A primeira testemunha é o pai adotivo de meu avô, Chen Sheng Arn, nosso primeiro representante nativo. A segunda é minha tia-avó, T'Chung Jin May-may.

— Então a lenda é verdadeira! — exclamou Dunross.

— Parte dela. É, parte dela. — Phillip Chen acrescentou: — Converse com minha tia Sarah. Agora que vai ser o tai-pan, ela lhe contará muitos segredos. Ela vai fazer oitenta e quatro anos este ano, e se lembra do meu avô, Sir Gordon Chen, muito bem, e de Duncan e Kate T'Chung, os filhos de May-may com Dirk Struan. É, lembra-se de muitas coisas...

Alastair Struan foi até a escrivaninha laqueada e tirou de lá, com muito cuidado, a pesada Bíblia puída. Colocou os óculos, e Dunross sentiu os pêlos da nuca ficarem em pé.

— Repita comigo: "Eu, Ian Struan Dunross, da família dos Struans, cristão, juro diante de Deus, na presença de Alastair McKenzie Duncan Struan, décimo primeiro tai-pan, e Phillip T'Chung Sheng Chen, quarto representante nativo da companhia, que obedecerei a todo o legado lido por mim na presença deles, aqui em Hong Kong, que ligarei ainda mais a companhia a Hong Kong e ao comércio chinês, que manterei a sede do meu negócio aqui em Hong Kong, enquanto for tai-pan, e que, diante de Deus, assumo as promessas, responsabilidades e a palavra de honra de cavalheiro de Dirk Struan ao seu eterno amigo Chen-tse Jin Arn, também conhecido como Jin-qua, ou aos seus sucessores; mais ainda, que..."

— Que promessas?

— Você tem que jurar por Deus, cegamente, como todos os tai-pans fizeram antes de você! Não vai demorar a saber o que herdou.

— E se não jurar?

— Sabe qual a resposta a isto!

A chuva fustigava as janelas, e sua violência parecia a Dunross igualar o bater forte do seu coração, enquanto sopesava a insanidade de assumir o compromisso de uma incógnita.

Mas sabia que não poderia ser tai-pan se não o fizesse, e assim disse as palavras e assumiu o compromisso perante Deus, e continuou a repetir as palavras lidas para ele.

— "... mais ainda, que usarei todos os poderes, e quaisquer meios, para manter a companhia firme como a Primeira Casa, a Casa Nobre da Ásia, que juro por Deus cometer qualquer feito necessário para subjugar, destruir e expulsar a companhia chamada Brock e Filhos, especialmente o meu inimigo, seu fundador, Tyler Brock, seu filho Morgan, seus herdeiros ou qualquer um da sua linhagem, excetuando apenas Tess Brock e sua filha, mulher de meu filho Culum, da face da Ásia..."

Dunross parou de novo.

— Depois de terminar, pode perguntar o que quiser — falou Alastair Struan. — Termine!

— Pois bem. "Por último: Juro perante Deus que meu sucessor como tai-pan também jurará obediência perante Deus a todo este legado, que Deus me ajude!"

Agora o silêncio era rompido apenas pela chuva fustigando as janelas. Dunross podia sentir o suor molhando-lhe as costas.

Alastair Struan largou a Bíblia e tirou os óculos.

— Pronto, acabou. — Tensamente, estendeu a mão. — Gostaria de ser o primeiro a cumprimentá-lo, tai-pan. Pode contar comigo para ajudá-lo no que precisar.

— Sinto-me honrado em ser o segundo, tai-pan — disse Phillip Chen com uma leve curvatura, também formalmente.

— Obrigado.

A tensão de Dunross era grande.

— Acho que todos precisamos de uma bebida — falou Alastair Struan. — Com sua permissão, servirei — acrescentou para Dunross, com formalismo incomum. — Phillip?

— Sim, tai-pan. Eu...

— Não. Ian é o tai-pan, agora.

Alastair Struan serviu o champanha e entregou a primeira taça a Dunross.

— Obrigado — disse Dunross, saboreando o gesto de cortesia, sabendo que nada mudara. — À Casa Nobre — falou, erguendo a taça.

Os três homens beberam, depois Alastair Struan pegou um envelope.

— Aqui está o meu pedido de demissão das sessenta e tantas presidências, gerências e diretorias que automaticamente fazem parte do cargo de tai-pan. Sua nomeação, em meu lugar, é igualmente automática. Conforme o hábito, passo a ser o presidente da nossa subsidiária de Londres... mas você pode cancelar a nomeação na hora em que quiser.

— Está cancelada — disse Dunross, imediatamente.

— Como queira — murmurou o velho, mas seu pescoço estava roxo.

— Acho que seria mais útil à Struan como vice-presidente da junta diretora do First Central Bank de Edimburgo.

Struan ergueu os olhos, vivamente.

— Como?

— É um dos nossos cargos, não é?

— É, sim — concordou Alastair Struan. — Mas por que isso?

— Vou precisar de ajuda. A Struan vai começar a vender ações ao público no ano que vem.

Os dois homens o fitaram, atônitos.

— O que?

— Vamos vender ações ao pú...

— Há cento e dezenove anos somos uma firma particular! — rugiu o velho. — Puta que o pariu, já lhe disse cem vezes que esta é a nossa força, sem nenhum acionista ou estranho amaldiçoado metendo o bedelho nos nossos assuntos privados! — O rosto dele estava afogueado, e lutava para controlar a raiva. — Você nunca presta atenção?

— Sempre. E cuidadosamente — disse Dunross, numa voz sem emoção. — O único meio de sobrevivermos é nos transformarmos em empresa de capital aberto... somente assim obteremos o capital de que precisamos.

— Fale com ele, Phillip... veja se lhe enfia algum juízo nessa cabeça!

Nervosamente, o representante nativo perguntou:

— Como isso afetará a Casa de Chen?

— O nosso sistema formal de representação nativa está terminado neste momento. — Viu o rosto de Phillip Chen perder a cor, mas continuou: — Tenho um plano para você... por escrito. Não muda nada... e muda tudo. Oficialmente, você ainda será o representante nativo da companhia; extra-oficialmente, operaremos de modo diferente. A principal mudança é que, ao invés de ganhar cerca de um milhão por ano, em dez anos sua participação lhe dará vinte milhões, e em quinze anos, cerca de trinta.

— Impossível! — exclamou Alastair Struan.

— O nosso patrimônio líqüido hoje é de cerca de vinte milhões de dólares americanos. Daqui a dez anos será de duzentos milhões, e daqui a quinze, com sorte, será de quatrocentos milhões, e nosso giro anual ficará perto de um bilhão.

— Você enlouqueceu — disse Struan.

— Não. A Casa Nobre vai se transformar numa companhia internacional, e os dias de companhia comercial de Hong Kong acabaram para sempre.

— Lembre-se do seu juramento, por Deus! Nossa sede fica em Hong Kong!

— Não me esquecerei. A seguir: qual a responsabilidade que herdei de Dirk Struan?

— Está tudo no cofre. Escrito num envelope lacrado onde se lê "O legado". Há também as "Instruções aos futuros tai-pans", da Bruxa.

— Onde fica o cofre?

— Atrás do quadro na Casa Grande. No escritório. — Alastair Struan apontou, com azedume, para um envelope ao lado do relógio sobre a lareira. — Ali está a chave especial, e a combinação atual do cofre. Naturalmente, você a mudará. Ponha os números numa das caixas de depósito particulares do tai-pan no banco, para o caso de um acidente. Dê a Phillip uma das duas chaves.

Phillip Chen falou:

— De acordo com nossos regulamentos, enquanto você for vivo o banco não pode me dar permissão para abri-la.

— A seguir: Tyler Brock e os filhos, aqueles sacanas, foram eliminados há quase cem anos.

— É, a linhagem masculina legítima foi eliminada. Mas Dirk Struan era vingativo, e sua vingança se estende além da sepultura. Há uma lista atualizada dos descendentes de Tyler Brock no cofre. É bem interessante lê-la, não é, Phillip?

— É, sim.

— Os Rothwells e os Tomms, Yadegar e sua prole, você conhecia. Mas Tusker está na lista, embora não o saiba, e Jason Plumm, e lorde Depford-Smyth, e, principalmente, Quillan Gornt.

— Impossível!

— Gornt não apenas é tai-pan da Rothwell-Gornt, nossa principal inimiga, como também é um descendente direto e secreto de Morgan Brock, direto, embora ilegítimo. É o último dos Brocks.

— Mas ele sempre alegou ser bisneto de Edward Gornt, o mercador da China americano.

— Ele descende mesmo de Edward Gornt. Mas Sir Morgan Brock era na verdade o pai de Edward, e Kristin Gornt, sua mãe. Ela era uma americana da Virgínia. Naturalmente, tudo ficou em segredo... a sociedade não perdoava mais facilmente então do que agora. Quando Sir Morgan se tornou o tai-pan da Brock, em 1859, mandou buscar esse filho ilegítimo da Virgínia, comprou-lhe uma sociedade na velha firma mercantil americana Rothwell e Companhia, em Xangai, e depois ele e Edward dedicaram-se a nos destruir. Quase o fizeram... sem dúvida causaram a morte de Culum Struan. Mas depois, Lochlin e a Bruxa Struan arrasaram Sir Morgan e destroçaram a Brock e Filhos. Edward Gornt nunca nos perdoou, e seus descendentes também jamais o farão. Aposto que têm, igualmente, um pacto com o seu fundador.

— Ele sabe que sabemos?

— Não sei. Mas é inimigo. A árvore genealógica dele está no cofre, junto com todas as outras. Foi meu avô quem a descobriu, por acaso, durante a Guerra dos Boxers, os fanáticos chineses, em 99. A lista é muito interessante, Ian. Uma pessoa em especial, para você, chefe da...

Uma súbita rajada violenta sacudiu o prédio. Um dos enfeites de marfim caiu de cima da mesa de mármore. Nervosamente, Phillip Chen botou-o em pé. Todos fitaram os janelões, vendo os seus reflexos se retorcerem de modo nauseante enquanto as rajadas distendíam as enormes vidraças.

— Tai-fun! — resmungou Phillip, com o suor aflorando à pele.

— É.

Esperaram com a respiração presa que o "Vento do Demônio" cessasse. Essas rajadas súbitas de vento e chuva apareciam de todos os pontos da bússola, a esmo, às vezes a uma velocidade de duzentos e oitenta quilômetros por hora. No seu rastro vinha sempre a devastação.

A violência passou. Dunross foi até o barômetro, examinou-o e deu-lhe uma leve batida: 980,3.

— Ainda está caindo — falou.

— Meu Deus!

Dunross apertou os olhos, fitando as janelas. Agora, as marcas de chuva eram quase horizontais.

— O Lasting Cloud devia aportar amanhã à noite.

— É, mas agora ficará rondando algum lugar perto das Filipinas. O comandante Moffatt é matreiro demais para ser apanhado — comentou Struan.

— Não concordo. Moffatt gosta de cumprir os horários. Este tufão não estava programado. Você... ele devia ter recebido ordens. — Dunross bebericou o seu champanha, pensativo. — É melhor que o Lasting Cloud não seja apanhado.

Phillip Chen percebeu a fúria latente.

— Por quê?

— Estamos com o nosso novo computador a bordo, e mais dois milhões de libras em motores a jato. Não segurados... pelo menos os motores não estão.

Dunross lançou um olhar para Alastair Struan.

Defensivamente, o homem mais velho falou:

— Foi inevitável para não perder o contrato. Os motores são destinados a Cantão. Sabe que não podemos segurá-los, Phillip, já que vão para a China Vermelha. — E acrescentou, irritado: — Eles têm... bem... donos sul-americanos, e não há restrições de exportação da América do Sul para a China. Mesmo assim, ninguém está disposto a segurá-los.

Depois de uma pausa, Phillip Chen falou:

— Pensei que o novo computador ia chegar em março.

— E ia, mas consegui antecipar a chegada — disse Alastair.

— Quem está transportando o título dos motores? — perguntou Phillip Chen.

— Nós.

— É um risco muito grande. — Phillip Chen estava muito inquieto. — Não acha, Ian?

Dunross ficou calado.

— Foi inevitável para não perder o contrato — repetiu Alastair Struan, ainda mais irritado. — Podemos dobrar nosso capital, Phillip. Precisamos do dinheiro. Porém, os chineses precisam ainda mais dos motores, deixaram isso mais do que claro quando estive em Cantão, no mês passado. E nós precisamos da China... também deixaram isso bem claro.

— É, mas doze milhões é... risco demais num só navio — insistiu Phillip Chen.

Dunross disse:

— Qualquer coisa que pudermos fazer para tirar negócios dos soviéticos conta ponto para nós. Além disso, já está feito. Você dizia, Alastair, que há alguém na lista que me interessa. O chefe da...

— Marlborough Motors.

— Ah! — exclamou Dunross com repentina e feroz alegria. — Há anos que detesto aqueles cretinos. Pai e filho.

— Eu sei.

— Com que então os Nikklins são descendentes de Tyler Brock! Bem, não vai demorar muito para os tirarmos da lista. Bom, muito bom. Eles sabem que estão na lista negra de Dirk Struan?

— Acho que não.

— Melhor ainda.

— Não concordo! Você odeia o jovem Nikklin porque ele o derrotou. — Raivosamente, Alastair avançou o dedo em riste para Dunross. — Está na hora de abandonar as corridas de automóvel. Deixe todas as subidas de morro e o Grand Prix de Macau para os semiprofissionais. Os Nikklins têm mais tempo para gastar com os carros, é a vida deles, e agora você tem outras corridas para disputar, mais importantes.

— A corrida de Macau é para amadores, e aqueles filhos da mãe trapacearam, no ano passado.

— Isso nunca foi provado... o seu motor explodiu. Muitos motores explodem, Ian. Foi azar seu!

— Mexeram no meu carro.

— Isso também nunca foi provado. Pelo amor de Deus, e você vem falar em rixas? Você é tão burro em algumas coisas quanto o Demônio Struan em pessoa!

— É?

— É, sim, e...

Phillip Chen interrompeu depressa, querendo acabar com a violência na sala.

— Se é tão importante, por favor, deixem-me tentar descobrir a verdade. Tenho fontes que nenhum de vocês dois tem. Meus amigos chineses saberão, deverão saber, se Tom ou o jovem Donald Nikklin estavam envolvidos. Naturalmente — acrescentou, delicadamente —, se o tai-pan quiser correr, isso é com ele. Não é mesmo, Alastair?

O homem mais idoso controlou sua raiva, embora seu pescoço ainda estivesse rubro.

— Claro, claro, tem razão. Apesar disso, Ian, aconselho-o a parar. Eles o perseguirão ainda mais, porque o detestam igualmente.

— Há outros na lista cujos nomes devo saber? Depois de uma pausa, Struan disse:

— Não, agora não. — Abriu a segunda garrafa e foi servindo enquanto falava. — Bem, agora é tudo seu... todo o divertimento e toda a canseira. Fico contente em entregar tudo a você. Depois que tiver lido o que há no cofre, saberá o melhor, e o pior. — Entregou uma taça a cada um deles, e tomou um gole da sua. — Por Deus, este champanha é dos melhores já produzidos na França.

— É — concordou Phillip Chen.

Dunross achava que o Dom Pérignon era caro demais e muito badalado, e sabia que o ano, 1954, não era especialmente bom. Mas ficou calado.

Struan foi até o barômetro. Marcava 979,2.

— Este tufão vai ser brabo. Bem, deixe para lá. Ian, Claudia Chen tem um arquivo para você sobre assuntos importantes, e uma lista completa dos nossos investimentos em ações... com os nomes dos representantes. Se tiver perguntas a me fazer, faça-as antes de depois de amanhã... tenho passagem marcada para Londres nesse dia. Você manterá Claudia, naturalmente.

— Naturalmente.

Depois de Phillip Chen, Claudia Chen era o segundo elo que passava de tai-pan para tai-pan. Era a secretária-executiva do tai-pan, uma prima distante de Phillip Chen.

— E quanto ao nosso banco, o Victoria Bank de Hong Kong e da China? — perguntou Dunross, curtindo a pergunta. __Não sei exatamente quais os nossos bens.

— Isso sempre foi do conhecimento exclusivo do tai-pan. Dunross virou-se para Phillip Chen:

— Qual a sua participação, abertamente ou através de representantes?

O eurasiano hesitou, chocado.

— No futuro vou unir suas ações num só bloco com as nossas, para efeito de votação. — Dunross manteve os olhos fitos nos do representante nativo. — Quero saber agora, e espero uma transferência formal de poder de voto perpétuo, por escrito, para mim e os futuros tai-pans, amanhã até o meio-dia, e a primeira opção de compra para as ações, caso algum dia resolva vendê-las.

O silêncio ficou mais pesado.

— Ian — começou Phillip Chen —, essas ações... — Mas sua firmeza vacilou diante da vontade possante de Dunross. — Seis por cento... um pouquinho mais de seis por cento. Eu... farei como você quer.

— Não se arrependerá. — Dunross fixou a atenção em Alastair Struan, e o coração do velho baqueou. — Quantas ações temos? Quantas em nome de representantes?

Alastair hesitou.

— Isto só o tai-pan pode saber.

— Naturalmente. Mas devemos confiar integralmente no nosso representante nativo — falou Dunross, prestigiando o velho eurasiano, sabendo o quanto doía ser dominado perante Alastair Struan. — Quantas?

Struan disse:

— Quinze por cento.

Dunross soltou uma exclamação abafada, assim como Phillip Chen, e teve vontade de gritar: "Puta que o pariu, temos quinze por cento, e Phillip tem mais seis por cento, e você não teve um pingo de inteligência para usar o que tem que ser uma participação majoritária para nos conseguir o capital necessário, quando estamos quase falidos?"

Mas, ao invés de gritar, estendeu a mão para a frente e serviu o resto da garrafa nas três taças. Isso lhe deu tempo para acalmar o coração descompassado.

— Ótimo — disse, com voz seca e inexpressiva. — Estava esperando que juntos nos saíssemos melhor do que nunca. — Tomou um gole do champanha. — Vou antecipar a reunião especial. Para a semana que vem.

Os dois homens ergueram os olhos, vivamente. Desde 1880, os tai-pans da Struan, da Rothwell-Gornt e do Victoria Bank, a despeito da sua rivalidade, tinham se reunido anualmente em segredo para debater assuntos que afetavam o futuro de Hong Kong e da Ásia.

— Eles podem não concordar em antecipar a reunião — disse Alastair.

— Liguei para todos, hoje de manhã. Ela está marcada para segunda que vem, às nove horas, aqui.

— Quem é que vem do banco?

— O subgerente-geral Havergill; o velho está no Japão, depois vai para a Inglaterra, de licença. — O rosto de Dunross endureceu. — Terei que me contentar com ele.

— Paul serve — falou Alastair. — Vai ser o próximo chefe.

— Não se eu puder evitar — disse Dunross.

— Você nunca apreciou Paul Havergill, não é, Ian? — perguntou Phillip Chen.

— Não, é insular demais, Hong Kong demais, fora de moda demais, pretensioso demais.

— E apoiou seu pai contra você.

— Foi. Mas não é este o motivo pelo qual deve pular fora, Phillip. Deve pular fora porque está no caminho da Casa Nobre. É conservador demais, generoso demais para com as Propriedades Asiáticas, e acho que é um aliado secreto da Rothwell-Gornt.

— Não concordo — disse Alastair.

— Eu sei. Mas precisamos de dinheiro para nos expandirmos, e pretendo conseguir o dinheiro. Portanto, pretendo usar os meus vinte e um por cento com toda a seriedade.

A tempestade lá fora se intensificara, mas eles não pareciam notar.

— Não o aconselho a agir contra o Victoria — disse Phillip Chen, gravemente.

— Concordo — disse Alastair Struan.

— Não agirei. Desde que o meu banco coopere. — Dunross ficou vendo as manchas de chuva na janela, por um momento. — A propósito, convidei também Jason Plumm para a reunião.

— Mas que diabo, para quê? — indagou Struan, ficando de novo de pescoço vermelho.

— Os nossos grupos e as Propriedades Asiáticas dele, juntos, temos...

— Plumm está na lista negra de Dirk Struan, como você a chama, e opõe-se integralmente a nós.

— Nós quatro juntos temos o poder de decisão majoritário em Hong Kong...

Dunross parou de falar quando o telefone tocou ruidosamente. Todos olharam para o aparelho. Alastair Struan falou, com azedume:

— O telefone agora é seu, não meu. Dunross atendeu.

— Dunross! — Escutou por um momento, depois disse: — Não, o Sr. Alastair Struan se aposentou, agora eu sou o tai-pan da Struan. Sim. Ian Dunross. O que diz o telex? — Escutou novamente. — Sim, obrigado.

Largou o telefone. Finalmente, rompeu o silêncio.

— Era do nosso escritório em Taipé. O Lasting Cloud soçobrou perto da costa norte de Formosa. Acham que afundou com toda a tripulação...

 

                   Domingo 18 de agosto de 1963

                  20h45m

O policial estava apoiado a um canto do balcão de informações, observando o eurasiano alto disfarçadamente. Usava um terno de tropical claro e a gravata da polícia sobre uma camisa branca; fazia calor dentro do terminal fortemente iluminado, o ar estava úmido e pesado de odores, e um montão de chineses barulhentos se movimentavam pelo prédio, como sempre. Uma abundância de cantonenses, alguns asiáticos, uns poucos europeus.

— Superintendente? — Uma das moças do setor de informações estendia-lhe um telefone. — É para o senhor — disse, e deu um sorriso bonito, dentes brancos, cabelos escuros, olhos negros, linda pele dourada.

— Obrigado — disse ele, notando que ela era cantonense e jovem, e não se importou com a realidade do vazio do seu sorriso, sem nada por trás dele senão uma obscenidade cantonense. — Pronto — falou, ao aparelho.

— Superintendente Armstrong? Aqui fala a torre: o Yankee 2 acaba de pousar, no horário.

— Ainda é o portão 16?

— É. Estará lá dentro de seis minutos.

— Obrigado. — Robert Armstrong era um homem grande, e inclinou-se sobre o balcão para repor o fone no gancho. Notou as pernas longas da moça e a curva de seu traseiro no cheong-sam uniformizado, lustroso e um tantinho justo demais, e imaginou por um breve momento como seria ela na cama. — Como se chama? — perguntou, sabendo que qualquer chinês detestava dar o nome a um policial, especialmente se fosse europeu.

— Mona Leung, senhor.

— Obrigado, Mona Leung.

Fez-lhe um gesto de cabeça, com os olhos azul-claros fitos nela, e notou o leve arrepio de apreensão que a percorreu.

Ficou satisfeito. "Vá tomar no rabo você também", pensou, depois voltou a focalizar a atenção na sua presa.

O eurasiano, John Chen, estava no lado de uma das saídas, sozinho, e isso o surpreendeu, assim como o fato de estar nervoso. Geralmente, John Chen era imperturbável, mas agora, a curtos intervalos, olhava para o relógio de pulso, depois para o quadro de chegada, depois de novo para o relógio.

"Mais um minuto e então começaremos", pensou Armstrong.

Começou a procurar um cigarro no bolso, depois lembrou-se de que deixara de fumar há duas semanas, como presente de aniversário para a mulher. Então praguejou rapidamente e enfiou as mãos mais fundo nos bolsos.

À volta do balcão de informações, passageiros e pessoas à espera de passageiros, aborrecidos, chegavam, empurravam, iam embora e voltavam de novo, perguntando em altas vozes onde, quando, como e por quê, e onde novamente, numa infinidade de dialetos. O cantonense ele compreendia bem, compreendia um pouco do mandarim e do dialeto de Xangai. Algumas expressões chu-chow e a maioria dos seus palavrões. Um pouco do dialeto de Formosa.

Deixou então o balcão, mais alto uma cabeça do que a maioria da multidão, um homem grande, de ombros largos, com um caminhar descontraído e atlético, há dezessete anos na força policial de Hong Kong, agora chefe do DIC, Departamento de Investigações Criminais, de Kowloon.

— Boa noite, John — cumprimentou. — Como vão as coisas?

— Oh, alô, Robert — disse John Chen, pondo-se em guarda instantaneamente, no seu inglês com sotaque americano. — Tudo bem, obrigado. E você?

— Muito bem. Seu contato no aeroporto mencionou à Imigração que você veio receber um vôo especial, um avião fretado... o Yankee 2.

— É, mas não é avião fretado. É particular. Pertence a Lincoln Bartlett... o milionário americano.

— Ele está a bordo? — perguntou Armstrong, sabendo que estava.

— Está.

— Com comitiva?

— Só o seu vice-presidente-executivo... o destruidor da reputação dos seus oponentes.

— O Sr. Bartlett é um amigo? — perguntou, sabendo que não era.

— Um convidado. Esperamos fazer negócios com ele.

— É? Bem, o avião dele acaba de pousar. Por que não vem comigo? Deixaremos de lado toda a burocracia para você. É o mínimo que podemos fazer pela Casa Nobre, não é?

— Obrigado por se dar ao trabalho.

— Não é trabalho algum.

Armstrong foi na frente, e cruzaram uma porta lateral na barreira da alfândega. Os policiais uniformizados ergueram os olhos, batendo continência imediatamente para Armstrong, e observando, pensativos, a figura de John Chen, a quem reconheceram de pronto.

— O nome de Lincoln Bartlett — continuou Armstrong, com fingida cordialidade — não me diz nada. Será que deveria?

— Só se você estivesse no ramo empresarial — disse John Chen. Depois continuou, nervosamente: — O apelido dele é "O Incursor", por causa de suas bem-sucedidas incursões e compras de controle de outras companhias, freqüentemente bem maiores que a dele. Um homem interessante. Conheci-o em Nova York, no ano passado. O conglomerado dele tem uma renda bruta de quase meio bilhão de dólares por ano. Dizem que começou em 45, com dois mil dólares emprestados. Agora está metido com derivados do petróleo, engenharia pesada, eletrônica, mísseis, faz um bocado de trabalho para o governo americano, espuma, produtos de espuma de poliuretano, fertilizantes... tem até mesmo uma companhia que faz e vende esquis e artigos esportivos. O grupo dele chama-se Indústrias Par-Con. Basta pensar numa coisa, e ele a tem.

— Pensei que sua companhia já possuísse tudo. John Chen sorriu cortesmente.

— Não nos Estados Unidos, e não é minha companhia. Sou apenas um acionista minoritário da Struan, um empregado.

— Mas é diretor, e o filho mais velho da Casa Nobre Chen; portanto, será o próximo representante nativo junto à firma.

Segundo o costume histórico, o representante nativo era sempre um empresário chinês ou eurasiano que agia como intermediário exclusivo entre a firma comercial européia e os chineses. Todas as transações passavam pelas suas mãos, e um pouquinho de tudo grudava-se a elas.

"Tanto dinheiro e tanto poder", pensou Armstrong, "e no entanto, com um pouquinho de sorte, podemos fazê-lo em pedaços, e a Struan junto com você. Meu Deus", pensou, nauseado com a doçura da expectativa, "se isso acontecer, o escândalo vai explodir Hong Kong."

— Será o representante deles, como seu pai, seu avô e seu bisavô o foram, antes de você. Seu bisavô foi o primeiro, não foi? Sir Gordon Chen, o representante nativo do grande Dirk Struan, que fundou a Casa Nobre, e praticamente fundou Hong Kong.

— Não. O representante de Dirk foi um homem chamado Chen Sheng. Sir Gordon Chen foi o representante do filho de Dirk, Culum Struan.

— Eram meios irmãos, não é?

— É o que diz a lenda.

— Ah, lendas... delas nos alimentamos. Culum Struan, outra lenda de Hong Kong. Mas Sir Gordon também é uma lenda... você tem sorte.

Sorte?, perguntou-se John Chen, com amargura. Descender do filho ilegítimo de um pirata escocês — um traficante de ópio, um gênio depravado e malvado, um assassino, se algumas das histórias fossem verdadeiras — e uma garota cantonense desenxabida tirada de um bordel nojento que ainda existe num beco nojento de Macau? Saber que quase todo mundo em Hong Kong conhecia a sua linhagem e ser desprezado por causa dela, por ambas as raças?

— Não é sorte — falou, tentando aparentar calma. Seus cabelos escuros tinham fios grisalhos, o rosto era anglo-saxão e bonito, embora um pouco flácido nas bochechas, e os olhos escuros apenas levemente asiáticos. Tinha quarenta e dois anos, e usava ternos de tropical, sempre impecavelmente talhados, com sapatos Hermes e relógio Rolex.

— Não concordo — falou Armstrong, sem ironia. — Ser o representante nativo da Struan, a Casa Nobre da Ásia... é algo muito especial.

— É, é especial — disse John Chen, secamente.

Desde que se entendia por gente, sua herança familiar o atormentava. Podia sentir olhos a fitá-lo — a ele, o filho mais velho, o seguinte na linha de sucessão —, podia sentir a cobiça e a inveja perenes. Aquilo o aterrorizava continuamente, embora tentasse combater de todas as formas o terror. Nunca quisera aquele poder ou aquela responsabilidade. Na véspera mesmo tivera outra briga angustiante com o pai, pior que as anteriores.

— Não quero ter nada a ver com a Struan! — berrara. — Pela centésima vez, quero dar o fora de Hong Kong, quero voltar para os Estados Unidos, quero viver a minha vida, do jeito que quero, onde quero e como quero!

— Pela milésima vez, vai me escutar. Mandei-o para os Esta...

— Deixe-me cuidar dos nossos interesses americanos, Pai.

Por favor. Há coisa de sobra para se fazer! Podia me dar uns dois mil...

— Ayeeyah, trate de me escutar! É aqui, aqui em Hong Kong e na Ásia que ganhamos o nosso dinheiro! Mandei-o estudar nos Estados Unidos para preparar a família para o mundo moderno. Está preparado, é seu dever para com a fam...

— Pai, há Richard, e o jovem Kevin... Richard é dez vezes melhor comerciante que eu, e está louco para agir. E quanto ao tio Jam...

— Fará o que estou mandando! Santo Deus, sabe que este americano Bartlett é vital para nós, precisamos do seu conheci...

—...tio James ou tio Thomas. Tio James seria o melhor para o senhor; melhor para a família e mel...

— Você é o meu filho mais velho. Será o próximo chefe de família e o próximo representante da firma!

— Juro por Deus que não!

— Então não ganhará nem mais um tostão furado!

— O que não fará muita diferença! Todos nós só recebemos uma miséria, não importa o que os estranhos pensem! Quanto o senhor vale? Quantos milhões? Cinqüenta? Setenta? Cem?...

— A não ser que peça desculpas imediatamente e acabe com toda essa baboseira, agora e para sempre, deserdo você agora mesmo! Agora mesmo!

— Peço desculpas por deixá-lo zangado, mas nunca vou mudar! Nunca!

— Dou-lhe um tempo até o meu aniversário. Oito dias. Oito dias para se tornar um filho obediente. É a minha última palavra. A não ser que se torne obediente até o meu aniversário, retirarei você e sua linhagem para sempre da nossa árvore genealógica! Agora, saia daqui!

O estômago de John Chen retorceu-se, desagradavelmente. Odiava as brigas intermináveis, o pai roxo de raiva, a mulher em lágrimas, os filhos apavorados, a madrasta, irmãos e primos todos exultando maldosamente, querendo que ele se fosse, todas as suas irmãs, a maioria dos tios, todas as suas mulheres. Inveja, cobiça. "Para o diabo tudo e todos", pensou. "Mas o Pai tem razão quanto a Bartlett, embora não do jeito que imagina. Não. Este é para mim. Este negócio. Basta este para eu ficar livre para sempre."

A essa altura já tinham atravessado quase todo o longo saguão da alfândega, fortemente iluminado.

— Vai às corridas no sábado? — perguntou John Chen.

— E quem não vai?

Na semana anterior, para êxtase geral, o imensamente poderoso Turf Club, com o seu monopólio exclusivo das corridas de cavalo — a única forma legal de jogo permitida na colônia —, distribuíra um aviso especial:

"Embora a nossa temporada oficial não comece este ano antes de 5 de outubro, com a gentil permissão de nosso ilustre governador, Sir Geoffrey Allison, os administradores resolveram declarar o sábado, dia 24 de agosto, um Dia de Corridas Muito Especial, para o prazer de todos, e como homenagem à nossa população trabalhadora, que está suportando o forte peso da segunda pior seca de nossa história com ânimo forte..."

— Ouvi dizer que a sua Golden Lady corre no quinto páreo — disse Armstrong.

— O treinador disse que ela tem chance. Por favor, venha até a tribuna do Pai tomar um drinque conosco. Bem que eu podia usar alguns dos seus palpites, você é um grande apostador.

— Só tenho sorte. Mas meus dez dólares de apostas jamais poderiam se comparar aos seus dez mil.

— Mas isso é só quando algum de nossos cavalos está correndo. A temporada passada foi um desastre... estou a fim de um vencedor.

— Eu também. — "Ah, Deus, como preciso de um vencedor", pensou Armstrong. "Mas quanto a você, Johnny Chen, está se cagando se perde ou ganha dez mil ou cem mil." Tentou controlar a sua inveja crescente. "Acalme-se", disse a si mesmo. "Os vigaristas existem, e é seu trabalho apanhá-los, se puder... não importa quão ricos ou poderosos sejam... e se contentar com o seu salário miserável quando em cada esquina há um monte de grana grátis. Por que invejar este filho da mãe... vai se ferrar, de um jeito ou de outro." — Ah, a propósito, mandei um guarda ir buscar o seu carro para passá-lo pelo portão. Estará à sua espera e dos seus convidados na saída do avião.

— Puxa, que ótimo, obrigado. Lamento a trabalheira.

— Não é trabalheira nenhuma. É uma questão de prestígio. Não é? Achei que devia ser muito especial, para você vir em pessoa. — Armstrong não pôde resistir a mais uma alfinetada. — Como já disse, nada é trabalho demais para a Casa Nobre.

John Chen manteve o seu sorriso cortês, mas pensou: "Vá se foder. Nós o toleramos pelo que é, um tira muito importante, cheio de inveja, com dívidas até o pescoço, certamente corrupto e que nada entende de cavalos. Vá se foder duas vezes. Dew neh loh moh para todas as suas gerações", pensou John Chen, mas disfarçou cuidadosamente o pensamento obsceno, pois embora Armstrong fosse verdadeiramente odiado por todos os yan de Hong Kong, John Chen sabia, de longa experiência, que a astúcia implacável e vingativa de Armstrong era digna de um manchu nojento. Estendeu a mão para a meia moeda que usava num fio de couro fino ao pescoço. Seus dedos tremeram ao tocar no metal, através da camisa. Estremeceu, involuntariamente.

— O que foi? — perguntou Armstrong.

— Nada. Nada mesmo. "Controle-se", pensou John Chen.

Já haviam cruzado o saguão da alfândega e estavam na área da Imigração, com a noite escura lá fora. Filas de pessoas ansiosas, inquietas, cansadas, esperavam diante das mesas pequenas e ordeiras dos funcionários da Imigração, uniformizados e de ar frio. Os homens saudaram Armstrong. John Chen sentiu sobre si seus olhos perscrutadores.

Como sempre, seu estômago dava voltas sob o escrutínio deles, embora soubesse que estava a salvo de suas perguntas insistentes. Tinha um passaporte britânico, não apenas um passaporte de Hong Kong de segunda classe, e também um cartão verde americano — o cartão dos estrangeiros —, o bem sem preço que lhe dava livre acesso a trabalhar, divertir-se e morar nos Estados Unidos, todos os privilégios de um americano nato, exceto o direito de votar. E quem precisava votar, pensou, e devolveu o olhar de um dos homens, tentando ganhar coragem, mas mesmo assim sentindo-se despido ante o olhar fixo do homem.

— Superintendente? — Um dos funcionários segurava um telefone. — É para o senhor.

Ficou olhando Armstrong voltar para atender ao telefonema, e imaginou como seria ser um policial, com tantas oportunidades para a corrupção, e pela milionésima vez, como seria ser totalmente britânico ou totalmente chinês, e não um eurasiano desprezado por ambas as raças.

Olhava enquanto Armstrong escutava atentamente, depois ouviu-o dizer, acima da balbúrdia:

— Não, basta protelar. Eu mesmo trato disso, pessoalmente. Obrigado, Tom.

Armstrong voltou.

— Desculpe — disse. Depois cruzou o cordão da Imigração, subiu um pequeno corredor e entrou na sala VIP. Era simpática e espaçosa, com um bar e uma bela vista do aeroporto, da cidade e da baía. A sala estava vazia, exceto por dois funcionários da Imigração e da alfândega, e um dos homens de Armstrong esperando junto ao portão 16... uma porta de vidro que dava para a pista iluminada. Podiam ver o 707 chegando junto às suas marcas de estacionamento.

— Boa noite, sargento Lee — disse Armstrong. — Tudo certo?

— Sim, senhor. O Yankee 2 está desligando os motores. O sargento Lee bateu continência de novo, e abriu o portão para eles.

Armstrong olhou para John Chen, sabendo que o gargalo da armadilha estava quase fechado.

— Pode passar.

— Obrigado.

John Chen saiu para a pista de tarmac.

O Yankee 2 agigantava-se acima deles, os jatos que se desligavam emitindo apenas um rosnar abafado. A tripulação de terra colocava a escada alta, motorizada, no lugar. Pelas pequenas janelas da cabine podiam ver os pilotos fracamente iluminados. A um canto, nas sombras, estava o Silver Cloud Rolls azul-escuro de John Chen, com o chofer chinês uniformizado de pé ao lado da porta, e um policial próximo.

A porta principal do avião se abriu e um comissário uniformizado saiu para cumprimentar os dois funcionários do aeroporto que esperavam na plataforma. Ele entregou a um dos funcionários uma sacola com os documentos do avião e o manifesto de chegada, e começaram a bater papo, afavelmente. Então todos pararam. Respeitosamente. E fizeram uma saudação cortês.

A moça era alta, elegante, requintada e americana.

Armstrong assobiou baixinho.

— Ayeeyah!

— Bartlett tem bom gosto — comentou John Chen, o coração batendo mais depressa.

Ficaram observando enquanto ela descia as escadas, ambos perdidos em reflexões masculinas.

— Acha que é modelo?

— Anda como se fosse. Quem sabe uma estrela de cinema?

John Chen se adiantou.

— Boa noite. Sou John Chen, da Struan. Vim receber o Sr. Bartlett e o Sr. Tchuluck.

— Ah, claro, Sr. Chen. Muita gentileza sua, senhor, especialmente num domingo. Prazer em conhecê-lo, Sou K. C. Tcholok. Linc disse que se...

— Casey Tchuluck? — John Chen fitou-a, de boca aberta. — Como?

— É — disse ela, com um sorriso amável, ignorando pacientemente a pronúncia errada. — Sabe, Sr. Chen, como as minhas iniciais são K. C, acabei ficando com o apelido de Casey, que é a pronúncia inglesa das duas letras juntas. — Fitou Armstrong. — Boa noite. Também é da Struan?

A voz dela era melodiosa.

— Ah, sim, desculpe, este, este é o superintendente Armstrong — gaguejou John Chen, ainda tentando se recuperar.

— Boa noite — cumprimentou Armstrong, notando que ela ainda era mais atraente vista de perto. — Bem-vinda a Hong Kong.

— Obrigada. Superintendente? Da polícia? — E então o nome se encaixou no lugar. — Ah, Armstrong. Robert Armstrong? Chefe do DIC de Kowloon?

Ele disfarçou a surpresa.

— Está muito bem informada, srta. Tcholok. — Ela riu.

— Parte da minha rotina. Quando vou a um lugar novo, especialmente um como Hong Kong, meu trabalho é estar preparada... portanto mandei buscar as listagens atuais.

— Não temos listagens publicadas.

— Eu sei. Mas a administração de Hong Kong imprime um catálogo telefônico do governo que qualquer um pode comprar por uma ninharia. Mandei buscar um desses. Constam dele todos os departamentos policiais... chefes dos departamentos, a maioria com o telefone de casa... juntamente com todos os outros departamentos governamentais. Consegui um catálogo através do escritório de RP de Hong Kong, em Nova York.

— Quem é o chefe da Seção Especial? — perguntou, testando-a.

— Não sei. Não creio que esse departamento esteja incluído. Está?

— Às vezes.

Uma ligeira ruga vincava-lhe a testa.

— Vem receber todos os aviões particulares, superintendente?

— Somente quando me dá vontade. — Sorriu para ela. — Somente quando há senhoras bonitas e bem-informadas a bordo.

— Alguma coisa errada? Algum problema?

— Ah, não. Só rotina. O aeroporto de Kai Tak é parte de minha responsabilidade — disse Armstrong, com naturalidade. — Posso ver seu passaporte, por favor?

— Claro.

A ruga se aprofundou, enquanto ela abria a bolsa e lhe entregava o passaporte americano.

Anos de experiência fizeram com que a inspeção dele fosse muito detalhada.

— Nasceu em Providence, Rhode Island, a 25 de novembro de 1936; altura, um metro e setenta e três, cabelos louros, olhos castanho-amarelados.

O passaporte ainda tinha validade por dois anos. "Vinte e seis, hem? Pensei que fosse mais moça, mas se a gente olhar de perto, nota algo estranho nos olhos dela."

Com casualidade aparente, foi virando descuidadamente as páginas. Seu visto de três meses para Hong Kong estava em ordem. Uma dúzia de carimbos de imigração, todos da Inglaterra, França, Itália ou América do Sul. Exceto um. URSS, datado de julho daquele ano. Uma visita de sete dias. Reconheceu o carimbo de Moscou.

— Sargento Lee!

— Pronto, senhor.

— Mande carimbá-lo para ela — disse, com naturalidade, e sorriu para a moça. — Tudo em ordem. Pode ficar o tempo que quiser. Quando os três meses estiverem chegando ao fim, basta ir à delegacia mais próxima e prolongaremos o seu visto.

— Muitíssimo obrigada.

— Vai ficar com a gente durante muito tempo?

— Isso vai depender dos nossos negócios — disse Casey, depois de uma pausa. Sorriu para John Chen. — Esperamos que os nossos negócios durem muito tempo.

John Chen disse:

— E nós esperamos a mesma coisa.

Ainda estava intrigado, com a cabeça a mil por hora. "Certamente é impossível que Casey Tcholok seja uma mulher", pensou.

Às costas deles o comissário de bordo, Sven Svensen, desceu animadamente a escada, carregando duas malas leves.

— Pronto, Casey. Tem certeza de que chega, por esta noite?

— Tenho, sim. Obrigada, Sven.

— Linc mandou você ir na frente. Quer uma mãozinha para passar pela alfândega?

— Não, obrigada. O Sr. John Chen teve a gentileza de vir nos receber. Assim como o superintendente Armstrong, chefe do DIC de Kowloon.

— Certo. — Sven olhou pensativo para o policial, por um momento. — É melhor eu voltar.

— Tudo bem? — perguntou ela.

— Acho que sim. — Sven Svensen abriu um sorriso. — A alfândega está verificando o nosso estoque de bebidas e cigarros.

Apenas quatro coisas estavam sujeitas a licença de importação ou taxa alfandegária na colônia: ouro, bebidas alcoólicas, fumo e gasolina. Só um contrabando (sem falar em narcóticos) era totalmente proibido: todas as formas de armas de fogo e munição.

Casey sorriu para Armstrong.

— Não temos arroz a bordo, superintendente. Linc não come arroz.

— Então vai passar mal aqui.

Ela deu uma risada, depois virou-se para Svensen.

— Até amanhã. Obrigada.

— Às nove em ponto!

Svensen voltou para o avião, e Casey virou-se para John Chen.

— Linc disse que não esperássemos por ele. Espero que não haja mal nisso — disse.

— Hã?

— Vamos? Temos reservas no Victoria and Albert Hotel, em Kowloon. — Começou a pegar as malas, mas um carregador surgiu de dentro da escuridão e tirou-as de suas mãos. — Linc virá mais tarde... ou amanhã.

John Chen ficou olhando para ela, com cara de bobo.

— O Sr. Bartlett não vem?

— Não. Vai passar a noite no avião, se obtiver permissão. Senão, virá depois, de táxi. De qualquer modo, almoçará conosco amanhã, conforme o combinado. O almoço ainda está de pé, não é mesmo?

— Claro, mas... — John Chen tentava pôr sua cabeça para funcionar. — Então, vai querer cancelar a reunião das dez horas?

— Ah, não. Comparecerei, como foi combinado. Linc não é esperado nessa reunião, que trata só de finanças... não de política. Estou certa de que compreende. Linc está muito cansado, Sr. Chen. Chegou da Europa ontem. — Olhou para Armstrong. — O comandante perguntou à torre se Linc podia pernoitar no avião, superintendente. Eles foram verificar com a Imigração; de lá responderam que depois entrariam em contato conosco, mas imagino que nosso pedido acabará chegando às suas mãos. Gostaríamos muito que o aprovasse. Linc está há muito tempo com os horários descontrolados, por causa das viagens a jato.

Armstrong se pegou dizendo:

— Acertarei isso com ele.

— Ah, obrigada, muito obrigada. — Voltou-se novamente para John Chen. — Desculpe toda essa trabalheira, Sr. Chen. Vamos?

Começou a se dirigir para o portão 16, com o carregador atrás, mas John Chen indicou o seu Rolls.

— Não, por aqui, srta. Tchu... Casey. — Ela arregalou os olhos.

— E a alfândega?

— Hoje, não — disse Armstrong, gostando dela. — Um presente do governo de Sua Majestade.

— Sinto-me como se fosse membro da realeza, em visita.

— Tudo faz parte do serviço.

Ela entrou no carro. Cheiro gostoso de couro. E de luxo. Então, notou o carregador cruzando o portão que levava ao terminal do aeroporto.

— Mas, e quanto às minhas malas?

— Não precisa se preocupar com elas — falou John Chen, com irritação. — Estarão na sua suíte antes que chegue lá.

Armstrong ficou segurando a porta por mais um momento.

— John veio com dois carros. Um para a senhorita e o Sr. Bartlett... outro para a bagagem.

— Dois carros?

— Claro. Não se esqueça de que está em Hong Kong.

Armstrong ficou observando o carro se afastar. "Linc Bartlett é um homem de sorte", pensou, e ficou imaginando, distraidamente, por que o SEI, Serviço Especial de Informações, estava interessado nela.

— Vá receber o avião e examine o passaporte dela pessoalmente — o diretor do sei lhe dissera, pela manhã. — E o do Sr. Lincoln Bartlett também.

— Posso saber por quê, senhor?

— Não, Robert, não pode. Já não faz mais parte desta seção... está num empreguinho confortável em Kowloon. Uma bela sinecura, pois não?

— Sim, senhor.

— E Robert, faça o favor de não esculhambar a nossa operação de hoje à noite... pode haver muitos figurões envolvidos. Temos um trabalhão para manter vocês atualizados com o que os "homens maus" estão fazendo.

— Sim, senhor.

Armstrong suspirou enquanto subia as escadas que levavam ao avião, seguido pelo sargento Lee. Dew neh loh moh para todos os oficiais superiores, especialmente o diretor do SEI.

Um dos funcionários da alfândega esperava no topo da escada, junto com Svensen.

— Boa noite, senhor — cumprimentou ele. — Tudo em ordem a bordo. Há um 38 com uma caixa de cem cartuchos fechada como parte do estoque do avião. Uma pistola Verey Light. E mais três rifles de caça e um calibre 12 com munição, pertencentes ao Sr. Bartlett. Estão todos arrolados no manifesto de carga, e já os inspecionei. Há um armário de armas trancado na cabine principal. O comandante tem a chave.

— Ótimo.

— Ainda vai precisar de mim, senhor?

— Não, obrigado. — Armstrong pegou o manifesto de carga do avião e começou a verificá-lo. Muito vinho, cigarro, fumo, cerveja e bebidas mais fortes. Dez caixas de Dom Pérignon 59, quinze de Puligny Montrachet 53, nove de Château Haut Brion 53. — Não têm Lafite Rothschild 1916, Sr. Svensen? — perguntou, com um sorrisinho.

— Não, senhor — respondeu Svensen, com um sorriso amplo.— 1916 foi um ano muito ruim. Mas temos meia caixa do 1923. Está na página seguinte.

Armstrong virou a página. Havia mais vinhos e charutos na lista.

— Ótimo — falou. — Naturalmente, tudo isso estará sob retenção alfandegária, enquanto estiverem em terra.

— Sim, senhor. Já tranquei tudo no armário... e seu homem o lacrou. Disse que não fazia mal deixar uma caixa com doze latas de cerveja na geladeira.

— Se quiser importar qualquer vinho, basta me avisar. Não há complicações, apenas uma modesta contribuição para a gaveta inferior de Sua Majestade.

— Como? — perguntou Svensen, perplexo.

— Hem? Ah, só uma piadinha inglesa. Refere-se à gaveta inferior da cômoda de uma senhora... onde guarda as coisas de que vai precisar no futuro. Desculpe. O seu passaporte, por favor. — O passaporte de Svensen era canadense. — Obrigado.

— Posso apresentá-lo ao Sr. Bartlett? Está à sua espera.

Svensen entrou no avião, à sua frente. O interior era elegante e simples. Saindo do pequeno corredor, entrava-se numa sala de estar com meia dúzia de poltronas de couro e um sofá. Uma porta central isolava o resto do avião, na direção da popa. Numa das poltronas uma aeromoça dormitava, com as maletas ao lado. À esquerda ficava a porta da cabine de vôo. Estava aberta.

O comandante e o co-piloto estavam nos seus lugares, ainda examinando a papelada.

— Com licença, comandante. Este é o superintendente Armstrong — disse Svensen, afastando-se.

— Boa noite, superintendente — falou o comandante. — Sou o comandante Jannelli e este é o meu co-piloto, Bill O'Rourke.

— Boa noite. Posso ver seus passaportes, por favor?

Os dois pilotos tinham vistos internacionais e carimbos de imigração aos montes. Nenhum país da Cortina de Ferro. Armstrong entregou-os ao sargento Lee, para carimbá-los.

— Obrigado, comandante. Esta é sua primeira visita a Hong Kong?

— Não, senhor. Estive aqui umas duas vezes, de licença, durante a Guerra da Coréia. E viajei com a Far Eastern, como primeiro-oficial, durante seis meses, na rota da volta ao mundo deles em 56, durante os tumultos.

— Que tumultos? — quis saber O'Rourke.

— Kowloon inteira explodiu. Uns duzentos mil chineses de repente endoidaram, saíram por aí destruindo, queimando. Os tiras, desculpe, a polícia tentou resolver a coisa com paciência, depois as turbas começaram a matar, então os tiras, bem, a polícia passou a mão nuns fuzis e matou uma meia dúzia de palhaços e tudo se acalmou rapidinho. Aqui, só a polícia tem armas de fogo, o que é uma ótima idéia. — E, dirigindo-se a Armstrong: — Acho que vocês fizeram um serviço e tanto.

— Obrigado, comandante Jannelli. Onde teve início este vôo?

— Em Los Angeles. O escritório principal de Linc, do Sr. Bartlett, fica lá.

— Sua rota foi Honolulu, Tóquio, Hong Kong?

— Sim, senhor.

— Quanto tempo ficaram parados em Tóquio?

Bill O'Rourke foi verificar imediatamente o registro.

— Duas horas e dezessete minutos. Apenas para reabastecimento, senhor.

— Um tempinho para esticar as pernas, não é? Jannelli falou:

— Fui o único a saltar. Sempre dou uma checada no trem de aterrissagem e faço uma inspeção externa, onde quer que pousemos.

— É um bom hábito — falou o policial, cortesmente. — Quanto tempo vão ficar aqui?

— Não sei, isso é com Linc. Com certeza até amanhã.

Não podemos partir antes das catorze horas. Nossas ordens são para estarmos prontos para ir a qualquer lugar, a qualquer hora.

— Tem um belo avião, comandante. Pode ficar aqui até as catorze horas. Se quiser uma prorrogação, fale com o controle de terra antes desse horário. Quando estiver pronto, passe pela alfândega por aquele portão. E por favor, que a tripulação passe toda junta.

— Claro. Logo que acabarmos de abastecer.

— O senhor e toda a sua tripulação sabem que a importação de qualquer arma de fogo para a colônia é estritamente proibida? Ficamos muito nervosos com armas de fogo em Hong Kong.

— Eu também fico, superintendente... em qualquer lugar. É por isso que possuo a única chave do armário das armas.

— Ótimo. Qualquer problema, por favor, fale com o meu gabinete.

Armstrong saiu e passou para a ante-sala, com Svensen à sua frente.

Jannelli observou-o enquanto ele inspecionava o passaporte da aeromoça. Ela era bonitinha, e chamava-se Jenny Pollard.

— Filho da puta — resmungou, depois acrescentou baixinho: — Alguma coisa aqui está cheirando mal.

— Hem?

— Desde quando um figurão do DIC vem verificar as porras dos passaportes? Tem certeza de que não estamos transportando nada de curioso?

— Porra, não. Sempre verifico tudo. Inclusive os estoques de Sven. Claro que não vistorio as coisas de Linc... nem de Casey... mas eles não fariam nenhuma burrice.

— Há quatro anos vôo para ele, e nem uma só vez... Mesmo assim, pode apostar que alguma coisa está cheirando mal. — Jannelli se virou, cansado, e se acomodou mais confortavelmente no assento do piloto. — Puxa, o que eu não daria por uma massagem e uma semana de folga.

Na ante-sala, Armstrong entregou o passaporte ao sargento Lee, que o carimbou.

— Obrigado, srta. Pollard.

— Obrigada.

— Acabou a tripulação, senhor — falou Svensen. — Agora, o Sr. Bartlett.

— Sim, por favor.

Svensen bateu à porta central e abriu-a sem esperar resposta.

— Linc, este é o superintendente Armstrong — falou, com tranqüila informalidade.

— Oi — disse Linc Bartlett, levantando-se da mesa de trabalho. Estendeu a mão. — Quer uma bebida? Cerveja?

— Não, obrigado. Quem sabe um café. Svensen dirigiu-se imediatamente para a copa.

— Vem já — falou.

— Fique à vontade. Aqui está meu passaporte — falou Bartlett. — Vou demorar só um momentinho.

Voltou à máquina de escrever, e continuou a bater nas teclas com dois dedos.

Armstrong examinou-o com calma. Bartlett tinha cabelos avermelhados, olhos azul-acinzentados, um rosto forte e bonito. Esbelto. Camisa esporte e jeans. Armstrong olhou para o passaporte. Nascido em Los Angeles, no dia 1.° de outubro de 1922. "Parece jovem, para quarenta anos", pensou. Carimbo de Moscou, como Casey Tcholok, e mais nenhuma visita à Cortina de Ferro.

Correu os olhos pelo aposento. Espaçoso, toda a largura do avião. Havia um curto corredor central na direção da popa, que dava para duas cabines e dois banheiros. E no final do corredor uma porta que imaginava dar para a suíte principal.

A cabine mais parecia um centro de comunicações. Tele-tipos, telefones internacionais, máquinas de escrever embutidas. Um relógio iluminado marcava as horas numa antepara. Arquivos, copiadora e uma escrivaninha embutida de tampo de couro, coalhada de papéis. Prateleiras com livros. Livros de impostos. Algumas brochuras. O resto eram livros de guerra, e livros sobre generais ou escritos por generais. Às dúzias. Wellington, Napoleão e Patton, Cruzada na Europa, de Eisen-hower, A arte da guerra, de Sun Tse...

— Pronto, senhor — falou uma voz, interrompendo a inspeção de Armstrong.

— Ah, obrigado, Svensen.

Pegou a xícara de café e acrescentou um pouco de creme.

Sven pôs uma lata nova e aberta de cerveja gelada ao lado de Bartlett, pegou a lata vazia e voltou para a copa, fechando a porta atrás de si. Bartlett bebeu a cerveja direto da lata, relendo o que havia escrito, depois apertou uma campainha. Svensen apareceu imediatamente.

— Diga a Jannelli que peça à torre para transmitir isso. — Svensen fez um sinal de cabeça e saiu. Bartlett relaxou os ombros e voltou-se na cadeira giratória. — Desculpe... tinha que mandar aquilo com urgência.

— Tudo bem, Sr. Bartlett. Seu pedido para pernoitar está aprovado.

— Obrigado... muito obrigado. Será que Svensen também poderia ficar? — Abriu um sorriso. — Não sou grande coisa como dono-de-casa.

— Pois não. Quanto tempo seu avião vai ficar aqui?

— Tudo depende da reunião que teremos amanhã, superintendente. Esperamos fazer negócios com a Struan. Uma semana, dez dias.

— Então vai precisar de um local de estacionamento alternativo, amanhã. Temos outro vôo VIP chegando às dezesseis horas. Disse ao comandante Jannelli para ligar para o controle de terra antes das catorze horas.

— Obrigado. O chefe do DIC de Kowloon costuma tratar do estacionamento aqui no aeroporto?

Armstrong sorriu.

— Gosto de saber o que ocorre na minha divisão. É um hábito tedioso, mas arraigado. Não é freqüente termos aviões particulares nos visitando... ou o Sr. Chen vindo receber alguém pessoalmente. Gostamos de agradar, quando possível. A Struan é dona da maior parte do aeroporto, e John é um amigo pessoal. É um velho amigo seu?

— Passei algum tempo com ele em Nova York e Los Angeles, e gostei muito dele. Sabe, superintendente, este avião é o meu cen... — Um dos telefones tocou. Bartlett atendeu. — Ah, alô, Charlie, o que está acontecendo em Nova York?... Puxa, que ótimo! Quanto?... Certo, Charlie, compre o lote todo... É, todas as duzentas mil ações... Claro, logo na segunda de manhã, assim que o mercado abra. Mande a confirmação por telex... — Bartlett largou o telefone e voltou-se para Armstrong. — Desculpe. Sabe, superintendente, este é meu centro de comunicações, e estaria perdido sem ele. Se estacionarmos por uma semana, posso entrar e sair à vontade?

— Temo que isso seja um pouco enrolado, Sr. Bartlett.

— Isso quer dizer sim, não, ou talvez?

— Ah, é gíria para "difícil". Sinto muito, mas nossa segurança em Kai Tak é muito especial.

— Se tiver que destacar mais homens, não me incomodo em pagar.

— É questão de segurança, não de dinheiro, Sr. Bartlett. E vai ver que o sistema telefônico de Hong Kong é de primeira classe.

"Além disso, vai ser muito mais fácil para o Serviço de Informações controlar suas ligações", pensou.

— Bem, se puder conseguir isso, ficaria grato. Armstrong tomou o café.

— É sua primeira visita a Hong Kong?

— É, sim. Minha primeira visita à Ásia. O mais longe que já tinha ido foi Guadalcanal, em 43.

— Exército?

— Sargento, da Engenharia. Construção... construíamos de tudo: hangares, pontes, campos, o que surgisse. Uma grande experiência. — Bartlett bebia direto da lata. — Não quer mesmo uma bebida?

— Não, obrigado. — Armstrong esvaziou a xícara, começou a se levantar. — Obrigado pelo café.

— Agora posso lhe fazer uma pergunta?

— Claro.

— Que tal é Dunross? Ian Dunross, o chefe da Struan?

— O tai-pan? — Armstrong riu francamente. — Isso depende da pessoa a quem perguntar, Sr. Bartlett. Não o conhece?

— Não, ainda não. Vou conhecê-lo amanhã. Na hora do almoço. Por que o chama de o tai-pan?

— "Tai-pan" quer dizer "líder supremo" em cantonense... a pessoa com o poder definitivo. Os chefes europeus de todas as velhas firmas comerciais são todos tai-pans, para os chineses. Mas mesmo entre os tai-pans, há sempre o maior. O tai-pan. A Struan é apelidada de Casa Nobre ou Hong Nobre, e "hong" significa "companhia". Isso remonta ao começo do comércio com a China e aos primórdios de Hong Kong. Hong Kong foi fundada em 1841, no dia 26 de janeiro, para ser preciso. O fundador da Struan e Companhia foi legendário... ainda o é, de certa forma: Dirk Struan. Há quem diga que foi um pirata, há quem diga que foi um príncipe. De qualquer maneira, fez fortuna contrabandeando ópio indiano para a China, depois convertendo o dinheiro em chás chineses que transportava para a Inglaterra numa frota de veleiros chineses. Tornou-se um príncipe mercador, ganhou o título de tai-pan, e desde então a Struan tem sempre tentado ser a primeira em tudo.

— E é?

— Ah, tem umas duas companhias nos seus calcanhares, especialmente a Rothwell-Gornt, mas diria que é a primeira, sim. A verdade é que não é possível que coisa alguma entre ou saia de Hong Kong, seja comida, enterrada ou fabricada sem que a Struan, a Rothwell-Gornt, as Propriedades Asiáticas, o BLACS (Banco de Londres, Cantão e Xangai), ou o Victoria Bank tenham metido a colher, de alguma forma.

— E Dunross, pessoalmente, como é?

Armstrong pensou um momento, depois disse, despreocupadamente:

— Repito, isso depende da pessoa a quem perguntar, Sr. Bartlett. Eu o conheço um pouco, socialmente... de vez em quando nos encontramos nas corridas. Já tive dois encontros oficiais com ele. É encantador, excelente no seu trabalho... suponho que "brilhante" seja a palavra certa.

— Ele e a família são donos de grande parte da Struan?

— Não sei ao certo. Duvido que alguém saiba, fora da família. Mas suas ações não são a chave para a mesa do tai-pan. Ah, não. Não na Struan. Disso estou certo. — Armstrong olhou firme nos olhos de Bartlett. — Há quem diga que Dunross é implacável e vive pronto para matar. Sei que não gostaria de tê-lo como inimigo.

Bartlett tomou a cerveja, e as ruguinhas ao redor dos olhos apareceram, num sorriso curioso.

— Às vezes, um inimigo é mais valioso do que um amigo.

— Às vezes. Espero que tenha uma estadia proveitosa. Bartlett pôs-se de pé, imediatamente.

— Obrigado. Vou acompanhá-lo. — Abriu a porta e fez Armstrong e o sargento Lee passarem, depois saiu atrás deles pela porta da cabine principal, até os degraus da escada. Inspirou fundo. Mais uma vez, notou algo de estranho no vento, nem agradável nem desagradável, nem odor nem perfume... só estranho, e curiosamente excitante. — Superintendente, que cheiro é esse? Casey também o sentiu, no momento em que Sven abriu a porta.

Armstrong hesitou. Depois sorriu.

— É o cheiro particular de Hong Kong, Sr. Bartlett. De dinheiro.

 

                       23h48m

— Todos os deuses são testemunhas do azar que estou tendo hoje — disse Wu Quatro Dedos, e cuspiu no tombadilho. Estava na popa de seu junco marítimo, que fora amarrado junto a um grande grupo de barcos espalhados pelo porto de Aberdeen, na costa sul da ilha de Hong Kong. A noite era quente e úmida, e ele estava jogando mah-jong com três amigos, todos velhos e castigados pelas intempéries, como ele, e todos comandantes dos próprios juncos. Mesmo assim, navegavam na frota dele, e era dele que recebiam ordens. Seu nome formal era Wu Sang Fang. Era um pescador baixo e analfabeto, com poucos dentes, e lhe faltava o polegar da mão esquerda. Seu junco era velho, maltratado e imundo. Era chefe dos Transportes Marítimos Wu, comandante das frotas, e sua bandeira, a Lótus Prateada, tremulava nos quatro mares.

Quando chegou de novo a sua vez, pegou outra das pecinhas de marfim. Lançou-lhe um olhar, e como em nada melhorava a sua mão, descartou-a ruidosamente, e cuspiu de novo. A saliva brilhava no tombadilho. Usava uma camiseta velha e esfarrapada, calças de cule pretas, como os amigos, e apostara dez mil dólares só naquela partida.

— Ayeeyah — disse Tang Bexiguento, fingindo aborrecimento, embora a peça que acabara de pegar praticamente formasse uma combinação vencedora, faltando-lhe apenas mais uma peça. O jogo era parecido com gin rummy. — Fodam-se todas as mães, exceto as nossas, se eu não ganhar!

Descartou uma peça, com um floreio.

— Foda-se a sua, se você ganhar e eu não! — disse um outro, e todos riram.

— E fodam-se aqueles demônios estrangeiros da Montanha Dourada se não chegarem hoje à noite — falou Poon Bom Tempo.

— Chegarão — disse Wu Quatro Dedos, confiante. —

Os demônios estrangeiros grudam-se aos horários. Mesmo assim, mandei o Sétimo Filho ao aeroporto, para se certificar.

Começou a apanhar uma peça do jogo, mas deteve-se e olhou por sobre o ombro, observando com ar crítico um junco de pesca que passava, os motores roncando baixinho, subindo o canal de acesso estreito e sinuoso entre os grupos de barcos, na direção da garganta do porto. Apenas as luzes de ancoragem, de bombordo e boreste, estavam acesas. Ostensivamente, o junco ia só pescar, mas aquele junco era um dos dele, e ia interceptar uma traineira tai com um carregamento de ópio. Quando viu que ele tinha passado em segurança, o homem voltou a concentrar-se no jogo. A maré agora estava baixa, mas a maioria dos grupos de barcos estava cercada por águas profundas. Da praia e dos baixios vinha o fedor de algas apodrecidas, mariscos e excremento humano.

A maior parte dos juncos e sampanas estava agora às escuras, e seus muitos ocupantes, adormecidos. Aqui e ali, viam-se uns poucos lampiões a querosene. Barcos de todos os tamanhos amarravam-se precariamente uns aos outros, aparentemente sem seguir ordem alguma, com minúsculos becos marítimos entre as aldeias flutuantes. Esses eram os lares dos povos tanka e haklo — os moradores dos barcos —, que viviam suas vidas sobre as águas, nasciam e morriam sobre as águas. Muitos desses barcos nunca abandonavam sua amarração, mas ficavam grudados uns aos outros até afundarem, se desfazerem em pedaços, irem a pique num tufão, ou pegarem fogo num dos incêndios espetaculares que freqüentemente varriam os amontoados, quando pés ou mãos descuidados derrubavam um lampião, ou deixavam cair algo inflamável nas inevitáveis fogueiras sem proteção.

— Vovô! — chamou o jovem vigia.

— O que é? — perguntou Wu.

— Ali no molhe, veja! O Sétimo Filho!

O garoto, que mal teria doze anos, apontava para a terra firme.

Wu e os outros se levantaram e olharam para a terra. O jovem chinês acabava de pagar o táxi. Usava jeans, uma camiseta limpa e tênis. O táxi havia parado junto à prancha de desembarque de um dos imensos restaurantes flutuantes amarrados aos molhes modernos, a uns cem metros de distância. Havia quatro desses restaurantes flutuantes espalhafatosos — com três, quatro ou cinco andares —, iluminadíssimos, esplendorosamente decorados em escarlate, verde e ouro, com telhados chineses acanelados, deuses, gárgulas e dragões.

— Tem bons olhos, Neto Número Três. Ótimo. Vá encontrar-se com o Sétimo Filho. — Imediatamente, o garoto saiu correndo, pisando firme nas tábuas desconjuntadas que uniam aquele junco aos demais. Quatro Dedos ficou vendo seu sétimo filho dirigir-se a um dos molhes, onde as balsas-sampanas que serviam ao porto estavam agrupadas. Quando viu que o barqueiro que mandara o havia interceptado, deu as costas para a terra e sentou-se novamente. — Vamos lá, vamos acabar o jogo — falou, carrancudo. — Esta é a minha última mão, bosta. Tenho que ir para terra logo mais.

Jogaram por um momento, comprando e descartando as peças de marfim.

— Ayeeyah! — gritou Tang Bexiguento, ao ver a peça que comprara. Largou-a sobre a mesa, com um floreio, virada para cima, e desvirou as outras treze peças que lhe davam a vitória. — Olhem, pelos deuses!

Wu e os demais olharam, boquiabertos, para a mão.

— Merda! — exclamou Wu, escarrando ruidosamente. — Danem-se todas as suas gerações, Tang Bexiguento! Que sorte!

— Mais um jogo? Vinte mil, Wu Quatro Dedos? — perguntou Tang, alegremente, convencido de que o velho demônio, Chi Kung, o deus dos jogadores, estava sentado no seu ombro.

Wu começou a sacudir a cabeça, mas naquele momento uma ave marinha passou voando e piando queixosamente.

— Quarenta — disse imediatamente, mudando de idéia, interpretando o piado como um sinal dos céus, de que sua sorte mudara. — Quarenta mil ou nada! Mas terá que ser com dados, porque agora não tenho tempo.

— Não tenho quarenta em espécie, por todos os deuses, mas com os vinte que me deve, dou meu junco como garantia amanhã, quando os bancos abrirem, e arranjo um empréstimo, e lhe dou toda a parte do meu lucro no nosso próximo carregamento de ouro ou ópio, até que você seja pago, heya?

Poon Bom Tempo falou, com azedume:

— É dinheiro demais para um só jogo. Seus dois sacanas, perderam o juízo?

— Número mais alto, um arremesso? — perguntou Wu.

— Ayeeyah, os dois enlouqueceram — falou Poon. No entanto, estava tão excitado quanto os demais. — Onde estão os dados?

Wu pegou os dados. Eram três.

— Jogue pela porra do seu futuro, Tang Bexiguento! Tang Bexiguento cuspiu nas palmas das mãos, fez uma prece silenciosa, depois arremessou os dados, com um grito.

— Oh, oh, oh — exclamou, angustiado. Um 4, um 3 e outro 4. — Onze!

Os outros homens mal respiravam.

Wu cuspiu nos dados, amaldiçoou-os, abençoou-os, e arremessou. Um 6, um 2 e um 3.

— Onze! Ah, todos os deuses, grandes e pequenos! De novo... jogue de novo.

A excitação crescia no convés. Tang Bexiguento arremessou.

— Catorze!

Wu se concentrou, a tensão intoxicante, depois jogou os dados.

— Ayeeyah! — explodiu, todos eles explodiram. Um 6, um 4 e um 2.

— Eeee — foi só o que Tang Bexiguento conseguiu dizer, segurando a barriga, rindo de alegria enquanto os outros lhe davam os parabéns e se condoíam do perdedor.

Wu deu de ombros, com o coração ainda batendo forte no peito.

— Malditas sejam todas as aves marinhas que voam sobre a minha cabeça numa hora dessas!

— Ah, foi por isso que mudou de idéia, Wu Quatro Dedos?

— Foi... pareceu-me um sinal. Quantas aves marinhas piam enquanto nos sobrevoam, à noite?

— É verdade. Eu teria feito o mesmo.

— Azar! — Depois, Wu abriu um sorriso. — Eeee, mas o jogo é melhor do que Nuvens e Chuva, heya?

— Não na minha idade!

— Quantos anos tem, Tang Bexiguento?

— Sessenta... quem sabe setenta. Quase a sua idade. — Os haklos não mantinham um registro permanente de nascimento, como os moradores das aldeias em terra firme. — Não me sinto com mais de trinta.

— Soube que a Farmácia da Sorte, no mercado de Aberdeen, recebeu um novo carregamento de ginseng coreano, alguns com cem anos de idade! Isso vai tocar fogo no seu pau!

— Vai tudo bem com o pau dele, Poon Bom Tempo! Sua terceira mulher está esperando outra vez!

Wu abriu um sorriso sem dentes e pegou um grosso maço de notas de quinhentos dólares. Começou a contá-las, com os dedos ágeis, embora lhe faltasse o polegar. Anos atrás, havia sido cortado fora durante uma briga com os piratas do rio, numa expedição de contrabando. Parou momentaneamente, quando o Sétimo Filho subiu a bordo. O rapaz era alto para um chinês, e tinha vinte e seis anos. Cruzou o convés, andando desajeitadamente. Um avião a jato que chegava começou a sobrevoá-los.

— Eles chegaram, Sétimo Filho?

— Sim, pai, chegaram.

Quatro Dedos sacou o barrilete emborcado com alegria.

— Ótimo. Agora, podemos começar!

— Ei, Quatro Dedos — comentou Tang Bexiguento, indicando os dedos. — Um 6, um 4 e um 2... dá 12, que também é 3, o 3 mágico.

— É, eu vi.

Tang Bexiguento abriu um sorriso e apontou para o norte, um tantinho também para o leste, onde ficaria o aeroporto de Kai Tak... atrás das montanhas de Aberdeen, do outro lado do porto em Kowloon, a quase dez quilômetros dali.

— Quem sabe a sua sorte mudou, heya?

 

                   Segunda-feira

                   5hl6m

Na semi-alvorada, um jipe com dois mecânicos de macacão dobrou o portão 16, na extremidade leste do terminal, e parou perto do principal trem de aterrissagem do Yankee 2. A escada ainda estava no lugar, e a porta principal, levemente entreaberta. Os mecânicos, ambos chineses, saltaram, e um deles começou a inspecionar o trem de aterrissagem de oito rodas, enquanto o outro, com o mesmo cuidado, inspecionava o trem de aterrissagem do nariz do avião. Metodicamente, examinaram os pneus, as rodas e depois o acoplamento hidráulico dos freios. Então espiaram para dentro dos vãos de aterrissagem. Ambos usavam lanternas elétricas. O mecânico no trem de aterrissagem principal pegou uma chave de parafuso e subiu numa das rodas para olhar mais de perto, com a cabeça e os ombros agora bem enfiados no bojo do avião. Depois de um momento, chamou, em cantonense:

— Ayeeyah! Ei, Lim, dê uma olhada nisso.

O outro homem se aproximou e olhou para cima, o suor manchando o macacão branco.

— Estão aí ou não? Não dá para eu ver daqui.

— Irmão, enfie o pau na boca e desça pela privada para os esgotos. Claro que estão aqui. Estamos ricos. Vamos comer arroz para sempre! Mas fique quieto, para não acordar os demônios estrangeiros cagados aí em cima! Tome...

O homem entregou a Lim um pacote comprido, envolto em lona, e ele o guardou rápida e silenciosamente no jipe. Depois outro, e mais outro, menor, os dois homens nervosos e suando, trabalhando depressa, e em silêncio.

Outro pacote. E outro...

E então Lim viu o jipe da polícia dobrar a esquina e simultaneamente outros homens uniformizados saírem aos montes do portão 16, entre eles muitos europeus.

— Fomos traídos — exclamou, ofegante, enquanto corria, numa fuga desesperada para a liberdade. O jipe interceptou-o facilmente, e ele parou, tremendo de terror reprimido. Depois, cuspiu, praguejou e retraiu-se.

O outro homem pulara para o chão imediatamente e saltara para o assento do motorista do jipe. Antes que pudesse girar a chave na ignição, foi dominado e algemado.

— Então, seu safado — sibilou o sargento Lee —, aonde pensa que vai?

— A lugar nenhum, seu guarda, foi ele, aquele lá, aquele filho da puta, seu guarda, jurou que cortaria a minha garganta se não o ajudasse. Não sei de nada, juro sobre o túmulo da minha mãe!

— Seu sacana mentiroso, você nunca teve mãe. Vai passar cinqüenta anos na cadeia, se não falar!

— Seu guarda, juro por todos os deu...

— Mijo nas suas mentiras, seu cara de bosta. Quem está lhe pagando por esse serviço?

Armstrong cruzava devagarinho a pista do aeroporto, o gosto doce e enjoativo do golpe mortal na boca.

— Então — falou em inglês —, o que temos aqui, sargento? — Fora uma longa noite de vigília, e estava cansado e com a barba por fazer, e sem nenhuma disposição de ouvir os choramingos e protestos de inocência do mecânico. Portanto, falou suavemente, num perfeito cantonense de sarjeta: — Mais uma só palavra sua, por mais insignificante que seja, seu fornecedor de bosta leprosa, e mandarei meus homens saltarem sobre o seu Saco Secreto.

O homem ficou mudo.

— Ótimo. Como se chama?

— Tan Shu Ta, senhor.

— Mentiroso! Como se chama o seu amigo?

— Lim Ta-cheung, mas não é meu amigo, senhor, não o conhecia antes de hoje de manhã.

— Mentiroso! Quem pagou a vocês para fazerem isso?

— Não sei quem pagou a ele, senhor. Sabe, ele jurou que cortaria...

— Mentiroso! Sua boca está tão cheia de bosta que deve ser o deus da bosta em pessoa. O que há nesses embrulhos?

— Não sei. Juro pelo túmulo dos meus ancestr...

— Mentiroso! — disse Armstrong, sabendo que as mentiras eram inevitáveis.

Seu primeiro instrutor na polícia, calejado no trato com os chineses, lhe dissera:

— O chinês não é igual à gente. Ah, não quero dizer que seja feito de outro jeito... só que é diferente. Mente para os tiras o tempo todo, até ficar roxo, e quando a gente agarra um bandido, agindo limpamente, mesmo assim ele ainda mente e é escorregadio como um pau-de-sebo num monte de merda. Ele é diferente. Veja só os seus nomes. Cada chinês tem quatro nomes diferentes, um quando nasce, outro na puberdade, outro quando fica adulto, e um que escolhe para si mesmo, e eles se esquecem de um deles, ou acrescentam outro por dá cá aquela palha. E os nomes deles... pela madrugada! Os chineses se chamam de Lao-tsi-sing — os Cem Nomes Antigos. Há apenas cem sobrenomes básicos em toda a China, e desses há vinte Yus, oito Yens, dez Wus, e sabe lá Deus quanto Pings, Lis, Lees, Chens, Chins, Chings, Wongs e Fus, e cada um deles é pronunciado de cinco modos diferentes, portanto, sabe-se lá quem é quem!

— Então vai ser difícil identificar um suspeito, senhor?

— Nota 10, jovem Armstrong! Nota 10, meu rapaz. Você pode ter cinqüenta Lis, cinqüenta Changs e quatrocentos Wongs, e um não ser aparentado com o outro. Pela madrugada! Este é o problema, aqui em Hong Kong.

Armstrong deu um suspiro. Depois de dezoito anos, os nomes chineses eram tão confusos como nunca. E ainda por cima, todos eles pareciam ter um apelido pelo qual eram conhecidos.

— Como se chama? — perguntou de novo, e não se incomodou de esperar a resposta. — Mentiroso! Sargento! Desembrulhe um desses pacotes! Deixe ver o que contém.

O sargento Lee afastou o último envoltório. Dentro dele havia um M14, um rifle automático do exército dos Estados Unidos. Novo e bem lubrificado.

— Por causa disso, seu maldito filho da mama esquerda de uma puta — rosnou Armstrong —, você uivará durante cinqüenta anos!

O homem fitava a arma, apalermado, com cara de besta. Depois, soltou um gemido baixo.

— Fodam-se todos os deuses, não sabia que eram armas.

— Ah, sabia, sim! — disse Armstrong. — Sargento, bote este pedaço de bosta no camburão e fiche-o como contrabandista de armas.

O homem foi levado dali, com brutalidade. Um dos jovens policiais chineses estava desembrulhando outro pacote. Era pequeno e quadrado.

— Espere! — ordenou Armstrong em inglês. O policial e todos os outros que o ouviram ficaram imóveis. — Um deles pode conter uma bomba. Afastem-se todos do jipe! — Suando, o homem fez o que lhe mandaram. — Sargento, mande buscar os encarregados da remoção de bombas. Não há mais pressa.

— Sim, senhor.

O sargento Lee dirigiu-se ao intercomunicador no camburão da polícia.

Armstrong foi para baixo do avião e espiou para dentro do vão do trem de aterrissagem principal. Não dava para enxergar nada de estranho. Então, subiu numa das rodas.

— Santo Deus! — exclamou. Cinco prateleiras estavam firmemente presas a cada lado do tabique. Uma delas estava quase vazia, as outras, ainda cheias. Pelo tamanho e formato dos pacotes, julgava que fossem mais M14 e caixas de munição... ou granadas.

— Alguma coisa aí em cima, senhor? — perguntou o inspetor Thomas. Era um jovem inglês que estava há três anos na força policial.

— Dê uma olhada! Mas não toque em nada.

— Santo Deus! Há o bastante para algumas brigadas de choque!

— É. Mas quem seriam os revoltosos?

— Comunas?

— Ou nacionalistas... ou bandidos. Esses...

— Mas que diabo está acontecendo aí embaixo? Armstrong reconheceu a voz de Linc Bartlett. Fechou a cara e saltou para o chão, com Thomas logo atrás. Dirigiu-se para a ponta da escada.

— É o que eu também gostaria de saber, Sr. Bartlett — falou, secamente.

Bartlett estava parado na porta principal do avião, com Svensen ao lado. Ambos estavam de pijama e robe, e com cara de sono.

— Gostaria que desse uma olhada nisso.

Armstrong apontou para o rifle, agora parcialmente escondido no jipe.

Bartlett desceu as escadas imediatamente, com Svensen atrás.

— No quê?

— Queira fazer a gentileza de esperar no avião, Sr. Svensen.

Svensen ia responder, mas parou. Depois olhou para Bartlett, que balançou a cabeça.

— Prepare um café, sim, Sven?

— Claro, Linc.

— Bem, que história é essa, superintendente?

— Veja! — apontou Armstrong.

— É um M14. — Os olhos de Bartlett se estreitaram. — E daí?

— E daí que parece que seu avião está transportando armas.

— Não é possível.

— Acabamos de pegar dois homens descarregando. Lá está um dos sacanas — Armstrong apontou para o mecânico algemado, esperando de cara fechada ao lado do jipe —, e o outro está no camburão. Queira fazer a gentileza de olhar para o vão do trem de aterrissagem principal, senhor.

— Claro. Onde?

— Vai ter que trepar na roda.

Bartlett obedeceu. Armstrong e o inspetor Thomas anotaram o lugar exato onde ele pôs as mãos, para identificação de digitais. Bartlett ficou olhando estupefato para as prateleiras.

— Puta que o pariu! Se houver mais dessas, é um verdadeiro arsenal.

— É. Por favor, não toque em nada.

Bartlett examinou as prateleiras, depois saltou para o chão, agora totalmente desperto.

— Este não é um simples contrabandozinho. Aquelas prateleiras foram feitas sob medida.

— É. Não faz objeção a que revistemos o avião?

— Não. Claro que não.

— Pode ir, inspetor — falou Armstrong, imediatamente. — E faça uma inspeção muitíssimo cuidadosa. Agora, Sr. Bartlett, se quiser fazer a gentileza de explicar...

— Não contrabandeio armas, superintendente. Não creio que meu comandante o faça... ou Bill O'Rourke. Ou Svensen.

— E quanto à srta. Tcholok?

— Ora, faça-me o favor! Armstrong falou, com voz gélida:

— Este é um assunto muito sério, Sr. Bartlett. Seu avião está sob custódia, e sem aprovação da polícia, até ordem posterior, nem o senhor nem membro algum da sua tripulação poderão sair da colônia durante nossas investigações. Bem, e quanto à srta. Tcholok?

— É impossível, totalmente impossível, que Casey esteja envolvida de alguma maneira com armas, contrabando de armas ou qualquer outro tipo de contrabando. Impossível. — Bartlett parecia lastimar aquilo tudo, mas não tinha medo algum. — O mesmo se aplica ao resto de nós. — Sua voz tornou-se mais cortante. — O senhor foi avisado, não foi?

— Quanto tempo pararam em Honolulu?

— Uma ou duas horas, só para reabastecer, não me lembro ao certo. — Bartlett pensou por um momento. — Jannelli saltou, mas sempre salta. Essas prateleiras não podiam ter sido carregadas em uma hora e pouco.

— Tem certeza?

— Não, mas apostaria que isso foi feito antes de sairmos dos Estados Unidos. Embora não tenha a menor idéia de quando, onde, por quê e por quem. O senhor tem?

— Ainda não. — Armstrong observava-o atentamente. — Quem sabe gostaria de voltar ao seu gabinete, Sr. Bartlett. Poderíamos tomar lá o seu depoimento.

— Claro. — Bartlett olhou para o relógio. Eram cinco horas e quarenta e três minutos. — Façamos isso agora, depois tenho que dar alguns telefonemas. Ainda não estamos ligados ao seu sistema. Há algum telefone local ali? — perguntou, apontando para o terminal.

— Há. Naturalmente, preferimos interrogar o comandante Jannelli e o Sr. O'Rourke antes do senhor... se não se importa. Onde estão hospedados?

— No Victoria and Albert.

— Sargento Lee!

— Pronto, senhor.

— Pode ir indo para o QG.

— Sim, senhor.

— Também gostaríamos de falar com a srta. Tcholok primeiro. Novamente, se o senhor não se importar.

Bartlett subia as escadas, com Armstrong ao lado. Finalmente, falou:

— Está certo. Desde que o senhor o faça pessoalmente, e não antes das sete e quarenta e cinco. Ela tem trabalhado demais, tem um dia pesado pela frente, e não quero que seja incomodada desnecessariamente.

Entraram no avião. Sven esperava ao lado da copa, vestido normalmente, e muito perturbado. Policiais uniformizados e à paisana estavam por todo canto, revistando diligentemente.

— Sven, e aquele café?

Bartlett foi na frente, cruzando a ante-sala e entrando no seu escritório-gabinete. A porta central da popa, no final do corredor, estava aberta. Armstrong pôde ver parte da suíte principal, com sua cama tamanho extragrande. O inspetor Thomas vasculhava algumas gavetas.

— Merda! — resmungou Bartlett.

— Lamento — disse Armstrong —, mas é necessário.

— O que não quer dizer que eu tenha que gostar, superintendente. Jamais gostei de estranhos metendo o nariz na minha vida privada.

— É, concordo. — O superintendente fez sinal para um dos oficiais à paisana. — Sung!

— Sim, senhor.

— Anote aqui, por favor.

— Um minuto, vamos poupar tempo — falou Bartlett. Virou-se para um amontoado de aparelhos eletrônicos e apertou dois interruptores. Um gravador com dois cassetes começou a funcionar. Ele enfiou um microfone na tomada e colocou-o na mesa. — Haverá duas fitas, uma para o senhor, outra para mim. Depois que seu funcionário a transcrever, se quiser a minha assinatura, estarei às ordens.

— Obrigado.

— Bem, vamos começar.

Armstrong ficou constrangido, de repente.

— Queira por favor dizer-me o que sabe sobre o carregamento ilegal encontrado no vão do trem de aterrissagem principal de seu aeroplano, Sr. Bartlett.

Bartlett repetiu que não sabia de nada.

— Não creio que ninguém da minha tripulação ou do meu pessoal esteja envolvido, de forma alguma. Nenhum deles jamais esteve envolvido com a lei, ao que eu saiba. E eu saberia.

— Há quanto tempo o comandante Jannelli está com o senhor?

— Há quatro anos, O'Rourke, há dois. Svensen, desde que adquiri o avião, em 58.

— E a srta. Tcholok?

Depois de uma pausa, Bartlett disse:

— Seis... quase sete anos.

— Ela é uma importante executiva de sua companhia?

— É. Muito importante.

— Isso é incomum, não, Sr. Bartlett?

— É. Mas não tem nada a ver com o problema atual.

— O senhor é proprietário deste aparelho?

— A minha companhia é que é. Indústrias Par-Con S.A.

— Tem inimigos... alguém que gostaria de deixá-lo numa séria enrascada?

Bartlett riu.

— Será que um cachorro tem pulgas? Não se chega a chefe de uma companhia de meio bilhão de dólares fazendo amigos.

— Nenhum inimigo em especial?

— Diga-me o senhor. Contrabando de armas é uma operação especial... isso não pode deixar de ter sido feito por um profissional.

— Quem sabia do seu plano de vôo para Hong Kong?

— A visita já está marcada há uns dois meses. Minha diretoria sabia. E minha equipe de planejamento. — Bartlett franziu o cenho. — Não era nenhum segredo. Não havia motivo para tal. — Depois, acrescentou: — É claro que a Struan sabia... exatamente. Há pelo menos duas semanas. Na verdade, confirmamos a data no dia 12 por telex, junto com as horas previstas para a partida e para a chegada. Eu queria vir antes, mas Dunross disse que segunda-feira, dia 19, seria melhor para ele, e 19 é hoje. Por que não o interroga?

— É o que farei, Sr. Bartlett. Obrigado, senhor. No momento, é o suficiente.

— Também tenho umas perguntas, superintendente, se não se importa. Qual a penalidade para o contrabando de armas?

— Dez anos, sem condicional.

— Qual o valor desse carregamento?

— Não tem preço, para o comprador certo, porque nenhuma arma, absolutamente nenhuma, está ao alcance de pessoa alguma.

— Quem é o comprador certo?

— Qualquer um que queira começar um levante, uma insurreição, ou cometer assassinato em massa, assalto a bancos, ou algum crime de grande porte.

— Comunistas?

Armstrong sorriu e sacudiu a cabeça.

— Não precisam atirar em nós para tomar a colônia, ou contrabandear M14... têm armas de sobra nas mãos.

— Nacionalistas? Gente de Chang Kai-chek?

— O governo americano lhes fornece em quantidade todo tipo de armamentos, Sr. Bartlett. Não é? Portanto, também não precisam contrabandear desse jeito.

— Uma guerra de quadrilhas, talvez?

— Santo Deus, Sr. Bartlett, nossas quadrilhas não atiram umas nas outras. Nossas quadrilhas, chamamo-las de tríades, nossas tríades acertam suas diferenças de modo chinês sensato e civilizado, com facas, machados, pedaços de ferro e telefonemas anônimos para a polícia.

— Aposto que foi alguém da Struan. É aí que encontrará a resposta a este enigma.

— Talvez. — Armstrong riu de modo estranho, depois repetiu: — Talvez. Agora, se me dá licença...

— Claro.

Bartlett desligou o gravador, tirou de lá os dois cassetes e entregou um deles ao outro homem.

— Obrigado, Sr. Bartlett.

— Quanto tempo ainda vai durar esta revista?

— Depende. Talve2 uma hora. Pode ser que tragamos alguns peritos. Tentaremos tornar tudo o mais fácil possível. Vai sair do avião antes do almoço?

— Vou.

— Se quiser se comunicar, por favor entre em contato com meu gabinete. O número é 88-7733. Por enquanto, haverá aqui uma guarda policial permanente. Vai ficar no Vic?

— Vou. Estou livre agora para ir à cidade, fazer o que quiser?

— Está sim, senhor, desde que não deixe a colônia, durante as nossas investigações.

Bartlett abriu um sorriso.

— Já tinha entendido bem claramente o recado.

Armstrong se foi. Bartlett tomou banho, vestiu-se e esperou até que todos os policiais se houvessem retirado, exceto o que vigiava a escada. Depois, voltou para o seu gabinete e fechou a porta. Agora, totalmente só, deu uma olhada no relógio. Eram sete e trinta e sete. Foi até o centro de comunicações, ligou dois interruptores de microfone e apertou o botão de transmissão.

Daí a um momento, ouviu o ruído de estática, e a voz sonolenta de Casey:

— Sim, Linc?

— Jerônimo — disse ele, claramente, ao microfone. Fez-se uma longa pausa.

— Saquei — disse ela. O alto-falante emudeceu.

 

                 9h40m

O Rolls saiu da balsa de automóveis que ligava Kowloon à ilha de Hong Kong, e virou para o leste, na Connaught Road, entrando no tráfego denso. A manhã estava quente, úmida e sem nuvens, sob um sol agradável. Casey afundou-se mais no banco traseiro. Deu uma olhada no relógio de pulso, com a excitação aumentando.

— Tempo de sobra, senhorita — disse o chofer, de olhar atento. — Casa Nobre fim da rua, prédio alto. Dez, quinze minutos, não se preocupe.

— Ótimo.

"Isto é que é vida", disse para si mesma. "Um dia também vou ter um Rolls só meu, e um chofer chinês garboso, calmo e educado, e não vou ter que me preocupar com o preço da gasolina. Nunca mais. Quem sabe agora — finalmente — vou botar as mãos no meu dinheiro do não enche." Sorriu consigo mesma. Linc fora o primeiro a lhe explicar sobre o dinheiro do não enche. Ele o chamava de dinheiro do foda-se. O bastante para dizer "foda-se" a qualquer um ou a qualquer coisa.

— O dinheiro do foda-se é o mais valioso do mundo... porém o mais caro — dissera. — Se você trabalhar para mim, comigo, mas para mim, ajudo você a conseguir o seu dinheiro do foda-se. Mas Casey, não sei se vai querer pagar o preço.

— Qual é o preço?

— Não sei. Só sei que varia de pessoa para pessoa... e sempre custa mais do que se está preparado a pagar.

— O seu custou?

— Ah, custou, sim.

"Bom", pensou ela, "por enquanto o preço ainda não foi alto demais. Ganho cinqüenta e dois mil dólares por ano, minha verba de representação é boa, e meu trabalho puxa pelo cérebro. Mas o governo me taxa demais, e nunca sobra o bastante para ser o dinheiro do não enche."

— O dinheiro do não enche vem de uma negociata — dissera Linc. — Não do fluxo de caixa.

"De quanto preciso?"

Nunca se fizera esta pergunta antes.

"Quinhentos mil? A sete por cento, dará trinta e cinco mil dólares por ano para sempre, mas tributável. E quanto à garantia do governo mexicano de onze por cento, menos um por cento para eles pelo seu esforço? Ainda tributáveis. Em obrigações não-tributáveis a quatro por cento dá vinte mil, mas as obrigações são perigosas, e a gente não arrisca o dinheiro do não enche."

— Esta é a primeira regra, Casey — dissera Linc. — A gente nunca o arrisca. Nunca. — E então dera uma das suas risadas gostosas, que sempre a desarmava. — A gente nunca arrisca o nosso dinheiro do foda-se exceto uma ou duas vezes, quando decide fazê-lo.

"Um milhão? Dois? Três?

"Concentre-se na reunião e pare de sonhar", disse consigo mesma. "Vou parar, mas meu preço é dois milhões em espécie no banco. Isentos de impostos. É isso o que quero. Dois milhões a 5,25 por cento, isentos de impostos, me darão cento e cinco mil dólares por ano. E isso dará a mim e à minha família tudo o que quero, dinheiro de sobra para sempre. E ainda posso conseguir mais do que 5,25 para o meu dinheiro.

"Mas, como obter dois milhões isentos de impostos?

"Não sei. Mas sinto que aqui é o lugar para isso."

O Rolls parou de repente quando uma massa de pedestres passou por entre as filas apertadas de carros e ônibus de dois andares, táxis, caminhões, carroças, furgões, bicicletas, carrinhos de mão e alguns jinriquixás. Milhares de pessoas andavam apressadas de um lado para outro, entrando ou saindo de becos e ruas laterais, saltando das calçadas para o meio da rua na hora do maior movimento matutino. Rios de formigas humanas.

Casey pesquisara muito sobre Hong Kong, mas ainda assim não estava preparada para o impacto que o excesso incrível de gente lhe causara.

— Nunca vi nada igual, Linc — dissera pela manhã, quando ele chegou ao hotel, pouco antes de ela sair para a reunião. — Passava das dez horas quando viemos do aeroporto para cá, mas havia milhares de pessoas na rua, inclusive crianças, e tudo, restaurantes, mercados e lojas, ainda estava aberto.

— Gente quer dizer lucro... por que outro motivo estamos aqui?

— Estamos aqui para usurpar o domínio da Casa Nobre sobre a Ásia com a ajuda e o conluio secretos de um Judas Iscariotes, John Chen. Linc riu com ela.

— Correção. Estamos aqui para fazer um negócio com Struan, e para dar uma olhada nas coisas.

— Quer dizer que o plano mudou?

— Taticamente, sim. A estratégia é a mesma.

— Por que a mudança, Linc?

— Charlie me telefonou ontem à noite. Acabamos de comprar mais duzentas mil ações da Rothwell-Gornt.

— Então, a proposta para a Struan é só para despistar, e o nosso alvo real é a Rothwell-Gornt?

— Ainda temos três alvos: a Struan, a Rothwell-Gornt e as Propriedades Asiáticas. Damos uma olhada e esperamos. Se as coisas estiverem com boa cara, atacamos. Se não, poderemos ganhar cinco, quem sabe oito milhões este ano na nossa transação legal com a Struan. É um maná.

— Não está aqui pelos cinco ou oito milhões. Qual o verdadeiro motivo?

— Prazer.

O Rolls avançou mais alguns metros, depois parou de novo, com o tráfego agora mais denso, à medida que se acercavam da zona central. "Ah, Linc", pensou ela, "seu prazer abrange uma infinidade de piratarias."

— Sua primeira visita a Hong Kong, senhorita? — perguntou o chofer, interrompendo seus pensamentos.

— É, sim. Cheguei ontem à noite.

— Ah, que bom. Tempo muito ruim, não se preocupe. Muito mau cheiro, muito úmido. Sempre úmido no verão. Primeiro dia bonito, heya?

O primeiro dia começara com o toque agudo do transmissor-receptor da faixa do cidadão despertando-a. E "Jerônimo".

Era a palavra de código deles para "perigo... cuidado". Tomara banho e se vestira rapidamente, sem saber de onde vinha o perigo. Acabara de colocar as lentes de contato, quando o telefone tocou.

— Aqui fala o superintendente Armstrong. Desculpe incomodá-la tão cedo, srta. Tcholok, mas pode me receber por um momento?

— Claro, superintendente. — Hesitara. — Daqui a cinco minutos... encontro-o no restaurante?

Encontraram-se, e ele a interrogara, contando-lhe apenas que fora descoberto contrabando no avião.

— Há quanto tempo trabalha para o Sr. Bartlett?

— Diretamente, há seis anos.

— Houve algum problema com a polícia antes? De qualquer tipo?

— Quer dizer com ele... ou comigo?

— Com ele. Ou com a senhorita.

— Nenhum. O que foi que encontraram a bordo, superintendente?

— Não parece muito preocupada, srta. Tcholok.

— E por que estaria? Não fiz nada de ilegal, e nem Linc. Quanto à tripulação, são profissionais escolhidos a dedo; portanto, duvido que se metessem com contrabando. São drogas, não é? Que tipo de drogas?

— Por que seriam drogas?

— Não é isso o que se contrabandeia para cá?

— Foi um carregamento muito grande de armas.

— O quê?

Ele fizera mais perguntas, à maioria das quais ela respondera, e depois Armstrong se fora. Ela terminara o café, e recusara, pela quarta vez, os pãezinhos franceses quentinhos, feitos em casa, que um garçom jovem, sorridente e engomado, lhe oferecia. Lembravam-lhe os que comera no sul da França, há três anos.

"Ah, Nice e Cap-d'Ail e o vin da Provença! E o querido Linc", pensara, voltando à suíte para esperar seu telefonema.

— Casey? Ouça, o...

— Ah, Linc, que bom que ligou — dissera imediatamente, interrompendo-o de propósito. — O superintendente Armstrong esteve aqui há alguns minutos... e esqueci de lembrar-lhe ontem à noite para ligar para Martin, sobre as ações.

"Martin" também era uma palavra em código, que significava "Acho que estão escutando esta conversa".

— Também pensei nele. Mas agora não tem importância. Conte-me exatamente o que aconteceu.

Ela contou. E ele relatou brevemente o que se passara.

— Conto mais detalhes quando chegar aí. Estou indo direto para o hotel. Que tal a suíte?

— Fantástica! A sua se chama Riacho Fragrante. Meu quarto é contíguo, acho que normalmente faz parte dela. Parece que aqui há dez criados de quarto por suíte. Pedi um café no quarto, e ele chegou numa bandeja de prata antes que eu desligasse o telefone. Os banheiros são tão grandes que neles seria possível oferecer um coquetel para vinte pessoas, com um conjunto de três músicos.

— Ótimo. Espere por mim.

Ela ficou sentada num dos sofás de couro da sala de estar luxuosa, esperando, saboreando a qualidade de tudo o que a cercava. Lindas cômodas chinesas laqueadas, um bar bem-provido num nicho espelhado, arranjos de flores discretos e uma garrafa de uísque escocês com monograma — Lincoln Bartlett —, com os cumprimentos do gerente-geral. A suíte dela, com uma porta de comunicação, de um lado; a suíte dele, a principal, do outro. Ambas eram as maiores que já vira, com camas de tamanho extragrande.

Por que haviam colocado armas no avião, e quem o teria feito?

Imersa em seus pensamentos, olhou pela janela, que ia de parede a parede, e fitou a ilha de Hong Kong e o imponente Pico, a montanha mais alta da ilha. A cidade, chamada Vitória em homenagem à rainha Vitória, começava ao nível do mar, depois se erguia, camada sobre camada, na periferia das montanhas vivamente inclinadas, diminuindo à medida que os morros se elevavam, mas ainda assim havia prédios de apartamentos próximos ao topo. Dava para ver um deles logo acima do terminal do funicular do Pico. "A vista de lá deve ser fantástica", pensou Casey, distraidamente.

A água azul rebrilhava lindamente, o porto tinha um tráfego tão denso quanto as ruas de Kowloon, lá embaixo. Navios de passageiros e cargueiros estavam ancorados ou amarrados aos cais de Kowloon, ou entrando e saindo, as sereias tocando alegremente. Lá no estaleiro, no lado de Hong Kong, via-se um destróier da Marinha Real, e, ancorada perto dele, uma fragata cinza-escura da marinha americana. Havia centenas de juncos de todos os tamanhos e idades — na sua maior parte barcos de pesca —, alguns movidos a motor, outros velejando imponentes para lá e para cá. Balsas de dois andares, abarrotadas, entravam e saíam do porto com a leveza de libélulas, e por toda parte sampanas, movidas a remo ou a motor, cruzavam destemidas as faixas marítimas estabelecidas.

"Onde mora toda essa gente?", perguntava-se a moça, estupefata. "E como ganha o seu sustento?"

Um criado de quarto abriu a porta com a sua chave-mestra, sem bater, e Linc Bartlett entrou no aposento.

— Está com ótimo aspecto, Casey — falou, fechando a porta atrás de si.

— Você também. Essa história das armas é coisa feia, não é?

— Alguém aqui? Alguma empregada nos quartos?

— Estamos sozinhos, mas os criados de quarto parece que entram e saem ao seu bel-prazer.

— Aquele já estava com a chave na mão antes que eu chegasse ao quarto. — Linc contou-lhe o que acontecera no aeroporto. A seguir, baixou a voz. — E quanto a John Chen?

— Nada. Conversou fiado, nervosamente. Não queria discutir negócios. Acho que não conseguiu se recuperar do fato de eu ser mulher. Deixou-me aqui no hotel e disse que mandariam um carro apanhar-me às nove e quinze.

— Quer dizer que o plano deu certo.

— Certíssimo.

— Ótimo. Conseguiu?

— Não. Disse-lhe que estava autorizada por você a aceitar a entrega e ofereci a letra à vista inicial. Mas fingiu surpresa e disse que falaria com você em particular logo mais, depois do almoço. Parecia muito nervoso.

— Não importa. Seu carro chegará daqui a alguns minutos. Vejo-a na hora do almoço.

— Devo mencionar as armas à Struan? A Dunross?

— Não. Vamos esperar para ver quem toca no assunto.

— Acha que podem ter sido eles?

— Tranqüilamente. Conheciam o nosso plano de vôo, e têm um motivo.

— Qual?

— Desacreditar-nos.

— Mas por quê?

— Talvez pensem que conhecem o nosso plano de batalha.

— Mas, então, não teria sido bem mais sensato da parte deles não fazer nada... e tentar nos passar a perna?

— Talvez. Mas deste modo fizeram a jogada inicial. Primeiro dia: cavalo na casa 3 do bispo do rei. Teve início o ataque contra nós.

— É. Mas da parte de quem? E estamos jogando com as brancas ou as pretas?

Seus olhos se endureceram, perderam o ar amistoso.

— Não me importo, Casey, contanto que vençamos. E foi embora.

"Está acontecendo alguma coisa", disse consigo mesma. "Alguma coisa perigosa, que ele não quer me contar."

— O sigilo é vital, Casey — dissera ele, nos primeiros dias do seu relacionamento. — Napoleão, César, Patton... qualquer um dos grandes generais... geralmente escondiam seu plano real dos seus assessores. Só para mantê-los, e portanto aos espiões inimigos, meio no ar. Se eu esconder algo de você, Casey, não significa falta de confiança. Mas você nunca deve esconder nada de mim.

— Isso não é justo.

— A vida não é justa. A morte não é justa. A guerra não é justa. Os negócios em grande escala são uma guerra. Ajo como se estivesse numa guerra, e é por isso que vou ganhar.

— Ganhar o quê?

— Quero que as Indústrias Par-Con sejam maiores do que a General Motors e a Esso juntas.

— Por quê?

— Porra, para o meu prazer.

— Agora, conte-me o motivo real.

— Ah, Casey, é por isso que a amo. Você escuta e sabe.

— Ah, Incursor, eu também o amo.

Então, os dois riram juntos, pois sabiam que não se amavam, não no sentido comum da palavra. Tinham combinado, desde o começo, deixar de lado o comum pelo extraordinário. Durante sete anos.

Casey olhou pela janela para o porto e os navios no porto.

"Esmagar, destruir e ganhar. Os Grandes Negócios, o jogo Monopólio mais excitante do mundo. E o meu líder é o Incursor Bartlett, o Perito Mestre no jogo. Mas o nosso tempo está se esgotando, Linc. Este ano, o sétimo ano, o último ano, termina com o meu aniversário, 25 de novembro, o meu vigésimo sétimo aniversário..."

Ouviu a meia batida e a chave-mestra na fechadura, e virou-se para dizer "Entre", mas o camareiro engomado já tinha entrado.

— Bom dia, senhorita, sou o Camareiro Diurno Número Um Chang. — Chang era grisalho e solícito. Abriu um sorriso.

— Arrumar quarto, por favor?

— Nenhum de vocês espera que a gente mande entrar?

— perguntou, bruscamente.

Chang fitou-a, confuso.

— Senhorita?

— Ah, deixe pra lá — respondeu, cansadamente.

— Lindo dia, heya? Qual primeiro, o quarto do Patrão ou da senhorita?

— O meu. O Sr. Bartlett ainda não usou o dele.

Chang abriu um sorriso cheio de dentes. "Ayeeyah, você e o Patrão treparam no seu quarto, senhorita, antes que ele saísse? Mas transcorreram apenas catorze minutos entre a chegada e a partida do Patrão, e ele não parecia afogueado, quando foi embora.

"Ayeeyah, primeiro deviam ser dois demônios estrangeiros homens partilhando a minha suíte, e depois um deles é ela... confirmado pelo Noturno Ng, que, naturalmente, revistou toda a bagagem e encontrou provas concretas de que ela era mesmo uma verdadeira mulher — provas confirmadas com grande satisfação pela Terceira Arrumadeira Fung!

"Pêlos púbicos dourados! Que repelente!

"E a Pêlos Púbicos Dourados não apenas não é a primeira mulher do Patrão... não é sequer uma segunda mulher, e oh ko, pior ainda, não teve a educação de fingir que era, para que as regras do hotel pudessem ser seguidas e ninguém ficasse desprestigiado."

Chang riu alto, pois aquele hotel sempre tivera as regras mais espantosas sobre senhoras nos quartos dos homens — oh, deuses, para que serviam as camas? —, e agora uma mulher bárbara estava vivendo abertamente em pecado! Ah, como os gênios tinham se exaltado, na véspera! Bárbaros! Dew neh loh moh para todos os bárbaros! Mas aquela sem dúvida era um dragão, pois enfrentara e vencera o assistente de gerente eurasiano, o gerente da noite eurasiano, e até mesmo o velho hipócrita, o Gerente-Geral Grande Vento em pessoa.

— Não, não, não — choramingara ele, segundo haviam contado a Chang.

— Sim, sim, sim — replicara ela, insistindo em ficar com a metade adjacente da suíte Riacho Fragrante.

Fora então que o Honorável Mong, porteiro-chefe e chefe de uma tríade, portanto líder do hotel, solucionara o que não tinha solução.

— A suíte do Riacho Fragrante tem três portas, heya? — dissera. — Uma para cada quarto, uma para a sala principal. Levem-na para o Riacho Fragrante B, que é o quarto inferior, pela sua própria porta. Mas a porta interna para a sala principal, e daí para o quarto do Patrão, ficará bem trancada. Mas que haja uma chave à vista. Se a meretriz hipócrita destrancar a porta pessoalmente... o que se pode fazer? E depois, se houver uma confusão nas reservas amanhã ou depois, e o nosso honorável gerente-geral tiver que pedir ao bilionário e à sua vagabunda da Terra da Montanha Dourada para saírem, bem, lamentamos muito, e não se preocupem, temos reservas de sobra, e temos que proteger a nossa dignidade.

E assim fora feito.

"A porta externa da parte B foi destrancada, e mandaram a Pêlos Púbicos Dourados entrar. Quem pode dizer se ela pegou a chave e destrancou de imediato a porta interna? Que a porta está aberta agora, bem, certamente eu jamais contarei a alguém de fora, meus lábios estão selados. Como sempre.

"Ayeeyah, mas embora as portas externas possam estar trancadas e ser modestas, as internas podem estar escancaradas e ser deliciosas. Como o Portão de Jade dela", refletiu. "Dew neh loh moh, como será invadir um Portão de Jade do tamanho do dela?"

— Faço a cama, senhorita? — perguntou meigamente, em inglês.

— Pode ir em frente.

"Oh, como é horrível o som da língua bárbara deles. Ugh!"

O Diurno Chang gostaria de escarrar e lançar longe o deus cuspe, mas era contra as regras do hotel.

— Heya, Diurno Chang — disse a Terceira Arrumadeira Fung, alegremente, quando entrou no quarto, depois de ter batido debilmente na porta da suíte, muito depois de tê-la aberto. — Sim, senhorita, desculpe, senhorita — em inglês, depois de novo para Chang, em cantonense. — Ainda não acabou? A bosta dela é tão doce que quer ficar remexendo nas suas gavetas?

— Dew neh loh moh para você, Irmã. Cuidado com a língua, senão seu velho pai pode lhe dar uma boa sova.

— A única sova que sua velha mãe quer, você não pode me ajudar a ganhar! Vamos, deixe-me ajudá-lo a fazer depressa a cama dela. Daqui a meia hora vai começar um jogo de moh-jong. O Honorável Mong mandou que viesse buscá-lo.

— Ah, obrigado, Irmã. Heya, viu mesmo os pêlos púbicos dela?

— Já não lhe contei? Por acaso sou mentirosa? São bem dourados, mais claros ainda que os cabelos. Ela estava no banho, e eu estava tão perto dela quanto agora de você. Ah, e os mamilos dela são rosados, não marrons.

— Eeee! Imagine!

— Como os de uma porca.

— Que coisa horrível.

— É. Leu o Commercial Daily de hoje?

— Não, Irmã, ainda não. Por quê?

— Bem, o astrólogo diz que esta é uma excelente semana para mim, e hoje o editor financeiro diz que parece que vai começar uma nova alta.

— Dew neh loh moh, não diga!

— Então, disse ao meu corretor hoje de manhã para comprar mais mil da Casa Nobre, o mesmo da Balsa Dourada, quarenta da Segunda Grande Casa e cinqüenta da Propriedades Boa Sorte. Meus banqueiros são generosos, mas agora não tenho uma só moeda em Hong Kong que possa pedir de esmola ou emprestada.

— Eeee, está se enchendo de dívidas, Irmã. Eu mesmo já me encalacrei. Na semana passada fiz um empréstimo no banco dando como garantia as minhas ações, e comprei mais seiscentas da Casa Nobre. Isso foi terça-feira. Comprei-as a 25,23!

— Ayeeyah, Honorável Chang, elas fecharam a 29,41, ontem à noite. — A Terceira Arrumadeira Fung fez um cálculo automático. — Já está dois mil trezentos e quarenta e oito HK na frente! E estão dizendo que a Casa Nobre vai fazer uma proposta às Propriedades Boa Sorte. Se tentarem, vão deixar os inimigos fervendo de raiva. Ah! O tai-pan da Segunda Grande Casa vai se danar todo.

— Oh, oh, oh, mas enquanto isso as ações vão subir como doidas! De todas as três companhias! Ah! Dew neh loh moh, onde posso arrumar mais dinheiro?

— Nas corridas, Diurno Chang! Peça emprestado quinhentas, contra os seus ganhos atuais, e ponha tudo na dupla diária do sábado, ou na loteria dupla. Meus números de sorte são o 4 e o 5...

Ambos ergueram os olhos quando Casey entrou no quarto. Chang passou a falar em inglês:

— Sim, senhorita?

— Há roupa suja no banheiro. Pode mandar apanhar, por favor?

— Claro, dou um jeito. Hoje seis horas tudo certo, não se preocupe.

"Esses demônios estrangeiros são tão burros!", pensou Chang, desdenhosamente. "O que sou eu, um monte de bosta desmiolado? Claro que vou cuidar da roupa suja, se houver roupa suja."

— Obrigada.

Ambos olharam fascinados enquanto ela retocava a maquilagem no espelho do quarto, preparando-se para sair.

— As mamas dela não são nem um pouco caídas, não é, Irmã? — comentou Chang. — Mamilos rosados, heya? Extraordinário!

— Como os de uma porca, já lhe disse. Será que suas orelhas não passam de penicos para se urinar nelas?

— Na sua orelha, Terceira Arrumadeira Fung.

— Ela já lhe deu gorjeta?

— Não. O Patrão deu demais, e ela não deu nada. Revoltante, heya?

— É. O que se pode fazer? O povo da Montanha Dourada é mesmo muito pouco civilizado, não é, Diurno Chang?

 

                   9h50m

O tai-pan surgiu de trás do morro e desceu à toda a Peak Road no seu Jaguar modelo E, indo para o leste, na direção da Magazine Gap. Na estrada sinuosa havia uma só faixa de cada lado, com poucos lugares para a ultrapassagem e beirando precipícios na maioria das curvas. Naquele dia a superfície estava seca, e, conhecendo bem o caminho, Ian Dunross fazia as curvas rápida e docemente, colado às montanhas, seu conversível escarlate firme nas curvas internas. Engrenou a marcha de corrida e desceu desabalado, freando com força ao fazer uma curva e deparar com um caminhão antiquado e vagaroso. Esperou com paciência, depois, na hora exata, saiu na contramão e fez a ultrapassagem com segurança antes que o carro que vinha na direção oposta houvesse dobrado a curva cega logo adiante.

Agora, Dunross estava livre durante um certo trecho, e podia ver que a estrada sinuosa à sua frente estava vazia. Pisou fundo no acelerador e fez algumas curvas ocupando a estrada inteira, seguindo a linha mais reta, usando mãos, olhos, pés e mudanças em uníssono, sentindo o imenso poder da máquina e das rodas em todo o seu ser. Bem à frente, subitamente, apareceu um caminhão dobrando a curva, vindo em sua direção, e sua liberdade desapareceu. Mudou de marcha e freou em cima da hora, colando-se no seu lado da estrada, lamentando a perda da liberdade. Depois acelerou e voltou a entrar firme nas curvas perigosas. Agora surgia um outro caminhão, desta feita cheio de passageiros, e ele esperou alguns metros, atrás dele, sabendo que durante certo tempo não havia como ultrapassar. Foi então que uma das passageiras notou o número da sua chapa, 1-1010, apontou, e todos olharam, tagarelando excitados uns com os outros, e um deles bateu na boléia do caminhão. O motorista, gentilmente, saiu da estrada para o minúsculo acostamento, e fez-lhe sinal para passar. Dunross certificou-se de que era seguro, depois passou, acenando-lhes e sorrindo.

Mais curvas, a velocidade, a espera para ultrapassar, a ultrapassagem e o perigo dando-lhe prazer. A seguir, virou à esquerda na Magazine Gap Road, desceu o morro, as curvas mais traiçoeiras, o tráfego aumentando e tornando-se mais vagaroso. Ultrapassou um táxi e três carros com muita velocidade, e estava de volta à sua faixa, embora ainda acima do limite permitido, quando viu os policiais de trânsito de motocicleta, logo à frente. Mudou de marcha e passou por eles na velocidade permitida de cinqüenta quilômetros por hora. Acenou-lhes, bem-humorado. Eles retribuíram o aceno.

— Você precisa andar mais devagar, Ian — havia lhe dito seu amigo Henry Foxwell, superintendente-chefe do tráfego. — Precisa mesmo.

— Nunca sofri um acidente... ainda. Nem fui multado.

— Santo Deus, Ian, não há um guarda de tráfego nesta ilha que tenha coragem de multá-lo! Você, o tai-pan? Deus o livre. Estou falando para o seu próprio bem. Guarde bem guardado o seu demônio da velocidade para Mônaco, ou para sua Corrida da Estrada de Macau.

— Mônaco é para profissionais. Não me arrisco, e além disso não corro tanto assim.

— Cento e cinco quilômetros por hora em Wongniechong não é exatamente devagar, meu velho. Vamos admitir que fossem quatro horas e vinte e três minutos da manhã e a estrada estivesse quase vazia. Mas é uma zona de cinqüenta quilômetros horários.

— Há muitos modelos E em Hong Kong.

— É, concordo. Sete. Mas conversíveis escarlates com uma placa de número especial? Com capota de lona preta, rodas e pneus de corrida que fazem um barulhão dos diabos? Foi na quinta-feira, meu velho. Radar e tudo o mais. Você tinha ido... visitar amigos. Na Sinclair Road, creio.

Dunross controlou a sua ira súbita.

— É? — disse, a superfície do rosto ostentando um sorriso. — Quinta-feira? Parece que fui jantar com John Chen naquele dia. No apartamento dele, no Sinclair Towers. Mas pensei que tinha chegado a casa muito antes das quatro e vinte e três.

— Ah, com certeza chegou. Decerto o policial se enganou quanto à placa, à cor e a tudo o mais. — Foxwell bateu-lhe nas costas, amistosamente. — Mesmo assim, ande um pouco mais devagar, sim? Seria muito chato se você se matasse durante a minha gestão. Espere até me transferirem de novo para a Seção Especial... ou para a escola de polícia, sim? É, estou certo que ele cometeu um engano.

"Não há engano", disse Dunross consigo mesmo. "Você sabe, eu sei, John Chen devia saber e Wei-wei também.

"Com que então vocês estão sabendo sobre Wei-wei! Que interessante!"

— Vocês estão me vigiando? — perguntou, sem rodeios.

— Santo Deus, não! — Foxwell ficou chocado. — O Serviço Especial de Informações estava vigiando um bandido que tem um apartamento no Sinclair Towers. Aconteceu de você ser visto. É uma pessoa muito importante aqui, sabe disso. Chegou aos meus ouvidos através de certos canais. Sabe como é.

— Não, não sei.

— Dizem que para bom entendedor meia palavra basta, meu velho.

— É o que dizem. Então, é melhor avisar ao seu pessoal do Serviço de Informações para ser mais inteligente no futuro.

— Felizmente, são muito discretos.

— Mesmo assim, não quero que meus movimentos sejam registrados.

— Estou certo de que não são.

— Ótimo. Que bandido mora no Sinclair Towers?

— Um dos nossos informantes capitalistas, mas secretamente suspeito de ser um camarada comuna. Muito tedioso, mas o sei tem que ganhar o pão nosso de cada dia, não é?

— Será que o conheço?

— Imagino que conheça todo mundo.

— É xangaiense ou cantonense?

— O que o faz pensar que seja uma coisa ou outra?

— Ah, então é europeu?

— É só um bandido, Ian. Lamento, mas ainda está tudo sob sigilo.

— Qual é, aquele bloco de apartamentos é nosso! Quem foi? Não vou abrir a boca.

— Eu sei. Desculpe, meu velho, mas não posso. Contudo, tenho outra idéia hipotética para você. Digamos que um VIP casado tenha uma amiguinha cujo tio é o subchefe secreto da polícia secreta ilegal do Kuomintang em Hong Kong. Digamos, hipoteticamente, que o Kuomintang quisesse o tal VIP do seu lado. Claro que ele poderia ser pressionado pela amiguinha. Não acha?

— Acho — disse Dunross, tranqüilamente —, se ele fosse burro.

Sabia tudo sobre o tio de Wei-wei Jen, e se encontrara com ele várias vezes, em diversas festas particulares em Taipé. E simpatizara com ele. "Nenhum problema por esse lado", pensara, "porque ela não é minha amante nem minha amiguinha, embora muito linda e desejável. E tentadora."

Sorriu consigo mesmo ao entrar no fluxo de tráfego da Magazine Gap Road, depois esperou na fila para fazer o balão e descer a Garden Road na direção da Central, a uns oitocentos metros, e em direção ao mar.

Agora podia ver o altíssimo bloco de escritórios modernos que era a Struan. Tinha vinte e dois andares, ficava de frente para a Connaught Road e para o mar, quase em frente ao Terminal da Balsa Dourada, cujas balsas trafegavam entre Hong Kong e Kowloon. Como sempre, a vista lhe era agradável.

Foi serpenteando pelo tráfego denso sempre que podia, passou se arrastando pelo Hilton Hotel e pelo campo de críquete à sua esquerda, depois entrou na Connaught Road, com suas calçadas abarrotadas de pedestres. Parou diante da entrada principal.

"Hoje é o grande dia", pensou. "Os americanos chegaram.

"E, com sorte, Bartlett será a corda que enforcará Quillan Gornt para todo o sempre. Santo Deus, se isso der certo!"

— Bom dia, senhor — cumprimentou vivamente o porteiro uniformizado.

— Bom dia, Tom.

Dunross esgueirou-se de dentro do carro baixo e subiu correndo os degraus de mármore, de dois em dois, na direção da imensa entrada de vidro. Outro porteiro foi guardar o carro na garagem subterrânea, e um terceiro abriu-lhe a porta de vidro. Percebeu na porta o reflexo do Rolls que se acercava. Reconhecendo-o, olhou para trás. Casey saltou, e ele deu um assobio involuntário. Carregava uma pasta. Usava um costume de seda verde-mar, muito conservador, mas que não conseguia esconder a esbelteza do corpo, ou a graça do andar, o tom de verde realçando o louro-queimado do seu cabelo.

Ela olhou à sua volta, sentindo o olhar dele. Reconheceu-o imediatamnete, e avaliou-o como ele a avaliara; embora o instante fosse breve, pareceu longo a ambos. Longo e descontraído.

Ela se mexeu primeiro e dirigiu-se a ele, que veio encontrá-la a meio caminho.

— Alô, Sr. Dunross.

— Alô. Nunca nos vimos antes, não é?

— Não. Mas é fácil reconhecê-lo pelas suas fotografias. Não esperava ter o prazer de conhecê-lo, senão mais tarde. Sou Cas...

— Sei — disse, abrindo um sorriso. — Recebi um telefonema perturbado de John Chen, ontem à noite. Bem-vinda a Hong Kong, srta. Tcholok. É senhorita, não?

— É. Espero que o fato de eu ser mulher não vá atrapalhar demais as coisas.

— Ah, vai sim, e muito. Mas tentaremos contornar o problema. A senhorita e o Sr. Bartlett aceitariam ser meus convidados para as corridas de sábado? Com almoço e tudo?

— Eu gostaria muito. Mas terei que consultar Linc... posso confirmar hoje à tarde?

— Claro. — Ele olhou para ela, que retribuiu o olhar. O porteiro ainda mantinha a porta aberta. — Bem, vamos indo, srta. Tcholok, e que a batalha comece.

Ela lançou-lhe um rápido olhar.

— Por que falar em batalha? Estamos aqui para tratar de negócios.

— Ah, sim, claro. É só um ditado de Sam Ackroyd. Explico outra hora. — Fê-la entrar no prédio e dirigiu-se para os elevadores. As muitas pessoas nas filas, esperando, imediatamente se afastaram para que eles entrassem no primeiro elevador, deixando Casey embaraçada. — Obrigado — falou Dunross, sem achar aquilo fora do comum. Fê-la entrar, apertou o botão superior, do vigésimo andar, notando distraidamente que a moça não usava perfume ou jóias, apenas uma fina corrente de ouro no pescoço.

— Por que a porta da frente está inclinada? — perguntou ela.

— Como?

— A entrada da frente me pareceu ligeiramente inclinada, não está em linha reta... fiquei imaginando o motivo.

— É muito observadora. A resposta é fung sui. Quando o prédio foi construído, há quatro anos, não sei como esquecemos de consultar o nosso homem do fung sui. Ele é como um astrólogo, um homem que se especializa em céu, terra, correntezas e demônios, esse tipo de coisa, e se certifica de que o prédio foi construído nas costas do Dragão da Terra, e não na sua cabeça.

— Como?

— É isso mesmo. Sabe, cada prédio em toda a China ergue-se sobre alguma parte do Dragão da Terra. Ficar nas costas dele é perfeito, mas ficar na cabeça é muito ruim, e é terrível ficar no seu globo ocular. Bem, quando resolvemos consultá-lo, o nosso homem do fung sui disse que estávamos sobre as costas do Dragão, graças a Deus, caso contrário teríamos que nos mudar, mas que os demônios estavam entrando pela porta, e que essa era a razão dos problemas. Ele me aconselhou a mudar a porta de posição, e assim, sob a orientação dele, mudamos o ângulo, e agora todos os demônios foram afastados.

Ela riu.

— Agora, conte-me o verdadeiro motivo.

— Fung sui. Tivemos muito azar por aqui, um azar dos diabos, para falar a verdade, até que a porta foi mudada. — O rosto dele se endureceu momentaneamente, depois a sombra passou. — No momento em que modificamos o ângulo, tudo ficou bom novamente.

— Está querendo me dizer que acredita mesmo nisso? Em demônios e dragões?

— Não acredito em nada disso. Mas a gente aprende, a duras penas, que quando se está na China é bom agir um pouco à chinesa. Nunca se esqueça de que, embora Hong Kong seja britânica, ainda fica na China.

— Aprendeu a du...

O elevador parou e a porta se abriu, dando para um corredor de lambris, uma escrivaninha e uma recepcionista chinesa elegante e eficiente. Os olhos dela avaliaram instantaneamente o preço das roupas de Casey.

"Vaca", pensou Casey, lendo os pensamentos dela, e retribuiu o sorriso com igual doçura.

— Bom dia, tai-pan — disse suavemente a recepcionista.

— Mary, esta é a srta. K. C. Tcholok. Por favor, leve-a ao escritório do Sr. Struan.

— Ah, mas... — Mary Li tentou disfarçar o choque. — Eles, bem, estão esperando um... — Pegou no telefone, mas ele a deteve.

— Basta levá-la. Agora. Não há necessidade de anunciá-la. — Virou-se para Casey e sorriu. — É a sua vez. Até breve.

— Obrigada. Até logo.

— Por favor, queira vir comigo, srta. Tchuluk — falou Mary Li, e começou a descer o corredor, com o cheong-sam justo e aberto no alto das coxas, pernas longas com meias de seda e andar atrevido. Casey observou-a por um momento. "Deve ser o corte que torna o andar delas tão descaradamente sensual", pensou, achando divertida tal demonstração óbvia. Lançou um olhar para Dunross, e alçou uma das sobrancelhas.

Ele abriu um sorriso.

— Até logo, srta. Tcholok.

— Por favor, chame-me de Casey.

— Quem sabe eu prefira Kamalian Ciranoush. Ela o olhou, de boca aberta.

— Como sabe os meus nomes? Duvido que até mesmo Linc se lembre deles.

— Ah, vale a pena ter amigos em posições influentes, não é? — disse, com um sorriso. — À bientôt.

— Oui, merci — replicou ela, automaticamente.

Ele se dirigiu para o elevador em frente e apertou o botão. As portas se abriram instantaneamente e se fecharam às suas costas.

Pensativa, Casey seguiu Mary Li, que esperava, ouvido atento a cada nuança. Dentro do elevador, Dunross pegou uma chave, enfiou na fechadura e girou. Agora, o elevador estava ativado. Servia apenas aos dois andares superiores. Apertou o botão inferior. Somente três pessoas tinham chaves semelhantes: Claudia Chen, sua secretária-executiva, Sandra Yi, sua secretária particular, e o seu Criado Número Um Lim Chu.

No vigésimo primeiro andar ficavam seus escritórios particulares, e a sala da diretoria da assembléia interna. No vigésimo segundo, a cobertura, ficava a suíte pessoal do tai-pan. E somente ele possuía a chave para o último elevador particular que ligava a garagem subterrânea diretamente com a cobertura.

— Ian — dissera o tai-pan que o precedera, Alastair Struan, ao lhe entregar as chaves, depois que Phillip Chen os deixara a sós —, sua privacidade é a coisa mais valiosa que possui. Também isso Dirk Struan especificou no seu legado, e como foi sábio! Nunca se esqueça: os elevadores particulares não são um luxo ou uma ostentação, do mesmo modo que a suíte do tai-pan não o é. Existem apenas para lhe dar uma noção do sigilo de que vai precisar, talvez até de um lugar para se esconder. Vai entender melhor depois de ler o legado e ver o que há no cofre do tai-pan. Proteja esse cofre com todas as armas de que dispuser. Todo o cuidado é pouco, há muitos segredos ali, segredos demais, no meu entender, e alguns não são bonitos.

— Espero não falhar — dissera cortesmente, detestando o primo, seu entusiasmo intenso pela posse do prêmio pelo qual tanto trabalhara e tanto arriscara.

— Não falhará. Não você — dissera o velho, tensamente. — Você foi testado, e quer este cargo desde que se entende por gente, não é?

— É — replicara Dunross. — Tentei me preparar para ele. É. Só estou surpreso por você tê-lo dado a mim.

— Você está recebendo o cargo máximo da Struan não por causa do seu direito inato... ele só lhe dava acesso à assembléia interna... mas porque acho que você é o melhor que temos para me suceder, e há anos você vem tramando, empurrando e forçando a barra. É verdade, não é?

— A Struan precisa de modificações. Vamos falar mais verdades: a Casa Nobre está uma joça. Não é tudo culpa sua, houve a guerra, depois a Coréia, depois Suez, você teve uma longa maré de azar. Levará anos para ficarmos em segurança. Se Quillan Gorn, ou qualquer outro dos nossos vinte inimigos, soubesse metade da verdade, soubesse como estamos endividados, estaríamos afogados nos nossos títulos inúteis em uma semana.

— Nossos títulos têm valor... não são inúteis! Você está exagerando... como sempre!

— Valem vinte centavos em cada dólar, porque não temos capital suficiente, nem fluxo de caixa suficiente, e estamos realmente em perigo mortal.

— Besteira!

— É? — A voz de Dunross se tornara cortante, pela primeira vez. — Rothwell-Gorn podia nos engolir em um mês, se soubesse o valor das nossas atuais contas a receber, comparadas às nossas obrigações prementes.

O velho olhara para ele, sem responder. Depois dissera:

— É uma condição temporária. Oportuna e temporária.

— Besteira! Sabe muito bem que está me dando o cargo porque sou o único homem que pode endireitar a bagunça que vocês deixaram, você, meu pai, e seu irmão.

— É, estou apostando que pode. Isso lá é verdade — explodiu Alastair. — É, você realmente tem a quantidade certa do Demônio Struan no seu sangue para servir a esse amo, se quiser.

— Obrigado. Admito que não vou deixar que nada se interponha no meu caminho. E já que esta é a noite das verdades, posso dizer-lhe por que sempre me odiou, por que meu próprio pai sempre me odiou.

— Pode, é?

— Posso. É porque sobrevivi à guerra, e seu filho, não. E porque seu sobrinho Linbar, o último do seu ramo dos Struans, é um bom rapaz, mas um inútil. É, eu sobrevivi, mas meus pobres irmãos, não, e isso ainda deixa meu pai louco. É ou não é a verdade?

— É — concordou Alastair Struan. — Temo que seja.

— Eu não temo que seja. Eu não temo nada. Vovó Dunross cuidou para que eu não temesse.

— Heya, tai-pan — falou Claudia Chen alegremente quando a porta do elevador se abriu. Era uma eurasiana grisalha e animada, de sessenta e tantos anos, e estava sentada atrás de uma mesa imensa que dominava o saguão do vigésimo primeiro andar. Servia à Casa Nobre há quarenta e dois anos, e aos diversos tai-pans, exclusivamente, há vinte e cinco desses anos. — Neh hoh mah? Como vai?

— Ho, ho — replicou, distraidamente. Bom. E a seguir, em inglês: — Bartlett telefonou?

— Não. — Franziu o cenho. — Não é esperado antes da hora do almoço. Quer que tente localizá-lo?

— Não, deixe para lá. E quanto à minha ligação para Foster, em Sydney?

— Ainda não foi completada. Nem sua ligação para o Sr. MacStruan, em Edimburgo. Algum problema? — perguntou, percebendo instantaneamente a disposição dele.

— O quê? Ah, não, nenhum. — Afastou a sua tensão, passou pela mesa dela, entrou na própria sala, com vista para o porto, e sentou-se na poltrona junto ao telefone. Ela fechou a porta e sentou-se perto dele, com o bloquinho à mão. — Estava apenas recordando o meu Dia D — disse ele. — O dia em que assumi o cargo.

— Ah. Sorte, tai-pan.

— É.

— Sorte — repetiu ela —, e há muito tempo. Ele riu.

— Muito tempo? Quarenta vidas inteiras. Faz três anos, mas o mundo todo mudou, e continua indo depressa. Como serão os próximos dois anos?

— Semelhantes, tai-pan. Ouvi dizer que o senhor se encontrou com a srta. Casey Tcholok na porta de entrada.

— Ei, quem lhe contou? — perguntou, vivamente.

— Pelo bom Deus, tai-pan, não posso revelar as minhas fontes. Mas ouvi dizer que a fitou, e ela ao senhor. Heya?

— Bobagem! Quem lhe falou dela?

— Ontem à noite liguei para o hotel para verificar se tudo estava bem. O gerente me contou. Sabe que aquele idiota ia estar com "a casa cheia"? "Ora, se eles partilham uma suíte ou uma cama, não é da sua conta", disse-lhe eu. "Estamos em 1963, na era moderna, com muita liberação, e de qualquer maneira, é uma bela suíte com suas entradas e quartos separados, e, mais importante ainda, são nossos convidados." — Ela casquinou. — Dei uma de importante... Ayeeyah, o poder é um belo brinquedo.

— Contou ao jovem Linbar, ou aos outros, que K. C. é mulher?

— Não. A ninguém. Sabia que o senhor sabia. Barbara Chen me contou que o Patrão Chen já lhe telefonara contando sobre Casey Tcholok. Que tal é ela?

— "Boa para se levar para a cama", seria uma descrição — disse ele, sorrindo.

— Sei... e que mais? Dunross pensou por um momento.

— É muito atraente, veste-se muito bem, embora muito discretamente hoje, imagino que por nossa causa. Muito confiante e muito observadora; notou que a porta da entrada estava fora de esquadro e me perguntou o motivo. — Apanhou um cortador de papel de marfim e ficou brincando com ele. — John não gostou dela nem um pouquinho. Falou que apostava que ela era uma daquelas mulheres americanas patéticas que são como as frutas da Califórnia: bonitas, vistosas, mas sem gosto algum!

— Pobre Patrão John, embora adore a América, prefere certos... aspectos da Ásia!

Dunross riu.

— Logo vamos ver se ela é uma negociadora astuta. — Sorriu. — Mandei que entrasse sem ser anunciada.

— Aposto cinqüenta HK que pelo menos um deles sabia antecipadamente que ela era mulher.

— Phillip Chen, é claro, mas a velha raposa não diria aos outros. Aposto cem que nem Linbar, nem Jacques ou Andrew Gavallan sabiam.

— Fechado — disse Claudia, satisfeita. — Pode me pagar agora, tai-pan. Verifiquei muito discretamente, hoje de manhã.

— Tire o dinheiro da caixa das despesas — disse ele, com azedume.

— Desculpe. — Estendeu a mão. — Aposta é aposta, tai-pan.

Relutante, ele lhe entregou a nota vermelha de cem dólares.

— Obrigada. Agora, aposto cem que Casey Tcholok vai dar um banho no Patrão Linbar, Patrão Jacques e em Andrew Gavallan.

— O que você está sabendo? — perguntou ele, desconfiado. — Hem?

— Cem?

— Está bem.

— Excelente! — exclamou ela, vivamente, mudando de assunto. — E quanto aos jantares para o Sr. Bartlett? A partida de golfe e a viagem a Taipé? Claro que não vai poder levar uma mulher junto. Devo cancelá-los?

— Não. Vou falar com Bartlett... ele vai compreender. Mas convidei-a para vir com ele às corridas de sábado.

— Ih, vai haver um casal a mais. Vou cancelar os Pangs, não se importarão. Quer sentá-los juntos, à sua mesa? Dunross franziu o cenho.

— Ela deve sentar-se à minha mesa, como convidada de honra, e sente-o ao lado de Penelope, como convidado de honra.

— Pois não. Vou ligar para a sra. Dunross e avisá-la. Ah, e Barbara, a mulher do Patrão John, quer falar com o senhor. — Claudia deu um suspiro e alisou um vinco no seu elegante cheong-sam azul-escuro. — O Patrão John não voltou para casa ontem à noite, não que isso seja algo fora do comum. Mas já são dez e dez, e também não consigo encontrá-lo. Parece que nem compareceu à oração matinal.

— Ê, eu sei. Como ficou com Bartlett ontem à noite, disse-lhe que não precisava comparecer. — Oração matinal era o modo brincalhão com que o pessoal da Struan se referia à reunião obrigatória, realizada todos os dias às oito horas, com todos os diretores administrativos de todas as subsidiárias da Struan e o tai-pan. — Não havia necessidade de ele vir hoje, não tem nada para fazer até a hora do almoço. — Dunross apontou pela janela para o porto. — Está provavelmente no seu barco. Hoje é um dia excelente para se velejar.

— Ela estava muito exaltada, tai-pan, até mesmo pelos padrões dela.

— Ela está sempre exaltada, pobre coitado! John está no barco dele... ou no apartamento de Ming-li. Já ligou para lá?

Ela fungou.

— Seu pai costumava dizer que em boca fechada não entra mosca. Mesmo assim, acho que agora posso lhe contar. Há quase dois meses que Ming-li é a Namorada Número Dois. A nova favorita se chama Flor Fragrante, e ocupa um dos "apartamentos particulares" dele, perto da Aberdeen Main Road.

— Ah, por acaso perto do ancoradouro dele.

— Isso mesmo. Ela é bem uma flor, uma Flor Caída do Cabaré Dragão da Boa Sorte, em Wanchai. Mas também não sabe onde está o Patrão John. Não visitou nenhuma das duas, embora tivesse um encontro marcado com a srta. Flor Caída à meia-noite, segundo ela.

— Como descobriu tudo isso? — perguntou, cheio de admiração.

— Poder, tai-pan... e uma rede de relações construída ao longo de cinco gerações. De que outro modo sobrevivemos, heya? — Deu uma risadinha abafada. — Claro, se quiser um gostinho de escândalo de verdade, John Chen não sabe que ela não era a virgem que ela e seu agente alegavam que era, quando deitou com ela pela primeira vez.

— Hem?

— Não. Pagou ao agente... — Um dos telefones tocou e ela o apanhou e disse: — Um momento, por favor — apertou o botão de espera e continuou alegremente, no mesmo fôlego —...quinhentos dólares americanos à vista, mas todas as lágrimas dela, e todas as... provas, eram fingimento. Pobre coitado, mas bem feito, hem, tai-pan? Por que um homem da idade dele ia querer virgindade para nutrir o yang... ele tem só quarenta e dois anos, heya? — Apertou o botão que soltava a ligação. — Escritório do tai-pan, bom dia — disse, educadamente.

Ele a observava. Sentia-se divertido e perplexo, atônito como sempre com suas fontes de informação, incisivas ou não, e com sua alegria em conhecer segredos. E passá-los adiante. Mas só para os membros do clã, e alguns escolhidos especiais.

— Um momento, por favor. — Apertou o botão de espera. — O superintendente Armstrong gostaria de vê-lo. Está lá embaixo com o superintendente Kwok. Lamenta ter vindo sem marcar hora, mas será que o senhor poderia dar-lhes um momento de atenção?

— Ah, as armas. Nossa polícia fica mais eficiente a cada dia que passa — falou, com um sorriso sombrio. — Só os esperava depois do almoço.

Às sete da manhã recebera um relatório detalhado de Phillip Chen, que recebera um telefonema de um dos sargentos da polícia que participara da batida e era parente dos Chens.

— Ponha todas as nossas fontes particulares em ação para descobrir quem e por quê, Phillip — dissera, muito preocupado.

— Foi o que já fiz. É coincidência demais que as armas estivessem no avião de Bartlett.

— Poderá ser altamente embaraçoso se por acaso estivermos ligados a isso, de qualquer modo.

Viu que Claudia esperava pacientemente.

— Peça a Armstrong para me dar dez minutos. Depois, faça-os subir.

Ela tratou disso, depois falou:

— Se o superintendente Kwok já entrou na jogada tão cedo, deve ser mais sério do que imaginávamos, heya, tai-pan?

— A Seção Especial ou o Serviço Especial de Informações têm que se envolver imediatamente. Aposto que o FBI e a CIA já foram contatados. Brian Kwok é a escolha lógica, porque é um velho amigo de Armstrong... e um dos melhores homens que eles têm.

— É mesmo — concordou Claudia, orgulhosamente. — Eeeee, mas que marido fabuloso daria!

— Especialmente para uma Chen... tanto poder a mais, heya?

Era voz corrente que Brian Kwok estava sendo preparado para ser o primeiro-comissário assistente chinês.

— Naturalmente que um poder desses tem que ficar na família. — O telefone tocou. Ela atendeu. — Sim, direi a ele, obrigada. — Pôs o fone no gancho, abespinhada. — O camarista do governador... ligou para relembrar o coquetel de hoje, às dezoito horas... humm, como se eu fosse esquecer!

Dunross pegou um dos telefones e discou.

— Weyyyy? — disse a voz áspera da amah, a empregada chinesa. — Alô?

— Chen tai-tai — falou ao telefone, no seu cantonense perfeito. — A sra. Chen, por favor. Aqui fala o Sr. Dunross.

Esperou.

— Ah, Barbara, bom dia.

— Oh, alô, Ian. Já teve notícias do John? Desculpe incomodá-lo — falou.

— Não é incômodo algum. Não, ainda não. Mas tão logo saiba dele, mandarei que ligue para você. Pode ter ido cedo à pista para ver Golden Lady treinar. Já tentou o Turf Club?

— Já, mas não se lembram de o terem visto tomando café ali, e os treinos são entre cinco e seis horas. Que droga! Ele não tem consideração alguma! Ayeeyah, homens!

— Provavelmente está no barco. Não tem nada para fazer aqui até a hora do almoço, e está um dia excelente para velejar. Sabe como ele é... já verificou no ancoradouro?

— Não posso, Ian, não sei ir até lá, não há telefone. Tenho hora marcada no cabeleireiro, e não posso faltar... Hong Kong inteira estará na sua festa, logo mais... simplesmente não posso ir a Aberdeen.

— Mande um dos seus motoristas — disse Dunross, secamente.

— Tang está de folga hoje, e preciso de Wu-chat para me levar aos meus compromissos, Ian. Não dá para mandá-lo a Aberdeen... isso levaria uma hora, e tenho um jogo de tnah-jong das duas às quatro.

— Mandarei John ligar para você, mais ou menos na hora do almoço.

— Antes das cinco não estarei em casa. Quando eu o encontrar, ele vai comer fogo. Oh, bem, obrigada, desculpe incomodá-lo. Até logo.

— Até logo. — Dunross desligou o aparelho e deu um suspiro. — Sinto-me como se fosse uma ama-seca.

— Fale com o pai de John, tai-pan — disse Claudia Chen.

— Já falei. Uma vez. E chega. Não é só culpa do John. Essa mulher deixa qualquer um louco. — Abriu um sorriso. — Mas concordo em que está exaltadíssima... desta vez. Isso vai custar a John um anel de esmeraldas, ou pelo menos um casaco de vison.

O telefone tocou de novo. Claudia atendeu.

— Alô, escritório do tai-pan! Sim? Oh! — Sua felicidade se evaporou, e ela endureceu a fisionomia. — Um momento, por favor. — Apertou o botão de espera. — Uma ligação pessoal de Hiro Toda, de Yokohama.

Dunross sabia como Claudia se sentia a respeito do homem, sabia que ela odiava os japoneses e abominava a ligação da Casa Nobre com eles. Ele tampouco podia perdoar aos japoneses o que haviam feito à Ásia durante a guerra. O que haviam feito com aqueles que conquistaram, com os indefesos. Homens, mulheres e crianças. Os campos de prisioneiros e as mortes desnecessárias. De soldado a soldado, não tinha por que se queixar. Guerra é guerra.

A guerra dele fora contra os alemães. Mas a guerra de Claudia fora ali em Hong Kong. Durante a ocupação japonesa, como era eurasiana, não fora posta na Prisão Stanley junto com todos os civis europeus. Ela, a irmã e o irmão haviam tentado ajudar os prisioneiros de guerra com alimentos, remédios e dinheiro, contrabandeando-os para dentro do campo. A Kampeitai, a polícia militar japonesa, a pegara. Agora, não podia ter filhos.

— Digo que não está? — perguntou.

— Não. — Dois anos antes, Dunross aplicara uma quantia enorme de capital nas Indústrias de Navegação Toda, de Yokohama, comprando dois gigantescos cargueiros para aumentar a frota Struan, que fora dizimada na guerra. Escolhera o estaleiro japonês porque o produto deles era o melhor, assim como os seus termos — eles garantiam a entrega e tudo o mais que os estaleiros britânicos não garantiam —, e porque sabia que estava na hora de esquecer. — Alô, Hiro — disse. Gostava do sujeito, pessoalmente. — Prazer em ouvi-lo. Como vai o Japão?

— Por favor, desculpe-me por interrompê-lo, tai-pan. O Japão vai bem, embora quente e úmido. Nenhuma mudança.

— E meus navios, como vão indo?

— Muito bem, tai-pan. Tudo corre conforme combinamos. Só queria avisá-lo de que irei a Hong Kong no sábado de manhã, a negócios. Passarei aí o fim de semana, seguirei para Cingapura e Sydney, depois voltarei a tempo de fechar o negócio em Hong Kong. Ainda pretende vir a Yokohama para os dois lançamentos?

— Sim, sem dúvida. A que horas chega no sábado?

— Às onze e dez, pela Japan Air Lines.

— Mandarei um carro ir recebê-lo. Não quer vir diretamente para o Happy Valley, para as corridas? Podia almoçar conosco, depois meu carro o levará ao hotel. Vai se hospedar no Victoria and Albert?

— Desta vez no Hilton, no lado de Hong Kong. Tai-pan, queira me desculpar, não quero lhe dar nenhum trabalho, sinto muito.

— Não é trabalho nenhum. Mandarei um dos meus homens recebê-lo. Provavelmente Andrew Gavallan.

— Ah, ótimo. Então, obrigado, tai-pan. Terei prazer em vê-lo. Desculpe o transtorno.

Dunross desligou o telefone. "Por que será que me ligou, o motivo verdadeiro?", perguntou-se. Hiro Toda, diretor-administrativo do complexo de construção de navios mais ativo do Japão, nunca fazia nada repentino ou não-premeditado.

Dunross pensou no fechamento da transação deles, e nos três pagamentos de dois milhões cada, que venciam nos dias 1°, 11 e 15 de setembro, o restante em noventa dias; doze milhões de dólares americanos ao todo, que ele não tinha no momento. Ou o contrato assinado do fretador que era necessário para sustentar o empréstimo bancário que não tinha, ainda.

— Não faz mal — falou, tranqüilamente —, tudo vai dar certo.

— Para eles, sim — falou Claudia. — Sabe que não confio neles, tai-pan. Em nenhum deles.

— Não pode culpá-los, Claudia. Estão apenas tentando fazer economicamente o que não conseguiram fazer militar-mente.

— Tirando todo mundo dos mercados mundiais, com sua política de preços.

— Eles estão trabalhando duro, estão obtendo lucros, e nos enterrarão, se deixarmos. — O olhar dele também endureceu. — Mas, afinal, Claudia, por baixo do verniz de todo inglês, ou escocês, encontra-se um pirata. Se formos tão idiotas a ponto de permitir que nos enterrem, merecemos esse fim... afinal, não é esta a finalidade de Hong Kong?

— Por que ajudar o inimigo?

— Eles foram o inimigo — falou, bondosamente. — Mas apenas durante vinte e tantos anos, e nossas ligações com o Japão datam de cem anos. Não fomos os primeiros comerciantes a entrar no Japão? A Bruxa Struan não comprou para nós o primeiro lote posto à venda em Yokohama, em 1860? Ela não ordenou que fosse uma das pedras fundamentais da política da Struan manter o triângulo China-Japão-Hong Kong?

— Sim, tai-pan, mas não ach...

— Não, Claudia, negociamos com os Todas, os Kasigis, os Toranagas durante cem anos, e neste momento as Indústrias de Navegação Toda são muito importantes para nós.

O telefone tocou de novo. Ela atendeu:

— Sim, ligo depois para ele. — Depois, para Dunross: — É do bufê... sobre a sua festa logo mais.

— Qual é o problema?

— Nenhum, tai-pan... estão preocupados. Afinal, é o vigésimo aniversário de casamento d'o tai-pan. Hong Kong inteira tem que ficar impressionada. — O telefone tocou outra vez. Claudia atendeu. — Ah, ótimo! Complete a ligação... É Bill Foster, de Sydney.

Dunross atendeu.

— Bill... não, você estava no topo da lista. Já fechou negócio com as Propriedades Woolara?... Qual é o galho?... Não estou gostando. — Deu uma olhada no relógio. — Passa do meio-dia, aí na sua terra. Ligue para eles imediatamente e ofereça mais cinqüenta centavos australianos por ação, a oferta valendo até o encerramento do expediente comercial de hoje. Entre em contato com o banco em Sydney imediatamente e diga-lhes para exigirem o pagamento integral de todos os seus empréstimos até o fim do expediente comercial de hoje... Pouco me importa, já estão com trinta dias de atraso. Quero o controle daquela companhia agora. Sem ele, nosso novo negócio de cargueiros a frete vai se desmantelar, e vamos ter que começar do zero de novo. E tome o vôo 543 da Qantas na quinta-feira. Quero você aqui para uma conferência. — Desligou. — Mande o Linbar aqui para cima logo que a reunião com a Tcholok acabe. Reserve passagem para ele no vôo 716 da Qantas para Sydney, na sexta de manhã.

— Sim, tai-pan. — Tomou nota, depois entregou-lhe uma lista. — Estes são os seus compromissos para hoje.

Lançou uma olhada para o papel. Quatro reuniões de diretoria de algumas companhias subsidiárias naquela manhã: Balsa Dourada, às dez e meia; Motores Importados da Struan de Hong Kong, às onze; Alimentos Chong-Li, às onze e quinze; e Investimentos Kowloon, às onze e trinta. Almoço com Lincoln Bartlett e a srta. Casey Tcholok, de doze e quarenta às catorze horas. Mais reuniões de diretoria à tarde, Peter Marlowe às dezesseis. Phillip Chen às dezesseis e vinte, coquetel com o governador às dezoito, sua festa de aniversário de casamento começando às vinte, um lembrete para ligar para Alastair Struan na Escócia às onze, e pelo menos mais umas quinze pessoas em toda a Ásia para quem telefonar.

— Marlowe? — indagou.

— É escritor, está hospedado no Vic... Não está lembrado? Escreveu pedindo uma entrevista faz uma semana. Está fazendo pesquisas para um livro sobre Hong Kong.

— Ah, sei, o cara que foi da RAF.

— É. Quer que adie o encontro?

— Não. Mantenha o programa combinado, Claudia. — Tirou do bolso das calças um estojinho de couro preto para cartões, e passou para ela uma dúzia de cartões cobertos com anotações taquigrafadas. — Aqui estão alguns telegramas e telex para serem enviados imediatamente, e anotações para as diversas reuniões. Ligue-me com Jen, em Taipé, depois com Havergill, no banco, depois vá seguindo a lista.

— Sim, tai-pan. Ouvi dizer que Havergill vai se aposentar.

— Que maravilha! Quem vai tomar o seu lugar?

— Ninguém sabe, ainda.

— Tomara que seja o Johnjohn. Ponha seus espiões para trabalhar. Aposto cem como descubro antes de você!

— Fechado!

— Ótimo. — Dunross estendeu a mão e falou, docemente: — Pode ir me pagando. É o Johnjohn.

— Hem?

Ela o fitou, aparvalhada.

— Decidimos ontem à noite... todos os diretores. Pedi-lhes para não dizerem a ninguém até as onze horas de hoje.

Relutante, ela apanhou a nota de cem dólares e entregou a ele.

— Ayeeyah, eu gostava especialmente desta nota.

— Obrigado — falou Dunross, pondo-a no bolso. — Eu também gosto dela, especialmente.

Bateram à porta.

— Sim? — falou ele.

A porta foi aberta por Sandra Yi, a secretária particular de Dunross.

— Com licença, tai-pan, mas o mercado subiu dois pontos, e Holdbrook está na linha 2.

Alan Holdbrook era o chefe da companhia de corretagem da casa.

Dunross apertou o botão da linha 2.

— Claudia, logo que eu acabar, pode trazer Armstrong. Ela saiu com Sandra Yi.

— Sim, Alan?

— Bom dia, tai-pan. Primeiro: corre à boca pequena que vamos fazer uma oferta para o controle das Propriedades Asiáticas.

— Isso foi provavelmente espalhado por Jason Plumm, para aumentar o valor de suas ações antes da reunião anual deles. Sabe como é esperto o filho da mãe.

— Nossas ações subiram dez centavos, talvez por causa do boato.

— Ótimo. Compre-me vinte mil imediatamente.

— Com margem de lucro?

— Claro que sim.

— Certo. Segundo boato: fechamos um negócio multi-milionário com as Indústrias Par-Con... grandes expansões.

— Fantasias — falou Dunross, com naturalidade, perguntando-se furiosamente onde estariam os "vazamentos". Apenas Phillip Chen e, em Edimburgo, Alastair Struan e o velho Sean MacStruan deviam saber da trama para esmagar as Propriedades Asiáticas. E a transação da Par-Con era secretíssima, apenas de conhecimento da assembléia interna.

— Terceiro: há alguém comprando grandes lotes das nossas ações.

— Quem?

— Não sei. Mas há alguma coisa ocorrendo que não me cheira bem, tai-pan. O jeito que nossas ações vêm subindo devagar, neste último mês... Não vejo motivo para isso, exceto um comprador, ou compradores. A mesma coisa com a Rothwell-Gornt. Ouvi dizer que um lote de duzentas mil foi comprado no exterior.

— Descubra quem comprou.

— Santo Deus, gostaria de saber como. O mercado está instável, muito nervoso. Um bocado de dinheiro chinês flutuando por aí. Muitas pequenas transações acontecendo... umas poucas ações aqui, outras ali, mas multiplicadas por cerca de cem mil... o mercado pode começar a desabar... ou subir vertiginosamente.

— Ótimo. Então todos vamos ter um lucro e tanto. Ligue para mim antes de o mercado fechar. Obrigado, Alan. — Desligou o aparelho, sentindo as costas molhadas de suor. — Merda — falou em voz alta. — Mas que diabo está acontecendo?

Na ante-sala, Claudia Chen examinava alguns papéis com Sandra Yi, que era sua sobrinha por parte de mãe... inteligente, bonita, vinte e sete anos, e uma cabeça como um ábaco. A seguir, olhou para o relógio e disse, em cantonense:

— O superintendente Brian Kwok está lá embaixo, por que não vai buscá-lo, Irmãzinha... daqui a seis minutos?

— Ayeeyah, sim, Irmã Mais Velha!

Sandra Yi deu uma retocada rápida na maquilagem e saiu. Claudia sorriu ao vê-la se afastar, e pensou que Sandra Yi seria perfeita... a escolha perfeita para Brian Kwok. Feliz, sentou-se à sua mesa e começou a datilografar os telex. "Tudo o que tinha que ser feito foi feito", disse para si mesma. "Não, algo que o tai-pan disse... O que foi mesmo? Ah, sim!" Ligou para a sua casa.

— Weyyyyy? — atendeu a sua amah, Ah Sam.

— Escute, Ah Sam — perguntou em cantonense —, a Terceira Arrumadeira Fung, do Vic, não é sua prima em terceiro grau?

— Ah, sim, Mãe — respondeu Ah Sam, usando o modo polido com que a criada se dirigia à patroa. — Mas é em quarto grau, e dos Fung-tats, não dos Fung-sams, que é o meu ramo.

— Não importa, Ah Sam. Ligue para ela e descubra tudo o que puder sobre os dois demônios estrangeiros da Montanha Dourada. Estão na suíte Riacho Fragrante. — Pacientemente, soletrou os seus nomes, depois acrescentou, com delicadeza: — Ouvi dizer que têm hábitos de cama peculiares.

— Ayeeyah, se alguém for capaz de descobrir, esse alguém é a Terceira Arrumadeira Fung. Ah! Peculiares, como?

— Peculiares, estranhos, Ah Sam. Trate logo disso, sua danadinha.

Abriu um amplo sorriso e desligou.

As portas do elevador se abriram e Sandra Yi fez entrar os dois policiais, depois foi embora, relutante. Brian Kwok ficou olhando enquanto ela se afastava. Tinha trinta e nove anos, era alto para um chinês, passava um pouco de um metro e oitenta, bonitão, com cabelos negro-azulados. Os dois homens estavam à paisana. Claudia Chen conversou educadamente com eles, mas no momento em que viu a luz da linha 2 se apagar, fê-los entrar na outra sala e fechou a porta.

— Desculpe aparecer sem marcar hora — disse Armstrong.

— Não esquente a cabeça, Robert. Está com cara de cansado.

— Uma noite pesada. É todo esse banditismo à solta em Hong Kong — falou Armstrong, descontraidamente. — Abundam os homens maus, e os santos são crucificados.

Dunross sorriu, depois lançou um olhar para Kwok.

— E que tal a vida, Brian? Brian Kwok também sorriu.

— Muito boa, obrigado, Ian. O mercado de capitais está alto... tenho alguns dólares no banco, meu Porsche ainda não caiu aos pedaços, e as damas continuam a existir.

— Graças a Deus! Vai subir a colina no domingo?

— Se puder botar a Lulu em forma. Está lhe faltando um acoplamento hidráulico de direita.

— Já tentou na nossa loja?

— Já. Não dei sorte, tai-pan. Você vai?

— Depende. Tenho que ir a Taipé no domingo à tarde... irei se tiver tempo. De qualquer forma, inscrevi-me. Que tal o sei?

Brian Kwok abriu um sorriso.

— É melhor do que trabalhar para viver.

O Serviço Especial de Informações era um departamento completamente independente dentro da semi-secreta Seção Especial, o departamento de elite responsável pela prevenção e detecção de atividades subversivas na colônia. Tinha os seus modos de agir secretos, fundos secretos e poderes quase absolutos. Respondia exclusivamente ao governador.

Dunross recostou-se na cadeira.

— O que há? Armstrong disse:

— Estou certo de que já sabe. É sobre as armas no avião de Bartlett.

— Ah, é, ouvi dizer, hoje de manhã. Como posso ajudar? Tem alguma idéia de para onde se destinavam? E por quem foram enviadas? Pegou dois homens?

Armstrong deu um suspiro.

— Peguei. Eram mesmo mecânicos de verdade... os dois previamente treinados pela Força Aérea Nacionalista. Nenhuma ficha criminal anterior, embora sejam suspeitos de pertencer a tríades secretas. Ambos estão aqui desde o êxodo de 1949. A propósito, podemos manter isso confidencial, só entre nós três?

— E quanto aos seus superiores?

— Gostaria também de incluí-los... mas não conte a mais ninguém.

— Por quê?

— Temos motivos para crer que as armas destinavam-se a alguém na Struan.

— Quem? — perguntou Dunross, bruscamente.

— Confidencial.

— Sei. Quem?

— O que sabe a respeito de Lincoln Bartlett e Casey Tcholok?

— Temos um dossiê detalhado sobre ele... mas não sobre ela. Gostaria de vê-lo? Posso lhe dar uma cópia, desde que também seja considerada confidencial.

— Naturalmente. Seria uma grande ajuda. Dunross apertou o intercomunicador.

— Sim, senhor? — disse a voz de Claudia.

— Faça uma cópia do dossiê de Bartlett e entregue-a ao superintendente Armstrong na saída.

Dunross desligou o intercomunicador.

— Não vamos tomar muito mais do seu tempo — falou Armstrong. — Sempre faz dossiê dos clientes em potencial?

— Não. Mas gostamos de saber com quem estamos lidando. Se o negócio com Bartlett for fechado, pode significar milhões para nós, para ele, mil novos empregos para Hong Kong... fábricas, depósitos, uma grande expansão... juntamente com riscos igualmente grandes. Todos os empresários fazem um levantamento financeiro confidencial... talvez sejamos mais meticulosos. Aposto cinqüenta dólares contra um alfinete quebrado que ele tem um dossiê sobre mim.

— Nenhuma ligação criminosa foi mencionada? Dunross ficou espantado.

— Máfia? Esse tipo de coisa? Santo Deus, nada. Além disso, se a Máfia estivesse tentando entrar aqui, não iria mandar apenas dez rifles Ml4, duas mil balas e uma caixa de granadas.

— Sua informação é boa pra cachorro — interrompeu Brian Kwok. — Boa demais. Desempacotamos o material só faz uma hora. Quem é seu informante?

— Sabe que não há segredos em Hong Kong.

— Não se pode confiar nem nos nossos tiras, hoje em dia.

— A Máfia certamente enviaria um carregamento vinte vezes maior do que esse, e seriam armas portáteis, estilo americano. Mas a Máfia na certa falharia aqui, não importa o que fizesse. Jamais poderia substituir as nossas tríades. Não, não pode ser a Máfia. Tem que ser alguém do lugar. Quem lhe deu a dica sobre o carregamento, Brian?

— A polícia do aeroporto de Tóquio — falou Kwok. — Um dos mecânicos deles estava fazendo uma inspeção de rotina... sabe como são meticulosos. Relatou a descoberta ao seu superior, a polícia deles nos telefonou, e nós mandamos deixar passar.

— Nesse caso entre em contato com o FBI e a CIA... mande que verifiquem o que houve em Honolulu... ou Los Angeles.

— Também viu o plano de vôo?

— Claro. É óbvio. Por que alguém da Struan?

— Os dois bandidos disseram... — Armstrong pegou o seu bloquinho e consultou-o. — A nossa pergunta foi: "Para onde deviam levar os embrulhos?" Ambos responderam, usando palavras diferentes: "Para o barracão 15, devíamos colocar os pacotes no compartimento número 7, nos fundos".

Ergueu os olhos para Dunross.

— Isso não prova nada. Temos os maiores depósitos em Kai Tak... só porque iam levá-los para um dos nossos barracões, não prova nada... exceto que são espertos. Temos tanta mercadoria em circulação, que seria fácil para um caminhão de fora entrar. — Dunross pensou por um momento. — O número 15 fica junto da saída... localização perfeita. — Estendeu a mão para o telefone. — Vou pôr minha segurança no circuito, agora mes...

— Por favor, agora não.

— Por quê?

— Nossa pergunta seguinte foi: "Quem os contratou?" Claro que nos deram nomes e descrições fictícios, e negaram tudo, mas não tardarão a ser mais prestimosos. — Deu um sorriso sombrio. — Um deles falou, contudo, quando um dos meus sargentos torcia um pouco a sua orelha, de modo figurado, é claro — leu no bloquinho: — "Deixe-me em paz, tenho amigos muito importantes!" "Não tem nenhum amigo no mundo", falou o sargento. "Pode ser, mas o Honorável Tsu-yan tem, e o Chen da Casa Nobre tem."

O silêncio foi longo e pesado. Esperaram. "Aquelas armas amaldiçoadas!", pensou Dunross, furioso. Mas manteve a fisionomia calma e ficou mais atento.

— Temos mais de uma centena de Chens trabalhando para nós, aparentados ou não... Chen é um nome tão comum quanto Smith.

— E Tsu-yan? — perguntou Brian Kwok. Dunross deu de ombros.

— É diretor da Struan... mas também é diretor do Blacs, do Victoria Bank e de quarenta outras companhias, um dos homens mais ricos de Hong Kong, e um nome que qualquer um na Ásia poderia citar facilmente. Como o Chen da Casa Nobre.

— Sabe que suspeitam que ele seja muito graduado na hierarquia das tríades... especialmente na Pang Verde? — perguntou Brian Kwok.

— Todo xangaiense importante é igualmente suspeito. Meus Deus, Brian, você sabe que dizem que Chang Kai-chek entregou Xangai à Pang Verde há anos, como seu distrito exclusivo, em troca do apoio deles na sua campanha setentrional contra os senhores da guerra. A Pang Verde ainda não é, mais ou menos, uma sociedade secreta nacionalista oficial? Brian Kwok disse:

— Onde foi que Tsu-yan ganhou o seu dinheiro, Ian? Sua primeira fortuna?

— Não sei. Conte-me, Brian.

— Ganhou-a durante a Guerra da Coréia, contrabandeando penicilina, drogas e gasolina, especialmente penicilina, para o outro lado da fronteira, para os comunistas. Antes da Coréia, tudo o que tinha era uma tanga e um jinriquixá desconjuntado.

— São boatos, Brian.

— A Struan também fez fortuna.

— É. Mas seria muito pouco sensato sugerir que a fizemos contrabandeando... pública ou particularmente — falou Dunross, suavemente. — Muito pouco sensato, realmente.

— E não fizeram?

— A Struan começou com um pouco de contrabando há cento e vinte e tantos anos, segundo consta, mas era uma profissão honrada, e nunca contra a lei britânica. Somos capitalistas tementes à lei e mercadores da China, e o temos sido há anos.

Brian Kwok não sorriu.

— Outros boatos dizem que um bocado da penicilina dele não prestava. Não prestava mesmo.

— Se não prestava, se isso for verdade, por favor, vá prendê-lo, Brian — disse Dunross, friamente. — Pessoalmente, acho que é mais um boato espalhado por competidores invejosos. Se isso fosse verdade, ele estaria boiando na baía, com os outros que tentaram, ou seria punido, como Wong Pó Estragado.

Referia-se a um contrabandista de Hong Kong que vendera grande quantidade de penicilina estragada para o outro lado da fronteira, durante a Guerra da Coréia, e investira sua fortuna em ações e terras em Hong Kong. Dentro de sete anos, estava riquíssimo. E então, certas tríades de Hong Kong tiveram ordens para acertar as contas. Cada semana um membro da família dele desaparecia, ou morria. Por afogamento, acidente de carro, estrangulamento, veneno ou arma branca. Nenhum assaltante jamais foi preso. A matança continuou por dezessete meses e três semanas, e depois parou. Apenas ele e um neto, um bebê meio retardado, sobreviveram. Ainda viviam, enfurnados no mesmo vasto apartamento de cobertura, outrora luxuoso, com um criado e um cozinheiro, apavorados, vigiados dia e noite, sem jamais sair de casa... sabendo que nem guardas nem dinheiro algum no mundo seriam capazes de impedir a inexorabilidade da sua sentença, publicada num quadrinho minúsculo de um jornal chinês local: "Wong Pó Estragado será punido, ele e todas as suas gerações". Brian Kwok disse:

— Entrevistamos o sujeito certa vez, Robert e eu.

— Não diga!

— É assustador. Todas as portas têm trancas duplas e correntes, todas as janelas são fechadas com tábuas e pregos... só uns buraquinhos aqui e ali, por onde espiar. Ele não saiu de casa desde que a matança começou. O lugar fedia, meu Deus, mas como fedia! Só o que ele faz é jogar damas com o neto e ver televisão.

— E esperar — disse Armstrong. — Um dia irão atrás dos dois. O neto deve estar agora com uns sete ou oito anos.

Dunross disse:

— Acho que você provou o que eu disse. Tsu-yan não é como ele, e nunca foi. E qual a utilidade de uns poucos Ml4 para Tsu-yan? Imagino que, se quisesse, poderia reunir metade do exército nacionalista, junto com um batalhão de tanques.

— Em Formosa, mas não em Hong Kong.

— Tsu-yan já esteve alguma vez envolvido com Bartlett? — perguntou Armstrong. — Nas suas negociações?

— Já. Esteve uma vez em Nova York, e em Los Angeles, nos representando. Ambas as vezes com John Chen. Eles deram início ao acordo entre a Struan e as Indústrias Par-Con, que deverá ser ultimado... ou abandonado... aqui, este mês, e convidaram Bartlett formalmente para vir a Hong Kong, em meu nome.

Armstrong olhou para seu parceiro chinês. Depois, perguntou:

— E quando foi isso?

— Há quatro meses. Foi necessário todo esse tempo para os dois lados prepararem todos os detalhes.

— John Chen, hem? — comentou Armstrong. — Ele bem que podia ser o Chen da Casa Nobre.

— Sabe que John não é desse tipo — falou Dunross. — Não há motivo para ele estar metido numa trama dessas. Deve ser coincidência.

— Há mais uma coincidência curiosa — falou Brian Kwok. — Tanto Tsu-yan quanto John Chen conhecem um americano chamado Banastasio, ou pelo menos ambos já foram vistos em sua companhia. O nome não lhe diz nada?

— Não. Quem é ele?

— Um jogador da pesada, e suspeito de ser escroque. Dizem também que mantém ligações estreitas com uma das famílias da Cosa Nostra. Vincenzo Banastasio.

Os olhos de Dunross se estreitaram.

— Você falou "foram vistos em sua companhia". Quem foi que viu?

— O FBI.

O silêncio ficou mais pesado.

Armstrong enfiou a mão no bolso para puxar um cigarro. Dunross empurrou em sua direção a caixa de cigarros de prata.

— Tome.

— Ah, obrigado. Não, não vou fumar... agi sem pensar. Há duas semanas que parei. Cigarro mata. — A seguir acrescentou, tentando controlar o seu desejo: — O FBI nos passou a informação porque Tsu-yan e John Chen são figuras muito destacadas aqui. Pediram-nos que ficássemos de olho neles.

Foi então que Dunross se lembrou de repente do comentário de Foxwell sobre um importante capitalista que era comunista em segredo, e a quem estava vigiando no Sinclair Towers. "Santo Deus", pensou, "Tsu-yan tem um apartamento lá, e John Chen também. Mas é impossível que um deles esteja metido com os comunistas."

— Claro que a heroína é um negócio grande — dizia Armstrong, com voz muito dura.

— O que quer dizer, Robert?

— O tráfico de drogas exige quantias imensas para financiá-lo. Dinheiro de tal ordem só pode vir de bancos ou banqueiros, disfarçadamente, é claro. Tsu-yan faz parte da diretoria de vários bancos... e o Sr. Chen também.

— Robert, é melhor ir com muita calma nesse tipo de comentário — falou Dunross, com voz áspera. — Está tirando conclusões muito perigosas, sem prova alguma. Isso pode ser discutível, creio, e não o admito.

— Tem razão, desculpe. Retiro a coincidência. Mesmo assim, o comércio de drogas é um negócio e tanto, e existe aqui em Hong Kong em abundância, especialmente para posterior consumo nos Estados Unidos. Vou dar um jeito de descobrir quem são os nossos homens maus.

— É elogiavel. E terá todo o auxílio que quiser da Struan e de mim. Também odeio o tráfico.

— Ah, não o odeio, tai-pan, nem aos traficantes. É um fato da vida. É só mais um negócio... ilegal, é claro, mas ainda assim um negócio. Deram-me a tarefa de descobrir quem são os tai-pans. É uma questão de satisfação pessoal, nada mais.

— Se quiser ajuda, é só pedir.

— Obrigado. — Armstrong levantou-se, cansado. — Antes de partirmos, tenho mais duas coincidências para o senhor. Quando Tsu-yan e o Chen da Casa Nobre foram mencionados, hoje de manhã, pensamos em bater um papinho com eles imediatamente, mas logo depois que descobrimos as armas, Tsu-yan pegou o primeiro vôo para Taipé. Curioso, não?

— Ele viaja daqui para lá o tempo todo — falou Dunross, sua inquietação aumentando vertiginosamente. Tsu-yan era esperado na sua festa, logo mais à noite. Seria um fato extraordinário se não comparecesse.

Armstrong assentiu.

— Parece que foi uma decisão de última hora... não tinha reservas, nem bilhete, nem bagagens, mas passou alguns dólares extras por baixo do balcão, e alguém desistiu do vôo, deixando-lhe o lugar. Carregava apenas uma pasta. Estranho, não?

Brian Kwok falou:

— Não temos a mínima esperança de conseguir sua extradição de Formosa.

Dunross fitou-o, depois voltou a encarar Armstrong, os olhos firmes e da cor do gelo do mar.

— Disse que havia duas coincidências. Qual é a outra?

— Não conseguimos achar John Chen.

— Mas do que está falando?

— Não está em casa, nem na casa da namorada, nem nos lugares que costuma freqüentar. Há meses que o vigiamos, assim como a Tsu-yan, desde que o FBI nos alertou sobre eles.

O silêncio aumentou.

— Verificou o barco dele? — perguntou Dunross, já certo da resposta.

— Está atracado, não saiu desde ontem. Seu marinheiro também não o viu.

— No campo de golfe?

— Não está lá — falou Armstrong. — Nem na pista de corridas. Não foi assistir ao treino, embora fosse esperado, segundo o treinador. Sumiu, desapareceu, evaporou-se.

 

                 11h15m

Fez-se um silêncio estupefato na sala da diretoria.

— Qual o problema? — perguntou Casey. — Os números falam por si.

Os quatro homens à volta da mesa de reunião olharam para ela. Andrew Gavallan, Linbar Struan, Jacques de Ville e Phillip Chen, todos membros da assembléia interna.

Andrew Gavallan tinha quarenta e sete anos, era alto e magro. Deu uma olhada no maço de papéis à sua frente. "Dew neh loh moh para todas as mulheres metidas em negócios", pensou, irritado.

— Talvez devêssemos consultar o Sr. Bartlett — falou, constrangido, ainda muito perturbado por ter que lidar com uma mulher.

— Já lhe disse que tenho autoridade nessa área — retrucou ela, tentando ser paciente. — Sou tesoureira e vice-presidente executiva das Indústrias Par-Con, e tenho poderes para negociar com vocês. Confirmamos isso por escrito, no mês passado.

Casey controlou a raiva. A reunião fora pesadíssima. Desde a reação inicial de choque deles pelo fato de ela ser mulher, até o constrangimento inevitável, o excesso de cortesia, esperando que ela se sentasse, esperando que falasse, depois não se sentando até que ela mandasse, conversando fiado, não querendo tratar de negócios, não querendo negociar com ela como pessoa, como empresária, de modo algum, todos dizendo, ao invés disso, que as mulheres teriam grande prazer em levá-la às compras, depois ficando de boca aberta porque ela conhecia todos os detalhes particulares da transação em projeto. Tudo fazia parte de um esquema com o qual, normalmente, estava habituada a lidar com facilidade. Mas não naquele dia. "Deus", pensou, "tenho que me sair bem. Tenho que sacudi-los."

— É, realmente, muito fácil — dissera inicialmente, tentando dissipar o constrangimento deles, usando sua abertura padrão. — Esqueçam que sou mulher... julguem-me pela minha capacidade. Bem, temos três tópicos na nossa agenda: as fábricas de poliuretano, a representação do arrendamento de computadores, e, finalmente, a representação geral dos nossos produtos derivados do petróleo, fertilizantes, produtos farmacêuticos e esportivos por toda a Ásia. Primeiro, vamos debater as fábricas de poliuretano, os suprimentos da mistura da substância química e um projeto do prazo para o financiamento.

Logo a seguir, ela lhes apresentou os gráficos e a documentação preparada, fez uma sinopse verbal de todos os fatos, números e porcentagens, taxas dos bancos, juros, tudo de maneira muito simples e rápida, de modo que até uma pessoa de inteligência curta poderia entender o projeto. E agora, todos a fitavam.

Andrew Gavallan rompeu o silêncio.

— Muito impressionante, minha cara.

— Na verdade, não sou "sua cara" — disse ela, com uma risada. — Sou muito cabeça-dura na defesa da minha companhia.

— Mas mademoiselle — disse Jacques de Ville, com suave charme francês —, sua cabeça é perfeita, e não é nada dura.

— Merci, monsieur — replicou ela imediatamente, e acrescentou despreocupadamente, num francês passável: — Mas, por favor, deixemos de lado a forma da minha cabeça, e discutamos a forma da transação em pauta. É melhor não misturarmos as coisas, não acha?

Novo silêncio.

— Quer um pouco de café? — perguntou Linbar Struan.

— Não, obrigada, Sr. Struan — falou Casey, tratando de se adaptar aos costumes deles, e não chamá-los muito cedo pelos nomes de batismo. — Vamos discutir esta proposta? É a que lhe enviamos no mês passado... tentei dar atenção aos seus problemas, assim como aos nossos.

Fez-se novo silêncio. Linbar Struan, trinta e quatro anos, bonitão, com cabelos avermelhados e olhos azuis com um brilho atrevido, insistiu:

— Tem certeza de que não quer um pouco de café? Quem sabe um chá?

— Não, obrigada. Então, aceitam a nossa proposta como está?

Phillip Chen tossiu e disse:

— Em princípio, concordamos em negociar com a Par-Con em diversas áreas. Os tópicos do contrato indicam isso. Quanto às fábricas de poliuretano...

Casey escutou as generalizações dele, depois tentou mais uma vez descer às especificações... que eram o motivo daquela reunião. Mas a parada era dura, e podia senti-los refugando. Nunca tinha sido tão difícil. "Talvez seja porque são ingleses, e eu ainda não tinha lidado com os ingleses."

— Há alguma coisa específica que necessite ser esclarecida? — perguntou. — Se existe algo que não compreendem...

— Compreendemos muito bem — disse Gavallan. — A senhorita nos apresenta números tendenciosos. Estamos financiando a construção das fábricas. Vocês nos fornecem as máquinas, mas o custo delas é amortizado ao longo de três anos, o que anulará qualquer fluxo de caixa, e significará lucro nenhum durante pelo menos cinco anos.

— Disseram-me que é costume aqui em Hong Kong amortizar o custo total de uma construção num período de três anos — replicou ela, igualmente brusca, contente por ter sido desafiada. — Estamos nos propondo a seguir os seus costumes. Se quiserem cinco... ou dez anos... tê-los-ão, desde que o mesmo se aplique à construção.

— Vocês não estão pagando pelas máquinas... são arrendadas, e o custo mensal para a joint venture¹ é alto.

— Qual a prime rate² do seu banco hoje, Sr. Gavallan? Consultaram o banco, depois deram-lhe a resposta. Ela usou sua régua de cálculo de bolso durante alguns segundos. — À taxa de hoje, poupariam dezessete mil HK por semana por máquina, se aceitassem a nossa proposta, que, no período que estamos discutindo... — mais um cálculo rápido — aumentaria sua parte dos lucros em trinta e dois por cento acima do máximo que conseguiriam... e olhe que estamos falando em milhões de dólares.

 

¹ "Sociedade em conta de participação." (N. da T.)

² "Taxa de juro preferencial." (N. da T.)

 

Eles a fitaram em silêncio.

Andrew Gavallan fez-lhe novas perguntas sobre os números em questão, mas ela não vacilou nem uma vez. A antipatia que sentiam por ela aumentou.

Silêncio.

Estava certa de que eles estavam confusos com os números que apresentara. "O que mais posso fazer para convencê-los?", pensou, ficando cada vez mais ansiosa. "A Struan vai ganhar uma bolada se eles se mexerem, nós faremos uma fortuna, e eu finalmente vou ganhar o meu dinheiro do não enche. Basta a parte da espuma para enriquecer a Struan, e a Par-Con vai ganhar quase oitenta mil dólares líquidos por mês durante os próximos dez anos, e Linc falou que eu podia ficar com uma parte."

— Quanto você quer? — ele lhe perguntara, pouco antes de terem saído dos Estados Unidos.

— Cinqüenta e um por cento — respondera, dando uma risada —, já que você está perguntando.

— Três por cento.

— Qual é, Linc, preciso do meu dinheiro do não enche.

— Feche o negócio todo e terá uma opção de compra de cem mil ações da Par-Con a quatro dólares abaixo do preço de mercado.

— Pode contar comigo. Mas quero a companhia de espuma também — dissera, prendendo a respiração. — Fui eu que a comecei, e eu a quero: cinqüenta e um por cento. Para mim.

— Em troca do quê?

— Da Struan.

— Fechado.

Casey esperou, aparentemente calma. Quando julgou que era o momento correto, perguntou, inocentemente:

— Estamos de acordo, então, em que a proposta é aceita como está? Estamos meio a meio com vocês. O que poderia ser melhor do que isso?

— Ainda afirmo que vocês não estão entrando com cinqüenta por cento do financiamento da joint venture — retrucou Andrew Gavallan, bruscamente. — Estão fornecendo máquinas e materiais em sistema de arrendamento, com prejuízos passíveis de compensação com lucros de exercícios passados, portanto seu risco não eqüivale ao nosso.

— Mas isso é apenas por causa do nosso fisco, e para diminuir a quantia desembolsada, cavalheiros. Estamos fazendo o nosso financiamento do fluxo de caixa. O total das cifras é o mesmo. O fato de que temos um subsídio para a desvalorização e diversos abatimentos não tem nada a ver. — Ainda mais inocentemente, pondo isca na armadilha, acrescentou: — Nós financiamos nos Estados Unidos, onde temos traquejo. Vocês financiam em Hong Kong, onde são os peritos.

Quillan Gornt afastou-se da janela do seu escritório.

— Repito, podemos superar qualquer acordo que façam com a Struan, Sr. Bartlett. Qualquer um.

— Dólar por dólar?

— Dólar por dólar. — O inglês voltou a sentar-se atrás de sua mesa vazia de papéis, e encarou Bartlett novamente. Estavam no último andar do Edifício Rothwell-Gornt, que também dava para a Connaught Road e a orla marítima. Gornt era um homem corpulento, barbudo, de fisionomia dura, com pouco menos de um metro e oitenta de altura, cabelos negros e sobrancelhas espessas um pouco grisalhos, e olhos castanhos. — Não é nenhum segredo que nossas companhias são rivais seriíssimas, mas asseguro-lhe que podemos cobrir e superar qualquer oferta deles, e providenciaria o nosso lado do financiamento até o fim da semana. Poderíamos ter uma sociedade lucrativa, o senhor e eu. Sugiro que formemos uma companhia conjunta, segundo as leis de Hong Kong... os impostos aqui são bem razoáveis... quinze por cento de tudo o que é ganho em Hong Kong, com o resto do mundo livre de qualquer imposto. — Gornt sorriu. — Melhor do que nos Estados Unidos.

— Muito melhor — disse Bartlett. Estava sentado numa cadeira de couro de espaldar alto. — Muitíssimo melhor.

— É por isso que está interessado em Hong Kong?

— Esse é um dos motivos.

— Quais são os outros?

— Aqui não há nenhuma companhia americana do tamanho da minha com força total, e devia haver. Essa é a era do Pacífico. Mas vocês poderiam beneficiar-se da nossa vinda. Temos muito do traquejo que vocês não têm e uma grande influência em áreas do mercado americano. Por outro lado, a Rothwell-Gornt e a Struan têm o traquejo que nos falta e uma grande influência nos mercados asiáticos.

— Como podemos cimentar um relacionamento?

— Primeiro, tenho que descobrir o que a Struan está pretendendo. Comecei a negociar com eles, e não gosto de trocar de avião no meio do oceano.

— Posso lhe dizer de pronto o que estão pretendendo: lucro para eles, e o resto que vá para o diabo.

O sorriso de Gornt era duro.

— A transação que discutimos me pareceu muito justa.

— Eles são mestres em parecer muito justos, entrar com a metade da participação, depois vender ao seu bel-prazer para raspar o lucro e ainda conservar o controle.

— Isso não seria possível conosco.

— Há quase um século e meio que vêm agindo assim. A esta altura já aprenderam alguns macetes.

— Vocês também.

— Claro. Mas a Struan é muito diferente de nós. Somos donos de coisas e companhias... eles possuem porcentagens. Têm pouco mais de cinco por cento da maioria de suas subsidiárias e, no entanto, exercem o controle absoluto por meio de ações com poder de voto especial, ou tornando obrigatório, nos artigos de associação, que o tai-pan deles também seja o tai-pan da subsidiária, com poder de decisão final.

— Isso me parece inteligente.

— E é. E eles são. Mas nós somos melhores e mais corretos... e nossos contatos e influência na China e por toda a costa do Pacífico, com exceção dos Estados Unidos e do Canadá, são mais fortes do que os deles, e ficam mais fortes a cada dia que passa.

— Por quê?

— Porque as operações da nossa companhia tiveram origem em Xangai, a maior cidade da Ásia, onde dominávamos. A Struan sempre se concentrou em Hong Kong, que, até bem pouco tempo, mal passava de uma cidadezinha provinciana.

— Mas Xangai são águas passadas, desde que os comunistas isolaram o continente, em 1949. Não há nenhum comércio externo passando hoje em dia através de Xangai; é tudo através de Cantão.

— É. Mas foram os xangaienses que saíram da China e vieram para o sul com dinheiro, cérebro e garra, que fizeram de Hong Kong o que é hoje e o que será amanhã: a metrópole de hoje e do futuro de todo o Pacífico.

— Melhor do que Cingapura?

— Sem dúvida.

— Manila?

— Sem dúvida.

— Tóquio?

— Esta será sempre só para os japoneses. — Os olhos de Gornt brilharam, as rugas de seu rosto tornaram-se mais nítidas. — Hong Kong é a maior cidade da Ásia, Sr. Bartlett. Quem a dominar, acabará por dominar a Ásia... naturalmente, estou me referindo ao comércio, finanças, transportes, grandes negócios.

— E quanto à China Vermelha?

— Achamos que Hong Kong é vantajosa para a RPC, como chamamos a República Popular da China. Somos a "porta aberta" controlada para eles. Hong Kong e a Rothwell-Gornt representam o futuro.

— Por quê?

— Porque, quando Xangai era o centro empresarial e industrial da China, quem regulava o passo do país eram os xangaienses. Eles são os "furões" da China, sempre foram e sempre serão. E agora, os melhores deles estão aqui conosco. Logo verá a diferença entre os cantonenses e os xangaienses. Estes são os empresários, os industriais, os promotores, os inter-nacionalistas. Não há um só grande magnata têxtil, armador ou industrial que não seja oriundo de Xangai. Os cantonenses dirigem as empresas da família, Sr. Bartlett, são individualistas, mas os xangaienses entendem de sociedades nos seus diversos aspectos e, acima de tudo, entendem de operações bancárias e financiamentos. — Gornt acendeu outro cigarro. — É aí que reside a nossa força, é por isso que somos melhores do que a Struan... e por que acabaremos sendo os maiores.

Linc Bartlett examinou o homem à sua frente. Pelo dossiê que Casey preparara, sabia que Gornt nascera em Xangai, de pais britânicos, tinha quarenta e oito anos, era viúvo com dois filhos crescidos, e que servira como capitão na infantaria australiana de 42 a 45, no Pacífico. Sabia também que governava a Rothwell-Gornt com muito êxito como um feudo particular, isso há oito anos, desde que assumira o lugar do pai.

Bartlett acomodou-se melhor na poltrona funda.

— Se existe esta rivalidade com a Struan, e tem tanta certeza de que acabará sendo a número 1, por que esperar? Por que não lhes tomar o lugar agora?

Gornt o fitava, fisionomia dura.

— Não há nada no mundo que mais me agradasse fazer. Mas não posso, ainda não. Quase consegui, faz três anos... eles haviam passado dos limites, o joss do tai-pan anterior se esgotara.

— Joss?

— É uma palavra chinesa que quer dizer "sorte", "destino", mas um pouquinho mais. — Gornt observava-o, pensativo. — Somos muito supersticiosos, por essas bandas. Joss é muito importante, como a escolha do momento preciso. Bem, a sorte de Alastair Struan se esgotara, ou virará azar. Tivera um ano anterior desastroso, e então, num gesto de desespero, passou o cargo para Ian Dunross. Quase afundaram, daquela vez. As ações deles começaram a cair. Parti para cima deles, mas Dunross conseguiu superar a crise e estabilizar o mercado.

— Como?

— Digamos que exerceu uma quantidade indevida de influência em certos círculos bancários.

Gornt recordou com fúria gelada que Havergill, do banco, de repente, em desacordo com todas as suas combinações particulares e secretas, não se opusera ao pedido da Struan de uma linha de crédito enorme e temporária que dera a Dunross tempo para se recuperar.

Gornt recordou sua ira cega quando ligara para Havergill.

— Diabos, mas por que fez isso? — perguntara-lhe. — Cem milhões com crédito extraordinário? Salvou o pescoço deles, pela madrugada! Nós estávamos com eles nas mãos. Por quê?

Havergill lhe contara que Dunross conseguira reunir votos suficientes na junta diretora, e impusera extrema pressão pessoal a ele, Havergill.

— Nada havia que eu pudesse fazer...

"É", pensou Gornt, olhando para o americano. "Perdi, daquela vez, mas acho que você é a chave explosiva de vinte e quatro quilates que irá acionar a bomba que fará a Struan ir pelos ares, deixando a Ásia para sempre."

— Dunross foi a extremos, daquela vez, Sr. Bartlett. Conseguiu alguns inimigos implacáveis. Mas agora somos igualmente fortes. É o que o senhor chamaria de um impasse. Eles não podem nos pegar, e nós não podemos pegá-los.

— A não ser que cometessem um erro.

— Ou nós cometêssemos um erro. — O homem mais velho soprou um anel de fumaça e ficou olhando para ele. Finalmente, voltou a olhar para Bartlett. — Acabaremos por vencer. O tempo na Ásia é um pouco diferente do tempo nos Estados Unidos.

— É o que me dizem.

— Não acredita?

— Sei que as mesmas regras de sobrevivência se aplicam aqui, ali, ou seja onde for. Apenas o grau varia.

Gornt ficou vendo a fumaça do cigarro enroscar-se até o teto. Sua sala era grande, com poltronas de couro bem usadas, excelentes quadros a óleo nas paredes, e recendia a couro lustrado e bons charutos. A cadeira de espaldar alto de Gornt, de carvalho antigo e entalhado, com estofamento vermelho, parecia dura, funcional e sólida, pensou Bartlett, igual ao homem.

— Podemos superar a oferta da Struan, e o tempo está do nosso lado, aqui, ali, ou seja lá onde for — disse Gornt.

Bartlett achou graça.

Gornt também sorriu, mas Bartlett notou que seus olhos não sorriam.

— Circule por Hong Kong, Sr. Bartlett. Faça perguntas sobre nós, e sobre eles. Depois, decida-se.

— É o que farei.

— Ouvi dizer que seu avião está retido aqui.

— Está, sim. A polícia do aeroporto encontrou armas a bordo.

— É, eu soube. Curioso. Bem, se precisar de ajuda para liberá-lo, talvez eu lhe possa ser útil.

— Podia ajudar agora mesmo, contando-me por que e por quem.

— Não tenho idéia... mas aposto que alguém da Struan tem.

— Por quê?

— Sabiam dos seus movimentos exatos.

— Vocês também.

— É. Mas não tinha nada a ver conosco.

— Quem sabia que íamos ter este encontro, Sr. Gornt?

— O senhor e eu. Conforme combináramos. Não houve vazamento por aqui, Sr. Bartlett. Depois do nosso encontro particular em Nova York, no ano passado, tudo foi feito por telefone... nem mesmo um telex de confirmação. Apoio a sua política sábia de cautela, sigilo, e contatos pessoais. Em particular. Mas, do seu lado, quem sabe do nosso... nosso interesse continuado?

— Ninguém, exceto eu.

— Nem mesmo sua tesoureira vice-presidente-executiva? — perguntou Gornt, sem disfarçar a surpresa.

— Não, senhor. Quando soube que Casey era "ela"?

— Em Nova York. Ora, vamos, Sr. Bartlett, não é provável que estivéssemos contemplando uma associação sem averiguarmos suas credenciais e as dos seus principais executivos.

— Ótimo. Isso poupará tempo.

— É curioso ter uma mulher numa posição-chave dessas.

— Ela é meu braço direito e esquerdo, e o melhor executivo que tenho.

— Então, por que não lhe contou do nosso encontro hoje?

— Uma das primeiras regras da sobrevivência é manter suas opções em aberto.

— Ou seja?

— Ou seja, não dirijo meus negócios em comitê. Além disso, gosto de agir de improviso, manter certas operações em segredo. — Bartlett pensou um momento, depois acrescentou:

— Não é falta de confiança. Na verdade, estou tornando as coisas mais fáceis para ela. Se alguém na Struan descobrir, e perguntar-lhe por que estou tendo um encontro agora com o senhor, a surpresa dela será genuína.

Depois de uma pausa, Gornt falou:

— É raro encontrar alguém realmente digno de confiança. Muito raro.

— Por que alguém iria querer M14 e granadas em Hong Kong, e por que usariam o meu avião?

— Não sei, mas me proponho a descobrir. — Gornt apagou o cigarro. O cinzeiro era de porcelana... dinastia Sung.

— Conhece Tsu-yan?

— Encontrei-o umas duas vezes. Por quê?

— É um excelente sujeito, embora seja diretor da Struan.

— É xangaiense?

— É. Um dos melhores. — Gornt ergueu os olhos, com expressão muito dura. — É possível que haja vantagem periférica em negociar conosco, Sr. Bartlett. Ouvi dizer que a Struan está se expandindo muito, no momento. Dunross está apostando alto na sua frota, especialmente nos dois imensos cargueiros que encomendou no Japão. O primeiro deles está com um pagamento substancial a vencer, dentro de uma semana, mais ou menos. Além disso, correm boatos de que ele vai fazer uma oferta pelas Propriedades Asiáticas. Já ouviu falar delas?

— Um grande empreendimento imobiliário, por toda a Hong Kong.

— É. São os maiores... maiores até que a ik da Struan.

— A Investimentos Kowloon faz parte da Struan? Pensei que fosse uma companhia independente.

— E é, na aparência. Mas Dunross é tai-pan da ik... eles sempre têm o mesmo tai-pan.

— Sempre?

— Sempre. Faz parte das cláusulas de contrato deles. Mas Ian está exagerando. A Casa Nobre pode logo se tornar ignóbil. Ele está com muito pouco dinheiro vivo no momento.

Bartlett pensou um momento, depois perguntou:

— Por que não se junta a outra companhia, talvez as Propriedades Asiáticas, e assumem juntos o controle da Struan? Isso é o que eu faria, nos Estados Unidos, se quisesse uma companhia que não pudesse tomar sozinho.

— É isso o que está querendo fazer aqui, Sr. Bartlett? — perguntou Gornt de pronto, fingindo estar chocado. — "Tomar" a Struan?

— É possível?

Gornt fitou o teto cuidadosamente, antes de responder.

— É... mas precisaria de um sócio. Talvez conseguisse obtê-lo com as Propriedades Asiáticas, mas duvido. Jason Plumm, o tai-pan, não tem peito para isso. Precisaria de nós. Só nós temos a perspicácia, a garra, o conhecimento e o desejo. Contudo, teria que arriscar uma imensa quantia. Em dinheiro vivo.

— Quanto?

Gornt riu com gosto.

— Vou pensar nisso. Primeiro, teria que me dizer se está mesmo levando a idéia a sério.

— Se estiver, quer entrar na jogada? Gornt devolveu-lhe o olhar, igualmente firme.

— Primeiramente teria que estar certo, certíssimo, de que está falando sério. Não é segredo que detesto a Struan de modo geral, e Ian Dunross pessoalmente, e que gostaria de vê-los aniquilados. Portanto, já conhece a minha posição a longo prazo. Não sei a sua. Ainda.

— Se pudéssemos assumir o controle da Struan... valeria a pena?

— Ah, sim, Sr. Bartlett. Ah, sim... valeria a pena — disse Gornt jovialmente, depois sua voz voltou a ficar gelada. — Mas ainda preciso saber quão seriamente encara isso.

— Dir-lhe-ei depois de me encontrar com Dunross.

— Vai sugerir-lhe a mesma coisa... que juntos poderão engolir a Rothwell-Gornt?

— Meu propósito ao vir aqui é tornar a Par-Con internacional, Sr. Gornt. Quem sabe um investimento de até trinta milhões, cobrindo toda uma variedade de mercadorias, fábricas e depósitos. Até bem pouco tempo, nunca ouvira falar na Struan... ou na Rothwell-Gornt. Ou na rivalidade entre as duas.

— Muito bem, Sr. Bartlett, deixemos as coisas como estão. Faça o senhor o que fizer, será interessante. É. Será interessante ver se sabe segurar uma faca.

Bartlett fitou-o, sem compreender.

— É um velho termo chinês de culinária, Sr. Bartlett. O senhor cozinha?

— Não.

— A culinária é um dos meus passatempos. Os chineses dizem que é importante saber como segurar a faca, que não se pode usar uma faca até que se saiba segurá-la corretamente. Caso contrário, a pessoa pode se cortar, e a coisa já começa mal. Não é mesmo?

Bartlett abriu um sorriso.

— Segurar a faca, não é isso? Não vou me esquecer. Não, não sei cozinhar. Nunca cheguei a aprender. Casey também não entende nada de cozinha.

— Os chineses dizem que há três artes em que as outras civilizações não se podem comparar à deles: literatura, pintura a pincel e culinária. Sinto-me inclinado a concordar. Gosta de boa comida?

— A melhor refeição que já comi foi num restaurante nos arredores de Roma, na Via Flaminia, o Casale.

— Então, temos ao menos isso em comum, Sr. Bartlett. O Casale também é um dos meus favoritos.

— Casey me levou para comer lá certa vez: spaghetti alla matriciana al dente e buscetti com uma cerveja estupidamente gelada, seguidos de picatta e mais cerveja. Nunca esquecerei.

Gornt sorriu.

— Quem sabe gostaria de jantar comigo, enquanto estiver aqui? Posso oferecer-lhe também o alla matriciana; terá o mesmo sabor, a receita é a mesma.

— Gostaria muito.

— E uma garrafa de Valpolicella, ou de um grande vinho toscano.

— Pessoalmente, gosto de cerveja com massa. Cerveja americana bem gelada, direto da lata.

Depois de uma pausa, Gornt perguntou:

— Quanto tempo vai se demorar em Hong Kong?

— O tempo que for preciso — respondeu Bartlett, sem hesitar.

— Ótimo. Então podemos marcar o jantar para a semana que vem? Terça ou quarta?

— Terça está ótimo, obrigado. Posso levar Casey?

— Claro. — Gornt acrescentou, em tom mais seco: — A essa altura, talvez o senhor já tenha mais certeza do que quer fazer.

Bartlett achou graça.

— E a essa altura, já saberá se sei segurar a faca.

— Talvez. Mas quero que se lembre de uma coisa, Sr. Bartlett: se unirmos nossas forças contra a Struan, uma vez iniciada a batalha, não haverá como bater em retirada sem danos muito sérios. Seriíssimos, mesmo. Eu precisaria ter muita certeza. Afinal, o senhor sempre poderá se retirar ferido para os Estados Unidos, para voltar à luta outro dia. Nós ficamos aqui... portanto os riscos são desiguais.

— Mas o espólio também é desigual. Vocês ganhariam uma coisa sem preço, que para mim não vale dez centavos. Seriam a Casa Nobre.

— É — falou Gornt, cerrando as pálpebras. Inclinou-se para a frente para escolher outro cigarro, e o pé esquerdo moveu-se sob a mesa para apertar um interruptor oculto. — Vamos deixar tudo em suspenso até ter...

A voz da secretária de Gornt fez-se ouvir pelo intercomunicador.

— Com licença, Sr. Gornt, quer que adie a reunião da diretoria?

— Não — respondeu Gornt. — Eles que esperem.

— Sim, senhor. A srta. Ramos está aqui. Pode conceder-lhe alguns minutos?

Gornt fingiu-se surpreso.

— Um momento. — Olhou para Bartlett. — Terminamos?

— Sim. — Bartlett levantou-se imediatamente. — A terça-feira está de pé. Até lá, deixamos tudo em suspenso. — Virou-se para sair, mas Gornt o deteve.

— Só um momento, Sr. Bartlett — disse, depois falou no intercomunicador: — Diga a ela que entre. — Desligou o interruptor e se levantou. — Fiquei muito feliz com o nosso encontro.

A porta se abriu e uma moça entrou. Tinha vinte e cinco anos, era impressionante, cabelos pretos curtos, olhos negros, nitidamente eurasiana, vestida informalmente, com jeans americanos desbotados e justos e camisa.

— Alô, Quillan — falou, com um sorriso que aqueceu o ambiente, seu inglês com leve sotaque americano. — Desculpe interromper, mas acabei de chegar de Bangkok e quis vir cumprimentá-lo.

— Que bom que veio, Orlanda. — Gornt sorriu para Bartlett, que não tirava os olhos da moça. — Este é Linc Bartlett, dos Estados Unidos. Orlanda Ramos.

— Alô — cumprimentou Bartlett.

— Oi... ah, Linc Bartlett? O contrabandista de armas americano? — disse, rindo.

— Como?

— Não fique tão chocado, Sr. Bartlett. Todo mundo em Hong Kong já sabe... Hong Kong não passa de uma aldeia.

— Falando sério... como soube?

— Li no jornal da manhã.

— Impossível. Aconteceu às cinco e meia da manhã.

— Foi no Fai Pao, o Expresso, na coluna de última hora, às nove horas. É um jornal chinês, e os chineses sabem de tudo o que se passa aqui. Não se preocupe, os jornais ingleses não saberão da novidade até as edições vespertinas, mas pode esperar a imprensa na sua porta por volta da hora dos coquetéis.

— Obrigado.

"A última coisa que estou querendo é a maldita imprensa atrás de mim", pensou Bartlett com azedume.

— Não se preocupe, Sr. Bartlett, não vou pedir entrevista, embora seja uma repórter free lance da imprensa chinesa. Sou mesmo muito discreta — falou. — Não sou, Quillan?

— Sem dúvida. Tem a minha garantia... Orlanda é totalmente digna de confiança — falou Gornt.

— Claro, se quiser me oferecer uma entrevista... aceitarei. Amanhã.

— Vou pensar no seu caso.

— Prometo que o farei parecer maravilhoso!

— Os chineses sabem mesmo de tudo por aqui?

— Claro — disse ela, prontamente. — Mas os quai loh, os estrangeiros, não lêem os jornais chineses, exceto uma meia dúzia de gente que está "por dentro"... como Quillan.

— E todo o pessoal do Serviço Especial de Informações, da Seção Especial e a polícia em geral — disse Gornt.

— E Ian Dunross — acrescentou ela, com a ponta da língua tocando os dentes.

— Ah, ele é vivo assim? — perguntou Bartlett.

— Ah, é. Tem o sangue do Demônio Struan nas veias.

— Não entendi.

— Vai entender, se ficar por aqui algum tempo. Bartlett pensou na frase, depois franziu o cenho.

— Também sabia das armas, Sr. Gornt?

— Apenas que a polícia havia interceptado armas contrabandeadas a bordo do "jato particular do americano milionário que chegou ontem à noite". Também estava no meu jornal chinês matinal. O Sing Pao. — O sorriso de Gornt era sardônico. — É The Times em cantonense. Também estava na sua coluna de última hora. Mas, ao contrário de Orlanda, estou surpreso pelo fato de o senhor ainda não ter sido interceptado por membros da nossa imprensa inglesa. São muito diligentes, aqui em Hong Kong. Mais diligentes do que Orlanda diz que são.

Bartlett sentiu o perfume dela, mas continuou.

— Estou surpreso de que não tenha mencionado o fato, Sr. Gornt.

— E por que mencionaria? O que é que as armas têm a ver com a nossa possível futura associação? — Gornt deu uma risadinha abafada. — Se o pior acontecer, iremos visitá-lo na cadeia, Orlanda e eu.

Ela riu.

— Sem dúvida.

— Muitíssimo obrigado! — O perfume dela, de novo. Bartlett esqueceu as armas e concentrou-se nela. — Ramos... é espanhol?

— Português. De Macau. Meu pai trabalhava para a Rothwell-Gornt em Xangai... minha mãe nasceu lá. Fui criada em Xangai até 49, depois fui para os Estados Unidos durante alguns anos, para a escola secundária em San Francisco.

— É mesmo? Los Angeles é minha cidade natal... fiz a escola secundária no vale.

— Adoro a Califórnia — disse ela. — Que tal está achando Hong Kong?

— Acabo de chegar. — Bartlett abriu um sorriso. — Parece que tive uma entrada explosiva.

Ela riu. Lindos dentes brancos.

— Hong Kong não é má... desde que a gente possa sair daqui, mais ou menos de mês em mês. Devia passar um fim de semana em Macau... é antiquada, muito bonita, fica a apenas sessenta quilômetros de distância, com bom serviço de barcas. É muito diferente de Hong Kong. — Voltou-se para Gornt. — Mais uma vez, desculpe ter interrompido. Quillan, só quis dar um alô...

Começou a se retirar.

— Não, já acabamos... eu já ia embora — disse Bartlett, interrompendo-a. — Obrigado, mais uma vez, Gornt. Até terça, se não antes... Espero vê-la de novo, srta. Ramos.

— Seria um prazer. Eis meu cartão... se me der a entrevista, garanto que ela lhe será simpática.

Ela estendeu a mão, ele a tocou e sentiu seu calor.

Gornt acompanhou-o até a porta, depois fechou-a, voltou à sua mesa e pegou um cigarro. A moça acendeu o fósforo para ele, depois soprou a chama, e foi sentar-se na cadeira que Bartlett ocupara.

— Um cara bonitão — comentou.

— É. Mas é americano, ingênuo, e um filho da mãe arrogante que talvez precise baixar um pouco a crista.

— É o que quer que eu faça?

— Pode ser. Leu o dossiê dele?

— Li. Muito interessante. Orlanda sorriu.

— Não deve pedir-lhe dinheiro — disse Gornt, bruscamente.

— Ayeeyah, Quillan, será que sou tão burra? — perguntou ela, igualmente ríspida, olhos faiscando.

— Ótimo.

— Por que ele contrabandearia armas para Hong Kong? — É mesmo de se perguntar por quê, minha cara. Talvez alguém o esteja usando.

— Deve ser essa a resposta. Se tivesse todo o dinheiro que ele tem, jamais faria uma burrice dessas.

— Não — falou Gornt.

— Como é, gostou da história de eu ser uma repórter free lance? Achei que me saí muito bem.

— É, mas não o subestime. Não é nenhum tolo. É vivo. Vivíssimo. — Contou-lhe sobre o Casale. — É coincidência demais. Ele também deve ter um dossiê sobre a minha pessoa, e bem detalhado. Não há muita gente que saiba que gosto daquele restaurante.

— Quem sabe também estou no dossiê.

— Talvez. Não deixe que a pegue, na tal história de ser repórter free lance.

— Ora, qual é, Quillan? Quem, entre os tai-pans, exceto você e Dunross, lê os jornais chineses? e mesmo assim não podem ler todos. Já escrevi uma ou duas colunas... como "correspondente especial". Se ele me conceder a entrevista, posso escrevê-la. Não se preocupe. — Levou o cinzeiro para mais perto dele. — Saiu tudo bem, não foi? Com Bartlett?

— Perfeitamente. Está sendo desperdiçada. Devia estar trabalhando no cinema.

— Então fale com seu amigo a meu respeito, por favor, por favor, Quillan querido. Charlie Wang é o maior produtor de Hong Kong, e lhe deve tantos favores! Charlie Wang tem tantos filmes em andamento, que... só preciso de uma chance... podia me tornar uma estrela! Por favor!

— Por que não? — comentou ele, secamente. — Mas não creio que você seja o tipo dele.

— Posso me adaptar. Não agi exatamente como você queria, com Bartlett? Não estou vestida perfeitamente, à moda americana?

— É, está sim. — Gornt olhou para ela, depois falou, delicadamente: — Podia ser perfeita, para ele. Estava pensando que vocês dois podiam, quem sabe, ter algo mais permanente do que um simples caso...

Ela ficou completamente atenta.

— O quê?

— Você e ele podiam se ajustar como um perfeito quebra-cabeças chinês. Você é bem-humorada, da idade certa, linda, esperta, educada, maravilhosa na cama, muito inteligente, com verniz americano suficiente para deixá-lo à vontade. — Gornt exalou a fumaça e acrescentou: — E de todas as damas que conheço, você seria a que mais gastaria o dinheiro dele. É, vocês dois se encaixariam perfeitamente... ele seria ótimo para você, que iluminaria a vida dele consideravelmente. Não é?

— Ah, sim — retrucou ela, prontamente. — Ah, sim, iluminaria. — Sorriu, depois franziu o cenho. — Mas, e quanto à mulher que o acompanha? Estão juntos numa suíte do Vic. Ouvi falar que é maravilhosa. E quanto a ela, Quillan? Gornt deu um débil sorriso.

— Meus espiões dizem que eles não dormem juntos, embora sejam mais que amigos.

O rosto dela expressou desalento.

— Ele não é bicha, é?

Gornt soltou uma risada gostosa.

— Não faria isso com você, Orlanda! Não, estou certo que não. É só um acordo estranho que ele tem com Casey.

— Qual é?

Gornt deu de ombros. Após um momento, ela falou:

— O que faço com ela?

— Se Casey Tcholok está no seu caminho, afaste-a. Você tem garras.

— Você é... Às vezes não gosto de você nem um pouquinho.

— Somos ambos realistas, você e eu. Não somos?

A voz dele era inexpressiva, mas ela percebeu a violência latente. Prontamente, pôs-se de pé, debruçou-se sobre a mesa e deu-lhe um beijinho.

— Você é um demônio — falou, apaziguando-o. — Isto é pelos velhos tempos.

A mão dele buscou o seio dela, e ele suspirou, recordando, saboreando o calor que vinha através do tecido fino.

— Ayeeyah, Orlanda. Bons tempos aqueles, não?

Ela fora sua amante aos dezessete anos. Ele foi o seu primeiro homem e a manteve durante quase cinco anos; teria continuado a mantê-la, mas ela foi para Macau com um rapaz, quando ele estava fora, e aquilo chegara aos seus ouvidos. E então ele parará. Imediatamente. Embora tivessem uma filha, àquela altura, com um ano de idade.

— Orlanda — dissera-lhe, enquanto ela suplicava o seu perdão —, não há o que perdoar. Já lhe disse uma dúzia de vezes que a juventude precisa da juventude, e que chegaria o dia... Seque as lágrimas, case com o rapaz... dar-lhe-ei um dote, e a minha bênção. — E em meio a toda a choradeira dela, mantivera-se firme. — Continuaremos amigos — assegurara-lhe —, e cuidarei de você, quando precisar...

No dia seguinte, voltara todo o calor da sua fúria secreta contra o rapaz, um inglês, um executivo de menos importância das Propriedades Asiáticas, e no fim do mês já tinha acabado com ele.

— É uma questão de dignidade — disse a ela, calmamente.

— Ah, eu sei, compreendo, mas... o que faço agora? — choramingara ela. — Ele vai embora para a Inglaterra amanhã, quer que eu vá junto e case com ele, mas não posso casar agora, ele não tem dinheiro, nem futuro, nem emprego, nem dinheiro...

— Enxugue as lágrimas, depois vá fazer compras.

— Como?

— É, tome um presente. — Ele lhe dera um bilhete de ida e volta de primeira classe, para Londres, no mesmo avião em que o rapaz viajaria na classe turista. E mil libras em notas novinhas de dez libras. — Compre um monte de roupas bonitas, e vá ao teatro. Tem reserva no Connaught para onze dias... basta assinar a conta... e sua passagem de volta está confirmada, portanto, divirta-se e volte nova em folha, sem problemas!

— Ah, obrigada, Quillan querido, obrigada... sinto tanto. Você me perdoa?

— Não há o que perdoar. Mas se você voltar a falar com ele, ou a vê-lo em particular... jamais voltaria a ser amigo seu, ou da sua família.

Ela lhe agradecera profusamente, em meio às lágrimas, xingando-se pela sua estupidez, suplicando que a ira dos céus descesse sobre aquele que a atraiçoara. No dia seguinte, o rapaz tentara falar com ela no aeroporto, e no avião, e em Londres, mas ela o afastara, praguejando. Agora conhecia bem o seu lugar. No dia em que ela deixou Londres, ele cometeu suicídio.

Quando Gornt ouviu a novidade, acendeu um belo charuto e levou-a para jantar no topo do Victoria and Albert, com castiçais, toalha de mesa e talheres finos, e, depois que ele tomara o seu conhaque Napoléon e ela o seu creme de menthe, mandara-a para casa, sozinha, para o apartamento cujo aluguel ainda pagava. Pedira mais um conhaque e ficara ali, olhando para as luzes do porto e para o Pico, sentindo a glória da vingança, a majestade da vida, a sua dignidade recobrada.

— Ayeeyah, tivemos bons momentos — dizia Gornt agora, ainda desejando-a, embora não tivesse se deitado com ela desde que soubera de Macau.

— Quillan... — começou ela, sentindo-se também excitada com o toque dele.

— Não.

Os olhos dela voltaram-se para a porta interna.

— Por favor. Faz três anos, nunca houve ninguém...

— Obrigado, mas não. — Afastou-a dele, as mãos firmes nos seus braços, embora gentis. — Já tivemos o melhor — disse, como se fosse um connaisseur. — Não gosto de menos que o melhor.

Ela se sentou na beirada da mesa, olhando para ele, emburrada.

— Você sempre ganha, não é?

— No dia em que se tornar amante de Bartlett, eu lhe dou um presente — falou, calmamente. — Se ele a levar para Macau, e ficar com você abertamente por três dias, dou-lhe um Jaguar novo. Se a pedir em casamento, você ganha o apartamento com tudo o que tem dentro, e mais uma casa na Califórnia como presente de casamento.

Ela soltou uma exclamação abafada, depois sorriu, gloriosamente.

— Um XK-E preto, Quillan, seria perfeito! — E então, sua felicidade se evaporou. — O que há de tão importante nele? Por que é tão importante para você?

Ele simplesmente a fitou.

— Desculpe — disse ela —, desculpe, não devia ter perguntado.

Pensativa, pegou um cigarro, acendeu-o, inclinou-se para a frente e passou-o para ele.

— Obrigado — falou Gornt, vendo a curva do seio dela, curtindo-a, embora um pouco entristecido por tanta beleza ser tão transitória. — A propósito, não gostaria que Bartlett soubesse do nosso acordo.

— Nem eu. — Deu um suspiro e forçou um sorriso. Depois levantou-se e deu de ombros. — Ayeeyah, nunca teria durado mesmo entre nós, com ou sem Macau. Você teria mudado... teria se entediado, os homens sempre se entediam.

Ajeitou a maquilagem e a camisa, jogou-lhe um beijo e saiu. Ele fitou a porta fechada, depois sorriu e apagou o cigarro que ela lhe dera, sem tê-lo posto na boca, não querendo a mácula dos lábios dela. Acendeu um novo cigarro e cantarolou baixinho.

"Excelente", pensou, satisfeito. "Agora veremos, Sr. Maldito Arrogante Confiante Ianque Bartlett, agora veremos como segura a faca. Macarrão com cerveja, imagine!"

E então Gornt sentiu um cheirinho do perfume dela que permanecera no ar, e isso lhe trouxe momentaneamente lembranças de quando se deitavam juntos. Quando ela era mais jovem, forçou-se a se lembrar. Graças a Deus não há falta de juventude ou beleza por aqui, e uma substituta se arranja com um telefonema ou uma nota de cem dólares.

Pegou o telefone e discou um número particular especial, satisfeito porque Orlanda era mais chinesa do que européia. Os chineses são um povo tão prático!

O telefone parou de tocar e ele ouviu a voz resoluta de Paul Havergill.

— Pronto!

— Paul, Quillan. Como vão indo as coisas?

— Alô, Quillan... naturalmente já sabe que Johnjohn vai assumir a direção do banco em novembro.

— Já. Lamento muito.

— Que droga. Eu esperava ser confirmado, mas a junta diretora resolveu escolher Johnjohn. Ontem à noite a resolução tornou-se oficial. É Dunross de novo, a panelinha dele, a as malditas ações que possuem. E como foi o seu encontro?

— O nosso americano está meio indócil na pista, bem como eu previa. — Gornt deu uma boa tragada no cigarro e tentou manter a voz controlada. — O que acha de uma agitaçãozinha especial antes de se aposentar?

— O que está pretendendo?

— Vai sair no fim de novembro?

— Vou. Depois de vinte e três anos. De certa forma, não vou achar ruim.

"Nem eu", pensou Gornt, satisfeito. "Você está fora de moda, é conservador demais. A única coisa a seu favor é que odeia Dunross."

— É daqui a quase quatro meses. Isso nos daria tempo de sobra. A você, a mim e ao nosso americano.

— O que está pretendendo?

— Lembra-se de um dos meus planos de jogo hipotéticos, aquele a que dei o nome de "Competição"?

Havergill pensou por um momento.

— Sobre como assumir o controle de um banco rival ou eliminá-lo, não era? Por quê?

— Digamos que alguém tenha tirado o pó do plano, feito algumas modificações e apertado o botão de funcionamento... há dois dias. Digamos que alguém sabia que Dunross e os outros votariam pela sua eliminação e queria vingança. O Competição funcionaria perfeitamente.

— Não vejo por quê. Qual a vantagem de se atacar o Blacs? — O Banco de Londres, Cantão e Xangai era o maior rival do Victoria. — Não tem sentido.

— Ah, mas digamos que alguém tenha mudado o alvo, Paul.

— Para quem?

— Passo por aí às três horas, para explicar.

— Para quem?

— Richard.

Richard Kwang controlava o Ho-Pak Bank, um dos maiores dos muitos bancos chineses de Hong Kong.

— Santo Deus! Mas isso é... — Houve uma longa pausa. — Quillan, você começou mesmo o Competição... botou-o em ação?

— Foi, e ninguém sabe disso, exceto você e eu.

— Mas, como isso vai funcionar contra Dunross?

— Explico mais tarde. Ian pode cumprir seus compromissos com os navios?

Houve uma pausa, que Gornt percebeu.

— Sim — ouviu Havergill dizer.

— Sim, mas o quê?

— Mas estou certo de que dará um jeito.

— Que outros problemas Dunross tem?

— Desculpe, mas seria falta de ética.

— Claro. — Gornt acrescentou, suavemente: — Vou dizer a coisa de outro modo: digamos que o barco deles esteja balançando um pouco. Hem?

Uma pausa mais longa.

— No momento apropriado, uma onda pequenina poderia botá-los a pique, ou qualquer outra companhia. Até mesmo você.

— Mas não o Victoria Bank.

— Ah, não.

— Ótimo. Até logo mais, às três. — Gornt desligou e enxugou a testa de novo, excitadíssimo. Apagou o cigarro, fez um cálculo rápido, acendeu outro cigarro, depois discou. — Charles, Quillan. Está ocupado?

— Não. O que posso fazer por você?

— Quero um balanço geral.

Um balanço geral era um sinal particular para o advogado telefonar para oito representantes que comprariam ou venderiam no mercado de ações em lugar de Gornt, mas secretamente, para evitar que as negociações fossem descobertas como partindo dele. Todas as ações e o dinheiro passariam exclusivamente pelas mãos do advogado, para que nem os representantes nem os corretores soubessem para quem a transação estava sendo feita.

— Um balanço geral, Quillan, pois não. De que tipo?

— Quero vender a descoberto.

Vender a descoberto significava que venderia ações que não possuía, imaginando que o valor delas baixaria. Assim, antes que tivesse que recomprá-las — tinha para isso uma margem máxima de duas semanas, em Hong Kong —, se as ações realmente tivessem baixado, ele embolsaria a diferença. Claro, se arriscasse e perdesse, isto é, se as ações subissem de preço, teria que pagar a diferença.

— Que ações, e quantas?

— Cem mil ações do Ho-Pak...

— Meu Deus...

—...a mesma coisa, tão logo o mercado abra amanhã, e mais duzentas durante o dia. Depois lhe darei novas instruções.

Fez-se um silêncio atônito.

— Disse mesmo Ho-Pak?

— Disse.

— Vai levar tempo para arranjar todas essas ações. Santo Deus, Quillan, quatrocentas mil?

— Melhor arranjar mais cem mil. Meio milhão, certinho.

— Mas... mas a Ho-Pak é uma blue chip autêntica. Há anos que não baixa de valor.

— É.

— O que andou ouvindo?

— Boatos — falou Gornt, seriamente, rindo consigo mesmo. — Que tal almoçar cedo, lá no clube?

— Estarei lá.

Gornt desligou, depois discou outro número particular.

— Pronto.

— Sou eu — disse Gornt, cautelosamente. — Está sozinho?

— Estou. E?

— No nosso encontro, o ianque sugeriu uma incursão.

— Ayeeyah! E?

— E Paul está na jogada — falou, o exagero saindo com naturalidade. — Sigilo absoluto, naturalmente. Acabo de falar com ele.

— Então, pode contar comigo. Desde que eu fique com o controle dos navios da Struan, sua operação de propriedades em Hong Kong, e quarenta por cento das suas terras na Tailândia e em Cingapura.

— Você está brincando!

— Nada é demais para aniquilá-los, não é, meu rapaz? Gornt escutou a risada refinada e zombeteira e odiou Jason

Plumm por ela.

— Você o despreza tanto quanto eu — falou Gornt.

— Ah, mas você vai precisar de mim e dos meus amigos especiais. Mesmo com Paul em cima do muro, ou embaixo, você e o ianque não vão ter êxito, não sem mim e os meus.

— Por que outro motivo estaria conversando com você?

— Escute, não esqueça que não estou pedindo nenhum pedaço do bolo americano.

Gornt manteve a voz calma.

— E o que tem isso a ver com a história?

— Eu o conheço. Ah, sim, conheço, meu velho.

— Conhece mesmo?

— Conheço. Não vai se satisfazer apenas em destruir o nosso "amigo", vai querer o bolo inteiro.

— Não diga!

— Digo. Há muito tempo que está querendo pôr um pé no mercado americano.

— E você?

— Não. Sabemos de que saco é a nossa farinha. Satisfaze-mo-nos em seguir atrás, direitinho. Satisfazemo-nos com a Ásia. A gente não quer ser nobre coisa nenhuma.

— É?

— É. Então, negócio fechado?

— Não — falou Gornt.

— Deixarei de lado os navios. Em vez disso, ficarei com a Investimentos Kowloon de Ian, a operação Kai Tak, e quarenta por cento das terras na Tailândia e em Cingapura, e aceitarei vinte e cinco por cento da Par-Con e três postos na diretoria.

— Ora, vá se lixar!

— A oferta é válida até segunda-feira.

— Qual segunda-feira?

— A próxima.

— Dew neh loh moh para todas as suas segundas-feiras.

— E as suas! Farei uma última oferta. A Investimentos Kowloon e a sua operação Kai Tak, integral, trinta e cinco por cento das terras na Tailândia e em Cingapura, e dez por cento do bolo americano, com três postos na diretoria.

— Só isso?

— Só. Repito, a oferta é válida até segunda que vem. E não pense que pode nos engolir no meio do caminho.

— Ficou maluco?

— Já lhe disse... conheço você. Negócio fechado?

— Não.

Novamente a risada macia e malévola.

— Até segunda... segunda que vem. Tempo de sobra para você se decidir.

— Verei você logo mais na festa do Ian? — perguntou Gornt, suavemente.

— Está louco? Não iria nem se... Santo Deus, Quillan, você vai mesmo aceitar? Em pessoa?

— Não estava pretendendo ir... mas agora acho que vou. Não gostaria de perder o que talvez seja a última festança do último tai-pan da Struan...

 

                       12h01m

Na sala da diretoria, as coisas continuavam difíceis para Casey. Eles não pegavam nenhuma das iscas que lhes jogava. Sua ansiedade aumentara, e agora, enquanto esperava, sentiu uma onda de medo rebelde percorrê-la.

Phillip Chen rabiscava, Linbar mexia nos seus papéis, Jacques de Ville observava-a, pensativo. Então, Andrew Gavallan parou de anotar as últimas porcentagens que ela havia citado. Deu um suspiro e olhou para ela.

— Está claro que esta deve ser uma operação co-financiada — falou, vivamente. A eletricidade no aposento subiu assustadoramente, e Casey teve dificuldade em abafar um "viva", quando ele acrescentou: — Quanto a Par-Con estaria preparada para investir, em regime de financiamento conjunto, no negócio todo?

— Dezoito milhões de dólares americanos este ano dariam para cobrir tudo — respondeu imediatamente, notando satisfeita que todos abafaram uma exclamação.

O patrimônio líquido da Struan publicado no ano anterior fora de quase vinte e oito milhões, e ela e Bartlett haviam calculado sua oferta com base nessa cifra.

— Faça a primeira oferta de vinte milhões — Linc lhe dissera. — Deverá fisgá-los com vinte e cinco, o que seria formidável. É essencial que façamos o co-financiamento, mas a proposta terá que partir deles.

— Mas olhe para o balanço geral deles, Linc. Não dá para se saber ao certo qual é o verdadeiro patrimônio líquido. Pode ser dez milhões a mais ou a menos, talvez mais. Não sabemos realmente o quanto são fortes... ou fracos. Olhe só para este item: "Catorze milhões e setecentos mil retidos em subsidiárias". Que subsidiárias, onde e para quê? Eis aqui outro: "Sete milhões e quatrocentos mil transferidos para..."

— E daí, Casey? Então são trinta milhões, ao invés de vinte e cinco. Nossa projeção ainda é válida.

— É... mas a contabilidade deles... Meu Deus, Linc, se fizéssemos um por cento disso nos Estados Unidos, a SEC¹ nos arrancaria o couro, e acabaríamos passando cinqüenta anos na cadeia.

 

¹ Comissão de Títulos e Câmbio. (N. da T.)

 

— É. Mas não é contra a lei deles, e esse é um dos principais motivos para vir para Hong Kong.

— Vinte milhões é demais para começo de conversa.

— Deixo a seu critério, Casey. Basta lembrar que em Hong Kong jogamos pelas regras de Hong Kong... as que forem legais. Quero entrar no jogo deles.

— Por quê? E não me responda "Porra, para o meu prazer".

Linc achara graça.

— Está certo... então, para o seu prazer. Só não deixe de fechar o negócio com a Struan!

A umidade na sala de reuniões aumentara. Gostaria de pegar um lenço de papel, mas ficou quieta, fingindo calma, torcendo para que eles continuassem.

Gavallan rompeu o silêncio.

— Quando o Sr. Bartlett confirmaria a oferta de dezoito milhões... se aceitássemos?

— Está confirmada — disse docemente, ignorando o insulto. — Tenho carta branca para investir até vinte milhões nesta transação sem consultar Linc ou sua junta diretora — falou, dando-lhes deliberadamente espaço para manobrar. A seguir, acrescentou, inocentemente: — Então, tudo acertado? Ótimo. — Começou a mexer na sua papelada. — Próximo assunto: eu...

— Só um momento — disse Gavallan, desconcertado. — Eu... bem... dezoito é... De qualquer modo, temos que apresentar o pacote ao tai-pan.

— Oh — falou ela, fingindo surpresa. — Pensei que estávamos negociando como iguais, que os quatro cavalheiros tinham poderes equivalentes aos meus. Talvez seja melhor eu falar diretamente com o Sr. Dunross, no futuro.

Andrew Gavallan enrubesceu.

— O tai-pan tem a palavra final. Em tudo.

— Folgo muito em sabê-lo, Sr. Gavallan. Eu só tenho a palavra final até vinte milhões. — Abriu-lhes um sorriso. — Bem, apresentem a proposta ao seu tai-pan. E que tal marcarmos um prazo para o período de reflexão?

Novo silêncio.

— O que sugere? — perguntou Gavallan, sentindo-se cair numa armadilha.

— O tempo mínimo de vocês. Não conheço a rapidez com que gostam de trabalhar — replicou Casey.

Phillip Chen disse:

— Por que não deixar para marcar a hora para a resposta depois do almoço, Andrew?

— É... boa idéia.

— Para mim, tudo bem — disse Casey. "Fiz o meu trabalho", pensou. "Vou aceitar vinte milhões, quando podiam ser trinta, e eles são homens e fraquejados e maiores de idade, e pensam que sou uma otária. Mas agora, vou ganhar o meu dinheiro do não enche. Deus do céu, permita que este negócio se realize, para que eu fique livre para sempre.

"Livre para fazer o quê?

"Não importa", falou consigo mesma. "Penso nisso depois."

Ouviu a própria voz continuando no padrão estabelecido:

— Que tal repassarmos os detalhes de como vão querer os dezoito milhões e...

— Dezoito não é suficiente — interrompeu Phillip Chen, mentindo com toda a tranqüilidade. — Há toda a espécie de custos adicionais...

No perfeito estilo de negociações, Casey argumentou e deixou que eles a levassem até vinte milhões, e depois, com relutância aparente, falou:

— Os senhores são homens de negócios excepcionais. Pois bem, vinte milhões.

Notou os sorrisos disfarçados deles, e riu consigo mesma.

— Ótimo — falou Gavallan, muito satisfeito.

— E agora — disse ela, querendo continuar mantendo a pressão —, como querem que seja a estrutura da nossa joint venture? Claro, sujeita à aprovação do seu tai-pan... desculpem, sujeita à aprovação d'o tai-pan — falou, corrigindo-se com a dose certa de humildade.

Gavallan fitava-a, desejando irritado que fosse um homem. "Então, poderia dizer-lhe vá tomar no cu, ou vá à merda, e riríamos juntos, porque você sabe e eu sei que a gente sempre tem que consultar o tai-pan, de uma maneira ou outra... seja ele Dunross, Bartlett, uma junta diretora, ou uma mulher. É, e se você fosse homem, não teríamos esta maldita sexualidade enchendo a sala de reuniões, uma sexualidade que, para começo de conversa, não tem nada que ver com este lugar. Meu Deus, se ainda fosse uma bruxa velha, talvez fizesse diferença, mas, porra, uma uva como você?

"Mas que diabo está dando nas mulheres americanas? Por que, em nome de Deus, não ficam no seu lugar e se satisfazem com aquilo em que são excelentes? Cretinas!

"E é uma cretinice conceder financiamento tão depressa, e cretinice ainda maior dar-nos mais dois milhões, quando dez provavelmente teria sido uma quantia aceitável, para começo de conversa. Pelo amor de Deus, devia ter sido mais paciente, e teria feito um negócio bem melhor. Esse é o problema com vocês, americanos, não têm fines se, nem paciência, nem estilo, e não compreendem a arte da negociação, e você, minha cara moça, está impaciente demais para provar o seu valor. Portanto, agora sei como lidar com você."

Lançou um olhar para Linbar Struan, que observava Casey disfarçadamente, esperando que ele, Phillip ou Jacques continuassem. "Quando eu for tai-pan", pensou Gavallan, sombriamente, "vou destruí-lo, jovem Linbar, destruí-lo ou dar um jeito em você. Precisa ser lançado no mundo por conta própria, para pensar por si próprio, para confiar em si próprio, não no seu nome ou na sua linhagem. É, e com muito trabalho duro, para tirar um pouco do calor do seu yang — quanto mais cedo se casar de novo, melhor."

Voltou os olhos para Jacques de Ville, que sorriu para ele. "Ah, Jacques", pensou, sem rancor, "você é o meu principal adversário. Está fazendo o que costuma fazer: falando pouco, observando tudo, pensando muito... durão e cruel, se for necessário. Mas, o que está achando desta transação? Deixei passar alguma coisa? O que sua astuta mente legal parisiense está prevendo? Ah, mas ela cortou o seu barato com a piada sobre a sua piada sobre a cabeça dela, não foi?

"Também gostaria de ir para a cama com ela", pensou, distraidamente, sabendo que Linbar e Jacques já tinham decidido a mesma coisa. "Claro... quem não o faria?

"E quanto a você, Phillip Chen?

"Ah, não. Você, não. Gosta delas bem mais jovens, e gosta que façam a coisa com você estranhamente, se é que os boatos são verdadeiros, heya?"

Voltou a olhar para Casey. Podia sentir sua impaciência. "Você não parece lésbica", pensou, e gemeu intimamente. "Será esta a sua outra fraqueza? Puxa, mas que terrível desperdício seria!"

— A joint venture deve ser organizada segundo as leis de Hong Kong — disse ele.

— Naturalmente. Há...

— Sims, Dawson e Dick podem aconselhar-nos como agir. Marcarei hora para amanhã ou depois.

— Não será necessário, Sr. Gavallan. Já tenho as possíveis propostas deles, hipotéticas e confidenciais, claro, para o caso de decidirmos concluir o negócio.

— Como?

Eles a fitaram, boquiabertos, enquanto ela apanhava cinco cópias de um contrato legal resumido e entregava uma a cada um deles.

— Soube que eram seus advogados — falou, animada. — Mandei nosso pessoal se informar, e me disseram que eram os melhores, portanto, para nós está tudo bem. Pedi-lhes que considerassem as nossas necessidades hipotéticas conjuntas... tanto as suas quanto as nossas. Algum problema?

— Não — respondeu Gavallan, subitamente furioso porque sua própria firma nada lhes contara sobre as indagações da Par-Con. Começou a passar os olhos pela carta.

"Dew neh loh moh para esta Casey desgraçada, sejam lá quais forem os seus nomes", pensava Phillip Chen, furioso com a desmoralização. "Que a sua ravina dourada murche e seja para sempre seca e cheia de pó, pelos seus modos vulgares e seus hábitos abusados, nojentos, não-femininos!

"Deus nos livre das mulheres americanas!

"Ayeeyah, vai custar bem caro a Lincoln Bartlett ter ousado nos impingir... esta criatura", prometeu a si mesmo. "Que ousadia!"

Apesar disso, sua mente calculava o valor espantoso do negócio que lhes estavam oferecendo. "Significa pelo menos cem milhões de dólares americanos, potencialmente, ao longo dos próximos anos", disse a si mesmo, com a cabeça girando. "Isso dará à Casa Nobre a estabilidade de que precisa.

"Ah, que dia feliz!", rejubilava-se. "E um co-financiamento de dólar por dólar! Incrível! Que burrice dar-nos isso tão depressa sem exigir nem uma concessãozinha em troca! Burrice, mas o que se pode esperar de uma mulher burra? Ayeeyah, a costa do Pacífico se entupirá de todos os produtos de espuma de poliuretano que faremos... para embalagem, construção, pertences de cama e material isolante. Uma fábrica aqui, uma em Formosa, outra em Cingapura, uma em Kuala Lumpur, e uma última, inicialmente, em Jacarta. Ganharemos milhões, dezenas de milhões. E quanto à agência de arrendamento de computadores, ora, com o aluguel que esses idiotas estão nos oferecendo, dez por cento menos do que a lista de preços da IBM, menos a nossa comissão de sete e meio por cento... bastava pechinchar um pouco que teríamos concordado de bom grado com cinco por cento... já no próximo fim de semana posso vender três em Cingapura, uma aqui, outra em Kuala Lumpur, e uma para aquele armador pirata na Indonésia, com um lucro limpo de sessenta e sete mil e quinhentos dólares cada, ou quatrocentos e cinco mil dólares com seis telefonemas. E quanto à China...

"E quanto à China...

"Ah, todos os deuses, grandes, pequenos e muito pequenos, ajudem este negócio a se concretizar, e darei dinheiro para um novo templo, uma catedral, em Tai-ping Shan", prometeu, cheio de fervor. "Se a China não ficar muito em cima, ou pelo menos facilitar um pouquinho, poderemos fertilizar os arrozais da província de Kwantung e depois de toda a China, e durante os próximos doze anos esta transação significará dezenas de centenas de milhões de dólares, dólares americanos, não dólares de Hong Kong!"

A idéia de tanto lucro diminuiu sua ira consideravelmente.

— Acho que esta proposta pode ser a base para uma discussão posterior — disse, acabando de ler. — Não acha, Andrew?

— Acho. — Gavallan largou a carta. — Ligarei para eles depois do almoço. Quando seria conveniente para o Sr. Bartlett... e para a senhorita, naturalmente... nos encontrarmos?

— Hoje à tarde... quanto mais cedo melhor... ou amanhã, a qualquer hora, mas Linc não virá. Cuido de todos os detalhes, é o meu serviço — disse Casey, vivamente. — Ele determina a política a ser seguida... e assinará formalmente os documentos finais... depois que eu os tiver aprovado. Afinal, esta é a função do comandante supremo, não é?

Abriu-lhes um sorriso de orelha a orelha.

— Marcarei uma hora e deixarei recado no seu hotel — disse Gavallan.

— Quem sabe poderíamos marcar a hora agora... e já liquidar esse assunto?

Com azedume, Gavallan olhou para o relógio. Quase hora do almoço, graças a Deus.

— Jacques... qual a melhor hora para você, amanhã?

— Na parte da manhã é melhor do que à tarde.

— E para o John também — disse Phillip Chen. Gavallan pegou o telefone e discou.

— Mary? Ligue para Dawson e marque hora para amanhã às onze, incluindo o Sr. De Ville, o Sr. John Chen e a srta. Casey na entrevista. No escritório deles. — Desligou o aparelho. — Jacques e John Chen cuidam de todos os nossos assuntos corporativos. John tem experiência com problemas americanos, e Dawson é o perito. Mandarei um carro apanhá-la às dez e meia.

— Obrigada, mas não precisa se incomodar.

— Como queira — disse ele, cortesmente. — Talvez seja hora de pararmos para almoçar.

Casey falou:

— Ainda temos um quarto de hora. Vamos começar a debater como gostariam do nosso financiamento? Ou, se preferirem, podemos mandar buscar uns sanduíches e seguir trabalhando.

Eles a fitaram, aparvalhados.

— Trabalhar durante o almoço?

— Por que não? É um velho costume americano.

— Graças a Deus não é costume aqui — disse Gavallan.

— É — exclamou Phillip Chen, com brusquidão.

Ela sentiu a desaprovação deles cair sobre si como um manto, mas nem ligou. Que fossem todos à merda, pensou, com irritação, depois forçou-se a mudar de atitude. "Escute, idiota, não deixe esses filhos da puta pegarem no seu pé!" Sorriu meigamente:

— Se quiserem parar agora para almoçar, para mim tudo bem.

— Ótimo — disse Gavallan imediatamente, e os outros deram um suspiro de alívio. — Começamos a almoçar às doze e quarenta. Talvez queira retocar a maquilagem antes.

— Quero, sim, obrigada — falou, sabendo que eles a queriam longe dali, para poderem discutir a sua pessoa... e depois a transação. "Podia ser diferente", pensou, "mas não vai ser. Não. Vai ser como sempre. Vão apostar para ver quem será o primeiro a me comer. Mas não vai ser nenhum deles, porque eu não quero nenhum deles no momento, embora sejam atraentes, cada um ao seu modo. Esses homens são iguais a todos os outros que já conheci. Não querem amor, querem apenas sexo.

"Exceto Linc.

"Não pense em Linc nem no seu amor por ele, nem em como esses anos foram terríveis. Terríveis e maravilhosos.

"Lembre-se da sua promessa.

"Não pensarei em Linc e no amor.

"Não até o dia do meu aniversário, daqui a noventa e oito dias. No nonagésimo oitavo dia termina o sétimo ano, e, graças ao meu querido, terei o meu dinheiro do não enche, seremos realmente iguais e, se Deus quiser, teremos a Casa Nobre. Será este o meu presente de casamento para ele? Ou o dele para mim?

"Ou um presente de despedida?"

— Onde fica o toalete das senhoras? — perguntou, levantando-se, e todos ficaram de pé, bem mais altos do que ela, exceto Phillip Chen, que era uns dois centímetros e meio mais baixo. Gavallan indicou-lhe o banheiro.

Linbar Struan abriu a porta para ela, e fechou-a às suas costas. Depois, abriu um sorriso.

— Aposto mil que esta você não consegue, Jacques.

— Mais mil — disse Gavallan. — E dez que você não consegue, Linbar.

— A aposta está valendo — disse Linbar —, desde que ela passe um mês aqui.

— Está ficando muito devagar, hem, meu velho? — disse Gavallan. Depois, virou-se para Jacques. — E então?

O francês sorriu.

— Aposto vinte que você, Andrew, jamais conseguirá dobrar com o seu encanto a senhorita, e levá-la para a cama... e quanto a você, pobre jovem Linbar, cinqüenta contra o seu cavalo de corrida, que terá o mesmo resultado.

— Gosto da minha égua, pelo amor de Deus. Noble Star tem grande chance de ser vencedora. É a melhor do nosso estábulo.

— Cinqüenta.

— Cem, e posso pensar no seu caso.

— Não desejo nenhum cavalo a esse preço. — Jacques sorriu para Phillip Chen. — O que acha, Phillip?

Phillip Chen se levantou.

— Acho que vou para casa, deixando vocês, garanhões, com os seus sonhos. O gozado é que estão todos apostando que os outros não conseguirão... nenhum apostou que conseguirá.

Novamente, todos riram.

— Que burrice dar-nos o extra, não? — comentou Gavallan.

— O negócio é fantástico — disse Linbar Struan. — Puxa vida, tio Phillip, é fantástico!

— Como o derrière dela — falou De Ville, como um connaisseur. — Hem, Phillip?

Simpaticamente, Phillip Chen assentiu e saiu da sala, mas, ao ver Casey entrar no toalete das senhoras, pensou: "Ayeeyah, e quem ia querer esse monte de carne?"

Dentro do banheiro, Casey olhou à sua volta, estupefata. Era limpo, mas cheirava a ralos velhos, e havia baldes empilhados uns sobre os outros, e alguns estavam cheios de água. O chão era ladrilhado, mas estava molhado e sujo. "Já tinha ouvido dizer que os ingleses não primam pela higiene", pensou, enojada, "mas aqui na Casa Nobre? Puxa! Espantoso!"

Entrou num dos cubículos, com o chão molhado e escorregadio, e depois que acabou, puxou a descarga. Nada aconteceu. Tentou de novo, e mais uma vez, e nada. Praguejou e levantou a tampa do reservatório de água. Estava seco e enferrujado. Irritada, destrancou a porta, foi até a pia, abriu a torneira, mas não saiu água.

"Mas o que há com este lugar? Aposto que aqueles filhos da mãe me mandaram para cá deliberadamente."

Havia toalhas de mão limpas, portanto jogou um balde de água na pia, desajeitadamente, derrubando um pouco, lavou as mãos, enxugou-as, furiosa porque havia molhado os sapatos. Intempestivamente, pegou outro balde e jogou a água dentro da privada, depois usou mais outro balde para lavar de novo as mãos. Quando saiu do banheiro, sentia-se muito suja.

"Imagino que o raio do cano quebrou e o encanador só virá amanhã. Malditos sejam todos os sistemas de encanamento!

"Acalme-se", disse a si mesma. "Vai começar a cometer erros."

O corredor era coberto por um fino tapete de seda chinesa, e as paredes ostentavam quadros a óleo de veleiros e paisagens chinesas. Ao se aproximar da sala de reuniões, pôde ouvir as vozes abafadas e uma risada... do tipo que se dá ao ouvir uma piada pesada ou um comentário sujo. Sabia que, no momento em que abrisse a porta, o bom humor e a camaradagem desapareceriam e o silêncio constrangedor retornaria.

Abriu a porta, e todos se levantaram.

— Estão tendo problemas com os encanamentos? — perguntou, controlando a raiva.

— Não, acho que não — respondeu Gavallan, sobres-saltado.

— Bem, não há água. Não sabiam?

— Claro que não há... Oh! — Deteve-se. — Está hospedada no Victoria, portanto... Ninguém lhe contou da falta d'água?

Começaram todos a falar a uma só voz, mas a de Gavallan sobrepujou as outras.

— O Victoria tem sua própria caixa d'água, assim como mais um ou dois hotéis. O resto da cidade tem direito apenas a quatro horas diárias de quatro em quatro dias. Portanto, é preciso usar um balde. Não me ocorreu que a senhorita não soubesse. Desculpe.

— E como se ajeitam? De quatro em quatro dias?

— É. Durante quatro horas, das seis às oito, depois das dezessete às dezenove. É uma caceteação, claro, porque temos que juntar água para quatro dias. Baldes, banheiras, o que for possível encher. Já estamos com poucos baldes... o nosso dia de água é amanhã. Ah, meu Deus, havia água bastante para a senhorita, não?

— Havia, mas... Quer dizer que o fornecimento de água é cortado? Por toda parte?

— É — explicou Gavallan, pacientemente. — Exceto durante quatro horas a cada quatro dias. Mas no Victoria não há problemas. Como estão bem à beira-mar, podem encher a sua caixa d'água diariamente das barcaças... Claro que têm que comprar a água.

— Não podem tomar banho nem se lavar? Linbar Struan riu.

— Todo mundo fica meio gosmento, depois de três dias neste calor, mas pelo menos estamos todos no mesmo esgoto. Mas faz parte do treinamento de sobrevivência certificar-se de que há um balde cheio antes de ir ao banheiro.

— Eu não tinha a menor idéia — disse ela, consternada por ter usado três baldes.

— Nossos reservatórios estão vazios — explicou Gavallan. — Este ano quase não choveu, e o ano passado também houve seca. É uma chateação, mas o que se vai fazer? Coisas da vida. Azar.

— Então, de onde vem a água de vocês? Eles a fitaram, desconcertados.

— Da China, é claro. Por meio de canos, cruzando a fronteira nos Novos Territórios, ou por navio-tanque, do rio Pearl. O governo acaba de contratar uma frota de dez navios-tanques que sobem o rio Pearl, num acordo com Pequim. Eles nos trazem cerca de dez milhões de galões por dia. O governo vai gastar mais de vinte e cinco milhões de frete este ano. O jornal de sábado disse que o nosso consumo caiu para trinta milhões de galões por dia, para a nossa população de três milhões e meio... e isso inclui as indústrias. Dizem que no seu país uma pessoa usa cento e cinqüenta galões por dia.

— É igual para todos? Quatro horas a cada quatro dias?

— Até mesmo na Casa Grande usam-se baldes. — Gavallan deu de ombros de novo. — Mas o tai-pan tem uma casa em Shek-0 que tem poço próprio. Todos nós nos mandamos para lá quando somos convidados, para tirar o limo do corpo.

Ela pensou de novo nos três baldes que usara. "Meu Deus", pensou, "será que acabei com tudo? Não me lembro se sobrou alguma água."

— Acho que tenho muito o que aprender — falou. "É", pensaram todos. "É, porra, e como tem."

— Tai-pan?

— Sim, Claudia? — disse Dunross pelo intercomunicador.

— A reunião com Casey acaba de ser interrompida para o almoço. O Patrão Andrew está na linha 4. O Patrão Linbar está subindo.

— Adie tudo isso para depois do almoço. Teve alguma notícia de Tsu-yan?

— Não, senhor. O avião pousou na hora, às oito e quarenta. Ele não está no escritório em Taipé. Nem no apartamento. Vou continuar tentando, é claro. Mais uma coisa. Recebi um telefonema interessante, tai-pan. Parece que o Sr. Bartlett esteve na Rothwell-Gornt hoje de manhã, e teve uma entrevista particular com o Sr. Gornt.

— Tem certeza? — perguntou, uma sensação gelada no estômago.

— Ah, sim, tenho.

"Filho da mãe", pensou Dunross. "Será que Bartlett estava querendo que eu descobrisse?"

— Obrigado — disse, deixando o assunto de lado momentaneamente, mas muito contente por ter sabido. — Pode apostar mil dólares por minha conta em qualquer cavalo, no sábado.

— Ah, obrigada, tai-pan.

— Vamos voltar ao trabalho, Claudia. — Apertou o botão número 4. — Sim, Andrew? Qual a proposta?

Gavallan contou-lhe a parte importante.

— Vinte milhões em dinheiro? — perguntou, incrédulo.

— Em dinheiro americano, lindo, maravilhoso! — Dunross podia sentir a alegria do outro através do telefone. — E quando perguntei quando Bartlett confirmaria a transação, a safadinha teve o topete de dizer: "Ah, já está confirmada... tenho poderes para investir até vinte milhões nessa transação sem consultá-lo, ou a qualquer outra pessoa". Acha possível?

— Não sei. — Os joelhos de Dunross estavam um pouco bambos. — Bartlett está para chegar a qualquer momento. Perguntarei a ele.

— Ei, tai-pan, se isso se concretizar...

Mas Dunross mal escutava enquanto Gavallan continuava a falar, entusiasmadíssimo. "É uma oferta inacreditável", dizia a si mesmo.

"É boa demais. Onde está a falha?

"Onde está a falha?"

Desde que se tornara tai-pan tivera que se virar, mentir, bajular e até ameaçar — como a Havergill, do banco — muito mais do que imaginara, para superar os desastres que herdara, e os desastres naturais e políticos que pareciam assolar o mundo. Mesmo a transformação da Struan em companhia de capital aberto não lhe dera o capital e o tempo que esperara ter, porque uma baixa mundial fizera o mercado em pedaços. E em agosto do ano anterior o tufão Wanda viera com força total, deixando a desgraça no seu rastro, centenas de mortos, centenas de milhares de desabrigados, meio milhar de barcos de pesca e vinte navios afundados, um dos seus navios de três toneladas lançado à terra, o seu gigantesco e inacabado cais destroçado e todo o seu programa de construção interrompido totalmente por seis meses. No outono, a crise cubana, e outra queda do mercado. Na primavera, De Gaulle vetara a entrada da Grã-Bretanha no Mercado Comum Europeu, e nova queda. China e Rússia às turras, nova baixa do mercado...

"E agora tenho quase vinte milhões de dólares americanos, mas acho que estamos envolvidos, de alguma maneira, em contrabando de armas. Tsu-yan aparentemente pôs-se em fuga, e John Chen está sabe lá Deus onde!"

— Puta que o pariu! — resmungou, com raiva.

— O quê? — Gavallan parou de falar, aparvalhado. — O que foi?

— Nada, nada, Andrew — falou. — Nada com você. Fale-me dela. Que tal é?

— Boa de cálculo, ligeira e confiante, mas impaciente. E é a garota mais bonita que vejo há anos, aparentemente com o melhor par de mamas na cidade. — Gavallan contou-lhe das apostas. — Acho que Linbar está correndo por dentro.

— Vou despedir Foster e mandar Linbar para Sydney durante seis meses, para dar um jeito nas coisas por lá.

— Ótima idéia. — Gavallan riu. — Isso vai fazer com que pare de arrotar grandeza... embora digam que as moças da Austrália são muito "dadivosas".

— Acha que esse negócio vai ser fechado?

— Acho. Phillip estava eufórico com a proposta. Mas é uma merda negociar com uma mulher, juro. Acha que poderíamos chutá-la para escanteio e lidar diretamente com Bartlett?

— Não. Ele deixou bem claro na sua correspondência que K. C, Tcholok era quem faria as negociações.

— Ora bolas... então vamos em frente! O que não fazemos pela Casa Nobre!

— Já encontrou o ponto fraco dela?

— Impaciência. Ela quer "se enturmar"... ser um dos rapazes. Diria que o calcanhar-de-aquiles dela é que deseja desesperadamente ser aceita no mundo masculino.

— Não há mal em desejar isso... como o Santo Graal.

A reunião com Dawson foi marcada para amanhã às onze?

— Foi.

— Mande Dawson cancelá-la, mas não antes das nove de amanhã. Diga-lhe que dê uma desculpa qualquer e marque nova reunião para quarta-feira ao meio-dia.

— Boa idéia, deixá-la meio no ar, hem?

— Diga ao Jacques que eu mesmo vou à reunião.

— Sim, tai-pan. E quanto a John Chen? Vai querer que ele vá?

Depois de uma pausa, Dunross falou:

— Vou. Já o viu?

— Não. É esperado para o almoço... quer que vá caçá-lo?

— Não. Onde está Phillip?

— Foi para casa. Voltará às duas e meia.

Ótimo, pensou Dunross. Não se preocuparia mais com John Chen até aquela hora.

— Ouça... — O intercomunicador soou. — Um minutinho, Andrew. — Apertou o botão de espera. — Sim, Claudia?

— Desculpe a interrupção, tai-pan, mas sua ligação para o Sr. Jen, em Taipé, está na linha 2, e o Sr. Bartlett acaba de chegar lá embaixo.

— Faça-o entrar tão logo eu acabe de falar com Jen. — Apertou de novo a linha 4. — Andrew, talvez eu me atrase alguns minutos. Sirva drinques e banque o anfitrião por mim. Eu mesmo levarei Bartlett lá para cima.

— Certo.

Dunross apertou a linha 2.

— Tsaw an? — disse, em dialeto mandarim. — Como vai? Feliz por falar com o tio de Wei-wei, general Jen Tang-wa, subchefe da polícia secreta ilegal do Kuomintang em Hong Kong.

— Shey-shey — depois, em inglês: — O que há, tai-pan?

— Achei que devia saber... — Dunross contou-lhe rapidamente sobre as armas e Bartlett, e que a polícia estava envolvida, mas não sobre Tsu-yan ou John Chen.

— Ayeeyah! Muito curioso.

— Foi o que também achei. Muito curioso.

— Está convencido de que não é coisa do Bartlett?

— Estou. Parece não haver motivo para tal. Motivo algum. Seria uma estupidez usar o próprio avião. Bartlett não é estúpido — falou Dunross. — Quem precisaria desses armamentos aqui?

Fez-se uma pausa.

— Elementos criminosos.

— Tríades?

— Nem todas as tríades são criminosas.

— Não — disse Dunross.

— Verei o que posso descobrir. Tenho certeza de que não tem nada a ver conosco, Ian. Ainda vem para cá no domingo?

— Vou.

— Ótimo. Verei o que posso descobrir. Drinques às dezoito horas?

— Não poderia ser às vinte? Já se encontrou com Tsu-yan?

— Pensei que ele só viria no fim de semana. Não vai fazer o nosso quarteto na segunda-feira, com o americano?

— Vai. Ouvi dizer que tomou um avião hoje cedo para aí — disse Dunross, tentando falar com naturalidade.

— Com certeza vai me ligar... quer que ele telefone para você?

— Quero. A qualquer hora. Mas não é nada importante. Até domingo, às oito.

— Até, e obrigado pela informação. Se souber de alguma coisa, telefono imediatamente. Adeus.

Dunross desligou o aparelho. Estivera prestando muita atenção ao tom de voz de Jen, mas não percebeu nada de diferente. Onde diabo se metera Tsu-yan?

Uma batida à porta.

— Entre. — Levantou-se e foi receber Bartlett. — Alô.

— Sorriu e estendeu a mão. — Sou Ian Dunross.

— Linc Bartlett. — Apertaram-se as mãos com firmeza.

— Cheguei cedo demais?

— Está bem na hora. Deve saber que gosto de pontualidade. — Dunross riu. — Ouvi dizer que a reunião correu muito bem.

— Ótimo — replicou Bartlett, perguntando-se se Dunross estava se referindo à reunião com Gornt. — Casey conhece os fatos e os números.

— Meus companheiros ficaram muito impressionados. Ela disse que tinha poderes para concluir as negociações. Tem, Sr. Bartlett?

— Pode negociar e confirmar até vinte milhões. Por quê?

— Por nada. Só queria conhecer seu modo de trabalhar. Por favor, queira sentar-se. Ainda temos alguns minutos. O almoço só começa às doze e quarenta. Parece que temos um empreendimento lucrativo à nossa frente.

— Espero que sim. Tão logo eu fale com Casey. Quem sabe o senhor e eu possamos conversar?

Dunross verificou sua agenda.

— Amanhã às dez. Aqui?

— Combinado.

— Fuma?

— Não, obrigado. Parei faz alguns anos.

— Eu também... mas ainda sinto falta de um cigarro. — Dunross recostou-se na cadeira. — Antes de irmos almoçar, Sr. Bartlett, temos algumas coisinhas a conversar. Vou para Taipé no domingo à tarde, devo voltar na terça até a hora do jantar, e gostaria que o senhor fosse comigo. Gostaria que conhecesse umas pessoas, teremos um jogo de golfe de que poderá participar. Poderíamos conversar com bastante calma, e o senhor poderia ver os prováveis locais das fábricas. Poderia ser importante. Já tomei todas as providências, mas não será possível levar a srta. Tcholok.

Bartlett franziu o cenho, perguntando-se se a escolha de terça-feira seria apenas uma coincidência.

— Segundo o superintendente Armstrong, não posso sair de Hong Kong.

— Estou certo de que daremos um jeito nisso.

— Então também já sabe das armas? — perguntou Bartlett, e depois se xingou pelo deslize. Conseguiu manter o olhar firme.

— Sei, sim. Há mais alguém incomodando-o por causa delas? — perguntou Dunross, observando-o.

— A polícia até interrogou Casey! Meu Deus! Meu avião está retido, somos todos suspeitos, e não sei coisíssima alguma sobre arma nenhuma.

— Bem, não há por que se preocupar, Sr. Bartlett. A nossa polícia é muito boa.

— Não estou preocupado, só chateado.

— É compreensível — falou Dunross, satisfeito porque o encontro com Armstrong fora confidencial. Muito satisfeito.

"Santo Deus", pensou, inquieto, "se John Chen e Tsu-yan estiveram envolvidos de alguma forma, Bartlett vai ficar chateado de verdade, e perderemos o negócio. Ele vai se unir ao Gornt e então..."

— Como soube das armas?

— Fomos informados pelo nosso escritório em Kai Tak, hoje de manhã.

— Uma coisa dessas já aconteceu antes?

— Já. — Dunross acrescentou, despreocupadamente: — Mas não há mal algum num contrabandozinho, mesmo de armas. Na verdade é uma profissão muito honrada, mas é claro que o fazemos em outras bandas.

— Onde?

— Onde o governo de Sua Majestade o desejar. — Dunross riu. — Somos todos piratas aqui, Sr. Bartlett, pelo menos para o pessoal de fora. — Fez uma pausa. — Caso eu possa ajeitar as coisas com a polícia, irá a Taipé?

Bartlett disse:

— Casey sabe ficar de boca fechada.

— Não estou sugerindo que não seja digna de confiança.

— Só que não está sendo convidada?

— Alguns dos nossos costumes aqui são um tanto diferentes dos seus, Sr. Bartlett. Na maioria das vezes ela será bem-vinda... mas, às vezes, bem, pouparia muito embaraço se fosse excluída.

— Casey não fica embaraçada com facilidade.

— Não estava pensando no embaraço dela. Desculpe ser franco, mas, tudo somado, talvez fosse mais sensato.

— E se eu não "me sujeitar"?

— Provavelmente significará que vai perder uma oportunidade única, o que seria uma pena... principalmente se pretende ter uma associação a longo prazo com a Ásia.

— Pensarei no assunto.

— Desculpe, mas preciso de uma resposta agora.

— Precisa?

— Preciso.

— Então vá para o diabo! Dunross abriu um sorriso.

— Não vou, não. Como é, definitivamente: sim ou não? Bartlett desatou a rir.

— Já que não tenho outra escolha, pode contar comigo para ir a Taipé.

— Ótimo. Naturalmente, minha mulher cuidará da srta. Tcholok enquanto estivermos fora. Ela não se sentirá desprestigiada.

— Obrigado. Mas não precisa se preocupar com Casey. Que jeito vai dar no Armstrong?

— Não vou dar jeito nenhum nele. Apenas solicitar ao comissário assistente que me permita ficar responsável pelo senhor, ida e volta.

— Vou ficar em liberdade condicional, sob sua custódia?

— É.

— Como sabe que não vou sair da cidade? E se eu estiver mesmo contrabandeando as armas?

Dunross fitou-o.

— Talvez esteja. Talvez tente... mas posso trazê-lo de volta vivo ou morto, como dizem no cinema. Hong Kong e Taipé ficam dentro do meu feudo.

— Vivo ou morto, hem?

— Hipoteticamente, é claro.

— Quantos homens já matou na vida?

A atmosfera na sala se modificou, e os dois homens sentiram profundamente a mudança.

"Ainda não há nada de perigoso entre nós dois", pensou Dunross. "Ainda não."

— Doze — replicou, os sentidos alerta, embora a pergunta o houvesse pegado de surpresa. — De doze tenho certeza. Fui piloto de caça durante a guerra. Spitfires. Derrubei dois caças de um só passageiro, um Stuka e dois bombardeiros... Eram Dornier 17 e deveriam ter uma tripulação de quatro homens cada. Todos os aviões incendiaram-se ao cair. De doze tenho certeza, Sr. Bartlett. Claro que atiramos em muitos trens, comboios, concentrações de tropas. Por quê?

— Ouvi dizer que foi aviador. Acho que nunca matei ninguém. Estava construindo campos, bases no Pacífico, coisas assim. Nunca disparei uma arma com raiva.

— Mas gosta de caçar?

— Gosto. Participei de um safári no Quênia, em 1959. Matei um elefante e um grande antílope africano, e muitos animais para a panela.

— Acho que prefiro matar aviões, trens e barcos. Os homens, na guerra, são incidentais. Não são? — disse Dunross depois de uma pausa.

— Uma vez que o general foi posto em campo pelo governante, é claro. É um fato da guerra.

— Leu A arte da guerra, de Sun Tse?

— O melhor livro sobre a guerra que já li — falou Bartlett entusiasticamente. — Melhor que Clausewitz ou Liddel Hart, embora tenha sido escrito em 500 a.C.

— É? — Dunross recostou-se na cadeira, satisfeito por deixarem as mortes de lado. "Há anos que não me lembrava dessas mortes", pensou. "Não é justo para com aqueles homens, é?"

— Sabia que o livro de Sun Tse foi publicado em francês em 1782? Tenho uma teoria de que Napoleão tinha um exemplar dele.

— É certo que foi publicado em russo... e Mao sempre carregava consigo um exemplar supermanuseado — falou Dunross.

— O senhor o leu?

— Meu pai me forçou, tive que lê-lo no original... em chinês. E depois ele me fazia perguntas, muito seriamente.

Uma mosca começou a bater irritantemente contra a vidraça.

— Seu pai queria que fosse soldado?

— Não. Sun Tse, como Maquiavel, escreveu mais sobre a vida do que sobre a morte... e mais sobre a sobrevivência do que a guerra...

Dunross olhou para a janela, depois se levantou e foi até lá, destruindo a mosca com uma selvageria controlada que serviu como uma advertência a Bartlett.

Dunross voltou para a mesa.

— Meu pai achava que eu devia entender de sobrevivência, e saber como lidar com grandes grupos de homens. Queria que fosse digno de ser tai-pan, algum dia, embora achasse que eu nunca ia valer grande coisa.

Deu um sorriso.

— Ele também foi tai-pan?

— Foi. E muito bom. No começo.

— O que aconteceu?

Dunross deu uma risada sardônica.

— Querendo descobrir nossos segredos de família tão cedo, Sr. Bartlett? Bem, em resumo, tivemos uma diferença de opinião muito aborrecida e prolongada. Então, ele passou o cargo para o meu antecessor, Alastair Struan.

— Ele ainda vive?

— Vive.

— Quer dizer, em sua discrição britânica, que foi à luta com ele?

— Sun Tse é muito específico sobre ir à luta, Sr. Bartlett. É muito ruim guerrear, a não ser que seja necessário. Citando-o: "A suprema excelência do generalato consiste em quebrar a resistência do inimigo sem lutar".

— O senhor o quebrou?

— Ele se retirou do campo, Sr. Bartlett, como homem sensato que era.

A fisionomia de Dunross endurecera. Bartlett o fitava. Os dois homens sabiam que, mesmo a contragosto, estavam traçando linhas de batalha.

— Estou contente por ter vindo a Hong Kong — disse o americano. — Estou contente por tê-lo conhecido.

— Obrigado. Quem sabe um dia não estará. Bartlett deu de ombros.

— Quem sabe. Entrementes, temos um negócio em estudos... bom para vocês, bom para nós. — Abriu um sorriso repentino, lembrando-se de Gornt e da faca de cozinha. — É. Estou contente por ter vindo a Hong Kong.

— O senhor e Casey aceitariam ser meus convidados hoje à noite? Vou dar uma festinha modesta, por volta das oito e meia.

— Traje a rigor?

— Dinner jacket, está bem?

— Ótimo. Casey falou que vocês gostam de black-tie e coisa e tal. — Foi então que Bartlett notou o quadro na parede: uma tela antiga de uma linda chinesinha barqueira carregando um garotinho inglês, com os cabelos louros presos numa trança. — É um Quance? Um Aristotle Quance?

— É, é sim — disse Dunross, mal disfarçando a surpresa. Bartlett aproximou-se e examinou o quadro.

— Este é o original?

— É. Entende muito de arte?

— Não, mas Casey me falou de Quance quando vínhamos para cá. Disse que é quase como um fotógrafo, um historiador dos tempos antigos.

— É mesmo.

— Se me lembro direito, este aqui é o retrato de uma moça chamada May-may, May-may T'Chung, e a criança é um dos filhos que teve com Dirk Struan?

Dunross ficou calado, fitando as costas de Bartlett. Bartlett olhou mais de perto.

— É difícil enxergar os olhos. Então o garoto é Gordon Chen, o futuro Sir Gordon Chen?

Virou-se e olhou para Dunross.

— Não sei ao certo, Sr. Bartlett. Esta é uma das histórias que correm.

Bartlett observou-o por um momento. Os dois homens combinavam bem, Dunross um pouquinho mais alto, mas Bartlett de ombros mais largos. Ambos tinham olhos azuis, os de Dunross levemente mais esverdeados, os de ambos bem espaçados em rostos vividos.

— Gosta de ser o tai-pan da Casa Nobre? — perguntou Bartlett.

— Gosto.

— Não sei ao certo quais os poderes de um tai-pan, mas na Par-Con posso contratar e despedir quem quiser, e posso fechar a companhia, se me der na telha.

— Então, é um tai-pan.

— Então, também gosto de ser tai-pan. Quero pôr um pé na Ásia, o senhor, nos Estados Unidos. Juntos podemos enfiar toda a costa do Pacífico numa sacola e carregá-la, nós dois.

"Ou preparar uma mortalha para um de nós", pensou

Dunross, gostando de Bartlett, a despeito de saber que era perigoso gostar dele.

— Tenho o que lhe falta, o senhor tem o que me falta.

— É — concordou Dunross. — E agora o que nos falta é almoçar.

Dirigiram-se para a porta. Bartlett chegou primeiro. Mas não a abriu imediatamente.

— Sei que não é o costume de vocês, mas já que vamos juntos para Taipé, não podia me chamar de Linc, e eu chamá-lo de Ian, e começarmos desde já a calcular quanto vamos apostar na partida de golfe? Estou certo de que o meu hanà-icap é 13, oficialmente, e sei que o seu é 10, oficialmente, o que provavelmente quer dizer pelo menos uma tacada extra de cada um, por medida de segurança.

— Por que não? — concordou Dunross imediatamente. — Mas aqui não costumamos apostar dinheiro, só bolas.

— Pois sim que vou apostar as do meu saco numa partida de golfe!

Dunross achou graça.

— Pode ser que aposte, algum dia. Normalmente apostamos meia dúzia de bolas de golfe aqui... mais ou menos isso.

— É um mau costume britânico apostar dinheiro, Ian?

— Não. Que tal quinhentos cada lado, e o vencedor leva tudo?

— Americanos ou de Hong Kong?

— Hong Kong. Entre amigos, devem ser os de Hong Kong. Inicialmente.

O almoço foi servido na sala de jantar particular dos diretores, no décimo nono andar. Era uma sala de canto em forma de L, com teto alto e cortinas azuis, tapetes chineses azuis mosqueados, e janelas amplas de onde se podia ver Kowloon e os aviões pousando e decolando em Kai Tak, a ilha Stonecutters e a ilha Tsing Yi a oeste, e, mais além, parte dos Novos Territórios. A mesa de carvalho antiga e grande, que comportava facilmente vinte pessoas, estava posta com um jogo americano, talheres de prata e o melhor cristal Waterford. Para os seis comensais havia quatro garçons silenciosos e bem-treinados, de calças pretas e túnicas brancas bordadas com o emblema da Struan.

Os coquetéis já haviam começado a ser servidos quando Bartlett e Dunross chegaram. Casey tomava um martíni seco junto com os outros... excetuando Gavallan, que tomava um gim cor-de-rosa duplo. Sem precisar fazer o pedido, Bartlett recebeu uma lata supergelada de cerveja Anweiser numa salva de prata georgiana.

— Quem lhe contou? — perguntou Bartlett, encantado.

— Com os cumprimentos de Struan e Companhia — disse Dunross. — Soubemos que é assim que gosta. — Apresentou-o a Gavallan, De Ville e Linbar Struan, e aceitou uma taça de chablis gelado, depois sorriu para Casey: — Como vai?

— Bem, obrigada.

— Com licença — disse Bartlett aos outros —, mas tenho que dar um recado a Casey, antes que me esqueça. Casey, quer ligar para o Johnston em Washington, amanhã?... descubra quem seria o nosso melhor contato no consulado aqui.

— Claro. Se não conseguir falar com ele, perguntarei a Tim Diller.

Qualquer referência a Johnston queria dizer, em código: que tal vai indo o negócio? Na resposta: Diller queria dizer bem; Tim Diller, muito bem; Jones, mal; George Jones, muito mal.

— Boa idéia — respondeu Bartlett, sorrindo, depois voltou-se para Dunross. — Que belo aposento!

— É adequado — replicou Dunross.

Casey riu, percebendo a desvalorização propositada do ambiente.

— A reunião correu muito bem, Sr. Dunross — disse. — Chegamos a uma proposta para ser submetida à sua apreciação.

"Bem típico de um americano. Que falta de finesse! Será que ela não sabe que os negócios devem ser discutidos depois do almoço, não antes?"

— É, Andrew me falou por alto — retrucou Dunross. — Quer mais uma bebida?

— Não, obrigada. Acho que a proposta cobre todos os tópicos, senhor. Há algum ponto que deseja que eu esclareça?

— Tenho certeza de que haverá, futuramente — disse Dunross, intimamente divertido, como sempre, pelo senhor que muitas mulheres americanas usavam em conversa, e com freqüência, incongruentemente, ao se dirigirem aos garçons. — Tão logo eu a estude, conversarei com a senhorita. Uma cerveja para o Sr. Bartlett — acrescentou, tentando mais uma vez transferir os negócios para depois. Em seguida, dirigiu-se a Jacques: — Ça va?

— Oui, merci. À rien. Nada ainda.

— Não se preocupe — disse Dunross. Na véspera, a filha adorada de Jacques e o marido, que estavam de férias na França, haviam sofrido um feio acidente de carro. Ele ainda não conhecia direito as proporções do acidente. — Não se preocupe.

— Não.

Novamente o dar de ombros gaulês, ocultando a enormidade da sua preocupação.

Jacques era primo-irmão de Dunross, e entrara para a Struan em 45. A guerra dele fora tétrica. Em 1940, mandara a mulher e os dois filhos pequenos para a Inglaterra e permanecera na França. Até o fim da guerra. Maquis, prisão, condenação, fuga e maquis de novo. Estava com cinqüenta e quatro anos, era um homem forte e quieto, mas perigoso quando provocado, com um peito largo, olhos castanhos, mãos rudes e muitas cicatrizes.

— Em princípio o negócio lhe parece bom? — perguntou Casey.

Dunross soltou um suspiro, intimamente, e concentrou-se integralmente nela.

— Posso apresentar uma contraproposta em um ou dois pontos de menor importância. Entrementes — acrescentou, com decisão —, pode estar certa de que, em termos gerais, a proposta parece aceitável.

— Ah, que bom! — exclamou Casey, feliz.

— Ótimo — disse Bartlett, igualmente satisfeito, e ergueu sua lata de cerveja. — Bebamos a uma conclusão bem-sucedida, e a grandes lucros... para vocês e para nós.

Brindaram, os outros percebendo os sinais de perigo em Dunross, imaginando qual seria a contraproposta do tai-pan.

— Vai levar muito tempo para concluir, Ian? — perguntou Bartlett, e todos eles ouviram o Ian. Linbar Struan não ocultou uma careta.

Para espanto geral, Dunross apenas respondeu:

— Não. — Era como se o tratamento familiar fosse muito comum. Acrescentou: — Duvido que os advogados levantem algum obstáculo intransponível.

— Vamos nos encontrar com eles amanhã às onze — disse Casey. — O Sr. De Ville, John Chen e eu. Já tivemos a aprovação prévia deles... sem problemas, por esse lado.

— Dawson é muito bom, especialmente em leis de taxação americanas.

— Casey, quem sabe devemos trazer nosso especialista em impostos de Nova York — falou Bartlett.

— Claro, Linc, logo que estivermos de acordo. E o Forrester. — Para Dunross, explicou: — É o chefe da nossa divisão de espumas.

— Ótimo. E, agora, chega de falar de negócios antes do almoço — disse Dunross. — Regras da casa, srta. Casey: nada de papo comercial durante as refeições, faz mal para a digestão.

— Fez sinal para Lim. — Não vamos esperar pelo Patrão John.

Instantaneamente os garçons se materializaram e as cadeiras foram puxadas; havia nomes datilografados nos marcadores de lugar de prata, e a sopa foi servida.

O menu previa xerez com a sopa, chablis com o peixe — ou clarete com a carne assada e o pudim Yorkshire, se preferissem —, vagens, batatas e cenouras cozidas. Trifle de xerez, doce típico inglês, como sobremesa. Vinho do Porto com os queijos.

— Quanto tempo vai ficar por aqui, Sr. Bartlett? — perguntou Gavallan.

— O tempo que for necessário. Mas, Sr. Gavallan, já que parece que vamos nos dar comercialmente por muito tempo, que tal deixar de lado o Sr. Bartlett e a srta. Casey e nos chamar de Linc e Casey?

Gavallan manteve os olhos fitos em Bartlett. Gostaria de ter dito: "Bem, Sr. Bartlett, gostamos de ir com calma nessas coisas, por aqui... é um dos poucos modos de se diferenciar os amigos dos conhecidos. Para nós, os nomes de batismo são uma coisa particular. Mas, como o tai-pan não fez objeções ao espantoso Ian, não há nada que eu possa fazer".

— Por que não, Sr. Bartlett? — falou, serenamente. — Não é necessário fazer cerimônia. É?

Jacques de Ville, Struan e Dunross riram-se intimamente do Sr. Bartlett e do modo hábil com que Gavallan transformara a aceitação indesejável num fora e num desprestígio que nenhum dos americanos jamais compreenderia.

— Obrigado, Andrew — disse Bartlett. A seguir, acrescentou: — Ian, posso alterar as regras e fazer mais uma pergunta antes do almoço? Seria possível você concluir o acordo até a terça que vem, de uma maneira ou de outra?

Instantaneamente, a atmosfera da sala se modificou. Lim e os outros criados hesitaram, chocados. Todos os olhares se dirigiram para Dunross. Bartlett achou que tinha ido longe demais, e Casey teve certeza disso. Estivera observando Dunross. A expressão dele não se modificara, mas os olhos, sim. Todos na sala sabiam que o tai-pan fora pressionado como por um adversário num jogo de pôquer. Jogue ou passe. Até a próxima terça-feira.

Ficaram esperando. O silêncio parecia pesar. E pesar.

Então, Dunross o rompeu.

— Dou-lhe a resposta amanhã — falou, com voz calma, e o momento passou. Todos suspiraram intimamente, os garçons continuaram seu trabalho e todos se descontraíram. Exceto Linbar. Ainda podia sentir as palmas das mãos molhadas de suor, porque somente ele, entre todos, conhecia o fio que corria por dentro de todos os descendentes de Dirk Struan — um ímpeto de violência repentino, estranho, quase primitivo —, e quase o vira vir à tona então, quase, mas não viera. Desta feita, fora embora. Mas o fato de saber que existia, e a sua proximidade, o aterrorizavam.

Ele próprio descendia do ramo de Robb Struan, meio irmão e sócio de Dirk Struan. Portanto não tinha o sangue de Dirk Struan nas veias. Ressentia-se disso amargamente, e detestava Dunross ainda mais por deixá-lo doente de inveja.

"A maldição da Bruxa Struan caia sobre você, maldito Ian Dunross, e sobre todos os seus descendentes", pensou, e estremeceu involuntariamente, ao pensar nela.

— O que foi, Linbar? — perguntou Dunross.

— Oh, nada, tai-pan — respondeu, quase morrendo de susto. — Nada... só um pensamento repentino. Desculpe.

— Que pensamento?

— Estava só pensando na Bruxa Struan.

A colher de Dunross ficou parada no ar, e os outros olharam para ele.

— Não é um pensamento que faça bem à digestão.

— Não, senhor.

Bartlett olhou para Linbar, depois para Dunross.

— Quem é a Bruxa Struan?

— Um esqueleto — replicou Dunross, com uma risada seca. — Temos muitos esqueletos escondidos nos armários da família.

— E quem não tem? — falou Casey.

— A Bruxa Struan foi o nosso eterno bicho-papão... ainda é.

— Não agora, tai-pan, sem dúvida — falou Gavallan. — Já morreu faz quase cinqüenta anos.

— Pode ser que morra conosco, com Linbar, Kathy e eu, com a nossa geração, mas duvido. — Dunross lançou um olhar estranho para Linbar. — Será que a Bruxa Struan vai sair do seu caixão hoje à noite para nos engolir?

— Juro por Deus que nem gosto de brincar assim com ela, tai-pan.

— Maldita seja a Bruxa Struan — disse Dunross. — Se estivesse viva, eu lhe rogaria uma praga cara a cara.

— Acho que sim. É — riu-se Gavallan. — Gostaria de ter visto a cena.

— Eu também. — Dunross riu com ele, até que viu a expressão de Casey. — Ah, é só bravata, Casey. A Bruxa Struan era um demônio dos infernos, se formos acreditar em metade das lendas sobre ela. Era a mulher de Culum Struan, filho de Dirk Struan, o nosso fundador. O nome dela era Tess, Tess Brock, e era a filha do inimigo ferrenho de Dirk, Tyler Brock. Culum e Tess fugiram para se casar em 1841, segundo a história. Ela estava com dezesseis anos e era uma beleza, e ele era o herdeiro da Casa Nobre. É uma história à la Romeu e Julieta... só que eles viveram, e o casamento deles não diminuiu em nada o ódio mortal entre Dirk e Tyler, ou entre os Struans e os Brocks. Ao contrário, aumentou e complicou tudo. Ela nasceu Tess Brock em 1825, e morreu Bruxa Struan em 1917, aos noventa e dois anos de idade, desdentada, careca, embriagada, malvada e mesquinha até o último dia de sua vida. Como é estranha a vida, heya?

— É. Incrível, às vezes — disse Casey, pensativa. — Por que será que as pessoas mudam tanto ao envelhecer?... Ficam azedas e amargas. Especialmente as mulheres.

"É costume", Dunross podia ter respondido de pronto, "e porque os homens e as mulheres envelhecem de modo diferente. É injusto... mas é um fato imutável. Uma mulher vê as rugas e a flacidez começando, e a pele não mais fresca e firme, mas seu homem ainda tem boa aparência e é solicitado, e depois ela vê os brotinhos e fica aterrorizada de perdê-lo, e acaba perdendo-o porque ele fica cheio das lamúrias dela e da agonia auto-infligida da automutilação... e também por causa do seu instinto incontrolável e inato em direção à juventude..."

"Ayeeyah, não há afrodisíaco no mundo como a juventude", o velho Chen-Chen (pai de Phillip Chen) e mentor de Ian sempre dizia. "Nenhum, jovem Ian, nenhum. Nenhum, nenhum, nenhum. Ouça. O yang necessita dos sumos do yin, mas sumos jovens, ah, sim, têm que ser jovens, os sumos, para aumentar a sua vida e nutrir o yang... oh, oh, oh! Lembre-se, quanto mais velho se tornar o seu Talo Masculino, mais precisará de juventude, mudança e entusiasmo juvenil para atuar exuberantemente, e, quanto mais, melhor! Mas lembre-se também de que a Caixa Formosa que se aninha entre as coxas dela, embora incomparável, adorável, deliciosa, fantástica, oh, tão doce, e oh, tão satisfatória, que é... cuidado! Ah!, também é uma armadilha, uma emboscada, uma câmara de torturas, e o seu caixão!" Depois, o velho, bem velhinho, dava risada e sua barriga subia e descia, e as lágrimas lhe escorriam pelo rosto. "Ah, os deuses são maravilhosos, não são? Dão-nos o céu na terra, mas é um verdadeiro inferno quando não conseguimos fazer o nosso monge de um olho só erguer a cabeça para entrar no paraíso! Joss, meu filho! Esta é a nossa sorte... ansiar pela Ravina Gulosa até que ela nos devore, mas oh, oh, oh..."

"Deve ser muito difícil para as mulheres, especialmente as americanas", pensou Dunross, "esse trauma de envelhecer, a inevitabilidade de acontecer tão cedo, cedo demais... pior na América do que em qualquer outra parte do mundo.

"Por que lhe dizer uma verdade, que já deve saber no seu âmago?", perguntou-se Dunross. "Ou ainda dizer mais, que a moda americana exige um esforço para se agarrar a uma juventude eterna que nem Deus, o Diabo ou o cirurgião podem lhe dar. Não se pode ter vinte e cinco anos aos trinta e cinco, nem ter a juventude dos trinta e cinco aos quarenta e cinco, nem ter quarenta e cinco aos cinqüenta e cinco anos. Desculpe, sei que é injusto, mas é a verdade.

"Ayeeyah, agradeço fervorosamente a Deus — se houver um Deus —, agradeço a todos os deuses grandes e pequenos por ser homem, e não mulher. Tenho pena de você, moça americana dos nomes bonitos."

Mas Dunross respondeu, simplesmente:

— Suponho que seja porque a vida não é nenhum mar de rosas, e somos alimentados de baboseiras e valores errados ao crescer... não como os chineses, que são sensatos... Meu Deus, como são incrivelmente sensatos! No caso da Bruxa Struan, talvez fosse o sangue ruim dos Brocks. Acho que era o joss dela: seu destino, sua sorte ou seu azar. Ela e Culum tiveram sete filhos, quatro homens e três mulheres. Todos os homens tiveram morte violenta, dois de "fluxo", provavelmente de peste, aqui em Hong Kong, um foi assassinado a facadas em Xangai, e o último morreu afogado perto de Ayr, na Escócia, onde ficam as terras da nossa família. Isso bastaria para deixar qualquer mãe meio louca, isso e o ódio e a inveja que a cercaram, e a Culum, a vida toda. Mas quando se acrescenta a isso tudo os problemas de morar na Ásia, a passagem da Casa Nobre para os filhos de outras pessoas... bem, dá para entender. — Dunross pensou um momento, depois acrescentou: — Conta a lenda que ela dominou Culum Struan a vida inteira, e tiranizou a Casa Nobre até o dia de sua morte, e todos os tai-pans, todas as noras, todos os genros, e até todas as crianças. Até mesmo depois da morte. Lembro-me de uma babá inglesa que tive, possa a sua alma arder no inferno para sempre, que me dizia: "É melhor se comportar, Patrãozinho Ian, ou vou invocar o espírito da Bruxa Struan, e ela vai devorá-lo..." Eu não teria mais do que cinco ou seis anos.

— Que coisa terrível! — exclamou Casey. Dunross deu de ombros.

— As babás fazem isso com as crianças.

— Nem todas, graças a Deus — disse Gavallan.

— Eu nunca tive uma que prestasse. Ou uma gan sun que fosse má.

— O que é uma gan sun? — quis saber Casey.

— Quer dizer "corpo próximo", é o nome correto para uma amah. Na China de antes de 49, as crianças das famílias abastadas, da maioria das antigas famílias européias ou eurasianas daqui, sempre tinham a sua "corpo próximo" para cuidar delas... na maioria das vezes, ficavam com elas a vida toda. A maioria das gan sun faz voto de celibato. Pode-se sempre reconhecê-las pela trança comprida que usam costas abaixo. A minha gan sun chama-se Ah Tat. É uma velhota fabulosa. Ainda está conosco — falou Dunross.

Gavallan disse:

— A minha foi mais mãe para mim do que minha mãe de verdade.

— Com que então a Bruxa Struan era sua bisavó? — perguntou Casey a Linbar.

— Santo Deus, não! Não... eu não descendo de Dirk Struan — replicou, e ela notou suor na testa dele, e não entendeu. — Descendo do meio irmão dele, Robb Struan. Ele era sócio de Dirk. O tai-pan descende diretamente de Dirk, mas... mesmo assim... nenhum de nós descende da Bruxa.

— São todos parentes? — perguntou Casey, sentindo uma tensão curiosa na sala. Viu Linbar hesitar e olhar para Dunross, enquanto ela o fitava.

— Sim — disse ele. — Andrew é casado com minha irmã, Kathy. Jacques é primo, e Linbar... Linbar tem o nosso nome. — Dunross riu. — Muita gente em Hong Kong ainda se lembra da Bruxa, Casey. Sempre usava um vestido preto comprido com anquinhas e um chapéu gozado com uma pena comida de traças, tudo totalmente fora de moda, e carregava uma bengala preta de cabo de prata o tempo todo. Costumava ser levada pelas ruas numa espécie de palanquim com quatro carregadores. Não media muito mais de metro e meio, mas era redonda e durona como o pé de um cule. Os chineses morriam de medo dela, também. O apelido dela era "Honorável Velha Demônia Mãe Estrangeira com Mau-Olhado e Dentes de Dragão".

— É verdade — disse Gavallan, com uma risada curta. — Meu pai e minha avó a conheceram. Tinham a sua própria companhia mercantil aqui e em Xangai, Casey, mas foram mais ou menos liquidados na Grande Guerra, e se uniram à Struan em 1919. Meu velho me contava que, quando era menino, ele e os amigos costumavam seguir a Bruxa pelas ruas, e quando ela ficava especialmente zangada, tirava os dentes postiços e os abria e fechava para as crianças, como se fosse mordê-las. — Todos riram junto com ele, quando a imitou. — Meu velho jurava que os dentes tinham sessenta centímetros de altura e uma espécie de mola, e ficavam mordendo e mordendo.

— Ei, Andrew, eu tinha me esquecido disso — interrompeu Linbar, com um amplo sorriso. — Minha gan sun, a velha Ah Fu, conhecia bem a Bruxa Struan, e cada vez que se falava nela Ah Fu revirava os olhos e implorava aos deuses que a protegessem do mau-olhado e dos dentes mágicos. Meu irmão Kyle e eu... — parou, depois recomeçou, num tom de voz diferente — costumávamos implicar com Ah Fu sobre ela.

Dunross disse para Casey:

— Há um retrato dela lá na Casa Grande... dois, na verdade. Se estiver interessada, eu os mostrarei a você, qualquer dia.

— Ah, obrigada... gostaria, sim. Há algum de Dirk Struan?

— Vários. E um de Robb, seu meio irmão.

— Adoraria vê-los.

— Eu também — falou Bartlett. — Que diabo, nunca sequer vi um retrato dos meus avós, que dirá do meu tataravô. Sempre quis saber dos meus antepassados, como eram, de onde vieram. Não sei nada a seu respeito, exceto que meu avô parece que dirigiu uma companhia de fretagem no velho oeste, num lugar chamado Jerrico. Deve ser formidável a gente saber de onde vem. Vocês têm sorte. — Ele estivera sentado, prestando atenção nas correntes ocultas, fascinado por elas, buscando pistas para quando chegasse a hora de ter que decidir: Dunross ou Gornt. "Se for Dunross, Andrew Gavallan é um inimigo, e terá que pular fora", disse para si mesmo. "O jovem Struan odeia Dunross, o francês é um enigma, e o próprio Dunross é nitroglicerina, e tão perigoso quanto ela." — A sua Bruxa Struan me parece fantástica — disse. — E Dirk Struan também deve ter sido uma figura e tanto!

— Isso é que é uma obra-prima de eufemismo! — disse Jacques de Ville, os olhos escuros brilhando. — Ele foi o maior pirata da Ásia! Espere só... vai olhar para o retrato de Dirk e notar os traços de família! Nosso tai-pan e ele são a cara um do outro, e, ma foi, ele herdou todas as partes piores.

— Não amole, Jacques — respondeu Dunross, bem-humorado. Depois, para Casey: — Não é verdade. Jacques está sempre me gozando. Não sou nada parecido com ele.

— Mas descende dele.

— É. Minha bisavó era Winifred, a única filha legítima de Dirk. Casou-se com Lechie Struan Dunross, um membro do clã. Tiveram apenas um filho, que era meu avô, foi o tai-pan depois de Culum. Minha família, os Dunrosses, são os únicos descendentes diretos de Dirk Struan, ao que se saiba.

— Quer dizer a legítima? Dunross sorriu.

— Dirk teve outros filhos e filhas. Um deles, Gordon Chen, era de uma moça chamada Shen, na verdade. É a linhagem da família Chen de hoje. Há também a linhagem da família T'Chung, de Duncan T'Chung e Kate T'Chung, o filho e a filha que Dirk teve com a famosa May-may T'Chung. Bem, a lenda é esta, são lendas aceitas por aqui, embora ninguém possa prová-las ou deixar de prová-las. — Dunross hesitou, e as rugas à volta de seus olhos aumentaram com a profundidade de seu sorriso. — Em Hong Kong e Xangai, nossos antecessores eram, digamos, amistosos, e as moças chinesas eram tão bonitas quanto hoje. Mas eles raramente se casavam com as amantes, e a pílula é uma invenção muito recente... portanto, a gente nem sempre sabe com quem pode ser aparentado. Nós, bem, não discutimos esta espécie de coisa em público... bem à moda britânica, fingimos que não existe, embora todos saibamos que existe, e assim ninguém fica desmoralizado. As famílias eurasianas de Hong Kong em geral tomaram os nomes das mães, as de Xangai, os dos pais. Todos parecemos ter-nos adaptado ao problema.

— É tudo muito amigável — disse Gavallan.

— Às vezes — comentou Dunross.

— Quer dizer que John Chen é seu parente? — perguntou Casey.

— Se nos reportarmos ao Jardim do Éden, todos são aparentados entre si, suponho.

Dunross fitava o lugar vazio. "Não é típico de John sumir", pensou, inquieto, "e ele não é do tipo de se envolver em contrabando de armas, seja por que motivo for. Ou de ser tão burro a ponto de ser preso. Tsu-yan? Bem, ele é xangaiense, e pode ter entrado em pânico facilmente, se estiver metido nisso. John é conhecido demais para conseguir tomar um avião hoje de manhã sem ser notado. Portanto, não fugiu de avião. Teria que ser de barco... se é que realmente fugiu. Um barco para onde... Macau? Não, é um beco sem saída. Navio? Fácil demais", pensou, "se a fuga foi planejada, ou mesmo se não foi planejada e arranjada com uma hora de antecedência. Em qualquer dia do ano há trinta ou quarenta partidas marcadas para todas as partes do mundo, navios grandes e pequenos, sem falar nos mil juncos não programados, e, mesmo em fuga, alguns dólares aqui e ali, e seria uma facilidade sair às escondidas... sair ou entrar. Homens, mulheres, crianças. Drogas. Qualquer coisa. Mas não há motivo para se contrabandear para Hong Kong, exceto seres humanos, drogas, armas, bebidas alcoólicas, cigarros e gasolina... tudo o mais é livre de impostos e restrições.

"Exceto o ouro."

Dunross sorriu consigo mesmo. "Importa-se ouro legalmente, com licença, a trinta e cinco dólares a onça pelo trânsito para Macau, e o que acontece depois não é da conta de ninguém, mas é imensamente lucrativo." É, pensou, "e a reunião da junta da nossa Nelson Trading é hoje à tarde. Ótimo. Esse é um empreendimento comercial que nunca falha."

Enquanto se servia de um pouco de peixe da travessa que lhe era oferecida, notou que Casey o fitava.

— Sim, Casey.

— Oh, estava só imaginando como soube meus nomes.

— Virou-se para Bartlett. — O tai-pan me surpreendeu, Linc. Mesmo antes de sermos apresentados, chamou-me de Kamalian Ciranoush, como se fosse Mary Jane.

— O nome é persa? — indagou Gavallan prontamente.

— Armênio, originariamente.

— Kamahlyarn Cirrannouussssh — disse Jacques, gostando da sibilação dos nomes. — Très joli, mademoiselle. Ils ne sont pas difficiles, sauf pour les crétins.

— Ou les ingleses — falou Dunross, e todos acharam graça.

— Como soube, tai-pan? — perguntou Casey, sentindo-se mais à vontade com tai-pan do que com Ian. "Ainda não é hora de Ian", pensou, fascinada pelo passado dele, pela Bruxa Struan e pelas sombras que pareciam cercá-lo.

— Perguntei ao seu advogado.

— Como assim?

— John Chen me ligou ontem à noite, por volta da meia-noite. Você não lhe dissera o que as letras K e C representavam, e eu queria saber. Era cedo demais para falar com o seu escritório em Los Angeles, oito da manhã, hora de Los Angeles. Portanto liguei para o seu advogado, em Nova York. Meu pai costumava dizer: "Quando tiver dúvidas, pergunte".

— Conseguiu falar com Seymour Steigler III num sábado? — perguntou Bartlett, assombrado.

— Consegui, na casa dele em White Plains.

— Mas o número do telefone da casa dele não está no catálogo.

— Eu sei. Liguei para um chinês amigo meu, da ONU. Ele descobriu o número para mim. Disse ao Sr. Steigler que queria saber por causa dos convites... o que, naturalmente, é a verdade. Deve-se ser preciso, não é?

— É — replicou Casey, admirando-o enormemente. — Deve-se, sim.

— Sabia que Casey... que Casey era mulher, ontem à noite? — indagou Gavallan.

— Sabia. Na verdade, já sabia há vários meses, embora não soubesse o que representavam as letras K e C. Por quê?

— Por nada, tai-pan. Casey, você estava falando da Armênia. Sua família imigrou para os Estados Unidos depois da guerra?

— Depois da Primeira Grande Guerra, em 1918 — falou Casey, começando a contar mais uma vez a história tantas vezes repetida. — Originalmente, nosso sobrenome era Tcholokian. Quando meus avós chegaram a Nova York, tiraram o ian, para simplificar as coisas e ajudar os americanos. Ainda assim, me sobrou Kamalian Ciranoush. Como sabem, a Armênia é a parte sul do Cáucaso... fica ao norte do Irã e da Turquia, e ao sul da Geórgia russa. Era uma nação livre e soberana, mas agora tudo foi absorvido pela União Soviética ou pela Turquia. Minha avó era georgiana... havia muitos casamentos mistos, naqueles tempos. Meu povo estava todo espalhado pelo Império Otomano, cerca de dois milhões, mas os massacres, especialmente em 1915 e 1916... — Casey estremeceu. — Foi genocídio, na verdade. Sobraram cerca de quinhentos mil de nós, e agora estamos espalhados pelo mundo todo. Os armênios eram comerciantes, artistas, pintores e ourives, escritores, guerreiros também. Havia cerca de cinqüenta mil armênios no exército turco antes de serem desarmados, proscritos e fuzilados pelos turcos durante a Primeira Guerra Mundial... generais, oficiais e soldados. Eram uma minoria de elite, há séculos que o eram.

— Esse é o motivo pelo qual os turcos os odiavam? — quis saber De Ville.

— Eram muito trabalhadores e unidos, muito bons mercadores e comerciantes, sem dúvida... controlavam grande parte do comércio e dos negócios. Meu avô dizia que o comércio está no nosso sangue. Mas talvez o motivo principal seja que os armênios são cristãos... foram o primeiro Estado cristão na história, sob o jugo romano... e é claro que os turcos são maometanos. Os turcos conquistaram a Armênia no século XVI e sempre houve uma guerra de fronteira entre a Rússia cristã czarista e os turcos "infiéis". Até 1917, a Rússia czarista era a nossa real protetora... Os turcos otomanos sempre foram um povo estranho, muito cruel, muito estranho.

— Sua família escapou antes da confusão?

— Não. Meus avós eram muito ricos, e, como muita gente, achavam que nada lhes podia acontecer. Escaparam por pouco dos soldados, agarraram dois filhos e uma filha e saíram pela porta dos fundos com o que puderam pegar na sua fuga para a liberdade. O resto da família não conseguiu fugir. Meu avô escapou de Istambul subornando o capitão de um barco de pesca que levou minha avó e ele escondidos até Chipre, onde deram um jeito de obter vistos para os Estados Unidos. Tinham um pouco de dinheiro e jóias... e muito talento. Vovó ainda é viva... ainda barganha como ninguém.

— Seu avô era mercador? — perguntou Dunross. — Foi assim que começou a se interessar pelo mundo dos negócios?

— Pelo menos, desde que nos entendíamos por gente, era o que tentavam nos enfiar na cabeça — disse Casey. — Meu avô começou com uma companhia óptica em Providence, fazendo lentes e microscópios, e uma companhia de exportação e importação que lidava na sua maior parte com tapetes e perfumes, e com um comerciozinho de ouro e pedras preciosas para complementar. Meu pai desenhava e fazia jóias. Agora já morreu, mas tinha a sua lojinha própria em Providence, e o irmão dele, meu tio Bghos, trabalhava com vovô. Agora, depois que vovô morreu, meu tio dirige a companhia de exportação e importação. É pequena, mas estável. Crescemos, minha irmã e eu, cercadas de barganhas, negociações e conversas de lucro. Era um grande jogo, e éramos todos iguais.

— Onde... quer mais sobremesa, Casey?

— Não, obrigada, estou satisfeita.

— Onde se formou em administração?

— Acho que em toda parte — explicou ela. — Depois que terminei a escola secundária, fiz um curso comercial de dois anos na Katharine Gibbs, em Providence: taquigrafia, datilografia, noções de contabilidade, arquivo, e mais uns fundamentos comerciais. Mas, desde que aprendi a contar, trabalhava à noite e nos feriados e fins de semana com vovô, no negócio dele. Aprendi a pensar, a planejar e pôr o plano em funcionamento, portanto a maior parte do meu treinamento foi nesse campo. Claro que desde que saí da escola não deixei de fazer cursos especializados... principalmente à noite. — Casey riu. — No ano passado, cheguei a fazer um curso na Escola de Administração de Harvard, fato que escandalizou loucamente alguns membros do corpo docente, embora agora as coisas estejam ficando mais fáceis para a mulher.

— Como conseguiu chegar à sua atual posição nas Indústrias Par-Con? — perguntou Dunross.

— Perspicácia — falou, e todos riram com ela. Bartlett explicou:

— Casey é uma danada para trabalhar, Ian. A velocidade de leitura dela é fantástica. Pode cobrir mais terreno do que dois executivos normais. Tem um faro para o perigo, não tem medo de tomar uma decisão, gosta mais de realizar do que de destruir uma transação, e não fica vermelha com facilidade.

— Este é o meu aspecto mais vantajoso — disse Casey. — Obrigada, Linc.

— Mas isso não é muito duro para você, Casey? — perguntou Gavallan. — Não tem que abrir mão de um bocado de coisas como mulher, para continuar? Não deve ser fácil para você fazer um trabalho de homem.

— Não considero que meu trabalho seja trabalho de homem, Andrew — replicou ela, prontamente. — As mulheres têm a mesma inteligência e a mesma capacidade de trabalho que os homens.

Houve imediatamente uma vaia amigável por parte de Linbar e Gavallan, mas Dunross abafou-a e disse:

— Acho melhor adiarmos essa manifestação. Mas repito a pergunta, Casey: como chegou a tal posição na Par-Con?

"Devo contar-lhe a história verdadeira, Ian-parecido-com-Dirk-Struan, o maior pirata da Ásia, ou devo contar-lhe a que virou lenda?", perguntou a si mesma.

Então, ouviu Bartlett começar, e soube que poderia deixar o pensamento vagar com segurança, pois já ouvira a versão dele uma centena de vezes antes. Era em parte verdadeira, em parte falsa, e em parte o que ele queria acreditar que acontecera. "Quantas das lendas de vocês são verdadeiras... a Bruxa Struan e Dirk Struan... e qual a sua história real, e como se tornou tai-pan?" Bebericou o seu vinho do Porto, saboreando a suave doçura, deixando o pensamento vagar.

"Há alguma coisa errada", pensou. "Posso senti-lo, fortemente. Há alguma coisa errada com Dunross.

"O quê?"

— Conheci Casey há uns sete anos, em Los Angeles, Califórnia — começara Bartlett. — Recebera uma carta de um tal Casey Tcholok, presidente da Hed-Opticals de Providence, que queria discutir uma fusão. Naquela época, eu estava metido em construções por toda a Los Angeles, áreas residenciais, supermercados, dois grandes prédios de escritórios, zona industrial, centros comerciais. Era só falar comigo, que eu construía. Tínhamos um capital de giro de três milhões e duzentos mil, e eu acabara de virar empresa de capital aberto... mas ainda estava a milhões de quilômetros do Big Board. Eu...

— Está se referindo à Bolsa de Valores de Nova York?

— Estou. Bem, chega Casey, toda animada, e diz que quer que eu me una à Hed-Opticals, que, segundo ela, teve uma renda bruta de duzentos e setenta e sete mil e seiscentos dólares no ano anterior, e depois, juntos, iríamos em busca da Randolf Opticals, uma empresa das grandes, cinqüenta e três milhões em vendas, citada no Big Board, uma fatia imensa do mercado de lentes e muito dinheiro no banco. E eu disse: "Você é maluca, por que a Randolf?" Ela respondeu que, primeiro, porque era acionista da Bartlett Construction, comprara dez ações de um dólar. Eu capitalizara com um milhão de ações e vendera quinhentas mil ao valor nominal, e ela achava que seria ótimo para a Bartlett Construction ser dona da Randolf, e segundo, "porque aquele filho da puta do George Toffer, que dirige a Randolf Opticals, é um mentiroso, um vigarista, um ladrão, e está tentando liquidar o meu negócio".

Bartlett abriu um sorriso e parou para respirar, e Dunross o interrompeu com uma risada.

— Isso é verdade, Casey?

Casey voltou ao presente rapidamente.

— Ah, é, eu disse que George Toffer era um mentiroso, um vigarista, um ladrão e um filho da puta. Ainda é. — Casey sorriu, sem achar graça. — E sem dúvida estava tentando liquidar o meu negócio.

— Por quê?

— Porque eu dissera para ele ir... para ele não encher.

— E por que agiu assim?

— Eu acabara de assumir a direção da Hed-Opticals. Meu avô falecera no ano anterior, e meu tio Bghos e eu tiráramos cara ou coroa para ver quem ficava com qual negócio... eu ganhei a Hed-Opticals. Tivéramos uma oferta da Randolf para nos comprar, há cerca de um ano, mas recusáramos... tínhamos um negócio pequeno, gostoso, bons operários, bons técnicos, vários armênios, uma pequena fatia do mercado. Não tínhamos capital nem espaço para expandir, mas nos virávamos direitinho, e a qualidade da Hed-Opticals era excelente. Logo depois que assumi a direção, George Toffer "deu uma passadinha por lá". Ele se achava o máximo, meu Deus, como se achava. Alegava ser herói de guerra do exército americano, mas descobri que não era... era o tipo do sujeito... Bem, ele me fez outra oferta ridícula para tirar a Hed-Opticals das minhas mãos... o papo da pobre garotinha que devia estar numa cozinha, junto com "Vamos jantar juntos na minha suíte, e por que não nos divertimos um pouco, já que estou aqui sozinho por uns dias..." Eu disse "Não, obrigada", e ele ficou muito chateado. Muito. Mas disse "Tudo bem", voltou a falar de negócios e sugeriu que, ao invés de comprar minha firma, ele me passaria alguns dos contratos dele. Fez-me uma boa oferta, e depois de barganhar um pouco, concordamos com os termos. Se eu me saísse bem, ele dobraria o negócio. Durante o mês seguinte, fizemos um trabalho melhor e mais barato do que ele seria capaz de fazer, entreguei as encomendas segundo o contrato, e ele teve um lucro fabuloso. E então ele "roeu a corda" numa cláusula verbal e deduziu, roubou, vinte mil trezentos e setenta e oito dólares, e no dia seguinte cinco dos meus melhores clientes nos trocaram pela Randolf, e na semana seguinte outros sete... ele oferecera a todos negócios abaixo do custo. Ele me deixou "em banho-maria" por uma ou duas semanas, depois me ligou. "Oi, neguinha", falou, feliz como um sapo num balde de lama, "estou passando o fim de semana sozinho em Martha's Vineyard." É uma ilhazinha no litoral leste. Depois, acrescentou: "Por que não vem para cá para nos divertirmos um bocado e discutirmos o futuro e a duplicação dos pedidos?" Eu pedi o meu dinheiro, e ele riu de mim e disse para eu crescer, e sugeriu que era melhor eu reconsiderar a oferta dele, porque do jeito que as coisas iam, logo não haveria mais nenhuma Hed-Opticals.

"Xinguei-o. Sei xingar bem à beça quando fico com raiva, e disse a ele o que podia fazer em três línguas. Dentro de mais quatro semanas, não me sobrava nenhum cliente. Mais outro mês, os funcionários tiveram que procurar outro emprego. Mais ou menos àquela época, resolvi ir para a Califórnia. Não queria ficar no leste." Casey deu um sorriso amargo. "Era uma questão de prestígio... como se eu entendesse àquela altura o que isso quer dizer. Resolvi tirar duas semanas de folga para decidir o que fazer. Então, certo dia, andava sem destino por uma feira estadual em Sacramento, e lá estava Linc. Vendia ações da Bartlett Construction num balcão, e eu comprei..."

— Ele o quê? — perguntou Dunross.

— Claro — disse Bartlett. — Vendi mais de vinte mil ações desse jeito. Vendi em feiras estaduais, por via postal, em supermercados, centros comerciais, através de corretores... e também em bancos de investimentos. Claro. Continue, Casey!

— Então li os prospectos dele e fiquei a observá-lo por algum tempo, e achei que tinha muita garra e ambição. Os números, o balanço geral e a taxa de expansão dele eram excepcionais, e achei que uma pessoa que vendia pessoalmente as suas ações tinha que ter futuro. Assim, comprei dez ações, escrevi para ele e fui procurá-lo. Fim da história.

— Fim uma ova, Casey — disse Gavallan.

— Conte você, Linc — disse ela.

— Está bem. Então...

— Um pouco de porto, Sr.... desculpe, Linc?

— Obrigado, Andrew, mas será que posso tomar outra cerveja? — Ela chegou instantaneamente. — E assim Casey veio me ver. Depois que me contou a história, praticamente como a contou agora, eu disse:

"— Uma coisa, Casey. A Hed-Opticals rendeu menos de trezentos mil no ano passado. Quanto vai render este ano?

"— Zero — falou ela, com aquele seu sorriso. — Sou o único bem da Hed-Opticals, eu e nada mais.

"— Então, qual a vantagem de uma fusão minha com zero? Já tenho problemas bastantes.

"— Sei como aniquilar a Randolf Opticals.

"— Como?

"— Vinte e dois por cento da Randolf estão nas mãos de três homens, e todos abominam Toffer. Com vinte e dois por cento, você obteria o controle. Sei como pode conseguir as procurações deles. E mais ainda: conheço os pontos fracos de Toffer.

"— E quais são?

"— Vaidade, e é um megalomaníaco; e mais ainda, é burro.

"— Não pode ser burro e dirigir aquela companhia.

"— Talvez não fosse burro no passado, mas agora é. Está no ponto para ser derrubado.

"— E o que vai querer ganhar com isso, Casey?

"— A cabeça de Toffer... quero ser eu a despedi-lo.

"— O que mais?

"— Se eu tiver êxito no que me proponho... se conseguirmos o controle da Randolf Opticals em, digamos, seis meses, quero... quero um contrato de um ano com você, podendo ser aumentado para sete, com um salário que você ache compatível com a minha capacidade, como sua vice-presidenta-executiva encarregada de aquisições. Mas quero-o como pessoa, não como mulher, como uma pessoa em grau de igualdade com você. Claro que o patrão é você, mas serei igual ao que um homem seria, como um indivíduo... se fizer bem o meu trabalho."

Bartlett abriu um sorriso e tomou um gole de cerveja.

— Concordei, negócio fechado. Pensei: "O que tenho a perder? Eu com os meus míseros três quartos de milhão e ela com o seu saldo zero tomarmos a Randolf Opticals em seis meses, ora, é um negócio e tanto". E assim apertamos as mãos, de homem para mulher. — Bartlett riu. — Era a primeira vez que fazia um negócio daqueles com uma mulher, sem mais nem menos... e nunca me arrependi.

— Obrigado, Linc — disse Casey, meigamente, e todos sentiam inveja de Bartlett.

"E o que aconteceu depois que você despediu Toffer?", pensava Dunross, juntamente com os outros. "Foi então que começou o seu caso?"

— E a compra do controle? — perguntou a Bartlett. — Foi tranqüila?

— Foi nojenta, mas as lições que aprendi, que aprendemos, renderam mil por cento. Em cinco meses já tínhamos o controle. Casey e eu havíamos conquistado uma companhia cinqüenta e três vezes e meia maior que a nossa. Um minuto antes da hora H eu estava com quatro milhões de dólares no vermelho no banco, e praticamente na cadeia, e na hora seguinte assumira o controle. Puxa, mas foi uma batalha e tanto! Em um mês e meio tínhamos reorganizado a companhia, e agora a Divisão Randolf da Par-Con rende cento e cinqüenta milhões por ano, e suas ações estão lá em cima. Foi uma Blitzkrieg clássica, e estabeleceu o padrão para as Indústrias Par-Con.

— E esse George Toffer, Casey? Como o despediu?

Casey desviou os olhos castanho-amarelados de Linc e fixou-os em Dunross, e ele pensou: "Santo Deus, gostaria de possuir você".

— No momento em que assumimos o controle, eu... — Interrompeu-se quando o único telefone na sala tocou, e houve uma tensão repentina no ambiente. Todos, até mesmo os garçons, imediatamente desviaram sua atenção integral para o telefone... exceto Bartlett. Os rostos de Gavallan e de De Ville estavam completamente sem cor. — O que foi? — perguntou Casey.

Dunross quebrou o silêncio.

— É uma das normas da casa. Não se completa nenhuma ligação durante o almoço, a não ser que seja uma emergência... uma emergência pessoal... para um de nós.

Todos fitaram Lim enquanto largava a bandeja do café. Parecia que ele levava uma eternidade para cruzar o aposento e pegar o telefone. Todos tinham mulheres, filhos, famílias, e todos imaginavam que morte ou que tragédia seria, e "Por favor, Deus, que o telefonema seja para algum outro", lembran-do-se da última vez que o telefone tocara, há dois dias. Para Jacques. E no mês passado, para Gavallan. A mãe dele estava morrendo. Todos haviam recebido telefonemas, ao longo dos anos. Todos ruins.

Andrew Gavallan estava certo de que o telefonema era para ele. Sua mulher, Kathren, irmã de Dunross, estava no hospital, esperando o resultado de testes exaustivos. Há semanas que estava doente, sem motivo aparente. "Meu Deus", pensou, "controle-se", cônscio dos olhares dos outros sobre a sua pessoa.

— Weyyyy? — Lim escutou por um momento, depois virou-se e estendeu o aparelho. — É para o senhor, tai-pan.

Os outros voltaram a respirar, e observaram Dunross, que caminhava ereto para o telefone.

— Alô?... Oh... O quê?... Não... não, vou já para aí... Não, não façam nada, vou já para aí. — Notaram o ar de choque dele ao repor o fone no gancho, em meio ao silêncio mortal. Depois de uma pausa, falou: — Andrew, diga a Claudia para adiar minhas reuniões de diretoria de hoje à tarde. Você e Jacques, continuem com Casey. Era Phillip. Infelizmente, o pobre John Chen foi seqüestrado.

E saiu da sala.

 

                   14h35m

Dunross saltou do carro e entrou apressado pela porta aberta da imensa mansão em estilo chinês que ficava encravada na crista da montanha chamada Mirante de Struan. Passou por um criado aparvalhado, que fechou a porta às suas costas, e entrou na sala de estar, em estilo vitoriano, espalhafatosa, entulhada de quinquilharias e móveis que não combinavam.

— Alô, Phillip — falou. — Lamento tanto. Pobre John! Onde está a carta?

— Aqui. — Phillip pegou-a de cima do sofá, enquanto se levantava. — Mas primeiro olhe para aquilo.

Apontou para uma caixa de sapatos de papelão amassada numa mesa de mármore ao lado da lareira.

Enquanto atravessava a sala, Dunross notou Dianne, a mulher de Phillip Chen, sentada numa cadeira de espaldar alto, na outra extremidade do aposento.

— Oh, alô, Dianne, lamento o que aconteceu — repetiu. Ela deu de ombros, impassível.

— Joss, tai-pan. — Tinha cinqüenta e dois anos, era eurasiana, a segunda mulher de Phillip Chen, uma matrona atraente e cheia de jóias, que usava um cheong-sam marrom-escuro, um colar de jade de valor inestimável e um anel de brilhantes de quatro quilates... entre muitos outros anéis. — Joss — repetiu.

Dunross assentiu, antipatizando com ela ainda mais do que habitualmente. Espiou o conteúdo da caixa, sem tocá-lo. No meio de folhas de jornal soltas e amassadas, viu uma caneta que reconheceu como sendo de John Chen, uma carteira de motorista, algumas chaves num chaveiro, uma carta endereçada a John Chen, Sinclair Towers, 14A, e um saquinho de plástico com um pedaço de pano meio enfiado dentro. Com uma caneta que tirou do bolso Dunross abriu a carteira de motorista. John Chen.

— Abra o saquinho de plástico — disse Phillip.

— Não. Poderia danificar as impressões digitais que nele houver — disse Dunross, sentindo-se cretino, mas mesmo assim dizendo as palavras.

— Ah... tinha me esquecido disso. Merda. Claro, impressões digitais! As minhas estão... claro que abri o saco. As minhas devem estar nele... em toda parte.

— O que há nele?

— É... — Phillip Chen se aproximou, e antes que Dunross pudesse detê-lo, tirou o pano de dentro do saco, sem tocar novamente no plástico. — Não pode haver digitais no pano, não é? Olhe!

O pano continha a maior parte de uma orelha humana, o corte limpo e bem-feito, e não irregular. Dunross praguejou baixinho.

— Como foi que a caixa chegou? — indagou.

— Chegou por mensageiro. — Phillip Chen voltou a embrulhar a orelha com mãos trêmulas, recolocando-a na caixa. — Abri... abri a caixa, como qualquer pessoa o faria. Foi entregue há cerca de meia hora.

— Por quem?

— Não sabemos. Era apenas um rapaz, disse a criada. Um rapaz de moto. Ela não o reconheceu nem tomou nota da placa. Recebemos muitas encomendas por mensageiro. Não havia nada fora do comum... exceto o "Sr. Phillip Chen, assunto de grande importância, para ser aberto pessoalmente", escrito do lado de fora do embrulho, e que ela não notou imediatamente. Quando abri o embrulho e li a carta... bem, foi só um rapaz que disse "Encomenda para o Sr. Phillip Chen" e foi embora.

— Já chamaram a polícia?

— Não, tai-pan, você disse para não fazer nada. Dunross foi até o telefone.

— Já falou com a mulher do John?

— Por que o Phillip deve dar-lhe as más notícias? — disse Dianne imediatamente. — Ela vai ter um ataque de destelhar a casa, pode apostar. Ligar para Barbara? Ah, não, caro tai-pan, não... só depois que tivermos informado a polícia. Eles que contem a ela. Sabem como fazer essas coisas.

A repulsa de Dunross aumentou.

— É melhor mandá-la vir para cá rapidamente.

Ligou para a chefatura de polícia e perguntou por Armstrong. Não estava. Dunross deixou o nome, e depois pediu para falar com Brian Kwok.

— Sim, tai-pan?

— Brian, pode vir para cá imediatamente? Estou na casa de Phillip Chen, aqui no Mirante de Struan. John Chen foi seqüestrado.

Contou-lhe sobre o conteúdo da caixa.

Houve um silêncio chocado, depois Brian Kwok falou:

— Vou já para aí. Não toque em nada e não deixe que ele fale com ninguém.

— Está certo.

Dunross desligou o aparelho.

— Dê-me a carta agora, Phillip.

Segurou-a com cuidado, pelas pontas. Os caracteres chineses estavam escritos com nitidez, mas não por uma pessoa instruída. Leu-a devagar, conhecendo a maioria dos caracteres.

"Sr. Phillip Chen, informo-lhe que estou precisando desesperadamente de quinhentos mil em moeda de Hong Kong e venho consultá-lo a esse respeito. O senhor é tão rico que é como arrancar um fio de cabelo de nove bois. Temendo que recuse, não tenho outra alternativa senão usar seu filho como refém. Agindo assim, não temerei sua recusa. Espero que pense seriamente no caso, três vezes, e leve-o em consideração. Depende do senhor chamar a polícia ou não. Estou enviando junto alguns artigos que seu filho usa diariamente como prova da situação em que se encontra. Envio também uma parte da orelha de seu filho. Deve se dar conta da inclemência e da crueldade das minhas ações. Se pagar o dinheiro sem problemas, a segurança de seu filho estará garantida. Escrito pelo Lobisomem."

Dunross indicou a caixa.

— Desculpe, mas reconhece a... bem... aquilo? Phillip Chen deu uma risada nervosa, e sua mulher também.

— Você reconhece, Ian? Conheceu John a sua vida inteira... Como se reconhece uma coisa dessas, heya?

— Mais alguém sabe do seqüestro?

— Não, exceto os criados, é claro, Shitee T'Chung e alguns amigos que estavam almoçando aqui comigo. Eles... estavam aqui quando o embrulho chegou. É, estavam aqui. Saíram pouco antes de você chegar.

Dianne Chen mudou de posição na cadeira e disse o que Dunross estava pensando.

— Então é claro que toda Hong Kong saberá do caso até o anoitecer!

— É. E haverá manchetes escandalosas ao alvorecer. —

Dunross tentou pôr em ordem a infinidade de perguntas e respostas que inundavam a sua mente. — A imprensa vai saber da... orelha e do Lobisomem e vai deitar e rolar.

— É, se vai.

Phillip Chen lembrou-se do que Shitee T'Chung havia dito no momento em que todos liam a carta.

"Não pague o resgate pelo menos durante uma semana, Phillip, velho amigo, e será famoso no mundo inteiro! Ayeeyah, imagine, um pedaço da orelha dele e Lobisomem! Eeee, será famoso no mundo inteiro!"

— Talvez não seja a orelha dele, talvez seja só um truque — disse Phillip Chen, esperançoso.

— É. — "Se for mesmo a orelha de John", pensou Dunross, muito perturbado, "e se já a mandaram no primeiro dia, sem tentar negociar nem nada, aposto que o pobre infeliz já está morto." — Não há motivo para feri-lo desse jeito — falou. — Claro que você vai pagar.

— Mas é claro. Que sorte não estarmos em Cingapura, não é?

— É. — Àquela época, em Cingapura, por lei, no momento em que alguém era seqüestrado, as contas bancárias de toda a família eram congeladas para impedir o pagamento aos seqüestradores. Lá os raptos tinham se tornado endêmicos, quase sem prisões dos envolvidos, pois os chineses preferiam pagar rápida e discretamente, sem nada comunicar à polícia. — Mas que filho da mãe! Pobre do John!

Phillip perguntou:

— Aceita um pouco de chá... ou uma bebida? Está com fome?

— Não, obrigado. Vou esperar até Brian Kwok chegar, depois vou embora. — Dunross olhou para a caixa e para as chaves. Vira aquele chaveiro muitas vezes. — Está faltando a chave da caixa de depósito do banco — falou.

— Que chave? — perguntou Dianne Chen.

— John sempre tinha uma chave da caixa de depósito no chaveiro.

Ela não se mexeu da cadeira.

— E agora não está aí?

— Não.

— Talvez você esteja enganado. Sobre o fato de ele sempre a trazer no chaveiro.

Dunross olhou para ela e depois para Phillip Chen. Ambos devolveram o seu olhar. "Bem", pensou, "se os bandidos não a pegaram, agora está com Phillip ou Dianne, e se eu fosse eles, faria o mesmo. Sabe lá Deus o que pode haver naquela caixa."

— Talvez você esteja enganado — falou, tranqüilamente.

— Chá, tai-pan? — perguntou Dianne, e ele viu a sombra de um sorriso no fundo dos olhos dela.

— Sim, acho que aceito — falou, sabendo que eles haviam ficado com a chave.

Ela se levantou e pediu o chá em voz alta, depois voltou a sentar-se.

— Eeeee, gostaria que andassem depressa... os policiais.

Phillip olhava pela janela para o jardim estorricado.

— Gostaria que chovesse.

— Imagino quanto vai custar para termos o John de volta — resmungou ela.

Depois de uma pausa, Dunross perguntou:

— E isso importa?

— Mas claro que importa — falou Dianne, prontamente. — Francamente, tai-pan!

— Ah, sim — ecoou Phillip Chen. — Quinhentos mil! Ayeeyah, quinhentos mil, uma fortuna. Malditas tríades! Bem, se pediram quinhentos mil, posso chegar a cento e cinqüenta mil... Graças a Deus não pediram um milhão! — As sobrancelhas dele se alçaram, e o rosto ficou mais cinzento ainda. — Dew neh loh moh para todos os seqüestradores. Deviam ser mortos... todos eles.

— É — confirmou Dianne. — Tríades nojentas. A polícia devia ser mais esperta! Mais viva e mais esperta, e nos proteger melhor.

— Isso não é justo — falou Dunross, vivamente. — Há anos que não há um seqüestro de importância em Hong Kong, e acontece todos os meses em Cingapura! O índice de crimes aqui é fantasticamente baixo... nossa polícia faz um excelente trabalho... excelente.

— Hum — debochou Dianne. — São todos corruptos. Por que outro motivo ser policial, senão para enriquecer? Não confio em nenhum deles... Sabemos, ora se sabemos! Quanto a seqüestros, o último foi há seis anos. A vítima foi meu primo em terceiro grau, Fun San Sung... a família teve que pagar seiscentos mil dólares para recebê-lo de volta... Quase a levou à falência.

— Ah! — ironizou Phillip Chen. — Levar à falência o Colibri Sung? Impossível!

Colibri Sung era um armador xangaiense riquíssimo, na casa dos cinqüenta anos, com um nariz afilado, comprido para um chinês. Seu apelido era Colibri Sung porque estava sempre dardejando de cabaré em cabaré, de flor em flor, em Cingapura, Bangkok, Taipé e Hong Kong, mergulhando o membro numa infinidade de "potes de mel" femininos, embora corresse o boato de que não era o membro, pois apreciava o sexo oral mútuo.

— Se bem me lembro, a polícia recuperou a maior parte do dinheiro, e mandou os criminosos para a cadeia por vinte anos.

— Foi isso mesmo, tai-pan. Mas levaram meses e meses. E não me admiraria se um ou dois policiais soubessem mais do que admitiam.

— Mas quanta bobagem! — exclamou Dunross. — Não tem nenhum motivo para acreditar numa coisa dessas! Nenhum.

— Isso mesmo! — concordou Phillip Chen, irritado. — Eles os prenderam, Dianne. — Ela olhou para ele, que imediatamente mudou o tom de voz. — Claro, minha querida, que alguns policiais podem ser corruptos, mas temos muita sorte aqui, muita sorte. Acho que não me incomodaria tanto, sobre John... é só uma questão de resgate, e temos tido sorte como família, até agora... não me incomodaria se não fosse por... por aquilo. — Fez um sinal para a caixa, enojado. — Terrível! E totalmente incivilizado.

— É — concordou Dunross, e ficou imaginando, se não fosse a orelha de John Chen, de quem seria... onde se arranja uma orelha? Quase riu do ridículo da sua pergunta. Depois, ficou matutando se o rapto teria alguma ligação com Tsu-yan, as armas e Bartlett. Não fazia o gênero dos chineses mutilar uma vítima. Não, e certamente não tão cedo. O seqüestro era uma antiga arte chinesa, e as regras sempre foram claras: "Pague e fique calado, e não haverá problema; protele e fale e haverá muitos problemas".

Ficou olhando pela janela para os jardins e para o imenso panorama setentrional da cidade e do mar, lá embaixo. Navios, juncos e sampanas pontilhavam o mar azul. O céu estava limpo, sem promessas de chuva, a monção de verão firme vinda do sudoeste. Dunross ficou imaginando distraidamente como seriam os veleiros antigos ao acompanhar o vento ou enfrentar os vendavais, na época dos seus ancestrais. Dirk Struan sempre tivera um vigia secreto no topo da montanha acima. De lá, o homem podia enxergar o sul, o leste e o oeste, e o grande canal Sheung Sz Mun, que vinha do sul para Hong Kong... o único caminho interno para os navios vindos de casa, da Inglaterra. Do Mirante de Struan, o vigia podia ver secretamente o navio-correio que chegava, e dar um sinal de aviso secreto lá para baixo. Então, o tai-pan despacharia um barco a vela rápido para pegar a correspondência primeiro, para ter algumas horas de vantagem sobre os seus rivais, essas poucas horas podendo significar a diferença comercial entre a fortuna e a falência... tão vasto era o tempo que os separava de casa. Não como agora, com comunicações instantâneas, pensou Dunross. "Temos sorte... não temos que esperar quase dois anos por uma resposta, como o Dirk. Jesus, mas que homem deve ter sido!

"Não posso falhar com Bartlett. Preciso daqueles vinte milhões."

— O negócio parece muito bom, tai-pan — disse Phillip Chen, como se lesse os seus pensamentos.

— É, é, sim.

— Se eles realmente entrarem com o dinheiro, faremos fortuna, e será h'eung yau para a Casa Nobre — acrescentou, com um amplo sorriso.

O sorriso de Dunross foi sardônico, mais uma vez. "H'eung yau" queria dizer "graxa fragrante", e normalmente se referia ao dinheiro, ao suborno, à proteção, que eram pagos por todos os restaurantes chineses, a maior parte das empresas, todas as casas de jogo, todos os cabarés, todas as damas da "vida fácil", às tríades, a alguma forma de tríade, em todo o mundo.

— Ainda me desconcerta saber que se paga h'eung yau onde houver um chinês fazendo negócio.

— Francamente, tai-pan — disse Dianne, como se ele fosse uma criança. — Como qualquer negócio pode existir sem proteção? A gente espera pagar, naturalmente, e paga, e pronto. Todos pagam h'eung yau... alguma forma de h'eung yau. — As contas de jade do seu colar fizeram barulho quando ela mudou de posição na cadeira, os olhos escuríssimos na brancura do rosto... tão valorizada pelos chineses. — Mas o negócio com Bartlett, tai-pan, acha que vai se realizar?

Dunross observou-a. "Ah, Dianne", disse consigo mesmo "você sabe de cada detalhe importante sobre os negócios de Phillip e dos meus, e muito mais coisas que fariam Phillip chorar de raiva se soubesse que você sabe. Portanto, sabe que a Struan poderia ficar encrencadíssima se não houvesse nenhum negócio com Bartlett, mas que, se ele for consumado, nossas ações subirão como um foguete, e seremos ricos outra vez... e você também será, se puder entrar no jogo logo no começo, se puder comprar no começo.

"É.

"E eu conheço vocês, senhoras chinesas de Hong Kong, como o pobre Phillip não conhece, porque não sou nem um tiquinho chinês. Sei que vocês, senhoras chinesas de Hong Kong, são as mulheres mais duronas do mundo quando se trata de dinheiro... ou talvez as mais práticas. E você, Dianne, sei também o quanto está eufórica agora, embora possa fingir o oposto. Porque John Chen não é seu filho. Com ele eliminado, seus dois filhos serão os herdeiros diretos, e o mais velho, Kevin, o herdeiro evidente. Portanto, rezará, como nunca rezou antes, para que John tenha desaparecido para sempre. Está encantada. John foi seqüestrado, provavelmente assassinado, mas, e quanto à transação com Bartlett?"

— As mulheres são tão práticas — comentou.

— Como assim, tai-pan? — perguntou, estreitando os olhos.

— Mantêm as coisas em perspectiva.

— Às vezes não o compreendo nem um pouquinho, tai-pan — replicou ela, uma ponta de irritação na voz. — O que mais podemos fazer agora por John Chen? Nada. Fizemos tudo o que foi possível. Quando o bilhete de resgate chegar, negociaremos e pagaremos, e tudo será como antes. Mas o negócio com Bartlett é importante, muito importante, importantíssimo, aconteça o que acontecer, heya? Moh ching, moh meng. Sem dinheiro, sem vida.

— Isso mesmo. É muito importante, tai-pan. — Phillip olhou para a caixa e estremeceu. — Acho que, nas atuais circunstâncias, tai-pan, se puder nos desculpar logo mais à noite... não ach...

— Não, Phillip — disse a mulher com firmeza. — Não. Precisamos ir. É uma questão de prestígio para toda a Casa. "Iremos hoje à noite, e toda a Hong Kong só falará de nós. iremos, segundo os planos.

— Bem, se você acha melhor.

— Acho. — "Ora se acho", pensava, replanejando toda a sua toalete para realçar o efeito dramático da entrada deles. "Iremos hoje à noite, e toda a Hong Kong só falará de nós. Levaremos Kevin, é claro. Talvez já seja o herdeiro, agora. Ayeeyah! Com quem deve meu filho se casar? Preciso pensar no futuro, agora. Vinte e dois é uma idade perfeita, e preciso pensar no seu futuro. É, uma mulher. Quem? É melhor eu escolher a garota certa imediatamente, depressa, se for o herdeiro, antes que alguma rapariga com fogo entre as pernas e uma mãe esperta o façam por mim. Ayeeyah", pensou, exaltando-se, "os deuses nos livrem de tal coisa!" — É — falou, tocando os olhos com o lenço, como se ali houvesse alguma lágrima —, nada mais há a ser feito pelo pobre John, senão esperar... e continuar a trabalhar, planejar e manobrar para o bem da Casa Nobre. — Ergueu para Bartlett os olhos brilhantes. — O negócio com Bartlett resolveria tudo, não é?

— É.

"E estão ambos certos", pensou Dunross. "Não há mais nada a ser feito no momento. Os chineses são muito sábios e muito práticos.

"Portanto, concentre-se nas coisas importantes", disse para si mesmo. "Coisas importantes... por exemplo, você joga? Pense. Que melhor local ou hora do que aqui e agora poderia achar para começar a pôr em prática o plano que vem delineando desde que conheceu Bartlett?

"Nenhum."

— Ouçam — falou, decidindo irrevogavelmente, depois lançou um olhar para a porta que dava para os alojamentos dos criados, certificando-se de que estavam sós. Baixou o tom de voz para um sussurro conspiratório, e Phillip e a mulher se debruçaram para a frente para ouvir melhor. — Tive uma reunião particular com Bartlett antes do almoço. Fechamos o negócio. Vai precisar de umas pequenas alterações, mas assinamos o contrato formalmente na terça-feira da semana que vem. Os vinte milhões estão garantidos, e mais vinte no ano que vem.

Phillip Chen abriu um sorriso de orelha a orelha.

— Parabéns.

— Fale baixo, Phillip — sibilou a mulher, igualmente satisfeita. — Aqueles escravos de boca de tartaruga na cozinha têm ouvidos que escutam o que se fala em Java. Ah, mas que notícia fantástica, tai-pan!

— Manteremos isso em família — falou Dunross, suavemente. — Hoje à tarde darei ordem aos nossos corretores para começarem a comprar ações da Struan em segredo... cada tostão disponível que tivermos. Façam o mesmo, em lotes pequenos, e espalhem as ordens por corretores e representantes diferentes... o de sempre.

— Sim, claro que sim.

— Eu pessoalmente comprei quarenta mil hoje de manhã.

— Quanto as ações vão subir? — quis saber Dianne Chen.

— Vão dobrar!

— Em quanto tempo?

— Trinta dias!

— Eeee — exclamou ela alegremente. — Imaginem só!

— É — disse Dunross, amavelmente. — Imaginem só! E vocês dois só contarão aos parentes muito íntimos, que são muitos, e eles só contarão aos parentes muito íntimos deles, que são uma infinidade, e todos vocês comprarão e comprarão, porque esta é uma "dica" folheada a ouro, mais certa é impossível, o que acrescentará mais combustível ao aumento das ações. O fato de que é só uma transa de família com certeza vai escapar da boca de alguém, e mais gente entrará na dança, depois mais, e depois a declaração formal do negócio com a Par-Con aumentará o fogo, e então, na semana que vem, anunciarei a proposta para a compra do controle das Propriedades Asiáticas, e então Hong Kong inteira comprará. Nossas ações atingirão a estratosfera. E então, no momento certo, deixo de lado as Propriedades Asiáticas e parto para o alvo real.

— Quantas ações, tai-pan? — perguntou Phillip Chen, a cabeça cheia dos próprios cálculos dos possíveis lucros.

— O máximo. Mas tem que se limitar à família. Nossas ações vão liderar a alta da Bolsa.

Dianne soltou uma exclamação abafada.

— Vai haver uma alta?

— Vai. Vamos liderá-la. A hora é essa, todos em Hong Kong estão prontos. Vamos fornecer os meios, vamos ser os líderes, e com um bom empurrão aqui e ali, vai haver uma disparada.

Fez-se um grande silêncio. Dunross ficou observando a avareza no rosto dela.

Seus dedos brincavam com as contas de jade. Viu Phillip fitando a distância, sabia que parte da sua mente de homem de negócios estava nas várias notas promissórias que ele, Phillip, subscrevera pela Struan, e que venciam num período de treze a trinta dias: doze milhões de dólares americanos para as Indústrias de Navegação Toda de Yokohama, pelos dois cargueiros gigantes, seis milhões e oitocentos mil para o Orlin International Merchant Bank, e setecentos e cinqüenta mil para Tsu-yan, que cobrira um outro problema para ele. Mas a maior parte da mente de Phillip estaria concentrada nos vinte milhões de Bartlett e na alta das ações... na duplicação que ele previra arbitrariamente.

Duplicação?

De jeito nenhum... não, não havia a menor chance disso.

A não ser que houvesse uma alta desenfreada. A não ser que houvesse uma alta!

Dunross sentiu o coração bater mais rápido.

— Se houver uma alta... Santo Deus, Phillip, podemos ter sucesso!

— É, é, concordo. Hong Kong está no ponto. Ah, sim. —

Os olhos de Phillip Chen brilharam, seus dedos tamborilaram na mesa. — Quantas ações, tai-pan?

— Todo tos...

Excitada, Dianne interrompeu Dunross.

— Phillip, na semana passada meu astrólogo disse que este ia ser um mês importante para nós! Uma alta da Bolsa! Era a isso que devia estar se referindo.

— É verdade, lembro que você me contou, Dianne. Oh, oh, oh! Quantas ações, tai-pan? — perguntou de novo.

— Todo tostão disponível! Esta vai ser a grande oportunidade. Mas só a família até sexta-feira. Exclusivamente, até sexta-feira. Depois que a Bolsa fechar, deixarei transpirar a conclusão do negócio com Bartlett...

— Eeee — sibilou Dianne.

— É. Durante o fim de semana direi "nada a comentar"; certifique-se de que não possam localizá-lo, Phillip, e na segunda de manhã todo mundo estará indócil na pista. Ainda direi "nada a comentar", mas na segunda compraremos abertamente. Então, logo depois que se encerrar o expediente comercial de segunda, anunciarei a confirmação da transação. E aí, na terça...

— Vai começar a alta!

— É.

— Oh, dia feliz — coaxava Dianne, radiante. — E cada amah, camareiro, cule ou comerciante perceberá que a sorte está do seu lado, e tirará suas economias, e comprará, e todas as ações dispararão. Que pena que não vai haver um editorial amanhã... melhor ainda, um astrólogo num dos jornais... que tal o Fong Cem Anos... ou... — Estava quase vesga, de tão excitada. — E quanto a o astrólogo, Phillip?

Ele a fitou, chocado.

— O Velho Cego Tung?

— Por que não? Um pouco de h'eung yau na palma da sua mão... ou a promessa de algumas ações escolhidas. Heya?

— Bem, eu...

— Deixe comigo. O Velho Cego Tung me deve um ou dois favores, mandei-lhe um bocado de clientes! É. E ele não vai estar longe da verdade anunciando que os desígnios do céu prevêem a maior alta na história de Hong Kong, vai?

 

                       5h25m

O patologista da polícia, dr. Meng, ajustou o foco do microscópio e examinou a lasca de carne que cortara da orelha. Brian Kwok observava-o, impaciente. O médico era um can-tonense pequeno e pedante, com óculos de lentes grossas encarapitados na testa. Finalmente, ergueu os olhos, e os óculos caíram convenientemente sobre seu nariz.

— Bem, Brian, pode ter sido cortada de uma pessoa viva, e não de um cadáver... possivelmente. Possivelmente dentro das últimas oito ou dez horas. A machucadura... aqui, olhe aqui atrás — o dr. Meng mostrou delicadamente a descoloração atrás e em cima —, isso certamente indica para mim que a pessoa estava viva na hora do corte.

— Por que a machucadura, dr. Meng? O que a causou? O corte?

— Podia ter sido causada por alguém que estivesse segurando firmemente o espécime — falou o dr. Meng, cautelosamente — enquanto era removido.

— Pelo quê? Faca, navalha, canivete, ou um cutelo chinês... cutelo de cozinha?

— Por um instrumento cortante. Brian Kwok soltou um suspiro.

— E isso poderia matar alguém? O choque? Uma pessoa como John Chen?

O dr. Meng formou um triângulo com os dedos.

— Poderia, possivelmente. Possivelmente não. Ele tem problemas cardíacos?

— O pai disse que não; ainda não falei com o médico particular dele, o sacana está de férias, mas John sempre demonstrou gozar de boa saúde.

— Esta mutilação provavelmente não mataria um homem saudável, mas ele se sentiria muito desconfortável por uma ou duas semanas. — O doutor abriu um sorriso. — Muito desconfortável, mesmo.

— Meu Deus! — exclamou Brian. — Não pode me dizer nada que me ajude?

— Sou um patologista forense, Brian, não um vidente.

— Não dá para me dizer se a orelha é eurasiana... ou apenas chinesa?

— Não. Não, com este espécime seria quase impossível. Mas certamente não é anglo-saxã, indiana ou negróide. — O dr. Meng tirou os óculos e fitou com olhar míope o superintendente alto. — Isto poderia possivelmente causar uma agitação e tanto na Casa de Chen, heya?

— É, e na Casa Nobre. — Brian Kwok pensou por um momento. — Na sua opinião, este Lobisomem, este maníaco, diria que ele é chinês?

— A escrita pode ser de uma pessoa instruída. Igualmente, pode ser de um quai loh fingindo ser uma pessoa instruída. Mas se ele ou ela era uma pessoa instruída, isso não significa necessariamente que a mesma pessoa que cometeu a ação tenha escrito a carta.

— Sei disso. Quais as probabilidades de que John Chen esteja morto?

— Pela mutilação?

— Pelo fato de que o Lobisomem, ou mais provavelmente os Lobisomens, mandaram a orelha sem sequer dar início às negociações.

O homenzinho sorriu e falou, secamente:

— Está se referindo ao ditado do velho Sun Tse "Mate um para aterrorizar dez mil"? Não sei. Não faço especulações sobre coisas tão imponderáveis. Calculo apenas as probabilidades dos cavalos, Brian, ou da Bolsa de Valores. Que tal a Golden Lady de John Chen no sábado?

— Tem grandes chances. Definitivamente. E a Noble Star de Struan, o Pilot Fish de Gornt, e mais ainda, a Butter-scotch Lass de Richard Kwang. Nesta favorita é que vou apostar. Mas Golden Lady é uma lutadora. Vai começar com três contra um. Corre muito, e a pista lhe vai ser favorável. Seca. Não dá nada na pista molhada.

— Ah, e algum sinal de chuva?

— É possível. Dizem que vem temporal por aí. Até um chuvisco pode fazer diferença.

— Então, é melhor que não chova até domingo, heya?

— Não vai chover este mês... só se tivermos uma sorte enorme.

— Bem, se chover, chove, e se não chover, não chove, e daí! O inverno já vem vindo... então esta maldita umidade irá embora. — O dr. Meng deu uma olhada para o relógio de parede. Eram cinco e trinta e cinco da tarde. — Que tal um traguinho rápido antes de irmos para casa?

— Não, obrigado. Ainda tenho umas coisinhas para fazer. Mas que abacaxi danado, esse!

— Amanhã verei se posso arrumar algumas pistas no pano, no papel de embrulho ou nas outras coisas. Quem sabe as impressões digitais serão de alguma ajuda — acrescentou o médico.

— Não estou apostando nisso. Essa história toda me cheira mal, me cheira muito mal, mesmo.

O dr. Meng concordou, e sua voz perdeu a suavidade.

— Qualquer coisa ligada à Casa Nobre e à sua marionete, a Casa de Chen, cheira mal, não é?

Brian Kwok passou a conversar em sei yap, um dos principais dialetos da província de Kwantung, falado por muitos dos cantonenses de Hong Kong.

— Ei, irmão, não quer dizer que todo e qualquer cão capitalista cheira mal, e que a Casa Nobre e a Casa de Chen têm os que mais fedem a bosta? — disse, caçoando.

— Ah, Irmão, não sabe ainda, bem dentro da sua cabeça, que os ventos da mudança estão varrendo o mundo? E que a China, sob a orientação imortal do presidente Mao, e do Pensamento de Mao, lide...

— Guarde a sua doutrinação para si mesmo — disse Brian Kwok friamente, voltando a falar em inglês. — A maioria dos pensamentos de Mao é tirada dos escritos de Sun Tse, Confúcio, Marx, Lao-Tse e outros. Sei que ele é um poeta... um grande poeta... mas usurpou a China, e agora ali não existe liberdade. Nenhuma.

— Liberdade? — replicou desafiadoramente o homenzinho. — O que significa a liberdade por alguns anos, quando, sob a liderança do presidente Mao, a China voltou a ser a China, e retomou o seu lugar de direito no mundo? Agora, a China é temida por todos os capitalistas nojentos! Até mesmo pela Rússia revisionista.

— É. Concordo. E por isso eu agradeço a ele. Entrementes, se não gosta daqui, volte para Cantão e vá trabalhar até gastar os colhões no seu paraíso comunista, e dew neh loh moh para todos vocês, comunistas... e seus seguidores da mesma estirpe!

— Você devia ir para lá, para ver por si mesmo. É pura propaganda que o comunismo é ruim para a China. Não lê os jornais? Agora não há ninguém passando fome.

— E quanto aos vinte e tantos milhões que foram assassinados após a tomada do poder? E quanto a toda a lavagem cerebral?

— Mais propaganda! Só porque freqüentou escolas inglesas e canadenses, e fala feito um porco capitalista, não quer dizer que seja um deles. Lembre-se das suas origens.

— Lembro. E muito bem.

— Seu pai errou quando o mandou embora!

Todos sabiam que Brian Kwok nascera em Cantão, e que, aos seis anos de idade, fora a Hong Kong para estudar. Foi um estudante tão bom que, em 1937, aos doze anos, ganhou uma bolsa de estudos para uma excelente escola particular em Londres, e seguiu para lá, e depois, em 1939, com o começo da Segunda Guerra Mundial, toda a escola foi transferida para o Canadá. Em 1942, aos dezoito anos, formou-se em primeiro lugar como monitor, e entrou para a Real Polícia Montada do Canadá, no setor à paisana, no imenso Bairro Chinês de Vancouver. Falava cantonense, mandarim, sei yap, e serviu com distinção. Em 1945, solicitou transferência para a Real Polícia de Hong Kong. Com a aprovação relutante da RPMC, que queria que continuasse lá, voltou a Hong Kong.

— Você está perdendo tempo trabalhando para eles, Brian — continuou o dr. Meng. — Devia servir às massas e trabalhar para o partido!

— O partido assassinou meu pai e minha mãe, e a maioria da minha família, em 43!

— Nunca se provou isso! Nunca. Foram boatos. Talvez os demônios do Kuomintang o tenham feito... havia caos àquela época em Cantão. Eu estava lá, eu sei! Talvez os porcos japoneses tenham sido os responsáveis... ou as tríades... quem sabe? Como pode estar certo?

— Estou certo, por Deus.

— Houve alguma testemunha? Não! Você mesmo me contou! — A voz de Meng era áspera, e ele ergueu os olhos míopes para Kwok. — Ayeeyah, você é chinês, use a sua educação para a China, para as massas, não para o amo capitalista.

— Vá tomar no rabo!

O dr. Meng riu, e os óculos caíram para cima do nariz.

— Espere só, superintendente Kar-shun Kwok. Um dia, seus olhos se abrirão. Um dia verá toda a beleza da coisa.

— Enquanto isso não ocorre, trate de me arranjar umas respostas!

Brian Kwok saiu com largas passadas do laboratório e subiu o corredor até o elevador, com a camisa grudada às costas. "Gostaria que chovesse", pensou.

Entrou no elevador. Outros policiais o cumprimentaram, e ele retribuiu o cumprimento. Saltou no terceiro andar e caminhou pelo corredor até o seu gabinete. Armstrong estava à sua espera, lendo preguiçosamente um jornal chinês.

— Oi, Robert — disse ele, satisfeito ao ver o outro. — O que há de novo?

— Nada. E com você?

Brian Kwok contou-lhe o que o dr. Meng dissera.

— Aquele sacana e os seus "possivelmente"! A única coisa sobre a qual é enfático é um cadáver... e mesmo assim tem que verificar umas duas vezes.

— É... ou sobre o presidente Mao.

— Ah, tocou de novo esse disco quebrado?

— Foi. — Brian Kwok sorriu. — Disse-lhe que voltasse para a China.

— Jamais irá embora.

— Eu sei. — Brian ficou olhando para uma pilha de papéis na sua mesa, e soltou um suspiro. Depois, falou: — Não faz o gênero do pessoal daqui cortar uma orelha tão cedo.

— Não, não se for um seqüestro de verdade.

— Como?

— Podia ser uma vingança, e o seqüestro ser só um disfarce — falou Armstrong, o rosto gasto endurecendo. — Concordo com você e Dunross. Acho que já o mandaram desta para melhor.

— Mas, por quê?

— Talvez John estivesse tentando fugir, talvez tenha começado uma luta, e eles ou ele entraram em pânico, e antes que eles ou ele soubessem o que se passava, eles ou ele o esfaquearam ou o acertaram na cabeça com um instrumento rombudo. — Armstrong suspirou e espreguiçou-se para aliviar a pressão nos ombros. — De qualquer modo, meu caro, nosso Grande Pai Branco quer isso resolvido rapidamente. Honrou-me com um telefonema para dizer que o governador ligara-lhe pessoalmente para expressar sua preocupação.

Brian Kwok praguejou baixinho.

— Notícias ruins correm depressa! Nada ainda nos jornais?

— Não, mas toda a Hong Kong já sabe, e teremos um vento em brasa soprando nos nossos traseiros amanhã de manhã. O Sr. Maldito Lobisomem... assistido pela imprensa bexiguenta... malvada e não-cooperativa de Hong Kong... nos causará somente aborrecimentos, temo eu, até que prendamos o filho da mãe, ou os filhos da mãe.

— É. Mas nós vamos pegá-lo, ora se vamos!

— É. E que tal uma cerveja... ou melhor, um gim com tônica bem grande? Bem que me agradaria.

— Boa idéia. Seu estômago está ruim de novo?

— Está. Mary diz que são todos os bons pensamentos que guardo dentro de mim.

Riram juntos e dirigiram-se para a porta; já estavam no corredor quando o telefone tocou.

— Ignore o danado, não atenda, só pode ser problema — disse Armstrong, sabendo que nem ele nem Brian deixariam de atender.

Brian Kwok pegou o telefone e ficou petrificado. Era Roger Crosse, superintendente-chefe, diretor do Serviço Especial de Informações.

— Pronto, senhor?

— Brian, quer subir imediatamente?

— Sim, senhor.

— Armstrong está com você?

— Está, sim, senhor.

— Traga-o, também.

O telefone foi desligado.

— Sim, senhor. — Recolocou o fone no gancho, sentindo as costas molhadas de suor. — Deus está nos chamando, e rapidinho.

O coração de Armstrong bateu descompassado.

— Quem, eu? — Juntou-se a Brian, que se dirigia para o elevador. — Para que diabo ele me quer? Não pertenço mais ao sei.

— Não nos cabe perguntar por quê, cabe-nos apenas cagar nas calças quando ele murmura. — Brian Kwok apertou o botão do elevador. — O que estará havendo?

— Tem que ser importante. Será o continente?

— Chu En-lai derrubou Mao e os moderados estão no poder?

— Sonhador! Mao vai morrer no posto, a Divindade da China.

— A única coisa boa que se pode dizer de Mao é que é chinês em primeiro lugar, e comuna em segundo. Amaldiçoados comunas!

— Ei, Brian, quem sabe os soviéticos não estão criando caso de novo na fronteira! Outro incidente?

— Quem sabe. É. A guerra está chegando... é, a guerra entre a Rússia e a China. Mao está certo nisso, também,

— Os soviéticos não são assim tão estúpidos.

— Não faça apostas, meu velho. Já disse e repeti antes, os soviéticos são o inimigo do mundo. Vai haver guerra... logo você vai me dever mil dólares, Robert.

— Não gostaria de pagar essa aposta. A matança será pavorosa.

— É. Mas, ainda assim, vai acontecer. Mao está certo, outra vez. Será realmente pavorosa... mas não catastrófica. — Brian Kwok apertou de novo o botão do elevador, com irritação. Ergueu os olhos, subitamente. — Será que finalmente foi iniciada a invasão, vinda de Formosa?

— Qual é, Brian! Fantasia? Deixe disso! Chang Kai-chek jamais sairá de Formosa.

— Se não sair, o mundo todo ficará atolado na pilha de estrume. Se Mao tiver trinta anos para consolidar... Meu Deus, você nem imagina! Um bilhão de autômatos? Chang é que estava certo em perseguir os comunas sacanas... são eles os verdadeiros inimigos da China. São a praga da China. Santo Deus, se tiverem tempo para condicionar todos os garotos!

— Você fala exatamente como um nacionalista militante — disse Armstrong suavemente. — Esfrie a cuca, rapaz, tudo está uma bosta no mundo, que não é nem nunca será normal... mas você, cão capitalista, pode correr no sábado, fazer alpinismo no domingo, e há sempre muitas gatinhas para comer. Certo?

— Desculpe. — Entraram no elevador. — Aquele sacana do Meng me tirou do sério — disse Brian, apertando o botão do último andar.

Armstrong passou a falar em cantonense.

— Dane-se a sua mãe com o seu desculpe, Irmão.

— E a sua foi enfiada por um macaco vagabundo com um só testículo num balde de excrementos de um porco.

Armstrong riu de orelha a orelha.

— Nada mau, Brian — falou, em inglês. — Nada mau mesmo.

O elevador parou. Seguiram pelo corredor pardacento. Diante da porta, prepararam-se, Brian bateu suavemente.

— Entre.

Roger Crosse estava na casa dos cinqüenta anos, um homem alto e magro de olhos azuis muito claros e cabelos louros, que começavam a ficar ralos, e mãos pequenas, de dedos longos. Sua mesa era meticulosamente arrumada, como suas roupas civis — um gabinete espartano. Indicou as cadeiras. Sentaram-se. Continuou lendo uma pasta. Quando acabou, fechou-a com cuidado e colocou-a diante de si. A capa era pardacenta, comum, de uso dos gabinetes.

— Um milionário americano chega com armas contrabandeadas, um milionário xangaiense muito suspeito, ex-traficante de drogas, foge para Formosa, e agora um seqüestro com, Deus nos ajude, Lobisomens e uma orelha mutilada. Tudo isso em dezenove horas e uns quebrados. Onde está a ligação? Armstrong rompeu o silêncio.

— E deveria haver alguma, senhor?

— Não deveria?

— Desculpe, senhor, não sei. Ainda.

— Isso é muito chato, Robert, muito chato mesmo.

— Sim, senhor.

— Tedioso, para falar a verdade, especialmente porque os poderes lá de cima já começaram a respirar pesadamente no meu pescoço. E quando isso acontece... — Sorriu para eles, e ambos reprimiram um arrepio. — Claro, Robert, eu lhe avisei ontem que nomes importantes poderiam estar envolvidos.

— Sim, senhor.

— Bem, Brian, estamos preparando você para um alto posto. Não acha que podia desviar sua atenção de corridas de carro, corridas de cavalo e rabos-de-saia, e aplicar alguns dos seus talentos incontestes na solução deste modesto enigma?

— Sim, senhor.

— Por favor, faça-o. E bem depressa. Está designado para o caso juntamente com o Robert, porque pode requerer a sua perícia... durante os próximos dias. Quero essa história solucionada muito, mas muito depressa mesmo, pois temos um ligeiro problema. Um dos nossos amigos americanos no consulado ligou para mim ontem à noite. Particularmente. — Fez um gesto na direção da pasta. — Este é o resultado. Com a dica dele interceptamos o original nas horas mortas... é claro que esta é uma cópia, o original foi devolvido, naturalmente, e o... — ele hesitou, escolhendo a palavra correta — mensageiro, um amador, diga-se de passagem, saiu sem ser incomodado. É um relatório, uma espécie de análise confidencial de notícias com diferentes cabeçalhos. São todos muito interessantes. É, são. Um deles diz "KGB na Ásia". Alega que têm uma rede de espionagem ultra-secreta, da qual nunca ouvi falar, de codinome "Sevrin", com gente hostil de alto nível em posições-chaves no governo, na polícia, no empresariado, ao nível dos tai-pans, espalhada por todo o sudeste asiático, especialmente aqui em Hong Kong.

Um assobio mudo escapou dos lábios de Brian Kwok.

— Isso mesmo — disse Crosse, amavelmente. — Se for verdade.

— E acha que é, senhor? — perguntou Armstrong.

— Francamente, Robert, talvez você esteja precisando de uma aposentadoria precoce por motivos de saúde: está de miolo mole. Se eu não estivesse preocupado, acha que me submeteria ao prazer infeliz de solicitar a assistência do DIC de Kowloon?

— Não, senhor. Desculpe, senhor.

Crosse virou a pasta para eles, e abriu-a na página inicial. Os dois homens soltaram uma exclamação abafada. Dizia: "Confidencial, somente para Ian Dunross. Entregue em mãos, relatório 3/1963. Uma única cópia".

— É — continuou Crosse. — É. Esta é a primeira vez que temos provas concretas de que a Struan tem seu próprio sistema de informações. — Sorriu para eles, que ficaram arrepiados. — Certamente me agradaria saber como os negociantes conseguem estar a par de todo tipo de informações muito íntimas que devíamos saber séculos antes deles.

— Sim, senhor.

— É óbvio que o relatório faz parte de uma série. Ah, sim, e este aqui está assinado pelo Comitê de Pesquisas da Struan 16, por um certo A. M. Grant... datado em Londres, há três dias.

Brian Kwok soltou nova exclamação.

— Grant? Seria o Alan Medford Grant, associado do Instituto de Planejamento Estratégico de Londres?

— Nota 10, Brian, não errou uma. É. O Sr. A. M. Grant em pessoa. O Sr. VIP, o conselheiro do governo de Sua Majestade para negócios sigilosos, que sabe distinguir alhos de bugalhos. Conhece-o, Brian?

Brian Kwok respondeu:

— Encontrei-o umas duas vezes na Inglaterra o ano passado, senhor, quando fiz o curso para oficiais superiores da Escola do Estado-Maior. Apresentou um trabalho sobre as considerações estratégicas avançadas no Extremo Oriente. Brilhante. Absolutamente brilhante.

— Felizmente ele é britânico e está do nosso lado. Mesmo assim... — Crosse soltou outro suspiro. — Espero sinceramente que ele esteja enganado desta vez, ou estamos mais atolados do que até eu imaginava. Parece que poucos dos nossos segredos ainda são segredos. Cansativo. Muito. E quanto a isso — tocou de novo na pasta —, estou realmente muito chocado.

— O original foi entregue, senhor? — quis saber Armstrong.

— Foi. A Dunross, pessoalmente, às quatro horas e dezoito minutos desta tarde. — A voz dele ficou ainda mais sedosa. — Felizmente, graças a Deus, minhas relações com nossos primos de além-mar são de primeira classe. Como as suas, Robert... e ao contrário das suas, Brian. Nunca realmente gostou dos Estados Unidos, não é, Brian?

— Não, senhor.

— Por quê, posso perguntar?

— Falam demais, senhor, e não dá para a gente lhes confiar nenhum segredo... são escandalosos, e acho que são burros.

Crosse sorriu apenas com os lábios.

— Não é motivo para não se dar bem com eles, Brian. Quem sabe o burro não é você?

— Sim, senhor.

— Não são todos burros, de jeito nenhum.

O diretor fechou a pasta, mas deixou-a virada para eles, que a fitavam, fascinados.

— Os americanos contaram como descobriram sobre a pasta, senhor? — perguntou Armstrong, sem pensar.

— Robert, creio realmente que sua sinecura em Kowloon deixou você de miolo mole. Devo recomendá-lo para uma aposentadoria por razões de saúde?

O grandalhão se crispou todo.

— Não, senhor. Obrigado, senhor.

— Nós lhes revelaríamos as nossas fontes?

— Não, senhor.

— Eles me diriam, se eu fosse grosso a ponto de lhes perguntar?

— Não, senhor.

— Essa história toda é muito tediosa, e cheia de desprestígio. Para mim. Não concorda, Robert?

— Sim, senhor.

— Ótimo. Ainda bem.

Crosse recostou-se na sua cadeira, balançando-a. Seus olhos não se desgrudavam dos dois homens. Ambos se perguntavam quem dera a dica, e por quê.

"Não pode ter sido a CIA", pensava Brian Kwok. "Teria interceptado a informação ela mesma, não precisa do sei para fazer seu trabalho sujo. Aqueles filhos da mãe malucos fariam qualquer coisa, pisariam em todo mundo", pensou, enojado. "Se não foram eles, quem?

"Quem?

"Deve ter sido alguém que pertence aos serviços de informações, mas que não pode, ou não pôde, interceptar o material, alguém que se dá bem, com segurança, com Crosse. Um funcionário consular? É possível, Johnny Mishauer, do Serviço Naval de Informações? Fora do seu campo. Quem? Não há muitos que... Ah, o sujeito do FBI, o protegido de Crosse! Ed Langan. Bem, e como Langan saberia desta pasta? Informações de Londres? É possível, mas o FBI não tem escritório lá. Se a dica veio de Londres, provavelmente a MI-5 ou 6 teriam sabido dela primeiro, e eles dariam um jeito de arranjar o material na fonte, e o teriam mandado por telex para nós, dando-nos o maior esporro por sermos incapazes no nosso próprio quintal. O avião do mensageiro pousou no Líbano? Parece que me lembro de um homem do FBI. Se não foi do Líbano ou de Londres, a informação deve ter vindo do próprio avião. Ah, um delator amistoso que estava presente e viu a pasta, ou a capa? Tripulação? Ayeeyah! Será que o avião era da twa ou da Pan Am? O FBI tem todo tipo de ligações, ligações estreitas... com todo tipo de empresas comuns, e acertadamente. Ah, sim. Há um vôo de domingo? Há. Pan Am, hora aproximada de chegada: vinte e trinta. Tarde demais para uma entrega noturna, na hora em que se chegasse ao hotel. Perfeito."

— É estranho que o mensageiro tenha vindo pela Pan Am e não pela boac... o vôo é muito melhor — disse, satisfeito com o modo oblíquo pelo qual sua mente funcionara.

— É, foi o que pensei — disse Crosse, serenamente. — Terrivelmente antibritânico da parte dele. Claro que a Pan Am sempre pousa na hora, enquanto com a pobre velha boac nunca se sabe, hoje em dia... — Fez um gesto de cabeça afável na direção de Brian. — Nota 10, de novo. É o primeiro da classe.

— Obrigado, senhor.

— O que mais você deduziu? Após uma pausa, Brian Kwok disse:

— Em troca da dica, o senhor concordou em dar a Langan uma cópia exata da papelada.

— E...?

— E lamenta ter cumprido o prometido. Crosse soltou um suspiro.

— Por quê?

— Só saberei depois de ter lido o que contém a pasta.

— Brian, você está realmente se superando, hoje. Ótimo. — Distraidamente, o diretor ficou brincando com a pasta, e os dois homens sabiam que ele os estava provocando, deliberadamente, mas nenhum sabia por quê. — Há uma ou duas coincidências muito curiosas em outras seções desta pasta. Nomes como Vincenzo Banastasio... locais de encontro como o Sinclair Towers... O nome Nelson Trading significa algo para qualquer um de vocês?

Ambos sacudiram a cabeça.

— Tudo muito curioso. Comunas à nossa direita, comunas à nossa esquerda... — Os olhos dele ficaram ainda mais duros.

— Parece que temos um homem mau nas nossas próprias fileiras, possivelmente a nível de superintendente.

— Impossível! — exclamou Armstrong, involuntariamente.

— Durante quanto tempo esteve conosco no sei, meu rapaz?

Armstrong quase se encolheu.

— Dois turnos, quase cinco anos, senhor.

— O espião Sorge era impossível, Kim Philby era impossível, santo Deus, Philby! — A súbita deserção para a Rússia soviética, em janeiro daquele ano, desse inglês, desse antigo agente destacado da MI-6, o serviço de informações militar britânico para espionagem e contra-espionagem além-mar, fizera correr ondas de choque por todo o mundo ocidental, especialmente porque, até recentemente, Philby fora primeiro-secretá-rio da embaixada britânica em Washington, responsável pela ligação com os departamentos de Estado e da Defesa dos Estados Unidos e a CIA sobre todos os assuntos de segurança, no mais alto nível. — Como, em nome de tudo o que é sagrado, podia ter sido um agente soviético por todos esses anos, e continuar despercebido? É impossível, não é, Robert?

— Sim, senhor.

— E no entanto continuou, e esteve por dentro dos nossos principais segredos durante anos. Sem dúvida, de 42 a 58. E onde começou a espionar? Deus nos ajude, em Cambridge, em 1931. Recrutado para o partido por outro arquitraidor, Burgess, também de Cambridge, e seu amigo Maclean, que ambos queimem no inferno por toda a eternidade. — Alguns anos antes, esses dois diplomatas do Ministério do Exterior, em importantes colocações (ambos haviam sido do Serviço de Informações, durante a guerra), haviam fugido abruptamente para a Rússia segundos antes de serem apanhados pelos agentes da contra-espionagem britânica, e o escândalo que se seguiu abalara os alicerces da Grã-Bretanha e de toda a OTAN. — Quem mais recrutaram eles?

— Não sei, senhor — respondeu Armstrong, cautelosamente. — Mas pode apostar que agora são todos VIPS no governo, no Ministério do Exterior, no setor da educação, na imprensa, especialmente na imprensa, e como Philby, todos muito bem entocados.

— Com as pessoas, nada é impossível. Nada. As pessoas são realmente terríveis. — Crosse deu um suspiro e endireitou levemente a pasta. — É. Mas é um privilégio pertencer ao sei, não é, Robert?

— Sim, senhor.

—. É preciso ser convidado, não é? Não se pode entrar como voluntário, pode?

— Não, senhor.

— Nunca lhe perguntei por que não ficou conosco, perguntei?

— Não, senhor.

— E então?

Armstrong gemeu intimamente e respirou fundo.

— É porque gosto de ser policial, senhor, não um homem de capa-e-espada. Gosto de trabalhar no DIC. Gosto de medir inteligência com o bandido, gosto da caçada e da captura, e depois de provar tudo no tribunal, segundo as regras... a lei, senhor.

— Ah, mas no sei não agimos assim, não é? Não estamos interessados em tribunais ou leis ou coisa nenhuma, só nos resultados?

— O SEI e a SB têm regras diferentes, senhor — disse Armstrong, com cuidado. — Sem eles, a colônia estaria liquidada.

— É, estaria sim. As pessoas são terríveis, e os fanáticos se multiplicam como vermes num cadáver. Você foi um bom agente secreto. Agora me parece que chegou a hora de pagar todas as horas e meses de treinamento cuidadoso que teve, às expensas de Sua Majestade.

O coração de Armstrong baqueou duas vezes, mas ele ficou calado, apenas prendeu a respiração, e agradeceu a Deus porque nem mesmo Crosse poderia transferi-lo do DIC contra a sua vontade. Ele detestara os períodos passados no sei — no começo, fora excitante, e o fato de ter sido escolhido representava um grande voto de confiança, mas logo perdeu a graça —, os ataques súbitos contra os bandidos, nas horas mortas, interrogatórios in camera, nenhuma preocupação sobre a existência de provas concretas, apenas resultados e uma ordem secreta e rápida de deportação assinada pelo governador, depois a viagem imediata até a fronteira, ou até um junco com destino a Formosa, sem apelação ou volta. Jamais.

— Não é o estilo britânico, Brian — sempre comentara com o amigo. — Sou a favor de um julgamento justo, público.

— E que diferença faz? Seja prático, Robert. Sabe que os sacanas são todos culpados... são o inimigo, agentes inimigos comunas que se valem de nossas regras para continuar aqui, destruindo-nos e à nossa sociedade... auxiliados por alguns advogados filhos da mãe que fariam qualquer coisa por trinta moedas de prata, ou menos. A mesma coisa no Canadá. Santo Deus, cortávamos um dobrado na RPMC, nossos próprios advogados e políticos eram o inimigo, e canadenses recentes, curiosamente sempre britânicos, líderes dos sindicatos socialistas que estavam sempre na dianteira de qualquer agitação. Que diferença faz, contanto que a gente se livre desses parasitas?

— Faz diferença, no meu modo de pensar. E aqui não há só bandidos comunistas. Há um bocado de bandidos nacionalistas que querem...

— Os nacionalistas querem que os comunas saiam de Hong Kong, só isso.

— Uma ova! Chang Kai-chek queria tomar posse da colônia, depois da guerra. Foi a marinha britânica que o deteve, depois que os americanos abriram mão de nós. Ainda deseja ser o nosso soberano. Nesse aspecto, não é diferente de Mao Tsé-tung!

— Se o sei não tiver a mesma liberdade que o inimigo, como vamos evitar que ele nos aniquile?

— Brian, meu rapaz, só disse que eu não gosto de pertencer ao sei. Você vai adorá-lo. Eu só quero ser um tira, não um maldito Bond!

"É", pensou Armstrong, sombriamente, "só um tira, no DIC, até me aposentar e voltar para a boa e velha Inglaterra. Santo Deus, tenho problemas de sobra com os amaldiçoados Lobisomens." Olhou para Crosse, mantendo a fisionomia cuidadosamente impassível, e esperou.

Crosse o observou, depois deu uma batidinha na pasta.

— Segundo isto aqui, estamos muito mais atolados na lama do que até mesmo eu imaginava. Muito deprimente. É. — Ergueu os olhos. — Este relatório se refere a outros, anteriores, enviados a Dunross. Gostaria de vê-los o mais depressa possível. Rápida e discretamente.

Armstrong olhou para Brian Kwok.

— Que tal Claudia Chen?

— Não. Nem pensar. De jeito nenhum.

— Então o que sugere, Brian? — perguntou Crosse. — Imagino que meu amigo americano vá ter a mesma idéia... e se ele foi mal orientado o bastante para passar adiante a pasta, uma cópia dela, para o diretor da CIA aqui... eu realmente me sentiria muito deprimido se eles chegassem lá primeiro de novo.

Brian Kwok pensou por um momento.

— Podíamos mandar uma equipe especializada aos escritórios executivos e à cobertura do tai-pan, mas levaria tempo... não sabemos onde procurar... e teria que ser à noite. Poderia ser complicado, senhor. Os outros relatórios, se é que existem, podem estar num cofre na Casa Grande, ou na casa dele em Shek-O... até mesmo no seu... apartamento particular no Sinclair Towers, ou num outro qualquer cuja existência desconhecemos.

— Deprimente — concordou Crosse. — Nosso serviço de informações está ficando espantosamente relaxado, na nossa própria jurisdição. Uma pena. Se fôssemos chineses, saberíamos tudo, não é, Brian?

— Não, senhor. Desculpe, senhor.

— Bem, se não sabe onde procurar, terá que perguntar.

— Senhor?

— Pergunte. Dunross sempre pareceu cooperar, no passado. Afinal, é seu amigo. Pergunte onde estão, peça para vê-los.

— E se ele disser que não, ou que foram destruídos?

— Use a sua cuca talentosa. Bajule-o um pouco, use de alguma arte, chegue-se a ele. E negocie.

— Temos algo no momento para negociar com ele?

— A Nelson Trading.

— Senhor?

— Parte consta do relatório. Mais uma informaçãozinha modesta que terei prazer em dar-lhes, mais tarde.

— Sim, senhor. Obrigado, senhor.

— Robert, o que você fez para encontrar John Chen e o Lobisomem, ou os Lobisomens?

— O DIC inteiro foi alertado, senhor. Pegamos o número do carro dele imediatamente e já o distribuímos num boletim. Entrevistamos a mulher dele, sra. Barbara Chen, entre outros... ela estava histérica quase o tempo todo, mas lúcida, muito lúcida sob a torrente de lágrimas.

— É?

— Sim, senhor. Ela... Bem, o senhor compreende.

— Sim.

— Disse que não era incomum o marido ficar fora até tarde... disse que tinha muitas reuniões de negócios até altas horas, e às vezes saía cedo para ir ao prado ou ao seu barco. Tenho absoluta certeza de que ela sabia que ele dava as suas voltinhas. Reconstituir os movimentos dele ontem à noite foi relativamente fácil até as duas da madrugada. Deixou Casey Tcholok no Old Vic por volta das dez e meia...

— Ele viu Bartlett ontem à noite?

— Não, senhor. Bartlett ficou dentro do seu avião em Kai Tak o tempo todo.

— John Chen falou com ele?

— Só se houvesse algum modo de ligar o avião ao nosso sistema telefônico. Nós o mantivemos sob vigilância até a batida de hoje de manhã.

— Continue.

— Depois de deixar a srta. Tcholok (a propósito, descobri que aquele era o Rolls-Royce do pai dele), ele tomou a balsa para o lado de Hong Kong, onde foi a um clube chinês particular perto da Queen's Road, e dispensou carro e chofer... — Armstrong pegou o seu bloquinho e consultou-o. —...Era o Tong Lau Club. Lá encontrou-se com um amigo e colega de negócios, Wo Sang Chi, e começaram a jogar mah-jong. Mais ou menos à meia-noite o jogo foi encerrado. Depois, com Wo Sang Chi e os outros dois jogadores, ambos amigos, Ta Pan Fat, um jornalista, e Po Cha Sik, corretor de valores, pegaram um táxi.

Robert Armstrong ouviu sua voz relatar os fatos, caindo no padrão policial familiar, e isso o deixou satisfeito e distraiu sua atenção da pasta e de todos os conhecimentos secretos que continha, e do problema do dinheiro de que necessitava com tanta pressa. "Tomara Deus eu pudesse ser apenas um policial", pensou, detestando o Serviço Especial de Informações e a necessidade da sua existência.

— Ta Pan Fat saltou do táxi primeiro, em sua casa na Queen's Road, depois Wo Sang Chi saltou na mesma rua, logo a seguir. John Chen e Po Cha Sik — achamos que ele tem ligações com as tríades, está sendo investigado com muito cuidado — foram para a Garagem Ting Ma, na Sunning Road, Causeway Bay, para apanhar o carro de John Chen, um Jaguar 1960. — Novamente consultou o bloquinho, desejando ser preciso, achando os nomes chineses confusos como sempre, mesmo depois de tantos anos. — Um empregado da garagem, Tong Ta Wey, confirmou isso. Depois, John Chen levou o amigo Po Cha Sik de carro até sua casa, Village Street, 17, no Happy Valley, onde o amigo saiu do veículo. Entrementes, Wo Sang Chi, companheiro de negócios de John Chen, que, curiosamente, dirige a companhia de transportes da Struan, que tem o monopólio dos carretos de e para Kai Tak, fora para o Restaurante Sap Wah, na Fleming Road. Declara que, quando já estava lá há trinta minutos, John Chen veio se encontrar com ele, e saíram do restaurante no carro de John, pretendendo apanhar umas dançarinas na rua e levá-las para cear...

— Ele nem pensou em ir a um cabaré e pagar pela companhia das garotas? — perguntou Crosse, pensativo. — Quanto custaria, Brian?

— Sessenta dólares de Hong Kong, senhor, àquela hora da noite.

— Sei que Phillip Chen tem reputação de ser avarento, mas o filho é igual?

— Àquela hora da noite, senhor — explicou Brian Kwok —, muitas moças começam a deixar os clubes, se ainda não arrumaram um parceiro. A maioria dos clubes fecha por volta da uma hora. O domingo não é um dia rendoso, senhor. É bem comum rodar por aí, pois não há necessidade de desperdiçar sessenta dólares, talvez duas ou três vezes sessenta dólares, porque as garotas decentes andam aos pares, ou trios, e comumente se leva duas ou três para jantar primeiro. Não há por que desperdiçar todo esse dinheiro, não é, senhor?

— Você roda por aí, Brian?

— Não, senhor. Não tenho necessidade... não, senhor. Crosse soltou um suspiro e voltou-se para Armstrong.

— Continue, Robert.

— Bem, senhor, eles não conseguiram pegar nenhuma moça, e foram para o Copacabana Night Club, no Sap Chuk Hotel, na Gloucester Road, para cear. Chegaram lá por volta da uma hora, e saíram por volta de uma e quarenta e cinco. Wo Sang Chi disse que viu John Chen entrar no seu carro, mas que não o viu sair dirigindo... depois foi a pé para casa, pois mora ali perto. Disse que John Chen não estava alto, ou de mau humor, nada disso, mas parecia animado, embora, anteriormente, no Tong Lau Club, parecesse irritadiço e quisesse interromper logo o jogo de mah-jong. E é o fim de tudo. Daí em diante, John Chen não foi mais visto pelos amigos... nem pela família.

— Ele contou a Wo Sang Chi aonde iria?

— Não. Wo Sang Chi nos disse que imaginara que tivesse ido para casa, mas depois acrescentou: "Quem sabe foi visitar a namorada?" Perguntamos quem era, mas ele disse que não sabia. Depois de muito insistirmos, falou que parecia lembrar um nome, Flor Fragrante, mas nada de endereço ou telefone... só isso.

— Flor Fragrante? Isso poderia se aplicar a uma infinidade de damas da noite.

— Sim, senhor.

Crosse ficou imerso em pensamentos, por um momento.

— Por que motivo Dunross iria querer eliminar John Chen?

Os dois policiais fitaram boquiabertos o seu superior.

— Ponha isso no seu cérebro de ábaco, Brian.

— Sim, senhor, mas não há motivo. John Chen não representa ameaça para Dunross, de modo algum... mesmo que se tornasse o representante nativo. Na Casa Nobre, o tai-pan detém todo o poder.

— É?

— Ê. Por definição. — Brian Kwok hesitou, desconcertado de novo. — Bem, senhor, sim... eu... na Casa Nobre, sim.

Crosse voltou a atenção para Armstrong.

— E então?

— Nenhum motivo que eu possa imaginar, senhor. Ainda.

— Bem, continue tentando.

Crosse acendeu um cigarro, e Armstrong sentiu violentamente ânsia de fumar. "Nunca vou manter minha promessa", pensou. "Sacana maldito, Crosse, a cruz-que-todos-temos-que-carregar! Que diabo está pensando?" Viu Crosse oferecer-lhe um maço de Sênior Service, a marca que costumava fumar. "Não se iluda", pensou, "a marca que você ainda fuma."

— Não, senhor, obrigado — ouviu-se dizer, agulhadas de dor no estômago, no corpo todo.

— Não está fumando, Robert?

— Não, senhor, parei... estou tentando parar.

— Admirável! Por que motivo Bartlett iria querer eliminar John Chen?

Novamente, os dois policiais o fitaram, embasbacados. Depois Armstrong perguntou, com voz rouca:

— Sabe por quê, senhor?

— Se soubesse, por que lhes perguntaria? Cabe a vocês descobrir. Há uma ligação num canto qualquer. Coincidências demais, a coisa está certinha demais, simples demais... e fedendo demais. É, isso está me cheirando a envolvimento do KGB, e quando isso acontece nos meus domínios, devo confessar que fico irritado.

— Sim, senhor.

— Então, até agora tudo bem. Ponham a sra. Phillip Chen sob vigilância. É bem provável que esteja implicada, de alguma forma. As vantagens para ela são realmente bastante compensadoras. Sigam Phillip Chen também, por um ou dois dias.

— Isso já foi feito, senhor. Com os dois. Quanto a Phillip Chen, não é que suspeite dele, mas só porque acho que eles farão o de costume: não cooperar, ficar na moita, negociar em segredo, pagar em segredo e soltar um suspiro de alívio quando tudo estiver terminado.

— Exatamente. Por que será que esses sujeitos, não importa o quanto sejam educados, acham que são muito mais espertos do que nós, e não nos ajudam a fazer o trabalho que somos pagos para fazer?

Brian Kwok sentiu os olhos de aço penetrantes sobre si, e o suor escorreu pelas suas costas. "Controle-se", pensou. "Esse sacana não passa de um demônio estrangeiro, incivilizado, comedor de bosta, coberto de merda, sem mãe, saturado de dew neh loh mob, descendente de um macaco."

— É um velho costume chinês, que certamente o senhor conhece — retrucou, cortesmente —, desconfiar de todos os policiais, de todos os funcionários do governo... eles têm quatro mil anos de experiência, senhor.

— Concordo com a hipótese, mas com uma exceção. Os britânicos. Provamos, sem margem de dúvida, que somos dignos de confiança, podemos governar, e, de um modo geral, nossa burocracia é incorruptível.

— Sim, senhor.

Crosse fitou-o por um momento, tirando baforadas do seu cigarro. Depois, falou:

— Robert, sabe o que disseram ou conversaram John Chen e a srta. Tcholok?

— Não, senhor. Ainda não pudemos interrogá-la... passou o dia inteiro na Struan. Poderia ter importância?

— Vai à festa de Dunross, logo mais à noite?

— Não, senhor.

— Brian?

— Sim, senhor.

— Ótimo. Robert, estou certo de que Dunross não vai se importar se eu o levar comigo, venha me buscar às oito. Todas as pessoas que contam em Hong Kong estarão lá... você pode ficar de ouvidos abertos e enfiar o nariz em qualquer canto. — Sorriu do seu comentário, e não se importou porque nenhum dos dois sorriu com ele. — Leiam agora o relatório. Volto logo. E Brian, por favor, não falhe hoje à noite. Seria realmente muito chato.

— Sim, senhor. Crosse saiu da sala.

Quando ficaram a sós, Brian Kwok enxugou a testa.

— Esse sacana me aterroriza.

— A mim, também, meu chapa. Sempre aterrorizou.

— Será que mandaria mesmo uma equipe invadir a Struan? — perguntou Brian Kwok, incrédulo. — O âmago dos âmagos da Casa Nobre?

— Claro. Até lideraria a equipe, pessoalmente. Este é o seu primeiro período no sei, meu rapaz, portanto você não o conhece como eu. Aquele sacana lideraria uma equipe de assassinos até o inferno, se achasse isso suficientemente importante. Aposto que foi ele próprio que pegou a pasta. Santo Deus, atravessou a fronteira duas vezes, que eu saiba, para bater papo com um agente amistoso. Foi sozinho, imagine só!

Brian soltou uma exclamação abafada.

— E o governador sabe disso?

— Acho que não. Teria uma hemorragia, e se a MI-6 soubesse, ele seria assado vivo, e Crosse seria mandado para a Torre de Londres. Ele conhece segredos demais para se arriscar desse jeito... mas é o Crosse, e não há nada que se possa fazer a respeito.

— Quem era o agente?

— O nosso homem em Cantão.

— Wu Fong Fong?

— Não, um novo; pelo menos era novo no meu tempo. Do exército.

— Capitão Ta Quo Sa? Armstrong deu de ombros.

— Esqueci. Kwok sorriu.

— É isso aí.

— Mesmo assim, o fato é que Crosse atravessou a fronteira. Ele faz as suas próprias leis.

— Puxa vida, você nem pode ir a Macau porque pertenceu ao sei há dois anos, e ele cruza a fronteira. É louco de se arriscar assim.

— É. — Armstrong começou a imitar Crosse. — "E como é que os comerciantes sabem das coisas antes de nós, meu caro rapaz? "É simples" — disse, respondendo a si mesmo, e sua voz voltou ao normal. — Eles gastam dinheiro. Gastam porradas de dinheiro, enquanto nós só temos brisa para gastar. Ele sabe disso, eu sei, e o mundo todo sabe. Santo Deus, como é que o FBI, a CIA, o KGB ou a CIA coreana trabalham? Gastando dinheiro! Diabos, mas é fácil ter Alan Medford Grant na sua equipe. Dunross o contratou. Um adiantamento de dez mil libras, isso compraria um bocado de relatórios. É mais do que o suficiente, quem sabe foi até menos. Quanto nos pagam? Duas mil libras por ano por trezentos e sessenta e seis dias de vinte e cinco horas, e um patrulheiro ganha quatrocentas libras. Imagine a burocracia que teríamos que enfrentar para obter dez mil libras secretas para comprar informações de um homem. Onde o FBI, a CIA e o maldito KGB estariam, se não tivessem fundos ilimitados? Diabos — acrescentou com azedume —, levaríamos seis meses para obter o dinheiro, se conseguíssemos obtê-lo, enquanto Dunross e cinqüenta outros tiram esse dinheiro da "caixinha". — O grandalhão ficou largado na cadeira, olheiras escuras, olhos vermelhos, as maçãs do rosto marcadas pela luz do teto. Lançou um olhar para a pasta em cima da mesa, à sua frente, mas sem tocá-la, imaginando as notícias tenebrosas que devia conter. — É fácil para os Dunrosses do mundo — comentou.

Brian Kwok concordou, enxugou as mãos e guardou o lenço.

— Dizem que Dunross tem um fundo secreto, o fundo do tai-pan, iniciado por Dirk Struan com o dinheiro obtido quando incendiou e saqueou Foochow, um fundo que apenas o tai-pan atual pode usar para esse tipo de coisa, para h'eung yau, pagamentos especiais, qualquer coisa... quem sabe até um assassinatozinho. Dizem que chega a milhões.

— Também ouvi esse boato. É. Tomara Deus... ora, deixe pra lá. — Armstrong estendeu a mão para a pasta, hesitou, depois se levantou e se dirigiu para o telefone. — As primeiras coisas em primeiro lugar — disse ao amigo chinês, com um sorriso sardônico. — Primeiro vamos arrochar alguns VIPS. — Ligou para o QG da polícia, em Kowloon. — Armstrong... ligue-me com o sargento comissionado Tang-po, por favor.

— Boa noite, senhor. Sim, senhor? — a voz do sargento comissionado Tang-po era cálida e amistosa.

— Boa noite, sargento — respondeu ele, docemente. — Preciso de informações. Preciso saber a quem aquelas armas eram destinadas. Preciso saber quem são os raptores de John Chen. Quero John Chen, ou o corpo dele, de volta em três dias. E quero o Lobisomem, ou Lobisomens, atrás das grades, rapidinho.

Fez-se uma ligeira pausa.

— Sim, senhor.

— Por favor, espalhe a notícia. O Grande Pai Branco está muito zangado, de verdade. E quando ele fica só um pouquinho zangado, os superintendentes são enviados para outros comandos, e os inspetores também... até os sargentos, mesmo os sargentos comissionados de primeira classe. Alguns chegam a ser rebaixados para simples guardas e mandados para a fronteira. Alguns podem até ser exonerados ou deportados ou mandados para a prisão. Certo?

Fez-se uma pausa maior.

— Sim, senhor.

— E quando ele está realmente muito zangado, os homens sensatos fogem, antes que o combate à corrupção desabe sobre os culpados, e até sobre os inocentes.

Outra pausa.

— Sim, senhor. Vou espalhar a notícia, senhor, imediatamente. Sim, imediatamente.

— Obrigado, sargento. O Grande Pai Branco está muito zangado, de verdade. Ah, mais uma coisa. — A voz dele tornou-se mais seca. — Talvez você deva pedir ajuda aos seus irmãos sargentos. Eles certamente entenderão, o meu modesto problema é deles também. — Passou a falar em cantonense. — Quando os Dragões arrotam, Hong Kong inteira defeca. Heya?

Uma pausa mais longa.

— Cuidarei do caso, senhor.

— Obrigado.

Armstrong pôs o fone no gancho. Brian Kwok sorriu.

— Isso vai lhe contrair alguns músculos do esfíncter.

O inglês assentiu e sentou-se de novo, mas sua fisionomia continuava dura.

— Não gosto de apelar para isso com freqüência... para falar a verdade, é a segunda vez que o faço, mas não tenho opção. Ele deixou isso bem claro, assim como o Velho. É melhor você fazer o mesmo com suas fontes.

— Claro. "Quando os Dragões arrotam..." Estava fazendo trocadilho com os Cinco Dragões lendários?

— Estava.

Agora, o belo rosto de Brian Kwok se acomodara num molde — frios olhos negros na pele dourada, o queixo quadrado quase imberbe.

— Tang-po é um deles?

— Não sei, ao certo. Sempre achei que era, embora sem nada em que me basear. Não, não estou certo, Brian. Ele é?

— Não sei.

— Bem, não importa que seja ou não. A notícia chegará a um deles, e é só o que me interessa. Pessoalmente, estou convencido de que os Cinco Dragões existem, que são cinco sargentos chineses, talvez até sargentos de polícia, que controlam toda a jogatina ilegal de Hong Kong, e provavelmente, possivelmente, redes de proteção, alguns cabarés e garotas... cinco entre onze. Cinco sargentos superiores entre onze possibilidades. Hem?

— Eu diria que os Cinco Dragões são reais, Robert, talvez haja mais, talvez menos, mas toda a jogatina de rua é controlada pela polícia.

— Provavelmente controlada por membros chineses da nossa Real Força Policial, meu rapaz — disse Armstrong, corrigindo-o. — Ainda não temos prova concreta alguma... e há anos que estamos atrás dela. Duvido que jamais consigamos provar a coisa. — Abriu um sorriso. — Talvez você consiga, quando for comissário assistente.

— Corta essa, Robert, pelo amor de Deus.

— Diabos, você tem apenas trinta e nove anos, tem o curso especial de figurão da Escola do Estado-Maior, e já é superintendente. Aposto cem contra dez que você vai terminar nesse posto.

— Fechado.

— Devia ter apostado cem mil — falou Armstrong, fingindo azedume. — Aí você não teria aceito.

— Experimente para ver.

— Não posso. Quem sou eu para perder todo esse tutu? Você pode ser morto, ou coisa parecida, neste ano ou no próximo, ou pedir demissão... mas se nada disso acontecer, vai para o posto antes de se aposentar, presumindo-se que queira chegar lá.

— Nós dois.

— Eu não... sou um inglês fanático demais. — Armstrong bateu-lhe nas costas, satisfeito. — Vai ser um grande dia. Mas você também não vai acabar com os Dragões... mesmo que consiga provar a coisa, do que duvido.

— Não?

— Não. Pouco se me dá a jogatina. Todos os chineses querem jogar, e se alguns sargentos chineses da polícia controlam a jogatina ilegal de rua, na sua maior parte ela será limpa e justa, embora ilegal pra caramba. Se eles não a controlarem, as tríades o farão, e então os pequenos grupos de sacanas nojentos que conseguimos manter afastados com tanto cuidado vão se unir de novo num único e grande tong, e aí teremos um problema de verdade. Você me conhece, rapaz, não sou cara de balançar nenhum coreto, e é por isso que não chegarei a comissário assistente. Gosto do status quo. Os Dragões controlam a jogatina, e assim mantemos as tríades divididas... e enquanto a polícia se mantiver unida e for a tríade mais forte de Hong Kong, sempre teremos paz nas ruas, uma população bem-comportada e quase nenhum crime, crime violento.

Brian Kwok fitou-o.

— Você acredita mesmo nisso, não é?

— Acredito. No momento, de uma maneira meio estranha, os Dragões são um dos nossos esteios mais fortes. Sejamos realistas, Brian, só os chineses podem governar os chineses. O status quo também é bom para eles... o crime violento é ruim. E assim, obtemos ajuda quando precisamos, e às vezes, ajuda que nós, demônios estrangeiros, provavelmente não conseguiríamos obter de outra maneira. Não sou favorável à corrupção deles, ou à infração da lei, de modo algum... ou ao suborno e a todos os outros golpes baixos que temos que dar, ou aos delatores. Mas qual a força policial do mundo que pode operar sem sujar as mãos algumas vezes, e sem os alcagüetes filhos da mãe? Assim, o mal que os Dragões representam preenche uma necessidade existente aqui, acho eu. Hong Kong é a China, e a China é um caso especial. Enquanto for só o jogo ilegal, pouco se me dá. Se estivesse nas minhas mãos, tornaria o jogo legal hoje mesmo, mas arrasaria com qualquer um por rede de proteção a lojas, cabarés, garotas, ou seja lá o que for. Não suporto cafetão, como bem sabe... O jogo já é outra história. Como se pode impedir que um chinês jogue? Não se pode. Assim, tornemo-lo legal, e deixemos todo mundo feliz. Há quantos anos a polícia de Hong Kong vem aconselhando isso, e todo ano a proposta é rejeitada? Que eu saiba, vinte anos. Mas, ah, não, e por quê? Macau. Claro como a água. A boa e velha Macau portuguesa se alimenta do jogo ilegal e do contrabando de ouro, e é isso o que a mantém viva, e nós não podemos nos dar ao luxo, nós, o Reino Unido, não podemos nos dar ao luxo de deixar o nosso velho aliado entrar pelo cano.

— Robert Armstrong para primeiro-ministro!

— Vá tomar no rabo! Mas é verdade. O que recolhemos com o jogo ilegal é o nosso único dinheiro para suborno... um bocado da grana vai para o pagamento da nossa rede de informantes. Onde mais podemos conseguir esse dinheiro? Com o nosso governo agradecido? Não me faça rir! De alguns dólares extras de impostos da população agradecida que protegemos? Ah!

— Talvez. Talvez não, Robert. Mas o tiro vai sair pela culatra, qualquer dia desses. Os pagamentos especiais... o dinheiro solto e sem origem definida que, "por acaso", vai parar numa gaveta de delegacia? Não é?

— É, mas não no meu bolso, porque não estou metido nisso, não recebo nada por fora, e nem a grande maioria, quer seja britânica, quer chinesa. Entrementes, como podemos nós, trezentos e vinte e sete pobres demônios estrangeiros policiais superiores, controlar oito mil e tantos policiais subalternos e tiras, e mais três milhões e meio de filhos da mãe civilizados que nos odeiam? É essa a questão.

Brian Kwok riu. Foi uma risada contagiosa, e Armstrong riu com ele, acrescentando:

— Vá tomar no rabo de novo, por provocar o meu desabafo.

— Da mesma forma. Como é, quem vai ler primeiro, você ou eu?

Armstrong olhou para a pasta que tinha nas mãos. Era fina continha doze páginas datilografadas em espaço 1, e mais parecia um relatório confidencial de análise de notícias, com tópicos sob cabeçalhos diferentes. A página do índice dizia: "Parte 1: Previsão política e comercial do Reino Unido. Parte 2: O KGB na Ásia. Parte 3: Ouro. Parte 4: Progressos recentes da CIA".

Com ar cansado, Armstrong pôs os pés em cima da mesa e se acomodou mais confortavelmente na cadeira. Depois, mudou de idéia e entregou a pasta ao outro.

— Tome, leia você. Lê mais depressa do que eu, mesmo. Já estou cansado de ler sobre desgraças.

Brian Kwok pegou a pasta, mal contendo a impaciência, o coração batendo forte e pesadamente. Abriu-a e começou a ler.

Armstrong observava-o. Viu o rosto do amigo se modificar imediatamente e perder a cor. Aquilo o perturbara demais. Brian Kwok não se chocava com facilidade. Observou-o enquanto lia até o fim sem fazer comentário, depois voltava a reler um ou outro parágrafo, até que fechou a pasta, devagar.

— É tão ruim assim? — falou Armstrong.

— É pior. Parte dele... bem, se não fosse assinado por A. Medford Grant, eu diria que ele estava doido. Alega que a gia tem uma ligação séria com a Máfia, que estão tramando e já tramaram o assassinato de Castro, estão com força total no Vietnam, envolvidos em drogas e sabe lá Deus o que mais... tome... leia você mesmo.

— E quanto ao agente inimigo infiltrado, ao "toupeira"?

— Temos um toupeira, sem dúvida. — Brian reabriu a pasta e achou o parágrafo que queria. — Escute: "Não há dúvida de que atualmente existe um agente comunista de alto nível infiltrado na polícia de Hong Kong. Documentos altamente secretos que foram trazidos para o nosso lado pelo general Hans Richter (segundo em comando do Departamento de Segurança Interna da Alemanha Oriental), quando se bandeou para nós em março deste ano, afirmam claramente que o codinome do agente é 'Nosso Amigo', e que está na posição há pelo menos dez, ou talvez quinze anos. O contato dele é provavelmente um oficial do KGB em Hong Kong, fazendo-se passar por um empresário amigável em visita, vindo dos países da Cortina de Ferro, possivelmente por um banqueiro ou um jornalista, ou um marujo de um dos cargueiros soviéticos visitando Hong Kong ou sendo consertado aqui. Entre outras informações documentadas que agora sabemos que Nosso Amigo forneceu ao inimigo estão: todos os canais de rádio reservados, todos os números de telefone particulares do governador, chefe de polícia e altos escalões do governo de Hong Kong, juntamente com dossiês muito particulares sobre a maioria deles..."

— Dossiês? — interrompeu Armstrong. — Estão incluídos?

— Não.

— Merda! Continue, Brian.

— "...sobre a maioria deles; os planos de batalha secretos da polícia para enfrentar uma insurreição provocada pelos comunistas, ou uma repetição dos tumultos de Kowloon; cópias dos dossiês particulares de todos os policiais acima do posto de inspetor; os nomes dos seis principais agentes secretos nacionalistas do Kuomintang, operando em Hong Kong sob a autoridade atual do general Jen Tang-wa (Apêndice A); uma lista detalhada dos agentes do Serviço Especial de Informações em Kwantung, sob a autoridade geral do agente graduado Wu Fong Fong (Apêndice B)."

— Meu Deus! — Armstrong soltou uma exclamação abafada. — É melhor tirarmos o velho Fong Fong e o pessoal dele de lá, rapidinho.

— Wu Tat-sing está na lista? Kwok examinou o apêndice.

— Está. Ouça, o parágrafo termina assim: "...O comitê chegou à conclusão de que, até que este traidor seja eliminado, a segurança interna de Hong Kong está em perigo. Ignoramos por que esta informação ainda não foi passada adiante à própria polícia. Imaginamos que isso tenha ligação com a atual infiltração política soviética na administração do Reino Unido, em todos os níveis, o que permite a existência de Philbys e que informações como estas sejam omitidas, suavizadas ou até alteradas (o que foi material do Estudo 4/1962). Sugerimos que este relatório, ou parte dele, chegue imediatamente por vias indiretas aos ouvidos do governador ou do comissário de polícia de Hong Kong (se os considerar dignos de confiança)". — Brian Kwok ergueu os olhos, a mente em torvelinho. — Tem mais umas coisinhas aqui. Deus, a situação política no Reino Unido, e depois Sevrin... Leia. — Sacudiu a cabeça, desalentado. — Pombas, se isso é verdade... estamos atolados até o pescoço. Deus do céu!

Armstrong praguejou baixinho.

— Quem? Quem poderia ser o espião? Tem que ser lá de cima. Quem?

Depois de um grande silêncio, Brian disse:

— O único... o único que poderia saber disso tudo é o próprio Crosse.

— Ora, qual é, pela madrugada!

— Pense bem, Robert. Ele conhecia Philby. Não freqüentou Cambridge, também? Ambos têm origens semelhantes, estão na mesma faixa de idade, pertenceram à Inteligência durante a guerra... como Burgess e Maclean. Se Philby conseguiu tapear o mundo por todos esses anos, por que não Crosse?

— Impossível!

— Quem mais, senão ele? Não pertenceu à MI-6 a vida toda? Não passou um período trabalhando aqui, no começo dos anos 50, e não foi trazido de volta para organizar o nosso sei como setor separado da sb há cinco anos? Não tem sido o diretor, desde então?

— Isso não prova nada.

— É?

Fez-se um longo silêncio. Armstrong observava o amigo atentamente. Conhecia-o bem demais e sabia que falava sério.

— O que você sabe? — perguntou, inquieto.

— Digamos que Crosse seja homossexual.

— Você está completamente louco — explodiu Armstrong. — Ele é casado e... e pode ser um filho da mãe safado, mas nunca houve sequer um murmúrio a respeito disso, nunca.

— É, mas ele não tem filhos, a mulher mora quase permanentemente na Inglaterra, e, quando está aqui, dormem em quartos separados.

— Como sabe?

— A amab sabe, portanto, se eu quisesse saber, seria fácil descobrir.

— Isso não prova nada. Muita gente tem quartos separados. Está errado sobre Crosse.

— Digamos que eu pudesse apresentar-lhe provas?

— Que provas?

— Onde vai sempre passar parte da sua licença? Nas montanhas Cameron, na Malásia. Digamos que tenha um amigo ali, um jovem malaio, um conhecido pervertido.

— Eu precisaria de fotografias, e ambos sabemos que elas podem ser adulteradas — disse Armstrong, asperamente. — Precisaríamos de fitas gravadas, e ambos sabemos que também podem ser adulteradas. O jovem? Isso nada prova... é o truque mais antigo do mundo apresentar falso testemunho e falsas testemunhas. Nunca houve nem mesmo uma insinuação... e ainda que seja "gilete", isso nada prova... nem todos os pervertidos são traidores.

— Não. Mas todos os pervertidos são um excelente alvo para a chantagem. E se ele for, é altamente suspeito. Altamente suspeito. Certo?

Armstrong olhou à sua volta, inquieto.

— Ele pode ter posto escutas na sala.

— E se tiver?

— Se tiver e for verdade, pode acabar com a gente num piscar de olhos. Sendo verdade ou não.

— Pode ser... mas se ele for o espião, saberá que nós estamos sabendo, e se não for, rirá na nossa cara, e eu estou fora do sei. De qualquer maneira, Robert, ele não pode acabar com todos os chineses da força policial.

Armstrong fitou-o.

— O que quer dizer com isso?

— Talvez também haja uma pasta sobre ele. Talvez todo chinês, de cabo para cima, já a tenha lido.

— Como?

— Qual é, Robert? Você sabe como os chineses são unidos. Talvez haja uma pasta, tal...

— Está querendo dizer que estão todos organizados numa irmandade? Uma tong, uma sociedade secreta? Uma tríade dentro da polícia?

— Eu disse "talvez". Tudo isso são suposições, Robert. Eu disse "talvez" e "pode ser".

— Quem é o Grande Dragão? Você?

— Nunca disse que havia tal agrupamento. Disse "talvez". — Existem outras pastas? Sobre mim, por exemplo?

— Talvez.

— E?

— E, se houvesse, Robert — disse Brian Kwok, suavemente —, ela diria que você é um excelente policial, incorrupto, que jogou muito na Bolsa, e jogou mal, e precisava de vinte e tantos mil dólares para pagar umas dívidas urgentes... e mais algumas coisinhas.

— Que coisinhas?

— Estamos na China, amigão. Sabemos de quase tudo o que se passa com os quai loh. Temos que sobreviver, não?

Armstrong olhou para ele, de modo estranho.

— Por que não me contou antes?

— Não lhe contei nada, agora. Nada. Disse "talvez" e repito: "talvez". Mas se tudo isso for verdade... — entregou a pasta e enxugou o suor do lábio superior. — Leia você mesmo. Se for verdade, estamos no mato sem cachorro e teremos que agir muito rapidamente. O que eu falei foram apenas suposições. Mas não quanto a Crosse. Escute, Robert, aposto mil... mil contra um que o toupeira é ele.

 

                   19h43m

Dunross acabou de ler a pasta de capa azul pela terceira vez. Leu-a logo que chegou, como sempre, depois mais uma vez, enquanto se dirigia para o palácio do governador. Fechou a capa azul e pousou-a por um momento no colo, a mente tumultuada. Agora, estava no seu escritório no segundo andar da Casa Grande, que se situava num cômodo na parte superior do Pico, os janelões envidraçados dando para jardins iluminados por holofotes, e depois, bem lá embaixo, a cidade e a imensidão do porto.

O relógio de pé, antigo, bateu um quarto para as oito.

"Faltam quinze minutos", pensou. "Depois, nossos convidados chegam, a festa começa e todos tomamos parte numa nova charada. Ou quem sabe apenas continuamos com a mesma."

A sala tinha teto alto e lambris de carvalho velho, cortinas de veludo verde-escuro e tapetes de seda chineses. Era um aposento masculino, confortável, antigo, um pouco gasto e decorado com carinho. Ouviu as vozes abafadas dos criados, lá embaixo. Um carro subiu o morro e passou adiante.

O telefone tocou.

— Sim? Ah, alô, Claudia.

— Ainda não consegui falar com Tsu-yan, tai-pan. Não estava no escritório. Já ligou para o senhor?

— Não, ainda não. Continue tentando.

— Certo. Até daqui a pouco. Tchau.

Estava sentado numa poltrona funda, de braços e espaldar alto, e usava um dinner jacket com o nó na gravata ainda por dar. Ficou olhando distraído pela janela, a vista sempre agradável. Mas naquele dia estava cheio de maus pressentimentos, pensando em Sevrin, no traidor, e em todas as outras coisas más que o relatório previra.

O que fazer?

— Rir — falou em voz alta. — E lutar.

Levantou-se e caminhou com passos suaves até o retrato a óleo de Dirk Struan que estava na parede, acima da cornija da lareira. A moldura era pesada, dourada e velha, o dourado estava lascado aqui e ali, e havia dobradiças secretas num dos lados. Afastou-a da parede e abriu o cofre que a tela escondia. No cofre havia muitos papéis, alguns amarrados com capricho com fitas escarlates, alguns antigos, outros novos, umas poucas caixinhas, uma Mauser carregada e bem lubrifiçada presa a um dos lados do cofre, uma caixa de munição, uma imensa Bíblia antiga com as armas da Struan gravadas no belo couro velho, e sete pastas de capa azul, semelhantes à que trazia nas mãos.

Pensativo, colocou a pasta ao lado das outras, em seqüência. Fitou-as por um momento, e começou a fechar o cofre, mas mudou de idéia quando seus olhos depararam com a Bíblia antiga. Acariciou-a de leve, depois tirou-a de lá e abriu-a. Presas à grossa folha de rosto com lacre velho, havia as metades de duas velhas moedas de bronze chinesas, partidas grosseiramente. Era óbvio que, antigamente, tinha havido quatro daquelas meias moedas, pois ainda havia a impressão das duas que faltavam, e os restos do mesmo lacre vermelho presos ao papel antigo. A caligrafia que encabeçava a página era linda e nítida: "Juro pelo Senhor Deus, que, quem quer que seja que apresente a outra parte de qualquer dessas moedas, eu lhe concederei qualquer coisa que pedir". Estava assinado: "Dirk Struan, 10 de junho de 1841", e abaixo da assinatura dele havia a de Culum Struan e as de todos os outros tai-pans, e o último nome era Ian Dunross.

Ao lado do primeiro espaço, onde antes houvera uma moeda, fora escrito: "Wu Fang Choi, pago parcialmente, 16 de agosto, Ano do Nosso Senhor de 1841", e havia novamente a assinatura de Dirk Struan, com a co-assinatura de Culum Struan logo abaixo, e, datado de 18 de junho de 1845, "pago integralmente". Ao lado do segundo: "Sun Chen-yat, pago integralmente, 10 de outubro de 1911", assinado, ousadamente, pela Bruxa Struan.

"Ah", disse Dunross para si mesmo, perturbado, "que bela arrogância! Ser segura ao ponto de assinar o livro daquele jeito, e não como Tess Struan, para que as futuras gerações vissem.

"Quantas gerações mais?", perguntou-se. "Quantos tai-pans mais terão que assinar cegamente, e fazer o juramento sagrado de cumprir os desejos de um homem morto há quase um século e meio?"

Pensativo, correu os dedos pelas beiradas irregulares das duas meias moedas que restavam. Depois de um momento, fechou a Bíblia com firmeza, colocou-a de novo no lugar, tocou-a uma vez para dar sorte e trancou o cofre. Girou a tela de volta para o lugar, e fitou o quadro, agora de pé, com as mãos enfiadas nos bolsos, diante da cornija da lareira, o carvalho velho e pesado entalhado com as armas da Struan, lascado e quebrado aqui e ali, um velho pára-fogo chinês em frente da imensa lareira.

Aquele retrato a óleo de Dirk Struan era o seu preferido. Quando se tornara tai-pan, ele o havia tirado da Galeria Longa e o pendurara ali no lugar de honra, em substituição ao retrato da Bruxa Struan que encimara a lareira do escritório do tai-pan desde que existira uma Casa Grande. Ambos tinham sido pintados por Aristotle Quance. No retrato, Dirk Struan estava de pé diante de uma cortina carmesim, ombros largos, arrogante, seu casaco preto bem-talhado, o colete, a gravata e a camisa de babados brancos e bem-talhados. Sobrancelhas cerradas, nariz forte, cara raspada, cabelos avermelhados e suíças, lábios encrespados, e podia-se sentir os seus olhos penetrantes, o verde deles realçado pelo preto, o branco e o escarlate.

Dunross deu um meio sorriso, sem medo, sem inveja, mais acalmado do que qualquer outra coisa pelo olhar do seu ancestral... sabendo que era possuído, parcialmente possuído por ele. Ergueu a taça de champanha para a tela numa brincadeira meio zombeteira, como havia feito tantas vezes antes.

— Saúde!

Os olhos o fitavam, também.

"O que faria você, Dirk... fantástico Dirk?", pensou.

— Provavelmente diria: "Encontre os traidores e mate-os" — refletiu em voz alta —, e provavelmente teria razão.

O problema do traidor na polícia não o abalava tanto quanto a informação sobre a rede de espionagem Sevrin, suas ligações nos Estados Unidos e os lucros secretos e espantosos obtidos pelos comunistas na Grã-Bretanha. "Mas que diabo, onde Grant consegue todas essas informações?", perguntou a si mesmo, pela centésima vez.

Lembrou-se do primeiro encontro que tiveram. Alan Medford Grant era um homem baixo, com jeito de gnomo, quase calvo, e tinha olhos e dentes grandes. Usava um terno riscadinho e chapéu-coco, e Dunross gostou dele imediatamente.

— Não se preocupe, Sr. Dunross — dissera Grant quando Dunross o contratara em 1960, logo que se tornara tai-pan. — Asseguro-lhe que não haverá interesses conflitantes com o governo de Sua Majestade, se eu presidir o seu comitê de pesquisas, sem exclusividade, como combinamos. Para falar a verdade, já obtive a aprovação deles. Dar-lhe-ei apenas, confidencialmente, é claro, para o senhor pessoalmente, é claro, e com a publicação absolutamente vedada, dar-lhe-ei apenas as informações sigilosas que, na minha opinião, não põem em risco o interesse nacional. Afinal de contas, nossos interesses são os mesmos, não são?

— Acho que sim.

— Posso perguntar-lhe como soube de mim?

— Temos amigos em altas esferas, Sr. Grant. Em certos círculos o seu nome é muito famoso. Talvez até mesmo um secretário do exterior o recomendasse — acrescentara, delicadamente.

— Ah, sei.

— Nosso arranjo é satisfatório?

— Sim... um ano, inicialmente, podendo ser prorrogado para cinco, se tudo correr bem. Após os cinco?

— Mais cinco — disse Dunross. — Se obtivermos os resultados que quero, seu pagamento antecipado será dobrado.

— Ah, quanta generosidade! Mas posso perguntar-lhe por que está sendo tão generoso, talvez "extravagante" fosse a palavra certa, comigo e com esse comitê em projeto?

— Sun Tse disse: "O que permite a um sábio soberano ou a um bom general atacar, conquistar e obter coisas fora do alcance dos homens normais é o conhecimento antecipado. O conhecimento antecipado vem somente através dos espiões. Nada é mais importante para o Estado do que a qualidade dos seus espiões. É dez mil vezes mais barato pagar regiamente aos melhores espiões do que até mesmo a um pequeno exército pobremente".

Alan Medford Grant riu de orelha a orelha.

— Certíssimo! As minhas oito mil e quinhentas libras por ano são um régio pagamento, Sr. Dunross. Ah, sim, sem dúvida.

— Consegue pensar num melhor investimento para mim?

— Não, se eu atuar corretamente, se eu e os que escolher formos os melhores existentes. Mesmo assim, trinta e tantas mil libras em salários por ano... um fundo de até cem mil libras para... para informantes e informações, tudo dinheiro sigiloso... bem, espero que fique satisfeito com o seu investimento.

— Se você for o melhor, recuperarei dez mil vezes o meu investimento. Espero recuperá-lo dez mil vezes — disse, falando sério.

— Farei tudo o que estiver ao meu alcance, é claro. Agora, especificamente, que tipo de informação quer?

— Toda e qualquer informação, comercial, política, que ajude a Struan a fazer planos antecipados, especialmente no tocante à costa do Pacífico, ao modo de pensar russo, americano e japonês. Nós próprios provavelmente saberemos mais sobre as atitudes chinesas. Por favor, dê-me sempre mais do que menos. Na verdade, qualquer coisa seria mais valiosa, porque estou querendo tirar a Struan do comércio da China... mais especificamente, quero que a companhia seja internacional, e quero diversificar, sair da nossa dependência atual do comércio com a China.

— Muito bem. Primeiro: não gostaria de confiar os nossos relatórios aos correios.

— Providenciarei um mensageiro.

— Obrigado. Segundo: preciso ter carta branca para escolher, nomear e demitir os outros membros do comitê... e gastar o dinheiro como achar apropriado.

— De acordo.

— Cinco membros serão suficientes.

— Quanto quer lhes pagar?

— Cinco mil libras por ano, pagamento antecipado, sem exclusividade, para cada um, seria excelente. Por esse preço posso conseguir os melhores homens. É. Nomearei membros associados para estudos especiais, à medida que for precisando. Como a maioria dos nossos contatos serão no exterior, muitos na Suíça, será que poderia haver fundos à disposição lá?

— Digamos que eu deposite a quantia total combinada trimestralmente numa conta suíça numerada. Pode sacar os fundos à medida que for precisando... somente a sua assinatura, ou a minha. Preste contas a mim, exclusivamente, trimestralmente. Se quiser estabelecer um código, tudo bem para mim.

— Excelente. Não poderei dar o nome de ninguém... não posso prestar contas das pessoas a quem vou dar o dinheiro.

Depois de uma pausa, Dunross disse:

— Está bem.

— Obrigado. Acho que nos entendemos. Pode me dar um exemplo do que deseja?

— Por exemplo, não quero ser pego de surpresa, como aconteceu com meu predecessor, no caso de Suez.

— Ah! Está se referindo ao fiasco de 1956, quando Eisenhower nos traiu de novo e causou o fracasso do ataque britânico-franco-israelense ao Egito... porque Násser nacionalizara o canal?

— É. Aquilo nos custou uma fortuna... acabou com os nossos interesses no Oriente Médio, quase nos arruinou. Se o tai-pan anterior tivesse sabido sobre um provável fechamento de Suez, teríamos ganho uma fortuna reservando espaço para carga, aumentando nossa frota... ou se tivéssemos conhecimento, antecipadamente, do modo de pensar americano, especialmente de que Eisenhower ficaria novamente do lado da Rússia, contra nós, poderíamos ter diminuído em muito as nossas perdas.

O homenzinho comentou, com tristeza:

— Sabe que ele ameaçou congelar todos os bens britânicos, franceses e israelenses nos Estados Unidos, instantaneamente, se não nos retirássemos de pronto do Egito, quando estávamos a poucas horas da vitória? Acredito que todos os nossos problemas atuais no Oriente Médio derivam daquela decisão americana. É. Inadvertidamente, os Estados Unidos aprovaram a pirataria internacional pela primeira vez, e estabeleceram um precedente para piratarias futuras. Nacionalização. Que piada! "Roubo" é uma palavra melhor... ou "pirataria". É. Eisenhower foi mal assessorado. E muito mais mal assessorado ao prosseguir com o insensato acordo político de Yalta, de um Roosevelt doente, do incompetente Attlee, permitindo que Stálin engolisse a maior parte da Europa, quando era militar-mente claro até para o político mais burro ou para o general mais turrão que era contrário aos nossos absolutos interesses nacionais, nossos e dos Estados Unidos, nos determos. Acho que Roosevelt realmente nos detestava, a nós e ao nosso Império Britânico.

O homenzinho formou um triângulo com os dedos e abriu um sorriso.

— Temo que haja uma grande desvantagem em me contratar, Sr. Dunross. Sou inteiramente pró-britânico, anticomunista e, especialmente, contra o KGB, que é o principal instrumento da política externa soviética, que é aberta e eternamente dedicada à nossa destruição, portanto o senhor pode dar o desconto em algumas das minhas previsões mais apimentadas, se quiser. Sou completamente contra um Partido Trabalhista dominado pela ala esquerdista, e constantemente lembro a quem queira ouvir que o hino do Partido Trabalhista é A bandeira vermelha. — Alan Medford Grant deu aquele seu sorriso de elfo. — É melhor que conheça a minha posição desde o início. Sou monarquista, legalista, e acredito no sistema parlamentar britânico. Jamais, conscientemente, lhe darei informações falsas, embora minhas avaliações sejam parciais. Posso perguntar-lhe qual é a situação política de vocês?

— Não temos política em Hong Kong, Sr. Grant. Não votamos, não temos eleições... somos uma colônia, especificamente uma colônia de porto livre, não uma democracia. A coroa governa... na verdade o governador o faz, despoticamente, em nome da coroa. Ele tem um conselho legislativo, mas é um conselho "vaca de presépio", e a orientação política histórica é o laissez-faire. Sabiamente, ele deixa as coisas como estão. Ouve a comunidade empresarial, faz mudanças sociais, muito cautelosamente, e deixa todos em paz para ganhar ou não ganhar dinheiro, criar, expandir-se, arruinar-se, ir ou vir, sonhar ou ficar acordado, viver ou morrer como puder. E o imposto máximo é de quinze por cento, mas só sobre dinheiro ganho em Hong Kong. Não temos política aqui, não queremos política aqui... nem a China quer que a tenhamos. Eles também são a favor do status quo. Minha posição política pessoal? Sou monarquista, a favor da liberdade, da pirataria e do livre comércio. Sou escocês, sou a favor da Struan, do laissez-faire em Hong Kong e da liberdade em todo o mundo.

— Acho que nos entendemos. Ótimo. Nunca trabalhei antes para um indivíduo, só para o governo. Esta será uma nova experiência para mim. Espero satisfazê-lo. — Grant fez uma pausa e pensou por um momento. — Como Suez em 56? — Formaram-se ruguinhas fundas ao redor dos olhos do homenzinho. — Muito bem, faça planos para a perda do Canal do Panamá pelos americanos.

— Isso é ridículo!

— Ora, não fique tão chocado, Sr. Dunross! É fácil demais. Bastam dez ou quinze anos de trabalho constante do inimigo e muito papo liberal nos Estados Unidos, muito bem auxiliados pelos inocentes úteis que acreditam na benevolência da natureza humana, acrescente a tudo isso uma quantidade modesta de agitação panamenha calculada, estudantes e coisa e tal (de preferência, ah, sempre estudantes), hábil e secretamente assistidos por alguns agitadores profissionais pacientes e altamente treinados, e a técnica pericial, o financiamento e um plano a longo prazo, oh, tão secretos, do KGB — pronto, no devido tempo o canal passaria das mãos dos Estados Unidos para as do inimigo.

— Eles jamais aceitariam isso.

— Certo, Sr. Dunross. Mas terão outra alternativa? Que garrote melhor contra seu principal inimigo capitalista declarado, em tempo de hostilidades, ou até de crise, do que ser capaz de impedir o Canal do Panamá, ou mesmo bloqueá-lo? Um navio afundado em qualquer um de uma centena de locais, ou uma tranca destruída, poderia deixar o canal obstruído durante anos.

Dunross lembrou-se de que servira mais dois drinques antes de responder:

— Está sugerindo seriamente que façamos planos para essa eventual conjuntura?

— Estou — disse o homenzinho, com sua extraordinária inocência. — Levo meu trabalho muito a sério, Sr. Dunross.

Meu trabalho, aquele que escolhi, é o de procurar, pôr a descoberto e avaliar as jogadas inimigas. Não sou anti-russo, antichinês, antigermânico oriental ou contra qualquer um do bloco... pelo contrário, desejo desesperadamente ajudá-los. Estou convencido de que estamos num estado de guerra, de que o inimigo de todo o povo são os membros do Partido Comunista, seja ele britânico, soviético, chinês, húngaro, americano, irlandês... até marciano... e que todos eles estão ligados, de um jeito ou de outro. E que o KGB, quer a gente goste ou não, está no centro da teia deles. — Tomou um gole da nova dose de uísque que Dunross acabara de servir-lhe. — Que uísque maravilhoso, Sr. Dunross.

— Loch Vey... fabricado numa pequena destilaria perto da nossa terra natal, em Ayr. É uma companhia da Struan.

— Maravilhoso!

Mais um gole apreciador, e Dunross lembrou-se de mandar uma caixa do uísque para Alan Medford Grant, pelo Natal... se os relatórios iniciais fossem interessantes.

— Não sou fanático, Sr. Dunross, nem agitador. Apenas uma espécie de repórter e de prognosticador. Há quem colecione selos. Eu coleciono segredos...

As luzes de um carro que dobrava a curva semi-escondida da estrada, lá embaixo, distraíram Dunross momentaneamente. Caminhou até a janela e ficou olhando o carro até ele sumir, apreciando o barulho do motor bem regulado. Depois, sentou-se numa cadeira de espaldar alto e deixou de novo o pensamento vagar. "É, Sr. Grant, o senhor realmente coleciona segredos", pensou, abalado como sempre pelo raio de alcance dos conhecimentos do homenzinho.

"Sevrin. Deus todo-poderoso! Se isso for verdade...

"Até que ponto você está sendo exato, dessa vez? Até onde confiarei em você, dessa vez... até onde me arriscarei?"

Em relatórios anteriores, Grant fizera duas previsões que, até então, haviam sido confirmadas. Com um ano de antecedência, Grant predissera que De Gaulle vetaria os esforços da Grã-Bretanha para ingressar no Mercado Comum Europeu, que a posição do general francês seria cada vez mais antibritânica, antiamericana e pró-soviética, e que De Gaulle, instado por influências externas e encorajado por um dos seus assessores mais chegados (um espião secretíssimo, dissimulado, do KGB), desfecharia um ataque a longo prazo na economia americana, especulando com ouro. Dunross achara que isso era excesso de imaginação, e perdera uma fortuna potencial.

Recentemente, com seis meses de antecedência, Grant previra a crise dos mísseis em Cuba, e que Kennedy bancaria o durão, imporia o bloqueio a Cuba, exerceria a pressão necessária e não se curvaria sob a tensão da proximidade, e que Khruchov recuaria sob pressão. Apostando que Grant estava certo, desta vez — embora, na época prevista, uma crise de mísseis cubana fosse altamente improvável —, Dunross ganhara meio milhão de libras para a Struan, comprando a termo títulos de açúcar havaiano, mais seiscentas mil na Bolsa, mais seiscentas mil para o fundo secreto do tai-pan... e cimentara um plano de longo alcance para investir em canaviais havaianos logo que pudesse obter o instrumento financeiro. "E agora obtive", disse a si mesmo, radiante, "a Par-Con."

— Quase obtive — resmungou, corrigindo-se.

"Até onde posso confiar neste relatório? Até o momento, o comitê de Alan Medford Grant foi um investimento gigantesco, a despeito de todos os seus meandros", pensou. "É. Mas é quase como ter meu próprio astrólogo. Alguns prognósticos exatos não significam que todos eles o serão. Hitler tinha o seu prognosticador. Júlio César também. Seja sensato, seja cauteloso", lembrou a si mesmo.

"O que fazer? É agora ou nunca."

Sevrin. Alan Medford Grant escrevera: "Documentos trazidos a nós, consubstanciados pela espiã francesa Marie d'Orléans, presa pela Süreté no dia 16 de junho, indicam que o Departamento V do KGB (Desinformação — extremo oriente) tem bem colocada uma rede de espionagem secretíssima, até agora desconhecida, espalhada por todo o Extremo Oriente, codinome 'Sevrin'. O propósito da Sevrin está claramente definido no principal documento roubado:

"Objetivo: Desmantelar a China revisionista — formalmente reconhecida pelo Comitê Central da URSS como o principal inimigo, perdendo apenas para os Estados Unidos capitalista.

"Norma: A eliminação permanente de Hong Kong como o bastião do capitalismo no Extremo Oriente e fonte preeminente para a China de todas as moedas estrangeiras, assistência estrangeira e toda assistência técnica e manufatureira, de qualquer tipo.

"Método: Infiltração a longo prazo na imprensa e meios de comunicação, governo, polícia, empresariado e educação por estrangeiros amistosos controlados pelo Centro... mas somente segundo normas especialíssimas, em toda a Ásia.

"Data de início: Imediata.

"Duração da operação: Provisoriamente, trinta anos.

“Data-alvo: 1980-83.

"Classificação: Vermelho Um.

"Fundos: O máximo.

"Aprovação: L. B., 14 de março de 1950.

"É interessante notar", continuara Grant, "que o documento foi assinado em 1950 por L. B. Supõe-se que seja La-vrenti Béria, quando a Rússia soviética era abertamente aliada da China comunista, e que, já naquele tempo, a China fosse secretamente considerada o seu inimigo número 2 (reportar-se ao nosso relatório anterior, 3/1962, Rússia versus China).

"A China, historicamente, é o grande prêmio que sempre foi (e sempre será) cobiçado pela Rússia imperialista e hegemônica. A posse da China, ou sua mutilação em Estados súditos balcanizados, é a tônica perpétua da política externa russa. Primeiramente, é claro, virá a eliminação da Europa Ocidental, pois então, segundo acredita a Rússia, a China será engolida sem problemas.

"Os documentos revelam que a célula de Hong Kong da Sevrin consiste em um superintendente residente, de codinome Arthur, e seis agentes. Nada sabemos sobre Arthur, exceto que é agente do KGB desde que foi recrutado na Inglaterra, nos anos 30 (não se sabe se nasceu na Inglaterra, ou se seus pais são ingleses, mas deve ter quarenta e tantos ou cinqüenta e poucos anos). Sua missão, naturalmente, é uma operação ultra-secreta, a longo prazo.

"Documentos de apoio altamente secretos do serviço de informações, roubados da STB (Segurança Secreta do Estado) da Tchecoslováquia, datados de 6 de abril de 1959, dizem, em parte: '...entre 1946 e 1959, seis agentes-chaves, ultra-secretos, foram recrutados através de informação fornecida pelo superintendente, Arthur, um em cada um dos seguintes lugares: Ministério Colonial de Hong Kong (codinome Charles), Tesouro (Mason), Base Naval (John), Banco de Londres, Cantão e Xangai (Vincent), Companhia Telefônica de Hong Kong (William) e Struan e Companhia (Frederick). Segundo as normas costumeiras, só o superintendente conhece a verdadeira identidade dos demais. Sete endereços seguros foram estabelecidos, entre eles o Sinclar Towers, na ilha de Hong Kong, e o Hotel Nove Dragões, em Kowloon. O contato da Sevrin em Nova York tem o codinome Guillio. É muito importante para nós por causa das suas ligações com a Máfia e a CIA'."

Grant continuara dizendo "que se acreditava que Guillio fosse Vincenzo Banastasio, um escroque importante e atual chefão da família Sallapione. Isso está sendo verificado pelas nossas fontes americanas. Não sabemos se o agente inimigo infiltrado na polícia (tratamos disso em detalhes em outra seção) faz ou não parte da Sevrin, mas presumimos que sim.

"Na nossa opinião, a China será forçada a buscar um aumento cada vez maior do comércio com o Ocidente, para contrabalançar a hegemonia imperialista soviética e para preencher o vácuo e o caos criados pela retirada súbita, em 1960, de toda a ajuda técnica e financeira dos soviéticos. As forças armadas da China precisam desesperadamente se modernizar. As colheitas têm sido ruins. Portanto, todas as formas de materiais estratégicos e equipamentos militares encontrarão um mercado fácil por muitos anos, assim como a comida, alimentos básicos. A compra de títulos a termo de arroz americano é um investimento de longo alcance recomendado.

"Tenho a honra de ser, senhor, seu servo obediente, A. M. G., Londres, 15 de agosto de 1963."

"Jatos, tanques, porcas, parafusos, foguetes, motores, caminhões, gasolina, pneus, material eletrônico e alimentos", pensou Dunross, animadíssimo. "Uma variedade ilimitada de mercadorias, fáceis de obter, fáceis de transportar por navio, e nada no mundo como uma guerra para dar lucro, se a gente sabe comerciar. Mas a China não está comprando agora, mesmo que esteja precisando, não importa o que Grant diga.

"Quem pode ser Arthur?

"E na Struan, quem? Santo Deus! John Chen e Tsu-yan, e armas contrabandeadas, e agora um agente do KGB lá dentro. Quem? E quanto a..."

Ouviu uma leve batidinha na porta.

— Entre — falou, reconhecendo o modo de bater da mulher.

— Ian, são quase oito horas — disse Penelope. — Achei melhor avisá-lo. Sabe como você é.

— Sei.

— Que tal o dia de hoje? Horrível o que aconteceu com John Chen, não é? Leu os jornais, não leu? Vai descer?

— Vou. Champanha?

— Obrigada.

Ele serviu uma taça para ela, e voltou a encher a sua.

— Ah, Penn, a propósito, convidei um sujeito que conheci hoje à tarde, ex-membro da RAF. Pareceu-me um cara simpático... Peter Marlowe.

— Piloto de caças?

— É. Mas de Hurricanes, não Spits. Vestido novo?

— É.

— Está bonita — disse ele.

— Obrigada, mas não estou. Sinto-me tão velha! Mas obrigada. — Sentou-se na outra poltrona de braços, seu perfume tão delicado quanto suas feições. — Peter Marlowe, é o nome dele?

— É. O pobre infeliz foi preso em Java, em 42. Foi prisioneiro de guerra durante três anos e meio.

— Oh, pobre homem. Foi abatido?

— Não, os japoneses destruíram o aeroporto antes que ele pudesse escapar. Talvez tenha tido sorte. Os Zeros pegaram dois aviões em terra, e os dois últimos pouco depois de terem levantado vôo... os pilotos morreram queimados. Parece que aqueles Hurricanes eram os últimos dos Poucos¹... o resto de toda a defesa aérea do Extremo Oriente. Que estrago, aquele!

 

¹ Referência à frase de Churchill: "Nunca tantos deveram tanto a tão poucos". (N. da T.)

 

— Terrível.

— É. Graças a Deus nossa guerra foi na Europa. — Dunross observou-a. — Ele disse que passou um ano em Java, depois os japoneses o mandaram para Cingapura, num destacamento de trabalho.

— Para Changi? — perguntou, a voz diferente.

— É.

— Ah!

— Passou dois anos e meio ali. — "Changi", em malaio, queria dizer "trepadeira", e Changi era o nome da cadeia em Cingapura usada pelos japoneses, na Segunda Guerra Mundial, como um dos seus nefastos campos para prisioneiros de guerra.

Ela pensou por um momento, depois deu um sorriso nervoso:

— Será que ele conheceu Robin lá?

Robin Grey era irmão dela, seu único parente vivo; seus pais haviam morrido num ataque aéreo a Londres, em 1943, pouco antes de seu casamento com Dunross.

— Marlowe disse que sim, que parecia recordar-se dele, mas era evidente que não queria falar daquela época, portanto não puxei mais pelo assunto.

— Posso imaginar. Disse a ele que Robin era meu irmão?

— Não.

— Quando é que Robin deve voltar para cá?

— Não sei ao certo. Dentro de alguns dias. Esta tarde o governador me disse que a delegação está agora em Pequim. — Uma delegação comercial parlamentar britânica, com deputados dos três partidos (Conservador, Liberal e Trabalhista), fora convidada em Londres por Pequim para debater todas as formas de comércio. A delegação chegara a Hong Kong fazia duas semanas e seguira diretamente para Cantão, onde todas as negociações comerciais eram realizadas. Era muito raro alguém receber um convite, muito menos uma delegação parlamentar, e mais raro ainda o convite incluir uma ida a Pequim. Robin Grey era um dos membros, representando o Partido Trabalhista. — Penn, querida, não acha que devíamos receber Robin, dar uma festa para ele? Afinal, há anos que não o vemos, e esta é a primeira vez que ele vem à Ásia... não acha que está na hora de esquecer o passado e fazer as pazes?

— Ele não receberá convites para a minha casa. Para nenhuma das minhas casas.

— Não acha que devia relaxar um pouco? Afinal, águas passadas não movem moinhos.

— Não, eu o conheço, você não. Robin tem a vida dele, nós temos a nossa. Há anos que eu e ele chegamos a este acordo. Não tenho a menor vontade de revê-lo. É horrível, perigoso, desbocado e um chato de galocha.

Dunross riu.

— Concordo que seja odioso, e detesto suas opiniões políticas... mas é apenas um entre meia dúzia de deputados. Esta delegação é importante. Tenho que entretê-los de alguma forma, Penn.

— Pois faça-o, Ian. Mas não aqui, de preferência. Ou então me avise com bastante antecedência, para eu ter algum mal-estar, e providenciar para que as crianças também tenham. É uma questão de prestígio, e ponto final. — Penelope sacudiu a cabeça, afastando o mau humor. — Deus! Não vamos deixar que ele estrague esta noite! O que esse Marlowe está fazendo em Hong Kong?

— É escritor. Quer escrever um livro sobre Hong Kong. Mora nos Estados Unidos, agora. A mulher dele também vem. Ah, a propósito, convidei também os americanos, Linc Bartlett e Casey Tcholok.

— Ah! — Penelope Dunross achou graça. — Ora, afinal quatro ou quarenta pessoas a mais não farão nenhuma diferença... não conheço a maioria mesmo, e Claudia organizou tudo com sua eficiência de sempre. — Arqueou uma sobrancelha. — Vejam só! Um contrabandista de armas entre os piratas! Isso não vai nem causar uma pequena comoção.

— E ele é?

— Todo mundo diz que sim. Não leu o artigo do Mirror de hoje à tarde, Ian? Ah Tat está convencida de que o americano dá azar. Informou a todos os empregados, às crianças e a mim, o que torna a coisa oficial. Ah Tat contou a Adryon que o astrólogo dela pediu que ela dissesse a você para ficar alerta contra a má influência vinda do Leste. Ah Tat está certa de que isso se refere aos ianques. Ainda não veio fazer fofoca no seu ouvido?

— Ainda não.

— Deus, como gostaria de poder tagarelar em cantonense como você e as crianças. Diria àquela harpia velha para guardar para si suas superstições e opiniões... ela é uma péssima influência...

— Daria a vida pelas crianças.

— Sei que é a sua gan sun, e que praticamente o criou, e que se acha uma dádiva de Deus para o clã dos Dunrosses. Mas, no que me diz respeito, é uma vaca velha rabugenta e detestável, eu a odeio. — Penelope sorriu docemente. — Ouvi dizer que a moça americana é bonita.

— Atraente... não bonita. Andrew está cortando um dobrado com ela.

— Acredito. Uma dama falando de negócios! Aonde vamos parar, neste nosso grande mundo! Ela é capaz?

— Ainda é cedo para dizer. Mas é muito esperta. Está criando... irá criar situações constrangedoras, sem dúvida.

— Já viu Adryon hoje?

— Não... o que foi? — perguntou, reconhecendo imediatamente seu tom de voz.

— Andou mexendo de novo no meu armário... metade das minhas melhores meias sumiu, o resto está espalhado, meus lenços de seda estão todos remexidos, minha blusa e meu cinto novos desapareceram. Mexeu até no meu melhor Hermes... essa garota é o fim da picada!

— Com dezenove anos, não é uma garota — disse ele, cansadamente.

— É o fim da picada! Perdi a conta das vezes que falei com ela!

— Falarei de novo.

— Não vai adiantar nada.

— Eu sei.

Ela riu junto com ele.

— Ela é uma parada!

— Tome. — Entregou a ela um estojo fino. — Feliz vigésimo!

— Oh, obrigada, Ian. O seu está lá embaixo. Você o... — Interrompeu-se e abriu o estojo. Continha uma pulseira de jade entalhado, o jade encravado em filigrana de prata, finíssima, antiqüíssima... uma peça de colecionador. — Ah, que lindo! Obrigada, Ian. — Colocou-a no pulso, sobre a corrente fina de ouro que usava, e ele não notou prazer verdadeiro ou desapontamento verdadeiro no seu tom de voz, embora estivesse atento às nuanças. — É uma beleza — falou, debruçando-se para a frente e roçando os lábios no rosto dele. — Obrigada, querido. Onde o conseguiu? Em Formosa?

— Não, aqui na Cat Street. Na loja de Wong Chun Kit, ele ga...

A porta se escancarou, e uma garota entrou atropelada-mente. Era alta, esguia e claríssima, e disse, depressa e sem fôlego:

— Espero que não haja problemas. Convidei um rapaz para hoje à noite e acabo de receber seu telefonema confirmando que virá e que vai chegar atrasado. Mas achei que não faria mal. Ele é legal, um barato.

— Pelo amor de Deus, Adryon — disse Dunross, suavemente —, quantas vezes já lhe disse para bater antes de irromper sala adentro, e quer por favor falar inglês? Que diabo é um barato?

— Bom, grande, legal, um barato. Desculpe, papai, mas você é mesmo muito careta, porque "legal" e "um barato" estão na moda, até mesmo em Hong Kong. Até já. Tenho que correr, depois da festa eu vou sair... vou chegar tarde, portanto não...

— Espere um mi...

— Essa blusa é minha, a minha blusa nova — explodiu Penelope. — Adryon, tire-a imediatamente! Já lhe disse umas cinqüenta vezes para não mexer no meu armário!

— Ora, mamãe — retrucou Adryon, com a mesma brusquidão —, você não está precisando dela, não posso usá-la esta noite? — O tom de voz dela mudou. — Por favor! Puxa, por favor! Papai, fale com ela. — Passou a falar em perfeito cantonense de amah: — Honorável Pai... por favor, ajude sua Filha Número Um a obter o impossível de obter, senão eu chorarei, chorarei, chorarei oh ko... — Depois, no mesmo fôlego, voltando ao inglês: — Mamãe... você não precisa dela, e vou tomar cuidado, juro. Por favor!

— Não.

— Vamos, por favor, eu tomo cuidado, prometo.

— Não.

— Mamãe!

— Bem, se você pro...

— Puxa, obrigada.

A garota riu de orelha a orelha, virou-se e saiu correndo, batendo a porta atrás de si.

— Puta que o pariu — disse Dunross, com azedume —, mas por que as portas sempre têm que bater atrás dela?

— Bem, pelo menos agora ela não bate de propósito. — Penelope soltou um suspiro. — Acho que não agüentaria passar por aquilo tudo de novo.

— Nem eu. Graças a Deus Glenna é razoável.

— É puramente temporário, Ian. Ela também puxou ao pai, como Adryon.

— Hum! Eu não tenho um gênio dos diabos — disse ele, vivamente. — E já que estamos falando no assunto, estou torcendo para que Adryon tenha encontrado um sujeito decente para trazer, ao invés do palhaço de costume. Quem é esse que vem hoje?

— Não sei, Ian. Também estou sabendo disso agora.

— Eles são sempre um horror! O gosto dela em matéria de homem é um espanto... Lembra-se daquele pateta de cabeça de melão com braços neolíticos por quem estava "loucamente apaixonada"? Santo Deus, mal tinha quinze anos e...

— Tinha quase dezesseis.

— Como era o nome dele? Ah, é, Byron. Byron, pela madrugada!

— Você não devia ter ameaçado estourar os miolos dele, Ian. Era só uma paixãozinha juvenil.

— Era mais uma paixão de gorila, por Deus — resmungou Dunross, com maior azedume. — Era um maldito gorila... Lembra-se do outro, daquele antes do desgraçado do Byron... aquele filho da mãe psiquiátrico... como se chamava?

— Victor. É, Victor Hopper. Foi ele que... é, estou lembrando, foi ele que perguntou se não faria mal se ele dormisse com Adryon.

— Ele o quê?

— Foi, sim. — Sorriu para ele, não tão inocentemente. — Não lhe contei, na época... achei que seria melhor.

— Ele o quê?

— Não fique irritado agora, Ian. Isso aconteceu há quatro anos. Eu disse a ele que não, não no momento, que Adryon tinha apenas catorze anos, mas sim, certamente, quando tivesse vinte e um anos. Aquele foi outro que morreu no nascedouro.

— Santo Deus! Ele perguntou se po...

— Pelo menos perguntou, Ian! Já é alguma coisa. Tudo isso é tão comum! — Levantou-se, serviu mais champanha para ele e para si mesma. — Você tem apenas mais uns dez anos de purgatório, e depois virão os netos. Feliz aniversário de casamento, e o melhor das coisas britânicas para você!

Ela riu, encostou a taça na dele, bebeu e sorriu para ele.

— Está certa, mais uma vez — retrucou ele, devolvendo o sorriso, gostando muito dela.

Tantos anos, anos bons. "Tive sorte", pensou. "É. Fui abençoado, naquele primeiro dia." Estava no seu posto da RAF em Biggin Hill, numa manhã quente e ensolarada de agosto de 1940, durante a Batalha da Grã-Bretanha, e ela era do Corpo Auxiliar Feminino, recém-destacada para lá. Era o oitavo dia de guerra dele, sua terceira missão naquele dia, e a primeira vez que abatera alguém. Seu Spitfíre estava todo pontilhado de buracos de bala, partes da asa haviam sido derrubadas, a cauda parecia tatuada. Por todas as regras da sorte, devia estar morto, mas não estava, e o Messerschmitt e seu piloto estavam, e ele estava em casa, seguro, o sangue fervendo, tonto de medo e vergonha e alívio porque voltara, e o jovem que vira na outra cabine de piloto, o inimigo, incendiara-se berrando, enquanto descia em espiral.

— Alô, senhor — dissera Penelope Grey. — Bem-vindo, senhor. Tome.

Entregara-lhe uma xícara de chá quente e doce, e nada mais dissera, embora devesse ter começado imediatamente a interrogá-lo sobre os detalhes da missão... fazia parte do Serviço de Comunicações. Ela nada dissera, apenas sorrira, dando-lhe tempo para descer dos céus da morte para a vida, novamente. Ele não lhe agradecera, apenas tomara o chá, que fora o melhor que jamais bebera.

— Peguei um Messerschmitt — dissera, quando estava em condições de falar, a voz tão trêmula quanto os joelhos. Não se lembrava de ter se soltado dos cintos de segurança, de sair da cabine ou de entrar no caminhão junto com os outros sobreviventes. — Era um 109.

— Sim, senhor, o líder da Esquadrilha Miller confirmou a destruição do aparelho inimigo e disse que o senhor se aprontasse, pois deve voltar a subir a qualquer minuto. Vai levar o Poppa Mike Kilo, desta vez. Obrigada pelo avião derrubado, senhor, é um daqueles demônios a menos... ah, como gostaria de poder ir com vocês para ajudar a matar todos aqueles monstros...

Mas eles não eram monstros, pensou, pelo menos o primeiro piloto e o primeiro avião que abatera não haviam sido... apenas um jovem como ele próprio, quem sabe da mesma idade, que se incendiara berrando, que morrera berrando, uma folha caída em chamas, e naquela tarde, ou na próxima, ou em breve, seria a vez dele... inimigos demais, gente nossa de menos.

— Tommy voltou, Tom Lane?

— Não, senhor. Lamento, senhor. Ele... o líder da esquadrilha disse que o capitão-aviador Lane foi derrubado sobre Dover.

— Tenho pavor de ser derrubado, de pegar fogo — dissera ele.

— Ah, mas não vai, senhor, não o senhor. Eles não vão derrubá-lo. Eu sei. Não vai, senhor, não, o senhor não. Nunca irão pegá-lo, nunca, nunca, nunca — dissera ela, os olhos azuis muito claros, cabelos claros, rosto bonito, dezoito anos incompletos, mas forte, muito forte e muito confiante.

Ele acreditara nela, e sua fé o acompanhara durante mais quatro meses de missões — às vezes cinco missões por dia — e mais aviões derrubados, e, embora ela estivesse errada e mais tarde ele também tivesse sido acertado em pleno ar, ele sobreviveu. Apenas se queimou um pouquinho. E depois, quando saiu do hospital, impossibilitado para sempre de voltar a pilotar, eles se casaram.

— Nem parece que foram vinte anos — disse ele, contendo a sua felicidade.

— E mais dois antes — disse ela, contendo a sua felicidade.

— E mais dois na...

A porta se abriu. Penelope soltou um suspiro quando Ah Tat invadiu o aposento, falando pelos cotovelos em cantonense.

— Ayeeyah, meu Filho, mas você ainda não está pronto, os nossos honrados convidados chegarão a qualquer momento, e o nó de sua gravata ainda não foi dado, e aquele estrangeiro sem mãe trazido desnecessariamente de Kwantung Norte para a nossa casa para cozinhar... aquele rebento fedido de uma meretriz de um dólar de Kwantung Norte, de onde vêm os melhores ladrões e as piores prostitutas, e que se considera um cozinheiro... Ah!... Esse homem e a sua equipe igualmente desprezível estão sujando a nossa cozinha e roubando a nossa paz. Oh ko — continuou a velhinha enrugada, sem tomar fôlego, enquanto seus dedos encurvados subiam automaticamente e habilmente davam o nó na gravata dele — e isso não é tudo! A Filha Número Dois... a Filha Número Dois não quer botar o vestido que a Honorável Primeira Mulher escolheu para ela, e está tendo um ataque de raiva que se ouve em Java! Eeee, esta família! Tome, meu Filho — tirou do bolso um envelope de telex e passou-o a Dunross —, eis outra mensagem dos bárbaros dando mais parabéns por este dia feliz, e que sua pobre velha Mãe teve que trazer ela mesma, escada acima, com suas pobres e velhas pernas, porque os outros criados ociosos são vadios e preguiçosos...

Fez uma pausa momentânea para tomar fôlego.

— Obrigado, Mãe — agradeceu ele, cortesmente.

— Na época do seu Honorável Pai, os criados trabalhavam e sabiam o que fazer, e sua velha Mãe não tinha que aturar estranhos sujos na nossa Casa Grande! — Foi saindo, xingando ainda mais o pessoal do bufê. — Não se atrase, Filho, senão...

Ainda falava, mesmo depois de ter fechado a porta.

— O que há com ela? — indagou Penelope, desanimada.

— Está reclamando do pessoal do bufê, não gosta de estranhos... sabe como ela é.

Abriu o envelope, onde estava o telex dobrado.

— O que estava falando de Glenna? — perguntou a mulher, tendo reconhecido yee-chat, Segunda Filha, embora seu cantonense fosse mínimo.

— Só que estava tendo um ataque por causa do vestido que você escolheu para ela.

— O que há de errado nele?

— Ah Tat não disse. Olhe, Penn, quem sabe Glenna devesse ir logo para a cama... já está quase passando da hora de ela dormir e...

— Imagine! Só quando as galinhas criarem dentes. Até mesmo a Bruxa Struan não conseguiria evitar que Glenna comparecesse à sua primeira festa adulta, como ela diz. Você concordou, Ian, você concordou. Eu, não. Foi você!

— É, mas não ach...

— Não. Tem idade suficiente. Afinal, está com treze anos. — Penelope terminou calmamente o seu champanha. — Mesmo assim, agora vou ter uma palavrinha com a senhorita, pode deixar.

Levantou-se. Depois, notou a fisionomia dele, que fitava o telex.

— O que aconteceu?

— Um empregado nosso foi morto em Londres. Grant. Alan Medford Grant.

— Ah. Será que eu ò conhecia?

— Acho que foi apresentada a ele uma vez, em Ayrshire. Era um homenzinho com jeito de gnomo. Esteve numa das nossas festas no Castelo Avisyard... na nossa última viagem.

Ela franziu o cenho.

— Não me lembro. — Pegou o telex que ele lhe oferecia. Dizia: "Lamento informar-lhe que A. M. Grant foi morto em acidente de motocicleta hoje de manhã. Os detalhes seguirão quando eu os tiver. Lamento. Lembranças, Kiernan". — Quem é Kiernan?

— O assistente dele.

— Esse Grant... era amigo seu?

— De certo modo.

— É importante para você?

— É.

— Ah, sinto muito.

Dunross forçou-se a dar de ombros e a manter a voz serena. Mas, no íntimo, praguejava obscenamente.

— Coisas da vida. Joss.

Penelope queria lamentar com ele, reconhecendo de pronto a profundidade do choque que tivera. Sabia que ele estava perturbadíssimo, tentando disfarçar... e queria saber imediatamente quem era e que importância tinha aquele desconhecido. Mas ficou calada.

"Esse é o meu papel", lembrou a si mesma. "Não fazer perguntas, ficar calma e estar presente... para apanhar os cacos, mas só quando ele me permite."

— Vai descer?

— Num minuto.

— Não demore, Ian.

— Está bem.

— Mais uma vez, obrigada pela minha pulseira — disse, apreciando-a.

— De nada — ele respondeu.

Mas ela sabia que ele não a escutara, de verdade. Já estava ao telefone, pedindo uma ligação interurbana. Ela saiu e fechou a porta suavemente, e ficou parada tristemente no longo corredor que levava às alas leste e oeste, o coração disparado. "Malditos sejam todos os telex e todos os telefones, e maldita seja a Struan e Hong Kong, e malditos sejam todas as festas e todos os bicões, e, ah, como gostaria que pudéssemos ir embora para sempre, esquecer Hong Kong, esquecer o trabalho, a Casa Nobre, os Grandes Negócios, a costa do Pacífico e a Bolsa de Valores, e maldi..."

— Mamãeeeee!

Ouviu a voz estridente de Glenna vinda do fundo do seu quarto, dobrando o ângulo mais afastado da ala leste, e imediatamente todos os seus sentidos se concentraram. Havia raiva frustrada na voz de Glenna, mas não havia perigo, portanto ela não se apressou, simplesmente respondeu:

— Já vou... o que é, Glenna ?

— Onde você estááááãá?

— Já estou indo, querida — respondeu, pensando agora em coisas importantes. "Glenna vai ficar linda naquele vestido. Ah, já sei", pensou, satisfeita, "vou lhe emprestar o meu colarzinho de pérolas. Vai ficar perfeito." Apressou o passo.

Do outro lado do porto, em Kowloon, o sargento comissionado Tang-po, DIC, subiu as escadas desconjuntadas e entrou na sala. O âmago da sua tríade secreta já estava ali.

— Enfiem isso nesse osso que alguns de vocês têm entre as orelhas: os Dragões querem que se encontre o Chen da Casa Nobre, e que esses Lobisomens bexiguentos, comedores-de-bosta, sejam presos tão rapidamente que até os deuses piscarão os olhos!

— Sim, senhor — responderam os subalternos em coro, chocados com o seu tom de voz.

Estavam no esconderijo de Tang-po, um pequeno e desenxabido apartamento de três peças, atrás de uma porta de entrada desenxabida no quinto andar de um prédio de apartamentos igualmente desenxabido, encimando umas lojas muito modestas num beco sujo, a apenas três quarteirões de distância do quartel-general da polícia do distrito de Tsim Sha Tsui, que ficava de frente para o porto e o Pico, na ponta da península de Kowloon. Eles eram em número de nove: um sargento, dois cabos, os outros guardas — todos detetives à paisana do DIC, todos cantonenses, todos escolhidos a dedo, tendo feito juramentos de sangue, de lealdade e sigilo. Eram o tong, ou irmandade secreta, de Tang-po, que protegia toda a jogatina de rua no distrito de Tsim Sha Tsui.

— Olhem em toda parte, falem com todo mundo. Temos três dias — falou Tang-po. Era um homem corpulento, de cinqüenta e cinco anos, com cabelos levemente grisalhos e sobrancelhas cerradas, e seu posto era o mais alto que podia alcançar, sem ser oficial. — Esta é a minha ordem, de todos os meus irmãos Dragões e do Altíssimo em pessoa. Além disso — acrescentou, com azedume —, a Grande Montanha de Bosta prometeu rebaixar-nos e destacar-nos para a fronteira ou outros lugares, a todos nós, se falharmos, e esta é a primeira vez que nos ameaça com isso. Que todos os deuses mijem de uma grande altura sobre os demônios estrangeiros, especialmente aqueles fornicadores sem mãe que não aceitam sua situação difícil e se comportam como gente civilizada!

— Amém! — exclamou o sargento Lee, com grande fervor. Ele era católico de vez em quando, porque, na juventude, freqüentara uma escola católica.

— A Grande Montanha de Bosta deixou bem claro, hoje à tarde: resultados, caso contrário, rumo à fronteira, onde não há um penico onde mijar, nem ninguém para ser extorquido num raio de trinta quilômetros. Ayeeyah, que todos os deuses nos protejam do fracasso!

— É — disse o cabo Ho, em nome de todos, tomando notas no seu livro. Era um homem de feições marcadas, que estudava à noite para ser contador, e era ele que cuidava dos livros da irmandade e das atas das suas reuniões.

— Irmão Mais Velho — começou o sargento Lee, cortesmente —, há uma recompensa fixa que possamos oferecer aos nossos informantes? Há um máximo ou um mínimo?

— Há — Tang-po lhes disse, acrescentando cuidadosamente: — O Grande Dragão falou cem mil HK, se for dentro de três dias... — A sala ficou repentinamente silenciosa, com o vulto da recompensa — metade para encontrar o Chen da Casa Nobre, metade para encontrar os raptores. E uma bonificação de dez mil para o irmão cujo informante apresentar ou um ou outro... e uma promoção.

— Dez mil por Chen e mais dez mil pelos raptores? — indagou o cabo. "Oh, deuses, concedam-me o prêmio", orava ele, assim como oravam os demais. — É isso mesmo, Irmão Mais Velho?

— Dew neh loh moh, foi o que eu disse — replicou Tang-po bruscamente, tirando baforadas do cigarro. — Está com as orelhas cheias de pus?

— Não, lamento, Honorável Senhor. Por favor, desculpe.

Todos estavam absortos no prêmio. O sargento Lee pensava: "Eee, dez mil, e promoção, se for dentro de três dias! Ah, se for dentro de três dias, então será a tempo para o Dia da Corrida, e aí... Ah, todos os deuses grandes e pequenos, abençoem-me uma vez, e a segunda vez na loteria dupla de sábado".

Tang-po estava consultando suas anotações.

— Vamos agora tratar de outros assuntos. Através da cooperação do Diurno Chan e do Honorável Song, a irmandade poderá usar os chuveiros deles no Victoria diariamente entre oito e nove horas da manhã, não mais entre sete e oito horas, como antes. Mulheres e concubinas numa base de rodízio. Cabo Ho, reorganize o rodízio.

— Ei, Honrado Senhor — chamou um dos jovens detetives —, ouviu falar da Pêlos Púbicos Dourados?

— Hem?

O jovem relatou o que o Diurno Chang lhe contara, pela manhã, quando fora tomar café na cozinha do hotel. Riram.

— Ayeeyah, imagine só! Como ouro, heya?

— Já deitou com algum demônio-fêmea estrangeiro, Honorável Senhor?

— Não, nunca. Não. Ayeeyah, só de pensar... eca!

— Eu gostaria de possuir uma — falou Lee, com uma risada —, só para ver como é a coisa!

Todos riram com ele, e um falou:

— Um Portão de Jade é um Portão de Jade, mas dizem que algumas fêmeas estrangeiras são tortas!

— Ouvi dizer que são rachadas de banda!

— Honorável Senhor, mais uma coisa — o jovem detetive falou, quando as risadas haviam cessado. — O Diurno Chang me disse que lhe contasse que a Pêlos Púbicos Dourados tem um transmissor-receptor em miniatura... o melhor que ele já viu, melhor do que qualquer um que tenhamos, mesmo na Seção Especial. Ela o leva sempre consigo.

Tang-po fitou-o.

— Curioso. Ora, por que um demônio-fêmea estrangeiro iria querer uma coisa dessas?

Lee perguntou:

— Algo a ver com as armas?

— Não sei, Irmão Mais Moço. Mulheres com transmissores-receptores? Interessante. Não estava na bagagem dela quando o nosso pessoal a revistou, ontem à noite, portanto tinha que estar na bolsa. Bom, muito bom. Cabo Ho, depois da nossa reunião, deixe um presente para o Diurno Chang, duas vermelhas. — Uma nota vermelha valia cem HK. — Realmente, gostaria de saber para quem se destinavam aquelas armas — acrescentou, pensativo. — Certifiquem-se de que todos os informantes saibam que também estou muito interessado nisso.

— O Chen da Casa Nobre está metido com as armas e os demônios estrangeiros? — quis saber Lee.

— Acho que sim, Irmão Mais Moço, acho que sim. Outra curiosidade... mandar uma orelha não é civilizado... não cedo assim. Não é nada civilizado.

— Ah, então acha que os Lobisomens são demônios estrangeiros? Ou mestiços fornicadores? Ou portugueses?

— Não sei — disse Tang-po, com azedume. — Mas aconteceu no nosso distrito, portanto é uma questão de prestígio para todos nós. A Grande Montanha de Bosta está com muita raiva. Ele também está desprestigiado.

— Eee — comentou Lee —, aquele sacana tem um gênio dos diabos!

— É. Quem sabe a informação sobre o transmissor-receptor o acalme um pouco. Acho que vou pedir a todos os meus irmãos para ficarem de olho na Pêlos Púbicos Dourados e no seu amigo contrabandista de armas, por via das dúvidas. Ora, havia mais alguma coisa... — Novamente, Tang-po consultou as anotações. — Ah, sim, por que a nossa contribuição da Boate Recepcionista Feliz baixou trinta por cento?

— Ela mudou de dono, Honrado Senhor — respondeu o sargento Lee, em cuja zona ficava o cabaré. — Pok Um Olho Só vendeu a casa para um xangaiense sacana chamado Wang... Wang Feliz. Wang Feliz disse que a Graxa Fragrante é muito alta, os negócios vão mal, muito mal.

— Dew neh loh moh para todos os xangaienses. E vão mesmo?

— O movimento baixou, mas não muito.

— É verdade, Honrado Senhor — falou o cabo Ho. — Estive lá à meia-noite para recolher o dinheiro adiantado da semana, a bosta do lugar fedorento estava meio cheio.

— Havia ali demônios estrangeiros?

— Dois ou três, Honrado Senhor. Ninguém de importância.

— Dê ao Honorável Wang Feliz um recado meu: ele tem três semanas para melhorar os negócios. Depois, vamos pensar de novo no caso dele. Cabo Ho, diga a algumas garotas do Grande Novo Oriental para recomendarem a Recepcionista Feliz por um mês, mais ou menos... elas têm bastantes fregueses entre os demônios estrangeiros... e diga ao Wang que vai chegar um porta-aviões nuclear, o Corregidor, depois de amanhã, para R e R... — Ele usou as letras inglesas, pois todos compreendiam rest and recreation¹ da época da Guerra da Coréia.

 

¹ "Descanso e recreação." (N. da T.)

 

— Perguntarei ao meu Irmão Dragão em Wanchai e na zona do cais se Wang Feliz pode distribuir por lá alguns cartões de visita. Cerca de mil bárbaros do País Dourado ajudariam muito a receita! Vão passar oito dias aqui.

— Honrado Senhor, farei isso ainda hoje — prometeu o cabo Ho.

— Meu amigo da polícia marítima me contou que vai haver muitos vasos de guerra em visita, brevemente; a Sétima Frota Americana está sendo aumentada. — Tang-po franziu a testa. — Dobrada, segundo ele. O que se comenta no continente é que os soldados americanos vão entrar no Vietnam com força total... já têm uma linha aérea ali... pelo menos — acrescentou — a tríade CIA deles tem.

— Eeee, isso é bom para os negócios! Teremos que consertar os navios deles. E entreter os seus homens! Bom. Ótimo para nós.

— É. Ótimo. Mas uma burrice para eles. O Honorável Chu En-lai já os vem advertindo, há meses, educadamente, de que a China não os quer lá! Por que não escutam? O Vietnam é a nossa esfera externa bárbara! É uma burrice escolher aquela selva horrorosa e aqueles bárbaros detestáveis para fazer uma guerra. Se a China não conseguiu subjugar aqueles bárbaros estrangeiros durante séculos, como poderão eles fazê-lo? — Tang-po riu e acendeu outro cigarro. — Para onde foi Pok Um Olho Só?

— A raposa velha conseguiu o visto permanente e se mandou para San Francisco no primeiro avião. Ele, a mulher e oito filhos.

Tang-po virou-se para o contador.

— Ele nos devia algum dinheiro?

— Ah, não, Honrado Senhor. Estava com os pagamentos integralmente atualizados. O sargento Lee cuidou disso.

— Quanto custou àquele fornicador velho? Para obter o visto?

— Sua saída foi facilitada por um presente de três mil HK para o cabo Sek Pun So, da Imigração, segundo nossas recomendações. Nossa porcentagem foi paga, e também o ajudamos a encontrar o mercador de diamantes certo para converter sua fortuna nas melhores pedras branco-azuladas disponíveis. — Ho consultou os seus livros. — Nossa comissão de dois por cento foi de oito mil novecentos e sessenta HK.

— O velho e bom Um Olho Só! — exclamou Tang-po, contente por ele. — Saiu-se muito bem. Com que emprego "especializado" conseguiu o visto?

O sargento Lee explicou:

— O de cozinheiro num restaurante do Bairro Chinês, chamado O Lugar de Comer Bem. Oh ko, já provei a comida feita por ele, e o velho Um Olho Só é ruim pra cachorro.

— Vai contratar outro para tomar o seu lugar, e vai se meter no ramo imobiliário, ou com jogo e cabarés — disse alguém. — Eeee, que sorte!

— Mas quanto lhe custou o visto americano?

— Ah, o dom dourado para o Paraíso! — Ho suspirou. — Ouvi dizer que pagou cinco mil dólares americanos para encabeçar a lista.

— Ayeeyah, é mais do que o costumeiro. Por quê?

— Parece que há também a promessa de um passaporte americano, logo que acabe o prazo de cinco anos, e de ignorarem o fato de o velho Um Olho Só não falar inglês...

— Aqueles sacanas do País Dourado... extorquem, mas não são organizados. Não têm classe nenhuma — falou Tang-po, desdenhosamente. — Um ou dois vistos, aqui e ali... quando todos aqui sabem que se pode comprar um, na hora certa e com a propina certa. Então por que não agem direito, de modo civilizado? Vinte vistos por semana... até mesmo quarenta... são todos doidos, esses demônios estrangeiros!

— Dew neh loh moh, mas como está certo! — falou o sargento Lee, tonto com a quantidade potencial das propinas que poderia ganhar, se fosse vice-cônsul do consulado dos Estados Unidos em Hong Kong, no Departamento de Vistos. — Eeee!

— Deveríamos ter uma pessoa civilizada nesse cargo, logo estaríamos estabelecidos como mandarins e policiando San Francisco! — disse Tang-po, e todos riram junto com ele. A seguir, acrescentou, enojado: — Pelo menos deviam ter um homem no cargo, não um que goste de uma Haste Ardente na sua Cloaca Medonha, ou da sua na de outro homem!

Riram ainda mais.

— Ei — exclamou um deles —, ouvi dizer que o parceiro dele é o Jovem Demônio Estrangeiro Fedorento Barriga de Porco, das Obras Públicas... sabe, aquele que está vendendo licenças para construções que não deviam ser feitas!

— Isso são águas passadas, Chan, há muito tempo. Ambos já estão de cacho novo. O último boato é que o nosso demônio vice-cônsul está ligado a um jovem... — Tang-po acrescentou, delicadamente: — filho de um contador de destaque, que também é um comunista de destaque.

— Eeee, isso não é bom — disse o sargento Lee, identificando o homem imediatamente.

— Não — concordou Tang-po. — Especialmente porque ouvi dizer, ontem, que o jovem tem um apartamento secreto dobrando a esquina. No meu distrito! E o meu distrito é o que tem menos crimes.

— Isso mesmo — concordaram todos, com orgulho.

— Devemos falar com ele, Irmão Mais Velho? — perguntou Lee.

— Não, apenas mantê-lo sob vigilância especial. Quero saber tudo sobre esses dois. Tudo. Até mesmo se arrotam. — Tang-po soltou um suspiro. Deu ao sargento Lee o endereço e distribuiu as missões a cada um. — Já que estão todos aqui, decidi antecipar o pagamento de amanhã.

Abriu a sacola grande, que continha dinheiro em notas. Cada homem recebeu o equivalente ao seu pagamento na polícia, mais despesas autorizadas.

Trezentos HK por mês, sem custas, não era um salário suficiente para um guarda alimentar uma família, mesmo pequena, e ter um pequeno apartamento, nem mesmo de duas peças, com uma pia e sem sanitários, e para mandar um filho para a escola; ou o suficiente para conseguir mandar um pouco para a sua aldeia natal, em Kwantung, para pais, avós, mães, tios e avôs necessitados, muitos dos quais, há tantos anos, haviam dado as economias de toda uma vida para ajudá-lo a se pôr a caminho, na estrada irregular para Hong Kong.

Tang-po fora um desses. Sentia muito orgulho por ter sobrevivido à viagem, aos seis anos de idade, sozinho, por ter encontrado os parentes, e depois, aos dezoito anos, ter entrado para a polícia... há trinta e seis anos. Servira bem à rainha, impecavelmente à força policial, não servira aos inimigos japoneses durante a ocupação, e agora chefiava uma divisão-chave na colônia de Hong Kong. Respeitado, rico, com um filho cursando a universidade em San Francisco, outro dono de metade de um restaurante em Vancouver, no Canadá, sua família em Kwantung sustentada... e, o que era mais importante, seu distrito de Tsim Sha Tsui com menos roubos sem solução, menos ferimentos, mutilações e guerras entre tríades sem solução do que qualquer outro distrito... e apenas três assassinatos em quatro anos, todos resolvidos e os culpados presos e condenados, e um deles um demônio estrangeiro marujo que matara outro por causa de uma dançarina de cabaré. E quase nenhum furto de pouca monta, e nunca um demônio estrangeiro turista incomodado por mendigos ou pivetes, e era a maior área turística, com mais de trezentas mil pessoas civilizadas para policiar e proteger dos bandidos e delas mesmas.

"Ayeeyah, é", Tang-po disse para si mesmo. "Se não fosse por nós, aqueles camponeses fornicadores de cabeça dura estariam se engalfinhando uns com os outros, brigando, pilhando, matando, e depois o grito inevitável da turba se ergueria: 'Matem os demônios estrangeiros!' E eles tentariam, e depois voltariam os levantes outra vez. Fodam-se todos os malfeitores e as pessoas arruaceiras!"

— Agora — disse ele amavelmente —, vamos nos reunir daqui a três dias. Encomendei um jantar de dez pratos do Chang Boa Comida. Até lá, que todos encostem o olho no orifício dos deuses, e me arranjem as respostas. Quero os Lobisomens... e quero John Chen de volta. Sargento Lee, fique mais um momento. Cabo Ho, escreva a ata e me entregue as contas amanhã às cinco.

— Sim, Honrado Senhor.

Saíram todos. Tang-po acendeu outro cigarro. O sargento Lee fez o mesmo. Tang-po tossiu.

— Devia parar de fumar, Irmão Mais Velho.

— Você também! — Tang-po deu de ombros. — Joss! Quando eu tiver que ir, eu vou. Joss! Mesmo assim, para ter paz, disse à minha Mulher Principal que parei. Ela fica reclamando o tempo todo.

— Mostre-me uma que não reclame, e vai ver que ela é um ele com a Cloaca Medonha.

Riram juntos.

— É verdade. Heya, na semana passada ela insistiu em que eu fosse consultar um médico, e sabe o que o sacana sem mãe me disse? Disse: "É melhor parar de fumar, velho amigo, ou não passará de cinzas num vaso funerário antes de ficar vinte luas mais velho, e aposto que a sua Mulher Principal vai gastar todo o seu dinheiro com rapazes de vida livre, e a sua concubina vai provar os frutos de outro!"

— O porco! Ah, mas que porco!

— É. Ele me assustou de verdade. Senti as palavras dele me atingirem no Saco Secreto! Mas quem sabe falava a verdade.

Pegou um lenço, assoou o nariz, com a respiração asmática, pigarreou ruidosamente e cuspiu na escarradeíra.

— Ouça, Irmão Mais Moço, o nosso Grande Dragão disse que chegou a hora de organizar o Contrabandista Yuen, Lee Pó Branco e o primo dele, Wu Quatro Dedos.

O sargento Lee fitou-o, chocadíssimo. Aqueles três homens tinham a fama de ser os Grandes Tigres do comércio de ópio. Importadores e exportadores. Para uso local e também, segundo a voz corrente, para exportação para o País Dourado, onde havia o dinheiro grosso. Ópio trazido para Hong Kong secretamente e convertido em morfina e, depois, em heroína.

— Ruim, muito ruim. Nunca tocamos nesse comércio antes.

— É — falou Tang-po delicadamente.

— Seria muito perigoso. O Departamento de Narcóticos é seriamente contra ele. A Grande Montanha de Bosta em pessoa está muito seriamente interessada em apanhar esses três... interessada pra caralho.

Tang-po fitou o teto. Depois, falou:

— Q Grande Dragão explicou assim: uma tonelada de ópio no Triângulo Dourado custa sessenta e sete mil dólares americanos. Transformada na porra da morfina, e depois na porra da heroína, e a heroína pura diluída a cinco por cento, a proporção costumeira nas ruas do País Dourado, e entregue ali, já se tem quase seiscentos e oitenta milhões em dólares americanos. Com uma tonelada de ópio.

Tang-po tossiu e acendeu outro cigarro.

O suor começou a porejar nas costas de Lee.

— Quantas toneladas poderiam passar através desses três fornicadores?

— Não sabemos. Mas disseram-lhe que cerca de trezentos e oitenta toneladas por ano são produzidas no Triângulo Dourado — Yunan, Birmânia, Laos e Tailândia. Grande parte vem para cá. Eles lidariam com cinqüenta toneladas, falou ele. Tem certeza de cinqüenta toneladas.

— Oh ko!

— É. — Tang-po também suava. — Nosso Grande Dragão disse que chegou a hora de investirmos no negócio. Vai crescer e crescer. Ele tem um plano para fazer a marinha se unir a nós...

— Dew neh loh moh, não se pode confiar naqueles filhos da mãe marítimos.

— Foi o que eu disse, mas ele falou que precisamos dos filhos da mãe marítimos, e que podemos confiar em alguns, selecionados. Quem mais poderá agarrar e interceptar uns vinte por cento de sinal... quem sabe até cinqüenta por cento para apaziguar a Grande Montanha de Bosta em pessoa, em momentos pré-combinados? — Tang-po cuspiu certeiramente, de novo. — Se pudéssemos juntar a marinha, o Departamento de Narcóticos e o Bando dos Três, o nosso h'eung yan atual seria igual à mijada de uma criança nas águas do porto.

Fez-se um silêncio sério no aposento.

— Teríamos que recrutar novos membros, e isso é sempre perigoso.

— É.

Lee pegou o bule de chá e serviu-se de um pouco de chá de jasmim, com o suor escorrendo costas abaixo, o ar abafado e cheio de densa fumaça. Esperou.

— O que acha, Irmão Mais Moço?

Os dois homens não eram aparentados, mas usavam a cortesia chinesa entre si porque há mais de quinze anos confiavam um no outro. Lee salvara a vida do seu superior nos levantes de 1956. Estava agora com trinta e cinco anos, e seu heroísmo nos levantes lhe garantira uma medalha da polícia. Era casado e tinha três filhos. Há dezesseis anos estava na força policial, e seu salário integral era de oitocentos e quarenta e três HK por mês. Tomava o bonde para ir para o trabalho. Se não complementasse a sua renda através da irmandade, como todos eles, teria tido que ir a pé ou de bicicleta, na maior parte dos dias. O bonde levava duas horas.

— Acho que a idéia é muito ruim — falou. — Drogas, qualquer tipo de droga é ruim pra caralho... é, muito ruim. O ópio é ruim, embora seja bom para gente velha... o pó branco, cocaína, é ruim, mas não tão ruim quanto as seringas da morte. Dá azar comerciar com as seringas da morte.

— Foi o que eu lhe disse.

— Vai obedecê-lo?

— O que é bom para um irmão deve ser bom para todos — disse Tang-po, cautelosamente, evitando uma resposta direta.

Novamente, Lee esperou. Não sabia como um Dragão era eleito, ou exatamente quantos havia, ou quem era o Grande Dragão. Sabia apenas que o seu Dragão era Tang-po, um homem sábio e cauteloso, que pensava nos interesses deles.

— Falou também que um ou dois dos nossos demônios estrangeiros superiores estão ficando com cócegas quanto às suas malditas fatias do dinheiro do jogo.

Lee cuspiu, enojado.

— O que esses fornicadores fazem para merecer a sua parte? Nada. Só fecham os olhos malditos. Exceto o Cobra.

Esse era o apelido do inspetor-chefe Donald C. C. Smyth, que organizara abertamente seu distrito de Aberdeen Leste e vendia favores e proteção em todos os níveis, diante dos seus subalternos chineses.

— Ah, ele! Devia ser enfiado esgoto abaixo, o sacana. Logo, aqueles a quem paga, acima deles, não poderão mais esconder o seu fedor. E o fedor dele se espalhará sobre todos nós.

— Ele deve se aposentar daqui a dois anos — falou Lee, sombriamente. — Talvez fique puxando o saco de todos os figurões até sair, e eles não poderão fazer nada. Os amigos dele estão lá no alto, segundo dizem.

— E enquanto isso? — perguntou Tang-po. Lee soltou um suspiro.

— Meu conselho, Irmão Mais Velho, é ser cauteloso, não entrar nessa se puder evitar. Se não puder... — deu de ombros. — É o destino. Já está decidido?

— Não. Ainda não. O assunto foi mencionado na nossa reunião semanal. Para ser estudado.

— Já se dirigiram ao Bando dos Três?

— Parece que foi Lee Pó Branco que nos procurou em primeiro lugar, Irmão Mais Moço. Parece que os três vão se unir.

Lee soltou uma exclamação abafada.

— Com juramentos de sangue?

— Parece que sim.

— Vão trabalhar juntos? Aqueles demônios?

— Foi o que disseram. Aposto que Wu Quatro Dedos vai ser o Tigre Maior.

— Ayeeyah, ele? Dizem que matou pessoalmente cinqüenta homens — falou Lee, sombriamente. Estremeceu ao pensar no perigo. — Devem ter uns trezentos lutadores no seu rol de pagamento. Seria melhor para todos nós se aqueles três estivessem mortos... ou atrás das grades.

— É. Mas, entrementes, Lee Pó Branco diz que eles estão prontos para se expandir, e que em troca de uma pequena cooperação da nossa parte poderão garantir um lucro gigantesco. — Tang-po enxugou a testa, tossiu e acendeu outro cigarro. — Ouça, Irmãozinho — falou, suavemente. — Ele jura que lhes ofereceram uma grande fonte de dinheiro americano, dinheiro vivo e de banco, e um grande mercado varejista para a sua mercadoria lá, com sede nesse lugar chamado Manhattan.

Lee sentiu o suor na testa.

— Um mercado varejista lá... ayeeyah, isso significa milhões. Eles garantem?

— Garantem. Com muito pouca coisa para fazermos. Exceto fechar os olhos e cuidar para que a marinha e o Departamento de Narcóticos apreendam apenas os carregamentos corretos, e fechem os olhos quando for a hora. Não está escrito nos Livros Antigos: se você não der um aperto, o raio o atingirá?

Um novo silêncio.

— Quando é que a decisão... quando vai ser decidido?

— Na semana que vem. Se for sim, bem, o fluxo do tráfico vai levar meses para ser organizado, quem sabe um ano. — Tang-po deu uma olhada no relógio e se levantou. — Hora do nosso banho. O Noturno Song providenciou jantar para nós, depois.

— Eeeee, que ótimo. — Inquieto, Lee apagou a única lâmpada do teto. — E se a decisão for não?

Tang-po apagou o cigarro e tossiu.

— Se for não... — Deu de ombros. — Temos uma só vida, a despeito dos deuses, portanto é nosso dever pensar nas nossas famílias. Um dos seus parentes trabalha como comandante com Wu Quatro Dedos...

 

                       20h30m

— Alô, Brian — cumprimentou Dunross. — Seja bem-vindo.

— Boa noite, tai-pan... parabéns... bela noite para uma festa — respondeu Brian Kwok. Um garçom de libre apareceu vindo do nada e ele aceitou uma taça de champanha, servido num cristal finíssimo. — Obrigado pelo convite.

— É sempre bem-vindo.

Dunross estava ao lado da porta do salão de baile da Casa Grande, alto e garboso. Penelope estava a poucos passos de distância, recebendo outros convidados. O salão de baile meio cheio dava para terraços e jardins superlotados e iluminados por holofotes, onde a maioria das senhoras vistosamente trajadas e cavalheiros de dinner jacket conversavam em grupos, ou sentavam-se a mesas redondas. Uma brisa fresca chegara junto com a noite.

— Penelope querida — chamou Dunross —, lembra-se do superintendente Brian Kwok?

— Mas é claro — disse ela, abrindo caminho na direção deles, ostentando um sorriso feliz, sem absolutamente lembrar-se dele. — Como vai?

— Muito bem, obrigado... parabéns!

— Obrigada... fique à vontade. O jantar vai ser servido às nove e quinze. Claudia tem a lista dos lugares às mesas, caso tenha perdido o seu cartão. Ah, com licença, um momentinho...

Virou-se para interceptar outros convidados, tentando olhar para toda parte para ver se tudo corria bem e se ninguém estava isolado... sabendo, no íntimo, que, se houvesse um desastre, ela não teria nada a fazer, pois outros dariam um jeito de consertar de novo as coisas.

— Tem muita sorte, Ian — disse Brian Kwok. — Ela fica mais moça a cada ano que passa.

— É.

— É isso aí. Brindemos a mais vinte anos. Saúde! Fizeram tintim com as taças. Eram amigos desde o início da década de 50, quando se haviam encontrado na primeira corrida realizada nos morros, e desde então tinham-se tornado rivais amistosos... e membros fundadores do Clube de Rally e Carros Esporte de Hong Kong.

— Mas e você, Brian, nenhuma garota especial? Veio sozinho?

— Estou curtindo as garotas, sem compromisso. — Brian Kwok baixou o tom de voz. — Na verdade, vou ficar solteiro permanentemente.

— Que idéia! Este é o seu ano... você é o partidão de Hong Kong. Até Claudia está de olho em você. Está ferrado, amigão.

— Oh, Deus! — Brian parou de brincar, por um momento. — Escute, tai-pan, posso falar-lhe uns dois minutos em particular, ainda hoje?

— John Chen? — perguntou Dunross, prontamente.

— Não. Todos os nossos homens estão procurando, mas até agora, nada. É outra coisa.

— Negócios?

— Sim.

— Muito em particular?

— Em particular.

— Está certo — retrucou Dunross. — Procuro você logo após o jantar. Que...

Uma explosão de risadas fez com que ambos olhassem à sua volta. Casey estava no centro de um grupo de admiradores — Linbar Struan, Andrew Gavallan e Jacques de Ville entre eles —, junto a uma das grandes portas envidraçadas que davam para o terraço, do lado de fora.

— Eeee — murmurou Brian Kwok.

— É isso aí — falou Dunross, sorrindo.

Ela usava um vestido justo e longo de seda verde-esmeralda, ajustado na conta certa e transparente na conta certa.

— Pombas, ela está ou não está?

— O quê?

— Usando roupa de baixo?

— Procurai e achareis.

— Gostaria. Ela é deslumbrante.

— Também acho — concordou Dunross, amavelmente —, embora imagine que cem por cento das outras senhoras não achem.

— Os seios dela são perfeitos, dá para se ver.

— Na verdade, não dá. Quase que dá. Está tudo na sua cabeça.

— Aposto que não há um par em Hong Kong que se compare a eles.

— Aposto cinqüenta dólares contra uma moeda de cobre que você está errado... desde que incluamos as eurasianas.

— Como vamos provar quem ganhou?

— Não podemos. Para falar a verdade, sou mais ligado em tornozelos.

— Como?

— O velho tio Chen-Chen costumava dizer: "Olhe primeiro para os tornozelos dela, meu filho, então ficará sabendo a sua raça, como se comportará, como cavalgará, como... igual a qualquer égua. Mas não se esqueça de que todas as gralhas sob os céus são negras!"

Brian Kwok sorriu junto com ele, depois acenou amistosamente para alguém. Do outro lado da sala, um homem alto, de rosto marcado, acenava também. Ao lado dele estava uma mulher extremamente bela, alta, loura, de olhos cinzentos. Também ela acenou alegremente.

— Aquilo sim é que é uma beldade inglesa!

— Quem? Ah, Fleur Marlowe? É, é mesmo. Não sabia que conhecia os Marlowes, tai-pan.

— A recíproca é verdadeira! Conheci-o hoje à tarde, Brian. Conhece-o há muito tempo?

— Uns dois meses e pouco. Ele é persona grata para nós.

— É?

— É. Estamos lhe mostrando como funcionam as coisas.

— É? Por quê?

— Faz alguns meses ele escreveu ao comissário, disse que vinha a Hong Kong fazer pesquisas para escrever um romance, e pediu a nossa colaboração. Parece que o Velho leu o primeiro romance dele e viu alguns dos seus filmes. Claro que fizemos uma verificação e ele nos pareceu legal. — Os olhos de Brian Kwok voltaram para Casey. — O Velho achou que uma imagem melhorada só nos podia fazer bem, então mandou avisar que, dentro de limites, Peter fora aprovado, e que lhe mostrássemos as coisas. — Lançou um olhar para Dunross e deu um breve sorriso. — Não nos cabe discutir por quê!

— Qual é o livro dele?

— Chama-se Changi, e é sobre seus dias como prisioneiro de guerra. O irmão do Velho morreu lá, portanto creio que isso o tocou fundo.

— Já o leu?

— Quem sou eu... tenho muitas montanhas para subir!

Folheei-o, apenas. Peter diz que é ficção, mas não acredito. — Brian deu uma risada. — Mas ele sabe entornar uma cerveja. Robert levou-o a dois dos seus Festivais de Cerveja, e ele se saiu muito bem.

Os Festivais eram festas dadas pelos policiais, só para homens, para as quais os oficiais contribuíam com um barril de cinqüenta litros de cerveja. A festa acabava quando a cerveja acabava.

Os olhos de Brian Kwok banqueteavam-se em Casey, e Dunross se perguntou pela milionésima vez por que os asiáticos preferiam os anglo-saxões, e os anglo-saxões preferiam os asiáticos.

— Por que o sorriso, tai-pan?

— Por nada. Mas Casey não é nada má, hem?

— Aposto cinqüenta dólares que é bat jam gai, heya?

Dunross pensou um momento, sopesando a aposta cuidadosamente. "Bat jam gai" queria dizer, literalmente, "carne branca de galinha". Era assim que os cantonenses se referiam às mulheres que raspavam os pêlos púbicos.

— Tá valendo! Está errado, Brian, ela é see yau gai — que significava "galinha com molho de soja" —, ou, no caso dela, vermelha, macia, e com tempero gostoso. Opinião das mais abalizadas!

Brian achou graça.

— Apresente-me.

— Vá você mesmo se apresentar. Já tem mais de vinte e um anos.

— Deixarei que você ganhe a subida do morro, no domingo.

— Essa é boa! Pode ir, e aposto mil que não consegue.

— Quanto me dá de vantagem?

— Deve estar brincando!

— Perguntar não ofende. Puxa, mas gostaria de faturar aquela. Onde está o sortudo Sr. Bartlett?

— Acho que está no jardim... mandei Adryon fazer-lhe sala. Com licença...

Dunross virou-se para receber um convidado que Brian Kwok não reconheceu.

Mais de cento e cinqüenta convivas já haviam chegado, sendo recebidos pessoalmente. O jantar era para duzentas e dezessete pessoas, todas cuidadosamente sentadas de acordo com a posição e o costume, em mesas redondas que já estavam postas, e com luz de velas, nos gramados. Velas e candelabros nos corredores, garçons de libre servindo champanha em finas taças de cristal, ou salmão defumado e caviar em travessas e salvas de prata.

Um pequeno conjunto tocava sobre uma plataforma, e Brian Kwok notou algumas fardas em meio aos dinner jackets, americanas e inglesas, exército, marinha e força aérea. Não surpreendia que o número de europeus fosse dominante. Aquela festa era estritamente para o círculo interno britânico que mandava no distrito central e era o bloco de poder da colônia, para os seus amigos caucasianos e uns poucos eurasianos, chineses e indianos escolhidos. Brian Kwok reconheceu a maioria dos convidados: Paul Havergill, do Victoria Bank de Hong Kong, o velho Sir Samuels, multimilionário, tai-pan de vinte companhias imobiliárias, bancárias, de transporte por barcas e de valores mobiliários; Christian Toxe, editor do China Guardian, conversando com Richard Kwang, presidente da junta diretora do Ho-Pak Bank; o armador multimilionário V. K. Lam, conversando com Phillip e Dianne Chen, cujo filho, Kevin, estava com eles; o americano Zeb Cooper, herdeiro da mais antiga firma mercantil americana, Cooper-Tillman, de conversa com Sir Dunstan Barre, tai-pan das Fazendas de Hong Kong e Lan Tao. Notou Ed Langan, o homem do FBI, entre os convidados, e isso o surpreendeu. Não sabia que Langan, ou o homem com quem estava conversando, Stanley Rosemont, um subdiretor do contingente da CIA de vigia à China, eram amigos de Dunross. Deixou os olhos correrem pelos grupos de homens que tagarelavam, e pelos grupos das suas mulheres, a maioria separadamente.

"Estão todos aqui", pensou, "todos os tai-pans, exceto Gornt e Plumm, todos os piratas, todos aqui, com ódio incestuoso, rendendo homenagens a o tai-pan.

"Qual deles é o espião, o traidor, o controlador da Sevrin, Arthur?

"Tem que ser europeu.

"Aposto que está aqui. E eu vou pegá-lo. É, vou pegá-lo em breve, agora que sei a seu respeito. Vamos pegá-lo, e pegar todos", pensou, sombriamente. "E vamos pegar estes ladrões com a boca na botija, vamos acabar de vez com as suas piratarias, para o bem comum."

— Champanha, Honrado Senhor — ofereceu o garçom, em cantonense, com um sorriso cheio de dentes.

Brian aceitou uma taça cheia.

— Obrigado.

O garçom se curvou, para ocultar os lábios.

— O tai-pan trouxe uma pasta de capa azul entre os seus papéis, quando chegou hoje — murmurou, rapidamente.

— Aqui existe um esconderijo seguro e secreto? — Brian perguntou, igualmente cauteloso, e no mesmo dialeto.

— Os criados dizem que fica no escritório dele, no outro andar — replicou o homem. Chamava-se Feng Garçom de Vinhos e fazia parte da rede sigilosa de agentes do sei. Seu disfarce como garçom do bufê responsável por todas as melhore